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Full text of "Obras do grande Luis de Camões .."

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OBRAS 



DO GRANDE 



luís de CAMÕES. 



TOMO SEGUKDO. 



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OBRAS 

DO GRANDE 

I 

luís de CAMÕES, 

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PBINCIPE TOS POETAS DE HESPANHA. 

TERCEIRA EDIÇÃO, 

BA qxn, WÃ. orwicivk ldisiaua, u nz aa lisboa 

nos AVlfOS DE I7791 B I780« 



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TOMO II. 




PARIS, 



NA OFFICINA DE P. DIDOT SÉNIOR. 
E ACHA-SE EM LISBOA, 

EU CASA DE VIUVA BBBTHAMD E FILHOS. 

MDCCCXV. 






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lusíada 

DO 6BAN9K 

luís de CàMOÊS. 



CANTO SEXTO. 



3. 



ARGUMENTO 
DO CANTO SEXTO. 

Sahe Vasco da Gama de Melinde, e em quanto na- 
vega prosperamente , desce Baccho ao mar : descripçaõ 
do Palácio de NeptunO' : convoca o mesmo Baccho os 
Deoses mariíúnos, e lhes persuade destruaõ aos nave- 
gantes : em quanto isto sepa«fta, refere VelloSò, per 
entreter aos seus companheiros, a historia dos doze de 
Inglaterra ; levanta-se horrorosa tormenta : he apla- 
cada por Veuus, e pelas Nymphas : com* bonança che- 
gaõ finalmente a Calecut, ultimo, e desejado termo 
desta navegação 

OUTRO ARGUMENTO., 

Parte-se de Melinde o lUustre Gam», 
Com Pilotos lia terra , e mantimento: 
Desce Lyeo ao mar, Neptuno chama 
Todos os deoses do húmido elemento : 
Conta Velloso , aos seus dando honra , e fam« , 
Dos doze de Inglaterra o vencimento : 
Soccorre Vénus a affligida armada , 
E ú índia chega tanto desejada. 



lusíada. 



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CANTO SEXTO. 



I. 



IM AÕ sabia cm qnc modo festejasse 
O Bei Pagão os fortes navegantes, 
Para qnc as amizades alcançasse 
Do Rei Chrisião, das gentes taõ possantes: 
Peza-lhe que taõ longe o aposentasse 
Das Europeas terras abundantes 
 ventura , que naò o fez vir.iiibo 
Donde Hercules ao mar ahrío raminho. 

lí. 
Com jogos, danças, e outras alegrias, 
A segundo a poliria Mclindana, 
Com ujiadas e ledas pescarias, 
Com que a La^^pia a António alegra , e engana : 
Este Mimoso Rei todos os dias 
Festeja a companhia Lusitana, 
Com banquetes, manjares desusad().<<^ 
Com IVuclas, aves, carnes, v pcsradns. 



4 lusíada. 

III. 

Mas vendo o Capitam, que se detinha 
Já mais do que devia^ e e fresee vento 
O convida que parta , e tome asinha 
Os Pilotos da terra, e o muntimento; 
Naõ se quer mais deter, que ainda tinh^i 
Muito para cortar do salso argento : 
Já do Pagaõ benigno se despede. 
Que a todos amizade longa pede. 

IV. 

Pede-lhe mais, que nquelle pof to sçjn 
Sempre com suas frotas, visitado^ 
Que nenhum outro hem maior desejiBi, 
Que dar a taes Barões stíu HeinQ, e fistitdo: 
E que em quanto ao seu corpo o espxito r^ 
Estará de continq apparelhfdo 
A pôr a vida, e Reino totalmente j 
Por taõ bom Bei, por taç «uli>Iii|ie ^ente. 

Outras pa1«(VFKS.t^ea lhe respçtodif 
O Capitam, e looo as vélas ds^ndp. 
Para as terras da Aurora se partia, 
. Que taAto tempo 1^ já qqe ▼%( huscvida, 
No Piloto que leva^ naõ l^vin 
Falsidade, mas ante^ vai inqstr^qi^ 
A navegação ccrtat, e assi caminh«| 
Já mais seguro do que d* antes vinha. 



CANTO VI: 5 

VI 

As ondas Davegavam do Oriente 

Já nos mares da índia, e enxergavam 

Os thalamos do Sol, qae nasce ardente; 

Já qoasi seus desejos se acabaVaiki. 

Mas o mao de Thyoneo, qne na alma sente 

As venturas que eniaõ se apparelliavam 

A* gente Lusitana, delias dina,^ 

Arde, morre, blasphema, e desatina. 

VII. 

Via estar todo o Geo determinado 
De fazer de Lisboa nova Roma : 
Naõ o pôde estorvar, que destinado 
Está de outro poder, que tudo dorna* 
Do Olympo desce, em fim, desesperado : 
P^ovo remédio em terra busca , e toma : 
Kntra no húmido Reino, e vai-se á Corte 
DaqucUc a quem o mar cahio em sorte. 

viii. 
No mais interno fundo das profundas 
Cavernas altas, onde o mar se esconde; 
Lá doude as ond&s sahem furibundas , 
Quando ás iras do vento o mar respotide, 
Neptuno mora , e moram as jucundas 
Nereidas, e outros deoses de' mar, onde 
As aguas campo deixam ú« Cidades, 
(Jiie habitam estas húmidas deidaili^s:^ 



lusíada. 



IZ. 

Descobre o funcho Qvu^c!^ de&ooberto 

As aréas alli de-prs^U fina : 

Torres altag se vem no campo aJberto 

Da tianspareate massa crystaUoH. 

Quaatp Ste chegam mais os o^ios p^to. 

Tanto mcvos a vista determina 

Se hc crystal o (jue vé, se diamante. 

Que assi se mostra^ claro, e radiante. 

As portas de ouro fino, e maj^chetad^ 
Do rico aljôfar que nas conchas nace. 
De esculptura formosa estaõ lavradas^ 
Na qual do irado Bacdi6 a vista pace, 
E vê primeiro em core^ variadas 
Do velho chaK>8 a taò confuso^ face : 
Vem-se os quatro elementos traslaçUchs 
£m diversos officios occupadps.. 

XI. 

Âlli sublime o F-oga. çstavãi em cin^y 
Que em nenhuma matéria se sostijolièi ; 
De aqui as oanss^ viva3 Sitt»>re sMOiima, 
Despois que Prom^etheo furtado o tixih^i, 
Lo^ apoz.ell« leve se sublima 
O ifHrkíbil Ar, que mais^a^hA 
Tomou lugar; e nem por quente^ ou firio. 
Algum deixa no Mundo estar vazio. 



QAjaiO VI. 

XII. 

Estava a terra em loontea, reresiida 

De verdes hervas, e arvores floridas, 

Dando pasia diverso, e dando vida 

Às alimárias nella poroJuzidaâ, 

A clara fórma olU estava esculpida, 

Das Aguas entre a terra desparzidas. 

De pescadosi eriando varioa modos. 

Com seu humor manleodo os corpoa tod^, 

19^ outra parte esculpida estava a guerra 
Que tiveram os deoses eo^ o& Gigantes : 
£st^ Typheo debaixo da altjB serra 
De EthiiA,, que aa flammas lança, cr^itaotes. 
Esculpido se vè &mido a terra 
I^eptuno, quando a3,g€0itea.ig]QQrantes, 
Dellc o cavallo houveram ,.t a prime&ca 
Pe Minerva pacifica oliveira* 

XIV. 

Pouca tardança £» Lyeo irado, 
)9a vista destas cousas^ mas. entrando 
r9os Paços^de Neptuno,, que avisado 
Da vinda sua o estava ja aguardando : 
A*s portas o receb«, acompanhado 
Das Nymphas, que se estaõ. maravilhando 
De ver que comettendo tal caminho 
Entre no Reino da agua o Rei do vinho. 




lusíada. 

XV. 

O* NeptuDo, lhe disse, naõ te espantes 
De a Baccho nos teus Reinos receberes; 
Porque também co' os grandes, e possantes, 
Mostra a fortuna injusta seus poderes : 
Manda chamar os deoses do mar, antes 
Que fallc mais : se ouvir-m*o mais quizeres : 
Veraõ da desventura grandes modos : 
Ouçam todos o mal, que toca a todos. 

XVI. 

Julgando já Neptuno que seria 
Estranho caso aqnelle, logo manda 
Tritaõ, que chame os deoses da agua fria, 
Que o mar habitam d'huma e d^outra banda. 
Tritaõ, que de ser filho se gloria 
Do Rei, e da Salacia veneranda, 
Era mancebo grande, negro, e féo, 
Trombeta de seu pai, e seu corrêo. 

XVII. 

Os cabellos da barba*, e os que descem 
Da cabeça nos hombros, todos era ih 
Húus limos prenhes d^agna, e bem parecem 
Que nunca bmndo pentem conheceram. 
ISas pontas pendurados naõ fiillecem 
Os negros misilhões, que alli se geram : 
Na cabeça por gorra tinha posta 
Ilúa mui grande casca de lagosta. 




CANTO VI. 9 

XYIII. 

O corpo nú^ e os i^embrof ^/sokãky 
Por Daõ ter ao nadar impedimento , 
Mas por^B de pequenos animais 
Do mar, todos cobertos cenio, e oemo. 
Camarões, e cangrejos^ e antros mais 
Que recebem de Phebe eresoimanio) 
Ostras, ^ bregni|[õas de mns^ 9ojos^ 
As costas com a oasea os earamajos. 

I9a mão a ^randa eondia reioreida 
Que Iraria, com Âm^ já rooavp^ 
A Yoz fpnnd^ tônora foi on^idr 
Por todo o mar, qoe longe retumbava. 
Já toda a companhia apercebida 
Dos deoses, para oa Paçoa camiohair« 
Do deos qne fisx os mnvos de Dai^ania 
Destruidoí despoiA da Craga insânia. 

XX. 

Vinha o P»ére Oooevio «eaapanhado 
Dos filhos e daa ÍUms qafí gerara; 
Vem Nereo, que com Poris £oi casado. 
Que todo o mar de Nympbas poYoára ; 
O Propheta Protbeo deixando o gado 
Blarítimp pascer pela agua amara, 
Alli veio tai^bem, mas já sabia 
O que o Padre Lyeo no mar queria. 



IO lusíada. 

XXI. 

Vinha por outra parte a linda esposa 
De Neptuno, de Gelo, e Vesta filha j 
Grave, e leda no gesto, e taõ formosa, 
Que se amansava o mar de maravilha : 
Vestida huma camisa preciosa 
Trazia de delgada beatilha , 
Que o corpo crystallinò deixa vei>se : 
Que, tanto bem naõ he para esconder-se. 

XXII. 

Amphitrite, formosa como as flores. 
Neste caso naõ quiz que fallecesse^ 
O Delphim traz comsigo, que aos amores 
Do Rei lhe aconselhou que obedecesse. 
Go^ os olhos, que de tudo saõ senhores, 
Qualquer parecerá que o Sol vencesse : 
Ambas vem pela mão : igual partido; 
Pois ambas saõ esposas de hum marido. 

XXIII. 

Aquella , que das fúrias de Athamante 
Fugindo, veio a ter divino estado, 
Gomsigo traz o filho, bello iuÊinte, 
No número dos deoses relatado. 
Pela praia brincando vem diante 
Gom as lindas conchinhas, que o salgado 
Mar sempre cria; e ás vezes pela aréa 
No colo o toma a bella Panopéa. 



CANTO VL 1» 

XXIV. 

o deos que foi hum tempo corpo humano, 

por virtude da hgrva poderosa 

i convertido em peixe, e deste dano 

e resultou deidade gloriosa j 

la vinha chorando o £eo engano 

e Circe tinha usado co' a formosa 

rlla, (jae elle ama, desta sendo amado j 

e a mais obriga amor mal empregado. 

XXV. 

finalmente todos assentados 
grande sala, nobre, e divinal, 
deosas em riquíssimos estrados, 
deoses em cadeiras de orystal : 
'am todos do Padre agasalhados, • 
e CO* o Thebano tinha assento igual : 
fumos endie a casa a rica massa 
e no mar nafce, e Arábia em cheiro passa. 

XXVI. 

ando socegado já o tumulto 
( deoses, e de seus recebimentos, 
oeça a descobrir do peito ocçulto 
a usa o Thyoneo de seus tormentos : 
n pouco carregando-se no vulto, 
ido mostra de grandes sentimentos, 
por dar aos de Luso triste morte 
o ierro alheio, feUa desta sorte c 



,.- -^^ 



ia lusíada. 

xxvn. 
Príncipe, quft de juro senkoréfll 
D^hum Polo, ao outro Polo o mskt irsdtf) 
Tu, que as gentes da terra toda eniráâs 
Que naõ passem o termo limitado v 
£ tu, Padre Ocoeano) qúe rodôas 
O Mundo uniYertal) e d têes cercado^ 
£ com julto decreto assi ftermites, 
Que dentro tivam só de seus limites : 

XXTIII. 

£ vós, deoses do mar, que naõ soffireis 
Injúria aigúa em yossò Reino grande ^ 
Que com castigo igual vos naõ ringueis 
De quem quer qile por elle corra", e ande í 
Que descuido foi este em que TÍveis? 
Quem pdde ser que tanto Vús abrakide 
Os peitos, com razaò endurecidos i 
Contra os humanos^ firaeos, e atrevido»? 

XXIX. 

Vistes, que com grandíssima ousadia 
Foram já cometter o Gco supremo^ 
Yisies aquella insana phantasia 
De tentarem o mar com veia , e remo : 
Vistes, e ainda vemos cada dia, 
Soberbas, e insolências taes, que tem^ 
Que do mar, e do Geo, em poucos anes^ 
Venham deoses a ter^ e im$s hamandl. 




CANTO VI. i3 

xxx* 

les agora a fraca geração 

e de hmft^assallo meu o nome toma, 

n soberbo, e altivo coração, 

ds, e a mi, e o Mundo todo doma. 

les, o vosso mar cortando vaô, 

is do que £bc a gente alta de Roma : 

les, o vosso Reino devassando, 

vossos estatatos vaõ quebrando. 

XXXI. 

vi, que contra os Mynias, que primeiro 
vosso Reino este caminho abriram, 
*eas injuriado, e o companheiro 
uilo, e os outros todos resistiram : 
s se do ajuntamento aventureiro 
ventos esta injúria assi sentiram, 
s, a quem mais compete esta vingança, 
e esperais? Porque a pondes em tardança? 

XXXII. 

laõ consinto, deoses, que cuideis 
e por amor de vòs^do Geò desci 4 
m da mágoa da injúria qpe soffireis, 
s da que se me faz também a mi : 
e aquellas grandes honras, que sabeis 
e no Mundo ganhei, quando venci 
terras Indianas do Oriente, 
das vejo abatidas desta gente. 
1. 



i4 LÇSIADA. 

XXXIII. 

Que o grão Senhor, e &dos que destinam. 
Gomo lhe bem parece, o baixo MuiAi, 
Famas mores que nunca, determinam 
De dar a estes Barões no mar profundo : 
Aqui vereis, 6 deoses, como ensinam 
O mal também a deoses, que a segundo 
Se vé, ninguém já tem menos valia. 
Que quem com mais razaõ valer devia. 

xxxiv. 
£ por isso do Olympo já fugi, 
Buscando algum remédio a lueus pezarcs. 
Por ver se o preço que no Coo perdi , - 
Por ventura acharei nos vossos mares. 
Mais quiz dizer, e naõ passou de aqui, 
Porque as lagrimas já correndo a pares 
Lhe saltaram dos olhos, com que logo 
Se accendem as deidades da agua em fogo. 

XXXV. 

A ira com que «ubito alterado 
O coração dos deoses foi n^hum ponto , 
I^aõ soffreo mais ooiidelho bem cuidado, 
Nem dilação, nem outro, algum desconto. 
Ao grande £olo mandam já recado 
Da parte de Neptuno, que sem conto 
Solte as fúrias dos ventos repugnantes. 
Que naõ haja no mar mais navegantef. . 




CANTO VI. 

Bem qniiera primeiro alfi Protlteo 
Dizer neale negocio o que tentiaj 
E seguodo o qne a lodiM parecei). 
Era alguma profunda prophecia. _ 

Porém (amo o tumulto te moveo ' 

Súbito Da divina companhia, 
Qué Tfaetig indignada lhe bmdou : 
Neptnno sabe bem o que mandou. 

Já lá o aoberbo Hj^olades sollava 
JJo caroere fecbado oft fiiHosos 
Ventos, que mm palavras animava 
Contra os Barões audaces, e animoiol. 
Snbito o Ceo sereno se obumbrava. 
Que ol ventog maia qne nunca impctnosoi, 
Começam novas Forças a ir tomando, 
Torres, man(e«, e canks derribando. 

Em qnanto eite concelbo «e &iia 

No fundo aquoso, a 16da la»:» frota, 
Com vento socegado proseguiu 
Pelo Iranquftlo mar a longa rota. 
Era no tempo quando a luz do dia 
Do Eoo Hemispherio está remota; 
Os do quarto da prima ae deitavam, 
Para o eegaado oM outros desper lavam. 



y 

i6 lusíada. 

XXYIX. 

Venciclos vem dg somno, e màl despertos 
Bocejando a miude se encostavam 
Pelas antennas, todos mal cobertos 
Contras agudos ares que assopravam. 
Os offlR contra seu querer abertos, 
Mas esfregando os membros estiravam : 
Remédios contra o somno buscar querem, 
Historias contam, casos mil referem. 

XL. 

Com que melhor podemos, hum dizia, 
Este tempo passar, que he taõ pezado, 
Senaõ com algum conto de alegria ^ 
Com que nos deixe o somno carriegado ? 
Besponde Leonardo, que trazia 
Pensamentos de firme namorado : 
Que contos poderemos ter melhores 
Para passar o tempo, quede amores? 

XLI. 

Naõ he, disse Velloso, cousa justa 
Tratar branduras em tanta aspereza; 
Que o trabalho do mar, que tanto custa, 
Naõ sofiBre amores, nem delicadeza. 
Antes de guerra férvida, e robusta, 
A nossa historia seja , pois dureza 
Nossa vida ha de ser, segundo entendo, 
Qae o trabalho por yir mo está dizendo. 



CANTO VI. 17 

XLII. 

Consentem nisto todos, e encommendam ■ 
A Ve1|ps«, que conte isto que approva. 
Contarei, disse, sem que me reprehendam 
De contai cousa £ad)ulosa, ou nova. 
E porque os que me ouvirem daqui aprendam 
A fazer feitos grandes de alta prova. 
Dos nascidos direi na nossa teira^ 
£ estes sejam os doze de Inglaterra. 

1LL111. 
No tempo que do Reino a rédea leve 
Joaô, filho de Pedro, moderava^ 
Despois que socegado, e livre o teve 
Do visinho poder que o molestava ; 
Lá na grande Inglaterra, que da neve 
Boreal sempre abunda, semeava 
A fera Erynnis dura, e má cizânia. 
Que lustre fosse á nossa Lusitânia. 

XLIV. 

Entre as damas gentis da Corte luglefa, 

E nobres Gortezãos, acaso hum dia 

Se levantou discórdia em ira acoesa , 

Ou foi opinião, ou foi porfia. 

Os Cortezãos, a quem taô pouco pesa 

Soltar palavras graves de ousadfti. 

Dizem : Que provaráõ, que honras, e famas, 

Em taes damas naõ ha para ser damais. 



i8 lusíada. 

XLV. 

E qne se houver alguém com lança e espada. 
Que queira sustentar a parte sua, 
Que elles em campo razo , ou estacada y 
Lhe daraõ féa infâmia, ou morte crua. 
A feminil fraqueza pouco usada , 
Ou nunca, a oppro^rios taes, vendo-se nua 
De forçsLS naturaes, convenientes, 
Soccorro pede a- amigos, e parentes. 

XLVI. 

Mas como fossem grandes, e possantes, 
No Reino os inimigos, naõ se atrevem 
Nem parentes, nem férvidos amantes, 
A sustentar as damas, como devem. 
Com lagrimas formosas, e bastantes 
A fazer que em soccorro os deoses levem 
De todo o Ceo, por rostos d^ alabastro, 
"^ Se vaõ todas ao Duque de Alencastro. 

XLVII. 

Era este Inglez potente, e militara 
Go^ os Portuguezes já contra Gastella,. 
Onde as forças magnânimas provara 
Dos companheiros^ e benigna estrella : 
Naõ menos nesta terra exprimentára 
Namorados aflectos, quando nella 
A filha vio, que tanto o peito doma 
J)o forte Rei, que por mulher a toma. 



CANTO VI. 19 

XLVIII. 

Este qne socoorrer lhes naÕ queria , 
Por Daõ causar discórdias intestÍDas, 
Lhes diz : Quando o direito pertendia 
Do Reino lá das terras Iberinas, 
Nos Lusitanos vi tanta ousadia, • 
Tanto primor, e partes taõ divinas, 
Que elles sós poderiam, senaõ erro, 
Sustentar vossa parte a íbgo, e ferro. 

E se, aggravadas damas, sois servidas. 
Por vòs lhes mandarei Embaixadores, 
Qne por cartas discretas, e polidas. 
De vosso aggravo os Bsiçam sabedores. 
Também por vossa parle encarecidas 
Com palavras de aSEaigos, e de amores. 
Lhes sejam vossas lagrimas, que eu creio. 
Que alli tereis socoorro, e forte esteio. 

L. 

Desta arte as aconselha o Duque experta, 
E logo lhes noméa doze fortes : 
E porque cada dama hum tenha certo, 
Lhes manda que sobre elles lancem sortes : 
Que ellas sò doze saõ : e descoberto 
Qual a qual tem cabido das consortes. 
Cada húa esoreve ao seu pcHr vários modos, 
£ todas a seu- Bei, e o Duque a todcA. 



r 



Já cliega B Portugal o 
Toda a Corte alvoroça ■ DoriAde ; 
Quizera o Bei «nblime ler priíneiro, 
Mas naõ lho soffre a Bégia Magnlade. 
Qaalqaer dos Cortesãos aventureiro 
Deseja ser, com f^ida vontade; 
E iá Ij^ por bemaventurado, 
Quem ji \mi pelo Duque nomeado. 

Lá na leal Cidade donde teve 
Origem ( como he fama ) o nome eterno 
De Portugal, armar madeira leve 
Manda o que tem o leme do goverito. 
Apercebem-se os doze cm tempo breve 
D'ariiias, e roupas d'Dso mais moderno, 
De elmos, cimeiriiB, letras, e primores, 
Cavallos, e concertos de mit rorc«. 

Jí do sen Bei tomado tem licença. 
Para partir do Douro celebrado, 
AqucUes qne escolhidos por sentenp 
Foram do Duque loglez exprimentado, 
JH»ò ha na companhia differença 
De Cavalleiro destro, on esfor^do; 
Has hum só, que Ma;jriço se 'dizia, 
JJefia arie fálIa á ibrie companhia : 



CANTO VI. 21 

LIV. 

Fortúsimos consócios, eu desejo 

Ha muito já de andar terras estranhas, 

Por ver mais aguas, que as do Douro, e Tejo, 

Várias gentes, e leis, e várias manhas. 

Agora que apparelho certo vejo, 

(Pois que do Mundo as cousas saõ tamanhas) 

Quero, se me deixais, ir sò por terra, 

Porque eu serei comvosco em Inglaterra. 

LV. 

£ quando caso for, que eu impedido 
Por quem das cousas he ultima linha, 
Naõ for comvosco ao prazo instituidor 
Pouca falta vos Êiz a feita minha. 
Todos por mi fiareis o que he devido; 
Mas se a verdade o esprito me adivinha , 
Bios, montes, fortuna, ou sua inveja, 
ríaõ £Eiraõ que eu comvosco la naõ seja. 

tvi. 
Assi diz; e abraçados os amigos, 
E tomada licença, em fim, se parle: 
Passa Leaõ, Castella, vendo antigos 
Lugares, que ganhara o pátrio Marte: 
Ifavarra co"* os altissimos perigos 
Do Perynéo, que Hespanha, e Gallia parte : 
Vistas, em fim, de França as cousas grandes, 
?9o grande Empório foi parar de ¥TauÀ!e%. 



# 



a» lusíada. 

LVII. 

Alli chegado, on fosse caso, ou manha, 
Sem passar se deteve mnitos dias. 
Mas dos oiiie a illustríssima companha, 
Corta do mar do Noiíe as ondas frias. 
Chegados da Inglaterra á costa estranha , 
Para l^mdres já fazem todos vias : 
Do Duque saõ com festa agasalhados, 
£ das dumas servidos, e animados. 

LYIII. 

Chega-se o prazo, c dia assignalado 
DV>ntrar em campo já co^ os doze Inglezes, 
Que pdo jlcí já tinham segurado : 
Armam-se, de elmos, greras, e de arnezes: 
Já as damas tem por si fulgente, e armado, 
O Mavorte feroz dos Portuguezes : 
Vestem-se ellas de cores, e de sedas 
De ouro, e de jóias mil, ricas, e ledas. 

LIT. 

Mas aquella, a qnem fora em sorte dado 
Magriço, que naõ vinha, com tristeza 
Se veste, por naõ ter quem nomeado 
Seja seu Cavalleiro nesta impreza : 
Bem que os onze apregoam , que acabado 
Será o negocio assi na Corte Ingleza; 
Que as damas vencedoras se conheçam 
' Postoque dous e três dos seus falleçam. 




CANTO VI. a3 

L-X. 

Já u'ham-8ub]ime e público theatro 
Se assenta o Bei Inglez com toda a Corte : 
Estavam três e três, e quatro e quatro, 
Bem como a cada qual coubera em sorte. 
Naõ saõ vistos do Sol, do Tejo ao Batro, 
De força, esforço, e de animo mais forte, 
Outros doze sahir como os luglezes 
^o campo contra os onze Portu^uezes. 

LXI. 

Mastigam os cavallos, escumando 
Os áureos freos com feroz sembrante : 
Estava o Sol nas armas rutilando 
Como em crystal, ou rígido diamante. 
Mas enxerga-se n^hum e n^ outro bando, 
Partido desigual, e dissonante. 
Dos onze contra os doze, quando a gente 
Começa a alroroçar-^e geralmente. 

LXII. 

Viram todos o rosto adonde havia 

 causa principal do reboliço : 

Eis entra hum Cavalleiro, que trazia 

Armas, cavallo, ao bellico serviço : 

Ao Bei e ás damas falia , e logo se hia r . 

Para os onze, que este era o grão Magriço: 

Abraça os companheiros como amigos, 

A quem naõ falta certo nos perigos. 



ai"^ lusíada. 

LXIII. 

A dama, como ouyío que este era aquelle ' 
Qae YÍnha a defender seu nome, e £amay 
Se alegra, e veste alli do animal de HeUe, 
Que a gente bruta, mais que virtude ama. 
Já daõ signal, e o som da tuba impelle 
Os bellicosos ânimos que inflama : 
Picam de esporas, largam rédeas logo, 
Abaixam lanças, fere a terra fogo. 

LXIV. 

Dos cavallos o estrépito parece 
Que faz que o chão debaixo todo treme : 
O coração no peito , que estremece 
De quem os olha , se alvoroça e teme : 
Qual do cavallo vóa, que naõ dece; 
Qual co^ o. cavallo em terra dando geme^ 
Qual vempièlhas as armas faz de brancas^ 
Qual co^ os penachos do elmo açouta as ancas. 

LXV. 

Algum de alli tomou perpétuo sono, 
^ £ fez da vida ao fim breve intervallo : 
Correndo algum cavallo vai sem dono, 
£ n^ outra parte o dono sem cavallo : 
Çahe a soberba Ingleza de seu throno, 
Que dons, ou três, já fora vaõ do vallo : 
Os que de espada vem fazer batalha , 
Mais acham já que arnez; escudo, e iualha> 



é CANTO VI. 95 

LXVI. 

Gastar palavras em contar extremos 
De golpes feros, cruas estocadas, 
He desses gastadores, que sabemos, 
Mãos do tempo, com fabulas sonha^is: 
Basta por fim do caso, que enteudemos 
Que com finezas altas, e afiEamadas, 
Co' os nossos fica a palma da \ictoria, 
£ as damas vencedoras, e com gloria. 

LXVII. 

Recolhe o Duque os doze vencedores 
Nos seus Paços com festas, e alegria : 
Cozinheiros occupa, e caçadores. 
Das damas a formosa companhia; 
Que querem dar aos seus libertadores 
Banquetes mil cada hora, e cada ^, 
Em quanto se detém em Inglaterra, -<^ 
Até tornar á doce e chara terra. 

LXYIir. 

Mas dizem, que com tudo o grão Magriço 
Desejoso de ver a^ cousas grandes, 
Lá se deixou ficar, onde hum serviço 
Notável á Condessa fez de Frendes : 
E como quem naõ era já noviço 
Em todo trance, onde tu Marte mandes, 
Hum Francez mata em campo, que o destino 
Já teve de Torquato, e de Corvino. 
2. i 




a6 



lusíada. 



LXIX. 

Outro também dos doze em Alemauha 

Se lança , e teve hum fero desafio 

Go^ hú Germano enganoso, que com manha 

Naõ devida o quiz pôr uo extremo fio. 

Gontando assi Velioso, já a companlia 

Lhe pede, que naõ faça tal desvio 

Do caso de Magriço e vencimento, 

Nem deixe o de Alemanha em esquecimento. 

LXX. 

Mas neste passo assi promptos estando, 
Eis o Mestre que olhando os ares anda, 
O apito toca , acorda despertando 
Os marinheiros d'húa e d^ outra banda. 
£ porque o vento vinha refrescando, 
Os traquetes das gáveas tomar mauda. 
AUerta, disse, estai, que o vento crece 
Daquella nuvem negra que apparece. 

LXXI. 

Naõ eram os traquetes bem tomados. 
Quando dá a grande, e súbita procella : 
Amaiua, disse o Mesti^ a grandes brados ; 
Amaina, disse, amaina a grande vela. 
Naõ esperam os ventos indignados 
Que amainassem) mas juntos dando nella, 
Em pedaços a £azem, co^ hum ruido 
Que o Mundo parccco ser destruido- 



CANTO VI. 37 

txxii. 
o Geo hre com gritos nisto a gente, 
Com súbito temor, e desacordo , 
Que no romper da vâa , a nao pendente 
Toma grão somma de agua peloliordo. 
Alija, disse o Mestre, rijamente: 
Alija tudo ao mar, naõ &lte acordo : 
Vaõ oupros dar á bomba , naõ cessando : 
A^ bomba, que nos imos alagando. 

xxxiii. 
Correm Iqgo os soldados animosos 
A dar á bomba, e tanto que chegaram. 
Os balanços que os mares temerosos 
Deram á nao, n'hum bordo os derribaram : 
Três marinheiros duros, e forçosos, 
A manear o leme naõ bastaram; 
Talhas lhe punham d^huma, e outra parte, 
Sem aproveitar de homêes força , e arte. 

LXXIV. 

Os ventos eram taesj que naõ puderam 
Mostrar mais força de Ímpeto cruel, 
• Se para derribar entaõ vieram 
A fortíssima torre de Babel : 
Nos altissimos mares, que cresceram, 
A pequena grandura de hum batel 
Mostra a possante nao, que move espanto. 
Vendo que se sosteni nas ondas tanto. 



à 



I lusíada. 

LXXV. 

A não grande em que vai Paulo da Gamai 
Qad>rado lera o mastro pelo meio : 
Qiiasi toda alagada a gente chama 
A* quelle qae a salvar o Mundo veio. 
Naô menos gi^tos vãos ao ar derrama 
Toda a nao de Coelho, com receio ,> 
Com quanto teve o Mestre tanto tento , 
Qne primeiro amainou, que desse o vento. 

LXXVI. 

Agora sobre as nuvêes os subiam 
As ondas de Neptune furibundo : 
Agora a ver parece que desciam 
As intimas entranhas do profundo. 
Noto, Austro, Boreas^ Aquilo queriam 
Arruinar a mácbina do Mundo : 
A noite negra, e fêa, se allumia 
Co^os raios em qne o Polo todo^ardia. 

LXXVII. • 

As Halcyonêas aves triste canto 
Junto da costa brava levantaram, 
Lembrando-se de seu passado pranto, 
Que as furiosas aguas lhe causaram. 
Os delphijs namorados entretanto. 
Lá nas covas marítimas se entraram , 
Fugindo á tempestade, e ventos duros, 
Qne nem no fundo os deixa estar seguros* 



CANTO VI. ao 

LXKTIII. 

Nunca taõ vivos raios fabricou 

Contra a fera soberba dos Gi{);antefl, 

O grão Ferreiro sórdido que obrou 

Do enteado as armas radiantes. 

Nem tanto o grão Tonante arremessou 

Relâmpagos ao Mundo fulminantes, 

No grão diluvio, donde sós viveram 

Os dous, que em gente as pedras converteram. 

LXXIX. 

Quantos montes entaõ que derribaram 

As ondas que batiam denodadas! 

Quantas arvores velhas arrancaram 

Do vento bravo as fúrias indignadas! 

As forçosas raízes naõ cuidaram 

Que nunca para o Geo fossem viradas; 

Nem as fundas aréas que pudessem 

Tanto os mares, que em cima as revolvessem. 

LXXX. 

Vendo Vasco da Gama, que taõ perto 

Do fim de seu desejo se perdia; 

Vendo ora o mar até o Inferno aberto, 

Ora com nova fúria ao Ceo subia; 

Confuso de temor, da vida incerto, 

Onde nenhum remédio Ihé valia , 

Chama aquelle remédio sancto, e forte, 

Que o impossibil pôde, desta íone *. . 



3o LnSIAI>A. 

LXXXI. 

Dívida Guarda, Angélica, Celeste, 
Qne os Geos, o mar, e a t^rra senhoréas^ 
Tu, que a todo Israel refu{];io deste. 
Por metade das aguas Erythreas : 
Tm, qne livraste Paulo, e defendeste 
Das Syrtes arenosas, e ondas féas, 
E guardaste co^ os filhos o segundo 
Povoador do alagado, e vácuo Mundo : 

LXXXII. 

Se tenho novos medos perigosos 
De outro Scylla e Gharybdis já passados, 
Outras Syrtes, e haizos arenosos. 
Outros Acroceraunios infamados : 
No fin de tantos casos trahalhosos. 
Porque somos de ti desamparados. 
Se este nosso trabalho naõ te ofSende, 
Mas antes teu serviço s6 pertende ? 

LXXXIII. t 

Oh ditosos aquelles que puderam 
Entre as agudas lanças Africanas 
Morrer, em quanto fortes sostíveram 
A sancta Fé nas terras Mauritanas, 
De quem feitos iUustres se souberam , 
De quem ficam memorias soberanas, 
De quem se ganha a vida com perdeUa , 
Doce fazendo a morte as honras delia ! 



CINTO VI. 5i 

LXXXIV. 

Assi dizendo, os ventos que latayam, 
Como touroe indómitos bramando, 
Mais e mais a tormenta acrescentavam. 
Pela miúda enxárcia assoviando \- 
Relâmpagos medonhos naõ cessavam, 
Feros trovões, que vem representando 
Cahir o Geo dos eixos sobre a terra, 
Gomsigo os elementos terem guerra. 

LXXXV. 

Mas já a amorosa estreia scintillava 
Diante do Sol claro, no Horizonte 
Mensageira do dia , e visitava 
A terra, e o largo mar com leda fronte : 
A deosa que nos Geos a governava. 
De quem foge o ensifero Orionte, 
Tanto que o mar, e a chara armada vira. 
Tocada junto foi de medo, e de ira. 

LXXXTI. 

Estas obras, de Baccho saõ por certo. 
Disse ^ mas paõ será que avante leve 
Taõ damnada tençaõ, que descoberto 
Me será sempre o mal a que se atreve. 
Isto dizendo, desce ao mar aberto, 
No caminho gastando espaço breve, 
Em quanto manda ás Nymphas amorosas,. 
Grinaldalicias cabeças pòr de rosas. 



r 



3a 



lusíada. 



LXXXVII. 

Grinaldas manda pôr de yárias cores, 
Sobre cabellos louros á porfia. 
Quem naô dirá que nascem roxas flores ^ 
Sobre ouro natural que amor enfiar ? 
Abrandar determina por amores 
Dos Tentos a nojosa companhia , 
Mostrando-lhe as amadas Nymphas bellas, 
Que mais formosas Tinham que as estrellas. 

LXXXVIII. 

Assi foi , porque tanto que chegaram 
A^ vista delias, logo lhes fellecem 
As forças com que d^antes pelejaram, 
£ jà como rendidos lhe obedecem : 
Os pés, e mãos parece que lhe ataram 
Os cabellos que os raios escurecem. 
A Boreas, que do peito mais queria, 
Assi disse a bellissima Orithyia : 

LXXXIX. 

Naõ crêas, fero Boreas que, te créo, 
Que me tiveste nunca amor constante ^ 
Que brandura he de amor mais certo arréo, 
E naõ convém furor a firme amante : 
Se já naõ pões a tanta insânia fréo , 
Naõ esperes de mi, daqui em diante, 
Que possa mais amar-te, mas temer-te, 
Que amor comtigo cm medo se con^ftite. 



CANTO VI. 33 

xc. 
Assi mesmo a formosa Galatéa 
Dizia ao fero Noto, que bem sabe 
Que dias ha que em v^la se recréa, 
E bem crê que com. elle tuda acabe. 
Naô sabe o bravo, tanto bem se o créa^ 
Que o coração no peito lhe naõ cabe : 
De contente de ver que a dama o manda. 
Pouco cuida que fez se logo abranda. 

XGI. 

Desta maneira as outras amansavam 

Subitamente os outros amadores^ 

E logo á linda Yenus se entregavam, 

Amansadas as irás, e os furores: 

Ella lhes prometteo, vendo que amavam, 

Sempiterno favor em seus amores, 

Nas bellas mãos tomando-lhe homenagem 

De lhes serem leaes esta viagem. 

. XCII. 
Já a manhaa clara dava nos outeiros. 
Por onde o Ganges mnrmurando soa , 
Quando da celsa gávea os marinheiros 
Enxergaram terra alta pela proa. 
Já fdra de tormenta , e dos primeiros 
Mares, o temor vão do peito voa. 
Disse alegre o Piloto Melindano : 
Terra he de Calecut, se naõ me en^aAO^ 



34 liUSIADA. 

XGI1I. 

Esta he por certo a terra que buscais 
Da verdadeira índia, que apparece; 
E se do Mundo mais naõ desejais. 
Vosso trabalho longo aqui fenece. 
Soffrer aqui naõ pode o Gama mais, 
' De ledo em ver que a terra se conhece : 
Os giolhos no chão, as mftot ao Geo, 
A meix^ grande a Deos agradeceo. 

xciv. 
As graças a Deos dava , e razaõ tinha , 
Que naõ somente a terra The mostrava , 
Que com tanto temor buscando vinha , 
.Por quem tanto trabalho exprimentava j 
Mas via-se livrado taô asinha 
Da morte, que no mar lhe apparelhava 
O vento duro, férvido, e medonho, 
Como quem despertou d^horrendo sonho. 

xcv. 
Por meio destes hórridos perigos. 
Destes trabalhos graves, e temores, 
Alcançam os que saõ de fama amigos, 
As honras immortaes, e grãos maiores. 
I9aõ encostados sempre nos antigos 
Troncos nobres de seus Antecessores; 
Naõ nos leitos dourados, entre os finos 
« Animaes de Moscovia Zebellinos. 



CANTO VI. 35 

XCVI. 

)S manjares novos, e esquisitos; 
)s passéos molles, e ociosos j 
>s vários deleites, e infinitos, 
ninam os peitos generosos : 
IS nunca vencidos appetitos, 
'tuna tem sempre taõ mimosos, 
so£&e a nenhum, que o passo mude 
ia obra heróica de virtude: 

xcvii. 
buiaar co^ o seu forçoso braço 
s, que elle chame próprias suasj 
, e vestindo o forjado aço, 
> tempestades , e ondas cruas : 
j os torpes frios no regaço 
i Regiões de abrigo nuas, 
o o corrupto mantimento , 
do co' hum árduo soffrimento. 

xcviir. 
roar o rosto, que se enfia, 
r seguro, ledo, inteiro, 
ílouro ardente, que assovia, 
perna ou bruço ao companheiro, 
e o peito hum cailo honroso cria, 
dor das honras, e dinheiro j 
as, e dinheiro, que a ventura 
? naô virtude justa, e dura. 



I 




36 



lusíada. CAKTO VI. 



N XCIX. 

Desta arte se esclarece o enten4imento, 
Que experiências Êizem repousado; 
£ fica Tendo, como de alto assento, 
O baixo trato humano embaraçado : 
Este, onde tiver força o regimento 
Direito, e naô de a£Fectos occupado. 
Subirá (como deve) a illustre mando, 
Contra vontade sua , e naõ rogando. 



FIM DO CARTO SEXTO. 



lusíada. 



CANTO SEPTIMO. 



a. 



ARGUMENTO 



DO CANTO SEPTIMO. 



PoB occasiâodeJBte Mimoso descobrimento da 
faz huma notável, e poética exhortaçaõ aos P 
Ghristaõs, acordando-Ihes semelhantes empres 
cripçâô do Reino do Malahar, em que jaz o 
de Calecut, em cujo porto a Armada dá fundo 
o Imperador, ou Samori ao Gama com honr; 
monstracões : apparece o Mouro Monçaide , qi 
mando ao Gama, informa também aos nati 
terra : vai o Catual , ou Governador de Calec 
Armada. 

OUTRO ARGUMENTO. 

Dá fundo a frota a Calecut chegada ; 
Manda-sc mensageiro ao Hei potente ; 
Chega Monçaide a ver a Lusa armada , 
E da Província informa largamente : 
Faz Gama ao Samori sua embaixada ; ' 
' £ recebido bem da Indica gente , 

Co' o Regedor da terra ao mar se torna, 
[ ' Que de toldos e flanunulas se adorna. 




lusíada. 



' . %^^^i^^>»<V»%^<V*/%/%.%J>/mr%/%»^<t/m/»»%^<^%'%<'%«%i'><^i ^ ^<%>%>%^%/%l%>%^>^%<^r 



CANTO SEPTIMO. 



I. 



J Á se viam chegados junto á terra, 
r Qúe desejada já de tantos fora , 
% Qu'çntre as corrêtes Indicas se encerra, 
* £ ò Ganges, que no Geo terreno mora. 
'•', Ora sus, gente forte, que na guerra 
:'-. Quereis levar a palma vencedora; 
Já' sois chegados, já tendes diante 
^ A terra de riquezas abundante. 

II. 
A vòs, 6 geração de Luso, digo, 
^ ~ Que taõ pequena parte sois no Mundo; 
kt^.- Saõ digo inda no Mundo, mas no amigo 
Curral de. quem governa o Geo rotundo : 
Vós, a quem naõ somente algum perigo 
fistorva conquistar o povo immundo; 
Mas nem cobiça , ou pouca obediência 
Da Madre, que nos Geos está em essência 



j lusíada. 

III. 
Vós, Portugnezes poucos, quanto fortes. 
Que o fraco poder vosso naõ pezais; 
Vòs , que á custa de yossas várias mortes 
A Lei da vida eterna dilatais : 
Assi do Geo deitadas saõ as sortes, 
Que vòs por muito poucos que sejais. 
Muito façais na sancta Christandade -. 
Que tanto 9 ò Ghristo, exaltas a humildade! 

IV. 

Vedes os Alemães, soberbo gado. 
Que por taõ largos campos se apascenta. 
Do successor de Pedro, rebellado, 
líovo Pastor e nova seita inventa : 
Véde-lo em fèas guerras occupado, 
Que inda co* o cego error se naõ contenta; 
Naõ contra o superbissimo Othomano, 
Mas por sahir do jugo soberano. . 

▼. 
Vedes o duro Inglez, que se noméa 
Rei da velha e sanctissima Cidade , 
Que o torpe Ismaelita senhoréa : 
Quem vio honra taõ longe da verdade ? 
Entre as Boreaes neves se reeréa , 
I9ova maneira fez de Christandade : 
Para os de Christo tem a espada nua , 
Haôpor tomar a terra que era sua. 



CANTO VII. 4« 

VI. 

Gaarda-lhe por entanto hum falso Rei 
A Cidade Hierosolyma terreste, 
Em quanto el^e naò guarda a sancta Lei 
Da Cidade Hierosolyma^beleste. 
Pois de ti, Gálio indigno, que diiei? 
Que o nome Christianissimo quizeste, 
Naõ para defendé-lo, nem guardá-lo, 
Mas para ser contra elle, e derribá-lo. 

VII. 

Achas que tèes direito em senhorios 

De Christãos, sendo o teu taô largo, e tanto; 

£ liaõ contra o Cyniphio, e Nilo, rios 9 

Inimigos do antigo nome santo ? 

Alli se haô de provar da espada os fios, 

£m quem quer reprovar da Igreja o canto. 

De Carlos, de Luís o nome, e a terra, 

Herdliste: e as causas naõ da justa guerra ? 

VIU. 

Pois que direi daquelles, que em delicias, . 
Que o vil ócio no Mundo traz c(Hnsigo, 
Gastam as vidas, logram as divicias. 
Esquecidos de seu valor antigo? 
Nascem da tyrannia inimicicias, 
Que o povo tbrte tem de si inimigo. 
Comtigo I^ilia fallo, já submersa 
Em vicios mil , e de ti mesma adversa» 



^ lusíada. 

II. 
Ok iBÍ$m>s Ghrístãos ! PeU Tentnra , 
Sois os deDtes de OmIiuo despainidos. 
Que kúus aos ontros se daò a morte dura , 
Sendo lodos de kam Tentre produzidos ? 
r^aõ Tedes a divina Sepultura 
Possuída de cães, cpie sempre unidos ' 

Tos vem tomar a vossa antigua terra, 
Faiendo-se &mosos pela guerra ? 

X 

Vedes que tem por uso, e por decreto. 

Do qual saõ taõ inteiros observantes. 

Ajuntarem o exercito inquieto. 

Contra os povos que saõ de Christo amantes? 

Entre vós nunoa deixa a fera Aleto 

De semear cizânias repugnantes. 

Olhai se estais seguros de perigos, 

Que elles, e vós sois vossos inimigos. 

XI. 

Se cobiça de grandes senhorios 

Vos faz ir conquistar terras alhéas; 

líaõ vedes que Pactolo, e Hermo, rios. 

Ambos volvem auríferas arêas ? 

Em Lydia, Assyria lavram d^ouro os fios; * . 

Africa esconde em si Tnzentes véas : 

Mova-vos já sequer riqueza tanta , • 

Pois xnover-vos naõ pôde a Casa santa. 






CANTa yii. 43 

, XII. 

Aquellas ínTenções feras, e novas, 
De instrumentos mortaes da artilheria. 
Já devera de fazer as duras provas 
Nos muros de Byzancio, e de Tnrqii^H| 
Fazei que tome lá ás sylvestres covM '^^ 
Dos Caspios montes, e da Scythia fria, 
A Turca geração, que multiplica 
Na policia da vossa Europa rica. 

XIII. 

Gregos, Thraces, Arménios, Georgianos, 
Bradando- vos e8taft,*que o povo bruto 
Lhe obriga os charos filhos aos profanos 
Preceitos do Alcorão: (duro tributo!) 
Em castigar os feitos inhumanos 
Vos gloriai de peito forte , e astuto j 
E naõ queirais louvores arrogantes 
De serdes contra os vossos mui possantes. 

XIV. 

Mas em tanto que cegos, e sedentos, 
Andais de vosso sangue, 6 genteiinsana, 
Naõ feltaráõ Christáos atrevimentos 
Nesta pequena Casa Lusitana : 
De Africa tem maritimos assentos; 
He na Ásia mais que todas soberana; 
Na quarta parte nova os campos ara; 
£ se mais Mundo houvera lá cheçjáia. 



f 



44 lusíada. 

XV. 

£ Tejamos em tanto, que acontece 
A quelles taô fiimosos navegantes, 
Despois que a branda Vénus enfraquece 
O ^lU^tffl^ ^os ventos repugnantes j 
DespowÇie a larga terra lhe apparece. 
Fim de suas porfias taô constantes. 
Onde vem semear de Ghristo a Lei, 
£ dar novo costume, e novo Rei. 

XVI. 

Tanto que á nova terra se chegaram. 
Leves embarcações de pescaiáores 
Acharam, que o caminho lhes mostraram 
Dè Calecut, onde eram moradores. 
Para lá logo as proas se inclinaram^ 
Porque esta era a Cidade das me1hoi*es 
Do Malabar melhor, onde vivia 
O Rei, que a terra toda possuia. 

XVII. 

À lém do Indo jaz, e áqucm do Gange, 
Hum terreno mui grande, e assaz famoso, 
Que pela parte Austral o mar abrange, 
£ para o ISorte o £modio cavernoso. 
Jugo de Reis diversos o constrange 
A várias leis; algúus o vicioso 
Mafoma, algúus os Ídolos adoram, 
Algúus os ^nímaes. que entre çlles moram. 



CANTO VII. 45 

xvin. 
Lá bem no grande monta, que cortando 
Taõ larga terra, toda Ásia discorre. 
Que nomes taõ diversos Tai tomando, 
Segundo as Regiões por onde corre; 
As fontes sahem, donde Tem manando 
Os rios, cuja grão corrente moixe 
No mar Indico, e cercam todo o peso 
Do terreno £azendo-o Ghersoneso. 

XIX. 

Entre hi^m, e outro rio, em grande espaço 
Sabe da larga terra búa longa ponta, 
Quasí pyramidal, que no regaço 
Do mar, com Geilaõ Insula confronff ; 
E junto donde nasce o largo braço 
Gangetico , o rumor antigo conta , 
Que os visinhos da terra moradores , 
Do cheiro se mantém das finas flores. 

zx. 
Mas agora de nomes, e de usança. 
Novos,. e vários saõ os habitantes; 
Os Delijs, os Patanes, que em possança 
De lerra, e gente, saõ mais abundantes: 

)ecânis, Oriás, que a esperança 

^em de sua salvação nas resonantes 
guas do Gange; e a terra de Bengala, 
;rtil de sorte , que outra naõ lhe iguala. 



46 lusíada. 

zxi. 
O Reina de Cambaia bellicoso, 
(Dizem que foi de Poro, Éei potente) 
O Reino de Narsinga , poderoso 
Mais d^ooro, e pedras, que de forte gente: 
Aqui se enxerga lá do mar undoso 
Hum monte alto que corre longamente, 
Servindo ao Malabar de £orte muro, 
Com que do Ganará vive seguro. 

XXII. 

^Da terra os naturaes lhe chamam Gate, 

Do pé do qual pequena quantidade 

Se estende húa fralda estreita, que combate 

Do mar a natural ferocidade : 

Aqui de outras Cidades, sem debate, 

Calecut tem a illustre dignidade 

De cabeça de Império, rica, e bella : 

Samori se intitula o Senhor de)la. 

XXIII. 

Chegada a frota ao rico senhorio, 
Hum Portuguez, mandado, logo parte 
^ A feizer sabedor o Rei Gentio 
Da vinda sua a taõ remota paite. 
Entrando o mensageiro pelo rio, 
X^ne alli nas ondas entra, a naõ vista arte, 
A côr, o gesto estranho, o traje novo, 
Fez concorrer a véAo todo o povo. 



CANTO VII. 47' 

Entre a gente que a yé-lo concorria, 
Se chega hum Mahometa, qae nascido 
Fora na Regiaõ da Barbaria, 
L^ onde fora i^mli^ obedecido : 
Ou pela visinhan^ jà teria 
O Reino Lusitano conhecido, 
Ou foi já assignalado de seu ferro, 
Fortuna o trouxe a taõ longo desterro. 

XXV. 

Em vendo o mensageiro com jucundo 
Bosto, como quem sabe a lingua Hispana, 
Lhe disse: Quem te trouxe a est'oucro Mundo, 
Taõ longe da tua pátria Lusitana ? 
Abrindo (lhe responde) o mar profundo. 
Por onde nunca veio gente humana. 
Vimos buscar do Indo a grão corrente , 
Por onde a Lei Divina se accresente. 

XXVI. 

Espantado ficou da grão viagem 

O Bfouro, que MorifíUde se chamava. 

