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Full text of "Obras do grande Luis de Camões ... novamente dadas a luz com os seus Lusiadas commentados pelo lecenciado Manoel Correa ... com os argumentos do lecenciado Joam Franco Barreto, e agora nesta ultima impressaõ correcta, & accrescentada com a sua vida escrita por Manoel de Faria Severim .."

o MUNDO 
DO LIVRO 

ll-L. da Trindade- 13 

Telef. 36 99 51 

Lisboa 

iiiimiii iimjimuuuuijuuvm) 

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Library 

of the 

University of Toronto 







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OBRAS 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES, 

príncipe dos poetas heroycos, 

& Lyricos de Hefpanha, 

NOVAMENTE DADAS A LUZ COM OS SEUS LUSÍADAS 

COMMENTADOS PELO LECENCIJDO 

MANOEL CORRÊA EXAMINADOR SINODAL 

do Arcebifpado de Lisboa , & Cura da Igreja de S.Scballiaõ da Mouraria, 

& natural da Cidade de Elvas, 

COM OS ARGUMENTOS DO LECENCIADO 

JOAM FRANCO BARRETO, 

E agora nejía ultimalmfrejfaô cortei a^ acere fcentada com a fua Vida efcrlta, 

PorMANOELDEFARIA SEVERIM, 

OFFERECIDO AO SENHOR 

ANTÓNIO DE BASTO PEREYR A, 

DO CONCELHO DE EURET NOSSO SBNBOR, E DO DE SUA 

Real Fax^nda^feu SecretariOyQf fui^da Inconfidencia^Ç^ das JuJiificacôeSy 

& Secretario da Aíiguftiffima Raynha No^aSenhora,(^edor de fua Fa* 

^nda^ Qf E fiado , Chanceler mor de fua Ca^a^ Qf da da Suppíin 

cafaôj Prt^dente do Concelho da dita Senhor a^Çs^ dignif^ 

Jtmo Regedor das fufii^as , ^c. 




LISBOA OCCIDENTAL, 

NaOffidnade JOSEPH LOPES FERREYR A, ImprcíTor da SercmíTima 

Raynha NoíTa Senhora, & a fua cuíla. 

M.DCC.XX. 

Com todas as licenças necejfariasy 






5;, 



'V^. 



Isf) c' 






AOSENHOR ( )^lli: 

ANTÓNIO DE BASTO PEREYRA; ^ 

Do Concelho de El-Rey NoíTo Senhor,& do de fua 

Real Fazédajeu Secretario,&Juiz da Inconfiden* 

cia,&das Juftificaçóes, &Secretarioda Auguf- 

tiílima Raynha NoíTa Senhora, Vedor de íua 

Fazenda, & Eftado,Chanceler mòr de íua 

Caza, & do da Supplicaçâo,Prezidéte do 

Cocei ho da dita Senhora , & dígnií- 

íirao Regedor das J uftiças, &G. 




\JSCA ejla neva Eftawpa das Lufiaãas , que ef» 
creveo o Virgilw PortugueZo o Grade Luis de Ca*' 
moes Príncipe dos Poetas de Hefpanha^ (jafem a 
notta do Efcuropois tjao comentados por feu ami'^ 
go^if com temporaneo o Lecenciado Manoel Cor*' 
rea ) o amparo de V. Senhoria nao como azjtlo de 
defez^a^ mas como Oráculo ^i^vo da Juíttça^ por que fe eft a faltou anti" 
gamem e em remunerar aquelle grande efpirito^que unindo humJíS ou» 
tro miniflerio de Palas foy terror em Africa^ af ombro em Europa 5 0* 
admiração na Afia \ protegidas agora fuás obras por hum Illuíirijfmo 
Mecenas Regedor da^ Juíliças^conhecerá o mundo fatisfey ta a queyxa 
de quando confagrados pelo feu Autor ao Serenifjtmo Rey DSebafliao 
forao menos eítimados pelos que ajfisliao aquelle Principe^njendo ja na 
protecção de V.Senhoúa emendada a injuria tao indifculpa^vel ( qual a 
de Ajax morto na reflituiçao das armas de Achilles ) pelo primeyra 

^ ij Minijiroy 



Moref! 
in Diâi- 
onar. 



Minijlro-i que rege as JufUças^ Çf que ao lado do maisperfeyto^ Çf So^ 
bérdno Alonarcha ejlima os bons Engenhos favorece as boas Letras, 
porqne em a Efcola de 2\dmerva com tantos eãudos as adqmrio V^Se» 
ríhoria-i(3' com tanta comprehençao as profeffou-^que admtrao em V,Se* 
nboria todos o q deHer cu les fabulou a antigaGrecia acopanhando ame^ 
lodici d:is Aiuz^as com a valentia da Jidafa 5 pois qual outro Hercules 
nafortalez^a da Juíliça'^ despedaça V.Senhoriacom o baslaoos deliãos 
quando mais feroz^es^que o Dragão de Lerna^infefiao a armonia da Re» 
publica^vmcuUndo o temor com a docelidade^ o refpeyío com o amor^ 
'virtudes t ao admiráveis em V* Senhoria como próprias defeo emprego, 
iS dofeo nafcimentoipois nadfò he V.Senhoria vigtlantijjnno Secretario 
de ambas as AugufitJJnnAs Aíagejiades ? (^ Minijlro de Graduação 
taoaltijjima-i que como Athalantefufienta na Juíliça-i (^ Concdho to» 
do o LuZiitano globo^mas tambí he V. Senhoria efclarecido tronco das II» 

luftrifjimas Familtas dos BaíloS) Pereyras5preíiellos5Rãgeis, 

& NLcliOS^enla fadas todas na antiga^ elevada Arvore da afcendé" 

cia de V.Senhoria^ qualidades q vencendo os majores Elogios ao mefma 

i^ilkx tempo , que tornao problemático o que efcreveo S.Joao Ch rifo logo. Ma- 

^^' jor eft innata gloria qnam qua^íita ; faz^em certo o que por V. 

caffiod. Senhoria díjfe CaJ]íodoroi^\Jimmu\t'àtVzhzS'Ú>'ànÚ^^^^ me- 
Epirt.j. ryjíti placere de propriis. Mereçapois a aceytaçao de V^Senho» 
ria huma obra^quetor tantos titulos lhe he devida.como também a lar» 
ga vontade com quefou obrigado a deZjCjar continue o Ceo a V. Senhoria 
■vida^ Çf Succejfao taõ dilatada como feus mais afeãuozjOs criados de» 
frecamos 



'\\j' 



DE VOSSA SENHORIA 

O mais obzequiozo,& obrigado 
MANOEL LOPES FEKREYRA. 



PRO- 








o L o GO 




A o L E Y T o R. 

M I G o ou inimigo Lcytor qnem^quer que fores , que para eíla 
Obra te efcuzo inclinado fabcràs , que vendo o muyto cuy dado 
com que todos procuravaõ as Obras do noíTo Grande Portuguez 
Luís de Camões , & a falta que havia delias ; determiney (por 
fazer lerviço à Pátria , & aos amigos , que com grande anciã me 
pediaõ publicallè novamente as fuás Obras ) de as mandar ajuntar 
todas quantas o noílb ínfigne Poeta compoz , & dalas à ellampa: 
pondo-as n^ forma que veras , & os Luziadas Commentados pelo 
Lecenciado Manoel Corrêa o mais fiel , & verdadeyro Commen- 
' tador dellas,pois era muyto amigo,& comtemporaneo defte noiio 
Príncipe da Poezia , & com quem continuamente converfava, & me certificarão, que 
^r fer taõ verdadeyro fora muyto eítimado o dito Commento. 

Também entre tantos Efcriptores , que o fizeraõ da Vida do noífo Poeta, feeílimou 
por única naõ fó no eítillo douta , mas verdadeyra na Hiíloria a que compoz Manoel de 
Faria Severim, & eíla achey ler de mais agrado para os curiòzos,como o de fazer aos mef- 
mos , o goílo de que eítas Obras fe imprimiílem de folio naõ reparando no culto da Im- 
prenfa, íó para que elles como me diziaõ acreditarem as fuás Livrarias pondo nellas eíle 
taõ fuperior Volume, o qualleva no principio deite Livro o feu Retrato verdadeyro, fey- 
to ao natural, & de corpo inteyro atè agora não viíto em Livro algum:& aííim te ofiereço 
eíta Obra , não temendo , como dilTe às tuas Cenfuras fe fores inimigo , porque a tua mor- 
dacidade não pôde entrar , nem fubfiítir à viíta de tantos Varões Sábios , que o aplaudem 
naõ fò Naturaes , mas Eltrangeyros ; pois para eftes terem também a gloria de as logra- 
rem as verterão nos feus próprios Idiomas , em que moílraõ o grande apreço , q ue fazem 
tíètaesObras, &oquantoasacreditáo, & aííim ficaras com a tua malevofencia repré- 
hendido, com a nota de ingrato pelo quedefprezas , &com a de ignorante pelo que 
calumnias ; & fe fores amigo , jà fey que es douto , & que me hades rogar muytos bens 
por te fazer patente o que hà tanto apetecias, & hà tanto dezejavas. 



Vale. 



LI- 



■mIjíí c& <cw c% iSA Çt^ (7? Ca CT? ^ff Vi9 ^& Cr? cn 

^^5 ':jS«^ ^Ç ^€ «Ifc^ 5»5 -^ "^-^«^ 5*^^ ^«^ 

LICENÇAS 

DO SANTO OFFICIO. 

PO'de-fe tornar a imprimir os Lufiadas de Camões de que trata eíla petição, &:im- 
prelFas tornarão ( pelo Meílre Frey Pedro Monteyro Qualificador,conferidas ) para 
ie lhe dar licenCa,que corráo,& fem ella nao correràò. Lisboa 1 1 . de Mayo de 1 7 1 5. 
Haffe. Monteyro. Ribeiro. Rocha, Barreto. Fr.LencaJire. 

DO ORDINÁRIO. 

Confirmamos a licença concedida para a impreíTaõ do Livro dequefetratta,&tor- 
narà,para fe dar licença que corra iem a qual nao correra. Lisboa Occidental 30. de 
Julho de 1710. 'D.J.A.L. 

DO PAÇO. 

^~\ Ue fe poíTa tornar a imprimir viílas as licenças do Santo Officio, & Ordinário, & de-^ 
Vx-pois de impreilb tornem à Menza para ie conferir , &: taxar , & Iem iíTo naõ correra. 
Lisboa 21.de Agoíto de 171 j. 

Cojla. Andrade. Botelho. Galvão, Noronha. 

eminentíssimo senhor. 

POr ordem de V.Eminencia conferi as Lufiadas de Camões comentadas pelo Lecen- 
ciado Manoel Corea,& as mais Obras de Camões unidas nelle Tomo, & eítaõ con- 
formes com o feu original. S.Domingos de Lisboa Occidental 19. de Agoíto de 1720. 

Fr. Tedro Monteyro. 

VIfto eílar conforme com o original, pode correr. Lisboa Occidental 17. de Agofto 
de 1710. 

Rocha. Fr.Lencaflre. Cunha. Teyxeyra, 

lílo eílar conf(5rme,pòde correr. Lisboa Occidental 19.de Agofto de 1710. 

T>.J,A.L. 

AxaÕ efte Livro em dezoyto toftoens. Lisboa Occidental 19. de Agofto de i/x*. 
Botelho, Tereyra, Galvaô, Qllveyra. Noronha, Teyxeyra. 

VIDA 



V 
T 



V I D 




D O G R A N D E 

LUISDECAMÕES 

príncipe dos poetas de hespanha. 




^^mmí^^^ mmmm U L G A V A PHnio por a mayor felicidade da vida fazer pnn. uvi 
^rK.^^«.*- - ^.í— -oc i^umhomcm taes Obras, que todos dezejairemfaber qual jí-cap.ii 

foffc o Autor delias : ^í equldem arbitror (diz elle) nullum 
1 cft felicitatis fpecimen , quam femfer omnes jcire cupere 
qualisfuerit aliquis, Nafce eíle dezejo da conaiçaõ do en- 
tendimento humano , o qual como feu fim feja o conheci- 
mento da verdade, não fe íatisfaz, como diz o Filolofo, até 
naõ alcançar a cauza verdadeyra das couzas. Daqui tiverão 
leu fundamento todas as difputas , & queílóes das Scien- 
cias,quercndo moítrar cada qual,que a Tua noticia eftà mais 
ajudada com a razaõ natural de cada couza. Daqui nafceo efcreverem-fe fobre hu- 
ma matéria tantos livros. Daqui tam^bem comporem-íe tantas hiítorias da vida de 
hum mefmo Principe, ou Varão illuílre,nas quaes o que ultimamente a refere, pro- 
cura apurar a verdade com mais particulares circunltancias, contando mio fomen- 
te os cazos,& fucceílos das couzas,mas os concelhos, & razões com que foraõ fey- 
tas. Pelo que por fatisfazer a elle tao divido dezejo , nos pareceo , deviamos tam- 
bém efcrcvcr a Vida do noílo Poeta Luis de Camões Principe dos Heróicos de 
Hefpanha , por quanto o que delle anda impreíTo he taõ pouco , & diminuto , que 
não iatisfaz em muyta parte com o que todos pretendem faber de femclhantes Va- 
rões;comohea qualidade, vida, coítumes>engenho,feyções, & outras particulari- 
dades fem as quaes fica muyto imperfeyta a noticia que fe requere na hiíloria de 
hu m homem infigne. De todas ellas couzas vay acrelcentada elta Relação quanto 
foy poífivel à boa diligencia que fobre iíTo fe fez,aproveytando-nos principalmen- 
te do que o mefmo Luis de Caoiões de fi refere em feus verlbs , onde ordinaria- 
mente os Poetas deyxão efcritas fuás vidas ; porque he natural aos homens deley- 
tarie de contar os trabalhos, que padecerão , depois de efcaparcm delles. E coma 
Luis de Camões paliou a mayor parte da vida em peregrinações, & fucceííbs vá- 
rios , não he muyto que os deyxalfe pòítos em memoria ; & porque a pobreza com 
que viveo tinha efcurecido em parte a clareza de feus antepaflàdos começaremos 
eíla Rclacãa de fua Vida,dando-a hum pouco mais larga de fua familia, pai*aque fo- 
bre 



Vtda do Grande Luts de Carmes^ 
■ bre eíle illuílre fundamento íique mais eílimado feu engenho. 
FatnUia A família dosCamócs, hcnaturaldo Rcyno de Galiza ; feu appellido dizem ai- 
reóí*" g^"S> 4^^ ^^ alcunha tomada do paíTaro CamSo, a quem os antigos chamarão Tor- 
pjyrw , celebrado de muytos Autores pela admirável propriedade de morrer ven- 
do commetter adultério contra o fenhor da cafa. Alciato o traz no Emblema 47, 
por fimbolo da vergonha,& honeítidade,com eítes vcrfos. 
TroPhyYio^omtm fiincefttt in £dibus uxor, 

IDeJpondetque anmumypr^que doloreperit, 
Ahiita in ar canis tmíura eji caufa,\fit inde»^ - ,. 
Sincera h^ecvpkícris certa fudiciti£. 
O meí mo refere Camões n'huina cartaem verfo, que anda nas fuás Rimas terceyra 

parte dizendo: 1- 

Exprimentoufe algum' hora^^c. 
Porem o mais certo he nam fer^lle iobrenomeálcunhà, fenam appellido, tomado 
do Caáello de Camóes,tam antigo no Reyno deGaHza, c] jà íe faz delle mençam na 
Chronica de S. Máximo , fituando-o junto do promontório Nereo , que agora f© 
chama Cabo de Finis terra. Deite território hà noticia , que tomaram nome os Pe* 
tos chamados Camoefes, tam conhecidos em toda Hefpanha, & que daqui fe Jevà- 
ram para as outras Províncias delia , onde hoje fe vem em grande copia , & o que 
maishe: 

Melhor tornados no terreno alheyo, 

Principalmehteneíle Reyno,porque fam os nolfos muyto aventajados no íabor, & 

fuavidade aos cie Galiza,& por iíTo muyto mais prezados. O primeyro da famiiia de 

s Camões , que paíTou a Portugal foy Vafco Pires de Camões em tempo d'ií.l-Rey 

Dom Fernarido,poi* ter feguido fuás partes contra El-Rey Dom Henrique de Caf- 

tclla o haílarclo. Deu El-Rey Dom F ernando neíle Reyno a eíte Fidalgo em lugar 

doquedeyxàra emGaliza,as Villas doSardoal,Punhete,Maráo,& Amendoa,com 

o Concelho de Geftacò,^ as herdades , & terras, que foram em Eílremos, & Avis 

da Infante Dona Beatriz;. & o íez Alcayde mor de Portalegre,& Alemquer,& hum 

dos principaes Fidalgos de leu Confelho. Obrigado Vafco Pires delias mercês fe- 

guio depois as partes das Raynhas Dona Leonor , & Dona Beatriz contra El-Rey 

Domjoâm o í. de Portugal , como largamente fe contem tudo nasChronicas do 

mefmo Rey.Pelo que lendo prezo na batalha de Aljubarrota perdco todos os V af- 

fallos,& fortalezas,que tinha no Reyno,& fomente lhe dcyxou a benignidade Real 

chromc. as tcrras , & herdades de Elh'emos , & Aviz , & outros bens particulares, que tinha 

D.tôfõ^o ^^ Aléquer,& Lisboa de que feus defcendentes inítituiram depois morgados ren- 

i.*p. I. c. dozos , principalmente em Aviz, & na Cidade de Évora , onde polTuem algumas 

|o.&í ío herdadeSjàs quaes pelo appellido dos polTuidores deu o povo nome de Camoeyras. 

J7s»!& p. Foy cazado Vafco Pires de Camões com huma filha de Gonçallo Tinreyro,a quem 

».c. 39. El-Rcy Dom Fernando fez Capitam mordas Armadas de Portugal , & El-Rey 

Kcgiftof t^^íTí^ joam o í.fendo ainda defenfor do Reyno lhe deu a Capitania de Lisboa. É 

d'Ei.Rey depoisfeguiudo aspartcsdaRaynhaDoua Beatris fe intitulou Meítre de Chriíto. 

D. Fer- }])elle matrimonio teve Vafco Pires a Gonçallo Vaz de Camões , Joaõ Vaz de Ca^ 

mõcs,& Conitança Pires de Camões mulher de Pêro Scverim Fidalgo Francez, de 

Chronic. q\jem fç faz mcnçam na tomadadc Ccuta. Gonçallo Vaz,que foy o filho maisve- 

D.fo^ó^o '^h^cazou com Conllança da Fonfeca , filha de Afonfo Vaíques da Fonfeca, Alcay- 

1. p. 2. c. de ir.òr de Moreyra , & Marialva ( filho de Vaíco Fernandes Coutinho Meirinho 

^jftos^^' ^^^^*' ^ fenhor de Liomil, progenitor dos Condes de Marialva)da qual teve Anto- 

d^ENR-ey ^ío Vaz dc Camocs, oijual foy pay de Lopo Vaz de Camões, & de Dona Aldonça 

D.Ferua. Anncs deCamocs molfier de Ruy Cafco Alcayde mòr d' Avis. 

joaõl L Lopo Vaz de Cimões cafou com Ignes Dias cia Camera, filha de Diogo Afõío de 

* Aguiar: da Ilha da Madeyra , & de fua primey ra mulher Izabel Gonçalves da Ca- 

í^ lu mera. 



Príncipe dos Poetas de fíefpanha. 
mera,fÍIha de Joaõ Gonçalves da Camera primeyro Capitão do Funchal, & proge- 
nitor dos Condes da Calheta , da qual teve António Vaz de Camões , Simão de 
Camoes,& Duarte de Camões. 

António Vaz de Camões cafou com Dona líabel de Caílro filha de Dom João 
de Cai{:ro(irmao de Dom Fernando de Callro,que foy Avò do primeyro Conde de 
Bailo) <& de Dona Franciíba de Brito filha de Fernaõ Brandão o V elho de Évora, 
da qual teve a Lopo Vaz de Camões, & Luis Gonçalves de Camões que fez hum 
morgado em Aviz chamado da Torre,que hoje pollue Simaõ de Camões filho de 
Duarte de Camões , teve mais a Dona Franciíca de Caítro molher de Dom Marti-- 
nho de Souza. 

Lopo V^az de Camões cafou cÕ Dona Maria da Fonceca filha de GafparRodri* 
guês Preto jíilho de Jorge Rodrigues Preto Eítribeyro morda Fmperatris Dona 
li abei , da qual teve a António Vaz de Camoes,& Dona Anna de Caílro mulher de 
Diogo Lopes de Carvalho,Senhor dos Coutos de Negrellos,& A badim. 

Amónio Vas de Camões calou com Dona Franchcada Silveyra, filha de Dom 
Álvaro da Silveyra, filho de Dom Diogo da Silveyra, Conde de Sortelha , & (yuar* 
da niòr d'El-Rey Dõ J oao o Ill.da qual teve a Lopo Vaz de Camões,&: outtos filhos 
que hoje vivem. 

João Vaz de Comões filho fegundo do primeyro Vafco Pires de Camões , foy Afíéns 
vaílaílo d'El-Rey Dom Afofo o V.(titolo muyto principal naquclletêpo) & fervio décia At 
ao meímoRey nas guerras de Africa, & Callela. Viveo na Cidade de Coimbra da^"^'^^^^ 
qual foy benemérito Cidadão, indo por feu Procurador às Cortes daquellestraba- 
Ihoíos tempos da criação d'El-Rey Dom Afonfo , teve o cargo de Corregedor c?*- 
queila Comarca : oíiicio em tam de grande jurifdiçam ; porque nao havia mais c e 
leis no Reyno , & ordinariamente erao fidalgos muyto honrados , & náo proieha- 
vão letras ; como amda agora fe ufa em algumas partes de Hefpanha. Tudoill:o 
coníta do Epitáfio de fua íepultura , que eltà em huma Capella da Craíla da Sè de 
Coimbra , que o meímo Joaõ Vaz de Camões mandou fazer,onde à parte do Evan- 
gelho lèvè hum tumulo levantado de mármore, todo lavrado de figuras de meyo 
reIevo,& nos cantos duas mayores com efcudos das fuás armas nas máos,& cm cima 
do tumulo eíbàa figura do mclmo João Vaz armado ao modo antigo com huma 
efpada na mao, & aos pes hum rafeyro deytado. Eíla Capella tem agora o arco quaíi 
tapado de huma parede de tijolo, porque como faltarão os defcendentes do iníti- 
tuidor,ficou devoluta,& fem aver quem a ornaíre,& tivelTe cuydado delia. 

Cafou João Vaz de Camões com Ignes Gomes da Silvâ,filha baílarda de Jorge da 
Silva , o qual era filho de Gonçallo Gomes da Silva, & neto de Diogo Gomes da . 
Silva , irmáo de João Gomes da Silva, Alferes mor d'El-Rey Dõ João o I.& fenhor ' 
de muytas terras. Delia teve a Antaõ Vaz de Camões , o qual cafou com Guimar 
Vaz da Gama (dos Gamas do Algarve qtrazê fua origem dos de Alentejo)& delia 
houve Simão Vaz de Camões , que indo por Capitão de huma nao à índia fegundo 
Pêro de Maris , fe perdeo na Colla de terra firme de Goa,& efcapando do naufrá- 
gio morreo pouco depois na mefma Cidade. Foycafado Simaõ Vaz com Anna de 
Macedo (dos Macedos de Santarém) & delia teve o noíTo Poeta Luis de CarRÕes. 
Eítes foráo feus progenitores , pelos quaes fe moílra que naõ foy menos illuílre no 
fangue, que no engenho ; & ainda que a falta dos bens da fortuna em que fe criou 
(como quem perdeo o pay de taõ pouca idade,)lhe tirallè em parte os ornamentos 
exteriores , com que fe faz eílimar a nobreza , naõ lhe pode nunca tirar a grandeza 
de peníamentos,que de feus antepaíTados herdara. ' ^ 

Nafceo Luis de Camões Reynando El-Rey Dom Manoel , pelos annos de 1 5'i 7. Pâtríâ ié J/o /^ 
na Cidade de Lisboa , como o teílifica Manoel Corrêa feu Comentador > ^^^'ca"m/*' ^^^S 
o conheceo, & foy feu famaliar amigo, & naõ em Coimbra como alguns cuydàraõ, ^"^'^^r/^V ^ojv; 
pela vivenda antiga que feus Avós ali tiverão. Por eík rezào chama tantas vezes cní iia^ces 



** 






/ 

vida do Grande Lu is de Camões, 
ao Tejo, pátrio, & invoca no principio dos feus Luíiadas as Ninfas do mefmo rio, 

dizendo: . , c^ 

E vòs Tágides mMas,pOiS criado, ^c. 
E no Canto 3 .eítanc.i. quando pede favor a Caliope: 

^oem tu Nym^ha em effeyto meu defejo,^c. 

Porém naõ foy fò Coimbra à que contendeo lobre ter por leu filho taõ excellente 

cngenho;pois antigamente as iete Cidades Gregas pertenderáocora nao menores 

!>lut.m invejas o nafcimento de Homero,querendo cada qual,feríua pátria. Sendo moço 

. vir. Ho- foy eítudar a Coimbra, qentáo começava a tlorecer em todas as Sciècias por bene- 

'"^''* íicio de El-Rcy Dom Joaõ o III. condufmdo eile excellente Principe para meíb-QS 

dellas,Varoes infignes,& dos mais peritos que entáo avia em Europn,dos quaes elle 

aprendeo t lingoa Latina, & Filofofia, & mais letras humanas com tanta perfeyçáo, 

como moílráo íeusefcrites , &: adiante diremos. Deíiaeílada em Coimbra face 

menção em alguns dos feus verfos , &: cm particular na Canção q na íegunda parte 

das luas Rimas he a 2 . & começa: 

VaÔ asferenas agoas,^c, 
O mefmo fe ve no Soneto 1 39. da primeyra parte das Rimas que diz: 

'Doces,& claras agoas ao Mondego,^c. 

Déíles, & outros verfos que fazia naquelle tempo íe vè bem quam cedo começou 

a exercitar a Pocfia, & com quanta perfeyçáo; & como cila arte leja ils vezes mais 

cllimada nas Corres dos Principes, que nas efcolas, parece que efta o trouxe outra 

He def- vez a Lisboa, onde continuou algum tempo, até quehuns amores, que(fegundo 

terrado^ dizem)tomou no Paço o íizeráo deíterrar da Corte.Defta auíencia parece fe quey- 

'xa naquellâ fua Elegia que começa: 

O fulmonenje Ovidio defterrado^Sc. 
Onde depois de defcrever o fentimento que Ovidio tinha no dcílerro , diz alfi: 

'Defia arte me afigura afhantafia^c, 
Emaisabayxo: 

Ali me reprejenta efta lemhrança,^c. 
E porque naõ cuydemos que falia de alguma das fuás peregiinações fora do Reyno 
diz logo abayxo as couías que via do lugar onde eílava degradado: 
^ Vejo ê piro juave,^ br andoTejo^^c. 

Affifte Neíle comenos devia de paíTar a Ceuta, onde eíleve algum tempo , como fe vè da 
cmAíri- fua Elegia,que começa: 

"' Aquella que de Amof defcomedido, t^c. 

Onde abayxo dis: 

Ando gaftando a vida trabalho fa^c, 
Elogo: 

E com ifto afiguro na lembrançafêc. 
Aqui parece teve fua primeyra milicia , E que n'algum recontro com os Mouros, 
foy ferid ode hum pelouro no olho direy to, com que o perdeo, como elie toca na 
Cançam que começa: 

Vtnde qua meu tam certo fecretario. 
Onde depois de cantar os fentimentos de fua afeyção,diz aííi: ^ 

'D efta arte a vida neutrafuy trocando^ ^r. 

Que lhe aconteceíTe iíto em Africa, & naõ na índia, fe moílra pela. carta primeyra 

que efcreveo da índia a hum amigo. Ao qual, dando novas de hum Manoel Sartão; 

^ diz QuQ ftcut, ^ nos,manqueja de hum olho, como couza jà antiga, & notória nelle 

^".'^ ' em Portugal. Eíla ferida lhe afiou notavelmente o roíto, por onde era chamado das 

Damas, Diabo, & Cara fem olhos , a que elle refpondeo muy tas vezes cortefam,& 

.v^' , * grsciofamente como le vè de feus verfos. Porém ainda que a falta da vifta lhe tirou 

■:■ . ^ gentileza exterior com asDamas,não a perdeo no concey to dos que o vião aíTma- 

lada 

ri. '■;.*'•- A 



Príncipe dos Poetas de He fpanh a. 
lado no roílo à::. mão dos iníieis;porque femelhantes íinaes de Marte fazem as faceç •' 
mais fermoías , que os de Vénus. E alíi le na Poelia o podemos comparar a Home- 
ro ^que tambeni, fegundo alguns, careceo da viltajnas armas naó ira menos ufano, 
que Feiipe, Aniiocíio, Annibal, & Sertório, que de perderem iiuma vilh na guerra 
ic nao gloriarão pouco. Tornado ao Reyno, ou por caula dos amores da CoVte,óu 
porverqueasíioresde fua poefialhe nao davão fruyto(como coílumáo)ou por 
os reipcytos que na primeyra carta que anda nas fuás Rimas aponta, determinou de 
fe pa\lar à índia, por íer eíta (fegundo elle diz) fepultura de todo o pobre honrado, 
& fem duvida que elle levava peníamento de a efcolher por fua , porque alem de fe 
embarcar dizendo aquellas palavras de 'òi^izõ: Ingrata pátria^ non pojjldebis ojja 
mea , como refere na fua Carta , náo fe veyo da Índia acabados os annos da milicia 
ordinária mas depois de 1 6.de aililtencia como veremos adiate. Náo achey em léus 
verlos,nem em memoria alguma o anno em que fe embarcou ; fomente efcreve que 
tàto que chegou a Goa fahio o Viío-Rey cõ huma grande Armada íobre El-Rey da 
Pimenta. Foyeílaemprefa fegundo refere as hiílorias da índia no fim do anno de 
1553. Pelo que coníla que partio de Lisboa no Março de 1 55 3 . com Fernando Al- ch-toní " 
vres Cabral, que indo por Capitão mór de quatro nãos, fò elle chegou á índia nos d' Ei-Rcy 
primeyros de Setembro do mefmo anno. Era entaõ Vifo-Rey,daquelle Eílado Dõ ^^^'"^ ^ 

Afonío de Noronha , com oquallogonoNovembrofeguinteLuisdeCamoesfe^o,!^'*^' 
embarcou em hí;»a groíTa Armada,em que o Vifo-Rey foy ao Malavar,para favore- 
cer El-Rey deCochim,&o de Porcà,& outros amigos do Eílaco,a que Il-Rey ca 
Pimenta(que por outro nome Chnmao de Chembè)tinha apertado , àton-aco 
algumas ílhas.Tanto que o Vifo-Rey furgio no porto mandou fair a gente nas Ilhas* 
& com morte de muytos Malavares forao deítruidas , & quey miadas pelos noííos 
o que obrigou a pedir pazes ao Rey da Pimenta , como largamenteie conta na 
Chronica u'EI-ReyDomJoáooIII. & na Sexta Década de DiogodeCouto. Eíiachronic; 
primeyra jornada defcreve Luís de Camões breve , & elegantemente na Elegia da d' F.i.Rcy 
fua viagem,que começa: iy]^zó o 

O Toeta Simonidisfallandoy^c, ubi lup^ 

Onde depois de contar como partira de Lisboa , & paíl^ra o cabo de Boa Efperan- ^outo 
ça,dizaíri: ^^'\ò^i 

^(fta arte me chegou minha ventura^c. 1 «.& 17» 

F Provaíe também paliar nefte anno à Índia, porque no mefmo tempo fuccedeo em 
Ceuta a perda de DomPedro de Menefes,a quem El-Rey Dom João o lll.mandàra 
por Capitão daquella Cidadenoannodei549. emlugardeDom AfonfodeNoro- chronic; 
nha quando foy para Vifo-Rey da Indit,& entre outros fidalgos,aquem os Mouros d^ ti h ey 
matarão naquclle recontro , foy Dom António de Noronha fobrinho do mefmo J^jj'^^'' ^ 
Capitão,filho do Conde de Linhares DomFrancifco deNoronha,o qual tinha fido c,6Í. "** 
particular amigo de Luis de Camões no Reyno. Chegarão eílas novas à índia, jun- 
tamente com as do falecimento do Príncipe Dom Joaõ que foy em Janeyro de 
155-4. no Setembro do mefmo anno , & dèraõ ocafráo a Luis de Camões compor a 
Egioga de Umbrano, & Frõdelio que anda nas fuás Rimas, como elle mefmo diz na 
fua primeyra carta que efcreveo da índia no Janeyro de 155- 5*. em que lamenta eílas 
duas mortes. Ncíte mefmo anno de i5'5'5'.mandou o Vifo-Rey Dom Pedro Mafca- 
renhasfquejàfuccederaaDom Afonío de Noronha)huma Armada ao Eítreyto de ^^^jo 
Meca , de que deu aCapitania mor a Manoel de Vafconcelos,o qual partio de Goa pecad.rJ 
em Fever€yro,& levou ordem doVilb-Rey que fe folfe por nas portas do Fllreyte, i»^-^ -«-í! 
junto do Monte Félix , a elperar as nãos dos Mouros. Eílevc neíle porto Manoel 
de Vafconcellos ate fe lhe gaitar a monção, & depois fe foy invernar a Ormus. don- 
de dando guarda ã frota, tornou a entrar em Goa nos primeyros de Outubro. Neíla 
Armada , parece foy Luis de Camões, & que na eítancia do monte Félix compôs 
aquellafuaCanfao em que defcreve particularmente aquelle monte , d' paragem, 

como 



' ' Vida do Grande Luís de Camões^ 
como fe delia vè,que diz alli: 

Junto de hirnifeco^erofê efterilmonte^^c. 
Chegado a Goa, diz Pêro de Maris que o mandou o Vifo-Rey por Provedor mòr 
dos defuntos da China,o que parec€ naõ pôde fer ; porque o Viío-Rey Dom Pedro 
Mafcarenhas,íârieceo emGoa,aos dezaleis de Junho delle anno de i55'5-.& a Arma- 
da do monte Félix tornou âquella Cidade no Outubro íeguinte do mefmo anno 
em que jà governava havia quaíi quatro mezesFranciícoBarreto;pelo que mais 
certo parece o que outros afiirmão, & he que chegando Luis de Camões a Goa fei 
■aquella Sátira , que anda na terceyra parte das luas Rimas , contra alguns 
moradores daquclla Cidade, com titulo , de feitas que fe fizeráo à luccellào do 
Governador , do que íencindofe Franciíco Barreto , ou por zello da juíl;iça,ou por 

'^' annofe- 




4ào. 



ecem 
flizer 
pelo Governador , & de hum terribél naufrágio que padeceo na colla de Camboja, 
junto do rio Mecom,comG diz na eílanc.128. do Cant.io, 

Ejie recebe) à plácido,^ brando^ ^c. 
E no Canto 7.eflanc.8 1 .onde pede favor às Nymfas do Tejo para cantar os Varões 
Illuílres que finge levava Dom Vaíco da Gama pintados nos toldos , (& bandeyras, 
& moítrava ao Catual,feu irmaõ Paulo da Gama. Entre outras queyxas que da do$ 
poucos prémios que recebia de feus verfos diz affi: 

E ainda Njmphas minhas naÒ bajiava, &c. 
Ena Canção i f.da fegunda parte das Rimas: 

Em fim não ouve tranfe de Fortuna. 
De maneyra que eíla jornada nam foy por deínacho fe naõ por pena , & àegvQàoi 
pois dis que a fez quando foy contra elle oínjuilo mando executado. Neíle temp^ 
em que andou pelas partes do Sul eíleve nas Ilhas de Moluco , & particularmente 
na de Ternate,de quem,& do I eu Vulcão queeítà no fimo do monte faz particular 
mençam na íua Cançaõ i4.que diz: 

Comforça defufadàyièc. " 

AíTifte À aíliílcncia de Macáo parece que foy a ultima do tempo que andou no Sul , pois 
vindo de la padeceo o naufrágio , que foy o dcfradeyro traoalho antes de chegar a 
Goa. Em Macào teve o oíiicio de Provedormòr dos defuntos , & com a comodi- 
dade do lugar devia de compor aqui alguma boa parte dos feus Lufiadas, pois de là 
os trouxe configo. Acabado o feu tempo fe embarcou para Goa com efperanças 
de lograr algum deícanço nella;porque vinha rico do que houvera do cargo,& dos 
amigos; porém fuccedeolhe ao cõtrario, como acontece às mais das efperanças da 
mundo. Porque navegando pela Colla de Camboja fe perdeo na paragem da Foz 
do Mecon, Rio quenafcendo na China, corre por muyta diltancia de terras, & di- 
vidindo pelo meyo a Camboja , crefcido com as grandes correntes de outros rios 
que recebe , vem fair ao mar em hum lago de mais de fellenta legoas de Comprido.' 
Aqui deu a fua nao em huns bayxos onde fc fez em pedaços padecendo todos hum 
mlferavel naufrágio: Luis de Camões fe falvou em huma taboa, & em taõ apertado, 
& manifeíto perigo fò teve lembrança dos Cantos dos feus Lufiadas para os levar 
configo , eíquecèndo-fe de tudo o mais que trafia , no que naõ merece menor lou-- 
vor,que o que fe dà a Cefar,quando efcapou no porto de Alexandria nadando com 
huma maõ , & levando os í eus Comentários na outra. Deite naufrágio fe queyxa 
Luis de Camões muytas vezes,& em particular no Canto 7. eiUnc. 80. referindo-o 
entre outros trabalhos feus: 

Agora com pobreza aborrecida^c. 
Ena Cançaõ ij.das Rimas: 
t A piedade humana mefaltava^c^ 

Na 



Frtncife dos To et as de He/panha. 
No porto dcílc Rio eíleve Luis de Camões algum tempo repãran-^o-íeítapérdà 
do naufrágio , & com eíia occaliam , dizem que compoz aqui aqueiia íua traduçam 
do Píalmo: Su^erflumina Bahylonis^c^wt começa: 

S óbolos ri$s que vaõ^^c^ 
Na qual acomodando a li aquelies trabalhos , &fentimeritodequetratao Píalmo, 
moítra bem o que padeceo,Òi: como recorreo logo a Deos por remédio de feu mal, 
conformando-ie Chiillãmente neíle, & nos outros infortúnios da vida, com o que 
delle deípunha a Divina Providencia , como fe vè da íua Cançam jà referida on- 
de diz: 

Jade mal que me venha na õ me arredo^Xêc. 
Reformado deíle naufrágio íe veyo a Malaca , & dahi a Goa, onde chegouGover- 
nando o V iío-Rey Dom Conílantino , & nam Francifco Barreto , como diz Pêro 
deMariz. O que alem de conllar pelo íeu Comentador Manoel Corrêa , fe prova 
também pela rezao dos tempos. Porque vindo Luis de Camões da Armada do 
monte Félix em Outubro de 15- 5- 5'. não podia partir para o Sul íe naõ jà no annode 
I f 56. em que o Governador Francifco Barreto defpachou os Capitães das viages 
para aquelias partes,como temos dito. E acabando o governo de Francifco Barre- p^ .. 
to a 3. de Setembro de iffS. em que chegou o Vifo-Rey Dom Conílantino a Goa, dSt: 
nao podia fer , que em efpaço de dous annos íòmente foíTe a Malaca , eíliveíle em i'v-í.c.8* 
Maluco, & voltailè à China, & exercitaíTe là o cargo de Provedor mor, & tornaíTe de^^r. 
a Goa. Por onde o cerro parece, que veyo a Goa depois que o Vifo-Rey Dom Cam. 7*. 
Conílantino entrou no governo daquelle Filado. Ajudam também a eílas conje- ^^^^i ' 
duras as oytavas que fez ao mefmo Vifo-Rey eílando jà em Goa, que começam: 1©. cftáe! 

Como nos vojfos hombros tam confiantes y&c. i * 8. 

Nasquaes Oytavas fe trata jà da tomada de Damaõ , & jornada de Jafanapatam, fey- 
tas pelo Vifo-Rey. Pelo que fegundo illo chegou Luis de Camões a Goa depois 
do anno de 15-60. em que o Vifo-Rey Dom Conílantino tinha jà acabadas ellas em* 
prezas. Pouco mais durou o governo ao Vifo-Rey , em cujo tempo nam parece, 
que Luis de Camões teve prizam alguma , pelo omcio que admiuiiLrou na China, 
antes moilra nas Oytavas referidas , eílar favorecido delle , & parece que devia fer 
feu antigo Mecenas , como também o tinha fido antes no Reyno o Duque Dora 
Theodotio feu irmáo. A'lem diílo coníla que neíle tempo foy o feu graciozo ban- 
quete,parao qual convidou a Dom Franciíco de Almeyda,Dom Vaíco de Ataide, 
Éytor da Silveyra, Joaõ Lopes Leytão,íS(: Francifco de Mello,&: depois de os rece- 
ber em huma caía bem adereçada , & os fentar à meza , que tinha muy to compoíla^ 
deícobrindo-fe os pratos achàraõ nelles veríos efcritos,em lugar de iguarias, como 
fe vè na terceyra parte das fuás Rimas ; com o que o banquete íicou aliaz feílejado, 
&: celebrado entaò ^ & depois em toda a parte. Todos eíles Fidalgos andavam em 
Goa no ultimo anno do Vifo-Rey Dom Conílãtino , & na fctima Década de Diogo 
do Couto, íe faz entaõ menção delles. Deíle tempo faõ também as Oytavas que fez 
do deíconcerto do mundo a Dom António de Noronha,q depois governou aquel- 
le Filado , & outros muytos veríos a vários fidalgos , que eílaõ nas fuás Rimas ; dos 
quaes íe vè bem quaõ eftimado andava o noíTo Poeta de toda a fidalguia da índia, & 
naõcom novas moleilias. Aqui gaílou liberalmente o que trouxe do Sul, & lhe dè- 
raõ feus amigos, & foy niílo tam largo que em breve teinpo torno^â pobreza com 
que começara; o que lhe aconteceo por vezes , com alguma nota dos que por iífo o 
tinham em conta de mal coníiderado, nam atentando que os generozos efpiritos 
padeceram muytas vezes eíla falta , porque nam lhe fofre a grandeza do animo apli- 
carfe às couzas inferiores, & de intereíTe ; aíli lemos de Homero, Sócrates, Crates, Autores 
Marcial,Valerio Fíaco, & outros fublimes engenhos, que nunca curaram de fer ri- cmfuM 
cos,mas de enriquecer a todos com luas obras. '^'^^^' 

Em Setembro de ifóx, teve fuccelibrno cargo o Vifo-Rey Dom Conílantino. 

£4 



Vida do Grande Ltás de Camões} 
•E diz Diogo do Couto , que atè íeu tempo durou naquelle Eíladò a primitiva In- 
- diíi,em que os homens pretendiam fomente ler valerozos,& honrados,& deíprcza^ 
vam o intereíie ; & que dalÍi;:>or diante começou a ler idolatrada a avareza, aoqual 
vicio chama a Sabedoria Divina,Raiz de todos os males, & como eíle íe foy apode- 
rando daquelle Eltado , tem introduzido nelle tantos , que parece jà agora irremi- 
diavel fua cura,{e Deos milagrozamente lhe nam acode. 

Começou logo Luis de Camões a fentir elta declinaçam , porque nam lhe valeo 
ó favor que o Conde do Redondo novo Viib-Rey lhe fez (como fe vè dos veríos, 
que lhe compôs) para deyxar de ter em feu tempo prezo: & fegundo parece pelas 
culpas de que foy acúfado na adminiílraçam do officio da China. E nam bailou li« 
Vrarle deíla acuíaçam para íair do cárcere, onde elteve algum tempo, porque Mi- 
guel Rodrigues Coutinho fios fecos , peiroa nobre , & rica o embargou na prizaò 
por certo dinheyro que lhe tinha empreitado. De maneyra , que lhe foy neceirario 
a Luis de Camões foccorrerle de novo ao Conde Viib-Rey , como fe vè daquellas 
Redondilhas que andaõ na terceyra parte das Rimas,& começa'o; 
?'i ^46 ^Diabo hà tão aanado^^c. 

■Livre deita prizam continuou depois alguns annos em Goainvernando em terra, 
& embarcando-fe os verões nas Armadas onde compoz as mais de luas Odes , & 
Canções como fe delias vè , que todas falaõ com Neptuno com as Nereidas , & ou- 
tras Nymphas , a quem a Gentilidade venerava por Deidades marítimas. Nos fuc- 1 
ceílòs de guerra em que eílas Armadas fe achàrno,iè moílrou íem.pre valerozo Sol- 
dado 5 como quem nam fabia voltar as coílas aos inimigos. Nem lhe empataram as 
letras a lança antes Iheaccrefcentàram o valor,p0rq por iiio tingiam os Antigos, q a 
mefma Palas era Deofa das Sciencias , & das A rmas; & Luis de Camões íervio nef- i 
tas occafioes de maneyra que íempre fe louvou dillb , como fe vè no Cí\nto lo. ' 
eílanc.penult.falando com fcl-Rey Dom Sebaítiaõ onde diz: 

^ ara fervirvos braço às armãs feytt^^c. 
E no Canto 7.eítanc.79. 1 

jlgorao MaY-,agoraexPerimentando^^c. ] 

He eíla abonaçam que Luis de Camões dà de feu esforço de grande credito , pelas 
muytasteítemunhas vivas que tinha naquelle tempo , &osPortuguefeslãotaõri- 
guroibs cenfores da verdade, que não coníenícm,a feus vifinhos gabarfedoque 
não tem,mas ainda àsvefeslhe confeílaõ diffilcultofamente o que na verdade pof- 
fuem.Tinhajà neile tempo compoitoofeu Poema Heróico dos Luliadas,& como 
«lie conhecia o grande preço deila obra , determinou de fe embarcar para o Reyno 
Q oferecela a El-Rey Dom Sebaíliam( ainda que entílo por fer de pouca idade naõ 
.governava.) Porém Pêro Barreto o tirou deite peníamento , por o levar configo a 
Moçambique,onde hia entrar por Capitam de Sofalla. Foyíe com elle Luis de Ca- 
mões movido de luas promeílas , mas em breve tempo fe vio defenganado delias. 
Pelo que chegando àquella Ilha a nao Santa F^è^que vinha para o Reyno fe quiz nel- 
la embarcar. Acodio alho impedir Pêro Barreto , & ou movido do defejo de o ter 
conligo , ou por qualquer outros refpeytos lhe pedio duzentos cruzados que gaita- 
ra com elle na matalotagem de Goa atè Moçambique. Vinham naquella nao muy- 
tos fidalgos amigos de Luis de Camões, em que entravam Eytor da Silveyra, Antó- 
nio Cabra'5Luisda Veyga, Duarte de Abreu, & António Sarraõ, aos quaes deu no- 
ticia do quepaifava, & elles fintando-fe entre fi,pagdraõ eíta quãtia, & o trouxerao 
-à fua conta atè o Reyno. Vinha também neita nao Diogo do Couto, que depois foy 
Chroniita , & primeyro Guarda mòr do Tombo do Ellado da índia , o qual diz em 
huma carta,que no anno de mil & feifcentos & onze efcreveo a hum amigo feu def- 
te Reyno , que por o fer grande de Luis de Camões lhe comunicou elle a obra dos 
feus Lufiadas, & que lhe pedio os quifeílè comeatar,o que Diogo do Couto fez de- 
pois em parte,como em fua vida fe vera. 
^i Chegou 



Príncipe dos Poetas de Hefpanha, 

Chegou Lnis de Camões a Lisboa na mayor força da peite, que chamao grande 
correndo o anno de mil & quinhentos felTenta & nove , & alíi líie foy necceííario 
eíperar que acabaífe aquelle mal para poder por fuás coufas em ordem,& imprimir 
o í eu Poema; em que le palíàram,quaíi dous annos, porque no de mil & quinhentos 
fetenta & dous íahio a lus com eíia admirável obra;6^porque de íua mihcia,& pere- 
grinações eilà batbntemente dito, falaremos agora da excellcnciadeíeu engenho, 
te doutrina,que nos vários doutos he o que principalmente fc confidera. 

Para poder explicar asperfeyções deíle Poema faõneceíFarios mais livros que ^^[acroK 
os que gaitou Macrobio em apontar as das Eneadas. Porque elle género de poema, àiiv.5. ' 
alii como tem oprincipal lugar na poefia , aíTi he tão dilHcultolo na compofiçáo , fe ^J'"'"*. 
fe iiouverem de guardar perfeytaméte todos os preceytos da arte,que defde o prin- "omm 
cipio do mundo atè o tempo do noiío Poeta mio houve mais que quatro aquem'^xtum; 
íe pudeile dar elle louvor. Eiles forão Homero entre os Gregos, Virgílio nos Lati- scaiiVc. 
nos, 1 orquato Taíib entre os italianos , & o noUb Poeta em Helpanha.Com tudo rus v^i 
entre eítes , merece Luis de Camões particular louvor,porque ainda que naô exce- ^«s.iib. 
deo em tudo a todos,ao menos fe aventejou a cada hum em alguma paite,como logo ^'^'*^* 
veremos. 

O Poema heroyco,a que os Gregos chamao Épico, tem cinco partes eíTenciaesCa y>^^^^ 
q parece fe redufem todas as mais jque faòiferlmitaçáo de huma acção heroyca,ho- do Poe-' 
neila,util,& deleytofa. O ler huma ib acçáo he coufa taõ importante,que no poema ^^. *^«* 
Épico fe tem por lua fuitancia,como fe vè de toda a Arte poética de Ariitoteles, &: ^^'^^' 
fundafe elle preceyto na razão natural da imitação, & pintura , que moílra não fe Ariftotc; 
poderem imitar duas acções juntamente,& eita he a diferença que ha entre o Poeta j"ç^ 
Heroico,& Hiiloriador,porque o Hiiloriador efcreve a narração das coufas como 
acontecerão fucceííi vãmente , mas o Poeta efcolhe huma fò acção de hum Heroc, 
& eíIa refere,não pontualmente como foy, mas como convinha fer,ornando a nar- 
ração com vários Epifodios, que fão digreífões de fabulas,acontecimentos,& enre- 
dos , comquecomfuavidadeprefuadaaosqucolerem, & ouvirem: 0/í>r^^f/^/- 
tur,á\z Atiítoteles, quem admodum in alijs imitatrtcibus^ una imitatio tmiusejfjic^ 
Xê fabulítm^ quia atíionis Imitatio eftyUniufque ejfe^ ^ hujus totius, E noutra parte: 
Fabula quiUem eft una , non quemadmodum nonnulli arbitrantur^fi circa unum fue- 
rlt ; multa enim , ^ infinita genere contingunt , ex quibns nonnullis nihilejl unumi 
Jic aiitemfê afliones unius multa funt^ex quibus una multafit a^io: quare omnes vt" 
denturpeccare quicumque poetar um Herac lidem , t^ Thefiidem^ ^ httjtifiemodi poe* 
matafecerunt , -putant enim , quia uniis erat Hercules , unam , ^fabulam ejfeopor-' 
tere. Homerus aiitem quem-idmodum , ^ c ater is rebus antecellit^ & hoc videtur pui- 
cher Vidí(fe , (ive propter artern^ Jivepropter naturam , Ody/eam enimfaciens non 
complexus efl carmine iUo omnia quacumque illi contigere^ í^c. Ver um circa unam 
aãíonem^qualem dicir/ius Odyjfeam manJityeodempaãofêilliadem.O meímo refolve 
Horácio na íua Poética dizendo: 

"Deniqiiejit quoàvisjiwflex duntaxat^ unum. 
Por faltarem neílc eíTencial fnndamento de huma fò acção Ovidio, Silo Itálico , & 
Lucano,fenam tem por Poetas heroic0S;& entre os Modernos cahio também nef- Erro de 
te defeyto Ludovico Arioilo, que no feu Orlando feguio, &: propoz taõ mukipli- 5í""q°?. 
cadas acções; coufa tanto contra os preceytos da Arte, o que verdadeyramentehe dio , & 
muyto de fentir em tão florido,&ornado Poema,como o de Arioíto,hum dos mais Ariofto 
cngcnhofos , & abundantes entendimentos que atè feu tempo houve , porque por pfíc^^çalli 
errar ella acção , naõ tomou a palma a muytos dos antigos, & modernos , & fe pro- das ac-; 
pufera , l\: feguira perfeytamente o furor de Orlando , que elle fez acçáo fecunda- ^°^^*' 
ria,ainda tivera defculpa, mas propondo tantas acções,como faõ: 
Ledone,icaualierJ'arme^gli amori, 
Le cortefayl^audaci impre/e io canto^c^ 



*** 



Errou 



vida dó Grande Luís de CàniÕef, 
Errou muyto, aíTi cm as multiplicar,como em as propor primeyras. E fe o que diffe 
_ por acçào fecundaria de Orlando. 

*Díròde Orlando en un medejhio tratto 
Coja no detta m^rofa^mai ne in rima^ 
Cheper Amor vene infurore^ matto 
,^ Huêmo chefifaggio er aftimato p'hna^ ^c. 

* Ò propufera por primeyra, pudera defenderfe , & foráo então menos , & mais cur^ 
tos os epiíbdios, que por razào,das acções multiplicadas accumulou,com que o po- 
ema ficara mais proporcionado, & fermofo: ainda qne fempre lhe faltara o princi- 
pal, que he a qualidade da acção, pois por fer Fúria nafcida de caufa tam indigna, 
como os amores de Angelica,náo,deve fer imitada. Tanto perdem ainda os grandes 
engenhos faltos de Arte ^vendo , como diíFe Horácio de fogeytar a fertilidade 
IcTnc do engenho aos preceytos delia, 
poética. y^EgonecftudiumJínedtvitevena^ 

^, i^>^ l^ec rude quidprofit vide o ingenium : alter tus 

Alter a^ofctt ofem res^^S coniurat amicê^^c, 
Eíle preceyto de íeguir huma fò acçam guardou excellcntemente o noíTo Poeta 
állux' propondo o deícobrimento da India,o qual fez Dom Vafco da Gama com ícus fol- 
fiaJas. dados, como fe vè do difcurfo do poema, que começa navegando Vafco da Gama 
junto a Moçambique : & acaba , quando o Capitam entrou em Lisboa. Porem na 
propofiçam , & titulo (como eíla obra era de outros fegundos Argonautas) fcguio 
a Appollonio Rhodio a quem fe dà o primeyro lugar entre os Gregos depois de 
Homero, o.qual intitulou o feu poema, dos Argonautas, & na propofiçam nam no- 
meou a Jafao Capitam da jornada,fe nam a todos os que commetteram aquella em- 
preza,& aíii começa: 
Apoiíon. A teprinciftum ò Thabc^prifiorum laudes virorum 

"^^oàXx^» Memorabo^quí Tontipr os^^S Cetras 

^^yj"^^*^" Cjaneas regis mandato Tell^y 

Au) etim advelluspYokè mftruBam trãnftris inpuleriint Argo^ 
Depois defta primeyra acçam tocou também Luisde Camões alguns dos princi- 
pães epifodios do Poema,o que por fer depois da principal acçam propoíta , nam 
:he defeyto , fegundo fe vè em Homero, & Virgilio, que também propuleram eiías 
acções fecundarias CO mo julgará, facilmente quem os bem confiderar. 
Acçam A fegunda condiçam do Poema heróico , he fer acçam honella , & digna de fe 
honeib. í^T^i^^i'? po^" quauto O fim da poefia, & principalmente heróica, he enfmar, incitar, 
' & mover deleytando. Neíla parte excedeo muyto Luis de Camões a Eílacio na 
Erro de fua Thcbaida , & a Claudiano no feu Rapto de Proferpina , porque ainda que eíles 
Eftac.ôc Poetas acertaram mais que os outros em efcolher huma fò acçam com tudo falta- 
no^na^' ram ua qualidade delia ; porque as fuás acções namfam verdadeyramente dignas, 
quaiida- de íe imitar,que he o fim,& intento de toda a poefiajpois o Argumento de Eílacio 
Acçam. ^*^y ^ ^^^^ ^^^ ^*^"^ irmãos Etheocles , & Polynices , acçam indigna de fer fabida, 
quanto mais imitada;& a de Claudiano he o roubo de Proferpina,tanto mais abor- 
re , recivel,quanto mayor foy o roubador delle. O argumento do poema heróico ha de 
fer honeíto para fe imitar , & admirável para mover , & deleytar , no que Homero 
he digno de louvor em quanto conta os trabalhos que Olyfies padeceo atè tornar à 
fua p?:tria, mas não na conclufam do Poema , com as mortes que deu privadamente 
aos pretenfores de Penélope defarmados. A eíla matéria fe avantaja pouco a chega- 
da de Eneas a Itália , & guerras fobre o Cervo , que andando à caíTa ferio Afcanio, 
acções em que hà pouco do grande , & admirável. E aíli fica muy fuperior a todas 
ellas o argumento do noíTo Poeta, que trata do defcobrimento da índia , em que 
Vafco da Gama rodeou a mayor parte da terra, vencendo com fingular valor as for- 
ças dos elementos , as treyções , &: armas dos inimigos , fomes, fedes , ellranhefa de 

climas. 



pYtnclfe 4os ^Poetas àe Hejpanha, 
climas, injurias dos tempos , & moítrou ao mundo o verdadeyro conhecimento de 
íi meímo , em que defde íeu principio até entam eilivera ignorante acl:iando novas 
eílrellas,& novos mares, communicando o Oriente com o Occidente,de que le íe^ 
guio dar aos povos de Europa a noticia de tantas drogas, fruytos , & pedras em que 
a natureza í'e moílrou maraviihoza, & benigna para com os mortaes, & aos mora- 
dores de Aíia o conhecimento das Artes, policia,Sciencias de Europa^ & fobre tu- 
do do verdadeyroDeos,de que osmaisdelles eltavam totalmente ignorantes. Por 
onde na qualidade da acçam heróica fica onoíToPoemaruperior a todos os Anti- 
gos,& modernos. 

Nem oblta contra iílo , dizerem alguns , que profanou o Poeta eíla honcílidade, 
& grandeza da acçam com nam guardar àReligiam o decoro devido , invocando 
JMuías , & tingindo Concilios de Deofes, indecentes a Poeta Catholico, 6í que co- 
mo tal devia antes invocar os Santos,& ufar nas ficções de milagres, & aparecimen* 
tos de Anjos,como alguns modernos fizeram. Porque a iílo íe refponde; que noto* 
rio he , nam ler a poelia outra coufa fe nam huma imitaçam , ou fabula , a qual traz 
fempre contigo, como parte eílèncial a invocaçam das Mufas do Parnafo , iegundo 
a divilam dos poemas, em que a Caliope coube o Heróico , & por illò he invocada 
nos poemas épicos , & eíla fabula pertence tòmente à poefia , & íò pelos Poetas foy 
inventada. De maneyra,que atè os Antigos que adoravam aos outros Deofes Gen* 
tilicos por verdadeyros , tinham as Muías por fingidas , porque bem fabiam , que 
nunca no Parnafo houvera taes Deoías, nem por elías eram tidas, nem adoradas das 
Republicas; fendo pois itlo aí]i,claro fica , que nam ufou Luis de Camões de terrr.o 
algum fuperíliciofo pedindo ajuda a divindades gentilicas (pois eílas foram fempre 
conhecidas de todos por fabulofas ) mas que guardou o eílillo do Poema heróico 
fegundo os Latinos,que he invocar as Mufas depois de propor a acçam, & aífi con* 
tinuou a poefia com os termos até entam coílumados de poetas Catholicos , & gra- 
viljimos, como foram Senafaro no poema de ^PartuVirgmis o Bil^po Hieronimo 
Vide em quafi todas as poefias mayores , Bautiíla Mantuano Religiofo Carmelita 
nas fuás vidas dos Santos, Juviano Pontano, Angelo Policiano, Miguel Marulo, & 
outros que feria largo referir. Porém em nam introdufir Luis de Camões Anjos, 
& Santos nas fabulas que fingio , mais parece digno de louvor que de reprehenfam, 
porque he indecencia grandilfimaufar dos nomes dos Santos para fabulas profa- 
nas , com a mefma facilidade com que os Gentios o faziam , & aíTi he muyto de ca- 
lumniar,que nos poemas deTorcato, & Arioílo andem os Anjos,& Santos fallando 
com os Cavalleyros andantes,trafendolhes recado do Ceo, & que Sam Joam Evan« 
gelitla leve a Aítolfo fobre o globo da Lua,a moílrarlhe o íifo de Roldam, que eíla- 
va metido em huma redoma de vidro. Não fe ham os Santos de tomar na boca, nem 
na hiíloria para matéria de entretenimento,mas ha de fe efcrever delles com toda a 
reverencia,& decência devida,que nam fe compadece miílurar as coufas Sagradas, 
com as profanas. A'lera de fer inconveniente grande em hum livro que trata de ar- 
gumento verdadeyro , & em que fe haõ de referir verdadeyros milagres , eícreve- 
remfe milagres fabulofos,fem fe diferencearem huns dos outros,com que os leyto- 
res ignorantes,pòdem cair em erro de nam conhecerem quaes devem de fer cridos. 
Por tanto querendo o Poeta evitar tam grandes inconvenientes , ufou dos nomes 
dos Deofes gentílicos por matéria commua , & notória de fingimentos poéticos, 
com que ninguém le podia enganar,mas nas couzas verdadeyras,guardando intey- 
ramente o decoro à Religiam, introduzio fempre a Vafco da Gama, fallando com 
toda a piedade Catholica ; de maneyra que os milagres verdadeyros , & coufas tan- 
tas , as traia com a decência, & gravidade divida , & as ficções ficam conhecidas de 
todos yendofe que fam fabulas notórias. Eíte mefmo eítilo guardaram os mais dos 
Poetas acima nomeados, a quem podemos acrefcentar Claudiano,que fegundo a 
melhor opinião, & mais univerfal foy Catholico , &: ufou delias inyocações, & 

***ij ' con* 



P^da do Grande Lílts ãe Camões j 
eònciliosdeDeofes com mayor liberdade do que vemos nos Lufiadas. Quanto 
mais que Luís de Camões naó fez eílas ficções dos Deoies a ca{0:, íenam com múy ta 
confideraçáo , introduíindo debayxo deltas fabullashuma exceli ente Alegoria, 
(a que os Poetas chamáo a alma da fabula)& aiíi entendeo debayxo do nome de Jú- 
piter, & Deoies , a Divina Providencia, 6c os efpiritos Angélicos , porque governa 
o mundo,dos quaes os bons nos ajudam,& os mãos nos empecem. E hc ta ai antigo 
eíle penfamento,que atè alguns dos primeyros \ iloíofosjque eíhs deydades inven- 
ttirao,naõ quizeráo entender outra couza nellas , comoie vè largamente de banto 
Agoííinho na fua Cidade de Deos, & ainda da Canónica de S.Pedro que por razão 
yuft.in do tal intento ( íegundo S.Hieronimo alegado neíte lugar por o Padre Juitiniano) 
Ewft '] chama a eílas fabricas doutas ; porem como eíles Filolofos pela falta do lume da 
Pecr.' ' Fè cairão em muytos erros, & deráo com eílas fabulas caufa à íííiolatria, íorao con- 
vcrf.i j. denadas do Apoitolo no dito lugar dizendo : Noh doclas fabulas fecutt notam feci^ 
"'■^ ' mus vobis "Domini nofiri Jefu Cíorifti virtutem^ ^^refentiam '^cm-às hoje que ncio 
hà eíle perigo, com os exemplos, & razões jàalegadas tem lugar a Alegoria que o 
Poeta nellas entédeo como imitando Virgílio no rim do íexto da iLneida, explicou 
neílasOytavas em que introduz a Tetis declarado a;Efphera aDom Vafco da Gama, 
onde Mando do Ceo Impirio,dizaíIi: 

AqutfòveYdade)rosgloYÍofosfêc. 
Por tanto aíTi pelas razões , como pelos exemplos íica Luis de Camões neíla parte 
livredetoda acalumnia. 

>■ Com tudo outra nos reíla ainda neílc ponto a que refponder , & he dizerfe tam- 
\ bemquefoyonoíío Poeta pouco honeílo nos Cpiíodios detam honeílo poema, 
G que tem fácil repoíla, porque como o argumento dos Lufiadas era tão grave foy 
neceirario varialo com alguns epifodios alegres para entreter os leytores , &para 
iílofingioadeleytofallha de Santa Elena , & os efpoforios que nelk celebrarão 
Vafco da Gama, &feus, foldados com as Ninfas do Oceano, imitando os Poetas 
antigos, & modernos, que todos naeteráo nos feus poemas eíles Epifodios amato- 
rios, como fe vè em Homero nos amores de Calipío, & de Vénus , & Marte, em 
Virgílio nos da Raynha Dido, & em Appollonio Rhodio , & Valério Flaco nas Da- 
i?ias de Lemnos com os Argonautas , & finalmente nos mais de Trocato Tallb do 
feu poema Heroico.Mas neíla parte levou ainda Luis de Camões grande ventagém 
aos ref€ridos,por quanto elles naõ pertendéraõ declarar algumas Alegorias debay- 
xo deílas fabulas(que como diíTemos he a alma do poema)antes fe vè que naõ tive- 
>ão nella5 outra tenção, íenão deleytarem aos leytoresCpoílo que a fabula de Cali- 
pfo fofra mais Alegoria que as outras)& o noílb Poeta debayxo dos nomes daquel- 
. las Ninfas quis entender a gloria, fâma,memoria, honra,maravilha , & todas as mais 
preheminencias, queparticipao os Varões illuííres, & esforçados por premio de 
tuas obras com os quaes feus nomes ficão perpetuamente unidos na lembrança dos 
kQmenSjComo fe vè neíles verfos canto 9.eílanc.89. 

^le as Nynfas ào Oceano taÕfermofas^^c. 
Gomo com eílas palavras ficava a alegria taõ clara,nãofe podem imputar por in 
decência ao Poeta os termos dos efpoforios com que a trata , porque eíla partici- 
pação da imortalidade da fama fignificàrão íempre os antigos por cafamentos com 
que fingião todos os Heroes ou cafados,ou aparentados com as Deofas. 
- A utilidade que deíle poema fe alcança não fe pôde explicar em poucas palavras, 
porque naõ ha ninguém que o lea , que não fique inflamado de hum admirável 
delejo de gloria, & de empregar ávida em fey tos illuííres, aventurandoa pela Fò 
pelo Rey,& pela pátria. . Aqui fe vem as partes , & experiência que haõ de ter os 
confelheyros,o zello com que osMiniílros fupriores devem entender no bem publi^ 
\ CO , & o premio que fe deve dar aos que bem trabalhão. NaPeífoa de Vafco da 
Gama fe reprcfenta hum excellente modello de prudente , & heróico Capitão, 



Trhictpe dos Poetas de H efpãvha 
& nas dos Reys de Portugal , o exemplo de hum períeyto Príncipe Ele não deu 
eíte louvor a todos os que reynarao neíteReyno > íoy porque o poema heróico 
quando íe funda em hiitoria verdadeyra , que he mais períèyto, ainda que pôde ac- 
creicentar a verdade do que paílbujnam pôde contrariar ao que paliou na verdade, 
de maneyra , que nem V irgilio pudera dizer que Achiles fora morto por Heytor, 
nem HomerOjqAchiles matara a Pariz, & alíi referem ambos eíles Poetas muytos 
vicios dos fcus Principes,& Rainhas,por nam fer licito à poefia encótrar nefla parte 
a verdade da hií1:oria,da qual guarda eile,& outros muytos preceytos.Pelo que dei- 
te poema ie podem tirar excellentes regras para a vida politica,& moral. 

O eítillo deleytofo com que elles preceytos vam acompanhados nao reconhece 
em toda a antiguidade Í'upcrior,& diiíicultofamentelhe poderemos dar femelhan- 
te , porque deyxando a diilbnancia que os antigos achavam nos verfos de Homero, 
como refere Jolefoliv. i. contra Apianurrij&os muytos, que deyxou Virgílio por 
acabar na lua Eneida,a facilidade, & coníbnancia deite noilò poema he tal,que naó 
parecem os verfos compoílos por artificio mas ditados da mefma natureza. E na* 
quelles lugares que em a Poética de Ariítoteles fe chamam , Patéticos , ou Altera- 
dores do animo, move os aíFedos com palavras tam próprias, & vehementes, que 
com fumma eiiicacia faz força a quem os lè , de maneyra que tica participante das 
payxoes q fe cotem encubertas debayxo daquellaspalavrasúmprimindo hú género- 
lo alvoroço quádo tratta da guerra,alegria nas feílas,gravidade nas acções dos Prinv, 
cipesjcompayxam na ad veria fortuna, & finalmente huma admirável fuavidade em 
todas as partes do poema. Porém nas comparações, & defcripções fe aventaja tan- 
to, que em certo modo fe vence aííi mefmo , porque com tanta vivefa as pinta, & 
exprime que parece íe repreíentáo à viíla,& náo ao fentido interior. 

He também a erudiçáo parte do eítilo deleytofo,& a muyta de que o noíTo Poeta 
illuílrou o feu poema he all'às notória , náo havendo nelle Eílança que não tenha 
particular conceyto, doutrina, ou penfamento peregrino, de maneyra,que náo fe 
achará poema nenhum onde em táo breve efcritura fe tocaíTem tantos , &táo 
doutos pallbs de liçáo varia, como nos feus Lufiadas, porque quafi náo hà nas letras 
humanas lugar infigne de fabula, antiguidade, hiíloria, Mathematica, & qualquer 
outra Sciêcia que nelle fe naõ achem, & quanto iito he mais ordinário nelte poema, 
tãto he mais de ademirar nelle lendo eíta parte da Poeíia a mais dificultofa de todas. 
Porque como o principal intento nella feja mover affeélos do animo , náofe pôde 
alcançar elte eíifeyto ornado com elocuçáo, & erudiçáo eíles lugares,como ja o no- 
tou excelentemente Ariítoteles neíta fentença: Opor t et labor are hi ignãvisfartl- 
bus y ^nequemoratisy neque fententiarumacumine ornatis ; occtãit entmvalde 
/plendída locutio mor es ^ ^fententias. lílo tem acoxit€<:!do a muytos em Hefpanha, 
que fe fízerao duros , & afperos incobrindo a torça dos penfamentos com os orna- 
mentos das palavras,de que he bom exemploFrancifco de Herrera.Porem Luis de 
Camões loube tomar tal meyo neíta dificuldade,que não hà verfos que mais rpováo 
o fentimento que os feus, nem ondejuntamentefe veja a Oração mais erudita, & 
compoíta. Fazem aííi mefmo por eíta parte a novidade , & excellencia dos epifo- 
dios,nosquaes quafi nenhum outro Poeta fe lhe pôde igualar ; porque os mais de 
Virgilio faõ imitados de Homero, como o banquete de Dido,a Relação que ali fez 
Ene.asdaperdadeTroya, feus trabalhos,& viagem os jogos de Sicilia,a jornada do 
Inferno; & aíTi teve nelles pouco louvor. E Troquato TaíTo não fe melhorou com 
as fabulas dos feus encantamentos , & cavaleyros andantes ; porque ainda.que ele- 
geo fabulas poíTiveis tem muy to do improvável ; o que he centra os preceytos de 
Ariítoteles, que diz que nos epifodios devemos efcolher antes osimpoíTiveispro- 
vaveis,que náo os improváveis poffiveis: Eítgereimfojfibilia^^verijimíliafotius 
quâfoffibilta^^ nuUò modopYobahiíta. Ellepreceyto guardou Luis de Camões ex- 
celenteméte,porq depois de imitar a Virgilio ei?i íiuLer a acção cõpoíta, & não fim* 

pies, 



' f^ida do Grande Luís de Camões^ 
f]es,com referir Dom Vafco da Gama fua viagem a El-Rey de Miíinde , introdus 
o Epiíbdio da deícripção de Europa , & hiítoria de Portugal,com as profeliias do 
velho,& Adamaítor,admiravelmente; depois na figura de iVlonçaide conta os ritos , 
do Oriente,fez hum novo confelho dos deafes maritimos,& adilcripçao do Reyncv' 
de Cupido no monte Idalio.NaO he menos excellente a pintura da Ilha de Satã Ele*' 
na,o banquete q nella deu Thetis a Dom Vafco da Gama, ik íeus compaiiheyros,à 
mufica da Serea 5 que cantou os Capitães illuílres Portuguefes que depois havião 
deconquiílaralndia, &:íinalmenteíidefcripçao dos Globos celeíles,& geografia 
das Provindas novamente defcubertas. Quaíi todos eítes epiíbdios forao pensa- 
mentos novos, & peregrinos, & tratados com tanta gra^ , 6c arteticio que junta- 
mente enfinaó, admiraò, & deleytaõ, porque não hà na Arte do bom dizer tropos 
nem figuras que aqui fe naõ vejaó exercitadasrvariando o efiillo, hora grave, grandi 
k)co,& vehemente, hora florido, brando , & ainda jocoíb; porque como o poema 
heróico he hum meyo entre o Tragico,& Comico,affi participa íegundo Ariílote- 
les da gravidade da Tragedia, como da graça da Comedia. Por onde Homero , em 
muytas partes da Odyliea, & Illiada introdus, hiílorias jocofas, como fby n da priíaõ 
de Venus,& Martena rede de Vulcano, & outrocafo quaíi íemelhante de Júpiter, 
& Juno ; a peleja do pobre Hiro com feu competidor em cafa de Penélope , á^ ou- 
tros muytos em que o mefmo Poeta refere o rifo a que com ellas íe moverão atè os 
rnefmos feus Deofes , & Virgilio também no feu 5. liv. defcrevendo os jogos q ue 
Eneas fez a leu Pay Anchifes , fegue no eílib jocofo as regras que neíle parricular 
fe devem guardar na poefia heróica. Demaneyra queLuis de Camões affi neíla 
parte como nas mais fe moílrou excellente Poeta , & com eíla fua obra ficou enre ^ 
quecida grandemente a Hngoa Portugueía ; porque Ihedeu muytos termos novos, 
& palavras bem achadas, que depois ficarão perfeytamente introdufidas. Poílo que 
neíla parte não deyxàrão alguns efcropulofos de o condenar , julgandolhe por 
defey to as palavras alatinadas que ufou no feu poema. Porém deík cenfura o abíbl- 
terá com facilidade quem tiver noticia das leis da poefia , & da licença que he con" 
cedida aos Poetas para fingir , & derivar novas palavras , porque como tem obríga- 
ção de falar ornadarnente , náo podem deyxar de enriquecer feus verfos com pala- 
vras , ou defufadas , ou novas, ou transferidas , que fao as condições que cnfinaõ os 
Retóricos para a Oração ficar cõ IVlageítade,& fora do eítilo humilde,tSrvulgar. Aíli 
o aconfelha Ariftoteles na fua Poetica,dizendo: Locut tonem apertam , ^ non hnmi^ 
lemejfe: afertiffima quidem igitur eft ea , õfuaexpróprihnomtnibtis , fed humiltsi 
'exemplttm autem Cleophonthpoefís^^ Stenelj. Grandis áutem^ ^ immutans vulgU"^ 
rem rationem , quaptrigrmoriimfpecietn ha bentibus utttur. V eregrinoritm autem^ 
. Jimllia dtco ^ linguam^ ^ transhúonem^ tê produóftonem^^ omne quodprateYpro^ 
prmm,^êc.^it'à.è lugar difcorre Ariílitoles largamente fobre eíla rhateria, & defen- 
de a novidade dos termos que uíou Homero contra os que por eíla razão o calum- 
niaváo. O mefmo afirma líbcrates pay da Eloquência Grega dizendo na vida de 
Evagoras: Toetis multa dantur qulbus ornatejtmm Cármen pojfunt. His enim , t3 
^eotumcum hominibus congrejfus^tum dijceptationes ,^ certamina quibus^cum 
volunt^fingire licet , ^ ciim h£c narrare voluerint , non eadem verbortim legs , quet 
Oratores ajíringunttir. Itaque nonfolum vèrbis ufitatis^ verum etiam novis , trans- 
íatis\t§ perígrinis, ^ omnl denique dicendt genere^fnampoejim ornar e pojfunt. Ora-^ 
toribus autem nihil tale concejjkmefl ^ tíJ^. Eíla licença concede mais largamente 
Horácio aos Poetas Latinos, porque não fò lhe permite, que ufem dos vocábulos 
antigos que jà naõ eílaõ em coílutiie , mas que finjão de novo os que quiferem com 
tanto que fe derivem da lingua Grega , diz elle: 

Et nõva^fiãa que nuper habebunt verba fidemfi 
Graco fonte cadut^parte de torta\qu'tdautem 
decilioyP lauto que dabit Romanus^ademptum 

Firgilh 



Trhiclpe dos Poetas de He/panha 
Virgilto Varioquel Ego ^cur^acquirerep anca 
St pojjum^ínviàeor\ ^ua?n Imgua Catonis^^ Enni 
SermonempatriumditaverifMiiovarerum 
NominapYOtulertttLtcuit femper que llcebit 
Sígnatumprafente nota,froducere nomen^^c. 
Também TuUio Princepe dos Oradores confirma eíte privilegio aos Poetas dizen* 
do no íeu Orador: In utroquefrequentioresjunt^^ liberiores Toeta^ nam & tranf- 
ferunt verba cumcrebrius^tiimet'tamaudacms\ ^ grifeis Llbent tus utuntur^ ^libe^ 
riusnovis. 

Deíle privilegio ufou tanto Virgilio,que alem de declinar rriuytos nomes latinos 
pelas terminações Gregas, & falar pelas frafes daquella lingoa , efcreveo por pala* 
vras tao fora do ufo ordmario que Macrobio gaita náo pouca leytura em moítrar 
os fundamentos que para iíloVirgilio teve , dizendo que todas aquellas palavras 
trafiao fua origem da antiguidade Latina , & foram em feus principios uíi\das. Do 
mcímo modo falou Torcato, & tanto fe Valeo do antigo Tofcano , & da lingua la- 
tina-.que deihs palavras novas lhe notaráo hum particular vocabulário. Comeítes 
exemplos íica bem livre o noílo Poeta da calumniaque lhe impõem das palavras 
alatinadas , as quais faó tam próprias , & naturais à nolTa lingua,que fe efcufáo os 
Vocabulários de Torcato , & Virgilio , & fe entendem de todos igualmente com 
o romance Português. 

Cae aíTi mefmo debayxo do eílillo deleytofo a boa proporção do meímo poema, 
o qual para fer perfeyto hà de íer fundado fobre hiítoria verdadeyra , & admirável 
de algum varão infigne em virtude,& valor,& a hiíloria náo hà de fer larga,porque 
avendoíelhe de acrefcentar os epifodios , fera o volume demafiado , & naõ tendo 
epifodios ficara o poema feco, & fem ornamentos que deleytem. Nem menos fera 
de coufas tam antigas que jà naõ eílejáo na memoria dos homens , nem tão moder- 
nas que fejão vivos os de quem fe efcreve( o que todavia fe entende , na acção prin- 
cipal,í^ naõ nos epiíbdios , onde íe introdufem profecias que falaõ dos prefentes.) 
Nem fe hà de contar a hiíloria fucceíTivamente, mas começando no meyo dos fuc- 
cefos , alcançarlehà depois a noticia do precedente com fubito conhecimento. 
Eiles, & os mais preceytos da arte fe vem taõ bem guardados neíte poema como 
aquemquerque o lè lie notório. Pelo que pudera bem fer , quefe Ariítoteleso 
•alcançara náo gaílara tantas palavras em louvar os de Homero. 

Mas fe por veneração da antiguidade fe náo conceder a palma a eíle noíTo poema 
entre todos os heroicos,ao menos feguramenie fe pode julgar por igual ao milhor 
dellcs. Delle tao alto merecimento , & gt ande beneficio que a pátria recebco com 
tal obra, ficando tao illuftrada por feu meyo, naÕteve Luis de Camões galardão 
algum; porque a mercê que lhe fez El-Rey Dom Sebaíliam de huma pequena tenía 
he tal q ue em fua comparação juítamente lhe podemos chamar nenhuma. E ainda 
que muy tos atribuão iílo a defgraça do Poeta , eu lho julgo por huma grande feli- 
cidade ; porque não a pode haver mayor para hum varão infigne que achar ocafião 
de exercitar alguma excelente virtude , & neíle cafo fe moílrou bem a grande ge- 
nerofidade de Luis de Camões pois fò por amor da pátria, occupou íeu engenho 
em illuítrar com fuás obras eíte Reyno , & immortalizar feus naturaes ; & foy tão 
inteyro na verdade , & alhco de lifonja , que podendo receber prémios de muyta 
conlideração por referir neíta obra peífoas particulares , fò tratou nelladaquelles 
varões illuílres,que de todos faõ univerfalmente conhecidos por taesxomo o tefle- 
fica claramentenaeilanc. IO. doprimeyro Canto em que diz a El-Rey Dom Se- 
baíliam: 

Vereis amor dafatria naõ movido^ ^c. 
Eno canto y.cítanc.S 3 .pedindo favor is Nynfas do Tejo: 

'Daymo vòs/os que eu tenho jàjurado^c, 

Deíla 



■ ' Vida do Grande Luis de Camões, 

Deita tal inteyrefa, & verdade eíteve muyto alheyo Homero, do qual refere Diam 

Chriíbílomo Orat. ii.deexcidio Illij que andando mendigando pelas Cidades de 

Grécia , vendeo por dinheyro os louvores , que na íua Iliiada da indignamente 

amuytos homens particulares , & a Virgílio deu Odavia irmá deAugullo cem 

mil reis por cada verio , dos vinte hum que efcreveo de Marcello leu íiiho ; & do 

-que lhe deráo os amigos deyxou depois por herdeyro a Auguílo em duzentos & 

ciacoénta mil crufados, como aponta Budeo,íeguindo a Sérvio, Sc a Donato; pello 

AíTciiv qtie nao he muyto que elle dedufiíTe a familia dos Julios dejulo , adosMemios 

3. ^' de Mneíieo , a Sergia de Sergeíto , & de Cloanto a Cluenta, coufas todas fabuloías, 

Acnca. ^ invcutadas delle mefmo , íò para liníbngear os poderofos daquelle tempo como 

plmii. o nota doutamete Scipiáo Amirato.Quaõ longe eíteve deíle vicio Luis de Camões 

Napoii fe ve claro no que efcreveo , pois nem ainda o Conde que então era da Vidigueyra 

^an.de jj^g f^.^ favor algum em remuneração de quanto diz naquelle poema do grande 

Amíra?^ Dom Vafco da Gama,como elle o teítefica dizendo no Canr.5'.eílanc.99. 

DjIc.i. , Asmttfas agrade ça o NoffoGama^^c, 

•Eíte foy Luis de Camões na compoli^ão dos feus Lufiadas. Porém nas outras 
partes da pocfia não merece menor louvor, por guardar nellas os preceytos da Arte 
perfeytam.ente. Nos verfos piquenos fe houve com tanta eloquência, & graça, que 
Lopo da Veyga no prologo do feu Santo Ifidoro lhe dà o primeyro lugar; & verda- 
deyramente foy taõ abundante de conceytos, & tão fácil em os por em verfo, q naÔ 
fey de qualdeílas coufas nos políamos mais admirar , porque fendo muytas vezes 
os motes fequiírimos , & incapafesdebompenfamento , hc tanto o que acha que 
dizer em qualquer matéria, que parece increivel , ainda depois de viílo , & a fuavi- 
, -dade do verfoiempretáo corrente , & fácil que parece fenaõ podia dizer aquillo 
por outro melhor , nem mais graciofo modo. Nas Odes, & Canções feguio o eílilo 
grandiloco,& alTi participáo da Mageftade dos feus Lufiadas. 

Cuydaõ alguns,que eíla frafe grandi1oca,que fe vè em parte das fuás Eglogas, lhe 
■ fez exceder o decoro que le deve guardarão fogeytopaíloril , naõ fe lembrando 
de Virgiho que nas fuás Bucólicas introduz argumentos muyto fuperiores àquelle 
fogeyto, como he o da quarta Egloga que trata iò da profecia da Sibilla Cumea , & 
o da fexta , em que Sileno dilcorre pela fabrica do mundo,& hiílorias mais notáveis 
^tíelle, o que tudo excede grandemente^) modo paíloril. Pelo que pois Virgílio a 
juizo de todos os Críticos não merece cenfura em exceder o decoro neftes argu*, 
-mentos muyto menos a merece Luis de Camões por exceder fó nas palavras guar- 
dando o devido decoro nos argumentos , aíli das Eglogas Palloris , ccmodas 
Pifcatorias. Antes he digno de muyto louvor neíle género de poefia , por fer o pri- 
meyro que deílas duas efpecies fez hum mixto,compondo as Eglogas de Peícado- 
res, & Paítores juntamente, por peííòas de dialogo, como fe vé na que dedicou ao 
-Duque de Aveyro que começa: 

Arufiim contenda de fufada^^c. 
-Onde mais abayxo diz: 

Ver€Ís(fDuque fereno)o efttllo vario^^c. 
Nas comedias feguio a forma que então fe praticava , & ainda aíriintrodufiojà 
algumas proías imitando os ingenhos Italianos, & ao noíío Francifco de Sà , que 
deyxàraõ os verfos em que os Gregos , & Latinos as efcreveráo ; porque como 
tinhão muyta diverfidade delles , efcolherão os que mais fe chegavão ao falar folto, 
o que entrenós não pôde bem fer pela obrigação dos confoantes , mas ainda aííl 
tradufio excelentemente a dos Amphitriões de Plauto. Outras traduções fez tam- 
bern em verfo em que fe não molirou menos elegante como foy a Elegia da payxão 
de Sanafaro,o Pfalmo: Super flumina Babylonis, a fabula de Biblisy ^ade Narcijo^ 
doutros. Também feachão algumas obras luas em profa folta, as mais delias de 
matéria jocofa , & ellillo metafórico , que era o que então feprefava muyto na 
isH. \ Corte 



Príncipe dos Poetas de Hefpanha. 
Corte; por o ter introdufido Fernão Cardofo , que foy nelle eminente , ainda que 
Luís de Camões o ufou com mais policia,& facilidade. 

De todas eílas obras fe pôde bem conhecer a grandeza do engenho de feu Au- 
tiOr,,& a univerial noticia que teve das Sciècias,& letras humanas; porque quem cò- 
íiderar feus eícritos , achará que teve conhecimento dalingua Grega^da Filoloíia, 
Thcolo^naj Mathematic.is, Hiílorias humana: ,& que foy taó geral em toda a maie* 
ria , que em qual quer faculdade que trata parece^porieliòr delia. Pelo que le em 
^l^uas de íuas obras fe achar acafo couza que defdiga do que fe efpera de tal Autor 
náo fe deve imputar o defeyto a elle , fenao ao tempo , & aos copiadores , porque 
€omo feus verfos andarão tantos annos , antes de fe imprimirem tresladados de va- 
rias mãos , com faciUdade fe poderiao corromper como vemos acõteceo às melho- 
res obras da Antiguidade;^ em particular a eíta caufa fe atribuirão(como jà dilfe) 
as dilfonancias dos verfos de Homero em tempo de \^efpafiano. Quanto mais que 
como Luís de Camões não fazia ellas Rimas para as imprimir , mas conforme a 
occafrio , & tempo lhe davao lugar , não hiaõ muytas delias com aquella peifeyçaõ 
com que as acabara , fe gaitara niliò o tempo que gaílava V irgilio, o qual dizia, que 
aperfeyçoava os feus verfos como o parto da Urfa; 

Portodas eílas partes foy Luis de Camões tao louvado,&: conhecido no mundo ^ 
que Fernando de Herrera chamado de muy tos o Divino , fò a elle dava ventagem, 
\ o excellente Torf:|uato Taifo canfelfava, que íò a elle temia, ^ fe admirou tanto 
de ver os feus Lufiadas, que inflamado nos louvores do Autor publicou o que delle R iiimc 
fentia netle foneto , que naó ficou para elle menos honroío que para quem o com- p Y^S, 

pOSI , Vene.an- 

VãfcoUcmfelice^ardite antene uo\6os. 

In contro ai SoL^che ne rtporta Ugiorno " * ' 

Spiegar le vele^^ fer cola ritornOy 
;' Ne^gl/parc/jfdicac(ere,accenne, 

Honptu di te per afpero marfoftene 

^lelchefecealCicopleoltraggio^^fcorno 

Mechtt^írbol^^rpienelfuoJbggíornOy 

Ne diepui belfubietto a coite penne. 
Et hor que lia dei colto^t boiín luigi^ 

Tantooltrejiendeilgloriofovoloy 

Cbe í tuoifpalmatilegni andar rnen lunge^ 
Onde àquelli a ctúpalzatlnoftro^PolOy 

E achtferma Incôntra t fuoí vejfigi. ^ 

Per lui dei corfò tuo la fama aggmnge. 
O grande conceyto queLopoda Vtyga celeberrimo Poeta denoíTos tempos faz 
do nojTo Luis de Camões,fe vò bem em feus efcritos, dandolhefempre o epiteto de 
excelleite. Eo Meílre Francifco Sanches Brocenfe , aífaz conhecido em toda 
Hefpanha por fua rara erudição , lhe naò dà menores títulos , tratando do refpeyto 
que fe deve ter aos efcritos de Virgílio, & doutros femelhantesPoetas,comofçvò 
delias palavras: ^igo eftopor la veneracion en que havíamos de tener a los Poetas^ Dd ríuj 
fiendo tales qve verdaderamente merefian efte nombre. Tal me parece a mi Luis de '""Ti-agc 
Camões Lufitano^cuyo fubtil ingenio^doBrina entera^cognicton de lengvas , delicada caftrô 
'vena mue flr an claramente no falt ar le nada para laperfeccionde tan alto nombre^ ^^ Dedi- 
^c. O Padre,Chriílovão Del rio,& Dom Fernando Alvia de Caílro,o pocm- entre Xr^uo- 
os melhores do mundo ; Chriílovaõ Soares de Figueyroa varão infigne nas letras riamos. 
humanas,na vida do Marquez de Canhete, o iguala com Píomero,& o apb.ufo uni- ,^^^"^J* 
verfal de tod os lhe dà o Titulo de Princepe dos Poetas ; o que na verdade parece ^. p* \^l^^ 
fe lhe deve juílamente ; porque fe muytos homens doutos de Europa , reconhece- 0.41- 
rioàNaç^;o Portuguefahuma certa luperioridade naPoefia , como entre outros J^^^pj**^^ 



Vida dú Grande Luís de Camões, 
Ò confeíla o Autor da Biblioctieca Hifpana dizendo Lu/ltaniinpvetka ^tit ^^ iti 
Miijida regnarefer untar mira animipYopenfiofie^vehit eutJnifiafmo raptt^líiC. Com 
razam fe pòdc dar o nome de Príncipe dos Poetas a Luis de Camões , pois elie tem 
o principado entre todos os Portuguefes. 

. Porem fe na eílimaçam de tantos autores graves eílà igual a Virgílio, & Home- 
ro , também pareee que lhe náo ficou inferior nos prodigios ^ue fe delles em íuas 
vidas contam; porque foy feu engenho tam fmgular, que nam faltam curioíbs,que 
digam , que muytos feculos antes foy^prognoilicado ao mundo o feu Poema pela 
Sibila Cu<mea,porqueaíTi como qualquer grande perfeyçam em humaSciencia, ou 
Arte,nam fe pôde alcançar fem particular concurfo do CeG,affi parece que ordena 
-algumas vezes fejaiílo prognoílicado aos homens muytos tempos antes ', que acon- 
teça. Veile efla profecia na quarta Kgloga de Virgílio , a qual foy toda tirada dos 
Wrfos da Sibila , em que profetizou a felicidade que havia de haver no mundo de- 
pois do Nafcimento deGliriílonolfo Senhor onde diz que o Poeta que havia de 
cantar a hiíloria dos fegundos Argonautas venceria na poefia a todos os paíIàdos;& 
'deíejando Virgílio fer eíle que a Sibila prognoíticava,diz aoíilho de Polliao ( aque 
elle erradamente aplicou eíla profecia) que fe lhe a elle caiíTe a forte de lereíle 
Poeta, eítava certo, que havia de vencer na poefia atè os mefmos Deofes, ;& inven^» 
Jtoresdos Verfos: 

O mihi tam longe màneat pars ultima vitã 
SpiritítSy^quantttmfateríttuadicerefMa, 
•Non m€ cárminibus vincet nec Tracius Orpheus, 
Nec Ltnusjouic mater quanvis atque hiácfater adjit 
: OrpheiCaliopeayLinoformojíis Apollo. 

^an etiam Arcadta mecumfijudtce certet 

^anetiam Arcádia dicet jejiidicevi£ítim. 

E certametite que eíle penfamento eílà fundado em boa razaõ , porque fe a gloríã 

Cic.pro que os Antigos Argonauías,&: Achiles alcançàram,foy mais pelos excellentes ver- 

ííu!a'r!in ^^^^ ^"^ 9^^ foram cantados,que pela grandefa das façanhas que obrâram,como aíir- 

vitaAicx. mava Alexandre , com quanta mais razam parece que nam deviam ficar inferiores 

Eoz.de neíla parte aos primeyros Argonautas os noíTos fegundos Argonautas Lufitanos, 

ScCox' ^^ quem, fegundo Bozio, & muytos outros, alli falia a Sibila à letra, pois a noíTa na- 

ici.Ari' ; vegaçam,& os heróicos feytos que os Capitães Portuguezes fizeram na India,exce- 

i*f To"-' ^^^'^n^ tanto aos dos Argonautas, & Achilcs,que nam íbfrem comparaçam alguma. 

cat.cam. Enamfòmeute podemos aplicar a Luis de Camões os verfos referidos da Sibila, 

' J- mas também darlhe aquelle lugar que em Roma na coroaçam de Patriarca deyxou 

dcfocupado entre Apollo , & as Mufas,no monte Parnalo , aquelle grande Afiro- 

logo Barbante Senes, por cujo difcurfo aquella rica hiíloria fe pintou; dizendo que 

o mereceria hum Poeta Occidental de Hngoa barbara(aíri chamavam entam os Ita-' 

.lianos às^eHefpanha) que andando os tempos havia devir ao mundo. Condu- 

• amos logo que fe o nolíb Poeta nam cedeo no engenho a Virgilio,& Homero,tam 

pouco lhe cedeo nas maravilhas do nafcimento ; & com mais razam nos podemos 

perfuadir que as houvelle em hum Poeta Catholico,que nos Gentios. 

Nam foy menor ^ opiniam que Luis de Camões alcançou na pátria que a em que 
o tiveram oselirangeyros : porque ainda que lhe faltaram com os prémios devidos 
a íeus merecimentos, foy tido em grande eílima dos maiores fenhores, & mais pre- 
zados daquelle tempo , como foraõ o Duque de Bragança Doni Theodozio , & o 
Duque de Aveyro Dom Jorge, o Conde que depois foy (lo Vlmiofo Dom Francif- 
CO de Portugaí,Dom Manoel de Portugal feu tio, o Vifo-Rey Dom Conílantino,o 
Gonde de Atouguia Dom Luis de Ataide,o Conde do Redondo, & outros que fo- 
ra largo contar. Nem era de menor valor a mercê que recebeo das Senhoras Dona 
Francifca de Aragam , Dona Guiomar Blasfè , & da Senhora Infante Dona Maria, 

como 



Trlnclpe dos Toetas de He/panha " 

comei fe vè em fuás obras/rambem referem muytos Fidalgos dlquelle tempo,que 
quando íuccedeo neíte Pvcyno El-Rey Dom Feiipe o Prudcnte^depois de chegar a 
Lisboa mandou fazer diligencia por Luis de Gamões, & labendo, que era fallecido 
moilrara dillò feiuimento , porque defejava de o ver por fua fama , Óz fazerihe mer- 
cê. De maneyra, que a pobreza em que viveo, nam lhe abateo entre os Principes a 
grande opiniam que à íuas obras le devia, 6l fe as riquezas fugirão delle , ou foy pe- 
ias razões , que o Plutão de Luciano dava contra Timon, ou por elle fazer pouco 
pelas adquerir , ou por léus merecimentos ferem muy to grandes: pois he certa a 
fentença de Tácito, que os beneticiosfaò agradáveis em quanto fe podem recom- 
peníar,mas que paliando deite termo tem o defagradecimento em lugar de premio. _ . ., 

Delia gèral reputação que os naturaes,& eílrangeyros tinhao delle, não he muy- ^Sor; 
to lhe naíceíTe a eílima grande que de íi tinha, louvando, & abonando feu engenho 
em muyras partes dos feus Lufiadas, & mais Obrasio que alguns lhe atribuirão a vi-* 
cio , nao atentando que he impoílivel náofe conhecer hum bom entendimento 
a íi próprio, 6c ter verdadeyra opinião de fuás coufas. Ariiloteles diz, que o varão 
grande,! e fe nao tiver por tal,não o fera: Ejfe fane magnanimus is videtur , qui cum Hv. 4^ 
magmsfit dtgnus ^ magnis quoquefèmet dignum exijíimat: nam quis nonpro digni- ^"^'^*^ 
tate idfacit , ftoLidus eji ; at virtutepraditus neque ftolidus , neque ftultus efi 
quifpidm^\êc. Ê noutro lugar : Magni enim virijoonorefe ipfos dignos maxime extf- 
timant^acpYo digmtate xUi qiádem, E o mefmo afirma Balthezar Caiiilone no feu 
PerfeytoCortezam,& lhe permite louvarfe em feu tempo,& lugar conveniente,di- 
zendo na peiloa d" Gafpar Palavicino : Ho conofciuti poc hi hiiomini eccelenti , in El Corte; 
qual Jivo-r lia cozã^chi non laudinofefieJJi\ ^paY me che molto bem comportare lorfi *"* ^^* ** 
pojfa. *Per che chi fifente valer e , quando fi vede non ejferper le opere conofciuto , fi 
Jdegna che ilvalor fiio fia fep oito, EtfoYza è che a qual che modo lofcopra , per non 
ejfere defraudato de le honor e^ che è il ver o premio de levirtuofe fatiche\ 'Ter o tragli 
antichifcrittoYi chi molto vale^rare volte fiaftien di la udarfejiejfo^^c, E Tu llio na 
fua primeyra Tufculana refolve , que aquelle celebre Oráculo Nofce te ipfun^ nao 
foy dito, para fabermos as miíerias do corpo,mâs para cada hum conhecer as excel- 
lencias de feu próprio animo , & entendimento. Porém ainda que naõ houvera as 
authoridades de taõ doutos Varões,baítantemente ficava o noíTo Poeta dei culpado, 
com fer eile o ufo comum de todos os Poetas, como diz o mefmo Tullio Tuícula- 
\yàr\xm(\wdà{\.X\\í.^.Adhucneminem cognovt^ oetam^qui fibi non Optimus viderètuY, 
E ad Atticu epiíí.2i.iV>.^íí? umquam^ neque Toeta^neque Oratorfuit^qui quemquam^ 
meliorem quamfe arbitraretur. Bom exemplo he dcíla opinião Homero na pelToa 
de Demodoco,Virgilio em muytos lugares,& Horácio liv. i .Ode i.em que fe finge 
coroado entre os Deofes dizendo: 

Ale doãarum edenepramia fontium 
T>ijsmifcent Juperis 
Eno liv.2 .Car.efcreve toda,a Ode lo.em feu louvor,que começa: 
Kon ufitata nec tenuiferar 

Tennajbiformisperliquidum tethera Vatesfêc^ 
E no Terceyro Ode 30. 

Exegi monumentum areperennius^ 
Regaliquefitupyramidum altius: 
^i o d non imber edax^non Aquilo impo tens 
^ Toffit erueYe^aut imiumeYabilis 

AnnoYum feries ^^ fuga tempoYum.^c, 
O mefmo faz Ovidio em muytos lugares , & em particular no liv. 4.DeTriílibus 
Eleg.io.dizendoaifi. 

Tu mihi{quod rarum efi vivo^fublime dedifti 
^ Nomen^ab exequiis quodáare famafòlet. 

****ij Neç^ 



Vida do Grande Luis de CamÕef^ ' 

Necquidetraãaíp'/ejent ia livor, iníquo 
1)ilum de noftris ãente momordit opus. 
Nam tulerint magnos cumfiecula nojira Toetasy 

Nonfuit ingeniofama maligna meo . 
Cnmque ego pr abonam multou mihi^non minor illis 

^ícor,^ in totó plurimiis orbe legor. 
Siquid habent igitur vatump^afagiaveri^ 
'■FrotinusutmoriaYHoneroterratuuSy^c, 
Eílacio liv.ii^da fua Thebayda: 

O mihi bijfenos multum vigi lata per annof 
Thebayjam certèprafens tibifama begninum 
Stravit iter^c iBpit que novata monftr are fut uris, 
Jam te magnanimus dignatur no/cere Ciefary 
ítala cumftudio difcit, memoratquejuventus, 
Vivèf) ecory7iec tu divinam j^neyda tenta^ 
Sed longe fequere^ veftigia Jemj^er adora. 
Mox tihifiquis adhucpY atendit nubila livoY 
Occidetjê meritipofi me referentur hojiores. 
E Sanafaro na fua 4.Pifcatoria naõ quis deyxar de lembrar que elle fora o primeyro 
que trouxera as Eglogas atè entaõ Paíloris aos Peícadores; 
^ Nuítc litoream nec de/p ice Mujam^ 
^uar/i tibipoft filvas^poft hórrida lujira licai, 
{^Siquid ide ftSfalfas deduxiprimus adundasy 
Au fus inexperta tentar epericula cymbac. 
Dos outros vulgares não hà que referir mais exemplos , pois todos ostrafem nas 
mãos. Pelo que bemfevèa pouca razão comque neíla parte pôde fero nolTo 
Poeta notado. 

Depois que Luis de Camões imprimio os feus Luíiadas palTou o reftante da vida 
em Lisboa,no conhecimento de muytos, & converfação de poucos;porque tendo 
jà paliado por elle as primeyra-s verduras da mocidade , tinha entrado na idade 
madura, & fò continuava có alguns homens doutos feus amigos, principalmente no 
Convento de Sam Domingos de Lisboa , onde tinha particular familiaridade com 
alguns Religiofos daquella Santa Cafa. Neíle tépo lhe fobreveyo huma larga enfer- 
midade , que lhe fervio de fe aparelhar para a morte , a qual elle trazia taõ prefente, 
que atè nas cartas jocofas falava muyto de fifo nella, como fe vè bem das que andaõ 
impreífas nas fuás Rimas. Acrefcentoufelhe eílemal com o fentimento da morte 
d'El-ReyDomSebaíliam , a quem tinha intentado celebrar em outro heróico 
poemajfe a ambos durara a vida,& melhor fortuna. 

Com eíh , & outras moleílias fe lhe foy aggravando a enfermidade atè o anno de 
15-79.no qual faleceo. Eílava neíle tempo em tanta pobreza , que de cafa de Dom 
Francifco de Portugal lhe mandarão o lançol em que o amortalharão , & aíTi foy fe- 
pulrado na Igreja de Santa Annafaonde fe acha hoje o Coro das Religiofas)fem le- 
trcyro , ou campa alguma , que moltrafe o lugar de fua feplutura. 

Era quando morreo de pouco mais de cincoenta annos,porque quando compu- 
nha os feus Lufiadas , diz elle no canto lo.eílanc. 9. que tinha jà pouco que palFar 
da idade do ÍLllio para o Oatono,o qual começa dos cincoenta por diante: 

VaÒ os annos àefcendofêjà do EJtio,^c. 
Efallecendoelle fete annos depois de fua impreiraõfa qual foy no de i5'7x.)parece 
Partes quc não palTou dos cincoenta & cinco. Foy Luis de Camões de meã Oftafura, 
dcCa-'^* gi*oíro,& cheyo do rollo,& algum táto carregado da frontc,tinha o nariz comprido 
levantado no meyo,. &groíIò na ponta; afeavao notavelmente a fdta do olho di- 
reyto,fendo mancebo, teve o cabello tão louro,q tirava a açafroado; ainda q naõ era 
%i- * ^ graciofo 



moes 



príncipe dosToetas de fíefpanha. 
graciofo na apíirencia,era na converfação muyto facil,alcgrc,&:áe2Ídor,como fe vè 
em feiís moies,òx: eíparías, pofto que jàíobre a idade deu algum tanto em ma]enco« 
lico. Nunca caiou , nem deyxou geração. Viveo , & morrco em tanta eílreyteza 
doneceílarioparaavida , que íeaquelles tempos naòforaò taocalamitoíbsparao 
Reyno, com as couí as de Africa , pudera redundar cm afronta dosnaturaes , & 
cauíar admiração. Ainda que os que tem noticia das hiítorias humanas entenderão 
bem , que eíle he o eílillo ordinário do mundo , no qual os mais dos homens emi- 
nentes íao perieguidos , & deipreíados em vida. Do grande Homero fabemos que 
fefullentava pedindo efmola por Grécia. A Sócrates faltava muy tas vezes huma 
capa com que fe cobrir , & em íim veyo a morrer condenado pelos Athenienfes , & 
Arilloteles , & Demoílhenes , porque o naõ foííem fugirão da mefma Cidade. Sci- 
piáo morreo delpojado da fazenda , & deílerrado da pátria. A Tullio degollàraõ, 
& por mais o afrontarcm,lhe cortarão ac]uella lingoa,em q por tantas vezes cõfiílio 
a liberdade da Republica, & o grande Epideto viveo em Roma com tanta miferia, 
que naó tinha mais de feu,que hum candieyro de barro,com que fe alumiava. Aca- 
bando porém com a vida as armas da inveja , com que os grandes engenhos faõ 
fempre combatidos , nafcem elles de novo depois da morte, & veílidos das azas 
da tama,alcançâo a gloria,que fuás obras mereceráo;porque os homens não podem 
fazer guerra, fenaó aos corpos , osquaes , como compollos de matéria frágil, & 
caduca , fao vencidos de mayor potencia. Mas as obras do engenho , como repre- 
fentaó o animo,que he eterno,duraõ igualmête com o tempo,& com elle adquirem 
o premio igual a ieus merecimentos. Daqui veyo chegarem depois os Gregos a 
venerar , como coufas Divinas, aos mefmos Homero , Sócrates, Demoílhenes , & 
Arilloteles , a quem em vida perfeguirão, & em Roma a confeííàrem os Cidadãos, 
que naõ podia fer caíligada aquella Cidade com mayor pena , que privala Scipiaô 
do thefouro de fua íepultura, & a dizerem contra os matadores de Túlio, que por 
fe livrarem de fua eloquente lingua, fizerão fallar contra íi as de toda a Republica? 
&:foytaõeítimadoonòme de Epideto , que o feu candieyro de barro , porfe-r 
poííliido de tal dono,fe comprou na praça de Roma por trezentos crufados. »" 

Deite mefmomodovayíUGcedendo a Luisde Camões,o qual,fendo perfeguidò' 
em vida de perpétuos infortúnios ; depois de morto tem alcançado gloriofif- 
fimos prémios de íeus trabalhos, porque pouco depois de feu fallecimento,movidO' 
Dom Gonçallo Coutinhodo zelo da pátria, a quem o Poeta tinha tanto merecido, 
lhe mandou cobrir o lugar da Sepultura com huma campa de mármore com cite 
honroío Epitaíio: 

Aqui jaz Luis de CamóeSjPríncepe dos Poetas de 
feu tempo: viveo pobrcSc miferavelmente, & aí- 
íim morreo oanno de 1579. 

Efia campa lhe 7nandou aqui por l^om Gonfalo Coutinho^ na qualfe naÕ enterrará 
pejfoa alguma. 

A eíte Epitáfio acrecentou depois outro mayor(cõ goíto do mefmo Dom Gon-" 
çallo)!V[artim Gonçalves da Camera,Preíidente, que foy da mefa do Paço,& elcri- 
vão da puridade d'El-Rey Dom Sebaítiam grande valido feu, & eítimado de todos 
os Reys delle Rcyno?vâif:'a'o de fumma inteyrefa, virtude, & temperança, compôs 
eíte Epitáfio à fua inítancia o Reverendo Padre Matheus Cardofo Reíigiofo da 
Companhia de Jeíuí; Lente que foy da primeyra cadeyra da humanidade da Uni- 
verfidade de Évora , que depois deyxando os Eítudos humanos, fe dedicou fò aos 
Divinos , & à pregação dc) Evangelho nas barbaras Regiões de Angola , onde ao 
prelente anda,& o picafiò diz aíli: « i^«tí» v;i^i. a;*; .y*^^'"'^^ 



Vida do Grande Lulsde^amoes^ 
Kafoeligis^Flacus Lyrkisyepigrãfnate Marcus 

HkjacetyHeroo carminaytrgUius, ■ 
En/e/imulyca/amoque auxU tibt Lyfiafamamy 
IJnam nobilitant Mars,^ Appollo manum. 
Cajtaliumf ontem traxit moduLammey at Indo 

Et Gangiytelísobjinpefectt aquas. 
Indiamirata ejUquandoaur^a carmina lucrum 

Ingenit^ haudgazas^ex Oriente tulit-y 
Sic bene ãe pátria meruit^dumfutminat enfe, 

AtPlus dum c álamo bellicafaãa refert, 
Hunc Italí, GalliJHiiJpani vertère Toetam 
V ^afibet hunc vellet terra voe ar ef num 

( V€rterefas^£quare nefas aquabilis uni^ 

Eft (íbiypar nemo^nemofecundus erit . 
Não he pequeno louvor alcançar Luís de Camões depois de morto eftas gloriofas 
inemorias por Obra de Varões taõ Illuítres, quando até osmayores Principesdo 
Mundo , & os parentes mais chegados com a morte le fepuítão juntamente no 
efquecimento dos vivos.Porèm náo iie menos honra a que adquirio nos bons enge- 
ohos, que íe dedicarão a traduíir o feu poema heróico, o qual anda convertido nas 
melnores Lingoas de liuropa querêdo cada qual fazello próprio por ornamento da 
fua própria , & para enriquecer íeus naturaes com taò preciofo thefouro. E ultima- 
Hiente o ReverendiíTimo Bifpo de Targa Dorn Frey Thomède Faria o tradu* 
^io com grande elegância em veríb Heróico Latino, tendo juítamenie tal occupa- 
çáo por digna de fua proftiraõ , & dignidade , como outros muytos Prelados tem 
íeyto em lemelhances fogeytos , por fer Obra em que fe moílra muyta erudição, & 
engenho. Nefte Reyno íe tem também empregado naõ poucos em comentarem, & 
louvarem o meí mo Poeta Luis de Camões ; alguns fairáo a luz , & outros fe con- 
ftrvão manufcriptos , mais dignos, pôde ter , da Impreílaõ , que os que tiveraõ eíla 
fortuna, qual he o que hà muytos annos tem compoíto Luis da Silva de Brito Prior 
do Santo Milagre de Santarém, peíFoa aíTaz conhecida neíte Reyno pella muyta 
Doutrina , & qualidades que nele concorrem. Dos verfos que fe tem compoílo em 
íeu louvor , por ferem muytos , refirirey fô dous Epigramas que fe imprimirão com 
as fuás Rimas no anno de mil & quinhentos 6^ noventa & oyto : o primeyro Latino 
feyto por Manoel de SoufaCoutinho,taõ ílluílre no fangue,como nasLetras huma- 
nas, o qual deyxando o feculo , & nome , entrou na Sagrada Religião dos Prega- 
dores, onde fe chamou Frey Luis de Soufa, & tem dado com luas Obras outra nova 
efperançaànoíra pátria. Pelo que pôr fer o Eprgrama detalfbgeyto , he para Luis 

-de Camões de^rande reputação. 

^odMarofublimiyquodfuavh^indarus^alto 

^íodSophocles^triftinaJò^qmd^recanit. 
Míejiitiamycafusjoorrentiâfraliayamores^ 
• Jimííafimulcantu^fedgraviore damus. 

^íifiam Auãor^.CamoniusrOndehic^.Trotulit illum 

Lyjiain Eo as imferiofa plagas. 

IJnus tanta dedit?.T>edit^^ mayora daturusy 
Ni calirifato corrij)íretur^erats.r/A vi 
c"'- ^Itimus hic choreis Mu farumpraefuitullo \ ?o 

^' li^lenior Acnidumeft^nobuiorquechorus. 

- ~ '■ Flosveteris,virtusque novafuit ille ca^mena^ 

?'0; debita jure fibi jceptrapoefis habet. 

or. In Lufitanos Heliconis culmina traBus 

Tranftíditantra^lyras^fertafiuentaíDeas, •.. 

Currere 



' Trtncífe dos To et as de ftefpanha, 
Qurrere Cajt altos noftra de ru£e liqtiores 

J ujjlt^abmvitof rata vir er e foío. "1 

Cerne per inculcos^Tem^emelíora recejfns, * 

Cerne fatas^jierilifejptte^verís oPes. 
OmnibusOccidíáridenttibifloribushortt^ 

Non ego Jam Lifios^credo^Jed Elyjios, 
Orpheus attonttas dulci modulamine cantei 
Traxlt^^ ab ftygto fqualida monjiraforo 
Thejfallcos Lodoiceyfacro ctimflumme montes ■ 

Tieridíimque t rabis aeLituum quíe choros 
Sunt maior a tua Orphats miracula vocis^ 
Attica quiâfaceresjitibi linguaforetl 
O outro he hum Soneto Português do nolFo Paeca Diogo Berníirdes, que no eftillo 
paítorilnaõ reconhece fuperior , o qual por ler tao qualificado voto he digno de 
inu)ta confideraçaõ: 

^uem louvará Camões que elle naÕfeja 

fuemnadvè que emvaÕ cança engenho^ arte 
lie afifòfe louva em toda apa rte^ 

E toda aparte elle fo' enche de inveja, 
"^icmjuntos num efpirito ver deleja \As;^0'^%'^ 

^lantos doens entre milThebo reparte " ^ 

( ^er elle de Amor cante^qtter de Marte^ 

Tormaisnaõ defejar elkfoveja. :;B 

Honrou a pátria em tudo,imiga forte > "i jí ai/; vfiinuho-j oin "''^ •'^' "^ 

Afeztomellefoftrencoííúda^ ■'■ ■ -'■ 

Em premio de eftender delia a rnew^y-i/i^ 

Masfe Ibefoy fortuna efiafa em -i idj. 

Naò Ihepode tirar depois da mor te \\ 

Hum rico emparo de fuafama^^ gloria, 
Deíles teílemunhos poderamos trafer muytos , mas baile hum univerfal , que he a 
grande eítima que nelle Reyno fe tem feyto de fuás obras,das quaes fe tem impref- 
fo, & gaílado mais de vinte mil volumes ; & tao geral he hoje o conhecimento do 
muyto , que mereceo à pátria , que fe durara ainda agora entre nos o coílume dos 
Romanos , que aos Cidadãos beneméritos levantavam eítatuas nas praças , nam 
duvido , que do publico fe lhe dedicara huma muy fumptuofa mas por nam carecer 
defte premio,no modo em que fe permite a hum particular lhe mandou Gafpar de 
Faria Severim,meu fobrinho''em o livro,que imprimio de vários difcurfos, em que 
também hia eíla fua vida)efculpir em brõze de meyo corpo o feu natural retrato, cõ 
fua inferi pçam , & para em toda a parte o poder acompanhar com o dito retrato 
fez a breve noticia de fua vida , & lhe ajuntou hum Elogio Latino , que vertido 
no nollb Idioma he o feguinte. 



.s.a 



rs.r 




eu 



ELO-r 



c 



ELOGIO. 

^^Ameeshe Lujitanu , ejit que vos parece Homero , naj€m€lhança doYofto^ 
nos me/mos partos do etttendtmento , ^ na igiiãldade da vida. Homero 
' fiy fa^to de ambas as viftas , Camões de bum a delias : aquelle pojjuhw pou- 
cas riquezas, ejftviveoemperfetua pobreza: cantou aquelle^lyjfes, ejfeos^lyfi 
/ecs^ mas Jèn do a Homero igual ne canto , no mais foyjuperior , porque cojtceben^ 
do emfeu animo humfoberano Toema , em que havia de pintar a braveza das tor- 
mentas de Neptuno , ^ o furor de Marte aferro , <3fogo , navegou, ^ pajfQU à Inaia, 
ouvioos fabíos delia, peleyjou valerofamente com os inimigos {cojno teftejícam as 
fermofas feridas recebidas no rofto ,) (ê fendo outro 'Platam nas peregrinações, imi" 
Sounonaufragio.aÇefar , contentando- fe de livrar fò das ondas feus ^Poemas. Tor» 
naéo à pátria , experimentoufua ingratidam , depois de a ter Jingularmente emno^ 
brecido , ^fem receber premjos , nem honras da Poefia, acabou a vida como dejf er- 
rado entre feus próprios C/dadãvs. Chegou porem 43. annos depois de morto o 
bem merecido galar dam à fuás Obras procurando o agradecimento livraloda ad- 
verfidade da fortuna , ^ efquecimento da morte com efe novo género de Efiatua^ 
cfue Gajpar de Faria Sever imprimeyro lhe levantou, em quanto outros de mármore^ 
tS de ouro lhas preparam. AnuoYdrt, 

Deíle modo ficará a Imagem do noíFo Poeta ornando as Livrarias , & Cafas das 
Sciencias, com grande gofto dos Doutos, & curioíos, os quaes jà em tempo de Pli* 
Hin. liv- nio coílumavam ter orn,ados os roílos daquelles cujos ânimos confervavam retra- 
^^'''*' tados no mefmo lugar em fuás Obras. E era eíle collume tam ufado em Roma,que 
ate os Retratos que nani havia,íe fingiam, como aconteceo ao de Homero. Ex au-- 
ro^argentOyãvt certe ex are(diz elle jin Bibliothecis dicantur illi^ quorum immorta^ 
les anima in iifdem locis,ibi loquiintnr, qui nimò etiamqui nonfunt ,fing7intur,parí* 
untqut defideria non tr aditivttltiis,ficut in Homero evenit,^c, 
r. "No Retrato ficou Luis de Camões aventejado a qualquer grande Eílatuapor 
•inaraviÍhofa,que folTe , porque as Eílatuas nam occupam rhais que hum fò lugar , & 
padecem também as injurias do tempo , com as quaes fe acabaram atèaquel les 
monílruofos Co]oíros,comque os Antigos quiferam eternizar fuamemoria,porèin 
as Eíbmpastemaquelia propriedade da pintura com a qual diz o mefmo Plinio, 
que os homens fe íiza*am iguaes aos Deofes , podendo eitar juntamente prefentcs 
em toda a parte , & por benificio da ImpreíTam ticam izcntos dos poderes do tem- 
po. Eítesexcellentcs prémios , queasObrasdeLuisdeCam.ões tem alcançado, 
fparece antevio elle muytos annos antes,quando confiderando o pouco fruyto, que 
entam lhe rendiam feus vcrfos diíTe na Eltanc. 100. do Canto 5*. de feus Luíiadas. 
V " , Porém ndò deyxe em fim de ter difpcfto^ ^c. 

Pello que tem nelle todos os profe (fores das Sciencias hum grande exemplo, 
para nam deyxarem de occupar feus talentos em beneficio publico, por falta de fa- 
vor , porque quanto mais elle lhe falecer de prefente , tanto mayores prémios po- 
dem efperar de futuro. 

Com razam logo nos podemos confolar da contraria fortuna:, queo noíTo Poeta 
padeceo cm vida,pois alem de ter nella por companheyros aos mais Illuítres Varões 
da Antiguidade, não lhe vay ficando depois da morte inferior nas honras da Sepul- 
tura,naauthoridadeda^Ellatu; s,n dilataçam daFama,com aqual he celebrado por 
todo o mundo, em tantas lingoas, dos melhores Poetas,Hiítoricos, & Oradores, de 
inaneyra,que lua glorioía memoria durará igualmente cora os Scculos vindouros. 

OS 



Pag.i; 



«01 







os lusíadas 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commentados pelo Licenciado Manoel Corrêa. 
ARGUMENTO. 

Fazcm concilio os Deoíes na alta Corte, 
Oppoemfe BaccoàLufitana gente, 
Favorece-a Venus^ôc Mavorte, 
E em Moçam bique lança o férreo dente: 
Depois de aqui moílrar feu braço forte, 
Deftruindo, & matando juntamente, 
Torna as partes buícar da roxa Aurora, 
E chegando a Mombaça íurge fora. 

CANTO PRIMEYRO. 

fede Canto primeyro fe conta o que acontece© ao Capitão MôrVafco da Gama, 
depois que partio deLisboa a defcobrir as partes da índia por mandado d'£l- 
Rey D. Manoel, té chegar a Mombaça na Cofta de Melinde. 



AS armas j & os Varôer ajjinãlados , 
^le da Occidental praya Lufítanaf 
*Por mares nunca d' antes navegados^ 
PaJ^ãraÕinda alem daTaprobanai 
Em ptrigosj & guerras esforçados^ 
Mats do qtiepromettia a força humanai 
E entre gente remota edificarão 
Novo Reyno^que tanto fublimáraõ^ 

AS armas. Coftumaó , os que declaraõ obrts 
alhca^.antes que entrem na declaração delias, 
trattr aigúas coufas, affim do Autor da obra , ti- 
mlo delia, como da ç[ualidade do verío , Ôc intcij- 



ça© do Autor. O Autor dcfte Livro foy Luís de 
Caniécs, Portu^ucz de naçaó,narcido,6c creado 
naCidadcde Lisboa, de Pays nobres, 5c conheci- 
dos: á qual, depois de haver citado muy tos annos 
nas partes da Índia, fc recolheo, òc nellamorreo, 
6c crtárepultadonoMoíleyro de Santa Anna. Pe- 
las Armas foy na índia muyto conhecido, & efti- 
madojcomo tcftemunhaó muytas ptílons dcqiia- 
lidade.que o conhecerão naqtielias partes, ôc hoje 
cm dia vivem neftas. Quanto á Letras , eft*, ÔC 
outras obras luas, que andaõ iinpreflk*;, nioíliáo 
fua erudição, & engenho: & quam alta puzera a 
rirca,re deyxados outros exercif ios, le d^ra a cilas 
de todo.Intitula-fe cfta obrajOi Lnfiaelai de Luís Jt 
C<iwffí,por traur dos fcytos dos PgrcugueZ' s,aos 

A quacs 



2 ' , Lu^ada^ de LuU de Camões Commentaàos, 

quaes os Latinos chíimaô Lufadas. Alguns que- Cantando efpalh ar ey poY toda aparte^ 

icnv, que os Portagu^zes íe chamem Lufiadas de Se a tanto me ajudar o enzenho, &aYte 

Lufo decimo leptimoRcy de Efpanha, que rey- ^ iw, / , 

nou nella trinta annos , de cuja origemnão daó E também as memorias gloriofaí. Pron:ettr tratar 

razaó alguma. O nojlo André de RcTende Hh. i. também dos Reys de Portugal, os quaes eílendc- 

gntitj.Luf.in princ'tpio,á\zjB^\xc dcLuíb filho de Bac- raô a Fé de Chriílo nofio Senhor, tomando n^uy- 

cho,& que fe chamarão tambcmLyfiadas de L) fa tas terras aos Mouros,aírim cm Europa, como eoT 

feu companheyro: 6c aterra Lufitania, ou Lyfita- Africa, 6c Afia. E porqueaqui fefaz mcnçaóde- 

niapor eíte,iferpeyro, o qual eu figo. Hoje fe cha- ftas partes doMundo,tratarey brevemente delias, 

ma Portugal, de cuja oi*igem fe veja, o que efcre- para le entenderem meljior algumas couíhs, que 

vemos no canto tcrceyro, Oóbava zo. A qualida- no difcuríb deite livro íc ofi^erecem. 

de do verfo, he Oélava rima , verío heróico , co- Os antigos dividirão o Mundo em três partes, 

mo entre os Latinos, & Gregos, o Hexametro. porque naó tiveraô noticia da outra novamente 

Chama-fe Oâ:ava'"nma, por terçada eítanciaoy- defcuberta, á qual porcftererpeytochamão novo 

to verfos. A tcnçaó do Poeta he tratar do defi;o- Mundo.Todos os Gcographos comcçaô fua dçí- 

brimcntPíftcçonl^uiíladalndia, &dos valerofos cripçáo de Europa, por fcr ( ainda que na gran- 

feytoiém âi^m^as.quc õsPortuguézes nella fizeraô. deza menor que todasjna bondade, & fertilidade 

Guarda a ordem , que os Poetas heróicos coftu- muyto mayor. A qual Plínio lib, 3. c. i. cham.ou 

mão guardar no principio de fuás obras.Propocm mãy do povo vencedor de todas as gentes , &a 

naqucllas palavras: As*rmas, éf ot varões afjina' tnaisbella ,& íermo la de rodas as terras do Mun- 

lades. Pede ajuda as Nymphas do Tejo naquella .do. O que os antigos quizeraó moftrar pelo nome 

Qélava: E vh Tágides minhas. Começa a narração de Europa, chamada no Grego Europi, que quer 

naquelle verfo : Ia no larg;o Oceano navegavao, dizer fermofa vifta : como he notório, aos que dc- 

Da Occidental pr aja LuJitana.Chimi^ Portugal, íla lingua tem algum conhecimento , & Ic pôde 

parte occidental, porq dç todas as de Europa, ne- ver no Thcfouro da Jingua Grega, no fegundo to- 

nhúa o he m^is. Occidental quer dizcr,aonde o Sol mo. E efpantomc, nenhum Autor antigo , nem 

fe põem, naó porq feponha,mas porq quâdo o dia moderno haver dado naverdadeyra etymologia 

fe acaba ncfte nofio Emffpherio,parece,q alli aca- dcfl:a palavra; crendo todos, que o nome de Eu- 

ba,& fenece leu curfo^pelo q vulgarmente fe diz,^ ropa lhe veyo de húa mulher aflim chamada, que 

fe põem, como fe não ponha, mas andecmconti- Júpiter furtou, & levou a Cândia, que commum- 

nuo moviméto, dando luz ás terras per onde pafia. mente fe tem por fabula. Tem Europa por termi- 

Por mares nunca d*antes navegadts^ Efta he a ver- no , da parte do Norte, & Occidentc , o ^rande 

dade, que atè o tempo de ElRey D. Manoel naó niar Oceano: do Sul , o Mediterrâneo: do Òrien- 

foy defcuberta a carreyra da índia, nem fe nave- te, o Egco, chamado hoje Archipelago: a lagoa 

gou, como hoje fe navega. Nem me move, o que Meotis chamada cm Italiano mar delle Zabacche: 

diz Damião de Góes na hifl:oriado PrincipeDom o rio Tanais chamado Don,ou Taná. Divide-fc 

Joaó,/í^.i.c<íp.67. pelo que leo em Plmio: que íc- em doze partes principaes: Elpanha, França, A- J 

râ tal como o de Eudoxo, de que trata Efl:rabaó Icmanha, Itália, Rhecia, Vindelicia, Grccia, Pa- * 

Uy. 1 fag.Ubtimeiyi. & tem porfabulofo. E o nof- nonia,Efi:lavonia, Noruega, Sarmacia, & Efcan- 

fo Poeta tinha voto nefl:as, & íèmelhantes mate- dia, com as Ilhas adjacentes. Alguns modernos 

lias. Leaô oscuriofosaGaípar Barreyrosemocô- efmiução mais efl:as partes , mas tudo oquetra- 

mcntario, quefezda regiaó Ophyr , aonde trata taô fe reduz a efl:as doze, como (e verá no Canto 

efta matéria com muyta claridade, & verdade. tcrceyro, aonde o Poeta trata efta matéria de pro- 

Pafjarao inda além da Taprobana. Para encarecer a pofito. 

comprida navegação do? Portuguczes, ufa defta A legunda parte he Africa; deraólhe os antigos 

palavra Taprobana, á imitação dos antigos, os eftenome, que quer dizer Quentura, na língua 

quaes quando queriaõ encarecer huma coufapor Grega, porfer pela mayor parte muyto quente, 

muyto remota, diziaó, fcrà na Taprobana. Hoje Divide-fe em cinco partes:Berberia,Numidiâ,Li- 

ie chama Ceylaô, & he fujeytaaos Reys de Por- bya,Ethiopia, 6c Egypto. Ainda que alguns daó 

tugal.Veja-fc a nofia annotaçaõ no canto decimo Egypto à Afia, outros afazem parte per fi. Tem 

Oótava ji. Berbéria cinco Reynos: Féz,Marrocos,Sirz, aon- 
de eftá Trudante, Tremefier^i, aonde cae Argel, 

2. & Tuncz, que he apropria Africa, aonde eftevc 

E Também as memorias gloriofas Carthago, grande inimiga do Povo Romano: a 

T>aquelle5 Reyí^qneforaõ dilatando qual foy muyto perto do lugar , aonde agora eftá 

J Fè, o Império. & as terras viciofas ^ ^j'^^^^ '^^'^"í n^' "^^ ''"*2, """''^ ^°'^'' ^ ^^^>''''' 

T>'^Srica,&d^Jfta andaram devafíando. í^^í^^"^*^^"^-^^ "«"^«^^^'^^^'^'^'^^"^ ^lÇ«^ 
t:- -^ ,1 ^ , ffff^i^vu/tmiuv. que Ihepuzerao osRomanos,porquenacon^ul- 
^ aqueles, que por obras valerofas l^ jc Africa nenhuma gente acháraó mais barba- 
òe vao da ley dá morte libertando: ra,quc a defta parte; a qual faz vcntagem hoic e-n 

tudo 



Canto Trlmeyro. 5 

tudo a rocia a outra terra de Africa,como Tabemos os naturaes,pelo me^o refpeyto, chamac Sahu- 

os Portuguezcs, pela muyta coramunicaçaõ que rá, he húu faxa de terra> que começa de Oceano 

neítas partes temos. Outros lhe daó outras ery- occidtntal , das comarcas do cabo Bojador , ate 

mologias, que í"e podem ver em Luís de Marmol chtgnr á nofla fortaleza de if^rguim : òí vay em 

na priiT.eyra parte de íua Africa. krgura dé lcfienía,oytenra, ôíccmlegoas , 6c 

Numidia, fe chama aílin),porque a gente defta mais em partes, atè dar nas correntes do rio Nilo. 

parte naõ vive de outra coula , Tenaó da cultiva- He terra deieria, eíUril,& triílc,por Itrdc muyto 

çaó das terras, & gado, que tem muyto. Aos dt- grandes areaes^ pelo que he falta do ncccílario pa- 

Ita RegiaôchamáoosGregosNoroades,quequer ra a vida. EalTim nâo vivem nclla, lenaóalarveSj 

dizer paílores: os Latines NimidaSjSc a terraNu- maisbiutosque osanimaes, que lhe náofaltaô. 

mídia. Confina efta terra com humas ferras gran- Donde íe deo lugar áquelia fabula , dequeOvi* 

des, que a dividem de Berbéria, ás qnaes os natu- dio faz nicnçâo nas íuas Metamorphoíes, lib, 4. 

rricschamaô AyvacaJ,Sc os Latinos Atlâremayor, Que quando Ferfeo matou a Medula , paílardo 

à diífercnça de outras, a que chamâo Atlante me- com íua cabeça pelo ar cm cima do cavailo Fega- 

nor: 6c os Africanos Errif, queeftaó ao longo da fo, do langue, que da cabeça cahionaquellas par- 

coíladomar Mediterrâneo. Hojelechamaõ vuU tes, ficou chea dt cobras, & bichos, de que tem 

garmente MontesClaros.Tem Numidia três Pro- abundância. 

vincias:Drá,Todegà,Sc Tophilete.Drà le chama Ethiopia, quarta parte de Africa, he terra lar* 
aílim,dehum riodo raefmo nome,que dcfccdos ga, 6c quafitoda fujeyta ao Preílejoaó , Senhor 
Montes Claros , 6c a rega por cfpaço de íeííenta daquellas partes, É Icgundo o que íabeinos por 
legoas: nasquaes todas ao comprido, & huma de relações , & eícritos de noílos naturaes,jaz o eíta- 
largo, de huma, Sc outra banda do rio hecheade dodcfte Príncipe entre as coi rentes de três muy 
palmares,de que tera o Xarife grande tributo. Nd famoíos nos: Aítaborá, Nilo, Ôc Aftapo, deque 
fim delia Província eftâ huma Cidade chamada Ptclomeo faz menção na qual ta taboa de Africa. 
Quitauga, na entrada do deíerto , aonde levaó o Chama*le Ethiopia, por os moradores daquellas 
ouro da grande Tumbuquutu. He a maispovoa- partes íerem negros , que iífo íigoifíca a palavra 
da tcirado mundo , porque no dito elpaço de na lingua Grega. DonomedoPreífeJoaó, & da 
leflenta legons, tem mais de trezentas villas,& lu- grandeza de leu Rey no trata Jctõ de Barros lar- 
gares de calas grandes, Scfobradadas, mas fracas, gamente na terccyra década. Os Reys de 
por ferem feytasde area,6c paos depalmajpíirn&õ Portugal tem também muyta parte na Ethiopia, 
haver na terra pedra, nem outra madcyra:ôc vale- como laô os Rcynos de Sanagá.,Ganibca, Guincj 
lhe chover poucas vezes naquellas p^irtes, porque Manicongo, Jaloph, Cantor, Mandirga: as Ilhas 
fe acerta de chover dous. ou três dias, dâ com to- do Cabo verde, Saó Thoni c, Sc Príncipe, a grau - 
das as caías no chaó. Crio Drá, ainda que he de de ilhadeSaõ Lourenço, Quilòa Mcrrbaça,Me- 
muyta agua, não chega ao mar, porque o forve a linde, & outras naqutlía coíla. Egypto , quinta, 
terra nosarcaes de Libya. Mantemleagente de Sc ultima parte de Africa, que m.uytos (como fi- 
Drá, ôc Taphilete, que confina com ella, de tama- ca dito ) affinaõ a Afia , foy primcyro chamada 
ras , ôc com os caroços d.llas pifados fe íuftenta o Aeria, por fêr ifenta das alterações , 2c tempcíh- 
gado. Entre os palmares feda o -anil, como o que des, que fuccede haver em outras partes; por tcf 
vertida índia, que ferve paratingir azul, & preto, femprc nella oar claro,5c limpo de névoas, Sc nu- 
Taphiletetemelienomede huma Cidade pnnci- vens, 6c por fer terra muyto temperada. Pelo que 
pãl damefmaProvincia. As cafas faô como as de nem os (rios do inverno, nem as calmas do verão 
Dra pelas raeimas razões. Tem algCias minas de laó taes, queoffendão, 6c tratem mal a gente. A- 
fal, que levâo em Camelos a Tumbuquutu,para gora fe chama Egypto, de híã filho de Etllo Rey 
dará troco de ouro, donde trazem muyto, peloq deBabylonia, allim chamado, que toy Rey delU 
efta terra he muyto rica dclle. He efta grande Ci- Província feílenta 6c oytoannos. Tem da parto 
dadedeTumbuqiiutU5nagráde província Jaloph, do Occidente osdclertosde Libya, Marmarica, 
diítante do rio Sanagá por cfpaço de três legoas. 6c Barca: do Oriente Afi 1, do Norte o mar Medi- 
He de grande concurlb de mercadores de diffe- terraneo, doSul oRcyno de Nt.bia. Temmuy- 
rcntes partes, por refpeyto do muyto ouro, que to grandes Cidades, Villas, 6c lugares, de que he 
vem ter a ella da Província Mandinga. Taphilete, rouyto povoada. He fértil, 6c abundante de todas 
6c Drá faõ de gente baça. Os deTodegá,quec{- ascoufas neceílarias para a vida, como diz Piinio 
taô nomeyo por efpaço de fcífenta legoas, pouco lib zi.c.t^. pelo que os antigos lhe chamarão PU" 
mais ou menos f-iõ alvos como Framengos ; mas bUcumorbu fj9rreuWyCc]\pyTO publico do mundo. E 
poente bruta, 6c boçal, vivem elpalhiidospeloCer- porque ao diante me hadefcrncceflario tratar ai- 
taó dentro, tey tos paítorcs, 6c lavradores. Naõ gCias coufasdcrta Província, 6c de alguns lugar.-s 



ha nerta terra, lenáo algum trigo , 6c fruy tas, de 
quefelurtcntaó. 

Libya, terccyra parte de Afrí ca,chamada aflim 
dos Gregos por fuaiecuru, 6ccílenlidade: a que 



feus,do nafcimento do rio Niío , & caufis do íeu 
crecimento, 6c outras coufas dignas de fe fabcr,o 
não faço aqui. 

Afia,terceyra parte doMundó,hc íó per fí mtiy - 
Al to 



4. Lupadas de Luís de Camões commentaàas\ 

to mayor que Europa , & Africa. Dizem alguns, zinha à nofla Europa he a da cafa Ottomana , & 
que fe chamou aíTinijde Afio filho de Maneio Ly- Império do Turco,quc começa cm Conílantino- 
dio; outros de Aíia filha de Promcthco: & outros pia , &: he fenhor de niu) tas Províncias na Aíla 
lhe daó outras derivaçóes,& origens, como lhe dá mayor. & menor. A fegunda, he aquclla parte, q 
gofto. Outros, qucrendo-le conformar como cae ao SeptentriAÓ , fujcyta ao graõ Duque de 
Grego, dizem que fe diíle aííim de aíis , que quer Mofcovia. A terceyra, ôí mais Oriental, chama- 
dizer lodo, ou lama: por ferem algúas partes delia da Tartaria do graõ Cão , que cflim (e intitula o 
íujeytasa grandes enchentes dcmuytos,6c gran- Emperador dos Tártaros : porque naquclla lin- 
des rios , que a regaó. Mas outro lodo , & lama gua,f^/«w C^w.qucr dizcr,Grãdc lenhor. A quarta 
lhe acho eu mayor , que íaó as grandes fuperlti- he a teira do lenhor da Períía, chamado entre ellcs 
çóes,genrilidades,& abominações , que a mayor Sophi : palavra entre os n cimos de preeminência, 
parte deílas terras, & Reynosteve, Ôc rem,como 6c império, como entre nós Emperador: oqual he 
he notório ao Mundo. Porque hús adoráo o Sol, fenhor de todo o Meridional da Aíia. Aquinta, Sc 
outros a Lua, outros o Boy, ouiros,diíferentes a« ultima paite comprehende a índia, 6c China,aon- 
nímaes : & tem outras torpezas indignas de fe cf- de ha differentcs nações. Aqui tem os Portuguc- 
creverem, 6c hoje faõ fabidas pelo muyto, que os zes muyta parte. 

noííos Portuguezeá tem tratado, & trataõ em ai- A quarta parte do Mundo , de que os antigos 
gúas déftas partes. Pelo que fepó'ledizer,ferfua naô tiveraó conhecimento , fe chama America, 
verdadeyraecymologia tirada do Grego aíios, q do nome de fcu defcubridor Vcfpucio Amcricc, 
querdizer, lem Deos : por os moradores deílas Florentino. Chamaíe também novo Mundo, af- 
partes ferem diílblutos , 5c defenfreados cm fcu íim por fua grandeza,como por fcr novaméte dcí^ 
modo de viver, & por efte refpeyto gente fem cuberta. Os que lhe chamáo índias, ainda q daó 
Deos , perdida , & errada no conhecimento da alguma fahida a efte nome, ufaó do vocábulo im- 
verdade. Nem he inconveniente, quehouvefie propríamétc: porque índias fomente fe entendem 
fcmpreem Afia muyta Chriftanlade, Scqucho- asOrientaes, ditas aíTim por razaó do rio Indo 
jc em dia a haja: antes he de crer que aqucllcs ían- que as rega. O principio do defcubrinento deftc 
tos,& doutiílimos Varões lhe puzeraó efte nome, novo Mundo contmuou hum Chriftovaó Co- 
vendo o grande defâtino, &(íe{variodefta gente, lombo, Genovez de nação , por mandado dos 
EjaSailuftio , & Tito Livio em fcus tempos fc Reys Catholicos Dom Fcrnandc,6c Dona Ilabel, 
queyxavãodograndedano,queos Romanos rc- noannode 1492. Hoje he dcfcuberta toda eftaA- 
ctbião com acommunicaçaó da gente da Afia, mcrica, ou novoMundo, laivo no que toca ao 
porfermolle, & afeminada, ôc entregue a todo Nortr,dódefe cftendepara oSul,a n ©do deduas 
género de vicio: o que fe apegava aos Romanos, peninfulas , as quaes aparta hu ma pequena terra, 
que aportavão áquellas partes. E afíim lhe chama A peninfula Scptentnonal comprehende a nova 
o Poeta terras viciofas , por os moradores delias Efpanha, México, Florida, ôc Terra nova. A 
ferem dados a todo género de vicios. Eftes faõ Meridional ( a quem os Efpanhots chamão Ter- 
hoje os moradores, em grandes Reynos, & Pro- ra firme ) abraça o Peru, & Brafil. 
vincias. E os que efcapaó defta torpeza, & lodo 

genrilico, daó em outro, que he a maldita feyta V 

de Mafamcde. Bem he verdade que nas partes da f^Effem dofabio Grego ^ & do Troyano 
índia té os nofibs Portuguczes feyto grades pro- l ^ ^j navegações fraudes, que fizer ao: 
vey tos nas coulas da Fr :&c que ha nella muy tos, ^Ca/efe de Alexanaro^& de Trajam, 
ScmuyfirmesChriftaosi&cadadiaaBandeyrade . r j ■*. ■ *• - 

Chriftofedeíenrola em novos Reynos , aonde Afama das vitorias , que tiver ao, 
muytos Rehgiofos com zelo fanto , & caridade ^^^ ^« ^"^^^^ ^P^J^^ tllujtre Lujitano,^ 
grãdilTima, le põem em muy certo perigo de per- A quem Neptuno, & Marte obedecerão: 
der a vida, por ganhar almas a Deos, arrancando CeJJe tudo^ o que a Mufa antigua cantay 
idolatrias dos corações dos gentios , drsfazendo ^e outro valor mais altofe alevanta. 
Ídolos, 6c dando os Templos a quem faõ devidos. 

Tem Afia por termino da parte do Oriente,Nor- Celjim dofabio Grsgo. Por fabio Grego,entcnde 
te, 6c Sul, o grande mar Oceano : doOccidente, Ulyfle» fenhor de Itaca ilha do mar Jonio, chama. 
orioTanais, queadivide, 6c aparta da Europa, da hoje Valle de Compare: 6c primcyrofundador 
juntamente com a lagoa Meotis,6c mar Egeo.Da de Lisboa. Se he verdade o que alguns dizem.ôc 
Africa a divide o mar roxo, 6c húa linha, que paf. o nofib Poeta refere no canto cytavo, Odava 5. 
fadodiro mar ao Mediterrâneo, que eftánotada FoyefteUlyiTcs taó avifado, 6c taõ aftuto, 6c fu 
de negro na cai t:: Gcographica de Gafpar Vopel- gaz em íua viJa, 6c modo de proceder, que lhe fi- 
lio, a grãos 6^. de longura. Os antigos, 6c moder- cou por appellido o Sábio. Suas coufas cota Ho- 
nos varião na divilaõ da Afia. Hoje íc pôde divi- mero na Odyí!.'ía,que toda gafta cm tratar delias, 
dir em cinco parter,rcfpeytando os Principes, q a pelo que a intitulou do leu nome. 
governaô,Scfcnhorcâõ. Apiimeyra, 6c mais vi- E do Troj ano. EàcícyEntaiBWio deAnchircs, 

6c 



Canto Trimeyro, ^ 

5<; Vénus; oqualdepois dedeftruida, 8c queyma- outra banda dos rios Tigris, & Eufrates: como 

da Troya fua pátria, fugindo da fúria dos Gregos Suria, Babylonia, Chaldea, &; eutras Províncias: 

vencedores, paflbu grandes trabalhos no mar até entrou pelo rioTigris ao mardaPeríia, donde 

chegar a Itália; os quaes conta Virgilio na lua E- determinou paflar á índia, & conquiftalla; mas a 

neida : o que pudera bem fazer lem tocar na hon- idade (por ferjamuy to velho) naó lho confcntioj 

ra de Elifa Dido, que Eneas nunca vio, nem co- pelo que dalli tornou a Roma. 

nhecco. Lembro ao Leytor, que tudo, oqVir- A e^uem Neptuno , & Marte ebedecerao. Os anti- 

giliocfcreve dos fucceflbs de Eneas : Homero gos, cegos no conliecinicnto dcDeos, adoravana 

dos trabalhos deUiyncSj& Valério Flaco da jor- pordeoles a Neptuno do mar,&: a Marte da guer- 

nada dos Argonautas , em comparação dos Por- ra: fendo aíTim eftes, como Júpiter,^ outros que 

tuguezcs he quaíi nada. Porque a navegação dos elles tinhâo na mefma conta, homens, 6c nãobósi 

Argonautas foy muyto breve,como he de Grécia antes difiolutos , & tyrsnnos. Mas como elles er- 

aorioFaíode Colcos, regiaõ da Afia , fempreá ravaô no principal , tmhaõ por deofes homens 

villa de terra:rahindo a cadapaflo nella, jantando peccadores, & de maoscollumes, para darem def- 

cmhum porto, Sc ceando cmoutro.O caminho,q culpa a feus próprios vicios. Pelo que avifo ao 

UJyfles,6c Eneas fizerác,foytambé muyto breve, Leytor, queoffercccndo-fe fallar neftes, ou em 

porque nunca íahiraó do mar mediterrâneo. Pelo outros alguns deofes dos gentios, entenda que faõ 

que tudo, o que dcilcs fe efcrcve , íaõ fabulas , & fabulas, & fingimentos, & que he ncceíTario tra* 

encarecimentos de Poetas , que naó tendo outra t3r delles algúas vezes , para declaração dos Poe* 

matcria,de que lançar maó,quizcraômoftrar feus tas, como neftc lugar. Onde por eftas palaVrasí 

mgenhos ncftas mentiras, 5c patranhas. Os noflbs a quem l^eftun9^& Marte ooedeceraZ: quer rnoftrar 



Portuguczc-s Correrão, êc defcobriraô tantos ma- 
res, viráo tantas Ilhas, conquiftáraó tantas, & taõ 
varias nações, 6c terras ; que para ícus feytos fe- 
rem como faõ , differentes de todos os do n^undo, 
naó lhes faltou, íenaõ quem os efcreveire,& cele- 
braíTe como elles merecem. E trazer o nolTo Poe« 
ta a terreyro Ulyfles, Sc Eneas, he, pelo que delles 
bbulota, 6c poeticamente e diz ; & naó , porque 
fejaõ fuás navegações , & trabalhos dignos de fe 
comparar com os dos Portuguezes. 

CAÍefe de Alexandra , é^ de Jrajano» Alcxandro 
chamado, o Magno,por fua cavallaria, 6c esforço, 
foy filho de Philippo Rey de Macedónia, 6c an- 
tes do Nafcimento de Noflb Redcmptor,6c Sal- alludir áquclle difticho taõ celebrado > feyto em 
vadorJeíuChrifto, trezentos, 6c vinte 6c quatro louvor de Virgilio: 

annos : 6c natural da noíla Europa. Conquiílou Ceditf, Romani Scriptoresy cedite Graijt 

Afia, paflbu à índia, atravcflando Perfia,& Arme- Nefcio ^uidmaius nafcitur Úiaãe, 

nia, 6c outras muytas Pi ovinLÍas,6c Regiões, nas Eílem de parte os Efcritorcs Latinos , 6c Gi*e* 
quaes houve grandes vitorias. EftegnndcEm- gos, que agora novamente fae a luz^ hum naó fey 
perador, 6c Capitão, lujeytando o mundo, 6c ven- que> mayor que a Ilíada de Homero, 
cendo varias nações, não fe foybe vencer a fi mef- 



o esforço, com que os Portuguezes fe offercceraó 
aos traba]hos,6c perigos: 6c como navegando ma- 
res incógnitos, parecia,quc as próprias aguas lhes 
obedeciaó. E nas guerras,recontros, Sc batalhas 
fe haviaõ taõ valerofamentc , que á cuíla de muy- 
to fangue de feus inimigos , fahiaó com a vitoria, 
6cpareciaõ fcnhores da melma guerra, 6c que era 
mandada por elles. 

Cejpt tudo, o cjue a Muj a artúgua canta. Tudo o q 
os antigos Poetas, 6c Hiftoriadores eícreveraó de 
feytos excellentes de Varões illuítrcs , diz o Poe- 
ta, que fe pôde pòr â parte, em comparação do que 
ellehade tratardes Portuguezes. iNo que parece 



mo: porque foy muyto foho no beber; pelo que 
diz Solino no fcu Polihilt. cap. 14. que morreo de 
rinho. Outros querem q morreffe com peçonha, 
6c que feu meftrc AriftoteJes foflc em ajuda de fua 
morte. Trajano Emperador dos Romanos, foy 
Efpanhol de naçaó , natural de hum lugar cha- 
mado antiguamente Italica,cinco legoas de Sevi- 
lha: do qual hoje naó ha memoria; porque o tem- 
po fez feu officio ncUe , como em outros muytos; 
pelo que os Efcritorcs o fazem natural de Sevi- 
lha. Foy cfte Emperador, omclhor (fegundo 
fe dclle efcreve ) de todos os Emperadores gctios; 
cm tanto que quando fe creava algum novo Em- 
perador, diziáo em voz alta: Shfelicior Augufto^ & 
Jrajano melior. Sejas mais felicc que Auguílo, 6c 
melhor que Trajano: como refere aChronica do 
mundo, pag. 10^. i„ fgxta atate mundK Sujeytou 
Trajano toJos os Rey nos, quccílaõ de huma,6c 



Eybs Tágides minhas ^pois criado 
Tédes em mim hu novo engenho ardete^ 
Sefempre^ em ver/o humilde, celebrado 
Foy de mim vojjo rio alegremente: 
^ayme agora hum fom alto^ & fublimadol 
Hum eftylograndíloquoy ^ corrente^ 
Torque de voj^as aguas Thebo ordene, 
^e não tenbão inveja às de Hippocrefíe^ 

E vè$ Tágides Mtnbat. Até cila Oílava propòa 
o Poeta, o que havia detratar nelle feu Livro. Pe- 
de agora ajuda, 6c favor ás Nymphas doTcjo,por 
efcrevercoufasde Portugal, por onde o rio Tejo 
pafla, 6c por honrar fua Pátria , attnbuindclhe 
Nymphas. E chamalhe Tágides, por eílc Rio cm 
ktim fc chamar J^gui, AsNy mphas fingiaõ os an- 
tigos 



Lujiadas de Luis de Camões Conmientadôs, 



tam necefiario, dizo noílbPoeta, que fua Pátria 
criou nelle hum engenho ardente. 

SefeTKprs em verjo humúde. Poe m lhe diante a o- 
brigaçaó, que tem de o favorecer , pois toda Tua 
vida gaílou cm leu ftrviço, cantando, & louvan- 
do osPortuguezcs,&coulas de Portugal, as quaes 
pelo rio Tejo entende. Verío humilde ^ chama 
Éclogas, Elegias, & outras coufas, que compôz: 
ás quaes, por naõ lerem em verlo heróico , ncai de 
coufas heróicas, lhe põem nome de humildes, co- 
mo os Poetas coftumaó. 

/alegremente. O que he de agradecer, & por eíle 



6 

tigos fcr deofas c| viviaô ao logo dos nos, & fon- 
tes, & em lugares frefcos, 6c apartados do com- 
mercio, &c trato da gente, Davaólhe efte nome ^e 
Nymphas, porque alguns nalinguaGrega cha- 
niaó ás aguas nymphi. E porque os lugares mais 
accommodados a gente eftudiofa,&; dada ao exer- 
cício das letras , principalmente á Poeíia , laõ os 
deleytofosâ vifta, acompanhados de fontes , & 
rirs, em que fingiaó os antigos que as Nymphas 
reíidiaõ ,coílumáraó os Poetas invocallas , como 
Protectoras íuas, como faz o noíTo Lu is de Ca- 
mões. Alguns querem, que Nymphas, ficMufas 

ícjaõ a mefma coufa. Das Mufas fe veja o que ef- refpeyto merece o favor que pedc.Porque as cou- 

crevemos no Canto 5. 0<5lava i. ias fcytas devagar, ou alcançadas com importina- 

Tentles em mim hum novo engenho ar cUnte. Com çaõ, merecem pouco agradecimento. Donde di- 

muyta razaó o nofib Poeta chama aqui ao feu cn- zé os Latinos : Care confiat quodprecibui impetratur, 

genho , novo, & ardente. Porque não fomente Caro cufta, o que por rogos le alcança. E os Gre- 

cm Portugal, mas ainda em toda Efpanha , até feu gos: A graça feyta devagar, hc graça Icmgraça,' 

tcnipo,nunca nafceo ncHe outro algum engenho^ §Lue não ttnhm enveja as ãe fíippocrene. Pede aju- 

que fe moílraíle taõ digno do nome de verdadey- da ásNymphas doTejo, para que deftamaney- 

ro Poeta, como foy o noiTo l,uis de Camões, por ra fiquem as aguas defte Rio conhecidas , ôc no- 

niais que as hiftorias de Efpanha engrandeçaó aos meadas , como asdafonte Hippocrene. Conta» 

Jeus Efpanhoes, Séneca, Lucano» Marcial, Bof- defta fonte as fabulas , que todos os que bebiaó 

can,&: GracilaíTo, ôc outros famolosPoetasi co- dclh,ficavaó Poetas. Chama-feHippocrenc de 

mo das obras de cada hum dellcs confta claramen- duas palavras Gregas Hippos , e^ crwty que juntas 

te.Pois com tanto artificio foube o noílo Camões querem dizer. Fonte do cavallo. Porque fingem 

ordenar os Luí^adas, que aqui vamos explicando, os Poetas,que quando Perfeo filho de Júpiter ma- 

que quem ler a mayor parte da Poefia dclles, a ca- tou a Medufa, do íangue que lhe cahio da cabeça^ 

da paílb lhe parecerá que encontra com Virgilio, fe gerou hum cavallo com azas , a que os Poetas 

ôccom Homero, Principes da Poefia Heróica, chamãoPegafo, dandolhe o nome do lugar enni 

Latina, & Grega , ainda que com tanto mayor que nafceo. No qual cavallo fubio Perfeo . & foy 

vcntagem , como ha do vivo ao pintado. Pois o nelle a Boecia , écpoufando no monte Helicon, 

cfpirito heróico que ambos moftrâraó em ashi- abrio no lugar aonde le póz, humafonte cem as 

liorias fabulofas que fingirão , feeftâvcndoo mãosj que por eíle refpeyto foy chamada Hippo- 

noílb Camões em tam verdadeyra hiftoria , co- crcnc, que (como fica dito ) quer dizer fonte do 

mo faõas nofias conquiftas : 8c ifto com eípirito cavallo. Querem alguns fe deíle occafiaõ a eíla 

taõ levantado , & tr.õ heróico , fublime , Sever- fabulado que fe conta de Cadmo, qucbulcando 

dadeyramente Poético , que igualou na relação por Boecia lugar para edificar Cidades, andando 

deftas verdades, com o encareciment© das ficções de huma parte para outra á cavallo, foy dar ncfia 

fabulofas dos mai. famofos Poetas. Sendo verda- fonte. E porque elle era homem que lábia, & in- 

de, qucnem osantigoj,nera modernos, quealgúa ventou algúas letras do alphabeto, daqui fe difie, 

hiftoria verdadeyra compuzeraõ em verfo, o po- q eíla fonte era dedicada ás Mufas. De Medufa fe 

déraõ fazer fem introduzirem nelles novas peíloas, vejaanoíla annotaçaõno terceyroCanto,0<5b.7(J, 



1 



ja mais nomeadAs,ncm fingidas na Poefia antigua; 
da qual os preceycos rhetoricos mandaõ tirar o 
ornamento Poético. E o nolIo Camões de tal ma- 
neyra foube accõmodar os paflbs da hiftoria ver- 
dadeyra, com tantos milhares de fabulas, como 
aqui refere; que até as imitações, que como ver- 
dadeyro Poeta aqui faz, parecem puras verdades; 
de tal maneyra encadeadas, Reintroduzidas, que 
com ellas fe naõ diminue 'hum ponto do credito 
€|uc á hiftoria verdadeyra fe deve. Ficando ellas, 
alem do ornamento Poético, para que fàõ princi- 
palmente inventadas , abrindo caminho aos en- 
tendimentos allegoricos, para muytas , &; muy 
doutas moralidades, proveytofas ao governo, & 



D /íyme hua furta grande j &lunorofa^ 
E não de agrejfe avena ^oufrauta ruda, 
Mts de tuba cãnoraf^belllcofa^ 
^ue opeyto ãccende^& a ccraogefio muda, 
"JJayme igual canto aos feytos áafamofa 
Gente voffa^ a que Marte tanto ajuda: 
^le ft efpalhe_, & Je cante no un/verjoj 
Se tamfub Ume preço cabe em verfo, 

Dayme hHa fúria granàe. Oròimno he entre La- 
tinos , & Gregos chamaremfe os Poetas funofos. 
Donde diflePlaiaó, in lone ^ 'vei de funre Peetico: 



aos coftumcs da>Refpublicas,para que principal- Necjueenim Pueta pxtus canere potefí. ejuàm Oeo plenus, 
mente as Poefias le inventarão. E por efte calor extra fe poetai, ae mente alienatus/it, Opoeia,diz 
intrinicco , que para çftas allegorias Poéticas hc Plataó, naó pódc efcrever feys veifos, ícnão cilã- 

do 



Canto Trlmeyrol ^ 

docheyodcDcos, & arrebatado. E no mefmo MarHVtlhã fatal ^a nòjffatJaâêí 
lugar: Omnes Poeta tnfigmi non arte^feddivmo affla^ "^Dado ãomuftdo pOY^ecS^ á todo O mâfldé 

lu , foe7nat0 c^n.nt. O. Poetas inílgJKsnuofazem y>^^^ ^^ tnundoaTieos dar torte QY ande 
luas obras por ai te, mas com eipinto , cc ajuda dl ^ ^ ^ 

\Mn3. ECiceróith.z. Je Orattre: Poetam bonumne" Evis,o hmríafaJa feguraHça» InvocaaElRey 

rrÃmm {id c^tiod d Dtrnomto , & PUtom m/criptísre- Dom Scbaíliaó deldeeíte lugar até a 06lava,que 
l^ílum ejje dícunt^fim wfiamwettone anmjorum txtfie' conieça: Méi itn quanto e/ie ttmpo pa£a Unte:moih'9, 
r,i\poJJe, & fine p^uodam affiatu cjuafifuroris. DizCi- a felicidade deite Reyno, aflítn por leu naicimen- 
cero referindo a Plataó, & a Demócrito, que ne- to taó defejado j & íegundo a commum opinião 
nhum Poeta pófJc fer grande lemfuna. Pelo que neceflauo para fegurança j & bem dellc ; como 
nem a todos os que fazem verfos , havemos logo também pelas cíperanças , que íe tinhaôdo aug- 
de chamar Poetas. He efte hum nome muy alt^:, mento da Chriftandade, procedendo com ascou- 
íc que fenaó deve, fenáo aqucmfor cxcellcnte, fas da índia, Sc Africa. Captalhe a benevolência 
& infigne na Poeíia. cora muyto artificio de Rhetorica ^ como pelai 

E nao de agrefie avena, iu frauta ruda. Pede .ás 0<^avas lemoftra^ Efte coftume de invocar os 
Nymphas, lhe dem huma fúria grande, &hum Principe?, & Senhores , foy muyto ufado entre 
cípirito Poético, fublime , & exccllentc, qual fc osgrandesPoetas:affimofezLucsno na fpa Phar- 
rcquefcparacfcrever os heróicos, Ôcexccllentcs íalia, Virgílio nas GeorgicaS) Horácio cm todos 
feytos dos Portuguezes : o que declara por eftas os feus livros, 8c outros muy tos. 
•o^hvTzr. & nai de agrefie avena^tufrautàruda: pe- Maravilha fatal da mjja id^de. Chamalhe mara* 

Jssquaes le entende o eílylo bayxo» êcpaftonl. vilhafatal, affim pelas grandes coulas, que dellô 
Porque huma certa frauta dos pallorcs, fe chama fe elpcrav áo; como porque f oy dado a efte Rey- 
avena em latim: do nome de híiaherva, a que nos no, por lagrimas, romarias, & procifsóes, & qua- 
cm vulgar chaman;.os avéa, da qual ospaftores li alcançado por importunações: o que, parece ,de« 
antiguamcnte coftumavão fazer frautas,com que clara naquellas palavras : dadê ao mundo por Dtos» 
tangiaô. E ha diífercnça entre avena, Sctibia, q Do que toca ao fado, Ic veja a noiraannota^-aó 
avena fe fazia defta berva: 6t tibia, Sc fiftulafefa- " - - 

2ia de pao, ou de cana. Ainda que os Latinos cõy 
fundem as palavras , Sc chamaõ avena qualquer 
frauta: fendo propriamente a que digo , Sc a que 
aqui o P(»etacntcndeo: porque de outra maneyra 
naó fizera repetição. Pelo que entre os Poetas o 
eftylo bayxo, Sc paftoril,fe chama agrefte avena, 
como aqui lhe chama o noílb Poeta. 

