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Full text of "O colono: comédia drama em três actos original portuguêz"

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-TíVC 6/70 ■ ii.loS 



I 



.o\ 



i> 



o^i^mmi^mmimmmmu 



O COLONO 



COMEDIA 011 AMA BM TMISS ACT«S 



ORIGINAL PORTUGCEZ 



roK 



AIPIIM IMAV 

• 

'I ■ ■ 



PREÇO 160 RÉIS. 






í 



USBOA. 

IVovMM da Viciaria, 19. 
i86i. 



«» 



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I 



o COLONO 



COMBDIA DUAMA BM TRÊS ACTVOS 



ORIGINAL P0RTU6UEZ 



roB 



ALHIM IMAN 




USBOA. 

TTPOaiAmA 00 »AlfOIAMA, 

TrooMU da Viei&ri», 7t. 
I86i. 



^ARVARD COLLE«E LltXAÍiy 
COUNT OF SANTA EUULIA 



Br^t- (c|-]0. aS~. lO^ «^^«CTO« ^ 



y 



9 DEC íi 'í 
I m TEII Lilie VTOR ES 



JOÃO DA GOSTA, capitão d'uma galera mercanle. 
zEPBRiNo, passageiro. 
ANSELMO NCNBSy 60 aonos, proprietário. 
LBONOB, filha de Zeferino. 

ALBERTO, colono. 

CABLOS DA siLYA, por alcunliB — o Bom — estudante da 

Universidade de $, P411I». 
JDLIA, sua mulher, filha d'Ânselmo Nunes. 
guinb', escrava d'Ânselmo Nunes. 
UM OFFiciAL d'alfandega. 

1.^ COLONO. 
2.^ DITO. 
3.^ DITO. 

POLTDOBO, mulato, negociante d*6scravos. 

Quatro escravos negros, colonos d'ambos os sexos, 
marujos, escravos,- colonos chins. 

A acção é no Rio de Janeiro. O l*^ acto, á bordo d'uma 
galera : ó S."" e 3.^ n'uma fazenda próxima da corte. 

Actualidade. 



A 

"^ 



ACTO I. 



(O iheatro repesenU a cpberU d'úfDa galera marcante, desde o es- 
eotilhio ' até ao bailee da popa. No fando da scena, doas portas 
para a camará do capttSo. Um camarim de cada lado. No ceatro, 
a escada da tolda, e a escotilha do porão. Di?ersos fardos amon- 
toados a meia-nan). 

SCENA I 



(Âo lerantar o. panno é madrugada. tJma lanterna snspensa nos 
vans, mal esclarece a coberta. Ha faina a bordo : os marujos so- 
bem e descem, apressados, a escada do escotilhiOt occapando-se 
nos diversos trabalhos de om navio que lançou ferro. On?em- 
se algumas vozes na tolda ; o rumor tae gradualmente acaban- 
do. Joio da Costa desce a escada do escotilhao, precedido pelos 
colonos, que mostram algum espanto. Alberto entro-abre a por- 
ta do camarim de bombordo, e escuta, hesitando vir para a 
seena.) 

Joxo — Desçam, desçam rapazes! Não quero nin* 
guem na tolda ! Quero a tolda limpa ! Ksla suoia de man- 
driões... Vamos! é descer.. . 

1.* COLONO — Sucia! 

Joio — Sucia . . . 

1..^ c 2.^ COLONO— -O senhor capitão bebeu.. . 

João {em acção de procurar um cabo) — Ah I be- 
bi? Pois esperem.. . 



2 O COLONO 

1 .• COLONO {aparte para os compahheiros) — Inso- 
lenle ! 

Joio (pegando n'um chicote de cabo, e dispondo-se 
a bater) — Eu lhes ensino a fallar com o capilao! 

ÂLBEBTO (precipitando-se entre o caj itão e os colo- 
nos) — Por quem é, senhor Goela. . . 

Joio — Deixe-me ensinal-os, e não venha meller-se 
onde nâo é chamado. . . aliás.. . 

Alberto — Aliás o que, senhor Cosia ? 

João — Qual senhor Costa !.. . Eu, aqui, sou o 
capilao, sou o rei d'este eásb ; e você, nao venha inlro* 
metler-se.. . Arreda! arreda, canalha! Safa, ludolá para 
o porão t.. . 

Todos— Porão?!.. . 

Alberto — Descancdm, camaradas; o capilSo está 
èaçoando ! bem sabe que não somos degradados. . . 

Joio — Ah ! vocês contam com a defesa, aqui, does- 
te chupa barris^ Lá pelo verem do camarim àparle,iião 
julguem que é mais fidalgo.. . E' um colono como vo- 
cês são, e que fez a viagem sem pagar vintém !. . . 

Albbiito — E'_ verdade; mas o capitão oífereceu-se 
para me conduzir, dÍ2endo-me que esperaria, pela paga 
^a passagens. 

l."" coLoiro — Isso lambem a mim me elle disse. 

2/ COLONO — Eu mim. . . 

3.® COLONO — E a mim.. . 

Joio (rindo) — Vocês lêem graça, rapazes ! Eu não 
sei avesses ajustes. O que lhes disse é o que sustento ; 
que esperava pelo dinheiro até ao fim da viagem. A via- 
gem acabou ; e agora não me sae de botxio nem um só 
sem me pagar quarenta mil réis de passagem. Arran- 
jem-se lá como quizerem t Eu cá tenho por mim a justiça. 

Alberto — A justiça ? que é isSo ia, capitão ! {espan- 
to geral). 

Joio — E' isto mesmo. 

Alberto — Uma traição ? ! . . . 

Todos — EM é uma traição I 



o COLOUO í 

Alberto — Ondo lem cada um c(e rós quarenta 
mil réis para lhe pagar? 

Todos — É verdade ! 

Joio — GoRlraclem-^e. . . 

Albeuto — Que qoer o senhor dixer? 

João — Que se conlraclem, que.. . 

ÂLBEBTO — ^Por mm, respondo eu porque sou mui- 
lo capaz de lhe pagar. Assim que o navio fdr visitado, 
vou para terra, e d'ahi a pouco lhe darei notícias mi- 
nhas. 

João — Vae para terra sem passaporte?.. . 

ÂLBBRTo — O senhor hade ter a bondade de noí-os 
dar. 

■ 

João — Dal-os-hei á policia, declaraado^he quê 
me deve cada um de vocês. . . a paga da sua passagem. 
Entendam ^ por uma vez: ninguém soe de bordo sem 
pagar 1 

Todos — E' uma injustiça i E' uma tra^eao . . 

JoAo (dando em alguns) — Ltyà de rumor I Leva 
de rumor !. . . 

Alberto {inír09iel(êndo^$e) — Senhir capitão, nós 
somos passageiros, e não é d este modo que se traiam 
08 passageiros* 

João — Olá t um par de machos. 

Alberto — Machos para mim!?... Era o que fal* 
tava, para completar o mau tratamento que o senhor 
nos tem dado, n'estes cincoenta dias de viagem ! (appa^ 
reee vm marujo com os ferros) Sim; pode abusar«por 
que (em a forçado seu ladol Quando eu ae apresentarão 
cônsul, veremos se este abuso ficará assim I 

João — Qual carapuça I o cônsul é muito boa 
pessoa ; não gosta d'escandaIos, n«m dá credito a sími« 
Ihantes bairdalboSi (ao marujo) Ponha lá os ferros n'a-* 
quelle sephor. 

Todos — Não consentimos ! não consentimos > 



4 O COLONO 

Albbrto — A mim, camaradas I 
João {apitando) — A mim, rapazes! 

(Os marujos desctm; ha peqaena resistência da parte dos colonos, 
qae sio enxotados para o porão. Alberto é agarrado ; põem- 
Ihe os ferros, esentam-noa meia-nau.) 

SCENA II 

ALBERTO, a ferros, joão dà costa, zbferino • 

saindo do beliche. 

ZiiFBBiNO — Olá ! A faina é grande t Com' que en- 
l3o já chegámos? Bom dia, capitão. 

João — Bom dia, senhor Zeferino. , 

ZcBERiNO — Ouvi lanla bulha que . . Houve algu- 
ma novidade ? 

JoXo — Era ali aquelle muro que queria divcrlir- 
se comigo; mas.. • 

Zbfebino (rinào) — O lai senhor AlberloL. . [con^ 
Hnmndo a rir) Homem, aquillo sempre é uma peça que 
nem você sabei.- . 

João — N'essecaso, fez bem em m'o ler recommen- 
dado, para lhe dar beliche, e para fazer-lhe tudo o mais, 
como so fosse para ahi . . algum passageiro t 

Zeferino — Com isso não se perdeu nada I EmQm... 
o rapaz sempre é afilhado da minha defunta.. . Porém 
agorr, a coisa é outra. Sabe para que fim o induzi a 
embarcar-se ? Eu lh'o digo. O rapaz andava a desin- 
quietar-me a rapariga, a minha Leonor; ella, você bem 
sabe o que ellas são ! Nada ; digo eu comigo ; fallo-lhe 
do Brazil, como elle não é, desperto-lhe a cubica.. . e... 
meu dito, meu feito. O rapaz promette casamento á Leo- 
nor, determinando vir buscar fortuna ao Rio de Janei- 
ro e contando voltar no fim çle Ires annos, para.. . 

João — Boas contas deita o preto ; seu senhor quer 
vendel-o. 



o COLONO 5 

Zkfbrino - Tal qual ! Agora coDsidere-o colono co- 
roo qualquer outro Nada de coDlemplaçOes!.. . Vamos 
ao que interessa : quantas mulheres trazemos? 

Joio — Trinta e cinco, {ápane) Trinta e seis, con- 
to eu i 

Zeferino — Boa carga I E' o que está dando mais 
interesse no Brazil ! 

JoAo — E' o que tem feito subir muita gente.. . 

Zeferino — Para o coche do Lagoia ! E para os 
carros do major 7. . . 

João — Você bem me entende ! 

Zrfkbino {rndo) — E arriscar. . . é arriscar l Em 
todo o caso, o Brazil precisa de gente I Â prohibição do 
trafico negro despertou a idea da colonisição ; auxiliar 
a colonisaçaOf é concorrer para o augmenlo do império! 
Dar braços ao império, é tornar o assucar barato em 
Portugal. Em conclusão, para nos deixarmos de mais 
aquellas, trazer gente para o Brazil, é servir o Brazil e 
servir Portugal ! 

João — Isso é que é fallar I Mas é preciso não per* 
der tempo. Esta gente não pode ficar muito tempo a 
bordo, pela falta de mantimentos. . . 

Zeferino — Eu vou.. . eu vou.. . 

Al^ekto (4o vêl'0 passar) — Obrigado, senhor Ze- 
ferino! Â minha fortuna piincipía mal. • . 

Zeferino — Amoleça-os, meu amigo ! 

João {á escada)— OM, ó conlra-meslrel mande 
arriar a lancha, por estibordo, para conduzir o senhor 
Zeferino. Cuidado, hein? 

Zefebino — iNão hadc haver novidade. Até já. (so- 
be a escada). 

SCENA III 

JOÃO DA COSTA, ALBERTO, a fcrros. 

Joio — A raiva que eu sentia, contra aquelle mo- 
ço, era raiva do coração l Agora, estão ambos em meu 



d o COLONO 

poder ; aproveitemos os momentos, (dir igin Jo^se a Al- 
berto) Olá, já dorme ? O ferro, cá a bordo, tem a pro- 
priedade de fazer somno ! Conversemos. 

ALBKftTO — Quando eu desembarcar, a conversa 
hade ser oulra. 

João — Qual historia 1 em você pondo o pé em 
terra, aposto que não cuida senão em ganhar dinheiro, 
para voltar a Portugal, onde o espera a sua Leonor.. . 

Alberto — Como é que sabe I?. . . 

JoÂO — Tenho um dedo que m'o adivinha! 

Albiírto — Leonor I. . . 

Joio — Olhe que se ella o visse aqui, havia de se 
rir um pedaço. . . 

Albertd — Oht não me fallc assim de Leonor... 

Joio — Âhi está o que é ter amor deveras! Se ci- 
las nos amassem como nós. sabemos querer-Ihes. . . 

Albííbto — O senhor, pelo que ve}o, depois de me 
ter posto a ferros, deseja p6r-me a tratos? 

João — Não: desejo apenas dar-lhc um conselho, 
em paga de o ter posto a ferros Nâo se fíe em mulheres. 

Alberto — Que quer o senhor dizer? 

JoAO — Quero dizer, que se não fie nas mulheres!. 
Cá tenho as minhas razOes para lhe dar este conselho. 
[desviando-se). 

Alberto {querendo levantar-se e caindo) — Espe- 
re.. . Ah.. . senhor João da Gosta, o senhor mente 
quando me diz que tem razoes para me dizer essas coi- 
sas! Se as tem, não é de Leonor.. . 

Joio — Talvez. 

Alberto — Talvez !? 

João — Meu amigo, sabe o que lhe eu digo ? Per- 
ca as Idéas de Leonor !. . . 

Alburto — Ohl esse modo de fallar. . . 

João — Leonor perlence-mo. 

Alberto — Pertence-lhe !?. . . 

JòAO — Não lhe dizia eu que não se fiasse., . 

AiBçwTo — Oh ! este homem quer atormentar-me ! 



ocoi^o r 

Joio — Deíxe-se de palavrões; nao seja creança. 
Mulheres não faltam no Brazil. Se ella o deixou, pa« 
gue-lhe na mesma moada, que me faz lavor ! 

* 

(Abre a porta da camará e ealra). 

SC ENA IV 

&LBE|lTO SÓy depois JOiO DA GOSTA, e LEONOR. 

Alberto — Que me disse elle! Olil e poz-me a 
ferros para me dizer impunemente que.,. Valha-me Deusl 
Para que saí eu da minba terra,. • para que deixei Leo- 
nor.. . para que me fiei n'estes homens!?... Malvados I 
Abusam da confiança dos pobres, e vem vendel-os ao 
Brazil t Mas que imporia o que elles fazem, se ha Deus 
no ceo para os castigar I? Oh ! o que mo importa saber 
é de Leonor ! . . . 

(João da C^ta e Leonor apparecem no fundo, Alberto não os %è). 

JoÀo — Lembre-se do que lhe disse ! A menor in- 
díscríçio pode perdel*o ! 

Leonor — Oh Virgem Santa, valei-me! 

Alberto — Eâta Voz !?• . . {voUando-se e nef^do Leo^ 
nor) Quem está ali. . . Leonor !. . . Ah ! (tendo feito um 
esforço para se levantar^ cos desampc^rado). 

L«oNOR — Jesus !. . . é elle I. . . 

João {segurandj-a pelo braço) — Dou-Ihe meia ho- 
ra para escolher. No fim d'es8a meia hora, mandaI-o-< 
hei chibatar. . . ,(mpeUÍ!hdo-a para a cam(^rà)* 

Leono» — Um momento*. . Ah I um momento.. , 

JoÀo — Tenho dito I (impelle-a para a catnarq e /e- 
chalhe a poria) Veremos se vença ! (eobe a escadi e 
dcsapparec?). 



é o COLONO 

SCENA V 

Albbbto (só, recobrando os stmlidns) — Era ella ! . . • 
Já lá não está I. . . Oh t seria ella que eu vi ?. . . Esta- 
ria eu então bem accordado?. . . Leonor!.. • Leonor t 
[fazendo esforços para livrar-se dos ferros) Ê impossí- 
vel !.. . (levantando-^e e caminhando vagarosamente para 
o fundo) Ah t ir tão devagar, quando o sangue me fer- 
ve assim ! Leonor!.. . Leonor t {chega oporia da ca- 
fitara, encostasse e consegue ar tombal-a) Ah !. . Leonor I... 

Lbonob (correndo a ellé) — Alberto t . . . 

SCENA VI 

ALBERTO, e LEONOR. 

Alberto — Leonor I E eras tu que me dizias, vae 
e volta em breve ; feliz ou infeliz, far-me-has sempre fe- 
liz a mim ?l 

Leonor — Alberto. . . 

Alberto — Não pronuncies o meu nome, Leonor ! 
O meu nome, deve despertar-tê um remorso 1 Esqueces- 
le-me por esse homem. . . mas, fico bem \ingado de me 
teres trocado por eíle !. . . 

Leonor — Que dizes tu!?. . . Alberto.. . (querendo 
amparal-^o). 

Albbbto-^ Não te aproximes! Pesam-me menos es- 
tes ferros, do que a tua mão sobre o meu braço t 

Leonor — Oh!.. . Se elie soubesse!. . . se elle sou- 
besse. . . Meu Deus, que devo fazer? Conta r-lhe tudo? 
E a ameaça do capitão t. . . Porém soffrer que elle faça tão 
má idéa de mim.. . Oh! abandono-me á protecção da 
Virgem 1 Vou contar-Ihetudo. {ajoelhando aospés d'el'e) 
Alberto.. . escuta-me, pelo. amor de Dens!.. . Escula- 
me. . • 

Alberto {commovido) — Leonor.. . 

Lbonor — Esta lagrima que deixaste cair sobre a 



o COLONO % 

minha cabeça, Alberto» é a maior offerta que podias fa- 
zer-roe ! O leu coração adivinhou a minha innocencía, 
e absolveu-me! Eu estou aqui, enganada! 

Albeuto — Enganada?! Não será isso lambem um 
engano. • . 

LeoNOR — Os nossos risos illudem ; mas as nossas 
lagrimas, nao! Nao as sentes sobre as tuas maos"^ 

Alberto — Leonor. . . Leonor. . . 

Lkonor — Tu sabes que João da. Costa frequentava 
a casa de meu pae ; pois este homem que não ignorava 
as nossas inclinações, e que parecia inleressar-se pela 
minha felicidade, e ler pena das minhas penas, vendo- 
me deáolada, chorando a nossa separação, offereceu-me 
recursos para te seguir, prometlendo trazer-me escon- 
dida, na camará, até que nos fizéssemos ao largo. No 
alto mar,, ainda que meu pae se encolerisasse, já não 
haveria remédio contra a minha determinação. Quem 
ama, cega-set Deixei sair meu pae, e n'essa mesma 
noite vim para bordo 

Alberto — Ahl . . continua.. . 

Leonor — O capitão cumpriu a sua promessa ; mas 
o seu intento era outro !. . . Ah ! tenho preferido solfrer 
esta reclusão absoluta de cincoenta dias, fomes e maus 
tratamentos. . . porém a minha consciência está pura ; e 
não me envergonho de te abrir os meus braços, Alber- 
to I {levanla-se e abraça-o). 

Alberto — Leonor!.. . minha pobre Leonor!... 
{breve pausa) — Oh laquelle homem é um infame! Deus 
do ceo ( quem dirá, vendo lá de terra o vulto socegado 
da nossa galera, que dentro das suas amuradas, no mais 
intimo das suas entranhas, ha dores como as que esta- 
mos soffrendo! tantas infâmias... tantas lagrimas... tan- 
tas afflicçScs?. . . [abraçando Leonor). Leonor!.. . Os 
nossos irmãos meltidos no porão com se fossem escra* 
vos ou criminosos! Eu, a ferros I. . . e tu. . . 

(Onve-se algum rnmor na tolda). . 



♦o o COLONO 

Lbonor — E tu, Alberlo, o que será de li?. . ; 

Albiirto — Silencio. . . sinto passos. 

Leonor (olhando para a eseada) -— É o capitão ! 

SCENA Vli 

LEONOR, ALBEUTO, JOÍO DA COSTA, O OFFICÚL d'alfan* 

(lega e os seus agente^. ' 

João — Cincoenia dias de viagem ; um tempo sof- 
frivel. . . Queiram descer, meus senhoras. 
Leonor (á/?íír/e) — Estamos perdidos! 
Alberto — É a visita. . . 

(Os ageotes d*alfaRdega díspersam-se pela acena, observam os far- 
dos, 6 farejam por Ioda a parte) 

João (á/7ar/e)— -.Leonor aqui!.. . 
Leonor (áparíe) — Se rquelle homem podesse sal- 
var-me?l.. . 

Joio (dissimulando para o (fficial) — Quer entrar 
na camará? Temos lá uma boa garrafa do Porto... 

Off.cial {vendo Alberto) — Olá! lemos ferros... 

Joio — É um tratante que quiz alvoroçar os colo- 
nos contra mim. 

Alberto — É falso i 

Leonor — É falso!... Senhor, tenha piedade... 

Cff:cial — Que diz esta sereia ?! 

Alberto — Diz que o capitão é um perverso que a 
trouxe enganada, e que intenta abusar da sua fraqueza ! 
' Bem vê que merece protecção * 

Joio (rindj) — Quando o capitão d'um navio sabe 
manter a disciplina, é sempre mau homem na bocca de 
certos passageiros. 

Leonor — Senhor (para o officiçil) Escute... escule ; 
valha-nos pelo amor de Deus ! 

Off.cial — Mcniaa> eu sou official d'alfandcga; o 



o COLaNO u 

meu dever consiste em visitflr o navio : se a menina nao 
é contrabando... que quer que lhe faça? 

Joio {riièdo) — Bom respondido ! VanM>6 beber um 
copo do Porl'>. (ent Q c<m o offlcial na camará. Os agen* 
les acabam a revislOj e sobem a escada da tolda). 

SCENA VIH 

ALBERLO, LBONOB. 

Lkonor — E agora, o quo será do nós? Eu Iremo 
per ti, Alberto! Por li,queestás em seu poder, eque... 
Valha-nie Deus ! Vnlha-mc Deus I Oh ! se cu visse meu 
pae... onde estará elle?. . 

Alber o — Teu pae fui para terra, e creio que nao 
voltará tão cedo I Segundo concluo, leu pae que, em 
Portugal, parecia alUciar gente para o Brazil, ofTerecen* 
do passagem, e assegurando interesses, é o agente does- 
te novo commercio de escravatura branca! A tua desgra- 
ça é o seu castigo I e as tuas lagrimas pagam as (f aquel* 
las infelizes que gemem ali no porão ! 

Leonor — Ah !... 

(O capitão sae da camará acompanhado pelo official d*a1fandega, e 

sobe com elle para a tolda). 

Aldrrto — Consolante Leonor ; não estás a6 no 
leu marlyrio. Trinta e cinco mulheres, seduzidas e rou« 
badas á sua pátria, choram comlígo o desengano tardio 
d'um sonho de rosas I Cada um de nós é considerado 
um passageiro que deve quarenta mil réis de passagem 
ao capitão. O nosso dever é aoceitar por amo o pri« 
meiro homem que se apresentar para nos resgotar ! A 
justiça determinado assim ! Rcsignemo-nos. 

LEONOR {lançand?-se nns braços dM/ier/o) — Al- 
berto! Alberto! 



It o COLONO 

SGENA IX 

ALBBBTO, LEONOR, J0.\0 DÀ COSTA, ANSKLIIO 

NONES. POLYDORO. 

(João da Gosta e os dois recem-chegados vêem mysterícsamenle 
para a boc€a da scena e falUm com precaução.) 

PoLYDORO — Agora mesmo falíamos com o senhor 
Zeferino, no Aom/ faroux, sim senhor; e já sabemos que 
o senhor capitão traz muito boa fazenda ! Aqui, o senhor ' 
Anselmo Nunes precisa d*uma moça para o serviço da 
senhora sua filha ; e eu tenho necessidade d'um colono 
para andar com a carroça. 

Anselmo — Mas a minha filha quer uma moça no- 
va e decente . . 

JoAO — A mais velha que ahi vem nSo passa dos 
dezeseis, quando muito. 

Ansblmo — É o que me xonvem ; em sendo noite, 
«posto^que já não hade ter nem uma a bordo. Estava 
muita gente á espera do seu navio . . 

Poltdoro (lendo visto Leonor) — Olhe, lá, senhor 
capitão, eu estou resolvido a tomar também aquella 
mocinha para o serviço da minha senhora. 

Anselmo — Aquella. . • (indo ver) Oh! ohl.. . o 
senhor Polydoro hade ter a bondade de m'a ceder ; a 
minha filha não teria escolhido outra ! 

João — A passagem d.^aqiiellâ moça são cento e 
vinte mil réis ! Yeiu na camará, e na primeira mesa, 
E^ prendada ; borda, cose, engoma.. . 

Ansrlmo — Eu dou até duzentos mil réis.. . 

Polydoro {rindo) — Mas eu cubro o lance.. . 

Anselmo — E' inútil. Minha filha quer precisamen- 
te uma moça prendada... e decente [tirando a carteira) 
Aqui está o dinheiro, senhor capitão. Eu trouxe uma 
mucama no escaler para a acompanhar. 

Poltdobo — Ah! senhor Anselmo Nunes I senhor 



o COLONO 13 

Anselmo Nunes. . • bem me custa ; mas.. . por ser v. 
s.\. . nSo insisto, (para o capitão) Está dilol e eu fi- 
carei com o rapaz! (diriginJose a Alberto) 0\k, senhor 
moço, você quer ajuslar-se? 

ÂLBMTo — A minha passagem é quarenta mil réis... 

JoAo {interrompendo) — Oitenta, se faz favor. Veiu 
em beliche separado, e na primeira mesa. 

PoLYDOBo — E' o mesmo ; mas que é isto ! Elle es- 
tá a ferros ' ?. • • 

JoÂo — Vou mandar tirar-lh'os. Tinha feito ahí um 
motim ; mas no Gm de tudo elle é bom moço ; íntelli- 
gente, esperto e habilidoso. Lê e escreve. 

PoLTDORo — Foi talvez por causa da sua habilida- 
de que o senhor o metteu a ferros ?. . . 

João — Garanto-lhe o seu comportamento. 

PoLTDoao — Vamos a contas, {puxando o dinheiro 
e pagando^ ao capitão que tira f^s ferros a Alberto) Aqui 
tem oitenta mil réis. 

Leonor (a Alberto) — Então deixas-me?... 

Alberto (a Leonor) — Silencio ! 

PoLvnoRo (a Anselmo Nunes) — O' senhor Ansel- 
mo Nunes, parece-me que o meu marsano arrasta a 
aza á sua mocinha ! 

Anselmo — Despachemos com isto. Leve-o. 

PoLTDORo — Vamos para terra tratar de legalisar 
o contracto. O consulado já deve estar aberto. 

Alberto — Sim, senhor, eu o sigo; mas primeiro 
quero explicar a este senhor uma coisa, {indicando An- 
selmo Nunes) O senhor é velho, e eH respeito os cabei- 
los brancos! Um homem da sua edado, deve ter vislo, 
deve saber muito! Não se chega aos sessenta annossem 
ter soffrido.. . e o seu coração nSo será por isso indif- 
(crente á desgraça ! Senhor, eu daria a minha vida pe- 
la felicidade d'esti menina!... não quizera separar-me 
d'ella. . . 

Anselmo — Ora essa não está má ! Que tenho eu 
com isso? {volta-lhe as costas). 



i4 O COLONO 

Alberto — Ah!.* . Todoà quantos nos cercam ?íto 
maus e cynicos ! 

Leonor — Alberlo.. . 

PoLYDOKO — Olhe lá| senhor capilao, o dilò por 
sao dito : o moço nSo me ccnvem ! 

JoÀo (apitando) — Vou pdl-o mais manso que um 
cordeiro, {enliam alguns marujos) Olá, genie, amarrem 
aquelle homem ! 

Leonor — Piedade... piedade, (l^nçando-se aos féí 
do copUão) Por tudo quanto ha. . • 

Joio — Queres?..» 

Leonor — Por tudo quanto o senhor ama e respei-» 
ta. • . piedade. , . 

Jo5o (para Anselmo Nunes) — Venha o dinheiro; 
esta mulher é sua I {para Leono^) Aquelle homem pa-- 
gou-me a lua passagem. O negocio agora é com elle. 

ALBERto-^Animo, Leonor! Ha tim Deus no ceo! 

Anselmo — Descance, serhora moça: elle diz bem*! 
Nós não queremos fazer-lhe mal. Eti levo-a para a mi- 
nha casa; a minha filha hado estimal-a... 

Leonor*^ Porém, senhor, o capitão nSo lem dí-< 
reilo de dispor de mim I Trouxe-me enganada. . . 

João — £' o costume ! Os colonos dizem sempre 
que vieram enganados. 

Leonor— ^Ob! o senhor é um homem perverso! 

Joio — Obrigado. 

Anselmo-^ Vamos, minha filha; hade ser muito 
feliz : vamos ; tenho ali no fscaler uma escrava para a 
acompanhar, (pegando-lhe niL mão), 

Leonor — Alberto I Alberto... Oh! nao, eu nao 
posso seguil-o ! Nâo posso deixar Atbertq l . . . Meu 
Deus!.. . valei^fne n'esla afflicção! Ah! (percfe os sen-* 
tidos. Anselmo Nunes ampara-a). # 

JoAO — Aproveite a occasíSo. 

PoLYDORO — Levemol-a. .. 

Albeato — Detenham-se \ Livrasse-me Deus doestas < 
cordas.,, veriamos quem sealreveria a aproveitar esse 



o COLONO 15 

tnomenlo de prostraçíio I geate sem alma I Demónios da 
vida, que negociacs os no.^sos dias, e nos dcixaes ermos 
d 'esperanças» morrer no desespero, que é morrer a fo- 
go lento! Oh! caianwvos no coração á hora da morte 
Ião úrdente, como ardentes nos borbulham d'alma, es- 
tas lagrimas que choramos ! Miseráveis t Miseráveis I*.. 
(tae pròBiraáo). 

(Poljdoro e Anselmo Nanes condazem Leonor para a tolda. Joio 
da Costa e os marujos sobem depois d'elles). 

SCENA X 

ÂLBFRro (só, amarrado) — Oh minha pátria! me- 
lhor me fi)ra ler morrido que deixar-te I Homens sem 
coração que vêem negociar os seus irmiios pelo dtnhci- 
ro dos estranhos t Se alguém se lembrasse de contar 
esta infâmia, quem sabe se a acreditariam ! E' um facto 
de tal modo absurdo que repugna á maislimitada ínteiligcn- 
ciai Oh! porém eu não posso Qcar aqui .. (fazendo es- 
forços para quebrar as cordas) quando arrebatam Leo- 
nor... quando penso nas desgraças que principiam a 
ameaçul-a!.. . Divina Mãe dos afflíctos.. . soccorrc- 
me I * 

SCENA XI 

ÂLBBBTO, e um MARUJO 
(O marujo Yae apagar a lanterna da coberta)» 

Alberto — Sinto gente... que está ahi? 
Maruo — Não é novidade. 
Alderto — Ah !... vem câ... se me flzeres um ser- 
viço... pagar-tVbei bem! 
Marujo — Um serviço ? 
A LBisRTo— Escuta : dou-te a minha roupa, e tudo 



16 O COLONO 

quanto estiver no camarim, se quizeres desamarrar es- 
tas cordas. 

Marujo — E' arriscado! E o capitão?... 

Alberto — O capitão não adivinha. 

Màrdio — Quem não arrisca, não ganhai Vá lá. 
{desamarra-o) -. 

Alberto — Estou livre! Agora., {olhando ao re- 
dor de si e vendo a portinhola aberia), Deus'venha co- 
migo t o meu caminho é por ali ! 

(Corre para a portiohola e precipHa-se no mar. O marujo fac am 

jogo de sceoa). 



Cae O panno^ 



ACTO II 



{O tbeatro representa' oma sala térrea em casa de ÁDselmo Nones. 
Goinmailicações lateraes; no fando ama porta grande para am 
terreiro. Ao longe anroredo. Uma rede armada do ultimo plano 
da esquerda ao ombral da porta. Uma cadeira de balouço, mor- 
sas e cadeiras vulgares. Em cima das mesas jarrínbas de barro 
com agua. Ê dia). 

SCENA 1 

(ko letantar do panno Anselmo Nones está sentado na cadeira de 
balouço, JuHa mollemente recostada na rede parece dormir. 
Guiné embalouça-a docemente). 

Guiné {recitando vagarosamente) -^ 

Quando Guiné foi fornoosa 
Seu sinhâ lhe queria bem I 
Gala-te, negra vaidosa ! . . . 
Teu sinhô, novo amor tem. 

Dorme sinhá; 
A negra aqui eslá. 

(Jolia faz um movimento; Guiné continua). 

Seu moço Bom anda á caça, 
Quem sabe o que por lá faz ! 

2 



Ig o COLONO 

A mocinha lem lãl graça... 
Qu'eu não sei. de que é capaz !... 

Dórnoe sinhá; 

A negra aqui está. 

JuLiA {com indokncia) — Que dizes lu f 
Guiné — Eu, nada, sinhá. 
JoLu — Tu dizias que meu marido.. . 
GciNÉ — Era a sinhá que estava sonhando. 
' JuLiA (recôstando-se) — Embala-me. Tenho lanlas 
vezes este sonho !.. . Maldito ! 

Guiné (embalando-a) — Dorme sinhá; 

A negra aqui está! 

SCENA II 

ANSELMO MUNES seulado, jurjA na rede, ecirté embalan- 
do-a, POLYDORO, entrando pelo fundo seguido de dez 
chins, formados dois a dois. 

(Òs chins entram siienciosamenU» e tIo po$Ur-se do lado esquer- 
do do theatro sob a direcção de Polydoro). 

PoLYDORO {despertanio Anselmo NUnes) — Graças a 
Deus, senhor Anselmo Nunes, o Brazil não hade mor- 
rer por fâlla de braços i 

Anselmo — O «olera devora-nos ! 

PoLTDORO -^ Deixe o cólera! Olhe, ali, para o meu 
batalhão de chins t.. . 

Ansblmo — Olá !. . . que genle é àquella? 

Polydoro — Chins: genle essencialmente económi- 
ca; não come senSo arroz. 

Anselmo — A farinha é miaiis barata. 

Polydoro — Mas a carne secca está cara. Poupa- 
se a carne. O inglez comprehende perfeitamente a nos- 



o COLONO tf 

sa qu€slão, e coDi(K3iisa-nos da falia dos negros, mydan* 
do o império chim para o nosso. 

(Os chins cansados de esUren da pé, feaUm-te na chio 

com as pernas eacruiadas). 

Anselmo — O ínglez ! o inglez t bem sabia que uma 
das prÍDcipaes riquezas do Brazil consistia na super- 
abundância dos braços que realisavam as suas grandes 
colheitas t E mellem-nos os chins em casa I (ritUb) Boa 
gente; vão lá vêl-os de-corpo nu, ceiíar a cana debaixo 
do sol ardente do nosso clinutl Chins.. . é gente essa 
para resistir aos trabalMs do assucar? {çlhando para 
elles'. Ali os tem.. . {rindQ) são feitos d'arroz! 

PoLTDOBO — Ah! que bobagem! Com licença, se- 
nhor Anselmo. . . {fatiando aoê chins e ameaçandonjs 
com a bengala]. Põe de pé, minha gente t POe de pé... 

(Os chins espantam-se, gritam, e dispersam-se pela scena. Julta 
acorda em sobresalto, desce da rede» e fendo-se rodeada por al- 
ies grita). 

JcLiA — Ah!.. . quem me açodai - • quem me li- 
vra d'este bando de macacos! . . 

PoiYuoRO — Socegue, sii^há. São os meus chins 
que se espantaram; mas eu vou accommudal-os ! 

JiLiA — Que gente Ião feia, senhor Polydoro! 

Anselmo {levaniando-se) — Isto à vista dos meus 
bons africanos!.. . 

JuuA — São mais feios que um tamanduá I ^ 

PoLYDOBO (lançando mão ao rabicho d*um, que se 
submeite immedialamenle, $emndo de exemplo aos ou- 
tros) — Gósto d'elles só pela sua rorda sensivel.. • 

JuLiA — Que e isso ! por onde lhe Ç3l4 o senhor a 
puxar ? 

Polydoro — Pelo rabicho! Ê assim que se domes- 
ticam. 

JuLiA {rindo) — Raridades não nos faltam ! Pentro 



■ 
\ 



âO o COLONO 

em pouco, se algum estrangeiro quizer fazer uma idéa 
de todos os povos e costumes que ha peio mundo, bas- 
ta-lhe vir ao Rio de Janeiro. Temos de tudo. França na 
rua do Ouvidor, Inglaterra na rua Direita, Alemanha 
na Nova F.rburgo, Portugal na rua do Rosário {rindo). 
E agora a China.. . 