Ouvindo as oppressões que na passagem 

Do mar o Lusitano lhe contava. Ik m* 

Mas vendo, em fim, que a força da mensagem 

Sò para o Rei da terra relevava , 

Lhe diz, qne estava fora da Cidade, 

Mas de caminho pouca quantidade. ^^ 

1 



s 



48 lusíada. 

£ que em tanlo que a nova lhe chegasse 

De sua estrauh» .▼inda, se qiMria, 

Na sua pobre casa repousasse, 

£ do manjar da terra comei^ • 

£ despois que se hum pouco iKrcasse, 

Com elle para a armada toriuiria; 

Que alegria naõ p4Sde ser taiftanha, 

Que achar gente visinha em terra estranha. 

XXVIil. 

O Portuguez acceita de vontade 
O que o ledo Honçaide lhe offerece : 
Gomo se longa fora já^ amizade, 
Com elle come, e bebe, e lhe obedece : 
Ambos se toíoam logo da Cidade 
Para a froiá, que o Mouro bem conhece : 
Sobem á Capitaina, e toda a^nte 
Monçaide recebeo benignamente. 

;íxix. 
O Capitam o abraqa em cabo ledo. 
Ouvindo clara a lingua dqélaitella; 
Junto de si o assenta; e prompto, e quedo, 
Pela terra pergunta, e cousas delia. 
Qual se ajuntava em Rhodope o arvoredo , 
Só por ouvir o amante da donzella 
£urydice, tocando a lyra de ouro; 
Tal a gente s« ajunta a ouvir o Mouro. 



kp 



CANTO YII. 4$ 

£l1e começa : O' gente, que a natura 
Visinha fez de meu paterno lúnhoj 
Qae destino taõ grande-, ou ^que ventura, 
Vi^^trouxe a cometterdes tal caminho ? 
I9aõ he sem causa, naõ, occuha, e escura, 
^ Vir do loginquo Tejo, e ignoto Minho, 
Por mares nunca d^outro lenho arados, 
 Reinos taõ remotos, « apartados 

XXXI. 

Deos por certo vos trás, porque pertende 
Al^um serviço seu, por v6s obrado: 
Por isso só vos guia , « vos defende 
Dos imigos, do mar, do vento irado. 
Sabei , que estais na índia, onde se estende 
Diverso povo, rico, e pro^rado. 
De ouro luxente, e fina pedraria, 
Cheiro suave, aidente especiaria. 

XXXII. 

Esta Provinda, cujo porto agora 
Tomado tendes. Malabar se chama: 
Do culto antigo os ídolos adorii, 
Que cá por estas partes se derrama : 
De diversos Beis he, mas d^hum só fora 
N^ outro tempo, segundo a antigua £ama : 
Saramá Perimal ibi derradeiro 
Rei, que este Beino teve unido, e inteivo. 



I 



LUSÍADA. 



De lá <lo Kia Arábico oairu geutes, 
Que o ™llo Mahoinelico iroajesspmj 
(Ka qual me iastiluiiam meus parenles) 
Suctedra, q<ie pregando coovenessem 
O Perimal: de dabioa, e eloquculfa, 
F»«eiii.llie ■■ lei lomar com fervor Unlo, 
Que preiuppo» de nella morrer «auto. 



Nãos a 



e DclUa 






Oude o Propheta jai, que u lei piiLlíca : 
Antes que parla, o Reino poderoso 
Co' os seus repnrie, porque naõ llie fira 
Herdeiro próprio; íai os maia aoccllos. 
Ricos de pobres, livres de sujeitos. 



A hum Cochim , e a outro Canaaor, 
A qual Chalé, a qual a IJIia da pimeol 
à qual Coulaõ, a qual dá Cranganor, 

E os mais, a quem o luaís «en 

Hum só moço, a quem tinha muito aiD< 

Despois que lodo deo, se lhe apreJeota. 






1 eòincn 



Cidathjú por trato, nobre, e 



CANTO VII. 5i 

XXXTI. 

Esta lhe dá co' o titulo excellente 

De Imperador, que sobre os outros mande. 

Isto feito se parte diligente 

Para onde em sancta vida acabe, e ande. 

£ daqui fica o nome de potente 

Samori, mais que todos digno, e grande, 

Ao moço, e descendentes, donde vem 

Este que agora o Império manda, e tem. 

YXXYII. 

A lei da gente toda, rica, e pobre, • ■ 
De fabulas composta se imagina : 
Andam niis, e somente hum panno cobre 
As partes, que a cobrir natura ensina : 
Dous modos ha de gente ^ porque a nobre 
Naires chamados saõ^ e a menos dina 
Poleás tem por nome^ a quem obriga 
A lei naõ misturar a casta antiga. 

XXXVIII. 

Porque os que usaram sempre hú mesmo officio, 

D^ outro naô podem receber consorte; 

Nem os filhos teraõ outro exercício, 

Senaõ o de seus passados , até á morte. 

Para os Naires he certo grande vicio • 

Destes serem tocados, de tal sorte, 

Que quando algum se toca, por ventura. 

Com ceremouias mil se aUmpa , e apxxxoi. 



I 



9r 



LUSIADl. 



Desta sorte o Jildaico povo antigo 
I^aõ tocaya na gente de Samaria r 
Mais estranhezas inda da» que digo 
I^esta terra Tereis de usança vária : 
Os Naires sós saõ dados ao perigo 
Das armas; sós defendem da contrária 
Banda o sen Rei^ trazendo sempre asada 
Na esquerda a adarga^ e na direita a espada. 

XL. 

Brackmane^safi os seus Religiosos, 
Nome antigo y e de grande preeminencfa : 
Observam os preceitos taô i^mosos 
De hum, que primeiro poznome á sciencia : 
Naõ matam cousa viva, e temerosos^ 
Das carnes tem grandíssima abstinenda : 
Somente no Tenereo ajuntamento 
Tem mais licença , e meuos regimento. 

XLI. 

Gà^es saõ as mulheres; mas somente 
Para os da géraçaõ de seus maridos : 
Ditosa condição, ditosa gente, 
Que naõ saõ de ciúmes ofifendidos? 
Estes, e obtros costumes Tariamente 
Saõ pelos Malabares admittidos : 
A terra he grossa em trato, em tudo aquilo. 
Que as onãns podem dar da China ao Nilo. 



CANTO VII. 53 

XLII» 

Assi contava o Mouro j mas vagando 

Andava a Êima já pela Cidade, 

Da vinda desta gente estranha ^ quando 

O Rei saber mandava da verdade : 

Já vinham pelas ruas caminhando. 

Rodeados de todo seso, e idade, 

Os principaes, que o Rei buRcar mandara 

O Capitam da. armada, que chegara. 

XLIII. 

Mas elle, que do Rei já tem licença 
Para desembarcar, accompanhado 
De Nobres Portuguezes, sem detença 
Parte, de ricos pannos adornado : 
Das cores a formosa difiereuça 
A vista alegra ao povo alvoroçado : 
O remo compassado fere frio 
Agora o mar, despois o fresco rio. 

. xnv. 
Na praia hum Regedor do Reino estava, 
Que na sua Ungua Catual se chama , 
Rodeado de Naires, que esperava 
Com desusada festa o nobre Gama : 
Já na terra nos braços o levava , 
E n^hum portátil leito húa rica cama 
Lhe offerece em que vá:. costume usado ^ 
Que nos hombros dos homées he legado. 

5. 



54 lusíada. 

SLT. 

Desta arte o Malabar, desta arte o Luso, 
GamiDham )á para onde o Rei o espera : 
Os oatros Portogneses vaõ ao aso 
Qne in&nteria segne, esquadra fera : 
O povo, que concorre, vai conferao 
De ver a gente «Stranba, e bem quizera 
Perguntar; mas no cempo já passado, 
lía torre de Babel lhe foi vedado. 

XLVI. 

O Gama e o Gatual hiam fiillando 
Nas cousas que lhe o tempo ofiGsrecía : 
Monçaide entre elles vai interpretando 
As palavras qne de ambos entendia. 
Assi pela Cidade òamtnbando. 
Onde huma rica Cibrica se erguia 
De hum sumptuoso Templo, já diegavam^ 
Pelas portas do qual juncos entravam. 

XLVII. 

Alli estaõ das deidades as figuras 
Esculpidas em pao, e em pedra firia^ 
Vários de gestos, vários de pintaras, 
A segundo o demónio lhes fiogk : 
Vem-se as abomináveis esealptnras; 
Qual a Ghimera em membros te varia : 
Os Ghrístãos olhos, a ver Deos usados 
Em fi^rma homana, estaõ maravilhados. 



OANTO VIL 55 

Ham na cabeça ooniof escnlpidos, 
Qual Júpiter Hammop em Lybia etUTa : 
Outro em hum corpo, restos tinha unidos. 
Bem como o antigo Jano se pintava : 
Outro com muitos braços divididos, 
A Briareo parece ({oe iasitava : 
Outro fronte canina tem de fóra, 
Qual Anubis Memphitico se adonu 

XLIX. 

Aqui, feita do botíMiro Gentio 
A supersticiosa adoração. 
Direitos vaõ sem outro algum cbsvio, 
Para onde estava o Rei áo povo vaõ : 
Engro8sando-se vai da gente o fio, 
Go' os que vem ver. o estranho Capátaõ : 
Estaõ pelos telhados, e-janelias. 
Velhos, e moços ^ donas, e doozeUas. 

Já chegam perlo ^ e naõ com passos leatos. 
Dos jardijs odoríferos , formosos , 
Que em si escondem os Régios aposentos. 
Altos de torres naõ, mas snmptttosos : 
£dificam-se os nobres sens assentos. 
Por entre os arvoredos deleitosos : 
Assi vivem os Reis daquella g^nte, 
T9o campo, e na Cidade juntamente. 



â 



56 lusíada. 

LI. 

Feios portaes da cerca a tnbtileia 
Se enxerga da Dedálea faculdade, 
Em figuras mostrando por nobiresa 
Da índia a mais remota ant^uidade : 
Afifignradas vmò com tal viveza 
As historias daqnella antigna idade. 
Que quem ddlas tiver noticia inteira. 
Pela sombra conhece a verdadeira. 

LII. 

Estava hum grande exército que pisa 
A terra Oriental, que o Hydaspe lava; 
Rege-o hum Capitam de fronte lisa. 
Que com frondentes thyrsos pelejava : 
Por elle edificada estava Nisa 
lias ribeiras do rio, que manava; 
Taõ próprio, que se alli estiver Semelle, 
Dirá por certo, que heu seu filho aquelle. 

LIII. 

Mais avante bebendo sécca o rio 
Mui grande multidão da Assyria gente. 
Sujeita ao feminino senhorio 
De húa taô.bella, como incontinente : 
Alli tem junto ao lado nunca frio, 
Esculpido o feroi ginete ardente. 
Com quem teria o filho oompelencia. 
Amor nefando y bruta incontinência I 



CANTO VII. 57 

LIT. • 

Daqni mais apartadas tremokivaBk 
As bandeiras de Grécia fjlonoatkê, 
Terceira Monardiia, e sditju^yam 
Até as aguas Gan^eticas undosas : 
De hum Capitam mancebo se gaiavan^ 
De palmas rodeado ralerosas, 
Que já naõ de Philippo, mas sem Calta» 
De progénie de Jnpifer se eialta. • 

L-v. 
Os Portugueses vendo «stas memorias, 
Diaa o Gatnal ao Capitão : • 
Temp»o cedo TÍrá, que oSfCras TÍcforiaSy 
Estas que agora olliais abateráô : 
Aqui se escreverão, novas historias 
Por gentes estrangeiras que viráõ; 
Que os nossos labios Magos o alcançaram , 
Quando o tempo fiituro especuláraan. 

I.Vf. 

E diz-Ihe mais a Bifagiea sdencia. 
Que para se evitar loriqa tamanha, 
Naõ valerá dos homées resistência, 
Que contra o Geo naõ vai da gente manha : 
Mas também diz, que a bellica exceliencia 
Nas armas^ e na paz, da gente estranha. 
Será tal, que será no Mundo ouvido 
O vencedor por gloria do vencido « 



i 



58 



lusíada. 



LVII. 

Assi ÊiDando entraram já na sala, 
Onde aqueUe potente Imperador 
19 numa camilha jaz, qne naõ se iguala 
De entra algama no preço, e no lavor : 
No reeostado gesto se assignala 
Hum venerando e próspero Senhor : 
Hum panno de ouro cinge, e na cabeça 
Be precio^s gemmas se adereça. 

LVIII. 

Bem junto delle hum velho reverente, 
Go^ os giolhos no chão, de quando em quando 
Lhe dava a verde folha da herva ardente. 
Que a seu costume estava ruminando. 
Hum Brachmane, pessoa preeminente. 
Para o Gama vem com passo brando. 
Para que ao grande Principe o apresente, 
Que diante lhe acena que se assente. 

LIX. 

Sentado o Gama junto ao rico leito. 
Os seus mais afiastados, prompto em vista 
Estava o Samori no trajo, e geito 
Da gente, nunca de antes delle vista: 
Lançando a grave voz do sábio peito. 
Que grande auctoridade logo aquista 
Na opinião do Rei, e do povo todo, 
O Capitam lhe £silla deste modo : 



CANTO VIL S9 

LX. 

Hum grande Rei de lá das partes, onde . 
O Ceo volubil, com perpétua roda, 
Da terra a luz Solar co' a terra esconde, 
Tingindo a que deixou de escura noda; 
Ouvindo do rumor que lá responde 
O ecco, como em ti da índia toda 
O Principado está, e a Magestade, 
Vínculo quer comtigo de amizade. 

LXI. 

E por longos rodéos a ti manda , 

Por te Êizer saber, que tudo aquilo 

Que sobre o mar, que sobre as terras anda 

De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo^ 

£ desde a fria plaga de Gelanda , 

Até bem donde o Sol naõ muda o estilo 

Nos dias, sobre a gente de Ethiopia, 

Tudo tem no seu Reino em grande copia. 

L X 1 1^ 
E se queres com pactos, e lianças 
De paz, e de amizade sacra, e nua, 
Commercio consentir das abuiidanças 
Das fazendas das terras, sua, e tua; 
Porque cresçam as rendas, e abastanças. 
Por quem a gente mais trabalha, e suaf 
De vossos Reinos será certamente. 
De ti proveito, e delle gloria ingeale. 



i 



6a ' LU6IADA. 

E KDdo aisi, qoe ■> dó detta unizade 
Eotre vdi âmuraMnte permaneça, 
Eslarí prompto a. toda advenidadc , 
Que poT goerra a leu Reina ae oSareça , 
Com geole, armas, e naoa; de qualidade 
Que por irmão te tenha , e te conheça , 
E da voDlade em ti sobre iito pMU 
Me dèa a mi certiiaima reipoila. 

Tal embaixada data o Capitão, 
A quem o Bei Gentio respondia, 
Qae Mn ver embaixadores de naçaõ 
Taô remou, grão gloria recebia : 
Mas neste caso a ollima tençaõ 
Com os de seu Conselho tomaria, 
loformando-^a certo de quem era 
O Rei, e a ([aulc, a a tenra que dininr» 

E que em tanto, podia do trabalho 
Passado ir reponsar, e em tempo breve 
Daria a sen despacho bum jnsto lalha 
Com que a sen Rei resposta alegre leve. 
Já nisto punha a Doiie o usada atalho 
A''s humanas canseiras, porque ceve 
De doce sommo os membro trabalhado*) 
D) dhos ocGopando ao «do dados. 



CANTO. Vn. 6i 

LXVI. 

Agasalhados foram juntamente 

O Gama, e Portugnezes no aposento 

Do nobre Regedor da Indica gente, 

Com £esias, e geral contentamento. 

O Gatual, no cargo diligente 

De seu Bei, tinha já por regimento 

Saber da gente estranha, donde vinha, 

Que costumes, que lei, cpie terra tinha. 

LXVII. 

Tanto qne os igneos carros do formoso 
Mancebo Delio vio, que a luz renova , 
Manda chamar Monçaide, desejoso 
De poder-se informar da gente ndra. 
Já lhe pergunta prompto, e curioso, 
Se tem noticia inteira, e certa proTa, 
Dos estranhos quem saõ; que ouvido tinha, 
Que he gente de sua pátria mui visinha. 

Lzyiii. 
Qne particularmente alli lhe desse 
Informaçõ mni larga, pois fiaizia 
Nisso serviço ao Reif porque soubesse 
O que neste negocio se &ria. 
Monçaide toma : Postoque eu quisesse 
Dizer-te nisto mais, naõ saberia : 
Somente sei, qne he gente lá de Hespanhá , 
Onde o meu ninho, e o Sol no mar se ^likai. 
9' ^ 



9 lusíada. 

LXIX. 

Tem a lei de ham Propheta, que gerado 
Foi , sem £azer na carne detrimento 
Da Mãi; tal que por Bafo está approvado 
Do Deo8, que tem do Mundo o regimento. 
O que entre meus antigos he vulgado 
Delles, he que o valor sanguinolento 
Das armas, no seu braço resplandece, 
O que em nossos passados se parece. 

( LXX. 

Porque elles, com yirtude sobre humana, 
Os deitaram dos campos abundosos 
Do rico Tejo, e fresca Guadiana, 
Com feitos memoráveis, e famosos: 
£, naõ contentes inda, na Africana 
Parte, cortando os mares proccllosos, 
Nos naõ querem deixar viver seguros, 
Tomando-nos Cidades, e altos muros. 

LXXI. 

Naõ menos tem mostrado esforço, e manha, 
Em quaesquer outras guerras que aconteçam. 
Ou das gentes belligeras de Hespanha, 
Ou lá de algúus que do Pyrene dcçam : 
Assi que nunca, em fim, com lança estranha 
Se tem, que por vencidos se conheçam ; 
Nem se sabe inda, naõ, te afBrmo, e asseUo, 
Para estes Annibaes nenhum Marcello. 



CANTO Vn. 63 

LXXII. 

E se está injEormaçaõ naõ Sdf inteira, 
Tanto quanto convém , ddles pertende 
Informar-te, que he gente verdadeira, 
A quem mais falsidade enoja , e o£íende : 
Vai ver-lhe a frota, as armas, e a maneira 
Do fundido metal, que tudo rende; 
£ folgarás de veres a policia 
Portugueza na paz, e na milicia. 

LXXllI. 

Já com desejos o Idolatra ardia 
De ver isto que o Mouro Ilfe contava : 
Mauda esquipar batéis, que ir ver queria 
Os lenhos em que o Gama navegava : 
Ambos partem da praia, a quem seguia 
A Naira géraçaõ, que o mar coalhava : 
A^ Gapitaina sobem forte, e bella. 
Onde Paulo os recebe a bordo delia. 

LXXIT. 

Purpúreos saõ os toldos; e as bandeiras 

Do rico fio saõ, que o bicho gera : 

Nellas estaõ pintadas as guerreiras 

Obras, que o forte braço já fizera : * 

Batalhas tem campaes, aventureiras. 

Desafios cruéis, pintura fera, 

Que tanto que ao Gentio se apresenta, 

Attento nella os olhos apascenta. 



i 



^ lusíada. 

hHST, 

Pelo que vê per^^ta : mas o Gama 
Lhe pedia primeiro que se assente ^ 
E que aqueUe deleite que tanto ama 
A seita ^picuréa experimeute. 
Dos espumantes yasos se derrama 
O licor que Noé mostrara á gente : 
Mas comer o Gentio naõ pertende. 
Que a seita que seguia lho defende.- 

liXXYI. 

A trombeta , que em paz no pensamento 
Imagem faz de guerra , rompe os ares : 
Co*o fogo, o diabólico instrumento 
Se faz ouvir no fundo lá dos mares. 
Tudo o Gentio nota; mas o intento 
Mostrava sempre ter nos singulares 
Feitos dos homêes, que em retrato breve 
A muda Poesia alli descreve. 

LXXVII. 

Alça-se em pé, com elle os Gamas junto, 

Coelho de outra parte; e o Mauritano 

Os olhos põe no bellico trasunto 

De hum velho branco; aspeito venerando; 

Cujo nome naõ pode ser defunto 

£m quanto houver no Mundo trato humano : 

No trajo a Grega usança está perfiaita; 

Hum ramo por insignia na direita. 



CANTO VII. 65 

LXXVIII. 

Hum ramo na mão tinha. Mas oh cego 
Eu, que cometto insano, è temerário, 
Sem yds, Nimphas do Tejo, e do Mondego, 
Por caminho taõ árduo, longo, e vário! 
Vosso favor invoco, què navego 
Por alto mar, com vento taõ contrário. 
Que se naõ me ajudais, hei grande medo 
Que o meu firaco batel se alague cedo. 

Olhai, que há tanto tempo que cantando 

O vosso Tejo, e os vossoMLusitanos, 

A fortuna me traz peregrinando, 

Novos trabalhos vendo, e novos danos ^ 

Agora o mar, agora experimentando 

Os perigos Mavórcios inhumanos; 

Qual Ganace, que á morte se condenna, 

]^'húa mão sempre, a espada, e n'outra a<penna. 

LXXX. 

Agora com pobreza aborrecida, 
Por hospicios alhêos degradado; 
Agora da esperança já adquirida , 
De novo, mais que nunca, derribado: 
Agora ás costas escapando a vida. 
Que de hum fio pendia taõ delgado. 
Que naõ menos milagre foi salvar^se. 
Que para o Bei Judaico accressentiaT^se. 



I 



66 LUdlAD^., 

LXXXI. 

E ainda, Nympliat minhas, naõ bastava 
Que tamanhas misérias me ceneassem, 
Senaõ que aqudles que eu caotando andava, 
Tal premio de vaens versos me toroAssem : 
A troco dos descanços que esperava , 
Das capellas de louro que me honrassem. 
Trabalhos nunca «sados me inrentáram. 
Com que em taõ duro estado me deitaram. 

LXXXII. 

Vede, Nymphas, que en^nhos de Senhores 
O vosso Tejo cria vaUtosos, 
Que assi sabem prezar com tats £ivores 
A quem os &z cantando gloriosos! 
Que exemplos a futuros Escriptores, 
Para espertar engenhos curiosos, 
Para porem as cousas em memoria, 
Que merecerem ler eterna ^;k>ria ! 

LXXXIII. 

Pois logo em tantos males he forçado, 
Que só vosso &vor me naõ &lleça. 
Principalmente aqui, ^e 8o« chegado, 
Onde feitos diversos engrandeça : 
Dai-mo vós sds, que en ftenho já jurado. 
Que naõ o empregue em quem o naõ mereça , 
Nem por lisonja louve algum subido, 
JSobpena de aaõ ser agradecido. 



CANTO VIL 67 

L-KXXIT. 

Nem creais, Nymphas, naõ, qiM fiuaa d^sêe 
A quem ao bem commmi, e do seu Rei^ 
Antepiuer ieu próprio interesse, 
Imigo da divina e humana Lei : 
Nenhnm ambicioso, qne quiiesse 
Subir a grandes cafgos, cantarei, 
Sò por poder, oom torpes exercidos 
Usar mais largamente de seus vícios. 

LXXXY. 

Nenhum que use de seu poder bastante, 
Para servir a seu desejo fèo; 
E que por comprazer ao vulgo errante 
Se muda em mais figufas que Prothéo : 
Nem, Gamenas, também cuideis que cante 
Quem com hábito honesto, e grave véo; 
Por contentar ao Bei no officâo novo, 
A despir, e roubar o pobre povo. 

I LXXXVI. 

Nem quem acha que he justo, e que he direito, 

Gardar-se a lei do Rei severamente, 

£ naõ acha que he justo, e bom respeito. 

Que se pague o suor da servil gente: 

Nem quem sempre com pouco experto peito 

Raxões aprende, e cuida que he prudente. 

Para taixar com maõ rapace, e escassa, 

Os trabalhos alhéos, que naõ passai. 



68 



lusíada, canto vir. 



LXXXYII. 

Aquelles sós direi, que aventuraram 

Por seu Deos, por seu Rei a amada vida. 

Onde perdendo-a, em Êima a dilataram. 

Também de suas obras merecida. 

Apollo, e as Musas, que me acompanharam^ 

Me dobraráõ a fúria concedida. 

Em quanto eu tomo alento descansado. 

Por tornar ao trabalho mais folgado. 



FIM DO CANTO SEPTXMO. 



lusíada. 



CANTO OITAVO. 



ARGUMENTO , 

DO CANTO OITAVO. 

VI o Governador de Calecut varias pinturas nas 
bandeiras da Armada, e ouve a declaração que delias 
lhe £aiz Paulo da Gama : origem do nome Lusitânia : 
feitos gloriosos dos Reis de Portugal (ede seus vassal- 
los) até ElRei D. Afonso V : manda o Samori aos Ha- 
ruspices, que especulem o futuro a respeito da Ar- 
mada ; elles o informaõ contra os navegantes : perten- 
dem destruir ao Gama , o qual satisfaz ao Rei com huma 
notável falia. 

OUTRO ARGUMENTO. 

Vem-se de Lusitânia os Fundadores , 
E aquelles, que por feitos valerosos, 
De alta memoria saõ merecedores 
De hymoos , e de versos numerosos : 
Como de Calecut os Regedores , 
Consultam os Haruspices famosos, 
E corruptos com davidas possantes , 
Tratam de destruir os navegantes. 



lusíada. 



CANTO OITAVO. 



I. 



C JN A primeira fig^ura se detinha 
;'. O Catual, que vira estar pintada, 
Que por divisa Iiú ramo na mão tinha, 
A- liarlia branca, longa, e jienteada : 
/ - Quem era , e porque causa lhe convinha 
. '*. A divisa que tem na mão tomada^ 
.-."" Paulo responde, cuja vat discreta 
O Mauritano sahio ilie interpreta. 

II. 
Estas figuras todas que apparccem , 
Bravos cm \isla, c feros nos aspeitos, 
. Mais bravos, e mais feros se conhecem. 
Pela £aima, nas obras, o nos feitos : 
Antiguos saõ, mas indu resplandecem 
Co' o nome entre os cnj»enhos mais perfeitos 
Kste que v('"S he Luso, donde a fama 
Ao nosso llcino Lusitânia chuma. 



'jn LHSIADA. 

III. 
Foi filho e companheiro do Thebano, 
Que taõ diversas partes conqui$,ton : 
Parece vindo ter ao ninho Hispano, 
Seguindo as armas que contino nsou : 
Do Douro, Guadiana, o campo n£sino, 
Já dito Elysio, tanto o contentou. 
Que alli quiz dar aos já cansados ossos • 
Eterna sepultura, e nome aos nossos. 

IV. 

O ramo que lhe vês para divisa , 
O verde thyrso foi de Baccho usado, 
O qual á nossa idade amostra, e avisa. 
Que foi seu companheiro, e filho amado. 
Yés outro que do Tejo a terra pisa, 
Despois de ter taõ longo mar arado, 
Onde muros perpétuos edifica, 
£ Templo a Palias, que em memoria fica ? 

V. 

Ulysses he o què fez a sancta casa 
À deosa, que lhe dá lingna £aicunda^ 
Que se lá na Ásia Tróia insigne abrasa ^ 
Cá na Europa Lisboa ingente fnnda.^ 
Quem será est*outro cá, que o campo arrasa 
De mortos, com presença furibunda? 
Grandes batalhas tem desbaratadas, 
Que as Aluías nas bandeiras tem pintadas. 



CANTO VIU. 73 

VI. 

Âssi o Gentio diz : responde o Gama : 
Este que vês, pastor já foi de gadoj 
Viriato sabemos que se chama, 
Destro na lança mais, que no cajado. 
Injuriada tem de Roma a fama , 
Veni^dor invencibil, afíamadoj 
Naõ tem com elle, naõ, nem ter puderam 
O primor que com Pyrrho já tiveram. 

VII. 

Com força na^õ, com manha vergonhosa, 

A vida lhe tirárajn, que os espanta^ 

Que o grande aperto em gente, inda q honrosa, 

Às vezes leis magnânimas quebranta. 

Outro está aqui, que contra a pátria irosa 

Degradado comnosco se alevanta : 

Escolheo bem com quem se alevantasse , 

Para que eternamente se illustrasse. 

VIII. 

Vés ? Comnosco também vence as bandeiras 
Dessas aves de Júpiter validas; 
Que já naquelle tempo as mais guerreiras 
Gentes de nós souberam ser vencidas : 
Olha taõ subtis artes, e maneiras. 
Para adquirir os povos, taõ fingidas j 
A Éatidica Cerva que o avisa ; 
£Ue he Sertório, e ella sua divisa. 
a. "à 



74 tnsiADi. 

Olha Mt'oiin« fctntleini, e t« plnudo 
O grio Progenitor dos Beis priaMiras: 
Hds Húngaro o fazemos, poríiH nado 
Crem ser em Lotbarhigia ea Estrangeiros : 
Despoia de ter os Mouros «upersâo, 
Gallegos, e Leoaetei Cnvalleiroa, * 

A' Casa sancta passa o sancto Henrique, 
Porque o tronco dos Beis se sauctifiqae. 

Quem he, me dixe, eBt'outro, q me eapcinlH, 
(PCTgunla o Malabar ntarSTilbuIo) 
Qae tantos eiqmidrõe», qaa gente Ubta, 
Com laõ pouca, tem rolo, e destroçado? 
Tantos muros a^rriíDos quGbranla, 
Tanlas -batalhas M nunck causado. 
Tantas corbas tem por tantas partes 
A seu9 pe's derribadas, e eslmdartes? 

Este he o primeiro Abuso, dJsse o Gama, 
Que todo Portugal aos Mouros toma; 
Por quem no Estygio lago jura a &ma, 
De mais nad celebrar nenhum de Roma : 
Este he aquelle Rloso,'a quem Deoi anu, 
Cum cujo braço o Mouro iqiigo domaj 
Para quem de seu Seino abaiu os moros, 
Naàa deixando jd para os faloros. 



CANTO VIII. 75 

XII. 

Se César, se Alexandre Rei, tivçram 
Taõ pequeno poder, taõ ppnca gente. 
Contra tantos imigos, qnaptos eram 
Os que desbaratava este ezoollente : 
Naõ crêas que seus nomes Sf çstendérain 
Com' glorias immprtAes taõ largamente : 
Mas deixa os feitos seus inexplicáveis, 
Vé que os de.seus vassallos saõ notáveis. 

XIII. 

Este que vés olhar com gesto irado, 
Para o rompido- Akimno, mn^ no&riào 
Dizendo4he, que o exercito espalhado 
Recolha, e tome ao c^mpo defendido : 
Torna o moço do velho acompanhado. 
Que vencedor o torpa de vencido : 
Egas Moniz se chama o forte velho, 
Para leaes vassallos «laxo lespelho. 

XIV. 

Vé-lo cá vai 00' os filhota entregar^-se, 
A corda ao colo, nú de seda, e pano. 
Porque naõ qui^ o moço sujeiíar-se. 
Como elle promettêra ao Castelhano : 
Fez com siso, e promessas LevantarTSÇ 
O cerco, que já estava soberano: 
Os filhos, e mulher obriga á pena^ 
Para que o senhor salve, a si coudenai* 



76 lusíada. 

XV. 

Naõ fez o Gonsnl tanto, que cercado 
Foi nas forcas Gaudinas de ignorante, 
Quando a passar por baixo, foi forçado 
Do Samnitico jugo triumphante : 
Este pelo seu povo injuriado , 
A si se entrega sò, firme, e constante^ 
Est^outro a si, e aos filhos naturais, 
£ a consorte sèin culpa , que doe mais. 

XVI. 

Vés este que sahindo da cilada 

Dá sobre o Rei, que cerca a Villa forte j 

Já o Rei tem preso, e a Villa descercada, 

Illustre feito, digno de Mavorte? 

Vê-lo cá vai pintado nesta aimada, 

I9o mar também aos Mouros dando a morte, 

Tomando-lhe as galés, levando a gloria 

Da primeira maritima victoria : 

XVII. 

He Dom Fuás Roupinha, que na terra, 
E no mar resplandece juntamente, 
Go^ o fogo que accendeo junto da serra 
De Abyla, nas galés da Maura gente. 
Olha como em taõ justa, e sancta guerra. 
De acabar pelejando está contente : 
Das mãos dos Mouros entra a fel ice alma 
TrJumphando nos Geos com justa palma. 



CANTO VIII. 55 

XVIII 

Naõ vés hum ajuntam^Q^ <ije estrangeiro 
Trajo, sahir da grandç «inunda qoTa, 
Que ajuda a CQi»bater o j^ei pripielro 
Lisboa, de si datado santa proy^.? 
Olha Henrique, fiimoso Çav^lleiro, 
A palma que lhe n^sqe junto á cova : 
Por elles mostra Deos n^ilagre visto : 
Germanos saõ PS Mjirtyreç de Christo. 

XIX. 

Hum 3«cerdotiç vê brandindo n espgd^ 
Contra ArrpocfaeSy que toma por vingança 
Pe Leiria I que de aptes foi tomada 
Por quem por Ma&mede e^rístg 9 bpça : 
He Theotonip Prior : jm^ vê cer^díi 
Santarém, e ver^s 9 segurança 
Da figura nos muro^, que priíneira 
Subindo ergueo das Quijis^s » b^judeira* 

XX. 

Yé-lo cá donde Sancho desbarata 
Os Mouros dç Va&dgli^ em fera guerra , 
Os imigos r<)inpendp, o Alfieres mata, 
E o HispaHcQ pepdaõ derriba em terra. 
Mem Moni? he^ que em si o v^lor retrata, 
Que o sepujiçbro dp pai co^ os pssos cerra j 
Digno destas bandearas, pois sem £ilta 
A GoiU^jina jsrribaj a sua exalta. 



m 



^8 lusíada. 

XXI. 

Olha aquelle que desce pela lança 
Com as duas cabeças dos vigias, 
Onde a cilada esconde, 'com que alcança 
A Cidade por manhas, e ousadias. 
Ella por armaá toma a semelhança ' 
Do Gavallèiro, que as cabeças frias 
Na mão levava. Feito nunca feito. 
Giraldo Sem-pavor he o forte peito. 

xxíi. 
Naõ vês hum Castelhano, que aggravado 
De Afonso nono Rei , pelo odJo antigo 
Dos de Lara, co* os Mouros he deitado, 
De Portugal faísendo-se inimigo ? 
Abrantes Villá toma, acompanhado 
Dos duros infiéis que traz comsigoj 
Mas vê que hum Portnguez com pouca gente 
O desbarata , e o prende ousadamente : 

XXIII. 

Martim Lopes se chama o Gavalleiro, 
Que destes levar pôde a palma, e o louro. 
Mas olha hum' E eclesiástico guerreiro, 
Que em lança de aço toma o bago d^ouro. 
Vé>lo entre os duvidosos taõ inteiro, 
£m naõ negar batalha ao bravo Mouro : 
Olha o signal no Ceo que lhe apparece. 
Com que nos poucos seus o esforço ^ce. 



CANTO VIII. 79 

XXIV. 

Vés ? Vaõ os Reis de GordoTa, e Serillui, 
Rotos, com outros dous, e naõ de espaço 
Rotos ^ mas antes mortosu Maravilha 
Feita de Déos, que naõ de humano braço. 
Vês ? Já a Villa de Alcacere se humilha, 
Sem lhe valer defesa, ou muro de aço, 
A Dom Mattheus, o Bispo de Lisboa, 
Que a coroa de palma alli coroa. 

XXV. 

Olha hum Mestre que desce de Castella, 

Portuguez de naçaõ, como conquista 

A terra dos Algarves , e já nella 

Naõ acha quem por armas lhe resista : 

Com manha, esforço, e com benigna estrella. 

Vilias, Castellos toma á escala vista. 

Vés Tavila tomada aos moradores. 

Em vingança dos. sete caçadores ? 

XXVI. 

Vés ? Com belHca astúcia ao Mouro ganha 

Silves, que elle ganhou com força ingente : 

He Dom Paio Corrêa, cuja manha, 

£ grande esforço &z inveja á gente. 

Mas naõ passes os três q em Franca e Hespanlui 

Se £sizem conhecer perpetuamente , 

Em desafios, justas, e torneos, 

Nellas deiíiando públicos tronheo^. 

I 



S) lusíada. 

XXVII. 

Vé-los ? Co' o noine vem de aventureiros 
A Castella, onde o preço 8Òs levaram 
Dos jogos de BeUoua verdadeiros, 
Que com daomo de alguns se ttercitáram. 
Vé mortos os soberbos Gavallçiros, 
Que o principal dos três desafiaram» 
Que Gonçalo RjJ^eiro se oomêa, 
Que pôde naõ temer a lei I,<eihéa. 

XZTIII. 

Attenta n'biim que a Êim» lAlHo e*tende| 
Que de nenbam pasmado se contenta, 
Que a pátria qoe de bom fraco fio pffiid« 
Sobre seus duros bombroy ^. suftieota. 
Naõ o vés tinto de ira, qu» rsyrêkwàd 
A vil desconfiança inerte, e lenta, 
Do povo, e &9 que tome o doce freo 
De Rei seu natural , e naõ de albeo ? 

XS|X. 

Olba por sen conselbo, ç ousadia. 

De Deos guiada sò, e de sancta estrella, 

Só pôde, o qqe impossibil par^9. 

Vencer o povo ingevlp d^jCastella. 

Vés por industria, (Bsfiwiçp, e valentia, 

Outro estrago, « vidoria clara, • belU, 

Na gente assi feros, comp infijNta , 

Que entre o Tartesso, e o Guadiana babita. 



CANTO VIU. 8i 

XXX. 

Mas naõ vês quasi já desbaratado. 
O poder Lusitano, pela ausência 
Do Capitam devoto , que apartado 
Orando invoca a summa , e trhia Essência ? 
Vé-lo com pressa já dos seus achado, 
Que lhe dizem que fiilta resistência 
Contra poder tamanho, e que viesse, 
Porque comsigo esforço aos fracos desse ? 

XXXI. 

^as olha com que sancta confiança 

Que inda naõ era tempo, respondia^ 

Como quem tinha em Deos a segurança 

Da victoria que logo lhe daria. 

Assi Pompilio, ouvindo que a possança - 

Dos imigos a terra lhe corria , 

A quem lhe a dura nova estava dando : 

Pois eu ( responde ) estou sacrificando. 

XXXII. 

Se quem com tanto esforço em Deos se atreve, 

Ouvir quizeres como se noméa, 

Portuguez Scipiaõ chamar-se deve, 

Mas mais de Dom Nuno Alvares se arréa. 

Ditosa pátria que tal filho teve , 

Mas antes pai, que em quanto o Sol rodéa 

Este globo de Ceres e Neptuno, 

Sempre suspirará por tal Aluno. 



$s lusíada 

XXZIII. 

Na mesma guenra vé que presas ganha 
Este' outro Capitam de pouca geute; 
Gommendadores vence, e o gadp apanha, 
Que levavam roubado ousadamente. 
Outra vez vé que a hinça em sangue banha 
Destes, só por livrar co^ amor andente 
O preso amigo, preso por leqdi, 
Pêro Rodrigues he do Landroal. 

zxxiv. 
Olha este desleal o como paga 
O perjúrio que fez, e vU engano : 
Gil Fernandes he d^EUvas quem o estraga, 
E faz vir a passar o ultimo dano : 
De Xerez rouba o campo, e quasi alaga 
GV o sangue de seus donos Castelhano. 
Mas olha Bui Pereira, que co' o rosto 
Faz escudo ás galés 3 diante posto. 

zxxv. 
Olha qiie dezasete Lusitanos 
Neste outeiro subidos se defiendem 
Fortes, de quatrocentos Castelhanos, 
Que em de redor, para os tomar se estendem. 
Porem logo sentiram, com seus danos. 
Que naõ sò se defendem, mas offendem. 
Digno feito de ser no Mundo eterno : 
Grande no tempo antigo, e no moderno^ 



CAWtO VIIL B% 

XXXVI. 

Sabe-se antiguamente, que trezentos 
Já contra mil Romanos pelejaram, 
No tempo que os viris atrevimentos 
De Viriato tanto se illustráram : 
£ delles alcançando vencimentos 
Memoráveis, de herança nos deixárftm, 
Que aos muitos por ser poucos naõ temamos, 
O que despois mil vexes amostramos. « 

XXXVII. 

Olha cá dous Infantes Pedro e Henrique, 

Progénie generosa de Joanne : 

Aquelle £iz que fama illttgtre fique 

Delle em Germânia, com que a morte engane ; 

Este, que ella nos mares o publique 

Por seu descobridor, e desengane 

De Ceita a Maura támida vaidade, 

Primeiro entrando as portas de Cidade. 

XXXVIII. 

Vés? o Conde Dom Pedro, qtte sustenta 
Dous cercos contra toda a Barbaria ? 
Vés outro Conde está : que representa 
Em terra Marte, em forças, e'ousadÍB. 
De poder defender se naõ contenta. 
Alça cere da Ingente companhia; 
Mas do seu Rei defende a chara vida , 
Pondo por muro a sua,' alli perdida. 



i 



84 . lusíada. 

Outros muitos verias que os Pintores 
Aqui também por certo pintariam^ 
Mas £aha-Ihes pincel, faltam-Uies cores, 
Honra, premio, fayor, que as Artes criam. 
Culpa dos TÍciosos successores, 
Que degeneram, certo, e se desviam 
Do lustre, e do valor de seus passados, 
£m gostos, e vaidades atolados. 

XL. 

Aquelles Pais illustres que já deram 
Princípio á geração que delles pende, 
Pela virtude muito entaõ fizeram, 
£ por deixar a Casa que descende. 
Cegos ! Que dos trabalhos que tiveram , 
Se alta fama, e rumor delles se estende. 
Escuros deixam sempre seus menores, - 
Com lhes deixar descansos corruptores. 

XLI. 

Outros também ha grandes, e abastados, 
Sem nenhum tronco illustre donde venham j- 
Culpa de Reis, que ás vezes a privados 
Daõ mais q a mil, q esforço e saber tenham 
Estes os seus naõ querem ver pintados. 
Crendo que cores vãas lhes naõ convenham : 
E como a seu contrario natural, 
A^ pintura que falia querem mal. 



CANTO Vm. 85 

XL.II. 

Naõ nego, que ha com tuck| descendentes 

Do generoso tronco, e casa rica 

Qae com costumes altos, e èiMlentes, 

Sustentam a nobreza que lhes liça. 

£ se a luz dos antigos seus parentes, 

Nelles mais o valor naõ clarifica, 

Naõ £alta ao menos, nem se faz escura-: 

Mas destes acha poucos a piutura. 

XLIII. 

Assi está declarando os grades feitos 
O Gama, que alli mostra a vária tinta, 
Que a docta maõ taõ claros, taõ perfeitos, 
Do singular artifico alli pinta. 
Os olhos tinha promptos, e direitos, 
O Gatual na historia^bem distinta : 
Mil vezes perguntava , e mil ouvia 
As gostosas batalhas que alli via. 

XLIV. 

Mas já a luz se mostrava duvidosa , 
Porque a Lâmpada grande se escondia 
Debaixo do Horizonte, e luminosa 
Levava aos Antipodas o dia^ 
Quando o Gentio, e a gente generosa 
Dos Naires, da nao forte se partia , 
A buscar o repouso, que descansa 
Os lassos animaes na noite mansa. 




SS LCSIÁDA. 

Entretamo u Hvnipicet ^idomm 
Nu falsa opiaiafi, qne em racrificio» 
Antevjm icmpre^ rsaoi duvidotos, 
Por aignaes diabólicos, et indícios; 
Mandados do Rei jiroprio, csfudio&ofl 

Sobre ena vinda desta gente eatranha. 
Que ás suas terras vem da ignota ll('<i[ian}ia. 

Signal Ibcs moslrn o demo verdadeiro, 
De como a nova gpnie Ihea seria 
Jugo perpetuo, clerno enptiveíio, 
Destraiçaii de gente, e de valia. 
Tai-se espantado o atlonilo Agoureiro 
Dizer ao Rei (segundo o que entendia) 
0« ágnacs temerosos que alcançara 
Haa entranhas das virtimas que olhara. 



te ajunia 



n hum devoto 



Sacerdote da lei de Mafamede, 
Dos ódios ronri'l)ido3 naã remoto 
Comia a Divina Fé, iiue todo ejcpdc; 
Em iiímia de Pniphela falso, e noto, 
Que do tillio da escrava Aj^ar pro<'ede, 
BarcJio odioio, eni sonlio<> lhe ajiparece 
Que ãe «cus ódios inda senaõ dcce. 



CANTO VIU. 87 

XLYIII. 

£ diz-lhe assi: Guardai-vos, gente minlia. 
Do mal que se apparelha pelo imigo, 
Qae pelas aguas húmidas caminha , 
Antes q|ie csteis mais perto do perigo. 
Isto dizendo, acorda o Mouro «asinha , 
Espantado do sonho : mas comsigo 
Cuida que naõ.he mais que sonho usado. 
Toma a dormir quieto e sooegado. 

xnx. 
Toma Baccho, dizendo : Naõ conheces 
O graõ legislador, que a teus passados 
Tem mostrado o preceito a que ohedeces. 
Sem o qual fôreis muitos baptizados ? 
£u por ti , rudo , velo , e tu adormeces ? 
Pois saberás, que aquelles que chegados 
De novo saõ, seraõ mui grande dano 
Da lei que eu dei m> néscio poYo humano. 

li. 
Em quanto he fraca a força desta gente. 
Ordena como em tudo se resista ^ 
Porque quando o Sol sabe, facilmente 
Se pôde nelle pôr a aguda vista : 
Porém despois que sobe claro e ardente, 
■ Se agudeza dos olhos o conquista v 

Taõ cega fica , quanto o ficareis 
Se raizes criar lhe aaõ lolheis. 



88 lusíada. 

LI. 

Isto dito, elle e o somno se despede : 
Tremendo fica o attonito Agareno: 
Salta da cama, lume aos servos pede, 
Lavrando nelle o fervido veneno. 
Tanto que a nova luz, que ao Sol precede. 
Mostrara rosto angélico, e sereno , 
Convoca os principaes da torpe seita , 
Aos quaes do que sonhou da conta estreita. 

LII. 

Diversos pareceres, e contrários 

Alli se daõ, segundo o que entendiam ; 

Astutas traições, enganos vários, 

Perfídias inventavam, e teciam: 

Mas deixando conselhos temerários, 

Destruição dá gente pertendiam , 

Por manhas mais subtl$, e ardis melhores, 

Com peitas adquirindo os Regedores. 

LIII. 

Com peitas, ouro, e dadivas secretas, 
Conciliam da terra os principaes; 
£ com razões notáveis, e discretas, 
Mostram ser perdição dos mturaes; 
Dizendo : que saõ gentes inquietas. 
Que os mares discorrendo Occidentaes, 
Vivem só de pira tiras rapinas, 
Sem JRei, sem leis humanas, lou divinas. 



CANTO VIII. 89 

LIV. 

Oh quanto deve o Rei que bem governa, 
Olhar que os conselheii'os, ou privados, 
De consciência , e de virtude interna , 
£ de sincero amor sejam dotados ! 
Porque cx>mo este posto na superna 
Cadeira, pôde ma] dos apartados 
Negócios ter noticia mais inteira , 
Da que lhe der a língua conselheira. 

LV. 

Nem tam pouco direi que tome tanto 

Em grosso a consciência limpa, e certa. 

Que se enleve em hú pobre, e humilde manto. 

Onde ambição acaso ande encoberta. 

£ quando hú bom em tudohe justo, e santo. 

Em negócios do Mundo pouco acerta : 

Que mal com elles poderá ter conta 

A quieta innocencia em só Deos pronta. 

LYI. 

Mas a^aeUes avaros Catuais, 
Que o Centilíco povo governavam , 
Induzidos das gentes infernais, 
O Português despacho dilatavam. 
Mas o Gama , que naõ pertende mais, 
De tudo quanto os Mouros ordenavam, 
Que levar a seu Rei hum signal certo 
Do Mundo que deitava descoberto : 



% 




NiUo trabattiB td, que bem sabia, 
Que despoia que levasse e«ta certeta. 
Armas, e dboi, e gente mandaria 
Hanoe), que exerdla a summa alteza ; 
Com que a seu jngo, e lei tobmeueria 
Das (erras, e do mar a redondeza; 
Qae ellc naõ era mais que hnm diligente 
Descobiidor das terras do Oriente. 

Fallár ao Bei Gentio determina. 
Porque rom seu despacho se lornattej 
Que já seutio em tudo da maliua 
Gente impedir-se quanto desejasse. 
O Rei qoe da notidta bka, e indina, 
naõ era d'espaDlBr-se se espanlassei 
Que IBÕ cràlulo era em seus agouros. 
E mais sendo aflirmados pelos Honras ; 

Este temor lhe esfria o baixo peito : , 
Por outra parte a força da cobiça, 
A quem por natureza esta sujeito, 
Bum de.tejn immonal lhe accénde, e atir 
Que bem ve, que grandíssimo proveito 
Fará, he com verdade, e com justiça, 
O contraio faer por longos anos, 
Qac lhe comette o Itei dos Lusitanos. 



CANTO VIII. 91 

LX. 

Sobre isto nos conselhos que tomava, 
Achava mui contrários pareceres : 
Que naquelles com quem se aconselhava , 
Executa o dinheiro seus poderes. 
O Grande Capitam chamar mandava j 
A quem, chegado, disse : Se quizeres 
Confessar-me a verdade limpa, e nua, 
Perdaõ alcançarás da culpa tua. 

LXI. 

Eu sou bem informado, que a embaixada 
t^ue deteu Bei me deste, que he fingida ^ 
Porque nem tu tees Bei , nem pátria amada ^ 
Mas vagabundo vás passando a vida. 
Que quem da Hesperia ultima alongada , 
Bei ou Senhor de insânia desmedida 
Ha de vir cometter com nãos, e frotas, 
Taõ incertas viagées, taõ remotas? 

LXII. 

E se de grandes Bei nos poderosos 
O teu Bei tem a Bégia Magestade, 
Que presentes me trazes valerosos, 
Signacs de tua incógnita verdade ? 
Com peças e does altos somptuosos, 
Se lia dos Beis altos a amizade : 
Que signal , nem penhor, naõ he bastante 
As palavras de hum vago nave^aute. 





tp lusíada. 

Se por veatnra viodca desterradoa, 
Coma jd igram homêea de alta torte, 
Em mcQ Reino sereia agaulhados, 
Qae toda a lerra ke pátria para o forte : 
Ou se piratat sois ao mar usados, 
Dizei-ino sem temor de ítifamia, on morl 
Que por se sustentar eni toda idade , 
Tuido kt a vital necessidade. 

Isto as«i<di(o, o Gama que ]í linha. 
Suspeitas das insidiai que ordeonTa 
O Haliometico odia , donde vinba 
Aquillo qoe laó mal o Rei cuidava : 
Co' hama alta confiança, que coQvinba , 
Com que seguro credito alcançava. 
Que Vénus Acidalia lhe iolluia, 
Taes palavral do Mbio peito abria ; 

Se os aiuigoB delicias, que a.malicía 
Humana commetteo na prisca idade , 
Naõ causaram, que o vaso da ioíqnicia, 
Açome laõ cruel da Chríslandade, 
Viera por perpétua íuimicicia 
ria g<!rsça& de Adaõ, co' a fiilsidade; 
O' poderoso Eei da torpe seita , 
Naõ coacebirat tn (aõ mi laspeita. 



CANTO VIIL 93 

LXVI. 

Mas porque nenhum grande Bem se alcança, 
Sem grandes oppressões, e em todo o feito 
Segue o temor os passos da esperança , 
Que em suor TÍve sempre de seu peito, 
Me mostras tu taõ pouca confiança 
Desta minha verdade; sem respeito 
Das razões em contrário, que acharias 
^ Senaõ cresses a quem naõ crer devias. 

LYVII. 

Porque se eu de rapinas só vivesse 
Undívago, ou da pátria desterrado, 
Gomo crés que taõ longe me viesse 
Buscar assento incógnito, e apartado? 
Porque esperançasi^ ou porque interesse, 
Viria experimentando o mar irado, 
Qs Antárcticos frios, a os ardores, 
Que soffrem do Gameiro os moradores? 

LXVIII. 

Se com grandes presentes de aha estima 

O credito me pedes do que digo, 

Eu naõ vim mais que achar o estranho clima. 

Onde a natura póz teu Reino antigo. 