Mai de tuba. canora^ & bellicofa» Por tuba , que 
he a trombeta, entende o eftylo heróico, no qual 
fetrataó as couías da guerra , de que a trombeta 
heprcgoeyra. 

§iue opeyttí accende, éf * coraogeffo muda. Moftra 
os efftytos da trombeta em tempo de guerra, que 
he em l"e tocando alvoroçar os ânimos dos que 
haó de entrar na batalha, mudarlhes a cor,Sc fazer 



ncfte raeímo Canto,Oâ:ava 24. 

7. 

^y Os tenro j & notio ramo flor efe ente 
f de húa arvore de Chrijio mais amadai 
^e nenhiía nacida no Occidmte, 
Ce f área i eu Chrtjfianijfsma chamada: 
Vede^o no vo£o E feudo queprefente 
Vos amoftra a vitoria japafjaday 
JV4 qual vos deu por t^IrmaSj & deyxou^ 
As que elle fiara fina Cruz, tomou. 

De huma arvore de Chri/lo mais amada. Entende 
ofcliciílimo Rey Dom Affonfo Henriques, pri- 
meyro de Portugal: ao qual Chrifto nolfo Senhor 
que fe enfiem, que he final, de quem le determina appareceo hum diadeSan6tiago,anno de mil cc- 
para algum feyro de perigo, to trinta Sc nove, eftando no can>po de Ourique 

Da^ms igual canto. Pede ajuda , que correfpon- para dar batalha a cinco Reys Mouros : aond« 
da á matéria de que ha de tratar, que faô os effey- foy levantado per Rey, êc venceo aos cinco Rcys 
tos dos Portuguezes: paraque afamafeefpalhe com grande cftrago, & dcftruiçáo dos Mouros, fie 
pelo mundo, Sc íejaó divulgados de todos , Sc a muyto pouca perda dos feus, 
lodos. Cefarea , oU Cbri(iianijjima chamada. Por árvorcJ 

Se t ao jublimt preço eabe emverfo. Se he poílivel Cefarea , entende os Empcradores , Sc Senhores 
poderciiilè tratar em verfo coufas defta qualida 



de: que he hum grande encarecimento. 



6. 



EVôsy òbem nafcidafegurança 
T)a Lujitana antlgua liberdade; 
E não menos certijfima efperança 
íDo augmento da pequena Chrijlandade^ 
Vós, ò novo temer 4a Maura Unça^ 



de Europa, à imitação dos b^^iuperadoresde Ro- 
ma, aonde ellesíccoroão. Por Chiiftianiífin)a,os 
Reys de França , por fer efte titulo feu h^^redita- 
rio, como notamos adiante Gelava 15. E diz aqui 
o Poeta,quc efta arvore,Sc tronco,dondc os Rt ys 
de Portugal procedem, foy mais amadii de Chri* 
fto: porque fe não lé, que Deos noílo Senhor ii- 
zeflctaõ claramente por Empeindor , o'i Rey, o 
que fezpor eikfeliciíTmio Rey D. Affonfo Htn- 
riqucã* 

^ Vidt9 



*f Lujtadas de Luis de Carnes Commentados, 

Vede-o rt« vojfo efcufl». O Conde Dom Hcmiquc doo tempo veyo a calar, ScafcrRey, Sc houve 
deyxou por lua morte a leu filho Dom Affonlò doze filhos,como Tc conta no Genefis, c. 25. 6c re- 
HcnriqueshumEfcudo em branco, no qual ne- ferejofepho no livroprimeyro c. 21. defuasanti- 
fte dia,que foy levantado por Rey, em memoria guidades. Os quaes elpalhados por diíFerentcs 
do apparecimento deChnftonoíloSenhor,&: de partes de Africa, vieraóa fer fenhores , & Rcys 
huraa taó finalada vitoria , que houve dos cinco delia, ôc do nome de Ifmael le chamaó os morado- 
Rcys Mouros , & à honra das cinco Chagas de res daquellas partes Ifmaelitas : & Agarenos do 
Chrifto noflb Senhor, lhe pózhumaCruz azul nome defua mãy Agar. Chamaó-fe eftes povos" 
partida em cinco efcudos com outras particulari- hoje Mouros, de Mauron, palavra Gregajque fig- 
dades , que no Canto terceyro Oétava 54. íe tra- nifica coufa negra,por ellcs ferem pela mayor par- 
taõ. te negros. Chamáo-ferambemSaraccnos,6cprc- 

Na ej uai vos deo por armai , (^ deyxou ^ as ejue elle zaó-femuyto dcftenome, dizendo que lhe vem 

parafina Cruz tomou. Moftrao Poeta como Chri- de Sara mulher de Abraham. Mas ornais provável 

lio noflo Senhor foy autor das Armas de Portu- he , que o tem de hum lugar chamado Saraco na 

gal, 6c que elle próprio deo aos Reys delle as in- Arábia Pétrea. Porque quando fe leavntou a maU 

fignias, que agora tem. V(ja-fe a noíla annotação dita feita de Mafamede , que foy no anno de fcis-' 
no Canto terccyrojcomo acima. 



8. 

Osj podero/o Rey^ cujo alto Império^ 
O Soh logo em nafcendo, veprimeyroi 
Ve o também no meyo do Emísphtrio^ 
E quando defce, o deyxa derradcyro, 
VòSy que efperamosjugOy ^ vitupeno 
1)0 torpe ífmaeltta cavalleyro^ 
Do Turco Oriental j ó* do Gentio^ 
^ue inda bebe o licor do fanto rio. 



centos 6c vinte 6c nove de nofla lalraçaó, os deíle 
lugar foráo os primeyros que a feguiráo. Veja-fe 
anoíraannotaçaónelleCanto, Oólava 55. &no 

VOs^ podero/o Rey^ cujo alto Império^ feptimo, Oét. 17. 
O óo/, logo em nafiendo, veprinifyroi ^^ 7«rcí> Oriental. O Turco he fenhor de muy- 

ta parte da Afia mayor, 6c menor, 6c Egypto, 6c 
tem grande pé no Oriente, pelo que o Poeta lhe 
chama aqui Turco Oriental. E porque neílas 
partes confina com os nofibs , diz que efperadc 
vir tempo, em que o ponha debayxo do feu jugo. 
E de GeníÍ9y que ainda bebo o licor do fanto rio. Por 
rio lanto, entende o Gângcs,quc atravefia o Rey- 
no de Bengala na índia, 6c de húa, 6c outra parte 
O Sollogo em nafcendo^ NeftaOâiava aponta o hemuyto povoado de Gentios idolatras. Chama- 
Poeta as partes, aonde os Reys de Portugal tem lhe o Poeta lanto,porque he hum dos quatro rios, 
dommio. Para cujo entendimento fe ha de notar, quefahem do Paraifo terreal : ao qual chamaa 
que o Sol toca cada dia no feu curlo ordinário Efcritura fagrada cap.2. Genef. Philon, fegundo 
três pontos: Oriente, Ponente, 6c Meridiano.Dos Eufebio, 6c o B, S. Hieronymo nas queílôcs He- 
quaesosdous,Oriente,&; Ponente, íaô termo, 6c braicas. Os Gregos lhe chamaõ Geta,como diz 
balizas do Orizsnte: 6c o Meridiano, he como à- Jofepho nas antiguidades, lib.i. cap. 2, Os Gen- 
mago, 6c centro delles. O OrieRte abraça as par- tios errados lhe chamaó Santo. porque cuydáo, q 
tcs da índia: o Ponente as Ilhas dos Açores, 6c lavando-fenellevaô direytos aoCeo,6c quenáo 
Bralil : o Meridiano comprchende Portugal, Al- tem neceílidade de outro remédio para lua falva- 
garves, Cabo Verde, S Thomé,al]hadâ Madey- ção. Eeftáo niílo taõ pertinazes, que Icváo a eíle 
ra,6c tudo o mais, que pertence a elle Reyno,dif- rio 05 que eílão para morrer , 6c os lançaõ neJlc, 
correndo pela coíla de Africa, 6c mar Atlântico, aonde acabãoaíogados, tendo parafi fercfteo 
Pt-otambem no mtyo do ErTéifpherio, Emiípherio mayorbem, 6c felicidade que na vida podem al- 
he palavra Grega , querdizer meyo mundo.To- cançar. Errónea heeíla já velha, 6c de muytosté- 
ma-fc aqui pela linha Meridiana , pela qual fe en- pos atraz; porq aiíim lemos, que o fjziaó os anti- 
tende o nollb Portugal , poílo no meyo dos d©us gos idolatras, não íómentc no Ganges , mas em 
poiítos, Oriente, 6c Ponente, como cabeça , 6c qualquer outro rio, comofcpóde verem Macro- 
centro delles : 6c pelo confeguinte fenhor de to- bio nosSaturnacs lib. $. cap. i. ao que também 
das as partes fujeytas à Coroa deíles Reynos de allude Perfio na fegunda Satyra: 
Portugal. Qiie ft ja E mifpherio, fe veja, o que ef- Bac fanãè ut pofcas, Tybertno in gurgite mergis, 
Crcvemos no Canto quinto Oét.14. Mane caput bis, ter que, & noèiemflumtne purgai. 

Torpe ijmaeltta. Os Mouros fe chamão Ifmaeli- Para pedirdes eílas coufas fantamente, lavais pela 
tas dellmaelfilhode Agar,efcrava de Abraham. ínanhãaduas,6c três vezes a cabeça no rioTybre, 
Conta-le no Genefis c.ii.quc vendo Sara mulher 6c alimpais no rio peccados,q cõmctteftes de noy- 
de Abraham , que linvael filho de Agar fua efcra- te. 
va, tolgavâ com leu filho Iiac, ( a que S. Paulo ef- 9. 

crevendo ^2^'^'tZ^ ^;'i: ''^*"}^. V<''f'?.^iÇ^ó) y j^^/- p,y hum pouco » Mage^de, 
procurou lançallo logo de lua cafa luntamenteco 1 ^ 'J^ f^ SJ ' 

fua mãy AÉ;ar. A qual ( como fe conta no lugar 1 ^^' ""'f' tenro geftn vos contemplo: 
alienado) toy tçr a Egypto, »ondc o filho andan- ^^J^fi ^W^ » í'«^^ «^ mteyra idade ^ 

^uan* 



Canto Trhneyvo. 
fiando fubinào h'eis ao eterno Templo, 
Os olhos da real benignidade 
"iPonde no chão : vereis hum novo exemflo 
^oamor do^ pátrios feytos valerofos^ 
Em verfos divulgado nurnerofis. 



é 



ir. 



Indinay for hum pottcoa Mageftade. Ncíla Gela- 
va lhe capta a benevolência ab mdole^ como dizem 
osRhctoiicos: que he da grande moíb-aqucem 
iua puericia dava de vir a fcr hum grande Rey. E 
que ja na tenra idade parecia de muytos annos , 
pelo fifo, faber, & gravidade que moltrava, 

Çlaandoftthmdo ireis ao eterno templo. Quando ja 
velho ireis caminhando para o Ceo. 



Oiivii que não vereis com vãs façanhas ^ 
Fantaflícas i fingidas jinentirofaf^ 
Louvar os vojjosj como nas ejlranhas 
Miifas^ de engrandecer fe defejofas. 
As verdadeyras vojjas fah tamanhas , 
^e excedem as fonhadas f abulo fas: 
^e excede Redamontey& o vão Rtigeyto^ 
E Or laudo j ainda que fora verdadeiro. 

Ouvi quenão vertif. Pede nefta Oílava attençáo 
a ElRey Dom Sebaftiáo, louvando a matéria dc- 
fta obra , que não íerá contar fabulas nem menti- 



Oiolhâi íia real henignidaíle ponde no ch^o,?or ch^ó ras, de que os antigos foraó muyto curioíos, mas 

entende o Poeta aqui os fcus verfos , dos quaes verdades como acontecerão, 

falia por eíle termo taó humilde, porque naó pa- Çli4e excede Rodamont d & o vão Kugfyro» Ha dous 

reça cahir em vicio de arrogância. Realça tam- livros, como todos fabemos. em oótava rima, hum 

bem a Mageílade Real, em dizer , que ponha os que compózMattheoMaria Boyardo,quc fc cha- 

olhos no chaõ, dando a entender j eftar occupada ma Orlando namorado, ôc out ró que fez Ludovi- 

cm outras coufas de muy ta importância, ôcpeío* co Ariofto, que fe chama Orlando furiolo. Nos 

Vereii bum novo exemplo. Novo aquiquer dizer quacs fecontaó muy tas fabulas de Rodamonte, 

excellente , à imitação de Virgilio nas Éclogas, Rugcyro, & Orlando. As quaes pode nellcs ler, 

Écloga 3. Poliío, & ipfefacit nova carmina. Pollio quem delias for curiofo. 
taiTibem faz novos verfos, como íc diflera: Verfos 
cxcellentGSj Sc aífim o uíaõ os mais Poetas» 



it> 



TO. 



V Éreis amor de Vatria não movido 
T)e premio vil, mas alto^& quafieternOi 
^le não he premio viljfer conhecido 
U^or hum pregão do ninho meu paterno. 
Ouvi vereis o nome engrandecido 
^aquelles , di quem fois Senhor fufremo-, 
E julgareis qual he mais excellente^ 
Sejtr do Mundo Rey^fe de tal gente. 

Vereis amor da Pátria, Moftra a natural inclina- 



POr ejfes vos darey hum Nnnofero\ 
^efez ao Rey^& aoReyno talferviçot 
Hú Egas^^ hum dos Fuás ^q de Homero 
A Clíhara para elles fò cobiço, 
*Pois pelos dozíe liares ^ darvos quero 
Os doze de Inglaterra ^ò" ofeu Magriço^ 
^ouvos também aquelle illujlre Gama^ 
^e ^ara (ide Eneas toma afama. 

Hum Nuno fero. Efte hc Dom Nuno Alvarez 
Tereyra Condeftable deílesReynos de Portugal, 
afíaz conhecido pelas guerras que ElRey Dom 



taó dos Portuguezes , aos quaes fó o defejo de aU Joaó o primeyro teve com Caftella,aondc f ez ma 



cançar nome , & ler conhecidos , 6c honrados na 
íua pátria ( que aqui chama ninho paterno ) faz 
ofFerecer a todos os contraíles, &: perigos. Cha- 
maaoínterefle premio vil: porque a gente bay- 
xa nenhuma outra couíii relpcyta. Donde difle 
Ovidio íib.i. de Ponto : Vulgm amicitias utilifate pro» 
hat, A gente bayxa naó tem olho , fenão ao inte- 
reíle. Premio grande chama o nome, & fama que 
fe alcança, fendo celebrados , & conhecidos dos 
léus naturaes, petos feytos excellcntcs que fize- 
rem. 



ravilhas ajudando a leu Rey, & defendendo fua 
pátria, como nas Chronicas fe pôde ver , & conta 
onoílbPoetano Canto quarto,061:.57., 

Hum Egas. Egas Moniz Ayo de ElRey Dom 
AffonfoHenriqueZjdo qual fe trata noCanto ter* 
ccyro. 

Hum Dom Fuás, Dom Fuás Roupinho muyto 
esforçado cavalleyro. Trata-lc delle no Canto 
oótavo, Oct. 16. 

§luede Hotmro âCithara. Pela Cichara de Ho* 
mero entende o engenho , 8t excellente eílylo de 



Por hum prfgat) do ninho meu paterno. Eílas pala- efcrever do grande Poeta Homero , paradcfla 

vras le haó de entender geralmente fer qualquer maneyra poder dignamente efcrever os feytos, ÔC 

conhecido pelo pregão de feus naturaes. E náo q cavallarias dos PortuguczeSi Ao que já antigua- 

diga Luís de Camões iílo por íi, como o dcclarão, mente Alexandre Magno tcvcenvela» quando 

5c trshladáo em outra lingua:porquc elle naó per- não havia por tão venturofo a Achilles pelos fcy- 

tende abonarlcafi, mas louvar os Portuguezes, tos que fizera em armas, como por alcançar hum 

cujos feytos efcreve, como mnndáo as regras da tão excellente prcgoeyro delles, como foy o Poc- 

Rhetorica, a» quaes elle cm tudo fcguc. ta Homero. Ufa dcfta palavra cithara, inílru- 

B mcnCQ 



^o Lufiâââs de Luís de Camões Commentaàos, 

nvcnto munca j pela grande conformidade q ne- ta filha de EraclioEmperador de Conftantintípla, 

ftas artes haj daqui os Verfos íe chumãò c arrama, Succedco no Reyno depois da morte do Pay. 

que quer dizer cantigas, 6c ercrevellos,crf«(;re,que Foy tam grádc inimigo, ík perfegiiidor dos mãos 

íignificacantarj porque para eftc fim ie fazem os Chriftãos, 6c tamaffeyçoado,& amigo dos bons, 

verfos. Eporeííarazáo íe chamaó alguns Lyri- que merectoo nomedeChriítianiíTimo: de don- 

cosdeLyra,quehe aviola , porque Ic cantaó a decftenome ficou como hereditário de França» 

cila. Foy chamado o Magno , por leu grande esíorço, 

Tois pelos dozjt Vares, Depois que Carlos Magno & cavallaria.Reflituhio a Roma o Papa Leaô, q 

Rey de França , do qual havemos de tratarna fora lançado delia, pelo que foy coroado por Etn- 

0£tava ícguinre, prendco a Defiderio Rey de pcrador.Viveoy^, sanos, dos quaes foy Rey 47. 

Lombardia, a petição de Adriano Papa , por lhe & Emperador i4.Prendeo &dcfapofibu do Rey- 

fazermuytosaggravos, ôclheter ufurpadomuy- no de Lombardia a Defiderio feu Rey, por ter 

tos lugares da Igreja j Sc afiim mefmo fez que os ufurpados alguns lugares da Igreja. Entre cilas 

Saxones léus fubditos , os quaes fe lhe haviaõ re- & outras muytas verdades , que ha defi:e grande 

bellado, lequietafiem, & viveflem Chriíláa, & Rey,feefcrcvem muytas mentiras de feusfeytos, 

religiofamente ; finalou doze homens dos princi- 6c dos doze Pares: como também de ElRey Ar- 

paes de França, a modo de Coadjutores, 6c Con- tur de Inglaterra , 6c dos feus Cavaileyros de Ta- 

lèlheyros, para tudo o que foflb neceflario para o boa redonda. As quaes foraó cauía de fe defacre- 

bom governo, 6cconfervaçaó do Reyno. Eíles ditarem as verdades, quedeíles dous taõ esforça- 

foraó féis Bifpos , três Duques , ôc três Condes, dos Princípes íe fabcm,que faõ muytas, 6c dignas 

como fe refere naChronica deEípanha , aonde de memoria perpetua. A verdade he, que Carlos 

cílaõ os ícus nomes poftos , 8c íe trata delles mais foy hum dos esforçados 6c valerofos Principes do 

largamente. Pozlhc nome Peres, que na lingua mundo, 6í que nefta conta fe pódettr Artur. A 

FranceZâ quer dizer Padres, ou Senadores, por- troco deíle Carlos, dizo Poeta, queda ElRey 

que havião de fer Pays, 6c Governadores daquel- DomAffonfo Henriquez primeyro de Portugal, 

la Republica, 6c corrompida a palavra Percsjhc quefoy grandiílimocavalleyro , amicifiTimo dos 

chamarão Parcs. Eftes faó os doze Pares de Fran- Chriftáos, 6v inimigo capital dosinficis. 

çaj 6c não Orlando, Oliveyros , 6c outros de que Ou de Cef ar quereis igual rmtnoria. Cayo JuIio Ce- 

jábulofamente trata Arioíto. Os quaes não forão far foy de íangue muyto nobre,8c conhccido:pcr- 

mais que cavaileyros esforçados da companhia de que por parte de feu pay procedia de JuIio Afca- 

ElRey Carlos. Ha tanta mentira cfcrita lobre nio, filho de EneasTroyano, 6c neto de Vcnus; 

cfies doze Pares, que me pareceo neccíTano por 6c por parte da may.de Areio Mareio quartoRey 

aqui a verdade. dos Romanos. Foy pobre de património , mas ri- 

Os doze de Inglaterra. Diz o Poeta que pelos do- co de animo 6c condição j as quaes partes o fubi- 

7e P ares, de que Ariofto fabulofamente trata,lhe rão a grande eftado , porque veyo a fer Diétador 

dará os doze Portuguezes, que foraó a Inglaterra, perpetuo, que era fer Senhor de t«do,6c afiim era 

pedidos a ElRey Dom Joaõ o primeyro, que en- quafiuniverfal Monarcha do mundo. Oqualfu- 

táo reynava , por híias Damas Ingrezas contra jeytára de todo (como diz Plutarcho) fe a morte 

huns naturaes feus , que foltárão palavras contra lho não eítorv'ára,porque naturalmente ci a incli- 

ellas. Eíta hiftoria trata o noflo Poeta no Canto nado a coufas grandes. Pelo que feefcrevedelle, 

lexto. que vendo acafo em Cadiz huma eflatua de Ale- 

^^rteUeilluftre Gama , que para Ji de Eneastoma a xandro, poílos os olhos ncUa chorou: pergunta- 

fama. Eílefoy Dom Vafco da Gama, primeyro da acaufadaquelle choro , refpcndco , que era 

defcubridor da índia. Dizquetomaparafi afa- porque Alexandro fizera coufas grandes em ida- 

nia de Encas,pelas grandes proezas,6c maravilhas de, q elle não tinha feyto algúa digna de memo- 

que delle conta Virgílio na fua Eneida, ria. Nas armas foy muyto valcrofo, porque fujey 

tou varias 6c innumeravtis nações ao Povo Roma- 

15. noi 6c nas letras tam engenhofo6c hábil , que le 

Pois fe a troco de Carlos Rey de França não deyxára o eH:udo,fora o primeyro do mundo. 

Ou de CeCar quereis t^ual memorta, Ellc excerientiíTimo varaó, 6c o primeyro Empe- 

Vede o primeyro Affonfo. cuja lança «"^^^^ ^^^^ Romanos,houye por ^^^^^^^Zo^^^^ 

^, r, ^ , n 1 1 ■ que outros grandes Capitães hao no mundo,por- 

Efcurafaz qualquer eftranha gloria-, ^^,^ ^^^^ publicaméte morto no Senado por Bru- 

E aquelle, que a feu Reyno a fegurança ^ ^^ ^ Cafiio, 6: outros que contra elle íe conjura- 

^eyxou com a grande lèprofpera vitoria; raõ, tendolhe elle feyto muytas mercês. 

Outro Joanne mvi6Ío cavalleyrOi E acjuelle que a feu Reyno ajegura:iça. Entende 

O quarto ^ quinto Afoníos^ & o terceyro, ElRey Dom Joaó de boa memoria , o piinicyro 

^ ^^ ./ í ^ deftcnome,6c decimo dos Rcys de Portugal, filho 

Tolsje a troco de Carlos Key de França. Foy efle baílardo dei Rey Dom Pedro Cfii , q teve gran- 

Carlos filho de PipinoRey de França A de Bcr- des vitorias contra Caftelhanos ; principalmente 

aquelh 



CantvTrimêyro^ ^ j^ 

- aquella tam nomeada de Algibarrota, que houve Soidaó do ÈgyptójUapitaõ mór Mirhocem: o q 

veípera de Noíla Senhora de Agoílo demiltre- fuccedeo em Chaul. A qual morte depois opay 

lentos oytentaSc cinco, donde-lhe ficou nome de vingou. E vindo porá Portugal foy morto pelos 

Boa memoria, per feusfey tos (erem merecedores Cafresnâ aguada de Saldanha, queeiládoCabo 

delia, ainda que as Chronicas dap outra razáo> \ de Boa Efperança para Portugal. No Canto de- 

a mim me não fatisfaz tanto. cimo fe trataô eftas coufas todas. 

Outro loanne inviBo Cavalleyro. Eíle he o gran- Muejuer<jue terrível. O grande Aífoíllo àt Al- 
deDomJoaó o fcgundo , & terciodccimo Rey buquerque, que íuccedeo a Dom Francifco de 
de Portugal, filho dclRcy Dom AfFonlooQuin- Almeyda na governança da índia: que para tra- 
to, tardafeusmerecimentosfic vitorias, que na índia 

O tjuarto & efítintt ^ffcnfo^ér o terceiro. O quar- alcançou, era neceílario muyto tempo , & muy- 

to Aftonfo hc ElRey D. Affonfo, chamado por to papel. Quem quizer faber fuás coufas maravi^ 

cognomcntooBravo, íeptimo Rey de Portugal. lholàs,IeaosCommmtarios, quefeu fiiho Afton- 

O quinto foy pay delRcy Dom I oaõ o Grande, fo de Albuquerque fez, & o noflb Poeta no Can» 

&; ícgundo defte nome. Oterceyro, filho dei- to decimo. 

Rcy Dom AfFonfo o fegundo,&irmáo do dçfcuy- Ca^ro forte. Dom' Joaô de Caftro, a quem El- 

dado, & inútil Dom Sancho Capello, que tàlcceo Rey Dom Joaõ terçeyro mandou por Governa- 

emToledo, Ôcahijaz fcpultado, Deftcs Reys de dor àtndia, o anno de mil quinhentos Sc quarcn- 

Portugal trata o noílb Poeta no Canto teiçcyro ta Sc cinco. E porque houve vitoria contra EU 

& quarto. Rey de Cambaya, á:contra o Hydalcaó Scnhof 

da terra firme defronte de Goa, & fez outras cou- 

i^; fas dignas de memoria:ElRey, antes que acabiiíle 

NEm deyxaràS meus verfos efquecidos o tempo de fua governança, lhe mandou titulo dê 

j1queíles,quen0S Reynos la da Aurora V^l^Rey, para íic^r na índia outros três annos. 

Òefizeraô por armas tâofubidos, ? ^"^ "^^ J^^^ «.^7^°' porque naô viveo.depois 

rr^ , : -n -^ , deter a carta mais de dous mezes» 
Vojfabandeyrafemrre vencedora: 

Hum^Fachecofortif/iniOi^ os temidos i?. 

Almeydas^prquemfempre o Tejo chordi -m Emquato eu e fies cãío.^a vos nSópofoi 

jilkuquerque terrível, Caífro forte, Xl^òuí^/ime Rey, que naÕ me atrev9 a tàto, 

E outros, em que poder não teve a morte. Tomay as rédeas vb r do Reyno vojio, 

^cjuella ^ue no^Útynoi li jÍ^^S? íiirora he ^^'^^'^ «'^^^^^ ^ '^^'^ '^«^'^ ^^^^* , 

propriamente aquclla claridade, que noCeoap- ComéCemafêHttr pefogroffo, ^ 

parece antes que o Sol fuya : a qual dura todo a- Ç^epeío mundo todo faça tfpayito') 

quellc tempo , quegaíla oSòIeftando dezoyto 'T>e.exercitos,&feytos /insulares , 

grãos debayxo do Horizonte «a parte Oriental, ^éAjrica as terras ^&do Oriete os mareSi, 

até tocar nelle, Sc nafccrneftc hemisfério íupdrior. ^ i ^ ^j, r i^ ^i-y^ 

Como também Crepufculo he o tempo antes da Torfiayat re^eatvh^o Reyno vojfo. Continuando 

nGyte,queoSolgaftadefdeque fepoemjâtéeftar com a invocação dèlRcy Dom Sebaíliaó ^ èè 

dezoyto grãos debayxo do Horizonte. Por Rey- promettenJolhe tratar os feytos de léus vafiallos, 

nosda Aurora, fecntendem aqui os da Índia, por cfcufa-íe tratar dei le, por fenáo atrever acouía, 

citarem no Oriente. iam alta , como hc celebrar, 6c cantar hum tam 

Hum Packeco firtijjirfío. Duarte Pacheco Pe* lublime, ScpoderofoRey. Àconfelha-lhe tome 

reyra, que venceo o Empcrador do Malavar,cha- o governo de feu Reyno , Sc comece a correr có 

inado entre elles Samory, que he como entre nós fua obrigação,quc he pcifeguir os Africanos feus 

Empcrador,Sc o deílruhio, Sc desbaratou fcte vc- vizinhos , Sc continuar eom a conquifta do Orié- 

2es, vindo de todas com grande poder, como fe te: Sc dcftamancyradará matcria áos Efcritcrçs, 

conta no Canto decimo. para que efcrcvaó coufas nunca viftas, nem ouyi- 

E es temUos ^Imcydas. "Dom frznâÇcoàe A\- das. Tomar as rédeas do Reyno , he diíporfeab 

incyda,primcyro ViíoReydalndia,ScDom Lou- governo dellc, tomada amctaphorado cavallo, 

rençode Almeyda leu filho, dos quaes fe trata no que fe rege, Sc governa com as redciS. He modo 

Canto decimo. de fallar muyco ufado entre Latinos. 

Por t^uem (emftre o Tejo chora» lílo diz para cnca- £ do Ortente os mares. Entende os mares da In- 

rccimcntode lua cavallaria, Sc boas partes, que diâj nas quaes partes os Portuguezes temfèyto, o 

lempre os fcus naturaes fuípiraó por cllcs. Ou que a todo o mundo he notoiiv-, Sc fe pode ver n» 

também porque nenhum delles tornou a Portu- qucdellcs efcrevcraó os ííiíloriadores. ^ 

gal: porque o filho foy morto em huma batalha ^ 

naval , que teve com huma armada delRey de ^ 

B% - - SfÁ 



Cambaya , Capitão mór Meliqueaz j Sc outra do 



II 



Lufiadas de Luís de Camões Õommentados, 

o que no mar he o mefmoi qué a pfbfundidade dai 
t6, agua nos faz parecer a agua de cores diííerentes, 

fendo branqiiiílima. O que o Poeta mofcra ne- 
ftíi 06lava he , queTethys querfazcr a ElRe^ 
Dom Sebaítiaó Senhor do màr. ^ 



Ê' Mvòs OS olhos tem o Mouro frio ^ 
Em quem véfett exício affiguradoj 
^ò com vos ver j o bárbaro Gentio 
Moflra opejcoço ao jugo jà wclmado, 
Tethys jtoáo o Cerúleo Jenhorioj 
Tem para vos por dote apparelhado: 
^e affeyçoada ao gejlo bello & tè7tr0f 
^efejade com frârvos para ^enro. 

E?h vês oi olhos tem o Mouro frio.Chamsi áoMou- 
fóirio peloefFeyto que o medo faz nos homens, 
que he deyxallos frios. A razão he^porque quãdo 
o homem fetemè de alguma couía , recolhe-fc 
o fangue ao coração para o acompanhai* , & 
favorecer: & délerrtparados clellc os mais mem- 
bros ficão frios. À caufa do medo em os Mouros, 

he a vizinhança que tem cótri os Portúguezes, eftcrefpeytoíètoma peloCeo.Veja-feanoflagn- 
dos quaes por muytas vezes foraõ vencidos. Ext- notação neíte nielmo Canto, Oftava i^. 
ão quer dizer deftf uiçaô, & niorté. Doi dous avSi as almas cà famofas. Hum deíles 

7ethys ytodo o Cerúleo fènhork. Nt^^s palavras, 6c fòy o Ernperador Dom Carlos, v por parte de fua 
em todas as mais deílainvocaèâò delRey D. Sç- máy,pay de ElRcy Dom Philippenoflo Senhoii, 
baftiaó, imitáoPoctaa Virgiho no principio do primeyro deftenome em Portugal. Outro El- 
livro primcyro das Georgicás. Ê VirgiliofeHou Rcy Dom Joaó terceyro, muyto amigo da j^az, 
conforme ao coftume antigo dos Romanos: que & muyto zelofo da Fé de Chrifto, que foy feu avó 
era os pays das efpoladas comprarem os genros por parte de íeupiy,ôc hoje ha muy tos vivo^i^uc 
Com os dotes que dava6afu.áís filhas. E efte cg- os conhecéraó,fic trátáraô, ^ -^""^^-^^-^-^ -• ''Y^^ 
ílume pareceo maí aLycUrgô Rcy dosLác<rd|- «^"^ -.'.-^ >. -^^v^vjI '^.v: í.\'v , 



»7- 

EMvosfevemda Olympica morada j 
1)05 dous avôs as almas êàfamofas^ 
Húa na Taz atigelica dourada j 
Outra pelas batalhas fanguinofas. 
Em vos efpefão verfe renovada 
Sua memoria^ & obras valerofas^ 
E làvos tem íúgãr nofiníddidade 
Nd templo dafuprema eternidade* 

Olympka morada, He o Ceo , o q^iial cham« ai- 
fim át Olympo monte deTheíTaliaaltiíTimojpor 



monios, como dizjultinolib. 5. Pelo quQf?z húa 
ley,que oshomens.elcolhejirem asmuihei;escõ q 
ouveílcm decafar» & feus p^ys lhes nap âeíTem 
dote : para que defta maneyra fóílem fçnhores de 
íuas mulheres , Sc as pudeflcrn mélhof lujeytar. 
QiiantoàTethysde que o Poeta aquifálla , íby 
filha de Titano irmão de Saturno , ôí mulher de 
Oceano, como diz Ovidio nos Faílos lib.3. Ou- 
tros a fazem filhade Ceio, 5í Veífa. A eíla Tethys 
chamaó algús a Grâde.a differençade outra The- 
tys filha de Nerco, 6c cafada com Peleo Rey de 
Theflalia, do qual houve Achillcs, hum cavalley- 
ro entre os Hereges de grande nome.Tem diíFe* 
rente orthographia, & quantidade entre os Poe- 
tas: porque a mulher de Oceano leefcreve defta 
maneyra: Tethys, &: a filhade Nerro cafada com 
Peleo fe efcrcve aífim, Thdtis.Na primeyra o Te, 




As em quanto efte tempo paffa lento 
T>e regerdes òs ^ovos que o deJejaOf 
^ay vós favor ao novo atrevimento, 
^ara que eftes meus ver f os vojjosfejao^ 
E.ver€is ir eort ando ofalfo argento 
Osvojjos Argonautas^ porque vejão, 
^lefiõviftos de vós no mar irado j 
£ coftumayvosja afer invocado^ 

Tthipiylkto. Ttúipó^àg^YóCo. Dá eí!e novuc 
aotempo da idade tenra de ElRcy D. Sebaítiaó, 
que era caufa delle naó reger , nem governar 05 
feus: aos quaes cada dia parecia cem mil annos. 

Sa/fi argento. Propriamente quer dizer prata 
laígáda. Ufou defte medo defallar à imitação de 



he longo, porquÊ no Grego fc efcrcve com H, q Homero, o qual chama muytás vezes ao mar pra- 



fe converte cõ è longo: na fegunda breve porqíie 
feelcreve com EV vogal fempre breve naquella 
íiriguá. Ainda qòe algumas vezes fe confunde a 
diftcrença, Sc fe põem huma por outra. 

7edo o Cerúleo (enhòrio. Por fcnhorio Cerúleo en- 
tende o mar, o qual fe chama aíTim , por caufa da 
cor que parece ter : a que os Latinos chamaõ Ce- 
rúlea, de Calum , que he o Ceo por parecer azul, 
qual parece a cor do Cco,como na realidacfe oCeo 
naó tenha cor alguma, & a que nos parece a nós 



ta. E por efte refpeyto parece a alguns eílc ter*- 
mo de fallar dyro , & outros femclhantes,que por 
ferem à imitação Latina, parecem afperos, mas 
fazendo-fe os Leytores a elles, perderão a afpere- 
za, pois outros temos de difíercntelingua, ôc diF- 
ferentes da Latina ,; de que ulamos como no fios 
tendomuy to pouco de nós. Veja- fc o que notamos 
nefte mefmo Canto, Oftava 67. 

Oí njoffos argonautas. Argonautas foraõ hús ca- 
vallcyros Gregos,quc na nao Argos(a qual dizem 



fejamais hum.a repreíentaçaõdecor, queadiífã- foya primeyra que bouve no mundo) foraóà co- 
ei^ íkapartamento^do lugar eaufa cm noílavifta: quiílado vellodc ourodeColcos regiaó de Afia. 

^"''^ '■ '*- Daqui 



jmitaçaô de Virgílio nas Georgicas 
fuefce vocari, como iica dito. 



ip. 



/í no largo Oceano navegavao^ 
As inquietas ondas apartando^ 
Os ventos brandamente re/}f travão 
^as nãos ús velas concavas mchandáí K 
^a branca efiuma os mares fe moflravão 
€ubert0Si aonde as proas vão cortando 
As marittmas aguas confagradas ^ 
^e dobado de Fratheo/aÕ cortadas. 



, . írA\'\^'£dífítoTrímeyro^\^A%V\. t-^ 

Daqui osnolTos Porruguezes , porque foraó os mos no Gatito íegundo, Oâ:aVa24. Chamaihc 
primeyros que navegarão mares naó conhecidos, coníagradas , porque os Pocias a todas as coulas 
nem navegados de outr.as nações , èc por ferem attribuhiaó léus Dcofés : & nas aguas diziaó , que 
mu) to deftros na arte de navegar, laó chamados havia Nymphas, ás quaes òs rios, tontcs,& mares 
Argonautas. craó conlagrados. Alem .diftofingiaó lias ap;uas 

E cofiumayvos jd afer invocado. Neftas palavras do mar certa dtvindade , pelo que as tinhaõ por 
concluc á invocação de EIRcy Dom Scbàftiaòà íantas, ôclagradas: & diziáó naó íer licito entrar 

l^êtij^tte af- nellas homem que tivefle commetiido algum der 
lito, por íêr lugar lagrado^ íegundo clles : & que 
coftumava caftigar homens diilblutos, & de pou- 
ca fé. Por efta razaó queyxádo-fe Dido de Eneas 
J/í no largo Oceano navegavào^ por fe atrever acntrar no mar , tcndolhe quebra» 

As inquietas ondas apartando^ ""' '' do a palavraque lhe tinhadado de caf^r com ella, 
Os ventos brandamente reíp travão . ^ ^_ , : ' „ ■ , : / ' ^ • ^ 

• 'í-»*' v/ecviaíajjepdemtentatttwus aqtiõrapr0ag(tf 

^' !t Per^Jiafeenas exigtt tile locas. 
Fazmuyto mal aos que navegaô, quebrar apalâ* 
vra , porque o mar caftiga aos homens de pouca 
fé. Ifto he Ironia. A verdade he , que hum fó 
Deos, Sc Senhor governa tudo , & que a eilc faó 
todas as coufas fujeytas , compheFéCatholica* 
la no largo Oe^âtto navigarfàV, Depois qac pro* O noíTo Camões falia comtx^ííeta, para' ornar, & 
póZjO que havia de tratarnefta fua obra, & invo* fazer elegantes fuás obras*, stlài : .jíhm . 
tou as Nynvphas do Tejo,& aElRey Dom Seba- 
íliaó: começa a narração nefta Oótava. O marq 
rodea tôdâa terra chama*le Oceano, de huma pa- 
lavra Grega, que quer dizer ligeyro, pelas gran- 
des revoltas, & tempcftades , que de íubito fe Ic- 
vantaõ nellcj como diz Solino,cap.3tf. M,eh,cap, 
i.lib.3. & outros. E pofto que efte íeja- oitu no- 
me em geral , em particulaír tem outros muy tos, 
conformcaos lugares por onde pafla, como Atlá* 
tico, Cafpio, Indico, Rubro, Líguílico, & ou- 
tros. 

De gada Je Prothea. O gado de Protheo faô oí 
pcyxes domar,dos quaes Protheo temcuydado 
por m âdado de Neptuno Senhor do mefmo mar, 
como fingem os Poeta?. .Deíle Protheo trata lar- 
gamente Virgílio nas Georgicas , aonde diz que 
lè coftumava mudar em differentesfíguras,porq 
fe convertia em gato, caó, fogo, rio , & em tudo 
o maisquc queria: de donde nafceo o Provérbio: 
Trftheo mutabilior, roais mudável que Protheo; o 
qual fe diz de hum homeminconftante, 6c mudá- 
vel. O que Diodoro conta, ItLi. lib.meii%i. & 
donde fecre ter origem efta fabula he , que Pro- 
theo foy Rey de Egypto em tempo que Priamo 



Quando osDeofesno Olyntpo lumlnofo^ 
Onde o governo € a à da humana gente ^ 
Se ajuntaõ em Concílio gpr 10 Jo^ 
Sobre as co ufas futurai do Orit níèf 
^Pifando o cryJlaUimÇçofermofo, 
Vem pela ^vta Laâleà juntamente. 
Convocado r da par te Ao Tonante ^ 
'Pelo neto gentil do velha Atlante^ 

, •!..' ,'j>/ifoa ^uv .«íMt*^U fxniu-^ .'L> «iOi • 
guando õí Desfei no Olympò Uminofõ: Finge O 
Poeta nefta Oótava chamar Júpiter a Concilio os 
Outros Deofes, para tratar com elles íobre a nave- 
gação dos Portuguezesj que faziaó para o Orien- 
te. Olympo luminofo heo Cco, como fica dito^ 
Oélava 17. Doze montes acho em os Autores 
chamados defte nome Ol/mpo, em diííerenres par- 
tes do mundo. Efte deque o Poétaíallii i heem 
Theflalia Província de Grécia. O qual dizem fer 
de tanta altura^ que paíla a regiaó do ar,em que lê 
caufaó as nuvens, chuvas, trovões, 6c rcla'T>pagos« 
Donde diz Lucnno na Pliarfalia, lib. 2. Nuhet ex- 



o era de Troya : o qual Reyrio dizem quealcan- ceJit Olympm. O monte OLympo pafla pelas nu- 
çou, naó por lhe pertencer por geração ; fenaó Vens. Solinocap. 15. Polylíift, acrefcenta,queno 
porque faltando Rey em Egypto, decommum alto defte monte havia hum altar, emqueosan* 
coníclho o elegerão a elle,por fer homem de graó tigos faziaó fcus facrificios cada anno a Júpiter: Ú 
prudência & confelho. E daqui feveyo a dizer, que acontecia deyxarem aigúas letras efcritas lo* 
quefcconvertia,6ctrásformavaemdiífercntesíi- brc acmzadosanímaes,q alliqueymavaõ para oí 
guras: porque fe íabia accommodar a todos, ôc vi- facrificios: & eftas cinzas que ulli dcyxavaó,quât 
irer cora clles. Donde o provérbio, Protbeantu- do oanno íeguintetornavaóàquelle lugar,acha.« 
tabiliort fe accommoda entre muytos, mormente vaó da mefma maneyraque.as gavião deyxado: o 
entre os Gregos, a hum homem íagaz, & avifa- que he final de eftarem por bayxo do cume, ôc ca- 
do. beça defte monte todas as alterações que no ar l'e 
yii maritimai águas confagraJas. Aguas mariti- geraó,como dizem todos os que dcUe traraó. Cha- 
mas faó as aguas do mar. Vejaríc o que efcreve- ma-fe 01ympo,de duas palavras Gregas,que que- 
rem 



1 ^ Lu fiadas de Luis de Camões Cúmtnentados ", 

rem dizír todo rerplandecénte, por naô ter fobre 
íi nuvem alguma,iTem efcuridadej^anctscftarfem- 
preclaro com osrayos do Sol. í -íi""- o 

Fempelítvia laãea. Defcreve-fe o caminho por 
onde os Deofcsforáó aos Paços de Júpiter , íua 
chegada," 6c dçtcrminaçaõ.Chama a eftc caminho 
yialaãfa\ caminho de leyte : ao qual os Gregos 
pela meíma razaó chamaô Galáxia , por fer bran- 
co como léyte. Alguns lhe chamaõy caminho de 
Sanftiagò, enganados pelo vocábulo, porque co- 
mo nO Grego fe chama Galáxia» cuidaó que quer 
dizer Gaiiza: & como o Bemavcnturado Sanótia- 
gô Padroe;yro dos Efpanhoes eftá em Galiza,cuja 



II* 



DEyxao dos fite Ceos o regimento, 
^e do Todermais alto Ihesfoy dado: • 
Alto f o der, que fó co -^enf amento 
Governa o Ceot a ferra j^ó' o Mar irado. 
Allife acharão juntos num momento^ 
Os que hahitaÕ o Arciuro congeladoj 
E os que o Aufiro tem^à' as partes onde 
A Aurora nafce , ^ o claro Sol/e efconde. 

Deyxaè dos fett Ceos o regimento. Trata dos mãís 



cafa he frequentada de muy ta gente, que o vay principaes que concorrerão àquellc ajuntamento, 

viíitaf cm..romaria,dÍ2em,quc quíz Dcos íinalar q foraó osTete Planetas , Saturno, Júpiter, Mar"2^ 

no Ceo aquelle caminha, por onde os peregrinos te. Sol, Vénus, Mercúrio, & a L^a: os quaes por 

feregeíTcm, para ir àfua Cafa. Entre os Philofo- ordemdo AltiifimòDeos,6c Senhor nolfccomo 

phos -houve vários pareceres ,6c opiniões fobre dizaquio Poeta, eftaGemaquellcsiugaTcs,como 

cila Via ladea. A verdade he, que a multidaõjSC Rcytores,&. Governadores dclles». 
ajuntamento de muytas Eftrellas daoótavaEf- Os ciuehabitaòo Atãuro congeladQKX^iZv^úSy que 

phera,- as quacs naó podemos alcançar com a vi* concorrerão de todas as partes do miindo, Norte, 

lia, poreftarem muycodiílantcs, & defviadas de Sul, Oriente, ôcOccidcnte. As panes do Norte 

nós, Ic mifturaõ entre fi^ entretecem ,6c confun- entende por efta palavra Aréluro, quehehuma 

dem os (eus rayos de raaneyra, que parece aquelle Eftrella da primeyra. grandeza na cqnftellaçaõ 

lugar banhado em leyte, pelorefplandordaqucl- Bootc, a que os Gregos chamaó Ar.â:ophylax, q 

las eílrellàs. Pelo que lhe chamaô Cirí«/p/<íí/eo,ou quer dizer, guarda da Urla mayor , chamada He- 

Vta latha-. Donde Qvidio nas Metam. lib.i, lice,na parte Septentrional,que he o Norte.Cha- 

Efi viafuhltmis Calo manife(la ferem , ma ao Âréturo congelado, por citar eíla Eítrella 

Lacfea nomen habciy canàore notabilis ipfo, em paragem fria, qual he a do Norte. 
Ao qual o noflb Camões fegue ncfte ajuntamen- Oí cjUc o- iíu^ro tem.Snõ os moradores das partes 

to, & Concilio dos Deofes. do Sul. Chamaó-fc aíTim do vento Auftro, q ven? 

Pelo Neto gentil do veUo atlante. 'EntenàcMer» tadaquellas partes i & em vulgar lhe chamamos 

curió filho de Júpiter, fie de Maya filha de Atlas Sul, ou Vendaval. : (, ; , 

Rey de Africa. Cinco Mercurios efcreve Cicero E as partes onde a Aurora ffafce. As partes onde 

nos livros de Natura Deoruntt que houve, cujagc- nafce a Aurora.faô as do Oriente»Gomo atraz fica 

nealogia trata. O mais celebrado dos Poetas, he dito,Odava 14. As partes onde fecfconde o Sol 

eíle de que o Poeta aqui falia : o qual fingem fer faõ as do Poncnte , quaes faõ ellas do noílo Por- 

intcrprete, fie menfageyrodcfeu payjupiter, 6c tugal. Vcja-fe a nolla annotaçaó ncfte mefmo 



de todos os mais Deolcs: inventor da viola , 6c da 
eloquência: padroeyro dos mercadores, 6c de ou- 
tros officios,6c exercidos, que conta Luciano no 
Dialogo Tyrannolib. 1.6c Ladancio nas inílrtui- 
çóes divinas, cap.io. E porque Ihedaõofficiode 
Embay xador, o pintaõ com azas nos pés, 6c na ca- 
beça : porque quem ha de ter lemelhante cargo, 
nem ha de ter preguiça nos pés, nem chumbo no 
entendimento. Também o pintaõ com huma var 
ra na raaô, poíla entre duas cobras, porque com 
a eloquência fe vencem todos os monílros, 6c pe^. 
çonhas do mundo:6c naõ ha coafa por difficultOf 
la que feja,que com prudência fe naó acabe. Efta 
he também a razaó porque osPoetas fingem Her- 
cules grande domador demonftros, 6c que Or- 
pheoattrahiaafiascoufasinfcnfiveis : & Arionos 



Canto, Oâ:aYai4. 

Estava Tad)-e alllfublimey^^dmo, 
^e vibra os feros rayos de Vulcano^ 
Num ajjento de Eftrellas cryftallin o, 
Comgeífo alto^/everOj &foberano: 
íDí? rofio ref pirava bum ar dtvino, 
^e divino tornara hum corpo humano: 
Com hua coroa, fí> fceftro rutilante, 
^e outra pedra mais clara que diamante. 

E/iava Padre allíjubUmCf &dino. Depois que 
o Poeta tratou da gente que concorreoaos Paços 
de Júpiter, trata nefta 06lavadc fuaauthorida- 



peyxes:porque foraó homens avífados, 6c que vi- de, & preeminência. O Padre fublime, que vibra 



viaó de maneyraque perfuadiaô à gente,com que 
tratavaó, tudo oquequeriaó. 



os rayos de Vulcano , he Júpiter. De differentes 
Vulcanos trataô os Autoreb , mas o mais nomea- 
do entre elles, he eíle de q falia aqui Luis de Ca- 
mões. Fingem os Poetas que eftc foy hlho de Jii- 
piter, 6c Juno, Alguns o iazcm filho deJunolei|i 



Canto Tríf^eyro. i ^ 

pay : & dizem que o kíiçou Júpiter do Ceo por põem de fua vida, como lhe parecrc^ Àci^éfcentaõ, 
ier muytofeyo. Angelo Policiano nas fuás Mif- queeftas Parcas íiaó a vida do homem, pelo que 



cellancas, cap.89. dá outra razaô. Depois de lan- 
çado do Ceo > fez feu aíTento na ilha Lemnos do 
mar Egeo chamada hoje Sidro, como diz 01i\ a- 
no fobre Mella. Nefta Ilha dizem os Poetas que 
tinha fua tenda com todos os mftrumentos necel- 
larios para fazer os rayos a íeu pay Júpiter , & cõ 
que fez as armas de Encas, ÔcAchiIles, como di- 
zemos no Canto fexto, OólavajS. 

P M luzentes ajfentos marchetados 



pintaó Ooto com roca, L ache íis fiandojAtropos 
cortando o fio. E que quand© querem perfeguir 
alguém, lhe íiaó lua vida com fiado negro: o que 
quiz dizer Marcial: 

St mht Unifica ducunt nonfuUa for ora 
Staminay necfurdos voxhabetijia Deos. 
Sc às irmãs fiandcyras me náo fiaó a vida com fia- 
do negro: como le dillera : fe os fados me favore- 
cem , & ajudaó. lílo íaó fabulas , £c fingimentos 
Poéticos, 6c Gcntilicos. Tomando fado como fe 
deve tomar por humà ordem^ & curfo das coufasj 



T)e ouro j& de ptrlas mais abayxo ejfavão encaminhado por divina Providencia, pode-íe 



Os outros 'Deofes todos ajfentadosj 
Como a razão j& a ordem concertavaS, 
precedem os antigos mais honrados^ 
Mais abayxo os menores fe ajj em a'vaõ^ 
^ando Júpiter alto affim dizendo, 
Lom tom de voz começa grave^^horrêde^ 

P Ternos moradores do luzente 
^ EfteUtfero Toloj & claro afientoi 

Se do grande valor da forte gente 

*íDeLufa não perdeis openfamento: 

'Devets de ttr fabido claramente. 

Como he dos fados grandes certo intento» 

^epor ellafe efqueçào os humanos 

"De JJfyrios^Terfas .Gregos, & Romanos^ 

EJlellifero Polo. Nefta machina do Ceo que ve- 
inos,aoqual osGregos por fuafermolurachamaó 
Cofmos, & os Latinos Calum^ ou Mttndustpor fer 
puriífimo, & apartado de todas as fezes da terra, 
como diz Plínio : como feja redondo , ôc ande em 
continuo movimento , fingirão os Aftrclosos 
dous pontos, hum de fronte do outro, comhu^nia 

linha, que imaginarão paliar pelo meyo da terra, Reys, & durou 202. annos, fendo o ultimo delU 

de hum a outro. A'iinhapuzeraó nome Eyxodo Dário. A efte vcnceo Alexandro Magno Rey 

mundo, & aos pontos , Pólos do verbo Grego, q dos Macedonios, & pafibu a Monarchia a Euro- 

quer dizer volver: porque fobre ellesfe volve o pa,&aflimff chamou j& chama efta quarta Mo-i 

Ceo, como hum carro fobre o eyxo.Eftes dous narquia dos Gregos, ou das Macedonios. Durou 

Pólos faó os que commúmente chamamos Nor^ 302. annos, o ultimo Senhor da qual foy aRa^ 

te,&Suli junto aos quacseftaóaquellastam no- nhaCleopatra, porque depois da morte de Ale-i 

meadas Eftrellas ditas do nome delles,pelas quacs xandro Magno fe repartio feu Império por dif^ 

os marinheyros fe governaó. Huma he a Eftrella ferentes, até que finalmente veyo parar cm Egy p^ 

do Norte, a outra a do Sul. Daqui Pólo, fe toma to,onde acabou fendo Rainha Cleópatra. A quin* 

pelo Ceo: figura muy to ufada entre os Poetas: to- ta começou cm Octaviano, que vcnceo a Cleopa* 

marfe a parte pelo todo, & o todo pela partCé tra , vinte 6c fcte annos antes do Nafcimcnto de 

Cento he tios fados grandes certo intento. Entre os Chrifto. Durou 285. annos , 6c acabou em Gon- 

antiguos houve grande alteração , que coufa era ftantino Magno, que mudou o Eílado imperial 

fado, 6c o poder que tinha. Cicero,//^.^. àe natura de Roma para Conftâtinoplajnoanno 5 12. depois 

I)far«m, AuloGellio,lib. 6,cap. 2.6c todos os Poe- do Nalcimento de Chrifto. Eftefoy oprimeyrt* 

tas concordaó, que Fados, 6c Parcas laõ húa mef* Emperador Chriftaô, que mandou fe baptizalfem 

ma coula,6c qucfaótrcs Cloto, Lacheíis, 6c A- todos, 6c que largou aCidade de RomaaoP;ip;í* 

tropos: 6c que fe chamaó Parcas a partu, do parto^ A fexta Monarchia foy dosConílantincpoíitanos^ 

porque desde o nalcimento de húa creuturadil- 6c começou neftcConftahtino Magno , 6í teve 

fim 



admittir fallar cm tado, 6c negailo hefte lentido^ 
feria negar a divina Providencia, cçmo diz o B.S. 
Thomás i.p. q.i i6.art.i.6c 5. E afiim avemos de 
dizer, que o entendeo o Poeta, como fe pôde ver 
no Canto decimo, Oftava ;8. 

De AUyrtoi, Perfas,Gregor,(j^ Romanoi. No tratar 
das Monarchias variáo os Autores : pelo que ló- 
mentc direy o neceflàrio para entendimento , 6c 
declaração defte lugar. Gontaó que houve fetc 
mais notáveis. A primeyra foy dos Afi"yiios,cujo 
primeyro inftituídor, dizem, que foy Nemrbt, fi- 
lho de Cham,neto de Noé,do qual fe trata no Ge- 
nefis cap. 10. Eftá Monarchia começou antes do 
Nafcimento de Chrifto 2183. annos : teve trirtta 
êc oyto Reys, o ultimo dos quaes foy Sardanapa- 
lo. Durou 1557. annos. A legunda foy dividiJl 
entre dous Capitães de Sardanapido , Os quaés ó 
inatàráó, por fér homem molle , 6c affcíninádo* 
Arbaces ficou com o Império dos Medos, 6c Be- 
loco com o dos Chaldeos. Teye o dos Medos no- 
ve Emperadorcs,6c durou 292. annos. O dosChal- 
deos i5.6cdurou 295. CyroRey dos Perlas vena 
ceo, 6c matou Aftyàges, 6c Balthazar , últimos 
poíluidorcs da Monarchia dos Afiyrios , 6c nelld 
começou á terccyra 551. annos antes do Nafci* 
mento de Chriftoj chamada dos Perfas. Teve 14* 



I ^ Lujiadas de Luis de 

fim em Conflantíno Texto, 782. annos depois do 
NarcimentodeChrillo. Teve 32. Emperadorcs, 
& durou 470. annos. A letima começou em Ale- 
manha, em Carlos Magno, 800. annos depois do 
Kaícimcnto de Chrifto, por o Papa Leaó dividir 
a Monarchia de Conftantinopla em Oriental, 6c 
Occidencâli fazendo Emperador de Alemanha a 
Carlos Magno, como fica dito, Oitava 15. por 
defender as terras da Igreja contra os Longobar- 
dos, que as deílruhiaó, ao qual dano naó acudiaõ 
os Emperadores de Conílantinopla; Teve 45. 
Emperadores,o ultimo dos quaes íoy Rodulpho, 
anno do Senhor de 1291. depois que o Papa Leaõ 
tcrceyro fez a divifaó do Império , que acima dif- 
femos,trarpa fiando o de Roma,6c Conftantinopla 
cm Alemanha. Os Emperadores de Conílatino- 
pla,que fucccdéraó a Conítantino fexto, foraõ 47. 
o ultimo <3os quaes foy Conftancino Paleogolo, 
ao qual matcu,6c tomou aCidàde o Graõ Turcoí 
aos 29. de May o de 145 5, que o Poeta aqui mo- 
ftra , he que naó merecem os feytos deíles Mo- 
narchas, 6c Emperadores do mundo, fcr compa- 
rados corn os dos Portuguezes# 



J 



*5. 
■ A lhe foy Çlfem o vijles^ concedido^ 

Com poder taõ fijige lo i à" taÕ pequeno ^ 

Tomar ao Mouro forte ^ ^guarneado^ 

Toda a terra que rega o Tejo ameno, 

'Pois contra o Cafle lhano taÕ temido^ 

Sempre alcançou favor do Ceofereno, 

Âffim q^ fempre em fim cbfama^ & gloria^ 

Teve os trofheos pendentes da vitoria. 



h lhe foy (hemo vi^ei) ffo»«í/<^*Iílo diz pelo fe- 
lici^imo Rey Dom AfFonfo Henriquez primcy- 
ro de Portugal, do qual fe trata cm muytas par- 
tes defte livro. Efte bem afortunado Rey venceo 
muytas batalhas campacs , 6c muyto arrifcadas, 
con? muyto pouca gente. Desbaratou no campo 
de Ourique cinco Rcys Mouros com muyto gra- 
des exércitos juntos. Junto a Palmela aElRey 
de Badajoz; em Santarém a ElRcy de Sevilha: 
venceo também a ElKcy de Marrocos intitulado 
Emperador, com outros treze Reys. Tomou 
aos Mouroò Santarém, Lisboa,6c tudo o q ha del- 
ia atè Coimbra ', em AlcmTejo, Cezimbra, Pal- 
mela, Alcácer, Évora, Elvas,Moura,Scrpa,Beja, 
& outros lugares, & fortalezas. 

Pois contra o Ca(ldhan9. Vcja-fe o Canto quarto. 

Jeve os tropheos fendentes. Tropheo vem de tro- 
pi, palavra Grega, que quer dizer fugida. Era 
hum padraó, ou coluna que fe levantava no tem- 
po da vitoria em o lugar, onde os inimigos f ugiaô, 
ÍC nellcs punhaô todos os defpojos, & armas que 
naquella batalha alcançavaó, corao diz Virgilio 
na Eneida lib. 11. 



Camões Commentados, 

DEyxo T>eofes atraz afama aritlga, 
^e com agente de Rómulo alcãçàrâo^ 
fiando com Viriato na inimiga 
Guerra Romana tanto fe ajfamàrao. 
Também deyxo a memoria que os obriga 
A grande nome^ quando alevantàrão 
Mumpor feu Capitada que peregrino 
Fingiona Cerva efpinto divino, 

§^ndo com VtriaU, Veja-fe a nofla annotaçaõ 
no Canto terccyro, 06bava 22. Foy Viriato em 
principio de fua vida paftor , como conta Floro, 
depois falteador de caminhos, pelo que veyo a ler 
muyto rico, 6c levantarfe có a Lufitania no anno 
de <So8. da edificação de Roma , lendo Confules 
Cneo Cornelio Lentulo , 6c Lúcio Mumio, co- 
mo efcreve onofloRcIcnde em hum tratado que 
fez da Cidade de Évora cap. 2. o que foy cento & 
quarenta annos antes do Nafcimento dsChriílo 
noHb Redemptor,6c Salvador. Tratando Juílino 
I1b.45.da Lufitania, diz que Viriato naô fe levan- 
tou com ella, mas que os Lufitanos o tomàraó por 
feu Capitão, por verem nellc partes para os poder 
reger , & governar , por fcr homem de grande 
prudência, 6c confelho.Veja-fe a nofla annotaçaõ 
no Canto tcrceyro, Oétara 12. 

agente de Rómulo. Entende os Romanos, por-^ 
que Rómulo foy fundador de Roma, 6c o primey- 
ro Rey delia, como conta Tito Livio, 6c outros. 

Humparfeu Capitão, Efte foy Quinto Sertório 
natural da Cidade de Nurfia nos Sabinos , q hoje 
fc chama Norza : o qual nas guerras cruéis entre 
Mário, 6c Scylla feguio as partes de Mário. Ven- 
do Scylla vencedor, & entrar a Cidade de Roma, 
6c fazerfe Senhor delia, recolhcofe a Efpanha,on- 
dc fendo Capitão fez coufas finaladas contra os 
Romanos por efpaço de dez annos; 6c tinto, que 
conta VeleioPatercuIo, que havia duvida qual j 
permaneceria, leRoma, fe Elpanha.Foy Sertório j| 
tam prudente, 6c ardilofo, que diz delle Appiano, 
que era tido pelo mais valerofo Capitão do mun- 
do ; pelo que os Efpanhoes lhe chamavaó Anni- 
bal, por fe parecerem fuás coufas com as da- 
quelle grandiflimo Capitão, do qual tinhaómuy- 
ta noticia do terapo que andara naquellas partes: 
Entre outros teve hum ardil avifadiííimo,quetez 
crer aos feus que hua Cerva branca, que hum Por- 
tuguezlhedéracmprífente, era Diana, que os 
antiguos tinhaó porDeofa da caça, que andava 
transformada naquella Cerva, 6c lhe aconfelhava 
tudo o que havia de fazer. E como as coufas Ihu 
fuccediaó bem , tinhaó os feus ilto por verdade, 
6c aflim o tinhaó cm grande reputação. ' 



i^gora à 



47- 



A Gora vedes bem, que cÕmet tendo 
O duvidofo mar num lenho ievcy 
Yor vias nunca u/adas, não temenao 
DeAfrko.à' Noto a forçada ynaisfe atreve^ 
^e avendo tanto jà que as partes vendo ^ 
Onde o dia he comprido ^ò onde brei^et 
Inclinaõfeupropofioy & forjia 
c/f ver os berços onde najce o dia. 



Canto Trlmeyro] ly 

mar da índia, o qual cm noíTo íefpeyto ^ comofi* 
ca dito, vè pritneyro o nafcimcnto do Sol, coto a« 
quella cor roxa, com que parece. 



t9. 



E Porque, como vifies^ tempâjfados 
Na Viagem tain a/peros perigos^ 
Tantos climas, & Ceos exprimetitados^ 
Tanto furor de ventos inimigos i 



^efejaõ, determino ^ agasalhados 
Nefia cofta Ajricana, como amigos: 
Duvidíjo mar. Chama ao mar duvidoíb,porqiie E tendo guarnecida a lajjafrota^ 



nclle tudo laó duvidas, 6c inconíUncias. Aílitn 
lhe chamou Horácio no fim da Oda nona : aut 
firtur incerto mart, ou caminha pelo mar duvido^ 

ÍG. 

> Num tenho leve. Põem a materia,quehe o pao, 
pelo que delia í"c faz que he anão, figuramuyto 
ufada entre os Poetas. 

De Africo, & Noto a força. Ainda que o Poeta 
nomee aqui lós dous ventos Africo , & Noto, en- 
tende todos. He Africo hum vento que ibpra do 
€)ccidente,aque os Gregos chamaô Lybs, como 



Tornarão afeguir/ua longa rota^ 

Tant9s climas , ii*f' Ceús exprimentadoi. Clima íiCf 
palavra Grega, & fignifica propriamente hum eí* 
paço grande de Cco ou terra. lílo hc quanto i 
propriedade da palavra. Quanto à fígnificaçaõ, 
que hoje té entre os Cofmographos, fc ha de no* 
tar; que para os antiguos poderem mais clara , SC 
diftintamente tratar das terras, de que tinhaó co* 
nhccimento , & que le podiaô habitar , as dividi» 
raó cm partes, a que puzeraô nome Climas : en* 



diz Plinio lib.i. cap.47. Òc os Marinheyros, Oes- tendendo por Clima hum eípaço de terra, na qual 

Aiduefte. Noto fopradomeyo dia, chamaólhs os houvelle differcnça de meyahora de tempo no 

Latinos Auílro, & os Marinheyros Sul, ou Ven- mayor dia do anno. Quero dizer, Te em hum lu* 

daval, iDiiiiE:; garo mayor dia era de doze horas, & cm outro de 

Onde o dia he comprido , & ende breve. EntCfjde doze, & me) a; aquellc elpaço de terra que havia 

as partes da Europa , aonde cílâ a noílaEípanhaj entre eftes dous lugares , le chamava Clima. E 

na qual osdiasíeregulaõ pelo Sol: ôcaílimnodií- porque os Antiguos tiveraõ noticia de pouca ter- 

curfo do anno ha defigualdade entre clles. Tam- ra, & defta pouca que fouberaó lhe pareceo fef 

bem fe pode entender eíle lugar das partes por algúadeshabitada: aífim dcbayxo da Equinocial 

onde andavaófâzendo outros delcubrimentos, 5c pela grande quentura, como debayxo dos Pólos 

conquiílas, antes que tentafiem efta da índia. do mundo , pela frialddcle , refpeytando lómentô 

A ver 0) berços onde najce o dia. Entende as par- a terra que lhe pareceo habitável , a dividirão em 

tes do Oriente. U ta defta palavra berço,i que os ietctlimas, conformando-je com o numero dos 

Latinos chamaô c««ie, ou c«»<«W«w7 , querendo Planeta,!, & nomcando-os de fcu nome» E para 

moílrar a origem do Sol, que em noflb refpeyto conhecerem o fitio dos Climas, lhe puzeraó no- 

he nas partes da índia, como na realidade o Sol mes , Sc balizas dos mais principaes 



naó nafça, mas ande continuamente. Defta meí- 
mapalavraufou Virgílio na Eneida lib. 5. Mans 
Jdaui ubigenttt cunabuU vp(ira. O monte Ida, aon- 
de cílaõ os berços da noflajgente, como fc diflera: 
donde trazemos principio, ôc origem. 

28. 

PRomettido lhe eflà do Fado eterno^ 
Cuja alta Ley naÕpôdefer quebrada^ 
^le te nhaÕ longos tempos o governo 
íDo mar, que vè do Sola roxa entrada: 
Nas aguas tempaffado o duro inverno. 
Agente vem perdida, & trabalhado: 
'^J aparece bemfeytOj que Ihefeja 
Moflrada a nova terra que dejèja. 

Do eterno Fado. Dos Fados fe veja a nofa an lo- 
tação nefte mcfmo Canto, 0<Sl:;iva 14. 

Do mar ^ue itt do Sol a roxa entrada. Entende o 



êcfínalados 
lugares que nomcyo daquella paragccftiveírcm. 
O primcyro chamarão diamerocs ^ que quer di- 
zer, por Meroe, a qual Meroe hchíia Ilha muy^ 
to nomcnda , Reconhecida , fituada no rio Nilo, 
Os mais Climas fe podem Ver em Sacrobofco na 
fua Efphera, & Ptholomco l:b. 2. Geog. C. i. B 
em nollbs tempos he ranta terra deícuberta, que 
os modernos tem leyto 25. Climâs: como fe poJc 
ver em Hieronymo Girava Tarragonez, lib. t. 5c 
Joaó Pcrez de Moya na fua Aítronomia lib. 1* c. 
5.ar.i7.aonde acrefcenta outro Clima. 

E Ceosexprimentádos. Chamaô os Latioos ãO 
Ceo Calantydc hum verbo C<f/o,ercrltocom diph* 
tongo, que quer dizer,cículpir, por fer cfculpido, 
& cfmaltâdo com tanta divcrfidade de Eílrellay, 
como diz Plinio lib.2* cap. 55. Outros o dcrivaô 
de Qelo, que quer dizer,cobrir, poi' fer manto , & 
cobertura de todo ocreado. E eftes oeícreveni 
femdiphrongo.Ulãõ também os Latinos defta pa- 
lavra CétiHm , pela Rcgiaô do ar , &: por cfte r«L 

C peyco 



i8 



Lufadas de Lutsde Camões Commentaàoí, 



pcy to por Regíaõ, ou Parte do mundo , como diz 
€> meímo Plínio , & o nofib Poeta nefte lugar , o 
qual encarecendo aqui a navegação dos Portu- 
gutzes, diz, que tinhaó cxpcrimétado tantos Cli- 
mas, & Ceos: como fe diflbra que tinhaó corrido 
tantas partes do mundo* 

^o. 

EStas palavras Júpiter dizia ^ 
fiando os 1)eofes for ordem rejpodêào 
Najentença hum do outro diferia. 
Razões àiverjas dando j & recebendo^ 
O Tadre Baccho alít naõ confentla 
No que Júpiter dijje\ conhecendo 
^e ejqueceraõfeusfeytos no Oriente^ 
òe làpaJl^araLufitanagente. 

O Vadn Bacela alli nalo confentia. Baccho foy fi- 
lho de Júpiter, & Semeie, como dizem os Poetas, 
Solino cap.íJ^.Mclla lib.j. cap.7, & outros dizem 
que naíceo em Niía Cidade da índia. Veja-fea 
nofla annotaçaó no Canto y.Oótava 52. E porque 
tinha naquelías partes alcançado muyta honra, 
temia que indo lá os Portuguezes a perdeíIe;pclo 
que naóconíentia no que Júpiter dizia, &íc mo- 
ítrava inimigo dos Portuguezes. Chamalhe Pa- 
dre, que he nome de dignidade, 6c termo, de que 
fc ufa a efte propoíito ordinariamente , affim cm 
Poetas, como cm todo o género de efcritur^. De 



mo Oitava 75. nafceo Baccho. E por iílo cila ce- 
lebrava a memoria dos fcytos , ôc cavallarias de 
Baccho. 

VEj quejà teve o Indofobjugado, 
E nunca lhe tirou hortuna^ ou Lafi^ 
'Por vencedor da India^ fer cantado, 
T>e quantos bebem a agua de Tarnafi^ 
Teme agora quefjafepultado 
Seu tam ceie br*: nome em negro vafo 
^a agua do ejquecimentoje là chegaÕ 
Os fortes Tortuguezes quenavegao, 

Ve, que teve jd o Indo (objugado. O Indo hc hunt 
dos mayores í ios do mundo,que rega, & dá o no- 
me à índia. Veja-fc a nolla annotaçaó no Canto 
fetimo, 06tava 18. 

De quantos bebem a agua de Varnafo. A agua de 
ParnaíohcadAfonteCaftalia, quceftáaopé do 
monte Parnafo, da regiaó Phocis de Grccia. Os 
que bebiaó da agua delia fonte, ou da fonte Hip- 
pocrene do monte Helicon de Beócia ,contaó as 
fabulas , que ficavaó Poetas, como diz aqui o nof- 
fo Camões, que pelos que bebem a agua de Parna- 
lo entende os Poetas, & hc linguagem muy to or- 
dinária entre cllcs. 

Vaagua do efquecitnento. Fingem os Poetas que 
ha no inferno quatro Rios , Letho , Cocytho » 



Baccho fe veja o que cfcrcvemos neíleCanto, O- Phlegetonte, & Acheronte, & a lagoa Eftygia.O 



él;ava49. Sc 75. 



SI- 



Ouvido tinha aos fados, que viria 
Hua gente for tijjima de Efpanha, 
Pelo mar alto^o qual fujiyt ária 
1)a índia tudo , quanto Dor is banha: 
E com novas vitorias venceria 
t^fama antiga, ou fua^ ou foffe ejhanha. 
Altamente lhe doe perder a gloria, 
2)^ que Ntfa celebra inda a memoria. 

Ouvido tinha os fados. O que Baccho receava, 
como fica ditOjhe que fuás coufas fe elcureceíTem 
naindiijcoiu as dos Portuguezes, Ôcque fe havia 
de cun-prir iíto , pois eítava determinado por 
Deos. 

Tudo quanto Doris banha. Doris, como dizem os 
Poetas, foy filha de Oceano, & Tethys,& mulher 
de Nereo : & como foy Senhora do raar, toma-le 
pelo melmo mar. 

Oufua,oufoJ]teflranha. Ou a honra que elle ti- 
nha alcançado, ou outros , como Alexandro, & 



rio Letho fe chama afíim de lithi , que he na lin» 
guaGrega oefquecimento, porque os que va5 
áquellas partes, cfquccemfc lá. Eftas faó as aguas 
doefquecimento, deque oPoetatalU. O.s mais 
rios tomaõ feus nomes da trifteza, & fogo que na- 
quelías partes naó falta, dos quaes trataremos 
aonde fe offerccer,dandolheluas etymoUgias, 

SVJletitava contra elle Fenus bella, 
Ajfey coada à gente Lujitana^ 
Por quantas qualidades via nelUy 
2)<sí antiga tad amada ftia Romana : 
Nos fortes corações, na grande Eflrellaj 
^e moflràrão na terra Tingitana, 
E na língua, na qual quando imagina ^ 
Com pouca corrupção^ crè que he a Latina. 

Fenuíbella, Vénus diziaô os Poetas fer Dcofa 
dos amores. Tem diíF.rentes nomes, conforme aos 
lugares onde era venerada. Paphia, Idalia, Cithc- 
réa, Acidalia, Aphrodifea, Dione, 8c outros que 
declararey aonde fe oíFerecer. Ouve eíla Vénus 



Tiaiano,que naquelías partes fizeraó couías dig- de AnchifesTroyano hum filho por nome Eneas, 
nas de memoria. p ,v^í;. donde procederão os Romanos. E por ifto diz 

^ De qtt? Ntfa celebra inda a memoria.Nefí:^ Cidade aqui Luis de Camões , que era Vénus affeyçoada 
de Niia, como apontamos atraz, Oétava 50. ôc ef- aos Portuguezes , porque via nelles partes , em 
irrevemos mais largamente adiante no Canto feti- q^uc fepareciaó com os Romanos: afiim nas cou- 
fas 



Canlo Trimeyto, 
ias da milícia , como na lingua , a qual le parece Tal andava o tumulto levantado 
niuyto com a Latina. E os que entendem o La^ Entre Os T>eofes no Olympo coufagradôi 
tim, vem ifto claramentCj porque de todas as lin- 



*^ 



guas de Euiopa,rirada a Tofcana, (ainda que tam- 
bém anda muyto corrupta) a Portugueza tira 
mais ao Latim. E mais pura fora, fe os Mouros 
naó entrarão em Portugal. AíTim o tem Francif- 
co Tâmara no livro primeyro dos coftunics de 
todas as gentes cap.7. E Pedro de Magalhães em 
hum dialogo que fez cradefcnfaô, & louvor da 
lingua Portugueza, o qual eílá no lim de fua Or- 
tographia, & Joaó de Barros na fua Gramnnatica 
Portuguew,em hum Dialogo que fez cm louvor 
da nielma lingua. 

Jerr^Tirt^ttana. Quer dizer terra de Berbéria, 
de 7í»g', lugar da melma Provincia,qije hoje cha- 
mamos Tangere, fujeito aos Reys de Portugal; 
Toma-lc a qui terra Tingitana geralmente por 
terra de Africa. 



E 



34- 



^al aufiro fera. Nefta comparação imita o 
Poeta aVirgilio, quando trata das importuna- 
ções de Eliía Dido com Eneas , trabalhando en^ 
trctcllo cm Carthago. ^u/lro hco vento Sul. lio-à 
reas he o vento que chamamos commummrnte 
Nornordefle. Chamaõlhe aíHm os Gregos , por 
íèr impetuolo , 6í rijo no feu fopro , pcJa qual ra- 
zão lhe chamaô os Latinos /ííjutlo: no eftio íè cha- 
maEtelias,q cmGrego íignifica o anno,porq nefte 
tempo do eftio muda ruafuria,6c fopra maisbran-» 
damente, como diz Plinio lib. 18.C.54. 

Às Marte qug da T>eofafuflentãDai 
Entre todos , as partes em porfia: 
Qu forque o amor antiguo o obrigava. 
Ou porque a gente forte o merecia-. 
T)e entre os'Deofès em pèfe levantava^' 




■^ St as coufas moviao Citherea, _ 

Emais,porque das 'Tarcas claro ent^ede, Menencortomgtftofarecta 
ha defer celtbrada a clara Tiea, ^-f'^^' 'J'''^^ ^' collo pendurado, 



^e ha defe 

Onde agente belíigerafe eftende^ 

Aífim que humpela infâmia , que arrecea^ 

E outro pelas honras que per tende ^ 

^ebatem^ & na porfia permanecem\ 

A qualquer feus amigos favorecem, 

Citherea. He Citherea hum dos nomes de Vé- 
nus, como fica ditOi Chama-fe aííim de Cithera, 



^tytanaopara traz medonho j& irado* 

Mas Marte. Marte íuftentava a parte de Vciíus 
em favorecer os Poi tiiguezcs,ou pela grande ami- 
zade, que já tivera coui ella, como conta Ovidio 
lib. i. de arte , ou porque os Portuguezcs lhe 
mereciaõ efte favor, por feu esforço^ Reavalia- 
ria. Eíle Marte, fingem os Poetas , que foy filho 
dejunofémpay. A fabula de feu nafcimento fe 



Cidade cm Chipre,aonde era venerada, que hoje veja nos faftos de Ovidio lib.^. Chamoufs Mar- 
hehuma pequena Áldea chamada Conucha , co*. xtátMat, palavra Latina, que he o homem ma- 
mo diz Orteli-o no íeuThefauro Geographico. cho: porque nem mulheres, nem homens affemi- 



Outros querem que fe chame aflim da Ilha Cy 
thera no Pelo ponncfo chamada hoje Ccrigo.Das 
Parcas fe veja o que efcrevemos neíle meímo Ca- 
to, 06lava 24. 

iZlara Dea. He Venus^ 6c diz que ha de fer cele- 
brada pelos Portuguezcs na matéria dos amores, 
de que Vcnus entre os antiguos era tida por 
Deola. 

/í//zw que hum pela infâmia efut recea. Efte era 
Baccho, o qual temia (eelqucceflem , 6c pcrdcf- 
fem da memoria dos homens, as coulas que tinha 
teyto na InJia, fe os Portuguezes lá chegaílem. 

E outro pelat honrai ejne pertende. Eíta era Vénus, 
que favorecia os Portuguezes pelas razões acnna 
ditas. 

55. 

Qual Au /iro fer o y ou Boreas na efpejfura 
T>efylveftre arvoredo abafteciàa. 
Rompendo os ramos vaÕ da mata ejcura^ 
Com Ímpeto & braveza defmedida. 
Brama toda a montanha^, ofom murmura: 
Rtímpemfe as folhas^ ferve aferra erguida^ 



nados fervem para a guerra. Chamaòlhc os Poe- 
tas Aítíforrtf , de duas palavras Latinas, Magnus^ 
que he grande , 6c Verto., revolver * & trastornarj 
porque a guerra confunde,&: trastorna tudo.Dó- 
de diflc Saiiuílio: Concórdia parva rei crefcunt : dtf 
cárdia maxmè díUbítntur. Coma pazas coufas pe* 
quenas crefcem, & com a guerra as grandes fe de* 
ftrucm. Chamaólhc também Gradivo ácgradfor, 
verbo Latino, que quer Jizer , ir por degraos : 
porque nas coufas dâ nnlicia he neceliaru ordem, 
Scconíeiho* 

AVífeyra do elmo de diamante, 
Alevantando hum pouco muy feguro^ 
Ter dar feu parecer fe posi diante 
7^e Júpiter j armado^forte, & duro*. 
E dando huma pancada penetrante j 
Co conto do bajiãoi no folio puro, 
O Ce o tremeo, & Apollo de torvado^ 
Hum pouco a luzperdeo como infiado» 

Avtfqradoelmo, Reconta como fepoz Mar- 
te dianie de Júpiter era favor dos Portuguezcs 



Cl 



c» 



{u». 



20 Lujladas de Lu/s de 

Sólio turf>. Cadeyrarefplandeccnte. 5íi/whe pa- 
lavra Latina , da qual entre outras íigniíicaçócs, 
huma hc, afientoreal, na qual ufa aqui delia Luís 
de Camões. 

ApoUo dt torvaJo.V^ra encarecimento da valen- 
tia de Marte, uílt deíle termode fallar : no que 
guardou as regras daPoefia, como aconíelha 
Hoiacio na arte Poética. 

E1)iffe a f fim :0^'P adrega cujo império 
Judo aquillo obedece, que criafte: 
Se efia gente , que bufca outro Hemtspherio, 
Cuja valia, & obras tanto amaífe, 
NaÔ queres que ^adeção vitupério: 
Como haja tanto tempo que ordenafte^ 
Não ouças mais pois es Juiz direyto. 
Razões de quem parece ^ que he/ufpeyto. 

Outro Hemiipberh. Outro mundo, outras partes 
Sc regiões d-ftercntes das fuás, cm queatégorá 
habitarão. Que feja Hemiipkcrio fica dito nefteGá- 
to, 06fcava 8. 

Raz,õeí de ejmm parece^ cjue he fttfpeyto. Baccho era 
fufpeyto aosPortuguezes , pelas razões que de- 
mos atra^. 

^^^ 

aVe fe aqui a razão fe nao moftrajfe 
Vencida do temor demafiado^ 
Bom for ay que aqui Baccho osfufítntafiet 
Yois que de Lufo vem, feu taÕ privado. 
Mas efta tenção fuaj agora pajje, 
^Forque em fini vem d^eíUmago danado', 
^e nunca tirará alhea inveja 
O bem que outrem merece, & o Ceo de feja, 

§ltie fe aqui a razão fe naomo^rajfe vencida do te' 
mor. Onde entra payxaó , naõ ha prudência , 
nem ordem:antes tudo (aó erros, Sc defatinos. Por- 
que he impoílivel haver r izaõ, onde ha colera:& 
faltando elU,tudo vay perdido. Como aqui fuc- 
cedeo, que fazia tanta iinpreílaõ a ira em Baccho, 
que o obrigava a fer contra os Portuguezes,gen- 
te tanto fua,poisprocediaõdofeu grande priva- 
do Lufo; ou por melhor dizer, filho, como fica 
dito Odiava i. Pelo que aconíelha aquelle gran- 
de Philoíopho Epicleto : que quando fucceder 
fernos neceílario fazer alga m acometimento , pe- 
jemos primeyro rauytobem o que imos fazer, 
5c confideremos muyco devagar , o que havemos 
de fallar: porque de outra maneyra eílá à porta o 
arrependimento, fico dano muyto certo. 

(^c nunca tirará alhea inveja. Enveja, hehuma 
chaga da alma, que trata principalmente mala 
quem a tem; fegundariamente a gente de nome,& 
que prella para alguma coufa , como diz Plataó 
lih. 9. </« Ugíbuí : porque o cnvejoio naó cura da 



Camões Commentados, 
gente inutii, 6c que vai pouco : o íèu veneno não 
pega lenaó em cou las altas, ê<. cxcellentes, como 
diz Horácio, lib 2. epiíl. Urit entm Julgore juo ^ i^ui 
pr agravai ar tei tnfrajepoãtas^ O cnvejoio aborre- 
ce a gente, que vé melhorada, ou em virtude, ou 
cmalgúaarte: naõ ie torna a enveja , lènaó com 
gente de valia. E ilio quiz aqui dizer o noílb Poe- 
ta. A enveja pinta elegantemente Ovidio nas Me- 
tamorphoíès, hb.i. 

40, 

ETu, Padre de grande fortaleza^ 
^a de termina faó que tens t ornada j 
Naõ tornes para traz^pois hf fraqueza^ 
^efifir/è da ccufa começada-. 
Mercúrio, pois excede em Hgeyreza 
Ao vento leve, ^ àfetta bem talhada^ 
Lhe vá mojirar a t erra, aonde fe informe 
'Da índia j C^ aonde a gente Je reforme. 

Tais befraejuezade^Jfir da coufa começada. Muy- 
tas vezes heillocstoiço, 6c cavallaria: mormente 
quando, ou movidos por rogos de alguma pdloa 
de entendimento, ou por affim nos parecer me- 
lhor, ofazemos. He matéria eíta ern que fenáo 
pode dar regra certa ; pelo que ae xecuçaó delia 
le deyxa a juizo,6c parecer da gente que Ie enten- 
de. De Mercúrio íc veja o que fica dito atrazO- 
â:ava 10. 

41- 

C"^ Orno ifto dtjfe o Tadrepoderofoj 
_j A cabeça inclinandQ confentio^ 
JSlo que dtffe Mavorte valerofo^ 
E Neã ar fobre todos efpargio. 
Yelo caminho íaóieo^loriofOi 
Logo cada hum dos 'Deofesfe partio^ 
Fazendo feus reaes acatamentos^ 
^Para os determinaaos apofentof. 

No ejuedtjje Mavorte. De Marte, 8c Mavorte fc 
veja a nollaannotaçaó ncíle mefino Canto Oòla- 
vâ 36. 

Ntèlarjobre todos efpargio. Ne6lar dizem os Poe- 
tis que hr obcber, 6c Ambrofía o comer dos falfos 
Deofes. Hum, 6c outro vem do Grego, 6c figni- 
ficaiinmorralidade, porque era mantimento de 
gente do CcD.Efta differença fe confunde (cgun- 
do tenho notado nos Autores: 5c Amb» ofia lè to- 
ma pelo Néctar, 6c Neólar pela A mbrofía; como 
notou Celio Rodigino nas lições antiguas, lib.4. 
cap.15. no fim. Collumaó também os Poetas dar 
com eltes nomes epirhctos a outros,para molhar 
fua cxcellenciai 6c fuavidade: 6c daqui ao vinho 
muyto bomchamaõ, virmrnneãareum , &à agua 
também Neftarea, 6c às iguarias Neítarcas. Ao 
mel por lua doçura chamaõ também os Poetas 
Nedar , como lhe chamou EftacioSylva 3. 6t 

Virgilitf 



Virgílio in Culice. Por eíla mefma razaó ufa a- 
qui onofío Poeta deNeftar por huina agua muy- 
ro cheyroía:no qual lentido ulbuVirgilio da Am- 
bi oíia na Eneida lib. 2. Do caminho lacleo fe ve- 
'y<\ o que Hca dico neíle Canto Odava 20. 

42. 

1"^ M quanto tftofepajfãj na fermofet 
^ Caja Etherea do Olympo omnipotente^ 
CortuvcL o maragnite bellico/ãy 
la lã da banda do Aufiro, & do Oriente* 
EntreaCoJia Ethiopca^ ^ afamo/a 
Ilha de S. Lourenço ^ & o Sol ardente 
^leymava entaõ aquelleSy que Typheo 
Com temor grande empeyxes converteo» 



Canto TrhneyYO, 



21 

íle em^ej/xet converteo. Typheo fingem os Poetas 
fcríilhodeTicâno, Sc da Terra: eítefoy inimigo 
capital de Júpiter , £c dos mais fallos Deolcs , peio 
que determinou deílruillos. Moveo guerra con- 
tra elles , levando comíigo outros Gigantes fcus 
irmãos, Jupitcrnaófe atrevendo efperalo ,fugio 
na volta do Egypto com feuscompanheyros: ÔC 
naó le tendo alii por leguro,por Typheo lhe ir no 
alcance, fe converterão em differentes animaes, 
por elcapar de fiia fúria , como íànge Ovidio lib. 
3. Met. o qual diz que ló Vénus íe convcrteo em 
peyxe. Outros contaõ a fabula de outra maney- 
ra:&: dizem que também Paõ , doutros íe con- 
verterão em peyxcs. t', porcjue os peyxes, vendo 
Vénus ftyta peyxe, lheíizcraó muyto gafalhado 
fras fuás aguas, & a tiveraó cotr^fígo : lembrada 
ella, 5c agradecida deíle beneficio, pedio a feu pay 
Cajá Etherta doOlympo ommpoteníe.Oly mpo cm- Júpiter lhes fízcfie por ifto algúa mércè. Júpiter 
niputente aqui fe toma por Júpiter , como ulou ts pózno Ceo feytos ellrcUas , 6c delles fez hum 
delle Virgílio na Eneida ,lib. 10. Pandtturinttrea dos dózcílgnos do Zodíaco , ao qual os Aílrolo- 
domus Ommpeuntit Oli^mfi. O qual verfo alguns goschamaò Pi]c6i^ ou peyxes. Ncfte fígno entra 
quizcraó emendar , oc em lugar de Omnipotentist o Sol no ínez de Fevercyro. O que o noffo Poe- 
■ptízcYtiò,omnipatenti$ j epitheto mais convenien- ta nefta Oâ:ava quiz moílrar he, que quando os 
tca Olympo, íc quiz,craalli dizer o Ceo, como os Portuguezes hiaô entre a cofta de Moçambique, 
poetas ordinariamente uíaódelle.&nòs notámos & IlhaM;; Saó Lourenço , era nomezdeFeve- 
cm outra parte. Vejaó os curiolos Celio Rodigi- rey ro: 6c naó he necedano apontar particularmé- 
no nas lições antiguas, Centur.i. epill:.lib.20.cap. te o dia, em que os Portuguezes hiaó neftapara* 
13. gc"^» P^'^ '"io^ conformarmos com o dia, em que 

Ilha de S. Lourenço. Defcrevco Poctaaqui apar o Sol entra no íignoPilces : que he aos dezanove, 
ragem emquehiaõos Portuguezes , que anda- Baílaque erano mezdeFevereyro , & que líto 
vaóbufcando as partes da índia, ao tempo que quiz,óFoeta aqui dizer. 
Júpiter com os mais falfos Dcofes eftava em Con- 
cilio fobre fuás coufas. A coita Ethiopica , de q 4^. 
aqui falia, he a que chamamos coifa de Moçam- fHTl y^m brandamente os ventos os levavao 
bique. Eílá da Ilha de S.Lourenço, como leífen. J[ Como quem o Ceo tinha por amigo: 
ta legoas de traveíla. Deita coita, & lugares deU ^^.^^^^ O ar, ^ os tempos fe mo/íravao 
la havenx)s detratar no Canto decimo. Ouanto r- „ /> ' j ^ . 



Qtianto 
à Ilha de Saó Lourenço, chamalhe flimofa, por 
fer muyto grande , ík por eíte rcfpeyto muyto 
nomeada, a qual tem de coita mais de trezentas 
legoas. Os da terra lhe chamaõ Madagafcar.Pc- 
lo iertaó dentro he habitada de gentios : nos por- 
tos de mar tem algiias Villas,& Lugares de Mou- 
rosv Tem differentes Reys, huns Mouros, & ou- 
tros Gentios. Pelo que andaó muytas vezes em 
guerras. He abundante de carnes, arroz, milho, 
laranjas, limões, gingibre. Andaô niis, lómente 
cobrem as partes vergonhofas. Trataó com os 
Mouros Arábios da Cofta de Melinde fomente. 

Tem língua lobre ii : laõ baços. As armas de que If. naó devendo ler mais que hum, conforme a fua 
ufaôtáó Azagayas com ferros muyto bem obra- origem. 

dos: das quaes trazem muytas, & ferern de reme- -N^ cofia de Ethiofta. De Ethiopia, & origem de- 
ço.O principal mantimento de que ufaó, he inha* íte nome tratcy atraz na defcripçao de Africa , cu- 
iDe, pefcado, 6c figos, de que fazem paócomo de j* parte ella he: da coita havemos detratar no 
caltanhas.A terra he muyto fermofa, 6c aprazível, Canto decimo, como notey na Odava paílada. 
naqualhamuytosrios, & muyto grandes. Naó 
he pofluida dos Reys de Portugal,por ciics a naó 
quererem. Eítas coulas deita ilha loube por in- 
formação de peífoa que nella eíteve. 

Çiutymava tntafi a^uelkí ^ue lyphco com ttmorgri^ 



Sem nuvens, fem receyo depertgor, 
O promontório ^ra[fojàpa[favuõ 
Na cofta de Ethiopia, nome antigo^ 
fiando o mar defcubrindojhe mostrava 
Novas Ilhas ^ que em torno cerca^ & la vã, 

O Prommtorio PraJ/o. He o que commummentc 
chamamos Cabo das correntes. Chama-fc aílim de 
Prafios, palavra Grega, que figniíica verde, por 
ler toda aquella coita cuberta de hum arvoredo 
parrado, à maneyra de balças", que daó poUca 
fervcntia por bayxo.Todos o eícrevem com dous 



44. 



'T Y A(co da Gama^ o forte Capitai, 
\ ^*í' ^ tamanfoas emprefas/e ojfeyece 



De 



2 z Lít fiadas de Lais de Camões Commentadof» 

^efoberhõi & de akivo coraçâoy mcfma laya. Mas não fe atrcviaõ a declarar tíe to- 

/l quem afortuna fimPre favorece, ^o» "^"^ ^^ ^ "'^ó ao povo enganado, temendo que 

'Arafe aqui deter, não vé razão, 1?.= ^"'?'^ ^ que faz.aõ a outros : aos quaes ca- 

^ y, r . j . u ItifTavaomuytoafperamente, dizendo iereiu que- 

^iemhabitadaaterralhe parece: br?ntadores de lia Rcliguó : como punhaóa 

5Pí/r diante pajfar determinava^ Sócrates, Anaxágoras, & a outros nu.y tos. E aí- 

Alas não lhe fuccedeo^ como cuydava, fim Plataó . Ariiioteles, & outros rhilofophos en- 
tendendo a verdade davaõ a entender o contrario» 

^ ejum a fortuna fempre favorece. Os Antigos por comprazer ao povo, como diz o Apoftolo ti- 

Gentios, como tinhaó depravado o entendimen- crevendo aos T{ omanos Epill. i. E que eltes Phi- 

to, 6c naõatiaavaó no conhecimento de feu ver- lofophosentendeílem a verdade , le colligc clara- 

dadcyro Deos, & Creador, faziaó quantos Deo- mente de feus efcricos. Trataó cila matéria cla- 

fes lhes vinha à vontade. Era tanto, que diz PIí- ramente os Santos , & doutiíTimos Theologos. 

riolib.2. cap.y. queeraõjá os Deofesmais queos Joaõ Dâmaicenolíh.i^Fídeíortbodoxacap.i.òcSin- 

homens. E Heíiodo, que tinhaõ os antigos mais to Thomás i.;».^. ii. art-i-in corporearttculiyC!^ i. 

de trinta mil Deofes, como refere Eufebio Bifpo centra genttSt cap. 41. O nollb Camões falia como 

de Cefarca no livro fegundo da preparaçaôEuan- Poeta. 

gclicacap.i5,Entre outros fizcraó também aFor- 4c. 

tuna, à qual attribuhiaõ o goVerno do mundo, & JIJ /í apparecem logo tm companhia 

a repartição de feus bens, dandoahuns, & tiran- ^-^ Huns pequenos bateis , que vem daquelU 

do a outros, como a ella lhe parecia. A cila faziao q^^ ^^^^ -j. ^^^^^^^ ^ terra parecia, 

crandes templos, 5c íacrificios, como lemos em /V , .^j^^i^ ,„^^ 1 1 

êi- • rr- 1 • T-»- r \T „r r\.,\A:r. Lortando lon£omar com larza vela'. 

Plini©, Tito Lívio, Dionyíio, Virgílio, Ovídio, ri j j , 

& todos os mais Poetas, & Hiftoriadores antigos. ^ g{nte fe alvor oçdy & de alegria 

Também a pintavaõ cega, & com os pés cm húa Naõ fabe mais que olharacaufa della^ 

bola: dando a entender fua inconftancia , Sc ce- ^ie g^nteferá ejtãj em/i diziaõy 

gueyra j porque viaó muytos poftos em grandes ^le coftumes^ que ley , que Rey teriaõ, 
dignidades, & eílados fera o merecer ; & outros 

pobreSjSc abatidos, tendo grandes merecimentos. Eis af parecem logo em ampanhia. Efta Ilha don- 
Donde inferiaó fer ifto obra da fortuna, negan- de fahiraõ eftes bateis a reconhecer a nolla arma- 
do a Providencia divina: naõ confiderandopro- da, he Moçambique, aílaz conhecida hoje, poc 
cederem todas eftas coufas da maôdeDeos , 6c fercfcaU dos noflos Portuguezes na lua navega- 
queelle por feus occultos juízos as permitte: co- çaô da índia. Aflim dcíla, cómodas mais fituadaj 
mo trata excellentemente o B. Santo Auguftinho na^ucUa cofta, havemos de tratar ao diaiíte. 
cm muytos lugares, principalmente nos livros da 

Cidade de Deo?, lib. z. 4 6c 7. 6c o Doutiílimo S. 4^. 

Hieronymo em huma epiftolaa Terencia;6c La- A S embarcações erão na maneyra 

ãmcio nos livros de Falfajapiemay lib. 5. cap.29. J\ Muy veíozes.eilreytas, &compridas$ 

Muytosdos meímos Gentios o entendei^aóairim: ^^vela^com que vem^erãade efteyra, 

donde diUe Juvenal nos últimos verfoí da Satyra cr^ 1 ^ r n ^ j ^ 1 1 * -^ 

decima: \De huas folhas de palma bem tecidas, 

Mkm nutnen haheufi fit prudemaifed te Agente da cor era verdadeyra, 

NosfaçitfiUi,Fortuna,Dearjt,caío^ue locamus. ^^ ThuCton nas terras acendidas 

Naõ tiveras tu Fortuna o nome de Deofa que jÍo mundo deo, de oufadOi& não prudente: 

tens, fe os homens nos entendêramos: mas como Q ^ado ofabe, O Lampetufa ofente, 
fomos de fraco juizo, & entendimento, fazemofte 

Deofa, 6c pomos- te no Cco. Quanto a mim ne- As embarcações. Eílas embarcações de que aqui 

nhumChriílaõ devia tomar na boca tam infame falia o Poeta, chamaó o> naturats da terra pan- 

nome , mormente fendo hum erro gentilico , 6c gayos , 6c nós almadias , de que ainda hoje ufaói 

deíutino grandifíi;Tio. E aílim o B. S. Auguílinho Traziaó as velas de folhas de palma , por não te- 

nas fuasrctraétaçóes íe rerratou,6c defdiífe de ter rem o j)ano que agora tem. E naõ fomente ufa- 

Jouvado hum homem nobre,dc bem afortunado, vaõ deltas velas de eíleyra neftas embarcações 

Entre os antigos houve muytos, que governados pequenas, mas em grandes também, pornavega- 

fómente com o lume natural , zombavaó das me- rem aílim melhor. E eftas embarcações, aíTim pe- 

nmices , 6c poucofaber dos Gentios na varieda- quenas como grandes, naõ laõ de pregadura,mas 

de, 6c multidão de léus Ídolos : aos quaes fendo de tornos de paos, 6c cofturas de couro, 

paos, pedras, 6c metal attribuhiaõ divindade:ou lé- agente da cor era verdadeyra. Phaeton ( como 

do imagens de homens, 8c fnulhcres defenfreados, contaó os Poetas) foy filho de huma mulher cha- 

6c diflolutos cm vicios,6c peccados,como Júpiter, mada Cly menc, Sc do Sol. Andando hú dia Phae- 

Yenus , Mercúrio , 6c Baccho com outros defta ton brincando com hum rapai chamado Epapho 



filh 



o 



Canto Trifneyrol 15 

filho de Júpiter , vicraó a pelejar , como he lentimento,que fingem os Poetas, que foraõcou- 

coílumc de rapazes, 3í Papho deshonrou a vertidas em arvoreis, como refere Oviaio nas Me- 

Phaeton dizendolhe, que naó era filho do Sol, camorphofes lib.i. 
inas filho de huma mà mulher, a qual o enganava 

em lhe dizer, que era filho do Sol. Phaeton toma- 47, 

do deílas palavras , foy logo dar conta a fua máy 1p^ E panos de algodão vlnhão veííidof, 

Clymene, a qual depois de fcytas exclamações o jLJ "Dt varias cores ^brancos ^ & Mrados. 

mandou caminho do Onente a cafadeleu pay o Hwis trazem derredor de fi cingidos. 

Sol, do qual alcançou licença para governar hu r\ ^ j r ni *^i 

dia os carros, em que dava luz ao mundo, para de- ^''^^^' '"^ ^^^^^ ayrofifihraçados: 

fta maneyra fer conhecido por feu filho. Deo-fe '^^^ ^'^^^^ P^^^ ^^^^ '^^^ defpídos, 

tam mal no regimento dos cavallosaquellepeda- Tor armas tem adagas j & terçados^ 

ço de dia que os governou, que houvera de quey- Com toucas na cabeça, & navegando, 

mar o mundo todo, le Júpiter não acudira , & o AnafinsfouQrofos vão tocando. 
derribara com hum rayo.Com tudo ardcraô mon- 
tes, fecaraó-fc rios: 6c daqui fc diz , que os mora- Outros em modo ayrcfg fobraçados. Do modo,que 

dores de Ethiopiaficáraó negros. A razaó porque vinhaó eftes homem nas luas embarcações, lea-fe 

çlta gente tem eíla cor, naóhefabida. Veja-fea Caftanheda lib.i. cap. 5. o qual conta afeíla, 6c 

nofla annotaçaó no Canto íegundo , Oclava ^05. alvoroço que levavaó, como dos veílidos ie col- 

A fabula conta Ovidio nas Metaraorpholcs Jib.a. lige que eraõ certos panos loltos que levavaó fo- 

De oufadoy (jr nao pri*det}te. Efte mcfmo epithe- braçados:trajo que lhes ferve de capas a todos era 

todeoufadojlhepuzcraôas Nymphas de Itália na géraJ:& ha panos deíles tecidos de ouro que va- 

iuafepultura, como diz Ovidio no lugar allega- leni muytodinheyro. 
do. Anafint fanor o fos vaõ tocando. Anafins faõ huns 

Hicjítus e(i Phaeton, currus auriga paterni, inílrumentos como íraiítas retorcidas , de que 

fluem finon tenuity magnii tamen excidit ^ujlf, os Mouros uíaó. 
Aqui jazPhaeton governador do carro de feu pay 

o Sol,do qual ainda que cahio, todavia merecco 4S. 

louvor do atrevimento que teve.Neíte epitaphio r^ Os panos f§ cos braços acenavh 

lhe louvaõ as Nymphas o atrevimento em huma I A' s gentes Lufttanas que erperaífemi 

coufa taodifficultola, como era governar os car* liT^^^À ..f^^/,-. /;^^ .^^, n,:^^i:,.!.^.xJ: 

A c ^ r ^ ^ Masiaasproas líçeyras etncltnavao. 

Tosdobol : porque em coufas grandes o atrevi- ,^ ^ ^ ^ ^ ?// • ^ 

«iento he coufa grande. Donde Ovidio tratando ^^^^ quejunto as Ilhas amamajem, 

dosteytosexcellentesdeTheíeonacartade Phy- Agente \3 martnheyros trabalhavao, 

lis a Demophoonte, entre outros fey tos feus, que Comofe aqui os trabalhos acabajfem, 

põem dignos de memoria, ajunta hum de que elle TomaÔ Velas , amatna-fe averga alta^ 

fahio muyto mal , que foy ir ao inferno com feu q^a ancora mar ferido, em cima falta. 
amigo Pirithoo a fartar Profcrpina mulher de 

Plutaõ: porque Pinthoo foy morto logo à entra- Coi panos, (^ cos braços acenavao. lílo diz, por- 

da do inferno, & Thefeu prefo: &: todavia fe lhe que eftes homens da Ilha de M' çambique , que 

attribue a louvor atreverfe a commctter oinfer- hiaó nos barcos, capcavaõ , & acenavao ànoifa 

DO, com tençíiõ de furtar a mulher do Rey delle. gente, que naó paflaílc adiante. 

O Pado o fabe.O rioPado, aquc os Gregos cha- 
maóEridano, he em Itália, a qual elle rega. Cha- 49. 

ma-fe vulgarmente Pó : he muyto celebrado en- -^ "T Jêerao ancorados, quando â gentS 

treos Poetas & Hiftoriadores. Nafce em hum |>J Eííranfoã pelas cordas jà fubia: 

efga ho dos Alpes chamado Vefo, ou Vefulo: que ^,.,aii,^,, ^,,^, ^ humanamente, 

ce numa, cede outra maneyrn o nomeao os Auto- r\A • " rir l' 

res. HeomayorriodetodaEuropa,tiradoo Da- OLapitaoJubUme osrectbia. 

nubio , porque recolhe em fi mais de trinta nos ^^ ^^0^^ manda pór em continente, 

grandes, com os quaes fey to hum corpo entra no T>o licor, que Lyèo prantado havta: 

mar Adriático por duas bocas: huma (e chama Pa- Enchem vafos de vidro, & do que deytão', 

dufa dos moradores j &: outra Volana, que hc o Qj ^g Thaeton queymados nada engeytâOé 
melhor porto, &; mais feguro de toda aquella co- 
fia, Dizo Poeta, quco Padoofabc, porqquan- Do licor, t^ueLyeo prantado bavia.^oXwtoc^nznQ 

do Phaeton foy derribado com o rayo, cahio nc- das metamorpliofes,logo no principio põem Ovj* 

■^^*^'''"* dio muytos nomes que os Poetas daõ a Baccho, 

Lampetufaofente. Iflo diz, porque Phaetuíii, o qual osantigos enganados tinhaó por inventor 

Lampecia, Lamnctufa, irmãs de Phaeron,fízer;i5 do vinho , 5í por cite rcípcyto ohonravaó, 6c 

tam grande pranto iobre elle , Sc moíháraô tanto chamavaó Deos do mclmo vinho, feudo hum ho- 

men) 



2^ Lufiadas de Luís de 

tiicm defenfreado em todo género de vicios, co- 
mo for?õ todos os outros , que elles ncfta conta 
tinhaô. Entre outros que lhe dàhum dellcs hc 
Lvco, de que o Pocra aqui ufa ,& chama-fcallim 
dcLyéo, verbo Grego, que íignificadcfatar, ou 
livrar, por ferem os homens dados ao vinho dif- 
íblutos, & livres cm todas fuás coufas: fcm fegre- 
dp , honra, nem vergonha : & pela mefma razaó 
lhe ch;\maõ tatnbem os Poetas Liber, pela liber- 
dade, ôcíolturaquetcm , naó Ic lembrando de 
cuydado, payxaó, ou enfadamento. De Baccho 
trato algumas coufas nefte mcfmo Canto , 06ta- 
va7^. & no Canto fegundo,06í:ava lo. 

OiàtVhaetonc^M^madoi. Entende os negros, 
como fica tratado neílc mefrao Canto, Od^ó. 

C"^ Omendo alegremente ferguntavão 
^ TeU Arábica lingua ^ donde vinhao^ 
§uem eraõj de que terra^ que bufcayão. 
Ou que partes do mar corrido tinirão. 
Os fortes Lufitanos lhe tornavão 
As difcretasrepoBaSj que convinhão: 
Os Tortuguezes fomos do Occidente, 
Imos bufe ando as fartes do Oriente. 

Tela Arábica lingua. Arábica hc a lingua dos A - 
rabes, os quaes entrando em Africa, ôccfpalhan- 
doíe por ella, como era gente de mais policia , & 
entendimento, que os Africanos, começoufe a faU 
lar a fua lingua por toda Africa : a qual lingua 
hoje fe chama Arábigo, dcílcs Árabes chamados 
Alarves corruptamente, & naô fomente em Afri- 
ca, mas em Per(ia,&; outras muytas partes de Afia 
fe falia efta lingua como he notório. 

51- 

DO mar temos corrido, & navegado 
Toda a parte do Antar^itco^à' Caly^o^ 
Toda a Cofia Africana rodeado^ 
'Diverfos Ceos^ Terras temof vi ff o, 
*\De hum Rey potente fomos tam amado ^ 
Tam querido de todos ^ & bemqtúfto^ 
^te não no largo mar com leda fronte , 
Mas no Lago entraremos de Acberonte, 

Toda a fane do AntarBicOf é^Caly^o. Entende 
Norte, 6c Sul. Vcja-fe o quccfcrevemos no Can- 
to quinto. 

Mas no Lago tntraum9s de A eh fronte. Ufa deftc 
termo de fallar , para encarecimento da lealdade 
dos Portuguezes: os quaes, diz, que naó tómente 
no mar, mas no lago de Acheronte entrarão por 
amordefeu Rey. He Acheronte, legundo fin- 
gem os Poetas, hum riodomferno. Chama»fe A- 
cherontcdeduas palavras Gregas , que querem 
dizcr/èw?pMz>c»", por naquelle lugar haver muy to 
pouco, antes cudofci^ cnltcza, ôcmiferia. 



Carnes Commentados] 

52. 

ETor mandado feu, bufcando andamos 
Aterra Oritntal^ que o Indo rega, 
tor elle o mar remoto navegamos^ 
^efó dosfeos Focas fe navega. 
Masjà razãoparecet quejaybamos, 
{Se entre vos a verdade nàofe nega') . , 

^emfois, que terra he ejia que habitais^ ' 1 
Oufe tendes da índia alguns finaes? 

A terra Oriental ejae a Indo rega. Do rio Indo, & 
feu nafcimcnto tratamos atraz, Oftava 51. 

^í fo dos feos Fvças fe navega. Focas faõ lobos 
marmhos , & diz que fe navega cfte mar íò dos 
peyxcs, porque antes dos Portuguezes naó era 
trilhado, nem curfado de gente, & dos peyxesíó 
era conhecido, & navegado. 

5^ 

SOmoSi bum dos da ilha lhe tornoUj 
Eftrangeyros naterra^Ley,^ naçaÕí 
^e os propnos faõ aquelles que crioH 
Natureza fem Ley^ Kè (em razaÕ^ 
Nos temos a ley certa que enfinoit 
O claro defcendente de Abraham, 
^e agora tem úo mundo ofenhorto^ 
Amãy Hebrea teve^ ^ opaygtntio^ 

Somês,hum dos da Ilha Iht tornou. Rcfpondeo hS 
daquclles que vinhaó da Ilha,que elles eraóMou- 
ros, da feyta de Mafamede: & que naó craó natu- 
raes da terra, porque os naturaes dcUa eraó Gen- 
tios, gente fem ley, femjuizo, & entendimento, 
que viviaó barbaramente, foltos , £c deiapegados 
de toda a obrigação: adorando hoje hum pao, à 
manháa huma pedra: naó íc firmando cm ley cer- 
ta, ou regra algúa,faó palavras do Mouro. 

O claro dejctr/dente de Abraham. Entende Mafa- 
mede, porque os Mouros dizem^ que procedem 
de Abraham,&: de Agar lua efcrava, da qual hou- 
ve hum filho, que le chamou Ifmael , donde os 
Mouros fe chamaó Agarenos, ou Ifmaelitas, co- 
mo fica dito, Odtava 8. 

A mãy Hebrea teve , & pay Gentio* O pay deftc 
Matoma, dizem íoy Gentio de naçaó , por nome 
Abdelá, & fua mãy Hebrea chamada Emina , & 
quenalccoem hú lugar pequeno de Arábia cha- 
mado Itarip. Vcja-fe a nollá annotaçaó no Cau- 
to 7. Odava 17. 

54- 

ESta Ilhapequenay que habitamos, 
He em toda efla terra certa efcala 
^e todos os que as ondas navegamos 
*J)e ^iiloa^ de Mombaça, ^ de Sofá la. 

E^or 



■E porfir neceffaYlaiprocuratHòh tom outros qúatrO) cohiodiz t^Uhío lib.ts. Capjiu. 

Lomo próprios da terra de habttálai Chamalhe Lucano Nííco lib.í?. porque dizem» q 

Eporqm tudo em fim vos notifique, f^íf pela Cidade de Nila pacria de BacchcO nol-. 

niuy tas vezes tratamos neíle livro, mas hé no tnc 
Chama- fe a pequena Ilha Moçamoi^ue, Entre òui adjeftivo, epithétó paira moftrar > que o no Hy» 
tros lugares q ha na coita de Ethiopia,ha cftes de daípes he na índia, 
que o noUo Poeta aqui faz mcnçaó : Moçambi- 
que, Quiloa, Sc Mombaça , os quaesdousderra- 
deyios iaó na coita de Melinde. Moçambique hà 
hurna pequena povoação , a qual eítá em altura 
de 14. grãos & meyo , torneada de agua falga^a, 
com que fica em Ilha. A terra he muyto bayxaj 
& alagadiça i pelo que hc muyto doentia, tem 
muyto bom porto, Sc he abaítada dos mantimen- 
tos da terra. Hc hoje a principal cfcala que as nof- 
las nãos tem na navegação da Índia , 6c aflkz co- 
nhecida por eílerefpeyco. Qiiiloa , hehuma Ci- 
dade to Ja cercada de mâr,que a faz llha,tem muy^ 
tos piíhnares, muytas arvores de cipinho, 8c orta 



Isto dizendo o Mouro fe tormn 
Afeus bateis com toda a companhia: 
U)o Capitão , & gente fe apartou^ 
Com mofiras de devida cortezta^ 
Nifto Phebo nas aguas encerrou^ 
Co carro de cryfla /, o claro dia^ 
liando Cargo a irmãa que alumiaj^è 
O largo mundo em quanto repou/affei 

Ktllo Vheho nas Aguai encerrofi. Phebo he hum dds 



liças como as de Êfpanha. Ha gallinhas, pombas, nomes do Sol. Chama-fe Phebo pela luz, Sc ref- 
rolas, (k. gado grofloj Sc miúdo 3 6c algúas avcSjdç 
que ncftas partes naó temos noticia. As aguas laõ 
ruins, por lerem de poços, & eílcs de terra alaga- 
diça. Tem boas calas de pedra, 6c cal j comícus 
cyrados, Sc quintacs, com muytas arvores de íru- 
ta, airim para ornato, como para provcyto.Mom-^ 
baça eítá rodeada com outro cíteyro de agua ao 



plandor que tem,6c eítc fingem os Poetas, que dei 
pois de dar luz ás terras neíle hemifphenofupc- 
rior, fe recolhe com Thctis Rainha do mariondé 
gaita a noyte defcançando com os cavallos 
do feu carro, do trabalho do dia. Claro he íer ilto 
fabula : porque o Sol rodca o inundo j Sc lhe dâ 
luz andando cm continuo movimento. Os Poe- 



modo de Quilóa, Tem edifícios como os de Qui- tas ufaó deites fingimentos , para ornato de íuas 



íóa, com muytas torres , com que fica fermola à 
vílU, Sc tcmcrola paraosquc aquizerem acome- 
ter. Tem Rey íbbre íi, & he de muyto trato, 6c 
abundante do neceflario.Tem muyto boas aguas, 
rodo o mato he de laranjaes. Ncíte lugar tiveraõ 
iemprc os Portuguczcs ruim galalhado; hoje tem 
tortaleza fey ta à força de armas , donde lançarão 
os Turcos, Sc naiuraes da icrra que ahi a tinhaõ 
feyra. Sofala, hc hCia pequena povoação de Mou- 
ros, antes de chegar a Moçambique,poíta ao lan- 
go de hum rio do mcímo nome. Eítá três legoas 
da coita. Aqui tem os Reysde Portugal hiãa for- 
taleza , Sc o Rey da terra âfua obediência. Do 
Reyno de Sofala, coltumes da gente , Sc do feu 
Rey, chamado Benomorí5pa,fe vcjaanolfa anno- 
taçaó no Canto decimo, Oétava.^j. 

55. 

EJá eftie de tam longe navegais J 
Èu/cãdo o IndoHydafpe j^terra ardete^ 
'Piloto aqui tereis ^porquem Cejais 
Guiados pelas ondas fah iam ente. 
Também fera bem feyto, que tenhais 
T>a terra algum refrefco,& que e Regente 
^ue efia terra governa ^ que vos vejaj 
E do mais neceffarto vos proveja, 

BufcandooIndoHyJafpe. HcHydafpc hum rio 
daiiihlia muyto grande , o qual le mete no Indo 



fabulas. Eíta hc aílaz íabida , 6c de que os Poetas 
trataôem muytas partes, Sc cu por muytas vezes 
em citas annotaçócs. 

Dando carga dirmãd. A irmãa do Sol he a ÍAia: 
pelo que os Poetas dizem , que faó filhos de Jupi* 
ter, 6c Latona nafcidos ambcs na Ilha Delos. Pdr 
cfla razaó rera ambos os meímos nouics. O Sol 
fe chama Cynthio, Delio^ Titanio,Latonio,Phei 
bo. ALuaCynthia, Delia, Titania , Latòniaj 
Phcbe : 5c outros , que pelos Poetas fe acharáôi 
Vcja-fe a nol5á annotaçaó atraz, Octaya 57; 

■57- 

AJSÍâyte/èfaffou na lajfa frota 
Com eftranha alegria^& não cuydadà^ 
'Por acharem da terra tam remota 
Nova de tanto tempo defejada. 
§ualquer etiíaS comfigo cuyda, & nota 
Na gente j & na maneyra dcfufaàa^ 
E como os que na errada Seita crer ao ^ 
Tanto por todo o mundo fe efiendtrao^ 

É os í]ue na errada feita cria». Eiucndc os Mou* 
ros, que feguem a maldita le/tadc MafameJe, de 
cujo erro naó pódc haver prova mais evidenrci 
que mandar no feu Alcorão, que fobpena de mor- 
te ninguém difputc , nem arguruente fobre oquç 
cUe manda, mas que tudo íe negocce pOr armas. 
Do qual ardil uloui entendendo qué ou Cedo Uiy 



^ ç Lu fiadas de Luts de Camões Conimentados \ 

via de haver IionJ^ens de juízo, aos quaes naó ha- Tlacat equo Ver^a raãm HfpericHa ch^iiín'^ '• 

viaó de parecer bem fuás torpezas , 6c que as ha- 2Ve detur ctlert viciima tarda DèO; 

viaódedcílerrar domundo> E para que os bru- Tratando dos facrificios, queos antifruosidola^ 

tos qu« ^s feguiaó fe fepukaílcm nellas , lhes póz trás faziaô ao Sol, diz que os de Pcríla lhe facrifi* 

cíle preceyto , que guardaó com grande obfer- cavaôcavallos, qucrendo-ft conformar comfuà 

vancia. Vcja-fe o que cfcrc vemos no Canto fcti- natureza, quehe feraprcílado, 6c liçeyro. Hype- 



mo Oótavaij. 



58. 



Dyí Lua os claros rayos rutUavão 
Y elas argênteas ondas Neptuninas, 
As efttellas os Qeos acompanhavão^ 
^lualcamporevejiido de boninas, 
Osfuriofis ventos repoufavaÕ 
Telas covas ef curas peregrinas i 
Terem da armada agente vigiava, • 
Como ^or longo tempo coflumava. 

Pelai argenteat ondas t^epttifjijjas. Ondas Neptu- 
ninas íaô as aguas do mar. Argênteas quer dizer 
brancas» por lerem de cor de prata, a qual era La- 
tim fe chama «rçíwfííw. 

Pelai covas efcurasperfgrinas. Fmgcm os Poetas 
que Júpiter, ao qual os antiguos unhaõ por prin- 
cipal de todos feus DcofeSj entregou os ventos a 
Teu filho Eolo , S£ lhos encerrou cm hiía muyto 
cfcura, ôc funda cova, pondolhe grandes montes 
emcima para os ter fujey tos, ÔC amarrados, de mo» 
do q naó fahiílêm, fenaõ quandt) cllc quizefle, 6c 
com quem quizefle, como fez a Ulyfles q ue ihos 
meteo cm hum odre para foltar delles os que lhe 
ferviflcm para fua navegação, como efcrôve Ho- 



rionio he palavra Grega, ôc quer dizer coufa que 
cftá lobre noífas cabeças , por efte fer o officio do 
Sol, andar fobre as terras, Sc darlhes fua luz. He" 
mero ulaemipuytos lugares dèfte nome Hypc» 
rionio por epithctodoSol. 

^e acordou. Diz aqui o Poeta, que acordou 6 
Sol, pelo que fc delle finge , que depois de ter da, 
doluzneíle hemifpherio fuperior , fe recolhe aa 
mar,cafa dcThetiSjfenhora dellc,onde paíTa a noy-^ 
te, defcançando ellc , 2c feus cavallos do trabalho 
do dia, . — 

P Ar ti a alegremente nave ganas ^ 
A ver as nãos ligeiras Lí/fitanas^ 
Com refrefco da terra , emjicuydandoi 
^efaÔ aquellas gentes inhumanasy 
^e os apofentos Ca/pios habitando, 
Aconquiftar as terras AJianas 
Vteraõ ; &por ordem do deftino^ 
O Intferto tomarão a Qonjianttno. 

"Partia alegremente navegando, O Soltaõ de Mo- 
çambique fez paz com os Portuguezes, cuy dan- 
do ferem Turcos:porque os vio brancos do rofto, 
como tinha por informação ferem os Turcos: os 



mcròna Odyíf£a,íib.ió. Chama o Poeta às covas quaeselledeffjava muyto ver, 6c poreílerefpey 
onde os ventos refidem peregrinas , porque fua to foy depreífa às nãos. 

morada, alugar próprio hc o ar. Ç^ue â$ apofentos Ca/pios habitando. Entende 09 

Turcos. Eftes ( fegundo os que melhor enten- 
dem>8c fentem nefla matéria) procedem da linha- 
S9* gem dos Scythas Aíianos , que moravaó nas ri- 

Asaffim como a Aurora marchetada beyras do no Tanais, que duiJe Afia de Europa 




Os fermofoscabellos efpalhou^ 
No Ceo ferniOy abrindo a roxa entrada. 
Ao claro Hy per tonto què acordou: 
Começou a emOandeyrarfe toda a armada, 
B as toldos alegres jç adornou^ 
Tor receber comfefias^ & alegria 
O Regedor d às ilhas ^qtte partia. 



Paqui fe recolherão muytos delles às traídas do 
mar Cafpio na Afia, aonde viviaó pelas ferras me- 
tidos cm choupanas , 6c covas , comendo do que 
achavaó pela terra. Vcndo-lc muytos, começa- 
rão a fazer alguns infultos,&rcubos aos vizinhos, 
movidos de cobiça, 6c malicia, que a fcmelhame 
gente nunca falta, Deílcs tam fracos princípios 
vieraó ao cíládo em que hoje eílaú, 

O Império tomâraÕ a Con[lavíino. Conífantino 
Ma! aíjim como a Aurora marchetada. Quecouía Magno edificou a Cidade de Conftantinoplaem 
fcja Aurora fica dito , Odava 14. Efta fingem os hum pequeno lugar cha^mado antes Byzancio: 6c 
Poetas fcrporteyra do Sol, porque apparecc pri- fella tara nobre, 6c cxcellentc, que osquca viraô, 
meyroqueclle, como aqui aponta Luis de Ca- 6c conhecerão no tempo que florecia, díziaôdel- 
móes. la, que era mais para cafa de Deos, qiiçdehum 

^9 claro Hyperioniotjue acordou. Huns querem, c[ Emperador: 6c com ícr tal, foy cercada , 6c to- 
Hyperionio feja filho de Titano, 6c da terra, 6c mada de diífcrcnies conquiíladores. O ultimo q 
paydoSoi: outros o fazcua irmaô de Saturno, 6c a deftruhio, foy Mahomcto Otomano, Empcra- 
filho do Ceo; outros dizem que he o meimo Sol, dor dos Turcos, o qual lhe poz cerco, fendo Em- 
coraacommummcnte fc toma entre os Pocias. perador ConílantinoPalcologo, a nove de Abril 
Donde diz Ovídio nos Faílos: da 1453.2c a entrou a vinte nove de Mayodaditu 

cra,l 



ei-a, aonde fcfizeraô grandes crue]dades,a<lim no 
Empeiador, como na gente. Ao Empeiador Ma- 
hoojeto cortar a cabeça, & arraílar pelas ruas da 
Cidade, em vitupério do nome Chriitaô. Derri- 
bou todos os templos, falvo o de Santa Sophia, 
que ficou em pé. Quando fe perdco cíla Cidade, 
havia Diil cento noventa & hum annos , que o 
Kmpcrador Conftantíno filho de Helena a come- 
çara a ennobrecerj & Conítantino filho de outra 

Helena a perdeo: o qual eftava já denunciado ha- Mojtra das fortes armas de que u/avaõs 
via muyto tempo* Porque em huma coluna de fiando COS inimigos pelejavaÕ, 
bronze quadrada do templo de S. Demétrio efta- 

\aelcrito: Confiantinus mt confiruút , Conftantinus E mais lhe dizjqmvtf dtfe\a. Dcfejavattluyto Ô 

4e/lruet. Coníhntino me fez, Cóftantino me des* Mouro fabcr fe os noílos Portuguezcs eraõ Tur- 
fará. O qual dizem fizera hum grande Philolo- cos, como fica dito por muytas vezes. E porque 
pho daquellcs tcrapos, cujo nome fe naó declara, lhe parecerão Chriíláos, pediolhes , que lhe mo* 
O que tudo fe cumprioaííim.Porqueo qucacn* ítradem íuas armas, determinando já o que ao 



Mdis lhe diz também que liet dffijÁ 
Os livros ãejiia ley^fnceytOj ouje, 

^ara ver/e conforme àjuafèja^ 

OufefaÒ dos de Chrijfo, como cré. 

E porque tudo notej t3 tudo veja^ 

Ao Capitão pedia que lhe de 



nobreceo foy Contlantino, & o outro do mefino 
nome a perdeo. Da qual Cidade nunca os Tur- 
cos mais largarão máo , fazendo delia cabeça de 
ieu líupcrio, como he notório, 

ét. 

RÈcehe o Capitão alegremente 
O Mouro, & toda fua companhia': 
*Dalhe de ricas peças humpre/ènte^ 
^le fó para ejte eff^eytojà trazia, 
*T^aíhe con/èrva doce, & daíhe o ardente 
NaÔufado licor, que dà alegria-. 
Tudo o Mouro contente bem recebe ^ 
M muyto mais contente come^ & bebe^ 

Dalheílericai fieças bum prefcnte. Eflè prefenttí, 
como conta Joaó de Barros, lib.4. 2* D.cap.3. fo- 
raó algumas confervas da Ilha da Madeyra para o 
Xeque, & ao Me-nfageyro humCapillar de grã, 
& outras couías, com cjuc foy muyto contente. 

NuQ ufado licor ejue dd alegria. Entcde o vinho de 
uvas, como neltas partes ie uia, o qual naquellc 
tempo Ic naó ufava naqullas. Pelo que o Poeta 
lhe chama aqui licor riaòufado : ou porque aos 
Mouros lhe he defcío pelo fcu Alcorão. 



JLl/ 



Stâ agente marítima de Lufo 
Subida pela enxárcia, de admirada ^ 
Notando o eftrangeyro modo^^S ufOj 
E a linguagem tam barbara^ ó" enleada. 
Também o Mouro afluí o efta confufo^ 
Olhando a cor^ o trajo ^ & a forte armada^ 
E perguntando tudo lhe dizia j 
Se por ventura vinhao de Turquidi 

Eftâ agente marítima de Lufo. Gente marítima 
faó Ob Maiinheyros, 6v mais gente do mar. So- 
bre eíla palavra , 5c fuafignificaçaófe vcjaoque 
efcrcvcmosno ícgundo Canto, Octava 24. 



diante fe defcubrio , que era dcftruilíos a todos íç 
pudefle» 

REf ponde o valer o ft Capitão, 
^For hu que a língua efcura bemfahiài 
T^artehey, Senhor illuflre, relàçaÔ 
*De mim, da ley, das armas que trazia, 
NaÕfõu da terra , nem da geração 
^asgtntèl enojofas de Turquia, 
Mas fou da forte Europa bellicofay 
Bufco as terras da índia taõ famofal 

VoY kum cjue a língua efcura bem (ahia* Eíle era 
hum Fernaó Martmslingua, que o Capitão móf 
Vafco da Gama levou comfígo deílel^eyno pa- 
ra femelhantes calos , porque lábia algumas lin- 
guas, & principalmente o Arábigo. Chama ao A- 
rabigo Jingua efcura , porque clies a naó enteni- 
diaõ. 

Mas fou da forte Europa bdlicofa. Europa cd mo 
fica dito Oftava i.he a principal parte do mundo^ 
& nella cfiá o noflo Portugal: pelo que diz aqui 
Vafco da Gama, que he da forre Europa. F. cha* 
marlheo Poeta bellicofa, hepeloqucíediznoluí 
gâr allcgadoi 

^^ 

ALey tenho daqiuclle^ a cujo tmperio 
Obedece o vifively & mvifivel: 
jiquelle que criou todo oHemifpherio, 
Tudo o qUtfente^ & todo o infenfiveL 
^e padece o de s honra, & vituperiot 
Sofrendo morte injufta, & infofrivel^ 
E que do Ceo à terra emfm àefceoy 
T*orfubir os mortaes da terra ao Ceót 

Aley tenho. Depois que ò Capitão mór VaícÒ 
daGama deu ao Mouro conta de lua patna, trata- 
Ihe ncíla 0<51:avade fua ky, que he a noíía vcrda* 
dcyra, Sc cerca qucprofellamosos CbriílÃos^ 

Dl ííl 



i^% Lujiadas de Luís de Camões Com7nentaàos\ 

Que criou todo 6 Hemiipherio. No Canto quinto 
Oitava 14. notamos , como Hemifpherio , quer 6B. 

dizer meyo do mundo. Aqui fe toma largamen- \ S bombas vem de fogo j&jujltâmente 

teportodo ocreado, do qual Dcosnofib Senhor ^^ As panelas fulphureas, taodunofasi 

foy Creador, como confeílamos no primeyro Ar- cp^^^^^ ^^^ ^^ Vulcano nao conferir e 

tigo da Fè , naquellas palavras : Crey o em D^)s ^^^ ^^^^^^ ^^ bombardas temer ofasl 

Padre todo podcrolo, Creador do Ceo, Cv datei- ^ j ài *.//ípru;»j^ 

ra. Nas quaes palavras Ceo, &: Terra, fc compre- "loYque o generofo anmoy & valente, 

hcndetodooUniverfo, com todas as couias vi- Entre gentes t ao poucas ^& medrofas , 

fiveis, 8c invifiveis, & todas as que fentem,& que Nao moftra quanto pôde, ^ com raza 0: 

naó fentem: como Catholica , & piamente decla- ^^^ he fraqueza entre ovelhas fcr leaol 
ra o Catecifmo Romano no principio do Symbo- 



Creador 



ra 

Jo , na declaração daqucilas palavras 

do Ceo, & da Terra. 

66. 

DEfie T>eos homem , alto, & tnfinitOy 
Os livros que tu pedes ^ nao trazia^ 
^e bempojfo efciifar trazer efcrtto 
Em papelão que na alma andar devia-. 
Se as armíis queres ver^ como tens ãito, 
Cumprido effe defejo te feria. 
Como amigo as vetas ^porque eu me obrigo ^ 
^e nunca as quebras ver como inimigo^ 

ISto dizendo m^nda os diligentes 
Miniftrosy amojirar as armadurasz 
Vem arnezesi & peytos reluzentes. 
Malhas f nas , & laminas feguras: 
E feudos de pinturas diferentes-, 
pelouros ^e/pingar das de açopuras^ 
Arcos ,& fagitti feras aljavas, 
^artazíinas agudas^ chufas bravas. 



PantUsJulphurcas. Alcanzias , chamr.lhe pane2 
las lulphureas,que querdizer panelas deenxofrc,- 
porque delle, vSc de íiilitre fe faz a pólvora. 

Forem aos de Vulcano nao conjcnte. Os de Vulca- 
no fíõ os Bombardeyros, aos quaes chama aílim, 
por ferem miniftros,& officiaes do fogo, dos quaes 
os antiguos idolatras faziaó Deosa Vulcano^ pe- 
lo que o mefmo Vulcano fc toma muyias vezes 
entre os Poetas pelo fogo. 

^^ehi fraejuezja entre ovelhas Jer leaÕ. Attribue 
Homero na íua lliada lib.zi. a grande bayxeza o 
que os Gregos fizeraó aHeftor Troyanoeftan- 
do morrendo, que foy loltarmuytas palavras, 8c 
tazerlhe muyras injurias. Ha hum Ê-pigramma 
Grego do que Hectorrcfpondeo a efics valentes 
eftando naquellc eilado, o qual tresladíido em La- 
tim diz: 

Jaw poflfata meum DanaijaBate cadáver, 
Defuncií lepores jaãant fc membra Icoms. 
Depois de morto eu, fazcy Gregos do meu cor- 
po o que quizerdes: affim trataó as kbrcs o Leaô 
morto. Da nobreza, 81 clemência do L,caô cílaó 
cfcritas muytas coufas. Solino cap.4. o diz, que 
nunca os Leões fazem mal a gente fracn. Plinia 
lib.8. cap. 16. trata de propoíito das qualidades do 
Leaõ: entre outras coufis maravilhoí^s conta hu- 
nia, que naõ parecec juílo diílimular , cv he que 
elle ouvira a huma cfcrava Romana , que {ugira 



Sàgitúferas aljavas. Aljavas com fettas , porque 
naquelle tempo fc coftumavaó muyto, béílas.Èf- 

ta palavra, fagittiferas, 8c outras defte modo faô para Getulia, Província de Africa , que em huns 

caufa de algCias peíloas que nao iabem Latim, foi- grandes [matos achara huma grande conipanhia 

tarem algúas palavras contra o noflo Luís de Ca- de leões , os quaes lhe naó fizeraó algum mui , por 

mões. Qiianto a mim naó tem razaõ,anres culpa: lhe ella dizer, que naõ era decente húa fr;ica mu- 

poisreprehendéfazerleanoíla linguarica depa- Iher fer maltratada do Rey dosanimacs. lítodiz 

lavras , ^ poderfc ufar das Latinas cm modo Plínio que ouvio à mefma mulher. Solino no lu- 

que pareçaõ bem , como ha outras muytas , que gar nllegado o conta também, 8c dizem cllcs Au- 

jà pelo muyto ufo temos por noílas : o que fucce- rores que os leões entendem , quando n gente fe 



dera também neílas andaddo o tempo. Nem he 
bem, que todos faybaó tudo , porque até nos vo- 



Ihe humilha, 8c roga. Acrelccnta Plínio, que a 



nobreza do Leaõ fc conhece principalírente nos 
cabulos muyto noifos , vemos quanta variedade perigos, 8c tempo que lhe he neceílario njudarfc 
Tia entre os mefmos Portuguezes, que huns fallaõ de fuás forças , porque ainda neílc em qnc lhe hc 
de hum modo, 8c outros de outro, 8c muytos Ic neceíTario pelejar , o taz forçada , 8c conílrangi- 
naõentcndem. He huma matéria efta, que aos damente. 
que tiverem bom animo para com o nofio Poeta, 



parecerá bem. Dos outros naõ curo, porque re 
ponderlbeaqui feria delpropofito, Sclahirmu) 
to da ordem que levo de comentar cíle livro. 



^9. 



POrém diflõj que o Mouro /fqtiinntcU, 
E de tudo o que vio com olho attento^ 
Hum odio certo na alma llje ficou, 
Hua vontade mà defevfameuto* 




Canto Trimejro] 
Nas moííras, & nogejlo o não moftrou^ 
Mas com rt/bubOj & ledo fingimento^ 
fratallos brandamente àeternúna^ 
jitè que mojirarpoffa o que imagina, 

Torèmttt^o que o Mouro aqui notou. O que princí- 
palmcnrc enfadou ao Mouro, foy ver que os nof- 
ibs era(3 Chriítáos , gente a que elles faõ pouco 
ífFeyçoados: ík pelo confegu ince, tendo-os por 



^ 



7»- 

PArtíofe nijlo em fim co a companhia, 
T)as Nãos ofalfo Mouro dffpedidô^ 
Com enganofa^ & grande cortefia^ 
Com gejio ledo a to dos ^ & fi^gi^o. 
Cortarão os^bateis acarta via 
Das agitas de Neptuno^ & recebido 



contrários, ver luas armas , com que lhe podiaó Na terra do obfequente ajuntamento ^ 
eftorvar, o que cllcs determinavaõ, que era fazer Se foy o Mouro ao COgnito apofento. 
que naô pal]àíIèm.dalIi,tomandolhes Tuas nãos. O 
que naó pcnnirtio noflo Senhor tivelle effeyto, 
porque de dous Pilotos falfos que o Mouro lhe 
deu, lho dcfcubrio hum, fendo o outro em terra^ 

70. 

Pilotos lhe pedia o CapitaSj 
Torquempíídejfe ã Índia Jer levado: 
Dlzlhe que largo prtmio levarão 
*Z)í7 trabalha') que niffofor tornado, 
'Promettelhos o Mouro ^ com tenção 
^Depeyto venenofo^ & taÕ danadoy 
^ieamorte^fepodeffe^ nefhs dia 
Em lugar de ^Pilotos lhe daria, 

VilotoslbéfeãUo Capitão. O Capitão nrjór Vâfco 
da Gama, vcndo-fe em partes tairt remotas, & dô 
que nenhuma noticia rinha , defecando chegar à 
Índia, que era o alvo de fua navegação , ôc fim 
de fuás eíperanças, procurava por todos os meyos 
haver Pilotos que o levaílem. E vendo os oíFere- 
cimentos do Mouro, & os deíejos que moílrava 
de o favorecer, occupou- o (óneíta neccííidaie, a 
qualellcpromecteo remediar có tençaóde odc- 
Itruir, porque pertendia que elles Mouros levaí- 
Icm a noíFa armada a parte onde fe perdelle. 

T/Imanhofcy o ódio, & mà vontade 
^ce aos eslrang-yros fubito tomott^ 
■Sabendo ftfrfequízzes da verdade, 
^e o Pilho de T>ã vi d nos cn finou j 
Osfegredos daquella eternidade, 
A quem juizo algum naÕ ale ançoir. 
^^ue nunca falte loum pérfido inimigOy 
A a que lies de quefojje tanto amigo. 

Sabendo fèrfcqítax^ci da verdade. Sabendo ferem 
Cliriílâos. 

(^ o filho de DsvidfíOi enfimu. Filho de David, 
chama o Poetan Cbriílonoílb Rcdemptor, co- 
mo lhe chamada Efcritura. E chama-feairim por 



Cortarão oi bateis a curta "uia. Chamalhe curtÀ 
via, porque era perto de Moçambique. 

Aguai de Neptuno. Saô aguas do mar. 

Obfequente ajuntamento. Era agente da terra, q 
lhe obedecia, pelo que lhe chama obfequente; 
que quer dizer obediente , porque era Regedor 
dcUa. r ^ o 

7S- 

DO claro aj^ento ethereoj ograÕ Thebaná 
§lue da paternal coxa foy nafcido^ 
Olhando o ajuntamento LufitanOj 
Ao Mouro fer mole fio , & aborrecido-. 
Nopenfame7ito cuida hum f ai fd engano. 
Com que [eja de todo de fh tu do, 
E quando iftofó na a Ima imagina va^ 
Comfigoe fias palavras praticava. 

O grão Ihebano que ãa paternal coxa foy nafàdòí 
Thebano íe chama Baccho , porque fua mây Se- 
meie foy de Thebas. Contaô as fabulas , que en- 
fadada Juno de Semeie, por ver estratos cm que 
andava com feu marido Júpiter , lhe appareccd 
em figura de húa velha por nome Beroeamafua: 
Sclhe meteo cm cabeça diílefie a Júpiter que naó 
queria fua amizade, fe lhe naõ fízeíle todos òâ 
mimos, & favores, que fazia a íua mulher Ju- 
no. E que para ella entender fer ido aiTim, :! 
havia de vifitar com toda lua Mageílade,& Scepi 
tro com que cftava no Ceo. Viofe Júpiter tatrt 
importunado de Semeie , que naó pode altazerj 
fenaó condelccnder com o que lhe pedia. Vifi- 
tou-ade maneyra, que com íua claridade j Scrcí- 
plandor fe ateou o fogo nella de modo , que fe 
queymou toda. Vendo Júpiter o eftado de Seme- 
ie, & que juntamente com ella fequeymava o fi- 
lho que tinha no ventre , abrio-a, éc tirou-o fóraj 
ti o meteo em humacoxafun: na qual andou até 
Ic cumprir o tempo do parto, como conra Ovidid 
lib.j.Mctamorph. Elta hc a razaò porque os Poei 
tas dizem que Baccho nafcco da coxa de feu paj'; 
E por efta mefmarazaó lhe chamaõ filho de duaS 
fer da geração de David, quccraoTribu de Ju- niãys, húa Semeie, & outra acoxade jupitcf ícii 
dá , do qual procediaó os l^eys de Ifrael. He pay. Solino no feu Polyhiílor. cap. 60. diz, qué 
phrafi, Sctermo de fallar Hebraico, como he perto da Cidade Nifa da- Índia aonde ISacchtt 
notório aos que fabem alguma eoufa de Hebrco. foy crcado, ha hum monte chamado Meros, S: 

porque Meros na língua Grega quer dizer ccxa; 

da(ji4 



traz. 



74. 



20 Lufiadas de Luís de Camões Coynmentaàos'l 

daqui levantarão efta fabula, que Baccho andara que quem fenaóaprove}'ta delia oíTerecendofo* 
nacoxa de íeu pay. Veja-íe o que elcrevemos a- lhe, quando a quizer naó a poderá alcançar. AU 

fimapinta AlciatonosErublcmas, Enibl.iii. Na 
livraria das elcolas de Salamanca cftá hfiacllatua 
de pedra, que figura aOpportunidade : melhor, 

EStàofadojà determinado, quanto a mim, que todas as dos antiguos, & que 

§ue tamanhas -vitorias tão famofas, ^^is conforma com a letra do noflo Poeta. Eílá 
"^ -' - hum menmoícntado em hum globo, com huma 

grande cabelleyrafobre os olhos , & huma nava- 
lha na mâodirey ta, que diz, qutros: a qual pala- 
vra íignifica occaílaó. Ao redor eítaó outras eíla- 
tuas, hua de Mercúrio, ôc outra da Fortuna com 
a Cornucopia,que chamamos: pelos quaes rodeos 
fe dá a entender fer a Occafiaó riquiílima , ôc ter 
poder para dar tudo, o que Mercúrio, 6c a Fortu- 
lEfiâdofaãojã determinado. Do fado fe veja a na podem. Mercúrio tinhaõ os antiguos por Deos 
lioflaannotaçaóatraz. Gelava 15. dos ganhos, 6c mercancias: a Fortuna por Senho- 

E enfòfilbo do Padre fubhmado. Chama Baccho ra das riquezas, 6í q ella as diftribuhia por quem 
ajupicerfeupayfublimado, porque a -ftetinhaó lhe dava gofto. Vejaõ os curioíos Alciato no* 
os antiguos errados, por principal de fcus ídolos. Emblemas, Embl. 5)8. 



Stà ofadojà determinado, 
_ ^e tamanhas vitorias tãofamofas^ 
Hajão Qs Tortuguezes alcançado 
^as Indianas gentes bellhojas, 
E eu fô filho do 'Fadrefublimado^ 
Com tantas qualidades generof as y 
Hey de/ofrerque o Bado favoreça 
Outrem j por quem meu nomefe ejcureça> 



A quizerao os Deo/èSj que tivejje 
O Filho de 'Philippo nefla parte 
Tanto poder y que tudo fobmete([e 
^ebayxo de feujugo o fero Marte, 
Mas hafe defofrer^ que o Fado dejje 
A taõ poucos tamanho esforço^ & arte^ 
^e eu cograõ Macedónio ,, ^ co Romano, 
'íDe^nos lugar ao nome Lufitano^. 

14 í^uizeraocs Deofes. Já fica dito por muytas ve- 
zes, como eftc modo de fallar em deoles he fingi- 
mento poético. Pelo filho dcPhilippo, fe enten- 
de Alexandro Magno , o qual íubjeytou grande 
parte da Indií. Pelo Romano , fe entende Tra- 
jano Emperador, o qual também nas mcfmas 
partes fez coulas dignas de memoria. Veia.fe o 
que elcrevemos atraz, 06lava5. O que Baccho 
lentiamuytocraver, que os Portuguezes com 
ler tam poucos, chegarão apartes, ás quaes os 
mayoresMonarchas do mundo naó podéraó che- 
gar. 

NAm (era ajjinh por% antes q chegado 
Seja efte Capitão j ajiutamente 
Lhe fera tanto ens^ano fabricado, 
^ne nunca veja as partes do Orientei 
hu ãe [cerei à terra, ^ o indignado 
^eyto revolverey da Maura gente ^ 
forque Jetnpre por via ira dtreyta^ 
^luem do ofpQrtuno tempo fi apoveyta. 



^Hem do ôpportuno tempo fe aproveyta. Pintaõ os 
Poetas a occafiaó cm hum lugar alto , & de todas 
as partes delcubcrto, com azas nos pés, 6c húa na- 
valha na maó du-eyta , & íia parte dianteyra da 
cabeia huma g'4dc lha de cabellos: paramoílrar, 



77- 

ISto di&endo irado, & quafi infano, 
Sobre a terra Africana defcendeo. 
Onde vejlindo a forma ^^ gefi o humanoi 
*íPara o ^rãfjofabido fe moveo; 
Epor melhor tecer o afluto engano y 
Nogefto natural fe converteo 
*De hú Mouro j em Moçambique conhecido j 
Velhojjabio , ^ co Xeque muy valido. 

Ifio dix,endo iradojé^ quafi inJanoXJh aqui o Poe- 
ta defte fingimento Poético, que Bacclio tomou 
na figura de hum velho conhecido na terra , 6c 
muy to valido com o Xeque , para delta mnncyra 
danaroeftomago aoSoltaóde Moçambique, & 
azedallo contra osPortuguczcs,para lhes fazer to- 
do o mal que pudefie : & quando iílo naó folie, 
ao menos fizelfcqueosnaõ recolhellenas fuíis ter- 
ras. AíTim finge Ovidjolib. 3. Metamor. ajuno 
convertida em figura de hunu velha chamada Be- 
roe, para fazer mal a Semeie : & lib. i. Metam, a 
Mercúrio tomar figura de Paftor, para matar a 
Argos. 

Vara o Fraffofahido. Praflb fabido he o cabo de 
Moçambique, como fica dito 0(5lava47. Chama- 
Ihe fabido,porque o labiaBaccho muy to bem. Xe- 
que quer dizer Governador em língua Arábiga/ 

78. 

ENtrãdo aj/im d f aliar lhe a têpo^érhoraí 
A\fua faljidade ãccommodadasy 
JLhe dtz,j como eraõ gentes roubãdoras^ 
Eflas que hora de novo f ao chegadas. 
^e das nações na cofia moradoras^ 
Correndo afama veyOj que roubadas 
For ão por eftes homens quepafjavão, 
M^e com pacíos depazfenipre àncotavaol 



Canto ^rimeyrol, 
àae ãas >íaç^eí tiàwfia morahrái.J^íeííiO&iãvay ' Mandalhè ãar VilvU. 
-& nâs leguintes três , que laó claiifíimas, conti- 
nua o Poeta feu fingimento de Baccho em figura 
de hum vtlfao natural da Ilha Moçambique» para 
oerfuaBirao Xeque deftrua os Portuguezes , di 



Gomo tenho dito {>ur 
mu.yias vezesjcfte mod© de proceder ncfte dilcur- 
lo he fingido para ornar fua hiíloriâ. A verdade 
he que o Soltaó de Moçambique fez paz cOm os 
noflbs, cuydando que eraóTurcosi & Jhes deu 



zcndolhc grandes males deiles.E que afiim como dóus Pilotos: do que fe àrrepcndeo » depois que 

nos outros portos de mar,por onde pafla vaó,de- foube ferem Chriítãos j &; quebrou a puz , 6c pa- 

ftruhiâó, &: aílblavaò tudo , o mefmo fariaó cm lavra que tinha dado, ôc hum dos Pilotos lhe tu* 

J^oçanrbique. ~ ^ gio para terra. 



E 



Saée mais, lhe àiz^cotno mtendiãò 
^J^ Tenho deftes Chriftãos fdnguinoientòs j 
^ue quafi todo o mar tem deftruldOj 
ComJ^ubos^ com incêndios violentos^ 
E tràzemjà de longe engano urdido 
Contra ?wsj & ^«^ todos feus intentos 
Sal para nos matarem^ © roubarem, 
E mulbeYes^ & filhos captlvarem. 

Chriftaoi funguinoUntos. Todas eftaS coufas fè 
tratavaó em Moçambique entre os Mouros, ten- 
do os ChrilUos por Piratas, 6c ladrões, & homés 
carniccyros , &. que naóperdoavaó acoufa qua 
chccntravaói 

P Também fey^ que tem determinado, 

■ T)e vir por agua à terra muyto cedo^ 
O Capitão dos fins acompanhado: 
Sue da tef/ção danada nafce o medo^ 
Tu deves de Ir tambtm co r teus armado^ 
Efperallo em aliada occultOj ér quedo: 
IPorqtieJaindo agente defcuydada% 
Cahiràõ facilmente na cilladai. 

§l,ue da tenção danada nafce o meda. Oshómèns 
mãos vivem em hum continuo fobrefalto , & me- 
do, cuydando, que fuás couías laó fabidas de to- 
dos. Daqui veyo aquelle provérbio tam uíado 
entre os Latinos: Ex confctentía metui. O medo 
pt'ocede do que cada hum defiíabe. Eílacio nã 
Thebaida chama à maldade mcdrofa: O caca nO" 
centumcúnftiio, S jemper timidumfcelui y ò maldade 
fempre mcdrofa. 

.Tp Se ainda não ficarem depefeyto 
-■—• T)eíiruidoSj ou mortos totalmentfl 
Eu tenho imaginado no conceyto 
Outra manha j ^ ardil que te contentei 
Mandalhè dar Tiloto, que de geyto 
^ejd aftuto no engano fi tão prudente^ 
Siiie os leve aonde fijão defiruidos^ 
U^esbaratadoSy mortos, ou^erdides^ 



TÂrito que eftas falavras acabou 
O Mouro nos taescafos Jabio^é* 
Os braços pelo coUo lhe lançou^ 
^Agradecendo muyto o talconfelho^ 
E logo nefie inftante concertou j 
Tara a guerra o belligero apparelko^ 
Tara que ao TortugHiz.fi lhe tornaffè 
Efn roxofangue a agua que bufcajje. 



E»t roxo fangue a agua (^ue hufcaffe. Quando Vàr- 
cé da Gama fez paz com o Soltaó de Moçambi- 
que, como íccoimmunicaVáó,6c tratavaó muytoi 
porque os Mouros cuydavaó que os noflos eraô 
Turcos , Icvoulhe o Soltaó em pefiba huma vez 
que o foy vifitar à armada os dous Pilotos, que lhe 
promettéra,aos quaes elle contentou com algúaâ 
peçasj & dinheyro , para que o fervificm de me- 
lhor vontade. E tratou com elles, que indo hum 
a terra, o outro ficaria na nao. Defta communi- 
caçaõ que os Mouros tinhaó com os noífosjos vie* 
raó a conhecer por Chriftãos: pelo que a fua ami* 
zade fc converteõ esn ódio, ôcdefejodc deftruir 
os noflbs Portuguezes. O que o Soltaó tratou lo- 
go com bS feus, na qual cóíulta entrarão também 
os t^ilotos, porque foubéráó do cafo indo a terra; 
Efte fegredo durou pouco entre os Mouros, por- 
que logo hum dos Pilotos o defcobrio ao Capitaô 
mór, que foy grande parte para os Mouros íhc 
naó fazerem dano algum , aflim no porto donde 
logo fefahio, como na aguada que fez: aonde Ihé 
fahiraó alguns Mouros cm ícm de peleja parai hil 
defenderem. 



«?: 



TJ 



t Bufca mais para o cuydado engano ^ 
*-* Mouro y que por Piloto à nao lhe mande ^ 
SagaZi afiut0y& fabio em todo o dano, 
'De quem fiar fi pojja hum fiy to grande. 
T^izlhe^que acompanhando o LufitanOi 
Tor taes cofias^ & mares com elle andeji 
^ue fe daqui efiapar, que la diante 
Và cahir donde nunca fe ale vante. 

E hufia mait. A ordem que teve Vafco ca Gâí 
*na,para haver os Pilotos do SoUaó,^ como )hoá 

tíci 



ii Lufiadas de Luts de Cantões Co7íimentad<ísl 

deu livremente, fica dito atraz. E affim mcfníQ Ihado para a recebcr:& afíiinfe lhe ajunta 'a todo^ 

como hum fugio para terra, & outro ficou na Ar- & a cada parte por íi juntamente , como fórm* 

mada. O que ficou na nao vendo como não pu- fubftancial, & cfícncial. Da qual , & do corpo Iç 

dera fugir, determinou levar Vafco da Gama à faz o verdadeyro homem , como diz o B. Santa 

Cidade Quiloa> que cílá na mefmacofta, dizendo Thom. i.p.q.90.art,2,c.4..0bra com tudo a al- 

quc nella havia Chriftáosjôc como tivcflb os Por- ma no coração muy tas coufas que. ajudaó muyta 

tuguezes no porto,mexericallos com ElRey,di- para a yida,o que naó faz nas outras partes do cor* 

zendo que eraó Piratas, deílf uidores do mundo, po , como dilfc Mantuano tratando do coraçaõi 

que nenhum outro officio tinhaó fenaó roubar, da gloriofa Virgem Maria NoíTa Senhora na luf 

& aílolar os portos aonde chegavaô. Pai thenicíc: 

Cor friftí, ex tilo ejuoniam dejcmdit in úttuk 
yitalis calor, 4 pleno feu/lunJínafifjfef 
^4* ' ll/fc primfi ílomus vita, 

JAorayo Afollmeovtfitava^ 
OsmoyitesNabatheõs accendtdoy 

giuandoGamacosfeus determinável ^ j.. . . ^J ^ .• r .. 

T>evir por agua aterra afercebido, £ ;^^'^ ^^^^^f inundado ttnha a terrA 
Agente nos bateis fe concertava, ^ j^//''^' ^'í' fthtoneceffarto: 

Como refoííe o encano já fabtdo: Efoylherefpondido em fim àe guerra: 

Mas pode rufpeytarfi' facilmente. Ca/, do que cuy dava muy contrario. 

§ue o coração prefago nunca mente. Tortfto,& porque faae quanto erra, 

^^ i- r / .a ^emficredefiuperJidQadverJarto, 

Ido rap /ípollmo vífitava.Dtkrtvt aqui oPoe- Apercebido vay comopodia , 

ta o tempo em q Vafco da Gama foy fazer agua- Em tres bateis fomente que trazia. 
da, quefoy fahidojá o Sol : porque a noytepaf- 

fada naó pudéraó delcubrir agua , guiados pelo E maistamhem. Hum dos Pilotos, que o Soltaõ 

Piloto Mouro, que lhe dera Soltaõ de Moçambi» deu a Vafco da Gama, lhe defcobrio a determina- 

que. O qual naó deu com ella, ou pdr andar com çaó dos Mouros,que era deftruir os Portuguezes, 

o fcntido occupado em ver fe podia fugir: ou por depois que fc certifícalle ferem Chriftãos. Pelo 

naó querer: ou por perder o tino do lugar aonde que Vafco daGama íefahio logo do porto deMo- 

cftava. E o mais cerco parece, pois era pratico na çambique citando huma legoa defviado, onde 

terra, que andava entretendo os Portuguezes p^- os Mouros lhe naó podiaó fazer mal algum. Dalli 

ra ver leíe podia por algum modo eícapulir , ôc tornando a Moçambique a pedir o Piloto, que lhe 

porfe em falvo. Rayo Apollmto , rayo do Sol, cha- fugira da nao^ lhe fahiraõ íeis bateis de gente ar^ 

ma-fe aílira , porque entre outros nomes que Q mada com arcos, 8c frechas, eícudos, & lanças, os 

Sol tem, hum he ApóUo. Mojites Nahatheos. Saó quacs Vafco da Gama fez fugir com artelhariaq 

montes da índia, chamados aílim de NabathRey levava. lílo concaCaftanhedalib.i. cap.7. Joaò 

delia, como lhe chamou Ovidio nas Metamor- de Barros cap.4. 1. Dtc. diz, que vendo Vafco da 

phofes lib. I. Gama o mao propoíito dos Mouros , mandou fa- 

^ue o coração pre^ago nunca mente. Diz Ariftote- Zer íinal de paz,como que queria eílar à falia com 

lesylíh.i.departtbusímmicca^.^. que ocoraçaõ do cllcs, 6c acodindo logo o Mouro dos recados, (e 

homem he fonte, 6c origem de quanto nelle ha começou Vafco da Gama aqucyxar do que lhe 

bom. Outros Philolophos , como refere Cícero, crafcyto,quc elle naó queria preceder como me- 

/i^.i.í/íi/íu;«íír.quizeraõ que o coração foíle a ai- reciaó taes obras, que lhe mandafie entregar o 

ma. Outros punhaó a fabedoria no coração: a cu- Piloto, & hum negro que Ihefugiraó? ôccomifto 

jaimitaçaó os Latinos, ao homem avilado cha- ficaria latisfeyto. Arcpoíla do Xeque foy , que 

maõ cordato^ de cor , que he o coração. E os Ro- cllc cftava muyto cfcandalizado dos Portugue- 

inanos chamavaó aos prudentes cí»'cti/i, como diz zes, pois lhe matáraó , & tcrirnó alguns dos icus, 

Plinio lib. 7. cap. 31. Daqui chamaó os Poetas ao fazendolhe elles fcfta ao ufo de lua terra , & que 

coração prefcU^o, ác})refagio vcxho Latino,quehc naó fabia de Pilotos, quejá lhos rinha dado, que 

entender huma coufa agudamente antes que a- fe elle quizcflc os bufcafic pela terra, ou mandaf- 

contéça, como diz Ciccro no lugar allegado. O febulcar. No fim deftas palavras Icmclpciar re- 

quelh'e vemdefer allento , & morada da fabedo- poíta ferecolheo para o Xeque , donde fe levan- 

ria. O que havemos de entender acerca do cora. tou humagrita, & traz ella começarão a chover 

çaó he, que nem healma, nemaflento principal fettas. lílo heo quconoílò Poeta aquuliz, que 

delia, nem tem primcyro alma , nem vive roais q mandando pedir o Piloto, lhe foy rciponàido eu 

os mais membros. Portpe a alma he creada por fom de guerra. 

Deos em hum mcfmo tempo toda de nada, dentro ^^em/e crede feu pérfido aãverfario. Ha hum áu 

no corpo , quejá cítá organizadameiue appare- to do Philofopho Epicharmo muyto cclebrad( 

enirí 



Canto TritniyYo. 
entre os G/cgos, vive muyto tcirpcradamente,& 
não te fies de ninguém. Na qual lentença o Phi- 
loiopho dádous avilos aos homens, que pretende 
viver politica, ôc honradamente. O primeyro, q 
yiváo temperadamente , 6c ponháo freyo a feus 
apetites. O legundo, que íe naó fiem de ninguém. 
Donde Cicero referindo a Epimarcho: ^uam eh 



33 



í>ÍW 



Q 



88. 



rem Epimarehion illud lemto , nervos , atejue artusfa- 
fUntia^ non temere credcre : a força do íaÊcr confiftc 
cm naó crer temerariamente. Crer hum homem 
ludc&atodos, hc fraqueza de entendimento: Ôc 
naó fefiar de ninguém hemá inclinação. Efe os 
homens, qucfeentcRdera, noscnfinao, que nos 
não fiemos de ninguém : muyta culpa teria quem 
.ftfiaílbdeinnnigos,& Mouros pérfidos contrá- 
rios da noflalânta Fé Catholica, quaes efleseraó: 
os quaes náo trataó mais q de enganos,&cmentn'AS. 

