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Full text of "Obras, precedidas de um ensaio biographico, augmentadas com algumas ..."

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II 



600026 186V 




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OBRAS 

DE 

LUIZ DE CAMÕES 

PREGEOIOiS DE Ul ERSAIO f lOGRâPDGO 

NO Q0AL SE RELATAM 

ALGCNS FACTOS ffiO CONHECIDOS DA SUA VIDA 




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VI800NDB DE JUBOMENHA 



VOLUME IV 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

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OBRAS 



DE 



LUIZ DE CAMÕES 



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OBRAS 



DE 



LUIZ DE CAMÕES 

PRECEDIDAS DE UM ENSAIO BI06RAPHIG0 

NO QUAL SE RELATAM 

ALGUNS FACTOS NÃO CONHECIDOS DA SUA VIDA 



ADSMRNTADAS 



COI AL6UMS COIPOSiÇOES INÉDITAS DO POETt 

rRi.o 

\ 

VISCWMOB DE jmOHBNHA 



VOLUME IV 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1865 



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REDONDILHAS 



Sôbolos rios que vão 
Por BabyloDia, me achei, 
Onde sentado chorei 
As lembranças de Sião, ' 
E quanto nella passei. 
AUi o rio corrente 
De meus olhos foi manado; 
E tudo bem comparado, 
Babylonia ao mal presente, 
Sião ao tempo passado. 

Alli lembranças contentes 
N'alma se representarão; 
E minhas cousas ausentes 
Se fizerão tão presentes, 
Como se nunca passarão. 
Alli, despois d'acordado, 
Co*o rosto banhado em ágoa. 
Deste sonho imaginado, 
Vi que todo b bem passado 
Não he gosto, mas he mágoa. 



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E vi que lodos os danos 
Sc causavâo das mudanças, 
E as mudanças dos anos; 
Onde vi quanlos enganos 
Faz o tempo ás esperanças. 
Alli vi o maior bem 
Quão pouco espaço que dura; 
O mal quão depressa vem ; 
E quão triste estado tem 
Quem se fia da venlura. 



Vi aquillo que mais vai 
Qu'então s'entende melhor, 
Quando mais perdido for; 
Vi ao bem succeder mal, 
E ao mal muito peor. 
E vi com muito trabalho 
Comprar arrependimento: 
Vi nenhum contentamento; 
E vejo^me a mi, qu'espalho 
Tristes palavras ao vento. 

Bem são rios estas ágoas 
Com que banho este papel : 
Bem parece ser cruel 
Variedade de mágoas, 
E confusão de Babel 
Como homem, que por exemplo 
Dos trances em que se achou, 
Despois que a guerra deixou, 
Pelas paredes do lemplo 
Suas armas pendurou: 



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Assi, despois qu'asscntei 
Que tudo o tempo gastava, 
Da tristeza que tomei, 
Nos salgueiros pendurei 
Os orgâos com que cantava, 
Aquelle instrumento ledo 
Deixei da vida passada, 
Dizendo: Musica aitiada, 
Deixo-vos neste arvoredo 
A memoria consagrada. 

Frauta minha, que tangendo 
Os motites fazieis vir 
Par' onde estáveis, correndo; 
E as ágoas, que hião descendo, 
Tornavâo logo a subir; 
Jamais vos não ouvirão 
Os tigres, que s'amansavão; 
E as ovelhas, que pastavão, 
Das hervas se fartarão, 
Que por vos ouvir deixavão. 

Ja não fareis docemente 
Em rosas tornar abrolhos 
Na ribeira florecenle; 
Nem poreis freio á corrente, 
E mais se for dos meus olhos. 
Não movereis a espessura. 
Nem podereis já trazer 
Alraz vós a fonte pura; 
Pois não poílestes mover 
Desconcertos da ventura. 



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Ficareis oflerecida 
Á Fama, que sempre vela, 
Frauta de mi Ião querida; 
Porque mudando-se a vida. 
Se mudão os gostos delia. 
Acha a tenra mocidade 
Prazeres accommodados; 
E logo a maior idade 
Ja sente por pouquidade 
Aquelles gostos passados. 

Hum gosto, que hoje s'alcança, 
Á manhâa ja o não vejo: 
Âssi nos traz a mudança 
D'esperança em esperança, 
E de desejo em desejo. 
Mas em vida tão escassa 
Qu'esperança será forte? 
Fraqueza da humana sorte, 
Que quanto da vida passa 
Está recitando a morte! 

Mas deixar nesta espessura 
O canto da mocidade: 
Não cuide a gente futura 
Que será obra da idade 
O que he força da ventura. 
Qu'idade, tempo, e espanto 
De ver quão ligeiro passe. 
Nunca em mi puderão tanto, 
Que, postoque deixo o canto, 
A causa delle deixasse. 



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Mas em tristezas e nojos, 
Em gosto e contentamento; 
Por o sol, por neve, por vento, 
Tendré presente á los ojos 
Por quien muero tan contento. 
Órgãos e frauta deixava, 
Despojo meu tão querido. 
No salgueiro que alli 'sfava, 
Que para Iropheo ficava 
De quem me tinha vencido. 

Mas lembranças da afleição 
Que alli caplivo me tinha. 
Me perguntarão então, 
Qu'era da musica minha, 
Que eu cantava em Sião? 
Que foi daquelle cantar. 
Das gentes tão celebrado? 
Porque o deixava de usar. 
Pois sempre ajuda a passar 
Qualquer trabalho passado? 

Canii^ o caminhante ledo 
No caminho trabalhoso 
Por entre o espesso arvoredo; 
E de noite o temeroso 
Cantando refreia o medo. 
Canta o preso docemente, 
Os duros grilhões tocando; 
Canta o segador contente; 
E o trabalhador, cantando, 
O trabalho' menos sente. 



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Eu qu'eslfis cousas senti 
Nalma ^e mágoas tão cheia, 
Como dirá, respondi, . 
Quem alheio eslá de si 
Doce canto em terra alheia? 
Como poderá cantar 
Quem em choro banha o peito? 
Porque, se quem trabalhar 
Canta por menos cansar, 
Eu só descansos cngeito. 

Que não parece razão. 
Nem seria cousa idonia. 
Por abrandar a paixão 
Que cantasse em Babylonia 
As cantigas de Sião. 
Que quando a muita graveza 
De saudade quebrante 
Esta vital fortaleza. 
Antes morra de tristeza, 
Que por abrandá-la cante. 

Que se o fino pensamento 
Só na tristeza consiste, 
Não tenho medo ao tormento: 
Que morrer de puro triste, 
Que maior contentamento? 
Nem na frauta cantarei 
O que passo, e passei ja. 
Nem menos o escreverei; 
Porque a penna cansará, 
É eu não descansarei. 



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Que se vida Ião pequena 
S'accréscenta em terra estranha; 
E se Amor assi o ordena, 
Razão, he que canse a penna 
D*escrever pena tamapha. 
Porém, se para assentar 
O que sente o coração, 
A pennaf ja me cansar. 
Não canse para voar 
A memoria em Sião. 



Terra Lem-aventurada, 
Se por algum movimento 
D'alma me fores tirada, 
Minha penna seja dada 
A perpetuo esquecimento. 
A pena deste desterro, 
Qu'eu .mais desejo esculpida 
Em pedra, ou em duro feiro. 
Essa nunca seja ouvida, 
Em castigo de meu erro. 

E se eu cantar quizer 
Em Babylonia sujeito, 
Hierusalem, sem te ver, 
A voz, quando a mover. 
Se me congele no peito; 
A minha lingua se apegue 
Ás fauces, pois te perdi, 
S'em quanto viver assi 
Houver tempo, em que te ncgiio. 
Ou que m'esquc(;a de ti. 



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<2 

Mas ó tu, terra de glória, 
S'eu nunca vi tua essência, 
Como me lembras na ausência? 
Não mè lembras na memoria. 
Senão na reminiscência: 
Que a alma he taboa rasa, 
Que com a escripta doutrina 
Celeste tanto imagina, • 
Que vôa da própria casa, 
E sobe á pátria divina. 

Não he logo a saudade 
Das terras onde nasceo 
A carne, mas he do Ceo, 
Daquella santa Cidade, 
Donde est'alma descendeo. 
E aquella humana figura, 
Que cá. me pôde alterar, 
Nãohe quem se ha de buscar; 
He raio da formosura, 
Que só se deve d' amar. 

Que os olhos, e a luz que ateia 
O fogo que cá sujeita,' 
Não do sol, nem da candeia, 
He sombra daquella ideia, 
Qu'em Deos está mais perfeita. 
E os que cá me càptivárão. 
São poderosos aflfeitos 
Qu'os corações lee sujeitos; 
Sophistas, que m'ensinárão 
Máos caminhos por direitos. 



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Desles o mando lyrano 
M' obriga com desatino 
A cantar ao som do dano 
Cantares damor profano, 
Por versos d' amor divino. 
Mas cu, lustrado co'o santo 
Raio, na terra de dor. 
De confusões e d'espanto. 
Como hei de cantar o canto, 
Que só se deve ao Senhor? 



Tanto pôde o beneficio 
ITa graça que dá saúde, 
Que ordena que a vida mude: 
E o qu'eu tomei por vicio, 
Me faz gráo para a virtude; 
E faz qu'este natural 
Amor, que tanto se preza, 
Suba^da sombra ao real. 
Da particular belleza 
Para a belleza geral. 

Fique logo pendurada 
A frauta com que tangi, 
O Hierusalem sagrada, 
E tome a lyra dourada 
Para só cantar de ti; 
Não captivo e ferrolhado 
Na Babylonia infernal, 
Mas dos vícios desatado, 
E cá desta a ti levado, 
Pátria minha natural. 



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_i4 _ 

E s'eu mais der a cerviz 
A mundanos accidentes. 
Duros, tyrannos e urgentes, 
Risque-se quanto ja fiz 
Do grão livro dos viventes. 
E, tomando ja na mão 
A lyra santa e capaz 
D' outra mais alta invenção, 
Cale-se esta confusão, 
Cante-se a visão de paz. 



Ouça-me o pastor e o rei, 
Retumbe este accento santo^ 
Mova-se no mundo espanto; 
Que do que ja mal cantei 
A palinodia ja canto. 
A vós só me quero ir, 
Senhor e grão Capitão^* 
Da alta torre de Sião, 
Á qual não posso subir, 
Se me vós não dais a mão. 

No grão dia singular, 
Que na lyra em douto som 
Hierusalem celebrar, 
Lembrae-vos de castigar 
Os ruins filhos de Edom. 
Aquelles que tintos vão 
No pobre sangue innocente^ 
Soberbos co'o poder vão, 
Arraza-los igualmente: 
Çonheção que hbmanos são. 



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45 

E aquelle pcxlcr tao duro 
Dos affeclos com que venho, 
Qu encendem alma e engenho; 
Que ja m^enlrarão o muro 
Do livre arbilrio que tenho; 
Estes, que tão furiosos 
Gritando vem a escalar-me, 
Máos espíritos damnosos, 
Que querem como forçosos 
Do alicerce derribar-me; 



Derribae-os, fiquem sós, 
De forças fracos, imbelles; 
Porque não podemos nós, 
Nem com êlles ir a vós, 
Nem sem vós tirar-nos delles. 
Não basta minha fraqueza* • 
Para me dar defensão, 
Se vós, santo Capitão, 
Nesta minha Fortaleza 
Não puzerdes guarnição. 

E tu, ó carne, qu'encantas, 
Filha de Babel tão' feia. 
Toda de miséria cheia, 
Que mil vezes te levantas 
Contra quem te senhoreia; 
Beato só pôde ser 
Quem co'a ajuda celeste 
Contra ti prevalecer, 
E te vier a fazer 
O mal que lhe tu fizeste: 



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46 

Quem com disciplina crua 
Se fere mais que Imma vçz; 
Cuja alma, de vicios nua, 
Faz nodas na carne sua, 
Que ja a carne n'alma fez. 
E beato quem tomar 
Seus pensamentos recentes, 
E em nascendo os affogar, 
Por não virem a parar 
Em vicios graves e urgentes: 



Quem com elles logo der 
Na pedra do furor saúto, 
E batendo os desfizer 
Na Pedra, que veio a ser 
Emfim cabeça do canto: 
. Quem* logo, quando imagina 
Nos vicios da carne má. 
Os pensamentos declina • 
Áquella Carne divina. 
Que na Cruz esteve ja. 

Quem do vil contentamento 
Cá deste mundo visibil. 
Quanto ao homem for possibil, 
Passar logo entendimento 
Para o mundo intelligibil; 
Alli achará alegria 
Em tudo perfeita, e cheia 
De tão suave harriíonia. 
Que nem por pouca recreia, 
Nem por sobeja enfastia. 



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i7 

Alli verá tao profundo 
Mysterio na summa Alteza, 
Que, vencida a natureza, 
Os mores faustos do mundo 
Julgue por maior baixeza. 
O tu, divino aposento. 
Minha pátria singular. 
Se só com te imaginar. 
Tanto sobe o entendimento. 
Que fará se em ti se achar? 



Ditoso quem se partir 
Para ti, terra excellente. 
Tão justo e tão penitente, 
Que despois de a ti subir, 
Lá descanse eternamente! 



TOMÀ I 



CARTA A HUMA DAMA 

Querendo escrever hum dia 
O mal, que tanto estimei. 
Cuidando no que poria, 
Vi Amor que me dizia: 
Escreve, qu'eu notarei. 
E como para se ler 
Não era historia pequena 
A que de mi quiz fazer. 
Das azas tirou a penna 
Com que me fez escrever. 



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48 

E, logo como a tirou, 
Me disse: Aviva os esprilos; 
Que pois em teu favor sou, 
Esla penna, que te dou, 
Fará voar teus escritos. 
E dando-me a padecer 
Tudo o que quiz que puzesse, 
Pude em fim delle dizer. 
Que me deo com qu'escrevesse 
O que me deo a escrever. 



Eu qu'este engano entendi, 
Disse-lhe : Qu'escreverei ? 
Respondeo, dizendo assi: 
Altos effeitos de ti, 
E daquella a quem te dei. 
E ja que te manifesto 
Todas minhas estranhezas. 
Escreve, pois que te prezas. 
Milagres d'hum claro gesto, 
E de quem o vio, tristezas. 

Ah Senhora, em quem se apura 
A fé de meu pensamento 1 
Escutae e estae altento, 
Oue com vossa formosura 
Iguala Amor meu tormento. 
E, postoque Ião remota 
Estejais de m'escutí^r 
Por me nao remediar. 
Ouvi, que pois Amor nota, 
Milagres são de notar. 



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<9' 

Escrevem vários Authores, 
Que junlo da clara fonte 
Do Ganges, os moradores 
Vivem do cheiro das flores 
Que nascem naquelle monte. 
Se os sentidos podem dar 
Mantimento ao viver. 
Não he logo d espantar, 
Suestes vivem de cheirar, 
Que viva eu só de vos ver. 



Huma arvore se conhece, 
Que na geral alceia 
Ella tanto s'entristece. 
Que, como he noile, florece, 
E perde as flores de dia. 
Eu, qu'em ver-vos sinto o preço 
Qu'em vossa vista consiste. 
Em a vendo m'entristeço, 
Porque sei que não mereço 
A gloria de ver-me triste. 

Hum Rei de grande poder 
Com veneno foi criado. 
Porque, sendo coBtumado, 
Não lhe pudesse empecer, 

. Se despois lhe fosse dado. 
Eu, que criei de pequena 
A vista a quanto padece, 
Desta sorte m^aeontece, 

' Que não me faz mal a pena, 
Senão quando me fallece. 



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•20 



Quem da doença Real 

De longe enfermo se senle^ 

Por segredo natural 

Fica são vendo somente 

Hum volátil animal. 

Do mal, que Amor em mi cria, 

Quando aquella Phenix vejo, 

São de todo ficaria; 

Mas fica-me hydropesia. 

Que quanto mais, mais desejo. 

Da vibora he verdadeiro, 
Se a consorte vae buscar, 
Qu'em se querendo juntar. 
Deixa a peçonha primeiro, 
Porque Ih' impede o gerar. 
Assi quando m'apresento 
A vossa vista inhumana, 
A peçonha do tormento 
Deixo á parte, porque dana 
Tamanho contentamento. 



Querendo Amor suslentar-se. 
Fez huma vontade esquiva 
D'huma estatua namorar-se: 
Despois, por manifestar-se, 
Converleo-a em mulher viva. 
De quem m'irei eu queixando. 
Ou quem direi que m'engana 
Se vou seguindo, e buscando 
Huma imagem, que dliumana 
Em pedra se vai tornando? 



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2\ 

D*huma fonte se sabia, 
Da qual certo se provava, 
Que quem sobre ella jurava, 
Se falsidade dizia, 
Dos olhos logo cegava. 
Vós, que minha liberdade. 
Senhora, tycannizais, 
Injustamente mandais, 
Quando vos fallo verdade, 
Que vos não possa ver mais. 

Da palma s'escreve e canta 
Ser tão dura e tão forçosa, 
Que pezo não a quebranta. 
Mas antes, de presumpçosa, 
Com elle mais se levanta. 
Co'o pezo do mal que dais, 
A constância qu'em mi vejo. 
Não somente ma dobrais, 
Mas dobra-se meu desejo, 
Com qu'então vos quero mais. 

Se alguém os olhos quizer 
Ás andorinhas quebrar. 
Logo a mãe, sem se deter, 
Huma herva lhe vai buscar 
Que lhes faz outros nascer. 
Eu que o& olhos tenho attento 
Nos vossos, qu estrellas são, 
Cegão-se os do entendimento. 
Mas nascem-mc os da razão 
De folgar com meu lormenlo. 



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22 

Lá para onde o sol sahe, 
Descobrimos, navegando, 
Huno novo rio adnoirando, 
Que o lenho que nelle cahe, 
Em pedra se vai tomando. 
Não s'espantem disto as gentes; 
Mais razão será qu'espante 
Hum coração tão possante, 
Que com lagrimas ardentes 
Se converte em diamante. 



Pode hum mudo nadador 
Na linha e canna influir 
Tão venenoso vigor, 
Que faz mais não se bulir 
O braço do pescador. 
Se começãó de beber 
Deste veneno excellente 
Meus olhos, sem se deter, 
Não se sabem mais mover 
. A nada que se apresente. 

Isto são claros* sinais 
Do muito qu'em mi podeis: 
Nem podeis desejar mais; 
Que se ver-vos desejais, 
Em mi claro vos vereis. 
E quereis ver a que fim 
Em mi. tanto bem se pôs? 
Porque quiz Amor assim, 
Que por vos verdes a vós, 
Também me vísseis a mim. 



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25 

Dos males que m'ordenais, 
Qu'inda tenho por pequenos, 
Sabei, se mos escutais, 
Que ja não sei dizer mais, 
Nem vós podeis saber menos. 
Mas ja que a tanto tormento 
Não SC acha quem resista, 
Eu, Senhora, me contento 
De terdes meu soffrimento 
Por alvo de vossa vista. 



Quantos contrários consente 
Amor, por mais padecer! 
Que aquella vista cxcellente, 
Que me faz viver contente, 
Me faça tão triste ser! 
Mas dou este entendimento 
Ao mal, que tanto m'offendc, 
Como na vela s'entende. 
Que se se apaga co'o vento, 
Co'o mesmo vento se accende. 



Exprimentou-se algum'hora 
D'avê, que chamão Gamão, 
Que se da casa, onde mora. 
Vê adultera senhora, 
Morre de pura paixão. 
A dor he tão sem medida, 
Que remédio lhe não vai. 
Mas oh ditoso animal, 
Que pôde perder a vida, 
Quando vc tamanho mal ! 



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24 



Nos gostos de vos querer 
Estava agora enlevado, 
, Se não fora salteado 
Das lembranças de temer 
Ser por outrem desamado. 
Estas suspeitas tão frias, 
Com que o pensamento sonha, 
São assi como as harpias, 
Que as mais doces iguarias 
Vão converter em peçonha. 

Faz-me este nial infinito 
, Não poder jamais dizer, 
Por não vir a corromper 
Os gostos que tenho escrito, 
Co'os males qu*hei d'escrever. 
Não quero que s*apregôe 
Mal tanto para encobrir, 
Porque em quanto aqui s'ouvir 
Nenhuma outra cousa sôe, 
Que a gloria de vos servir. 

OUTRA 

Dama d'estranho primor, 

Se vos for 
Pezada minha firmeza. 
Olhai não me deis tristeza, 
Porque a converto em amor. 

E se cuidais 
De me matar, quando usais 

D'esquivança, 
Irei tomar por vingança 
Amar-vos cada vez mais. 



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25 

Porém vosso pensamento, 

Como isento, 
Seguirá sua tenção, . 
Crendo qu'ein tanta aflfeição 
Não haja accrescentamento. 

Não creais 
Que desta arte vos façais 

Invencibil; 
Que Amor sobre o impossibil 
Amostra que pode mais. 

Mas ja da tenção que sigo, 

Me desdigo; 
Que se ha tanto poder nelle, 
Também vós podeis mais qu'elle 
Neste mal que usais comigo. 

MaS se for 
O vosso poder maior 

Entre nós, 
Quem poderá mais que vós, 
Se vós podeis mais que Amor? 

Despois que. Dama, vos vi, 

Entendi, 
Que perdera Amor seu preço; 
Pois o favor que lh'eu peço. 
Vos pede elle para si. 

Nem duvido 
Que não pôde, de sentido, 

Resistir; 
Pois em vez de vos ferir, 
Ficou de vos ver ferido. 



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26 

Mas pois vossa vista he lai . 

Em meu mal, 
Que posso de vós querer? 
Que mal poderei valer, 
Onde o mesmo Amor não vai. 

Se atlentar, 
Nenhum bem posso esperar: 

E oxalá 
Que vos alembrasse ja, 
Sequer para me matar. 

Mas nem com isto creais 

Que façais 
Meus serviços mais pequenos; 
Porqu'eu, quando espero menos, 
Sabei qu^enlão quero mais.. 

Nada espero; * 
Mas de mi crede este fero, 

Qu'em ser vosso,. 
Vos quero tudo o que posso, 
E não posso quanto quero. 

# 

Só por esta phantasia 

Merecia 
De meus males algum fruito; 
E não era certo muito 
Para o muito que queria. 

De maneira, 
Que não he, na derradeira. 

Grande espanto, 
Que quem. Dama, vos quer tanto, 
Que outro tanto de vós queira. 



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27 



A HUMAS SUSPEITAS 

Suspeitas, que me quereis? 
Qu'cu vos qugro dar lugar 
Que de certas me mateis, 
Se a causa, de que nasceis, 
Vós quizesseis confessar. 
Que de não Ibe achar desculpa, 
A grande mágoa passada 
Me tee a alma tão cansada, 
Que se me confessa a culpa, 
Te-la-hei por desculpada. 



Ora vede que perigos 
Têe cercado o coração. 
Que no meio da oppressão 
A seus próprios inimigos 
Vai pedir a defensão 1 
Que, suspeitas, eu bem sei, 
Como se claro vos visse. 
Que be certo o queja cuidei; 
Que nunca mal suspeitei. 
Que certo me não sabisse. 



Mas queria esta certeza 
Daquella que me atormenta; 
Porque em tamanba estreiteza 
Ver que disso se contenta, 
He descanso dá tristeza. 
Poi-que SC esta só verdade 



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28 

Me confessa limpa e nua 
De cautela e falsidade, 
Não pode a minha vontade 
Desconforme ser da sua. 



Por segredo namorado 
He certo estar conhecido 
Que o mal de ser engeitado 
Mais atormenta sabido 
Mil vezes, que suspeitado. 
Mas eu só, em quem se ordena 
Novo modo de querella, 
De medo da dor pequena, 
Venho a achar na maior pena 
O refrigério para ella. 



Ja nas iras m'inflammei, 
Nas vinganças, nos furores, 
Que ja doudo imaginei; 
E ja mais doudo jurei 
De arrancar d alma os amores. 
Ja determinei mudar-me 
Para outra parle com ira; 
Despois vim a concertar-me 
Que era bom cerlificar-me 
No que mostrava a mentira. 

Mas despois ja de cansadas 
As fúrias, do imaginar. 
Vinha emfim a rebentar 
Em lagrimas magoadas, 



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29 

E bem para magoar. 

E deixando-se vencer 

Os meus fingidos enganos 

De tão claros desenganos, 

Não posso menos fazer, 

Que conlentar-me co*os danos. 



E pedir que me tirassem 
Este mal de suspeitar 
Que me vejo atormentar, 
Indaque me confessassem 
Quanto me pôde matar. 
Olhae bem se me trazeis. 
Senhora, posto no fim; 
Pois neste eslado a que vim. 
Para que vós confesseis, 
Se dão os tratos a mim. 



Mas para que tudo possa 
Amor, que tudo encaminlia. 
Tal justiça lhe convinha; 
Porque da culpa, qu1ie vossa, 
Venha a ser a morte minha. 
Justiça tão mal olhada 
Olhae com que côr se doura. 
Que quero, ao fim da jornada. 
Que vós sejais confessada. 
Para qu'eu seja o que moura! 



Pois confessae-vos jagora, 
Indaque tenho temor 



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50 « 

Que nem nesta ultima hora 
Mc ha de perdoar Amor 
Vossos peceados, Senhora. 
E assi vou desesperado, 
Porque estes sâo os costumes 
D'amor que he mal empregado; 
Do qual vou ja condemnado 
Ao inferno de ciúmes. 



LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO 

Corre sem vela e sem leme 
O tempo desordenado, 
D'hum grande vento levado: 
O que perigo não teme, 
He de pouco exprimentado. 
As rédeas trazem na mão 
Os que rédeas não tiverao: • 
Vendo quanto mal fizerão 
A cobiça e ambição, 
Disfarçados se acolherão. 



A náo, que se vai perder, 

Destruo mil esperanças: 

Vejo o máo que vem a ter; 

Vejo perigos correr 

Quem não cuida que ha mudanças. 

Os que nunca em sella andarão, 

Na sella postos se vem: 

De fazer mal não deixarão; 

De demónio hábito tem 

Os que o justo profanarão. 



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5< 

Que poderá vir a ser 
O mal nunca refreado? 
Anda, por certo, enganado 
Aquelle que quer vaJer, 
Levando o caminho errado. 
He para os bons confusão, 
Ver que os máos prevalecerão; 
Que, posto se detiverão 
Com esta simulação. 
Sempre castigos tivevão: 



Não porque governe o leme. 
Em mar envolto e turbado, 
Que tee seu rumo mudado. 
Se perece grita e geme 
Em tempo desordenado. 
Terem justo galardão, 
E dor dos que merecerão, 
Sempre castigos tiverão 
Sem nenhuma rèdempção, 
Postoque se detiverâo. 

Na tormenta, se vier, 
Desespere na bonança. 
Quem manhas não sabe ter: 
Sem que lhe valha gemer. 
Verá falsar a balança. 
Os que nunca trabalharão, 
Tendo o que lhe não convcm, 
Se ao innocente enganarão, 
Perderão p eterno bem, 
Se do mal não s'apai1árão. 



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52 



CONVITE QUE FEZ NA ÍNDIA A CERTOS FIDALGOS 

A priQieira iguaria foi posta a Vasco de Athaide; e dizia: 

Se não quereis padecer. 
Humâ, ou duas horas tristes, 
Sabeis que haveis de fazer? 
Volveros por dò venistes, 
Que aqui não ha que comer. 
E, postoque aqui leais 
Trovinha que vos enleia, 
Corrido não estejais; 
Porque por mais que corrais, 
Não heis de alcançar a ceia. 

A segunda a D. Francisco de Almeida 

Heliogabalo zombava 
Das pessoas convidadas; 
E de sorte as enganava, 
Que a? iguarias que dava, 
Vinhão nos pralos pintadas. 
. Não lemais tal travessura, 
Pois ja não pôde ser nova; 
Porque a cêa está segura 
De vos não vir em pintura; 
Mas^ha de vir toda em trova. 

A terceira a Heitor da Silveira 

Cêa não a papareis: 
Com tudo, porque não minta, 
Para beber achareis. 
Não Caparica, mas tinta, 
E mil cousas que papeis. 
E vós torceis o focinho 



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Com csla amphibologia? 
Pois sabei que a Poesia 
, Vos dá aqui tinta por vinho, 
E papeis por 'iguaria. 

A quai*ta a João Lopes Leitão, a auem o Author fez huns versos, que vão adiante, 
sobre huina peça oe cacha, que deu a huma dama 

Porque os que vos convidarão 
Vosso estômago não danem, 
Por justa causa ordenarão, 
Se trovas vos enganarão, 
Que trovas vos desenganem. 
Vós tereis isto por tacha, 
Converter tudo em trovar; 
Pois se me virdes zombar, 
Não cuideis. Senhor, que he cacha. 
Que aqui não ha que cachar. 

Responde João Lopes 

' rezar ora- não de são, 
Eu jiiro pelo Ceo bento, 
Se de comer não me dão, 
Qu'eu não sou camaleão,. 

Que m'hei de manter do vento. 

« 

Responde o Author 

Senhor, iião vos agasteis, 
Porque Deos vos proverá; 
E se mais saber quereis, 
Nas costas deste Içreis 
As iguarias que ha. 

Virado o papel, dizia assi : 

Tendes nem migalha assada; 
Cousa nenhuma de molho; . 



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54 



E nada feito cm entpada; 
£ vento de tigelada; 
Picar no dente em remôlho: 
. De fumo tendes taçálhos; 
Ave da pena que sente 
Quem da fome anda doente; 
Bocejar de vinho e d'aIhos; 
Manjai em branco excellente. 

A derradeira a Francisco de Mello 

D'hum homem, que teve o scetro 
Da vèa maravilhosa, 
Não foi cousa duvidosa, 
Que se lhe tomava em metro 
O qu'hia a dizer em prosa. 
De mi vos quero affirmar • 
Que faça cousas mais novas, 
De quanto podeis cuidar; 
E esta cêa, que he manjar, 
Vos faça na boca em trovas. 

NÂ índia ao viso-rei, com o mote adiante 

Conde, cujo illustre peito 
Merece nome de Rei, 
Do qual muito certo sei 
Que lhe fica sendo estreito 
O cargo deViso-Rei; 
Servirdes-vos d'occupar-me 
Tanto contra meu Planeta, 
Não foi senão azas dar-me. 
Com as quaes vou a queimar-me, 
Como o faz a borboleta. 



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35 

E s'eu â penna tomar, 
Que tão mal cortada tenho, 
Será para celebrar 
Vosso valor singular 
Dinò de mais alto engenho. 
Que se o meu vos celebrasse, 
Necessário me seria 
Que os olhos d'aguia tomasse, 
Só para que não cegasse 
No sol de vossa valia. 



Vossos feitos sublimados 
Nas armas, dignos de gloria, 
São no mundo tão soados, 
Qu'em vós de vossos passados 
Se resuscita a memoria.* 
Pois aquelle animo estranho, 
Prompto para todo effeito, 
Espíanta todo o conceito: 
Como coração tamanho 
Vos pôde caber no peito? 

 clemência, que asserena 
Coração tão singular, 
S'eu nisso puzesse a penna. 
Seria encerrar o mar 
Em cova muito pequena. 
Bem basta, Senhor, que agora 
Vos sinais de me occupar; 
Que assi fareis aparar 
 penna, com que algum'hora 
Vos vereis ao Ceo voar. 



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56 

Assi vos irei louvando, 
Vós a mi do chão erguendo, 
Ambos o mundo espantando; 
Vós com a espada cortando. 
Eu com a penna escrevendo. 

MOTE QUE LHE MANDOU O TISO-REI 

9 

Muito sou meu inimigo, 
Pois que nao tiro de mi 
Cuidados, com que nasci, 
Que põe a vida em perigo. 
Oxalá quQ fora assil 

VOLTA 

Viver eu, sendo mortal, 
De cuidados rodeado. 
Parece meu natural; 
Que a peçonha não faz mal 
A quem foi nella criado. 
Tanto sou meu inimigo, 
Que por nâo tirar de mi 
Cuidados, com que nasci, 
Porei a vida em perigo. 
Oxalá que fora assi! 

Tanto vim a accrescentar 
Cuidados, que nunca amansao 
Em quanto a vida: durar. 
Que canso ja de cuidar 
Como cuidados não cansão. 
S'estes cuidados, que digo, 
Dessem fim a mi e a si, 



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57 



Farião pazes comigo; 
Que pôr a vida em perigo, 
•O bom fora para mi. 



A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR 
ALGUMAS OBRAS SUAS 

Senhora, s'eu alcançasse 
No lempo que ler quereis, 
Que a dita dos meus papeis 
Pola minha se trocasse; 
E por ver 

Tudo o que posso escrever 
Em mais breve relação. 
Indo eu onde elles vão, 
Por mi só quizesseis ler; 

Despois de ver hum cuidado 

Tão contente de seu mal, 

Veríeis o natural 

Do que. aqui vedes pintado; 

Que o perfeito 

Amor, de que sou sogeito, 

Verpis áspero e cruel. 

Aqui com tinta e papel, , 

Em mi com sangue no peito. 

Que hum contínuo imaginar 
Naquillo que Amor ordena, 
He pena, que emfim por jJenna 
Se não pôde declarar; 
Que se eu levo 
Dentro n'alma quanto devo 



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58 

De trasladar em papeis, 
Vede que melhor lereis, 
Se a mi, se aquillo qu'escrevo? • 

A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO 
DE SITIM AMARELLO 

Se derivais da verdade 
Esta palavra Sitim, 
Achareis sem falsidade. 
Que após o si lee o tim, 
Que tine em toda a Cidade. 
Bem vejo que m'entendeis; 
Mas porque não falle em vão, 
Sabei que a esta Nação 
Tanto que o si concedeis, 
O Hm logo está na mão. 

E quem da fama sarreda. 
Que tudo vai descobrir, 
Deve sempre de fugir 
De sitins, porque da seda 
Seu natural he rugir. 
Mas panno fíno e delgado. 
Qual a raxa e outros assi, 
Dura, aquenta, e he callado. 
Amoroso, e dá de si 
Mais que sitim, nem brocado. 

Mas estes, que sedas são 
Com quem s'enganão mil Damas, 
Mais vos tomão, do que dão; 
Promellem, mas não darão, 



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59 

Senão nódoas para as faitias. 
E se não me quereis crer, 
Ou tomais outro caminho, 
Por exemplo o podeis ver. 
Quando lá virdes arder 
A casa d'algum vizinho. 

Oh feminina simpreza, 
Donde estão culpas a pares, 
Que por hum Dom de nobreza, 
Deixão does da natureza, 
Mais altos e singulares! 
Hum Dom, que anda enxertado 
No nome, e nas obras não. 
Fallo como. experimentado; 
Que sitim desta feição 
Eu tenho muito cortado. 

Dizem-me qu'era amarello; 
E quem assi o quiz dar. 
Só para me Deos vingar. 
Se vem á mão amarê-lo, 
O qu'eu não posso cuidar. 
Porque quem sabe viver 
Por estas artes manhosas, 
(Isto bem pôde não ser) 
Dá a meninas formosas, 
Somente polas fazer. 

Quem vos isto diz. Senhora, 
Sérvio nas vossas armadas 
Muito, mas anda ja fora; 



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40 



E pôde ser qu'inda agora 
Traz abertas as frechadas. 
E, postoque desfavores 
O tirão de servidor, 
Quer- vos vientura melhor; 
Que dos antigos amores 
Inda lhe fica este amor. 

A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS 

Peço-vos que me digais 
As oraçõjBS que rezastes, 
Sç são poios que matastes, 
Se por vós que assi matais? 
Se são por vós, são perdidas; 
Qué qual será a oração, 
^ Que seja satisfação. 
Senhora, de tantas vidas? 

Que se vedes quantos vem 
A só vida vos pedir, 
Como vos ha Deos de ouvir, 
Se vós não ouvis ninguém? 
Não podeis ser perdoada 
jCom mãos a matar tão pronlas, 
Que se n'huma trazeis contas, 
Na outra trazeis espada. 

Se dizeis que encommendando 
Os que matastes andais; 
Se rezais por quem matais, 
Para que matais rezando? 



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4\ 

Que se na força do orar 
Levantais as mãos aos Ceos, 
Não as ergueis para Deos, 
fli^uei-las para matar. 

E quando os olhos cerrais, 
Toda enlevada na fé, 
Cerrão-se os de quem vos vê, 
Para nuhca verem mais. 
Pois se assi forem tratados 
Os que vos vem quando orais, 
Essas horas que rezais, 
São as horas dos finados. 



Pois logo, se sois servida 
Que tantos mortos não sejão, 
Não rezeis onde vos vejão, 
Ou vede para dar vida. 
Ou se quereis escusar 
Estes males que causastes, 
Resuscitae quem matastes, 
Não tjBreis por quem rezar. 

À HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNÂ 

Se n alma e no pensamento 
Por vosso me manifesto, 
Não me peza do que sento; 
Que se não soffrer tormento. 
Faço offensa a vosso gesto. 
E, pqís quanto Amor ordena, 
E quanto estalma deseja, 



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42 

Tudo á morte me condena, 
Não quero senão que seja 
Tudo pena, pena, pena. 

A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS 

Sem olhos vi o mal claro. 
Que dos olhos se seguio: 
Pois cara sem olhos vio • 
Olhos, que lhe cuslão caro. 
D olhos não faço menção, 
Pois quereis que olhos não sejão; 
Vendo-vos, olhos sobejão, 
Não vos vendo, olhos não são. 

DISPARATES NA ÍNDIA 

Este mundo es el camino 

Adó hay ducientos váos, 

Ou por onde bons e máos, 

Todos somos dei merino. 

Mas oá máos são de teor, 

Que desque mudão a côr, 

Chamão logo a El-Rei compadre; 

E emíim, dejadlos, mi madre, 

Que* sempre tee hum sabor 

De quem torto nasc^, tarde s'endireita. 



Deixae a hum que se abone: 
Diz logo de muito, sengo, 
Villas y castillos tengo, 
Todos á mi mandar sone. 



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45 

Então eu, qu'eslou àe molho, 

Godo a lagrima no olho, 

Polo virar do envés, 

Digo-lhe: tu ex illis es, 

E por isso não te olho; 

Pois honra e proveito não cabem n'hum saco. 

Vereis huns, que no seu seio 

Cuidão que trazem Paris, 

E querem com dous ceitis, 

Fender anca pelo meio. 

Vereis mancebinho de arte. 

Com espada em talabarte: 

Não ha mais Italiano. 

A este direis: Meu mano. 

Vós sois galante que farte; 

Mas pan y vino anda el camino, q no mozo garrido. 

• 
Outros em cada theatro. 
Por ofiBcio lhe ouvires 
Que se matarán con três, 
Y lo mismo haran con cuatro. 
Prezão-se de dar respostas, 
Com palavras bem compostas; 
Mas se lhe meteis a mão, 
Na paz mostrão coração. 
Na guerra mostrão as costas; 
Porque aqui torce a porca o rabo. 

Outros vejo por ahi, 

A que se acha mal o fundo. 

Que andão emendando o mundo, 



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44 



E não SC emehdão a si. ' 

Estes respondem a quem 

Delles não entende bem 

El dolor que está secreto; 

Mas porém quem for discreto, 

Responder-lhe-ha muito bem: 

Ássí entrou o mundo, assi ha de sahir. 

Achareis rafeiro velho, 

Que se quer vender por galgo: 

Diz que o dinheiro he fidalgo, 

Que o sangue todo he vermelho. 

Se elle mais alio o dissera. 

Este pelote puzera: 

Que o seu eco lhe responda; 

Que su padre era de Ronda, 

Y su madre de Anlequera, 

E quer cobrir o Céo co'huma joeira. 

Fraldas largas, grave aspeito. 
Para Senador Romano. 
Oh que grandissimo engano 1 
Que Momo lhe abrisse o peito! 
Consciência, que sobeja. 
Siso, com qiie o mundo reja, 
Mansidão outro que si; 
Mas que lobo está em ti. 
Metido em pelle de ovejal 
E sabem-no poucos. 

Guardae-vos de huns meus Senhores, 
Que ainda comprão c vendem ; 



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45 

Huns, qu'he certo, que descendem 

Da geração de pastores: 

Mostírão-se-vos bons amigos; 

Mas se vos vem em perigos, 

Escarrão-vos nas paredes; 

Que de fora dormiredes. 

Irmão, que he tempo de figos; 

Porque de rabo de porco nunca bom virote. 

Que direis d'huns, que as entranhas 

Lh'estão ardendo em cobiça, 

E se leè mando, a justiça 

Fazem de teas de aranhas? 

Com suas hypocrisias, 

Que são de vossas espias: 

Para os pequenos huns Neros, 

Para os grandes tudo feros. 

Pois tu, parvo, não sabias, 

Que lá vão leis, onde querem cruzados? 

Mas tornando a huns enfadonhos. 
Cujas cousas são notórias; 
Huns, que contão mil historias 
Mais desmanchadas que sonhos; 
Huns mais parvos que zamboas, 
Qu'estudão palavras boas, 
A que ignorância os atiça: 
Estes paguem por justiça. 
Que tee morto mil pessoas, ' 
Por vida de quanto quero. 

Adonde tienen las mentes 
Huns secretos trovadores, 



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46 

Que fazem cartas d'amores, 
De que ficão mui contentes? 
Não querem saliir á praça; 
Trazem trova por negaça; 
E se lha gabais, qu'he boa, 
Diz qu'he de certa pessoa. 
Ora que quereis que faça, 
Senão ir-roe por esso mundo? 

Ó lu, como me atarracas. 
Escudeiro de Solia, 
Com bocaes de fidalguia, 
Trazido quasi cora vacas; 
Importuno a importunar, 
Morto por desenterrar 
Parentes, que cheirão jal 
Voto a tal, que me fará 
Hum destes nunca fallar 
Mais com viva alma. 

Huns, que fallão muito, vi, 

De que quizera fugir; 

Huns que, emfim, sem se sentir, 

Andão fallando entre si; 

Porfiosos sem razão; 

E desque lomão a mão, • 

Fallão sem necessidade; 

E se algum'hora he verdade. 

Deve ser na confissão; 

Porque quem não mente. . . Ja m'entendeis. 

Oh vós, quem quer que me lerdes, » 
Qu haveis de ser avisado. 



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47 

Que dizeis ao namorado 
Que caça vento com redes? 
Jura por vida da Dama; 
Falia comsigo na cama; 
Passêa de noite e escarra; 
Por falsete na guitarra 
Põe sempre: Viva quem ama, 
Porque calça a seu propósito. 



Mas deixemos, se quizerdes. 
Por hum pouco as travessuras, 
Porqu'enlre quatro maduras 
Leveis também cinco verdes. 
Deitemos-nos mais ao mar; 
E se algum se arrecear, 
Passe três ou quatro trovas. 
E vós tomais cores novas? 
Mas nâo he para espantar; 
Que quem porcos ha menos, 
Em cada mouta lhe roncão. 



Ó vós, que sois Secretários 
Das consciências Reais, 
E (JUe entre os homens estais 
Por Senhores ordinários; 
Porque não pondes hum freio 
Ao roubar, que vai sem meio. 
Debaixo de bom governo? 
Pois hum pedaço de inferno 
Por pouco dinheiro alheio 
Se vende a Mouro e a Judeo. 



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48 

Porque a mente, affeiçoada 

Sempre á Real dignidade, 

Vos faz julgar por bondade 

A malícia desculpada. 

Move a presença Real 

Huma affeição natural, 

Que logo inclina ao Juiz 

A seu favor: e não diz 

Hum rifão muito geral, 

Que o Abbade donde canta, dahi janta? 

E vós bailais a esse som: 
Por isso, gentis pastores. 
Vos chama a vós mercadores 
Hum que só foi pastor bom. 

A JOAO LOPES LEITAO, 

SOBRE lltJMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA DAMA, 
QUE SE LHE FAZIA DONZELLA 

MOTE 

Se voása Dama vos dá 
Tudo quanto vós quizestes, 
Dizei-me: p'ra que lhe destes 
O que vos ella fez ja? 

VOLTA 

Sendo os restos envidados, 
E vós de cachas mil contos 
Sabeis com quão poucos pontos^ 
Que lhos achastes quebrados; 
Se o que tee, isso vos dá, 



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49 

Vós mui bem lho merecesles, 
Porque se a cacha lhe destes 
Tinha-vo-la feita ja. 

MOTE 

Menina formosa e crua, 
Bem sei cu 

Quem deixará (Je ser sen, 
Se vós quizereis ser sua. 

VOLTAS 

Menina mais que na idade, 
Se para me querer bem 
Vos não vejo ter vontade, 
He porque outrem vo-la tem; 
Têe-vo-la, e faz-vo-la crua. 
Porém eu 

Ja tomara nao ser meu, 
Se vós não fôreis tão sua. 

Nos olhos, e na feição 
Vos vi, quando vos olhava, 
Tanta graça, que vos dava 
De graça este ccfração: 
Não o quizestes áe crua. 
Por ser meu : 
Sc outrem vos dera o seu. 
Pôde ser fôreis mais sua. 

Menina, tende maneira, 
Que ainda não venha a ser, 
Pois não quereis quem vos quer. 
Que queirais quem vos não queira. 



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50 

OUiae nao me sejais crua, 
Que pois eu 

Onero ser vosso, e não meu, 
Sede vós minha, e não sua. 

A HUMA DAMA DOENTE 

* 

MOTE 

Da doença, em que. ora ardeis. 
Eu fora vossa mezinha 
Só com vós serdes a minha. 

VOLTAS 

He muito para notar 
Cura tão bem acertada, 
Que podereis ser curada 
Somente com me curar. 
Se quereis, Dama, trocar. 
Ambos temos a mezinha. 
Eu a vossa, e vós a minha. 

Olhae, que não quer amor, 
(Porque fiquemos iguaes) 
Pois meu ardor não curais, 
Que se cure vosso ardor. 
Eu cá sinto vossa dor; 
E se vós sentis a minha, 
Dae c lomae a mezinha. 

OUTRO 

Deo, Senhora, por sentença 
Amor, que fosseis doente. 
Para fazerdes á geníe 
Doce e formosa a doença. 



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5< 

VOLTAS 

Não sabendo Amor curar, 
Foi a doença fazer 
Formosa para se ver, 
Doce para se passar. 
Então vendo a differença 
Que ha de vós a toda a gente, 
Mandou, que fosseis doente, 
Para gloria da doença. 

E digo-vos de verdade. 
Que a saúde anda invejosa, 
Por ver estar tão formoàa 
Em vós essa enfermidade. 
Não *façais. logo detença, 
Senhora, em estar doente. 
Porque adoecerá a gente, ■ 
Com desejos da doença. 

Qu'eu por ter, formosa Dama, 
A doença, qu'em vós vejo, 
Vos confesso^ que desejo 
De cahir comvosco em cama. 
Se consentis, que me vença 
Deste mal, não houve gente 
Da saúde tão contente, 
Como eu serei da doença. 

AO MESMO 

Olhae que dura sentença 
Foi amor dar contra mil 
Que porqu'em vós me perdi, 
Em vós me busque a doença. 



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Claro está, 

Que em vós só me achará; 
Qu em mi, se me vem buscar, 
Não poderá mais achar, 
Que a forma do que foi ja. 

Que s'em vós Amor se pôs, 

Senhora, he forçado assi, 

Què o mal, que me busca a mi. 

Que vos faça mal a vós. 

Sem mentir, 

Amor me quiz destruir 

Por modo nunca cuidado. 

Pois ha de ser ja forçado 

Pezar-vos de vos servir. 

Mas sois tão desconhecida, 
E são meus males de sorte, 
Que vos ameaça a morte, 
Porque me negais a \ida. 
Se por boa 

Tal justiça se pregoa; » 
Quando desta sorte for. 
Havei vós perdão de Amor, 
Que a parte ja vos perdoa. 

Mas o que mais temo, emlim, 
He que nesta differença. 
Que se não torne a doença. 
Se me não tomais a mim." 
De verdade, 

Que ja vossa humanidade 
De que se queixe não tem; 



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^n 



55 

Pois parsu âs almas também 
Fez Amor enfermidade. 



A HUMA DAMA VESTIDA DE DO 

MOTE 

De atormentado e perdido, 
Ja vos não peço, senão 
Que tenhais no coração 
O que tendes no vestido. 

VOLTA 

Se de dó vestida andais 
Por quem ja vida não tem, 
Porqup não o haveis de quem 
Vós tantas vezes matais? 
Que brado sem ser ouvido, 
E nunca vejo senão 
Cruezas no coração, 
E grande dó no vçstido. 

A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDOrSE 
COM HUMA VELA NO ROSTO 

MOTB 

Amor, que todos oíTende, 
Teve, Senhora, por gosto. 
Que sentisse o vosso rosto 
O que nas almas accende. 

VOLTA 

Aciuelle rosto que traz 
O mundo lodo abrazado, 



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54 



Se foi da flamma tocado, 
Foi porque sinta o que faz. 
Bem sei que Amor se vos rende; 
Porém o seu presupposlo 
Foi sentir o vosso rosto 
O que nas almas accende. 



A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, 
QUE CHAMA VÃO QUARESMA 

MOTE 

Não estejais aggravada, 
Senão se for de vós mesma; 
Porqu'a mulher, que he errada, 
Com razão pela Quaresma 
Deve ser disciplinada. 

VOLTAS 

Quererdes profano amçr 
Em Quaresma,, he consciência : 
Açoutes e penitencia 
Vós está muito melhor. 
Não fiqueis disto affrontada, 
Pois a culpa he vossa mesma; 
Que mulher, que he tão malvada, 
He bem que pela Quaresma 
Seja bem disciplinada. 

Se a penitencia vos vai, 
Mui bem açoutada estais; 
Pois por Quaresma pagais 
Vossos vicios do carnal. 
Não torneis a ser errada, 



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55 

Nem condemneis a vós mesma, 
Pois estais ja emendada; 
E não sereis por Quaresma 
Outra vez disciplinada. 



A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAiVUSA, 
QUE LHE PROMETTEO 

Quem nò mundo quizer ser 

Havido por singular, 

Para mais s'engrandecer, 

Ha de trazer sempre o dar • 

Nas ancas do prometter. 

E ja que vossa mercê, 

Largueza tee por divisa, 

Como o mundo todo vê, 

Ha mister que tanto dê, 

Que venha a dar a camisa. 



A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, 
POR NOME FOAA dos ANJOS 

MOTE 

Senhora, pois me chamais 
Tao sem razSio tão máo nome, 
Inda o diabo vos tome. 

VOLTAS 

Quem quer que vio, ou que leo, 
Terá por novo e moderno. 
Ter quem vive no inferno, 
O pensamento no Ceo. 
Mas se a vós vos pareceo. 



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5fi 

Que m'estava bem tal nome, 
Esse diabo vos tome. 

Perdido mais que ninguém 
Confesso, Senhora, ser; 
Mas o diabo não quer 
Aos Anjos tamanho beni. " 
Pois logo não me convém, 
Ou se me convém tal nome, 
Será para que vos tome. 

Se vos benzeis com caulella, 
Como de Anjo^ e não de luz, 
Mal pode fugir da Cruz, 
Quem vós tendes posto nella. 
Mas ja que foi minha eslrella 
Ser diabo, e ler tal nome, 
Guardae-vos, que vos não tome. 

Ja que chegais tanto ao cabo, 
Com as mãos postas aos Ceos, 
Vou sempre pedindo a Dfios, 
Que vos leve este diabo. 
Eu^ Senhora, não me gabo; 
Mas pois que 'me dais tal nome, 
Tomo-o, para que vos tome. 

A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR 

MOTE 

Qual terá culpa de nós 
Neste mal, que todo he meu? 
Quando vindes, não vou eu, 
Quando vou, não vindes vós. 



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57 



VOLTA 



Reinando Amor em dous peitos, 
Tece tantas falsidades, 
Que de conformes vontades 
Faz desconformes effeitos. 
Igualmente vive em nós; 
Mas por desconcerto seu 
Vos leva, se venho eu, 
Me leva, se vindes vós. 

mote: sku 

Descalça vai pela neve: 
Assi faz quem Amor serve. 

VOLTAS 

Os privilégios que os Reis 
Não podem dar, pôde amor, 
Que faz qualquer amador 
Livre das humanas leis. 
Mortes e guerras cruéis. 
Ferro, frio, fogo e neve. 
Tudo soffre quem o serve. 

Moça formosa despreza 
Todo o frio, e toda a dor. 
Olhae quanto pôde Amor 
Mais que a própria natureza. 
Medo, nem delicadeza 
Lh'impede que passe a neve. 
Assi faz quem Amor serve. 

Por mais trabalhos que levo, 
A tudo se oíTrcccria; 



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58 

« 

Passa pela neve fria, 
Mais alva*que a própria neve; 
Com todo frio se atreve. 
Vede em que fogo ferve 
O triste, que a Amor serve. 

OUTRO ALHEIO 

A dor que a minha alma sente. 
Não na sabe toda a gente. 

VOLTAS 

Qu'estranho caso de Amor! • 
Que desejado tormento 1 
Que venho a ser avarento 
Das dores de minha dor! 
Por me não tratar peor, 
Se se sabe, ou se se sente. 
Não na digo a toda a gente. 

Minha dor e causa delia 
De ninguém ouso fiar; 
Que seria ^^venlurar 
A perder-me, ou a perdella. 
E pois só com padecella, 
A minha alma está contente. 
Não quero que o saiba a gente. 

Ande no peito escondida. 
Dentro n'alma sepultada; 
De mi só seja chorada, 
De ninguém seja sentida. 
Ou me mate, ou me dô vida, 



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59 



Ou viva Iriste ou contente, 
Não ma saiba toda a gente. 



OCTRO SEU 



D'alma, e de quanto tiver, 
Quero que me despojeis, 
Com tanto, que me deixeis 
Os olhos para vos ver. 



VOLTA 



Cousa este corpo não tem, 
Que ja não tenhais rendida: 
Despois de tirar-lhe a vida, 
Tirae-lhe a morte lambem. 
Se mais tenho que perder. 
Mais quero que me leveis. 
Com tanto que me deixeis 
Os olhos para vos ver. 



MOTE ALHEIO 



Amores de huma casada. 
Que eu vi pelo meu mal. 



VOLTAS 



N'huma casada fui pôr 
Os blhos,^ de si senhores: 
Cuidei que fossem amores, 
Elles fizerão-se amor. 
Faz-se o desejo maior 
Donde o remédio não vai, 
]Em perigo de meu mal. 



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•60 

Não me pareceo que Amor 
Pudesse tanto comigo. 
Que donde entra por amigo, 
Se levanle por senhor. 
Leva-me de dor eai dor, 
E de final em final, 
Cada vez para mór mal. 

OUTRO SEU 

Enforquei minha esperança; 
Mas Amor foi tão madraço, 
Que lhe cortou o baraço. 

VOLTA 

Foi a esperança julgada 
Por sentença da Ventura, 
Que pois me teve á pendura, 
Que fosse dependurada: 
Vem Cupido com a espada, 
Corta-lhe cerce o baraço. 
Cupido, foste madraço. 

OUTRO SEU 

Puz o coração nos olhos, 
E os olhos puz no chão. 
Por vingar o coração. 

VOLTA 

O coração invejoso 
Como dos olhos andava, 
Sempre remoques me dava 
Que não era o meu mimoso: 
Venho eu de piedoso 



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Do Senhor meu coração, 
E bolo os olhos no chão. 

OUTHO SEU 

Paz meus olhos n'huma funda, 
E Gz hum tiro com ella 
Ás grades d'huma janella. 

V0I.TA 

Huma Dama, de malvada, 
Tomou seus olhos na mão; 
E tirou-me huma pedrada 
Com elles ao coração. 
Armei minha funda então, 
E puz os meus olhos nella, 
Trape, quebrei-lhe a janella. 

ALHEIO 

De pequena tomei amor. 
Porque o não entendi; 
Agora que o conheci, 
Mata-me com desfavor. 

VOLTAS 

Vi-0 moço e pequenino, 
E a mesma idade ensina 
Que s'incline huma menina 
Ás amostras d'hum menino: 
Ouvi-lhe chamar Amor, 
.Pelo nome me venci; 
Nunca tal engano vi. 
Nem tamanho de^^imor. 



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62 

Crosceo-me de dia •em dia 
Com a idade a aífeição, 
Porque amor de criação, 
N'alma^ e na vida se cria. 
Criou-se em mi este amor, 
E senhoreou-se de mi: 
Agora que o conheci, 
Mata-me com desfavor. 

As flores me toma abrolhos, 
A morte me determina 
Quem eu trouxe de menina 
Nas meninas de meus olhos. 
Desta mágoa e desta dor 
Tenho sabido que emfim 
Por amor me perco a mim 
Por quem de mi perde amor. 

Parece ser caso estranho 
O que Amor em mi ordena, 
Qu'em idade tão pequei^a 
Haja tormento tamanho. 
Sejão milagres d' Amor, 
Hei-os de soffrer assi, 
Até que haja dó de mi 
Quem entender esta dor. 

CANTIGA VELHA 

Apartárão-se os meus olhos 
De mi tão longe. 
Falsos amores. 
Falsos, máos, enganadores. 



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65 

VOLTAS 

Tratárão-me com cautella, 
Por m'enganar mais asinha; 
Dei-lhe posse d'alma minha, 
Forão-me fugir com ella. 
Não ha vê-los, nem ha vella, 
De mi l3o longe. 
Falsos amores, 
Falsos, máos, enganadores! 

Entreguei-lhe a liberdade, 
E, emfim, da vida o melhor; 
Forão-se; e do desamor 
Fizerão necessidade. 
Quem teve a. sua vontade 
De si tâo longe? 
Falsos amores, 
E oxalá enganadores! 

OUTRA 

Falso Cavalheiro, ingrato, 

Enganais-me, 

Vós dizeis, que eu vos mato, 

E vós matais-me. 

VOLTAS 

Costumadas artes são 
Para enganar innocencias, 
Piedosas apparencias 
Sobre isento coração. 
Eu vos amo, e vós ingrato 
Magoais-me, 



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64 

Dizendo, que eu vos maio, 
E vós matais-me. 



Vede agora qual de nós 
Anda mais perto do fim, 
Que a justiça faz-se em mim, 
E o pregão diz que sok vós. 
Quando mais verdade trato 
Levantais-me 

Que vos desamo e vos mato, 
E vós matais-me. 

PROPBIO 

Se de meu mal me contento, 
He porque para vós 'vejo 
Em todo o mundo desejo, 
E em ninguém merecimento. 

VOf.TA 

Para quem vos soube olhar 
Tão impossivel foi ser 
O poder-vos merecer, 
Como o hãó vos desejar. 
Pois logo a meu pensamento 
Nenhum remédio lhe vejo, 
Senão se der o desejo 
Azas ao. merecimento. 

ALHEIO 

Vós, Senhora, tudo tendes. 
Senão que tendes os olhos verdes.- 



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65 

VOLTAS 

Dolou em vós natureza 
O summo da perfeição; 
Que o qu'em vós he senão, 
He em outras gentileza: 
O verde não se despreza, , 
Que, agora que vós os tendes, 
São bellos os olhos, verdes. 

Ouro e azul be a melhor • 
Côr, por qUe a gente se perde; 
Mas a graça desse verde 
Tira a graça a toda côr. 
Fica agora sendo a flor 
A côr, que nos olhos tendes, 
Porque são vossos e verdes. 

ALHEIO 

Para que me dan tormento. 
Aproveçhando tan poço? 
Perdido, mas no tan loco. 
Que descubra lo que siento. 

VOLTAS 

Tíempo perdido es aquel 
Que se passa en darme afan, 
Pues cuanto más me lo dan^ 
Tanto menos siento dél. 
Que descubra lo que siento? 
No lo haré, que no es tan poço ; 
Que no puede ser tan loco 
Quien tiene tal pensamiento. 



fOMO lY 



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• 



66 

Sepan que me manda Amor, 
Que de tan dulce querella, 
A nadie dé parte delia, 
Porque la sienta mayor. 
Es tan dulce mi tormento, 
Que aun se me antoja poço; 

Y si es mucho, quedo loco 
De gusto de lo que siento. 

ALHEIO 

De vucstros ojos centellas, 
Que encienden pechos de hielo, 
Suben por el aire ai cielo, 

Y en llegando son estrellas. 

* VOLTAS 

Falsos loores os dan, 
Que essas centellas tan raras 
No son nel cielo mas claras 
Que en los ojos donde estan. 
Porque cuando miro en ellas 
Lo como alumbran ai suelo, 
No sé que scran nel cielo; 
Mas sé que acá son estrellas. 

Ni se puede presumir 
Que ai cielo suban, Senora; 
Que la lumbre que en vós mora, 
No tiene más que subir; 
Mas pienso que dan querellas 
Á Dios nel octavo cielo, 
Porque son acá en el suelo 
Dos tan hermosas estrellas. 



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67 

ALHKIO 

De dentro tcngo mi mal, 
Que de fiíera no hay senal. 

VOLTA 

Mi nueva y dulce querella 
Es invisible á la gente; 
El alma sola la siente, 
Que el cuerpo no es dino delia. 
Como la YÍva centella 
Se encubre en el pedernal; 
De dentro tengo tni mal. 

ALHEIO 

Amor loco, amor loco, 

Yo por vós, y vós por otro, 

VOLTAS 

Dióme Amor tormentos dós, 
Para que pene doblado; 
Uno es verme desamado, 
Otro es mancilla de vós. 
Ved que ordena Amor em nós! 
Porque vós haceisme loco, 
Que seais l^ca por otro. 

Tratais Amor de manera^ 
Que porque asi me tratais^ 
Quiere que, pues no me amais, 
Que ameis otro que no os quiera. 
Mas con todo, si no os viera 
De todo loca por otro, 
Con mas razon fuera loco. 



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L 



68 

Y lan contrario viviendo, 
Alfm, alfin, conformamos; 
Pues ambos a dós buscamos 
Lo que mas nos vá huyendo. 
Voy trás vós siempre siguiendo, 

Y vós huyendo por otro: 
Andais loca, y me haceis loco. 

ALHEIO 

Vede bem se nos meus'dias 
Os desgostos vi sobejos, 
Pois tenho medo a desejos, 
E quero mal a alegrias. 

VOLTA 

Se desejos fiii ja ter, 
Servirão de atormentar-me; 
Se algum bem pôde alegrar-me, 
Quiz-me antes entristecer. 
Passei annos, 'passei à\»s 
Em desgostos tão sobejos, 
Que só por não ter desejos. 
Perderei mil alegrias. 

PRÓPRIO w 

Pois se he mais vosso que meu, 
Senhora, meu coração, 
Eu vosso captivo são. 
Meus olhos, lembre-vos eu. 

VOLTA 

Lembre-vos minha tristeza, 
Que jamais nunca me deixa ; 



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fi9 ' 

Lembre-vos com quanta queixa 
Se quei}(a minha fimieza: 
Lembre-vos que não he meu 
Esle triste coração; 
E pois ha tanta razão^ 
Meus olhos, lembre-vos eu. 

OUTRO 

Senhora, pois minha vida 
Tendes em vosso poder; 
Por serdes delia servida. 
Não queirais que destruida 
Possa ser. 

VOLTA 

Isto não por me pezar 
De morrer, se vós quizerdes; 
Que melhor me he acabar 
Mil vezes, que supportar 
Os males que me fizerdes; 
Mas só por serdes servida 
De mi, em quanto viver, 
Vos peço que minha vida 
Não queirais que destruida 
Possa ser. 

OUTRO 

Pois damno me faz olhar-vos, 
Não quero, por não perder-vos, 
Que ninguém me veja ver-vos. 

VOLTAS 

De ver-vos a não vos ver 
Ha dous extremos morlaes; 



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70 

E são elles em si taes, 
Que hum por hum me faz morrer; 
Mas antes quero escolher, 
Que possa viver sem ver-vos, 
Minh alma, por nao perder-vos. 

Deste tamanho perigo 
Que remédio posso ter, 
Se vivo só com vos ver, 
Se vos não vejo, perigo? 
Mas quero acabar comigo, 
Que ninguém me veja ver-vos, 
Senhora, por não perder-vos. 

À TRÊS DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVAO 

MOTE 

Não sei se m'engana Helena, 

Se Maria, se Joanna; 

Não sei qual delias m'engana. 

VOLTAS 

Huma diz que me quer bem, 
Outra jura que mo quer; 
.Mas em jura de mulher 
Quem -crerá, se ellas não crem? 
Não posso não crer a Helena, 
A Maria, nem Joanna; 
Mas não sei qual mais m'engana. 

Huma faz-me juramentos 
Que só meu amor estima, . 



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' 7\ 

 outra diz que se fina, 
Joanna, que bebe os ventos. 
Se cuido que mente Helena, 
Também mentirá Joanna; 
Mas quem mente nao m'engana. 

A HUMA DAMA MAL EMPREGADA 

MOTE 

Menina, não sei dizer, 
Vendo-vos tão acabada, 
Quão triste estou por vos ver 
Formosa e mal empregada. 

VOLTAS ' 

Quem tão mal vos empregou, 
Pouco de mi se dohia, 
Pois não vio o quanto me, hia 
Em tirar-me o que tirou. 
Obriga o primor que tem 
Lindeza tão extremada 
Que digão quantos a vem, 
Formosa e mal empregada! 

Tomastes da formosura 
Quanto delia desejastes, 
E com ella me guardastes 
Para tão triste ventura. 
Matáveis sendo solteira, 
Matais agora em casada; 
Matais de toda a maneira, 
Formosa e mal empregada. 



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T2 



A HUMA FOAA GONÇALVES 

MOTE 

Com vossos olhos, Gonçalves, 
Senhora, captivo tendes 
Este meu coração Mendes. 

VOLTA 

Eu sou boa testímunha, 
Que Amor tem por cousa má, 
Que olhos, que §ão homens ja, 
Se nomeiem sem alcunha; 
Pois o coração apunha, 
E diz, olhos, pois vós tendes, 
Chamae-me coração Mendes. 

OUTRO 

De que me serve fugir 
De morte, dor e perigo, 
. Se me eu levo comigo? 

VOLTAS 

Tenho-me persuadido. 
Por razão conveniente, 
Que não posso ser contente, 
Pois que pude ser nascido. 
Anda sempre tão unido 
O meu tormento comigo, 
Qu'eu mesmo sou meu perigo. 

E se de mi me livrasse. 
Nenhum gosto me seria: 
Quem, senão eu, não teria 



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75 

Mal, que esse bem me tirasse? 
Força he logo que assi passe, 
Ou com desgosto comigo. 
Ou sem gosto e sem perigo. 

A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS 

Quando me quer enganar 
A minha bella perjura, 
Para mais me confirmar 
O que quer certificar, 
'Poios seus olhos me jura. 
' Como meu contentamento 
Todo se rege por elles, 
Imagina o pensamento, 
Que se faz aggravo a elles 
^ão crer tão grão juramento. 

Porém como em casos tais • 
Ando ja visto e corrente, 
Spm outros certos sipais, 
Quanto me ella jura mais, 
Tanto mais cuido que njente. 
Ent?lo vendo-lhe offender 
Huns taes olhos como aquelles, 
Deixo-me antes tudo crer, 
Só pola não constranger 
A jurar falso por elles. 

MOTE ALH£IO 

Ha hum bem, que chega e foge; 
' E chama-se este bem tal. 
Ter bem para sentir mal. 



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74 



VOLTA 



Quem viveo sempre n'hum ser, 
Inda que seja em pobreza, 
Não vio o bem da riqueza, 
Nem o mal d empobrecer: ^ 
Não ganhou para perder; 
Mas ganhou com vida igual 
Não ter bem, nem sentir mal. 

A HUMA dama; que LHE VIROU O ROSTO 

MOTI£ 

Olhos, não vos mereci 
Que tenhais tal condição, 
Tão liberaes para o chão, 
Tão irosos para mi. 