Mas se a fortuna tanto me suhlima , 

Que eu torne a minha pátria, e Beino amigo, 

Entaõ verás o dom soberbo, e rico 

Com que minha tornada ccrú&co. 




LDSUDA. 



Qae Rei da ultima Hesperia a ti me mande, 
O coração snbline, o Régio peito, 
Senham caso poaúhil lem por ^aode. 
Bem parece que o nobre, e graõ conceito 
Do Lodlano e^irilo flemanile 
Haior credito, e fá de maia alieu, 
Que creia delle tanta bnaleu. 

Sabe que ha ntuiloa annos, qae os antigos 

Beií DDBSos firmemente propoteram 

De vencer 09 trabalhos, e perigos. 

Que sempre áa grandes cousas se oppozeram : 

El descobiindo os mares inimieoê 

Do quielo descanso, pertendáram 

De saber qne Rm tinham, e onde estavam 

Á« derradeiras praias que lavavam. 

Conceito digno foi do ramo claro 

Do venturoio Rei, qae arou primeiro 

O mar por ir deilar do uinho charo 

O morador de Abjla derradeiro ; 

Gsle, por sua industria e engenho raro, 

IS'hum madeiro ajtmtaDdo outro madeiro, 

Descobrir pode a parte, que iàz clara 

De Argoa, da Hydra a luz, da Lebre, e da Ara. 



CANTO VIII. 95 

LXXII. 

Crescendo co' os snccessos bõos primeiros 
r^o peito as ousadias, descobriram 
Ponco a pouco caminhos estrangeiros, 
Que húus succendendo aos outros prosegufrara. 
De Afirica os moradores derradeiros 
Austraes, que nunca as sete flammas TÍram, 
Foram vistos de nós, atraz deixando 
Quantos estaõ os Trópicos queimando. 

LXXIII. 

Assi com firme peito, e com tamanho 
Propósito vencemos a fortuna, , 
Até que nós no teu terreno estranho 
Viemos pòr a ultima coluna : 
Rompendo a força do líquido estanho. 
Da tempestade horrífica , e importuna , 
A ti chegámos, de quem só queremos 
Signal que ao nosso Rei de ti levemos. 

LXXIV. 

Esta he a verdade, Rei : que naô £airia 
Por taô incerto bem , taõ fraco premio : 
Qual naõ sendo isto assi, esperar podia, 
Taõ loi^^f taõ fingido, e vaõ proemio: 
Mas aotes descansar, me deixaria 
No nunca descansado e fero grémio 
Da madre Thetis, qual pirata inico, 
Dos trabalhos alhêos feito rico» 



1 



96 lusíada. 

LXXV. 

Assi que, ó Hei, se minha graõ verdade 
Tées por qual he^ sy acera e naõ dobrada , 
Ajunta-me ao despacho brevidade, 
Naõ me impidas o gosto da tornada. 
£ se inda te parece falsidade, 
Guida bem na razaõ, que está provada , 
Que com claro juizo pode ver-se : 
Que £acil he a yerdade de entender-se. 

LXXVI. 

Attento estava o Rei na segurança 
Com que provava o Gama o que dizia : 
Goncebe delle certa confiança, 
Gredito firme em quanto proferia : 
Pondera das palavras a abastança , 
Julga na authoridade grão valia j 
Gomeça de Julgar por enganados 
Os Gatuaes corruptos, mal julgados. 

LXXVII. 

Juntamente a cobiça do proveito. 
Que espera do contracto Lusitano, 
O faz obedecer, e ter respeito 
Go* o Gapitam, e naõ co* o Mauro engano. 
£m fim, ao Gama manda que direito « 
A^s noas se vá, e seguro de algum dano 
Possa á teria mandat qualquer fazenda , 
Que pela especiaria troque, e venda. 



CANTO VIU. 97 

LXXTIII. 

Que mande da .fazenda, em fim, lhe manda, 
Qne uos Reinos Gangeticos &lleça^ 
Se alguma traz idónea , lá da banda 
Donde a terra se acaba, e o mar começa. 
Já da Real presença veneranda, 
Se parte o Capitam para onde peça 
Ao catual, que delle tinha cargo, 
Embarcação, que a sua está de largo. 

LXXIX. 

Embarcação que o leve ás nãos lhe pede : 
Mas o mao Regedor, que novos laços 
Lhe machinava, nada lhe concede, 
Interpondo tardanças, e embaraços : 
Com elle parte ao cães, porque o arrede 
Longe quanto puder dos Régios Paços ^ 
Onde, sem que seu Rei tenha noticia. 
Faça o que lhe entniar sua malia. 

LXXX. 

Ijá bem longe lhe diz, que lhe daria 
Embarcação bastante em que partisse^ 
Ou que para a luz crástina do dia 
Futuro, sua partida differisse : 

Já com tantas tardanças entendia 

> 

O Gama, que o Gentio consentisse 
Na má tençaô dos Mouros, torpe, e fera, 
O que delle até alli naõ entendera. 
a. 



1 




S8 lusíada. 

Era eBie Catoal iana dos qne nlaTani 
Cormptoa pela Hahomelqoa gente j 
O pTÍndpal por qnem m goTcroaTam 
At Cidade* do Samori potente : 
Detle siiitim^ os Monn» esperavam 
Effeilo a icQS enganoi torpemente ; 
Elle , que no concerto *il conspira , 
De suas esperançai naÕ delira. 



Gama com ÍDsl 


tandalherequere. 


Que o mande pfii 


' DBS naosj e naõ lhe vah 


£ que assi lho m: 


indára, lhe refere. 


O nobre succesaoi 


r de Perimal. 


Porque raiaõ llie 


impede, e lhe diífbre 


A feicDda iraier . 


Je Porlugal? 


Pois aquillo qae . 


DsBeisjá tem mandado. 


Naõ pude ser por 


outrem deAgado. 



Poueo obedece o Catual cormio, 
A laes palayras, antes reTolrendo 
Ha phanlasia algnm subtil, e artnio 
Engano diabólico, e efMnpendo; 
Oii ['Omo banhar poua o (erro bruto 
Ho sangue aborrecia enava vendoj 
Ou como as nãos em fogo lhe abraioMc, 
Porqae Benhuma i pairia mais (ornasse. 



CANTO VIII. 99 

LXXZIY. 

Que Denhmn tome á pátria so pertende 
O conselho inferaal dos Mahometanos, 
Porque naõ saiba nunca onde se estende 
A terra Eôa o Rei dos Lusitanos. 
Naõ parte o Gama, em fim, que lho defende 
O Regedor dos Bárbaros proÊinosj 
Nem sem licença sua ir^^^e podia, 
Que as almadiás todas lhe tolhia. 

Aos brados, e razoes do Capitão, 
Responde o Idolatra , que mandasse 
Chegar á terra as nãos, que longe estaõ 
Porque melhor dalli fosse, e tomasse. 
Signal he de inimigo, e de ladraõ 
Que lá taõ longe a frota se alargasse, 
(Lhe dis) porque do certo, e fido amigo 
He naõ temer do seu nenhum perigo. 

LXXXYI. 

Nestas palavras o discreto Gama 
Enxerga bem , que as nãos deseja perto 
O Catual, porque com ferro, e flama, 
Lhas assalte, por ódio descoberto. 
Em Vários pensamentos se derrama : 
Phantasiando está remédio certo, 
Que desse a quanto mal se lhe ordenava. 
Tudo temia j tudo em fim cuidava. 



í 




100 lusíada. 

Qual o refleiD lume do poUdo 
Espelho de aço,' ou de crfMal formoso. 
Que do raio Solar sendo ferida 
Ta! ferir n'autrB parle luminoiai 
E sendo da ocioia maò movido, 
Pela casa, do moço cnrioso 
Anda pela* parede», e tdfasdo, 
Trémulo aqui, e alli dessocegado : 

Tal o tago jaizo fluctuava 

Do Gama preso, qnaodo lhe lembrara 

Coelho, se por caso o esperava 
Ka praia co' os batéis, como ordenara : 
IjOgo secTetameme lhe mandava , 
Que tornasae á frou qne deliára, 
Naõ fosse salteado dos enganos. 
Que esperava dos léros Mahometanos. 

Tal ha de ser qoem qner co' o dom de M; 
Imitar os illuires, e ignalá-los; 
Voar co' o pensamento a toda a parte: 
Adivinhar perigos, e evitá-los; 
Com militar engenho, e siditil arte, 
Entender os imigos, e enguná-Io»; 
Crer tudo, em fim; qne nunca louvarei 
O Capitam qae diga : Naõ cuidei. 



CANTO VIU. loi 

xc. 
Insiste o Malabar em o ter preso , 
Senaõ manda chegar á terra a armada^ 
Elle constante, e de ira nobre acccso, 
Todos seus Ameaços teme nada : 
Que antes quer sobre ^si tomar o peso 
De quanto mal a vil malícia ousada 
Lhe andar armando, que pôr em ventura 
A frota de seu Rei, que tem segura. 

xci. 
Aquella noite esteve alU detido, 
£ parte do outro dia, quando ordena 
De se tornar ao Bei; mas impedido 
Foi da guarda que tinha naõ pequena. 
Gomette-lhe o Gentio outro partido 
Temendo de seu Rei castigo, ou pena. 
Se sabe esta malicia; a qual asinha 
Sabei'á , se mais tempo alli o detinha. . 

XCII. 

Diz-lhe, que mande vir toda a &zenda 
Vendibil, que trazia, para a terra. 
Para que devagar se troque, e venda. 
Que quem naõ quer commercio busca gnerrk, 
Postoque os mãos propósitos entenda 
O Gama , que o damnado peito encerra , 
Consente, porque sabe por verdade, 
Que compra co^ a &zenda a UbenlttCLe. 



i 




iM , lusíada. 

Goncerlain-se qne o negro mande dar 
Embarcaçoei idóneas com qucTCoba; 
Que o» aeos bailia naô quer avenlorar 
Onde Ihoa tome a imigo, on Uxu detenha : 
Partem aa almadías a biiMnr 
Mercadoria Hispana, qae convenha : 
Escreve a sen irmío qae )ba mandasse 
A lázcnda , com qne se resgatasse. 

Vem a bienda i lerra , aonde logo 

A agasalhou o JD&me Caiual : 

Com ella ficam Álvaro, o Diogo, 

Que a padesiem vender pelo que Tal. 

Se mais que obrigação, que mando, e rogo, 

No peilo vil, o premio pddc, e vai, 

nem o mostt* □ Gentio a quem o entenda , 

Pois o Gama soltou pela fazenda. 

Por ella o aotta crendo qne alli tinha 
Penhor bastante donde recebesse 
Interesse maior do qne lhe vinha 
Se o Capitam mais lempo detivesse. 
EUb vendo qne jd lhe naõ convinha 
Tornar i terra, porque naõ pudesse 
Ser mais retido, «endo ás nãos chegado, 
Kellas esiar le deixa descantado. 



CANTO VIÍI. io3 

XCVI. 

Nas nãos estar se deisa vagaroso , 
Aié ver o que o tempo lhe descobre; 
Que naõ se fia já do cobiçoso 
Regedor corrompido, e pouco nobre. 
Veja agoia o juizo curioso, 
Quanto no rico, assi como no pobre, 
Pôde o vil interesse, e sede imiga 
Do dinheiro, que a tudo nos obriga. 

XCVII. 

A Polydoro mata o Rei Threicio, 

Só por ficar senhor do grão thesouro : 

Entra pelo fortissimo edificio 

Com a filha de Acrisio a chuva de ouro : 

Pode tanto em Tarpeia avaro vicio. 

Que a troco do meial luzente, e louro, 

Entrega aos inimigos á alta torre. 

Do qual quasi affogada 6m pago moire. 

xcviu. 
Este rende munidas fortalezas, 
Faz tredores, e falsos os amigos : 
Este a mais nobres faz fazer vilezas , 
E entrega Capitães aos inimigos : 
Este corrompe virginaes purezas, 
Sem temer de honra ou fama algâus perigos : 
Este deprava ás vezes as sciencias, 
Os juizos ceg^ando, e as consciências. 



■i 



lusíada, canto VHI. 



Este interpreta ma 
0»teM0i:e<tefia, 


edesfaileU: 


E»e< 
Emil 


aun os perji. 


irios entre a gente, 
os toma os ReU. 


Até <M que s^ a De 
Se dedicam, mil V. 


os Omnipotente 
aes ouvireis. 


Quec 


□iTompe eate encantador, c illudej 
laò sem cúr, cora tudo, de rirtude. 




lusíada. 



CANTO NONO. 



AáctrMBNTO 



DO CANTO fiOBTO. 



•. 



LnFÚ já das traições, e perijgúi qae o ameaçai 
salie Vasco da Gama de Calecut, e volta para o Re 
com as alegres Dovasda^lckfaphpiiienfo da índia Ori 
tal : enciaminha-y V^nt á^JmsMi Bha diliciosa : ' 
scripçaõ da mesBui fXhoL*, desembarque dos uayeg 
tes : festivas demostraqões com que alli saõ recebii 
das Nereydas os soldados, e de Thetis o Gama. 



OUTRO ARGUMENTO. 



Parte de Calecut o Lusitano , 
Com as alegres novas do Oriente , 
E no meio do túmido Occeano, 
Vénus lhe mostra huma Insula excellente 
Aqui de todo bem soffrido dano , 
Acha repouso assaz conveniente , 
E com Nymphas gentis o mais do dia 
Em festas passa, e jogos de alegria.. 



lusíada. 



%«^'%««/«^«'« %^'V«^'^««^»«>'V»«/«'«>V«/^*.^«%.-*<«%'«/%«*»^%'»^%^'»%^'«' 



CANTO NONO. 



1. 



X iVEUAM longnniõtc nu Cidade 
/ iyeia vciider-sc a fazenda os iious ieiton^s . 
•' Que OA iiitíris por manha, e fulsuiade, 
Fazrni q nnõ llvi comprem iiicicadorcs : 
Que tíjdo s(»u {:n>pnsito, e vontade. 
Era detrr alli os dcsoibridoros 
■ Da Ilidia, lauto tempo, fpie viesseni 
De JSihica as uaos, que as suas desti/.e»»ciii 

II. 
Itá no .seio Krythreo, onde fundada 
Arsiiioe foi do K(»yptio Plolenico, 
Do nome da irmãa sua assi ehamada. 
Que deii])ois cm SucV. so convortco. 
?(aõ lon<«e o porto ja/. da nomeada 
(«idade Me<'a, quo se enjifranderco 
Com a si!pi'i«itiraõ falsa, e profana. 
Da reIi{»iosa ap,ua Maliometau-v. 



io8 lusíada. . 

III. 
Gidá se chama o porto, aonde o trato 
De todo o Roxo mar mais floreda, 
De que tinha proveito grande, e çrato, 
O Soldaõ, que «pM Beino possnia. 
Daqui aos Malabares, por contrato 
Dos infiéis, formosa companhia 
De grandes nãos, pelo Indico Occeano, 
Especiaria vem buscar cada ano. 

IV. 

Por estas nãos os Mouros esperavam , 
Que como fossem grandes, e possantes, 
Aquellas, que o commercio lhes tomavam, 
Com flammas abrazassem crepitantes. 
Neste soccorro tanto confiavam, 
Que já naõ querem mais dos navegantes, 
Senaõ que tanto tempo alli tardassem. 
Que da fiimosa Meca as nãos chegassem. 

T. 

Mas o Governador dos Ceos, e gentes^ 
Que para quanto tem determinado. 
De longe os meios dá convenientes 
Por onde vem a e£Eeito o fim £aidado^ 
Influio piedosos accidentes 
De a£k:'eiçaõ em Monçaide; que guardado 
Estava para dar ao Gama aviso, 
E merecer por isso o Paraiso. 



CANTO IX. X09 

VI. 

£ste, de quem se os Mouros naõ ^ãrdaTani, 
Por ser Mouro <x>iiio elles, antes era 
Participante em quanto machinavam, 
A tençaõ lhe descobre torpe, e fera : 
Muitas vezes as nãos que lon^e estavam 
Visita, e com piedade considera 
O damno sem ratão, que se lhe ordena 
Pela maligna goate Sarracena. 

VII. 

Informa o cauto Gama das armadas 
Que da Arábica Meca vem cada ano, 
Que agora saõ dos seus taõ desejadas, 
Para ser instrumento deste dano : 
Dizp-lhe, que vem de gente carregadas, 
£ dos trovões horrendos de Vulcano, 
£ que pôde ser delias opprimido, 
Segundo estava mal apercebido. 

VIII. 

O Gama, que também considerava 
O tempo que para a partida o chama-, 
E que despacho já naõ esperava 
Melhor do Rei, que d^ Mahometanos ama; 
Aos feitores, que em terra estaô, mandava 
Que se tornem ás nãos : e porque a fiima 
Desta siibita vinda os naõ impida, 
Lhes manda que a fizessem escondídet. 
3, . \^ 



\ 




tio LUSÍADA. 

Potént mA lardoQ muito, que Toando 
Bom rumor naõ soasse coro verdade , 
Que foram presos oa feitores, quando 
Foram seulidas vir-se da Cidade. 
Esta &ima as orelhas penetrando' 
Do sabia Capitam, com brevidade 
Faz logo presa em húus que'^ nãos vie 
A vender pedraria 



Eram estes, aniignoa mercadores. 
Ricos em Calecut, e conhecidos^ 
Da lálta delles, logo entre os melhores 
Senlido foi, que eslaõ no mar relidos. 
Has ji nas nãos os bõos trabalhadores, 
Volvem o cabrestante, e repartidos 
Pelo trabalho, húos puxam pela amarra. 
Outros quebram co' opeilo duro a barra. 

Outros pendem da verga , e já desatam 
A veta, que com grita se soltava; 
Quando com maior grita ao Bel relatam 
A pressa com que a armada se levava. 
As mulheres, e filhos, que se matam, 
Daquelles que vaõ preMS, oiide eslava 
O Samori, se queixam que perdidos 
Hãas tem o» pau» as ontiai os maridoi. 



CANTO IX. III 

XII. 

Manda logo os feitores Lusitanos 
Com toda sua fezenda li^nremente, 
A pezar dos imigos Mahometanos, 
Porque lhe torne a sua presa gente. 
Desculpas manda o Bei de seus enganos : 
Becebe o Capitam de úielhor mente 
Os presos, que as desculpas; e tomando 
Algúus negros, se parte, as velas dando. 

xui. 
Parte-se costa abaixo, porque entende 
Que em vão co' o Bei Gentio trabalhava 
Em querer delle paz, a qual pertende 
Por firmar o commercio que tratava. 
Mas como aquella terra , que se estende 
Pela Aurora, sabida já deixava, 
Com estas novas toma á pátria chara , 
Certos signaes levando do que achara. 

XIV. 

Leva algúus Malabares, que tomou 

Por força, dos que o Samori mandara, 

Quando os presos feitores lhe tornou : 

Leva pimenta ardente, que comprara : 

A secca flor d$ Banda n^õ ficou : , 

A noz, e o negro. cra,vo, que faz clara 

A nova Ilha Maluco, co' a canella, 

Com que Ceilaõ he rica, illustre, e bella^ 




Islo tudo lhe bonvera a diligencia 
De Monçaide fid que também levaj 
Que iaspirado de angélica ioflaeDcia, 
Quer no livro de Christo que w etcrera. 
Oh ditam Afbicano, que demeociii 
Divina asíi liroa de Meara treva , 
E taõ IoD{|e da pátria acbou maneira 
Para subir i pátria verdadeira! 

Apartadas aisi da ardente cotta 
As venturosas mos, levando a proa 
Para onde a uatareza (iolia po^la 
A laéta Ãuan^ina da Esperança Boa; 
Levando alegres novas, e resposta 
Da parle Oriental para Lisboa; 
Outra vez Gomettendo oi duros medos 
Do mar incerto, tímidos, e ledos. 

O praxer de cbegar í pátria eliara, 
A seus penates cbaros, e parentes, 
Para contar a perejjrina, e rata 
Navegação, os vários Ccos, e gentesj 
Tir a lograr o premia qae ganhara 
Par taõ longos trabalhos, e acinddtes, 
.Cada ham, tem por gosto taõ perfeito. 
Que o corajaõ para elle he vaso estreito. 



CANTO IX. ii3 

X\III. 

Porém a deosa Gypria, que ordenada 
Era para fiiVor dos Lusitanos, 
Do Padre Eterno, e por bom génio dada, 
Que sempre os guia já de longos anos^ 
A gloria por trabalhos alcançada , 
Satisiaçaõ de bem sofifiridos danos. 
Lhe andava já ordenando, e pertendia 
Dar-lhe nos mares tristes, alegria. 

XIX. 

Despois de tér hui|i pouco, revolvido 
Na mente o largo mar que navegaram, 
Os trabalhos que pelo Deos nascido 
Nas Amphioneas Thebas se causaram í 
Já trazia de longe no sentido. 
Para premio de quanto mal passaram. 
Buscar- lhe algum deleite , algum descanso 
No Reino de crystal liquido, e manso. 

XX. 

Algum répovtso^f em fim, com qu» pudeSM 
Refocilar a lassa humanidade 
DosAiavegantes seus, como interesse 
Do trabalho que encurta a breve idade. 
Parece-lhe razaõ, que conta desse 
A seu filho, por cuja potestade 
Os deoses £az descer ao vil terreno, 
£ os humanos subir ao Geo sereno. 




ii4 lUSIADA. 

I5I0 beni reroliido, detemina 
De ter^lhe apparellwdi \i no meio 
Das aguai, alguma ImuTa divina. 
Ornada deeunaltado, e veHe arreio : 
Que muiiu tem no Beioo tjtie maBna 
Da mSi primeira co' o terrena leioj 
-AGira as qae posaae Eaberauai, 
Para deuuo das portas Herculanat. 

Alli quer que >« aqualical doi)i«11*g 
Esperem os Earlissimos Barões; 
Todaa a» que tem lirulo da beltaB, 
Gloria doi olhoa, dor dos corações; 
Com danças, e cor&i, porque uella* 
Inflairà secretas affúções, 
Para com mais vontade trabalharem 
De contenlar a quem se afCsiçoarem. 

Tal mauha baseou jd, para que aquelle. 
Que de Ãnchises pario, bem recebido 
Foaie no campo , qne a bovina pelle . 
Tomou de espaço por subtil partido. 
Seu filho vai buscar, porque 36 nelle 
Tem iodo seu poder, fero Cupidoj 
Que aísi como naqnclla empreia antiga 
Á ajudou já, nestoutra a ajude, e siga. 



CANTO IX. ii5 

XXIV. 

No carro ajunta as aves, que na vida 
Vaõ da morte as exéquias celebrando, 
E aquellas em que já foi convertida 
Peristera , as boninas apanhando. . 
Em de redor da deosa, já partida, 
No ar lascivos beijos se vaõ dando : 
Ella por onde passa, o ar, e o vento. 
Sereno £az com brando movimento. 

XXV. 

Já sobre os Idallo9 montes pende, 
Onde o filho frecheiro estava entaõ 
Ajuntando outros muitos, que pertende 
Fazer huma famosa eipediçaõ 
Contra o Mundo rebelde, ptnrque emende 
Erros grandes, que ha dias nelle estaõ. 
Amando consas, que nos foram dadas, 
Naõ para ser amadas, mas usadas. 

XXVI. 

Via Acteon na caça taò austero, 

De cego na alegria bruta, insana, x 

Que por seguir hum feo animal fero, 

Foge da gente, e bella forma humana : 

£ por castigo quer, doce, e severo, 

Mostrar-lhe a formosura de Diana j 

E guarde-se naõ seja inda comido 

Desses cães, que agora ama, e cou^\us\Olo. 



1 



ii6 lusíada. 

* XXYII. 

E vé do Mnndo todo os principais, 
Que nenhum no bem público imagina j 
Yê nel]e8,'que naõ tem amor a mais, 
Que a si somente, e a quem Philaucia ensina : 
Vê que esses que frequentam os Reais 
Paços, por verdadeira, e sãa Doctrina 
Vendem adulação, que mal consente 
Mondar-se o novo trigo florecente. 

XXYIII. 

Vê que aquelles que devem á pobreza 
Amor divino, e ao povo charidade, 
Amam somente mandos, e riqueza, 
Simulando pstiça , e integridade. 
Da fea tyrannía , e de aspereza , 
Fazem direito , e vãa severidade : 
Leis em favor do Rei se estabelecem j 
As em favor do povo só perecem. 

XXIX. 

Vê, em fim, que ninguém ama o que deve, 
Senaõ o que somente mal deseja : 
ISaõ quer que tanto tempo se releve 
O castigo que duro, e justo seja. 
Seus ministros ajunta, porque leve 
Exércitos conformes á peleja 
Que espera ter co* a mal regida gente> 
Que lhe naõ for agora obe^eule. 




CANTO IX. 

XXX. 

Muitos destes meninos voadores 
Estaõ em yárias obras trabalhando, 
Húus amolando ferros passadores, 
Outros hasteas de séttas delgaçando. 
Trabalhando cantando estaõ de amores, 
Vários casos em verso modulando; 
Melodia sonora, e concertada. 
Suave a letra, angélica a soada. 

. XXXI. 

Nas fírágoas immortaes, onde forjavam 
Para as séttas as pontas penetrantes , 
Por lenha, corações ardendo estavam ^ 
Vivas entranhas inda palpitantes : 
As aguas onde os ferros temperavam, 
Lagrimas saõ de míseros amantes : 
A viva flamma , o nunca morto lume , 
Desejo he sò qqe queima , e naõ consume. 

XXXII. 

Algúus exercitando a mão andavam 

Nos duros corações da plebe ruda; 

Crebros suspiros pelo ar soavam, 

Dos que feridos vaõ da sétta aguda. 

Formosas Nymphas saõ as que curavam 

^s chagas recebidas, cuja ajuda, 

Saõ somente dá vida aos mal feridos. 

Ias põe em vida os inda naõ nascidos^ . JH 




it« IfÕSIADA. 

FonnoM» tafi alglu, B ootru <!•>, 
.Sceondo > qialMtda br dai (bgmt; 
Qoe o veneno ^IpaOudo pda%Ttas 
Cunun-no fi teru siderai triagti. 
AlgAoi fiom ligado* em cadtai, 
Pot palaTrai «nlilfi de idbiJuHagat: 
Iito acontece á>Tcaei,qnai>db a» iAm . 
Acertam de levar herrai Mcretat. 

Deites tiro» aaii dewrdeaadoe, 

Qoe eates moçoi mal deltrol vaõ tirando, 

Naicem amorea mil deaconcertado* 

Entre o povo ferido, miserando. 

£ também nos Heron de altoi. ealadoa 

Exemplos mil «e vám de amor nefando; 

Qual o das moças, KMi, e Gjnir^a; 

Hom mancebo de Asayria, bnm de Jaiét. 

E Td8,'d poderowi, por pistorat 
Multas vezes ferido o peito vedes : 
£ por bauuts, e rodos, vós senlibrai, 
Também voa tomam nas Tolcaneas redes. 
Húus esperando andai* uoclomag lioras, 
Ontroa inbfi telhados , e paredes : 
Mas eu creio, qoe de*le amor indin^o, 

HeitMii cdlpa a i» mit, qti« a do mcBino. 




CANTO IX. 

XXXVI. 

Mas já no verde prado o carro leve 
Punham os brancos cisnes mansamente; 
£ Dione, qae as rosas entre a neve 
No rosto traz, descia diligente. 
O frecheiro, que contra o Ceo se atreve, 
A recebé-la vem ledo, e contente : 
Tem todos os Cupidos servidores 
Beijar a mão á deosa dos amores. 

XXXVII. 

Ella porque naõ gaste o tempo em vão, 
Nos braços tendo o filho, confiada 
Lhe diz : Amado filho, em cuja mão 
Toda n^nha potencia está fundada j 
Filho, em quem minhas forças sempre estão; 
Tu que as armas Typheas têes em nada, 
A soccorrer-me á tua potestade 
Me traz especial necessidade^ 

XXXVIII.' 

Bem vés as Lusitanicas fadigas, 
Que eu já de muito longe favoreço. 
Porque das Parcas sei minhas amigas, 
Que me haõ de venerar, e ter em preço. 
E porque tanto imitam as antigas 
Dbras de meus Romanos, me ofiereço 
V lhes dar tanta ajuda em quanto posso^ 
quanto se estender o poder nosso. 




LU3IADA. 

E porc|ae dai huidias it odkMO 
Baccho, fonun na índia amlMlades, 
E «loB injúria» «dado mar ttndoso, 
ruderam ser meta mortos que caosadcn 
No mesmo mar, qne mnpn temeroso 

Lhes foi, ijuero qne sejam repõUSadoí; 

Tomando aquelle premio, e dc*e gloria 

Do trabalho que faz dar 



E para isso queria qne ferida» 

At Blhaa de Nereo, do Ponto fundo, 

De amor doa I.aBiiano» incendidas 

Que vem de descobrir □ noro Mundo : 

Todas ii'hilma Ilha juntas, e sabidas; 

Ilha, que nas entranhas do profundo 

Occeano, terei apparelliada , 

De does de Flora, e Zephyro adornada, 

AHi com mil rcfrcsros, e manjares. 
Com viiiho!! odoríferos, e rosas. 
Em clir^slallinos Paços sin^julares, 
Formosos leitos, e ellas mais Ibrmosaaj 
Em firo, coro mil deleites Daó Tul{;nres, 
Os espiTfin as Nymphas amorosas; 
De amor feridas, para lhe entre[;er(^ 
Qaaato delias os olhos cobiçarem. 



CANTO IX. 121 

ZXII. 

Quero que haja no Reino Neptunino, 
Onde eu nasci, pro{;enie fiirte, e bella, 
E tome exemplo o Mundo Til, malino. 
Que contra tua potencia se rebella : 
Porque entendam que muro adamantino : 
Nem triste hypocrisia vai contra eila : 
Mal haverá ua terra quem se guarde, 
Se teu fogo immortal nas aguas arde. 

XL1I1. 

Assi Yenus propoz, e o filho inico, 
Para lhe obedecer, já se apercebe : 
Manda trazer o arco ebúrneo, rico, 
Onde as s^ttas de ponta de ouro embebe. 
Com gesto ledo a Gypria , e impudico , 
Dentro no carro o filho seu recebe. 
A rédea larga ás aves , cujo canto 
A Phaetontea morte chorou tanto. 

XLIV. 

Mas diz Cupido, que era necessária 
Huma Êunosa , e célebre terceira , 
Que postoque mil vezes lhe he contrária, 
Outras muitas a tem por companheira : 
A deosa Gigautéa, temerária, 
Jactante , mentirosa , e verdadeira , 
Que com cem olhos vé, e por donde voa, 
O que vé , com mil bocas apre^^oa. 
3. ^^ 



131 lusíada. 

Vaõ-na a baaciF, e mandam-iia dfaDie, 
Qoe celebrind» *á com ml» cUra , 
p9 lonToreft da gente aaieganle, 
Mau do que nunca oa de ouirem celebrara. 
Ji iDDrmaraDdo a &ina peoetraute, 
PelaB filada» cavarna» «e eapalluira: 
Fatia verdade, lunída por verdade. 
Que jODto a deotia (raz eredalidade. 

O louvor grande, o ramor excellenta 
Mo coruçau dos deoses, que indinadoa 
Foram por Bacchoconlra a il lo tire gente, 
Miidan<Io OA fez hum pouco afièiçoados- 
O peiío ífimini!, que levemeote 
Muda quacsquer proposilos tomados. 
Já julga por mao zelo, e por crueu 
DeBejar mal a tanta farlakza. 

Despede uisto o léro moço as s^ib$, 
Huma apoz outraj geme o mar coi os tiros : 
Direitas pelas ondas inquietas 
Algúas vaõ, e algúat bzem giros. 
Cahem a» Mymphasj lançam das secretas 
Entranhas, ardentiuimos suspÍTOBj 
Cahe qualquer, tem ver o vulto que ama : 
Qae tauto como a vitta pdde a fiuna. 



CANTO IX. laJ 

XLVIII./ 

Os cornos ajuntou da ebúrnea Lua, 
Com força o moço indómito excessiva, 
Que Thetis quer ferir mais que neohúa, 
Porque mais que nenhúa lhe era esquiva. 
Já naõ fica na aljava sétta algúa , ^ 
Nem nos equoreos campos Nympha vivaj 
E se feridas ainda estaõ vivendo. 
Será para sentir que vaõ morrendo. 

XLIX. 

Dai lugar altas, e cerúleas ondas. 
Que, vedes, Vénus traz a medicina, 
Mostraddo as Lrancas velas, e redondas, 
Qiie vem por cima da agua Neptunina. 
Para que tu reciproco respondas. 
Ardente amor, á ífamma feminina , 
He forçado que a pudicícia (lonesta 
Faça quanto lhe Vénus admoesta. 

L. 

Já todo o bello Goro se apparelha 
Das Nereidas^ e junto caminhava 
Em corêas gentis , usança velha , 
Para a Ilha, a que Vénus as guiava. 
Alli a formosa deosa lhe aconselha 
O que ella fez mil vezes quando amava : 
Elias, que vaõ do doce amor vencidas, 
Estaõ a seu conselho offereclda^. 



124 lusíada. 

LI. 

Cortando vaõ as Oaos a larga via 
Do mar ingente, para a pátria amada^ 
Desejando provep-se-de agua fiia, 
Para a grande viagem prolongada. 
Quando^ntas, com súbita alegria. 
Houveram vista da Ilha namorada ; 
Rompendo pelo Geo a mãi formosa 
De Memnonio, suave, e deleitosa. 

L1I. 

De longe a Ilha viram fresca, e bella, 
Que Vénus pelas ondas lha levava, 
(Bem como o vento leva branca vella) 
Para onde a forte armada se enxergava : 
Que porque naõ passassem sem que nella 
Tomassem porto, como desejava, 
Para oude as nãos navegam a movia 
A Acidalia^ que tudo, em fim, podia. 

LIII. 

Mas íirme a fez, c immobil, como vio 
Que era dos Nautas vista, e demandada; 
Qual ticou Drlos, lauto que pario 
Latona a Pht;l)o, e a deosa á caça usada.. 
Para Já lo{jo a proa o mar ahrio, 
OiiHc' a costa fazia hnma enseada 
Curva, e quieta, cuja branca arêa 
Pintou de ruivas conchas Cytheréa, 



CANTO IX. 135 

LIV. 

Tres formosos outeiros se mostrayam 
Erguidos com soberba ^aciosa, 
Que de gramíneo esmalte se adornavam, 
Na formosa Ilha alegre^ e deleitosa : 
Claras fontes, e límpidas manavam 
Do cume, que a verdura tem viçosa : 
Por entre pedras alv^as se deriva 
A sonorosa lympha fujjiiiva. 

LV. 

N^hum valle ameno, que os outeiros fende. 
Vinham as claras aguas ajuntar-se, 
Onde huma mesa fazem, que se estende 
Taõ bella^ quant4kp<íde imaginar-se : 
Arvoredo gentil sobre ella pende, 
Como que prmnplo está para affeitar-se, 
Yendo-se no crystal resplandecente, 
Que em si o está pintando propriamente. 

LVI. 

Mil arvores estaõ ao Ceo subindo. 
Com pomos odoríferos, e bellos : 
A larangeira tem no fructo lindo 
A côr que tinha Daphne nos cabelios : 
Encostasse no chão, que está cahindo 
A cidreira co^ os pesos amarellos : 
Os formosos limões, alli cheirando, 
Sstaõ virgíneas tetas imitando. 



Al aTTore* a^egtes, qne oi onteirbs 
Tem com fronilente coma pandlrecído». 
Alamos 4BÔ de Alcides, e oí loureiri», 
Do loaro deos amados, e queridos : 
Myrios de Cytherpa, co' os pinheiro» 
De Cybele, jmr ontro amor vnicidos : 
Está apontando o agudo Cypariso 
Para onde be posto o ethereo Paraíso. 

Os does, (]itc dá Pomona, alli nalara 
Produie diffei^entcs nos sabores. 
Sem ter neresitidade de cultura , 
Que sem ella se daõ muito tnelhores -, 
As cerejas purpúreas na pintura; 
As aiuora-, que o nome (em de amores^ 
O jioniu, que da palria Pcr.iia veio. 
Melhor tornado iio terreno alheio. 

Abre a roniáa, mostrando a rubicunda 
Cor, com que, tu rubi, teu preço perdes : 
Entre o . braços do ulmeiro estd a jocunda 
Vide, co' liúus cachoa roíos, e outros verdec 
E VÒ1, se na vossa arvore fecunda 
Peras pyramidaes, viver quiíerdea, 
Eutrcgai-vos ao danuio que co' os bicoft 
Eoi rón £(zem os pássaros iuícos. 



CANTO IX. ia. 

LX. 

Pois a tapeçaria bella, e fina, 

Com que se cobre o rmtico terreno, 

Faz ser a de Achemenia menos diqa , 

Mas o sombrio valle mais ameno. 

AUi a cabeça a flor Gephisia inclina 

Sobolo tanque lúcido, e sereno : 

Florece o filho, e neto de Ciniras, 

Por qiiem tu, deosa Paphia, inda suspiras. 

LXI. 

Para julgar, di£Bcil cousa fora. 
No Geo vendo, e na terra as mesmas cores ^ 
Se dava ás fl'ores côr a bella Aurora, 
Ou se lha daõ a ella as bellas flores. 
Pintando estava alli Zephyro, e Flora, 
As violas, da còr dos amadoresj 
O lyrio roxo,- a fresca rosa bella. 
Qual reluze nas fuces da doqzeDa, 

LXII. 

A cândida cecém, das matutinas 
Lagrimas rociada, e a mangerona : 
Yem-se as letras nas flores Hyacinthinas, 
Taô queridas do filho de La tona. 
Bem se enxerga nos pomos, e boninas. 
Que competia Ghioris com Pomona : 
Pois se as aves no ar cantando voam, 
Alegres anim^es o chão povoam. 




ii8 lusíada. 

Ao biigo da agna o nÍTeo cÚDCcanu, 

BeBponde-llM do romo {Julomdla : 

Da aombra iè wdi coroa» naõ le espania 

AcleonuaaguacryitaUina, ebella; 

Aqui a ftigace lebre ae levanta 

Da éspem mala, ou tCmida gaiella: 



I4esta frescura (ai deaembarcaTam 
Já das Daos ob segundoí Argonautas: 
Onde pela Boreaa ae deiíavam 
Andar aa beHaa deorai como iacaults : 
Algúas doce* cilharas locaTam, 
Algúas arpas, e aonoraa franias ; 
Outras co' oe arcos de ouro sa fingiam 
Seguir oa animae«, que na6 Kguiam. 

Aaai lho a coQBelhJra a meslra experta. 
Que anda saem pelos campos espalhadas; 
Que vista dõa Barões a prRsa incena , 
Se fiiessem primeiro desejadas. 
Algumas, qae Da (iirma descoberta 
Do bello corpo estaTam confiadas, 
PoRla 3 ardãcfosa fonoosura, ' 

Naas Jayar se dciíam na agua para. 



CANTO IX. lag 

■ 

LXVI. 

Mas os fortes mancebos, que na pátria 
Punham os pés, de terra cobiçosos^ 
Que Daõ ha nenhum delles, que naõ saia 
De acharem caça agreste desejosos; 
Naõ cuidam que sem laço, ou redes, cala 
Caça naquelles montes deleitosos, ■ 
Taõ suave, domestica, e bcnina. 
Qual ferida lha tinha já Erycina. 

LXVII. 

Algúus, que em espingardas, e nas bestas, 
Para ferir os cervos se fiavam, 
Pelos sombrios matos, e florestas, 
Determinadamente se lançavam. 
Outros nas sombras, que das altas sestas 
Defendem a verdura, passeavam 
Ao longo da Agua, que suave, e queda. 
Por alvas pedras corre a praia leda. 

LXVIII. 

Começam de enxergar subitamente 
Por entre verdes ramos varias cores; 
Cores de quem a vista julga, e sente. 
Que naõ eram das rosas, ou 4as flores j 
Mas da lâa fina, e seda difíerente. 
Que mais incita a força dos amores. 
De que se vestem as humanas rosas^ 
Fazendo-se por ^rte maia form^s^^v 




IM Veltoao eqMMado hum yvude grilo. 

Sçnhoreij cif> sMranlia ((Umb) be esu: 

Se índa dura s GeDtici, aBligo lito, 

A deiMat he Mirada eau BoraMa. 

Maii deMokisHM do qoe luunaiKi Mpríto 

Deiejou nana; e bem «e manileita, 

Qne laõ grandei M coouis, caoalIcBte*, 

Qoe o mundo cacobie aos bomêe» imprudenles. 

Sigamol eRsí deosas, e vejamo» 
Se phantASticaa saõ, Be v^dadeiraS, 
Isto dilo{ Tetoces mais que ^moa. 
Se lançam a correr pelas ribeiras. 
Fngiiido as Nympbas vaõ por entre os ramo^; 
Mas roais iodusUiosas, que ligeiras. 
Pouco e pouco stariado, e gritos dando. 
Se deitam ir dos galgos alcançando. 

De Iiuma os cabellos de ouro o veulo leva 
Correndo, e d'outra as £ilda« delicadas: 
Âccendc^se o desejo, que se ceva 
Mas alias carnes, iubilo motlradas: 
lluma do industria cabe, e já relera 
Com mostras roais macias, que iudignadas. 
Que sobre ella empecendo também caia 
Qaem a seguio por a arenosa praia. 



CANTO IX. i3t 

LXXII. 

Outros por ontna parte yaõ^ topar 
Com as deosas despidas, que se lavam : 
Elias começam súbito* a gritar, 

^Como que assalto tal naô esperaTam. 

^flamas fingindo menos estimar 
A vei*gonha, que a força se lançavam 
ríuas por entre o mato, aos olhos dando 
O que ás mãos cobiçosas vaõ negando. 

LXXItl. 

Outra , como acudindo mais depressa 
A^ vergonl^a da deosa caçadora, 
Esconde o corpo na agua j outra- se apressa 
Por tomar os vestidos, que tem fóra. 
Tal dos mancebos ha, que se arremessa 
Véltido assi, e calçado, (que co^ a mora 
De se despir, ha medo que inda tarde) 
A matar na agoa o fogo que nelle arde. 

LXXIT. 

Qual cam de caçadbr, sagaz, e ardido, 
Usado a tomar na agua a ave íerida, 
Vendo no rostro o férreo cano erguido. 
Para a garcenha ou pata conhecida. 
Antes que soe o estouro, mal soffrido 
Salta na agua, e da presa naõ duvida-, 
Nadando vai, e latindb; assi o mancebo 
flemette á que naõ era inuãa de W\íí\ío. 




i3a lusíada. 

Leonardo, sddado bem diipono, . 
Manhoso, GaTaUciro, e namorado 
A qnem amor iia6 dera hnni •£ desgosto, 
Mas aempre Ibra ddla maltraudoj 
E linha já por firme presuppotito 
Ser com amore»ma) aSanunadoj 
Porém naõ que perdeste a esperança 
De ioda poder seu fado ler mudanfa : 

Quiz aqui ena ventura que corria 
Apoz Ephyre, exemplo de belicza. 
Que maia caro que as outras dar queria, 
O que deo para dar-se a natureza. 
Jí cansado correndo , lhe dÍ2Ja : 
O' formosura tudigna de aiiperezBj 
Pois desta vida te concedo a palma. 
Espera hum corpo de quem levaa a alma. 

Todas de correr cansam, Itympha pura, 
Rendelido-se i vontade do iuimigo : 
Tu só de roim aó foges na espessura ? 
Qaem te disse que cu era o que te sigo? 
Se lo tem dito já aquella ventara. 
Que em toda a parte sempre anda comigo, 
O' uaã a crêas, porque ea qando a cria , 
Mil reze» cad» hoia me mentia. 



CANTO IX. i33 

LXXVIII. 

r^aõ canses 9 que me cansas^ e se queres 
Fugir-me, porque naõ possa tocar-te, 
Minha veldtura he tal, que inda que esperes, 
Ella fará que naõ. possa aloançar-»te. 
£spera : quero ver, «e ta quizeres. 
Que subtil modòf]Mu«a -de escapar-te, 
E notarás no fimdesie sucees^iio, . 
Tra la spiga, e la man, éftiaí muro è messo. 

LXXIX. 

O^ naõ me fugas, assi nunca o. breve 
Tempo fíija de tua formosura; 
Que sò com refinsar o passo leve . 
Vencerás da fortuna a força dura. 
Que Imperador, que exército se atreve, 
A quebrantar a fúria da yentura , 
Que em quanto desejei me vai seguindo?- 
O que tu sò farás naõ me fugindo. 

LXXX. 

Pões-te da parte da desdita minha ? 
Fraqueza he dar ajuda ao mais potente. 
Levas-me hum coração que livre tinha ? 
Solta-mo, e correrás mais levemente, 
r^aõ te carrega essa alma taõ mesquinha. 
Que nesses fios de ouro reluzente 
Atada levas ? Ou despois de presa 
Lhe mudaste a ventura , e m^wo^ ^4%^^^ 
2. ^^ 




í34 LDSrADA. 

Neata etperan^ ió le «» Hgaãtda; 
Qae ou ta aaituiBiutit a p«K> delbc, 
Ou na Timde de teu fetto lind», 
Se Ibe rnudait ■ tríMa, e Apta enrella; 
E se «e lhe mudar. Da» ia» fugindo, 
Qne amor la fariri-, gentil domella; 
E tu me esperará», ae amor te fere , 
E se me egperas, nua ha maia <pis espevc 

Si naõ fugia a bella N^mpha tanio 
Por Ee dar cara ao trúle que a seguia. 
Como por ir ouvindo o doce canto, 
Ab namoradas mágoas que dizia. 
Volvendo o rallo já sereno, e santo, 
Toda banhada em riso, e alegria , 
Cahir le deixa aos p^s do vem^oi', 
Que lodo se das&z em pwo amor. 

Oh que lámintoa beijos na floresta ! 
E que mimoso choro que soava ! 
Que af&gos taõ suaves! Que ire honesta. 
Que em risinhos alegres se tomava ! 
O que mais passam na manhãa, e na aést». 
Que Tenus com praieres toflaminava, 
Mellior he ciprimealá-lo que julga-lo, 
Masjalgae-o quem naõ pódc «pcH menta-! 



CAWTO IX. iSS 

Desta arte, em £in, conformes já »s formosas 

r^ympbas, «o* os seus aouidos saregantes. 

Os ornam de capettas deleitosas, 

De louro, e de 0U«>, e ákires abundantes : 

As mãos alvas IhesT davam cosbo esposas : 

Com pala'was &rmaes^ e estipulantes 

Se promettem eterna companhia 

Em vida, e morte, dte honra, « alegria. 

I.XXXV. 

Húa delias maior, a <quem se humáUia 
Todo o Goro das Nymphas, e obedece, 
Que dizem ser de Oel» e Vesca filha, 
O que no gesto beiia se parece^ 
Enchendo a terra € o mar de maravilha, 
O Capitam illustre, qaeo merece, 
Recebe alli com pompa honesta, e régia, 
Mostrando-se senhora grande, e egrégia. 

LXXXVI. 

Que despois de lhe ter dito quem era, 
Go^ hum alto exórdio de alta graça «mado, 
Dando-lhe a entender, que aUi viera 
Por alta influição de immobil fado; 
Para lhe deso^ir da unida esphera, 
Da terra immensa, e mar uaõ navegado, 
Os segredos, por alta prophecta, 
O que esta sua líacaõ -só met^^\ 



"i 




i36 LCSIADA. 

Tom*ndo-o pela máo o 1cTk,egnia, 
Para o cnme de ham monte alto, e diviao, 
No qual húa rica fatirica ae erguia 
De crynal toda, e de ouro poro, e fino; 
A maior pane aqai paMam do dia 
Em doces jogos, e em prazer contino : 
Ella Doa Paços logra Beni amorea, 
Aj oulrag pelai sombras entre as Borea. 

Ãui a formosa, e a forte companhia, 
O dia quasi todo eslaõ passando, 
Tfhuma alma, doce, inccfiiita alegria. 
Os trabalhos laõ longos compensando. 
Porqne do9 feilos grandes, da oDsndia 
Forte e famosa , o Mundo está guardando 
O premio \i no fim bem merecido, 
Com filma grand.', e nome alio, e subido. 

Que Bg Nymphas do Occeano laõ formosas, 
Telbys, e a Ilha angélica pintada. 
Outra cousa naô he, que as deleiíosas 
Honras, qne a vida fazem aublimida. 
Aqaellas preeminências gloriosas. 
Os triumphos, a fronte coioada 
De palma, e louro; a gloria, e maraiilba, 
Síles saã os deleites desli liba. 



CANTO IX. 137 

xc. 
Que as immortalidades que fingia 
A antigaidade , que os illustres ama, 
Lá no estellante Olympo, a quem subia 
Sobre as azas inciytas da fama; 
Por obras valerosas que £aizia, 
Pelo trabalho immenso, que se chama 
Caminho da virtude aho e fragoso, 
Mas no fim doce, alegre, e deleitoso : 

xci. 
Naõ eram senaõ prémios , que reparte 
Por feitos immortaes, e soberanos, 
O Mundo co^ os Baroés, que esforço, e arte. 
Divinos os fizeram sendo humanos. 
Que Júpiter, Mercúrio, Phebo, e Marte, 
Enéas, e Quirino, e os dous Thebanos, # 
Ceres, Palas, et Juno, com Diana, 
Todos foram de fraca carne humana. 

XCII. 

Mas a Êima, trombeta de obras taes. 
Lhes deo no Mundo nomes taõ estranhos. 
De deoses, semideoses immortaes, 
Indigetes, heróicos, e de Magnos. 
Por isso, ó vós que as famas estimaes, 
Sc quizerdes no Mundo ser tamanhos. 
Despertai já do somno do ócio ignavo. 
Que o animo de livre fa-A càcta^No. 




i38 ' lusíada, canto IX. 

E pondo □> cofaifa hum fi-eo doro , 
E na ambifaõ Umbem, que indif^amenle 
Tomais mil veies, e no lorpe, e escuro 
Ttcio da tjTauuia in£>me, e urgente.' 
Forque easts honrai Tãas, esse ooro puro, 
Verdadeiro vaVor naõ daõ á geme : 
Melhor he merecé-los sem os ter, 
Que poaaui-lo sem oa merecer. 

Ou dai na paz as leis iguaes, constantes. 
Que aos grandes naõ dfm o doa pequenos; 

Contra a lei doa ímijjoa Sarracenos : 
Fareis os Beinos grandes, e poasantes, 
E lodoa tereis mais, e nenhum menos : 
Fouuireis riquezas, mereddas 
Com as honras, que illnstram tanto as vidas 

E fareis claro o Bei que tanto amais. 
Agora co' oí conselhos bera cnídados; 
Agora ro' as espadas, que immonais 
Vos faraõ como os voaaos ji passados : 

Imposiiibilidadea naõ façais. 
Que quem quis sempre pôde : e numerados 
Sereis entre os Herocs esclarecidos, 
E nesta Ilha de Vénus recibidoa. 

FIM DO CfcBTO «OSO. 



lusíada. 



CANTO DECIMO. 



t 



ARGUUEHTO 
DO CARTO DEGIHO. 

CoiTITI ie Tecfayi aos oavegaiiles: caoç 
pbeticB da Sirena, em que (oca oaprincipaea & 
e cgnqaistai iot Vicc-Reia, doa Govemtdorei 
pilaãi PortDfiiicMi D* índia, Mi.D. Joaõ de 
Biibc Ted;* com Q Gana ahamnoBle, deidi 
Ibe DMWIra a bj^era celetU, e toreilre : de 
do Orba, eqieciafaneDte da Aw, e A&ica : ai 



ODTRO ARGUMENTO. 

A'mciu de TÍviâcoa manjarei i 
CsB a> Nfmpbu oi I-nwi Talerexit, 
OnTCm de leoi vindouros jiagular» 
FaçaDbai,eiB accCDlo* namenw» : 
HntTa-Uici Teiliji nido qaoMo oi m»iri 
IS quanto oi Ccu rodéam lominofof , 
A peqaeao Tolamt redaúdo , 
K tona a frota IO T^D tafi qoerido. 



* • ■ 



-1.1- 






'¥■ 




A/„ul.- o «,»,-« c^tcgl..!..,. ...""-via 



lusíada. 