MAs os Mouros que andavão pelapraya 
ToY lhe defender a agua defejada^ 
Hum defendo embr^çadOi ó* de azagaya^ 
Outro de arco enmrvadOi& fetta hervada, 
Efperaõ que aguerreyra gente fayay 
Outros muytosjâpolios em ci liada: 
E porque o cafo levefe Ihefaça^ 
^oem hunsjpoucos diante for negaça. 



Vai no corro/àngnineo^o ledo amante^ 
_ Fendo afermofa dama defejada^ 
O touro bufe a y &p6ndofe diante, 
Salta ^ corre ^ afovta, acena , & brada. 
Mas o animal atroceneffe inílantey 
Com afronte cornigera inclinada^ 
Bramando duro corre ^ & os olhos cerra j 
^erriba^fere mata, & f cem por terra, 

Çiualm corro farjgutTieo. O engenho do noíl© 
Poeta, fua erudição, copia,Ôc propriedade nas pa- 
lavras, & íentenças: fe vé afíirn ncíta , como em 
outras comparações. E porque cila eftá clara pa- 
ra os que labem Latim: para os que onãofabem 
declararey algúas palavras. Afloviahc próprio de 
homens, que andaó em corro de touro , os quaes 
lhe afibviãc. para que er^tcnda nclles. Animal a- 
trozcheo touro, quer dizer animal cruel. Fron* 
te cornigera, he fronte com cornos. 

Os olhos /erra, lít o he próprio do tou ro quartdo 
fe chega perro dapcíloa , para a levar , ierrar os 
olhos. Fclc que os que tem experiência difto, os 
efperaõ muyto confiadamente, íem lhe acontccci* 
dcfaílrc algum» 



8 9. 



ToeM hum foucot diéinte por negada. Como os nof- 
fostinhão ntceíJidadc de fazer aguada , & vira6 
que a náo podião achar de noyte , determinarão 
fazela de dia. E logo Vaíco <ia Gama mandou 
dous bateis com u).ko armada para a fazerem a 
pezardos Mouros. Os quaes dérãomoflra aosnof- 
losrm hutn efca«)pido , que citava -entre apraya, 
&apovoação, como dous mil: mas logo lereco- 

Ibéráo t1ctr;âz de hum rcpafo de madey ra > «mu- Jàfoge o efcondido de medrofo, 
Ikado de ícrra, qjae fizcraó p'*râ íc defender dos E morte O defcuberto aventurofò, 
»o|Jgj. , . _ , ^ ^ ^_ ^^ 



P // nós bateis o fogo fe levanta 
*^ Nafuriofa, ^ dura artelharia, 
A plúmbea pèU mata^ o brado efpanta^ 
Ferindo o ar retumba _, & affovia. 
O coração dos Mouros ft quebranta^ 
O temor grande iO fangue lhes resfria^ 



o-. 



A Ndãopela ribeyra^ alva^ arenofa, 
^^ Os bellicofos Mouros acenando^ 
Com «adarga^ ^ com a hafteaperigofa^ 
Osfort-es Tortugnezes incitando: 
Na& fofre muyto a gente género fa 
Andar lhe es cães os dentes amoflrando , 
^alqiier em terra falta tam Itgeyro^ 
ís^e nenhum dizer pôde ^ que he primeyro, 

^nefao peUrihfjfra. Vay o Poeta profeguindo o 
qucjps Mouros Ue Moçambique faziáo contrics 
ncífos Portuguezes , dtpois que quebrarão as pa- 
Xcs. Aflim cífa ojtava como as outra* que fefc- 
£ncm faô muyto claras, Sc náo tem ncccffidadc de 
cxpofiçaó. • ' 



- Misnosiratdt o fogo (t Uvantâ. Como Vaíco dá 
Gama vio andar os Mouros pela praya,& tão per- 
to , que cora as pedras que tiravão , chcgavão aos 
bateis.Mandoulhe hum prefente de pilouros com 
que não ficáraóbcm da efcaramuça. 
Vlumbea pela. He o pilouro.chamado affim dcplíí* 
bo, quft hc o chumbo de que le faz. 



N Ao fe contenta 4 gente Tortugueza, 
Mas feguindo a vitoria efirue^&matai 
Afovoaçâofem murOj &fèm defeza 
Esbombardeaj accende^ & desbarata, 
T>a cavalgada ao Mouro jà Ihepefa^ 
^e bem cuydou comfrala mais barata. 
Jà blasfema da guerra ^ ^ maldezia 
XJ velho inerte^ & a may que afilho cria, 

E Kí»5 



^^ Luftadas de Luís de C^mSes Commentédoi, 

l^aòje contenta agente Ffirtuguez^a, Naó íê con- 6c alr^adias he tudo huira mefína coula,& porque 

tentarão os Portuguczes, com o que fizeraó aos o Poeta ula nella Oftava de ambos os nomes,naõ 

Mouros , que andavaó na praya: mas esbo mbar- cuydt quem o ler que ha algúa diffcrcnça: ainda 

dearaólhe a povoaçam, Sc pozcraôlha por terra, que ha em os panga) os ferem mayorcs , & terem 

por fer de calas palhaças íeni muro , nem dcteza, velas: o que as almadias não tem, que laó mais pe* 

como aqui diz o Poeta. qucnas. 

O Felho inerte,dr' a mãyqofilho cria. Velho iner- 



te quer dizer veJho deiazudo, & fem arte: entende 
aqui o pay.Diz que os Mouros varejados dos Por- 
tuguczes diziaô mal de feuspays,5c máys. Alguns 
declaraó aqui, que o velho inerte , & a máy blas- 
femava da guerra:porque vendo os filhos fugidos 
a fuás cazas, eraó elles forçados a dizer eftas pala- 
vras. 



^3- 



TOrnão vttoúofos fará a armada^ 
Codefpojo dá guerra^ & ricafreja.j 
E *vão a Jeu prazer fazer aguada. 
Sem achar refiííenciaj nem defefa. 
Ficava a Maura gente magoada. 
No odío antiguo mais que nunca accefa. 
E *Ví fido/em viftgança tanto dane^ 
Semente eBrtba nojegundo engano, 

7 ornarão V itoriofoi. "D t^ois que os noífos íaqueá- 
raó os pangayos dos Mouros,& lhe tomíraó quã- 
to acharão, recclheraófe para a armada, & ao ou. 
tro dia fizeraó aguada fem lho contrariar alguc. 

PAzes cometer manda arrependido^ 
O Regedor áaquella tniqua terra , 
Sem fer dos Lufitanos entendido j 
^e em figura depAZ lhe manda guerra: 
Torque o Ttlctofaljo prometido , 
^e ti/da a ma ttnçho nofeyto encerra y 
^ara os guiar â morte lhe maJidava, 
temo em final das pazes que tratava» 

Pazei ctmettir ntanda arrepenJido.Venàoíc o Xe- 
tras varáfaõcm terra,& feí^ilvou a gemeras quacs quetan^ apertado dos ncflos, & que fe perfcve- 



F1)gindOj afetta o Mouro vay tirando 
Sem força j de covarde^ & de aprej^adoí 
Apedra^ o pAO,& o canto arremedando , 
*Dalhe armas o furor defatmado. 
Já ã Ilha, & todo o mais d efemp arando 
A terra firme foge amedrontado^ 
*Pajfa^ & corta do mar o eflreyto braço^ 
^e a Ilha em torno cerca^empouco efpaço. 

Fugindo afetta o Mcuro vay tirando. Como os 
Mouros viraó os noílos uecerminados , puzeraó- 
Ic em fugida, & lançâraó-fe em almadias, que alli 
tinbaó , da outra banda da Ilha. VafcodaGama 
fcfoy com CS feus Capitães aos bateis , para ver 
fe podia tomar alguns Mouros, para haver por el- 
les huai negro , que fogira ao Piloto da lua nao, 
&huns índios que eítavaô cativos em Moçambi- 
que. Paulo dà Gama nmaó deVafco da Gama 
tomou quatro cm híia almadia, que todas as ou 



os noílos faquearaó do que levavaó. 

Dalhc armas o furor defatinado, A inàtaçaó de 
Virgiho na Eneida lib.i. JEntid. ramque faces, (^ 
Jaxa voUnt furor arma minijlrat» Tiram paos,& pe- 
dras,, a fúria lhe dá armas^ 



91- 

Huns vã o nas almadias carregadas 
Hum corta o mar a nado diligente^ 
^uernfe afoga nas ondas encurvadas ^ 
^em hebe o mar^^ o dey ta juntamente. 
Arrombào as meudas bombar dadas 
Os pangayos fubtis da bruta gente ^ 
*Defia arte o 'Portuguez em fim cafiga 
A vil malícia j pérfida^ immiga. 

Hum vaonat almadias carregadas. Pinta o noíTo 
Poeta aqui a preíla com que os Mouros fugiaó , ^ 
nem para fe embarcar lhe dava tempo o medo. 

OtfangajQsfnktit, Como fica dito, pangayos, 



raíTe na lua contumácia , lhe qucymariaõ os na- 
vics, & povoação: aconíclhado do grande medo 
que rinha, mandou o feguintc dia pedir paz, & 
concerto a Valco da Gama, dando defculpado 
paíTado. E mandoulhe hum Piloto experimen<^j 
tado no caminho da índia, em lugar dos outros q 
antes lhe dera: hum dos quaes dizia fer lançado 
pelo fertaõ dentro com iredo do caíligo que lhe 
houvera de dar , le o colhera \ maó , & o outro 
fer morto cem a artelharia. E foy tal cfte Piloto, 
que fe Deos milagrolaméte não guardara os nof- 
los,ellc por muytas vezes os iretco cm partes, on- 
de tinham certa lua perdição , como contalarga-i 
mente Joaõ de Barros lib.4. i. Década cap.5. 



^5- 

O Capitão queja lhe então convinha, 
7 ornar a [eu caminho cvjlumado, 
^e tempo concertado, ^ ventos tinha, 
Tara ir i^ufiar o Indo defejadox 

Rece- 



Canto Tnmfyrà^ H 

Recebendo o ^ihto que lhe vinha ^ 

ff,y àelU Jlegremente agazalhado, ^ § , 

As -velas manda dar ao laigo vento. Jh^ ^.^ 5«. Synm aosPhrygws engamn, 

O Capitai t^ae]4 lhe entad convinha. Vendo Vaf- bJueferto eftà hua Ilha cujo afftnto 

CO da Gama , que o tempo nao era para muytas c^^^^ ^^f- ^ Cbriíiâor/mpre habitou. í 

TCDlicas.& que mais lhe convinha o Piloto, que i-v/- ^v- ., * j n ^ ^ I 

remenda dos mouros, com palavras confirmes OCafttaoqueatudoeJiavaatento, ^^ 

ao cafo, acevtou o Piloto : o qual mais foy hum -^ ^^^^ ^^^ ^J^^^ novas fe alegrou, 

capital inim'igo, que Piloto: porque por muytas ^e com dádivas grandes lhes rogava^ 

vezes os houvera de deftruir , íe Deos milagrolà^ ^e o kv€ à terra^ onde ejia gente ejtavãl 



mente os naó livrara. 



^6. 



DEHa arte defpedida a forte armada, 
As ondas de Amfhitrite dividia, 
^as filhas de Nereo acompanhada, 
Fiely alegre j & doce companhia, 
O Capitão (jue não cahia em nada 
2)<? engano fo ardil^ que o Mouro urdia: 
^elle muy largamente fe informava^ 
^alndiatoda, ^ cojlas quepaffava. 

As màdiàe Amfhitrite. Amphitrite , dizem os 
poetas quctoy filha de Oceano ,& Doris, Sc mo- 
Iher de Neptuno Senhor do mar , pelo que fe to* 
mapelomefmo mar, como o faz aqui o Poeta. 

Das fJbas de Nereo acowpanhaJa. Nereo fingem 
tartibem fer lénhor do mar, filho de Oceano , & 



Com ^ueSjf^cn os Vbrygios enganou, E fiando os 
Gregos fem efpcrança alguma de tomar Troya> 
depois de dez annos de cerco: fingirão querelo le- 
vantar, ôt recolherfe para Grécia. Fizeraó por 
conítlhodc Ulyfles hum cavallo demadeyra, o 
qual diziáo oíFerecer a Palias , por certo aggravo 
que lhe tinhaó feyto, para lhes não íer adv erfaria; 
Meterão no cavallo a principal gente dos Gre- 
gos, li porque tinha huma porta em hum lado^ 
por onde agente havia de fair , fizeraó fugidiço 
hum Grego por nome Synon, có ordem de abrir 
o cavallo à tempo fínalado. Synon entrou em 
Troya fingindo ir fugido dos Gregos , por oque- 
rprem matar por ccnfelho de iJlyfies, qucJhe 
queria mal. Foy logoprefo, &. levado diante de 
ElRey Pnamo, o qual não iómente não co nfen- 
tio íe lhe fízefie aggravo algum: n;as lhe proniet- 
teo muytas honras,&: mercês quietandofe em fuás 
terras. Como Synon lev.ivn outra determinação^ 



Tethys, ou fegundo outros, de Oceano, & da ter- vendo heras opportunas abrio o cavallo , fahiraò 

ra. Eíle foy calado comhúairmãa fua chamada os que eftavaó dentro, & dando final à armada, cj 

Poris, da qual houve muytas filhas, a que os Poe- eftava pcrto^ a qual os Troyanos cuydavão fer ida. 

tas chamaó Nereidas, que quer dizer filhas de Ne- de todo, entrarão , & afibláraó tudo a fogo , & a 

reo , como lhe chama aqui a Poeta. Querem ai- ferro,coroo conta Vii gilio na Eneida lib.2. que 

guns que foflem cincoenta: de cujos nomes fe veja diz aqui o Poeta he que o Piloto com palavras fal- 

'" ' '" ^-' c^ ■> fas, 6c mentirofas, determinou encanar os Portu* 



Hinginio no principio de fuás fabulas. 

MAs o Mouro inflruido nos enganos, 
^e o malévolo Baccho Iheenjindra^ 
■ íDé" morte j ou cativeyro jíovos danos. 
Antes que à Índia chegue^ lhe prepara, 
\ ^ando razão dos portos Indianos ^ 
Também tudo o que pede lhe declara*, 
^e avendo por verdade o que dizia^ 
T)e nada a forte gente fe temia, 

Mat Mouro. Como Conta Joaô de Barros nas 
Decadas,eíle Piloto que o Xeque mandou a Vaf- 
co da Gama , procurou dtltruir a nofia armada, 
& diz o Poeta , que o fazia inflruido por Baccho. 
Vcja-feo queefcrevcmosatraZiOytava 75, 

Adalenjoio Baccho.Bzccho inimigo, & que queria 
mal aos Portuguezes pelas razões ditas. 



guezes, como Synon enganou os Troyanos. 

OMefmo ofalfo Mouro determina^ 
§lueofeguroChrifiâo Ihemãda^é^pede^ 
^e a terra hepojjuida da malina 
Gente j quefegue o torpe Mafamede, 
Acfui engano^ & morte lhe imagina j 
Forque em poder j &fvrças muy to excede 
A Moçambique efia llha^ quefe chama 
^lílâa , muy conhecida pela fama ^ 

O mejmoo faljo Alouro determina. Os mcfmos dc- 
fejos, ainda que com muy difiei ente dclenho,iinha 
Vafco da Gama, & o Mouro. Ambos dcíejavâo 
ira Quilóa, mas o Capitão mor puramente por 
vcrosChriftãos , que lhe diziáo haver nella: oco 
Piloto para deílruir os Portuguezes > o que podia 
fazer mais facilmente, que em Moçambique, pof 

El " haver 



.^ 



^6 



Lujiadat de Luís de Camões Commentaâos, 



haverem Quilòa muyto mais aparelho para iflb, 
por ler terra de muy ta gente. De Quilóa fcveja 
atrazaOcl:ava54. 

100. 

PÂra lâfe inclinava a leda frota ^ 
Mas a T)eofa em Cythera celebrada^ 
yendo como deyxava a certa rota^ 
Toyíy bufe ar a morte naÕ cuydada. 
NaÔ confente^ que em terra tam remota. 
Se perca gente delia tanto amada ^ 
E com ventos contrários a defuia^ 
"Donde o Tilotofalfo a leva, ^guia. 



Mai o malvado Mouro naõ podendo. V èáo o Mou* 
ro que não podéra levar os nollos à Cidade de 
Quilóa, nem fazer) he nojo nos bayxos de S. Ra- 
phaeljdeterminou levalos à Cidade de Mombaça 
mcfma cofta com o mefmo intento de lhe fazer al- 
gum mal: dizendolhe que nella havia Chriftãos, 
como lhe tinha dito de Quilóa : o que tudo era 
falfojcomo o Poeta diz na Oitava feguinte, 

lOl, 

TAmbem nejlas palavras lhe mentia^ 
Como por regimento em fim levava: 
Smc aquigtnte de Chrifio não havia. 
Mas a que a Mafamede celebrava, 
O CaptaÕ que em tudo o Mouro cria, 
y ir ando as vellas a Ilha demandava. 



V ar a U ft inclinava a leda frota. Naõ fofreou 

maldade do Mouro, & o grande ódio, que tinha ,-■ ^ j cw^ r 

aos nofios, dilatar fua má tençaõ, pelo que deter- ^^[ ^^^ querendo a \Deofaguardadoray 

minou deftruillos antes que chcgaílem a Quilóa. ^aõ entraj^elabarra^ &furgefôra 
E aíTim deu com a armada em humas Ilhas, affir- 

roando ler terra firme, com propoíito de a acabar. Como for regimento emfm levava, Efte regimenw^ 

&confumiralli. Mas colhido pelos nofios no en- to era do Xeque de Moçambique: o qual tinha 

gano, êc mentira que difiera , foy muyto bem a- dado per regimento , que ou cm hum lugar , ou 

coutado. E por eíia raião hoje em dia íe chamáo outro procuraíle deflruir os Portuguczes. 

cftas Ilhas do Açoutado : asquacs cftãoálemde Noo enira pila ha}ra,érfurgejéra. O Fúoxociui' 

Moçambique lellenta legoas. O Mouro, como 'zera meter os navios dentro do Porto deMom- 

fobre hum ódio natural, felhe acrefcentou outro baça , o que Vafco da Gama lhe naõ conícniic, 

dos açoutes , determinou levar a armada a Qui- porque o tinha em ruim conta , & delconfíava já 

lóa, pelas razões acima ditas. Quiznoflo Senhor dcllc. Inda que diz aqui o Poeta, que o Capitão 

que defejando Vafco da Gama muyto ir a efta Cí- o cria cm tudo, o que fâZ para attribuir a Vénus 

áãdc, cuydando fcr verdade o que fedi7ia delia, a guarda dos Portuguezes: pelo que mandou lur- 
que era ter Chriftãos Abexins, & outros da Índia: 
não tiveraó effeyto feus defejos , porque com as 
correntes grandes cfcorreo huma noyte o porto. 
O que vendo o Moui/o, os meteo em outro peri- 
go núopequeno, que foy dar como navio S.Ra- 
phacl cm feco em huns bayxos , os quaes defte 
luccefib fe chamaó hoje os bayxos de S. Raphael: 

.anda que o Galeão fenaó perdeo defta vez nefte G^e na fronte domar app are cia: 

peripo, mas perdeole a tornada alli. rrí- / j\c ' 4^At:^^j^ 

^ MasaDeofaer.Cy:berecelehada.EmcndcVc. "^^ nobres edlfcios fabricada. 

nus , a qual os antigos errados tinhaõ por Deofa (^omo por fora ao longe defiobrta 

dos amores. Eíl a tinha hu templo na Cidade Cy- Regida por hum Rey de antígua idade ^ 

thère de Chypre. Finge aqui o Poeta, que Vcnus Mombaça he O nome da llha^ & da Cidade, 
favorecia os Portuguezes pelas razões , que clle 

meímo dá atraz, & que cila deíviára a nofla arma- Momhàça he o nome dg Ilha, & da Cidade. Como 

da de Quilóa. Pie fingimento Poético, para ornar os nolTos houvéraó vifta de Mombaça , alegra- 

fuahiíloria. raõ-le grandemente, parecendolhe,queentrava5 



gir fora 



103, 



Estava a Ilha à terra tam chegada^ 
^ehum ejheyt 6 pequeno a dtviaiat 
Hua Cidade nellafituaday 



lOl. 

MAs o malvado Mouro, nao podendo 
tal determinação levar avante^ 
Outra maldade iníqua cometendo, 
A inda em feu propofito confiante: 
Lhe dizj que pois as aguas difcorrendo. 
Os levarão por for f a por diante: 
^e outra Ilha tem perto cujagente 
Er ao Chriflãos com Mouros juntamente. 



em algum porto deÊfpanha, por fer a Cidade 
muyto fcrmofa, com edifícios de pedra, &: cal, 
eyrados, & janelas , ao modo de Efpanha , & de- 
fronte do mar. Mas os Portuguezes furgiraô fo- 
ra, como fica dito, por ícnão fiarem do Piloro , ao 
qual davaó pouco credito , por o terem colhido 
cm outras. Da Cidade Mombaça feveja a nofla 
annotaçaõ atraz, Oftava 54. 



JE fenda 



104 

E Sendo a eíla o Capttaè chegado, 
Efiranhamente íedo^orquee/pera 
*De poder ver o povo baptizado. 
Como ofalfo Ptíoto lhe dtjfera: 
Eis vem bateis da terra com recado 
7)0 Rey.quejafabiaa gente.queera^ 
^e Baccho mtiyto d' ames o avifara, 
^a forma doutro Mouro ^que tomara. 



Canto Trimeyro* j 7 

coftume da terra , entrarem no porto as náos que 
vinhaó de tora: porque não o fazendo affim, fe ti- 
nha ruim fofpey ta dcUasipor haver naquellas par- 
tes gente de runn titulo. 



I 0(? 



I^T O mar tanta tormenta^ ò tanto dano^ 



Tantas vezes a morte apercebida^ 
Na terr a ta?ita guerra itanto engano j 
Tanta necef (idade aborrecida^ 
Onde pode acolher fe hum fraco humano^ 
Qu, Baccbo mup d'antes. O mefmo ardil q te Onde fera fegura a curta vida, 
ve Baccho como o Xeque de Moçambique para o -^'^ nao fe arme,& fe indine o Ceo ferem, 
meter mal com os Portuguczes , ulou com o de Contra hum bicho da terra tão Pequeno, 
Mombaça , o que taó pouco lhe aproveytouem 



huiuapartccomocm outra. 

O Recado que trazem he de amigou 
Mas debayxo o veneno vem cuberto 
^e 05 pfnfamentos eraõ de inimigos. 
Segundo fo) o engano defcuberto, 
O grandes y& gravtffimos perigosl 
O caminho de vida nunca certol 
^e aonde agente põem fua efperança^ 
Tenha a vida taÓ pouca fegurança. 



giue nao fe arme , c^ fe indigne o Ceo fereno. Para 
encarecimento das miíerias da vida humana , ^ 
pouca conftancia delia , uía defte termo de fallar: 
que atè o Ceo fe indigna , gc toma armas contra o 
homera,ao qual chama bicho pcqueno,6v com ra- 
zão, pois de todos os animaes elle he o menor , af- 
fim na felicidade como nas mais couías , como diz 
o Poeta Menandro. 



Antmalia cuntla felicijfima funt. 
Et multo magts ^nant homims (apiunt* 
Vrtmum intueri Itcet afinurn ifium, 
Gltútndubte animal efi mt(erunj, 
Ntl tjrmn malí^èfua culpa nafcitur, 
~ O recado <jtte traz,em he de amtgoi. Tanto que os Sedejua natura tpfí dedit.eahabet. 
da Cidade Mombaça houveraó vifta da nofla ar- Naí vero prater neeeJJaria^maUf 
mada , mandarão logo a cila quatro homens dos Ipfa per nrn alia nohis tnfuper adijcimui: 
principaes da terra, legundopareciaõ, por irem Dchmus fiCjuis fiernuerit^fi mak dtxerit, 
iruyto bem tratados. E chegando a bordo per- lrafcimur,lí tjaii viíiertt infotJinium,vaUè 
guntàraõ que gente eraõ, 6c o que queriaó. Vaf- Terremur^fi noâlua vlulavtrit ^mttuimur, 
coda Gama lhe refpódeo que eraó Portuguezes, 
que hiaó à índia ; & que tinhaó neceffidade de 
mantimentos , que iflo os obrigava chegar alh". 
Moftràraó os Mouros muyto prazer com lua che- 
gada, t fizeraó lhe grandes oíFerecimentos , & 
promefias. E náo lardáraõ muyto com outro re- 



t^^rumna.opimemtyamhttionesjegeí, 

IJía omnia prteter naturam,& afeita mala funt» 



Todos osanimaes,diz o Poeta Menádro,faô fe- 
liciflimos, & fabcm muyto mais q o homem. Pon- 
de os olhos em qualquer animal , & vereis que os 



cadod*EIRey, que folgava muyto com lua chc- males que tem náo lhe vem por fua culpa. O ho- 

gada , 5c que elle os proveria de todo o neceífario, mem alem dos neccflarios tem outros cem mili 

& lhe dana carga de efpeciana,8c lhe faria todo o que elle per fi grangca , fem ter huma hora de 

gazalhado que folie em fua maõ. Mas que era goílo. 

^on tiT: >';Oín r 




os 






«8§ 



OSLUSIADAS 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commentados pelo Licenciado Mamei Corrêa. 1 

ARGUMENTO. 

Dar El-Rey de Mombaça o fim prepara 
Ao Gama llluftre, com mortal enganO) 
Defce Vénus ao mar, a frota ampara, 
E fallar íobe ao Padre foberano: 
Jove os caíos futuros lhe declara, 
Apparece Mercúrio ao Luíitano, 
Chega a frota a Melinde, & o Rey potente 
Em feu porto a recebe alegremente. 

CANTO SEGUNDO. 

Nefte Canto fc relata o que aconteceo a Vafco da Gama em Mombaça J & fua 

chegada a Melinde. 

'-' j ^«c flí hoYSíi vay do ãta ãifiw^uindo. Porque com 

JA' nefíe temfo o Lúcido flaneta, £" ^"'■l°' ^ '^«>7'^-='"" ""^ ^»^ 7;"°. '""^^jl' 

m 1 ^ j 3- ,./i- • j & horas.coiDO refere Ovídio nas Metamorpfeolis 

Gíue as horas vay do dia dtftingmndo, y^^^-^ principio. 
,_ Chegava á defejada,& lenta meta^ Chegava à àt{t\aàa,& lenta Meta. Meta entre os 

/^/uz celejie as gentes encobrindo; Latinos era huma baliza feyta de pao , ou pedra 

E da cafamãfítima [ecreía tm modo piramidal, que fervia nos defa fios deca- 
LheeJlavaoDíOS Noãurm a porta abrindo vaJlo por alvo, & fim da carreyra. Fuferaó-lheos 

^mndo as infidas crentes (e checarão ^"^'g^s efte nome de Mmcr, verbo Latino, que 

jítvt^n, \ ' ^ ^^-^ quer dizer medir, porque ícpunnaoaquellas bali- 

At mos. que pouco ^■ota,que ancorarão. l^^ ^^j. ^^ „„„ \f^^^fi^ ^ J j^^„ ^ conveniente 

là nep.e tempo o LucUo Planeta. Defcreve o Poeta ílquelle excrcicio,&: carreyra. D'aqui fe toma pe- 

o tempo em que os Portue;uezes chegarão a Mom- Io fim de qualquer couía. Meta defejada do Sol, 

b.ça , que foy hum dia já pofto o Sol , a fcte de he o tempo da tard^no qual fingem os Poetas,que 

Abril de 1498. Lúcido Vlaneta fe chama o Soljpor- eJIe acaba íeu cui To. Chamalhc o Poera aqui len* 

queelle fò tem luz, que hea razaó porque fe cha- ta,qucquer dizer vagaroía: naõ porc^icofofíe, íe- 

mn Sol , que quer dizer fó. E a que tem os mais não, porque os deícjos que tinha de 'chegar á cala 

Pia ieta5,8cEftrellas,delle a recebem :como dizem de Thetis Senhora do mar , cnde hia dcfcançar 

os Philofophos,que melhor fe ntem. dos trabalhos do dia, lha fisziaô parecer tal. 

Lhe 



Lu/iaãas de Luis de Camões Comm enfades^, 5^ 

Lhe ejlava o Dm Noãurnoa porta abrindo. Eíle porque nâohacouía que o quebre, ou abrande. 
Tc ehama Erebo , o qual os P ©etas tazem caiado l^or cfta razaó lhe chamâo os Gregos adamas,que 
com anoytc, &PorteyrodoSoI, quando le reco- quer dizer indomável. Oi autores tem introdu- 
Ihe depois de feyto ícucurfojCroacaía de Thetis, ZÍdohuniacoula,ques experiência tem moíhado 
que hc o roar. Outros querem que ieja hum rio ler falfa , que o diamante lé abranda com langue 

de Bode quente,Sí frelco. O contraiio aconiclha 
Solino cap. 65. &le guarda hoje 1 qucheroçaríc 
hum com outro,& d^outra mancyra hô trabalhar 
de balde. 



do Inferno. Saó coufas de Poetas. 



DE entre elles hum , q traz ene omi dado 
O mortífero engano^ ajfi dizia: 
Capitãovaiero/o^que cortado 
Tens de Neptuno o Reynojèfalfk via: 
O Rey que manda efla ilha ^alvoroçado 
^a vinda tua^ tem tanta alegria^ 
^f naÕ defeja mais^que agazalharte^ 
Verte j& do íHceffario rejormarte. 

Ve entre elles burn. Dos homens que fahiraõ de 
Worobaçâ faliar ao Capitão mór Vafcoda Gama 
da parte do Rey da terra , hum lhe tez efta pratica 
que o Poeta vay recontando por algumas oyta- 
vas. 

i Engano ntorttfero. Engano mortal. Salfa via. 
Caminho faleado. Chama aíTim ao mar por fer de 



5. '. ..-'^,,\., 

AO menfageyvo o Capitão reffonde^ 
As palavras do Rey agradecendo\ 
E diz^que porque o Sol no mar fe efconde, 
Não entra par a dentro obedecendo: 
Torém que como a luz mojirar.por onde 
Và femperigo a frota^nào temendo^ 
Compriràjem receyojeu mandadOy 
e a mais for taljenhor ejtàobrtgado» 



Ao menCageyro o Capitão refponde. Como Valco 
da Gama vinha períuadido do Piloto da fua Nao, 
quehiviaChriftáos naquclla Ilha, & os Mouros 
que o vifítáraó da parte do U ey delia, concordara 



agua lalgada. A razão íe veja de Vcnegas,no livro com leu dito, determinou entrar no porto , como 



natura],onde trata àc natura rtrum, 

:•■ 5 

ETorque eftà em eflremo defejofo 
2)<f te ver, como coufa nomeada^ 
Te roga que de nada receofo 
Entres a barra^ tu com toda a armada: 
E por que do caminho trabalhofi 
Trarás a gente débil J3 canfada*. 
IDiz, que na terra podes reformata^ ^ 

Si^e a natureza obriga a defejala, ' '* 

E poreftte efià em e(lremo defsjofo. Os deíejos quc 
os Mour(ís moílravaó de favorecer os nollbs com 
^tantas promeflas , ÔCclferecimentos , como diz o 
Poeta na oy cava feguinte, & nefta, era com inten- 
ção de os deílruir , como ao diante fe verá. Débil, 
fraca debilitada. , " - '■' • 

^ 4 

ESe bufcando vãs mercadoria j 
Reproduzo aurífero levante é 
€anela^ Cravo ^ardente efpeciaria^ 
■Ou droga falutifera^é' preftante. 
Ou Ce queres luzente pedraria^ 
p RubtftnõjO rígido 'í)iamantei 
^aqui levarás t udo tamfobe^t 
\Çom qut faças o fim a teudefejo. 



fizera fe Deos milagrofamente o não defviára, co. 
mo adiante veremos. ^ Portjue o Sol no mar fe tf* 
conde. Porque o Sol íc põem, como íica declarado 
na primra oy lava deíle Canto. 



PErgunta^lhe depois, fe efião na terra 
Chriftãós como o Piloto lhe dizia, 
O menfageyro ajiuto ,(\ue nao erra 
Lhe diZjq a mais dagète em Chriftocri** 
'Dejla forte do ptyto lhe defierra 
Todaajufpeyta^Ò' cautafanteziet 
Tor onde o Capitãofeguramente 
Se fia da infiel j& falfa gente» 



ET>e alguns ^que trazia condenados 
Tor culpas, & porfeytos vergonhofos^^ 
Tor que pude ff em fer aventurados 
Em cafos defià forte duvido fos. 
Manda dons mais fagazes^enfayados. 
Tor que notem dos Mouros enganofos 
A Cidadela' poder. & porque vejaõ 
Os Chrijiãos que, Jô tanto ver defejao. 



E ãe al^um ^ue trazia condena Jos. Quando Vaf- 
co da Gama aceytou a jornada do dcfcobrimento 
da índia , por mandado del-Rey Dora Manoel? 
O rigidõ diamante. Chama-íe o diamante rigido, pcdio que le lhe deflem alguns homens , que cíli- 

veflcm 



j<6> '^^ "Úanto Seguido* 

védtrrSpefòs por fé^tíès grtVtfjípáràiefe-vir del- 
Ics etncalo^ de neccíridadt-,ou dpyxandôos em al- 
gumas partes , para labtrcm o que hia pela terra 
dentro, ou avcn cu rando-os em algu ns cafos de pe- 
rigo,qual ei*a éfte de Mombaçarpor fer mais jufto, 
& conforme a razáò áventuralos a elki; , pois os 
tiravaô das cadcas, ond«cftavaó prelos por cafosí 
porque niercciaõ morcé,bu infanua; 



lÕ 



8 

EToreflesao ReyfYefent es manda ^ 
'Porque a boa vontade que théftraija 
Tenha firme ^JeguYaJmpai& branda, 
A qual bem ao contrário em tudo e [fava, 
Jà a companhia pérfida ^o* nefanda^ 
1)as naosfe ãerpedta^ & o mar cortava 
Forão comgeflos ledos , & fingiãês 
Os dons da frota em ieVra recebidos, 

Tor efiei aoRey prtfentti manda. Como El-Rey 
de Mombaça fabia o que Vafco da Gama fizera 
cm Moçambique,íc qúèos noílos eraõ Chníláos, 
defcjava de vingar a injuria fey tá aòs Mouros , ^ 



MAs aquelle queftmpre a mocidade 
Tem no YoJlopcYpetuai& foynacido 
2)^ duas mãySjque urdia afalfidadt^ 
Tor veY o navegante áeJlYmdo, 
Eftava numa caía da Cidade, 
Com Yofto humano, & habitojingido^ 
Moftrando-fe QhYtftaõfè fabricava 
Hum altarjumptuefo que adorava. 



Ádat aquellt ^ue fempre a mocidade. Os Poetas fin- 
gem a BacCho , & Âpollo mancebos Icm barba, 
dando a entender,quanco ajuda á vida o bom tra- 
tamento do corpo. A Baccho tinhão os antigos 
por Deos do vinho, & Apollo da mufíca. De Bac- 
cho fe veja o que cfcreverocs no Canto primeyro, 
oy tava 75. onde dcy a razaó , porque fe chama fi- 
lho de duas mâys. 

Cem o rcfto httmam,éf habito fingido, Efta ordem 
que o Poeta aqui leva em entremeter a Baccho 
neílascouías, he fingimento muy elegante, como 
já difi'c atraz. A verdade hc , que aqucllcs homens 



com eíle fundamento màndòu dia de Ramos pfe- què Vafcoda Gama mandou a Mombaça, para fa- 
la manham dous Mouros a bordo , homens íiivos, ber o que pafiava pela terra dentro , & fc avia 
êccnfayados , os quaès diflefiem íercmChriftáos. Chriftáos como Hie os Mouros tinhaó dito , forão 
Vafco da Gama lhe fez muyto gazalhado , & lhe levados por outros da terra a cala de huns índios 
deu algumis peças,8caílim mandou humpreíente mcrcador«s,que devia© fer Chriftáos de SaóTho- 
a El-Rey , agradecendo-lhc muyto os oftfcrcci». méí os quacs vendo, como osnoflos crâoChrif- 
roentos, que cftes homens llie fazião da lua parte, tãos, Ihesfizerão mi<yta feftà, «5clhcs moftràraóíi 
Sedando moftras que eítimava muyto o que lhe figura do Elpirito Santo lobrc a Virgem Nofla 



mandara por cUes , que erâ hum anel muyto fino, 
& alguns carneyros. Com eftcs homens mandou 
Valco da Gama dous dos degradados , que levava 
para aventurar, onda fofle neccfiârío, comoficsl 
ditD:aos quaes encomendou muyto, viílem bem ia 
icrra,&: nocaircm o trato dagente,& a armada que 
tinhão no porto. Os da terra, & El-Rey lhe fize- 
raõ grande gazalhado , moftrando com rofto ale- 
gre folgarem muyto com lua chegada. 



E^Defpois que ao Rey apYefentàrao 
Co recado os pYef entoes jquetYaZíão T- 
A Cidade coYreYão/S notâraõ ' slÍ« 

Muyto menos daqui lio que quer ião, * ^ * 

êlue os Mouros cautelojosje guardàvao 
^e lhe moftrarem tudo^ o que pediãõy 
^ue onde Yeyna malicia^eftà o receyo, 
^eafaz imaginar no peyto albeyo. 

(^e onàereyna a malicia ejído recep. Coufa natu- 
ral hc,6c aíTaz cfperimentada,o homem raáo,cuy- 
dsr que todos faõ màos: & o bom pelo contrario, 
ter a todos por bons; daqui nafce, que quando o 
máo tece alguma maldade, teme, que o enteníiáo, 
como diz aqui o Pocta,& hc muyto fabidg. 



Senhora , & fobrc os doze Apoftolos , como diz 
o Poeta na oytava feguintc. 



1 1 



ALli tinha em retrato augurada, 
T)o altOj & Santo Ejptrtto a pintura, 
A cândida Tombinha debuxada, 
Sobre a única Thenix Virgem pura, 
i^ companhia fant a eftàpintadat 
T)6s doze tão turvaaos na figura. 
Como os que fó das lingoas que cairão, 
'D e fogo yV ar ias lingoas referirão. 

Sohrt a única Vkenix Virgtm pura. Chama Luís 
de Camócs à gloriofa Virgem Maria Nofla Senho^ 
ra Ave Pheniz por fer cita Ave de que os Efcnt- 
toresdizern grandes maravilbas,aífim em fer fó no 
mundo, como em fer muyto fermofa, coraodcllm 
cfcreveLaâ;ancio,cra huns vcríos elegia cos, que 
compoz de feus louvores. E porquc^eftc lugar 
não hc capaz d^ratar dos louvores de humatão 
grande Senhora, emconcluíaõ, 8c remate digo, 
que tu f o o que fc delia pode dizer, íefomacmfer 
Mãy de Deos. Quanto â Ave Phenix dis Plinio 
fíb.io.cap.i.quc hehumaíò no ttiundo,do tama- 
nho 



Lpjiadas de Luís de CaMÕes Commentadús, 4 1 

nho de huma Águia, ôc que vive leilcentos 5c Icf- lavra. Mas ( iegundo tcnhò notado na li^âo dos 

ícntaannos: & que cm Arábia he conlagradaao Poetas,mormenteGregos)Scmclcniáy de Baccho 

Sol. Quando íe lhe chega o tempo da mGrte,vay- fc chamava de alcunha Thyonc, como refere o in». 

fede Arábia a Suria, onde faz hum ninho de paos tcrprcte de Apollonio i & daqui querem que fe 

cheyroíos , que ajunta , febre o qual Ic deyta , & chame Baccho Thyoneu, O/aZ/o Oeoi adora o ver-' 

ali morre. E do feu tutano nafcc hum bichinho, Jsdtyro. Por falfoDcos entende Baccho. Verda- 

coqual íe cria outra Ave Phenix , 5c em poden- dcyro hc o que nós adoramos , ÔC profcflamos os 

do voar fe torna para Arábia. Açor diz o mcfmo Chriftàcs,o qual aquellcj índios, que eílavaó ein 

Plinio, que he vermelha toda,lRlvonopefcoço,o Mombaça, tuiháo cm huma carta pintado, 
qual tem de cor douro, 5c o rabo roxo,ôc rolado. 
U mefmo conta Solino cap, 46. 6c Ovidio lib. 15. 
Metaph. Outros dizem que náo ha no mundo el- ' 



ta Av*e,5c que tudo o que fe conta delia he fabula. \ ^'tfoYãode noyte agãfalhadõS 

)udcz cm huma Ke- -^*- ^q^ ^^^^ ^ bom^& honeHo trai 



O Patriarcha Dom Joaó Bermi 
laçaó , que fez a El Rey Dom Jo:iõ o Terceyro 
de Portugal, lobreascoufasdo Preítc Joaó , diz, 
que em huns dclertos grandes junto ao Reyno 
de Damute íe acha efta ave, ôc que os aaturacs da 
terra lhe dizíaó que a viaó.ôc conheciaó,5c que era 
muyto grande , ôc fermofa. Marco Polo Vene- 
zeano de naçaó ^ que andou muytos annos nas 
partes da índia, Eihiopia, 6c 'Fartaria, cm hum li- 
vro que fez das coulas , que vio naquellas parles, 
faz mençaó delta Ave, 6c diz, que a ha nos fins da 
Índia interior: 5c que os naturaes lhe chamaó Se- 
venda. Pus cilas coufas aqui , paraque fe enten- 
da, que ha quem fale ncíla Ave, Scqucpodefcr 
verdade que a haja , porque no mundo ha outras 
coufas de mayor elpanto:que os que náo faihimos 
de noílas pátrias, nem vimos mundo, nâo podemos 
crer, 5c nos parecem fora de toda a ordem, 5c ra- 
zão. Dos doze tão torvados na fgura, Eílcs eraó os 
doze Apollolos , os quaes eííavaó pintados na- 
quella carta , onde eftava a Figura do Eípiritu 
Santo:do modo que ficâraó , quando decco íobrc 
ellesno dia de Pentecoftes , como fc conta nos 
Aftos dos Apoftolos , Aft. 2. 



I 1 



A 



^a/ os dous cofnpanheyros conduzidos ^ 
Onde com ejie engano Baccho eftava^ 
T oemem terra os gíolhoSi& os fentidos 
NaqueLle T>eos que o mundo governava: 
Os chiyros excellentes produzidos 
Na Tanchaya odorífera queymava 
O thloneu,& afjftpor derradeyro 
OjalfoT)eos adora o verdadeyro, 

J^^aVãKcbaya odoriftra. Panchaya hc Arábia fe- 
liZi ou beata, que aílim lhe chamâo os Autores, á 
qual o Poeta chama odorífera , que quer dizer 
cheyrofa , por ter muyta abundância de chcyros. 
^íutfmavaolhycntu. Entende Baccho, ao qual 0$ 
Poetas chamaváo aíTim de Thy , que quer dizer 
andar furiofa , Ôc aprcfiadamcnte, por ferem deíla 
qualidade os homens dados ao vinho. E daqui as 
molhcres que lhe faziaó fuás feílas ic chamavaô 
thyadcs. Eíla he a commum declaração dcfta pa- 



tratamento 
Os dous Chn[lãos^não vendo ^que enganados 
Os tinha ofalfo^ò fanto;^ngtm nto. 
Mas affi cdvto os rayos e/palhados 
'Do Sol for ão no mundo^tè num moment$ 
Apareceo no rublo Horizonte 
Na moçade TitaÕ a roxa fronte, 

^pareeto n» rúbido Horizdntg. Horizonte he no- 
me Grego , ^ quer dizer fim de qualquer coufa, 
inda qu« propriamente hc o termino,6c baliza, do 
que alcançamos com avifta , olhando para qual- 
quer parte^i porque cm qualquer lugar , que ho* 
mem eílâ, cuyda que vè hum fim do Ceo que hc o 
HonzontCjCorno o Poeta entende ncíle lugar por 
rúbido Horizonte aquella parte do Ceo , onde o 
Sol começava moílrar fcus rayos. lílo he quanto 
à propriedade da palavra. Do Horizonte circulo 
da Elphera confiderado mathematicamente , fc 
veja a nofla annotaçaô no canto oytavo, oyt. 44. 
bíamcçade litdo. Por moçade Titaó entende a 
Aurora filha de Titão , 6c da terra , 6c caiada com 
Tithono irmão de Laomcdontc Rey dcTroya. 

O falfo^& fant» fingimento. Chama- fe falfo, por* 
que os da rerra pretcndiaõ enganar os noflbs: cha- 
ma-le fanto , porque para eftc engano ufaraó de 
Imagens fantâs. 

14 

TO mão da terra es Mouros co recado 
*Z)o Rey, para que entrajjem: & configo 
Os dous que o Capitão tinha mandado^ 
Aquém fe o Rey moflroufincero amigo. 
E fende o Tortuguezi certificado^ 
^e não aver receyo àe perigot 
E que gente de Chrifto em terra avia, 
T>entro no falfo rio entrar quiria^ 

Salfo rffl.Entcndc o mar de Mombaça , ao qual 
por efte refpeyto chama rio.fal(o ,, que quer dizer 
rio lalgâdo. 

Dlzemlhe os j^ mandou q em terra viraÔ 
Sacras wfJraSj& SacerdotefantOy 



4i 



^ue alltfe agazalharãoj& dormir aòy 
Em quanto a luz cubrio o efcuro manto, 
E que fio JRey, é^ gmtenãojentiraêi 
Senão contentamentOió" gofto tanto 
^e uão^oàta certo avn Jujpeyta 
Numa mojtra tão clâra,& taoperfiyta. 



Canto Segundo» 



osPortuguefes, veja-fca nolla annotaçaônocanS 
to ipYÍv:ityro.Oyt.i.§líie wcautoi pagajjent.lnc&utos, 
palavra Latina, quer dizer delapercebidos, & dcl- 
cuy dados. 

i8 

\ S ancoras tenaces *uam levando 
"^"^ Com a náutica grita coftumada. 



Em tjuanto a luz, cubrio o efcuro manto. Em quan< 

to durou a noyte , chama o Poeta l noyte manto ^aproa áS vellas (Ós ao vento danào^ 

efcuro, porque cobre a lpx,ainda que falando pro- Inclinam para a barra ábaíifaãa, 

priamente,a noyte não he outra couta, fenáo falta J^asalinda Er yàna^que guardando 

de Juz i porque paflando o Sol deite nofio Hemif- ^^^avaíemPre agente aí/malada, 

phênolupenoradar luz aosque moraonomie- "'" , ^.,^j *^ /*! , ' 

íior, faltando-nos fica«os às efcuras, & daqui fe Vendo a Cilada granae,& tamjecreta, 

caufaanoytca qual procede da auiencia doSol. VoadoQeoaomarcomohumaJeta. 



c 



i6 

Om ijlo o nobre Gama recebia 
^ Alegremente os Mouros que Cubiãffy 
^^e levemente hum animo fe fia 
^e mu/iras ^que tão certas pareciao. 
Anão da gente per fida je enchia.^ 
^eyxando a bordo os iparquôs^que traziaõ: 
Alegres vinhaõ todos porque crem^ 
^e afrefa dejejada^ certa t^m, 

A nao da gente ferfidafe enchia. Era tanta a fa- 
miliaridade , 6c converíaçaõ que os Mouros ti- 
nhaó com os noífos , que continuamente eftavaõ 
a bordo barcos dos Mouros , que hiaô á nofla ar- 
mada i 6c fiavaó-le tanto delle> , que tinhão aíTcn- 
tado entrar do rio para dentro, enganador com as 
moíirasde amor. O que icm falta fizeraó, ícnáo 
íucccdera defcair o navio de Vafco da Gama fo» 
bre huns bayxos,que tmha por proa, onde íc hou- 
vera de perder , íenão mandara furgir,como con- 
táo os noilos Hidoriadores. Alegres vinbão todos. 
Od\a,que Vâlcoda Gama determinou entrar no 
porto de Mombaça , foráo muytos Mouros em 
barcos com n)uytos tangercF,6c muliQas a Teu mo- 
do, moítrando grande fcfta , 6c contentamento 
pela entrada dos noífos, porque lhe parccia,qucos 
luihaó jà dcbayxo da lança, para fe vingar dcilcs. 



N Aterra cautamente aparelhavão 
Armas i ^ munições: que como vijfkmj 
^e no no os navios ancoravao^ 
Nelles oujadamentefe fubiffem, 
E com ejia treyçaô deter minavaõy 
^e os de Lufo da todo âejtnttíjem^ 
E que incautos pagaj^em deftegeyto 
O ynai, que em Moçambique tinhaõfeyto. 

^Ateí de Lujo dt todo defiruijfem. Os de Lufo íaô 

■i 



Ai autoras tenaces. Tenaces he próprio EpithGto 
das ancoras,de teneo palavra Latina, que quer di- 
zer ter ,por ler próprio officio íeu af}errar,ôí pren- 
der onde chegâo. Com a náutica grtta. Nauta entre 
os Latinos, quer dizer marinhey ro , grita náutica 
hc a gritaque osraarinheyros Icvaniâono mar, 
quando trabalhão, a qual por outro nome íe cha- 
ma celcuma.Aííií a linda Erjcina. Entre outros no- 
mes que tem Vcnus , hum heErycina do monte 
LryxdeSicilia , que hoje le chama em vulgar de 
Saó Julião , onJc antiguaroentc era venerada : de 
outros nomes quclhe os Poetas dão , le veja o que 
cfcrevcmosno pnnieyro Canto Oyt.33. 



19 

C> Onvoca as alvas filhas de Nereo, 
j Com toda a mais cerúlea companhia^ 
^e porque nofalgado mar naceo, 
'Das agoas o poder lhe obedecia, 
E proponde lhe a cau/a a que deceOj 
Com todas juntamente fe partia^ 
TaraeftotvaTjque a armadanãochegajfe 
Aonde para fempr efe acabajfe. 



I 



Convoca as alvas filhai de Nent. Attribuc como 
Poeta a Vénus ( a qual faz protctora dos Portu- 
guezcs)naõ entrar o navio de Valco da Gama no 
porto de Mombaça, que parece foy milagre : por- 
que não quis noíTo Senhor que os PortuguezeJ 
acabaflcm emhumatáo triftc , 6c barbara rerri^ 
6c leeíhovaíle huma viagem , que havia de rcj 
dundar em tanto ferviço leu. ^ JPor^ue no falgac 
marnaeeo. Fingem os Poetas , que Vénus nacet 
da efcuma do mar , pelo que lhe chamâo Aphro- 
diris , ou Aphrodiíia de aphros,quc he a elcuma, 
por efta razão as Nymphas do mar a ajudavâo, 
6c favoreciaó em tudo como nefte trabalho drs 
Portuguezes. Nereidas , íaó Nymphas do mar, 
das quaes fica trattado no Canto primeyro , oy- 
tava 96. cliamalhe alvas, por lua cftancia, 6c mo- 
rada íer nas agoas;. 

Ce- 



Lujiadas de Luis de Camões Commentados. 

CtrHlêa companhia. He a mais gente d© mar, co- Tc em no maàeyro duro o brando peyto, 
OTO Protco, Tritão, ÔC outros a qual íe chama af- '^ ^ - .■ . 7., .- 

fiwjde cerulêui palavra Latina,que quer dizer cou- 
la de cor de Ceo,ou Mar. 



43 



Tara detrás a forte Naoforçanao\ 
Outras em derredor levandoa eJiavãOj 
E da barra inimig a a de/viavão. 



20 

JA'na agua erguendo vão cõ grande prefa. 
Com as argênteas caudas branca efcuma, 
Cloto copeytú cortafÉ atravefja 
Com mais furor o mar do que ccjinma: 
Salta NtfeyNerine/e arremeda 
Tor ama da agua crefpa em força fumma\ 
\Abrem caminho as ondas encurvadas 
' IDe temor das Nereidas afrejjadas. 

De untor dai Nereidas apresadas, O Poeta no- 
wca aqui fó trcs filhas de Ncreo , Clcto , Niíè , ÔC 
Nerine: fendo cincoenta como fica dito. 

^r^ente as caudas. Rabos brancos , porque as 
■pmtáo có roftos de molhercs, Sc rabos de pey xes. 

11 

i^J\l Os homhros de hú Tritão cdgeflo accefo 

' X >l Vay a linda 'Dionefuriofa, 
Hãofente quem a leva o doce pefo 
^e foberbOiCom carga taÕ fermofa. 
Jãchegao perto, donde o vento te fo 
Enche as velas da frota belltcofa. 
Repartem fe, fí> rode ao nejje infiante 
As nãos Itgeyras^que hiao por diante, 

Ntfí homhroi» da hum Tritão, Tritão dizem os 
Poetas, que foy filho de Neptuno, 6c Salacia Se- 
nhores do mar , Sc que foy feu trombeta. Dionc 
querem alguns , fejao nomeda máy de Vénus, 
pelo que lhe chamaô aflim. Tem entre os Poetas 
diííercntes nomes , como fica tratado no Canto 
priraeyro , oytava 35. Houve difíercntes Vénus, 
»as quando entre os Poetas fe nomea eftenomc, 
iccntendea filha de Jupiter,&: Dione,caíadacom 
Vulcano , que fazia os rayos a Júpiter feu pay. 
Outros a fazem nacida de efcuma , como fica no- 
tado atrás, oytava 1 5?. Efta foy huma molher pu- 
tlica na Ilha Chipre , aqualporeíle rcfpeyto os 
antiguos idolatras , 6c ignorantes , tinbaó por feu 
ldolo,& lhe Icvantavão grandes altares, Scfaziâo 
grandes templos*, que he bom final de feu pouco 
laber , pois tomavaó por fcus Deoles gente per- 
dida, 6c diíloluta. 



It 



POemfe a Tíeoja com outras em dereyto 
T^ a proa capttayna, ^ allt fechando 
O caminho da b arraie pão de geyto 
^eemvãoajjopra o vento a veUa inchando. 



DafYoacafitayna, Ifbo diz o Poeta, porque que- 
rendo Valco da Gama entrar para dentro de 
Mombaça, como lhe pedia o Rey da terra , le- 
vada a lua nao,nunqua quis fazer cabeça para en- 
trar dentro,6c hia lobrc hum bayxo que tinha por 
proa: que foy caufa de furgirem todas as nãos, ÔC 
náo paílarcm avante. Milagre evidentiíTimo, que 
náo quis nofio Senhor que hum intento tão fanto 
dos Reys de Portugal acaballc aqui , pojs de elles 
hirem por diante , fe havia de augmcntar tanto 
luaFcfanta,como vemos por experiência, 

^5 

QVaespara a cova as providas formigai 
Levando o pefo grande acomodado. 
As forças exercitão^ de inimigas j 
*Do inimigo Inverno congelado, 
Allifàojeus trabalhos jtS fadigas j 
Alli moerão vigor nunc%. efperado: 
Taes andavão as Nymfhas eftorvando 
Agente Tortuguefa ojim nefando, 

^aespâra a cova ás providas formigas. Compara 
oPocta apreíla, 8c diligencia de Vénus , 6c d a? 
Nymphas, em deíviaras nãos do porto de Mom* 
b-íça , com a das formigas no tempo do verão, 
quando ajuHtaó o ncccílario para o Inverno. He 
imitação de Virgilio na iEneidalib.4. 

24 

TOrna pvra detrás a nao for cada, 
Apefar dos que lev a ^que gritando 
Mareão vellaSjferve a gente Irada, 
O leme a hum bordo, SJ outro atraveffando^, 
O Meflre ajiuto em vão da popa brada 
Vendo como diante ameaçando 
Os ejíava hum mar itimo penedo j 
^e de quebrar lhe a nao lhe mete medo^ 

Torna para detrás a nao forçada. Indo com gran- 
de fefta, &alegria,aílim os Mouros, que hiaó nas 
noílasnaos, por lhe parecer , que tinhãoaprcza 
deícjada nas mãos : como os noflbs em cuydav 
(vendo tão luzida gente, 6c taôboas novas da ín- 
dia ) que era jâ acabada fua peregrinação , & tra* 
balhosjeílando áquellahora em perigo de perder 
as vidas , fcgundo a determinação dos Mouros: 
fuccedco,quc o navio de Valco da Gama náo quis 
fazer cabeça para tomar vento , 6c foy defcâindo 
em hum bayxo, como temos dito: o^quf vendo o 

F ^ mcílvc 



^^ CaJit o Segundo» .^ 

incílre começou a bradar da popa, ao que acodio mais Capitães a^pcuca fegorança d'^aqucncs por- 

o Capitão rEÓr,& mandou loltar hu ma ancora. E tos : & coiro^Deosimlagrolamente os livrara de 

porque líto íegundo coftume dos que navcgão, hum tão grande perigo,pelo que logo le partirão 

náo íc faz em taes tempos iem grande revolta , Ôc dalli. E porque não tinháo PjlotoSjdeterniináraó 

ofitta : tanto que os Mouros viraó o que paflava, ir ao longo da coita , que íabião fer muyto pc 

cuydando fer defcuberta a trayção que pretcn- voada, para ver íepodiaôavcr alguns. 

diáo : huns por cima dos outros Ce lançarão nos 

barcos,6c muytos no mar, querendo antes morrer 

afogados, que às mãos doi noílos, como o Poeta 

vay contando. 

P(.mdo marítimo. Quer dizer penedo do mar; 
não f altáo pefloas , que calumniem a Luís de Ca- 
mões, como já fica dito atrás, canto i . oy tava 19. 
uíar de palavras Latinas ; & alguns que o não íaó 
muyto , lhe põem que uíouds algumas impro- 
priamente,como homem não muyto Latino. En- 
tre outras ella dcíle lugar hehuma , chamarão 
penedo do mar maritimo ; no que não tem razão; 
porque Maritimus , a , u m , na lingua Latma hc 
coula que eftà ao longo do mar , ou dentro ncUe. 
E Luís de Camões , foube para lua profifiaó o que 



2-7 
A SJicomoem Sehaticaalagúaj 
■^^ As rans no tempo antiguo Ly cia gente, 
Sefentem porventura vir peffoaj 
Ejiandofóra da égua incautamente. 
^ aqui is dalli faltando^o charco Jòa% 
*Pcr fugir do perigo jque/efentei 
E acolhendo/e ao couto ^ que conhecem^ 
Sòs as cabeças 71' agua lhe aparecem. 

Ai ratnm tttnfo antiguo Ly eia gente, Contao es 
Poetas , que paflando Latona máy de ApoUo per 



lhe baftava j & neíle particular não tenho que Lyciaera tempo de grande calma , apertada d» 
trattaf , que hoje vivem muytos homens deíles icdc, íe chegou a beber a hum» alagoa. Osrufti- 
que o conheceraó,& tratarão. cos daquella terra lhe defenderão a agua , & por 

nenhum cafo, por mais laftimas que lhe ouvirão, a 
dcy xáraó beber. Sentida muyto Laicna pedi© a 
Júpiter a vingafie daquella gente , & quileflc que 
vivcllem lcn>pre n^agua para íe fartarem bem del- 
ia. Júpiter CS convertco cm rans,as quaes tem por 
coílumc íétindo alguma pefibarecolherfeà agua, 
& moftrar fomente as cabeças , como aquidizo 
Poeta, comparando os Mouros que Ic lançarão ao 
irar, ás rans, porque hindo nadando Ihcapareciaõ 
fomente as cabeças. 

28 

A í/^ fogem os Mouros, E o Tiloto, 
"^^ Si^e ao per igo grande as nãos guiara. 
Crendo que Jeu engano ejlavã noto. 
Também fo^e faltando na agua amara. 
Mas por não darem no penedo immotOj 
Onde per cão a vida doce^tí cara, 
A ancora folta Ugo a Capita^na, 
^alquer das outras junte deílaamaynal 

Tenedo immoto. Quer dizer penedo firme , & 
que le não move. Eftc penedo era o bayxo, era 
que diflemos , que hia dará nao de Vafcoda Ga- 

ma,felhcnão acudirão ^eprcfla, 

25> 

VEndo Gama^attentadOiã eflranhezd 
*Dos Mouros ^não cuydadat^juntamêti 
O TiUtofugirlhe comprejleza^ 



^5 

A Celeuma medonha fe levanta 
-*^ No Yudo marinhey ronque trabalha^ 
O grande ejf rondo a Maura gente efpanta^ 
Como/e vifjem hórrida batalha. 
Não f abem a razão de fúria tantú^ 
Não fahem nejfaprejfa quem lhe valha j 
Cuydãoi que ] eus enganos fãojabidos^ 
E que hão de fer por iJ]o aqui punidos. 

Celeuma^ he palavra Grega, quer dizer a gritta, 
que os marinheyros levanrão para todosahuma 
porem hombros,& força, no que tem entre mãos, 
ÔcaíTini Ic ajudarem melhor. O Poeta lhe cha- 
mou arras oytava iS.gritta náutica , que he o 
mcfmo. 



2.C 

17 Tios Jubítament efe lançavão 
^ Afeus bateis velozes ^que traziãOj 
Outros encima o mar alevantando. 
Saltando n^aguaanadoje acolhião. 
^e hum bordOjfS d^outro fubtto faltavãot 
^e o medo os compellia^do que vião: 
^e antes querem ao mar aventurarfe^ 
^e nas mãos inimigas entregar fe. 



^ue antes tjuerem ao mar aventurar fe. O^ PWotos ^ j - , / 

de Moçambique, 6c outros efcravos, que hião na Entende o que ordenava a bruta gente: 

nao do Capitão mór , fe h nçáraõ ao mar : com a ^ vendo fem confrade j&f em braveza 

qual novidade cntcndco VaícodaGama , Sc os ^ os vent os ^ ondas agueis fem corrente^ 



Lupadas de Luis de Camões Commentados, '45 

^e a Kaopafar avante não podia j 'D' entre as Nimphasfe va^^ quefaudf>fas 

Avendoopsrmilagre affi dizia.' Ficarão deftajuhtta partida. 

J a penetra as EjireUas lumimfas^ 
30 Jd na teYCCyra Ejphera recebida, 

Xlâfo grãde^ireftranhoMnão cuydad!o\ ^vantepajja, t3 là no fexto Cto, 



o 



O milagre cUrtJJmo, (^ evidente^ 
O defiuberto engano inopinadol 
O fer fida, inimiga, fíf alfa gemei 
^uem pudera do mal aparelhado 
Livrar/e fem perigo fàbiamente. 
Se là de cima aguar da foberana 
Não acudira a fraca força humana. 



''Fará onáe eflava o Tadrefe moveo. 



lâ na ttrccfra Ffpbera recthida. Chamaõ-fe os 
CeosOibes, ou Eipheras , portei em a figurarei, 
donda, 6v circular, pela qual razão o mundo tam- 
ben» Ic chama tlphcruiporque a Efphcra he hum 
corpo 1 cdondo , & lolido , de huma fó lupcrficie, 
con.o huma bola, ou ptlla, & afiim os Aítronomi- 
cos inciííeremeníente ulaó dellcs vccabulos:Or- 
O etfo grande. Sáo eftas exclamações paraen- ^c> Circulo, Elphera, tomando hum pelo outro, 
carecimento deílc milagre , que aos noflbs acon- E <Ji^> qucfoy itcebida noterceyro Ceo,que hco 
cccco ncfta barra de Morrbaça. Bem fc nr.oftra ^^^ U gar por ordem dos Planeias , porque a Lua 
que íeus intentos cráo fantos : & que o caminho tem oprimcyro, Mcicurio ofcgundo , Vcnuso 
ncftes principies era tomado puramí nte por amor t^' ceyro, o Sol o quarto, Marte o quinto, Júpiter 
deDcos,& porlcrviçodoícu Rey, fem outro m- o íexto, Saturnoo letin o: 6í queíemovec para o 
tcrefle algum ; & aíFim tudo lhes fuccedia prof- Itxto Ceo , que heo lugar ue Jui iter feupay ,ao 
pcramente. qualhia fallar fobre as couías dos Portuguezes. 

EngantinopirtaJo.lietnginQnzocuyàâí^Otiíio ^^ canto dt cimo íe tiata mais largamente do 
dizoHocta , porqucos boiTos cuydaváo que efta- Ceo, 6c Planetas, 
vão jâ fora de trabalho , icudo tanto ao contrario* 



3> 

BEmnoimoflra a T>ivinaTrovidencia, 
'Deites portos apouca fegurança. 
Bem claro ttmos vi fio na m par ene ia, 
Sljie era enganada a noffa confiança. 
Mas foís jaber humano , nem prudência , 
Enganos tão fingidos não aicançi^ 
O* tu Guarda 'Vívinajem cuydado 
T)e quem J em ti não pôde fèr guardado. 



34 

EComo hia afrontada do caminho^ 
TutH ftrmofa nngvflo fe mnftrava^ 
^e as EjireUas o CeOy^ o Ar vizinho 
E tw^o a u amo avia namorava: 
*Dos olhos , onde faz jeu filho o ninho , 
Hnus ejptrttos vivos infpirava^ 
Com que Tolos gclad&s acendia, 
E tornava do Jogo a Efpherafria. 



Dot olhos onde f(.z, [eu filho o ninho. O filho de 
Vénus he C upidu , a que os antigos enganados 

E^ . j j chamavão Deosdc An'or. DizLuis deCaroóes, 

òefemovetantoapiedade que o Amor faz fcu ninho nos olhos ; porque o 

'Defia mtfera gente peregrina, pnmeyro encontro , & principio de aíFcyçao íc 

caufa com a vifta. Dcnde difle Propcrcio, Sintf» 

ttt , oculi funt tn amorc ducti. Os olhos laó guias no 

amor, & V^irg. nasEglog. Ut vidf, ut fmji avifta 

fov caufa de minha perdição. 

Com tfue ot foloi gelado* aandia^ 

E tornava do fcgo a Elfkera fria. Pelos pólos Te 

entende o Arftico, 6c Antarélico,quehe Norte, 

& Sur, os quacs chama gelados, pela grande frial- 

0« »0f amo/ira a terra ^uehufcamoi» A terra que cinde que naquellas partes ha , cauíada da aulencia 

05 Portuguezes bulcavâc , & por cujo refpeyto fe do Sol; doí pólos tratey atraz no canto primeyro, 

offereciáo a tantos com ralles,ôc trabalhos, eraa oytava24. Quanto à declaração dcíle lugar;qucr 

índia. o noflo Luis de Camões por eíres rodeosmoftrar 

a força, ^ poder do /^mor,do qual todos osPoe- 
- tas aíTim Gregos, como Latinos cfcrevcraõ muy- 

.. ny ' 7L ' tas coufas,os Gregos lhe chamão.P<»B</<iw<jr«r,do- 

/^ Vvíolhe eftas palavras piadofas mador de todas as coulas;pinta-rc com hum ramo 

\J Afermofa ^Díone/3 commovida na mão dircy ta , ôc hura peyxe na cfqucrda, para 

rrt " / niol- 



3 2- 
Se te move tanto a piedade 
'Defia mifera gente peregrina, 
^e fô por tua altUftma bondade^ 
'Pa gente ai falvas, pérfida Jê maligna, 
Nalí!um porto ftg u\ o de veydu de 
Conduzimos já agora determina. 
Ou nos amojira a terra que bufcamos^ 
Tois fòpor teuferviço navegamos. 



46 



mcflríusqiie íobre todas as coufas tem domínio; & 
Cita hearazão , porque diz o noflb Poeta , que 
acendia os poios congelados , & esfriava a Eí- 
pheiíidofogo , para moÍLrar que não ha couía 

que reíifta a fcu poder. 

3 5 

E^oY niaif namorar foberano 
Tadreide quemfoyfépre amada, & cara 
Se lhe apre fentaaffi^ como a§Tro)f ano j ' 
Na (eiva Idéajdjfe aprefentdra. 
Se a vira o Caçador ^que o vulto humano 
Per de o vendo a T>iana na agua ciara, 
Runqua os famintos galgos o tnatãraÔ^ 
^eprmeyro defejos o acabar aÒ» 

Se Ibe aprefstíta ajji i iomo aú Troyan». Contão a$ 
fabulas , que Hecuba molher de Priamo Rey de 
Troyafonhou huma noy te andando dcparto,quc 
lhe lahia do ventre huma chama de fogo , que 
queymava a Troya. Atemorizado Priamo difto, 
perguntou ao? íabioa de íeu Reyno a declaração 
deite fonho; os quacs rcfpcnderaô , que havia fua 
Biolhcr Hecuba de parir hum filho que havia de 
fer caula da deftruiçáo de Troya. Sabido ifto tra- 
tou Priamo com fua molher íobre a morte do fi- 



Canto Segundo'* 



quem himos tratando , que morava no monte Ida. 
Ellasíeforaóa elle , &: lhe íizerâo grandes pro- 
mefias cada huma porí],piopondo-lheocafo,mas 
elle deu a maçam a Vénus , pcrlhe parecer mais 
fermoía, que era a pai te porque íc havia de alcan- 
çar. Efta he a caula porque Vénus favorcceo íem- 
pre a PariSj&; lhe deu ordem,coin que fnrtaHe He- 
lena a feu mando Mcnelao, que foy caufa de Tro- 
ya fer queymada pelos Gregos. 

Se a vira o Cavador. Efte Caçador foy A6leon 
filho de Arifteo, & Autonoc. Centáo os Poetas, 
que apertandoo hum dia a calma , ôc Mq, fe reco- 
]h€G a hum valle onde citava huma fonte, & eh«- 
gando-le a beber acertou de fc encontrar com 
Diana , que os antiguos tinhaó por Dcola da Ca- 
ça, a qual íe cfiava lavando com luas companhey- 
ras na mefnoa fonte. Tomou-fc tanto Diana de 
Adteon a achar naquclle eftado , que e canverteo 
em cervo ; o qual logo es léus mcfmos cães dcfpe- 
daçaraô. Efta Fabula conta Ovídio lib. $. nas 
MctamprphQfis. 

OS cr e ff os fios de ourofeeffarztão 
'ttío colloque a neve ejcurecta\ 
^ ndando as lájeas tetas lhe tremião^ 
Com qutm amor br meava ^ & 7iãofevjam 



]ho,para que em parindo fe mandalle matar; Naó 59^ alva trttifjaflafnas lhe fàiao 



fómiCntenâo fez Hecuba , o que Priamo íeu mari- 
do lhe encomendara , mas mandou a huro íeu cri- 
ado , de que fe fiava , levafic o mininoaalguma 
parte ondeie criaíle fecrctamente, & íem fer co- 
nhecido. Foy omininocriadonoraontc Ida per- 
to de Troya , onde depois de fer iioço de quinze, 
ou dezaficis annos , toy tido entre os moradores 
daqucUa terra cm tal reputação por fua habili- 
dadcjôc engenho, que não havia em toda ella cou- 
fe de duvida, que elle não determinaíle. Quanto 
ao nome , foylhepofto Alexandre pormandado 
de íua máy,&; depois de conhecido por filho d*El- 
Rcy Prismo,foy chamado Paris , que em lingoa 
Eólica quer dizer engtytadojcomo elle toy.E ná© 
k chamou Paris á } aritate,queheigualdadc(como 
rodos CS demais qucrtm ) por fabci com igualdade 
tratar as coufas , como fez no negocio da maçam 
douro, de que ibayxo trato. Succedco, queíendo 
convidado Jnpitcr , & todos es fallcs Deeícs para 
asBcdas de Pelco Rey de Tefialia com Thetis 
filha de Nereo , não toy chamada a Diícordia, 
pelo que agravada, &f tomada de não fe fazer calo 
dclla,lançou em cima da meia orde eflavão Juno, diff mular n torpeza dos antiguos idolatras , qu 



Onde o veniíio as almas acendiaj 
delias lízas cvlumnas Ihetrefavão, 
defejos jque como erafe enrfilavão. 

Oi crefpoififisd^eurê.Vny o Poeta por eftas oyta- 
vas tratando como Vcnus apparceco a Icupay, 
não tem coufa de duvida. 



37' 

Cy Omhum delgado Jendal as fartes cobre, 
i 'De qvem vergonha he natural ref aro, 
^orem nem tudo e f conde ^nem de fcobre 
O veo dos roxos Ur tos fcpro avaro: 
Aias para que o defejo acenda fè dobre. 
Lhe põem diante aquelle cbjeão raro, 
Jáfèjenttm no O o fer toda aparte. 
Ciúmes em Vulcano ^amor em Marte. 

Ciumtt etn VuUant] «mor tm Marte. Não hepari 



Palias, &: Vénus, huma maçam d^ouro, ccnri huma 
letra que dizia : Vulckrwt detur. Défíeá maisf«r- 
moía. Cada huma prtiendcndo fitar com a ma- 
çam, não tanto por íua valia, quanio por levara 
palma da fermoíura , quiitraólcgo alli que Júpi- 
ter dera lentença,maí. elculoufcporquc Juno era 
fua molher, &irmã , Palias, &. Vcnus luas filhas, 
pelo queasremeicoa Alexandro, quc«jaParÍ5d« 



faziaó feus Dcoks homens , 6c eftcs perdidos , 
diflbltítosem todo o género de vicios, Oquefa 
ziaõ para crcubrir fuás iraldades, ÔC vivercn» à r< 
dcaíolta tm luas torpc7a8 , comotratevno priJ 
meyro tari©. Vulcano era cafado com Vcnu$,f 
Marte, dizem os Poetas, que cometia adulterii 
«cnsella , pelo que diz aqui o Poeta , quehavi 
ciumej em Vulcano j&amer cm Marre. Vu) 

cai 



Lupáàas de Luís de CamBes Commentados, 



cano tinhaô por Deos do fogo , & Marte da 
guerra. 

38 

EMoftrando no afigelko/emhlante 
Wo rifohumatrtjtezafnifturada. 
Como dama que foy do incauto amante 
Em brincos amorofos maltratada, 
^luefe queyxa.^ferinum mefmoinflAntet 
fjfe moflraentre alegre magoada: 
T^eftaartea iJeofaj a quem nenhuma iguala^ 
Mais mimofa%que trijie ao Tadre falia, 

Q Empre eucuydeyj Tadre poderozoi 



47 



vra, com que iica a oração impcrfcyta j o que hc 
niuyto uíado nos Pocias para naoíhar algum cf- 
fey to de ira, ou indignação,o qual Ic moftra muy- 
to na imperfeyçaõ da oração , como aqui : que 
pois eu f uy,entéde-rc rnGÍina.E Virgílio na Mnc- 
ida: §luotego. Osquaes eu, entende- lecaíHgarey. 
Eem outros muytos lugares. 

Ogram Tonante. Tonante , charoavão os anti- 
gos a Júpiter , que tinhaô por principal de feus 
Ídolos, <Je tono, as, palavra Latina, que quer dizcr 
fazer trovões , por ellc ter o autor deitas coulas 
íegundo lua opiniaó errada. 



42- 

E7)effas Br andai mojiras commovido^ 
^ie moverão de hum tigre o peyto duro: 
Co vulto alegre ^qual do Ceo Jubtdo 



^iepara as coufas , q eu dopeyto amaj/e, Xornafereno,& claro o ar e/curo. 



Teachaffe br anão, a f abei fé amorofo^ 
To fio que a algum contrario lbepeja£e. 
Mas pois que contramim tevejoirojoy 
Sem que to merecejfe^nem te erraffe% 
Faça/è como Baccho determina 
Ajjentarey emfinijquefuy mofina^ 



As lagrimas lhe alimpa ^^ acendido 
Na face a beyja,^ abraça o Collopuro^ 
2)í' modo que dal li ^ Jc fo Je achara^ 
Outro novo Cupido fe gerara. 



^e moverão de hum tigre o feyto duro. He o tigre 

hum animal muyio cruel pur natureza , peloque 

Seru^e eu cuydej. Imita nertas oytavas a Virgi- os Poetas ulaó delle para exemplo de crueldade, 

lio , o qual na Aia Eneida lib. i. introduz a Vc» corwo o noílo Luis de Camões nelle lugar. Dif- 

nus fazendo outra fala lemelhante a feu pay Ju 



pjter, pedindo-lhe,favorcceílc Eneas. 

40 

E St e povo que he meu, por quem derramo 
As lagrimas que em vão cabidas vejo^ 
^ue afjãz de de mal lhe quero y pois o amo^ 
Sendo tu tanto contra meu drfejo'. 
Tor elle a ti rogando choro ^^ bramo 
E contra minha dita em fim pelejo-. 
Ora pots porque Q am^^he maltratado% 
^erolòt querer mal^fer aguardado. 



tx 



41 



MAs morra em fim nas mãos das brutas 
^ pois eufuy-M nijlo de mimofa[^éteSi 
O rofio banha em lagrimas ardentes^ 
Como cQ o orvalho fica afrefca rofa, 
'Calada hum pouco ^como fe entre os dentes 
Se lhe inpedira afalapíadofuy 
yornaáJeguila^& indo por diante 
Lhe atalha o poder ojojà" gram tonante. 

fluefoiíeufu^, Uíaaqui elegantemente de hu- 
ma figura a que os Gregos chaniáoapoíiopclis, & 
os LatHKs obliceniia,ou reticentia, quando cala- 
mos ,& deyxamoi de pór na orarão alguma pala- 



uís de L^amoes ncuc lugai 
fere do leaó íômentc na variedade da cor , porque 
tem por todo o corpo huns íinaes pretos gi andes 
a modo de remendos compridos , que o íazem 
muyto ferraoío. O rabo muy to longo , comos 
melmos íinaes pretos, Sc aíTim a cabeça, a qual he 
redonda,âs oreihas faó pequena?, os dentes muyto 
agudosjo ptlcoço curto, & groílo: come cíleani- 
mal do que caç i , 6c acomete , 2>c mata todo o gé- 
nero de anirni»! por muyto brabo que feja. Mar- 
cial m jpedac. Epigran). 18. efcrcvedclie,que nos 
Efpeftaculos Romanos matou hum leaó. Hcdc 
clpantola ligeyreza , peia qual rezáo os Poetas o 
fazem filho do vento ZephyrcsÔC o nome,que tem 
omoílra;porquetygreem lingua Pci fia, Índia, Sc 
Arménia, he a fetta, nas quaes partes lhe piríciaó 
cíie nomc,6c delias veyo a nos. 

43 

ECom o feu apertando o rofio amadot 
Sjue osfaluçoSj^ lagrimas augmentaj 
C orno minimo da ama cajligado^ 
^e quem o afaga o choro lhe acrecenta, 
Tor lhe per tmjocego o pey to irado-, 
Muytos ca/os futuros Iheaprejenta, 
'Dos fados as entranhas rtvolvtndo% 
T>efia ma luyra em fim lhe efiã dizendo, 

C(W3o t»m:v.o da ama câfttgado. Humas das cou- 
las em que o Poeta moflra ícu engenho, & erudi. 

çaó, 



I 



^8 Canto Segundo, 

çaó , he nas comparações , as quacs faõ tão pro- zendo-lhc muy tas promeíTaSjonde ficara para íem- 

prias que nenhuma vcntagem lhe hzcm os an- pre, fe Júpiter a requerimento de Palias o não cf- 

tjpos. torvara, como conta Homero na Odiflea , & que 

Doí fados ai entranhas rtvêlvendo. Dos fados le por ordem dos Latinos hc o livro quinto. 
veja a nofla annotaçaõ no primcyro canto oy- Se Antenor ts feyos ftmtrtu. Antenor foy Tro- 
tava 24. yano de nação(fegundo achoefcrito) vendeo fua 

pátria aos Gregos. Efte depois de ter deftruida, Sc 

qucymada Troya, fc recolhe© altalia, ÔCcdificQK 

;^ ^ . ^ huma Cidade no território de Veneza, á qual do 

1^ Ermofa filha minha não temais ieu nome chamou Antcnoria , hoje fe chama Pa- 

' Perigo algum nos vofjos LufitanoSj dua.Eftas palavras , que o Poeta aqui põem , laó a 

Nem que ntmguem comigo poffamãts, iroitaçáo de Virgílio na fua ^Eneida , & porque 

ghieefjes choro fos olhos loherauos, trattão da chegada de Antenor a Itália , & como 

^ ^ *^^//,i^*.^ ff,^V/,;r edificou Pádua, & juntamente fazem menção do 

^ecwvos prometo filha que vejats rioTimavo,&de modo que parecem moft/ar que 

Efquecerem/e Gregos, & Romanos ^^^^^^^ Antenor a Cidade ao longo dellc , náo 

Telos illufiresfeytos.que efia gente f^^j^ aflim.Entrc Varões muy doutos ha fobrccf- 

Ha de fazer nas fartes do Oriente, ig rio grades altcrcaçccs,as quaes dedararey aqui. 

Ti^mofa filha, Neíla repoíla de Júpiter a Ve- Antenor potuit tnedtis elapfus Achivis 

nus lua filha , lhe vay contando todas ascoufas llljricos fenetrate finui^ate^uetnttmatutui 

que haò de acontecer aos Porriiguezes na índia, Regna Ltbumorutny & ftntem fuperare Tifttavi: 

èc cofta de Africa , & como haó de por cftas par- Unde per ora ncvemva/iotKum murmure tnfntit 

tes debayxo do jugo dos Reys de Portugal. 2t ntare praruptum , & pélago premit arua JcnanU 

Hic tamen tile hrbtm Tatavi» fedefque lotavtt 

^^ Queyxando-le Vénus a Júpiter, & recontan- 

QVefe O facundo Vlyfes e/capou do-lhe os trabalhos que feu filhopaflava , dizia 

'Defèr na Ogygia Ilha eterno efcravOj deíla maney ra : que pode Antenor hum tão máo 

Efe antenor os fey os penetrou homem cfcapar das mãos dos Gi cgoSjpaflar o mar 

ll'irtcos,& a fonte de Timavo. ^^"^ perigo,cntrar por terra firme pela Efclavonia: 

í7 í» ^^i^A^L i7«^^, ».>,»,« &paflar a fonte dcTiinavojOC edificar Cidade cn- 

^eoptdolo Eneas navegou ^/^j,^ ^ ^^ ^^^^ ^^^^.^ ,fl-,„,^. Eftes vcríos 

"De Scylla.à- de Chapbdts o m^r bra%0, ^ -^ ^^ ^^^ ^^^^^^ ^ j^omens doutos , & curioíos 

Os voffos mores coufas intentando ^^^ i^fj-^g humanas , principalmente a cerca do rio 

Novos mundos ao mundo irão mofirando, Timavo , do qual o Poeta aqui tratta depropo- 

fito, fiabre o qual rio ha grande contenda entre os 

^iue fe o facunda Uly^es. Facundo hc palavra homens que íabcm. Eílc rio hc nos confins de 

Latina, quer dizer eloquente, & copiolo de pala- Aquilea Cidade da Senhoria de Veneza, que eftâ 

vrasj tal dizem os Poetas , que foy Uly fies: fie por pou co mais de trcs Icgoas do mar. Deita Cidade á 

cRa rezáo o faz Homero muyto mimofo , & fava- outra por nome Trieíl (a que es Autores chamao 

recido de Palias, que CS antigos chamaváo Deofa Tcrgtfte ) haverá fete legoas ao longO;da cofta. 

da Sciencia , & lhe dà por epitheto o Divino Junto a efta Cidade eftà huma Igreja do nome do 

Ulyíies : para encarecimento de leu avifo, & dei- Bcmaventurado S.Joaó,da qual fe vem humas ler* 

criçaó. Efte foy com outros Cavalley ros de Grc- ras afperas , & pedregofas , de cujas quebradas, ^ 

cia â conquifta de Troya , onde fez muytas cou- quedas fe faz hum vallc,no qual íc juntâo muytas 

ias dignas de memoria. Depois de Troya deftru- aguas que correm dos montes que tem aodtrrc- 

ida, caminhando para fua pátria Ithaca,pafibu no dor. E porque efte vallehe fundo, & cercado das 

mar muytostrabalhos,&: perigos,dosqua(s traíra íerras que o cercaô demancyra , que as aguas que 

J.Àrgamente Homero na fua Odyflea , à qual poz delias decem , não tem por onde fair fora : a natu- 

cfte nome, por não trattar nella de outra coufa le- rf za lhe bulca remédio, 8c forvendo-fe alli da ter- 

nâodeUlyHcs, oqual na língua Grega Icchama ra , arrcbcntáo ao pé dos ditos montes prrdifíe- 

Odyjjeui. Entre eutros rrabalhos que conta Ho- rentes partes , a modo de fontes, com tanto im- 

mero , hum he efte de que oPocta aqui íaz men- pêro, êceftrondo, que efpantaó aos quee oiivenr 

çáo , que aportando na IlhaOgygia , que he no Eílas fontes , ou bocas por onde o Timavo íâ^flj 

mar Jonio defronte do cabo Lacinio , foy agaza- diZ Eftrabáo Capadócio que íàó fete , 8c Maf^ 

Ihado de Calypfo, filha de Oceano , & Thetis, & ciai diz o mcfmo. 
fcnhoradiiquellallha , a qual por efta razão hoje 

(m dia entre os Autores fc chama Calypfo : ôc de Et tu Ledao felix Ae^mUa Tirtruvt^ 

mancyra o agazalhou, que o não queria largar fa- Hiç uhfepttnaf Cj/llarus ítaufit a^um» 



Lufiadas de Luís de Camões Commentaãos, 49 

Ou demoílra como paliando Caftor filho de outrascora tanto impeto, 2c fúria, que parecem 



Tyndarojôc Leda por aqucllas partes, bcbeo o feu 
cavalo Cyliaro Icte aguas : dando a entenderas 
aguas do Timavo , que nafccm de Tete fontes. 
\ irgilio diz que laó nove. 

Unãt pfr ora novtm vafio cum murmure montii 
It maré fraruptumy & pélago premn arua fonantú 



peleyjar entre fijhumasfopjndoj&c outras arreme- 
tendo, que caula grande medo nos que o vem , & 
efpantonosqueoouvem : donde fe levantarão as 
fabulas de ScyJla , & Charybdis , dizendo que na- 
quella paragem ladraváo cács , & havia outras 
nionftruoíídades , o que tudo he pela grande re- 
volta , 6c furit das aguas, como conta Juítino , &: 
outros. SciUa hc hum penedo chamado hoje peloi 
que navegáo Scyllo - Chary bdis he agua com gra- 
des voltas, Ôcrodomuinhos, o qual lugar fe chama 
Gallofaro. A fabula de Scylla conta Ovidio nas 
Mctamorphofcsjde Scyllâ,&: de Charybdis larga- 
mente Virgilio na Eneida. Eítas coufas de Ante- 
nor, ÔcEneas pós aqui o Poeta, por ferem cele- 
bradas dos Poetas antiguos,as quaes faó de muyto 
pouca importância , em comparação das que os 
noílbs Portuguezes íízeráo nas partes da índia. 



Onde maravilhofamente delcrevc a lahidado 
Timavo,em dizer vafio cum murmurt^ pelo grande 
ruído, & eltrondo das aguas , de que laó caufa os 
muytos penedos com que as aguas le encontrão. 
O lugar por onde efte no entra no mar ( que he 
iuntoa Cidade Trieíl , de que atraz falámos) he 
pelos naturaes chamado mar , pelas muytas que 
leva:donde diz aqui Virgilior/f maré pr^ruptum^éf 
pélago premit arua jonamtivay hum grande, & impe- 
tuolo mar , que parece querer aflblar o mundo. 
Deftes verlos de Virgilio tomáo alguns occaíiaó 
para dizerem , que o Timavo não he nefta para- 
gcin,nvas que he hum no que paíla pela Cidade de 
Pádua, a que os antigos chamavão Meduaco , 6c 

hoje pelos Paduanos he chamado Brenta , que faz Os TuYCOS btllactffiniosJS duYOS 
muytas vokas pela Cidade, & por elle lhe vem em ^£)elles femPYâ vereis desbaratados: 
barcos a provilâo neceflaria dos lugares vizinhos, 
para intelligencia dos quaes veribs íe ha de notar, 
que Virgilio não diflcque Antenor edificí\ra Ci- 
dade neltc lugar,onde o Timavo corre, mas falou 
geralmente que edificara , não determinando lu- 
gar , porque a palavra, htc, não he adverbio , que 
moítre lugar mas pronome relativo, que refere 
Antenor , & que ie deve juntar com o tile que fe 
fegue:& aflim ambos fignificáo como fe tora hum 
ló. Hic tamtntlUurlfem Fatavi. Efte Antenor diz 
Virgilio edificou a Cidade de Pádua. E defte modo 
de falar ajuntando o hic com iUe , & fignificarem 
ambos huma mefma couía ufa muytas vezes Vir- 
gilio. Hurtc tllum Fatís extrema â fede profeElum , diz 
no fetimo , & no mefmo li^ro : hunc tllum profcare 
fada. Aífim que a verdade do rio Timavo he a que 

tenho dito.Quanto as fuás fontes não fe pode com Tremer delle Neptuno de medro fo^ 
certeza affirmar ferem oyto,ou fete,ou nove,pela Stm vento fuás aguas encrefpandox 
grande confufaó,& revolta das aguas que ha na- Q cafonuncaviftoM milagrofox 
fciíelleiugui ao luhir,nelo que todos acertao. as r n^ / 1 ^ /,/?>.«>//,i 

FrpnrZjnr.17 I ç u ^ j f-k ^ueferva^^ trema o mar em calma ejianaoi 

t.jeo ptaaojO Lneai »avj£ou^ aeòcyllaj (^ ae Lha- ^ /- y j , r 

rjbait o mar bravo, Eneas filho de Anchifes, Sc Ve- ^ gente forte,& de altos penf amentos, 

nusfoy taô pontual, 6c tão excellente Varão, que ^e também delia haõ medo os elementosl 
merecco epitheto de piadoío entre os Poetas , co- 

«10 lhe chama aqui o noflo Luis de Camóes , 8c Vereis ejie «jue agora preJJurofo.Ede hc Dom Vaíco 
Virgilio fez muytos livros em feu louvor , aos daGamaConde da Vidigueyra,ík Almirante mór 
quaes de ieu nome intitulou Eneida. Efte Eneas do mar Indico, o qualEl-Rcy Domjoaõo Tcr- 
depois que fahio de Troya fua pátria, paflbn muy- ceyro elegeo por Capitão mòr de huma armada 
tos trabalhos , &: perigos no mar , como conta o que mandou á Indiano anno de 1514.. tom titulo 
tnelmo Virgilio. Entre muytos hum muy arrif- de Viforrey : o qual indo demandar a coita de 
cado toy o de ScylU , & Charybdis, cachopos do Cambay a ( como por regimento levava ) foy tão 
eltreytode Meflina entre Itália, £c Sicília , que grandco tremor do mar,qucfezdefcorçoar ato- 
tcráde largo mil gcquinhentos paflos: noqual cf- daaannada. O que vendo Dom Vafco daGama 
pailo de nur tão pequeno fazem as aguas grande levantou huraa voz alta dizendo :amigos prazer, 5c 
«llronUo , 5c ruido , encontrando-fc huraas com aiegm , que o mar treme com medo de noz: como 

G refere 



4(í 

Ortalezas Cidades /$ altos muros 
Vor eUes vereis filha eaifaados. 



Os Reys da índia livres j & feguros 
Vereis ao Rey potente /objugadosi 
Epor elles de tudo emfimfenhores^ 
Seràõ dadas na terra kys melhores^ 

Ftrtatezas. O que os Portuguezes fizcrão na 
índia, & as terras queconquiftáraó, he aflás notó- 
rio, &nefte livro fe trata© algumas, & logo nas 
oytavas feguintes : pelo que aqui feefcula tratar 
dellas,reíervandoas para feus lugares próprios. 



47 

V Éreis efle^que agora preffurojh 
^or tantos medos o índovay bufcandõj 



5© ' CayitQ 

leferejoáo de Barres na terceyra Década hb. 9. 
c. I. onde diz que muytos doencçs da araiarfa 
com aqueJk tremor faràraô. 

48 

\'J Éreis a ter rasque a agua lhe tolhia^ 
' ^ue inda ha de f^rbu porto muy decéte^ 
Em que vã» defiançar da longa via 
j9s nãos que navegarem do Occidentei 
Toda ejia cofta em fim ^ que agora urdia 
O mortífero engano ^obedtente 
Lhe pagar d tributos ^conhecendo 
Não poder refifitr ao Lufo horrendo. 

Vereit a terra ejue a agoa lhe tolhia. Entende Mo- 
çambique, no qual lugar (como fica dito) lhe qui- 
zcraó eftorvar fazer aguada. 

§iue inda ha de fer hum porto rfiuy decente. Hoje he 
Moçambique a principal cfcala que os noflosna- 
Vios tem na navegação da Índia. 

Lhe fagar d 01 tributos. No anno de quinhentos 
5cdous , em que Vafcoda Gama tornoya Índia 
com titulo de Almirante màr do mar , & com húa 
frota de vinte velas , fojeytou toda a coita de Afri. 
ca , & fez tributaria a El- Rty de Portugal a Ci- 
dade Quiloa. 

Ef^ereis o mar roxotãofamofi 
Tornar fe lhe amare lio de inflado: 
Vereis de Ormuz o Rcyno poder o fo 
T)Uas vezes tomado .^fojugado: 
Alli vereis o Mcurofurio/ò 
T)efuas mefmai {ettas trajpajfado, 
§ue quem vay contra os vojfos claro veja, 
^eje rejíjie jContr a fl peleja, 

E vereu a mar roxo. A cerca do mar roxo , por- 
que nem Gregos, nem Latinos acertarão a cauía 
dcfta cor , não tratarey do que elles difleraó , & 
também por evitar proluxidade, A verdade , 5c 
certeza que hoje temos pela experiência , exames, 
& diligencias que osnoílos Portuguezcstemfey- 
to he cita : naquelle mar por cima das aguas apa- 
recem manchas vermelhas,brancas,&: verdes,que 
fazen^ crcr,aos que não íabem a verdade,íer aquel- 
la à vèrdtdeyra cor daqucllas agua?: O que não 
heaflim , porque fey to como digo , exame nas 
aguas,tÍ!ando-as em baldes, fe achou procederlhc 
aquella cor do íundo , porque a agua em íi he tão 
clara como nas outras partes do mar , ôc aíTim de 
mergulho por ter partes muyto bayxas , fe trazia 
do fundo huma matéria vermelha de coral em ra- 
mos , 6c aíTim meímo das outras cores que por 
cima das aguas aparecião,ôc não fomente íe fez pe- 
los noíTos Portuguczcsefla experiência em partes 
ba)'xas,mas cm outras de mais de vinte braças de 



Segundo, 
altura , como contí João de Barros nas Décadas» 
Em conclufaó a cor do mar roxo he do laftro , 6c 
fundo da terra, & tudo o que os Antiguosdeíla 
matéria tratarão hefalfo , pois elles nem experi- 
nientáraõ,nem tratarão deraizdefte negoçío,co- 
mo os Portuguezes o fabemos por verdade vras 
Relações , 6c informações de noílas armadas, qu© 
naquellas partes tem curfado,5c çurfaó continua- 
mente ) os quaes com muyta curicíidade procura- 
rão tirar a limpo a verdade do caio. 

Fereíi de Ormuz, o Reyvo poderof».ACiáAát.á^ Or- 
muz , de quem o Reyno toma íua denominação, 
eftà três léguas de terra firme , fituadaemhuma 
pequena Ilha chamada Gerum , qucjazquafina 
garganta do mar Perleo, terá em roda pouco mais 
de três leguas,toda muy efteril,rero ter de leu nem 
hum ramo,nem huma herva verde, nem agua,ial- 
vodehunspoços,ou ciílernasiôclc a querem me- 
lhor , a trazem da terra firme da Pçrlèa , donde 
também lhe vem ortaliça, verdura, fruyta, ÔC ou- 
trasmuytas coufas em grande abundância : que 
Ormuz não tem de fua colheyta mais que lai , ^ 
enxofre, em tanta quantidade, que Uo laltazem 
ladroas n.io&. Com ícr elta Cidade em ú tuóeíte- 
rii,nos ILdificios he magnífica , & grotla no trato, 
por ler elcalaonde concorrem do mundo todo, 
^c coii) líie viraefta Cidade tudo de tora, he muy 
abaítada, & abundante: & tãofermofa emfí, que 
dizem os naturaes, que o mundo he hum anel, & 
Ormuz a pedra. Eíla Cidade tomou duas vezes 
aos Mouros Aííbnfo de Albuquerque com gran- 
de mortandade, Sc deílruição dos da terra, como 
contai João de Barros , o qual trata dç huma cou- 
l"a maravilhofa , de que o Poeta aqui faz menção, 
Qt-ie íe acháraó muytos Mouros mortos de frc* 
chás fem outra tenda alguma , não havendo na 
ncDa arníada pefiba que atiraíie com arco.que pa7 
rccequeas frechas que ellesatiravâo, aelks n.eí«» 
unos !e virávaó , & os matávaõ-, ^ aíí^m morriHQ 
çom íuas próprias armas, como «iiz aijui g Focta. 

V Éreis a inexpugnável T^iofôrtey 
^e dous cercos terá dos vojjos fendo: 
Allije moftraràfeupreço^^ forte, 
Ftytos de armas grandiffimos fazendo, 
Envejofò vereis o gr aÕ Mavorte: 
T>opeyto LufttanoferoM horrendo^ 
Do Mouro alli veràô.que a luz extrema 
Dofalfo Mafamede ao Ceo blasfema, 

Vereii a expugnavel Dio forte. He Dio huma Ci- 
dade marítima no Reyno de Cambaya , a qual 
alem de fer fortiífima pornaturcza, é. merecer o 
nome de inexpugnavei,tinha à entrada do porto 
huma cadea de ferro muyto groíTa, que o impedia 
a todos , os que o queriâo tomar. He muyto feri. 
til,Ôc abundante doneccílario para a vida, muyto 

íadia, 



Lu/iadas de Luis de Camões Commentades. 
iadia , Sc de muyto bons ares , & aíTim mefuao de E vereis em Cochim ajjinalarfe 
grande trato. Entregou-a fem guerra o Soldaó Tãnto hum peytoJohrétoJB iníolentey 
B.dur Rey de Cambaya a Nuno da Êunha, por- ^, Cythatajà mais cantou vttoYta, 
oue o amdou com alguns Portuguezes em huma <^^ ^/Jt mereça eterno nome ,^ gíort^. 



fí 



que o ajudou com alguns Fortuguezes 
guerra que tinha contra os Mogores, por cuja via 
ioyrclUcuidoaíeucftado , que os Mogores lhe 
tinháo tomado. Arrcpendeu-le depois, & quifera 
h^ver Dio à maó,mas não foy poderoío para iflo: 
antes toy efta íUa determinação caula de lua mor- 
te , porque o matarão os Portuguezes. Quanto 
aos dous cercos que aqui trata o l-'octa,o primcy- 
ro foy fendo Viíorrey Dom Garcia de Noronha, 
& Capitão de Dio António da Sylveyra anno de 
4 5^8. & o fegundo Governador Dom João de 
Caltro, oqualdcfendco Dom João Maícarenhas 
anno de 1547. 



Vtreu a fertaUz>a fujientarjt de Cananor. He Ca- 
nanor na cofta do Maiavar,entrc Goa,& Cochim: 
íuccedeo eftc cerco , de que o P oeta aqui fala , era 
Agoftode 1507. fendo Vifo-Rey da índia Dom 
FranciÍcod"'Almeyda,&. Capitão da fortaleza de 
Cananor,Lourenço de Brito. Paílàraó nefte cerco 
os Portuguezes muytos trabalhos,fomes, 6c iedcs, 
& lendo muyto poucos houveraõ grandes vito- 
rias de El-Rey de Cananor,6c do Samorim, que o 
ajudava. 

E vtreii Calecut desbaratarfe» O Malavar he hu- 
ma das Provincias da India,em cuja cofta diflemos 
atraz eftar Cananor. Começa eíta Província no 
monte Dely , Sc acaba no cabo do Comori , entre 
os quacs dous termines haverá oytenta léguas de 
comprimento. Dizem os índios que cfta terra do 
Malavar foy cm outro tempo mar, o qual correo 
para as lihas de Maldiva,que erao naquelle tempo 
terra firme, ôc que defta maneyra a terra que ago. 
rachamão Malavar ficou firme, Sc as Ilhas de MaU 
diva alagadas. Nefta Província do Malavar ha 
muytas, Sc muyto ricas Cidades, das quaes Cale» 
cut he a principal,de que aqui o Poeta fala, por ler 
a principal elcala, & mais rica de toda a índia: por» 
tropoli Epifcopal da índia , Sc o património dos que nella fe achaô em abundância todas as coulas 
Reys de Portugal naquellas partes. Eftâ fituada que os homens bulcão para fuás mercancias , ôC 
eíla Cidade em huma Ilha chamada Teçuarij, que tratos. Huma imperfcyçáo tera,que he ferem to- 
quer dizer trinta Aldeãs, porque tantas teve anti- das as cafas palhaças,faÍvo as dos Reys,Sc dosfeus 
guamentcSc tantas pagaváo tributo aos Senhores idolos,que faó telhadas,Sc muyto ricamente guar- 
de Goa. He Cidade muyto nobre , de muyto cx- necidas. He Calecut muyto fermofa á vifta , por 
" *" " ^ eftar fítuada na cortado mar ao longo de hum ar- 



GOa vereis aos Mouros fer tomada ^ 
A qualiJirà depois a ferfenhora 
'De todo o Oriente M fub limada 
dm t)s tnumfhos da gente vencedora-, 
jllít fokerbajaltivay & exalçada 
AoGentio^que os tdolos adora^ 
^uro freyo porà^à' a toda a terra 
^e cuy dar de fazer aos voJòos guerra* 

Goa vereis aos Mouros fer tomada. Goa he a me- 



ccllentes Edifícios , tem muyto boas aguas , he 
muytofertH, êc graciofa, Sc tem muyto bom por- 
to.Chama-fe Ilha , por fer rodeada de cftrey tes de 
agua lalgada por entradas , que o mar faz na terra 
com ajuntamento de alguns rios de agua doce, 
que decem da ferra de Gate.Foy efta Cidade duas 



recife cora muytas hortas , quetcromuytas fruy- 
tas,ortaliça, Sc muyto boas aguas.Toda a terra do 
Malavar fe chama Calecut do nome daCidade,Sc 
o Senhor da terra Saniori,que he como entrenós 
Emperador , por fer o mayor Senhor de toda 



vezes tomada aos Mouros: a fegunda,Sc da qual fi- aquella Província: Sc ao qual todos os mais anti- 

. cou até hoje em poder dos Portuguezes , foy hum guamente obedecião. Efta Cidade foy entrada 

dia da Bemaventurada Santa Catherina,de mil Sc dos nofios,queymada, Sc deftruida no mez de Ja- 

quinhentos Sc dez.O modo de íua tomada íê trata neyro de 1 509. o primeyro anno da governança 

no Canto decimo. de Affonfo de Albuquerque, Sc dcs daquelle tem- 

Ao Gentio cjue osidolos adora , duro freyo por Â, Ifto po ficara fogeyta para fempre , íe na entrada (t 

diz, porque de Goa facm as armadas contra todos não defmandáraó os noflbs. 
os Mouros da índia , que pela mayor parte faó E -vereis tm Coihim. He Cochim cabeça de hum 

Gcntios,SccftaCidadeosenfreya,Scnáodeyxafa- Reyno chamado aírim,eftá 50. léguas de Calecut 

zer coufa alguma contra os nofibsPostuguezes,& na cofta do Malavar. Com os Reys defta terra ti 



terras que tem conquiftadas , porque eftá lempre 
com mão armada para acudir a todas as partes. 

_ . 5^ 

VErets afortalezafupentarfe 
1)e Cananor com pouca for ça^í^ gente: 
E vereis Calecut desbaratar/e, 
Qdaúepopuloja^ Q? tàoptente. 



verão fempre os Portuguezes muy ta amizade , 8c 
em toda a índia nunca acháraó lealdade , como 
nefte Rtyno. Aqui tem El-Rey de Portugal hu-í 
ma fortaleza muyto fermofa ao longo do mar, Sc 
a principal fey toria da índia, por haver aqui gran* 
de carregação, principalmente de pimenta. 

AjfinaUrÇe tanto hum pejto,, Eftc de que aqui o 
Poeta trata foy Duarte Pacheco , que fez em Co- 
chim maravilhas contra o Samori Senhor de Ca- 

Gx lecut, 



íj Canto 

lecur,em defenfaó d'El-Rcy de Cochim: ao qual 
o Saniorijôc cucros iriuytos Senhores do Malavar 
perftguiraõjpor fer amigo dos Portuguczes, como 
refere o nollb Poeta no canto decimo. 

Çiue Cythara /i maif.Por Cy thara entende a Poc- 
íla , pela grande conformidade queneítas Artes 
liberaes,Muíica,&: Poefia ha. O que o Poeta aqui 
diz para encarecimento da grande cavalieria de 
Duarte Pacheco: ôc que tudo o q^e os Poetas el- 
creveraõ de feytos grant^es, não íe poderão com- 
parar có os que fez L) u ar ^^ Pacheco em Cochira. 

53 

NVncacom Marte inftruBoy ^furtoCn, 
Se vto ferver Leucatejvfuando Augujto 
Nas civis Âccias guerras animo fOt 
O Capitão venceo Romano injufío: 
^e dos povos da Auroraste do f amo/ò 
Nt/Oy(^ do Baãro Scythico,^ tohujio^ 
^Víãoriatrazta,& prezd rica^ 
^refo da Egypcta lmda)& não pudica» 

Uunca. coní Marte infiruão^ ó" fi*T^io(o. No Epy- 
ro,que hoje íc chama Albânia, ha huma peniniu la, 
a que Piinio chama Leucadia , onde dizjiaver 
duas povoações , humapornome Leuca , outra 
Neiito: nelta llhaellâ o cabo Leucate , & perto 
outro^chamado Accio , que hoje ícchama Cabo 
figalo : na qual paragem foy aquelli batalha na- 
val entre Anguílo , 6c Marco António, tão cele- 
brada pelas hiítorias : em a qual Marco António, 
& Cleópatra Raynh^ de Egypto foráo desbarata- 
dos. Diz o Poeta que ttrvia Leucate, não porque 
nellefofle a guerra, pois era no mar, fe naô pi)r fei* 
muyto í erto delle.Ou porque da penínlula Leu- 
cadia , que aqui entende por Leucate, vinháo al- 
gumas ajudas , & apercebimentos de guerra. Ufa 
da phrafe VirgilianatFervtrc Leucaté,&c.^neid. 
lib.8. 

O Capitão venceo Romano injujlo. Eíle Capitão 
Romano injuíto, he Marco Antonio,queem to- 
das as partes onde cfteve cometeo muytas iniuíli- 
ças , & fez muytosaggravos agente que gover- 
nava : como fe pode verem Plutarco na lua vida. 
Eílando cite Marco António por Governador do 
Oriente , embaraçou le cum Cleópatra Raynha 
do Egypto , 6v repudiou a oytava irmãdeOda- 
Vianò Augufto , & roubou o povo Romano por 
enriquecera Cleópatra , dando-lhe muytas Pro- 
vmcias,ôí Reynos.Oétaviano Jofrendo mal a inju- 
ria fey ta a íua irmã,ÔC os aggravos, & sfrontas que 
fazia ao povo Romanojfdhio de Roma com gran- 
de exercito em buíca de Marco António , Sc Cle- 
opatra;osqiiaestambem abalarão do Oriente com 
o mefmodtfenho , & neíla paragem do cabo Fi- 
gdo (de que atras tratamos) a que os Lannof cha- 
mão aEli», le encontrarão, & nverão huma cruel 
batalha , na qual foy vencido Marco António, 6c 



Segundo» 
Cleópatra. Depois do desbarate fugirão para o E- 
gypto, Sc recolheraõ-fe na Cidade Alexandria,na 
qual Marco António íe matou com luas próprias 
mãos , lendo de idade de cincoenta ÔC leis annos, 
cuydando fcr Cleópatra morta : o que ella tez fin- 
gir aos leusjcomo refere Plutarco, por certos def- 
goílosque entre elles houve. Cleópatra fe matou 
depois de entrada a^Cidade. Velleo Paterculo, fie 
outros querem, que com humas cobras chamadas 
alpidcs : inda que nilfo não hà outra certeza , lai- 
vo levar Odavio quando triumphou defte luc- 
ceílo, Ixim retrato de Cleópatra com huma alpidc 
em huifi braço, 6c Propercio diz que o vio. A ba- 
talha naval entre Octaviano , 6c Marco António 
delcreve Virgílio na iEneid.i lib.8. 

^ue cioi povoí da /íurora^y^ dit famofo Ntlo. Con» 
vocou Mirco António j^ara eita guerra muyta 
gtntede Períia, Arábia, Aru^enia, í^cScythia por 
onde o Rio Bactro palia: ^do iEgypto, que en- 
tende pelo Nilo. 

Prefo da Ezpcta linda t éf na<t pudtca. Entende 
Cleópatra Raynha do ilLgypto , feraioia , uias 
pouco honefta. 

54 

("^ Omovereiso mar fervendo acefo 
> Com os incêndios dos vojjos peltyjando 
Levando o idolatrai & Mouro prefò 
^De Nações d/fferentes triumphundo, 
E fojeyta a rica atire a Cherjonefo^ 
^tè o longínquo China navegando'. 
E as libas mais remotas do Oriente ^ 
Ser lhe hà todo o Occeano obediente. 

E fojeyta a rica áurea Cber-finefo. He Cheríoncíb 
palavra Grtgâcompolfa de Cherlos , 6c N nos; 
terra, & Ilha: donde Cherfonclb he penínlula dif- 
ferentcdallha. Porque a Ilha he toda cercada do 
mar:6c a peninfula tem terra por onde le entra em 
terra firme :6c porque Chcríoneío he palavra ge- 
ral a todas as peniníulas , para le elpecificar a de 
que fe trata, le lhe dá lempre epitheto convenien- 
te, como a Malaca aqui chamada áurea, que quer 
dizer de ouro , por razão do muyto queletrásde 
Moncabo,6c Harros,que faó duasComarcas,don- 
de íc tira na Ilha Samarra, que he a própria, a que 
os Antigos chamarão Áurea Cherlone(o,cuydan- 
do fer continua a outra terra firme , onde ora eltá 
fituada Malaca. Eíta Cidade he cabeça de todo o 
Reyno afiim chamado : eftà em dous gráos 6c 
meyo da linha para a parte do Norte. Tem muy- 
to bom porto , 6c frequentado de todas as Nações 
do mundo , porquede todas as coufas he muyto 
abundante. E para remate de tudo, o que delia Ic 
pode dizer, balia o epitheto que tem d'ouro,aífini 
per haver muy to nella,como por ler fcrmofiílima, 
&cheya de todas as couías boas do mundo. Efta 
ganhou aos Mouros o grande Affonfode Albu- 
querque dia de S.Lourenço , anuo de 1511. ten- 

dolhe 



Lufiadas de Luis dê Camões Commentados. ff 

áolhe já dado outro combate em dia de Santiago Lhe manda matSj que emfonhos lhe moftrajje 
da me ima era , como le pôde ver nos íeus Com- ^ c^yra onde quieto repoufajfe. 



ment.naj. part. ôcjoão de Barros na z.Dec. lib.5. 

Cl. 

E modo filha minha^ que de geyt9 



D 



Por filho Je Maya. Entende Mercúrio filho de 
Jiipiter , & Maya , filha de Atlas Rey de Africa. 
Elie fazem os Poetas menlageyro dos fallbs 
Deoíes , como aqui diz o noflo Luis de Camões: 



AmoftrâraÒ èsjorçomaií quebumam^ fingindo que o mandara Júpiter leu pay com re 



^e nunca Je vera são farte peyto 
^0 Gangetico mar ao Gaditano: 
Nem das Boreaes ondas ao eftreyto^ 
(shie mo/irou o agravado Lu(itano: 
^^^ot^Oíjfueemíodoo mimdOj de afrontados 
Rtjufatapm todos os ^ajfados. 

Dir Gofi^etiefi mxr ao Gaditano. De Oriente ã 
Poente,porque mar Gangetico he o mar da Índia 
Oriental , chamado aíTim do Rio Ganges , que a 
rega. O mar Gaditano he o mar Occidental dito 
aíhm de Gades,que he a Illha Cadizno Poente. 

JV*»z Jas Boreaes ondas ao efíreyto^íjue wo^rau o a^- 
gravaUo Lufítano.Vor cíías palavras entende as ou- 
tias partes do mundo,que laó Nt)rte,6c Sur. On- 
das Boreaes he ornar do Norte chamado allimde 
Boieas vento, que lopra daqueila parte. Eílieyto j 
que moítrou o aggravado lluí]tano,l>e o elheyto 
de Magalhães que caeaoSur.O que o Poeta quer 



CâUoaos Portuguezes,avilando osdatrayçâoque 
lhe em Mombaça citava ordenada , 6c que logo 
défle á vela caminho de Mtlinde. 

E para ejueem Mombaça aventurado. De Móbaça 
fe veja a noHaannotaçáo no canto primeyro oy« 
tava 54. 

5 7- 

J/4* pelo ar o Cylleneo voava 
Com as afãs nos p'es d terra dece, 
òua vara fatal na mão levava 
Com que os olhos cançaàos adormece-. 
Com e/ia as triHes almas r evo cava 
''Dos Ínfimos ,0" o vento lhe obedece , 
Nd cabeça ogalero co(iumaãOj 
E delia arte a Melindefoy chegado. 

Jd fdo ar oCylkneo voava. Cylleneo he Mercu* 
rio, chamado afliin de hum nioncedc Aicadiucliu- 



dizer por cites termos de falar , con» que Júpiter mado Cyllene, onde era venerado. Neliaoycav 



encarece a valentia dos Portuguezes he , que de 
Oriente ao PocnEe, & do Norte ao Sur, em que fe 
comprende o mundo rodo , nuncahouvegentc 
mais estorçada que os Portuguezes, Quanto ao 
Portuguez aggravado , de que neíta o) tava faz 
menção, he Fernão de Magalhães, o quul aggra- 
Vadod^El R^y Dom Manoel , por lhe não que- 
ttt acrecentar dous toftões de moradia por n.ez, 
fahio de Portugal, & íe foy a Caítella:&c noanno 
de mil Sc quinhentos fie dezanove , fahio do porto \^ ^ T)o Lujitano o preço grande^ ^ raro^ 



deicreve as iníignias que levava Mercúrio, quando' 
hia levar fuás embaxadas. Tudo o que he neccH- 
lario para declaração deita oytava , (t póJe vcf 
no canto prtmçyro , oytava 10. De Mclindc 
trato na oytava feguintc. 

•^ Onjlgo afama leva, por que diga 



de Sevilha com cinco velas para as Ilhas de Ma 
luco : o qu.d íoy correndo a coita do Brazil até o 
Rio da prata, queera jà deícubcrro por parte de 
.Caítclla.fi, caminhando ciícgou a hum Rio,a que 
poznome de S.Juliaó que elíá cmquarc ma 6c no- 
vt grãos, onde invernou na entrada de Setembro, 
no qual ten^po começa o veraó naqutlla terra, la- 
hiráo do Rio, & defcnbrirão o eítreyto,a que pu- 
zeraõnomcde Magalhães,donomede Fernão de 
Magalhães Capitão d.iquellas cinco velas , 6c da- 



^le o nome ilíujire a hum certo amor obriga, 
Efaz, a quem o tem amado ^ caro» 
T>efia arte vay,faz,endo a gente amiga 
Co o rumor f amo zíffímOj& prec lar Ot 
Jd Me linde em defejos arde todOj 
'De ver dagentefórte ge(tOi^ modo. 

Cênftgo afama. leva. Enojada a terra de Júpiter, 
gcdos mais lalfos Deoíes por lhe deítruirem os 



quella armada, o qualeliá em cmcoentaôc douS Gigantes feus^filhos,criou novamente a fama para 
grãos da banda d& Sur. lhe dcfcubrir feus vicios , & para fazer notório ao 

mundo, quaó pervcrfos, & cítragados homens fo- 
çC rão , comodiz Virgiliolib. 4. na íua Eneida, E 

porque o oflicio da fama he dizer tudo , a pinta 
aqui o Poeta em companhia de' Mercurio,para de- 
clarar aos Melindanoso vdior dos Portuguezes. 
DaTama fe veia a nofláannotação no canto nono, 
oytava 44.47.88. 

^lj*e o nome tllu/ire a bum certo amor obriga. Coula 
natural hc aíFeyçoaremíe as pellbas á gente excel- 

lente 



C"^ Omo ijlndi(fe, manda oconfagrado 
j Filho dt Maya a terra^por que tenha 
Htim pacifico pouoy à- fofjegado, 
*para onde (em j eceyoafrota venhr. 
E para que em Mombaça aventurada 
O forte Lapitãofe não detenha. 



M 



54, Canto 

lente em alguma arte ,& qucrerlhc bem , & inda 
que as nao conhcçáo , lenáo de ouvida fomente: 
donde veyo aquelle dito tão celebrado, Vtrtus glo- 
riaWiglorta aworem parit. As boas partes fazem, que 
os homens lejáo conhecidos por fama. Eíla fama 
faz que a gente le lhe affeyçoe. 

iâMelmde em ãejtjoi arde todo. Melinde eílà na 
cofta de Africa, a qual íc chama hoje coíla de Me- 
linde , porque nclle lugar foraôos Poituguezes 
bem recebidos , como pelo contrario em Mom- 
baça, 6c em Moçambique, que íaô na mefma coí- 
ta.iiílà Melindc de Mombaça i S.leguas ties grãos 
áa banda do Sur. He Cidade grande , & bem ar- 
ruada, dcmuytofermofascafasdepedra, &cal, 
com muytas janelas, 5c cyrados: tem muy tas hor- 
tas com muyta ©rtaliça , Ôchuyta , Ôcmuytos 
mantimentos. Naó tem bom porto, porferquaíi 
coita brava,6£ eftar dentro de hum arrecife, onde 
arrebenta o mar,mas tem hum campo ao longo do 
mar, que lhe da muyta graça. O Rey de Melinde 
deu Piloto aos Portuguezes que 05 levafic a Ca- 
lecut. 

DAlllfara Mombaça logo fartei 
Aonde as nàos eftavào temerofas^ 
^Faraque à gente mande ^que/e aparte 
1)a barra inimiga j & terras Jojpe^topus: 
forque muy pouco vai esforço /3 arte 
Contra infernaes vontades engano/as: 
^ouco vai coração,aftucia^&Ji/òi 
Se là do Ceonâo vem celefie avifà» 

Se là do Ceo não vem cekfie avifo. Dito he efte de 
Varão Cavalleyro , 6c temente a Deos porque nas 
terras não há quem fayba: & pouco valem forças, 
& iaber humano, onde Deos náo entra. 

60 

MEyo caminho a noyte tinha andado^ 
E as eflr cilas no Ceo cõ a luz alheya 
Tinhaõ o largo mundo alumiado ^ 
Efo c^o ojono a gente fe recrea. 
O Capitvõ illuftrejà canfado_, 
©í vigiar a noyte que anecea^ 
Breve repoufo então aos olhos davai 
A outra gente a quartos vigiava, 

Meyo caminho a mpe tinha andado. Diz que a 
meya noyte aviíou Mercúrio ao Capitão niór 
Vafco da Gama,o que havia de fazer. 

A$ efirelUi no Ce» co a luz albea. Chama a luz das 
eftrellas alheya , porque todos os Planetas , &. eí^ 
trellas recebe a luz que tem do Sol.Vcja.fe a noíla 
annotação atrás neftc mefmo canto oytava i. 



61 

QVãdo Mercúrio emfonhos lhe aparece 
T>tzendo\fuge.juge Luzitano 
T>a cilada que o Rey malvado tece^ 
Tor te trazer aefim^& extremo dano: 
Fuge^queõvento,^ o Ceo te favorece j 
Sereno o tempo tens^& o Oceano. 
E outro Rey mais amigo n' outra fartey 
Onde podes Jeguro agazalharte^ 

Outro Rey mais amigo n" outra parte. Eftc R ey, 
que Mercúrio diílc aos Portuguezes , que tinhâo 
mais amigo n^outra parte , era o de Melinde que 
os agazalhou , 6c favorece© muyto diferente do 
que CS receberão todos os outros defta cofta de 
Africa,porque todos determinarão deftruilos; 

6z 

NAÕ tens aquifenão aparelhado 
O hofpicio que o cru T>iomedes daval 
Fazendo fer manjar acojiumado 
2)^ cavallos agente^que hofpedava: 
As Aras de Bujiris infamado. 
Onde os hofpedeí trifles imolava^ 
Terás certas aquije muyto ejperasi 
Fuge das gentes perfdas^&ftras. 

O hofpicio éjue o cru Diomedei dava. Efte Dio- 
medes foy hum tyrano cruelilíimo de Thracia, 
quefuftentava os íeus cavallos com a carne , & 
fangue dos holpedes que agazalhava.A efte matou 
Hercules , & fez delle o que elle fazia dos outros. 

jís Aras de Bu/iris infamado, Buíiris foy hum 
grande tyranno do Egypto : o qual lacrificava 
fcus hofpcdes aos feus ídolos, & querendo fazer o 
mefmo a Hercules, omatouaclle. Chamou-lhc 
aqui o Poeta infamado , a imitação de Virgílio 
Georg. 2. /í«í illaudati nefcit Bufiridis aras. Ou 
não iabe os altares do infame Buíiris. 

^3 

VAyte ao longo da co(ia difcorrendoy 
E outra terra ai haràs demais verdade 
Lá quafi junto, donde o Sol ardendo 
Iguala o diaj& noyte em quantidade: 
Alli tua frota alegre recebendo 
Hum Rey com muytas obras de amizade % 
Gazalhadofdguro te daria ^ 
E para a índia cefta,& Jabta guia. 

Lá efuafi junto donde o Sol ardendo. A terra, para 
onde Mercúrio encaminhava os noflbs era Mc- 
linde,que cftà quatro gr^os da banda do Sur. Pelo 

que 



Lujtadas de Luh dé Camões Commentados] 5^ 

que diz,lâ quaíi junto donde o Sol ardendo igiia- Ajfopralhç Galerno o Vento,^ brando 

U o dia,õc noyte em quantidadej dando a enten. Com fuave , & íezuro movmenm 

der que elhva perco da Jinha,nti qual paragem os at„, ^^^:^„. ^^/r "j x^ / / .j 

, „ , '• ^\ * »?(• j iy.os perizos paiaaosvao falandos 

dias,&: as noytcs (ao iguaes. Mas porque Mehnde ^ r s r Ji '^^^ ^'*^j ^'*''^''i 

elU quatro grãos da banda do Sur . ufou defté ^^^ m^l/eperdemõ dopenfamento 

termo, quaíi dand» a entender, que eílava perco ^^ Çíifos grandes^donde em tanto aperto 

<ia hnha. A Vida emfalvo efcapafor acerto. 

64 

Al vias bumiJaí de argento. U,ntcnàesi$ag[iis da 

ISto Mercúrio dtffeM QJono lei^a mar , as qu^es çoíluma o Poeca chamar argento, 

i_Ao Capítão^quecom muy grande e/pauto que quer di^er praca,pela conformida4e,ôç leme- 

ji cordãy&vé ferida a ffcuYa treva Ihança que na qualidade da brancura as aguas 

©É' humafubita tuz>, & rayofanto, ^^'" ^^"^ ellAicomo os Poscas, mormente os Gre- 

E vendo claro, quanto lhe releva, S°^ ^<^%^^ '^^'^^l ^^^"^^ ^^^"L^^? ^'" '"^'>!;''^ 

■T^-^j. ■ j. • . 7 partes a 1 nctibíenaora do mar. rtí/eí 4r£c«fcí>í o«« 

í^aojedeternaterratmquatanto. L,, que tem pés de prata. Galerno hetemo. a 

Com novo efptrtto ao mejtre Jeu mandava, q^e champô os mannhey ros de todo pano, quan- 

^icas velas dejjeao vento ^queajaprava, do fazem viagem í^tjuartclarjcomoellcs falaó, que 

he hir pn? bonança , melhor que coni vento a 

E o fona leva 40 Capita», Levou- lhe o fono com popa. Porque èntâo vay a nâo, que parecc,quefe- 

a fua v3ra,â qual entre outras propriedades,& vir?» nâo move,fa2endo prolpera viagem. 
ttKlc$5lhc atribuem os Poetas cfta de tirar o íono, 

2cadormecer,cumodiz Virgdio. /)<jí/tfw»úi, á<5/í- ^g 
mit^tey & lumina m«rterefignat. Faz dormir, & 

aco rdar. ^T~^ 7«Ãá huma volta dado o Sol ar dente y 

^ X Ef^^ outra cnme çóíV a ^quando viraó 

*^ Ao longe dous navios ^brandamente 

DAy velas JílfeMy ao largo vento, Com ventos navegando, que refpiraè: 

^ue o Ceo nos favorece,^'Deos o mUa. forque havião defer da Maura gente, 

Clue hum men/'4geyro vi do claro affento, ^^ra elles mibar^ao as v^las virão, 

^efó em favor de nofjos paffos anda. H^m do tmor do mal.qne arreceava, 

Ale^mta^fe nifto o movimento Torjefalvar a gente.a cofia dava. 
fíDos marmheyros de htima,^ d' outra banda ^ 

Lev ao, gritando, as ancoras acima j rinha huma volta dado » Sol ardente. Depois que 

MoJtrandO arudeforçaquefe efiima, Vafco da Gama lahio de Mombaça, fendo jâ deila 

oyto léguas, lurgio huma noyte junto à terra, por 

•• • lhe acalmar o vento : 6c ern amanhecendo apare- 
cerão dous Zambucos , quç laô navios pequenos, 

NNefietempo^que as ancoras levavão, os quaes feguiráo Vafco da Gama atè horas de 

Nafombra e/lura os Mouros efcõdiàos velpera,dos quaes toQiou hum 16, porque o outro 

Mantamente as amarras Ihecortavão varou em terra, & a gente fepós cm falvo, Iftofa- 

^or ferem dando à cofia, deíiruidos: ^'^ « ^»P'^^" '''^' ^*^^° ^^ P^"!f. ' . P^í-q"^^^»"^^* 

Mas com vijia de Lynces vigiavão neceffidade de Piloto,que o levaflc a Ind.a , & an- 

r\ cn . r *''<S*«*;'"^ dava vendo fe O podia achar de bom lanço na- 

OsFhrtugnezesfempre apercebidos, „,5 p^rtes.E por eRe rcfpeyto trabalhava tan- 

■MlleSyComo acordados jOs/entir ao, to por tomar os Zambucos. E iíto he o que aqui 

Voando ^^ não remando lhe fugirão, diz o Poeta. Que o Sol tmha huma volta dado If. 

que era paflado hum dia , depois que fahiraó de 

Mai com vtfia de L^ces vigiavâo, O Lyncc he Mombaça, & (jue ao outro dia lègumtepela ma- 

ânimal que vè muyto,como diz Plinio lib 28. cap. "^^ apparccerao os Zambucoi. 
fe.in fine, ao qual compara aqui o Poeta 03 Portu- 

guczes,pela grande vigilancia,& cuydado que ti- ^^ 

qhâo na guarda das nãos. A fabula de Lyncio ^T Amhe ooutro queficatãomanhofo, 

convertido em Lynce conta Ovidio nas Meta- ]% Mas nas mãos vay cair do Lufit ano, 

inorphofis,hb.<. * j %/i ^ r -^ r 

' ' òemorigor de MartefuríofOi 

67 E [em a fúria horrenda de l^^iUcanOs 

Asjà as agudas proas apartando ^ue como fojfe débil, & medro fo 

Htaõ as vias húmidas de argento, *JJa pouca gente o fraco peyt buMáttP: 



M 



t 



Canto Scgtindo. 

de Europa a luz Pbeka. Defcrevc o tempo , 6c dia 
em que a nofla armada ouve vifta de Mclmde. O 
tempo diz , que era quando o Sol entra no Signo 
Tauro, que he no mez de Abril. Luz Phebea,hc a 
luz do Sol. Chama-fe luz Phcb:a, porque entre 
ouiros nomes que o Sol tem , hum hc Phcbo. O 
roubador de Europa hc o Tauro , pelo que con- 
táo os Poetas, quej upiter em figura de touro fur- 
tou a Europa hlha de Agenor Rey de Phenicia, 
& a levou a Cândia : &; por eíle rcipcyto poz a 
touro no Ccojôc fez delle huma conítellaçáo,quc 
he hum dos doze Signos do zodíaco. Charoa a ef- 
te tempo alegre, porque he o mais de todo o anno; 
pois a terra eíta como hum fermofo paynel , veíH- 
da de todo o género de boninas, 6c H ores. Como 
fe entenda entrar o Sol em algum Signo , fe lea o 
queeícrevemosno canto quinto^oytava Icgunda. 
Çiuando bum , (jf uutro corno lhe stjuentava. líto 
diz.pelo que os Poetas dizem do Signo Tauro, que 
cm memoria do turto que fez Jupiter,quanclo era 
figura de touro roubou a Europa > não apparcce 
elte Signo no Ceo à parte trazcyra : ÒCalíima» 
principaes eífrçllas tem no roílo, 6c pefcoço. 
E tloré eltrramava o de Amalthca, Para niayor 
^luenenhHm delles ba.Kíkts Mouros que tomáraõ declaração do tempo , de que acima falámos , ula 
noZambuco , erao daquela coíla de Mclinde, deílas palavias,que Flora Deola das flores, dcrra- 
gente barbara, 6c boçal, pelo que nenhum loube mava boninas, 6c flores por toda a terra emgian 
dar razão da índia. ' . ^ 



56 

NaS teve repfíencta^ &/e a tivera^ 

Mais dano rejijimdo recebera. 



Sem o rigor de Marte furitío. Diz que tomarão 
aquellc navio lem contradição, & fim a furta hor- 
renda de Vulcano: nem peleja alguma \ o que mof- 
tra por cilas palavras , Marte , £c Vulcaao , hum 
Deos da guerra , outro do fogo 1 como fc diz por 
muytas vezes neílasnoflasannotaçóes. Vulcano 
fe toma aqui pela artelharia , 6c efpingardaria, 
como he ordinário nos Poetas Latinas. 



70 

EComo Gama muyto defejajje 
*Pí loto para a Índia que bufcava, 
Cuydou que entre eftes Mouros o tomajje. 
Mas não Ihe/ocedeo como cuydava. 
^ue nenhum delles ha, que lhe enfinafje^ 
A que farte dos Ceos a índia eftava^ 
Yorèm dízemlhe todos ^que temperto 
Meímdeyonde acharão Tiloto certo. 



de abundância : Pelo que fe contado Corno da 
Cabra Amalthea,que deu demamarajupiter,que 
tudojO que qucrião fe achava nelle. De Flora fe 

LOuvão do Rey os Mouro r a bondade, veja o que efcre vemos no canto ç.oytava 61. 
Condição liberal fincero peytO ^ A mtmoria do dia renovava oprejjurofit Sol tjue ê 

Ceorodeya. Depois que o Poeta tratou do tempo 
que a nofla armada vio Melinde , que foy no mez 
de Abrili tratta agora do dia , o qual diz, que toy 
aqucHe em que Deos poz o fcUo a quanto tinha 
feyto. Eífedia,como confiadas Hillonas,loy dia 
de Pafcoa da Refurrcyçâo 15. de Abril de 14^8. 
dia,âo qual com muyta rezão deu o Poeta cite no- 
me , quepoz Deos o lello nelle, a quanto tmha 
feyto,pois nelle poz a ultima máo a todos 0$ bene- 
fícios , 6c mercês , que deíde a criação áo mundo 
havia feyto aos homens; principalmente ao da lua 
Sacratifiima Payxaó , 6c Redempção do género 
humano. E afiim diz, a quanto tinha feyto, por- 
que entende tudo o que tinha íeyto dcide a Cria- 
ção, à qual fe refere á Redempção, 6c a Redemp- 
ção â Refurreyçâo,com a qual acabou,6c poz ícU 
lo a todas as mais obras que pelos homens tinha 

En A. ^ ^1 j ^ fevto.E afllm o Bemaventurado S. Paulo adPhi- 

Ra no tempo alegre quando entrava v ^ r l \ - ! a n. i -lu^riíTíma cU 

*r / C j "V. " / / / Jippcnfes 5. iratradooeltaobraexcellentillimada 

No roubador de Europa a luzphebea: Omnipocencia Divina diz : Qiie a mayor conlo- 

laçâoquetemosChriftãos , ôc o mayor remédio 
para todos os trabalhos da vida , 6c para todos oS 
iucceflos que pode haver nclla , he, a efperança da 
Reíurrcyção,pois com ella acabou o Redemptor 
nollo de vencer, 6c confundir ao demónio, 6c nos 
abrio as portas do Paraifo , que G*antcs cílaváo 
cerradas. Chamou ao Sol prcflurofo,quc rodeya o 
í.ra no tempo êlegn guando entrava. Ns rouhder Ceo , porque em f ípaílo de vinte 6c quatro hora* 

dá 



71 
Ouvão do Rey os Mourox abondade. 
Condição liberal finceropeyto. 
Magnificência grande j ^ humanidade ^ 
Compartes de granáiffimo re/peyto: 
O C apitão o affella por verdade, 
Torquejã lho dij^era defiegeyto 
O Cyllenéo emjonhos^^ partia^ 
Tara onde ofonhOi& o Mouro lhe dizia. 

OCyllenèo. Atrás fica dito, como Júpiter man- 
dara Mercúrio feu Embayxador, a avifar os Por- 
tuguezes,fe defviafiem de Mombaça, 6c que fízef- 
lem (ua viagcm:que adiante acharião porto, 6c ga- 
zalhado cm hum lugar chamado Melinde : cujo 
Rey era homem de grande condição , & partes. 
E ifto he o que aqui diz o Poeta. 

72- 
Ra no tempo alegre quando entrava 
No roubador de Europa a luzphebea: 
guando hum^^ outro corno lhe aquentava, 
E Flora derramava 6 de Amalthea: 
ji memoria do dia renovava 
Oprefurofo Sol que oCto rodeya. 
Em que aquelle, a quem tudo eíiàfogeyto, 
Ofellopos a quanto tinha feyto. 



Lufiaãas de Luís de Camêés Commentadoí, 5 f 

dâ volta ao Univerfo,levado com furia^ôc impeco non fecimui ifft, Vix ect nofira "joco^, Geraçâo,êc bita^ 
do pi irBeyro móbil , de Oriente para Occidcnte, vós , & as cauías que náo fizemos , apenas lhe cha* 
como íe cratta no canto dccirao,oytava 85. mo noflas. 



73 

QVandò chegava a frota àquella parte 
Onde o Reyno Melmdejajevia, 
T>e todes adornada,& leda de arte^ 
^ue bem moftra efti mar Q Janto dia: 
Treme a bandeyra/ueao efiandarte^ 
Açor purpúrea ao longe aparecia^ 
Soaõ os atambdresy& pandeyros: 
Eaffientravão ledos i&guemyros. 

Çju btm mofira e/limar o fant9 dia. De fere ve a 
alegria com queaarmadachegoua Melinde, §c o 
dia,que foy dia de Paícoa da Relurrcyçáo » como 
fica dito. 

74 

ENcbefiíodaapraya Melindana 
IJe gente ^quei) em vtr a leda armada ^ 
Gente mais 'verdadeyra,& mais humana^ 
§ué toda a d' outra tetra atras deyxada. 
Surge diante a ff ata Lufitana, 
^ega no fundo a ancora pezada: 
Mandão fora hum dos Mouros que tomarão s 
*Por quem fua vinda ao Rty manifeJfàraÕ. 

^lut toda a de outra Urra atrai deyxada. Pontue em 
todos os outros lugares daquclla eofta tiverão 
conrradjçáo,& ruim ga/.alhado, laivo em Mclindc. 

7$ 

ORey quejàfàbia da nobrezai 
^e tanto os Tortuguezes engrandece, 
Tomarem o feu porto tanto preza, 
planto a gente for ttfjima o merece, 
E com Ve rdadeyro animo ^& purez i, 
^le os peytõs generofos ennobrece. 
Lhe manda rogar muytOjquefahiffemi 
""Fará que defèus Reynosfefervijfem, 

§lue 91 pej/tos gencrojos tnnobrece. Próprio da no* 
i-breza he , guardar verdade , 6c primor cm tudo, 
^dondcdifieo Philofopho DcQiocralcs : Fecndut» 
nobilitai in bono^ validocjue corporis hahitu fita cfi-, bo' 
nnnum autem in bonttate morum. A nobreza dos ani- 
ntacs conlille nah boas feyçóes do corpo, & forta- 
leza, 6c a do honiem na bondade dos collumes. lií- 
tihea verdadtyra nobreza, l"gundo to* os os lá- 
bios, & náo a daquclles, que fiandofe da nobreza 
dos avós, vivefubajxa,&; eítragadannence. Donde 
Ulyílès naquclla contenda que teve com Aiax 
^ue Ovidio reconta: Namgenuit& vroavoi^& f «*« 



SAq offerecimentos verdadeyros^ 
E palavras fine eras _,não dobradas^ 
As que o Rey manda aosnobrts cavalkyroi^ 
^ts tanto mar,& terras tempaffadas* 
Mandalhe mats lanígeros Carneyros-, 
E Galinhas damejticas Cevadas ^ 
Com asfruytas^que então na terra havia^ 
E a vontade à dadiva excedia. 

Lanigeroi carneyros, Lanigcros he epitheto dd 
carneyro , & ovelhas : ÔC chama-fe afiim de lana, 
L.Ami& geroi que quer dizer trazer, por lerem cu- 
bcrtos de Iam» 

77 

REcebe o Capitão alegremente 
O menfageyro ledo ,ò feu recadoí 
E logo manda ao Rey outro prefente, 
^e de longe trazia aparelhado: 
EJcarlata purpúrea ^cor ardente^ 
O ramofi) coral fino j^ pezado: 
^e debayxo das aguas mole crece^ 
Ecomo hefôra deUasfe endurece, 

O ram»fo coral, O Cotai nace debayxo d*agiiá, 
como lartro dclla,a modo de ramos de arvore com 
niuytosefgalhos,como heaflás notorio,&: fabido»' 
A transformação , Sc fabula do coral , & de que 
modo ioy fcyto , conta Ovídio nas Metamorphor- 
fís lib. 4. O qual cm quanto eftá debayxo d*'agua, 
he mollc , éc em o tirando fora , le faz duro, 
como diz o raelmo Poeta lib. 1 5. 

5íc, c^ eoralium,ejuoprimMm contigit aurat 
Tempore durefctt , mollis futt bei ba (ub undis, 

Affim o coraljdiz Ovidio, em o tirando d*agua, 8c 
aparecendo ao ar , logo fe faz duro , qual debay- 
xo d^agua era hcrva molle,6í branda. 

78 

MAnda mais hum na pratica elegante ^ 
^e cô o Rey nobre as pazes còceftajje^ 
E que de nãofahir naquelle tnsíante 
'De fuás nãos em terra,o defculpajfei 
*Fartido afifio embayxador prepante. 
Como na terra ao Reyfe aprefentafje^ 
Comefiilojque T alias lhe en finava j 
Efias palavras taes falando orava^ 

C§m ejiilo ^ut Palias Ibt tnjtnava» Palias tínhaõ os 

H antigof 



CâHto Segundo. 



cIjIndia,como íetrattaneílc livro largamente em 
muytos lugares. 

81 



Q1)e geração tad Uitra ha hi de gente, 
^e bárbaro coftumey& ujançafca^ 



antigos por Deofa da Icíencia, & da guerra. Tem 
entre os Poetas diferentes nomes: fingem, que 
naceo da cabeça de feu pay deftemodo, Eftando 
Júpiter com grande dor de cabeça , mandou cha- 
mar feu íilho Vulcano. Sc difielhe que lhe fcndeíTc 
a cabeça com hum machado, comofez, ôclogo _ _ 

fahio Palias armaria molher jâ caladoura,ferrooía, ^j^f. f^ao vedem OS portos tãofimente 
& com huma lança nas mãos. Chamaó-lhe Deoía j^^^ tnda o ho/picio da dejtrta areai 
da guerra , & da Iciencia , porque dtas 4uas artes ^^^ ^^ tençãolque peyto em nòsfefente] 
juntasparecem bem, Scajudao muyto L^^^^^^ t,ie de tãopoucageiL fe arrecea 
a razão porque fazem a Palias nacída da cabeça ae c<^ *• ^ r ^ . -^ _ ^ . ' 
Júpiter leu, pay,pórf'er cabeça, ôcaílento da íabc- 
doria , a qual parte hemuyto neceílaria aos ho- 
mens que tem estorço , & vivem da mibcia. Don- 
de nquelle grande Poeta Homero na lua Uiada faz 
companheyros a Ulyfles , & Diomedes , porque 
Ulyllcscranuiyto avilado , ôc Diomedes grande 
eavallcyro. Veja-íc a noíla annotação no canto 
terceyro , oytava noventa 5c icis. 



^e com iaços armados t ao fingidos 
Nos ordenajfem vernos dejtruidos? 



7^ 

SVblime Rey^a quem do OiympQfuro 
Foy da fummajufttça concedido 
Refrear o foberbopovQdura^ 
Não menos delle amado ^que temido^ 
Como porto muy forte ^^ muyfeguro 
^e todo o Oriente conktctãOj 
Te vimos a bufcarjparaque achemos 
Em ti o remédio certo ^ que queremos^ 



Çlue geração tuõ dura» Efta exclamação de que 
o Pc>ctaaqui ula, hea imitação de Virgilioonde 
lliontu companhsyro de bncas , vendo-le livre 
de huma grande tormenta que no mar leve, poílo 
diante de Elyla Dido RaynhadcCarthago , lhe 
reconta o maogazaJhado que rccebiáo da gente 
daquella cofta, que nem na trifte, & dcícmparada 
área lhe deyxàvaô fazer aflento. 



^odgenushoe homim^ quave bane tam barbara more 
Fermtttit ptítrta^hojptcíú prohíbemur arena. 

Que geração he efta de gente ? que terra tão bar- 
bara permite eíle coftume ? eis aqui nem na área 
ngsdeyxáoporpè. 

M/4s tu j em quem mny certo confiamos^ 
Achar fe mais verdade ^ó Rey benigno^ 



l^ão wems delle amadoyfjm temido. O vcràiácyro _ 

Rey ,ík que merece eítc nome nas terras, ha de ter E aquelta certa ajuda em ti efperamos^ 
cilas duas párt€s:bondadc,pela qual todos os bons ^^^ ^.^,^Jg o Perdido Ithaco em *yílcin0: 
o amem: gravidade, & intevreza, com que íejate- ^ teuportofeguros navegamos 

{Conduzidos do interpn te "Divino: 
^epois a ti nos mandate ftà muy clarOt 
^e es dé peyto fincero^hwnano^à' raro. 



graviuaae, Cí intey reza, com q 
mído dos ii))a<:)S. Donde Ilocrates na vicjii de Eva- 

torasjdizeíl.is palavras: Governava a lua Repu- 
lica táopiadoia ,&: humanamente , que os que o 
VJÚo , nâo íómenteaclletinhãopor bemaventu- 
rado, por aílim trattar a íua gente: como aos léus, 
per affim ferem trattados delle. Em concluíaõaf- 
fim paliou lua vida , que nunca nella aggravou a 
ninguém , honrando aos bons , Sc caíligando aos 
mãos. 

80 

NAÕ fomos roubadores ^que pajjando 
Petas fracas Cidades defcuydadas^ 
A ferro, & fogo as gentes vão matando 
^or roubar Ibe as fazendas cobiçadas. 
Mas dafoberba Europa navegando 
Htmos bufcando as terras apartadas 
tD« índia grande_,& rica por mandado 
^e hum Rty,quetemos^altOi&fublimado. 



^ueteve o perdido ti baço em Alcino. Alcino foy 
Reyde Corcyrallha , que hoje le chama Coríu, 
foy muy to curiofo de jardins, & hortas: & dizem 
que nelta fua Ilha havia tanra abundância de fruy- 
tas,que todoo anno as havia,dc maneyra que hu- 
ma acabada , outra começava , donde diííe Ei- 
tacio nas Sylvas. 

Çiuidbifera Alcionilaudem pomaria ? vof<jut 
§l,ttt nm(juamvacui prodi(tntn 4etheraramtí 



Paraque trattarcy dos pomares de Alcinoo , que 

dão fruyto duas vezes no anno , & de voz ramos, 

que nunca ertais no ar vazios. A eíta Ilha aportou 

ÚlyHes (a que o Poeta aqui chama Ithaco , por- 

" ' que era Senhor de Ithaca) , £< foy recebido , 6c 

De bum RfjfejuetemêíaltOy^fuhlimado^^í^ccr^ agazalhadode Alcinoo com rodo o bomtratta- 

El Rey Dom Manoel xiiij. de Portugal , o qual mento , coano conta Homero na Odiífea hb. 5. 

com muytamílancia procurava o defcubrimcato 6, & 7. 

Conduz,'uhf 



Lu/iaãas de Luts de Camões Qommentades, 
ConJux^idoj f!o interprete Otvtno. Interprete Di- E O Rey íllítftre, o peyto obediente 



Í9 



vino hc Mercurio,por que o Hngem interprcce,& 
aicnlagcyro de Júpiter ku pay , & de todos os 
mais íaiiós Dtoles,coa)o fica dito cant.i.oytav.3, 

ENaÕ cuydes.ó Rey^quenâ^JahtJJe 
O nojjo Çupttaõefí Uru ido 
inverte, ou ajervtrte porque vi/Je 
Ou Cofpeytajfe em tipeytopigtão: 
Masjaberàs^que o fez,. porque comprije 
O Regimento em tudo obeaecidot 
*jDeJeu Rijjíiíie lhe ntAnda^que nãofayéi 
'Deyxanao ajrota em nenhumpçrto^oupraya^ 



'Dos Portugueses^ na alma imaginando, 
Tinha por valor grande Jê muy (obido 
O do Rey^que he tao longe obedecido^ 

§lue tantos Ceotf ^ ptartt vayfajjanâo. Eíla pa- 
lavra Ceo , quer dizer propriamente eíta maqmna 
que vemos, ondeeítáoas liítrelias , 6c planetas: 
T oma-le também pcloar,ôc por elte rclpeytojpor 
regiões, Sc partes do mundo,na qual fignificaçáo o 
tomou aqui o Poeta, & nos o deelarámos no canto 
primeyro. 

"P Com rifinha vfftaJ3 ledo afpeyto 



Refpóde ao embayxadorj q tanto ejlimai 
E não cnyJeií , o Rey , ^ue nao {»htffe. Não ufa o Toda a fofpeyta mà tiray dopeytOy 
Poeta deita linguagem íkhiírejViíle, ôc outras que JSlenJíUmfrto temor em vósfe imprima 
peiodílcurlodohvro leachàraó . por falta de pa- ^^evoppreço.á obras faò de gyto 

^tara vos ter o mundo em muy ta efiimtty 
E quem vos fez molejio tratíamento, 
Nâopode ter (ubtdopenjamento^ 

Ntnbum frio temor em voz, fe imprima, Epitheto 
mu) to uzado cm todos os Poetas he chamar ao 
medo, frioOvidiohb. I. Faílorum. 



{jeiouiicuriouo livro leacnarao, portaitaaepa 
avras,Dias por ler coílume entre os Poetas, uzar 
ckàuns tempos por outros , como íeverá neltc 
canto muytas vezes : 6c 05 lidos em os Poetas, 
aíTini Laiinos como Gregos , & das mais lin- 
gur.b , u entendera muyto bens. 

84 

*T7 forque he de vajjallos o exercício 



^te os membros tem regidos da cabeça: Extimui/enfiefue metn riguiffeca^iilesi 



SSiào querer ài\j>ois tens de Rey o ojjicio'\ 
^^eningnvm u fèu Rey defobedeça-. 
Mas ás nmces tà" ogranae beneficio^ 
^u ora acha em th promtte^ que conheça 
Em tudo aquíllOiijue elle, & os /eus poderem j 
hm quanto Os nos para o mar correrem. 

Em quanto os rios fará o Mar correrem. Termo he 
de talar nuty tu ulado entre Oi Poetas. 

J^itm jugamontis aper,fit4VÍ0í dum pifeis amahit, 
Ditmejue thyntõ paf.cKíur af€i , dum rore cvcai^t 
êempcr honei^nomenc^m tnumjaudfjue manubunt. 

Em quanto o porco andar na Terra , opeyxeno 



Et geltdum (uitíto pettort frtgus erat* 

Temi,& Tenti levanraríeme os cabelos com o me- 
do , 6c em meu peyto ertava hum medo írio. Lu- 
canoIib,j. Ph^ri.GeUdos pavor oecupat artut. O me- 
do occupa os membros íVios , ôc n^cutrcs muytos 
lugares. 



DEnãofdhlr em terra toda, agente 
Tor objervar aujada preminenciat 
Atnaa que me peje ejirunhamente. 
Em muyto tenho a muy ta obediência: 
Masfe lho o reg Imento nâo conCentej 
Ne ?n eu coníentírey^que a excellencla, 
rio, em quanto as abelhas comere«u o ouregáo, & T^epeytos tao leaes em fi desfaça 
as cigarras o rocio, vivirà o vofíb nomc,vofla hon- òó porque a meu dejejojaíjsfaça, 
ra, Sc vofios louvores. Deílcs modos de encareci- ^'^ 

nícntos eílão os Poetas cheyos, & laó muyto ula- por ehfervar aufada preminemia. P orq lie hc caí- 

dos na pratica commum dos homens para dizer tumenâodelembarcar o Capitão , & gentcpriíx- 
cm quanto o mundo duiar. ciial em terra de inimigos. 



«5 

Aífi diStia^^T todos juntamente 
Hunsccm outros em pratica falando, 
Louvào muyto o ejlamago da gente ^ 
^t tantos Ceosyí^ uares vay pajfando: 



88 

1^ Orem^como a luz, craflina checada 
y/<? mundo forcem minhas almadlas 
Eu Irey vi fitar a forte armada, 
^lue ver tanto dejejo, hà tantos dias. 

Ha 



E 



6o 

Efe vier do mar desbaratada ^ 
iJofurtofo vento jò" longas vias, 
yíqui terá de Itmpos ^enf amentos 
Piloto mumçêesjé' mantimentos, 

Torèm como a luz, crafiina. Como amanhecer, 
porque craftina na lingua Latina quer dizer cou- 
íadodia feguinte. 

Almaàiês, São barcos , de que fe uía naquellas 
partes. 

ISto àijfefê nas aguas fe e/condia 
O filho de Latonaj& o menfagtyro 
Com a embayxada alegre fe partia 
'Para afrotanofeu batelligeyro, 
Enchemfe os peytos todos de alegria^ 
'Por terem o remédio verdadeyro 
^ara acharem a terra que bufcavâo 
Eaffiíedosa noytefefiejavaô, 

O filho </« Latona. Apollofilhode Júpiter , & 
Latona que he o Sol: Sc porqjjc elle, & a Lua na- 
ceráo ambos de hum parto na Ilha Delos , tem os 
ir.clmos nomes entre os Poetas, de que nos trattà» 
IDOS por muy tas vcz.es nefte livro. Diz que Te e(- 
condja nas agua?. Veja-fe a noíla annoiaçáo no 
cauto primeyro , oytava 5^. 

5)0 

NAõfaltão alli os rayos de artificio % 
Os trémulos cometas imitando j 
Fazem os bombardeyros feu officio 
O Leoa terra as ondas atroando: 
Mojirafe dos Cy dopas o exercido. 
Nas bombas iqiie de fogo efião quey mando: 
Outros com vozes ^com que o Ceofertaõ^ 
Inftromentos altiffonos tangido, 

JS!ae faltai alli 01 rayos de artificio, Defcreve o 
Poeta a fcfta , & alegria que houve na arma<ia ven- 
do que chegavãoâ terra que bulcavao , na qual 
houve muyios foguetes, aos quaes o Poeta chama 
rayos de artificio. 

Oj trémulos eomttas imitanJo, Entre as Impref- 
íócs ignitas de que os Philolophos trattão, fe con- 
ta também o comcta,o qual fe gera das exhalaçôcs 
da terra levantadas ao alto do ar por huma influ- 
encia natural,& virtude do Sol,& dos mais Plane- 
tas, & EftrcUas: nas quaes exhalações com a rczi- 
nhança d© fogo, & movimento do ar fe inflamão, 
& duráo por algum tempo com novas ajudas, que 
lhe da terra vão d*outros vapores, £c exhalaçóes. 
Eftes cometas tem differenies nomes entre os Phi- 
lofoj hos , conforme á figura que aquella matena 
inflamada lhe faz , como diz Ariftotcles nos Me- 



Canto Segundo, 

tcoros. Pliniodiz, que as razões que os Philofo. 
phos daó neílas matérias do Ceo , íaõ mais fubti. 
Icza de engenho , que verdade : 6c que a natureza 
proveo neítas coufas por alguns rcípeytosoccui- 
tos j o que fevé claramente por acontecerem pou. 
cas vezes,âc em certos tempos: donde proctde ler- 
nos elcondi^ a raz.ác diíto.He dito avilaclo,&: tu- 
do o mais íao galantarias , o que todos os Phiiolo- 
phos, & poetas dizem dos Cometas. E mdaque el- 
les o não difl^eráo , a experiência no lo enfina 5c 
heque pela mayor parte laófínacs de males gran- 
des, guerras, peíles, fomes, morte de alguma pcl- 
íoa abalizada. Donde Lucano na fua Pharfalia. 

Ignota ohfcura viderunt fyJtra no6leSy 
yirdentemcjue polumflammtstcaloejue volantes 
Obliquas per inane faces ^crinemíjue time fult 
Sjfderis, ^ terrts mníantem regna comtttn. 

As obfcuras noy tes ( diz o Poeta Lucano ) vcráõ 
Eftrellas não conhecidas : grandes fogos no Ceo, 
& o cometa mudador dos Rcynos. Chama o Popta 
líUcano ao cometa mudador de Rey nos , porque 
prognoílica fua deftruiçáo como fica dito. 

Mo/lrafe dos Cyclofas o íxcrocio. Fingem os Poetas 
que tinha Vulcano Ferreyro de Júpiter leu pay na 
Ilha Lipara, huroa das Eolidas, as quaes eílão en- 
tre Italia, & Sicilia, certos obreyros que o ajuda- 
vão a fazer os rayos para Júpiter feu pay. Eítes 
eráo três, Brontes, Eíleropes, ôc Pyracmon filhos 
de Neptuno, & Amphytrite. Chamaváo-lecíles 
Cyclopas, como lhe chama aqui o Poeta, por te-», 
rem hum fó olho grande na tefta de cyclos , que 
hc o circulo, Scopf. oolho, por terem hum fó 
olho muytogrande.O que o Poeta quer raoftrar, 
he que nefte recebimento, 6c feita do5 Portugue- 
zcs, & Melindanos havia muytos foguetes, bom- 
bas , & rodas de fogo , & outras fcílas , que o 
Poeta reconta neítas oytavas. 

91 

REfpondemlhe da terra juntamente 
Com o rayo volte ando ^ com Zonidot 
Anda emgyros no ar a roda ardente^ 
Eftoura o pò fulphureo efconàido: 
 grita fe levanta ao Ceo dagente^ 
O marfe via em fogos acendido, 
E naÕ menos a terra\& affifefleja 
Hum ao outro â maneyra de peleja^ 

Anda emgyros no ar a roda ardentcAi^da. as yoltaj 
no ar a roda de fogo. 

E/loura o pé fulpbstreo.Pó lulphureo he a polvori 
a qual os Latinos chamáo pui vis fulphurcus,p^ 
de enxofre , porque fc faz deli c. 



Ma 



Lufiadas de Luis de Camões Commentadoí. 

Traz o Rey de Me linde acompanhado 
o 1 2)í nobres defeu ReynOj ^ defenhores: 

Vem de ricos vejiidos adornado 
Segundo Jeus cofiumes^ô" primor es^ 
Na cabeça humafota guarnecida^ 
2)í ourOj& de fedaj& de algodão tecida. 



6í 



MAsjâ o Ceo inquieto revolvendo^ 
Ai gentes incitava afeu trabalho'. 
El d a mây de Menon a luz, trazendo^ 
Aofono longo punha certo atalho, 
Hiaõfe asjombras lentas desfazendo. 
Sobre as flores da terra em frio orvalho*. 
(Quando o Rty Meltnaano fe embarcava 
"^ ver a frota, que no mar eãava. 

Mas jd o Cíâ /«^«ifítf.Defcreve o Poeta nos pfí- 
n^.eyros (eis verios delia oytava o tempo da ma- 
nha. Por Ceo inquieto entende o primeyro mó- 
bil , o qual com curfo, & movimento arrebatado 
faz I que todos os mais Ccos dem huma volta em 
24. horas. Eíla volta he caufa do dia, õc da noytc, 
como o Poeta aqui diz, & henotorio aos que en- 
tendem as pniiieyras letra» da Aílrologia.Chama 
ao primeyro móbil inquieto, porque íeucurfo he 
rauy arrebatado. Veja-fe o que cícrevemos no 
canro decimo,oytav a 85. 

fííaÕ-(e as lentas (omkras Jeifazen(io.Kfí.Sí hea ra- 
zão , porque de todo o tempo da noyie a manhã 
he mais fría,porque le recolhem, £c ajuntào todas 
as humidadcsahum lugar, fugindo da prcfença do 
Sol, que le chega. E apartadas de huma, 6c outta 
parte, le faz em orvalho,como o Poeta aqui diz. 

Por mây de Memnon entende a Aurora, Efte 
Meranon íoy Rey de Oi lente , pelo que lhe daõ 
a Aurora por fuamáy. Da Aurora íe veja o que 
trattámos cm outro iugar,oytava i4.canto i. 

\7 laõfe em derredor ferver as ftrayas 
IDagente^que a ver fó concorre leda: 
Luzem da fina purpura asQabayas\ 
Lu/ir aô os panos da tecida feda: 
Em lugar de guerrearas azagayas 
E do arcoyque os cornos arremeda 
2)tf Lua, trazem ramos da palmeyra^ 
*Dos que vencem^ coroa verdadeyra. 

Trazem ramos de palmtyra, A palmeyra he final 
de vitoria , como diz Aulo Gelio nas fuás noytes 
Atticas: onde alleg-^ Plutarcho, & Ariftoteles. 
Tem eílu arvore tal propriedade, quepormayor 
carga que lhe ponháo, fempre trabalha por fe Ic- 
VantarA por mais que a apertem, & nialirattem, 
fempre icfifte. Da natureza dtfta arvore, íc veja o 
Autor dos Chibadas no provérbio Palmam ferre» 



Na cabeça huma fota, Huma fcíta,hc huma toií^ 
ca de varias cores , &. teyta para le trazer na ca- 
beça , o qual trajo coíf uináo os Mouros , 6c ufaó 
dellc,como nós câ dos chapeos. 

C"^ Abaya dedamafco ricOi& dinOj 
^ T>a Tyria cor entre tiles eflimada^ 
Hum collar aopefcoço de ouro fino j 
Onde a matéria da obra he fuperada: 
Cum refplandor reluze adamantino j 
Na cinta jU rica adaga bem lavrada: 
Nas alparcas dos p'es em fim de tudo 
Cobrem ouro, & aljôfar ao veludo, 

Cahaya dedamafco. He Cabaya huma vcílidiirn 
muyto elti eyta , 6c apcrtsd i com o corpo , caino 
as trazem os Mouros hoje. 

Dd Tyria cor. Em Tyro , 6c Sydo , Cidades de 
Phenicia que hoje fe ciiama Suria, fe faz gram cx- 
cellente , pelo quea eíla cor chaináoosLatinos 
cor Tyria, ou Sydonia. 