VOLTA 

Baixos e honestos andais, 
Por vos negardes a quem 
Não quer mais que aquelle bem, 
Que vós no chão espalhais? 
Se pouco' vos mereci, 
Não m'eslimeis mais que o chão, 
A quem vós o galardão 
Dais, e mo negais a mi. 

PKOPRfO 

Venceo-me Amor, não o nego; 
Tee mais força qu'eu assaz; 
Que como he cego e rapaz, 
Dá-me porrada de cego. 



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VOLTA 

Só porque- he rapaz ruim, 
Déi-lhe hum boféte zombando. 
Diz-me: Ó máo, estais-me dando. 
Porque sois maior que mim? 
Pois se eu vos descarrego, 
E etn dizendo isto, chaz; 
Torna-me outrd, tá rapa;^, 
Que dás porrada de cego. 

AO DESCONCERTO DO MUNDO 

Os bons vi sempre passar 
No mundo graves tormentos; 
E para. mais m'espantar, 
Os máos vi sempre nadar 
Em mar de contentamentos. * 
Cuidando alcançar assi 
O bem tâo mal ordenado, 
Fui máo; mas fui castigado. 
Assi, que só para mi 
Anda o mundo concertado. 

A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA 

MOTE 

Perguntais-me, quem me mata? 
Não quero responder nada, 
Por vos não fazer culpada. 

VOLTA 

E'se a penna não me atiça, 
A dizer iHjna tão forle. 



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76 

Quero-me entregar á morle, 
Antes que a vós á justiça. 
Porém se tendes cobiça 
De vos verdes tão culpada, 
Direi que não sinto nada. 

MOTE 

Esconjuro-te, Domingas, 
Pois me dás tanto cuidado, 
Que me digas se te vingas, 
Viverei menos penado. 

VOLTAS • 

Juravas-me, qup outras cabras 
Folgavas de apascentar; . 
Eu por não me magoar, 
Fingia qu'erão palabras. 
Agora d'arte te vingas ' 
D'algum meu doudo peccado, 
Qu'inda que queiras. Domingas, 
Não posso ser enganado. 

Qualquer cousa bbsca o seu; 
A fonte vai para o Tejo, 
E tu para o teu desejo, ^ 
Por te vingares do meu. 
De mi t'esqueces, Domingas, 
Como eu faço do meu gado: 
Praza a Deos, que se te vingas, 
Que morra desesperado. 

Na phántasia te pinto, 
Fallo-le, responde o monte, 



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77 

Bu^ o rio, busco a fonle, 
Endoudeço, e não o sinto: 
Domingas no valle Jurado, 
Responde o eco Domingas; 
E tu inda te não vincas 
De me ver doudo tornado! 

ALHEIO 

Se a alma ver-se não pôde 
Onde pensamentos ferem, 
Que farei para me crerem? 

VOLTAS 

Se n'alma huma só ferida 
Faz na vida mil sinais. 
Tanto se descobre mais. 
Quanto he mais escondida. 
S'esta dor tão conhecida 
Me não vem, porque não querem, 
Que farei para ma crerem? 

Se se pudesse bem ver 
Quanto callo, e quanto sento, 
Despois de tanto tormento 
Cuidaria alegre ser. 
Mas se não mo querem crer 
Olhos, que tão mal me ferem, 
Que farei para me crerem? 

ALHEIO 

Vosso bem querer. Senhora, 
Vosso mal melhor me fora. 



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78 

VOLTAS 

Ja agora certo conheço 
Ser melhor lodo tormento, 
Onde o arrependimento 
Se compra por justo preço. 
Enganou-me hum bom começo; 
Mas o fim fne diz agora 
Que o mal melhor toe fora. 

Quando hum bem he Ião damnoso, 
Que sendo bem, dá cuidado, 
O damno#fica obrigado 
A ser menos perigoso. 
Mas se a mi por desditoso, 
Co'o beto me foi mal, Senhora, 
Co'o vosso mal bem me fora. 

4 

ALHEfO 

Se toe desta terra for, 
Eu vos levarei, amor. 

, VOLTAS 

Se toe for, e vos deixar, 
(Ponho por caso, qtie possa) 
Est'alma minha^ qu'he vossa, ' 
Comvosco m1ia de ficar. 
Assi que só por levar 
A minha alma, se me for, 
Vos levarei, meu amor. 

Que mal pode maltratar-me, 
Que comvosco seja mal? 
Ou que bem pckle ser tal, 



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79 

Que sem vós possa alegrar-me? 
O mal nio pôde enojar-me, 
O bem me será maior, 
Se vos levar, meu amor. 

• 

ALHEIO 

Pequenos contentamentos, 
Hi buscar quem contenteis. 
Que a mi não- mo conheceis. 

VOLTAS 

Os gostos, que tantSs dores 
Fizerão ja valer menos, 
Não os acceila pequenos, 
Quem nunca teve maiores:' 
Bem parecem vãos favores. 
Pois tão tarde me^quereis, 
Qu'inda me não conheceis. 

Offereceis-me alegria, 
Tendo-me ja cego e mouco: 
He baixeza acceitar pouco, 
Quem tanto vos merecia. 
Ide-vos por outra via. 
Pois o bem que me deveis, 
Nunca mo satisfareis. 

ALHKIO ' 

# 
Perdigão perdoo a penna, 

Não ha mal que lhe nao venha. 

VOLTAS 

Perdigão, que o pensamento 
Subio a hum aho lugar, 



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80 

Perde a penna do voar, 
Ganha a pena do tormento: 
Não tee no ar, nem no vento, 
Azas com que se sostenha: 
Nãa ha mal que lhe não venha. 

Quiz voar a huma alta torre, 
Mas achou-se desásado; 
E vendo-se despennado. 
De puro penado mon-e. 
Se a queixumes se soccorre, 
Lança no fogo mais lenha: 
Não ha mal que lhe não venha. 



A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS 
PARA COM HUMA DAMA 

Pois a tantas perdições, 

Senhoras, quereis dar vida, 

Ditosa seja a ferida. 

Que tee taes Cirurgiões! 

Pois ventura 

Me subio a tanta altura. 

Que me sejais valedoras. 

Ditosa seja a tristura, 

Que se cura 

Por vossos rogos. Senhoras I 



Ser minha pena mortal, 
Ja qu'entendeis, que he assi, 
Não quero fallar por mi. 
Que por mi falia meu mal. 
Sois formosas, 



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8< 

Haveis de ser piedosas, 

Por ser tudo d'hama côr; 

Que pois Amor vos fez rosas 

Milagrosas, 

Fazei milagres de Amor. 

Pedi a quem vós sabeis, 

Que saiba de meu trabalho, 

Não pelo qu'eu nisso valho, 

Mas pelo que vós valeis. 

Que o valer 

De vosso alto merecer, 

Com lho pedir de giolhos, 

Fará qu'em meu padecer 

Possa ver 

O poder que tee seus olhos. 

Vossa muita fonnosura 

Com a sua tanto vai, 

Que me rio de meu mal, 

Quando cuido em quem me cura. 

A meus ais, 

Peço-vos que lhe valhais, 

Damas de Amor tão validas, 

Que nunca tal dor sintais. 

Que queirais, 

Onde não sejais 'queridas. 

CANTIGA ALHEIA 

Na fonte está Leonor 
Lavando a talha, e chorando, 
Ás amigas perguntando: 
Vistes lá o meu amor? 



TOMO IV 



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82 

VOI,TAS 

Posto O pensamento nelle, 
Porque a tudo o Amor a obriga, 
Cantava, mas a cantiga 
Erão suspiros por elle, 
Nisto eslava Leonor 
O seu desejo enganando, 
Ás amigas perguntando: 
Vistes lá o meu amor? 

O rosto sobre bua mão, 
Os olbos nó cbão pregados. 
Que de chorar ja cansados. 
Algum descanso lhe dão; 
Desta sorte Leonor 
Suspende de quando em quando 
Sua dor; e em si tornando, 
Mais pezada sente a dor. 

Não deita dos olhos ágoa. 
Que não quer que a dor s'abrande 
Amor, porque em mágoa grande 
Sécca as lagrimas a mágoa. 
Despois que de seu amor 
Soube novas perguntando, 
D'improviso a vi chorando. 
Olhae que extremos de dor! 



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85 



TROVAS 

QUE MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA 
DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECCOS d'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO 
D, FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FORA, PE- 
DINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARCAR. 

Qae diabo ha tão damnado, 
Que nãò tema a cutilada 
Dos fios seccos da espada 
Do fero Miguel armado? 
Pois se tanto hum golpe seu 
Sõa na infernal cadeia, 
Do que o demónio arreceia 
Como não fugirei eu? 

Com razão lhe fugiria, 
Se contr'elle, e contra tudo 
Não tivesse hum forte escudo 
Só em Vossa Senhoria. 
Por lanto, Senhor, proveja, 
Pois me tee ao remo atado. 
Que antes que seja embarcado, 
Eu desembargado seja. 

TROVAS 

QUE MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, 
^ INVERNANDO EM GOA 

Vossa Senhoria creia 
Que não apura o engenho 
Fome, se he como a que tenho. 
Mas afraca e corta a veia. 
E quem o contrario senle,' 



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_84_ 

Está farto em toda a hora, 
Como estoii faminto agora: 
Mas Martha*, sé está contente, 
Dá-lhe pouco de quem chora. 

E pois Vossa Senhoria 
Em geral a tudo acode, 
Acuda a mi, que só pode 
Dar-me no engenho vaha. 
Esperte esta Musa minha, 
Que o tempo traz somnolenta; 
Valha-lhe nesta tormenta 
Com essa doce mezinha, 
Que só dá vida e contenta. 

Acuda com provisão, 
Não de papel, mas provida 
D'ouro e prata; que esta vida 
Não sustentão papeis, não. 
De feitor a thesoureiro 
Ser-me-hia trabalho grande; 
Vossa Senhoria mande 
Algum remédio, primeiro, 
Com que a morte o ferro abrande. 

AJUDA DE LUIZ DE CAMÕES 

Nos Hvros doutos se trata 
Que o grande Achilles insano 
Deo a morte a Heitor Troiano; 
Mas agora a fome mata 
O nosso Heitor Lusitano. 
Só ella o pôde acabar, 
Se essa vossa condição 



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85 

Liberal e singular 

Não mete entr'elles bastão, 

Bastante para o fartar. 

A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO 

ESPARSA ^ 

Não posso chegar ao cabo 
De tamanho desarranjo, 
Que sendo vós, Senhora, Anjo, 
Vos queira tanto o Diabo. 
Dais manifesto sinal 
De minha muita firmeza, 
Que os diabos querem mal 
Aos Anjos por natureza. 

CATSTIGA 

Vi chorar huns claros olhos. 

Quando delles me partia. 

Oh que mágoa! Oh que alegria 1 

VOLTAS 

Polo meu apartamento 
Se arrazárão todos d'ágoa. 
Quem cuidou qu'em tanta mágoa 
Achasse contentamento? 
Julgue todo entendimento 
Qual mais senlir se devia, 
Se esta dor, se esta alegria? 

Quando mais perdido estive. 
Então deo a est'alma minha 
Na maior mágoa que tinha. 



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86 

O maior goslo que tive. 
Àssi, se minha alma vive, 
Foi porque me defendia 
Desta dor esta alegria. 

O bem, que Amor me não deu 
No tempo que desejei, 
Quando delle me apartei, 
Me confessou qu'era meu. 
Agora que farei eu. 
Se a fortuna me desvia 
De lograr esta alegria? 

Não sei se foi enganado, 
Pois me tinha defendido 
Das iras de mal querido, 
No mal de ser apartado. 
Agora peno dobrado, 
Achando no fim do dia 
O principio da alegria. 

VILLANCETE PASTORIL 

Deos te salve, Vasco amigo. 
Não me falias? Como assi? 
Bofe, Gil, não 'stava aqui. 

VOLTAS 

Pois onde le hão de fallar, 
Se não 'stás onde appareces? 
Se Magdanela conheces, 
Nella me podes achar. 
E como te hão d'ir buscar 



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87 

Aonde fogem de li? 
Pois nem eu estou em mi. 

Porque te nSo acharei 
Em ti, como em Magdanela? 
Porque me fui perder nella 
O dia que me ganhei. 
Quem tão bem falia, não sei 
Como anda fora de si. 
Ella falia dentro em mi. 

Como estás aqui presente, 
Se lá tens a alma e a vida? 
Porqu'he d'hum'alma perdida 
Apparecer sempre á gente. 
Se és morto, bem se consente 
Que todos fujão de ti. 
Eu também fujo de mi. 

OUTRO PASTORIL 

Porque no miras, Giraldo, 
Mi zampona como suena? 
Porque no me mira Elena. 

VOLTAS 

Vuelve acá, no estes pasmado, 
Mira que gentil sonar! 
Como te podrá mirar 
Quien no puede ser mirado? 
Y que bueno enamorado! 
No dirás, si es mala, o buena? 
No, que me hizo mudo Elena. 



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88 

Mira lan dulce armonía, 
Déjale dessos enojos. 
Tengo clavados los ojos 
Con que mirar te podia. 
Ansí Dios te dé alegria: 
No vés cuan dulce que suíjna? 
No, porque no veo Elena. 

OUTBO PASTORIL 

Crescem, Camilla, oSv abrolhos 
De chorares por Cincero: 
Não he muilo, que lhe quero, • 
Belisa, mais que meus olhos. 

VOLTAS 

Sempre os teus olhos estão, 
Camilla, d'ágoas banhados. 
De se verem desamados 
Pode ser que chorarão. 
Si, mas crescem os abrolhos, 
E tu cegas por Cincero. 
S'eu não vejo quem mais quero, 
Para que quero mais olhos? 

Se se foi ha mais d'iium íiiês. 
Teus olhos não cansarão? 
Não, que após elle se vão 
Estas lagrimas que vês. 
Fazem logo estes abrolhos 
O mato espinhoso e fero. 
Pois eu não vejo a Cincero, 
Isso só verão meus olhos. 



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89 

Chorando queres morrer? 
Mais quero viver chorando. 
Tu não vês que vás cegando? 
Se cego, como hei de ver? 
Põe na vista outros antolhos. 
Nâo posso, nem menos quero. 
Outra para outro Cincero, 
Antes não quero ter olhos. 



A IIUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES 



MOTE 



Olhos, em qu'estão mil flores, 
E com tanta graça olhais. 
Que parece que os Aniores 
Morão onde vós morais. 



VOLTA 

Vem-se rosas e boninas, 
Olhos, nesse vosso ver; 
Vem-se mil almas arder 
No fogo dessas meninas. 
E di-lo-hão minhas dores, 
Meus suspiros e meus ais; 
E dirão mais, que os amores 
Morão onde vós morais. ' 



, MOTE 

Quem se cqpfia em huns olhos, 
Nas menmas delles vô 
Que meninas não tee fé. 



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_90 

VOLTAS 

Quem põe suas confianças 
Em meninas sem assento, 
Oflfereça o soffrimento 
A duzentas mil mudanças. 
Mostrão no ar esperanças; 
Mas em seus olhos se vê 
Como não têe n'alma fé. 

EnganSo ao parecer, 
Porque no caso d amar. 
São mulheres no matar, 
E meninas no querer. 
. Quem em seus olhos se crer, 
Cem mil graças nelles vè; 
Vô-las sim, mas não ter fé. 

Amostrão-vos n'hum momento 
Favores assi a molhos; 
Mas na mudança dos olhos 
Se lhe muda o pensamento. 
Em nada ja tee assento, 
E o que mais nelles se vè 
He formosura sem fé. 

LOUVANDO E DESLOUVANDO HUMA DAMA 

CANTIGA VELHA 

Sois formosa, e tudo tendes, 
Senão que tendes os olhos verdes. 

VOLTAS 

Ninguém vos pode tirar 
Serdes tão bem assombrada; 



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9< 

Mas heis-me de perdoar, 
Que os olhos não valem nada. 
Fostes mal aconselhada 
Em querer que fossem verdes : 
Trabalhae de os esconderdes. 

A vossa testa he jardim, 
Onde Amor se desenfada; 
He tão branca e bem talhada, 
Que parece de marfim. 
Assi he; e quanto a mim, 
Isso vos nasce de a terdes 
Tão perto dos olhos verdes. 

Os cabellos desatados 
O mesmo sol escurecem; 
Senão que por ser ondados, 
Algum tanto desmerecem: 
Mas á fé» que se parecem 
A furto dos olhes verdes, 
Não vos peze, não, de os terdes. 

As pestanas têe mostrado 
Ser raios, que abrazão vidas; 
Se não forão tão compridas, 
Tudo o mais era pintado: 
Elias me línhão levado 
A alma, sem o vós sabet-des, 
Se não forab os olhos verdes. 

O mimo desse carão 

Nem pôr-lhe os olhos consente: 

O ser liso e transparente 



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92 

Rouba todo o coração: 
Inda assi achareis nação, • 
Que lhe não peze de os verdes; 
Mas não seja co'os olhos verdes. 

Esse riso, que he composto 
De quantas graças nascerão, 
Senão que alguns me disserão, 
Vos faz covinhas no rosto. 
Na vontade tenho posto 
Dar-vos a alma, se quizerdes, 
A Arôco dos olhos verdes. 

Nunca se vio, nem se escreve 
Boca co'huma graça igual, 
Se não fora de coral, 
E os dentes de côr de ,neve. 
Dou-me eu a Deos, que me levei 
Soffrerei quanto tiverdes. 
Não me tenhais olhos verdes. 

Essa garganta merece 
Outras palavras nãp minhas. 
Senão qu'he feita em rosquinhas 
D'alfenim, ao que parece. 
Eu sei bem quem se offerece 
A tomar tudo o que tendes, 
E tambeiíi os olhos verdes. 

Essas mãos são ferropcas: 
Só o vê-las enfeitiça; 
Senão que são alvas, cheias, 
E tee a feição roliça; 



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Com que appellais por justiça, 
Para cora ellas prenderdes 
Qnem vê vossos olhos verdes. 

A vossa galantaria 
Matará a quem fallardes: 
Tendes huns desdéns e tardes, 
Que eu logo vos roubaria. 
Oh dou-rae a Santa Maria! 
Sou cujo de quanto tendes, 
E também desses olhos verdes. 

AO MESIMO 

Tudo tendes singular, 

Com que os corações rendeis. 

Senão que rindo fazeis 

Covinhas para enterrar: 

E para resuscitar 

Tee força a graça que tendes; 

Senão que tendes os olhos verdes. 

Tudo, Senhora, alcançais, 
Quanto o ser formosa alcança. 
Senão que dais esperança 
Co'os olhos com que matais. 
Se acaso os alevantais, 
He paria as almas renderdes; 
Senão que tendes os olhos verdes. 



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94 



A DOM ANTÓNIO, SENHOR DE CASCAES, 



QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS GALLINHÂS RECHEADAS POR HUMA COPLA 

QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCIPIO DA PAGA 

MEIA GALLINHA RECHEADA 



Cinco gallínhas e meia 
Deve O Senhor de Cascais; 
E a meia vinha cheia 
De appetite para as mais. 



MOTE 



Catharína bem promette; 
Ora má! como ella mente! 



VOLTAS 

Catharína he mais formosa 
Para mi, que a luz do dia; 
Mas mais formosa seria, 
Se não fosse mentirosa. 
Hoje a vejo piedosa, 
Á manhãa tão differente. 
Que sempre cuido que mente. 

Prometteo-me hontem de vir, 
Nunca mais appareceo; 
Creio que não prometteo, 
Senão só por me mentir. . 
Faz-me, emfim, chorar e rir; 
Rio, quando me promette, 
Mas choro quando me mente. 



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95 

Jurou-me aquella cadella 
De vir, pela alma que tinha; 
Enganou-me; tinha a minha; 
Deo-lhe pouco de perdella. 
A vida gasto após ella> 
Porque ma dá, se promette, 
Mas tira-ma quando mentb. 



Má, mentirosa, làalvada. 
Dizei, porque me mentis? 
Prometíeis, e então fugis? 
Pois sem tornar, tudo he nada. 
Não sois bem aconsdhada; 
Que quem promette, se mente« 
O que perde não o sente. 

Tudo vos consentiria 
Quanto quizesseis fazer. 
Se este vosso promeller 
Fosse por me ter hum dia. 
Todo então me desfaria 
Com gosto; e vós de contente, 
Zombarieis de quem mente. 

Mas pois folgais de mentir, 
Promettendo de me ver, 
Eu vos deixo o prometter, 
Deixae-me vós o servir: 
Haveis então de sentir 
Quanto a minha vida sente 
O servir a quem lhe mente. 



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^90 

Calharina me menlio 
Muitas vezes, sçm ter lei, 
E todas lhe perdoei 
Por huma só que cumprio. 
Se como me consenlio 
Fallar-lhe, o mais me consente, 
Nunca mais direi que mente. 

MOTE 

A alma, iq[u'está offrecida 
A tudo, nada Ihahe forte; 
Assi passa o hem da vida, 
Como passa o mal ^ morte. 

VOLTA 

De maneira me succede 
O que temo, e o que desejo. 
Que sempre o que temo, vejo, 
Nunca o que a vontade pede. 
Tenho tão offer^ida 
Alma e vida a Ioda a sorte. 
Que isso me dera da morte. 
Como ja me dá da vida. 

MOTE 

Ferro, fogo, frio e calma. 
Todo o mundo acabarão; 
Mas nunca vos tirarão. 
Alma minha, da minha alma. 

VOLTA 

Não vos guardei, quando vinha, 
Em torre, força, ou engenho; 



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97 

Que mais guardada"^ vos lenho 
Em vós, que sois alma minha. 
Alli nem frio, nem calma, 
Não podem ler jurdição; 
Na vida sim, porém não 
Em vós que tenho por alma. 

MOTE 

Esperei, ja não espero 
De mais vos servir. Senhora; 
Pois me fazeis cada hora 
Tanto mal, que desespero. 

VOLTA 

Pois sei certo qiie folgais. 
Quando mais mal me fazeis, 
E que nunca descansais. 
Senão quando me mostrais 
Quão pouco bem me quereis; 
Siervir-voé mais não espero 
Pois meu viver empeora 
Com me fazerdes. Senhora, 
Tanto, mal, que desespero. 

MOTE 

Descalça vai para a fonte 
Leonor pela verdura; 
Vai formosa, e não segura. 

VOLTAS 

Leva na cabeça o pote, 
O testo nas mãos de prata, 
Cinta de fína escarlata. 



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98 

Sainho de chamalole: 
Traz a vasquinha de cole, 
Mais branca que a neve pura; 
Vai formosa, e não segura. 

Descobre a louca a garganta, 
Cabcllos de ouro entrançado. 
Fila de côr d encarnado, 
Tão linda que o» mundo espanta: 
Cliove nelta graça lanta, 
Que dá graça á formosura; 
Vai formosa, e não segura. 

SíOTE 

Quem disser que a barca pende, 
Dir-lhe-heiy mana, que mente. 

VOLTAS 

Se vos quereis embarcar, 
E para isso estais no cães, , 
Entrae logo: que tardacs? 
Olhae qu'eslá preamar: 
E se outrem, por vos fretar, 
Vos disser qu^esla que pende, 
Dir-lhe-hei, mana, que mente. 

Esta barca he de carreira; 
Toe seus apparellios novos: 
Não ha corno ella outra em Povos 
Boa de leme, e veleira: 
Mas^ se por ser a primeira. 
Vos disser alguém que pende, 
Dir-llie-liei, mana, que mente. 



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99 

MOTE 

Com razão queixar-me posso 
De vós, que mal vos queixais; 
Pois, Senhora^ vos sangrais, 
Que seja n*lium corpo vosso. 

Voltas 

Eu para levar a palma, 
Com que ser vosso mereça. 
Quero que o* corpo padeça 
Por vós, que delle sois alma. 
Vós do corpo vOs queixais, 
Eu queixar-me de vós posso. 
Porque, lendo hum corpo vosso. 
Na minha alma vos sangrais. • 

E sem fazer differença 
No que de mi possuis, 
Pelo pouco que sentis. 
Dais á minh'alma doença. 
Porque dous aventurais? 
Oh não seja o damno nosso! 
Sangrcse este corpo vosso,- 
Porque, minha alma, vivais. 

E inda, se alteíitardes bem, 
Seguis medicina errada, 
Porque para ser sangrada 
Hum*alma sangue não tem. 
E pois em mi sarar posso 
Males, que á minha alma dais. 
Se inda outra \et vos sangrais, 
Seja neste corpo vosso. 



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J00_ 

MOTE 

Ojos, herido me hábeis, 
Acabad ya de matarme; 
Mas muerto volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 

VOLTAS 

Pues me distes tal herida, 
Gon gana de darme muerte, 
El morir me es dulce suerte, 
Pues com morir me dais vida. 
Ojos, qué os deteneis? 
Acabad ya de matarme; 
Mas muerto volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 

La llaga cierto ya es mia, 
Aunque, ojos, vós no querrais; 
Mas si la muerte me dais, 
El morir me es alegria. 
Y assí digo que acabeis, 
O ojos, ya de matarme; 
Mas muerto volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 

A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, 

QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO 

Mas porém a que cuidados? 

Tanto maiores tormentos 
Forao sempi^e os que soífri, 



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101 

Daquillo que cabe cm mi, 
Que não sei que pensamentos 
São os para que nasci. 
' Quando vejo este meu peilo 
A perigos arriscados 
Inclinado, bem suspeito 
Que a cuidados sou sujeito, 
Mas porém a que cuidados? 

AO MFISMO 

Que vindes em mi buscar. 
Cuidados, que sou caplivo? 
Eu não tenho que vos dar: 
Se vindes a me matar, 
Ja ha muito qiie não vivo ; 
Se vindes, porque me dais 
Tormentos, desesperados, 
Eu, que sempre sofiri mais. 
Não digo que não venhais; 
Mas porém a que, cuidados? 

AO MESMO 

Se as penas que Amor me deu, 
Vem por tão suaves meios, • 
Não ha que temer receios; 
Que vai hum cuidado meu 
Por mil descansos alheios. 
Ter n'huns olhos tão formosos 
Os sentidos enlevados, 
Bem sei qu'em baixos estados 
São cuidados perigosos; 
Mas^ porém a que cuidados?. . . 



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102 



MOTE AUIEIO 



Trabalhos descansariâo, 
Se para vós trabalhasse; 
Tempos tristes passarião, 
Se algum 'hora vos lembrasse. 

GLOSA 

Nunca o prazer se conhece, 
Senão despois da tormenta: 
Tão pouco Q bem permanece, 
Que se o descanso florece, 
Logo o trabalho arrebenta. 
Sempre os bens se lograrião. 
Mas os males tudo atalhão; 
Porém ja que assi porfiãa, 
Onde descansos trabalhão. 
Trabalhos descamarião 

Qualquer trabalho me fora 
Por vós grão contentamento: 
Nada sentira, Senhora, 
Se vira disto algum^hora 
Em vós hum conhecimento. 
Por piai que o mal me tratasse, 
Tudo por bem tomaria; 
Postoque o corpo cansasse, 
*A alma descansaria. 
Se para vós trabalhasse 

Quem vossas cruezas ja 
SoflVeo, a tudo se [)oz; 
(]Qstumu(ío ficara; 



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E muito nicHior será. 
Se trabalhar para vós. 
Tristezas esquecerião, 
Postoque mal me tratarão; 
Annos não me Icmbrarião, 
Que como est'outros passarão, 
Tempos tristes passariõo. 

Se fosse galardoado 
Este trabalho tão duro, 
Não vivera magoado. 
Mas não o foi o passado, 
Como o será o futuro? 
De cansar não cansaria, 
Se quizercis, que cansasse; 
Cavar, morrer, fa-lo-hia; 
Tudo, emfim, esqueceria, 
Se algum'hora vos lembrasse. 

MOTE ALHEIO 

Triste vida se me ordena, 
Pois quer vossa condição 
Que os males, que dais \)oy pena. 
Me fiquem por galardão. 

(ÍLOSA 

Despois de sempre soffrer, 
Seníiora, vossas cruezas, 
A pezar de meu querer, 
Me quereis satisfazer 
Meus serviços com tristezas. 
Mas, pois em balde resisle 



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\04 

Quem vossa^ vista condena, 
Prestes estou para a pena; 
Que de galardão tão triste 
Triste vida se me ordena. 

De contente do mal meu 
A tão grande extremo vim, 
Que consinto em minha fim: 
Assi que vós e mais eu. 
Ambos somos contra mim. 
Mas que soffra meu tormento, 
Sem querer mais galardão, 
Não he fora de razão 
Que queira meu soffrimenlo, 
Pois quer vossa condição. 

O mal, qpe vós dais por bem, 
Esse, Senhora, he mortal; 
Que o mal, que dais como mal, 
Em muito menos se tem, 
Por costume natural. 
Mas porém nesta victoria, 
Que comigo he bem pequena, 
A maior dor me condena 
A pena, que dais por gloria, 
Que os. males, que dais por pena. 

Que mór bem me possa vir. 
Que servir-vos, não o sei. 
Pois que mais quero eu pedir. 
Se quanto mais vos servir, 
Tanto mais vos deverei? 
Se vossos merecimentos 



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De tao altâ estima são, 
Assaz de favor me dão 
Em querer que meus tormentos 
Me fiqueni por galardão. 

MOTE ALHEIO 

Ja não posso ser contente, 
Tenho a esperança perdida; 
Ando perdido entre a gente, 
Nem morro, nem tenho vida. 

GLOSA 

Despois que meu cruel Fado 
Destruio huma esperança, • 
Em que me vi levantado, 
No mal fiquei sem mudança, 
E do bem desesperado. 
O coração, que isto sente, 
Á sua dor não resiste, 
Porque vê mui claramente 
Que pois nasci para trisie, 
Ja não posso ser contente. 

Por isso, contentamentos. 
Fugi de quem vos despreza: 
Ja fiz outros fundamentos, 
Ja fiz senhora a tristeza 
De todos meus pensamentos. 
O menos que lh'entreguei, 
Foi esta cansada vida: 
Cuido que nisto acertei. 
Porque de quanto esperei 
Tenho a esperança perdida. ^ 



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J06 , 

Acabar de me perder 

Fora ja muito melhor: * 

Tivera fim esla dor, 

Que não podendo mór ser. 

Cada vez a sinto mor. 

De vós desejo esconder-me, 

E de mi principalmente, 

Onde ninguém [)ossa ver-me; 

Que pois me ganho em perdcr-me, 

Ando perdido entre a gente. 

Goslos de mudanças cheios, 
Não me busqueis, não vos quero: 
Tenho-vos por tão alheios, 
Que do bem que não espero, 
Inda me ficão receios. 
Em pena tão sem medida, 
Em tormento tão esquivo 
Que morra, mnguem duvida; 
Mas eu se morro, ou se vivo, 
Nem morro, nem tenho vida. 

A HUMA DAMA QUE SE CHAMAVA ANNA 

MOTE 

A morle, pois que sou vosso, 
Não a quero; mas se vem. 
Ha de ser todo meu bem. 

GLOSA 

Amor, qu'em meu pensamento 
Com tanta fé se fundou, 
Mc tec dado hum regimento. 



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^07 

Que quando vir meu lormenlo 
Me salve com cujo sou. 
E com esta defensão, 
Com que tudo vencer posso, 
Diz a causa ao coração: 
Não tee em mi jurdição 
 morte, pois que sou vosso. 

Por exprimentar hum dia 
Amor se me achava forte 
Nesta fé, como dizia, 
Me convidou com a morte, 
Só por ver se a temeria. 
E como ella seja a cousa 
Onde está todo meu bem, 
Respondi-lhe, como quem 
Quer dizer mais, e não ousa: 
Não a quero, nias sé vem. . . 

Não disse mais, porque então 
Entendeo quanto me toca; 
E se tinha dito o não. 
Muitas vezes diz a boca, 
O que nega o coração. 
Toda a cousa defendida 
Em mais estima se tem : 
Por isso he cousa sabida. 
Que perder por vós a vida 
Ha de ser todo meu bem, 

Á mesMa dama 

Vejo-a n'alma pintada, 
Quando me pede o desejo 
O natural que não vejo. 



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Í08 



GLOSA 



Se só de ver puramente 
Me transformei no que vi, 
De vista tão excellente 
Mal poderei ser ausente, 
Em quanto o não for dè mi. 
Porque a alma namorada 
A traz tão bem debuxada, 
E a memoria tanto voa, 
Que se a não vejo em pessoa, 
Vejo-a n'alma pintada. 

O desejo, que s'estende 
Ao que menos se concede, 
Sobre vós pede e pretende. 
Como o doente que pede 
O que mais se lhe defende. 
Eu, qu'em ausência vos vejo, 
Tenho piedade e pejo 
De me ver tão pobre estar, 
Qu'enlão não tenho que dar. 
Quando me pede o desejo. 

Como áquelle que cegou, 
He cousa vista e notória. 
Que a natureza ordenou 
Que se lhe dobre cm memoria 
O qu'em vista lhe faltou: 
Assi a mi, que não vejo 
Co'os olhos o que "desejo. 
Na memoria e na firmeza 
Me concede a natureza 
O natural que não vejo. 



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^09 



MOTE. ALHEIO 



Sem vós, e com meu cuidado, 
Olhae com quem, e sem quem. 

GLOSA 

Vendo Amor que com vos ver 
Mais levemente soffria 
Os males que mg fazia, 
Não me pôde isto soífrer; 
Conjurou-se com meu Fado; 
Hum novo mal me ordenou: 
Ambos me levão forçado, 
Não sei onde, pois que vou 
Sem vós e com meu cuidado. 

Não sei qual he mais estranho 
Destes dous males que sigo, 
Se não vos ver, se comigo 
Levar imigo tamanho. 
O que fica, e o que vem, 
Hum me mata, outro desejo: 
Com tal mal,-e sem tal bem, 
Em taes extremos me vejo: 
Olhae com quem, e sem quem! 

AO MESMO 

Amor, cuja providencia 
Foi sempre que não errasse, 
Porque n'alma vos levasse, 
Respeitando o mal d'ausencia, 
Quiz qu'em vós me transformasse. 
E vendo-me ir maltratado, 



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^<0 

Eu e meu cuidado sós. 
Proveo nisso de altenlado, 
Por não me ausentar de vós,' 
Sem vós^ e com w£U cuidado. 

Mas estalma, qu'eu trazia, 
Porque vós nella morais, 
Deixa-me cego, e sem guia; 
Que ha por melhor companhia 
Ficar onde vós ficais. 
• Assi me vou de meu bem, 
Onde quer a forte estrella, 
Sem alma, qu'em si vos tem, 
Co'o mal de viver sem ella: 
Olhae com quem, e sem quem! 

MOTE ALHER) 

Sem ventura he por demais. 

GLOSA 

Todo o trabalhado bem 
Promelte gostoso fruito; 
Mas os trabalhos, que vem, 
Para quem dita não tem 
Valem pouco, e custão muito. 
Rompe toda a pedra dura, 
Faz os homens immortais 
O trabalho quando atura; 
Mas querer adiar ventura, 
Sem ventura, he por demais. 

MOTE ALHEIO 

Minh'alma, lembrae-vos delia. 



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\\\ 

(íLOSA 

Pois o ver-vos tenho cm mais 
Que mil vicias que me deis, 
Assi como a que me dais, 
Meu bem, ja que mo negais, 
• Meus olhos, não mo negueis. 
E se a tal estado vim 
Guiado dê minha eslrella. 
Quando houverdes dó de mim. 
Minha vida, dae-lhe a fim, 
Minh'abm, lembrae-ws delia, 

MOTE ALHEIO 

Tudo pode huma aífcicãó. 

GLOSA 

Tee tal jurdição Amor 
N'alma donde se aposenta, 
E de que se faz senhor, 
Que a liberta e isenta 
De todo humano temor. 
E com mui justa razão, 
Como senhor soberano, 
Que Amor não consente dano. 
E pois me soffre tenção, 
Grilarei por desengano: 
Tudo pôde huma affeição. 

TnOVA DE BOSCÂO 

Jusla fué mi perdicion; 
De mis males soy contento; 
Ya no espero galardon, 
Piies vuestro merecimiento 
Satisfizo mi pasion. 



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^^2 



GLOSA 



Despues que Amor me formo 
Todo de amor, cual me veo, 
En las leyes, que me dió, 
El mirar me consinlió, 

Y defendióme el deseo. 
.Mas el alma, como injusta, 

En viendo tal perfeceion, 
Dió ai deseo ocasion: 

Y pues quebre ley tan justa. 
Justa fué mi pcrdicion. 

Mostrándoseme el Amor 
Mas benigno que cruel, 
Sobre tirano traidor. 
De íelos de mi dolor, 
Quiso tomar parte en él. 
Yo que tan dulce tormento 
No quiero dallo, aunque peco, 
Resisto, y no lo consiento; 
Mas si me lo toma á trueco 
De mis males, soy contento. 

Senora, ved lo que ordena 
Este Amor tan falso nuestro! 
Por pagar á cosia agena, 
Manda que de un mirar vuestro 
Haga el premio de mi pena. 
Mas vos, para que veais 
Tan enganosa intencion, 
Aunque muerto mê sintais, 
No mireis, que si. mirais, 
Ya no eipcro. galardon. 



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H5 

Pues que premio (me direis) 
Esperas que será bueno? 
Sabed, sino lo sabeis, 
Que es ló mas de lo que peno 
Lo menos que mereceis. 
Quien hace ai mal tan ufano, 
Y tan libre ai senlimiento? 
El deseo? No, que es vano. 
El amor? No, que es tirano. 
^Pues? Vuestro merecimiento. 

No pudiendo Amor robarme 
De mis tan caros despojos, 
Àunque fué por mas honrarme, 
Vos sola para matarme 
Le prestastes vuestros ojos. 
Matáranme ambos á dos; 
Mas á vos con mas razon 
Debe el la satisfaccion; 
Que á mi por él, y por vos, 
Satisfizo mi pastou. . 

ALHEIO « 

Todo es poço lo posible. 

GLOSA 

Ved que engano senorea 
Nuestro juicio tan loco, 
Que por mucho que se crea, 
Todo el bien, que se desea, 
Álcanzado, queda poço. 
Un bien de cualquiera grado. 
Si de haberse es imposible, 



TOIO IT 



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\\4 

Queda mucho deserdo. 
Mas para mucho, alcanzado, 
Todo es poço lo po^ible. 

OOTRA 

Posible es á mi cuidado 
Poderme hacer íatisfecho, 
Si fuera posible ai hado 
Hacer no hecho lo hecho, 

Y futuro lo pasado. 

Si olvido pudiera haber, 
Fuera remédio sufrible; 
Mas ya que no puede ser, 
Para contento me hacer, 
Todo es poço lo posible. 

ALHEIO 

Vos teneis mi corazon. 

GLOSA 

Mi corazon; me han robado; 

Y Amor viendo mis enojos, 
Me dijo: Fuéte llevado 
Por los mas hermosos ojos, 
Que desque vivo he mirado. ' 
Gràcias sobrenaturales 

Te lo tienen en prision. 

Y si Amor tiene razon, 
Senora, por las senales, 
Vos tenás mi corazon. 

MOTE 

Que veré que me contente? 



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n5 

GLOSA 

Desque una vez yo mire, 
Senora, vueslra beldad, 
Jamas por mi volantad 
Los ojos de vos qiiité. 
Pues sin vos placer no siente 
Mi vida, ni lo desea, 
Si no quereis que yo os vea, 
Qué veré que me contente? 

MOTE 

Sem vós, o com meu cuidado. 



• GLOSA 

Querendo Amor esconder-vos 
Em parte que vos não visse, 
Co'o exlremo de quérer-vos 
Cegou-me os olhos com ver-vos, 
Levou-vos, sem que vos visse. 
Eu cego, mas atinado. 
Quando vi que vos não via, 
Do mesmo Amor indignado, 
Ja vedes qual ficaria 
Sem vós e com meu cuidado. 

MOTE 

Retrato, vós não sois meu; 
Retralárão-vos mui mal; 
Que a serdes meu natural, 
Fôreis mofino como eu. 



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i\^ 



6L0SA 



ln(lai]ii'em vós a arlc vença 
O que o nalural lee.dado, 
Nâo fostes bem retratado; 
Que ha em vós mais differcnça, 
Que no vivo do pinlado. 
Se o lugar se considera 
Do alto estado, que vos deu 
A sorle, qu'eu mais quizera; 
Se he qu'eu sou quem d'antes era, 
Retrato, vós nâo sois meu. 

Vós na, vossa gloria posto, 
Eu na minha sepultura, 
Vós com bens, eu com desgosto; 
Pareceis-vos ao meu rosto, 
E não ja á minha ventura. 
E pois nella e vós errarão 
O qu'em mi he principal. 
Muito em ambos s'enganárão. 
Se por mi vos retratarão, 
RetratárãO'Vos mui mal. 

Mas se esse rosto fingido 
Quizerão representar, 
E houverão por bom partido 
Dar-vos a alma do sentido 
Para a gloria do lugar; 
Víreis, poslo nessa alteza. 
Que vos não ha cousa igual; 
E que nem a maior mal 
Podeis vir, nem mór baixeza. 
Que a serdes meu natural. 



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_H7 

Por isso não confesseis 
Serdes meu, qu'he desatino, 
Com que o lugar perdereis: 
Se conservar-vos quereis, 
Blazonae que sois divino. 
Que se nesta occasião 
Conhecessem qu'ereis meu. 
Por meu vos derão de mão, 

Fôreis mofino, como eu. 

MOTE 

Foi-se gastando a esperança, 
Fui entendendo os enganos; 
Do mal ficárao-me os danos, 
E do bem só a lembrança. 

GLOSA 

Nunca em prazeres passados 
Tive firmeza segura, 
Antes tão arrebatados, 
Qu'inda não erão chegados. 
Quando mos levou ventura. 
E como quem desconfia 
Ter em tal sorte mudança, 
No meio desta porfia, 
De quanto bem pretendia 
Foi-se gastando à esperança. 

Não tive por desatino . 
A occasião de perdella; 
Mas foi culpa do destino, 



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H8 

Que a ninguém, como mais dino, 
Amor pudera sostella. 
Dei-lhe tudo o quera seu, 
Não receando laes danos 
Deste, a quem alma .lhe deu: 
Quando ja não era meu, 
Fui entendendo os enganos. 

Fiquei deste mal sobejo 
A quem a causa compete 
Dizer-lhe tudo o que vejo, 
Que Amor acceita o desejo, 
Mas mente no que promete. 
Que se a mi se me obrigou 
A dar-me bens soberanos. 
Foi engano que ordenou: 
Que do bem tudo levou, 
Do mal ficárão-me os danos. 

E se dor tão desigual 
Soífro em mi com padecellos, 
Quero de novo soffrellos; 
Que por a causa ser tal, 
Não determino offendellos. 
Dobre-se o mal, falte a vida, 
Cresça a fé, falte a esperança, 
Pois foi mal agradecida; 
Fique a dor n'alma imprimida, 
E do bem só a lembrança. 

ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA 

Aquella captiva. 
Que me lêe caplivo, 



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M9 

Porque neHa vivo, 
Ja não quer que viva. 
Eu Dunca vi rosa 
Em suaves molhos, 
Que para meus olhos 
Fosse mais formosa. 

Nem no campo flores, 
Nem tíb Ceo eslrellas, 
Me parecem bellas, 
Como os meiís amores. 
Rosto singular, 
Olhos socegados, 
Pretos e cansados, 
Mas não de malar. 

Huma graça viva. 
Que nelles lhe mora. 
Para ser senhora 
De quem he captiva. 
Pretos os cabellos. 
Onde o povo vão 
Perde opinião, 
Que os louros são Lellos. 

Prelidão de Amor, 
Tão doce a figura, 
Que a neve lhe jura 
Que trocara a côr. 
Leda mansidão, 
Que o siso acompanha. 
Bem parece estranha, 
Mas barbara não. 



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^20 

Presença serena, 
Que a tormenta amansa: 
Nella emfim descansa 
Toda minha pena. 
Esta he a captiva, 
Que me têe captivo; 
E pois nella vivo, 
He força que viva. 

MOTE 

Quem ora soubesse 
Onde o Amor nasce, 
Que o semeasse! 

VOLTAS 

D' A mor e seus danos 
Me Gz lavrador; 
Semeava amor, 
E colhia enganos; 
Não vi, em meus anos, 
Homem que apanhasse 
O que semeasse. 

Vi terra florida 
De lindos abrolhos, 
Lindos para os olhos, 
Duros para a vida. 
Mas a rez perdida, 
Que tal herva pasce, 
Em forte hora nasce. 

Com quanto perdi, 
Trabalhava em vão: 



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\2\ 

Se semeei grão, 
Grande dor colhi. 
Amor nanca vi 
Que muito durasse. 
Que não magoasse. 

ALHEIO 

Se me levào ágoas, 
Nos olhos as levo. 

VOLTAS 

Se de saudade 
Morrerei ou não, 
Meus olhos dirão 
De mi a verdade. 
Por elles me atrevo 
A lançar as ágoas, 
Que mostrem as mágoas 
Que nesta alma levo. 

As ágoas» qu'em vão 
Me fazem chorar, 
Se ellas são do mar. 
Estas de amar são. 
Por ellas relevo 
Todas «minhas mágoas; 
Que se força d'ágoas 
Me leva, eu as levo. 

Todas me entristecem. 
Todas são salgadas; 
Porém as choradas 
Doces me parecem. 



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<22 

Correi, doces ágoas, 
Que se em vós in'enlevo, 
Não doem as .mágoas, 
Que no peito levo. 

ALHEIO . 

Menina dos olhos verdes. 
Porque me não vedes? 

VOLTAS 

Elles verdes são, 
E tee por usança 
Na côr esperança, 
E nas obras nao. 
Vossa condição 
Não he d'olhos verdes, 
Porque me não vedes. 

Isenções a molhos 
Qu'elles dizem terdes. 
Não são d'olhos verdes. 
Nem de verdes olhos. 
Sirvo de giolhos, 
E vós não me credes, 
Porque me não vedes, 

Havião de ser. 
Porque possa vê-los, 
Que huns olhos tão bellos 
Não se hão d'esconder: 
Mas fazeis-me crer. 
Que ja não são verdes, 
Porque me não vedes. 



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\2õ 

Verdes não o são, 
No que alcanço delles; 
Verdes são aquelles 
Qu'esperança dão. 
Se na condição 
Está serem verdes, 
Porque me não vedes? 

ALHEIO 

Trocae o cuidado, 
Senhora, comigo; 
Vereis o perigo, 
Qu'he ser desamado. 

VOLTAS 

Se trocar desejo 
O amor entre nós, 
He para qu'em vós 
Vejais o que vejo. 
E sendo trocado 
Este amor comigo, 
Ser-vos-ha castigo 
Terdes meu cuidado. 

Tendes o sentido 
D' Amor livre e isento, 
E cuidais qu'he vento 
Ser tão mal querido. 
Não seja o cuidado 
Tão vosso inimigo, 
Que queira o perigo 
De ser xlesamado. 



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^24 

Mas nunca foi lai 
Este meu querer, 
Que a quem tanto quer, 
Queira tanto mal. 
Seja eu maltratado, 
E nunca o castigo 
Vos mostre o perigo, 
Qu'he ser desamado. 



 TENÇÃO DE MIRAGUARDA 

Ver, e mais guardar 
De ver outro dia, 
Quem o acabaria? 



VOLTAS 

Da lindeza vossa. 
Dama, quem a vê, 
Impossível he 
Que guardar-se possa. 
Se faz tanta mossa 
Ver-vos hum só dia, 
Quem se guardaria? 

Melhor deve ser 
Neste aventurar 
Ver, e não guardar, 
Que guardar e ver. 
Ver e defender, 
Muito bom seria. 
Mas quem poderia? 



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<25 

MOTE 

Irme quiero, madre, 
Á aquella galera, 
Con el marinem, 
Á ser marinera. 

VOLTAS 

Madre, si me fiiere, 
Do quiera que vó, 
No lo quiero yo. 
Que el Amor lo quiere. 
Aquel nino fiero, 
Hace que me mueva 
Por un marinero 
A ser marinera. 

El que todo puede, 
Madre, no podrá, 
Pues el alma vá, 
Que el cuerpo ^e quede. 
Con él por que muero 
Voy, porque no muera; 
Que si es marinero, 
Seré marinera. 

Es tirana ley 
Del nino Senor, 
Que por un amor 
Se deseche un Rey. 
Pues desta manera ^ 
Quiero irme, quiero 
Por un marinero 
A ser marinera. 



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J26 

Decid, ondas, cuando 
Vistes vos doncellâ, 
Siendo tierna y bella, 
Andar navegando? 
Mas qué no se espera 
Daquel nino fiero? 
Vea yo quien quiero, 
Sea marinera. 

MOTE 

Saudade minha, 
Quando vos veria? 

VOLTAS 

Esle tempo vão. 
Esta vida escassa. 
Para todos passa. 
Só para mi não. 
Os dias se vão 
Sem ver este dia. 
Quando vos veria. 

Vede esta mudança 
Se está bem perdida. 
Em tão curta vida 
Tão longa esperança. 
Se este bem se alcança. 
Tudo soffreria, 
Quando vos veria. 

Saudosa dor, 

Eu bem vos enlendo; 

Mas não me defendo, 



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^27 

Porque offendo Amor. 
Se fosseis maior, 
Em maior valia 
Vos estimaria. 

Minha saudade, 
Gharo penhor meu, 
A quem direi eu 
Tamanha verdade? 
Na minha vontade 
De noite e de dia 
Sempre vos teria; 

MOTE 

Vida da minha alma, 
Nao vos posso ver: 
Isto não he vida 
Para se soffrer. 

VOLTAS 

Quando vos eu via. 
Esse bem lograva, 
A vida estimava. 
Pois então vivia; 
Porque vos servia 
Só para vos ver. 
Ja que vos não vejo 
Para qu'he viver? 

Vivo sem razão, 
Porqu'em minha dor 
Não a poz Amor; 
Que inimigos são. 



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428 

Mui grande traição 
• Me obriga a fazer 
Que viva, Senhora, 
Sem vos poder ver. 

Não me atrevo ja. 
Minha tão querida, 
A chamar-vos vida, 
Porque a tenho má. 
Ninguém cuidará. 
Que isto pôde ser, 
Setido-me vós vida, 
Não poder viver. 

MOTÊ 

Coifa de beirame 
Namorou Joanne. 

VOLTAS 

Por cousa tão pouca 
Andas namorado? 
Amas o toucado, 
E não quem o touca? 
Ando cega e louca 
Por ti, meu Joanne, 
Tu pelo beirame. 

Amas o vestido? 
Es falso amador. 
Tu não vês que Amor 
Se pinla despido? 
Cego e mui perdido 



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<29 

Andas por l)eiraine, 
E eu por ti, Joanne. 

A todos encania 
Tua parvoíce; 
De tua doudice 
Gonçalo s'espanta, 
E zombando canta: 
Coifa de beirame, 
Namorou Joanne. 

Eu não sei que viste. 
Neste meu toucado, 
Que tão namorado 
Delle te sentiste. 
Não te veja triste; 
Ama-me, Joanne, 
E deixa o beirame. 

Joanne gemia, 
Maria chorava, 
E assi lamentava 
O mal que sentia : 
(Os olhos feria, 
E não o beirame. 
Que matou Joanne). 

Não sei do que vem 
Amares vestido; 
Que o mesmo Cupido 
Vestido não tem. 
Sabes de que vem 
Amares beirame? 
Vem de ser Joírnm;. 



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150 



MOTE 



Se Helena apartar 
Do campo seus olhos. 
Nascerão abrolhos. 

VOLTAS 

 verdura amena. 
Gados, que pasceis, 
Sabei que a deveis 
Aos olhos d'Helena. 
Os ventos serena, 
Faz flores d'abrolhos 
O ar de seus olhos. 

Faz serras floridas, 
Faz claras as fontes: . 
S'isto faz nos montes. 
Que fará nas vidas? 
Tra-las suspendidas, 
Como hervas em molhos, 
Na luz de seus olhos. 

Os corações prende 
Com graça ínhumana; 
De cada pestana 
Hum'alma lhe pende. 
Amor se lhe rende, 
E posto em giolhos, 
Pasma nos seus olhos. 

ALHEIO 

Verdes são os campos 
De côr deMimão: 



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<5I 

, Assi são os olhos 
Do meu coraçsio. 

VOLTAS 

Campo, que l'esterides 
Com verdura bella; 
Ovelhas, que nella 
Vosso pasto tendes; 
D'hervas vos mantendes 
Que traz o verão; 
E eu das lembranças 
Do meu coração. 

Gados, que pasceis 
Com contentamento. 
Vosso mantimento 
Não no entendeis. 
Isso que comeis, 
Não são hen^as, não; 
São graça dos olhos 
Do meu coração. 

. ALHEIO 

Verdes são as hortas 
Com rosas e flores: 
Moças, que as régão, 
Matão-me d'amores. 

Entre estes penedos 
Que daqui parecem, 
Verdes hervas crescem. 
Altos arvoredos. 



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J52^ 

Vai desles rochedos 
Ágoa, com que as flores 
D'outras são regadas, 
Que mátão d'araores. 

Com ágoa, que cai 
Daquella espessura, 
Oulra se mislura, 
Que dos olhos sai : , 
Toda junta vai 
Regar brancas flores, 
Onde ha outros olhos, 
Que mátão. d'amores. 

Celestes jardins. 
As flores eslrellas: 
Ilortelôas delias 
São huns seraphíns. 
Rosas e jasmins 
De diversas cores, 
Anjos, que as régão, 
Mátão-me d'amores. 

ALHEIO 

Menina formosa. 
Dizei de que vem 
Serdes rigorosa 
A quem vos quer bem? 

VOLTAS 

Não sei quem assella 
Vossa formosura: 



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Que quem holão dura 
Não pôde ser bella. 
Vós sereis formosa; 
Mas a razão tem 
Que quem he irosa. 
Não parece bem. 

A mostra he de bella, 
As obras sao cruas: 
Pois quai destas duas 
Ficará na sella? 
Se ficar irosa, 
Não vos está bem : 
Fique antes formosa^ 
Que mais força tem. 

O Amor formoso 
Se pinta e se chama; 
Se he amor, ama, 
Se ama, he piedoso'. 
Diz agora a grosa » 
Que este texto tem, 
Que quem he formosa 
Ha de querer bem. 

Havei dó, menina, 
Dessa formosura; 
Que se a lerra he dura, 
Seccarse a bonina. 
Sede piedosa; 
Não veja ninguém 
Que por rigorosa 
Percais tanto ben). 



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\Õ4 

ALHEIO 

Tende-me mão nelle, 
Que hum real me deve. 

VOLTAS 

Chum real d'amor, 
Dous de confiança, 
E três d'esperança, 
Me foge o trédor. 
Falso desamor 
S'encerra naquelle 
Que hum real me deve. 

Pedio-mo emprestado, 
Não lhe quiz penhor: 
He mâo pagador; 
Tendo-mo aíferrado. 
Chum CQrdel atado, 
Ao Tronco se leve; 
Que hum real me deve. 

Por esta travessa 
Se vai acplhendo: 
Ei-lo vai correndo. 
Fugindo a grã pressa. 
Nesta mão, e nessa 
O falso se atreve. 
Que hum real me deve. 

Gomprou-me o amor, 
Sem lhe fazer preço: 
Eu não lhe mereço 
Dar-me desfavor. 



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455 

Dá-me tanta dor, 
Que ando após elle 
Pelo que me deve. 

•Eu de cá bradando, 
Elle vai fugindo; 
Elle sempi*e rindo, 
Eu sempre chorando. 
E de quando em quando 
No amor se atreve, 
Como que não deve. 

 fallar a verdade 
Elle ja pagou; 
Mas ainda ficou 
Devendo ametade. 
Minha liberdade 
He a que me deve: 
Só nella se atreve. . 

MOTE 

Dó la mi ventura, 
Que no veo alguna? 

VOLTAS 

S<ípa quien padece, 
Que en la sepultura 
Se esconde ventura 
De quien la merece. 
AUá me parece, 
Que quiere fortuna 
Que yo hallo alguna. 



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^56 

Naciendo mesquino; 
Dolor fué mi cama; 
Tristeza fué el ama, 
Cuidado el padrino. 
Vestióse d destino 
Negra vestidura, 
Huyó la ventura. 

No se halló tormento, 
Que allí no se hallase; 
Ni bien, que pasase. 
Sino como viento. 
Oh qué nacimiento, 
Que luego en Ia cuna 
Me siguió fortuna 1 

Esta dicha mia, 
Que siempre busque, 
Buscándola, hallé 
Que no la bailaria; 
Que quien nace en dia 
D^estrella tan dura. 
Nunca baila ventura. 

No puso mi estrella 
Mas ventura em min; 
Ansí vive en fin 
Quien nace sin ella. 
No me quejo delia; 
Quéjome que atura 
Vida tan esQura. . 

MOTE 

Vida de minha alma. 



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457 



VOLTA 



Dous tormentos vejo 
Grandes por extremo: 
Se vos vejo, temo, 
E se não, desejo. 
Quando me des[)ejo, 
E venho a escolher, 
Temendo o desejo, 
Desejo temer. 

CANTIGA Alheia 

Pastora da serra, 
Da serra da Estrella, 
Perco-me por ella. 

' VOLTAS 

Nos seus olhos belJos 
Tanto Amor se atreve, 
Que abraza erttre a neve 
Quantos ousão vcllos. 
Não solta os cabellos 
Aurora mais bella: 
Perco-me por ella. 

Não teve esta serra 
No meio d'allura 
Mais que a formosura, 
Que nella se encerra. 
Bem ceo fica a terra, 
Que tee tal estrella : 
Perco-me por cila. 



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<58 

Sendo entre pastores 
Causa de mil males, 
Não se ouvem nos vales 
Senão seus louvores. 
Eu só por amores 
Não sei fallar nella, 
Sei morrer por ella. 



D'alguns, que sentindo 
Seu mal vão mostrando, 
Se ri, não cuidando 
Qu'inda paga rindo. 
Eu triste, encobrindo 
Só meus males delia, 
Perco-me por ella. . 

Se flores deseja 
Por ventura bellas, 
Das que colhe delias 
Mil morrem d'inveja. 
Não ha quem não veja 
Todo o melhor nella: 
Perco-me por ella. 

Se n'agoa corrente 
Seus olhos inclina, 
Faz a luz divina 
Parar a corrente. 
Tal se vê, que senle 
Por ver-se a ágoa nella; 
Perco-me por cila. 



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159 



ENDECHAS 



Vós sois huma Dama 
Das feias do mundo; 
De toda a. má fama 
Sois cabo profundo. 

A vossa figura 
Não he para ver; 
Em vosso poder 
Não ha formosura. 

Vós fostes dotada 
De toda a maldade; 
Perfeita beldade 
De vós he tirada. 

Sois muito acabada 
De taixa e de glosa: 
Pois quanto a formosa, 
Em vós não ha nada. 

Do grão merecer 
Sois bem apartada; 
Andais alongada 
Do bem parecer. 

Bem claro mostrais 
Em vós fealdade: 
Não ha hi maldade, 
Que não precedais. 

De fresco carão 
' Vos vejo ausente; 
Em vós he presente 
A má condição. 

De ter perfeição 
Mui alheia estais; 
Mui muito alcançais 
De pouca razão. 



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^^o 



ENDt:CliAS 



Vai o bom fugindo. 
Cresce o mal co'os anos, 
Vao-se descobrindo 
(^o'o tempo os enganos. 

Amor e alegria 
Menos tempo dura. 
Triste de quem fia 
Nos bens da ventura! 

Bem sem fundamento 
Tee certa a mudança, 
Certo o sentimento 
Na dor da lembrança. 

Quem vive contente, 
Viva receoso: 
Mal que se não sente, 
He mais perigoso. 

Quem males senlio, 
Saiba ja temer; 
E pelo que vio 
Julgue o qu'ha de ser. 

Alegre vivia. 
Triste vivo agora; • 
Chora a alma de dia, 
E de noite chora. 

Confesso os enganos 
De meu pensamento: - • 
. Bem de tantos anos 
Foi-se n'hum momento. 

Meus olhos, que vistes? 
Pois vos atrevestes, 
Chorae, olhos tristes, 
O bem que perdestes. 



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\4\ 

A luz do sol pura 
Só a vós se negue; 
Seja noite escura, 
Nunca a manhãa chegue. 

O campo floreça, 
Murmurem as ágoas, 
Tudo me entristeça, 
Cresção minhas mágoas. 

Quizera mostrar 
O mal que padeço; 
Não lhe dá lugar 
Quem lhe deu começo. 

Em tristes cuidados 
Passo a triste vida; 
Cuidados cansados, 
Vida aborrecida. 

Nunca pude crer 
O que agora creio: 
Cegou-me o prazer 
Do mal que me veio. 

Ah ventura minha. 
Como me negaste 1 
Hum só bem que tinha, 
Porque mo roubaste? 

Triste fantasia 
Quanta cousa guarda! 
Quem ja visse o dia, 
Que tanto lhe tardai 

Nesta vida cega 
Nada permanece; 
O qu'inda não chega, 
Ja desaparece. 



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J42 

Qualquer esperança 
Foge como o vento: 
Tudo faz mudança, . 
Salvo meu tormento. 

Amor cego e triste, 
Quem o tee padece: 
Mal quem lhe resiste 1 
Mal quem Ihé obedece! 

No meu mal esquivo 
Sei como Amor trata: 
E pois nelle \ívo. 
Nenhum amor mata. 

A B C FEITOS EM MOTES 

A A A A 

Amor, quisestes que fosse 
O vosso nome da pia 
Para mór minha agonia. 

Apelles, se fora vivo, 
E a ver-vos alcançara, 
Por vós retratos tirara. 

Achilles morreo no templo, 
Contemplando de giolhos, 
Eu quando vejo esses olhos. 

Arthemiza sepultou 
A seu irmão, e marido, 
Vós a mim, e a meu sentido. 



Bem vejo que sois, Senhorn, 
Extremo de formosura, 
Para minha sepultura. 



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JM5_ 

c c 

Cleópatra se matou, 
Vendo morlo a seu amanle, 
E eu por vós em ser constante. 

Cassandra disse de Troya, 
Que havia ser destruída, 
E eu por vós d alma- e da vida. 

D D 

Dido morreo por Eneas, 
E vós mataes quem vos ama, 
Julgai se sois cruel dama. 

Dianira innocente 
Da má morte causadora, 
Vós da minha sabedora. 



Euridice foi a causa 
De Orpheo hir ao inferno, 
Vós de ser meu mal eterno. 

F F 

Fedra só de puro amor 
Morreo por seu enleado, 
Eu morro de desamado. 

Febo vai escurecendo 
Ante vossa claridade, 
E eu sem ter liberdade.. 

G G 

Galatea sois, Senhora, 
Da formosura estremo, 
E eu perdido Polyphemo. 



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[44_ 

Genel)ra, que foi Rainha, 
Sc perdoo por Laríçarole, 
E vós ijor me dar a morle. 

H H 

Hercules, liuma camisa 
De chammas, o consumio, 
Minha alma des que vos vio. 

Hebis e Dido morrerão 
Com o rigor da mudança, 
Eu vendo vossa esquivança. 

jj 

Judilh que o duro Holofernes 
Degolou, se viva fora. 
Mate lhe déreis, Senhora. 

Júlio César conquistou 
O mundo com fortaleza, 
\ós a mim com gentileza. 

j j 

Júlio César se livrou 
Dos imigos com abrolhos. 
Eu nâo posso desses olhos. 

Jazia-se o Minotauro 
Preso no seu labyrintho, 
Mas eu mais preso me sinto. 

LL 

Leandro se afogou, 
E foi sua causa Hero; 
E a mim o que vos* quero. 



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<45 

Leandro so afogou 
No mar de sua bonanç*, 
Eu no áe vossa esperança. 

MM 

Minerva dizem que foi 
E Palias Deosas da guerra, 
E vós, Senhora, da terra. 

Medéa foi mui cruel, 
Mas não chegou a metade 
De vossa grâa crueldade. 

N N ^ * 

Narciso o siso perdeo' 
Em vendo a suá figura, 
Eu por vossa formosura. 

Nymphas enganâo mil Faunos 
Com seu ar e formosura, 
E a mim vossa figura. 

00 

Os olhos chorão o damno 
Que em vos verem sentira©. 
Mas eu pago o que elles virão. . 

*Orpheo com a doce harpa 
Venceo o reino de Plutão, 
Vós a mim com perfeição. 

p p 

Paris a Helena roubou, 
Por quem Tróia foi perdida, 
E vós a mim alma e vida. 

TOMO IV * IO 



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Pyrriio niciloii Polioona 
Perfeila em todos sinaes, 
E vós a mim me mataes. 

Quanto mais desejo ver-vos, 
Menos vos rejo, Senhora: 
Não vos ver melhor me fora. 

Querendo ver a Diana, 
Acteon perdeo a vida, 
Que eu por vós trago perdida. 

A R 

Remédio nenhum não vejo, 
Que remedeie meu mal; 
Nem crueza á vossa igual. 

Roma o mundo sujeita 
Com armas, saber, temor, 
Vós a mim só por amor. 



Serena na mór Fortuna 
Com enganos vai cantando, 
E vós sempre a mim matando. 

T T 

Thisbe morreo por Pyramo, 
A ambos matou o Amor; 
A mim vosso desfavor. 

Thisbe pdo seu amante 
Morreo com amor sobejo, 
Mas eu mais morto me vejo. 



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\47 

V V 

Vonus, que por mais formosa. 
Lhe deo Paris a maçãa, 
Não foi quanto vós louçãá. 

Vénus levou a maçãa, 
Por vós não serdes, Senhora, 
Nascida naquella hora. 

XX 

Xpõ vos acabe em graça, 
E vos faça piedosa, 
Tanto, quanio sois formosa. 

Xanlopea tornou atraz. 
Por Aponio a invocar, 
E vós não a meu chamar! 



CARTA ESCRIPTA DAFRICA A IIUM AMIGO 

(insora) 

Por usar costume antigo. 
Saúde mandar quisera,» 
E mandara se tivera. 
Mas amor delia he imigo; 
Pois me deo, em lugar delia, 
Saudade em que ando, 
Saudades cem mil mando, 
E não ficando sem ella. 

Se isto não fiz des que vim. 
Não me queirais condenar, 
Que não tive inda lugar 
Para tomar sobre mim. 
Perdão merece esta culpa, 



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\4f< 

Que alem de ser peíjiKMia, 
La causa que me condena 
Me serve de desculpa. 

Mc^indar-vos novas quizera 
Desta terra e mais de mim, 
Se novas houvera aqui 
Boas que mandar poderá; 
Mas quem tal enfadamento 
Qiial vai contar pretende, 
Nao o sente, ou não entende 
Onde chega seu tormento. 

Comtudo, o que passa cá, 
Contarei conpo souber. 
Se algum nojo vos der, 
A tenção me salvará; 
Se fallar desconcertado 
Devei s-me de perdoar, 
Que no estoi para llorar 
Si no para ser llorado. 

Melhor fóra ter calladas 
As novas que ha nesta terra, 
Pois aonde vim buscar guerra 
Somente achei badaladas. 
Assim estou tão infadado 
Que digo em dias tão raros. 
Que diera por no allaros 
La gloria de os aver aliado. * 

Porque he tal o desconcerto, 
Que caminho ja não leva, 



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M9 ^ 



Nem nienos ha quem se atreva 
A dar hiím conselho certo: 
A tudo ha conselho cá. 
Quem escapa e não fere 
Triste dei, triste que muere ^ 
Si ai paraizo no va. 