'•l * ^'*'^^^^^*'^ ^ * ^* '^^^^^'*/%'^'*/%/%r'^^»/%i^/mfmf%j'%/mi^/9,i^^%/%/%>%/m/^%^%/^im/m/^%.'%/%t 



CANTO DECIMO. 



jyiAg já o claro amador da Larissea 
Adultera, inclinava os animaes 
Lá para o grande lago, que rodéa 
Temi.<titaô, nos fins Occidentacs : 
O grande ardor do Sol, Favonio enfréa 
Co' o sopro, que nos tanques naturaes 
£ncrespa a agua snrciia , c despertava 
■ Os Jyrios, e jasmijs, que a calma aggrava. 



* II. 



..; Quando as formosas Nymphas, co' os amantes, 
;' Péla maõ já conformes, e contentes, 
Siibiam para os Paços radiantes, 
C de nictaes ornados reluzentes j 
Mandados da Rainha, que abundantes 
Mesas de altos manjares, cxccllcntcs, 
Lhps tinha apparcliiadas, qiuí a fraqueza 
I^estaurem da cansada nalurcxa. 




lusíada. 



ricas, crytlallinas, 
i, e <li>u»i anaBle, e «■■ma : 
Ifoutras, á cabeceira, de ooro finas, 
Estí Co' a bella deosa o riaro Gama. 
De iguanas suaves, c divinaí, 
A qkem oaõ i^hega a E|;ypcJa aniigua &ma. 
Se Bccnmiilain os pratos ãe fulvo ouro, 
Trazidos )á do Adanúco ibesouro. 



Os vinhos odoríléros, que acima 
Eataô Daõ »á do I'alico Falcrua, 
Mas da Ambrósia, que Jove laoto cslima, 

nos rasos, onde era vão trabalha a lima , 
Crespas eacumas erguem, <]ue no intemo 
Coração movem súbita alegria , 
Saltando co' a misiura da agua fria. 

Mil prdlicas alegres se tocavam, 
Bisos doces, sublís, c argutas diloí, 
Que entre hú, e oulro manjar K alevantava 
Denperlando os alegres appetilos. 
Miisicos instrumentos naõ Èillavani , 
Qnaes no profnodo Reino os niis csprilos 
Fizeram deacan^r da clerna pena , 
Cani a TM de liúa angélica Sirena. 



CANTO X. i4i 

VI. 

Cantava a Mk Musa, e co'-o8 aocenloef 
Que pelos altos Paços vaõ soando, 
Em consopancía igual, os instrumentos 
Suaves vem a hum tempo comferraando. 
Hum súbito silencio eafréa os ventos, 
E faz ir docemente munuavando 
As aguas; e nas casas natorares 
Adormecer os brutos animaes. 

VII. 

Com doce voz está subindo ao Cea 
Altos Barões, que estaõ por vir 90 Mundo, 
Cujas Claras idéas vio Protheo* 
]N^hum globo vão, diáfano, rotundo; 
Que Júpiter em dom lho conctdeo 
Em sonhos, e despois no Reino fmado 
Vaticinando o disse^e na memoria 
Recolheo logo a Mympha a clara historia. 

VIII. 

Matéria he de Cothurno, c naõ de Soco, 
Aque a Nympha aprendeo no immenso lago, 
Qual lopas naõ soube, ou Demodoco, 
Entre os Pheaces hú , outro em Cardiago. 
Aqui minha Galliope te invoco 
Neste trabalho extremo, porque em pago 
Me tornes, do q escrevo, e em vão pertendo, 
O gosto de escrevei*, que vou perdcrido. ' 



,44 



Vaõ o&annos deacendo, eji do Estio 
Ha pou^ que passar até o Oalono ; 
A fortuna me bz o engenba {rípt 
Do qual.já me uaõ jacto, sem me abono: 
Os desgostos me vaõ levando ao rio 
Do negro esquecimento, e eterno sono! 
Ma9 tu me dá que cumpra, 6 §rão Bainha 
Das Musiís, co' o que quero á Naçaõ minha. 

Cantava a bella deov-a, que viriam 

Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira, 

Por onde o Occesno Indico suspira; 
E que os Geniíos Eeis, que naõ dariam 
A cervii sua ao jugo; o terro, e ira 
n do bra^o duro, e forte, 



Até render-! 



a elle, ( 



Cantava de hum, que tem nos Maljbares 
Do summo Sacerdócio a dignidade, 
Que só por naõ quebrar co' os singulares 
Barões os nós que dera de aniizadej 
Suftrerá suas Cidades, e lugares. 
Com ferra, incêndios, ira, e crueldade. 
Ver destruir do Samori potente : 
Que faes ódios terá co' a nova gente. 



CANTO X. 145 

. XII. 

E cania como )á se embarcaria 
Em Bel^m o remedKo deste dano, 
Sem saber o que ém si ao mar traria, 
O grão Pacbeco, Aehilles Lnsitaxnr : 
O pezo sentiráõ, quando entraria 
O curvo lenho, e O' férvido Occeano, 
Quando mais na agua os troncos, q gemerem, 
Contra sua naturénme meterem. 

XIII. 

Mas já chegado aos fins Orientaes, 

E deixado em ajuda do Gentior 

Bei de Cocbim, com poucos naturares, 

Nos braços do salgado, e curvo rio^ 

Desbaratará os Naires infernaes 

TSo passo Canibalaõ, tornando frio 

De espanto o ardor immenso do Oriente, 

Que verá tanto obrar taò pouca gente. 

XIV. 

Chamará o Samori mais gente nova^ 
Viraô Reis de Bipur, e de Tanor, 
Das servas de Narsinga, que aha prova 
Estarão promettendo a seu senhor. 
Fará que todo o Naire, em fim, se mova, 
Que entre Calecut jaz, e Cananor, 
De ambas as leis imigas^ para a guerra, 
Mouros por mar, Gentios peVoi icTT-^àt^ 

"1 



a. 



)4s lusíada. 

E todoí outra \a desbaratmdo, 

For terra, e mar, o grão Padieco ousado, 

A grande muludaó, que irá amando, 

À todo o Malabar lerá admirado. 

Comett^ oQira vex, naõ dilatando 

O Genlio og combates apressado. 

Injuriando os seoii £ueudo toIo» 

Em vHÒ aos deoses vãos, surdos, e immotos. 

Já naõ dafenderá sdmenle os passos, 
Mae queimar^lhe-ha lugares, letiiptos, casas: 
Acceso de ira o Csm, naõ veado lassos 
AqueUei que as Cidades iazem rasas; 
Fará que os seus, de vida pouco escassos. 

Por dous passos a'hum tempo; mai voando 
De hum n'ontro, tudo irá desbaratando. 

Virá alli o Samori, porque em pessoa 
Veja a balalba, e os seus esforce, e auime; 
Mas hum tiro, .que com zonído voa, , 
De sangue o tingirá no andor sublime. 
Já naõ \erá remedia, ou mauba boa, 
Nem força , que o Pacheco muiro esliuie : 
Iiiveuiará iraiçõcs, c vãos veoenos, 
iUas sempre ( o Ceo querendo ) fará menos. 



CANTO X. 147 

xvm. 
Que tomará a vez septima , cantava , 
A pelejar co' o invicto, e forte Luso, 
A quem nenhum trabalho peza , e aggrava , 
Mas com tudo este s6 o fará confuso. 
Trará para a batalha horrenda, e brava, 
Má chinas de madeiros fora de uso, 
Para lhe abalroar as caravelas; 
Que até alli vão lhe fora comettê»las. 

XIX. 

Pela agua levará serras de fogo 
Para abrazar lhe quanta armada tenha : 
Mas a militar arte, e engenho, logo 
Fará ser vãa a braveza com que venha. 
Nenhum claro Baraõ no Mareio jogo , 
Que nas azas da fama se sostenha , 
Chega a este, que a palma à todos toma, 
E perdoé-me a illustre Grécia, ou Roma. 

XX. 

Porque tantas batalhas sustentadas 
Com muito pouco mais de cem soldados, 
Com tantas manhas, e artes inventadas, 
Tantos cães naõ imbelles profligados; 
Ou pareceráõ fabulas sonhadas. 
Ou que os celestes Coros invocados 
Desceráõ ajudá-lo, e lhe daraõ 
Esforço, força, ardil, e cora<^aõ« 



i 




Aqadle qne no* caropoi Haralbonioa 
O gtio poder de Dbtío cstme, e rende; 
Ou quem GODi ^itro mil Lacedemonk» 
O passo de Thermopylaí defende : 
Nem o DUncebo Corlei dm AaMoiíM, 
Que com todo o poder Tusco contende 
Em defensa da ponte, ou Qninto Fábio, 
Foi como esLe na ^erra £arte, e labio. 

Mas ne=te passo a Syraplia o aom canoro 
Abaiundo, fez ronco, e entristecido. 
Cantando em baiia voz, envolu em cboFO, 
O grande esbrço mal agradecido. 
(P Beliiario (disse) que no Coro 
Das musas serás sempre engrandecido; 
Se em ti viste abatido o bravo Marte, 
Aqui téei com quem podes consolsr-le. 

Aqui têei companheiro, assi oos leitos^ 
Como no |;alardaõ injoglo, e duro: 
Em li c oelle veremos altos peiloa, 
A baixo e^lado vir, humilde, e escuro: 
Morrer nos hospilses, em pobres leitos. 
Os que ao Itej, e i Lei senem de muro. 
Islo fazem o9 Bl'Ís, cuja vontade 
Mauda mats que ■ justiça, e qne a verdade 



CANTO X. 149 

XXIV. 

Is^o £aizem os Reis, quando embebidos 
I9'huma apparencia branda que os contenta, 
Daõ os prémios de Aiaee merecidos, 
A língua vãa de Ulysses fraudulenta. 
Mas vingo>me, que os bêes mal repartidos , 
Por quem só doces sombras apresenta , 
Se naõ os 'daõ a sábios Gavalleiros, 
Daõ-os logo a avarentos lisongeiros. 

XXV.' 

Mas tu, de quem ficou taõ mal pagado 
Hum tal vassallo, 6 Bei só nisto inico, 
Senaõ es para dar-lhe honroso estado, 
He elle para dar-te hum Reino rico. 
Em quanto for o Mundo rodeado 
Dos Apollineos raios, eu te fico, 
Que elle seja entre a gente illustre, e claro, 
£ tu nisto culpado por avaro. 

XXVI. 

Mas eis outro, cantava, intitulado 
Vem com nome Real, e traz comsigo 
O filho, que no mar será illnstrado, • 
Tanto como qualquer Romano.antigo. 
Ambos daraõ com braço forte, armado, 
A Quiloa feriil áspero castigo, 
Fazendo nella Rei leal, e humano, 
Deitado fora o pérfido Tyrano. 



i 




Também hnb Hottibai^, tjaa m arr^a 
De COM» tuDipluonR, e ediKckil, 
Co' o ferra e hga asu, queimada, e féa, 
Em pago dal passadoí malcfiGicil. 
De«|K>ÍB na costa da Índia, andando chéa 
Delenhol inunJgQa, e ariifiGioa, 

O mancebo Lonreni^ brá nlreroot. 

Das grandes nãos ão Samori potente, 
Qne encheniõ lodo o mar, co' a férrea pella. 
Que lahe como iroyaõ do cobre ardente, 
Fará pedaçoi leme, mastro, e vclla. 
Despois lançando arpéoa ooudameDIe 
Na Capilaioa imiga; dentro nella 
Saltando, a fará só com lança, e espada. 
De quatrocentos M(HlrD9 despejada. 

Mas de Deos a escondida providencia. 
Que ella sá sabe o bem <lc que se serie, 
U pová oode estorço, nem pi'uclcncia, 
Poderá baver, que a vida lhe reserve. 
Em Chaul, onde ein sangue, e resistência, 
O mar todo com fogo, e feno ferve. 
Lhe faiaõ qae com lida seoaõ saia 
J« armadas de Egypio, e de Cambaia. 



CANTO X. iSi 

XXX. 

Alli o poder de muitos inimigos, 

Que o grande esforço só com força rende, 

Os veutos que £altáram, e os perigos 

Do Duir^ que sobejaram, tudo o of&nde. 

Aqui rcsurjam todos os antigos 

A Tcr o nobre ardor, que aqui se aprende : 

Outro Sceva veraõ, que espedaçado 

Naõ sabe ser rendido, nem domado. 

XXXI. 

Com huma coxa fora , que cm pedaços 
Lhe leva lium cego tiro que passara, 
Se serve inda dos animosos braços, 
£ do grão coração que lhe ficara : 
Até que outro pelouro quebra os laços , 
Gora que cu^ a alma o corpo se liara : 
Ella solta voou da prisaõ fora , 
Oude súbito se acha vencedora. 

XXXII. 

Vai-tc alma em paz da guerra turbulenta, 
ISa qual tu mereceste paz serena^ 
Que ao corpo, que em pedaços se apresenta ^ 
Qnem o gerou vingança já lhe ordena. 
Que eu ouço retumbar a grão tormenta, 
Que vem'já dar a dura, e eterna pena. 
De esperas, Itasiliscos, e trabucos, 
A Cambaicos cruéis, e a Mamelucos. 




iSj 



lusíada. 



Eis Tem o pai coin auimo eslupeudo, 
Traiendo faria, e miígoa por antolhos. 
Com ifue o paterno amor the está movendo 
Fogo no Foraçaõ, agua nos alhos. 
A nobre ira liie vinha prom«(lendo, 
Qiit o sangue fará dar pelos gialhoi 
Nas inimigas iiaos ■- senli-lo-La o ISIb, 
Podè-lo-ha o Indo ver, e o Gange ouvi-lo. 

Para crua peleja, os cornos (eiita 
»D tronco de hnm carvalho, oo alia &ja, 
E o ar Eirindo, as forças eiprímeota : 
Tal, antes que no seio de Cambaia 
Entre Francisco irado, na opulenta 
Cidade de Dabul a espada álSa , 
Abaixando-the a lumida ousadia. 

E logo entrando fero na enseada 

De Dio, illustre em cercos, e batalhas. 

Fará espalhar a fraca, e grande armada 

De Calecut, que remos lem por malha!. 

A de Melique Vaz, acautelada 

Co' os pelouros que ru Vulcano espalhas. 

Fará ir ver o frio, c fundo assento, 

.Secreto teilo do húmido clemenlo. 



CANTO X. i55 

XXXVI. 

Mas a de Mir Ilocem, (jue abalroando 
A fúria esperará dos vingadores, 
Verá braços, e pernas ir nadando. 
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores. 
Baios de fogo iraõ representando 
No cego ardor os bravos domadores^ 
Quanto alli sentiráõ olhos, e ouvidos, 
He fumo, ferro, flammas, e alaridos. 

XXX vn. 
Mas ah, que desta próspera victoria, 
Com que despoís virá ao pátrio Tejo, 
Quasi lhe roubará a famosa gloria 
Hum successo que triste, e negro vejpf 
O Cabo Tormentório, que a memoria 
Co^ QS ossos guardará , naõ terá pejo 
De tirar deste Mundo aquelle esprito, 
Que naõ tiraram toda a índia, e Egíto. 

XXXYIII. 

Alli Cafres selvagécs poderáõ 

O que destros amigos naõ puderam j 

£ rudos paos tostados sós &raõ 

O que arcos, e pelouros naõ fizeram. 

Occultos QS juizos de Deos saõ '^ 

Às gentes vãas, que naõ os entenderam ; 

Chamam-lhe fiado mao, fartuna escura^ 

Sendo só providencia de Deos pura. 



i 




i54 LU8IADA. 

Mai oh que lot Uinanha, ^ae abrir sinto, 
Diiii a Nymplia, e a voz alevanUva, 
Li no mar 3e Melinde cm sangoe tlnlo 
Das Cidades de Lamo, de Oja, e-Brava, 
Pelo Cuii}ia também, que nunca exlinlo 
Seri seu nome em todo o mar qne lava 
Al Ubás do Anslro, e praiaa, que ae chamam 
De Saõ Lourenço^ e ení todo o Snl se affiimam! 

Esta luz hc do ^o, e das luzentes 
Armas, com q o Albuquerque irá amansando 
De Ormuz os Farscos, por seu mal valentes, 
. Que refusam o jugo honroso, ebrando. 
AHi veraõ as séttas estridentes 
Reciproca r-se, a ponta no ar viraudo 
Contra quem aa tirou , que Deos peleja 
Por quem estende a Fé da Madre Igreja. , 

Alli de sal os montes naõ defendem 
De corrupção os carpos no combate. 
Que mortos pela praia , e mar se estendem 
De Gerum, de Mascate, eCalaiate: 
Até que á força sÓ de braço aprendem 
A abaisar a cerviz, onde se lhe ate 
Obrigação de dar o Beino inico 
Daa perlas de Barem tributo rico. 



CANTO X. i5t 

XLII. 

Qoe gloriosas palmas tecer vejo, 

Com que ^ictoria a fronte lhe coroa , 

Quando sem sombra yãa de medo, ou pejo, 

Toma a Ilha illustrissima de Goa! 

Dcspois, obedecendo ao duro ensejo, 

A deixa, e occasiaõ espera boa, 

Com que a tome a tomar j que esforço, e arte, 

Venceráõ a fortuna , e o próprio Marte. 

XLIII. 

Eis já sobre ella torna, e vai rompendo 
Por muros, fo{;o, lanças, e pelouros, 
Abrindo com a espada, o espesso, e horrendo 
Esquadrão de Gentios, e de Mouros. 
Iraõ soldados inclytos fazendo 
Mais que leões famélicos, e touros. 
Na luz que sempre celebrada , c dina 
Será da Egypcia Sancta Catharina. 

XLIV. 

Nem tu menos fugir poderás deste, 
Postoque rica , c postoque assentada , 
liá no grémio da Aurora onde naceste. 
Opulenta Malaca nomeada. 
As séttas venenosas que fizeste, 
Os Grises com que já te vejo armada , 
Malaios namorados. Jaós valentes. 
Todos farás ao Luso obedientes. 



t 




Em lonTór40'WiHtrH«í«WiJb«qi>«r^tie, 



O grande Captwm, qM •'tt 

Que com (rafaathoB ^Ujria-^tanÊátmt^tjè^^ •'■ 

Maia liathfMVktnlii 



Ma; cm rsnipn q<M fome* , ^ aipemai^' - 
Doeií^i, IrBrhai, t iroiãaHardqntcSt'" '' 
A iacaõ, eo la^rtecnl cndszbi", - 
Noa soIik^aa'lailo«bed<eB»(; '-'' 'i '- 
Parece de stlvatiesíbníttiÉffy' ■ ' 
De peitos inhuniiww, e i«tM»lMtte9^ "' 
Dar ex(rei)M>'ku]|ipli(4o'|^)a'calpit ''' ■ 
Que a IVaca bumaniclallê', (('^afdtScnljM; 

Naõsent a cnlpa abominleto incesto, ■ " '■■ 
Kein violento eslnpro em Virgem' pttri ; ' 
Heni meiíon adaltLrio deshonsatD, ' 
Mas ai Ima csrrava-vil, lasciva, escatv, 
So o puití), ou do cioM, oo de HioôtvK, *■ 
Oa de usado A irraeza ftra, e dtira,' "' 
Co' os seus hiia ira insana, naõ refrta, 



OAUTO X. iãÍ7 

X L Y 1 1 1. 

^1^ Aleian^re a Apelies namorado 
Da 9ua Gampaspe, e deo-Uia alegremente^ 
Naõ sendo teu soldado eiprímcntado, 
Nem vendo-se eiu hum cerco dnro, e argente. 
Sentio Cyro qnc andara jf abrasado 
Araspas de Planthea em &go ardente. 
Que elle tomara em gnarda, e promettia 
Que nenhom anão dejeso o venceria. 

X L I X. 

Mas yendo o illustre Persa , que Tencido 

Fora de amor, que, cm fim, naõ tem defensa, 

levemente o perdoa, e foi senrido 

Delie em hum caso grande em recompensa. 

Por furça, de Judita £oi marido 

O férreo Ralduino; mas dispensa 

Carlos pai delia, posto em cousas grandes, 

Que viva, e povoador seja de Frandés : 

L. 

Mas proseguindo a Nympha o lon^o canto» 
De Soares cantava , qnc as bandeiras 
Faria tremolar, e pòr e^^panto 
Pelas roxas Arábicas ribeiras. 
Medina abominabil teme tanto. 
Quanto Mera, e Gidá , co* as derradeiras 
Praias de Abassia : Barborá se teme 
Do mal de qne o Empório Zciia ^eme. ^ 

2. \\ 




A Dobn nhã taoben da TapnhiBa, 
Jt pelo noma aaiigno faõ ifotana. 
Quanto agora totwtba, a Mbenkiw, 
Pela Mcúça alida, cheirosa;. 
Delia (brj trjbnto i Lqtilaita 
Bandeira, qiuiiilo excelaa, e glorioM, 
Tencendç te ergoeri na (prre erj^da, 
Ed Columbo, doi propnoi taõ temida. 

Também Siqueira, at odiIm Erjtbreas 
Diiidindo, abrirá novo caminha, 
Para li grauile Império, ^ue le acréas 
De Mre« de Caudace e Sabá sintio. 
Haçuá, com cástemai de agua chéas, 
Teri, « o porto ^rqnico alli liaíutui. 
E kri deacobnr remolai Ilhas, 
Que daõ ao Mundo novas maravilhas. 

Tirii dcípois Meneies, cujo ferro 
Mais na Africa, que cá lerá provado : 
Castigara de Ormuz loberba o erro 
Com lhe Fazer tributo dar dobrado. 
Também, lu Gama, em |ugo do desterro 
Em lyie estás, e leiái iqda tara«do, 
Co* os tiiolos de Conde, e honras nobret. 
Viria mandar a leria tjue descobres. 



tfikyò X. iso 



Liy. 



Mas aqudh fiibl necessidade, 

De que DÍnguem sèêxime dós hJainanos, 

Illnstrado co* ã Keéiái dignidade^, . 

Te tirará do Mando, e seus eDganos. 

Outro Menezes logo, cnja idade 

ne maior nf^ pmdencia que nos anos, .- 

Governarei' e nrá o ditoso áenriqae, 

Qoe perp^àia menioria deíle^fiqne. 

I9aõ venceirS álJiÀèÀtè' iii^Málafiíaresi 
Destruindo PaBÀtíé^, tíotoi Còtfiéte*,' 
Gomettendo db'botbhárdas^'qèiè iiòliairé* 
Se vingam sò 'ã6 ]{i/éiio que as icòniete; 
Mas com virtddés, oerto singulares. 
Vence os imigoiB'dá alma tòd^ sete : 
De cobiça triumpbei^e incontinência; 
Que em tal khdé Ué^iuinmá de ezkeenenéia. 

LVI. 

Mas despois que as eíitJrelkfs o chiimdtrãbi; 
SuccederáSf&íbrmifBísc&fettlus; '■' ' 
È se injustos ò mandioi té tomarem^ ' 
Prometto-te qub ۈma eterna tetihas. 
Para teusifilttiigòs oótiféssarem' ' ' 
Teu valor alto, "O ftidò. quer que vetkhat < 
A mandar, Mais de pMmàs cotoado, 
Que de fortuiial jifstà afcònfpanhjido. 



i * 




iGo LD8IADA. 

9a Beino de Bintad, V lantm daDoi 
Terá a Malaca mnito tempo feitot, 
Vham sd dia aa injuriai de mtl aaoi 
Viogaráí co' o mlor de ílluitreg peiUM. 
Trabalho», e perigot ioliiiaiano*. 
Abrolhos foreos mil', patson eatreitol. 
Tranqueiras, ba(a*rte«, hnçat, stel, 
Tado 6co que rompas, e lobmelai. 

Mas na índia cobiça , e ambição. 
Que claramcnie põe aberto o roslo 
Contra Deoa, e ja^ça, te iaraõ. 
Vitupério líeDbuDi, tuas <0 dewgoMth 
Quem iáz injúria vil, e sem ra»i&. 
Com torças, e poder ctn que csia posto, 
Tíaõ venre^ que a victoria verdadeira, 
He saber ler jiisliça noa, e inteira. 

Mas rom todo, naõ nego que Sampaio 
Será lio estbi-ço íMuBire, e asaignalado, 
Mo.-lraiiilo-.'e no mar bam fero raio. 
Que de inimigos mil veií coalhado. 
Era Rara.ior feri era 1 ensaio 
N ) Malabar, pura que amedrontado 
DeS|iois a ser vonridu delle venha 
Catiale, com qoaiila armada Uobs. 



OANTO X. i6t 

LX. 

E naõ menos ée Dio a Sén firckta, 
Que Ghaul temerá de ^nde e oasada^ 
Fará 9 co' a yisla sò, perdida, e rota. 
Por Heitor da Sylveíra, e detCroçada : 
Por Heitor PortngncK, de quem se nota, 
Que na costa Cambaica sempre armada, 
Será aos Guzarates tanto dano, 
Quanto já ibi aos Gregos o Troiano. 

LXI. 

A Sampaio feroz saccedei-á 

Cunha , que longo tempo fem o leme; 

De Chalé as torres ahas erguerá , 

Em quanto Dio illustre deHe treme. > 

O forte Baçaim se ih» dará, 

!Naõ sem sangvw, porém, que nelle geme 

Melique, |»orqne á. força sò de espada 

A tranqueira soberiMt vé tomada. 

LXII. 

Traz eâe Tem Norosiia^ cujo avspicio 

De Dio 09 Rumes feros aifogeiMaf 

Dio, que o peito, e beHieo exercício 

De António da Sylvetra bem susteat». 

Fará em Noronhaia morfe o usado ofBcio, 

Quando hú tctt ramo, 6 Gama, se exprimenta 

No governo do Império; cujo zelo 

Cora medo o Roso mar {aiá mosit^o. '- 



1 



Daa mãos do teu E-Jevuo vem tomar 
A< riidcas hum, q'jcjà /.eti illusirado 
No tlrBjIl, com vi:iirer, e caatii',ar 
O pirata FniDcez, ao mar tuado. 
Despoís Ciijiilam mdr dn Iridioo mar, 
O muro dí: Damaà mlwrbo, (' armada, 
Esrala, e primeira oiilia a porta uberla. 
Que togo, e ficchas mil (eruò coberta, 

A wie o Rei Caml)airo sobtrbiíisima 
ForlBlexa dard tta rira Dia, 
Porque rDnti'a o Mo|]or poderoBÍiuimo 
Lhe ajude a d<:&nd,.r o senhorio. 

A (olbei ijue ubÕ pawe o Rti Gentia 
De Calecut, que a si c<na.qua«tM veia 
O tara retirar de sangue (Jkeio. 

Pestruiri a Cidade Bepejiia, 
Poiíilo o seu Hei com miúioii em fugida, 
E dcEpois juuio ao Caln> Colnorim 
Hãa façanha lai e^clarcfida. 
A ílDta principal do Samorim , 
Qoe destruir o Huudo naò duvida. 
Vencerá co' o luror do lerro, e lingo : 
Em ti verá fieadal» o Hardo jogo. 



CARTO X i63 

Tendo assi limpa a índia dos iini^9. 
Virá despob com sceptro a governá-la , 
Sem que ache resistência , nem perigos. 
Que todos tremem delle, e nenhnm feia. 
Sò qaiz provar os ásperos castigos 
Baticalá, que vira já Beadala : 
De sangue, e corpos mortos ficou chéa, 
£ de fogo, e trovões desfeita, e fêa. 

LXVII. 

Este será Martii^, que de Marte 
O nome tem co'< as obras derivado^ 
Tanto em armas illustre em toda parte, 
Quanto em conselho sábio, e bem cuidado. 
Succeder-lhe-ha alli Castro, que o estendarte 
Poituguçz terá sem^ure levantado; 
Conforme sucoessor ao succedido. 
Que hum ergue Dio, outro o defende erguido. 

LXVIII. 

Persas ferozes, Abassis, e Rumes, 
Que trazido de Roma, o nome tem, 
Yarios de gestos, vários de costumes, 
Que mil naçoés ao cerco feras vem; 
Faraó dos Ceos ao Mundo vãos queixumes > 
Porque húus poucos a terra lhe detém : 
£m^ sangue Portuguez juram descridos 
De banhar os bigodes retorcidos. ^■.. 



"iT 



i64 lusíada. 

LXIX. 

Basiliscos medonhos, e leões, 
Tmbucos fieros, minas encobertes. 
Sustenta Mascarenhas co* os Barões, 
Que taõ ledos as mortes tem por certas : 
Até que nas maiores oppressões 
Castro libertedor, fazendo offertas 
Das vidas de seus filhos, qoer que fiqoem 
Com £aima eterna, e a Deos se sacrifiquem. 

LXX. 

Fernando hum d^es, ramo da alte pranta, 
Onde o yiolento fogo com mido. 
Em pedaços os muros no ar leranta. 
Será alli arrebatado, e ao Ceo subido. 
Álvaro quando o Inverno o Mundo espanta , 
E tem o caminho húmido impedido, 
Abrindo-o, vence as ondas, e os peiígos. 
Os ventos, e despois os inimigos. 

LXXI. 

Eis vem despois o pai, que as ondas corta 

Co^o restante da gente Lusitana^ 

£ com força, e saber, que mais importa. 

Batalha dá felice, e soberana. 

Húus paredes subindo escusam porta, 

Outros a abrem na fera esquadra insana. 

Feitos faraó taõ dignos de memoria, 

Quo.naõ caibam em verso, ou larga historia. 



CANTO X 1^5 

LXXII. 

Este degpois em campo se a presença 
Vencedor forte , e intrépido ao possante 
Rei de Cambaia, e a vista lhe amedrenta 
Da fera multidão qnadrupedame. 
Naõ menos suas terras mal sustenta 
O Hydalcaõ do braço triumphante. 
Que castigando vai Dabnl na costa : 
T9em lhe escapou Pondá no sertaõ posta. 

LXXIII. 

Estes, e outros Barões, por várias partes, 
Dignos todos de £aima, e maravilha, 
Fazendo-se na teiTa bravos Martes, 
Yiraõ lograr os gostos desta Ilha^ 
Varrendo triumphantes estandartes., 
Pelas ondas que corta a aguda quilha j 
E acharáõ estas Nymphas, e estas mesas, - 
Que glorias, e honras saõ de árduas empresas. 

LXXIV. 

Assi cantava a Nympha, e as outras todas 
Com sonoroso applauso vozes davam. 
Com quefestejam as alegres vodas, 
Que com tanto prazer se celebravam. 
Por mais que da fortuna andem as rodas, 
(K^huma cònsona voz todas- soavam) 
Naõ vos haõ de faltar, gente iamosa. 
Honra, valor, e fama gloriosa. 



É 




Deipou qae • nrpúral iiinuilUlJa 
Se latisfaadsVlMimnito BfAn, ' 
E na hamunfti, c <l6ce iiuiTttád*, 
Viram M aho> feito*, que dcrieabH',-' 
Tethyi, degrafã <»-DadB, e^VkUAe, ' 
Para que enn maii aha el"^ 'oll^ ' 
Asre*iaidmaat«g»','e'iiitadia, ' 
Para o felira Gauu-Artdtrik : 

Faz-te mercê, Bara», a 8apietlda' 

Suprema, de ot/o* olhcu cWpbraú 

Veres o qne na6 pftde a vilti (CÍeiítíti 
Doa errados, e miaenn raortaU, '' 
Sigue-me firaae, a farte, com |trii<lmclaf 
Por este monte wpesio, tn ca^ tH ndb. 
Asu Iha-dix: a o juíb porlran mattt ' 
Ardao, diffioi), danfa hmaaMi inlo. 

Naõ andam mnKo, qoe DO'evgiltdo'eume 
Se achdiara, «ode fana eaUpo te MuakaTt 
De esmeralda*, roblji, laes tpn pi ^ enâ w 
A TiEia , que diviDo Aiopiarni: ' > 
Aqui bum j^obo Tem na ar, qna o limia 
ClarUsimo por elle p«Mtr>Ta, ' 
D«modo que o HU centro «Mi evidente, 
Cuido a saa tnpericèc, dntamente. 



CANTO X. 167 

LXX V II 1. 

Qual a matéria seja naõ se enxerga, 
Mas enx^rga-se bem que está composto 
De vários orbes, que a <)ívíi)b Vai^çi 
Gompoz, e hum centro a to<io8 s6 tem posto. 
Volvendo, ora se abaixe, or^ se erga. 
Nunca se ergue, ou se abaixa; e hú mesmo rosto 
Por toda parte tçm, e em toda parte 
Começa, e acaba, em fim, p/)r divina arte. 

L X X I X. 

Uniforme, perfeito, em. si sostido. 
Qual, em fim, o Archetypo, .que o creou. 
Vendo o Gama e^te globo, comaiOYido 
De espanto, e desejo alli fico.9. 
Diz-Ihe a deosa : O- transurapto reduzido 
Em pequeno volume aqui te dou 
Do Mundo aos olhos teus, para que vejas 
Por onde vás, e irás, e o que desejas. 

LXXX. 

Vés aqui a grande mácbina do Mnndo^ 
Ethérea, e elçmental, que fabricada 
Assi ibi do saber alto, e profando 
Que he sem princípio, e.míétat limilads. 
Quem cerca em 4o redor este rotnnclo . 
Globo, e sua su^^i^cie taõ limada, 
He Deos, n^i^p q ha Dons ninguém o eataiide. 
Que a tanto o.^pgftnho tiuiik^iOA. ^^9^ %!& «^nscàí^. 



Eito orbe qiie primeivo vai cewando 
Os outros iii»Í9 peq:>eDo-<, que «n si len. 
Que esl^ roín lui mõ clara radÍAudo, 
Que ■ viii<a <'eg3, e o menfe til ramfaemi 
£mpyrvt> Ge noméa ^ onde htçTBiiflo 
Puras alDiaa ealaò de aqiitll? Iinu, 
TaiuaotiD, qna rile só se eiiitiide, c alcança, 
De quem aaã hl no Mondu aenielbaii^. 

Aqui lá verdadsims glurioMM 
Divos caiHÕ: porque eu, SaTumo, e JanOi 
Júpiter, Juno, bookis liibuJaiO!), 
FíDgidat de morlal, e rego eu^juio. 

Servimoii e se maii o trata hiunauo 

Nos pode dar, l>e íó que o nome nosso t 

Mestas eati^Uai pai o en^^cnhu vosso. <>< 

E também pDtqoe a sania BiaiflriBMNb, ' 
Que am Jupker ^iJiiiiM tf 

Goveraa a Mundo lodof^ 

Esaina-o a prapfaetíE 

Em muitos das.eMOij 

Oa.^MJtô bõoff^iaiub (avoreenD. 



CAK^OX. ' 169 

Quer ]ogo aqtft t' pintara qne Varfa , 
Agora deleitando', ora ensinaniio, 
Dar-lhcs nomes qne a antigna Poesia 
A seus deosesr já'dera fiibúlando: 
Que os Anjos da celeste companhia 
Deoses o sacro Terso e^ chamando; 
r^cm nega qne esse nome preeminente 
Também ao* maOs se dá, mas falsamente. 

Em fim, que o summo Deos, ^ por segundas 
Causas ob^no Mn^do, tudo manda; 
E tornando a contar-te das profbndas ■ 
Obras da Mão dhíiur veneranda; 
Debaixo deste circulo, onde as mundas ' 
Almas. divinas gozam, qttenaõ anda, 
Outro corre tad leve, e laõ- ligeiro. 
Que naõ se enxerga : he o MobHe primeiro. 

LXSÍTr. 

Com este rapto , » grande* movimento , 
Vaõ toilos os qne dentr/i tem no seio 7 
Por obra deste, o Sol andando attento, ' 
O dia, e noute Ikt oom' corso alheio. 
Debaixo deste leve anda outit>'leiitp, 
Taõ leuto, e Mb3«igad6 a dnro freio, 
Que em quanto Phebo; de* In2 nunca* escasso, 
Duzentos cnrsoa fÍEtf^ dá^^ye-hum-^imo. 



1^ I.C8IADA. 

Olha ('Sl'outTO debaixo, que eBiualbdo 
De corpo; lisus anda, e railiantei, 
Que taiuLcm nelle tem corso ordi^nado, 
G DOS »eus lues correm scínliltanles. 
Rem v£s como se vesle, e £iiz ornado 
Co' o largo oinio de ouro, que cslrellaiifes 
Aiumaeâ doze Iras alfígurados. 
Apogeu toi de Pbcbo limiiadoi. 

OUm por outras parles a piutun 
Que as eslrella» tulgenles vaõ Eucndo.- 
OUh a Carretta, adenia a CfDosura, 
Andromeda, e seu Pai, e o Drago horrendo. 
Tè de CasBÍopêa a fonDD>ui'a, 
E de Oriunte o gesto [urbulenio : 
Olha o Cytne morrendo, qoe fiupirai 
A Lebre, oa Cies, a Nao, e > doce Lii'>. 



Debai 


IO deste graoda 




Viso 


Ceo de Salurno 


, deos aatigo. 


Jupilc 


■r logo &i o mo( 


imento'. 


EMa 


ne abaixo, belU 


«.inimigo: 


O Cia 


ro olho do C*o 1 


lio qnarlo sssi 


EVe, 


lus.qaeosimo 


res traz comsi, 




ia soberana i 


Comi 


m rasuw debau 


u> Tai Dian». 



CANTO X. 171 

xc. 
Em todos estes (Nrbes difiEierente 
Curso verás; n^húas grave, e n^oatros leve: 
Ora fogem do centro longamente , 
Ora da terra estaõ caminho breve; 
Bem como qaiz o Padre Omnipotente, 
Que o fogo fez, e !ao ar, o vébto, e neve; 
Os quaes verás que jazem mais adentro, 
£ tem co^ ò mar a terra por seu centro. 

* xci. 
Neste centro pousada dos humanos, 
Que naõ somente, ousados, se contentam 
De sofiBrerem da terra firme os danos, 
Mas inda o mar instabil experimentam; 
Verás as várias partes, que os insanos 
Mares dividem, onde se aposentam 
Várias nações, que mandam vários Reis; 
Vários costumes seus, e várias leis. 

XCII. 

Vés Europa ChristSa, mais alta, e clara. 
Que as outras em policia , e fortaleza : 
Vês Africa, dos bées do Mundo avara. 
Inculta e toda chêa de bruteza; 
Co^ o Cabo, que atéqui se vos negara. 
Que assentou para o Austro a natureza; 
Olha essa terra toda, que se habita 
Dessa gente sem lei, quan Vti^YvW^. 




yi do Benoinalapa o grailda Império ; 
De selvática gente, nepv, e nwi; 
Opde Gonçalo morte, e TÍlaperio, 
Pudenrá pela F^ unna nu. 
Rascc por este iitcogníio Uemitpberio 
O metal porque mais a f^nte «d> : 
Vé que do lago, donde >e derrama 
O Nilo, também vindo eitá Cuama. 

Olha as casai dos negros, coma estaõ 
Sem portas, confiados em seus niuhos, 
' Na jniliça Beul, e detén&aõ, 
E na fidelidade dos visinhos. 
Ollia dellesa briila multidão, 
Qaal bando espesso, e negro de eslorninhoi; 
Combalerã cm So&la a Êirtaleia, 
Que defendera Nhaia com destreza. 

Olha lá as alagÕBS, onde o Nilo 
Kasre, que naõ soubeiam os aa^igos. 
Vé-lo r^a, gerando o crocodilo. 
Os povos Abassis, de Christo amigos. 
Olha como sem mtiros (novo estilo) 
Sc de&odem melhor dos inimigos. 
Vé Méroe, que Ilha foi de anligua bma. 
Que ora dos naturaes TJobá le cbaiu. 



o AUTO X. 173 

JÍCVI. 

^eàta remolii terra hum fillio teu, 
Nas armas contra os Turcos será claro: 
Ha de ser Don GhristoTaõ o nome seu, 
Mas contra o fim fatal naõ ba reparo. 
Vê cá a costa do mar, onde te dea 
Melinde hospício ^^axalboao, e charo : 
O rapto rio i)ota, que o romance 
Da terra chajma Obi, entra em Qailmance. 

O Gabo vé, já Aromata chamado, 
£ agora Guardafá dos moradores, ~ 
Onde começa a boca do af&mado 
Mar Roxo, que do fundo toma as cores. 
Este, Como limite está lançado, 
Que divide Ásia de Africa , e as melhores 
Poyoações, que parte Africa tem : 
Maçuá saõ, Arquico, e Suanquenk 

xcviii." 

Vés o extremo Suei, que antíguamente 
Dizem queibi dos Heroas a Cidade; . 
Outros dizem, que Arsinoe, e ao presente 
Tem das frotas do Egypto a potestade. 
Olha as aguas, nas quaes abrio patente 
Estrada o graõ Moysés na antigua idade. 
Ásia começa aqui, que se apresenta 
Em terras grande, em Reino« o^uWYWík. 



x^o 



é 



174 lusíada. 

xcix. 
Olha o monte Sinai, qne se ênnobrece 
Co^ o sepnlcro de Santa Catharina : 
Olha Toro, e Gidá, qne lhe fiiUece 
Agna das fontes doce, e crystallina. 
Olha as portas do Estreito, que fenece 
No Reino da secca Adem, que confina 
(jom a serra de Arzira, pedra viva, 
Onde diuva dos Geos se naõ deriva. 

c. 
Olha as Arábias três, que tanta terra 
. Tomam, todas da gente vaga, e baça, 
Donde vem os cavallos para a guerra , 
Ligeiros, e ferozes, de alta raça. 
Olha a costa que corre até que cerra 
Outro Estreiro de Pérsia , e £eiz a traça 
O Gabo, que co^ o nome se appellida 
Da Gidade Fartaque alli sabida. 

Cl. 

Olha Do&r insigne porque manda 
O mais cheiroso incenso para as aras : 
Mas attenta já cá de est'outra banda 
De Rozalgate, e praias sempre avaras : 
Gomeça o Reino Ormuz, que todo se audi 
Pelas ribeiras, que inda seraò claras 
Quando as galés do Turco, e fera armada 
Virem de Gastel-Branco nua a espada. 



CANTO X. 175 

cu. 
Olha o Gabo Asaboro, qae chamado 
Agoia he Moçandaò dos navegantes : 
Por aqni eotra o lago, que he fechado 
De Arábia, e Pérsia, terras abundantes. 
Attenta a Ilha Barem , que o fundo ornado 
Tem das suas perlas ricas, e imilantes 
A^ côr da Aurora , e vé na agua salgada 
Ter o Tygris, e Euphrates huma entrada. 

cm. 
Olha da grande Pérsia o Império nobre, 
Sempre Po^o no campo, e nos cavallos, 
Que se injuria de usar fundido cobre, 
£ de naõ ter das armas sempre os callos. 
Mas Yc a Ilha Gerum, como descobre 
O que fazem do tempo os intervallos, 
Que da Cidade Armuza, que alli estere, 
Ella o nome de^pois, e a gloria teve. 

civ. 
Aqui de Dom Philippe de Menezes 
Se mostrará a virtude em armas clara, 
Quando com muito poucos Portuguezes 
Os muitos Párseos vencerá de Lara : 
Viráô provar os golpes, e revezes. 
De Dom pedro de Souza, que provara 
Já seu braço em Ampaza , que dcisada 
Terá por terra á força só de es^^d^< 




Cibo de JMfR>« iita já Ca^^, 
Com lodo a wa tarrano mal ifimnio 



HuT^ a ^moto Indo, ^n* d« B^ndla 
.Aliun BMce, jaalo.i qnU Hnibãi 
De oom abon^coiTaMla o G«»^ WM. 



Olha ■ tam de Dlànde bníUa 
£ de Jaqncfe a fnlima w 




Oodc do tnar o mío b 

Cidadca ««Itm bU, que rou paMando, 

A Tdi ontro* aqui m ( 



Vé« corre a coMa cdebre Indiana 
Para o Sii], atí o Cabo Contari, 
U (jumado Cori, qoe Tapr^ibuM 
(Qiuorahe Cailaã] defronte Mn de li 
Por este mar a ^cnte Tjuíana, 
' Que com araaa* tM dMpoU de ti, 
Terí Tídodai, tertai, e Cidade*, 
Nas qaatê bi6 de viw moiíaa idade*. 



CANTO X. 17^ 

CVIII. 

As proviDGÍas, que entre hú , e outro rio 
Vês com varias nações, saõ infinitas : 
Hum Reino Mahometa, outro Gentio, 
A quem tem o demónio leis escritas. 
Olha que de Narsinga o senhorio 
Tem as reliquias santas, e bemditas, 
Do corpo de Thomé, Baraõ sagrado. 
Que a Jesu Christo teve a mão no lado. 

cix. 
Aqui a Cidade foi, que se chamava 
Meliapor, formosa , grande e rica : 
Os Ídolos antigos adorava. 
Como inda agora faz a gente iníca : 
Longe do mar naquelle tempo estava. 
Quando a Fé que no Mundo se publica , 
Thomé vinha pregando, e já passara 
Provincias mil do Mando, que ensinara. 

GX. 

Chegado aqui pregando, e junto dando 

A doentes saúde, a mortos vida, 

A caso traz hum dia o mar, vagando. 

Hum lenho de grandeza desmedida : 

Deseja o Rei, que andava edificando, 

Fazer delle madeira , e naõ duvida 

Poder tirá-lo á terra com possantes 

Forças d'homées, de ençeuVvos .^ âiB i^e^«»x«^- 




Era ti& grande o peio do mtdeíra. 
Que »6 para ■btlat-K, nad* baiia : 
Man o Haorio de Ckmto Terdidetro, 
Meooa trabalho em tal negocio gatta. 
Ala o cordaft, qoe tni, por derradeiro 
No trooco, ebcUmente o leva, e arrasta , 
Para onde bça hnm lomptooM) Templo, 
Que Gcaue aoi fntoroi por exemplo. 

Sabia bem qae w com íi Ibnnada 

Mandar a hum monte inrdo, qae se mora , 

Que obedecerá logo á voa «agrada , 

Qne atai lho etuinon Cbristo, e elle o pTon. 

A gcDie ficou ditio alvoroçada. 

Os Brachmane* a tem por conta nora : 

Vendo.ot milagres, -vendo a lanclidade, 

Haõ medo de perder a authoridade. 

Saõ eslci Sacerdotes dos Gentios, 
Em quem mais penetrado tinha a inveja : 
Buscam maneiras mil, buicam desviai 
Com qne Thom^ ttaõ se onça, ou morto seja. 
O principal, qne ao peito trai oc fios, 
Hnm caso horrendo bi, que o Hnndo veja^ 
Que inimiga naõ ha taõ dnra, e fera, 
Como a WrtuiJe folui da sincera. 



CAMTO X. 179 

CXIY. 

Hum filho próprio mata : logo accusa 
De homicidio a Thomé, que era innocente : 
Dá £àlsas testimunlias, como se usa y 
Gondemnáram-no á morte breremoente. , 
O Sancto, que naõ vé melhor escusa. 
Que appellar para o Padre Omuipotente, 
Quer diante do Rei, e dos Senhores, 
Que se feça hnm mila^e dos maiores. 

cxv. 
O corpo morto manda ser trazido. 
Que resuscite, e seja perguntado. 
Quem foi seu matador, e será crido 
Por tcstimunho o seu mais approvado. 
Viram todos o moço yíyo erguido 
Em nome de Jesu crucificado : 
Dá graças a Thomé, que lhe deo yida, 
£ descobre sen pai ser o homicida. 

CXYI. 

Este milagre fez tamanho espanto. 
Que o Rei se b^nha logo na agua santa, 
E muitos apoz elle : hum beija o manto. 
Outro louvor do Deos de Thomé canta. 
Os Brachmanes se encheram de ódio tanto, 
Com seu veneno os morde inveja tanta , 
Que persuadindo a isso o povo rudo, 
Determinam matá-lo^ em íiin dt \\x<âA> ^ 



CANTO X. i\ 

GXXV I. 

Vés neste grSo terreno os difiercntet 
líomes de mil nações nunca sabidas; 
Os Laos em terra, ,e numero potentes, 
Avás, Bramas, por serras taõ compridas. 
Vé nos remotos montes outras gentes ^ 
Que Gueos se chainam, de seivagèes yidas^ 
Humana carne comem, mas a sua 
Pintam com ferro ardente; usança crua. 

c X X Y 1 1. 

Vés passa por Camboja Mecom rio^ 
Que Capitam das aguas se interpreta; 
Tantas recebe de outro sò.no £stio, 
Que alaga os campos largos., e inquieta. 
Tem as enchentes, quaes o Nilo iírio : 
A gente delle cré, como indiscreta. 
Que pena , e gloria tem despois da morte 
Os brutos animaes de toda sorte. 

CXXVIII. 

Este receberá plácido, e brando, 
I^o seu regaço os Cantos, que molhados 
Vem do naufrágio triste, e miserando, 
Dos procellosos baixos escapados; 
Das fomes, dos perigos grandes, quanda 
Será o injusto mando executado 
iNaquelle, cuja lyra sonorosa 
Será mais affiimada que dilossi. 



i&i LDSIADA. 

Tis corre a cofU que Champá «■ chami , 
Cuja mala be ão pdo cheiroM omada : 
Tês Cauchichin* cMá de racnia broa, 
E de Ainaõ vt a incogoin «nieada. 
Aqnl o soberbo Imperín, qns k afaniB 
Com remi, e riqneia naõ coidada. 
Da China corre, e occnpa o aeiiborio 
Desde o Trópico ardente ao cinto fria. 

Olha o muro, e edificio nonca rrido, 
Qqc cnlre hnm Império, e ootro se edifica, 
Cerliuúmo si{>nnl, e conhecido. 
Da polcncia Real, soberba, e rica. 
Estes, o Bei que tem, naõ (bi nascido 
Príncipe; nem dos paia aos filhos fica; 
Has e1e(;em aqnelle qoe be famoso 
Por Cavallciro sábio, e TÍrIuoso. 

Inda outra muita terra se te esconde, 
Até que venha o tempo de moslrar-ie. 
Mas naõ deixes no mar as Ilhas, onde 
à natureza quiz mais affiimar-se. 

Esta meia escondida, que responde 
De longu í China, donde Tem-bnacar-le, 
lie Japaô, onde nasce a prata fina. 
Que ilíastradi será co' a Lei DtTÍa^ 



OZXZII. 

Olha cá ptloé morei^dU» Oríõnte 
As infinitasllhas espalhadas c 
Vé Tidore, e Teroate, co?- o iiervtnte ■ 
Gume, que lança a» fiammaa- ondeadas : 
As arvores ym/ás dacniYO aidiame^ 
Com sangue PoÉluguez anda compradas*: 
Aqui ha as anreâs aves,.- que naãdeoem 
líunca á terra ,'e só mortas áppateoem. 

CXXXIII. 

Olha de Banda as Ilhafr^ que se -esmaltam 
Da vária cÀr que pinta q rox^ J&iUo ^ 
As aves variadas ,, que jgtlli saltam, . 
Da verde noz tomando leu tributo* : 
Olha tambam Bomeo, -onde naõ £iltam 
Lagrimas, no licor ooalhado.9 e enxuto, ., 
Das arvores, que Camj^wra he. chamado , 
Com que da Ilha a nome he celebrado. 

CXZZiY. 

Alli também Timor, que o lenho wand« 
Sândalo salutifero, e diein^..? ■!.'.•- 
Olha a Sunda taã larga , que húa banda 
Esconde para o Sul difilcnitoso. 
A gente do sertaõ» que h$ terras anda. 
Hum rio diz que tçm. mirf^culoso, , . 
Que por onde elle s6 sem outiq y^> 
Converte em pedra o pao c[ue uçlV^ ^^^» 



vQ>« 



• 

i 




iSlS LCSIADA. 

Té ns^ella qos a inDpo-toTtnii Ilha , 
Que lambem Sammai iHninUi npora, 
' A fonte que óleo mana, e ■ miraTillu 
Oo cheiroto Ifcor, qne o rroneo Aora ; 
Cheiroto nuii qoe qnanto eMilIa a SUm 
De Cynlrai, n* ÂTabia onde eRa mora,- 
E it qne, tendo qnaoio ai onlnii lem. 
Branda (m)>, e fino ouro ãi lambem. 