Anselmo — E assim se \ào perdendo os traços na- 
eionaes ! Os brazileiros sao tão Taceis em admiitir os 
costumes e o caracter dos estranhos, que no fim de tu- 
do, hâode tresler e fícar sem costumes nem caracter. 

PoLTDORO — Chegou a hora da nossa civilisaçao, 
senhor Anselmo Nunes. O Bti\^\\ caminha na estrada do 
progresso, (passando rapidamente a mão ao braço dum 
chim que lhe apalpava as algibeiras, lendo-lhe já sa- 
cado a chara(eira). Que é istoi.. 

Anselmo (rindo) — Progresso f A industria do rou- 
bo. . . m 

PoLYDORO — Quem me dá uma tesoura para cor- 
tar o rabicho d'este malvado!? 

JuLi \ — Corte, corte; serve para mandar fazer um 
chicote para o meu cavallo. Guiné, dá-me uma tesoura. 

PoLYDORo — Hasde ficar sem rabicho ! 



(O chim fu grandes tregeitos vendo-se preso pelo rabicho e larga 
a cbaroteira. Guiné dá orna tesoura a Júlia). 

JuLiA — Aqui está a tesoura, senhor Polydoro. 

PoLYDORO {pegando'lhe) — Quem rouba a seu se- 
nhor é um mau servo de Deus! [corta-lhe a trança; o 
chim atira-se ao chão, os outros mw muram, invocam a 
divindade e acabam por se reunirem ao canto da sala, 
repel lindo o suppliciado). 

Anselmo — Ora osinglezes estavam caçoando quan- 
do se lembraram de nos trazer esta gente para colonisar. 
]Ê um bando á'orangolangos ! 

JuLiA — Guiné, guarda aquella trança, e acompa- 



o COLONO SI 

nha-me. Vou já mandar fazer d'ella um chicote* O meu 
cavallô hade estimar muito ! {soe com a negra Guiné). 

SCENA III 

« 

VOI YDORO, ANSBLMO KCNBS, C OS CHINS aO fuudo. 

PoLTooRO — Ora muito bem, senhor Anselmo Nu- 
nes; como vamos nós a respeito da mocinha? 

Anseimo — Desconfio que é da raça de Susana! 
mas o peior foi ter fugido.. . 

PoLYDORo — Ha muito tempo?.. . 

Anselmo — Fugiu ha oilo dias. 

PoLTDORo — E quanto dá o senhor de alviçaras a 
quem Ih'a descobrir? 

Ansklmo — Quinhentos mil réis. Mandei pôr an- 
nuncios em todos os jornaes, paguei a dez pedestres que 
a procuram, espero rehavel-a ! Ah ! Este coração esma- 
gado com o peso de sessenta e seis annos, quem o ha- 
via de cper ? Fez do seu ultimo desejo o seu extremo 
sentimento, e morrerá talvez desesperado na impeniten- 
cia d'esse sentimento profano! Nâo posso, não sei pen- 
sar senão em Leonor!.. . Aquella creança fascina-mel 
Aquelle olhar terno e supplicanle destroo toda a resi- 
gnação de que me tinha revestido para morrer!.. . Eu, 
velho doente, e cansado de soífrcr, dera ainda metade 
da minha forluna a quem soubesse afaslar-me um pas- 
so da sepultura I 

PoLYDGRO — Essas idéas sãoo quo O matam, senhor 
Anselmo Nunes. Qualquer commoção, na sua edade, 
torna-se perigosa ! 

Anselmo — ; São màs em todas as edades I Gommo- 
ções d*estas allucinam os mocos e matam os velhos! 

PoLYDORo — Nos moços desculpam-se; mas nos ve- 
lhos.. . fazem rir. 

ANSELMO — Devem-se-lhes desculpar também! N'el- 
les é o tributo que pngam ao entrar no inundo; é a sua 



â2 o COLONO 

primeira saudação á vida ! Em nós, o derradeiro o so- 
\^mm aèeas a esse mundo de que saimosj a essa vida 
que nos deixa ! 

PoLYDOEo — Eu cá nunca senti dessas coisas t e 
queira Deus que ellas nao venham algum dia perturbar- 
me no cenlro das minhas novas idéas de colonisação ! 
O que me interessam são os colonos, e foi por isso que 
y'm iiMstrar*lhe os meus chins. Comprei por três annos 
o uso-fruetè d'aquelles vinte braços. . . por uma baga* 
telia ! * ' 

Ansklmo — Hade fazer muito com elles ! 

PoLTDORO — Veremos: até ouIia vez, senhor An- 
selmo Nunes, (forma os chins e sae com eUes). 

SCENA IV 

Ansklmo {só) — Quem me dera forças e vigor ! 
Quem me tirara estas rugas, este cansaço/esla velhice! 
-Nós não lemes para seduzir outro recurso além do nos- 
so dinheiro! Ai se este recurso nos falha!.. « que po- 
. liemos nós fazer em presença d'um coração nobre e vir- 
' ^oso, que não cede sdnão ábelleza e aoattraclivo d'ou- 
tro coração também nobre 1 Quantas vezes a mocidade 
ama e seduz sem crime ! ? A velhice degrada-se na vio- 
isDcia das paixões f Na hora em que mais precisamos 
' adoçar o amargo d'esta existência que vacilla de roda do 
iiosso coração, éa hora em que todos, todos niss aban- 
donam ! 
\ SCENA V 

AKSELMO NUNBS, C GARI.0S DA SILVA pcIo fuudo 

em traje de caçador. 

Carlos {depondo a arma ao entrar) — É o que te- 
nho contra a minha terral Isto não é cívilisação^ não é 
nada ! Ah I. . . bons dias, meu sogro, como passou? 

Anselmo — Que tem, senhor Carlos? 



o COLONO 83 

Caílos — Indignam-^me as barbai Mades ^e por 
ahi se fazem todos os dias, debaixo do titulo de justiça ! 

Ansblmo — E' fallar de bom brazileiro ! 

Carlos — Eu digo o que siolo ! A maneira pela 
qual estão Iralaudo os colonos portuguezes no nosso 
paiz, é vergonhosa tanto para nós como para Portugal ! 

Ansbluo — Que^uccede? 

Gablos — Succede... succcde o que vê. . . (tnrft- 

eando a poria áo fundo). 

SCENA VI 

ANSELMO NUNKS, CAKLOS DA 6ILVA, O LEONO» macetada, 

entre quatro pedestres ao fundo. 

ANe^BLMO — Leonor. . . 

Carlos — Nào é reflln>enle vergonhoso?,! Uma po- 
bre moça, induzida talvez por um miserável ganha-di- 
abeiro, d'esses especuladores de todo o género, a dei- 
xar a sua pátria para vir fazer fortuna np Brazil, ma- 
nietada com ) se íôra uma escrava, e obrigada a servir 
D'uma casa que lhe nao convém 1. . . 

íAnsblmo — O colono opulraclado iem <Arigação de 

servir tres annost 

CARL06 — Esses contractos são íbsur^p^ porque 
lhes não dão a menor garantia contra o mau procedi- 
mento dos senhores ! 

Anselmo — Senhor Carlos da Silva, que qíier di- 

zer?! 

Cahlos — Qucio dizer que se esto imoça não dese- 
ja servir-nos, eu eslou prompto a perder o que o se- 
nhor desembolsou, inclusive o premio iifif^recido de al- 

vicaras.. . ' . ....,.- 

Ansblmo — Ah ! sim ?. . . Talvez minha filha nao 

approve inleiramcnle essa delerminaçào, senhor Carlos 
da Silva. 



M o COLONO 

Carlos (áparie) — Este homem écynicoe julga que 
todos o s3o. ' • 

ÂNSBLMO [para Leonor) — Já viu que é inulil fugir! 
{aos PedeslreSy enlregando-lhes uni macinko de notas) 
Quinhentos mil réis. 

(Os PedQ3tres solUm aa mios de Leonor e retiran-se). 

Leonor {aparte) — Outra vez no seu poder ! 

ÂNSBLMO — O contracto faz lei. (aparte) Aquelias 
lagrimas caem-me sobre o coraçSo ! 

Carlos — Ânime-se» Leonor; meu sogro não serã 
tao mau homem que. . . 

Anselmo {aparte) — Mau homem, porque a amo ! 
Pois se eu sou velho I.. . 

Leonor — A suppiica dos infelizes não chega do 
Brazil ao throno de Deus I 

Carlos — Quasi que assim é, porque a maior par- 
te dos que se consideram felizes, embruteceram o ora- 
ção e perverteram a íntelligencia na construcção da sua 
felicidade i Mas ainda ha alguns coraçOes sensíveis que 
comprehendem as lagrimas dos affliclos, e que se esr- 
forçam para lhes serem úteis. 

Anselmo (aparte) — Elle falla-lhe a meia voz!.. . 
e ella !. . . * 

Leonor — Ohl se eu achasse no senhor um d'es- 
ses corações sensíveis; se. . . 

Carlos — Tem fé?.,. 

Lkonor — Tenho ! 

Carlos — Basta. Em sendo noite appareça n'esla 
sala. {altOy a Anselmo Nunes) Meu sogro, dá licença que 
Leonor vá apresentar-sea minha mulher? 

Anselmo — Essa é boal.. . 

Carlos — Nesse caso.. . 



' o €0L0NO » 



SCENÂ VII 



AMSRLMO NINES, CARLOS DA SILVA, LRONQR, JULfA, 

e Guiisé, pela direita. 



JoLiA {com a trança do chim na mão) -^ Ah ! já 
chegaste, Carlos?! E não tú'o mandaste dizer! 

Carlos — Desculpa, Júlia : eslava conversando com 

leu pae.. 

Anselmo {com itt/e/if ao) — A' respeito de Leonor... 

Caklos — Que fui capturada, e que leu pae obriga 
a servi r-te. 

JoLiA— Eu por mim não engraço com ella . . 

Leonor {áparie) — E' um favor que me faz ! 

JuLiA — Mas se meu pae entende que. . . 

Carlos — Sim, teu pae entende... e n^esse caso é 
preciso acceital-a, e ser indulgente. 

JuLiA (lançanjo wn olhara Leonor) — Esla sem- 
pre a chorar ! . . . 

Carlos — Não é bom censurar d'esse modo as la- 
grimas dos infelizes-, Júlia ! O pranto derramado no exí- 
lio é sempre amargo, e não se parece nada com o cho- • 
rar estudado d'uma senhora, a quem não satisfazem com- 
pletamente todos os caprichos ! 

JuLiA — Primeira lição de moral. Quando vens da. 
universidade sempre trazes provisão de máximas e de 
conselhos moraes. E' pena não me oífereceres lambem o 
exemplo.^ . 

Carlos — O exemplo.. . 

JuLiA (rindo) — Já é tarde para esse fim ; bem sa- 
bes que me não deixo illudir. . . 

Carlos — Júlia, essas palavras... 
JuLiA {rindo e dirigindo-se a Uonor) — A menina 
tinha-me dito que sabia entrançar ? Faça d'esle cabello 
uma trança bem feita, para servir de chicote, (alxra-m 
a trança). 



M OCOLOMO 

Carlos — Um cbioote 4e «cabello! Que cabello é 
aquelle? . 

JuLiA [rindo) — É a trança d'um colono chim.. . 

Carlos — Que sem duvida lhe foi cortada com vio- 
lência t (pegando na trança) Nao consinto que se faça 
um chicote d'este cabello i E' uma loucura que.. . 

JvLiA^^Por forçai um moralista.. . (indo para 
Anselmo Nunes) Ah! meu pae, meu pae... tire-me 
d'aqui simi^hante mulher!.. . 

Anselmo — ^^ Descansa Júlia.. . eu já suspeitava que 
j)3o gostavas d'ella. .*. 

JuLiA — Não quero que fique esta noite em casa t 

Anselmo — Nâo ficstrá. 

JuLiA [vollando-se para Carlos^ e •com affe^iação) 
— Naturalmente, não hade levar a ma^l que eu và ao 
'theatro. 

Carlos — Decerto que não: todavia d'aqm á cida- 
de são duas léguas, e o péssimo estado das estradas... 

JuLu — Quer<liaer que não acompanha. 

Carlos — Teu pae não hade ficar só. 

JuLiA — E' muito amigo de meu pae ! <!açou muito ? 

Carlos — Nada: o scri matava.. . 

JuLiA — Ha muitas coisas que matam !.. . 

Carlos — Até logo. (pega na espingarda c sae 
pela esquerda). 

Anselmo {áparié)~k mocidade é sempre preferi- 
da! (sae pelo fundo). 

JuLiA [encarando com allivez Leonor , depois de breve 
silencio). — Retire-sc ! 

(Leonor, corteja-a e sae pela direita) 

SCENA Vlll 

JULIA, e GUINÉ. 

JouA — Tu não sabes, Guiné? Tenho tido ultima- 
mente uns taes sonhos, quo. . . 



OCOiONO tf 

GciNÉ - Eu bem lem õitcido minha iinhá. 

JcLU — Tn crês em sonhos? 

Guiné — Si crê?.. . Está bomíf.. . 

JuLU — Sonhados Ires^ Tezes ? 

Guiné — E' livrar d'elles com Ires rezas bem re- 
zadas, credo em cruz e Avé Maria ! 

JuLiA [rindo) —Receita de negra!l.- - Heíd« livrar- 
me d'outro modo. Ouviste dizer ^ue vou ao teatro ; 
porém nâo vou. Chegando a meio caminho, volto, ^ 
quero entrar sem sèr presentida. Pòe-te de ftgia : ob- 
serva e quando* eu voltar.. . 

Guiné — Eslà entendido I (aparte^ rindt) Sinhá 
moça está com ciúmes!.. . 

IvLiK — De que te ris? 

Guiné — Só de pensar no que heide ver. . . 

JuLu — E' quasi noile. Manda apparelhar «i» carro ; 
c depois vae ao meu quarto. 

(Joiia sae pela direita. Guiné pelo fando). 

SCENA IX 

(A acena esU por momentos yasia. — O dia acaba. — Vè-se sobir 
a laa^ a sala fica apenas esclarecida, pelo loar. — ^ Anselmo Na- 
nes, seguido por quatro negros, vem até ao centro da sala, ob- 
-serra, e falla-lbes com precaação.) 

Anselmo — Tímis entendido, Paulo? Embosca-tc 
com os teus camaradas, próximo da estrada, ao sair 
da fazenda. Bade por ali passar esta noile uma mulher 
que vou despedir acompanhada por alguém, seja quem 
fòr; d'aii não deve passar. Apoderem-se d'ella e con- 
duzam-na para a minha fazenda das pérolas. E' escusa- 
do dizer-te que a lua pclle responde-me j)ela moça I 

(Os escravos retíram-se. Anselmo Nunes sac pola direita.) ' 



U o COLONO 

SCENA X 

ALBBRTO, e ZBFK jNO, Y>elo fundo. 

Alberto — E' aqui ! 

Zefkrino — E' aquil.. . 

Alberto — Quem sabe o que lhe lerá acontecido?!. . 
Qaem sabe*. . 

Zeferino — O que nos acontecerá também 1 

Alberto — Isso é o menos I 

ZbFBRiNO — Viemos metter a cabeça na gucla do 
leão. Teria sido melhor levar a coisa judicialmente. 

AiBBRTO — A justiça n'este mundo não chega aos 
pobres I 

Zeferino — Concordo ; porém eu. . . • 

Alberto — A su^jfjortuna, senhor Zeferino.. . Oh! 
nao conte com ella ! 

Zeferino — Então porque? 

Alberto — Foi alcançada à custa das lagrimas dos 
pobres!.. . tenho má ifé côm as fortunas ganhas d'esse 
modo ! 

Zeferino — Veremos isso, quando você se casar 
com a minha Leonor i Aposto que hade ter escrúpulo 
de lhe receber o dolel?%. . 

Alberto — Permitta Deus que Leonor viva e que.. . 
E' quanto desejo I 

Zeferino — Sinto passos.. . occultemo-nos. 

Alberto — Occullarmo-nos 1 Então que viemos nós 
cá fazer^ se não temos força nem animo sequer para 
dizer duas palavras?.. . 

Zeferino — Homem ! siga o meu parecer! Você 
quer logo ir ás do cabo ! E' melhor reconhecer primei- 
ro o terreno em que temos de marchar. Venha cá. (con- 
duz Alberto ao angulo da sala, onde está a rede, e ali 
se occulia com elle) Observemos o que se diz e o que 
se faz. 



o COLONO 9» 

SCENA XI 

ZEFEEINO, e 4LBKRT0 OCCUltOS, CARLOS BA SII.VA 

pela esquerda. 

Cablos — Pobre iofelizl queira Deus que o meu 
obsequio possa aprovei tar-lhe. Não tenho coração para 
o systema bárbaro doesta sociedade ! Não vou contra as 
idéas da cólon isação. . . a colonisação torna -se urgente; 
mas o melhodo que seguem para realisal-a é infamei 
Até &oje o solo brazileiro tem prosperado com u pranto 
dos escravos ! parece que repugnou ás inlelligencias mo- 
dernas o sacrifício cruel d^esses pobres desherdados t 
roas o sacrifício continua ; mudaram apenas as victimas! 
E quantos abusos se não praticam á sombra d'essa lei 
absurda, que vende três annos de serviço d'um colono» 
pela ridicula importância da sua passagem de Portugal 
ao Brazili 

(Vae á poria da direita, e fai bbi signal. Leonor apparece ) 

SCENA XII 

ZEPF,fflNO> ALBEHTO OCCUllOS, GaBLOS, LBONOR. 

Cablos — Venha, minha filha, tenha coragem. 

ALBERTO {áparie) — Leonor ! . . . 

Zbfbrino {segvrando'0) — Deixo ver em que pa- 
ram as modas. 

Lbonor — Oh ! não sabe como the agradeço a pro- 
tecção que me offerece ! 

Cablos— E' a Deus que deve agradecel-a, Leo- 
nor ; os bops sobre a terra não são mais do que os 
instrumentos destinados por Deus para realisarem as 
suas obras de caridade ! 

Zeferino (áparie, a y|/6erío) — Quem é que eslâ 

faltando ? é um homem ?! 



Z» , o COLONO 

Caklos — Escule-me, Leonor. Existe uma lei rela- 
Uva aos escravos e aos colonos, que é por assim dizer 
a ledempçao de qualquer das classes. A lei obriga o 
senhor.d. forftr qualquer dos seus escra\os que lhe apre- 
sente a snmina exigida pelo seu* valor : e esta mesma 
lei obriga o proprielario a rescindir o conlraclo. do colono 
que o indemnisar da qnanlla paga pela sua passagem. 
Aqui lhe entrego seiscentos c cincoenla mil réis para 
embolsar o senhor Anselmo Nunes. E agora, perrailla- 
me que lhe offereça ainda alguns recursos.. . 

Leonor — Senhor... Oh! eu ignorava a existên- 
cia d'esles corações no mundo ! 

Zefkeno (aparte)— K enlao, hein? Não poupo o 
resgate da moça 71. . . 

Leonor — ToJa a minha vida me lembrarei do seu 
4iome para o bemdizer! Aht conceda-me.. . (que endo 
pegar-lhe na mài para a beijar). 

Carlos (recusando) — Não, Leonor; nao queira 
encher-mc d'orgulho. Sou eu que devo agradecer a Deus 
a possibilidade que me concede de fazer o que faço! O 
auxilio prestado à desgraça é um capital a render na vi- 
da eterna. O juro, é a graça de Deus I 

scKiNA xin 

ZKFBItlNO e ALBEHTO OCCUltOS, CARLOS, LBONOB, 

jutiA, entrando pelo fundo.' 

JuLiA {caminha vagarosamenle até Leonor, e espe- ^ 
ra um momento^ escutando as ultimas paiavras da falia 
antecedente^ ápane) Meu marido não é forte em exem- 
plos de moral !.. . 

Carlos (sem se perturbar) —Não receiava surpre- 
sas, por isso deixei as portas abertas. 

Leonor (aparte) — Ah!.. . 

Carlos — Arrependeu-se de ir ao Iheatro? 

JuLiA — Quando temos um Iheatro em casa.. . 

Carlos — As pessoas que representam não podem 



o COLONO 91 

abandonal-a ! é pena que não entendam bem a siUk^ão I 
JcLiA — Oh! entendo-a perfeilanienle 10 dinheiro 

que vejo iia mão d'âquella senhora.. . Põde-se pagar 

com usura o mimo d'uma mulher, quando se desfrucla 

a fortuna de outra I 

Carlos — Júlia I. . . 

Lkonob — Senhora, pelo amor de Deus!.. . Oh!... 

disse e pensou coisas que hãode pesar*lhe bem na sua 

hora extrema ! 



(Zeferino p Alberto saem do angultf da sala e avaA^m até 

ao meio da scena.) 

JuLiA — Ah! meu pae!.. . meu pael.. . (d ando 
e puxando o cabellos). 

SCENA XtV 

ZBFl-RINO, ALBBRTO, CARLOS, LEONOH, Jci.lA, 

e ANSELMO nCNES. 

Anselmo — Oue succede ?l Què tens lu, minha filha? 

JuLiA — Eu já não posso soffrer a presença d'aquel- 
la nulherl Insulta-me por amor d'ella! 

Anselmo — Descansa Júlia; vou despedil-â. 

Zeferino {avançando e comprimenlando) — Era o 
favor que eu vinha soUicitar. . • 

Alberto (abraçando Leonor) — Leonor ! 

Leonor — Ah !. . . Alberto ! . . . Alberto !. . . 

Carlos (a Júlia) — Aquelle abraço justifica-me. 

Ansel mo — Mas, no^fira de tudo. . . que gente é estaf I 

Zeferino— Eu sou um criado de v. «/, e pae d'aquel- 
la mocinha. . 

Anselmo — Então que pretende?. . . 

(Zeferino faz-lbe cortezias muito rasgadas, e não atina com o que 

lhe qner dizer.) 



^ o COLONO 

ALBERTO — Sim, Leonor, eu vi e ouvi ludo. Que- 
ro também agradecer-lhe a sua bondade. Dà-me estedi* 
nheiro, agora é preciso resliluir-lh'o. (a Carlos) Senhor, 
o seu coração é uma d'essas raras excepções das regras 
geraes deste mundo I Não ha termos que descrevam a 
nobreza dos seus sentimentos, nem palavras que Ih) ex- 
pliquem a nossa gratidão! Felizmente Leonor está ago- 
ra sob a protecção de seu pae. e o seu dever é resti- 
tuir este dinheiro que tão generosamente.. . 

Zbfbrino (áparle) — Olhem que loucura I 

Carlos {acceitando) — Basta : eu tinha feito o meu 
dever ! 

Alberto (para Anselmo Nunes) — Meu senhor, nós 
vimos resgatar Leonor. 

Zbfbrino — E' verdade, nós vimos resgatar minha 
filha ! 

Anselmo — Não incorr.mode a sua carteira ; Leonor 
está livre: pode sair quando quizer. 

Albbrto — Já í 

Zbfbrino (com servilismo) — Muito obrigado, muito 
obrigado 1 

Lbonok {beijandO'lhe a mão) — Meu pae . . 

Alberto — Partamos. . . 

Leonoh — Alberto. . . 

Aibbrto — Partamos.. . partamos! Estou sequioso 
de respirar comligo o ar da liberdade! (^aintío com i^/to). 

Zkfer'no (recuando apoz elleSj e fazendo repelidas 
corlezias) — Muilo obrigado. . . muito obrigado! mil ve- 
zes obrigado!.. . (a meia voz a Anselmo Nunes, Se pre- 
cisar alguns colonos, eu tenho-os excellentest... (alio) 
Muito e muito obrigado ! 

(Alberto e Leonor já teem saído. Zeferino fai a saa 
altima cortezia e segue-os). 

Anselmo (áparie^ rindo) — Os pobres propõem ; os 
ricos dispOem I 

Cae o panno. 



ACTO III 



(O Uieaira repcesenU uma clareira oa ec«irad'iiin boiqaa carrâdo. 
No fondo, pelo corte d*algQma8 arvores, distingoe-se nm aUiho 
tortuoso qoe se perde logo de fista. À direita do espectador ont 
casa com alpendre e dois asseotos de madeira. Ê dia). 



SGENA I 



(Ao levaiUar d^ pamio, Leo;io« está sestada debaixo do alfeadre 
da casa, jaoio d'9m berço onde dorme omt creaicinlia de três 
meses, quando maito). 

Lkonor — Dorme*. • dorme meu ianocentiiibo ! Prou- 
vera a Deus que nao acordasses mais n^esla vida de la- 
grimas onde te espera a deshonra e o luctol Ai, quelâo 
desberdado vieste ao mundo» que nem o Crucio és dos 
meus amores! Triste penhor da minha vergonha a que 
a natureza me prende.. . Filho da minha alii)a... (c^n- 
temphnd0'O). 

SCENA II 

LBONOB, junto do berço, carlo6, em Irajo óe ca- 
çador, vindo peto atalhe. 

Carlos — E' escusado laimar I perdi-lhe o ras- 

3 



34 O COLONO 

to I era um famoso lagarto^ que me podia dar um excel- 
lenle ensopado para a ceia, se... E Irouxe-me alé aqui... 
sei que estou na fazenda das pérolas; mas desconheço 
completamente o logar.. . (tendo Leonor) Que é?.. . 
Olál... Está visto.. . é a fazenda das perolasl... Mas... 
aquella mulher. . . {aproximando-se). 

Leonor (voltando-se por acaso, dá com os olhos 
em Carlos, reconhece-o e solta um grito) — Ah !.. . 

Carlos — Leonor.. . 

Leonor — Senhor Carlos I, . . 

(Durante o pequeno dialogo que se segue, apparece repetidas Te- 
zes um negro, afastando a ramagem do matto, para obserrar a 
scena.) 

Gahlos — Vêl-a aqui, Leonor, quando eu suppu- 
nha que estava longe. . . talvez na sua pátria !. . . 

Leonor — A palria d'uma mulher é onde está o 
berço do seu filho! (enxugmdo as lagrimas). 

Carlos— Tem um filhtf?!.. . 

Lkonor (indicando'lhe o berço) — Não o vê?.. . 

Carlos — Então, casou-se com Alberto.. . aquellc 
moço de que me fatiou algumas vezes, não é assjm? e 

vive. . 

Leonor — Oh ! Alberto ! Alberto I. . . 

Carlos — Porém, acho-a tão desfigurada. . . Leo- 
nor, que. . . 

Leonor — As lagrimas que a desgraça promove cos- 
tumam deixar signal ! 

Carlos — Mas. . . não mo disse que se tinha casa- 
do? Enviuvou talvez.. . 

Leonor— Não lhe disse que me tinha casado ; dis- 
se-lhe que tinha um filho. • . 

GiLRLOS — Que não hade ser do ar.. . 

Leonor — Que ó de. . . 

Carlos — De quem? 

Leonor — Do senhor Anselmo Niinest 



o COLONO 55 

Carlos ^- Ah ! . • . 
LiONOR — TalTez nao creia ?. . . 
Carlos — Oh ! não é coisa em que se falte á ver- 
dade: o que lhe peço 6 alguns esôlareciroenlos. . * 
Leonor— Devo-Ih*os. Quer ouvir-me ? 
Carlos — Se lhe pedi. . • 
Lbonok — Pois eu lhe conto, (convidando^ a sen-- 

lar-se debaixa do telheiro). 

/Carlof entra no telheiro, e ient«-se.) 

Lbo>ob — Eu, meu pae e Alberto.. . pobre Alber- 
to!.. . salmos, como viu, de casa do senhor Anselmo 
Nunes, n'aquella noite ; puzemo-nos a caminho para a 
cidade: a noite não podia estar melhor l Eu e Alberto 
Íamos satisfeitos, de braço dado, cantando modinhas 
da nossa terra, e deitando linhas no futuro.. . que nio 
tinha de ser; mal sabíamos nós! Só meu pae nâo ia 
contente ; parecia que adivinhava. Louvava a generosi- 
dade do senhor Anselmo Nunes. . . mas vendo-sc então 
no meio dos bosques cerrados, com duas, léguas de ca- 
minho adiante de si, aquella generosidade parecia-lhe 
de mais, e não fazia senão repelir a- sua máxima do 
costume: tOs homens não dão ponto sem nól» Por 
mais que Alberto lhe perguntasse o que receiava, não res- 
pondia senão com a antiga sentença ; e eu já. não ia 
muito senhora de mira, por que me lembrava que o se- 
nhor Anselmo Nunes. . . 
. Carlos — Então?.. . 
Leonor — Que o senhor Anselmo Nunes me linha 

jurado um dia que . 

Carlos (áparie) — Infame ! 

Leonor — Vamos ao caso. Ao chegarmos â por- 
teira, meu pae quíz abril-a e achou-a amarrada. Assus- 
lou-se e assustou-nos de modo que eu agarrei-me ao braço 
d'Alberlo e não o deixei. . . NMsto saem-nos quatro ne- 
gros. . . Oh I . . . 



36 GCMOlfO 

Carlos — Era uma espera vergoAhesaf 

Leonob — O que se passou, nSosei!.. . Senlí-me 
-agarrar.. . levar I. . . Oavi grilos. . . oivi uma vúí, que 
se exlÍDguia, pronunciar o meu nome. . • e. . . {aoirind*) 
o rosto com as mãos) Alberto !. • . 

. Carlos — O caso uãp é oovo ! É por eslas e outras 
^ut os okíseíros recusam ir cobrar 4ettras wncrdas, a 
certas /azendas longe da cidade L • . (para Leonor) Va- 
mos, Leonor I e depois?. . . 

LsoNot-- Depois. . . qvando vdtei j mim^ acbci- 
me n'esla casa.. . 

Carlos — ' Só ?. . 

Lbouoe — O senhor Anselmo Nunes estava cá Iam- 
bem. Foi então qu^ovelho declarou abertamente ósseos 
sentimentos I Não houve meio que não empregasse.. . 
ameaças, svpplicas, lagrimas, e dadivas!.. . Trouxe-mc 
um annel de brilhantes, n'outro dia um cordão de oi- 
ro, depois outras jóias. . Ai de mim, senhor Carlos ! 
Eu via-me só com elle.. 

Carlos — A virtude oeAe quandd o coração deses- 
pera 1 

Lbonor (depois de pausa) — Um mez depois dei- 
xou de apparecer-me. Faitaram-me recursos ; peguei nas 
minhas jóias, e pedi a Paulo.. . 

Carlos ^ Quem é esse Paulo? 

LeoN9R — O escravo que vem trazer-me o alimen- 
to. Tem um coração excellente. Pedi-lhe que fosse á 
corte vender aquellos objectos; foi, e voltou com elles, 
dizendo-lne que eram todos falsos! {com um êorriso 
amargo). 

Carlos — Era d'esperar tendo-lhe sido dados pelo 
senhor Anselmo Nunes! E agora? 

Lbonor-^ Agora, o meu único recurso^ é a bonda- 
de do negro que me não desampara I 

Carlos — Minha (ilha, agradeça a Deus o aca- 
-so que me conduziu a e^te logar. O senhor Anselmo Nu- 
nes já não existe ; e, lendo eu herdado ^s suas pcoprte^ 



o COtX)NO «7 

dados, é do meu dever proteger ama iiifeKz que encon- 
Iro dentre d'uflifl das minhas fizendas. 

Leonor — Oh ! o senhor €arlos dSo cança de ser 

bom! 

Gahlos — Não admira ; outros ha que não can^m 
de sei* maus. Amanhã, manétft-a-^eí buscar, e con- 
duzir á cidade : lá irei vêl->a e Iralar da sua partida 
para Lisboa, {bvanta-té). 

Leonor — Já me deixa ?. . . 

CjàRLOs — Ass^m é necessário I Quando me demo- 
ro, Júlia manda procurar*me por toda a parte. Gomo 
se chama o seu filho? 

Leonor — Chamasse Alberto. 

Carlos — Deu o abençoe^ Até amanhã, Leonor! 
{esienii-lhe a mão e sae). 

SGENA 411 



meu 



Leonou {só, caindo 4e joe!hos) — Bemdtto sejaes, 
Deus!! (érduí ptMwa). 

(Oave-M a detonação d'aiii tiro d^espingftrdi. JCârios Meoa para 
asceDacoma arma na mio; Alberto^^pallido e j^farripado» apre* 
senta-se na bocca da asínhaga também com uma espingarda na 
mão.) 

Leonor [correndo para o berço Ío ^Ihú) — Jesus ! 

SCENA IV 

LEONOK, CARLOS, ALBERTO, 80 fuudo. 

Albkhto — Tenho dito, senhor, a belsa ou a vida! 

Cablos — Esmolas não se pedem com a arma na mSol 
A vid^. tira-m^a se queres. Deua te julgará ! 

Alberto — Deus I.. . Deus! se Deus se não cança 
a proteger os desgraçados, não se lembra também -de os 
julgar l 



38 O COLONO 

Caiilos — Essa blasphemia é uma prova do teu des- 
espero. A desgraça conduz muitas vezes ao crime! Se 
não é a índole que te arrasta, larga a tua arma, e se- 
gue-me. Dar-le-hei trabalho ; o trabalho lirar-le-ha da 
miséria ! 

Albekto (com uma gargalhada esindente) — Sou 
moço ainda ; mas já tenho demasiada experiência dos 
homens para acreditar nas suas promessas!... A melhor 
maneira, de commover o coração d'um rico, é apontar- 
lhe o cano d'uma espingardai {menendo a arma d cara 
e gritando) Senhor ! a sua bolsa ou a sua vida ! 

Leonor — Ohl meu Deus! aquella voz!.. . 

Cablos — A minha vida pertence a Deus i Deus 
m'a defenderá ! O meu dinheiro é um recurso da des- 
graça ; cumpre-me defendel-o dos invejosos I {armando 
a espingarda). 

Leonor (reconhecendo Alberlo^ e correndo parael- 
le) — Alberto!.. . Delem-te, Alberto I . 

Alberto [surprehendiio) — Ah!... que escuto!? 
[vendo Leonor^ larga a arma e corre a ella) Leonor ! . . . 
(abraçam'$e com exUemo). 

Lbonor — Alberto ! . . . 

Carlos [etmmomdo) — Desgraçados !.. . 

Alberto — Tu aqui, Leonor! 

Leonor — K tu?... c tu, Alberto?! 

Alberto — Eu, nem eu mesmo sei como estou 
aqui ! Depois d'aquella noite fatal, em que deixei de 
lutar só quando as forças me deixaram a mim , achei- 
me, sem saber como, no hospital. Guraram-me as feri- 
das, e depois despedíram-me. Corri ao consulado, con- 
tei o qué se tinha passado, e pedi justiça ! Pedi justiça 
aos pés do cônsul como a teria pedido aos pés do rei I 
E sahes que justiça me fizeram? Deram-me uma esmola 
de vinte mil réisl (rinlo) Rasguei a cédula, e saí des- 
esperado ! Procurei trabalho , negaram-m'o ! Solicitei 
uma esmola, recusaram-m'a! Desesperado.. . louco.. . 
voltei a casa d'Anselmo Nunes, no (iime propósito de 



o COLONO * 9» 

me vingar. . . o velho tinha morrido I Procurei-le por 
Ioda a parle. . . mellí-me pelos mallos. . . perguntei. . . 
indagnei . . nada! Todos se riam de mim ! tive fome... 
eslava cançado de pedir . . determinei roolMir ! Oh I 
Leonor! Leonor!.. . Aqui tens o que eu passei I.. . B 

tu ?. . . 

Lkonor — Eu?I. . . 

CiiLos (aparte) — Obrigado, meu Deus, en\ias-roe 
um desgraçado mais I Partamos. . . (^m). 

SC ENA V 

ALBERTO, LBONOa. 

Albbhto — Que pallidez é essa, Leonor ?t... Bstis- 
me lamentando ? já não tens de que ! Agora sou feliz 
porque te vejo ! Esqueço-me do que soffríi por que le 
abraço. . . Oh t só depois de se ter soffrido muito é que 
se sabe 4aro verdadeiro apreço a um momento d'estesl... 