A gente hepeor em dobro, 
As vergonhas sao perdidas, 
Fallão das alheias vidas 
E põem as suas em cobro; 
Poucos hao medo á vergonha, 
E a mui poucos se hade ouvir: 
Mais vale morrer com honra, 
Que deshonrado,bivir. 

Não ha conversação como d'antes 
Porque ha mister cem mil tenlos 
Com moradores praguenlos 
E fronteiros mais galanteai: 
Toda a terra anda ao revez. 
Tanto que ja começa 
Los pies sobre la cabeça, 
La cabeça sobre los pias. 

Neste desconcerto tal, . 
Se quereis saber qual ando, 
Passo a vida suspirando 
Pela causa do meu mal. 
Assim me traz meo tormento 
Pelo ver tão perigoso 
De mi remédio dudoso, 
Mas no de mi jierdihiento. 



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^50 

Porque de inales rodeado, 
E sem remédio me vejo, 
E juntamente o desejo 
-Me acaba e o cuidado; 
E Ião mal me vai tratando 
Esle mal, segundo vejo, 
8i no muere este desejo, 
Moriré yo deseando. 

O mór mal que cá padeço, 
He ver quanto sem razão 
Outros olhos lograrão 
O que eu por amor mereço: 
Isto tanto me entristece 
Que depois que estou aqui 
Plázer no sabe de mi, 
Cuidado no me falece. 

Nenhum remédio a meos danos 
Vejo por alguma via, 
Senão vendo aquelle dia 
Que hade ser fim de dous anos; 
Mas tem meo mal tal graveza, 
Que depois de me lá ver 
Ja não llegará el plazer 
A do llegó la tristeza.- 

Dar-vos esta carta tal. 
Não he fora de razão, 
Pois eu sei que em vossa mão 
Está meu bem e meu mal; 
Y pues sé que muerto soi 
Si de tu mano me dexas. 



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A quien contaré mis quexas 
Si a li no? 

* 

Dai-me o favor sem pejo, 
Pois o dais, a cousa vossa, 
Nâo queirais vós que não |X)ssa 
Servir-vos como desejo; ^ 
Ao menos se sou perdido 
Não me deis o desejigano, 
Que ja nao.es en mi mano 
El querer no ser querido. 

Com. isto, e o mais que callo, 
^ Julgai qual minha vida anda, 
Saudade de huma banda 
D'outra tenio ao badallo; 
Quando me contemplo tal 
Chegando a Ião tristes dias. 
Las tristes lagrimas mias 
En piedra hazen senal. 

Poderá eu viver conlenie, 
(]omo saber que eslava tal 
A (]ue he causa de meu mal 
Por me não ler lá presente; 
iMas por quão mal lhe nunece 
Meu amor tão maltratar-me 
Quando mas pienso alcgrarme, 
Maior pacion nic i'ecrece. 

Viver sempre arreceoso, 
Que bem [xxle ler comigo 
Onde está cerlo o [)erigo 



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<52 ^ 

He o remédio duvidoso; 
Assim eu de ter perdida 
Esperança de contenie, 
Ando perdido entre a gente, 
Não morro nem tenho vida. 

Não he viver á vontade, 
Vestir e andar como quero 
Donde (Io bem desespero 
E me mala a saudade; 
Se isto não vos desengana 
Ja ouvireis vós dizer 
El hombre queremos ver, 
Que los panos son do lana. 

Da guerra novas mais certas 
Brevemente são contadas, 
No verão portas fechadas, 
No hinvemo pouco abertas; 
Qualquer Mouro desmandado 
Nos comete sem n'hum pejo, 
E aquelle postigo vejo 
Que sempre esteve fechado. 

Isto não he praguejar. 
Mas toda a culpa he da fome, 
Porque gente que não come 
Mal poderá pelejar; 
Assim estão muitos no dia 
Com os olhos na tramontana. 
Mirando la mard^Espaíia 
(]omo mengoHva e crecia. 



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455 

Tudo são queixas em vão, ' 
^E tudo são vãos clamores, 

Capitão dos moradores, 

EDes contra o Capitão; 

Emfim tal vai tudo aqui 
. Que brada grande e pequeno: 

Tiempo bueno, tiempo bueno 

Qu^en se te llevó daqui. 

0. mesmo digo eu também. 
Porque o mal que éu lá passava 
Com ver a quem m'o causava 
Se me convertia em bem ; 
E por isso perdoai-me 
Se eu brado noute e dia 
Naves de la tierra mia 
Venid ora e llevadme. 

Gabais esta vida cá 
E desgabais-me Lisboa, 
Eu dera esta vida boa 
A troco d'essoulra má; 
Quem de estar lá se queixar 
Meu desejo lhe responde: 
Mas he de nós Conde 
Que manzilia ni pesar. 

Porém em quanto não vejo 
O dia das alabanças, 
Lembre-vos que as esperanças 
Puz em vós de meu desejo; 
Entretanto meu tormento 
Soffrerei sem me queixar. 



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rò4 

Pues que sufrir c callar 
Conviene a mi pensamento. 

CARTA ESCRIPTA DAFRICA EM RESPOSTA Á DE HUM AMIGO 

(inkoita) 

Mandasle-ine pedir novas, 
E pois heide obdecer. 
Quero que seja em trovas 
Por vos dar em que entender; 
E que esta arte de Irovar 
Se vá desacostumando 
A (|uem anda como eu ando, 
Tudo se hade perdoar. 

Leixando lodo o embaraço 
Desde o dia que cá vim, 
Vos darei conta de mim 
E da vida que cá faço; 
E julga o que ca sento 
Do que lá sentiria, 
S'algu'hora ou algum dia 
Tive este tal pensamento. 

Aclio-me mui enganado 
D'hum engano que trazia, 
Não cuidei que n'hum cuidado 
Tantos cuidados havia; 
Cuidei que vida mudada ' 
Mudasse lambem ventura; 
Mas a má sempre lie segura, 
E da boa náo sei nada. 



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455 

E pois que ja comecei, 
Dar-vos-hei conta comprida 
De como passo a vida 
Nesl4 vida que torrtei: 
Vou-me ao longo da praia 
Sem outros ricos petrechos: 
Una adarga ate pechos 
Y en la mano una azagaia. . 

Faço no meu pensamento 
Mais torres que as de Almeirim, 
Mas emfim leva-as o vento, 
Porque são ventos em fim; 
Vou-me traz isto em que ando 
Quando a tormenta mais arde, 
Suspirando a menudo, 
Hablando de tarde en tarde. 

Fujo da conversação, 
Anoja-me companhia 
E trago os olhos no chão, 
E mui alta a fantezia; 
Des que vou alongaiído. 
Que me não podem ouvir. 
Las bozes que iva dando, 
Al oielo quieren subir. 

Vejo desfeitos em vão 
Todolos meus contentamentos. 
Porém os meus pensamentos 
Não cansão, nem cansarjÍD : 
S'alma, mais que a vida, 
^luis (jue a vida hade durar, 



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i56 

Maldita seas ventura, 
Que assi me hazes andar. 

Cuido no (jue he ja passado 
E no que está por passar, 
Porém nunca o meu cuidado 
Se muda d'hum só lugar: 
Quando em mim torno cuidando 
Que de mi mesmo me velo, 
Los ojos puestos nel cielo 
Jurando iva hechando. 

Vejo o mar embravecer, 
Vejo que depois melhora, 
Mil cousas vejo cada Ora, 
Huma só não posso ver: 
Assim vou passando o dia 
Nesta saudade tamanha, 
Mirando la mar d'Espana 
Como mengoava e crecia. 

Quem disser que a saudade 
He vida para gabar, 
Se o disser de verdade, 
Di-lo-ha para me enojar. 
Vida que a alma entristece 
Em que toda a dor consiste, 
El dia que hade ser triste, 
Para mim solo amanece. 

Crede-nre quanio mais fallo. 
Pois vos fallo como amigo, 
E crede (}ue o que callo 



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He muilo mais que o que digo. 
Ando com alma cansada, 
Suspirando cada hora 
Por el lu amor sen li ora 
Passe yo' la mar salada. 

Andando só, como digo. 
Apartado da manada, 
Fazendo conlas comigo 
Qu emfim não fundem nada. 
Querendo buscar atalho 
Para vir ao que desejo, 
Vi venir pendon bremejo 
Gon tresienlos de caballo. 



Vinhão d'esporas douradas 
E vestid^ de alegria, 
Com adargas e braçados 
La flor de la Berbéria, 
Com gritos e altas vozes 
Vinhão a rédeas tendidas, 
Ricas aljubas vestidas 
En cima sus albemozes. 

Gentes de muitas maneiras 
E diversas nações 
Còrriâo a estas tranqueiras, 
Como a ganhar perdões; 
Mas porque vos não engane 
Cousas que outros vos escrevão, 
Los bordones que ellos llevan, 
Lanças vos pareceranne. 



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J58^ 

Tudo anda de levanto. 
Era o campo lodo clieo. 
Em tudo punhão espanlo. 
De nada linbão receo; 
Com grandes vozes e festas 
Vinhão bradando de lá : 
Cavalleros de Alcalá 
No os allabarois daquesta. 

Comigo mesmo fallanda» 
Como s'a outrem fatiasse 
Dizia quem me lembrasse 
Do em que andava cuidando:^ 
E porque tamanho dote 
Não se alcança por cuidar, 
A las armas Mouriscote, 
S'in ellas quereis entrar. 

Contar feitos esquecidos, 
He muito contra minb'arle, 
Houve mortos e feridos, 
Houve mal de parte a parte, 
Houve homem que dizia, 
Na força do mor recêo, 
Donde estás que no te veo, 
Qu'es de ti esperança mia. 

Pois fallo em tão fraca guerra. 
Sinal he de vosso amigo, 
Visto como estais em terra, 
Que ha outras de mór perigo; 
E pois por vós mais fizera 
•Quem faz isto que aqui vedeis 



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459 

Y (]ne nuevas me traedos 
Del mi amor que alia era? 

Quizera-vos dizer mais, 
E pois vos nãô digo ludo, 
Farei conta que sou mudo 
E entendei-me por sinaes; 
Que se fosse tão ousado, 
Qu'índa mais que isto dissesse, 
A que muerte condenado 
Pudo ser que grave fuesse. 

CARTA A HUMA SENHORA 

Senhora, quando imagino 

O divino 
Vosso gesto, claro e bello, 
De alguma hora merece-lo 
Me conheço por indino. 

Que se sento 
Ser altivo o pensamento 

Que m'inclinou, 
Vejo que amor vos destina 
Para mftr mere>cimento. 



Porque he vosso lindo aspeito 

Tão perfeito 
Que na mais pequena parte, 
Não pôde, por nenhuma arte, 
Com prender o humano peito; 

Nem m'espanta, 



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<60 

•Poríjno se 1 i vestes Janla 

Formosura, 
Vossa suprema venlurà 
Mais alta vos levanta. 

Porém se meus pensamentos 

Nos tormentos 
Quizcrdes experimentar, 
Bem os podeis comparar 
Com vossos merecimentos, 

Que se ordena 
Amor em parte pequena 

Opinião, 
Crede que meu coração 
He incapaz de grande pena. 

E se cuidais por ventura 

Que a natura 
Contém outro regimento, 
Sabei que meo pensamento 
Em vosso gesto se apura; 

Nem m'engano 
Que mudei o ser de humano 

Como pude 
Em divino, por virtude, 
De gesto tão soberano. 

Assim que, feito immortal, 

Ou mortal. 
Outro nome tomarei 
De ser vosso pois mudei 
O costume natural. 

Também vós. 



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\6\ 

Pelo bem que em vós se poz, 

Sereis digna 
De serdes por vós divina; 
Mas eu divino por vós. 

Em fim, que desta maneira, 

A fé inteira 
Que no peito amor me cria. 
Vereis crescer cada dia. 
Porque sempre mais vos queira 

- A fineza 
De hum amor que nesta empreza 

Me acompanha, 
Ficará sendo tamanha ' 
Como vossa gentileza. 

MOTR 

(INBMTO) 

Afuera consejos vanos 
Que despertais mi dolor; 
No me toquen vuestras manos. 
Que los consejos d'amor, 
Los que matan, son los sanos. 

GLOSA 

Foi-me a fortuna entregar 
A huma dama interesseira. 
Que em vez de pren)io me dar 
Por huma fé verdadeira, 
Procura de me roubar. 
Diz que rompe qualquer muro, 
E escusa cem mil danos, 
Eu que temo seos enganos. 



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K)2 

Quanto de fero seguro, 
Afiíera consejos vános; 

Grandemente me persegue, 
E me pede que lhe dê. 
Não me vale razão que allegue 
Nem maneira com que chegue 
A achar valor nesta fé; 
E porque ella m'entendesse, 
Lhe disse: Meu lindo amor, 
Por vosso disfavor 
Não me pidais interesse, 
Que desperlais mi dolor. 

Em mostras dessa fé pura. 
Vos farei, se vós gostais. 
Lindas trovas que leiais. 
De vossa linda figura 
Com que tanto me matais; 
Mas se pertendeis roubar-me 
Com aflagos, com enganos, 
E depois desenganar-me. 
Pois não he cousa que me arme. 
No me toqiien vuestras manos. 

Se dizeis que quem quer bem 
Hade gastar sem ter freio, 
Eu, Senhora, bem o creio; 
Mas praticai-o com quem 
Tiver o seo cofre cheio. 
Se me dizeis que se soa 
Que quem dá tem mais favor, 
Deixai-me antes minha dor. 



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465 

Pois nada mais me magoa, 
Que los consejos d'amor. 

Entre as regras dos amores, 
Tomai esta singnlar 
Que vos hade^proveilár, 
Chamai-nos enganadores 
E deixairvos enganar; 
Lograi-vos de vossa idade 
No florido desses annos. 
Por que de nossos enganos. 
Se me credes em verdade, 
Los que matan, son los sanos. 

MOTE 

(OflDITO) 

Guardai-me esses .olhos bellos. 

GLOSA 

De laços de ouro tão bellos, 
Perlende amor fazer molhos, 
Por prender quem oi^sa ve-los, 
E pois elle quer cabellos. 
Para miin só quero os olhos; 
Pois elle he vosso captivo, 
Por alcança-los e te-los. 
Guardai para elle os cabellos,* 
Para mim que de olhos vivo, 
Guardai-me esses olhos bellos. 

OUTRA 

Dois extremos tendes mana. 
Em vosso gesto divino. 



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464 

Qualquer delles peregrino, 
Ollios de luz soberana, 
Cabellos d'ouro inais fino. 
Quem cabellos para si ^ 

Pertender, deixai-lhe ave-los; 
Mas se eu não qutt^o cabellos, 
E olhos quero para mim, 
Guardai-me esses olhos bellos. 

MOTK 

(isnDiTo) 

S^espero, sei que m'cngano, 
Mas não sei desesperar. 

GLOSA 

o meu pensamento altivo 
Me tem posto em tal extremo, 
Que quando esperando vivo, 
O bem esperado temo, 
Muito mais que o mal esquivo. 
Que para crescer meu dano 
No gosto da confiança, 
Ordena o amor tirano 
Que na mais firme esperança, 
Se espero, sei que m'engano. 

Deste novo sentimento. 
Chega a tanto a nova dor. 
Que se enlea o pensamento; 
Ver que no mór bem de amor 
Se descobre o mór tormento; 
Folgara de m'enganar. 
Mas não he cousa possivel, 



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Pois para sempre penar, 
Sei que espero o impossível, 
Mas não sei desesperar. 

A HUMA SENHORA REZANDO 

MOTE 

(IMROITO) 

Peço-vos que me digais 
Se* as orações (jue rezastes, 
Se forão por quem matastes, 
Se por vós, que assi matais. 

' GLOSA 

Com o espirito puro e vivo, 
A vista toda turbada. 
Nos ceos vos vi enlevada 
Com gesto conlemplativo 
No amor divino inflammada. 
E por quanto, extremos tais. 
Me causarão grande espanto, ^ 
Seria ora com zelo sanlo, 
Peço-vos que me digais? 

Porque pondo-me a notar 
Os effeitos da visão, 
Medindo-os com a razão. 
Hei vindo, em fim, a assentar 
Que estáveis em oração; * 
Mas como de tantas vidas, 
E corações que roubastes. 
Vossas mãos são comprehendidas, 
Mal podem ser recebidas 
As orações que rezastes. 



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Que posto que^ Deos aceita 
Hum coração humilhado, 
A contricção do peccado 
Ha de ser dor tão perfeita, 
Que lhe peze do passado; 
Porém se no que mostrastes, 
De tanto mal vos doestes. 
Pôde ser que empregastes 
Bem as preces que dissestes, 
Se forão por quem matastes. 

E para ser mais aceito 

O preço da salvação! 

He de divino direito 

Que façais satisfação 

Dos danos que tendes feito. 

Por tanto restitui 

A vida que me tirais, 

E então não duvideis mais, 

Se rezastes só por mim, 

Se por vós que assim matais. 

MOTE 

(UIBDITO) 

Ora cuidar ine assegura, 
Ora me matão cuidados. 

! GLOSA 

Foi ser a vontade minha 
De todos tão desviada, 
Que me não affirmo em nada, 
Pois tenho o mal que tinha, ' 
O bem que linha menfada. 



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If)7 

Isto lic força da ventura, 
Se não m'engãna o que cuido, 
.Que taes extremos mistura, 
Que ora o meu próprio descuido, 
Ora cuidar me assegura. 

Diversas cousas me pede 
O meu desejo inquieto, 
Humas nego, outras promctto; 
Mas comtudo me suecede 
Perder-me no que cometo. 
Como será dos meus fados 
A tenção. favorecida, 
Se para males dobrados 
Dão-me ora cuidados vida. 
Ora me matão cuidados. 

MOTK 

(ixiorro) 

O meos altos pensamentos, 
Quão altos que vos pozestes, 
E quão grande queda destes! 

VOLTA 

Como de mim vos não vinha 
Serdes firme n'hum estado. 
Pois o viver enganado, 
Era o maior bem que tinha, 
Castello d'esta alma minha, 
Quão alto que vos pozcstes, 
E quão grande queda destes. 

Sabia que oreis de vento, 
Como quem vos vio fazer; 



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468 

Ind'assim vos queria ter, 
Como éreis sem fundamer\}o: 
Quem vos desfez n'hom momenlo? 
Ai quão alto vos pozestes, " 
E quão grande queda destes! 

' MOTE 

(INBDITO) 

Esperanças mal tomadas, 

Agora vos deixarei 

Tão mal como vos tomei. 

VOLTA 

Fontes tomadas em vão 
De mim sem fundamento, 
E vós éreis todas de vento, 
E eu delle^vivia então; 
Se vos tomei sem razão, • 
Com ella vos deixafei 
Tão mal como vos tomei. 

Assim vos queria ler 
Sem razão e mal tomadas, 
Sabendo, quando deixadas. 
Quanto havieis de doer; 
Mas nem isto pôde ser. 
Que por meu mal vos tomei 
E por vós me deixarei. 

Quereis que faça mudança! 
De vós outro bem não entendo, 
Isto só se ganha em vos vendo, 
Isto só de vós se alcança; 



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^69 

Mas esta van esperança. 
Senhora, se eu a tomei 
Por vós, como a deixarei? 

MOTE 

(inédito) 

Como quer que tendes vida, 
A minha alma tão de vosso, 
Não digais, mana, não jposso, 

VOLTA 

Para haver-vos de entregar-me,- 
Bastava somente huma hora, 
E sobrava esta d'agora 
Para poder descançar-me. 
Se a vida pôde faltar-me, 
Inda que eu não de ser vosso, 
Não digais, mana, não posso. 

MOTE 

(litCDITO) 

Em tudo vejo mudanças, , 
Senão onde as ver quisera. 
Passa a vida em esperanças, 
Nunca chega a que se espera. 

VOLTA 

E posto que chegue o bem, 
O que duvido de ser, 
Que gosto se pôde ler 
No que firmeza não tem ? 



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\70 

Vida cheia de mudanças 
Tudo em ti cança e altera, 
Porque dás «lil esperanças, 
E nao dás o que s'espéra. 

O mal he que te conheço 
Ja por falsa e sem firmeza, 
E com ter esta certeza 
Inda te não ^aborreço. 
De tuas vãas esperanças 
Ver-me ja livre quisera, 
Por me rir das mudanças 
Do que espera e desespera. 

MOTE 

(l»«DITO) 

Ay de mim, mas de vós ay, 

Que eu morrendo, 

Bem intendo 

Que a vós nisso mais vai. 

VOLTA 

A vida, por vós perdida, 
Bem me pôde ser gloriosa, 
Mal pôde ser não penosa, 
A vós perdida esta vida. 
Se me matais attentai. 
Que morrendo 
Bem intendo 
Que a vós mais nisso vai. 

Com vossos olhos serenos 
Não divisais 



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\7\ 

Querer vos sirva de mais, 

Ter huma vida de menos. 

Matai meus olhos, m^tai, 

Que eu morrendo 

Bem entendo 

Que a Vós mais nisso vos vai. 

MOTE 

(INUDITO) 

t^ume desta vida 
^eja-me esse lume 
«^a que se presume 
•c»em o ver perdida. 

VOLTA 

ftoncedei luz tal 

> quem vós cegastes, 
Hoda me tirastes 

CS essa só me vai: 
vazão he querida 
udL vir do alto cume 
sorte de tal lume 

> alma tão perdida. 

oesatando hide 
wsta treva escura 
>urora onde pura 
Hoda luz reside: 
>y que atada a vida 
•i^a com esse lume 
Oeixa o seu queixume 
Rlstima-se por perdida. 



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172 



MOTt: 



(IXCDITO) 

Que vistes meus olhos? 
Meus olhos que vistes, 
Que vos vejo tristes? 

VOLTA 

Vejo-vos chorosos, 
De amor agravados, ; 
Tanto namorados 
Quanto mais queixosos; 
Ora meus mimosos 
Dizei-me, que vistes, 
Que vos vejo tristes? 

Dizei-me, meos olhos, 
Quem' vos agravou, 
Quem vos trespassou 
Com duros abrolhos? 
Por certo que em molhos 
Nunca vi, se ahi vistes. 
Lagrimas tao trisles. 

Se chorais de anior 
Suas esperanças, 
Ditosas lembranças. 
Mais ditosa dor; 
Mas se he desfavor, 
J)izei-me, que vistes, 
E não sereis tristes. 



Porém se de enganos 



Viveis enganados, 



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475 

Não queirais cuidados' 
De que vem taes danos, 
Deixai passar annos» 
Com o bem que vistes, 
E nâo sereis tristes. 



MOTK 

(IXBDITO) 

Ay de mim. 
Que muero despoe.s quo os vi, 

Ay de vós, 
Que €uenta dareis a Dios. . 

VOLTA 

En dos maneras se muestra 
La piena que por vos siento, 
Es la una, mi tormento, 
La otra, la culpa vuestra. 

Que se vi, 
En perderme no perdi; 

Pêro vos. 
Que cuenta dareis a Dios? 

• 
Porque se vuestra codicia 

En mi dano es de tal arte, 

Aun que perdofie la parle. 

Queda el caso a la justicia. 

Yo de aqui 
Tomaré la culpa en mi; 

Pêro Dios, 
Tomara la pena en vos. 



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\74 

MOTE 

Lagrimas dirão por mim, 
' Senhora, nesta despedida. 
Em 'que lermos vai a vida. 

VOLTA 

A tanto chega esta dor, 
Que desconfio da lingoa, 
Quem pôde supprir tal mingoa. 
Se não lagrimas de Amor; 
Elias vos dirão melhor, 
Senhora, nesta partida 
Que vai a vida sem vida. 

A força da saudade. 
Quando a lingoa desvaria, 
A quem em lagrimas fia 
As que lhe pede a vontade, 
Que chore nesta partida, 
Irão dando fim á vida. i 

Não tem que ver a tenção 
Com palavras amorosas, 
As lagrinias saudosas, 
Lingoas dos amores são; 
Elias por mim fallarão 
Quando a pena da partida 
Me tirar a falia e a vida. 

Palavras podem mentir, 
Mostrar dor grande ou pequena, 
Mas lagrimas que dão pena, 



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<75 

Ninguém as sabe fingir; 
Pelo que, quando parlir, 
Qual for a dor da partida, 
Tal será nellas sentida. 

MOTE 

(iNKorro) 

Prazeres, que me quereis? 
Se vedes que vos não quero; 
Ja nenhum de vós espero, 
. Nenhum de mi espereis. • 

VOLTA 

Vindes para vos tomar, 
Sois leves de natureza, 
Melhor he minha tristeza 
Que me não sabe deixar. 
Disto não vos espanteis. 
Que pois me quer, eu a quero; 
Nãò me engana no que espero. 
Como vós sempre fazeis. 

Lembre-vos quanto enleastes 
Quando fugir vós quizestes, 
O muito que promettestes, 
O pouco que me deixastes. 
O que agora promettestes 
He também engano mero, 
O que podeis, não o quero, 
O que quero, não podeis. 

De vossos contentamentos 
Tenho ja experiência, 



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<76 

Que de bens lem apparencia; 
E na verdade são ventos. 
Tempo he que me deixeis, 
Ja que nada de vós quero, 
Nao lenhais isto por fero. 
Buscai outrem que enganeis. 

MOTE 

(INIDITO) 

Por huns olhos que fugirão, 
O lume dos meus perdi; 
Porque nem elles me virão, 
Nem eu lambem mais os vi. 

VOLTA 

Não lhes pude defender 
Que laes olhos não seguissem, 
Rirão-se muito de ver 
Outros olhos que lai vissem. 
Eu não sei o que sentirão, 
Mas sei que tal dor senli, 
Quando vi que não virão 
Que nunca mais prazer vi. 

Com sua. luz me cegarão. 
Como o sol tem por costume. 
Fiquei com olhos sem lume, 
Para chorar me ficarão. 
Assi, desde que não virão 
Aquelles que acaso vi, 
Sempre disso me servi, 
Nunca mais com elles vi. 



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MOTR 

(INBDITO) 

No monte do amor andei, 
Por ler de monteiro fama, 
Sem tomar gamo nem gama. 

VOLTA 

Achei-me tão ^elevado 
Neste monte a montear, 
Que donde cuidei caçar 
Eu mesmo fiquei caçado. 
Caçador desesperado, 
Sàhi de huma e outra rama 

Sem tomar gamo nem gama. 

* 

Levava por meus monteiros, 
Nesta caça de tormentos, 
Os meus ais, que como vento 
Hião diante ligeiros; 
Huns tão tristes companheiros 
Levei, como quem ama. 
Por descobrir esta gama. 

A roupa de montear 
Que neste dia levava. 
Era o mal que me pesava, 
A corneta o suspirar. 
Ja não podia cessar 
Como touro quando brama, 
Só por buscar esta gama. 

Os cães erão meus tormentos, 
Cheios de muita agonia, 
O furão, minha porfia. 



12 



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<78 

As redes, meus pensamentos. 
Nem me valeo tomar ventos, 
Nem penetrar pela rama 
Para descobrir tal gama. 

MOTE 

(inédito) 

Tal estoi despues que os vi, 
Que de mi propio cuidado 
Estoi tan enamorado 
Gomo Narciso dé si. 

VOLTAS 

Una sola deferência 
Hallo neste amor altivo, 
Que el muno con- preferência, 
Mas yo con la vueslra vivo. 
En el punto que yo os vi 
Se realço mi cuidado, . 
De modo que enamorado 
Por vos me quedo de mi. 

Nacieron de un amor dos, 
Cupido fue el tercero 
Que haze que bien me quiero 
Solo por que os quero a vos. 
Los extremos que en vos vi, 
Me han traido a tal estado 
Que me vêo enamorado 
De amor de vos e de mi. 

MOTE 

(inédito) 

De vós quererdes meu níal 
Me vem pode-lo soffrer. 



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\79 

GLOSA 

De tantas penas cercado, 
Goso de hum bem que ja tive, 
Que o que me he menos pesado 
He ponderar que ainda vive 
Hum anior tão mal pagado. 
A causa deste tormento, 
Sem vós, me fora mortal; 
Daqui vem que em dano tal 
Só tenho o contentamento 
De vós quererdes meu mal. 

De vós quereirdes meu mal 
Vem o querer jBsla vida. 
Porque a dor de tal ferida, . 
Posto que em si he mortal, 
Fiea assim menos sentida. 
Eu tenho a dor desta pena. 
Que me vós fazeis querer, 
E posto que me condena 
De ver que se me ordena. 
Me vem pode-la soffrer. 

MOTE 

(IXIOITO) ' 

No meu peito o meu desejo 
Da razão se fez tirano. 
Vejo nelle certo dano, 
Incerto remédio vejo. 

VOLTA 

Para de todo defender-me, 
Este mal por passar tinha. 



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[80 

Ir eu contra a razão minha 
Que morre por defender-me. 
Da parle de meu desejo 
Me passo para meo dano» 
Vejo que nisto me engano, 
Mas nenhum remédio vejo. 

MOTK 

(MROITO) 

Nasce eslrella d'alva, 
A manhãa se vem, 
Despertai, minha alma, 
Não durmais meu bem. 

VOLTAS 

Meu filho e meu Deus, 
Rei e peregrino, 
TSo grande nos ceos, 
Na terra menino. 
Pois sois pequenino 
Não temais a alguém ; 
Despertai minha alma, 
Não durmais meu bem. 

Pestanas divinas 
E debaxo eslrellas, ' 
Não- cubrais meninas 
Tão lindas, tão bellas; 
Abri as janellas, 
Porque tal luz dêem; 
Despertai minha alma, 
Não durmais meu bem. 



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Vós tendes, Senhor, 
O mqndona palma, 
Vós sois movedor 
Do frio c da calma; 
Mas pois vos encalma 
O sol que ja vem. 
Despertai minha alma, 

Não durmais meu bem. 

« 
• 

Ovelha que errou. 
Buscais bom pastor, 
Mas quem vos deixou 
Is buscar. Senhor; 
Pois de tal amor 
Tal caminho vem, 
Despertai minha alma,. 
Não durmais mou bem. 

Nas calmas estranhas 
De área torrada, 
Das minhas entranhas 
Vos farei ramada; 
Pois por esta estrada 
S^ir nos convém. 
Despertai minha alma, 
Não durmais meu bem. 

Ribeiras sombrias 
Não ha nesta terra, 
Não ha fontes frias 
Que baxem da serra: 
Pois quem vos desterra 
Espera também/ 



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<82 

Despertai minha alma. 
. Não durmais meu bem. 

CARTA A HUMA SENHORA 

(inboita) 

Amor que vio minha dor 
Ser maior que a paciência, 
Promelteu-me, por favor, 
Huma carta de adherencia 
Para vosso desfavor. 

Eu, que ainda não sabia 
Quanto tinha de divino, 
Julgava por desatino 
Que carta de tal valia, 
Notasse lium cego menino. 

Ellc vendo-me ficar 
Comigo quasi suspenso, 
Por mais me desenganar 
Começou-me de notar 
Na memoria por extenso. 

E diz, por ver se o nego. 
Via boa se assim for; 
E eu tornei-lhe por louvorj 
Os conceitos são de cego, 
E as palavras são de amor. 

Logo escrever me mandou, 
E não sendo a pena boa. 
Para as azas se virou 
E huma grande arrancou, 
DaqueUas com que mais vôa. 



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^85 

E diz-me: toma esla pena, 
Que por minha a todos ganha, 
Que parece cousa estranha 
Que baste cousa pequena 
Á contar cousa tamanha. 

E por ser mais igual 
À matéria ao pensamento. 
Tudo he de hum natural; 
Molha a pena de teu mal 
Na tinta do meu tormento. 

' O pensamento ligeiro, 
Como portador tão fiel, 
Sendo em tudo verdadeiro. 
Te dê agora o papel. 
Te sirva de mensageiro. 

E eu, aparelhado assi. 
Como amor me aparelhou, 
Dés que nada me fallece; 
Desta maneira escrevi 
O que o moço cego notou : 

Senhora, que não quereis, 
Depois que tudo quizestes, 
' E a morte me trazeis, 
Negando-me o que podeis, 
Sabendo quanto podestcs. 

Esperai, eslai altent4), ' 
Que para contar minha dor 
Me dá a tinta o tormento, 



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A pena me dá o amor, 
O papel o pensamento. 

Demócrito lírai 
A vista tanto estimada, 
Que sem ella procurai 
Furtar o corpo, á sillada, . 
Que do desejo esperai. 

Se primeiro que vos vira, 
Minha dor adivinhara^ 
Meos, certo, olhos tirara 
Que inda que pena sentira. 
Menos pena lhe ficara. 

Mas ai. Senhora, que n'isto 
Não acerto, nem pode ser, 
Porque para meu querer 
Antes cego por ter-vos visto. 
Que cego por vos não ver. 

Quanto mais (jue os cegos taes, 
Se ante vós estivessem', . 
Como os que vos vêem cegais, 
Os cegos vista tivessem 
Para nunca verem mais. 

Porque, depois que vos vi. 
Quando vós ver me quizestes; 
Nunca mais me vi a mim, 
Nem vi quando me perdestes. 
Sentindo que me perdi. 



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489 

Tanlo enlevei o cuidado 
Na luz com que me cegastes, 
Que de cego e enlevado ^ 
Nao vi quando me roubastes, 
Mas vi qujB fora roubado. 

O pensamento, por quanto 
Vos quiz ter por sua estrella, 
Como quem mais s'acautela 
Se descuidou d*alma tanto, 
Por vos dar cuidado delia. 

Mas a alma que na gloria 
Se vio de vossa prisão. 
Deu recado ao coração, 
Que rendido, ou çom victoria, 
Se rendesse em vossa mão. 

, Os olhos que cada dia 
Os vossos lhe erão defezos, 
Como que mais não queria 
Hião sempre ver os presos, 
Por ver a quem prendia. 

Gosavão da vista pura, 
Vião huma alma no ceo; 
Ó que eco! mas pouco dura 
A gloria, pois a tolheu. 
Ou vós; ou minha ventura. 

Ventura, não, que he cousa dura 
Negar ella o que podeis; 
Vós sim, pois que bem sabeis 



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\S6 

Quãa pouco pode a ventura 
Onde vós tanto podeis. 

E se, Senhora, quereis 
Ser remédio do que espero, 
Sou contente que me deis 
Não mais que quanto podeis, 
Para ficar com quanto quero. 

Sê de bem tão sublimado, 
Por indigno me tiverdes. 
Tende comvosco assentado 
Que pois tenho meu cuidado, 
Que terei quanto me derdes. 

E pois que o pensamento 
Foi capaz de imaginar-vos 
Pela gloria do tormento, 
Quiz o merecer comprar-vos 
Com vosso merecimento. 

Assim que de merecer 
Não me falta canlidade. 
Nem me falta o poder ser; 
Mas para tudo poder, 
Faha-mc vossa vontade. 

E pois que podeis por vós, 
O que não posso por mim, 
Porque não quereis o fim. 
Sem desfazeres em vós, 
Vir a fazer tanlo em mim. 



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487 

E pois o tempo vos dá 
Licença porque me deis, 
Não negueis o que podeis, 
Que depois o negará, 
E vós m'o concedereis. 

E pois tanto bem me destes, 
Senhora, não m'o tireis; 
Porque mais pena tereis 
Em saber que ja podegtes. 
Que ver que ja não podeis. • 

Em fim porque nunca seja 
Chegado a tão dura sorte, 
Ou consenti que vos veja, 
Ou não me negueis a morte. 
Que a vida sem vós deseja. 

OUTRA 

(iridita) 

Carla minha tão ditosa, • 

Pois que chegarás a ver 

O que eu não; dou-te a entender 

De minha vida penosa, 

O que lhe podes dizer. 

Quero que vás instruida 
ParajK)der fallar lá: 
Pede bem, dar-me-has vida, 
Que em seres bem respondida 
Todo o meu remédio está. 

Humildade e reverencia. . 
Convém nesla parle teres, 



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Basla-le humilde a mim veres. 
Para ta, que és dependência 
Minha, humilde lambem seres. 

Ja que me vás remediar, 
Se necessário me for, 
Chora lá por alcançar, 
Fica á conia do chorar, 
E em conto de minha dor. 

Senhora, dirás chorando. 
Sou cá mandado de quem 
Não quer mais que só o bem 
D'eslar sempre contemplando 
No que de vós junto tem. 

Não fora nunca atrevido 
A comelter tal empreza,' 
Dizendo, delia esquecido: 
Baste-me a mim ser perdido 
Por uma tão grande belleza. 

Mas amor que vio estar 
Tão engolfado na pena. 
Disse: assi has de penar 
Sem quereres applicar 
Sequer remédio de pena. 

Põe-le logo a escrever 
Para aquella que te cança, 
Sem te faltar que dizer, 
Eu prometto de te ser 
Km tudo inteira lembrança. 



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<89 

Pois elle vendo de amor 
Hum lao grande offerecimenio, 
Faz de mim embaixador 
Com a pena de sua dor 
Escrevendo seu tormento. 

Dizendo: Senhora minha, 
Lá onde quer que ora estais 
Como podeis ser mezinha 
Desta vida lâo mesquinha, 
Com hum só sim que digais. 

Hum sim digo de conlente. 
Que por vós feneça amando, 
De modo que saiba a genie 
Que me dais vida penando 
N'hum vagaroso accidente. 

Quem souber que por vós mouro, 
Que melhor sorte quero eu? 
Quem teve mór bem por seu, 
Que quero eu mór thesouro, 
Que morrer pelo bem meu. 

Macias, o namorado, 
Teve que era gloria 
Na morte ter estampado 
Alé ser alanceado, 
O nome de sua senhora. . 

Só quero que de em diante 
Se saiba que sois servida, 
De quem por vós perca a vida. 



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\90 

Que não houve nunca amante 
Que a (lê por melhor perdida. 

Que he tão grande o bem de amar- vos, 

Supposto que muito peno, 

Que inda cuido que he pagar-vos 

Pouco, e que sacrificar-vos 

A vida, he premio pequeno. 

Assi que para esperar^ 
Senhora, de vós favor, 
Não me acho merecedor; 
Que em fim se vem a pagar 
Meu amor c'o mesmo amor. 

Hum só que de vós proceda 
Mereço, pois me perdi, 
E he que nunca succeda, 
Qu'algum outro se conceda 
O que se nega a mim. 

OUTRA 

(míDITA) 

Pois que, Senhora, folgais 
Que minha alma vos não veja; 
Peço-vos que me digais 
A razão que vós achais 
Em não querer que vosso seja. 

Bem que a razão vejo clara. 
Que alguém vos enganou. 
Porque eu certo julgava 
Que o fio não quebrara 
Pelo logar que cobrou. 



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Mas pois foi a vosso grado, 
E disso tomais prazer, 
Eu estou aparelhado 
A èúmprir vosso mandado 
Ja mais nunca vos ver. 

E por ser obediente, 

Com o que tenho me componho, 

Digo que sou mui contente; 

Seja passada por sonho. 

E se, Senhora, cuidais 
Que disto paixão me vem. 
Certo que vos enganais 
N'isso ganho eu mais 
Dez mil vezes que ninguém. 

intendi^i<:nto a este verso 

(INBDITO) 

Olvide y avorescy. 

Ha se de entender assi 
Que desque os di mi cuidc^drt 
A quantas uve mirado , 

Olvide y avorescy. 

A HUMAS SENHORAS 

QUE JOGANDO PERTO DE HUMA JANELLA LHES CAHIRÁO TRKS PAOS 
E DERÃO NA CABEÇA DE CAMÕES 



Para evitar dias máos 
Da vida triste que passo, 
Mandem-me dar um baraço, 
Que ja cá tenho três páos. 



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. COMEDIAS 



Tono IT U] 



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EL-REI SELEUCO 



INTERLOCUTORES 

^ ' • • 

DO PROLOGO 

O MonDoiio, ou Dono da Casa — Martiv Chinchorro — Ambrósio, Escudeiro 
Lançarote, Moço. 

DA COMEDIA 

El-Rei Srleuco— a Ralnhj^ Estratonica — O Principk Antiocho— Leocadio, 
Pagem do Príncipe Antiocho — Frolalta, Creada da Bainha Estratonica — Hum 
Porteiro da Cana — Huma Moça da Camará — Hum Physigo ou Medico— San- 
cho, Moço do Physico — Alexandre da Fonseca, hum. dos Musicosf 

PROLOGO 
(Diz logo o Mordomo, ou Dono da casa:) 

Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesla festival noite, 
me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encon^ 
Irar com outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para 
a quem tiver hum juizo assi arrazoado satisfazer. E diz que 
quem se delia não contentar, querendo outros novos aconteci- 
mentos, que seva aos soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, 
ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na rua Nova em 
casa do-Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Au- 
tor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á 
obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende delia 
menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto he 
para praguentós: aos quaes diz que responde com hum dito de 
hum Philosopho, que diz: Vós outros estudastes para prague- 



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J96 

jar, e ^u para desprezar pragmnto^. Eu com ludo (juero sa- 
ber da Farça, em que.ponlo vai. Lançarote? 

MOÇO 

Senhor. 

MOIIDOMO 

Sao ja chegadas' as figuras? 

X 

MOÇO 

Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida. 

MORDOMO 

Como assi? 

MOÇO 

Porque foi a gente tanta, que nâo ficou capa com friza, nem 
talão dg çapato, que não sahisse fora do couce. Ora vierão huns 
embuçadetes, e quizerão entrar por força; ei-lo arrancspento na 
mão: derão huma pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgarão huma 
meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não ha de en- 
trar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o* Ermitão até 
llie não porem huma estopajja na calça. Este pantufo se perdeo 
ajli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos púlpitos; <j[ue não 
quero nada do alheio. 

MORDOMO 

Se elle fora outra peça de mais valia, tu botaras a consciên- 
cia pela porta fora, para o metteres em tua casa. . 

MOÇO 

Oh ! se O elle fora, mais consciência seria torná-lo a seu do- 
no, quem o havia mister para si. 

MORDOMO 

Ora vem ca : vai daíjui a casa de Maríim Chinchorro, e di- 



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<97 

ze-lbe que temos cá Auto com grande fogueim; que sé venha sua 
mercê para cá, e que Ifaga comsigo o Senhor Romão d' Alvarenga, 
para que sobre o Canto-chão botemos nosso conlra-ponto de 
zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quin- 
tal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por força. 

flnd(hse o Moço diz :) 

Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava 
ser huma bolsa com hum par de reales, que são bons para Es- 
cudeiro hypocrita; que são pouco, e valem muito? 

MORDOMO 

Moço, que estás fazendo que não vás? 

MOCO 

Senhor, estou tardando, e porém estou Cuidando que se agora 
fora aquelle tempo, em que Qprrião as moedas dos sambarcos, 
sempre deste tiraria para humas palmilhas. Mas ja que assi he, 
diga-me v. m. que farei deste? 

MORDOMO 

Oh fideputa bargante! csperae, que est'outro vo-lo dirá. 

(Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:) 

Não ha mais máo conselho, que ter hum villão destes mi- 
moso, porque logo passão o pé além da mão, e zombão assi da 
gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa; vossos 
mercês he necessário que se cheguem huns para os outros, para 
darem lugar aos outros senhores que hão de vir; que de outra 
maneira, se todo o corro se ha* de gastar em palanques, será 
bom mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer 
mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem nu» 
quer lM»m, nem quem me quer mal: este só desgosto toe hum 



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<98 

Auto, que lie como officio de Alcaide; ou haveis deixar entrar 
a todos, ou vos hão de ler por villão ruim. 

(Entra Martin Chinciiohro, faUando com o B^cudeiro Ambrósio, e diz:) 

MAUTIM 

Entre v. m. 

AMBROÍ^IO 

Dias lia, Senhor, que ando de quebras cora cortezias; e por 
isso vou dianie- Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, pas- 
sear em casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com 
alcatifa e cartas; além disto, Auto para esgravatar os dentes: 
esta he a vida, de que se ha de fazer consciência. 

MORDOMO 

Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de tef em quanto 
homem poder, porqie os trabalhos, sem os chamarem, de seu 
se vem por seu pé, que seu nome he. 

MARTIM 

Ora pois. Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum 
Auto enfadonho traz mais somno comsigo que huma pregação 
comprida. 

MORDOMO 

Senhor, por bom mo venderão, e cu o tomei á cala de sua 
boa fama. E se tal he, eu acho que, por outra parle, não ha tal 
vida, como ouvir hum villão, que arr^^ica a falia da garganta, 
mais sem sabor que huma pera-pãoj e huma donzella, que vem 
podre de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma 
lamentação. 

MARTIM 

Para estes laes he grande peça rapaz travesso com molho 
de junco, porque não andem mais ao coscorrSo, mais roucos 
que huma cigarra, trazendo de si-enfadamento. 



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MOCO 

O Já Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem um 
Escudeiro. Ora sus, ba hi quem dê mais? que ainda vos veja to- 
das a. mim ás rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, 

ou de mana em mana. 

» 

NORDOyO 

Moço, falia bém ensinado. 

MOÇO 

Senbor, nao faz ao caso; que os erros por amores lee pri- 
vilegio de moedeiro. 

AHBROSIO 

O rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito 
por lentrar. 

MOÇO 

Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão. 

AMBRÓSIO 

Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde és 
natural? 

MOGO 

Donde quer. que me acho. 

AMBRÓSIO 

Pergunto-te onde nasceste. 

MOÇO 

Nas mãos das parteiras. 

AMBRÓSIO 

Em que terra? 

MOÇO 

Toda a terra he huma; e mais cu nasci em casa assobra- 
dada, varrida daquella hora, que não havia palmo de terra nella. 



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200 

i 

MARTIM 

Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo 
filho és? He para ver com que disparatç cespondes. 

MOÇO 

% A fallar verdade, parece-we a mi, que eu sou filho de hum 

meii tio. 

MARTIM 

Vem cá. De leu lio! E isso como? 

MOÇO 

Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não 
entendem. Meu pae era Clérigo, e os Clérigos sempre chámão aos 
filhos sobrinhos ; e daqui me ficou a mi ser Rlho de meu tio. 

MARTIM 

Ora te digo que és gracioso. Senhor, donde houvestes este? 

MORDOMO 

Aqui me veio ás mãos sem pios nem nada; e eu por gra- 
cioso o tomei ; e mais tee outra cousa, que huma trova fa-la tão 
bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado. 

AMBRÓSIO 

Não! quànlé disso nós hâvemos-lhe de ver fazer alguma 
cousa, em quanto se veslem as figuras. Aindaque, para que hé 
mais Auto, que vermos a este? 

MORDOMO 

Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Brio- 
lanja, por amor de mi I 

MOÇO 

Senhor, si, direi ; mas aquella trova não he senão para quem 
a entender. 



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204 

MARTIM 

Coma! tão escura he ella? 

MOÇO 

Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não 
sei escrever senão com carvão; e porém diz assi: 

Por amor de vós, Briolanja, 

Ando eu morto, 

Pezar de meu avô torto. 

IIÀRTIM 

, Oh como he galante 1 Que descuido tão gracioso! Mas vem 
cá: que culpa te tee teu avô nos desfavores que te tua dama dá? 

MOÇO 

Pois, Senhor, se eu* houve de pezar de alguém, não pezarei 
eu antes dos meus parentes, que dos alheios? ' 

MORDOMO 

Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de ga- 
vetas, que a trombeta de Sereoissimo dé la Valia. '^ . 

Moçp 
A volta, Senhores, he muito funda; e parece-mei Senhores, 
que nem de mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar 
os engenhos, e metão mais huma sardinha no entendimento; 
e pode ser que com esta servilha lhe calçará melhor: e todavia 
paira assi : 

Vossos olhos tão daninhos 

Me tratarão de feição, 

Que não ha em meu coração 

Em que ateín dous réis do cominhos. 



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2oa 

Meu bem anda sem focinhos 

Por vós morto, 

Pezar de ineu avô torto. 

MARTIM 

Ora bem: que têe de ver os cominhos eom o leu coração? 

MOCO 

« Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais ca- 
bedella, não se podem comer $enão com cominhos: e mais, Se- 
nhores, minha* dama era tendeira; e este he o verdadeiro en- 
tendimento. • 

MÂRTIM 

E aquella regra que diz: Meu bem anda sem focinhos, me 
dá tu a entender; que ella não dá nada de si. 

MOÇO 

Nunca vossas mercês ouvirão dizer: Meu bem e meu mal 
luíárax) hum dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia? Pois 
desta luta foi tamanha a queda que meu bem deu entre humas 
pedras, que quebrou os focinhos; e por ficarem tão esfarrapa- 
dos, que lhe não podião botar pedaço; por conselho dos Physi- 
cos lhos cortarão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui fi- 
cou: Meu bem anda sem focinhos, como diz o texto. 

AMBRÓSIO 

Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por 
dia de S. Nicoláo. 

MARTIM 

Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natu- 
ral para Lógico. 

MOCO 

Que, Senhor? Natural para lojal Si, mas não tão fria como 
vossas mercês. 



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203 

t ■ 

MORDOMO 

Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, me- 
le-te aqui por baixo desta mesa, e ouçamos este Uepresehtador, 
que vem n\ais amarrotado dos encontros, que hum capuz roxo 
de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de cedro. 

MARTIM 

Senhor, elle parece que aprende a cirurgião. 

* AMBRÓSIO 

Mais parece ourinol capado, que anda de amores dom a 
menina dos olhos verdes. 

MORDOMO 

Emíi.m, parece figura de Auto em verdade. 

(Entra o RepreseniadorJ 

He lei de direito, assaz verdadeira, 
Julgar por si mesmos aquillo que vem; 
Peloque, se cuidão que zombo de alguém. 
Eu cuido que zombão da mesma maneira. 

E assi a qualquer parece que está. mais dobrado, sem ne- 
nhum conhecer seu próprio engano, por grande que seja. Ora, 
Senhores, a mim me esquece o drto todo de ponto em claro; mas 
não sou de culpar, porque não ha mais que três dias que m'o 
derao. Mas em breves palavras direi a vossas mercês a summa . 
da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo 
primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus 
pães, e vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo 
oito mundanos, metidos em hum covão, cantando: Quem os 
amores íee em Cintra; e despois de cantarem farão huma dança 
de espadas; cousa muito para ver: entra mais El-Rei Dom San- 
. cho bailando os machatins, c entra logo Catharina Real com 



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204 

huns poucos de parvos.n'huma joeira; é semeá-los-ha pela casa, 
de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecera o 
Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar 
a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês 
cada hum para suas pousadas, ou consoarãTo cá comnosco disso 
que ahi houver. Ora pois ficareis in vanum laboraverurU, por- 
que atégora zombei de vós, por me forrar do erro da represen- 
tação, como quem diz: digo-ío, antes que rno digas. 

AMBRÓSIO 

^Ora vos 'digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, 
^ que acertarião em errar os ditos; aindaque me parece que este 
o nâo fez, senão a ser mais galante. Mas se assi he, ella he a 
melhor invenção que eu vi; porque jagora representações, todas 
he darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá- 
las, que acertá-las. 

MORDOMO 

Parece-me que entrão as figuras do siso: vejamos se são tão 
^ galantes na prática, como nos vestidos. 

(Entra El-Rbi Selruro, com a Rmnha Estratonica . ) 
REI 

Senhora, desque a, ventura 
Me quiz dar-vos por mulher, 
Me sinto emmeninecer; 
Porqu'em vossa foraiosura 
Perde a velhice seu ser. 
Hum homem velho, cansado. 
Não tee força, nem vigor. 
Para em si sentir amor: 
Sc não he qu'estou mudado 
Com ser vosso n outra côr. 
Muito grande dita tom 
A mulher que he formosa. 



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205 

RAINHA 

Senhor, grande: mas porém 
Se ^ tal he \írtuosa, 
Quer-lhe a ventura mór bem. 

REI 

Si, mas porém nunca vemos 
A natureza esmerar 
Adonde haja que laxar; 
Que quando ella faz extremos, 
Em tudo quer-se extremar. 
Eu fallo com^ quem sente 
Em vós esta calidade, 
Pelo que vejo presente; 
E se me esta mostra mente, 
Mente-me a mesma verdade. 
Huma -só tristeza tenho 
Que não tee a meninice, 
Que no mór contentamento 
O trabalho da velhice 
Me embaraça o sentimento. 

RAINHA 

Senhor, novidades tais 
Far-me-hâo crer de verdade. . .. 

REI 

Novidades lhe chamais I 
Folgo, Senhora, que achais 
Na velhice novidades. 

RAINHA 

Senhor, dias ha que sento 



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206 

Em o Príncipe Anliocho 
Certo desconlenlamento: 
Dera alguma cousa a troco 
Por saber seu sentimento. 
* Vejo-Ihe amarello o rosto,# 
Ou de triste, ou de doente; 
Ou elle anda mal disposto, 
Ou lá le€ certo desgosto 
Que o não deixa ser contente. 
Mande, Senhor, vossa Alleza 
A chama-lo por alguém, 
Saberemos que jnal tem, 
Se he doença de tristeza, 
De que nasce, ou de que vem. 

REI 

Certo qu'eu me maravilho 
Do que vos ouço dizer. 
Quejnal pôde nelle haver? 
Ide dizer a meu filho 
Que me venha logo ver. 

RAINHA 

Se curar não se procura 
Huma cousa destas tais. 
Vem despois a crescer mais. 
Quando ja não se acha cura, 
Toda a cura he por demais. 

(Entlra o Príncipe Anhocho, com xeu Pagem ftor nome Lbogadio.) 
príncipe 
Leocadio, se ós avisado, 
E não te falta saber. 



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207 

Saber-me-has dar a entender, 
Quem ama desesperado, 
Que fim espera de haver? 

PAGEM 

Senhor, não. 

Mas porém porque razão 

Lhe avem sabê-lo, ou de que? 

PRÍNCIPE 

Pergunto-te a conclusão; 
Não me perguntes porque. 
Porque he minha pena tal, 
E de tão estranho ser, 
Que me hei de deixar morrer; 
E por não cuidar no mal 
O não ouso de dizer. 
Que maneira de tormento 
Tão estranho e evidente, 
Que nem cuidar se consente! 
Porque o mesmo pensamento 
Ha medo do mal que sente. 

PAGEM 

Não entendo a Vossa Alteza. 

príncipe 
Assi importa á minha dor. 

PAGEM 

E porque razão, Senhor? 

príncipe 
Para que seja a tristeza 



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208 

Gasligo do meu temor. 
Porque ordena 
O Amor, que me condena, 
Que se haja de sentir, 
E sem dizer nem ouvir. 
Bem-aventurada a pena 
Que se pôde descobrir 1 
Oh caso grande e medonho! 
Oh duro tormento ferol 
Verdade he isto, qu'eu quero? 
Não he verdade, mas sonho 
De que acordar não espero. 
Quero-me chegar a El-Rei 
Meu pae, que ja m'está vendo. 
Mas onde vou? Não m'entendo. 
Com que olhos eu olharei 
Hum pae, a quem tanto offendo? 
Que novo modo de antolhos! 
Porque neste atrevimento 
Devera meu sentimento 
Para elle não ter olhos, 
Nem para ella pensamento. 

(Chega aonde está El-Rei. J 
REI 

Filho, como andais assi? 
Que tanto desgosto tomo ^ 
De vos ver como vos vi! 

PRINGIPR 

Não sei eu tanto de mi, 
Que possa saber o como. 
Dias ha ja^ Senhor, que ando 



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209 . 

Mal disjioslo, sem saber 
Esle mal que possa ser; 
Que se -nelle estou cuidando, 
Quasl me vejo morrer. 

REI 

Pois, filho, será razão 

Que meus Physicos vôs vejão. 

PRÍNCIPE 

Os Physicos, Senhor, não; 
Que os males qifem mi estão, 
São curas que me sobejão. 

RAINHA 

Deite-se; que na verdade 
Hum corpo, deitado e manso, 
Descansa á sua vontade. 

PRÍNCIPE 

Senhora, esta enfermidade 
. Não se cura com descanso. 

RAINHA 

Todavia, bom será 

Que lhe facão huma cama. 

PRÍNCIPE 

(Hum coxim abasjarâ, 
Que assi não descansará 
• O repouso de quem ama.) 

REI 

Vamos, filho, para dentro, 

f OMO iV 1 1 



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2[0 

. Em quanto a cama se faz: 
Repousae como capaz; 
Que a mi me dá cá no centro 
A pena qtie assi vos tn^z. 

( Vão-$e, e rem huma moça a fazer a eama e diz :} 
MOÇA 

Mimos de grandes Senhores, 
E suas extremidades, . 
Me hao de matar de amores, 
Porque de meros dulçorts 
Adoecem. 

Então 1(^0 lhes. parecem 
Aos outros, que são mamados; 
E os que sao mais privados. 
Sobre elles estremecem. 
Certo (e assi Deos me ajude!) 
Que são muita graciosos, 
Porque de meros viçosos, 
^ Nao podem com a saúde. 
Mas deixallos, 

Porque elles darão nos vallos, 
Donde mais não se erguerão, 
Inda que lhe dem a mão 
Os seus privados vassalios. 

(Entra hum Porteiro da Cana, e bale prhneiro e diz :) 
PORTEIRO 

Traz, traz. 

MOÇA 

Jesul Quem 'stá ahi? 

. PORTEIRO 

Ja vós, mana, éreis mamada: 



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2\\ 

Para vos levar furtada 
Nunca tal ensejo vu 
E vós eslais descuidada! 

MOÇA 

E meus descuidos que fazem? 

PORTEIRO 

Vossos descuidos? cadellal 
Ah minh'almal Sois tão beija, 
Qu'esses descuidos me trazem 
Dous mil cuidados á vela. 
Pois sou vosso ha tantos annos, 
Mana, lirae os antolhos, 
E vereis meus tristes dannos. 

MOÇA 

Nâo lenhais esses enganos. 

PORTEIRO 

Nem vós tenhais esses olhos; 
Que de vossos olhos vem 

Esta minha pena fera! 

» 

MOÇA 

De meus olhos? Assim era. 

PORTEIRO 

Moça,. qu)3 taes olhos tem, 
Nenhuns olhos ver devera. 

MOÇA 

E porque? 



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2<2 

PORTEIUO 

Porque cegais 
A quantos olhos olhais, 
PoBloque por vós padecem. 
Olhos, que lao bem parecem, 
Porque não os castigais? 

MOÇA 

Deos dê siso, pois de vós 
Tirou o que aos outros deu. 

P(»lTEIB0 

Desatae-me lá^ esses nós. 
Que mais siso quero eu, 
Que não ler siso por vós? 

MOÇA 

Fallais d'arte; eu vos. prometo 
Que a resposta vem á vela. 
Isso he olho de panella, 
Quanto ha ja que sois discrelo? 

PORTKIRO 

Quanto ha ja que vós sois hella? 

MOÇA 

Dais-me logo a entender 
Que eu sou feia, a meu ver. 

PORTEIRO 

E isso porque o entendeis? 

MOÇA 

Porque? Porque me dizeis 



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2<5 

Que só de meti parecer 
Vos procede o que sabeis. 

PORTEIRO 

He verdade. 

MOCA 

Pois bem sento 
Que o vosso saber he vento. 
Fica a cousa declarada, 
Meu parecer não ser nada. 

PORTEIRO 

Olhae aquelle argumento: 
Além de bella, avisada! 
Oh nem tanto, nem tão {)ouco! 
Vede vós o que fallais. 

MOÇA 

Cego no saber andais. 

PORTEIRO 

No siso, mas não tão louco 
Como vós, mana, cuidais. 
Ora dizei, duna má: 
Que não amais, quem vos ama? 

MOCA 

Ouvistes vós cantar ja. 
Velho maio, em minha cama? 
Ja m'enlcnderois. 

PORTEIRO 

Ha, ha. 



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2U 

Senhora, eslaes enganada; 
Que com huma capa e espada, 
E com este capuz fora . . . 

MOÇA 

Ora bem: tirae-o ora, 
E fazei huma levada. 

► PORTEIRO 

Não: se m'eu hoje alvoroço, 
Achar-me-heis d'outra feição. 

(Aqui tira o capuz,) 
PORTEIRO 

Tenho má disposição? 
Estas obras são de moço, 
Se as mostras de velho são. 

MOÇA ^ 

Tendes mui gentis meneios. 

tH>RTEIRO 

Não, Senhora; faço extremos. 

MOÇA 

Passeae ora, veremos 

Se tendes tão bons passeios. 

PORTEIRO 

Tudo, Senhora, faremos. 

MOÇA 

Virae ora a essoutra mão. 



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2<r> 

PÓUTBIUO 

Esta disposição vêde-a; 
Que' lenho gentil feição. 





MOÇA 


Tendes 


VÓS mui boa rtdea 


Soffreis 


ancas? 


• 


I^OnTKUlO 




Isso nao. 



MOÇA 

Por certo que tendes gra^a 
Em tudo quanto fizerdes. 
Fazei mais o que soulierdes. 

POliTEIRO 

Não sei cousa que não faça, 
Senhora, por me quererdes. 

, MOÇA 

Tendes vós muito bom ar. 

PORTEIRO 

Mais qu'isto faz quem quer bem. 

MOÇA 

I-vos asinha, que vem 
O Principc a se deitar. 

PORTRIRO 

Nunca huma pessoa tem 
Hum'hora para fallar!^ 



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2ilG 

(EtUra- o Pbikcipe com o seu Pagem Leocaoio e diz :) 
príncipe 
Seja a morte apercebida, 
Porque ja q Amor ordena 
A dar a meu mal sabida; 
Porque o fim da minba vida 
O seja da minha pena. 
Nâo tarde, para tomar 
Vingança de meu querer, 
Pois não se pôde dizer 
Que não tee ja que esperar, 
Nem com que satisfazer? 
- Os Pbysiços vem e vão, 
Sem saberem minhas mágoas, 
Nem o pulso me acharão; 
E se o querem ver nas ágoas, 
As dos olhos lho dirão. 
Se com sangrias também 
Procurão ver-me curado; 
O temor de meu cuidado 
O mais do sangue me tem 
- Nas veias todo coalliado. 
Quero-mc aqui encostar, 
Que ja o esprito me cae. 
Leocadio, vae-me chamar 
Os Músicos de meu Pae; 
Folgarei de ouvir cantar. 

(Aqux se deita, como que repousa, e falia dizendo assi:) 

Senhora, qual desatino 
Me trouxe a tanta tristura? 
Foi, Senhora, [X)r ventura 
A for^a do meu destino. 



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2^7 

Como vossa formosura? 
Bem conheço que não posso 
Ter tão alto pensamento; 
Mas disto só me contento, 
Que se paga com ser vosso 
O mór mal de meu tormento. 

fEntrúo os Músicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum deUes:) 
ALEXANDRE 

Senhor, de que se acha mal. 
O Príncipe, ou que mal sente? 

PAGEM 

Senhor, sei que está doente; 
Mas sua doença he tal, 
Qu'entender se não consente. 
, Os Physiços vem e vão, 
Huns e outros a meude. 
Sem. o poderem dar são. 
Quanto mais cura lhe dão, 
Então tee menos isaude. 
O Pae anda em sacrifícios 
Âos deoses, que lhe dem 
A saúde que convém ; 
Dizendo que por seus vicios 
O mal a seu filho vem. 
Eu suspeito qu'isto são 
Alguns novos amorinhos. 
Que terá no coração. 

ALEXANDRE 

Amores! com quem serão. 
Que lhe não dem de focinhos? 



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218 

POHTEIRO 

Senhores, que lhe parece 
Da doença de Anliocho? 

ALEXANDRE 

Diga-Hia quem lha conhece. 

PAGEM 

Que toma morrer a Iroco 
De callar o que padece. 

PORTEIRO 

Isso he estar emperrado 
Na doença; que he peor. 
Têe-no os Physicos curado? 

ALEXANDRE 

Oh! que de mal dei amor 
No ha, Senor, sanador. 

PORTEHW 

Fallais como exprimentado 
Qu'eu cuido que esta fadiga, 
Que o faz com que desespere; 
Y por mas tormento quierc 
. Que se sienta, y no se 4iga. 

ALEXANDRE 

Pois senhor meu, isso asselle, 
Porque a pçna, que sabeis, 
Qiie eu cuido que está neíle, 
Dar-lhe-ha penas cruéis, 
Pues no hay quion la consuele. 



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POHTISIKO 

Folgo, porque m'enteiideis. 

PAGISM 

Hemo-nos, Senhores,, de ir, 
Porque nos está'sperando. . 

POBTEIRO 

Pois eu lambem hei de ir; 
Que não me posso espedir 
Donde vejo estar cantando. 

PRINUPE 

Cantae, por amor de mi, 
Alguma cantiga triste; 
Que todo meu mal consiste 
Na tristeza em que me vi. 

PORTEIRO 

Mande-lhe cantar hum chiste. 

ALEXANDRE 

Chiste não, que he deshonesto, 
E não tee esses extremos: 
Outro canto mais modesto; 
Porém não sei que diremos. 

PAGEM 

Gaoleão o dirá presto. 

PORTEIRO 

Dá licença V. Alteza 
Que diga minha tenção? 



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220 

PAGEM 

Dizei: seja em cahlo-chão. 

PORTEIRO 

Pois crede qu'he subtileza, 
Qu'os Anjos a comerão. 
Digão esta: 

Enforquei minha esperança, 
E o Amor foi tão madraço, 
Que lhe cortou o baraço. 

ALEXANDRE 

Não me parece essa boa. 

' PORREIRO 

Haja eu perdão, 

Porque não a entenderão. 

ALEXANDRE 

Entender 1 

PORTEIRO 

Bofe qu'he boa: 
Não lhe cahis na feição? 

ALEXANDRE 

Dizei ora outra melhor. 
Com que nos atarraqueis. 

PORTEIRO 

Ora esperae, e ouvireis: 
Se a esta não dais louvor, . 
Quero que me degolleis. 



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224 

(CaiUiga/ 

Com VOSSOS olhos Gonçalves. 
Senhora, caplivo tendes, 
Eslé meu coração Mendes. 

ALBXi\NDRE 

Essa^ parece mui taibo, 
Porque mostra bom indicio. 

PORTEIRO 

Vós cuidareis qu'eu que raivo. 

ALEXANDRE 

Todavia tee máo saibo. 
Ora mal lhe corre oofficio. 

PRÍNCIPE 

Tá, não vá mais por diante 
A zombaria, que he má: 
Cantae qualquer delias ja; 
Qu'esse Porteiro he galante. 
Ninguém o contentará. 

(Aqui cantão, e em acabando, diz o) 
PAGEM 

Parece que adormeceo. 

PORTEIRO 

Pois será bom que nos vamos. 

* ALEXANDRE 

Senhor, quer que nos vejamos? 

PORTEIRO 

Senhor vir-me-ha do ceo: 
Releva-me que o façamos. 



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222 

(Entra a Hainha com huma sua Criada por nome Frolalta^ e diz:) 
RAINHA 

Frolalta, como ficava 
Anliocho-em te lu vindo? 

FROLALTA 

Ficava-sc despedindo 
Da vida qu'entãe levava, 
E assi seus dias cumprindo. 

RAINHA 

Oh grave caso d'amor! 

Desesperada affeiçãol 

Oh amor sem rcdempçâo, 
^ Que alli te fazes maior 

Onde tens menos razão! 

No mais alto e fundo pego 
► Alli tens maior porfia: 

Razão de ti não se fia. 

Quem a ti te chamou cego, 

Mài bem soube o que dizia. 

Por ventura hia chorando? 

FROLALTA 

Chorando hia e chamando 
Ao Amor, Amor cruel;' 
E em, Senhora, se deitando 
Lhe cahio este papel. 

RAINHA 

Que papel? 

FROLALTA 

Este, Senhora. 



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225 

BAINHA 

Ainosira, que quero lê-lo. 
Agora acabo de cre-Io; 
Que ao que mostra por fora, 
Aqui lhe lançou o sêHo. 

(Aqui lê -o papel.) 