Onde a matéria da obra he /«píi-ái/í. Encarecimen- 
to dos vertidos que levava jquer dizer,onde o fey* 
tio vai mais,que o propriojO que diflc á imitação 
deOvidiolib. 2, in principio, o qual gabando os 
paços do Sol, diz, Materiam fuperabat oput^ ofey- 
tio valia nuis que a matéria , roais que ouro, pra* 
ia, Sc mariiin,de que eráo fabricadoSé 

C'> Om hum redondo empar o alto de feda, 
^ Numa altay (^ dom ada aflea enxerido^ 
Hum mtniflro a folar quentura veda% 
^e não offenda, ^ queyme o Rey fubido, 
Mufica traz naproa eííranhat& leda 
T)e afpero fomjjorrifono ao ouvido: 
^e trombetas arcadas em redondo, 
^efem concerto fazem rudo eíírondo. 

Com hum redondo amparo alto dt feda. Entende© 
chapco do Sol, que naqucllas partes fe uía muyto. 
Som borrifon». Som clpantofo» & que hz cílrondo. 



H 



5?4 
Um batel grande ^fê largo jque toldado 
Vinha de fedas de diverjas cores^ 



N 



í>7 
Aõ menos guarnecido o Lufitano 
Nos {eus bateis da frota je fartia 



Çt Canto 

A receber no mar o Melmdam^ 
Lom íujírofãj& honrada companhia: 
^íjíiíO) o Gama vem ao modo Hijpano, 
Masjrancefa era a roupa que vejfta 
UJejetim da Adnattca^eneza^ 
Larmefi.cor que agente tanto preza» 

' Da Adriática 1^'eneza. Veneza he huma Ciclíiae 
edificada no mar , rodeada , & entretecida com 
a^ua laigada^ mais fcrmola, 6c rica, Ôc de mayor 
irattOj& negocio do mundo. Foy o principio de 
lua edificação no anno de nofla ialvaçáo de45<5. 
no mez de Março , cm tempo que o cruel Atila (a 
que os Elcricores chamão açoute de Deos ) del- 
truhia]taiia,aferrOj£c fogo: íci-n de circuito duas 
léguas, 6c eítá da terra firme outras duas, pouco 
niais,ou mcnos,anda'le toda por mâr,&: por terra, 
falvo alguns bayrros, aos quaes íe náo pôde irfe- 
nâo por mar,por lerem partes tão deíviadas da ter- 
ra , quenâo íc podem nellas fazer pontes. Para a 
paliagem do mar ufaó de humas barcas,a que cha- 
mão gôndolas , d s quacs tem a Cidade paraefte 
iiHfter,raaisdeonze mil, que eílâoferaprepreftcs 
de dia, & de noy te, para o ferviço da paflageni de 
todo o gcnero de gente,ôc por muy pouco preço. 
E para a paflagem da terra tem quatrocentas 6c 
cincoenta pontes , a mayor parte delias de pedra, 
& as outras de madcy ra. Divide a eítafermola Ci- 
dade era duas partes hum canal de aguadomefmo 
fnar,que a faz muy to mais fcrmola, pelo qual na- 
vegue gaUs, caravelas,6c nãos. No meyo do canal 
tem huma ponte fcrmofifljma , ondehámuytas 
tendas de mercadores em que fe acha todo o ge* 
nciode mercadoria, &curiofidade do mundo cm 
grande abundancia.Ha nefta Cidade muytos bro- 
cados de todo o género, ík telas de ouro, & prata, 
pei lumes, & cbcyros excellentiflimos, & muyta, 
ix muy rica pedraria, èí ledas de teda a forte, pelo 
que uiz aqui o Poeta , que hia veílido o Gama de 
cetim da Adriática Veneza. Chama-fe Veneza 
Adriática, Sc o mar Adriatico(comodÍ2 Polybio) 
de huma Cidade por nome Adria , que efteve en- 
ti e Ai bocas do riò Pó, de que hora náo hà fafto, a 
qual foy Colónia dosToícanos ( como diz PÍj- 
nio),&. Eílrabão.Hcrmolao Barbai o nas íuas cal- 
ligações Plinianas quer que a Cidade fechamaile 
Atria , pela quai razão o mar íc deve também cha- 
mar Atriarico. Náo feuraaííim. 

DE botões douro as mangas vê tomadas j 
Onde o Sol reluzindo a vifta cega. 
As calçasfoldadejcas recamadas 
Do metalyque fortuna a tantos nega. 
E com pontas do mefem delicadas 
Os golpes do gihào ajuntai& achega: 
AoLtaltCtí modo a áurea e/pada^ 
Tlumu nagorra humpQUco declinada. 



Segundo* 

Do metal <jue 4 fortuna a tantoí nega. Entende o 
ouro, que a muyto honrada , & boa gente faitu, 
como faltou ao noílb Poeta Luis de Camões ; ÔC 
pela mayor parte falta aos que íegucm o roefmo 
exercício. E parece que he natural aos Poetas le- 
rem pobres. Donde o pay de Ovidio não poden- 
do fof rer velo affey coado ao eítudo da Poclia , pu- 
nhalhe diante o pouco proveyto queos homens 
tiravão delia. 

Sape pater dixit : Jludium p^mãinatík tentai 
Maomdíi nullas tpfereliqmt opes. 

Filho paraque te occupas em eftudo de tão pouco 
proveyto.^oihaHomeroo mayor Poeta que hou* 
ve no mundo,com fcr elle,viveo,&: niorreo pobre,- 
£c miferaveln)ente,donde hum moderno diz; 

Has artei mágnii dura mercede Pottis 
Concedtt PLabui^jemperut tndigeant, 

Apollo ajuda aos Poetas,8c lhe communica a íujy^v, 
Sc vea que tem, com condição que fejáo pobres. 



99 

^l Os de/ua companhia fe mojirava 
H T>a tinta^qiie da o Murice excellente^ 
A varia cor que os olhos alegrava^ 
E a maneyra do trajo àifferente^ 
Talofermofo ejmalte fe notava 
T)õs veftidos olhados juntamente , 
^lal aparece o arco rutilante^ 
"Da bella Ntmpha fiíha ae Taummte, 

Da tinta cfue dã o Murice exceUente. Entende a cõt 
vermelha, a qual fe hz do pey xe^Muricc, que por 
outro nomeie chama Conchilium , o qual hc co- 
mo hum búzio. E eítc cortado ao derredor com 
íerro , lança humas gotas , como lagrimas de cor 
vermelha , & por eíla razão le chama agram , oí- 
trum , por íe tirar deíles peyxes cubcrios de con- 
chas que geralmente fechamáo oílras. Asveíb- 
duras tintas com o Mutice tinhão hum chéyro 
fartum , & que tirava a fedor» Donde Marcial el- 
crevendoahum amigo (por nome Lyciâno,Mobr< 
as coulas de Heipanha , louvandolhe o confclh' 
q tomara cm largar os tumultos,ôi: revoltas de R< 
n)a,&: rccolherfe a Heipanha, terra quieta, ôcfói 
daquelles embaraços , entre outras coulas lhe diá 

Lunata nu(tjua»i pellis, é" nuj^uam togiC 
Oiiãa ^ue vefUs Murtce* 

Náo vereis em Heipanha fenhor Lyciano.osfaí 
tos, &■ pompas de Roma, nem vereis os homcnj 
veftidos com o Murice fedorento, E o mefmí 
Marcial zombando , de huma Philene , a qut. 
nunca tirav* do carpo hum* veílidura verme- 
lha 



lha que tinha 
fotrer o fedor , diz. 

7in5lií Murice vtftibm ,ejuod emni 
Et n9&e utíturt& Me Philents, 
2^on ejí ambítiofa^nec fuperba. 
Peleãatur odort^non colore. 



Lufiadas de Luís de Camões Çommentad&s. (>% 

que não havia quem lhe pudeíle onde Dcos o deu a Noé ,.Sc a feus filhos depois do 

diJuvio para final de paz enrrecUe , Sc ©5 homens, 
paraquc vendo efte arco, &: final poílo por Deos, 
não temeflem mais na terra diluvio de agua , & 
ainda que efte arco he nacural,haveruos de enten- 
der que foy tambcra dado por Dcos parafinai da- 
qucllepaóto, que fez com os homens, como di- 
zem os Expofitorcs. Diz Heytor Pmto , que fc 
chama arco da velha , pelo paélo que Dcob fez 
com os da Lcy velha como já fica dito. 



Philene trás de dia & de noyte huma veíirdura 
<3e gram , não o faz por fobcrba , nem por ambí- 
ção,nem por fe alegrar com a cor , fenão porque 
lhe fede. Notandoa de fuja: & a illo aludio Virgi- 
lio, trattando da felicidade, & abundância de to. 
das as coulas que havia de haver com o novo na- 
cimento de Salonino, filho de Azinio Polio, com 



100 



SOn 
Os 



OnoYofas tnmbetas tncitavão 
ânimos alegres refonando^ 



o qual diz que cheyraria a gram fuavcmente , & 2)^ j Mouros os bateis o mar coalhavâo^ 



diffcrcntedo quetuiha de naturezaé 

Jpjefedin pratit artes ]am fuavembenti 
Aáurictyj*nt crocto mutabtt vellera luto. 

0$ carneyros diz o Poeta naceraõ com vellos ver» 
iDclbos , éc que náo tenhaô neceífidade da cor do 
Munce , ou de outra tinta. E quando nomeou o 
Murice acrecçntou, \umfttaverubmti: vcimelho, 
maà não com o contrapelo que antes tmha de 
inao cheyro, mas com hum cheyro fuavc, & apra- 
zível. 

Çlual aparece o ar co rutilante, da bella Nimpha filha 
dt Jaumante. Diz que os ioldados, 5< Capitães da 



Os toldos pelas aguas arrojando: 
As bombardas horrijonas bramav^o^ 
Com as nuvens dpjumo o Sol tomando» 
Ameudamje os brados acendidos^ 
Ta^ão com as mão ( os Alouro s os ouvidos ^ 

lapãa com as mãoi os Mouros 01 ouvidos. Conta 
Joaô de Barros lib. i . Dec. .i.c.(5. que depois de os 
noflbs feftèjarem a vinda d''EUHey de Melindá 
com inílromentos de felia mandou Vaí^co da Ga- 
ma que tiraflem alguns berços, Sc efpingardas, ÔC 
no fim delias ie deu huma grande grita, a qual tro- 
voada como era nova nag orelhas diíqudU gente^ 



armada Portugucza fahiraó diante d*'El-Rcy de houve entre elles taó grande elpanto, que eítive- 
Melinde vertidos de differentes cores muyto ga- raó quafi apodados tornaríc a terra. O que fentin* 



lantes.ôc bem concertados, o que compara com o 
Arco , que em tempo de chuva aparece no €eo, a 
que chamamos commummcnie arco da velha. E 
os Poetas Íris de hum verbo Grego iro, que quer 
dízer Núncio, levar recados, & cmbayxadas,por 
fcr cílc Teu oflficio,porque íris hlha de laumante, 
ie Electra era Embayxadora , & mcnfageyra dos 
Deoles,6c principalmente de Juno,donde Ovídio 
-nas Mctamorphofiá,na defcripçaó do diluvio lib.i. 

•Ir- 

l^uncia lunonis vários induta cohres 
CoHCípít Ir IS a^usífãlimenta^ue nulfibus affsrt. 



do Valcoda Gama , íe chegou ao Zambucoeni 
que El-Rey vinha, onde foy recebido com tanta 
cortezia,como fe fora o próprio Rey de PortugaL 

lOt 

JA' no batel enty ou do Capitão 
O Rey^que nos Jeus braços o levava: 
Elle CO a cortesia que a razào^ 
ÇPor/er Rey^-e queria ^Ihe falUva-. 
tom as moftras de efpantOjér admiração^ 
O Mouro ogejloj t£ o modo lhe notava: 
CoTKiO quem em muy grande ejltma tinha 



íris menfageyra de Juno vertida de diverlas cores 

recolhe as aguas , & reparte-as pelas nuvens , & Gente^que de tão longe á índia vinha. 

Virg.lib.9.ÍE,neid. Irim dt Calo mtfit Saturnia Inno. 

Juno filha de Saturno mandou Íris do Ceo. Efte O Mouro, Entende o Rey de Mclinde 

arco cauEa-fe de difixrentes nuvens, de modo, que era M^uro , & íeguia a maldita feyta de 

humaslejáomaisdcnças, & outras mais raras.que famede , como feguem os inais d^quclJa corta 

£t ertam derretendo em orvalho, nas qiucsferin- de Africa , o qual ( comocontáo os noílos Hii- 

00 os rayos do Sol fazem aquclle arGo,que nos pa- toriadorcs ) ficou atónito de ver o tratto , êc mo- 

rccedevanascorcs.E quanto aos Poetas fazerem do dos noflos , mayormenie do Cnpifâo niór, 



que 
Ma* 



Insmcnlageyrade Junomepareceamim , que 
he por Juno irmã de íupiter,& lua molher ler Se- 
nhora do ar,como diz Ciccro lib.z.de nar.Dcorfi, 
&. porque ertc «rco íe íaz na região do ar pelo mo- 
do dito,d^aqui fingem os Poctas,que Íris era men- 
íagey ra de Juno. Dcttc arco le tratta nos Genifis, 



cuja autoridade o efpantou wuyio , & aíliui 
lhe fez muyta cortezia , & gazalhado , levan- 
do nos braços , como aqui diz o nofib Poeta. 



£ 



Í4 



Canto Segundo^ 



101 

E Com grandes palavras lhe offerece 
TudOiO que defeus Reynos lhe comfriffe; 
E que fe mantimento íhef'alkce% 
Como fe próprio foffe , lho pt aijje: 
'Dizlhemais que por fama bem conhece 
ji gente Lujitanajfem que a vljfe: 
§nejà ouviodiZfT^que n'outra terra 
Com gente de Jua Lty tlvejje guerra. 

Com gente de (ua Lsf. Com Mouros da feytade 
Mafamcde , com osquaes os Poituguezes tiverão 
grandes guerras em Hetpanha até os lançarem 
alem mar , ôcindalá osnãodeyxàraó, nenj dey- 
xão cílar quietos, como he nocoí 10. 

105 

1"^ Como por toda a Ajrlca fe foãs 
^ Lhe dizj os grandes fey tos que fizer ão^ 
^ando nellag&nhàraõa coroa 
íDo Reyno ernie as He/per idas viverão: 
E com muy tas palavras apregoa 
O menos ^que os de Lufo merecerão: 
E o mais que pela fama o Rey fabta. 
Mas de jta forte o Gama refpcndiA* 

O Reyno tnât as HefperiJai viverão. Entende o 
Reyno de Fez, 6c Marrocos, onde os noíTos Por- 
tuguezes houverâo dos Mouros grandes vitorias, 
&lhe romáraó muytos lugarcs,como Ceuta, Tan- 
gerc , ÔC outros que íaõ chave daqucllas partes. 
Chama- k Reyno onde vivcráo as Hefperidas, 
porque fc conta que neílas partes rcynou Hefpeo 
Rey de Africa, irmão muyto lico de Aihlas^oqual 
teve trcs filhas, Eglc, Aiethufa, & Helper^ula, as 
quaes tinhâo hum pomar , cujas arvores daváo 
fruyto deouro , guardado por hum dragão que 
nunca dormia. Veja-Í"e a noíla annotaçáo no can- 
to quinto,oytavâ iá. 

I 04 

07» que fó tive [le piedade 
Rey benignOida gente Lufitana, 
^e com tanta miferia^^ adverfidade 
^os mares expriwevta afutia infana: 
Aquellaalta^^ T^ivina Eternidade^ 
§ue o Cío revolve, ^ rege a gente humana, 
^Oís que de ti ta?s obras recebemos ^ 
Te pague o que nós outros não podemos^ 

/l furta infana. Fúria grande , & defenfreada, 
porque não ha no criado couía mais furiofaneni 
maispaiatenicrqueomar. Veja-fc a noílaanno- 
tação ncíte nicfmociimo,oytavâ iiz. 



105 

TDfó de todos , quantos queyma Apollo^ 
Nos recebes empani do mar profundo j 
Em ti dos ventos hórridos de Eolo 
Refugio achamos bom fido ^^ jucundo: 
Em quanto apafcentar o largo polo 
As Eftrellasj & o ^older luz ao mundo. 
Onde quer que eu viver^comfamaj ^ glorta 
Viverão teus louvores em memoria, 

lufhàeuàoi , quantos ^uej/ma ^pollo. Tuíòde 
quantos moráo nclta coita de Afnc* : ícguc aqui 
o Poeta nclte termo de falar a opinião commura, 
dos que atribuem a cor negra dos homens daquel- 
la parte à quentura , ôc vizinhança do So) : não 
fendo mayornclla que no eítrcyto de Magalhães, 
onde com tudo a gente he branca. Os Hefpa- 
nhocs também , 6í Italianos eítam os na mclma 
diítancia da Equinocial,com os que moráo no Ca» 
bo de boa eíperança, ellcs da banda do Sur, & nós 
da banda do Norte , êí fomos na cor tão difi-ercn- 
tes como fe vé. Os do Preílefaó pardos arou lata- 
dos,&: os que moráo em Zeilà,&: Malavar negros, 
morando todos num meímo Paralclo,& ordem do 
Ceo. Outra coufahe mais para elpantar, que cm 
toda a America fe não achão negros , fc não huns 
poucos que moráo em hum lugar chamado Qua- 
reca. Pelo que tenho por couía roilagroíaa varie- 
dade da gente do mundo. São legredos occuítos 
da natureza,& obras daquelle Omnipotéte Deos, 
cujos Myfttriosningucm pôde alcançar. Alguns 
querem que a caulaef&cientcdcfta corfeja a íe. 
curado ar,& terras daquellas partes, &huma pro- 
priedade não entendida , nem fabida dos homens, 
ou algum fegrcdo da natureza, que naturalmente 
dá áquellas gentes aquellacor. Ou heiílo,ou fc 
ajuntão, & concorrem todas eílas razões, a dar 
aquelle matiz , áquellas tantas , & tão varias Na- 
ções. Qiialquer coula que feja, o certo hc não ter- 
mos os homens certeza alguma. Pelo que a folu- 
ção defta queftáo fica para os curiofos , que nuiis 
de propoíito fe quizerem por a eílt trabalho , q uc 
quanto a mim,aíiim fahiráo com ella, como com os 
querer tazer brancos. 

Em ttdoi ijtntoi hont/Í9t di Eolo, Os Peetas fín«^ 
gemhum Rey,&:lenhordos vcntos,aquechama^ 
EoloiO qual os tem pretos g& a muyto bom reca. 
do em humas covas muyto grandcs,dnndc os loltat 
quando lhe parece. Dellctratiey atrás no primcy- 
ro canto oytava t8. 

Em quanto apa/ctntar o largo Polo. Encarecimen- 
to ( como atrás fica dito oytava 84. defte Canto ) 
para dizer , que cm quanto a natureza tiver fuás 
coufas com aquella ordem , & condição com que 
Deos as criou , terá elle lembrança dos benefícios 
recebidos,onde quer que vivcr,& cftivcr. 



Is to dizendo ^05 barcos vâo remando 
'Para a frota^ que o Mquyo ver defeja: 
Vão as nãos humano' huma rodeando^ 
Torque de todas tudo notey & veja: 
MasparaoCeo Vulcano f o ztl ando» 
J frota co' as bombardas o jejieja^ 
Eas trombetas canoras tbetangião, 
Co' os anafins os Mouros refpondiâo. 



Lujtadas de Luts de Camões Commentadss. $^ 

tcs Occidentaes he o primeyro , que fe vé depois 
I o(J ^^ P°^° o S°^ neílas parces Occidentacs,daqui íc 

chamão Hefperiesde Helpero,ôc porque Hclpa- 
nha he mais Occidental, fe chama ultima , 6c mc- 
nor,por íer rcenor em quantidade. 

Fdos humtdoscaminboi. Peios caminhos do mar, 
por lua navegação, Ôc pelo que lhe tem acontcci» 
00 no mar,delde que lahio deíua terra. 



M 



I05> 

As antes valer o fo Capitãoj 
Nos contadhe dezia^àtligente^ 
T)a terra tua o cltmafi^ região 
T^o mundo onde moraes dijtintamente, 
E afjlm de vojja antigua geração^ 
E o principio do Reyno tão potente^ 



Mas para o Ceo Vttlcam foz,tland», Vulcano era 
entre os antiguos Dcos do fogo, pelo que íe toma 
pelo mclino togo, como o Poeta aqui neíle lugar, 
& nos notamos atras. Porque mandou Vafco da 
Gama por fazer fefta ao Rey de Melindedelparár .-, -- 

a artelharia , a qual a pnmeyra vez lhe fez tanto Cosjuccejjoi das guerras do começo, 
medo , que fe quileraó recolher para terra , Sc ^^ejem fabellas fey^ que JaÕ de preço. 
paliada erta vez depois que perdeo o medo fe re- 
crearão muy to de a ouvir, por íer coufa nova na 
qu^iâs partes. 



%ut Çeivt (ahtlaiy Pelo quc tinha ouvido , &via 
agora no gefto, ôc trato dos Portuguczes. 



107 



Ti 




As depois defer tudojà notado 
"Dogenerojo Mmío^quepafmava 
Ouvindo o mjirumento inufitado, 
^e tamanho terror em íimojtrava: 
Mandava ejUr quieto ^ô* ancorado 
JSla agua o batei ligeyro que os levava^ 
'i^or falar devagar c'o o forte Gama 
Nas côufas de que tem notuia^&fama. 

Ouvindo o iu^rumento inu fitada. A artelharia que 
caqucllas partes não fe uúiva naquclle tempo. 

108 

EM praticas o Mouro differentes 
òe de leytava perguntando agora 
^Feias guerras famof as ^Ò" excellentes^ 
CV opovo ávidas , que a Mafoma adora, 
j^gsra lhe pergunta pelas gemes 
^e toda a HefpenaMlttma ondt mora'. 
Agora pelos povos (eus vizinhos ^ 
Agorapelos húmidos caminhos. 

Co piivo avídai c^ue a Mafoma adora. Eíles faõ os 
Mouros que leguem a torpe, & peílelencial leyta 
de Mâfamede. 

Detoda a Hefperia ultima. Entende Hefpanha, a 

r uiil tanibem le chama Hefpanha menor , á diffe- 

[ rcnça de Itália, que le chama Helpcria primeyra, 

I & Hefperia mayor. Chamaó-le eltas partes defte 

nome de Hefpero, Ellrclla Occidental, que he o 

I Planeta Vcnus, a que commumniente chamamos 



IIO 

EAJft também nos conta dos rodeyos 
Longos ^em que te trás o mar irado 
Vendo os cofiumes bárbaros ,^ alheyos^ 
€^ie anoffa Africa ruda tem criado. 
Conta fi^ue agora vem cos áureos freyoê 
Os cavalos , que o carro jrurchetado 
'Do novo Sol da fria Aurora trazem^ 
O vento dorme ^0 mar^S as ondasjazem. 

Conta ^tie agora vem coi áureos freyos» Como atrás 
fica dito, fingem os P oetas que o Sol acabado feu 
curfo ncfte Enriíphcrio não tem mais que cami- 
nhar, pelo que fe recolhe a dclcançar com Tbetis 
ftnhora do mar Occidental, Ôc que dalli fahia pc* 
la manhã com feus cavallos folgados,ifto he o que 
o Poeta aqui diz deícrevendo o tempo da manha, 
ôcnacimento do Sol , 6c hum tempo muyto fe- 
reno , & quieto j o que tudo eftà muyto claro na 
oytava. Ciaama à Aurora fria , porque no tempo 
da manhã cohi a vinda do Sol fe ajunta , & aperta 
o frio em hum lugar,5c alTim he mayor,& os ven- 
tos , & as ondas do mar cíláo maia quietas neíle 
tempo CO a manhá.como fica dito atrás. 

I I I 

ENão menos co' o tempo fe parece 
O de/e/o de ouvirte o que contares j 
^le quem ha^qne por fama não conhece 
As obrai ^Fortuguezas (ingulares> 
Não tanto defviado refpUndece 



Luzeyro:2c porque o l>lancta que aparece nas par- 2)f HÔs o claro Sol^parajulgares, 



^e 



^heâs Meltndanostem tão Yudop^yto^ 
^enãoefttmem muyto hum grande feyto, 

l^ao tanto Jefviado refplandeee, Oe nós o claro Sol. 
Não íomos tão apartados da policia , & trato da 
gente, nem tão rudcsj^ bárbaros. A imitação de 
Virgílio lib. I. ^neid. Nec tam averfus equoi Jyrta 
Solfungit ab urin. 



Ca7ítõ Segundo 



c 



Sol morto , ainda que íua morte foy tão triíle, & 
táodcreílrada , porque le atreveo a governar os 
carros do Sol , coufa de tanta difficuldade lhe pu- 
ferão eftc Epitaphio , como conta Ovídio nas 
Metam orphoies lib i. 

Hiefitus efi Pbaeton currm auriga patcrni, 
§í,uemj'ini»n ímuít^magnis tamett exciàit aufiu 

Aqui jaz Phaeton goverdador do carro de feu pay 
Ometerãofoberbos os Gigantes o Sol , o qual inda que não lahio bem do partido 

Com guerra, vão Olympo claro^ &pUTOx ^ morreo na empreza , acabou como homem de 
-. .-i>,.„:*A.^- j^n-L^n.^ j^ .^..^^^.-^n»^ grande animo , atrevcndo-fe a huma couJa tão 



III 



Tentou 'Terithoo^ & Thefeo de ignorantes 
O Reyno de T latão horrendo^ & e/curo: 
Se ouvefeytos no mundo tão polfantes^ 
Não menos he trabalho illu/lre,& duro^ 
Quanto foy cometer InfernOy^ Ce»^ 
^46 outrem cometa a fúria de Nerèo, 



grande, 6c por efta razão atribue EI-Rcy deMe- 
iindc a grande louvor os Portuguezes cometer as 
tunas de Nereo,que he o mar, por kr huma couia 
de tanto perigo , 6c trabalho, como excelJente- 
niente o pinta Horatio nas Odas,Od.3.1ib.r. 



Cometerão foherhos oí Gigantes. Contz aqui o Poe- 
ta alguns acontecimentos grandes , osquaes inda 

quenáotiveráoeffeyto .nãodeyxàraódetcrfeu ^.^ ^ ,.^ ~j^^-,^^^ 

premio: porque em coulas grandes o acometer, & jHeroftratOypor fer da gente humana 

moílrar ouladia, 6c atrevimento, he coufa grande. Conhecido no mundo ^^ nomeado, 

O pnmcyro toy dos Gigantes filhos da le. ra , os j>^ t&mbem com íaes obras nos enzana 

quaes determinarão lubir ao Ceo, òc lançiraju- f., , • ^. >„ ^ ^^ ^ ^ 

^ , ,, , (^ X- M^- r^^.t O 4' leio ae bum nome Azentajado* 

piter delle, como conta Uviaio nas Metamorplio- .' -^ . . t«j/«t#u, 

ícslib.r. 

Tentou ?erithoo,é' Jhefeo.O fegundo foy de The* 
feo, & P^rithoo grandes amig s, os quaes fe atre- 
verão decer ao Inferno , para furtar a Proícrpina 
inolher de Platão.Poílo que lhe não fahio bem do 



QVeymou ofagrado Templo d eTiiana 
_ 'Do ftibíilTepphonio fabricado 



Mais razão heyque ejuejra eterna gloria 
^emfaz çbras tão dignas de memoria^ 



partido, porque Perithoo foy morto, & Thefeo 
preío,onde ficara também para fempre, ie Hercu- 



r. 



Herofirato. Efte foy hum perdido . & àefcfíii' 
niadooe todos, pornâo preítar para nada ; ven- 
do-le nellc eíbdo,detremmou fazer algum feyto, 

..^.w,v,..v.^ r , .-, por onde fofle conhecido, 6í hcallememona lua: 

.es o não livrara: todavia entre os fey tos fínalados pelo que pos fogo a hum Templo de Diana em* 
de Thefeo fc põem também eíle,como opôs Ovi- Hphclo, feyto pelo grande Teliphonio como diz 
dio na carta de Phylis a Demophonte filho de Solino,no ítu PcJyh1il.cap.58.pcio que diz aqui o 
Thelco. Inter , & K^gidas media (í aturais tnurbe. Poeta: fe homens perdidos, & que p^ra nenhuma 
Magnificui titulis /iet pater ante fuii , pela qual rezão coufa prefíão , delcjâo fama , mais rczão he que a 
a* Nimphas de Itália achando a Phaeton filho do pretcndaó,& bufquem,os que a merecem. 




OS 



/.■í 



^ 






-C»S* '->^«- 



os LUSÍADAS 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commentados pelo Licenciado Alamel Corrêa* 
ARGUMENTO. 

A populofa Europa fe deícreve. 
De Egas Monizofeytofublimado, 
Lufitaniajque Reysjque guerras teve, 
Chrifto a AíFonío íe expõem crucificado: 
De Dona Inez de Caftro a pura neve 
Em purpura converte o povo irado, 
Moáraíeo vil deícuydo de Fernando, 
E o graó poder de hum geftó fuave , & brando. 

CANTO TERCEYRO. 

Nefte Canto defcreve o Poeta o fitio de fua pátria , as guerras que os Reys delia ti- 

veraó com os Mouros , & íuas vittorias , o caio de Dona Inês de Caftro, 

& a morte d'EURey Dom Eernando. 



A Gora tu Calliope me enfinay 
O que contou ao Rfyo ilíuftre Gama: 
Ififptra hnmor tale ante yiê voz, ^Dtvlna 
Neftepeyto mor tal, que tanto te ama: 
AJfio claro inventor da medicindj \ 
Pequem Orfheopartfte^ô Unda T>ama, 
Kuncapar Daphne, CUcie.nu Leucothoe^ 
'renegue o amor de vido, como /ôe, 

^gora tu Calliope. Fingem os Poetas nove Mu- 
las filhas ciejiipitcr,&da Memoria, padroeyras 
dos Poetas, Sí Mu fie os. Chamâraólhe Mulas de 
moftx, que quer dizer inquirir, ou defcubrir: por 
cDas ferem as inventoras , & defcubridoras das ar- 



tes liberaes.Seus noraes faô: Calliope, Clio,Erato, 
Thalia,Melpomenc, Tcrpfichore,Euterpc, Poly- 
hymnia, Urania. A principal deftas, £c a que os 
Poetas Heróicos invocão, he Calliopc:pclo que o 
nofib Poeta aqui o faz , & com muy ta razão , pois 
ha de trattar dos Heróicos fcytos dos Portuguezes. 
Os nomes deílas Mufas,&: o que cada huma inven- 
tou tratta Virgílio nos Opuículoscra hum Epi- 
grama que começa. 

>*''"• ' ' ■■ 

'Clhgejlacamns tranfaãis têmpora redJít, ^e. 

Ajfim o claro inventor da Medicina. Entende 
o Appolo , o qual os antigos tinhão por in- 
ventor da Medicina , 5c Padroeyro dos Médi- 
cos, como Ovídio nasMetamorpholcslib, r. 



Ia 



/fl. 



«« 



Inventum medicina meum eft,opífexqHeper orbem 
Vicori& íierbarunt fubjeãa pottntiít mbu. 



Lujiadas de Luis de Camões Commentados, 

he nioílrar que também neftas partes por onde o 
Tejo pafla,hà Poetas.Sc que as aguas deílcrio tem 
a propriedade das da fonte Aganippe , por l'e 
criarem aqui engenhos excellentes. 

Deyxa ai flora de ptndu. Pindo he hum mon- 
te de Macedónia conlagradoa Apollo , & às Mu- 
fas chamado Mezov o , como diz SophianoDon- 



A medicina he invenção minha , & pelo mundo 

lou chamado dador de remédios^ & a natureza, &: 

propriedade das hervas he Tugcyta a mim. Eíle 

Apollo houve de Calliope a Orpheo, de. quem os de diíle Virgílio nas Eglogas. 

Poetas dizem grandes couías acerca da Pocfía , &: 

Mufica. Foy também afFeyçoado a Daphne, Cli- Nam neque Parna/i nobis juga.nãm mciue Piudi 

cie, ôc Leucothoe,que aqui o Poeta nomea. Pede UlU moram fecère^nec Aonta /iganippe. 

ncfta oytava á Calliope o favoreça, &c ajude neíla 

matcria,que cem entre mãos, aífim lhe tenha íem- Reprehendendo as Nymphas de delcuydadas em 

pre amor.ôc aíFeyção Apollo, & em fua compara- não impedirem a Cornelio Gallo a mâ ordem de 

ção faça pouco calo das mais Nymphas fuás: lin- vida,quc trazia, gaftando-a toda em íeus apetites, 



guagcm ordinária 
dem. De Apollo 



5c muyto ulada dos que pe- 
6c d"outros nomes que lhe os 



& íenlualidades , & que no melmo eítado deviaõ 
eílarellasinem era poíTivelreíidir, ou ko Monte 



Poetas dâo trattamos no canto primcyro oytava Parnafo,ou no monte Pindo,ou na fonte Aganip- 
35. pe : íinalhando-lhe eíles lugares como próprios 

^ léus, ôc onde ellas coftumâvão reíidir, & daríe ao 

exercício das artes Iíberaes,de que ellas faõ padro- 

]2) Oem tu Nymfha em effeyto meu défejOj eyras,& lenhoras. 
Como merece agente Lufttanaj Banharme apollo na agua foberana. Termo Poé- 

tico , &elegantiíIimo , em que moilra ajudalo 
Apollo , Ôc favorecelo com fúria poética, banhan» 
doo na agoa da fonte Aganippe : a qual chama 
foberana , por ter a qualidade , de que atrás trat- 
tamos. E porque eltà nelte tão honrofo eftado 
come hc trattar dos feytos Heróicos dos Portu- 
guezes. Pede aCaliopc o ajude neíta empreza; 
porque fe o não fizcr,crerá que lhe procede de en- 
Poem tu Nympba.l^ymphA entre os Gregos tem veja,por ver que faz ventagem a leu filho Orpheo, 
diíFerentes íignifícaçóes , que naó faõ deíle lugar. 



12) Oem tu Nymfha em effeyto meu défejOj 
Como merece agente Lufitanaj 
^e vejajò' fayha o mundo _,que do Tejo 
O liquorde Aganippe corre Jà' mana. 
^eyxa as flores de *PindOjquejâ vejo 
Banharme Apollo na agua Job erana'. 
Se não dtrey^que tens algum receo, 
^efe efiureça o ten querido Orpheo^ 



E porque entre outros hum he tom^rfe pela agua, 
daqui uláráodeíla palavra por hu mas Deofas,quc 
elles fingiâo viver nas aguas : & largando-fe mais 
a accommodáraõ a outras Decías , como das ar- 
voresjcampos, lagos, tanques.mares, montes,pra- 
dos , bofqucs, vallcs , & outras que a eftè fom in 



3 



PRomptos eftavão todos efiuytando, 
O 



que o fublime Gama contaria^ 
guando depois de hum pouco eílar cuy dando ^ 
^levantando o roflo aj[i dizia. 
vcntàráo.E porque as Mufas padrocyras dos Poe- Mandaíme d Rey.que conte declarando 
tas folgàvaó com eftcs lugares, por lerem frefcos, cj^^ ^;«a^ ^.ntinaraa aeneloçia: 
& apartados da converfaçao, chamàram-lhc iam 



^e minha gente a grão genelogia; 
Não me mandas contar eflranha hi floria'. 
Mas manda/me louvar dos meus a gloria^ 



Mai manda fme Uuvar doi ment a glaria» Tem por 
coufa dura o Gama contar a gloria , & cavallaria 
dos Portuguezcs feus naturacs : porque não he 



bem Nymphas como Virgílio naEgloga7.N;w- 
phanojier amerltbet brides. Nymphas da fonte libe- 
thro noíTa aííeyçáo , & iílo hc entre os Poetas or- 
dinário. 

O liífmr de Aganippe corre^^ mana. Aganippe he 
humafonte no monte Helicondc Boecia,daqual 

os que bebiáo ficavão Poetas. Chamou-fe aíiim bemcontado a gente de primor engrandecer , & 
de agan, que fignifica muyto , & hippos, cavallo; gabar luas coulas. 
porque foy feytacom as unhas do cavallo Pegafo, 
no qual Perfeo filho de Júpiter aportou àquelle 

lugar, Charaa-fe por outro nome Heppocrine, e^^^*-!- ' ,/ , 

cavallo, fonte, pelamefma razão. Algunsfazem r\ue outrem pojja louvar es for çoalheyOf 
cftas fontes differentes.mas ambas em hum mefmo \J^Çou/a he,que/e coflumajfêfe defeja: 
monte. Aganippe, dita aflim de huma moça aífira Mas louvar os meus próprios iarreceyo^ 
chamada.filha do rio Permcfio, quecorreao lon- &ue louvor tãofufpeytomalmeeíleja: 
go do Monte Helicon , como diz Pauíanias : ÔC F tara dizpr tudo temo eh' crexo 
Hippocrenedo fucccílo do cavallo, de que acima ^^""'^ "^T ^f^^J^^^f" ^''^^ . 
trattamos. O que o Poeta pretenda neíla oytava ^' qualquer longo tempo curto feja: 

Ma 






Canto Terceyro, ^^ 

Mas pois o mandas Judefe te devey pela mayor parte muyto habitada,íadia, 5c frelca, 

Irey contra o que davOi^ferey breve ^ Ôc alguma de ventagem deítoutras partes , a que 

chamamos temperadas. E não lómente he iíto 
^ outrem foJJ» louvar. Sempre o louvor pro- certo pela experiência que atègora temos, porque 
prio foy íolpeyto, donde dizem os Latinos , Laus muytos dos antigos o tivcráo allim contra a com- 
inoreproprt$ vtlefctí , o louvor na boca própria hc mum opiniaoem concrario,conio Ptolomeo,Avi- 
reprovado. E não lómente louvar fe huma pcflba cena , i<c alguns Thcologos , como refere o B.S 
a íj,mas admittir louvores em leu rofto,& prelen- Thomâs i.p. q.ioi.arcz. Os quacs affirmâo eftar 
çâ,nunca Ic coltumou entre gente fefuda.-porque o Parailo da terra debayxo da Equinocial, por fer 
os taeslouvorcsfaó mais híongeyros, que certos, aqutlla parte muyto temperada , & ladia , como 

tem os muyto Reverendos , 6c Doutos Padres da 
Companhia de Jefus no Tratado de Casio c. 14. 

ATj,^^,m, ^ ' ^*..j^^^. r T • qi.p«u8. E paraqueosquc nenhuma noticia tem 

Umdiífo oj^atudoemfimmeohriga, LcouiasdaEiphera, emendáo can.bctnellelu^ 
He nao poder mentir no que difíer gar, & outros íemelhantes, ha íe de notar,quc no 

• Ceo não ha círculos nem linhas, por ler purilfimo. 



Lém diffoy oj^a tudo em fim me ohrigaj 

He não poder mentir no que dijjer 
Torque defeytos taes^por mais que diga. 
Mais me ha de fie ar inda por dizer ^ 
Mas porque rufio a oraem teve J^ figa 
Segundo o que de/eja t defaher: 
'Frtmeyro trattarey da larga terraj 
T>epois direy da fanguinofa guerra^ 

Frimeyro trattarey. Para vir a trattar da guerra 

que nelle Reyno os Portuguezes liveráo com os 

Mouros, delcreve primeyro Europa, na qual eílá 

o noíib Portugal. 

• 
6 

ENtre a Zona, que o Cancro fenherea^ 
Meta Septentrional do Sol luzente y 
E aquella que por fria fe arreceya 
Tanto ^como a do meyopor ardente» 
Jazafoberha Europa aquém rodeya 
"J:^ ela parte do ArCíurOj^ do Occidente 
Com fuás falfas ondas o Oceano^ 
Efela AuftraljO marmediterrano^ 

Entre a Zona éjue o Cancro linborea.^o carxto pri- 
meyre», oytavaz. trattey brevemente da defcrip- 

ção do mundojSc o que íè não podia efcufar para gando ao primeyro grão deCapricornÍG,que he o 

entendimento defte livro , onde prometti larga- que mais pode bayxar^fe faz o Solfticio do Inver- 

mente neftc lugar em algumas coufas da Europa, no.E chainaó-feSolrticios , não porque o Sol íê 

como farey no que for neceflario para entendi- detenha cm parte alguma, le não porque nemfobe 

mento da letra do Poeta. E porque cUc defcrevc mais alto,ncm dece mais bayxo.E no Solílicío do 

Europa por tal ordem, que não ha mais que defe- Eítio temos o mayor dia do anno , que he a 11, do 

Jar , lómente tocarey algumas couias ncceflarias. mez de Junho: êc no do Inverno o menor aos vin- 

Os Gcographos dividem a lerra em cinco partes, te 8c dous de Dezembro.Neíla oy tava defcreve o 

a que chamáo Zonas , ufando defte termo de fal- Poeta o íitio de Europa,& léus términos , o qual 

lar , para com mayor claridade poderem trattar diz, que jaz entre o circulo Arftico , Sc o trópico 

delia. Deftis cinco Zonas, duas faól-riasjporefta- deCancro , que hc huma das Zonas temperadas. 

rcm dentro dos circulos Aiílico , & Antárctico, Chama ao trópico meta Septentrional do Sol lu- 

a que chamamos Norte,6c Sur. Duas temperadas lenre, porque nefta parre Septentrional, que he o 

entre os ditos círculos , ôc os trópicos ; ôc huma Norte, não pafla o Sol delle: diz que tem por ter- 

quentcquche a do meyo, onde cae alinha Equi- minosda parte do Arfturo, que he o Norte, & do 

nocialja qual tem nom« de quente, ou torrida,por Poente o mar Oceano,fic da parte Auftral,que hc 



tranfpirente , & folido fem repartimento algum: 
mas que lhe fingem eítas couias os Aílronomos,& 
outras kmelhantes para melhor poderem trattar 
de luas particularidades. Prelupollo ifl:o,digo que 
IheaíTinão dez circulos , leis grandes , & quatro 
menores. Os grandes faó Equator, Zodiaco, Me- 
ridiano,dous Coluros, & o Horizonte. Os meno- 
res laõ o trópico de Cancro , & o trópico de Ca- 
pricornio,circulo Ardico, &: Antaról;ico:& por- 
que neíle lugar não he poffivel trattar eílas cou- 
ias de raiz,pela brevidade que le requere,8c por Ic 
não pretender aqui mais , que declarar eíte livro, 
para que fe entenda : o quaipor eftc rclpeytohe 
calumniado de alguns , não direy fc não oquefe 
não podeefcular. Trópico le diz de trepo , que 
quer dizer volver , & porque o Sol lemprc anda 
em hum pedaço do Ceo , no qual tem balilas , 6c 
términos que não pafla : chamarão a eftasbalifas 
trópicos : porque entre ellas anda o Sol ftm paíTar 
nenhuma delias : nem o trópico de Cancro da 
banda do Norte , nem o de Capricórnio da banda 
do Sur. E quando o Sol fc chega a nós até o pri- 
meyro grão de Cancro,quc hc o que mais pôde fu- 
bir,temos o Solfticio do Eftio: & quando fe apar- 
ta de nós dando fua volta contra o Sur em che- 



íer continuamente vifitada do Sol, pela qual rezaõ 
cuydáraó os antigos íer deshabitada , o que não 
hcjcomo Ic fabc por experiência: anrcs vemos ler 



o Sur,o Mediterrâneo. Do Arâruro fe veja anoffa 
annoraçaó canto i.oytava 21. 

Vã 






70 



Lujiadas de Luís de 



D /í parte donde o dia vem nacendoj 
Com i^Afiafe avezinha\mas o rio, 
^e dos montes Rifeos vay correndo^ 
Na alagoa Mcotis^curvo^à' frio. 
As divide i^ê o ma^-,quefero^à' horrendo 
Via dos Grego s o trado fenhorio: 
On de agora de Troya trmmphante. 
Não vê mais que a memoria o navegante. 

Da parte donde o dia vem nacendo.Diz queda par- 
te Oncntal(que declara por eíles termos da par- 
te donde o dia vem naccndo)a divide da Afia o rio 
Tanais, chamado commummente Tanâ: começa- 
rão dos montes Ripheos.onde eíte rio tem fua ori- 
gcm,& fonte;& o mar Egco, chamado Archipe- 
Jago , onde os Gregos com aquelle tão celebrado, 
& íabido cerco de dez annos deftruhiraó aquella 
infigne Cidade de Troya,da qualnáo ficou pedra 
lobre pedra : & hoje em dia íe vem as rumas d'a- 
quella grande Cidade;& dos navegantes Italianos 
íaõ chamados aquelles campos Itddi Troyani , pra- 
yas Troyanas. Dos montes Ripheos fetrattana 
oytava que fe feguc. 

8 

LA* onde mais debayxo eftà do Tolo, 
Os montes Hyperboreos aparecemí 
E aquelles onde (emprejopra Eolo, 
E c^o nome dosjoprosje ennobrecem^ 
Aqui t ao pouca força tem de Apoio 
Os rayos que no mundo rejplandecem, 
^e a neve efià contino pelos montes j 
Ge Lado o mar ^geladas Jempre as fontes. 

Chmmtei Hyftrhoreoi apparectm. Diz que Euro- 
pa na lua parte Septentrional, que he da parte do 
N<írtc , tem os montes Hyperboreos , chamados 
aíTim de hyper , que íignifica encima , & Boreas, 
que he hum vento que íoprado Norte, por andar 
íempre o tal vento encima delles. Outros dizem 
que tem eíle nome por cftarem eíles montes ain- 
da alem donde o vento Boreas íopra. Outros pe- 
los homés d^aquellas partes viverem muyto mais, 
que todos os outros do mundo , porá tenvi (cr la- 
dia , & abundante de todo o necefiario para a vi- 
da. Acrecentaó alguns que enfadados os homens 
deita rcgiaô de fua long» vida , eícolhem hum gé- 
nero de morte voluntária , o qual he, que buícaõ' 
hum alço rochedo ao longo do mar , do qual de- 
pois de grandes feftas, & banquetes com cappcllas 
nas cabeças fe lanção para acabarem lua vida dei-, 
ta mane y ra, tendo cila por grande felicidade , & a 
mais honrada lepultura , que poderão eítolher,, 
Eftes povo^ tem leis mezes do anno contínuos dia, 
5c outros féis noyte , como diz Solinocap. i6. k 



Camões Commentados, 

Melalib.3.cap.5. Olivario fobrc Pomponio Melu 
naó faz os Hyperboreos tão Septentnonaes como 
os ditos Autores : pelo que tem por falfo iílo que 
delles dizemos : &: quanto a mim eftes montes {'c 
chamaó aíTim por íercm muyto altos , & por cita 
rezaó logeytos ao vento, mayormente Norte por 
lua vizinhança, como diz DiodoroSiculo lib. 5. 
pag. 128. 6c Girava na fua Coímographia lib.z. 

E aijuellei donde fem^re fopra Eolo. Eolo he o fe- 
nhor dos ventos , como fica dito em muytos luga- 
res. Ncftc lugar entende o Poeta os montes Ri- 
feos , de que atrás fala , chamaó-fe aíTim de ripi, 
que quer dizer força de vento , por curfarem alli 
muyto. Ncftas partes como conta Solino cap. 25. 
tudo faó neves,giadas, caramclos,6c friosrpclo qu« 
aquella regiaó le chama entre os Gregos tcropho* 
ros , que quer dizer coula que trás alas , por andar 
continuamente oarcuberto denevoas, & neves 
que parecem voar pelo ar : ÔC naó conhecer a gen- 
te defta terra outra coufa fenâo Inverno , ôcfrio, 
& tal que o rio,& mar fe çongelâo. 

E CO nome dos fopros fc ennobrecem. Pela rezaó dita. 



Agudos Scythas ^ grande quantidade 
kívemj q antiguamente grande guerra 
TiveraÔ Jobre a humanm antiguidade ^ 
Co os que tmhão então a Egypcia terra. 
Mas quem tão fora eflava da verdade, 
{^àqueojuizú humano tanto erra^ 
Tara que do mais certo fe informara. 
Ao campo T>amafceno o perguntara. 

Asjui dos Scythãí grande ejuantídade.^fí:^ região he 
habitada de Scythas chamados Sagas pelos povos 
vizinhos como diz Mela lib.3.cap.5. ôiPliniolib. 
(í.cap.iy.donde tratta largamente da multidão, ôc 
variedade de(U gente , hoje íe chamão t«dos ern 
geral Tártaros. 

§itt{ antiguamente grandt guerra. Houve antigua- 
mente grande contenda entre os povos Scythas,&; 
Egypcios , fobrc a antiguidade de fuás pátrias , 6c 
Naçóesrquercndo cada hum com fâlias,& fabule 
las razoes dar a entender que ellcs foraõ os pri 
mcyros homens do mundo,allegando para iílo anij 
tiguidadcsdc Cidades , & outras fabulas que in. 
ventávaórás quacs davaó credito por naó faberet 
a verdade. Pelo que o Poeta os remete aqui a< 
campo Damalcenojonde Deos noílo Senhor crioi 
o primtyro homem , 6<: d^ahi o levou ahum lugai 
muyto frelco , & d; leytofo chamado por eíle rel- 
peyto , horta de delcytes, a que commummente 
chamamos Parayfo da terra. 



J\ 



70 
Gora neftas fartes fe nomeya 
A Laplajrta^a inculta Noroéga 

Efcaiu 



EJcandlfíavh llhatquefe arreya 
'Das 'vit tortas que, Itaíia não lhe negai 
Aqui em quanto as agoas nãorefreya 
O congelado Inverno^fe navega 
Hum braço do Sarmatico Oceano 
Tela BruJíOiSuectQi&fno Dano. 



Canto Terceyro. f^ 

entende os moradores de Dania,terra frigidiíTima, 
porque lhe chama Danos frios , & pelos naturaes 
hoje Dencmarker: aflim que Brufios, Suecios, Sc 
Danos navegão eíla paragem , & todas fuás par* 
teSjSc outras muytas Nações, que naquellas par- 
tes íaô fcm numero, como diz plinio lib.ó.c.iy. 



IO 



/igora nefiat paríet. Tratta de algumas provin- 
das da Europa Septencrional , como Lapia , & 
Noruega, a que chama frias, 6c incultas por ier o 
grande frio caufa de viverem os moradores delias Sarmatas outro (empo, ^ na montanha 



ENtre ejle mar,& o Tanais vive eftranha 
Gente i RuthenoSyMojcos^ & Ltvonios 



em grande aperto. E inculta não quer dizer deí- 
habicada,como o vocábulo foa,6c parece moílrar: 
mas habitada com trabalho,como também a mef- 
ma palavra moílra por virtude da propoíiçaõ , in, 
como he notório aos que fabcm a língua Latina, 

Ejcandmavia //^íí.Efcandinavia não hc Ilha co- 
mo o noilo Poeta lhe chama feguindo os antigos: 
mas he pcninlula, como os Modernos hoje eicre- 
•vem,pela experiência, 6c conhecimento que tem 
da terra. Foy também chamada Efcandia, ou Ef- 
candavm,ou Bafilia,dosquaes nomes todos,fazem 
mençaó Piinio,Solmo, Mela, & outros antigos, & 
modernos que delia efereveraó. Efta província he 



HtYcmea os M ar com ano s f ah Tolonios. 
Sogeytos ao Império de Alemanha 
São ÒaxoneSyBoemtos^ f£ Tanonios, 
E outras varias Mações que o Reno frio 
Lavaj^ o Danubio^Amafis^à' Albis rie. 

Entre efte mar. Tratta das gentes que vivem en- 
tre o mar de Sarmacia , 6c o no Tanais , chamado 
commummente Tanà , como fica dito oytava 7. 
Primeyramente diz que vivem os povos I\uthc- - 
nos, chamados por outro nome Roxalanos , ou 
Rufios do Reyno de Polónia , ScnaóFrancefes 
muy to grande , 6c ( como diz Girava na fua Cof- como alguns aqui dcclarão:qiie he bom defpropo- 
mographia) tem de comprimento mil leguiis , 6c íito : pois o Poeta vay defcrevendo outro mundo 
outras tantas de largo. He terra muyto fcrmola, bem differentcMoícos faó os povos do graõ Du- 
•6c abundante de todas as coufasjtem muyto bons quede MoTcovia. E Livonios faé dehumapro- 
portos, 6c cicalas de mercancias, muytos Reynos, vincia de Sarma6Ía,que agora fe chama Livonia, 
6c provincias.Nefta eíta o Keyno de Suevia,Got- chamada antiguamente Sarmacia ger3lmente,co« 
iia,Líponia,ou Laponia,a que o Poeta chama La- mo a mais terra.Sarmacia tem fetc províncias, P 0- 
pia,Gautiandia,Filandia, & Noruega. lonia,Ruíia, Pruíia,Littuania, Livonii, Polónia, 

§lue fe arreya das vittoriai t ojue balia naolbe nega, 6c Molcovia : das quaes fe podem ver muytas 



Ifto diz porque deita Efcandinavia vieraò os Go- 
dos , 6c outros bárbaros a Itália , gc fogeytàraó 
muy ta parte delia , 6c moráraõ por muytos annos 
naquella parte de Itália, que hoje le chama Lom- 
bardia: como conta Paulo Diácono nas Hillorias 
de Lombardia , 6c Frey Leandro Albertina íua 
Defcripçáo de ltalia,no titulo de Lombardia. 



dignas de memoria, nas Relações de Joaó de Bu- 
tero,naiua Europa: 6c na fabrica dei mondo, de 
Lourenço de Anania,6c outros. 

E na montanha tíerctnea. Aflim lhe chama Cefar 
lib.F.de bcllo Gallico , dizem ler hum bofque 
muyto grande,6c mu\ to eípeíIo,que de comprido 
tcrà feflenta leiloas, 6c de largo nove. Entre eftc 



Aejutemtjuamoasagtiaí nãorefreya, Neftas partes boíqueX^a terra de Sarmacia eftá Alemanha, co- 



(comoclcrevem os Autores ) fe vive com raayor 
trabalho pelo Verão, que pelo Inverno. No Ve- 
faõ tudo lãó aguas, 6c lamaçaes, porque fe derre- 
tem as muytas neves, 6c caramelo: 6c no Inverno, 
como tudo eílá congelado , caminha-fe melhor, 
roas não fe navega no mar por eftar coalhado: paf- 
lado o Inverno fc navega. 



meçando do monte Sevo , coníio diz Solino c. zj. 
Aquieftaôos Marcomanos, Boémios, Saxonios, 
Pannonios,que íaõ hoje os do Ducado de Auftria, 
6c Rcyno de Ungria: 6c outras varias, 6c innume- 
raveis Nações, fogeytas ao Império de Alemanha, 
pelas quacs pafiaô eftes quatro rios tão nomeados: 
Rheno,que naccnos Alpes,chamado vulgnrmen- 



Hum braço do Sarmatico Oceano. Sarmatico cha- te Rein,ou por fer muyto claro em fuás agoas: ou 



ma aqui efte mar,por fer na paragem de Sarmacia, 
â qual confina com Elcandinavia. 

Pelo Brufio SueciOyéf frio Dano. Ifto não laó rios 
(como alguns com mentaõ por fuás cabeças , íem 
autoridade nem razão alguma ) mas íaõ nomes de 
Nações que vivem naqucJlas partes , 6c navegaó 
no mar cm tempo que o frio Ihedd lugar , como 
fica dito atrás. Brufios, ou Barufios íaõ povos de 
Prufia provincia de Sarmacia. Suecios íaõ de Sué- 
cia província de Elcandinavia. Pelo frio Dano, 



por correr com grande furia , 6c Ímpeto, que huma 
6c outra coula figsifica a palavra na lingua Alemã. 
Danúbio he o mayor, 6c mais celebrado rio de to- 
da a Europa : nace no monte Arnoba cm Alema- 
nha , dcide aínafontc até a Cidade AxiopoH de 
Mifia abayxa, chamada lioje Colonamich , como 
dizOlivario lobre Pomponio Mela (indaque en- 
ganado pelas taboas dcPtolomeo erradas em lu- 
gar de Axiopoli , lcAxia)he chamado Danúbio:" 
k da Cidade Axiopoli atè o mar le chama lílro. 

Amafo 



m% Lufiaàas de Luís de CamÕes Commentados, 

^Amafo corre entre o Rheno,& Albis,hc no gran- carneyrocom o vdlodeouro , no qual pafiaflcm 
' 'dc,& navegável, como diz, Eltrabãolib.7.inprin- hutupedaçoxiemar , que divide Afu de íLuropa, 
cip.Ôc Herrnolao Bárbaro lobre Plínio lib.4.c.i4. & com condição que nenhum deiles olhafle para 
,HojeiechamaEemps.Albishchum riodeniuyto trás. Hellecihanuo, cahiono mar, & atogou-lc: 
nome entre os Eicntorcb , chama-le em vulgar p(-lo que de leu nome HeUe,6c do nome de aquei- 
£lbi, naceenihum monte daSdva Hercyniana kcíbtyto que antes le chamava ponto , poreíla 
Boémia, chamado Riícmbcrg, como dizOrtclio occâíiao,5c inortede Helle le chamou Hciiclpon- 
na fua íynoniroia na palavra Àlbis. to,coaío le diílciremos ponto de Hclie.hoje le cha- 

ma o cílreyto de Galipoli,ou braço de S.George, 

j- A Fabula de Helle contaójuílmo lib. 41, Ovídio 

lib.5.faltor.Pontano in Urania,& outros. 

ENtre o remoto IfirOy^ê Õ claro tjireyto Uo Ur o Mane , fatria tão <]umda. Os moradores 

Adonde Helle deyxt u co' nome a vida, tie Thracia inó nomeados entre todos os Eicntto- 
Eflão os Thraces de robujlopeyto^ *"^^ poi" ger^te terá, & no excrcicio da guerra muy- 

T^oiero Marre pátria tão querida, í^ delti^,& exercitada. Eíla hc a razáo,porque os 

Onde coo Hemo.o Rkódope fugeyto Íwh '"'' M-rte,que os Anfgos tmhaó por 

^ r\. fi' / ' ^- / Ueos da gucrr* , natural deita região, ik lhe cha- 

^0 Otomano e/f a que fomettlda ^,5 ^aí. de Marte , & que o nome que tem lhe li. 

Bizâncio temajeu [erviço tndinoi cou de hum filho leu por nome Thratioque nd- 

Boa injuria do grande Conjiantino^ la reynou. 

Ondeco"^ Hemoo RoJope fugeyto* Conraô as Fabulas 
Entre o remoto l/lro. Depois que trattou de ai- que^Hemoíoy Rey de Ihracia calado com Rho- 

gumas partes Septentrionaes da Europa,cumcça t^ope > aos quues jupiter convcrceo cm montes, 
a Dcfcripçáo de Grécia que antiguan.entc foy por lerem tão lobcrbos,&: arrogantes, que Hemo 
chamada Hellas, do nome de humas lerras, que a dizia de íi que erajupiter, & Khodopc Juno , Sc 
partem pelo meyo , ou de Hellene filho de Deu- mandávaó que os adorafieir),ôí lervilkni por iaç§, 
calion tomo diz Mela.Dclla Grécia eícrevcraó os como cctu Ovídio nas Metamorphofes lib.6. bile 
Antigos muytas couias , porque foy Regiaó de n^onteHemo parte Thracia pelo meyo, como diz 
miTytonomejaffim pela fertilidade da terra, como Piiniolib.4.c.ii. E(lrabaõ,Polybeo,í<í Niclacuy* 
pelos excellentiífimos varões que nella houve:aí- dáraó, quedo alto deite monte Ic via ornar Egeo, 
íim em letras como em armas. Hoje eílá perdida, ^ Adriático , o que naó hc poflivel , pela grande 
§í desbaratada , nem ha nella couta digna de me- diílancia que ha. Outros acrecentáraó que le viaó 
mona. Os Modernos a dividem cm cinco partes, lambem delle os Alpes , Sc o Danúbio, como diz 
ou regióes,Thracia,Burinto, Macedónia, Achaya, TitoLivio,lib.i.Dec.4.oqual tem todas ellas cou- 
Sc Morca,Thracia chamada vulgarmente Roma- fas por Fabulas : & dclcrevendo o fitiodo monte 
BÍd,qucheadequeaquio Poeta tratta,fítua»acn- Hemo,diz que tem tanto arvoredo,que as arvores 
tre o rio litro, de que atiá falíamos, & o Heilel- laó taó pegadas , & tecidas humas com as outras, 
ponto. Terá o Hellefponto de largo 800. piiflos, que irabalhofamente fe vé o Ceo, que he boa li n- 
que( ícgundo os Gregos dizem ) he o efpallo que guagem para os que querem dalli defcubrir o 
hum boy pode nadar , pelo que lhe chamaó Boi- mundo. Eílc monte ie chama hoje cadey.i do mun. 
phoro os da terra. Divide cite eftreyro Afia de doxomodiz Girava na lua Cofmographialib.íj^j 
Europa, Sc hojeem dia fe vemdehuma, Sc outra Toda eíla Thracia hc hoje lugevta ao Turco™ 
parte do m;ir as ruinas das Cidades Abidos,Sc Sef- Junto a eíte monte Hemo eílà Rhodope ambos^ 
tos.donde forâo naturaes aqueiles grandes amigos ao longo do rio Iftrimon. A Fabula de iua convcr^ * 
Leandro.Sc Hero,dcque Ovidiofazmençaó nas faôem montes trata Ovidio no lugarallcgado» 
íuas Epiftolas. g.ue fometttda Bizâncio tem a (eu fèrvtço, Nefíí 

Adonde Helle deyxou c^o o nome a vida. Contaó as Thracia na boca do Ponto Euxino, chamado vuK 
Fabulas que Athimante Rey de Thebas teve doas garmentcMar roayor , oumarnegro, eítàafcr- 
molheres , Sc queda primcyrapor nomcNephele mofa Cidade Conílantinopla , chamada em icus 
houve dousfilhos.Phryxo.ScHellc.-cafadoiegun- princípios Bizâncio, como diz Juftino, & PlinioW 
da vez, morta a primeyra molhcr, com outra cha- no lugar allegado.O primeyro que a cnnobreceo Jl 
mada Ino, tinha os dous filhos que lhe ficàraõ de Sc fez cabeça de Império foy Conftantino filb<lf| 
Nephelc comíigo , aos quaes a madralla Inoío- de Helena , queachoii a Cruzem que Chrifto 
mou taó grande aborrecimento que os não podia Noflb Senhor foy cnicificádo: Sc outro Conftan- 
ver : pelo cjuc determinou por todas as vias dei- tino por alcunha Paleologoa perdeo no annode 
tru»los : Sc para eíte cíFcyto fez com cncantamen- mil Sc quatrocentos Si cincoenta Sc tres,a vinte Sc 
tOb,Sc feyticerias.que os campos naó déC>m trig©, nove de Mayo: pelo que diz aqui o Poeta, boa in- 
Sc acíibou com os Agoureyros,Sc Sábios dilleflem juria do grande Conftantino. Eíla Cidade havia 
aEI-Reyquetodoaquellemal lhe vinha por cau- mil Si cento Sc noventa Sc hum annosque craca- 
fa de feus filhos. AcodioNephele, Sc deulhcshum beça do Império Romano, qnc cantos houve en- 
tre 



Canto Terceyrol 73 

tre o Império de Conílantino primeyro , que a 

cnnobreceo , 8c de hum trilte lugar afez taó no- j , 

bre, ôc cxcJlcnte , atéotenipode Conitantino 

Paleologo que a perdeo. Da Cidade Conílanti- T OgO OS T>almatas ^ivem^& no feyo 
nopla , & luâ ultima ruina traica a Chronica do j ^ Onde Anttnorjà muros levantOUj 

mundo , na qual íe defcreve todo o lucceflbda A (oberba Veneza ejtànomeyo 

entrada da Cidade , & as crueldades que o Turco «j^^j. agoas.que tãe haxa começou. 

ufou com os ChníUos , Igrejas , & Imagens , & ç^)^ ^^^.^^ ^^^^ ^ ^^^ ^^ ^j 

muytas torpezas que cometeo : na era nao con- .^^ , ^ , r J 

forma com os demais Elcrittores. Lu.s dei Mar- ^' esforp.uafocs vartas /ogeytow, 

mol Carvalhal tratta o meímo na primcyra parte Braço forte de gente Jublmuday 

de lua j:)cícnpçáo de Africa lib. z. pag. 224. com Não menos nOò engenhos, que na efpadd, 
muyta diligencia, & verdade : o qual no tempo, 

conta, ac ordem da txpugnaçaó, 6c prognolhco, /^o^o oi Dálmatas vivem. O que agora le ehama 

que lobreelU aconteteo , he conforme/aos que comm um mente Elclavonia , chamarão os Anti- 

bem Icntem. gos Dalmácia , Illyris , ou Liburnia. E debayxo 

j , • delle nome de Elclavonia lecomprendem outros 

j ^ Reynos , &Provincias, Carinthia,Corvacia, o 

LOgO de Macedotiia eftao as gentes. Condado de Tara, Libumia , Dalmácia , com os 

A quem íava ao Axio a agoafria* povos Raguíeos, & Catherinos. Dizem que tem 

E vos tamíteytiyó terras excellentes^ a Efclavonia de comprimento cento & vinte le- 

Uos Coíiumes, engenhos, à' ouf&dia, g«^s,& de largo trinta. He terra de grandes ferras, 

íi^ :a», r. >,^ Vr, o ^ //,,,-., VI ^-, mayormentena Carinthia.A linsoadosElclavóes 
^ue crttes os peytos tloquenteSj .■',-, . r , nr 1 u ► u 

^ . -^ '■ i r r nao íomente ieuía em Efclavonia, mas hc também 

L OS juízos de altajantajia „^^^j.^, ^ ^^^^^ ^ ^^ Emperador de Alemã- 

Com que tutelarei Grecta^o Ceo penetras, nha,como faó Boemios,Pollacos,Bulgaros, Mof- 

E nàomemsfor armas, que por letras. covitas,& Boírjnefles,ac fós os Ungaroihnaô lin- 
guagem muy differente. A Senhoria de Veneza 

Lcge de Macedónia efiãoas^entes.Jontoã Thracia governa a mayor parte das Cid-^des que eliaô no 

eílà Macedónia , chamada hoje Turquefca : cha- leu marras da terra ty ranníza, &: tratta mal o Tur- 

moufeantiguamcnteaííim , de hum Macedo neto go. O Rey dos Romanos he fenhor do quceftà 

de Deucalion,que a governou como o diz Solino entre Sena , & Trieíte. Ella terra toda eítá quaíi 

naleu Polyhiiloi.cap.í4.6cPliniolib.4. cap.io. deshabitada , pelos Cirandes males que o Turco 

j^ cjuttn lavade /Ixio a az^uafria.O lio Axiocha- nella faz. De toda a Elclavonia, fó oquepoíluem 

mído hoje Brade , ou Varadi como diz Ortclio, os Venczianos,val alguma coufa. 
atr.vefla Macedónia* E n9 (eyo aonde /Intmorja muros levantou,Vét\ttn- 

E vôi tambem^ò ffrr<aíex«//fnífi.Neftas palavras de o leyo Adriático, onde Antenor edificou a Ci- 
comprende as outras três Provincias de Grécia, dade de Pádua como truttey largamente atrás. 
Burinto chamada pelos Antigos Epyro , a qual A{QberbaVenez,aejiânomtiiodai agoai^metaobaj» 

tem quatro Províncias, Chaonia, Thefprota, Caf- xo começou. Depois que trattou da Efclavonia, en- 
li<)pca,&: Arcania.Achaya,que os Amigos chama- tra na Deícripçáo de Itália , da qual em muyto 

raóHclada , que he aquepropriamcnte chama- poucas palavras diz muyto. Os Modernos lhe daó 

iros Grecia,& he como peninlula. A ultima regiaó figura de perna de homem , começando da coxa 

de Grécia , he a Moreu chamada antes Danaa, atè o pè:o noílb Poeta de braço,poríer termo de 

Apia, Pelafgia , & Peloponnefo: temCorinthia, falar mais próprio, Sc mais accommodado para (eu 
Cariença, Mefienia, Hcllas, Arcádia, Lacedemo- intcnto,que he trattar da gente Italiana. Éfta Ita- 
nia,ÔC Argia. Paflbu pela deícripçáo deílesluga- lia entre os Autores tem muytos nomes Janicula, 
res o Poeta , porque laó hoje pela mayor parte do Cameíana, Saturnia, Enotria , A penina, Taurina, 
Turco, Sc todas as coufas de que os Antigos tanto Vitulia,Heíperea, & ultimamente Itália. Eíles,& 
celebrarão Grécia, eftaóextinítas Tem haver me- outros nomes põem Ortelio na fua Synonimiíi 
moriadellas:& eíles lodvores que aqui o Poeta dá Gcograpbica lib. 2. pig. loi.da palavra Itália. De 
a Grécia, faó pelo que aniiguamcnte nella houve, lua origem tratta Girnva,&: Frcy Leandro Alber. 
tíTim nas letras como nas armas , & aíllm como os ti na Defcripçaó de Itália logo no principio , os 
Antigos a tiveraõ pela principal Provincia do quaesíaó Modernos , & tem tudo oqueos Antí- 
•nundopor efle relpeyto , aílim os Modernos a gosdellaelcrevcraó. O Poeta tratta deila em duas 
tem nojcpeloelladocmqueeftá, por muyto infe- oytavas,na primeyra lhe dá a figura de braço, que 
'^°^* acima difle , começando de Veneza: na fegunda a 

pinta cercada de mar , a modo de Penin'ul.i, como 

lodosos Antigos a dcfcrcveraõ. E paraqusasoy- 

i, tavas íc cntcndaó claramente , as declsrarey aqui. 

K E 



^^ Lufiadas de Luis de 

E nofep ondt AnUn$r» Eíie he o ley o Adriático, 
na qual paragem Antenor Troyano edificou a in- 
íigne Cidade de Pádua , aonde eftá lepultado o 
Corpo do Bcmavcnturado Santo António Portu- 
guez, & natural delia nofla Cidade de Lisboa, em 
hum Moíteyro do Bcmavcnturado S. Francilco 
logo á entrada da Igreja cm hum icpulcro tal, qual 
hum taó grande Santo raercce: muy venerado, & 
frequentado da gente daqucllas Comarcas , os 
quaes não lhe chamaó Santo António , fe naô fó- 
nientco Santo por exceliencia , tão grande he o 
relpcytojôc reverencia que toda a gente lhe tem. 

A (oberba yt»íx>a eftà no meyo Dai agunt e^ue tao 
kajxaf»meçou. Comelte Antenor de qucatrásfa- 
lámos , primcyro fundador da Cidade de Pádua 
vieraó de Troya depois que foy dcílruida pelos 
Gregos , os Henetos povos de Lydia, os quaes fo- 
raó em companhia de leu Rcy l''hilinicne cm fa- 
vor dos Troyanos , 6c vendo-le fenj tile leu Capi- 
táo,&; Rey(porque{oy morto no ccrco^dcígoíto- 
(os, ÔC enfadados lèforaócom Antenor a Itália ,& 
fizeraó feuaUento junto ao lugar aonde agora he 
Veneza , a qual de leu norre foy aíTim chamada. 
Lançados dahi os £uganeos,que poíTuhiaô aqucl- 
las partes como conta Eftrabaô lib.4, ôt 3. onde íè 
não determina bem nefta opinião , mas no livro 
i5:.à refere por certa: fie Pliniolib.3. c.19. Polybio, 
& Tito Lívio ne principio de fua Hiíloria , onde 
com muy tas palavras a confirma , pelo que fc naó 
pode fcguir outra. Daqui le chamaó os povos Ve- 
nctos mudado o H.era V.de Henetos,Venetos,& 
comummente Vtnezeanos. Quarto a Cidade de 
Veneza he a mais bclla,5c fcrmola, que h( je há no 
mundo , & edá fiiuada dentro do golfo Adriático 
chamado hoje golfo de Veneza , cujo principio 
( como conta o Poeta ) foy muy to bayxo. O que 
contaó os Hiíloriadores acerca do principio delia 
taô excellente,&; nomeada Cidadc,he,que entran- 
do por Itália com hum poderofiffimo exercito 
aquclle loberbo Attila Rey dos Scythas, ( que fc 
intitulava Rey dos Hunos, Godos, Medos,& Da- 
nos,medo,&: ejpanto do mundo,£;floute,& caíligo 
de Deos ) deílruindo todas as Cidades , & lugares 
por onde paliava , & não perdoando a coula que 
cncontraíle, atravefi*andoatcrradc V^eneza, pós 
tanto temor âs gentes daqueUa Província , que 
naó Te tendo por feguros na terra íe recolherão a 
huns piqucnosllheosque no mar ellavaó, aonde 
eícapáraó , & (icndo-fealli por feguros da ira de 
Attila ) começÃraó a fundar cafas para viver, & 
fortificarfe alli o melhor que podiaó , porque o 
exercito de Attila naó entrava por mar , aonde 
tan>bem fe recolherão alguns que efcapáraó da 
Cidade de Aquileya, & de outras gentes,q fugiaó 
do aííoute de Attila» Deíles que laó aíTàs fracos 
princípios , veyo ) Cidade de Veneza ler o que 
agora he. Veja-fc o que clcrevcmos no canto 2. 
oytava97. 

Da terra hum braço vtm ão mar ^ue cbeyo^ Eílc 
braço que aqui põem he a terra de Icalia que faz o 



Camões Cctnmentados, 

Poeta Ictoclhante a hum braço de homem , como 
fica dito airàs, cercado por três partes de mar , & 
porhumaló de terra , pelo que lhe chamaó ou- 
tros Peninfula. Da parte do Oriente tem ornar 
Jonio , chamado hoje o golfo de Veneza , ou mar 
Aufonio, Sc Siciliano. Do meyo dia o mar Liguí^ 
tico , que he o mar de Génova , & o mar Thyr- 
rcno , que he de Toícana : do Septentriaó o mar 
Adriático, chamado mar de Veneza, ocos Alpes. 
Do Occidente os mcrmos Alpes que a dividem 
de França, & Alemanha, começando do rio Va- 
ro, até o monte Adula, chamado hoje pelos mora- 
dores Tirei. 

Bra^o forte Jt gtnte fublimada.^Dxz que eíla Itália 
cria gente fublimada, ÔC excelkntc, affim nas le- 
tras, como nas armas. Quanto ao tamanho de Itá- 
lia , dizem que tem de compi ido mil fie vinte mi- 
lhas , &dc largo naó lhe afíignão certo cfpafiò, 
porque conforme a dilpofíçáo da terra em huma 
parte he larga, 6c em outraeílreyta, de circuito 
\ht daó duas mil 6c quinhentas & cincocnta. 

15 

EMtorno occrcão Reyno Neptunino 
Co' os muros naturaes por outra parte; 
^Felo meyo o áivtde o Apenino ^ 
^e taó illufirefez o pátrio Marte. 
Alas depois que o Torteyro tem divino j 
^Fer denao o esferço veyo, (^ bellica arte, 
Tobre cfiàjà da antiga pote fade. 
Tanto UJeos fe contentada humildade. 

Kr» tornt o ctrcá o Refm Ntptunino. Moílra o qil 
fica dito atrás fer It.lia rodeada de mar por ti" 
partei,& pela outra de muros naturaes, que laó l 
Alpes, 6c outras ferras juntas a eiles. Pslo Reyn^ 
Neptunino le entende o mar. 

Ftlo meyo ê divide o /ípenim. Apenino he hum 
efgalho dosAlpes,o qual começa da nbcyra deGe» 
nova ra Cidade de Nila, 6c parte Itália pelo meyo, 
como excellcnte,8c meudameute o efcrevc Eílra- 
baólib.5.6c Polybiolib.^. Dizem que fechatr.ou 
aílim de Apino Rey d« Italia.ourros querem que 
rivcfle cite nome de Apis humCapitáo antigo,que 
a fogeytou.&C tiiunfou delia: pelo que entre ou« 
tros nomes fe chama rsmbem Apenina.Ourros di- 
zem que le chamou eílc monte Apenino por ler o 
paílb por onde Annibal entrou em Itália contrí' 
os Romanos, o qual como foflc Carthagineníê, Ô. 
os Carthaginenfes lechamáo Penos, deaquiquc*^ 
rem que lhe venha cíle nome. li. porque Annibal 
paílbu por aqui diz o Poeta que o tez o próprio 
Marteilluílre : porque com ellcad ver fario taó 
giande,que tantos annos lhe durou Ic exercitarão 
os Italianos nas coulas da guerr;», 6í fizeraó mara* 
vilhas nella até deílruir Annibal, 6c tomar lua pá- 
tria Carthago, 6c aflolalla de todo. Também fe 
pode dizer , que ellcs montes fizcraõ fua pátria, 

illuftre»! 



r o - 

i 



1 



Canto Terceyro. j^ 

illuftrc , por.ferem eftorvo , & impedimento aos montes chamados Sequan!,& Vegefo em Borgo- 
que por tiles queriaó paliar com exercito contra nha paíla per terra dos Senoncs , que hoje iè cha- 
ltaha,no qual lugar muytas vezes eraó desbarata- maó Sens, dcnde parece tomar o nome: palia tnai- 
'dos,pclo que Phnio lib.5. c.4. Jhc chama laude, 6c bé pela Cidade de l^aris.R hodano chamado R hol- 
remédio do povo Romano. nc,nace nos Alpes, íkíazo Lapo que dizem í<o- 



I4ai dipii qug o Porteyre tem dtvino. Dcpotó que 
Iraliafoyaliento, & morada do Porteyro divino, 
qucheo Summo PontiHce Vigário de Chrifto, & 
Governador da Chnítandade,atroxou algum tan- 
to nas couías da guerra, entregue de todo a outro 
<<ifferenic exercício, qual he trattar da lalvaçaõ 
dasalma.s vendu quanto Dcos Noilo Senhor toU 
ga com gente dada à virtude, & humildade : & 
quaó inimigo hc da gente foberba,&: bellicofa, 

GÂllla alítje ver d, que nomeada 
Co's Le/areos triunfos foy no mundo ^ 
èlj^e do Sequanay ^ ao Rhodano he regada^ 
Edo GaYumnafrío^^ Rheno fundo: 
Logo os montts da Ninfa fepultada 
^yrenej fi levantão, quejegunao 
Anttjí^uidades contaõy quanao ar der ao ^ 
Rios de our o^^ aa prata entaõ cortcraÕ^ 

Gallia aílt fe ver4. Tudo o que ha de terra entre 
o rio Rin, mar Oceano , montes, Pyrincos, mar 
Meditei laneo, Sc mnnte Apenino até A ncona Ci- 
dade da Regiaó Piceno,(aque vulgarmente cha- 
mamos Marca de Ancona j ne entre os Latinos 
chamado Gallia , ^ vulgarmente França. Cha- 
ma-lcaflim degala , que he o leyte p«r lerem os 
Franccics de cor tnuyto branca , & eíla parece a 
verdadeyra origetn da palavra Gallia. Amda que 



íana , a cuja nbcyraeíU Génova. Goruninalaye 
dos montes Pyrtncos, paíla por Thoioia, Vicnj, 
Bordtaux, 6c he muyto grande. Rheno he o rio" 
Rhin de que rraticy atras neftc canto, oy tava 1 1. 
L»g« 0$ wont«t , Cf^C' Entende osn)ontes Pyrc- 
neos, que dividem França de Helpanha, os quaes 
como dizem os Poetas toiaó chamados aíTim de 
huma donzella chamada Pyrene , que Hercules 
deshonrou, àqual manâraó humas bcltas leras em 
humas montanhas onde elle a dcyxoy. bl porque 
efta moçaalli toy Icpuhada , le chansárao Pyic- 
neos,conio aqui diz o Pocra. Outros quercni que 
fe chamalle all-.ni de \ya:.^ fabula, que delias Icr- 
ras Diodoro Siculo , J^oii^ros coníaó , ^ueno 
anno de 88o. antes de ^';feici^icnto de Chrillo 
Noflo Senhor arderão em tal maneyra,que ofogci 
foy vifto quafi de todas as partes de Hcipanha , cC 
de muyta pai re de França : aonde acicccnlaò qua 
a grande quentura do fogo penetrou as tniraniias 
da terra, òc derreteo as vcas, &c ir.inas delia de í)»a- 
neyra,que correrão grandes rios de prata, & ouro, 
donde íe fizeraó ricas muytas nações ; & que da- 
qui de pyr, que em Grego quer dizer fogo,lc cha- 
maôeltcs montes Pyitncos , comu aqui tamberu 
aponta o Poeta. Plínio ljb.5. c. 1 . tem líio por fa- 
bula. Dos Pyreneos, 6í fua Delcr ipçaó traita Ga- 
nbay lib.5. c 15. pag.iiz. largamente, onde poern 
cílafubula. 

17 

Eis aqui/e defcohre a nobre Efpanha^ 
r Como cabeça alli de Europa tcda, 



ida da agua : po, dles pnncipalmenie fe terem Mas nunca podirà com força.ou manha 

m f.?J^-tí''M^'" ''v "'""^ "' ^'' 7'.^ '^* afortuna tnquieta por lhe nada, 

m le prezao delta antio-iiidadc : comofedizno /-/ >i ^ • r > r^ j- 

^ i^/«f íba nao tire o esforçado- ovfadia 



Ptolomeo tem o contrario, dizendo que eíles po- — .-, ^ ^ 

vcs vier^ó de Allyiia,S< Arménia a eílas partes, & Emcujofenhorto,^ gloria ejhanha 

que na lingua AHyria Galat quer dizer coufa ti- Mulitas voltas tem dado a fatal roda: 

rada da agua 11.-..-. .. 1. ..„.,.„ r- .. , •^ . , „ -^ 

P 

Ptolomeo novamente impre|]o,na tcrceyrataboa 
antiguâ da delcripçâo de Gallia. 

^enowea'ia co'í>i Cefareei triutnphos fof no mundo. 

Depois que Cclar acabou o Confulado , foycom _. . ^^^ .., .^ 

grande exercito a França , na a qual dez annos pa,da qual os Geographos começáo fuás Dcícrip- 

continuos teve guerra comos Francezcs,& fugey. ÇÕcs , por ler a principal de toda tila cm todas as 

tou tudooque hadefdeosmontes Pyrineos atèos coulas como todos affirmaô. Eftrabão Ihedá fi- 

AlpeF,5í iodo o rcflante até o rio Rhin,& venceo gwa de corno de vaca , ao qual fegucm todos os 

outras gentes bellicolas , que feria lar2,o contar, Modernos. He rodeada de mar por todas as par 



^Dos bellicoíos peytos^ que em fi cria* 

Eis arjui^ (^c. Hefpanha he Província de Euro- 



das que elle tratta nos fcus (onímentarios , que 
por ieus mcfmos inimigos foraó approvados. E 
pehs muytas vittoi ias que houve em França , Sc 
triumphos que alc<^nçou diz o Poeti que a Gallia 
foy nomeada no mundo com os Celarcos trium- 
phos 



tes , laivo do Oriente, aonde os Pyrcficosn divi- 
dem de França. Dividc-íc Hefpanha toda em três 
Provincias,Bethic3,Lufirania,&TarraconenC.A 
Tarraconenie ( chamada alTim de huin.: Cidade 
deTarragona lua Metropoii ) temeíUs Reyno^: 
Murcia, Valença, Aragão ,Carahinha,Ljão cha- 




Ka 



ment« 



^6 Lufiadas de Lms de Camões Commentadõs, 

4iiente Guadalquibir , a qual palavra hc Arábiga, ipilia , & cala dos Godos: o qual aquclles poucoj 

•& quer na nofla lingua dizer no grande)chama-le Hefp^nho.es que por aquellas ferras cílavâo,o le- 



Andalu2Ía,o qualnome tomou dos Vandalos,que 

âfenhoreâraô , §í chamando^^le primeyro Van^a- 

lia,re veyo a chamar Andaluzia corrupto o vocá- 
bulo- Tem eíla Província eftes Reynos,Seyilha, 

Córdova, Granada» & Jaem, Luíiunia[que agora 

chamamos Porcugaljdizíc afiim de Lulo, ou Ly ■ 

fa companheyros de Bacho,ou filhos como alguns 

o querem: es quaes aportando a cíti terra, íizeraó 

neilafeuaflento, &:como a governarão, &:foraó 

Icnhores della,de feus nomes ie chamou Luíitania 

Lyíitania, hoje le chama Portugal, ainda que náo 

tem todas as terras,que a antigua Luíitania tinha, 

tem outras muytas , que nâoeráo da Lufitania: 

verdade he que tem hoje os Rcys de Portugal o 

melhor daLuíicania antigua. Deyxadas as Deí- 

cripçóes da antigua Lufit^^piajc pôde o noíío Por- 
tugal partir em quatro Pi*S'Vmcias: Tranftagana, a Çm^*»» non tecjua bona pramia divtdii} 
que chamamos >=ilenr«^Pj a qual parte comprende 

9$ campos de Ourique-, & Âlgarves aquém tnar. O fortuna invejofa aos homens esforçados , quão 
Eftremadura,naqual eftá Lisboa, Santarém, Co- mal repartes teus prémios pelos bons. Diíto,a que 
imbri.iAbrantes, ác outros muycoslugsres. Intc- os homens chamáo Fortuna eftâo cheyos os ijt* 
ramnis,chamada hoje Entre Douro,3c Minho,ter- vros dosPhilolophos,&: Poetas,vejâ-íea noflaan- 



vantâraó por Rey no anuo de 7 i(5,Elte teve muy- 
tas vittonas dos Mourps , loinando-lhe muytu$ 
lugares, 6<: desbaratandoos muytas vezes , que foy 
principio de íerem lançados de Heipanha. 

A fortuna inefumíi poribe mda, ÈlegantiíTima- 
mcnte declarou a natureza da íortuna , thaman- 
dolhe inquieta, porqu. náo labe eftarquçda, & 
firme em hum lugar. O^ Poetas a pintáo cm figura 
de molher lem olhos , íobre humabola, paramoi^ 
trar fua inconftancia, &, mquietaçáo, & quaó qe*-> 
gji,:5c dcíatmadamente le ha na repartição das cou- 
las , dando íemprc pela mayor pai te tudo aps qup 
não merecem nada : pelo que lhe chamou íie» 
neca trágico» inimiga Uos bons* 

O ff r tuna vir» invidã fortibftit 



notação no primeyro canto,oytava44. 

18 

C"^ Om Tingitania ente [ia ^& allifarecs, 
j ^*^ ^^^^ fechar o mar Mediterram 
Onde ofabtdo Efireytofe enmbrece 
Com o extremo trabalho do The bano: 
Com nações dtffèr entes f& engrandece, 
C ercadas com as ondas do Oceano j 
Todas detahwhrezaM tal valor ^ 
^{e qualquer delias cuydat que he melhor _, 

Com Tmgitaniaenufa. Moftra como defronte de 
Heipanha eíU a Provincia Tingitana , chamad 
4Ílim de Tingi Cidade fugcy ta aos Reys de Port 



ra muy to freica , & abundante, na qual etU a Ci 
dade de Braga, Porto , & outros muyios lugares. 
Tranfmontana, Trás os montes, aonde efta a Ci- 
dade de Bragança, cabeça do Ducado de Bragan- 
ça, ôc outros lugares : & efte heo Reynode Por- 
tugal, o qual lempre andou anncxo a Hefpanha, 
cpmo parte fua , até que Dom Affonlo o fexto 
Rey de Hefpanha de alcunha o Bravo, que tomou 
Toledo aos Mouros , querendo fitisfazer aos fer- 
viços,&:aiudas,que o Conde Dom Henrique lhe 
linha dado, calandoo com íua filha DonaTareza, 
lhe deu era dote todas as terras,que naquelle tem- 
po erâo tomadas aos Mouros neíta parte de Lufi- 
tania,que agora he Reyno de Portugal.com todas 
as mais,, quecUe podelle conquiftar. Da origem 
defta palavra Portugal le veja a noflaannotação 
nefte canto, oytâva 20. 

Muytat voltas tem dado a fatal roda. lílodiz pe- gal por nome Tangcre, Efta Provincia compren- 
las grandes mudanças que houve nos Reynos de de os Reynos de Fez,& Marrocos:commummca« 
Heipanha por muy tos annos : porque a fugeytá- te fe chama efta terra Berbéria, 
raó Suevos, Alanos, Vândalos, Romanos, & Go- AlU parece,ejue íjucr fechar otííar Mediterrano.Kíi 
dos, havendo entre elles grandes guerras íbbreel- marapartaEuropade Africa. Tem entre os A utO' 
la : comocontâoas Hiftorias de Heipanha, £c le res outros muy tos nomes, porque íe chama A/<ir^ 
pode ver largamente em Garibai no feu Compen- magnumyMare internumtMare mJirum,Mare Ibyrrt' 
dio Hiftorial ljb.5.6. ^ 7. Nas quaes voltas andou nujn^Mare HefpertHm\ que quer dizer, Mar grande, 
atéque ultimamente porordem , Scconfelhode Mar de dentro, Mar noflo, Mar Thoícano,& MaC^ 
Julião Conde de Ceuta,foyentrada,&deftruhida de Itália. Chamaó-lhe também os Heípanhoc 
quafi rodados Mouros , noanno do Nafcimento Mar de Levante. Tem além deftes outros nome 
de ChriftoNoOo Senhor de 714. lendo Rey Dom conforme aos lugares por onde pafia. 
Rodrigo ultimo dos Godos. Enãoficáraópor fu- Ortãt o (abidoeflnytofeennQbrtceC^moextremotrêm 

geytarje não alguns poucos Chriftãos, que íc ré- balhodoThebane. O fabidoeftreyto heodeGibal- 
colheráo , fugindo defta praga para as terras das taradas conhecido , aqiie chamáoos Latmos/rí- 
AfturiaSjScBilcayarosquaeseftandojáparalccn- tumGaJitanum , d^ fretum Herculeum ^ cíireyto de 
tregaraos Mouros,foráoeftorvados por coníclho Cadix pela Cidade Cadix que nelleeftá : & ettrc)- 
dchum Fidalgo Bifcainho chamado Pclayo de na- to de Hercules , porquedizem as fabulas, que de- 
ção Hefpanhol : ainda que alguns o fazem dafa- pois de Hercules haver perigrinado pelo mundo^ 

ali-n. 



CantoTerceyro. ff 

alimpandoo d/e vários nionftros que nella havia, terra , toy publicamente mandado , que a Cidade 
aportou aonde agora hc Gibakar , & eftando alli íofic aeítruida, 6c os que ncHa moravão íe toraaí- 
huma feira inuyto grande, a partio pelo meyo, ôc lem para Cumas. Mas focedeulhe mal eíte nego- 
itz , que o mar fizefle ieu curlo pelo mcyo delia, cio > porque íubitamente lhe Icbreveyo grande 
como hoje U'L dividida a lerra em duas partes, hu- pefte , coniultando o Oráculo relpondeulhs, quQ 
ma chamada Calpe, & outra Abyla, a qual os Au- tornallcm a Cidade Partenope a leu pnmeyrqel-i 
toreschanião Alyba , que quer dizer cGlumna, tado , &quedcftamâneyraceflarÍ4apeíl:c, o que 
porque Hei cules pozemcada huma deílasferras elles íizcrãp logo por Ic livrar de hum mal tãoi 
huma colunina, como termino, ôc fim de feus ira- grande , Òí dahifcy chamada Nápoles, que quer 
baihos: as quaes columnas andáo hoje nas armas dizer novu Cidade , porque novamente toy ediíi- 
dos Reys de Caltella.Na ierra Calpe elU hoje Gi- cada por mandado do Oráculo. 
balca),Ôc na Abyla T^tutatcítíi he a razão, porque ^ugeyiando Partenope tncjuieta. Chama a Nápoles 
os Autores chamáo eílcsdous montes as colum- inquieta pelas grandes revoltas que lobie elia 
nas de Hercules. houve , como conta Garibai no fcu Compendio 

OgMo 7 «f^<a«ff. He Hercules chamado aífim da Hillorial lib. 52. c. 8. uiquead 18. no qual iratta 
Cidaocdc 1 hcbasdonde tUefoy natural. A ver- como Dona Joanna Raynna de Nápoles perhlhou 
dadeheqix Hercules terciodecimoRey de Hei- a Dom Aííonlo Quiiito, & uUimo deite nome dos 
panha elt« enterrado em Cadix , o qual foy Excel" Reys de Aragaõ de alcunha o Magnânimo , mas 
Jentiffin-o Rcyrpeloquefoy tido por Deos, affim ctta amizade durou pouòo,5<.' depois houve traba- 
dos Help.inhoti como dos Africanos. Depois dcfte lhos atè que íí-URey Dom Fernando i?. de Ara- 
houve muytos que á lua imitação le chamarão gão,5c lo.deCaílcllaa íogeytou até hojf. 
Hercules. O ultimo foy eíle de rhcbas,de que o o Navarro^ai /ifiurtas^c^ue riparo iâ forno contra A 

!»oefaaquifala,aoqual atriibuea cavallana, ôccí- gente Mahometa. Das terras das Aftuna.s&Navar- 
foiçoquccíleprimeyro Hercules teve. Eilahe a ra.fe tornou a recuperar Heipanha por hum Fi- 
razáo porque elleeítreyioíe chama também Her- dalgp chamado Pclayo, que pelo grande amor, õc 
çulco, o mais he fingimento Poético, lea-fe Gari- afi^^cyçâo que lhe os povos Elpanhoes, que cntaõ 
|>ai no leu Compendio lib.4. c. i $. havia , tiverão , levantarão por Rey, 6c chamarão 

CvMoi na^iei dí^erentei (e engraneíece.ldo dizpe- por Dom. Palavraque até eíies nolíos tempos du- 

lasdificrcntcs nações que tem Hcfpanha , como ra entre Reys,&. outros íenhores de Herpanha,a 

atrás ficadito. qual palavra. Dom, he dirivadada palavra Latina 

j g Dommui , que quer dizer. Senhor : ôc porque por 

confelho defte nobre Cavalheyro receberão os 

TEm 9Tarragcnez^,que fefezclaro^ Efpanhoes algum refrigério, & íe tornarão a alar, 

Òugeytundo 'PaYtèyiope in^uittaj & cobrar esfoi ço,6c debayxo de íua bandeyra lhe 

Na-varroas J/turits, que reparo f^z l^eos muytas mercês , lhe puferão eíte tão 
Já foraõ, contra a oente Mahometa'. amorolo , & honrado titulo de Dom, não ie cha- 
Tem o Galeoo cuuto, & Oiiraude,& raro mando antes niais que Pelay^o. 

Lajhlhano, a c^uemf.z, oj.utlaneta ^^^ ^^ Hefpanha, que atras pus, fe entenderá eíle 

Rejíítuidorde hjpanha,^ /enhordeila, verfo , que traita de alguns Reynos de Caíklla, 

BethiijLeaõfirunadai com Cajtella. como he o de Andaluzia , que fc entende por Be- 

ihi<^,porque aííim chamão os Letinoí ao rio Gua- 
Ttm» JarragontXat^uefeftx, ^Uro. DcTarragona dalquibir que por elle paíla. 
fe vcjaa ncflaunnciação ncíte canto , oytava 17. 
Aqui Tarragonez fe entende fomente o morador «q 

do Reyno Aragão, pelo queaqui tratta : pwque 

EURey Dom Aífonio de Aragão logeytou Na- T7 Is aqutcjuafícume da cabeça 
lH<lcs, a qual toy chamada antiguamente Parte- \J^T)e Europa toda ^e Reyno Lu fitãUO^ 
r.ope , como a chama aqui o nofio Llis de Ca- Onde a terra fe acaba j^ ornar começa^ 
mócí.Os poetas conião que Partenope foy huma £ ^nde Theborepoufa no Oceano: 

mn?rnTvn?r "^M ^'^'"^? """^ leu canto def. ^^^^ -^ ^ Ceojujlo,que flore ça 

tiHiir a UJyíles, & lua armada, tomadas diílo fe -kt ^ i -^ 7 / ar -^ 

lr.nçàraó dehum rochedo no mar aonde morre- Nas ar mas, contra o torpe Mauritano, 

r:io,^huma dcli.s chamada Partenope foy dar a T>eytandoo de Jifera,{£) lanaardtnte 

huma parte aonde íoy cntcrrada,& edificado ahi ^Jrica^ eftar quieto O nao confe^te» 
, hum lugui que Ic chamou Partenope de leu nome. 

1 E porque elKb fundido» CS de Partenope (e hiúo Eit a^ui íjuaft cume da cabeça Di Eurôfa todo o 
I eíquccendodciua natureza, 6c delempíiravão a líf;»^ iL«//f<i«/).Aqui tratcadc Portugal,cujâDef- 

Cidade, 6c Comarca de Cumas , aondeellesalli cripção fc pôde ver atnís.oytava ly.aondçtrattey 
v;cráo , por lhe comentar inuyto aquelie Ctio de do que agora hc propriamente Portugal , pelos 

mais 



78 



Lu/iadas de Luts de Camões Commentados, 



Ij.òí 56.dilie como o ftcílo Portugal fe chama en* 
tre osLatinoi Luíítania , do nome Lulo,ÔC L-yla 
companheyiosdeBaccho, alli Ic pôde ver , Òto 
nollo PoetM o diz na oytava ieguintc : outrcs que- 
rem , que it. chyniaficelia terra aflim de Lufo de- 
cimo nono l<.ty de Hclpanha , vejaic Ganbai no 
íeu con)penaio lib. 4. cap.n. 



11 



mais claros nomes ^uc cu pude. Quanto â origem 
d^íte nome Portugal , todos os homens Doutos 
(principalmente os noflbs Portuguc2es,que pro- 
curarão tirar a limpo a verdade da i>rigem da lua 
patria)concordâo niílo, 6c he, que antiguamcnte 
houve na foz do no Douro, cm hum alto,que pen- 
de fobre o rio,hum lugarinho por nome Caié,no 
qual vivia alguma gente pobre, principalmente 
peícadores:& como ertcs viveflcmtrabalhofamen- 
tc naquelle lugar por caufa da ruim lervcntia que 
tinháo no hir, &: vir do rio, onde principalruente 
trattavãoicomeçáraô de fe recolher para a praya, 
a qual chamávaó porto , & edificar alli algumas 
calas, para fugir do mao trattamento que em Cale 

paflâvaó. Creceo a genre, & crecerâo os edifícios ^^'^" ^ ^'.Jhol 7ue'os 
demancyra, que le veyo a fazer Cidade , â qual cA,„ . ^ ^^ j^ r ^ 
chamarão porti de Calcado nome do lugar Cale, "^fr detreto ào Lee, _ 
Sc do porto que era na praya. E porque eítas duas ^0'^ ^ f^^*^^ ^^^ «^«^^^ tanta farte, 
letras C, & G. em moytaà Línguas le põem hurna Cnandoa RfyhO tllujrre:, t3foy de[ia arte, 
por outra muytas vezesroque acontece em outras 

palavras/occedeoneftajquc de Portoeale fe veyo Defía o Vaftor naceo. Como fica dito não tem 
chamará Cidade Portogale : 6c porque o Porto agora o ncflo Portugal todas as terras , que a Lu- 
cradas mais antiíiuas Cidades , 6c de mayorcon- fitaniaantigua tinha, £c nos termos outras muytas 



DEfta o TapQYnafceo^que mfeu nome 
Se vè, ^ de homem forte osfeytos teve, 
C ujafama, ninguém vtrà j que dome, 
'Fois a grande de Roma nãoje atreve: 
filhos fropios comej 
lígfjfOj ^ leve^ 



curío de todas , as que naquelle tempo havia no 
Reyno de feu nome Portogale fe chamou o Rey- 
no Portugal : 6c não por ier porto de Francelts, 
como alguns querem. Efta opinião tem o ncllb 
André de Re(ende,OlorÍ0, Duarte Galvão,6c ou- 
tros ,6c que eftiveílcantiguamente o lugar Cale, 
de que falámos no lugar acima dito , affirma Or- 
telio na íua Synonimia Geographica , na palavra 
Cale; aonde refere© Emperador Antonino, que 
a fitua na melma parte.Novamente o Padre Dou- 



novanente aíUnadas a Portugal , quenãocrao 
contadas na Luíítania. Entre outras Cidades que 
tinha a antigua Luíítania, huma era Sarr.ora, fitua- 
da nas nbeyras do rio Douro , da qual dizem foy 
natural o grande Viriato, que foy C;pitáo Gene- 
ral dos Liiíitanos, outros o fazem natural da Bcy- 
ranão lhe cfíignando lugar de luanaturezarhuns, 
6c outros procedem neíia matéria muytoefcura- 
mente ; pelo que a certeza que eu acho ncíte par- 
ticular , hc não haver c uiraíe não a carga cenadíl 



tor Frey Bernardo de Britto nafua Delcripçâo dizer,que foy Luíitano , como todos os Hiíloria- 

de Portugal, lib.i. pag. 57. lhe dá outra ctymolo* dores c fazem,p; lo modo acima ditto. Antes def- 

gia,he livro que todos os cuiiofos devem ter, alU te Viriato fettet.ta annos pcuco mais , ou menos 

fepódcver. houve outro Varão ilUiítrc , a que alguns fazeín 

Ondt a terra acaba^éf o mar comera. Eíle Reyno Rey no tempo de Aunibal , que o acompanhou a 

de Portugal eftâ no fim da terra contra o Occi- Italia,6c n^orreo na guerra de Cannas como refere 



dente , como he notório , 6c aqui fe eílendc o mar 
por todo o Univerfo. 

£ onde Pheho repeufa no Oceano. Por eftes rermos 
moftra eílar Portugal nas partes do Occidente. 



2.1 



ESta he a ditofa patrta minha amada j 
Aqualje o Ceo me dà ^ eujèm perigo 
Torne com eíia emprefajâ acabada^ 
Acabe/e efta luz, alli comigo: 
Efta foy Lufit anta derivada 
*T>e Lufo^ ou Lyfa^ que de Bacco antig^o^ 
Filhos for ãoipareccj ou companheyros, 
E nelle então os íncolas primeyros, 

Acahefe tfta luz alli comigo. Termo Poético , 6c 
inuyto ulado tomaríe eíVa palavra luz entre os 
Latinos pela vída,como aqui toma o Poeta. 

E/lapj Lufitanía, No canto primeyro, oytava 



o noíTo Relende lib.5. ^^^^^ declara hum lugar de 
Silio Itálico a eílc propofito.Quatorze annos per- 
feguio eíle Viriat(>(dc que fallamos)os Romanos, 
6c deu aílàs em que entender, 6cdér,imais, feo 
não matàraó á treyçáo dous (oleados Uds, princi- 
paes de (eu exercito: dos quaes fe fiava, Sc íc íêrvu 
nas occafiócs de importância, induzidos, & íobor- 
nados por Servilio C epiáo Capitão dos Romanos, 
com que então Viriato trazia guerra, com o qual 
elles trattavão pazes por mandado de Viriato. Ef- 
te dizo noíloPoetaque foypaílor, noquefegue 
a Paulo Orofio , outros muytos o fazcm íalteador 
de caminhos, 6c aqui Capitão dos Lufitanos. Lú- 
cio Floro o faz primeyro caçador,8c depois Capi- 
tão. Quanto a mim, pelo que entendo das Hiflo- 
rias, Viriato devia fer faltcador de Romanos, por* 
que andava levantado contra elles em companhia 
de outros Lufitanos ^ cujo nome veyo em tanto 
crccimento (pc lo tíirago que nos Romanos fazia, 
o qual durou por nmytosannos ) que vendo os 
Lufitanos leu valor , 6>c^£Íorço,o fizcrão Capitãí» 

General. 



Canto Terceyro. 79 

General. E nâohâ paraque lhe chamem ladrão, bitas,6c Ammonitas, de que a Sagrada Efcrittura 

pois náo lemos que exercitafle tal officio, fenão faz menção. Aqui cítâ o monte Smay aonde cílá 

contra Romanos innmgos de Tua Pátria. E como o corpo da Bemavencurada Santa Cathcrina.Nef- 

os Romanos tratiáo delle em iuas Hiftorias , não ta parte morou Efau neto de Abraham , & íilho 

he de elpantar , daremlhe elte nome, pois os trat- de llaac.Daqui os Árabes, que chamamos A larves 

tava táo mal. Quer o noílb Poeta que fe chame corrupto o vocábulo fe chamâo Sarracenos, Sc íc 

Viriato a vtribui, ou a vtrtute por fcu esforço, 6c jaâráo muyto deíle nome, dizendo,que procedem 

cavallaria, no canto oytavo , oy tava 6.tratta delle de Sara molher de Abraham , pelo que elta pala- 



mais largamente , Sc a noHã annotação no canto 
primcyro.oytava 16. 

E(id o vtlho eftie oi filhos comt. Pelo velho que co- 
me 03 filhos le entende Saturno filho do Cco , & 
Vefta como diz Laòtancio. Efte Saturno fingem 
os Poetas , que comia todos os filhos que Upe lua 
molher paria; pelo que o fazem figura do tempo, 
o qual gaita tudo , & daqui o pintão com huma 
fouce na máo, para dar a entender que tudo cega, 
& eonlome o tempo, & iíto he o que quiz o Poeta 
aqui moltrar,que o tempo,quc gaíla todas as cou- 
ías , & taz de novo apparecer outras, que nunca 
foráo : veyo a fazer de Portugal ( que era huma 
rouyco pequena parte de Hefpanha ) Reyno , 6c 
^áo lilultrejÔC conhecido como agora porj^experi- 
encia vemos. 



H 



2-3 
Vm Rey por nome AfÔ/oJoy na Efpa- 
qfez aos òarracenoi tãta çuerrajÇnba, 



vra íe deve efcrcvcr com hum íó r. E porque no 
anno do Senhor de 5?99. paíiáraô eíles Árabes á 
Africa com íuas cafas,&; tamilia,6c andando ò tem- 
po vierão a fer fcnhores de muy ta parte della.Da- 
qui chamámos aos moradores de África Sarrace- 
nos, fendo norae próprio dos Alarves, dos quacs 
hoje em dia ha grande abundância em Africa. 
Chamaófe tambeui Agarenos de Agar efcrava de 
AbrahaiT», cujo filho llmael foy Rey em Egypto, 
& fenhor de muyta parte de Africa: pela qual re- 
zâo lhe chama o l-*octa muytas vezes nellclivro 
netosde Agar,3cdeitendentesde Agar. Chama- 
mos hoje a eíla gente Mouros , palavra antiquií- 
fima , cuja origem quanto a mim he de JVlauron, 
palavra Grega que fignifica coula negra, porque 
elles o íaó todos pela mayor parte. Vejafe Fran- 
cifcodel Marmol Caruajalna lua Africa 1. p. lib. 
i.c.i 8.& nòs trattàmos airàs no canto i.oytava.8. 
Do Herculano Calpe a Caipiajerra, No ^nno de 
712. comoconfta das Hill^rias foy entrada Hef- 



Sluepor armas (angutneas,iorça^ manha^ P^nha pelos Mouros de Africa , com ajuda de Ju 
yf muy tos fez, perâer a vida, & terra: !.'^° ^*^"^^ '^^ 9"^^' ^ P^*;'^"^ V^^]^^'^ô cm Gi- 
yoando defte Rey a fama ejtranha, ^^^'^' chamarão, ao monte de G.baltarjobelpe- 
\cn, Tl I /> / ^ ^ -> • . rot,quequer di2er,monte de vlttona,porquedal- 
tC>^? í/éTí^w^Wí? Calpe a Cafptajerra, Ji começarão a ganhar a terra.Efte monre fe cha- 
Mf^ytosJ^para na guerra ejclarecerfe) mava ames Calpe,5c aífim lhe chamâo hoje os Hií- 
Vmhaòaelle j& d morte offerecerfè, toriadores, & Poetas. Tem por epithct© Hercu- 

4 lano como fica dito oytava i8. Porefte termo de 

H»w Rejfòrnome Affonfo foyntí Hefpanha. Efte falar entende dclde o eftieyto de Gibakar , que 

foy El- Rey Dom Affonfo o lèxto de Hefpanha he no fim de Helpanha , até a gente que mora ao 



Emperador cleyto , o qual no anno de mil Ôc oy- 
tcnta òc três tomou a Cidade de Toledo aos Mou- 
ros. No tempo defte Rey fazião ou Mouros gran- 
des iníultos em Efpanha , Sc elle fez tanto eftrago 
ncllts , que fuás coulascrâofabidas pelo mundo. 
Pelo que de differentes partes da Chriftandade 
concorriâo muy tos Senhores Chriftãos em fua 
aÍuda,zelolos da dtfeníaó, & augmento da Fé Ca- 
tholica,como fe conta nas Chromcas deHefpanha 
f.rgamcnte. 



longo da lerra Caípia na Alia, como fc d)l]era,quc 
por todas as terras do mundo foráo fabidasascou- 
fas,qiieEl-í^ey Dom Aftonfo fazia em Helpanha 
contra os Mouros inimigos da nolla Santa Fé Ca- 
tholica. 



E 



2-4 



Com amor intrinfeco acendidos 
*D<2 Fèi mais quedas honras populares, 
Eran de varias terras conduzidos ^ 
f,utftx.aoi Sarracenos tanta guma. Sarracenos q)eyxa?jdo a Pátria amada, & próprios lares: 
lao moradores de Arábia chamada Pétrea, onde c/^/^,,, .„..L /-pv^^r ^/r/,c.^í>. /;.á,^^r 
leu primeyro fundador Pétreo filho de Curete ne- 



^epoís queemfeytos altos ^ &fubídQs 
Se mofffàraÕ nas armas fingular es ^ 
^iz ofamofò Affunfo^ que obras íAes, 
LevaJJem premio digno ^ & does iguaes. 



todeCham , ou por fcr(cGmo alguns querem) 
terra muyto afpera,&: pedregofa,como eu ouvi a 
pefloas,que a vjrão,& andàraó.E he ifto tanto af- 
fim, que os animaes da terra fe fuftenião do orva- 
lho, que cae por cima das pedras,lambendoas com E com bum amor intrinfeco. Lugar he efte bem 
a lingua , provendoos a natureza defte remédio digno de confideraçáo ver a volta, que o mundo 
pela falta de hcrva, que não tem, 6c laó fermofií- tem dado, & a Meiamorphoíi, que Ic fia fcyto na 
fimos de gordos. Eíia Arábia Pétrea confina com gente, cm que principalmente florccia a Chriítan- 
Judèa. NeíU foráo os Ifmaelitas, AgarenoSjMoa- dade, & que mais fc aíinalava, ôc cfmerava no fer* 

viço 



go Lufiadas de Liiis de Camões Commentadcs, 

viço de Dcos : que hoje çor nollos peccados eíiá guezes chamâo Ti ás os Montes , & juntamente 
em hum táo trifte,6c perdido eíhdo:§c que aquel- aircyio para conqmítar tudo o mais que os Mou- 
Jes que com tanta lealdadc,6c zelo dn Fé de Chrir- rosoccupàvaõda Lufitania. G?;nbay no Jugar al- 
to deyxá.vâõ íuas patrias,amigos,6c fazendas,ten- legado põem tambcm algumas condiçóes,Ôí; obri- 
jdo tudo o que ha na terra cm pouco , & não lhe gações que El-Rey Dom Affonio poz ao Conde 
jembrando outra coufajc não a honra de Deos,ôc Dom Henrique nas terras, 6c titulo, que lhe deu. 
^ugíncnto,& exaliaçãodc luaSantiffima Fé,hoje ComocíteConde Dom Henrique haja vindoaeí. 
icjâo os mayores inimigos que temos , & que trat- tas partes ha entre os Hiftonadores diffcrcntes 
tem, & le ajudem daquelles, que femprcandáraõ opiniões , o que íc conta por mais certo he , que 
com a elpada na mão contra os Chriítâos. paliando ellc em huma armada , que hia de Ólan- 

da , & Zelanda à Conquiílade ultramar , veyo 

ter a Corunha ,& dalli ficou cm Hcípanha Cl» 
^ ferviço d^^EURey Dom Affonio. 



■nJ W i. . » ! ^^ 



EfleSi Henrique dizem, quefegundo 

Filho à^húRey deVngria exprtmétado% 2, 6 



i 



Portugal houve em forte^ que no mnndo ^ « . . 1 ^ / 

Entaõnão era illujire, nemprezaao: T7 ^^^ ^'f''' ^^^'jontra os defiendentes 

Epara mais [mal de amor Profundo. Xly'D^ e/crava Jgar vitorias grades teve, 

^tiz o Rey caílelhano, que cafaào Ganhando muytas terras aàejacentes. 

Com Therefajua filha o Conde Me, Fazendo, o que ajeujortefeyto deve: 

E com ella das terras tomouPoJJe. ' Em premio dejies feytos exceílentes, 

\Deolhe ojuprtmo Ijeos em tempo breve, . 
. De/les Henrique diz.m. Sobre a pátria, & origem Bumfilho.que illujiraffe o nome ufano^ 
do Excellentiffimo Príncipe Dom Henrique T)obellicojo Reyno Lufitano, 
Conde de Portugal,& primeyro fundador da caia 

Real deites Rcynos ha entre os Autores differen- Ccmra os dtfcendentei da Ejcruva j^gar* Os dc- 
tes opiniões : porque huns o fazem do tronco dos cendtntesde Agar laó os Mouros, como fica di- 
EmperadoresdeConftaniinopla,Sc aeítapartele toarias. Ccniia eíles depois de ter o titulo de 
inclinãomaisosCaílelhanos: outros dizem, que Conde de l'ortugal,&: ler itnhor delle,fcz grandes 

foy filho fegundo de hum Rcy de Ungria , os coufaso noflb Conde Dom Henrique, &.lhe to- 

quaes fegue aqui o noflo Camões , outros dizem mou muytos lugares à força de armas, como aqui 

proceder da caía de Lotharingia chamada agora aponta o nollo Poeta. 

Lorena, 5c efta opinião pareceo melhor a Garibay Peulbe o Supnmo Oeoi cm tempo breve èumfilbo.U 
no leu Compendio lib.54. c.z.no que legue a Va- te foy o feiícilinuo Dom Affonio Henriques,pri 
fco,Sc outros que procurarão tirarifto a luz,&ía- meyro Rey dcilfs Rcynos , o qual nalcco ef 
beilo de raiz. A mefina opinião tern o Autor da Guimarães no anno de 1094. 6c bemfcmoílrape- 
Chronicad^El-Rcy Dom Manoel54.p.c.72. No- lo modo de leu nafcimento,6c do que Dcos Nof- 
vamente imprimio o Doutor Duarte Nunes de fo Senhor nelle obrou , as mercês , que ao diante 
Leaó huma Genealogia dos Reys de Portugal, lhe determinava fazer. Contão os nolios Chronif- 
aonde o faz natural da Cidade Bezançon do Con- tas que foy o naícimentod'El-Rcy Dom Affon- 
dado de Bcrgonhajfilho de Guido Conde de Ver- ío eítranho, porque alem de nalccr rnuyto grande, 
nol. Eu em couía tão duvidoia não tenho que af- nafceo com os pés ligados, 6c attados para trás, do 
firmar, cada hum figa o que lhe parecer. que feus Pays ficáraó muyto enfadados. Puí8- 
Portugal ouve em forte. Eíle Conde Dom Hen- raélhe na pia por nome Affonio , do nome de leu 
rique fahio de fua pátria com propofito de íervir a avó Dom Affonio Emperador de Heípanha/5í do 
Deos contra infieis,cm companhia de outros cava- nome do pay Dom Henrique,c fobre nome Hen- 
Iheyros , o qual aportando a eítas partes ajudou riques. Acrcccr.tão es noílbs Hiftoriadorcs, que 
com tanto esforço , 6c fidelidade a El-Rcy Dom pedindo continuamente a Deos os Condes dcffe 
Affonfo o Sexto Emperador de Hefpanha , cm laude a fcu filho primogenito,6c o (araffc daquella 
muytas occafióes que íe offrecerão , 6c El-Rey o fcaldade,tomando por mterceflora a gloriola Vir- ; 
cftimava muyto. Pelo que affim por fuás partes gem Maria Nofia Senhora, lhe foy revelado foílíji 
tão cxcellcntcs, 6c couías dignas de memoria que ahumalgrcja,queert:ava cm hum lugar chamado 
na guerra fez , como por ler de langue tãoilluííre Carquere ao longo do rio Douro que eilá duasle- 
o cafou com huma fua filha , por nome Dona Ta- guas de Lamego , onde a mefma Senhora havia 
reía , com a quallhe deu cm dote muytas terras aparecido , 6c que levado o minino là no anno de 
em Galiza, 6c oquepofluhiaem Portugal,que era 1099. lendo j'a de idade de cinco annos(annofina- 
Coimbra, Lamego,Viícu, a Comarca da Beyra, o lado em que os Príncipes OcciJcntaes havião ga- 
Porto, Braga, Guimarães, coro as terras de entre nhado aos infiéis a Sãta C:afadejernr*lem,8cacla- 
Douro, & Mmho; 6c aquclla parte que os Portu- mado por Rey delia a Gofrcdç de Bulhãojfcy íáo 

daqueU4 






Canto Terceyro, 8i 

daquclla íua fcaldack, & indifpoíiçãojquerendoo ainda que nefta conta ha variedade entre os Au- 
Noílo Senhor íoltar, & dilpor para exaltação, Ôc tores. Depois que fe ganhou efta Cidade ficou 
augmento de lua Santa Fè. Os Condes agradeci- Goíredo com titulo de Governador,conio alguns 
dos , & lembrados de huma táo grande mcrce, dizen),náo querendo aceytar o de Rey,como bom 
como Nofla Senhora lhe fizera em lhe dar faude companheyro,6c Capitão. No qual car^o não du- 



^7 



a íèu íiiho , mandarão logo que Ic acaballe de edi- 
ficar aquella Caía, aonde a Senhora havia apare- 
cido,porque não tilava mais que começada. De- 
pois lè fez hum Mofteyro , onde eftiveráoReli- 
gioíos da Ordem do Bemaventurado Santo Agol- 
™ítónho,&; hoje eftáo Padres da Companhia de Jeíus. 

I^pr A' tinha vindo Henrique da conquifta 
I "DaCtdade Hierofo rolyma fagrada^ 
^ E do Jordão a área tinha vijta; 
§ue vio de T)eos a carne em fi lava4a: 
^ie nà o tendo Gotfredo^ a quem refijia^ 
depois de ter Judeafobjugada, 
MuytoSj que nefias guerras o ajudarão 
^arajeus (enhortosfe tornarão. 



i 



lâ tinha vindo Henriciue da Conejuifia Da Cidade 
Bterololyma fagfada. Hieroíolyma he a Cidade de 
Hicrulalem a principal , não fomente de Judea, 
mas de todo o mundo, táo conheeida,v^ celebrada 
pelas Efcritturas Sagradas.Senhora dos Gentios, 
Princefadc todas as outras , morada dos Patriar- 
chas, Máy dos Prophetas, & Apoftolos, principio 
de noila Fé,gloria do povo Chriílão,terra de pro- 
miflaô, a qual antiguamente deu com tanta abun- 
dância todas as coulasa feus moradores , agora dá 
a todo o género humano remédio para fe poder 
laivar, 6c viver eternamente, pois nos enfína os 
Hcroycos feytos , vida , &: fucceflbs de nofla re- 
dempçáo. Os Turcos , & mais inimigos de noífa 
Santapélhechamâo codsBaruch , que quer di- 
zer Jugir de benção , pfla grande abundância de 
todas as coufas,& excellencia da terra.E,ll:a Cida- 
de teve grandes conibates,& f oy por vezes deílru- 
hida. Primeyramenre a deílruhio Veípaíiano 
Tito,no ap.no dcChrifto noflb Senhor de icttenta 
^tres , depois no anno de cento & trinta ôcleis 
f oy rcfhurada por Elio Emperador, & de (cu no- 
me chamada Elia Deflruhiraóna depois os Sarra- 
cenos,&c gente do Soldáo do Eg) pto,os quaes ne- 
nhuma toula deyxánô , falvo o Sepulchro de 
Chiifto Noifo Senhor , & eíle para com clle ga- 
nharem, & mercancearem com osChriílãos. Os 
quaes villo iíto fízcráo liga entre íi , ajuntando 
hum poderofo exercito de mais de quinhentos 
nni homens, no anno de10f7.de Francefcs, Hel- 
panhoes,&: Elcocezes,Inglezes, Flamengos.Olá- 
deles, £<: Lotharingios , entre os quaes repartidos 
osexerciíos, 6cfcyrosCapicáeç , humdeliesfoy 
Gofredo (a que outros chamáo Godufre de Bu- 
lhão ) de que aqui o Poeta fala. Eftcs ganharão a como pay Catholico , & verdadcyro , lhe aconfe- 
Hicrulalcm no anno de mil 5c noventa ficnove, Jhou, o quclhc importava para fervir a Deos, & 

L governar 



rou mais que hum anno, pcrque morreo de doen- 
ça. Succedeolhe Baldovino feu irmão com titulo 
de Rey. Depois le perdeo,6<: a ganhou por vezes, 
6c ultimamente a occupáo os Turcos , os quaes a 
lomáraó no anno do Senhor d« mil quinhentos ÔC 
dezaíete. Eíla hida de Hierufalem de que o Poeta 
aqui fala, que fez o noflb Conde Dom Henrique, 
foy no anno de mil cento & tres,aííim com propo- 
fito de ajudar os Príncipes Catholicos Occiden- 
taes na conquifta do Oriente , como também por 
viíitar os> Santos Lugares da Terra Santa. Aieni 
deftas occâGóes tinha outra , que era ver alguns 
parentes, 6c conhecidos feus, que naquellas partes 
andaváv) em continuas guerras com os inBeis,para 
©s ajudar nellas como bom parente , Sc Chnítáo. 
O tempo queláeítevc , lempre fe occupou em 
guerras contra infiéis , íinalando-fe muy to entre 
todos os outros Principes que lá eftavão. Depois 
que vifitou aquelles fagrados lugares, £c alcançou 
muytas rcliquias delles , delpedido de feus paren- 
tes, & amigos,íè tornou a Efpanha,aonde adoeceo 
de húa infirmidade de q morreo, cm Galiza na Ci- 
dade de Aítorga, a qual Cidade tinha tomado a feu 
primo Dom AíFonfo de Caftella, chamado Empe- 
rador. Foy feu corpo levado a Braga, & enterrado 
na Igreja mayor intitulada de Santa Maria. 

E do lordáS a área tinha vifio.O rio Jordão,como 
diz o Bemaventurado S.Hieronymo , ao qual to- 
dos leguem niílo,nace ao pé do monte Libano, de 
duas fontes,humâ chamada Jor,&: outra Dam,das 
quaes ambas juntas cm hum corpo fe faz o rio Jor- 
dão. Nellerio íoy baptizado C h ri fto Noílo Se- 
nhor, como dizaEfcrÍ!^tura Sagrada em muytos 
lugareSjSc o ncfib Poeta aqui. 

18 

Uando chegando ao fim de fua idade 
_ JO forte, S" famofo Vngaro efiremado, 
Forçado da fatal neceffídade, 
O efpirito deu a quem lho tinha dado: 
Fícaiiã afilho em tanta mocidade. 
Em quem o pay di yx&va feu tres lado, 
^e do mundo os mais fortes igualava, 
^e de tal pay^ tal filho fe efjíerava^ 

§lMando chegadt ao fim de fua idade.)í,[crz\cm mais 
os noflbs Chroniílas deite felicilfimo Conde Dom 
Henrique, quccftandonofimdefua vida, & en- 
tendendo chegarfe o tempo de íua morte, mandou 
fofle diante delle feu primogénito filho Dom Af- 
fonfo Henriques , o qual cílava em Guimarães. E 




8j Lu/tadas de Luif de 

<7overnar bem feus fubditos, encommendandol hc 
lobre tudo o augmcnto da Fé Catholica,&: o bom 
trattamcntodobíeusjregendooscom juítiça , Sc 
benignidade. 

19 

MAs o velho rumor naô.feyfe errado 
Ç^iâ em tãta antiguidade naõ ha cer» 
Contaiq a may tomado todo o ejlado^ teza) 
Do fegundo Hymenh naõ fe d^ ff reza: 
O filho orfaÒ deyxava desherdadoj 
Dizendo j que das terras a grandeza^ 
E ofenhoriotodofôfeu era, 
"Porque para cafar/éupay lhas dera, 

. Mat o velho rumor nao fey fe errado, Contaó os 
noílosChioniílas, 8c alguns Caílelhanos, como 
Garibay no lea Compendio, que a Condelía Dona 
Tareia niolher do Conde Dom Henrique quefe 
caiou fegunda vez depois da morte de feu marido 
com hum Fidalgo Caílclhano , por nome Dom 
Fernando.O que foy caufâ para pretender desher- 
dar a feu filho Dom Aííonío Henriques , dizendo 
precencereraas terras de Portugal a ella , &náo a 
íeu filho, pois lhas dera íeu pay cm dotcquando a 
calou com o Conde Dom Henrique, tílaopi,. 
niáo fcgue aqui o poeta, m>s com humafalva,que 
he dizer que pôde ler mentira,por fer negocio tão 
antiguo , & nas coulas antiguss haver tanra incer- 
teza , & duvida. Alguns Varões Doutos tem eftas 
coulas que le dizcnj da Condella Dona Tareza 
por fabulolas,Sc que nunca tal focedeo:nem Dona 
Tareza cafarle fegunda vez, nem feu filho Dom 
Affonlo Henriques prendella , o que me a mim 
também parece conforme a razão , nem fe pôde 
crer, quehuma tal fenhora, &: quefemprétez o 
que devia, fe deímanchaíle tanto contra o decoro 
de lua pefloa,& virtude. 

Do (egundo ttymeneo, Himineo entre os Antigos 
era o Deos da^ bodas, & padrinho dos defpolados: 
pelo que fe toma entre os Poetas também pelas 
mefmasbodas,como o Poeta aqui o toma. , 

MAs o Trincipe Afonfoy que dejia arte 
Se chama j do Avo tomando o nome. 
Vendo fe em fias terras naÕterparte^ 
§ue a mãji cem feu jnarido as mãda^ ^ cowei 
Fervendolhe no peitoo duro Marte, 
Imagina covfigo como as tome. 
Revolvidas as coufas no conceytOj 
Aopropofito firme fegue o e fey to, 

Mat o Príncipe Ajfonfo. Continua o Poeta com a 
ordem dos noílos Hiftoriadores, contando o que 
fucedco entre o Principe Dom AfFonlo Henri- 
ques,ôcíua máy dona Tareza, depois que Ic calou 



Camões Commentades* 

legunda vtz,inda que(con":o ficadito)não tem ef- 
tas coufas por ctnas. Eu tan bem,ainda que lou 
de outro parecer , como difle na cytava patíada, 
náo pofio eicufar de declarar oque o Poeta vay 
contando, pois meu intento heatclararelie livro. 
Efte Dom Fernando com quem lecafou ( fegun- 
do dizem ) a Condella Dona 1 areza era hum Se- 
nhor grande, & dosprincipaes deCaítella, Ôca 
primeyra pellba delia depois Q^El-Rty, pelo que 
le levantcu contra o í rincipe quafi todo o Rcy- 
no.O Principe vendo láo grande Itm razâojpoz Ic 
em armas, §{ tomou a fua máy dous Calicliosjun- 
toâ Cidade do Porto,hum chamado da Feyra,6c 
outro de Neiva j dos quaes fez tanta guerra a leu 
padrafto , que o lançou de todo o Reyno , & 
prendeo a rnáy no campo de Guimarães,como lar. 
gamente fc conta na Hiftoria do Principe Dom 
Affonfo Henriques, &: o nfiflo Poeta aqui, Sc Ga- 
ribay no leu Compendio lib.54. c.8. 



DE Guimarães o ca mpo fe tingia^ 
Co o faiigue próprio da inteftinaguerra^ 
Onag a mãy-, que t uò pouco o parecia ^ 
A fuf lho negava o amorj& a terra: 
Cem ( llepfífa em campojàje via^ 
E naõ ie a joberba o muyto que erra^ 
Contra Deos ^contra o maternal amor 
Mas nell^ ofnfialera mayor, 

Mat nella fenfud era mtyor. Não pode dcyxar 
de me parecer mal , em coula tãoduvidofa tratcar 
t^ínto de propoíito , como aqui o Poeta rratta , §c 
trattão outras HHloriasda honra de huma Senho- 
ra,tronco, & fonte dos Rcys defta nollii terra. E 
pois o Poeta fala no principio deíla matéria como 
de coula incerta , ôc muytos o tem por fabulofa. 
Omilhorfora , ou difiímulalo de todo . ou fa- 
lar por termos mais honeftos. 



32- 



à 



OTrogne crua , ó mágica Medea, 
Se em voffos próprios fiíhos vos vingais ; 
Da maldade dos pay s, da culpaalhea, 
Olhay que inda Therefa pecca mais: 
Incontinência mà^ cobiça fea^ 
Saõ as califas defte erro principais ^ 
Scyllapor huma mata o velho pay ^ 
EJiafor ambas j contra o filho vay, , 

O Vrogm crua^o magica Media. Compara o Poeta 
a Raynha Dona Tareza a duas molheres que os 
Poetas fingem cruéis. Progne que matou feu fi- 
lho , & o deu a comer a Tereo leu pay , & Mcdea 
que por amor de Yafó matou íeu irmão,& hindo 
fugindo de feu pay , lho hia lançando pelo cami- 
nho 



Capito Terceyro. 

nho em pedaços , para que defta maneyra tiveflb Em batalha cruelofeyto humâftOi 
icmpoparafugir.A fabula de Progne,& Medeale Ajudado da Angélica aefeja, 
pôde ver nasMctamorpholesdeOvidio liv. 6. &. ^^ô (ó contra tal furta je íuítenta^ 
Chama o Poeta à Medea magica, que quer dizer 



8j 



tcytictyra, porque o foy granJiflima como a pin- 
tão todos os Poetas. 

Scjlla far huma mata o vdbepay , e^a for ambas 
(sntraofilhovay, Dtiascoulas diz o l-*octa, move- 
rão á Condella hir contra ("eu filho Dom Aífonlo: 
fcnluaUdâde,& cobiça. Eftesdous viciosa fizeráo 
commetter huma falta tão grande>como eraque- 
Tcr privar leu filho do Reyno , que por aiortedc 
leu pay lhe vinha por direyto. A qual Dona Ta 



Mas tntmígo ajj^trrtmo afogenta. 

Eis fe ajunta o faberhj Ca^tíbano. Vendo Dona 
Tarezacomo feu filho a tinha prera,2c anão que- 
ria foltar , mandou fecrecamente avizar diílo a El- 
Rey Dom AftonlodcCaítella chamado impera- 
dor, a viefle livrar do poder de feu filho , ôc aco- 
diiíe a tomar aquellc Reyno que era íeu.Vcyo Ei- 
Rey com grande poder , ôcajuntàraólè em hum 
lugar, que le chama Valdevés, entre Monção, 6c 



reza diz que foy ainda mais digna de culpa que Ponte de Lima, &foy o Emperadoralli vencido, 

Progne,que matou leu filho, ÔC Medea que matou ficando ferido de duas lançadas : & vendo le neíle 

íeu irmão. Progne tinha por fi a fcm razão , ÔC elladolerecolheo â Cidade de Toledo, temendo 

afronta que Tereo fizera a lua irmã Philomela. perdclU comcílc desbarate. Forão prelos neíta 

Medea depois que fe namorou de Yaíô, 6c lhe en- batalha fecte Condes , 6c outros muytos Fidalgos, 

tregou o vello de ouro , via queachandoa feu pay ôc CavalleyroSj&morreo muy ta gente, 
a mataria, pelo que fez aquella crueldade de matar 



feu irmão, poreícapar da morte : mas a Condefla 
nenhuma dcfculpa teve no feu erro. Scyllafilha 
de Nilo Rey dos Megarenfes foy occafiáo da mor- 
te de feu pay por amor ^''El-Rcy Minos, aquém 
cUa muyto queria. A eíía cegou a incontinência, 
& lcn(ualidade,a Condefla alem delle pecado tam- 

fem a ccbiya , & dcfejodereynar. A fabula de 
cylla tratta Ovidio nas Metamorphofes lib. 8. 

MAsja o Trlnctpe claro , o vencmenta 
*Dí> padraftOj& da tniqua may levava^ 
Jà lhe obedece a terra num momento^ 
^e primeyro contra elle pelejava: 
^t*vrèm vencido de ira o entendimento^ 
A mãy em ferros afperos atava ^ 
Mús delDeosfoy vingada em tempo breve. 
Tanta veneração aospaysfe deve, 

Maide Dt9s foy vingada em tempo breve. Contâo 
as Hiílona? que quando oPrincipeDoni Afíonlb 
prendeu a niãy, lhe lançou cila grandiflTimas mal- 
dições , pedindo a Deos que aflim le vifle com as 



55 



NAõpa(fa muyto tempo quando o forte 
Vnncepe em Guimarães ejlã cercado^ 
'De infinito poder , que defla forte ^ 
Foy re fazer fe o inimigo magoado'. 
Mas cem fe cfferecerà dura morte ^ 
Cofiei Egas amo foy livrado^ 
^e de outra arte pudera fer perdido^ 
Segundo eftava mal apercebido, 

Nã» paffa muyto íempê, Eílando El-Rcy Doni 
AíFonfodeque atras falámos em Toledo muyto 
fentido do desbarate que o Principe DomAífbnfo 
Henriques lhe havia feyto , determinou fazerlhc 
guerra, & lubiiamente deu fobre ellc em Guima* 
râes,aonde otomoudelaperccbido, 5c Tegundoas 
Hiftorias dizem a pouco cufto , o Principe , & a 
Villa le perderão fe feu Ayo Egas Moniz o não 
remedeàra, o qual fe lahio huma mcnhâ ao arra- 
yal d'El-Rey de Cafl:ella,fó fem peflba alguma,&c 
ciepoisdetrattar muy tas coufas fe concertou com 
Ei-Rey , fazendo-lhe preyto , &; omenagem de o 
cumprir , que o Principe o reconheceria por Se- 
fuas pernas atadas, {^quebradas como lhe clleatà- nhor, êchinâ âs fuás Cortes, com que El-Rey fi- 
ra as fuás. O que dizem,que depois Iheaconteceo, cou muyto fatistey to , & levantou logo o cerco, 
que fendo já Rcy fahindopor huma píjrtada Ci- como fe conta n^ oy uva leguinte. 
dade de Badajoz na Eílremadura , fe lhe quebrou 
huma perna , fie loy prefo por El-Rey Dom Fer- 
nando de Aragão , como fe tratta nas Hiítorias do 
Reyno. 



54 

Eis fe ajunta o foberbo Cafie lhano 
Tara vingar a mjurta de Therefaj 
Contra otaõraro ingente Lufttano, 
A qutm nenhum trabalho agrava^ oupefa: 



MAs o lealvaffallo conhecendo^ 
^le feufenhor nao tinha refiflendaf 
Se vay ao Ca fie lhano, prometendo^ 
^e e lie faria dar lhe obediência: 
Levanta o inimigo o cerco horrendo^ 
Fiado na pr orne ffa^tê eonfetencia 
D' Egas MoniZj mas naÔ comente o pey to 
^0 moço íllufíte^ a outrem fir fogey to. 



3 . Lupâàas de Luís de Camões Commentados, 

Do moço ílli*llre , d-El-Rcy Dom Aftonfo Hen- ^/siia, eis aqui venho offerecidú 
riques, o qual náo tinha paciência, quand© loubc ^ ^^ fagar co' a vid4 o Prometido. 
parte do concerto » que leu Ayo Egas Moniz fi- 
zera com El-Rey de Caftella , como conta o 
P oeta pelas oytavas íeguintes. 



AÚ pagar com a vida » fromttúdo» O promcttido 
era corno atras declarámos, que o Príncipe reco- 
nheceria a El-Rey de Caftella por Senhor , St le- 
ria obrigado hir as íuas Cortes. 



3^ 

VEs aqui trago as vidas innocentes, 
^05 filhos jem peccado, & da conforte j^ 
S apeytos generofos^ & exctllentes 
^os fracos fàtii faz a fera tmrte: 
l^es aqui as mãos^ (ê a lingoa delinquentes^ 
Nellasfós exfr intenta toda a forte 
T>e tromentos^ de mortes^ feio eftilío 
^e Scínis,& do touro de Terillo, 

De Scinis, Scinis cantão os Poetas, que foy hum 



37 

C"^ Hegaudo tinha opraÇoprometido^ 
j Em que o Rey Cajlelhano jà agradava, 
§ue o 'Vrincepe afeu mando fobmettdOi 
Lhe dejfe aobedtencia^ que e/per ava: 
Vendo Egas que ficava fementido y 
O que de lie Cajiella nào cuydava^ 
'Determina de dar a doce vida^ 
A troco da palavra mal cumprida, 

chegado tinha aprazo, Quapdo o Príncipe vio o 
cerco levantado tão íubitamentCjficouefpantado, 
& labida acaufa por leu Ayo Egas Moniz , ficou 

muytrifte, & íbltou muy tas palavras contra El- ladrão muytoforçofo , o qual coftumava matar 
Rcy de Caftella. Vendo Egas Moniz a determi- todos os léus holpedesdefta mantyra:abayKavaos 
nação do Principc,& que fe chegava o prazo pro- ramos das arvores , ôcatavalhes os braços , &as 
metido , em que o Principe havia de hir dar lua ^pernas nelles , & delde que os tinha bem atados 
obediência a Caftella: vend©-le afrontado, por o tornava a íoltar os ramos,& deftamaneyra os def- 
Principe não querer cumprir , o qucelle ficara pedaçava. Derte ladrão tratta Ovidio nas Meta- 
cora El-Rey , Sc como ficava tido em ruim conta morpholes lib.7.& na Epiftola de Phyilis a Demo- 
entre os Caftelhanos , foy-le diante d'El -Rey phontc, & em outros lugares, & outros muytos 
com fiaamolher, 8c filhos defcalços, & delpidos Poetas. 

com baraços aos pelcoços.Entráraô defta roaney- E d$ touro de ferillo. Perillo foy hum homem de 
ra pelos paços de Toledo , aonde eftava El-Rey grande engenho,natural de Athenas,o qual laben- 
com muytos Fidalgos , &: Cavalheyros , o qual o do que Phalaris Rey de Sicilia folgava muyr< 
quifera logo mandar matar dizendo , queoenga- com novas invenções de tormentos para matai 
nára , & fora caula de fazer o Principe Dom A f- os homens, a que era naturalmente inclinado, foj 

a Sicilia,6c fezlhe hum touro de metal,com tal in 
venção, que os homens nelle bramiâo como tou 
ros.Phalans folgou muyto com o touro, ^ gavou 
muytoa Perillo aquella invenção , mas fez que 
cllea provaficprimeyro, Veja-íea nollaannota- 
çaó nette canto,oytava 94. Iftodizo Poeta que 
pedia Egas Moniz a El-Rey de Caftella , que 
cxercitalle nelle todo o género de tormentos que 



4 



jpe 
fonío o que fazia: o que íem falta fizera, fe os Fi- 
dalgos que eftavão prclentes o nãodefculpáraó, 
Scdiíferãoa El-Rey, que Egas Moniz não íinha 
culpa, antes merecia favor, & era digno de lou- 
vor,em fe vir daquelle modo diante de fua Alteza. 
Pelo que era razão lerlhe levantada a omenagem 
que tinha dado pelo Principe , & deíobrigalo da 
piomeffa que fizera. O que El-Rey logo tez pelo 



1 



dito dos Fidalgos. Todas cftas coulas tratta aqui lheparccefle,alegandolheosquc Scinis,& Perillo 
o Poeta de modo,que fe efcula ler as Chroniças do tinhão inventado. 
Reyno para efte particular. Efte Fidalgo Egas 
MjÔniz, de que o Poeta fala nefte Canto, foy hum 
Fidalgo muyto esforçado , & de langue nobilil- 



fimo , como fe diz nas noflas Hiftonas , 5c nós 
trattamosno canto primcyro oytava 12. 

E Com J em filhos y & mulher p^pa^fc 
Alevantar com ellesafiançay 
7)efcalçosy& defpidos de tal arte y 
^e mais move a piedade y que a vinga» f a: 
Se pertendesy Rey alto, de vingart.Cy 
T>e minha temerária confiança j. 



40 

Q^al diante do algoz o condenado, 
^ejà na vida a morte tem bebidoí 
Toem no cepo a garganta^^jde^ttregadoy 
Efpera pelo golpe tam temido-. 
Tal diante do Trincepe indignado y 
Egas efiava a tudo offerecido'. 
Mas o Rey, vendo a efttanha lealdade j 
Maisfodeemfim^queaira.^ a piedade. 



41 



OGramfidelídãde Tortuguefa, 
TDe vafJallOi que a tanto fe obrigava^ 
^lue mais oTerfa fez naquella em^refa, 
OnderoJiOy & narizes fe cortava? 
^oque ao grande T)ariõ tantopefa^ 
^e mil vezes dizendo fufpiravat 
^lue mais ofeu /íopyrofaõ prezara^ 
^Khf^ '^Inte Babilónias, que tomara. 

^B 0^< mau o Perfa fez, naejudla «wprc/^.Tendo Da- 
HkioRcy dos Perlas Babylonia cercada , & não a 
^^©dendo levar hum feu valíallo por nome Zopy- 
ro cortou as orelhas, narizcs,ôc beyços, 6c deu por 
todo íeu corpo muytas feridas : ôc deíla maneyra 
le liiigio lanhado com os de Babylonia, qucyxan- 
doíe ínuvti) da crueldade de Dano. Como os de 
Babylcnia o viraó diquella maneyra , deraólhe 
credito a luas palavras, 6c cuydando que trabalha- 



Canto Terceyrol 85 

ver nas Chronicas do Reyno,âs quaes rcmetto,os 
que mais de raizquiierem labcr cilas coulas. Eo 
Poeta as^vay contando ptlas oytavas legumtes. 



43 

EM nenhuma outra coufa confiado ^ 
Senão no Sumo 'Deos, que o Ceo regia, 
^ue tampouco era o povo bautizado, 
^e para humjó cem Mcut os haveria. 
Julga qualquer juizo f o IJegado 
^or mais temer idade ^ que oufadia^ 
Cometer hum tamanho ajuntamento^ 
^e parfíoum cavalleyro bouvejfe cento: 

44 

C^ Inço Reys Mouros /âÕ os inimigos y 
j ^os quaes o principal Ifmarfe chamUi 
Todos experimentados nos pet igos 
'Da guerra, onde {e alcança tlluflre fama: 



na por vmgar a injur.a queDario lhe tinha feyto, Segue guerreyr as damas feus amidos, 
6c que relejana fielmente contra os Perlas pois o .^.^ '^ , / r j f ^ j 



que pelejaria tieímcnte contra os rerias p( 
rrattaruó tão mal, o íizeraó Capitão da gente que 
tir.haó contra Dario,Sc dizem os Autoresjque di- 
zia Dário depois de tomada Babylonia, que mais 
quizcrao ícu Zopyrofaójquc ganhar vime Baby- 
lonias.Eilloquiz dizer aqui o Poeta,que foy tão 
grande a lealdade de Egas Moniz, que paílbu pela 
de Zopyro , porque fe oííerecco com íua molher, 
6c íílhus diante d^ÊURey Dom Affonlo , offere- 
cido a ludo o que iDandaíle fazer delles: & Zopy- 
ro ('fiuecco ló fua peflba,Bc além difto o que Egas 
Mor.iz-fez náD toy fomente cm tavor de ícu Rey, 
6^ por favorecer fua pairia , mas por fahir pela 



Imitando afermofa, & for te dama ^ 
*De quem tanto os Troyanos fe ajudar ãoy 
E as que o TermodontejàgoJlàraÕ, 

Seguem gueneyras D amai. Contão as noíljs Hif- 
torias,que nefta batalha houve de companhia com 
os Mouros muytas moljheres , quedemiílura vi- 
nhaó a pelejar contra os Chriílãos, como fe loube 
depois muyto miudamente pelos Mouros que cat- 
tiváraõ. E galantca aqui o Poeta, que eftas Mouw 
ras vieraó em ajuda dos feus , como Pentheíilea 
Raynha das Amazonas fora em favor de Priamo 



obrigação que unha a lua pcfloa. É Zopyro pre* Rey de Troya,quando eftava cercado do exercito 
tendfío tazer Dário Rey de Babylonia por quí(i- dos Gregos. 



qurr modo que folie; pelo que toy muyto may^r 
lealdade a de Egas Moniz,que a de Zopyro. ^ 

42' 

M/lsjdo Trvuipe Ajfonfo aparelhava 
O Lufitano exercito dito fo^ 
Lontra o Mouro j que as terras habitava^ 
TyâUm do claro Tejo deLytofo: 
Jà no campo de Ouriqut fe ajfentava 
O arrayalfoherbOj ^ belltcofOj 
^Defronte do inimigo Sarraceno ^ 
To[io que emforça^ agente taÕ pequeno, 

)â no CarKp9 de 0«ri<5«í.No anno do Senhor de 
1109.no campo de Ourique cm dia do Bemaven- 
tiiiado Santiago venceo El-Rey Dom Aífonfo 
Henriques cinco Reys Mouros, com rr^uyta gen- 



Eas íjueo Tertmidondejà gofidraÕ. As Amazonas, 
que moravão antiguamente na Scy chia , por on- 
de o rio Tcrmodonte pajíla. 

45 

A Matutina luz ferena^ ^ fria 
As Eftrellas do Tolojâ apartava, 
^anào na Cruz o Filho de Maria, 
Molirando/e a Ajfonfo o animava: 
EUe adorandoa.quem lhe apparecia. 
Na Fé todo inffamadOj afji gritava: 
Aos infleis. Senhor, aos injieis, 
E não a miiquecreyo o que podeis, 

A tnatutinaluz. O Poeta nefta oytava,& na fe- 
guinte fcguc o que as Chronicas derte Rey no di^ 
zem fobre o aparcciníenco de Chriílo Noflb Se- 



te , lendo os Poriuguczes muyto poucos. Aqui nhor a EURcy Dom Affonío Henri<jues. AHim 
foy levantado por Rey á inftancia de todos os na era,conio na hora , 6i tempo cn» que iílo íoce- 
ieus, não o querendo ellc accytar, como lepóde deodiíFcrem muyto de huma Relação , ou para 

melhor 



$6 Lujiadas de Luís de Camões Commentades. 

melhor dizer , juramento que novamente (e achou 6c rodella, lahi fora do arrayal » & fubitamcntc vi 
no Moíleyro de Alcobaça em hum pergaminho para a banda dircyca contra o Oriente hum rayo 
lellado com cinco fellos pendentes , Sc autentica- relplandceente , cujo refplandor le tazia cada vez 
do, & tido por certo , 6c verdadeyro nefta Cidade mayor.Tendo eu os olhos poftos firmemente na- 
de Liíboa , o qual por fer muy to neceflario para queila parte, íubitamcnte naquelle rayo mais cia- 
entendimento defte lugar ,& para ficar memoria roque o Sol, vi o final da 4:ruz,ôc a Jefu Chriíto 
mais clara delle o tresladey aqui do Latim cm que crucificado nellc,& de huma.& outra banc4a mul- 
íe achou eícrito palavra por palavra na nofla Im- tidáo de mancebos muy lermofos, os quacs crcyo 
gua Portugueza , cujo teor he o leguinte. ^ Eu eu,quc eraó os Santos /\njos. Vifta cita Viíaõ ti- 
Affonlo Rey de Portugal,filho do illullrc Conde rada a eípada^ôc rodella,ôc deyxado o veílido, & o 
Henrique, neto do Grande Rey AíFonfo, diante calçado , me lancey de bruços na terra , & derra- 
dc vós bons VarôexBirpo de Braga , &Bil"podc madas muy tas lagrimas , comecey a rogar pelo ef- 
Coimbra,& Theotonio, & outros principaes Oí- forço de meus vaíjallos , & fem nenhuma pertur- 
ficiaes vaílallos do meu Reyno , p^í:as minhas baçáo difle: Senhor paraque me apareceis a mim? 
mãos neíla Cruz de metal , Sc nefte livro dos San» Quereis augmcntar a Fé a quem crèPmclhor feri 
tifltmos Evangelhos juro, que eu miíero peccador que vos vejâo os infiéis, & creyão,que eu,quc pe- 
ví com, eftcs olhos indignos a Jefii Chriíto Deos, la fonte do Bautilmo vos reconheci,& reconheço 
& Senhor Nofib poíto na Cruz nefta forma. Eu por verdadeyro Deos Filho da Virgem, & do Pa- 
eftavacom a rainha gente nas terras do Alentejo dre Eterno. E a Cruzera muyto grande,& ellava 
no campo de Ourique para dar batalha a Ifmael,& levantada do chaó quafi dez covados. O Senhor 
a outros quatro Reys Mouros , osquaesimhaó com hum fom de vós fuave , que minhas orelhas 
comfigo infinitos milhares de homens. E a minha indignas houviraó me difle: Nâo te apareci delt* 
gente atemorizada com a multidão dos Mouros maneyra por te acrecentartua Fé,mas paraforii- 
eftâva muyto afadigada , & trifte cm tanto , que ficar teu coração neíte conflitto,& cítabelecer os 
muytos diziào fer temeridade cómctter tal p,uer- princípios do teu Reyno (obre pedra firme. Tem 
ra. Eeu trifte,8c malcnconizadocom iílo , que confiança, A fí^onío, porque não fomente vencerás 
houvia , comecey de trattar comigo o que faria, eíla bati- lha agora, mas todas as outras, nas quacs 
Tinha hum livro na minha tenda , no qual eftava pelejares contra os inimigos da Cruz.Acharás tua 
efcrittooTcftamcnto velho, ôcoTeftamentode gente alvoraçada , & esforçada para a guerra , & 
Jefu Chrifto, habriho,& li a vitoria de Gedeaó, Sc que te peça , que com nome de Rey entres neJta 
difie comigo: Vós Senhor JeíuChriíloíabeis, que batalha, não lhe ponhas duvida, mas conccdelhe 
por amor de Vós tomey (obre mim cfta guerra livremente o que te pedirem. Porque eu íou Edi* 
contra vofl^os inimigos , & na voíla maóeftàdar- ficador, & Diflipador dos Impérios, &Reynos,ÔC 
me forças a mim, & aos meus, paraque vençamos quero eftabeleccr Império para mim,em ti, & nos 
eílcs que blasfemaó Voflo Nome. Ditas cít:is pa- teus defcendentes : paraque meu nome fcja levado 
lavras adormeci fobrc o livro , & vi hum velho, a gentes eftranha:. E paia que teus íucccliores co- 
que fe chegava a mim, & que dizia: Afí<)nfotem nheçâo quem lhe deu o Reyno , farás o teu bra- 
confiança porque vencerás, 6c deítruhirás eítes zão de armas do preço , com que eu comprey o 
Reys, fie desfarás íèu poder, & oSenhorle temof- género humano: & do preço, com quefuy com-' 
traria ti. Em quanto vejo eftas coufas , chegou prado dos Judcos. E fera Reyno para minSanti- 
Joaô Fernandes de Souía meu Camarcyro, & dif- ficado.puro por Fé,8í amado por piedade.Depois 
fe, Icvantay vos Senhor, que cftáaqui hum velho, que cftas coufas ouvi poftrado por terrao adorcy 
que vos quer falar. Refpondi eu,entre, le he fiel: dizendo:porquc merecimentos, Senhor,me fazeis 
& entrando donde eu eftava , conheci fer aqucllc, tão grande mercê. Tudo o que me mandais farey. 
que tinha vifto na vifaó, o qual me ò^\^ç.\ Senhor Vós ponde os olhos benignos na minha geração, 
tende bom animo, vencereis, vencereis, 5c naó fe- que prometteis,ôc tende em vofla guarda a gcntí 
reis vencido. Sois amado do Senhor: porque tem Portugueza. E fe contra eli es algum mal apare- 
pofto fobrc vós , & fobre voflbs defcendentes os Ihardes , converccyo antes fobrc mim , Ôclobre 
olhos dcfua mifcricordiaaté lexta decima gera» meus fucceílores , &livray o povo que cu amo 
çaõ, a qual fera menos acabada algum tanto, mas como filho único. Concedendo o Senhor difle: 
nefte menos cabo a olhará com olhos de íuamife-i não le apartara delles , nem deti nuncaaminha 
ricordia. Elle mefmo me manda, que diga, que mifericordia : por refpeyto , &mcyo delles apare* 
quando houvirdes cfta noy te feguinte a cápainha Ihey humagrande fementeyra, ôceícolhidos aci- 
da minha Hermida , fayais fora do arrayal ló fem les por meus íegadorcs em terras remotas. Ditas 
pcfloa alguma : porque vos quer moftrar lui muy- eftas coufas delapareceo.Torney ao arrayal cheyo 
tapiedadc. Obedeci, &pofto por terra cornrcve- de confiança ,&gofto : Eeu A fionfo juro pelos 
rcncia fiz o devido acatamento ao menlageyro,& Santifiimos Evangelos de Jeiu Chrifto , emque 
aquém o mandava. Eeftando eu pofto em ora- ponho minhas mãos, quepaílaaflun defta mancy- 
çaò,eíperandoofom da campainha, na fegunda ra. Por tanto mando a meus! jccefibres , que ao 
vigilia da noyte a ouvi,& logo armado com elpada, diante haôde fer, que tragaõ por bríjzãc de armajs 

cincí 



QC^ 



Canto Terceyro. S7 

cinco cfcudosfeytos em Cruz, por amor da Cruz, 

6c cinco Chagas de JerLiChrifto,& em cada cícu- g 

do trinta dinheyros , 6c cm cima a Serpente de ^ 

Moyfcs peia Figura de Chrifto.E elte leja o noflb /Tpt AldoRey novo O eftamago acendido 
mciaorial cm nojla geração , 6c íe algum tomar JL Tor T^eoss^ pelo f OVO juntamente ^ 

ouiro leja maldito do S.nhor,6c atoruientado.no Q harbarn comete apercebido^ 

infcrnocorn Judas traydor. bm Coimbra aos 50. ^^^^ animofo exemto rompente: 
de Outubro ue 1151. Nelta carta citava aílinado 



odicaKey Dom Artonfo Henriques, dous Bilpos, 
de.<j'ie LLi no principio , 6c outros Ufficiaes , 6c 
Procuradores do Rcyni) , cujos lellos pendentes 
era© das armas daquelles que eítavaó aííinados 
na dita carca. 

A maiuiinalux, Cerena^ié^ ftta.Luz matutina,qucr 
.dizer , iuzda u.anhã, porque á manhã chaoiaó os 
Latinos matula. VejA-lc o que elcrevemos no 
canto 2.oyta\ a 92. 

/fi tjirtíUi do 'c*olo jà apartava. Que couía feja 
Polo.&L como ie tome pelo Ceo fica dito no canto 
i.oy.iav'a 24. 'v^uer dizer aqui oPoeta,quca luzda 
artilha hi2i i couí que ie não villem as eílrellas, 
^jjÉorquv^ c<ímo trás mayor ciai idade do que temas 
^Rrcíi-s , faz com que delaparcção por todo o 
C^eo,&. Icnãó vcjaó. 

46 

C- Om tâlmilaare os ânimos da gente 
^. Tortugueza inflamados j h vantavaÕ 
^or/eu Rty natw ai ffte excdiente 
^Fnnaptí.^<fue àopeyto tanto amavao: 
£ duií.te do ex r cito potente 
%)u imfgõs gritando, o Ceo tccavaÕj 
%)izenac em ^Ita voz.. Real Real, 
Tor Ajfotijh AU o Rty de tortugal, 

Cí>wí<j/»íí/<jgre.Neílelugar,Sc tempo vifto hum 
taô claro , g>: evidente milagre, lodosos Portu- 
guezesa hinna voz levantarão ao Principe Dom 
/iiííonio } 01 leu Rey,o que cHe logo por iaber íer 
aíTim vontade de Dcos , & dclle lhe vir cite tão 
honrado titulo, como o melmo Senhor lhe tinha 
dko quando lhe aparecco , o accy tou com muyta 
vontade,6cgoíto. 

.47 

QValcosgritoSi ^ vozes incitado^ 
'tela montanha, o rábido molofo^ 
Contra o touro ttmr te, que fiado 
Na força eHa do como temerojo; 
Orapêií^a na (.relha, era no lado 
Latindo mais Itgeyro, quejorçcfo. 
Ate que em fim rompeyidoLhe a garganta, 
*Do bravo aforçu horrenda Je quebranta. 

Vela montanha o rabiio Molofo. Molof^ heocaô 
e;ue cm noila lin-jua chaman-os ]ibrèo,chamaólhe 
os Latinos MoLfo^T^or virem os melhores de Mo- 
lofíí , Proviíicia do Epy ro , a que hoje chamamos 
Albânia. 



Levantão nifto os perros o'alaridoy 
^Do^ gritos, tocaõ arma^ fei^ve agente^ 
As lanças ,1^ arcos tamâo ^ttibas foaÕ ^ 
Injirumentos de guerra tudo atroão, 

49 

BEm como quando a flama j que ateada 
Foy nos áridos campos Ç^ajfopr ando 
Ofibilante Bnreas) animada 
Co vento o feco mato vay queymandoí 
A'P aflorai companha, que deytaàa 
Co docefof^ô eflava^ de/per tando 
Ao eftridur dofogo^ queje ate 7^ 
Recolhe ofato,^ foge para a aldeã, 

Ofihilantt Bore^ , Boreas he o vento a que cha- 
mamos Nornordeíle, Chamalhe íibilante , que 
quer dizer queafovia : porque com leu lopro pa- 
rece aílbvrdr,por f^r vento rijo, 6c que venta com 
grande furia. 

50 

DEfla arte o Mouroattonito^^S turbado ^ 
Toma f em tento as armas muy depre[Ja^ 
Nadfoge mas e/per a confiado, 
Eog tnete belliger o arre me (Ja: 
O 'For tugtiez o encontra denodado^ 
'Pelos pfytos as lanças lhe atravejfa, 
Huns caem meyo mortos, lè outros vaõ 
A ajuda convocando do Alcorão, 

A ajuda convocando do Alcorão. Mcorio he entre 
os Mouros o livro de lua feyta maldita , 6c «nde 
clles tem poílo iua cfperança , 6c ptlo qual fe re- 
gem. Aqui Ic toma pelo maldito Mafoma feu au- 
tor. 

51 

ALÍífe vem encontros temcrofos. 
Tara/e desfazer huma alta/erra,. 
E os antmae^ corendofuriofos^ 
^e Neptuno moftroufierinao aterra-. 
Golpes (e dão medonhos, & fiorçofosy 
^Ftr toda a parte andava acefa agutr ra, 
Alas o de Lufo arnez, couraça . tè malha^ 
Rompe, corta, desJaZi a bollaj Ôí talha. 

E es animaes ctrremU fmojos ^ ^u^l^eptunomoC' 

troti 



38 Lufiadas de Luis de 

tr ou ferindo aterra. Contaõ as fabulas que havendo 
alteração entre Neptuno fcnhor do mar,&: Palias 
lualobrinha, filha de feu irmáo Júpiter, de cujo 
nome fe havia a Cidade de Athcnas nGní>ear,a qual 
elles ambos havião fundado : como entre clles fe 
naópodeíTe determinar , & averiguar cfte nego- 
cio, fizeraó os Deofes junta, na quaJ aflentâraó, 
que pufefle nome á Cidade , o que milhor coufa 
déífe para ferviço dos homens na terra. Neptuno 
ferio a terra com feii tridente , & fahio o cavallo, 
animal de tanto esforço,ligeyreza,&: lealdade.Pal- 
las fazendo o mcfmo com a lua lança , deu aoli- 
vcyra infignia de paz:&: logo por todos foy deter- 
minado,que Palias fizera ventagem,6c que ella de- 
via por nome á Cid.íde , o que fez , chamandolhc 
Athenas , porque aíTirn fe chama Palias na lingua 
Grega. Eíla Cidade foy a mais exccllente, 6c no- 
meada , não digo eu de Grécia, em cujo território 
cila cftá, mas de todo o mundo. Efta foy a inven- 
tora de todas as boas artes , raãy de todos os ho- 
mens iníignes,que no mundo houve em letras.Ho- 
jc he huma muy to trifte aldeã fcm nome, & humas 
caíinhas palhaças : boa injuria dos homens Dou- 
tos. E bem fe vcque Bárbaros pofiliem a terra. 
Chamaólhe hoje os moradores Setinc, como quer 
Ortclionafua Sinonymia Gcographica. Alguns 
querem que haja ntlla hum eftudo de Gramma- 
tica Grega, o qual fuítenca o Turco em memoria 
do que a Cidade foy. 