Leonor - Alberto. . • (enxugando o pranto) Alber- 
to.. . 

Alberto — Tu nao imaginas como te ficam bem 
essas lagrimas I. . . são lagrimas de prazer ; e cada uma 
d'ellas, uma prova d'amor! 

Lbonor {aparte) — Oh I quem terá animo de lhe 
dizer que. . . 

Alberto — Estamos juntos ! juntos ficaremos agora 
na vida ou na morte ! Vamos : quero ouvir o que te 
aconteceu. . . (caindo em si) Oh ! que lembrança ! Tu 
fostornos arrebatada. . . Leonor. . • que fizeram de ti!?... 

Lkonor {vaeillando poufo a pouco^ aparte) — Ntò 
tenho força de lh'o dizer. . . 

Albrrto (observandn-a com dugosto) — Não res- 
pondes, Leonor?!.. . O leií pranto continua... parece 
que a minha presença te íncommoda I.. . Leonor... 
Leonor. . . {larganào-lhe a mão) 

Lbomor [aparte) — Meu Deus ! . . . 



m ' . o OOLONO 

AL«VRTO-*-Seri, por acaso, major do que eu pen- 
sava a minha desgraça?!... Leonor.. dize-m'o tu; 
nâo m'o deixes adiviniiar!.. . Sualém-me esla ullioia 
esperança 4iiie vaoilla...ou mala-mecoflo uma palavra!... 
^ausa) DeixeMe po4)re esem recursos... veio-te aqui... 
habitando esla casa. . . (caminhmio para o telheiro, re- 
para no berço e recua) Ah !. . . 

Lbono« [coindo de joelhos) — Meu Deus ! 

(Momento de silencio) 

Albkbto — Terra maldita que devoras os desgraça- 
dos I Solo abrasado ooée a vinlude expira no centro das 
tuas noites perigosas de luxo e dMnfamias ! Oh ! é aqui 
sobreieste>soloiio regado cotn o suor de milhares de colo- 
nos, onde as nossas irmãs vêem ser vendidas á cubica 
éos eeli^anhosl.. . Eis a recompensa formidável que nos 
úSono Brazil : ^trabalho e vergonha h [exaUando-se] Oh \ 
porém quem foi... quem foi esse homem?... Ahl aquelle 
^ne iiid'«gora tive diante- da minha espingarda!... Mal- 
dito !. . . juro-te pelas estrellas do ceo... (correndo para 
o fando). 

Lbonoh ~ Alberto... Alberto... {levantandO'Se)NSLQ 
foi ellel... Escuta... 

Albbbto ^*- Escalar oque?! Que podes tu dúKr-me 
que me dé ainda uma esperança?!... Que expressões 
podes emprefgar que destruam o mal que essas lagri- 
mas me estão fazendo ^? Entre nós eslà o berço do teu 
filho! 

LioNott .~ Está, siml porém a existência d'aqueUe 
MiBooaole nSo me envergpnha I A' fatalidade, quem é 
que não cede?l Não te vi eu ha pouco, a ponto de te 
degradares no «criíae, pondo em risco a vida d'um ho- 
flMm para o roybar? Se tu cedeste á necessidade, por 
que a tua força moral le abandoniva, eu. . . eu, Alber- 
to, cedi.. . por que já nSo tinha forças para lutar!., • 
E agora, quando a rnmha cruz me pesa mais ào que 



o COLONO 41 

nunca, e quasi me sinto morrer ao fieso delia, aguellea 
de quem eu podia ainda esperar alguma compaixão.. . 
são os primeiros â afaslar-se de mim^ éançamlo-me essa 
palavra terrível qne lançaram a Jesus bo seu cakario: 
tCan^inha I » Oh! míseras de nós que não valemos na- 
da pele que fornos ! que não tomM uma anirade since- 
ra, nem um amor do coraçSo ! Qne ii!(o chegamos a ins- 
pirar mais do que um simples desejo, qoaodo suppomos 
ler despertado uma juiíxaol {jofisà) Vae, Albeild! Sou 
mãe ; jáuão sou mulher para amares, {caminhando paiM$ 
o berço) Este pobre innoceute.. . que veiu ao muido 
sem me trazer au menos uma recordação d'aiQor. . . é ^ 
rival que te desafia ! Oh i vé como elle me está sorrin- 
do!.. . Meu filho! Meu filho!.. . {boifand^^ repetidas 
vezes entre lagrimas e sorrisos). Oh I tu basde amar- 
flie.. . muito, não é assim? E eu heide repeiir «nuitas 
veies o ieu nome. . . 

Ai.BKBTO — Que nome lhe puesle, Leonor? 

Leonor — Alberto. 

Albvrto — Alberto! Alberto!.. . (muilo comnuh- 
vido) Tu puzesle-ihe o meti nome, e dizes que hasde 
repetil-o muilas vezes t? . Oh I . . desculpa-me .. L^o* 
nor.. . eu não valbe 'nada para te ofienderi A lua des- 
graça e a lua resignação fazem-te grande ao pé de min, 
que nem ao menos tenho, sabidj resigoar-me, aoffrendo 
menos do que tu 1 Beide seguir-te por 4oda a parle. . . 
de rastos, para expiar a crueldade que tive de te insul- 
tar no meio da tua desgraça I . . . Irei . . . irei para 
onde fores.. . e quando as forças te faltarem pars^ con- 
duzir o leu filho.. . estes braços.. . {ca$ de joelhos em 
frente de Leonor). 

Leonor (precipitando-se para elle, e tapando-lhe 
com a mão a 6^cca)-^ Ah I CAla-tie...»ala-le, Alberto, 
por que as tuas palavras maplam-ine de iprazerl... 

Alberto — O beijo d'um amor verdadeiro ^te não 
arrobou as faees da mie, nem santificou a concepção 



4S O COLONO 

« 

do flIbOy aqui o deponho cu sobre esle innocente... [bei- 
jandiHo). 

Leonor — Meu Alberlo... {chorando e rindo) 

Albbrto — Leonor. . . 

(Ficam um momento indecisos e depois precípitam-se 

nos braços am do outro). 

Ambos — Ahl... 

Alberto — NSo sabe;^, Leonor, slnlo-me oulro ! 
Nio sei o que se mudou em mim I Nao sei que volta 
me deu o coração dentro do peilot Eslou socegado... 
tenho fé... até parece que me está roendo cá por dentre 
o remorso de ler querido roubar aquelie homem... 

LstiNOR — Sesoubesses^quanla bondade ha n'aquei- 
le coração I . . . 

Alberto — Quem é elle T conhece-lo ? sabes onde 
mora? Abt lembra-me de o ter visto... Nào me soffre 
o animo I Vou procural-o, e... Eu volto n'um momento^ 
Leonor {ahraça-a e sae pelo bosque), 

SCENA VI 

Leonor — Deus o acompanhe I Carlos hade ouvil-o, 
com') costuma ouvir os infelizes ; hade prôlegeUo. O dia 
declinai... o negro demora-se... esperemol-o em casa... 
{leva o berço para dentro de casa, e fechi a poria). 

SCENA Vil 

JÚLIA, em trajo d'amazona, guine*, e dois la- 
caios negros, fardados. 

Guink' — £ aqui minha sinhá. Paulo lem-me dito 
que é aqui! Olhe... lá esti a casa... 

JuLià — Ohl saber que dentro das minhas pró- 
prias fazendas existe uma mulher que me rouba a affei- 
ção de meu marido... (meneando o chicote). 



o COLONO 43 

Guink' (áparie) — Lenibra-me que a tal mocinha 
branca me privou d*amí&icle di meu sinho réiol.. Ha 
di pagar ! 

JiLU (a um lacai*) — Bale o^aquella poria, (o la- 
caio obedece, po é-n vendo qw está abe ta dáAho um en- 
conirão). 

Leonor {de Jentr*») — Je»Ub ! Quem está ahi !7 

luLiÀ — Sao visitas, minha senhora... 

GuiNfi' — A negra \ae sé vingada! 

Leonor (apparecendo) — Àhl .. quem íhc faz fa- 
vor de... 

JuLiA — Tendo passado por aqui, desejei descan- 
çar. . . e lenibrei-me da sua casa» senhora Leonor. 

LsoxoR {(íparté) — A filha d'Anselmo Nunes !.. . 

Guine' — Sinká moça, não si lembra di mim? 

LB02fOR (áparie) — À negra Guiné ! Não sei o que 
me adivinha o coração ! 

JoLiA (entrando tem cerêmonia na casa) — Estou 

curiosa de ver.. . 

Glink' — Eslou morta por lhe pôr a mão!. . . (se- 

gye Júlia). 

Leonor — Que dizem ellas I... (olhando) Descobrem 
meu filho... a negra pega-lhe. . (precipilando-u para a 
por/a, e grilando) Ah! Ah!... 

JujLiA (apparecendo aporta, acompanhada p^if Gui- 
né que traz o menino nos braços) — De quem é este menino? 

LEONOit~be quem é!?... E' meu, senhora! 

JuLiA — Filho de quem ?... 

Leonor — De quem Tl... Com que autoridade me 
faz essa pergunta?' Ohl {para a negra) queira entre- 
gar-mo... 

Guínb' — Eu nao entrego sem minha sinhá mandar. 

JuLiA— Socegue, Leonor, se não quer que empre- 
gue outros meios para esse fim. Saiba que a encontro 
em uma das minhas fazendas. Tudo quanto abaixo do 
ceo leside n^esle solo é meu ! 

Leonor — Seu I . Excepto as cabeças livres. . . 



M O COlLOIf O 

JuLiA — Essas, se o nào são de direito, sâo-no de 
fado I A líODlaéc^ do senhor, faz lei ; e a força obriga ! 
[designando os escravos). 

Leonou [perlwrbando-se) —Oh! oieu Deus! que 
quer islo* dizer )?. < 

JuLu — Quem é o pae d'este menino?! 

Lbomor — Se lh'o eu disser, senhora... Ul vez que... 

JuLiA — Quero saber. 

Leonou — Hade porém dizer-me qu^l é o fim da 
sua pergvhla : bem sabe que. . . 

JuLU — Quero saber. 

LxoNOB — Oh ! os seus modos assuslam^me tanto! . '. 
Senhora. . . eu nunca lhe ftz mal. . . que quer de miro?! 

Jdlia — Quero saber quem é o pae d'esle menino. 

GciHE* — Ê forle embirráçdo^ genlcs ! Diga o qui 
minba sinhá qué sábè! 

ívuK — A sua hesitação augmenla a minha cóle- 
ra I Se me nao quer responder, é porque se eslà sentin- 
do criminosa diante de mim ! 

LBOfvor — Oh! dèem-me o meu filho! Eu quero 
que me entreguem o méu filho! É meu! ninguém tem 
direito de o roubarão n>éu perto ! E' meu ; deQ-m'o Deus ! 

GimvH* (á/>ar/í) .^ Começa a sóflfrô! começo a mi 
vinga I 

Juf.u (rindo eòm ironia e meneanh o chicHe) — 
Grumé, enlrego-te essa creon^ça. . . f.eva-a. 

Leonor — Ah ^; . • (lomando-lhe a passagèití) um 
momento.. . senhora . . mande-me dar o meu filho!.. 
Que Hie quer fazer ? . . 

Juu^ — O que, de ordinária, se faz a umacrean- 
ca que pode com prometter a reputação d'alguem.. Vou 
manjlal-o jMira a Misericórdia 

Lbonoh — N*esse caso sabe quem é seu dae? 

JiTLiA — Sei. 

Leono» — E que culpa tenho eu do crime qu6 
praticou ?. . . 

ícjLiA {com ironia) *^ Crime I? Estas virtudes exal- 



r 

I 
I 

I 
I 



O COLONO 4» 

ladas qoe veero ao nosso paiz^ dâo-me vontade de rir... 

Lronor — Senhora, não junte é iasullo á violen-- 
cia f Tenha dó das minhas lagrimdls.. . 

JoLià — Dó das tuas lagrimes, eu 71 Bu qoe tenho 
derramado lanias, por tua causa?! Eu que te aborreço... 
qoe te odeio ? t [rindt) Chega-te ao fogo e pede que te 
não queime; mas não me peças piedade^ a raim ! 

Lbonor -• Senhora . . mas que mal Iheftzeu?... 

JcLiA {rinio) — Então, não lem graça?... (ao$ tp- 
cravos) Conduznm esta mulher à eorretçao. & «Ma mu- 
lher vagabunda encontrada sem licença n'uma lizenda. 

LsoNOR — Ah!... Ahl... Quem iiie ajvdi a levar 
esla CTuz^.. (caindo de joelhos) 

SCBNA VIU 

JVLU, Qvm^' com o menino, imnoií de joelhos, os es* 
cravos juntos d'ella, garlos pelo fundo; depois al- 

BBRTO. 

Carlos {vemdo de relance a $útMção e mmindo ê$ 
ul limas palavras de Leonor) - Bu. 

JuLiA {áparie) — Meu marido... 

Gvinb' [áparie) — Sinhd moço.«. 

Carlos (coUocando-seem face de /tf/ia)-**Que &h 
zes tu, Júlia?... (com muilo socego). 

JcLiA — Ora, que faço... (passeei^ e mnêando 
o ekieoie). Faço o que ha mais tempo devia ler feito se. •• 

Carlos (com um riso de compaixão) -^ Cé^mo toen^ 
ganasi realmente... 

iULiA — Realmente o que? (éom petulancw) Não 
gosto de reticencias, nem estou disposto a.. . a tolerar* 
lhas, ouviu?!... 

Carlos— Júlia I 

JuLiA— Tenho dito!... Emquanto meu pae foi 
tívo, o senhor respeitova-me ! moderava-se!... Depois, 
fez-se outro ! Esqueceu os seus queridos princípios de 



46 O COLONO 

moral, que Imlo me enfastiava com elies.... e compor- 
ta-se.. . como se vê. 

Carlos — Júlia 1 (com força) Júlia ! O demasiado 
contacto com os maus perverte os bons. Cuidado!... 

JuLiA — Oh! se meu pae fosse vivo... {atirando 
com raiva o chicote) Até chega a ameaçar- mel a mim, 
a quem deve toda a sua fortuna .. . 

Carios — Não quizera dever-lh'a pelo preço de 
lh'o ouvir dizer ! 

Alberto (entrando) — Leonoi*!. . Leonor!... Que 
é isto? que succedc?... Leonor! 

Carlos — Socegue, Alberto. Foi um engano, uma 
desintellígencia que já passou, (para Leonor) Reanime- 
se, minha filha ; a sudi felicidade vae começar. Alberto 
declarou-me as nobres intenções que tem a seu respeito, 
. e estou prompto a coadjuval-as. (para a escrava). En- 
tregue esse menino a sua mãe. 

Lkonor (abraçando o filho) — Meu tilho... meu fi- 
lho!... 

Alberto — Coiladito!.. Olha como elie quer to- 
mar conhecimento comigo... 

Carlos (a Guiné) — Guiné, eu costumo premiar 
08 serviços que nos fazem ; estou informado dos seus, 
e VQU premial-os. {agarrando-lhe no braço e alirando-a 
aos pés de Leonor). Leonor, dou-lhe esta escrava. 

Júlia '—Que faz?... 

Carlos— * Abato a intriga aos pés da virtude ul- 
trajada I Alberto, o meu carro espera-os ao sair d'esta 
fazenda. A somma que lhe dei chega para o principio 
da sua felicidade. Volte á sua pátria, e Deus y& na 
sua guarda, (para Júlia) Nós, Júlia, iremos viajar. Ha- 
<le fazer-lhe bem ao espirito uma lição da Europa ! 

Alberto — Ouviste, Leonor... ouviste ? Oh ! lou- 
vado seja Deus no ceo! Bemditos sejam os bons sobre 
a terra ! 

Cae o panno. 



N 



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BULHÃO PATO. 

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Um Risco, comédia em dois actos. 
A Pelle do Leão, comedia-drama em três actos. 
O Juízo do Mundo, comedia-drama em três actos. 
Maria, ou o Irmão e a Irmã, comedia em um acto. 
A Herança do tio Russo, comedia em três actos. 
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O Maestro Favilla, drama em três actos. 
O Arrependimento salva, drama em 1 acto. 
Amor e arte, drama em '3 actos. 
Fernando, comedia-drama em 4 actos. 
Grasiella, drama el acto. 

Não envenenes tu, a mulher, qui-proquo em 1 acto. 
Scenas intimas, comedia-drama eml acto. 
Dois cães a um osso, comedia em % acto. 
Minhas Lembrançaf, poesias de F. D. d'AÍmeida Araújo. 
Os Brasões das cidades e villas dePertugal por I. deV.Barbesa. * 



I 



• m 1/ DE DEZEMBRO DK lUI 



COMBDIA HERÓICA 



ORIGINAL EM TRÊS ACTOS 



roR 



AirREDO HOGAN 



PARA SE REPRESENTAR NO THEATRO DO 6YMNASI0 

DRAMÁTICO. 



-::s:*v- 




LISBOA 

TTrOARAPHIA DO PAN9IUIIA 

Travessa da Yietoria 73 

1862 



f 



PROLOGO 



Esta peça que atii vae alinhavada nasceu destinada para 
o theatro do Gymnasío Dramático : — O homem põe eÒeus 
dispOe ! — mal entrava em ensaios, eisquc a maior calami- 
dade que podia ferir-nos, rasgou sem piedade o coração do 
todos os portuguezes l Commemorar passadas glorias ou de- 
plorar o irremediável mal que nos aílligia, era um proble- 
ma de fácil resolução para nós que tínhamos admirado em 
cada dia de reinado do nosso moço e muito amado rei, as 
virtuQsissiroas qualidades que o tornaram em vida tão cre- 
dor do nosso amor, como na morte das nossas lagrimas e da 
nossa saudade. O golpe foi profundo, e sobre os recentes 
crepes que nos enluctavam, nào podiam transparecer alegrias 
que o nosso coração de ferido não sentia. 

A peça passou então do theatro para a imprensa como 
simples edcspreiencioso preito de homenagem a todos aquel- 
les esforçados ânimos que levantaram a nossa bandeira, e 
firmaram essadynastia cujo era herdeiro o rei que choráva- 
mos; o amigo, o pae que perdiamos, e que descia na terra 
coberto de bebçãos, ao lado do qu'j ha duzentos c vinte e 
dois annos fora o estandarte da nossa independência, como 
elie o foi ou quizera ser do nosso verdadeiro systema liberal. 

A peça limita-se na singeleza popular, na boa fé e pru- 
dente caracter dos dois principacs populares que coadjuva- 
ram a revolução — não vae mais longe. Depois da famosa com- 
posição — D. Filippa de Vilhena, — quem ousaria avançar 
mais? E' despida de apparato, e de pretenção. Desenha os 



dois ódios palpitantes em dois irmãos adoptivos, e oolloca 
entre elles o anjo da liberdade no caracter de uma irmã 
qae a ambos quer e ama do coração, e a um e outro perdoa 
os excessos a que os conduz a terrível luta em que se 
acham empenhados. Tratar de roais alto a questão, fora 
arrojo : excitar ainda os mal extinctos ódios, abusar do 
theatro ; moldei quanto possível a ficção ao quadro histó- 
rico, e escrevi esse pequeno poema patriótico que offereço 
do íntimo do coração ao brioso povo portuguez como prova 
do respeito que me inspiram os seus actos de dedicação á 
pátria, da dór que me retalha quando o vejo sofTrer, e do 
regosijo que me exalta quando o escuto proclamar indómito 
a sua liberdade e a sua independência. 

Lisboa 1 de Dezembro de 1861. 

o Aater 



1 



INTULOCUTIUS 



AlfTOlflO LEMOS 

Pedro 

RUT 

Joio PIMTO IIBEIIO 

O padre nicolau ba maia 

D. ANTIg de ALMADA 

Gaspar rudalo 
Gil penteado 

YlCEMTK gosta 
AVFOIfSO DE AEETEDO 
O Juiz DO POVO 

1.^ Leigo 
i.^ Leigo 
Anna 
Leonor 



O ARCEBISPO DE LISBOA, D. ALTARO BE ABRANCHES, D. QWh 
CALO TELLES, GON7EDERAD0S, NOBBES, PLEBEUS, 8OI.0AMÍ 
O POVO. 



ACTO I 



EM IS DE OUTUBRO 



NEfiOCIO DE COMPADRES. 

(SaU medíocre em casa de António Lemos. À direita nm orató- 
rio. Uma papeleira á esquerda. Uma poltrona. Porta pratica- 
fel, no fundo. Gommuoicação á direita. Janellas á esquerda.) 

SCENA I 

[Ao levantar do panno, Anna e Leonor sentadas ao lado do ora* 
tório, bordando uma bandeira nacional. Ê dia.) 

Anna — Já pouco falta. Pregucmos-lhe o ultimo ca$- 
tello, que fíca prompia. (suspirando) Assim pouco faltasse.. . 

Leonor — Diz-me o coração que nlo hade andar muito 
longe d'este mez de outubro. Pedro revelou-me que no dia 
13, em casa de não sei que íidalgo. . . 

Anna — Cala-le filha, credo t a obpa que fazemos já 
bastante fora para nos perder.. . quanto mais se ouvissem 
as nossas praticas! {olhando para aporta do fundo) 

Leonor — Guarda-nos o bom Deus dos portuguezes.» 
Oh i conlae lú, minho^mãe, o lindo conto que reza da sua 
vinda á tenda d'aquelle rei.. . 

Anna — E lá foi I foi : que o diz a historia que teu pae 
nos fazia o favor de ler ao serão. Bom tempo t.. . que nem 
isso é já bom fazer agora ! 

Leonor — Porque? Que seja o reino todo de D. Fi- 
lippe.. . 

Anna — Nosso senhor, dize, filha! 

Leonor — Isso lá, não, mãe da minha alma. Como o 
diz Pfdro. o meu bom irmão adoptivo, atando o fio á con- 

1 



2 O DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 16iO 

Tersaçao, de porluguezcs rei só Deus ou rei portugucz. Eu cá, 
tenho para mim, que embora seja a terra Ioda de D. Filip- 
pe e seu tudo que fór porluguez, suas não são nem serão 
as glorias do nosso nome ! 

SCENA II 

AS MESMAS, e O padre inigolau da maia, entrando pcloTundo. 

Nicolau — Entra o cão na egrcja porque acha aberta a 
porta... 

Anna (sobresaltada) — Jesus I que' me esqueci de dar 
Yolta á chave! Ah !.. . V. rev,*, padre Nicolau da Maia?.. , 
{aparte) Sc fosse Ruy !. . . 

Nicolau — Que espanto t Não sou eu ainda, se bem que 
indigno servo de Deus e pcior subdilo de Hespanha, e\^'cl- 
lente amigo d'csta casa? {vindo d scená) Bofe, minhas 
filhast ainda aqui ha quem pense em fazer coisas portu- 
guezas ? ! 

(Leonor corre a fechar a porta do fimJo ) 

Anna {muito perturbada, guardando a bandeira no ora- 
iorio) — E' que.. . 

Nicolau — Sim, sim! Vade rclrò Satanaz! De lai não 
vos absolvia eu.. . nem nas minhas horas de mais clomon- 
cia 1 Bandeira portugueza em casa do portuguez t Bom f(>ra 
em outro tempo; não hoje. E* pre.*i-o pr^rder esta mania 
de nacionalidade. . . E que cegamente acreditemos que se 
ainda falíamos a nossa lingua, é só por obra c graça.. . de 
quem nos manda, que não temgraça nenhuma f {em tom có- 
mico) Entiende usted? 

Anna {aparte) — D'este, me não arreceio cu, qucé por- 
tugucz como os que o são I 

Nicolau (a Leonor) — Ora pois, minha santinha, vá- 
me chamar o pao, que com elle quero derramar umâs la- 
grimas que trago de contrabando. 

Anna — Alguma desgraça? 

Nicolau — Qual desgraça, filhai Tonlice minha : mau 
costume de velho, que chora o passado porque vé que não 



o DU 1.' DE DEZEMBRO DE Í6i0 3 

chega ao Oitnro. Sempre que oOutubro nosvae passando ao 
Novembro, e esle nos aproxima do 5 de Dezembro. . . 

Leonor — Ah! E' o dia que meu irmão Pedro lantas 
vezes cila, em que, segundo diz, os portuguezes passaram 
não só de filhos a vassallos, mas de vassallos a escravos. 

Anna — Jesus, lilha !. . . falias láo alto.. . 

Nicolau — Alto de mais, para portugueza, senoriial 
Em portuguez não se falia senão pela surdina. Se usted qui« 
zer fallar alto, aprenda ohespanhol, c venha então para^cá. 
Ande, và-me chamar o pae. 

Anna — O senhor Lemos ainda não entrou ^ mas se 
V. rev.* o quer esperar. . . 

Leonor — Parecc-me que lhe sinto a voz.. . Não me 
engano, (va^ abrir aporta do fundo) 

SCENA III 



os SieS»OS, ANTÓNIO LEMOS O PEDRO. 

• 

Lemos (fallando acalorado com Pedro) — È escusado tei- 
mar: não vos acceito a boa vontade: filha é, sei, do vosso 
excellcDte coração, mas cada qual para o que nasceu. 

Pedro —Para o trabalho nascem todos: e.. . 

Anna — Então que discussões são essas que tão cegos 
TOS traz pela casa dentro? 

Leuos — Desculpae, Anna; Deus te abençoe, filha. Aht... 
O nosso leal e velho amigo. . . 

Nicolau — Velho! Pois ha velhos cm Portugal quando 
ha tanto que fazer? 

Lemos — Sempre alegre, louvado seja Deus. Folgo de 
vos ver! 

Pedro — Deitae-me a vossa benção, meu padrinho. 

Nicolau — Era castelhano ou porlug. ..? 

Pedro — Como queira. Bons súbditos de Hespanha^ já 
não escolliein entre as duas línguas. 

Nicolau — Seja pois n'aquella cm que se deu o pri- 
meiro grito de victoria na batalha do Sallado, si siveraest 
fama!,. . Deus te faça bom portuguez para gloria suat 

Pbdao (a Anna) — Minha mãe !. . 

Anna — Sua mãet ? Sempre cortez ! 



4 O DU 1.' DE DEZEMBRO DE 1640 

Pedro — Não me deixoa a sorte conhecer oulra, nem 
outra quizera ; {apertando a mão de Leonor) nem outra 
irmã. 

Lemos — Senlemo-nos, padre Nicolau da Maia, c res- 
piremos àTontade debaixo d'estes tectos maisleaes. . . {offe^ 
recê a poltrona ao padre Nicolau da Maia^ e senta-se ao 
lado d'elle) Tudo vae de mal a peior ! 

NiGOLAU — Isso é para nós outros^ que lemos a mania 
de já não aprender línguas. 

Pedro — SoíTramos resignados alè á hora da liberdade, 

Nicolau .---^ Sim, senhor 1 Olbae que vos não engasgueis, 
senhor meu 1 Liberdade. . . pois não ; tomae toda que qui- 
zerdes. 

Lbuos — Pobres de d6s1 já de fracos c amedrontajjos 
pouca esperan\;a nutrimos! Tinhamos ainda aforça no com- 
merciol... que é d'elie, agora? O vergonhoso tratado 
com os boilandezes, que nos deixou com clles em guerra 
aberta da linha além, e expostas á sua cubica as nossas 
melhores possessões da America,'eas frotas que dela vêem, 
que de mal cuidadas e defendidas mal lhes sabem resistir. , . 
tudo tem extincCo a força e o prestigio d*esta praça de Lis- 
boa que já foi a primeira no commercio da Europa. Faz 
penal Nem já vassallos somos, senão escravos de quem não 
sabe ser senhor ! 

Nicolau — Nem todas as verdades se dizem, meo 
amigo 1 

Anna — Tende paciência, homem; a misericórdia de 
Deus é infinita. 

Lemos — Diogo Soares lá está 1 Miguel de Yasconcelios 
cá nos ficou ! Em quanto viverem, não contemos com a mi- 
sericórdia divina ! À oppressão tem a cabeça em Madrid, a 
vender-nos ; e os pês em Lisboa, a repizar-nos. À cabeça 
está longe : e os pês.. . bom defendidos 1 

Pedro — Mas o solo que pizam fermenta ! lia ainda 
quem derrame todo o seu sangue, se fôr preciso, para fazer 
brotar a flor da nossa mal curada liberdade! 

Anna — Tremo de vos ouvir l Nunca é bom.. . 

Nicolau — Sim, sim, cautela e caldo degallinha nunca 
fizeram mal a doente ! 

Anna — Mudemos de srssumpto. 

Pedro — Tendes razão. Soffremos este ardor que vem 
d'alma. O dia do desafogo lá está marcado no livro do de&- 



o DIÀ 1.0 DE DEZEMBRO DE 1640 8 

tino. Qacreis pois saber? aproveito a presença do padri- 
nho para o contar : o senhor António Lemos recusa Tormal- 
meote acceitar o meu serviço nos seus armazéns, o não des- 
pede, para que eu os substitua^ os dois vis caixeiros que o 
roubam, fiando a toda a gente! 

Lemos — Pedro. . . 

Nicolau -— Este meu afilhado, nem á mâo de Deus Pa- 
dre é capaz de entender as coisas como em verdade são I 

Pedro — Padrinho, que dizeis 71 

Nicolau — Um dos principaes deveres do bom e leal 
poriQguez, hoje em dia sendo commerciante, é fiar de cara 
alegre. 

Lemos {levantando- se) — Meu bom Pedro, quando vosso 
infeliz pae, ao sair de Évora para o degredo a que foi con- 
demnado pelos seus patrióticos sentimentos, vos entregou 
em meus braços, deu-me um filho ; não um servo. Se vosso 
irmão adoptivo não quer^toadjuvar-me, ma! faz : peior fa- 
ria eu em soffrer que me servísseis. Vosso desgraçado pae, 
foi meu amigo, Deus o tenha amparado lá pelo seu de- 
gredo, e eu pago ao filho a benéfica amizade que devo ao 
pae. 

Pedro — Oh I Deus vos recompense i 

Nicolau (a meia voz a Lemos) — Tenho que vos dizer 
de importância ! 
^ Lemos — Vamos para o meu escriptorío. 

Pedro— Padrinho, reliraes-vos? 

Nicolau — Não, vou conrerenciar com o meu amigo 
Lemos, sobre o modo como havemos de te fazer bom súb- 
dito do teu rei. Ainda estás em boaedade para aprender lín- 
guas, meu rapasola 1 

(António Lemos e o padre Nicolau da Maia saem pela direita.) 

SC ENA IV 



PEDRO, ANNA 6 LEONOR. 

Pedro — Sempre folgasãol Quem dera herdar-lhe o gé- 
nio, e o saber !. . . 

Anna — Triste ficastes, Pedro: que mal vos afiGiige? 
Sabei que a vossa encommenda está concluida. 



6 O DIÂ i.' DÊ DEZEMBRO DE Í6i0 

Pedro — Ohl qoânto vos d^vo, minha boa mãe; c a 
vós também, querida Leonor ! 

Leonor — Para mim é já prazer o cumprir um desejo 
Yosso, Pedro. 

Pedro — Cândida amiga! Oh! se Deus nos ajudar, e 
o sol da liberdade resplandecer em meus tristes dias.. . co- 
mo serei feliz se o vosso coração coroar a minha mais beiia 
esperançai.. . 

Anna — Basta Pedro; não são coisas, essas, detratar 
de leve. £ preciso pensar. . . 

Pedro — Offende*vos, acaso, o amor de um pobre e 
obscuro orphão, que não tem mais fortuna além do sea 
coração ?. . . 

Anna — Por quem sois, íilho meu!... demais, te- 
mos qne vencer o escrúpulo do senhor Lemos, que certo 
hade ser ; pois sendo vós de mais illustre origem. . . 

Pedro — Eu? Filho sou do povo: tenho apenas por 
abrigo esta casa e os vossos corações. Oh ! os vossos corações 
que são o meu thesouro ! Não m*o negueis I 

(Batem de manso na porta do fundo.) 

Anna — Alguém bate. 

Uma voz (AfiTonso de Azevedo) — Uma esmola pelo amor 
de Deus? 

Pedro (aparte) — Aquella voz!.. , 

Leonor — Dae licença, mãe, que favoreça o infeliz. 

Anna -7 Sim, filha, o óbolo da caridade, por mais in- 
significante que seja, é depois uma lagrima do Eterno a un- 
gir-nos a alma. 

/'Leonor abre a porta, e àà esmola a um pobre pescador que 

se )be apresenta.) 

sceNa V 

os MESMOS, e UM PESCADOR (AÍTonso de Azevedo) 

Affonso — Deus vos recompense e favoreça assim co- 
mo favoreceis a desgraça. 



o DIA 1.0 DE DEZEMBRO DE I64Ó 7 

Pedro — E a toz do infeliz qaeme salvoa qaaodo ha 
dias vollava de Almada! {ao pe$cador) José? 

Affosso — O mea nome? Ah 1 senhor mea. . . 

Pedro — A gratidão vive sempre! 

Anna -:- Conheceis aquelle infeliz velho? 

Pedro — Salvou-me a vida. 

Leonor — A vida? 

Anna — Contae. . . 

•pEDao — Voltava de Almada: era mau o barco, peior 
o barqueiro, pcssimo o tempo. O vendaval cresceu e o Ic* 
nho virou-se. 

Leoxor — Ah L. . 

Pedro — Passava então um varino de pescadores ; 
aquelle^ assim como o védes^ velho e tremulo, lançou-se ao 
mar e salvou-mc. 

Leonor — Bcmdilo seja i 

AníNa — Mas nunca nos dissestes.. . 

Pedro — Escusado era, minha boamâe^ affligir-vos en- 
tão. 

Anna (ao pescador) — Bom homem, coutae de ora em 
diante com o auxilio^d'c3la casa. 

Affonso — Não sei que me disse o coração n'aquelle 
trance, que remocei dez annos para me atirar ao mar! Ha 
coisas que ninguém sabe explicar; os meus companheiros 
até se benzeram de admirados. Mas.. . salvei-o! 

Anna — Pobre homem! Tendes- talvez família a sus- 
tentar; e n'essa edade, ainda lutaes com as fúrias do mar 
para lhe arrancar o vosso parco sustento ! 

Affonso — Vivo só, boa alma ; só, só comigo e. . . com 
a fé que Deus me inspira ! Luclo ainda com o mar e arrosto 
com as fúrias da barra; que muito é isso para quem tem 
arrostado com as iras do demónio do Sullf 

Anna — Ahl... silencio, bom homem!.. . 

Pedro — Acreditae que Deus hade emrim compade- 
cer-se ! O mal chega a todas as classes, c todas aspiram 
anciosas pelo dia da remissão. 

Affonso — E a minha mais que nenhuma! Nos cadá- 
veres que ás vezes, não poucas, vêem colhidos pelas áossas 
redes, mil vezes lemos jurado viifgança. Mas a nossa ira ó 
impotente; e nós que nem já no mar, que parece excom- 
mungado, achamos o sustento, somos ainda vexados com o 



8 O DIA f ."^ DE DEZEMBRO DE 1640 

bárbaro imposto, a que nos obrigam, de cada varino que 
sae á minguada pesca I 

Pedro {aparte) — A linguagem d'este homem.. . Oh 1 
não sei que maravilhoso ecco as suas palavras despertam 
em meu coração f 

Anna — Deploráveis tempos! 

Leonor — Bom pescador, em reconhecimento do vosso 
generoso proceder, vinde todos us sabbados, ou mandae, a 
esta porta que se vos não hade abrir em vão. Oh ! não foi 
uma vida que salvastes ; sim duas ! 

Anna — Augmenlo a promessa de minha fíiha : vinde 
sempre que quízerdes: em quaolo houver um pão, n*esta 
casa, uma parte d'elle será vossa. 

Affokso — Caridosas almas ! 

PEDfto — Bom homem, eu, pobre sou; orphão, aqui re- 
colhido por caridade^ nada lenho de meu.. . 