Oh estranha pena feral 
Desditosa vida chara! 
Oh quem nunca ca viera, 
E com seu Pae não casara, 
Ou em casando morrera! 

FROLALTA 

Aindaque eu peca sao, 
Senhora, tudo bem vejo. 
Altente, que na eleição 
O que lhe pede o desejo 
Não consente o. coração. 

RAINHA 

Frolalta, pois qii'és discreta 
Nada te posso encobrir; 
Porque, se queres sentir, 
A huma mulher discreta 
Tudo se ha de descobrir. 
O dia qu'entrei aqui, 
Que a Seleuco recebi. 
Logo nesse mesmo dia 
No Príncipe filho vi 
Os olhos com que me via. 
Este princípio soffri-lho, 
Para ver se se mudava; . 
Antes mais se accrescentava: 



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224 

Eu amava-o como tilbo, 
E elle d outr'arte me amava. 
AgOFa vejo-o no fim 
Por se me não declarar. 
E pois ja que a isso vim, 
À morte que o levar, 
Me leve lambetn a mim. 
Porque ja que minha sorte 
Foi tão crua e desabrida. 
Que me não quer dar sabida; 
Sejamos, juntos na morte, 
Pois o não somos na vida. 
Ob quem me mandou casar, 
Para ver tal crueldade! ' 
Ninguém venda a liberdade, 
Pois não pôde resgatar 
Onde não lee a vontade. 
Que não ba mór desvario, 
Que o forçado casamento 
Por alcançar alto assento; 
Que, ^mfim," todo o senborio 
Está no contentamento. 
Não sei se o vá ver agora. 
Se será tempo conforme. 
Ou se imos a desbora. 

FROLALTA 

Despois iremos, Senbora, 
Que agora dizem que dorme. 

(Entra o Physico a tomar-lhe o pulso^ e tomando -o diz:) 
PHYSICO 

Su madrasta oyó nombrar, 
Y el pulso se le altero: 



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/ 



Qoo^(í 



225 

Eslo no enliendo yo, 
Porque para le alterar 
El corazoii le obligó. 
Pues que el corazon se altere. 
Es porque en un moojento 
Algun nuevo vencimiento 
De aficion terrible le hiere, 
Que causa lai movimiento. 
Pues que aficion cabe así 
Con madrasta? Digo yo, 
, ' Dos razones hay aqui: 
La una dice, que si, 
La otra dice, que no. 
Empero yo determino 
De exprimenlar la verdad, 
Y hacer una habilidad. 
Que declare es agua, ó vino 
Esta su enfermedad. 
Porque toda esta manana 
Tengo estudiado su mal, 
Sin ver causa efectuai 
De su dolência inhumana, 
Ni olra de su metal. 
Llamar quíero este asriejon; 
Mas aun debe de dormir, 
Segun que es dormilon. 
Sancho? 6 Sancho? 

SANCHO 

Ati Sonor. . * 

PHYSICO 

Ea, aun estás dormiendo? 

TOMO !▼ 15 



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226^ 

SANCIIO 

Ksloyme, Senor, vestiendu. 

PHYSICO 

Pues vellaco y siii sabor, 
No ine respondes dorniiendo ? 
Veslios presto, ladron. 
Oh qué mozo, y qué ventura! 

SANCHO 

. (Mas qué amo y qué cabron!) 
Embíeme acá el ropon, 
Que no hallo mi vestidura. 

PHTSICO 

Que embie el ropon acá? " 
Parece que os desmandais. 

SANCHO 

Que vaya, Senor? ha, ha. 
Que buenos dias hayais. 

(Entra o Moço embrulhado em hvma manta) 
PHYSICO 

Di como vienes así 

Con la manta, y para qúé? 

SANCHO 

Yo, Senor, se Io diré: 

Por venir presto vesti 

Lo que mas presto me hallé: 

Porque viendo que él me llama. 

Dormiendo yo sin afan, 



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227 

Salte presto de la cama, 
Que parezco lín gavilan, 
Hermoso como una dama. 

PHTSrCO 

Mas es tii bovedad tanta. 
Que vienes desta facion? 

SANCHO 

De mi vestido se espanta? 
De noche sirve de manta, 

Y de dia de ropon. 

PHYSICO 

Embióme El-Rey á llamar 
Otra yez. 

SANCHO 

Y á mi? 

PHYSICO 

Yáti! 

SANCHO 

Y él que presta allá sin mi? 

PHYSICO 

Que puede^s tu aprovecliar? 

SANCHO 

Yo se Io diré de aqui: 
Si por la ventura quiere 
Para que le dé consejo, 
Guando dolienle estuviere; 
Digo, coma, si pudiere, 



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228 

Y beba buen vino ^nejo; 
Porque este es èl licor 

Que dá fuerza, y es sabroso; 
Que segun dicen, Senor, 
Vinum Icetificat cor 
Hominis, y le es provechoso. 

PHYSICO 

Ya sabes la medicina, 
Que Avicena nos refiere. 

SANCHO 

Piios, Sehorl porque es divina. 
Fero ElRey qué le quiere, 
Que manda, ó qué determina? 

PHYSICO 

El Principc eslá dolienle. 

SANCHO 

Oh mesquino! Y qué mal ha? 

PHYSICO 

Y á li, necio, que tevá? 

SANCHO 

O Senor, que es mi parienlel 

PHYSICO 

Gracioso el bovo está. 

Y pueá díme por tu fé: 
LIorarás si se muríere? 



SANCHO 

No, Senor, no lloraré; 



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229 

Empero, Senor, haré 
La peor cara que pudiere. 

' PHYSICO 

Ea, bovo, vé corriendo, 

Y ensilla la mula ayna. 

SANCHO 

Véngala ensillar mejor. 

PHYSICO 

Oh velhaco, y sin sabor! 

SANCHO 

Yo por cierlo no lo euliendo. 
Pêro una medicina 
Le he de pedir, Dios queriendo, 
(Porque ando atribulado, 

Y no sé parte de mi 
Con este nuevo cuidado) 
Pai-a un sayo esfarrapado, 
Que me dicen hay allí. 

PHYSICO 

Ora ensilla: y nunca viva, ^ 

Pues sufro tus desatinos. 

SANCHO • 

Senor, pasion no reciva: 

Ya cavalga Calainos 

A la sombra de una oliva. 

{Aqui sahe bolindo com a almofada, e acorda o Príncipe e diz :) 
príncipe 
Oh bclla vista o humana. 



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250 

Por quem lanlo mal sosloiiho! 
Oh Princeza soberana! 
Como? nos braços vos tenho. 
Ou. este sonho mViigana?. 
Pois cqmo, sonho, lambem 
Me queres vir magoar? 
E para me atormentar 
Mostras-me a sombra do bem 
Para assi mais n)'enganar? 
Assi que, com quanto canso, 
Ja não posso achar atalho, 
Pois que o somno quieto e manso. 
Que os outros tee por descanso, 
Me vem a mi por trabalho. 
Pois ha hi tantos enganos 
Que condemnâo minha sorte; 
Não o tenho ja por forte, 
Se á volta de tantos danos 
Viesse também a morte. 

(Aqui entra El-Rri com o Physico, e diz :) 

Andae e vede se achais 
O rasto dcsle segredo, 
Que me dizem ([ue alcançais;- 
Ainda que lenho medo 
Que lho seja por demais. 

PHYSICO 

Plega á Dios que aquesle sea 
Para salud y remédio 
Desla dolência lan fea. 
Yo buscaré todo el médio. 
Que presto sano se vea. 



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J5J 

(Aqui lhe toma o Physico o pulio) 

Aflojen, Senor, sus ais. 
Como se halla en sq penar? 

PRÍNCIPE 

Como me acho perguntais? 
E eomo se pôde achar 
Quem sempre se perde mais? 

PHYSICO 

(La respuesla -abre el cainino.) 
Imagina de contino? 

príncipe 

Não tenho outro mantimento, 
Nem outro contentamento, 
Senão o em que imagino. 

(Aqui entra a Rainha e diz:) 
RAINHA 

Como se sente, Senhor? 
T?e a febre mais pecjuena? 

príncipe * 
Responda-lhe minha pena.^ 

PHYSICO 

(Conocido (»s su dolor. 
Ora sea en hora buena, 
Tomada está Ia tristeza 
A las manos.) Qué sentió? 
(Usaré de subtileza.) 



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252 

. (Diz contra El- rei :) 

Cúmpleme que solo yo 
Platique con Vuestra Alteza. 

RKl 

Cheguemos-nos para cá. 

RAINHA 

Não deve desesperar, 
Qu'em fim, se bem attenlar, 
Para tudo o lempo dá 
Tempo para sé curar. 

príncipe 
Que cura poderá ter 
Quem tee a cura, Senhora, 
No impossível haver? 

RAINHA 

Ficae-vos, Senhor, embora. 
Que vos não sei responder. 

( Vai'Se a Rainha) 
REI 

Nesl^ mal, que não comprendo, 
Que meio dais de conselho? 

PHYSICO 

Senor, nada enliendo dello; 
Y supueslo (jue lo entiendo, 
Yo quisiera no cntendello. 

HKI 

Porque ? 



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255 

PHYSICO 

Porque he entendido 
Lo mas maio de entender, 
Para lo que puede ser, 
Porque anda, Senor, perdido 
De amores por mi muger. 

REI 

Santo DeosI que! tal amor 
Lhe dá doença tão fera! 
Que remédio achais melhor? 

PHYSICO 

Forçado será que muera. 
Porque no muera -mi hdnor. 

REI 

Pois como! a hum só herdeiro 
Deste Beino não dareis 
Vossa mulher, pois podeis- 
Que tudo faz o dinheiro? 
Pois este não o engeiteis; 
Dae-lha, porque eu espero 
De vos dar dinheiro e honra, 
Quanto eu para elle quero. 

PHYSICO 

No lira el mucho dinero 
La mancha de la deshonra. 

REI 

Ora hem puco defeito! 
He pequico conhecida, 



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25i ' 

Quando deixa de ser feilo; 
Porque com elle dais vida 
 quem vos dará proveito. 

PHYSICO 

Cuaii facilmente aporfia 
Quien en tal nunca se vió! 
Del consejo que me dió, 
Vuestra Alteza que haria 
Si agora fuese yo? 

BEI 

A mulher que eu tivesse 

Dar-lha-bia.. Oxalá 

Que elle a Rainha quizessel 

PHTSICO 

Pues déla, si le parece, 
Que por ella muerto está. 

REI 

Que me dizeis? 

PHYSICO 

La verdad. 

REI 

Sem dúvida, tal sentistes? 

PHYSICO 

Sin duda, sin falsedad. 
Pues, Seíior, ahora lomad 
Los consejos que me distes. 



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255 

BEI 

Certamente, qu'eu o Via 
Em tudo quanto fallava. 
Como o vistes? porque via? 

PHYSICO 

Nel pulso, que se alterava 
Si la via, ó si la oia. 

REI 

Que maneira ha clç haver? 
Qu'eu certo me maravilho, 
Possa mais o amor do filho, 
Do que pôde o da mulher. 
Finalmente hei-lha de dar, 
Que a ambos conheço o centro. 
Quero-o ir alevantar, 
E iremos para dentro 

Neste caso praticar. 

« 

(Diz contra o Príncipe.) 

Levantae-vos, filho, d'hi 
O melhor que vós puderdes, 
E vinde-vos para aqui; 
Porque, emfim, o que quizeçdes 
Tudo havereis de mi. 

PAGEM 

Ah Senhores, oulá, ou? 

' PORTEIRO 

Viestes em conjunção 
A melhor que pode ser: 



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256 

Haveis aqui de fazer 
A tosquia a um rifão. 

PAGEM 

Deixae-me, Senhor, dizer: 
Haveis isto de acabar, 
Coração, hi bugiar, 
No esteis preso en cadejias, 
Que pois o amor vos deo penas. 
Que vos lanceis a voar- 

• 1>0RTEIR0 

Por c^rlo que bem comprou. 

PAGEM 

Ora sabeis o que vai? 
Antiocho que casou 
Com a mulher de seu Pai, 
E o mesmo Pae o ordenou. 

PORTEIRO 

Isso como? 

PAGEM 

Não o sei; 
Porque dizem que a amava, 
fi que só por ella andava 
'Para morrer; e El-Rei 
Deo-a a quem a desejava. 

PORTEIRO 

Se o casa por querer bem 
Com a moça, a quem elle ama, 
Direi eu que a mim me inflamma 
O amor mais que a niíiguem. 



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257 

PAGEM 

Pois pedi-lhe a nossa dama. 

PORTEIRO 

Por São Gil, que ei-los cá voin, 
Elle pela mâo com ella. 

(Entra El-Reí, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:) 
BRI 

Que mais ha lii que esperar? - 
Olhae qu^estranhe/^a vai ! 
O muito amor ordenar, 
Ir-se o filho namorar 
D'huma mulher de seu Pai! 
Querer bem foi sua dor, 
Negar-lha será crueldade; 
Assi que ja foi bondade 
Usar eu de tal amor, 
E de tal humanidade. 
Ella deixou de reinar 
Como fazia primeiro 
Por se com elle casar; 
• Í2 por amor verdadeiro 
Tudo se pôde deixar. 
Eu que nella tinha pôslo 
Todo. o bem de meu cuidado, 
Deixei mais que ella ha deixado; 
Que mais se deixa no gosto, 
Que no poderoso estado. 
Mas ja que tudo isto veinos, 
Hajão festas de prazer, 
As que melhor possâo ser; 
Porqu'em tão grandes extremos, 



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258 

Exlreiíios se liívo de fazer. 
Hajão cantos para ouvir, 
Jogos, prazeres sem fundo; 
Porque, se quereis sentir, 
Deste modo entrou o mundo, 
E assi ha de sahir. 

(Aqui vem os Músicos e cantão, e depois de cantarem, 
sahemse todas as figuras, e diz) 

MARTIM CHINCHORRO 

Ora, Senhor, tomemos também nosso pandeiro, e vamos fes- 
tejar os noivos; ou vamos consoar com as figuras, porque me 
parece que esta he a mór festa que pode ser. Mas espere v. m., 
ouviremos cantar, e na volta das figuras no.s acolheremos. Moço, 
accende esse molho de cavacos, porque faz escuro, não vamos 
dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as 
canastras. , 

ESTAGIO DA FONSECA 

Não, senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par 
de tiçOes na mão; e perdoem o máo gasalhado. Mas daqui em 
diante sirvão-se desta pousada; e não tenhão isto por pala^Tas, 
porque essas e plumas, o vento as leva. 



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os AMPHITRIÕES 



INTERLOCUTORES 

Amphitriío — Alcmená, suaMalher — Cállisto — Fbliseo — Sosea, Moço de Am- 
phitriâo — BROMU,sna Criada— BelfehrAo, PatrSo — Aurélio, Primo de Al- 
cmona — Um Moço de Aurélio — Júpiter — Mercúrio. 



ACTO PRIMEIRO . . 
SCENA I 

(Entra Alciirna, saudosa do marido, que he na gueri*a, e Bromia) 
ALCMENA 

Ah Senhor Amphitrião, 
Onde está todo meu bem! 
Pois meus olhos vos não vem, 
Fallaréi co'o coração, 
Que dentro «'alma vos tem. 
Ausentes /luas vontades, 
Qual corre mores perigos, 
Qual soffre mais crueldades, 
Se vós entre os inimigos, 
Se eu entre as saudade*? 
* Que a* ventura, que vos traz 
Tão longe de vossa terra, 



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240 

Tantos desconcertos faz, 
Que se vos levou á guerra, 
Nao me quiz leixar em paz. 
Bromia, quem com vida ter, 
Da vida ja desespera, 
Que lhe poderás dizer? 

BROMIA 

Que nunca se vio prazer. 
Senão quando não se espera. 
E por tanto não devia 
De ter triste a phantasia; 
Porque Vossa Mercê creia, 
Que o prazer sempre salteia 
Quem delle mais desconfia. 
Eu tenho no coração, 
Do Senhor Amphilrião 
Venha hoje alguma nova: 
Não receba alteração. 
Que a verdadeira aíTeição 
Na longa ausência se prova. 

ALCMENA 

Dizei logo a t^eliseo ^ 

Que chegue muito apressado 
Ao cães, e busque mêo 
De saber se algum recado 
Do porto Pérsico v6o: 
E mais lhe haveis de dizer, 
(Isto vos dou por oflicio) 
D'algima nova saber, 
Em quanto eu vou fazer 
Aos Doosos o sacrifício. 



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241 



SCENA II 

BROMIA 

Saudades de minh^ama, 

Chorinhos e devoções, 

Sacrifícios e orações, 

Me hão de lançar n'huina cama, 

Certamente. 

Nós mulheres de semente 

Somos sedenho mui tosco: 

Com qualquer vento que vente. 

Queremos forçadamente 

Que os Deuses vivão comnosco. 

Quero Feliseo chamar, 

E dizer-lhe aonde ha de it. 

Mas elle como me vir, 

Logo ha de querer rinchar, 

De travesso. 

Eu que de zombar não cesso, 

Por ficar com elle em salvo, ^ 

Lanço-lbe hum e outro remesso; 

Aos seus furto-lhe o alvo; 

E então elle fica avesso. 

Porque o melhor destas danças. 

Com huns víndiços assí, 

He trazê-k)s por aqui 

Ó cheiro das esperanças. 

Por viver. 

Ha-os homem de trazer 

Nos amores assi mornos, 

S() para ter que fazer; 

E despois ao remetter 



16 



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242 

Lauçar-llie a capa nos (•x>nios. 
Feliseo, se estais á mão, 
Cliegae cá, vem como hum gamo: 
Bem sei que não chamo cm vão. 

SCENA 111 

(pELisEoe Bhomia) 
FKLI9K0 

Chamais-me? lambem vos chamo; 
Porém eu ouço, e vós não: 
Senhora, que me matais, 
Se vós ja nunca me ouvis. 
Ou me ouvis, e vos callais, 
Dizei: porque me chamais 
Sejne vós a mim fngis? 

BROMIA 

Eu vos fujo? 

FKIJSRO 

Fugis, digo, 
De dar a meus males cabo. 

BROMlA 

Sabei que desse perigo 
Não fujo como de imigo, 
Fujo coma do diabo. 

FELISEO 

Dae ao demo essa tenção, 
Usae antes de cortês, . 
Cahi vós nesta razão. 



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245 

BROMfA 

Do pVigo fogem os pés, 
Do diabo o coração. 

FELISEO 

Dizeis-me que nessa l)*riga 
Do meu coração fugis. 

BROMIA 

I 
Ainda qu'eu isso diga. . . 

FELISEO 

Ah minha doce inimiga! 
Bem sinto que me sentis. 
Mas para que me chamais? 

BROMIA 

Mànda-vos minha Senhora 
Que chegueis daqui ao cais, 
E algumas novas saibais 
D^^mphitrião nesfa hora. 

FELISEO 

Quem as nâo sabe de si, 
Doutrem como as saberá? 

BROMIA 

Não as sabeis vós de mi? 

FELISEO 

Má trama venha por ti. 
Duna feiticeira mál 
Porque não me olhas direito, 
Cadella, que assi me cortas? 



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244 

9 

KROMIA 

Forque vos quero dar j)ortas: 
Que seu olhar (Foutro geito, 
Trarei cem mil vidas mortas. 

FELISeO 

E i)ois para que me andais 
Enganando ha cem mil anos? 

BROMIA 

Dou-vos vida com enganos, 

FELISEO 

Nesses enganinhos tais 
Acho cruéis desenganos. 

BROMIA 

Quani'esses vos quero dar: 
Vós cuidais que estais na sella? 
Pois podeis-vos descer delia; 
Qu'eu nunca vos pude olhar. 

FELISEO 

Jogais comigo á panella? 
Tendes-me ha tanto captivo, 
E desenganais-me agora? 
Tudo isto he o que privo. 
Assi que he isso, Senhora, 
Dochelo morto, dochelo vivo? 
Se me vós desenganais 
No cabo de tantos anos, 
Direi, se licença dais, 
Dais-me vida com enganos. 



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24p 

DesengcUios, ja chegais. 
Mas se isso havia de ser, 
Dizei, má desconhecida. 
Desterro de meu viver, 
. Que vos custava dizer 
Amor, vae buscar tua vida? 

BROMIA 

Zombais? Fallais-me coj)rinhas? 

FCLISEO 

Rir-vos-beis se vem á mão: 
Copras não, mas isto são 
Ânsias y pasiones minhas 
Dos bofes e coração. 

BIIOMIA 

Is-vos fazendo dliuns seugos . . . 

Ki!:Liseo 
Perdóneme Dios si peco. 

BROMIA 

Nesses dentinhos framengos 
Conheço que sois hum peco 
De todos quatro avoengos. 

FELISEO 

Tudo vos levo em ca[)elo, 
I Ja qu'eslais tanto eln agraço. 
Forem, fallando singelo, 
A furto desse máo zelo, 
Quercis-mo dar hum abraço? 



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246_ 

BHOMIA 

Ora (ligo que não posso 
Usar comvosco de fero: 
Toinae-o. 

FÊLISEO 

Ja o não quero, 
Porque esse abraço vosso. 
Sabei que he engano mero. 

BROMIA 

Oh! vós sois d'huns sensabores. 

Abraço pedis assim? 

S'eu remango d'hum chapim... 

FELISKO 

tudo isso são favores: 
Zombae, vingae-vas de mim. 

BROMIA 

Vós de furioso touro 
As garrochas não sentis. 

FELISF^O 

Vedes, com isso só mouro: 
Quando cuido (|ue sois ouro, 
Aclio-vos toda ceitis. 

BROMIA 

Enilim, sanha de villão 

Vos fez perder hum l)0in dia. 

FELISKO 

Jagora o eu tomaria; 
Quer(»is-mo dar? 



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247_ 

BROMIA 

Ora não. 
Cocei-vos eu todavia. 

FELISeO 

Pois, Senhora, a quem vos ama 
Sois tão desarrazoada, 
Quero tomar outra dama; 
Que não digão os d' Alfama 
Que não tenho namorada. 



Deixae-me. 


BUOMIA 
FKLISEO 

Vós me deixais. 


Deixae-me. 


BROMIA 

» 

\ 

FELISEO 

Zombais <le mi? 


BHOMIA 

Deixae-me. Pois m'cngeitais, 
}5u me ausentarei daqui 
Onde me mais naó vejais. 


Boa está a 


FELISKO 

zombaria! 



BROMIA 

Não são essas minhaí> manhas. 

FELISEO 

Porém is- vos todavia? 



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2Í8 



BUOMIA 



Voyme á las tierras cslranas 
Adó ventura me guia. 



SCENA IV 

(Felisku m) 

Pbantasias de douzelias, 
Não ha quem como eu as quebre; 
Porque certo cuidão ellas, . 
Que com palavrinhas bellas 
Nos vendem gato por lebre. 
Esta têe lá para si 
Qu'eu sou por ella finado; 
E crê que zomba de mi; ' 
E eu digo-lhe que si, 
^ou por ella esperdiçado. 
Preza-se d' h umas seguras; 
E eu não quero mais Fraudes: 
Dou-lhe trela ás travessuras, 
Porque destas coçaduras 
Se fazem as chagas grandes. 
Qu'estas, que ándão sempre á vela, 
Estas vos digo eu que coço; 
Porque de firmes na sella, 
Grem que falsao a costella, 
E ficão pelo pescoço. 
Que quando estas damas tais 
Me cachão, então recacho. 
Mas disto agora nó mais. 
Qucro-m> ir daqui ao ciiis 
Vêr se algumas novas acho. 



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249 

SCENA V 

(Júpiter e Mercuriu) 
* JÚPITER 

Oh grande e alío destino! 
Oh potencia tão profana! 
Que a setta d'hum menino 
Faça que meu ser divino 
Se perca por cousa humana! 
Que maproveitão os ceos. 
Onde minha essência mora 
Com lanto poder, se agora 
A quem me adora por deos, 
Sirvo eu como a senhora? 
Oh quão estranha affeiçao! 
Quem em baixa cousa vai por 
A vontade e o coração, 
Sabe tão pouco d'Amor, 
Quão pouco Amor de razão. 
Mas que remédio hei de ler 
Contra mulher tão terribil, 
Que se não pôde vencer? 

MEBCURIO 

Alto Senhor, teu poder 
O diflicil faz póssibil. 

JÚPITER 

Tu não ves qu'esta mulher 
Se preza de virtuosa? 

MERCÚRIO 

Senhor, tudo pódc ser; 
Que para (juem muilt) quei-. 



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^50_ 

Sempre a affeiçãó lie manhosa. 
Seu marido eslá ausente 
Na guerra, longe daqui; 
Tu, qu'és Júpiter potente, * 
Tomarás sua forma em ti; 
Que o farás mui facilmente. 
E eu me transformarei 
Na de Sosea, criado seu; 
E ao arraial me irei. 
Onde logo saberei 
Gomo se a batalha deu. 
E assi poderás entrar, 
Em lugar de seu marido; 
E para que sejas crido, 
Poderás também contar 
Quanto eu lá tiver sabido. 

JÚPITER 

Quem arde em tamanho fogo 
Tira-lhe a virtude a côr 
De subtil e sabedor; 
E quem fora está do jogo 
Enxerga o lanço melhor. 
Mas tu, que dos sabedores 
Tanto avante sempre estás, 
Se deos és dos mercadores, 
Sê-lo-has dos amadores, 
Pois tal remédio me dás. 
Ponha-se logo em eíTeito; 
Que não soffre dilação 
Quem o fogo têe no peito; 
E tu vae logo direito 
Aonde syida Amphitriào. 



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251 



SCENA VI 

(Peliseo e Calusto) 
\ 
FELISEO 

Adó bueno por aquíi, 
Tão longe do acostumado? 

CALLISTO 

Mais longe vou eu de mi, 
D'ir perto de meu cuidado. 

FELISEO 

No andar vos conheci. 

CÀLUSTO 

E vós onde vos lançais, 
Com vossa contemplação? 

FELISEO 

Eu chego daqui ao cais 
A saber de Amphitrião: 
Não sei se vou por demais. 

CALUSTO 

Porque por demais dizeis? 

FELISEO 

Porque nada alli ha certo. 

CALLlSTO 

Novas lá não as bus(|ueis. 
Que aqui as tendes mais perto. 

FELISEO 

Pois dae-ma.s ja, se as sabeis. 



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J52_ 

. CALLISTO 

Hum navio he ja chegado 
A barra, que vem de lá; 
Traz de Amphitriâo recado, 
Diz que o deixa embarcado 
Para se vir para cá. 
Tec vencido aquelle Rei; 
E diz, segundo lhe ouvi, 
Qu esta noite será aqui. 

Fh:Liseo 
Essas novas levarei 
A Alcmena, que torne em si, 
Porque ella tee maior guerra 
Co'os temores de perdello, 
Qu'elle co'o Rei dessa terra. 

CALLISTO 

Onde amor lançar o sello, 
Nenhuma cousa o desterra. 
Po,rqu'inda que o pensamento 
Vos fique, Senhor, em calma, 
Por morte ou apartamento; 
Sempre vos lá ficão n'alma 
As j)égadas do tormento. 

FELlSIilO 

Isso he hum segredo mero, 
A que o Amor nos obriga: 
Por isso em caso lào fero. 
Senhor, nunca ninguém diga. 
Ja lho quiz, e não lho quero. 
Eu (|uiz bem a huma mulher. 



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25r> 

Que vós conhecestes bem, ' 
E, copi muilo lhe querer, 
Casou-se. 

CALLISTO 

Oh! e com quem? 
Que ainda o nao posso crer. 

FELISEO 

Com hum Mercador, que veio 
Agora do Egypta, rico. 

CALLISTO 

Isso traz água no bico. 

Esse homem he parvo, ou feio? 

FELISKO 

Pois vedes? disso me pico, 
E em pago desta traição, 
Afora ouiros mil descontos 
Que traz comsigo a affeição, 
Sempre os signaes destes ponlos 
Trarei no meu coração. 

CALLISTO 

Viste-la mais? 

FELISEO 

Senhor, vi. 
Na janellinha da grade:. 
Passei, e disse-lhe assi: 
Casada sem piedade, 
Porque nao a haveis de mi? 

CALLISTO 

Qne vos disse? 



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254 

FELISKO 

Lá IH) ceiílro 
Lh'enxerguêi pouca alegria; 
E como quem lhe dohia, 
Metendo-se para dentro 
Disse: Ja pasó folia. 

CALLISTO 

Ah má sem conhecimento! 
Quem lhe desse mil chofradas 1 

FELISEO 

Senhor, como são casadas, 
Casão-se co'o esquecimento 
Das cousas que são passadas. 

CALLISTO 

Lembranças de vos deixar 
Picar-vos-hão como tojos. 

FELISCO 

Senhor, h?iveis d'assentar 
Que onde ainor vos quer matar, 
Siempre allá miran los ojos.. 
Hum motete lhe mandei 
Hum dia, estando com febre, 
Só da paixão que tomei. 

CALLISTO 

Pois vejamos quem lèc lebre. 

FELISEO 

Senhor, eu vo-lo direi. 



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£'9*9 

(Mote.) 

Vós por oqlrem, e eu por vós: 
Vós conlente, e eu penado.; 
Vós casada, eu cansado. 
Poios santos de minha dona ! 

CALLISTO 

Senhor, v()s só o fizestes? 

FELISGO ^ 

.Si, que ninguém me ajudou. 

CALLISTO 

Se vós só o compuzesíes, 
Crede, que extremos dissestes. 
Nunca Orlando tal fallou. 
Senhor, fizestes-lhe pé? 

PGLISRO 

Senhor, sí; e todo hum anno... 
Vós zombais, se nâo m engano? 

CALLISTO 

Não, mas dou-vos minha. fé 
Que nunca vi tao bom panno. 

PELISBO 

Ora olhe vossa mercê. 

(Volta.) 

Olhae em quão fundos váos 

Por vossa causa me affógo, 

' Que outro me ganha no jogo. 



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J56 

E eu triste pago os páos. 
Olfios travessos e niáos, 
Inda eu veja o meu cuidado 
Por esse vosso trocado. 

CALLISTO 

Não mais, qu'isso me degola. 

FEUSEO 

Senhor, eu haja perdão. 

CALLISTO 

Fizestes esse rifão \ 

Em algum jogo de bola? 
E foi-lhe elle ter á mão? 

FELISEO 

Digo-vos que o vio, e lho loo 
Hum moçozinho d escola. 

CALLISTO 

Está isso assi do Ceo. 
Sabe ella jogar a bola? 

FELISEO 

Não. 

CALLISTO 

Pois não. VOS entendeo. 
Ora eu ja cheguei a ler 
Petrarca, e crede de mi 
Que nunca tal cousa vi. 
Onde mora o bom saber, 
Logo dá sinal de si. 



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257 

Onde casada puzestes, 
Dizei, porque não dissestes 
La que yo vi por mi rml, 

FELISEO 

Renunciava o metal; 
Qu'en) rifòeszinhos como esles, 
Ha-se-de pôr tal como tal. 
Que a trova Irigo-tremez 
Ha de ser toda d'hutn pano; 
Que parece muito Ingrez 
N*hum pelote Porluguez 
Todo hum quarto Castelhano. 
Ouvi outra também minha, 
Que fiz a certa tenção,. 
Clara, leve, bonitinha. 
De feição, que esta trovinha, 
He trovinha de feição. 
Como eu hum dia me visse 
Morto, e a mão na candêa, 
E ella não me acodisse; 
Fiz-lhe esta, porque sentisse 
Que dava os fios á têa. 
E o propósito he 
Andar eu jium dia só; 
E para que houvesse dó 
De mi e de minha fé, 
Lamenlei-lhe como Jó. 

CALLISTO 

Andastes, Senhor, mui bem. 

FELISEO 

Ora, Senhor, attentai, 



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258 

E vede o saibo que lem ; 
Se hepara a ver alguém. 

CALUf^TO 

. Ora dizei. 

' FÈLISEO 

Ei-la vai. 

(Trova.) 

Coração de carne crua, 
Vê-lo teu amor aqui, 
Que esmorecido por li 
Jaz nor meio desta rua? 

GALLISTO 

Na rua, Senhor, jazia? 
É era em tempo de lama? 

FELISEO 

Senhor, quem falia a quem ama, 
De ài mesmo se não fia: 
Haveis de mentir á dama. 

CALLISTO 

Volta disso? 

FELISEO 

Singular, 
Senão que he muito sentida; 
Far-vos-ha, Senhor, chorar. 

CALLISTO 

Oh! diga, por sua vida! 

FELISEO 

Farei o que me mandar. 



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259 

(VoUaJ 

Porque não has tlelle mágoa, 
O dura mais que ninguém, 
Que anda o triste, que não tem 
Quem lhe dê huma vez d*ágoa? 
Não lhe negues teu querer, 
Pois te não custa dinheiro; 
Que, emfim, por derradeiro 
A terra te ha de comer. 

CALLISTO 

Tal trova nunca se vio. 
Agorentaste-la ja? 

FELISEO . 

Senhor, não; ainda está 
Como a sua mãe pario; 
E não está muito má. 

CALLISTO 

He trova; que têe por seis; 
Não a posso mais gabar. 
Ma«, pois, tal cousa fazeis, 
Senhor, não m'ensinareis 
Donde vem tão bem trovar? 

FELISEO 

Não he a cousa Ião pequena. 
Como, Senhor, a fizestes. 
Essa que agora dissestes. 
Mas porém vou dar a Alcmena 
Estas novas que me destes. 
Despois, Senhor, nos veremos; 
Ficae ja roendo esse osso. • 



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260 

CALLISTO 

O roer, Senhor, he vosso. 

F£LISEO 

Pois eu, por mais que zombemos, 
Hei de ser vosso e revosso. 

CALLISTO 

Oh ! . . . Escusae-vos d'extremos, 
Qu'isso, Senhor, me atarraca. 
Mas nós nos encontraremos, 
E sobre isso envidaremos 
Bous reales mais de saca. 



ACTO SEGONDO 

SCENA I 

(Júpiter e Mercúrio transformados, Júpiter na forma de Ampuitrião,' 
Mercúrio, na de Sosea, escravo.) , 

JÚPITER 

Mercúrio, pois sou mudado ^ 
Nesta forma natural, 
Olha e nota com cuidado. 
Se está em mi o pintado 
Apparente co'o real. 

MERCÚRIO 

Quem tão próprio se transforma, 
• Tenho por opinião, 

Que na tal transformação 
Lhe prestou natura a forma, 
Com^que fez Amphitrião. 



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26 \ 



JÚPITER 



Pois tu no gesto e na côr 
Estás Sosea escravo seu. 

/ MERCUBIO 

Muito mais farás, Senhor. 

JÚPITER 

Não o faz senão o Amor, 
' Que nisto pôde mais qu'eu. 

MERCÚRIO 

Ja, Senhor, te fiz menção 
Como deo Amphitrião 
A El-Rei Terela a morte; 
Que, na guerra igml, a sorte 
Pôde mais que o coração. 
E despois de ser tomada 
Toda a Cidade, com gloria 
D' Amphitrião bem ganhada. 
Como em sinal de victoria, 
Esta copa lhe foi dada. 
Por ella bebia El-Rei, 
Em quanto a vida queria; 
E eu, porque te cumpria, * 
A seu escravo a furtei, 
Que n'buma caixa a trazia. 
Esta poderás levar 
A Alcmena, por lhe mostrar 
Verdadeiro, o que he fingido; 
E dest'arte serás crido. 
Sem mais outro ardil buscar. 



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262 

* JÚPITER 

Pois tudo tens ordenado 
Por tão nova e subtil arte; 
Como me vires entrado, 
Irás dar este recado 
A Phebo de minha parle: 
Que faça mais devagar 
Seu curso neste Hemispherio, 
Que o que soe acostumar; 
Qu'esta noite hei de ordenar 
Hum caso de aho mysterio. 
E á Esphera mais alta • 
Mandarás que fixa esteja, 
Porque a noite maior seja: 
Porque sempre o tempo falta, 
Onde a alegria he sobeja. 
E terás tamanho tento, 
Que como isto se ordenar, ' 
Venhas aqui vigiar, ^ 

Porque meu contentamento 
Ninguém mo possa estorvar. 

MERCÚRIO 

Seja feito sem debate 
Tudo como te convém. 

JÚPITER 

Pois não parece ninguém. 
Como homem de casa bate, 
E muda a falia também. 

MERCÚRIO, batendo á poria, 

Ó de la casa, en buena hora, 
' Darmehan de cenar aqui? 



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265 

BROMIA dentro 

Sosea parece que ouvi : 
Alviçàras, minha Senhora, . 
Que na falia o conheci. 

SCENA II 

(Alcmbna, BROMtA, Júpiter, e Mercúrio.) 
ALCMENA 

Zombais, Bromia, por ventura? 

BROMIA 

Senhora, não zombo, não. 

ALCl^ENA 

Vejo eu Amphitrião, 
Ou a vista me affigura 
O qu'está no coração? • 

JÚPITER 

Olhos, diante dos quais 
Desejei mais este dia, 
Que nenhuma oulra alegria, 
Senhora, nunca creais 
Que. lhe minta a phantasia. 

ALCMENA 

Oh presença mais querida 
Que quantas formou Amor! 
Isto he verdade, Senhor? 
Acabe-se aqui a vida, 
Por não ver prazer maior. 



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264 

JUPITf:R 

Pois esta hora de vos ver 
Alcançar, Senhora, pude; 
Para mais contentç ser, 
Conformem co este prazer 
Novas de vossa saúde. 

ALCMENA 

Vida foi pezada e crua 

A saúde queu sostinha; , ' 

Qu'em quanto. Senhor, a tinha, 

Temer perigo na sua, 

A|e fez descuidar da minha. 

MERCÚRIO 

Y pues, mi Senora Alcmena, 
Pese ai demónio malvado, , 
No dirá á un su criado, 
Vengais Sosea noíabuena? 

. ALCMENA 

Sejais, Sosea, bem chiado. 

BROMIA 

Bem mal cri eu, que pudesse 
Ver-te, Sosea, hoje aqui. 

MERCÚRIO 

Pues tambien yo noxreí 
Que en mi vida te viese, 
Segun las muertes que vi. 

ALCMENA « 

Muilo, Senhor, folgarei 
Com novas do vencimento. 



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265 

JÚPITER 

De tudo quanto passei, 
Por vos dar contentamento, 
Em summa vos contarei. 
Trago, Senhora, a victoria 
Daquelle Rei Ião temido, 
Com fama clara e notória. 
Porém maior foi a gloria 
De me ver de vós vencido. 
Sem me terem resistência. 
Os Grandes me obedecerão. 
Como El-Rei morto tiverão: 
Em sinal de obediência 
Esta copa me trouxerão. 
El-Rei por ella bebia: 
(Ella, e tudo o mais he nosso) 
Por onde claro se via, 
Que tudo me obedecia. 
Pois tinha nome de vosso. 

IIEQGURIÒ 

Si, mas luego de rondon 
La fortuna dió la vuélta. 

ALCMENA 

Como? 

MERCÚRIO 

Fué gran perdicion, 
Porque en aquella revuelta, 
Me hurlaron mi jubon. 
Pêro bien Jo pagaron, 
Cuando comigo rineron, 
Que aunque me de^jaron, 



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266 

Si uno de seda llevaron, 
Otro de azotes me dieron. 

ALGMENA 

Senhor, não posso gostar 
De gosto, que he tão inomenso, 
Senão muito devagar:. 
Faça-me merco d'entrar, 
E contat-mo-ha por extenso. 

SCENA III 

(Mercúrio e Bromia.) 
MERCÚRIO 

Yo tambien te contaria, 

Bromia, si quedas atrás, 

Que una noche. . . enojartehas? 

BROMIA 

Que? 

MERCÚRIO 

Sonaba, que te tenia... 
No me atrevo á decif mas. 

BROMIA 

Dize. 

MERCÚRIO 

Pardies, no diré. ' 
Sonaba... 

BROMIA 

Bem: que sonhavas? 

MERCÚRIO 

Que cuando en la cama estavas 
Que yo . . . etífin recorde. 



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267 

BROMU 

Pois tudo isso receavas? 

MERCÚRIO 

Sabe Dios qué yo acá sienlo: 
Sola una alma vive en dos, 
La cual anda dentro en vos. 

BROMIA 

E que quer ella cá denlro? 

MERCÚRIO 

Tambien eso sabe Dios, 
SCENA IV 

MERCÚRIO 

Bem se poderá enganar 
Bromia, segundo ora estou, 
Como Âlcmena slsnganou ; 
Mas cumpre-me ir ordenar 
Ú que meu Pae me mandou. 
E porque seja guardada 
Esta porta e vigiada 
De toda a gente nascida, 
Me será cousa forçada. 
Ser tão depressa a tornada, 
Quão prestes faço a partida. 

SCENA V 
(S06BA, cantando.) 

Amphitrion esforzado 



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268 

^ Bravo vá por la batalla, 
Siete cabezas llevaba, 
De las mejores que ha bailado. 

(FaUa.J 

Quien viene de tierra agena, 

Y de la muerte escapo, 
La razon le permilió 
Que cante como sirena, 
Como jigora bago yo. 

Y pues canto tan gentil, 
. Fuera llanto si muriera. 

Quiero cantar coroo quiera, 
Una y otra, y mas de mil. 
Que digan desta manera: 

fCarOa.) ' 

Dongolondron, con dongolondrera. 
Por el camino de Otera, 
Rosas coge en la rosera, 
Dongolondron, con dongolondrera. 

fFalla.J 

Guando .yo vengo á pensar 
Que uno matarme quisiera. 
No bago sino temblar, 
Porque creo si muriera, 
No pudiera mas cantar. 
Porque estando á un rincon 
De la casa adó quede, 
Senti muy grande ronron, ' 

Y mirando, que mire? 

Vi que era un gran raton. 



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269 

Empero yo nunca sigo, 
Sino eonsejos muy sanos; 
Que en estes casos leviano^, 
•Quien desprecia el enemigo, 
Mil veces muera á sus manos. 
Pêro mi Senor allí 
Mato ai Rey de los Glipazos: 
Yo como muerto le vi, 
Juro á mi fé, que le dí 
Mas de dos mil cuchillazos. 
Y por me librar de afan, 
Me voy siempre á cosa becha 
Probar mi mano derecha; 
Que aquel es buen capitan, 
Que dei tiempo se aprovecha. 
Que quien ha de pelear. 
Ha de buscar tiempo y hora. 
Pêro quiero caminar, 
Qué me muero por contar 
Todo aquesto á mi Senora. 

SCENA VI 

(Mbrcubio e SosEA.) 
MERCÚRIO 

Mil vezes comigo vejo. 
Para que meu Pae se affoute; 
Pois em tão pequeno ensejo 
Lhe mapdei talhar a noute 
A medida do desejo. 
E pois que como possante, 
A mi ludo se reporta, 
Chego agora nest« instante 



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270 

A estorvar qu'esle Ijargante 
Me não chegue a esla porta. 

SOSEA 

No sé que miedo, ó locura, 

Neste pecho se me cria: 

Por Dios' que se me afigura, 

Que ha mucho que es noche escura, 

Sin que venga eí claro dia. 

Mas sabed, que pienso yo 

Que el sol que no se acordo 

^ De con el dia venir, 

. Que a noche cuando cewí 
Algun buen vino bebió, i 

Que le hace tanto dormir. 

MfCRCURlO 

Ja sentes comprida a noute, 
Qu'eu assi mandei faaer? 
Pois mais te quero dizer, 
Que sentirás muito açoute, 
Se cá. quizeres vir ter. 
Porém, pois este bargante 
Tee medroso coração, 
Qtiero-me fingir ladrão, 
Ou phantasma, e pordiante 
Não irá, se vem á mão. 
E com tudo se passar, 
A falia quero mudar 
Na sua de tal feição, 
Que couces, e .porfiar, , 
Lhe facão hoje assenlar 
Que sou Sosea, e elle não. 



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274 

fFaOa Castelhano.J 

No veo passar ninguno, 

En quien yo me pueda harlar. 

SOSEA 

Á quien oigo aqui hablar? 
Mande Dios no sea alguno 
Que me quiera aporrear. 

MERCÚRIO 

La carne de algun humano 
Me seria muy sabrosa. 

SOSEA 

Oh qué voz tan temerosa! 
Hombres comes, ó mi hermano? 
No es roejor otra cosa? 
Carne humanares muy mezquina. 
Oh no comas deso, nol 
Antes carne de gaUina. 
Però se mas se avecina, 
Qué mas gallina, que yo? 

MERCÚRIO 

Una voz de hombre ahora 
Á la oreja mCiVoló. 

SOSEA 

Pésete quien me parió: 
La voz traigo boladora? 
Ella quisiera ser yo. 
Pues mi voz pudo volar 
Do lapudieses oir; 



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, 272 

Por contigo no renir, 
Me debiera de prestar. 
Las alas para huir. 

MERCÚRIO 

Qué buscas cabe esa puerta, 
Horabre? Sé que eres ladron. 

SOSEA 

Ay que el alma tengo muertal 
Oh Júpiter me convierta 
Las tripas en corazon! 

MERCÚRIO 

Quien eres? quieres hablar? 

SOSEA 

Soy quien mi voluntad quiere. 

: MERCÚRIO 

Piensas que puedas burlar? 

SOSEA 

Y tu puédesme quitar 

Que yo sea quien quisiere? • 

MERCÚRIO 

Osas hablar tan osado, 
Don vellaco bovarron? 
Dí, quien eres? 

SOSEA 

Un criado 



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27eõ 

Del Senor Amphilrion, 
Por.nombre Sosea Uamado. 

MERCÚRIO 

Pieoso que el seso perdisle. 
Como te Uamas, mal hombre? 

SOSEA 

Sosea soy, si no me oiste. 

MERCÚRIO 

Como? en persona tan triste 
Osas d'ensuciar mi nombre? 
Estos punos llevarás, 
Pues tener mi nombre qnieres. 
Quíéresme dicir quien eres? 

SOSEA 

O Senor, no me dés mas, 
Que yo seré quien tú quisieres. 

MERCÚRIO 

Con tan nueva falsedad 
♦Andais por esta Ciudad, 
Delante de quien os mira? 
Pues si sois Sosea, tomad. 

, SOSEA , 

Si me dás por la verdad, 
Que me harás por la mentira? 

MERCÚRIO 

Y que verdad es la tuya? 
Que te quiero dar castigo. 



18 



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' 274 

SOSEA 

Si 110 soy Sosea que digo, 
Que Júpiter me destruya. 

MERCÚRIO 

Mirad el falso enemigo: 

Tomad este bofeton, 

Que yo soy Sosea, y no vos. 

SQSEA 

Tú Sosea? 

MERCÚRIO 

Sosea por Dios, 
Escravo de Amphitrion, 

SOSEA 

De modo que tiene dos? 

MERCÚRIO 

No tendrá, aunque tú quieres ; 
Que a mi solo conoció. 

SOSEA 

Pues luego de quien soy yo? 

MERCÚRIO 

Si tú no sabes quien eres, 
Quieres que yo Io sepa? No. 

SOSEA 

Enfin, has me de hacer crer 
Que yo no soy quien ser solia? 

MERCÚRIO 

Quien solias tú de ser? , , 



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275 

SOSEA 

Tregoas me lias de prometer, 
Dirtelohé sin porfia. 



imp 


lo 


MERCÚRIO 


L/1IK> 


IrV*. 


SOSEA 






No me darás? 






MERCÚRIO 


, si 


no 


fuere razon. 



SOSEA 

Pues, ,hermano, tú sabrás 
Que mi aim Amphilrion . . . 

MERCÚRIO 

Tu amo? Pues llevarás. 
Mi amo es, que tuyo no. 

SOSEA 

Ay que un brazo me quebro! 

•MERCÚRIO 

Mas que luego te matasse. 

SOSEA 

Ojalá, Dios ordenase 
Que tú ahora fueses yo, 
Y yo que te desmembrase! 

MERCÚRIO 

Esa tu tema tan locst, 



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276 

Punosle la haii de quitar. 
Díme, dí, vergiicnza pocá, 
Qué hablas? 

SOSEA 

Qué puedo hablar, 
Si me has quebrado la boca? 

MERCÚRIO 

Uí quien ores, sin fatiga. 

SOSEA 

Soy un hombre, en quien tu dás. 

MERCÚRIO 

Díme pues, qué nombre has. 

SOSEA 

Como quieres tú que diga, 
Para qué no me dés más? 

MERCÚRIO 

No me has de hablar contrahecho. 

SOSEA • 

Toda mi vida pasada 
Sosea fuy, y con despecho 
Ahora soy. . . qué? No nada; 
Que tus manos me han deshecho. 

MERCÚRIO 

Cu.yo eres, pues las sienles, 

Dejando consejos vanos? 

La verdad ; que si me mientes. 



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^ ^277 

Dás con la lengua en los dientes, 
Y yo dóyte con las manos. 

SOSEA 

No conoces Amphitrion? 

MERCÚRIO 

Hombre sin seso te llamo. 
Tan fuera estás de razon! 
Piensas de mi, bovarron, 
Que no conozco á mi amo? 

SOSEA 

En su casa conociste 
Uno, que es Sosea ílamado, 
Hombre despreciado y triste? 

«MERCÚRIO 

Desa suerte lo dijiste? 
Yo soy .triste y despreciado? 
Pues sabe que te llegó 
A ía muerte tu fortuna. 

SOSEA 

Pues logo si yo no soy yo, 

Aunque nadie me mato; 

Soy luego cosa ninguna. 

Oh dioses, qpe desconcierto! 
^ Yò por ventura soy muerto, 

O murióme la razon? 

Yò no soy de Amphitrion? 

El no me mandou dei puerto? 
* Yo sé í[ue no estoy loco. 



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278 

De mi madre no nací? 
No ando? No hablo aqui? 

MERCUEUO 

Pues sosiega ahora un poço, 
Que yo tambien diré de mi. 
Yo no sé que yo soy yo? 
Yo no te dí con mis manos? 
Mi Senor no me Uevó 
Á Ia guerra, adó mato 
Aquel Rey de los Thebanos? 

SOSEA 

Yo eso muy bien lo sé. 
Empero tú qué bacias 
Guando la batalla vias? 

MERCÚRIO 

Escucha: yo lo diré,. 

Y cesaran tus porfias. 
Guando mi Senor andaba 
Poleando, y derramaba 

La sangre de algun mezquino; 
Gon una bota de vino 
Yo la mia acrescentaba. 

SOSEA 

(Dice lo que yo bacia) 
Con todo, saber queria 
Sola una cosa, si puedo: 
Tu pecho entonces sentia? 

MERCÚRIO 

Del beber grande alegria, 

Y dei pelear gran miedo. 



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279 

SOSEA 



Y despaes 



MERCÚRIO 

Muy reposado 
Á dormir me eché de grado, 
Desde el sol hasta la luna. 

SOSEA 

(Todo lo tiene contado. 
Enfin, tengo averiguado 
Que yo no soy cosa ninguna) 
Pues de todo en un instante 
Me has echado de mi fuera, 
Aconséjame si quiera, 
Quien seré daqui adelante, 
Pues no soy quien de antes era. 

MERCÚRIO^ 

Guando yo no ser quisiere 
Ese, que tú ser deseas, 
Despues que ya Sosea no fuere, 
Darlehé, si te pluguiere, 
Licencia que todo seas. 
Y acógete luego, amigo, 
Á buscar tu nombre, digo, 
Pues Dios vida te dejó; 
Que el Sosea queda comigo. 

SOSEA 

Pue& contigo quedo yo, 
Dios quede, hermano, contigo. 
Ahora quiero ir allá 
Adó mi Senora está, 



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280^ 

Contarle como es venido 
Mi Sehor. Mas, oh perdido! 
Si un otro yo tiene allá, 
Todo lo terna sabido. 



MKHCURIO 



Ah hombr 



e. 



SOSEA 

Xíi voz sono. 

MERCÚRIO 

Aonde vuelves ahora? 

SOSEA 

Por Dios no sé onde vó, 
Porque si yo no soy yo, 
. Ni Alcmena es mi Senora. 

MERCÚRIO 

Adonde vás? 

SOSEA 

Con mensaje 
Del Senor Amphitrion 
Para Alcmena. 

MERCÚRIO 

Adó, salvaje? 
Pues quebraste la omenaje, . 
Ahí verás tu perdicion. 
Yo doyte consejos sanos, 
Y porfias olra vez? 



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284 

SÚSEA 

Altos dioses soberanos! 
Pues me no valen Ias manos, 
Aqui me valgan los pies. (Foge.) 

MEHCURIO 

Desta arte ensenan aqui 
Á liurtar el nombre ageno? 

SCENAVIÍ 

SOSEA 

Ay Dios, como me acogíl 
O Júpiter alto y bueno, 
Cuan cerca la muerte vi! 
Quiérome ir á mi Seuor 
Contarle cuanto hé pas^do; 
Y él me dirá de grado, 
Si yo soy su servidor, 
En que cosa me hé tornado. 



ACTO TERCEIRO 

SCENA I 

(Júpiter e Alcmbna.) 

juprrER 
Toda a pessoa discreta 
.Terá, Senhora, assentado, 
Que hum bem muito desejado 
Se ha de alcançar por dieta, 
Para ser sempre estimado. 



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282 

E quem alcançado tem 
Tamanho contentamento; 
Por conserva-lo convém 
Que tome por mantimento 
A fome de tanto bem. 
E por isso hei de tomar 
Este tempo tão ditoso 
Para a frota visitar; 
E despois quando tornar, 
• Tornarei mais desejoso. 
Que pois tão bom captiveiro 
Me tee presa a liberdade, • 
Eu lhe prometlo em verdade 
Que torne ainda primeiro, 
Que mo peça a saudade. 

ALGMENA 

Aindaque se possa ir 
Mais asinha do que creio, 
' Como hei d'eu consentir 
Que se, haja de partir 
Na mesma noite que veio? 

JÚPITER 

Forçada he minha tornada, 
Mas muito cedo virei; 
* Porque desque foi chegada 
A este porto a Armada, 
Ainda a não visitei. 

ALGMENA 

Pois, Senhor, tão pouco estais 
Corn quem vistes inda agora? 
Faça-se como mandais. 



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285 

JÚPITER 

Vós me vereis cá, Senhora, 
Primeiro do que cuidais. 

SCENAII 

(Amphitriâo e Sosea.) 
AMPHITRIÃO 

Emfim tu, que estás aqui, 
Eslavas ja lá primeiro? 

SOSÊA 

Seqor, crea que es átisí. 

AMPHrrRiÃo 
Eu nunca entendi de ti, 
Qu'eras também chocarreiro. 

SQSEA 

Senor, yo que estoy presente, 
No soy Sosea su criado? 

AMPHITRIÂO 

Creio que não certamente, 
Porque Sosea era avisado, 
E tu és mui differente. 

SOSEA : 

Pdes, Senor, §i en mi se vé 
Que no soy quien de antes era, 
Vuélvome. 

AMPHITRIÂO 

K parq que? 



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284 

. .SOSEA 

• Ver se á dicha me quede 
Durmiendo por la galera. 

ÂMPHITRIÃO 

Pois me queres fazer crer 
Huma doudice tão rasa, 
Mais quero de Ir saber: 
Gomo não entraste em casa 
D'Alcmena minha mulher? 

SOSEA 

« 
Aunque Sosea quisiese, 

La verdad no negará: 

Aquel yo que allá está, 

No quiso que á casa fuese 

Estotro yo, que iba allá. 

Y con fúria tan crecida 

Á mi se vino aquel hombr^ 
Que yo me puse en huida, 

Y ansí le dejé mi nombre, 
Por me dejar él la vida. 

AMPHlTRIÃO 

Quem seria tão ousado, ' 
Que tanto mal te fizesse? 

SOSEA 

• 
Yo mismo Spsea llamado. 

Que á casa era ya jlegado, 

Antes que de acá partise. 

AMPHITRlÃO 

Tu chegaste antes de ti? 
-Este he gentil disparate. 



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285 

SOSEA 

Pues mas le digo daqui, 
Que vengo huyendo de mi, 
Porque yo mismo no me mate. 

AMPHITRIAO 

Erão dous, ou era hum só, 
Quem te fez assi fugir? 

SOSEA 

Pésete quien me parió: 
Digo, que era un solo yo: 
Mil veces lo hé de decir? 
Puede ser que naceria 
De aquel hombre otro alguno. 
Como aquel de mi nacia; 
Porque aunqué fuese él uno, 
Por mas de cuatro tenia. 
El tenia mi aparência, 
Emperó yo nunca vi 
Tal fiíerza, ni tal potencia: 
Esta sola diferencia 
Le tengo bailado de mi. 

AMPHITRIAO 

Pudeste delle saber 
Cujo era? 

SOSEA 

Quien? aquel yo? 
Tuyo, Senor, dijo ser. 

AMPIIITRIÃO 

Nunca eu tive mais que hum. só, 
E esse iíão quizera ter. 



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286 

SOSEA 

Pues, Seuor, si el bien doblado 
Te le muestra agora Dios, 
Debe ser de ti alabado; 
Pues de líno solo criado 
Te ha hecho agora dos. 

AMPHITRIÃO 

Antes para que conheças. 
Que cousa he máo servidor. 
Me pezará se assi for; 
Que dè tão ruins cabeças, 
Quantas mais, tanto peor. 
E, ja que são tão incertos 
Teus ditos para se crer; 
Muito melhor deve ser 
Que deixe teus desconcertos, 
E vá ver minha mulher. 

SCENA III 

ALCMENA 

Que fado, que nascimento 
De gente humana nascida, 
Que d escasso e avarento. 
Nunca consentio na vida 
Perfeito contentamento 1 
Amphitrião, que moetrou 
Hum prazer tão desejado 
A quem tanto o desejou; 
Na noite,, que foi chegado, 
Nessa mesma se tornou! 
De se tornar tão asinha 



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287 

Sinto tanto entristecer 
O sentido e alma minha, 
Que certo que me adivinha 
Algum novo desprazer. 
Mas parece este que vem, 
Se nâo estou enganada: 
Se elle he, venha com bem, 
Pois que com sua tornada 
Tão transtornada me tem. 

SCENA IV 

^ (AmphitriAo, Alcmkna e Sosea)' 
AMPHITRIÃO 

Com que palavras, Senhora, 
Poderei engrandecer 
Tão sublimado prazeu. 
Como he ver chegada a hora. 
Em que vos pudesse ver? 
Certo grão contentamento 
Tive de meu vencimento; ^ 
Mas maior o hei de mim, 
De me ver posto no fim 
De tão longo apartamento. 

ALCMENA 

Ja'eu disse o que sentia 
De vipda tão desejada. 
Mas diga-me%davia: 
Como não foi ver a Armada, 
Que me disse hoje este dia? 

AMPHITfaÃO 

Delia venho eu inda agora 



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288 

Desejoso de vos ver, 
' Muito mais que de vencer. 
Mas que me dizeis, Senhora, . 
Que hoje me ouvistes dizer? 

ALCMENA 

Se não estava remota, 
Certamente que lhe ouvi. 
Quando hoje partio^ daqui, 
Que tornava a ver a frota, 
Porque era forçado assi. 

AMPfflTRlAO 

Sosea. 

• SOSEA 

Senor, aqui estoy yo. 

AMPHITRIÃO 

Tu ouves tal desconcerto? 

SOSEA 

Grandes orejas ganó, 
Pues estando en casa oyó 
Quien estava aljá nel puerto! 

AMPHITRIÃO 

Quando dizeis, que m'ouvistes? 

ALCMENA 

Hoje, quando vos partistes. 

AMPHITRIÃO 

Donde? 



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289 

ALCMENA 

Daqui,, de me ver. 

AMPHITRIÂO 

Nunca vi grande prazer, 
Que não tenha os cabos tristes. 
Quantos niales d'improviso 
Que causão grandes mudanças! 
Que mulher de tanto aviso, 
Agora minhas lembranças 
A têe fora de juizo I 

ALCMENA , 

Quereis-me fazer cuidar 
Que poderia sonhar 
O que pelos olhos vi? ' 

Nunca vos eu mereci 
Quererdes-me exprimentar. 

amphitrUo 
Postoque he para pasmar 
Ver hum caso tão estranho, 
Todavia hei de attentar, 
Se poderei concertar 
Hum desconcerto tamanho. 
Quando dizeis que vim cá? 

aPcmena 
Esta noite que passou. 

AMPHITR1Â0 

Dae-me alguém que aqui se achuo, 
Que me visse. 

19 



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> 



290 

ÀLCMENA 

Esse que hi está, 
Sosea que comvosco andou. 

AMPHITRIÃO 

Sosea, podes-te lembrar, 
Que hontem me vistes aqui? 

SOSEA 

Nunca yo supe de mi 
Que me pudiese acordar 
De aquello que nunca vi. 

ALCMENA 

Ora eu creo, e he assi. 
Que ambos vindes conjurados. 
Para zombardes de mi; 
Mas eu darei hoje aqui 
Sinaes que sejão provados. 

AMPHITRIÃO 

Que sinaes pôde ahi haver 
De mentira tão notória. 
Que nem foi, nem pôde ser? 

ALCMENA 

Donde^ vim eu a saber 
Novas de vossa victoria? 

AMPHITRIÃO 

Que novas? 

ALCMENA 

Dir-vo-las-hei, 
Assim como mas contastes: 



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29\ 

Que na batalha inalasle.s 
Aquelle soberbo Rei, 
E tudo desbaratastes: 
Não fazendo resistência 
N'humtf batalha tão crua, 
Dando-vos obediência, 
Vos derão huma' copa sua, 
Lavrada por excellencia. 

AMPHITRIAO 

Sosea he culpado só 
Nestes acontecimentos. 

SOSEA 

Senor, son encantamientos, 
Porque aquel hombre, que es yo, 
Le contaria estos cuentos. 

AMPHITRIAO 

Quem he esse, que vos deu 
Taès novas,' saber queria? 

ALCMENA 

Quem mo pergunta. 

AMPHITRIAO 

Quem? Eu! 
Quereis-me fazer sandeu? 

ALCMENA 

Mas vós me fazeis sandia. 

AMPHITRIAO 

Ora quero perguntar: 

Que fiz sendo aqui chegado? 



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ALCMKNA 

Puzeino-nos a cear. 

AMPHITRIÁO 

E despois de ler ceado? 

ALGMENA 

Fomos-nos ambos deitar. 

AMPHITRIÃO 

Nunca queira Deos que possa 
Achar-se na minha honra 
Nenhuma falta nçili mossa: 
Seja isto doudice vossa, 
Antes que minha deshonra. 

SOSEA 

Bien lo supe yo entender, 
Que era esto encantaciones; 
Y ahora me habrá de crer 
Que dos Soseas puede haber, 
Pues hay dos Amphitriones. 

ALCMENA 

Com me quererdes tentar 
Tão torvada me fizestes, 
Que me não pôde lembrar 
Que vos mandasse mostrar 
A copa que me hontem destes. 

AMPHITIUÃO 

Eu? copa? Se isso ahi ha, 
Que estou doudo cuidarei. 



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295 







SOSEA 


Serior, 
Bromic 


bien 

i9 


guardada está. 

ALGMKNA 




BROMIA, de dentro 






Senhora; 






ALGMENA 






Dae cá 


A copa que 


honlem vos dei. 



SOSEA 

Pues yo pari otro yo, 
Y vós otro Araphilrion, 
No es mucha admiracion, 
Si la copa otra parió, 
Ni aun fuera de razon. 

SCENA V 

(AmPHITRIÃO, AlXlAENA, SOSBA 6 BrOMIA) 
BROMIA 

Eis-aqui a copa vem, 
Teslimunho da verdade. 

AMPHITRIÂO 

Oh estranha novidade! 

ALGMENA 

Poder-me-ha dizer alguém 
Que o que digo he falsidade? 

AMPHITRlÃO 

Sosea, quando hontem cá vinhas, 



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294 

Poder-me-has negar, ladrão, 
Que lhe désle as novas minhas, 
E mais a copa que tinhas 
Guardada na tua mão? 

SOSEA 

Senor, que no pude, no. 
Ver á mi Senora Alcmena: 
Si aquel eso acá ordeno, 
No Ueve esle yo la pena 
Del mal que hizo el oiro yo. 

ÂMPHITRIÃO 

Ora eu não sei entender 

Tal caso, nem lhe acho fundo: 

Com tudo venho a dizer. 

Que ha tantos males no mundo. 

Que tudo se pôde crer. 

Se vos trouxer quem vos diga 

Como esta noite dormi 

Na náo, crereis que he assi? 

ALCMENA 

Nenhuma cousa me obriga 
A que não creia o que vi. 

AMPHITRIÃO 

Se O Patrão aqui vier. 
Que he homem d'autoridade, 
Crereis o que vos disser? • 

ALCMENA 

Sim, que ninguém pôde haver 
Que me negue esta verdade. 



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295 

AMPHitRIÃO 

Eu estou em concrusão 
D'hoje desembaraçar 
Tão enleada questão: 
Á náo me quero tornar 
A trazer cá Belferrão. 
Sosea, até minha tornada 
Fica nesta casa em vela; 
Qu'eu armarei tal cilada 
A quem ma a mim lee armada, 
Que ve*nha hoje a cahir nella. 

SCENA VI 

f Alcmbna t Bromia.) 
ALCMENA 

Oh mulher triste e suspensa 
Da mais alta confusão 
Que nunca vio coração 1 
Em que mereces a offensa, 
Que te faz Amphitrião? 
Sempre de mi foi amado, 
Tanto quanto em mi se sente, 
Co'o coração tão liado, 
Que se de mi era ausente, 
Nelle o via figurado. 
E pois mulher, que cumprisse 
Melhor qu'eu fidelidade, 
Não a vi, nem quem me visse 
Que dos limi|es sahisse 
Hum pouco da honestidade. 
Pois porque he tão maltratada 
Innocencia tão singella? 



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# 



Que a pena mais apertada, 
He a culpa levantada 
Ao coração livre delia. 
Mas ja (jue iT)inh'alma está 
Sem culpa do que padeço, 
Seja o que fôr; qu'eu conheço 
Que a verdade me porá 
No qu'eu pola ter mereço. 
Bromia? 

BROMIA 

Senhora. 

ALGMENA 

Hi mandar 
A Feliseo, que vá 
Meu primo Aurélio chamar: 
Que lhe quero perguntar 
Que conselho me "dará. 
E pois que Amphitrião 
Vai buscar somente quem 
Lhe ajude a sua tenção, 
Quero eu ter aqui também 
Quem me defenda a razão. 

ACTO QUARTO 

SGENA I 

(Júpiter, Algmena e Sosba.) 
JÚPITER 

Grão desconcerto tee feito 
Amphitrião com Alcmena! 
Qualquer delles tee direito: 
Eu sou o que venço o preito, 



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297 

E ambos pagão a pena. 
Quero-me ir lá desfazer 
Tão trabalhosa demanda, 
Por nos tornarmos a ver; 
Porque, emfim, quem muito quer 
Com qualquer desculpa abranda. 
E pois ja que a affeíção 
Ha de mudar tão asinha, 
Quero ir alcançar perdão 
Da culpa, que sendo minha. 
Parece de Amphitrião. 

ALCMENA 

Parece que torna cá 
Amphitrião, que já se hia: 
• Não sei a que tornará, 
Senão se lhe peza ja 
Dos enganos que tecia, 

JÚPITER 

Sejihora, não haja error 
Que tantos males me faça, 
Porque se o contrario for. 
Pequeno será o amor, 
Que manencória desfaça. 
E pois com tanta alegria 
De tantos perigos vim, 
Pezar-me-ha se achar no íim. 
Que huma leve zombaria ' 
Vos possa aggravar de mim. 

ALCMENA 

Com palavras de deshonra 
Não se ha de tratar quem ama; 



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298 

Nem zombaria se chama, 
Por exprímentar a honra, 
Pôr em tal perigo a fama. 
Bem tive eu para mim. 
Que era aquitlo experiência. 