Rompey certa^deifaZi a bolay & talha, A bola,aqui 
naó he veílidura , como aleuns commentaó , que 
he bom delpropofito para lugar, onde Ic tratta de 
cutiladas. He propriamente, abolar, amolgar, & 
desfazer, 6c neíla íignificaçaó fe põem aqui , & af- 
íim uíaó delia palavra os que entendem bem a lin- 
gua Portugueza. 

52' 

C^ Abe ças feio campo vaÕfaltando, 
j Braços jf emas fem dono^& fem fétido, 
E doutros as entranhas pa/pttandoj 
^allida a corj& ogefto amortecido: 
Já perde o camfo o exercito nefando t 
Correm rios de fungue dejparztàoj 
Com que também do campo a cor [e perde. 
Tornando Carmefide branco^ & verde, 

lornadi carme ft de branco^ & verde, lílo diz para 
encarecimento do muyto íangue, que havia, que 
aterra , fico campo eftava todo em lugar defua 
própria cor fcyto carmcíi , vermelho, naó apare- 
cendo outra coufa fc naó fanguc. 



T 



53 



A fica vencedor o LufitanOy 
Recolhendo os trofeos, òprefa rica, 
' desbaratado,^ roto o Mauro Htffano, 
Três dtas $gram Rey no campo fica: 



Carnes Commentados. 
Aquip nta no branco e feudo ufano, 
^e agora efia vitorta certifica, 
Ctnco e/cudos azuis efclarectdosj 
Em final defies cinco Reys vencidos^ 

O Mouro Hifpano. Mouro morador em Hefpa- 
nha. Depois de vencido Ifmael com outros qua- 
tro Reys Mouros , ficou El-Rey Dom AfFonfo 
Henriques no campo tre? dias , como he coílume 
entre os vencedores , ôclogopozno íeu efcudo, 
que lhe leu pay em branco deyxára,cinco efcudos 
em cruz , por amor da Cruz de ChriftoNoílb Se- 
nhor, & das fuás cinco Chagas, & em cada eícudo 
os trinta dinheyros , porqueosjtideoso compra- 
rão a Judas , como o melmo Senhor lhe man- 
dara quando lhe aparcceo. 

54 

ENefies cinco e/cudos pinta os trinta 
dinheyros, porque T)eosfora vendido, 
E/creventío a memoria e m varia tinta^ . 
^aquelle, de quem foy favorecido: 
Em cada hum dos cinco, cinco pinta, 
íPorque affifica o numero ctimp ido. 
Contando duas vezes o do mtyo 
^os finco azuis i que em Cruz pintando veyo, 

E m(iei cinco efcudos. O Poeta nefta ordem dos 
efcudos , & dinheyros fcguc a ordem das Chroni- 
casdoReyno , que o contaõ deíla maneyra que 
elle aqui põem: que pos El-Rey Dora Áífonfo 
Henriques huma Cruz azul partida em cinco eí- 
cudos , por amor da Cruz cm que ChriftoNoílb 
Senhor apareceo crucificado no Ceo:6c em memo- 
ria dos cinco Reys Mouros, que vencera, &; trinta 
dinheyros repartidos pelos cinco efcudos, em cada 
elcudo cinco : o que tudo he contra a carta que 
atras polemos d*El-Rey Dom Aííbnfo,aonde el- 
tas coulas eílaó na verdade como fica dito. No 
tempo que o Poeta eícreveo eíles cantos , naó fe 
fabia a verdadc,Sc certeza deíle negocio, pelo que 
elle fala , conforme ao que as Chronicas dizem, 
que movidos por Relações naó certas,naõ efcre- 
veraõ eíta matéria com a certeza neccílaria. 

55 

PAffadojà algum tempo, quepàjfada 
Era efta gr am vitoria, o Rey fubido^ 
Atomarvayheyria^ que tomada 
Fora, muy pouco havia, do vencido: 
Com (fia a forte Arronches fohjugada 
Foy juntamente^ Ò"» fempre ennobrecido 
Scabeltcafiro, cujo campo amento 
Tu claro Tejo regas taõ [ereno^ 

Pafadoià algum timfê. Depois daquella iníígne 

vitioría 



Canto Terceyrol 
vittorla do Campo de Ourique , ficou o Mouro CintYãi onde as Nâyades efiondidas 
Ifmacl taó enfadado , & tomado dos Chriftáos, Jslasfontes^ vaô fugindo aos doces laçoSy 
que logo foy por cerco a Leyria , que El-Key ti- q^^^ ^j^^^^ ^^ ^^^^^^^ brandamente, 
nha dado ao Prior de Santa Cruz de Coimbra , a * 



89 



qual tomouimas efteve pouco tempo debayxo de 
icu poder, porque El-Rey Dom Affonlolha tor- 
nou logo a cirar das mãos. No meímo tempo foy o 
ir.eímo Prior de Santa Cruz com gente íobre a 
Villa de Arronches,que eftá na arraya de Caftella, 
& a tomou aos Mouros. Com efte íucceflo fe foy 
aEl-Rey, Ôclhe diíTc, que fua Alteza fizeíle de 
LeyriajSc Arronches o que bem Iheparecefle.El- 
Rey poz em confelho com os prmcipaes de lua 
CortCjO que faria nefte cafojôc aílentoufe,que no 



Nas agoas acendendo fogo ardente, 

Ajunta tamhem Mafra em pouco e(paço. Mafra he 
huma Villa no termo de Cintra. 

E nai ferrai da Lua conhecidaitSojugt a fria Cintra 
(luro braço. A ferra de Cintra chama Varraó wo»- 
te Tagro , como refere Ortelio na lua Sinony mia 
na palavra Tagrum montem. A eíte monte chamaó 
outros a ferra da Lua , como lhe chama aqui o 
noflo Camões. Defta lerra íahc huma ponta para 
o mar , que fe chama o Promontório da Lua. A 



tocante ao eípiritual foflcm eílcs dous lugares lu- razaó deftenome he,porque na praya ao longo do 
gcytosao rnoíteyrode Santa Cruz,6c no tempo- mar , dizem erteveantiguaniente hum Templo 
ral aos Reys de Portugal. confagrado ao Sol,6c a Lua, como parece por hu- 
E ofempre enmbrecido Scalebicafiro.Km dia do apa- ma pedra que le achcu naquellas partes , com hum 
recimento do Bemaventurado S. Miguel , oyto letreyrj Romano que dizia, 
dias do mez de Mayo de mil cento quarenta & le- 
ie,entrou eílcteliciíTimo Rcy Dom AíTonlo Hen- Soli aterno, ^ Luna 
fiques na Villa de Santarém , chamada aflim em Pro aternkateimperij, 
nofloj' tempos , por ter em fi o corpo da Bem- Et faluta imp. Caf.Sep- 
aventurada Santa K.ryâ,o qual lugar le chamava timij Severt ^ug.Ptj,& Caij 
antíguamcnteScalcbicaftro, como o noílo Poeta Ctef.M.Aureltj dntomni 
lhe aqui chama. Plinio lhe chama Scalabis , 6c Aug.Pij 
Ptholomeo Scalabifcus , os Autores lulium prajt» Aug.matris tius^Drufui 
<//«w,o qual nome dão também a huma Cidade da Valerm Caalianuí, 
Eílremadura, lugcytaaos Reys de Caftella, cha- 
mada vulgarmente Turgillo , nome corrupto do O qual quer dizer em noíTa lingnagem.Drufo Va- 
Latino.que antiguamcnte tinha, que era 7«/i;í«r- lerio Ceciliano dedicou cfte Templo ao Eterno 
r#í,torre de Júlio Ccfar, por ter nefte lugar, ôc cm Sol> 6c á Lua, pela eternidade do Império Roroa- 
Santarem, 6c em outros guarnição de gente, para no , & pela íaude do Emperador Cseíar Septiraio 
íegurança da terra , que por efta razão fe chamaó Severo AuguftoPio,& deCefar,&de Marco Au- 



rélio Antonino Augufto Pio,6c de Juli-i Augufta 
lua máy. Outros lhe daó eftc nome por ler efta 
terra de Cintra,a mais Occidental, 6c frei ca terra 
de toda a Europa Occidental. E porque a quali- 
dade defte Planeta he fer húmido , 6c frio , daqui 
alguns lugares que tem as mefmas partes , le cha- 
maó com eftc íobre nome de Lua. 



S7 

T7 Tu, nobre Lisboa, que no mundo 



Frafidtum /«//fjguarniçaô de Julioxomo também 
Évora le chama liberalitas luíta, pelas mercês, & li- 
berdades que efte grande Capitão lhe fez íempre. 
Ennobrecido chama o noflb Poeta ao lugar San- 
tarém, porque Íempre foy muyto eftimado , aflim 
cm tempo dos Romanos, como em noftbs tempos. 
Do tempo dos Romanos nos confta pelo calo que 
íc. delle fazia em porem nelle gente de guarnição 
como era lugar importante. Do noftb tempo não 
tenho maisque uizcr, que fer hum dos melhores, 

&ftiais populolos lugares de Portugal , como he t-i - -' • r 

notório. JL> Faciímente das outras es Trínceja^, 

Cujo campo ameno tu claro Tejo regai tão fereno. I ft o ^<? edificada fofte do facundo, 

diz porque o noflb Tejo paflk ao longo de Santa- ^or cujo engano foy TDardania acefa: 

rera , 6c alguns annos fazem fcus campos oofii- Tnaquem obedece ornar profundo, 

CIO do Nilo no Egypto , 6c outras vezes he taõ Qbedeceíieà forca Tortmnefa 

grande a enchente, que faz grande deftruiçaõ nas ^^^<^Yj\u ^Z ? %tL.^. 

tcrras.como também o Nilo coftuma fazer. /ijudada também da forte A? mada, 

^e das Boreaes fartes foy mandada, 

^ Etu nobre líièod.Eftando El-Rey Dom AíFon- 

AEfias nobres Villas fobmetidas , íoem Cintra logo que a tomou aos Mouros , apa- 
Ajutatambe Mafra empoucoSefpaço, receono marhuma armada de cento , 6c oytcnta 
Enas ferras da Lua conhecidas vellasde Alemanha,Ing)aterra,6cFrf^nça.qucvl- 
.V/^^íVv/T., ^ Z^;^ r • X / / nhaõ daquellas partes lomcntc a pelejar com >n- 
òoijuga ajna Cmtra o dnro hap: f^^,^ Vendo El-Rcy Dom Affonlo de cim» do 

M CsftcUo 



tío. hujiaàas de Luis de Camões Commentados, 

Caílello ÒQ Cintra aonde eftava huma tão grande ajudar os Chriftâos delia contra os Mouros , de 
armada, mandou quatro homens principaeslaber que eftava cheya.tt, como eftas gentes moraó para 

quegenteera , ôc que bulcava naquellas partes, as partes do Norte, ufa o Poeta defte termo de fa- 
Keíponderaô os da armada , que eraó Chriftâos, lar,que das Boreaes partes foy mandada. 
6c que íua vinda naó era com outro intento, falvo 

Í)e]ejar com os inimigos da Fé de Chrifto,ElRey ç 8 

olgou muyto com efta nova,6c mandoulhe ofte- » / /n 

recer tudo o que ouveflem mifter da terra.Dey- T ^ de Germânico Albis., & do Rheno, 
xo á parte muytas coufas que paflàraõ entre El- j ^ Eáafria Bretanha conduzidos j 
Rey,& cftes Eftrangeyros, em que lhe pedio que A dejÍYUir o povo Sarraceno, 
lhe ajudaftem a tomar a Cidade de Lisboa,o que Muytos com tmçãofanta erão partidos; 

elles fizeraó com muyta vontade. Durou o cerco Entrando a boca ja do Tejo amem, 

cinco mefes, 2c nohm de les a 25.de CJutubroda ^ ^ 1^ ,.j ait / ,-j 

dita era de mil cento quarenta 6c ietc , em dia dos ^'^^ ' anayal do grande Affonjo unidos, 

BemaventuradosM^rtyres Cnlpmo , ôcCnípi- (^ujaaltafamaentaojuha aos Leos, 

niano foy entrada , & tomada aos Mouros , com Foy pojfo cercoaos muros Ulifjeos. 
muyto derramamento de fangue , como fe pôde 

ver mais largamente n£\s Chronicas do Rcyno,6<: U do Germânico Alh'u^é'ào R^sno. Albii,&: R he- 

refere André de Refende na Dcfcripçáo de Evo- no faó nos de Alemanha , dos quaes trattcy nelle 

ra.E querendo El-Rey Dom AíFonlo fazer par- canto oy tava 1 1 . & por efta razaó lhe dâ por Epi- 

tilha na Cidade , como tinha concertado com os theto Germânico, por que Germânia he Alema- 

Eftrangeyros : elles o naó confentiraó , & larga- nha. 

raó todo o dircytoquc nella tinhaõ,& a deyxáraó E 4a fria Bretanha coduziios.k ilhadc Inghrenra, 

livremente a El-Rey : o qual deu aos quede fua que os Antigos chanáraó Albion por certos mon- 

vontade ficáraõ no Reyno , os lugares que elles tes , & rochedos braRCos , que tem ao longo do 

quiferaó para os povoarem , & viverem nelles mar, fe chamou,&chi)ma hoje BritanÍ3,Bretanfaa.' 

izcntos ,lem obrigação alguma , osquaesforaô á Ariofto a nomea de huma, & outra maneyra em 

Touguia, Lourinhã, Arruda, Villa verde, ViUa huma \>.\Mtà'\ztnáQ:Bret(ígna(bejupúidttta Inghtl' 

Franca, Azambuja, & Almada, de cuja progénie terra : & em outra parteonde Inghtlterra fu dctta 

hoje em dia ha em Portugal gente muy conheci- Albtone. A cerca da origem da palavra Bretanha 

da, Sc principal, como he notório a todos os Por- ha diíFerentes opiniões , huns querem que <e cha- 

tuguezes.E aos que quiieraó tornar para luas ter- maflb aftim de hum Brutto,filho de Silvio Pofthu- 

rasjfcz El-Rey muytas merceSjSc honras, Ôcaffini moRey dosRomanos,que afugeytoujôc reynoa 

hunsjôc outros foraó m^iyto contentesjôc latisfey- nella. Outros de hum Britão Rey da melma ilha. 

tos do bom trattamento que lhes El-Rey f.z. Hoje lhe chamaõ osLatinos Anglia,^(\{iQ também 

^ue edificada fofie do facitnik. Chamão os Poetas fe daõ differentes nomes, huns querem que de hu- 

a Ulyífcs íacundo que quer dizer eloquente, por- ma Angla Raynha dos Saxones,que foy Senhora 

queofoy cllenniyto.EUcUiyílesfoy grande par- deftailha, outrcsde Anglo Rey antigo delia , ôc 

te para le tomar Troya , que os Gregos tiveraô outros de angului , que he canto por fcr hum can- 

cercada dez annos,a qual o Poeta aqui chanta D^r- to , & cotovelo do mundo , ou por milhor dizer, 

dania,do nome de Dardano Rey delia. Depois de outro mundo, como lhe chamão os Autores, &: íe 

queymada , Ôcdeftruida , dizem os Autores , que pode ver em Ptolomeo no livro 1. n« qual tratta 

aportou Uly ilesa eftas partes , Scqueedjficou a deftailha, aonde comprendedebayxo da palavra 

Cidade de Lisboa,3 qual querem que por efte rei- Bretanha alem de Inglaterra, Irlanda, que he ilha 

peyto fe ch^me Ulyííipt, em Latim, fatria UlyífiSf apartada,as Orchadas, que Caq ti inta ilhetas Thy- 

maniaUlyjJlSi & com outiôs nomes,quc vem adi- le, & outras muytas ,& claramente fevé que PtojJ 

zer fer cila fundada por elle, como o tem o no0o lomeo no lugar allegado toma a Bretanha , naó ffl 

Camões no canto S.oytava 5. Os que o negam ef- por Inglaterra, mas por toda aquclla Regiaõ, qufl 

crevem efte nome muyto diffcrentemente, Olyf- os Poetas chamaõ outro mundo. O que porven- 

íipotundados em Ictreyros antigos , onde o acha^ tura quiz entender Virgilio qu^indo difie:Ef penu 

aflim eícrito , mas naó lhe labcm arinar com a ori- tm totó àivifn orbe Britanoi,&í 05 Britóes divididoí 

gem. He coufa muyto antiga» & como tal naó ha & apartados de todo o mundo, quafiquerendo< 

quem acerte com fua vcrdadeyra Etymologia,ca^ fazer diftíntos , 8c feparados do noílo mundo , l 

da hum figa o que melhor lhe parecer. DeUlyflbs que moravaõ cm outro mundo por fi. A Bretanhi^ 

fe vejaanoflaannotaçâónocanto i.oytava y&ci. chama o Poeta aqui fria , por ier terra Septcn- 

§itte dai Boreati partes foy mandadsí/^ox partes trional,& porefterelpeyio muyto fria. 
Boreaes le entendem as partes do Norte , ao qual A deftntir o povo Sarraceno. Por j)ovo Sarraceno 

os Gregos chamaõ Boreas.Eftahe a gente de que entende os Mouros , como fica ditto atrás oyta- 

falàmos atras cytava45. que fe ajuntou de Ale- va zj. aonde trattey da origem da palavra Sana», 

manha, Fráça , & Inglaten a,para vir a Heípaiiha ceno. 

Fo 



1 



Foy fofo cerca a&s Maroí Ulyjfsos 
Ulyíieos , faó os muros de Lisboa , chamados he o que o 
aflim ( como atrás íica dito ) de feu primeyro 
fundador UlyíTes , como quer o Poeta ícguin- 
do a opinião dos Antigos. 



CantõTerceyto] ^x 

Muros maneyra desbaratou de todo a Xerxes. E ifto 



c 



55> 
Inco vezes a Lua/e e/condêra, 
^ E outras tantas moftrara cheo o roftoy 



Poeta diz , encarecendo eíla bata- 
lha , que teve dous géneros de gente vence- 
dores afperos , ôc vencidos deíefperados : por- 
que a huns anima a vittoria , 5c a outros a 
delefperaçáo faz pelejar anitnoíamente , vendo 
que nenhum outro remédio tem. 



^anáo a Cidade entrada fe rendera 
Ao duro cerco, que lhe eftavapofto: 
Boy a batalha tãofanguinea, ^ fera^ 
^anto obrigava ofirmeprefupojio, 
T)e vencedores afperos-, & ou/a dos, 
E de vencidos jà defe/perados, 

cinco vezes a Lua feefcondera. Declara por eftes 
termos o tempo em que a Cidade de Lisboa eíleve 
cercada por El-Rey Dom AíFonIo , & pelos Ef- 
trangeyros, que foraõ cinco mezes. Dcfte me(- 
iBo modo de falar uíou Ovidio na Carta de Phi- 
lis a Demophonte. 

Luna ejttater latuity totó tfuater orbe recrevit 
Nec vebit Actuas Scythonis unda rates. 

Qiiâtro vezes, diz o Poeca , íc efcondeo a Lua, & 
outras quatro tornou a crecer em toda íuaredon. 
dcza,que he o que Camões aqui diz,6c outras tãtas 
moílrava cheyo o roíto. 

De vsnceJores afperos^ & oufados, <jr de vencidos jà 




Co 

Efta arte em fim t ornada fe rendeo 
/iquella^, que nos tempos jà pajfados 
A grande força nunca obedeceo, 
'Dos frios povos Scyttcos enfados: 
Cujo poder a tanto fe eftendeo, 
^ue o Ibero o vt^j SJ o Tejo amedrentados^ 
E emfimdoBethis tanto alguus puder ão, 
^ie à terra de Vandalia nome derão, 

Dotfnoi povos Scythicos oufados. Entende aqui oS 
Vândalos , aosquaes Plinio , &: Ellrabochamaó 
Vandalicos, faó povos de Alemanha, os quacs, co- 
rno diz Volaterrano , alguns annos antes que os 
Gregos occupaflcra a Cidade de Roma , entrarão 
em França, 6c Hefpanha pelos montes Pyrineos, 
com Cuja chegada os Hefpanhoes ficàraó muyto 
atemorizados : os quaes entende por eftes nos 
lbero,que he o que comummente fe chama Ebro, 
Tejo , 6c Bcris , taó conhecidos. Eílcs Vândalos 
depois de terem feyro grandes cftragos em algu- 
mas partes de Hefpanha , fizcraõaflentona Pro- 



defefperados. Deftas mefmas palavras taó fentcncio- vincia Botica, chamada aííim do rio Betis,que ho 



las ufa Jiiftino liv. 6. Vstloria atiimumvtncentthu^ 
virtutcm ejuo^ue viclis addit defperatto, A vittoria Jâ 
animo aos vencedores , ôc a derefperaçaõ esforço 
aos vencidos , 6c ifto he o que diz Virgilio: 
Utta falus viõlis nullam f per are falutem. A principal 
confolaçaó , 6c remédio que tem os vencidos, 
he eftar ícm efperança de o poder ter : porque 



je Ic chama Guadalqtiibir , que ( como fica dito 
atrás oytava i7.)he palavra Arábiga, Sc quer dizer 
agoa grande. Efta Província Betica le chamou 
primeyramcntc Vnndalicia do nome dos Vânda- 
los, que a fugeytâraó:6c andando o tempo, 5c cor- 
rompendo-le o vocabu|o , fe veyo a chamar An- 
da1uzia,como hoje fe chama. Nefta oytava enca- 



nenhuma coula obnga mais aos vencidos a pe- rcce o Poeta o esforço dos Portuguezes, mayor- 

Icjar , que ver que nenhum outro remédio tem: mente dos moradores da Cidade de Lisboa , pois 

. donde veyo aquella lentençataõcclebre,8c com- fogeytandoos Vândalos Helpanha naô pudcraõ 



mum que dizem teve principio daquelle grande 
Capitão Themiftocles. Ao inimigo ponte de pra- 
ta. Depois de vencido Xerxes Rey dos Períns pe- 
los Gregos, vendo que fe punha em fugida, deter- 
minarão mandar alguma gente diante para o en- 
treter , ficeftorvar quenaó tornafle alua pátria. 
Themiftocles foy de contrario parecer , dizendo, 
que fe a Xerxes lhe eftorvavaó o paflb , feria occa- 
íiaô por onde os feus convertendo a deíefperaçaó 
tvn virtude, abrillem caminho com as armas: pois 
cie outra maneyra o naô podiaó fazer. E naõ con- 
tentando a todos os outros Capitães Gregos efte 
parecer de Themiftocles,clle mandou íecrctamen- 
teaviíar a Xerxes por hum feu efcravo Períiano, 
que caminhafle deprefla , porque os Gregos 
lhe queriaó impedir feu caminho , 6c dcfta 



íugeytar Lisboa , 6c com tudo El-Rey Dom Af- 
fonfo a tomou aos Mouros. 



61 

Q1)e Cidade tão forte, por ventura 
Haverá, que refifia^fe Lisboa 
Naõ pode refifitr à força dura 
Da gente-, cuja fama tanto voa^. 
Jà lhe obedece toda a Eflremadura, 
Óbidos, Alenquer , por onde foa 
O tomdas frefcas agoas entre as pedras 
^e mormurando lavay& Torres -pedras, 

Óbidos , /ihntfutr , éf Torres.Vedraf. Aflás^ro- 
M a nhecidos 



9* 



Lupdàas de Luís de CâmÒes Comntentadosl 



nhecídos Lugsres da Eftrcmadura. 

Vor ondefoa 9 tom das frefcas agoas. Pela muyta 
frefcura da terra » Sc abundância de rios que a re- 
gaô. 

Cl 

EVôs também, ó terras Tranftaganas^ 
Affamadas co dom da flava Ceres ^ 
Obedeceis às forças mais que humanas 
Entregandolhe os muros^ & os poderes; 
E tu lavrador Mcuro^que te enganas^ 
Sefufttntar a fert ti terra queres ^ 
Sue Elvas j^ Moura,^ Serpa conhecidas j 
E Ale acare do iiale[hÕ rendidas. 

E vos tamhem , o terras Tran^aganas, Terras 
*rranftaganas , faô terras do Alentejo , muyco 
abundantes de todas as coufas neccflarias para a 
vida , & principalmente de trigo, o quaí entende 
por eftas palavras : dem da flava Ccreí,porque di- 
zem os Poetas,quG Ceres filha de Saturno,& Ope 
foy a pnmeyra que eníinou aos homens como 
haviaõ de lemear as terras , 6c beneficialas para (e 
poderem luftentar. EdizGicero Vih.z, óc hlatur a 
DeoruWy que íc chama Ceies , qu^Ci geres a gerando 
pela grande abundância que os homens na terra 
tem de mantimentos,por beneficio,5c ordem lua. 



Aflim que nefte tempo já era Évora: mas quando 
começafle , ou quem fofie o fundador naó coníta, 
Nefta Cidade de Évora fez aflento Sertório Ro- 
roanojpor ícr de nobre,6c grande povo,para o po- 
der favorecer , & ajudar nos negócios de guerra 
contra os Romanos. E nellafezhuma cala que 
hojefe chama cala de Sertorio.ôc mandou cercar 
a Cidade de cantaria lavrada,como fe molíra ain- 
da por muytas partes, por onde eftà a cerca velha. 
E aílim fez trazer a agua da prata à Cidade para 
ornatOjôc provimento della,o que tudo fe pôde ver 
emRelende,no lugar allegado.ehamalhe o nofio 
Poeta rebelde , porque lendo Italiano de naçaó 
natural da Cidade deNurf]a,q hoje le chama Noz- 
za, vendo qucSyllaera Senhor de Roma, venci- 
do Mário, cujas partes íeguira, íe recolheo a Heí- 
panha, aonde o favorecerão tanto, quclhederaõ 
gente com que fugeytou muytas Cidades , & fez 
guerra aos Roiíianos , venccndolhe muytosCa- 
pitães,como conta Plutarco em fua vida. 

Onde hora as aguas de argento. Eíta he a agu-a da 
prata,a qual vem por cima de arcos à Cidade, & le- 
vada por difFerentes partes , a provê toda^e^owu 
neyra,quenaõ tem a gente ncceííidade de outra. 

Oe Girald0t<^ue medos não ífww.Giraldo foy hum 
Cavalleyro Portuguez de muyto esforço , ic fem 
medo algum , pelo que era chan)ado por alcunha 
Sem pavor. Eíte Cavalleyro foy em tempo d^El. 



Iftohe muyto trilhado, & iabidodosqueJcm pe- Rcy Dom Áffonfo Henriqucs,o qual andando cjh 
los Poetas, Moura , Serpa , & Alcacere Villas do dcfgraça do fcu Rey, por algum cafojde que naó 
Alentejo, 6c Elvas Cidude na arraya de Portugal, ha memoria : vendo que naó podia andar na Cor- 
te, lançouíc com os Mouros do Alentejo. E por- 



Eis a nobre Cidade ^ certo ajjento 
^Dorebelde Sertório antigamente^ 
Onde ora as agoas nítidas de argento-, 
Vemfuftentar de longe a terra^ & agente^ 
"Pelos arcos reaes^ que cento, & cento 
N^os ares/e levantaÔ nobremente ^ 
Obedeceopor meyOj & ou/adia 
1>e GiraldOj que medos naÕ temia. 



que naquclle tempo tudo eraó guerras , 6c revol 
tas, havia outros muyros homiziados, ôc encarta 
dos,que fe chep^avaó ao Giraldo,ôí o acompanh 
vaô,por clle fcr homem de peyto. O que tambe 
foy parte para os Mouros o favorecerem, & par 
límael Rcy Mouro, que fora vencido no campo 
de Ourique , lhe dar licença para ter fua colhey ra 
na ferra de Monte muro em hum Caílelloqucallt 
fez,que hoje naó tem mais que o nome de Caílel- 
lodeGiraldo , queno mais hedcílruido. Tinha 
efte Giraldoem fua companhia muytos conpa- 
nheyrosipelo que vendo-1'e em defgraça de Deos, 
> E« a nobre Cidade certo ajjento , Do rebelde Sertório & de ícu Rey , & doendolhe o coração de trattar 
antiguamente. Efta hc a Cidade de Évora, das prin- com bárbaros, arrependido dos infultos, & males, 
cipaes de Portugal , 6c muyto antigua , & tanto, que tinha feyto contra os Chrifláos, determinou 
que naó me lembro ter lido, quem fofle o primey- de fazeralgum ferviço a El-Rey , com que lhe 
ro fundador feu , nem íe pôde affirmar delia mais, perdoaíle o paflado. E lançando o penfamento ao 
queíerantiquiílima , como dizonoíToRefende que farja, em nenhuma coula lhe pareceo que po- 
na fua Delcripçaó,aonde tratta de feu nome, Sc o dería elle , & feus companheyros fervir a El-Rey 
que pode alcançar,& laber de fua antiguidade. O melhor , que em tomar Evoraaos Mouros. Pelo 
que fabcmos pelas Híítorinshe, quejáno tempo que começou Giraldo muyto de propofito a fa- 
de Viriato era Évora, o qual Viriato fe começou beras entradas, & lahidas da Cidade , & fazerfe 
levantar com Lufitania, & depois com toda Hef- mais familiar dos Mouros. E poílo que fe naó fia- 
panha perto do anno de fcifcentos , & o.yto da cdi- vaó delle,& Ih^ dbhia o cabello,vendo que em fim 
ficaçaô de Roma , fendo Conluies Gneo Corne- era Chrjftaõ : xom tudo teve Giraldo léus meyos 
lio Lentulo,& Lúcio Mumio,como efcreve Pau- por onde cffeytuou o que pretendia. Veyo huma 
lo Oroíio, que toraó cento 6c quarenta annos an- noy te com fua gente pela parte aonde hoje eftá o 
tes do Nacimcnto de Noflb Senhor Jefu Chrifto. Moftcyro do Bcmavencurado S. Benco , no qunl 



1 



lugu* 



.lil 



Canto Tercâyro, 95 

lugar os Mouros tinhaõ hu ma Atalaya , ôcnella 

lium Mouro de vigia , o qual naô tinha comfigo ^j 

mais que huma moça filha fua. E deyxando ícus .--. ^, n' j j 

companbeyros era huraa certa paragem efcura, & 'XA na Ctdade Beja vay tomar 

aonde mcJíior , & mais Iccrctamente podiaó eftar I l^ingançA deTrancofo dejiruida^ 

até lua tornada , fe foy fem medo algum contra a ^ Affonfo^ que naõ fabefoffegãfi 

Atalaya, a dclcubrir o que paflava : & levou logo y^y. tjiendcr CO afama a CUrta Vida: 

hunias dhcas para meter por huns buracos que na j^^-j^ lhe pode muy í o fu (tentar 

torreda vigia cítavao, para lubir ate a lanella , le ^/^^ j j ^ , j •> j-j 

acafo achalte occaíiaó para irto : porque à torre fe ^^'^^^^^ mas/endoja rendida, 

iiaó podia hir,ie naô por efcada lançada decima. ^^ todaacoujavivaagente irada. 

Chegou â torre a horas de meya noy te, 6c a tem- ^YOVando os fios vay da dura efpada. 

po que o Mouro,que até entaó eílivera em vigia, 

entregarão cargo a fua filha para elle defcançar lâ na Cidade Beja vay tomar. Tendo El-Rey 

hum pouco , a qual iedeícuydou , como moça, ôc Dom Aftonlo Henriques cercada a Cidade de 

Ic deyxou dormir no rebate da janela da torre. Beja , foraõ 05 Mouros cercar a Villa de Tranco- 

Como Giraldo vio tõió boa occaíiaõ , trepou atè a foja qual t0máraõ,6c deftruhiraójfem dcyxar pcí- 

janella, Si lançando maó á moça, deu com cila em Toa alguma viva. O que fabido por El-Rey , nem 

bayxojde modo que nunca mais faloUjncm fez ru- por iílo deyxou o cerco de Beja , mas continuou 

mor algum. E entrando na torre.achou o Mouro com elle até a tomar, &c paflar todos os Mouros á 

dormuido ieguramente , cortou a cabeça ao efpada, por eftar lentido , ôc enfadado do que os 

JMouro,& à moçu, & levouasaos companbeyros, Mou-rostinhaõ fcyto em Trancofo,como diz aqui 

& iubiado nella deu final de fogo aos da Cidade, o P oeta. Giraldo tomou Évora no anno de 11 66i 

dando a entender que havia Chnílãoa no campo, & Beja foy tomada no anno de 1162. em dia do 

na outra parte da Cidade , aonde agora eftà hum Bemaventurado S.André , como fe pôde ver no 

Mofteyro de Hierony mos da invocação, de Nof- noflb Relende,na defcripçaô da Cidade de Evora« 

íâ Senhora do Elpinheyro. E paraquelahillemos 

Mouros com mayor prcfla, & vontade,fez que ai- ^ ^ 

gunsdefeus companbeyros pafi^aflbm por aquella ^ 

•parte, fazendo reboliço de modo, que foflbm fen- /^ Om eftas fobjugadafoy Talmellà, 

tidos,S<: aíTim luccedeo, porque lentindo os Mou- \^ ^ £ apifcofa Ce Zimbra, & juntamente^ 

ros o tropel da gente, fahiraó da Cidade,lem ten- Sendo ajudado mais de fua efirelía^ 

to, nem ordem. Como Giraldo vio fahir os Meu- q^gsbarata htm exercito Potente: 

ros fora da C.dade,6c que tinha tempo para poder ^^„^ -^ ^ ^^^ ^ ^ -^ ^y^,„^^^ ^^^ 

entrar , cometco com os leua as portas , que os ^ ^ ,' • , j-,- 

Mouros com prelladeyxàr.ôaberus, &deraó fe ^ie a f ocorre lia vtn ha diligente, 

tal manha dentro, que em pouco efpaço naõ tive- ^elajraída da ferra defcuydado, 

raó que fazer nella. Porque mattáraô maytos , Sc ^0 temerofo encontro inopinado^ 
pofcraõ outros em eftado , que naó tiveraõ mais 

que fazer , fendo osChriíláos muyto poucos. E Com efias fo^ugada foy Valmtlla. Eftando El Rey 
deita maneyra foy tomada Évora por Giraldo fem cm Alcacere depois de feytas todas as couías que 
pavor,no anno do Senhor de mil cento & íeflenta atrás ficaó ditas , ao qual lugar viera ter de Coim- 
& leis, havendo trinta & nove annos que El-Rey bra , andando vifitando , 6c provendo fuás terras. 
Dom Aííonfo Henriques Icnhoreava Portugal, como era tempo de guerra : fiiubeque Cizirabra 
Por efta razaó , & em memoria defte Giraldo pri- eftava fem gente , & que facilmente fe podia to- 
roeyro Capitão de Évora, tem a Cidade por divi- mar,o que o moveo a hir logo fobre ella.êc aíTini 
ia , Sc armas hum Cavalieyro armado a cavallo, a tomou fem trabalho. Edcyxando fua gente cm 
com huma efpada nua levantada , 8c duas cabeças Cizimbrafefoy fòcomfeflentadecavallo , Ôcal- 
cortadaSjhumado homcm,Scaoutradehumamo- gunsdepèa ver Palmella , & eftando notando o 
ça,como diz o noflb Poeta no oytavo canto , oy- ficio da terra,houve vifta do Rey de Badajoz, que 
tavaii. Alguns por naó iaberem a Hiftoria, ven- vinha foccorrer Cizinabra com quatro mil de Ga- 
do efta divifa em Évora , fingem mil invenções. vallo,Sc feflenta mil de pé,fera ordem á gram preC- 
Outros quelheparecequeacertaó, dizem, que fa , o qual com aquella pouca gente quetinhao 
aquelleCavalleyrohe o Bemavéturado Santiago, desbaratou,&:poz cm fug>da.Fczifto tanto temor 
& aqucUas cabeças de Mouros, que matou emía- aos que eftavaó em Palmella , que logo lhe deraó 
vor dos Helpanhoes, A verdade , he o que fica a Villa com condição que os deyxafle lahir cm íal. 
^tto» vo , o que El-Rey fez de muyto boa vontade. 

Chamao Poetaa Cizimbrapifcofí , por fertem 
aonde le armaõ grandes pelcarias , aíllm por parte 
d^^El-Rey como da gente do lugar. 



Q^ Lujiadas de Luis de Camões Commentadosl 

Do umetêf o encontre inopinado. Ifto dezia porque hog» fegue a vittma fim tardança. Ávidas eílas 

o Rey Mouro vinha defcuydado , parecendolhe vittorias dos Mouros, poz cerco a Badajoz, que 

que Ll-Rey Dom Affonío eftava no cerco de Ci- era da conquifta de Leaó , por cftar de quebra 

2.imbra , &L como elle tinha efte penfamento , & com El-Rey Dom Fernando leu genro Rcy de 

feu intento naó era outro íe naó foccorrer a Ci- Leaó,& a tomou facilmente, 

zimbra, caminhava ícm ordem. Pelo que vifto por §íae a fez fazer as outras companhia. Diz que Ba- 

El-Rey Dom AíFonIo , foy fubitamente lakeado dajoz fez companhia às outras , que tinha tomado 

por elle, & acommettido com tanto tsforço, que aos Mouros. 



lhe pareceo queeftava Êl-Rcy Dom AfFonfoal- 
li com todo leu exercito : o que foy cauíade 1Í3 
por em fugida com todos os feus. 

O Rey de Badajoz era alto Mouro^ 
Com quatro mil cavailof furiofos , 
Innumeros^iÔes^ darmaSj & de ouro 
Guarnecidos >i guerreirosj & luftrofos: 
Mas qual no mez de May o o bravo touro 
Cos ciúmes das vacas rececfosy 
Sentindo gent€ j ohruto^ & cego amantCi^ 
Saltea o defcuydado caminhante. 

Jnnumeroí piões. Gente de pé fem conto. Atrás 
diflemos como trazia El-Rey de Badajoz quatro 
niildecavallo,& feflenta mil de pé, que he o que 
o Poeta aqui diz. 

^^ 

DE fia arte Affonfo,fuh\te mofírado, 
Na gente da^ que pajfa bemfegurá^ 
Fere, mata derriba ãenodadOj 
Foge o Rey Meuro^ &/ó da vida cura: 
2)(? hum pânico terror todo affembradOy 
Só de Jeguillo o exercito frocura. 
Sendo ejfes que fizer aõ tanto abalo j 
No mais^ quefòjejfenta de cavalo. 

De hum pânico terror todo ajjombrado. Pânico ter- 
ror chamaõ os Latinos hum medo grande: & vem 
de hum fingimento Poético, oqualhe, que Pau 
(queelleschamavaó Deos dos paílores)era caufa- 
dor de todos os medos,& fantalmas. A efte propo- 
fito le trattaó muytas coufas nas Chiliadas no 
adagio Panicui cafuti Angelo Policiano nas Mifce- 
Ianeas>cap.2 8. 

IOgo fegue a vitoria fem tardança 
.s Ogram Rcy incançavel ajuntando 
Gentes de todo o Rey no ^ cuja ufança\ 
Era andar fempre terras conquijtando: 
Cercar vay BadajoZi^ logo alcança 
O fim de jeu defejo pelejando 
Com tanto esforço, & arte^& valentia^ 
^e afez fazer às outras companhia. 



69 

As o altoDeos^quefara longe guarda 
O cafiigo daquelley que o mertce^ 
Ou para que fe emmendeàs vezes tarda^ 
OuporftgredOi que homem não conhece.* 
Se atè aqui o forte Rey refguarda^ 
^os perigos a que ellefe ofiferece^ 
Agora lhe não deyxa ter defefa 
'Da maldição da may^ que efiava prefa, 

^goralbe nHo deyxa ter dtfefa. Porque a Cidade 
de Badajoz lhe loy tornada a tomar por feu gen- 
ro,6c elle ao lahir pela porta contra feu genrxv<iue 
a tinha cercada, quebrou huma perna no ferrolho 
da porta , com a prcHa , & defatento que levava, 
como fe conta nas Chronicas do Reyno , Ôí o 
Poeta na oytava feguinte. 

Q1)e e fiando na Cidade^ que cercar a-. 
Cercado nellafoy dos Leonefes^ 
Torque a conquifta delle lhe tomara^ 
2)í Leaõ fendo y & naõdos Tortuguefes: 
A pertinácia aqui lhe cu fia cara, 
Afft como a contece jnuytas veze^s^ 
^le em ferros quebra as pernas, indo acefo 
A batalha^ onde foy vencido y & prefo, 

^uee^ando na Cidade efue cercdra, Efta he a Ci- 
dade de Badajoz. 

OFamofo ^ompeyoy naotepene 
De teusfeytos illueftres aruina% 
Nem ver que ajufta Nemefis ordene. 
Ter teu f ogro de ti vitoria tndina 
Toflo que o Rio Fafis, ou Syene, 
^e para nenhum caboafombra inclina, 
O Beotes gelado^ t3 a linha ardente 
Temejfem o teu no7ne geralmente. 

O f amo (o Pompeyo f)âotepene.Yoy Pompeyo R< 
mano de gente nobiliflima.No tempo das guerras 
civis entre Sylla , & Mário , leguio as partes de 
Sylla. Fez taes coufas nefte tempo , quemcreceo 
o nome de Magno. Depois de grandes vittorias, 
& triumphos , 6c demandar Roma muytos annos, 

& 



CantoTerceyro, 



& fer taó conhecido, Sc temido no mundo, o ven 

cea feu lo^ro Júlio Celar. E fugindo deJIe para 

o Esypto , Dionyíio Ptolomeo lenhorda terrii, 

em quem cllecuydava ter muy certo valhacouto, 

o mandou matar , como conca Plutarco em fua 

vida. O que o Poeta aqui niollra , he a pouca le- 

ourança das couras,& como em quanto dura a vi- 

<la,nínguem eftà feguro dos contrafíes delia. Fal- 

]a cm Pompeyo , que íoy hum Capitão vaierolo: emendar lem razaò alguma , p©is Lucano naò fez 



meyo diajfâõ nella taó direytós , que emneuhuma 
parte ha fombra , como diz aqui o noílb Poeta á 
imitação de Lucano. O qual le ha de entender, 
que lucede fóhuma vezno anno , quando tem o 
Sol por Zenith: que hc quando efta no primeyro 
ponto de Cancro : porque entaó a fnnibra he per- 
pendicular naquclla parte. E aflim o cntendco 
L-ucano , ao qoal Macrobio , Sc outros quifciaó 



go qual coníola em lua ruína com a deícaida do 
nofio Rey Dom AíFonfo Henriques. Refere as 
Provincias,& lugares que lugeytou ao povo Ro- 
n.ano nefta oytava, 6c duas que le íeguern à imita- 
ção de Lucano lib. 2: cujos, verios ponho abayxo. 



mais , que apontar a particularidade daquella Ci- 
dade , deyxando a pontualidade da declaração 
a quem íe entende. 

O Bootes gelado , & a linha ardente. Por Bootes 
gelado entende as partes do Norte , aondecíláa 



Nem ver iCjue a ]ujla JSemefti ordene, A Nemtlis, conítellaçaô Boote, queheos Sette eítrello. Por 



linha ardente, os moradores debayxo da Equino- 
cial , que (aó varias Nações. Do Bootes le veja o 
que ffcievemos no canto I. oytava zi. '' 



chamada por outro nome Rhamnuíia , do lugar 
Rhamnuncc em Aíia, onde era venerada, fazem es 
Poetas filha do Oceano , & da noyte , grande ini- 
jnigado^mao?, & amiga dos bons. Pnita-lecom 
humfreyo namaõ direyta , &: hum covado na el- 
qucrda,para nioítrar que devemos fer comedidos, 
éc teu)perados,aflia) nus obras como nas-palavras. 
C-hniriírlhe o Poeta juíla , por ler tida dos antigos 
por Deola dajuíiiça. E daqui lhe der. ó o nome O véo dourado eftende^fê OsCapadoces^ 



1'^ 

1"^ Oflo que a rica Arábia^ ^ que os ferozes 
Eniocos, & QõUhos^ cuja fama 



Nemefis dc,nemeo,que quer dizer deílribuir,por 
ler leu officiodar a cada hum o feu.Attnbuhiaólhe 
tan)bein aza> nospés , para mofbâr a obrigação, 
que 05 iVhnJÍhos da Juliiçatcm na expedição dos 
negócios. Alguns a fazem a lortuna : 6c porque 
Adraílo Rey dos Argivcs lhe fez hum Templo 
iumptuofojlhe chamaó Adraftia. 

Pofioíiue o frio Pha^s, ou Sycne, Começa a recon- 
tar o grande poder que Pon^pt yo teve, 6c as gran 



E Judea^, que hum T>tcs adorado' ama\ 
E que os moles Soferios^^ os a troces 
Cilícios , com a Armanta, que deriama. 
As agoas dos ãous rios^cuj,^ jonte^ 
Eji i noutro mais alto,&fanto monte ^ 

Po/lo (juea rica Arahia, Ptolomeo, & os Antigos 
dit^idem Arábia em Dcferta, Felice, Sc Pétrea. A 



des vittoiídbque alcançou em todas as partes do Deferta tem eíle nome por fer terra herma , 6c cf*- 
mundo, que trebladou de Lucano palavra por pa- teril, os naturaes lhe chamaó Beriará : & a Eícrit- 
vra,onde Pompeyo diz eílas palavras. 



Vars mundi mtbi nulla vacat,íedtota tenetur 
Terra meií^^uvcumc^ue jacit (uh (olf,trofheif, 
fíínc me vicíorem geltdai aU Phafids uudat 
AftUi habety cálida medtm mibi cogmtmáxu 
t^y^ÍJfpto,atijMe umhrai nufxjuam jicólenta Sjene. 



tura Sagrada Cedar. A Felice ou beata chamarão 
aíTim pela grande abundância de cheyros , de que 
os homens Icaproveytavaó para fuás delicias : os 
quaes como punha© íua bemaventurança nos de- 
Icy tes , & bom tiattamento do corpo . tinhaó por 
bemavcnturada a terra , que lho ajudava a ter mi- 
mofo,'& regalado, comodizPlinio liv.12.cap.18." 
Os moradores lhe chamaó hoje Mamotta , como 
Nenhuma parte do mundo(diz Pompeyo)íi^, que quer Pinelo,& nas taboas modernas Ain^an.A ter- 
naólaybamcunoine, antcstodaa terra que o Sol ccyra le chama Pétrea , a que os Turcos hoje cha- 
toca etlá cheya de meus tropheos. O Norte me maó Barraab. Veja-fc a noflà Aunotaçaõ nefte 
reconhece por vencedor , até as congeladas aguas meímo canto, oytava 25. 

dorioPhalo : ÔComcyo.dia, que cae na quente E tjue os fereces Eniocof. Saó Eniocos povos de 

Egypto:8c Syenc, que para nenhuma parte dobra Sarmacia Aíiatica,quehoje chamamos Mofcovia, 
as lombras. Com outros verios que no Poeta eftâo qiie moraó nas faldrás domar , como diz Ptolo- 
tresladados , como fica dito. Phafis he hum rio ineo nafegundataboade Afia , noíim. He gente 
muy to grande: naccno monte Caucaío nu parte fera, pelo que os Poetas lhe chamaó feroces, como 
do Norte, pelo que lhe chama frio. Pafla por Col- aqui o nofíb Camócs. Colchos faó moradores Je 
chos Província de Afia, que hoje fc chama Men- Colchis, de que trattàmos atrás. Nefta Província 
gullia,iugey ta ao Graó Caó Senhor dos Tártaros, foy Rey Eeta pay de Mtdea táo conhecida por 
òyenehe Cidade do Egypto,drt qual querem ai- fcyticeyra. Aquicíleve o vellode ouro em hum 
guns que naó haja mais hoje que o nome, no qual Templo de Marte, taó nomeado naquelle tempo, 
também varcaó. He muyto celebrada pelos Ef- por huma das pnncipacs venturas do mundo. 
cnttorcs, por huma paiticulandade fua, que os Aor)âç d\ziC[u\oPotzr.BColcbos^ cuja fama e^en/k 
rayos do Sol em certo tempo do anno , a horas de c velío de our», Vcja-fc Ovidio nas Metamoi phoíes 

• lib.7, S 



qS Lu/iadas de Luh de Camões Commentados], 

'.' E osCapaJâces, Saõ moradores de Capadócia, todas ascouías grandes , & robuftas nomeavâo 
parte de Nathalia, que hoiechanjamos Turquia. com efte ncme dcTauro. Efta hc a razáoqueal- 
\ iudèa, íjue bumDcoia(ioraj& ama.Hc]\iáéâi)âr- guns dáo para cfte monte fc chamar Tauro , que 
te daPaleítína , que a Eícnttura Sagrada chama he hum dos mayores do mundo:porque abraça to- 
Tdefitm Canaan , ou Terra de promillaó. Toda he da a Aíia, deíde o Oceano Oriental, até o Septen- 
lugeyta ao Turco. Nefta Província eítá a Cidade trional,com diíferentes nomcs,conforme as varias 



de Hierulalem,de que tractey atrás 

Oi wolUs Sophenos. Saõ povos de Sopheno Pro- 
víncia de Suna.Saó gente molle, 6c affeminada, co- 
mo lhe chama aqui Camóes , ou por melhor dizer 
Lucano que elle imita. 

E os atrocci Cthctos. Os moradores de Cilicia, 
que hoje fe chama Carmania. Foy Província do 



Nações por onde pafia, conio diz Solino cap. y i. 

Se o campo Emathtofó te vio vencido. Emathia re- 
gião de Grécia fe chama também Thefialia , Ôc 
Emonía. Nefta Emathia junto a hum lugar cha- 
mado Phargalo , foy vencido Pompeyo de Júlio 
Ceíarleu logro, como conta Apiano. 

O genro a efie. Pelo que fica dito,que Dom Fer- 



povo Romano,6c muyto rica : Ôc nclla governou nando ReydeLeaó,?i genro d*El-Rey DomAf. 



Marco Tuliio. He gente cruel de natureza, pelo 
que o Poeta lhe chama atroces. 

Arménia^ ojue derrama. Ha duas Arménias , ma- 
yor,ôc menor.A mayorchamaa Efcrittura Aram, 
& nós Turcomania, lugey ta ao Turco. Nefta eftá 
o monte Gordico , aonde dizem eftar a Árcade 
Noé. A menor chama a Efcrittura Ararat, ou ter- 
ra Us , como quer Arías Montano. Em vulgar 
Anaduole, Os moradores defta região faóChri- 
ft:âos , mas guardaõ os ritos , & ceremonias difte- 
renres da Igreja .Romana. Por Arménia mayor 
paílaõ dous rios taõ nomeados Euphrates , & Ti- 
gris , que a Efcrittura Sagrada diz que nacem no 
Paraylo Terreal. A efte lugar chama o Poeta aqui 
Monte alto, £c Santo: pelo que diz o venerável 



fonfo Henriques o vencco em Badajoz. 



74 

T Ornado o Rey fub lime finalmente j 
1)0 atvino luízo cajtígado, 
depois que em Santarém Joberbamente, 
Em vãf) dos Sarracenos fcy cercado: 
E depois que do Martyre Vicente 
O fanttjjimo corpo venerado t 
*Do facro promontório conhecido 
Aa Cidade yiyjjeajoy trazido. 

Depois cjue em Santartm. Como os Mouros ÍOU' 



Beda,& outros Autores , que he taó alto o lugar berúodo dcfaftred'El.Rcy Dom AíFonfo Hcn 

aonde cfteve o Parayfo da terra,que parece chegar riques , & como fora vencido em Badajoz por feu 

ao Ceo da Lua. Aonde efte Parayío folie naó ha genro Dom Fernando Rey de Lcaó , tomáraõ 

cerceza : pelo que alguns querem , que o naó haja oufadia pnra entrar por fuás terrab: 6c logo no an- 

totalmente : &:que com o diluvio fe conlumio. no de mil cento Scíettenta 6c hum fahio Albora- 

Outros, que Helras , 6c Enoch cftâo nclle , 6c que gue Rey de Sevilha por antre Tejo, 6c o Diana, 

haô de aparecer no tempo do Antichrifto. Saõ fe- deftruindo tudo o que encontrava. Depois de ter 

gredos que Deos reícrvou para fí, pelo que naó ha fey to grande eftrago na terra,6c gente, poz cerco 
quecanlar nelles. 



a Él-Rey em Santarém. O qual não podendo fo- 
frer táo grande atrevimento, fahio aos inimigos, 6c 

I j ^ , os desbaratou , íem querer eperar por El-Rey 

4 ( ^^^fi^4^^J^^ mar de Aiblante^ Dom Fernando fcu genro que fabia abalara de 
^ Atê o Scythico TaurOy monte erjiuidoy Leáo cm fcu favor. O qual Jabcndo do bom luc- 

ceílo d'El-Rey,fe tornou do caminho fem o ver, 
porque ainda náo eftavâo correntes : 6c aílim não 
faltava quem difiefle que vinha com outra ten-^ 
çâo.Mas mandoulhe recados de amizade,ôc os pa- 
rabéns do fuccefio. ^ JÊM 
Depois cjue do Martyre Vicente» Dous annos depois W 
de levantado o cerco de Santarém , annodcmil 
cento lettcnta 6c três , foy trazido a Lisboa o cor- 
E pifto em fim íjue des do mar de Atlante, Mar de po do Martyr S.Vicente, 6c pofto na Sé, como íe ^ 
Atlante he propriamente mar, que paíla por Afri- pode ver na Chroníca d^El-Rey Dom Aftoniom 
ca,aonde o monte Atlas eftà.Os Autorts ufaódef- Henriques,aonde fe moftra claramente fer aquel- '■ 
ta palavra mais largamente,6c o tomaó por todo o le o corpo do Bemaventurado Santo , que alguns 
mar Oceano . como Cícero no fonho de Scipiaõ: fem razaôquizerão contradizer. jll 

Sacro Promontório conbtctJo, Promontório he pa- '■ 
lavra Latina, quer dizer , coufa que ameaça por 
cima, 6c porque os montes, 6c rochedos ao longo 
domarlaó deftemodo , daqui fe chamarão pro- 
montórios, 6c cm vulgar cabos, como efte, que ^ 

fG 



75 
Tofto emfim^qàefdo mar de Athlantej 
.^ Atê o Scythíco Tauro^ monte erguido^ 
Jà vencedor te vijjem^ naõ te e/jjarjte, 
Se o campo Emathio fó te vio vencido: 
'Porque A ffbnfò verás foberbo.zy ovante 
Tudo render ^^ fer depois rendido, 
AJJio quis o concelho altOjé' celefle^ 
^e "vença o jogro a tij& o genro a efte. 



Omntm terram, tjua nobss colitur AtUnttco marí,quem 
Oceanum apptlUmus, ctrcumfttndi. Toda a terra que 
he habitada dos homcns,hc£ercada do mar Atlan- 
tico,que chamamos Oceano. 

/ítè o Scythíco Jauro, monte erguido. Os Antigos â 



Canto 
fe chama hoje o cabo de S.Vicente , por rcfpeyco 
^o Santo. 

75 

POrque levaffe avante fiu defejo^ 
Ao forte filho manda o lajjo velho^ 
^e as terras /èpaffa/e de Alem Tejo^ j 
Com gente , & com be lligtro aparelho: 
Sancho de esforço/£ animo fobejo. 
Avante pajfatK^ faz correr vermelho 
O Rio, que Sevilha vay regando^ 
Cofangue Mouro^barbarOj& nefando, 

Torqut UvaJJe avante feu Jefèjo. Havendo cinco 
annos, que Portugal citava em ócio , porhumas 
tréguas que El-Rcy Dom Afíonfo Henriques ti- 
nha feyto com El-Rey de Sevilha, enfadado elle, 
& os íeus com a paz,vendo que os iniq;iigos da Fé 
deChiiílo andavão á larga , & hiaó em grande 
crccimento,couíaque elie muytoaborreciannan- 
dou leu filho Dom Sancho ás partes do Alentejo: 
O Infante partio de Coimbra no Mez de Julho 
<3e 1 178.6c fazendo pelo caminho(depois que che- 
gou às terras do Alentejo)grande eftrago na gen- 
t«,& terra dos Moures, (etoy na volta de Sevilha* 
Os Mouros de Andaluzia,não o podendo íoher,le 
ajuntarão todos,^ fahirão ao Infante perto de Se- 
vilha, maselleospozcm deíbarato, & dizem as 
Chronicas,que toraó tantos os mortos, que o rio 
Guadalquibir,a que o Poeta chama rio de Sevilha 
tinha as aguas vermelhas com o langue dellci.Ha- 
vida cila vittona , o Infante fc foy ao arrayal dos 
Mouros, aonde achou grande , & rico deípojo de 
ouro,& prata, & outras coutas de preço, as quaes 
todas repartio pelos loldados , lem lhe ficar couía 
alguma para fi. 

ECom ejla vitoria cobiçofo, 
Janàodefcançaomoço, atê que veja 
Outro efirago^ como eftâ^ temer o fo 
No bárbaro j que tem cercado Beja", 
Nao tarda muyto o Trmcepe ditofo^ 
Sem ver o fim dãquiiloy que defejãj 
AJJi ejiragado o Mouro, na vingança 
Tie tantas perdas põem fua efperança, 

E tom t(la vittoria cobiçofo. Quando o Infante 
Dom Sancho paflbu por Alentejo , levou con- 
Cgo alguma gente dos lugares por onde paílava,^ 
«Ic Beja.dizem as Chronicas,que o feguio muyta, 
pelo que ficou a terra algum tanto falta. Como os 
jMouros iílo fouberaô , foiaòihe por cerco , mas 
CS que cftaváo dentro ainda que eraõ poucos ) a 
defenderão com. muyto csforço,aièqueo Infan- 
te chegou, aos Mouros; largarão logo o cerco , &• 
foraó desbaratados, não indo com o Infante mais 
e^ue mil & quatrocentos de cavallo, coiji os quacs 



Terceyro. f^^ 

acudio aBeja,deyxandoatrás amaísgêntè, pára- 
quco íeguille, o mais depreda que pudeílè , mass 
quando chegou,jà o Infante tinha os Mouros dei* 
baratados.líto iuccedeoai8.dc Abril de 1179, 

_ 77 

JA' fejuntao do monte ya quem Medufâ^ 
() corpo fez, perder^ que teveoLeOy 
J a vem do promontório de Ampelufa^ 
E do Tinge ^ que afftntofoy de Anteoi 
O morador de AbUa naò Je ejcu/a^ 
^e também com fuás armas Je moveo^ 
Aofom da Mauritana ,& rouca tuba^ 
Todo o ReynOi que foy da nobre Juba^, 

Jd fe ajunta» do Monte a t^nem Medafa, Irados râ 
Mourosjik: eífomagados contra os Chriítáos,pelo 
grande eítrago que nellcs faziaó , valeram-le dé 
todos Teus amigos. Feio que Miralmuminim Rey 
de Marrocos t-mperador dos Mouros paílou a 
Portugal com hum podcrofo exercito, t. ícnda 
ncíhis partes Ic/oy na volta deSantarcm,aondc o 
Infame citava. Pafibu eíle Mouro o Tejo em hum 
dia de S.Joaó de mil cento oytenta & quatro, eoiu 
quarenta mil de cavallo , & quinhentos mil de pé| 
com a qual gente fez tão pouco , comocontao as5 
Hiftorias : porque loccorrido o Intante por feu 
pay,lahio com lua pouca gente, Sc os venceo. Fo- 
raó nclta batalha mortos, ik feridos muytos, entre 
os quaes o Emperador morreo de huma fenda que 
houve na batalha.Eítas coufas conta aqui o Poeta 
por algumas oytavas elegantemente : pelo que 
não farey mais que declarar alguns vocábulos el* 
euros, para os que não faó lidos» 

Do monte a <juem medula ocorpofet, perder^<jae tevê 
o Ceo. Contáo as fabulas que Medufa filha de 
Phorco , & Letho foy huma molher muyto fer^ 
mola , mas muyto alpcra para agente. Pelo que 
lendo requellada de muytos a nenhum dava ven- 
to,antes os elcandalizava. No numero deítts en- 
trava Neptuno lenhor do mar. Vendo eíte, que 
nem promeflas,nem rogos aproveytaváo com Me- 
duía,determinou aproveytarfe delia por qualquer 
modo que pudefle , & não podendo eíFeytuar o 
que pretendia , le não no Templo de Palias , alli 
poz por obra feus defejos , ficou Palias affrontada, 
fie irada com efte cafojpelo que convertco cm co- 
bras os cabellos de Medula » com que parecera 
bem a Neptuno, & deu a léus olhos tal qualidade, 
que tudo oqueolhaficm fetornaflc empedra. Eí- 
tava já toda aquelU terra cheya de pedras , ÔC já 
não havia couía que náo fofle pedra,pelo que acu- 
dio Períco filho de Júpiter a eltc n)al,& matou el- 
te moníf ro,& do fangue que lhe cahio da cabeça, 
le levantarão muytas cobras , de que ficou toda 
aquella terra lemeada,de modo que em nenhuma 
pai ledo mundo ha mais.lflotocao Poeta no can- 
to 5.oytavaii. aonde falladc Medufa. Paliando 

N depois 



oÇ Lufiadas de Luís dt Camões Commentadas, 



depois por Afnca,aonde Atlas rcynava, como lhe 
anoyteceíle perto dos paços d^El-Rey, chegouie 
áporta,£c pondolhc diante cujo íiiho cia, lhe pe- 
dio pcuíada.hcou tio atemorizado Atia^ com lhe 
diztr Perleo , que era filho de Júpiter (poiquc ti- 
nha ouvido do Oracuipjque hum filho ue Júpiter 
havia de ler caufa de íua deftruiçáo ; t|ueonáo 
quiz agazalhar. Sentido Perreo diíto, dekobno o 
roílo ua Medula , que unha efcottdjdo , fcí pcJp 
diant,e de Atlas , o qual em o vendo ficou tey to 
iiionie. iLÍta tabula conta Ovídio nas ívlctomor- 
pholeslib.4. Daqui levancão o^ Foetas outras Ic- 
inelhanteò mctntiras , que Atlas erahumhomeia 
grandtí de corpo , 5c muyto forçol© , pelo que ci- 
nhaoCcoâscoílaSj&queeílecaítigo ihc deu Jú- 
piter por fe levantar contra elle em coíBpanhia^ 
dos Gigantes, para o lançar do Ceo, a pedimento 
de íua mulher Juno, como conta Higinio. A ver- 
dade difto he, que Atlas foy grande Altrologo, & 
por eíla razão hngiráo os. Poecas, que tinha u Ceo 
as cofias , porque continuamente eílava com os 
olhos nelle,coníiderando o curlo dos Planetas, & 
maiseílrtllas. De Atlas convertido em moiue,ôc 



78 

ENtrava com toda íjfa companhia^ 
O Miralmumine ffm 'l^ortugal. 
Treze Reys Mouros leva de valta^ 
J^ntn os quaes tem o Ceptro imperial: 
E affifa&enão quanto malpoãm^ 
O que em partes podia fazer mal, 
^Dom Sancho vay cercar em Santarém^ 
'Forem nuò lhe Jtíc cede muyto bem. 

Entrava com toda e^a companhia. Mir^XwMmmm 
íe ha oe lerj^kelcrcvcr.hc paUvia Arábiga, quer 
dizer Princepedos Scientes. h.íla alcunha le poz 
bum !\bedrainonda geração dos Caliphas de Da* 
malco por autorizar lua pclloa.Sc adquirir gentes, 
que o IcguUlem ncítas partes de Berbéria , aonde 
íe recolhco com alguns parentes , & gente lolta, 
que o lejíuio , fugmdo da fúria de Abedela novo 
Calipha.Òsque Um Miramulim he corruptamen- 
te, iiífe AbedrajDon drzem que fundou a Cidade 



que monte fcjale veja a noílaannotaçâo no canto de Marrochos paralVletropoli , &cabeçadeleu 



i.oytava z. 

lavem do promontório de /ímpelufa.O Promontó- 
rio Ampclula hc entre Ceuta , Ik. Tangere , cha- 
ma íe hoje a ponta de Alcaccre- Dizie Ampeluía 
pelas muytas vinhas que tem, porque ampelos , he 
:i vide. Ortelio,ÔC outros lhe thamáo cabo de ti- 
partel, Olivario labrc Pomponio Mela , cabo 
Cantono. Os Portuguczes ponta deAlcacere. A 
Icrralc chama hoje ferra Ximera. As vinhas nâofe 



cíUdo , pelo que ficou Rey de M arrochos , 6c 
Empcrador dos Mouros , o qual vendo o grande 
dano que El- Rey Dom Aíi^onlo Henriques fazia 
nos Mouros de Hefpanha , & os queyxumcs que 
cada dia hiaó delles , porque o finhaó por leu Se- 
nhor, &; amparo, determinou entrar cm Portugal, 
& foy com gente lem conto , & com treze Reys 
Mouros comíigo , 2í depois de ter fey to grandes, 
males na terra , foy cercar o Infante Dom Sancha 



79 



cultiváo, por eítarem entre Ceuta, & Tangere, cm Santarém, do qual foy desbaratado , Sc nior- 
aondenáo vivegente,porqueolngareftâde rodo- 10 , como fica diiio oytava 76. 
delabitado,por ler ác pouco provey to, com tudo 
pelas icrras ha muytas parreyras , &c cepas de vi- 
nhas feytasmortoriQ, aqui andaõ continuamente 
JVl ouros fazendo todo o mal que podem po«cr« 
ra,& por mar. 

E dt Itngt «fue ajjento foy àt i^wíco.Tingc he a Ci- 
dade de Tangere, fugeyta aos Reys dê Portugal, ^,„^ fecretaUrtéte forçofo: 



DAlhe combates a/peros afazendo 
Ardis de guerra mil o Mouro trofi^ 
NaÔ lhe aprovyeta ja trabuco horrèd& 



I 



ôc da qual a Mauritânia, quecomprendeos Rey» 
nos de Fez , & Marrochos , Ic chama Mauritânia 
Tingitana. O pnmeyro fcu fundador dizem que 
foy Antco, como diz Soli.no,pJinio,6c Pomponio 
JMela no lugar allegado. 

O morador de Ainla não fe tfcufa. O morador de 
Abilabeo morador de Ceuta. De Abila fica dito 
ncl\e canto oytava 18. 

Todo o Rtynocjuefoj dgncbre lu(^a. Juba como diz 
Sobno toy icnhor das duas Mauntanias , Tingi- 
tana , & Celarien{e,nas quaes íccomprendem os 
Rcynos de Fez, Marrocos , TremeíTcm , & ou- 
tros , das quaes partes drzaqui o Poeta que foy 
muy w gente com oMiralmuramin). 



Torque 0^ filho de Affonfoy nadperdend» 
Nada do esforço ^& acordo generofi^ 
ludo prover com animo ^^ prudência^ 
^ie emtodaaparte ha esforço jò rejiflenciai 

Trabuco horrendo. He hum inftru mento dcgucr- m 
ra chamado pelos Latinos bah^a , de huro ver- J| 
bo Grego bailo , que quer dizer arremeífar, 
porque tira pedras , cadeas de ferro , kttas , 6c 
tudo o que lhe mcttem dentro , como diz. Vcgi-j 
cio , 6< Vitruvio. ji 

Antte forçofo, He vay , & vem , iílílrunien-:*! 
rode guerra , chamado arietc , que quer dizer 
carneyro , porque a modo dsc carueyro marrt^' 
COíu us muros paru os derribar. 



Mi 



im 



Canto Terceyro, 



99 



8o 

MAs ovelho j a quem Unhão jâ obrigado 
Os trabalhos os annos ao/ojfego^ 
Eíiando na Cidade^ cujo prado 
Enverdecem as agoas do Mondego: 
Sabendo como o filho eftã cercado^ 
Em Santarém do Mouro j povo cego. 
Se parte diligente da Cidade j 
^le não pírãe apreftez,a com a idade, 

M»s o velho. Efte he E,l-R.cy Dom AfFonío 
Henriques, o qual citando em Coimbra por onde 
patía o 1 10 Mondego , como íoube do cerco do rt- 
lho,acudio com prcfteza, cuja chegada foy caula 
da delt-ruiçáo dos Mouros , os quaes havia cinco 
diab nnhàó poílo ao Infante Dom Sancho cm 
j»rândiiiimo apercocom combates concinaus. 

8i 

ECo' afamo fa gente â guerra ufaday 
Vay foc correr o filho ^^ affljuyitadoSj 
Apor tu^ue [afaria coflumada, 
F^m breve os Mouros tem desbaratados: 
jícampin«ty que toda eflà qualhada 
U^e mar lotas j aptízies variados j, 
*De c^valloSyjaez^es^ prefa rlca^ 
''JJeJeâs fenhores mortos^ chea fica, 

Ec0 a f amo fa geníe^G Qnttí^ãmoCn, entende grcn - 
te iIluítre,Sc digna de fama , & honr:i. No tempo 
<le Tullío eíta palavra famofut fe tomava fempre 
cm má parte , por couia infame. Dondeahuma 
pefloa perdida,Sc infa-nc chamaváo famoí*, como 
eftaó cheyos os livros.No tempo de Plinio, Sc ou- 
tros mais modernos fe ufou tambein em boa 
parte , como aqui o Poeta. 

8l 

LOgo todo o reflante fe par tio 
''De Lujitania^poflos em fugida; 
I O Miralmuminifó naõ fugiot 
\ forque antes defugir^ lhe foge a vida: 
\ A quem lhe efla vhoria per mil io, 
^ao louvores ^^ graças fem medida^ 
^e em cafos taò eftranhos^ claramente 
Mats peleja o favor de "Ueosy que agtnte: 

Port^ue antes de funir lhe foge a vida. lílo diz por- 
que antes de fugir foy moi to pelos noflos , como 
dizem as ehronicas,ík fica notado atrás. 



85 

DE tamanhas vitorias triunfava 
O velho Ajfonfo 'trincepe fubido^ 
aluando, quem tudo emjim vtncendo andavn 
'Da íarga^^ muyta idade foy vencido: 
A pa Ilida doença lhe tocava 
Com fria mão o corpo enfraquecido, 
E pagâraó Jeus annos aeftegeytOt 
Aa trtjie Libifma Jtu dtreyto, 

A pallida doença íhe tocava. O fclicilíimo Rey 
Dom Aífonío Henriques Keyde Portugal , do 
qual por algumas oytavas deite canto ferceyra 
havemos trartado, tocando lómente algumas cou- 
ías , que íè naó elcufavaó para entendimento do 
livro, viveo noventa 6c hum annos, dos quaes de- 
'/oyro eíteve debayxo do poder de leu pay o Con- 
de Dom Henrique, & vinte & lecte ceve o titulof 
de Princepe depois da morte do pay, até que ven- 
ceo os cinco Reys Mouros no campo de Ourique; 
& antes de ledar a batalha foy levantado por Rey, 
no qual cargo vivco 46. annos. Falleceo aos feis 
di.is do mt z de Dezembro de mil cento oytenta 6c 
cinco annos , anno £v meyo depois que ò Miral- 
muminim cercou Santarém. Mcrreo eítc Santo 
Rey de (ua natural doença , 6c demuyto velho, 
(como diz aqui o Poeta,uiando de términos Poeti, 
cos) etn Coimbra , Sc foy enterrado no Moíteyro 
de Santa Cruz,cm hum monumento de pedra chã, 
o qual Mofteyro elle novamente fundara , t^ do- 
tara largamente , 6c ao qual tinha íingulardcvo- 
çaò.A qual ícpultura El-Rey Dom Manoel man- 
dou tirar, & por em outro lugar mais convenien- 
te a taó alto original feu. PalUda fe chama á doen- 
ça, que quer dizer amarelb , pelos effcytcs que 
nos corpos faz^ que he fazelos amarellos. Lyby- 
tinahe a que por outro nome os Poetas chamaõ 
Proferpina, mol herde Plutaõ fenhordo Inferno.' 
A cfta triftc cala tinhaô por certo os Antigos to- 
dos os qhiaó, masque havia lugares de pena para 
os mãos, & lugares de detcanço, aonde moravap 
os que neíla vida viverão bem , ás quaes partes 
chaoiavaó campos H^lifios , por ferem delcytofos, 
& fora de eniadamentos , & trahblhos. lllo he 
aqui o que diz o Poeta , para dizer que falleceo o 
Bemaventurado Rey Dom Aftonfo Henriques, 
diz que pagou feu tributo à triíleLibitina , fal- 
iando con^^o Poeta. Confideradaa liçaô dos Poe- 
tas antigo^', acho que Libitina era a mcfma que os 
Poetas chamaõ Vénus, lenhora das graças, & ga- 
lantnrias , a qual afTim como para os vivos lhe at- 
iribuhiaóeíledom,alTim a pintavaô prefidenteda 
morte , & que no feu templo fe vendiaó todas as 
coulas para as exéquias dos defuntos : dando por 
eíles rodcos a entender a fraqueza, 6c pouca dura 
da vida humajia , pois a mefmaque nos princípios 
da vida ajudava , 6c favorecia aos homens, 6c era 

Na caufi 



IQQ htifíaâas de Luls de Camões Cttmm enfados', 

cauia cie muytos goíloSjSc paflatcmpos, lhe tinha Eu vi(diz Lucrecio)lugare3 que refpondiaó a hu- 
rreftesj & aparelhados os liiítrumentos, Sc petre- 



chos necellarios para alcgultura,como dizCelio 
Rodiig. lias luaj, lições antigas,Uv.<>.cap.i8, 

84 

O Saltos fromontorios o chorar ao j 
E dos nos as agoas faudojas ^ 
Osjetneados campos alagarão, 
Com lagrimas correndo piado/as : 
Mas tanto pelo mundo Je alargarão^ 
Com fama Juas ohras valer ojas^ 
^efempre nojtu Rtyno chamarão, 
^jfonjoy Afonfo os eccos, mas em vão. 

Otaltoi Promontórios o cbonirao. He teimo defal- 
}ar n/uyto uí"ído dos Poetas , para encarecimento 
do que trartaó , como tez Virgílio napriuKyra 
Egloga , aonde introduz Melibco paílor era no- 
me dos Mantuano» , falando com Tytiro outio 
paítor , que le alli coma pelo nieímo Virgílio, 
moltrando o grande gollOj& contentamento que 
toda a gente de Roma tinha com a convcrfaçaó de 
Virgilio,ôc como c5 fua aulcnciaeftava tudo triftc. 

TytirHí hinc ahrâtyipfa te Tytire pinus^ 
ipfi te fintei Jp/a h^sc aibufta vecahm. 



ma vóz leis & lete vezes , o que procedia dos ou- 
leyros, ÒC concavidades da terra, que termao o ní 
relia , & naó.podendo paflar adiante , tornavió 
í.trás, contóriíie aos iugarts, com que Ic encontra* 
vaójafliin rcij ondiaó. Vejale Piíniono lugar alie» 
^ado. 

S Ancho for te mAncebo^ que ficara 
Imttandofeupay na valentia^ 
E que emjua^oídajã je exprtmentàra, 
^ando o Bethts aejangueje tingia: 
E o brabopoàer desbaratara 
^Dolfmaeltta Rey de Jndaluziay 
E mais quando ^os que Beja em vão cercãraS 
Os golpes dejeu braço em vao provarão, 

aluando Bethis de fangue fe tingia.líío diz pela ba- 
talha que Doin Sancho deu aos Mouros junto a 
Sevilha, aonde houe tanta mortandade , que o rio 
Bethis,que he o de Guadalquibir.tinha fuás agua» 
vermelhas com o langue dos muytos Mouros que 
relle cahiraó, como atrás fira/dito neftemeímo 
canto. ^ E mais cjuando os ejue Jieja em vaÔ eercÁraU 
líto íica iiattado ncílc mcliiiO canto, oytava 75. 



86^ 



Efolsquefoypor Rey a levanta do ^ 

Havendo poucos annos que reynava 

jí Cidade de Sylves tem cercado% 




Tytiro diz Milibeo naõ eftava Roma contente, 

nem moíiravater golto perfcyto, porq lhe a voz 

faltaveis,os pinheyros,as fontes, 5c as arvores lol- 

luçavão , & choravaó por vòh. Entende pelos pi- ^^y^, campos í bárbaro lavrava: 

rbeyi os os principaes da terra,peias fontes os Le- p ^^^ valentes e entes ajudado 

trados.Sc Poetas,pelas arvores a mais Pente. Aílim ct< r^ ^ ^* /r^«,^ 

cnofloPoeta aqui pelos Promontonos entende 'DaGermamaarmaaa, mepajfava, 

osprincipaes.aíTimde feu Reyno,como de outras ^^ armas fortes, & gente apercebida 

partes.ôc pelos rios todas a. mais gentes,quc a mo- -^ recobra Judeajâ perdia- 

do de liosandaõ neíla vida» para huma parte 



I 



& 
outra. 

^ffonfò,^ffonJhyOi echos^mas tm t'flíi.Echo,he pa- 
lavra Grega , que propriamente quer dizer vós de 
icheo,qucfígnilica loar. Entrenós propriamente 
le toma peio retorno de noíla vós , o queluccedc 
da natureza do lugar aonde bradamos, que indo 
retumbando a vózpor cntreouteyros , &valles, 
ferindo-íe o ar com a voz , torna anos amefma 
voz, & houvimosos ulrimos'ancntosdaspnlavras 
t^ue difiemos. A fabula de Echo convertida em 
vóz, Sc depois de vóz tm pedra, conta Ovídio nas 
Wetamorphofes liv. 5. & ha lugar aonde o echo da 
icoz reíponde Ictte vezes , como diz Phnio liv. ^. 
cap. 1 ^. Sc Lucrécio Poeta antigo Usz, que e!le v 10 
fcfte lugar com feus olhos , acmde o echo ahuma 
voz fua refpondia leis &: íctte vczcí»: 

^ex etiam,ac feptem loca vtdi reddert vocet 
Unam cum taceres;tta coíUs colithus tpft» 
Verlhi refulfantet iterêhaHt dicla refcnu 



A Cidade, de Sylves tem cercado. A nove dias à» 
mczde Dezembro de mil cento oytenta & cinco, 
três dias.dcpois da morte d^Ei-ReyDom Aflron- 
fo Henriques , foy fcu íâlho o infante Dom San- 
cho levantacjo por Rey na Cidade de Coimbra, 
por todos os nobres do Reyno , & com todas as 
ccremonias , 6c folemnidsdes coítumadas , fendo 
de idade de ji.annos, porque naceo cm Coimbraa 
onze de Novembro de 1154. EfteRcy Dom San- 
cho cercou a (Jidade de Svlves , vefpcra de Santa 
Maria Magjalcna a 22.de Julho de 1 190. a qual to- 
mou com aiudatff ?|vims Eilrangcyroi , que com 
cinCof nta &: três velas aportarão a eílas partes 
com hurra grande tormenta que lhe deu, que para 
eíle R( yno naó foy tormenta , fe naó huma gran- 
de mifericordia do Senhor. As Chronicas andaó 
erradas na era do Senhor , as quaes dizem que foy 
ifto noannodc 1199. naó lendo íenaónode 1190,' 
como fica dito. Eíles Cavallcyros Elhangcyros 
hiuô cm companhia du Empei i»dor Fcdciito, cha- 
mada 



Canto Tercppo] loi 

iTiado por alcunha Rarbaroxa, que por efta razaó te Ihcfoy entregue Hierufalem a partido , haven- 
Ihc chama o noílb Poeta na oytava icguintc Ro- do oytenta 6c oyto annos que eftavn em poder di 



Xo Fcdcrico , a conquiftar % Terra banca , que 
Guido i.uligniano ícu ultimo Rey perdera. 

87 

PJfavão a ajudar na (anta empreza 
O roxo Feder icOi que moveo 
O poder o fo exercito em defefa 
*Pa Cidade, onde Chriflopadeceo: 
liando Gui do co' agente em feàe acefa 
Ao grande ãaUdinoJet endeo^ 
No lugar onde aos Mouros fobejavãí 
As agoaSy que os de Gutdo de/èjavào. 



Chníláos.Efta he a ícde de que aqui íala o Poeta. 
Com eila.nova taó triite para a Chriílandade o 
Emperador Fedcnco , ainda que velho determi- 
nou ajuntar todo fcu poder para cobrar a Hicru- 
laicm, 6c o mefmo íizeraõ os Hcys de França, In- 
glaterra, 5c outros mu yto Senhores , os quaes ain- 
da que tomáraó muytos lu^^ares na Aíia , & por 
niuyta» vezes delbuniraó osinmiigos, todavia a 
Terra Sanca ficou cm poder dos inheis , porque 
Fedcrico que era a cabeça do exercito morreo 
afogado em huííl rio , aonde íe meteo para íe lavar 
aos dez dias do mez de Junho de mU cento & no- 
venta. Houve depois dillo grandes diíTençóes en- 
tre EUKcy de Frmça.ííc Inglaterra, que toy cau- 
íâ de líto naó hir avântc,como em muy Cás ríiílo* 
nas ie conta. 



88 



NX As afermofa armada^que viera, 
' \ ToY conttafte 4e vento àqueíla parte^ 



§iua»iIo GuUê cei^ a gente em fe/ie acefa. A Cidade 
de Hieruialem foy tomada aos Mouros no anno 
de 1099. havendo noventa que eílava tm poder 
de infiéis , a qual fe tomou por Princepes Ciiiil- 

táos , que paraeíleefícyco fizeraó liga. Entre os 

quaes hia hum Capitão valercliflimo Duque de Sancho quiz ajudar na guerra fera, 

Lotharingia , a que os Latinos chamaô Goifre- y^ ^^^^ ^y^ ferviço va\ do Janto Marte: 

do , fie os Hcfpanhoes Gudufre de Bulh-^ó. De- >^^^^^^ afeupay acontecera, 

pois de ganhada a Terra, com tanta mortandade ^f j^ */ ^/ 1 :.í,^^ x/.« *»»^/;«^ -«*^ 

\ ■ c r a\^.. .^.,« ^ ro.,,..w> ia guando tomou Lisboa jaamejma artCi 

de iníieis,que dizem os Autores que o langue da- ">-. j k- t ^ 

va pelos artelhos , todos de commum coníenti- T>u Germano ajuaado.òylvestor^a, 

mento levantarão por Rey a eíle Gudufre de Bu- Eo bravo morador deíiroe^^ doma. 
ihaõ,porfer Varaóexcellcntiflimo, ôcf^zendolhe 

cm Bethlem fuás ceremonias,3c lolemnidades,por Santo vVfjffí.Santa guerra,porquc Marte, a qud 

nenhum cafoquis coníentirquc lhe puleílem na os Antigos tivcraó por Dcosda guerra , íetoma 

cabeça huraa coioa deouro,dando por razaó que niuytas vt-zes pela meirna guerra. Chaaia-feguer- 

naó era decente ler clic coroado com ouro, aonde ra lanta eíta, que os Ch; iftãos emprendiaõ contra 



Chriíto fora coroado com efpmhos. Depois deite 
Gudufre de Bulhaó,houve oyto Reys: Balduíno 
primcyra^ Balduíno fgundo , Falcaò Balduíno 
tcrccyro, Almeiico Balduíno quarto, Balduíno 
quinto o minino , a que chamarão afilm os Auto- 
res, porque morreo menino , & Guido^que a pcr- 
xleo, como contaremos. Tendo Saladino Soldaó 
do Egypto pofto cerco a Tyberiade , Cidade do 
Conde Raynmndo, determinou Guido JLuíigni- 
tno Rey de Hierufalem lahir a pelejar com Sala- 
dino, com ajuda de Boemundo Conde de Antio- 
chia,&cdo Conde de Tripoli, ic de outros Senho- 
res. Como a nova da fahi.la deites Princepes che- 
gou a Saladino,levantou logo o cerco á Cidade, & 
foy-fc também cm bulca dos Chriítáos. K porque 



os podliidores daTerr^ Santa. 

Al[i C0mo afeu pay aconttcera. Atrás trattcy nef- 
te canto , como coíh ajuda de huma armada da 
Altmanha, Inj^latcrra ,*éc França foy cercada, 6z 
tomada Lisboa. 

F^ Se tantos trofeos do Mahometa^ 
y Alevantando vajy também do forte 
Leonez^naõ confente eftar qutrtaj 
A terra ufada aos ca/os de Mavortei 
Até que na cerviz/eu Jugo meta 
"Da foberba Tuiy que a mefma forte, 
Vio ter a mnyt as filias Jua^ vizinhas^ 



a Terra he de poucas aguas,tomou Guido o cami- ^e por armas J u Sancho ^ humtldestinhasi 
nho muyio aprcílado com lua gente por ic apro- 



vcytarde certo lugar que tinha agu:i , mas por 
niais preflâ que fc deu , já os inimigos quando ci!c 
chegou tinhaó ganhado o lugar , do qual nunca 
Guidoospode lançar fór-i, K como a fua gente, & 
Oscavalloshiaó canfados do raminho, 5í muvto 
mal trattados da iede, a provcvtoulc SaUnimo def- 
ta occaíia6,& dando batsiha aus Chnítáos os vcn- 
cco, & prcíiucoa El-Kc) Guiuo, líto foy nu armo 



E fe tantos tropheês. Da fugida dos inimigos que 
k chama em Gi ego tropi , fe chama tropheo o fi- 
nal que íe punha cm ilgum lugar em memoriada 
lua fugida. Vcja-fc o que efcrevemos non canto 
priíuí^yrn. 

Tamhfm eltt forte Licntz„\^o diz porque El-Rey 
Dom Sancho tomou a El- Rey Dom AfFonío de 
Lciu a C!)idadede Tui.l^once vcdra.Sí Sampayr,8c 



de i ib6.& W^Q no aano fegumce de oy tcnu 5c íèt. outros lugares de Galiza , de que fcmpre íóy fc. 

nhor em quanto viyeo. ^í 



102 



90 



As entre tantas palmas /alteado 



JV J ^a temer o ja morte ^ fica herdeyro 
Humfilko feUj de t o dos ejimado, 
^e foy Jegundo AffonJo/£ Rey terceyro: 
No tempo aejie aos Mouros foy tomacto 
Aícaçare do Sal for derradeyroy 
forque de antes os Mouros o tomar aõ^ 
Mas agora efirmdoo pagàraÕ, 

Mai entre tantas falmat falteado. Palma romã 
aqui o Poeta pela vittoria, coulâ muyto ulada en- 
tre os Poetas. A caufaporqneapalmalignifica vit- 
toria dâ AuloGellio nas fuás noytes Acticas liv. 5. 
C3p. 6, dizendo que tem a palma huma particula- 
ridade,que diz muyto com a natureza, 6c condição 
dos homens esforçados : & he que por mayor pczo 
que ponhaô lobre ella, 6c por mais que a apartem, 
lempre tira para cima , 6c que por nenhum cnío íe 
íabe fogeytar. Ariftoteles nos Problemas Hb.y. 6c: 
Plutarco nas queftóes continuaes iib.S.Plinio liv. 
i(S.c.4i.6c Theophraíto lib.5.dizem o meímo.Fal. 
Icceo El-Rey Dom Sancho depois de alcançadas 
grandes vittorias, Sc feytas grandes maravilhas ém 
armas,em Coimbra de lua doença, fendo dr idade 
de cincocnta 6c oyto annos , havendo vinte ôt leis 
quei^ynava no anno do Senhor de 1212. 

íicíí herdeyro hum filho feu. Eíte filho que fucce- 
dcono Reyno he El-Rey Dom Affonfo fegundo 
defte nome , 6c tcrceyro Rey de Portugal , o qual 
cm vida de íeu pay caiou com a Raynha Dona 
Urraca, filha legitima d'El-Rey Dom Affonfo o 
nono de Caftella. Foy levantado por Rey de ida- 
de de vinte 6c cinco annos, havendo já quatro que 
era cafado. Efte tomou a Villa de Alcacere aos 
Ív1ourof,com ajuda dos Eftrangeyros.comoacon- 
teceo a feu pay Dom Sancho na tomada de Sylves. 
Foy entrada Alcacere, 6c tomada pelos noífos cm 
dia do Bemavcnturado S.Lucas,a dezoyto de Ou- 
tubro de mil duzentos 6c dezaflettc , tendo pri- 
meyro desbaratados quatro Reys Mouros que a 
vinhaó foccorrer com quinze mil de cavallo , ôc 
oytenta niil de pé , em diados Bemaventurados 
Martyres Protho , 6c Hiacintho em onze de Sep- 
tembro dó dito anno. 

Portjue d^antes ot Mturoi a tomârai. No tempo 
d^TLl-Rey Dom Sancho fe perdeo Alcacere , 6c 
Sylves, náo pordefcuydo,6c fraqueza dos léus, fe 
naó pelos trabalhos do Reyno, porque houve gra- 
des peftes, fomes, 6c outros trabalhos, que eítor- 
varaó poderem íer foccorridas. 



Luftadas de Luís de Caçoes 'Corr^^rfut^àci, 

^e tãPtotmfeus defcuydosfe defmede, 
^í4e de outrem^ que mandava^ era mandado: 
^JJe governar o Reyno y que outro pede ^ 
'For caufa dos privados foy privado j 
'Forque como por ellesfe regia^ 
Em todos osfeos vícios confentia. 



91 



a.Ya 



Orto depois Afonfojhefnceãe 
Sancho fegmdo^manç o i&dejcuidado^ 



Morto depoit Affonfo Ihefaccede Sancho, Falleceo 
El-Key Dom Affonlono anno de mil duzentos 6c 
vime 6c quatro , lendo de idade de trinta 6c Ictte, 
6c havendo doze que reynava. Jazem Alcobaça 
com a Raynha Dona Urraca íua molher , na Cap- 
peila grande , que eile em fua vida mandou fazer. 
Soccedeolhe no Reyno Dom Sancho o fegundo, 
Sc quarto dos Reys de Portugal, chamado por al- 
cunha o Capello , foy levantado por Rey em Co- 
imbra, lendo de idade de dezafleis annos.Era muy- 
to pulillanime , ôc dclconcertado no governo cio 
Rey no, 6c nas coulas da juítiça de muyto fraco ef- 
pintu , 6<: pelo confeguinte muyto lailb, pelo que 
naó caltigavacs vicjos , nem hia à niaó aos que 
commectiaó quaclquer maldades , 6c iníultos , o 
que foy caula de Ic ajuntarem os principaes do 
Reyno , 8c avilarcm ao Summo Pontífice Inno- 
cenciolll. para que provellenefias coulas, 6c lhe 
déljc quem os governaile. Entaõ foy acordado 
que lofle cley to por Governador do Reyno hum 
irtraô do dito R ey Dom Sancho, o qual era Con- 
de de Bolonha. Elleoaceytou , ôc vindo a eíte 
Reyno Dom Sancho,6c os da lua conferva lhe qui- 
Zcraô rcfifl:ir,mas como naó puderaó Dom Sancho 
fe fahio do Reyno, 8c fefoy a Caíiella,aonde mor- 
rco no anno de mil duzentos 6c quarenta 6c leite, 
6c jaz lepultado na Sé de Toledo. Viveo quarent* 
annus,dos ^uacs foy Rey vime 6c quatro. 



91 

^l Ao era Sancho^ naÕ taõdeshotteffo, 
^ Como Nero, que hum moço^ recebia 
^or mulher, & depois horerndo tnceflo. 
Com a mãy A^rtpina cometei ia: 
Nem taõ cruel ás gentes y& mole fio 
^ue a Cidade qw yrrta^e^ onde viviat 
Nemtaõ mae, como foy líeltogabalOy 
Nem como o molle Rey Sardauha paloj 



Nao era Sancho na» taS deshoveffo. El Rey Dom 
Sancho Capello naó era hornem inclinado acoin- 
mciter vic:os , 8c maldades , como fe lé de outros 
Revs , que na vida foraõ muyto deíenfreados neU 
las: foy privado do Keynoporlcr pufiHanime, 8c 
fracodeefpiricu,6c para muvro pouco,porquenaO 
fahia caíbsar.nem rcnrchender,5c affim conlcntia» 
ik diflimujava con) os vicios dos homens , que nc 
aliás grande mal. Nero lexto Emperador Romano 
(cujas crueldades , 6c injuíliças paflaraó por toda» 
as dos outros crtíeis,6c peílimos Tyrannos)foyna 

crueldade 




« 



CantoTerceyro, toj 

crueldíi 1e taõ eílremado , que para chamarmos a danapalo, que fe queymou por íua livre vontade, 
hum homem cruel, coftumamos dizerthc hum Ne- 



NEm era o povo /eu tyramzado. 
Como Sicí/ia foy de feus tyranos^ 
Nem tifiba^ como Falares ^ achado 
Géneros de tromentos mhumanos: 
Mas o Reync de altivo ^^ co/iumado 



IO. E.lte perfeguio grandemence a Igreja de Oeos. 

i^adeceraó cm leu cempo os bemavencurados A- 

polloios S.Pedro , & S.Paulo , 6c outros muytos 

Santo$,que feria largo contar: mandou pórfogo 

ti lua paína, como arfirma Suctonio, Paulo Oro- 

íio,&oucros muytos. O qual Fogo dizem qucdu- 

roo ícisdiaSjèc lette noytes, & que em quanto ar- 

dia Roma, Ic pozen» huma torre alta,donde eíta- ^^ , - , nt 

va vendo arder a Cidade, & com grande conten- Afiyihuies_ em tudo fober anos, 

taniento , & gofto contava huns vcrlos de Home- A Rty naõ obedece^ nem conjen te, 

vo , que trattaó da deftruiçaó , òi incêndio de ^ie naõ for mais que todos excellente, 

Troya. Mattou lua própria molhcr , mây, ák ir- 

luaó. 

Ní»í taÕntao como f>y Heltogabalo^Kúe foy outro 
Emperador Romano tal como Nero,dc que atrás 
aliamos, o mais vicioio , & afteminado homem 
que no mundo houve.Nos galtos de lua peHoa,&: 
na gula era taó ellragado , que dizem os Autores 
que dellceícrevem, que nenhum Rcy por muyto 



Nad era o povo feu tyranvíza^Of como Ciciliafoy de 
fem tyrannos. Cicilia, como diz Juitino no livro 4. 
aonde tratta de leu íitio , &: fertilidade , foy mây 
dos mayores tyrannos do mundo,& como os pnn- 
cípaes da terra eraó elles, a gente bay xa aprendia 
delles , pelo que era hum formigueyro de ladroes 
bayxos, donde veyo hum provérbio entre os La- 



nço que fora fe pudera fullentar , gaitando o que tinos,S/f«/«j ompbacíz^atiO Ciciliano faz furtos bay- 
cftc gaitava, & que valia a qíte ler Senhor do mun- xos , como laó uvas em agraço , que para pouco 
do, Òí. ter as rendas, & riquezas de todo elle,que de mais de nada preílaõ. He terra muyto fértil , ôc 



ourra maneyra naõ podem viver, taó exceílivos 
eraó os galtos que tazia. l\ porque fuás abomina- 
ções, & viciosfaõ taes,que hemeliior naõ as iaber, 
nem ouvir , &: eu me corro tratcar delias as naõ 
ponho aqui. Quem as quizer ler,veja Herodiano, 
Lampndio, Eutropio, & Peio Mexia cm lua vi- 
da. 



abuwdanre das coulas necellarias para a vida,aon- 
de fe atreverão muytos a lhe chamar Roma horreu, 
celieyrode Roma.E daqui íingiaõ os Poetas,que 
Ceres , & Bacco eraõ naturaes'deíta ilha , por ler 
taõ fertii,&: abundante. He cita ilha de íòrma tn- 
angular,como lnglaterra,dizem que tcrà letecen- 
tas milhas de circuito. Foy antiguamente junta 



Níw COMO o molle Rey Sardanapah, Sardanapalo com Calábria, como alguns elcrevem,Sc hum ter- 

foy ultimo Rey dos Alíirios taó leníual , & luxu- remoto a dividio,6c pos no mcyo aquelle mar,quc 

rioio,quc naó le corna andar entre as molhcres de he de mil & cincocnta pafl"os,Sc fe chama eítrcyto 

partidojveltido de leu trajo,&; fiando em roca en- de Mefiina.o qual ainda que feja pengofoem cer- 

irc elias, & falando palavras deshoncílas, & lalei- tos lugares,ik tempos, naõ he tanto como os Poe- 

vas , como fefora mulher publica. Mandou que . tas fingem, attnbtindclhe Charybdis, Sc Scyllas 

lhe puzeílem eltc Epitaphio na lua fepultura de- taõ celebrados dos Efcriítores Gregos , 6c Lati- 



poisde fua morte. 

Bdeyhiheidf liiíle,poJi mortent nulla voluptas; 



nos. Entre outras muytas coufas que tem eita ilha 
he aquelle taó celebrado monte Ethna , do qual 
Pétreo Bcmboelcreve hum livro particular , que 
anda impreílo entre luas obras. A gente he vajc- 
Comc, bebe , & tolga , que com a morte tudo fe rola em armas, & letras, como le pôde ver nas Hií- 
acaba. Epitaphio, como dizCiceronas Tufcula- torias antigas. Veja- le a noíla annotaçaó no canto 



ms,mais para boy , que para Rey. Tomados os 
Alllirios, Sccnojadrs por ter tal Rey, ou por me- 
lhor dizer de obedecera huma molhcr, le levantá- 
faó contra elle para o matar , o que elle naó elpe- 
rou, porque recolhendolc aos p^ços da ( >idade de 



^.oytava 61. 

Nemtwba como PhaUris achado generot de tvrmen- 
toi inhumanoi. ÍLÍle Phalaris foy também Ciciliano, 
£c fez huma ventagem aos mais , que alem de to- 
mar a fazenda aos feus , lhes tirava também as vi- 



Njno, cabeça , 6c mctropolide Ãihiia(que a Ef- das , porque naõ gaitava o tempo cm outra coufa. 



crutura Sagrada chamada Ninive) mandou fazer 
humafooucyra,6c puito nella todo o ouro,prata, 
& riquezas que tinha , fe queymou juntamente 
com clle,comodiz Ovídio no ibii,. 

i^'^»epyramtecum*;artffirKa compor a mittat 
^utm finem vitx Surdanafí*luí babei. 

Efcrevendo contra hum feu mimií!;o íntrc outras 



fenaõem bulcar modos, & invenções de tormen- 
tos com que os atormcntaílc. Comoafamadeíla 
cruel cnnoíidade vicfleàs orelhas de hum grande 
ollicial por nome Penllo,ao qual Plinio, 6c outros 
chamaó Perilao.fezlhe hum boy de metal, 6c com 
lai invenção que mcttido hum homem dentro, 
polto fogo dcbayxo , urrava como touro. Phala- 
ris folgou muyto com a invenção , n^as mandou 
ao n^eltre que a fizera, que a provafle primeyro,6c 



piagâs que lhe roga he,que morra a morte de Sar- aflimfoy,&c com muyta juítiça, donde dizÕvidio 

na Arte iib.i. " Bi 



Lujiaàas àe Ijús de 



Bt Vhalant Úun violenú nitfnhfa FirilH 
lorruitiWfeUs tmbutt authitr opus: 
JhJIuí merque futi , nequetnim Uxjuftior ulla e^ 
^ludm m6íi arttficít arte pirtrtfHa* 

Phalaris fez provar pfimeyro a luaobiaaPerino, 
Ôí com razaojporque he muyta jufl:iça,que os que 
pretende fazer mal o paguem. Phalaris també mor- 
reo da meima maney ra,como diz Ovidio. No ibis. 

Ut^í4e ferox Phalaris lingua prius enfe refi-la 
M»re hovtí Papbio claujus tn are gemai. 

.Porque naó podendo os feus fofrcr taó grandes 
crueldades, lhe dcraõa morte, que clie a outros 
dâva,òc deita maneyra acabou como acabaõ mal,& 
.cedo os que querem ufar neíla vidade femelhan- 
tes obras. De PeriUa , 6c Phalaris fe veja a noíía 
annota^^aó nelle canto oytava 59. 

POreJia caufa o Reyno governou 
O conde Bolonhez,^ depois alçado 
*J^or Ry^ quando da vidafe apartou 
Òeu nmao Òancho, fémpre ao octodado 
EJie^ que Aijonjo o Bravo fecbamou% • 
E áefque teve o Reymfegurado, 
jLm dilatalõt cuyda^ que tm terreno ^ 
Maôcabe altivo feyto tad pequeno.\ 

Tor efia cmfa» Por El-Rey Dom Sancho íer 
hmn homem para pouco,foy eley to por Governa* 
dor Dom Affonío Conde de Bolonha leu iroiaó, 
como atrás hca dito , o qual íoy levantado por , 
JR.ey , logo que o irmaô morreo , & obedecido por 
tal no aiino de mil duzentos 6c quarenta $c fettc. 
Eíteie caiou íegunda vezcomhuma DonaBea- 
tris filha baltaraa d^lil-l^ey Dom Affonfo o de- 
cimo de Caílella. Reynou 52. annos , falleceo em 
Lisboa no anno de izyp.a 20.de Março, 6c jâz ena 
lAicoba^a» 

D JÊ terra dos Algar ves, que Ih efora 
Em caíàtnento dada grande farte 
Recupera co braçofê âeyta for d 
O Mouro malqueridojà de Marte: 
Efta de todo fez livrey&fenhora 
Lufitanla com for fa,^ belllca arte 
E ucabou de oprimir a naçaõ forte 
Ala íerraj que aos de Lufo coube em forte. 

Da terra <lot Algárves. Com efta Dona Beatris 
lhe foraó dados os Caílellos , ScVillas dos Al- 
gárves em caíamento que El-Rey tinha, & a con« 
quiíta dos raais.Pelo que elletoy o prinieyro Rcy 



Camões Commentados] 
de Portugal, que teve clle titulo, & afíi m fe ajun- 
tarão logo ás armas de Portugal huns caílellos 
dourados em campo vermelho porrazaó defte no- 
vo acrccentamento dos Algárves. Eíla he a ver* 
dadeyra origem daquelles caftcllos,ainda que ou- 
tros queyraó dar outra. Efte Rey lendo vi a a 
pnmeyramolher, fc calou com a dita DooaBri- 
tis contra todo o direyto,6c jultiça.Pelo que hou- 
ve neílc Keyno muy tos annos interdito , até que 
jnorreo a Condelfa de Bolonha íua primeyra rao- 
Iher. Entâó o Papa a uetiçaó dos Prelados , 6c no- 
bres do Reyno diípeníòu com clle , 6c ligitimou 
íeus filhos, como nas Chronicas íe pôde ver. No 
tempo delle Rcy , Portugal , como diz aqui o 
Poeta,íoy limpo de Mouros,aonde nunca mais pu^ 
leraó pè. 

Eis depois vem ^iniz, que bem parece 
^0 bravo Affonfo efttrpe nobreço" dina^ 
Lom quem afama grande fe e/curece 
'Da liberalidade /9lexanarina: 
Com efte o Rtyno prolperoflorece^, 
ÇAlcançadajã a paz áurea divina^ 
Em conjlnuíçoés^ítysj^coftumesy 
Na ttrrajâ tranquilla claros lumes. 

Eis depoif vem í>/«Í2:..Depois da morte deftc RejflH 
que foy cm Lisboa a 20.de Março de 1275?. fendo 
oe idade de fetenta annos,dos quaes reynou trinta 
& dous , 6c foy fcpultado no mofteyro de S. Do- 
mingos que clle fez , focedco no Reyno feu filho 
Dom Diniz , o qual logo foy levantado por Rey, 
fendo de idade de dezoyto annos , havendo nova 
mezes, que fem ler caiado tinha fua cafa, 6c vivia 
apartado de íeu pay, Efte Rey, dizem os Chronif- 
tas,que foy de muyta verdade, jultiça, 6c liberali- 
dade que o Poeta compara com a de Alexandre 
Magno , do qual íaó efcnttas grandes coutas acer- 
ca da liberalidade, ôc condição. 

FEzprimsyro em Coimbra exercitar ft 
O valer 0/0 officio de Minerva 
E de Heltcona as Mufas fezpafjarfe, 
Apefar do Mondego a fértil erva: 
^antopôde de Athenas defejarfè, 
*2 udo ofoberbo Apollo aquirefervay 
Aqui as capellas da tecidas de ouro, 
T)o Baccaro^à' do fempre verde Louro, 

Fez, frimeyro em Coimbra exercttarfe. Como cite 
Princepeera pcrfeytiflimo em tudo,quis que léus 
vaflallos ofoticm também , 6c que pois na milicia 
eraõ cftrcmados,o fofiem também nas lctras,pelo 
que foy o primeyro que fez em Coimbra houveflc 
cftudos , para os quaes buicou homens de todas as 

partes 



^y Ohés Vtllas de novo edificoUt 
S| Fortalezas jCaftellos muyfeguros, 
E quafio Reyno todo reformou,, 
Com edifícios grandes ^à* altos murosi 
Mas depois, que a dura Atropos cortou 
O fio de f eus dias j a maduros^ 
Ftcoulhe o filho pouco obeàiente^ 
^luarto AJfionfoi mas forte ^à- excellente. 



CmtoTerceym ^loç 

partis eannenwsjaos quaesfaiia muytas ham'as,8c 
mercês. og 

OQício de Minerva. Ht: o exercício das letras, o 
qual íe chama aíTimjporque os Antigos chamarão 
a Minerva , que por otitro nomeie chama Pailas, 
X)eol\ d as íci ene i as» V ej x-íe o qnte n o t á m os no fe- 
gundo canto oytava 78. 

E de Helicun at Adujas fez, pafarfe. Por termos 
Poéticos, ôc Rhetoricos diz, como £1-Rcy foy o 
primeyro quefez houvcíle eítudos em Portugal. 
Helicon hehum monce dedicado a Apollo ás Mu- 
las, padroeyras dos Poetas, que eftá em Phocis re- 
jbiaó de Grécia, naó longe do monte Parnalo, co- 
mo diz hllh-abaó lib. 9. Deílc monte Hehcon fe ji^at depoit tjue a dura /^tropos. Fingem os Poetas 
chamaó as Mulas Hclicomdas, como lhe chamou que ha três Parcas , que fiaó a vida dos homens , 6c 
Perfeo no prologo das luas fatyras. Diz aqui o que dcterminaô delia o que lhes parece.Dasquaes 
Poeta que delle monte Helicon , aonde as Mufas Atropos cortava o fio , pelo qual Te entende a vida 
tinhaó Tua morada,íe vicraó a Goimbra,por onde do homem.O que aqui também diz o noíib Poeta. 
o rio Mondego paíla. que depois que Atropos cortou o fio dos dias 

Çiuanto pode de ^tbenas de fej ar fe.^ncíivcce os cila-- d-^El-ílev Dom Diniz,que quer dizer, depois qus 
dosdeCoi:nt)ra, & na verdade clles daótaes mol- EI-Key Dom Diniz fallecco. Quanto ás Parcas 
trás de li, Reproduzem tal fruyto, que naò finto 
outros que lhe façaó ventagcm. Epor o mundo 
^iãber afias delta verdade naó trattarey mais delia. 
í<^uanto à Cidade de Athenas , de que aqui o Poe- 
bifala, taó celebrada pelos Efcrittores , 6í taô co- 
íihecida pela fama, hoje he huma trilte aldeã, co- 
mo fica á\ío neíte canto oytava 51. 

Do BaccarOi & d» fempre x^rde louro. Baccaro he 
huma herva, chama-ie em vulgar moatAÕ, tem as 
folhas como òorragens,ôc humas flores amarellas, 
como as da herva vaqueyrâ,ainda que mais peque- 
nas , defta-hci*valecor©av^ó os Poetas antigos, 
como diz Virgílio. 



■fa 

m 



ji y 



Bdccare frontem, 

CiHgtte^nevatt ntceatmala Ungua futuro, 

'A qual dizem que tinha virtude contra o mao olho, 
como alli lente Virgilio, ôc declara Sérvio. Pon- 
dclhe (diz Virgilio) humacappella de hêrva bac- 
caro, porque a má língua naó faça mal a eíle, que 
ha de ler Poeta. O olho mao , a que os Latinos 
chamaó /<»/««»/, dizem os Autores que íuccede de 
duas maneyras Plinio liv.7. c. 1. diz que em Africa 
haviacertacaílade gente, que com a linguamat- 
tavaó,porque tudo o que louvavaó Ic perdia, feca- 
vaólc as arvores, morriaõ os mininos. Na Efclavo- 
nia diz o meimo Plinio que havia gente , que pon- 
do os olhos fitos em alguma coufa a rnatavaô , 5c 
que efta gente tinha em cada olho duas mininas. 
■!Na regiaó do Ponto de Afia diz o mcfiuo Autor, q 
havia outra caíla de gente chamados Thcbros,quc 
tinhaó a raelma particularidade , ôc delia mancyra 
de olhado entende Virgilio. Coroavnó-k tambcm 
os Poetas de louro por mandado de Apollo fcu 
padroeyro, porque nellc Te convcitco Daphnc fi- 
lha do KroPeneo,a que elle era muy to afi-cyçoado. de Marrocos com os Rcys de Tunes , Bugia, 6c 
Conta eíU fabula Ovídio nas Mciaawrphoícs Granada, 5c hum poderofilfimo exercito quis ver 
^'^ ' fe podia tomar Hclbafiha. A qaal prcíla acodio 



trattey delias largamente no canto i. oytava 24. 

Ftcoulhe o filho fouco obediente. Depois da morte 
d^El-Rey Dom Diniz, que foy a lete dias do mcz 
de Janeyro , outros dizem a vinte do meimo niez 
de 1525. O qual viveo leficntaÔC quatro annos, 5c 
dellesreynou quarenta ôc feiã,&cellálepultado no 
Moíte) ro de Odivellas que elle mandou fazer,foy 
levantado por Rey em Santarém no melmo mez, 
& anno atrás dito,íeu filho Dom Aftonlb deite no- 
me o quarto, í>c dos Reys de Portugal o letimo,o 
qual cm vida es. leu pay lhe foy muyto deiobcdi» 
ente , & como contaó as Chronicas , dclejou por 
muytas vezes darlhe batalh.i,& locederaó algumas 
coulasde memoria, que nas Chronicas do tvcynu 
fe podem ver. 

99 

St e fempre asfobirbas Caftelhanay, 

Compeyto de/prezou firme , & fereno% 

forque naõ he das forças Lufiiana s 
Temer poder mayor por mais pequeno.^ 
Masporêm^quanâo as gentes Mauritanas 
Apoffiiir o He fp eriço terreno 
Entrarão pelas terras de Cafieila% 
Foy ojoberbo Ajfonfo afoccorrella^ 

Efte fempre at foherhas Caflelhanaí.Ttvt cíle Rey 
Dom Afíbnfo grandes quebras,ôc dclavenças com 
El.Rev Dom AíFonío de Callella , o onzeno leu 
genro. ' Mas Icmpre levou a melhor , aífim em 
obrasjcoino em palavras como o nollo Poeta aqui 
diz,& traitaó largamente as Chronicas do Reyno, 
com tudo lempre o favorecco , Sc ajudou todas as 
vezes que foy lua ajuda neceflaria,como fez, prin- 
cipalmente na batalhado Salado.quando El Rcy 



hb. 



I. 



ít)6 Lupa^as de Lúis âe Ca 

El«ReyDom AfTonfo de Portugal a pedimento 
de Dona Maria lua filha Raynha de CaílcUa , Sc 
junto com feu genro deraó batalha aos Mouros, 
dosquacs , íegundo algumas Chronicas dizem, 
morrerão mais de quatrocentos mil,& dos Chrií- 
láos vinte homens. As particularidades, & miu- 
dezas difto le podem ver na Chronica , Sc o noflo 
Poeta o conta aqui por algumas oy tavas. 

Jemtr poder wajor por mau peojueno. Porque os 
Portuguczes aindaque lejaó myy to menos cm nu- 
inerojuaô íeacobardaóa exercites mayorcs. 

Hefpenco ícrríwo.Hc a terra de Helpanha. 



mÕes Commentadòsl 

Temendo mais o fim dôf>ovo WfpanOt 

Jã perdido bumavez^ que a -própria mortêi 

^teàindo ajuda ao for te Lnfitano 

Lhe mandava a charijjima conforte^ 

Mulher de quem a manda j^ filha amada, 

^Daquellej a cujo Reynofoy mandada, 

Jâ perdido bttma vez,. No tempo d' El Rey Dom 
Rodrigo ultjmo dos Godos. 



?.fc 



lOO 



N1)nca com Semtramis gente tantd 
Vtyo os caynpos Plydafptcos enchendo^ 
Nem Âttila^ que Jta/ia toda efpantay 
Chamando/è de 'Deos a^outt horrendo: 
Gottica gente trouxe tantaj quanta 
^0 Sarraceno bárbaro ellupendOi 
Lo poder excefftvo de Granad^^ 
Foy nos campos Tartejios ajuntada, 

T^iunca com Semirarnis gente tanta. Foy Semira- 
itiis molher de Nino Rty dos A!iyrio5. Morto 
Ninojvendo Semiramis, que hum fiího que lhe fi- 
cava de feu marido , 6c do melmo nomedopay, 
pela pouca idade naó podia ter a governança do 
Reyno : ôc vendo também que os Aflyriosnaõ 
qutiiaó ler governados por molher , fintio-íe fer 
icu filho, ôcdeíla maneyra íecotncçoua metíer na 
governança dos Afiyrios , o que fez por muy tos 
annos com muyto valor,como conta Jiiílino liv.i. 
in principio, Foy taõ prudente, 6c varonil era fuás 
couías, Sc houvc-íe de tal maneyra no governo do 
Reyno , queíe naô coiuentou com confervar o 
que de feu marido lhe ficou , mas acrec ntou 
outros muytos Reynos, & Provincias,6c na índia 
níetco grandes exércitos para a fujeytar , como 
diz aqui o Poeta. Por campos H ydaf picos fe en- 
tende aqui campos da India,chamados aílim do rio 
tjydafpes,quc a lega. 

/vícíw /íttila , ^ue Itália tâda efpanta, Attila que fe 
intitulava Rey dos Hunnos, Godos , Medos , Sc 
Danos: medo, ôcefpanto do mundo, açoute, 6c 
caíligode Deosilahio deluas terras com quinhen- 
tos mil homens de peleja , com que poz efpanto a 
todahalia , fazendo grandts crueldades pelos lu- 
gares poronde paliava. At rá^ irattey de Attila neí- 
te can[o,oytava 14.6c aíTim no canto legundooy- 
tava 97. pelo que aqui me naô alargo mais. 

CampoiJartefiós, Saó campos de Tarifa, Villa de 
Andaluzia aflâ s conhecida, chamada entre os La- 
tinos Tartcfia. 



101 -1^ 

ENtrava a fermojijjima Maria, 
Te/os paternaes paços fubíimados 
Ijtndo ogiijto, masfióra dealegria^ 
EJeiís olhos e7n lagrimas banhados-. 
Os cabe lios angelu os trazia 
^elos ebúrneos hombfos ejpalhados , 
XDiante do 'Paj ledOj que a agajalha^ 
Efias palavras tats chorando ejpalha^^ 

Entrava a f ermo fifjima Aí<»r/<i. Efta era a Raynha 
l^ona Maria filha u* El Rey Dom Affonío de í-^or- 
tugal , caiada com El- Rey Dom AíFonfo de Caf- 
telia, como atrás fica declarado. Pintanos aqui o 
Poeta como entrou efta Senhora nos paços de leu 
pay , a pedir ajuda da parte de leu mando contra 
os Mouros , quetietciminavaó deílruirlegundi 
vez Helpanha. 

Elfurnecí hotribros» Hombros de marfim , hom* 
bros fcrmoios, porquLéi'«r hemaiáiu. 



J 




E 



lOI 



Vendo o Rey/ublhne Cafle lhano, 

J força tnexpugjtavelygrnadeM fortCi 



103 

Quantos povos a terra produziu ^ 
IDe ^-ífricatodáygente fera^éf eftranhã^ 
OgraÕ Rey de Marrecas cmduzioj 
T^ara vjrpofiuir a nobre E/panha: 
Toder tamanho junto não ft viOj 
'De/pois que ofaljo mar a terra banha: 
Traz tal ferocidade j& furor tantOi 
S^ue a vtvos medOi& a mor tos faz efpanto» 

Salfo tnar. Mar falgado. 

104 

ASuelle, que me de fie por marido, 
To rdefendtr fua terra amedrontada^, 
Co^ pequeno poder offerecido 
Ao duro golpe efía da Maura efpada: 
Efe naô for contigo Jocorrido, 
Vermehas deíle^& do Reyno fer privada^ 
Viuva triftei&pofta em vida ef. ura. 
Sem marido, fem Reyno^&fem ventura. 



Canto Ter ceyrõ^> i5* 

Afieik que mi dcfle porjumdo. Conta o Poeta a Lujfra CO Sol o arnês , a lançãj a efpada^ 

VaÕ rinchmdo os cavallosjaezados: 
^canora trombeta embandeyrada^ 
Os corações â Tàz a^ojiumudos^ 
^ay as fulgentes armas incitando^ 
^Pelas concavidades retumbando^ 



pratica que a Raynha Dona Maria de CaftelU 
leve CO ai El-Rey Doai Affonfo íeu pay, períua- 
dindoo foíle em íoccorro d^EURey de GaíteIJa 
leu maridotcontra os Mouros,que detcrminavaó 
deílruir Hefpaiiha. 



i 



105 

POr tantOi o Rey de quem com furo medoi 
O corrente Molucajè congela^ 
ompe toda a tardança^ acode fedo 
míferavel gente de Gajtellai 
e efft gejtõi que moftras claro/S ledo^ 
1)e 'Pay o veràadeyro amor affella^ 
Acode ^^ corre Pay^ que fè naô corres^ 
'I^ôdefer que naõ aches quemfoccorres. 



. o corrtnte Molucha. Molucha Íie rio do Reyno 
de Fez, como quer Ptolomeo na primeyra taboa 
de Mauritânia Tingitana Ijv. 4. Os Mouros lhe 
chamâó hoje Munzemar , os L,atinos Molucha, 



Ot Eboremet cam^oi tfaS coulbaãos, lílo diz, por- 
que ao tempo que a Raynha Dona Mana foy pe- 
dir eíte foccorro , citava El-Rey íeu pay cm 
Évora. 

108 

ENire todos no meyofefuhlm^t 
T>as infignias Reaes acompanhado^ 
O valerojo Affonfo ^ que por cima 
*T)e todos, leva o collo levantado: 
E fomente cogoJloesforçai& anima 
A qualquer coração amedrontado: 
Affi entra nas terras de QaftelLa^ 



ou Mulucha , \vc rio grande , 5c que le vadea Coma filha gentil Raynha de lla^ 
em muyto poucas partes. 




T Ao de outaforte a tímida Maria 
^ Bailando eftâ, q atrifteVenus^ quando 
A Júpiter feu pay favor pedia^ 
'Fará Eneasfeuflho navegando: 
^ie a tanta piedade o commovia^ 
^le cahido das mãos o rayo infando ^ 
Tudo o Clemente Tadre lhe concede^ 
^Fezandolhe do pouco que lhe pede» 



»qui 



J Untos os ãous A ffonf os finalmente 
j\[os campos de Tarifa^ ejiaõ defronte 
'Da grande multidão da cega gente ^ 
'Para quemfao pequenos campo ^& monte: 
Naõ hapeyto tão alto%^ tão potente^ 
^e ae de j confiança não/è afronte. 
Em quanto não conheça^& claro veja^ 
^e CO braço dús fèus Chrijio peleja. 

Oi dom ^ffúnfos,VLeys hum de Caftella,& oufcío 
c3e Portugal. 



IIO 



EStão de /ígar os netos quafi rindo^ 
^0 poder dos Qhrtfãos/raco^ejpeí^ 



Nio de outra forte. Compara o Poeta 
Raynha Dona fviaria neílas laílimas , que conta a 
feu pay , com Vénus filha de Júpiter , 6c máy de 
ILneas Troyano,a qual vendo leu filho perfcguido 
de [uno , & cm eílado de íe perder com toda íua 

armada , commuytas lagrimas lhe pede remédio As terras COmo fuas repartindo 
para hum taó grande mal. Conta lílo Virgilio no Ante nraõ, entre o exercito Agarenot 
Imaprimeyro daEneida , naõ muytolongedo fe?^^ comtitulofalfopojfuindo 
principio. "^- ■ - 

Rayo infandoi. As infignias com que Júpiter it 
arma que laó principalmente rayos.f nfando rayo, 
pela crueldade que ula no matar , & deftruir to*, 
das a? couías em que dá. E afiim como Júpiter, 
por naô tazer mal a Vénus com feus rayos, os lan- 
çou de fi : aflim EURey Dom AfFonfo tirou de 
fi todo o ódio que contra EURey de Caítella 
tinlia. para favorecer a lua filha. 



quéno^ 



Eflà o famofo nome Sarraceno^ 

Affi também comfalça conta,& nuA^ 

A nobre terra alhea chamaõfua^ 



M 



107 

Asjàcos esquadrões dagéte armada ^ 
Os Eborenjes campos vaõ coalbudaU 



Eflaode Agar os nttoíl Netos de Agar i ôá 
Agarenos lechamaò os Mouros , que procedem 
de llmacl filho de Agar efcrava de Abram. Da- 
qui exercito Agareno , exercito dos Mou- 
ros. 

Nome Sarraceno, Nome dos Mouros que tam- 
bém Ic chamaó Sarracenos. Vcja-íc a nolVa anno- 
laçaõ nefie canto oytava 25. 



Oi 



^«^/ 



l^ 



Lufiadas de Lu is de Camões Qwmentadoi. 



1 1 1 

QValo membrudo ^ir bárbaro Gigantey 
T>o Rey iiauh com caufa tao temido^ 
Pendo o Tajior inerme ejiar dtante^ 
Só defedras,^ esforço apercebido": 
.Com pa/avras foberhas arrogante ^ 
^ejpreza o fraco moço mal veftido^ 
■^e rodeando afunda o defmganay 
^anto mais f ode afinque a forçafiumanay 

^ual o memhrudo , & bárbaro Gigante. Efte he o 
Gigante Goliath , a que commummcntc chama- 
mos Golias , que deíafiou com palavras arrogan- 
tes, 6c loltas,a qualquer que do exercito de Saul íe 
qujzefic combater com elle , & que fícafle a vitto- 
ria com o exercito , que levaflè a melhor , pondo 
cadj lium de íba parte hum que pelejaílecm lua 
defcníaó. El, como houveííe jà dias que eíle Go- 
liath andava diante do exercito dos Hcbreos ar- 
mado , Ôc Toitando muytas palavras injurioías. 
Achando-íe ahi hum dia David pobre pallor , fi- 
lho menor de Iíay,coraodi^3 Sagrada Efcritrura 
liv, I. Reg. cap. 17. ícntidodo que ouvia áquelle 
Gigante, determinou vir com elle a batalha, & 
fazcndoo Saul armar , não pode fofrer as armas, 
pelo que íe tornou a feucoftume, que era funda, 
& cajado. Como o Gigante vio fcu competidor, 
coiTicçou a Zombar delLe , mas tornou fel he a zom- 
baria em choro , ôc morte porque lhe fez David 
hum tiro com afunda , com que lhe fez dar fim á 
batalha , cortandolhe a cabeça com a eípaday 
con^o fe conta mais largamente no livro dos Reys. 

Vaflor inerme, Paftordefarmado , porque como 
fica dito , naó levou mais , que huma funda , com 
humas poucas de pedras em o furraó. ' 

I Efta arte o Mouroperfido defpreza 
¥ O poder dos Chrtflãosjênafí entende ^ 
§tie ejià ajudado da alta Fortaleza^ 
jicjuem o inferno borrife o fe rende: 
Com ella o Caftelhano^^ com defireza; 
Uje Marrocos o Rey cemete^& offende^ 
O TortugueZy que tudo ejiirna em nada^ 
Se faz temerão Reyno de Granada. 

Se faz, ttmer ao Reyno ãe Granada. Ifto diz por- 
que locedcocairlhe eíle em forte de peleja .como 
a El-Rey deCaftellao de Marrocos , como aqui 
diz o Poeta, Sc depois que o teve vencido acudio a 
EURty Dom Affbnlofeu genro, que andava en- 
tre muy tos Mouros , nos quaes fora deraó taó boa 
manha, que em poiícA efpaço os deftruhiraó , ma- 
tando grande multidão delles, como atras fica di- 
tOi^ o Poeu aqui conta. 




113 

I"' // as lançaSiér eípadas retentào 
^ ^or cima dos arnefes^ bravo ejirago^ 
Chamão ( fegundo as kys que aUifegmaÕ^ 
tíiins Maf ame de /£ outros San-Ttago; 
Os feridos com grita o Ct o ferirão^ 
Fazendo defeufàngue bruto lago^ 
Onde outros tneyo mortos fe afogavão^ 
^ando do ferro as vidas e/capavão, 

Santiago. Padroeyro dos Helpanhoes,pelo qu- 
delleíeelcreve,que vivco nasHclpanhas,prégan- 
do nellasa Fé de Chriíl:o,pclo que lemprefavore- 
ceo aos Hefpanhoes. E que Santiago haja prega- 
do em Helpanha,ôc que por eíle rclpcy to fcja pa- 
droeyro dos Helpanhoes,& os favoreça, & defen- 
da nas bataiha?:dílo o Bemaventurado S liydoro, 
êc o Venerável Beda, & outros muytos Autores, 
que com muyta diligencia ajuntou oilluftnílimo 
Senhor Dciii Joaó de Vallaíco Condeltavel de 
Caílella,em huns diícurros,quefezlobie a vinda, 
& pregação dcfte bemaventurado Santo a eíUs 
partesi 

I 14 

C'^ Om esforço tamanho defiruej& mata 
j O Lu/o ao Granadiljq em pouco efpaço^ 
Totalmente o poder lhe desburata^ 
Sem lhe valer defe/a^oupeyto de aç 0: 
1)e alcançar tat vitoria tam barata^ 
Inda naô bem contente o forte braço^ 
yay ajudar ao bravo.Ca fie lhano y 
^te pelejando ejià co' Mauritano, 

JA^ fe hia o Sol ardente recolhendo 
Tara a cafa de Thetts^& inclinado 
Tara oponente o vefpero trazendo j 
Eflava o claro dia memorados 
aluando o poder do Mouro gr ande, horrendo , 
Foy pelos fortes Reys desbaratado 
Com tanta mortandade ^que a memoria 
Nunquano mundo vio taõgraõ vitoria. 



lã fe hia o Sei ardente recêlbendo para a cafa de Tbe^ 
tis. Defcreve aqui o Poeta o tempo da tarde, con» 
o qual íe acabou a batalha , a qual fe começou á 
hora da terça, que hc ás nove horas do dia , no 
qual tempo houve tanta mortandade dos Mou- 
ros,que íe aííírma , que os mortos foraó quatro- 
centos mil,&; infinidade de cativos.Qiianto a The- 
tis de que aqui fala o Poeta,vejafe a nofia annota- 
çaõ no canto fegundo, oytava I, a 

Para o Pgnente Fefpero traund»* Vefpero ou Hei*- | 
- ' ' ' pêro 



I 



Ca}nõ Terceyro. lo^ 

pcro hc o PlnnetâTcnus.que nas partes Occiden* moltravaó tanta ferocidade , que os Romanos os 



taes aparece, em fe pondo o Sol primeyro que co 
das as Eíbellas , 6c Planetas , & alTim antes que o 
Sol faya íe sé no Ceo, depois de elcondidas as ou- 
tras Eítrellas. Chamaólhe Luzeyro, por ler raof- 
tradordaluz , porque fica no Ceo até a menhã 
clara, & parece que eítà moítrando o dia, Sc Eftrel- 
la da alva pela mefma razaõ. Os lavradores lhe 
chamaô Elli cila boeyra, porque le regem por cila 



tcmiaó. E porque no exercito de Mano havia faL 
ta de agua , &: com eíla dilaçaô cada vez faltava 
mais, vendo-íe Mário apertado dos foldados» que 
fe queyxavaó de fede, lhe moílrou hum regnto de 
agua , mas que era ncccflario comprala com lan- 
gue , os quaes rompendo com os inimigos reme- 
dearaó o d.ino da lede , masbebcraóde miílura 
muytofangue , que no regato eílavada grande 



i 



parafaberem o cempo em que haó de curar o leu mortandade quenaquelle encontro houve. Fo- 
cado. Naóhea Aurora, como alguns cuydaó, & n;ó vencidos neíia, & em outra batalha os Cym- 
icrevem (que hc bom dcrprepofiio) porque a Au- bros , na primeyra por íò Mário , ôí na feguiida 
ra , como le diz neíte bvro por muytas vezes, com ajuda do outro ConfuI chamado Catulo. 
?iaó he Eftrella , nem Planeta , knáo aquella cor Ni?;» o Pífio afperrimo contrario do Romano poder ds 
quenoC^eo aparece,antes que o SQlíaya,quehea vacitmnto. Peno afperrimo, quer dizer Car.hagi- 
claridadc do dia. neníe muyto alpero. Chamaó-le os Carthaginen- 
j j ^ fcs Ptnos, ou Púnicos, porque tiveraô fua oi igeiíi 

de Phenicia, como dizem os Latinos , &: tirada a 

^V T Aêmatou aquartaparteoforte Mario^ alpiraçaò h.íe dizem Penos quaíi Phenos. Aqui 




T)ds que morrerão nefle vencimento, 
aluando as-dgoas co/arigue do adver farto 
tez beberão exercito Jedento: 
Mem o Teno afperiffimo contrario 
iJo Romano poder de na/c mento j 
^ando tantos matou da iUuftre Roma^ 
ue alqueyres três de anets dos mortos toma, 

NaÕ matou a efuarta parte o forte Mário. Mário 
foy homem de bayxa lorte , vivco muytos annos 
lio campo rultica, &c pobremente, ate que movido 
de huma altivez de animo, que naturalmente tinha 
deyxada lua pátria A rpino.fe (by a Roma a ver fe _ 

poJia ter outra vida diffcrente da que de íeu pay ta o Poeta, a qualfoy em Apulha, junto de humi 
Jierdàra. Como era homem de condiçaó,&enge- aldeã chamada Cartas , na qual morrerão , como 
nho,roube-fe tanr.bcm negociar com os Romanos conta Titolivioliv.5. Década 3.cap.5. vinteniil de 
que o mcteraô no numero dos cidadãos, 6í como pé > ^ dos nobres tantos, que le apanharão, como 
tinha grande elpirito , veyo a fer taó valerofo foi- dizaqui o noílo Camões , três alqueyres de aneis, 
dado, que entre todos os outros, queand.ívaó nos os quaes naô podia trazer le não gente nobre. El« 
cxtrcitos Romanos finaladamente lazia venta- ta foy a mayor perda que os Romanos tiveraô em 

lua Monarchia. Donde Silio Itálico chamou a 
Canas fepnltura de líalia;& Plínio diíle que aquel- 
la aldeã era r.cbre , & infigne , pela perda que 
os Ro manos ncila receberão. 



entende Annibal, que foy (como conta Titolivio 
no prologo da terceyra Década, & Juftino liv.29. 
êc o noíTo Poeta aqui) inimiciíTimo do P ovo Ro- 
mano de feu nacimento. Os quaes acrecentaó que 
polias asmãoslobre hum altar , aonde leu pay 
Amílcar eílava lazendo facrificio , andando cm 
Heipanha em fua companhia , lendo minino íei 
juramento , que vindo á idade que pudclje tomar 
armas , trabalharia por exrinçuu* o nome Roma- 
no. O qual entendido pelos Carthagincnfes, o fí- 
7xraó leu Capitão geral , fendo de idade de vinte 
& cinco annos. Delde o qual tempo começou a 
fazer guerra ao Povo Rom mo, contra o qual hou* 
ve grandes vittori^s,cotno foy eíla, que aqui con* 



gem : em tanto quceílando Scipiaó Emiliano no 
cerco de Nurnanciaa cafohumanoytena fua ten- 
da íetrattouqucm lhe poderia loceder no cargo 
de Capitão morrendo elle , 6c pondo Scipiaó os 
olhos cm Mário cftendeo a maõ , & a poz fobre 
hum hombro íeu, moílrando que aquelle o mere- 
cia. Foy lete vezes Coníul, vencco grandes bata- 
Ihas.ík houve grandes vittorias, entre as quaes foy 
elU de que o Poeta aqui faz menção , 6c foy deíti 

mancy ta. A cabada a guerra de Africa,& prcfo El- fiando a [anta Cidade desjizefle 
Reyjugurtha, fucedeo, que das paitcs Septen- *Jjo pfívo pertinaz m antigorito: 
rrionaes deceo huma Naçaõ de gente chamada - . - 

Cynibros a Itália Com fuás molhcres, 6c filhos, & 
juramentados de naô largar Itália até a dcftruir.E 
como alguns Capitães , que 03 Romanos manda- 
raõjfoílcrn vencidos por ellesCymbros,detcrmi- 
naraó mandar Mano,o qual eílan lo períodos ini- 
migos lhe dilatou a batalha com defenho , que os 



Mandar ao Reyno e/curo de Cocitoi 



Tp Se tn tantas almas fó pude ^e 



Termijfadi^^ vingança foy celefte, 
E nad força de braço ^ ó nobre íitOi 
^eajfidos í^at es fiy profetizado, 
E depois Tor Jefus certificado. 



éo Reyno efairo de C»eyto, Cocyto he hum rio 
ícusos foífcm conhecendo pouco a pouco, para la- do mferno.chama-leafiim, que quer dizer chorar, 
•bercoaioíchavuó de haver com cllcs , porque porque naquclletriítclugaríemprc há choro.Ha- 
i- vcndg 



114' Lujiaãas de Luís de 

Vendo tmiytbsãilnos qnè Roma andava tyranni- 
zada , ôcueítruhida por niaos Emperadores , õc 
vendo alguns homens de bem o eltado taódelel- 
trad'o da cena,êc como le hiaó ascoulasao fundo, 
«ícarmentados, ôc enfadados muyco com os rou- 
bos dos Caligulas, Neios,Galbas,Occon€SvVite* 
Jios,6c GUtroo máos Emperadorcs como eíles. Fi- 
zeruó feu Emperador anura homem , o qual ain- 
da que por calta o naõ merecia , na milicia era 
excellentf^ ík havia tido alguns cargos honrados 
cm Roma , 6cem algumas Provmcias logeycas a 
dia. Hítc le chamava Velpafiano , cujo hino Tito 
no fegundo anno do império dopay , quarenta 
annoí» depois da morte de Chriíto Noiro Senhor, 
pozccrco á Cidade de Hierufalem , ôc a tomou 
por força , allolou , 5c quey mou , naó deyxando 
pedra lobrc pedra, aoyto dcbetembro, havendo 
cinco inezes que era cercada , no anno de letenta 
& tres,do iNacimento de Chrifto Noílb Senhor: 
na qual entrada diz Jofepho » que morrerão hum 
conto, ix cem mil homens, & foraõ cativos, Sc fe 
venderão noventa ôc lete mil. E fesundo diz Eu- 
kbio , & Paulo Oroíio , morrerão feilcentos mil 
homens de peleja. Aconteceo eltc caftigo taó juf- 
to & íanto por Divina promiflUó , conrraaqueile 
pertinaz, & rebelde povo: lendo alfim profetiza- 
do , & chorado peloi Prophecas , U peio mefmo 
Chnfto Deos, 6í Senhor noílb dito , Òc declarado 
a léus Diícipulos , encarccendolhc elles as gran- 
dezas da CiJadc de Hierulalem, ôc a mag^niHcen* 
cia dos Ediricios do Templo , como o contaó os 
bagrados Evangeliílas largamente , iVlatdi. 24. 
Mwic. 1$. Luc.zí. E porque he matéria larga re- 
nttto o icyfor a Jolepho iiv.5.que foy teftemunha 
devifta, Òcque tratta muytociegunte, ^ verda- 
devraraente eltamatenano lusar ul ieiiado. Ei2.e- 
íippo liv. II. & Corneho Tácito, òc i^edro Me- 
xia na vida de Vefpaliano. 

118 

PA (fada epa tãopfofpera vitoriaj 
Tornado Affonfo à Lufitana terra ^ 
Afe lograr da paz com tanta gloria^ 
Sluant a foube ganhar na dura guerra', 
O cafo trijfe,ò dino aa memoria, 
^edo fepukhroos homens dejenterra^ 
ykonpeceo da tnifera,^ mefquinba, 
^le de f pois de [er morta foy Raynha. 

Vaffada! efla taÕ profpera vittoria. Começa aqui o 
poeta a contar o calo defcíf rado de Dona Inez de 
Caftro,huma Fidalga muyto principal, & de que 
o Infante Dom Pedro filho quinto d^El-Rcy 
Dom A íFonfo o Quarto oyrav o de Portugal, mas 
lierdeyroj&c fucellbr deíles Reynospor terem os 
outros írmáos fallccidos, tinha já filhos, 6i dizem 
cftava íecretamente cafado com ella , depois da 
morte de fua molher Dona Confiança Manoel, 



Camões X2ommentâà0s\ 
que fora erpolada com El-Rcy Dom Afíonfó on^ 
zeno de Gaftella.Eíta Dona Inez era parenta def* 
ta Senhora DonuConltança, pelo que viera com 
elladeCaltella > ôc foy fua comadre do pnmcyro 
lilhosque do Infante pario.E como cila era muyto 
fermoía, ^aviiada, morta Dona Conílança, o lu- 
fantedetermmou calarfecom ella , comodizeni 
que o era Íecretamente: mas vivia com ella publi- 
camente, com grande delgoílo do pay, &: clcan- 
dalo da gente , naó querendo por nenhum caio 
caiar com molher alguma , de que todooRçyno 
tinha grande deigolto : pelo que iendo o infante 
aufentê, El-Rey leu pay lefoy a Coimbra, aonde 
cila eílava nos paços velhos de Santa Ciara, ôc alli 
a mandou matar , o que foy caufade EUj[l.ey ter 
depois muycos enfadamentos, Sc deigoílos com o 
Infante leu filho , quejunto comes irmãos de 
Dona Inez , vieraó de Caitella a Portugal, Sc fize-^ 
raó muyta guerra , &C dano agente , 5c terra, mas 
como o tempo cuia tudo , também fez íeu oíficio 
entre eítes Senhores, que os uquietoUkE ainda que 
o infante depois de feyta a paz entre elle.vk o pay, 
naó moitrou publicaruente o ientimentoque na 
alma tinha,pelamoite daquella Senhora, que elle 
tanto amava. Todavia como teve o leme do go* 
verno nk maó> & foy levantado por Rcy, que foy 
em Lisboa no mezde Mayo de 1557. lendo já d« 
idade de trinta Sc féis annos , Sc havendo doze que 
era viuvo da Infanta Dona Confiança fua mo* 
Iher , deu ordem para ha ver â maó os autores da, 
morte de Dona Inez de Callro. E porque íe ha- 
viaó acolhido aCaítella,temeroíosdoque lhe po- 
dia Ibceder , fez El-Rey Dom Pedro concáiròi 
com leu fobrmho, também do meftno nome de al-^ 
cunha o cruel,quc lhos cniregaíle. Elles craò hum 
Álvaro Gonçalves , que fora Meyrinho mòr de 
íeu pay, Fero Coelho, Sc Diogo Lopes Pacheco» 
Ao pêro Coelho mandou El-Key tirar o coração 
pelos peytos , Sc a A'varo Gonçalves pelas coitas, 
citando elle cm Santarém , Sc depois os mandou 
queymar.Diogo Lopes Pacheco le íal vou em Cal» 
leliaem hábitos de Peregrino. Depois diílo publi- 
cou poriua molher adita Dona Inez, eílando em 
Cantanhede,com Tabaliaó,& teilemunhas, conio 
em vida de feu pav a recebera em Br:igança,eíban-. 
do preiente Dom Gil Bilpoda Guarda ,& outras 
muytas pcíToas nobres , & honradas , de que fez o ^ 
Elcrivaó hum auto publico , Sc todos os outros 
exames ncceílarios , para moilrar como fora íua 
)TJolher,moílrando também a difpenfaçaó, que do 
Summo Pontífice houvera por lercomadre , ÔC 
parenta, aííim lua como de Dona Conilança Ma- 
noel fua molher , como nas (>hronicas largamente 
fe tratta.Feytaseílascoufas todas, mandou mudaf 
o íeu corpo de Santa Clara de Coimbra , aonde ci- 
tava enterrado , para o Moíleyrode Alcobaça, 
com grande pompa,8c aparato , acompanhada de 
Jiilpos, Clérigos, 6c Religiofos de todas as ordens» 
& molheresprincipaes , aonde foy poilacmhuma — - 
fcpulturade alabaílro muyto fermofa , &poilo,.^j 

feu 



Canto Tèrceyrô^ i\\ 

íew rctratto, com íníignía, & Coroa de Rayníia 

na cabeça. Quanto aos filhos que tinha da dita \ t i 

Dona Inez, mandou que folfem chamados Infan- 

tes , ainda que nunca pode haver de Roma legiti- "T^XO^utras hellas fènhoras^& ^rhlcezaf^ 
niaçaó para í lies , como todas cilas coulas fc con- X— ^ Os defejados thalafnos engeyta^ 
them largamente nas Chronicas do Reyno , & o ^e tudo emfim^tupuro amor dejprezas^ 
lib Poeta o cratta aqui larga,ôc diítma^mente. ^^ando hum gojfofuavetefugeyta: 

Vendo eftas namoradas eflranhezas^ 



110 



1 1.9 

T^fó tu puro amor^ com força crua, 
^c os orações humanos tanto obrigay 
'Dèfte cauja. à mole fia morte fm. 
Como fe for ^ pérfida infmiga: 
Se dizem fero amor^ que a fede tua 
Mem com /arrimas trtjhsfe mitiga, 
He porque queres afpero,& tyran?^ 
Xuas aras banhar emjangue humano* 

Tu fo tupuroamor.M-^^ri neftaoytava o Poeta, 
como a morte de Dona Inez, Sc todo leu mal pro- 
ccJco do amor , que teve ao Infante Dom Fedro, 
o qu.il Ic naó fora, naó viera áquelle eftado. Do 
amor,Screu poder tratey largamente no legundo 
Cânto,oytava 54. 

110 

EStavas^ imda IneZj pofla em fo[fe^o, 
^ et eus annos colhendo o doce fruto j 
JSlaquelle eftgano da alrna^ ledo,& cego^ 
§ue a Fortnni naõ deyxa durar muyto: 
H^is fauàofos campos do Mondego^ 
*pe teus fermofos olhos nunca enxuto^ 
Aos montes enfinando^ò" às ervilhas^ 
O nome, que nopeyto efcrito tinhas^ 

O nomt ejue no peytp efcritto tinbai.O nome do In- 
Intante Dom [•'cdro a quem muyto queria. 

I II 

DO teu 'Príncipe a/li te refpondiao 
As lembrãças^q na alma lhe moravao^ 
^tefenipre antefeus olhos te trazíaõj 
fiando dos teus fermofos fe apartavao: 
lye noyte em doces fonhos ^ que mentiaoy 
*De dia em penfamentoSique voavao, 
E quanto em fim cuydavaJS quanto viaj, 
Erào tudo memorias de alegria, 

'Eraoluâo memoriai de alegria» Os queamaõpor 

mais tormentas , Sc contraltesque haja , lemprc 

■ndâõ alegres , porque de tudo fazem matéria de 

alegria; Veia-fea nollaannotaçaó no canto oyta- 

vo,oytava.86. 



O velho pay fe judo %que refpeyta^ 
O murmurar do povo j& fant afia 
T>o filho ^que ca/arje não queria, 

Oi defejaioi thalamtt engeyta. Como era ca fado 
cncubeitamente com Dona Inez de Cattro naó 
falava a propolito de cafamento com o pay. Tha* 
Íamos defciados , bodas delejadas. Porque como 
tinha fuaaífeyçaõ em outra parte , naõ dava ore* 
lhas aos cafduicncosj^uc lhe traziaó. 

125 

Tirar Inez ao munda deter mina ^ 
Tor lhe tirar ofilho^que tem ^tefio% 
Credo CO o fangue Jó da morte inatna 
Matar do firme amor o fogo acefo: 
^e furor confentio^que a ejpada finai 
^epodefufientar v grande pefo 
'1)0 furor Mauro Jo^e levantada^ 
Contra huny^fraca dama delicada; 

Tifat tnezao mundo determina» O intento d^Et* 
Rey Dom Aífonlo era matar Dona Inez , para 
defta maneyra ficar leu filho delembaraçado , 5c 
livre delia. 

Do' furor MatêTo, Da fúria dos Mouros.Nota da 
doudice eíleícyto da morte de Dona Inez, pois 
hum Rey taó Cavalleyro, & taó coílumado a ma- 
tar infisis, & Mouros , ulou de huma taógrands 
cruclu<ide,como hc matar huma molher* 

1 14 

TRaziãona os borrtferos algozes- 
Ante o Rey^jâ movido apiedade^ 
Mas o povo com f alfas ^tè ferozes 
Razões ^a morte crua o perfuade: 
Ella com triftej& piedofas vozes^ 
Sahtdãsfó da magoa tè faudaae 
T>o ftu Trtncepe,\£plhos,que deyxaval 
^te mais que apropia morte a magoava^ 

ylnte o Rey j4 movido a piedade. Próprio he da 

gente nobre dobraríc da lua payxaô , & por mais 

afrontas que lhe façaô,tt r mifcncordia,& piedade, 

o que he contrario em gente bayxa , que nunca 

elquccem oá aggravos que lhe fazem, Ilio he adàs 

labtdo« 

Horii^ 



ÍÍ2 _ Lufiaâas de Ltiis de 

tiorrijicos eilgozth Cruéis, Sc temcroíos, 

115 

P^ra o Ceo criftalino alevantando 
Com lagrimas os olhos pie do fos. 
Os olhos jf>or que as mãos lhe e fiava atando 
Hum dos duros mintfiros riguro^os: 
£ depois nos meninos atentando^ 
^í€ taõ queridos tinha^^ tao mimofos: 
iuUJa orfandade como mây remia, 
Ifaraoavó crueíajjidtzia, 

"Paracavolcruel. Chamai he cruel, porqiie algu- 
mas coulas tinha deftemiftcF, pelo que uíou com 
l€u pay , êcirmaó , & ultimamente com Dona 
IneZr 

Oí olhos , pw^M8 «n 79t4âs (he eftava atando. Efta 
repotiçaó dos olhos hehuma hgura de ihetorica 
muy ciegante.Daqualulaô os Poctas,Sc oradores 
para moítrar algum effeyro , & payxaódaalma, 
repetindo humacoufa duas vezes, 5ctres,ou mais, 
como *quií"e2 o Poeta , dizendo no verfo anies; 
Com lagrimas os olho§ piadofos: começa o outro 
verfo, os olhos, a imitação de Virgiiio liv. 2. 
^neid.o qual trattando de Caflandra filha de Pri- 
amo Rey de Troya , dizaflim. 

Eíce trahthatwr pa(fii 'Priameitt virgo 
Crimhm a tem^ Calandra , aàitifcjm Minerva; 
jldCalum tendem ardentialumtna fruflra, 
Lumitta, namttmrat Attthúnt vincula paltxgs* 

Eis aqui (diz Virgilio trattando da çntrada dos 
Oregos nos paços de Priamo Rey de Troya ) tra- 
aiaó do templo de Minerva a Caflandra filha de 
Priamo, com os olhos levantados para o Ceo: com 
os olhos , que as mãos. hiaò atadas de modo que 
as naõ podia ella builir. 

SEjãnas brutas feras^cuja mente 
Natura fez cruetde najcimentoi 
E nas ofves agrefies^que fomente 
Nas rapinas aertas tem o intento: 
Com pequenas crianças vio agente^ 
Terem tãopiedofo fentimento. 
Como CO a mãy de Ninojã mo/fràrao^ 
£ cos irmãos ^que Roma edificarão. 

Como CO a may de Nino. A mãy de Nino he Semi- 
ramis,da qual jifi^caditoalgunfyacoufa neíleean- 
lojoytava 99. Quanto ao propofito defta oytava 
le note , q,ae elia Semiramis máy de Nino Rey 
dos Aflirios toy filha d« huma Derceta , a que al- 
guns chamaó Acergate. Fingem os Poetas , qoc 
pombas a criàraô^^c porque em lingua Syriaca íc 



Qamões Commentadesl 

chama a pomba Semiramis , daqui tem ellaefte 
nome. llto dizem os Poetas de Semiramis, ôciílo 
quiz aqui mortrar o noíib Luis de Camões. O 
que tudo he fingido, porque nem Semiramis foy 
criada de pombas, nem a pomba le chama em Sy- 
riaco Serniramis,renaóOía,E quanto a mim, com 
mais razaó fc lhe podia dar o nome Semiramis de 
Samir , que quer dizer diamante, aíiimemHe- 
breojcomo em Syriaco, pelo grande esforço que 
teve,da qual dizBerolb liv 4.eftas palavrab:g«<ír- 
10 loco regnavit StmiraiTiii Nwt uxor^rjua rei mtUtarit 
ferttta^divtttif ^& trttímfhu munui Aíonarchasemnes 
antecdíutt. No quarto lugar reynou Semiramis, a 
qual paflbu por todos os Monarchas , na milícia, 
riquezas, ÔC tiiumphos. Ovídio nas Metamorpho- 
les. 6c outros dizem, que depois de Semiramis ter 
fcyto coufas finaladas na guerra , ocos muros de 
Babylonia acabados , vendo que feu filho Nino 
lhe armava trayçaó para a matar, chamou os feus, 
6c lhe fez huma pratica cm que lhe encomendou 
muyio obedcccllem com amor , & lealdade a leu 
filho , naõ fc lenibrando dos aggravos que lhe ti- 
nha fey to, Sc quepa{]í».doifto,quedefaparcceofey- 
ta pomba entre humas pombas que lhe entrarão 
pela porta , & acrecentaõ que eíta he a razaó por- 
que os moradores na Syria ( que hoje chamamos 
Suria)naõ mataó as pombas, antes lhe tem muytom 
refpeyto , 6c reverencia , dizendo que Semirairiis 
fija Raynha foy convertida cm pomba. Foy Se- 
miramis Senhora de toda a Afia, fâl voa índia, a 
qual nunca pode fogeytar, entrando muytas vezes 
nella com grande!» exércitos, como fica dito. Vi- 
vco feflenta & dous annos, dos quaes rCynou qua- 
renta 8c dous, como dizem os que delia falaó. 

E coi irmãssy e^ttt Roma edificarão. Eíles faó Ró- 
mulo , ôc Remo, dos quaes conta Títolivio , que 
fendo lançados na praya do rio T) breem huma 
lagoa por mandado do Key da terra , por ver que 
eraó filhos de huma virgem Veltal chamada 
Rhea, que contra a ordem , &ley de fua vida fe 
havia miílurado com homem, huma loba chegan- 
do ahi a calo obrigada da lede , & vendo os mini- 
nos lhe deu de mamar, Sc depois achandoos huni 
paftor chamado Fauítulo, oslevouaruacaGi, 5cos 
entregou a fuamolhcr chamada Laurencia para 
os criar. 

O Tu ^que tens de humanoogeflo^ ^/O'^^», 
(^Se de humano he matar húa donzelU 
Fracai& fem força fò por ter fugeyto 
O coração ^a quem Joube V( ncelía) 
jíe fias criancinhas tem re/peytOy 
Tois o naõ tens d morte efcura de lia j 
Movate a piedade Jiiay& minha, 
Tois te não m^ve a culpa, qm não tinha^ 



ii8 

ESe vencendo à Maura re0encla, 
Aínortefahes dar com fogo/S ferrúi 
Solhe também dar vida com clemência ^ 
Jlqíiem paraperdtlla não fez, erro: 
Mas fe to ajfl merece efta innocencta^ 
Toemme emperpetaOi& mifero dejierrê 
Na Scythia fríUiOu lâ na Libta ardente^ 
Onde em lagrimas viva eternamente. 

Na Seytbiafria^ould na Lybia ardente. Chirtlâ â 
terra de Scythiafria , por Ter terra Septentrional, 
aonde pela falta do Sol, a terra he tVigidiílima; A 
Lybia quente , por íer regiaõ de Africa cali- 
djífima , Sc aqui a toma geralmente por AfriCJ» 
coftio hc collume entre os l^oetas. 

|! 

■^ 1 19 

1'\ Oemme on de/e ufe toda a feridade^ 
Entre LeoéSy^S TigreSi& verey 
Ò€ nelles achar po^ o a piedade^ 
Sitie entre pey tos humanos naõ acheyz 
Mili co^ amor intrin/eco^ ^ vontade, 
Jsíaífuelle, por quem morro ycriarey 
Eftas relíquias fuaí^que aqui vifle^ 
^e refrigério fejaé da mày trifle^ 

E^as reliijHÍaifuaí. Dizendo eflas palavras mõf* 
trava feus íilhos,que por relíquias entende. 



CmtoTerceyto^^"''^ ^ 

Na mi fera mãy poflot \que endoudece^ 
Ao duro facnficiofe oferece. 



«1 



I ^o 

Queria per doarlhe o Reybenino^ 
Movido das palavras jque o magoaOj 
Mas o pertinaz povO'i& feu dejfino^ 
( ^le dn fia forte o qtitz)lhe naôperdoão: 
Arrancão dasefpadas de aço fino ^ 
Os que por bom talfeytoaílipregoãoy 
Contra huma dama^ó piytos carniceyrot^ 
Ferozes vos moJhaeSié' cavalleyros? 



^ §ÍMal contra à linda rrioça Vdicenê, Achilles filho 
dcThetis, &de Peleo, entrando acalocmTroyá 
cm tempo de tréguas , vioa Policenafilha d^Ll- 
Rey Priarao , òc afeyçooufetantoaella j, que a 
mandou pedir a leu pay , prcmetcndolhc levantar 
o cerco de Troya , íe ihe concedelle o que lhe pe- 
dia,&: como depois da morte de Heytor lucedeflc 
matarem os Gregos também a Troy lo leu irmâo^ 
depois de acabadas as tre^oas enfadada Hecuba 
detrminou buscar algum meyo, poroiidé vmgalV 
Ic a morte deíles dous filhos,& toy queelh man- 
dou recado a Achilles , que lhe queria dar íua fi- 
lha Po ly cena por niolher,que Ictoílb íecrctàmen- 
te ver corri ella,quefariaó leuscohtertos/Achíilcs 
movido mais da affeyçaô •, que a Policenatínhai 
que da razão , & conielho que em tal calo era nej 
cellario , entrou em Troya com lò Antilochofi^ 
lho de Neftor com fuás capas,& clpadas,& citan- 
do no Templo de Apollo,aonde ellc cuydava que 
fehavira de caiar com Polycena, entrou Paris, Ôc 
os matou a ambos , como conta Ovidio nas Me- 
tamorphoícs ,liv. 5. Eftando morrendo Achilles 
encomendou a leu filho Pyrrho procurafle hauer 
Polycena à maó, que fora caufa de fua morie , &: a 
encerraíle ao longo da fOa l<ípulrura,o quePyirha 
fez diante de íuamáy própria, como conta Virgí- 
lio na lua Eneida liv. 5. pag. z6. Higinio diz , que 
paliando os Gregos por junto da ícpultura de 
Achilles com toda a preza, que levavaó dè Troya* 
AchiUcs pedio lua parte,&: que os Gregos trattaa-^ 
do comfigo, o que lhe dariaó lhe íacrihcâraõ jun- 
to da íepultuia Polycena, por cuja caula ellc tora 
morto. 



ToYCjue a fombra de Achilki a eondtna. Os Poetas 
chamavaóàs almas dos mortos , umbras , que faô 
fombras , como aqui ulou o Poeta a imitação dos 
Antigos* Virgílio na Eneida liv. 6. falando do in- 
ferno: Umbrarum hichcitsefiJomnitn«ãít<jue {oporei 
&em outras rauy tas partes , & outros muytos 
Poetas. Eftc lugar he das fombras,àqui mora o To- 
no, Sc^a efcuridadc, & diz que a lombra de Achil* 
les condena a Polycena, pelo que fica dito, que ha- 
via encomendado a Pyrrho a mataflcao longo da 
fua fepultura , & lhe fizeflem delia facrificio; 
Oi fie por bom tal feyto alli pregoao. Eftcs foraÕ Quanto às lombras para mayor declaração fe no^ 

te, que os Antigos Philofophos ,& Poetas diziaõi 
que o homem tinha três coulas,alma que cm mor- 
rendo o homem caminhava para o Ceo ^ corpo 
que ficava na terra, & huma imagem do mcfmo ho- 

a^ , mem corporal, mas impalpável ,& como hum eí- 

Oal contra a linda moça Tilicerta^ pirito,quc hia ao inferno,5c efta imagem he,a que 

.Confolação extrema da, mãy velha$ elies chamavaófombra , como entende quem lé 

pelos Poetas Gentios, Hlo faõ fabula> de ^entc 
cega, & torpe. Nós cremos firme, &: verdadeyra- 
meiite , que hà Parayloparaos bons, inferno par*. 
os mãos, 6c purgatório para fe purgarem as almas 
de algumas impcrfeyçôcs vcniaes , ou das penas 

P ^0» 



principalmente os três nomeados atrás 

'M 

^Oal contra a linda moça Tolicena^ 
.Confolação extrema dtt mãy velha% 
'Porqueafombra de Achiles a condena, 
Co ferro o duro Tirro fe aparelhai 
Mas elía os olhos ^com que o ar ferena^ 
(Bem como paciente ^à* manfa ovelha) 



íujiaãds àe Lais ãe Camões Co^mentados, 
dos mortâes,qoe le deve depois das culpas perdoa-. O cheyro trazpei âiáo/§ a cor murchada, 
das,quandocâ detodonão íatisfizcraõacilas,por'• 
que náo he licito nem decente 



que váo diante 
daquclíe Senhor perfeytiíTimOjque criou todaS as 
coulas,ie nâo muyto Iimpos^,6c purifacados,& cre- 
mos firmententc que hav crnos todos de rcíu Icitar, 
«íTim mãos como bons cm noílos corpos, para par- 
ticiparem com as almas da gloria, ou pena, con- 
íoruie ao que cada hum obrou neíla v/da. 



Talejtd morta apallida àonzellay 
Secas do roflo as ro/aSj& perdida 
Abr.AHcay^ viva cor^co a doce vida. 



I 3 i 

Aes contra Inez os brutos matadores ^ 
No collo de alabaftro^que fofttnha 
As obras ^com que amor matou de amores 
A aquelle^que aejpois afez Raynha: 
As e/padas banhando/3 as brancas flores^ 
^eella dos olhos /eus regados ttnha, 
òe ene arniçavào fervidos ^Ó" tvojos^ 
No futuro cajiigo naõ cuydofos. 



Sendo àêt mâ9í lafcivas mal tratada , da mininaí >■ 
Kiáoslafcivasneíte lugar, não quer dizer , mâo*^ 
deshoneíta9,cemo alguns calumniaóao Poeta, di- 
zendo , que pois as máos eraò de minina , não po« 
diao fer deshonellas. Porque , elle quiz aqui ular 
da palavra laícivas , mais propriamente do que 

T-. I ^ ^ j coliumaó : toniandoa no leu próprio fienificauo, 

Aes contra Inez os brutos matadores, ^^^ ^^^,. ^^^^^ ^ ^-^^ brincadoras com appctitc 
Nocollo de alabap o.que foftinha natura! íem ordem , nem concerto : comolaôas 

d«s minimas cm colher rolas : não attentando ao 
iiiimo5& refguardo com que cilas fe querem colhi- 
das.-íenaó aoíèu gofto guiado (ódoappctite natu- 
ral indiftinftojpor náo terem ainda ufo de razaó. 
Que tm vez de as colherem lem lhe tocar nas luas 
ni imolas, & delicadas folhas:eíl'as laó as primeyras, 
que nas mãos aptrtaó » & desfazem : conforme 
áquilio de Quintiliano , i<ie Ytcentfs bujui Ufdvia . 

j^cjmlk <jut defpoisafez, Ra^nhaXí^e he o Infan- Pfcults captt , loluptate cjuadam prava dtlwtantur. 

Dom Pedro, o qUallevantadd por Rey, pubii- Como fizeraõ,diz o Poeta, os que matarão a Dona 

r^a^r. r^^^^ u^^ Ai... ^^ - Jnezde Caftro, fem refpeyiarcmao mimo, áxde-. 

licadtzadc luapefioa , 6<: ao rclguardo cm queo 
amor do leu Pi incipe a tinha , como roía não to- 
cada de outrem mais que do orvalho do Cco j a 
que táoilluílrc an^.or não fica rral comparado. 

/í fa!líílaíIonz,elia. Dona Inez de Caítro , cha- 
malhe pallida>que quer dizer aniaiclla,porque tal 
íita hum corpo delem parado da alma: diz o Poeta 
iTos ultimes verlbs deita oy tava:]: erdida a branca, 
êc viva corcom a doce vida : porque juntanientc 
perdendo a vidapcrdeoacor do roUofermofaquc 
cm vida tir.ha. 