Affonso — Sois orphão, dissestes? < 

Pbdao — Sim: mas a minha gralidãa. . . 

SC ENA YI 



os MESitos, e bUT poIo fundo. 



RuY (entrando precipitado^ e cortando o dialago) — Mal- 
ditos) Âh I bom aulo da fé.. . Sua benção, mãe? 

' Anna — Deus seja comvosco. Desassocegado vindes, 
fiího t 

Pedro — Algum mal vos aconteceu, irmão? 

Buy — Não, irmão! anão ser que me vi involvido com 
a eanalha do pescado que em chusma acudiu grilando, a 
apedrejar as janellas do paço 1 Estava escrevendo no gabi- 
nete do secretario de estado, e por pouco me não acerta na 
cabeça uma pedra t Não me soflTreu o animo que não cor- 
resse acampo, a retribuir a offerta. {Dendo o pescador) Bofe I 
Um dos taes em nossa casa ? ! (crescendo para elle) Em boa 
te mettesle, insolente t 

Peueo {evilandO'lhe a acção) — Irmão, a hospitalidade 
é sagrada ! 

RuY — Quem dá hospitalidade a perros damnados?. . . 
' Anj^ {collocmido-se do lado de Affonso) — De ruins pa- 



o DIÂ i.^ DE DEZEMBRO DE 1640 ' 9 

lavras vindes, filho, e de peiores acções, (a Affonso) Se cor* 
reis perigo em sair, ficae ; senão, ide com Deus, e não es- 
queçaes as nossas promessas. 

ÁFFONSO — Em paz me retiro^ e Deus fique em vossa 
guarda, como o desejo em minlia. 

SCENa VII 



nUY, ANNA, LEONOR e PEDRO. 

BcY (aparte) — Sempre por ellel As minhas opiniões 
sempre rejeitadas em sua presença ! Oh I isto hade acabar i 
{alto) Não sabeis, minha mão, o mal que fazeis em dar gua- 
rida a gehle de similhante laia ! 

Anna — O que, filho; a pobres indigentes? 

RuY — Sabei que já alguém ousou lançar-me em rosto 
que meu velho e honrado pae, até hoje o typo da fidelida* 
de, começava de prestar ouvidos a meia dúzia de amotina- 
dos, sem eira nem beira, qne por ahi andam a sonhar re- 
voltas! Verdade é que m'o nào disseram impunemente; 
mas. . . 

Anna — Sempre meilido em rixas; valha-le Deus, filho t 

Peubo — Mal fazeis em escutar a quem falia sem cri- 
leiio. 

RuY — Deixal-os; que os mal intencionados hãode ir 
todos ao fogo um dia, e os traidores também I 

Pedro — Ainda \fom que o dizeis, irmão. 

RcY — Sim; ao fogo os traidores: os nobres que re- 
cusam levar das espadas contra os catalães, os do povo que 
fogem das llleiras, e seguem o exemplo dos covardes! 

Pedro — Mui pródigo sois de sangue portuguez em uma 
guerra tão alheia aos nossos interesses. 

RuY — Não será porventura de interesse nacional a 
paz da Hcspanha? Que seremos sem rlla? Portugal^ exhan- 
rido e retalhado pelas disbonçõcs dos pretendentes, ódios e 
ambições dos partidários, sem marinha nem exercito, em 
face da Inglaterra que o cubicava, da França que ameaçava 
absorvel-o, vira a liberdade vergar ao peso da sua miséria 
se a nespanha não acudira a protegel-o. Quem fôr ingrato 
á Ilespanha, será traidor á sua pátria ! • - 



10 o DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 16i0 

Pedro — Se a liberdade fallccia sob a cubica dos inimi- 
gos, mais digno fora de porluguezes morrer defendendo-a, 
que entregar cm estranhas mãos um sceplro ha tantos sécu- 
los admirado e respeitado pelo mundo! Que se levantassem, 
hoje, aquelles heroes que, sulcando outrora ignotos mares, 
foram hastear a nossa bandeira na vanguarda da Europa I 
Covardes, diriam elies, covardes os que esmorecem na ad- 
versidade I traidores^ os que vão pela vida ollerecer o colo 
ao jugo estranho^ preferindo viver vexados a morrer glo- 
riosos pela indepetídcncía da pátria t 

RuY — Desconcertado juizo ! Os portuguezes manlive- 
ram-se no seu justo grau de civilisação, reconhecendo a di- 
recta succcssão dos reis de Ilespanha. 

Pedro — O Ibrono que um povo levanta por tropheo 
das suas conquistas e glorias, não passa em herança do 
rei senão ao povo ! Entregue ao estrangeiro viuva a pátria 
fica ; em breve, escrava ; logo, vendida 1 De longe vinha já, 
por execrandas intelligencias, preparada a terrível situação! 
loterrogae os factos: claros são, demais! Fatal estrella pre- 
sidiu ao penúltimo reinado! Dizei quem, nos conselhos da 
coroa, deu por demente ao venerando D. João de Mascare- 
nhas que elevava a autorisada voz, condemnando a infru- 
ctifera, aliás perigosa jornada de Alcacer-Kibír, origem dos 
nossos males? Quem, com aHespanha, tratou do auxilio das 
suas armas, até ao ultimo dia promeitido, e à ultima hora 
recusado? Quem justificava o empenho de um príncipe da 
christandade, pelos torpes designios de um infiel revolu- 
cionário? Quem, finalmente, senão traidores, e os próprios 
que se empenhavam pelo celibato do rei, via rísopho afas- 
tar-se da pátria o rei, o exercito, a flor da nobreza ; dei- 
xando o thcsouro exhausto, desolado e sem defensa o reino, 
entregue em mãos de ambiciosos, esó mantido pela protec- 
ção dos visinhoâ que tão cara nos tem saido 1 ? 

RuY — Tendes discorrido como ignorante que sois de 
negócios de estado: de ora avante, porém, censurando ou 
esquecendo a bulia que sancciohou a empresa de Africa, 
tornaes-vos ímpio I 

Pedro — ímpio, eu, que sinto no amor de Deus o amor 
d'esta terra por elle entregue a AiTonso Uenriques, e soíTro 
no coração as dores que pungem a minha pátria escrava; e 
eubro de vergonha as faces, por não ver desaíTronlada a 
bandeira das cinco sacrosantas chagas ? ! ímpios, os que re- 



o DIA 1.' DE DEZEMBBO DE «640 1| 

negam da gloriosa origem d'estes reinos ; impíos os que ven- 
deram ainda aquellas sagradas fontes de remissão, e com 
eJlas o berço da nossa monarchia, á cubica de um eslran- 
gejro I 

RcY — Gaardae lá o vosso arraioado, e sede por von- 
tade bom súbdito se o não quereis ser por força I 

A>>A — Bnsia, Glhos meus, não mais discorraes. Não 
são negócios, esses, para uma casa onde' ba timidas mulhe- 
res, que não* sabem viver senão de amor e de amizade I 
Yéem? já fizeram chorar minha filha! [abraçando Leonor) 

(Batem na poria do fundo.) 

RuY — Alguém bato. 
Anna — Abri por favor. 

(Ruy abre a porta.) 
SCENA YIII 



os MESMOS, e JOÃO PINTO BIBCIRO. 

RiBEiBO — Deus soja n'esta casa. 

Anka — Ah! V. s.*, senhor doutor?! 

Pedro (aparte) — João Piulo Ribeiro ! de bom presagio 
vem. 

RiBEino — Aqui me traz a amizade. Ha bastante tempo 
que não abraçava o compadre Lemos. 

Anna — Grande honra nos faz v. s.*l Corro a preve- 
nir meu marido, {baixo a Leonor) Vem, minha filha. 

(Anna e Leonor saem pela direita.) 
SCENA IX. 

PEDHO, RUY O JOÃO PINTO ElBEIRO. 

Ruy — A sua benção, padrinho. Sirva-se v. s.' de se 
sentar. 



li o DIA l.^ BE DEZEMBRO DE 16i0 

RiBEiBO — Deus vos faça um santo, meu afilhado. 

Pedro — Tenho a honra de corlejar a v. s.' 

Ribeiro — Folgo de vos ver, senhor Pedro, (a Ruy) 
Trago-vos ura presente, afilhado. 

RcY — Oh! meu padrinho I... 

Ribeiro — Um verdadeiro presente de bom padrinho : 
um emprego lucrativo, cin? 

Ruy — Será possivel?! 

Ribeiro — Isso de escrever no gabinete do secretario 
de estado^ triste oíBcio de scrtba, pouca estabilidade tem ! 

Ruy — Mas é de confiança! 

Ribeiro — Sei, sei ; ali não põe pé senão gente de con- 
fiança, de muita confiança, e vós sois discreto! mas. . . que 
me direis. . . de um logar de fiscal da alfandega. . . ahi para 
uma boa terra, ein? 

RoY — Sair de Lisboa?! 

Ribeiro — Grande coisa! Se o não quereis, franqueza ! 
Tenho o despacho em casa, basta pôr-lhe o nome do despa- 
chado; e ali está vosso irmão adoptivo.. . 

Ruy — Ainda vos não disse que rejeitava! 

Ribeiro — Bem mal faríeis. 

Ruy (aparte) — Se rejeito, faço um beneficio a Pedrx)! 
É preciso acceitar : se não me coíivter, voltarei 1 (alto) Ah ! 
meu bom padrinho. . . 

Ribeiro — Acceitaes ? 

Ruy — Do coração! 

Ribeiro — Ide pois a minha casa buscar o despacho, 
que lá vol-o hãode entregar, e ide logo com esta carta à 
repartição do sello para se vos lançar o imposto, e' em se- 
guida á alfandega para se lhe dar entrada. 

Ruy — Mas. . . não dissestes que o nome do despachado 
estava em branco?* 

Ribeiro — Foi para vos assustar. Eu bem sabia que 
não me farieis a ingratidão de rejeitar Ide com Deus. 

Ruy {aparte) — Veremos se convém! {alto) Beijo-vos 
as mãos, meu padrinho, {sae) 

SCENA X 

« joào pinto ribeiro e pedro. 
Ribeiro — Comprehendeis, senhor Pedro? 



o DIA 1.0 DE DEZEJMBBO DE 1640 13 

Pedbo — Afaslaes. como bom padrinho, ao vosso aA- 
Ihado, do log^r do perigo. 

RwEiRO — Para vós, outro empenho; de menor lucro, 
porém de mais honra 1 

Pedro — Fallae. 

RiBEiBO {letaniando-se e chegando-se a Pedro) — Já duas 
vezes fai a Vilia Vi|;osa, e receio que a minha terceira jor- 
nada desperte alguma suspeita ! Ireis em meu logar, levando 
cartas. . . 

Pedro — Ah I senhor, tanta honra ! 

Ribeiro — Bem mcrcciila 1 Partireis amanhã. 

Pedro — Partirei! Empenho a minha vida pelo feliz 
cxito da patriótica empresa. Sou porluguez, senhor: livre 
e independente, ou morto ! 

Ribeiro — Deroíco mancebo^ sois um exemplo! 

Pedro — Evemplo tomo eu de vós, senhor! Verdadeiro 
lypo d;: portuguez acalma e de sangue ! 

SCEN\ XI 

os MCSUOS, ANTÓNIO LEUOS 6 O padrc MCOLAU DA MAIA. 

Leuos — iiis-me, senhor doutor. E' honra o ver-vos 
n'esta vossa casa. 

RiBEiao — Venho ahraçar-vos, e tratar de um negocio 
de compadres. Ah t e bem o digo eu! Eis outro compadre 
vosso, e meu presado amigo, {aperta a mão ao padre Nico* 
lau da Maia) 

Nicolau — Também vim tratar de um negocio. Hoje^ 
em dia, quem d'elles qnizer utilisar, bade Iratal-os entre 
compadres ! 

Lemos {ao desembargador) — E' segredo? 

Ribeiro — Não para nó» quatro, que nos liga a mesma 
dór DO abraço do infortúnio! que somos bons e leaes por- 
tuguezes I que derramamos amargos prantos sobre a nossa 
terra usurpada! Em nome da pátria venho, António Lemos. 
£' preciso salval-a : a occasião aproximasse. A nobreza, 
aterrada com o tributo de sangue que exige a alheia guerra 
da Catalunha, leva emfím das espadas para manter-se, e 
arvora por estandarte o Auque de Bragança. 



14 O DIA 1.» DE DEZEMBRO DE 1G!0 

Lemos — Bem hajam clles c sua alteza I Ah! que se 
.um dia vejo aioda a coroa de Porlugal em Tronle porlu- 
gueza.. . 

Nicolau — Heis de ver. A milra fcz-sc par^ quem falia 
ialim. 

Ribeiro — O monlciro-mór, D. Francisco de Mello, c 
seu irmão D. Jorge, mcslre do campo; D. Pedro de Men- 
donça, vários fidalgos mais, e eu, ha dias, asscniámos, nos 
jardins de D. Antão de Almada, liberlar Porlugal. 

Lemos — Sem forças.. . 

Ribeiro — Por quarenta fidalgos, com o pessoal de suas 
casas, respondemos nós. Não basta, porém. Preciso é ainda 
contar sobre o animo dos populares. Vós, e o vosso socio 
Corrêa, os mais abastados e considerados do commcrcio, 
que tcem exercido com honra e equidade os principaes car- 
gos do município, lanta confiança merecem do povo, qiic 
basta o vosso exemplo para lhe reslitnir o amortecido 
animo! 

Lemos — E' honra ouvir-vos, senhor 1 Bom quizcra 
d'alma corresponder, mas.. . cgual observação já fiz ao meu 
bom compadre Nicolau da Maia, tão rápido plano, terá por- 
ventura bom resultado? 

Nicolau — E' caldo a ferver : hade escaldar por força ! 

Pedro — Senhor Lemos, Deus foi sempre pelos porlu- 
gaezesl Cada pedra das nossas serras contém uma tradi- 
ção da sua gloriosa e divina protecção! 

Ribeiro — Julguei que em mais conta houvésseis a mi- 
nha razão. Lemos : mas reparae no povo que soíTrc ha tan- 
tos annos o despotismo, crescendo-lhe de ahno a anno o ódio 
contfá o oppressor ! Não tereis acaso confiança n'este inve- 
terado odío, legado de pães a filhos; combustão terrível 
cm que assenta a base do doniinio estrangeiro, fácil em re- 
bentar, certa em destruir? 

Nicolau — Eia! Quem nunca arriscou, nem perdeu nem 
ganhou ! 

Lemos — Porém... quando um homem vô comsigo 
uma família, e uma innocente filha; c pensa na fatali- 
dade.. . 

Pedro (aparte) — Oh I Leonor. . .• 

Lemos — Animo, demais tivera!... Seduz-me, crede, 
o vosso exemplo; porém n' estas coisas politicas, quando 
falha a victoria, os mais pizados são os pequenos ! O meu 



o DIA l.^ DE DEZEMBRO DE 16iO 18 

sangue?.. . dal-o-hia todo! mas as duas vidas qocelle laro- 
bem anima !.. . 

SCENA XII 



os MESMOS, ANNA C LEONOR. 

AisNA (Jendo entrado um momento antes, com afilha pela 
mão) — Eil-as que vecm oíTerccer-se lambem pela liberdade 
da sua palrja ! 

Lemos — Minha querida mulher! 

Nicolau — Tomo por Deus em conta o sacrifício, feilo 
a csla lerra que 6 sua! 

Peduo — Leonor !.. . 

Anna — Tudo sabemos. Eu c vos-^a fílha somos porlu- 
guezas, e as mulheres porluguezas, n'cslas occasiõos, n^o 
teem lagrimas com que desvícin ou acovardem o animo de 
seus irmãos, fíllios ou maridos, {tirando do oratório a ban- 
deira) Eis um exemplo! Esta bandeira bordada por mim o 
por minha íilhn, perante a imagem do divino Hedemplor, 
tem em caJa ponlo uma oração nossa pela restauração dd 
Porlugal ! 

Lemos {bdjando a' bandeira) — Oh! a bandeira da mi- 
nha pátria! sim, outra vez hade tremular rainha nos ma- 
res, sobre as trotas do nosso commercio! Anna, minha que- 
rida mulher, bem hajas, que me fortaleces o animo; e lu> 
filha da minha alma ! Ali ! ambas em meus braços! 

RiBcino {baixo ao padre Nicolan) — Tudo corre ás mil 
maravilhas! 

iNicoLAU — Sc 6 nejrocio de compadres!.. , 

Pedbo — Como serei feliz, se, à sombra d'este estan- 
darte vencedor, vir rcalisada a minha melhor esperança I 
S^uma palavra vossa, senhor Lemos, legitimar as pro- 
messas que cm silencio se tem feito entre mim e Leo- 
nor !. . . 

. NicoiAU — Logo vi que o maganão de cupido não dei- 
xava de vir á festa ! 

Lemos — Pedro, será possível ? !. . . 

Leonor — Meu querido pacl.. . 

RiBEino — Prudência; guarde-se esta bandeira, que 
cedo é para figurar. O dia cslà certo : (a Pedro) : ecada he- 



16 O DI\ 1.*» DE DEZEMBRO DE ICíO 

roe da liberdade hade achar, na côroa da sua gloria, a co- 
roa do seu amor. 

Nicolau — Que ludo se hade accommodar : os compa- 
dres hãede chegar alé lá, se Deus quizcrl 

Lkmos {apertando as mãos do desembargador e do padre 
Nicolau da Maia) — Eslá diio. Eulro na prodigiosa confe- 
deração. Vou immedialamenle convocar os principaes do 
povo; econlo para esse fim com o auxilio do meu sócio Cor- 
rêa. A minha casa foi talhada de feição para offerecer se- 
guro abrigo aos conjurados. . . 

Xnnj^ — Os armazéns conliguos, não ha outros melho- 
res, lêem uma escada com alçapão que dá para o primeiro 
andar, e que não é conhecida de Ruy. 

Ribeiro — Estamos pois de perfeito accordo 1 A vossa 
mão, Lemos; pela liberdade c independência de Portugal! 

Nicolau — Animo e f é ! 

Ribeiro — E agora, Pedro, ao vosso encargo.* 

Pedro — Partamos. 

Leonor — Partis? 

Pedro — Querida, se o dever.. . 

Leonor — Oh! {com enthuuasmo repentino) S\m, o de- 
ver primeiro I Ide, Pedro, ide; as rainhas orações hàode 
acompanhar-vos por toda a parte! 

(O desembargador e o padre Nicolau da Maia despedem-se de 

Lemos e saem pelo fundo.) 



SCENÂ XIII 



ANTÓNIO LíMOS, PEDRO, ANNA O LEONOR. 

Lemos — A pátria acordará, emfim, do pesadelo da es- 
cravidão! Dormiu um somno de ires reinados; acordará 
despojada e afilícla ; mas vigorosa ainda para sustentar-se 
em face da Europa 1 Oxalá que os vindouros saibam raan- 
tel-a com honra no logar*que vamos dar-lhe. 

Pedro-— Tão degj^nerados virão elles que desprezem os 
interesses d'este paiz, que, a risco do nosso sangue, vamos 
deixar-lhcs Independente? Oh! nãol A historia da nossa 
oppressão servir-lhes-ha de exemplo ! 



o Dl A 1.0 DE DEZEMBRO DE 1610 17 

• 

Lbmos — O ceo vos es culc. Denos pois começo á obra. 
Yamos a casa de Corroa. 

Pedro — Acompanho-vos, senhor: voa nas pisadas do 
doutor. Parto amanhã para Villa Viçosa. 

' Lemos {prompto para òair^ hesitando) — Deus seja com- 
nosco ! (a Atina) Digna mulher, vamos aar um passo bem 
temerário 1 De ora em diante, quando nos separarmos, nio 
sabemos se bade ser para sempre 1 

Anna — Yerga-lc o animo, Lemos, por amor de mim! 
Não penses em mim, senão na pátria e no dever que te 
chamam. 

Lemos — Vamos: é dever acudir! {abraça Anna e Leo- 
mor — a Pedro) Partamo?. 

(Saem pelo fundo.) 
SCENA XIY 

ANiNA, LEONOR, depOÍS RUY. 

Anna — Já me suffocava o pranto I O animo das mu** 
Iberes, vês, Leonor? é assim ! ^ 

Leonor — latinha mãe! (aparte) Ou6 mal posso eu con- 
solar sua afflicçao ! ' 

Anna — É na verdade um passo bem temerário I E fui 
eu que o impedi. . . Ah ! o meu bom Senhor Jesus dos Attri- 
bulados seja comnosco ! 

RuY {entrando, aparte) — Lá ia clie ao lado de meu 
pae ! (alto) Deus seja comvosco, minha mãe. 

Anna «-Bem vindo sejas, iilho. 

RuY — Quizera Tallar-vos, minha mãe.. . 

Anna — ^^Recusei jà ouvir-te, alguma vez, 6lho? 

Rdy — É que. . . 

Leonor — Sou de mais; descançae, irmão; vou relirar- 
roe. Já lá vae o tempo em que bem d'alma ereis meu ir- 
mão.. . e tanto que não guardáveis de mim segredos; até 
me procuráveis para depositaria d'çlles. 

RuY — O tempo mudou-vos, Leonor! Procurava-vos, 

verdade é, tanto na hora da afilicção como no momento da 

alegria, por que certo achava sempre em vosso coração o 

meu logar. Iloje porém.. . 

2 



18 O DIA 4.« DE DEZEMBRO DE 1640 

Lkonob — Irmão. . . 

Buy — Desculpae-me, irmã. Eram palavras aquellas, 
que andavam já fora do coração, apenas retidas' pelos lábios^ 
esperando a occasião. . . Se a occasião chegou, nâo a procu- 
rei eu l 

Anna — Mas esquecei-a ambos, por amor de vossa mãel 
Acaso o dever que a nalureza impõe vos não funde os co- 
rações no mesmo amor? 

Leonor — Minha mãe! Eu vos deixo, Ray. {sae pela 
direita) 

SCENA XV 



ANNA e HUY. 

BuT — Minha mãe; a minha lealdade, a lealdade de 
meu pac, lornam-sc suspeitas. 

Anna — Que dizes, filho? 

Bdt — Equivocas palavras se me teem dito a esse res- 
peito 1 Sabem que tenho alguma protecção do secretario de 
estado, e motejam-na de immerecida ! 

Anna — Inveja 1 

Buy — Fôra-o embora ; o coração ficou-me ferido. In- 
terrogo os factos, e os factos bem longe estão de m'o cu- 
rar. Infelizmente os terríveis exemplos que o governo offc- 
rçceu ao povo, castigando os insurgentes de Évora, segundo 
dizem, já esqueceram. Ha espíritos filhos do mal, que teem 
de o trazer, por missão, ao centro das familias que os abri- 
gam ! Deus nos livre d^elles : mas.. . certo é que muitos o 
grandes males prevejo que nos ameaçam j 

Anna — Oh! Deus te não escute, filho! 
•* RuY — Sabe-se que abrigamos o filho do cabeça de mo- 
tim do deplorável acontecimento de Évora ! Por meu irmão 
m'o destes, minha mãe, ao men lado no meu berço; porém 
meu irmão não è, nem digno de meu pae, quem tão des- 
lea^lse mostra no cumprimento de seus deveres I 

Anna — Ruy: quando teu pae voltou de Évora, entre- 
gou-me em deposito o filho do seu desgraçado amigo. Or- 
phâo de mãe, e por assim dizer de pae, que melhor recom- 
mendação trouxera o infeliz para a nossa caridade ? E' pre- 
ciso que respeites a sua desgraça I 



• — - T 
I 



O DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 1640 19 

Rgy — Rcspcital-a, quando o ingrato, esquecendo tan- 
tos benefícios, abusa ih ami/ade de meu pae, da vossa con- 
fiança, c laiiça sobre minha irmã vistas censuráveis?! 

Anna — Roy ! 

RuY — Perdão, minha mãe, perdão. Era preciso dizer- 
vol-o. Um irmão também tem ciúmes. . 

Anna — Pedro ama sobre tudo a honra; quem tanto 
preza a honra não premedita a deshonra alheia! 

RuY — Pedro é, antes de tudo, de origem nobre. Os 
preconceitos de raça refervem-lhe no coração opprimidol 
Demais, tem por legado a vingança e por dever o ódio a 
el-roi ! E o seu espirito pertence ás tristes locubrações de 
quem tem que lutar entre aquelles dois terríveis sentimen- 
tos. Sabeis, minha mãe, que são complíces do criminoso 
as pessoas que lhe prestarem guarida? 

Anna — Oh I não quero ouvir-te mais ! 

RuY — A minha maior prova de amizade, miuha mãe, 
é este aviso que, por nosso mal, desprezaes! 

Anna -= Prova de amizade, dizeis? tal não é. Outra 
quizera mais verdadeira: respeito e amor ao infeliz que pro- 
tegemos ; honra ás nossas afTciçOes; submissão á vontade de 
teus pães. Assim fóras melhor filho, e mais eu te amara, 
Ruy! 

RuY — Meu pae estima-o, escuta-o, peni^a pelo molde 
das suas idéas. . . e Pedro compromelte-o ! Quem sabe se 
meu pae, por elle incitado a commetter qualquer impru- 
dência, como o de proteger algum mysterioso commettimcnto 
contra a tranquíllidade do estado.. . 

Anna (aparte) — Ah ! 

RuY (aparte) — Estremeceu !. . . (alto) Quem sabe se a 
mão do traidor virá ainda a lançar o lucto da viuvez sobre 
a santa mulher que lhe tem sido carinhosa mãe ! 

Anna — Oh ! cala-le pelo amor de Deus! 

RuY — Umão, pugno pela felicidade de minha irmã, 
ameaçada por um amor íilusorio^ Filho, accuso o impru- 
dente que se abalança a compromelter a tranquillidade de 
meus pães. Minha muc, é preciso afastal-o para sempre de 
nossa casa. 

Anna (aparte) — O ciúme de filho scintilla na sut 
expressão ! Tentemos moderal-o. (alio) Ruy, tu és meu filho, 
Deus te deu ao meu seio ; meu iilho é elle também! Tam- 
bém Deus m*o deu, pobre e desvalido, ao meu coração. 



20 O DIA l." DE DEZEMBRO DE 1610 

Creei-0 a leu lado ; ambos, em meus braços, beijei eom o 
mesmo beijo, junlei na mesma oração, e abençoei com a 
mesma benção*. O amor de uma mãe não se reparte : é um 
principio indivisível que a liga cora seus filhos ; por rsso o 
irmão que oGTende a seu irmão, ofiende a sua mãe ! Mere- 
ço-le eu alguma ofTensa, fílho? 

RuY — Não, minha mãe; mas quando se trata da se- 
gurança e felicidade das pessoas a quem mais amo, não ad- 
mitto reflexões; nada me tolhe o passo. Pedro iíade sair 
d'esta casa ! 

Anna — Ruy, faltas ao respeito a tua mãe? ! 

RuY — Ponho em vossas mãos a vida de Pedro. 

Anna — A vida de Pedro?!.. . 

RuY — Tenho ainda de cumprir outro dever: ode bom 
súbdito e leal cidadão. Pedro incita contra o socego publico 
algumas classes do povo. Vou denunciaUo. 

Anna — Ruy, Ruy. . . mal pensara eu no tormento que 
me dás? Oh ! não lances a discórdia em nossa casa 1 Abra- 
ço-tc, amiga, e esqueço tudo que ahi tens dito. Não foi 4neu 
filho que falíou : senão as suas crenças politicas que des- 
abafaram contra quem elle suppOe seu inimigo! 

Ruy — A crença é o homem l 

Anna — Mas o homem é o fílho, que tem mais santos 
deveres a cumprir. Oh! não te basta a minha supplíca?.. . 

(N'este momento, António Leifios apparece pela porta do fundo 

e detem-se» escutando.) 

SCENA XVI 

os. MESMOS, ANTÓNIO LEMOS, depoís LEONOR, pola direita. 

Ruy (interrompendo a ultima falia de Anna) — Não, mi- 
nha mãe! Escusado èsupplicar. Falla-vos uma crença, uma 
convicção intima 1 Se não afastaes d'esta casa a Pedro, cum- 
prirei amanhã o meu dever: irei denuncial-o por traidor; 
e vós bem tendes ouvido dizer que a clemência da duqueza 
de Mantua cede á instancia de Miguel de Vasconcellosl.. . 

Anna — Ah ! 

Leonob (correndo a Anna) — Um grito ?! Ah ! que ten- 
des, minha querida mãe?. . . 



o DIA 1.0 DE DEZEMBRO DE 1640 21 

Lemos (a Buy) — Yae e não Toltes ! 

RuY — Meu paet T. . . 

Lemos — A poria de uni bom e leal portugaez ouuca 
mais se abrirá para dar abrigo a um vil denunciaute ! 

Bmr (cobrindo o rosto com as mãos) — Áh t . 

Lemos — Yae, a minha maldição te pese por teu cas- 
tigo. 

RuY — Amaldiçoado por amor de Pedro I ?. . . Oh I esta 
maldição aniquilou para sempre todos os diques em que se 
coDliaha o meu ódio ! D'ora áTanle, eu ou elle I 



Cai o jioiiw* 



ACTO II 



26 DE NOVEMBRO. 



YBNGER OU MOKREK. 



(Vaslo armazém, com uma porta no fundo, quasi occulta por uma 
pilha de fardos, que para ali foram removidos, sem ordem» 
como para se fa^er trincheira. A' direita outra porta mais baixa: 
á esquerda outra. Quasi no centro da scena uma escada para o 
pavimento superior. Uma banca á direita. Ao lado da banca um 
candelabro de ferro com uma tocha accesa.} 



SCENA í 

(Ao levantar do panno, AÍTonso, ainda vestido de pescador, e> 

António Lemos. 

Lemos — Porque nào viestes ha mais tempo fazer justiça 
á minha amizade velha?! 

Affonso — Não sabia onde habitáveis, Lemos ; e temia 
comprometler-vos, procura ndo-vos. Foi o acaso que á vossa 
poria me trouxe mendigando, {apertando 4he a mão). Um 
amigo! Oh! Ha porventura palavras que exprimam quanto 
vale um amigo, António Lemos? Um homem de quem nos 
separamos, a quem contiamos o nosso único e mais presado 
thesouro, um filho ainda no berço. . . e que vimos, muitos 
annos depois, encontrar tal qual o deixámos, a entrcgar-nos 
o nosso iilho creado e educado, feliz para nos tornar feli- 
zes, obrigando-nos a esquecer todas as nossas tribulações 
passadas... Oh! nao, não ha palavras que signifiquem o 
verdadeiro apreço de um amigo ! {tornando a aptrtar-lhe a 
mào) 



o DIl l.« DE DEZEMBRO DE 16i0 23 

Lemos — Então, senhor, tão pouco vos devia eu?.. . Es- 
queceis a vossa amizade para vos lembrardes da minha? 

ÂFPONso — Mas. . . onde está elle?. . . Tinheis-me dito 
qne. . . 

Lemos — Que o espero hoje.. . 

Affonso — Hoje!. . Ha dias que parecem séculos 1 É 
maior, este, do que nenhum dos que passei no exilíol E 
não ha ainda dois mezes que o salvei de morrer afogado no 
Tejo ; e cada vez que me recordo d'aquelie impulso què me 
fez saltar á agua, e de como o não entendi, para reconhecer 
o meu Glho t. . . e de como o tornei a ver depois e a fallar- 
lhe sem reconhecer ainda quem elle era. . . nem saber ea 
que tivera entrado em toa casa I. . . (sentando^tê) Oh I An- 
tónio Lemos. . . nunca me falieceram as forças em face do 
perigo nem do infortúnio ; ftliecem-me agora em perspectiva 
da alegria que me espera de abraçar o meu (ilho I E abra- 
çal-o, heroe da liberdade^ pugnando pela restauração da 
nossa pátria, contra os seus emeus assassinos!.. . Edeixei-o 
no berço I 

Lemos — Ha vinte annos ! 

Afponso — Ha vinte annos, sei, aqui os tens nos meus 
cabellos brancos ! Foram vinte annos de exílio, que não sa- 
bes o que è! Quiz Deus que eu tornasse a ver a pátria, a 
lei dos homens, a lei de ferro dos nossos oppressores, quo 
por toda a vida me degredava, quebrou! Achei piedade em 
nm hoilandez^ com ell« me embarquei para o Brazil : con- 
trários ventos nos desviaram; um naufrágio fez o resto; 
salvou-me uma taboa portugueza, eas praias da minha pa« 
tria deram-me abrigo até hoje; mas hoje.. . (levantando^sê 
de repente) Hoje. . . Ah I e como o esquecia eu '. . . Os hon- 
rados pescadores aquém devo aquelle abrigo.. . e que foram 
dos que vieram amotinados apedrejar as janellas do cha' 
morro, estão em poder da justiça ! Por elles, mais depressa, 
vim procurar-vos, António Lemos; é preciso salval-os. 

Leuos — Descançae ; jà vos disse tudo que se tem pas- 
sado. Esperamos hoje novas de Villa Viçosa, e contamos que 
em breve conseguiremos sacudir o jugo dos nossos tyrannos. 

Affonso — Mas se tardar.. . os infelizes vão â forca! 
São dois velhos como eu, Lemos ! 



24 O DIA 1.« DE DEZEMBRO DE 16iO 

SCCNA II 

os MESMOS, LEONOR, desccndo a escada com precipitação. ^ 

Leonor — Meu pa«. . . roeu pae.. . 

Lemos — Devagar, filha... 

Leonor -«Ruy não está em casa, descancae. . . Ah I.. . 
Bcm^folego tenho! 

Lemos — Que succede? 

Leonor — Um aviso.. . 

Lemos — De que? 

Leonor {lançando-se nos braços dê Lemos) — Ah ! meu 
querido pae 1 

, Lemos — Fallae.. . 

Leonor — Chegou Pedro! A salvamento o trouxe a mi- 
nha boa e santa Senhora Madre de Deus, que é minha ma- 
drinha 1 

Affonso — E também d'elie)... e também d*elle!... 
Ah! E' um anjo que me annuncia a sua chegada. . . Deixae 
que vos beije as mãos, estas beneficentes mãos que tantos 
desgraçados bem dizem!.. . 

Leonor {modestamenle) — Bom homem.. . 

Lemos {aparte) — Mal sabe ella quem é este homem a 
quem tanto ha esmolado, {alto) Leonor, volta junto de tua 
mãe. Dissimulae, e sede prudentes.. E' preciso que não 
transpire o segredo da chegada de Pedro. Ruy hade snp- 
pol-o ausente; procurae conserval-o no engano. Ide, minha 
filha. 

Leonor — Ruy está inteiramente mudado; até parece 
ter saudades de Pedro; bastantes vezes pergunta noticias 
d'clle. 

Lemos — Ide, filha.' 

Leonor — Perdão, meu pae.. . Pedro hade entrar pelo 
armazém ? 

Lemos — Ide, ide minha filha. 

Leonor {aparte) — Parece que me foge de alegria^ o 
coração I E não saber a que hora ellc hade chegar. . . (sobe 
a escada e desapparece) 



o DIA f.« DE DEZEMBRO DE Í6i0 25 

SGEN\ III 

LEMOS e APFONSO. 

A?FONSO — Então?. . . 

Lemos — E' preciso prudência. Pedro não conta com o 
milagre que vos tem ainda vivo em Portugal. Convém pre« 
parar-lhe o espirito. . . 

Affonso — Tendes razão! eu mesmo, porém.. . 

Lemos — Tereis animo?.. . 

Affoso — Heide ler 1 Eu lhe fallarei, sem me declarar. 
A felicidade que se demora por Mssa vontade, augmenta. 
Mil vezes heide re<;osijar-me em dizer cmeu Glho está aquí^ 
debaixo dos meus olhos, posso ábraçal-o quando quizer . .i 

Lemos — Convém demorar o momento para evitar dis- 
trahí/-o da sua missão. Sinto passos. . . {e$eutando á portada 
esquerda) Abriu-se a porta, é elle decerto. 