JÚPITER 

Errei no que commetti: 
Bem me basta a penitencia 
De quanto me arrependi. 
E§e fiz, algum error, 
Com que vosso amor se mude 
De quem vo-lo tee maior; 
Não exprimentei virtude, 
Mas exprimentei amor. 
Que se com caso tão vário 
Folguei de vos agastar, 
Foi amor actrescentar; 
Porque ás vezes hum contrário 
Faz seu contrário avisar. 
Daqui vem, que a leve mágoa 
Firmeza e affeições augmenta, 
Como bem se vê na frágoa, 
Onde o fogo se accrescenta, 
Borrifando-o com pouca ágoa. 
Se hum mal grande se alevanta 
N'hum coração que maltrata, 
A aflfeição se desbarata; 
Porque onde a água he tanta 
O fogo d'amor se mata. 
E pois tive tal tenção, 
Perdoae, Senhora, a culpa 
Deste vosso coração. 



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299 

ALCMENA 

Não se alcança assi perdão 
D'erro que não tee desculpa. 

JÚPITER 

Ora pois assi traiais 
Quem em tanto risco pôs 
O amor que vós negais, 
Eu m'ausentarei de vós 
Onde mais me não vejais. 
Que, pois desculpa não tem 
Coração que tanto quer, 
Vou-me; que não será bem 
Que quem vós não podeis ver, 
Que possa mais ver ninguém. 
Se algunrhora meu cuidado 
Vos der dor, em que pequena; 
Peço-vos, pois fui culpado, 
Que vos não peze da pena 
De quem vos foi tão pezado. 
E despois que a desventura 
Puzer este coração 
Debaixo da sepultura, 
As letras ha pedra dura 
Vossa dureza dirão. 
Isto vos hei de dizer. 
Que m'ensinou minha dor: 
Se quizerdes leda ser. 
Nunca exprimenteis amor 
Em quem vo-lo não tiver. 
Deixae-me ir; não me tenhais. 

ALCMENA * 

' Amphitrião, não choreis! 



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300 

Amphitrião! 

JUPITEB 

Que quereis, 
Oq para que nomeais 
Homem, que ver não podeis? 

ALCMENÀ 

Amphitrião, s'eu causei 
Com manencória pequena 
Cousa, com que o magoei; 
Eu quero cahir na pena 
Dessa culpa que lhe dei. 

JÚPITER 

Sempre serei magoado 
Se vossa má condição 
Me não perdoa o passado. 

ALCMENA 

Perdoo, e peço perdão 
De lhe não ter perdoado. 

SOSEA 

No le perdone, Senora, 
Hasta que con devocion 
Tambien me pida perdon; 
.Que bien se me acuerda ahora 
Que me ha Uaniado ladron. 

JUPITEH 

Sosea? 

SOSEA 

Senor. 



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50< 

JÚPITER 

Vae buscar 
O Piloto Belferrão; 
Dir-lhe-has, se desembarcar; 
Que me parece razão 
Que venha hoje cá cear. 

1 ^SOSEA 

Si, Seiior, voy á la hora. 

JUPriER 

De nenhuma qualidade 
Cure de fazer demora. 
E nós vamos-nos, Senhora, 
Confirmar nossa amizade. , 

SCENAn 

MERCÚRIO 

Grandes revoltas vão lá, 
Grandes acontecimentos I 
Cumpre-me que esteja cá, 
Em quanto meu pae está 
Em seus desenfadamentos. 
Porque vi Amphitrião 
Vir da náo mui apressado; 
E tendo corrido e andado, 
Não pôde achar Belferrão, 
Que lhe era bem escusado. 
Parece-me que virá 
Ver se lhe abre aqui alguém; 
Mas, porém, se chega cá, 
Ja pode ser que se vá 
Mais confuso do que vem. 



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302 



SCENA III 



(Mrbcurio e Ampbitrião.) 
AMPHITRIÃO 

Quiz-nos nossa natureza 
Com tal condição fazer, 
Que ja temos por certeza 
Não haver grande prazer, 
Sem mistura de tristeza. 
Este decreto espantoso. 
Que instituio nossa sorte, 
He tal e tão rigoroso, 
Que ninguém antes da inorte 
Se pôde chamar ditoso. 
Com esta justa halança 
O fado grande e profundo 
Nos refreia a esperança, 
Porque ninguém nesle mundo 
Busque bem-aventurança. 
Eu, que cuidei de viver 
Sempre contente de mi 
Com tamanho Rei vencer. 
Venho achar minha mulher 
De todo fora de si. 
Mas d'outra parte, que digo? 
Que s'he verdade o que vi, 
E o que ella diz he assi; 
Virei a cuidar comigo 
Qu'eu sou fora de mi. 
Quero ver se a acho ja 
Fora de tão sexcos nós. 
Ó de casa? 



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505 

MERCÚRIO . 

O de allá? 
Quien sois? 

AMPHITRIÁO 

Abre. 

MERCÚRIO 

Santo Dios! 
Pues no os conocen acá. 

AMPHITRIÁO 

Oh que gentil desvario 1 
Abri-me orà se quizérdes. 

MERCÚRIO 

No haré, que en mi confio 
Que de fuera dormiredes, 
Que no comigo, amor mio. 
(Que cancion para oir!) 

AMPHITRIÁO 

Ah Sosea! zombas de mi? 
(Ora quero-me fingir 
Que ainda o não conheci, 
Poí ver se me quer abrir) 
Ah Senhor, não abrireis? 

MERCÚRIO . 

Qué quereis, hombre, por Dios? 

AMPHITRIÁO 

Duas palavras de vós. 



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304 

MERCÚRIO 

Tengo dicho mas de seis, 
E ahora me pedis dos? 
De faera podeis dormir, 
Que entrar no podeis acá. 

ÁMPHITRIAO 

Ora acabae, abri lá. 

MERCÚRIO 

Digo que no quiero abrir: 
Dije dos palabras ya. 

AMPHITRIÃO 

Ora sus, bargante, abri. 

MERCÚRIO 

Si no te vuelves de aqui, 
Á gran peligro te ofreces. 

AMPHITRIÁO 

Velhaco, não me conheces, 
Ou estás fora de ti? 

MERCÚRIO 

Bonito venis, amor. ^ 

Quien sois, que hablais-tan osado? 

AMPHITRIÃO 

Abre, que^sou teu Senhor. 

MERCÚRIO 

Vuélvase de esotro lado, 
Y conocerlehé mejor. 



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505 

AMPiirrniAo 
Sosea moto. 

MfclUCUHIO ' 

Así me llamo, 
Huéigome que lo sepais; 
Empero digo que os vais, 
Que Amphilrion es. mi amo; 
Vos id buscar quien seais. 

AMPHITBIÁQ 

Pois quero saber de ti: 
Eu quem sou? 

MRRCURIO 

Y quien sois vós? 
Como os llaman? 

AMPHITRIÁO 

Abri. 

MeRGURK) 

Á vos os llaman Abri ? 
Pues, Ahri, andad con Dios. 

AMPHITHIÃO 

Quem ha, que possa soffrer 
' Em sua honra tal destroço, 
Que para me endoudecer 
Me tee negado a mulher, 
E agora me nega o moço? , 

MlilRGURIO 

Mira el encantador 
Como se lastima v Hora. 



40 



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506 

Y fiiese tomar ahora 
La forma de mi Senor, 
Para enganar mi Senora. 
Pues esperad, y no os vais, 
Por un espacio pequeno; 
Verná quien representais, 

Y él os hará que volvais 
El falso ^esto á su dueno. 

AMPHITRIÁO 

Vae, velhaco, e chama cá 
Esse falso feiticeiro; 
Que se elle lá dentro está, 
Esta espada julgará 
Qual de nós he o verdadeiro. 

SCENA IV 

' (Amphitrião, Sosea e BelferrÂo.) 
BCLFERRÁO 

Ora ninguém presumira 
Que tinhas tão pouco siso; 
Pois vás achar d'improviso 
Tão bem forjada mentira, 
Que me faz cahir»de riso. 
Hum moço, que alevantou 
Tal graça, nunca nasceo: 
Porque vos jura que achou 
Que ou elle em dous se perdeo, 
Ou de hum dous se tomou. 

SOSEÂ 

Patron, que no burlo, no: 
En uno son dos unidos, 



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• 507 

. Y en dos cuérpos repartidos; 
Yo soy él, y él es yo, 
De un padre y madre nacidos. 

BELFEBRÃO 

Esse tu que lá estás, 
Tão velhaco he coma ti? 

SOSEA 

Mas aun pienso que es mas: 
Por delante y por detrás 
Todo se parece á mi. 
Y fae grán merced de Dios 
Ayuntar á mi mas uno, . 
Que peor fuera de nos, 
Si Dios me hiciera ninguno, 
Que no de uno hacer dos. ' 

BELFERBÂO 

Assi que, se te perdeste 
Vieste a colrar mais hum: 
Mui gentil conta fizeste. 
Pois que perdido soubeste 
Que eras dous, sendo nenhum. 

SOSEA 

Pues teneis por abusion . 
Verdád tan clara, y tan rasa, 
Aunque pone admiracion; 
Quiera Dios, que allá en casa' 
No halleis otro Patron. 

AMPHITRIÂO 

O Patrão, que fui buscar, 



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308 ' 

Pàrec€ que vejo vir: 
Não sei quem o foi chamar; 
Mas que me ha de aproveitar 
Se me não querem abrir? 
Ah Belferrão! 

BÈLFERBÁO 

Ah Senhor 1 
Ja sinto que fui culpado; 
Porque quem he convidado, 
Se tão vagaroso for, 
Merece não ser chamado. 

AMPHITRIÃO 

A vós guem vos convidou? 

BELFERKÃO 

Sosea, por mandado seu. 

AMPHITRIAO 

Disso, Patrão, não sei eu; 
Que Sosea ja me negou, 
E ja se não dá por meu. 
E se alguém vos foi dizer 
Queu vos chamo á minha mesa; 
Mal vos dará de comer 
Quem de todo lhe he defesa 
A casa, e mais a mulher. 

BELFERRÃO . 

Quem he esse tão ousado, 
Que vos isso faz, Senhor? 

AMPHITRIÃO 

Sosea, creio que enganado 



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509 

Por algum eacanlador, 

Que a honra me tee roubado. 

B£LF£RRÃO 

Se elle aqui comigo vem, 
Isso como pôde ser? 

AMPHITRIÃO 

Ah! que a ira que vou ter, 

Tão cega a vista me tem. 

Que mo não deixava ver. 

Porque razão, cavalleiro, 

Não me abris quando^ vos mando? 

Vós fazeis-vos chocarreiro? , 

SOSGA 

Yo Senor? y como? y cuando? 

AMPtUTRIÁO 

Quereis-Io saber primeiro? 
Esperae, dir-se-vos-ha, 
Mas será por outro son. 

SOSEA 

Ah Senor Amphitrion, 
Porque matándome está, 
Sin delito, y sin razon? 

AMPHITRIÃO 

AgDra que vos eu dou 
Me chamais Amphitrião, 
E para me abrirdes não. 

BELFERRÃO 

Este moço em que peccou? 



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510 

Porque pena sem razão? 
Não mais por amor de mi. 

AMPHITRIÃO 

Não, que não sou seu Senhor; 
Eu sou hum encantador. 
Não o dizeis vós assi, 
Ladrão, perro, enganador? 

- SOSCA 

Porque fuy presto á llamar 
Por su mandado ai Patron, 
Me quiere ahora matar? 

AMPHITRIÃO * 

Quem vo-lo mandou buscar? 

SO^A 

Si no hay oiro Amphitrion, 
Vuestra merced sin dudar. 

AMPHITRIÃO 

Eu te mandei? 

SOSEA 

Si Senor, 

» 

Si oiro no. 

*" AMPHITRIÃO 

Outro ha aqui^ 
Por quem tu zombes de mi? 
Pois só desse encantador 
Me quero vingar em ti. 



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5H 

SOSEA 

Oh Júpiter, á quien bramo 
Por sji bondad que me valai 
Pues porque Sosea me Uamo, 
Yo mismo, y despues mi amo, 
Me dieron venida mala! 



ACTOQDINTO 
SCENA I 

(JUPITER, BkLFERRÂO, So$EA 6 AmPHITRIÂO.) 
JÚPITER 

Quem he o Ião atrevido, 
Que aqui ousa de fazer 
Tão revoltoso arruido 
Com meus moços, sem temer, 
Que fui sempre tão temido? 
Quem aqui hz união, 
Toma mui grande despejo. 

BELFEBBÁO 

Oh grande admiração! 
Vejo eu outro Amphitrião,^ 
Ou he sonho isto que vejo? 

SOSE-A 

No mirais Ia encantacioji. 
Que aquel hizo á mi Senor? 
El que sale, Belferron, 
" Es el cierto Amphitrion. 
Que estotro es encantador. 



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51 2 

Sosea? 

SOSEA 

Mi Senor, ya vó. 

JÚPITER 

Patrão, s<) por -vós espero. 

SOSEA 

No os lo dicia yo, 

Que este era el verdadero, 

Y esse que allá queda, no? 

AMPHITBIÃO 

Bargante, aonde te vás? 
Fazes teu Senhor sandeu? 
Pois espera, c levarás. 

JÚPITER 

, O lá, tornae por detrás, 
Não. deis no moço, que he meu. 

AMPH1TRIÁ0 

Vosso? 

JÚPITER 

Meu. 

AMPHITRIÁO 

Pôde isto haver, , 
Que outrem minhas cousas tome? 
Vós galante haveis de ser, 
O que me tomais o nome, 
í^asa, moços e mulher. 



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515 

Eu vos farei conhecer 

Com quem tendes esse Iralo. 



Sosea? 



JUPlTÊR 
SOSEA 

Senor? 



JÚPITER 

Vae dizer, 
Que apparelhem de comer, 
Em quanto este dotido mato. 

BELFERRÃO 

Oh Senhor, não seja assim, 
Haja em vós concerto algum! 
E senão, pois aqui vim. 
Farei que só tome em mim 
Os golpes de cada hum. 

JÚPITER 

Patrão, vossa boa estrella 
Me fará deixar com vida 
Quem me não merece tella. 

AMPHITRIÂO 

Não a tenho eu merecida, 
Pois que vos deixo com ella. 

BELFERRÃO 

o homem que for sisudo,. 
N'huma tão grande questão 
Ha de tomar por escudo 



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5M 

A justiça, e a iazâo; 

Que estas armas vencem tudo. ' 

E pois essa natureza 

Muitos homens faz iguaes, 

Dê qualquer de vós signais 

De quem he, para (ierteza 

Da forma que ambos mostrais. ' 

JÚPITER 

Sou contente de mostrar 
Poios sinaes que vos dou, 
Que sào estes sem faltar. 

AMPHITRIÁO 

Que sinaes podeis vós dar, 
Para que sejais quem sou? 

JÚPITER- 

Estes, que logo vereis 
Se são vãos, se de raiz. 
Patrão, vós sede juiz, 
Que vós logo enxergareis 
Qual mais verdade vos diz. 

BELFERRÃO 

Eu não sinto onde consista 
A cura desta doença, 
Que ha tão pouca differpnça, 
Que aquelle em que ponho a vista. 
Por esse dou a sentença: 
Mas, Senhor, vós que ordenastes 
Que o juiz disto fosse eu, 
Quando se a batalha deu. 



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5Í5 



Dizei, que ni'encommendastès 
Que ficasse a cargo meu? 



^ JÚPITER 

Dei-vos cargo, qu'*estivesse 
Toda a armada a bom recado, 
E, se mal nos succedesse, 
Que para os vivos houvesse 
O refugio apparelhado. 

*BELFCRRÃ0 

Ora vós quantos dobrões 
Esse dia m'entregastes? 

AMPHITRIÃO 

Três mil; e vós os contestes. 

. BELFERQÁO 

Ambos sois Araphitriões 
Pelos signaes que mostrastes. 

JÚPITER 

Para ser mais conhecida 
A tenção deste sandeu, 
Vede ést'outro sinal meu, 
Que.he neste braço a ferida 
Que me El-Rei Terela deu. 

BELFERRÃO 

Mostrae vós, Senhor, também. 

AMPHITRIÃO 

Aqui o [)odeis olhar. 



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5U) 

BELFERnÃO 

Oh cousa para espantar! 
Que ambos a ferida lem 
D'hum tamanho, em hum lugar I^ 

SCENA II 

(JlTPITBR, AmPHITRIÃO e SOSKA.) 
SOSEA 

. Dice mi Senora Alcmena 
Que no se ha de así de estar 
^Gon un bobo á razonar, 
Que se le enfria la cena. ' 

JUPITEB 

Belferrâo, vamos cear. 

AMPHITRIÃO 

Belferrâo, não me deixeis. 
Como? também me negais? 

JÚPITER 

Andae, não vos detenhais, 
Vamos comer, se quereis, 
Não ouçais hum doudo mais. 

AMPHITRIÃO 

Âh máosi assi me ordenais 
Offensa tâo mal olhada? 
Eu farei, se m'esperais, 
Com que todos conheçais 
Os fios da minha espada, 



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5^7 

JUPITEB 

As porlavS pi-estes fechemos, 
Não entre este doudo cá. 

SOSEA 

De fuera se dormirá: 
Entre tanto que cenemos, 
Puede pasearse allá. 

SCENA III 

AMPHITRIÁO sci 

Oh ira para não. crer, 
Em que minh'alma se abraza, 
Que me faz endoudecer, 
E não me ajuda a romper 
As paredes desta casal 
E porque? Não tenho e\i 
Forças, que tudo destrua? 
Pois que tanto a salvo seu, 
Outrem acho que possua 
A melhor parte do meu; 
Eu irei hoje buscar 
Quem me ajude a vir queimar 
Toda esta casa sem pena, 
Donde veja arder Alcmena, 
Com quem a vejo enganar. / 

SCENA IV 

(Adrelio e Moço.) 
AURÉLIO 

Nohallo á mis males culpa, 



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5«8 

Para que merezca pena 
La causa que me condena. 

MOÇO 

Essa está gentil desculpa 
Para' hoje dar a Alcmenal 
Tee-no mandado chamar, 
E elle está tão descuidado! 

AURÉLIO 

Moço, queres-me matar? 
Que desculpa posso eu dar 
Melhor qu*este meu cuidado? 

MOÇO 

E nao ha mais que fazer? 
Com isso a boca me tapa 
Para mais nada dizer? 

^ AURÉLIO 

Ora dá-me cá essa capa, 
E vamos ver o que quer: 
Não trates de mais razão, 
Pois não ha quem te resista. 
Que vejo? outra novação! 

MOdO 

Quehe? 

AURÉLIO 

Ou me mente a vista, 
Ou eu vejo Amphitrião. 

MOÇO 

Eu ouvi a Feliseo, 



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5<9 

Quando cá trouxe o recado, 
Gomo elle era chegado, 
E quiz-me dizer que veo 
Do siso desconcertado. 

ALHKLIO 

Isso quero eu ir saber, 
Pois que tal cousa se sôa. 

SCENA V 

(AuRBLio e Amphitrião.) 
AURÉLIO 

Senhor, póde-se dizer 
Que a vinda seja mui boa? 

AMPHITBIÃO 

Essa não pôde ella ser. 

AURÉLIO 

Porque'^ não? 

AMPHITRIAO ' 

Porque he roubada 
Minha honra sem temor, 
E minha casa tomada, 
E vossa Prima enganada ^ 
Por hum grande encantador. 

AURÉLIO 

Isso he certo? 

AMPHITBIÃO 

E manifesto: 



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J20_ 

E ludo tee ja por seu 
Adúltero e deshonesto: 
Tee-me tomado o meu gesto, 
E faz-lhe crer que sou eu. 

AURCUO 

Contais Kum caso d'espanto! 
E pois não podeis entrar, 
Defendei-me por em tanto, 
Que eu hei de lá chegar 
Para ver quem pode tanto. 

SCENA VI 

AMPHITRIÃO, só 

Se ver deshonra tão clara 
Me não tivera o sentido 
Totahnente endoudecido, 
Que gravemente chorara 
Ver tão grande amor perdido! 
^ E quando vejo a verdade 
Do nosso amor e amizade 
Desfeita com tanta mágoa, 
Enchem-sé-me os olhos d'ágoay< 
E a alma de saudade.- 
Assi que quiz minha estrella, 
Pará nunca ser contente, 
Que agora, estando presente 
Viva mais saudoso delia. 
Que quando delia era ausente. 
Esta porta vejo abrir 
Com Ímpeto deijiasiado. 
Que poderei presumir, 



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521* 

Que vejo Aurélio sahir, 
Como homem desalinado? 

SCENA VII 

(AmpuitriAo, Aurélio; Belferrao e Sosea.) 
AURÉLIO 

Oh estranha novidade! . 
Oh cousa para não crer! 

BELFERRAO 

Venho cego de verdade, 
Que não puderão soffrer 
Meus olhos a claridade. 

SOSEA 

Oh trisle, que vengo ciego 
Con rayos, y con visiones 1 
' Y destas encantaciones, 
Si nuestra casa arde en fuego, 
Han se de arder mis colchones. 

AURÉLIO 

Vamos a Amphitrião ^ 

Conlar-lhe cousas tamanhas. 

AMPHITRIÃO 

Que vai lá? que cousas vão? 

AURÉLIO 

Maravilhas tão estranhas, 
Que me treme o coração. 
Porque aquelle homem, que assi 



21 



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• 522 

Tantos enganos teceo, 
Como era cousa do Ceo, 
Tanto qu'eu appareci, 
Logo desappareceo. 
E em desapparecendo 
Com ruido grande e horrendo, 
Toda a casa alluraiou; 
E de arte nos inflammou, 
Que nos vimos acolhendo 
Do raio que nos cegou. 
Estes acontecimentos 
Não são de humana pessoa. 
Vós ouvis a voz que soa? 

» Escutae, estae atlentos; . 

' Vejamos o que pregoa. 

JÚPITER, de dentro ^ 

Amphitrião, qu'em teus dias 
Vês tamanhas estranhezas, 
Não fespantem phantasias, 
Que ás vezes grandes tristezas 
Parem grandes alegrias. 
Júpiter sou manifesto 
Nas obras de admiração, 
Que pqr mi causadas são: 
Quiz-me vestir em teu gesto, 
Por honrar tua geração. 
Tua mulher parirá 
Hum filho, de mi gerado, 
Que Hercules se chamará, 
O mais valente e esforçado, 
Que no mundo se achará. 
Com este, teus successores 



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525 

Se honrarão de serem teus; 
E (lar-lhe-hao os escriplores, 
Por doze trabalhos seus, 
Doze milhões de louvores. 
£ dessa illustre fadiga 
Colherás mui rico fruito: 
Emfim, a razão me obriga 
Que tão pouco delle diga, 
Porque o tempo dirá muito. 



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Gòogie 



FILODEMO 



INTERLOCUTORES 

FiLODEMO— ViLARDo, scu Moço— DiONYSA — SoLiNA, sua Moça.— Venadoro— 
Monteiro — DoRrÁNO^ Amigo de FiJoderao — Hiiro Pastor — Hum Bobo, Filho 
do Pastor — Floriuena, Pastora — Dom Lusidardo, Pae de Venadoro — Dolo- 
roso, Amigo deVilardo — Três Pastores. 



ARGUMENTO 

Hum Fidalgo Porluguez, que acaso andava nos Reinos de 
Dinamarca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse 
alcançado o amor de huma filha d'El-Rei, foi-lhe necessário 'fu- 
gir com ella em huma galé, por quanto havia dias que a tinha 
prenhe. E de feito, sendo chj^ados á costa de Hçspánha, onde 
elle era senhor de grande património, armou-se-lhe grande tor^ 
menta, que sem nenhum remédio, dando a galé á costa, se per- 
derão lodos miseravelniente, senão a Princeza, que em huma ta- 
boa foi á praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, 
junto de huma fonte pario duas crianças, macho q fêmea; e não 
tardou muito que hum pastor Castelhano, que naquellas partes 
morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tem- 
po que a Mãe ja tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças 
.debaixo da humanidade e criação daqueHe pastor, o macho que 
Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizara, levado da 
natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde 



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526 

por musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, ir- 
mão de seu pae, a quem muitos annòs sérvio sem saber o pa- 
rentesco que entre ambos havia. E como de seu Pae não tivesse 
lierdado ilada mais que os altos espiritos, namorou-se de Dio- 
nysa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao que por suas 
obras e boas partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe 
não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho de D. Lu- 
sidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça, 
andando hum dia no campo após hum cervo, se perdeo dos seus; 
e indo dar em huma fonte, onde estava Florimena, ifmãa de Fi- 
lodemo (que assim lhe pozerão o nome) enchendo huma talha 
de água, se perdeo de amores' por ella, que se não soube dar 
a'' conselho, nem partir-se donde ella estava, até que seu pae o 
não foi buscar. O qual informado pelo pastoi^que a criara (que 
era homem sábio na arte magica) de como a achara e como a 
criara, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa spa 
filha, e prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Flori- 
mena sua sobrinha, irmãa de Filodemo pastor; e também pela 
muita renda que tinha e de seu pae ficara, de que elles erão ver- 
dadeiros herdeiros. Das mais particularidades da Comedia, fará 
menção o Auto, que he o seguinte. 



ACTO PRIMEIRO 
SCENA I 

(Filodemo e Vilardo.) 
FILODEMO 



Moço Vilardo? 



VILARDO 

Ei-lo vae. 



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527 

FILODEMO 

Fallae era má, fallae, 
E sahi cá para á sala. 
O villão como se cala! 

VILARDO 

Pois, Senhor, sahi a meu Pae, 
Que quando dorme não fala. 

FlLODEMO 

Trazei cá huma cadeira: 
Ouvis, villão? 

VILARDO 

Senhor, sim. 
(Se m ella não traz a mim, 
Vejô-lh'eíi ruim maneira.) " 

FILODEMO 

Acabae, villão ruim. 
Que moço para servir 
Quem tee as tristezas minhas 1 
Quem pudesse assi dormir I 

VILARDO, 

Senhor, neslas manhãzinhas 
Não ha hi senão cahir: 
Por demais he trabalhar 
Q|i'este somno se me ausente. 

FILODEMO 

Porque? 

VILARDO 

Porque ha d assentar 



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528 ♦ 

Qae se não for com pão quente, 
Não ha de desafferrar. 



FILObEMO 

Ora hi pelo que vos mando, 
Villão feito de fermento. 

fSah^ Vilar DO.) 

Triste do que vive amando 
Sem ler outro mantimento, 
Qu'estar só phantasiando! 
Só hila cousa me desculpa 
Deste cuidado que sigo, 
Ser de tamanho perigo. 
Que cuido que a mesma culpa 
Me fica sendo castigo. 

( Vem o moço, e assetita-se na cadeira Filodemo, e diz àvanle :) 

Ora quero praticar 
Só comigo hum pouco aqui; 
Que despois que me perdi. 
Desejo de me tomar 
Estreita conta de mi. 
Vae para fora, Vilardo. 
Torna cá: yae-me saber 
Se se quer ja lá erguer 
O Senhor Dom Lusidardo, 
E vem-mo logo dizer^ 

(Vai-S9 o moçp.) 

Ora bem, minha ousadia, 
Sem azas, pouco segura. 
Quem vos deo tanta valia, 
' Que subais a phanlasia 
Onde não sobe a ventura? • 



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529_ 

Por ventura eu não nasci 
No mato, sem mais valer, 
Que o gado ao pasto trazer? 
Pois donde me veio a mi 
Sáber-me Ião bem perder? 
Eu, nascido entre pastores, 
Fui trazido dos currais, 
E d'entre meus naturais 
Para casa dos Senhores, 
Donde vim a valer mais. 
E agora logo tão cedo 
Quiz mostrar a condição 
De rústico e de villão! 
Dando-me ventura o dedo, 
Lhe quero lomar a mão! 
Mas oh! qu'isto não he assi, 
Nem são villãos meus cuidados, 
Como eu delles entendi; 
Mas antes, de sublimados, 
Os não posso crer de mi. 
Porque como hei eu de crer 
Que me faça minha estrella 
Tão alta pena soffrer, 
Que somente pola ter 
Mereço a gloria delia? 
Senão se amor, d'attentado, 
Porque me não queixe delle, 
Tee por ventura ordenado 
Qtie mereça o meu cuidado, 
Só por lei' cuidado nelle. 



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550 



SCENA II 

(ViLARDO e FiLODEMO.) 
VILARDO 

O Senhor Dom Lusidardo 
Dorme com todo o convento; 
E elle com o pensamento 
Quer estar fazendo alardo 
De castellinhos de vento I * 
Pois tão cedo se yestio, 
Com seu daínno ,se conforme, 
Pezar de quem me pario; 
Que ainda o sol não sahio: 
Se vem á mão, também dorme. 
Elle quer-se levantar 
Assi.pela manhãzinha! 
Pois qiíero-o desenganar: 
Nem por muito madrugai 
Amanhece mais asinha. 

FILODEMO 

Traze-me a viola cá. 

VlLARDO 

(Voto a tal que me vou rindo.) 
Senhor, também dormirá. 

FILODEMO 

Traze-a, moço. 

VlLARDO 

Si, virá. 
Se não estiver dormindo. 



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55 < 

FILODEMO 

Ora hi polo que vos mando: 
Não gracejeis. 

VILARDO 

Eis-me vou: 
Pois, pezar de São Fernando! 
Por ventura sou eu grou? 
Sempre hei d'estar vigiando? &!/«?. 

FlLODEMO 

Ah Senhora, que podeis 
Ser remédio do que peno, 
Quão mal ora cuidareis 
Que viveis e que cabeis 
N'hum coração Ião pequeno 1 
Se vos fosse apresentado 
Este tormento en) que vivo, 
Creríeis que foi ousado 
Este vosso, de criado 
Tornar-se' vosso captivo? 

SCENA III 

(FiLODBMO e ViLARDO.) 
VILARDO 

Ora eu creio, se he verdade 
Qu'estou de todo acordado, . ' 
Que meu amo he namorado; 
E a mi dárme na vontade i 
Que anda hum pouco abalado. 
E so tal he, eu daria % 
Por conhecer a donzella 



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352 

A ração (l'hoje esle dia; 
Porque a desenganaria, 
Sómenle por ter dó delia. 
Havia-lhé perguntar: 
Senhora, de que comeis? 
Se comeis d'ouvir canlar, 
De fallar bem, de trovar, 
Em boa hora casareis. 
Porém se vós comeis pão, 
Tende, senhora, resguardo; 
Qu'eis-aqui estáVilardo, 
Qa'he como hum camaleão. 
Por isso, bus, fazei fardo. 
E se vós sois das gamenhas, 
E houverdes d'attentar 
Por mais que por manducar. 
Mi cama son duras penas, 
Mi dormir siempre es velar. 
A viola, Senhor,, vem 
Sem primas, nem derradeiras: 
Mas sabe o que lhe convém? 
Se quer, Senhor, tanger bem, 
Ha de haver mister terceiras. 
E se estas cantigas vossas 
Não forem para escutar, 
E quizerdes espirar; 
Ha mister cordas mais grossas, 
Porque não possão quebrar. 

FILODEMO 

Vao para fora. 

VILARDO 

Ja venho. 



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353 

FILODENO 

Qa'eu só desta phanlásia 
Me soslenho e me mantenho. 

VILARDO 

Quamanha vista que tenho, 

Que vejo a estrella do dia! sahe. 

SCENA IV 

FILODEMO, cantando. 

Adó sube el pensamiento, 
Seria una gloria inmensa 
Si allá fuese quien lo piensa. 

(FaUa.) 

Qual espirito divino ^ 
Me fará a mi sabedor 
Deste meu ma), se lie amor, 
Se por dita desatino? 
Se he amor, diga-me qual 
Pôde ser seu fundamento, 
Ou qual he seu natural, 
Ou porque empregou tão mal 
Hum tão alto pensamento. 
Se he doudiçe, como em tudo 
A vida me abraza e queima, 
Ou quem vio n'hum peito rudo 
Desatino tão sisudo. 
Que toma tão doce teima? 
Ah Senhora Dionysà, 
Onde a natureza humana 
Se mostrou tão soberana! 
O que vós valeis me avisa. 
Mas o qu'eu peno m'engana. 



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334 



SCENA V 

(Solina e Filodemo.) 
SOLINA 

Tomado estais vós agora, 
Senhor co'o furto nas mãos. 

FILOLEMO 

Sojina, minha Senhora, 
Quantos pensamentos vãos 
Me ouviríeis lançar fora? 

SOLINA 

Oh Senhoí, quão bem que sôa • 
O tanger de quando em quando! 
Bem sei eu huma pessoa, 
Que ha ja huma hora, e boa, 
Que vos está escutando. 

FlLODEMO 

Por vida voss^, zombais? 
Quem he? quereis7mo dizer? 

SOLINA 

Não o haveis vós de saber, 
Bofe se me não peitais. 

FILODEMO 

Dar-vos-hei quanto tiver, • 
Para taes tempos como estes. 
Quem tivera voz dos Ceos, 
Pois escutar me quizestesl 



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555 

SOLINA 

Assi pareça eu a Deos, 
Como lhe vós parecestes. 

FILODEMO 

A Senhora Dionysa 
Quer-sê ja alevanlar? 

SOLINA 

Assi me veja eu casar, 
Como despida em camisa 
Se erguèo por vos escutar. 

VíLODEfãO 

Em camisa levantada! 

Tão ditosa he minha estrella? 

Ou mo dizeis refalsada? 

SOLINA 

Pois bem me defendeo ella 
Que vos não dissesse nada. 

FILODEMO 

Se pena de tantos annos 
Merecer algum favor, 
Para cura de meus dannos 
Fartae-me desses engannos, 
Que não quero mais dç Amor. 

SOLINA 

Agora quero eu fallar 
Neste caso com mais tento; 
Quero agora perguntar: 
E de siso his vós tomar 



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336 

Hum tão alto pensamento? 
Certo he minha maravilha, 
Se vós islo não sentis 
Bem: vós como não cahis 
Que Dionysa qu'he filha 
Do Senhor a quem servis? 
Como? Vós não altentáSs 
Os Grandes, de quhe pedida? 
Peço-vos que me digais 
Qual he o fim que esperais 
Neste caso, em vossa vida. 
Que razão boa, ou que côr 
Podeis dar a esta afleição? 
Dizei-me vossa tenção. 

FILODEMO 

Onde vistes vós amor 
Que se guie por razão? 
Se quereis saber de mi 
Que fim, ou de que theor 
O pretendo em minha dor; 
S'eu neste amor quero fim, 
Sem fim me atormente Amor. 
Mas vós com gloria fingida 
Pretendeis de m'enganar, 
Por assi mal me tratar: 
Assi que me dais a vida 
Somente por me matar. 

SOLINA. 

Eu digo-vos a verdade. 

FILODEMO 

Da verdade fujo eu, 



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557 

Porque se o Amor me deu 
Pena de tal qualidade,' 
Assaz me custa do meu. 

SOLINA 

Folgo muito de saber 
Que sois amante tao fmo. 

FILODEMO 

Pois mais vos quero dizer, 
Qua ás vezes no imaginar 
Não ouso de m'estender. 
N^ hora que imaginei 
Na causa de meu tormento. 
Tamanha gloria levei, 
Que por onças desejei 
De lograr o pensamento. 

SOLINA . 

Se me vós a mi jurardes 
De me terdes em s^edo 
Huma coqsa . . . mas hei medo 
De logo tudo contardes. 

FILODEMO 

A quem? 

SOLINA 

Áquelle enxovedo. 

FILODEMO 

Qual? 

SOLINA 

Aquellemáo pezar, 



i< 



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558 

Que ant'hontem comvosco bra. 
Quem se fosse em vós fiar! 
O que vos disse o outro dia, 
Tudo lhe fostes contar. 

FILODEMO 

Que lhe contei? 

SOLINA ' • 

Ja Ih'esquece? 

FILODEMO 

Por certo qu'estou remoto. 

SOLINA 

Hi, que sois hum cesto roto. 

FILODEMO 

Esse homem tudo merece. 

SOUNA 

Vós sois muito seu devoto. 

FILODEMO 

Senhora, nãoliajais metío: 
Contae-m'isso, e far-me-her mudo. 

SOUNA 

Senhor, o homem sisudo, ^ 
Se em taes cousas têe segredo. 
Saiba que alcançará tudo. 
A senhora Dionysâ 
Crede que mal vos não quer: 
Não vos posso mais dizer. 
Isto tende porbalisa 



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559 

Com que vos sa'(bais reger. 
Qu'ein mulheres, se attentais, 
O querer está visibil; 
E se bem vos governais, 
Não desespereis do mais. 
Porque, emfim, tudo he possibil. 

FILODEMO 

Senhora, pôde isso ser? 

SOUNA 

Si, que tudo o mundo tem: 
Olhae não o saiba alguém. . 

FILODEMO 

E que maneira hei de ter 
Para crer tamanho bem? 

SOLINA 

Vós, Senhor, o sabereis; 
£ ja que vos descobri 
Tamanho segredo aqui, 
Huma mercê me fareis 
Em que me vai muito a mi. 

FILODEMO 

Senhora, a tudo me obrigo 
Quanto for em minha mão. 

SOLINA 

Pois dizei a vosso amigo 
Que não gaste tempo em vão. 
Nem queira amores comigo. 



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7^0 

^ Porque eu lenlio parentes, 
Que me podem bem casar; 
E mais que não quero andar 
Agora em boca de gentes 
A quem s'elle vai gabar. 

FILODEMO 

Senhora, mal conheceis 
O que vos quer Duriano: 
Sabei-o, se o não sabeis, 
Qu'em sua alma sente o dano 
Do pouco que lhe quereis; 
E que outra cousa não quer. 
Que ter-vos sempre servida. 

sotmA 
Pola sua negra vida, 
Isso havia eu bem mister. 

FILODEMO 

Vós sois desagradecida! ' . 

SOLINA 

Si, que tudo são enganos 
Em tudo quanto fallais. 

FILODEMO 

Não quero que me creais: 
Crede o temjpo; que ha dous anos 
Que vos serve, e inda mais. 

SOLINA 

Senhor, bem sei que m'engano; 



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Õ4\ 

Mas â vós, como a irmão, 
Descubro este coração: 
Sabei que a Duriano 
Tenho sobeja atfeição. 
Olhae que lhe não digais 
Isto que vos aqui digo. 

FILODEMO 

Senhora, mal me tratais: 
Inda que sou seu amigo, ' 
Sabei que vosso sou mais. 

SOLINA 

E ja que vos confessei 
Aquestas fraquezas minhas, 
Que ha tanto que de mi sei; 
Fazei vós nas cousas minhas 
O qu eu nas vossas farei. 

FlLODEMO 

Vós enxergareis, Senhora, 
O qu'eu por vós sei fazer. 

SOLINA 

Como me deixo esquecer! 
Aqui estivera agora 
Paliando té anoitecer. 
Vou-me; e ólhae quanto vai 
O que passou entre nós. 

FILODEMO 

E porque vos ides vós? 

SOLINA 

Porque parece ja mal 



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342 

,Es(ar aqui ambos sós. 
E mais vou vestir agora 
A quem vos dá tão mâ vida. 
Ficae-vos, Senhor, embora. 

FILODEMO 

Nessa ide vós, Senhora, 
Que ja vos tenho entendida. 

SCENA VI 

FILODEMO, fó. 

Ora se pôde isto ser 
Do qu'esta moça me avisa^ 
Que a Senhora Dionysa, 
Por me ouvir, se fosse erguer 
Da sua cama em camisa! 
E diz que mal me não quer. 
Não queria maior gloria; 
Mas o que mais posso crer, • 
Que nem para lhe esquecer 
Lhe passo pela memoria. 
Mas ter Solina também 
Em Duriano o intento, 
He levar-me a lenha o venlo; 
Porque s'ella lhe quer bem, 
Para bem vai meu tormento. 
Mas foi-se este homem perder 
Neste tempo, de maneira, 
Por huma mulher solteira, 
Que não me atrevo a fazer 
Que hum pequeno bem lhe queira. 
Porém far-lhe-hei hum partido, 



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345 

Porqu'eDa não se querelle: 
Que se mostre seu perdido, 
luda que seja fingido, 
Como lh'outrem faz a ellc. 
E ja que me satisfaz, 
E tanto nisto se alcança, 
Dê-lhe fingida esperança: 
Do mal que lhe outrem faz, 
Tomará nella vingança. 

SCENA vn 

VILARDO, ló. 

Ora boa está a cilada 
De meu amo com sua ama, 
Que se levantou da cama 
Por ouvi-lo I Está tomada: 
Assi a tome má trama. 
E mais crede que quem canta, 
Ainda descantará: 
E quem do leito, onde esta, 
Por ouvi-lo se levanta, 
Mór desatino fará. 
Quem havia de cuidar, 
Que dama formosa e bella 
Saltasse o demónio nella, 
Para a fazer namorar 
De quem não he igual delia? 
Que me dizeis a Solina? 
Como se faz Celestina, 
Que por não lhe haver inveja 
Também para si deseja 
O que o desejo lh'ensina! 



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. 544 

Crede que se me alvoroço, 
Que abei de tomar por dama; 
E não será grão destroço, 
Pois o amo quer a ama. 
Que» a moça queira o moço. 
Vou-me; que vejo lá vir 
Venadoro, apercebido 
Para a caça se partir: 
E voto a tal, que he partido 
Para ver epara ouvir. 
Que he razão justa e rasa 
Que sèu folgar se desconte 
Em quem arde como brasa; 
Que se vai caçar ao monte. 
Fique outrem caçando em casa. 

SCENA VIII 

VENADORO, só. 

Approvada antiguamente 
Foi', e muito (fe louvar 
A occupação do caçar, 
E da mais antigua gente 
Havida por singular. 
He o mais contrário oiSicio 
Que tee a ociosidade, 
Mãe de todo o bruto vicio: 
Por este limpo exercicio 
Se reserva a castidade., 
Este dos grandes Senhores 
Foi sempre muito estimado; 
E he grande parte do estado 
Ter monteiros, caçadores, 



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545 

Como officio qu'be prezado. 
Pois logo porque razão 
A meu pae ha de pezar 
De me ver ir a caçar? 
E tão boa occupação 
Que mal me pôde causar? 

SCENA IX 

(Vbnâdobo e o Monteiro.) 
MONTEIRO' 

Senhor, venho alvoroçado, 
E mais conk muita razão. 

VENADOR0 

Como assi?' 

MONTEIRO 

Que me he chegado 
O mais extremado cão, 
Que nunca caçou veado. 
Vejamos que me ha de dar. 

VENADORO 

Dar-vos-hei quanto tiver;. 
Mas ha-se d'exprimentar, 
Para se poder julgar 
Âs manhas que pôde ter. 

MONTEIRO 

Pôde assentar qu'este cão, 
Que tee das manhas a chave. 
Bem feito? Em admiração. 



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546 

Pois em ligeiro? He huma ave. 
Em commetter? Hum \tòú. 
Com porcos? Maravilhoso. 
Com veados? Extremado. 
Sobeja-lhe o ser manhoso. 

VENADORO 

Pois eu ando desejoso 
D'irmos matar um veado. 

MONTEIRO 

Pois, Senhor, como não vae? 

' VENADORO 

Vamoá, e vós mui ligeiro 
O necessário ordenae; 
Qu'eu quero chegar primeiro 
Pedir licença a meu pae. 



ACTO SEGDNDO 
SCENAI 

DURIANO 

Pois não creio eu em S. Pisco de páo, se hei de pôr pé em 
ramo verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado 
perto de trezentos cruzados com ella, porque Ic^o lhe não man- 
. dei o setim para as mangai, fez de mim mangas ao demo. Não, 
desejo eu de saber, senão qual he o galante que me succedeo; 
que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar 
quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado á minha. Ora te- 
nho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a 
maré com a lua: bolsa cheia, amor em águas vivas; mas se vasa, 



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547 

vereis espraiar esle engano, e deixar em secco quaulos gostos 
andavão como o peixe na ágaa. 



SCENA 11 

(PlLODBHO e DURIANO.) 
FILODEMO 

Ó lá! câ sois vós? Pois agora hia eu bater essas montas, 
para ver se me sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, 
he necessário que vos tire como huma alma. 

DURUNO 

Oh maravilhosa pessoal Vós ne certo que vos prezais demais 
certo em casa, que pinheira em porta de taverna; e trazeis, se 
vem á mão, os pensamentos com os focinhos quebrados, de ca- 
hirem onde vós sabeis. Pois sabeis. Senhor Filodemo, quaes são 
os que me mátao? Húns muito bem almofaçados, que com dois 
ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de brandos na con- 
versação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo que 
não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gabão 
mais Garcilasso que Boscão; e aníbos lhe sabem das mãos vir- 
geps; e tudo isto por vos meterem em consciência que se não 
achou para mais o grão Capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois 
désengano-vos, que a mór rapazia do mundo farão altos espiri- 
tos: e eu não trocarei duas pescoçadas (^a minha &c., despois 
de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e fingir- 
se-me bêbada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão 
escriptos poios troncos das árvores do vale Luso, nem por quan- 
tas Madamas Lauras vós idolatrais. 

FILODEMO 



riLUivcnu 

Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis 



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548 

DUBIANO 

Aposío que adivinho o que quereis dizer? 

FILODEMO 

Que? 

DURIANO 

Que se me não acudíeis com o batel, que me hia meus pas- 
sos contados a herege de amor. 

FILODEMO 

Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhe- 
cer por esse I 

DURIANO 

Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em 
sua opinião I Mas tornando a nosso propósito, que he o para que 
me buscais? que se he cousa de vossa saúde, tudo farei. 

FILODEMO 

Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não 
têe. Senhor Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não pôde 
ser que a natureza não faça em vós o que a razão não pôde: 
o caso he este; dir-vo-lo-hei; porém he necessário que primeiro 
vos aUmpeis como marmelo, e que ajunteis para hum canto da 
casa todos esses máos pensamentos; porque segundo andais mal 
avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós. 
Ja vos dei conta da pouca que tenho coni toda a outra cousa 
que não he servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigual- 
dade dos estados o n㧠consinta, eu v^o pretendo delia mais que 
o não pretender delia nada, porque o que lhe quero, comsigo 
mesmo se paga; que este meu amor he como a ave Phenix, que 
de si só nasce, è não de outro nenhum interesse. 

DURIANO 

Bem praticado está isso; mas dias ha. que eu não creio em 
sonhos. 



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549 

KILODEMO 

Porque? 

. DURIANO 

' Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela 
passiva, dizeis que o amor fino como melão, nSo, ha de querer 
mais de sua dama que amá-la; e virá logo o vosso Petrarcha, 
e o vosso Pietro BembQ, atoado a trezentos Platões, mais çafado 
que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões verisimeis 
é apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vô-la; 
e ao mais até fallar com ella. 

Pois inda achareis outros esquadrinhadores d'amor, mais es- 
peculativos, que defenderão ajusta por não emprenhar o desejo; 
e eu (faço-vos voto splemne) se a qualquer destes lhe entregas- 
sem sua dama tosada e apparelhada entre dous pratos, eu fico 
que não ficasse pedra sobre pedra: e eu ja de mi vos sei con- 
fessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha 
de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, 
com tudo, vá v. m. co'a historia por diante. 

nLODEMO 

Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida 
entre os Doctores: assi que vos conto, que estandtf esta noite 
com a viola na mão, bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão 
dentro de hum pensamento, senão quando me tomou á traição 
Solina;«e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que 
a Senhora Dionysa se levantara da cama por me ouvir, e que 
estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia. 

DURIANO 

Cobras ^e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia 
tanto avante. 

FILODEMO 

Finalmente, veio-me a descobrir-, que me não queria mal, que 



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550 

foi para mi o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado 
com minha pena a soffrer por sua causa, e não tenho agora so- 
jeito para tamanho bem. 

DURIANO 

Grande parte da saúde he para o doente trabalhar por ser 
são. Se vos deixardes manquecer na estrebaria com essas fine- 
zas de namorado, nunca chegareis onde chegou Rui de Sande. 
Por isso boas esperanças ao leme; que eu vos faço bom que ás 
duas enxadadas acheis água. E que mais passastes? 

FILODEMO 

A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era per- 
dida por vós; e me quiz dar a entender que faria por mi tudo 
o que lhe vós merecêsseis. 

DUBIANO 

Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo mare- 
jar esse amor? porque o fechar de pnellas que essa mulher me 
faz, e outros enojos ijue dizer poderia, no son sino corredores 
dei amor, e a cilada em que ella quer que eu caia. 

FILODEMO 

Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer 
que lho quereis. 

DURIANO 

Não . . . quanté dessa maneira me offereço a romper meia dú- 
zia de serviços alinhavados ás panderetas, que bastem assen- 
tar-me em soldo pelo mais fiel amante que nunca calçou esporas; 
e se isto não bastar, salgan las palabras mas sangrientas dei co- 
razon, entoadas de feição, que digão que sou hum Maneias, e 
peor ainda. ^ 

FILODEMO 

Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, por- 
que Venadoro, irmão da Senhora Dionysa, he fora á caça; e sem 



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35J 

elle fica a casa despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no 
pomar; que todo o seu passatempo he enxertar e dispor, e ou- 
tros exercidos d'agricultura, naturaes a velhos: e pois o tempo 
nos vem á medida do desejo, vamo*nos lá; e se puderdes fallaf , 
fazei de vós mil manjares, porque lhe façais crer que sois mais 
esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado. 

DURIANO 

Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil 
maravilhas, com que vosso feito- venha á luz. 

SCENA III 

(D10NY8A e Solina.) 
DIONYSA 

bolina, mana. 

SOLINA 

Senhora. 

DIONYSA 

Trazei-me cá á almofada; 

Que a casa está despejada, 

E esta varanda cá fora 

Está melhor assombrada. 

Trazei a vossa também 

Para estarmos cá Javrando; . 

Em quanto meu pae não vem. 

Estaremos praticando, 

Sem nos estorvar ninguém. 

SOLINA 

Este he o mesmo logar 
Onde estava o bem logrado. 



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552 

Tal que de muito enlevado 
Se esquecia do cantar 
Por se enlevar no cuidado. 

DIONYSÁ 

Vós, mana, sois mui ruim! 
Logo lhe fostes contar 
Que me ergui polo escutar. 

SOLINA 

Eu o disse? 

DIONTSA 

Eu não o ouvi? 
Como mo quereis negar? 

SOUNA • 

E pois isso que releva? 

Que se perde nisso agora? ' 

DIONYSA 

Que se perde! Assi, Senhora, 
Folgareis vós que se atreva 
A contá-lo lá por fora? 
Que se lhe meta em cabeça 
Alguma parvoa tenção? 
Que faça, se vem á mão, 
Algua cousa que pareça? 

SOLINA 

Senhora, não tee razão. 

DIONYSA 

Eu sei mui bem attentar 



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555 

Do que se ha de ter receio, 
E do que he para estimar. 

SOUNA 

Não he o demo tão feio 
Como alguém o quer pintar; 
E não se espera isso delle, 
Que não he ora tão moço. 
E Vossa Mercê asselle 
Que qualquer segredo nelle 
He como huma. pedra em poço. 

DIONYSA 

E eu que segredo quero 
Co'hum criado de meu pae? 

SOLINA 

E vós, mana, fazeis fero? 
Ao diante vos espero. 
Se adiante o caso vae. 

DIONTSA 

O madraço! quem o vir 
Fallar de siso co'ella. . . 
Então vós, gentil donzella, 
Folgais muito de o ouvir? 

SOLINA 

Si, porque me falia nella; 
E eu como ouço fallar 
Nella, como quem não sente, 
Folgo de o escutar, 
Só para lhe vir contar 



«3 



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554 

O que delia diz a gente; 
Qu'eu nao quero nada delle. 
E mais, porque está fallando? 
Não m esteve ella rogando 
Que fosse fallar com elle? 

DIONYSA 

Disse-vo-lo assi zombando. 
Vós logo tomais em grosso* ' 
Tudo quanto me escutais. 
Parvo! que vê-lo não posso. 



f SOLINA 



Ella alli, e o cão co'o ossol 
Inda isto ha de vir a mais. 
Pois que tal ódio lhe tem, 
Paliemos, Senhora, em ai; 
Mas eu digo que ninguém 
Merece por querer bem 
Que a quem lho quer, queira mal. 

DIONTSA 

DeixaeK) vós doudejar. 
Se meu pae, ou meu irmão, 
O vierem a aventar, 
Não ha elle de folgar. 

SOLINA 

Deos meterá nisso a mão. 

DIONYSA 

Ora hi polas almofadas, 
Que quero hum pouco lavrar, 



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555 

Por ter em que me occupar; 
Qaem cousas tão mal olhadas 
Não se ha o tempo-de gastar. 

SOLINA 

Que cousa somos mulheres! 
Como somos perigosas! 
E mais estes tão viçosas 
. Ôu'estão á boca que quet^esf 
E adoecem de mimosas! 
Se eu não caminho agora 
Á, seu desejo e vontade; 
Gomo faz esta Senhora, 
Fazem-se logo nessa hora 
Na volta da honestidade. 
Quem a vira o outro dia 
Hum poucochinho agastada, 
Dar no chão com a almofada, 
E enlevar a-phantasia, 
Toda n^outra transformada! 
Outro dia lhe ouvirão 
Lançar suspiros a molhos, 
E com a imaginação 
Cahir-lhe a agulha da mão, 
E as lagrimas dos olhos. 
Ouvir-lhe-heis á derradeira 
A ventura maldizer, 
Porque a foi fazer mulher. 
Então diz que quer ser Freira; 
E não se sabe entender. 
Então gaba-o de discreto, . 
De musico e bem disposto. 
De bom corpo e de bom roslo. 



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556 

Quanlé eiilão eu vos prometo. 
Que não tee delle desgosto. 
Despois, se vem a attentar, 
Diz que he muito mal feito 
Amar homem deste geito; 
E que não pôde alcançar 
Pôr seu desejo em efiFeito. 
Logo se faz tão Senhora, 
Logo lhe ameaça a vida, 
Logo se mostra nessa hora 
Muilô segura de fora, 
. E de dentro está sentida. 
Bofe, segundo vou vendo, 
Se esta postema vier. 
Como eu suspeito, a crescer. 
Muito ha que delia entendo 
O fim que pôde vir ter. 

SCENAIV 

(DURIANO e FiLODKMO.) 
DURIANO 

Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cui- 
darei o como hei de fazet*; que não ha mór trabalho para huma 
pessoa que fíngir-se. 

FILODEMO 

Dar-lhe-heis esta carta* e fazei muito com eUa que a dè á 
Senhora Dionysa; que me vai nisso muito. 

DURIANO 

Por mulher de tão bom engenho a tendes? 

FILODEMO 

E porque me perguntais isso? 



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557 



DUBIANO 

Porque ainda hontem entrou pelo a, b, c, e ja quereis que 
leia carta mandadeira: fa-la-heis cedo escrever matéria junta. 

FILODEMO ' ' 

Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por 
isso lhe fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando 
a tempos que facão á vossa tenção. 

DURIANO 

Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pan- 
cadas a estes vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem 
gafas; e vós entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá 
vem. 

FILODEUO ^ 

Olhae lá: fazei que a não vedes, e fingi que fallais comvosco; 
que faz a nosso caso. 

DURIANO 

Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remédio de tristes: la terrible 
pena mia no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, po- 
ios santos Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o 
amor, e os cangrejos, andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas 
iM) me espanten, porque suelen aflojar cuando mas duelen.) 

SCENAV 

(Solina t Duriano.) 
SOLINA, cúm a almofada. 

Aqui anda passeando 
Durianó, e só comsigo 
Pensamentos praticando: 
Daqui posso esfar notando 
Com quem sonha, se he comigo. 



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558^ 

DURIANO 

Ah quão longe estará agora 

Minha Senhora Solina 

De saber que estou tem fora 

De ter butra por senhora, 

Segundo o amor determina! 

Porém se determinasse 

Minha bem-aventurança 

Que de meu mal lhe pezasse, 

Até que nella tomasse 

Do que lhe quero vingança! . . . 

SOLINA 

(Comigo 'sonha por certo. 
Ora quero-me mostrar, 
Assim como por acerto: 
Chegar-me-hei mais ao perto, 
Por ver se me quer fallar.) 
Sempre esta casa ha d'estar 
Acompanhada de gente, ' 
Que não possa homem passar! 

DURIANO 

Á traição vindes tomar 
Quem ja feridas não sente? ' 

SOEINA 

Logo me a mi parecia 

Que era elle o que passeava. 

DURIANO 

E eu mal adivinhava 
Qué me viesse este dia. 



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559 

Que ha tantos que desejava^ 
Se huns olhos por vos servir, 
Com o amor que vos conquista, 
Se atreverão a subir 
Os muros da vossa vista, 
Que culpa têe quem vos vir? 
E se esta minha afiFeição, 
Que vos serve de giolhos. 
Não fez erro na tenção, 
Tomae vinganç^t nos olhos, 
E deixae o coração. 

SOLINA 

Ora agora me vem riso. 
Assi que vós sois, Senhor, 
De siso meu servidor? 

DURIANO 

De siso não^ porque o siso 
Me tee tirado o amor. 
Porque o amor, se attentais, 
N'hum tão verdadeiro amante 
Não deixa siso bastante; 
Senão se siso chamais - 
A doudice tão galante. 

SOUNA 

Como Deos está nos Ceos, 
Que se he verdade o qiie temo, 
Que fez isto Filodemo. 

• DURIANO 

Mas fê-lo o demo; que Deos 
Não faz mal tanto em extremo. 



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560 

BOLINA 

Bem. yós. Senhor Dariano, 
Porque zombareis de mim? 

DURIANO 

Eu zombo? 

SOLINA 

Eu não me engano. 

DURIANO 

S'eu zombo, inda em meu dano 
Vejais vós mui cedo a fim. 
Mas vós, Senhora Solina, 
Porque me querereis mal? 

SOLINA 

Sou mofina. 

DURIANO . 

Ohl real. 
Assi que minha mofina 
He minha imiga mortal. 
Dias ha qu'eu imagino 
Qu'em vos amar e servir 
Não ha amador mais fino; 
Mas sinto que de mofino 
Me fino sem o sentir. 

SOLINA 

Bem derivais: quanté assi 
Á popa o dito vos veio. 

DURIANO 

yir-me-ha de vós, porque creio 
Que vós fallais dentro em mi. 



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56< 

Gomo esprito em corpo alheio. 

E assi que em estas pios 

A cahir. Senhora, vim; 

Bem parecerá entre nós, 

Pois vós andais denlro em mim, 

Que ande eu também dentro em vós. 

SOLINA 

He bem: que fallar he esse? 

DURIANO 

Dentro na vossa alma, digo, 
Lá andasse, e lá morresse! 
E se isto mal vos parece, 
Dae-me a morte por castigo. 

SOLINA 

Âh máo! Como sois malvado! 

DURIANO 

Mas vós como sois malvada, 
Que de hum pouco mais de nada 
Fazeis hum homem armado, . 
C!omo quem 'stá sempre armada! 
Dizei-me, SoUna, mana. .. 

SOLINA 

Qu'he isso? Tirae lá a mão: 
Oh! vós sois máo cortezão. 

■ DURIANO 

I 

o que vos quero m'engana, 
Mas o que desejo não. 



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362 

Não ha aqai senão paredes, 
As quaes não fallão, nem vem. 

SOLINA 

Está isso muito bem. 

Bem: e vós, Senhor, não vedes 

Que poderá vir alguém? 

DURIANO 

Que vos custão dous abraços? 

SOLINA 

Não quero tantos despejos. 

DURIANO 

Pois que farão meus desejos, 
Que querem ter-vos nos braços, 
E dar-vos trezentos beijos? 

SOLINA 

Olhae que pouca vergonha! 
Hi-vos d'hi, boca de praga. 

DURIANO 

Eu não sei certo a que ponha 
Mostrardes-me a triaga, ^ 
E virdes-me a dar peçonha. 

SOLINA 

Ora ide rir á feira, 
E não sejais dessa laia: 

DURIANO 

Se vedes minha canseira, 
Porque lhe não dais maneira? 



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565 

* SOLINA 

Que maneira? 

DURIANO 

A da saia. 

SOUNA 

Por minha alma, hei de vos dar 
Meia dúzia de porradas. 

DURIANO 

Oh que gostosas pancadas! 
Mui bem vos podeis vingar, 
Qu'em mim 3ão bem empregadas. 

SOLINA 

Ao diabo, que o eu dou.. 
Como me doeo a mão! 

DURIANO 

Mostrae cá, minha affeição, 
Que essa dor me magoou 
Dentro no meu, coração. 

SOLINA 

Ora hi-vos embora asinha. 

DURIANO 

Por amor de mi, Senhora, 
Não fareis huma cousinha? 

SOLINA 

Digo que vades embora. 
Que cousa? 



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564 

DURUNO 

Esta cartinha. 

SOLINA 

Que carta? 

DURIANO 

De Filodemo 
A Dionysa vossa ama. 

SOUNA 

Dizei, que tome outra dama, 
E dê os amores ao demo. 

DURIANO 

Não andemos pola rama. 
Senhora (aqui para nós), 
Que sentis delia com elle? 

SOUNA 

Grandes alforges sois vósl 
Pois hi-lhe dizer que appelle. 

DURIANO 

Fallae, que aqui'stamos sós. 

SOUNA 

Qualquer honesta se abala, 
Gomo sabe que he querida. 
Ella he por elle perdida: 
Nunca n^outra cousa falia. 

DURIANO 

Ora vou-lhe dar a vida. 



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565 

SOUNA 

E eu nao lhe disse ja 
Quanta affeição lh'ella tem? 

DURIANO 

Não sé fia de ninguém^ 
Nem crê que para eile ha 
No mundo tamanho bem^ 

SOUNA 

Dir-vos-hia de mim lá 

O que lh'eu disse zombapdo? 

DURIANO 

Não disse, porS. Fernando! 

SOLINA 

Ora ide-vos. 

DURIANO 

Que me vá! 
, E mandais que torne? Quando? 

SOLINA 

/ 
Quando eu cá vir lugar, 

Vo-lo mandarei dizer. 

DURIANO 

Se o quizerdes buscar, 
Não VQS deve de faltar, 
Se não faltar o querer. 

SOLINA 

Não falta. 



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^66^ 

DURIANO 

Dae-me hum abraço 
Em sinal do que quereis. 

SOLINA 

Tá, que o não levareis. 

DUBIANO 

De quantos serviços faço 
Nenhum pagar me quereis? 

SOLINA 

Pagar-vòs-hão algum'hora, 
'Que isso a mi lambem me toca; 
Mas agora hi-vos embora. 

DURIANO ' 

Essas mãos beijo, Senhora ,j 
Em quanto não posso a boca. 

SCENAVI 

(Solina que traz a almofada, e Diontsa.) 
SOLINA 

Ja Vossa Mercê dirá 
Qu'estive muito tardando. 

DIONYSA 

^- ' Beni vos delivestes lá. 

Bofe que estava cuidando 
Em não sei que. 

SOLINA 

Que será? 



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367 

Aqui somos. (QuaiUé agora 
Está ella transportada.) 

DIONYSA 

Que rosnais vós lá, Senhora? 

SOUNA 

Digo que tardei lá fora 
Em buscar esta almofada. 
Que estava ella agora só 
Gomsigo plianlasiando? ■ 

DIONYSA 

Bofe que estava cuidando 
Qu'he muito para haver dó 
Da mulher que vive amando. 
Que hum homeúi pôde passar 
A vida mais occupado: 
Com passear, com caçar, 
Com correr, com cavalgar. 
Forra parte do cuidado. 
Mas a coitada 

Da mulher sempre encerrada, 
Que não tee contentamento, 
Não tee desenfadamento. 
Mais que agulha e* almofada? 
Então isto vem parir 
Os grandes erros da gente: 
Forão mil vezes cahir 
Princezas d'alta semente. 
Lembra-me que ouvi contar 
De tantas aíTeiçoadas 
Em baixo e pobre lugar, 



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568 

Que as que agora vão errar 
Podem ficar desculpadas. 

- SOLWA 

Senhora, a muita affeição 
Nas Princezas d'alto estado 
Não he muita admiração; 
Que no sangue delicado 
Faz amor mais, impressão. 
Mas deixando isto ã parte, 
Se m'ella quizer peitar, 
. Prometto' de lhe mostrar 
Huma cousa muito d'arte. 
Que lá dentro fui achar. 



Que cousa? 



DIONTSA 
SOLINA 

Cousa d'esprito. 



DIONTSA 

Algum panno de lavores? 

SOUNA 

Inda ella não deo no fito? 
Cartinha sem sobre-escripto. 
Que parece ser de amores. 

DIONTSA 

Essa he a boa ventura? 

tf 

SOLINA 

Bofe ^ue mo pareceo. 



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569 

DIONTSA 

E essa donde nasceo? 

SOLINA 

No meu cesto da coslura: 
Não sei quem in'alli meteo. 

DÍONYSA 

Mostrae-ma; não hajais medo, 
Mana. Ea que vos descobri . . . 

. SOLINA 

E se ella vem para mi, 
Logo quer ver meu segredo? 
Não a veja: vá-se d'tó. 
Ei-la-ahi. 

DIONYSA 

Cuja será? 

SOLINA 

Não sei certo cuja he. 

DIONYSA 

Si; sabeis. 

SOUNA 

Não sei, bofe. 

DIONYSA 

Ora a carta mo dirá. x 

SOUNA 

Pois leia Vossa Mercê. 

(Abre Dionysa a carta, e lê-a.) 

«Se para merecer minha pena me não falia mais que viver 

TOMO IT ±i 



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570 

contente delia, ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma 
outra cousa vivo triste, senão por não ser para tão doce tristeza. 
Se tendes por oíTensa commetter tamanha ousadia; por maior a 
'devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he fa- 
zer os extremos á medida das affeiçOes, e as affeiç5es á medida 
da causa delias. Pois logo, nem o meu amor pôde sér pouco, nem 
fazer menos: se este não bastar para consentirdes em meu pen- 
samento, baste para me dardes o que pelo ter mereço; e senão 
muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que 
com tê-lo se paga o trabalho de soffre-lo. » 

SOLINA 

Quanta parvoice diz! 

DIONYSA 

Ora muito boa está! 
Gomo vós, mana, sois má! 
Não sejais vós tão biliz; 
Que bem vos entendo ja. 
Cuja he? 

SOLINA 

E eu que sei? 

DIONTSA 

Pois quem o sabe? 

SOLINA 

o demo. 

DIONYSA 

Certo que he de quem temo; 

Que .os ditos que nella achei • 

São todos de Filodemo. 

Este homem, que atrevimento 



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57^ 

He este que foi tomar? 
Qual será seu fundamento? 
Que mil vezes me faz dar 
Mil voltas ao pensamento. 
Não entendo delle nada. 
Mas inda qu'isto he assi, 
Disso que delle entendi, 
Me sinto tão alterada, 
Que me arreceio de mi. 
Eu inda agora não creio 
Què he verdade* este amor; 
Mas praza a Deos, se assi for, 
Que inda este meu arreceio 
Se não converta em temor. 

SOLINA 

Ja vós, j^ sedes, 
Peixes, jias redes. 
Senhora, quem mais confia, 
Mais asinha a cahir vem: 
Natural he o querer bem ; 
Que o amor n'alma se cria, 
Sem o sentir quem o tem. 
Filodemo, no que ouvi, 
Têe-lhe sobeja affeição; 
E postoque o creia assi, 
Ou eu sonhei, ou ouvi, 
Que era d'alta geração. 
Logo na physionomia. 
Nas manhas, artes e geito, 
Mostra mui grande respeito: 
Nem tão alta phantasia 
Não se põe em baixo peito. 