Olha em Ceiliii, qne o monte w alevanta 
Tanto, qne aa onvées paiM, on a TÍsla en, 

Por a pedra em qae eMf a pépda humana 
Naa Ilhas de Ualdiva naiec a planta , 
Ko prof ando das agna* soberana , 
Cujo ]ioino contra o Teneno ar^nte 
He tido por antídoto excel)ente, 

Verds defa«n(e catar do roío Ellreim 
Socotoi-â co' o amaro Aloé bmoMi 
Outras IUmb no mar lambem rajeilo 
A vds na n>ita de Africa areiMtaj 
Aonde sahe do cheiro mais perfeita 
A masu ao Mondo oecolta, e preciosa : 
De Saõ IjOurenço vê b Ilha a&mada, 
Qne Jlfadagaicar he de •Igãni chamada. 



<?»« de sen Rei J^ ^'"^ «* vei.i, 

'^wnca cuidado 
Vedes a irran^ ^*«xix. 

^ "■««•', que .1 "*••«« "i". 
í«S»«'aC..u«„„;^^«°;-'-e,h„„o,... 



Daque pussai' a via mi) ií que més, ••' 
Qdg ao AiUadtica Polo vai da liiilia, 
De hiia esialiu», ipani Giguilêa 
IIotuêFS vera, da (erru alli vi<>uiha. 
E mais avamco Euieito, que se arría 
Cu' a nome' d$Uf agora ; o qual cnniinlia 
Para ouliu .iiiar, B terra, que liça uuiU 
Cuin 9UBS &iaE azuu o Amlni a eacundo. 

AlK aqui, PortiigiieEua , concedido 

Vo3 tve sal>e(^|U)^^|U(if(iKjtiloi0 . 



QuB coràa» T{nteçpngÍ9«<4^> V 

Pod ei»-Tos tm^f^cw,, f ae,^|fdet, t^npo, 
E mar trflDqnjjía para,)i]iwlpa,i|B||B4í. 
Asst lhe$di«3e^^^o^Ti|«^iMf ... , 
Faiem da Ilha aÍ^|r«f «,Mf*Wí4«f 
Levam re&eaco, e ffob^ jQlf nlifopila. 
Levam a compaiihi« «feíejaàa 
Das Nympbas, que.hfõ de ter eterna meu le. 
Por mais icmpo que o 8o[ o Mondo aquente. 



CANTO X. 189 

CXLIV. 

Assi-lbram cortando o, mar sereno • 
Com yento sempre manso, e nnnca irado , 
Até que houTeram vista do terreno 
Em que nasceram, sempre desejado. 
Entraram pela fes do Tejo ameno; 
£ á sua pátria, e Bei temido, e amado, 
O premio, e gloria daõ, porque mandoa, 
£ com títulos noTos se illustrou. 

CXLT. 

ISaõ mais, Musa, naõ mais, qne a lyra tenho 

Destemperada, e a voz enrouquecida; 

£ naõ do canto, mas de ver que Tenho 

Cantar a gente surda, e endurecida. '1 

O favor cora que mais se accende o engenho* 

r^aõ o dá a pátria, naõ, que está metida 

No gosio da cobiça , e na rudeza 

De húa austera , apagada , e vil tristeza. 

GXLY I. 

E naõ sei porque influxo de destino 
Naõ tem hum ledo orgulho, e geral gosto, 
Que os ânimos levanta de contino, 
A ter para trabalhos ledo o rosto. 
Por isso vós, o Bei, que por divino 
Conselho estais no régio soUo posto. 
Olhai que sois (e vede as outras gentes) 
Senhor s<S de vasallos eiceUenies. 




ij}o lusíada. 

(Shai qaelídofnòf-porTÍriunu, 
Quaei rompenta leÕM, i bratM touroi, 
Daado os corpM n fbma, e ■ TÍgíai,! 
A ferro, a fogo, ■ a^tlu, et pdonroi: 
A quentes Regiõe», ■ plagai frúij 
A golpe* de IdoUtrai, e de HoonMj 
A perigoa incognitiM do Mundo; 
A nauGragioi, a peiíei, ao protando : 

For. lerrir-Tof a tudo apparelhadoí. 
De v6» UÕ longe, sempre obedianlet 
A quaesqu£r voasoA áspero* mandados. 
Sem dartespoBia, promptos, e conrcniel. 
Sd com ttber qne aaõ de «ús cdhados , ' 
Demónios, inEema es, 'negros, e ardentes, 
GometteráA comvosco, e naõ duvido 
Qae vencedor tob façam , naõ vencido. 

FoTorecei-os logo, e alegrai-os 

Com a preiença, e lála hamanidadej 

De rigoroBBS leis desalivat-os. 

Que asai se abre o caminho i sancUdade : 

Sei com a experiência tem bondade, 
Para vosso canseliio, pois qne sabem 
O como, o quando, e onde ai musas cabem. 



CANTO X. ^ i^í 

Cl. 

Todos favorecei «III seus ofIficiiM; 

Segundo riem cks yidas ortaleoto^ - ' •" 

Tenham Religiosos exercieioe' . ' * 

De rogarem por vosso regimento %'> ■' ^ "■ 

Com jejúus, discipUtaBS, 'pelos. ▼idos» ^ 

Gommúus, toda ombíçaõ teraõ por ffento; 

Que o bom Religioso- verdtdeiroyiV />■ *"' 

Cloria Tua nao pertendev, nem' dinheiro.- ■ 

. GLI. 

Os CayallciQDe: tende em muiia estimar^- • - 

Fois com sewttmgàfrÍDtrdpido, e ferveale, - '.i 

Estendem na4^«tfnKiite^a*Le»de<tnnay>t)j • « < ^ ^ 

Mas inda voeso- Uaperio- prca m iManteít'- 

Pois aquelle& <fm ^ tmò reãiòto dii|Hr< 

Vos vaõ serwie^aom pasto ^Ugente^im 

Bçus inimigos.,'VAOf)em vhã^*- oa iriíioSy' •/ 

E (o que he fiHiis)'09itrabalh»s aoiaeMiry^.i • / ' ; 

CLIU 

Fazei, Senhor, que nuiio»>.«B adoHjradQ» •■ - « '- ^ 

Alemães, GaUosv^^y^c^t^^^o^^r''"*^"* « ^''^ 
Possam dizer, que saõ para majwiadidsy.^ «1 

Mais que paraaMUod^r tíi& PoviiigueKis^ >M' ■ . •^^ '7 
Tomai Conselhos só dte.ezprÂ<aietilt«4i»Ss|/ 
Que TÍram largoSiaBuaSy largo». aMMéifrr, ... . ., ^. 
Que postoqueem scientea-muita^hOi^ t^ic-i :-. 
Mais em particular o.exp^k> «ab^%\^ . ^ >^ . ^ 






i 



199 lusíada. 

GLIII. 

De PhormtaÒ PMlosopho elegante 
Vereis como Anoibal escarnecia, 
Quando das artes bellicas diante 
Delle com larga voz tratava, e lia. 
A disciplina militar prestante^ 
Naõ se aprende, Senhor, na phantasia, 
Sonhando, imaginando, on estudando; 
Senaõ vcmdo, tratando, e pelejando. 

CLIV. 

Mas eu que fiallo humilde, baixo, e indo, 
De vós naõ conhecido, nem sonhado, 
Da boca dos pequenos sei com tudo, 
Que o louvor sahe ás veies acabado : - 
Nem me feilta na vida honesto estudo, 
Com longa* esperiencia misturado; 
Nem engenho, que aqui vereis presente, 
Cousas que juntas se acham raramente. 

CLV. 

Para servir-vos, braço ás armas feito; 
Para cantar-vos, mente ás Musas dada : 
Só me fallece ser a vós acceito. 
De quem virtude deve ser preiada : 
Se isto o Ceo me concede, e o vosso peito 
EUgna empreza tomar de ser cantada, 
Como a presága mente vaticina. 
Olhando a vossa incHnaçaõ divina : 



CANTO X. 

CLVI. 

G% fezendo que mais que a de Medusa 
A yista vossa tema o monte Allante, , 
Ou rompendo nos camposMe Ampelusa 
Os Moui-os de Marrocos, e Trudante; 
A minha já estimada e leda Musa , 
Fico que em todo o Mundo de vós cante, 
De sorte que Aleimndro eín vós se veja , 
Sem á dita de Achilles ter inveja. 



193 



FIM DO GAJSITO DECIMO K DA LUSÍADA. 



9. 



^n 



i 




Vo ajmo de i^j Q 1 1 

Ú k k r-^ V \\ 



I 



ESTANCIAS 

DESPREZADAS, E OMITTIDAS 

POR luís de gamões, 

HA PRIMBIBA IMPRESSÃO DO SKU POEMA« 



A.S Estancias que se seguem foram achadas 
por Manoel de Faria e Sousa em dous difFeren- 
tes Manuscriptos , que felizmente descobrio do 
mesmo Poeta. No Discurso Preliminar, que vai 
ao principio, antes do Poema, fazemos mais 
particular e extensa mençaÕ destes dous Ma- 
nuscriptos, e ahi poderá o Leitor inteirar-se 
cabalmente do seu indubitável merecimento. 
Por ora só accrescentamos, que o mesmo Fa* 
ria e Sousa, nos seus fipmmentarios que pu- 
blicou em Madrid • porTuan Sanches , anno de 
1 689 , nos deixou impressas as referidas Estan- 
cias naquelles lugares do Gommento onde res- 
pectivamente peftenciam 5 e <\iie xi4% '^'^^^ -, 



196 ESTANCIAS 

extrahinclo-as coní toda a fidelidade , e accu- 
sando os lugares onde enfravam , as lançamos 
no fim; tanto por naõ perturbarmos ou alterar 
mos consideravelmente a ordem e forma que o . 
Poeta deo ao seu Poema , como para que os 
mesmos Leitores , que naÕ quizerem lé las , pos- 
sam omittir a sua liçaõ. Em ultimo lu^r adver- 
timos, que o primeiro dos dous Manuscriptos, 
sendo ( segundo ò mesmo Faria ) digno de toda 
a estimação, comprehendia os primeiros seis 
Cantos do Poema; e qne o segundo, que fora 
de Manoel Corrêa Montenegro, contemporâ- 
neo do mesmo Poeta , continha o Poema in- 
teiro. 

No Canto I. , depois da Estancia lxxvii. , ha- 
via mais duas, e a mesma -lxxv 11., com a mu- 
dança que aqui se verá. 

Isto dizendo, irado, e quasi insano, 
Sobre a Thcbana parte descendeo. 
Onde vestindo a fdinna, e gesto humano. 
Para onde o Sol UHPk se moveo. 
Já atravessa o mar Mediterrano , 
Já de Cleópatra o Beino discorrco; 
Já deixa á maõ direita os Gar^tmances, 
E os desertos de Libya clrcumstantcs. 



OMITTIDAS. «97 

Já Meroe deixa atraz, e a teiTa ardente 
Que o septemfluo Rio vai regando, 
Onde reina o mui santo Presidente, 
Os preceitos de Ghristo amoestando : 
Já passa a terra de aguas carecente , 
Que estaõ as alagôas sustentando^ 
Donde seu nascimento tem o !Nilo^ 
Que gera o monstruoso crocodilo. 

Daqui ao Gabo Prasso vai direito, 

£ entrando em Moçambique, nesse instante 
Se faz na forma Mouro contrafeito, 
A hum dos mais honrados semelhante, 
£ como a seu Regente fosse acceito^ 
^£ntrando hum pouco triste no semblante. 
Desta sorte o Thebano lhe fallava, 
Apartando-o dos outros com que estava. 

No mesmo Gantol. , depois daEstancia h-VLx.y 
avia de mais a que se segue : 

£ pata que dês credito ao que €biIIq^ 
Que este Gapítam falso está ordenando, 
Sabe que quando foste a visitallo 
Ouvi dous neste caso. estar fallando : 
No que digo naõ faças intervallp. 
Que eu te 4S9*^9 ^™ &lta, como, quando 
Os podfljriÉfapiir; que he bem olhado 
Que qii^Hpier ea^nar &c^<& «si^^^^^. 



1^8 ESTANCIAS 

■ 

No Canto I|I. j 4êpois da Estancia x. , ham de 
mais no Mai^uporípto a seguinte : 

Entre este msT) e as aguas onde ^em 
Gorroado o largo Tánais de contino, 
Oj Sarmatas estaõ, que se mantém 
Bebendo o roxo sangue, e leite equino. 
Aqui vÍTem os Missios, que também 
Tem parte de Asia^ poTo baixo, e indioo, 
E os Abios que mulheres naõ recebein, 
E lànitos mais, que o Borystbenes bebem. 

No mesmo Canto III., em lu(»ar da Estancia 
XXIX. , havia esta : 

Mas a iniqua mâi seguindo em tudo 
Do peito feminil a condição, 
Tomava por marido a Dom Bermudo, 
£ a Dom Bermudo a toma hum seu irmaõ. 
Vede hum peccado grave, bruto, e rudo-. 
De outro nascido! Oh grande admiração! 
Que o marido deixado vem a ter 
Quem tem por enteada, e por mulher. 

No Canto IV. á Estancia ii. se se-iam estas 
três: 

Sempre foram bastardos valenMl^t 

^ Por letraSj ou por ai-mas, o|Í^Pfe lado : 



. OMITTIDAS. 199 

Foram-no oi maia dm deoee* DMDtiroso*, 
Que celebrou o iuiriguo Povo mdo. 
Mercúrio e o douto AfoUo sbu Êiinosos 
Por sciencia diversa, e longo ettudo; 
Ouiros saõ por armai soberanos; 
Hércules, e Lyeo, Bmho! Tbebanog. 
RaBlardos saõ lambem Homero, e Orphéo, 
Dous a quem lanto 08 versos illustiáram; 
E os dous de quem o Império procedeOj 
Que Tróia, e Roma em Itália cdiecáram. 
Pois se he cerlo o que a &ma já escreveo, 
Se mui los a Philippo nomearam 
Por pai do Macedonico mancebo. 
Outros lhe daÕ o magno NeManebo. 

Asst o filho de Pedro Justiçoso, 
Sendo Governador alevantado 
Do Beino, foi uas armas laõ diloso, , 

Que bem pdde igualar qualquer pastado. 
Porque vendo-ie o Bejoo receoso 
De ser do Castelhano subjugado, 
Aos seus o medo lira, que d9 alcança. 
Aos outros a lálsifica esperança. 

No mesmo Canto IV. , depois da Estancia xi., 
■avia a sef;uinte : 
Keiu no Beino.ficou de Tarragona 

QueiD naõ aiga de Marte o dwo rf&õ»'- 







ESTA^CIAS , 


Serona 


Cidade Dol. 


('«.ipieRe abona 4 


^m Com SGi 


■ dos Scipiòe 


, claro edificio. 


^m T»mb«L 


a a cclebrnd 


j Barcelon» 


^ Mando.. 


1 soldados detlroB no escrcicio : * 


TdíIoS S! 


!tes ajuitta o 


Ca !! telha no 


Coui™ O pequeno Hcino Luiilano. 


Alii meai 


no, depoií 


1 da Estancia xiii. 


e9t'outra : 






Oh inimi^s mãos da □ 


au™» 



Qut' injuriaiã a própria ^craçaõ' 
DuceuerBRles, I.rísos! Que fn.qucza 
De eafbrço, de saber, e de razaõ, 
Vos fez que a clara estirpe que se preza 
De leal, Gdo, e limpo coração, 
Offéndais dessa sorte? Mas respeita 
Que eíte dos grandes he d menor deleito. 

Tio mesmo Canto IV. , em lugar da Esti 
ixi. apparecia no Manuscrípto a seguint 

Qual o mancebo claro, iio Bomano 

Senado, os grandes medos a quebranta 
Do grão Cai thaginez, que soberano 
Os cutelos lhe linba na garganlaj 
Quando ganhando o nome de Africana 
A resislir-lhe foi com fúria laiila, 
Que a pátria duvidosa libertou, 
O <me Fabie invejoso naõ cuidou. 




OHITTIDÃS. 3«i 

Pnuco mais «baixo , iefkm dafisCaucía xxvii. 
apparecia esta: 

Já a fresca filha âe Tilam traiia 

O sempre memiirado dia, quando .* 

As vésperas se canlam de Maria, 
Que este mn bonra , a nome seu tomando. 
Para a batalha eatava já este dia 
PeMripinado: logo, em branqoeaodo 
A alva no Ceo, os Beis se aparelhavam, 
E as gentes com palavras animavam. 

No mesmo Gasto IV., depois da Estaocia 
xsKV. appareciam as três que se seguem , em 
que o Pocu fazia memoria de alguns Portu- 
guezes que morreram na laJ bjKtalha. 

Passaram a Giraldo co' as enlranhaa 
O grosso, e forte escudo, que tomara 
à Perez que matou, que o seu de estranltas 
Culiladus desfeito já deixjra. 
Morrem Pedro, e Duarte, (que façanhas 
Nos Rrigio.s tinham féiio) a quem criara 
Bi'agança ; ambos mancebos, ambos fbries, 
Companheiros nas vidas, e nas mortes. 

Marrem Lopo, e Vicente de Lisboa, 
Que estavam conjurados a acabarenij 
Ou a ganharem biiJmw a coroa 
De quantos nesta goeita se affmawKW- 



301 ESTÃKCláS 

Por cini» Jo cavallo Afonso »oa í 
Que cinco CasteUiaaos (por vingarem 
A morte de oulros dnco, quG malára) 
O vau privar aaii da vida cfaura. 

Dg Ires lanças passado Hilário cai; 
Mas primeiro vingado a ma linha; 
Nau íhe peza porque » aimu assi lhe saí, 
Mas porque a linda AnioDÍa netic vinha : 
O fugiiÍTo espriío se lhe vai, 
£ neste o peniíameiíto qne o Rostinha ; 
E sahindu da -lama, a quem servia, 
O non.e lhe cortou na h<S:a fria. 

Neste mesmo CantoIV.,emlugar(1a£s 
cia sxxix. , havia uo Maouscripto a que ; 
86 segue : 

Favorecem os seus com grandes gritos 
O successo do liroj e elle logo 
Toma ouira : (que jaziam infinitos 
Dos que as vidas perderam neste jogo) 
Corre enrestando-a farte; e íCarte incíla 
Ã^ hrava guejTa os seus, que ardendo em fi 
Vaõ Cérindo os cavallos de espwadas, 
E os ditroB inimigos de lançadas. 

Depois desla, eilepois da Estancia xt.. d 
Canlo IV., havia no mesmo Original as 



OMITTIDÀS. io3 

^ue se seguem aqui , nas «juaes o Poeta fazia 
nençaÕ da morte de alguns Castelhanos» 

Yelasques morre, e Sanches de Toledo, 
Hum grande caçador, outro Letrado : 
Também perece Galbes, que sem medo 
Sempre dos companheiros ibi chamado : 
Montandiez, Oropesa, Mondonhedo: 
(Qualquer destro nas armas, e esforçado) 
Todos por mãos de António, moço forte, 
Destro mais que elles , pois os trouxe á morte. 

Guevara roncador, que o rosto untava. 
Mãos, e barba, do sangue que corria j 
Por dizer que dos muitos que matava 
Saltava nelle o sangue, e o tingia : 
Quando destes abusos se jactava , 
De través lhe dá Pedro, ^e o ouvia. 
Tal golpe, com que alli lhe foi partida 
Do corpo a vãa cabeça, e a torpe vida. 

Pelo ar a cabeça lhe voou, 

Inda contando a historia de seus feitos : 
Pedro, do negro sangue que esguichou, 
Foi todo salpicado, rosto, e peitos; 
Justa vingança do que em vida usou. 
Logo com elle ao occaso vaõ direitos 
Carrilho, Joaõ da LÔlW, com Robledo; 
Porque 08 outros fa^do n^ã ÀftT&A^^> 



4 



io4 ESTANGIA-S 

Salazar, grSk> taftil, e o mais antigo 
Rufiaõ que Sevilha entaõ sostinha; 
A qnem a Ctilsa amiga, que oomsigo 
Trouxe, de noite só fugido tinha. 
Fugio-Bie a amiga, em fim, para outro amigc 
Porque rio qne o dinheiro com que vinha , 
Perdeor todo de hum resto : e naõ perdera , 
Se huma carta de espadas lhe viera. 

O desppeio da amiga o desatina; 

E o Mando todo, a terra, e o Geo vagante, 

Blasfemando ameaça, e determina 

De vingar-sc em qualquer que achar diante. 

Encontra com Gaspar, (que Catharina 

Ama em extremo) e leva do montante, 

Que no ar fere fogo; e -certo cria. 

Que hum monte da pancada fenderia. 

Bem cuida de cortá-lo em dous pedaços; 
Porém Gaspar vendo o montante erguido , 
Gerra com elle , e leva-o nos hraços : 
Gomettimento destro, e atrevido. 
Bracéa o Gastelhano, e de ameaços 
Se serve ainda; e atando já vencido, 
O Portuguez forçoso, em breve mora , . 
Lhe leva a arma das máos-, e salta fora. 

E porque elle naõ lhe ^^ a própria manha 
Que çste lhe usara já^ de ponta o fere : 




OMITTIDAB. u>S 

Nos peito) o iiioiitiiite,<nifini, Ibabanbi, 
Porquç de onlra TÍngança dueipãv. 
Fugio-Ihe ■ alma indignada, e na mcmlanlia 
Tartarea ioda blasphemaj alli refere 
Qne mais oaõ açonlar a amiga ingrata, 
Qne o9 açontes de Aleclo o pena, e niala. 

E do metal de espadas ao9 damuadot 
Dil males, e blasphcmiaa sem medida : 
Que já por naã lhe entrar perde os crmado*,. 
£ agora poT^entrar-lhe perde a vida. 
Por pena quer Plulaõ de seus peccados , 
Que le lhe mostre a amiga já fugida, 
Em brincoa de antro, e beijos enlevada : 
Bemeiu elle para ellel, e acha aada. 

Nesie mesmo Canto IV., depois da Estancia 
snv. havia no Original as duas seguintes: 

Oh pensamento vaô do peito himiano! 
Agor^ oeste cego error cahiste? 
Agora este formoKi e ledo engano 
Da íianguino'» e fera guerra viste? 
Agora qoe com sangue, e próprio dano, 
A dura experiência acerba, e triste, 
To tem mostrado. E agora que o provaste. 
Os conselhos darás, que naõ tomaste. 

Dos corpos dos imigos Cavalleiros, 
Do maio os-auimaes se a[is8ceiM4ia™ -. 



ao6 ESTANCIAS 

Aa Gintcs de aiaís ]>in-io nas primeiros 
Diah saiigue com agua desUiUram. 
Oíjartoroí do caiii|Hí, e os Dioiiteiroa 
Da vijínba nioulanha, naõ goslirjin 

Por terem o sabor do corpo humano. 
Os últimos qiisiro versos da Estancia xi 
do mesmo CanlolV. csiavaõ muito dipferei 
no Manuscrípto; e «lepoU desles havia a 
duas Estancias: tudo como se segue. 



Pondor 


ando in, 


i,a.,h„ 


i,lrcvinifi>t«. 


Disse a Heptono en 
Temo que desta gel 
Que de teus Beinos 


itaõ Prolheo Propheta 

.,.,j..,.,.„h,, 

grão eceptro lenha. 


Jitoma 
Que 


CoDde deslei 


■1 primeiro átrio, 


PoT se TÍDgai 


'do ao 


nor iDevitayel 


Que 
Mas 


a fona ti 
OBÕ foi c 


a em Rodrigo permittio. . 
rs.a a causa detestável 


Que 

Juiio 
A cai 


a populosa Hespaiiha dcstruio: 
.di:DL-o<itbi por Cansa incerta ;_ 
a nioaira por Rodrigo aberta. . 



Já agora, ú nobre Hespaiiba, estis segura 
(Se segurar te podem Ca\alleiros] 
De ODtra perda como esla, iníqua, ^ura 
Pois que leni Portuguezea por porteiroi. 




OSMTTllDAS. aoj 

Absí ■« deo i pnSlpera -renlnra 
Do Bei Joaone a terra, qae aos fronteiras 
Hespanhoes tanto tempo molestara ; ^ 
^ E vencida ficou mais nobre, e clara. 

na Estancia lxi. deste mesmo Canto IV., 
eram os últimos cinco versos no Manuscprípto 
como aqui vaÕ. 

Da próspera Cidade de Veneza : 

Veneza, a qual os Povos que escaparam 
Do Gotlhico faror, e da crueza 
De Attila edificaram pobremente, 
E foi rica despois, e preeminente. 

DepoisdaEstancianvi.do mesmo Canto IV. 
havia no Oinginal a seguinte ; 

Naõ foi sem justa e grande cansa eleito 
Para o sublime throDO, e governança. 
Este, de cujo illnstre e forte peito , 
Depende huma grandíssima esperança : 
Pois naõ havendo herdeiro mais direito 
No Beino, e mais por esta confiança, 
Joanne o escolbeo, que sá o herdasse, 
TSaò tendo filho herdeiro qne reinasse. 

Quasi ao íim do mesmo Canto IV. , depois da 
Estancia 1.KXXVI, havia t]oManuscriptoasduas 
se^guiQtes : 



loS ESTANCIAS 

Alli Ihp proroettemos, se em sorego 
Ndí leva is parle», onde Phíbo nasce, 
1)^, nu espalhar sua F^ aa Muniio cego. 
Ou □ »Dgue do Poto perlinacr. 
FjieiDQí para as almaa sanlo emprego 
Se HA KODÍBsaà, pura, e verace 
Em que,*po9tDque Hereges a repravam, 
ÃS almas, CQim. a Phcnii, so reoovaie. 



Tomámos o dí 

Com cnja graça santa tantos dias, 
Sem outro algum Idrreslre pro-ílme 
Sc sLiíejiiiii-am já Mojsé», e Helías 
Pam, de qnei» nenhum grande p 
Nem subtis e profundas plianiaeias 
Alcançam o segredo, e viiiude alia. 
Se do juiio a Fé naõ suppre a talia. 

No Canto VI., depois da Estúicia vii 
achava no mesmo Original mais huma, 
Manoel de Faria e Sousa reputou admirai 
por isso se admira muito de ijiie o Poeta ai 
lisse. He, pois; como se segue: 
U na sublime llalia hum rdebrado 
Antro secreto está, chamado Averno; 
Por onde □ Capitam Troiano ousado 
A's npgras sombras fiii do escuro inferno. 
Por aUi ha lambem Imm desusado 
CamÍDlio, t^uc vai ter ao centro ínierDo 




OMITTIDAS. ao;, 

fio mar, aonde o deoi N^nao mora : 
Poralli foi descendo Baccbo agora. 

DepoisdaEstanciaxxiv. doineeisoC)iiito\1. 
havia a que se segue : 

A dor do desamor nunca respeili, 

Se lem culpa, ou sepsô lem ualpa a parle; 
Porqi^e ae a conu amada vos engella. 
Vingança biuca «o de qualquer arte. 
Porém quem oulrem ama , qne aproveilB 
Trabalhar que tos ame, e que se aparte 
De seu desejo, e que por onuo o negue, 
Se sempre foge amor de quem o segue f 

Ahi mesmo, depois da Estancia xl. , havia as 
cinco seguintes , em que Leonardo proseguia a 



De que serve contar grandes historiai 
De Capitães, de guerras a&madas. 
Onde a mone tem ásperas victorias 
De vonlades alheai sobjugadas ^ 
Uutros iaraõ grandissimas memorias. 
De feitos de batalhas conquistadas : 
Eu as farei, te for no Mondo oavido; 
De como só de buus olhos fui vencido. 

TSaõ foi pouco aprazível a Veljoso 
Tratar-se esla matéria, vi^ianJkO., 



^"''^eram o, JT" •''bridas 
Que ali; * ""^M We/aíl„ 

Que ou«», •. '^ ««bula» o . 

JDas T """«as ía»ri^ ""«« •• 
P' próprias Wve ;. ^* "^^ere, 

*"^'oup^i'^°*"''P° vivi „*'"**. 

^'^ 9<íe tinia. 



OHITTIDAS. 11. 

liiire vivia eotaõ, mai naõ me etpanlo, 
Senaõ qoc leDilo livr«, naõ loflinha 
Debur de wr captÍTo, qne o cuidado, 
Sem porqua, tive sempre namorado. 

De|K) is destas cinco , e da Estancia lxxx. , se- 
i;uia .se a i.xxxi. com esta difFerença : 

Divina 
Que 

Tu qae a todo Iirael refugio d^ue 
Por melade das aguas Erydireaa ; 
Se por mores perigos me Iroiuesle, 
Que ao Itacenie UlyBses, ou a Eueai, 
Passando os largos lermiuoa de ApcJo, 
Pelas fúrias ie Tethys, e de Eolo. 

Ao fím deste mesmo Canto VI., depois da 
Estancia xciv,,contÍDuavBin no primeiro Ma- 
nuscripto as seguintes Mfe : 

Olhai como despoia de hiuii grande mcdo, 
Taõ desejado bem logo se alcança; 
Asii (ambem delraz de estado iiia 
Tiiaieza está, certíssima mudança. 
Quem qniiease alcançar esle segreili* 
De oaõ se ver nas cousas segurança. 
Creio, se Mcudrinhi-lo bem quisesse. 
Que em \tx de saber aiais, endiau4yec«Kw. 



913 ESTANCIAS 

Naõ respondo a qoem disse, que a fortima 
Era em «odas as coasas inconstante; - 
Que mandoa deos ao Mnndo por colmia 
Deosa, que ora se abaixe, ora lerauite. 
Opinião das gentes importnna 
He ter, qne o homem aos Anjos semelhattte 
Por qnem já Deos fez tanto, se pnzesse 
Nas mãos do leve caso qne o regesse. 

Mas quem dic qne virtudes, ou peccados, 
Sobem baixos, e abaixam os subidos ^ 
Que me dirá, se os mãos vir sublimados? 
Que me dirá, se os bõos vir abatidos? 
Se alguém me diz, que nascem destinados. 
Parece razaõ áspera aos ouvidos; 
Que se eu nasci obrigado a meu destino, 
Que mais me vai ser Santo , que malino ^ 

Yiram-se os Poitnguezes em tormenta, 
Que nenbum se lembrava já da vida ; 
Subitamemte passa , e lhe apresenta 
Venns a cousa delles mais querida. 
Mas o Cabral, que o número accrescenta 
Dos naufrágios, na Costa desabrida, 
A vida salva alegre, e logo perto 
A perde, ou por destino, ou pòr acerto. 

Se havia de perde-la em breve instante, 
O salva -Ja primeiro, que lhe vai? 




OBUTTIDAB. aí3 

Tortaiu alli, n he hibil : e preataole. 
Porque naõ dava bum bera detraide Lnu mal? 
Bera dizia o Philosopho elegante 
Simoriides, ficando em hnm portal 
Salvo, donde os amigoa morrer vfa^, * 

Na sala armíDada, que cahira. 

Oh poder da fbrtnita taõ pendo. 
Que tantos n'bum momepto asei mitane! 
Para que maior mal me iõm guardado. 
Se deMe que be tamanho me guardaile? 
Bem sabia que o Ceo eslava irado^ 
Naô ha damno que o seu liiror abaste^ 
Nem féi hum mal (amanho, qne aaõ teob* 
Outro muito maior, que logo venha. 

Mui bem sei qae naõ falta quem me déue 
Baiões subtil, qne o engenho lhe «seegura; 
Nem qoem segundas rausai revcd^easej 
Maleiias altas, que o juiio apura. 
Eu lhe fico que a todos respoiídesse, 
Mas naô o soHire a iorça da escripdira : 
Respondo sá, que a longa experiência 
Enlea muitas vezes a sciencia. 

Atéqui as Esuinctas que se achavam no pri- 
leiro Manuscripto. Continuam agora as do 
^guindo , que fora de Manoel jCorrea Monte- 
cgro. 



ai4 ESTANCIAS 

No Canto Vm. , depois da Estancia 
havia as três seguintes : \ 

Este deo gráo princ^io á sublimada 

* lUustriisima Casa de Bragança, 
Em estado, e grandeza avantajada 
A quantas o Hespanhol Império alcança. 
Ves aquelle, qnc vai com forte armada 
Cortando o Hesperio mar, e logo alcança 
O valeroso intento que pertende, 
E a y iDa de Azamor combate^ e rende ? 

He o Duque Dom Gemes, derivado 

Do tronco antiguo, e successor famoso,. 
Que o grande feito emprende, e acabado 
A Portugal dá volta victorioso; 
Deixando desta vez taõ admirado 
A todo o Mundo, e o Mouro taõ medroso^ 
Que inda atégora nunca ha despedido 
O grão temor entonces concebido. 

£ se o &moso Duque mais avante 
ríaõ passa co^ a Gatholica conquista , 
Nos muros de Marrocos, e Trudante, 
E outros lugares mil á escala vista ^ 
Naõ be por falta de animo constante, 
Nem de esforço, ^ vontade prompta, e lista: 
.Mas foi po^ naô passar o limitado 
Termino ) por seu Bei assignalado. 



OMITTIDAS. ai5 

Depois da Estancia xxxvi.^ neste mesmo 
Canto VIII. , havia mais huma , como se segue : 

Achou -se nesta desigual hatalha 

Hum dos nossos, de imigos rodeado; 

Mas elle de valor, mais que de malha , 

£ militar esforço acompanhado; 

Do primeiro o cavallo mata , e talha 

O colo a -seu Senhor, com desusado 

Golpe de espada; e passo a passo andando. 

Os torvados contrários vai deixando. 

No Canto X. , depois da Estancia lxxii. , ha- 
via dez no Manuscripto de Montenegro, as 
quaes saÕ como se seguem : 

Verá -se, em fim, toda a índia conjurada. 
Com bellico aparelho; varias gentes, 
Ghaul, Goa, e Malaca ter cercada 
£m hum tempo lugares difierentes. 
Mas vé oomo Ghaul quasi tomada, 
O mar com suas ondas eminentes. 
Vai soccorrer a gente Portugueza, 
Que sò de Deos espera já defeza. 

Vês qual o Bei Gentio presuroso 

Arde, cerca, discorre, e anda listo, . 

Incitando o exercito espantoso 

A destruir hum esquadr^^ di^ Qamv>^. 



2i6 ESTANCIAS 

Mas nota o ponto de honra generoso. 
Em cerco, nem batalha nunca vistoj 
Os Soldados fugindo do seguro, 
Passar^^e ao posto perigoso, e duro. 

AUi o prudentíssimo Ataíde, 
Gon£Drtado d^ ajuda soberana, 
Onde a necessidade e tempo o pide, . 
Soccorrerá com força mais que humana. 
Até que com seus damnoa se despide 
Do crú inte&to a gente yil, profana. 
Que em batalhas, e encontros mil vencidos, 
Viráõ a pedir paz arrependidos. 

Em quanto isto passar cá na luminosa 
Costa de Ásia , e America sombria , 
Naõ menos lá na Europa beUicosa, 
E nas terras da inculta Barbaria^ 
Mostrará a gente Elysia valerosa 
Seu preço, de temor tornando fria 
A Zona aixlente, em ver que huma conquista 
Lhe naõ &Z que das outras três desista. 

Veraõ o valentissimo (*) Barriga, 
Adail de Zafim, grande, affamado. 



(*) Falia aqui o Poeta de Lopo Barriga que foi hnm dos 
mais esforçados Portugaeces que militaram em Africa. Delle 
fazem iUustre memoria as nossas Historias, e com especiali* 



OMITTIDAS. 

Sem ter por armas quem lho contradiga. 
Correr de Mauritânia serra, e prado. . 
Mas vê como a^ infiel gente inimiga 
O prende por hum caso desastrado, 
£ com elle outra gente leva presa ; 
Que em tal caso naõ pôde ter defesa. 

Mas passado este trance perigoso, 
Olha onde preso \'ai, como arrebata 
A lança de hum dos Mouros, e furioso 
Com ella a seu Senhor derriba , e mata. 
E revolvendo o braço poderoso, 
Os seus livra , e os imigos desbarata : 
£ assi todos alegres, e triumphantes, 
Se tornam donde foram presos antes. 

£i'lo cá por engano outra vez preso, 
Está na escura e vil estrebaria, 
Carregado de ferros, de tal peso. 
Que de hum lugar mover se naõ podia. 
Yé-lo de generoso fogo acceso, 
Que o páo ensanguentado sacudia. 
Com que ao soberbo Moiiro a morte dera, 
Que em sua honrada barba a maõ puzera ? 



'e Damiam de Góes em vários lugares da Chronica d'El« 
Oom Manoel, e Dom António Caetano de Sousa , na Hi- 
a Genealógica da Casa Real Portu^uetai.TQim.'^ t^^ .^s^if^- 

2. ^^ 



!ii8 ESTANCIAS 

Mas Té oono oi infidoe A^fmmm, 

Por mandade Hie daõ Ò9 Bei descrido. 

Tanto açoute por isto, qmt em peqoeRoa 

IJie faaem sobre ás costas o restido, 

Seoi que ao forte Yaraõ vozes, nem menoa 

Oovissem dar hum intimo gemido: . 

Já vai a Portugal despedaçado 

O vestido a pedir ser resgatado. 

Olha Gabo de Aguer aqiii tomado 
Por culpa dos Soldados de socoorro : 
Vés o grande Carvalho alli cer/cado 
De imigos, como touro em duro corro? 
De trinta Mouros mortos rodeado, 
Revolvendo o montante, diz: Pois morro. 
Celebrem mortos minha morte escura , 
£ façam-me de mortos sepultura. 

Ambas pernas quebradas, que passando 
Hum tiro, espcdaçado lhas havia; 
Dos giolhos e braços se ajudando, 
Com nunca visto esforço, e valentia : 
Em torno pelo campo retirando. 
Vai a Agarena, dura Companhia, 
Que com dardos, e settas, que tiravam, 
De longe dar-lhe a morte procuravam. 

Neste mesmo Canto X. apparecíam no refe- 
rido Manuscripto de Montene^o , depois da 
Estancia lxxiii. , as onze seguintes: 



OMITTIDAS. ai9 

Com taes obras, e feitos excellentes 

De valor nunca TJbto, nem cuidado, « 

Alcançareis aqnellas preeminentes 
ExcellenciaS) que o Geo tem reservado 
Para vòsoutros, entre quantas gentes 
O sol aquenta , e cerca o humor salgado : 
Que em poucos se acham poucas repartidas, 
£ em nenhuma Naçaõ juntas, e unidas. 

Religião, a primeira, sublimada. 
De pio e santo zelo revestida; 
Ao culto divinal somente dada , 
E em sen serviço e obras embebida. 
Nesta, a gente no Elysio campo nada, 
Se mostrou sempre tal em morte, e vida^ 
Que pôde per tender a primazia 
Da illustre e Religiosa Monarchia. 

Lealdade he segunda, que engrandece, ■ 
%>bre todas, o nobre peito humano j 
Com a qual semelhante ser parece 
Ao Ck)ro celestial , e soberano* 
Nesta por todo o Mundo se conhece 
Por taõ illustre o Povo Lusitano,, 
Que jamais a seu Deos, e Rei jurado, 
A fé devida e pública ha negado. 

Fortaleza vem logo, que os Authores 
Tanto do antiguo Luso magnificam .^ 



f 



I 



9!io WitAKGllB 

Qa6 ot ToÍMkvortD|paiawt oon mioiw * 
CttwM, lervferdideíni «eitiflowB: 
Dando iw le m a noros Eacríptores, -> ' 
Gomfòtotf qne em mesòm ctonui fioun; 
E ▼encendo do Mondo ot bmU 
Sem nonca de mais poaoos ser 



Conquista será a qoarta, que no Império 
Portares só reside com possança : 

^ Pois no sublime e no ínfimo Hemispheiio 
As qnatro partes s6 do mnndo alcança : 
E as qnatro Mações delias por mysterio 
CSom qne «onqoisia , e tem certa esperança, 
Qae Christãos, Mouros, Turcos, e Gentios, 
Juntarão n^huma lei seus senhorios. 

t)esoobrimento he qninta, qiK bem certá>> 
A^ gente Lusitana só se dere, 
Pois tendo Norte a Sur já descoberto, 
Adonde o dia be grande, e adonde brere^ 
E por caminho desusado, incerto. 
De Ponente a Levante, inda se atreve 
Cercar o Mnndo em torno por direito : 
Feito despois, nem antes, nunca feito. 

Deixo de referir a piedade • 

Do peito Portnçuez, c cortezia, 
Temperança, fé, zelo, e caridade. 
Com outras muitas, que contar podia. 



OMITTIDAS. aai 

Pois asegundo o ponto da verdade, 
E regras da mortal Philosophia , . 
Naõ pode conservar-se hunia virtude, 
Sem que das outras todas se arme, e ajude. 

Mas destas, como base, e ftmdaffiento 
Daquellas cinco insignes excellencias. 
Em que ellas tem seu natural assento, 
E de quem tomam suas dependências : 
Naõ quero aqui tratar, que meu intento 
Naõ he descer a todas menudencias, 
Que geraes saõ no mundo a muita gente, 
âenaõ das que em tòs se acham tamsémente. 

Mas naõ será de todo limpo, e puTo, 
O curso desigual de Tossa historia : 
Tal he a condição do estado escuro 
Da humana vida, frágil, transitória : 
Que mortes, perdições, trabalho duro 
Aguaráõ grandemente vosáa gloria ^ 
Mas naõ poderá algum successo, ou fado, 
Derribar-vos deste alto e Ixmroso estado. 

Tempo virá , que entrambos Hemispherios 
Descobertos por vós, e conquistados, 
E com batalhas, mortes, captiverios, 
Os vários Povos delles sujeitados : 
De Hespanha os dous gratídissimos Impérios 
Seram n^hum senhorio só juntados, 



222 ESTANCIAS 

Ficando por MetropoH, e Senhora ,. - 
A Cidade qae cá vos manda agora. 

Ora, pois, g[ente illustre, que no Munda 
Deos no grémio Catholico conserva', 
Redemidos da pena do profundo, 
Que para os condemnados se reserva , 
Por vos dotar o que perdeo o immundo 
Lusbel, com sua inSame e vil caterva^ 
Pois sabeis alcançar a gloria humana, 
Fazei por naõ perder a Soberana. 

Ultimamente , depois da Estancia cxli. deste 
Canto X. , se achou no Manuscripto de Mon- 
tenegro mais esta que aqui vai : 

Daqui sahiiido irá, onde acabada 
Sua vida será na fatal Uba : 
Mas pi*oseguindo a venturosa armada 
A volta de taõ grande maravilha j 
Yeraõ a náo Victoria celebrada 
Ir tomar porto junto de Sevilha , 
Dcspois de haver cercado o mar profundo, 
Dando huma volta em claro a todo o Mundo. 

Porque se naÕ percam totalmente composi- 
ções do nosso Poeta , com summo gosto fize- 
mos aqui memoria destas Estancias, conven- 
cidos de que ellas saò hum monumento digno 



OMITTIDAS. 255 

da posteridade, e de ser vingado daquelle es- 
quecimento , em que o tinha posto a incúria , 
negligencia , e descuido de hum grande nume- 
ro de Editores , á excepção de Manoel de Faria 
e Sousa, verdadeiro estimador destas cousas. 

4 

Seguem-se as Lições varias , achadas tam- 
bém pelo mesmo Faria , na conferencia dos 
dous Manuscriptos , com hum exemplar da pri- 
meira edição. O que vai de redondo he o que 
o Poeta desprezo^ ; e o que se achar de grifo 
he o que imprimio. Os números saÕ os das 
Estancias. Cremos que o Leitor estudioso da 
Liçaõ Poética tirará huma naÕ pequena in- 
strucçaõ , se cuidadosamente se applicar a fa- 
zer as devidas e convenientes reflexões sobre 
as mesmas emendas. As que se seguem saõ as 
do pritueiro Manuscriptp. 



<%«w%^%^%/%/»»v^%%^^i%^^ %^^%^^%^^^%fm^t%/%^/^^^^%^^/%^^Ê%^^,%/%/^ 



LICOES VARIAS. 



CANTO I. 

JOiST. 4> £ vós Tágides Musas. E vós Tágides minlias. 
Pois sempre, t^e sempre, 

5. Que Marte'. Que a Marte. 

8. Vós 6 sagrado Rei. f^ó poderoso Rei. 
Do torpe Mauritano. Do torpe Ismaelita. 

I o. Vereis o peito. Vereis o nome. 

1 1 . Commúus façanhas. Cktm vãas façanhas, 

13. Os onze. Os doze. 

1 4 • Albuquerque invencibil . Albiufuerque terrihil. En- 
tende-se que o Poeta (qne nada escrevia sem pon- 
deração) fez esta mudança, depois que soube que 
Affonso de Albuquerque mandara matar hum sol- 
dado, por certo delicto, que ou podia ser perdoa- 
do, ou devia ser punido com menor pena. 

1 8. Muito mais do que os vossos o desejam. 
De regerdes os povos ^ que o desejam. 

90. Quatro versos no meio desta Estancia achayam-se 
no Manuscripto trocados desta maneira: 

Pizando o çryttaUino Çeo formoso 
Pelo caminho Lácteo excelleate, 



aiG LIÇÕES 

Se juntam em Concilio ^oríoM> 
Sobre as cousas futuras do Oriente. 

an. Com hum gesto severo. Com gesto. alto severo. 
a3. Os outros mais abaixo. Mais abaixo os menores. I 

34. Deve-vos de ser noto, e evidente. Deveis detersê'. 
bido claramente. 

35. Contra o Brigio duro. Contra o Castelhano. QoaM < 
Codas as vezes que Camões nomeava os Castelhaoof, i 
dizia Brigios , fundado talvez em que Ganbay, . 
lib. IV, cap. 8, Julian dei Castillo, nos seus Beis 
Godos, lib. II, Geronymo Martel, na sua Chrono- 
logia, part. I e outros, chamavam a Castella Uriga, 
ou Brígia, Je Brigo, seu Rei, que fora neto de Ttt- 
bal^ porem mudou o Poeta de parecer^ e, segundo 
se lia nos Manuscriptos, á excepção de hum só la- 
gar do seu Poema, em que conservou a palavra Bri- 
gios , em todos os outros onde tinha Brigio , e Bri- 
gios, escreveo Castelhano, e Castelhanos. 

a6. Por Capitam Geral o peregrino^ que achou J^f^m 
por seu Capitam, que peregrino fingio. 

32. £sta Estancia naô estava no Manuscripto, e o 
Poeta a compoz depois. 

33. Por quanta semelhança. Por ^zMUiZAr ca/ú/ad!ef. . 
34* A alma dea. A clara dea, 

38. Cujo valor. Cuja valia. E colhe-se daqui, que 
valia em Portuguez era synonymo de valor j e como 
tal apparece na Est. Lxxxii do Canto IV. 



VARIAS. 237 

Jnis perfeito. JiUz direito. 
43. Ilha Madagáscar. Ilha de Saó Lourenço. 
43. Donde topam as ondas. iVa Costa da Ethiopia. 
44- O grande Capitam. O forte Capitam. . 
- Que toda a armada manda, e lhe obedece. 

Que a tamanhas emprezas se offerece. 
48. A ancora o mar ferindo. Da ancora o mar ferido. 

54. He o nome da Ilha. Chama-se a pequena Ilha, 

55. Os ventos desabridos. Os furiosos ventos. 

6 1 . Conserva doce excellente , co' o purpúreo licor que 
Baccho cria. Conserva doce, dd-lhe o ardente, naô 
usado licor, que dá alegria. 

64. Da índia valerosa. Da índia taõ famosa. 

67. Maças bravas. Chuças bravas. Fez o Poeta esta 
mudança , porque já naquelle tempo usavam pouco 
das maças. 

71. Que aos da armada. Que aos estrangeiros. 

ya. Do inimigo. Do obsetjuente. Ao régio aposento. 
Ao cognito aposento. 

79. Tem discorrido. Tem destruido. Contra nós lá nos 
altos pensamentos. Contra nós, e que todos seus in^ 
tentos. Para nos destruírem, t^aõ/^ara nos matarem. 

8 1 . Instruto. Astuto. 

86. 'Qual em cavallo ardente. Hum de escudo emhra- 
çado. E está mudado, e emendado, com a advertên- 
cia de que alli naõ havia cavallos. Na maõ, qual arco 
curvo. Outro de arco encurvado. 

$7. Andam na escaramuça polvorosa. Andam pela ri- 



aaS LIÇÕES 

beira alfa arenosa. Com a lança. Com a 
88. Corre, salta, assovlsi. Salta, corre, sibila, 
^. Os iortes panuit. Os pangaws subtijs, 

A má tendão êontráría. A vil maiiàa perfidm, 
98. PoToGMttfio habita. Po w4Uifí^£%^<ão 

|>re MMttMi. 
104. Na fi(pira do Biouro. Na firma de outro Moauo* . 

CANTO II. 

Est I. Humida. L&ntA. Infidas. Fingidas, 

4* On rnbí fino^ov doro diamenie. O ruhijinú, • 

'rígido diamante, 
5. Que porque a noite o JSol «esconde. Que porçve* 

Sol no mar se esconde. » 

II. Co' as línguas. Daslinguas. \ 

ia. Bromio. Baccho. 
i3. Tjfíi&ihsí. Damoça. ^ 
14. Falso rio. Salso rio. 
16. Gama Illustre. IS obre Gama. 
19. Lindas filhas. Alvas filhas. 
ao. Fresca. Crespa. Levantadas. Encurvadas. 
34. Trabalhando. Atravessando. 
aG. E por salvar-se a nado arremetiam. Saltando ma 

agua^ a nado se acoOúam. 
a8. Agua clara. Agua Mara. 

29. O Capitam claro. 0'Gama attentado. 

30. Insperado. Inopinado. Acudir á fraca gente. ^ 
fraca/brça. 



> VARIAS. aag 

34* Qae aos deoses. Que ás estr^Uas» 

36. Os frescos. Os crespos. 

39. Te achasse amigo brando. Te achasse brando ^^ 

affaveL A algum celeste. A algum contrario, 
41 • Gomo irosa. De mimosa. 
44* Nem que outro algum celeste. Nem que ninguém 

comigo. Que esses olhos. Que esses chorosos olhos. 
45. Nesta Estancia estaTam no Manuscripto os dous 

versos de Enéas antepostos aos de Antenor, desla 

sorte : 

Que se o facundo TJlysses escapou 
De ser na Ogygia liba eterno escravo , 
E se o piedoso Enéas navegou 
De Scylla» e de Charybdis o jur bravo; 

letrOTí 



E se Antenor os seios pene 
Illyrícos, e a fonte de Timavo; 
Os vossos mores cousas intentando , 
Novos Mundos áo Mundo iraõ mostrando. 



t 



46. Postas. Dadas. ^^ >| 

5o, Estar Mavorte. O grão Mavorte» 

52. Vereis mais. £ vereis. ^ 

53. Nas accias guerras forte, e yenturosç. JVas civis 
A ceias guerras animoso. 

58. E claro. £ raro. Nesta Est. estava o ultimo verso, 

primeiro que o penúltimo. 
61. Manso o vento. Sereno o tempo.. 
64- Vê ferir. Preferida. 

68. Suspiram. Respiram, Mansamente. Brandamente. 
a, 'xíi 



93» LIÇÕES 

;o. Como o nitistre Gatna. Coma o Gama ire) 
54. Coila airai. Serru atrar. 1 

J7. I.ádelciiigeitnha.Z>e/on^Elraiia.Exci!ll« 

onlentr. Com u coral putiiteo tem. O rama 
_^»o . e pretaJo. 
80. Famo»a. íoieriu. NomeadsB. Apariaãat. 
81;. Nenhum temor, ou laeAo. Nmhumfno tt 
^. De obra subtil de poucos alcançada. Oni 

teria da obra he luperada. O pjropo na adi 

anta a rica adaga. 
g6. Ao Sol ardtnle veda. j1 solar quentara vai 

Outrpui uaõ íiabiJo. /Jorrisono no ouvido. 
98. Co' a pluma a gorra. Pluma iib gorra. 
101. Já DobatdenlruoCapilamdoBei.</(/j 

entrou do Capiíaai o Rei. 
104, O Sol revoKe. O Ceo revolimm. 
lo6. kiiKiiiifirts, .^s bombardas. 
10;. OlUnstre Gama, Fone Gama. 
III. Quequerohe o que Ignora, e naõ canhei 

mas. Que quein ha que por fama naõ con 

I ia. Trabalho estranho. Trabalho iUustre, 



Eli. I. Docta dama. Linda dama, O amor dr 
amordtvido. 
3. O Capílaoi claro. O mbUme Cama. 