Afponso — Meu lilhol... Vou abragal-o... abraçal-o 
já.. . {tremulo^ detendo António Lemos pelo braço) Espcrae, 
Lemos, esperae ahi, homem! Reconsiderei^ vejo que não terei 
força para me conter! Dei\al-o entrar ; euretiro-n^; subo 
para vossa casa ; e quando julí2;ardes que convém. . . 

Lemos — Julgo melhor deixar passar esta noite, em que 
elle tem de dar conta da sua missão. 

Affoisso — Ainda uma noite I? Seja! Tenho sofTrido 
lanto. .. que alé estranho quando algum momento, deixo 
de soiTreri {com gesto de infantil alegria) Amanhã... Ama« 
nhâ, sim! {abtaçnndo Lemos^ rindo e chorando) Amanhã, 
meu amigo ? {batendo as palmas e subindo a escada) Amanhã t 

SCENA IV 



LEMOS e PEDRO pela esquerda. 

Lemos {logo que Affonso desapparece^ abre a porta da es* 
querda com «ma chave que tira do bolso) -- Ah I vinde, vinde 
meu amigo ! Bem dito seja Deus que vos trouxe a salva- 
mento ! 

Pedro {largando a capa e arrojando o chapeo, precipitasse 
MOS braços de António Lemos) — Eis-me linalmente! Ah! que 



26 O DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 16i0 

de saudades me matavam I.. . mas.. . (olhando pela scenà) 
suppuz que não estáveis aqui só.. . [aparte) Leonor.. . 

Lemos — Verdade è que não estava só. Aqui estava co- 
migo aquelle pobre e velho pescador AíTonso. . . 

Pedho — AíTonso? José, aliás.. . 

Lemos — AfTanso, digo.. . 

Pedbo — Era o nome de meu pae 1 

Lemos — Era, e. . . quem sabe se o é ainda. 

Pedro — Oh 1 Ha vinte annos em Africa, sem novas 
nem mandados. . . 

Lemos — Mas ã conta de Deus, como seu íiel servo, 
que sempre foi, e rígido observador dos seus sagrados man- 
damentos! 

Pedro — Dizeis então que o pescador.. . e porque mo- 
tivo occultava o seu verdadeiro nome de AlTonso, que mais 
estimável m'o tornaria ainda I ? 

Lemos — Interrogal-o-hemos; era elle, como vos dizia, 
que me acompanhava aqui, onde Jhe tenho prestado gua- 
rída, até que as coisas mudem de face, se aprouver a Deus 1 

Pedro — E.. . minha mãe, e. . . minha irmã?..'. 

SCENÀ IV 
os mesmos, anna e leonor descendo a escada. 

Anna — Eil-as, meu filho.. . eil-as comvosco ! 

Pedro {correndo a abraçal-as) — Ah I. . . 

Lemos — Coitadas! não lhes solTreu o animo que não 
yie'ssem I Em paz os deixo. O primeiro abalo está produzido. 
Vamos; demais, não tarda ahi o compadre Ribeiro, (a Pe-^ 
dro) Pedro, ahi deixo a chave na porta, vigiae por cila. É 
provável que algumas pessoas ahi venham para o que sabeis. 
(dá tiolta á chavcy e sobe a escada) 

SCENA..V ■ 

aKnA, PEDRO e LE(KNOR. 

Leonor — Morria pouco a pouco, Pedro, cora saudades 
tuas! 



\ • 



o DIA «o DF. DEZEMBRO DE 4640 S7 



Pboro — E cu? pela primeira vez separado de li.. . 

Anna — E nós era sobresalto. . . 

Leonor — Os perigos da jornada I.. . 

Pedro — Affronlei -os corajoso por amor de vós, Leonor; 
e de vós, minha mãe ! Tenho orgulho agora de pensar em 
todos os do caminho, e da missão, para me apresentar ale- 
gre em vossa presença, tendo já prestado um serviço á nossa 
causa t 

AwNA — Fallou-vos o duque? 

Pedro — Fallou, e tratou-me como a fidalgo. Ah ! se o 
TÍsscis. . . que mageslade transluz no seu rosto sereno e tran* 
quiilo; que altura se revela, de suas virtudes, no modo como 
falia, suave e insinuante !. . . Não consentiu que lhe beijasse 
a mão, como o não pcrmiite a familiar algum da sua casa: e 
o pranto caía>mo, de respeitosa commoção, perante aquel la 
opprimida e generosa magestade 1 Ah ! se a sorte nos fór ad- 
versa. . . morrerei ao menos consolado de ter visto a fronte 
portugueza em que devera assentar a coroa de Portugal ! 

(Balem tres panca^ias na porta da esquerda ) 

, > — Jesus ! 

Leonor ) 

Pedro — Socegae, c gente nossa. Foi esta noite apra- 
sada para uma reunião : os confederados começam de chegar. 

Leonor — E já nos separam ! 

Pedro — ^Por em quanto, Leonor, pertenço mais á causa 
da liberdade da pátria, do que ao doce império da minha 
aspiração! Livre, depois irei oflerec.er risonho pulsos e co- 
ração ás rigorosas cadôas que te aprouver lançar-me ! 

Leonor — Pedro. . . 

Anna — Vt>mo-nos, filha, vamos: a bondade de Deus 
è infinita! Cora Deus íicae, Pedro. 

Leonor {baixo a Pedro) — Em occasiâo voltarei mais 
opportuna. Tenho muilo que te dizer! 

Pedro — Mas, Leouor. . . 

Leonor — Deus te guardará de mim. Deus inc guardará 
de ti. Tenho na idéa um susto, que me atormenta^ pela tua 
segurança. . , 

Anna — Leonor, subamos! 

(Etd quanto Leonon tem este pequeno dialogo com Pedro, AfTonso 
ancio»o e tremulo desce a escada c occulta^se. Repete-se o signak 
na porta da esquerda.) 



28 O DIÍl 1.0 DE DEZEMBRO DE 1640 • 

Leonor — Socega, Pedro; è talvez íllusão.. . tonlice mi- 
nha.. . perdoa! Logo volto. 

(Anna e Leonor sobem a escada.) 



SCENA VI 

i»KDR0 e AFFONSO OCCUltO, depois o. ANTÃO DE ALMADA 6 

padre nigolau da maia. 

Pedro (junto da porta da esquerda) — Em paz vindes? 

D. Antão {de fora) — Para mudarmos de rei. 

Pedro {abrindo a porta e tornando a fechaUa assim que 
entram o$ dois confederados) Que Deus vos escute. 

Nicolau — Com que então não vos tragaram pelo cami- 
nho os lobos? Venha um abraço, afilhado. 

Pedro — Meu padrinho! 

Nicolau — Apreseato-vos ao senhor D. Antão de Al- 
mada, que apressado vem por vos conhecer, Pedro. 

Pedro — Meu senhor 1 

D. Aktâo — Amigo antes, mancebo. Sei que o mais 
ardente enthusiasmo patriótico vos inilamma, e merece, apar 
do nome que herdastes, não menos acrisolado amor de todos 
os que se sacrificam pelo bem da pátria. Mal fora o esque- 
cer-vos na obscuridade em que ficastes ; estender-vos venho 
ji a mão de amigo e protector, {estendendo-lhe a mão) 

Pedro {tocando-lhe apenas) — Senhor \ 

D. Antão — O serviço que vindes de prestar não hade 
ficar sem recompensa. Sois nobre ; aos nobres cumpre aga- 
zalhar-vos. De hoje em diante o meu palácio.. . 

Pedro — Senhor! Fui por meu pae depositado entre o 
poTO, entre o povo cresci e me eduquei, pelo povo traba- 
lho, entre o povo quero achar-mel Chamaes-me nobre? não 
o sou. Meu titulo extinguiu-se ; meu solar foi confiscado, e 
eu esquecido na hora do infortúnio de meu pae! O meuver- 
deiro titulo é o de bom vassallo porluguez ; e a ininha ver- 
dadeira gloria hade ser-me dada só pela minha conscicnda! 
Agradeço-vos tudo que intentásseis fazer por mira, honras 
e grandezas; mas da obscuridade cm quê fiquei não ambi- 
ciono outro esplendor senão o do sol da nossa liberdade ! 



o DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 1640 29 

ÂFFONso (que o tem escutado do seu esconderigo, e aparte) 
— £ resposta de verdadeira altura l 

D. Antão — Notae, senhor, qae para reivindicar vos- 
sos bens. . . 

Pedbo — Quando enlrci na tremenda confederação em 
qae meu senhor padrinho me introduziu, só no bom da pá- 
tria pensei. Bens quízera eu ler para os apostar por eíla. 
Só possuo a vida. Já a arrisquei ; se é preciso voltar a Villa 
Viçosa, mandae. 

D. Antão — E' heróica a vossa resposta! 

Affonso (aparte) — Oh! é meu filho!.. . 

Nicolau — Na vossa cdade, Pedro, em que o maganão 
do fabuloso deus vendado aquece o cérebro dos rapazes, 
olba-se para o futuro sem se lhe ver senão rosas: mas.. . 

Pedro — Se ha entre os confederados algum animo ex- 
citado pela cubica ou pela ambição, que saia de entre nósl 
£' assim que penso. 

NicoiAU — E pensas bem: com quanto, porém, sejam 
dignas de ti as tuas respostas, ofTendem o animo dos que 
por ti se interessam. . . 

Pedro — U^^sculpae-me, senhor D. Anlâo de Almada : 
quiz só demonstrar-vos que me não moveu o animo o in- 
teresse da recompensa, na jornada que fiz; como não careço 
de incentivo para afTronlar novos perigos! 

D. Antão — Mancebo, apressado vim de conheccr- 
\os, satisfeito me sinto. O vosso melhor titulo de nobreza 
existe na lealdade dos vossos sentimentos ! Dae-me a vossa 
mão. 

Affonso (aparte) — Oh! Ali cstá*o meu filhol Deus de 
misericórdia. . . rendamos-le graças, antes de o abraçar ! 

Nicolau — Falhslcs, finalmente, ao homem? 

Pedro — D'elle trago mensagem. 

D. Antão — Comvosco a tendes? 

Pedro — Ainda me nâo saiu de sobre o coração. Penso 
que só a quem me incumbiu de ir por ella a devo entregar ! 

D. Antão — .\s5im é. Esperemos que chegue para to- 
marmos conhecimento do seu conteúdo. 

Nicolau — Entremos, entretanto, n*estequarfo, onde ha 
um^crucilixo alluniiadopelo bom rerultado da nossa empresa. 
{indicando a portji da direita, e cheganáo-se depois a Pedro^ 
a meia voz) Innocenle! Eu pertenço todo a Deus e ás coi- 
sas de Deus ; mas assim como a Deus não se pede senão o 



30 O DIA 4.*» DE DEZEMBRO DE 1640 

bem do próximo, aos grandes da icrra é bom começar 
a pedir sempre pela primeira pessoa : uomiualivo, ego. . . 

ele. 

Pedro — Alraz de lempo, tempo vem. 

(O padre Nicolau da Maia c D. Antão de Almada entraiQ no 

quarto á dir«it») 



SCENA VII 



PEDRO e AFFONSO. 

Pedro {voltando de os acompanhar até d porta, dá com os 
olhos em Affonso) — Oh ! o pescador !. . . 

Afponso {tremulo de mal disfarçada ommoção) — Meu 
filh. . . meu senhor! 

PsDRO — Teu filho, sim, bom homem, "chama-mo leu 
filho ; se me não desle a existência, salvaslc-m'a com verda- 
deiro amor paterno. 

Affonso — Meu filh.. . Oh! alé me parece um sonho. . . 
{mascarando rapidamente a idéa) leUo eu salvo do mar que 
m'o levava. . . 

Pedro — Foi, cm verdade, acção tão arrojada como ca- 
ridosa !'A minha gratidão hadc ser eterna ! 

Affonso — A sua gratidão.. . como se eu não tivesse - 
do próprio commeltimento o premio! Dcsculpae o pobre ve- 
lho... mas tomou*vos tal amizade, o insensato, que veiu 
aqui só por vos abraçar! se concedêsseis.. . 

Pedro — Levo-oem gosto, bom José.. . Ahi é verdade, 
por que motivo me disseste que te chamavas José, c não 
Affonso? 

Affonso {detendo-se) — Ah !. . . é que. . . 

Pedro — Similhante embaraço !.. . 

Affonso (dissimulando) — Que mais vos importa um 
do que outro? Aflbnso ou José.. . 

Pedro ^-.E*s para o meu coração o mesmo; guarda o 
teu segredo; mas deixa que te nomeie Aflonso, que era o 
Dome de meu infeliz pae . . 

Affonso — De vosso pae? 

Pedro — Degredado, ha vinte annos, por toda. a vida 



o DIA 1.0 DB DEZEMBRO DE 1640 31 

em Africa, onde decerto expirou, enTíando-me a sua bea- 
ção! Foigo de empregar o seu nome no homem qac mesal- 
Toa a vicia, expondo a sua. Oh 1 como elle o teria recom- 
pensado t 

Affonso — Decerto! decerto! Um filho em que vemos 
reflectido todo o nosso amor, toda a nossa honradez, todos 
os nossos pensamentos, é o melhor mimo da mão de Deas ! 
Ob ! vosso pae, senhor, ter-vos-ha agora abraçado como eo 
vos abraço 1 [abraçando-o com vehemencia) 

Pedro —A tua amizade desperta-me desconhecida ter- 
nura . . talvez similhanle no lilial amor, que se me exhala 
puro e sanlo da alma commovida, como o perfume da rosa 
que SC abre ao primeiro raio de sol I Oh! é como um sol, 
a tua amizade, que me aquece a alma no crepúsculo da mi- 
nha enlutada existência t 

Affonso — Sim.. . salvei-vos, sois meu filho.. . 

Pedro — Deleila-me a gratidão que te consagro. E' ella 
que me commovc. . . 

Affoííso — Dcixar-me-heis estar sempre junto de vós, 
mcsrao nas horas de perigo : heide scguir-vos em toda a 
parte : e quando algucm vos pergunte quem sou e que que- 
ro, direis qii^ sou a vossa sombra, uma coisa que não se se- 
para de vós, que vos não estorva nem inquieta, que vos se- 
gue e nada mais! Oh! de ora em diante, não mo separo 
mais de vóst 

SC ENA VIII 

os URSMOS, e LEONOR. 

Leonou —Pedro, eslacs só? 

Pedro — Leonor I.. . {rapidamente distrahido por dif-» 
ferente e mais doce commoçãor; a meia voz a Affonso) Occul- 

ta-te ! 

Affonso {aparte) — Permitlis então que fique n'este re- 
cinto, sempre comvosco, que vos siga sempre? 

Pedro — 'Sim: mas occulta-te. 

Affonso {occultando-se) — Louvada seja a infinita mi- 
sericórdia de Deus 1 

Pedro {indo esperar Leonor ao descer da escada) — An* 

ciada vens, querida ! 



32 ^ O DIA l.^ DE DEZEMBRO D£ 16i0 

Leonob-^Pof amor de ti, Pedro! confesso, lala-me o 
sasto ! 

Pedro — Más novas ba? 

Leonor — Não boas! Soube-as, cm segredo, de Ruy. 

Pedro — De Ruy? Pois não partiu elle para o seu novo 
emprego ? 

Leonor — Voltou logo. Oh ! está completamente muda- 
do : se soubesses como de cuidados me cerca. . . 

Pedro — Mas.. . 

Leonor — Nâo ha ainda uma hora que me appareccu 
agoniado, apenas sustendo o pranto.. . por amor de ti ! 

Pedro — De mim!? Pois não me suppõe elle au- 
sente ? 

Leonor — Sabe que chegaste. 
-^ Pedro — E' impossível ! 

Leonor — Reveiou-me que um perigo immincnle amea- 
çava teus dias! Que te procurava a policia. . . Oh ! se sou- 
besses como tenho soíTrido! Tão assustada ando que deliro 
quasi ! Quizera pedir-te que abandonasses as loucas idéas 
que te trazem de involta com aqucllcs homens que prelen* 
dem attentar contra o rei. Que nos imporia o que elles fa- 
zem? nâo seríamos mais felizes vivendo sem receios ao lado 
um do outro, Pedro? 

Pedro — E és lu que me falias, tu, a filha do honrado 
portugucz Anlonio Lemos?! 

Leonor-^ Falia- te a mulher que não tem outra ambi- 
ção senão ser tua, e reputar-sQ feliz da tua felicidade! Ruy 
dísse-me que vão correr em Lisboa rios de sangue.. . e eu 
tremo por ti, Pedro! Oh! abandona tudo, e se fór preciso 
fugir de Lisboa.. . i 

Pedro — Abandonar meus irmãos?!... Leonor, ama- 
rias tu um covarde? 

Leonor — Pedro !. . . 

Pedro — Oh! não solicites o sncrificio da minha honra 
que é a minha única fortuna, Leonor! Descança : infunda- 
dos receios te amedrontam. Tudo está prevenido : não virá 
ninguém interromper-nos. A policia respeila a casa de teu 
pae, os hespanhoes não lhe fazem a justiça de acreditar seus 
patrióticos sentimentos! julgavam compral-o a troco de al- 
gumas distincçOes, e longe estão de suspeitar que debaixo 
d'estas abobadas ruge contra elles o leão popular! 

Leonor — Pedro, junto de ti, nâo me aterram apprc- 



o DIA {.• DE DEZEMBRO DE 4640 33 

htDsOes. . . porém ao deixar-te. • . cilas matam-me de susto. 
BoDlem, sonhei ver-te cercado de perigos.. . lulaodu sem 
Tantagem, e cair desesperado !. . . 

PcDao — Coragem, Leonor. Os sonhos sio cbimcras. 
PoQCo Urda o dia do triumpho: animo até iil^ 

LeotfOB — Escuta i não sentes rumor ? 

PcDRO — De facto. É a hora da reoniio : chegam os con- 
federados, {escutando á parta da e$qfêerda) 

Lborob — Ohl divina M2e dos afflicios! Mas agnella 
poria.. . 

Pbdbo — Abre-se a nm signal ajasiado. Yae para tua 
mãe, Leonor; é tempo de nos separarmos, {conéuzindo-a 
até á escada) 

Lbonoe — Oh I Pedro. . . 

Pbdro {beijando-lke a fnão) — VoT ti e pela pátria, Leo- 
nor, n2o ha senão Teocer ou morrer ! Adeus 1 

Lbonor — Adens ! 

(Pedro torna a beijar-Ihe a mio, Leonor sobe a escada e desap- 

parece.) 

SCENA IX 

PBDBO e AFFONSO OCCOliO : depOÍS OASVAB RUBALO, OIL VBff- 

TBADO, TiGBNTB COSTA, c slguns conjurados. 

Pedro — A santa causa da liberdade está entregue a 
Deus I O nosso melhor escudo é a fé I 

(Batem de fora três pancadas na porta da esquerda, e logo se 

ouve uma vos diíer estas palatras) 

Robalo — Mudamos de rei. 

Pedro {abre aporta^ tornando a fechal-a logo que entram 
os três confederados populares) — Bem vindos sejaes, irmáos. 
Aqui vae decidir-se boje a sorle da noíisa terra. 

RuBALO — Bom será que nos apressemos! 

Penteado -^ O povo começa de arder. Ha grupos e ajun- 
tamentos. . . que bom fdra evitar. 

Costa — Os do pescado teem apparecidu em numero pela 
cidade. As patrulhas redobram i 

3 



34 O DIA l.<» DE DEZEMBRO DE I6J0 

RuBALO — A impaciência exalta-os. 

Penteado — Qualquer demonslraçãa, fora de terapo^^ 
ser-nos-hia fatal ! 

RuBALO — Agora, ou cova ou dente ! 

Costa — Aproveitemos o aoimo em quanto ferve. 

Pedro — Silencio, senhores, alguém desce.. . (aproxi- 
fnando-se da escada) Ah ! é o nosso melhor amigo, o senhor 
doutor Pinto Ribeiro. 

SCENA X 



os MESMOS, lOÃO PINTO RIBEIRO C ANTÓNIO LBMOS. 

Ribeiro (abraçando Pedro) — Ancioso vos esperava f 

Pbdro — Não menos desejava eu a occasião de vos apre-» 
sentar a honrosa messagem de que sou portador l {entregan- 
dO'lhe uma carta) 

RiBKiRO — Ah ! 
, Pedro — O padre Nicolau da Maia e o senhor D. Antão 
de Almada vos esperam n^aquelle quarto. Esles que vêdcs' 
presentes, são os três chefes populares, convocados pelo se* 
shor Lemos. 

Ribeiro — Salve, senhores! Felizes presagios nos ani- 
mam! e è um dos de maior valia, que sendo já este nego- 
cio tratado entre tantos, nem uma palavra soou ainda que 
despertasse nem a mais teve suspeita ! Tudo está preparado : 
e até, por intervenção do rev."* padre Nicolau da Maia, se 
acham reduzidos á nossa causa o juiz do povo, escrivão e 
misteres, e alguns da casa dos vinte e quatro. Não devemos 
perder nem um dia. Aqui fostes convocados para sevos de- 
clarar finalmente o beneplácito do senhor duque de Bragan- 
ça, nosso futuro monarcha, de quem este corajoso mancebo 
acaba de trazer messagem. {apresenta a carta", todos se des- 
cobrem respeitosamente) Segui-me pois, senhores, tomemos 
conhecimento de como sua alteza se digna acceitar a. coroa 
de Portugal. 

(João Pinto Ribeiro, os três chefes populares, António Lemos, os 
conjurados e Pedro sdem pela dirçita.) 



o DIA 1.0 DE DEZEMBRO DE 1640 3S 

SCENA XI 

AFPONso c LEONOR dcsccndo rapidamente a escada. 

Leonor — Pedro?... Pedro? Valha-me Deus I Pe- 
dro? 

Affonso — Similhante afflicçâo ? !. . . 

Leonor — Oh! pelo amor de Deus, dizei, onde está 
Pedro? D'esta yez nâo é illasâo; Ray falloa-me ver- 
dade ! 

Affonso — Mas que succede? failae. 

Leonor — Meu irmão declarou-me qae tudo tinha sido 
descoberto, e que a tropi vinha surprchender ostonfedera- 
dos. Pediu-me que corresse a prevenir Pedro. . . e. . . 

Affonso — E viu por onde descestes ? 

Leonor — Se até me ajudou a abrir o afçapio da escada 
para descer.. . 

Affonso — Oh !. . . insensata ?. . . 

Leonor — Que dizeis?! 

Affonso — Foi uma traição! 

Leonor — Jesus!,, . 

Affonso — Que faremos?. . . Oh! è preciso correr a pre- 
venil-os. (suspendendo-se) Sinto passos!.. . Ah 1. . . O trai- 
dor pagará com a vida! {occulta-se rapidamente próximo da 
escada) 

Leonob — Yalha-mc nossa Senhora!. . . {vendo Ruy que 
desce a escada) Ah ! Ruy. . . 

SCENA XII 

LEONOR, RUT e AFFONSO. 

Ruy — Retira-te, Leonor. Esteiogar é impróprio de ti! 

Leonor — Que vens tu aqui fazer, Ruy? 

RoY — Desiiludir-te e vingar-me! Pedro não te ama, 
Leonor ; o seu coração pertence todo aos terriveis pensa- 
mentos que o dominam e reduzem conlra a segurança does- 
tado! Que venho aqui fazer, perguntas? Vingar-me! A ami- 
zade de meus pães, morta para mim, vive paraelle. Afagos, 



36 O DIA 1.' DE DEZEMBRO DE 1640 

segredos, carinhos, protecção, e bênçãos, tado é seu ; pa- 
rece que é elle n'esta casa o Glho e eu o engeítado ! Oh ! o 
<» meu justificado rancor vac ser satisfeito! {indicando aporta 
da esquerda) Ali estão a esta hora as lanças que vSo vin- 
ga r-me ! 

Affonso (precipitando-se rapidamente ^obre Ruy e apún* 
tandO'lhe ao peito um punhal) Ainda não ! 

Ruy — Ah!.. . 

Leonor — Suspendei. . . 

BuT — Maldito ! que me quereis ? l 

Apfonso — Silencio ! 

Lbonor — Ah! que noite terrivel!..'. Ruy.. . roeu ir- 
mão. < . 

Ruy — Vés, Leonor? Tudo em casa são viboras que 
me ferem I 

Leonor (a Affonso) — Piedade, bom homem, pieda- 
de. . . Oh t pelo asylo que vos lemos prestado, pelas es- 
molas que vos temos dado. . . por tudo que vos merece 
amizade e gratidão, por tudo vos supplico n'este mo- 
mento. . . 

Affonso — E' escusado. Esta mão que o segura, é uma 
garra de pedra que não se dilata para largar a preza! Se 
o vosso amor a Pedro cede pela vida de vosso irmão, o amor 
de um pae não cede senão à força da morte I 

Ruy — Soccorro. . . 

Leonor — Soccorro. . . Soccorro I . . . 



SCENA XIIÍ. 



os MESMOS, PEDAO, ANTÓNIO LEMOS, JOÃO PINTO RIBEIRO, O pa- 
dre NICOLAU DA MAIA, D. ANTÃO DE ALMADA, GIL PENTEADO, 

RUBALO, VICENTE COSTA 6 O resto dos CO D federa d OS. 



D. Antão — Que succede?. . . Quem pede soccorro? 

Os Populares — Traição ! . . . 

Pedro {correndo a salvar Rny) — Affonso! suspende! 

Affonso {abaixando o braço) — Eis o traidor que nos 
denunciou ! 

Lemos — MeuGlho. . . Oh! eterna vergonha dos meus 
cabellos brancos! 



o DU 1.» DE DEZEMBRO DE 1640 37 

RiBKito — Qaemo teria previsto! 

Leonob — Oh! ea nem me atrevo a apresentar-me a 
•eas olhos ; tanto a consciência me punge ! Corramos a es- 
conder a minha dór no seio de minba mie ! ($at) 

D. Antão — Que faremos, então, senhores!? 

Buy — Nada ; que já é tarde ! Encommendae a Deus a 
alma, e preparae-vos a servir de exemplo, como os amotina- 
dos de Évora. 

Lbmos — Traiae de eompor o tosso lato, Ruy. 

Rdt (íi^têrrado) — Ah I men pae I. . . men pae !. . . Quem 
lai me dissera !. . . (aglieío) E já não ha tempo. . . 

(Oovem-se repetidas pancadas na porta da esquerda, que finaP 
mente cede e se desconjancta. A desordem é a ordem da acena* 
só as principaes figuras se conservam com presença de espirito» 
agrapadas á direita da scena.) 



SCENA XIV 

os aisMos, GENTE AaMADA, entrando pela esquerda, àtcnà 

e LBONOB4 descendo a escada. 

AnifÀ — Meu marido. . . meu maridoi. . . Oh! eu quero 
morrer com elle i. . . 

Lemos (rccebendo-a nos braços) — Anna, minha boa mu- 
lher I 

O Chefe dos soldados — Senhores, presos estaes em 
nome de el-rei I 

AFPOfTso — Ah I.. . Ter apenas encontrado meu lilho e 
tornar a perdel-o para sempre!.. . 

Leonob (ajoelhando aos pés de Pedro) -*- Pedro !. . . 

Ruy — Quem me diria que tinha de achar meu vene- 
rando pae debaixo do golpe que descarreguei I ? {ao chefe dos 
soldados) Senhor, jilgumas pessoas ha n'este recinto, que 
não são complicadas no mesmo crime. Meu pae, o honrado 
commerciante António Lemos. . . 

Lemos — Poupa*me á alTronta da tua protecção! 

ArreNSO (aparte) — Que farei? revelar-lhe n'esle mo- 
mento terrível o laço que nos liga, e tornar-lhc peiôr ainda 
09 tormentos da separação?.. . Oh! não, não.. . evitemos* 



38 O DIA l.VDÉ DEZEMBRO DE 1640 

I 

lhe esse instante de alegria que tão enluctadas horas dei- 
xará de esteira na sua existência ! 

Lemos {ae chefe dos soldados) — Senhor, um dos pria- 
cipaes confederados populares, sou eu ! 

Ribeiro — Outro, eu, João Pinto Ribeiro ! 

D. Antão — Outro, eu, D. Antão de Almada, chefe da 
junta dos nobres ! 

Lemos — O processo que nos levar ao patíbulo hade 
ser^ aos olhos da posteridade, o nosso melhor padrão de 
gloria 1 

Rot {lançando-sê aos pés de AtUonio Lemos) — Perdoa e* 
me, meu pael 

Lemos — Imprudente! Arrastou-vos a paixão!.. . - 

RuT — Perdoae-me pelo amor de Deus! 

Lemos (tentando disfarçar a commoção; le«antand0'0) 
— Bastai.. . Sô homenoi^no infortúnio!.. . Ali te Gcam tua 
znãe e tua infeliz irmã sem outro amparo senão o leu braço; 
sem outro abrigo além do teu coração I Deus ensinou-me a 
perdoar ; oxalá que tu mereças o perdão. ' 

RuT — Oh ! minha pobre mãe. . . 

Anna [levantando-se de onde estava ajoelhada, encarando 
Ruy com o olhar incendiado, agarrando-lhe o braço, e repel- 
Ii7id0'0 momentos depois) — Tua mãe, eu? Eu, tua mãe?.: . 
Não ! não és meu (ilho ! {arquejante e apavorada) Rene- 
go-tel Ahl.. . (com estrondosa gargalhada) Agora, sou fe- 
liz i.. . sou muito feliz!.. . Não sei que sombras se me var- 
reram da idéa?!.. . Onde estou? quem sois? que me que- 
reis?.. . 

Lemos (recebendo-a nos braços) — Louca ! 

Ped^o* V i^P^^^^^^^^'^^ ^^ António Lsmos) — Louca I ? 

Leonob — Oh! minha infeliz mãe! 

RuY — Mais aquelle remorso! 

O Chefe dos soldados — Senhores, partamos. 

(Os soldados cercam os confedefados..) 

■ 

Nicolau — Ainda um momento! Soldados, portuguezes 
sois; e as armas que eropunhacs, glorioso legado do vossos 
maiores/ instrumentos das suas arriscadas conquistas, e sem- 
pre bemditas por Deus, vão hoje tornar-se em ignominiosos 



o DIA 1.0 DE DEZEMBRO DE 1040 39 

ferros Das vossas mãos matricidasl {rumor enire oi êoldadoê; 
redobra de energia, continuando) Sim, soldados! não é meia 
dazia de homens que conduzis á cadéa entre vossas lanças 
e espadas: senão a pátria queprostraes para sempre I a pá- 
tria^ que prestes ia alevantar-se gloriosa da sua longa escra- 
vidão, e revindicar em face da Europa os seus direitos usur- 
pados.. . E quem sabe o que será d'clla amanhã para cas- 
tigo do vosso erro? Soldados sois agora» emquanto é reino 
Portugal ; escravos sereis quando a purpura lhe fór arran- 
cada para se lhe deixar apenas o humildo titulo de provín- 
cia ! Eia, soldados, corajosos e invencíveis descendentes dos 
de Ourique, não rejeiteis as bênçãos que Deus vos enviou 
do alio do seu excelso t^rono e que por toda a parte vos 
proclamaram guerreiros da cruz! Ajudae-nos a dar á Euro- 
pa nunca visto exemplo de amor pátrio ! Em nome de Deus 
vos chamo; em nome de Deus vosjncilo aacclamar umjeí 
portuguez 1 

D. AntZo {descobrindo-se e floreando a espada) — Viva 
D. João IV, duque de Bragança t 

Soldados {elevando as armas) — Sim, sim, viva D. João 
IV I Viva a pátria I 



(Os soldados tornam-se immedíalamente familiares dos confede- 
rados qoe os abraçam.) 



Apfonso {ao padre Nicolau da Maia) — Ah! senhor meu« 
que foi um prodigio ! Um verdadeiro milagre operado pela 
vossa intervenção 1 

NiGOiAU — Calae-vos ahi, bom homem; não me façaes 
passar aos vindouros por Thaumaturgo ! 

D. ÂNTÂo — Não menos se esperava' de vós, nobres guer- 
reiros! O nome portuguez nunca por vós deixou de ser glo- 
rificado nas mais difficeis situações da nossa pátria ! Ilonra 
vos seja! Ide, e dizei que nada vistes nem ouvistes, e que 
falsa fora a denuncia, {aos conjurados) Nós, senhores, dis- 
persemo-nos. O duque de Bragança acceila a coroa doestes 
reinos; accrcae-vos.. . {os conjurados o rodeiam) Seja pois 
sabbado que vem, o dia 1.® de Dezembro, destinado para 
tentarmos a restauração da nossa pátria ! £ que Deus nos 
ajude. 



40 O DIA 1.* DE DEZEMBRO DE 1040 

Arpoifso — LouTado seja elle no ceo e na terra I 

(Anna está nos braços de António Lemos. Leonor de joelhos com 
os lábios colUdos sobre oma das soas mãos ; Pedro, em pé^ do 
outro lado, tendo a outra mio de Anna entre as suas. ) 

D. Antão — E gloria aos qne se sacrificam pelo amor 
da pátria I gloria a quem leva da espada para desaggrava 
da sua bandeira I 

Todos — Gloria 1 Gloriai 



Coe o pann&. 



ACTO III 



1.° DE DEZBMBRO. 



lEIORAVBL mkt 



(O tbeatro representa o largo de Santo António da Sé.) 

scEra I. 

(Ao levantar do panno, D. Antão de Almada e Joio Pinto Ribeiro» 
á bocca da «cena. Povo passando e repassando-^ 

D. Antão — Assim, ningaem saspeita ainda?.. . 

Ribeiro -^Ninguém. O poYO, prevenido, percorre dis* 
perso as mas esperando a hora. 

D. Antão — Justo foi que os nossos quarenta confede* 
xados se dividissem em pequenos grupos, pelas immediacGes 
do paço. Os princípaes, dentro de coches, acabo de os reconhe- 
cer, postados em diflerentes pontos, aguardando as nove ho- 
ras para sairem (1) Jorge de Mello, António de Mello e 
Castro e Estevão da Cunha, com a genleque puderem jun- 
tar, devem atacar e deter a guarda castelhana do paço. D. 
Miguel de Almeida hade subir à sala dos tudescos e dar o 
signal, com um tiro de pistola, para que Luiz de Mello e 
João de Saldanha e Sousa ganhem o logar onde se acham 
depositadas as alabardas; em quanto que D. Affonso da 
Menezes, Gaspar de Brito Freire e Marco António de Aieve- 

(1) Os fidalgos metteram-se em coches e foram para difl^ 
rentes pontos esperar as nore horas. 

(Vid. RiStaMraçio tf# Portugal.) 



42 O DIA !.• DE DEZEMBRO DE 1610 

do, impedirão, de espada feita, que os soldados da guarda 
interior corram a tomal-as. 

^iBBiao — Oh t Dão hade ser pequena a alegria em uma 
mudança tão súbita, e extraordinária, em que só quarenta 
fidalgos portugueses e apenas duzentos homens do povo mu- 
dem com um golpe, em menos de meia hora, os destinos da 
sua pátria I 

D. Antão — Deus vos escute, doutor. Vou para o meu 
posto e. . . (e$tendendo-lhe a mão) Até ao primeiro momento 
de liberdade! Vou junlar-me comos filhos da condessa de 
Atouguia ede D. Marianna de Lencastre, que por suas co- 
rajosas mães acabam de ser armados cavalleiros para enlra- 
rem na festa. 

Ribeiro — E o que é para portuguezes, senão verda- 
deira festa, um dia em que Icem de arriscar a vida peia 
gloria da pátria, ou pelo amor das damas? Deus vá na vossa 
guarda, D. Antão. 

(D. Antão rebuça-se na capa e sac.) 

SCENA II 



JOXO PINTO BIBBIRO, GASPAR HUB A Cp O GIL PENTEADO, P0V(9. 

(Rubalo e Penteado ap parecem couTersando, e param a meia 

scena.) 