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572 

DIONYSA 

Tudo isso cuido, e vi 
Mil vezes miudamente; 
Mas estas mostras assi 
São desculpas para mi, 
E não para toda a gente. 

SOUNA . 

O seu moço vejo vir 
A nós, seu passo contado: 
Este he muito para ouvir, 
Que diz que me quer servir . 
D'amores esperdiçado. 

SCENAVn 

(ViLARDO, Solina e Diony&a.) 
VILARDO 

Senhora, o Senhor seu pae, 
Mesmo de Vossa Mercê, 
Ja lá para casa vae: 
Por isso. Senhora, andae. 
Que elle me mandou n'hum pé; 
E diz que fosse jantar 
Vossa Mercê mesmamente. 

SOLINA 

E ja veio do pomar? 

DIONYSA 

Oh quem pudera escusar 
De comer, nem de ver gente! 
(Nenhuma côr de verdade 
Tenho do que m'elle manda.) 



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575 

VÍLABDO 

S'ella sem vontade anda, 
Eu lh'emprestarei vontade, 
Empreste-m'ella a vianda. 

SOLINA 

Vá, Senhora, por não dar 
Mais em que cuidar á gente. 

DIONYSA 

Irei, mas não por jantar; 
Que quem vive descontente 
Mantem-se de imaginar. 

VILARDO 

Pois também cá minhas dores 
Me não deixão comer pão; 
Nem come minha aflfeição 
Senão sopadas d'amores, 
E mil postas de paixão. 
Das lagrimas caldo faço, 
Do coração escudella; 
Esses olhos são panella 
Que coze bofes e baço. 
Com toda a mais cabedella. 

SCENA VIU 

fO MonTBiRO^hum Pastor e hum Bobo.) 
MONTEIRO 

Perdeo-se por esta brenha 
Venadoro, meu Senhor, 
Sem que novas delle tenfea: 



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, 574 

Queira Deos que inda não venha 
Desla perda outra maior. 
Contra esta parte daqui 
Des pós hum cervo correo, 
Logo desappareceo: 
Como da vista o perdi, 
O gosto se me perdeo. 
Eu, e os mais caçadores, 
Corremos montes e covas; 
Falíamos com lavradores 
Desle valle, e com pastores, 
Sem acharmos delle novas. 
Quero ver nestes casais 
Que cobre aquelle arvoredo, 
Se acharei pastores mais. 
Que me dem alguns sinais 
Que me possão tomar ledo. 

fCkamaJ 

O dos casaes, ó de lá: 
Ah pastores, não fallais? 

PASTOR 

Quien sois, ó lo que buscais? 

MONTEIRO 

Ouvis? Chegae para. cá. 

PASTOR 

Dicid vos lo que mandais. 

BOBO 

No vayais adó os llamó, 
Padre, sin saber quien es. 



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• 
I 



575 

PASTOR 



Porque? 



BOBO 

Porque este es 
Aquel ladron que huftd 
El asno dei Português. 

Y se vais adó estan,' 

Os juro ai cuerpo sagrado 
De San Pisco, y San Juan, 
Que tambien os hurtarán, 
Que sois asno mas honrado. 

PASTOR 

Déjame ir, que me Uamó. 

BOBO 

No, por vida de mi madre; 
Que si alia vais, muerto so', 

Y desta vez quedo yo, 

Sin asno, triste! y sin padre. 

MONTEIRO , 

Vinde, que vo-lo encommendo, 
E em vossas mãos me ponho. 

BOBO 

No vais, que dijo en cokiendo, 
Encomiendoos ai demónio I 

(Ao Monteiro,) 

Y esso es lo que andais haciendo? 

PASTOR 

Déjame ir adó está, 

Que no es cosa- que me espante. 



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576 

BOBO 

No quereis sino ir allá? ■ 
Pues ecbadie pan delante, 
Puede ser amansará. 

. PASTOR • 

Dios OS guarde! Qué çosa es 
Esa porque voceais? 

MONTEIRO 

Dar-m'heis novas, ou sinais 
D'hum Fidalgo Português, 
Se passou por onde andais? 

BOBO 

Yo so' Hidalgo Português: 
Que manda su Senoria? 

PASTOR 

Gállate: ph qu^ néscio esl 

BOBO 

Padre, no me dejarés 

Ser lo que quisiere un dia? 

Ah Santo Dios verdadero! 
' No seré lo que otros son? 

Digo ahora que no quiero 
• Ser Alonsico, el vaquero. 

PASTOR 

Gállate ya, bobarron. 

BOBO 

Ya me callo: ahora un poço 
He de ser lo que yo quisiere. 



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577 

PASTOR 

Senor, diga lo que quiere, 
Porque este mpchacho es loco, 
Y muero porque noímuere, 

MONTEIRO 

Digo, que se por ventura 
Sabeis o que ando buscando: , 
' Hum Fidalgo, que caçando 
Se perdeu nesta espessura 
Após hum cervo andando. 
Tenho esta parte corrida, 
Sem delle poder saber: 
Trago a alegria perdida; 
E se de todo a perder, 
Percá-se também a vida. 
Porque só polo buscar 
Tenho trabalhos assas. 

BOBO 

(Yo no puedo callar mas.) 

PASTOR , 

(Como no puedes callar? 
Qufítate allá para trás.) 
Cuanto por aquesta tierra, 
N.0 siento nueva ninguna. 

MONTEIRO 

Oh trabalhosa fortuna! 

PASTOR 

Mas detrás daquesta sierra 
Hallareis, por dicha, alguna; 



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378^ * 

Que unas choças de vaqueros 
Portugueses allí estan; 

Y ahí muchas veces van 
Cazadores Gavalleros: 
Puede ser que lo sabran. 

MONTEIRO 

Quero-me ir lá saber. 
Ficae-vos a Deos, paslor. 

PASTOR 

Dios os livre de dolor. 

BOBO 

Y á nos dé sienipre comer 
Pan y sopas, qu'es mejor. 
Mirad lo que os notifico; 
En aquel valle, acuUá, 
Anda paciendo un burrico, 
Hidalgo, manso, y bonico; 
Puede ser que ese será. 

PASTOR 

Calla, y acaba de andar. 

BOBO 

Ya ando. x 

PASTOR 

Quieres callar? 
Bobo que tan poço sabei 

BOBO 

No diceis que ande y acabe? 
Ando, y no quiero acabar. 



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579 



ACTO TERCEIRO 

SCENA I 

(Plobimena, patíora, com hum pote, qiíe w á fonte J 
FLORIMENA 

Por esle formoso prado 
Tudo quanto a vista alcança 
Tão alegre está tornado, 
Que a qualquer desesperado 
Pôde dar certa esperança. ^ - 
O monte, e sua aspereza, 
De flores se veste ledo; 
Reverdece o arvoredo, 
Somente em minha tristeza 
Está .sempre o tempo quedo. 
Junto desta fonte pura. 
Segundo a muitos ouvi, 
D'altos parentes nasci: 
Foi como quiz a Ventura, 
Mas não como eu mereci. 
O dia que fui nascida, 
Minha mãe do parlo forte 
Foi sem cura fallecida; 
E o dia que me deo vida 
Lhe dei eu a ella a morte. 
Do mesmo parto nasceo 
Meu irmão, que entre os cabritos 
Comigo também viveo; 
Mas, assi como cresceo, 
Crescerão nelle os espritos. 



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'580 

Foi-se buscar a cidade; 

Teve juizo e saber; 

Eu fiquei^ como mulher, 

E não tive faculdade 

Para poder mais valer. 

A hum pastor obedeço 

Por pae, que d'outro não sei; 

E pela mãe que matei, 

A huma cabra conheço, 

De cujo leite mamei. 

Mas porém, ja qu'este monte 

Me obriga e meu nascimento, 

Quero, pois quer meu tormento, 

Encher a talha na fonte 

Que co'os olhos accrescento. 

(Finge que enche a táXha.) 

SCENAU 

(Venadoro e Florimena.) 
VENADORO 

Pois que me vim alongar 
Dos caminhos e da gente. 
Fortuna, que o consente, 
Se devia contentar 
De me ter tão descontente. 
Porém, segundo adivinho, 
Por tão espesso an^oredo, 
Por tão áspero rochedo, 
Quanto mais busco o caminho, 
Tanto mais delle me arredo. 
O cavallo, como amigo, 
Ja cansado me trazia: 



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58f 

Mais deixou-me todavia; 
Que mal pudera comigo 
Quem comsigo não podia. 
Quero-me aqui assentar ^ 
Á sombra, nesta hervinha, 
Porque canso ja de andar; 
Mas inda a»forluna minha 
Não cansa de me cansar. 
Junto desta fonte pura 
Não sei quem cuido qu'está; 
Mas no coração me dá 
Que aqui me guarda a Ventura 
Alguma ventura má. 
Ou ganhado, ou bem perdido, 
Faça, emfim, o que quizer, 
Qu'eu o fim disto hei de ver; 
Que ja venho apercebido 
A tudo quanto vier. 
Oh que formosa serrana 
Á vista se me offerece! 
Deosa dqs montes parece; 
E se he certo que he humana, 
O monte não a merece. 
Pastora tao delicada. 
De gesto tão singular, 
Parece-me qu'em lugar 
De perguntar pola estrada, 
Por mim lhe hei de perguntar. 
Atéqui sempre zombei 
De qualquer outra pessoa 
Que affeiçoada topei; 
Mas agora zombarei 
De quem se não affeiçoa. 



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582 

Serrana, cuja pintura 
Tanto a alma me moveo, 
Dizei-me: Por quat ventura 
-Andareis nesta espessura, 
Merecendo estar no Geo? 

FLORIMENA 

Tamanho inconveniente 
Andar na serra parece? 
Pois a ventura da gente 
Sempre he mui dififerente 
Do que, ao parecer, merece. 

VENADORO 

Tal resposta he manifesto 
Não se parecer co'as cabras. 
Pois não vos parece honesto 
Saberdes matar co'o, gesto, 
Senão inda com palabras? 
No mato tudo he rudeza. 
Ha tal gesto e discrição? 
Não o creio. 

FLORIMENA 

Porque não? 
Não supprirá natureza 
Onde falta criação? 

VENADORO 

Ja logo nisso, Senhora, 
Dizeis, se não sinto mal, 
Que do vosso natural 
Não era serdes pastora. 



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585 

FLORIMENA 

Digo, mas pouce me vai. 

VEN ADORO 

Pois quem vos pôde trazer 
Á conversação do monte? 

FLORIMENA 

Perguntae-o a essa fonte; 
Que as cousas duras de crer, 
Hum ãs faça, outro as conte. 

VENADORO 

Esta fonte, que está aqui, 
Que sabe do que dizeis? 

FLORIMENA 

Senhor, mais não pergunteis, 
Porque outra cousa de mi 
Sabei que não sabereis. 
De vós agora sabei, 
O que não tendes sabido: 
Se quereis água, bebei; 
Se andais por dita perdido, 
Eu vos encaminharei. 

VENADORO 

Senhora, eu não vos pedia 
Que ninguém m encaminhasse; 
Que o caminho qu'eu queria. 
Se o eu agora achasse, 
Mais perdido me acharia. 
Não quero passar daqui; 



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584 

E não vos pareça espanto 
Qu'em vos vendo me rendi; 
Porque quando me perdi, 
Não cuidei de ganhar tanto. 

FLORniENA 

Senhor, quem na serra mora 
Também entende a verdade 
Dos enganos da cidade: 
Vá-se embora, ou fique embora, 
Qual for mais sua vontade. 

VENADORO 

OhJindissima donzella, 
A quem a ventura ordena 
Que me guie como estrella! 
Quereis-me deixar a pena, 
E levar-me a causa delia? 
E ja que vos conjurastes 
Vós e Amor para matar-me, 
Oh não deixeis d'escutar-met 
Pois a vida me tirastes, 
Não me tireis 0'queixar-me! 
Qu*eu, em sangue e em nobreza 
O claro Geo me extremou; 
E a Fortuna mo dotou 
De grandes bens e riqueza, 
Que sempre a muitos negou. 
Andando caçando aqui, 
Após hum cervo ferido, . ' 
Permittio meu fado assi, 
Que andando dos meus perdido, 
Me venha perder a mi. 



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385 

E porqu'inda mais passasse 
Do que tinha por passar, 
Buscando quem m'ensinasse, 
Por que via me tornasse, 
Acho quem me faz ficar. 
Que vingança permittío 
A fortuna n'hum perdido! 
Oh que tyranno partido, 
Que quem o cervo ferio, 
Vá como cervo ferido! 
Ambos feridos n'hum monte. 
Eu a elle, outrem a mi: 
Huma differença ha aqui, 
Qu'elle vai sarar â fonte, 
E eu nella me feri. 
E pois que tão transformado 
Me tee vos«a formosura, 
Hum de nós troque o estado. 
Ou vós para o povoado, 
Ou eu para a espessura. 

FLOBIMENA 

Dos arminhos he certeza, 
Se lhe a cova alguém çujar. 
Morar fora, anles d'entrar: 
D'estimar muito a limpeza 
Pola vida a vai trocar: 
Também quem na serra mora 
Tanto estima a honestidade, 
Que antes toma ser pastora. 
Que perder a honestidade 
A troco de ser Senhora. 
Se mais quereis, esta fonie 



TOMO IV . 



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586 

Vos descubra o mais de mim: 
O que ella vio, ella o conte; 
Porque eu vou-me para o moiíle. 
Porque ba ja muito que vim. 

SCENA III 

VENADORO 

Ó Huda minha inimiga, 
Gentil pastora, esperae! 
Pois que tanto amor me obriga, 
Consenti-me que vos siga; 
Vá o corpo onde alma vae. 
E pois por vós me perdi, 
E neste estado Amor pôs 
Os olbos com que vos vi, 
Pois os deixaste sçm mi. 
Oh não os deixeis sem vósl 
Porque a Fortuna me disse 
Que nas serras, onde andais, 
Em estes extremos tais, 
Não era bem que vos visse 
Para não ver de vós mais. 
E pois Amor se quiz ver 
Da livre vida vingado, 
Em que eu sobia viver; 
Faça em mi o que quizer, 
Que aqui vou ao jugo alado. 

SCENA IV 

(Dom Lusidardo, o Monteiro b Filodbmo.) 
LUSIDARDO 

Oh Santo Deos verdadeiro, 



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587 

A quem o mundo obedece! 
Meu filho não apparece. 
E que me dizeis, Monteiro? 

MONTEIBO 

Digo-lhe que m'entristece. 
Qu'eu corri por esses montes, 
Bem quinze léguas, ou mais, 
E busquei poios casais. 
Por serras, montes e fontes, 
Sem ver novas, nem sinais. 
Toda a gente que levou, 
Buscando-o, muito cansada 
Pelo mato anda espalhada; 
Mas ainda ninguém tornou. 
Que soubesse delle nada. 

LUSIDARDO 

Oh fortuna nunca igual! 
Quem me fará sabedor 
De meu filho e meu amor? 
Que se he muito grande o mal, 
Muito mór he o temor. 
Quem tolhe que não achasse 
Algum leão temeroso 
N'algum monte cavernoso, 
Que sua fome fartasse 
Em seu corpo tão formoso? 
Quem ha que saiba, ou que visse. 
Que das montanhas erguidas 
Algum monstro não sahisse, 
E com seu sangue tingisse 
As hervas nellas nascidas? 



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588 

Oli filho! vai-me a lembrar 
Quantas vezes os mandava 
Què deixásseis o caçar! 
Não cuidei de adivinhar 
O que Fortuna ordenava. 
Eu irei, filho, buscar-vos 
Por esses monleSj por hi, 
Ou a perder-me, ou cobrar-vos; 
Que morte que quiz matar-vos, 
Quero que me mate a mi. 
Onde fostes fenecido, 
Seja também vosso pae; 
Ser-me-ha acontecido, 
Como a virote que vae 
Buscar outro que he perdido. 
Vós só haveis de ficar, 
Filodemo, encarregado 
ParjL esta casa guardar; 
Que de vosso bom cuidado 
Tudo se pôde fiar. 
Ide-vos a fazer prestes, 
Mandae cavallos sellar; 
Pois achá-lo não pudestes, 
Ir-m'heis buscar ò lugar 
Onde da vista o perdestes. 

SCENAV 

O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seti. 
(Canta.) 

Los mochachos dei Obispo 
No comen cosa mimosa, 
Ni zanca d'arana, ni cosa mimosa. 



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589 

(Falia.) 

De su sayo colorado 
Tan lozano me veslió. 
Que yo ya no soy yo, 
Ya por otro estoy trocado; 
Que este sayo me troco. 
Oh qué asno Português, 
Que loco por Florimena, 
Deseó zamarra agena, 

Y dame por enterés 
Una zamarra tan buenal 
Como yo vi la bobilla 
Andar con él en questiones, 

Y parársele amarilla, 
Díjele: Florimenilla, 
Andais en dongolondrones? 
El me dijo: Matalote, 

No tengais dello desmayo. 

Y en esto, como un rayo, 
Tomóme mi capirote, 

Y dióme su capisayo. 
Capirote, en buena fé, 

Si vos, cuando en mi entrastes, 
Capisayo vos tornastes, 
Que yo por eso cantará, 
Pues ansí me mejorastes. 

(Canta,) 

Lyrio, lyrio, lyrio loco, 
Con qué? Con capirotada. 
Por hablar con la golosa 
De amores, mirad la cosa!' 
Zamarilla tan hermosa. 



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590 

Que me ha dado tan honrada, 
Gon qué? Gon capirotada. 

(FaUa.) 

Yo entonces respondi: 
Seijor, dame pan y queso. 
Mas despues que lo entendi, 
Dije a ella: Dale un beso, 
Que él me dió zamarra á mi. 
Ahora me miraráh 
Cuantos á la eglesia fueren; 

Y aquellos que no me quieren, 
Ahora me rogarán. 

Sabeis porque no querré? 
Porque esloy ahidalgado; 

Y cuando fuere rogado, 
Cantando responderá, 
Que ya esloy otro tornado. 

(Canta e baila,) 

Soropicote, picote, mozas, 

Ahora quiero amores con vosotras. 

SCENAVI 

^0^ Pastor e o Bobo.) 
PASTOR 

Hijo Alonsillo. 

BOBO 

Hijo Alonsillo. 

PASTOR 

No me quieres escuchar? 

BOBO 

Pues déjame suspirar. 



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594 

PASTOR 

Escúchame ãhora, asnillo, 
Lo que te quiero mandar. 
Vete ai valle de las rosas, 

Y di á Anton dei Lugar 
Que si puede acá Uegar, 
Porque tengo mucbas cosas 
Que importan para le hablar. 
Porque es aqui llegado 

Á este valle un hombre honrado, 
Mancebo de casta buena, 
Que amores de Florimena 
Le traen loco y penado. 
Dice que quiere casar 
Con ella, que su tormento 
No le deja reposar; 

Y que venga festejar 
Tan dichoso casamiento. 

BOBO 

Dicid, padre, tambien vos, 
No quereis casar comigo? 
Casemos ambos adós. 

PASTOR 

Vé, y haz lo que te digo. 

BOBO 

Responde, padre, por Dios. 

PASTOR 

Vé luego, y vuelve apresado. 
Anda. No quieres andar? 



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592 

BOBO 

Pues que me hábeis empujado, 
Juro á mi de desandar 
Todo cuanto tengo andado. 

PASTOR 

Trabajoso es este insano! 
Nunca hace lo que quereis. 

BOBO 

Ora no OS apasioneis, 
Mi padrecico lozano: 
Que burlaba, no lo veis? 

PASTOR 

Vete dahi. 

BORO 

Héme aqui. 

PASTOR 

Vé donde te dije. 

BOBO 

Ya vengo. 
Oh que padrasto que tengo, 
Que asi me manda por ahi, 
Siendo camino tan luengol 

ACTO QUARTO 
SCENA I 

(DiONYSA e SOUNA.) 
DIONTSA 

Oh Solina, minha amiga. 
Que todo este coração 



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595 

Tenho posto em vossa mão; 
Amor me manda que diga, 
Vergonha me diz que não. 
Que farei? 

Como me descobrirei? 
Porque a tamanho tormento 
Mais remédio lhe não sei, 
Que entregá-lo ao soffrimento. 
Meu pae muito entristecido 
Se vai pela serra erguida, 
Ja da vida aborrecido, 
Buscando o filho perdido, 
Tendo a filha cá perdida! 
Sem cuidar, 

Foi a casa enconunendar 
A quem destruir lha quer: 
Olhae que gentil saber, 
Que vai comigo deixar 
Quem me não deixa viver. 

SOLINA 

Senhora, em tanto desgosto 
Não posso meter a mão; 
Mas como diz o rifão, 
Mafe vai vergonha no rosto. 
Que mágoa no coração, 
E bofe, se eu tanto amasse, 
E visse tempo e sazão. 
Sem seu pae, sem seu irmão, 
Que a nuvem triste tirasse 
De cima do coração. 

DIONTSA 

Ah mana! que tenho medo, 



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594 

Que s'eu em tal consentisse 
Que logo o mundo o sentisse. 
Porque nunca houve segredo, 
Que, emfím, se não descobrisse. 

SOUNA 

Se eu tantas dobras tivesse 
Gomo quantas houve erradas, 
Sem que o mundo o soubesse, 
Á fé qu'eu enriquecesse, 
E fosse das mais honradas. 

DIONYSA 

. Sabeis que tenho em vontade? 

SOUNA 

Que podeis, Senhora, ter? 

DIONTSA 

Fallar-lhe, só para ver 
Se he por ventura verdade 
O que dizeis que me quer. 

SOLINA 

Bofe, mana, dizeis bem, 
. E eu o mandarei chamar. 
Como para lhe rogar 
Que hum annel, que lá me tem, 

Que mo mande concertar. 

i 

DIONYSA 

Dizeis mui bem. 

SOUNA 

Vou-me lá 



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595 

Chamar o seu moço á sala; 
E s'este parvo vem cá, 
Com elle hum pouco rirá, 
Que sempre amores me fala. 
Vilardo, moço? 

SCENA U 

(VitARBo e Solina.) 
VILARDO 

Quem chama? 

SOUNA 

Vem cá, moço; eu te chamo. 
Qtfhe de teu amo? 

VILARDO 

Ah que dama! 
Perguntais-me por meu amo, • 
E não por hum que vos ama? 

SOLINA 

E quem he esse amador, 
Que quer ter comigo passo? 
Será elle algum madrasso? ' 

VILARDO 

Eu sou o mesmo, que o amor 
Me quebra pelo espinhasso. 
E mais vós sabei de mi, 
Se eu a dizê-lo me atrevo, 
Que desque esses olhos vi. 
Que yo ni como, ni bebo, 



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596 

Ni hago vida sin ti. 
E mais para namorado 
Não sou ora tão madrasso. 

SOLINA 

Sois muito desmazelado. 

VILARDO 

Mas antes, de delicado 
Caio pedaço a pedaço. 
E mais eu soffrer não posso 
Que me façais tanto fero, 
Qu'estou ja posto no osso, 
Porque sou vosso e revosso, 
Por vida de quanto quero. 

SOLINA 

Feros está cheia a rua. 
Ora estou bem aviada! 

VILARDO 

Cupido, por vida tua, 
Que a não faças tão crua. 
Pois que te não faço nadai 
Amor, Amor, mas te pido. 
Que quando se for deitar. 
Que le digas ai oido: 
Devieis-vos de lembrar 
Neste tempo de hum perdido. 

SOLINA 

E tu ja fazes coprinhas? 
Ainda tu trovarás? 



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597 

VILARDO 

Quem eu? por estas barbinhas. 
Que se vós virdes as minhas, 
Que digais que* não são más. 

SOLINA 

Ora, pois me quereis bem, 
Dizei-me huma. 

VILARDO 

Ei-la aqui; 
E veja o saibo que tem; 
Porque esta trovinha assi, 
Saiba qu*he trova do assem. 

(Trova.) 

Passarinhos, que voais 
Nesta manhãa tão serena, 
Sabei que só minha pena 
Pôde encher mil cabeçais. 

SOLINA 

O rifão está salgadot 
Essa pena te dou eu? 

VII-ARDO 

Vós e Amor, que de malvado, 
Me tee melhor empennado, 
Que nenhum virote seu. 
Pois se me ouvíreis cantar 1 

SOLINA 

E tu és também cantor? 

. VILARDO 

Canto melhor que hum açor. 



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598 

Quereis que vos venha dar 
Musiqueta de primor, 
E que vos mande tanger 
Muito melhor que ninguém? 

SOLINA 

Ja isso quizera ver. 

VILARDO 

Querer-me-heis, se o eu fizer, 
Algum pedaço de bem? 

SOLINA 

Querer-te-hei trinta pedaços. 

VILARDO 

E esse querer dará fruito, 
Que me tire destes laços? 

SOLINA 

E que fruito? 

VILARDO 

Dous abraços. 

SOLINA 

Esse fruito custa muito. 

VILARDO 

Esse he o amor qu'em vós ha? 
Pezar de minha mãe torta! 

SOLINA 

Ora hi, chamae logo lá 



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599 

Vosso amo 'que venha cá, 
Porque he cousa que importa. 

VILÂRDO 

Logo? 

SOUNA 

Logo nessas horas. 

VILARDO 

Não estarei aqui mais? 

SOUNA 

Não. Ainda ahi estais? 
Vós haveis mister esporas. 

VlLARDO 

Irei, porque me mandais. 

SCENA ffl 

fO Pastor, e Venàdoro com elle, feito Pastor.J 
PASTOR 

Más de un mez es ya pasado 
Oue en esta sierra andais; 

Y es caso mal mirado 

Que andeis guardando ganado 
Por una que tanto amais. 

Y si os determinais 

En querer casar con ella, 
Juro á mi que nada errais; 

Y si eso es para habella, 
En vano cabras guardais. 
Ya me distes vuestra fé 



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400 

(Sabendo estas lierras todas): 
Yo con ella me engane, 
Que luego mandar Uamé 
Quien festejase las bodas. 
Y agora dicis con pena, 
Que es dura cosa casar: 
Pues volveos nora buena, 
Que no babéis de enganar 
Con palabras Florimena. 

TENADORO 

Quem se ha de ter coração 
Para tamanho temor? 
Que em mim pegando estão. 
De huma parte a razão, 
E d'outra parte o Amor. 
Também vejo que perdella 
Será minha perdição; 
Que bem me diz a affeição, 
Que pouco faço por ella. 
Pois não desfaço em quem são. 

PASTOR 

Dígoos, si por bajeza 
Dicis que no os conviene, 
Daros hé una certeza, 
Que en sangre y en nobleza. 
Tanto como vos la tiene. 

VENADORO 

Pastor, digo. que daqui 
Farei tudo que quizerdes; 
E se mais quereis de mi. 



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4 0\ 

Digo que vos dou o si 
Para ludo o que quizerdes. 

PASTOR 

Dios os dé su bendicion; 
Y pues que casais con ella, 
Yo os afirmo en conclusion. 
Que a\in de vos y mas delia 
Verná gran generaeion. 
Yo me voy por ella, hijo, 
Tomadia así mal compuesta; 
Vemá quien haga la fiesta; 
Que en placer y regocijo 
Nos festeje esta floresta. 

SCENA IV 

VENADORO sô 

O ribeiras Ião formosas, 
Valles, campos pastoris, 
Porque vos não revestis 
De novas flores e rosas, 
Se minha gloria sentis? 
Porque não seccais, abrolhos? 
E vóSv água, que regando, 
Os olhos his alegrando, 
Correi, que também meus olhos 
D'alegres estão manando. 
Ah pastora, em quem espero 
Poder viver descansado! 
Comtigo guardarei gado, 
Que ja eu sem ti não quero 
Nenhuma alteza (festado. 



iH 



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J02_ 

I 

Diga o que quizer a gente, 
Tudo lerei n'huma palha, 
Porque está claro e evidente . 
Que não ha honra que valha 
. Conlrar a vida descontente. ' 

SCENA V 

(Três Pastm^es bailando, e cantando de terreiro, diante do Pastor, 
que traz Florimena.) 

PASTOR 

Pues el amor os obliga 
Á que hagais tan buena liga, 
^ Tomando a Dios por testigo, 

Daqui os la entrego, amigo, 
Por muger y por amiga. 

VENADORO 

Consentis nisto, Senhora? 

FLORIMENA 

Senhor, em tudo consento. 

VENADORO 

Oh grande contentamento! 

FLORIMENA 

Saiba que nunca tégora 

Lhe houve inveja ao tormento." 

PASTOR 

Asi lo dices, bobilla? 
Oh! mala dolor os duela! 
Pêro no es maravilla 



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403 

Quien consiente ansí la silla, 
CoDsienta tambien la espuela. 

SCENA VI 

(Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, 
que andão em busca de Yenadoro.) 

LUSIDARDO 

Tres dias. ha ja que ando 
Por esta larga espessura 
AVenadoro buscáhdo; 
E o que delle vou achando 
He como quer a Ventura. 

MONTEIRO 

Senhor, cuido que lá vejo 
Huns lavradores cantar. 

LUSIDARDO 

• Hi diante perguntar. 

« MONTEIRO 

Cuniprido he seu desejo, 



Se a vista não m'enganar. 

I 
Gomo assi? 



LUSIDARDO 



MONTEIRO 

Elle não vê 
Aquále pastor loução 
Com huma moça pela mão? 
SeVenadoro não he, 
Nem eu o Monteiro são. 



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m_ 

• • PASTOR 

Quien veo aJlá asomar, 

Que se viene á nuestras bodas? 

BOBO 

No los dejemos llegar, 
Que nos veran á roubar, 
Juro.á mi, las migas todas. 

LUSIDARDO 

Oh Venadoro, meu filho 1 
És tu esle? 

VENADORO 

Tal estou, 
Que cuido que este não sou. 

LUSIDARDO 

Certo que me maravilho 
De quem tanto te mudou. 
Como estais assi mudado 
No rosto e mais no vestido? 

VENADORO 

Ando ja n'outro trocado, 
Tanto, que fiquei pasmado 
De como fui conhecido. 
E se Vossa Mercê vem 
Para me levar daqui, 
Mais ha de levar que a mi; 
E ha de ser quem me tem 
Todo transformado em si. 

BOBO 

Eso porque lo entendeis? 



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Por las migas por ventura? 
Voto á tal no llevareis: 
Por mas y por mas que andeis 
No hareis tal travesura. 

VENÂDORO 

Esta formosa donzella 
Em mi teve tal poder, 
Que folguei de me perder; 
Pois, emfim, vim achar nella 
O que não cuidei de ser. 
Tanto em mi pôde este amor, 
Que a tenho recebida; 
E se o erro grave for. 
Aqui quero ser pastor: ' 
Deixe-me ter esta vida. 

LUSIDARDO 

He certo tal casamento? 

VENADORO 

Tenha-0 por cousa segura. 

LUSiDARDO 

• 

Oh grande acontecimento! 
Descarte sabe a ventura 
Aguar hum contentamento 1 

PASTOR 

Óigame, Senor, á mi, 

Como hombre sábio, discreto, 

Porque acaeció así, 

Y lo que supo hasta aqui 



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406 

Lo puede tener por cierto. 
Muchos anos son corridos 
Que en esta faente abierta, 
En estos valles floridos 
Hallé dos ninos nascidos, 

Y á su madre casi muerta. 
Los ninos chicos crie, 

(Y desto cierto me arreo) 

Y á Ia madre sepulte; 

Y despues un gran deseo 
De saber esto tome. 
Coroo yo fuese ensenado 
De chico á la mágica arte 
Por mi padre, que es finado; 
Muy conoscido y nombrado 
Soy por tal en toda parte. 
Yo con yervas de la sierra, 
Animales y otras cosas 
Haré, si el arte no se yerra, 
Que desciendan á la tierra 
Las estrellas luminosas. 
Soy, en fin, certificado 

Que la madre de los dos 
Fué Princeza de alto estado, 

Y por un caso nombrado 
La trajo á esta tierra Dios. 
El macho, como creció, 
Descoso de otro bien, 

Á la Corte se partió: 

La hembra es esta por quien 

Vuestro hijo se perdió. 

Y si mas quiere, Senor, 
De mi arte, prestamente 



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407 

Dello le haré sabedor; 
Mas ha de ser de tenor 
Que no lo sepa la gente. 

LUSIDÂRDO 

Mas vamos-nos, se quereis, 
Que não sjoffro dilação, 
A minha casa, e então 
Lá disso me informareis. 
Que caso he de admiração. 
E vós, filho, não cuideiç 
Que a gloria de vos achar 
Não he tanto d'estimar, 
Qu'em qualquer 'stado que esteis, 
Não folgue de vos levar. 



ACTO QUINTO 

SCENA I 

(Solina, Dionysa e Filodemo.) 
SOLINA 

Eis Filodemo lá vem: 
Asinha acudio ao leme. 

DIONYSA 

Isso he de quem quer bem;. 
"^Mas não sei se o vio alguém, 
Porque quem espera teme. 
Agora me quizera eu 
Daqui cem' mil léguas ver. 

FILODEMO 

Eolgára (Ml assi de ser, 



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408 

Porqu'esle cuidado meu 

Fora mais de agradecer. 

Que quando por accidente 

A fortuna desastrada 

Vos apartasse da gente 

N'hum deserto, onde somente 

Das feras fosseis guardada; 

Lá por ferro, fogo e ágoa 

Buscar minha morte iria; 

A voz ronca, a lingua fria, 

Tamanho mal, tanta mágoa 

Ás montanhas contaria. 

Lá, mui contente e ufano 

De mostrar amor tão puro, 

Po(}eria ser que o dano, 

Que não move hum peito humano, 

Que movesse hum monte duro. 

DIONYSA 

Nesse deserto apartado 
De toda a conversação 
Merecieis degradado 
Por justiça, com pregão 
Que dissesse: Por ousado. 
E eu também merecia 
Metida a grave tormento. 
Pois que, como não devia. 
Vim a dar consentimento 
A tão sobeja ousadia. 

FILODEMO 

Senhora, se me atrevi, 

Fiz tudo o que Amor ordena; 

E se pouco mereci, • 



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409 

Tudo o que perco por mi, 
Mereço por minha pena. 
E se Amor pôde vencer, 
Levando de mi a palma, 
Eu não lho pude tolher; 
Que os homens nâo têe poder 
Sobre os affectos da alma. 
E ainda que pudera 
Resistir contra o mal meu, 
Saiba que o não fizera; 
Que pouco valera eu, 
Se contra vós me valera. 
Não deve logo ter culpa 
Quem se venceo d'armas tais: 
Assi que nisto, e no mais, 
Tomo por minha desculpa 
Vós mesma que me culpais. 
E se este atrevimento 
Com tudo for de culpar, 
Acabae de me matar; 
Que aqui tenho hum sofifrimento 
Que tudo pôde passar. 
E se esta penitencia, 
Que faço em me perder, 
Algum bem vos merecer, 
Fique em vossa consciência • 
O que me podeis dever. 
Que dizeis a isto. Senhora? 

DIONYSA 

Eu que vos posso dizer? 
Ja não tenho em mi poder, 
Segundo me sinto agora, 



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4i0 ^ 



Para poder responder-. 
Respondei-lhe vós, Solina, 
Pois que a vós me entreguei. 

SOUNA 

Bofe não responderei: 
Veja ella o que determina. 

DIONTSA 

Não o vejo, nem o sei. 

SOUNA 

Pois eu também não sei nada. 

DIONYSA 

Porque? 

SOLINA 

• Do que eu fizer, 
Se despois se arrepender, 
Dirá qu'eu fui a culpada. 

DIONYSA 

Eu só quero a culpa ter. 

SOLINA 

Senhora, por não errar. 
Não quero que fique ^em mim. 
Esta noite no jardim 
Ambos podem praticar 
Como isto- venha a bom fim. 
Lá poderão ajustar 
Entr'ambos o parecer; 
Qu'eu não m'hei nisso de achar, 



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Que não 'quero temperar 
O que outrem ha de comer. 

DIONTSA 

Vós vedes a torvação, 
Que lá nessa casa vae? 

SOLINA 

Dá-me cá no coração 

Que he vindo o Senhor seu pae 

Com o Senhor seu irmão. 

DIONYSA 

Filodemo, hi-vos embora, 
Fallae depois com Solina. 

' SOUNA 

Vamos-nos também. Senhora, 
Receber seu pae lá fora; 
Não venha sentir a mina. 

SCENA II 

(ViLÂROO e Doloroso, que vem dar hum deteante a Solina com os Muticos.) 

VILARDO 

Assi que te contava. Doloroso, destas em que sempre andão 
rugindo as sedas. 

DOLOROSO 

Avante, que bem sei que o não dizeis polassedas de Veneza. 

VILARDO 

Ja sabeis que esta nossa SoUna he tão Celestina, que não 
ha quem a traga a nós. 



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JL2_ 

DOLOROSO 

Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, 
dará e tomará quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de 
cuidar que huma mulher de sua arte ha de querer bem a hum 
parvo como a ti? porque estas taes são cc^o homens sisudos; 
se de noite se achão em algum arruido, onde possao fugir sem 
serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem hâ 
de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: 
Bem pôde ser, porque noite escura he capa de judeos e de en- 
vergonhados. 

VILARDO 

Mui gentil comparação he esta. Mas assique te dizia, o ou- 
tro dia assi zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e 
ja chamei outros dous meus amigos, que logo hão de vir aqui 
ter comnosco. 

DOLOROSO 

Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja 
de siso; porque será a maior parvoice (lo mundo, porque não 
concerta com a parvoice que tu finges. 

VUARDO 

A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, 
que nem com hum cão de busca pude achar humas nesperaspor 
toda esta terra. 

DOLOROSO 

Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opi- 
nião que teus amores te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem 
os outros companheiros, e eu também ajudarei de telhinha ou 
de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos á porta 
da minha padeirinha, porque ando com elha n'hum certo reque- 
rimento. 

VILARDO 

Vossas Mercês vem ao próprio; boa seja a vinda. As gui- 
tarras vem temperadas? 



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4\õ 



DOLOROSO 

Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto. 

YILARDO 

Ora sus: fazei conio se temperásseis cabeça de pescada com 
seu fígado e bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez 
tamanho gasto na sua Missa nova. 

(Netíê p<u$o se dá a miutica com todos quatro, hum tange guitarra, outro pentem, 
outro tdhinha, outro eanta cantigas muito velhas, e no melhor diz Vilabdo :) 

Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he. 

DOLOROSO 

Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro va- 
lhacouto que nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar- 
Ihe as ferraduras. 

SCENA in 

o MONTEIRO, só 

Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão 
gracioso seria quem o pudesse ver de palanque com carta d'al- 
forria ao pescoço, porque não podessem entender nelle Meiri- 
nhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, esperanças, temores, com 
toda a outra cabedella de enfadamentos ! Ora notae bem de quan- 
tas cores teceo a Fortuna esta manta d' Alentejo: perdeo-seVe- 
nadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfa- 
dado, a irmã triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fora do 
couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados 
como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serra- 
nica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fora da madre, 
que a recebeo por mulher; e rapa óleo e chrisma de quem he, 
e renega todas as lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao 
pé da letra o que Deus disse: Por esta deixarás teu pae e mãe. 
E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso era 



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solus peregrinus: sabei que os não dá a fortuna senão aos pa- 
res, como quedas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de 
seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que 
nos annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que 
huma manhãa do S. João, mais mansa que o rio Tejo, mais branda 
que hum soneto de Garcilasso, mais deUcada que hum pucari- 
nho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se 
poderá soífrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a 
parricida, com tanto que dissesse o pregão o porque; porque 
vos não fieis em castanhas (não sei se diga, se o cale, que de 
magoado me trava pola manga a falia da garganta; mas, com 
tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jar- 
dim com Filodemo, mais arrependida do tempo que perdera, 
que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes 
nos cabeçaes se desejar ave de penna. 

SCENA IV 

(DuRiANÓ e o Monteiro.) 
DURI ANO, como cantando 

Ti ri ri, ti ri rão. 

MONTEIRO t 

Que he isso. Senhor Duriano? Que descuidos são esses?. 
Onde he cá a ida agora? 

DURIANO 

Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber ho- 
mem nada de si. 

MONTEIRO 

Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube apro- 
veitar do tempo que ficou só em casa? 

DURIANO 

Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, 
se não he isso caso para sahir com elle a desafio. 



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4^5 

MONTEIRO 

Porque? 

DURUNO 

Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos 
sobre o funil, que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa 
dama que nunca espalhou cabellos ao vento, senão ainda para 
o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a descobrir, que he 
íilho de não sei quem, nem quem não. 

MONTEIRO 

Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que be? que 
eu ouvi ja sobre isso não sei que fabulas. 

DURIANO 

Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he^nenos que Príncipe, 
e peor ainda. Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor 
Dom Lusidardo que aggravado dei Rei, se foi para os Reinos 
de Dinamarca? 

MONTEIRO 

Tudo isso ouvi ja. 

DURIANO 

Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que El- 
Rei de Dinamarca lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua 
filha, a mais moça; e como era bom justador, manso, discreto, 
galante, partes que a qualquer mulher abalão, desejou ella de 
ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe começou 
d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se 4esistem em 
nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessário 
acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle: aco- 
Iheo-se em huma galé; e vede laPrinceza em huma galera nueva, 
con el marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando 
todo esse Oceano Germânico, bancos de Fraudes, mar d'Ingla- 
ten-a, e trazidos á costa d'Hespanha, não os quiz aVentura dei- 
xar gozar do repouso que nella buscavão: deo-lhe subitamente 



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4^6 

tamanha lormenla, que sem remédio deo a galé á costa, onde 
feita pedaços, morrerão lodos desastradamente, sem escapar mais 
que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que 
a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe 
negara. Sahio fipalmente a moça na praia, tal qual o temeroso 
naufrágio deixaria huma Princeza mais delicada que hum armi- 
nho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e despo- 
voada, e sem quem a encaminhasse por onde, depois de ter per- 
dido toda a esperança de ter algum remédio, derão-lhe as dores 
de parto junto de huma fonte, aonde «m breve espaço lançou 
duas 'crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca 
compreição da delicada mulher não pudesse sustentar tantos e 
tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto 
havia que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retra- 
tos delia e de seu pae, que por causa de seus nascimentos a vida 
lhe tirarão, como acontece a viboras. E como as crianças fossem 
destinadas ao que vedes, não faltou hum pastor que as criasse, 
que alli veio ter, dando à mãe a alma a Deos: de maneira que, 
por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, 
e a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja deVenadoro. 

MONTEIRO 

Estranhas cousas me contais. Âssi que logo de seu pae her- 
dou Filodemo namorar a filha do Senhor que serva: não haverá 
logo por mal ó Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e nora, 
quem acha por sobrinhos. 

DURIANO 

Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha 
que Filodemo se parece natural com seu irmão, e Florimena com 
sua mãe. 

MONTEIRO 

Dae-me a entender, como se crêo tão de ligeiro o Senhor 
Dom Lusidardo de quem isso contou. 



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U7 



DCniANO 

No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, 
lhe certificou todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e man- 
dou fazer muitas festas solemnes.Venadoro, casado com sua mu- 
lher e prima, e Filodemo, que o mesmo parentesco tee com a 
Senhora Dionysa, estão fora de crer tamanho contentamento; 
cuido que zombão delle. 

MONTEIRO 

Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; 
pois de meu matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o 
Senhor Dom Lusidardo: dissimulemos. 



SCENA V 

(Dom Lusidardo com Ybnadoro, qtie traz Florimrna jtelamão, 
e Filodemo a Dionysa.) 

LUSIDARDO 

Quem não ficará pasmado 
De ver que por tal caminho 
Tee a Ventura ordenado 
Filodemo, meu criado. 
Vir ser meu genro e sobrinho! 
Quem não pasmará agora 
De ver a ventura minha, 
Que tee tornado n'hum'hora 
Florimena, huma pastora, 
SfiT minha nora e sobrinha! 
Dem-se graças ao Senhor, 
Cujo segredo helJ)rofundo; 
Pois que vemos que quiz dar 
A ventura e o amor 
Por prazeres deste mundo. 



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NOTAS ÁS REDONDILHAS 



N^esta denomínaçílo se comprehendem as poesias menores do nosso Poeta., 
voltas, glosas, esparsas, chistes, endechas, vilancicos, etc; umas eróticas, e que 
pela sua exiguidade tinham particular uso na sociedade de senhoras a quem 
eram dirigidas, e outras pertencem ao estylo epigraromalíco. Não se faz neces- 
sário dar aqui a definição doestes poemetos, que abrangem desde o verso quatri- 
syllabo até o octosyllabo, principal typo da trova antiga ou poesia primitiva por- 
tugueza, porque essa a encontrará o leitornas artes poéticas; só direi que n este 
género, como em todas as outras regiões da poesia, sooresaiu sempre o nosso Poe- 
ta. Bastava a paraphrase do psalmo 136, poesia que tão admirada foi no seu 
tempo, para estabelecer a reputação de qualquer poeta que não fosse Camões; 
graciosas são alem disto outras quando se dirige a clamas, ou responde aos chis- 
tosos apodos das mesmas, ou graceja com os amigos; ás vezes porém ferinas, 
quando estende o arco e dardeja a satyra; este género de poesia ligeira, que 
António Ferreira embalde quiz desterrar : 

A antiga trova deixo ao vulgo, 

reagiu comtudo no seu tempo, c veiu ainda fazer as delicias de nossos pães e avós 
nos decantados outeiros, academias poéticas, certames e nos salões em improvi- 
sos, que muitas vezes davam logar a brilhar a agudeza de engenho de poetas, 
como Bocage e outros. 

SObolos rios que vão, etc. 

Estas redondilhas, diz um auctor contemporâneo de Camões, o editor da edi- 
ção dos Lutiadas de 1584, que foram feitas por occasião do naufrágio da China, 
e lhe chama Cancioneiro, o que dá a entender que ellas faziam parte de uma 
coliecção mais numerosa de poesias do mesmo género; Manuel Sevcrim de Paria, 
seguindo a tradição que havia, também oaffirma, bem como Manuel de Faria e 
Sousa. O sr. bispo de Vizeu segue porém uma opinião different*', fundando-se es- 
pecialmente em parecer que o Poeta tinha o desterro a que allude n 'estas redon- 
dilhas como castigo de erro próprio : 

A pena deste desterro. 
Essa nunca seja ouvida 
Ein castigo do meu erro. 



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420 

o ({ue está em contradicçSo com aquelle verso dos Lusiad(u em que se queixa 
da mjustiça d'este degredo : 

Quando for o injusto mando executado. 

É pois de opinião que foram escriptas em occasifto differente da do naufrá- 
gio, e conjectura que o foram quando teve logar a jornada para a índia, que o 
Poeta reputava como desterro a que iteram causa os spus erros amorosos. Se con- 
cordo com o sr. bispo em que o Poeta n*estas redondilbas se refere vagamente 
e em geral, não só a esta epocha, mas a toda a sua vida transacta, abraço com- 
tudo a opinião de um escriptor contemporâneo, e de outros que mais se avizi- 
nharam do tempo em que viveu o Poeta, que asseveram que foram compostas 
quando teve logar naufrágio. 

Fossem-no porém n'esta ou n'outra occasião, o que é certo é aue foram es- 
criptas em tempo que o poeta se achava animado de sentimentos religiosos, e em 
que algumas d'estas catastrophes da vida acordam a alma adormecida provocando 
o arrependimento de culpas. Se foram feitas pelo naufrágio, corrobora-se mais 
a opinião que já emittimos de que só em Goa recebeu a noticia da morte de 
D. Cathárina de Atbaide; a noticia d'esta morte devia ir nos navios que parti- 
ram para a índia no anno de Í5d7, porquanto falleceu depois da partida das naus 
de Lisboa no anno antecedente; e se os navios da expedição da China que o de- 
viam trazer a Goa, saíram d'esta cidade antes da chegada das naus do reino, só 
em Goa á sua volta viria o Poeta a receber tão triste nova. 

O que me dá logar a acreditar que escreveu estas redondilbas em occasião 
em que acontecimento muito extraordinário da vida provoca a contrição, é que 
alem do seu contexto todo biblico, pois é a paraphrase do psalmo 136, teve tam- 
bém em parte o pensamento da conversão de Boscan, de quem imita algumas for- 
mas de estylo, aindaque muito de passagem, na frequente repetição do —o/t vi. 

Vi mi alma como va, etc. 

Vi mi sesso como es, etc. » 

Vi la parte que se muestra, etc. 

Vi mis quatro cal idades, etc. 

e prosegue : 

Ali vi el enlendiíniento 
Con la verdad por objecto 
E vi todo el regimionto, 
Lo passado e por veiiir 
Todo lo puro delante. 

« 

Estas redondilbas serão de uma obscura interpretação para quem não adver- 
tir que o Poeta toma umas vezes Sião por Lisboa e Babylonia pela índia, e ou- 
tras ve/.es a mesma Sião pelo céu e Babylonia pelo mundo em geral. 

Sentado sobre os rios de Babylonia chora as lembranças de Sião, e quanto 
n*ella passou, comparando Babylonia ao mal presente, Sião ao tempo passado. 
Ali pondo-so-lhe presente as lembranças do tempo transcorrido, viu que todo o 
bem passado não é gosto, mas é magua. E considerando em todas as variedades, 
inconstancias e desenganos que vem a quem se íia da ventura, dependurou a sua 
frauta nos salgueiros, aquella frauta que n'outro tempo fazia mover os montes e 
tornar os abrolhos em rosas, offerecendo-a á fama. 

Porém não lulgue ninguém que o deixar o canto da mocidade n'esta espes- 
sura será obra da idade o que é força da ventura, pois postoque por tão forçosos 
motivos deixe o canto, nunca deixará a causa d'elle : 



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42\ 

Mas CU) tristezas e nojos, 
Em gosto e contentamento; 
Por sol, por neve, por vento, 
Tendré presente á los ojos, 
Por quien muero tan contento. 

Estes dois últimos versos são o remate do soneto dè Boscan, que começa : 

Poneme en la vida, ete. 

Mas lembranças da affeição que ali o tinham captivo lhe perguntaram por- 
que não usava do seu doce canto, pois sempre ajuda a passar qualquer trabalho 
passado. Ao que responde: Como dirá 

Quem tão alhejo está de si, 
Doce canto em* terra alhea; 

porque se quem trabalha canta por menos cansar, elle engeita o descanso; e 
se a paixão o quebrantar antes morra de tristeza do que cante por abranda-la: 
e que maior contentamento do que morrer de pura tristeza? 

Não cantará na frauta o que passa e passou já, porque a penna cansará, mas 
elle não, 

Que se vida táo pequena 

Se acrescenta em terra estranha, 

E se amor assi o ordena,. 

Rasão he que canse a pena 

D' escrever pena tamanha. 

Porém se cansar para exprimir os seus affectos amorosos, não cansará para 
voar a memoria a Sião. 

Muda agora a allegoria representando Babylonia a terra e os seus vícios, e 
Sião o céu. Se por algum motivo apagar da alma a lembrança de Sião, a sua 
alm^ seja dada a perpetuo esquecimento: 

A pena deste desterro, 
Qu'eu mais desejo esculpida, 
Em pedra, ou em duro ferro. 
Essa niinca seja ouvida. 
Em castigo de meu erro. 

É difficíl distinguir que degredo é este a que aqui allude, se se refere a al- 
gum degredo real, como julga Faria e Sousa, Vtretendendo que seja o imaginá- 
rio degredo a que o condemnou o governador Francisco Barreto, ou se em geral 
á terra, considerada como exilio temporário em relação ao céu e vida eterna. 

Rompe em seguida o Poeta em ardentes protestos de contrição, promettcndo 
só cantar canções divinas, e converte toda a sua saudade para o céu : 

E aquella humana figura, 

Sue cá me pôde alterar, 
ão he quem se ha de buscar; 
He raio da formosura. 
Que só se deve d*amar. 

Descreve a luta do amor terreno gue o combate com o celeste, os affectos 
quç o captivam, sophistas que lhe ensinaram maus caminhos por direitos: 

Destes o mando tyrano 
M'obriga com desatino 



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•{22 

A Ctintar ao som do dano 
Cantares d 'a mor profano, 
Por versos d'amor divino. 

Como ha de porém cantar a cançSo que se deve ao Senhor? tanto pôde o po- 
der da f^raça, que faz que se suha da belleza particular para a geral. 

Fique pois pendurada a frauta e tome-se a lyra para cantar Jerusalém sa- 
grada livre de Babylonia; e se mais se curvar a accidentes mundanos risc}ue-se 
tudo quanto já fez do grande livro dos viventes. O Poeta no seu canto religioso, 
que prosegue como inspirado, pede a assistência do céu contra a fraqueza hu- 
mana, que arrase os vi cios que o tentam, e derrube t>s maus afiectos que o que- 
rem derrubar a elle do alicerce. 

Beato só quem pôde resistir ás tentações carnaes, afogando os maus pen- 
samentos^ logo ao nascer, e os desfizer com a penitencia, pondo o pensamento 
n'aquella' carne que esteve já na Cruz. Beato quem, posto o pensamento no céu, 
julga por baixeza os faustos do mundo. 

Ditoso quem se partir 

Para ti, terra excellento, • 

T3o justo e tâo penitente, 

Qut; despois de a ti subir. 

Lá descanse eternamente! 

Terminam estas admiráveis redondilhas com esta exclamação, que bem de- 
nota que foram feitas achando-se o Poeta contricto das suas culpas; seguramente 
quando teve logar o naufrágio. 

Sôbolos rios que váo, etc. 

Nota Faria e Sousa como vicioso este modo de dizer; a edição de 139o traz: 
Sobre os rios. É a traducçáo do primeiro verso do psalmo i36. «Super flumina 
Sabylonis, ittic sedimus et /levimus: cum recordaremur Sion», etc. De Babylonia 
com allusáo á índia veja-se o soneto cxciv. 

Nos salgueiros pendurei, etc. 

Terceiro verso do Psalmo : « Quia illic ivterrogaverunt nos, qui captivos duxe- 
runt noSf verba cantionúm». 

Como dirá respondi, 
Quem alheio está de si, 
Doce canto em terra alheia. 

Verso quarto do psalmo: «Quomodo cantabimus eatUicum Domini in tni^a 
. aliena?» 

Terra betnaven^urada 
Se por algum movimento. 

Verso quinto do psalmo: t>Si oblihis fuero tui Hierusalem, oblivioni delur dex- 
tra mean. Imitação de Job, cap. 19, em que manifesta os mesmos desejos. mQnis 
mihi tribuat, tU scribantur sermones meif Quis mihi deC ut exarerUur in libro slylo 
férreo, et plumbi lamina, vel celie sctdpanlur in sílice. 

A minha língua se apegue. 

Verso sexto: «ÁdhfBreat lingua meá faucibus méis, si non miminero tui». 

E aquella humana íigura. 



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425 

Imitação do Dante, no Paraíso e nas Rimas. 

He sombra daquella idea. 

Dante, Paradiso, Canto iii. 

. Ciò que no maere e ciò que iro può nioríre 
Non è si no spiendor daquella idea 
Que partorince amando il nostro sere. 

E se eu mais der a cerviz. 

Torna a tomar o íio do psalino. 

Risque-se quanto ja fiz 
Do grão livro dos viventes. 

Psalmo 68: «Deleantur de libro viventium; et cumjiutis non scribanlur-, 

Canta-se a visão de paz. 
Uierusalem quer dizer Visão de paz. 

Os ruins filhos de Edom. 

Entende-se os vícios e peccados. Edom foi o nome de Esau. ^Hic sunt au^em 
generationes Esau ipse est Edom ». Genes. Edom quer dizer terreno. 

Estes que tão furiosos 
Gritando vem a escaíar-me. 

Verso sétimo do psalmo : « Qui dicunt, exinanile, exinanite usque ad fundamen- 
tum in ea ». 

E tu, ó carna, qu'encurtas, 
Filha de Babei tão feia. 

Verso oitavo do psalmo: «Filia Dabylonis mísera: beatus qui refribtiet tibi re- 
tributionem quam tetribuisíi nobis». 

Einfím cabeça do canto. 

Canto entende-se por pedra e não por musica ; assim usou o Poeta em vários 
legares. Ode iir, estancia x : 

.^Cessou de alçar Sysifo o grave canto. 

Lusiadas, Canto vii: 

Ém quem quer reprovar da Igreja o canto. 

Ditoso quem se partir. 

Esta copla devera ser de dez versos como as outras; em todas as edições diz 
Faria e Sousa que é de dez, porém é porque a xxxv inclue três quintilhas, e 
sendo erro das copias ou da imprensa, não querendo que fosse com elle, deixou 
esta separada no nm. Diz mais Faria e Sousa que, ou se perdeu uma d'ellas, ou 
o Poeta não teria feito estas guintílhas para serem unidas, o que é possivel, e 
assim SC lóem na primeira edição (1595) separadas; comtudo inclina-se a que 



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42i 

foram feitas unidas, porquanto desde a copla v se seguem umas comparaç(tes 
que o estão indicando. 

Em algumas edições vem separada esta ultima copla, o que nSo acontece na 
edição das Rimas de. 1^98, a segunda d'estas poesias. A mim me parece que se 
devem juntar as quintilhas, porquanto assim luntas o pensamento das duas co- 
plas ligam perfeitamente, e as segundas 'são dependentes da« antecedentes com 
que li|$am; e longe de seguir a opinião de Farin e Sousa e de alguns editores, a 
minha ó que se deve unir com a antecedente da qual é o complemento, e sepa- 
rando na XXXIV as três quintilhas que alguns uniram pôr signal de lacuna de- 
pois do verso 

Que na Cruz esteve ja, 

indicando que falta a copla principio da redondilba que se segue, omittida por 
' descuido do copista, ou por outro qualquer motivo. 

Estas redondilhas foram sempre mui estimadas, e com rasão, pois téem belle- 
zas de primeira ordem. 

Sóbobs rios <fue vão 
Por Babyloma, me achei. 

Sobre os rios que vão 
Por Babylonia, nracbei. 

Edi{fto'de 1593. 
Mas em tristezas e nojos. 

Mas em tristezas e enojos. 

Edição de 1595. 

Tendré presente á los ojos. 

\ 

Teme presente a los ojos. 

Ediçlo de i{L95. 
Por entre o espesso arvoredo. 
Por antr'o espesso arvoredo. 

Edição de 1595. 
D'alma me fores tirada. 

D'alma me fores mudada. 

EdiçSo do 1595. 
Dos affectos com qiie venho. 
Dos affeitos com que venho. 

Edição de 1595. 

Do livre arbitrio que tenho. 

Do livre alvedrio que tenho. 

Ediçio de 1595. 

Cá deste mundo visibil. 
Quanto ao homem for possibiL 

^ Ca deste mundo visível, 

Quanto ao homem for possível. 

Edição de 1595. 



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Para o mundo intelligibiL 

Para o mundo intelligivel. 

EdiçSo de 4595. 

Querendo escrever hum dia, etc. 

Carta a kuma Senhora: — Duvidoso o Poeta do que havia de escrever, appa- 
rece-lhe Amor, e tomando uma penna das azas, fazendo-lhe experimentar os seus 
effeitos ]he foi díctando, fazenao-lhe escrever os milagres da forn^^osura da sua 
amante e as suas tristezas amorosas. 

lYnítando a Boscan no seu Mar de Amor, que começa: 

El sentir de mi sentido. 

e a Petrarcha, canção xxxi, em suecessívas comparações descreve o effeito do seu 
amor até á copla xix; e quando estava todo enlevado e cevando-se na descripção 
amorosa, umas suspeitas, como harpias, lhe convertem em peçonha o goso em 
que estava: e com isto termiha a carta, para não corromper o que tem escripto 
com os males que ha de escrever. 

Escutae e estae attcnto. 
Uma liçáo dizia : 

Ouvido me dai attento. 

Faria e Sousa assim tinha emendado, e assim deve ser porque se dirige a 
uma senhora, e não podia pôr oitenta no feminino, porque não faz consoante 
com pentamento do verso antecedente. 

Na primeira edição vêem as coplas separadas em quintilhas; apesar de virem 
separadas, eu julgo que devem pór-se unidas de dez versos, porquanto a segunda 
(|uíntilha liga sempre com o sentido da antecedente, e é a applicação da com- 
paração. 

Escrevem^ vários moradores. 

Veja-se o que o Poeta diz sobre o mesmo assumpto, estancia xix do canto vii 
dos Lusíadas: 

E junto donde nasce o longo braço 
Gangetico, o rumor antigo conta 
Que os vesinhos da terra moradores, 
Do cheiro se mantém das lindas flores. 

Hum Rei de grande poder. 

É Methridates, rei do Ponto, o qual querendo-se matar com veneno quando 
Pompeu foi vencido, por habituado a elle o não pôde conseguir. Marcial, liv. v, 
epigramma i xxvii. 

Profecit poto Mitridates ssepe veneno 

Toxía ne possent sceva nocere sibi. 

Quem da doença Real. 

Esta doença chamada Mal Régio, é a ictericia. 

Querendo Amor sustentar-se. 

Allude á fabula de Pigmalião que se enamorou de uma estatua, e Vénus con- 
doída a converteu em mulher, com quem casou. 



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i26_ 

D'huma fonte se sabia. 

Faria e Sousa, referindo-se a JoSo Maria Bonardo, Da sua Minera dd Mondo, 
faz niençilo de algumas fontes com differentes virtudes, e entre estas de uma 
igual a esta onde, se alguém era accusado de furto, mettia a mSo e negava o cri- 
me tendo-o praticado, ficava cego. 

Huma herva lhe vai buscar. 

É a celidonia maior. Adverte Faria e Sousa a este respeito o que diz o psal- 
mista, que Deus até das aves cuida, pois ilorece esta planta quando as andori- 
nhas começam a crear, e secca quando acabam os seus trabalhos. 

Lá para onde o sol sahe. 

É á ilha de Sunda que se refere. Veja-se a estancia cxxxiv do canto x dos 
Lusíadas : 

Olha a Sunda tâo larga, que huma banda 
Esconde pára o Sul difficu^toso 
A gente do Sertão, que as terras anda, 
Hum rio diz que tem miraculoso, 
Que por onde elle só vem outro vae, 
Converte em pedra o páo que nelle cae. 

Como na vela s'entende. 

É a mesma comparação de Boscan no seu Mar de Amor. Em Boscan sáo qua- 
torze as comparações, e as do Poeta outras tantas, porém de differente argumento. 

D'ave, que charnSo CamSo. 

Eliano, livro xiv, cap. xxxv, descreve esta ave dando-lhe o nome de porphy- 
rio; Nebrissa lhe chama palemon e outros camão. Parece que o Poeta tomou esta 
comparação dos versos de Alciato, emblema xlvii, que já referimos n'outro logar. 

E daquella arquem te dei. 

' E daquelle a quem te dei. 

EdiçAo de 1393. 
EUa tanto s' entristece. 

Ella só tanto entristece. 

Edição de 1595. " 

A vista a quanto padece. 
A vida a quanto padesce. 

Edição áe 1593. 
Que quem sobre ella jurava. 

Que quem sobr ella jurava. 

Edição do 1593. 

Dama d'estranho primor, etc. 

N'estas redondiihas entra o Poeta em desafio com a sua dama sobre qual 
terá mais força, ella em o maltratar, ou elle em a amar, protestando-lhe que 



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427 

quanto mais por ella for tratado com esquivança, mais a ha de adorar. Termina 
dizendo que por t^o grande constância deveria ter esperança de algum premio» 
que ella lhe quizessc tnnto (quanto elle lhe queria. Parece que o Poeta teve em 
vista alguns logares das poesias de Jorge de Montemaior. Corresponde com o re-«. 
, mate d'estas redondilhas o da estancia i da egloga ii : 

No derradeiro fio 
O tinha a esperança, 
Que com doces enganos 
Lhe sustentara a vida tantos annos 
N'huma amorosa e branda confiança, 
' Que quem tapto queria, 

Parece que não erra se confía. 

Estas redondilhas chamam-se de pé quebrado; diz Faria e Sousa que o Poeta 
. escreve menos n'este género de redondilhas, porque começavam a estar em des- 
uso no seu tempo, e no d'elle commentador já ninguém as escrevia. Havia-as de 
quatro até doze versos. 

Dama d^estrajiho primor. 

Dama de illustre valor. 

Meu MS. 

Porque a converto em amor. 
Que se converta em amor. 

Meu MS. 
E se cuidais. 

Sé cuidais. 

Edição de i595. 

Amar-vos cada vez mais. 



Meu MS. 



Meu MS. 



Querer-vos eada vez mais. 

Crendo qu'em tanta affeição 
Não haja accrescentamento. 

Vendo nue em tanta afQição 
Não póae haver crescimento. 

Invencibil; 

Que Amor sobre o impossibil. 

Invencível; 

Que Amor sobre o impossível. 

Edição de 1595 e meu MS. 

O final desta redonililha é inteiramente diíTerente no meu Ms., por esta forma : 

Todaxi.i 
Amor tcin tanta valia 

Quando quer, 
Que o que ja não pôde ser, 
Faz elle em nós cada dia. 



. \ 



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428 

As cinco redondilhas que se seguem sSo inteiramente diíTerentes no meu Ms., 
por esta fórma: 

Mas em tamanho perigo, 

Muito digo; 
Pois que tão livre viveis, 
Que jamais que eile podeis 
Neste mal que usais comigo: 

E se for 
O poder vosso maior 

Antre nós, 
Quem poderá mais que vós, 
Se vós podeis mais que amorf 

Segundo o vejo vendido, 

Não duvido, 
Que se possa presumir; 
Qu'em lugar de vos ferir, 
Saia de vos ver ferido. 

Mas suspeito 
Que quando em vós direito 

Desarmar, 
Que se lhe virou no ar, 
A setta contra seu peito. 

Pois se está ferido amor 

Desta dor, 
De quem me aquéixo ou que fallei? 
Se em vez de ser seu vassailo, 
Vou ser seu competidor. 
Ja perdi quanto amando mereci, 

Pois conheço. 
Que aquelle bem que lhe eu peço, 
Vos pede elle para si. 

Mas mais se deve a meu mal 

Paga igual, 
Pois que por vós nSo duvido 
De ser traidor sabido 
A meu Senhor natural. 

O Senhor, 
Neguo com quanto q'em mim for; 

Mas se olhar. 
Quem por vós tudo neguar, 
Náo pôde neguar amor. 

Que poderei ja tomar. 

Ou deixar. 
Pois que me trazeis tão ceguo ; 
Que aqui i lo que por vós neguo, 
Por vós torno a confessar. 
, Bem sei eu. 

Que neguar o Senhor meu 

Ja não posso, 
Que se elle. Senhora, he vosso, 
Eu sou vosso sendo seu. 



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429 

Suspeitas, que me quereis? 

A e^tas suspeitas se refere na carta ou redondilhas que começam : 

Querendo escrever hum dia, etc. 

O.Poeta, apesar de se inflammar como doudo em vinganças e iras, e jurar ar- 
rancar d'álma e pôr n'outra parte o seu amor,^o nSo pôde fazer e prefere que a 
sua dama lhe confesse e declare a sua desgraça, embora n'elle se execute a peni- 
tencia e seja condemnado ao inferno dos ciúmes. Boscan escreveu umas trovas 
ao mesmo assumpto. Veja-se também Garci lasso, soneto xxx : 

Suspechas qjie en mi triste fantesia, etc. 

De af-rancar d'alma os amores. 

D'arrancar d'alma os^ amores. 

EdiçSo d^ 1595. 
Que contentar-me co'os danos. 

Que contenta r-me cos danos. 

Edição de 1595. 

Cofre sem vela e sem leme, etc. 