VARIAS. 93i 

IO. Fria Dania. Lappiafria. Os Hannos, a ^o Got- 
thia. Etcandinavia Ilha, etc. O desabrido. O con-' 
gelado. Gráo parte, ff um Braço. Pelo Báltico, Rus- 
sio, e Líthiano. Pelo Brussio^ Suedo, efrio Dano. 

1 4> Da agua a que tem humilde. Dat agiutí ^ue ta6 
baixa. O Mundo todo. JYaeóes varias. 

i6. França. Gallia. 

17. BelUçeroB, Beliicosos: 

18.. Estreito claro. Sabido estreito, 

ao. O Sol. Phebo. Com que ao próprio Mauritano 
deitou dos próprios íijs. Contra o torpe 'Míuiritano , 
deitando^ de si fora, 

3 1 . Esta he aquella. Esta he a ditosa. Que torne viVo. 
Qúe eu sem perigo. Com tamanha emjpreza. Com 
esta eniprezajá, Serme-ha gosto entre os homens ex- 
cessivo, uécabe-^ esta luz alli comigo. Que do anti** 
guo Divo Baccho Thebano. Que de Baccho antiguo. 
Foram companheiros. Filhos foram parece^ ou. Nella 
parece. E nella entaõ. 

3 3 . Daqui o Pastor. Desta o. A eterna Roma. jÍ grande 
Roma, 

34* Com este. Com hum Rei. jéfonso. Prémios, e ga^ 
lardões. Premio digno, e does. 

35. Lhe deram Portugal, que entaõ. Portugal houve 
em sorte , tjue no Mundo entaõ. 
Naô era conhecido. Naô era illustre, 

37. De Christo. De Deos. 

3i. A inquieta. 1^ io&er6a. 



^U XIÇÕES 

33. Sentimento. Eáiendimento. 
"34. GonTOcado dt. Pam vingar «. O taõ fraeo. O Ui 

raro, 

35. Toma o Gtitelluino. Foi rç^neivM o imigo. 

36. Do Lutano. Do moço .Ilustre, 

37. De Gastella. Castelhano. 

38. Segurança. Confiança. 

4o. Inclinado, «/ii entregado. Submettido. Offremd^ 

4a. Orgulhoso. Ditoso, 

43. ISaquelle Deo9. iVo summo Deos, Por muito mui 

doudice. Por mais temeridade, 
44- ^6is saõ os Mouros. J7ef5 Mouros saS, 

45. Ao Príncipe, u^ Afonso. 

46. Por Dom Afonso Rei. Por Afonso alto Hei. 
49. O cego mato. O seco mato. Estiondó. Estridor. 
5 1 . Que -podiam mover. Para se desfazer. 

55. A secca Arronches. A forte Arronches. 

56. Fortes. Nobres. Forte Mafra. Também Mafra. 
58. Povos. Muitos. Mouros. Muros, 

Bg. Claro. Cheio. 

60. Que o Rheno, Albis, e Ibero. Que o Ibero o viOt 

e o Tejo. 
62. Sobre humano. Mais que humano. 

65. Vence hum grande. Desbarata hum. 

66. Sessenta mil peões de seda. Jnnumeros peões de 
armas. Valentes. Guerreiros. 

67. Dava o Principe indignado. Affonso súbito mo^ 
strado. Na gente que passava. iVa gente dá^ que 



VARIAS. a33 

passa. Húus captiva, ontros mata.\F4$iv mata, der-- 

riba. Já foge o Hei qnefiò. foge o liei Mouro', e só, 
68. Paz Augusta. Badajoz, 
77.. Dura tuba. Ronca tuba. 
79. Força. Esforço. Daqui se colhe, que todas as vezes 

que o Poeta usa da palavra ^br^ra entende por ella 

fortificação^ ou cópia. 
83. Próspero. /'n/M^e. ' 

88. Famosa. Formosa. Que trouxera o contraste. Que 
viera por contraste, 

89. Gallega. Soberba. 

90. Que de antes os perros. Porque d* antes os Mou*' 
ros. O deisáram. O pagaram, 

93. Sublimado. Costumado, E de Senhores. A Senlto^ 
res. Naõ he. JVaôfor, • 

96. No Beino já tranquíllo. IVa terra jd tranefuilla. 

97. Delphico. Soberbo, 

99. Que nunca foi. Porque naõ he. 

100. Exército. ^ar6aro. 
loi. Muita. Grpnde, 
103. Paternos. Patemoe^. 

I o5. Os versos desta Est. tinham no Manuscripto a se- 
guinte collocaçaô : 

Por tanto, ó Bei , de quem com poro medo 
O corrente Moluco se Congela; 
Se esse gesto que mostras claro y e tédo, 
De pai o verdadeiro amor asseia; 
Rompe toda a tardança : açude cedo 
▲' miseranda gente de Gastei»*, 



>^ LIÇÕES 



, pH; qne lOMô corret, 
fís*f «t ^pN wtA aches qaem aoccorres. 

' ;^ !k Mk Tenos. A trUu Vénus, 
'o^ Trlfc>i*mr Coalhados. 

■ O irtK» c gentil Pastor. O Pastor inerme estar. 
O «MA». O fraco. 
•■^ A gente. Ao Reino. 
M^ A que. Alli. 

\ 14» Tamanha presteza. Esforço tamanho. 
Naõ lhe vai elmo, malha. Sem lhe valer defeza. O 
duro. O forte. 

1 1 5. Altos Reis. Fortes Reis. 

116. Terça parte. Quarta parte. Três molós. Alquei- 
res três. 

117. Esta Est. naõ se via no Manuscripto j e o Poeta a 
acerescentou depois. 

1 20. Ledo. Doce. Doce. l^do. Só o soídoso campo. iVbí 
campos saudosos. 

Pondera Manoel de Faria e Sousa neste lugar, que 
em tempos mais antiguos senaõ dizia em Português 
saudoso, e saudade, mas fim soídoso, e sotdade, 
termos que elle tem por mais expressivos : diz mais, 
que no seu tempo se conservava ainda na plebe o 
uso destas duas ultimas palavras; concluindo, que a 
impertinente e afifectada elegância dos cultos, antes 
que a humilde e syncera simplicidade da plebe, era 
quem corrompia , e pervertia mais o uso natural dos 
Idiomais» 



VARIAS. s35 

ia 3. Por tirar ao. Por lhe tirar o. Do poder MoorO' 

seja. Do furor Mauro fosse, 
134- Baixa. Crua. ^iòÁosiàs. Piedosas. 
125. Que já as. Por^ae of. 
i3o. Por bõos taes feitos. Por bom tal feito aUi. Feros 

Feroces. 
i3a. Duros. Brutos Na marmórea colmnDa. Dfo m)lo 

de ídaòastro. Fingindo. Banhando, 
i33. Grua. Sceua, 

134. Assi está^Doiorta a misera . Tal está morta apallida. 
Linda. Viva, 

1 35. Longamente. Longo tempo. Gentil. Fresca, 
i36. Pedro naõ visse. Naô visse Pedro. 

1 38. Viciosíssimo. Sem cuidado, algum, 

1 39. Hum Iraco. Hum baixo, 

1 40. 1 41 • Estas duas Estancias naõ estavam no Mana- 
scripto, e foram depois accresceutadas pelo Poeta. 

i4a. De hum vulto Meduseo, sereno ardente, yulta 

de Medusa propriamente. 
243. Riso; Gesto, 

GANTO IV. 

1 . Rei perdido. Bei Fernando, 

2. Da fraqueza, ou descuido. Descuido remisso. Pou- 
cos dias. Pouco tempo. Que este sò era entaõ do 
Reino. Por Bei como de Pedro unicQ^ 

4. Também. Entaõ, 






>36 


LIÇÕES 


1 


7. Se mono Conde Aniieiro. Se a a 

8. Que do antiguo BrÍRO nome ton 
dado, Que de hum Brigo, iKfoi.ja 


OU, depofem 
ttfeonomtár 


Hs-aJo. Daí Cidades, e Villaa, que 


Das terras tp 


FírnnnJo.eçD 


. Com rama honra 


Banhou. GaM 


™™ Jo Tj-rann 
g. 4)ivi»a. Insign 
ia.' Toledo, obra 

11, Agoeiraraoi 


anligna de Brulo. Toledo, Ciátà 
em as trea. Mavtm da guerra ai M- 



'. Moradores, Malaãores. 
IJ, O bravo, Opaiiio. 

16, Claros. íeTOj. Venceram, if^mce.Hes. 

17, Cflehraãoí. SuòíímaJoi. 1 
■ 0. OsBrigms,í-.ífí, | 
ai. Aqnella geme esforça Nuno, De-tla arte a gena 

/„,.,.,,/■■,«-■ nr.,.. 

3'!, Cada ham se armava, comalbr jinna-se tads 

i/ual como. 

34, GalloB. Francaes. 

a5. AmaõVazde Almada o. jintaõ Vasques de Al- 
mada he, Abranlei. Abranches, Claro. Forte. 

36. Gloiio^nt, Bellicosas. A^vina.Defronte.Maíiaaiot 
he a medo qne. í" lodos grande dúvida. 

iS. Lusitana. Castelhana. Terrifico, Terrivfl. 

ag. \^\\&3. Daviãa. 

3a. .lullo Maf^no. Júlio, e Mngno. 

53. O forte. Onobnt. ■ 



36. Ferida. Parida, 

37. O monte bello, e os Sete Irmãos. Om montes Sete 
Irmãos atroa, e. 

4 1 • Do vulgo , em fim , que naõ tem. Também do vulgo 

vil sem. Do Brigo. Do inimigo. 
44* A in&usta sede. A sede dura. 
48. A Fé de Ghristo ^ st Fé. A Lá de Christo , a Lei. 
Si. Nesta Estancia £dtaya no Manuscripto o verso 6. 
53. Porque Hespanha naõ perecesse. Porque se Hes» 

ponha naô temesse. 
54« Vencer-se de ninguém. Poder ninguém vencer. 
58. No Beino. JVos Reinos. 
61. Com presteza. Celebrada. 

63. As ondas Adriaticas. Pelo mar alto Siado. Pelo 
mar de Canopo ás costas. E daUi as ribeiras altas, 
Sobem-se a. Sobenu^e d. 
63. £ vendo as altas. Ficani^lke atraz. Denraz o monte 
Gaspio lhe ficou. Que o filho de Ismael 00' o nomo 
' ornou. Vendo-a a Felice a. Feliz, deixando a. 
67. £ como nunca já do. O qual como do nobre. Dei- 
xasse de ser hora , nem. Náô deixasse de ser hum, 
69. Debaixo; Diante. Largas. Claras. 
74. Primeiro. Com tudo. 
75.' Garo. Escuro. Bubicunda. Pudibunda. 
83. Entrambos de ousadia. Ambos saó de valia. Pri- 
mor, Furor. 
84> Bica aréa. Branca aréa. 
85. Nos Geos. No Oljrmpo. 



fS« &içdfis 

6o. Anfe. JVtw. • * ' 

88. Dm frmdfii Mffe offioío. i)to Md Ml%MMMt. ' ' 
^S» Hum Yentò« Suma aura. ■ ■ 
96. Chamaste. Chmnamr4e. 
98. Deiíoo. Deitou. 

100. Gomnosco. Comtigo.WHeik9ã,SHepor, 
i09« Facundo. Profimdo. 

lo3. A todo o. Para o. Da antcndimeiítA. JDa «llOfid^ 
*^*o#. 

CANTO V. fl 

I 

1 5. Esta Estancia naõ estaya no Manuscripto , e oPoeta 
a compoz de novo. ' 

18. Falsas aguas. ^Itas ondas. 

19. No mar. 2Vo ar. 
a a. Toma. Tira. 
^7. Depressa. Por^rpa. 
a8w Que o mdo. Que o bruto. 
3i. Diz. Cre. 
33. ^ resposta lhe dêmos taô crescida. Neste lugar dá 

Manoel de Faria e Sousa, que tanto na primeira 
Ediçaõ, como no Maiiuscripto de que usava, se lia 
em Iu{;ar de crescida ., tecida ^ mas que elle, por naõ 
entender bem o que fosse resposta tecida, e por at- 
tribuir isto a erro de Impressão, ou de Amanuenses, 
emendara, e puzera em lugar de tecida ^ crescida. 
£m obsequio da verdade, e da obrigação em -que 
estamos a este insigne Escriptor, cuja memoria 



sempre respeitada entre os Sábios j confisMaremosem 
todo o te^po , que Manoel de Faria e Sousa foi quem 
mais trabalhou e se cansou para que tivéssemos hu- 
ma Ediçaô a mais certa, e a mais exacta das obras 
deste Poeta ^ mas também naõ so£&eremo8 nos diga 
absolutamente, que elle neste lugar emendara , e pu- 
zcra. Todos sabem que a primeira Impressão deste 
Poema se fez em Lisboa no anno de 1 57a em quarto, 
e que logo no mesmo anno, e na mesma Cidade, se 
fez segunda Impressão, mais correcta, e emendada, 
também em quarto. No anno de i584) doze annos 
depois da primeira e segunda Impressão, e cinco de- 
pois da morte de Luis de Gamões^ em Lisboa , por 
Manoel de Lyra , sahio o mesmo Poema ingresso em 
oitavo, com humas breves notas. Cremos que esta 
fosse a terceira Ediçaõ, da qual presentemente te- 
mos hum exemplar diante dos olhos, onde no Can- 
to V. , Estancia xxxiii. , verso 4- 9 ^e acha : 

A resposta lhe dêmos taõ crescida. 

Poucos annos depois, que foi no de i6i3, sahio 
posthumo o chamado Commento de Manoel Corrcai 
e esta Ediçaõ, que também temos presente : nos mo- 
stra o mesmo verso, da mesma sorte impresso : 

 resposta lhe dêmos taõ crescida. 

Todas as outras Edições (trabalhadas mais pelo in- 
teresse de sórdidos Impressores 9 jBÉMb s^^o ^^ 




i4o * uçAs» 

credito do Poett ^fmèm N«^5) , dat^pMWt tw oty» 
«entemente a^miior parte', not doram aonpr« a »• ! 
ferido Tersocom a palavra teeidm, cte Ingaríle mm 
dda^ admirando^nos naõ ponoo^ de qae «m^h— 
assim se ache na impressão de ^609 dedicada for 
Domiii||DS Fernandes a D. Rodrigo daGnnJia, ^ 
depois fs Arcebispo de Lisboa ; por ser esta ssb 
controvérsia a mçlbor, a mais cefta , e a mais eoÉ 
pleta (á excepção da do mesmo Faria), que te fa i 
deste Poema. De tndo o qne fica dito Isrá o Leitsr 
sen juízo ; advertindo ser provável , que aqneUes doni 
Editores de 1584) e i6i3, como contemporâneos do 
Poeta, achassem originaes seus, ou pelo menos vis- 
sem copias inunediata e fielmente extrahidas delleS) 
e que por isso nos dessem naquelle lugar a palaTit 
crescida, em lugar de tecida* 

39. No mar. IS o ar. 

43. Sabei. Sahe. Vòs Cazeis. Tu fazes. 

45. A dura Quiloa aspérrima. A destruída Quiloá 
çom. 

49. Temeroso, e ronco. Espantoso, e grande, 

5i. As costas. .^^5 o/u/of. 

53. Por guerra. Por armas. 

54. Naõ soube. JVaô pude, 

55. Linda Tethys inclyta. Branca Tetfys única, 
57. Vergonha. Deshonra. 

60. 'Toou. Soou, Me. Nos. Attendeo aqui o Poeta a 
«er guia de Vasco da Gaiuay particularmente o Anjo 



YARIAa 141 

Saõ Raphael , cuja imagem, oomo devoto sea, levata 
no navio, que também tinha este nome. 

61. Rutilante. Radiante. 

67. Co' o mar tamanha e^ço estava. Co* o mar pa- 
rece^ tanto estava. Romper. F^enoer. 

74< Invenção do sagrado. Encommendado ao sacro, 

76. AIgúus nomes Arábios. Palavra alguma Arábia. 

88. Que cantando. Que co' o canto. 

91. Da náo. Domar. 

93. Gomo a yez. Como a voz. E diz Faria que foi erro 
da penna. 

CANTO VI. 

I. Mouro os famosos. Pagaò os fortes. 

a. Sereno Rei. Famoso Rei. 

3. Do Mouro. Do Pa^aô. 

6. A forte Lusitânia. A gente Lusitana. 

S. Deoses muitos. Deoses do mar. 

9. Rutilante. Radiante. 
1 o. Da qual e. IV'a qual do. A mui. A taâ. 
i4' Esperando. Aguardando, 
18. Mexilhões. Breguigôes. 
21 5. Enriquecem os. Em riquíssimos, 
26. Faltavam os versos 5.y e ô.y que o Poeta aceres- 
centou. 

38. N^outro tempo. Com raxaô. 

39. Taõ grandi&simas. E insolências toes. 

3o. Que de hum meu Capitam. Que de hum vassatlo 
meu. 
2. 




i4i LIÇÕES 


^ 


Si- 


Aquelles. Oi n/mW. 




4 


sa. 


QuB Jupiler. Çue g/BO 


Senhor. 


N.ôpo, 




Leiíau yoc cato 0. Como lhe 


btmpare 


C,OÒ^ 


38. 


Fundo ponlQ, Fundo agu 


Oto. Bica 


. Lassa, 


39- 


Bem. Mal. Seus. ;»<:. 






40. 


Enganar. Poisar. 




\ 


70. 


Desta arte Brrazruvam i 


ÍGiando , 


quacdg 




lejre paiso assim promptot 


eitarijo. 


eu. . 


?'■ 


A rasgam. Afazem. 






71. 


Tardando. Ctisanão. 




^ 


75- 


Rijos, Duros. 







75. Brados, Gritos. 

81. O Astiifero Polo, Os Ceot, c mar, e Urra. 

91. Baiia. jilla. 

Aqui daõ bm as Limões TÍrias do primeiro A 
scriplo: seguem-^ agora asdoseguodoj noqua 
obstante estar viciado por Maooel Corrêa Montei 
de quem havia sido, sempre Manoel de Faria obs 

as mudanças que se seguem, 

CANTO I. 

4, Musas do Tejo. Tágides nãnhas. 

9, Bello gesio. Tenro gesto. 

10, Materno, Paíemo, Paterno. Si^rno, 

16. Remate, £neío. O colo mosira. Mostra o pc 

31, O iiUatcúcoPQlo. O uíutíiv ttm. 



VARIAS. ^i% 

as. 9ei«no. SBuero. 
49. De prata. De vidro, 
5S, t)e Phebe. Da Lua» 
^1. Náutica. Marítima. 
67. Bestas. Areos. 
8g. Estouro, ^nu/o. 
io6. Verme. Bicho, 

CANTO 11. 

I . Deos Neptuno. Deos Noctumê. 
43. Segredos. As entranhas, 
53. Hum coração taõ inclyto, e valente: Tanto hum 

peito soberbo s e insolente. 
53. Nas intestinas guerras venturoso. Noê Cit^ Ao- 

cias, ect, 
56. Manda o bem fallado. Manda o consagrado, 

. CANTO III. 

49. O gado. O fato. Fato aqui está pelo mesmo gado, 
parque em phrase pastoril isso mesmo significa. O 
mesmo Poeta na Eclog. VI. diz : Do seu gado ^ epo" 
brefatoi: 

7 1 . Que teu sogro victorla alcance indina. Ter teu so-- 
gro de ti victoria diha. 

84« Os saudosos campos. Os semeados campos, 

ç)'j, O supremo exercício. O valeroso officio. 



BÍ4 LIÇÕES 

ii6. Em cruenlas rapinas. Nax rapáuu a«r«dj 

140. Desie TÍcio. iJopcícaiJo. ■] 

CANTO IV, 

I. Tiat is ytxeí a ^a\. Trás a manhãa serfíuA 
16. Venceram, fcncettes. ' 

39. O sangue ardente. O fogo arJaite. i 

GÃHTO TI. ^H 

31. Atabaslrino. Crystaliino. ^P^| 

80. Firmei, felkas. 



•}l^, Verme. Bicho. 

•}•}. Dekamvelkofãeiemblaitutoíierano.Ksu 
assim ^e ler-se , « naõ como vai no seu lug: 

CANTO Vlil. 

5. Esquadras. BalaVuu. 
61. Preciosos. Vateroios. Liga. lÂa. 
64- Queo espiíiio divino Ibe infundia. Quefeiai 



o ptUo íJuro a barra. 



Varías. 545 

X7. Que nâõ lhe cabe o coração no peito. Que o cO' 
raçaô para elle he vaso estreito. ^ 

3 1 . Grandes dúvidas, e contendas, houve em todos os 
tempos, entre os Gommentadores, e Editores deste 
Poema , sobre a verdadeira , e ^renuina liçaô do ver- 
so 6. da Estancia xxi. do Canto IX. E principiando 
pelo Mannscripto de Manoel Corrêa Montenegro, 
com cujas lições várias vamos continuando; nelle, 
aflirma o mesmo Faria e Sousa , que se lia o tal verso 
desta maneira : Co' o terreno que cerca o grão Pro^ 
teo. Na primeira Ediçaõ, que foi em 1572, se lê: 
Da primeira co' o terreno seio. Na segunda , feita no 
mesmo anno : Da mai primeiro co' o terreno seio. 
Na de Manoel de Lyra em 1 584 • Da primeira co' 6 
terreno seio. Na de Domingos Fernandes em 1609, 
dedicada a D. Rodrigo da Cunha, que depois foi 
Arcebispo de Lisboa, que he á mais estimável, e 
correcta, e de que já acima falíamos: Da mái pri- 
meira co' o terreno seio. Depois em 161 3. veio o ce- 
lebrado Gommento (assim chamado) de Manoel Cor- 
rêa, que se imprimio posthumo; onde sobre -esta 
Estancia novamente teimou o mesmo Corrêa , que 
havia de ler-se : Da primeira co' o terreno seio; po- 
rém reconhecendo que o verso ficava desconcertado, 
e perdido, para sustentar o seu delirio, sahio por ou > 
tra vereda; e sem mais se embaraçar, nem dar al- 
guma satisfação, em quanto á intelligencia do lugar, 
e ao sentido e contexto delle, que fica ainda mala 



»46 XIÇÕES 

peitilido do qe» o mesmo verso, pMKm m dlnr, qm 
o Terso para fioar certo, ae liaTiam dè e a aw wf t| 
pronanGiar s^Miradamente as duos vogaes ({no oos 
stitQem o diphthongo ei na ptlarra primeinL Nota* ' 
vel caprícbo ! Na verdade qne a mn^ruem too aindt 
ao pensamento, que se haviam de pronanoiar çam 
áous sons diversos , duas vogaes em hum. dipháionp. 
Pertendia este Author, por estas contas, que o td 
verso se escrevesse e pronunciasse desta sorte : Dê I 
prime4ra co* o terreno sào. Com estes e aemdhaa- 
tes desatinos concluio o bom Corrêa, que assim o - 
tinha ouvido ao mesmo Poeta. 

Depois da Ediçaõ de Manoel Corrêa notavelmente 
se multiplicaram as Edições até aos nossos temposj 
e como a má semente pega , e produz com facilidade, 
em quasi todas ellas se lê este verso com esta mesna 
alteração, e com este mesmo vicio. Alguns que qui- 
seram fugir dellé, ainda cahíram em erro maior, e 
depravaram mais aquelle lugar do Poeta, proda* 
zindo-^ desta maneira : Com a primeira do terrena 
seio. Assim se acha na Ediçaõ de Paris de t759.,e 
em outra que posteriormente se fez logo em Lisboa. 
Mas oxalá que só a este se reduzissem os innumera- 
veis erros destas duas ultimas Edições! He digno de 
particular attençaõ, e de muitos louvores, o jucb- 
ciòso Traductor Italiano Carlos António Paggi, por- 
que havendo de passar este Poema para o seu Idio- 
ma, senaõ fiou ahi de qualquer eiemplar j mas teve 



VARIAS. a47 

á advertência, e prevenção, de procurar hum dos 
mais certos, e mais correctos (que soube escolher, 
merecendo-nos por isso esta especial memoria), e 
que lhe desse huma líçaõ a mais legítima, e verda- 
deira. Da Traducçaõdos quatro versos últimos desta 
Estancia o colhemos , que he como se se^e : 

Ghc nel Regno hà pur molte , a cui confina 
De la madre primiera il terren piano , 
Oltre di quelle, che le diè la sorte 
* Df sommo pregio entro V Erculee porte. 

Naõ se pôde certamente dizer outro tanto da traduc- 
cão Latina , que deste mesmo Poema fez Fr. Thomé 
de Faria, aliás benemérito em outros estudos, e em 
outras Faculdades j pois prpcurando-se nella este e 
outros lugares do Poema, em lugar de se achar o 
que o Poeta escreveo, acham-se cousas que talvez lhe 
naõ passariam pela imaginação. 

No meio de todas estas desordens, destas negligen- 
cias, c destes descuidos typographicos, appareceo no 
Mundo Manoel de Faria e Sousa, Varaõ (a pezar 
da inveja, e da malevolencia) verdadeiramente con- 
summadoem todo o género de erudição j o qual, de- 
pois de consumir mais de vinte e cinco amios, como 
elle mesmo confessa, em trabalho, e estudo, para 
poder entender e commentar este Poeta; e depois de 
ter Visto e examinado tudo o que podia conduzir para 
o fim que se havia proposto, deixou' assaz provado, 



»4S LIÇÕES 

e estabelecido, qne o yerio de que trtftáiòs te i%w 
TÍa ler : Da mãiprimeira co* o terreno seio ; vltto que 
o contesto naõ pedia outra cousa; yisto ser este mo- 
do de dizer próprio do estylo do Poeta; visto que as* 
sim se lia na segunda Ediçaõ do Poema; e TÍsto ser 
esta milito mais estimável, que a primeira; porque 
além de ter também a assistência do Poeta, qne en- 
tão se achava já em Lisboa, se observava tinha st- 
hido consideravelmente emendada dos muitos erros, 
e falias, c[ue, ou por malícia, ou por ignorância, 
lhe tinham deixado ir na primeira. O mesmo que 
Manoel de Faria practicou com este lugar, observoa 
cm outros muitos do Poema, e Rhytmas do mesmo 
Poeta, restitui ndo-os á sua primitiva e legítima iíH 
teireza , e tirando-os daquelle estado depravado, e 
corrupto , em que os tinha posto o desleixam ento e 
incúria de Impressores bárbaros, e imperitos. Mas 
qne se seguio de todas estas £adigas litterarias, com 
qne Manoel de Faria e Sousa illustrou a este Poeta, 
e a Pátria •* Por ventura esses lugares restituídos á 
i^ua legítima liçaõ, passaram com a mesma integri- 
dade ás Edições que posteriormente se fizeram ? lu- 
rum ad lapidem. For.im amontoando erros sobre er- 
ros, de sorte que em huma das Impressões, que ul- 
timamente se Bzeram em Lisboa , houve curioso , que 
só no primeiro Canto do Poema numerou cento e 
tantos erros, entre os quaes (como vimos) havia naã 
noucos de versos inteiros. 



VARIAS. a49 

Naõ nos parece justo molestar o Leiter eom mais 
largos discursos a este respeito; maiormente adver- 
tindo-Dos a pouca efBcacia das Bossas palavras, do 
pouco fructo que tiraremos nesta parte. Certificados 
disto, contentar-nos-hemos, já que a debilidade das 
nossas forças nos naõ permitte conseguir outra cou- 
sa, com que haja huns poucos, os quaes, reconhe- 
cendo este nosso trabalho, ao menos nos louvem o 
zelo com que sahimos a campo, para pôr na sua de- 
vida inteireza o credito do nosso Poeta , tantas vezes 
arruinado nos innumeraveis erros de péssimas Edi- 
ções. Sò por fimaccrescentaremos, em quanto para 
a intelligencia do presente lugar, que o que Yenus 
. dizia a seu filho, tinha para recreio dos Portugue- 
zes^ depois dos immensos trabalhos de huma taõ di- 
latada e perigosa derrota, era huma das muitas Il- 
has, que ella dominava naquelles mares Orientaes 
(a que chama Reino, e o he de Neptuno para com 
os Poetas), que confinavam com o terreno seio da 
primeira mái. Mais claro (para ver se de huma ves 
a ignorância deixa de ser ignorância); que confina^ 
vam com o Paraíso Terreal, onde esteve Eva, pri- 
meira mãi do género humano. Seguia o Poeta a opi- 
nião de muitos Authores, e ainda Santos Padres, que 
fundando-se em algumas razões de congruência , se 
convenceram, e affirmáram^ que o Paraíso Terreal 
fora naquella parte do Mundo, que depoi&se cha- 
mou Ásia. 



a5o LIÇdEB ^^AfelAS, 

43. EnttLÒpnàico.E impudico. 

49. Faça quanto a Yirmdflllieaittoestt.^Ai^^Mnft 
lhe Vénus ãmo^ita. 

Sg. Éscondei-Tos dós damnos; que 00' «os bieái. Enr 
tregai-vo» ão damno, tftie ^ Qt hieoãi Téésêb n 
firacca os panares inicos. £fn vósfitsem oêpéÊUâm 
inicòs, » 

O tetto dos quatro versos últimos detCft ÉttAncii 
te ordena desta maneira r E vós, ptíruf^yrmmãm^ 
sè tfuizètde* viutr na vossa fieundã planta, cMDv*''! 
gai^uos ao ãamno , epie com os seus bicos ífosfasef^ 
os passaras trat^essos. Três figpiras Rhetoricas obscp- 
Tou o Gommentador Faria que o Poeta usara neste 
lugar; Apostrophe, tornando a fellar com as peras; 
Prosopopéay aliando com o insensível, e inanimi" 
do, como se tivera alma; e Sarcasmos, espécie de 
ironia picante, dizendo ás mesmas peras que se en- 
tregassem ao damno, quando o intento do Poeta <?* 
persuadir-lhes que fagissem delle. 

76. A fortaleza. A natureza. 

91. Que Neptuno. Qmc J^i/^tter. 

95.; Da fama. De Vénus, 

CANTO X. 

4. Néctar. Ambrósia. 
S8. Tremendo. Turbulento. 
104. Deitada. />eúra<2a. 



INDEX. 

DE TODOS OS NOMES PRÓPRIOS 

QUE SE CONTÉM EM ESTE POEMA, 

BECOLHIDOS E OBDEKADOS POR JOàÕ FHÀ.IIGO BARRETO. 



., A. ■■ 

ABASsiA, parte de Africa, dúj^da de Arábia com 
as portas do mar Roxo : cujo9 Povos se chamam 
Abyxins , ou ■ Abassis , sujeitos ao Preste Joaõ , 
hum dos grandes Beis do Oriente, e dos mais 
poderosos de Africa , pfrque tem debaixo de seu 
mando mais de quarenta Reinos. 

Abrahaõ, primeiro Patriarca: he.a saber, o primeiro 
dos pais : do qual e de Agar soa escreva , dizem 
os Mouros que procede Mafamede. 

Abranches, Lugar, e Condado de Franca. 

Abrantes, Villa de Portugal , junto do Rio Tejo. 

Abyla, monte de Africa, sobre, o qual está a Cidade 
Ceita, pertencente aos Reis de Portugal. Chamam 
os Authores a este monte Golumua de Hercule, , 



iSi INDEX 

Ãrtiiis gafrraB,as qae liouve enlre Ãngugto, e 
Auiodíq , DO Cabo Figalo , que os Antigos dia- 
luavam Aepio : cm aa quaen Marco AnU)mo,i 
Cleopalra, RbídIis de Kgypto, firam dt^sbarauukl, 

Achemenia, Regiaõ da Pérsia, ande se tiazoin ai n(- 
lliores alcatifes, e tapeçaria do Mundo. 

Arherame, rio Internai, segundo fingem os Poeus. 

Ichilles, prmcipe Grego foriiasimo filho d« Peit», 
Réi de TheÚBlià , e de Tethjs tilha de Chlnm. 
Matou-o Paris eoganosaineote em Tróia , no um- 
plo de Apollo, onde bavia ido sobre o conccrlo 
de rasar âtm Policeoa , filba de rjiaiiio. 

Acidalia, sobrenouc de Veau», diila assi \iai hnnia 
louie deste nome, que eslá cm Beócia, Qoude I 
lavaiD us Graças S4cd içadas a Vénus. 

Acroeeraunios, montes de Epyro, a que hoje cbi 
mamos Albânia. Os Poetas os chamam Lolamcl 
pelos naufrágios tpie allí acooiecem. 

AcrisD, Rei dos Argivo-if filho de Abanie; o quil 
querendo ler a Danae sua fillia rerolliid» , e gua> 
dada , a meteo u^huma lorre, qoe algúuii quereis 
fbsae de metal; porém nem isto lhe valeo, porque 
JupiLcr convertido em rhoTa de ouro eutrou aa 
ca„.ara, e boiive delia n Porseo. 

Aeteon, filho de Arisleo, e Aiitnno^ do i^ual can' 
tam 09 Poetas, que chegando a beber em hnitu 
íonte, TÍo a Diana , ijue os Amidos tinham pv 
iioi» lia ■»{■ , a ^oal se estafa lav audu com «bm 



DOS NOMES PRÓPRIOS. a5) 

compaheiras^e sentida de Acteon a ver em aquelle 
estado , o converteo em cervo ; e logo visto de seas 
cães, foi por elles mesmos despedaçado. 

Adaõ, primeiro homem, e primeira figura de Deos j 
viveo 980 anãos, e esteve no Limbo 5^3 1. 

Adamastor, hum dos Gigantes filhos da terra; os 
quaes tendo guerra com Júpiter, foram vencidos, 
e sepultados debaixo de diversos montes, como 
Adamastor tranformado no Cabo , e commum- 
mente chamado da Esperança. Do nome deste 
Gigante se lembrou Sidónio , e Carlos Estephano 
em seu Diccionario, aindaque Claudiano, e outros, 
o chamam Damastor. 

Adem, cidade na Arábia Feliz, situada ao pé de húa 
serra, a quem os naturaes chamam de Arzira, que 
he toda de pedra viva , sem arvore , nem herva 
alguma. 

Adónis , bellissimo mancebo , filho de Ciixara , e de 
sua filha Myriíia, a qual foi convertida em huma 
arvore de seu nome. Foi este muito amado de 
Vénus. 

Adriática Veneza : chama-se assi esta Cidade por 
estar fundada no mar Adriático, o qual se chama 
assi de huma Cidade por nome Adria ^ que anti- 
gua mente esteve entre as bocas do rio Pò, do que 
agora naõ ha rasto. 

Africa , nome da terceira parte do Mundo , e de huma 
Cidade principal delia. 




AloTiso segundo : o quai-ln, tilho d'Elll« 
o cjulaiD , eiho d'ElRei U. Duanc. 

Ag^iiiippe, foDtG de Bcoda, dedicada ás- 

AgHT, escrava de Alii-ahaõ, da qual dixei 
lo-^ que proredeia , e assi se cfaamail 
.\{iar, e AdiireiHls. 

A^rijipiria , riiãi do Imperador Kero. 

Ãwcc, mho de Thelamoii , e de Hetíoaã 
I.aainídonie. Foi o dibí9 Tslero^o e eal 
imioa ofi Grcgoi, deçptiÍ5 de AchiUes. I 
díi , que ci,.,o ( Achillc, morto ) pE 

iiTiiiuoK dos Jriizes CTrc|;QS para que n e1li 
sem, enduudereo depaitaõ : e enrendenc 
lava a Ulysses, c seus companheiros, mi 
^ado , aié que se maioii a si mesmo : de 
{;uc, dizem 09 Poetas, Baliio a flor Hja 

c lia boca da enstada Cauchicbina, em 

Alfinqner, Vílla de Portugal. 

Albii, hum rio de GermaDia , chamado n 



nos NOMES PRÓPRIOS. a55 

Eiva , ou Elba : o qual nasce em os montes que 
dividem a Bohemia e Moravia , de Suevia , e pene- 
trando a Saxonia entra no mar Oceano. 

Albuquerque : he o grande Afonso de Albuquerque, 
que succedeo a D. Francisco de Almeida na gover- 
nança da índia. 

Alcaçar do Sal , Villa de Alemtejo. 

Alcino, Rei dos Pheacos, na Ilha Corciza, diligente 
cultivador de hortos, e pomares, o qual recebeo 
em sua casa a Ulysses affiigido , com seus com- 
panheiros , humanissimamente. 

Alencastro : foi este Duque sogro d^ElRei D. Joaõ 
o primeiro, e irmaõ d^ElRei Duarte de Inglaterra. 

Alexandro, cognominado o Magno, foi liberalissimo. 

Alcides , cognome de Hercules , de Alceo seu avô , 
ou de Alcy, dicçaõ Grega , que significa vigor, 
ou força. 

Alcmena, mãi de Hercules. 

Alcorão': he entre os Mouros o livro de sua seita ma].* 
dita , com^sto por Sérgio Mónaco , em o qcial poz 
algumas cousas da Lei Mosaica, algumas da Evan- 
gélica, e muitas falsas. 

Alecto , huma das três fúrias Infernaes. 

Alemanha, Província de Europa, bem conhecida, 
cheia de Principados potentissimos , de Cidades 
grosissimas, povos, e mantimento infifiito. Primeiro 
foi chamada Germânia. 

Algarves, Reino anoexo ao de Portugal. 




>S6 ISDES 

AlmeiJag : mei fbram Dom Franriíipo de Alo» 

primeiro VUorral da índia , e D. Lourenço d< 

incida SCD Glho. 
Aloe , {jenefo de pio, muito pelado, sernelhaol 

de Aquilo. 
Alphfo , Rio qoe nasce innio a Htli^, Ciilad 

tu tem-, rotre por baixo do diaõ, e do mar, 
gDÍHimo eupaçD, e \ai sahir jl fonte Areihus 
Sicilia ; dil-se agora vulgarmente Roses. 

AWaro. De dons fai o Poein mençaõ -. hum he 
Álvaro de Castra, filho do Dom Joaí. de Casl 
qual deixando seu pai em Goa , foi no mei 
InTeraoa foccorrer Dio: e oonOro, Álvaro de 
fa , on Alvará Dial ( tjae na rabrenome deg 
cordam Barro»., « G«ea ) o qnal cora Diogo I 
«a Corrêa, (ein,qne lambem os (obreditos v«i 
ficaram em Calecut por feitores, eui quanto 
fiuend' veodia. 

Amaltbea , filba de Meliuo, Bel de Greda , foi se 
de Jnpiter, a qual tinha faom corno, cbamado • 
mummeote Cornucopia, qae tudo o que que 
aebavam nelle. 

Amasis, Bio de Alemanha, (grande, e navegi 
corre entre o Db^io, eo Albii, enira no Oce 
junto B Efhdem, Helropolí da Phrysia Orienti 

Ambrósia , espécie de berra , semelhante ao A 
manjar (legundo ot Gentios) dos deoses. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. afií; 

Ampaza , cidade da Pérsia , nos confins de Ormuz. 

Ampelusa, Promontório entre Ceita e Tanger : cha* 
ma-se hoje a ponta de Alcaçar. 

Amphiòneas Thebas : contam os Poetas, que foi 
Ampfaion hum musico taõ cxcellente, que em 
tocando a sua viola, e cantando, o seguiam as 
cousas insensíveis, como pedras, páos, e outras 
cousas semelhantes, e que desta maneira ajuntou 
a pedra, com que fez os muros a Thebas, Cidade 
de Beócia, que hoje se diz' Estibes ^ e por esta 
razaõ os Poetas a chamam Apliiònea ^ na qual dizem 
nasceo Baccho. 

Anchises, filho de Capis, e pai de Enéas , ao qual 
houve na deosa Vénus. 

Andaluzia : segundo ElRei D. Alfonso o Sábio, he 
toda aquella terra que está desde o Rio Guadiana, 
até o mar Mediterrâneo, e desde o mar Oceano, 
até o Rio Xucar, assi como cahe no mar Mediter- 
râneo. 

Andromeda, filha de^Cepheo, Rei de Ethiopia, e de 
Cassiope^ e também hum Signo celeste., 

Annibal, Capitam yalerosissimo, natural de Cartha-^ 
go. Cidade antigua de Africa. , 

Antaõ Vasques de Almada, Portuguez 'valerosissimo, 
e hum dos doze Gavalleiros que forain a Inglaterra 
pedidos pelas Damas daquelle Reino, para as des- 
aggravar de certos Gavalleiros Inglezes que as ha- 
viam publicamente affirontado. 



•xTk. 



^58 fNDÈÉ 

Antárctico Polo ; Iw o Sol. 

Antenor, hum dos Principaei Troiailot, que 
ram por tralçBi^ Tróia ao« 4yi^egos; a qtiaj 
da, se acoAieo h Itália, e eMeoa no tonitdirlb k 
Veneta homa Cidade, <|ne d« teu nome aê 
Antenoria, e hoje Padna. 

Antheo, Gigante filho da terra, e primeiro fam 
de Tinge, qne agora se diz Tanger. 

António : ham be António da SylTeira , Oipjta: 
Dio, a qual e1I# deféndeo Talerosamente de 
maò Baxá, Bei do Cano, qne foi sobre ella com & 
velas de Turcos, e i3o6 homens, aos qnaes desbi- 
ratou com mUito pouco poder. O outro, Marco J^ 
tonio, Cidadão Romano principal, o qnál em coe* 
panhia de Marco Lépido, e de- César Octaviasi, 
teve o governo do Romano Império. Delle se cone, 
que erataô affeiçoado a musica, que por ouvir tw- ( 
vinhas, e chistes de Glaphira, dei^va a sua ma* 
Iher Fulvia." 

Anubis : em língua Egypeia significa cam, em coji 
fórma os Egypcios honraram ao deos Mercúrio. 

Aonia , parte montuosa de Beócia , em, a qual havia fab 
fonte , que todos os qué bebiam delia ficavaõ Poetai 

Apelles, Pintor exímio. 

Apenino , monte altissimo, situado justamente no mdo 
da Itália. Começa nos Alpes, e acaba no extresM 
de Calábria. 

ApiQ, foi Governador de Roma , o qual por qveitr 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 'xSg 

tomar huina Virgínia a seu marido, acabou mal a 
vida, preso em ferros. 
1 ApoUo, filho de Júpiter, ^de Latona, tido entre os 
^ Antigos por deos da sabedoria , dos Poetas , das Mu- 
sas, e se toma ordinariamente pelo Sol. 
Apúlia, Regiaõ de Itália, visinha ao mar Adriático, 
y Aquilo, vento SefMentrional. 

Ara, constelação celeste. 
. Arábia, Província entre Judéa, e Egypto. 
I Arábio, o natural de Arábia, donde dizem que era 

Mafisimede. 
I Arábica lingua, a lingua dos Árabes, chamados cor- 
ruptamente Alarves; e se falia, naõ sò em Africa, 
mas na Pérsia, é mtiitas partes de Ásia. 
; Aragaõ, Reino de Hespanha, cuja Metropoli he Ça- 
ragoça. 
Araspas, hum certo Medo, a quem Cyro Rei dos Per- 
sas deo a guardar Panthea, mulher de Abradatas 
Rei dos Susos, que captivára no arraial dos ássy- 
rios : e se houvera perder com ella, se o mesmo 
Cyro o naõ remediara, tirando-lba das mãos. 
Arcádia, Província da Moréa, dita assi de Árcade, 

filho de Júpiter, sujeita hoje ao Grão Gam. 
Archetypo, he o traslado primeiro, ou principal for- 
ma de qualquer cousa; e o Poeta o toma por Deos 
I^osso Senhor, Greador de todas ai^^usas. 
Arcturo, he huma estrella, na parte- Septcntriònal, 
que he o Norte, 



ft6o - . INDEX > ^ 

AretluiM, fonte à$ Sicilia, junto a Çangoçai 
qual foi contartida Arethim^ Nyinfií de ] 
anada de Alpbeo. «* . 

▲rgo. Cidade nM%ne de Greda, dedicada á 
JanOy dita aan do nonie d^ElRei Argos, que 

nella* 

Argonautas, íbram húos CavalleilM Gregos, q 
a náo Argoe fi^raõ na conquista do Velloc 
Golcbos. 

Argoa, a primeira náo qne (segando a Philo 
Ethnica) houve no Mundo, em a qual Jason 
companheiros passaram a Golchos a roubar 
locino de ouro : aindaque seg;undo as Divin 
trás, primeiro foi a Arca de Noe. Houve ta 
hum Pastor deste nome, filho de Aristeo, q 
zem tinha cem olhos, o foi morto por Mer 
andando por mandado de Juno em guarda 
amada de Júpiter. E he também Argos hum: 
stellaçaõ celeste. 

Aries, constellaçaõ na Zona tonida, a qual h 
dos doze Signos celestes. 

Arménia j Regiaõ de Ásia, entre os montes Ta 
Cáucaso, a qual se divide em maior, e meno: 

Armusa, Cidade antiga na terra de Magostaõ, > 
de Ormuz, da qual hoje naõ apparecem ma 
as ruínas. 

Aromata, he o cabo Guardafó,, non fim da te 
Africa , e no principio de Ásia. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. &6i 

'quico, Lugar de Ethiopia, sujeito ao Preste JoaÕ, 
e único porto de toda aquella costa.- 
*raçaõ, Reino que confina com o de Bengala nas 
partes da índia. 
Tonohes, Lugar de Alemtejo. 
'sinario cabo, he o que nós agora chamamos Verde, 
'sinoe, filha ou irmãa de Ptolemeo, Rei de Egypto, 
a qual fundou hum Lugar, que de seu nome se 
chamou Arsinoe, eagora Sues, na costado mar Roxo. 
*tabro, he o monte, a que hoje chamamos Gabo de 
finis terrae. 

^zíra, heliuma serra na Arábia Feliz, toda de pedra 
viva, sem arvore, Jiem herva alguma, 
jaboro, he hum Cabo, a que os nossos chamam 
Mocandaõ, no Reino de Ormuz. 
iia, a tercei 1*3 parte da terra em número, ainda que 
a metade en cant idade. 

ísyria, Provincia de Ásia, dita vulgarmente Soria, 
ou Suria. 

itianax, filho único de Heitor, e de Andromacha,- 
ao qual Ulysses lançou de huma torre abaixo, quan- 
do os Gregos entraram na Gidade de Tróia, 
itréa, filha de Astreo Gigante, e da Aurora; ou se- 
gundo outros de Júpiter, e Themis. 
jturias. Província de Hespanha, cuja Metropoli he 
Oviedo, aonde se salvaram na inundação dos Ára- 
bes^ aquelles poucos Godos que escaparam, e com 
muitas relíquias de Santos, 



36a IN^DEX 

Athamante, fbi^ oondiizidò por Jimn a tanta 
qae sahindo-Uie «o encontro sen fillio Lealoo, 
matoa; do que espantada e atemorizada Ino 
mulher, com outro filho Mdicerta, se lançoaMl 
mar : e £c»ram convertidos em deo^es marinlkoa. 

Adienas, Cidade na Grécia, domicilio antignaiMaiiJ 
de todas as doutrinas, aindaqne hoje de todo i 
truida. 

▲tila. Rei dos EBMlM, is de Dacia, chamado 
de Deos. ./ ' *..... 

Atlante, filho de Japeto, e Glymene, ou Ásia Nyv] 
pha , e irmaõ de Prometheo , £oi Rei «le Manrifif 
nia, Provincia de Africa, do qual se diz que tem* 
Mundo em os hombros. Este , avisado do Oraeds 
que se precatasse de hum filho de Júpiter, naõ di- 
va hospício a pessoa alguma , o que sof&endo nal 
Perseo, filho de Júpiter, lhe mostrou a cabeça à 
Medusa, e logo foi convertido em hum monte de 
seu nome , o qual he na Mauritânia , onde reinoUf 
e hoje se chama Garena , taõ alto , que seu cual 
nunca se mostra descoberto de nuvêes. 

AHropos, huma das três Parcas. Vê Parcas. 

Avàs, Povos do Oriente, sujeitos ao Rei de Siaõ. 

Augusto, significa lugar venerando, e sacro, com al- 
guma ceremonia : donde veio, que todos o sucoes- 
sores de Gesar em o Império até estes tempos, nó 
chamados Augustos, e o de quem o Poeta Su, 
çaõ ibi Octaviano. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 263 

!Aiirea Chersoneso, he Malaca. 

Aurora, filha do Sol, e da terra, mulher de Titam, 
e mãi de Memnon, Rei de Ethiopia. He propria- 
mente aquella claridade, que no Ceo apparece an- 
tes que o Sol saia. E neste Poema havemos de en- 
tender por Reinos, terras, ou portos da Aurora, a 
índia , por estar úo Oriente. 

Ausonia, foi antiguamente parte de Itália, hoje se 
toma por toda Itália. 

Austro, vento da parte do Sul, chamado vulgarmente 
Vendaval, 

Axio, rio, chamado hoje Brade, ou Yaradi, o qual 
atra'\'essa Macedónia. 

Azenegues, Povos de Africa, dos quaes se começa a 
terra de Guiné : he terra muito Êilta de agua, e 
mantimentos. 



B. 



Bahel , em vez de Bahylonia. 

Bahylonia, Cidade dita a grand», onde foi a ^rrande 
torre de Nembroth, pela qual foram divididas as 
línguas. Edificou a, segundo algúus, Semiramis 
Rainha do Egypto, com taõ admiráveis edificios, 
que com razaõ ibi contada entre as sete maravilhas 
do Mundo. Passa-lhe pelo meio o rio Euphrates, 
e antiguamente foi dita Memphis. 

Baçaim, Lugar entre Ghaul^ e Dio^ em cuja Fortaleza 



a64 lADEX 

h.-iTÍB 401) p«ras ie urtilheria, quando o grand 

Mimo da Cunha a lomou noauno de i533. 
Bacauor, Lugar da lodia, ua cosia do Malabar, 

cujo poria Lopo Viiz de Sampaio deãiruia bi 

grande nriuBda de paraoa d'EtBei de Calecul- 
Bacchd, liUio àe Jupiler, e de Semeie : foi o prim 

t|ue achou n triiiin]>lio, e modo de comprar, ent 

dor : a musica, e o u&o do viobo, do qual os i 

goa o (iiigíiaõ ieeí. 
Bactro, Rio na Regiaõ Baclriana de Ásia , o qual 

ee no nionie Tauio, e querem algúus ijue bojei 

chame Etachaia. 
Badajoz, Cidade de Estremadura, froaiMi'a a EI< 
Saldaina, hum eafiirçado Cavalleiro na tfinp 

Csrloa 11. Imperador doa Romanos, a quem .1 



a tilha, 



leJudirli 



sÚDicote dijB^imulou a attioula, mab com 
deo a tetra de Fraudes, que oaquclle leinpo 
sei'la,e elle a apruveiíau, e povoou. 

Banda , saõ cinco Ilhas, que caiilém este noc 
bitadas de Mouros, e Gemias, cnire Jaua, 
luL'o; em as qniaes ha muila iiot noscada, cujail 
vores saõ como loureiros. 

Barbaria, lerra.de Africa : oude amiguamenie £hI 
j\nlLco, hum dos filhas da terra. 

Barbara, lugar em Africa, mnilo abuudante, < 
qual o Capitam Aatomo de Sadaiiha ([ucíidod 
U! aio* ■ ^uros. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. a65 

Barem, huma Ilha de Ormi», onde se pesca o. al- 
jôfar. 

Baticalá, Fortaleza nâ costa do Malabar, algumas 3o 
léguas de Goa. 

Beadala, Cidade junto ao Gomori, destruída por Mar- 
tim Afonso de Sousa , Capitam mór do mar da ín- 
dia , em tempo do Governador Nuno da Cunha. 

Beatriz, foi filha d^ElRei Dom Fernando de Portugal , 
casada com EIRei Dom Joaõ de Castella. 

Beja, Cidade de Portugal, na Provinda de Alemtejo. 