Ribeiro — Parece impossivel o bom andamento d'esla 
revolução, tantas vezes principiada e outras tantas abafada í 
Só o animo de portuguczes resistia a tantos revezes! Só a 
nossa prudência e perseverançii conseguiriam caminhar pelo 
centro de tantos e tão acérrimos abrolhos! [principia a tocar 
á missa das oito em diversas egrejas\ o povo agita-se em di- 
versas direcções) Eil-os, os porluguezcs, pacificas ovelhas 
correndo ã voz do seu pastor, e comtudo não tarda que os 
vejamos tornados em indómito leão que se lança, de garras 
abertas, sobre aquelles^ que attentam contra a sua vida e li- 
berdade ! 

Rubalo [a Gil Penteado) — Eis ali João Pinto Ribeiro; 
fallemos-lhe? 



o DIA !.<> DE DEZEMBRO DE 1810 13 

Penteado — Mais prudeDie fora esperar que nos visse. 
Quem sabe. . . 

RuBALO — E os teas homens? 

PtíNTEADO — Todos aqoi reunidos espero cerca das nove 
horas. E os teus? 

RuBALO — Também. Dei-lhes o mesmo ponto. O arma- 
zém onde estão as armas é ali. {indicando uma porta) 

Penteado — O deposito das dos meus, è ^colá. {indi" 
cando oUtra porta do lado opposto) 

Bi]BALO — Parece que nos ajustámos! 

Penteado — O que não fizemos por falta de tempo ou 
esquecimento, parece que Deus remediou I 

Ribeiro (que os tem observado) — Âquelles homens. . . 

RuBALo (baixo a Gil Penteado, indicando-lhe o desem^ 
bargador) — Creio que nos desconhece; demos-lhe a se* 
nha. [aproxima-se de Btbeiro^ e tira o chapeo) Mudamos 
de rei ! 

RiBKiRO — Ah ! Vós sois. . . 

PE^TEAD0 — Gaspar Rubalo e Gil Penteado, criados de 

Ribeiro — Bem vindos! Então? 

Rubalo — Justo é ás nove horas, meu senhor. 

Ribeiro — Quanlos homens tendes, entre ambos? 

Penteado — Ao certo duzentos; armados de lanças» pi- 
ques, alabardas c. bacamartes. 

RiBBiHO — Bem: carregareis sobre o Terreiro c lá vos 
será dito o mais que heisdc fazer. Quanto mecos sangue se 
difTundir mais pura nos sairá, na historia, a pagina que vao 
assignalar o dia 1.^ de Dezembro! Deus fique em vossa guar* 
da, Icaes irmãos, (sae) 

Rubalo (a meia t>oz, acotovelando Gil Penteado) — Ouvis* 
tes o que elle nos chamou, ein? Leaes irmãos t 

Pen.i-ado — Praza a Deus que lhe não esqueça, amanhã t 

SCENA III 

GASPAR RUBALO^ GIL PENTEADO, POVO, dopois 1/ e2.* LEIGOS. 

Rubalo — Que lhe esqueça ou não, nada tenho que lho 
pedir, nem por engodo entrei na confederação; senão a sim- 
ples convite de António Lemos. Sou honrem de oíficio : o 



44 O DIA l.« DE DEZEMBRO DE 1040 

meu officío é a minha fortuna, e a minha consciência o meu 
galardão. 

Penteado — Eu« legista sou. Bem pensado, lambem 
não preciso d'elle8. Cá vou com o meu negocio como 
apraz a Deus, e só desejo que me não matem com im- 
postos t 

(Os dois leigos apparecem á direita, e param, como quem quer 

escutar.) 

RuBALO — O poTO, cujo somos filhos, com honra o di- 
go, não quer mais do que o seu pão e a soa liberdade. O 
povo larga o trabalho para se confederar pela salvação da 
pátria, e, salva a pátria, voltará glorioso ao seu interrom- 
pido trabalho, sem outro premio senão a sua gloria. São os 
grandes que lhe aproveitam o esforço, disputando as hon- 
ras, depois ! * 

Penteado — Boa palavra 1 

Robalo — Silencio! Estio acolá aquelles dois piedosos 
frades. . . 

Penteado — São leigos pedintes.. . 

(Dois leigos caminham vagarosamente da direita para a esquerda 
da scena e um d'elles apresenta a alcofa á esmola.) 

RuBALO (rebuçando-se na capa, tirando o chapeo e des^ 
viandú-se) Seja pelo amor de Deus 1 

Penteado (tdf m) -^ Perdoae pelo amor de Deusl 

1.* Leiqo — Ouvistes o que elles diziam? 

2." Leigo — Eu, não; e vós? 

1.° Leigo — Nem palavra: mas parcce-me que anda 
isto hoje mais mexido dOsque nos outros dias ! que será ? 

2.® Leigo — Eu sei lá, irmão 1 Talvez novos tributos! 
por isso a esmola escacôa I 

1.* Leigo — Vamos contar ao padre thesoureiro, que o 
vae logo pregar ao abbade. {saem) 



o DIA 1.* DE DEZEMBRO DE 16i0 45 

SCENA lY 

ANTÓNIO LEMOS 6 PKDIO ! depois AFf 0N80. 

Pbdbo — Também acabo de commungar na famosa egreja 
de Nossa Seohora do Carmo. E vós? 

Lemos — Vou â sè. Ohl bem afflíclo. sinto o cora- 
ção, não sei se entre a confissão de esta madragada até 
agora. . . 

Pbdbo — Socegai, senhor António Lemos; o vosso^sof- 
frimento, e a resignação com que o recebeis, tem*vos de 
certo purificado mais I 

Lemos — Minha pobre mulher ! Quando permíttirá Deus 
que a razão lhe volte? Yer-me e não me reconhecer >.. . 
Ser obrigado a fugir-lhe para evitar-lhe os accessos de fu- 
ror t. . . Deus se compadeça d'ella e de mim t Eia, prepare* 
mo-nos para o mumento decisivo. Oxalá que eu lá encon- 
trasse na morte gloriosa o descanço eterno t 

Peí}ro (abraçando-o) — Ohl não... não! Risonhos dias 
antevejo ainda para a nossa familia. 

Lemos — Deus vos escute t 

Pedro — Ide, aqui vos espero de volta. 

Lemos — Não, acompanhae-roe. Receio também perder- 
Tos ! Não tenho confiança em Ruy : Ruy é traiçoeiro eodeia- 
vos t 

Apfonso [entrando um momento antes e ouvindo esta falia 
de António Lemos) — Entre elle e a viclima, está sempre o 
ipeu braço 1 

Pbdbo — Affonso? !. . . Òh t como te aventuras a appa- 
recer na rua ? esqueces que te perseguem ? 

Affonso — Tudo sou capaz de esquecer pela amizade 
que vos lenho ! 

PEORo-7Commove-me a tua generosa amizade; porém 
Dão quero que te arrisques mais por mim. {a António Lemos) 
Vamos á sé, senhor Lenlos? 

LBMds — Vamos. 

(António Lemos e Pedro saem pela esquerda.) 



46 O DIA i,^ DE DKZBMBRO DE Í6i0 

SCENA V 

AF^ONSO SÓ, depois ANNA C LEONOR. 

Affonso — Ver muilo tempo o nosso ihesouro anles de 
lhe locar, antes de o abraçar antes de lhe dizer : tu és meu, 
e ea sou teul.. • Eis o prazer que tenho gozado em silen- 
cio; eis o sacrííicio que lenho supporlado ale agora !.. . não 
sei: prazer ou sacrfiicio.. . não sei. Só Deus entende o co- 
ração de um pae! Masquanlo me considero venturoso, com- 
parando-me a esse infeliz que viu seu filho degredar-se na 
mais infame traição; emquanto que eu vejo o meu nobilí- 
tar-se pela mais elevada das virtudes civis, pelo amor da 
palria ! 

(Anna, delida por Leonor, que nunca a desampara, ouve as ul- 
timas palavras de AíTonso, e corce a elle.] 

Anna — Quem falia ahi em amor da palria?! 

Affonso — Ah !. . . Boa senhora. . . 

Leonor — Minha querida mãe, onde quereis ir, para 
que saistes de casa? Voltemos. 

Anna — Perdi-o para sempre! 

Affonso — Socegae, senhora ; não ha mal sem remédio 
perante a misericórdia de Deus ! Em mim vôJes um exem- 
plo da sua divina equidade! 

Anna — Filha, estás vestida delucto pelo teu pae? Va- 
mos rezar por sua alma em uma egreja. 

Leonor — Quereis ir? 

Anna — Eu? Não ! não posso levar perante Deus o meu 
espirito damnado I Oh! padeço muilo, filha! 

Leonor — Enlão voltemos para casa.. . 

Anna — Não! Teu pae está preso.. . 

Leonor — Silencio, querida mãe.. . não falteis ao me- 
nos Ião alto.. . 

Anna — Sim, por amor d*elle, que o querem levar ao 
cadafalso hoje ! 

Leonor — Valha-me Nossa Senhora 1 Minha mãe cada 
vez eslá peior ! 

Anna {gritando) — Ahl para traz! para traz! deixem- 
me correr a abraçal-o I (repellindo Affonso) Não és tu I 



o DIA l,^ DE DEZEMBRO DE 1610 47 

SCENA VI 

os MEsuos, AUY, e algoos uoMEifs DO Poro que o seguem. 

RcY — A hora aproxima-se, meus valentes. D'aqui para 
cima não deixeis passar estrangeiro algum I 

Leonor (aparte) — Jesus! É a voz de nuyl 

Affonso — Ruy?! 

RuY — AÍTonso! 

Affonso {designando- lhe Anna nos braços de Leonor) — 
Yéde a vossa obra ! Quereis mais? 

Ruv — Ah! minha màe!.. . 

Anna {a Leonor) — Não ouvistes?.. . não reconheces- 
tes aquella voz? Ah t Fujamos d'ella; maldita seja! 

Ruy — Oh 1 querida màe da minha alma I conservou- 
vos Deus a faculdade de reconhecer-me até pela voz, para 
que cu vos não falle sem que vós me amaldiçoeis I Perdoae- 
me ! {tirando do peito uma bandeira de seda que desdobra) 
Reconheceis esta bandeira, pelas vossas mãos bordada para 
o dia da liberdade? Nào vôdes que o meu coração manchado 
se purifíca em seu contacto; que as minhas mãos crimino- 
sas S3 justificam, hisleando-apela felicidade da minha famí- 
lia c da minha pátria? Não tenho eu padecido tanto, amal- 
diçoado por vós; perseguido e ralado pelo remorso? Enca- 
rae-me: não me vedes velho? não vos revelam as minhas 
faces maceradas todos os terríveis padecimentos de um filho 
expulso do coração de seus pães, réprobo sem perdão no 
cahos do infortúnio? E não reconheceis nos meus prantos 
o arrependimento; nas minhas acções, a conversão? 

Leonor — Ruy. . . Ruy. . . assim ella te perdoara. . . 

AffOíNso (aparte) — Enifim.. . de todos os malvados só 
o diabo é que não se arrependeu t 

Anna (encarando Ruy, e voltando a Leonor) — Não é 
clle que está ali ? Não é o meu filho? 

lluY — Sim, niàe, o vosso filho 1.. . Não me reconhe- 
ceis agora no meu logar, á frente do povo, no cumprimento 
do meu duplo dever de bom filho e bom portugifez, prom- 
pto a vencer ou a morrer pela vida e felicidade de meus 
pães, pela independência da minha terra? 

Anna — Pela felicidade de teus pães? pela independên- 
cia da nossa terra ?. . . Ah ! eu te perdoo ! 



48 O DIA 1* DE DEZEMBRO DE 16iO 

• 

Leonor — Graças I 

Affonso — Ji è um bom presagio. 

RuT {caindo de joelhos em frente de ilnntt)-^MÍDha mie^ 
tfh I Deus vos recompense pelo bem que me trouxe o vosso 
perdão! 

Anfta — Levanta-te! leu pae vae ser arrastado ao ca- 
dafalsol.. . aproxima-se a hora dosupplicio! Tens ahi uma 
espada ? Corre ! corre a. salval-o. . . Ah ! {cae nos braços de 
Leonor, no angulo esquerdo da scena) 

(Batem 9 horas.) 

Affonso — È finalmente a hora da liberdade! (tirando 
do bolso uma pistola) Foi carregada para ti, Miguel de Vas« 
concellosi Vivo ou morto, esta bala irá no teu coração l 

SCENA VII 



os MESMOS, ANTÓNIO LEMOS, PEDRO, ROBALO e PBIVTEADO, POVO 

de todos OS lados se precipita em scena. 

(Rabalo corre a abrir a porta de um armazém á direita. Pen- 
teado, outro á esquerda. O povo precipila-se n^estes dois ar- 
■masens esae traxendo armas : alabardas, piques, espadas e ba- 
camartes, formando logo duas alas sob o commando de cada 
um dos dois chefes. 

-RuBALO 1 — A's armas, povo« pela nossa independen- 

Pentbado (cia, ás armas! 

Lemos — Viva a liberdade de Portugal I 

Anna — Aquella voz?!.. . É elle! é António Lemos! 
meu marido.. . 

Lemos (correndo a ella) — Ah ! minha pobre mulher. . . 
reconheces- me emfim?!.. . 

Anna (repellindo-o) — Não é elle I Oh ! não é elle 1. . . 

LKyLO% (aparte) — Ainda Ueus se não apiedou de mim ! 
Seja feita a sua vontade 1 

^j}Y (aproximando-se) — Minha mãe, dissestes que meu 
pae ia ser conduzido ao cadafalso? Pois bem ; eu vou sal- 
val-o, e em breve o vereis em vossos braços! 



o DIA \.^ DE DEZEMBRO DE (640 4» 

AifNA — Oh! sim, vae, filho, filho da minha alma; só 
de o abraçar se me fora esta afDicção que me abrasa a ca- 
beça e o peito 1 Vae, pela vida de teu infeliz pae, e as bên- 
çãos de Deus te acompanhem ! 

Leonor (a Pedro) — Pedro, se o dia de amanhã nao 
trouxer melhora, desfalleço^ nas afSicções que me morti- 
ficam I 

Pedro — Anjo meu, vaes no meu pensamento I Adeus ! 

LsMOs {resoluto, no centro da scena) — Eia, povo por- 
toguez, ao conílicto I 

SCENA VIII 



os HESMOs, O padre nicolau da uaia e o juiz do povo. 

Nicolau — Ide, ide, meus irmãos; o vosso juiz aqui 
yem sanccionar o vosso commettímento. Nada temaes! te- 
mam, sim, os fracos que vos não seguirem em tão sagrado 
empenho ! Ingente è o vosso esforço, Deus tos sorri e aben- 
çoa do alto do seu throno t 

Povo^^Viva o juiz do povo! Viva o padre Nicolau da 
Maia ! 

Nicolau — Ide! Marcae este dia memorando nas pagi- 
nas da vossa historia ; e dae á Europa nunca visto exemplo 
de dedicação á pátria! {abrindo os braços sohre o povo) Aben- 
çoados sejaes em nome de Deus! Ide I 

Lemos — António Rubalo, com os vossos, ao Terreiro! 

RuBALo — Ao Terreiro! 
' Lemos — Gil Penteado, á casa da camará ! 

Penteado — k casa da camará! 

Lemos — Partamos! 

Affoftso — Partamos i 

RuY {aos seus) — Rapazes, á cadéa da cidade a dar li- 
berdade a,os captivos ! ' 

(O povo põe-se em movimento e sae com os seus cbefts, precedi- 
V des por António Lemos, Pedro e Affonso.) 



BO O DIA i.» DE DEZEMBRO DE 1640 

SCENA IX 

ANNA, LEONOR, O padre NICOLAU DA MAIA, O JUIZ DO POVO, 

algumas uulhebes, ao fundo da scena. 

Anna — Oh ! Dão sei que reflexo de luz me vae entran* 
do n'alma ! 

Leonor — É a esperança que nos anima a todos, minha 
m3e ! 

Anna — Vem.. . vem, minha filha : ajoelhemos e reze- 
mos ! (ds mulheres) Irmãs, não tendes acaso de esperar al- 
gum irmão^ pae, ou marido? De joelhos, todas, de joelhos! 
Quem sabe o que será d'elles! 

(Todas as mulheres ajoelham no fundo da scena. Musica da or- 

chestra ) 

GORO DE MULUBBES. 

Dos ferros da oppressão, pátria famosa, 
Resurge perdoando e ao throno ascende ! 
Que já da liberdade a eslrella accendc. 
De teus filhos o esforço, a acção gloriosa ! • 

Mas não durmas no throno I é tempo ainda.. . 
Lança á terra o arado, o mar povoa ! 
Novo berço ao commercio dô Lisboa ; 
Novos dias terás de gloria infinda 1 

Sobre o passado teu alevantada, 
Não te basta de Ourique a voz longiqua I 
Dos imigos rebata a acção iniqua. 
Das artes e commercio outra cruzada t 

Dos ferres da oppressão, pátria famosa, 
Resurge emfim, perdoa, ao throno ascende i 
Que já da liberdade a estrella accende, 
De teus filhos o esforço, à acção gloriosa ! 

Juiz DO POVO — Muito na verdade custam coisas taes! 
Desgraçados ficamos se a revolução não vinga 1 Que dizeis 



o DU 1.* DE DEZEMBRO DE 16i0 81 

d'esle silencio, padre Nicolao? nem am tiro do castello. . . 

Nicolau — As boccas de fogo dos nossos oppressores 
ficaram silenciosas ; quem cala consente. 

Juiz DO POVO — Deus vos escute i 

NicoiAU — Olhae; ali vem já marchando a cobortecom- 
mandada por D. Gonçalo Telles qae deve assomar ao cas- 
tello. Ab ! certa 6 a victoria ! 



(Um troço de gente armada atravessa rapidamente a scena da di- 
reita para a esquerda, gritando: Ao casteilo! ao castello ! 



SCENA X 



os MESMOS, e AFFONSO. . 

Affonso — Salve! Salve! Se Portugal não está ainda 
livre, os portuguezesi estão vingados! 

Nicolau — Deus lhes perdde ! 

Juiz do povo — Fallae. . . 

Affom.so — Foi obra de meia bora! Os nobres entraram 
no paço, agaarda foi desarmada. Omarquez delPoebla met- 
tido em um quarto : a duqneza de Mantua em 4>utro. Pro- 
curou*se ao mesmo tempo Miguel de Yasconcellos ; dizem 
que uma escrava lhe denunciou o coito. Deram-lhe nm tiro, 
e o seu cadáver, arrojado pela janella, foi mandado de pre- 
sente ao povo que o esperava I Em breve^ níngnem seria 
capaz de o reconhecer! e a esta bora, aquelle que ainda 
hontem nos punha o pé no pescoço, e passava impávido no 
seu coche bobre os cadáveres das suas victimas, vae cami- 
nho da Misericórdia, dentro de humilde esquife, apenas con- 
duzido por quatro homens do pescado^ a rogo do caridoso 
Gaspar de Faria. 

Nicolau — Justiça de Deus! 

Juiz DO povo — Ah! tiraram-me um peso de sobre as 
costas) ! 

Vozes (fera de scena) — Viva a independência de Poí*- 
tugal ! 



52 O DIA l.*J>E DBZBHBRO DE 1640 

SCENA XI 
os MESMOS, e nuY, peia esquerda. ' 

R0T (procurando Annd) —Minha mie, minha mãe. . . 

Aniia — Ah I. . . {deixando-se abraçar por elle) Falia. . . 
falia.. . 

RuT — Está salvo meu paei 

Amna — Anlonio Lemos?! aonde-?.. . aonde está elle? 
Ah I depressa. . . depressa. . . quero abraçal-o !. . . 

SCENA 3^11 

os MBSMOs^ ANTÓNIO LEMds t PEDRO, pela dircíla. 

LuMos — Corramos agora a seus braços. 

Anna — Anlonio Lemos !. . . 

Lemos — Anna !.. . 

Anna — Aht sim, sim, és tu; agora te reconheço! Vem, 
yem a meus braços! 

Lemos — Bemdito seja Deu«! 

Lbonok — Bemdito seja ! 

Pedro —^ Leonor. . . 

Líonob — Pedro. . . 

Affonso — Agora a minha yez.f {aproximando-se de Pe- 
dro) Pedro. . . 

Pedbo — Affonso.. . 

Afpomso — A pátria libertada vos abrirá seus braços; 
mas eu, velho e invalido, nSo quero já outra pátria senão 
nos braços de meu filho r 

Pbdeo — Vosso filho?.. . 

Apponso — A Africa não enterrou leu pae A misericór- 
dia de Deus è infinita 1 

Pedro — Pois vós.. . 

Affonso — Sou teu pae ! 

VEíifiO[abrindo-lhe os braços eabraçando-o com respeito) 
— Meu pae! Meu pael... OlT! pae, pátria, família, tudo 
em um momento ! E como tendes até hoje deixado de vos 
declarar ! ?. . . 

Affonso — E cooio tens até hoje deixado de compre- 
hendcr a commoçáo que te causava a minha amizade?. . . 



o DIA l.« DE DEZEMBRO DE 1610 63 

Pkoro — Obl meapae! (abraçando-o) 

Leonor {pegando na mão do Ãiiy, o apresentando^ no 
centro dos dois grupos formados um por António Lemos e An- 
nm; outro^ por Pedro e Afonso) — Quando todos agora respi* 
ram alegria e bemdízein a justiça e a misericórdia de Deus, 
justo é varrer do coração até a mais infima sombra de re- 
senlimeDto. Quando a alma exulta, quem não esquece oiTensas? 

Lbmos — Comprehendo e louvo a vossa intenção, filhai 
Ruy, se o teu arrependimento é tio sincero como as tuas 
ultimas acções são de verdadeiro c leal portugaez, volta aos. 
braços de teus pães i 

RcY — Ah I meus pães ! . . . 

Lemos — Mas ainda falta.. . 

Leonor {tomando outra vez a mão de Ruy e apresentan- 
d0'0 a Pedro) — Uma reconciliação. 

PsDBO — Irmão, ruins paixões te afastaram do roeu co* 
ração; a elle volves conduzido pela mão de am anjol Vem 
a meus braços I {ahraça-o) 

SCENÂ XIII 



(Musica triumphal. Entra pela direita D. Alfaro de Abranches, 
conduiindo a bandeira da camará, seguido dos principaes con- 
federados. O arcebispo de Lisboa em vestes talares, e sua co* 
miliva de cruz alçada. D. Antão de Almada, Joio Pinlo Ribei- 
ro, soldados portuguezes e povo. O cortejo detem-se. Ceando 
a cruz no centro da acena. D. AWaro de Abranches, com o 
guião da camará, á esquerda da scena.) 

D. Antao {dirigindo-se a Pedro) — D. Pedro de Aze- 
vedo, não me esqueci de vós. Tenho plenos poderes de el- 
rei nosso senhor para vos reconhecer e armar cavalleiro. 
Segui-me á sé. 

Pedro — Desculpae-me, nobre senhor! Tenho por suili- 
ciente premio de meus parcos serviços o grandioso quadro que 
me rodéa. Uoje, o povo portuguez alcançou inconsteslaveis 
foros de nobreza ! que mais nobre será do que pertencer a 
este povo que não tem segundo cm toda a Europa? Pátria, 
pac e esposa, ludo Deus me concedeu hoje ! nada mais am- 
biciono ! É voto meu, perdoae; mas a minha intelligencia 
e as minhas forcas vão de hoje em diante ser applicadas ao 



64 O Dlà l.« DB DEZEMBRO DE 1040 

estudo do commercío, foDte Dão menos maravilhosa de ri- 
queza, que a palria precisa explorar, {ao povo) Povo portn- 
gu^z t De joelhos, em freale d'aquella sacrosanta imagem I 
{designando a cruz) Rendamos graças a Deus ; e, depondo 
as armas que salvaram a patna, retomemos amanhã os ins- 
trumentos do trabalho que deve fazel-a prosperar! 

(Todos ajoelham, musica na orchestra. O braço direito da ima- 
gem desprende-se da cruz.) 

Nicolau— «Prodígio, senhores! O braQo direito da ima- 
gem de Nosso Senhor Crucificado desprendeu-se da cruz para 
abençoar o seu povo! (1) 

Todos — .Milagre! Milagre! 

D. AntZo {floreando a espada e tirando o chapeo) — Em 
nome pois de Jesus, Senhor nosso. Real, Real, Real, por D. 
João IV rei de Portugal ! 

'Todos — Real! Real! Real! 



Coe o pann: 



(1) Vid. Restauração de Portugal Maravilhosa. (!.*¥.) 



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COMEDIA EM DOIS ACTOS 



roa 



AI.VSBB* ■••Alt. 




LISBOA. 

TTFOfllAFHIA DO PANOKAIIA, 

Tr<nt$$ada Victoria, IZ. 
1860. 



IIIITERL.OCU TORB». 

D. AiiHA Condessa do Lavre. 

D. Laueí . BaroDeza d'AlmodoYar. 

Jola Chbisostomo Bário d^Almodovar, 

O VUGOIIDK DB SaMDOMIL. 

Albixo d'Azbudo. 

Màeu Irmi de caridade. 

JuLU iK> Lavu *Filha da condessa. 

# 

Pebbo Filho do baiio dAlioodovar. 

MiMi, seis annos Filha do barão d^Alitaodovar. 

O PÂDM Salvadob Lazarista. 

Mâdwoisbllb Nobbsbt. 

PbIMBIRO B SBOUNOaCttUDOS. 

Um gallbgo. 

A acção é em Lisboa na actualidade. 



ilCFO L 



(Ma elegante em eaaa da baroiieia d'Aliiiodonr. Verdadeiro gmto 
francei etn tado. Janellas á esquerda do ef pectador : portas á di- 
reira e no fando» sendo ama d'estas para ama ante-eala» eootra 
para ima galena. 

SGBNA I 



k BAKONBZA, k CONDBSSA, I ICLIA.' 

(Ao levantar do pannô a baronesa d'A1modOTar entra pela direita e 
Tae rapidamente ao encontro da eondessa do Lavre qne appareeo 
pela ant»^la» acompanluda pela llllia.) 

Baborbza — BraYo! E' uma verdadeira surprezat 

CoNDBSSÂ — N8o esperavas qae viesse cumprir um 
dever 7 

Babonizâ — Qual ? 

CoNDBSSA — Felicitar-te pelo regresso do barSo. 

Bíronkzà — Ab.. • (beijando Júlia) Gomoestá, mi- 
nha elegante? 

i 



f à imZ M €AUftA»l. 

GoNDisssA {rindO — ^^ po^re baroneza.. . (con- 
tinua a rir) 

Baronbza — Nio queres senlar-te l 

« 

(▲ condessa c Jalii senUm-sa no sopbá» • baronesa on orna 

.cadeira.) ' 

Condessa — O barão vem muito gordo? 

Bàronezà — Se le parece... Quatro aunos sem mim... 

Condessa — E tu^ outros tantos sem elle. .' . (nn- 
do) Como está teu íilbo? 

Baroneza — O mesmo. Ha dois mezes que nao ri ; 
que não me quer ver ; que nao recebe ninguém. Não 
ha meia hora que por aqui passou para o jardim .. [toe 
a uma das janellas) lÁesU «Ute-- • 

Condessa — So ? 

Baronbza — Oh ! não : acompanhado pela caridosa 
irmã que tiveste a bondade de Ibe mandar ; que nunca 

o éf»mpm. Vt)ti tísttmr matfemòfiselifr I^beri « fifitsi 
pstras 9eòi]nj)dAbarem lua, fiD^i ào lardlift^ sa dd^cutpas 
esta soHicitucie de mãe. . . (para JuUa) > sé a ÂntMMK»- 
sante Júlia não recusa offerecer com a sua agradável pre- 
sença alguns momentos dè Míoídade áquelle infeliz. . . 
(vae tocar o timbre qui está sobre uma jardineira) 

JuLiA ~ A .^ayonwa. »ws»14> «w o WQl»^ presença 
seja agradável a quem nunca se lembra de mimT 

Bàçon^za— Ob! meu filho seria incapaz <íe simi- 
IhMlfi t»U^ qHeri4»» Iím bai t»tM. 4'««pirfito v^ ààM 

de lembrar-se d'uma( nlllbdr adiiiMl^ 

Condessa — Por isso o barão nunca mais se esque- 
ceu. 4eií^ 

hMh ^forteí) ^ E « seobor TMko nãi iw» menos 
espirito que o bário 1 



SGBNAII 
K MiMi eDlniDdo pela dínitau 

(Hipi tom f a0imr*t0 n Jalin, ripiito « «iIlMd^.) 

* 

BAiomzA 44- Entio minha filhi. • . e a senliora eoa* 
^essa ? t Vamos ; venha também comprímental-a* 

MiMi-^Veux pas!.. . 

Bamnka -^ Isso nio aa diz 1 Venha dar um 
M senbdra condessa. 

liiiH«^Venx pasl Vem fies!.. • 

ConrassA-— IMxa^a, baronesa ; w« mandar qne» 
brar aqnella bella benaca de eera que fiéon no trem. « . 

lliKi^^Nioi.. • nioL . . (correiMie a biijar a CêHi^ 
éesêa) 

CoffDMéA — Pois 8inv; haid^le dar «ma boneae 
ficMoesa qinilo' boaiila i 

BaiOff sasà -^ Oove cl, Mimi ; vae com a tua amigr 
iotta ao jardiai mostrar^-lhe as tnas flores^ 

'- Mimi ^garrandâ-se á mão ék Jnlia)-^Au jwràmi 
mu jardin... Mano esiat U. 

GrnMn aanla a mto ■ lUmi lee ^ n^ecia ai«aMfi por 

■MdcttoitiUe Norhen.) 

SCSNAin 

A fAaOimU) < (A G01IPMS4» 

CoNOBSSA — Sempre tiveste n^ ípatincta partieular 
para te desfaaeres dss pessoas qwe eslao d^ majs-f. (bei- 
j0nd$^a} Piodemos coaversar Mvrwa^Ote. 

Baronbzá — Estou afflictissima ! 

ConaosSiA ««*• Faço idéa I 

Babohbza — Que dirá^o ^HàtíLo^t* • • 



CoNDBSSÂ — Isso é O menos: que fitremos nós?t 

BARONtzA — Gomprehehdes quanto é ridículo ver-se 
uma mulher obrigada a ouvir rir do seu marido, no een-r 
tro das suas próprias salas. . . 

Condessa — Ohl querida.. . desculpa-mef.. . 

Bargneza ^^ N8o falte de ti ; refiro-me ao riso dos 
estranhos ; ao commentarío de todos esses homens d'e^ 
pirito que por ahi hiode appárecer. . . Deus meu! B di- 
zes tu que a riqueza conslitae a felicidade ; dizias*m'o, 
pelo menos» quando eu hesitava, na provinoie, em casar 
com aquelle hoAiem, porque o achava em pouca harmo- 
nia com as minhas aspirações, cont a minha phantasíâ, 
com o meu coração. Quando se é pobre sonhai» a feli- 
cidade na riqwza; quando.se é rico, apenas cDnsegui- 
mos vèl-a atra vez do [Misma seductor da elegância. Que 
bella figura bade meu marido fazer nò centro da nossa 
elegante sociedade, e até na presença do mais inflmo dos 
nossos criados I £ eu que tcjpho, coino sabes, resistido 
á. galante perseguição ^o visconde deSaodomil; do conde 
d^Assum^r, e mofado das melhores j)oesias dos nossos 
pobres poelas, heide dizer-lhes que me tenho comporta- 
do assim. . . porque sou mulher d^qoetle homem ? t É 
para rir; é para me chamarem tola, hypocrita./« que 
sei eu ? ! Não achas ? 

GoNMssà — No estado em qne vejo as coisas. . . 

Babonbza — Que corsas ? 

Condessa — Tudo. Viu-^e iá porventura a socieda- 
de em tal estado ? Àburam da liberdade a ponto de tor- 
^ nal-a em anarchia ! N2o ha freio que domine ninguém : 
as classes confuAdem-se : a nobreza é ridicularísada ; os 
ricos são insultados. . . Todos escrevem, todos gritam, e 
ninguém se entendei 

Babonezí — Estás divagando, querida; não com- 
prebendo a relação que tem tudo isso com' o"^ue te 
disse! . < ;. /. : 

Condessa — Digo-te que é preciso^ enfrearem gente. 
Baronbza «^ Que gente ? 



4IUIÍMC4WMM. • 

CoHftkSSÀ — Todos 1 

Baionbza ^- Vamos ; principia lu a eiifreal*oa ; pro* 
metlo ajudar-te. 

Goif DUSA — Comecemos pois pelo bário. 

Bâronbiâ — D'accordo. 

GoNDBSSÂ ~ O barão cbega : oUia para úido isto, e 
nao percebe nada : evila que elle veja antes de perceber. 
Prepara-lhe o espirito antes de o apresentar. Sae de Lis- 
boa,. • vae, por eieroplOy para^Pedroiiçcs : recebe<-o li; 
passeia^-o por lá um mez, e thil-o depois domesticado. 

Baeonrza -— Óptima idéat B depois? 

&)NUBssA — Em segundo logar» para evitares a cri* 
tica dos nossos elegantes, tens o escudo da religião. Pre- 
cisas d'ttm confessor* Ha-os excelientes agora I Um laca- 
rísta, querida* um lazarista. 

BiKQNKZA — Por esse lado já estou prevenida. Se te 
lembrasses d'uma carta com que me obsequiaste, pedin- 
do-me que protegesse . aquella confraria». • 

Condessa -7 Ah !. . • quanto te devo 1. . . 

Barokeza-— A mim, nada : ao capellão que despe- 
di para adniitlir em seu logar o lazarista- • * 

CoHDBssA — Muito bem ; recorre pois ás sua» pra- 
ticas. E' gente de muito espirito, e de grandes recursos 
d'io(elligencia i E quando alguém nSo acreditar queamas 
deveras teu marido, hade ao menos dizer que to susteve 
a religião. O mundo precisa de ser illudido como qual- 
quer crean^. Dar-ibe explicações razoáveis é perdel-o. 
Além do que tenho dito» • o lazarista é uma testemunha 
intelligenle e consteule da tua virtude bem entendida, 
que hade avultar no momento em que o despeito dos teus 
adoradores chegue a promover qualquer escândalo 1 Os 
boatos que te mancharem aos olhos de teu marido, hão» 
de morrer debaixo da sua palavra eloquente, e do seu 
testemunho irrecusável. 

Bâronkza (J)€ijanio-a) — Ês um perfeito almanacli 
de lembranças, felizes 1 

Condessa — Segundo dissente, na toa carte debon- 



tem, o barto desembarca ámanhlf Parte hA|e mesma 
para PedroiiçêB. 

Babonbzà — Vau já pôr o chapeo edar as eompe^ 
tentes ordeas.. é 

CiiiÂDO (annunciando da potla 'da diite-^salú) — O 
senhor vi^t.ildè de Sandofnih 

BAaoMRZà — Ah* • • (indee'$a) 

CoitDffesA {rindo eom intenúâo) ^^E' útn éiS9 que le 
perseguem.. . foge^he, querida. 

BAttOitBZA — Sim : \òu fu^ir^ihe ! (èãe pria gnleria) 

8GBNA IV 

A CêNDESSi DO LAtHF, B O TlsaONDft Ofe SâlWKilIL. 

Condessa (ápariê) -^ Pobre baroíteza... {rMe muito) 

YiscoNM — Não ha nada que mais noá encante d^ 
que o riso d'uma mulher amável >.. . 

G0NDB86A -— Conforme a roulheK • . 

Vi$€0NDB {aparte) — A oondestet {alh) Y. ex.* 
em primeiro logar. 

GoNDsssA — O Tiscofide acordoii hoje muito lison- 
jeira t nSo é bom mr tão lisonjeiro^ víseonde ! 

VisKiioMDfi ^ Tudo quanto a uma mulbêi^ M diz por 
lisonja diz se á condessa por convitolo. 

Condessa — O \isconde tem um pessimò^ systema de 
eonversar» tomando equivoco, peia seiitedade dos seus 
dxnggeros, o espirito de quem o escuta : pelo menos^ co^ 
migo, assim é ; mâs. • . dos pobres d*espiríto é o reino 
do ceo t de certo que lá nSo herde ter o gosto de o en^ 
eool^ar^ 

^ ViSGonwE — • Tao pobre d'elle *6mo v. eíi.» èu fo- 
fa. .. - 

Condessa {rindo) — Que nao teria aqui entrado n'es^ 
M m<^mettto> nSo é assiait, ri^èolide T 

Visconde — Eu ? Penaitta-me difeer^lbe que tiSo. . . 
Bio enletidi o q^ie ifisse I 



7. 