Donzilta. Alguns curiolos, ou demaíiadamente 
cicrupulolos , noráraó aqui ao nollo Poeta , por 
grande impropriedade , chamar donzella a Dona 
JnezdeCaílro : ícndo aílim, que elle melmo aca- 
bava de dizer na oytava pi ecedentc,queella tinha 
ante fi, quando a mata'raó,^trcs filhinhos, que pa- 



tê 

cou a Dona lútz de Cáítro,cortJò liCa dir'<>,p7òi íua 

rtiolher. * 

135 

Em puderas J So/jda u'fl%dâjlesy 

Teus Rayos apartar aquellediay 
Como da/eva me/a de Thyejies, 
guando os filho f por ma o de átreu comia: 
p òSi ò côncavos VãUeSjquepude:f'es 
A voz extrema ouvir da boca fria, 
O nome do /eu Tedro^que lhe ouvijiesy 
5Por muyto gr ande e/pa (o repetijies, 

• Como da fc-úa mefa de Thyt^€S,'Thyeí\es f oy íleto 
de Tântalo , taó nomeado nós Poetas filho de Pe- 
>ope , & Hippodamia, teve hum irmaôpor nome 
Atrcu ,' com o qual nuflca tévekmizade : & coriío 

ármbòs eraõináos (porque de outra maneyra pôde iJra do Infante Dom Pedro. Partctndoihc,que a 
icr, que não houvera tanto ódio) cada hum pro- palavra donzella não le podia attribuhir , lenâo a 

inolhér quefollc virgem: com,o parece a alguns^ 



que nao nouvera tanto oclio) taua num pro 
curou reconciliação para fazer mal ao outto.Fey- 
^a a fingida amizade Thyeftes , commetteo adul- 
tério com a molher doirmaô , 6c Atreu lhe deu a 
elle a comer hum filho leu.DcndecontãoosPoe- 
ías, q ue paliando o Sol por onde Thyeftes eftava 
Comendo o filho,fugio por íe não inficionar. Da- 
qui fe chama a lua meza torpe, 5c cruel, como lhe 



que (vulgarmente íè ufa. H cfta opinião calum* « 
nioía lhe nafce de duascoufas: hun.a he não que- H 
rcrcm acabar comfigo de confcfiâr que o noílb ~ 
Camões era homem Douto em varias artes»; 
6c íciencias cm que elle fala: pois em todas ellas, 
moílraler mais perito qucmuyiosde feusprofcl- 



íifqui chama o Pocta.Seneca faz huma tragedia par- íores,& principalmente cm dar epítetos muy pro- 
riculardifto. prios , 8c trazer comparações muyto ao natural» 

leva ventagcm aos famofos Poetas que o mundo 
celebra. E chamar elle donzella á molhcr que elIc 
fabia , pois aíTun o clcrevco , que parira já três fi» 
lhos: moftra não ter, a palavra donzella, por infa^ 
lível demoftradorade molher virgem : pcrque de 
outra maneyra,não ha mais íer tão ignorante que 
aflim o dcreveflc. Mas como elle devia faber, que 

a oiigcui 



A 



S/i como a bonina^que cortada 



Antes dotempofoy,candida/è bella^ 
Sendi das mãos lafcivas mal tratada^ 
T>a wmna,que a trsuxe na capella: 



a origem (íeda palavra he muy dlverfa do que os 
calumniadorcs entendem (que he a fcgundacoufa 
que elles não (abem ) daqui lhe nafcc ular delia, 
iieíle lugar, cm que elle queria dizer , que Dona 
ínez de Caítro era Senhora muy to mimofa.muy- 
lo moca, & muy to fermola, delicada, & tcnrinha. 



Canto Terceyrol 



"f 



grimas de Dona Inez em buma fonte chamada,{on* 
te dos amores, pelos , que alli rcvc com o Infante 
Dom Pedro. E. como as Nymphas do Mondego 
chorarão grandemente íua morte , & aufcncia. 
Eíla fonte nace cm hum lugar chamado vai de In- 
terno , Sc corre por bayxo de huma lapa muyto 
Porquea todas eftas partes le eílendc o nome don- frelca,&: dalli vay regar a horta de Santa Clara, 5c 
zelIa. O qual fegundo Grammaticos tamofos le pada pelos paços da Raynha , aonde Dona Incz 
deriva de <^<»»í<«/<<,como diz António de Ncbrixa: eílava. E porque nefte lugar trattàraó ellcs feus 
por fer diminutivo de <^í>/i»<«4 , qucquer dizer Sc- 
nhora:co!no diz Joannes Janneníis: & que dellc Ic 
diriva também </tf/»/»c//<t, que heomelmo,quc Se- 
nhora piqucnina: donde diz cllc,que domiceUns^ é^ 
dowieella etiam eltcuntur ptilchrt juvems magnatunt^feu 
itherorumi ftve fint (ervuntesy five nênx que he o roef- 
nio que dizer, que domieellui , àcdomtcella , donde 
V em donzel,5cdonzella:rcch*maó também aquel- 
Jes moçosjou moças termolas,que refidem.ou fer- 
vem em cala dos grandes. Como antigamente fe 
ufava na Cotte de Hefpanha , aonde a eltes moços 



amores , hoje em dia le chama a fonte dos amores 
por cíle refpeyto. 

I 3<> 

N^õ correo tnuyto tempo^quea vingança 
NâoviJfeTedro das mortaes feridas^ 
^e em tomando do Reyno agovernança 
A tomou dos fugidos homicidas: 
T)e outro Tedro cruljffimo os alcança^ 
^ue ambos imigos das humanas vidas ^ 
O concerto fizerão durc,^ injuflo. 



JFidalgos, que íecnávaó com o Princepecharaa 

váo donzeles: Sc delles havia hum regedor ,que fe ^e com LepidOi& António fez Augujio, 
chamava Alcayde de los donzeles : fem Ce ter rel- 
peyco a ferem virgens: Jc fomente o attribuhiáo a 
lerem moços Fidalgos , prezados , Sc eílimados, 
fermofos , Scc. Como também era Dona Inez de 
Ca(tro,que era nobiliííima, moçamuytofermola, 
'Sc delicada , Scc. E neíte fentido o dille o Poeta: 



Do outro Pedro eruijjimo os fl/í4«f 4. Atrás diíTeraoí 
coroo El-Rey Dom Pedro de Portugal fez con- 
certo com El-Rcy leu íobrinho de Caftella , cha- 
mado Dom Pedro o cru , que lhe entregafle os ma- 
tadores de Dona Incz , que andavaó cm íuas ter- 



pois em outro , era disbarate , Sc ablurdo grandif- r^s ^ g^ que elle lhe entregaria huns Fidalgos Caf- 

"-'^ '- ' telhanos, que em Portugal andaváo homiziíidoí, 

E defta maneyra fe vingarão deftes homens , a que 
tinhâo má vontade , porque naturalmente ambos 
eraó inclinados á juftiça. 

§iue com Lefido , c?* António fez, /lugufio. Eftes 
fendo inimigos Capitães , fizerúo huma liga , Sc 
concerto entre fi , no qual náo pretendião outra 
coufa mais , fe náo vingarfe cada hum de feus ini- 



fimo, que de tão grande, 5c tão bom cultivado cn 
tendimentoem todas as boas artes , Sc fciencias, 
náo te pôde preíumir. 

Acrelccntafe a illo , querer o Poeta nefte lugar 
mover a compayxáo os ouvintes , da cruel morte 
que deráo a Dona Inez Je Gaftro, fendo táo mo- 
Ça, táo termoía, táo delicada , táo mimola , Sc táo 
illultre , Sc náo tocada de outro algum homem: 



fcnàodo feu Dom Pedro, que era Princepc de n»igos, Separa cffcytuarem iftocílivcráo ires dias 

en» huma ilheta que o rio Cavino faz entre Bo- 
lonha, Sc Peroía, nefta iua junta partirão primey- 
rameiíte o Império Romano entre li, fegundaria- 
mente trattaráo o modo, que haviaó de ter em íe 
vingarem de feus inimigos , Sc para iílb acertarão 
que cida hum havia de entregar , o que liveílè em 
leuexercito,aindaquefoflefeu pay. Coufa certo, 
veroonhofa , poispefava mais com cllcsodefejo 
da vingança,que a obrigação de fuás pellbas.Ncl- 
ta volta deu Marco António hum feu tio irmão 
de feu pay : Sc Lépido hum feu irmáo , ScOda* 
vianoaMarco TuIio Cicero , a quefcmpre cha- 
mara pay , Sedo qual fora trattado como filho, 
alem delles foraô outros muy tos» a que Plutarcho 
dá numero de Trezentos. T>tolivio,Sc Floro trat- 
lando delles náo finaláo numero. 



Portugal , que a tinha até aquella hora , táo guar- 
dada , relguardada, recolhida, táo mimofa , Sc efti- 
mada : comocftâ humafrelca rola entre as efpí- 
íihas : que lo do rocio do Ceo he tocada, como o 
melmo Poeta aqui o declara na comparação da 
roía de que ufa , com muyta "eloquência , Sc 
brandura , Sc propriedade. 

M5 

AS filhas do Mondego a morte efcura^ 
Longo tempo chorando memorarão^ 
Epor memoria eterna emfonte pura^ 
As lagrimas choradas transformarão: 
O nome IhepuzeraÕjque inda dura, 
'Dos amores de inez, que aUipaffarão^ 
yede, que freCca fonte rega as flores, 
^e lagrimas fão agoa^à* o nome amores. 



137 



-^ ^ r^, , X^ Stecalfi^adorfoyrigurofoj 

.nr^LT^T" "'T '"" ^''"' r'- ^}'^r\'' K Tie latrocínios, m6rtes,& adultérios; 
mtchnge aqui o Poeta a transformação das la- •*-^ ^ ** _ * r- ^ 



mente 



í>rS 



é^a&êrmí mãds nuezasifero/è trofi^ 
^rãot)S feíismais certos refrigérios: 
As (Cidades guet rdandojujiiçoJOy 
"^e todos ús/oberbos vituperiosy 
^MsUàr'aes€a(iigãndoã morte deo^ 
Mji^^i vaguífundu AUid^s^ oH T/^efeõ, 



Lu fiadas de Lnís de Camões Comm enfades. 



kii Rcyno , cm tanto que dcyxou entrar os Caí- 
lelhanos até Lisboa, a qual deílruhiráo , & quev* 
fiiáraó toda , & puferáoen) gtande aperto lodo o 
Reyno , Ic não vieia de Roma hum Cardeal Le- 
gado a faz«r as pazes cncrc ciie , ík El-Rcy Dom 
Hcnnquede Caftella. 

€^e hum fraco Rey 'fax, fraca a firtt gente. Os La« 
tinos trazem hum dito muyto uzado , o qual Ic 
Efiecafligaáor fof rigurofo. Conta a Chronica dei» refere nas Chiliadas , & póem entre os mais Pro* 
*€ Key, que todo? os vícios caíiigou muy riguro- vcrbios : Dux hnus bonHm pra/iet comttem, O bom 
íanunie , lem afícyçâo alguma, fiem cxcey^áo de Capitão faz o bom tompanhcyro , Sc não diz loU 
|)cl]oa por muyto principai que Foíle , ôc que era dado, fenãocoropanheyro: porque como o Capi- 
tão contrario de ladrões, 6i nialfeytorcs,que fazia láo nâo trattar o loldado como conipnhcyro , & 
« impoflivel , labendo de algun« , para os haver as o Rey naó tor pay do valíalo , & o Prelado irmão, 
^tiiáos , .& amda quctítiveílc ientado â mcza, dan- de ku fubdico, tudo k perdera muyto deprcfla.E 
^olhe nova que lhe traziáo algum , lelcvantava ie Capitão fer fraco, torçozamence os loldados 



'logo para o mandar caíligar. A c:íle piopoíitofe 
cícrevcmgrandcs couías ucllc , quelepóJem ver 
na fua Chronica. 

§^«í 6 VAgahund» Akidts^«H Tbefeu. Compara El- 
Rcy DoHi Ftdrono modo de dcíl:errar,6c deftruir 
aiiidrôescom Hercuks , ^Ti>cleu, queforâo 
dous Cavalleyros Gregos do meímo tempo, 6c pa- 
líeines.dos quac* fe tfcrevem grandes maravilhas. 
A Hercules chama Alcides, porque íoy neto de 
Alceo. Dcíle Herculfô trattcy atrab neltc Canto, 
oyiava jS.c.z. & os livros dos Poetas, 6c Hiítoria- 
aorcs eítáo ch-cyos das couias deites dous C íival- 
Icyros. Vagabundo chamão os Poetas a Hercules, 
jcon.Q siqui lhe chama Luís de Camões , porque 
scprieo o mundo buícando aventuras , Òí brigas. 
Tieleu filho de Egco Rey de Athcnas matou trcs 
Jadróes (como conta Ovidio na carta Phewira a 
Hjppolito, Scyron Procuífcs,&: Scims que íaziáo 
gí-ajidçs males no mundo. Fx^y ao inferno cym íeu 
jWTpigoPeríthooafurtara moihcr dcPLtáo Rey, 
^ benhordaquelle tnltc,^^cfcuro Reyno. Matou 
o Minotauro de Cindia, & ícz na vida outras cou- 
ias dignas de memoria, que Ic pódcm ver em Plu- 
lírchonaluavida. 



o haó de (er, porque o bom Capitão faz a boa gen- 
tCjComodiz Pluiarcho na vidadeLicurgo, ôcda» || 
qui na ceo outro dito que alguns querem aítri- " 
buhir àqucUe grão Capitão Themlílocles : Mdtêr 
«fl cerxioram exerehui dusc letneitjuam ieonum duce cer- 
vo. Melhor hc hum exercito de cervos com hum 
Capitão leaõ , que hum de leões com hum Capi^ 
tão cervo. 

135? 

01) foy cajiígo clavo dopeccado 
IDe tirar Ltonor a/eu marido 
h cafarfe co7n e//atde eríUvado 
Nur/.fa//oparecer,maUfitefidido: 
Ou foy j ^ue o coraçaôJugeyíOj& dado 
j^o vicío vtljde qntm fe vto rtnáidoj 
Molle fe feZiò fracctè hemparece^ 
^e hum bayxo amor os fortes enfraquece. 



De tirar Leanor a feu marido.Kííe Rey Dom Fcr* 
nando etlando conirattado com El-Rey Dom 
Henrique deCaílellade cafar com u Infanta Do- 
na Leanor fua filha , parecendolhc nitlhor huma 
mo) hcr caiada , & fidalga chamada Dona Leanor 
Telles de Menezes a tomou a íeu marido Lou- 

DOjUp,& duro Tedro.nafceO brando^ renço Vazda Cunha,bom FidaIgo,& íeu vafiallo, 
(kede da natureza o eíefconcertó) & fe cafou com ella com grande vitupério íeu , & 

contradição do povo , pelo que não lho quiz con- 
fentir , & aílim fe fizeráo muytas juntas para lha 
titar decaía , ficcomoclle lhe nâo podeíle icfiílir 
em Lisboa , recolheofe fugindo da furia do povo 
á Cidade do Porto,aonde cfcapou. 

^«e hum bayxo amor^ aoi fè^tet enfraefuece- Co m O ^ 
fabemcs pela lição dos livros,& nos enllna a cxpc- 
riencia.gente muvto nobre,& fcientifica/az muy-j 
^ Do ;«/?o, ^ dure na fce o brando. Depois da morte las cou las mal feytas forçada da âffcyçáo,& amor J 
d-bJ.Rcy DoiTí Pcdio,que ^oy em Eftremoz, hu- ao qual com muyta razão chama aqui o Poctaj 
ini íegundafeyraa i8.de Janeyro de i557.írndode bayxo, pois faz aos homens fazer biyxezas: comd 
idadede47.annos,6ci>ovf me7es ,dos quacsrcy- SaUmão, hum Rey tãoSabio, quclcperdeo poí 
noudczannos,ôcoyromezes,& eífá lepultadocm amor demolhercs , & hoje cm dia não ha certeza 
Alcobaça, foy levantado porRey feu hlho Dom de fualalvação. David que mandou maiaraUrias 
Fei.nando,fcndojá de idade de. ry.annos. Eífefoy Itu Capitão por amor defira molher.Os quaes bal-^ 
íCOiíílo > Sc dclcuyda49 nas couias do govcino do tão por exemplo > pcis hum delicsera o mai? fa-j 



'38 

Ojufio.ò- duro Tedro^nafceo br ando % 
(J^ede da natureza o ííef concerto) 
Remiíjc<fé Jcm cuydadd algum Fernando 
^e todo o Reyno p o z, em muyto aperto: 
^le vindo o Qaftelhano devaflando 
As terras fem dejefa.efltve perto 
U^e deftrutrfe o Reyno totalmente j 
^e hum fraco Rey Jaz fraca a forte gente. 



Ca)Ho Tercpyro, 
bio Rey q nunca houve, o outro o principal Pro- C/í (^tà pacato /iatuíffe h orh celumnaf, 
pheta de Deo!5:& com cudoiílo os derribou.Sc ío- Um dura tralmt mediãjienfs fnum» 
peou a íenlualidide. 

I4O 

DOpeccaâo úverMfempre a pena 
Mnytos^que T>eos o qutZi& premittio 
Qsqueforaô roubar abe LU Elenay 
£. com /^pio também Tarqumo o vio: 
Toispor quem Davtã janto fè condena. 
Ou quem o Trihii tlluftre dejíruto^ 



nr 



1)e Benjamin j bem claro no lo enjtna» 

for Sarru Foraô,òlichem por 'Dina, .^^-^^ 

D9 fecsudo tiverao (empre a pena. Moftra pof 
•xemplusquâcos males tiça a Ícníazlidscác-Troy^ 



A tanto cliegou , dizPropercio , « fermofurade 
Omphalc, cjueaqudle grande Hercules, que no 
mundo havia Feytoláo^/andes maravilhas j eí« 
quccido de fi, 6c de quem era,íiou, & lavrou entre 
Híolh-ereâ. 

Dt MãreoArAonío. Cleoparfa RaynhadoEgy- 
ptefoy caufa da deíliuhiçâo de Marco António, 
como tica cftritns no legundo canto. 

Ttcíambim Penaprfifptroojenttfie. Entende Anní- 
bâl Capitão valeroíiflimo dos Carthaginenles. 
Chamalhe prolpero pelas grandes vittonas que 
tinha havido dos Romanos. Delle,5<. da razão do 
nome, Peno,fica trattado nefte canto, oy tava 1 1 5. 



íoy deltruliiJa por Pariz hlho de Priamo Rey d« Q q,ie o Poeta aqui diz he , que tambeni Annibal 



Troya turtar Helena molhcr de Menelao Kcy 
deMycenas,naqual Virgilio,Sc Homero fallarao 
tão largamente liv. 5. ab 1. Liví, Appio Governa- 
ilordeKoma acabou mal prefo em ferros , p -r 
querer tomar huma Vir^^mia a fcu marido. Sexio 
Tarquino íilho de Tarquino o tobcrbo de alcu- 
iiha,toy caula de íeu pay ler privado do R.eyno, õc 
clle acabar mal fora de Koiua , por commetccT 
adultério com Lucrécia molherdeCollaCiao,Liv. 
liv.i.Dec.i.cap.2./V David, por cometer adulcerro 
com Bethfabe molherde Urus,matoa logo Deus, 
o íilho que delia hjuvc , 6ç. a elle houver ide deí- 
truhir íe não riíera penitencia, 8c chorara leu pcc- 
cado. No quil tempt) compoz aquelle exceUcnte 
Pfalmo Mifirtre met Deuui. Re^.cap. 1 2. Oà mora- 
dores de Guibádo Fribu de Benjamin forão mor- 
tos, 5c a lerraalV-^iada, por forçirstn hu>ni molhwT 
do Tribu de Lcvic. iv^. 2c lo.Jud. A Pharaó Rey 
de Egypto calligou Dcoi íò por mandar lhe Ic- 
vaílemacaiaSâra molherde Abraham.Genel.cap. 
1. Sychem filho de Hemor foy morto,ik iodos os 
ícus,6ca terra deílruhida por tomar Duna a Jacob 
leu pay.Genef.cap.j. 

141 

ETois fe ospeytosjortes enfraquece. 
Hum inconceffò amor de [atinado j 
Bem no filho de Alcmenafe parece, 
fiando em O fale andava transformado: 
^De Marco Ântonh afamafe efcurece, 
tom ler tanta a Lleopatra affeyçoaao. 
Th também 'Penoprvfpero ofanttjicy 
^Depois que a moça vil na Apiiiia vijfe, 

/i»jor iwcííwíf^o. Amor illicito , & não permit- 
tido. Lilbodc Almena hc HcrcuUs , do qual fica 
traiiado nelle Canto , oycava 18. Eitc foy tão al- 
fc> coado a Omphale Raynha de Lydi.» , que fez 
graiidescftrcmos por ella te fiar , & lavrar como 
inolfitr. Donde dilicPropcrcio liv. 5. ckg. i. 

Omphale in tantum forma procejjit honnnm 
Ljjàm Cj^eotmà0fuiila Uch, 



leiuio os eííey tos do amor. Porque depois daqiicl- 
la grande vutoria de Canas , le afi eyçoou a huma 
moyade bayxa íorte na Apulhadc maneyra que 
foy caulíidc lua perdição. Donde diílb Fetrar* 
cha : iTt tnumpho amoru. 

Ualtro èí figltvol <P Amílcar .é" no^lptegã 
Intanti annt itaita ttttta,^^ Roma: 
yilfimtnclla tn fugUa il frendey<^ íjega. 

142. 

MAs quem pode livr arfe por ventura. 
, T>Qs laços ^q amor arma brandamente 
Entre as rojas ^cf a ntve humana ^(£ pura, 
Oourôi& o alabaftro tranf parentes 
^em de huma peregrina fermo/ura, 
*Dehum vulto de Aiedu/a propriamente, 
^e o coração converte^que temprejo. 
Em pedra não^mas em a e/ejo ac ejoi 

Entre rofas. Nefte verfo,- ôcivofeguintc trattl 
das cores da fcrmolura. 

De hli vulto de Medufa.Quc foy' Medula fica dito 
neliecãto,oycava7^. 

QFé zio hii olhar feguro.hum geflo hrado 
Htia fuavCj^ angélica çxcelltncia^ 
èlue emfi eftà fépre as almas trãs formado j^ 
^ue tavijje contra ella reftfienctai 
'Desculpado psr certe eftã Fernando 
Tara quem ttm de mor experiência 
Mas antes tendo livre a f ante fia, 
Tormuyto mais culpado ojutgaria, 

Defcttlpado for cetto efid fernando, Eílc he El- 
Rey Dom Fernando , o qual Ic caiou com huma 
molher cafada , tomandoaa fcu marido, como es- 
crevemos nefle canto. A linguagem do Poeta aqui 
cm di7.cr queelfá defculpado El- Rey Dom Fer- 
nando,he mais galantear que verdade. E lempreo 
noHo Luís de Cafnócs tem hum dclcuydo deites q 
pudera efcular, ^^ 



OS lusíadas 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commentadôs pelo Licenciado Manoel Corrêa. 
ARGUMENTO. 

Acclamado Joaó de Pedro herdeyro, 
Convoca Leonor ao Caílelhano, 
Oppoemíe Nuno intrépido guerreyro> 
Dafe bata]ha5vence o Luíitano: 
Quem a Aurora bufcar tentou primeyro 
Pellas túmidas ondas do Occeano, 
E como ao Gama coube efta alta empreía,' 
Por aífinar a gloria Portugueza. 

CANTO QUARTO. 

Keftc canto tratta o Poeta da grande felicidade d'EURey Dom Joaõ o Primeyro 

nas coufas da guerra : dos grandes defc jos que Ei-Rey Dom Joaõ o Segundo 

teve de defcubrir a India,o que pos em eíTcy to El-Rey Dom Manoel^ 

mandando a Vaíco da Gama por Capitão mòr. 

y vcrnod'El-Rcy Dom Fcrnatido > íceraô tantas 

as revoltas.&diflcnfõcs no Reyncquc ficarão 0$ 

DEpois daprõcelofatfmpejtade^ Portugnczes com a nova fucccfláô d^EURejr 

No^UrnAfombrãt^ fihtlanteventO^ Dom Joaô o pnmcyro fen irmaó , como ficaô os 

Trazamenhãaferena claridade^ qneeícapaô de alguma grandt tormenta, 5c tem- 

Elperança dt porto f3 falvatfientoi pcílade. ^ 

Jparta o Sola vr^ra efcurldade, ^;^'[' T P''^"*"'^;^^'"''* ^''^^/^^r. """u ^T 

i>\.^ j ^ r \ nando íallcceo cm Lifboa a 10. de Outubro de 

Removendo o temor aopenfamenío, ,^g^ ,^ -^ ^^ ^^,, morteficou o Reynoqu.ero. 

^Ii no Reyno forte aconteceo, & cn, ourro cíUdo diffcrentc, per ter por Gover- 

T>epotsque o Key Fernando falleceo, pador , Ôcdefenfor a Dom Joaô filho d'El'Rcy 

Dom Pedro ,& de luuna Dofia Tarefa com que 
DepoiiJaproeeUofntempe/tMde.^m tal cftado efts- nãofoy caíado,oqual drpoisde commum coníen- 
vaô as coulas dos Poriuguezes , 6c tão arruinada, timento à.o povo foy levantado por Rcy cm Co- 
dí perdida a terra com os dclcuydos , Scmaogo- imbra,a cinco dias do mcz de Abril de mil trezen- 
tos. 




H 



I 



Lujiadas ãeLuts de Camões Commentaàesl 119 

ros í^yténta & cinco ; ou Icgundo outros , cm trattar , Scconverlar publicamente com clle , até 
Agoíto vclpera de Noíla Senhora da Aílumpçaó, que o Infante Dom Joaõ , que cntâo era Meílre 



como íe diz.naoytava fcguinte. 



POrque fe muyto os no ff os defejàraõ^ 
quem os da}ios,ô" off eu/às va vingando 
}^aqnelles, qu^ também fe aproveytàrão 
2)0 defcuydo remijfo de Fernando: 
1)epois de pouco tempo o alcançar aOy 
Joanne fempre tlluflre levantando 
Tor R y coma de 'Fedro único herdeyro 
(Jinda que baftardo^ verdadeyro. 



de Avis, Q matou dentro nos paços que Cíâo aon- 
de agora he a cadea da corte. O que fez por ia» 
hir peia honra de íeu irmão , 6c acuuir a huma taó 



g^randc 



ôc publica infâmia. 

5 



'\X^^ ^^^^ em fim com caufa deshonrado^ 



^Diante delia aferro frio morre^ 
^De outros muytos na morte acompanhado ^ 
que tudo o fogo erguido queyma^& corre 
^em como A fiianaz precipitada 
Çòem lhe valerem ordens^de ai a torre ^ 
Nacjuellsf <jue também fe aproveitara» <to defcwiãa A quem orâens netnaras0emrefpeyto 



ftahíffi de Fernando. Eífes faó os Caftelhanos'os 
quaes cm tempo d"El-Rey Dom Fernando fizc- 
río muytos males, 8c perdas nas terras, 6c gente de 
Portugal,por não terem Reyqueos deffendeíle. 

3 

SEr ifto ordenação dos Ceos divina, 
'Porfhaes muyto claros fe moflrou, 
fiando em Évora a voz de huma minina 
Mnte tempo falando o nomeou: 
E como coufa em fí que o Ceo deflina^ 
No berço o corpora- a voz alevantou^ 
Portuga l^Porutgal calçando a mão^ 
^ije^pelo Rey novo 'Dom João^ 

^audo em Évora a vez, de huma minina. Conta 
Chronica deíle Rey, que huma minina de oyto T) Odemfe porem longo efquecimento 



^iem núpor ruas^ér em^edaçosfeyto, 

§.utm como /1/!tanaz precipitado Afihnaz foy filho 
de Hey tor, ^ andromacha, o qual foy lançado de 
huma torre abayxo quando os Gregos entrarão 
na Cidade de Troya. O mefmo diz aqui o Poeta, 
que aconteceo cm Lisboa naquella revolta.quan- 
áo o Meílre matou o Conde , porque lançarão da 
Sé abayxo o Bifpo da Cidade ^ Caftelhano de na- 
ção , 6c natural da Cidade de Samora , por nome 
Dom Martinho. Doqi'al as Chronicas dizem que 
era hum homem muyto virtuoío, honrado, 6c km 
culpa alguma. Matàraõ também hum Clérigo, 6c 
hum Tabdiâo,quccomoBilpoellavâo,6c outros, 
o que tudo nas Chronicas fe pòdc ver. 



mefes filhadehum Eíievão Ancs deEvora,eíl:an- 
do no berço le levantou, 6c diflc levantando a voz 
com a mão alçada : Portugal, Portugal , Portugal 
jíor El-Rey Dom Joaõ. O qual foy n0tado,6c ti- 
do por milagre, 6c certificado, quando foy levan- 
tado por Rey , porque os moços de Coimbra , 6c 
mais gente d líferaó , venha embora o noílo Rey 
^rophetizado, ôc criado por Deos para iílb. 



ALferadas então do Reyno as gentes^ 
Com o adio, q occupado os peytos tinha ^ 
Ablolutas cruezas ió evidentes y 
Fazdo povo o furor por onde vinha\ 
Matando vão amigos ^^ parentes ^ 
"•Do adultero Conde, ^ da Raynha, 
Com qntmfua incontinência des honefla , 
Mais ^depois de viuva.méinifefla. 



Do adultero Conie. Eftehc o Conde Joaõ Fer- 

ha Dona Lcanor t(- 
áo qu«ria dcyxar de 



^^ «-».»«,»• v.B««e. nirenc o 
nandcs , com o qual a Raynha Dona Lcanor t <- 
tayajníamada ,6c conitudonác 



,1. As cruezas mor taes, que Roma vio^^ 
Feitas do feroz Marto^& do cruento 
Scy lla^quando o coiitrarto Ihefugto 
Tor iffh Leonor ^que ofenttmento 
7>£? morto Conde^ ao mundo dffcubrio^ 
Faz contra Lufitania vir Cafiella^ 
dizendo fer fua filha herdeyra delia, 

Feytas dê feroz, Mário ^ éf de cruento Se^llay^uandâ 
contrario lhe fugio. Scylla, Êc Mário torâo dOiiS 
Capitães valeroTos entre 0S Romanos , mas taô 
contrários hum dooutro,que lefaziaõ todoomAl 
que podiaójôc finaladamcnte íe efcreve de Scylla, 
que vindo da guerra contra Mytridathfs Rey dó 
Ponto , entrando em Roma mandou degolar fcis 
mil peílbas , que fcguiâo a parte de Mário * pela 
crueldade que para com os leus havia uíadu , em 
Aia abfencia,como conta Plutarcho, Appiano con* 
ta de Mário , que alem de não perdoara pellba 
que Icntiflc íèguir as partes de Scylla,niandava ai« 
raftrar , dclpcdiçar , 6c pór pelos lugares públicos 
as cabeças dos mortps ,6c lançai os aos c? es , av<s, 
ôc bcíks feras , que oscom«íl4;m , ôc ulava outj a« 
' " muytrtS 



íit> _,, Cãntb ^àrto, 

muytas crueldades, ^ue^s Hiftoríadorcis conuó que foy filha do Conde Dom Saního. E o áé 

principalmente Pluiarcho em Tuas vidas. Morre- JLiaõ por parte de fua molher Dona Sancha,irmi 

ráo como viverão , porque Mano íe matou com d^lil-Rcy Dom Bermudo. FoyelteRey muyto 

fuás próprias máos por nao vir âsde leu inimigo Cavalleyro,6c affeyçoadoa gentcdeeípirito,pelo 

Scylla , otjual também morreo cm hum lugar de que toaos os moços Fidalgos orphãos , & que fi^ 

Isl apoies por nome Piifol , dchuma infirmidade caváo iem pays,rccolhia "cm íua cafa, Sc mandava 

muyto nojenta, & íuja , cuberto , 6c comido de criar,6c enlinar iodas ás boas artcs»lL entre outros 

piolhos. V cja-le o que elcrevemos no canto 5. oy- foy hum Rodrigo de Bivar » que depois foy chai. 

lava i\6. mado Gid Ruy Dias , que foy muy valeroío nas 

Faz,€ontra Lvfítahia vir CàficUa. EURey Dortt armas, ôc ganhou muytas terras aos Mouros, ha- 

"Fernando nomeou por íua morte a fua filha Dona vendo grandes vittorias delles.tLÍtes faó Férnan- 



Bcatriz caiada com El-Rey Dom Joaó de Caílella 
por hcrdcyra do Reyno de Portugal, o que moveo 
aos Portuguezes a logo levantar por Rcy ao Mei- 
trede Avis. Como El-Rey de Caílella foube da 
morte do íogro, 6c foy avilado pela Raynha fua lo- 
gra acodio logo , mas foy desbaratado com ajuda 
doCondeítavel Dom Nuno Alvares Fereyra, 



■■r 



Eãtriz era^;à filha, que ca fada , 
Co' o Caftelhano ejiâ , que o Reyno ^ de ^ 
^or filha de Fernando reputada^ 
Se a corrompida fama lho concede: 
^.om efta voz, Caftella levantada^' 
*D'izendú,que ejiafilha aopayfucede^ 
Suas forças ajunta payà as guerras ^ 
2)^ varids regmnsyde varias terras. 

Se a corrompida fama lho concede* Pela fama que 
a Raynha tinha com o Conde. ^ 



8 



dojôc Rodrigo , de que aqui o Poeta tratta , & as 
Chronicas largamente. 

Of cãpoí LionefeSiCujagmte co"^ §s Moura foy vasar^ 
mas excelUnte, Põem pnmeyro os Lioneles, porque 
eílcs íaó os verdadeyros Câftclhanos : ficaílimos 
antiquiflimos Rcys de Helpanha íc intitulaváo 
Reysdc Liaô , porque efta foy a pruneyra terra 
que foy tomada aos Mouros, depois da deftruição 
de Helpanha , em tempo d-Ei-Rey Rodrigo ul- 
timo dos Godos, ôc elies Ic houveraó nelf e lempo 
muyto honradamente contra o» Mouros» 



OS Vanda los fia antiga valentia, 
/íinda confiados f/e ajuntavao 
'Da cãbtça de toda Andaluzia^ 
^e do Guadalquivir as agoas lavão^ 
j^ nobre Ilha também fe apercebia^ 
^e antigamente os Tynos habitavãd 
2 razendo por infigntas vtrdadeyras 
As Hercúleas colunnas nas bandeyraSj 



Em de toda a Trovincia,^ de hu Brigo] 
(^Sefoy^jâ teve o nome derivado, 
'Das terras^quc Fernandoy^ que RodrigQ 
Ganharão do tirano<,à- Mauro efiado: 
ISíão cfiimão das armas o perigo^ 
Os que cortando vão co^ o duro arado. 
Os campos Leonefes^cuja gente 
W os Mouros fioy nas armas excellenteí 



Os Vândalos na antfgíía valentia. Rftcshó os An 

VEm de toda a Tr0Víncia,% de hu Brigo] daluzes chamados alhm por trazer lua origem dos 
(Sefoi^jâ teve o nome derivado^ Vandalos,como le trai ta no canto terceyro. 

A nobre tlba tambtm fe apercebia. Eíla hc a ilha 

Cadis,a qual antiguamente le chamou Erythreya» 

Fundou-a a gente de Tyro Cidade de Phenicia, 

pelo que lhe chamaóos FoetasTyria por epithe- 

10, como Lucano, Tyri^s ejuiGadibns hofpes adjacet^ 

É os que fc acharão em Cádis fundada pelos de 

Tyro.Eftes,diz o Poeta, traziaó por infigniasnas 

bandeyras as colunsnas de Hercules , pelas duas 

Vem de toda d Trovintia ejue de hum Briga. Eítc columnas,que Hercules aqui pos , como fc conta 

Èrigo querem alguns fofl"« quarto Rcy de Hefpa" no terceyro canto. 

nhanoanno antes do Naícimento de Chriílo de 

1905. Outros dizem , que aífim efbe, como Lufo, IO 

Tago , & outros, que alguns nomcaô por Rcys ,, , n j cr. / j - 

delias partes , nunca cftiveraô neilas. E affim o 'T' Ambemvem la do Reyno deToledn, 
Pocia nclla oy tava falia de Brigo com cfia (ai va.fc 1 Cidade nobreza' antiga ^a quem cercandé 
foy,porquc cm coulas taó antigas, St taó deíampa- O Tejo em torno vay fuave ,& ledOj 
radas de memoria ha muy pouca certeza. ^é- das ferras de Conca vem manando: 

O., terras ^utFemand» , &oiue Rodrtgo. Efte hc ^ ^^^ ^^^^^^ também naÒ tolhe Q mcdo, 
El-Rcy Dom Fernando , filho Q*E1-Rey Dom r\ r j j n )i ., ^,,,„/,^»^ 
Sanrho o mavor R ^v A^ XT /^«.. A^ U jordtdos GalleQOs duTO bando^ 

oancno o mayor Kcy de Navarra , começou de ^ n-i n 

reynaremCalfclla, & Liaó noannode 1017. O ^^e parar cfiftirdes vos armajles, 
reyno de CaílçlU houve pôr parte de fua máy, A aquelles^cujos golpes jà provaíles. 

. "" Tam^ 



1 



Lujiaâãs àe LuU de Camões Oúmmmtaãof. %ii 

Tftvtkm vem Ho T.eyno de loledo. O Reyno de eido dos Phihíleos , como le pode ver nolivr^ 
ToleJo le chama aíTiir» de huma Cidade principal» dos Juizes, d etip. 13. uf^ue ad eap.iy^ 
&metropoli lua, pela qual paíla o Rio Tejo, co« 



5 



mo aqui di2 o Poeta,cujo principio, & naciincn 
10 he nas Serras de Cuciica, Cidade de Caftella a 
velha. He Kio aíiãs conhecido , & nomeado em 
Herp3nha,o qual entra no mar de Calcais quatro 
léguas de Lisboa. 

/i^uelies cujos golpes j4 provâfies. lílo diz porqUé 
El-Key Dom bancho de Portugal entrou por ^^""•v-/ -"•->'-' ".*- ^-/.^v«,-««„*u, 
Galiza, 6c tomou a C.dade de Tuf , Ponte Vedra, :^^^'«^' ' ^'"^^T ^^^^ gfl^J^O^merU, 
& ouiros Lugares, Sc fez grande deílroço, & el- SíJ^eaprõpta.miatuYalJideltdade, 
trago na Terra. 



NAÕ falta comrazõesyquem defc 
T>a opinião âe todos ^na vontade 
Em quem o esforço antigo Je converte 
Em defufada,& mâ defleald^dei 



concertei 



1 1 

TAmbem move da guerra as negras fmàSt 
Agente Bizcainfjatque carece 
^epoUidas razoes ^é" que as injurias^ 
Muyto mal dos eflr anhos compadece-. 
Jl terra de Guipuf ua,& das Afturias^ 
^uecom mmás de ferro fe enyiobrecei , 
jírniou deite os foherbos matadores ^ 
Tara ajudar na guerra afeus fenhores, ] 

Agp.ntl Rifcáinha, que carece de polidas razSec.Dii. 
como também deceraó a Portugal em favor 
d^EURcy de Caftella feu Senhor gente de ^lí*^ 
caya.GuipUfcuajScdas Afturias. 



Negão o Reyià' a patria^fêfe convém 
Negaram {como Vedro') e ^eos^que terUl 

i^egãratyCófno Pedroso Deos tjue tem. Eftando El* 
Rcy Dom Joaó em Abrantes com muyto pouca 
gente , & labendo como El-Rcy de Caftella vi- 
nha com grande poder todos os prmcipaè^ , que 
com elle eftavão foraó de parecer, que fc reco- 
IheíTcm , 6c nâo cíperallerti a El-Rey de Caftella» 
porque alem de trazer hum muyto poderofo exer- 
cito de Caílelhanos , vinhaó também de miftura 
muytos Portuguczes , que le haviaó lanhado da 
banda de Caftella.Os nomes deites põem a Chro- 
nica, 6c diz,como aqui o Pocta^que por medo dos 
Caftelhanos negarão lua patria,6c á ieU Rey,6c fe 
os apertarão mais,tem a pulillanimidadc tal natu* 
reza , 6c faz tão grande impreflaô nos ânimos de 



Armou âellet os [oberbos matadores. Eftes Reynos quem ella toma poíle,que negarão a Deos, como 

qucaqui o Poeta nomea tem grandes miniis de fez o Bemaventurado S.Pedro » que negou a feu. 

ferro , das quaes partes fe provê toda Hcfpanha, Meftre , como he notório , & íe pode ver nos Sa* 

pelo que diz : Armou delle os foberbos matado- grados Evangeliftas. Matthki5.Marc.14. Luc.iié 

jes. Armou defte ferro, os que vinháo de todas as Joan.iS, 

partes de licipanha,contra os Portuguezes. Cha- Temor gélido^ é* inerte. Medo frio^ & froxo,peIo 

malhe matadores, pelo que cllescuydaváo , náõ cffeyto quetâz naqucUcsdc que toma pofte» 
pelo que íizeraõ./-^ ' .,.^ l 



tt 

JOane,a quem dopeyto o esforço cretê] 
Como a San^SaÒ Hebreo da guedelha^ 
'Fojto que tudo pouco lhe parece^ 
Cos pontos de (eu Reyno fe apare Ih i', 
E não porque confelho lhe f alie çe^ 
Ços principais fenhores fe aconfelha 
Jdusiópor ver das gentes as fentençaí 
^e fempre ouve entre muytos dtfferenças, 

hanne a^uem do feyto esforço creee , como a SanfaÕ 
fíebreo da guedelha. Sanlaô toy Hebreo de naçaò 
filho de Manue do Tribu de Dan. Foy milagro- 
íamcnte dado por Deos a Manue lendo efteril fua 
niolher , paradertruiçáo dos PhiUlleos inimigos 
do leu povo. Tmha a fortaleza n/s cabellos da 
cabeça. Em quanto cfte fegreda de fua valentia 
íc não foube , não havia coufa, que lhe rcíiftiflc: 
tnas depois que Ic conhou de Dalida molherdeí- 
lioncftâ , 6c cila lhe coi cou os cabellos, ficou elle 
cutro homem particular : pelo que logo foy veil- 



Í4 

MAs nunca foy ^que ejíê errofefenttffè 
'Ro forte 'D.Nuno Alvares ^mas antes^ 
*PoJlo que em f eus irmãos taÔ claro o vtjje^ 
Reprovando as vontades inconftantes: 
Aaquelias duvidofas gentes diffe^ .^ 

Lom palavras mais duras ^que elegantes^ 
A mão na eípada irado, & naÔfacundot 
Ameaçando a terrado mar^^ o mundo^ 

Mas nunca foy <jae efe erro fe fentiffe. Ainda qué 
dous irmãos do Conde Dom Nuno Alvares craó 
lançados cam Caftella»náo foy parte para o Con- 
de o fazcr,6c hir contra lua pátria. 

Com palavras matí duras t^ue elegantes, O Poeta 
guarda aqui as regras da Rethorica, como acoa-« 
ielha Horácio na lua arte. 

I bonoratum fi forte reponis Achtlkmy 
tmptgtrt tracuakufyinexorabtíist acer, 
Ittrft neiet /ilft dafa mhil non atroget armitl 

^ - " Jí^ 



Tratando ííõríicio da obrigação que tem os ho- 
mens que haô de efcrever as vidas , 6c coftumcs 
^Iheosjdepois de dcfcorrer por outros eílados vin- 
<ioa dar no do Capitão, 6í do loldado diz; quando 
fallardcsiEi^ Achilles (que entende por qualquer 
"toldado valerofo) fálico diligente , 6c colérico que 



iB 



REy tendes tal^f^uefe 'OaloY tiver des\ 
. Igual ao Rey^que agora levantaftes, 
^Defbarat areis tudo o que qutferdeSy 




Al V, f^^ •r:í« .,.,u^«(x «,.„-^« 'Do penetrante medo ^quetomaftes^ 

no Alvar^ss como Capitão valeroio , quenaoera ~, ^ ^ ' - ^ ' 

facundo , & que as luas palav^eraó mais duras ^tay asmaos avojJQVaoreceyOy 

xjue^legantesA que tallavaçom a maó na eípada. ^^ <'»/'!?' refifiirey ãojugo aibijo. 



15 

C"^ Orno tdâ gente illufire Tortuguefa 
j Ha de haver ^quem refute o pátrio Marít^ 
cò7nOidefta Trovinciaique Trtnce/a 
Foy das gentes na guerra em toda parte: 
Ha de/atryquem negue ter defcfd, 
^em negue afè e amorfo esforço,^ arte^ ■ 
*JJe TortHgu^zfêfOT nenhum re/peytOj 
Oprvprto Reynoqneyra verJÍAgeytO\ 



O pátrio ^»r/«.[Guerra cpi dcfençãcde/ua pa- 



tuá* 



1(^ 




Ofnn^não fiis vós inda os decendentes] 
_ ^aq uelles ^q uc dehayxo da handeyrâ^ 
"^0 grande EnriqueZyferos^& valentes ^ 
Vence fte e fia gente tadguerreyra^ 
^ando tantas bandeyras Jantas gentes^ 
^ujceraõ em fugi d a de maneyra^ ^ 

^ejete illuftres Condes lhe trouxer aç 
^refosy afora aprefa^qiie tiver aõ* 

. iete ilhflres Condes. Veja^fc o canto terceyro, 
*tDytava34. 

CT Om qujemfora^ contino fopeadosi 
^ Eftestde quem o efiais agora vos, 
^orT^iniZj^feu íilho fuhltmados , 
Senaõcos vofjos fortes pays^à' avos^ 
*Pois fe com feus defcuydos ,oh peccadoSy 
Sernando em tal fraque fa affi vospos^ 
Tornevos voff as forças o Rey novo, 
•Se he certo, que co Reyfe muda opovo^ 

' túT Dinis. Efte Dom Dinis foy o fexto Rey de 
1^òrtugal,5c leu fillio Dom Aífonfo,o qual vcnceo 
aos Mouros do Salado , em ajuda d'EI.llcy de 
Cníielh. Fernando emtal f-raejuefaaffim vw ;><?i. Atrás 
trattey da fraqueza de Dom Fernando. 

Rey novo, El-Key Dom Joaó o primcyro 1 de 
que himos tractaiido na oytava r. 



jltay at maoi ao vojfo vao recejo. Deyxayvos fo* 
pear, èc vencer do medo, pondevos de parte, que 
^u tó rcfiítirey ao inimigo , & vos livrarcy do ju. 
go,6c cativeyrOjCm que vos quer por, 

EVfo'com meus vaffallos ^t£ com efia, 
(E dizendo ifto arranca meya efpida') 
'Deftnderey daforça dura,&inf(fiai 
Aterra nunca de outrem fojugada: 
Em virtude do Rey ^da pátria mefia^ 
*\Da leald adeja por vos negada, 
J^encerey, naõ (óeftes adver fartos , 
Mas quantos a meu Rey forem contrários^ 

For^ain^tfia» Força contraria- 
futrta mefia, Pâtda trille» 



iô 

BEm como entre os mancebos recolhidos^ 
Em Canufio ^relíquias fés de Canas ^ 
Jà para fe entregar ^quafimovidoSy 
A Fortuna das forças africanas: 
Corne lio moço osfa z^que compelidos 
*íDafua efpada jurem ^que as Romanas 
Armas naõ deyxâram^em quanto a vtdA 
Os naõ deyxar^ou nellas for perdida. 

Bem como os tnancthos recolhides em Cânula reli' 
cjutai (òs de Canai. Conta Tití livio na terctyra 
Década liv. z, cap, 8. que depois daquellc grande 
eftrago , que Annibal fez em Canas , alii,uma d* 
gente dos Romanos fe recoiheo a hum íugai cha* 
mado Canuíio , perto de Canas. E cílando todoií 
deícorçoados , & para le entregar a Aníbal , Pu- 
blio Cornelio Scipiaõ nmnctbo de pouca idad« 
arrancou da efpada, & os fez jurar, que nunca de- 
femparanáoasbandeyras Romanas , &c que por 
ellas morreriaó contra os Carthigmenfes,que foy 
caufa de fe não acabar de perder o exercito. O 
que Dclo mefmo modo acontecco ao Conde Dom 
Nuno Alvares.ccmoo noflb Poetáaqui conta, 6ç 
íc pôde ver mais largo nas Chronicas. Da bata- 
lha 



1 



1 



Lufiadas ãe Luís de Camões Commentaifisl t i\ 

IhadsCanasfevejaanoíraannotaçáono terceyro de barcos , com todo feu exercito» que era in n u- 

canto,oytavaii<í. meravel , & tanto que dizem os Autores Teriaõ 

21 hum conto Sc duzentos mil homens. Com toda ef. 

Dr.n ^ " r c^ ^ »t ta gente foy vcncido no paUo Thcrmopvlas por 

Eflaarte ageteforça/S esforçaNmo, Leonídes Capitão dos Lacedemonios , òc depois 

^ue com lhe ouvir as ultimas razões, no mar com a gente que lhe ficou deThemilto- 



Removem o temor frio , importuno^ 
G)ue gelados lhe tinha os corações^ 
jslos animaes cavalgao de Neptuno; 
Brandindo jà" volteando arremejfõesl \ 
VaÚ correndo j^ grita fido a boca aberta j, 
Fiva ofamofo Rey^que nos liberta» 



cies Capitão dos Athenienles. E finalmente foy 
fie todo perdido , & desbaratado , & elcapou eni 
huma trifte barca. Ficou tão enfadado da guerra- 
^ue nunca aiais tornou às armas. 



i4 

DOm Nuno Alvarez digo^veràaàeyrò 
Açoute defobtrbos Cajie lhanos^ 



N(f{ animaes caval^ao âe líeptuno. Os animaes 

Neptuno.íaó os cavalloá, porque Neptuno foy o Comojao fero Huno ofoyprimeno. 

pnmeyro que deu o cavallo , co.no fica duo no ^^ra Francezes^para italianos: 

canto terceyro , oytava 51. - '■ 



D As gentes populares j huns approvão 
A guerrãy com que a pátria fe/òjtinbai 
Huns as armas altmpâo^&renovàoy 
^ue a ferrugem dapazgaftadas tinha: 
K^apaçetes ejhfãoypeytos provãoy 
jírmafe cada hum como convinha: 
O litros fazem vejiidos de mil coret. 
Com letras f^ tenções defeus amores^ 

Dai gentes populares huns aprovai. Na gente po* 
pijkr nunca houve coiuradição, alguns Fidalgos 
contaó as Chronicas , que lhe parecia mal a guer- 
ra , porque temiaó perderfe. Ou uíada palavra 
populares no rigor da língua Latina , que he gen* 
te de coda a forte aiCâ,ôc bayxa, 

C'^ OmtodaeíialufirofacompanK^a^ 
^ Joanne forte fae da frefca Abrantes ^ 
Abrantes ^que também da fonte fria^ 
T^o Tejo Logra as agoas abundantes: 
Qsprimeyros armigeros regia, 
'^empara reger era os muypojj antes 
Orientaes exércitos fem conto, 
Corn quepaffava Xerxes o Hellefponto^ 

Oi primeyros armigttos regia. O Condeflavel 



Outro também famo/ò cavalleyro 
^e a ala direyta tem dos Lujitanosi 
yiptopara mandalosyó regelas , 
Mem RodrigueZjfe 4iz^de Vafconceksi 

Como jd ê fero Httno o foy primeyro. Eftc he At* 
tila R.ey dos Hunos de que fica trattado no cah* 
to 5. oytava 14. 

Çiue^ ala direyta tem dos Lufitanos: Ala he pro^ 
priamentea aladopaílaro , a cuja lemelhan^alc 
chama ah no exercito a gente de cavaHo,que vay 
pela maó direyta, & efquerda para amparo da gen- 
te dt: pé , que vay no meyo cuberta , & guar Jada 
como hum pallaro cobre, 6c ampara com luas alas 
o corpo. 

E2)/í 9ulrà àla^que à efla corre fpondéi 
Antãn yafquez de Almada he Capitai, 
^e depois foy de Abranches nobre Conde» 
^as gentes vay regendo afejira mão-. 
Logo na retaguarda nao fe efconde 
jD^J" quinas yiê cafiekos o pendão* 
Com Joanne Rey forte em todaparte^ 
^e ejcurecendo o preço vay de Marte ^ 

Antão Vafo[ue%» de Aímada.^^c foy hum dos do2 
ze Cavalleyros, queforáo a Inglaterra pedidos 
pelas Damas daquclle Reyno para as defagravar 
de certos Cavalleyros Ingleíès , que as afrontarão 
publicamente,ao qual El-Rey de França,por leu 
esforço , 6c cavallaria deu o Condado de Abran- 



"Dom Nuno Alvares , como aponta na oytava fc* ches. O noflb Poeta tratta deftes Cavalleyros no 
g^>^te. canto íexto, aondecu eícrevi delles, o que pude 

Aorantes^ tfue também da fonte fria do Tejo logra as achar , porque não ha memoria perfeyta dos fey- 
#Ç«íii iiPMníiawfej. Porque o Tejo paJa junto á Vil- tos deftes Cavalleyros , pelo que alguns tema 
h de Abrantes. Hilloiia por fingida. 

. (^^^^J^^P^ffavaXerxes o Helefponto, Xerxes foy t /: 

£lho de Dário o mais poderofo Rey que os Perías 
tivcraõ. Paflbu o Helefponto , que hoje chama- 
mos o brajo de S.Jorge , fcy ta nelU ha ma ponte 



EStavaô pelos muros temerofasl 
E de hum alegre medo qnaji frias ^ 
$i4 



fM 



Rezando as mãysjrmas jdamas^&ef^o/asy 
^ormetetidojeJMmj& romarias: 
Jà chegaõ as ej quadras bellkofas 
^JJefronte das imtgas companhias^ 
^lue com grita gr andijjima os recebem ^ 
íL todas grande duvida concebem. 

E toda» grande duvida concebem. O que as Chro*- 
nicas dizeaijôc parec« contormc á razaó hc, que os 
Caítelhanos cuydavaó não ier poíTivcl erperarcm 
osPortuguczes àfua furta, com tudo, tííIo como 
continuaváo na porfia de pelejar , hcaraó algum 
taiÍLo temeioíos. 

^7 

REfpondem às trombetas nienfageyras 
T ifaros fibilantts ^^ atambores. 
Os Alferes volteaò as bandeyras^ 
^e variadas faõ de rnuytas cores: 
hr anoje CO teni^o, que nas eyras 
Ceres ofruytodeyxa aos lavradores^ 
Entra em Aflrea o Sol_,no mez de AgoJlOi 
Baccho das uvas tira o doce mofio^ 

Tira fio [eco tempo ^ ejue nat tyrat Cera ofruyto Jeyxâ 
aoi lavradores. Delcreve o tempo,eiTique foy cila 
i)atalha.Os Antigos tinhaó a Ceres por Deofa das 
iementeyras , 6v cnais fruy ros da terra : pelo que a 
pintavâo Icntada cm cima de hum boy com huma 
enxada na mão direyta,ík lium ceílo na efquerda, 
ôc rodeada de lavradores com feus petrechos , 8c 
inftrunientos de agricultura , dando poreftesro- 
deosa entender , que ella fora a inventora , ôc fe- 
n.liora de todas as coufaSjque n terra produz. Afíim 
-« noflb Poeta aqui nioftra,queeíta batalha foy no 
elho, em dizer: Era no feco tempo que nas eyras 
Ceres dtyxa o fruyto aos lavradores. E abayxo 
declara o mez,quefoy Agolto. 

Baccho datuvas tira o doct moflo. As ChronicâS 
particularizando mais o calo dizem o dia que foy 
a huma Icgunda feyra quatorze dias do mez de 
Agoíto, vefpera de Noíla Senhora da Aflumpçaõ 



Canto ^íirtol 



tneímo mez , & os Poetas tem cfta licença \ coma 
diflemos em outra parte. fi<íeíÃ<» das-uvas ttra o doce 
píoflú. Não diz aqui o Poeta que no mez de Agoí- 
tofc faz H vindima , fenão quer moílrar quc no 
mez de Agoíto faó já as uvas maduras. 

18 

D Eu (inala trombeta Cajielhanat 
HorrendoyferOiingente t& temerofOj 
Vuvio o monte AttabroJS Guadiana 
Atràz tornou as ondas de tnedrofo, 
Ouvio o T>ouro^& a terra Tranftagana^ 
Correo ao mar oTejo duvido fo 
E as mãys^que o fom terrível efcutár ao, 
Aospeytos os filhinhos acertarão. 

Ouvio o monte Artabro. A efte monte Artabro 
chamaó os Geographos por outro nomt^Magnum 
frumontorium Uí)i(fiponenfe, Cabo grande « cabo de 
JLisboa , por começar na lua Comarca. Hoje íe 
chama Cabo de finis terrsc. Guadiana a que os La- 
tinos chamão Anãs, nafce junto â Serra de Alçar» 
raz , &juntoahum lugar chamado la puebla de 
Alcácer, le metedebayxodo chaô , Ôc vay iahir 
dallia cez léguas. 

Imalran^agana. Terrado Alentejo. 

QVantos Yoflos alitfe vem f em cor, 
^e ao coração acode o fangue amí^oí 
^ie nos perigos grandes o temor 
He mayor rnuytas vezes jCjue operigOi 
E feo naÕ he^pareceo^cjue o furor 
^e offtnder^ou vencer o duro imigo. 
Faz naõfent traque hcj^erda grande J£ rara] 
''Dos membros corporaes a vida cara, 

30 

C"^ Omeçafe a travar a incerta guma, 
j T^e ambas partes fe move aprimeyra ala^ 
oytava 6i. Aílrea, de que aqui falia o Poeta, foy Hnns leva a defen faõ da própria terra^ 
íilhadeTitano,&: Aurora.Notcmpo,qocfeupay, Outros as efper ancas de ganbala: 
& léus irmãos os Gigantes trabalharão lançar Lopn o <7randeTerexra,em quem fe encerra 
Jup.ter do Ceo , ajuntando muytos montes altos, ^^^^^ olalor^prtmeyrofe affinala, 

mfemeai 



jupuer uo^eo , ajuntanao muytos montes airos, ^olioovalorMimeyrofeaffinala, 
«pondo hunsíobre outros. Dizem que Aftrea \J* u »/t**c/ ^^f* -^.V ^-^ r 

fcmprefoy de contrario parecer , Sc que em tudo "Dcrr tba, encontra,^ a terra em t^ 



o que foy na íua mão ajudou , 5c favoíeceo a Jú- 
piter , pelo que depois que vcnceo os Gigantes a 
pósnoCeo , & tez delia hum dos Signos do Zo- 
'iliaco,oqualicm vinte ôcfeis eíl relias. Efteheo 
Signo a que os !\ftronomoscham'o virgem , no 
qual entra o Sol a vinte 6c três dias do mez de 



U^os que tanto a defejaõ fendo aihea, 

Comrçafe a travar a incerta guerra. Chama â^^ 
guerra incerta ; porque feu fim he incerto , como 
diflc Cicero: BelUrum exitui tncerit funt. O fuccefib 
da guerra laó inccrtos,como lemos nas Hiftoiias, 



Agoíto,nem he inconveniente que o lucccflo def- que muytos grandes exércitos foraó vencidos de 
ta batalha tofle a quatorze de Agofto,& o Sol en- outros muy to pequenos , pelo que nefta matcria 
Jtf e ncft.e Sigoo a vinte Ôí trçsu Baila ler tudo no não ha Gsrtcza alguma. 



Lufiaàas de Luís de 

fíttns leva a âefenfao da procria terra,\Li\c^ eraó os 
Portuguczes , qae pclejavaô pela defenfaõ de fua 
pátria , a qual os Caftelhaaos muyto deícjavaõ, 
náo fendo fua.nem tendo direyto nelia. 
, Logo o grandi Pereyra, Efte he Dom Nuno Al- 
vares Percyra : illuítre fundamcato da Caía Real 
de Bragança. 

M 

JA^pelo effeffo ar os eflridentes 
FarpõesJetaSi ^ vários tiros voaOj 
^ebayxo dospès duros dos ardentes 
CavalloSj treme a terrados valies (oão: 
Efpedaçãofe as lançasse" as frequentes 
^ledasco as duras armas tudoatroãô^ 
Jiecrecem os inimigos f obre a poueei 
Gente do fero NunOijue os apouca. 

Gente â» fero Nano. Fero Nuno he Dom Niiúó 
Alvares Pcreyra , a que chamou na oytava acras 
lómente Pereyra , & aqui Nuno , coftume muyto 
ufado eiure os Poetas nomear as peflbas huaias 
y«zes pelos nomes próprios , outras pelos fobre- 
nomes , Sc outras pelas alcunhas , que por algu:a 
aconcecimento,o u de bem,ou de mal tem. 

IJ* Is alli fetis irmãos contra elle vão 
^ {Cafofeo j & crtiei) mas não Ce efpanta^ 
Mue menos he querer matar o irmão^ 
^eirhontra o R y^à- a pátria fe levantai 
*2Jtftes arrenegados muytos fad^ 
JSloprimeyrn efquadrao.quefe adianta^ 
Contra irmãos ^i3 parentes iCafo efiranhOt 
^uaes nas guerras civis de Júlio Magnoí 

%uat$ nas guerrat civis de lulio Magno, Como 
bconteceo nas guerras civis entre Cefar , & Pom- 
pcyo , tão celebradas por todos os Eícritcores , 6c 
iobre as quacs fez o Poeta Lucano a ília Pharlalia, 
tí nós tratiàmos no tcrceyro canto, oytava 7o.Ju* 
lio' Magno he o grande Julio Cciar , de que trat- 
jtâmos no canto primeyro. 

O Tu SertoriOiò nobre Coriolano^ 
Catilina j& vofòutros dos antigos^ 
^e contra voflas -úatrias ,com profana 
Coração, vos fize/tes inimigos: 
òe la no R,yno efcuro de Sumano^ 
Receberdes graviffmos caftigosy 
IDizeylbe.f^ue também dos 'Fortuguefes^ 
^Iguns ttaydores houve algumas vezes^ 

O tu 5Ér/orw.Scrtorio nas diíTcnçócs entre Scyl- 



Oimves Commentadõfl n^ 

la,&:Mario, ícguio as partes de Mário, quefoy 
vencido de ScylU , vendo.íe perdido recolhco-ie 
a Heípanha^ôcnellafoy Capitão dos Portuguezes, 
& outros Hefpanlioes > & fez grande guerra aos 
Romanos. Veja- fe a nofla annotação no canto ter- 
ceyro, oytava 95. Coriolanofoy hum Varaó de 
muyta autoridade entre os Romanos. Em humas 
diflenções foy lançado fóra de Roma, pelo quô 
aggravado lhe fez muyta guerra ^ como conta 
AppianojÔcPlutarcho emfua vida. Lúcio Sérgio 
Catelina com outros de lua paríialidade determi- 
nou apoderarfe de Roma, o que fizera fenâo aco- 
dira Marco Tulliocom fua prudência, Sc atalha- 
ra lua detcrmuiaçaó, matando muy tos doá conju* 
radosjcomo conta Salluftio. 

Se U no ejcuro Reyno de Sumam, Sumario he o 
meímo , que Plutaó a que os Antigos chamávaó 
Deos dos mfcrnos. Chamouíeaffim, qua/i fummffs 
tnanium, o príncipe do mferno» 

34 

ROmpemfe aqui dos noffos os primeyro f. 
Tantos dos inimigos a elles vaoi 
Efiâ allt Nuno, qual pelos outeyros 
'De Ceyta efià ofortiffimo Leão: 
^e cercado fe vè dos cavallcyrosy 
^e os campos vaô correr de Tutuaõ^ 
'Ferfeguemno com lanças ji^ elle trofOj 
Turbado hum ^ouco eftàjmas na§ medrofil 

^al pelos ojteyroí de Ceuta, Ceuta he fronteyra 
de Africa, 5c porque em Africa ha muytos leões, 
chamalhe aqui leões de Ceuta: figura muyto ufa- 
da entre os Poetas, que tomáo a parce pelo todo, 
como aqui Ceuta por Africa, £c aflimle ha de de- 
clarar, ÔC não porque em Ceuta haja leões. 

^«c os cambos vai correr de Tutuão. Lugar d2 
Africa fronteyro , ao qual correm os Portugue* 
zes para efcaramuçar,§c pelejar com os Mouros. 

55 

C"^ Om torva vifla os vé^mas à natura 
j Ftrtna^à' a ir ando lhe compadecem^ 
^e as cofias détmas antes na efpeffura 
^as lanças fe arremeffa^que recrecarni 
Tal efià o cavalleyro^qne a verdura 
Ttnge cofangue alheyoiéilU perecem 
Alguns dos feiís ^que O antmo 'Qalentf 
Ter de a virtude contra tanta gente ^ 

fine o animo valente perde é virtude contra tanta 
gente. Coula fabida , & experimentada he os muy- 
tos ainda que fejaó mais fracos, poderem mais que 
os poucos : donde yeyo a^ucllc provérbio: ISie^uc 
HcrcuUi contra duos : Nem Hercules contra dous* 
líto hccomlaum jÔc regra geral; m» como todas 



fjg imanto ^ártol 

tem íua exceyção, tambcm cfta a teve ncfia bau- 
lha Q'E1-Rey Dom Joíó o de Portugal contra 
os CaítcJhanos : porque com ferem muyto mais, 
fofâõ vencidos , ainda que com morte ae alguns 
dosnoílos. 






35> 



5^ 

SEntio Joanne a afronta^que paffava 
Nuno^ique comofabio Capitão^ 
Tudo corria ^Ô' ^ta^& n todos davãj 
Compfefençaj& palavras coracào: 
^^al panda Leoaferaxò' ahrava^ 
^ie os filhos ^que no ninho fós ejtãoy 
SentiOj que cm quanto o fajto lhe hufcâra% 
O^ajlor de MaJJiUa lhos furtara. 

O fafior de M afilia Ihot furtara. Ma/íiliahc,ft 
tjue por outro nome chamamos Mauritânia , & 
commummente Bcrberia,Pelo paftor de Maílilia, 
íè entende o paílor de Africa..E aílim Virgílio na 
Eneida trattando da montaria de Eneas com Ely- 
fa D ido diz: Ma(fttn^uc ruunt ee]uim,Ó' fidora canum 
tjii : Saem, diz Virgílio, osCavalleyros Cartagi- 
ncnfes com muy tos fabujos , ÔC outros petrechos 
de caça. 

37 _ . 

COrre rayvofas^ freme ^com bramidos'^ 
Os montes fete irmãos atroaió' abala j 
Ta/Joanne^com outros efcolhtdos 
^os f eus ^correndo acode àprimeyra ala: 
'O fortes companheyrcsjó/ubídos 
Cavalefrosta quem nenhum fe iguala^ 
^Defendeyvojjas terras ^que a e/per anca 
^a liberdade eflanavofja lafjça, 

Oi montei finte irmãos. Na Mauritânia, que atrás 
cbamey MaíTilia , eftâô fetc montes , dos quaes 
Porrponio Mella diz : Ex kis tamtn, tjua commemo- 
rare non píget^mentes funt altit^ut continentur, é^ t^uaft 
tit ifidiijirta in ordtnem expofiti , olf nttmerum feptcm , ob 
fif/itlnudinemfratres vocantur. Não he para paliar, 
quebanefta Mauritânia huns montes altos : os 
quaes poftos hum após outro , òí em tal ordem, 
como de induílria , pelo numero Te chamaó lette, 
èi pela íemelhança irmãos. 

VEdefme aqui Rey voffofS companhfyrOt 
^e entre as laças i&fet as i\è os arnefes 
^os Inimigos corro j& vou primeyro^ 
^elfjay verdadeyros Tortuguefèsi 
Ifto dijfe o magnantmo guerreyro^ 
Efopefando a lança quatro vezes j 
Com força itra^à- defíeumco tiroy 
Mujtos ímçdrãQ o ultimo fujplro^ 



1"\ Orque eis os feus acefos novamente 
T>ehúa nobre vtYgonha%& honrofo ff>g6\ 
^obre qual mais com animo valente 
perigos vencerá do Mar cio jogo ^ 
^orjião tinge o ferro o fogo ardente, 
Hompem malhas primeyro,& peytos Ugo^ 
jljfi recebem junto ^& dão feridas. 
Como a quemjà não doe perder as vidas ^ 

Mareie jogo, He a guerra , aífim íhc chamaõ oi 
VociâSyluduí iW<jrí/«í:jogodc Marte. 

Fogo ardente. He o que acima chamou fogo hon* 
Tofo, que he huma ira, & fúria tomada, por íe ver 
abatida huraa peílba , & perder a opiniaõ que ti- 
nha. Diz que cftelogo rompe malhas, porque eíta 
cólera aguça as navalhas, ôc faz que o ferro ufe de 
leu officio. E os que pocm fangue ardente, danaó 
a intenção do Pcsta : porque aqui le aponta fó« 
mente a fúria do principio da batalha. **- j^^ 

Imge aferro. Àquella cólera vay na pont3 ÚM 
lança, 2c a encaminha para feu eíFey to. 

A ^uy tos mandão vero Efligiolago^, 
em cujo<orpo a morte ^&o ferro entrava] 
O Mejire morre alli de Sanãtago^ 
^efortiffiynamentepflejava: 
Morre tamhem fazendo grande eflragê 
Outro Mejire cruel de Calatrava^ 
Os Tereyras também arrenegados 
Morrem^ arrenega ndo o Ceo^à' os Fades ^ 

A ntuytoi mandão ver o Efygio lago. Os A ntiguò* 
tinhaó por coula certa , & lem duvida hir todas as 
almas ao inferno , aonde tingiaó hum Rey aquç 
chamavaó Plutão , com o qual diziaó, que raora- 
vaõem perpetua efcuridade. Pintavaò acíle Pm* 
taô nuiyto trifte , ÔC medonho , fentado em huma 
cadcyra de enxofre, com hum íceptronamáodi* 
reytajSc com huma alma na eíquerda,muytoaperja| 
rada , & com o caó Cerbero debayxo dos pès , §C"' 
quatro rios,l.etho,Cocyto,Phlegctonte,&: Ache- 
rontc , que lahiaó debayxo da cadeyra, ao longo 
deites rios a lagoa Eftygia , com outras mil fabu- 
las que os Poetas pocm , & íe podem ver em Albe* 
rico. Daqui diz o nollb Camões. A muytos man- 
dão ver o Eftygio lago, que quer dizer , a muy cos 
mataó,termo Poético, & galante. ComotamDem 
na oytava íeguinte para dizer que morrerão muy- 
tos, diz, queforaó mandados ao profundo, aonde 
cílá o caõ Cerbero porteyro do Inferno. 
- Oi Pertyras íamhtm arrenegados, lílo diz por dous 
irmãos de Dom Nuno Alvarez Pcieyra , q fclan^ 
çàraó da parte de Çaílella : pelo ^ o Poeta lhe cha- 
|ga arrenegados; f*?"/3 



Lufiadas de Luis de Camões Commentados. 

^Do peyto cobiçofofè pihvvdd: 
4 1 ^epor tomar o afheo^o mtferando 

MT)ytos também do vulgo vilfem nome ^^'"^ ^ i^entura âs penas do profundo, 
Vaê/jr também dos nobres aoprofãdot ^JfAlt^ ífl^l' mãysdantasefpofas^ 



nr 



Vnde o Trtfauce Caõ perpetua fome 
Tem das aímastquepajfaô de(Íe mundo: 
E porque mais aqui/e amance^& dome 
Jfoberba do tmigo furibundo, 
j/ublime bandeyrd Qajielhana^ 
foy derribada aos pes aa Lufitana, 



Semjilhosjem mandos áefdttojas^ 



45 

O Vencedor Joanne efteve os dias 
Cofiumadõs no campo, em gr ande gíoria^ 
Comojfertas de pois ^t^ romanas 
As graças deu a quem Lhe deu vittôria: 
Mas NunOjque não quer por outras vias 
Entre as gentes àeyxar de fi memoria 



Onde a Trtfauce caõ, Câõ trifauce,quer dÍ2cr,câa 
de três gargantas , qual pintaó os Poetas o Cer- 
bero, que guardava© Inferno. ,^ 

A lokrha, (lo inimigo furibundo. ?í foberba dos Caí- àenãopór armas fempre Joberanas^ 
\ telhanos , os quacb fiziaó muyto pouco cafo dos ^i^ ara as terras fepaJjaTranJlaganas^ 
poríUguezes,por lerem muyto menos, 

Oi diai cóflumadQS no campo. O que Te cofluma 
wBt Al, entre gente de gucn a havida alguma vittoria, hs 

I^P^ /-»•/• / // /• citar no campo do inimip,o alguns dias recolhen- 

IRBi ^^^ ^'^^^ ^^^V^^^-f^ ^«fr»^f<^ do os dcfpojos, que ficáràó , & dando graças pd i 

'^fx Com mortes i^ritosjanguei&cuti/adas, vittoria, que alcançarão , ík: moílrando que ai i 

eilaó para tudo, o que a fortuna determinar , ôc 
cuenaõ Cem medo algum do inimigo > cites diai 
coftumados fohiaô ler antiguamenté três » hije 
nrais , òu mtnos , confòrnie a dcrpofíçaõ do Capi- 
taó,S< preíaque leacha. Eíta batalha que teve LU 
Rey Dom Joaóo primeyrode BoanK-moria , foy 
entre porro de Mós , & huma Aldca chamada AU 
gibarrota , em hum campo muy chaõ, no qual lu* 
gar em muyto pouco elpaçoforaó C5>Caíkihinos 
vencidos dos Portuguczcs , mortos n,uyt js , 
ôcmuyroscattivos. 

Para as turras fe fajja Tran^aganas. AlcançaJi 
cfta táo grande vittoria le recoihco Ll-Kty a 
Santarem,aonde achou amda muyios Caltelhano^^ 
aosquacsfavoreceo, ôc mandou para lua terra li- 
vremente. Depois que dcfcançou alguns dias, nos 
quaes trouxe à fua obediência alguns lugrcs,.jue 
eltavaõ por El-Rey de Caíiella, foy em rom^iru a 
Norta Senhtra daOliveyraem Guimarães , 45, 
léguas de Santarém. Pai tio El-Rey a cita roman.í, 
que tinha promcttido* Dom Nuno Aharcz Ic 
partio para as partes do Alentejo , para entrar por 
Laítelta, para o que mandou dai rebate a todos os 
fronreyros para fe aperceberem contra clle. Pal- 
fou por Elvas, & Badajoz, & chegou a Vul verde, 
aonde os Caítelhanos cítavaó c<pcrando , & os 
Lhedânaoph , mas a fat á fugida. AíTim diíle vcnceo com muyu honra doS Portuguczts , co- 
Virgilio, Pedihus timor addidít alai.O medo lhe poz nio contâo as Chronicas. 



41 

^ã a fera batalha fe encruece 
Com mortes ^gritos Jangue^ & cutiladas, 
A multiàaõ dagente jque perece 
Temas flores da própria cor mu da ias: 
Jã as cofias daô,& as vidas'. jd falece 
O furor yè fobcjaÕ as lançadas ^ 
yà de Ca fie lia o Rey desbaratado 
Se vè^& defeupropoftto mudadd^ 

Tem asfioret da própria cor tnudadíií, Eftaõ ama- 
relos , &: perdida a própria , & natural cor de (eus 
ro(tos,por 1 he faltar a almi que lha dava. Outros 
entendem e íte paíTo pelas dores do campo cuber- 
tas do langue dos mortos. 

43 

O Campo vay deyxandoao vencedor ^^^ 
Contente de Lhe naÔ deixar a vtãa, 
leguem no os que ficarão j& o temor 
Lhe da não pês^mas azas àfugÍ4a\ 
Encobrem no profundo peyto a dor 
^T>a morte jda fazenda defpenaidaj 
^a magoa^da deshonrajfy trijle nojo^ 
T^e ver outrem triunfar defeu defpojol 



aias nos pés. E daqui chamaó os Latinos ás côuías 
Jigeyras timidas , porque o medo dá ligeyreza aos 
que fogem. 

^ ^ 44 

AL^ús vão maldizendo, & blasfemando 
^D o primeyro/jue guerra fez no mundo y 
Outros a fede dura vão culpando 



4^ 

AJudaofeu deflino de maneyral 
^ue fez Igualo rffeyto ao penf amento] 
^Por que aterrados Vandaloi fronteyra^ 
Lhe concede o defpojo^^ o vencimento-, 

74 



ihl Canto 

§á de Sevilha 4 Èethicàhandiyrà^ 
E de vanosfenhores num momento 
ò e lhe áirrtba aospêsJt;m te r deftfa. 
Obrigados an for f a 'Fortugueja, 

Porque a 4trra dos Vandaloi front€yra. Terra dos 
VandaJoshe Andaluzia , como atrás fica dito no 
canto tcrceyro oytavaíSo. 

Betbtoa btndeyra, A bandeyra de Sevilha , por 
que,' o no Guadalqmbir^ chamado Bethis paíla 
por cila. 

47 

DÈpas^é' outras vit tonas longamente 
ErAÕ os Lapelhams oppnmtdost 
^ando a pA-z de/cjadajd da gente y 
\Oeraõ os vencedores aos vencidos: 
'Depois que quiz o Tadre omnipotente 
'Dar os ikeys inimigos por maridos, 
Âs duas illu fíriffim^ s Ingltz^as , 
Cernis jfermojas jinclttas princezas^ 

Ai^ duas] ilhjlrtjjimas Ingletati Dom Joaõ de 
Alencaílre filho d^EURey Dom Duarre,o quar- 
to de Inglaterra , teve da Duquera íua moiher 
duas filhas , Dona Ifabel , que foy calada com 
Wonfíeur Joaó Conde de Jelanda , & Dona Fhe- 
lippa , que calou com El-Rey Dom Joaõ o pri- 
iTieyro de boa memoria , de que himcs trattando. 
Depois da morte da Duqueza Tua moiher cafou 
com humafenhora chamada Dona Conftança, fi- 
Jhad'El-Rey Dom Fedro de Caflella , à qual o 
Reyno pertencia por morte d^iil-Rey : pelo que 
o Doque,fal]eciJo El-Rey Dom Pedrotcom aju- 
da d^El-Rey Dom Joaõ de Portugal , fez muyta 
guerra a Caltclla , tomou muytos lugares , & lhe 
fez muytos danos , atè que houve concertos , os 
quâesforaó,que El-Rey calafle leu filha o Prin- 
cipe Dom Henrique hcrdeyro de Caífella com 
Dona Catherina , filha do Duque , 6c de Dona 
Conllança, Feytos elles concertos com algumas 
condições ,,que as Chronicas trattáo , ccílaraõ as 
guerras. 

NÂÕfofre o ^eyto forte ufado à guerra, 
NaÕ ter imtge jà a quem faça dano^ 
E affi naô tendo ^a quem vencer na íerra,^ 
Vay cometer as ondas do Occeano'. 
Ejte he oprimeyro Rey^que fè deflerra 
^Dafatrta^por fazer ^que o Africano^ 
Conheça pelas armas ^quando excede 
jl Ity de Çhrijlo à ley de Mafamede. 

Vay cometer as ondas do OíM»tf,Dcpois que ccíla- 
raô as guerras de Caftella , não podendo El-Rey 
cftar otiolb , determinou paflar em Africa contra 
S^ M.~~^^l !Í? í^?'" ^^^> *^' quaes tomou acjuella 



^àrfol 

tão excellente ; & itrporjante Cidade de CeutaJ 
chavcdetodaHerpanha,huma veiperadcNolk 
Scnnorade Agoílodci4i4. Oulcgundo ouuos 
querem a vmte 6c húdouitomczdoannodc 1415. 
que hc o níais certo. 

45> 

Eh mil nadantes aves peio argento 
Dafuriofa Thetts inquieta, 
abrindo as pandas azas vaó ao vtnto^ 
^ara onde /ikidtspoz a extrema meia: 
O r/i otite Àbylaj/ò" o nobre fundamento 
De Ceyta toma^ÍÍ> o torpe Mahometa^ 
Deytajóra^ &Jegura toda E/panha^ 
\lJa 'Juliana ma^^ áejíeai manha, 

, Eis mil naãantís aves feio argento» Uia nefta oy- 
lava de algumas palavras meiaphoricas , como he 
chamar as nãos aves 1 6í as aguas argento por le- 
rem brancas , conioa prata , a que os L,aiinoscha- 
nyàoargentuw.E. às vellaidas naos alas paudas,alks 
largas,6c cllendidas. 

Da furto fa Ihettt» Thctis he Deofa do marjfe tt* 
ma aqm pelo meln)o mar. 

Paraênde ^Ictdtipoz a extrema wpfa. Alcides cha- 
mão i s Pocias áJHcrculcsde leu avo Alceo» £x- 
trema meta. A derradeyra columna, a qual poz em 
Ceuta , para o qual lugar os Portuguezcs encami- 
nharão lua armada. Das cciumPias de Herculcí 
íe vcjaa roUaannoiaçaó canto j.oytava 18. 

Da luUana rf.â,& 4ejleal manha» t.omo Ceuta hl 
fronieyia oc Helpawha faziáo dalli os M«ufod( 
granoes danes ntlla , os quaes ccllârdó depois que 
El-Rcy Dom Joaólhaiomou. Dizqueficou le* 
gu rada manha mà, Sc desleal , porque por Ceuta 
mtieo os Mouros em Helpanha, aquelle mao , 6C 
desleal Hclpanhol oConde Dom Juliaõ , que foy 
caula de le j crderem as Helpanhas em tempo 
d'E]-Rey DoH) Rodngo ultimo dosGodus,co2 
mo diíiemos atrás no canto tercey ro. 

N^Õ confentio a mor te tafJtos annofi 
^le deHtroetão ditofofe logralfe 
V^or tu galernas os coros jcberanos 
Do teofupremo quiz quepovoajjei 
Mas para defenfub dos Lufitáfios, 
Deyxou quem o íe^ou^quem govtrnaffe^ 
B aumentajje a tetra mais que d^antes^ 
Inc/itageraçaõjaltos Infantes. 

tíeroetaõâitofo. Hcroe he palavra Grcga,íigní* 
fira Icnhor excellente. Chámaó heroes aquelle* 
que ainda que viváo nas terras, merecem por luas 
partes eftar nos Ccos. ^^ 

Mas 01 coros feheranôs do Ceo fupremo, Fallecr» ■■ 
cftctclicifliíBo key cm Lisboa vtípcrade Nor» 
- ^ '^ Sc- 



Lufiadas âe Ltih âe 
Senhora de A^oílo , de mil quatrocentos & trinta 
&tr€sannos, &he para notar , que venceoalil- 
Rey dcCaítella vefpcra de Noíla Senhora da Al- 
íumpçáoaquatorzc de Agotto , Ôcemodtfo tal 
dia tomou Ceuta aos Mouros, 8c em outro tal fal- 
Jeceo, que parece a glonola, Virgem deq«emelle 
I era mayco devoto haver permitcido, 6c querido 
lhe íuccedeílem citas coulas em hum leu taó fma- 
iadojôc gloriofo dia. E affirma-íe que no dia de lua 
iiiorce foy o Sol eccly piado» 

Alto\ tnfantet. Porque teve quatro filhos legí- 
timos, Dom Duarte, Dom Henrique^ Domjoaó, 
Dom Fernando , Sc Dom Pedro Aftonfo baftar- 

51 

NAõfoy do Rey Duarte taÕ ditofb 
O t empo ^que ficou najummaalteza^ 
^e affivay alternando o tempo ircfit 
O bem CO o mal o gofio co a tVífleza: 
^em viojempre hum e fiado deleytofò? 
Ou quem vio em fortuna haver firmeza^ 
^ois inda nefie Reyno,& nefie Rey^ 
' ^aÕ ufiou ella tanto de fia ley. 



w 



Nííp [oy do Rey Duarte tão ditêjoo tempo. Depoiâ 
da morte d^El-Rey Dom Joaó foy levantado 
por Rey feu filho mayor o Infante Dom Duarte, 

jquefoy opnmeyrodclte nome , 6c undécimo dos 
.ReysdcPortugal.em Lisboa , aos quinze dias de 

lAgofto, de mil quatrocentos trinta & três , 6c fen- 
do de idade de quarenta 6c dous annos , reynou 
cinco lomente, os quaes, como diz o Poeta, f oraõ 
aguados com muytos trabalhos, 6cdergoílos,por- 
que neíle R.ey no houve grande peíle , de que di- 
2em El-Rey talleceo emThomar a nove deSe- 
tembp,de mil quatrocentos 6c tnnta6coyto.^ 

V lo fer cativo o fanto Irmão Fernando^ 
^e a tão altas empreías afpiravuy 
^lepor faluar opovomifierando. 
Cercado ao Sarraceno fe entregava'. 
Só por amor da 'Pátria efià p afiando 
yi' vida de fenhora feyta efcra va, 
^w não/e dar por elle a forte Ceiíta^ 
Mais o publico hemique o feu rejpeyta, 

Vhftrcattivo o fanto irmão Fernandoi Alem dos 
trabalhos do Keyno , de que falíamos atrás, lobrc- 
•veyo^utro mayor, quefoy o defeílrado Tuceflo 
lio cerco de Tãngere , o qual os Infantes Dom 
Fernando, 6c Dom Henrique quiferaó fazer a pe- 
lar de todo Portugnl.E aflim lhe luccedeo de nm- 
doqueo infame Dom Fernando ficou em Africa, 
porque retirados da Cidade de Tangere , qucti- 
•nhaó cercada , foray dles cctc.idos pelos M^ures. 



Camões Comnentados] 1 2 9 

E vendo o Infante Dorn Fernando o perigo cm 
queeftavâo,6cquenáo erapoílivc! efcapar,iedca 
elle em reféns, com condição de lhe dar Ceuta , 6c 
todos os Mouros que houvefie cattivos em Por- 
tugal , o quenáo pareccobem a Porcu^^al , nem o 
Intanre o confentio , antes foy de contrario pare- 
cer, porque quiz antes morrer cm hum tão vil, & 
bayxo eitado de cattivo , que darle Ceuta aos 
Mouros , por ler a chave , 6c íegurança de Helpa- 
nha. 

Si 

CÒdrOjporque o inimigo não vence ffe^ 
T)eyxou antes vencer da morte a Vídaj 
Regulo porque a 'Pátria não perdeffe^ 
^uiz antes a Ubadade ver perdida: 
Elie ^porque fe Efpanha não temefie^ 
A catíveyro eterno fe convidai 
"Cedro inemCurcio^ouvidoporef^antOi 
JMem os 'Deãos leaesfi^erào tanto. 

Cedro forque o inimigo não vémtjje. Trás alguns 
exemplos de antigos , que por falvar luas patriaS 
pei tkraó ás vidas. Codro Rey dos Atheníeníes cnt 
kuma guerra, que tinha com os Lacedemoniosi 
labendodos oráculos , queaquelle exercito havia 
de vencer, cujo rey niorrelle na batalha, fe veítia 
em trajo de particular , 6c delta maneyra metido 
entre os inimigos o matâraó , 6c aílim com fua 
morte ficou o leu exercito vencedor. Marco Atti- 
lio Regulo Coniul Romano venceo muytasve* 
zesosCarthagineníes , vcyo depois a ler vencido 
delies , 6c eílando em Cai thago cattivo, foy man- 
dado a Roma fobreque fe déllem os cattivos Car- 
thaginenfes por elle. O qual foy de parecer que a 
tal troca lenáo fizeíle , pelo que tornado á Car^ 
thago,foy cruchuente morto. 

i^orijue a patuá nã^ptrdejje. Porque Roma não 
fícaílecom quebra , porque elle era velho , 6c os 
Carrhaginenfes cativos mancebos , 6c que lerviâo 
para a guerra. 

Nem Curcio ouvido per efpanto, Eicrcve Titolí- 
vio na primeyra DecaJa , que âo tempo que oá 
Romanos tinhaó guerra com ofHcrnicos , appa- 
rcccc lubitamcnteiia praça de Roma huma muy- 
to grande abertura , a qual os Romanos nunca 
poderão ferrai jantes quanto eilcs mais o procurá- 
vaó, tanto ella mais íe abria-. Conlultado o Ora« 
cuío,rerpondeo,que aquella abertura queria den- 
tro em fi aquillo , com que Rou)a era mais pode» 
roía. E como neíle cafo variaílcm os Romanos, 6c 
nenhum íoubeflc dar no entendimento da repol- 
ta. Curcio os reptendéo mijyio aípcramente, noi 
tando-os de fraco juizo,6c dizciído que homens, 6c 
armas fiziaõa Republica Romana muy poderola, 
6c qucallim íe haviaó de tnitncier ns palavras do 
Olaculo; ptílo que le armou,6c porto a cavalio, íe 
lançou muyto alvoroçado dcnrro naqiiella aber- 
tuiaja qual Ici^o íc fcir&u.E defta maneyra ficáraq 



1^0 Canto ^ar to, 

©s Romanos deíafibrubrados doniedojquc tinhaò Gretia. Entre outras coufas nomeadas, que na vi- 
portiuina ráo grande novidade. daHercuiesíez, humaíoy matar hum dragaô, que 

I^ewoi Dícm Itaet fiíceraS tanto.í^oríiòáoustpíiyt as Helpcndas íilhas d"Ll-Rey Hcfpero tinhaó 
íilho,eíles le lacrifacáraô por lua pátria. Eílc ia- por guarda de hunra horta, aonde o fruy to das *r- 
w- - , .„..,..^^„, j <í, . _ vores era de ouro. Eíla horta dizem foy na Berbé- 
ria , aonde El-Rcy Dom Affonlo tomou trcs lu- 
gares aos Mouros, Alcaccre, Arzilla , & Tangcre: 
ArziUa, Ôc Tangcre «m 24, de Agoílo de mil qua- 
trocentos tií Icienta^: hum , Alcaccre íeguerem 
dezoytode Outubro de quatrocentos cincoenia 
5c oyto. 

JSIafronti a palma luva^ é^ o vtrde hur». Pop fíftc^ 
termos moítr a , como El-Rey Dom Aífo«loan- 



•crificio le taziatm tempo de grande aperto»&: tra- 
balho , & era deíla mancyra : o que le havia de la- 
xrvíicar Tc armava , Si poítoa cavallo dizia certas 
palavras , & tazia certas cerimonias , 2c acabado 
lílo fc metia pelejando valeroliílimamcnce entre 
os inimigos , Ôí dcfta mancyra acabava. Eftaera 
entre os Romanos a roais honrada morte, que le 
podia haver , & aos que morriaõ deíla maneyra 
íe faziáo todas as honras , ôceráo tidos por bem- 
^■Gnturacios,Ôí: para delles haver perpetua mcmo- 
Tia íc iheiuvanuváo grandes eltatuas. 



dava vittoriolb nas partes de Africa. Porcjuc a 
palniasSíolouro laó iníignias de vittoria. 



54 

MJs Ajfonfo do Reyno mico herdeyro, 
t^Nome em armas dito {o tmnoJJaEjpe^ 
^te a/oherba do barhâYofronteyrOy na) 
7 ornou em hayxa» & bum í /Uma rnijeria: 
Fora por certo invíto cavaleyro^ 
^efiaó quizera tr ver a terra Ibéria^ 
jVlas /Ifrtcadtrà jcr impodivelj 
Woder nmguem vencer o Rey terrível, 

Maí A^cnÇo eh Reyno único herdejro. Depois da 
morte d-^El-Rey Dom Duarte foy levantado por 
Rey em Thomar leu filho Dom Altonlo o quin- 
ío deite mome, Sc duodécimo dos Kcys de Portu- 
gal.E por fer de íeis annos, íómente ao tempo que 
«[levantarão por Rey governou em leu. lug,ar o 
Intaute Dom Pedro fcu tio. Fcy eíte Rey muyto 
beniafojtunado , como faião os n aisdo melmo 
name , pelo que ihc charaa o Poet.-í^noiíie err> ai> 
mas ditolo em noíla Heíperia. Helperia he Hel- 
panha. Vejaíca noílaannwaçâo nolcgundocan- 
io.oytava 10. \ 

Se não ^tfira ir ver\a terra. Iberia.Tcrrz Ibéria he 
o Reyno de Aragaó, chamado afiim do Rio Ibero, 
que vulgarmente k chama Hebro > queorcga. 
'ionu-lc por roda Htl} anha» 

EStepôde colher as maças de ouro ^ 
^e fomente o Thjrinthlo colher ^odeí 
S^ojugo que ellepoz ao bravo Mouro ^ 
A ceri^tz inda agora naÕ facódr. 
Na fronte a palma levafà' o verde louro 
*I)as vit tonas do barbar o^que acode 
A defender Alcácer, forte Vi lia, 
latjgerpopulofa,& o dura Arzilla, 

Efli^^fodt cslher as maçit d^our»,efue fomenU o Thf- 
rititto colher pode. Thyiintio chamaó os Poetas a 
Hércules por razáo dcfThyrmtia l.na pátria cm 



POrêm e lias em fim por força entradail 
Os muros abayxãraõde diamante^ 
As Vçrtuguezas forças coflumadar^ 
A derrubarem quanto ac hão diante. 
Maravilhas em armas ejiremadas% 
E de efcrttura dignas elegante y 
Fízêraò cavalelyros nefa. emprefa^ 
Mais ajfnando ajá^mu^ortuguezA, 

0$ muros ahayxàrao de diamantt. Muros de dia^jj 
n^antelaó muros fortes,qual heodiamantc,tcrniO'. 
et fallar, de que os Poetas ufaó para cncarecimen-^ • 
to de coula muyto dura, Veja-le anoíla aiinoca»..] 
çáo no legundo canto, oytava^4. i\ 



57 

POrém de spois ^tocado de amhiçãú, 
E gloria de mandar amara.y& bella'^ 
Vay cometer Fernando de Ar agrão^ 
Sobre o potente Reyno de Cajtella: 
Ajuntafe a mimiga multidão 
^ãs Joberbas ^ét varias gentes de Uai 
^Defde Cadtz, ao alta TirineQ^ 
^e tudo ao Rey Fernando obedeceo. 



i 



l^ay eowtur ternênÀo de Aragão. Para fe iílo c íl- 
tender, henecefiario eicrcver mais algumas )fe- 
gras , ainda que fcja contra a brevidade prom ct- 
tida.EURey Dom Henrique o quarto defte no- 
me de Caílellafoy calado primcyra vez com hu- 
ma Dona Branca , filha d^EURey Dom Jonô de 
Navarra fcu tio:da qual Senhora, havendo já trc ^ 
ánnosqueeraó cafados , ie apartou por aiuhori»; 
dadc do Papa Nicolao Quinto , per ler tida por 
cíienl,&: logo Ic calou com a Infante Doua Joan^ 
naíiiha do Infante Dom Duarte de Porr.ugal ,ôC 
iamá deíf c Rey Dom AíFonfo.de que himos trac* 
tando. Houve defta Senhora huií^a fir/ia, a quem 
foypoílo omcímciioaicdeluaí/iúy -, a qual lhe 

iiace 



I 



1 



íiufitdas dè Luh de Cat^oes Commentad^s^ 



íi*ceohavetiJo já cinco annos que eraó cafados. 
E porque havia praguentos, qucfillávaó netèc 
calo coMtra a honra Cl^£l-Key Docn Henrique, 
diieaJo queaquella Senhora não era lua falna.si- 
lefcii corceá,:^ pírance codjs os Senhores do i<cy- 
110 declarou ler a Infante Dona Joanna lua Hifta 
Jegiaai4,herdeyra,Sc lucceflbrados Icus Reynos. 
li por tal a fci logo iarar:ik:airiin o tornou â rati» 
íicar v^o leu teltameato. Morto tLl-Rey Dom 
Henrique, Dom Fernando Hlho d^iil.Rcy Dom 



»^t 



Deita arte foy vencido Oãdviáu». Compara o luci 
cellb delta i^ucrra ao de Uctaviano,Ôí Marco An-, 
tonio contra os matadores de Julio Gelar , quuii- 
dn pelejando nos campos Phihpicos foy Uctavii 
no vencido, ficando Marco António de fua partt 
vencedor, como conta Appiano, aonde elcicvc a. 
Cidade l-* hl li ppos , em cujascampos foy aqucUa 
batalha cncre Celar.ÔC Pompeyotáo celebrada en« 
tre os l?.Jcnttores,6c cita entre Octaviano,ík: Már- 
cio Antoiíio contra Bruto,Callio, Òc outros cons. 



]<i»aó de Aragaó íc cafou com Dona llabel tia da jurados. Donde diz Virgílio nas Gcorgicas hv.u 
Infante Dona Joanna ir.ná de leu pay , ôctoaiou , 

pcrtVe do Reyno , dizendo que Dona Joanna não Ergo inter fefe parihus concurrerc telit 

«ra legitima , o que foy caula de muy tas guerias, RumatMi aetti ittrnm vidert Pbtltpfu 
& enfada -nentos entre o nolib Rey Doa\ Agonio, * 

& Dom Fernando de Aragáo,como o noffoPoeu Trattando da batalha » que houv^e entre Ofta- 

«qui aponta. ^ viano,Sc osquematàraó aJuHoCelarrAÍIim quea 

De/de Cadiz,' ate à alto Perintt, Neílas palavras Cidade dePhilippos vio outra vez os exerci toWo- 

comprehende o Poeta as partes aonde vieraó e.n manos encontrarle comas mcímas armas > £c diz 



ajuda d^El-Rey Doai Fernando , que laó as ter- 
ras rodas de Hefpanha poifas entre eílcs dous cer- 
minosiaCidadc de Cadiz no eíèrey to de Gibalc4r> 
6c os montes Pcnneos , que a dividem de Franja. 

N/ío quiz ficar nos keynos ociofò 
O mancebo Joanne,^ logo ordena 
*Í)e tr ajudar opay ambtciofh^ 
^le então ihefuy ajuda^não peífuenai 
Hahto/e em fim do trance per tgofi) 
Comjronte não tmbada^mas ferena^ 
'DesOar atado opay {angumo tento ^ 
Mas ficou duviâo/o o vencimento. 



outra vei , pelo que antes tinha iucccdido ciure 
Ccíar,vk l^ompcyo. 

POrèm defpois que a *fcura noyte eterna^ 
Affonfo apojentou no Ceo/èreno, 
O 'Frtncepe^que o Reyno então governa ^ 
Foy J oanne J egundoy^ Rey trezeno: 
Ejte por haver famafempttetna. 
Mais dt que tentar pôde homem terreno ^ 
Ttiíttu que foy bu/car da roxa Aurora 
Os términos, que eu vou bu/c ando agora. 



Forem defpoit <júe à efcura hoyte eterna. Por fale- 
cimento d^lil-Rcy Dom AíFonfo foy levantado 
por Rey Dom Joaó leu filho herdeyro Geltcs 

n— „-t !-..««* n P-.-rt^.v- TS t - rii . Reynos, lesundo deílc nome ) decimo tercevro 
O mancebo hanne. vj rnncipc Dom Toaõfi hò 4 ij P, j j j j j ..• .. «, r 

d^EI.Rcy Dom Affonfo. o qual acompínhou fcu "^'a l'?^: a r '""°'- 

paynefta jornada ^ F o u í^ite dekjolodeacrecentar , 



DtiharatAdtopay. Porque em Craíto queymadó 
houve grande batalha entre Êl-Key Dom Afíon- 
fôde Portugal , & Dom Fernando de Aragaó na 
qiial eíles Reys foraó cada hum para fua parte, 6c 
íi Infante ficou no campo , como fe diz na oytava 
Vegvinte. Chama a li,l-Rey Dom AfFonfo ambi- 
cioCojSt fanguinolcnco , pela ambição de haver o 
Keyno , ôc por efte rcípey to haver tantas mortes. 

POrqueofi/ho/ublímey'^ /oberano, 
GenttLfíiftetantmofò cavalieyro. 
Nos contrários fazendo tmmenjo dano^ 
Todo hum dia ficou no campo hiteyro: 
*X)efla arte foy vencido O^aviano^ 
E António vencedor feu companhem^ 
isolando daquelles^^ue a Cefar matarão^ 
Nos Thtlí^tcifs cambos [e vtngàt ão^ 



)olo de acrecentar , & ennobrecer o leu 
Rey no , profeguio o delcobrimento da Conquifta 
de Gume , que icus anteceflorcs tinhaõ começa- 
do , parecendolhequé por cita via dcfcobriria as 
terras do Pi-eíte Joaó , de que tinha fama , & que 
tanto delcjava conhecer, para ver Ic por eíte meyo 
podia entrar na lndia,cujo defcobrimcnto pretcn- 
dia,como aqui diz o Poeta. 

Oi termtnoí da roxa surora. Os términos do Ori^ 
ente, como muytas vezes temos declarado. 

^ueeu vou bufcando a^flro.líliodizo Poeta, por4 
que o alvo a que cllc ncltc livro tira hc crattar da» 
coufas da Índia. 

6t 

M4fjdá fcis companheyroSyque pãjjarã9 
Efpanha^Frànça , Itália celebrada^ 
E la no iiluflre prirto/e embarcarão. 
Onde jâfoy ^fartenope enterrada: 
jSlapoles.onde os fados fe moftràrão^ 
Fazendo a varia gente Jobjugada^ 



fíjlii Canto Ç^ârto\ 

^Jfaraa ilhtflrarnõfimâe tantos annos^ que diz fe engrandecem com a morte de Pom^ 

CoíenhoYío de mclytos Htfpams. F'^)"^ Mag^-»- , ^^ 

"* VãaaMcmphu, Memphishehojeo Cayro. AI« 

Adsndafeui menfagejireiy^tK pajjdrao. Efte defcu- gunír querem que Mcmphis cílivelíc da outra ban- 

brimentode que au ás falíamos , continuou por da dono defronte do lugar aonde agora he o 

wandadod'^Ei-Rey Domjoaó hum Berthoiameu Cayro,^ que delia náo haja mais que o nome. O 

Dias, que fora Almoxaritedos Aluiazens de Lií- nollo Gamões quer que íèja Mcmphis o Cayro 

boa,o qual defcubrio aqueile grande,&í cipantofo por ler opinião com nmy to fundamento, 

cabo dos Antigos não conhecido , a que agora E «i terras tjueje regai das enchentei NUoticat un* 

chamamos de boa Efperança , & paíiou avante </<»/»>. As terras de ÍLgypto,que íe regaò com o cre- 



cimento do rio Nilo. Vqa-ie o qelcrevercmosno 
canto decimo. 

Sobem a Eãtiofia fobre Egypto. Efta he a terra dos 
Abexins, lu^cytosaoPrclteJoaó, ^Chriíláos, 
como aqui diz o Poeta, 

<í5 



<:ento ^ quarenta léguas , até o no do Infante, 
aonde fem outra nova, nem conhecimento le tor- 
nou para Portugal. Depois deterEl-lley man- 
dado eíle Berthoiameu Dias. por mar , mandou 
por terra hum Religiofo por nome Frey António 
de Lisboa, com hum leygoem fua companhia, os 
Quaes naõ pallàraõ de Hieruíalcm. Depois deites 
manifou dous criados feua Affonío de Pay va , & 
Ptdro de Covilhã,com os quacs linha côHança: o 
t^ue entende netfas palavras: Manda íeus menfa- _ 

gf yros. Os quaes dclpachou em Santarém a íettc '^^IJ^^^de I/maelcom 'o 'nomeormui 
deMavodo annodei487. Eltandoprcíente Ei- ^ ,, j í ç lé 
Rey Dom Manoel , que naquell. tempo ^ra Du- ^' ''J^^' odortferas Sabias, 
que de Beja. Embarcaraô-le dia de S.Joaó BaptiU 
ta do dito anno na Cidade de Nápoles , chamadn 
antiguamente Parthenope , como fica declarado 
no terceyro canto^oytava 19. 

Faz.endo a varias gintes fojugaãa. Iflo diz,porquc 
depois de Nápoles conhecer muytos Senhorcs.S: 
fer mandada àt muytos, veyo no fim a ler de Hel- 



P^ljãõ também as ondas Erythrêas, 
^e o povo de Ifraelfem naopaffon^ 
Fkaõlhe atraz as Jerras Nabathéas^ 



Mite a mãy do bello Adónis tanto honrou^ 
Cercão com toda Arábia defcuherta 
Felizi^ deyxando a Tetreai& a "De/erta, 



panhots, como trattàmos no Ifgtjr alk-gado. 

til 

PE lo' mar alto Siculo nave^ãoj 
Vãofe àspayas de Rhndes arenofas^ 
E dallt às Ytbeyras altas ibegao, 
^e CO a morte de Magno làof amo/as: 
p ao a Menphis^^ às terras ^quejí rega» 
^as enchentes Nilotlcas undo/as, 
iõbem a Ethioptafobre EgyptOi 
^e de Chrifto la guarda o Janto rito^ 

TeWmar alto Siculo n^avegao. Mar Siculo, mar de 
Sicilia, chamado aflim de Siculo Senhor delia. 

. Vao{e âi frayat de Rbodes anncfãi. Rhodes he hu- 
ma ilha do marCarpathio, que lerá cento & ti inta 
milhas de circuito, como dizPlinio. Foy aiTento 
dos Cavallcyros de S.Joaó. Hoje he pofluhida dos 
Turcos , porque Solymao Graó Turco a tomou 

no anno de mil quinhentos vinte 6c trcs , no mez 

de Dezembro , havendo féis mezes que a tinha 

cercada. Pelo que o Collegio dos Cavallcyros de 

S.Joaó rcfide hoje cm Malta , que o Emperador 

Carlos quinto lhe deu. 

E ddli «áj ribefraí altas thegao , ^ue co^ a mor' 

te de Magno faõ famòfat. E^ílâs faõ as Ribey- 

ras de Alexandria.em cuja praya foy morto Pom- 

pcyo, como trattâmcs no canto 3,oy taya 71. pelo ^e cau/a ainda fera de la)'ga htjloria^ 



LO 

1 



Vafjão também as Ondas Erythreas. Ondas Ery- 
threas faó as aguas do mar roxo , o qual le chama 
Erythreodonome de hum Rey, quegovernouBI 
aquellas partes. Da cor deíVe mar , ôc a razaó por-*' 
que as aguas parecem vermelhas, trattey no canto 
legundo , oytava 49. Por efte mar roxo paílbu 
povo de Ifrael a pè enxuto fugindo de Pharaó , 
qual com toda fua gente le afogou , como ie con- 
ta no Êxodo. Sobre efta paílagem dos filhos de 
Ifrael ie veja a nofla annotaçaó no canto decimo. 

Oí/orji/er^i.Ghcyroías.O que o Poeta quer moí- 
trar he , que eftes dous Portuguezes chegarão a 
hum lugar chamado Toro , que eftâ perto do 
monte Synai , no qual eftâ fepultado o Corpo da 
Bemaventurada Santa Catherina , & que Jhe fi- 
cava atrás a cofta de Arábia P etrea:a que elle cha- 
ma ferras Nabatheas^como diflemos no primeyro 
canto oytava 84. 

^m a mãj do bello Ad»ms tanto honrou. A mây do 
bello Adónis foy Myrrha , a qual como conta 
Ovidio nas Metamorphofcs foy convertida em 
arvore do leu nome,&: por aqui haver muy ta , Sc 
muyto encenfo,chama aefta terra odorifeia. 



I>4 

EI\ítaÕ no EJlreyto Terftco onde dtira^ 
T)a confufa Babel Jnda a memoria: 
Alli CO Tigre o Enfartes fe mtjturaj 
^ie as fontes onde nafcem tem for gloria: 
^Jalli^ão em demandai da agoapnray 



T)é 



Lufiaàas de Lms de 
ÍZ>£? Indo apelas mdasdoOcceano^ 
Offde na$ fe atreveo paSarTrajano, 

Entrão m ejirepa Pttficet tnds dttríi dã çanfafa B»* 
hl tnda a mimaria» Os Gcograpbos chamaó eílr ey, 
todaPcríia, aoquePlutarcbo na vida dcLicurT 
go chama mar de Bahylonia, que he a razaó por, 
que o Poeta diz que dura ainda a memoria , da 
tontufa Babel; porque le chama mar de Babylo» 
»ia. He huma enleada entre Períia » Hí ikra«- 
bia. Chamaólhe os Latinos Sinus Per/Ucus fre* 
tHt» Perficum, enleada da Períia , eítreyto Períico; 
por ler aqucUa terra, quccae da bmda de fiíiihin. 
l-'elas laboas vemos que ie chama hoje E,iiatiph, 6c 
Meltdim. Osnolios lhe chamaó cítreyto de Ba- 
fora* 

^llf CO Tjfgre o Eufrates fe mifluray ^ue ãifontei ««- 
denacem ttmfw ilorta. Eíiesdous nos Tygris, 8c 
Eufrates íacm do Parayío Terreal , como conlU 
do Gcncíis,&; o Poeta moílrajdizendo: que a fon- 
te donde nacemtem por gloria, que Icjaclaõ , & 
prdaõ do lugar donde procedem , que he o Pa- 
raylo terreal : os quaes andando por differentes 
partes le vem ajuntar neífe cítreyrode Boçarà, 
como diz aqui o Foeta. 

D*aUi vaò tm demanda da agua purayCfue catifa ain- 
da [erd de larga ht/lorta. Deite eífreyto diz o Poeta, 
que foraó bufcar a agua pura do no Indo , que 
atraveliaa lndia,o qual diz fera cauía da larga Hií- 
loria, pclodefcubninenco, & conquilta'dos Por- 
luguezes naquellas partes.A verdade he.que elles 
.dous homens foraó ao Cayro , & dahi a Toro em 
companhia de Mouros de TrcmeOcm, & Fez.que 
pafláraó a Adem, &; daqui por ler tempo de nave- 
gação le apartarão. Afto<ifo de Pay va leguio a via 
dcEthiopia, & Pedro de Covilhã da índia , do§ 
quaes nenhum tornou a effa terra: porque Affon* 
lo de Tay va morrea no Cayro, & Pedro de Covi- 
Ihá na Corte do Prelie. 

Ondefe nao atnvea paj/ar Irajana. Efte Empera- 
dor fugeytou todas as Cidades que eltaó aquém, 
í^cálcm dos rios Tygris,ÔcEufratcs,Ôc daqui nave- 
gando pelo mar Períico fahio ao Oceano conquif- 
.jando até a Índia , mas não entrou ne!Ia, como ef- 
creveraos nocanco i.oytava 3. 

Vlraõ gentes íncôgntias, ^ éfíranhas, 
'Dalndta.de Carmania.iêQedrofiay 
Vendo vários a>ji ume sovarias manhas, 
^ue cada Regiae produzia' cria: 
Mas de vias t ao a fp eras ^t amanhas^ 
Tornar (e facilmente naõpodta^ 
Lã morrerão em fim, ^ lâ ficar aõ 
í^ie ã defejada pátria md tornarão. 

^ViraÕgfntes incognitai» Conta aqui o Poeta,co-no 
€Ílcs dous Portuguç2«s mandados por fit-K<y- 



C^m^s Cr,j77mentadõsl i^^ 

Dom Jçaô buicar ai terras do Prefte , 6c da índia, 
ucpois que vtraô m!4yÇí^5 tçrvíS , ^. ncllas grandes 
variedades, & differenças de gentes , & coltumes, 
icabàraô Itusdsas lem tornara Portugal. 

Da Inítioí^d» Carmanta^i^ Gedrofia. Por Índia en- 
tendem as Geographos propriamente a terra que 
jaz entre os dous illuíbes,^: celebrados rios Indo, 
& Ganges. Hi nelta regiaò muytas variedades de 
gemes, repartidas em differentes Reynos,^ Eífa- 
Uos , os quaes ainda que íejaó todos , ou idolatras 
Gentios , ou Mouros da leytade Maíamcde , tem 
entre li tanta variedade de ritos, & coltumes, que 
leria largo contalos. Carmania, 6c Gcdrolia laó 
partes da lndia,hojclcchamão ]Slaríingu,5c Cam- 
baya. 

CG 

I^y Arece^quc guardava o cUro Ceo 
. y^ Manoíijè Jeus merecimentos i 
Efta empreja tam ardua^que o moveo^ 
jí lubidoSi& illujires movimentosi 
Manoel ^que a Joanne fuccedeo 
No Reyn0i& nos altivos pen/àmentos: 
Logo como tomou do Reyno o cargo^ 
Tomou mais a conquijia do mar largo, 

"Parece ifut guardava o claro Ceo. Fallecido EK 
Rey Dom joaó íem hcrdeyro, fuccedeo no Rey- 
no Dom Danocl Duque de Beja ftu primo coia 
irmaó, ao qual por direy to pertencia , ScaíTimo 
deyxava declarado cm leu teítamento. Foy le- 
vantado por Rey em Alcaceredo lai , a vinte & 
lete de Outubro do anno de 1495. íendo de vinte 
& íeis annos, quatro mezes,& leis dias. li porque 
com eílcs Keynos herdava também o profegui- 
mentode tão alta emprefa, como ftusantecello- 
res tinhaó começado,que era o defcubrimento, Sc 
Conquiíla da índia , que El-Rey Dom Joaõ em 
feu tempo tanto dcfejou . nunca cuydava , nem 
prancavai em outra couía,comoo Poeta diznaoy- 
tava íeguirate, confultando muytas vezes com os 
Príncipes de (cu Reyno , dos quaes muytos craõ 
de contrario parecer. Mas como elle o deíejava 
muy to,&€ficcndia ler obrigação fua, determinou 
poia eui execução. Para o qual mandou Vulco 
da Gama por Capitão mpr de huma armada de 
quatro velas o qual partio de Lisboa hum Sab- 
bado oyto de Julho do anno de mil quatrocciuos 
noventa 8c íete. 

O^ua/,romndo nohepeníamento 
*Daquella obrigação ^que lhe ficara 
'De [eus auttfajf^dòsjcujo intento 
Foy /empre acii/antar atarracara. 
Não deyxajjejde f.er hum/ó momento 
QonqHijfadQ^no tempo^queã Ihz> clara 

Fog^i 



Foge^ K as eprelías fí}íiííaSjquefaem% 
trepou/ò convidão ^quando caem, 

fio tempo ejue a luz, clara foge. Finge o Poeta que 
«ftando El-Key Dom Manoel em íua cama dor- 
ípindo , lhe apparecéraõ entre lonhos aquelles 
dous taó celebres,6c nomeados rios Ganges, Sc hi' 
do , avifandolhe mandafle logo pór em ordem o 
defcubrimcnto da Índia , da qual fcn» falta leria 
Senhor , ainda que fua Conquilta cuílaria muy to. 

£ <3j EjlrelUi nitidat (jut (aem a repou/o c«nvtdaô^ 
guando caem. Poreftas palavras dá a enttnder.q era 
alta noy te a imitação de Virgílio na Eneida hv.i i. 

í ! Etjam nox húmida CaU 

Traciptat ,(uadent<^m cétdtntia fydtra (òmnti. 

Quando Eneas t, pordargoftoa Raynhn Dido, 
ainda que contra o leu, determinou contarlhe,jà 
alta noy te, adeftruhiçáo de Troya, & já a húmida 
noyte,'diz Eneas, cae do Ceo,&:as Eílrellasquc 
caemobngaóa dormir, Schaíc de entender, quê 
era contra a n)adrugada , porque então o ar he 
mais humido,& as Elirellas parecem que le pocm» 
ráo íe pondo, nem caindo, mas chegando mais com 
leu curlo para a parte do Poente. Mas o mais certo 
lic,l{r*ifl;o no principio da noyte: como o Poeta o 
diz claramente. 

St ando jà deytado noaureo leytó. 
Onde tmigmações mats certas fag^ 
lievolvendo contino no conceyto^ 
1>ejeu offcio^têfangue a obrigação: 
Oi olhos ihe occupou ojono aceyto. 
Sem ihe de/ocufarocoração. 
Ter que tanto que /a/fo/è adormej/e^ 
Morfeoem var tas formas lhe ap^arecel 

Morfheo em varias fèrmai Ibt \âfareci» Morpheo, 
dizem os Poetas que be filho do fono > chamado 
aífim de uiorphi palavra Grega , que quer dizer 
figura, pelas muytas que faz aparecer aos que dor- 
inem>como diz Ovídio nas Metamorplioics liv*i i. 

A^ui/e lhe aprefenta^quefubU 
Tão alto ^que tocava a prima Esfera^ 
< ^onde diante vários mundos via. 
Nações de muyta gente eftranha&fí ra: 
E Id bem junto donde nafce o dia^ 
depois que os olhos longos eftendera^ 
Vio d* antigos^ longínquos ^ & altos montes 
Nafcerem duas claras j& altas fontes, 

A<^ui ft lhe aprefenta cjue fuhia, Parccialhe que 
chegava á primeyra elphera , que hç o pnmcyro 



Canto Suartol ' 

Ceo,aonde eftá a luâ,& que daqui dcfcubríagrârt- 
des mundos , & varias Nações de gentes , &: qud 
notadas cftas coufas vio nas partes do Oriente 
duas fontes muy to claras , em huns muyto gran*» 
dci,& defviados m( ntes , donde nalciáodous rios 
muyto grandes , Indo, & Ganges: os quaes ainda 
^ue arrebentem íobre a terra apaitado hum d» 
outro nos monccs,a que Ptolomeo chama Imao,Sc 
es Habiiadcnsdelies Daianquer ,& Nangracot, 
faó eítes montes tão pegados hum com outro,quc 
quaíi querem cfcondcras tontes deites deus no , 
íi Icgundo dizem os Gentios comarcãos , parece 
que ambos naccra de hum mefmo lugar. 

AFes agrejiesi feras alimárias j 
Telo monte Jelvatico habitavao' 
Mtl arvores fylvejlresy& hervas varias, 
Opaffo^^ o trato às gentes atalhavah 
Efias duras montanhas adverf árias ^ 
iJe mais convtrfaçaò porJimiJiravaSt 
'^e defque Adaõpeccou aos noffos annos^ 
NaÕ as romp èraõ nunca pés humanos* 

Aves agrefies, Deícrevc oíitiodeftes montcsj 8e 
a gente de que faó habitados , que laô Aves Syl- 
veílrcs, bellas feras , ík grandes matos, que eílor- 
vaó o tratto,& communicaçáo dos horacns neilas 
partes, os quaes cíláo de maneyra que defdequí 
pecou Adam até noíios tempos nào 1« enxcr^aj 
haver entrado homem nelles* 

DAs agoas fe lhe antolha^que fahiaÒ% 
Tara elle os largos paffos inclinando 
^ous homens, que muy velhos parecíão% 
'De aJpeytOjWda que agrefte^venerande; 
^J) as pontas dos cabellos lhe cahíaõ 
Gotas jque o corpo todo vaõ banhando, 
Acoràapelle bafai& denegrida^ 
A barba hirfuta^mtonfajmas comprida. 

Dai aguai fe lhe antolha ejue [ajfai. ProícgUc d 
poeta leu íingimeRto, dizendo, que fe lhe antolha 
a El-Rey Dom Manocl.qucdaquellas duas fohteS 
fayaó dous homens velhos , & de afpcfto vene- 
rando, ainda que pareciaô homens de campo, que 
craó os dous rios Indo , 8c Ganges, os quaes pinta 
squio PoetA maravilholamcnte. „ 

Rarba birjuía. Barba cr^fpa , intonfa , por to^ 
quiar. 



D 



72- 

B a mbos de dous afronte coroada ^ 
Ramos não conhecidos, <t hejvai tinba^ 

HurtAi 



ííiim âelles apre finca traz cançada^ 
Como quem de mais Longe alit caminha: 
jÇ affia agua com ímpeto alterada , 
^areaayque de outra^arte vinham 
Bem como Alfèo de Arcádia em Sy,ractifa 
Vay a kufcav as abraços de Ar et ufa. 



Lujiaâasâe Luís ãâ Carnes Commentados', 



Í35 



d§yi-a. Termo de faltar rmrytGiiifaíío entiteos La 
finos, os quaas-ao piincipio cliamáo berço ycoing 
he nocorio aos que tem quai-quer coahecimenco 
íief];a liagua,6c hca dito^no caiuo pi-nney ro. 



^T AÕdtjJe mais o rà^ilhftre/é fanto, 
\ Mas ambos defparecemnum momento^ 



Hum dtlki a prefertftt traz cânfada , como ejuem de 

wati longe alU caminha. D» por eílas palavras a en- Acorda Manoel co^ hum novo^e/pAnto^ 

tender o Poeta que o verdadeyro nafcimento do £ çrande alteração de pen/amento: 

rio Ganges hc no Parayfo Terreal, como fc dFz no Eftendeo m(h Thebo O cí^'o manto, 

Geneiís cap.r. ' - ' 



Bim como ãiphto. Andando Arethirfa corapà* 
nheyradc Diana pelos montes de Arcádia á caça 
caníadado trab;ilho,6c apertada da calma chegou 
«o rio Alphco da mefma Província , & larando-ía 
ncUcaflimícafíeyçoouaella , que não podendo 
Arcthufãrofrer fuás importunações , fugio para; 
Sicília , aonde íoy convertida em fonte de fcu no- 
me. Mas nem iftolhc valeo,porque Alphco Ic me- 
ico por debayxo da terra , & foy arrebentar na 
Cidad* de Syracu (a de Cicilia , aonde eílá a foncô 
Arethufa, 5c aflimamboscntrão no mar juntos. 
Com eíla fabula de Alpheo compara o Poeta o naf- 
cimento do Ganges, dando a entender , qucaiada 
que arrebenta íobrc a terr^ naqueJla partc/eu naí^ 
cimento, he cm outro mais remoto, 5c íecreco lu- 
gar. 

'TT* Ste^qtíe era o mm grave napeffoa\ 
xIj 'Delia arte para o Rey de longe bradai 
O tiha cujos ReynoSisi Coroa^ 
Grande parte do mundo e/f ã guardada: 
Nófoutr os , cuja fama tanto voa. 
Cuja cerviz bem nunca foy domada. 
Te avt/amos jque he tempo^quejà mandas 
A receber de nos tributos grandes, 

74 

ED fòuc illufire Ganges ^^ue na terra 
Celejte tenho o berço verdadeyro, 
Eftoutro he o Indo Rty^que nefia ferra 
^ue vésjeu nafcimento temprimeyrê: 
Cuftarteemos com tudo dura guerra. 
Mas infiftindo tu por derradeyroy 
Com naÕ vijtas vittorias fem receyo, 
A quantas gentes vèspords ofreyo» 



Telo efcnro EmisferioJomnokHtOi 
Veyo a manhã no Ce^ fintando as corp 
^a pudibunda rofa^à- roxas flores^ 

"E^endev nifio Thtbo ocUromant». Defcrcvertos 
aqui a manhã elegantiffimamentc. Phebo he o 
Sol, manco do Sol faó os léus rayos^coj» que dá 
luz ás terras. i«íi^ c 

Efenro Hemifpheriojomnoknto. He a noyte. Pe- 
los quacs termos moítiaque apareceo o Sol Ío- 
brc o hemirpberio , que pouco antes eílivcra oc- 
cupado com a noyte mây doíomno. 

Pttdihunda rofa, Rofa vermelha. E roxas florei, 
lílo diz porque a manh4 íem aquella cor rolada, 
& roxa , como cada dia venvos , antes de lahir o 
Sol na parte aonde elle cgmeça a naicer. 

7^ 

C"*1 }tamao Rey os fenhoves a confelho 
j E propoemlhe as -figuras da vifão 
As palavras lhe diz dofanto velho, 
§ue a todos forão grande admiração: 
^ètenninão onautico aparelhe , ^ 

^ara que comfublime coração 
Vá a gente^que raandartcortando ês mares ^ 
Abvfcar novos climas, novos ares. 

Determina» o náutico apartlho. Aparelho náutico»! 
íaóas couíasneceflarias para aparelhar as nãos. 

A buícar novos ctimat novos aret. Veja-fe a noílâ 
annotaçâo no canto primeyro,oytava a^. 

77 

ET) que bem mal cuydava, que em efeytê 
SejmzeJJe.o queopeyto mepedia^ 
^lefempre grandes coufas dejiegeyto^ 
'Prefa^o o coração me prometia: 



Eufou o iUuJlre Ganges , ijt4e na terra cdejit tenho » j^^^ f^ ^, poYqtie razaõ^porque refpeyto^ 

terço verdadeyro. Para .i^aís ,l¥^rço',r a lil.Rey 2ç ^ ^' [ bom final, que em mt fevia, 

opcrfuadiratoraarleucjnlelholhcdizcomofcu , t V ^ ./;./. ^l ^i^x mãn, ^rhni^^ 

primevro nafcimento hc no Parayfo Terreal , ôc Me põem o indito Rey nas mãos achave, 

que o In4o nacia naquellc monte, aonde ic ambos "J^^l^^ cometimento grãnde^C grave. 
Iheapreíentâraõ. 
_ Ber^o vtrdadijro. Principio, Sc oriecm vcrda* £;í o«eÍM« «wÍ.<;í(/<Íií/#. Saó palavras de VafcQ 



IJá 



€ànto '§^àYt'o\ 



da Gama , o qual tratta como EKRey o chamou 
paraeíledeícobnmento do Oriente, & o fez Ca- 
pitão mór deita enipreía. 

trejagu ( oração , ^«e nunca mente. Coração pre- 
jago,qucr dizer,coraçaó lribio,que adevinha. Vc- 
ja-íc anofla annouçáo no canto primeyro , oy- 
tavâ 83. 

78 

ECom YOgú^&palavrãi amorofast 
^4e he hu mando nosReys q mais obriga^ 
Me díjfe As coufas ar duas JS lujlrojasj 
Se alcançâo com trabalho,^ com fadiga: 
FazasfefjQas altas.^É famofas 
A vtda.cjHe feferdej!^ que periga, 
^le quando ao medo 'mfkme naõfe rende 
Hutaõifi menos dur armais Je e/tende. 

: Elegantiflimos verfos. Donde difle o Júris 
conlulto Pruci Regumlegefjmt. 

7^ 

E*U 'VOS tenho entre todos efcolhiâo 
Tara huma emprefa, qualà vôsfe deve. 
Trabalho illuftre^duro,^ ejclarecido^ 
O que eufejique por mt vos fera ieve: 
NaÔfofri maisjt/ias togOyO Reyjubido ^ 
jíventurarme a ferrosa fogosa neve^ 
He taõ pouco powós ^que mais me pena 
òer ejia vida coufà tão pequena, 

,8o 

IMagínay tam gr andes a venturas j 
^aes Èuri/leo a Alcides inventava, 
O Leaõ CleonèOjHarpias durai , 
V porco de Erimaníbo^a Tdrabrava 
*Decer em fim as fombras vans^é^efcuraSy 
Onde os campos de T>yte a Efttge lava, 
l^oxque a mayor perigosa mor afronta^ 
Tor vós ó Rey ,(? efpYíto^& carne he pronta. 

§luaet Eurifihto a Alcides inventava. Foy Euril- 
theo hum tyranno de Mycenas,o qual por ordem 
de Juno períeguia a Hercules , &: lhe inventava 
eS-rprefas arrilcadas , para que defta maneyra aca- 
baflc mais deprefla : por entender Ter eíla a vótade 
de Juno. O Poeca conta aqui algumas : oLiaó 
Cleoneo,as Harpias, o porco de l^.rymanto, a íer- 
pcnre Hydra, 6c a fua ida ao inferno. O Liaõ ma- 
tou Hercules na defefa Ncmeaenrre Argos , & 
Cormtho , junto a huma aldeã chamada Clcone, 
pelo que o Poeta lhe chama aqui Cleoneo. Har- 
pias eraõ aves de rapina com roflos demolhercs, 
das quaes Virgilio tratta na Eneida liv.5. filhas de 
ÍN\'ptuno>Sc da tcrra.Pelo que aíTm» no mar, como 



na terra faziáo grandes males.Eryraantho he hum 
monte em Arcádia, aonde Hercules matou hum 
porco, que delhuhia toda aquella terra, Ôc o le- 
vou âs coitas a Euriíthco. Hydra era huma lei- 
pencG na lagoa Lcrnea de muytas cabeças , das 
quacslclhe cortavão alguma , lhe nalciaô dobra- 
das. A ida de Hercules ao inferno foy por amor 
de Thcíeo leu amigo, que o tinha Plutão prelo. 

81 

C'^ Om mercê sfumptuofas me agradece ^ 
^ E com razão me louva efia vontade, 
^ue a virtudfi louvada vive^^ crece^ 
Ji, o louvor a altos cajòsperfuade: 
A acompanhar me logofe offerece^ 
Obrigado de amor jdè de amizade^ 
Naô menos cobiçofo de honra^^ fama^ 
Ò caro meu irmão Taulo da Gama, 

^ue  virtude huvada vive 1 é^ crece. Nenhuma 
«ouía faz mais crecer as boas artes que havei" 
quem asfav©reça,aonde dillc Ovidio: 

Excitai auditor fiudium^laudataejue virtut 
Crelctty^ tmmeníum gloria calcar halfet. 



Os ouvintes defpertâo os medres 
louvada crece. E Juvenal. 

Çltíii tnim virtuttm amfkãiíur ipfam 
Frantia fi íollas. 



Sc a virtude 



é 



Naó ha quem figua a virtude íefaltãoprcmíosj 

82. 

MJis fe me ajunta Nicola o Coelho] J 
T)e trabalhos muy grande fofre dor ^ ^ 
Ambos faò de valia ^^áe covfelho^ 
*X)e experietícia em armas y& furor: 
Jâ de manceba geme me aparelho^ 
Em quem crece o defejo de valor ^ 
Todos de grande esforfOy^ ajfi parece^ 
^ema tamanhas coufas fe offerece, 

85 

FOrão de Manoelr enumerados , 
Torque com mais amer fe apercebeffe) 
E com palavras altas animados ^ 
Tara quantos trabalhos fuccedeffemi 
AJffvrão CS Myntai ajuntados^ 
Tara que o veo dourado combate jfem 
Na fatídica nao^ que oufou primeyra 
Tentar o 7nar Enxmo aventureyra. 



Liij^aiàí âe Luh de CawÕeis Commmtaãosi t f/ 

^yj foraVòi Myniát. Mynias povos de Thefla- Argos,de que acras fallámos,em qae os Argonau- 
íia , aiue toráoaColchos àconquillado vello de tas foraó áquella aventura tão nomeada do vello 
ouro. L porque foráo em humanao chamada Ar- de ouro , toy pofta no Ceo coroada de eltrellas: 
gcs, a qual Ip diz que foy a primeyra,que no mun- porque íoy a primeyra do mundo, que fez aquefla 
do houve ^ daqui íe chamarão Argonautas mari- viagem tão celebrada. Diz aqui o Poeta que as 



noflas nãos Portuguezas,vendo.le no mar, & não> 
fe tendo em menos reputação , que a nao Argos,- 
eftão dando a entender deli , que haó de levar o 
melmo prçmio,que Argos levou* , 



nhevrosdanao Argos , &por eítanao Icrfeyca 
por induftria , 6c ordem de Palias , & a madcyra 
que íe fez cortada na defefa Nodonea , aonde le 
oaváo os Oráculos , daqui le chamou a nao fatí- 
dica , que quer diEcr dadora de Fados , & Ora». 
culos. Aonde os Poecasacrecentaõ,que a melnia 
nao hlhvãnpfacjiue vocem perMJít /irgo.Diz Séneca, 
amcfma nao perdeo afalla. E Claudiano: Tabulas 

4ímm*Ue U<faacet, fallando no trabalho , Sc diligen- 

ciu.que Palias poz no feytio daquella nao.diz que aparelhamos a almapara a m^rte. 



DEpois de aparelhados de fia fortéi 
T)e quanto tal viagem pede, & mandif 



as taboas fallavaó. 

Tentar o mar Euaino. Mar Euxino, he o que os 
Italianos hoje chamão, Mar magiore, aonde eftá a 
grande Cidade de CohftahtinOpla , cabeça que 
foy antiguamentedo Império Komano , Sc hoje 
de Turcos, pela quairazaô efte mar fechaaiamar 
deConftantmopla. 

84 

EJàno porto da ínclita Víyljea^ 
Lo' hum alvoroço nobreza- cum de (eJ9 
{Onde o licor mifiura a branca area^ 
Co falgado Neptuno o doce Tejo) 
As naosprejies e/ião j& nao recea 
Temor nenhum ojuvemldefpejoy 
Torque a gente marítima Js a de Marte 
^Jtão çara/egutrme a toda parte ^ 

No porto da inclyta Utr/fea. Ulyflea hc Lisboa» 
Veja-íc a nolla annotação no canto terccyro oy- 
Uva 57. 

Co'^ o falgado Neptuno o doce 7tjo, Ifto díi,porque 
o no Tejo paíla por longo de Lisboa , Sc quatro 
léguas da Cidade cm hum lugar chamado CafcaiSj 
entrano mar Oceano. Gente tnarttima, He gente 
domar. Gente âe marte, Szò os íolái^dos y porque 
a Marte faziaó os Antigos Dcos da guerra. 

PElasprayas veftidos osfoldados] 
7)6 varias cores vem,& varias artes ^ 
E não menos de esforço aparelhado r, 
^ara btifcardo mundonovas partes: 
Nas fortes nãos os ventos fojegadosj 
Onáeão os aerios eflendartes^ 
Elias prometem ^vendo os mares largos^ 
'De/er no O Impo ejlre lias, como a d' Argos. 

^^rm efendarteu Epitheto exccllente chamaf 
aos eítendartes aéreos de acr, que hc o arrpor eíh- 
rem Icmprccm lugar alto,aondeo ar os mova. 

Uejerm Ol^mfoe(lrdUi como a de ãrgoi. A niiw 



§ue fempre acs Nautas ante os olhos anday 
IP ara o fumo poder ^que a Eterna corte ^ 
Sujimtafócoaviftavenerandaj 
Imploramos favor ^que nos guialfe ^ 
E que a mjfos começos afpirajje^ 

^te fempre aos nauta$ ante 01 olhos anda. Aílirii 
difle Virgílio liv.i. cm huma tormenta > qúepaf- 
íou Eneas no mar : Prafentemejue vtris intentnnt 
omnia worffW, Todas as coulas fazem aos, navegátes 
prezéte a morte.Nautaslaõmarinheyros. Coríeeí/^«* 
re^í.CoiLe Ccleílíal, decther)quc he o Ceo» 

PArtimonos affl dofanto templo] 
^e nasprayas do mar ejfa íentadú^ 
^eo nome tem da terra jpara exerfiplo^ 
Onde T)eosfoy em carne ao mtindo dadoí 
Cert tf cotejo Rey^que fe contemplo^ 
Como fny deftasprayas apartado 
Cheyo dentro de duvidará' receyo^ 
^e apenas nos meus olhos ponho o freyol 

fj/*í ò nome tem da terfa pata exemplo , donde Deoi 
foy em carne ao mundo dado» Moílra que nthu*aõ de 
Belém Moíleyro do Bemaventurado S. Hiero- 
nymo,que efta na praya donde as armadas partem 
para diíFerentcs partes. Chamou-fe aíTim aquellô 
Templo à imitação daquella exccllcntiíHma Ci- 
dade de Belcm , aonde ChriítonofloSenhornal^ 
ceo para remédio do género humano. Efte Tem- 
plo de Belem,que hoje hc hum dos fumptuolos, SC 
principaes do mundo , de Rcligíofos do Berna* 
venturado S.Hieronymo,& que os Reys de Por^' 
tugal ercolhcraó para fuás fepulturas , foy anti* 
guamente huma muy pequena Hermída , que o 
Infante Dom Henrique filho d"El-Rcy Dom 
Joaõ o prímeyro mandou fazer no principio tdef- 
tes dcfcobrimentos , Sc navegações, no qual efta- 
vão alguns frcyrcs do Convento de Thomar par* 
adminiítrarem os Sacramentos aos mareantes. 



3 



w 




Torquehis aventurar ao mar ir ofb' 
%% Ejja víàa^qut he mmha^& naò he vojjki 

Gente da Cidade aquelle dU Como ftr hum caminho duvido/o, 

{Hms^oY amigos .à-oiitm for parét^sy. i^^ose/quece aaffeyçaotaÔ doce nojja, 



NoJJo amor^nojjo vao contentamento, 
gereis tque com as veUasyleve o ventou 

Ao mar irofo. Aílim lhe chamou Horácio: Aui 
ix^net iratfim maré, Qu teme o mar iioio. 



<àutros^orver/omeme)c6incorrtaj 
Saudojos na vijiaj& dvfconttntes: 
E fios to a virtuosa companhia 
^emiiRehgioJosdiligenteSi 
EmpYocíJJão/oíemne a T)eos orando^ 
^ara os bateis viemos caminhando. 

iWe ml Keligiofct dtligevtes. Eíies Religiofosèraô 
Freyies da Ordem de Chnílo , que cíiaváo iia- 
qu^iia hermida , de que atrás falíamos, E dizer 
aqui mil não he porque foflem tantos , mas hc 
hum enòarecimcnto de que os Poetass ulaõ muy- 
tas vezes, pondo as coulas certas pelas incertas, ôc 
pelo contrario: ou da parte peloiiodo,oudo todo 
pela pai te, 

EM tão longo camtnho^fS duvido fi^ 
Tor perdidos as gentes nosjulgavao^ 
jís mulheres com choro piedofo. 
Os homens comfujpirosyque arrancavãõi 
Xdãys^efpofaSjirmãs^que o temerofo 
jímor mats dejconfia, acrefcentavao 
jí defefpera ção-^òfrio medo 
IDejã nos não tomar a ver tão cedo^ 

Nem à mky^Yiem aefpofa^ neíie efiado\^ 
Çiue i ttmrofo\ámoT mais defconfia. Onde hà Tor nos fiaõ magoarmos ^ou mudarmos^ 
amoralli reynaomedo,porque osqueamaô Icm- ^opropofito firme começado'. 
pre aridaó temerolos , & Ibbrefaltados íobre os ~ - - ' 

que amaõ.Daqui diíle Ovídio definindo o amor: 
Kci ejijollicui fteua timorú amor: O amor hehuma 
couía cheya de temor ioUicito. E poreftarazaõ 
deiiváo alguns o amxjr de amarçr , que heamar* 
gura, porque nunca falta aos quc^o^íeguem. 



NEJlas,& outras palavras jque diziaõ; 
^e amor^& de piedo/a humanidade y 
Os velhtís^ér os mininos oslfeguião. 
Em quem menos esforço põem a idade 
Os montes de mais perto re/pondiao^ 
^afífnovidosde aita piedade^ 
yi branca área as lagrimas banhavãoy 
§^e em multidão com tilas fe iguálavai 

Em ejutm mttiOí esforço fsem a iàade. AUude d 
Poeta aqui em ajuntar os velhos com os mininos 
a hum provei bio uflás labido : ftnex repuerafcit. O 
velho tornaalermoçojporque todos pela mayor 
parre no filo , condição forfas , Sc cuydados iaã 
jmeninos. 



í»?. 



IV "I 0'r oufros/em a vtjfa levantarvwst 



ã 




5?0 

"Valvay àizenia.ó filhota que eii tinha 
Sô para refrigertOi& doce amparo, 
^efia can cada j d velhice minha, 
!^4e em choro acahard penofi^^ amaro: 
forque me deyxas mi ferai& mefquinkdi 
forque de mim te vãs ^afilho caro 
Áfaztr o funéreo enterramento, 
Onde/ejas de peyxes mantimento^ 

A faztr o funéreo enterramento. A morrer, de /«- 
»<«,quehea morte. 



^eterminey de é; finos embarcarmos^ 
Sem o dejpedimento cojiumado^ 
^epopo que he de amor ufança boal 
A quem/e aparta^ou jica,mais magoai 

§lue pojio que he de amor ufança í'í<í.Bem pode ícl[ 
coífume bom, ôc nâo ler coílumeavilado. Com» 
também he de homem de boa condição j 6c natu-^ 
reza fazer de tudo virtude , & he de homem avi- 
fado interpretar algumas coufas mal , ôccuydar 
que o podem fer. E aílim o nollo Camões moítia 
aqui a obrigação, que temos os homens a fer ho- 
mens de erpiritu , & deli) pegados do parente, 6c 
amigo,& nãocílarmos tão grudados,5c aferrado^ 
a ellcs que nos cufte muy to caro dcyxallos* 



ã 



Mas hum velho de afpeyto venerando^ 
^e ficava nas prayas, entre agente. 



'í' o fios em nós os olhos ^mene anda 
Três vezes a c abe ça^def conte: 



Q 'Vai em cabelo J> docefê amado eípo/ò^ A voz pezada humpoia o levantando^ 
Sem quê naâ quiz amor, q viver fojfa, S^e ms no mar ouvimos claramente^ 



■ i 

C0? hum Hl 



Lufiaâas de Ltits de Otmes Commentadosl 

Co^ himfaher sô de experiências feyto^ 
Taes palavras ttrou à(^e;^pertopeyto» 



"fW 



5^8 



55 

O Gloria de mandaria va cobiça 
'Defta vaidade ^ a quê chamamos fama^ 
O fraudulento gojiOyqueJè atiça 
Co huma aura popular , (lue honra fe chamai 
^e caJttgotamanhOy& quejufttça 
•taz.es noptyto vão^que muyto te ama> 
4^ue mortes^que perigõs^ue tormentas^ 
^e crueldades nelles experimentas^, 

Q gloria dt mandar. Finge aqui o PoeU ^ongio 

hum velho honrad»^, ficdeauthorid44ç, veo*Íao>s 
no lios apontados 4 huma emprela de UO.ÇQ pea- 
gOj&cuuvida, foliou alg^unus palavras , cjue o 



Myls òtu.^êraçad da queHe infano^ 
Cuj,opeccado ,& de (obediência , 
Naõ fomente- do )^eyHO foberanOi 
Tepoz nefte defterrOiS' trffit aufencia: 
Mas indA d^ outro ejiado. maia ^un humano, 
"Da qme.ta^^daj[imples inmcenciay 
Idade d'ourOifAntQ. te privm^ 
^e iiA,def(írii%& dtéki^mai te. d^yjtmu. 

Mas , òtu geração (IaeiúelUm(aMú, Neíla oycavá 
converte o veibo íua pratica G()>atra os horaensi 
cujos apetites. deren.fEeadx)& íiò cauía de lantoi 
iTVdles,&: trabalhos^quátos ha na vida.E bafta,co- 
mo diz o Poeta, trazermos a orLgem daquelle de- 
fobediente Adam nolVo piimeyro paY,o qual len- 
do criado de DeosNoflb Senhor em tanto goíto^ 



i^oeta vay recontando. A verdade he, que a genç*; ^ p^j^^ p^^^ elle con» tanto mima, & regalo, cm 



da armada, que ieriaó ate cento Sc leteota petloas 
íahiraódâ Hermidadc Nolia Senhora de tieiem, 
acompanhados dos Freyres,que alli eíUvàa , 6c 
inuyta gente da Cidade,aos quaes,como chegarão 
perto do mar, abloivco g Vigário , poltvselics de 
ioelhoi » de todos os pecçauos por huaiaiiulia, 
que paraeite effeyto d liitante Dom HennquG 
houvera de Roma , paraosque morreíiein neile. 
deicobrimento. Nclte ado houve uigytaí» Ugn- 
Hias de huinajôç de outra parte. 

Gvli» frauduimta. Gollo enganeío. dwa f&^H'. 
lar» Gra^-a , 5c f*YOf tlp povo. 

9(r 

nVra inquietação da alma , ^ dã, viday 
Fonte de dejemparoSi ^ adulíeriasi 
Sagaz cenfumtdora conhecida^ 
*De fazendas ide Reynos^&de Impérios^ 
Chamaéte illultreiChamãote fubidaj 
^^ndo digna de infames vitupérios ^ 
Çhamaòte fama)& gloria jQberan4% 
Cornes com quemfe o povo nefao engana. 



^7 

A^ue novos defafltes detevmiytas 
T^e levar efes Reynss.é' eflag^eute^ 
^te perigos, que mortes lhe deftin^s 
jjebayxo de algum nome preeminentel 
fluepromejfãs de Reynos »& de minais 
%>' ouro, que lhe farás tãixfacilm^nte^ 
1^ Famas Iheprometes^qm hifiorÍ4.s^ 
^«tf triunfos ^que palmas ^qtic vtttoíiaf^ 



hum lugar chamado l^araylojpor lua exccllenciat 
por íeronoaisirelco,& apraiivel lugar do mundo,, 
íoy caó mal entendido , que deiobedtceo a fea 
Criador » & Senhor, p^lQ que foy Jançado do Pa- 
raylo elle^Çc fua 9iulhcr,ÔC íicou lujeyto a n-.il tra« 
balhos» êc enfadamento, como íe pôde ver no Ge* 
weliç. 

ldad,ed^\ura. Fazem os Poetas quatro idadcs,àj 
quaes daó differeçites, noroe&jtomados dos metaes^ 
da terra, comQ ouro, prata, cobre, ferro. A idade 
de Ouro attribucm todas as çoulas de ouro , bon- 
dade na gente, fertilidade na terra, quietaçãv;, 6c 
paz no mundo , & hum vcraõ perpetuo, 6c conti- 
nuo, fem os homés laberem de outro tempo. Na de* 
prata começarão os homens ater trio^ík calma, 6c 
a íentír outras couías , que ua idade de ouro nâo 
conheciaó: parque )*a nelte houve Veraõ, Inver-. 
tia,Eft;io,& Outono. E. para fe defender da adver- 
íidade do tempo, começarão os homens a edificar 
cafas,& lizcraó outras coufas, que na idade de ou- 
ro le eícufavaó. Na terceyra , quçfoiy de cobre» 
f ra a ganto mais pervewlta que na de prata, mas nãa 
Cia ds todantà. Naqu.aii3,a que põem nome de 
ferro, entrou toda a maldade, Sc eícoiia do mun^ 
do,porquc não houve vergonha, fé,nem verdade, 
mas tudo enganos, trayçôcs,forças , Sc defejos de 
pofiuhir. |ilt^ idadôs defere veÇXvid^Q nas Meti- 
morphoíes ii,v.i. O que o Poçta aqui diz^ hç que 
não fomente os homens pelo peçcadq do primey- 
ro p^y Adam foraô privados de tanto bem quan- 
to Deos fhe tinha aparelhadoj le elt^nâp peccára, 
* mas que Ois privou À» idad« de auto, na quak ainda 
havia algum fc^tm^ ôc os poí i%a da feirai» ipftde tu- 
do íaó engaHQ^ , & »ft^Uí;»a$ » qu^hç ç^U^W <iu© 
agof a eftf n\c«. 

S>9 _y^ 



I 



A^ que neflagoflofa vaidade 
Tanto enlevas a leve f ante fia, 

5a 



U 



^c^ _ , vafíto 

yã que a hrnfa 'crueza, & ftrUade 
IPufelie fiorney esforço^ & valentia, 
Jà que f rejas em tanta quantidade 
O defprejo da vi da ^que devia 
^ejer fempre ejitmada^pois quejà 
Temeo tanto perde la, quem a aâ, 

Gofiifa vaUade.He a honr», & tama. Cha malhe 
gollofa vaidade, pof fer couta de que tão pouco 
provey to vem a os homens, nem lhe ferve de mais, 
que de os levar , & fazer commctter quaeiquer 
coulas,por árduas, & difficultofas que lejaó, com 
mu y to gofto,& alegria. 

tois ^ue jd temeo tanto perJela, cfuem a da.\^o diz, 
porque Chriíto Noflb Senhoreítando na agonia 
da morte para nos nioílrar como era vfrdadeyra- 
mente homem , & que o feu corpo era de carne, 
tcmeo a morte,como he natural a todo o homem 
temclla, E. aílim diílb naquella hora do fcu tran- 
fíto , pedindo ao Padre Eterno que o livrafleda- 
quelle trabalho: Pater f poffibile efi tranfeat á we cá- 
lix ifte. Padre meu le he poífivel paíle deraim efte 
cálix da morte. 

100 

NAõ tens junto contigo o Ifmaelita, 
Com quem fetnpre terás guerras Job ej as ^ 
Nad Jegue elle do Arábio a ley maldita. 
Se tu pela de Chrijioj o pelejas} 
NãÔ tem Cidades mil^terra injinttay 
Se terras tò" riqueza mais dejejas^ 
Naõ he elle por armas esforçado^ 
Se queres por vittonasjtr louvado'^ 

Na5 Uns junto contigo o Efmoeíita. Chama aos 
Mouros Ifmaelitas , do nome de límael filho de 
Abram , & Agar , que foy rey naquellas partes, 
como fica dito no canto r.oytava 8. 

Na5 fegue elle do /írahto a ley maldita. Efta do 
Arabiohe a feyta maldita de Mafoma, o qualdi- 
2em os Elcrittores,que foy filho de hum homem 
Arábio de nação. Veja.feanofla annotaçâo no 
cantoi.oytavaS. 

lOI 

DEyxas criar as portas o inimigo, 
T^or ires bufcar outro de tam longe, 
*Por quem fede f povoe o Reyno antigo. 
Se enft aqueça ^& Je vâdeytandoa longe} 
BuÇcas o incert0i& incógnito perigo, 
forque a Fama te exalte ^é* te lijonge, 
Chamandote fenhor com larga copia^ 
'T>iLndia,T€rfia,ArabiaM da Etkjiopia? 



^àrtbl 



101 



O Maldito o primey ronque no mtiniot 
Nas ondas vella poz em [eco lenho ^ 
^igno da eterna pena do profundo^ 
Se hejujio àjujla ley , que figo fè tenho: 
Nuncajuizo algum altOi& profundo. 
Nem cyiharajonora^ou vivo engenho, 
7e depor tjfo Fama, nem memoria. 
Mas contigo fe acabe o nome,^ gloria. 

105 

TJRouxe o filho de Japeto do Ceo 
OfogOyque ajuntou aopeyto bumdnol^ 
Fogo ^que o mundo em armas acendeo. 
Em mortes, em deshonras ^grande enganoi 
planto melhor nosJora^Trometeo, 
E quanto para o mundo menos dano^ 
^iea tua ejiatua illujire nad tivera 
Fogo de altos dejejos^que a movera} 

Trouxe o filho de lapeto do Ceo. ÍPilho de Japetí» 
he Prometheo. Eíle contaõ os Poetas , que fa- 
zia homens de barro , com tanto engenho , que 
quem os via , os tinha por homens vivos. Entr 
outros que viraó efta obra de Prometheo foy hu 
ma vez a calo Minerva , a qual maravilhada d 
obra., lhe deu ajuda para fobir ao Ceo , dond 
Prometheo trouxe fogo , que tirou dos carro; 
do Sol , com o qual deu vida aos homens , que fa 
2ia de barro. Enojado Júpiter do atrevimento d 
Promethep , o mandou amarrar no monte Cau 
cafo com huma águia junto com elle que lhe cC- 
tiveíle de contino comendo as entranhas. E par» 
milhor caftigar o atrevimento de Prometheo^ 
fez que nas teclas houvefle doenças, 6c trabalhos» 
que antes náo havia. Eíla fabula contaõ adira 
Ovídio , & outros muytos Poetas. Hcfiodona 
fua obra intitulada: Opera , (jr dtet , diz que Pro- 
metheo defcobrio aos homens o ulo do fogo» 
que Jupirer tinha elcondido : pelo que Jupitá 
enojado fez que os homens dalli em diante viveft 
fem com trabalhos , & aquelle modo de vivei 
que tinhaô facilmente ,& quieto , (cconvcrtef- 
fe em inquietações, & enfadamentos. Outros coii- 
tão de outra n)ancyra , mayormcnte os Gregos. 
A verdade do cafo he que Prometheo foy hum 
homem muyto piudente , & dado aoeftudo da 
Aftrologia, & grande amigo de honra , Scfama, 
ao que chama aqui o Poeta : fogo de altos dele- 
jos , que eníinava. A qual doutrina , diz o Poeta, 
fez mal aos homens . porque daqui lhe ficou a 
curioíidade , & cobiça de lerem conhecidos , 6c 
honrados , que hc a febre , que diz Horácio , que 
Júpiter mandou ao mundo , pela defcorteíia de 
Promcihco. 



i 



íufiaias ãeYuuis de 

104 

NAòcomettêra o tnoço miferando 
O carro alto dopay^nem o ar vazio j, 
O grande Archite~6for cd' ofilho^damio 
Hiém nome ao mar,^ outro fama ao rio." 
Henhum cometimento altOj& nefando^ 
^or fogo, f erro ^agOãjCaima (^frio, 
*Deyxa intentado a humana gèr a çaÕ^ 
Mi/èra forte, eflranha condição^ 

Não cometera, Moftra aqui o Poeta os traba- 
lhos , &pcngosa que le põem os homens por al- 
cançar honra, & fama. E por exemplo trás P hae- 
èón,DeJalo,& Ícaro. De Phaeton fe veja o canto 
primeyro, oytava 45. 

O grande arcbneiUr. Dédalo que foy huíll dos 
fnayores que houve no mundo : donde sis obras 



Camões tommentaàof, t\x 

de engenho de qualquer calidadeque fejâo cha* 
maó os Latinos , Dtedda opera , obras de Dédalo, 
& aílim os Gregos» Eílc foy Achenieníe de na- 
çáo , & por cerco crime que comcteo foy degra- 
uado. Foy ter a creta , aonde foy prelo por Mi- 
nos Rey da terra , porque cm íua auíencia deú 
ajuda a Paíiphe íua mulher , em huma coufa con- 
tra lua honra. Na cadea contáo os Poetas que 
fez humas afãs de cera com pennas , comquefu- 
gioelle, ôchum íeu filho por nome ícaro, iiltc 
como era moço quiz florear com as afãs pelo ar^ 
pelo que cahio no mar , aonde acabou , & o mar 
íicou com o leu nome. Dédalo toy dará Sicília, 
aonde morreo por ordem de Crocalo Rey da 
terra. Dizque humdeú nomeao mar , & outro 
fama ao rio ; porque do nome de ícaro lilho de 
Dedato le chamou o mar ícaro , & com a que- 
da de Phaeton que cahio no rio Endano, que 
vulgarmente le chama o rio P<j , lhe ficou fama 
deite calOíí 



/k 




OS 



54"^ 



#É -osiâ^-ttínifi^-esf â«»^f ée»«*8gâo»^f .^«o^f 2K*-oif í»»*^^^ Éfy^ 

OSLUSIADAS 

DO GRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commtntados ptlo Lictnciado Manoel Corrêa^ 
ARGUMENTO. 

Relata o Gama illuftre ao Rey potente 
Sua viagem longa 5 & incerta via, 
As eítranhas nações de Aírica ardentej 
EdcFernaó Velloíoa ouíadia: 
Como Adamaftor vio^gigante ingente,' 
Que hum dos filhos da 1 erra fe diziat 
E as couíasjque paflbu atè feu porto^ 
Oadc xepoaío achoiir& faõ conforto* 

CANTO quinto/ 

Nefte Canto fe põem o tempo em que os Portugueses fihiraÕ do porto de Lil 
boa , & o^ac &£ acontccco atè chegarem à índia. 



EStasfentenças taes o velho honrada 
Vociferando eflava^tquando abrimos 
As azas ao/ereno^&filfegaâo 
VentOi& do porto amado nos partimos: 
E como hejâ no mar coftume ufado 
A vclla desfraldando o Ceofrimos^ 
^'tz,endo^boa viagem Jogo o vento^, 
Nos troncos fez o ufado movimento^ 

O vtlh» btnraão. De que fe tratta no fim do can- 
to quarto , que rcprchendeo a navegação dos 
Vortuguezes a taó remotas partes. 

I^os troncos fez o ufado mêvimento. JComo tenho 
tóvc^idg muytas vezes coftumáo os Poetas pór a 



juatexia diE<quc íc fazem as coufas ptlas mefmaa 
CGUÍas, como aqui troncos pelas Nãos, & em oa«| 
ItSí^tS, Jlie chama lenhos , traves , & outí< 
nomes deita mancyra. 



EEtava nefte tempo o eterno hme 
No animal Nemeo truculento^ 
E o mundo yque co tempo fe confume, 
Nafèxta idade andava enfermo t& lenta\ 
Neíla vê como tmhapor coftume 
Curfos do Solquatorze vezes cento. 
Com maí^noventa^& fete^em que corria^ 
^4 ando m mar a armada fè eftendia. 

Entrava fiejie tempo tíerno lume* Ncfta oytava 

tratta 




Lufiadas ãe Luis ie 
ttâtta da tempo èm que a armada partio do porco 
tic Lisboa. 

Eterno lume. He o Sol, chamalhc adira, porque 
he pay de todos os mais Planecas,&EftrelIas,por- 
que por iodos reparte lua luz , & claridade eomo 
hcallicò no canto fegundo. 

Am/nd Nemco.Hc o Liaó. Chama-lc aí]íim,por- 
«jueomatou Hercules na defcíaNemea , como 
íicaditono canto quarto, oycava i. E porque el- 
ta foy a primeyra cavalUria que Hercules fez, 
á Júpiter leu pay em memoria deíle fcyco poz o 
jLeaóno Ceo , & fez delie huma conllellaçáo 
muyto fer mofa, à qual ricoufeu antiguo nome de 
L-eaó , & legando o$ Aílronomos he o qumco 
Signo celeíleera ordem natural. Tem alua ima- 
gem vinte & lete eftrellas , entra o Sol nellc em 
Julho , noqual mcz fahiraõ os Porcuguezcs da 
barra de Belém no anno de 1 497. Díz-Je entrar o 
Solem algum Signo quando eftá em igual pro- 
porção , porque o Sol caminha muyto defviado 
dos Signos. E para mayor declaração imaginay 
huma linha queíáya do centro do mundo , éc 
paíib pelo centro do Sol, 6c chegue ao lugar aon- 
de eftà o Signo. Quando o Sol concorre, Ôc fc en- 
contra neíU proporção com o Signo , fe diz pro- 
priamente entrar nelle. 

- N» [(xta idade andava enfermú,(^ Unto* Como a 
Vida do homem le divide cm partes, que chamaó 
idades, da mefma maneyra o curlo do mundo. As 
idades do munJo faõ féis. A primcyradeídeacriat 
ção do mundo .ité odiluvio^aqual lègundo acou- 
ta dos Hcbrcos j teve mil leifcentos cincoenta 6c 
Icisannos, ^ fegundo 05 fetenta: dous milduzen* 
tos & quarenta 6c dous. ( A íegunda defdeodilu^ 
vio, ate o nacimento de Abraham, com duzentos 
& no venta 6c dous annos, conforme aos Hebreos, 
& novecentos 6c quarenta 6c dous annos, confor- 
me aos Setenta, A terceyra até o principio do 
Keyno de David , a qual teve legando os He* 
brcos , novecentos quarenta 6< hum annos , 6c lè- 
gundo os fetenta , novecentos 6c quarenta. A 
quarta ate a deílruhiçáo de Hieruíalem, 6c capti- 
fcyro dos filhos de lirael por Nabuchodonofor* 
cita teve conforme aos Hebreos , quatrocentos 
èytenta 6c quatro annos , 6c fegundo os íctenta, 
quatrocentos oytenta 6c cinco* A quinta até o 
Nacimento telíciílimo de Noflb Redemptor 6c 
Salvador Jefu Chriílo , 6c teve fegundo a ordem 
que guardamos, quinhentos & noventa annos. A 
fcxta começou do Nacimento de Chrillo NoITo 
Senhor , 6c acabará quando ellc for ícrvido, cujo 
fim não fabe ninguém , 6c andar com altercações 
neíla matéria he defpropofito. Na conta delias 
jdadcs ha grande variedade,o que aqni efcrevi te- 
nho por mais certo. Diz aqui o Poctaque o Capj^. 
ião mor Vafco da Gama partio para a índia na 
íexta idade, que he a em que agora cífamos os que 
vivemos,qiiecranoannodcmii quatrocentos no- 
venta & fetc , o qual fe entende daqucUas pala- 
vras; curfos do Solqnatorie vezes cciito, que laó 



oes GommentaâoÈl 't|j 

mil 6c quatrocentos , côm tnais novCíita & lece, 
que vem a íer os mil 6c quatrocentos noventa 6c 
fete que temos dito. 