Belém, acerca do nosso Poeta he a casa de Nossa Se- 
nhora de Belém, a que deo principio o Infante 
Dom Henrique, ennobrecida despois por EIRei 
Dom Manoel , sita no Lugar chamado antiguament- 
Restello, donde partem neste Reino todas as ar- 
madas para fora. 

Belizario , valerosissimo Capitam de Justiniano Impe- 
rador, o qual houve grandes victorias em Pérsia, 
e em Itália , e pagou-Ihe Justiniano com o prender, 
e desterrar. 

Bellona , deos^ d^s batalhas , irmãa e cocheira de 
Marte. 

Bengala, Reino Oriental, abundante, e rico ^ pelo ^ 
meio do qual passa o rio Ganges. 

Benjamin, Tribu entre os Hebreos, o<)U9l por for- 
çarem huma mulher do Tribu de Levi, acabou de 
todo,* e a terra foi assolada. 

^enomotapa ; ou Menomotapa , he o mc$mo que ea- 
3. "í^ 



L 



a66 INDEX 

tre ndi Impentdar, • h» nome do Benlior do g 
Reino de Soblli. 
Bethís, he o meniio que Gvodeiqpâiir, ri0 4t 

panha. 
Biblis, fonte da Bfesopotamk, wm m quàí §èà 

vertida Bibll, Sllia de Miiefo, a qcMiUnMiTft 

ao irmaõ Canno, de quem naõ eni amoda. 
Bintaô, Reino'da índia. •< 

Bipur, Lugar na' eoMa do IfalalMir. 
Biscainho, o natural de Biteaia, Provinda do Bm/^ 

nha, abnndantisstma de ferro. 
Bohemios, saõ os de Bohemia, Provinda de Evropti 

a qual fez Reino o Imperador Federíco. 
Bolonhez : este Conde de que o Poeta kiZ mençaO, fti 

Dom Afonso, irmaõ d^EIRei Dom Sandio de FW* 

tugal. 
Booies, constellaçaõ celeste, chamada O sete estrdbf 

e se toma pelas partes- do Norte. 
Boreas, he o vento que commummente chamam N<np- 

nordeste, e assi pelas partes Boreaes entendnrfDMi 

as do Norte. 
Borneo, Ilha muito grande, e muito fertil, e abui- 

dante de todas as cousas^ prindpalmente de cui- 

phora. 
Brachmanes : assi díiamam os Malabares aos aeoi Be- 

lígiosos, os quaes seguem a seita do Philoso^io Pf* 

thagoras. 
Bramas, Naçaõ sujeita ao Rei de Siaõ. • ' 



DOS NOMES PROPKIOS. ^67 

Brasil, ProvÍDcia oa America, chamada por outro 

. nome Sancta Gmz, o qual lhe deo Pedralves Ca- 
bral, que a descobrio no anno de i5oo. 

Brava, Gidadç na costa de Melinde. 

Bretanha, he Inglaterra. 

Briareo, Gigante célebre, filho da terra, do qual di- 
zem, tinha cincoenta corpos, e cem braços. 

Brigo, segundo algúas, Bei de Hespanha. 

Brussios, ou Barussios, Povos de Brussia, Província 
de Sarmacia. 

Busiris, foi hum grande tyranno de Egypto, o qual 
sacrificava os hospedes a seus Ídolos. 

Byzancio, he Gonstantinopla, Corte agora do Gra5 
Turco. 

c. .^ 

Cadmo, filho de Agenor, Bei de Phenicia, o qual indo 
por mandado de seu pai buscar a Europa sua ir- 
mãa, que Júpiter havia furtado^ como a naõ achasse, 
niem se atrevesse tornar a seu pai sem ella , fundou 
em Beócia á Cidade de Thebasj e como seus com- 
panheiros fossem já todos mortos por huma grande 
serpente, que sahio de huma fonte, onde haviam 
ido por agua, Cadmo em vingança delles a matou, 
e semeando seus dentes, nascerão delles homêes 
armados; os quaes pelejando entre si, se matáraõj 
excepto cinco, com que edificou a Cidade. 

Cairo, grandisiiima e admirável Cidade, edificada no 



I 






í6S . ■■IOT>«X. '' ' 

conç«6 de Ep||ilo, a '^ââXèSi^Êií t«lk de 

mos ambeUUiL ftb ttrtra át fHuite tMto, • 

mercio de toda Ada, Alrwa /è" &irí>|Mi. 
GalatraTa , o Mestre, de «{ite o Poela fiu mmpMli. 
Galayate, Ugpir dè feoòtofá patfm Òrmoi.: 
Calecut, Cidade do Malàbai:, e à mais rica é$ 

índia; da qual m cihamá Calecut toda aitoMtAj 

Malabar. ■■ "• ' ' • '^. 

Gallisto, filha de licaon, Rei de Aroadia,' 
•em Ursa por ivaio^ e dsl|N>Ís èm estrella por Japi* 

ter, a qual se toma pelo Norte. 
Callíope, huma das doto Musas, e a principal^ e 99Í 

invocada dos Poetas nos versos heróicos. 
Calp|, hum monte de Gibraltar, chamado Hercnlaes ^ 

donroeta, por se dizer huma das columnas de Her* 

çules. 
Calypsos, filha de Tethys, e Oceano, grande espèr- 

diçada de Ulysses, o qual a naõ largara nunca,» 

Júpiter, a requerimento de Palias, o naõ obrigara. 
Cambaia, Reino muito rico^ e abastado, pdò qual 

entra o rio Indo. 
Cambaio , he huma pequena nha jtinto a Codiim , onde 

Duarte Pacheco desbaratou três Tezes ao Samorim. 
Camboja, Reino marítimo ^ sujeito ao Reino de Siaõ, 

pelo qual (>assa hum grandissimo rio, chamado Me- 

com , que quer dizer Capitão dás aguas^ cnjo naf* 

cimento he na China. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 269 

Camenas, nome das Musas. 

Gampaspe, homa das furincipaes concubinas de Ale* 
zandre Magno, o qual mandando-a retratar por 
Apelles, vio o ao pintor taõ namorado, que lha deo 
por mulher. 

Ganace, filha de Eolo, Rei dos yeviHoa, a qual secre- 
tamente concebeo, e pario de Macareo seu irmaõ: 
e entendendo isto seu pai, mandou deitar os meni- 
nos aos cães, para que os despedaçassem : e to- 
mando Ganace hnma espada n^huma maõ, e a pen- 
na n^ outra, escreveo a seu irmaõ aquella carta, que 
Ovídio refere entre as Heroidas. 

Gananor, Reino da índia , na costa de Malabar. 

Ganará , saõ oâ moradores do Reino Risnagar. 

Ganareas, saõ doze Ilhas no mar Oceano, as quaes os 
Escriptores antigos chamavaô Fortunadas. 

Gancro, Signo celeste. 

Gandace, Rainha de Ethiopia, no tempo de Augusto; 
de taõ grande animo, e de tal merecimento entre 
os seus, que d^Hi por diante todas, as Rainhas de 
Ethiopia ébraõ chamadas Candaces. 

Gannas, Lugar de Apúlia, junto ao qual Annibal 
desbaratou os Gonsules Paulo Emilio , e Terêncio 
Varraõ, com morte de 4^000. Romanos, e foi taõ 
grande o número ào^ Gavalleiros mortos, que se to* 
máraõ três alqueires de annéis, os quaes sò a gente 
nobre podia trazer j e foi a maior perda que os Ro- 
manos tiveraõ em sua Monai.chia. 




Ganiulo, Lugwr de A|n?'fi| HT4nfrr%^^aanM'. .' 

Gappudocet, ot monidorat dq Çappt^oõik^ 
Natholia, qne.lMJe dwnuuiMMl Tnrqvia. . 

Carlos : de dons Ju o Poeta M6Éj||h6. firímniiu lAi | 
mado Ma^M>, Rei de,Fnii{a,.e Imperador 
tianisnno, filko de Piptno, é de Berta, fiftn^dlj 
Heradío Inpenidor de Comtantittopla. Q i 
Mm Carlos segundo, Imperador doe BÍDiiiuioiiyfd| 

. de Joditha, qae casou oom Buldoinoa. Vide M*| 
doSno, . ,....-. 

Carmania, RegjiaA da- índia. - 

Garpella, he o cabo Jasque, fora da garganta do ch 
treito PersioQ. 

Carthago, Cidade celebre de Africa, infesta aos Bo* 
manos, e em fim, vencida : da qual era na tarai t 
Rei bum dos músicos que o Poeta dis; be a saber, 
ktpas, hum dos competidores da Rainha Dido. 

Caspia serra, Caspios montes, e Caspios aposentos, 
tudo yem a ser buma cousa mesma, e finalments 
buma Regiaõ de Scytbia. 

Cassiopéa, ou Gassiope, mulher de Cepbeo, Rei de 
Etbiopia, a qual ( contam) se qui& pivferir em Cdt- 
mosura ás Nymphas^ pelo que ellas indignadas atá^i 
ram sua filha Andròmeda a hum penbasoQ, para 
que buma besta marinha a comesse; mas Perseo a 
livrou, e casou com ella; e Gassiopéa, pelos mere* 
cimentos do genro, Ibi trasladada ao Ceo, e agon 
he huma imagem, ou constellaçaõ delle. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 271 

Cassio Sceva, Capitam de himia companhia de Gesar, 
o qual estando á porta de hum Lugar de Macedó- 
nia, foi comettido por muitos inimigos, e tendo já 
hum olho quebrado, muito inal ferida huma coxa, 
e o braço, e o escudo despadaçado, com muitas fe- 
ridas por4odo o corpo, nunca se quiz render. 
Gastelbranco, tbi Dom Pedro de Gasteibranco , Gapi- 
tam dé Ormuz, em cujos mares houve grandes 
• victorias dos Turcos. 

Gastella, saõ duas Províncias de Hespaiha, com este 
nome, e dividindo-se com huma montanha, que 
começa nos confíjs de Navarra , e atravessa quasi 
toda Hespanha até o mar : se distingue também 
com os nomes de Velha, e Nova. Da Nova he ca- 
beça Toledo , e da Velha Burgos. 
Castro, foi Dom Joaõ de Castro, Vice-Bei da índia, 
o qual teve muitas victorias contra ElRei de Cam- 
baia , e contra o Uidalcaõ, e fez outras muitas cou- 
sas dignas de memoria. 
Catharina , Virgem , e Martyr, sepultada no monte 

Sinai. 
Catilina, Lúcio Sérgio Catilina, Cônsul Romano, o 
qu^ determinou, com outros de sua parcialidade, 
apoderar-se de Roma. 
Cauchichina , he Reino Oriental junto a Cambaia, ao 

qual os naturaes chamam Cacho. 
Caudinas forcas, aquelias, por onde os Samnites, 
Povos de huma Regiaõ de Itália , obrigaram passar 



V- I 



379 IBDEX. ■■■. 

ftm anaâi Mt Botmubm, tmjp k m m mè m ]palo 
lol Sp. Pniiti— ny affitmli dt ^m o« 
▼ingánim ben. 

Cetimbn, LogarnuiritíBio de Pttrta§d. 

Ghaul, Cidade no Beino AdeoB6, qm 
chanuimoe I>tqiieoi, distante da Cidade de Dlei 
le^s. 

Cbereoneto Anrea, lie Malaca : Cabeça de twli.*j 
Beino atii doiniado, cujo porto he maito Imb, • 
freqnentaÉ^de todas as Vagões do If onda, por mt\ 
muito abandante de todas as Qoosas. 

Chiamai ,' lago donde nasce o Bio Menaõ, qae 
de alto abaixo todo o Beino de Siad». 

Ghimera, monte de Lycia, o qual lança fogo -ptb 
mais alto, e no tempo passado era muito poTOidi 
de leões, cabras montesas, serpes, e outros bid« 
venenosos, donde os Antigos fingiram ser boa 
monstro de três cabeças, de leaõ, cabra ^ e dragai, 
por cujas bocas sabia muito fogo. 

China, Império grande, e rico do Oriente, divididi 
em i5. Províncias: em as quaes 8e'comtém ^4^ Ci- 
dades notáveis, álèm de outras terras, Casiallos, 
Villas, e Lugares infiDÍto|. #• * 

Dom Ghristovaõ, entende da Gama, o qual indo por 
mandado de Dom Estevão da Gama, Governador 
da índia, em fiivor do Preste Joaõ, contra ElBci 
de Zeilá, desbaratou duas vezes os Mooroe 
Soo Portoguezes que levava. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. ^73 

Gicero, he M. TuDio, filho de hum Tullio, e de Elhia 
sna mulher, Cônsul Rom«no, e per si assaz conhe- 
cido, e louvado. 

Gicones , Povos de Thracia , os quaes tiveram muita 
guerra com Ulysses, depois da destruição de Tróia. 

Cilícios, saõ os de Cilicia, que hoje sé chama Carma- 
nia, Regiaõ da menor Ásia. 

Ciogapura, he hum Cabo dé terra, defronte da Ilha 

- Samatra/ 

Cintra, Lugar de Portugal, na costa do mar Oceano, 

, a cuja serra chama Varraõ monte Tagro, e outros, 
serra da Lua. 

Cinyras, Rei de Chypre, o qual de huma sua -filha 
chamada Myrrha, teve Adónis, por onde o Poeta 
o chama filho e neto de Cinyras. 

Cinyrea, he Myrrha, filha de Cinyras, a qual foi 
convertida em huma arvore do sen nome. 

Circes, saõ as feiticeiras, porque Circe filha do Sol, 
e de Perse Nympha, o foi taõ famosa, que com 
seus encantos e fsiticerias transformou ( segundo 
contam as fabulas ) o^ companheiros de Ulysses em 
porcos. 

Claudinas forcas, vide Caudinas forcas, que de hum 
modo, e outro, se p<Sde ler este lugar, alludindo a 
Cláudio Pendo, Imperador dos Samnites, ou t^o 
Lugar, chamado Cauda , onde foi o successo que o 
Poeta aponta, e atraz explicámos. 

Cleoneo leaõ, he o (|ue matou 'Hercules junto a huma 



Âldfa chamada Cleonc, entre Arg 
c he o qiie por oulra nome se duim 

Ciiãc, Nympha, a quem Apollo foi ii 

CloHs: assj se chamava Flora, Balnli 
tes qne se catasse com Z^phyro. 

Ctolo, bum> dao Ires Parcas. 

Ctymeuc, filha de Teihys, el do Oc. 
mui Ae Phaelontc, qoe he o Sol. 

Cachim, Cabeai de hum Reino assí c 
|<aai de Calecut, na costa do Mal 
Bpu tiveraô sempre os Portugueieí 

Cóclea, foi Horácio Cocles. nohre Ro! 
gnerra que Porsena, Rei de Helrui 
iUnoanos, pela renilatçaã doa Tai 
o Ímpeto dos iniinigi» com dom co 
mente, querendo passur a ponte S 

ram lupar de derribar a ponte; e 
companheiros em Salvo, ãimado i 

aos seus, pelu que os Uomanoa lhe 

Cocylo, Rio do inferno, BÍ{pitica choi 
Codro, Rei dos áihenlenses, o qitiil 

pátria , se entregou á mone. 
Coelho, he Nicolao Coelho, Capitai 

cinco naiios, rom que Vasco da Gi 

cebrimento da índia. 




DOS NOMES PRÓPRIOS 

lá •Colt;ho8 , Regiaõ de Ásia, qiie hoje se cban 
lia, sujeita ao Graõ Gam, Senhor dos Ta 
ç a qaal diziam estava ham vello de ouro 
i commammente o VellocÍDO. • 

Colosso, estatua de metal em Rhodes, dei 
Sol^ a qual era de muito grande altura, c 
respeito tida por huma das sete marav 
Mundo. 

Columbo, Lugar pequeno, mas o principal i 
Ilha de Geilaõ. 

Comorim : he este Gabo defironte de Geilaô. 

Conca, Gidade de Gastella a Velha, donde c 
Rio Tejo. 

Gongo, Reino antiquíssimo de Africa. 

Constantino: o primeiro Ibi por alcunha dbamad 
leologo, o qual perdeo a Gidade de Constam 
pia : o segundo, foi Constantino Magno, filh* 
Santa Helena , o qual fez a Constantinopla Ca 
do Império. 

Constantinopla. Yeja-se Byzancio. 

Córdova, Gidade claríssima de Hetpanha Betl 

Cabeça do Reino do mesmo nome, e pátria 

dous Senecas, e Luoano. 

Dri, he o mesmo que Comorim. 

iriolano, Varaõ iiiustre Romano, a qae Cícero 

muitos lugares compara com Themistodesj o < 

endo em humas díssenções lançado fóra de Ro 

or vingar sua injúria , lhe fez depois muita ^ue 



ta, e DOS Dinos , com que o 

dor, e dalU por diaotc com o appellido t 
Coulaõ, terra da Fi-u\Íiicia do Malabar. 
Coolete, outro Lugar na custa do Malab; 

guas de Calecut. 
Cranganor, lerra da mesma Pnnincia. 
Crocodilo, animal grandissirao, da feiça6 
Coamaf rio que nasce na alagba do Nilo. 
Canha : hum he o grande Kuno da Cunha 

Tristão da Cunha, o qual descobrio as 

boje se chamam de seu nome. 
Cupido, bem conhecido he de todos. 
Cnráo : este he Marco Curdo , taõ afiéiçi 

pátria, que naó receou perder a vida 

delia. 
Cutiale, nome de hum Mouro, que viera 

índia, e tendo cento e irinla velas muil 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 277 

Cyelopet, foram três, Rrontes, Steropes, e Piramon, 
filhos de Neptano ; aos quaes fingem os Poetas 
obreiros de Vulcano, £erreiro de Japiter seu pai, 
em a Ilha Lipara, huma das Eolidas, que estaõ en- 
tre Itália, e Sicília. 

Gylleneo, he Mercúrio, chamado assi de Gyllene, 
monte de Arcádia, onde nasceo, e era venerado. 

Gyniphio, rio de Africa. 

Cynosnra, constellaçaõ celeste, chamada por outro 
nome Ursa maior. 

Cyparisso, filho de Telepho, matando por desastre 
hum cenro, a que elle amava muito, ficou taõ sen- 
tido, que Apollo, de quem tbi muito amado, tendo 
piedade delle o converteo em cypreste. 

Cyphisio, flor, he o lyrio, em que Narciso, filho da 
Nympha Lyriope, e do rio Gyphiso, foi convertido. 

Gypria, deosa : he Vénus, chamada assi de Gypro, 
onde era venerada. 

Cypro, he a Ilha de Ghypre, no mar Mediterrâneo, 
sujeita ao Graõ Turco. 

Gyro, Rei dos Persas : veja-se Araspes, para enten- 
dimento do Poeta. 

Gythéra, Ilha no Peloponeso, chamada hoje Getige, 
dedicada a Yenns, a quem por essa razaõ chamam 
Gytheréa. 

D. 

Dabul, Lugar de Gambaia, que Dom Francisco de 
Almeida, Viso-Rci dá índia, entrou á forra de ai- 



3-0 IT4DEX 

m», e o dcltmía, «em ficar pedn 

Dálmatas, oi de Dalmácia, i]dc agora i 

M dama Eadavonia. 
Danuõ, Cidade no Guurale, Reino da 
DiDUtreno, de Damasco, tm cajá ram 

Senlwr creoa o primeiro Hociem. 
Dano, he o morador de Daoia, que ag 

Dinamarca. 
Danúbio , o maior, e inais celebrado R 



Daphiie. Kytnpha. Rlha do Rio Peneo, 
liiim j>or caura de Apollo. 

Dardaiii.!, ui-i se chamou Tróia, de Dan 

Dário, ILei do( Perui. 

David. Hei taoctiffinio, e Propbela, c 
rito Sanin : de quíBi disse Deos, qu 
Lomeni cunkrme o ien coia^õ ; caa 
rado rfe HithsalH.' mulher de ['rias » 

e himia Ireiçaõ : de que de^puis am 
lou o Pialiuo Miserere. Por Slbo de 
dercmoi a Chriilo Senhor Soara, ph 
úr íallar Hebraicu, pai' ser da geraj 
Vu(e Saul. 
Decanijj. ían oi do Reino do Hidalea 
eiud Chaal, Dabu>, Goa, e ouiroa i 
ret, conhecidos já por &ma. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. ay^ 

Décios, Romanos fortíssimos, os quaes amaram tanto 
sua pátria, que se sacrificaram por ella; o pai na 
guerra Latina , o filho na Hetrusca , e o neto em a 
guerra que Pyrrho fez pelos Tarentinos. 

Dedálea £icnlda4e, obra e artificio de Dédalo, Archi- 
tecto famoso. 

Deli, Reino mnito grande no Oriente, aindaque hoje 
muito menor do que já foi. ^ 

Delio, he o Sol, chamado assi da Ilha Delos, onde di- 
atem que nasceo. 

Delos, Ilha no mar Egéo, ou Myrthoo, aonde Latona 
pario a Apollo, e a Diana, e desde entaõ ficou 
firme, sendo de antes instável, e que andava va- 
gando pelo mar : por outro nome se .chama Ortygia. 

Demodoco, Musico e tangedor excellentissimo da Ilha 
dos Pheaces, que he a que hoje chamamds C!orfó, 
e outros Corcyra. 

Diana , filha de Júpiter, e de Latona , deosa da casti- 
dade, e da caça. £ a mesma que Lúa no Ceo, e 
Proserjiina no inferno, e assi a pinta vaè os Antigos 
com três rostos. 

Dina, filha de Jacob, a quem a furtou Sichem, filho 
de Hemor, por cuja causa foi morto, e todos os seus, 
e a terra destruída. 

Dinis, he Dom Dinis, Rei de Portugal, filho d'ElRei 
D. Afonso o Terceiro. 

Dio, ou Diu, Cidade marítima em o Reino de Cam- 
baia, fertil, abundante, sadia, e de muito trato. 



58o INDEX 

Diogo, hum dos dous feitores que Vsí^ni da Cbom 
Cálecol maoilon a leira pnra ícnder 
nos quaegJoaõ de Barro* chama Álvaro Dias, eDii 
go Correia Goei, Di<n;o Pias, o Álvaro de Bragi. 

Diomedea^TyrannDrrueUisBimodeThracia, o qail 
8U9teiHavaoi cavalloscom a carne e sangnedojibai- 
pedes que agasalhava. 

Dione, mãi de Vaniifi, e filha do Oceano, e de Te- 

DitE, irmaò de Jupller, e NEptuno, deos dos iafénuUi 
( segundo os Poelas ) chamado por oqi 

DoF;ir, Cidade insigne em a cosia de Arábia Feb, 

Dorcadas, chamadas por outro tiome Gorgonas, qu- 
reoi aigúus que sejam as Ilhas de S. Thom^, < \ 
Príncipe, junto ■ Maniean^. 

Dorifl, Hympha do mar, filha do Oceano, e da ^»■ 
tkyt , e mãi de Iodai as Nymplia* mannbaa. Ten*- 

Douro, o maior Bio de Qeipanha. 
Duarte, {NÍmeiro do nane, e undécimo lUl.d^Por- 
togal : foi filho d'ElIlai Dom Joaõ o Primeira. 

E. 

Eborenses campos, o« de Erora Cidade. 

Egas, Foi EgaiHonix, atod'EItieiDamAfiMiNH«- 



DOS NDMES PRÓPRIOS. 281 

gêo, nome de hum Gigante, filho de Titano, e da 
terra. 

fUj^cÀã terra, he o Egypto, Regiaõ junto de Africa, 
e parte de Ásia, abundante pela inundação do rio 
Nilo, da qual era Bainha Cleópatra, Êimosa, ma^ 
pouco honesta. 

Ivas, Cidade na arraia de Portugal, e Praça frontei- 
ra a Badajoz. 

lysios, os campos Elysios, onde os bema ventara- 
dos, despois de passar desta vida (conforme a opi- 
nião dos Ethnioos ) hiam descansar e gozar de per- 
pétua felicidade : húus os põe nas partes de Anda- 
luzia , e outros em Beócia , junto da Cidade de 
Thebas. 

mathio, campo de Emathia, Regiaõ da Grécia, cha- 
mada por outro i^ome Thessalia, e Emonia, onde 
Pompeio foi vencido de Júlio César seu sogro, 
modio, he hum esgalho do monte Tauro, o qual 
serve de termino pela parte do Norte, á terra a que 
chamamos índia, e os naturaes e visinhos Indostan. 
ncélado, Gigante grandissimo, filho de Titano, eda 
terra. 

néas, Varaõ Troiano, filho de Andiisés, e da deosa 
Vénus, bem conhecido pelos versos de Virgílio, 
niocos, povos de Sarmacia Asiática, que hoje cha% 
mames Moscovia. ~ ^ 

olo, filho de Júpiter, e de Sergesta, Rei das Ilhas 
Eólias, dito Rei dos ventos, e das tempestades. 

>4- 



a8j INDEX 

Ena, he o mr^Eino que do Or!»nie. 

Kpicuria seilii , u de Epicuro Philoioplio de Atliem 
Qu Samoi, u qaal liolia por opinião, que ■ noi 
Hlnin ei'B raorial, e mrruptiveli e enire ODlroKi 
bolicoa eiToa, diiia mais, que Ioda a telicidade 
vida estará nos deleilet delia, e que naõ havia o« 
tra bem, mais quo comer, c beber, elevar boa 

Eryrina, lie Venua, bhsí chamada de E17K , ou Erji* 
monle de Sicília, que hoje íe dii de S. Julisi 
antiguamenle era venerada. 

Erymanlho,Ttio de Ãrcaiha , que nasee dchain inoiílt ] 
do mesmo nome, em o qnnl Hercúlea tomos ham J 
jaralf , que destruía toda a (erra, c o levou yiiaa > 
ElReí Euriãtheo, por cujo mandado foi áquellaei»^ 
preia, crendo que morresse aella, i 

■Erylhraas ondas, a^ do mar Roso, pelo qunl oPora ' 
de Israel passou a pó emuto, fuymdu. de PiunJ, 1 
que com (oda soa gente ae aSbgon nelle. 

Erythreo teio, aqoelle etpaço de mar que Gck dai por- 
tas do dito naar Baio para denlm. 

Escandinávia , he hnnut Peninlnla , onde eitd o Beido 

Eipanha. Vide Uesponha. 

Euevaõ, he Dom Eftevaõ da Gana, o qual ntocedao 

• ^ era o gavarDo da lodia « Dmm Garcia de Noroolia, 

e a quem loccedeo Martim Afonso de Sonsa. 

JWnlurniilninpliii GreienK, t Geograjdio iuNgna 

r UM mapM lie Augusto. 



DOS NOMES PltOPRIOS. aSi 

Kfltygio lago, o que os Poetas fingem bayer no infere 
^ no : o qnal dizem haver sido taõ venerado dos pro- 
^, prios deoses, que quando jura vami por elle, naõ 
^ ousavam quebrar o juramento, 
y Esyre, Nympha filha do Oceano, e de Tethys. 
^ Ethiopia, Regiaõ de Africa, entre Arábia, e Egypto. 
« Etna, monte altíssimo de Sicília, chamado hoje Mon- 
i^ gibello, o qual deita de si chammas de fogo. 
. "Évora, Cidade célebre de Portugal. 

Euphrates, Rio célebre de Ásia que corre por hum la- 
do de Mesopotâmia : he hum dos quatro Rios que 
nascem no Paraíso Terreal, como parece no Géne- 
sis, cap. 3, 
Europa, huma das quatro partes da terra. 
- Euridice, mulher de Orphco, musico, e tangedor ex- 
cellentissimo, o qual com sua viola attrahia a si ho- 
mées, pedras, arvores e outras cousas insensíveis^ 
e fazia que os rios se detivessem a ouvir sua musica. 
Eurysteo, Rei de Grécia; o qual á instancia de Juno, 
mandava Hercules a varias emprezas, todas muito 
perigosas, a fim de que em alguma perecesse. 
Euxino mar, he o que hoje chamam mar maior, onde 
esta a grande Cidade de Constantinopla, pelo qual 
navegou a náo Argo , da qual tratámos já em seu 
' lugar. 

F. 

Falerno, monte de Campania, em o qual se daô vin- 
hos cxccllentissimos. 




Fernando, e Fernaõ, he o mesmo qr 
porém quanto ás pessoas, hnm ( 
D. Fernando; primeiro, e ultimo di 
tugal, filho d*ElRei D. Pedro. Outr. 
nando, filho d^ElRei D. Joaõ de Ara 
naõ Martijs, a. quem Góes chama I 
e diz que era hum marinheiro, inte 
da Gama para a lingua Arábiga. E c 
foi D. Fernando de Castro, irmaõ < 
' Castro, Viso-Rei da índia. 

Flora, tida entre os Antigos por deos; 

Francisco, íbi o Viso-Rei D. Francisc 

Frandes, Regiaõ da Gallia Bélgica. 

Fuás, D. FuasRoupinho, Cavalleirol 
forçadíssimo. 

Fui via, mulher de Marco António. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. aSS 

iGaditano mar, he o Occideiital, dito assi de Gádes, 
que he a Ilha de Gadis, sita no Poente. 

Oalathea j Nympha do mar, filha de Nereo, e Doris, a 
qual fei muito amada do Gigante Polyphemo. 

Galerno, he o mesmo que Favonio vento, ou Zéphyro. 

Gallegos, povos de Hespanha. 

Gal]ia,he França. 

Gallo, o Francez. 

Gamhea, riò de Africa, que algúus querem seja o 
Níger. 

Ganges, rio da índia, por outro nome Phison, hum 
dos quatro que nascem no Paraíso Terreal. 

Gangetico, cousa do Ganges. 

Garumna , rio de França , o qual nasce nos montes Py- 
reneos , e dividindo a Gasconha de França , entra 
no mar Oceano. 

Gate, monte do Reino de Narsinga, o qual serve aos 
Malabares de muro, contra os moradores de Bis- 
naga visinhos. 

Gedrosia, Província de Africa, na Costa de Guiné; 

Georgianos, povos de Ásia menor, sujeita hoje ao Turco. 

Germano, quer dizer Alemam. 

Gerum, he huma pequena Ilha, onde está situada a 
Cidade Ormuz. 

Gidá , a que outros chamam Judá, Cidade na Costa 
de Arábia, e porto da Cidade de Meca. 

Gigantea, cousa de Gigante. 

Gigantes, foram, segundo os Poetas, filhos de Titano, 



a86 INI>«X 

e da terra, os qaae» determinaram snlifr w» 
e lançar a Júpiter fóra delle. - 

Gil Fernandet,por alconha, oa arf w enome^ de 
íbi felsamente preso por Pab Rodrí^ea 
qne era Alcaide mòr de Campo Maira', o qutà 
a voz de Gastella , mas resgatado te encsontnm 
pois com elle, entre Elvas, e Campo fifaior. 
Paio Rodrigues foi preso, e morto. 

Giraldo, foi hum Gayalleiro Português de muito 
forço, e sem medo algum; pelo que era dnoMi 
sem pavor, em tempo d^ EIRei D. Afonso Henriqae^ 
em cuja desgraça andava lançado com os Moun^ 
e por se reconciliar com Deos, e com £lRei, ètê . 
traça com que Évora se tomasse aos Mouros. 

Glaphyra, por cujos ditos, chistes, etrovinhas, Mtieo 
António deixava a sua mulher Fulvia. ^ 

Gnido, ou Cnido, Ilha do mar Carpa thio. 

Goa, Cidade Metropoli Archiepiscopal da índia. 

Gofredo, ou Godifredo, que commummente chaiM- 
mos Godofre de Bulhaõ, foi filho de Enstachio,< 
de Ida, Duque de Letena, o qual ganhou a Cor* 
bana Persa a santa Cidade de Hierusalem, ondeisi 
accIamadoRei, annode 1098. 

Goliath, he o Gigante Phi-isteo, a quem o samio Ba- 
vfa matou com huma funda. 

Gonçalo Ribeiro, chamava-se Gonçalo Rodrigues Rh 
beiro; o qual, com Vasco Anes, collaço da Rainhi 
Dona Maria de CasteUa, e Fernaõ Martijs de San* 



DOS NOMES PRÓPRIOS.' 287 

tftrem, fizieram grandes cousas em França, onde 
passaram a ganhar &w^, por sua cairallaria, como 
cntaõ se costumava; e vindo Gonçalo Rodrigues ter 
a Gastella, matou em desafio a hum Castelhano, e 
em humas justas reaes, que ElRei de Castellá fez á 
sua instancia, fizergm todos três muitas vantagées. 

Gonçalo : este foi o Beato Gonçalo da Sylveira da Com- 
panhia de Jesus. 

Gotthica gente, os Godos, povos de Scythia, espanto 
anttguamente de toda Itália, aonde fizeram grandes 
crueldades, seguindo a Atila seu Rei, e seu Ca- 
pitam. 

Granada, Reino de Hespanha, he huma Cidade assi 
diamada, na Província que he Andaluzia. 

Granadil, o de Granada. 

Grécia, Regiaõ de Europa, em todas as disciplinas 
antiguamente celeherrima, hoje quasi sujeita aõ 
Turco. 

Grego sábio, he Ulysses, natural de Grécia. 

Guadalquivir, he o Belhis Rio, que passa por Se- 
vilha. 

Guadiana, rio de Hespanha , que nasce junto á serra 
de Alcarraz; e junto de hum Lugar que chamam 
Puebla de Alcaçar, se mete debaixo do chãoy e vai 
sahir daht nove ou dez léguas. 

Guardafu, o Cabo a que os Antigos chamam Aromata , 
no fim da terra de A&ica, e principio de Ásia. 

Gueos, povos sujeitos ao Rei de Siaô. 



Goido, eognominwm-sé Langnúuio, e Soà. nltiao] 

de Hienualem. 
Guzarates, saõ os moradores do Remo de 

onde está Dio. 

H. 

Halcyoneas aves, saõ os maçaricos, em ot qiuetBrf*| 
cyone, fillia de Eolo^ foi cooYertída 

Hammon, asd se çhamaY» Júpiter em figura de csi^] 
neiro, como era adorado em Libya. 

Harpias , foram três , Elo , Ocypite , e Geleno , que tsB- 
bem se chama Podarge , das quaes contam os Po^ 
tas, que quando Phineo Rei de Thracia, por oon- 
selho de sua segunda mulher, tirou os olhos aos 
filhos da primeira , os deoses enojados disso Ih^ 
quebraram os seus, e para maior tormento, todo 
quanto lhe punham diante para comer lhe tiraTaa 
as harpias , que eram humas aves muito cujas, e 
golosas. m 

Hcbrea a mãi, entende Emina mãi de Mafi^mede, cujo 
pai foi Abdela , gentio de naçaõ. 

Hector, hum foi Hcctor da Sylvcira, que desbaratos 
a Halixa Gapitam mòr da Armada de Dio : e o oh- 
tro, a quem o Poeta o compara, Hectòr TroianOf 
filho de Priamo Rei de Tróia, e de Hécubá sua mu- 
lher, o qual por muitas vezes desbaratou os Gregos 
no cerco de Tróia. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 1189 

Belicon, monte de Beócia , naõ longe de Parnaso, de^ 
dicado a ApoUo, e át Musas. 

Hélio Cabalo, Imperador Romano, o mais vicioso, e 
a£Peminado homem, que houve no Mundo. 

Helle, filha de Athamante Rei de Thebas, e de Ne- 
pheles, a qual fugindo com sen irmaõ Pbrixo, do 
ódio e traições de sua madrasta Ino, e indo para 
passar o Pont9 em o carneiro de ouro que seu pai 
lhe dera , cahio no mar; o qual por esta occasiõ se 
ficou dalli chamando Helle8poi)to. 

Bellesponto, he hum braço de mar que divide Ásia de 
Europa, chamado hoje o estreito de Galipoli, ou 
braço de S. Jorge. 

Hemispherio) quer dizer meia esphera, que significa 
redondeza; e assi chamam os Gregos ao Mundo, 
como ot Latinos, Orbe. 

Hemo, monte de Thracia altíssimo, em o qual se diz 

estar o domicilio de Marte .* hoje se diama cadéa do 

Mundo, e toda esta terra he sujeita ao Turco. 

Henrique. O primeiro de que o Poeta faz mençaô, foi 

o Conde DòVn Henrique , pai d^ElRei Dom Afonso 

. Henriques, primeiro de Portugal. O segundo , o In- 

&nte Dom Henrique, filho terceiro d^ElRei Doin 

Joaõ o primeiro, com que se achou na tomada de 

Ceita; eibi o primeiro que entrou m portas della^ 

. como o Poeta adiante diz no Canto VIIT. e XXXVII. 

O terceiro, £01 hum Cavalleiro Alemam, o qual 

morreo nesta Cidade de Lisboa , quando foi tomada 

a. aS 



MJXjíAA * Bia\^xr v*.<« v^auKu 



• V Avra mMM.%Aíx\t ir<At.«AUSli 



çado Cavai leiro. 
Hercules, fUho de Júpiter, e Alcme^a, do q 

crevem grandes feitos, e se contam [trinei 

doze trabalhos \ dos quaes se explicam alg 

diversos lugares deste índice, onde con' 

entender os do Poeta. 
Hermo, Rio de Lydia, que divide a Eólia c 

com o qual se mistura o Pactolo : ambos 1 

as de ouro. 
Heroas, e Heroes, chamavam os Antigos ao 

illustres, e de grande valor, que por suas £ 

e virtudes, mereceram ser tidos por iguaes 

ses, e de ahi , cousa heróica. 
Herostrato, hum louco, e perdido ^ o qual < 

a Templo de Diana Ephesia, sò por*&dqui 
- immortal no Mundo. 



Tl 1.- 



t' . 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 291 

f • fliz tinham hum pomar que diava frutos de ouro, e 

j • era guardado por hum dragão, que nunca dormia, 
mas Hercules o matou, e levou os ditos pomos. Ha- 
bitavam as Hespérides em humas Ilhas, que de seu 
nome, ou de Hespero seu pai, se chamavam Hes- 
pérides, e conforme a opinião de algúus, saõas que 
hoje dizemos do Gabo Verde. 

Hesperio, he o mesmo que Hespero. 

Hidalcaõ , Príncipe poderosíssimo da índia , em o Reiqo 
Decan, onde está a Cidade de Goa^ a quem o dito 
Hidalcaõ cercou no anno de 157a. com 7000. In- 
fantes 35oo. cavallos, 300. elephantes, e a5o. peças 
de artílheria , sem lhe aproveitar nada. 

Hierosolyma Cidade, de Hierusalem. 

Hierusalem, Cidade principal, naõ sò dç Jud^a, mas., 
de todo o Mundo, e onde foi obrado o mysterio 
principal de nossa Redempçaõ. 

Hippocrene fonte de Beócia, nascida, como os Poetas 
dizem, da ferida que o cavallo Pégaso allifcz com. 
o pé^ a qual he dedicada ás Musas. 

Hirciuia montanha, dizem ser hum bosque muito 
grande, e muito espesso, entre o qual, e a terra de 
Sarmacia, está Alemanha. 

Homero, Poeta Grego, e Príncipe dos Poetas: e por 
elle ser este, depois de morto, contenderam muitas 
Cidades de Grécia sobre qual delias era sua Pátria. 

Horizonte , no sentido do Poeta he aquella parte do 
Ceo onde o Sol começa mostrar seus raios. 



-♦. 



aga "* IHDBJÍ'. • W* 

Haniio» o Honno !■», Sm AtUft. -- ^.s 

HyMiAchiiiM flovwi de Hy^dundio^ Mnaéh< 

de ApoHo, o qnel te metoo a ú mérnioj • 

dendo ApollaMièdiar ena aorte, o 

home fliory cMt et lettree A. I. ^pM 

em lemlinaife do ^pe fiyeeiatho da» qoeadei 

hío morto. 
Hyda^, ouldaipe, rio de ladie, odehnáof«rpi| 

pendeie. 
Bymeneo, filko do deoe BeodiOy e de daeea Yi 

lioiiredo por deos dat bodas, entre oe Frtliiihini^ t 

assi se toma pelas mesmas bodas, e catemeatei. 
Hyperboreos montes, saõ bãus qne ficam na peitt 

Septentrional de Europa. 
Hyperionioy he o mesmo Sol, do <pial se finfe, ^ 

depois de ter dado luz neste Hemispherio, se icm* 

lhe ao mar, e com Tethys senhora deUe^ pasist 

noite, descansando do trabalho do dia. 
Hypotades, he Eolo Rei dos yentos : por ser oue^ 

com Sergesta,' filha de Hypotas Troiano. 

I. 

I 
\ 

Jano, Rei antiquíssimo de Itália, ao qual pintaTts 

com doas rostos. 
Jaós, gente de Jaoa, Provinda do Oriente. 
Japaõ, liba do Oriente, qne disem terá 600. kgaii 

de comprido, e 3oo. de largo, sujeita todft a 



DOS NOMES PRÓPRIOS. agS 

80 Rei, ao qual elles chamam Voo, e o qae agora 
reina se chama Taxo Gunzama. 

Japèto, Gigante, filho de Titano, e da terra, e pai 
de Prometheo, do qnal contam os Poetas, qae fazia 

- homées de barro, com. tanto engenho, que pare- 
ciam vivos; e vendo acaso Minerva a sua obra, lhe 
deo ajuda para subir ao Geo, donde trouxe fogo, 
que tiroa do carro do Sol, com que deo vida aoe 
homées, que de barro fazia, et daqui vem que al- 
guns hoje presumem ser filhos do mesmo Sol. Mas 
querendo Júpiter castigar este atrevimento, o man- 
dou amarrar no monte Gaucaso com huma águia ^ 
a qual de contino estivesse comeudo-lhe as entran- 
has. 

Jaquete, Lugar do Reino de Gambaia, ao longo da 
cpjBta , junto ao qual &z o mar huma enseada muito 
metida pela terra dentro, em a qual o mar enche e 
vasa com tanta pressa, que transtorna todo o navio, 
que naõ acha com a proa para a corrente da agua. 

Jasque, hum Gabo nas partes da índia, chamado aR- 
tiguamente Garpella, cujo sertaõ he muito estéril, 
e foi dito Garmania. 

Ibero, he o Ebro, Rio de Hespanha ; e assi terras Ibe- 
rinas, terras de Hespanha. 

Idalio, monte, bosque, e castello na Ilha de Ghypre, 
dedicada a Vénus. 

Idaspe, vê Hydaspe. 

. Idéa selva, huma do monto Ida, junto a Tróia, em 




394 INDEX 

a qual deo Párts o jaizo das três deõsas, Juno, M 
las, e Vénus. 

Ignez y foi Dona Ignei de Castro , Senhom nmifD pi» 
cipal j cnja historia com El Rei Dom Pedro he ■■ 
sabida. 

lUyricoSy de Illyrico, ou Illyris, Regiaõ na cotia à 
mar Adriático. 

índia, fica entre o Meio dia, e o Oriente, Regiaõ»- 
Inberrima , e bem conhecida. 

Indo, bum dos maiores rios do Mundo , que recife 
dá non^ à índia. 

Inglaterra, Ilha no mar Oceano bem eonhedda, «fr 
jos Reis entre outros títulos, tem o de Hienmka. 

Joaõ , ou Joanne : hum foi £1 Rei Dom Joaò o M* 
meiro, chamado de boa memoria, filho d*Eritd 
Dom Pedro : o outro foi El Rei Dom Joaõ o Se- | 
gundo, filho d'El Rei Dom Afonso Quinto : c o ol- ' 
timo El Rei Dom Joaõ o Terceiro, filho d^ElRei ) 
Dom Manoel : e todos três foram liiuito yaleroios. < 

lopas, hum grande musico de Africa , e tangedor a* 
ccllentissimo. ' 

Jordaõ Rio, que nasce ao pé do monte Libano, eo 
primeiro do Mundo pelas maravilhas que nelle fb« 
ram feitas, e por haver sido baptizado nelle Ghrísto 
I9osso Salvador, por S. Joaõ Baptista. A agua deste 
Rio escreve o Senhor de Vallemont Francez, em 
o livro que foz de suas viagêes , que naõ se correm* 
pe, nem se gasta jamais : o que experimentou par 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 395 

huma redoma , que cheia delia trotixe desde Hiem- 
salem até Veneta, distante mais de 700. léguas hu- 
ma da outra, segundo o caminho que fez. 

los, ou Chios, Ilha no mar Mirtoo, em a qual dizem 
estar sepuhado o Poeta Homero. 

Ismael, filho de Abrahaõ, e de Agar escrava sua, do 
qual os Mouro saõ chamados Ismaelitas. 

Ismar, hum dos cinco Reis Mouros, a quem ElRei 
Dom Afonso Henriques venceo no campo de Ou- 
rique. 

Israel, nome qu'e o Anjo poz a Jacob. 

Istro, Rio grandissímo de Europa, o. qual por outro 
nome se diz Danúbio. 

Itália, nobifíssima Regiaõ de Europa. 

Ithaco , he Ulysses , chamado assi de Itfaaca sua pá- 
tria, Ilha do mar Egeo, vulgarmente dita Vai du 
Compare, muito montuosa, et de pouco valor. 

Juba, Rei antigo de Mauritânia. 

Judaico Rei, entende Ezechias, o qual estando já sen- 
tenciado por Deos á morte, foi milagrosamente por 
suas lagrimas remediado. 

Judéa, Regiaõ de Syria na Ásia maior , a qual he par- 
te de Palestina, chamada na Escriptura terra de 
Promijssaõ, em a qual está a Cidade ^nta de Hie- 
rusalem; e he toda sujeita ao Turco. 

Juditta , vé Balduíno. 

Juliana manha , a que o Conde Juliaõ teve para per- 
der Hespanha, metendo por Ceita os Mouros nella. 




pano com Juno, ao qual os Amigiu 
jielo maior de todos os deoses. 



I.acica via , ou I^clGo raminho, he o qi 

coiUDiUDinienle camiuho de Saint^Iog 

I^geia, he Cleopalra, Rainha de E^p 

Lamo, Cidade na cosia de Mclindo. 

l.amppcia, írmãa de Phaetoiíie, fílho <Ic 

Lampelhusa, ouira irmãa do mesmo ] 

qual com Buai irmãaa fizeram taõ gi 

pela cahida de scq irmaõ Phaetonte , 

os deoses i, piedade as convcrléram ei 

I,aa!>, povos sujeitos ao Rei de Siaõ. 

Lappta, Província de Europa Seplentria 

Lara , Cidade da Pérsia , nos confijs de C 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 997 

Reino de Hespanha, sujeito á Coroa de Gas- 
I. 

, Cidade de PorUi{;al 
serra asperrissima na costa de Africa, 
rdo, chama va-se Leonardo Ribeiro, soldado de 
so da Gama, aqnal dizem era muito gracioso y 
imoradò. 

r, foi Dona Leonor Telles de Menezes, mu- 
de Joaõ Lourenço da Cunha, a quem ElRei 
''emando a tomou, et se casou com ella. 
>, foi Marco Lépido, o qual com César Octa- 
lo, e Marco António, sendo Cônsules, e inimi- 
entre si capitães , vieram a dividir o Império 
lano , que juntos governaram doze annos , e fi- 
m huma liga, e concerto, em que cada hum 
38 entregasse seus inimigos : e assi Marco Anto- 
entregou a Lúcio António seu tio, irmaõ de 
pai: Marco Lépido, a Paulo seu irmaõ: César 
iviano a Marco TuUio Cicero, a quem sempre 
mára pai, e de quem fora sempre tratado como 
>. 

te, he onde o Sol nasce. 
te Promontório no Epyro, que hoje se chama 
ania, e perto de outro Cabo chamado Accio, 
e os quaes foi aquella meiíiorayel batalha en« 
Octaviano Augusto, et Marco António, em a 
1 Marco António, e Cleópatra Rainha do Egyp* 
foram desbaratados. 



3g8 IKDEX 

LoQcolfaoe Nymph», filha de Ordumoi lt«i 
bytonia, pela qual Apollo tet maitol es 
que lhe naõ ràitáram moioi que a vida. 
Apallo a mnveneo despoli em a arvote qi 

Ltbidaa, deos* dos sepulcbn», e ae toma pd 

ma morte, segundo Ratiiio Teilor. 
Libya, he o mesmo que Africa, terceira p 

terra, dita asai de Libya, filha de Epapbo 

de Bnsirls. 
Lipuscna, oa Gnipnzcoa, Prorincia de Bitcal 
Lisboa, ceUberrimo Empório de Portugal, « i 

de todo elle. 
Livonios , poT09 de luima Provincfa de Sar 

Londres, Cidade anliquissíma de Inglaterra, 
beça de loto o Reino. 

Loihariogia , Proviocia de Europa, a qual aj 
menle se dizia a Áustria , e Austra9Ía. 

Loio, arvore eui que fui convertida huma N' 
desie noúie ; cujo fruclo he taõ saboroso, «t 
os Poetas, que dizem que o« que comem d 
e«qnerem de suas terras, maUieres, e filhos, 
sucFCileo aos companheiros de Ulysseí. 

Lourenço : este be Dom Lourenço de Atme 
qual defronte de Canauor, com onze velas, t 
hiam súmcnle 800 homées, desbaralou faiu 



DOS NOMES PRÓPRIOS. . 999 

fnada do Samori , composta de 8 iiãos grossas , eP 
I ^4 paraos , em que Jia-via gente sem conto. 
Lourenço, Ilha Êimosa na costa da Ethiopia, a que 
os da terra chamaõ Madagáscar. Ha nella differentes 
Reis , húus , Mouros , outi'os Gentios, 
lis , foi nono do nome em Franca , e dos Reis 4^* 
fiilho de Luís oitavo, canonizado por Sancto na 
Igreja de Deos , pelo Papa Bonefado VIU. anno 
de 1 197. 

isitania , he Portugal. 
ISO. Vide Lysa. 

cia , Regiaõ da menor Asia , célebre pelo OracuW 
de ApoUo : cujos moradores, dizem os Poetas, fo- 
ram convertidos em rãas , por negarem agua a La- 
tona, passando por alli , em tempo de grande cal- 
ma , apertada da sede. 

^eo , hum dos nomes que os Poetas daõ a Baccho , 
que os Antigos tinham por inventor do vinho , ha- 
vendo-o sido o Patriarcha Noé. 
nces , animaes que vem muito. 
sa , ou Luso , companheiro , ou filho de Baccho < 
de cujo nome, Portugalo se disse Lusitânia. 

M/ 

icedonia , Província de Europa , dita assi de Mace- 
don filho de Osíris, celebre pelos dous Reis Phí- 
lippe , e. Alexandro. Também se disse Emacia , ou 
Emathia, e agora Turquesía. 




Soo IHDEX 

Maçaa , Cldtde poitti «m hnma Illui do metno 
na costa de Ahkm. 

Bfadagatcar , ho « Ubá de S. Lonronço , de qnt 
fica dito. 

Mafoma , od Ma&mede , Árabe , Invontor c 
da leita Bfahomeuna. O qual diaem^M BfonrM 
ceder de Abrahaõ, et de Agar soa eaiara^va : fiii A' 
de Abdelá Gentio , e de Emioa , Hebrea de m^ 

Mafra , Yilla no termo de Cintra. 

Magalhães, foi Femaò de Magalháes Porliigiici:* 
qoal aggrayado d^ElRei Dom Manoel , se p&issosi 
Castella. donde partio com cinco velas para ai Ilbtf 
de Maluco , em cuja viagem deseobrio o Estreito, 
que de seu nome se chama de Magalhães. 

Magos : em a lingna de Pérsia, Mago he o mesmo qoe 
na Grega Philosopho , e na nossa Sábio. GcMnmoB- 
mente se toma por qualquer feiticeiro , e assi 

Magica Scientia , a feitiçaria. 

Magriço : assi se chamava de alcunha Álvaro God- 
çalves Coutinho , filho do Marechal Gonçalo Vt^ , 
qucs Coutinho , e irmaõ de Dom Vasco Coutinho, 
primeiro Conde de Marialva. O qual foi hum doi 
doze Portuguezes , qu^ passaram a Inglaterra , eo 
favor daz doze Damas, cuja historia com tanta ele- 
gância o Poeta conta. 

^lahometa, cousa de Mouros, os quaes se cfaamió 
Mbhomctanos. 

Malaca, Cidade Dohilissima do Oriente , chamada 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3íit 

Áurea 4 asst pelo muito oaro que nella ha , como 
por sua formosura , e.abundaneia de todas as boas 
cousas do Mundo. Diz-^se por outro nome Gherso- 

neso. 