VtMOTOB «^ Oh } a condissa Mtá ki|e» segando oon^* 
duo, ii'ttiiia diaporiçio felíoésBíma ! 

CMasasA ~ CoafeflM que siai ; e aBaim era (ireci^ 
so, Veiho felicitar a mialia iaitga ^o re^reasa de ae« 
manda 

YiacfflM — * E* realflaenle fiilieidade tor um marido \ 
maa, perdoe^ne v. ei.*: diaae regrasao.» . 

Cmuaasà ~ Impropriedade de termo ; deseslpe. 

VfêcoimB — B' a primeira vez que o barSo d'Almo* 
dovar Tem á eapítal ; a4o« morto por Hie ser apresen- 
tado! Vinha soilicitar da senhora baronesa. • • 

ComsaA {imdicando-tke a gckria ; sarrinio e^m 
etrtã maHc4a)-^0nttj viseonde. 

•8CENAV • 

A GOlfoeSSi^ o tlSCONÓB, A SiaONfiZA, 
« o PAVaa SALTADOa. 

(Estes nltlmos teAn eonversândo « meia toi, atrtTMsaBi tagafoia- 
oMiiCe a acena è satai pela díreiUié Aigura d^ padre é loUma, 
ati ifc a lat ie. A fcaroaaaa eaent«-o tom reoaliiiawnilo» aam dar 
a vaoor attaaçio a ceia# algvaai áa acana») 

GoirnBssA ~ Deeoulp^me* visGoiide ; vou acampa* 
nhar a minha aoiiga. (faz^ke, iotrindê^ uma memra e 
soe pela dinita) . 

SGENA VI 
o visaoMM ua âinacaia, d^oís auiixo o^améboo. 

Vffcoimt (jd)~* Sua amigai... Sena possivel^ue se- 
jam realmente amigas estas duas mulheres? Que a pu^ 
reza quaiii ni^i«i do cora^ da haroneia aympalhíse 
com a maldade calculada do espirito da conãÀa ? NSa 



creio I Nio é^ seoio Alkâ d^ama íMíauaçio perversa a 
habilidade com que a condessa tem conseguido dominar 
Bo coraçio da baiéoeia, tahes para expulsar-me d'elle I 
Que quer pois dizer a iodifierença con que me recebem 
hoje ? t Aquella triedade estudada com que a barotieza, 
eequeeendo a sua doce conlsslo de ha lio poucos dias, 
por aqui passou entregue ás praticas doesse padre laza- 
rista ? t Lembro-oe de ter visto aqtielle padre «m casa 
da condessa. • . EnwnlroH) hoje ao lado da baroneza... 
Quem me diz que» insinuado pela primeira, nio vem 
deslrdir toda a minha influencia no coração da segunda ? 
Criado (annuneiando dtí parta da anie-iala) — O 
senhor Ahíxo d' Azeredo. 

(O vifcond« desf ia-t« peaigliT* para «« tngolo áã teena.) 

ALEIXO — Ânnunciado... aos moveis e ás paredes... 
(consultando o relógio) Enganei-me» talvez, na hora; 
quatro e um quarto ; não : nunca deixei d'apparecer a 
esta hora, è nunca deixei de achar a baroneza risonha- 
mente disposta a jantar» e a ouvir descrever a sessão da 
camará t Trazia-lbe hoje noticias fresquissimas a respei- 
to das irmãs de caridade.. . Ah i., . que dei no vinte I 
quem sabe se ^ questão da caridade franceza não é cau- 
sa d'esta desioteliigencia t Não ! Se por causa d'elia per- 
co esta mesa de quatro cobertas, e sobre tudo o amor da 
baroneza, protesto immMiatamenle a favor ! {vê o viscon- 
de e vae comprimenia^^o) Mil desculpas, senhor viscon- 
de ; V. ex.* já aqui estava quando entrei ? 

'YiscoNDB — Creio que sim : não o vi entrar. 

Albixo — Pelo menos annunciaram-me. 

VisooKDB --^ O annttBcio ó tão vulgar, que passa 
muitas vezes desapercebido. . . 

Albixo — E' que certos annuncios não são para 
todos* 

VisooKM^— Do mesmo modo que nem tudo é digno. 
dVnnuncio. 



Aulxo — E' uma prevocaçio que v. ex.* me di- 
rige ? 

ViacoNDB -^ Não sei com qae fundemenlo julga si^ 
milhaote coisa : se tem motivos particulares para acre- 
ditar que desejo provocal-o: . . 

Aleixo— Pois bem, sejamos francos: alguns te- 
nho^ e emquanto esperamos a baroneza, desçamos a al^ 
gomas explicações cujo resultado será fixar os limites 
em que cada um de nós de^e manter^se em relaçSo ao 
outro. Notando o modo sarcástico com que v. ex.* me 
falia sempre que nos encontramos n'esta casa, conclui 
que lhe desagradava a minha presença I 

Visconde — Perdão ; concluiu mal : díverte-me. 

Al^xo — Notev. ex/ porém, que não menos me 
diTcrte vèlH> n'este momento esperando, como eu, a ba- 
roneza ; sobre o ter alguns direitos adquiridos que não 
são respeitados devidamente. 

ViSGONBB {eom dignidaie)'^ Senhor Azeredo ! 

Aleixo — Sejamos francos, senhor visconde ! Jogo 
descoberto. V. ex.* ama a baroneza. 

VisGDNDB — E quando assim fosse? 

ÂLBixo — Commetto o mesmo peccado que v. ex.* 

VisGOKnE {rindo) — E depois? 

Aleixo — Um de nós esli aqui de mais. 

ViscoHDB — Provavelmente, o senhor. 

Albixo — Não sei porque. Cheguei apenas ha meia 
'hora« e v. ex/ já aqui eslava esperando. Do dois ho« 
mens que esperam, não se sabe qual é o preferido.. 

Visconde — Deve ser o mais digno da escolha. 

Albixo — E' isso que v. ex.* pretende decidir? 

YisGONos — Decerto I Entre o amor-paixão^ e o amor* 
calculo^ não ha muito que discutir. No primeiro, descul- 
pa muitas vezes o mundo o erro anti«social, pela verda- 
de do sentimento a que não sabe coração algum resistir: 
no segundo. . . quem ha ahi que não' ria, condemtaando 
ao ridículo o que, á mnneira do 1o1k> disfarçado em pas* 
tor, vem Iraiçoeiramenle especular com uma illusao o 



lotereMe maierial da w» eiidliocial? Pediu-inf jogo 
descoberto ? Eil-o. Ha homens que costumam aggregar- 
se a uma mulher d*e6|Mrito e que aproveitam ^tquer 
occasião para esse fim, porque esperam tudo, se aio du- 
rectamente d'ella, pelo menos das suas relações. A quês* 
tão das irmãs de caridade foipor r.s.* habilmente apro* 
\eítada: prometteu i baroneza, se oio deiendel-asi reti- 
rar*se das fileiras qué formaram cruzada contra essa gen* 
te ; e assim conseguiu vencer terieoo ii'uma questão que 
talvee nao deíie de ser-lhe proveitosa ; e o interesse com 
qué a baroneza procura defensores para as suas prote- 
gidas, garanle-lbe sem duvida esse proveito que t. s.^ 
já tem calculado 1 

(N*tst6 moatnto o ptdr£ Salf «ior apptrece peta dirtita t cacoia.) 

Aleixo - Senhor visconde : t. ex/ está bastante 
preocoupado; desculpe-lbe por isso o eibcessD d'aigumas 
expressões Nem eu, nem esoriptor algum dos que nao 
vendem a convicção, rebaixaria a sua missão a escrever 
contra essas mulheres, que não representam na qflestão 
jesuítica mais do que simples inslrumeiKos do syitema. 
Eu bato o systema em geral. E' mais um ponlti em que 
discordamos. Proelamo^me contra esse apoio que a no- 
breza illudida pretende cnear aos seus extinolos privilé- 
gios soeiacs, no braço do fanatismo, e da inquisição de 
estado; e reprovo a admissão dos lazaristas, porque a 
considero o primeiro passo para simiihaote fim. Diyer* 
gimos porém da nossa questão, ese v. ex.\ pelo que me 
disse, pode acreditar que me sinto offèndido, espero' que 
não será pèrdM* tempo sollicitar do seu cavalheirisAio al- 
gum género 4e satisfação ! 

Visconde — Estou promplo a dar-lbe exiriicaçQes, 
se v. s/ retirar o que me disse a respeito da baroneza* 

Albixo— Repito peio contrario que amo involnnUn 
riamente essa mulher. 



SGBIAVn 

VtMOMit Dt UtmtttL, ALMItO 1^'aUÍMÍII^, 

■ o PAMB 8Atf Al)0«. 

Salvama — Espirito da IfbeTda^, e d» fiecilo -- 
amae a moHi«r do iimitMí 

AtBixo (swrprêkmidido) — Padre. • . no coraçio ape- 
nas penetra o juizo de Deus I Se não me confessei d^um 
erro, é esctsado inqoíríl-o-l Ainda felizmente a inquisi- 
ção não vigora, {ao v%$eimdé) Estou ás suas ordens, se- 
nhor tisconde. 

Salvaik)b-~ Acctiilària dsenlior visconde uma pro- 
vocação d'esse género dianle de mim ? 

AuBixo — Decerto, porque v. rev.** está aqui so- 
bremaneira deslocado. S. ex.^ respeita como eu a reli- 
gião; mas não possuo a virtude d'aiA santo. 

SAtvAMH ^~ Respeitar i ni^itião, não é dizer que 
se respeita : é $aber mpeíloZ-a / A b^)ocrÍ8ia não é cur- 
var a cabeça perante o altar deCbristo crucificado; á es- 
crever a moral, e dizer a iíMitoratidade 1 Tsahq na minha 
presença um inimigo das ordens religiosas, e devo dizer- 
lhe que o abuso da liberdade foi o qye despertou o abuso 
do poder sacerdotal I &tamos fetizMente n'este momento 
representendo aqui as trei^ •principaes classes da socie- 
dade : equilibremos os nossos raciocínios, e leremos em 
lÓB o eàemplo da felicidade social. E' pot^enttrm èer li- 
vre enlregar-so ao domínio das paíiOes? £' possix^et de^ 
fender d^elias o espirito sem o auxilio da idén religiosa ? 
manter a idéa religiosa semoauzilio da forma? [aAteí^ 
to d' Azeredo) Digarme. seithor Azeredo, defensor da If^ 
herdade popular, que é ò prftieir^ a d«li«r-se dominar 
peta painao, para lançar a discórdia n'uma ftmrlia. {ao 
ífièdonié) Díga-me, senhor visconde de Sandomíi, des- 
cendente das primeiras casas do reino^ que não duvida 
cuspir na dignidade dum pobre htttièm qttO confiou a 
honra do seu nome ao espirito de sua mulher ; digam- 



19 A uaU »p ^jumas. 

me ambos, se é abusar da religíSo obstar ao escândalo 
d'uma familia.peranle a sociedade 1 

Auuxo {aespeitodo^ pegandQ nç ckapeo) — Isso mes- 
mo teria dito qualquer dos nossos seminaristas : escusa- 
va d'incommodar-se. (prompto a sair) 

VisGOMDB — Â theoria dos seus peosamentos não 
admilte contradicçao. (j^epa no chapeo e caneja) 

SCENA VIII 

ALEIXO d'aZERBDO K O TlàcONDE DB SANDOMII. prOmptOS a 

saírem, à gondbssa b k bahoneza, pela direita, 

ambas de chapeo. 

• • 

Babonhza — Espero que me desculpem, meus se-* 
nhores O doutor Silva prescreveu-me o ar do campo.: 
vou partir para. . . {svspende-se a um geslo da condessa) 

GoNDBSSA — Hasde voltar completamente restabele- 
cida. 

CaiÀDo (apparecendt pela galeria)-^ O trem está 
á porta. 

Baboneza — Alé á volla, meu9 senhores. 

GoMDEséA {beijasèdo-a) — Vae, \ae, minha Leonor. 

ViscoKDK — Quer v. ex.^^dar-me o gosto d'acceitar 
o braço até á carruagem ? 

Aleixo (ao mesmo tempo) — V. ex.* quer acceitar 
o meu braço até á carruagem ? 

Baboneza — A sua amabilidade, meus senhores, col« 
loca-me n'uma posição difficíl ! e para evitar alguma in* 
justiça, hãode permittir-me que vá só. {corteja e soe pe- 
la anle-sala seguida pelo padre Salvador) 

GoNiiEssA — Senhor visconde, dá-me o seu braço? 
Vamos pelo jardim para me juntar com minha filha. (nVi- 
do) Eslá pensativo 7 

Visconde — Eu, condessa ? pensava na doença da 
baroneza. . . 






ft 



A nax M c AUiA0«. 1 S 

CoNOESSA (rindo) — Nio é de cuidado: hade cu* 
rar-se. 

(Stea pda ftkrit.) 

SGENA iX 

ALKIXO, depois PEPRO. 

• 

ÂLBixo {só) — E nSo disee para onde vae I . . . (pas- 
seando) Mulheres. • . mulheres. . . apocalipses de novo 
género que tanto mais folheamos quanto menos compre- 
hendemos ! Um dia, um engano ; depois um desengano t 
ramalhete inexplicável d^iliusOes, de arrependimentos, e 
de saudade, ligado constantenieiiie pelo desejo! Felicis- 
simo phtlosopho que passa por vós sera commover-se, á 
maneira do homem sóbrio, pela vidraça do MaHa ; feli- 
císsimo phtlosopho... nem tu sabes de que te livras t 
Mas a propósito do Matta. . . maldita idéa que sempre 
nos assalta no auge até das nossas mais sérias relexOes t 
(passeia nm momento em silenscio^ e deíem^se olhando 
para a galeria) Ahl.. . ahi vem o Pedro: janto com 
elle. Na ausência dos pães, o filho é dono da casa. {Pe- 
dro, paUido e pensativo, enlra pela gaferiaJ-^EniSo 
como vamos nós, meu caro? Vim de propósito visitar-te. 

Pedro — Disseram-te que estava doente ? 

Albixo— Notei a tua falta no Marrare, no grémio, 
no passeio. . . Estás arrufado com a tua gata franceza ? 

Pedro — Esquecí-me d^ella. 

Albixo — Negaram-te a mSo da filha da condessa 
do Lavre? • ' ^ 

Pedro — Não lhe dou attençao alguma. Recuso o 
casamento, {sentqjndo^se) 

Albixo — (Ni ! o caso é mais serio do que parecia. 
Temos por ahi algum novo capitulo de paixão. . . Quem 
cala, consente ! Conta-me essa historia. . • isto é, se uÍq 
achas melhor reservalni para o toast. 



I 



U à mil »i ifit»A<ftE. 

ftDBO-^Omedkso iMuda-me jenlar cedo. Ha oi- 
to dias que janto ás duas horas. Estupidez i 

ÂLfeixo [áparii) -^ í^lalMade t 

Pkdro — Vou contar-te a historia.. . 

ÂLBixo (ínyuíc/o) — Olhí»..^ vê lá não te faça mal 
recordar coisas tristes. . . 

Pedro — E bem tristes !. . . 

Aleixo — EntSo "deixa-a para outra vez. Quem es- 
tá doente nSo deve. . . sim, nSo deve commover-se mui- 
to. Bu vdllo em oytra oceaniio. 

Pkdro -^ Tem paciência. Hasde 0Q\ir*me. Preoi- 
80 do consriho d^um homem inletligente. VJ tal o meu 
kegredo. . . Aleixo, estou pendido. . . Sem esperança de 
salTar-mt! Sonho!... tenho illuaSes terríveis. Sinto ne* 
xer o coi*áçIo. . . de uin modo que assusta! IMeàa* 
iiiSo. Sentes? 

AiBii* — E* nervoso. 

Pbdro-*^Tu és pró ou eontra M irmii de cârí* 

dader 

A»rxo*^Nem pr6oem contra. 

Pedro 'MM. Que pensas da virluéa -é'ei6as Aittltie^^ 
ree? 

Aleixo*-^ Por em quanto.. • nada. 

*PE»RO-«»-fieri iirerdade o que diz o Axmoifiu? » 
4}«e vociferam os jornaes em nome do ^ovo ? 

Aleixo***- Talvez que sim, talvez qie aao« 

PsDto-^Será uma d^essas muIlMres iooapaz de 
commover-se em presença diurna vida qoe se extingue, # 
que só podia reanimar4e cora a completa Mlisfii^o do 
amçr 4|ue aliás a devota ? 

Aleixo — Uhabit ne fait pas le moine. 

Pe0ro — Er to digo. Vi uma diessas flaiHieres, 
e tive coragem d^amal-iai atravez d'aquelta IiOuor mIí-m* 
dalt Xodaguei tudo. Cbama<vB-i;e MaKia. Píooulei por 
todos os modos failer^lbe; cfr tmposeiVel I EsoreTMhe ; 
fot^me doTÒltida a cartá Reeorri á estratégia; ftngi*«o 
doente, fallei á condessa na pmsança d^naa itMí ád. «ar 



r' 



â fina W r éB iH W W ^ 

ndèèb ; iniliqMi-llie «(«lellat 4e qoft» éim ter btM 
formações ; minha mie não desapprovou a vinda da 
Cmneira ; \eiu a mulher e ha oito dias que vivo junto 
d'eUa : nio viva* . • ««rro ha oito éas^ dewrado for 
esta febre ^ue devérm se me desínvolveti f Quando de- 
liro, vejo-a como um anjo ao lado do leito, e sinto o 
brando contacto da sua mio delicada sobre a minha ca- 
beça a arder 1 Abraceí*a já uma vez sem saber o que fa* 
zia! Pronmicio ooMlantomenle o em nome.. . e ainda 
não me atrevi a declarar-lhe que a amo ! 

ALtixo — Greanoieei 

Pamo-^Oomof qoe dites?.. . 

Albxo '^ Atíra-te aos maré». . . Uma irmã de carída* 
de nte é onn filte de mmrbre ; a caridade é infinita ; <► 
animo pode ser grande. . . E quem f»^fé mala caça. 

Pbdm (la>ãntand0'íe) *^ ktíiAtáA t. . . 

Albixo — Comporta-te de modo que honres o sex<i. 

TBDio-*Qia) d^elies? 

Albixo— O noseet 

P8M0~*AI|. 

Aijaio-*-Não desanirafesno primeira linotoio. Ven*' 
ce, e dá-me parte para cantar a tua gloria* 
PsDio — Até amanhã, (mm pela dirêHá^ 

SGENA IX 

Atuxo (itf)^*^ d'eeperar que «cf« um eapttoto 
eanmdriow para a historie da caridade frvneeta ; ee^ 
sompto para dois ou três folhetins, e um artigo de seb 
fobnunas. Era o ^foe faltoTa para a acraeifãfe ; piavas ! 
e ittanos M*-as. . . Poyf em quanto 84 o Aimoimi se atre^ 
ve a puUicar algumas earfealvraB. . . caprithm(É$ : os 
jniiaos poliUcoB faliam «penas eontra a educação gal^ 
licista.. r e nada aiais: refilam de quanée em ^ando; 
mas não mordem ; ]porém eK^apptreeer dtMrípta por mim 
1 priaaetfa ícom. . . O ^as^ mk xm principiar, {patuá) 
A bÉvoteta aibandoaouniiã ? Otman de morte. . . [iep^ê 



16 A H9l ÈM CâiltADI . 

de noM pausa, côm trisuxa) VumoB jantar na JSToria 
sêcca, • . 

(N'eile noaento, apparaee Joio CbrísoHoao á poru da inte-ula : 
ar extrenanoDta aiaplos ; fasioariosemloio.) 

SCKNAX 
Aleixo D'AiBiE]>e, s joào garisostomo. 

ALEIXO [mspendendihu, aparte) — Será criado da 
baroneza ? Talvez. . . E' com certeza i Até me recordo 
de já o ter visto : d^esses criados antigos. . . de muita 
confiança» que nio roubam menos do que os modernos, 
e que teem a vantagem de serem muito mais velhacos. 
Este homem vae dizer-me para onde se retirou a baro- 
neza 

Joio {áparie) — Que firma será esta?!.. .Ainda 
nio encontrei na minha casa senão francezos, e.. . 

Albixo — Olá, amigo; é raro encontrar um cria- 
do de certa edade, que nio seja dotado de certo grau 
d'intelligencia. . . 

Joio — Isso é comigp? . 

Albixo — Dize-me cá; serves a baroneza ha muitos 
annos ? 

João {áparie) — Este vae tomando-me por criado. 
(altú) Olhe» para lhe fallar^com verdade, ha bacantes 
annos que nio tenho o gosto de a servir ; mas se quer 
alguma coisa. . . 

Albixo (áparie) — Tentemos poupar a recompensa; 
vejamos se o faço vomitar, (alto) Quando a senhora ba- 
ronej» çe retirou» disse-me para onde ia ; mas... nio sei 
porque. . . esqueceu«me totalmente ! Ora» tu sabes que 
deixar de visítal-a seria uma falta imperdoável.. . 

Joio — Imperdoável ? Ah. . • sim» senhor. . . 

Aleixo — Sabes» porque sem duvida terás ouvido 
dizer que as nossas relaçOes... quero dizer que a senhora 



taroMn fu-me a honra de cansiderar-me sobre Iodas 
as oulras pessoas qoe de ordinário a rodeiam. 

Joio — Sim, senhor, sei tudo isso muito bem ! 

Aleixo — E enlão. . • 

Joio — Pois, meo senhor. . . a senhora baroueza 
não me deu parte do logar para onde foi. 

Aleixo — Ah !.. . queres vender o leu segredo ?••« 
seja ; aqui tens uma libra. 

Joio — Uma librai Logo o segredo vale a pena? 
V. s.* ama a baroneza ?. . . 

Alrixo (rindo) — Eu, não. Onde está ella? 

Joio {com smed€ide) — Aqui, ámanhi is nove ho* 
ras. 

Albixo*— Aqui !?.. • Ah... comprehendo, Ui yU 
nhãs encarr«f;ado de me dixer isso ? ! 

Joio — Sim, meu senhor ! 

Albixo — Quem tal diria t.. . {aparte) Cedeu final- 
mente ao meu mgo. • . Concede-me uma entrevista! Sou 
feliz 1 (sãe pela «nl^jo/a) 

• (H* WÊ&m» 9HNB«ito o TUMBde d« Sandoml entf a con prwai* 

çêo pela galeria.) 

SCENA XI 
loio cnaisosTOv^i a ô visgotob db sinnoiíiL* 

(Joio Chrisottono pmiaia agiudo» mattondo as mios palot 

caMos.) 

YisGoiiM — Preciso saber para onde foi a barono'* 
sa. Apostava que esta fuga precipitada é um meio como 
qualquer outro para a entrevista que tantas vezes tem 
promettido. Quem será aquelle homem ? 

Joio — Procura alguém ? 

VisGONDB — Procuro um criado. 

Joio — Aqui tem um ás suas ordens. 

^ a 



16 A Ullli »B CMliUM. 

VfstiOifDE — Serves a baroneza? 

João (áparie) — Temos oulro! («//o) Sin, senhor. 

VisGom>B — Logo nao hade ser-te estranho o nome 
do visconde de Sandomil. 

Joio — Tefibo a hotra de o conhecer. E' v. bx.* 

Visconde (iando-lke uma bolsa com dinheiro) — 
Pafa onde foi a baroneza ? 

JoXo [sorrindo anirafeiío e pegando na boha) ^ 
Generosidade dê 6dalgo. . . mai quem quer a moça an-- 
da com o pé e bole com a bolsa /. . • Se o bário sc/ubes^ 
se. . . que faria o baíio á baroAeza, e que faria o ba- 
Fid a V. ex,»? 

ViSGONDK — Perguntei-te para onde foi a baronoza. 

Joio -^ A baroneza estará aqtii imanhi ás nove 
horas. 

YisGOKBfi ^ Falias verdade? 

Joio -<-^ NuQca Inenli ! 

ViSGoiiDft — Bem : enbrega^he lambeta este bilhete ; 
e sirva-le de tiorma que nunca deiíàer de Mstligar -uma 
mentira, nem de recompensar um serviço, {ápane) Com- 

fher encantadora! (èàé pek àute-sála ; Joãtj Chrisosio^ 
mo inclinasse) 

âCEi*Ã xn 

JOXO oKaiB0sroM9, depois as "di^erSA^ jHS^as que a seu 

tempo haode ser enunciadas. 

JoÀo {passeando agítiiítú, pá a finalmente soltando 
uma risada secca e nervosa) — Infâmia e deshonra 1 eis 
o ^e em Lisboa prepanam c^iíslaniemente M» què, lon- 
ge doeste feasto enganador» gastáiA a vida convertendo 
as bagas do mu suor n^mii ú\í^ còm <|Uo pot* bá se pre- 
meia o vicio i Oh ! beide guárdbt^o. . . hsíde guardal-tf 
bem para o devolver, em ooeMífio (^ponuna, com este 
bilhete que nem me Hfivo * lèr t... Deixem «Mar, taeus 
senhores, que ft bafronéMa tiSò h&de fbliUar^tiinitil&vista I 



â PÊÊÊ Ml C4ÍIMM. f§ 

m 

Iks ònúeèBHà AihitMr molher? onde^tá a mmhA ftmi- 
lia. . . «tta familMi qM ei- lá éo ftmdG da mtoha provín- 
cia teftho SQStetilade no luxo da «apílal, hombreAndo coin^ 
as primeiras do reino, e que julga ler-roe pago a sua 
divida atirando^ine tom utn tH«Ío de barão ! ?. . . Tenho 
mo filho que ffifft consumii> seis contos de réí« na sua 
edu^içao; onde está elle? e minha fifha?«. . quero ver 
a ininha fílha« Oh! enirei na minha casa e nfinguem cor^ 
reu a abraçar-n»e f tiem om dos cría<fos veíu pedir as 
minhas ordens ! [eàlM um criado peh fanai fratend^ 
uma carlâ^ Joãú Chriêoslêmo t(ma4he o eaminho) De- 
tem-te. 

' CbIam {affé%liúídú f aliar fí^neezJr-Úh f impossH 
ble ! lellre, mr* baron. . . * 

BaaÍo Qirando4k'a):^¥kdí enlregrie. 

Criado— Oh < non pas ! €h 1 ittpossible. . . 

BArtlo — Pica enli^egue. 

Criabo^— Vae dòoc queixar a ê'àhar barofi. Oh! 
ifoje pela 4irêi(a) . 

fiARÃo [abrindo a caria) — «Pedro^ Ainda ode eti 
cifíde de a«)ãhar m áàu Iralamento que recebo ae mí- 
lAiar mSe, não casd^cõnUgo. Ae desifeMiiB qcre hoje Me fi** 
zeste por amor da irmã de caridade hSode Iembrar*Dld 
sAipre. Aíém d^isfco, os vieios qoe eim ti ji dominam, 
áesée qao chegaste de Paris, repugnam-me; a teoden-* 
cia que tens para as cartas, rtvaes t3o poderosas éo 
«mor diurna mulher , acaba de decidir-me a pAr um 
termo á nossa •correspondeneia. Por ultimo, a doença 
<[ue nossas mães ditem ser causada pelo meu despresõ^ 
n3o é sekiSo um vil pietexto parâ^ teres junto de ti essa 
mulher francesa que te allooíná : e a suspeita que sempre 
tiveste de eu amar em itilencio o> visconde de Sandomil^ 
fica agora justificada*» {representando) Noticias de meu 
filho I tem feito progressos, e dá esperanças!. . « Oh I is- 
to não pode ser ! Venha alguém i Venha alguém com 
quem me entenda, preciso. . . preciso desabafar f {é iu- 



SM^ A imi M GAIIAABI. 



terrompldo pda ekegada de mademoUelle Narbert que 
traz pela mão Mimi abraçada a um ramo de flores) 

Mim {impeninente)^WiJàmm.. . sorti.. . sorli.. . 
Veux la voir. 

M.^^^ NoBBiRT — Taí86z-vou3, ma charmaote. 

BabIo ~ Ah. . . perdão, esla meoiíia é filha da ba* 
roneza? Deixei-a tão pequenioa... mas estou, adivinhan- 
do que é elia 1 

M.*^>* NoaBEâT — Gomprends pas» monsíeur. 

BarXo — Não comprehende ! ? Então na minha ca- 
sa não ha gente que ialle portuguez» e que me enten- 
da TI.. . Está bomt Vem cá minha filha, minha Mimi... 
dá-me um abraço* abraça teu pae. [querendo ahraçalra) 

MiMi [esquivando^e) — Gqnnais pas! 

Barão — O que!? minha filha também não enten- 
de portuguez I ?. . . Não; isto é um absurdo I.. . um im- 
possivel I Ella não me conhece ; leve medo. Vejamos. 
{querendo abraçai-^) Sou teu pae ; então tu não queres 
dar-me um abraço ? trago-te um bolo, vem cá. . . pas- 
me uma flor ? 

HiMi (atirando o ramo ao chão e puxando made- 
moiselle Norbert para o lado da poria) — Gonnais pas t 
connais past connais pas!.. . 

BarIo — Qhl maldição do. ceot (apertando a ca- 
beça) Onde estou eu.. . que até já principio a desco- 
nhecer-me!.«. {passeando) Tenho medo de endoidecer... 
A' entrada^ um frade lazarista ; depois uma irmã de ca- 
ridade, uma criada franceza, criados francezes, meu fi- 
lho afrancezado, minha filha á franceza. . * Parece-me 
que vejo a cidade de Paris toda em peso dentro da mi- 
nha própria casa!.. . Ohl isto hade acabar! 

Pedro {entrando precipiladameníe pela direita se-- 
guido pelo criado) — Quem.. . quem foi que se atreveu 
a interceptar a carta ? ! 

BarXo — Eu ! 

Pxnuo — O senhor.. . {perlar bania- se) 

Barão — Esperava que viesse também faltar-me fran- 



k VÊM n cAfti»án. il 

tez; porém uma vec qve nSo efiqmcaa totalmente a lio* 
gua que se Mia na roa terra» saiba que se por li o edu- 
caram á franceza^ eu Tenho muito disposto a ensiníal-o 
é partugueza I 

Psmo (eam respeito flkê do meio) ^^ Meu pae ! 



Cme o panno. 



ACTO II 



{k mesma 'decoraèio.) 

SCEVA I 

O PÂDRB SAL\\DOR, dcpoiS MABU* 

(Ao levantar do panno, o padre Sahador está sentado janto d^nma 
das mesasi, sobre a qual apoia os cotOTellos, descansando a ca- 
beça entre as mãos; momentos depois, Maria entra pelo fando. 
£ noite; a scena está apeaas esclarecida pelo reflexo d'uma lan- 
terna de furta-fogo collocada ao lado do padre sobre a mesa. Ou- 
vem-se distinctamente Ires pancadas pausadas em ama das por- 
tas.) 

Salvador (kmntando-se) — Benedictí qui veniunt 
in nomine Domini. 



(A estas palavras abre-se a seganda porta da direita 

e apparece Maria.) 

1)1 ARI A (inclinand(hseíj — A paz do Senhor seja com' 
i^osco 1 



A illU M CÀilAAM. iS 



Salyadok (inclinandc-^e) — S/Fraftcísco de Paula 
\os proteja I (aproximando-se da mesa) O homem dome ! 

Mahia — Espero que .durma ale ás seie boras da 
manhã. 

Salvadoh — Muito bem. Tendes realmeolc estuda- 
do aquelle coração? 

Maru — O vicio existe n'elle como o áspide na 
flor : aí de quem ali procurar uma afeição I 

Salvador — E' pois incapaz d'um sentimento gene- 
roso ? 

Maria — De tudo que n'esla vida coramove e obri- 
ga a reconhecer a ipGnita bondade de Deus, na expan- 
são dos sentimentos piedosos ! Cego pela paixão desorde- 
nada que o incendeia, sacrificaria tudo que podesse con- 
Uarial-a ao capricho de um momento 

Salvapoe — Logo esjá completamente deMruida a 
affeição pela filha da condessa do Lavre? 

Maria — Completamente exlincla i 

Salvador — Induziste-lo a escrever a carta que vos 
prescrevi ? 

Maria — Bil-a* {dando-lhe uma caria) 

Salvador (lomando-á) — Oh ! que felicidade pa- 
r4 o conde d'A8si»mar que é tão nosso amigo 1 (para 
Maria) Minha filha, fizemos uma grande obra de cari- 
dade ! 

Maria — Confio na vossa piedade, e preso-me de se* 
guir escrupulusamcnte os vossos dictames. 

Salvador — Fostes o instrumento por meio do qual 
impedi a desgraça d'uma mulher, tornando outra feliz. 

Maria — Feliz? 

SavADOR — A filha do conde dAssumar.é mente* 
capta. 

Maria — £ tendes razão: só os mentecaptos teem a 
fraquez9 de se julgarem felizes n'esle mundo. 

Salvador — Muito bem, minha irmã; ide na paz 
do Senbojr* e na guai'da do vosso santo patrono. As por- 



tas abrir se-hio dianle de vós : espera-vos ama sego á 
quina da rua. Ide. 

Hmii — Porém esla desappariçio inesperada. . • 

SàLviDOtt — Eu a explicarei. 



(Maria e o padre Salvador indínani-M beaUmante na presença um 
do oolro. liaria irae sair pelo fondo, a porta da direita atire-se 
com violência ; o padre fecha ioiaediatamente a lanterna de fur- 
ta-fogo.) 

SGENA II 



o VàDU S4LVAD0B, MARlA, B FEDkO. 

Psnito (cmn uma risada nertvsa) — Extinguiram a 
luz ! Nâo importa. Teiiho-os fechados na mio 1 (fecha a 
poria sobre êi) Escusam tentar evadír-se. Todas essas 
portas eslSo fechadas ; e de Iodas tenho as chaves n'al- 
gibeira. Fui previdente; não tomei o narcótico. Oh! a 
piedosa, a virtuosa irmS de caridade.. • estava dando 
razslo, alta noite, á maledicência do povo, á reprovaçaa 
do jornalismo, a» insultos dos escribas t . . Só o crime 
se esconde nas trevas 1 Se ^qui estavam dois justos, por- 
que não apparece a luz ? (n'e$te mometuo toma a escla- 
recer-se o iheairo. A hz rtjlecle sobre Maria que f>/á no 
cenlro da scena; Pedro corro a lançar-se-lhe aos pés) 
Ah 1. . . A saudc do raeu coração t Maria, para que fim 
quiz a Providencia que eu te encontrasse.. . se constan* 
temente me foges ! E se lu sonharas ao menos quanto 
ha d'amor verdadeiro, santo, n'este coração.. . compre- 
henderias como sinto, pela influencia da teu othar, pe- 
netrar em mim a inspiração divina. E não sei expres- 
sar-t a senão pelas mesmas palavras já tão repelidas e 
despresadas: amo-te! (breve pausa) Manda-te porventu- 
ra a religião que descreias do mais bello mysterio de 
Deus? que mascares a lua alma com a indijferença ; que 
regeles o coração no voto de «humildade.. • o teu corá-* 
cão de mulher^ que não íòi creado senão para estreme- 



A uni »■ CAmniáPS. S5 

cer d'amor7 e nSo eslremeoes tu deveras quando eo aper- 
to nas minhas mãos as tuas, e te juro pela salvação da 
minha alma um amor eterno? {pausa) Resfrias, tre- 
mes. . • pobre mulher a quem talvez estranhos prejuízos 
tomam forte no que tu mais desejarias ser fraca. . • {re^ 
pentinamenie) £ esta luz.. . quem a segura?!.. . Quem 
está alit?.. . 

S.LVADon — E' o prejuiiú que toma essa mulher 
forte ; é a religião que lhe recorda a todos os momen- 
tos as suas obrigações* Acha que a religião seja um pre- 
juízo ? 