Andava mf ermo y éf lento. Diz ifto , porque rio 
mez de Julho , que heo tempo cmque os noiios 
partirão , ha na terra fempre pela mayor parte 
grandes doenças, 6c defconccrtos em todas as cou* 
las, por ler o tempo leco, 6c deílemperado, 6c con- 
trario aos corpos humanos, o que caufáa impreí- 
faõ que o Signo deLeaó hz na terra,6c os dias que 
chamamos Caniculares, queíaó neftemez. Uu 
quiz o Poeta por eftas palavras chamarão mun-^ 
do velho , 6c por efta razaó inútil j 6c cançado , o 
que a mim mais me contenta , porque neíte noflo 
tempo aílim no parecer dos homens » como no 
produzir da terra (e moílra bem diíferente do que 
no lo pintaó os Autores nas outras idades , 6c 
bafta vivermos na de ferro , aonde o mundo elfà 
no ertado que todos vemos. 

TA^ a njijf a pouco ^& pouco fedeft erra 
Dacjueãespãtrtos montes jque ficavaO% 
Ficava 9 caro TejOj^ afre/ca/erra 
7)e Cmti'a^& nella os othos fe alongavah 
Ficavanos Também na amada terra 
O coração, que as magoas là deyxavíiõj 
Ejâ depois que toda fe e/condeo^ 
Naõ vimos mais em fim que Max^& Ceo 

A frefca ferra de Cintra. Eíla he a ra^aõ quanto 
a fnim , porque a terra de Sintra fe chama a terra 
da Lua , que he por fer terra muyto frelca, aonde 
ha grandes orvalhadas , 6c rocios no meyo do Ef- 
tio,eftandono melmo tempo lugares muyto per- 
to delia ardendo em fogo. Veja-fe o que clcreve^ 
mos atrás no canto tcrceyro, ©ytava \6. 



AS li fomos abrindo aqiielles fúares^ 
^legéraçaô alguma naõ abrio 
As nódoas iíhas vendo ^ó" os novos ates 
^ic ogenerofò Henrique defcobrto: 
i:>e Mauritânia os monte s^à- lugares^ 
Terra ^que Antêo num tempo poffuio 
"Deyxando à maÕ efquerda^que d direytàl 
Naõ ha certeza d' outra mnsfofpeyta, 

^ue o generofo Henriejut ãefcobrig. Eftefoy o Til- 
fante Doin Henrique , filho tcrceyro d* til- Rey 
t)om Jonóoprir»eyro da boa memoria. Foyefte 
Infintc Governador da Ordem daCavallaria de 
Chrifto , que feii Avò El«Rey Dom Diniz fexto 
Rcy de Portugal inftitnhio novamente , para a 
guerra que determinava fazer contra os Mouros, 
que tinhaô occupadoHclpanha , 6c quando feu 



j)ay tomou Ceuta íe esforçou elle muyco mais Mas nem por fer do munào a âerfahyrà ' 

para o proleguimento deíU obiigaçãodo íangue, Se lhe avantajão mantas Vénus ama ^ 

^ offiuo. h porque o negocio de Africa perten- ^^^^^ y,^^, ^j^^j^^^ j-^ ejqnecera 

cJaaosReys de Portuffal,quiztomaremprcíaem ,rr^ r^\,, r\.^.u^ ti- r ./ ^ 

que alcançallc glor.a . & lan.a para fi.Para o qual ^^ Cypro.Gmdo,Fafos,^ Lythéra. 

cífey to mudou a vontade,que tinha <áe cunquií- VaJJàmot a grande Ilha àa Madejra. Efta ílhafoy 
tar, para parte mais remota, aonde os mentos de deícuberta por hum Joaó Gonçalves , &. Triftaó 
ícus trabalhos ficafi^mpoílos na milicia deChrií- Vaz, noannodemil quatrocentos & vinte. Cha- 
to, cujo Governador, & thcloureyro elle era. E mou-te Ilhada Madeyra , peio muyto arvoredo, 
como andava com eíla imaginaçãojtodo feu cuy- que tinha quando foy delcuberta,quc não poden- 
dado era mformarle de gence de differcntespar- do o dito Joaó Gonçalvtz , que era o Authordo 
■tes, 6c ler livros de Geographia, â qual era muyto deícubrimento,& a principal pefloa daquella via- 
dado para lahir com leu intento. E quando Ic ga- gem, daríe a entender naquella terra , poreftar 



nhou Ceuta, fez grandes exames com os Mouros, 
ânformando-ledqs moradores da terra a dentro; 
dosquaes.ÔC de outros, com que outras vezes fal- 
lou íoube muytas coufas , que ajudavão muyto 
iuaprctençâo. Comeítas informações conieçou 



toda cuberta com arvoredo , que fe não via o 
chaó, lhe mandou por o fogo , o qual affim tomoa 
pofledo mato, que dizem durou feteannos íemíe 
apagar. 

Das o^ut nôi povoafffoi a frimeyra. A Ilha da Ma» 



a porem execução fcus deícjos , & mandar gente deyrafoy a primeyf» que os noflos Portuguezes 

adelcobnr acoita, alem do cabo de Não, que era povoarão, mas a lcgunda,que defcubriraó porque 

o termo da terra deícuberta pelos Hefpanhoes. primeyrofoy deícuberta a Ilha do Porto Santo, a 

Chamava-leeítecabo de Não , porque os deíco- qual largarão os Portuguezes miportunados d* 

bridores nãoíeatreviaó paílar adiante. grande praga de Coelhos , que fc criou de huma 

Jerra qns Anteo num tempo fo^uhto. Antco dizem Coelha quealli levnraódo Reyno, osquaes foraõ 

os Poetas quefoy hum Gigante , lilho de Neptu- cm tanta quantidade , qucfe não femeava , nem 

no, 6c da terra , de quarenta cevados de altura, ÔC pl^^ntava coufa,que elles naó dcftruiflcm. O mef- 

lâo esforçado que Hão havia em fcu tempo quem "^o ^"e acontecco aos Portuguezes com oscoe- 

ie atrevefle a vir có elle âs mâo> , porque le acaío ^hos na Ilha do Porto Santo , aconteceo aos que 

alguera o vencia por forças , ôc derribava cm ter- íoraó povoar a Ilha Carpatho, chamada hoje Scar-. 

ra, com ajuda da mefma terra fuamãy recebia no- pan(o , comoquer Sophiano, no marde Rhodes, 

vas forças , ôc le tornava a levantar , õcdefta ma- que levando lebres para criação , íizeraô tal mul- 



jieyra tra temido de todos. Hercules o venceo, 
|)orque labendolhe eíla manha o nãodeyxoU che. 
^ar a terra, mas apertou-o comfigo de modo, que 
o matou entre as mãos , como dizem todos os 
Poetas. Diz onollo Luís de Camões, que poliu* 
hio Anteo a Mauritânia , que faó os Reynos de 
Fcz,ôc Marrocos, porque foy Rey deífa parte, 6c 
elle fundou a Cidade de Tangere , 6c nella tinha 
lcuspaços,& principal habitação, eomo diz So- 
lino no leu Poiyhiítonco. cap. 37. & Mela liv. i. 
cap.5. 

Deixando a tnao cp^f4erJay^ue a dtreyta. Não ha cer- 
teza (it outra mas fulpejta, Afi ica liça aos que na 



upljcaçâo, que largarão a Ilha, porque lhe deltru^ 
hiaó as lebres as fazendase Aonde dizem os Lati" 
nos-.Carpathusodit leporer»,o morador da ilhaCarpar 
lho aborieGe a lebre, o qual provérbio leaccom- 
modâ a quem le arrepende de algum negocio quq 
tem entre mãos. 

Alaii celebre por nome que por fama, Ifto fe ha de 
declarar delia mancyra:a Ilha da Madey ra hc mais 
conhecida pelo nome que pela obra , porque fen- 
do conhecida no mundo por efle nome de Madey- 
ra , huma das cou las de q"ue tinha mayor falta ao 
tempo que o Poeta cfcreveo eíles cantos, era a ma^ 
deyra pelo fogo de que acima trattámos. Hoje fa- 



ve^âóparaa Índia àmaõerquerda,& na paitedi- bemos por informação certa de peiíoas da Ilha t£|^ 

rcyta aotempo,queíc delcobrio a nofla índia, niadeyra. ál 

naõ era coufa alguma dçfcuberta, & neíle fentido ^^* nem por fer do mundo a derradeyra.St lhe aven" 

falia aqui o Poeta. Hoje temos a nova Hcfpanha tajáo quantas Uenus ama, Efta Ilha da Madeyrahc 

florida , com todas as Ilhas adjacentes, quecha- ^^^^ conhecida pelo mundo por lua fertilidade,SC 



maó Antilias , 6c toda a mai: terra Occidental, 
qne le chama Aincnca,oi' novo mundo. 



5 

Pejamos a grande liba da Ma deyra, 
^ue do ynuyto arvoredo ajfí/e chama^ 
T>as qnenósfovúamos aprimeyra^ 
Mais ceiebre^or nome^que for fama: 



abundância, chama-a o Poeta aqui , do mundo a^ 
derradeyra , por ler a mais Occidental de lodasí 
para mayor encarecimento de louvor a prefere 
a quantas Vénus ama,das quaes põem aqui algu- 
mas. 

De Cyprot Gnido, Paphos, & Cphera, Cypro he a 
Ilha Chipre no mar Mediterrâneo , fugeyta hoje 
ao Graó Turco,porque hum leu Capitão por no- 
me Muílafá a tomou por força de armas , ícndo à.\ 
Venezianos , o primeyro dia do mez de Agofto (Í{| 
"iSTi* com grande danno , 6c injuria daChrillanj 
■ - " ~ dadeS 



Lufiaâàí ie Lms^e Camões Commentados* 

•iêàe. OalJò,ou Cnido que he humamaneyra, ôc 
«iitra le diz he Ilha do mar Capathio. l^aphoshe 
Cidade da meímallha Chipre , de que falíamos 
«cima. Cythera hc Ilha no Peloponclo, chamada 
hojeCetige. 



Hf 



DEyxamQs de Maffilia a efierilcofla^' 
Onde (eu gado as Azemguespajiam% 
Gente tíftte as frefcas agoas nunqua gofta^ 
JSlem as ervas do campo bem lhe abaftamx 
ji terra a nenhum fruto em fim di/pofia^ 
Onde as aves no ventre oferrogaftam^ 
padecendo de tudo extrema tnopiay 
§hie aparta a Berbéria de Ethwpia. 

Deyxamot dè Majfília a ejferil sopa.M^fíilhfComo 
fica dito canto 4. oycava 36. he a Província de 
Africi, qweporoiirrv* nome chamamos Mauritâ- 
nia. Pela clteril coíla de MaíTilia, entende a trille, 
Scefterilcolta de Atrica , aonde vivem os povos 
Azcneguesjdos quaes i'e começa a terra de Guine. 
He eftâ terra muy to falta de aguas, £c mantimen- 
tos, porque tudo l^ó dclertos. H he tanta a pobre- 
2a, Sc mileria delia gente, que nem de hervas do 
campo le fartáo. Vivem fempre nos ca.npos fa- 
zendo vida agrcíle, 6c bruta. Ha ncfta terra gran- 
des animaesferos,5c grandes Hímasjque digerem 
o ferro, faóíis Hemasanimaes que tem azasconjo 
aves, mas não voaó com ellas, íómcnte lhe fervem 
deajuda para correrem com mayor ligeyreza. Saó 
do tamanho de hum cavallo, ôcmayores, temo 
peícoço longo de lete palmos , Sc a cabeça como 
huma cidra meã com bico agudo. Poenl ovos 
grandes , cujas calcas grandes vemos por em as 
alampadas furadas , náo ie lançaô fobre tiles , al« 
guns dizem,que o goraó com os olhos,outros com 
o bafo, Sc irto fe tcfa.por mais ccrto.dirigcm fcr 



PÀÍJatnos o limite ^aonde chega 
O Sol^quepara o Norte os carros gu/a^ 
Oft de jazem os povos ^a quem nega 
O filho de Cítmene a cor do dia: 
jíqui gentes eft ranhas lava^f3 YegA 
^0 negro Sonagâ a corrente frtà. 
Onde o Cabo Ar finaria o nome perde^ 
Chamandojfe dos nojjos cabo Verde^ 

V^JJãmot o limite aúndt chega, « Sol tjue paru § Sfifi 
«os carrofguta. Os Poetas atinbuem ao Sol carro 
com cavallos , em que dá luz ao mundo como dis 
Ovidio nas Metaraorpholcs aonde põem os no- 
mes dos cavallos. 

O filho dt Chmene a cor do dia.O filho de Climene 
he Phaeton o qual como fingem os Poetas , foy 
cauía de os negros terem a cor que tem: fobre ci- 
ta matéria veja-le o que fica efcnto atrás no pri* 
m eyro canto oy tava 46. Sc a razaó pi rque os ne*. 
gros tenhaó a cor negra fica também trattado cm 
outro lugar no canto i.oytava 105* 

Do Negro Sanagâ a corrente fria, O rio Sanagâ di* 
vide a rerra dos Mouros Azenegues, dos prm^ey- 
rob negros de Gume, chamados Gelolos» Hiero* 
nymo Gyravalhe chama Sonagà na íua Colmo* 
graphia , Sc Olinario lobre Pomponio McUa i Af* 
ncge , dcfte particular trattámos ao diante neíta 
mclmo canto. 

Onde o Cabo Arfmario o nowt perde* Entre dous 
rioSjSanagájde que atras fizemos mcnçaô,Sc Gam- 
bca,dc que trattámos adiante,eítà hum pedaço da 
terra a que os Portuguczes chamaó Cabo verde, 
&Pcholomeo, & outros Colmographos , Cabo 
Arfínario» DeíleCabo, Sc dos nos que o cercão 
trattámos adiante.O que o Poeta diz nelta cytava» 



ro,o que lhe procede de quentura grande do efto- he que tinha a noíla armada pafiado o Trcpico dô 

mago. Os machos laó negros,5c as fêmeas pardas, Cancro , que he o limite , Sc baliza, que ten» o Sol 

8c brancas. Das pcnnaslefiizcm os penachos. Dts da banda do Norte: na qual paragem eltáo os po* 

negras ficaó negros,Sc das outras cores fe tingem, vos Azenegucs,5c Gelofos. Veja-fe o queelcrcve* 

& fazem da maneyra que os cá vemos» Caçaô-fe rnos no canto 8. 



eftas aves a corço,a cavallo cora lanças, ou arman« 
dolhe pelo cammho humas cordas com humas na- 
valhas, com as quaes le cortaõ, Sc aílim le tomaó, 
porque em vendo Tangue efmorecem, Sc demayaó 
de modo , que não podem dar maispafío. Eílas 
couíasfoubc dequem as vio , &caçou por muy- 
tas vezes. Os Autores que delias eícreveraó póJe 
ier que nem as viraó, nem tiveraó tão cerra rcli- 
çáo. O natural delias Henvas hc criuríe em gran- 
des delertos , quaes faó eftes dos Azenegues,' pelo 
Gue naquellas partes ha muycas, que he nos con- 
fins de Berbciia , Sc ILihiopia , como aqui diz o 
Poeta. 



s 

PJfadas tendo Jâ as Canareas Ilhatl 
^e tíveraõpor nome Fortunadas^ 
Entramos navegando pellas filhas 
T>o velho He fper to, He/per idas chamadasi 
Terras por onde novas maravilhas 
Andarão vendo jâ nojjas armadas ^ 
Alli tomamos porto c6m\bom vento» 
Ter tomarmos daterra mantimento» 

Va)Jad«i tenâojÀas Canareat Ilhas» Eíías Ilhas,' 
que em noflo tempo íc chamão Canareas,faô cha- 
madas por todos 05 Aiuoresantiguos Fortunadas, 
que quer dizer btir.avcnturacias , por ferem pcJa 



mayor parte abundantes, h fertis.ainda que as ei- 
tenles o faó demaíiadamcnte : Sc faõ doze, a Graó 
Canarea , Palma, Gracioía , Interno , Alegrança, 
S&nta Clara, Roque. A dos Lobos , LanÇciroi;e, 
FoKíe vcnturajFcrro,&: Gomera. Das quaes Lan- 
çarote, Forte ventura, êc Ferro delcobrio hum 
Gavalle^-ro Franccz,pornoníe Joaòde Betancor, 
& a Gomera hum leu iobrinho chamado Maciot 



Canto ^àntôl 



paiccer, quc ifio não he âeté: h tèrtierídadé Te* 
na affirmar por certo huma couiâ em que kâ tan* 
ta mcerteza : no canto fegundo chama Luís de 
Camões a Mauritânia Reyno , aonde viveraõ as 
Helperidas, porque feiía leu pay Helpero Scnhoi* 
também daquella Região , que não he mconveni- . 
ente, 6c teriaó alli as hoitas com fiuytodeouro, 
de que os Poetas fazem tanto alardo.pclo qucnaõ 



Betancor no tempo d^El-Rey Dom Henrique o he jfto cncontraríc o Foeta , ôc quando le encon- 

terceyrodc Caílella. As outras íoraódelcuber tas trarnáo he deícredito, pois Platão tem por acer- 

pormandido do Iniante Dom Henrique , filho tado nos Poetas delacercarem algumas vezes , 6C 

d^E,l-Rey Dom Joaó o primeyro de Portugal, aílim querem muytosquefizefle Virgilio liglog. 

Depois que Maciot Betancor por conceito, que ó.Onde Virgilio põem Scylla filha de Nylo R.qy 



dos Me^arenies , que foy convertida em coiuvia, 
por Scyllá filha de Foico, que foy convertida emi 
pedra, que hoje hc cachopo no eítreytode Mtíli- 
najpor nome Scyllo,con)o diz Fazello. 

1 errai por ondt novas maravúhah andarão 'Vendojil 
mijas armadau lllo diz o Poeta, porque cilas par^ 
tesdeque himos trartando , toraó as primeyras 
que os Portuguczes tleícubriraõ , como rtíere 
Joaó de Barros. 

. trovai maravilhai. Qiier dizer,grândcsmaravi- 
IhaSjá imitação áai LaunoSjOS quaes a hun)a cou- 
íh grande,Sc eípantola chamaó,novA,con^o he no- 



íez com o Infante, lhe largou o direy to que tinha 
nas quatro Ilhas delcubertas , a troco de outras 
couias,que lhe deu, com que vivco muyto honra- 
damente. Eílas Ilhas fe chamaó hoje todas geral- 
mente as Canareas, pelos muytos cáes que ncllas fe 
criaô, principalmente na Graó Canarea. A razaó 
porque eílas Ilhas {ílÒ hoje da Coroa de Caftelia, 
fe pôde ver em joaó de Barros Década i.c, ii. 

Entramos navegando pelat filhai, do velho Hejpcrio, 
fíefperidas chamadm. As Ilhas Helperidas, chanja- 
das aflím de Hefpcro feu Rey ^ faó as que chama- 
luosdo Cabo verde, fujeytas áos Reys de Portu- 
gal, legundo a melhor, Ôc mais provável opinião tono aos que fabem algum Latim, 
dos que bemlentem. Oque fecolligcde Ptholo* 
raeojoqualdcícrcvendoasllhas Gorgadas, a que 
outros chamaó Dorcadas, que fegundo o melm.o a tt isr 

Pih8lomeo,& os verdadeyros Coímographos faó A -^^^^^'^ Ilha aportamos, que tomou 
«s llhns de S. Tho né , & Principe junto a Mani- T\ O nome doguerreyro Òan-Tiago^ 
congo. Diz que ao Poente deílas cílaó as Heípe- Santo^que os EJpanhoes tanto ajudou 
ridas , que conforme a navegação dos Anriguos Afazerem nos Mouros bravo ejiragoi 
ellarâó os quarenta dias de jornada que Seboío ^J^aqui tanto que BortáS nos ventou, 
clizaHeíifado por 5o ino,& Plinio.E os Quedizcm o- , ,/ / „ 

o conii ano, he pornao olharem bem os Autores , , , ^ . ,.- j ^ 

allegâdos, Scoítrosantiguos,quedeflamaterv* 'Uo Julgado Occeano, ^ alJi d^yxamos 
fallaraõ, que legue aqui o noflo Poeta, o qual cm ^ ^^^^ a^aoude o rtfrejco doce achamos^ 
todas as fciencias teve grande engenho, como neí- 
te hvro fe moftra , 6c hum juyzo myyto claro para y^ejaella llhaportdmoi^ <^ue tomou. O nome doguer^ 
determiiiar o melhor, comofezneíle particular, rtyr o Santiago. Ella Ilha de Santiago, que o Poeta 
no qual hatanta revolta , que huns não Ic deter- aqui nomea, he huma das do Cabo verde, a qual 
minâo , outros fogem ao-c6uto dos que não que- dcícobf ifo bum Fidalgo Genovez por nome Au- 
rem briga , dizendo que as Hefperkias foraó , n^as tonio de Nolie , no anno de linil quatrocentos 6c 
que hoje asnaóha, queo^maras devia de allagar, IcííentaSc hum , o qual veyo a cites Rey nos por 
como temfeyto em outras muytas partes. Bem ve- certos delgoíioíí, que na pátria teve com duas 
jo qwe Gonçalo Fernandes de Oviedo na lua naos,Sc hum barind, trazendo em ftmconnpanhia 
Chroaieadas Antili;\s , quer que ellas fcjaô a$ Barthokmewde Noile ftíunmjò , & Kaphaei de 
Helperidas,d»ndoparaiflornuytasra-zóes, Affon- NoIIe leu fobrinho , 6í pÉ>rqo€ o Iwfante Dom 
lo de Saííitâ Cruzi, kyxti, fcjáo as dos Açores : Anto- Henrique entendco dcllcs, lerem pelíoâs de con- 
nioGalváo Portuguez,asllHasdei).Thomé, &: fiança lhe deu licença para pederem deícobrirj 
Principe. £► aflim veja como no l/lappamundi fe Eíles deícobriraã a líhfàdc Mayo , & as Ilhas S* 
poemas Dorcadas a baíravento das Ilhas do Cabo Phihppe, 6c Santiago : d€quea<^u'i Miámos , às 
verde , coufa de trinta Icgoas de diílancía, que fao' quaes pufera^ cites nome^-, pof relpeyto da dia etn 
humas Ilhas,aondc nío hà fe não gado, 6c algumí que foraõ defcubercas. Neíle mefmo tempo eraó 



pouca gente,quc por pai te de EbRey fe feytori- 
2a:todas eftas cotifas , 6f rmt rw mnyías ten^ho-no- 
tado , & confiderad<oí o que tenho rfiro mt parece 
contormar comos Anti^uoi| , & com os qac me- 
lhor lêiicem ikílíi maEcria,efda htçflv%a oque lhe 



ao ra^fmó dcfeubrimento bwns criados do Infante 
Dom Fernando , os quaes dclcubriraó as outras, 
que por todas laó dcz,chamada? todas vulgarmcn- 
tCjdoCabo verde , por cílarem ao Poente dcUc, 

por diílancía de cem Icguas. 

Santo 



Lu/íaãas àe Luh ãe 
o^fsU ^ae et Utjpanhott tanto ajadótt. Sabida cou- 
fahe ier o Bemaventurado Santiago Padroeyro 
dos Heípanhoes , Sc pelas Chronicasheaflàs ma- 
nitclto o grande tavor , & ajuda que lempre deu 
aeíta naçaó , contra os Mouros inimigos da nolla 
fanta Fé Catholica , por haver pregado nella a 
Fè de Chriílo Senhor nollb » o que hc certiirimo, 
como com muytas razões o prova o lUuítrilíimo 
Condeltavel. 

D'^ae^Ht tanto ijue Boreas nos ventou. Boreas he o 
Norte, couiO atlas fica dito. 

W terra onde o refrefco duceachamat. Efta he a Ilha 
•ide Santiago , aonde cíUveraó alguns duselperan* 
tio por tempo. 

lÕ 

POr ai^ui rodeando a larga parte 
T>e Afr k a ^que ficava ao Oriente^ 
^ Trovincia Jetofo^que reparte 
*For diver/as naçoens a negra gentes 
A muy grande Mandinga por cuja art€ 
Logramos o metal nco^ó' luzente ^ 
^edo Curvo Gamhea as agoas bebe^ 
As quaei o largo Athlantico recebe» 

Voraofm r$ieand> a tnayor ^arte. De Africa é^uefi^ 
tava ao Oriente. Neíta oy tava cratta o l^oeta co;no 
collsando os Portuguezes pela terra de Afiica, 
pafliraõ pJa Província dos Gelofos , que laõ os 
primcyros negros de Guiné , a qual he muyco 
grande , & íc eftende por aquella coita de Guiné 
iobre o mar Oceano Occidental : jaz efla terra dos 
negros Gelofos entre dous grandes rios , & Sana- 
ga , ôcGambea, osquaes tem differentes nomes 
entre aquella gente, conforme aos lugares por on- 
de pallaó. O Sanagâ divide os Mouros Aienegue'? 
dos negros Gelotos : corre por mu) ta diltancu de 
terras , até entrar no niar Oceano em altura de 
quinze graos,8<: meyoj vindo das fontes dos lagos 
a que Ptolomco chama Chelonides , Nuba , 8c Nu 
ger.Os Portuguezes lhe não fabem outros nomes 
lenáo Sanagá,donomede humSenhor da terra, 
com que tivcraò paz , & comercio no principio 
delle delcobrimento, pofto que o verdadeyro no- 
me do rio he logo alli na entrada, Qi^iedech , le- 
gundo a lingua dos Mouros , que alií moraó. O 
GambcaHe por onde os noíTos vãoaorclgate de 
Cantor, não tem tanta variação em nome, porque 
todo cilc tem o rcfgace do ouro , aonde os noííos 
vão. l'erá por linha direyta oytenta iegiias, & ca- 
minhando por elle cento Sc oytcnca.porrazúódas 
muytas voltas que faz : & em todo cftc efpaço o$ 
negros da terra lhe chamaó Gambú, & nós Gam- 
béa.He rio mais caudal, Sc mais alto que o Sanagà, 
porque (è metem nellc muytos rios , que nalcem 
no íertaõ da teita chamada Mandinga , alUs no- 
meida , & conhecida dos noflos , de que o Poeta 
aqui hlla. As principaes fontes defte no Jaó as do 
no a que Pcolomeo chama Nigcr, 6c a lagoa Lybia» 



Camões Commentadofi 1 ^f 

Pelo que dizem alguns que o Gambea i SrNiger 
íaõ o mefmo no , ôc que aflim o affirmaó os natu- 
raes da terra , como refere Luís dei Marmol , na 
Defcripçâo de Africa. A terra quejaz enrrc cites 
dous nos faz hum Cabo, que Ptolomeo chama pro- 
montório Arffinario,€c os Poriuguezes Cabo ver- 
de , ao qual poz eíle nome hum Diniz Fernandesi 
criado d'El-Rey Dora Joaó , & morador cm Lif* 
boa, que o dcfcobrio. Chama o Poeta ao no Gam- 
béa Curvo , por fer íeu curfo cm muytas voltasj 
principalmente do lefgate atè entiar no mar em 
altura de treze grãos 6c meyo ao Sueíte doCabo 
que chamamos V^erde. Eftas voltas, que faz, íaõ 
cauía de navegarem os noflos navios melhor por 
elle acima, por virem as aguas com menos ímpeto 
do que vieraó le feu curlo tora direyto.Mandingai 
hc Província grandiffima de negros, donde vem O 
ouroá Cidade de Tungubutú , que eltátrcs lé- 
guas dorioSanagá, da banda do Norteia qual Ci- 
dade por eíle rclpeyto concorrem muytos mora- 
dores do Cayro, Tunes, Oraó, Trcmcflem,Fez, 
^l arrotos , & outros Rcynos , êc Senhorios de 
Mouros,6c he boa graça haver quem diga,&com- 
mcnte,que Mandinga he rio. 

E logramoi o metal uco, & luzente. Metal rico, SÊ 
luzente he o ouro , oqualvcui cm grande abun- 
dância da terra Mandingâ,coino Hca dito. A ter- 
ra que hoje chamamos Guiné , que hc toda a Re- 
gião do rioSanagà tomou nome de huma Cidade, 
que tila nas correntes dcííe rio chamada Gena , a 
qual foy antiguamente muy frequentada , por ra- 
zão (So ouro , antes que viclle à Cidade l'ungu- 
butu. Os moradores da terra chamáo a efta reguô 
GcnajOU Gcnij,nÓ3 commummente Guiné, 

AST)orcadas pajfamos p9V0aaas 
T)a5 irmãs i q outro tempo alli vivtãòj, 
^.e de vijia t ot ai fendo privadas ^ 
1 o das três de hum lô\)lhofeferv'tãoi 
Tafò^tu cujas tranças encrefpaãas^ 
Neptuno Jà nas agoas acendião^ 
Tornada jà de todas a mais fea, 
T>e víboras enchcjie a ardente areal 

Ai DorcaJas paffamos povoaJat. Dai irm^s^ue ou- 
tr» tempo alli i'/i;;<íõ.Phoico Kcy das Ilhas Corlega, 
& Sardenha, teve três filhas, Éuriale,Eílheno, 6c 
Mcdufa, eftas dizem os Poetas, que não tinhaô to- 
das três mais que hum ló olho de que fe lerviaõ,8c 
que le chamavaõ Gorgones , por refpeyto das 
Ilhas Gorgadas,ou Dorcadas,aondc habitavaõ dAS 
quacs íica irattado atrás ncfte meímo canto, oy ta- 
va 8. Tm/í r/» cí*\ai trancas encrefpaâuí. Efta he Mc- 
dufa. Veji-fcoqueefcrevcmos nocanioj. oytaya 
yó.Qiianto a cfte fingimento deitas três irmâs.que 
tinhaô hum lò olho porque leíerviaô, hc porquê 
todâb craó rnuyto fennolas , & convertiaó cm pc-* 

Ta tiia$ 



dias todos osqiie as'olliáva5, porque com fua vil. labido efte Bcmaventurâdô Santoi não Tc ãch?lii3 

Kijfaziaó que os homens lelheaíFeyçoaflem muy- do depois da Relurreyçáo cie Chnfto Noílo Se-^ 

to. nhor com os mais irmâos,&: companheyros,quan-' 

^ artientearea.He a terra, de AFrica,aqual chama do leu meílre lhe appareceo , dandolhe conta os 

srea ardente , por haver nella grandes areaes , ÒC outros Dilcipulos, como lhe apparecera leu Mcí^ 

niuyto mfcítados da grande*lqucnturadoSol. tre , ôc o viraó com as Chagas abertai.diflb ,que 

lornadi^dde todafumaufea. Pelo que nella fez naó havia de crer tal, fe com Teus próprios olhos <i 

r«llas,que lhe converteo os cabellos em cobras, 5c nãovillc , òc com luas mãos lhe não palpaíle as 



s 



ChagaSjOqucChriftoNoflb Redemptorfez com 
muyto golt©,chamandoo,& dandolhe licença que 
tocaíie, & meteíle a maó no lado,& muyto de va^j 
gar le ccrtificalle da verdade do calojcomo Ic con- 
ta cm o glorioio Apoítolo, & Evangelifta Si JoaS 
^ pa»a Com a duvida deíle Sanro Apcltolo ficaf 

nolla Fé firme , & a elpcrança mais certa , com o 
Empre em fimpara o Aufiro a aguda f roa exemplo da culpa do Difcipulo, & da brandura,5c 



aos olhos deu propriedade de converterem pedra 
tudo o queolhalicm. De viberas rncbejie a ^ardentt 
fitea. Veja le o que fica elcrito de Medula no cantb 
s.na Deicripçao de Africa oytava i. 



No gr andijfimo golfão nos metemos^ 
'jjeyxando aferra aJperYtma Lioa^ 
Co Cabo, a quem das palmas nome demos: 
O grande rw^onde batendo foa 
O marnasprayas notas ^que allltemosy 
Ficou.co a Ilha illuftreiquetomrd. 
O nome de hum^que o lado a ^Deos tocQU% 



miíencordia tão ufada do Meftre , & daqui diz o 
Bemaventurado S.Gregono , que mais devemos à 
infidelidade, & duvida de S.Thomé , que a dili- 
gencia , & prefteza coid que os outros Diicipulos 
crcraó. Quanto ao tempo cm que efta Ilha le del- 
cobrirte,õc quem folie o, Autor deíle defcobrimcn- 
to não ha certeza, como lambem a não hà de ou- 



tras muytas coulas que acontecerão no temp3 

d^El-Rey Dom Afi^onlo o Quinto , ou por falta, 

Stmpreemfimpara o Aufiro a aguda proa. Cortti^ & negiigeiícia dosChronilhs daquclle tempo, oa 



por le perderem, 6c conluniirem os papeis, Sc me- 
moriai, daqucila idade , fuzendo o tempo nella iei 
oíHcio ) como em outras coítuma. 



M 



nua o Poera a navegação dos Portuguczes para a 
india,os quaes coxeando a terra de Aí i ica lev'avaó 
Sd proas pura o Sul, baleando o Cabo de boa Elpe- 
arnça. OvS«/ Nomea por eíla palavra, Auftro, que 
íí« vento que fopra daqucila parte , a que os Gre- 
gos chan.aõjNoto, 6í nós em vulgar, Sul,ou Ven- 
daval. 

Por GolfaSgrandiffi/tío.Kmendt o mar,termo de 
fallar muyto u fado entre os Poetas, osquacscba- 
ináoao margurges.ltagnum, &clacus,que laõ pa- 

lavras de pouco tomo Sc fignificaçáo , porque ^/^^r e//e lar^omar emfm me alongo, 

curees.hc a parte profunda de qualquer no, ítaa- ^-^ ' . j (r, , , r^ ,■ n ^ 

Sum tanque! &lacus a lagaa,& em termo vilgar, ^^^onheado Tolo deCahJh. 

golfaó henome que lenão pôde accommodar fe- Tendo O termino ardente ja paljado 

não ao mar , ao qual os Latinos chamãoy/««i, co- Onde o meyo do mundo he limitado, 

mo grande goltaóde Africa,daPerfia ,o Gange- 

tico, adriático, o de Marcelha, & outros:8c quan- Allio muy grande Reyno t(iá de Cfinp.O Rcyno ds 

do o vocadulo fora impróprio com o epitheto de Congo toy uticubertopor hum Diogo Cam Ca* 

grandiíTi mo, ficava concertado como Virgilio na valley roda Caía d^ El- Kcy noannodequatrocen- 

Éncida. Afpartnt rari nantei in gurgtte vajto, & em tos oy tenta , 6c quatro , o qual por ordem deíle 



A LU O mUy grande Reyno effà de Congt 
*Tor Tiòsjà convertido â Fe de Qhnjh 
Ter Onde o Zayrepaffa claro^^ longo ^ 
Rto pelos antigos nunca viflo: 



outra parte: Per jiagna immen f a, la cu (e^u€,pe\ os Hn- 
quês, Sc lagos grandes, Pus aqui ilto, porque não 
falta quem reprehenda ao nofio Camóes , ufar de 
golfão grandiííimo pelo mar,rendo vocábulo, que 
a nenhuma outra coula le pôde accõmodar. Diz 
logo o Poeta nella oytava que hindo os Portuguc- 
zes ao longo da coíba de Africa, le fizeraô na volta 
do Sul , na qual viagem palláraô a lerra Lioa : o 
Cnbo das Palmas, Sc o grande no Zayre.que paíla 
pelo Reyno de Congo,do qual trattaremos na oy- 
tava ícguinte. 

C'* a tllufire liba e^ue tomou > O nome de bum cfue o 
lado a Dm mow.Eíla Uiva he a de S.Thomé,a qual 



mef;no delcubridor fe começou a converter á Fé 
deChrilto, como dizjoaó de Barros na primeyrt 
Década liv. 5. c,^ 

Vor onde o Zayre pajja claro, é^ longo, Eíle rio dei 
cobrio o melmo Diogo Cam que atrás nomeamoi 
neíla fua viagem , em que dclcobrio o Reyno d 
Congo, o qual por muyto tempo foy chamado rio 
doPídraó , por caufa de hum que o leu defcubri- 
dor ao longo dellepoz , & como quem tomava 
pofie por parte d" E.l-Rey,da Coíla que atrás dcy- 
xava delcuberta. Hoje le chama rio de Congo, 
por atravcílar hum Reyno do mefroo nome, ainda 
que c leu nome entre os naturacs íeja Zayre , mais 
iicnieya poreílesrodeyos , porque comoheaílás notável , Sc iliuílre por aguas, que por nome, por- 
- que 



I 



íupaàas de Luis de Caffioes Commentaàoi, i4.t> 

^ue ftõ tempo em que naqucllas partes he Inver- mos na Europa, nova » 6c não vlíla.' NovatfireUa, 
no, entra tâofurjolb, &: loberbo pelo mar, que a •""• "^ 
Vinte léguas da Cofta íe achaó as aguas doces. He 
rio muyco grande , tem Tuas fontes no íertáo den 



iro no Reyno de Congo, em huma lagoa que tem 
certas lih.tas feytas delia meíma , donde o Zayrc 
começa , nas quaes vivem hans negros chamados 



Eíle Hemilpherio da linha por diante,diz o Poeta, 
que foy alguns tempos incógnito , &;elcondido 
aos moradores neítas partes da nofih ILuropa , o 
qual como fabemos por razáo da ETphera, òc pela 
experiência nâo hc parte tão acompanhada de £l- 
trellas , nem tão clara , Sc reíplandcccnte como o 



Mudsqaetes, lujeytos ao Rey de Congo, ao.qual noíTo Norte. Tem eftc Polo Antarâ;ico,quehe o 



03 naturaes chamaó Manicongo,porque Mani en 
ire cllcs quer dizer lenhor,ôc daqui Manicongo 
ioa tanto como Icnhor de Congo. Diz o Poeta 
que eíle rio não foy conhecido dos Antigos, por- 
que não tiveraó noticia, nem conhecimento dcl- 
le. 

Do conhecido polo de Calyflo, Polo de Cal y fio co* 
mo fica dito he o Norte. Tendo o termino Arden'ejâ 
^«/«(-/o.Pâíladaiaalinha a que chamamos tenTiino 
ardente , por onde o Sol faz feu curfo comam :n* 
jnente.Chamamos a eífa linha Eclyptica, porque 
fcomo heocammhodo Soljosecclypfesdo Sol, Sc 



Sul, de que hiraos fallando, quatro eílrelias a mo- 
do de Cruz , em as quaes (empre anda huma nu- 
vemzinha branca , que lhe apaga a claridade , 5c 
junto a eílas quacro ha outras tres,que lemclhaõ o 
noílo Noitc.Ptf/o /íxfl.Hecílc Polo Antarélico, no 
canto primcyro , oy tava 24. trattey dos Poios do 
mundo : chamãole fixos, porque naó fe movem, 
movendo-íeo mundo todo fobreelles. 

^itte outra terra comece^tu mar acabe.\X.QÍQ\\iX.2i cou- 
fahj lem duvida alguma , ler toda a terra deícu- 
berta , §c navegada do jLefte a Oefte , quafipor 
onde o Sol andaimasde Sul ao Norte , aflimde 



J-<ua, as conjunções, oppofiçóes , 6c aípedos dos huma parte como outra, ha muy ta diíFerença, & a 



Planetas não fe póJem tazer em outra parte do 
Zodiaco fe nâo neíU. 

Onclt o mep do mundo he limitado. Afiím como a 
eclyptica parte pelo meyo o Ceo,aíIicB outra linha 
jquelhecorrefpondc aellanaterra , apart?, pelo 
que diz aqui o Poeta , que naquella paragem he o 
ineyo do mundo. Dcílas linhas , ou zonas \nwj'\^ 
^adas no Ceo , fe veja a noíla annotaçaá no|tcr- 
ccyro canto , o y tava 6, 

Jy4^ defcubevto tínhamos diante 
La no nov9 Emisferio nova eflrella^ 
Nam vifta de outra gente ^que ignorantes 
^Iguns to tipos efteve incerta delU: 
Vimos aparte menus rutilante j 
£ por falta de ejirellas menos bella^ 
'Do To Co fixoyonde indafe nam f abe ^ 
^ue outra terra comece ^ou mar acabe t 

LÀ no novo Hemifpberio nova efirelía. Como o 



mayor parte eftà por deícobrir , que hcoqueo 
Poeta aqui diz, que da parte do Sul naó há certeza 
de rerra alguma, ainda que fe lufpeyta havela, por 
refpey to do eílreyto de Magalhães. 

ASfipajfando aqueilas regiieSt 
'tor onde duas vezes pajja Apollo, 
'ÍDohs Invernos fazendo, é^dous Verões, 
Em quanto corre de hum a outro 'Poio: 
'Por calmas ^por tormentas fi^ opprejjoes 
^f (empre faz no mar o trado Eolo^ 
Vimos as %)rjas a ^efar de JnnOy 
Banhar emfe nas agoas de Neptuno» 

Afji pajfando aqueilas Rtgtoes, Ptr ande duas vezet 
pada /ipoUo. Apollo he o Sol , chamado afiim da 
particula A. privativa, que quer dizer lero,& poli, 
muytos porque ló elle dá luz ás terras , & toda a 
que tem os outros Planetas , & cftrellasa rece- 
bem delle.Eítas Regiões por onde pafla duas ve- 



xnundo he redondo,daõlhe os Latinos, & Grego> zes fazendo dous Invernos, & dous veróes,faó as 
I)omcs conforme a fua figura, porque os Latinos Ilhas de S.Thomé, Príncipe, & outras que eltaõ 
Jhechamâo Orhts^ que quer diz^r redondez, 6c os debayxo da linha , nas quaes faz efta variedade 
Gregos Elphera, que fignifica o mcfmo.Eíla Ef- quando caminhado Trópico de Cancro para ode 
phera, ou mundo repartem em duas pirtes, que Capricórnio , que entaó faz hum Inverno , & 
çhamao Hemifpherios.hum íuperior,&: outro in* quando torna do Capricórnio para o Cancro, ou- 
tenor.Hemilpherio fupenor lechamaameyapar- tio como experimcntáo os que paíleão aquelle 
tc da redondez do mundo, como lerii tudo aquil- 
lo, que eílando nós em algum lugar chaó , ou 
monte ako , viflemos ao derredor como moftraa 
figura ^. Hemifphcrio inferior Chamáo áquelia 
partedo mundo, que cae debayxo dosnoílbs pés, 
na qual moraõ os Antipodas , que íiiõ os que mo- 
raó nas partes Auftraes , como fe vé na figura B. 
chama o Poeta aqui novo Hemifpherio aquelTa 
parte,que cae alem da linha,por fcr aos que mora- 



CHma. E o Poeta dá a entender claramente , di- 
zendo, que o Sol faz cites dous Invernos , 6c Ve- 
r(3cs,em quanto atravcílando alinha pafla de hum 
polo a outro. 

§iuj lemprc faz, no mar o ir aio Eolo. Eolocomo di- 
zem os Poetas , tinhaó os Antigos por Rey dos 
Ventos , & queclle os tinha , Sc lolt;iva quando 
queria,como elcreve Virgílio na Eneida. Veja-íc 
a noíla annotaçâo no canto i.oytava 58. 

Vmit 



iS 



'^ tanto §^titt^l 

lítmot ai Xlrfaià féíar h iuno* Banharem-fe nas 
atuíii de Nepf«»o.Contaó as fabulas,qu« depois que 
Arcas filh» de Júpiter matou a lua roây Calyfto, 
que andava pelos matos convertidaem Urla, Ju- 

|)iter os poz ambos no Ceo.Sc fez delles eftrelias. V ^^ ^ marítima gente tem por falitK 
bentida muyto Juno difto, deu conta defte aggra- £fn tempo de tormentai^Bvento efquivo 
vo, que feu mando lhe Hzeia,a ThetYS,& a Oc«a. cj^g tempeftade efcura^à' trifle pranto: 



^ T Idaramente vijio o lume vivol 



tiOjíenhores do mar, os quaes lhe prometerão que 
^ílas eftrelias não íe banhariaó nas fuás aguas co- 
roo as mais eftrelias, & Planetas faziaõ. Eftas Ur* 
íascftáo como meyo grão do polo ao derredor do 
qual andáo. Saó as que chamamos guardas do 
Korte , não lazera feu curío como as mais eftrel- 
ias. E porquç femprc as vemos , & não le nos ef- 
condem como nas mais íuccedc , dizem es Poetas 



Natn menos foy a todos txceffivo 
Milagre ^^ couja certo de alto efpanto, 
yèr as nuves do mar com largo canoy 
Sorver as altas agoas do Occeano, 

V't claramente vifio o lamt vivo.^at a rttariúmàgt^ííi 
te tem por jante. Começa o Poeta a trattar dosca* 
quefc nâobanháo no mar a petição de Juno que fos,que a gente do mar conta por certos. O pri- 
acaboucomTethys IcnhoraUo mar , quenáaen- nieyroheo lume lantojcomo lhe chamaó osmari^ 
traílcm nas luas aguas , Sc o que o Poeta aqui diz, nheyros , 6c comir.ummente os Portuguczes S.Pe- 
qje apçzar de Juno as viraò banhar , he porque clro Gonçalves , &: os Caftelhanos SandeJmo, 
paliada a linha tica o Norte cncuberto, 6c parece que tudo hc hum, porque o Bemaventurado San- 
que íc mete no mar,,Ô{Jdalli por diante U govcr- lo le chamava Pedro Gonçalves Telmo , como Ic 
não pelo Sul. póJc ver na lua vida que elcreveo Frty Vicente 

/iguai de Neftuno. Saó aguas do mar,como fica j uftiniano da Ordé dos Pregadores. Aparece or- 
ditoem muytas parccs.Efta fabula de Arcas,Sc Ca- dinariarr.ente em tempo de tormenta ncsinaílro» 



lyllo conta Ovídio nas Metamorphoits. 

CT OntArte longamente as pífigofaí 
j Cou/as do mar^q os homés naÔ entendem 
Súbitas trovoadas temero/as, 
Beíampagos^que o ar em figo acendem*. 
Negros (Jibuvjyros^noytes tenebrofas^ 
Bramidos de trovões ^que o mundo fendem ^ 
Nam menos he trabalho que gr ande nto^ 
Amda que tivejfe a voz de ferro, 

Atnda ^ut tiveffe a voz, de ferro, He termo Vor» 



dss nãos, piques dos loldados, 6c em outras partes. 
Mas como Deos Noílo Senhor para legurança do 
i(U povo ulou do arcc,a que commum mente cha- 
mamos da Velha,de que atlas fica trattado. E ka-i^ 
tio couía natur il , quis mofti ar por elle i que nâ( 
haveria mais diluvio nas terras , aífim lepódcdií 
zer , que efte lume de que os Antiguosfaliàraój 
com ler coufa natural, 5c fabida,ufa í3eos dcile, 
quer que o leu Bcaventurado Santo S.Pedro Gon« 
çalveís por efte meyo , & cem elle final ajude aos 
navegantes. Saó iegredosleus, 6í osque lerem a 
vida do Bemaventurado Sanclielmo , le afteyçoi- 
raô muyto a crer ilto , pelo que os marinheyrosla^ 
bem aconielhadoâ continuar com lua devoção. 
Sorver dt altas agun do Oceana. Ifto que o Poeta 



tico, & muyto uíado para encarecimento» A eftc aquidizdasnuvens.queviodecerdoCeo, Sc re- 



jnodo Virgílio na lun Eneida. Nfnmibi fi lingua 
centum (int,oraijue centuta^ férrea vox. Ainda qut te- 
nha cem linguaSjSc cem bocas,Sc a voz de ferro. 



17 



OSca/òs vhque os rudes marinheyros^ 
^e tem por mejira a longa experiência coufas luccedem que íaô naturaes , outras lobr 



ceber agua em fi,& lançada outra vez, elle nieim* 
mediíica mim,queo vir.i muytas vezes: &o mef» 
mo me difleraó outras peftbas que o viraó , & que 
a agua que lançavaó as nuvens era doce,eomo diz 
o Poeta neíle canto. Saõ couías áo Cco , & os ho 
nnens eftamos na terra da qual fjbemos muyr 
pouco,quanto mais do que pafia no Ceo.Muyt 



1 



Contão for certos fempre^^ verdadeyros , 
Julgando as coufas fó pela apparencta: 
E que os que temjuizos mais inteyros^ 
^e fô por puro engenho,^ por fciencia 
i/em do mundo osjegredos efiondidos^ 
Julgãopor falfosyou mal entendidos. 

Oi cafoí vi , ^m «itujot marinbeyroi. Que calos 
cftes fejaõjconla nas oytavas que fe feguem. 



naturaes, cujo legredo Deos guarda para lí,8c com 
tudo alguns atrevidos lhe querem dar íahida,na< 
fe entendendo a fi* 

IP 

ET? o vi certamente ,( ònamprefumo 
^ueavifta me enganava^evantarfe 
No ar hum vapor finhofÁ fútil fumo t 
E do vento trazido rodearfè: 
"De aqui levado hum cano ao 7^ o lo fummè 
S^ Via tom dtlgadoyque enxergarfe 

Vi 



Lufíaâas de Lu is àe 
^õs olhoífaciMente nam podia, 
^Da matéria das nuvês parecia, 

Euotfi certamnte. Neíla oytava, &: nas tres fe- 
|;uinces conca o Poeta o modo que tinhaó aquéU 
las nuvens , que lorviaó a ftgua , êc de que proce- 
diaó. Vay em cílilo taõelegance, Sc palavras tão 
claras , que nenhuma neceliidade tem de declara- 
%'áo. 

20 

HIafe pouco f& pouco acrefcentandoy 
E mais q hú largo mafto fe engrojjavà^ 
jíquife ejirâyta^aquije alarga ^quando 
■K)s golpes grandes deagoa em/i chupava: 
Mftava/e co as ondas ondeando^ 
£m cima delle^ huma nuvem fe efpejfava^ 
JFdzendoJe mayoryfnais carregada, 
Co a carga grande de agaa em fi tomada. 

Grandes golpes d'' agua em fi chupava, He termo 
Çorcugucz. p<tra dizer grandes pedaços , ou gran- 
de loma de alguma coula , dizer grandes goipcs, 
como aqui o Poeta. 

21 

Q Uai roxa fanguefugafe veHta 
Nos beyços da almaria,que imprudente 
Bebendo ^a rdcolbeo na fonte fria. 
Fartar do Jangue alheòa fede ardente: 
Chupando fHais^é* mais fe engrú/fa/S cria^ 
jíllife henchet\êfè alarga gr anaemente^, 
Tal a grande columna enchendo àHrHtnta, 
Apj& a. nuvem negra que jujltnta, 
*» 

• (^alroxa Sangt4tfuga, Sangilefuga.he a qué cor- 
ruptamente chamamos lari)beXuga , bicho aílas 
conhecido.aflim ellc como lua qualidade, qUe he 
thupar ó Tangue do lugar aonde le põem. Cha- 
, ina-í"é aífim dt duas palavras Latinas, /âagM/i, que 
hfo langae,ac /«go,chupal-, por etta ler íua natu^ 
reza. 

A fi,& a nuvem negrfi.ejue fafienta. Porque párc- 
Iriateraquellanuveni (obreíi , 6c íuílentaíà , que 
ftáo cahiilejou pela agua que lhe dcytava. 

22 

M/^s depois que de todo fe fartou, 
O pè/juetem no mar ajirecolhe, 
Epelo Ceo chovendo em fim voou, 
^Porque co agoa a jacente agoa molhe: 
As ondas torna as ondas ^que tomou ^ 
Mas ofahor dojal lhe tira/^ tolhe ^ 
Vejaô agora os fahios na ejcntnraj 
^efegredosfàõelles de natura^ 



Cdmoes Commentadosl If 1 

As ondas torna as ondas <juc tomou. Onda vem de; 
««ia no Latim , que quer dizer agua : diz aqui o 
Poeta , que aquella nuvem tornou as aguas ao 
mar,dondè a9 tinha tirádâs,màs com difíérente Ta- 
bor, porque fendo as do mari donde aquellasTahi- 
raõ falgadas , caindo da nuvem que as recolheo, 
não traziaõ o tal labor, couía certa para notar,cni 
a qual os homens daràõ tão boa fahidacomo daó 
cm outras , que preíumptuoíamente querem de- 
clarar,lendocoulas doCeo, & reíervadas á Divi- 
na Mageítade , cujo conhecimento nos impoita 
rouytopouCo para nollafalvaçâo. 

SE os antigos Vilofofos^que andar aõ 
Tantas terras por ver fegredos delias^ 
As maravilhas ^que eupaf/ey,paj]âraõj 
Ataõ diverfos ventos dando as vellas: 
^e grandes efcrituras^que deyxàradl 
S^e infliu çad de fignos j!p- deejirellasi 
^tv eJirahhezaSjque grandes qualidade si 
E tudojfem mentir^uras verdades^. 

E tudofem mentir. Porque os Antiguos diíleraô 
itiuytas couias não muyto certas, porque não tive* 
raó experiência delias. 



24 



sr 



AsjâoTlaneta,queno CeoprimeyrOf 
Halitaycinco Vezes aprejjada,. 
Agora meyo rofto^agora inteyro 
MoJfràra,em quanto o mar cortava armada^ 
fiando da etherea gávea hummarinhtyro, 
'ítronto co avifla^tena^terra brada .^ 
Salta no bordo alvoraçada agente^ 
Cos olhos no Orizontedo Oriente, 

Mas \à o Planeta, efue no Ceo primeyro haiita, O 
primeyro Planeta , & mais junto a nòs, he a Lua, 
por eíies rodçQS de fallar aíiàs Poéticos, & de que 
os Latinos Pt)era§ muyto ufaô. Dizque depois de 
paliados cinco tntíts , que Tahiraó dabaira de 
Lisboa, houvera© vifta da terra, que foy hum Sab- 
bado ^.dias dò mcz de Novembro , ás nove horas 
dn dia , córll que todos íkáfaô muyto alegres , & 
contentes > cnmo contdõ ós noflos Hiíloriadores 
logo no principio dertedelcobrimento. 

guando da Etherea gávea hum marinhe ^frcGivez 
Etherea,qucr dizer,gaveàalta,de lithcr,que quer 
dizer o Ceo. 

Cos clhoí n» ÚUzonte do Oriente.OuioÚtc ncíiuni 
dos CÍftuIoS (tIayorcSda Eíphera , quís divide o 
Ceo cm duas partes iViiaes.deyjiandoàiíiètade lo- 
bre a tcría,5<.a outra dobayxó.Tòma-lctânibefn 
poraqutlwí eípaço' ♦ quccôm os olhcs podemo? 
ver , & ntftafig-niííraç^ap tornou íiqui o Poera, 
Veja- ic u noili annoraçHo no canto Icgundo oy- 
lava 13. 4 



í'%i 



i5 



{^am^míòl ^^ ■ •_ 

^e tomarão for for fãim qUãnto apanha 
^JJe mel os doces favos na mo ntanha. 



Manéyradenuvesfe come f ao 

Adejt ubrtr os montes ^que enxergamos 
As ancoras pe fadas Je a dereçaõ^ 
As vellasja chegados ^amaynamos', 
£para que mais certas fe conheçaô 
As fartes taÒ remotas ^onde eflamos^ 
^elo novo mfirumenío do Ajirolabio^ 
Invenção de fubtiljutzojífabio. 

Velo novo inflrumento do /i^rolabto^, O modo dô 
navegar por Altrolabio foy achado em tempo 
d*lLl*Rey Dom Joaó olcgundo, pordous médi- 
cos do mefaio Rey.Eíle inftrumento foy logo no 
principio de pao,hoje ie colluma de metal, muyto 
niais apurada , & concertadamente. Serve aos na- 
vegantes para tomar a altura do Sol,para fabererti 
o iugaraonde eítáo. Quis Noflb Senhor acudir íadojporquecomaaufcnciadoSol eílas duaspar- 



^châmos ter de todo j4 paffado. Do Semicapro peyxé 
-agrande Meta. Diz que tomada a altura do Sol pc* 
lo Aftrolabio acháraõ eftar alem do Trópico de 
Capricórnio hum dos doze Signos celeílesjO qual 
aqui entende por Semicapro peyxc» que quer di» 
zerpeyxc mcyocabra,porque o Pintáo os Poetas 
com figura de cabra , & rabo de peyxe , dando a 
entender, que quando ò Sol entra na fuauhima 
parte, coftuma haver muy tas chuvas* & tempclla- 
des. Pelo que lhe chamáo também os Poetas, hu* 
midoj&gozero , bode húmido. O que o Poeta 
aqui quer dizer j he que fe achavaó alem do Tró- 
pico de Capricórnio , que he a meta , 6c baliza do 
Sol, da banda do Sul , & que eílavâo entre eftc 
TropicojSc o Circulo Antardico, que heo Sul, a 
que chama o Circulo Auftral,por ventar daquella 
parte o vento Auftro,de que atrás fallámos,& ge» 



aos que navegaõ com eíte remédio , paraque o fi. 
zeílem melhor, 3c mais feguramente* Porque an- 
tes de toda a navegação era ao logo da cofta,ievã* 
doa íempre por rumo,da qual tinhaõ íuas noticias 
porfinaesdequc taziaóroteyros.Baftava ifto nos 
principies para o negocio do defcobrimento , o 
que he muyto differente , para quem íc ha de en- 
golfar no mar , & perder a terra de virta, que fem 
tlte iníhumento houve mil perigos,& enganos. 

16 

D E/embarcamos logo na efpaçofa 
'FartCypor onde a gente fe efpalhoUj 
T>e ver couf^s eflranhas defèjofa 
'De t erra ^que outro povo naõ pifou; 
^crèm eu cor Tilotos na arenofa 
^rajà, por vermos em que parte efíou. 
Me áttenho em tomar do isol a altura^ 
E cbmpafar a univcr (ai pintura 



tes do mundo Norte, & Sul, Taó muyto frias. Qus 
couía feja Trópico fica dito no canto }. oy tava ^* 

i8 

TOrvadõ vem na vtfla^como aquelhl 
^te naôfe vira nunca em tal eftremòl 
Nem elle entende a nôs^nem nos a eíle^ 
Saivàgem mais que o bruto Toíifemo: 
Come folhe a mojirarda rica pelle 
2) e Lolcos o gentil metalfupremo^ 
A prata finada qumte fpectarta-i 
A nada difio o bruto fe tnovia* 



Torvado vem na vijla. Conta o Pôeta,como ci- 
tando na prayá tomando o Sol, Sc vendoapara- 
jcm cm que ertaváo , houveraô às mãos hum ne- 
gro , que tomàraó andando apanhando mel pelo 
matOi o qual diz que era mais bruto, & falvagcm 
que o Polyphcmo.Eíle Polyphemo foy hum Gi- 
gante, filho de Neptuno , Sc da Terra, do qual os 
E compalfar a univerfal pintura. Ido dh,porq\iC Poetas contão grandes coulas entre outras » que 
álemj^de tomar a altura do Sol pelo Aftrolabio, tinha hum fò olho tia tcft;i, ião grande como hu-] 
lançavaó também fuás medidas , Sccompaflosna ma grande rodela , Sc que morava em huma cova; 
carta de marear , a qual aqui entende por univer- em cuja entrada tinha huma pedra que vinte 5c 
lai pintura ,oquefaziaó para laberem a dirtancia dous carros anão podiaó levar.Efte olho lhe que- 



dos lugares,Sc o que tinhaõ caminhado. 



^7 

Achamos ter de todojàpa[fado 
T>o Semicapro peyxe agran^e meta, 
Efianáo entre elle.à' o circulo gelado 
\ Auftral parte domundo mais fe creta. 
Eis de meus companheyros rodeado f\ 
■ Vejo hum epanho vir de pile preta. 



brou Ulyííes, o modo que teve para lho quebrar, 
Sc a cova em que morava delcreve Homero na 
Odiflca , que he por ordem dos Latinos o livro 
nono nofin>. Chamarlhe o Poeta aqui bruto, he 
pelo que os Poetas delle dizem , porque o pintaó 
fcro.cruel,matador, Sc comedor de carne humanp. 
Cormçidhe a mcfirar de rica pelU. De Colchoi o gentil 
metal (upre mo. Entende O ouro , SccomoPoeta 
aqui o dizer tão claramente per eítas palavras: O 
gentil mctàl lupremo , não falta quem declare 
brocado , que he boa galantaria, (vhama ao ouro 
felle de Colchos, porque naquelle lugarem hum 

Templo 



"^ Lttfiadas de Luís de Camões Commentadôf, 

Templo dedicado a Marte eítava a pellede hum 
<carncyro com fua Iam de ouro , a qual Phrixo íi* 
&0 d*El-Key Athamante lhe offereceo em me- 
moria do bom íucceílojque tivera em efcapar das 
mãos de iua madrafta,que o queria matar. Eíle he 
o vcllo de ouro tão celebrado entre os Poetas , a 
cuja conquillA hiaóde todo o mundo. Sobre a 
^ual faz Valério Fiacco hum livro a que intitulou 
argonautas , por amor daquelles Fidalgos de 
Grécia , que foraõ na nao Argos a eíU aventura 
ilcftc rcllo,queellava em Cojchos, 



ni 



32- 



O Batei de Coelho foy deprejfa, 
^Felo tomar ^mas antes que chegaffe^ 
Hum Ethiope oufado fe arretnejfa 
Aelk^porque nadfe lhe ifcapajfe: 
OutrOt& outro lhe faem^vejje emfreffa 
Vellofoyfem qtie algum lhe alli a/uda^e. 
Acudo eu logOj& em quanto o remo apertff^ 
Se moftra hum bando negro dejcuberto. 



25> 

MAndo moftrarlhe peças muy fomenos^ 
Contas de enfia Imo tranfparente^ 
Alguns Joantes cafcaveis pequenos^ 
Hum barrete verme IhOjCor contentei 
Vi Ifígoporjifiaesyé^por acenos^ 
Sjie com ifiofe alegra gr an demente^ 
Mandoo faltar com tudo ^à" a [fl caminha 
Tara apvoaçaõ^ciue perto tinha^ 

M As logo ao outro dia f eus farceyr os 
Todos nus^& da cor da e/cura treva» 
'Decendo pelos afperos outeyroSj 
As peças vem bufe ar, que efl outro leva: 
^orne/ticos jà tanto ié' companheyros 
Se nos moftr ao, que fazem quefe atteva 
Fernão Veliofo a ir ver da terra 9 trafo^ 
Efartirfe com e lies pelo mato. 

Ai pefas vem bufcarj^sjue ejioutro leva, Eftas peças 
eraó calcáveis , Sc contas de cnltal , que o negro 
que foltâraó o dia antes havia levado , Scíoy tan- 
u a familiaridade que tomàraó com os negros, 
que foy caufa de hum mancebo honrado por no- 
me Fernão Veliofo fe atrever a ir pela terra den- 
tro cora elles,para fabeí o que lá paílava. 

3í 

HE Veliofo no braço confiado j 
E de arrogante crè^que vay feguros 
Mas fendo foum grande efpaçojâpaf/adoj 
Em que aígum bom final faber procuro-, 
Efiando.a viffla alçada^co cuydado 
No aventureyro^eis pelo monte duro 
Apparece^ér fegimdo ao mar carnínfoa. 
Mais apreffado do que }or advinha. 

Mau aprejfado, Iflo diz » porque enténdeo que 
0$ negros Ihearmavâo cilada para o matar , pelo 
que procurou porfe em cobro. 



Se ntofira hum handê negro deffhífertOé A cfta preflá' 
de Fernão Veliofo acudio Nicolao Coelho Ca* 
pitão do navio Berrio , que era hum navio Mer* 
cante , mas os negros vinhão já taó perto y que 
quaíi o tomavão , & lhe houvera de cuftar caro a 
hida , le do mar naó defviáraó os negros com a ar* 
telharia, aqualremedeou tnuyto, porque os ne* 
gros vinhaó com arcos , & frechas tão apercebi* 
dos, que trattiraó mal a alguns dosnoflbs, como 
diz aqui o Poeta , Ôc contaò os noílbs Hiítoriado- 
rcs. tthiope , quer dizer negro. 

J3 

DAe/peffa navemfetas^&pedradásl 
Chovem fobre nos outros /em medida^ 
E naoforaõ ao vento em vaò deytadas 
^e efia perna trouxe eu dalli ferida: 
AJas nós, como peffoas magoadas^ 
A refpofia lhe demos taò tecida^ 
§ue em mais que nos barretes /efi/peytá] 
^e a cor vermelha levaÕ defia feyta, 

§lueA cor vermelha levão defla feyta. Dá a entett^ 
der que foraó muy tos feridos daefpingardaria, Sc 
artelharia que lhe atirarão da armada para os apar- 
tar , 6c impedir da tenção que traziaó de fazer mal 
a Fernão Veliofo. 

ESendõjà Veliofo emfialvamentõi 
Logo nos recolhemos para armadal 
Vendo a malícia fe a, ò rude intento 
2)^ gente bepialjbruta^à' malvada; 
T^e quem nenhum melfoor corifoecimentê 
'Pudemos ter da índia defejadaj 
^lue e fiarmos inda muyto longe della^ 
a ajfitorney a dar ao vento a vella, 

§lae ejlarmsi inda rnupo longe delia. Porque COffld 
íinhaô entendido por informação, & relações de 
muytos , não dizião aquelles finaes , qus viaô com 
o que íabiaô por eftoutro modo , pelo que cnien- 
diaó cllAr ainda longCi 



S5 



DJIfe então a Vellofo hum comfAnheyr% 
{Qomeçandofe todos afurriry 
KJu lãi Vellofo amigo aquelle outeyro 
éJe melhor de d€cer% que de (ubtr: 
St he,Tef ponde o oujado aventureyroj 
Mas quando encara cà vi tanto vir 
íDãquelks caès^de prefa hum pouco vim^ 
^or me lemhrar^que e fiáveis càjem númí 

:■ Oh là amigo Vttiofo, Efta graça conta Joaô de 
Barras,q«e paílbu- entre os íoldados,5c o VeJioío, 
^ue aíTim de huma paite como da autra tem muy- 
to engenho, 

3f 

C'> Ontou então ^que tanto que fajfaraõ 
j Aquelle monte os negros, de quem f alie , 
Avante maispaffar onaÒdeyxàraà^ 
^hierendo fenaÕ torna ^alli matallox 
h tornando/e logOjfe embofcàraS^ 
Torquefamdo nós para tomallo, 
JSlos pudejfem mandar ao Reyno efcuro] 
jPor<ms roubarem mais a/èu feguro» 

Avante mctn p^fTar o nâo deyxàra^. Alguns de*^ 
ckraô a qiíi.q 14c fiarão os negros ifto , porque 
^ueriaó bem ao Vellofo , queeríió dos que hiaõ 
contentes do navio , ô: entendendo que os outros 
Ihefariaó algum ma], lhe eílorvaraópaflaravnnte. 
O q%e o. Poeta quer dizer , & parece ler verdade, 
pelo que-eoníta dos que cfcrevcraô eíta Hiíloria, 
lie, que os negros detcrminnraó armar cilada aos 
JK)Hos para os roubar , & que não quiferaó que 



€mto^mt9» 

7onm jd cinco Soes erao paj!Jados,C\r\co Soesquct 
dizer cinco dias, a imitação dos Poetas Latinos» 
que uíaó delta palavra, y<i/ej, no plural , pelos dias. 
Virgílio liv. $. fclneid. 



Jras adeo incerto* cacâ, caligine Soles 
Erramus pélago. 

Ha três Soes que andamos perdidos pelo mar , co« 
mo le diflera há três dias. O que o Poeta diz neít* 
oytavahe , que pufcraó cinco dias de viagem da 
Angra de Santa Helena aonde furgiraõ para fa- 
zer aguada, até haverem viíla do Cabo de Boa El- 
perança. 

Huma nuvem ejtte ot ara efcurece, Sebre noffat ca^ 
hças aparece. Finge aqui o Poeta, queapareceoo 
Cabo de Boa Elperança aos Portuguezes, o qual 
defcreve aqui, ^juntamente huma pratica que o 
meímoCabo fez ao Capitão mcr, com tanto arti« 
íicio,que pafla ptlos antigos , Sc tem pouca ncce- 
íidade de declaração. 

TAm temerofa vinhai& carregada, 
^lepoz, nos corações hum grande med9\ 
Bramindo o negro mar de longe brada j 
Como/e déjje em vaô nalgum rochedo: 
O poteílade ^difje iltiblimada ^ 
§ue ameaço divino, ou que Jegre.do 
Efte clima, ér epe mar nos aprefenta^ 
^te mòr cau/a pare cerque tormenta? 

7 ao temetófa ^mha. Pará vir o Poeta á defcríp* 
çáo do Cabo , conta como naquella paragem Ihí 
apareceo huma nuvem muyto carregada, ik teme-' 
rola, & que moilrava bem fer aquelle cUma , Sc 
mar diffcrente do que até alli linhuô navegado. 



Vellolo paflafle adiante, para que os nofloso íof. & como a pozanuvem viraó huma figura gran- 
íem bulcarjôcaíTim fepodeflemaproveytardelies, djíTima.ôc disforme, que era o Cabo, como diz na 
oqwcilheiuccsdco ao contrario , como aqui fe feguinte oytava. 



conta,& fe póJe verem Joaó de- BaiTos. 

Nos fodtffem mandar no Rtyno efcuro. Por Reyno 
cfcuro fc entende o inferno , he termo de fallar 
poético, &muytoufadopara trattardamorte, 6c 
lie a ifuitação dos Antiguos , que tinhaó por cer- 
to depois da morte hirle ao inferno , como he aflás 
iiotoriojôc^^^pdos quelcm pelos Poetas. ^ 



Cw.^vy. 



37 



33 Orêmjâ cinco Soes eraõpajfados, 
^e dallt nos partimos, cortando 
Os mares nunca de outrem navegados, 
^Profperamente os ventos affoprando: 
^ando huma noyte eftando de jcuy dados ^ 
JSla cortadora proa vigiando j 

Huma nuve^que Os ares efcurece» 
òobre nojfas cabeçts apparece^ 



35> 

NAôacabavasquando huma figura 
Se nos mojlra no ãr^ ^obuJfa,& valida^ 
n^e disforme j& gr andiffim 2 efíaturay 
O rofto carregado^tè a barba e/quaUidaí 
Os olhos encovados i& a poftura 
Medonha fê mâ^^ a cor t err ena fê falida^ 
Cheos de terra ^& crefpos os cahellosj 
A boca negra^os dentes amare lios» " 

Não acahava quando. Não tenho palavras para** 
encarecer a linguagem, propriedade, Sc eloquen** 
cia defta oytava, que realmente fazeíte fingimen- 
to , & Metamorphofe que vay trattando defte 
Cabo de Boa Elperança , vcntagem às de Ovidio^ 



idioM 

I 

Ta5 ' 



Lujiadas de Luis âe Camões Qommenudosl 



'5i 



40 

T/!m grande era de membros ^que bêfojfo 
Certificarte,que efte era ofegundo^ 
^e Rhodes eftranhífimo Colojjoy 
^te hum dos fetc milagres foy do mundo: 
Cuffí tom de voz nos falia horrendo ^ &gYOjIo, 
^ue pareceo (ahir do mar profundo^ 
Arrefiâofe as carnes ^à' o cabello^ 
Am'ii& a todos fó de ouvllo, & velío^ 

De R9(íes eJlranbf(Jimo Colojjo» GoloíTo foy huma 
eftatija de metal em Rodes, confagrada ao Sol de 
muyto grande altura , 6í por efte refpeyto tida 
por humadas fece maravilhas do mundo. 

ET>ife: ó gente oufada^mals que quantas 
No mundo cometerão grandes coufas^ 
Tu.que por gíurras cruas ^taes^i^ tantas^ 
Mpor trabalhos vãos nmtqua repou/asi 
'poís os vedados términos quebrantai, 
E navegar meus longos mares oujas, 
^lue entanto têpo hajd que guardo » & tenho 
Nuncfua arados de eJiranhOiOUpropio lenho, 

Vcii et vedados termnos efuehafitat. Q^icbrantaó 
os homens os términos vediJos entrando nò mar» 
porque Noflo Senhor como fe conta no Geneíis, 
quando criou efte mundo univerfo poz cada cou* 
la em íeu lugar, os homens na terra, as aves no ar, 
os peyxcs nas aguas, & os animaes nos matos. E 
paraque declaremos o noflb Poeta com Poetas, 
veja-fe Horácio liv. i. Ode t. aonde tratta com 
muyto engenho do atrevimento dos homens nel- 
ta matéria de navegar, 5c Ovidio liv.c. nas Meta- 
jnorpholes,& outros muytos Poetas, 5c oradores. 

NftHca arados ã^efiranho ou próprio lenho. U^a efta 
^det3phora, de arar, por navegar, á imitação dos 
Poetas Latinos. Vngilio na Eneida : Ecee paraía 
qHier.ffuUum maris ecjuor arandum,]^ eftais em porco, 
róo tendes mar q arar.E Ovídio nos Triftcs liv.3. 

Non tgo divitias ávidas fine fine parandi 
Latum mutandis msrctbus aqi4or aro. 

Não lauro o largo mar para bufcar riquezas , & 
outros nuiytos Poetas. Lenho toma pela nao, por 
huma figura a que os Grammaticos chamáo Sy- 
nedoche , que he quando ulamos da matéria de 
que Tc fazem as cguTas pelas mcfmas couías. Ltnho 
efiranbo. Saó nãos eftrangeyras. Lenho próprio, 
nãos, & embarcações da gente que mora na pro. 
pria terra, aonJelc aparelha a armada. Defta ma- 
téria Çc veja a noftà anaotaçao no primcyro can- 
to oytava i. 



42' 

POis 'Vens ver osfegredos efcondidos 
T)a natureza^& do húmido elemento^ 
A nenhum grande humane concedidos ^ 
^e nobre jou de immortal merecimento: 
Ouve osdanos de mi, que apercebidos 
Efiam^a teu fobejo atrevimento, 
Tortodo o largo mar ^^ pela terra^ 
^e inda has dejojugar com dura guerra. 

Viu vens ver. Continua o Cabo fua pratica,pon* 
do diante aos noílos os trabalhos que lehaó de 
acrecentar nefta viagem da Índia , a que pelo def- 
cabrimento deftc Cabo abrem porta, & como feu 
atrevimento ha de fer caufa de muytos danos , 6c 
trabalhos. Humtdo tkmento. He a agua. A nenhum 
grande humano concedidos. Encartce o Cabo aos 
Portu^u^zes aquella paragem, a qual diz, que ne- 
nhum Monarcha,nem Senhor do mundo por mais 
poderofo que foílevionem chegou , aonde elles 
chegarão , & de volta deftes ameaços, ôc perigos, 
que lheprophetiza,lhe moftra lanibcm, 5c decla- 
ra os grandes tropheos , & vitoiias que na Indu 
alcançarão. , 

45 „ 

SAhe^que quantas nãos efla viagem 
^e tu fazes fizerem de atrevidas^ 
Inimiga teràm ejta paragem. 
Com ventos,& tormentas de/medidasi 
E da prtmeyra armada^que paffagem 
Fizer por ejia% ondas injufridas, 
Eufarey de improvifi taUaJttgo, 
^e/eja mór o dano, que o perigo. 

Inimiga terão efia paragern» O mayor trabalhai 
que hà na viagem da India,he dobrar efte Cabo, ÔC 
aftim tem ruccedido , &: luccedem cada dia nclle 
muytos naufragios,5c traba)hos,cOmo he aílás no- 
tório. 

E da primejra armada. Porque o Capitão mór 
Vafco da Gama que dobrou primeyro efte Cabo, 
teve nefta paragem muytos trabalhos, aílim com 
os moradores delle, com© com infermidades que 
lhe fobrcvieraó das quacs recebeo mais dano na 
gente , que perigo na armada » como diz aqui o 
Poeta , &. conta Joaó de Barros no livro quarto da 
primeyra Década, 

44 

A^ti efpero tomar(finaõ me engano') 
IDe quê me defcobriofumma Vingança^ 
E naô fe acabará fó nijlo o dano 
'De voja pertinaz confiança: 



m 



jíntes em voffas nãos vereis cada ãnno 
(Se he verdade o que meujuizo alcança^ 
jSlaufyagws^perdtçdesdetodafortey 
^e o menor mal de todos feja a morte. 

De ejtiem tnt defcúbm. Náo particulariza aqui a 
Bartholomeu Dias Teu primeyro defcobridor, 
porque náa tornou mais âqiidlas partes. Ou íeja 
termo geral de quem o deícobrio , dos Portuguc- 
•£es,que me deícobriraó.E aflitn fe ha de entender 
geralmente dos Portuguezes , quepor allipafla- 
rem , porque clkso dclcobriraó , contra cíiana* 
^âo, qu€ o delcobiio le moftra agravado. 

45 

E^Doprinuyo illttfire^que a ve?itura. 
Com fama alta fizer tocar os Qeos^ 
Serey eterna^^ novafepuíturat 
^or Juízos incógnitos de T)eos: 
Aqtú porá da Turca armada dura *** 
Qs foherbõSj & profperos trofeos^ 
iíomtgo dejèíis danos o ameaça 
A dejiruida ^Hoa com Mombaça, 

E do primeyro illa^re.KÚie he Dom Franciíco de 
'Almeytia íiiho de Dom Lopo de Alfpeyda pri* 
meyro Conde de Abrantes. O qual fahio deite 
Reynoais-de Março de r505.com o titulo de Ca- 
pitão mór , &: Governador , c< que fazendo trcs 
fortalezas na India,em Cananor,Cochim, 6c Cey- 
laó^ícchamaíle Vilo-Rey,comofoy. Eíledeftro- 
hio a Mir Abrahsm o Governador que fora de 
Aufadail Kcy de Qniloa , que tinha o Rcyno ty- 
ranni. amcnte ufurpado , Sc lhe entrou na Cidade 
em dia de Santiago do dito anno , 6c fez Rey a 
liura particL'lar pornomc Mahamed Anconij,que 
fervirade íLfcriviio da fazenda de Quiloa, porfcr 
ho mem bem quifto , ôc com que todos folgavaô 
Com condição que pagaíTe parcas a El- 



Canfo Ó^intõl 



mar junto ao Cabo de Boa Elpcrança : èc fee bòni 
deíengano para os que fe fiaóno mundo , 6c em. 
fuás coulasjver que aqucile,a quem nem bombar* 
das»e!pingardas,frcchas, 6c braços de gente esfor- 
çada poderão vencer,o mataílehum pao toítado, 
que laó as armas daqutlles bárbaros , quemoraõ 
naquella paragem do Cabo de Boa EfperaHça,ve* 
jaíe o qus eicrcyeremos no canto deciaio. 

O^Vtro também virá de honrada fama^^ 
Liheral^cavalleyro^namoradoy 
E comfigo trará afermofa dama^ 
^4e amor por gr ande mercê lhe ter d dado: 
Trifte ventura,& negro fado os chama, 
Nejfe terreno meu^que duro & irado, 
Os deyxarà de hum cru naufrágio vivos\ 
^ara verem trabalhos excejflvos. 

Outro tamhem. Efte foy Manoel de Sou ia de Se- 
púlveda ,0 qualpartiodcCochlm atresdeFeve- 
rcyro do anno de 1552.no Galcaó grande SJoaõj 
o qualfeperdeo na ferra do Natal. Efta foy huma 
das laílimofas couías , que acontecerão nefta via- 
gem,depois que a índia he delcubcria. A fermoía 
dama em que aqui falia o Poeta , he lua molher 
Dona Leanor. 

47 

VeraÕ morrer com fome os filhos caros, 
Em tanto amor gerados ^ & nacidosy 
VeraÒ os Cafres afperos & avaros 
7 irar d linda dama fens vejiidos: 
Os criflãlinos membros tempere lar 0S9 
Acalmarão frio. ao ar veraê defpdosj 
depois de ter pifado longamente 
Lo's delicados pês a área ardente. 



muyco _ 

Rey de Portugal , 8c o reconhecefle por fuperior. Verão morrer com fome 01 filhos caros. Os Cafres dé 

J)eQuiioa,ôc tvlombaça,fe Veja a noílaannotaçaõ que Manoel de Soufa íe confiou , forçado de ne« 



no canto i.oytava 54. 

j^í^ui for d da Turca armada dura, Ot [oierbot , c^ 
frofperoi Tropheos, Sentido niuyto o Viío-Rey 
Dom Francifco de Almcyda da morte de feu filho 
Dom Lourenço de Almeyda , que os Rumes ma- 
tàrnó, determmou deftruhilos, como fez, porque 
náo podendo colher a armada dos Turcos no 



ceíTidade, fome, lede, &: caminho de muytos dias, 
quejânãopodiaó dar palio, 6c não havia dia que 
lhe não ficalTem duas,6c três pe libas atrás, por não 
poderem caminhar:eíles o dcrpiraõ a elle molher, 
& filhos , 6c defta maneyra os lançarão a hum ma- 
to trift:e,6c areal deíaventuradoí aonde nem hcrva 
haviarno qual morreo Dona Leonor com dous fi- 



tnar, pelejou com ella no porto de Dio , fendo os Ihinhosleus, como o Poeta aqui aponta :6c Ma 



inimigos mais de cem vclías , 6c citando em fuás 
terras favorecidos de fua gente , 6c artelharia da 
fortaleza. Desbaratou delta vez a Mirocem Capi- 
tão mór da armada do GraóSoldaó do Egypto: 
6c a armada d^El.Rey de Calecut : & Meliqueaz 
Capitão do Hidalcaó. Eftas, 6c outras coufns ma- 
ravilhofas fez na índia , Ôc vindo para o Reyno 
foy morto pelos Cafres na Aguada de Saldanha, 
çuehehurnanbeyra nauytofreíca, que entra no 



noclde Soula vendo eíle cafo laíl:imofo,palmado 
6c como fóradefi,fem (aliar palavra fe meteo pelo |j 
mato dencro, deyxando fua mulher, ôc filhos cn* 11 
terr ados,6c nunca mais aparecco 



I 



E 



48 

VeraÕ mais os olhos ^que efe aparem 
'De tanto mal ^ de tanta de f ventura] 



Os 



iLufiãdas de Luís de 
T)s dous amantes ml feros Jic ar em 
Ma fer>vída,& implacável efpejfura: 
AUi depois que as pedras abrandarem^ 
Com lagrimas dedoVyde magoa pura^ 
jíi^raçados ,<ks almas JoltàÕy 
^afermofa^& mtferrima ^ri/aÕ^ 

E verào inats ot olboi e^ue efeaparem. Na deíèm» 
l>arcação , por o marandar trabalholoosquepu- 
nhaõ pé em lerra fe tinháo por bemavcnturadoa, 
&náo o eraó, íe não que Deos Noflb Senhor os 
guardava para mayores trabalhos , porque com a 
ittortcle acabiraíudo , & não foraó morrer com 
tanto vitupério , & deshonra , como morrerão a 
máos de gente barbara , Sc torpe, muytos mone- 
raónomar, outros pelo cammho com fome , & 
canfaflb, & outros (e lançarão pelos matos nús, &c 
entre eíles,muytos Fidalgos,Sc gente de elpirita. 
iViguns dos que elcapáraó, 6c hcaraó com Manoel 
de Soula , viraõ o triite fucceílo deite nobre Capi- 
tão , 6c íua molher , & lilhos. De toda a gente da 
nao não eícapàraõ mais que oy to Portuguezcs, Sc 
quitorzcou quinze elcravos, Sc três elcravas das 
queeílaváocom DonaLeanor ao tempo qut f^- 
leceo , osquaes depois íoraó refgatadosporhum 
nayiode Portuguezes , queacaio ulli tby fazer 
marfim * Sc cuítaria cada hum valia de dous vin- 
tçns. Os nomes deftes , Sc o lucceflo na verdade, 
ôccommuytascircuuftancias , que íaõ dignas de 
faberpara deícnganoda vida íe pode ver ea» hum 
livro que deite caio anda impreíib. 

M/fis kia por diante o monftro horrendo^ 
T>izendo nojjos fados yquando alçado^ 
Lhe dljje eu quem es tu. que effe eftupendo 
Corpo^certo metem maravilhado? 
^boca^^ os olhos negros retrucendo^ 
E dando hum efpaniofo^& grande brado ^ 
Me refpondto com voz pefada^& Amara ^ 
Como quem da pergunta Ihepezdra^ 

Com$.efuem da prfgunta Ibe pezâra, lífo não he 
jTiais que encareciaiento da figura do Cabo , que 
cm todas luas coufas moftrava terror , Sc efpanio^ 
porque até em humacoula que cllc delcjava , co- 
mo era dizer aos Portuguezes feu acontecimen* 
to,Sc transformasão,Íe moílrou trifi;e,5c pízaroío 

EV/òu aqaclle occiílto & grande €aho^ 
A quê chamah vósoutros Tormentório^ 
§uenunca a "Ptolomeo^Pomponie^ffiraho, 
'Fllni0i& quantos pajfdramfuy notório: 



TV 



Camões Commentadoí, ft^f^ 

Aqui toda a Africana cofia acabo, 
Ne fie meu nunca vifto 'Promontório, 
^lepara o 'Polo Antarticofe ejiendt^ 
A quem vojja oufadia tanto offende^ 

Eu fou aifuelíe ecculto^ é)- grande Cabo. Tormeni 
tório , ou tormentololhepczfiartholomeu Dias 
íeu primeyro delcubridor,pelas tormentas»que na* 
quella paragem achou De Boa Efperança. EU 
Rey Domjoaõoíegundo , por ver que leabria^ 
porta para o que tanto dekjava,6c cfperava, como 
era o defcobrimcnto da índia , que parece quç 
aquelle Cabo delcuberto lha cftava prometendo* 
Sc moftrnndo. Defte famolo Cabo não tiveiaô 
noticia os Cofmographos Antiguos , como Ptoloi 
meOjPomponij, Meila,Eftrabo» Plinio.Sc outros^ 
como aqui diz o Poeta,inclinado para o Sul , que 
o Poeta aqui chama Polo Antaráico , somo fie* 
declarado por muy tas yezes^ 

F^y dos filhos afperrimos da terral 
^lal EnceladOiEgeOi^S o Centtmandl 
C hameyme Ada vh afior, ^ fuy na guerra 
Contra o que vibra os rayos de Vulcano: 
Nao que puzefje ferra jobre ftrra^ 
Mas conquiflãndo as ondas do Occeano^ 
Fuy Capitão do mar, por onde andava 
A armada de Neptuno ^que eu bufcava» 

JFuy dos filhos ajperrimos da terra. Continuando ó 
Cabo Tua pratica antes de vir a fállar de íua Meta-, 
morphofi , Sc transformação trattadefuaOene» 
alogia, Sc nome, como era Gigante, filho ua tçi ra* 
irmão de Encelado Egeo» Sc i5mrco,a que chama 
Centimano , que quer dizer de cem máos , porque 
tantas dizem os Poetas que tinha crte Gigante. 
Diz mais que feu nome antiguo foy Adamaftorj 
Sc que ao tempo que íeus irmãos os Gigantes 
Gombatiaô a Júpiter por terra para o lançar do 
Ceo^elle fazia guerra por mar a feu irmão Neptu* 
no. 

O íjfíie vibra os rayos de Vulcano, He Júpiter, por 
quem fingem os Poetas que Vulcano filho de Ju«* 
piter , & ícu Ferreyrojlbe fazia os rayos, coniohà 
muy to fabido a quem lé pelos Poetask 

A Mores da alta efpofa de Telèo] [ 
Me fizer aõ tomar tamanha emprefàl 
Todas as Deofas defprezey do CeOf 
Só por amar das agoas a^rincefoi 
Hum dta a vi co as filhas de Neréo 
Sair nua napraya^f^ logoprefa 
A vontade fenti de tal maneyra^ 
^e inda 7iaÕ finto coufa^que mais qiíeyral 

Amerei 



f^S . „ . Canto Sluinn. 

Amores ãa alta efpofâde ?eho. Começa Adamaí- 
íor a contar lua uansformaçaó naquelle taó gran- 
<ie Cabo,a qual eítá cora tanto engenho, ÔC artifi. 
CIO , que lhe não fazem ventagcmas deOvidio. 
ElpoíadePcleOjheThctis fenhorado raar, calada 
com PeleoRcy de Theflalia.íilhade Nereo Prín- 
cipe do mar. Saó as Nereidíis Nyraphas do m^ir, 
tias quaes fica trattado atras no Canto Icgundo, 
«ytavaao. 



5^ 




5 5 _ 

C"^ OmofoffelmpoJJivelalcançalla^ 
_jr 'Pela grandeza fea de meu gejfo, 
^etermineypor armas de tomalla^ 
B a 'Dor is tfte cafo mantfejio: 
tDe medo a ^Dcofa entaÕpor mi Ihefalla; 
Mas ella cunifermoCo rifo honefio^ 
Rejpondeo.qnaLfeYàoamor bafiante 
^e Nymfajquefulíentao de hum Gigante^, 

E a Dorii ejie cafo njanifffio. Doris dizem os 
poetas qUe he rnolher de Nereo Senhor do mar, 
^ máy das Ncrcidas.de que na oytava atrás fallà» 
jTios : A qualdcii Adamaílor conta da affeyçaõ 
que tinha a Thetis , &o que determinava fazer, 
como aquilo l^oeta conta. 

54 
Om ttídújpor livrarmos o Occeano 
j 'De tanta guerra teu bufe ar ey maneyta^ 
Cnm que com minha honra efcufe o dano^ 
Talrefpojfa me torna a men/ageyra: 
JEu que cayr naõpude /lefte engano 
(^*f he grande dos amantes a cegueyra') 
£ncheradme com grandes abundan^as 
Opeyto de d€fejos<i& efper ancas, 

§?«ff he grande doi amantes a ctgueyra. Os Anti- 
giiospinraváo a Cupido , que tinhaó por Deos 
itos amores cego. A menfageyra he Dons que 
Adaraaftor tomou por tercey rapara com Thetis. 



TA" ne feio já da guerra defiflinúo^ 
Huma noyte de Doris prometida^ 
Me aparece de longe ogefto lindo 
2)^ brancàThetis unica defpida: 
Como doudo corri de Ionize ^abrindo 
Os braçosjpara aquella^que era vida 
^Defte corpo J£ começo os olhos bellos 
A lhe beyjar^aface^& os cabe lios. 



O^ie nadfey de nojo como o conte j 
^e crendo ter nos braços ^qué amava ^ 
Abraçado me acbeyco^ hum duro monte ^ 
De a (pêro matOjô' àe efpejjiira brava: 
Eftando ce^ hum pene do fronte a fronte ^ 
^e eu çelo rofto angélico apertava^ 
Naõfiquey homem naÕ,mas mudo e quedo^ 
E junto de hum penedoyoutro penedo. 



§lííc pelo rojlo angélico apertava. Cuydando , que 
citava com Theiss a quem m uy to amava. 

57 

O Ninfa a mais fermofa do Occeano] 
Jàque minha prefença naõ te agrada ^ 
^e te cufiava ter me nefie engano 
Oiifoffe monte, nuvefonhOiOu nadai 
Daqui me parto irado fS quafi infano 
Da magoa,& da des honra allipaffada^ 
A bu/car outro mundo ^onde naõ viffey 
^em de meupranto^& de meu mal fe rifei 

^em de meu pranto. Achoii-fe o Cabo corridofl 
do que lhe iuccedco com Thetis , peloquedey-| 
xou aquellc lugar , & íe foy para outto remoto, 
aonde naó folie o fcu ca(o íabido» 



í8 

EÈ:aõjà ncfte tempo meus irmão f. 
Vencidos ^& em miferia txtremapoflos 
Epor mais [igurar/e os Deofes vãos. 
Alguns a vários montes Jotopojlss: 
E como contra oLeo naõ valem mãost 
EUyque chorando andava meus defgoftosj 
Comecey afentir do fado imigo, 
Tor meus atrevtmentos o c&Jtigo, \ 



Erai jà nejie tempo. Conta Adamaftor cort\ 
quando lhe aconteceo a fua transformação , tam 
bem léus irmãos eníó mortos por mão de Júpiter, 
como conta aqui o Poeta,8c mais largamente Oví- 
dio nas Mctamorphoícs, lib.i. 

5í> 

Converte ofeme a carne em terra dura^ 
Em penedos os ojfos fe fizer aõt 
Efies membros ^quevésfê efi a figura 
'Por e fias longas agoas fe eftendéraÕ: 
Em fim minha grandijfima eflatura 
Nefie remoto cabo converterão 



I 



fis 



I 



Lufíaàas de Luís àe 
Os ^eofiifS por mais dobradas magoas j 
Me anâa Theírs cercanáo delias agoas. 

Me anda Jhetis. O mayor defgofto que o Ca- 
bo tinha era ter íempre prelente a Thetis, que fo*. 
ra Câuía de fua converfaõ em aquelle Cabo» 

60 

AJJicontavíi^com medonho choro^ 
^ Stiblto ante os olhos fe apartou^ 
desfez/e a nuve negra j& comfomro 
Bramido^muyto longe o marfoou: 
£u levantando as maosaofanto Coro 
VOos Anjos^ que tam longe nosguiou^ 
A T)eospedh ^«^ rem oveffe os dut os 
Ca/os, que Âdatnojior contou futuros. 

Ca/os efue Adamafior contou fníuros. O que O Câ»- 
bo dizia haver de acontecer aos Porcuguezes na- 
quella paragem. 



(Tl 

JA' Thlegonj\£ Tyroii vinhaõ tirando 
Cos outros dons o carro radiante , 
^ando a terra alta/e nos foy moftrando 
Em que foy convertido ogram Gigante: 
Ao longo defla coftajComeçando 
Jd de cortaras ondas do Levante^ 
*For ella abayxo hum pouco nave^amos^ 
Vnde fegunda vez terra tomamos^ 

U Phlegfini& Pyrõii, Ovidionas Metamofpho* 
fes liv. 2. põem os nomes dos cavallos do carro do 
Sol, que faô Phiegon, Pyrois, Eoo, & Echon. Ifto 
hc por hum fingimento que os Poeras, fazem di- 
zendo que Phebo, que he o Sol, da luz ás terras 
em hum carro de quatro cavallos. Por eíles ro- 
deyosdefallar nos dá a entender a que tempo le 
dclcobrio o Cabo de Boa Elperança,quc foy hum 
dia fahindo o Sol,& caminhando ao longo da Coi- 
ta, foraô íegunda vez tomar terra em huma Bahia 
inuyto grande , 6r abrigada de todos os ventos, 
falvo do Norteja qual fe chama hoje pelos noflbs 
Aguada de S. Brás , que cílará fetenta legua^ do 
Cabo, Sclurgiraó nella humdiadeS. Catherina, 
em hum Domingo de mii quatrocentos noventa, 
& Icte. 

A' €en te^que efla terrapoffíihia^ 
^ofto que todos Et hiopes eraêt 
Mais humana no trato parecia^ 
£^e os outro f ,que taô mal nos receberão: 
Com bayles^&comfeftas de alegria ^ 
Tela^raya arenoju^mos vieraõ. 



Camões ComtHentadosI t f 

As mulheres configotò' t> manfigadoi 
^e apacentavaõgordOj& bem criado, 

Po/io ^ue todos Etbiopes erdS. Ethiopes he homâ 
geral , que comprehende a todo o género de gen- 
te negra. Chama-fe aílim de Etho, palavra Grega, 
qucquerdizerqueymar, & roílo, por terem' os 
roftos negros, Sc queymados: outros querem que 
fejanome fomente dos negros da Ethiopia, pane 
de Africa, entre Egypto , Arábia, chamados alIim 
de Ethiope filho de Vulcano , que loy Rey na- 
quella Regiaó, como querPlinioliv.6.c.30i Siga 
cadahumoque quizer , & lhe parecer. Amima 
primeyra optniaó me parece melhor. 

Oí outroi que ta» mal nos receberão» Eíles foraó os 
da Angra de Santa Helena, como atrás largamen^ 
te fica dito. Os deílaBahiade S.Brâs vicraócom 
muytosbayles, §cfell3s,com luas flautas, & com- 
figofuasmolheres encima de boys muyto gordos, 
albardados com fuás albardas de taboa , a modo 
das CaftelhanaSjôc com huns paos,que fazem tcy* 
çaõ deandilhas , dos quaes boys muytos náo tem 
coinos» 

AS mulheres queymadas vem em cima 
T^os vagar o/os bois ^aUifentadas ^ 
Ammats^qiie elles tem em mais eflimUi 
^e todo o outro gado das manadas: 
Cantigas pajiorts emprofa^ou rima. 
Na fila lingoa cantão concertadas j 
Co doce fom das rufticas avenas^ 
Imitando de Tit troas Camenas^ 

As molhetest Atrás diííertjos como traziaõ íuas 
molhercs naquclles boys albardados, os quaes pre- 
zaõ mais.quc todo o outro gado por efte relpey to* 
^dvenas» Saó flautas como fica dito. 

Imitando de Ty tire asCamenas. Imitando a mu- 
fica,Sc cantigas de Tytiro Paítor,quer dizer aq ui, 
que vinhaó eíles negros com fuás molheres can- 
tando cantigas paftoris , quaes cantava Tytyra 
paftor como diz Virgilio Eglog.N 

EStes como fia vifiaprazenteyros 
Fo(femihumAnamente nos tratarão^ 
Trazendonos galinhas, tê carneyrosy 
A troco d^ outras peças, que levar au: 
Mas como nunca emfim meus compatiheyros 
palavra alguma fiia lhe alcançarão y 
^e dè[[e algum final do que bufcamos% 
As veilas dando ^as ancoras levamos, 

/?! vellas dandt as Ancoras Icvatftâi.Joíió de Bar- 
ros nn primeyra Década , diz que o Capitão mór 
íe mudou para outro povo perto daquclle , por- 



l 



Kque entre os noiToSjSc õs negros começava haver 
revolta iobre o rcfgate do gado:mas que os Mou- 
íffos foraõ a vifta da nolla armada até que ancorou» 

■^' aqui tínhamos dado hum gravrodeyo 
Acofla negra de Africa,& tornava 

Aproa demandar o ardentemeyo^ 
^0 CeOi^ o Tolo Antart ICO peava', 
jíqueUe llheo deyxamos^oyide veyo 
i^utra armada primeyr a ^qne bufiavat 
O 'Túrmontorio Cabo,& defeuberto^ 
Maqtiellellheofezfeu limite certo, 

4Íe}U(ll( llheo deyxãmoí. Depois de ter rodeado à 
Cofta de Africa , tornarão a demandar a linha , à 
^ual chama ardente nieyo , por íer o meyo do 
inundo, Sc ardente, com a vizinhança grande do 
Sol, dei viando, fe das terras do Sul, a que chama 
olo Aiitarótico, como fica declarado em muy tos 
rgarcs. Qi.ianto ao llheo de que aqui tracta, he o 
diiCruz , que Bartholomeu Dias defcobria , no 
C|ual poz oderraJeyro Padraô,como coftumavaõ 
jior alguns pela terra que deyxavaõ defcuberta. 
Efte Bartholomeu Dias paflou alem do Cabo de 
Boa Elperançu cento & quarenta léguas, até hum 
rio a que poz nome do Infante, porque o que nel- 
Ic primeyro dcfembarcou tinha efta alcunha. E 
porque neíla viagem poz alguns Padrões , aqui 
falia o Poetado derradeyro ,que he eíleda Cruz 
cjue diíTemos , o qual poz quinze léguas antes de 
chegai' ao rio do Infante, li. náo havemos de en*- 
icndcr aqui que o Capitão raór tomou terra neíla 
Ilha, porque nem o Poeta o diz , nem os noflbs 
Hiíloriadores, mas que houveraó viíta delle, & o 
j.áotonváraô, pelo tempo lhe não dar lugar , mas 
tomàraó outro porto chamado os Ilheos cháos, 
(]ue eílavaó cinco léguas alem do da Cruz , como 
c-ontt Joaó de Barros na primeyra Década» Cabo 
Tormontorio. He o Cabo da Boa Efperança , co- 
jiio jâçnuytas vezcã declarámos. 

D Aqui fomos cortando miiytos dias 
(^Entre tormentas trifles^fè bonanças^ 
O largo maTjfazendo novas vias, 
ò'ó conduzidos de árduas ef per ancas: 
Co' o mar hum tempo andamos em proflas^ 
§Hecomo tudo nellefaÓ mudanças _, 
i^orrente nelle achamos taõpoffante^ 
^epajfar naò deyxavapor diante^ 

^uepafar não deyxavapor dianti.'^e^z paragem 
dos Ilheos cháos faô tão grandes as correntes da 
agua , que não deyxavão navegar as nofias nãos, 
ate qtje com ajuda de Deos pallàraó , £c chegarão 



^uhltOt 
á terra do Natal , â qual puzeraõ eftenomepot 
paílarcm por ella eíte dia. A força da corrente 
das aguas daquelle lugar aponta o Poeta na oyta» 
va feguinte, 5c pelo grande Ímpeto com que dalli 
correm as aguas , íc chama aquelle lugar o Cabo 
das Correntes» 
\ 

ERa mayorá força em demafia 
Segundo para traz nos obrigava\ 
2)(? mar^que contra nos alli corria ^ 
S^epor nôs a do vento, que ajfoprvai 
Injunado Noto daprofia. 
Em que CO o maryparece^tanto e flava. 
Os ajjopros esforça iradamente, 
Qomque nos fez vencer a gràõ correntel 

Injuriado Noto. Galante fingimento, em queda 
a múo ao vento em paliarem aquelle lugar das cor-, 
rentes , quefoy ncceííario por o vento toda fua 
força neíla partc.Noto he propriamente o Sul. 



68 

T Razia o Solo dia celebrado. 
Em que três Reys das partes do Oriente} 
Foraõ bufe ar hum Rey de pouco nadOj 
No qual R(y outros três hà juntamente: 
Nefte dia outro porto foy tomado 
Tor nós^aa me/majã contada gente ^ 
Num largo rio, ao qual o nome demos 
T)Qdia^em que por elle nos metemos^ 



TraziaoSel. Paliada aCofta do Natal entrarão 
em hum Rio a que puieraõ o nome dos Reys, 
porque em taldiaentràraó.nelle. A efteRiocha* 
maô outros do C9bre,pelo reígate delle em mani- 
lhas, marfim, em mantimentos, que os negros da 
terra com elle relgatâraó , tendo tanta communi- 
caçaó com os noflos , que hum Martim AfFonlo 
marinheyro foy a huma Aldeã, aonde foy do Se- 
nhor da terra bem agazalhado , & o melmo Se- 
nhor veyo com muytagente ver a nofla armada 
inoílrando muyta paz.gc amizade: pelo que o Ca 
pitaó mòr, vendo que em cinco dias que alli eíli 
veraô , nunca receberão deíla gente mao tratra-f 
mentoalgum, nem lufpeytaditlb , Ihepufctaó 
o nome,dc Aguada de boa paz. 

D Efta gente refrefco algum tomamos ^^ 
E do rtofrefca agoa^mas com tudo 
Nenhum final aqui da índia achamos 
Nopevo^com nò$ outros quajimudo: 
Ora vé Rey quamanha terra andamos. 

Sem fair nunca dejie povo rudo, 

Seni 



I 



I 




Lufiadasâe Lnii de Camfis Commentadòf, 
Sem vermos nunca nova ^nem final 
Wa defèjada parte Or tentai. 

DdiagenU refrefco algum tomámos. Ifto diz pelo 
gazalhado , ík communicaçáo que coma gente 
•defta parte tiveraó. 

Povo quafi mudo , porque não fc entendiaõ com 
dle.' 



70 

Of^a imagina agora quam coytados 
An danamos todos ^ qua m perdidos^ 
U)efomey\de tormentas quebrantados, 
IPorclímaSi ^ por mares naÕfaéfiaasi 
E do efperarcompYídstaõ cançados, 
planto a de/ejperarjâ compellidos, 
jfor Ceos fiaõ naturais, de qualidade) 
Inimiga de nojfa humanidade. 

Por Ceos não naturaes. Terras , Sc Climas íòra de 
foannturcza, & táo apartados, Sc contrartos aella. 
Das fignificiçócs que tem a palavra Ccojfe veja o 
que dcrcveuios no canto i.oytavíi 29. ôci.oytava 
«5. 

7* 

C> Orruptojã^ ^S danado o mantimento, 
jT>anoío^à-mao ao fraco corpo humano^ 
E alem dtffò nenhum contentamentOt 
^e fi quer da efperançafojje engano-. 
Cresta que fe eflenoffo ajuntamèncOi 
íDí fcldaáos riad fora Lujitano^ 
^le durara elte tanto obediente 
"For ventura afeuliey^^ajeu Regente} 

VoT ventura a (cu Rey,&afeu Regente} Encarece 
aqai a lealdade da Naçaó Portugueza,da qual naó 
lemos havcrle levantado algum comra leu Rey 
CQuía ciu outras Nações muyto coílumada. 



1^ 



C^ Res tíi^quejá nao for ao levantados 
j Contra/euCapttàOyfeasrefiftiraj 
Fazendo/e V tratas , obrigados 
'De dejefperaçãoydefome.^S deird> 
Grandemente por certo eftão provados^ 
^ots que nenhum trabalho grande os tira 
'Daquella Tortugrie/àalta excellencia, 
*Da lealdade firme j& obediência» 

Tyratau SaóCofiariosdo mar , Sctemcíleno- 
me ícgundo alguns querem de hum, que pi imcy. 
roomvcntou, H ulou cfteofficio chama jo pyra. 
ta,outros querem (o que a mim mais contenta)que 
le chama o Collario do mar , Pyrata de pcrao 
palavra Grega ^ que quer dizer , andar de hu- 



til 
ma parte para out4'a , por for «íle feu coítu* 
me. 

7$ 

DEyxandõ o porto em fim do doce rio^ 
E tornando a cortar a agoafalgada^ 
Fizemas dejia cojla algum dejvicy 
T^eytando para o pego toda armada: 
forque ventando Noto manfOy& frio ^ 
Não nos apanhafe a agoa da enfeuda^ 
^le a cofia faz ai li da quella banda, 
UJohde a rica Sofala o ouro manda, 

Naõnoi apanhafje a agua da enftada» Efta eníéadá 
de que o Poeta aqui taJla eftá ícflenta legoas aqué 
de Moçâmbique,chama-le commummenteo Par- 
cel de Sofala,em que as aguas correm muYto para 
dentro por ler mais bayxo , de maneyra que há 
perigo grande , por fe prelumir que podem ir dar 
cm bàyxos quea-hi há rouytos. 

Donde a rica Sofala o ouro manda. Sofala he huma 
povoação na cofta de Moçambique, cou ia de íci^ 
lenta legoas deJJa > aonde El-Rey noílo SenhoJi 
tem huma fortalecia, 6c o Rey ^■^^•'^rYÁ eítà á fua 
obediência. A efta terra Sofalatói'*2.em os Gcntics> 
6c negros da terra dentro , por v^ja de comercio, 
muyto ouro , por cujo rcípeyto òã Mouros po* 
voàraó aq 11 çl la terra , & pel a mcfraa xQ^^^ó agora-, 
cnrre nòi he muyto frequentada. 

74 

EStap-affada^ logo o leve le^el 
Emcomendado aofacro JsLicolah'^ 
^ara onde o fnar na cofia brada fíè geme% 
A proa inclina de huma^ de outra nao: 
fiando indo o toraçaôjque ffperajê teme^ 
E que tanto fiou de hum fraco paOj 
2)<? que tfperavajâ defefperado^ 
Foy de huma novidade alvoraçada,,] 

encomendado ao Sacro Niniaoé O Êerrtavenfti- 
ràdo S. Nicolao grande Advogado dos Eftudan- 
tes, ohctambem dosquetrattaõnomar, Seara* 
zaó de lhe fer cònfagrado o lenie do navio , áleni 
de outro's milagres que nefte particular tez \ he 
porque em huma tormenta grande chamando 
hup.s marinheyros muyto rijamente por elle, lhes 
apareceo , &difi"e: Eys aqui Nicolao,por quem 
chamais, não temais, que eu vos livrarey defte tra- 
balho, 6c tomado o lcn7e,na máo, lhe encaminhou 
a nao de modo, que fe falvou, andando muyto ar» 
M Içada , como conta cm lua vida Simaô Meta* 
phraftes. 

75 

T^ Poy^^w fflandojà da cofia pertiít 
1 u Ondí' as prayasy^ v a lies bemfe viaÕ, ' 

X Nim 



Mum fío\que allifae ao mar aheYto\ 
Bateis à vella entravãofê fahião; 
Alegria muy grande foy por certOt 
Acharm6sjãpeJfom,quefabião 
Ndvegar,porque entre ellas ef^eramos^ 
'De achar novas algumas ^como achamos. 



Un/a^ínto^ 



79 



76 

EThtopesfàõ todos, mas parece 
^e com gente melhor câmunicavão^ 
IPalavra alguma Arábia fe conhece 
Entre a linguagem fua^que falavãoi^ 
E com pano delgado ^quefe tece J 
1)e algodam^as cabeças apert^vãfi^y 4? 
€om Qutro^que de tinta azulJTtmge^ 
Cada hum as vergonhojas partes cinge. 



4 



A^ide limos ycafc as, érde oflrinhos^ 
Nojo f a c riafão das ãgoas fundas^ 
jílim^amos as nãos , que dos caminhos 
Longos do mar,vemfordidaSi& imundasi 
^os hofpedes^qne tmhamos vifinhos^ 
Com mofiras apra(iveíSy& jucundas 
Houvemos fempre o ufado mantimento j 
Limpos de todoofaljopenfamento. 

é>íijiii defimot. Por fe acharem bem nefta terra 
com a CGmm^feçã<idageEl>fe/ & alegria que ti- 
nhâojConi a^^pas cj^c acháraõ da índia, mandou 
o Capirâo mórTlar pendor aos navios , por irem 
muy to luJQs, &eítcvencíle lugar trintaôcdous 
dias. 

80 



Palavra alguma Arahla, Tiveraõ por bom final, 

ver que eíles negros ulavaó de algumas palavras T\ .C As naofoy da efperaça grade ,e immefa 

Arábia^, também o tratco , &; vertidos craó diffe- j[ VJ ^« ^ ne/fa terra houvemos Itmpa.&Pura 

-fCtTK^^da outçâ geate, que aiéeníio tmhaó viílo. A alegria mas logo a recompenfa 

ir^ ' A Ramunjia comnovadefventurai 

/^ 11 AjffiKoCeo fereno fe di/penTa^ 

Q Ela Aréhica língua ^q\ie malfalãoj Com efta condição pefada,&dur a 

. Eq^le Fernão Martmz muy be entende ^ ' Nacemos ^0 pejar terá firme za^ 

Vtzem.quepor naoSj que emgrãdeza igualao ^^^^ o bem logo muda a naturezal 
kAs nojjas^ o/eu marje c ort a ^^ fendei 



Mas que là donde fae o Sol fe abalao 
'Paraondeacofta ao Sul j% alargai^ ejlcnde^ 
E do Suipara o Soliterfd onde háVíét 
Gente afficoma nós da cor do diiu 

Gente ajjí como nos da cor do dia. Gente branca, 



R<íw»«y?<?.Chamada aííim do nome de hum Lu- 
gar,aondeera venerada, hc Nemefís Deofada juí- 
tiça, ininnga dos foberbos , & grande iopeadora 
da gente prcíunçoía,& altiva. Veja«íe a noflkan- 
notaçfio no canto terceyro , oytavayi. O que o 
Poeta aqui diz he, que o grande gollo, & conten- 
tamento que naquclla terra linhaó , porvertaó 



porque o dia í^claro,Scbranco,ac a noyte negra, claros finaes da terra, quebufcàvaõ, feJhe aguou 

& elcura. comhamadefaventuia,quelhe íuccedeo dehuma 

^g gran.ic,8c nojóía infermidade,da qual adiante vay 

> crattando. 



A/T Vyg^^n^^fP^^^f^ ^W ^OS alegramos^ j^ \ ^,^^, t,,j firmeza. Faz a^fte propofito AI- 
XV 1 Coa^ttte,^co as novas muyto mais? ciaio hum Emblema, que he o 50. em ordem, ntà 



^elosjindrf^ue ne^e rio achamos, 
O nome lhe ficou mi bons finaes: 
Hum padrão nejla terra levantamosy^ 
i^uepara affmalaMimres tais 
Trazia alguns^o notWtem do bello 
Guiador de Tobias % Gabe lio. 



qual pinta o mal, & o bem: o mal muyto ligcyroi 
& npreílado: 6c o bem muyto vagarolo. Eíle Emi 
blcma fez á imitação de Homero , o qual na íua 
lUada inttoduz Até filha de Júpiter perfeguindo 
Wj homens, &fazendolhcmil males : & para os re- 
mediar manda outras filhas luas chamadas Litas, 
Velhas, Cegas, 6c Coxas, que nunca chegaó a dar 
o remédio, §c quanto para prova difto baila a 



I 



tx- 

GuiadoràeThobiái aGàbello, He o Archanjo S. /periencia,qu'èbcni cUro rios moílra a verdade do 
Raphael. A hillotia he , qué iudo T-hobias po(*Mrcafo. 



mandado de leu páy ftrrccâdar cdrfeo difiheyrçi^t 
hum homem por nomeGabello , moradirr na Ci- 
dade de Rages dos Medos, arreceando cõmetter o 
caminho, (cm compa.nhcyro,appareceo o Anjob. 
Ilaphael , £v o acompanhou àtèò lugar aonde hia» 
como íe pôde ver cm Thobias. 



81 



EFoy^que de doença crua^&fea^ 
Amais ^que eu nunca vi^defemparãrao 
Muy tos a vtda.e em terra ejíranha^i(*t alheya^ 

Os ejfospara fvmpre fepiUtàrão. 

Çliiem 



Lufiaâas de Luís ãe CâtmétCommentadoi» i 6;J 
^(em haverá que fem o ver o creya^ 

<->)ue tãô disformemente aly lhe incharão %^ 

^s gengivas na boca.que erecta y« Sfis^uedepprtonos punimos 

A carne,& juntamente apodrecia. J\ q^^^ ^^jor efpera^fa,& mor tripzâ. 

As gengivas na hoca. Conta Joaõ de Barros nij E feia cofia a^ayxo o mar abrimos 

primeyra DccaUa que naquelies dias,que eftiveraô Bu/cando algum finai de mais firmezal 

dando pendor aos navios, parece que.ou do ar da- j^^ ^^^^ Moçambique emfimfuriimOS^ 

jj^dU terra , ou da ^^l^^^^l^^^^l^J^^^^ <De cujafalfidade.é ma vileza ' 

lhe robreve\o hum trabalho com doença, de que c^ a .■ ^^ r i j j j 

íDorr^-áo alguns. A mayor parte foy de enfípelas, J ^í^r as fabedor,& dos enganas 

Scjantiinçnte Ih; crecia canto a carne das gengi- 'Dos f ovos de Mombaça pouco bttmanos. 
Vas , que lhe não cabia na boca, 6c logo lhe apo- 

arecia aquclla carne de mancyra , que nãoliavia Ci>Mmiyortfperanfét,& nt$r tri/ieza. Levâvaó â' 

òucín roportaífe o fedor da boca,& com tftes ma- efperança pelos fmaes, que achàraó, & novas d* 

les pidcciaô dores muy grandes , & morrerão India.&trifteza pelo trabalho daquella tão trifte» 

alguns como aqui dii o l»oeca. ^ nojenta doença./Va dura Moçambt^m, Aos 24.dc 



81 .;:u,.^. 

ATodrecid co^ hum fétido /S brutdi ' 
Ch yro^que o ar vifinho inficionava, 
Hão tínhamos aUi Medico aftuto^ 
Cirurgião fútil menos je achava: 
Mas qualquer nefie ojficiopouco injfruãa 
'P € U c ar nejâ podre affi cortava 
Como fe fora morta^& bem convinha, 
Tois qie mor to ficava quem a tinha^ 

Poh ^ue morto ficava <^ue>n a tinha. Nâo quer âl^ 
zer , que os que cinhaò e!te mal eftavaô mortos 
com morte natural , mas que tinhaó as qualidades 
que tem os mortos, porque náo íallavâo , èc o leu 
cheyro era de gente jà detunta, 6c nâo tinhaó len-. 
tiuu de homens vivos , pelo trabalho grande que 
tinhaó com hum taõ grande íaul , Sc dores cxccf- 
Çvas. 

8 3 

EMfmyque nefta incógnita efpeffura 
* 'Deyxamosparafê^re os conipanheyros^ 
^e em talcaminbotem tauta defventura 
FoTâ.0 fempre comnofco azentureyros: 
!^tão fácil he ao corpo ajèpulturai 
^Aef quer ondas do mar ^quaefquer outeyres, 
Eftr anhos affimefmo^corno aos noffds 
Receberão de todo $ ilíujire os offos^ 

• 

ÇluaÕ fácil he ao corpo a (epukura. Declara o Poeta 
neita ovtava a igualdade , que a morte trarta com 
rodos,náo fazendo difterença nos eítados,"confor- 
me aqucllc dito de Horácio. Pallida mors ee^uopal. 
(ãt pede , & Regum turres , pauperum'jue tabernas. íi 
moítcatodo5 iguaUjaíTim entra nas torres, &: pa- 
çi»s dos lleys , como nas tendas dos pobres olíí- 
ciacs , & como qualquer lugar Içrvc de fepulrura, 
atTim doilluílre, como dos que o náo Uõ, como 
a expei icncia lios eníina. 



Fevereyro de 1498. fahiraó os noíios do rio dos 
Bons finaes , 6c o primeyro de Março houveraó 
viíta de Moçambique , terra hoje aliás conhccid« 
dos notlos , por ler muyto frequentada das noílas 
armadas , ôc terem os Reys de Portugal alli forta- 
leza. Chamalhco Poeta aqui dura , porque feoi» 
prc le dcraó mal os moradores defta terra com 0$ 
noíTos. 

D01 pi>vBS ãe Mombaça pouco' humanos. Os dgt 
Mombaça também fizeraó roim gazajhado aos 
noíTos, & determinarão deítrokilos, como fica dis 
to cm outro« lugares» a 

A Té que aqí4Í m teufeguroporto] 
{Cuja brandura^& doce ir at amento; 
*Daràfaude a bum vivo,^ vida ahum morto^ 
Nos trouxe a piedade do alto affento\ 
jíqui repoufo ^aqui doce conforto^ 
Nova quietação do penf amento 
Nos dèfie^^ vès aqui^fe a tayito ouviflej 
Te contey tudo quanto mefedifie* 

Âtèijue dtfui, Edâs cõufas todas vay relatando» 
o Capitão niór Dom Valco da Gama a El-Rey 
de Melinde a petição lua , como fe tratta no canto 
fegundo aonde le começa a relatar efta Hiftoriaj.^ 

8^ 

JVfga agora Reyje houve no munia 
GentCique taes caminhos comete ffeml 
Crés tu^que tanto Eneas^& o facundo 
V/y ffes pelo mundo fe efiendefjem? 
OufOu algum a ver do marprofundo^ 
(fPor mais verfos^que dellefe efirevejffeínj) 
1^0 que eu vi^ apoder de esforço ft£ arte^ 
E do qiití inda hey de vet^a oytavaparte^ 

Crh ''fie tanto Eneis. De Eneas, êcUIyfe trai^ 
tcy\io canto primeyrOjSc fegundo»- ' ' 



t^artU 



fef 



Es/e, que hebeo tanto da ãgoa aonla^ 
Sobre quem tem contenda per e gr ma ^ 
Entre fii Rbode^Smirna, ^Colophomai 
jítheriasXos ArgoM Saíamina: 
MjJoHtrOtquè^clareCe toãaAufonla^ 
A cuja vozaíttjonat&âivma 
Ou vindo o pátrio Mtncio fe adormece^ 
Mas o Tíbreco* o/om/eênfoberbece. 

Efe ms iekeo tanto da agua aonia. Agua aonía, lie 
% agua da fonce Aganippe , da qual todos os que 
'fcebiaó fícavaó Poetas , & diz que bcbeo rouyta 
^àç{)::\ sgiia t^omero , porque foy Poeta excelien- 
tiífimo , & para encarecimento de fua doutrina, & 
erudição não ha mais , quetrazer queoquedelle 
-dizVelleyo Pâterculo no livro primeyro daHif- 
toría Romanaí,qae íò merece norne de Poeta,aon- 
«de acrecenta,i« i^ho hoc maximum e^,<!jttodne(^ue ante 
iUum , tfutm tile imitar st ur^. 7iee]ue poji illum , ^«i eum 
imitanpo^etinvèntiís cfi^ que nem antes delie houve 
<juemelle imitaíle, nem depois deile quem o pu- 
«lefle imitar adie. Não fe poéeVnais dizer, & com 
verdade. Sobre o quallugarde Vellcyo diz Jufto 
L.ipfio muytascouías , & dignas de íeu entendi- 
mento , porque não há poder chegara Homero^ 
& por elle fer elte depois de morto o pretenderão 
jnuytos por natural, tem ate hoje íè faber a certeza 
donde fcme.' Poeta conta muytas Cidades de 
«Grécia , que f inhaó entre íi grande contenda ÍO' 
^re Homcro^hecoufa íabida. 

Effoutro- ejm «fcUreee todíi.. Attfonia. Aufonia he 
Itália, chamada aflioQ de A iMqnio leu Rcy. Efta 
cfclarcce , & ennobrcce mayto o Poeta Virgílio 
ítaliano-de nação , 6c'iaaturárda Cidaidedc Man» 
tua,juntocla qual palia ò no Mihcio, de que aqui 
o Poeta fazmençaô, Sc diz que o Mincio (e ador- 
mece com leu fom,6c o Tibre fe enfoberbecCjpor- 
que o Mincia não teve de Virgílio oacrointe* 
reflcjlc não o gollodclle ícrfeu natural, pelo que 
diz que fe adormece pelo gofto , & contentamen- 
to que tem de ouviftão boas novas de leu natu- 
ral, E o Tibre fe enfoberbece, porque em Roma 
fez eíle Poeta feu aílento , & alli compoz os feus 
livros. E porque Roma goza ^'adelle , & o tinha 
femprccomíigOiandava loberba, & levantada, 5c 
aindâquè ie chama Mantuano,elle não foy natural 
de Mantua , le não de huma Aldeã nuTytotriíle 
junto a Manteíajchamad^a And€s,aonde eu jà cíti- 
vcelpantado de ver a triíteza do lugar , & exccl- 
lencia do Poeta, que alli naceo. 

Cyíntêi/otivem,é' efcrevaõíepre eftremos 
*2)eJfes/eHs Semiáeofes^ encare ^ah 



^tntol 
fmgindoMagã^sCtrces^^olyphemíl 
Siretms^que co' canto os adormeçad 
'Demlhe mats navegar á ve//a,& remos 
Os Cicones^&a terra ^ondejè efqueçao 
Qs comfanhsyrosyem goftando o Loto^ 
^crnlhe perdernas íigoas o TUoto^ 

Cantem t louvem. Diz iílo porque Homero í 6c 
Virgílio , & os mais antigos tudo efcreveraõfa- 
bulaSjSc mentiras, como em fuás obras fe pôde ver 
fingindo muytas patranhas , & contos fabuloios, 
como trattar de Teus íemideoíes , que por outro 
nome fe chamaô Heroes , dos quaes fica traitado 
no canto 4.oy tava 5 o.Magasfiircti, M aga he pala- 
vra de Perfia , na qual língua fignifíca o que na 
Grega» PhílolophojÔC na nofla Sábio. E porque 
entre eftes Sábios havia alguns, que tocavaó de 
communicação com os demónios , como fempre 
fe cofbijmou entre osEgypcios , & hoje entre os 
Jndío£,Si: Ethiopicos:daqui Magia,quehea Icien- 
tia dlftês Magos fe tomava em boa , & mà parte, 
como hoje em dia fe toma, porque a perfeyta Phi- 
lolophia fc chama Magia. Magai Círcíf.Aqui nefte 
lugafiporCirces, entende feyticeyras , tomando a 
palavra Magas cm mâ parte com o epitheto de 
Circe,qiieo foy grande. Da qual conta Homera 
na OdificaK.què por ordem dos Latinos he o li- 
vro decimo , qu€ convenço os Companheyros de 
Ulyíles cm porcos , 6c o mefmo diz Virgílio 
Eglog.8.C<irw;«í^rti Circeftciot mutavh Ulyffis.Civ» 
ces com luas encantações , 8c feytiçarias convcr» 
teo os Companheyros de Ulyfles em porcos , que 
he o que o Poeta nefte lugar entende. Polypbemos» 
Polypheoio foy hum Gigante filho de Neptuno, 
do qual os Poetas contaô grandes fabulas , entre 
outras, que tinha hum olho ló na tefla, tão grande 
como huma grande rodela,o qual Ulyíles lhe que- 
brou, como diz Virgílio na Eneida , & Homero 
naOdirtea, 

Spenai ejut co^ canto 01 aJormeçao. As Sercas, di* 
!Z.em os Poetas que foraó filhas de Acheloo , & 
CaHiope , huma das nove mufas : outros lhe daõ 
outros pays» Moravão no mar de Siciliai da cin- 
ta para cima molheres , & peyxes da cinta para 
bayxo , cujos nomes eraó , Partenope , Lígia , 6c 
Leucofia,grandes muficas, 6c tangcdoras:em tan- 
to que com a doçura da voz entrctinhaô aos que 
paílavão,& adormecidos com a fuavidadeda mu* 
fica os lançávaó no mar , como tratta Homero na 
Odiílea M. 

Dtmlht mais navegar a vella^ & rema nos Cy cones» 
Eíla diligencia de navegar dos Cy cones povos de 
Thracia , Sc a briga que tiveraõ com a gente de 
Uiy(Tcs,pinta Homero na OdyíTca liv. 15. cap. 17. 
Go(land9 oloto,lA arvore loto, como diz Plinio,he 
do tamanho de'huma Pereyra , o fruyto que dá hc 
cônlo huma fava, Sc nacem muytosjuntos nos ra- 
mos como mortrnhos. He taó íaboroío eftefruy- 
to,que vieraó os Poetas daqui a alcvantar , que o» 

quii 



Lnfíaàas de Luís de 
C]«e comiaõ âelle, ft ejqueciaô de íuas terras, mo- 
4híres,Sc filhos, como Homero conta dos Compa- 
nheyros de Uiyfles no lugar allcgado. Do nome 
iielta arvore icchamãoos moradores dcíla Pro- 
víncia Lotophagos, que quer dizer,gente que co- 
mida arvore Loto. Ortelio na lua Synonimia 
^uer que Icjaó osGelves. Em Africaha muytas 
arvores deftas,8c em Italia,como diz o mcfmo Plí- 
nio, também há algumas, mas ofruytonão hetaô 
boíh. A fabula da Nympha Loto convertida neíla 
íirvoroconta Ovidio nas Metamorpholes liv. 9, 
Vemlbe pçrder nai agnat ê PUoío, Como conta Vir- 
gilio na Eneidj liv.quinto que aconteceo a Eneas, 
(jucihecahio Palinuro íeuPilaco no mar , o que 
cUc íentío muyto* 

Ventos foUos lhesfinjaõy& imaginem 
Dos odres ^^ Caíipfos ^namoraaas 
Harpias ^ífue o manjar lhe CQntam'tnem% \ 
T>ecer âs jòmbras nuas jàpajfAdas: 
^apor mHyto,& miiyto que/e afinem 
Níjt as fabulas vãs também fonhadas^ 
Averdadtyqiie eu conto nua^^pura^ 
Vence tuda grandíloqua efcrttura^ 

Vmtoi fnUdi lhe finja», PaíTando Ulyífes pelas 
Ilh.i5 Eoiidas , aonde EoloReydos ventos tinha 
lua morada , conta Homçro na OdiíFca , Eolo lhe 
meteousventosem hum odre , para que dalli os 
íoleafle quando quizelle. Veja-le o que cícrcve- 
mos no canto quarto, oytava 58. 

E Qaiyphi n&moradAu Calyplo grande elperdi- 
çada por Ulyiles.filiia de Thetis,& Oceano deter, 
minou não o largar toda a vidafazendolhegran^ 
des promeirascomo diz Homero na Odyllea , Sc 
como eu notey no legundo canto oy cava 45. 

Arphi tjueo manjar Ibt contamina», Contaô as 
fabulas , que Phinco Rey de Thraciaporconic- 
Ihodc fuá íegundamolher , tirou os olhos aos fi» 
ihosda primcyra > pelo que enojados os Deoles, 
lh& quebráiâó os ícusjôclhe acrecêtàraó outro tor- 
mento mayor , que tudo o que lhe punhaó diante 
para comer Ihetiravâoas Arpias, que eraó humas 
Avcsmuyco íujas » & goloías , Òcihe iujavão a 
mela. Veja.fe a noíla annotaçáo no canto quar*. 
tooytavíiSj. 

Deccr ái jembrai nuat jâfaffadat. Sombras jà paf- 
fedas laó almas idas dctta vida.falia á imitação dos 
Latmos, que por morrer dizem : defcenderead em- 
brai^ ctcccr ao lugar aonde e'taó as almas , as quaes 
clks chaTiaó lembras, Veja-fe a noíla annotaçáo 
no canto terccyro oytava 1 5 1. O que o Poeta neí- 
tasoytavas atras quiz moílrar, foy, que todas âs 
mentiravdeHomero,com Ulyfles, 8c de Virgílio 
como teu Eneas, 6c aíTim de outros antigos Poe- 
tas, nao (aó para fe ouvirem comparaçáa das ver- 
dades, que dos Portuguczes íè trattão , porque 
com ferem fabulas Eaõ conceruiAs ,2v bcíu sici;i. 



•^'íí.. 



Cdmoes Commentadof, 

tas , com eítylo , & palavras tâo elegantes , rfenj 

com todas eitas particularidades, vem a conto de 

verdades , quelò osPortuguezcs trattáo enifuaí 
hiílonas. 

Djíhoca do facundo Capitão^ 
'Pendendo efiavaõ todos embebidof^ 
afiando deu fim à longa narração 
^os altos feytosygrandes ^f& Jubidosi 
Louva o Rey ojubltme coração 
*T>os Rey s, em tantas guerras conhecidos^ 
^agente louva a antiga fortaleza^ 
A lealdade de animosa' mbreza, 

Facunio C<i;>ií<»ff. Entende o Capitão mór Vafc6 
tía Gama, porque neíla narração, que fez ao Rey 
de Melinde le houve facunda,6v eloquentemente* 

VAy recontando ofovOjque fe admirei 
O cafo cada quaí^que maisnotou^ 
Nenhum de lies da gente os olhos tíray^ 
^e tam longos caminhos rodeou: 
Mãsjà o mancebo T)eliO as rédeas vira} 
^e o irtnaõ de Lam^ecia mal guiou j 
^For vir a de/canfar nos Tethicos braçot 
E elRey fe viy do mar aos nobres paços^ 

Mai ']à o manceba Delio ai tedeas vira. Neílas pà2 
lavras nos pinta o Poeta o tempo da tarde quandcr 
o Sol le queria por,& cítá por táo galantes termos, 
que não pode mais fer , mas muytas vezes por nos 
nelle livro declarados. Mancebo Del io hc o Sol, 
chamado aflimdallha Dclos aonde naceo, como 
fica notado atrás. Diz , <}ue o Sol virava as rédeas^ 
que o irmão de Lampecta mal guio» , porque ao Sol 
attribuem hum carro com quatro cavallos em 
queda luz às terras , como notamos nefte canta 
oytava 46. O irmaõ de Lampeeia he Phaeton £[• 
lho do Sol , o qual dando hum dia luz ao mundo 
cahio como conta Ovidio largamente nas Meta- 
morpholes, ôcfica notado no canto primeyroi ÔC 
quintOjOytavay. 

Por virdefcançav aot Theticoí brafoi. Hc pelo que 
muytas vezes fica notado , que o Sol à tarde fe re- 
colhe ao mar em calade Thetis , aonde eftáatè 
que o outro dia fe levanta a dar luz ás terras , o 
que tudo pinta Ovidio no lugar allcgado , & hç 
muyto labido,6c por nós muytas vezes notado, 

Q^aô doce he o louvor ^^ ajuÇagloriét 
^Dos próprios fcyt os ^quando faó foadosl 
í^iaíquer nobre trabalha que em memoria 
Vença jQU iguale os grandes ^ápa(fadQS', 

4i 



,^ envejas àa Ulufire^é* alhea hijiona 
Fazem mil vezes fgy tos fub limados ^ 

^■^em valer ojas obras exercita 

^uuvor albeo muyto o efperta^ incitai' ' 



t!antõ ^intú. 



Al 



^ua^âocebeoíouvsrt Oqueeu pudera aqui trâ- 
zej^^çál^ declaração delia oytava tratta o Poeta 
«as jegaintes até o fim do íivro com exemplos 
tão próprios , & tão conformes que me cfcufa a 
Biim depor outros. 



^My:'-' 



NAnttlnhã em tanto os feytos gloriofor 
TDe Achites Alexandre napelleja^ 
^^uanto de quem o cantados numerofos 
''Vcrfo^iiJJo/ò louva jffo àeCeja'. 
Os trofheos de MeUiadesfamofos 
*Temiíiocles defpertão (o de eniieja, 
E diz,, que nada tanto o deíeytava, 
Como a vozjqueféus feytos celebraua, 

Nã^ tinha emtantê os feytot gloriofos. Conta Cí- 
cero naqr-açâoquefezemfavorde Archias Poeta, 
que chegando a cafo Alexandre ao lugar aonde 
Áchilles-eílava fepultaJo difle eílaspalavras : O 



pátria de fervldaõ. Entre õutrns côiítas que dellè 
íc efcrevem hc eíta , de que o Poeta aqui faz men- 
ção , trazer icmpre dianiedefcus olhos os Tro- 
pheos de Melciades , & huma enveja grandiíTima 
-de Tuas cavallçrias , & que com nenhuma coufa 
dentia levar may or gofto na vida , que cm tratcaç 
de íuas coufas. 

T^abdhapoYfnoflrar Vafcoâa Gama^ 
^e effas navegaçoes%que omundo câta% 
NaÕ merece tamanha gloria ,^ fama^ 
Comoafua^que oCeoM aterra ejpanta: 
Simas aquelle Heroe^què eftima^^ ama 
Com dÕes_,mercèsfovores,^ honra tanta 
A Ura MantuanafaZi que foe 
Efieas^tè a Romana gUria voe. 

Si tn4i atjueUe Húroe.Que íeja Herocficadito nõ 
canto quait.o oytava 50. Oqueo Hoetaqu,e-r dizer 
he que os Portuguezes naô favorecem nem fazem 
mercê algama aos homens de engenho como fize- 
raó os íntigos, 8c efta he a razaõ poi'que li,neas,£c 
outros RQm<*nos excellentes foraó conhecidos no; 
mundo por lerem Mecenatcs, & Padroeyros áoà 
Poetas. Lyra Mantuana he viola de Mantua, cn- 



fortukatè adoUfcensy ^ui tua vtrtuti' praconem invenc' tende os veríos de Virgilio, que tanto celebrarão 
ris Homemm, O ditofo mancebo pois tiveíte hum t-ncas. 



tão gtande pregoeyro de tua cavalleria como foy 
Hotaèrq, , ,& Plutarcho na vida de Alexandre o 
chama bemaventurado, porque teve na vida hum 
«migo leal ,0 qual fe claamou Patroclo, & depois 
«Jefua morte hum taòrgrande pregoeyro de luas 
«bras como Homercío íí-fte valerofo Capitão ain- 
da que trabalhava por imitar as obras de Achilles, 
& lhe eia muyto affsyçoado por luacavalleria,to- 
davia maisjin veja tinha , como diz aqui o Poeta , á 
4itta>deiAchiUes,em lhe caber por lorte ter a Ho- 
JBiÈnotipoírelcriLordcfuascoulas, queá luacaval- 
icria, Scprorperaforcuna nas coufas da guerra. 
(f , ,Qílr0pbtot Mekiahs. Melciades, ôcThemiílo-. 
-cies foraó dous Capitães Athenienfes de graude 
tiome, entre outras coulas excellentes,quefecon- 
táo de Melcidss hama digna de memoria , Sede 



i>5 

DA^ a terra Lujítana Scipioes^, 
Ce/ares t /llexandre s fS dâ Angujlos^ 
Mas naõlhedá com tudo aquelles doens^ 
Cuja falta os faz duros j& ro bufos: 
Odíavio^entre as may ores oprejjões 
Compunha verfos doutos j& venuftos^ 
NaÕ dirá Fulvta certo jCfue he mentira^ 
^mndo a deyxava António por Glafira^^ 

Dâ a terra Lu/ítana Scipides.Modrn o Poeta nef» 
ta oytava corno cm Portugal fe criaõ homens 
muyro esforçados , & Cavaílcyros, & tanto, quâ 
ncui os Komanos antigos de cuias façanhas htj 



t|antos livros cheyos, lhe íizercióventije, comool 
jque todos QsHiftoriadores fazem muytocafo,foy $cipiões,Ceíares, Auguítos, Scquedelles não h( 
que feyto elle Capitão general de hum pequeno hum Scipiaó,fenão muytos , muytosCclares , 2| 



cxercitQ ■, pira rcfiílir ao poder grande de Date 
■general de hum poderoíillimo evercito de Dário 
Rey dos Perfis, o qual vinha com propofito, & 
«determinação de deítruir toda Grecii , junto a 
liuin -pequeno lugar chamado Marathon fe en- 
co4icrou com Date, Ôc lhe matou trezentos mil 
homens. De Thsmiílocles fe conta, que foy hum 
Capitão de grande conlcliio,& engenho, & de taó 
gr^ttdd msmoria.,.quc de cór fabia o nome de to- 
dos bs/Achenienfes. A primeyra guerra que os 
*ÀthénicnÍestiveraõ com o^^s Pcrías,foy eleyto por 
gentralv Em huma batalha navàl,que riwevaó jun- 



muytos Alexandres, mas tem os Portuguezes h\ 
ma muyto grande tacha , que he não mifturaret 
comas armas as letras , como os antigos fazia^ 
como Odaviano , 6c Marco António, de que 
Poeta aqui faz menção, 6c outros muytos Prin( 
pesdequeos livros eft.iõ cheyos. Faz fcifto hoj" 
tanto ao revez, que antes íe pragueja de quem ia- 
be.Naó tem elle lugar necelTidade de prova. 

Mão dirã Fulva »aoejne he mentira. Marco An- 
tónio como conta Plutarcho em fua vida foy 
ipuyto aííeyçoado a letras, & poefía,em efta par- 
te foy demafíado , porque deyxava lua molhei' 



to a SaUmina desbaratou os Perfas,, 5c livrou fua Fulviapor irouvirchiftes,SctrovmhasdeGlafira 
:K - - - -.. . - ^ . . Sc outras moíKcr es. ^*y 



96 



VAy Ce/ar fòjugando toda França^ 
E as armas naô lhe emfedem afciêcia^ 
Mas numa, mão a pena ^é^ noutra a lança 
igualava de Cícero a eloquência', 
O que de Sciplaõ fe fabe ^& alcança, 
He nas comedias grande experienc'ia\ 
lÀa Alexandre a Homero de maneyra^ 
.^lue/empre/è Ihejabe d cabeceyra 



Lujiadas de Luís de Cafnões Commcntados". f^ j 

zer q não há homés conhecidos pela fama,por mais 
excellentcs q na vida foflem,por falca de quern Ihs 
elcrevaíuascoufas.Eoc] mais he de kntir, qelleli 
íaó caes,q o não lente como na oycava ic^uince du 
o Poeta. 



9% 



POr ljf0i& naõ for falta de Natura 
Naõ ha tãbem Vir gt lios , nem HomeroSf 
Nem averà^fe ejje coftume dura, 
^J^ior Eneas^nem Ac htles feros: 



^ay Cefar. Elte he Júlio Ceíar , do qual have- -l^as opeyor de tudo he^que a ventura 



mos traitado algumas vezes neftas annotações, 
«ntre outras coulâs que íe dclleelcrevem , huma 
he que o Poeta aqui aponta , que cm huma maó 
trazia a pcnna, & na outra a cfpada , porque tudo 
o que delia lhe fucccdia na guerra, de noyte eícrè- 
via com tanta diligencia, Ôc fidelidade, que os léus 
Commcntaiios que deitas coufascompoz , foraó 
approvados , & tidos por verdadeyros por íeus 
próprios adverlarios,& inimigos. 

O <\us ât Sapiaõ fe (abe. Publio Cornelio Scipiáó 
chamado Africano pelas grandes cavallerias que 
cit» Africa fez , principalmente na deítruição de 
Carihago , foy delcendente da illuílre cala dos 
Cornehoi, &. filho de Publio Scipiaó , oqualle- 
gundo íe efcreve foy o primeyro Capitão Ro- 
mano , que pelejou com Annibal. Foy muyto 
-dado ao cíludo das letras , ík principalmente 
muyto aífeyçoadoa comedias , como aqui diz 
o nollo Poeta , pelo que foy muyto amigo de 
Terentio, 6c com muytas mercês que lhe fez, 
acabou com elle tresladaile as comedias que ho- 
je temos.cujos primeyros Autores foraó Gregos. 

Lia Alexandre a Homero de maneyra, O naayor 
goílo que Alexandre tinha na vida, era ler pelo 
Poeta Homero , & tanto que de dia o trazia no 
ieyo, 6c de noyte o tinha debayxo do cravefleyro 
da fua cama. 

EMjim naõ ouve forte Capitão ^ 
^ie naofojje também douto^.ò' fciente^ 
"Da Lacia.Grega^OU Barbara nação, 
Smão da 'Fortuguefa tão fomente. 
Sem vergonha o não digo,que a razão 
T>ealgumnãofer por ver/os excellente, 
He nãofe ver prezado overfoy^ rima, 
forque quem naofabe a arte não na ejiíma. 

Em fim naa houve forte Capitão. Diz que todos os 
Capitâc5,íj houve no mundo de no.ue, quer l^o- 
nianos,quc entende pela nação Lacia,q quer dizer 
Latina.qucrGregos.ou Bárbaros, foraó dados ao 
exercício das letras, 5c q fc os Portuguezes as def- 
prezáo, & ilto porqas não entendem, porque não 



Tam afperos osfez^^ tam Auflèros^ 
Tam rudoSj(^ de engenho tam remiffi) 
^e a muytos lhe dà pouco, ou nada dijjo^ 

§lue a muytos lhe dâ poueOyOu nada <///^.Poderafe ío* 
frer não lhe dár aos homés de fabcrcm letras, 6c Ici- 
encms, mas haver homés q tcnhaócm pouco os q^ 
íabé,âe barbaria fina. 

AS Mu/as agradeça omjffo Gama 
O muyto amor dapatria^que as obriga 
A dar aos /eus na lira nomeJ3 fama, 
''De toda a illuftre^à' bellica fadiga: 
^e elle^ncm quemna ejlirptf Jeufè chama^ 
Caliope não tem por tam amiga j 
Nem 4S filhas do Tejo^que deyxajjem 
As te lias douro fittOj^ que o cautajfeml 

Ai Mttfas <ijçr4</g^«. Nota aqui o Poeta aos Por* 
tuguezes pouco favorecedores dos Poetas, pelo q 
eíla empreza q elle tomeu de lhe efcrever íeus fcy- 
t0S,devéno â Patna,aondc elle naceo,q o amor de- 
maíiado q lhe tinha, o fez cantar os iey tos dos feus 
naturaes^ não obrigação alguma q tiveílb. Cali- 
ope he húa das M ufas, 6c principal dellas.Filhas do 
Tejo faó as Nymph.is do Tejo, Padroeyras també 
<los PoecaS)Como íicadito no canto i.oytava 4* 

100 

POrque o amor fr ater no yô* purogofia 
^De àar a todo oLufitano feyto 
Seu louvor, he fomente o prefupofio 
'Das Tágides gentis j&jèu refpryíO: 
'Porém naõ deyxeemfm de ter difpofÍ9 
Ninguém a grandes obras fempre opeytê'^ 
^e por eft a^ou por outra qualquer via^ 
Nãoperderã feupreço,^fua valia ^ 

Dai Tagidei gentis. Tágides faó as Nymp^as do 
Teio.Veja-le o q efcrevemos no primeyro canto. 
O q neíta oytava diz o Poeta he q o feu intéto ncí- 
te livro he dar o devido louvor aos heróicos feytos 



dos Portuguezes , pela obrigação q atrás tocámos 
preza as coulas.hnão qué as conhece, 6c q por naó de leié Íeus naturaes, & não por clles o mcreceré, 
haver quem^faça cafo da Poeíi:i,não ha Poetas.ha- pois não favorece aos homens q neíla parte os pó* 
vendo homcs de muyto engenha, 6c habili jade,6c de fizer grãdcs,8c excellentcs có feus efcritos. Cô 
uaqui vcià qnaó ha iiiieas aeni Àchille§:quero di- tudo acófelha fe appliqué as obras áz virtude,porq 

nunca falta quem íaya por elUs. 



orq 

oà 



t<6 




os lusíadas 

DOGRANDE 

luís de CAMÕES. 

Commentados pelo Licenciado Manoel Corrêa. 
ARGUMENTO.'" 

Parte-íe de Melinde o Illuftre Gama, 
Com Pilotos da terra, & mantimento, 
Dece Lieo ao mar,Neptuno chama 
Todos os Deoíes do húmido elemento: 
Conta Velloío aos íeus dando honra, & Fama 
Dos doze de Inglaterra ó vencimento; 
Soccorre Vénus a afligida armada, 
E à índia chega tanto dezejada- 

CANTO sexto/ 

Neíle Canto fe tratta como fahio Vafco da Gama de Melinde , Zi o que lhe 
aconteceo atè chegar a Calecut. Conta-fe também a faraofa Hiftoria 

dos doze de Inglaterra. 



NAõfahta em que modofefleja(fe 
O ReypagaÕ õs fortes navegantes^ 
^ara que as amizades alcança jje 
2)(? Rey Chrijiaô, das gentes taõpoffanteS^ 
'Pe falhe qne taõ longe oapofentajfe 
*T>as Europeas terras abundantes 
ylventnra^que nado fez ve zinho 
U^onde Hercules ao mar ahrio caminho , 

O Rey Pagai, O Rey de Melinde,ao qual Vâfco 
da Gama relatou a Hiftoria , que nos trcá cantos 
atrás ouviíles. 



Europeas terras. São terras defta noíTa Europa. 

Bonde HercuUf ao mar abrio o caminho. Entende 
b eftreyto de Gibaltar. Veja-lc o que eícrcvémos 
no canto terccyro , oytava 95. 



J 



C"^ Om jogús ^danças onttas alegrias 
j Segundo a policia Metindana^ 
dom u fadas j & ledas pefc ar ias 
Com que Lageia a Âritonio alegrado engana. 
Efiefamofo Rey iodos os dias 
hefltja a companhia Lufitãiia, 
Com banquetes ^manjares defufadox^. 

Com frutas ^aves ^carnes i<^ pe fcados^ 

Co, 



\ V / LíifiaãasãeLuh de Cainhei Commertfadosl 

Cú^ pe a Lagelajirtttnio alegra^ éf engana. La* ^ agente LuJitana^deUas dlna^ 



Í(JJ 



«eia he Cleópatra Raynha do Egypto , chamada 
afliiu de Pcolomeo Lago Rey delle. Efta deu 
grandes banquetes a Marco António. Veja-fe o 
que cícrevemos no canto fegundo, oytava 55, 



M 



3 

As vendo o Capitei^ quefè detinha 



Ar de ^morre ^blasfemai & de f atina. 

ThalaMoiãoSoL Saô as partes aonde o Sol nace,^ 
os quaes na oytava atrás chamou partes da Au-' 
rora, que tudo hc huma mefnía coula. Chamaó os 
Poetas áquelias partes thalamos do Solde thaU* 
Tuuíy que quer dizer cama, ou eílrado, porque fin- 
gem que dalii fe levanta , & nace o Sol. Tbyorteoj 



Jã mais do que devia & ofrefco vent& Baccho. Veja-íe a noíla annotaçáo no feguudo 



O convida quepartay& tome a/ínha 
Os Tílotos da terra^é^ o mantimento. 
Não Ce quer mais deter ^qne ainda tmhA 
JMuytopara cortuY dofalfo argentai 
Jà do pagão benigno fe defpede^ 
^Ine a todos amiz^ade longa fede> 



I 



Sal{Q argento. Sallo argento hc o man Veja-íèa 
iioíli annotação no canto primeyro oytava 18. 
Benigno chama ao Rey de Melinde , pelo bom 

âzalhido , quenclle achàraó os Porcuguczes» 



PEdelhe maisyque aquel/e porto feja 
Semp/e co m fuás frota f vifitado^ 
^te nenhum outro bem mayordefeja^ 
^46 dar a taés baroês feu Reyno^ Q? t liado ^ 
E que em quanto f eu corpo o efpirito reja 
EJtãra de contino aparelhado 
Apur a vida^fê Reyno totalmente 
fPor tão bom Rey^por tãojub lime gente* 

5 

O 'Vtras palavras taes Iherefpondia 
O Capitão ^& logo as vellas dando j 
IPara as terras da Aurora je partia, 
^te tanto tempo haja que vay bujcando: 
NoTolitoque leva naõ avia 
Falfidadeimas antes vay mo/irando 
Anavegaçaôcerta^Ò' afsi caminha 
y â mais figuro do que dantes vinha* 



canco,oytãva u. 



Via eftar todo o Ceo determinado 
De fazer de Lisboa nova Roma^ 
Nao o pode eflorvar^que deflinado^ 
Eflà de outro poder ^que tudo doma 
jD<? Olympo doce em fim defèfperado^ 
Novo remedi» em terra bufe a, ^ toma 
Entra na húmido Reyno ^à' vayfe â corte 
IDaquelle a quem o mar cahio em forte* 

De fazer dt Liibôa nova Roma. Pelas vittorlâs 
que havia de alcançar, com que íe havia de pare- 
cer com os Romanos, que tanto dominarão. 

Da^juelíe a ^uem o mar cahio em fortcEjilc he Nep- 
tuno u-máo de Júpiter, Plutão, & Juno, filhos de 
Saturno.os quaes lançando fortes fobrc o que ca- 
bia a cada hum dos Reynos de feu pay Saturno,' 
que era Senhor do univerfo , depois que toy lan- 
çado do Ceo.A Júpiter cahio em forte o Ceo, a Ju- 
no o Ar, aNeptunoo Mar,aPlutão oinfernoj 

8 

NO mais interno fundo das profundai 
Cavernas altas yonde o mar fe e [conde l 
La donde as ondas faemfiribundas 
fiando às iras do vento o mar refponde: 
Neptuno morado' moraõ asjocundas 
NereydaSjt$ outrosT>eofes do mar .onde ^ 
As ã^uas campo deyxaô ãs Cidades^ 
^e habitão ejias húmidas deydadesi 



tio maii interno fundo. Deícreve aqui os âpoíení 
Para ax urras da Aurêrafe partia. Que coufa fe- tos, & paílos de Neptuno,os quaes diz que íaõ no 



ja propriamente riurora 
meyro , oytava 14. & 



fica dito no canto pri- 

II2i 



AS ondas navegavaô do Oriente 
Jã nos mares da india,& enxergavaÕ 
Os thalamos do Sol.quenace ardente^ 
Jã quafi feus de Cf j os fe acabavaõ. 
Mas o mao Thyoneo^que na alma fente 
As venturas ^que entali fe aperelhavaê 



fundo do mar. 

Cavernas ali at. Covas fundas.^ 

Nereidas. Saó as Nymphasdo marfilhâs deNe- 
reo , de que jámuytas vczcs temos trattado. Hit* 
midai deidades. Saô divindades do mar , gente no- 
bre, & Senhores, que os Poetas fingiaô morar no 
mar , & por eílerelpeyto lhe atribuhiaõ poética, 
&; fabulofamente diyind;\de,coa)o coníla da liçaô 
dos Poeta». 



^^f^t^d 



,IJP 



ta cxcellentemente à imitação de Oviáít 



DEfcohre afundo nunca defcuherto 
As áreas aly de prata fina, 
borres altas fe vem no campo aberto 
■^a tran (parente majfa crijialina: 
^artto fe chegão mais os olhos ferto^ 
Tanto menos a vifta determina, 
"Se he chriftalo que vé fe diamante, 
^e ajfi fe moftra claro j& radiante. 

Funde nunca defcuberu, He aquelfi partcaende 
Nepuuio habita por fer no maÍ5 fundo, & fecreto 
lug^r do mar.aondc nunca ninguém vay. 

Torres altas. Eíi^s tones altas de maíla ciiílalina, 
fãò tonesdeagoa muytoclara, & radiante, como 
o Poeta rtrftâ oytava encarece. 

iSe be enfiai o ejue fe vè fe diamante. Para encare» 
cimeíito da ferajofura das aguas. 

IO 

AS portas d^ ouro fino ^ér marchetadas 
Uo rico aljof Ar ^Qjue nas conchas nace^ 
íDí ef cultura fer mofa ejl ao lavradas 
Na qual do trado Bacco a vifta pace: 
E vèprimeyro em Cores variadas ^ 
^J^o velho Chãos a tam confufaface. 
Vemfe os quatro elementos ttasladadoSi 
Em diverfos of fidos occupados^ 

Do rico aljôfar^ ífue nax conchas nace, O principal 
aljof^ir le peíca na Cidade ae Barem , na coíla da 
Arabia,logeytaa El Rey de Ormuz. Ha-o tam- 
bém em Geylaó, ôc em outras partes. Pefca-fe no 
fundo do mar, tirando as oílras, & dey tandoas ao 
Sol, ,as quaes delpois de íeccas i'e abrcm,Sc dalli le 
tira. 

j Na cjual do irado Bacco a vijla fafce. Encareci- 
mento grande he da fermofura do lugar,pois Bac- 
cho raó colérico , £c irado Ic deteve , 6c dcleytou 
em ver aqucllas coulas. 

Doveib» Chãos a tão cenf ufa face. Entre outras 
coufas que eftavão naquellas portas , huma era 
aquellc ant igo,6c confuío Chaos,de que os Poetas 
tantofallaô, quefoy o primeyrolugar, fegundo 
elles fingem , donde todas as coufas tiveraó ori- 
gem. Chãos he palavra Grega , & quer própria* 
luente dizer confula5,porque naqucíle Chãos ef- 
tavão confulamente todas as coulas fem ordem 
nem concerto algum. Trattadeíle Chãos Ovidio 
nas Metamorphoícs , liv. i. Ôc chamalhe o Poeta 
velho por fua antiguidade. Vcja-fc o Provérbio 
Chaò antiíjutor. 

Vem fe os ejuatro elementot.Dos quatro elementos, 
êc razão delle nome trattey no fegundo canto, 
oytava 35. Ôcna oytava íeguintc os pinta o Poe- 



1 1 

Ahlifubltme o Fogo eflava em ema, 
^le em nenhuma matertafefufiinhay 
^)aqut as cou/as vivas fempre anima^ 
%>e pois que 'Fr omethéo furtado o tinha: 
Logo após elle leve fe fubtima 
O invencível Ar^que mais afinha 
l^omou lugar ^& nem por quente ^oufriOi 
^Igum deyxa no mundo ejiar vafio, 

/llli o Ubhwe fogo efiava encima* Chama aõ 
fogolublime , ou pela nobreza , ou pelo lugari 
aonde dilfe Ovidio: 

ígnea convfxi vis, éf ftne pondere Cali . 

Emtcuiti (ummat^ue locumftbi legit tn arce, 

O fogo tomou o mais alto Uigar, porque efiájun^ 
toaoCeoda Lua encima de outros elementos. 

Ç.^e ejn mnhuma materta (e fojiinha. Porque não 
tem neceffidade de lenha , nem de outrab ajudas 
para fe luílentar. 

Depois ejue Promethea furtado o tinha. Veja-fe a 
ncíla annotaçâo no canio quarto, oytava 105. 

O invifivel Ar. Chamaao ar invifivel , porque 
raõ fe detém a vifta nelle por ler muyto raro , &: 
íutil. Eíí:e Ar eftá logo junto aofogo , &l logo a 
agua,Sc no ultimo lugar a terra como mais pelada 
que os outros elementos. E ainda que o Poeta 
aqui â imitação de Ovidio delcrevendo aos Ele- 
mentos , pocm a terra no terceyro lugar » ?í não 
he por fer mais leve que a agua»mas por fer aflen- 
to delia, 5c aílim fe ha de entender Ovídio , ^ o 
Poeta aqui. Nem he inconveniente cftar muyiM 
parte da terra delcuberta de agoa,porque ifto or^ 
denou Deos Omnipotente , para habitação dos 
homens, por cujo relpeyto criou todo ounivcrío. 
A qual ordem , 5c preceyto de Deos íe collige do 
primeyro capitulo do Genefis : Cvngregeníur ar^i^a 
i^KX jub Cxlo funt in locum uaum , & appareat anda. 
Ajuntem-íe as agoas que eílão dcbayxo do Ceo- 
em hum lugar,& appareça a terra. Pelo que have* 
mos de entender , que fe efte preceyto de Deor 
não fora por ordem da natureza a agoa cobrir 
lodaa rerra,pois he regra Philofophica, que tcdoí 
concedem , que qualquer elemento luperior bí 
dez vezes tanto mayor,que o inferior, mas Dqo 
todo poderofo,mandou ás agoas que le dcfviíHei 
para huma parte,&: deyxaflem lugar deloccupad 
para habitação dos hotnens* 

£ nem por ejuente, ou frio. Ifto he por aquella rc» 
grada Philolophia, ^uodnondatur vacuum inrert. 
natura , que não hà lugar valio no univerlo , Díí 
tudo eílá occupado. 



-Ef^vi 



Lufíaàas de Luís de 



1 1 



Estava a Terra em montes reveflidat 
^e verdes ervas j& arvores flor idas _, 
'ÍD anilo pafif^ âiverjo^ dando vtda^ 
j^as alimárias nella produzidas: 
aclara forma alli tilava e/culpida^ 
T)as agoas entre a terra dejparz^idas^ 
'De pejcados criando vanos modos ^ 
Comfcu humor mantendú os corpos todos. 

N Outra parte efculpida eftava a guerra ^ 
Quetiveraoõs Ueofes co' os Gigantes i 
Efià Tipheo debayxo da alta C.rra 
2)9 Etna,qneasflamns lança crepitantesi 
EíCíilpido fe vé ferindo a terra 
Neptuno y<^uando ^as gentes ignorantes 
^elle o cavalo houveram ^(^ a prime yr a 
^e Minerva pacifica 0/iveyra, 

N^outra parte ifculpiía e(iava a guerra. Veja-fe o 
canto primeyro , oytava 5'». 

E(íd 7yphe9 debayxo da alt4 ferra de Ethna. Diz 
Pindaro Poeta Grego, ao qnal fegiie Ellraboliv. 
15. que o Gigante Typheo eíH prc^^o no monte 
Ethni , ôc atonnentajoalli por mandado de Jú- 
piter, por le achar na guerra dos outros Gigantes* 
Daqui chaaiáo os Poetas aos rayos tela Jypbas^ 
naó por Typheo Gigante os fazer a Júpiter, como 
alguns querei), fe não por lerem de matéria de fo- 
go,o qual dizem os P oetas,quc o monte Ethna de 
Sicília o lança de íi , aonde Thipheoelld amjr- 
rado. 

Efcftlpido fe vè ferindo a terra Neptuno. Veja-íe, o 
que elcrevemos no canto terceyro,oy tava 5 1. 

POuca tardança faz Lyèo trado 
Na vtfla delias coujàs^mas entrando 
Nos paços de Neptuno^que avifado 
©a vinda ftia^o e fiava jà aguardando» 
jí as portas o recebe ^acompanhado^ 
^as NiiifaSique/e eíião maravilhando^ 
5D^ ver^que cometendo tal caminho^ 
Entre no Reym dagoa o Liey do vinho. 