Malaios , òs moradores , e póTOS de Malaca* 

Malavar , Reino do Oriente , onde está situada a Ci- 
dade de Calecut. 
iMaldiva , huma das Ilhas deste nome, e principal de 
todas ellas , sitas defronte dà costa da índia : de- 
baixo da agua tem arvores que daõ o coco , que cha- 
mamos de Maldiva. 

Maluco, saõ cinco Ilhas deâte nome , em as quaes se 
dá o cravo. 

Mandinga, Província grandíssima de Negros, em a 
costa de África , a qual he muito abundante de 
ouro. 

Manoel , foi ElRei Dom Manoel , primeiro do nome , 
e i5. dos Reis de Portugal, et fílho do Infsinte Dom 
Fernando, em cujo felicissimo Reinado se desco- 
bi^io e conquistou a índia. 

Marathonios campos, cstaõ na Regiaõ Attica de Gré- 
cia, em os quaes Melciad^^ valerosissimo Capitão 
dos Athenienses, desbanKou a Date, Capitam de 
Dário Rei dos Persas. 

Marcello, he Marco Marcello, Capitam Romano va- 
lerosissimo, o primeiro que venceo a Annibal , Ca- 
pitam dos Cartaginenses. 
a. 




Harciajag», W« (Mn* da lU 
siioi tinham por^Mi daUa. 



Horato*. 
Macia, foi «Balnh» Dona Hnta.OfatdtBI 
AIÍBiiiii,a ^ni"- ■*Tr ~~t~i ttt "irli^l; i 
cauda eoM ^IKel Dom 4lc> 



inhmniHw , <pHF ° 



Hainx^ , Cidadã da Barlwiik , « éalMç» Í0 h 
no atai chamado: 

Harie, filhftdc Jupter, cdejono, « qneoai 
tinhaiD por deoB da BDetT*, e de-ordinaifo 
pela meama gncnrra. 

Martiin Lopes , foi ham Fidalgo Portugiiei m 
forçado, o qual na entrada qac em Portugal I 
Ptdro beroandes de Castro, pessoa prfuc 
Casrelta , o qual por amor dal Conde» do ] 
havia lançado com os Houros, et diegoa i 
Abranrei, com poaca gente, odesbaratoa, i 

Haninho, foi este Mamm A&nso dè Sobm, 
jenlissimo Capilam , e «abio Goremadoí- na 
a quem succedeo Dom Joaã de Castro, aani 
ao mccedido, 

Moacareulias : de dona &i o Poe14 menoaò ; h 



DOS NOMES PRÓPRIOS. . 3o3 

Pedro Mascarenhas Capitam de Malaca , que por 
secunda via succedia a Dom Henrique de Menezes 
em o governo da índia ^ mas por estar ausente y lhe 
naõ foi possível. Este fidalgo foi muito valeroso, 
e tomou a Ilha I)^ntao , sujeita aos Reis de Malaca, 
sendo que havia neila Soo. peças de artilheria, e 
outros muitos petrechos , e invenções de guerra , 
alem de huma armada d^EIRei de Pam. O outro , 
Dom Joaõ Mascarenhas, Capitam de Dio, no tem- 
po de Dom Joaõ de Castro , o qual defendeo aquel- 
la fortaleza de mais de 3o mil homêes, e 6 mil 
Turcos, com menos de 600 Portuguezes,"por es- 
paço de seis mezes, até que foi soccorrido, com 
que depois ganhou huma grande victoria em hata- 
Iha campal. 

Mascate, Lugar, que>está de Socotorá para Ormuz. 

Massilia , he a que por outro nome chamamos Mau- 
ritânia , e commummente Barbaiia. 

Dom Mattheus, Bispo de Lisboa, dando batalha a 
quatro Reis Mouros; a saber, ao de Córdova, ao 
de Sevilha, ao de Badajoz, e ao de Jaem, que vin- 
ham a soccorrer os Mouros de Alcaçar, com muito 
menos gente os venceo, e os quatro Reis foram mor- 
tos, e muita de sua gente. 

Mavòrte, he o mesmo que Marte, deos da guerra. 

Mavórcios perigos, os da guerra. 

Meca, Cidade de Arábia, em a qual ha hum poço, 
com cuja agua dizem os Mouros se lavava Mafame- 




3o4 INDEX 

de, e por ism v>õ tanloi a cila de dtfferentei pi- 
tes em romarias, porque cnidam que esle lavaum 
sdraenie baata para sua salvação. 

Miíivi», Rio grandissirno, ■> qual nasce na China,) 
correpelaBeiaodeCaiabuja.liilerprelB-seCBjlílaa 

Medúa , Glha de Ela , Bei de Calrhot, grande feiticei- 
ra, e mui esperdiçada por Ja-on, por cnjo amor 
jnaliui a síti irmaõ, e fugindu de seu pai, Ibo Ul 
knçaodo pda OLioiubu em pedaço», porque aiaili 
vcEi-e u-topo para fiiQi ■, cm qnamo seu pai se ddi- 

Altitiua, Lugar puqueuo de Arábia, em o qual dixe» 
esld o Çuucanuu, ou CJlcanliar do Riulditu Hiíf 
mtde. 

Medilerranu mar, he aquelle que divide a Airica J> 

Medusa, filha de Phaico, e de hum monstro maR- 
louio succedeo a Ailanie, Hei de Africa, o qtul 

Megera, gllia de Acbemme, e da iioilc, huma hl 
iiEi turiai que os Pi.elas iingcui havei' no luferno. 

Meictades, Capitam famoso Alheiíienae, a qual coia 
inuilo pouco podei' desbaratou junio a hum Lugar 
chuinado Maralhon^, Dale General d~EIRei Dário. 

Me1iupor,'on Meliapur, Cidade Do Reino de Narsin- 



DOS NOMES PílOPRIOS. 3p5 

{^a , em a qual padeceo martyrio o Apostolo S. Tho> 
xné : que hoje está nella sepultado, 
lilelinde, Cidade na costa de Africa, cujo Rei foi sem- 
pre grande amigo dos Portuguezes. . 
3f tlique Yaz, hum Mouro, que de captivo de hum 
Mercador, veio a ser Senhor de Dio, Cidade rica, 
e bclla da índia. 

Mem Moniz, filho de Egas Moniz, Aio, e amo d^El- 
Rei Dom Afonso Henriques, foi esforçadíssimo Ca- 
valleiro. 

Mem Rodrigues.de Vasconcellos , foi Fidalgo mui 
valeroso no tempo d'ElRei Dom Joaõ o Primeiro. 

Memnon, filho de Titam, e/la Aurora, de quem, 
morto por Achiles, foi convertido em ave. 

Memnonio, lie o mesmo que Memnon. 

Memphis, he hoje a graõ Cidade do Cairo no Egypto. 

Memphitico, quer dizer cousa do Egypto, onde Anu- 
bis ídolo era adorado em figura de cam. 

Menaõ, Rio, ( cujo nome na lingua dos naturaes quer 
dizer mãi das aguaS ) divide de alto abaixo o Reino 
de Siaõ , e dizem que tem de comprimento mais de 
Soo. léguas. 

Meneses : o primeiro foi Dom Duarte de Menezes fi- 
lho herdeiro de Dom Joaõ de Menezes Conde de 
Tarouca , Prior do Crato , da Ordem de S. Joaõ , 
Capitam de Tangere, e Mordomo morda casa d^El- 
Bei Dom Manoel, e seu Alferes mór, pessoa no- 
tável neste Reino, por seu sangue ^ e cavallaria. O 

a6. 



í«6 . ■ lE» 

spganda bl Dom Heni^iie àe Menaces', « 

alcunha, dç que Btrax 6c> feita mençaõ, dim 

Henrique. 
Heotii, ^afõ^ de Scydiia na Regiaã Sepientrioulf^J 

qaeosBcyrliBiriíaiiiâramTemeTiuda, qtieqi 

ler, mSi do raar. Oatroa lhe cbaroam inar dê 

bapctio, mar dblb Taiia, mar branco, e 

mrnte Carpaloe. 
Merrurio, llllvo de Júpiter, e ác Maia, ■ 

Poetas ri£i'in núncio dus deoses, e da id 

lhe daõ diversos nomes. 
Meroe, Ilha grandi^lma do Nilo, em a quat bahau 

Cidade do mesiuo nome, qae dizem tót edifioik 

por Caribiz, e lhe poz o nome de hiiina_ ma inata 

alli sc:pullada : lioje se chama Neba. 
Hincio, Rio que passa junto a Mantua, pátria i» 

grande Poeta Virgílio. 
Minerva, hlha de Júpiter, e deosa da Sabedoria, edt 

Iodas as Artes. 
Minho, Itio assai conhecido em estas nossas pane*. 
Hinias, Povos de The^salia , os que passaram a Gol- 

chos cm conquista do Vello de ouro, na ndo Ar- 

goi, a quiil diiem os Poetas foi a primeira qne n* 

Mundo houve j mas be falso, e contra toda a TCf 

dade. 
Miralmuminim, na lii^ua Arábiga quer dizer Príl>Ò- 

pe dos Scienie« , e assi se intitulava bum .^bedrt- 
K.jwtn, Iniperailat dtii Mouiu, que diwm liiBdn 



DOS NOMES PRÓPRIOS. S07 

. a Cidade de Marrocos para Metrojj^oli, e Cabeça de 

seu estado. 
Mirhocem, foi hum Capitam do Soldaõ do Egypto. 
Moçambique, huma poToaçaõ pequena em a costa de 

Ethiopia : a qual he hoje a principal escala que as 

nossas náos tem na viagem da índia. 
Moçandaõ,he hum Cabo chamado por outro nome 

Aiiaboro eutre Arábia , e Pérsia. 
Mogor, heoque commummente chamamos Tartarb. 
Moloso , he o lebieo, chamado assi de Molosia , Pro- 
víncia de Ej^ro , que hoje se dis^ Albânia , donde 

vem os melhores. 

Mombaça , Lugar na costa de Melindc , cm o qual he 
todo o mato de kiranjaes. 

Monçaide, foi hum Mouro natural de Tunes, o qual 
eslava em Ca'ecut quando Vasco da Gama alh che- 
gou : e se iez taõ familiar dos Portuguczes, com 
que havia communicado em Oraõ , que se veio com 
elles a este Reino , onde reccbeo a Fé de Nosso 
Senhor Jesus Christo , em a qual morreo. 

Mondego , Bio entre nós bem conhecido : nasc^ e 
morre dentro deste Reino. 

Morphéo, fingiram os Poetas ministro ou filho do 
somuo. 

c 

Moscos , os de Moscovia. 

Moi»covia , por outre nome a Rússia , he boje o Im- 
pério do Graò Duque : em o qual ha o animai Ze« 



3o8 INDBX 

bdlOf COJMptlItfllÕt>6|1fHWfclClMpW^>>M|> 

thas : e seidimn comnwinunenta Armlaliot. 
Blouia y Vflla de Portupl , «i Ptoonnda de Alonftp 
Moysés, primeiro LeeijOador, e IkNitordtt ^ 
Malaca >, Rio do Beino de Fés eM Afriõi. 
Muiice, certo meritoo , do qail te tim a cor l um ê 

lha , qae diaaiam parpura. 
Musas, Coram oore filhas de Júpiter, « MncaMisyiKt 

as qoaes se dis foram inventoras dos Tersos 9 c p« 

ues invocadas dos Poetas. 
Myrrfaa , filha de Cynaro , Rei de Oiypre , e mii èt' 

Adónis, taõ luxuriosa , que se deiffc occultamente 

com seu próprio pai , c finalmente dizem fm coa- 

veriida em a arvore de seu nome. 

Nabatlieos montes , ou Nahatheas serras , saõ as terras 

do Oriente, oude.he a Regiaõ Nabathea, chamada 

assi de Kabath , primogénito de Ismael , qae nelia 

reinou , cuja Metrepoli hc Petra. 
Piuiades , ou Naides , s^õ as Nymphas das fontes , e 

dos rios. 
?iuii-es, sobrenome dos nobres entre os Malabares » 

gente da índia. 
Kapoles, chamada Parthenope, debuma Sirena deste 

nome , hebuma illusire e formosa Cidade na Cais? 

pania , Kegiaõde Itália, e Cabeça doReinodoí 

mo nome. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3og 

Narsingua , Reino grande e rico do Oriente , o qual 
por outro nome se chama Bisnaga, da grandissima 
Cidade Bisnaga , Cabeça e Metropoli do Reino. 

I^avarra , parte e Reino septentrional de Hespanha. 

líavaiTo, ode Navarra. 

T^ectar , dizem os Poetas , que he o beber dos deoses, 
Como a Ambrósia , o comer. 

líemêo , animal , he o leaõ , que Hercules matou no 
bosque Neméo em Achaia. 

I^emesis , chamada por outro nome Rhamnusia , foi 
filha do Oceano, e da noite ^ e tida dos Autiguos 
por deosa da Justiça. 

I^eptuno, filho de Saturno, e de Opis, foi entre os 
Antigos tido por deos do mar, e o principal de todos 
os deoses marinhos. Toma-se algumas yezes pelo 
mesmo mar. 
Nereidas , as Nymphas filhas de Nereo, e de Doris. 
ri éreo, deos do mar, filho do Oceano , e Tethys , o 
qual da deosa Doris sua mulher teve grande numero 
de filhas , as quaes se dizem Nereidas j figurada- 
mente se toma também pelo mesmo mar. 
Nero , cruelissimo Imperador dos Romanos. 
Nhuia , he Pêro da Nhaia , Castelhano , mas casado 
ém Portugal , e morador em Santarém , o qual fez 
a Fortaleza de Sofala , e matou o Rei Mouro da 
terra , que lho queria impedir. 
Nicoláo Sacro, pelo bemaventurado Saõ Nicoléo^ 
grande advogado dos navegantes, 




3jo INDEX 

HícoUo, Coelho, Capitam de Inim dos cinco 

com qne Vasco (la Gama Coi em descobrimenio à 

I^ilo , Rio grandittimo doEgjpto, e am diMl 
do Mundo , o qnBl ubeicd em bam moDM d 
rior Mauritaoia j e dividindo Africa de Adi 

Silnticas enchentes, as do Nilo. 

ríino , filho de Bello, que foi O prinwlro Aei^dt h- 

Eyria , e de SemiramU , a qoul ee àix. tjae fbi oiiJi 

pelas pombas. 
Hiobe, filhu deTanlalo, irmãa dePclope, ei 

de Ãniphion , Bei de Thebas , a qual pcu- se qnerff 

prelÍTÍr a Lulona , fbi conrerlída cm pedn. 
Hisa, Cidadeda Indút, ema qoal nact:<t Bacduk 
Sise , Nympha do mar, filha de Neceo. 
Noba. Videlderoe. 
Nocturno deos, be Erebo , que o» Poetas fiuem » 

sado com a nolle, e di:Km ser o porteiro do So). 
Hoc , pai de Sem , Cam , et Japhet , foi o prímein 

Palriarcba da segunda idade, o qual depois da 

diluvio ensinou o modo de plantar as vioba*. 
Iloronha , be Dom Garcia de Noronha , Tiso-Ilei qw 

fbi da Índia. 
Boiuega , Província da Europa Septcnlrional. 
Noto , he o veuto Sul , ou Vendaval. 
Huno, Alvares Pareira, C(aide*uvdde*tctltuniii,t 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3it 

defensor delles ^ de cujas marayilhas está o Mundo 
cheio. 
Nymphas , deosas que os Poetas fingem; das quaes as 
que presidem nas aguas se chamam Naiades; as 
que nos montes Orçadas j as que nas arvores e bos- 
ques , Driades , Hamadríades, e Napéas. 

o. 

Obi, Rio do Oriente. 

Óbidos , Villa de Portugal. 

Oceano , filho de Gelo , e Vesta , deos do mar, casado 
com Tethys , e pai de todos os rios , e fontes. 
Os Poetas o tomaram por qualquer mar. 

OctaTÍano , Gesar Octaviano , Imperador de Roma. 

Octávio , he o mesmo que Octaviano. 

Ogygia , Ilha no mar Jonio. 

Oja , Gidade na Gosta de Melinde. 

Olympica morada , he o Geo. 

Olympo, monte de Blacedonia, chamado Jhoje de 
Sancta Gruz , pelo successo que alli teve Saocta He- 
lena vindo de Hierusalem. Diz-se que he taõ alto , 
que passa a Regiaõ do ar , e ordinariamente se toma 
pelo mesmo Geo. 

Ompbale , Rainha de Lydia , por quem Hercules fez 
grandes extremos , até fiar e lavrar como mulher. 

Ophir , Regiaõ célebre na sagrada Éscriptura , abun- 
daniissima de ouro, pelo que algúus tem para si, 
que he a Ilha Samatra junto à Malaca. 



3l!l ' ' : tNd«Ít--V- 

OnátfPovofMWafftidoBMGaiigcC ' 
Oriente, onde o Sol oásce , fMÚwm toou pela 
Oríonti , GoMialItçaõ , ivnto«o Si||no de Tewe -A 

Poetas o fiuKm filho de Neptuao ^ e de 

^rado da oorina de avbot. 
Orithia , noaM de hana das Nyaphaa da auur,i 

da do Tento Boreas. 
Oriía i- Bailio do Oriente, o qoal oíMncçe da ttm( 

Narainga, e acaba no Gabo Segogog». 

Oriando , por« opinião' de Maroo António SafatBaj 
fin verdadeiramente hum daquellea Paladinos «al^ | 
roses e esforçados nas armas , os quaes em moios ' 
emp rezas tiveram singulares e gloiiosas victorias.A 
este mafou Geneleaõ á traição com outros muitos e 
fortissimos Capitães. 

Ormuz , Cidade inclyta da índia , situada' em hmii 
pequena Ilha, chamada Gerum, em a garganta <1> 
mar Parseo. 

Òrphéo, filho de Apollo , e da Musa Galliope^ Pms 
excellemisstmo , e amante de Eurydice. 

Ottomano, nome dos Imperadores de Turquia. 
Ourique , Lugar no Reino do Algarve. 

p. 

Pacheco , he Duarte Pacheco Pereira , que venceo 
sete vezes o Imperador do Malabar, chamado entre 
cllcs Samori , vindo de todas com grande poder^ 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3f3 

TSita satisfação do que , detpois de muitas pers^ai- 

çoês , veio a moiTer pdos hospitaes. 
Pactolo , Rio de Lydia , que dizem levar aréa» de 

ouro. 
Pado, o mais famoso Rio de toda Itália: os Gregos 

lhe chamam Eridano , e nós vulgarmente o Pò. 
Paio , he Dom Paio Corrêa , Portuguez de naçaó , 

Mestre de Calatrava emCastella, grande Gãvalleiro, 

e perseguidor de Infiéis. 
Palias , fae Minerva . 
Palmella, Villa de Portugal, e Cabeça dos Gavalleiros 

da Ordem de Saut-Iago neste Reino. 
Pam , neste Poema naõ he o deos dos Pastores , mas 

hum Reino do Oriente. 
Panane , huma das principaes povoações d'£lRei de , 

Calecut. 
Panchaia , Regiaõ de Arábia , ém a qual ha muitas 

aiTorés de en censo. 
Pannonios , os de Pannónia , Regiaõ vastissima. de 
, Europa, agora dita Hungria, n 
Panopéa, Nympha do mar, jfilha de Nereo, e Doris. 
Panthea , mulher de Abradatas^, Rei dos Susos , for- 
mosa , e casta. Vide Araspas. 
Paphia deosa , he Vénus, de Paphos. 
Paphoj , Cidade da Ilha de Chypre , dedicadft a Vé- 
nus, donde foi chamada Paphia. 
Parcas , saõ três , Cloto : Ladiesis , e Atropos , filhas 

de Erebo , e da noite , as quaes dizem os Poetas ^ 
a. ^'\ 



3i4 :fNI>Kl 

qne deide o nafdmento àt luHdEim c i i e>tf m 
de sua ^ida, como lhes {Mireoe, fiando $ e ^^ff 
tara Gloto , oovi a;roca , Ladittis fiasdo , 
cortaDdo o fio. 

Pares , eram doce Pessoas, sei» Ecèlemstíeoa , e idi 
Seculares , que Carlos Blagno Rei de França 
Iheo eaifo oe Principaes.do Reino , para oa 
ooauD^ á guerra; e (^mou os Pares , que isí MM 
como 8e os chamara iguaes. Por outro ncMnetedòn 
Paladinos. 

Parnaso, monte de Phõcís , dedicado ás Musas ; aep^ 
do qual está a fonte Castalia, cuja agua tinha tal vn^ 
tude , que os que bebiam delia ficavam logo Poetts. 

Parseos , he o mesmo que Persas. 

Partenope. Vide Nápoles. 

Patanes, povos da Índia , poderosos em gente, e terras. 

Paulo : hum Ibi o bemaventurado Saõ Paulo, Apos- 
tolo de Chrisioj o qual indo preso para Roma, teve 
nomarhuma grandíssima tormenta. O outro, Pauk 
da Gama , ii maftde Vasco da Gama , descobridor 
da índia. 

Pedro : de muitos faz o Poeta mençaõ. Seja o primeiro 
S. Pedro, Príncipe dos Apóstolos. O segundo, 
Dom Pedro, Rei de Poitugal, filho d'EIRei Dom 
Afonso o Quarto. O terceiro , o InÊinfe Dom Pe- 
dro , filho d^ El Rei Dom Joaõ o Primeiro , o qual 
foi Duque de Goimbi^ , et Governador destes Rei- 
nos em tempo d^ElRei Dòm Afonso o Tercero, sca 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3i5 

sobrinho ; o qual Iu£aiite esteve em Alemanha , 
onde fez muitas rousas memoráveis. O quarto, o 
Conde Dom Pedro , filho de Dom Joaõ Afonso de 
Menezes , Conde de Viana; foi o primeiro Capitam 
e Governador de Ceita , a. qual defendeo do dous 

. cercos valerosissimamente contra toda a Barbaria. O 
quinio , Dom Pedro de Sousa, Capitam de Ormuz , 
mnito esforçado Cavalleiro. £ o sexto , Pedro Ro- 
drigues , chamado do Alandroal , por- ser Alcaide 
mór desta Vilía , Cavalleiro de muito -valor , em 
tempo d^ElRei Dom Joaõ o Primeiro. 

Pegú j Ri.ino Oriental, em o qual ha muito ouro, e 
outras pedras preciosas , e abunda^ocia de manti- 
mentos. 

jPeleo , Rei de Thessalia , o gual ibi casado com .Te* 
thys , senhora do mar. 

Penates, os deo8es,a que honravam os Gentios dentro 
de suas casas. 

Peno aspérrimo, hc Annibal. 

Perillo , hum homem de grande engenho , natural de 
Athenas , o qual inventou a Phalaris Tyrannohum 
género de tormento para matar os homées , a que 
era naturalmente pouco inclinado , que foi hum 
touro de metal , em o qual metidos os homées , e 
posto debaixo fogo , bramavam como- touros j. e o 
primeiro que padéceo esta cruel morte, foi o mesmo 
Artífice. 

Perítboo , filho de )xiaõ, intimo amigo de Theseo. 



3i6 INDElt 

Pems , m6 o« mondares èe Pcrriri. 
Penia, Begiaõ de Ásia. 

Phaeton, on Phhelonte , filho do Sol , • de CSfaMWi 
querendo g o vern a r o cmto dê tea p^, abnMai 
Mundo , até qae Júpiter o matoa eom Imni nua 
PhalarU, Tyranno de SiciUa , o qual naô pisflifai 
tempo mais que em ínrentar generoade tiMrmartH» 
com que mataur os Tassaloa, de^oU de lhes tinr 
as laiendas. 
Pharaó , Hei de Eg3npto, oqnal fiai caatigedo deDsoi, 
só por maudar lhe lerassem a casa Sara , mulher de 
Ahrahaõ. 
Phasis , Rio grandíssimo , que nasce no monte Cáu- 
caso, e passa por Colcos , ProTÍiiria de Ásia, dia- i 
mada hoje Miiigrelia, sujeita ao Graò Cam^ senhor i 
de Tartaria. 
Pheaces , Ilha , a que hoje chamamos Corfii , e oo- 
tro:> Corei' a , da qual eia natural Demodoco, Mn* 
sico ezcellente. 
Phebo , e Apolio , saõ nomes do Sol : o qual , ea Lãs, 
dizem os Poetas ser filhos de Júpiter, e de Latona, " 
nascidos ambos na Ilha Delos. 
Pheiíix , ave única, e só no Mundo, a qual diíeii 

vive em Aiabia. 
Philaucia , he o amor próprio. 
Dom Phiiippe de Menezes, Capitam de Ormui, o 

qual houve grandes victorias na índia. 
Philippicos campos» chamados assi da Cidade Phiiijk- 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 317 

pos , em os quaes foi aquella batalha de César , e 
Pompeio 9 e a de Octaviano , c Marco Autonio , 
coDtra Bruto, Cassio, et outros conjurados. 
Philippo,Rei de Macedónia, pai do grande Alexandra 
Phiiomela, he o rouxinol, em que ibi convertida hu- 
ma filha de Pandion deste nome. 

Phlegon , hum dos cavallos do SoL 

Phocas , lobos marinhos. 

Phormiaõ , Philosopho da seita dos Perípateticos , o 
qual indo hum dia Annibal ouvi lo á sua escola, lhe 
fez huma larga Oraçaõ sobre o offício do bom Ca- 
pitam , e cousas tocantes ao exerciciò da guerra , 
com tanta eloquência, que os circumstantes ficaram 
todos admirados , excepto Annibal , que só o teve 
por doudo. 

Phrygio.s, be o mesmo que Troianos. * 

Pindo , monte de Macedónia , dedicado a ApoIIo , e 
ás Musas. 

Plinio,dito Caio Plínio segundo, natural de Verona, 
viveo nos tempos de Vespasiano, cujos negócios 
administrava» Escrevo huma obra da nature^ das 
cousas, e morreo no incêndio do monte Vesúvio, 
querendo esquadrinha', a rau.sa delle. 

Plutaõ, Rei dos infernos , segundo os Poetas. 

Poleás^ saõ pela maior parte escravos dos Naires , em 
a índia, e taõ vis entre elles, que p ^^aire que 
trata comr Poleá , tem pena de morte : e o Po|eá 



«>.-,. 



Si8 fl9DBX 

nunca pdde mednr, nemwriMiH^ tèmMkUrmíá 
gráo de honra. 
Policeoa, fiilia de Príamo, Rei de Tnua.' 

Polidoro , filho de Priamo, Rei de Tróia , ao qjnalitt'" 

toa Polimnestor, Rei de Thracia, pcw avaren. 
Polimnestor 9 Rei de Tiirada. 

Polónios , os de Polónia , ProTlncia vastissiaia de 

Europa. 
Poios, «iô dons pontos astrológicos, que oomoMm*. 

mente cl^amamos T9orte 9 e Sul , e de ordinário 

este nome Polo se toma pelo Ceo. 

Polyphemo , Cyrlope , filho de Neptuno, e da terra, 
o qual dizem os Poetas tinha hum só olho na testa, 
taõ graode como huma rodella. Esfe era fero, cruel, 
e comedor de caine humana. 

Pomona , tinhaõ-na os Autiguos por deosa da fructa. 

Pompeio, cha o lado Magno por suas victorias,etrium- 
phos , ioi vencido de César , mas sò nisto seu in- 
tci ior. 

Pompilio, foi Numa Pompilio, Rei dos Romanos , o 
qual despois de »e aquietar com seus inimigos , se 
deo tudo ao culto dos lialsos deoses. 

Pomponio , coguouiinado Mella , escieveo elegante- 
mente de situ Orbis. 

Pondá , fortaleza do Hidalcaõ , três léguas de Goa 
pelo sertaò dentro. 

Ponente , onde o Sol se põe , a nosso modo de £aUar. 



DOS NOMBS PRÓPRIOS. 319 

Poro; antigao Rei'de Gnzarate, grande CáyaUeiro , 
muito esforçado , e inuito bellicoso. 

Prasso promontório , he o que commummente cha- 
mamos Gabo das correlites. 

Progne , filha de Pandiaõ , Rei de Athenas , e irmãa 

j de Philomela , a qual matou a seu filho , eo deo a 
comer a Tereo sen pai, convertida despois em 
andorinha. 

Prometheo. Vide Japeto. 

Protheo, monstro marinho, do qual contam os Poetas, 
que se transformava cm varias formas. Este tem 
.cuidado dos peixes do mar , que he o seu gado , e 
he grande adivinhador. 

Ptolcmeo, Astrólogo insigne, natural de Egypto. 
Vide Arsincie. 

Pyrene , filha d'£lRei Bebryce , a qual morta pelas 
feras, f < i sepultada em os montes, que de seu 
nome se chamaram Pyreneos , os quaes dividem a 
França de Hespanha. 

Pyreneo. Vide Pyrene. 

Pyrois , nome de hum dos ravallos do Sol. 

Pyrro , filho de Arhilles , e de Deidamia , o qual por 
vingar a morte de seu pai, sacrificou em seu scpul- 
chro a Policena , filha de Priamo , Rei de Tróia. 

Q. 

Queda , Cidade do Reino de Siaõ. 

Qnilmance , Lugar situado na boca do Rio Rapto-, 



3jo IHDEX 

thamidaporoutronomeObi, junto ao Hfído ^ 

Meliiide. 
Quilos , Cidade na coela áe Melindr , toda certHli 

drnuir,a qual Km inuiuti palnaret; , cmnilaasr- 

vnre« , e faonaliyai , romn at de Heapanba. 
Quinto Fábio, cognoiuinadii Maiimo, Dicladoí Bo- 

mano , o qual com cuulelas , e ardil , deMrnio i 

Anuíbal si-m lhe dar baialha. 
Quirino, he lloniulo, primtiro Ftindador de Bomi. 

R. 

ll.;;iilo, fui Marco Acti» Ilegub Cnsi,! Romano, 
II i]ual qiiiz ames perder sua lida, que naõ que k 
I.cides-c SUB pa iria. 

Rcpilii» , CíilKde no Malabar. 

Ithd mauaÍH , be o meamn queNemesis, dcosa da Jus- 
tiça , inimiga dus soberbos, e grande sop«adara 

Illiaudano, rhamailij por outro nome RbQsne, Rio qne 
□asce iiot Alpes , e Sul o lagn que dizem Loaaiu, i 

Itlieiiu, he hum ]>e<{iie]iu Rio, que nasce do Apenioo 
pala Pisioia, e passa jitnio a Bolonha : chamau-se 
por outro nome Lbro, e lioju Bira. 

nimdamonte, hum famoao Paladino, em as Po»iai 
lie Orlando. 

lUiudas, llhii nu mar Carpathio, antignamente assento 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 32^ 

dos Gavalleiros de Saõ ' Jaõ , hoje possuída dos 
Turcos. 

Bhodope , monte de Thracía. 

Riphoos, montes septentrionaes de Scydiia. • 

Boçalgate, Cabo insigne na Árabia Feliz, onde co- 
mi ça o Reino de Ormuz. 

Rodrigo, entende-se Bivar, chamado commummente 
o Cid Rui Dias , que foi valeroso nas armas y e 
ganhou muitas terras aos Mouros, havendo muitas 
TÍctorias delles. 

Bogc'ro , bum dos Paladinos, de que tratei na dicçaõ 
Orlando. 

Boma , Cidade a mais célebre e nomeada de todo o 
Mundo, por haver n^outro tempo sobjugado, e 
metido debaixo de sua obediência quasi todas as 
nações, e Provincias, que estaõ debaixo do Ceo, e 
por ser ao presente a Cidade Metropolitana de toda 
a Christandade. 

Romanos, os de Roma. 

Rómulo , primeiro Fundadof , e primeiro Rei de 
Roma. 

Rui Pereira , Cavalleiro esforgado , e leal Português^ ' 
Rumes , saõ os Turcos , chamados assi por virem 

(.como o Poeta diz ) da casta dos Romanos. 
Ruthenos , chamados por outro nome Roxolanos, 
Qu ^íi$8Íos , saõ os do Reino de Poloma« 



wm 



Sabj , iDoílo nomeada na Escriplura sagrada , fU 
Rainha du grande Impprio da Preste Joaô na 

SaljeaínulBS, as de Arabra , onc]^ eslá a Cidade Sa- 

bá : fae teria nbuDdautt: de ÍDcenio , e de eapecid 

odonieras. 
Sala cia, deusa da mar, mulber de NeptuOo. 
Siiladino, Soldaõ do Egypta, qne ganhou a sanb 

Cidade de Hierusalem , anno 1 187. 
SalamioB , I)ba no mar Euhuico , delronlc de Atbn 

uai, ondeXenu», por valar de Tliemiilocles,!! 

desbaratado : nesta leraa querem os Daloraes qM 

nascesse o Poeta Homero. 
Snmana , Cidadt de Sjila enlre Jndea e Galiléa. 

Orienle.Q qual diiem que aDliguamenliiiaihnmi 

mesma cousa com Malaca. 
SiiiniiUico jllgo. Vide Caudinas forcas. 
Samori, he o nome appellaiivo do Senhor do Eeiín 

de Calecnl,o qoal soa tanto como Imperador, pol 

elle ser o maior Rei de toda aqiiella costa.. 
Sampaio, foi Lopo Vai de Sampaio, Cavalleiro muili 

esforçado. Governador na ludia , onde fe^í cousai 

Bunagá , Rio que divide a terra dos Mouros Azene- 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 3a3 

guês em Africa , dos primeiros ne^os da Guiné , 
chamados Gelofos. 

Sancho : o primeiro foi EiRei D. Sancho, filbo d^El- 
Rei D. Afonso Henriques, muito esforçado, e vale- 
roso ; e o se^^undo , ElRei Dom Sancho Segundo, 
chamado Capello, filho d* ElRei Dom Afonso o Se* 
gundo, remisso, e descuidado. 

Sansaõ, Hehreo de nação, filho de Manué , do Triba 
deDan,£[>i milagrosamente dado por Deos a Manué, 
sendo estéril sua mulher, para destruição dos Phi- 
listheos inimigos de seu povo. Tinha a fortaleza 
noS cabellos da cabeça. 

Santarém, Villa nobre de Portugal, junto ao Tejo, 
quatorze léguas de Lisboa. 

Sant-Iago , Apostolo sagrado , Padroeiro dos Hespa- 
nhoes. 

Sara , mulher de Abrahaõ. Vide Pharaò. 

Sarama. Vide Perima!/ 

Sardanapalo, ultimo Rei dos A ssyrios, monstro de 
sensualidade, e luxuria. 

Sarmaias , os de Sarmacia , Província antigua , cha- 
mada agora Livonia. 

Sarmacío Oceano , mar dé Sarmacia. 

Sarracenos, nome de que os Mouros se jactaõ muito , 
dizendo que procedem de Sara , mulher de Abrahaõ. 

Saturno, filho de Ceio , e Vesta , do qual fingem os 
Poetas que comia todos os filhos que Opis sua mul- 
her paria , c assi he figura do tempo que tudo gasta. 



3a4 INDEX 

Saul , sttlo Bei de Gdom, em cujo lempa o SiiKtg 

I>«vld matou a qnelle soberbo Gigante Culialh, ou 

GoUa*. 
SiioDea, PoTM de AlaDutnha. 
ScabelicBBtro, he Sanlarem. 
Sctva ; «Ce foi Cássia Sceva , Capitão TaUrouisiim) 

de tiiuDa companhia ile César. 
Scinij, ladraõ mui cf^rça^o, o qual ca^tmoavi 

lar io4os léus hospedes com hum grande gent 



Sci|úaó, foi Corncliii rubILo SdpLaõ , chamaclo o 
Africaiip,pEl]aí;graudescavalUríadr]ueem Afris 
fL'Z, priiici|>alme[iie UB destruição de Carlap,o. 

Scylla : de duas íai a Piteta meuçaã ; huma fui filha ie 
Pliorco,amao1eeaniadade Glauco, a qual fcic 
vertida em hum csdioiH), que está no esireila 
Meaiiua , futre Itália , e Sirilia , por arte e inilnt- 
Iiia da ciosa Circe : a outra Foi Ulha de Miso 
dos Magarcnsca , a qual foi ocrasiaò da mor 
veti pai, por sDior d'Clll[:i Mi nos , a quem alb 

Scythas, os de Scylhia, vastinsima Regiaõ Seplen- 

conlendas com os Egypcioa, Sobre a antiguidade 

de suas pátrias, e nações. 
Semeie , mãi de Baccho, 
SeiHÍcapropei»e,he o que vulgarmente dizemos Capri- 



DOS NOMES PRÓPRIOS. SiS 

> 

cornio , Signo celeste, o qual se pinta meio peixe, 

meio cabra. 
Semiramis , Rainha dos Assyrios, infame por su^ 

luxuria , aindaque bella , e falèrosa. 
Séquana , ke o Rio Sena , que passa por meio da 

grão Cidade de Paris em França. 
Serpa, Villa de Portugal, na Comarca do Alemtejo. 
Septentrioáal meta , he o Norte. 
Sertório, natural de Nursia, (que hoje chamamos 

Nezza em Itália ) o qual recolhendo-se a Hespanha , 

fez grandes guerras aos Romanos, e lhes venceo 

muitos Capitães. Este fez seu assento em Évora , a 

que ennobreceo muito, e fez trazer a cila a agua da 

prata para seu ornato , e provimento. 
Sevilha , Cidade celebre em Hespanha , pela qual 

passa o Rio Rethis. 
Siaõ , Reino poderoso da índia. 
Sichem , filho de Hemor , foi morto , e todos os seus , 

e a terra destruída , por tomar Dina a Jacob seu 

pai. 
Sicilia , Ilha famosa , e assaz conhecida , a qual foi an- 

tiguamente junta com Calábria, e a dividio hum 

terremoto, pondo em meio aquelle mar chamado 

estreito de Messina. Foi mâi dos maiores tyrannos 

do Mundo. 
Siculo mar, o de Sicília. 
Siene , Cidade de Egypto , em a qual dizem , que em 

certo tempo do anno saõ nélla taõ direitos á hora de 
a. "^^ 



Q nenhuiua 

Sinai , uionle allicstmo de Ârabia , em □ qual 
Nussu Scnlior àeo a Lei a Moysú ; e está hoji 
Mosteiro de Beligii>5Da da vocação da Virj 
Marljr SaDla Cuiharina, que nelle tem sua 

Bino», Grego , tcaidor , celebrado de Virgílio 

deatruiçiio de Tróia. 
Sintra , icira de Porlugal , taó fresca, que no i 

tempo em que muilos Lagares ao redor deli; 

ardendo eni foQO] tem grandi's orvalhados , 

Siqueira, fiii Diogo Lopes de Siqueira, qne in 

na jjovemança da índia a Lopo Soares de 
garia ; o qual entrou pelo estreito de mai 

com huma IVola de ij velas. 
Siracusa , ho o mesmo que Sicília. 
Smirna , Cidade na meaor Ásia j a qual , scf.t 

mais celebrada opiuiaõ, foi pátria de He 

Príncipe dos Poetas. 
Soares , foi Lopo Soares de Albergaria , Core 

da Indiano qual passou ao estreito do ma 

com 36 vélas, em que levava três mil Portu| 

com que meteo em grande temor e contu: 

daquellas partes, 
Socoroi á , litia eutre o Cabo de Farlaque , 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 357 

Cardafu , em a qual se dá o páo Aloe , que he co- 
' mo ò páo de Aguila , muito prezado. 
So£ala, povoaqaõ na costa de Mombaça. 
Soldaõ ^ título dos Reis de Egypto , sujeito hoje ao 

grão Turco. 
Sophenos, os de Sopheno, Província de Suria , gente 

moUe y e afíeminada. 
Strabo. Vide Estrabo. 

Suáquem-, Cidade , e porto, o melhor de todo o es- 
treito do mar Roxo, cercado do mar á maneira de 
Ilha j ^ qual naõ occupa mais terra que. a Cidade : 
cujas casas saõ ao modo de Hespanha. 
Suecio,o de Suécia, Provincia de Escandinávia. 
Suez , Lugar pequeno , et nobre , na costa do mar 
,Roxo, antiguamente dito Arsinoe , de huma filha 
ou irmãa de Ptolemeo , Rei do Egypto , que o 
fundoí^. 
Sumano, heo mesmo que Plutaõ, a que os Antiguos 

chamaram deos do Inferno. 
Sunda, Ilha do Oriente, álèm de Samatra, em a qual 
ha pimenta muito boa , e hum Rio , que naõ sofiEre 
sobre si cousa alguma por leve que seja.. 
Sylla , nobre Romano, da antigua família dos Sei- 
piões , mas cruel ^ e facinoroso : morreo coberto • 
comido de piolhos. 
Syltes, Cidade no Reino do Algarve. 



ip 



Tágide», s; Nymphas do Rio Tejo, chamado sntignl 

meDte Tago. 
Tanais, diio commiimnicnte Tana , Rio qiic na* 

nosmom» Ti|ihpfji, e divides Aliada Europa. 
Taiior , LDQsr na rosca de Mi-lindE. 
Taprobana. Tide Ceilaó. 
Tarits, Cidade dt Andaluzia, dJIB antigiiaiuente Tb 

Tarpcia , liiima doníeila , Glha de Taqieo Romani 
Alcaide nuSi; da fortalcia de Roma , a ijuiil com a 
bica de bumaa inaciilhas que os Sabinos, inimip 
âo> Btunanol , llie prometléram , deo ordem pH 
enirarem no castello , e 4m lugar de manilhas II 

Tarquino , foi Si-xlo Tarquino , filho d<? Tarquino 
soberbo de alcunha , por commetler adulleiio co 
Lucrécia, mulher de Collatino, acabou mal (li 
de Roma , e seu pai perdeo o Reino. 

Tarraj^onez, o da Província Tarragimensi', huma d 
tros em que Hrspaiiha fui dividida : a qual se eh 
mou a;<i da Cidade Tarragona sua Melropolí. 

Tartesio, saõ os Aiidaluies, deTarleso, que he T 
riiá. Cidade de Aiidaliiiia. 

Tavai , Cidade aiuiguamente do Reino de Siaã , h< 
3 ultima do Reino de Pfgú. 

Tavila , Lugar no Reino do Algarve. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. ^9: 

*rauro , hum dos maiores mOntes do Mundo , o qual 
abraça toda Ásia , desde o Oceauo Oriental até ò 
Septentrional ^ mas com differentes nomes ^ con-^ 
forme as varias nações por onde passa. 

Tejo , Rio mui celebrado dos Antiguos por suas aréas 
de ouro : nasce nas serras de Conca , Cidade de Cas~ 
tella a velha , e entra no Oceano, quatro léguas, de 
Lisboa. 

Temistitaõ, he nome da Cidade México., na nova 
Hespanha. 

Tenessari , Cidade do Reino de Siaõ , no Oriente , 
em a qual se dá a melhor pimenta do Mundo, como 
também em Queda , Cidade do mesmo Reino. 

Teresa , mulher do Conde Dom Henrique, pai d'El- 
Rei Dom Afonso Henriques , o primeiro de Portu- 
gal, a qual foi filha d^ElRei Dom Afonso o Sexto*, 
Imperador de Hespanha. 

Ternate, huma das Ilhas do Maluco, da qual sabem 

chamas de fogo. 
Tethys , filha de Ceio , e Vesta , deosa do mar ; e de 

ordinário se toma pelo mesmo mar. 

Thaumante , pai de íris , mensageira dos deoses , e 
principalmente de Juno : toma-se pelo arco celeste, 
que commummente dizemos da velha. 

Thebano , he Baccho , porque sua mãi Semeie foi de 
Thebas- 

Themistocles, Capitam Atheniense de grande nome. 



■ V 




35o IKDEX 

ThcotoDio, fn Dob TlMotonio, Fríor de Suit»Gni 
de Coimbra. 

Thermodoonte, Rio de Tkemitcyra , pequena Re- 
gião , ^i:ÚDha de Capadociu, jiuto m» q«al fijum 
antiçoamente as Amazonas. 

Thermopy las , passo áspero, e estreito, qae ao Iob- 
^ da praia Cm o moote Oeia de Macedónia , Re- í 
giaô de Grécia. O qual, Leonidas Rei de Mace- 
dónia, com pouca gente, defendeo de knm grandís- 
simo exercito de Xerxes , Rei dos Persas. 

Theseo , filho de Egeo , Rei de Aihenas , Heroe cb- 
riàc-iino , emulo de Hercules, e amigo grande de 
Pciiihoo. 

Tlu^iplionio , ou Ctesiphonio , Artífice Êimoso,que 
i'i-z o Templo de Diana cm Epheso. 

Thomé. S. Thomé Apostolo de Nosso Senhor Jcsa I 
Cliri^to , o qual esteve e padeceo marty rio na Cidade 
de MeIiai>or, onde está sepultiido. 

Thrartí, o> ileThracia , Regiaò de Grécia, chamadt 
hoie Roma n ia. 

ThvoíKo , he Baccho. 

Tibrr, coleberrimo Hio de Itália, o qual aparta o Ja- 
niculuda Cidade de Roma. 

Tidore, hiima das ilhas de Maluco na índia. 

Tigris , Uiu ftamoM> na menor Aruifoia , o qual en- 
tra no mar da Pers>ía. 
^Tiniavo , Rio dos Venezianos , ao qtial os Antiguos 
^^■^lamaTam mar,' por tor a agua salgada : eotra no 



' DOS NOMES PRÓPRIOS. 33i 

mar Adriático com sete,, ou nove bocas , e huma 

delias de agua doce. 
Timor , Ilha do. Archipelago, ond« estaõ as Malucas. 
Tinge, Cidade na Mauritânia , e edificada por An* 

theo , Rei da ultima parte de Mauritânia j hoje se 

dix Tanger. 
Tingitana terra , quer dizer terra de Barbaria. 
Titam , "fingem os Poetas pai da Aurora , que he a 

manhãa. 
Tito, filho de Vespasiano, o ^nal tomou a Hierusa- 

lem, e a assolou, c queimou, naõ deixando pedra 

sebre pedra. 
Tobias, nome próprio, celebrado nas sagradas Letras: 

pelo seu guiador se entende o Archanjo S. Raj^ael. 
Toledo , Reino de Hespanha , chamado assi de hMma 
• Cidade deste nome , sua Metropoli. 
Tonante , he Júpiter. 

Tormentório Cabo, he o que commummente cha- 
mamos de Boa Esperança. 
Toro, Lugar quo fica dezoito léguas do Monte Sinai , 

muito filho de agua. 
Torquato , chamava-^se Tito Manlio , homem excel- 

lente , e taõ observador da disciplina militar , que 

iez morrer hum próprio filho, aindaque vencedor, 

por haver vencido sem sua ordem. 
Torres Vedras , Villa de Portugal. 
Trajano , Imperador de Romanos , Hespanhol de Na- 
' çaõ , o qual sujeitando varias JNações por mar , e 



i 



333 INDEX 

por tem conqnittoa até á IndUi , mas naõ entroi 
nellá. 

Traucoso, Villa fiunofia àe Portugal. 

Tritaõ, filho de Neptuno , e de Sakda , aenhores do 
mar , e sea trombeta. 

Truia , Çidáde antiguamente célebre em a Pbrygia, 
ProTincia de Ásia menor , junto do Hellesponto, 
n qual foi dettmuda pelos Gregos, sem ficar pedia 
sobre pedra. 

Trópico , sao os Trópicos , certas balizas , e térmi- 
nos do Geo, entre os qúaes anda o ^1, sem passsr 
nenhum delles. Hum se chama deGancro, da ban- 
da do Norte : outro de Gaprieornio , da banda do 
Sul. 

Trudante, Gidade populosa de Barbaria. 

Turcoò, os Povos de Turquia. 

Tuscos , os mesmos que Toseanos, de Toscana , Re- 
gião de Itália. 

Tutuaõ, Lugar fronteiro de Africa. 

Tuy , Gidade no Reino de Galliza. 

Ty|)heas armas , saõ os raios de que Júpiter usava. 

Ty{ilico, Gigante, filho de Titano, e da terra , ini- 
migo capital de Júpiter , e dos outros falsos deoscs. 

Tyria cõr , he a gi-ãa , chamada alli de Tyro , Gidade 
de Phenicia , que hoje se chama Suria , onde se £u 
excellenlissima. 

Tyrinthio , he Hercules , chamado assi de Tyriuthia 
sua pátria, em Grécia. 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 333 

Tyrios, os da Cidade Tyro^ de quem se diz foi fun- 
dada a Cidade de Cadiz. 
Tytiro, pastor celebrado de Virgílio.. 

V. 

Vandalia , be Andaluzia , chamada assi dos Vândalos, 
Povos de Alemanha j que nesta parte fizeram as- 
sento. 

Veaereo, cousa de Vénus. 

Veneza, Cidade formosa, eriça, e de grandíssimo 
trato, e commercio, edificada no mar, de que está 
cercada , e se anda toda por mar. 

Vénus , entre os Antiguos tida por deosa da formo- 
sura y e dos amores lascivos. 

Vespero, ou Hespero, he o Planeta Vénus , que nas 
partes Occidentaes, em se pondo o Sol , apparece 
primeiro que todas as Estrellas , e Planetas, e antes 
que o Sol saia , se vê também no Ceo depois de 
escondidas as outras Estrellas. 

Vesta , filha de Saturno , e de Opis , mãi de Tethys , 
senhora do mar. 

Viriato, Portuguez valerosissimo, o qual de pastor, 
e dbpois de saheador , veio a levantar-se com toda 
Lnsitania , por cuja defensão deo assaz em que en- 
tender aos Romanos , por espaço de 1 4 annos. 

Ulctnde, Reino no Oriente, entre Pérsia, e Cambaia 

Cílysses, o mais astuto e sábio de todos os Gregos , 



^^ 


^^^^ 


^^ 


3S4 


INDEX 




q«elo 


ram i guerra Troiana : 


foi filho JB L 


Rd de 


llhaca , IILa ; e fuwlaclor de Li»b<,a. 


Ulyssco, 


muros, oí de LiJjoo. 




U,.e«rc, 


ou HuDgaru, o du n 


ngria , donde 


d^Him 


era o DO»e Cotide D. )1 


enrique. 


Ursas,*, 


to as que thamamos gii: 


irda.i do Norli 


V«!«oo 


, Slho de Júpiter, e Ji. 


no, entre os A 


Teiien 


do por fleoi do fo|;o , c 


: SC .oma pelo 


fafio:, 


e os Poelaa diium que 


elle tá lia os 


lopiter MU pai. Foi nudo « 


im Venu», e 1 



Xeque , quer diíer Governador na Itngua 

Xerei, Lugar dt Castella. 

Xemes, filho de Daria, o mais podero 



Zaire, Itio grandissimo de Africa , cuja fante 

seri:iô do Reino de Congo. 
ZebclIinosaDÍmaes, saõ os que commuminei 

Zeila , Lugar na cosia de Africa. 

Zelanda, terra do ISorie. 

ZéphjTO, vento, que por outro nome eh 



DOS NOMES PRÓPRIOS. 335 

. Favonio , e viração , que corre no Veraõ. Os Poe- 
tas o £aizem casado couk Flora , deosa das flores. 

Zona, circulo com queosGeographos dividem a terra, 
os quaes saõ cinco. 

Zopyro , yassallo de Dário Rei dos Persas. 



FIM. 



tt. 



•^ 



ERRATA. 



TOMO II. CANTO VI. 

I 

S8T. ERROS. EMENDAS. 

37 T. 6umvertal, 2e^a universal. 
76 a Neptune, Neptuno» 

CANTO VIL 



t>À V. 8 lieu seu , 
65 7 sommo, 
68 a Inibrmaço, 
80 8 accressentar-se, 



he seo. 
somno. 
In£ormaçaÕ. 
accrescentar-4e. 



CANTO VIII. 



est. 37 T. 8 de cidade, 
43 4 strtifico, 
67 7 a os ardores, 
77 6 As noas, 
79 8malia, 



da cidade. 

artífice. 

e os ardores. 

As náos. 

malícia. 



-VíétoM 



tJS 


89 


v.4«.blimid., 'fera. 
CANTO X. 


.59 


EM, 55 




• }V 


»• 


6eBoar, 1 


>W: 


Upfc. 9, 




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HeKuIe, I 


365 


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33i 


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