Lahyrinio, queixando- se do mundo ;~ Esta composição se forma de q^iadras 
ou quintilhas. O seu mecbanismo consiste em que lendo-se seguidamente como 
redondilhas façam sentido, ou tomando-se versos da primeira e juntando-se aos 
da segunda quintilha ou redondilha, ou lendo-se as Quintilhas liprisontalmente, 
de todo o modo façam sentido. Ha os acrósticos em íorma de cruz, de estrella ou 
de outro qualguer modo á vontade do poeta. Na primeira edição vem com este 
titulo: •Lahyriníp do autor queixando-se do mundo», n'elle se lêem os primeiros 
cinco versos separados, e o resto das quintilhas juntas em redondilha, excepto os 
últimos cinco versos; deviam-se talvez ler todos em quintilhas separadas. O ar- 
tificio do presente labyrinto é o seguinte. Léem-se primeiro seguidas as quintilhas 
ou redondilhas, toina-se depois o primeiro verso da primeira copla, o primeiro 
da segunda, o primeiro da terceira, o primeiro da quarta e o primeiro da quinta, 
que juntos formam esta quintilha: 

Corre sem vela e sem leme 
A náo, que se vai perder. 
Que poderá vir a ser 
Nâo porque governe o leme 
, Na tormenta, se vier. 

Toma-se o segundo verso da primeira copla e os segundos das outras coplas, 
e forma-se outra quintilha por esta forma: 

O tempo desordenado, 
Destrue mil esperanças; 
O mal nunca refreado. 
Em mar envolto e turbado, 
Desespere na bonança. 

Tomando o terceiro verso de cada copla, tira-sc esta quintilha : 

D'hum grande vento levado: 
Vejo o máo que vem a ter; 



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4õO 

Anda» por certo, enganado 
Que ièe seu rumo mudado, 
Quem manhas nHo sabe ter. 

Tomando pela mesma ordem o quarto verso de cada copla, forma-se esta 
quintilha: 

O çiue perigo não teme, 
Vejo perigos correr; 
Aqueile que quer valer, 
Se perece grita e geme, 
Sem que lhe valha gemer. 

Seguindo a mesma ordem com. o quinto vvrso se faz a quintilha que se se- 
gue: 

\ He de pouco exprimentado, 

Quem não cuida que ha mjiidanças. 
Leivando o caminho errado, 
iLm tempo desordenado 
Verá falsar a balança. 

Do mesmo modo se formam as seguintes quintilhas, tomando os sextos, séti- 
mos, oKavos, nonos e décimos versos das redondilhas: 

' As re(}eas trazem na mão 
Os que nunca em sella andarão, 
He para os bons confusão, 
Terem justo galardão. 
Os que num;a trabalharão. 

Os que rédeas não ti verão 

Na sella postos se vem: 

Ver que os máos pre\alecérão, x 

E dor dos que merecerão, 

Tendo o que lhe não convém. 

Vendo quanto Tnal fízerão 
De fazer mal não deixarão; 
Que, posto se deti verão. 
Sempre castigos tiverão 
Se ao innocentc enganarão. 

A cobiça e ambição, 
De demónio hábito tem. 
Com esta simulação, 
Sem nenhuma redempção, 
Perderão o eterno bem. 

Disfarçados se acolherão. 
Os que o justo profanarão; 
Sempre castigos tiverão : 
Poçtoque se deliverão 
Se do mal não s'apartárão. 

Lé-se ainda este labyrinío por dois modos, tomando a primeira quintilha, ter- 
ceira, quinta, sétima e nona, sendo o seu argumento no singular, e tomando a 
segunda, quarta, sexta, oitava e decima, sendo o argumento no plural por esta 
maneira : 



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4ò\ 

Corre sem vela e sem leme 
O tempo desordenado, 
D'hum grande vento levado . 
O que perigo nfto teme, 
He de poaco exprimenlado. 

A náo que se vai perder, 

Destrue mil esperanças: 

Vejo o máo que vem a ter; 

Vejo perigos correr 

Quem não cuida que ha mudanças. 

Que poderá vir a ser 
O mal nunca refreado? 
Anda, por certo, enganado 
Aquelie que quer valer, 
Levando o caminho errado. 

Não porque governe o leme 
£m mar envolto e turbado, 
Que têe seu rumo mudado, 
Se perece grita e geme 
Em tempo desordenado. 

Na tormenta, se vier. 
Desespere na bonança, 
Quem manhas não sabe ter : 
Sem aue lhe valha gemer, 
Verá lalsar a balança. 

Com o argumento no plural, e tomando, como dissemos, a segunda, quarta, 
sexta, oitava e decima c^intilha se lé por esta forma: 

As rédeas trazem na mão 
Os que rédeas não tiverão: 
Vendo quanto mal fizerão 
A cobiça e ambição, 
Disfarçados se acolherão. 

Os que nunca em sella andarão. 
Na sella postos se vem : 
De fazer mal não deixarão; 
De demónios hábitos tem 
Os que o justo profanarão. 

He para os bons confusãe. 
Ver que os máos prevalecerão ; 
Que, posto se deti verão 
Com esta simulação, 
Sempre castigos tiverão : 

Terem justo galardão, 
E dor dos que merecerão, 
Sempre castigos tiverão 
Sem nenhuma redempção, 
Postoque se detiverão. 



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452 

Os aue Dunca trabalharão, 
Tenao o que lhe não convém, 
Se ao innocente enganarão. 
Perderão o eterno bem, 
Se do mal não s'apartárão. ^ 

Mal empregado tempo gasto com estas poesias tão superíicíaesi Fernão Alva- 
res do Oriente traz na sua Lusitânia um labtfrinto a Nossa Senhora, em quinti- 
lhas, e logo em seguimento vem outro em oitava rima. Filippe Nunes, na sua 
Arte Poética, prescreve a regra dos consoantes d'e8ta poesia. 

De demónio hábito tem. 

Do demónios hábito tem. 

Edição de 1595. 
Que lêe seu rumo mudado. 

Que tem seu remo mudado. 

Ediç3o de 1593. 

Se não quereis padecer, etc. 

Convidou Camões certos fidalgos na índia, e em logar de iguarias encontra- 
ram entre dois pratos estas redondilhas. Eram os convidados D.Vasco de Atbaide, 
D. Francisco de Almeida, Heitor da Silveira e João Lopes Leitão; o meu Ms. não 
traz Heitor da Silveira, mas sim Jorge de Moura. Todos estes fidalgos, amigos do 
Poeta, pertenciam á primçira nobreza de Portugal; alguns tinham acompanhado 
o vice-rei D. Constantino de Bragança, de sorte que este convite devia ser feito 
para festejar a sua chagada. 

A primeira iguaria foi posta a D.Vasco de Atbaide, o da- Castanheira, filho 
de D. Peãro de Atbaide, que o foi de outro do mesmo nome, abbade de Penalva, 
filho natural de Álvaro Gonçalves de Atbaide. D.Vasoo de Atbaide militou na 
índia, foi por capitão de uma nau na armada contra o Achem em que ia o go- 
vernador Francisco>Barreto. Achou-se no infeliz conflicto do Babarem onde fálle- 
ceu D. Álvaro da Silveira, amigo de CamOes, a cuja morte escreveu a elegia xxvin, 
e elle D.Vasco foi gravemente ferido de uma lançada, voltando ainda convales- 
cente n'outra armada ao Babarem a tomar vingança dos fidalgos parentes e ami- 
gos que abi pereceram. 

Heliogabalo zombava, etc. 

Esta segunda iguaria foi posta a D. Francisco de Almeida, filho de D. Lopo 
de Almeida, filho segundo do prior do Crato D. Diogo Fernandes de Almeida, fi- 
lho de Lopo de Almeida, primeiro conde de Abrantes. Tinha este fidalgo ido 
Íiara a Índia com o vice-rei D. Constantino de Bragança, e por mandado d'este 
òi em favor do rei de Cochim expulsar a gente do Çamorim da ilha de Pom- 
balão, e depois d'elle a bavt^r recuperado, a entregou D. Constantino áquelle rei. 
Foi denois D. Francisco capitão de Tangere, e aquelle mesmo a quem andando 
juntando gente para resistir á invasão de Filippe II, o Poeta escreveu aquella 
tão interessante carta, da qual apenas nos restam os fragmentos; n'ella descrevia 
o estado das facçOes do reino, e manifesta os seus sentimentos patrióticos. Era 
tão amigo d*este fidalgo o Poeta, que, segundo nos afifirma o editor da edição de 
4626, ou ante^ em seu nome D. João de Almeida, filho de D. Francisco, Camões 
dizia que só por não estar este fidalgo na índia se retirava para o reino. 

N'esta reaondilha se refere ao bem conhecido facto do feroz imperador ro- 
mano, que fazendo esplendidos convites, zombava dos convidados, apresentando 
em vez de iguarias verdadeiras manjares pintados nos pratos. 



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4ÕÕ 

Céa nSo a papareis, etc. 

A terceira iffnaria foi posta a Heitor da Silveira, o Drago. Era este fidalgo 
cunhado de André Falcão de Resende, e grande amigo de Camões, em cuja com- 

Êanfaia veiu para o reino, jtendo a desdita de morrer já á vista do cabo da Roca. 
Ira bom poeta, cavaileiro esforçado, e pobre como Camões, como se deprehende 
dos versos que enviou ao conde de Redondo; a eile dirigiu seu cunhado André 
FalcSo de Resende as satyras v e vin, e a epistola i ; e n*estas mesmas obras, a que 
já ailudimos em outra parte do nosso trabalho, e que se imprimem na imprensa 
da universidade de Coimbra, vem uma resposta de Heitor da Silveira á primeira 
d'es(as duas satyras e ú, epistola. Para o leitor poder julgar do estylo d'este ca- 
valheiro e poeta, cujas obras se perderam, darei aqui uns fragmentos da resposta 
á e.pistola, em que, minado pela saudatte da esposa, lhe inveja a vida quieta que 
contrasta com a sua inquieta e turbulenta, e declama contra os que se passam ás 
conquistas após o oiro e uma falsa opinião de honra. 

Tudo nos roubam cá, té o desejo, 
Que em nosso peito mora, lá o desviam'; 
Parece que lhe faz afifronta, ou pejo. 

Este é o ouro, este é o metal, que criam 
Estas partes de cá, que em poucos annos 
Europa de varões nobreá despiam. 

Cruel Gama, cruel, que tantos damnos 
Ó Lusitano dás) Que se desfaça 
Em pó tanto varão por bens mundanos! 

Ó desleal cubica! viva traça. 
Faminta harpia, que por quasi nada 
Alma, que livre é, presa andar faça ! 

Termina com uma apostrophe saudosa á esposa : 

— Ó certo norte meu, luz clara e guia, 
Beliza de minha alma — em vão chamava : 
Jurara, amigo André, ora que a via. 

Beliza, amor, Beliza, mal cuidava. 
Quando de vós fugi quasi voando. 
Que vinha o mal voando, e cá o achava! 

Parti-me sem vos ver, assi enganando 
A dura saudade bem guardada, 
Que inda ora, mais que então, estou chorando. 

Mas não será fortuna tão ousada, 
Se a doce liberdade me ora nega. 
Que muito tempo assi m'a tinha atada. 

Esta confiança, André, só meTsocega, 
E me desvia de mil máos extremos, 
A que a vãa phantasia se me apega. 

Amor me diz á orelha, que nos vemos 
Cedo já sem fortuna mar bonança : 
Em quanto tarda, assim nos visitemos, 
Se dar-me queres vida, ou esperança. 

Quão enganados desejos ! e como são vários os destinos da vida humana ! Á vista 
da pátria nem ao menos pôde morrer nos braços de uma esposa que tão extre- 
mosamente amava, e só coube a ella .receber o cadáver frio do marido, onde se 
encerrava um coração abrasado de um amor tão constante e apaixonado. 

TOMO IT 48 



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Não Caparica, mas tinta, etc. 

Por este verso se vé que o vinbo da freguezia de Caparica, situada da oatra 
banda do Tejo, próximo de Almada, era tido como muito especial : hoje temos 
vinhos muito mais generosos. 

A epistola xviii de Pedro de Andrade Caminha é também dirigida a Heitor 
da Silveira em resposta a outra suá escripta da índia, em que lhe noticiava a 
morte de JoSo Lopes Leitão, de quem passámos a tratar. 

Porque os que vos convidarão, etc. 

A quarta a João Lopes Leitão. Itfanuel de Faria e Sousa não pôde descobrir 
quem fosse este cavalheiro; foi lilho de Francisco LeítAo, fidalgo que viveu no 
reinado d'el-rei D. Manuel, e de D. Joanna Freire, filha de Rodrigo de Sande, ve- 
dor da rainha D. Maria e embaixador ao rei catbolico D. Fernando, a quem ti- 
nha servido na conquista de Granada, que lhe foi muílo aceito, e lhe deu o 
Dom, e de sua mulher D. Margarida Freire, viuva de Estevão de Brito, alcaide mór 
de Beja, e filha de Nuno Fernandes Freire. João Lopes Leitão, sendo moço foi 
pagem da lança do príncipe D.João, pae d'el-rei D. Sebastião, e no torneio de Xa- 
bregas, que se deu por occasião d'este príncipe tomar as primeiras armas, foi pa- 
relha de Fernão da Silva, vedor da fazenda e regedor da justiça. Foi poeta, jovial 
e cortejado r das damas, e por este motivo sendo moço, e antes de ir para a ín- 
dia, o mandou el-rei D. JoAo III prender em casa por entrar uma porta a ver 
as damas do paço contra vontade do porteiro, a cujo propósito fez Pedro de An- 
drade Caminha o epigramma clxvii, a que o preso responde no epigramma clxviii 
da mesma collecção de poesias, publicada pela academia real das scíencias de Lis- 
boa. As poesias de João Lopes Leitão perderam-se; apenas resta a resposta ao 
epigramma, a quintilha que vem n*este convite que começa : 

Pezar ora não de são, 

e attribue-se-lhe o soneto que acompanha as obras de Camões 

Quem he este que na harpa Lusitana, 

em elogio do poeta; eu vi na biblíotheca real das Necessidades uma longa carta 
(Ms.) dirigida a seu irmão Pedro Leitão, escripta da índia, no estylo das de Ca- 
mões, o que me pareceu interessante; porém d ellajião conservo lembrança, nem 
tirei apontamento. Camões lhe dirigiu outra poesia sobre uma burla oue experi- 
mentou de uma senhora a quem dera uma peça de fazenda, e alem a'is(o o so- 
neto que começa : 

Senhor João Lopes, o meu baxo estado. 

Militou João Lopes Leitão na índia com distincção no tempo do Poeta, indo 
varias vezes por capitão nas differentes expedições, e morreu na mesma índia no 
mar, não sabemos se afogado, se de doença. Á£ua morte allude Pedro de Andrade 
de Caminha em uma poesia, e á mesma compoz quatro epitaphios. Copiámos 
aqui, dos quatro, aquelle que nos parece melhor: 

Vés tu que passas, esta sepultura. 
De palma ornada, e de loureiro e d'era? 

Vazia está, q^ue o quiz assi a ventura, 
Que para o corpo de João Lopes era. 

Seu corpo jaz no mar, su'alma pura 

. Ó Ceo se foi, onde seu corpo espera : 

Coroa mereceo de dous Loureiros, 
A dos Poetas, e a dos Cava liei ros. 



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40D 



João Lopes Leitáo nSo casou, mas teve uma filha bastarda, D.Violante Leítoa, 
que foi religiosa de Odlvellas. Era irmão de Pedro Leitão e de Estevão Leitão, 
que foi frade dominico, muito parcial de D. António, prior do Crato. 

A derradeira a Francisco de Mello : 

D'hum homem, que teve o scetro, etc. 

Francisco de Mello era filho de Pedro de Mello de Serpa e neto de Diogo de 
Mello; militou na índia e falleceu no cerco de Chaul em 457 i, sendo vice-rei o 
famoso conde de Athouguia D. Luiz de Athaide. Allude aqui Camões a Ovidio e 
a estes ^ersos do poeta romano : 

Sponte sua carmen números veniebat adaptus. 
Et quod tentabam scribere versus erat. 

No meu Ms. a disposição, d'estas redondilhas é diflerente, e também ha mu- 
dança no nome dos convidados. A terceira iguaria foi posta a João Lopes Leitão 
no Ms. em logar de Heitor da Silveira, de quem ali se não faz menção, vindo a 
redondilha que diz respeito a este fídalgo no fim, depois da que pertence a Fran- 
cisco de Mello, e com referencia a todos os convidados. A quarta iguaria é posta 
no Mft. a D. Jorge de Moura, e os versos que lhe dizem respeito são a quintilha 
que figura de resposta de João Lopes Leitão, e começa : 

Pezar ora não de são, 

que vem coro este titulo ou "advertência : «A oíUra a D. Jorge de Moura, e faUa 
aqui como era seu costume quando zombava queixando-se do engano». 

Este Jorge de Moura era collaço do príncipe D. João, pae d'el-rei D. Sebas- 
tião; foi um dos esforçados guerreiros da Índia, e mais de uma vez capitão mór 
de armadas. 

Sabeis que haveis de fazer? 

Sabeis o que aveis de fazer? 

Meu MS. 
Que aqui não ha que comer. 

Que aqui no ai que comer. 

Meu MS. 

Porque por mais que con-ais, 
Não heis de alcançar a ceia. • 

Que por mais que vós corrais, 
. Não alcançareis a ceia. 

Men MS. 
Ileliogabalo zombava. 

Elioguabalo zombava. 

Meu MS. 

Porque a céa está segura 
De vos não vir em pintura. 

Que esta ceia está spçrnra 
De não vos vir em pintura. 

Meu MS. 

Vos dá aqui tinta por rinho. 



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456 

Vos dá tinta aqui por vinho. 

Meu MS. 
Vosso estômago não danem. 

Vosso estomagao nSo danem. 

• Mea MS. 

E nada feito em empada; 
E vento de tigelada; 
Picar no dente em remâlho: 
De fumo tendes taçalhos ; 
Ave da pena que sente 
Quem dia fome anda doente. 

E nada feito de empada; 
E vento de piverada; 
Picar no dente em repolho : 
Em carne tendes taçalhos; 
De aves de pena que sente 
Quem de fome anda doente. 

Meu MS. 

Que se lhe tomava em metro. 
Que se lhe fazia em metro. 

Mea MS. 
De mi vos quero affirmar. 

De mi vos quero apostar. 

Edição &6 1595 e meu MS. 

De quanto podeis cuidar; 
E esta cêa, que he manjar. 
Vos faça na ooca em trovas. 

Que quanto podeis cuidar; 
Nesta ceia, que he manjar, 
Vos faça na boca trovas. 

Mea MS. 

Conde, cujo iliustre peito, etc. 

Ao conde de Redondo D. Francisco Coutinho, vice-rei da índia, para onde foi 
no anno de 1561, e durante o seu governo procurou tirar o Poeta do abatimento 
e desgraça em que o foi encontrar. Era o conde homem de espirito elevado tanto 
nas armas como nas letras, e como tal sabia apreciar o verdadeiro merecimento de 
Camtes. Pela descripç2o, que nos faz Couto, ao caracter e boas partes que concor- 
riam n'este vice-rei, se vô como o Poeta não era lisonjeiro nos elogios (\ue lhe di- 
rigia. «Era o conde, diz o chronista da índia, homem de bom corpo, gentiKbomem, 
bem posto no chão, e ainda n'aquella idade de cincoenta e sete annos em que 
morreu, era galante. Fov homem fácil, alegre, bem assombrado, muito avisado 
e grande cortesSo, e tinha ditos muito galantes, foy liberal, ao menos nSo foy 
tacanho, amieo. de justiça e trabalhou sempre muito que se fizesse com intei- 
reza». Foi filho do primeiro conde de Redondo D. João Coutinho, e de D. Maria 
Henriques, filha de Fernão Martins Mascarenhas, senhor de Lavra; elle foi casado 
com D. Maria de Gusmão, filha de Francisco de Gusmão, e D. Joanna de Blasíé, 
camareira mór da infanta D. Maria, e elle seu mordomo roór. D'este consorcio 
.houve três filhos e cinco filhas; o primeiro, D. João Coutinho, morreu menino; 
o segundo, D. Luiz Coutinho, herdeiro da casa, foi casado com D. Mecia, filha de 



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457 



D. Aleixo de Menezes, o aio d'el-rei D. Sehastifto; morreu na batalha de Alcácer, 
e por nSo ter successão, passou a casa ao im mediato e derradeiro filho D. JoSo 
Coutinho, conde de Redondo. 

Ao mesmo conde escreveu a ode ou trovas que lhe mandou da prisSo, quando 
Miguel Rodrigues Coutinho o embargava por uma divida, e os versos em favor 
do seu amigo Heitor da Silveira, que acompanham a que ao mesmo vice-rei di- 
rigiu aquelle fidalgo. 

Senhora, s'eu alcançasse, etc. 

Parece ser escripto á sua amante, que lhe teria pedido as suas poesias, pois- 
que n'estes versos revela o desejo que a pessoa a quem s&o dirigiaos leia antes 
no seu coração do que nos seus papeis. 

E por ver 

Tudo o que posto escrever. 

Só por ver 

Tudo o que possa escrever. 

Mea MS. 

*Por mi só quizesseis ler. 
Só por mim quizesses ler. 

Meo MS. 

Veríeis o natural • 
Do que aqui vedes pintado. 

Vereis ao natuntl 

Do que aqui virdes pintado. 

Mea MS. 
Vereis áspero e cruel. 

Vereis áspera e cruel. 

Meu MS. 
Em mi com sangue no peito. 

E a mi com sangue no peito. 

Mea MS. 
Se não pôde declarar. 

Não se pôde declarar. 

Mea MS. 

' Vede que m^or lereis. 
Se a mi, se aquUlo qu'escrevo. 

Vede qual milhor lereis, 
Se a mi, se ac^que escrevo. 

Meo MS. 



Se derivais da verdade, etc. 

A huma Senhora, a quem derão hum pedaço de sitim amarello: — Aconsellia-a 
o Poeta que resista á dadiva que lhe fazia um cavalheiro astucioso, de uma peça 
de setím, e a despreze. Que não é dadiva, pois ella lhe cede mais, que ó a sua 
honra. Invectiva contra a devassidão d'aquelle8 que, abusando da sua nobreza, 



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458 

armam ciladas contra o pador das mulheres de inferior nascimento, e lastíma a 
simplicidade d'estas que, por um dom de nobreza, deixam os mais singulares 
dons. 

Hqm Dom, que anda enxertado 

No nome, e oas obras não. 

É mui graciosa esta poesia. Na edição de 159o traz este titulo: tf Outras a hu- 
ma Senhora, a quem derão para huma filha iUa hum pedaço de sitim amareUo de 
'quem- se tinha suspeita». 

Peço-vos que me digais, etc. 

 huma Senhora rezando por humas con/os: — Cousa alguma desafia tanto a 
devoção como ver uma dama formosa orando; os olhos que em uma sala por- 
ventura dardejam faíscas de um amor profano, no tabernáculo quebram-se do- 
cemente, fulguram, mas com um esplenaor suave e estranho, e parecem absorver 
em si um reflexo do raio da divindade. Diricis que um dos entes que circumdam 
o throno celestial baixou á terra e veiu incarna r-se na forma externa da mulher, 
illuminando-a com todo o fulgor mysterioso da alta região d' onde descendeu, 
e inspirando-a com a fé viva com que os coros celestes levantam o Hosana na 
corte celeste. Sim, a mulher ou não reza, ou o faz com fé sincera. Foi enlevado 
na sua amante, vendo-a rezar, que o Poeta escreveu esta poesia: em outra occa- 
sião glosou o mesmo mote. Veja-se a pag. 165, o mote e glosa (inéditos). 



Sc n'alma e no pensamento, etc. 

A huma Dama que lhe deo huma penna: — Esta esparsa funda- se no equivoco 
do Poeta tomar a penna de ave pela pena de sentimento, não lhe pesando o tor- 
mento que lhe causa a mesma pena. 



Sem olhos vi o nial claro, etc. 

A huma Dama que lhe chamou cara sem oUios: — Diz-lhe o Poeta que vendo-a 
lhe- sobejam os olhos, não a vendo, olhos não são. 



DISPARATES NA ÍNDIA 

Esta satyra foi escripta na índia, e dizem que ella deu origem ao seu degredo, 
o que eu não acredito; não obstante devia malquista-lo com os que militavam 
n'aquelle estado. Cada redondilha acaba com um proverl)io, máxima, djctado ou 
verso tirado das coplas antigas ou de auctor castelhano: 

Este mundo es el camino, etc. 

Este verso é de D. Jorge de Manrique, copla v. Parece que o Poeta n*esta re- 
dondilha critica aquelles que sendo de baixa extracção, loeoque sobem aos lo- 
gares elevados — desque mudão a cór — não fazem caso dos antigos conheci- 
mentos 

Chamão logo a El-Hei compadre; 

isto é, se ensoberbecem tanto que não conhecem os iguaes. 

Deixae a hum que se abone. 



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V 



459 

Continua o Poeta a fustigar os que se jactam de poderosos, e que fabricaram 
estado por meios illicitos, á custa da honra. 

Diz logo de muito sengo. 

Diz Faria e Sousa que alguns pensam que o vocábulo sengo se deriva de Sé- 
neca. 

Digo-lhe : tu ex iUis es, 

O que disseram a S. Pedro quando negou a Christo; na primeira edição traz : 
tu insanus es. 

Vereis buns, que no seu seio. 

« 

Critica certos mancebos que, com dois ceitis de scíencia, julgam que sabem 
tudo quanto se ensina na universidade de Paris, e nSo toem outra occupação senão 
tratar de seus trages. 

NSo ha mais Italiano. 

Foram os italianos que inventaram o talabarte, que se começou a usar entre 
nós no tempo d'el-rei D. Manuel; e assim pinta o Poeta a Vasco da Gama guar- 
necido com Pile: 

• 

Ao Itálico modo, a áurea espada. 

Lasiadas, Canto n, esUocia 96. 

A este direis : Meu mano. 

Tratamento que parece davam 'aos afeminados, que em Castella chamavam 
lindos. 

Outros em cada tbeatro. 

Refere-se esta redondil ha aos que alardeam valentias, e cnjas palavras não 
correspondem com as obras. Veja-se a carta i: «Ja estes que tomavão esta opi- 
nião de valentes as costas, crede, que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron 
Çamorai)os, que roncas de tal soberbia entre si fuesen bablando, e quando vem 
ao efifeito da obra, salvSo-se com dizer que se nam podem fazer tamanhas duas 
cousas como he prometer e dar». 

Outros vejo por ahi. 

Contra os hypocritas que andam emendando o mundo com conselhos e não 
emendam a sua vida. 

El dolor que está secreto. 

I 

Vem de uma copla antiga que corresponde a um verso também antigo: De 
dentro tengo mi dol^. 

Assi entrou o mundo, assi ha de sahir. 

Este adagio continua por esta forma : 

Muitos a reprende-lo e poucos a emenda-lo. 

Achareis rafeiro velho. 

AUude aos de baixa qualidade que querem hombrear contos cavalheiros, di- 
zendo que a riqueza é a verdadeira fidalguia. 



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440 

Qu^ se quer vender por galgo; 

isto é, se quer fazer passar por fidalgo, porque o galgo se reputa o cSo mais no- 
bre. 

Diz que o dinheiro he fidalgo. 

Corresponde a uma copla antiga castelhana : 

Cavallero es dom dinero, etc. 

Que su padre era de Ronda. 
Parece que estas duas terras eram insignificantes e de pouca nobreza. 

Fraldas largas, grave aspeito. 
É uma pungente e vehementissima invectiva contra um ministro. 

Que Momo lhe abrisse o peito. 

Desejava Momo que no coração do homem houvesse uma abertura por onde 
se visse o que havia dentro; isto mesmo desejava o Poeta a este ministro para 
desmascarar o lobo vestido com pelle de ovelha. Faria e Sousa diz que ainda que 
o Poeta escrevia na índia, o magistrado, a cjue se refere, estava no reino ;.que elle 
sabe quem era, porém que o não quer dizer. Parece querer alludír ao ministro 
d*el-rei D. Sebastião, apesar do segredo que fín^e guaniar, pois passa a mostrar 
certa identidade com logares análogos dos Lusíadas, em que se suppOe que o 
Poeta o quiz indigitar. Fernão Alvares do Oriente na sua iMsitania Transfor- 
mada descreve um ministro que foi do reino para a Índia, muito parecido com 
esle> 

Guardae-vos de huns meus Senhores. 

Quer Faria e Sousa que esta redondilha se refira aos christãos novos; julgo 
porém aue diz respeito aos fidalgos que negociavam, e que o Poeta allude aqui 
ao que lhe aconteceu com os amigos que o intrigaram com o governador Fran- 
cisco Barreto, e depois o abandonaram. 

Que de fora dormiredes. 

É uma cantiga velha: 

De fuera dormiredes pastorsico. 

Até aqui acabavam estas redondilhas na edição de 1595; as que se seguem 
vêem nas outras edições. 

Que direis d'huns, que as entranhas. 

Contra os magistrados, sua cobiça, hypocrísia e tyrannia, especialmente com 
os pequenos. 

Que lá vão leis, onde querem cruzados? 

Este rifão teve principio no reinado de D. Affonso o VI de Castella. 

Mas tornando a huns enfadonhos. 

Aos importunos narradores de contos, mais insípidos do que zamboas, gue 
matam com suas historias a quem os ouve, seja-lhe applícada a pena de talião» 
morram também. 



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444 

Adonde tienen las mentes. 

Aos vaidosos de nobreza que, sem terem fundamento para taes se julsarem, 
andam desenterrando mortos para ver se encontram algum parente d'onae pos- 
sam derivar a sua ascendência. 

Escudeiro de Solia. 

Solia era certo estofo do qual» no século xiv, se vestiam as senhoras distin- 
ctas; diz Faria e Sousa que era tela baixa que suppria a alta. * 

Huns, que fallfio muito, vi. 

Contra os falladoses, que nSo fazem mais do que importunar e mentir. 

Oh vós, quem quer que me lerdes. 

Mette a ridiculo o namorado; Gil Vicente em uma das suas comedias pinta um 
do mesmo modo. 

Mas deixemos, se quizerdes. 

Parece que o Poeta se dispõe a atacar alguém, personalisando, e pessoa de 
elevada categoria. 

Deitemos-nos mais ao mar. 

O lo^ar porém da critica^ e onde se indigitava a pessoa ou pessoas objecto 
d'ella, foi cortado, como se deprehende dos seguintes versos : 

E se algum se arrecear, 
Passe três ou quatro trovas; 

e porque a ultima redondilha doesta composição nSo está terminada. Devia ser 
pessoa da governação da índia, ou talvez que occupasse em Lisboa os mais ele- 
vados cargos. 

Ó vós, que sois Secretar|os. 

Dirige-se agora aos ministros d'el-rei D. Sebastião, dizendo-lhe*por que não 
põem freio ao roubar que vae sem medida debaixo de um bom governo; nos Lu- 
síadas usa da mesma linguagem tocando este assumpto. 

Porque a mente, affeiçoada. 

Parecendo atacar os privados do rçi atenua a critica com o elogio que faz 
do joven soberano, carregando as culpas nos ministros que não deixam exerci- 
tar as suas boas qualidades. 

Por isso, gentis pastores. 

Quer Faria e Sousa que o ultimo verso doesta poesia : 

Hum que só foi pastor bom, 

seja allusivo a Chrísto quando lançou fora do templo os vendilhões; porém pa- 
rece-me que se engana, e que este dito é de um dos vice-rei» da índia, julgo que 
de D. João de Castro. Esta poesia não está terminada, pois da ultima redondilha 
só ha quatro versos. 



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442 



Se vossa Dama vos dá, etc. 



A João Loviê Leitão, tobre huma peca de cat^a que mandou a huma Dama, que 
te lhe fazia donzeUa: — Com este li tufo vem esta poesia nas differentes edições. 
Cacha, signi6ca peça de fazenda, è ardil ou engano de jogo. Esta volta do mote 
refere-se a expressões de jogo, hoje desconhecidas. 



Menina formosa e crua, etc. 

Aconselha uma menina que largue outro que a corteja e o prefira a elle. É es- 
cripta em estylo jocoserio, e sem verdadeiro pensamento amoroso. Na primeira 
edição (1595) vem coro este titulo : «A huma Dama com quem queria andar de 
amores»; no meu Ms. se acrescenta: se não fora afeiçoada ao oulro, 

Ja tomara não ser meu. 
Se vós não fôreis tão sua. 
Nos oUios, e na feição. 

Tomaria não ser meu.. 
Se não fôreis tanto sua. 
Nos olhos» e na afeição. 



MeoMS. 



Não o quizestes de crua. 



Não no quisestes de crua. 

Mea MS. e ediçSo de 1595. 

Por ser meu: 

Se outrem ws dera o seu. 

Pôde ser fôreis mais sua. 

Porqqe he meu : 

E se outrem vos dera o seu, 

Não fôreis vós tanto sua. ^ 



Que ainda não venha a ser. 
Para que não venha a ser. 



Mea MS. 



Meu MS. 



Da doença, em que ora ardeis, etc. 

A huma Dama doente: — Alem d'estas voltas, ao mesmo assumpto escreveu 
o Poeta a canção xxi (inédita). 

Porque fiqueinos iguaes. 
Pois weu ardor não curais, 
Que se cure vosso ardor. 

Para ficardes em joguo. 
Que se apague u foguo, 
Senão com meu, que he maior. 

Meu MS. 



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445 

Em vós me busque a doença. 
Em vós me busca' a doença. 

Ilea MS. 

Que em vós só me achará; 
Qu'em mi, se me vem buscar. 

'■ Que em vós só me matará; 

Que a mi se me vem buscar. 

MeoMS. 
Que a forma do que foi ja. 

Que a sombra do que fui ja. 

MeoMS. 

I 

I Os outros ramos d'esta poesia sâk) inteirauiente differentes no meu Ms., pela 

maneira seguinte : 

Que se em vós estou trocado, 

O mal que mal me quizer 

Para me n'alma doer, 

Em vós hade ser mostrado. 

i\em ni'espanto 

Que me queirais mal, em quanto 

Querer-vos menos náo posso; 

Pois, Senhora, ser tâo vosso, 

Me tem ja custado tanto. 

D'outra parte, quem duvida 
Ser tAo alta minha sorte, 
Que vos ame até á morte; 
Porque me neguais a vida 
Se pagais. 

Nisso a morte que me dais, 
' Ó nSo me sejais esquiva; 
Não porque eu, Senhora, viva; 
Mas para que vós vivais. 
' • 

'Que tanto mais qualquer dano 
Vosso que o. meu sentiria. 
Quanto he maior a valia 
D'alma, aue do corpo humano. 
De verdaae. 

Que ja vossa humanidade 
D^ que se aqueixe nfto tem; 
.Pois para as almas também 
Fez amor enfermidade. 

Se a verdade dizer posso, 
Estar doente convinha; 
i Vós não, que sois alma minha, 

Eu si, que sou corpo vosso. 

De atormentado e perdido, etc. 

A hvma Dama vestida de dó; — Pede-Ihe que o dó n2o seja somente externo, 
que o tenha d'elie Poeta, que tantas vezes tem morto. 



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' 444 

Amor, que todos offende, etc. 

A Dona Guiomar de Bkufé, queimando-se com huma tela no rosto: — Esta 
D. Guiomar era filha do conae de Redondo, D. Francisco Coutinho. Ao mesmo 
assumpto escreveu o soneto xxxix, que começa : 

O fogo que ha branda cera ardia, etc. 

Esta D. Guiomar foi casada com D. Sim^ de Menezes, que morreu na bata- 
lha de Africa com el-rei D. Sebastião. 

Bem $ei que Amor se vos rende. 
Bem sei que Amor se lhe rende. 

Edição de 1995. 

JNa primeira ediçfio os primeiros versos formam uma oitava, e termina com 
uma quadra. 

NSo estejais aggravada, etc. 

A huma mtíUier, açoutada por hum homem, ^ chamavão Quaresma: — O ar- 
gumento d'esta poesia está cljaro; na primeira edição se diz ser feita na índia. 
Na mesma edição os versos vêem mal coUocados, porque vêem primeiro nove, 
depois cinco e por fim òs outros nove. 

Deve ser disciplinada. 

Deve ser disciprinada. 

£diçlo de 1595. 
Seja bem disciplinada. 

Seja bem disciprinada. 

Ediçlo de 1595. 

Vossos vidos do carnal. 
Vossos. viços do carnal. 

Edição de 1595. 
Outra vez disciplinada. 

Outra vez disciprinada. 

, Edição de 1595. 



Quem no mundo quizer ser, etc. 

A hum fidalgo, que lhe tardava com huma camisa que Uie prometteo: — Na pri- 
meira edição vem esta poesia com o titulo de esparsa, e á camisa se chama ca- 
misa galante. Estas camisas não eram ordinárias, e custavam ás vezes um preço 
elevado pela riqueza da fazenda e lavor da gola ou gorgeira. 

Como o mundo todo vê. 
Que venha a dar a camisa. 

Gomo todo mundo vé, 
Que dar a camisa. 

Ediçio de 15ffô. 



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445 

Senhora, pois me chamais, etc. 

« 

A kama Dama que lhe chamou Diabo, por nome FoSa dos Anjos:— S&o gra- 
ciosas as voltas a este mote; ^ve seria a causa que obrigou a dama a dar-lhe 
tão mau nome, e bem aproveitada a occasiâo para lhe redarguir com estes bo- 
nitos versos. 

Como de Anjo, e não de luz. 

Gomo d'anjo e não da luz. 

Edição de 4995. 

Qual terá culpa de nós, etc. 

A hum Amigo, que não podia encontrar: — O titulo d*esta poesia, e a mesma, 
declara o seu assumpto; por isso não precisa de explicação. 



Descalça vai pela neve, etc. 

Este mote é de Camões: as voltas são bonitas, menos os dois últimos versos. 
Depois de fallar tanto em neve, cabe mal o ferver em fogo; é pensamento e ex- 
pressão alambicada. 

A dor que a minha alma sente, etc. 

O Poeta revela em mais de um logar das suas poesias a necessidade de guar- 
dar sepultado no coração o segredo dos seus amores : 

Por não mostrar meu mal a toda a gente. 

Elegia ni. 

Comtudo parece que nem sempre teve a constância de guardar para si toda 
a sua ventura; e a imprudência sobre esta matéria deveu a separação, embora 
temporária, que lhe impoz a amante, privando-o por algum tempo da sua pre- 
sença e agrado. 

Tarece que Diogo Bernardes usurpara estas voltas, porém com alguma diíTe- 
rença, por esta forma : 

Tenho feito juramento. 
Porque assi o quiz Amor, , 
De sempre como avarento 
Guardar em mim minha dor, 
Por nam tratar peor: 
Se disto o contrario sente 
Nam o saiba toda a gente. 

Bernardes traz só duas coplas. 

iViSo na sabe toda a gente. 

Não a saiba toda a gente. 

• • Edição de 1505. 

De ninguém ouso fiar. 

De ninguém a ouso fiar. 

EdiçSo de 1599. 



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{46 

D'alma, e de quanto tiver, etc. 

Pede á dama que use para com elle toda a sorte de rigores, cooitan toque 
lhe deixe os olhos para a ver. 

Amores de hiima casada, etc. 

A frequente convivência com uma rasada, deu em resultado converter-se a 
amisade em amor impossível, que se quebra contra a barreira da honestidade da 
dama que o faz nutrir. O mote é alheio, e também provavelmente estranho ao 
Poeta o assumpto d'elie. 

Faz-se o desejo maior 
Donde o remédio não vai. 
Em perigo de meu maL 

Fez-se o desejo maior 
Donde remédio nSo vai, 
Sem perigo do mais mal. 

M u MS. 

Que donde entra por amigo. 
Se levante por senhoi\ 

Mas onde entrou por amigo, 
Se levantou por Senhor. 

Mca MS. 

E de final em final. 
Cada vez para mór mal 

Aquelle passo mortal. 
Que eu terei por menos mal. 
Mea MS. 

No meu MS. vem mais esta redondílha que não está no impresso: 

Casada, bem vejo eu 

Que sois alheia e não vossa. 

Mas quem deste mal se apossa. 

Também he vosso, e nfto seu; 

Ja que a vós amor me deu. 

Dai- me vós alffum sinal 

De vos pezar de meu mal. 



Enforquei minha esperança, etc. 

Feito a uma reconciliação; é galante poesia. Ao mesmo assumpto vac, mais 
adiante, uma poesia inédita. 

Puz o coração nos olho.<), etc. 

Não entendo muito bem este mote, nem a volta; é escripto n*um estylo algiim 
tanto alambicado. 



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447 

Puz meus olhos n'huoia funda, e(c. 

Feito, como claramente declara a poesia, a um trocar de olhos com uma da- 
ma; é um epigramma engraçado. 

Trape, quebrei-^e ajanella. 

Trape, quebro-lh'a janella. 

Edição de 1595. 



' De pequena tomei amor, etc. 

Este mote parece ter sido dado ao Poeta por uma dama; elle revira as sedas, 
c declara á mesma, como conhecendo amfor desde pequenino, illudido o seguiu, 
e foi victima dos seus enganos e tormentos, que só ella pôde mitigar e extinguir. 

Tenho sabido que em fim. 

Tenho sabido em íim. 

Ediç3o de Í593. 



Apartár2o-se os meus olhos, etc. 

A uma dama privando-o da sua vista, por ausência ou interrupção de rela- 
ções amorosas. 

E oxalá enganadores, 

ErSo cruéis matadores. 

Edição de IS95. 

N*esta primeira ediçáo traz mais esta redondilha : 

N3o se poz terra nem mar ^ 
Entre vós, que forão em vão, 
Poz-se vossa condição, 
Que tâo doce he de passar, 
Por ella vos quiz levar 
De min) tão longe. 
Falsos amores, 
E oxalá enganadores. 



Falso Cavalheiro, ingrato, ele. 

j riVste mote e voltas é uma dama que falia; serSo pois estes versos escripto^ 

I por ella ou por Camões, para ella responder á arguição que parece se lhe fazia? 

Sobre isento coração. 

Sobre falso coração. 

Mra MS. 



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448 

Se de meu mal me contento, etc. 

Encarece as qualidades da dama, e a impossibilidade de a merecer, por ser 
impossível aspirar á ventura de a amar, reconhecendo o seu pouco merecimento; 
só se este igualasse ao seu desejo. 

Vós, Senhora, tudo tendes, etc. 

Exalta a belleza da dama e de seus olhos verdes, que excede a dos azues, 
embora estes sejam muito louvados. 



Para que me dan tormento, etc. 

Instigado a declarar a quem ama, recusa-se a revela-lo, promettendo guardar 
segredo, orgulhoso do seu tormento. É mote antigo que muitos glosaram, e entre 
outros, Montemaior, como se pôde ver nas suas poesias em castelhano. 



De vuestros ojos centelhas, etc. 

Os Olhos da dama nSo podem subir ao céu, e ali transformar-se em estreitas, 
porque já o são na terra, e não podem subir mais; e se ali subissem inspirariam 
amor ao próprio Deus no oitavo céu. 

Lo como alumbran ai suelo. 
De. como alumbran ai cielo. 

Edição de Ífi95. 

Escripto em castelhano. ' 

De dentro tengo mi mal, etc. 

A sua dor esfá tão occulta no coração, como a centelha na pederneira. Em 
castelhano. 

Amor loco, amor loco, etc. ^' 

Anda doido por uma dama que anda louca por outro que a não ama; se a 
não vira tão dedicada por elle, fora ipais louco por ella. Este mote glosaram mui- 
tos, entre outros Montemaior, na sua Diana, Em castelhano. 



Vede bem se nos meus dias, etc. 
Desiste de novas amores, pelos tormentos que experimentou com os passados. 

Pois se he mais vosso que meu, etc. 

Pede á dama, pois o seu coraçáo é mais d'ella do que seu, e elle seu captivo, 
que se lembre da tristeza que o domina. 



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449 

Senhora, pois minha vida, ele. 

Ao mesmo assumpto do mote antecedente. Pede á dama não queira ver des- 
truída a sua vida, pois é d'ella e não sua. 

Pois damno me faz olhar-vos, «te. 

Entre os dois extremos de uao ver e perder a sua dama, ou vô-la e perde-la, 
prefere nao a ver. 

Pois damn9 me faz olhar-vos. 

Pois me fez. dano olhar-vos. 

EdiçSo de 1595. 



Não sei se m'engana Helena. 

A Ires Damas, que lhe dizião que o amavão: — Bem se vé que esta poesia é 
puramente jocosa; se assim fora não haveria tão boa concordância entre as três. 
Eram brinquedos e diios cliistosos para provocarem a veia poética fácil e engra- 
çada de Camões. 

Menina, não sei dizer, etc. 

A hvma Dama mal empregada: — Esta pqesia é dedicada a uma senhora com 
quem teve amores, que o deixou para passar ao estado de casada; é natural que 
a achasse como diz: —mal empregada. 



Com vossos olhos, Gonçalves, etc. 

A huma Foãa Gonçalves: —Não posso entender a amphíbologia d*esta compo- 
sição. 

De que nrie serve fugir, etc 

Para toda a parte para onde vá leva comsigo o seu desgosto, ao qual não 
pôde fugir. 

Quando me quer engaoai*, etc 

A huma Dama, que lhe jurava pelos seus olhos: — Parece que escreveu o Poeta 
estes viTsos á imitação da ode vni de Horácio, do livro ii, dirigida a Júlia Ba- 
rina, que fazia taes juramentos e perjúrios. D'estes juramentos, de que alguns 
disseram que se riam os deuses, resultou o adagio latino: •Venerium jusjuran- 
dum«. Faria e Sousa tinha dividido estas redondiihas em quatro quintilhas*. 

Quanto^me ella jura mais. 



Quanto nrella jura mais. 

Edição de 1995. 



21) 



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450 



Ha hum bem, que chega e foge, etc. 



O bem quando chega e foge, não é bem, porém é mal; assim quem viveu 
cempre pobre, nern conhece o bem da riqueza, nem o mal de empobrecer. 



Olhos, não vos mereci, e(c 

A huma Dama, que Ute virou o rotío: — NSo ambiciona mais do que o que 
ella, com tanta Iiberalidade,.arremessa ao chão. 



Venceo-me Amor, não o nego, ele. 

É um epigramma engraçado, o qual, como outros d'esta collecção, não engei- 
taria Anacreonte ou Moscho. Representa o poder do Amor que, ape^^ar de peque- 
nino, dá pancada de cego; e ninguém, aindaque fora Hercules, lhe resiste. 

Venceo-me Amor, não o nego. 

Venceste, Amor, não o nego. 

Mea MS. 

Só porque he rapaz ruim, 
Det-lhe hum boféle zombando. 
Diz-me: Ó máo, estais-me dando, 
Porque sois maior que mim? 
Pois se eu ros descarrego, 

Poraue he rapaz roím. 
Dei- lhe huma ronba zombando. 
Disse-rne elle : estaís-me dando. 
Por serdes maior que mim? 
Pois se vos eu descarreguo. 

Mea MS. 

Toma-me outra, tá rapaz. 
Descarregua, tá rapaz. 

Meu MS. 



Os bons vi sempre passar, etc. 

Ao desconcerto do mundo: — Vendo que a fortuna favorecia n'este mundo os 
maus e opprimia os bons, fez-se mau; mas é tal a sua desgraça que nem com 
isso ganhou, pois apesar d'este desconcerto do mundo, só para elie anda con- 
certado. Aristophanes diz que quando Júpiter ordenava a Plutão, deus das ríque- 
• zas, que batesse ás portas dos beneméritos, ia coxo, e quando á dos maus, voava. 
Esta desordem na justa repartição dos bens é muito vulgar; ha comtudo uma ri- 
queza que a fortuna não pôde roubar, que é a tranquiliidade de uma consciên- 
cia pura. 

Cuidando alcançar assi. 

Cuidando alcançar assim. 

Edição de 4598. 



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Asaij que só para mi. 
Assim, que só para mim. 

EdiçSo de 1598. 

Perguntais-me, quem me mata? etc. 

A huma Dama, perguntando-lhe quem o matava: — Náo quer responder nada, 
com receio de a entregar á justiça por culpada. 



£sconjuro-te, Domingas, etc. 

Uma certa Domingas poz o amor n^outro para se vingar d'elle; pede-lbe que 
attenda ao estado delirante em que o vé, e suspenda desde já a vingança. 

Folgavas de apascentar. 

Folgavas d'apascentar. 

EdíçSo de 4598. 
Fingia qu*erão palabras. 

Fingia que eráo palavras. . 

£díf ilo do 1598. 
Qu'inda que queiras. Domingas, 

X}u'inda queiras, Domingas. 

£difão du 1599. 

])e mi t' esqueces. Domingas, 
Como eu faço do meu gado. 

De mi te esqueces, Domingas, 
Com' eu faço do meu gado. 

Edição de 1598. 
Que morra desesperado. 

Que moura desesperado. 

EdirSo de 4598. 

Se a alma ver-se nSo pôde, ele. 

Se não pôde ver-se a dor que está no intimo d'alma, sendo a sua aliás tilo 
profunda, que fará para ser querido n'esta impossibilidade? 

Se a alma ver-se não pôde, 

S*alma \er-se n2o pôde. 

EdiçSo de 1598. 



Vosso bem querer. Senhora, etc. 

Não se acha satisfeito com os f/ivores da dama, prefere que o maltrate : não 
entendo. 



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452 

Ser melhor lodo loi^menlo. 
Ser melhor tod'o tormento. 

Edição de 1598. 
Qtie o mal melhor me fora. 
Qu*o mal melhor me fora. 

Edição de 1598. 

Se me desta terra for, etc. 

Protesta a uma dama, ausentaiido-se, ou leva-la comsígo, ou deixar janto 
d'ella[a sua alma. 

A minha alma, se me for. 

A roinb'alma, se me for. 

Edição de 1596. 

* 

Pequenos contentamentos, etc. 



Nâo quer aceitar os gostos que se lhe oíferecem já tão tarde, por minguado 
nesq ninhos; pois o bem que lhe é devido nunca o satisfará. 



Que a mi não me conheceis. 

Qu'a mim náo me conheceis. 

Edição de 1598. 

Perdigoto perdeo a penna, etc. 

Por acaso em um livro genealógico que pertenceu a Manuel Severim de Fa- 
ria, o mesmo escriptor que escreveu uma niographia do Poeta, encontrámos o 
que deu assumpto a este poema, e que aqui transcrevemos : « Silvas, Ca.<a do Re- 
cedor. Jorge da Silva, filho terceiro do Regedor, João da Silva irmão de Diogo da 
Silva. Casou com D. Luiza de Barros, filha herdeira de Jorge de Barros e D. Pbi- 
lippa de Mello, de quem não teve filhos. Foi fidalgo de grandes brios e altivos 
pensamentos; sendo moço namorou a Infanta D. Maria, ftlha d'El-Rei D.Manuel, 
•e fez taes extremos que, chegando á noticia d'EI-Rei D. João III, irmão da in- 
fanta, o mandou prender no Limoeiro onde esteve o tempo que pareceu bastante 
para seu castigo; e a esta prisão e amores fez Luiz de Camões umas voltas áquella 
cantiga velha: 

Perdigão perdeo a penna, etc. 

que começam : 

Perdigão, que o pensamento, etc. 

Qua}ia parle das Famílias Nobres de Portugal. Segue a assignatura de Ma- 
nuel Severim de Faria. Na folha primeira que está collada á capa, tem esta nota: 
• O P.* Prior do Hospital do Beato João de Deos de Montemor, me fez m. deste 
livro em Fevereiro de 1649. = Manuel Severim de Faria ». 

Subio a hum aUo lugar. 
Perde a penim do voar,. 
Ganha a pena do tormento. 



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Foi por em alto lugar, 
Perde as pennas de voar. 
Ganha as penas de tormento. 

MS. geaealogico. 

Se a queixumes se soceorre. 
Se' a queixumes se socorre. 

Ediç9o de 15U8. 

Pois a tantas perdições, etc. 

Á humas Senhoras, que havido ser terceiras para com huma Dama:—È mui 
gentil esta poesia, na qual pede que intercedam para com a sua amante. Pelo seu 
estylo delicado e cortezão se vé que é dirigida a senhoras da mais elevada po- 
sição social, e não deixa duvida que fossem as damas do paço. É escripta com 
muita arte, commove e persuade com mui íina galanteria, e emprega aíTectos ver- 
dadeiros, a que se junta um estylo natural ropassado de melancholia; bem se vé 
que saia do coração. Lisonjeia as damas com uma lisonja delicada; pois a ven- 
tura o subiu a tanta altura, que melhores cirurgiões pódfe ter paraa sua ferida; 
ditosa ferida! ditosa tristeza! A vaidade feminina é adulada com summa finura; 
emprega o argumento dos argumentos para com o sexo, chama-lhe formosas; 
não se contenta com isso, como que desapparece da scena, e tudo entrega ao seu 
poderoso valimento. São somente ellas, rosas milagrosas de amor, que podem fa- 
zer o milagre de abrandar o coração da sua amante; assim de joelhos peçam-lhe 
(]ue queiram ver no seu padecer o poder que téem os seus olhos. E que maior 
intercessora do que a formosura dobrando o joelho perante a formosura? Para 
despertar o empenho das suas amáveis medianeiras, termina evocando por assim 
dizer o seu egoísmo, lembra-lhes que podem ser victimas de um mal como o que 
soffre, o que oxalá nunca lhes aconteça. 

Que tèe taes Cirurgiões. 

Que taes Cirurgiões. 

Edição de 1598. 
Ja qu* entendeis j que he assi. 

Ja entendeis qu'he assim. 

fidiçilo de 1598. 
Fazei milagres de Amor. 

Fazei milagres d'amor. 

Edição de 1398. 
Que o fxiler. 

Qu*o valer. 

Edição dii 1598. 
Quando cuido em quem me cura. 

Quando cuido em quem mo cura. 

Edição de 1598 

^'a fonte está F^conor, etc. 

É bonita e aOectuosa esta poesia; a representação da dor do Leonor é pin- 
tada com cores tão naturaes como expressivas. 



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Na fonte está Leonor. 
Na fonte está Loaiior. 

Edífâo de 16Í6. 

Ás amigas perguntando. 

As amigas proguntando. 

Edição do Í6Í6. 
Nisto estava Leonor. 

Nisto estava f^eaiior. 

Edição de 1616. 
o rosto sobre hOa mão. 

O rosto sobre hiinia in(Eo. 

Edição de 1616. 

Que de chorax ja cansados. 
Que do chorar ja cansados. 

Ediç3o de 1616. 
Desta sorte Leonor. 

Desta sorte Leanor. 

Ediçio de 1616. 
Que não quer que a dor s'abrande. 

Que não quer que a dor se abrande 

Ediç9o de 1616. 

Despois qne de sefi amor 
Souoe novas perguntando, 
D'improviso a vi chorando. 

Que depois de seu amor 
Soube nuvas pregnntando, 
Demproviso a vi chorandti. 

Edição de 1616. 

Que diabo ha tão dam nado, etc. 

Trovas que mandou o autor da cadeia, em que o linha embargado por huma 
divida Miguel Roiz, Pios Seccos d* alcunha, ao Conde de Redondo D. Francisco Cou- 
tinho, Viso- Rei, que se embarcava para fora, pedindo-lhe o fizesse desembarcar: — 
Escreveu o Poeta estes versos que dirigiu, como declara o titulo, ao viso-rei, pe- 
dindo-lhe o mandasse soltar antes que embarciisse. Yeja-se o que dissemos na 
biographin, tomo i. Este fidalgo era um dos capitães da índia dos mais distinctos, 
e esteve no cerco de Dio. É um epigramma engraçado e enérgico. 



Vossa Senhoria creia, etc. 

Trovas que mandou Heitor da Silveira ao mesmo Conde, invemando em Goa: — 
São escriptas por elle mesmo; quem fosse este fidalgo, amigo de Camões, deixá- 
mos dito quando tratámos do convite feito aos fidalgos na índia. 

Que o tempo traz somndenta. 



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Que o tempo traz sonorenta. 

Edição de 161<i. 
Que só dá vida e contenta. 

Que só dá vida e a con lenta. 

Edição do 16i6. 

Não posso chegar ao cabo, etc. 

A huma Senhora, que lhe chamou diaho: — Ao mesmo assumpto d'esta esparsa 
fica atrás o mot) que começa: 

Senhora, pois me chamais, etc. 

Vi chorar huns claros olhos, etc. 

Lindos versos a uma despedida. É no mesmo momento de se ausentar, aue 
a amante lhe confessa que o ama; assim a sua alegria ainda ó maior que a aor 
e tristeza pela ausência, ouvindo esta confissão, e vendo arrazar-se os olhos de 
agua de quem a fazia. 

Se etía dor, se esta alegria. 

Se esta dor, se est' alegria. 

Edíç9o de i616. 
Assi, se minha alma vive. 

Assi, se minh'alma vive. 

Edição de 1616. 
No tempo que desejei. 

No tempo qíie o desejei. 

Edição de 1616. 
O principio da alegria. 

O principio d' alegria. 

:. Edição de 1616. 

Deos te salve, Vasco amigo, etc. 

Vilancete pastoril:— Vasco arguido por Gil de Jhe nSo responder, diz-lhe que 
o não faz por que núoestá em si; se o quer procurar o faça em Magdalena. Argue- 
lhe Gil, como é que nSo está em si, se responde tão atilado; ao que elle contesta 
que é ella quQ responde. 

Pois onde te hão de fallar. 
Pois onde te não fallar. 

Edição du 1616. 
Se Magdanela conheces. 

Se Madanela conheces. 

Edição de 1616. 

Em ti, como em Magdanela. 
Em ti, como em Madanella. 

Edição de 1616. 



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Síifi 



Porque no miras, Giraldo, ele. 

Outro vilancete pastoril : — Giraldo convidado por um pastor para ouvir a har- 
monia da sua sanfona, lhe volve que está mudo e surdo para o attender, por- 
quanto não vé Helena. 

No vé$ cuan duke que suena. 
No vés quan dulce e serena. 

EdiçXo de 1616. 

Crescem, Camilla, os abrolhos, etc. 

Outro vilancete pastoril: — A uma senhora que chorava a ausência do seu 
amante e não queria ser con.solada, e rep<'lle os conselhos que lhe dá para miti- 
gar a sua dor. 

SVtt não vejo quem mais quero. 

Se eu não vejo quem mais quero. 

Edição de 16 í 6. 
Se se foi ha mais d*hum mês. 

Se se foy ha mais de hum mez. 

Edição de 1616. 

Olhos, em qu' estão mil flores, etc. 

A huma mulher, que se chapum Grada de Moraes : — lo%z. com o equivoco de 
morais, verbo, com o de Moraes appellido. A esta mesma Gracia de Moraes traz 
Faria e Sousa as duas outras redondilhas seguintes que não vêem impressas: 

Ha huma guestão de Amor, 
Na qual ninguém se assegura, 
Qual seja de mais valor : 
Se a Graça, se a Fermosura. 
Julgo a poder julgar nella, 
Se a afieiçam nam me embaraça, 
Que muito mais vale a Graça 
Que a Fermosura sem ella. 

Se me dessem a escolher 
(Mas nam tenho tal ventura) 
A Graça quisera eu ter. 
Tenha outra a Fermosura. 
Ninguém pôde aqui por grossa 
Que nam nque com desgraça, 
Pôde haver Graça fermosa, 
Nam Fermosura sem graça. 

Anacreonte fazendo o retrato da sua amante a representa composta de leite, 
rosas e marfim ; porém não julga completo o retrato, se todas estas partes não 
forem acompanhadas da graça, por isso quer que as graças esvoacem em torno 
do collo. 

OUws, em qu* estão mU flores. 

Olhos, em que estão mil flores* 

. EiliçSo do 1616. 



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457 

Quem se confía em huns olhos, etc. 

Queixa-se da inconstância ou antes garridice de uma senhora; engana- se 

3uem põe a sua confiança em meninas que, com um mudar de olhos, mudam 
e pensamento. 

Sois formosa, e tudo tendes, etc. 

Louvando e deslouvando huma dama: — Faz a descripçSo dos diíTercntes attri- 
butos physicos e moraes da senhora, terminando sempre com o elogio dos olhos 
verdes. 

Serdes tão bem assombrada. 

Serdes bem assombrada. 

Edição do 1616. 
He tão branca e bem talhada. 

He branca e bem talhada. 

Ediç3o de 1616. 

Assi he; e quanto a mim. 
Isso vos nasce de a terdes. 

Ja sei quanto a mim, 
Isso nasce de a terdes. 

Edição de 4616. 

 alma, sem o vós saberdes. 
Ja sem o vós saberdes. 

Edição de Í616. 
Inda assim achareis nação, 

Inda assim achareis gente. 

Edição de Í616. 

Esse riso, que he composto. 

Esse riso, he composto. 

Edição de 1616. 

Boca co'huma graça igual. 
Boca nem graça igual. 

Edição do 1616. 

Dou-me eu a Deos, que me leve. 
Dou-me a Deos, que me leve. 

Edição de 1616. 
Senão qu'he feita em rosquinhas. 

Senão que feita em rosquinhas. 
Edição de 1616. 

Eu í« .bem quem se offerece. 

Eu sei quem se oíFerece. 

Edição do 1616. 



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458 

Só o vê-las enfeitiça. 
Só com vé-las enfeitiça. 

Ediçlo de iCI6. 
Quem vê vo$$os olhos verdes. 

Os que vem vossos olhos verdes. 

Edição de 1616. 

Que eu logo vos roubaria. 
Oh dou-me a Santa Maria! 

Que eu rogo vos roubaria. 
Dou- me a Santa Maria! 

Edição de 1616. 

Tudo tendes singular, etc. 
Ao mesmo assumpto do antecedente. 

Quanto o ser fm^mosa alcança. 
Quando ser formosa alcança. 

Edição de 4616. 

N*esta edição faltam os últimos dois versos. 

Cinco gallinhas e meia, etc. 

A Dom António, Senhor de Cascaes, que tendo-lhe promettido seis gallinhas re- 
cheadas por huma copla que lhe fizera, lhe mandou por principio áe paga meia 
fallinha recheada: — Muito engraçado epigramma. Mal pensava Camões, quando 
he dirigia estes versos, q^ue este mesmo fidalgo seria quem arvorasse no castello 
de Lisboa o estandarte castelhano por Filippc 11. 

Catharina bem promette, etc. 

Pedindo a uma mulher, depois de uma entrevista, mais do que ella queria 
e devia consentir-lhe; é escripta em estylo jocoso, e por elle se vé que ella se 
evadia ás suas pretensões, ou por se fazer valer ou por decoro. Faria e Sousa in- 
verte a ordem das redondilhas. Depois da primeira, em iogar da segunda é a 
sexta, no da terceira a quarta, e no da quarta a terceira. 

Catharina bem promette; 
Ora mál como ella mente! 

Caterina bem promete; 
Era má! como ella mente! 

Edição de 1595/ 

Enganou-mej tinha a minha; 
Deo-Uie pouco de perdella. 

Enganou-me; teve a minha; 
Da-lhe pouco de perdella. 

Edição de 1595. 



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459 



Dizei, porque me mentis? 
Prometíeis, e então fugis? 
Pois sem tmtiar, tudo he nada. 
Não sois bem aconselhada. 

Dizei, para que mentis? 
Prometeis, e nao cumpris? 
Pois sem cumprir, tudo he nada. 
Nem sois bem aconselhada. 

Edição de 1593. 

o que perde não o sente. 
O que perde nSo no sente. 

Edição de 1595. 
Se este vosso promelter 
Fosse^por me ter hum dia. 

Se esse vosso pormeter 
Fosse por me ter um dia. 

EdiçSo do 4595. 

Com gosto; e rós de contente. 
Com vosco; e vós de conlente. 

Edição de 1593. 
Deixai-me vós o servir. 

Deixai- me vós o comprir. 

Edif So do 1595. 
O servir a quem Uiè mente. 

O que cumpre o que mente. 

Edição de 1595. 

Fallar-lhe, o mais me consente. 
Fallar, o mais me consente. 

Edição de 1595. 

Em logar da sexta redondilha, vem a seguinte no meu Ms. 

Mas pois folgais de mentir, 

Prometendo de me vér. 

Eu vos deixo a prometer, 

Deixai-me vós o comprir; 

Aveis então de sentir 

Quanto fica mais constante, 

O que cumpre, que o que mente. 



A alma, qu*está oífrecida, etc. 
No estado em que se acha, o mal e o bem é-lhe já indifferente. 

Ferro, fogo, frio e calma, etc. 
Insignificante e pouco intelligivel é esta poesia. 



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460 

Esperei, ja nSo espero/ etc. 

Desenganado do pouco interesse que lhe mostra uma dama, bate em reti- 
rada e despede-se d'ella. 

Descalça vai para a fonte, etc. 

Este mote e voltas parece que deviam preceder, se estas rimas fossem por 
ordem, o mote que começa : 

Na fonte está Leonor, etc. 

É bonita descripçSo de uma pastora. 

Vai formosa, e não segura. 

Vai fermosa, e nflío segura. 

Ediç9o de 1668. 

Quem disser que a barca pende, ele. 

N2o entendo a allegoria d'esta barca que pende; sSo allusões a cousas do 
tempo era que foram escriptos estes versos. 



Com razão queixar-mc posso, etc. 

A uma senhora sangrando-se : talvez a mesma a quem são dirigidos os ou- 
tros versos, que vSo n'esta collecção, a uma senhora estando doente. 

Ojos, herido me hábeis, etc. 

Se o mata com os seus olhos, torne a olha-lo depois de morto para q resus- 
citar. Em castelhano. 

O ojos, ya de mQtarme; 

Mas mtúrto voloed á mirarme, 

Porque me resusciteis. 

Ojos, de resuscitarnie; 

Mas muerto bolve a mirarme. 

Porque me resusciteis. * 

Edição de 1668. 

Na mesma edição vem esta poesia com as quadras separadas. 

Mas porém a que cuidados, etc. 

 D. Francisca de Aragão: este mote foi dado por esta senhora, e a glosa 
acompanhada da carta que vae junta com as outras cartas em prosa. 

Eu não tenho que vos dar. 

E não tenho que vos dar. 

Edíçio de 1599. 



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Trabalhos descansariSo, ele. 

Expor-se-ia a todo o trabalho. (Ib bom grado, se experimentasse o mais pe- 
queno reconhecimento por parte da sua amante; porém acostumado a soíTrer as 
saas cruezas, que esperanças pôde ter no futuro. 

Triste vida se me ordena, etc. 

Apesar da injustiça de querer satisfazer os seus serviços com cruezas, nâo 
pôde ter maior bem que ser\i-la; pois quanto mais pedir mais deverá, e são taes 
as seus merecimentos, e de tSo alta estima, que ainda é muito favor querer que 
OS' seus tormentos lhe fiquem por galardão. 

• 

Ja nSo posso ser contente, çtc. 

Perdida a esperança, repelle os contentamentos e gosos que se lhe oíferecem; 
sô deseja a solidão para cevar a sua tristeza, ou antes a morte para pôr termo 
aos seus males; porquanto, no doloroso estado em que vive, nem morre, nem 
tem vida. 

A morte, pois que sou vosso, etc. 

A hnma dama que se chamava Anna: — Amor ^ para o experimentar, lhe apre- 
sentou a morte para ver se a temeria; não a quer, mas se vier, será todo o seu 
bem. 

Amor se me achava forte. 

Amor se m' achava forte. 

Edição de 1595. 
Entendeo quanto me toca. 

Disse o que mais n'almá toca. 

Mea MS. 



Yejo-a n'alma pintada, etc. 

Despeitado pelo desejo vé, na ausência, tão claramente retratada a sua amante, 
que a traz debuxada na alma namorada, como se a tivera presente. Como o cego 
a quem falta a vista, e a natureza lhe dobrou a memoria, assim a elle a mesma 
natureza, se lhe nega que veja com os olhos o que deseja, lhe concede o natural 
que não vé. 