Pouca tardança faz Lyeo irada. Entreoutros no- 
ircsqucosPoctasdaòaBaccho, hum heLyeo,o 
qual confv^rma muyto coai a natureza dos ho- 
mens aftcyçoados ao vinho , porque he de hum 
verbo Grego Lyo , que quer dizer foltar, ou li- 
vrar, porque eíta gente he muyto hvre, ôcapar- 
tada de cuydâdgs , uu paia milhor diier muyto li- 



CdmÕes Commentadosí '%ji 

vre,6c folta no fallar,Sc de pouco fegredo* Efta me 
parece a mim a razaó porque a gentilidade enga» 
nada coílumava em léus lapriíicios , & feftas de 
Baccho levar cirandas ,&joeyras, valos que nãc» 
foftém em fiagoa , dando a entendernifto a natu- 
reza de Baccho , & dos que oícguiaó : porque 0$ 
quelhefaziaó luas feitas lè preUvão muyto de le 
lomaremdo vinho , &fuzercoulâsquccoftuma5 
fazer os que guardão fuás regras. Donde diz Vir* 
gilio nas Georg. Et my(lka vanus laccbtt & a myH^ 
tica ciranda de Baccho. Bem fey que lhe dáo alli 
outras declarações , mas elUme parece a mim a 
própria , &alljm relpondi ao noUo Luís de Ca* 
mões perguntandomc a razaó , &: declaração da* 
quelle vcrlo , & lembiame que lhe contcntoi|, 
mais,que as que os comentos Baquelle lugar crat* 
tão. l^óde Ici Baccho cambem Lieo de lio, que he 
prender , pelo officio do viuho , que he prender^ 
èc atar , a quem ie dá a cllc» 

ONeptunOylhe dijfe^não te efpantes 
^De Bucco nos teus Rtynos receberes 
'Ter que também có* vs grandes j^ pv£antes^ 
Mofiraa Fortuna feus poderes: 
Manda chatnur os \Deo/es do marcantes 
S^e fale mats^ft euvirme o mais qiújeres^ 
l' eram da de/ventura grandes modos: 
Ou^aõ todos o maluque toca a íodos^ 

16 

Í*X)tgando]à Neptuno ^quf feria 
Eflranh') cafo aquelle^logo manda 
Trttão^qut chame os T^tofes da agoafria^^ 
Sjie ornar habttão d^huma^ & d' outra bãdai 
Tritão jque defer filho ft: gloria 
1)0 Rfyi& da SaUcta veneranda: 
Era mant ebo grande ^fiegro^ô' fey o. 
Trombeta defeu^ayfBfèu correjo, 

TritaÕy nfut defer filho fe gloriado Rey, & JeSaíaeiê 
venerandtí. Tritão foy filho de Neptuno , & da 
Nympha Salada , correyo, & trombeta de feii 
pay , como aqui diz o Poeta. 

OS C abe lio t da barba, (^ os que âecefé 
T>a cabeça nos hombros^todos eram 
Huns limos prenhes dagoa, & bem parecemÀ, 
^e nunca brando peutem conheceram: 
Jslas pontas pendurados namfallecem 
Os negros mexilhões, que allifegéram^ 
Na cabeça por gorra tinhapo^a 
Hurna muy grande cajca de lagofta^ 



Oí cahítos '^alarba. Vitt&nos aqui o Poeta a 
Triuô trombeta de Neptuno lèu pay à imua- 
^çaó de Ovídio Irv, t> iM€t. 



iô 



i8 

C^^r/^o ?//5,(d^' os membros geititaeSj, 
^Por naõ ter m nadar impedimento 
Mas ptrèm de pecjumes antmaes^ 
^0 mar todos cuberios centOy& cento: 
ipav!araêsj& Cangrejos & outros mais^ 
.^ie recebem de i^hebe crecimento^ 
Oftras^fÉ Birbigoès domufgofujos, 
id^seejias cotn acâfcaos Qaramujos. 

^«e rtt(h,'m àt Phek cfe^irnerito. Phcbe,he à L/õk, 



Vinha o Vadre Occeano âcompanhaiõ 
©oi filhos ^à' das filhas , que ger àr a ^ 
Vem NereOj que com Dorisfoy cafadoy 
§ue todo o mar de Ninfas povoara: 
O 'Pròpheta Prothêo deyxando o gado 
Mar it imo pacer pella agoa amàra^ 
Alli veyo tambem^mas jà [abta^ 
'O que o Padr^ Lyêo no mar queria^ 

Vinha o Paire Oceam, Ós antigois , Como por 
muycas vezes fica dito, faziaó Deoíes a cada canto 
nos matos, rios , 6c niar tudo eraó Deoíes , ôcao 
m^fmo mar rinhaó ncíla conta , como o noílo 



l>íz q titias òiflras, 6c o mais marílco r; cebe crcci^ Poeta aqui QÍz,fal]andocomo Poeta, que acudío a 



mento d i Lua , pcrq\ieaíua principal influencia 
he frialdade, & humidade, que ncítascoulas pro- 
priamente faz tifey to como em outras muy tas dtf- 
ta qualj(;^^C. 

NAmaõagrande concha retorci dã^ 
^le trãzta com forçajà tocava^ 
A voz grande y& canorafoy ouvida 
^oYtodo o mar ^qm lovge retumbava: 
Jà toda a companhia apercebida 
*ÍDos ''Deefis par aos paços caminhava 
2)í> "Deos^quefez os muros de 1)ardaniâ^ 
^Defiruidos depois dá Grega in/ànta» 



eíle ajuntamento, que fe fazia nos paços de Nep« 
tuno,lcnhor,'&: monarcha do nvAT.J/tm I^creo. Efte 
Nercohe outro Deosdo nar,fiiho do Oceano, 6c 
Thctis. Eftefoycafado com Doris, & quanto ao 
que aqui diz , que Nereo povoara todo o mar de 
NymphaSjhe pelo que os Poetas fingem delie,que 
leve muytas filhas, a que chamáo Nereidas , Sc al- 
guns querem que foífcm cincoenta. Seus nomes 
íe pódé ver em Higinio, no principio do leu livro» 
O Fropheta trotheo. Prutheo foy filho do Oce- 
ano , Sc Thetis paílor do gado de Neptuno como 
fica dito no canto primeyro foy grande propheta, 
fegundo o q dellc finge os Poetas,como aqui apó« 
ta o noílo Camões , Sc diz Virgílio nas Gcorgicas 

\ l^úvii namíjue omnia vattty 
<^a fintf^Uíiefaennt ejua moxventmá trahantur. 



ÍLntende Protheo muy to bem , diz Virgílio , 
coufas aífim prefentes como pafladas , Sc por virj 
Veja fea noliaannotaçaó no lugar allegado. 

Ly«o. He Baccho, Veja-íe o que cicrevcmos 
atras neíle canio , oycava i4«> 



II 



Na mão ^grande concha retorcida Concha retor- 
cida era hum búzio, com que Tritaõ tangia, o 
qaàl era a lua trombeta , Sc chama ao búzio con- 
cha , como lhe chamâo 05 Latmos , ÔC afiim lhe 
chamou Ovidio liv.i. Mtt. Cmekacjut fonanti in/pi- 
rarejuhet. Er manda IheNeptuiao tocar o fcu bú- 
zio íonoro. ^.C>N'M^' 

yl vezgranJe caneta. Voz Canora he voz fonora 
de ean» verbo Latino , que quer dizer cantar , ou 

• Daejuelk e^ttefez, Oimuros de Dardanta. Entende 
Neptuno, a quem os Poetas, como fica por muytas 
vezes dito, chamaó Dcos do mar. Efte em compa- 
nhia de Apollo , que os Poetas chamaó Deoh da ^ue fe amançavaemar de maravilhai 
mufica , Sc medicina , fez os muros de Troya a pe- l/efíida huma camiCaperctOjai 
tiçáo de Laomcdonte leu Rey,pela qual refaó aos T^y^zia de delgada baet ilha 
inu*'05 de Troya chamaó os Poetas MacniaNep- - o_ . 

tunia, ou Apollinea , muros de Neptuno , ou de 
Apollo. Chama aqui Luis de Camões a Troya 
Dardania de Dardano feu Rcy , o que tudo he 
muyto íabido dos que lem pelos Poetas. 

Deflruhtdos depoit da Grega infanta. Aponta aqui de Neptuno,filha de CelojSc Veíta. 

a deílrwhiçáo de Tioya,da qual trAttámos no can* 

totcrccyro, ^* 



Vinha por outra parte a linda efpofa 
Tie Neptuno, de Ceh,& Vefiafilha^ 
Grave ^ér ledanogelio,& taÒfermofa^ 



^Uí' o corpo crifiálino dcyxa verfe^ 
^e tanto bem nao hepara efconderfe* 

Vinha por outra parte a linda c/po/^r.Salacia molhei 



C 



AMfitritefer mofa como asflores, 
• Nejie cafo naõquix, quefallece§'e 



Lufiadas de Lúis ãe Camões Commentàâoi, iy J 

i) T)el fim tra%con!jtgõ,(jue aos amores f urus. de Athamante,corrio fica dito , Seque tam- 

T>o R< y ihe aconfelhou^que obedece fiei b^'" ^^Y ^^f «pea Nympha do mar , filha de Ne* 

^ j // ,.. j\...Â. / - ri reo , Sc Dons. O bdlo Infante, He Mtlicerta h- 

€o'sMos,^ue de tudo/ao fmhores. ^^^ <l'£l.Rcy de Athamame. 

^alqmr p^recera^que O ôolvenceJlfe^ 

jimbas vem pellamaòhtgual Partido, 

*^m ambãs faôef poj as de hum marido, ^ 



T7 0'Deosyquefoy num têpo corpo humano^ 



Amphitrite fermofa como ai florei, Efta Amphi- fc> Epor virtude da ervapodero/à^ 

tritc era taníbem molher de Neptuno , como Sa- foy convertido emp€yxe_,&dejie daHO 

Í3C'^- ,,. . „ , Lhe refultouT>eydade çloriofa: 

1^ u .,/r,o A^k^^i ^ / - r j 11 Inda Vinha chorando O feoenq^anoy ^.^ 

mos eolíiiiho aíias conhecido. Contao-fe deilc ~^ , . , ^ ^ z V 

muycas CQuías acerca da afteyçáo que tem aos ^e Ctrce tmhaufado CO aftrmopt 

homens , &â mufica. Huma digna de memoria òcylla^que elle amu^dillajendo ârnadô^ 

coma Solino no Polyhjítor , a qual diz Appiano, ^le amais obriga, amor mal empregado^ 
que vio com ícus olhos , 6c oucios niuytos com 

cllc : quehumgolfinho tomou tão grande affey- g <, D€oi,tj»€ foy num tempo corpo huma»», Ertefo^ 

çaóa hum moço , que lhe coftumava deytar ao Glauco pefcador do qual coma Ovidio , que tcn*.' 

longo da praya alguns bocados de paô , que o ic- do muytos peyxes na praya em quanto le deteve 

vavapeio meyodomardeBayas até Puzzolepor no enxugar das redes le lhe toraó muytos ao mar. 

efpaço de duzentos eftadios , que he quafi légua Olhando Glauco a caufa deíla novidade, vio que 

Scnieya, Sc o tornava a trjzercom grande admi- os peyxes viviaõ tocando cm huma hcrva que na 

ração da gente, ôcaccrecenta que dcipois que fai- prayaellava. Provou Glauco aquclla herva , ÔC 

leceoo moço vinha todos os dias ao lugar donde aconteceo-lhe o que acontecia aos peyxes. Elte 

coltumavalcvallo, Sc que vindo por nuiytasve*' foy tido entre os antigos por Deosdo mar,que he 

4es,&; náo o achando morrera de laudade. oquedizaquionofibCamóeSjquedodannodcfer 

convertido de homem tm peyxe por viitude de 

^$ huma herva lhe refultou ier tido por Deos do 

A^ - j r • j yr f mar.Efte também foy a efl:eajuntamcnto,de que 

S^jella.qne das fanas de /ílhãmante^ himostrattando,masaggravado>&queyxolode 

hugmaoveyoater diviint ejiãio% hum engano grande,que huma molher por nome 

Comfigo traz o filho bello Infante^ Circe lhe fez , a qual como era grande feyticeyra» 

No numero dos 'Deo/es relatado: pedio a Glauco que lhe défle remédio para que 

Telia praya brincando vem diante, ^^'"y^^^ , aquém elle queria muytolhe déílè algum 

Com as lindas conchinhas, que o Julgado ^^'"l • ^ «/^^^ \^"^ ^^''^^, . i^f , ' "^T 

,^ , • j ^ ^ -^ ,,^ em luear de fazer bem ao Glauco lhe tez mal,- 

Marfimpre cria^à as vezes pe lia área, porque pertendiacafarfe com cllejnficioncu hiu 

NocoloatomaabellaTanopèa. mafonte aondeScylla fe coílumava ir lavar » de 

maneyraque entrando Scylla nella , affim (efez 

Acfuella <fU€ dai furtai de /Ithamante. Conta Ovi- ray voia.que lhe parecia que a rohiau, & comião os 

dio que não fe podendo Juno molher de Júpiter cães da cinta para bayxo^ peloque não fe podendo 

por fi vingar de Ino molher de Athamanie Rey íofrerfc lançou no mar de Sicilia , aonde de conti- 

deThebas , á qual tinha ódio por ter em pouco no cílá ladrando. Vcja-fe o que cfcrevemos no 

aíTim a ell.ijcomoa Júpiter leu marido, le ajudou íegundo canto oytava ^6. 
das fúrias infcrnaes,buma das quaes foy logo a ca- 

fa de Athamante , 6c lha inficionou de maneyra, *- 

que Athamante com rayva , & fúria matou hum /r j 

filho TcLi por nome Learcho , & o meímo fizera a X '^' finalmente todos ajjentados 

molher (ele lhe não efconderacom outro chama- I Ra gr ande (ala nobre,& divinal ^ 

do Meliccrta:os quacs também com a mefma fu- ^ /Is l^eofas em riquifflmos efirados^ 

na fc lançarão no mar. Mas Neptuno por rogo q. T>eofes em cadtyras de criítal: 

mtHaninrh'' ' & honrou no (eu Keyno, Poraõ todos doTadre agafalhadvsi 

mudandolhe os nomes a Ino chamando Lcuco- ^, ^/ , ,- . ^J ^ • .. / 

rh.a,5c a MeUcerta Pal^mon: ao qual os Latinos ^^^ corhebanotmhaajjentotguah 

chamãoPortuno, por fer fenhor dos portos do 'De fumos enche a cafa anca moUa^ 

mar. O que o Poeta aqui diz he que a eitc ajunta- ^le HO marnace^^ a Arábia em chiyropâffal 
mento,que Júpiter fazia fobre as coufas dos P«r- 

tuguczes.foráo L.eucothea, & Palemon, os quacs De fumo enche a eafa a rica mafa, <fue no mar nacei 

diz que vicraõ a fcr Dcolcs do mar , fu^^indo d;ic Efta malVa que nace no nur, he o âmbar: o qual a 

natureza 



,%1 



f74 imanto Sexts, 

:natu reza erm, não geralmente em todas eftas par- £ tu 'Padre Occeano^què roãeas 



tes do mar, mas em algumas como laltro delle, por 
cujoreipeytoas baleas cm certos tempos arnbaõ 
áquel Ias partes , por fer cíèe o feu propi-io manjar, 
& affirma.re que coiiiemtanto até que ie embebe- 
daó,& que o que íayc à, praya he,ou arrancado por 
cilas no íundo do mar, ou arrebeçado do que Jhe 



O mundo tmiverfal,^ o tens cercado] 
E comjufto decreto affi permites ^ 
^e dentro ijtvamjo aefeus limites^ 

Vrincefe^cjut de jura fmboreas.JDaqm começa Bac3 



-ibbeja quando comem. E. quefejaifto aíTiniihe choa trattar lua caula diante de Neptuno, & ou 
■cou4a manifeíta , porque não há âmbar íe não em tros íenhofes do mar, o que pretende he , perfua-» 
algum^sp.aragcns, & cita hc a opinião de Luis de dilosaquenáo confintãoos Portup^uezcs no leií 



Camões, como coníla do leu vcríò , ôc fey ta expe 
lienàa por alguns curioíos em baleas mortas 
•achâraô o ahibar no bucho ,& tripas ainda frcTco, 
& indigeíiojComo rac contou hum homem, que 
fe achoii nas partes aonde o ha. Pelo que nem fe ha 
de dizer ler o éfterco das baleas, nem o feu eípcr* 
ma, como querem muy tos, porque íe fora afiim, 
«charíc o âmbar en>,tGdasas partes aonde hába- 
.leas. Ha.duas caftasde âmbar , hum pardo a que 
chamão Gris , quchemuyto eílimado em todo o 
mundo, outro preto que vale muyto pouco. Logo 
quando lahe eíte âmbar hc íoltoconiolubaó „mas 
dahi a poucos dias endurece, 6c fica com o cheyro 



Reyno,antes os perfiguaó;& avcxem, pois faó taa 
atrevidos que entraó cm Reynos alheyos ietn li- 
cença, 6c vontade do Senhor dcllcs. Hceftapeti^ 
ção a imitarão de Virgilioliv.i. iEneid.em huma 
oração qut Juno molherde Júpiter fez a Eolofc4 
nhor dos ventos, pedindo-lhedeílruiflea Eneas 
no mar, para que náo chegafie a Itália , como 
Bacclio aqui queria fazer , que os Portuguezes 
náo entraíkm na Índia. Contí^m eílapeciçáo to- 
das as p^rtc; ,que fc requerem>as quaes faó tres,pri- 
meyramenre pedir aquém tem poder, Icgundaria- 
rneiitepedir coula jufta, ultimamente moítrarnos 
gritos d.i mercê que fe nos fizer , ou moftrar que 



que todos veraos,tendomi yto pouco, ou nenhum vay lambem muyto aos que haó de ajudar, como 
€m maiía.i;)iz que palia ena cheyro a Arábia, por- aqui os Dcofesdomar , cujo Reyno le perderia ia 



que em Arábia ha muy :omccnío,Òt outras couías 
cheyroías. 

Estando fo(fegaàojà o tumulto 
'Dos 'Deofesy^ de feus recebimentos ^ 
Começa a defctt br ir do pey to occultOj 
A canja o Tyonèo de f tus tormentos: 
Hum pouco carreganàofe no vulto ^ 
'Dando moftra de grandes fentiment os ^ 
So por dar aos de Lufo trijte rnorte^ 
Qo^ ferro alheyo fala de fia forte. 

^ Thyoneo, He hum dos nomes de Baccho , como 
fica dito. í^ulto. He o roílo chamado aííim de voh 
palavra Latina , que quer d^zer querer , porque o 
que temos na alma logo aparece no roíto. 

Oi de Lufo. Saõ os Hortuguezes chamados aíTim 
de Luio companheyro de Baccho , como fica dito 
muy tas Vf zes. 



Jiào rcfiítiííem à entrada dos Portuguezes. Fede 
Baccho a quem pode, pois pede a Neptuno fenhor 
do mar, queofavoreça nelle, &: juntamente aos 
mais fenhores do meímo mar , como coníta deftas 
duas oytavas deldc aquellas palavras : Princepc 
que de juro fenhoreas. O que pede he jufbo , peio 
grande atrevimento dos Portuguezes,pois não le 
contentando com fuás terras fe metem por Rey* 
nos alheyos,& atravellaó os mares lem licença da 
Neptuno lènhor delles. Por Prmcepe entende 
Neptuno. 

L>e bum Pelo a outro poio. De Norte a Sul,terfrio 
he, que muytas vezes declaramos em eíUs nofias 
annotaçôes. 

E tu padre Oceano. Efte fazem os Poetas grande 
Senhor do mar , 6c Icgunda pefloa depois de Nep- 
tuno « como aqui o faz Luis de Camões. Do 
Oceano le veja o que fica dito atrai no canto pri; 
nieyrooytava ií>. 

i8 



Eyòs 7)eofes do tnar^que naõ fofreis^ 
Injuria alguma em vofjo Reyno grande.^ 



Co^ o ferro alheyo.Qom forças alheyas porque náo 
áeacreviaBacchoporíiadelviarosPortuguezesda , _ - ^ 

cmprefa que tinhaó entre mãos , pelo queprocu- ^e com cajltgo igual vos naõ vingueis 

rava favor . & ajuda de Neptuno , para ver fc por T^e quem quer.quepor elle corra, fè ande 



clle mçyo podia eíFeótuar alguma coufa. 



^7 

PRinclpe^que de juro fenhoreas 
De hum 'PolOi a outro Tolo o mar irado 
Junque as gentes da terra toda enfreas, 
Site naõpaffemo termo limitado: 



^ue defcuydofoy efle^em que viveis? 
^icm pôde fer , que tanto vos abrande^ 
Os pey tos com razaõ endurecidos^ 
Contra os humanos fracos y& atrevidos^ 

Evès Dsofetdâ war. Entende Nereo , Glau( 
Thctis,& outros. 

Contra oi humanot fracos ^ (jf atrevtdot. O q í< 
paccho tacha aos Portuguezcs hcíèrcm atrevid'^si| 



Lujtadas de Luhàe Camões Commentadoil 
que a mayor glorIa,8c honra que elles podem ter, 
níayormenceenu coulas tão árduas , & difficuko- 
las como ellés commettiaó, E por tão bom fim, 
porque como aiz Pliaio, in tnagnit, auderemagnum 
tfi , emcoufas grandes o atrevimento he coufa 
grande. íi. aquelle grande Tyrteo, ao qual Plataó 
cm muytos lagares chama Poeta divino, fallando 
a eítc propoíito diz: 



m 



^tfejuis maré navigat^ts aut infunit, 
Aut mendtcuf tfi^am mon CMpif.ex bit trtbui 
Ndn fitrifoteji^quin faltem Hnum verumfit. 



l^en mim vir botim exijiit in bello 

Si nonfii/ltneat (cedim vidert cruentam, 

Et ffopius bojlei (lare cupiatf 

Hac vírtui efiboc ofttmum inter bominesframium. 



O que navega tem hum de três males , ou he dou* 
do , ou pobre , ou amigo de- morrer. Deílas trc$ 
coulas não pode deyxar de ler huma.^ 

3° 

VEdes agora a fraca geração, 
^e de hum vajjaio meu o nome toma^ 
Com fvberbOi& aitivo coração^ 
Avos^^ a myt& o mundo todo doma: 



Não le pôde ter por ruim foldado o que fizer 

loin) loftoacutiladasjôcniortestôcquenáo folaar r^ . ^- . j ^ 

co.n inimigos perto.lfto he cavailana. Ariftotcies ^'/'' ^ vo{lo mar cortando vao 
fias Ethicas poeoi o atrevimento, & medo por ex- -^^^^ ^^ que fez agente alta de Roma^ 
iremos da fortaleza. He matéria eíla larga, 6c que yedes O vojjo Reyno devaffando, 
coinprende muytas niaterias.Quanto a cite lugar. Os "Vojfos ejtatutos vaÔ quebrando, 
& propofico o atrevimento he fortaleza , Scern 
matérias de cavallaria,Sc virtude foy fempre lou- 
vada, & o medo nenhuma defcarga tem. Em ou- 
írascoulas como he commetter vícios , & fazer 
pontrao quepedeahonra , ôiaraiiúo, o medo, 
& cobardia cem lugar. 



Vdts agora a fraca geração , <]ue de hum vaffailè 
meu o nome toma. Entende aos Portuguczes cha- 
mados Lufitanos de Lulo companheyro de Bac« 
cho, ou como elle aqui quer, ler leu vafiallo : os; 
quaes diz que procediaó no negocio da navegação 
com mais oqíadia do que o fizeraõ os Romanos» 



i5> 

Vlfles^qne com grandiffimâ oufãdla^ 
Foram jà cometer o Ceo/upremo: 
Vijíes aquella infana f anta fia ^ 
^e tentarem o mar com vellaM remo: 
Vijtes^à' ainda vemos cada dia^ 
Soberbas ^& tnfolenctas taes^que temo} 
^ie do Marjê dó do^empeucos annos^ 
Venhaõ T)eo/tfS aferia' nós humanos, 

Forao jd cometer o Ceofupremo. Para confirmação 
da ouíadia, 6c defcnvoltura dos Portuguezes em a 
navegação de mares allega Baccho também ou- 
tros exceflbs , que os homens fizeraó contra os 
falfos Dcoles , primeyramente os Gigantes filhos 
íla terra , os quaes procuraváo lançar Júpiter do 
Ceo,5cdefl:ruir todos os mais Deoíes,para del^ig- 
gravar (uamây aterra , a qual os criou para efte 
effeyto, como conta O vidio nas Met.imorphofes, 
& Claudiano na fua Gig.Tntomachia , & Ma- 
crohio nos Saturnaes , aonde moralifa eíla fabula* 
• ^í/?fí aejudl» infana faniefta dt tentarem o mar com 
*ela , & remo. Efte dito he peral contra todos os 
homens, que le atrcvaó a andar no mar, ainda que 
princip.^lmcnte parece entender aqui os primey- 
ros que o fizeraó, como forao os Argonajitas, dos 
quaes temos fallado muyras vezes ncíle livro.Cha- 
ma aqui o Poeta ao navegar fantefia infana , que 
podemos , por termos mais claros)declarar doudi» 
ccNa verdade cila foy invenção de homés dema- 
fiadamétc atrevidos.Dódc diíle o Poeta Euripides; 



31 

EP^ví q contra os Mynias ^que primeyro j 
No voffo Reyno ejte caminho abrira Ô^ 
Boreas injurtado^^ o compãnheyra 
Aquillojê os outros todos rejijiiraõ: 
"Pois fe do ajuntamento aventureyro 
Os ventos e/ia tnjurtaajfi fentírão^ 
Uos^a quem mais^competeejta vingança] 
G^e e/perays\p6rque a pondes em tardanfaf 

Eu viejut €ontra os Minias, Veja-fe a nofla an» 
notação no canto 4.oytava 83. 

ENaê conJintofDeofes jque cndeysl 
^lepor amor de vos do Ceo deciy 
Nem da magoa da i njuria que fof reis ^ 
Mas da qiiefe me faz também ami. 
^e aqiieilas grandes honras ^quefabeyi 
^lâ no inundo ganhey , quando venci 
As terras Indianas do Oriente ^ 
Todas vejo abatidas dejta gente f 



Q 



33 

'^ ' 
Ve o graõ fenhor,é' fados que defíbiaò. 
Como lhe bem parece, o bayxo wundOi 

Famas 



i^amas wores^cfue nunca determinão 
*Z)í dar a eftes varões no mar profundo: 
jíqui ver ey s JT)eofes^c orno en(i nad 
O mal tãmbem a ^Deofes^que fegundo 
Se vè ninguém jà tem menos valia 
^e quem com mais razaõ valer devia% 

§lue o grão Sen bar tdr fados que de/imaÕ» Qiic cou- 
fa leja Fado,6c em que íentido fe pofla touiar para 
fe poder fallar delle fica trattado no canro primey- 
TO,oytavaa4.. 

Ninguém '{atem menoi vaka,ejue quem commais ra» 
x<í5 valtr devia. Moeda he que lemprc correo no 
inundo,&: que correra em quanto ellc durar,niOM- 
lar muyto pouco a gente de merecimentos , ôc 
pelo contrario ter grandes ofíicios , St citados a 
que préfta para pouco. He fruytada terra, &taó 
conb€cida,que náo tem ncccflidadc de prova. 

34 

ETor iffo do Olympojàfo^i, 
Bufe ando algum remédio a meus pt farei 
^or verfe o preço que no Ce o perdi 
Se por ventura acharty nos voffos mares ^ 
Mais quiz dizer jà' naÒpafjoud^aqui^ 
forque as lagrimas jà correndo apares 
Lhe faltarão dof olhos ^com que logo 
Se afceyidem us deydades dagua em fogo ^ 

È for ip do Olympo ja fugi. Veja* íc o canto pri* 
meyro oytavá 17. 

■je acendem as dtiilaâesda agua em fogo* Deidades 
da agoa raó Deoles do mar , os quaes diz aqui o 
)?oeta , que com a cólera grande que tomáraó pe- 
las palavras que ouvirão a Baccho contra os Por- 
tuguezcs^aquella propriedade que tinhaó de agoa, 
que he Ter humida,ôc fria.le convcrtco em fogo,Ôc 
furia,coino na oytava leguinte íe declara» 

Atra com que fubito alterado ' 
O coração dos T>eofesfoy numpoHto% 
Nadfofreo maisconfèlho bemcuyàado^ 
Nem ãílaçadnem outro dr-fconto. 
Ao grande Eolo mandão já recado 
^aparte de Neptuno ^quefem conto. 
Solte as fúrias dos ventos repugnantes 
^e naòaja no mar mais navegantes^ 

^0 grande Éolo mandão }drecado,t)e Eõlo íe veja 
O que cfcrevenaos no canto i.oytava 58* 



B 



Em quiferaprtmeyro aly Trotheo 
[l^i&sr nejie negocio o q^uefentUi 



Sextvl 
Efegmdo o que a todos pareceoi 
Era alguma profunda ^rophecial 
^orem tanto o tumulto fe move o 
Súbito na divina companhia^ 
^e Thetis indignada lhe bradou: 
Neptuno f abe bem o que mandou. 

De Protheo , & Thetis fe veja o que efcreve^l 
mos no canto primeyro, oytava 15. fie 16. 

37 

JA^ lã o foberho Hypotadesf oitava 
^Do cárcere fechaao os furiofòs 
yentos^qút cijm palavras animava^ 
Contra CS varões uudaces^à' animo jos 
Súbito o Ceo ferem fe obumbrava^ 
^ie os ventos mais que nunca impetuofoi 
Conte çaò novas forças u ir tomando, 
forres ^montes y^ cafas derribando^ 

Hypotadei, He Eolo filho de Júpiter , & Ser» 
gella filha de Hyp tas Troyano , pelo que da 
noníC do avó lhe chamaô os Poetas Hypota- 
des , com o o noíTo Poet:) aqui. 

is 

EM quanto efte confe lho fe fazia 
No fundo aquofo,aleda^& laffafrotA 
Com vento folfegadoprofeguia, 
^Felo tranquilo mar a longa rota: 
Era no tempo, quando a luz do di% 
T^o Eoo E mis f rio eji d remota f 
Os do quarto dafrtmafe dtytàvam 
'Fará ofegundo os outros deffertavam. 

Fundo aejuofo. O mar. Era no tempo tfuando a luz 
do dta do Eco Hemtfpherio ejid remota. í^elcreve o 
tempo em que Eolo por mandado de Neptuno 
ioltouos ventos , que foraó caula dele levantar 
huma grandiílima tormenta. E para moftrar quo 
era alta noyce , diz que era quando a luz do dia 
eítà apartada do Oriente , ao qual chama Hen)ií- 
pherio Eoo,dc Eous, a,um, que quer dizer, coufa 
do Oriente. Que coufa feja Hcmifpherio fica di- ? 
to no canto i.oycav.i.^S & 5. oytava 14. 

Os do (juarto da prima je dtytavã'o. Entre os fol- 
dados le reparte o tempo em vigias , para que to- 
dos ajudem a levar a carga. E de noyte hà eíU 
ordem » que os primcyros que eftaó de guarda 
logo no principio da noyte , quehe a primeyra 
vigia , ettaõ quatro horas , & pelo confeguince 
os outros até amanhecer. 



fentidai 



39 



VEncUos vem do fono^ Ôf mal de/pertos^ 
Bocejando a meudoje encoftavaõ 
I Telas antenas jodos malcttbertos^ 
I Contra os agudos ares, que ajfopravaõi 
I Os olhos contra feu querer abertos^ 
I Mas esfregando os membros eftiravaÔf 
I Remédios contra o fona bufcar querem^ 
I tiijiorias contam^ca/os mil referemt 

40 

C"^ Om que melhor podemos j^mmdtzia^ 
^ Efte tempo pafar^que he tampe fado^ 
Senão com algum conto de alegria^ 
Com que nosdeyxe ofono carregadol 
Uefponde Leonardo, que trazia 
Tenfamentos de firme namorado, 
^ie contos poderemos ter melhores j, 
¥arapa£ar o tempo^que de amoresl 

Refponde Leonardo.Kíle foldado íe chama^^aLeOi 
flardo Ribeyro , íegundo me diíTc Luis de Ca- 
mões, pergunundo-lhe porelle, mancebo deíen* 
Volto,dezidor,6c grande namorado. 

4t 

NAoheidijfè Vellofo^coufajuflai 
Tratar branduras em tanta afpereZã^ 
^le o trabalho do mar ^ que tanto cufta, 
Naõ fofre amores ^nem delicadeza: 
Antes de guerra fervida.&robufia 
yínoffa hiftoriafeja^pois dureza 
Nojfa vida hadeferjegundo entendo, 
^e o trabalho por vir mo eftâ dizendo^ 

l^ãobe diJJeVellofú, Eíleera hum Fernão Veí" 
lolo,criadod'El'Rey de que nasChronicas letaz 
mcnçaõ. 

41 

Cl Onfentem nifto todos ^é* e^co^nendad 
A A VelloCo^que conte i/lo^qUe aprova: 
Contarey^diJJeJèmque me reprenãaõ 
^e contar cou/a fabulo/a, ou nova: 
E porque os que me ouvirem daqui aprendao 
A fazer feytos grandes de alta prova. 
Tios nacidos direy na m£a terra, 
Eefiesfejào os doze de Inglaterra. 

Do$ nacidos direy na nojfa terrai Determina Ve- 
lofo contar huma hiftoria de doze P0rtugue7.es, 
os quâcs porque cm In^Uterra ycnccraõ doze In- 



Lujíadai àeLuísdeCamoèsCommenfadòsl \Jf 

gleíes fe chamarão os doi^e de Inglarerrav Efta 
hiíloriaaindaque o Poetaaqui a trâttademodo 
que baite para entendimento do livro.todavia parsl 
mayor claridade farcy hum breve difcúrlo iobrè 
cila, ôcalém diílo dcclararey pelas oytavas aspa* 
kvras que tiverem neceffidadc de declaração-, ^ 



. 43 

NO tempo, que do Reyno a rédea levê 
Joam filho de Tedro moderavax , ^ 
depois qne/ò([egadOi& Itvreo teve 
2)<? vifinho poder jque o moleftava: 
Là nagrande higlaterra^que de neve % 

Boreal fem^re abunda ifeineãva 
A fera Ertmnis dura,^ mà cizânia^ 
^e lufirefojfe ã m[fa Lufitania. 

loao filho de Fedro. Efte joaõ filho de Pedro qué 
aqui o Poeta noroea , he El-Rey Dom joaõ o pri- 
fneyro,por alcunha chamado de Boa memoria,íi- 
lho baílardo d-Ei-Key Dom Pedro o cru, 5c neto 
d^El-Rèy Dom Afíonço o bravo. Coiita-íe quô 
dcfpoís que Ei-Rey Dom Joaõ de Boa memoria 
deu batalha a El-Rcy de Caftella, andando cá o 
Duque Dalencaftre, porque El-Rey de Portugal 
era cafado com huma lua íilha,a qual elle lhe trou- 
xera á Cidade do Porto,6c alii calara com ella. E 
deípoisdeaííím a batalha rerdada,refoy o Duque 
para Inglaterra , &eílandoalli em leu contenta- 
mento, pela bondade, ôc valentia que nos Portu- 
guezcs vira , dos quaes elle fez fazer humaChro- 
nicaem Inglaterra dos fc}tosde armas que lhes 
vira fazer nas guerras de Caílella. AíTim que eítan-^; 
do elle hum dia com as Damas da Raynha de In- 
glaterra em grandes lolazes,& prazeres,& rauytos 
Senhores, & Fidalgos Inglefes coni elle,vieiaó os 
Fidalgos Inglefe? a dizer ás Damas,que craõ muy- 
to feaSjSc que náo tinhaõ fervidores que Ihocon-; 
tradiíTeíTem , &que elles eílavão preíles para fò 
combaterem com quaeíquer Cavalleyros que lho 
contradifleflem por fua parte , & que le quilc íleiu 
combater com ellesrcftes eraõ dozej Sc ellas outras 
doze, de que ellas foraó muyto agaítadas: & pedi-; 
raõ ao Duque que fe doeíle de luas honras > & lhe 
dcíle Cavalleyros que por fua parte fe combateí- 
íem com os que ifto lhe diziaó , & que ellas os 
aceytariâo por feus fervidores, le elles vingaííent 
osdcfeytos que cilas tinhaõ daquelles Cavalley- 
roSjporaíTim as injuriarem. O Duquerogou aal-; 
guns dos íeus que aceytafíem aquella demanda 
pelas Dannas , o que elles não quileraó fazer por 
todos ferem naturaes , cntaó mandou o Duquô 
bufcar alguns Cavalleyros , & não fe poderão 
achar . então dille ãs Damas : cu em minha Corte 
não acho Cavalleyros que íe queyraõ combater 
com cll:outros,mas porém darvos hey hum confe- 
Iho, fe vós quifcrdes, & he tal. Qiiando andcy cm 

Portugal, vi nas baulhas que El-Rey^cjcu genro 

- ...... ^g^ 



ffi Cajjto Sexfol _'_,:_" 

deu a El-Rey df Gaílelk.muytos, & bons Cavai- por mais mofina que todas, pois nclla cahira a for- 

íeyrosemfeytosde armas: le vós qju Herdes, eu vos tcdo fcuCavalleyro não cumprir a palavra que ti-] 

nomearey doze, ôceftesosmelhoies, os quaeseu nha dado» A qual os onze conlolavão dizendo, 

•conheço : 6c efcreverey a tL,l-Rey meu ger^ro que qtie íe não agaíiafle,porque elle era tal Cavalleyra»' 

lhes dé licença , lêelles quiíereni tomareílacm- que cumpriria íuapromefla, laivo íearnortclho 

prefa:& vós efcrever-lhcheis cada humafua carta, eftorvafle. E que feaíTim fofie que elles onze ío 

Ce eu tambcmjSc querendo elles vir,fereis fatisfey- combatcriaó com os doze Ingleles,& tomariaó ai-» 

tas de vofla injuria. Difleraó ellas então, que lhe li também lua fama, 6c honra. Eltando tUes niíto 

beyjávaó as mãos,6c que eraó contentes. Poz logo chegou o Álvaro Gonçalves Magriço , com que 

o Duque os nomes delles cada hum cm feu papel, ella, 6c elles foraó muy to ledos : Sc foraô-fe todos 

8c os nomes delias da meímamancyra: ôclançârap os doze então ao Duque, 6c difleraó- lhe,quecllcs 

fortes , 6c acontcceoacadaCavalleyrofua Dama: eraó alli vindos a feu rogo,6c mandado, Õc porque 

iie maneyra que pelo nome fa.bia já cada Dama eraóCavalleyroseílrangeyros, 6c oscom que ha- 

qual era oíeuCavalleyro pela lorte que lhe acon- viaõ de fazer batalha,naturaes, 8c grandes Senho- 

Tecera. Então cada huma enviou lua carta ao ícu: res, 6c podia acontecer que dando-lhcs Dcos vito- 

ôc o Duque pelo femelhantc enviou a cada hum ria, os tratriílem mal , que lhe pediaõ os legurafl^e. 

fua carta, em que lhes rogava , 6c pedia quifcllcm Entaó o Duque chamou os doze Cavalleyros in* 

aílim pelo amor dclle,como pelo que deviaô áor- glefes, 6c Ihesdifleque elles eraó os cometedores 

dem da cavallaria,aceytar aquella emprefa por ca- defte defafio , 6c que as Damas aprefentavão por 

da huma daquellasDamasipois em lua Corte não íi aquellcs Cavalleyros : 6cque feacafofofiequc 

achava Cavalleyros que por parte delias a quileí. os vencellem , que elles lhes não íizeflem nenhum 

fem aceytar. Chegado o Embayxador das Damas defaguizado p( r fi, nem por ícus parentes : 6c que 

« efte Rcy no, foy recebido nelle com tanto alvo- clle os tomava fobre lua cabeça : 6c que loubeflcm 

Toço de alegria , que aquellc fe tinha por mais di- que fc alguma confa fe lhes fizeíle que a clle era 

tolo, que vinha pelas Damas nomeado: por haver íey ta , 6c que caltigaria a tal culpa , aílim como íe 

jnuytos outros que de boa vontade aceytariaó a contra a pelfoa delle Duquefoflecommettida.Ao 

cmprela.Mas os doze nomeados refponderaó, que que reípoivderaõ que elles os íeguravão , 6c que 

pedida a licença a El-Rey de Portugal, eJles feriaô não houveflem recco de nada.Eftando aílim já le- 

íá(prazendo a Deos) pela feíla do ti,ípirito Santo, guros os Portuguezes , forão o dia da batalha ver 

^uc era o prazo que os outros tinhaô pofto para a as íuas Damas, 6c receberão de cada huma feu joel, 

batalha. A licença deu-lhalogo El-Rey : & eíles que traziaó nos elmos ,6c com elles le foraó todos 

Cavalleyros fe affirma que eraó todos naturaes da armados a pé meter no campo: 6c os Juizes os me- 

Serra da Ellrella , dos lugares que eítaó pelas fal- teraõ dentro, eftando o Duque , 6c toda a Cidade 

«dras delia, como Tr-tncofo, Pinhel, 6c outros: en- de Londres em grandes cadafalíos, aonde também 

treosquaeserahum Álvaro Vazde Almada, que cílavãoas Damas. Aflim que entrarão na batalha, 

tlelpois foy Conde de Abranches em França , 6c O motivo do delafio foy , o que atrás tica dito.fll 

ourro Álvaro Gonçalves Coutinho, de Alcunha que as Damas eraò muy to feas, 6c pouco para fe- 

•o Magriço, filho do primeyro Marichal Gonçalo remamadas,6ctacs que nenhum Cavallcyro oufa^ 

Vazques Coutinho,6c irmão de Dom VafcoCou- ria por força de armas a lhe contradizer iíl o. Ao 

tinho , primeyro Conde de Ma? ialva. E outro di- que os Portuguezes refponderaó, que as Senhoi as 

Xem que fe chamava JoartPereyraAgoftin , filho eraó muyio gentis molhercs, 6ctaes que Cavalley- 

fegundode Gil Vazques da Cunha , fenhor das ros, 6c de terras tão remotas , como as fuás eraó, j 

terras de Baíto , 6c Monte longo, 6c Alferes mór folgavão de as lervir,6c de fe matarem c^n batalha j 

d*El-Rey Dom Joaõ de Boa memoria. Os outros com elles por amor delias . 6c os Juizes lhe parti- I 

bum delles fe chamava Pacheco , 6c outro Pedro raó o Sol. Então começarão de íe combater, pri- 

liomem, 6c outros,que eraó por rodos doze, 6c to- meyro com maílas de ferro , 6c defpois com eípa- 

<3os muy esforçados, 6c valerolos Cavalleyros. Os das : 6c foy abatalha muy cruel, 6c tão dura, que 

quaesle foraó á Cidade do Porto: 6c os onze delles começarão pela manhã, 6c a hora? de terça defcan- , 

ie foraó em huma nao que ahi toraáraõ caminho çáraó : 6c quando veyo a fegunda batalha , mete» ; 

■de Inglaterra. Álvaro Gonçalves Magriço quiz raó-fe os Portuguezes tão apertadamente comei-! 

hir por tcrra,por ver mundo, promettendo a íeus les, que finalmente ferirão os oyto muyto mal , 6C Í 

«ompanheyros que íe no caminho não morrcde, os lançarão fora do campo:no qual ficáraó os Por» 

feria com elles no tempo do prazo. Os da naofo- tuguezes vencedores ,6c com muy ta honra tirados 

rao a lalvamento, 6c aportarão em a Cidade de Ló- delle,6c levados â poulada, que para iílo cílava oi 

dres, aonde fora© bem recebidos : 6c eftando ahi, denada, aonde os vieraóviíitar íuas Damas , 6c 

não taltavâo mais que dous dias do prazo em que Duque. E ao tempo ^ue le aflentáraç^à meia , 

íe havia de dar a batalha. As Damas dos onze cila- Damas lhes deraó agua ás mãos cada huma ao fe 

vão em extremo contentes , porque tinhaó alli & quando a de Álvaro Gonçalves Magriço lli 

feus Cavalleyros :6c a Dama de Álvaro Gonçalves quiz dar , elle efcondco as fuás , dizendo que nd 

Magriço pelo contrario muyto agaftada^tendo^fe lhe havia de dar agua ás mãos molher , fe não ho- 
mem: 



iLuflâàas âè Ltúí de Camões CommentàâQs\ í/^ 

ifnem: 8crogahdo-Iheella, que Ihefizefle aquella c€z foy morto , & vencido das mãos de Álvaro 
mercê, elle não queria, tendo fenipre as mãos de- Gonçalves Coutinho , & deita mancyra por luas 
trás: mas a Dama apertou tanto com ellc, dizendo mãos, por fervir a dita Iníanta, ficou Flandes fòra 
que pois as oúcrâs lançarão agua ás mãos afeus Ca* da lubgeyção de França.Eíla Hiíloria conta aqui 
valipyros , que ella em toda a maneyra havia de fa- L'uis de Câmões.mas porque no verlo nunca le dÍ2f 



aer o meímo, Ôc ailim le não podia efcular , 6c en- 
tão diílc : Senhora íabeis porque não quero que 
jneianccisaguaàs mâoshe,porqueas tenho muy- 
to cubclludas, & vendo. mas aflim, temo que vos 
aborreça. E dizem que eíle Cavalleyro tinha cm 
tanta quantidade os cabellos nas mãos ,quequaíi 
lhe cobriâó as unhas. A Dama lhe reípondeo , Se* 
hor,antes ellas voíVas mãos lou eu mais obrigada 
lavar , 6c tazer-lhe todo o acatamento , pois que 
por ellas me livralle da dcshonra , & intarnia que 



tãoclaramcntc que leeícule declaração, íiz aquç 
cíle breve dircurfo,6c quando íe oftcrecer no vcri;^ 
fo alguma coufaefcura também o dcclararey. 

Do vex,inho poder que o molejiava. Dos Caltdha» 
nos vezinhos. 

Da n€ve boreal. Neve Frígidiffima. Boreal fecha* 
ma de Boreas, que he o norte, por ler Inglaterra 
chegada a eUe , & por cfte rclpeyto muytotru^ 
Fera Erjmmi» Eryamnhc nome Grtgo , ÒCgeral-j 
mente quer dizer qualquer fúria, ôc dcíatino. Os 



> va 



aquelles Cavalicyros me queriaó dar: & então lhe Poetas pmtão tres,as quàcs ião, Alt6to,Thiíipho-! 

conlcncio que lhe délle agua às mãos, ne,ôc Megera: que ião caufa de todas as difcordias; 

Depois Uc citarem alguns dias na Corte» foraõ quehánomundo : pelo que uía aqui o Poeta do. 

uvilados que os Cavalleyros Inglelcs determina- nome geral delias todas,quc he ErymnÍ3,dandoa 

vaó de os matar , ícntidos de os vencerem : pelo 'entender que todas íc ajuntarão para iemear cfta 

ue pediraò licença ao Duque para le tornarem cizânia, 2c diícordia entre as Damas, & Fidalgoaf 

ara Portugal. E poilo que o Duque íe punha por Inglefcs. 
êlles ^ airegurando-os que não hou veflbm medo: ^«í lu/irefofc d noff'a LufHani». Da qual cizânia^ 

(lies não quileraò hcar,porque não le levantallem ôc contenda folie Portugal illuílrado. A diíFeren* 

reyçóes no Reyno , êc alíim le foraõ. Aqui vos ça que ha entre cila Relação, & os veríos de Luii 

ião íabere.y mais dizer, que de três que ficarão em de Camões he , que na Relação fc diz que a briga 

quellas partes : 6c os nove le tornarão para Portu- foy a pé com maças de ferro no principio, &. dei- 

jal. O Coade de Abranches que ainda o não era, pois com efpadas. Luis de Camões diz que foy « 

fez em {^rançatacsFeyíos em armas, que o fez El- cavallo. Mas não temos cer^a por ler coula lern 

Rey de França Conde daquelle lugar de Abran- n-.emoria, em Inglaterra dizem que a há, Ôc Luis de 

ches.Eíte veyo depois a morrer na batalha da Al- Camões faria cita differença para oníato de lua 



farrobeyra , com o Inlante Dom Pedro, como re- Poeíia» 
ferem os Diálogos de Varia Hilloria Dialogo 4. 
cap.z. E Álvaro Gonçalves Magriço,fc foy tam« 
bem para Flandes , aondeeílava a Infanta Dona 
llabel , filha d^El-Rey Dom Joaó o primeyro de 
Portugal , calada com o famolo Philippe Conde dé 
Flandes, Duque de Borgonha. Ao qual neíle tem- 
po chamava a Cortes EURey de França , porque 
todos osCpndesde Flandes crão feus vallatlos.Sa- 
bidopelalnfanta diíle ao Conde feu marido , que 
não foífe , porque ella queria hir áquellas Cortes. 
E aíTim o fez, E quando foy ao allentar noauto 
das Cortes , a íafanta mandou por a fuacadeyra 
junto j & Igual com a d^El-Kcy, E fcndo-lhe iflo 
cftranhado pelos grandes de França: diíleque cila 
merecia aqueUe lugar , porque ella era filha de 
Rey: Sc mais que ella daria Cavallcyro que fizefle 
conhecer por força de armas , que o Condado de 
Flandes.nãoera tendoa vaflaHagem aos Réys de 
França. El-Rey aíTinou o dia para a batalha, & 



44 

ENtre as dantas gentis da Corte Ingkfál 
E nobres curtefaósa ca/o hum dia 
Se ievantou dijcordia em ira acejd 
Ou foy opiniam^ ou foy porfia: 
Os Cortefaòs^a quem tam poutopept 
Soltar paiavr as graves de oujadia^ 1 
^Dizerriique provaram ^q honras i& famatl 
Em taes damas namhaparafer damas, 

Ditatm que provdra'5, Eíle foy o motivo,que foy 
câula de haver a batalha, de que atrás falíamos en* 
tre os Portuguezes,êc Inglefes.^ 

E^efe houver alguê cõ lan^àfi effaià\ 
^ue queyra fuftentar apartefua^ 
paradelender o contrario do que ella dizia. E ella ^teelies em campo rafiiOU eftãcada^ 
deu por fi a Álvaro Gonçalves Coutinho o Ma- £^^ darâmfea tnfamia.ou morte cràai 

deínuarS^""' m^o f^T^V ^"^ °"^^«^ A fcmenil fraqueza poucoufada, 

decntrar nelta batalha.Odiaaiiinado,ococampo ík> ^ ^ , J ? ^ , 

feguro, os Cavalleyros forâo metidos nelle, & ar- ^ ^T^^^"^ "" opróbrios taesvendofe nu4 

remeterão hum ao outro, 8c dos encontros ambos ^^ forças mturaes convenientes y 

forão cm terra,vierão as erpadas,&: andarão em fua Socono pedem A émtgOs/^ parentes^ 
batalha rouy to clpaílg de cempa. 1^ ao íiai g Fran*. 



Z2 



a 



íSo .__ CdntoSextil 

Afcmenúl fraqutzi. As Damas molhcres fra- 



cas. 



4^ 



48 



Ascsmofoffem grande s^& pojjantes 
%Mo Rtyno os inimigos ^nãofe atrevem 
Nem par ente SiTiem fervidos amantes^ 
Ajuftentar as damas^como devem^ 
Com lagrimas fer mo/as, & baftantes 
Afazer^que emficorro os ^eofes levem 
'De todo o Ceopor rojios de alab afiro. 
Se vam todas ao 1)uque de Âlencajiro,^ 

47 

1"^ Rã efle Inglez potente jfêmllitdr a 
i Cos 'Portuguejes ia contra Ca jiella^ 
Onde as forças mcígnanimas prova} a 
U^os companbeyrosJÉ benigna efirellai 
NaÕ menos nefta terra exfrimentàra^ 
Namorados effeytos^quando nella 
Afilha vio.que tanto o peyto doma 
^0 forte Key^quepor mulher a toma. 

Era efte Inglês. Efte Duque de Lencaílre por 
morte de fua prima:ra molher caiou com Dona 
ConíUnça filha maprd'El-Rey Dom Pedro de 
Caftella "por alcunha o cruel , ao qual rrtatou hum 
íeu irmáo por nome Dom Henrique,6c le empof- 
fou do Reyno, por cuja morte ficou em feu lugar 
hum feu filho por nome Dom Joaó , Sccomo a 
mulher do Duque de Lécallre filha mayord?Ei- 
Rey Dom Pedro o cruel dcCaftella lofreíle mal 
eítar o Reytio de Caftella> que a ella lhe vinha por 
direyto, em poder de Dom Joaó feu primo, ven- 
do occafiaõ para le poder latisfazer nefta parte» 
que eraó as guerras que havia entre Portugal , ÔC 
Gaílella , acabou com íeu marido o Duque qui- 
ieíTe vir aeftas partes. O Duque efcreveo a El- 
Kícy Dom Joaõ de Portugal como elle determina- 
va vir a eftes Reynos com huraa grofia armada, 
para tomar os Reynos de Caftella , 6c Leaõ que 
cítivefieprelles, & o ajudaíle por terra, Veyoo 
Duque,&delembarcou na Corunha, &: entrando 
por Galiza,& empoílando-fe de algús lugares deU 
la,vio em os Portuguezes,quc em lua companhia 
trazia fazer coufas de muyto esforço, & cavallaria, 
p^lo que lhe era muyto affeyçoado , & os tinha na 
conta que elles mereciaó» 

/l filha vio , (fue tanto feyto doma do forte Rey. 
Efta foy Dona Philippa filha do Duque de Len- 
caftre,., á qual fe affeyçoou tanto El-Rey Dom 
João , que ie caiou com ella. Efte caíamentofoy 
Icyto no Porto , em dia de Nofla Senhora da P u- 
rificaçáo, a hum Sabbado , dous de Fevcrcyro de 
mil trezentos oy tenta 5c fetc: 



ESte.quefoccorerlhe não queria] 
Tor nao caiifar dijcordtas intefiinasl 
Lhe diz^quando o direyto per tendia 
^0 Reyno ia das terras Iberinas: 
Nos Lujitam s vi tanta ou/adia. 
Tanto prím'or\& partes taõ divinas l 
^e elles fòs poder ião(^fe naõ erro^ 
òtifientar vojjaparte afogo^& ferroí 

"Ejle «fm focomrlhe não (juieria.O Duque nao que"? 
ria dar favor ás Damas nefta lua defavença,que 
com CS Fidalgos Ingl íes tiveraõ , por não caufar 
inimizajes , o que fucccderia fe entendeflem os 
Fidalgos que era contra elles em favor das Damas,' m 
E aílim o cónleiho que deu de mandar a Portu- 
gal a bulcar Cavalheyros,que deíendcflem lua 
caufa, foy em legreoo, & da maneyra, que os Ca- 
valheyros o nãoloubelfen). 

Dt(cordiai intefttnai, Dilcordiâs , interiores, 6c 
grandes. 

Terras fbertnas. Terras de Hefpanha.Chamaõ I3 
affimdelberus, que he o no Hebro, queporella% 
palia. 

45> 
45*^ agradadas ^amas ,foh fervidas , 
^^Por vos lhes mandarcy Embayxadoresl 
^e por cartas di [cretas, & polidas, 
^e Vfíffo agravo çs façao fabedores: 
Também for vo ff a parte encarecidas^ 
Com palavras de afagos ^fy de amores^ 
Lhefejam voffas lagrimas ^que eu creyo, 
Sj£e alli tereis fôccorro^^ forte efteyo. 

Também por vojja farte. Efcre vendo -lij^e, Sctrat- 
tando-lhe dá razão que tendes de iahir por voíia 
honra. 

D Efta arte as aconfelha o T>uque experto^ 
E logo lhes nomea doze Fortes^ 
E porque cada 'Dama hum tenha certo t 
Lhes manda^que jobre tllts lancem fortesi 
§ue filas fò doze fan^^ descubi rtCy 
^ala qual tem cahiào dos confortes y 
Cada huma efcreve ao feu por vários modof^^i 
E todas a feu Rey,^ o T>uque a todos ^ 

E todas a ff» Rey.Á^s Damas todas fizcraô huniá 
carta a El-Rey Dom Joaó o pnmeyro dcfte nointf 
de Portugal , pedindo-lhc lhe fizefle mercê dos 
Cavalheyros tinalados pelo Duque. 

Confortes. Saó companheyras, que todas o ei ão 
«o paço de Inglaterra. 

U 



Lufiaàas de Luís de Camões Commentadosl 



18 1 



51 

J'A^ chega A Portugal o menfàgeyros 
Toda a Corte alvoroça a novidade ^ 
Qutzera o Rey fubtime fer primeyro^ 
Mas naõ lho fofre a Regia Mageflade: 
^htalquer dos Corte faós aventureyro 
^efeja fèr com férvida vontade, 
Efo fica por bem aventurado ^\ 
^emjà vem pe lio 'Duque nomeado. 






È Jò fica por bentaventurado. Cofturac daquella 
rimcyra idade , 6c verdadeyramente de ouro da 
4açáo Portugueza , que nenhum outro intento 

tinháo Ic não honiar fua pátria, 6c alcan^^ar nome 

nella. 

5 2' 

yf ^ na leal Cidade ^donde teve 
OrigcmÇcomo he fama^o nome eterno, 
'portugal^armar madeyro leve 
landa ^0 que tem o leme do governo: 
V/ipercehernfeos doze em tempo breve, 
)e armas j& roupas de ufo mais moderno^ 
)e elmos icimeyrasjetrastt^ primores, 
lCavalloSi& concertos de mil cores. 

Lana Uai Cidade. Efta he o Porco,donde o nof- 
(o Portugal tomou o nome. E ainda que Luis de 
amóes o diga com efla lalva, como he Fama» re* 
foluto eftà entre os homens doutos ler eíta fua 
ngem : como affirma André de Refende em hu- 
ma carta fua para RerthoUmeu Qiicbedo. Duarte 
Galvão na Hilloria d"^EURey Dom Affbnío o 
primeyro , Oforio Bifpo de Sylves na Hiftoria 
d'El-íley Dom Manoel. E novamente Duarte 
Nunes de Leio. 
i Madeyro leve.Ht nao,figura muyto ulada entre 

os Poetas,por a matéria de que ella fc faz. 

O ejue tem o leme do governo. El-Rey Dom João o 
primeyro de Boa memoria , que neíle tempo go- 
vernava o Reyno» 



55 



>-^^'^l^V 



T/^^ dofiu Rey tomado tem licença^ 
Tarapartir do 'Douro celebrad9 
yíquelles^que efcolhidospor fentença, 
Forad do Duque Inglês exprimentado: 
Naõ ha na cornpnhla diffcren ça 
'/)^ cavalleyro .defiro jOU esforçado. 
Mas hum fô, que Magriço fe dizia^ 
^ejla arte falia à forte companhia. 

Maí hum fê, efue Magriço. Efte hc Gonçalo Vaz 
Magriço,deq fica trattado neíle canto oyiava48. 



54 

FOrtijflirncs confocios^eu defejo 
Ha mvytojâ de andar terras eflranhafi 
Tor ver mais agoãs,q a do T>ouro^& Tejo, 
Varias gente s^à' leys,& varias manhas: 
Agora tque aparelho certo vejo 
0Pois q domundo as coufasfaÔ tamanhas^ 
^trofe me deyxais ir fó por terra ^ 
^J:" arque euferey com vofco em Inglaterra, 

Forttjfimtí eonfacioí, FortiífimoscompaneyroSj 

55 

Estando cafofor^que eu impedido] 
Tor quem das cou/as he ultima linha] 
Naõ for com vofco ao prajo inftit u ido 9 
*P ouça falta vos faz a falta minhT, 
Todos por my fareis ^0 que he divido, 
Masje averdade o efprito me adevinha] 
Rios^montes fortunaydu fua fnveja^ 
Naõ faraó ^que eu com vofco ià nãofejal 

Por tfuem dascoufas he ultimei linha. ^ ultima linha 
de todas as coulas he a morte, por íer o remate, 8c 
fim delias, AlTim o diíTe Horácio liv. 1. Ep. 16. 
Alort ultima línea nr um e[i, a morte he ultima linha 
das CO ufas, 

5T 

ASfidiz,^ abraçados os amigo f, 
E tomada ltcença,(fmfim fe parte^ 
Tajfa LeãOiCaftella^vendo antigos 
Lugares ique ganhara o pátrio Marte: 
Navarra j& os altifftmos perigoi 
'Do 'Pirineo,que Efpanhaj&Gallia parte] 
Vi fias em fim de França as coulas grandes 
No grande Imperiofoy parar de Fr ande s^ 

Lui^etrti ejue ganhara o pátrio Marte. No tempo 
d'EI-Key Dom João o primeyro» No qual os 
Portuguezes fizerão muytas entradas no Reyno 
deCaílella ; ôclhetomáraó muytos lugares em 
Liaó, & Galiza, como fc pôde vec nas Chronicas. 

Ca^s altoi perigot dâ Vyrinto. Dos montes Pyri- 
neos Ic vejaa noflaannotaçáono primeyro canto 
oytava 16. 

57 

Atfichegado.oufoffe cafo ou manha] 
Sempaffarje deteve muytos diasy 
Mas dos onze a illnfiriffima companha^ 
Cor tão do mar do Norte as ondas frias: 

Chegadoi 



Chegados àe Inglaterra â cofia eftranha 
Wara Londres jã fazem todos vtas^ 
"QJoDuque fmõcomfeftas agajalhados^ 
Sdas^amas fervidos ^1^ amimados, 

Ccrtão do mar do Norte ai ondat friai »Mzr do Noi- 
te bc o que palia pelas partes do Norte, coino In- 
,glaterra,6c outras naqucUa paragem, que pendem 
para o Norte. Chama às aguas do mar do Norte 
friíis , porque naquellas partes até o mai* fe con- 
gela com a grande frialdade. 

C"^ Hegafe oprafoj^ dia affln alado ^ 
j T^e entarêcampojd cos doze Inglefes^ 
Muefello Reyjá tmhaòfeguraao, 
Armâoje d* elmos ^gr evasão" de ame/es: 
Jàas Í>amas tem for fi fulgente ,^ armado 
O Ma vorte feroz dos ^ortuguefis^ 
Vefiemféellas de cores fê dtJedaSy 
2)í ourOi& dv joyas mil ricas^^ ledas, 

^uefelo Rey jÀ tinhaÕ fegurado. ComoosPortU- 
guezes eraô eftrangeyros, náo quileráo entrar em 
campo com os Ingleíes fem o Duque lho fegurar. 

O Mavortt feroZi dos Px>rtuguez.es. Mavorte , £c 
Marte laó nomes do Dcos da guerra dos antigos, 
que fomaváo pelamefma guerra , como aqui o 
«oílô Poeta. toma Mavorte pelo eíquadrão dos 
I^ortuguezcs,que eítava jà a pique para pelejar. 



rx3^'^ 



C^moSextJ^, 



•> > t\ ■< »j,í ís^ <> r\ ■ •♦ c» ■ 



Jí» 



MAíaqUellayãquem fora em forte dado 
Magriço, que não vinha com trifieza 
ôe vè/ieipor nãoteriquem nomeado 
Seja /eu cavalleyrOjnefta emprefa: 
Bem que os onze apregoão^que acíthado 
Será o negocio affi na, Cor te Inglefa, 
^te as 'Damas vencedoras Je conheçaõ^ 
"FoJloSique doHSj^tres dos feusfaíleçaÔ, 

Cem trifitt>afe vejle, Vefte-le de veftiduras ne- 
gras de trJÍieza. 

JA^ num fublíme^& publico tbeatro 
Se ajfenta o Rey Inglez com toda a Corte^ 
Efiavaõ tns^à* tres^^ quatro^^ quatro^ 
Bem como a cada qual couber a emfortei 
NaÕfão vijtos do Soldo Tejo ao Batro 
*De forçares for ço^^ de antmo mais forte 
Outros doze fàir^como os Inglefes 
No campo contra os onze Tortuguèfes. 

Do Tejo ao Batro. Do Poente ;io Oriente, tcrm^ 



de fallar; porque rooftrainbs todo o mundo aíndé 
que le íinale lómente o Poente , & Oriente, & af*~ 
fim o ufaõos Poetas. Do Tejoíe veja o que fica 
dito no canto quarto,oy cava lo. Batro he Rio da 
Regiaó Batriana de Alia , que nace do Montes 
Tauro, Querem alguns que le chame hoje Bo-' 
chara. E porque o Tejo he Kio do Occidence 6c 
JBacro do Oriente , por líio os põem aqui para o 
icntido que lhe demos. " ^ 

61 

MAfiigaõ oi cavallos efcumando 
Ós áureos freos com feroz femblan^ 
Eftava o Sol nas armas rutilando 
Como em críjial^ou rígido diamante'. 
Mas enxergafe num,& noutro bando 
partido defigualy& diffonante^ 
^os onze contra os doze^quando agente 
Começa a alvoroçar fe geralmente^ 

Ou rigido diamantí. Do diamante íe veja a noíl| 
annotaçáo no legundo canto oytava4. 

Cl 

Vlraõ todos o rofto a ondehaviã 
A caufa principal do reboliço ^ 
Eis entra hum ca^aleyro, que trazia 
t^^rmaSiCavalõ ao bellicoferviço: 
Ao Refj&às lDamasfala,& logofehta 
^ara os onze^que efie era ogram Alagri^èi 
Abraça os companheyrosycomo amigos ^ 
Aquém naÕ falta certo nosferigos^ 

A7)ama como ouviõ,que efie era aquellel 
q vinha a defender (eu nome ,ò fama ^ 
Se alegra_,& vefie alli do animal de He lie j 
^ue agente bruta mais que a virtude amai ' 
Jâ dão final jò' ofom da tuba impelle 
Osbellicofoi ânimos ^que inflama^ 
^icão dtfpor as Jargão rédeas lõgo^ 
Abayxão lanças, fere a terra fogo. 

O animal de tíelle.He de ouro. Veiâ«le ó que cf-^ 
crevemos no terccyro canto oytava ii, 

§t^e agente bruta ntaii ^ue a virrude ama» O ouríj 
de lua natureza náo he mao , nem faz mal antes 
com elle fe pôde fazer muyro beto. O que o nolib 
Poeta aqui diz , he pelo mao modo que alguns 
tem no ufodelle, que hepórnelle toda fua felici- 
dade , que com muyta razão merecem onomç de 
brutos,que o P oeta aqui lhe dá. 



Lupadas de Luís dâ Camões Commentadosi 



i«$ 



^4 

D Os cavalos o ejlreptto parece, 
^lefaz que o cham debayxo todo tremei 
O coração nopeytOyque eftretnece, • ^^^wj; ^s 

*Z)í quem os olhos fe alvoroça,& temei 
;^al do cavalo voa, que não dece, 
€Ual CO cavalo cm terra dando geme , 
bhialvermelhas as armas faz de brancas^ 
^aWos penachos do elmo açouta as ancas ^ 

Dot tavàlUt. CoTi muyto artifício nos pinta 
aqui o Poecaa encrada,Sí; principio defta batalha: 
o animo dos Cavalleyros, impctu , 6c fúria dos ca- 
vallos, 6c o (ucceflb da dcinanda, 6c como em br<*- 
vecempocilevca viccoria pelos Porcuguczes. 

AL^tm da Ui tomou perpetuo fonõ^ 
E faz da vida ao fim breve intervalo ^ 
Correndo algum cavallo vay fem donOi 
E noutra parte o dono fem cavaloi 
Cae a foberba Inglefa de feu trono^ 
^le douSyOU tresjãfdra vão do valo; 
Os qu'j de efpada vem fazer batalha^ 
Mais acha yd qtte arnés,efcudOi& malha. 

Alg»m d?aili tomou perpetue fono» Chama á morte 
fono perpetuo como lhe chamáo todos os Poetas; 
Horácio Od.z4.liv»!. Erg9 ÇLutnãtíiMm perpetuas fo* 
por «r^et.hum perpetuo fono aperta Quintilio,pe- 
ra dizer he morto Quintilio. O melmo Horácio 
Od.ti. IÍV.5. Ihechama grande: Nelangus tthifom- 
nus undt no» timei <^efMr,porque vos não venha com- 
prido fono, donde não cuydais.E. Virgílio iiv.io. 
JEaeid. lono de ferro: Ollt dura ejutei oculoi , &fer^ 
réus urget fomnusjlmm lono de ferro lhe aperta os 
olhos. E aííim cm outros muytos lugares.Homs- 
ro liv. 14. lliad.faz o fono irmão da morte. Ubi 
fomno obviavit fratri mortis. Onde fe encontrou 
com o fono irmão da morte. 

r"^ y^ftar palavras em contar eflremos 
^ y T^e golpes feros ycrua! eftocadasy 
He de (Jesgaji adores, quefabemos 
Mãos do temp0^com fabulas fonhadasi 
BafiapOY fim do caío^que entendamos j 
^e c om finezas altas Ç^ afamadas, 
C^os nojos fica a palma da vitoria ^ 
E as 'Damas vencedoras^ & com gloria, 

GaiUdoresfnaosd» tempo. Homens que gaftâo o 
tempo cm efcrever fabulas , & fingimentos , doí 
quaes hu abundância na terfd. 



<J7 

R Eco lhe o T)uque os doze vencedores 
Nos f eus paços com fefias/^ alegria^ 
Cozinheyros Gccupa^ài' caçadores 
^Das T>amas afermofa companhia: 
^terem dar aos feus libertadores j 
Banquetes mil^cada horaj& cada dta^ 
Em quanto fe detém em Inglaterra^ 
Atè tornar ádoce^& cara terra. 

6% 

MAs dizem t^ com tudo o gram Magriçê 
^Defejofo de ver as coufas grandes, 
hd fe dey X ou ficar yonde hum fervi ço% 
Notável àLondeffa fez de Fr andes: 
E como quem não erajà noviço^ 
Em todo o trance iOnde tu, Marte ^ mande si 
Hum Francez mata em campo ^que o defitm 
Là teve de 7 ore ato ^ de Corvino, 

O graõ Magriço, Efte Cavalleyro le chamava 
Álvaro Gonçalves Coutinho o Magriço , do que 
já talámos atrás na oytava 45. E alem de que já 
temos delle contadoidizem também que em Flan- 
des livrou a Condeífa Madama Leonor de hum 
aleyve que lhe levantou hum Aicuiáo por nome 
Ranulpho de Colónia , ao qual matou em delaíio 
na Cidade de Dunquerque:E em Orlians Cidade 
de França venceo em deíafio Moníiur de Lan- 
fay diante d^El-Rey de França,6c lhe tirou hum 
coUar de ouro do pcícoço , como Tito Manlio 
mancebo Fidalgo Romano , fezaoucro Francez 
em JeUfio,como conti Tito Livio liv.7. pag.iij, 
fub litera B»E. M. Valério Tribuno , que por 
hum corvo que no deíafio ie lhe poz no capacete, 
íe chamou de alcunha Corvino, como conta Tito 
Livio lib. 7. pag. mei libri. 2x2. lub littera G. pelo 
que o Poeta aqui diz que teve odellinode Tor* 
quato,8cCorvino,que tiveraõ delafios cótra Fraa; 
cezeSvSc os vencerão como o noUo Magriço. 

OVtro também dos doze em Alemanha 
Se lança,^ teve hum fero defafio, 
Cum Germano engano forque com manhn 
Na 6 de vidado quiz pór ne extremo fio i 
Contando afftVellofo.jà acompanha 
Lhe pede ^que não faça tal defvio 
7)(j cafo de Magriço,^ vencimento. 
Nem deyxe o de Alemanha em efquecimental 

Outr» também dos doxAem Alemanha.KO:^ Portu- 
euezdos trcs que ficáraó , q^ue fe lançou em Al»», 

manha j 



"Canto 
nianha,chamava-fe Álvaro VâZ de Almada. Con- 
ta-le delle que foy ã Cidade de Baíilea em Alema- 
nha , aonde teve hum delafio cora hum Aiemão. 
O concerto do defaíio foy que levaflem ambos as 
meímas armas, & que foíle tidoporaleyvoío, Sc 
traydor , o que íizefle o contrario. Entrarão cm 
batalha, 5c a juizo de todos Álvaro Vaz de Almey- 
da hia de vencida. O Alemão poíto em aperto, 
cjuiz-leaproveytar de huma arma fecreta que le- 
vava clêondida com hum gancho,com a qual afer- 
rou em hum hombro de Álvaro Vaz de Almeyda 
de maneyra, que lhe rompeo o arnès,6€ o ferio na 
carne. Sentindo-fe picado, & vendo o engano do 
Alemão, ferrou-lecomclle , ôciançando-lhe as 
mãosàsguellas, de tal maneyra lhas apertou, que 
the fez acyxar alli o folegcO emperador,Sc todos 
os mais circunítantcsjulgáraó o Almada por gra- 
de Cava)icyro.'ÔC o Alemão por traydor, pois com 
aquelle engano o quizcra matar.Contando Vello- 
fo citas coulas a léus comp^nheyros,&; ouvindo-as 
elles com muyto goftojfe levantou huma tormen- 
ta que o eftorvou hir por diante. 

Germano enganofo. Alemão enganofo , porque 
os Latinos chamâo a Alemanha Germânia , ôc 
aos Alemães Germanos. 



70 

My^j Nejlepajfo affi prontos efiandò^ 
Eis o Meflre^q Mando os ares anda, 
O apito toca^acordaõ defpertando 
Os marinheyros de humafS de outra h andai 
E porque o uento vhiha tefr efe ando. 
Os traquetes dasgaueas tomar mandai 
Alerta^dijfe ^e[iay ^que o vento crece 
^aquella nuve negra^que apparece» 

EU o mefln ijue olbandú os arei anda. Pinta tnara* 
vilhofamente a obrigação . &; ojfíicio do meftre do 
navio,que he vigiar,& trazer o fentido no ar, para 
veric hâ algum final de tcmpeftade. Tal faz Vir* 
gilio liv. 5.^Encid. aquelle grande piloto de Eneas 
PalinurOjdo qual diz ellas palavras. 

7 alta dicía dahat, clavurni^ue affixus,é^ harém 
]Sufquam amitttbat , oculot (ub afira ttnsbat* 

' Nunca Palinuro,dizVirgilio,perdia ponto tra; 
zendo fempre os olhos no ar. 

NAÕeraoos traquetes bem tomados, 
^ando aâ aqrandefêjubitaprocella^ 
Amaina, dijfe o Mejtre a grandes brados, 
Amayna idijfe.amayna a grande vella: 
Não e [per ao os ventos indinados 
'^e amaynajjem^mas juntos dando nella, 



SeW. 

Em pedaços afazem com ruydâ 

Que o mundo pareceo Jerdejtriúdol - 

Nao efperaooj ventvi indinados, O mefmoepíthej 
to lhe deu Virgílio liv. i, ^neid. Uli indignantu 
magno cum nturmurt montisy Ctrcum claufira fremunti 
QuaTidodeícreve o lugar , aonde Eolo feu Rey oé- 
tinha metidos, Elles, diz o Poeta , indignados fa- 
zem grande eítrondo, & reboliço ao longo da lua 
cadea,aònde cftâo encerrados. 

O Ceo fere com gritos nifio agente^ 
Vom/ubite temor ^^ de [acordo ^ 
^íe no romper da vella a não pendente ^ 
Tomagramfoma de agoapello bordo: 
Alltjà^lffe o Meftre rijamente, 
Allijà tuãoaú mar, não falte acordo. 
Vão outros dar á bomba,não ceffando^ 
A bomba^que noshimos alagando^ 

O Ceo fere com gritos, A imitação de Virgílio na 
Eneida liv.5. Fertt athera clamor ^autieus, A gente 
da nao fere o Ceo com gritos, 

C^ Orrem logo osfòldados afiimofbs 
^ A dar abomba^& tanto que chegar ad^ 
Os balanços , que os mares temerofos 
'Derão à nao, num bordo os derribarão: 
Três mari nheyros duros, ^ for çojos 
A menear o leme não bapiarao. 
Talhas Ihepunhão d'húa,& d^eutraparte'^ 
Sem aproveitar do4 homens forçado' arte*, 

Talhai ihepunbaod'^bumaiéf lontra paríc. Remé- 
dio he efte que fe ufa algumas vezes em tempo de 
grande tormenta para inderey tara nao , & fazer 
que fc não embalance,6ic penda para alguma part , 
roucaladepipas,ôf talhas.amarrada pnmeyrocom 
grandes calabres, Sc cordas, como diz o Poeta que 
aqui fe fez. E conforme a ifto fe pode declarar 
aquelle paíTo dosaótosdos Apoftolos da tormen- 
ta que o Bemaventurado S» Paulo pâflbu no mar 
indo prefo para Roma , que para alguns he diffi- 
cultofo. As palavras íaôeftas: /ídjutorijtutebantttr 
accingentes navim , timtntei nein Syrtim inciderent, 
fubmij/o va[e fícferebantur, Aproveytavaõ fe,diz a 
letra, de muytos remédios , & ajudas , cingindo a 
nao, temendo quefoflea darem algum bayxo, Sc 
poftns ao redor vafos , faziaô íeu caminho. Eíla 
cingidura da nao fe ha de entender , que hia com 
grandes calabres , & cordas groflas, para não fen» 
der,dando em algum bayxo, & para ir mais direy- 
ta,poftas pipas , & talhas ao longo aferradas com 
as mcfmas cordas. Nem hc incoaveniente dizer 

. a letra 



Lu/iadas de Luh de CàmÕes Commentaâosl 



aletra vafo por vaíos,ufando no numero íingular 
j)or plural. 

. 74 

OS ventos eraÕ taes^que naõ puderãã 
Mojirar mais força d' ímpeto cruel^ 
Separa derribar então vierão 
j^fortijffimd torre de Babel: 
J<[os altijjimos mares ^que crecérão^ 
^ pequena grandura d' hum batel 
Moftra apoj[funtenào,que meteefpantOj 
yendo,queJeJojiem nas ondas tanto. 

• Afortiffirna torre de Babel. Para encareci menrô 
cia erande torjnenta que havia no mar, pozaqui 
aquclb tão celebrada torre,que os filhos de Adáo 
fizeraó na cerra de Suria delpoisdodiluvioidizen- 
doque núo le conjurarão os montes com mayor 
funa fc te ajuntarrió para derribar a fortiíTima tor- 
re de Babylonia.S,rtci torre conta Jofepho nasan- 
tjcruidades liv.i. ci*p. p. que a fez ediiicâr Nemrod 
filho de Cam, & Neto de Noé, homem lobcrbj, 
6c de má conlciencia , induzindo aos mais a fazer 
aquella obra j dizendo que não attnbuííliai a 
Deos verem na vida bens, que cada hum íe hafle 
ée íeu braço, &: puzelTe fua confiança em fuás tor- 
ças : Seque paraitlo era iieceliarioediricaiie hu.n 
inflar alto,forte»6í: inexpugnavel,aonde náohou- 
veiíc couiã,que lhe pudelie prejudicar. Conten- Jíqúelle^que ã/alvar o mundo veyo: 



ISf 



tro diluvio , para nella fc livrarem da forçadas 
agoas,pois eítava alii Noè, ao qual (como le conta 
noGenefisliv. 8.) Deos Noflo Senhor tinha pro- 
mettido , quenâo haveria mais outro diluvio de 
agoa , 5c que Noé fe achaflb alli ninguém o con* 
tradiz, porque Noé viveo 950. annosi & no anno 
lexcenteííimodcluaidade.lroy o diluvio , como fe 
diz nolugar allegadodoGeneíis , & a torre foy 
edificada cem annos depois do diluvio , como di- 
zem os mais Doutos dos Hcbreos : ainda que Al- 
guns querem, que fofle duzentos £í fetenta. De 
qualquer modo que feja , hecouía certa, que neíla 
volta andava Noè com léus filhos, aos quaes Deos 
havia promettido fcgurança. Nem havcn os de 
cuydar , que hum Varão tào pcntual cahifle em 
buma falta tão grande , como era deíconfíar do 
que Deos lhe tinha promettido , & da efcriítura 
nã-> ic collige o contrario,antei fe inclina a illo. E 
porque naquclle lugar , que edificavão luccedco 
aqutUa divilaô, 8c confuiaó de línguas, que le não 
enteivJiâohuns aos outros , foy chamado Babel, 
qiie ncscm vulgar chfimamos Babylonia, palavra 
Hebraica, na qual língua quer dizer confuiaó. 



7J 

ANaogranàe^em q vay Tatdo da Gamai 
^it brado leva o majlropelo rrteyo^ 
^íãfitodà alagaáa^a gente chama 



toutant') tltt conlelhode Ncnirod aos Hcbreos, 
que procurarão edificar hum a torre , ou poi mc- 
Ihc-r dizer Cidade aonde vive li em íeguros, &; lem 
ter necertidade de ajuda alguma. Ella he a opí« 
niâode |ofepho no lugar allegado , & que quafi 
todos legiem. Alguns Varoens doutos, cc muy to 
verlados na efcritura dizem , queiíto nâoproce- 
deode Nemrtíd , le não que os mefmos Hcbreos 
quízeráo faztr ha;na Cidade com hum forte muy- 
to alto para viverem alli todos juntos , por ler 
gente entre fi muyra conforme , 2c amiga: 5c que 
iílofignificáo aquellas palavras : Erat autem tetra 
Ubi] urtiui^ é^ ferrnonum eorundem, Fallavão todos 
huma mclma linguagem , 5í as meímas palavras, 
como le mais claro diíTerâo : eráo muyto confor- 
mes, ÔC muyto amigos entre fí, 5c co.iio eraô eílas 
deteraiinàraóbufcar lugar, aonde vivcflem jun- 
tos , êc que não hauveflécouía, que 05 apartslle. 
Mas como a vontade de Deos folie outra , 5c qui- 
Zcfie povoar o mundo não periTJÍttio foliem por 
diante com fua obra. Pelo q.ue os apartou huns 
dos outros por diffcrentes partes do mundo , en-, 
finando-lhe differtntcs linguagens para deíba ma- yjf^s intimeis entranhas do profunda: 



Não menos gritos vãos ao ar derrama^ 
Toda a nao de Coelho com receyOj 
Com quanto teve o Mejire taniotento^ 
^e prméyro amainou /jue déjje o vento. 

A nao em c^uevay Paulo da Gama, Eílc Paulo da 
Gama era irmão do Capitão mór Vaico da Gama, 
de que nelte livro fe faz particular menção , por 
fcr o primeyro delcobridor da Índia. 

/i^Mclíe ejue a (aluar o mundo ve^a.Diz que naqucl- 
Ia tormenta chamavão por |elu Chiiilo noílb 
Salvador, 

Toda a nao de Coelho, Efte fe chamava Nicolao 
Coelho Capitão de huma nao da mefma ccníerva 
de ValcodaGama , de quem já falíamos atrás no 
no canto. 



AGorafohre as nuves osfobiao. 
As ondas àe Nf p t uno furi bundo', 
Agora a ver parece ^que dejctaõ 



neyra viverem , entendenio le huns aos outros. 
Q(i*ntoaoqueaefcrituradiz , que edificavãoel- 
tcshoinens humaconcque chegalTe aosCeos,la5 
palavra*dccrtearecimento,quc ula a eleritura pa- 
ra trattar de huma cou la muyto alta. Nem- have- 
mos de dizer que eílcs, homens faziâo eíla torre 
para terem aonde fe rcculheíTcin, luccedenda ou£ 



Noto^ Auftro.Boreas^Aquilo queriao 
Arruinar a machina do mundo^ 
A noyte negraSèfeafe (itbmia 
Cos rayos^em que o T0I9 todo ardia. 

Ai tndai deNeftun^fHiiititndít. EtaeíUsânnota* 



x<M Canto 

çóes fica dito como Neptuno era tido entre os an- 
i-ocj por Dfos do niar:ôc que os Poetas o tomaó 
íiiuvtas vezes pelo metmo mar coaio o noflo Luís 
tic Catnóes aqui faz, aonde ao mar tiirioío chaaia 
Keptuno furibundo. 

/ij intimai entranhas do profunàa. Humas vczes, 
diz o Poeca,os levantaváo as aguas iobre as ondas 
altiílimamente. Outras vezes os afundaváo tan- 
to que parecia dar com elles no fundo do mar , a 
que chama entranhas intimas do profundo. 

iVo/fl, Attfiro^Boreai^díftiiio. São nomes próprios 
de ventos dos quaesfica tratcadopor muytasvc* 
Ees. 

C^oi rajoi em tjue o Polo todo ardia. Rayo aqui 
fe coma peio rclíimpago, ÔC outros fogos, que em 
tempo de tormenta , & tempeítadecurlaõ no ar, 
entre ss quaes coufas colluma íempre cahir ai* 
gum rayo. 

^qIo, Hc o Ceo, como fica dito, 

77 
A S Alàoniãs aves trtfte canto, 

'^ Junto da cofia bravd levantarão^ 
Lembrandoffí de Jeupaffado pranto^ 
^e as furiofas agnas lhes catíjárãn 
Í)s 'D dfitts namorados entretanto 
Lanas coVas marítimas entra- ao j 
Fuj^indo a tempeftaãe ^à' 'Ventos duros^ 
^ie nem no fundo os deyxa ejiurfeguros, 

Alciotãas aves tri(ie canto, Alcioné.ís aves íiô ot 
MaílarrcoS) que chamamos os Portuguezes,aves, 
que vivem no mar,6t terra» Há duas caílas delias» 
humas mayores a que chamáo rcaes , outras mais 
pequenas.Na cor não differemcouía alguma. Ef- 
tas aves tem as particularidades , que os autores 
efcrevem da ave Alcione. Ariíloteles , £c outros 
pintão a Alcione huma ave nunca vifta, nem ou- 
vida. Pelo que cm quanto a outra fe não acha fir- 
memonos nelta. Diz que levantarão triíle canto, 
lembrando.fe do feu primeyro pranto , porque 
fingem os Poetas que Alcione filha de Eolo , ía- 
bendo do nautragio de feu marido Ceyce , fe lan- 
çou no mar» 6c Jalii toy convertida em ave, como 
conta Ovidio nas Mctamorphofes liv. ir. E da- 
qui dizem , que quando ha de haver alguma tor- 
menta no mar, cilas aves a Tentem primeyro , & a 
leu modo a fignificâo cantando : a que o noíTo 
Pofta,por eíla razão chama triíte canto. 

0> Dtlfini. Dos Delfins fica trattado atrás 
nelle canto , oytava ia. 

N1)nca tão vivos rayos fabricou 
Contra aferafobfvba dos Gigantes^ 
Ogram ferreyro fordido^que obrou 
^0 enteado as armas radiantesi 



Sextõ^ 

Nem tanto o gram Tonante arremeçon • 

Relâmpagos ao mundo fulminantes^ 
No gram diUivio^dondejós viver aõ 
Os aous^que em gente as pedras converterão^ ■ 

Nunca tão vivos rayos fakrieêu. Para encareci^ 
mento delia tormenta diz : que nem quando Júpi- 
ter deílruhio os Gigantes, que procurarão lança- 
lo do Ceo , como conta Ovidio nas Metamorpho* 
fesliv.i. ulou de tantos rayos como havia neílá 
tormenta, nem do diluvio geral em o qual o mun- 
do foy deítruhido com agoa , & o género huma- 
no alagado & afogado neHa,houve tantos relâm- 
pagos, & frgo,como aqui. 

O grão Ferrtyro fordtd». Eílc Fcrreyro que o 
Poeta aqui põem, que fabricou as armas de feu en- 
teadojfoy Vulcano, que fazia os rayos a Jupílcr 
leu pay:6<; foy calado com Vénus, da qual Anchi- 
fesTroyano houve Encas, que fica fendo enteado 
de Uulcanojde cuja vida,&: feytos Virgilio elcre- 
vcoâ lua Eneida. C hama-lhe o Poeta lordido que 
quer dizer lujo , porque os Ferre) ros não pódcn» 
andar limpos. Ellccomo conta Virgilio,fezasar- 
ntas de Eneas a petição de VenuF, 6c fez também 
PS de Achilles a petição de Thetis , como conta 
Homero. 

Nem tanto o grão tonante arren:eJfoít. O graõ to- 
nai-ite hc Júpiter , o qual conta Ovidio no mefmo 
livro primeyro das Metamorphofes , que vendo a 
grande maldade dos homens , detcriTtinou deos 
deílruhir com diluvio deagoa, temendo que leo 
quizv-rie fazer com fogo, fe lhe queymaria o Ceo. 
lílo raófabulas.Sf fingimentos Poéticos. Quanto 
a efta dos G igantes que aqui contamos, & a do di- 
luvio. Ovidio devia de ler o Genefis,& adeílruhi- 
çãOjqucfezDeos Nofio Senhor na torre de Ba- 
bel, de que falíamos na oytava paliada : &ado 
mundocom o diluvio , o que tudo attribuhio a 
ícus Ídolos. Ea Noépozonome Deucalion,6ca 
fua molher Pyrrha,acrecentando outra invenção» 
queellcs dous,que ficàraó fós no mundo delpois 
dsquellediluviopor mandado de Themis,que da- 
va os or^culos,renovàiaóo mundode huma nova 
nianeyra , que loy lançando pedras por detrás das 
collas,& as pedras que o homem lançava f^ taziaó 
fubitamente homens : & das que lançava a moIhcr 
fe levantaváo molheres. E iílo heoqueePoeti 
aqui diz : Donde fês viverão es dotts tjue em gtnte at 
pedrat converterão. Que fomente elcapàráo do dilu- 
vio os dous que das pedras fizeráo homens,& mo- 
lheres: os quaes foráo Pyrrha,£c Deucalion,comq 
fica dico. 

79 

QFantos montes ent ao ^qne derribaria 
As ondas, que bdtião denodadas ^^ 
jantas arvores velhas arramarão \ 

%)o vento bravo as fúrias tndinaãas: 

At 



I 



Lu/íaâijs de Luis de 
'^í forço fas ratsses não cuydaraOj 
^te nunca para o Ceofojfem viradas^ 
Mem as fundas áreas, que pidejjem 
Tanto os Piares ique encima as revolvejfem. 

ÇUnantos montes. Profegue o encarecimento da 
tormenta, c»n que os Portuguezcs andaváo , diz 
que feas ondas colherão diante de fí grandes mon« 
tes os derribarão : 6c grandes , & annguas arvores 
viráraõ com as raizcs para o ar , coroo taziaó nas 
fundas áreas do mar , que as trazião por cima da 
agua, €jue he final de grande revolta , 6c trabalho, 
como difle Virgílio na Eneida : Fum tç fintar ems, 
as áreas ferviáo com a tormenta. 

80 

VEndo Vafco àa Gama, que tamferto 
IDofim defeu defèjofeperdia. 
Vendo ora o mar atè o Inferno aberto^ 
Ora com nova furta ao Leofithta: 
Confufo de temor, da vida incerto y 
Onde nenhum remédio lhe valia. 
Chama aquelle remédio fanto ,& forte^ 
^e o ím^ojjivelpàde dejla forte. 

81 

Divina guarda ^angélica celefe, 
^te os CeoSiO Mar^& Terra fenhoreas, 
TUj que a todo l/raèl refugio dèfie, 
^or metade das aguas Erithreas: 
Tu^quelivrafie 'Faulo^& defende jle 
T>As Scyrtes arenofas^ ondas feas ^ 
E guardafte cos filhos o fegundo 
Povoador do alagado^à' vácuo mundo\ 

jiguAi Erythteas. kgymào marroXo,chamado aí^ 
fim d^íí,l-Rcy Eryihro, que Senhoreava aquellas 
parte$,como diz Solino, 6c Quinto Curfio.Do mar 
roxofe veja a noila an«otaçáo no fegundo canto 
cytava 49. Aonde fe tratta a verdadeyra razão da 
cór daquella agua. Da tormenta que paílbu o 
Bemaventurado S. Paulo irattàmos atrás nefte 
canto. O fegundo povoador do mundo alagado, 
de queo Poeta aqui hllahe Noè,oqual por man- 
dado de Deos fez numa Arca em que elcapou com 
feus filhos das aguas do diluvio , como fe conta no 
Qenefis. Syrtes propriamente faó lugares no mar 
bayxos , 6c aparcellados, altos cm huma parte , 6c 
bayxosem outra. Chamaó-fe Sírtcs de firin verbo 
Grego, que quer dizer acirahir: porque com tor* 
menta os lugares fundos attrahem alia área , de 
que os bayxos tem ntuyia abundância. E ainda 
que fallando propriamente , qualquer lugar defta 
maneyra fe chama firte , entre os autores íaô no* 
meados dous , os quaes cftáo nos confins de Afri- 
ca contra o Egypto, huro le chaina Syrte may or, 



gamões Commentadosl i S 7 

6c outro menor. Veja-íe Plinio,8c Solino; Asfir- 
tes laó aflim no mar,como na tcrra.A viagem por 
terra he em os areacs de JLybia , aonde eltáo cUaâ 
íirtes,que he tanto,6c mais perigoia ella, que a do 
mar. Conta Plutarcho no íiai ua vida de Alexan- 
dre, que caminhando efte valerolo Capitão pcloâ 
areaes de Lybia, Íq levantou hum vento, que lhe 
afogou cincocnta mil homens. A principal firtè 
da terra he da Cidade Quitauga , que elta no fiiii 
da Província de Drá,atè a Cidade Tumbuqutum, 
aonde os de Africa vão bulcar o ouro,o qual vem 
alli da grãdeProvincia de Mandinga.N elta Cidads 
Quintauga fe ajuntáo as recovas dos almocreves 
que elles chamão Cáfilas, 6c partem com feus Ca- 
inelos,6c odres cheyos de agua, porque emaquel* 
Ja jornada, que lerá de três mezes, caminhando de 
dia,6c de noyte,não ha agua mais que em duas, ou 
trcs partes. Governão-le pelo Norte , como no 
mar,coui os mefmos inílrumentos, 6c altrolabios, 
6c hà nefte caminho grandes montes de área , que 
andáo de huma parte para outra , de modo que 
não há quem k entenda por aquella tnfte terra, 
Oshomens,quccuriaõeftes caminhos, coftumioi 
criar camelos de pequenos cfieytos a não beber, 
quinze, 6c vinte dias, ÔCellcs laó muyto pezadosr 
éc quanto mais fotrem a fede , tanto maiò valem.j 
Dos corpos que morrem neftes arcaes fcfaz z 
myrrha que fe vende pelas boticas. Da qual i« 
trazem cayxôes daqucilas partes. He corno cera 
quando a apanhão, 6c fe íc aperta nas mãos íe dei- 
faz como área. Ouvi huma peflòa que vio cftes 
areaes , 6c caminhou por elles alguns dias , que 
curlava alli certo vento, ás vezes, tão quente que 
fecavaaagua quelevavão nos odres, Deftcs arcaes 
hà também do Cayro para Meca por ioda Arábia 
defcrta,na qual há tanta falta de agua, que em cCíb 
legoas de terra^não há fonte nem poço. 

8í 

SE tenho novos tnedos pnigofos^, 
"Doutra ScyUaj& Qarybdts jà pajfados^ 
Outras Scyrtes y& bayxos arenofos^ 
Outros Acorceraunos infamados: ^ 

No fim de tantos cafos trabalho/ os^ 
forque fomos de ti aefemparados-. 
Se efte noffo trabalho não te offende% 
Mas antes teu ferviço fó pretende? 

D^eutra Scylla^ & CarybJit. Veja-fe a Scylla, lc 
Carybdis o legundo canto oytava 45. Das Syrtes 
na oytava paliada. 

Outros Acfoctrauiiios infamados. Ceraunios , Gil 
Acroceraunos (como lhe chamão os Autores) 
laó huns montes de Epyro, a que hoje chamamos 
Albânia, afias nomeados, 6c conhccidos:leu com- 
mum nonie he montes de Chimara, ca Chima-' 
rilfos , como quer Qrtelio na fua Svlionimia Geo- 
graphica. Eltc epithsto de infanies lhe dão os 



iSl , tanto 

Poetas pelos muytos naufrngios que alli aconte- 
cem. QLiantoa mim Acroccraunios (ou como lhe 
chama Virgílio) Cerauvios hc nome geral, & que 
conipete a qualquer ferraaha, le olhamos a Ety- 
inologia da palavra , porque he monte, & ccrau- 
nosrayo , ÔC porque os rayos fempre coftumão 
dar em lugares alperos , & altos , daqui os taes fe 
chamaó Acioceraunios,ou Ceraunios. 

^itofos aqlie He s^que puder ão. 
Entre as agudas lanças Afrkanns 
Morrer^em quanto fortes foftíver âo 
A f anta Fe, nas terras Mauritanasx 
ZDe quem feytos íllu[iresfe fouberão, 
^JJe quem fie ao memorias fòberanas, 
2>é' quem/è ganha a vida com perde lia ^ 
^ocefizendo a morte as honrras àella. 

De cfuem fe ganha a. 'vida com perMU, Os qac 
morrem em detenção de íua pátria, & ferviço de 
Deos , Ôc de leu Rey,não fe dizem perder a vida, 
mas ganhala , porque com íeus feytos illuílres fi- 
iéráo, que ficafie perpetua a lua memoria entre os 
homens:pelo que eftes vivem para femprc: 6c pelo 
contrario os que gaílâomal á vidn de tal maneyra' 
morrem,que juntamente com eilcs morre fua me- 
moria, porque não fizerâo coufa digna de a ter na 
terra , falvo portal que com ella léjáo perpetua- 
mente deshonrados. 

84 

ASftdtzendOiOS ventos^que lutavão^ 
Como touros indómitos hr amando j 
Mais^& mais a tromenta acrefcentavão^ 
¥(^lid miuda erixarcia ajfovtando: 
Relâmpagos medonhos não cejJavãOy 
Feros trovões, que vem reprefentdndo 
Cahir o Ceo dos eyros fobre a terra^ 
Lomfigo os elementos terem guerra, 

Cahir o Ceo dos eyxoi fobre a terra. Que coufa feja 
cyxo do Ceojfe veja no canto primey ro,oy tava 24. 
£c dos clemencos no fegundo canto. 

_ 85 

Mj^sjà a amorofa Eflrella centilava 
Diante do Sol claro no OrtzontCf 
Menfageyra do dh^ó' vifitava 
A terra,^ o largo mar com leda fronte: 
A "Deofa^que nos Ceos a governava j 
*De quem foge o enfifero Orionte, 
Tanto que o mar,^ a cara armada vira, 
focada junto foy de medo J^ de ira. 



Sexti', ' 

Mai jâ a amorofa efireJla fcintilava] Defcrevi 
aqui o Poeta o ten)po da menhâ por termos muy^ 
to ufados entre os Poetas. Ovidio nas Metamor* 
phofes : Lúcifer undecimus fiellarum coegerat agmenl 
Jà o undécimo Luzeyro tinha junto as eílrellas^ 
rdejlt já havia ©nzedias , 6c nomeava os dias por 
Luzeyros , porque efta eílrella aparece cada dia 
duas vezes, huma antes que o Sol apareça no Ori- 
Eontc ,' 6c outra delpois de poíto. Eftacílrella he, * 
a que os Aítrologos chamâo A'c««j, Quando vem 
antes do Sol chama-fe Lucifer^áe. duas palavras La- 
tinas, Lux , & ferOi porque he menfageyra da luz, 
como lhe chamou aqui o Poeta.Qi.iando yemdef« 
pois de recolhido o Sol, fe chama heJperttSf ve/per^ 
ou vefperugo, entre os Latinos quer dizer, á tarde, 
por aparecer naquelle tempo. 

/í Deofa efue ne$ Ccot a governava , De quem foge 9 
tnfifero Ortzonte. Orizonte he huma coníleliaçáo' 
junto ao Signo Tauro, a qual tem dczaíeteeílrel- 
ias,dizo Poeta aqui, que foge de Vénus, porque 
eítâ na parte Occidental diante de Vénus , 6c vay 
lempre diante deilH.Podc-lc também dizer,que fo- 
ge dl) Orizonte de Vénus , porque quando efta 
conftelldçao apirece no Ceo , que he na entrada 
de Outubro começa de haver chuvas , 6c tempef. 
lades, que hc contrario â qualidade de Venus,que 
caufalereni^ade, 6c quietação no ar , 6caírimos 
Poetab todos lhe dão por epirheto: chuvolb , tem- 
peíluofo, contrario aos que navcgão , 6c outros 
quemoíbáo íua natureza. A fabula de Orion leão 
os curiofos cm Ovídio liv.5. 

"p ^^^^ ^^^'^J de Baccofâopor ceftol 
jr> IMJfe^mas nab ferâ^que avante leve 
Tão danada tendão, que aefcuberta 
Me fera fempre o mal^a quefe atrevei 
Ifio dizendo ^doce ao mar aberto^ 
No caminho gafando erpàço br evct 
Em quanto manda às Ninfas amorofasi 
Grinalaasnas cabeças por de Rojas ^ 

Efíat obras de Baccho (ao por certo, Eftas palavras 
difle Vénus , quando vio os Portuguezes no mar 
tão apertados da tormesta, que o Poeta vay con* 
tando. 




87 

GRinaldas manda fór de varias cores ^ 
Sobre cabe lios louros àprofia^ 
^iem não dirá, que nacem roxas flores 
Sobre ouro naturalsque amor infia: 
Abrandar determina por amores 
1)os ventos a nojo/a companhia^ 
Moflrandõlhe as amadas Ninfas bellas] 
^4e mais fermojas vmhaô^que as eftrellas 

Grinaldas 



'Lufiaâas de Luís àe Carnes Commentadoh 
tSrhalJas manàa pr. Como Vénus vio o mar re- 
volto , & os ventos que com íua fúria decerrnina- 
Vaódcílruhir a armada dos Portuguezes ^ ajuntou 
Nymphasdomar,&;levou-as comíigo muytofer- 
moías , & concertadas com luas grinaldas nas ca- 
beças, para ver fc com ifto podia fazer que os ven- 
tos leabrandaflem de lua tuna. Roxas florn. He a 
aíFeyçáojde que a cor roxa he final. Ouro natural. 
He a fermotura. Moílra aqui ler coufa natural 
parecer bem a fermolura. 



189 



5>l 



n 

ASfifoy porque tanto que chegar a$ 
A vtfta de lias Jogo lhes falecem 
jísfoYças/om que dantes pelejarão j 
Ejd como rendidos lhe obedecem'. 
Ospèsi& mãos par ece^que lhe atàraÕ 
Os cabeílos^que os rayos efcurecem% 
ylBore ataque do teyto mais queria^ 
AIJi àiffe a belliffima Oritbia, 

A(fi díp a helliffima Orithia. Orithia henome de 
huma dasNymphas do mar, a que quiz muyto o 
vento Boreas. 

85) 

NÂocreasfero B orcas que te crefo^ 
^ic me tivefte nunca amor conjlante^ 
^^ebranãurahe de amor mais certo atreyo^ 
E não convém furor afirme arnante: 
Sejànaõpões a tanta infanta freyof 
Não efperes de mi daqui em diante ^ 
^epojja mais amartejmas temerte^ 
^lue amor contigo em medo fe con ver te ^ 

Enão convém furor a firme amante.O amor quer 
brandura: fanas, & afperez.a laô para gente bar- 
bara. Ovidio conta liv. ^. na Metamorphoies que 
logo que o Gigante Polyphemo íe affeyçoou a 
Galatea,qucbrou de fua má nacureza,ôc condição 
afpera. 

5)0 

A S(ímme/moâ firmo/â GaUtea^ 
Dizia ao fero Moto^que bem f abe i 
^e dias ha^quC em velafe recrea^ 
E bem crèyque com elle tudo acabe: 
NaÔ fabe o bravo tanto bem fe o crea 
^le o coração nopeyto lhe não cabe^ 
^e contente de ver, que a T>ama o manda;, 
Touco cuyda quefazje logo abranda. 



DEfia maneyra as outras amançavãoi 
Subitamente os outros amador c-s^ 
E logo a linda Vénus fe entregavãoy 
Amançadas as íras^& os furores: 
Ella lhes prometeOjVendo que amavão 
Sempiterno favor em (eus amores^ 
Nas bellas mãos tomandolhe omenageta^ 
^e lhe ferem leaes efia viagem. 



Defia maneyra as outras amançavífo. A ordení 
que Orithia , & Galatea guardarão em abran- 
dar os ventos , que náo procedeflem na fua fa- 
ria importuna , & contumaz , a mefma guar- 
darão as outras Nymphas com os mais ventos. 
Vénus vendo-os condclcendcr com o que Ihè 
pediaò , prometteo favorecelos fempre em léus 
amores, & lhe tomou a omenagem de favorecerem 
nefta viagem aos Portuguczes, 

P^ 

JA^ a menhã clara dava nós outeyrosl 
Ter onde o Ga?iges murmurando foa^ 
fiando da excelfa gávea os marinhíyféè 
Enxergarão terra altapetla proa\ 
Jd fora de tormenta,^ dos primtyros 
Mares ^0 temor vão dopeyto voa, 
^iffe alegre o Toítto Melindano, 
Terra he de Calecut ^fe nao me engan oí 

Terra be de Calecut j fe não me engano. Entre htí^ 
ma ferra ( a que os naturaes por nome commurrt 
chamâo Gate ) Sc o mar , jaz huma cinta de ter- 
ra, que aonde he mais larga tem dez léguas, &: 
por algumas partes féis ; fcgundo as eníeadas , 8c 
cotovelos da terra fe encolhem , ou eílcndem : Sc 
de comprimento tem oytenta léguas. Ella hc a 
terra do Malavar , na qualeftá íiruada a Cidade 
de Calecut em huma Coíla braba , & com pe- 
quenos Edifícios , fomente as calas dos ídolos, 
& doRey , ôc de alguns Mouros nobres pref- 
tão, & todas as outras faó palhaças, Sede pouca 
importância , cobertas de hum certo género 
de folhas de palha, a que elleschamáo ola. Veja-fc 
delia Cidade de Calecut a nofla annoiaçáo n9 
ícgundo canto , oytava 51. 



^3 

EStaheporcertoaterra^que bufe ais 
*Da verdadeyra Inãia^que aparece, 
E fedo mundo mais naõ de fejatSj 
Voffo trabalho longo aqui fenece^ 

Sofrer 



^0 



o 



offcr aqutnaôplâe o Cama mais] 
*\De ledo em ver que a terra fe conhece^ 
Os piolhos no€hào^as mãos ao Ceo^ 
Jl mercê grande a ^^os agradeceo, 

Verdaãeyra Indta, Veja-fco queclcrevímcsno 
íegundo canto , oytava 5 a. 

54 

AS gr aças a 7)eos danjaj^ razoútinha^ 
^e não fomente a terra lhe mojtravaj 
ÍS!jje com tanto temor bnfcanào vinba^ 
^or quem tanto trabalho exprimentava: 
Mas viafe Urrado tão afinha 
^ji morte que no mar lhe aparelhava 
O vento duro^fervidõ ,tS meaonho^ 
Como quem deJpertoH de horrendo fcnho. 

Como cfutm defpertou de horrendo feno. Termo de 
fjilar , para moltrar a mudança repeniina\ 6c 
f ubita tormenta , em bonança , que foy como fuc- 
Ci:dc aos que dormem , & fubitamente acórdão 
de hum horrendo , bí trabalhoío fonho , cm que 
eftavâo muyto opprimidos , Ôcafadigados: que 
íbnhando que íe faziaó em pedaços , ou lhe acon- 
tecia alguiii mal grande acórdão íubitameate li- 
vres, 

POr meyo deftes hórridos féYtgotl 
Refles trabalhos graves j^ temores^ 
/llcan^aô os que /aÕ de fama amigos 
As honras im mortaesfê os grãos mayor^sx 
Naõ en cofiados fémpe nos antigos 
Troncos nobres de f eus antecefjores^ 
Naõ nos hytos dourados entre os finos 
Anirnaes de Mofcevía Zehe limos, 

Animatí de Mofcovta Zebellimt. Não faõ cíles 
anirnaes propriamente Martas , ainda que alguns 
lhe chamão Marcas Zebcllinas: he outra caftapor 
li , laó brancos , tem lómente a pontinha do rabo 
preta , faô tão limpos de fua natureza , que íe lhe 
poemqualquer coufaíuja á portadas covasaon- 
de habitâo, não entrão nellas, Scafiimostomão. 
Deftas há muyta abundância em Polónia , & 
Molcovia , pelo que o Poeta lhe chama aqui ani- 
inaes de Molcovia. Chama-fe elle animai Zebel- 
lo j pelo que o Poeta lhe chama animal zebellino, 
6c as peiles le chamavão zebeliinas ,ôclaó muyto 
preladas para forrar vertidos, como aí> Marcas. 

NAÕ cot manjares ?tovos,^ exquffitoSt 
Naõ CQSp>aff€Qs molles^^ nojofis, 



Canto SexftP. 

Não nos vários delejtes\ó' infinitos] 
^{e afeminão os peytos generojos: 
Não cos nunca vencidos apetitos^ 
^le afortuna temfempre taô mimofos, 
^le naõfofre nenhum^que opoffo mude 
^J:* ara alguma obra herotca de virtude^ 



^e não fofre a nenhum que o paffo mude. A mo^ 
licie , 6c deleyces da vida , não deyxão fazer 03^ 
homens o que fnó obrigados , antes fempre os in- 
clinão para o mal , apartando-os de toda a obríi 
boa , ôc virtuola. Donde dizia Sócrates , que os 
homens que prctendião preftar para alguma cou- 
ía , devião fugir dos delcytes , como das Sereas: 
porque aílim como as Sereas com fua muíica ma- 
ta váo,aílim os deley rcs matão com fuás branduras» 

MAs com bufe ar CO feu forço/o braço 
As honrasyq elle chame próprias fuds^ 
Vigiando^& vefiindo o forjado açoy 
Sofrendo tempcfiades^& ondas cruas: 
Vencendo os torpes fr tos no regaço 
*Do Sul,& Regtcês de abrigo nuasj 
Engolindo o corrupto inanti^nento^ 
Temperado cum arauofofrimento, 

Mat aom hufcar. Eftas faõ as coufas com que á 
verdadeyra nobreza fe alcança. 

No regaço do Sul , c^ regiões de abrigo nuas, No- 
mea aqui as partes do Sul , as quaes aííim como 
as do Nofte íaw muyto frias , por eftarem apar- 
tadas do Sol : 6c nomea eftas : por partes , por 
ondeosnoíTos Portuguczes curfarão muyto em 
fuás navegações. 

Temperado com hum árduo Jofrimento» A kl (a 
dos trabalhos he a paciência , aonde ella não an- 
da não há coufa perfeyta , comodizo Bemavcn- 
turado Santiago na fua Canónica. Fattentia opus 
ferfclum hahet, A paciência apcrfcyçoa âs obias j 
E o Poeta P rudencio: 

Omnibui una comes vlrtuúbus ajfociatur 
^uxiltumejue futtm fortií p^^tientia mifcet. 
Nulla ancepsluòlatr.en tnit virtuteftne i{la 
Firtusy^ vidua ef,quam non patteníta jormatl 

Só a paciência , dizPrudcncio , acompanha to- 
das as virrudes , nenhuma le atreve a traba. 
lho , neúi difficuldade (em ella : ôca que a nã9 
tem he viuva , &: dcfcmparada. 



E 



9^ 

Com forçar o rofto^quefe enfia, 
A parecer fegurOj ledojnteyro 



TarA 



Lujtadaí âe Luís de 
^ayaofilouro ardente ^que affovia, 
E leva aperna^Qu braço ao companheyroi 
^efta arte opeyto hum calo honrojh cria^ 
^efprezador das honras ^^ dinheyro^ 
ÍD^J honras ^^S dmheyroyque a ventura 
forjoUit£naÔ virtude jujia^& dura, 

DEfta arfe fe efilarece o entendimento^ 
^le experiências fazem repoufadOt 
E fica vendo ^como de alto affento^ 
O bayxo trato humano embaraçado-, 
Efie finde tiver força o regimento 
^ireytOió' «^^ de affeyto occupado^ 
Subir à(jcomo deve{a illuflre mando 
Contra vontade fua^à* naõ rogando^ 



Camões Commentadosl í ^ t 

Defia arte. Enfina-nos 'o Poeta neíla oytava 
como ló a virtude faz Tubiros homens que a íe* 
guem a alto lugar , 6c montar muyto neíla vida, 
porque tem por guia a paciência , a qual não te- 
mendo diíficuldades , nem perigos os põem em. 
lugar , do qual vem a Teu íalvo a errónea , & de* 
fatmo em que vivem aquelles que engolíados 
em coufas bayxas , & vis da terra , le clquecem 
<la virtude. Êftcs tacs aonde houver govern3 
direyto feràó tidos era conta , favorecidos , gc 
honrados : 6c alcançarão as honras , & cargos^' 
que merecem , ainda que os não prctendão, como 
ie fazia no tempo dos Romanos. Dille muyto 
bem Luis de Camões , Onde tiver força o regtment» 
direyto : porque de outra manèyra correm os ne- 
gócios difí-crencemente , Scmúytas vezu quem 
merece , perece. 




OS 



Tpí 



-3«iiée"^ ^Ke^*^ ^im.É'*^ ,«íi^^-4>*^ -íKe'*^ ^ •íiji^e^<^ ■-^^í^^.f'^ ^a^iKit^^»** mí>^e^' mQ^i^ gr 
ig| ^>^e^ ^cé^ «^;^ «s^?«í^ c^^^ 1 «^.V^ c^e^ mc'ê^ <^C?^ ^&^éK&t íli 



OS LU? I AP AS 

DO GRANDE 





CAMÕES 



e 



Commentados pelo Licenciado Manoel Corrêa* 
ARGUMENTO. 

Dà fundo a frota a Calecut chegada, 
Manda-fe meníageyro ao Rey potente,' 
Chega Monçaide a ver a Lula armada, 
E da Pro vincií í n foVm a largafrien te: 
Faz Gama ao Samori íua cmbayxada, 
E recebido bem da indica gentCv 
C'o Regedor da terra ào mar íe torna, 
Que de toldos,&: flâmulas íe adorna. 

CANTO SETlMp. 

chega Vafco da Gama a Caíecut. Propõem íua el^ayxada ao Rey da terra. 
Defcreve-fe o ficio do Keynbde Malabar. Vay o Rtgedor da urra a vi- 

~íiEar a noíía armada. 



TA^fe viaõ chegados junto ã terra, 
^ue defejadajà de tantos for a% 
^ue entre as corrétrs Indicas fe encertaj 
Eo Gangés^que no Ceo terreno mora: 
Ora fus gente for te, que na guerra 
^lereis Levar a palma vencedora j 
lâ fins chegfxdosjà tendes diante 
Aterra de riquezas abundante. 

lâft vi^o chegados. Conta aqui o Poeta , como 
os Poriuguezes houverão vifta da terra da índia, 
a jual^i^, quefoy delejada de niuytos , porque 



pelas hiílorias fabemos como AlexandrejTrajano» 
& outros a pertcnderáo , & nenhuns fizeraó 
aíTento nella táo de raiz como os Portuguezcs. 

'^«c entre at correntet indicas (t encerra, Ella hc a 
terra Jo Malabar , poíla no meyo da verdadeyra 
Índia entre os dous nos Indo , &l Ganges , como 
fica dito no lexto canto , oytnva 92. Correntes 
Indicas, laô correntes do rio Indo.Dizque o Gan- 
ges mora no Cco terreno , quehe o Parayíoda 
torra pelo que diz a Efcntrura,que do Parayloda 
terra lahiáo quatro rios. O Bcmaventurado SJc- 
ronymo , & S. João Damalceno, Hugo, & outros 
muyros dos antigos tiveraô , que elles rios 
eraó:Ganges, Nilo,Tigris,&: Euphrates. Alguns 
modernos q^ucrem que o Nilo , Sc Ganges não fa- , 

yaô; 



iLuJiadat âe Luh de 

'yão do Paraylo Terreal, mas outros dous rios que 
ciizsm ler recolhidos com o Tigris, ôc Euphrares, 
CUJOS braços cráo. Como eíle lugar não he de apu- 
rar duvidas táo largas deyxo aquellâoparaas cl- 
colas , advertindo poiéni ler matéria em que há 
jjiuyco pouca cerceza.íL ainda que hoje íaybaraos 
os lugares aonde cíles rios layem,não havemos de 
cuydar que eíta he a verdadeyra fonte , porque 
jiáo he pollivel fabcríe , pois le não fabe o lugar 
aonde o Parayfo da terra ellcvc. E aíTun quando 
letratiano nacimsnto deites nos , entendc-le do 
lugar donde clles ariebentâo , & a noílb juizo pa- 
,f cce que nacem. 

Ora fui gente forte. São palavras do Poeta com 
as quacs toma occafiáo para trattar algumas cou- 
ías dos Feytos valeroíos dos Portuguczes,animan- 
doos, &tazendo-Ihe praça do queleus antepaila- 
dos lempre na vida fiicrao, aííim em detenlaõ da 
í^é Cathoiícà, como dcfeu Rey,&.lua pátria , &: 
como amda que poucos, 5c metidos em hum canto 
pequeno do mundo , daqui fe deraó a conhecer 
por todo eilc. Por terra de riquezas abundantes, 
*^tende sl lndia,aonde tinháo jâ chegado. 



Camões Commentados^ 



m 



3 



VO V ^ortuguefes poucos , quãtõfortes\ 
èílie o fraco poder vofjb naòpezais^ 
Uós^que â enfia de vojfas varias mortes^ 
A ley da vida eterna dilatais ^ 
A(]i do do deytadas/aõ as fortes^ 
^e vós^oT mtiyto poucos que/ejaisj 
Muyt o façais na fanta Qhnjiandadey 
^e tanto ^ó Chrtjto^exaltas a humildade, 

^e o fraco podtr vojfo rt^opezaif. Em louvor doS 
Portuguczes entre outras coufas diz o Poeta, que 
quando luccede alguma coula dehonia^em que 
hajáode moítrar ícu valor,6c esforço , náopcraâ 
ícu traço poder , porque poucos íe atrevem 
contra muy tos , ôc que não eítimando morrer, na 
vida dilatâo leu nome, & fama de maneyra, que vi- 
vem eternamente , 6c que ifto he negocio do Ceoj 
querer Deos que os portuguezes com ler tão 
poucos,f4çáo tanto na Chriilandade. 



AVÓS â geração ae Lufo digOy 
^ue taõ pequena parte joís no mundo ^ 
jSlào digo inaa no mundo ^mas no amtgo. 
Curral ide quem governa o Ceo rotundo: 
^òsta qutmnaõ fomente algum perigo 
Jífhrva conquíjiar opovoímmundo^ 
Mas em cobiça^oupouca obediência j 
U)a Madre jque nos Qeos ejiâ em effencia, 

A vôt ò geração de Lujo digo. Continua lua pra- 
tica com o» l^ortuguezes , aos ^uaes chama í!,era* 
çáo de Lufo, pela razão que tica dada no canto 
pnmeyro , oytava i. os quacs diz que laó muy to 
poucos, 6c que efta pequena terra que poíluem he 
no curral amigo de Chriílo, cm hum canto da 
Chriilandade. Louva-05 da fortaleza, & cavalla. 
ria,pois nenhuns perigos faó baítantespara oseí- 
torvar da conquiltaoa Mourama , a que chama 
povoimmundo , que quer dizer povo lujo. Lí'u- 
va-os também do zelo que tem da Fe de Chriílo 
iioflb Senhor ^ que não ha coula que os dcfvie de 
lua obediência, 

A Madre,que noi Ceos eftâem cjfeacia. He a Igreja 
triumphunie, lugar dos Bcuiaventurados. Cha- 
ma.íe trmmphancc , porque os que eíláo nella, 
cílaõ em porto fcguro. Eltaem q vivcmo.s le Cha- 
ma Igreja militante , porque cm quanto anda- 
niios nella , temos guerra com tãt? ciutis inimi- 
gos: Diabo, Mundo, ôí Carne. 



VBde os Alemaensjòberbogàdo^ 
^iepõr tão largos campos fe af>acenta^ 
T>o òucf.t'jforde Tedro rebelado 
Novopajior^t§ novafeyta inventa: 
Vede{)tmfeas guerras accupadot 
^e inda co ctgo error fe não contenta^ 
Não contra o fuperbiffimo Otomano^ 
Masporfair áo jugo fober ano, 

Vdt4oi Alemaeu Serrou o Poeta â oytava pal- 
iada com aquclla tão exccllcnte fentença > que 
Deos levanta aos humildes , & derriba aos lober- 
bos. E que cfta he a razão porque os Portuguezes 
em fuás emprefas vão por diante, & os Alemães fi- 
cão atrás.Por guerras teas entende as que faô con- 
tra Chnílãos. Cego error faó as hereíias. Nao con»^ 
tra o foUrhí[[imo Otfomane. Ottomanos le chamâú 
os Empe» adores de Turquia , donomedehuna 
Ottomano de que trazem lua origem. Foy clle 
Otíomano chegado á cala do Emperador dos 
Turcos , o qual vendo-fe dcsflivorecido nclla , fc 
ajuntou com alguns perdidos,quc nunca faltaó, ôc 
começou a fazer guerra a alguns lugares com 
que le atrevia nos léus principios , dos quaes tãot 
fracos vcyo em pouco tempo a ler Senhor de 
tantas terras , £c Provincias,como lodos íabemos; 
O que o Poeta diz nella oytava he , que melhor 
fora aos Alemães , & Inglefes tomar armas con- 
tra os Turcos , que andar envoltos cai hereíias, 
& invenções na Igreja de Deos, 



Bb 



Vede» 



ISetttnol 

Alli fehaõ de provar àaefpadaòs fioi. 
Em quem quer reprovar da Igreja ocantol 
T>e Carlos, ãe Luis o nomeia a terra 
Herdafie^^ as canjas naõdajujtaguerra, 

E não contra o Cynifio , & Nilo ms. Contínua 
Gom os Francefes , os quaes diz que fora melhor 
gaftar o t«mpo em, guerra contra os Turcos , ôc 
Mouros , que contra Chriftãos , pois fe chamáo 
Chriíliàniflimos. Pelo rio Cynifio fe entende os 
Mouros de Africa por onde paflao rio CynifioJ 
Por Nilo os Turcos , porque o Turco he Senhor 
de Egypto, que o rio Nilo rega. Defte rio le veja 
J^eét o duro Irtglez. Entre os titules que tem os o que efcrevcmos no canto decimo. 



VEdes o duro Inglês ^quefe mmea, 
Rey da velhaj^ fanttjjima Cidade ^ 
^^e o torpe Ifmaelitajenhorea 
(^^em vio honra taÔ longe da verdade) 
Entre as Boreaes neves Jerecrea, 
Nova maneyrafaz de Chrlflandade^ 
Tara os de Chrifto tem a e/pada nua^ 
Mao for tomar a t^rra,que erafaa. 



DeCarhsy& Luis. ForâoReys de França valc^ 
rofiffimos, & ChriftianiíTimos. De Carlos trattá-j 
mos no canto primeyro. Do Bemaventurado S,' 
Luis baile dizer que foy canonizado por Santo,&í 
que reza delle a Igreja de Dcos. 



Reys de Inglaterra, hum he Rey de Hieruíaiem, 
eftando eíla Cidade hoje íujeyía, (como he notó- 
rio) ao Turco, o qual entende por Ifmàelita , por- 
que aífim fechamâo os Turcos, 6c Mouros, como 
fíca declarado por muytas vezes. Emre ai hreaes 
r.eveiferecrea.He boreas o vento Norte, por neves 
boreaes le entende aqui as partes do Norte , aon- 
de tem íua habitação. Eftes diz o Poetaque fazem 
nova maneyra déChriftaiidade, levantando novos 
ritos contra a Igreja Romana , & íeguindo diífe- _ 

rentes fcytas , como fe pôde ver na hiítoria Eccle- Ga fiam as vidas jlograo a,s divícias^ 
fiaílica de Inglaterra. Defta II ha fe veja o que ef- Esquecidos de/eu valor antigo? 



8 



POiS que dtrey daquelles,que em dflicidsi 
^eo vil ócio no mundo traz conjigoy 



crevcraos no terceyro canto,oytava 58, 



C>f ^arda^lheporem tanto hum falto Rey^ 
J A Cidade Hyerofolima terreftc. 
Em quanto elle não guarda afanta Ley 
©tf Cidade Hyerofoltma ceie fie: 
'Pois de ttS^allo indino^que direy^ 
§ue o nome ChriftianiJJimo quizefte^ 
Nao para defenàelojnemguardalo^ 
Mas para fèr contra elle^^ derrtbalA 

Guardalbeporerv tanís. Moftra aqui o Poera íer 



Nacem da tyrania tmmiciciasy 
^ie o povo for te tem deJíinimtgo\ 
Contigo Itália fallojàfumey^Ja 
Em vícios mili& de ti me/ma adverfaí 

Túis ^«e Mrey iaèiutlks íjue em diliciai. Quanto rtial 
façâo asdilíciasâos homens trattey no Texto can- 
to, oyiava ptf, Nefta oy tava torna o Poeta a repe* 
tir os males defte vicio , do qual diz que nacem 
grandes males , como he afias notório , & princi* 
palmente o torpiffimo da lenfiialidade , o qual na*' 
cede ócio , & delicias da vida como diz o Bem* 
aventurado S, Jeronymo: Ventrtm abo difitntum 
voluptuis /fi^«ií«r^c«/M/í«w, alenfualidade procede 



Divina permiflaó ter Turcos a terra de que os In- do muyto comer, E S. Chryfoílomo lobre S. 



Mattheus: t^murn Ubidinti fácil e txvacantia^ & oci» 
nafcitur : O vicio da fenlualidade tem lua ori; 
gemdoocio. Eo PoetaOvidio: 

Otiafi tolUf perière Cupidinis arcas 

ÇQntewptaqtft mantrit^^ fine lace facet» 



gleíes fe intituláo por Reys , que he a Santa Hie- 
ruíaiem , emquantoelies andâo apartados da Fé 
de Chnílo. 

Pois de ti Gallo indigno cfue dtrey ? Nota também 
osFiiincefesdc gente advcrfaria do nomeChrif- 
táojdo qual elles tem hum tão largo,& excelicnte 
titulo , como he chamarem-fe Chriítianiírimos, de 
cuja origem fe lea a noflaannotação no primeyro Onde falta o ócio não há reynar malícia) & Í 
canto , oytava 15. E porque os Francelcs íccha- íenlualidade eftà a hum canto, 
mão Gallosno teiceyro canto, oytava 16. 

9 
■^ j áT^ Mi/eros Chri/lãoSfpela venturâf 

' K^ Sois os dentes de Cadmo dê'sparzido5l 

AChas^qiie tens direyto emfènhorios ^e huns aos outros Je daõ a morte dura 

de Chriftãos, fedo o teu tão largo, &tãto Sendo todos de hum ventre produzidos^ 
E naÕ contra o CyniJío^& Nilo rios^ Naõ vedes a divina fepultura^ 

Inimigos do antigo nomefanto^. ToJJuida de cães^quefempre unidos'^ 

Véi 



Lufiadas de Luis de Camões Commentados, 
Vosvemtomar a vojja antiga terra^ OJhay,fe efíais fegUYOS deperig^s^ 

Fazend&fe famofos pella guerra> 



m 



o mifffros Cbriflãos» Com muy ta razão fe queyxa 
<^) noflo Poeta dos ChníUos,pois tendo obrigação 



^e eíles^^ vósjoh vojjos tnmígosi 

Entre vh nunca deyxa a fer<*\Ale^o. Entre oU* 
tros fingimentos dos Poetas , haeíle, que há três 
de ter entre íi paz,6c conformidade , pois he gente fúrias, as quaes caufaõ todas as difcordias, Ôc dela- 
governada por razão, & que legue huma ley, que venças da vida. Eílas fe chamão Aleâ:o,Tiíipho» 
com tanto rigor lhe manda tenha paz entre íi, ne,Megera. Ulaaqui o noflo Poeta de huma dcU 
eiles tanto ao contrario de lua obrigação tem las, para confirmação do que vay dizendo , que 
guerra huns cora os outros , & não fc confundem entre os Chriftãos lempre há dilcordias, & inimi* 
v<:r os bai baros unidos , 6c amigos de maneyra, zades : fendo tanto pelo contrario ifto entre os ia* 
que pouco a pouco vaó lujeytando o mundo a íi. fieis,que commummente andão unidos,& confer- 
ia e/í» ventura jõis oi dentei de Cadmo, Cadmo foy mes , & fe tem guerras he contra Chriitãos, o que 
filho de Agenor Rey de Phenicia. Foy mandado nos houvéramos de fazer ter guerra contra ellcs, 
por leu pay abulcar l£uropa fiia filha, que Júpiter ^ trabalhar pelos deílruir de todo. Mas como a 
em figura de touro lhe huvia furtado , ôcque não noíla inquietação he lempre contra nòs mcímos: 



çornaílcacala iemella. Cadmo confultou o Orá- 
culo de Apoilo , vendo que naó achando lua irmã 
Europa , naó podia tornar diante do pay , que af- 
fiíR lho mandava , para faber que fana , aonde !« 
ina.fazer lua habicaçaó.O Oráculo lhe reípondeo, 
que acharia no campo huma vaca , que a leguillç, 
êc que aonde ellaparaflè,alli edificalle. C^uerendo 
Cadmoporemeífeyto XI que o Oráculo lhe man- 
dava , achando o lugar aonde havia de edificar, 
quiz primeyro tazer lacrificio a Jupiter,parâ o que 
mandou léus companhcyros a certu fontt.-,que per- 
to eftava. Succedeo eftar hum diagaó naqu«i!a 
parte aonde eltava a fonte , o qual como houve 
villa daquelles homens, que hiaõ bulcar agoa,the- 
gou , 6c matou a todos. Cadmo vendo que léus 
companhcyros tardavaó muyto determinou hilos 
bulcar , mas achou-os mortas , 6c o dragaó lobre 
elles. Cadmo matou o dragaó. Eítando nclle eíla* 
do Cadmo , chegou Palias , que os antigos faziaô 



tem os dous inimigos huns os noílos,6coutros a el- 
les: elles por ódio, que nos tem: nós por não ter* 
mos paz,éc coníormidadehuns com outros. 



m 



r\ 



SE cobiça âe grandes feiíhorlosl 
Vos faz tr conquíjiar terras alheat^ 
NaÔ vedes, que TaBolOjfS Hermo rios. 
Ambos volvem auríferas arèas^ 
Em Libia, Ajfíriajavrão de ouro osfiosy 
Africa efconde em fi luzentes .^Veas^ 
Movavos jàfe qun riqueza tanta^ 
^015 movcYijOs naÓ^òde a Cafafantá* 

Se cobiça. O intento do Poeta neíta oytava bé 
induzir os Chriftãos a ter paz, 6c conformidade, 6c 
a guerra que trazem entre ú a convertão contra 



Deofa da fjUerra,6c dille-lhe que lemealle na terra os infiéis inimigos de noíla íanta Fé Gatholica , 5C 
os dentes daquellc dragaó. Fez Cadmo o que Pai- fe cobiça os move a deíejar conquilla de terras 

' ^ 1 -r « alheyas,em nenhuma parte tem mais com que iar- 

tar lua cobiça, 6c vontade, que na Afia fenhoieada 
pelo Turco , 6c na Africa polluhida dos Mouros- 

I>)aõ vedes^ejtte Paêiolo^^ Herm» riot. Saó rios de 
Lydia P rovincia de Afia menor, a que a Elcrittura 
Sagrada chama Lud. Crerão os antigos ter elles 
rios muyto ouro , pelo que entre ellcs laõ muytq 
celebrados , como diz Solino no leu PoJyhiftor.' 
cap. 13, Virgilio na Eneida do Padolo liv.io. Vbi 
pinguia culta. Exercentque viriy FaèlJup^ue irrigai aa» 



las lhe mandou, 6c logo dos dentes do dragaó íc ie- 
vantarão homens armados, os quaes huns com ou- 
tros fendo todos irmãos fe matâiaó. Conta efta 
fabula Ovídio nas Mctamorphofes liv. 5. in prin- 
cipio. O noílb Poeta quer aqui moílrar como os 
Chriftãos fão como os dentes do dragão , que 
Cadmo femeou por mandado de Palias , os quaes 
fe matarão huns aos outros , fendo todos irmãos: 
Q que fazem os Chriftãos , pois podendo ter guer- 
ra cora gente inimiga, 6c contraria, a tem entre i\ 
huns contra outros. Divina Sepultura. He o Santo 



ro. Onde os homens fazem grandes lavouras, 6c as 
Sepulchrode Hierufalem , o qual tem os Turcos terras laõ regadas com ouro do rio Paétolo. E do 



inimigos noflos capitães , como diz. o Poeta na oy 
tavaleguinte. 

10 

VEdes que tem por ufo^ por decreto 
(JDo qual faõ tão inteyros ob/ervautes') 
Ajuntaremo exercito inquieto^ 
Contra os povos ^que faõ de Chrifto amantes^ 
Entre vós nunca deyxa a fera Aleto^ 
'De f eme ar ctzanias reptgnantest 



Hermo nas Georgicas liv. 2. Nee pulcber Gangeíf 
atcjue amo turbidus tíerrfto.Ncin o fermofo Ganges» 
6v o Hermo turvo com ouro. Aífiria he Suna de 
que atrás fica trattado no canto primcyro,oytava 
24. Neíla Provinda , ôc em outras de Afia menor 
há gente que fazem grandes delicadezas , aííim de 
GurôjComo de outras coulas de mão,com tanto ar^ 
tificio,6cg''ilantariâ,quenão há mais que ver. Pelo 
que o Poctaaquidiz , que neftas partes lavráodd 
ouro os fios. O que também notou Girava naíua 
Geographia, pag.ij^.liv.j.cap.ii. aonde tratta da 



£b& 



Mâ 



^ -■ tdnto^Setwél 

Afia ínetior. .Deftatéiía diz Solino ho leu Poly- E naÕ queyraes louvores ánogântef, 

hiftor. Í1V.5. C.I2. que tomáraó os Romanos prin- ^eferdes contra os vojfot muy poffanteíl 

■cipio para íeus perfumes , Sc unguentos. O que 

staíTihem refere Floro liv.15. cap. $. porque cila GrfgTji» Iraett ^ Armenm ^ Georgianof, Reconta 

gente ufava muyto deitas delicias. Do tempo em aqui o Poeta algumas Províncias de Chriftãos 

^ue ifto foy Ce veja Plínio, He também muy to n- que hoietftaõ lugey tas ao Turco.Foy gente fem-! 

«adçouro, l&prata^ peloquc oepitheto queos preá deíla terra Catholica,&: firme na Fè, aqual 

Poetas lhe daõ bechamar4herica , comoenccn- hoje em dia deve permanecer em algumas deftas 




tiurâo a <:ada paflb os que por elles lerem» 

li 

Relias invenções feras ,& novas, 
_ ^e tnjiromentas mortaes ae arlnhariãi 
yã devem de fazer as duras provas 
jSlos muros de Bizâncio ^^ deJurqtàa: 
'Faz y que torne lâ àsjilvefires covas 
^os Ca/pios montes, & da Scyfhiafria, 
jlTiir ca geração ^que multiplica^ 
Na policia de voffa Europa rica. 



partes, mas como vivem entre aquella má canalha 
alguns devem ter alguma defordem.N oflo Senhor 
lhe acuda por fua milericordia. Armenia,& Geor- 
giana chamada por outro nome Ibéria , laó Pro- 
víncias da Afia mayor , a qual toda hc lugeyta ao 
Turco. 

Preceytosdo Akorâo, Alcorão, quer dizer doutri»! 
na , lie o livro em que eftá eícritta a maldita íeyta 
de Mafàmede,entre outros preceytos tem hum de 
que o Poeta aqui faz mençáo,que todas as molhe* 
resdeftes Chrillãos deltas partes que parem ma- 
cho, fetor hum íó lho daraò de tributo, & de dous 
hum, xk de três hum. Sc aonde não hà filho macho, 
lhe daó hum cruzado de tributo cada anno. Eítes 
filhos os obriga a tomar rualey,6c os manda criar, 
& tnfinâr às cou fas da milicia,6c cita he a gente de 
que ic mais fia» 



14 



^|t Âs em tanto que regos y& fedent os 
I Andais de vojfo fangue^é gente Injanãi 



Anjuellai ifi'àenço<:sferaf,& novas. Chama aarte- 
Ihana invenção nova , porque eílc exercicio , Sc 
artifício Começou no anno do Naomentodo Se- 
nhor de 1581. Não feíabc quem foy o inventor, 
&; foy bem efconderfe , porque íc le foubera feu 
iiome todas as horas,& momentos fora maldito,Sc 
abominadocomo merecia > porque foy cau fade 

não haver nô mundo aquelle esforço , &: cavulla- JSlão faltarão Chrifiãos atrevimentos 
ria que antcsjia via nos homens, bios murm de Bj^ ^^n^ peqtmaCa/a Lufitana: 
%afsííOi&de 7«m«w.Byzancio he Conílantinopla, ^r^^ Jr^ír^ *^^ *^^».;^;«./,.. ^/r^*.^/,- 
Cidadehoje a prmcpal detodasasque o Turco "Dt Afrtcatemmautmos ajfentos. 
fenhorea/ pois nella tem feuaífento, ôccadeyra tíe na Afia mais que todas foberana, 
real Veja- íc a noflaannotaçáo no canto 3.oytava Na quarta parte nova os campos ara 
12. Fax^tf íjut torne lâ as Jilvefira covas. Como difle E/e mais mundo houverajâ chegar âi 
os Turcos que agora faó ienhores 



atras oytavii4 

de hu ma grande parte do mundo, tiverão fiia ori 
gem dehum loldado por nomeOttomano , ho- 
mem de bay xa forte , natural de Tartaria , o qual 
fe levantou contra o Empcrador dos Tártaros, & 
pouco a pouco veyo o negocio a dar no eítado em 
que hora eltà. O principio foy na Tartaria, a que 
<?s Elcrittores chamáo Scythia,nefta eílão os Cal- 
pios rnontts»0 que o Poeta aqui quer moítrar he, 
qucdeviáo os Chriltâos lançar os Turcosfórade 
Conltantinopla , & outros muytos lugares da 
Europa,quetem tomado aos Chriítãos, Scfazelos 
recolher aos montes Calpios de Scythia , donde 
Yierão para eftas partes. Deites montes fe veja a 
noíla annotação no terceyro canto* 

GRe^os Xraces, Arménios ^ Georgianos ^ 
Bradando vos eflão^que o povo bruto 
Lhe obriga os caros filhos aos profanos 
2^receytâs do Alcorâo{duro tributo') 
Emcafttgar osfeytos inhumanos 
VosglQíiaj depeytoforte^&aíluto^ 



Mas em ejuanto. Louva o Poeta aqui ó fioífo 
iPortugal , o qual não vay pela ordem das outras 
naçóes;anies em quanto os outros andão occupa- 
dos cm guerras injuftâs , elícs as fazem a Mouros^ 
Sc infiéis, Scandaó íugeytando novas nações em 
novas terras,que o Poeta aqui nomea. 

De Africa tem marítimos ajjentes. As Cidades mai»' 
ritimasqiie o Poeta diz que tem os Reys de Por- 
tugal, faó Ceuta, Tangere, Arzilla,&: Mazagaò. Ha 
na Afia mais t^ue toda (oberba, llto diz pelo niuyto 
que os Portuguczes tem feyto , & conquiítado n» 
Oriente,aonde tem muytas terras, 5c muy tas IlhaSè 
§íuarta parte nova. He America , ou novo mundo, 
da qual com as mais partes tratrâmos no primcyro 
cantOjoytavai. Diz que também os Portuguezes 
tem pé nella pelo Brazil, que pofluem,que he tam- 
bém huma parte deita America, como fica dito nd 
lugar allegado : & como mais copiofamente o di- 
zem os Diálogos de varia Hiítoria, Dialog.4.cap, 
12. & 6. cap. 1. 6c joaõ de Barros na íua Afia, De- 
cad.i. aonde ella cif ganteoytava eítà dignamente 
com meneada. 



Lufíaàas àe Luís de Camks Commentaàos* 



^97 



E Vejamos em tanto o que acontece 
/^aquelles tamfamofos na veganteS, 
depois que a branda Vénus enfraquece 
O furor 'VaÔ dos ventos repugnantes: 
depois que a larga terra lhe apparece. 
Fim defuasprofias tão cantantes ^ 
Onde vem f entear de Chrijto a Ley^ 
E dar novo coflume^à' novo Rey^ 

Ve]am9itm tanto» Torna o Poeta a trattar o que 
áconceceoaos Portuguezes defpois que hoveraó 
vifta da terra da índia , acabada aquella cão traba- 
ihofa tormenta qu6 no fiai doícxto canto contou. 

Defpoit efue a larga urra lhe apatece» Ftm de fitas 
for fiai tdo confiantes, lifta terra larga de que liou- 
veráo viíla , foy a terra de Calecut » que era a que 
elles com tatita porfia , 6c cmílancia buícaváa. li 
â verdade tudo» havia miíler humataõcompridaj 
& importuna viagem , que milagrofamente pode- 
mos crerhiremos homens a terras taó rematas, 
oíFerecidos a tantos perigos , & trabalhos » que os 
de que os Poetas tazem tantos medos, como Scyl- 
la, éc Carybdis, Acroceraunios,& outros faó nada 
em comparação dos que hà nefta taó larga , 6c 
• tnfadonha viagem da índia» 

TÂnto qtte â nova ter rafe chegarão^ 
Leves embarcaçoens de pejcadores 
' Achar aõjque o camiuho lhe moftràraô 
*T>e Calecut jonde eraò moradores'. 
Yara là logo as proas fe mclinãraÕ, 
forque efiaeraa Cidade das milhares 
1)o Malabar me Ihor^onde vivia 
O Rey^que a terra toda pojluta^ 

f Tanto tjus ã nova terra fe ch87drào,}i\jm Domin- 
go vinte de Mayo de mil quatrocentos noventa & 
oyto houveraô os Portuguezes vifto a rtrra de 
Calecut , & íurgiraó defronte de hum lugar cha- 
mado Capocate, o qual o Piloto cuydou íer a mef- 
ina Calecut, Mas furta a noíla armada j acudirão 
logo quatro almadias de gente da terra a fabcr que 
nãos craô aqueilas,porque nunca as virão daqueU 
la invenção , nem hirem a tal tempo àqudlas par- 
tes. Eíla gente que aciidio á noíla armada era 5 
pefcadores : aos quaes Valco da Gamafezgaza- 
lhado, 6c mandou que lhe compra flem do pcícado 
que traziaõ. Eftes o levarão a Calecut. O Poeta 
neílas oytavas , que fe feguem defcreve a própria, 
& verdadeyra índia , como eu atrás toquey no 
canto fexto,oytava pi. 



17 

AL/m do Indojaz^é' aquém do Gange^ 
Hú terreno mUygràde^Cr ajfazfamofo^ 
Repela parte AuftraL o mar abrange ^ 
E par a o Morte o Emodio cavemo/o: 
Jugo de Reys diverÇos o conjlrange 
Avarias leys ^alguns o vicio fo 
Mafoma^alguns os Ídolos adornÕi 
Alguns os animaes^que entre elles morada 

Alem do índújaz» Como atrás apontey no canto 
lexto, oytava^i. a terra que os Geographos cha- 
niaó índia , heaqueéítá entre aquclles dousfa- 
moíos rios Indo,6c Ganges, Os naturaes, \Sl vezi- 
nhos lhech'^maó por nomt- próprio Indoítan.Tem 
da parte do Norte por termmo o monte Emodio, 
que he hum ergalho do monte Tauro ^ aoqualo 
Posta aqui chama caVernolo , porlerrauyto af- 
pero, com muy ta penedia , 6c quebradas, a que os 
Latinos chamaó cavernas. Da parte do Sul tem o 
Oceano í ndicoi Do Poente o rio Indo: 6c do Ori* 
ente o Ganges , ainda que ambos layemde huma 
paragem contra o Norte,; A teiia que eítá entre 
osdousrios, que dizem chamaríe Indoltan, a que 
nós chamamos índia , tem diííerentes Reys , 6c 
naçóesjcom diíterentes ley.tas, 6c torpezas,que le« 
ria largo contar , porque hun^ leguem a peítilcn^ 
ciai feytii de Mafoma: outros adorno os Idolosiou- 
trosanimaes : outros tem em íi outras brutalida- 
des indignas de fe cfcrcvcrem. /íi^uns o vtci&fo Ma» 
foma.^ pcrfeguiçaó de Mafoma foy no fim do im- 
pério de Heraclio no anno do Senhor de Óyí.ain- 
da que mito há variedade entre os Autores , que 
outros querem toílc no anno deSjip. 6cque co- 
meçaííe em hum lugar chamado Saralo na Arábia 
Pétrea , comoapontámos atrás no primeyro can- 
to,oytava8è Quanto ao lugar de iua natureza di- 
zem que foy Itarip, aldeã pequena de Arábia , 6c 
que feu pay foy Gentio por nome Abdalá , 6c fua 
máyHebrea chamada Emina gente bayxa. E co- 
mo era filho de pays difFerentcs , querendo Ihei 
hum enfinar huma coufa , 6c outro outra ficoit 
confufo , 6c diítrahidoem fua vida. Defpois da 
morte dos pays , naófabendo a quardasíeytasfe 
daria,le à do pay, que era Gcntilica, íe á da mãy, 
que era Hebrea.Sendo moço criou- fe entre Chril- 
tãoSíVindo a idade cm que entendia,como era mal 
inclinadojSc perverío de natureza,âjudado de hum 
Sérgio hereje Neftoriano , 6c de dous Judeus e{- 
padeyros* Fez das feytas de Teus pays j 6c da ley 
Chriílã huma feyta diabólica , tomando de cada 
huma o que lhe parecia , parabém deíuaperten- 
çaó, que era (cr tido por lanço, para por eíte meyo 
ter mando , 6c poder no mundo , comofucccdeo 
que em pouco tempo com voz de prophcta coii- 
quiítou muytas terras vczinhas. E como a fua ley- 
taera humalellada tirada de difiFerences partes i 6c 

que 



.; 



que qualquer hotiiem dejulzõ, Zí de razaõ enten- viados hum do outro de Levante ao t*oentCÍpoi? 

•deria facilmente que era errónea, largou-Ihe a re- elpaflb de trezentas léguas pouco mais , ou menos,^ 

dcaatodoo genero_devicios,&deu-lhe liberdade queheoelpafib , quetetna terra chamada Índia* 

que fizeflem o que quizeflbm , principalmente no Acabão leu curfo no cabo Camorij , defronte da 

victoda ícnfuaWade , queíoy partepara adquirir Ilha Ceyláo , masdefviados hum do outro , como 

^a íi em breve tempo meyo mundo. E cfta he a ra- diz o Poeta na oytava feguinte. O Ganges entra 

zaó porqiie o nollo Liais de Camões lhe chama vi- por duas bocas defviada huma da outra por cfpaíTo 

ciolo. Tem lavrado tanto efte malpeftilencial en- de cytenta legoa? na enleada do Reyno de JBen- 

tre tantas, ISc taõ diverlas nações, que em compa- gala,qtie por efte relpeyto fe chama entre os Coí- 

raçáo da gente enganada com fua lcyta,laó muyto rnographos,yÇ««í Gangeticut, feyo Gangetico, que 

poucos os que leguem o caminho da verdade, que quer dizer enleada do rio Ganges. O Indo entra 

he noffà Santa Fé Catholica. O que facilmente k na enleada de Cambaya , chamada affim do Rey« 

pode ver , pois não crè em Chrifto Noilo Senhor no Cambaya,aonde eítá.Vcja-feo que elcrevemos 

•coda a É^uropa perfcytamente,Sí em Mafoma par- «ocantodecimo,oytava io6. Da fonte deftesrios 

-te delia, com toda a Afia, 6c Africa,pouco menos, até o cabo Comonj, aonde entráo no mar, haverá 

JB mandou ;iK) íeu Alcorão , que ninguém oulaílé quatrocentas legoas de comprimento, 
trattar, nem dilpataríobre alua ley, pondo niiio Cercão tod» o temfodo ttrnno» Diz que cercão 

^grandes penas : no que bem moílrou como tudo aquelles rios aquelJe pedaço de tcrra,de que atrás 

craó enganos, & falfidades, & que lhe punha efl e fica trattado , que abraça , & rodea a índia, Pcfo 

barbilho, arreceando-fe, que houvcfib homens de do terreno qncr dizer aquellc efpaflo da terra, 
-juizo, aHda4ido o tempo, que cahiílem em leu f n- Fazendo o Cherfonefo. Que feja Cherfqneío fica 

gano, 6c maldade, Defte maldito Mafoma, d€ íua dito no canto lcgundo,oytava 541 
torpe vida , 6c pcyor feyta , fe pode ver hum 
cunolo <:apitulo nos Drilogos de varia Hiílo- 
ria, PiaÍQgo|.cap.3, " 

A 'jn Ntreh{ij& outro riOiem gr ande e/f âçol 

J[_^ òae da larga terra huma longa ponta^ 

LA' bem m grande monte, qtte cortando^ ^aftpiramiãal.tjue no regaço h 

Ta^ larga terra.toda Afta di/corret ^0 mar, com Ceylaõ In fula confrontai m 

^e nomes taõ diverfos vay tomauda, E junto donde nace o largo braço m 

iSegundo as Regtoésfor onde torre', GangettcOyO rumor antigo conta, 1 

As fontes jatmjonde vem manando '^g ^s vifinhvs da terra moradoreí. 

Os rws.cujagrm corrente morre ^^^ cheyrife mantém das lindas fior es-. 
No m^r Indico i& cercão iodo opefo 
^Do tmmo^fazendo o Qherjonefo. Entre hum, & outro rio, Deícreve a figura que 

íaz a terra chamada Índia , rodeada daquelles tão 
Là Um no grande montt. Eíte he o grande mon*. illuílres,& celebrados rios:Indo,& Ganges,6c co- 
te Tâuro o mayor do mundo , como dizem todos mo ambos acabão fcu curfo defronte da Ilha de 
os Geographos, chamado afiim, como diz Diony* Ceylaõ. 

fio Alexandrino , cap. 3. por difcorrer por largas Ponta pyramtdaí. Ponta aguda ao modo de pyraS 

icrras, levantada a cabeça como hum touro : ou mide,quehe hu ma columna quadrada muyto iar- 

como diz Eullachio , por lua grandeza, porque os ganopé, a qual quanto mais vay íubindo le vay 

antigos chamavão a todas às coufas grandes , tou» adelgaçando de maneyra^que fica com huma pon- 

ros.bíte monte corta toda Afia,fazendo por todas ta muyto aguda , 6c delgada a modo de fogo , que 

«s partes grandes entradas pelo mar, que parece parece fubir às nuvens, li aflim íedizde , pirque 

ameaçalo,6c quererlhe eftorvar leu curlo,tanta he he o fogo,porque no leu fubir o imita.Eftas pyra- 

íualôberba, ôc altivez defde o Oceano Oriental mides coílumavâo antiguamente os Reys de 

atè o mar Egeo. Tem differentes nomes conforme Egypto , as quaes lhe ferviáo de fepulturas. Eraõ 

aos lugarcs,6c: nações por onde pafla,como diz So- huns Edificios muyto altos, 8c iumptuofos,que os 

lino no leu Polyhiílor» De huns efgalhos delle ditos Reys faziâo para moílra de fua grandeza, 6C 

monteTauro,aquePtolomeo chama Imao, 6c os poderrdas quaes as que cflaváo na Cidade de Mem-] 

moradores D^alanquet,6c Nangracot,arrebentâo phis eráo de tanta grandeza,que íaó contadas en-»'' 

£>s deus nos taõ celebrados dos Elcrittores , Indo, trc as fete maravilhas do mundo. 
& Ganges,mas difbinétamcnte: ainda que os Gen- lunto aonde nace o largo braço Gangetico ) o rumor 

tios , comarcãos querem que feja toda huma vea de antigo conta, llto melmo diz SoUno no íêii Poly- 

agoa, donde veyo a chamarem áquelle monte dos hiílor. cap.65. aonde acrecenta, quenaó fomente., 

dous irmãos por lhe parecer que ambos fahiaó de cfia gente íe íuílenta em luas terras com o cheyraí 

■hum mefmo lugar* Apartaó-fc eíles rios logo em das flores, 6c frutas, mas que quando caminhão asl 

íeu nacimenco } ôc correm do.Norccao Sul j dei* levaõ comfigo, 6cdcfta maneyra vivem, & andaó,^ 

& (^ue cm lhe faltando raorrem, ~" Ma$' 



MAi agora de nomes ^& de ufaríça. 
Novos j ^ vários faõ os habitantes^ 
Os TJelíJSi os Tatànes^que empoffança 
*Deterra,t§gentefaõ mais abundantes: 
^e canijsflnàs^que a efperança 
TemdefuafalvaçaÕ nas rejonantes 
Agoas do Gange/ê a terra de Bengala^ 
Fértil de forte ^que outra naõlhe iguala^ 



Lujíadas de Luís de Camões Commentadosl ^ * ^^^ 

O Reyno de Narfinga podmjl) 
2 o Mais de ouro i& pedras jquc de forte gente: 

Aqutje enxerga là do mar mdofò 
Hum monte alto ^que corre longamente^ 
Servindo ao Ala lavar de forte muro. 
Com que do Lanará vivefeguro. 



O Kayno de Camhaja beUicofo, O Reyno de Gti" 
aarate he o que chamamos commummente Cam- 
baya. He muy to grande, & cheyo de Mouros, ôc 
Gentios.tem muy tas Cidades, & portos de mar de 
muyio tratto,8c negocio.He agente defte Reyno 
muyco bellicofa , pelo que rauytos vivem lera íè 
quererem fugeytar a Rey , nem a Senhor algum, 
antes fazem continuamente guerra aos Rcys de 

tas ^oiuaucs, CA, uiLijt,v^ ..^v,^, -^ — j -- Cambaya, os quacb não pódeH» levar a melhor del- 

concurfo de mercadores. Foy antigamente eíte \q^^ porque tem muy tas Cidades, &: lugares fortes, 
Reyno de Gentios: dosquaes alguns que ticâraõ aonde ledcfendemjÔcoíFendem, porque laõ gran- 
em memoria defe verem privados de fuás fazendas, deshomensde cavallo.Ncíte Rçy no cila a Cidade 
& terra, andáopelo mundo comofiganos,deícal- ^e Dio, fugeytaaosReysde Portugal. He tão ri. 
ços,&defpidos, Ôclemcoufa alguma nas cabeças, <:o,&: poderoío eíte Reyno, que tem El-Rey de 
cingidos com grandes cadeas de ferro, Ôcchey os Cambaya vaííallos feu» que tem mais de oytocen- 
decinza,pedindodeportacm porta: faô tidos dos cos mil ciuzados de renda. Ecom todos elles foy 



Oi D<?/;;í, flí Vatanes, Delijs faó os moradores do 
Reyno Delij metido pelo fcrtáo dentro:tem muy- 
tas Cidades, & muyto ricas, de muyto tratto, SC 



outros Gentios por lautos , 5í lhe fazem grandes 
eímolas.Elle Reyno Deli he muyto grande , ainda 
que muyto menor hoje do que ja foy , porque as 
terras do Hidalcaó , & Cambaya foraó tambcm 
luas com as quaes felhe levantarão algunà Capi- 
tâes,nomeando-fe Reys.como hoje ie chamáo.He 
gente b Uicofa , tem muy tos cavallos , & cUes faõ 
homens de cavallo. Dos Patanesfecícreve , que 
faõ tantos,que não tem numero.Traz-lc por pia- 
tica na India,quando (q ajuntaõ para algum fey to, 
fe fe põem ao longo de algum no que o efgotaõ. 
He bom encarecimento. O Poeta moítra nefta 
oyiava ferem em gente , 6í terra poderolbs , & 
muytos. Decanijs lai» os do Reyno do Hidalcaó, a 
que os Indos chamáo Decaó. Tem Rey Mouro, 
mas os moradores íaó pela mayor parte Gentios. 
He Reyno grande pelo íertaô dentro. Tem tam* 
bem bons portos, com grandes trattos , & merca* 
dorias,quegafl:aóem terra firme. Nelte Reyno 



venciuo por poucos Portuguezes. Defte Reyno 
de Guzarate elcreve Juftino ^ que foy antigamen- 
te Rey Poro grande cavalleyro muyto ebforçadoj 
£c bellicolo , como diz o nofib Luis de Camões. 

O Reyno de Narfinga fedtro(o mat\ d''ouro , ó" fí- 
dras. O Kcyno de Naríinga chamado poroutto 
nome Biínagá, dagrandiíTima CiUadede Bihiaga 
cabeça,5w Metropolido Reyno,peioconcurlo,& 
ttatto da gente , Sc pela abundância de todas as 
coufasneceílarias.he muyto grande,6c muyronco 
de todas as coulas,principal rncte d*OLiro, 6c pedra- 
ria,que le vendt na Cidade de Biínaga,aonde vem 
^e Pegú. E no próprio Reyno há huma grande 
mina de diamantes , 6c dizem que he huma terra 
muyt'^ grande donde fe tirãoos melhores, ôc mais 
efti nados do mundo. As molhcres defte Reyno 
fe faõ pobres delpois que enviuvaó faó obrigadas 
a queymaríe:& le laó ricas,antes que fe quey memj 
coftumaò a gaftar todos feui bens em banqut'tes,Sc 



cftà Chaui,Dabul,Gofl,6c outros muy cos lugares, feftas com feus parentesrSc muyto veftidas,6ccoa- 
que hoje conhecemos por fama. Orias faó mora-, certadas. fe lanção no fo^o ^'to a cinza le lepulta 
dores ao longo do rio Ganges. com a dos maridos. As que i .'«aó querem quey- 
E a terra de Bengala. Efte Reyno de Bengala he ^ar lançaó-as fora da terra^rapando-lhe priíneyro 
chamado aflim do nome de huma Cidade princi- as cabeças à navalha , que he final que tem de nao 
paldo mefmo Reyno. Efta efte Reyno ao longo f^^erem oque fualey , 6c coftumeda terramanda. 
dacoftadomar contrao Norte ,-paílapor meyo Asque faómoças,6cbcmparecidas,felenãoquey- 
dcllc o rio Ganges , he Reyno muyto abundante, maó,coftumaó os parentcs,por lhe fazerem favor» 
íSc rico , 6c tem muytos , 6c muy grandes lugares, polas em certas cafas de ídolos, que para ifto tem 
Nefta paragem de huma, 6c outra parte do Gan- jà deputadas, aonde cltáo ganhando com feu eor- 
ges he tudo povoado de Gentios idolatras , & poparaíi ,£c para ajuda de concertar aquellacafa 
que põem toda lua íalyaçâo nas aguas do Ganges, '' ~' 
como íica dita. 



11 



O 



Kcyno de Camhaya belllcofo 
QDizemquefoydeTóro Rey potente) 



dos ídolos. Eftas gaftaõ certas horas do dia em 
danças, muficns, 8c outros excrcicios defta calida- 
de, o tempo querefta deftesbayles, 6cmuíicas, 
gaftâo na outra corpeza. Bem fe moftra a grande 
bruteza , 6c ignorância deftcs , pois gaftaó leu 
tempo defta maneyra , co:no Uò eftes , he gente 
pouco bellieoííi, como aqui diz o Poôta. Tem efte 



^13Ô • •_ _ _ 

íRcyno dílFercntes Scntibres ', c]ue o jgovcrnáo de 
muyto pequenos cílados ; & como he gente de 
apouca fé, já toda atena fora fugeyta ao mais pode- 
luio, íc a natureza naó atalhara â cobiça dos ho- 
mens com grandes iios,'lagos, montes, Òc d:lertos 
habitados de rnoytas, 5c grandes feras, que empe» 
<lema paflagem. ti, principalmente hum monte, dt 
-que o Vo^ta aqui f<tzn)cnçâo,o qual por ler gmn- 
43iflimo, Ôc muyto al.pero, não tem nome próprio» 
mas chauid-ie Gate , que iie o nome cnirc eiles 
geral pira -dizer íerra. Lílc monte corre do Nor- 
aeao Sul, .pela coftado mar kmpreá viftadcile, 
aLéhir fenecer no Cabo Comorij , porefpaço d^ 
-duzentas legoas,pouco mais,ou menos- Enti e eíia 
jlerra de Gate, 6í o mar, ellà huma cinta de terra, 
■que lerá larga de dez legoas , tem algun>aí; partes 
^•ouco mais, ou menos, a qualfe chama Malabar, 
-que teiâ de comprimento como oyrenta lego.iS, 
aonde eítà íituada a Cidade de Calccuf.Eíle Gate 
ícrve aos moradores do Malabar de muro , & de- 
'fenfaó contra os moradores do Rcyno Bilnaga ve- 
%inhos. 

D Aterra os naturaes lhe chamao Gate.y 
T^opè do quai pequena quant idade y 
Se e (fende huma fralda eflrey tanque combate 
^0 mar a natural ferocidaaei 
jíqiii de outras Cídadisfem deli ate 
Calecut tem a illuftre dignidade 
^e cabeça de Império r te a :,& hella^ 
'Samormfe intttulla o/enhor delldj 

SàMorim fe intitula o Senhor delia, Samorij he o 
nomeappellativo do Senhor do Reyno de Cale*. 
t:ut,o qual nome foa tanto como Emperador,por 
«ile fer o mayor Rey de toda aquella coíla. A ra- 
aâodeíle nome íe veja no