Assi a mi, que não vejo 

Co' os olhos o que desejo. 



# 



Assim a mim, que não vejo 
Os olhos ao que desejo. 

£diçSDdeJS95. 



Sem vôs e com meu cuidado, etc. 



Ao mesmo assumpto do mote antecedente. O amor para que a levasse na al- 
ma, fez com que se transformasse n'eHa, deixando-o porém cego e sem guia, e 
assim se ausenta. 



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62 



Foi sempre que mio errasíe. 
Nunca fez cousa que errasse. 

Sem alma, qu*em si vos tem, 
Co' o mal de viver sem ella. 



Meu MS. 



Sem a alma que em si vos tem, 
Co mal de viver sem ella. 



£dicIodel595. 

Sem ventura he por demais, etc. ^ 

Todo o trabalho produz gostoso fiucto, vence tudo e torna os homens ímmor- 
taes^ porém querer achar ventura quem a não tem, é trabalho ocioso. 

Rompe toda a pedra dura. 

Rompem to9a a pedra dura. 

Edíçio de 1395. 

Minh'a]ma, lembrae-vos delia, etc. 

Pede á sua dama que lhe dé o gosto de a ver, prazer que para elle vale mil 
vidas, ou lhe dô morte por uma vez. 

Tudo pôde huma affeiçdo, etc. 

É tal o poder e jurisdícçSo do amor, que tudo liberta de temor humano, e 
assim declarará por toda a parte quanto pôde uma afifeiçSo. 

De todo humano temor. 

De todo o humano temor. 

EdiçSo de iS95. 

Justa fué mi perdicion, etc. 

A uma trova de Boscan. Consentiu-lhe a amante a vista, e prohibíu-lhe o de- 
sejo, e depois compadeceu-se da sua dor despeVtando-lhe o desejo; pede-lhe que 
o não olhe, se nao quer ver culpado o seu merecimento do desejo que faz nascer. 
Em castelhano. 

Satisfizo mi pasion. 



Satisfízo a mi pasion. 
De zelos de mi dobr. 
De celos de mi dolor. 



Edição de 1595. 



EdifiU) de i595. 

Todo es pooo lo posible, etc. 

É pouco intellígivel, e tem referencia a successos passados dos seus amores; 
por isso são d i (Ceeis de interpretar estes versos. 



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4fiõ 

Vos (eneis mi corazon, ele. 

Amor o consola de lhe terem roubado os olhos, pois foi roubo feito pelos 
mais formosos que viu desde que vive. 

Mi corazon me han robado. 

Mi coraçon me an robado. 

Edição de «93. 

Que veré que me contente? etc. 

Não pôde saciar-se com a vista da amante, assim, se o quer ver contente, não 
]h'a roube. 

Senora, vuestra beldad. 

Senhora, vuestra beldade. 

Edição de I6J6. 
Pues 8in vos placer m siente. 

Pues si en vos plazer no siente. 

Ediçflo de 16i6. 
Si no quereis que yo os vea. 

Si no quereis que os vea. 

EdiçSo de 1616. 

Sem, vós, e com meu cuidado, etc. 

Amor roubou-lbe a vista da amante e cegou-o: qual seria pois a sua indi- 
ffnação contra o deus vendado, ficando sem elia e com o seu cuidado. Este mote 
Dca anteriormente glosado. 

Retrato, vós não,sois meu, etc. 

A um seu retrato: vepdo-o no seio da amante, em sitio tão privilegiado, não 
ousa acreditar tanta ventura, e duvida que seja d'elle; por isso lhe aconselha 
que não confesse que é seu, porque a sua mofina ventura o derrubará de tão 
elevada altura. São bonitos estes versos. 

'lndaque*em vós a arte vença. 

Inda que em vós a arte vença. ^ 

Edlçio de.l668. 
Se he qii'eu sou quem d' an.es era. 

Se he que eu sou quem dantes era. 

EdiçSo de 1668 

O qu'e!m mi he principal. 
Muito em ambos s' enganarão, 

O que em mim he principal, 
Muito em ambos se enganarão. 

EdiçSo de 4668. 



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J64_ 

Quizerão representar, 

E houverão ttor bom partido 

Dar-vos a cama do sentido, 

Quizereis representar, 
Ouvera por bom partido 
Dar-lho a alma do sentido. 

EdiçSo de IC68. 
Que a serdes meu natural. 

Que serdes meu natural. 

Ediç9o de 166S. 

Blazonae que sois i}ivino. 
Blasonai que sois divino. 

Edição de 4668. 

Cwihecessem qu*ei^eis meu. 
Conhecessem que éreis meu. 

Edição de 1668. 



Foi-se gastando a esperança, etc. 

Apesar da esperança gasta e maltratado ingratamente pelo amor, pois nin- 
em foi mais íi 
bem já passado. 

Do mal ficárão-me os danos. 



guem foi mais fino amador, cresça a f é e fique n^alma impressa a lembrança do 
be *' 



Do mal ficarão meus danos. 

EdiçSo de 1668. 
Qu'inda não erão chegados. 

Que inda não erão chegados. 

* Edição de 1668. 

Que a ninguém, como mais dino.^ 

Que ninguém como mais dino. 

Edição de 1668. 
Do mal ficárão-me os danos. 

Do mal ficarão meus danos. 

EJiçâo de 1668. 

AqucUa captiva, etc. 

Endechas a Barbara escrava: — Parece impossível que sujeito tão escuro in- 
spirasse tão linda poesia. Chateaubriand traduziu para francez estes versos. 



Quem ora soubesse, etc. 
Fez-se lavrador de amor, porém só colheu enganos e dor. 



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•Í65 

Se me levSo ágoas, etc. 

A upoa despedida; protestos de saudade e constância que faz á amante cho- 
rosa n'esta despedida. Sâo naturaes è bem escriptos estes versos. 

.4 lanrar as ágoas. 

Alcançar as ágoas. 

Edição de 1595. 

Estas de amar são. 

Estas do mar s3o. ^ 

EdifSo do 1593. 

Me leva, eu as levo. 
Me levão, eu as lovo. 

Edição de 4595. 

Menina dos olhos verdes, ele. 

Duvida que sejam verdes os olhos da amante, porque o verde é cdr de espe- 
rança, e assim a daria aos seus amores. 



Trocae o cuidado, etc. 

Aconselha-lhe que troque com eile o cuidado, para experimentar o qne é ser 
desamada; porém arrepende-se porque lhe quer tanto bem que antes jelle seja 
maltratado, do que ella experimentar que castigo seja o ser desamada. 

Que queira o perigo. 

Que quero o perigo. 

Ediç3U)deJ595. 

Ver, e mais guardar, etc. 

Á tenção de Miraguarda. — Cunílg^ antiga. Se quem a yé uma só vez se nSo 
pôde guardar, o que acontecerá a quem a vé continuamente. O abster-se de a ver 
seria o melhor partido; terá porém força para faze-lo? 

Da lindeza vossa, 

A lindeza vossa. 

• ' Edição de 4595. 

Irme quiero, madre, etc. 

Parece ser allegoria a uma senhora que acompanhou o amante ou marido 
n'uma viagem. 

Con él por que muero, 

Con el por quien muero. 

EdíçSo de 4595. 
TOMO IV 30 



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Saudade minha, etc. 

Aosente, suspira pelo dia de tornar a ver a aaiante, esperança que. lhe vae 
faltando; desafoga n^estas saudosas queixas, e nSo Ibe importa que a dor seja 
grande, porque, quanto maior for também maior será a valia d*ella. 

Vida da minha alma, etc. 

Ausente, inveja a ventura que experimentava quando tinha a dita de gosar 
d8 presença da amante; então vivia, agora a vida que passa n9o lhe fK^de cha- 
mar vida. 

Coifa de beirame, etc. 

Joanne é increpado pela amante de amar o toucado, e nSo a ella, que anda 
cega e louca por elle. Nas edições antigas traz mais duas redondilhas, que vem 
por ordem differente. As dtías que faltam aqui sáo as seguintes que estflo depois 
da segunda redondil ha: 

Se alffuem te vir. Quem ama assi 

Que dirá de ti ? Pôde ser amada, 

Que deixas a mim Audo maltratada ' 

Por musa tilo \il! De amores por ti; 

Terá bem uue rir, Ama-me a mi 

Pois amas beirame, E deixa o beirame* 

£ a mim ^ão, Joanne. Que he razáo, Joann»'. 

Ct^ e mui perdido. 

Cego e perdido. 

EdiçSo ie «95. 

Se Helena apartar, etc. 

Descreve os effeitos que produzem nos seres inanimados os olhos de Helena: 
86 sáo tSo milagrosos, o que farão nos corações. Não sei se é esta a mesma He- 
lena a quem se refere nas redondilhas que começam: 

Não sei se m' engana, etc. 

0$ ventoi ierena. 
Faz fioret d'abrt)lko$ 
O ar de seus olhos, 

He nníte serena. 
Faz secar abrolhos 
Na luz de seus olhos. 

Mcii MS. 

Á primeira redondil ha .«egne-se.esta, no meu Ms.: 

A parle escurece 
Donde os olhos tira, 
E para onde os vira 
O ar se esclarece, 
A terra florece, 
Secam-se os abrolhos 
Na Inz de seus olhos. 



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•{67 

E f)08lo em giolhos, 
Pasma nos seus oOios. 

E posto de giolhos. 
Lhe adora os olhos. 

Meu MS. 

Verdes sAo os campos, etc. 

As bellezas da natureza tiram tod^ a sua essência da graça dos olhos da sua 
amante. 

Campo y que ('estendes. 

Campo, que te estend^sw . 

Edição de 4998. 
E eu das lembranças. 

Mas eu de lembranças. 

Meu MS. 
Isso que comeis. 

Isto que comeis. 

Mea MS. 

São graça dos olhos. 

São graças dos olhos. 

Meu MS. 

Verdes sâo as hortas, etc. 
I 
Parece serem feitos estes versos ao ver algumas senhoras jardinando e re- 
gando flores; representa um sitio cheio de rochedos e povoado de espesso arvo- 
redo. 

Com ágoa, que cai. 

Co'a ágoa, que cay. 

EdiçSo de i99K. 

Hortelãos deUas. 

Os ortelois delia. 

Meo M&. 

Menina formosa, etc. 

Aconselha-a a não ser esquiva, condição qae diz mal com a formosura; pois 
até a bonina sécca, se a terra é dura. 

Menina formosa. 

• Menina fermosa. 

Edição de 1598. 

Fique aides formosa. 
Fique antes fermosa. 

Eflirllo de «598. 



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-{68_ 

O Amor formoso, 
O Amor fermoso. 

Edição de 4598. 

Se ama, he piedoso. 
/ 

Se ama, he piadoso. 

Edição de i598. 

Que quem he formosa, 
Que quem he fermosa. 

Ediçio de «598. 

. Havei dó, menina. 
Dessa formosura ; 
Que se a tetra he dura. 

Avei dó, menina, 
Dej:sa ferniosura; 
Que s'a terra he dura. 

Ediçio de 1598. 
Sede piedosa. 

Sede piadosa. 

Ediçio de 1598. 

Tende-me mSo nelle, etc. 

Grita após o Amor, que fae fugindo, deveado-Ibe a liberdade qae lhe rou- 
bou. Ha aqui uma conta de reaes que nfto entendo. 

Que hum real me depe. 

Qu'hum reai me deve. 

Ediçio de 1!S98. 
O falso ae atreve. 

O falso «'atreve. 

Ediçio de 4596. 

Comprou-me o amor. 
(lomprou-me amor. 

Ediçio de 4598. 
Dar-me desfavor. 

Dar-rae disfavor. 

Ediçio de 4598. 

Que ando opôs eUe. 
Qu'ando apóselle. 

f diçio de 4598. 
No amor se atrM* 

No amor s' atreve. 

Ediçio de 4598. 



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469^ 

Dó la mi ventura, etc. 

Desde o berço o perseguiu a desventura, e nSo houve tormento que n^o ex- 
perimentasse; o que não admira, pois nasceu em dia de uma estrella mui con- 
traria. Só na seoultura pôde ter fim a sua desventura, e não se queixa d'ella; 
porém sim que aure vida tâo mofina. 

Vida de minha alma, etc. 

Luta entre dois tormcfntos : o de nSo ver a sua dama e desejar, e o de a ver 
e temer. 

Vida dê minha alma. 

Vida de minh'alma. 

Ediçlo de 1616. 

Teme^ido o desejo. 
Desejo temer, 

E temo o desejo, 
Desejo o temer. 

Ediçlo de 1616. 

Pastora da serra, etc. 

Parece fazer o elogio de uma senhora da serra da Estrella, objecto da admi- 
ração dos pastores d'aquella serra, pela sua extraordinária belleza e encantos. 

Mais que a formosura. 

Mas da fermosura. 

Edição de 161C. 

Se ri, não cuidando. 
Se rim, não cuidando. 

Ediçiodol616. 

Por ventura beUas, 
Das que colhe delias. 

Por ventura delias, 
Das que colhe bel las. 

Edição de 1616. 
Se n'ágoa corrente. 

Se na ágoa corrente. 

Edição do 1616. 

Faz a luz divina. 
Faz a luz cristalina. 

Edição de 1616. 
Por ver-se a ágoa ndla. 

Por ver-se ágoa nella. 

Edição de 1616. 



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m) 



Vós sois huma Dama, ele. 

Estes versos téem duas interpretações, louvando e desloovando unna dama; 
lendo-fie de alto a baixo, s2o em vitupério, e dobrando-os, em elogio; por esta 
forma : 



Vós sois huma Dnnia 
Das feias do mundo; 
De toda a má fama 
Sois cabo profundo. 

A vossa figura 
Nfto he parstver; 
Em vosso poder 
Não ha formosura. 

Vós fostes dotada 
De toda a maldade; 
Perfeita beldade 
De vós he tirada. 

Sois mui acabada 
De taixa e de glosa : 
Pois quanto a formosa. 
Em vós não ha nada. 



Do grão merecer 
Sois beo) apartada ; 
Andais alongada 
Do bem parecer. 

Bem claro mostrais 
Em vós fealdade : 
Não hajii maldade, 
Que não precedais. 

De fresco carão 
Vos vejo ausente; 
Em vós b»* presente 
A má condição. 

De ter perfeição 
Mui alheia estais; 
Mui muito alcançais 
De pouca raxão. 



Vai o bem fugindo, etc. 

Eslas endechas vfm na primeira edição, d'onde se tiraram depois. Faria c 
Sousa traz mais estas em seguida: 



Grandes esperanças . 
Tem grandes desvios; 
E grandes desvios 
Certas as mudanças. 

A^da mui vizinha 
A queda á subida; 
Os gostos da vida 
Passão mui acima. 

Nas torrts mais altas 
Mais combate o vento; 
O f a liar sem tento 
Descobre mil faltas. 

Ninguém se contenta 
Co' a sua ventura; 
Onde irá segura 
A náo com tormenta. 

O que subio muito 
Mais subir deseja; 
Sempre deu a inveja 
Amargoso frui to. 



O cego interesse 
Desfaz amizades : 

A sooerba crece. 

O curso dos annos 
Descobre a verdade; 
A necessidade 
He mestra de enganos. 

Quem cuida que engana 
Acha-se enganado. 
Necio, confiado, 
A si mesmo dana. 

Ser soberbo e pobre 
He cousa de riso. 
Nam he muito aviso 
Dar ouro por cobre. 

Do que pouco tem 
Ninguém tem memoria. 
Soberba e vangloria. 
Nam conjuntam bem. 



OUTRAS 



Nesta vida escassa 
Todo o bem se nega: 
Quando acaso chega 
Como raio passa. 

Vão e vem os dias, 
As noites também; 
Se vão nunca vem 
Firmes alegrias. 



Cansão-me lembranças 
De cousas passadas. 
Horas mal gastadas 
Em vãs esperanças. 

Lagrimas sem fruito 
Fruito de amor louco, 
Valeste-me pouco, 
(Custaste muito. 



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Dspirito» cativos Posto ein liberdade 

Me vejo cativo, Me vi mais perdido; 

Entre mortos vivo, Outra vez metido 

E morto entr' vivos. Nas uiiKos da vontade. 

Se me não socorre 
Divino favor. 
De mi o melhor 
Grande risco corre. 

Diogo Bernardes, nas Varias Rimas ao Bom Jenu, traz estas duas ultimas en- 
dechas, e nHo as que se imprimiram como de Camões. 

ABC FEITO EM MOTES 

No meu Ms. vem addicionados mais alguns motes. 



Bersabé com s*'u prazer JuIio Ce»ir conquistou 

A El-Kei David seguio, O mundo com fortaleza, 

E o vosso sol me matou. Vós a mim com gentileza. 

CG j 

Caim dizem que matou Judie ao grfto Allofemes 

Abel sendo seu irmílo, Degolou, se vivo fora, 

A mim vossa ingratidão. Morte lhe déreis, Senhora. 

M 

('aim se mostrou matador Minerva foi mui cruel, 

Pela inveja que havia, Mas não chegou a metade 

Vós a mim por outra via. Da vossa gran crueldade. 

E 8 

Estlier por formosura Salomão, por adorar 

A ser rainha c gran Senhora, Huma niulht-r, se perdeo; 

Vós nome de matadora. E por vós me perdi eu. 

Q z z 

Geremias lamentando, Zenobia, se sois por mim 

Chorava com gran cuidado, Pedida de amor e fé, 

E eu sou ja sepultado. Como essa por si he. 

Zacharías emudeceu 
Por hum pouco duvidar, 
E eu só por vos fallar. 

Não faço explicações a esta poesia, aliás trivial, porque estas se encontram 

nos diccionarios da fabula. No meu Ms. vem estes motes com o seguinte titulo: 

•Motes feitos peh ABC com historias antigas, qfie fez Lais de Camões a huma sua 

dama». Esta dama, pela variante do primeiro mote do mesmo Ms., parece cha- 

, mar-se AAna; talvez a mesma do mote, a pag. 106, que começa: 

A morte, pois que sou vosso, etc. 

Amor, quisutes que foue. « 

Anna quisestes que fosse. 

Edição de 16CS c o meu MS. 



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" 472_ 

Apelles, se fora vivo. 

Apelles, se vivo fôra. 

Meu MS. 

Por vós retratos tirara. 

Por vós debuxos pintara. 

Meu MS. 

Extremo de {oi^mosura. 

Extremo da fermosura. 

Edição de 1668 e c^ mea MS. 

Para ^inha sepultura. 

Pêra minha sepultura. 

Mea MS. 

Cassandra disse de Troya. 
^Quelhavia ser destruída, 
E eu por vós d' alma e da vida. 

Cassandra disse por Tróia, 
Que havia de ser dístroida, 
Eu por vós alma e vida. 

Mou MS. 

Da má morte causadora. 
De má morte causadora. 

Meu MS. 
Fedra só de puro amor. 

Pedra de puro amor. 

Meu MS. 

Da formosura estremo. 
Da fermosura extremo. 

Ediçio de 4668. 
De chammas, o consumio. 
De foguo, o consumio. 

Meu MS. 

Hebis e Dido morrerão 
Com o rigor da mudança. 
Eu vendo vossa esquivança. 

Helisa, Dido morrerão 
Por se ver sem esperança, 
Eu vendo vossa mudança. 

Mou MS. 

Judiíh que o duro Hdofemes. 

Judie ao gráo Allofernes. 

Meu MS. 



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475 

Leandro se afogou 

No mar de sfM bonança. 

Eu no de tmta esperança^ 

Leandro foi dar á costa 
Na praia àtí sua bonança, 
E eu na vossa esperança. 

Mea lis. 

E VÓ9, Senhora, da terra. 
E vós, sois Deosa da terra. 

MeoMS. 
Em vendo a sua figura. 

Vendo sua figura. 

MdQ ias. 
Eu por vossa formosura. 

Eu por vossa fermosura. 

EdiçSod6Í668. 

Eu a vossa fermosura. 

MeoMS. 
Com seu ar e formosura. 

Com seu ar e fermosura. 

Ediçio de i668. 

Vendo sua fermosura. 

Mea MS. 

Que em vos verem sentifuo. 
Mas eu pago o mie elles virão. 
Orpheo com a doce harpa. 

Que em vos vendo sentirão, 
E eu choro o que elles víráo. 
Orpheo com sua arpa. 

MeuHIIS. 
Vós a mim com perfeição. 

Vós a mim com mais rezSo. 

Meu MS. 
Paris a Helena roubou. 

Paris roubou a Heilena. 

Meo MS. 

E VÓS a mim me malaes. 
E vós a mim só me matais. 

Meu MS. 
Roma o mundo sujeita. 

Roma o mundo sogeita. 

Edíç2o de 16^. 

Roma o mundo sogigou. 

Men MS. 



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474 

Serena na mór Fortuna 
Com enganos tai cantando^ 
E vós iemp*e a mim matando. 

Serea na formosura 
Com engano vai cantando. 
Vós a mim sempre matando. 

Meu MS. 

Venuê, (pie por mais formosa. 
Lhe deo Paris a maçãa. 
Mo foi quanto vós touçãa. 

Vénus, que mais ferinojta, 
Paris lhe ju^oa a sorte, 
Vós a mim dareis a moft<\ 

M-a MS. 
Por vós não serdes. Senhora, 
Nascida naquella hora. 

Porque nSo fosles, Senhora, 
Presente naquella ora. 

MeoMS. 

Tanto, quanto sois foi^mosa. 

Tanto quanto sois fermosa. 

Ediçio de 1668. 

Na edição de 1668, onde vem primeirQ esta poesia, depois da letra X vem 
mais estes dois motes : 

Júlio Cezar se livrou 
Dos imigos com abrolhos, 
Eu nSo posso desses olhos. 

Jazia-se o Minotauro 
Preso no seu labyrintho, 
Mas eu mais preso me sinto. 

Por usar costume antigo, etc. 

Carta esmpta d' Africa a hum amigo: — Expõe-lhe o estado apaixonado que 
o domina longe da sua amante, e a saudade que o devora; pede novas do objecto 

3ue lh'a faz nutrir, e roga ao fidalgo continue os seus bons ofBcios perante a 
ama, da qual pede novas, fundamentando na amisade d*este fidalgo, e no seu 
patrocínio toda a consistência da sua ventura; ao mesmo fidalgo se dirige, por 
a mesma occasiSo e igual motivo, na elegia ii, e muito explicitamente; 6 uma 
maneira de exprimir inteiramente análoga á da variante inédita que publicámos 
d'esta elegia. Alem da descri pçSo (jua faz do seu estado amoroso, dá noticia dos 
negócios militares da praça, ailudmdo a qqeixas mutuas da parte do governa- 
dor a respeito dos moradores, e d'estes do governador, por ventura de parte a 
parte injustas, e devidas sem duvida ao abandono forçado que se começava a 
experimentar n'éstas primeiras conquistas no ultramar, em tempo de D.João ni, 
que vergava com o peso de uma táo vasta e dilatada monarchia. 

Somente achei badaladas. 

« Ja estes Tdiz o Poeta na sua primeira carta escripta da índia) que tomárSo 
esta opinião cie valentes ás costas, crede que nunca rioeras dei Duero arriba ca- 



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475 

valgaron Çamoranos, que roncas de tal soberlua sntre si fuesen babiando, e 
(]uando vem ao effeito da obra salvao-se em dizer que se não podem fazer ta- 
ihanbas duas cousas como é prometer e dar.» O Poeta, valoroso por natureza, 
nJHo só nos togares seguintes, mas ainda em outros, mette a ridículo estes ruiiOes 
maia esforçados com a língua, do que com a espada. 

Outros em cada tbeatro, 
Por officio Ibe ouvires 
Que se matarán con três, 



Na paz mostrSo coração, 
Na guerra mostrfto as costas; 
Porque aqui torce a porca o rabo. 

Disparates na índia. v 

SenSo vendo aquelle dia 

Que hade ser fim de dous anos. 

Por estes versos se vô que o degredo tínba praso marcado. E>(a epístola de- 
via ser das primeiras cousas que escreveu da Airica, porque n'ella nHo faz men- 
ção dos combates a que allude na seguinte e na elegia ii. Talvez este degredo 
fosse de três annos, começado nas margens do Tejo e terminado na Africa. Os 
seguintes versos da elegia i, escripta por esta occasiSo, parecem confírma-lo : 

Até que venba aquelle alegre dia 
Qu'eu vá onde vós id^s, livre e ledo. 
Mas tanto tempo^ quem o passaria? 

As penas impostas aos que se atreviam a ter amores no paço eram severas, 
como deixámos dito na bio^raphia; alem d'isto podia-se ter aggravado a causa 
doeste castigo com alguma rixa ou duello. 

Pois sei que em vossa mão 
Está meu bem e meu mal. 

- Por estes versos se vé que a pessoa, a quem o Poeta se dirigia n'esta carta, 
era terceira n'estes amores, e tinba grande valimento com a dama; o mesmo se 
deprebende da variante inédita que publicámos na nota á elegia ii. 

Dai-me o favor sem pejo, 
Pois o dais a cousa vossa. 

Veja-se a ode vii era que o Poeta celebra D. Manuel de Portugal : ali se ex- 
pressa de uma maneira muito análoga : 

Saudade de uma banda 
D'outra tento ao badallo. 

D*aquí muito claramente se eolli^e que os amores do Poeta, ainda depois da 
pena, não estavam extinctos, mas exigiam grande segredo e recato. 

Mas be de nós Conde. 

Se este verso é de Camóes e não pertence aos alheios inseridos no fim de 
cada redondilha, dá a entender que esta poesia era dirigida a um conde; podia 
ser o de Vimioso, ou de Redondo, ambos amigos e protectores de Camões. 



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476 

O dia das alabanças. 

Torna o Poeta a marcar um praso determinado para termo do sen degredo, 
e pela expressão que emprega se vé com quanto alvoroço era por elle esperado. 
Vem esta poesia ejn um Ms. do século xvii. 

Mandaste-me pedir novas, etc. 

Carta escripta d' Africa em resposta á de hum amigo: — Este lhe mandou pe- 
dir novas: dá as suas, e de uma investida dos mouros á praça onde militaTa. 

Cuidei que vida mudada. 

Do mesmo modo se expressa na elegia ii, escripla por esta mesma occasiSo: 

Mas nem com isto, em6m, qu* estou dizendo, 
Nem com as armas tão continuadas, 
D' amorosas lembranças me defendo. 

Faço no meu, pensamento 
Mais torres que as de Almeirim. 

Onde estSo estas torres? ainda no fim do século xvi era este paço uma das 
casas onde os nossos reis se iam recrear, e hoje está tudo nivelado com o chão; 
as suas torres estão derrubadas do mesmo modo que aquelias que o Poeta fazia 
no seu pensamento. Parece que um anathema foi lançado contra estas muralhas, 
onde um rei caduco e portuguezes vendidos entregaram o reino ao estrangeiro. 

Quem disser que a saudade. 

O Poeta descreve n*esta poesia o seu estado apaixonado com as mesmas co- 
res exactamente com que o fez na elegia ir, também escripta por esta occasiSo. 
Aqui, como na primeira poesia, é corroído pela saudade mais violenta, divaga 
solitário ao longo do mar, através do qual dilata a vista até á pátria : a analo- 
gia das suas composições é igual ; a descripção, os sentimentos expressados os 
mesmos. 

Vi venir pendon bremejo. 

Descreve uma investida á praça feita pelos mouros, á qual, na forma do cos- 
tume, dá pouca importância; o mesmo usa quando descreve a -sua primeira ex- 
pedição na índia, õ nosso Poeta não' era bom para redigir boletins de batalhas. 

A las armas Mouriscote. 

Veja-se a carta i em prosa escripta da índia: «... mas os que sua opinião 
deita á las armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia », etc. 

A que muerte condenado. 

Termina a carta com o receio, que manifesta na primeira, de fallar nos seus 
amores, e aue isto possa de alguma maneira constar. Vem esta poesia em um 
Ms. do século xvii. 

Senhora, quando imagino, etc 

Carta a huma Senhora: — Encarece as qualidades da amante, e expOe o seu 
pouco merecimento para amar tão divina formosura e dama tão perfeita; porém 



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477 

depois volta sobre o qae disse, e reputa-se idóneo -para a amar, pois mudou o 
ser humano no divino, por virtude de gesto tão soberano. No Ms. de Manuel de 
Faria e Sousa. 

Afuera consejos vanos,^ etc. , 

Poesia burlesca a uma mulher que o queria disfructar na bolsa; aconselha-a 
que procure outro, e o deixe com a sua dor. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 

Lagrimas dirSo por mim, etc. 

A uma despedida: toem verdadeiro sentimento estes versos. Lagrimas ver- 
dadeiras e sinceras, que nfto se sabem flngir, fallarSo por elle quando a pena da 
partida lhe tirar a falia e a vida. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 

Prazeres, que me quereis? etc. 

Diz aos prazeres, que sempre o enganaram, que o deixem coni a sua tristeza, 
pois essa lhe tem sido sempre fiel companheira. De seus contentamentos appa- 
rentes tem já experiência certa; assim nusquem outro a quem enganem. No Ms. 
de Manuel de Faria e Sousa. 

S' espero, sei que m*engano, etc. 

Vive entre dois extremos: temendo sempre o bem que espera, e sendo este 
fmpossivel, não podendo comtudo desesperar. Este mote foi glosado duas vezes 
por Diogo Bernardes, e em uma d'ellas por esta forma; Francisco Rodrigues Lobo 
também o glosou na sua Primavera. No Ms: de Manuel de. Faria e Sousa. 

Peço-vos que me digais, etc. 

A huma Senhora rezando: — V^endo a sua dama a orar, e toda inflammada 
no amor divino, recorda-lhe quflo pouco serSo aceitas as suas rezas, tendo rou- 
bado tantos corações, se ellas não rorem acompanhadas de uma verdadeira con- 
trição e da satisfação dos danmos causados; assim, se quer., restitua-lhe a vida 
que lhe roubou. Galante poesia, e ao mesmo assumpto escreveu o lindo so- 
neto ccxLvi e as redondilhas antecedentes, glosando o mesmo mote. No Ms. de 
Manuel de Faria e Sousa. 

^ Ora cuidar me assegura, etc. 

Vive em tal incerteza e tormento com os seus amores, que os mesmos cui- 
dados que lhe dão vida, lhe dão a morte. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 

Ó meos altos pensamentos, etc. 

Embora conhecesse que eram aéreos e sem base os seus pensamentos, tinha-os 
elevado tão alto que agora sente o cair de tão grande altura. No Ms. de Manuel 
de Faria e Sousa. 

Esperanças mal tomadas, etc. 
Ao mesmo assumpto da redondil ha 

S' espero, sei que m' engano. 



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J78 

Elabora as suas esperanças aejaiii vAa e sem fundamento. nSo as pótie deixar, 
pois é origem d^ellas a sua amante. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 

Como quer que tendes vida, etc. 

Pede a uma mulher que se lhe entregue, pelo menos uma hora. e despache 
bem o seu requerimento. No Ms. de Manuel de Paria e Sousa. 

Em tudo vejo mudanças, etc. 

A estas esperançasses e mal concebidas escreveu o Poeta, como temos visto, 
varias poesias; sendo vãs, falsas e dando-lhe tanto tormento, ainda asairo as nSo 
aborrece. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 



Ay de mim, mas de vós ay, etc. 

Diz á dama que attenda bem no que faz matondo-o, porquanto ella é n'isso 
mais prejudicada. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 

Lume desta vida, etc. 

Acróstico de Luis e Caterina de Ataide. Resente-se esta redondil ha da natu- 
reza das poesias restrictas a estas formas mesquinhas; o assumpto, isto é, o 
nome da sua amante, como em outras occasiôes, deveria elevar mais o estro 
do Poeta. No mesmo Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 



Que vistes meus olhos? etc. 

NSo é bem claro se se dirige aos seus olhos ou aos de uma senhora. Se sáo 
chorosos de amor e de esperanças lisonjeiras, ditosa dor, ditosas lagrimas; po- 
rém se de desfavor, de enganos e cuidaaos, deixem passar os annos e nSo serflo 
tristes. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa, e traz esta cota: No Ms. novo. 



Ay de mim, etc. 

Diz á dama que será responsável da sua vida perante Deus, pois aindaque 
a parte perdoe fica o caso á justiça; todos sabem, os que téem pratica de foro, 
que embora a parte se não desaggrave, toma ella a si esse dever. Em castelhano, 
uo Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 



Guardai-me esses olhos bellos, etc. 

Embora sejam lindos os cabellos da dama, guarde-os amor para si, que elle 
prefere os olhos, pois é d'elles que se mantém e vive. No Ms. de Manuel de 
Faria e Sousa. 

Por huns olhos que fugirão, etc 

Explica o effeito que produziu n*elle a vista do» olhos de uma senhor». Alem 
de o cegarem, nunca mais sentiu prazer por os não tornar a ver. No Ms. de 
Manuel de Faria e Sousa. 



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479 

No Dionte de amor andei, etc. 

Esta poesia visivelmente é escripta a uma senhora que se appellidava Gams, 
talvez parenta do próprio Poeta, que era aparentado com esta família por sua avó 
D. Guiomar da Gama, dos Gamas do Algarve. O assumpto parece ser um desen- 
contro com a mesma senhora.Vem estes versos no Ms.de Manuel de Faria e Sousa. 



Tàl cstoi despues que os vi, etc. 

Em castelhano: declara-se namorado ao mesmo tempo de amor pela dama, 
assumpto d'esta poesia, e de si mesmo. Vem no Ms. de Manuel de Fana e Sousa. 



De vós quererdes meu mal, etc. 

Fortalece-se no soffrímento do seu mal coro a causa que lh'o faz soffrer, e 
resigna-se contente á pena, porque lh'a ordena a sua dama. No Ms. de Manuel 
de Faria e Sousa. 

No meu peito o meu desejo, etc. 

No seu amor é certo o damno que se segue voluntariamente, n2o dando ou- 
vidos á rasâo, mas incerto o remédio. No Ms. de Manuel de Faria e Sousa. 



Nasce estrella d'aiva, etc. 

Ao nascimento de Christo: versos provavelmente para serem recitados na 
noite de Natal. Parecem mais do estylo de Diogo Bernardes. Vem no Ms. de 
Manuel de Faria e Sousa. 

Amor que vio minha dor, etc. 

Carta a hntna Senhora: — Amor tirou uma penna das azas, e mandou que es- 
creveí»se o que elie dictasse:*pede, na forma ao costume, uma entrevista. Esta 
carta, bem C4)mo outras poesias doesta natureza, pôde bem ser que não fosse di- 
rectamente dirigida pelo Poeta, mas sim escripta para algum estranho apoucado 
de talento poético para a escrever. Existia n'outro tempo este commercio, e tal- 
vez o Poeta em occasifto de apuro recorresse a este meio. Vem no meu Ms. 

Carta minha t2o ditosa, etc. 

Parece ser escripta á mesma senhora, e em continuação da primeira carta, 
porquanto é o mesmo amor que dictou a outra, que a|^ora se encarrega de dictar 
esta. Parece que não houve resposta da primeira missiva, e agora n*esta a re- 
clama com encarecimentos de amor ; estabelece novos parallelos para render a 
praça, que pede se não renda a outro. No meu Ms. 

Pois que. Senhora, folgais, etc. 

A uma senhora que em um rompimento de relaçdes amorosas lhe ordenou 
que mais não lhe apparecesse. Desforço jocoso do Poeta, em que lhe assevera 

3ue nada perde com a quebra doestes amores. Já se vé que esta poesia não foi 
irigida á amante; talvez a fizesse para um outro a enviar a alguma senhora. 
No meu Ms. 



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480 

Olvide y avorescy, etc. 
Intefídimento a este verso: — Com este titulo vem estes versos no meu Ib/ 

Para evitar dias máos, etc. 

A humas Seyihoras que jogando perto de huma janeUa lhes cahirão ires páos e 
derão na cabeça de Camões : — A forca é triangular, por isso o Poeta allude aos 
três paus do baralho que lhe caíram na cabeça, referindo-se ao instrumento do 
supplicio; fazemos esta explicação, não para nós que o sabemos^ mas para io- 
telligencia de algum' estrangeiro, se lhe cair nas mãos esta poesia, a qual talvez 
não entenderia sem ella. Na carta ii, em prosa, se encontra também uma allosão 
aos três paus do baralho : 

Eu então por burlar quem me burlou, 
Três páos joguei, e disse que ganhasse. 

Este improviso vem também no meu Ms. 

t EL-BEI SELEUCO 

Foi impresso este auto, pela primeira vez, no anno de 1616 sobre um Ms. 
que possuía o conde de Penaguião. É precedido de um prologo dramático, a 
composto, segundo se deprehende do mesmo prologo, em o curto espaço de três 
dias e representado em casa de um Estacio da Fonseca, enteado de Duarte Ro- 
drigues, reposteiro d'el-rei D. João III, o qual exerceu no paço dífferentes car- 
gos: almoxarife dos paços de Alcáçova (1551); recebedor dos dinheiros das apo- 
sentadorias da carte (1565); e por ultimo, cavalleiro fidalgo e tbesoureiro das 
moradias da corte (1574). Devia ser cscripto depois do anno de 1545, pois no 
prologo o moçe diz, fazendo menção da moeda, os basarucos: «. . .que se agora 
fora aquelle tempo em aue corrião as moedas dos sambarcos», etc, os quaes 
corriam ainda no tempo ae D. João de Castro, pois n'este mesmo anno revogou 
este vice-rei a lei de seu antecessor Martim Anfonso de Sousa, que lhe alterava 
o valor. 

O prologo é escripto em prosa e estylo burlesco, e não deixa de nos dar al> 

?:uma noticia doestas representações particulares; por elle vemos que era co»- 
ume deixar entrar o publico que podia ser admittido, e que o representador 
explicava* o argumento da peça ou como n'esta suspendia a attenção, e prepa- 
rava a surpreza annunciandfo divertimento differente; n'este mesmo faz o nosso 
Poeta menção do Chiado, como bom trovista. 

O facto narrado pór Plutarcho, de Seleuco rei da Syria, que cede a mulher 
a seu filho Antiocho, que apaixonado da madrasta chega ás portas da morte, 
forma o assumpto d'este auto, que tem sido reputado difficil, e por isso pouro 
próprio para o theatro. Eis como a este respeito se expressa o abbade d'Aubi- 
gnac (La pratiqw du théatre, etc. Amsterdam, 1715, tomo r, pag. 57) : «D^avan- 
tage il ne faut pas s'imagíner que toutes les belles histoires puissent heureose- 
roent paraitre sur la scene, parce que souvent toute leur beauté dépend de 
Quelque circonslance que le théatre ne peut souffrir. Et ce fut Tavis <^ue je 
Qonnai à celui qui voulait travai 1 ler sur les Amours de StraUmice et Anthtoeus: 
car le seul accident considérable, est Tadresse du Medécin qui fit passer de- 
vant les yeux de cé jeune Prince malade depuis longtemps toutes les Dames de 
Ia Cour a fín de jnger par Témotion de son poulx celle qu'il aimait et qui cau- 
sait sa maladie; et j'estime qu'il est três difficil e de faire un Poéme Dramatiqoe, 
dont ce Héros soit toujours au lit, ni de représenter cette circonstance; et qiL'il 
a peu de rooiens de la changer en teile sorte que Ton en put conserver les agre- 
meus; eutre que le temps, ft le lieu de la scene seraíent três difficiles à ren- 



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i8i 



contrer; car si Antíochus est au lit le matin, il faudra bien travai) ler pour le 
faire agir dans le môme jour. De méme aussi la scene dans la chambre du ma- 
lade, ou devant sa porte cela. ne seroit goere raisonable. La Theodore de Mon- 
sieur Coroeille n'a pas eú tant de succès ni toute Tapprobatíon qu'elle meritoit». 

Apesar comtudo d'esta difficuldade, deparámos com duas peças doeste mesmo 
assumpto no theatro itiliano no século xvii, uma para musica, e representada 
no theatro S. Cassiano: 'Antioco D. per Musica de N. M. sid teatro S, Cassiano* 
per Vanno 1658 in Venet,n, e outra por uma senhora, escripta em prosa e verso : 
nLà Stratoniea Tragicomédia di Angélica Scaramucia in Viterbo, 1609». Agosti- 
nho Moreto tratou o mesmo assumpto em Hespanha : « Comedia Famosa Antioco 
e Seleuco, de Don Agustin Moretí^». Não nos sobra aqui o espaço para confrontar- 
mos estas d iffe rentes jpe^s com a do nosto Poeta, o que talvez faremos em ou- 
tra occasiâo, e assim fimitar-nos-hemos a dizer duas palavras sobre a sua com- 
posição. \ 

Sem ser uma peça de grande merecimento, de espaço a espaço apparecem 
comtudo lamppjos do génio de Camões. O enredo do auto é simples, e resolvida 
a difEculdade que aponta mr. d'Aubignac, tratada com o génio com que Racine 
tratou a Phedra, uma scena de declaração feita á rainha, poderia fazer um bello 
effeito dramático no theatro moderno; Cjimôes evitou este passo, e é por um 
papel que lhe cáe quando se reclina na cama, apanhado peia aia da rainha, que 
ella vem no conhecimento do amor iilícito do principe, amor illicito de que 
ella se acha também ferida, e assim foi talvez para evitar o embaraço que devia 
seguir- se da entrevista entre os dois, que Camões fugiu a esta scena, preparando 
comtudo de ante-mfto para o desfecho íinal, e tornando natural a união dos dois, 
[ieio interesse <|ue ella mostra pelo principe, e pelas confidencias com a aia, a 
quem declara o amor quetem pelo entiado, pezarosa de ter vendido a liberdade, 
conservando-se com todo o decoro n*esta luta do coraçSo. 

Emquanto ao estylo, tem todo o colorido da epocha; o príncipe exprime-se 
nos seus amores no estylo de Petrarcha, e o mesmo anachronismo se nota nos 
outros personagens: Sancho é o gracioso moderno, um dos músicos é o sr. Ale- 
xandre da Fonseca, e o porteiro recita motes entoados em cantochão. 

A comedia de Moreto é mais apparatosa e acompanhada de incidentes mais 
variados; conheceu o auctor hespanhol a do nosso Poeta, como se vô da scena 
dos músicos, e do discurso aue na peça portugueza fnz o moço, e na hespanhola 
o gracioso Lnquete, sobre a delicadeza no trato e melindres dos príncipes e gran- 
des senhores, comparada com os trabalhos physicos que experimentam os ho- 
mens ordinários do poTo. O dialogo do physico e do bobo em Camões é cómico, 
e a scèna do mesmo physico quando revela ao rei a palx9o do filho pela rainha, 
é bera conduzida e me parece mais natural e com mais arte do que a de Moreto. 

Esta comedia nSo devia agradar na corte, pois sabemos que el-rei D. Manuel 
nSo representou com seu filho D. João III o papel de Seleuco, antes lhe tomou 
a noiva que lhe estava destinada. 

os AMPHITRIÒKS 

o argumento d'esta peça eminentemente cómica, antes de Planto tinha sido 
tratado por Archípo e Euripides; no começo do século xvi (1505) reproduziu 
Yillalobos na língua castelhana a comedia latina, acommodada á representação, 
imitando-a pouco depois (1545), nu Itália Ludovico Dalee (II Marito), em Por- 
tugal o nosso Poeta, e mais tarde o poeta inglez Dryden e o celebre Molière. 

O ser escolhida por homens ião eminentes, demonstra que acharam esta 
fabula mui adaptada para ser (ratada no theatro. Se na comedia de Seleuco de- 
parámos com alguns lampejos de senio de Camões, n'este auto dos Amphitriões 
ou Enphatrioens, como então se dizia, apparece uma força mais cómica, « se 
exceptuarmos algumas scenas accessorias revestidas de um certo modernismo 
e anachronismos a que o Poeta talvez era obrigado para satisfazer o gosto de 
uipa parte dos espectadores, nSo receámos afiirmar que n'ella corre parelhas, 
senSo excede ás vezes o poeta latino imitado e o próprio Molière. N'este caso 
Toii« I? :)l 



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482_ 

estáo, a meu ver, as scenas v e vi do acto ii, de Sosea e Mercúrio contrafeilo cm 
Sosea, que é superior á de Flauto e de Moiière, e D'outra8 Ibes é igual: o enredo 
da peça geralmente é bem conduzido, o estylo mui cómico e incisivo, e o final 
mais bem ordenado do que em Flauto e Volière. Na peça franceza apparece Jú- 
piter montado na Águia entre ondas de luz, e revela a AmpbitriSo o que deu 
causa á mystificação que tanto o atormentou, vaticinando-ihe o futuro nasci- 
. mento de ttercules que deveria provir d'e8se concubito; parece-me aue isto nSo 
devia consolar muito Ampbitrifto, e assim o expressa Molière pela oóca de So- 
sea nos últimos versos com que termina a sua comedia: 

Sur telles affaires toujou/s 
Le meilleur est de ne rien dire. 

Na comedia portuguesa o final acaba de uma maneira muito mais dramá- 
tica, e ó mais bem conduzido. Aurélio, primo de Alcmena, a quem Ampbitrião 
se havia queixado da affronta na sua honra, conjuntamente com Beiferrão, o 
patráo do navio, e Sosea se dirigem a casa de Alcmenà para forçar a entrada e 
aclarar toda esta embrulhada; porém ao penetrar na casa sAo de súbito fulmi- 
nados pelo clarão de raios de luz que a esclarecem, desapparecendo n'is(o o em- 
busteiro Júpiter, perd0e-me sua divindade, com um rniao grande e horrendo. 
Attonitos e assombrados da claridade que os cega, saem, e encontrando Ampbi- 
trião, narram rapidamente o acontecido, pedindo-lbe que preste ouvido attento 
á voz que inda sâa. É a de Júpiter que de dentro aclara a Amphitriáo o que se 
ha passado, cônsolando-o com o vaticínio que faz das glorias de Hercules que 
nascerá d'este ajuntamento, doirando-lbe a pílula como pôde: ^ 

Quiz-me vestir em teu gesto, 
Por honrar tua geração. 

Molière ao mesmo assumpto disse: 

1/éclat d'une fortune en mille biens féconde, 
Fera connaitre à tous que je suis ton support. 

Parece-me em Gamões roais bem doirada, assim como j*l dissemos este final 
todo mais artisticamente trabalhado. O theatro repentinamente esclarecido por 
entre a transparência do panno da boca do mesmo theatro, uma voz sobrenatu- 
ral, auxiliada talvez por um porta-voz, ànnunciando as grandes venturas de Am- 
pbitrião, me parece mais theatral do que Júpiter escarranchado na águia, e fal- 
tando cara a cara com Ampbitrião, que deve achar-se n*uma posição critica, e 
que talvez dispensasse tanta honra. 

Esta comedia, que revela aonde podia chegar o génio vasto de Gamões, se a 
sua vocação o chamasse exclusivamente para o theatro, e não o aguardasse 
ainda mais elevada esphera, na litteratura tem sido olhada com pouca attenção 
pelos nossos philologos; admira-me como bellezas cómicas de tão subido quilate 
não feriram a vista do nosso aliás distinctissimo académico Sebastião Trígoso. 
Não aconteceu porém assim no seu tempo; representada ou perante académicos, 
ou na presença de uma aristocracia das roais illustradas da Europa, a quem os 
exemplares da lingua latina eram tão familiares como os da língua própria; cu- 
briram de applausos o auctor, e foi sem duvida no meio doestes applausos e ova- 
ção que um enthusiasta, admirador do Foeta, rompeu enr seu louvor com o se- 
guinte soneto improvisado: 

Quem he este que na harpa Lusitana 
Abate as Musas Gregas, e Latinas? 
E faz que ao mundo esqueçam as Plautinas 
Graças, com graça alegre, e lyra ufana? 



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485 

Lm de CamôPS he, que a Soberana 
Potencia ilie influio partes divinas, 
Com que espiram as 'flores, e boninas, 
Da Homérica Musa, e Mantuana. 

Se tu, tríumphante Homa, este alcançaras 
No teu theatro, e scena luminosa, 
Nunca do grão Terêncio te admiraras. 

Mas antes, sem contraste, curiosa , 
Estatua de ouro ali lhe levantaras. 
Contente de ventura tão ditosa. 

Foi este auto, bem como o de Pilodemo, impresso pela primeira véz no arf^o 
de 4587, na rarissima colIccçSo dos autos de António Prestes, da qual apenas 
conhecemos em Lisboa o exemplar que possue o sr. Sousa Lobo; é para sentir 
que nSo se proceda a uma reimpressão, com a qual faria o dístincto lítterato, 
possuidor do Uvro, valioso serviço á litteratura nacional, pois conjunctamente 
estão outros autos do século xvi, e com qualquer descaminho do livro, será ine- 
vitável a perda doestes, se fora do reino se não descobrir outro exemplar. 

Esta tragicomedia foi representada na índia, ao governador Francisco Bar- 
reto, para celebrar a investidura do seu governo, nas festas que os fidalgos e 
povo de Goa fizeram por esta occasiSo, como consta do Ms. de Luiz Franco, onde 
vem inciuida com este titulo: « Comedia feita por buis de Camões. Representada 
na índia a franeisco de barfeto. Em a qual entrão as figuras seguintes, etc. • 
Representada logo no principio da sua estada na índia, é re^assa'da ás vezes de 
um certo fel, o nue me induz muito a acreditar que fosse feita na viagem para 
a índia, para se desenfastiar de uma táo enfadonha viagem, e auando as feridas 
recebidas no reino ainda sangravam; não estava porém acabada quando foi 
posta em scena, porque depois reduziu a verso algumas passagens que no ma- 
nuscripto vem em prosa. Sáo bastantes as variantes no manuscrípto, o que nos 
levaria a termos que repetir uma impressão d'este auto; limitar-nos-hemos. pois 
a darmos algims versos que não vêem no impresso, e alguma variante mais sa- 
liente que possa convir para emendar os erros em que abunda o auto impresso, 
postoque, em partes, o manuscrípto não está menos incorrecto. 

Não sei o romince d'onde Camões tirou o fundamento para esta tragicome- 
dia ; parece ter comtudo uma certa analogia com uma lenda genealógica da casa 
de Marialva, de uma tal infanta Cras, tílha do rei Ordonho. 

Eíepoís do verso : . ^ 

Assas me custn do rfieu, 

vem a seguinte estancia, qne não está impressa : 

SOLINA 

Pois díxei por vossa vida 

Vós que podereis querer delia? 

FILODBHO 

Eu não quero mais que querela, 
Que vida tão bem perdida 
O ganha-la está em perdella, 
^ Porque os pensamentos meus 

Tenho por tanta ousadia. 

Que se acerto algom dia ^ 

Pôr os meus olhos nos coos 
Me parece inda heresia. 

Do dialogo em* prosa que começa: «Pois não creio em S. Pisco de páo», etc, 
copiámos a parte onde é mais saliente a mudança, porque convém para emen- 



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dar o erro grosseiro, que vem no original, de Vale Luzo por Valchíosa/ logar 
romântico dos amores de Petrarcha: 

DORIANO 

<r . . . Ora desengano-vos que foi a maior rapazia do mundo altos espíritos, 
porque eu não darei duas pescoçadas da minha beni-ni cem depois de ter feito 
a trosquia a um frasco, e falar-me por tu e fingi r-se bêbada, porque pareça que 
o Dão está, por quantos sonetos estão escritos pelos tronquos oas arvores de Val- 
chíusa, nem por quantas Madamas Lauras vós idolatrais, que se vem á máo. 

FILODEMO 

«Tá que vos perdeis, n2o consinto que vades mais avante. 

DORIAKO 

«Queres apostar que adivinho o que quereis dizer? 



«Que? 



FILODEISO 



DÓRIA NO 



« Que se me nSo açudes com ò batel, que me hia nesse de amor. 

I 

FILODEMO 

« O que certeza tamanha do muito pecador, não se conhecer por esse. 

DORIANO 

«Mas que certeza tamanha do muito enganado, embirrar em sua opinião. 

FILODEMO 

« Se não tivesse por maior offensa o que faço a meu pensamento em vos con- 
tradizer, que telo secretamente, gastaca humas poucas de palavras comvosco; mas 
ainda eu não tenho as minhas em tão má conta, que as queira tão mal empre- 
gadas. 

DORUNO 

'« Ja falamos por meu pensamento, ay era má; peza-me que éreis um homem 
de bom saber e boa conversação ; mas prazerá a Deos que me chorareis, e vos 
porá no caminho da verdade. E tornando ao nosso preposito que he o que para 
que me buscais que se ior causa da vossa saúde tudo farei. 

DORIANO 

«... Bem praticado está isto, mas a outro perro com esse osso criei, dias ha 
que não creo em sonhos. 

FILODEMO 

«Porque dizeis isto? 

DORIANO 

« Eu volo direi, porque vós outros que amais pela passiva dizeis que o ama- 
dor fino como melão, que não hade querer mais de sua dama que ama-la Viva, 
e virá logo o vosso Petro Bembo e Petrarcha, e outros trinta Platois (mais safados 
destes hypocritas que umas luvas de pagem d'arte) mostrando- vos resôes vero- 
similhantes para homem não querer mais de sua dama, que ver e até fallar, e 
ainda ouve outros inquisidores a'amor mais especulativos, que defenderão a vista 
por não emprenhar o desejo, e eu faço voto a Deos que se a ijualquer destes lhe 
entregarem sua dama entre dous pratos tosada e aparelhada, que não fique pe- 
dra sobre pedra, nem lugar sagraao em que se possa dizer missa dahi a mil an- 



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485 

noSj nem lugar Uo' privilegiado em que a fúria da justiça não buscasse até os 
caninhos escaninhos; de mim vos sei dizer que os meus amores hão de ser acti- 
vos, e eu heide ser a pessoa agente e ella a pacienta, e esta he a verdade , mas 
tornando a nosso preposito vá V. M/* com sua historia avante. 

FILODEMO 

«Vou, porque vos confesso que ha neste caso muitas duvidas nos doutores. 
Mas assy como vos contava estando esta manhâa bem trinta ou corenta legoas 
pelo certáo de meu pensamento, muito, com a viola nas mSos, perto de la amo- 
rosa torre, senão quando me toma de traição Solina, e entre alffumas pratiquas 
que tivemos certincoo-me que a Senhora Dioniza se levantara da cama para me 
ouvir. 

DORIANO 

« Cobres e tostes, sinal de terra : pois ainda vos não fazia tanto avante. » 

Se foi a censura que cortou parte d'este dialogo, teve alguma rasão, porque 
não é o sacrificio da missa objecto para uma comparação tão excessivamente 
profana; o Poeta não o fez com má tenção, mas para exagerar o flngimento dos 
hypocritas a que alludef 

DORIANO 

• 
« O Santa Maria Senhora ... em que ella quçr aue eu caya, porque este fin- 
gimento não he senão fazer-me sôde delia. Comtudo se vos a vós cumprir será 
necessário que me transtorne n'outro, porque neste que agora sou he impossí- 
vel eu querer*lhe nenhum bem.» 

A continuação do dialogo mostra que falta o que vem no manuscripto. 

DORIANO 

«... Deixay-me vós a mim o cargo, que èu sei melhor as pancadas que vós, 
e eu vos farei hoje este dia sem negaça vir-nos, e vós acolhei-nos ao sagrado, 
porque ella lá aparece. 

FILODEMO 

« Fazei que a não vedes e fallai comvospo alguns pensamentos que facão ao 
caso.» 

A redondilha que começa : 

Ah quão longe estará agora, etc. 
Vem no manuscripto em prosa, por esta forma : 

DORIANO 

«... Quão lonse estará agora a Sr.* Solina de cuidar que ja canso de cuidar 
como meus cuidados não cansão. Se esta rapariga da fortuna, minha senhora, 
em pago de tantos danos consentisse que pudesse meu desejo deitar uma an- 
cora em vossa formosura, eu tomaria de vós vingança de fogo e ferro.» 

Depois do verso : ^ 

Quem ja feridas não sente, 

vem estes versos que não estão no impresso : 

Pois que aqui estamos sós. 
Vós e eu, minha fim, 
Mal volo demande Dios 
Porque vós fugis de mim, 
E eu de mim para vós. ' 



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Depois do verso : 

Que mágoa no coraçAo, 

vem as seguintes redondilhas : 



De que serve assim f^aslar 
A vida em tintas paixOes, 
Nam mais que por sustentar 
Estas vãas opiniões 
Que o vulgo foi inventar, 
Onras grandes, nome eterno 
Nenhuma outra cousa dão, 
Que para as almas inferno 
E dores no coração. 

Quein nfto pertende morar 
Ipocrita em huma Ermida, 
Quem náo ade jejuar, 
Disciplínar-se e enorar 
Para fingir santa vida. 
Porque não se logrará 
Do tempo que tem nas mSos, 
Ou porque sustentará 
Onras falsas, nomes vãos 
Á custa da vida má. 

Certamente que m'espanto 
Desta opinião errada, 
(]omo está tão arreigada 
Que custando a vida tanto, 
Emíim, emfim não he nada. 
De lá nacerão as guerras, 
Os danos e morte da gente. 
Por ella só se. consente 
Qorrer mare^, buscar terras 
Poía sustentar somente. 

Por esta nossa enemiga 

Vereis logo o mundo vão 

Ter em má opinião 

A mulher que o Amor obriga 

A natural aífeição. 

Assi que é meu pensar 

Quem estas verdades mede, 

Pois no mundo quer viver. 

Deve certo de fazer 

O que lhe a vontade pede. 

Se nisto replicais 
Que ofendo as leis do ceo. 
Os que as onras sustentais 
Dizei-me, servis a Deus; 
Mas errai-lo muito mais. 
Ora, Senhora, este error 
Consinto que se|a culpa, 
Porque Ião sobejo amor. 
Todos os erros desculpa. 



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487 

N^estes versos n9o podemos ver outra cousa roais do que a hyperbole para 
desculpar talvez erros próprios, acompanhada de um certo resentimento, que se 
nota em mais de um logar d'este auto, por offensas recebidas no reino da parte 
de homens que apparentando a austeridade da virtude, sendo aliás propensos para 
o vicio, o perseguiram e incommodaram nos seus amores. Talvez que a cara- 
puça que aqui pretende talhar, assentasse na cabeça d'aquelle a quem se refere 
na satyra dos Disparates da índia, A moral aqui apregoada nSo seria a mais 
pura, se a n2o olhássemos como a ironia provocada pelo resentimento, c está em 
perfeita opposiçSo com os sentimentos religiosos constantemente sustentados pelo 
Poeta nfto só nos Lusíadas, já em outros togares: na bella e violenta apostrophe 
em oue convida os príncipes catholicos para resgatarem o santo sepulchro, como 
nas Rimas, espiscialmente n'aquellas redondilhas tão divinamente inspiradas e 
saídas do coração, por occasião do naufrágio em que se notam estes versos : 

E tu, ó carne, qu'encantas, 
Filha de Babel tão feia, 
Toda de miséria cheia. 
Que mil vezes te levantas 
Contra quem te senhoreia ; 
Beato só pôde ser 
Quem co'a ajuda celeste 
Contra ti prevalecer, 
E te vier a fazer 
O mal que lhe tu fizeste : 

Quem com disciplina crua 
Se fere mais que hum{i vez; 
Cuja alma, de vicios nua, 
Faz nodas na carne sua, 
Que ja a carne n'alma fez. 
E beato quem tomar 
Seus pensamentos recentes, 
E em nascendo os affogar, 
Por nSo virem a parar 
Em vicios graves e urgentes. 

O. desafogo do Poeta é dirígido contra a hypocrisia, e nSo contra o verda- 
deiro religioso. Depois do verso: 



vem esta variante: 



Caio pedaço a pedaço, 

E mais eu soffrer não posso 
Que me façais tanto fero, 
Qu' estou ja posto no osso. 
Porque sou vosso e revosso 
Por vida de quanto quero, 

E mais eu sofrer não posso 
Que um archanjo dos Ceos, 
Que me corte carne e osso. 
Porque sou vosso e revosso 
Pelo Santo dia de Deos. 

Mais adiante depois do verso 

Mal consentira la espuela, 
vem mais estes versos : 

Pues sus, canta si mandais. 



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FLOBIMSNA 

Padre no quero canUr. 

PASTOR 

Porque? 

FLORI MENA 

Porque no me dais que tragar 
Ni tan poço me casais. 

PASTOR 

Canta que algo te ande dar. 

Faltam estes versos no manuscrípto: 

El macho como crecio 
Deseóso de otro bien, 
A la corte se partio,' 
La hembra es esta por quien 
Vuestro híjo se perdio^ 

Falta lambem todo o dialogo em'pro8a, desde : « Assi te contava, Doloroso, . . . 
até que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras». O resto do dialogo 
faz pouca diíTerença no manuscrípto. 



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índice 

DAS POESUS CONTIDAS WESTE VOLUME 



REDONDILHAS 

A alma qu^está offrecida 96 

A dor quo a minha alma sente 58 

Afuera consejos vanos. .* , 161 

Amores de huma casada 59 

Amor loco, amor loco 67 

Amor, que todos offende 53 

Amor, quisestes gue fosse ^ 142 

Amor. que vio minha dor /. 182 

A morte, pois que sou vosso 106 

ApartárSo-se os meus olhos 62 

Aquelia çaptiva * 118 

Ay de mim 173 

Ay de mim, mas de vós ay 170 

Carta minha tSo ditosa 187 

Gatharína bem promete 94 

Cinco ffallínhas e meia 94 

Coifa de beirame 128 

Como quer que tendes vida 169 

Com razfio queixar-me posso 99 

, Com vossos olhos, Gonçalves ; 72 

Conde, cujo illustre peito .* 34 

Corre sem vela e sem leme ^. 30 

Crecem, Camilla, os abrolhos ^ 88 

D'alma, e de quanto tiver 59 

Da doença, em que ora ardeis 50 

Dama d' estranho primor 24 

•De atormentado e perdido 53 

De dentro tengo mi mal 67 

De pequena tomei amor 61 

Deo, Senhora, por sentença 50 

Deos te salve, Vasco amigo 86 



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J9q_ 

De que me serve fugir 72 

Descalça vai para a fonte 97 

Descalça vai pela neve 57 

De vuestros ojos centellas 66 

De vós quererdes meu mal Í78 

Dó la mi ventura .' 135 

Em tudo vejo mudanças ^ 169 

Enforquei minha esperança 60 

Esconjuro-te Domingas 76 

Esperanças mal tomadas 168 

Esperei, ja nâo espero 97 

Este mundo es el camino 42 

Falso Cavalheiro, ingrato 63 

Ferro, fogo, frio e calma 96 

Foí-se pstando a esperança 117 , 

Guafdai-me esses olhos bellos 163 

Ha hum bem, que chega e foge 73 

Irme quiero, madre 125 

Ja nSo posso ser contente 105 

Lagrimas dirão por mim ' 174 

Lume desta vida 171 

Mandaste-me pedir novas ^ 154 

Mas porém a aue cuidados 100 

Menina dos olnos verdes 122 

Menina formosa .' 132 

Menina formosa e crua , 49 

Menina, n2o sei dizer 71 

Minh'alma lembrae-vos delia 110 

Muito sou meu inimigo 36 

Na fonte está Leonor 81 

NSo estejais aggravada 54 

NSo posso chegar ao cabo 85 

NSo sei se m' engana Helena 70 

Nasce estrclla d'alva 180 

No meu peito o meu desejo 179 

No monte de amor andei 177 

Ojos, herido me babeis ." 100 

Olhae que dura sentença 51 

Olhos, em qu' estão mil flores ^. . . 89 

Olhos, nâo vos mereci ". 74 

Ôlvidé y avorescy 191 

Ó meus altos pensamentos 167 

Ora cuidar me a«segura 166 

Os bons vi sempre passar 75 

Para evitar dias máos 191 

Para que me dan tormento 65 

Pastora da serra 137 ^ 

Peço-vos que me digais 40 

Pequenos contentamentos 79 

Perdigão perdeo a^enna 79 

Perguntais-me, quem me mata ; 75 

Pois a tantas perdições 80 

Pois damno me faz olhar-vos 69 

Pois se he mais vos^o que meu 68. 

Pois que, Senhora, folgais 190 

Poroue no miras Giraído 87 

Por nuns olhos que fugirão 176 

Por usar costume antigo 147 



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49\ 

Prazeres que me quereis 175 

Puz o coração nos olhos 60 

Puz meus olhos n^huma fuoda .^ 6i 

Qual terá culpa de nós .* 56 

Quando me quer enganar 73 

Que diabo ha tfto damnado 83 ~ 

Que veré que me contente ...•....• 114 

Que vistes meus olhos 17Í 

Quem disser que a barca pende 98 

Quem no mundo quizer ser 55 

Quem ora soubesse ^ 120 

Quem se confia em huns oUfos 89 

Querendo escrever hum dia 17 

Retrato, vós nfto sois meu 115 

Saudade minha 126 

Se a alma ver-se não pôde 77 

Se de meu mal me contento 64 

Se derivais da verdade 38 

S' espero, sei que m' engano « 164 

Se Helena apartar 130 

Se me desta terra for 78 

Se me levão ágoas 121 

Se n'alma e no pensamento • 41 

Se não quereis padecer 32 

Se vossa dama vos dá 48 

Sem olhos vi o mal claro 42 

Sem ventura he por demais 110 

Sem vós, e com meu cuidado 109 

Sem vós, e com meu cuidado 115 

Senhora, s'eu alcançasse 37 

Senhora, pois me chamais 55 

Senhora, pois minha vida 69 

Senhora, quando imagino 159 

Sóbolos rios que vão 5 

Sois formosa, e tudo tendes 90 

Suspeitas, que me quereis '...».. 27 

Tal estoi despues que os vi 178 

Tende-me mão nelle 134 

Todo es poço lo posible i 113 

Trabalhos descansarião 102 

Triste vida se me ordena 103 

Trocae o cuidado 123 

Tudo pôde huma affeição 111 

Vai o bem fugindo *. . . 140 

Vede bem se nos meus dias 68 

Vejo-a n'alma pintada * 107 

Venceo-me Amor, não o nego .• 74 

Verdes são as hortas 131. 

Verdes são os campos ." 130 

Ver, e mais guardar ^ 124 

Vi chorar huns claros olhos. 85 

Vida da minha alma 127 

Vida de minha alma ; 136 

Vós, Senhora, tudo tendes 64 

Vós sois huma dama 139 

Vos teneis mi corazon 114 

Vossa Senhoria creia , 83 

Vosso bem querer, Senhora — 77 



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492 



COMEDÍAS 



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El-Rei Seleuco 195 

Os Amphitriões 139 

Filodemo 325 



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Esta edição das obras de Camíjes constará de cinco á sete to- 
lumes conforme der o texto. Preço 1?51440 réis o volume, por 
assignatura, pagos á entrega, e lf^600 réis avulso. 

Assigna-se em Lisboa nas lojas dos srs. João Paulo Martins 
Lavado, rua Augusta n.^ 8, Livraria Central de José Melchiades 
& Companhia, rua do Oiro n.® 155. — Coimbra, José de Mesqui- 
ta. — Porto, António Rodrigues da Cruz Coutinho. — L. J. de 
Oliveira. — Paris, Rey et Belhate, Quai des Augustins n.** 45, N. 
More, 2 bis, rue d'Arcole. 

Yende-se nas lojas acima mencionadas, nas dos commissarios 
da Imprensa Nacional, na dos srs. Bertrands aos Martyres n.° 73, 
e nas mais do costume. 

Está no prelo o 5.° volume. 



OBRA DO MESMO AUCTOR 



Cintra Pinturesca on lemoria DescriptÍYa daYiUa de Cintra, CoIIares 
e seus arredores 

Vende-se nas mesmas lojas. 





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