PsDHO — Padre, a'um paíz livre comoonosso^ não 
se contrahem obrigaçOes a despeito das instituições \ib^ 
raes I O que ha entre nós que impeça o livre arbítrio 
nas condições especiaes das nossas leis civis e religio- 
sas? 

Salvados — Ha o amor de Deus, meu filho, tão in- 
felizmente contrariado pelo exaggero do amor da liberda- 
de. Não prosígamost porém, n'uma questão onde o meu 
zelo podia levar-me tão longe como a allucinação das 
suas idéas. A principal virtude consiste em saber mode- 
rar a paixão. Seja prudente : se deveras ama essa mu- 
lher, ella pouco lhe pede : apenas um generoso esqueci- 
mento, (para Maria) Mas parece-me distinguir uma 
lagrima nos seus olhos, inínha irmã ; será precursora 
do erro? 

Pbdbo — As lagrimas do crime são frias e turvas ; 
estas que borbulham cristalinas... (pegando-lke na mão) 
e escaldam, como senti agora, são filhas d'essa commo- 
cão sublime que tanto procuro merecer, e que já ellas 
\eem annunciatrme. 

Maria (àpa íe) — Deus meu, dae-me força para re- 
sistir alé ao fim I 

Salvador — Minha irmã, entre o amor dos desgra- 
çados, que é o de Deus ;'e o doesse homem.. . 

Maria — Padre.. . a desgraça tem-me perseguido 
tanto, que um momento de graça abala-me, t>em contra 



$6 4 ml M GAAIOAIIB. 

n fflinba voalade» o coração lodo ! Contrariada pela mU 
pha família a coulrabir um casamento desproporciona- 
do, soffriy reci^ndOf tudo quanto uma mulher pode sof- 
frer das mãos de seus pães I O que o mundo offerece 
grandioso e bello a uma rapariga de dezoito annos, co- 
mo qiue para enflorar-lhe o quadro das primeiras ilju* 
soes, foi para mim luto e desespero ^ reputeí-me desgra* 
cada e quiz no amor da desgraça achar o allivio d^ meu 
«offrimento. Ha três annos que presto com lodo o pos- 
sível zelo religioso auxilio aos infelizes, velando, esque- 
cida de mim própria, á cabeceira dos que soffrem. Mas 
eu lambem devo a Deus a minha alma» a minha existên- 
cia, e sinlo que a minha alma $e perde na falia quecom- 
mettí fugindo a meus pães, como sinlo que me suicido 
pouco a pouco n^esle esquecimento a que votei o cora- 
ção I Quero purificar uma ; reanimar o outro : e o amor 
verdaJeiro purifica, c a felicidade rfienima. 

PfiOHO — Ohl bem hajas que me salvas, Maria! 

Si^JLVAOoa — Creio que deliraes, iimSI Já n$o te- 
meis o vicio que existe n^esse corc^ção como o i$spide na 
flor? Não receiaes procurar n'elle uma affeiçãof.. . 

Maria — Se o vicio resistir, e vencer, morrerei 
martyr das minhas crença^ depois de ler empenhado 
o coração em ganhar uma alma para Deus ; o se é um 
crime o que faço, Deus que me castigue I Se a religião 
absolveu a filha que renegou seus pães, amaldiçoará aca- 
so a que sae do centro da irmandade onde foi apenas 
pata esconder ao mundo o coração criminoso? Pelo amor 
de Deus, meu padre, sede compassivo, deixae-me voltar 
a esse mundo que não posso esquecer. . . 

Pedro (emhusiasmado) — £ onde este sentimento 
que m'iQspira& hade fazer4e feliz e invejada ! 

Maria {ajoelhando aos pés do padre) — Que eu ache 
o castigo do meu erro no desengano d'esta illusão, se 
elle não souber realisal-a I 

(O ihtatro priacipit a McUrecer-M pelo primeiro alvor do dia.) 



* Pbd«o — Que eu perca para Moi^d.doèiDeiis olhos 
esla luz que vem de Dtitô, se ma momento eiqoecer o 
meu juramenlo. {ajoelhando) E' a primeira vez aa mn 
nha vida que dobro com verdadeiro respeito a joelbo pe- 
rante vm ministro do altar. ^ci*ftdiAa6-me agora ; é um 
anjo que me conduz a vossos pés. 

Salvados {com enthusiaíwH^ fe/i^iaio)-^]Heu filho, 
a religião, triumphaado em vosso paiio á faz doesta mu* 
iher, desarma o escrúpulo do sacerdote. Sede bemdi- 
tos t (levantandO'0$ nos braços) 

Pedro — Sou feliz I pareee^-ma que sinto dentro do 
coração a luz magaífita doeste dia que nasce ! 

AIaíi A -^ Agorai padre, queira eAominar essa car- 
la escripta por elle, que ha pouoo lhe dei, e perdoar-me 
se rão é no sentido prescripto. 

(O padre tbra repenUMafnU a «*rU e corr«>^ com a vUia*) 

Salvadob (4par<«^ -^ A ordem perde ; mas a reli*- 
gião ganhai (ai lo 9 Pedro) Mtu fiiho. o triumpho é com*- 
plelo. Não recuso cumprir a vossa vontade. 

PtiDRO (a Maria) — E tudo te devo. anjo de cari- 
dade! Ohl parlame^! {satm pela direit 1) 

SCENA III 

« 

joio cHHisoai OMO, depois o criado. 

João (dentro, junlo da porta do fundo) -^ Kstá íe- 
chadai dígo-te que está fechada, entendes, bruto? Vae de 
i;oda abril-t), depressa ! 

Criado (entrando pela direita vaeaò^^ir a poria da 
fundo) — Voila, monsiaar. 

Joio — Quem estaca n^eata «ita ? ! 

CnuM ^ Oh i n'e6ta sala ? (afra^azando a p^^nun- 
ca) 

JoÀ.o -^ Sim 1 nesta saia ? 



as à IMii M CAU»âBB. 

Cbiído {íorrmio) — Nie entender, senhor. 

JoXo (fazendo-lhe signal para abrir as janellas) -^ 
Abra as janellas. 

Criado «—Voila, monsíeur. {abre as janellas) 

João {ocomparÂap^o com acções Xudo que diz ao 
criado) — Quero almoçar. 

CniADO^^Oh!.. • bom I.. • 

JloÃo (^Mtondonie) — Quero presunto, ovos fritos... 

CfiuM — Omelette souflée. 

Joio — Ovos fi itos. 

CauDO --* Si : omelelte souflée. 

Joio — Creio que aio tenho remédio senSo almo* 
çar à franceza. V& chamar o copeiro e o cozinheiro. 

GaiADo — Oh I cozinheiro, copeiro, voila, mon- 
sieur. {soe) 

JoAO (levantando^e) — Ser portuguez dos quatro 
costados e parecer estrangeiro dentro da sua própria ca- 
áa. . • quem teria dito símilbante coisa a meu avô, quan* 
do ganhava d^aquillo com que se compram <ms melões 
que estes senhores comem á franeeza 1. . . 



(O criado, o cosínheiro e o copeiro, typos tfrancexados, 

appareccm ao fàndo.) 



CaiiDO-r-Voilá, monsieur. 

Joio (medindíhos com a vista) — Ando de mal a 
peior 1 esta gente não é portugueza. (ao cozinheiro) Que 
sabe você cozinhar para o almoço ? 

Cozi^Hiiiao — Cozinhar tudo que monsieur encon- 
tra em grandes mesas ; grandes molhos, grandes assados, 
grandes fricassés. . . 

João — Sabe fazer assorda com alho ? 

Cozinheiro (indignado)-^ Oh l.* Ter servidjd gran- 
des casas, preparado grandes almoços, e merecer gran- 
des elogios do ministro da França, do embaixador de 
Hespanhli, do ministro d Inglaterra e da Bussía. 



João {ao copeiro) — Que qualidade de vírIio ha na 
copa? 

GoFEiiio — Château-Margaux» GháteaQ LaffiUe, Sao- 
terne/ Ghâleau Yquem, Glos-Vougeat, Ghainpagiie...e to- 
da a qualidade de cremes. 

João — Huilo bem. (passeando muito canl^ariaio) 
Muito bem I Lavradio, Madeira, Porto. • . isso tudo oão 
presta !.. . E* antigo, é mau. é porluguezt {chegando á 
jafiellá) Pscio ! Pscio ! Ó freguez 7 Venha cá acima ; su- 
ba a escada e volte á direita, {ao criado) Ponha a toa- 
lha e quatro talheres n^aquella mesa. {ao cozinheiro e ao 
copeiro) Podem ir passear meus senhores; vão para on- 
de quizerem : estSo dispensadosdo serviço, {osdúissaem; 
o criado occnpa^se a preparar a mesa, João Cítrisoeto^ 
mo dírige-se ao gallego que apparece ao fundo) Olá, fre- 
guez ; qiier-se ja uma boa dose de mio da vacca e uma 
garraftt de bom vinho da Madeira. Aqui está dinheiro, 
(o gaUego sae) E' preciso que cada qual se entenda com 
quem se entende. E' tempo de remediar esta doença con- 
tagiosa que vae grassundo em minha casa» e de mostrar 
que ninguém hade fazer de mim o que quizer por me 
ter feito barão. Sou bário, convenho ; prezo^me muito 
de o ser ; mas quero ser barão porluguez. 

Criado — Senhora baroneza, arrivée. 

Joio — Prohibo-Ihe que me torneafallar! Está 
posta a mesa ? muito bem : retire-se, e diga á senhora 
baroneza, quando chegar, que eu cá estou is soas or- 
dens. 

SCENA IV 

JOIO GHBisosTOMO, E A bí^honeza, cntraudo pela galeria. 

Baroneza — Não esperava que tivesse desembarca- 
do hontem, barão ; por isso me retirei para Pedrouços, 
onde desejava recebel-o« E' tão lindo aquelle sitio t Go- 
mo está, chegou bem ? 

João — Peço*lhe desculpa de a ter mandado incom- 



30 A ittni: Dv eABn>Ai>ií. 

modaraPcdrooços : é tJo lindo aquelfe silio!. . . Porém 
sentia-roe sem animo de ir até lá. 

BARCmezA. [tirando o chalé e o chapeo, e em ncção 
de locar o ítmftrí)-»- Parece que ninguém deu pela mi- 
nha chegada. . . 

Joio — PerdSo, baroneza, vae chamar alguém? 

BAnoNEZi^-^Sim, mademoiseHe Nórberlaqucm de- 
sejo (far algumas inslrucções. 

Joio — N5o eslá cá. 

Baronezí — Kao eslá? Quçm lhe permilliu sair? 
abandonar Bf Imi ? 

João — ^^Eu, minha senhora. 

B\rone:è\ — Ah. . . , • 

João — Era a meslra de Mimi, níõ"? Dtespedi-a hon- 
tem. 

Baroneza^ Per mille-me perguntar-lhe porquê? 

JoÀo — Educava muito mal a menina. NSo lhe en** 
sinava portuguez. 

Baroi^cza [rindtl) — Portogoez. .• . Isso aprelide-sè; 
com o tempo. - 

JoÂo — Eu quero que minha filhai o aprenda com 
mestres. 

Baroneza {sentando-^é) — Ha tantos. . . 

Jqào — Nâo parece, póí-que meu filhorteve de ir a 
Paris para ser educado. 

Baroneza — De certo 1 Que aprenderia elle em Lis- 
boa 1 . 

Joio — Pois, baroneza, meu filho voltou de lá mui- 
to mal creado t Gostava d« sabef em que n'este ultimo 
anno gastou quatro contos de réisl.. . Escuso pergun- 
tar similhante coisa, bem 9A ; efetôu irtforAado dè qée 
o rapaz é uma espécie de déspota em segunda mão n'es- 
IB casa, onde vive sem rei nem roque I 

{N*este momento appareCe o gallego traíetcdo um prato coberto 

e ama garrafa preta.) 



À ímU Ml criíiawi ^i 

Babonbza — Qw quer este iioiiiem ? ! . . i 

Joio — Vem trazer^me o almoço. (íúmmáQ dmmaos 
io galleg^ o prato^ a garrafé^ ê Íi9p&ná^9e á ahào^^ 
despedindo^o depois de lhe dar dinliêifo) 

Baroksza — Vem tr»zer-lhe o almoço ! Parece que 
bSo ha criados em casa. . . 

João — Mo se incoinroode ; enlendo-me Aiais com 
hespanhoes do que frahcezes. Quer almoçar? 

Babonsza {rindo, de) ois de medkèr um momenti») 
— Quero: só pela excentricidade. Que temo»? Qnè é 
isto, barSo? 

Joio — Mão de vaeca. 

Bahonbza -^ A' jMrtugfKsà : mas. . . o barSa espe- 
rava, sem duvida, que mais duas pessoas viessem hM* 
rar-lhe a sua mão de vaeca^ 

ioio -^ E' verdade, baroneza ; espero dois patiUH 
cos, perdoe-me a expressão, que de certo não fáRaria 
a honrar a minha mão de vacca. {ctnsuUando o relógio) 
Oito e Ires quartos. A's nove, estario eMfirtiosco. 

Bahoneza — Terei muito gosto de receber os amigM 
de meu maritio. 

JuXo — São favores que lhe devo, baroneza* Una 
mulher que se confessa «ma ^tíz por semtna, deWe sa- 
ber considerar seu marido ! Temos alguém doente em 
casa, baroneza? 

Baroneza — InfolfMienle» Pedro. 

JoÂo-^Motto doente V 

Barokbza — Bastante ; foi por isso que mandei cha* 
mar uma d 'essas piedosas irmSs de caridade.. . 

Joio — A proposilo, já nfio e&islem d^essas boas e 
santas mulheres porluguezas, nossas verdadeiras irmãs? 

Baroneza — Pedro, habituaÃ) a faltar francez, pfe-^ 
feriu uma das franeezas. 

Joio ~ Fe2 bem ; a caridade á Aranceza é inoib» mais 
caridade do que á pOMugueta ! As mulheres portugue- 
zas já não teem caridade ; dii!pèii«BiFam««se d^eêsa Mrtude 
que as incomtnodavft ; quando seus filhos eMlo* doentes. 



32 à tMtf M CASMAM. 

entregtin-n^os a mios estranhas, e partem para o campo, 
quando nÍo teem de ir a algum baile : recusam ás Glhas 
miaistrar-lhes pela sua própria intelligencia o pio do es- 
pirito, enlregam*nas a preceptoras estrangeiras que fa- 
zem d^ellas tudo excepto mulheres portuguezas ; e con- 
fiam illimitadamente ó futuro delias á sua educação gaU 
licísta ! A mio de vacca tem pimenta de mais ; não lhe 
parece, baroneza? 

BikRONBZA— Acho-a com certas prelençOes a gui- 
sado de encommenda! Entretanto é preciso confessar que 
está muito no gosto portuguez ! {aparte) A condessa de* 
mora-se ! . . . principio a ínquietar-me ! 

Chiado (annuneiandê do fundo) — O senhor Aleixo 
d'Azeredo. 

BAaoNBZiL — Aleixo d' Azeredo, n'este momento.. . 
(para o crtado) Mande entrar para a sala azul. {ao bar- 
rão) Naturalmente vem comprimentar-me pela sua che- 
gada, barão. 

JoXo — Eagana-se, baroneza ; vem almoçar com- 
aosco. 

Babonbza — Almoçar 7* • • Deus meul seria d*um 
ridículo tal. • . similhanle almoço !. . . 

Outro criam (anmmciando pela galeria) — * Mon- 
sieur le vicomte de Sandomil. 

BAROlf BZA — Ah 1 . . • 

Joio — Este chega em francez. 

Baroneza (ao eriaio) — Rectba o senhor vteconde... 
não ; diga-lhe que ainda não voltei. 

Joio — Perdão, baroneza ; o visconde é o segundo 
convidado que eu esperava. 

* Baronbza — Que o barão esperava l não compre- 
hendo. . . O barão conhece o visconde ? 

Joio — E' eHe que não me conhece ; mas a baro- 
neza hade ter a bondade de apresentar-me tanto a um 
como a outro, {ao criado que annunciou Akixo d*Aze^ 
redo) Mande entrar o senhor Aleixo d'Azeredo. 

Baroneza -^ Convenho ; e em quanto ao visconde... 



A uni Al CAÍI04M. . a3 

Joio -^ Já que chegou eiB francês, queira n^dor 
que o inlroduzaiu em fraocez. 

B%iioNEZÀ [ápane) — Deus meu, nio aeí o que adi- 
vinho ! 

Joio — Enlão, minha senhora ; nio pede a corletta 
portugueza que obriguemos a esporar fidalgos I 

Baroneza -^ Mas, simiUianle coberta • . 

Joio — Qual coberta ?• . . 

BiiBONiizi — Este serviço. • . {indicando a mesa) 

Joio — Abt o almoço chama-se coberta, serviço, 
excepto almoço. Baroneza. . , eu nio tenho culpa de nio 
encontrar em casa um cozinheiro que me entendesse ; 
nem de achar a copa recheada d'aguas com assucar ba« 
ptisadas com titules francezes I Era tal o aperto em que 
me via. que nio tive remédio senio recorrer a meios vul-- 
gares. . . Vamos, baroneza, queira mandar entrar o vis- 
conde ! 

Babonrza (aparte) — Oh ! eu vou morrer de ridí- 
cula diante d'ellel.. . (alto) :Permitta-me adverlir-lhe, 
bário, que a franqueza, que é amabilidade na provin- 
cia, torna-se ridícula, e muitas vezes insultante, nos cos- 
tumes de Lisboa. Ha cortas visitas que nio devem ser 
recebidas familiarmente ; e o visconde. • . 

Joio — Está perdendo tempoi baroneza. Nio deixe- 
mos esfriar a mio de vacca ! 

Babonbza r— O visconde nio deve de ser recebido 
n*esta sem ceremonia, muito conveniente para um ami- 
go intimo, convenho, ou algum inferior; mas alta- 
mente revoUandB para um Cometa <cKstincto, que julga 
honrar-nos com a sua presença, e que nio veria de cer- 
to n'esle gsMra de recepçio mais do que uma prova 
de» * • 

Joio — DMnctvilidade 7 
BAaoNBZA — Talvez! 

Joio-*-- O Tlsconde bem sabe que sou provinciano ; 
pé de boi, avesso a todos estes prejuízos da capital, e dis- 
so a que por cá estio chamando o grande mundo f Se a 

8 



baronmi nSo manda entrar o visconde, too eu mesmo 
recebel-o. 

BAE0NBZ4 — Por qnem é, bário ! 

João — Socegue, baroneza; eu lhe explico ludo. 
Fui portador d'oma carta para o visconde que tne dis- 
pensa de certas formalidades. O visconde é todo do go- 
verno ; o governo precisa d algum dtnbiBlro ; além d'is- 
so proponho-me construir á minha custa algumas estra- 
das na minha provincib, e tudo isto quer dizer que de- 
sejo ser feito visconde. Hande-o entrar/ baroneza; asse- 
guro-lhe que nos entenderemos perfeitamente. 

BARORBZà (aparte) — iSe ao m^os chegasse a <^on- 
dessa. . . NSo sei o que ine adivinha o coração que me 
inquieta I. . . 

Joio (aa (^rÚKfo) -^ Mande entrar o Penhor vis- 
conde. 

Baronbza (aparte) — Jesus!.. . que desespero ! 

SCÊHA IV : 

I 

Joio omiaalBnNif^ i miMmwzk^ e momentos depois aleixo 
]>'AZBBtoo peta galeria, e o visoenoi ly* sa^domíl 

pela aote-aaia. 

(Joio Ghriiostomo consenra-se en pé ito ladtt àt UeH : a bWmatV 
aatf 00 ootttroda «ottia e tne ièflUu^M ao topif, aè^ttomento 
que ellei ootran*) 

Viscoif DB <éfiib wmpHpewÊaUui) -M-.^QMrida Lauru; 
(a baroneM^ faa^lhe ttm gesto êigpreêsico; útiscemd^^M^^ 
re a sema com os olhos e o# Jéàê y^imimw, « ^m 
entrega o chapso e a capa) Achei muita graça á sua.sup»« 
posta partida.. . não sei para akKfc ; è o pfater qde me 
causa esta entrevista. . . (novo gssia éb-ba^m^a; b vis- 
cpnie filha parm João €hsÒs9stÊmo á4Í0^) Quelfa man- 
dar di2;ftr «o oMu joâbey tfsè volte eoUF» tylbttry^ áo: 
meíaiiiA. 



r 



A tÍMl ftt GAtltlADt. 



»S 



BkMHnk {ápatie) — Oh( Í)eus rheilt Densmeut 
qm significa isto?... Estou perdida ! 

Aleixo {entrando, áparie) — Que Tejo! O visconde 
esi&cá? 

Visconde — Que tem, Laura ; que patlidez é essa... 
BàRONEZA (témníandthsè p¥ecfpiíadamenli. aparte) 
— Oh! se eit U^efa a facilidade de desmaiar. . . 

Aleixo [aproximando-se rapidamente d^elld, o meia 
nz) — Senhora baroneza, lame.nto que v. ex.* não se 
Xivtsse lembrado de negar-se ao visconde, uma vez qué 
me dava a honra de me esperar t 

. Visconde (aparte) — Aquelle maldito períodiqueiro 
tem o instincto (alai de chegar sempre na peior occa- 
sião! 

Babonezí {esqúirand(hse a Aleixo que lhe falia de 
vagar, e tornando a sentar-êe) — lealmente, meus se- 
nboresy estou ^encantada da sonicílude que empregaram 
eÈí tir libdipf imehttir-fne. . . (Joàò Ckrisostofho ^cnia-sé 
pagarosamertí^ tCumá cadeira ao lado do sophá ; a 'eis- 
condi kwirda-êe logo muckinilmenle ; Aleixo faz um ges- 
to de surpreè i) E rogo que me permitiam de os apre- * 
sentar. . . a meu marido, {indicando o barão) 

Visconde (esiupe facto, ápar(e) — Seu marido I... 
^ " Aleixo (estupefacto^ aparte) — Seu marido !... 

VéteoTOB (áparie) — Qual d'eíles me preparou esta 
scena ridiculâ!... Ohl se o períodiqueiro soubesse 1... 

ALSfxo (dlpof (4 "^ Kstou codilhndol Se o iisconde 
adivinhasse!... 

BabILo — Preso-mé na tefdade dè rtèerber tanto o 
senhor Aleixo d'Azeredo como o senhor víscotide deSan- 
dbúiH ; e peço-lheè^, fee^ póssivet» que xH^ coiiteifi rio nu- 
mero dos seus amigos. 

Aleilo (eom l^iraraniénro) — E pára {principio das 
honrosas relaçSes que v. ex.^ tenl a bondade de propor- 
me, permilla^me pedir-lhe o seu auxilio pata a gloriosa 
e hova ícruzada que hoje se levanta emPortu^Il ((iran- 
do um papel) 



36 â ItVl M € AltOáDl . . 

■ 4 « 

BaaXo (aparte) — Acho graça > iiDjradeacia doeste 
homem t Naturalmente foi educado em Paris: e no fim 
de tudo sou eu que faço figura ridícula jQ'esta scena i 

YisGONDK (baixo á baronezá) — Nâo me explicará 
pára que fim me comprometteu? 

fi\r.0NEZâ (baixo ao visconde) — Era justameate o 
que eu estava para lhe perguntar, visconde t 

Atfiixo^— Nao é um Pedro o eremita que ywi pelo 
dom da sua eloquência mover-no^o aniipo contra a fero* 
cidade dos bárbaros. £' a voz da liberdade, que tanto 
sangue nos custou, que hoje se eleva em Portugal cha- 
mando os bons portuguezes contra o gígaat^ que intenta 
levaniar-se para esmagar-nos! 

B\HAo — Qual é pois o gigante que tanto nos ameaça ? 

Aleixo — A inquisiçSq. . 

BarIo — O quei depois de lhe tecem convertido a 
casa em theatro? Qual historial Hoje, a verdadeira in* 
qui^içSo é cada qufil na sua casa com sua mulher e seus 
filhos*. Nâo lhe parece, baroncza? Agora fallandQ seriar-, 
mente, o excesso de liberdade, a que tudo islo tem cbe- . 
gado é que faz receiar a volta da intquisíçSo» e, se- 
gundo li n'um çart^pasío, que lá tenho na província, 
foi também o abuso da liberdade que a.fezapparQcerno 
reinado de, D. João iti, ainda que alguns autores prín* ^ 
cipiaram a queimar tratantes no tempo de, p. Manuel. * 
£m todo o caso, meus senhores, se ella.apparecesse ho- 
je, creio que; liem todo o pinhal dAzamínija lhe liasla- 
ria para queimar os insolentes ! 

Aleixo (^dpar/^) -^ Toma que te dá JoSo Braz! al- 
to calibre, i queima-roupa! 

ViscoNOB (áparle) — E* uma provocação! (íet^afi-. 

tand(hse) 

Baronbza (tatèçando um olhar supplicatUe oa vis-- 
conde) — Jesus, meu Deus I 

Visconde — Senhor iar Jo, por vezes trilham o mes-, 
mo caqiinho < homens que todavia não d6vem confonn 
dir-sè. ' „ ;, 



A WU AK CABMAM. ST 

AiMíxo {ápoiie) . — Aquíllo é comigo I que desgra- 
^da idéa qoe tive de fallar na inquisição t 

BarXo — iNão tive o gosto de o comprebeoder, se- 
olior visconde. 

Visconde — Quero diíer que o tratante e o insolen- 
te é o Iralante e o insolente. O passo que avança écyní- 
camente calculado antes e depois ; e tão cynicose mos- 
tra ao avançal-o como em mostrar que o avançou : em 
quanto qoe outros homens, illudidos pelas circunstancias 
ou por um sentimento .irreflectido, commettendo como 
elle uma acção pouco em harmonia com a moral, sa- 
bem todavia indemnisar honrosamente o prejudicado. 

Barão — Dizem lá na minha terra, que quem ves- 
te a pelle do lobo é lobo ; e quem não o quer ser, que 
não a envergue. Voltando porém ao que dizíamos... 

Alkixo — Todos os bons porluguezes teem assígna- 
do este protesto contra a importação dos frades lazaris- 
tas e das irmãs de caridade... 

B]»Xo — A fallar verdade, temos tantas . . . que 
escusamos imporlaUas. 

Aleixo — E eu apresso-me a pedir a assignatura de 
V. ex.% porque a introducção d'ésla gente é um passo 
avançado para o império da inquisição I 

Bahao — V. s.* sonha com a inquisição, {ao víi- 
túnde) V. ex.* assigna também o protesto? 

VisGoNOB — Quando vir ahi o nome de um homem 
Verdadeiramente nobre tanto pelo seu comportamento po- 
litico, como moral e religioso. 

Aleixo [aparte) — Vou embrulhal-os ! [alio) Senhor 
barão, espero que v. ex.* não queira mallograr-me a es- 
perança que tive nos altos sentimentos qoe lhe altribuo. 
(apresenla-lhe o papel, o barão assigna; volta-se depois 
pjfa o cistonde com nm sorriso de velha o) E v. ex.^ 
não assigna agora? 

(OfiKonde hesitando troe» nm olh«rcomab«roneia, o btriío 

fijiic«*vi disfcrahido..) 



J9 A lim DB P4%I04Pf* 

VISGOI9D4 {baixo á baronfza) -- 1 segunda provoca- 
ção! Comprebendc quanto me GcadevcadóçeçuassígnarT 

(A baronesa baiia os olhos ; o Tisconde faz um passo para % mesa.) 

CnuDQ {amunciando pela ante-êala) *-- k senhoi:! 
condessa do Lavre. 

Bi^uoNEZA (correndo a recebel-a) — Aht,. .minha 
amiga. . , vem Íl\Tar«^me, talvez, (l'um credor inexora* 
vel ! 

SCENi V 

à BARONEZA, O BARlO, VISGOKDB, ALEIXO D^AZBREOOj 
A COiNDBSSA DO LAVRK, B J^LIA. 

Condessa — Corro a abraçar-le, qperida. Como che- 
gou teu marido? {baixo) Que tens.,, pârece-me quenao 
estás longe de chorar t? 

Bakonbza (beijando JuUa) — Minha filha, « . 

Barão -«^ Poze annos d'ausencía nâo aie tornaram 
desconhecido á fílba do meu velho amigo? 

Condensa — Ah I senhor barão, com que prazer o 
vejo. Apresenlo-lheanela (indicondo-lhe Júlia) que sem 
duvida já conhecia de nome, 

BârJIo — E' o retrato d'elle! e lao interessante co* 
0)0 sua mâe. 

(A baronesa coBTÍda a condessa e Julia a senlarem-se.) 

Visconde — Como eslá v. ex.% senhora condessa? 
(cortejando a condessa e depois Julia) 

AjLEixQ {comprimenlando-as) — Tenho o gosto de 
çomprimenlar a vv. ex." 

Condessa (baixo á baroneza) — Nao me explica* 
rás, querida, o enigma doestes dois homens aqui? 

Baronbz^a — Hasde pedir ao visconde que o deci- 
fre. 



A mu »■ câtmi—» li 

CoimttSà {ao barto) «— Aciío-o em bella disposiçfo. 
Desde já o previno que a sua presença veiu encher de 
alegria dois coraçOes innocentes I 

fiABio — Assim o creio, senhora condessa. 

CoaoBSSA — E já que estamos em família, aprovei- 
lo sem mais delonga o momento de tratarmos d^aqoelle 
casamento em projecto, que nSo deve ser por mais tem- 
po addíado, sem grave prejuízo e alteração do espírito 
dos interessados I & lao doce advogar a causa d^uma fi- 
lha, que espero achar desculpa da pressa com que de- 
sejo ventilar a qoealio. 

JcLià (baixo á eondesêo) —Minha mãe, está tratan- 
do do meu maior desgosto! 

Babomkza — Toátís nós sabemos avaliar o sentimen- 
to materno. Junto-me á minha amiga para pugnar pelo 
meu filho* 

Aluixo — fi* a época das cruzadas f Esta é sobre 
todas magnifica !. • • 

VisGORM — Onde haveria força para resistir-lbe t ? 

Bario — fia três annos porém que lhe resisto eu. 
Sim, meus senhores, tenho-lhe resistido com toda a per- 
tinácia d'um verdadeiro provinciano, aferrado ás suas 
convicções e crenças ; e sem pejo declaro que não lenho 
remorso algum da doença que a paixão tem, segundo 
affirma a baroneza, produzido em meu filho ; nem das 
lagrimas que me parece distinguir nos lindos olhos does- 
ta amável menina, (indicando JuUa) 

Condessa — Desculpem-lhe esta fraqueza tSo natu- 
ral. . . Minha filha 1 . . . 

BiBONEZA {levanfando^se^ e indo afagais) — Que- 
rida, confia em nós. Somos tão amigas tuas!.. . 

JujiiA — Oh !•* . não, minha senhora.. . não cho- 
ro.. . Era um argueiro.. . já estou melhor. 

Babonbza — Vamoò tomar ar. . . Eu também sou 
assim ; o calor traz-me as lagrimas aos olhos!.. . Va- 
mos. 



48 A IMIi M CABIVABr. 

SCENA VI 

o BAB^O, A CONDESSA, Ò VISCO^DR^ 8 ALBIXO B^ilZ RRDO ; 

A BARONEZA, B jcLiA proxiflias do fundo. 

■ 

YiscoNDB — Minha senhora, sem me recusar a as^ 
sistlr a uma questão em que me .presaria de tomar par- 
te, dando por findo o objecto da minha visita, peço as 
ordeua de \\ ex.» 

(A baroaeia oorteja, « lae oom Jolia pela galeria.) 

BarXo-- Gomo assim, senhor visconde?! Ainda não 
é meio dia, ainda nSo chegou o âeu trem. B eu tomei a 
Uberdade de mandar dizer ao eocheiro que nio voltasse 
senão ás seis horas, esperando que v. ex/ se digne hon* 
rar a nossa mesa« V. ex.* expendeu ha pouco certas idéas 
que me fas^em esperar tudo da sua delicadeza 1 Além 
dMsso desejo que seja ouvido por testemunhas compe- 
tentes o que tenho a dizer á senhora condessa, 

Albixo {áparie) — Vou oomprehendendo que nos 
usos da \ida o melhor meio de se iinr d^affaire^ é um 
,$Qns façon a toda a prova ! 

ViscoNDB (aparte) — A\eí\o ri-se de mimi E' o 
partido dos velhacos, (senia-se) 

ComissA {inclinando-se para o visconde^ a meia voz) 
— Dou-lhe parabéns, visconde^ pelo sorriso que o barão 
parece querer consagrar-lhe. 

Visconde {aparte) — Se esta mulher soubesse o va- 
lor do epigramma que me jogou, rir«se-hia de mim to-^ 
da a vida 1 

^ BabZo r-^ Tenho que jusUficar-tme do que ha pouco 
avancei a respeito d'este endurecimento do coração que 
Qão me deixa acreditar nem na paixão de meu filho, nem 
nas lagrimas da sua filha, senhora condessa. 

CoNDBSSA-^Hade.ser-lhe difficíK 

Biaío-^Meu filho é muito creança; trouxe dePa*- 



ris ídéas extravagantes qoe precisam d^algúma relbVma : 
e eu venho buscal-o para aperfeíçoar-lh^as por meio do 
trabalho no silencio e na obscuridade da minha provín- 
cia. Senhor visconde deSandomí), quer dar-seao incom* 
modo de lerá senhora condessa esla c^rtál (dá-Íhe uma 
carta) 

Condessa — Uma carta? de quemT! Mas eu a leio. 

BarXo — Perdio. Eu disse a t. ex.* que precisava 
de testemunhas. B' por isso que me atrevo a incommo- 
dar o senhor visconde. 

Visconde (aparte) — E' lettra de mulher I. . • {bre- 
te patifa durante a qual parece consultar o conteúdo da 
carta) 

Condessa — Entio ? 

YisG^Hira (tendo) — cPedro, ainda que eu cuide de 
acabar ao mau tratamento que recebo de minha mie, 
nao caso comligo* As desfeitas que me tens feito pelo 
amor da irmi de caridade bSode lembrar-me sempre! 
Além d'ísso os vícios que em ti já dominam desde que 
chegaste de Paris, repugnam-me : a tendência que tens 
para as cartas, rivaes tSo poderosas do amor d'uma mu- 
lher, acaba de decidír-me a pôr um termo á nossa cor- 
respondência : por ultimo, a doença que nossas mães di- 
zem ser causada pelo meu desprezo, nSo é senSo um pre- 
texto para teres junto de ti essa franceza que te allucí- 
na ; e a suspeita que sempre tiveste de eu amar em si* 
lencio. . . 9 (suspende-se rapidamente, e perturbasse) 

Condessa — Quem ? ! . . . Visconde, dô-me eissa car- 
ta ! Dé-fne essa carta !.. . 

V12SGONDB — ^ Perdio^ senhora condessa, devo resli- 
tuil-a a quem m'a entregou* (entregando-a ao barão) 

Aleixo (áparie) — Que bello assumpto paraoJ^ra;? 
Tizana ! 

Condessa^ — Senhor bário d'Almodovar, espero que 
me entregue essa carta I 

Bar\o — Esta carta pertence a meu filho^ senhora 
condessa. 



49 A w^ o» aiinA^s- 

GoNOsssA ~ Quem aabe se é ealaoiniasa ! Mioba fi- 
lha era incapax de a ler escríplo : não ousaria por cer- 
to commelter similbaBle falla^ ainda mesmo qu.e fosae 
Ycrdade ludo que ahi se diz 1. . . . 

Baii&o — Begulo-me pelas camponesas da minha 
yilla, senhora condessa ; quando lêem dezoito annas e 
um coração: cheio d'amor, sao incapazes de se eolrega- 
rem ao m^is pintado, como ellas dizem. 

CoNDsssA —Senhor barão, v. ex.^ falia lauto da sua 
\illa e da sua província que me obriga a dizer-lhe que 
desconhece campletamenle a vida en) Lisboa ! 

Auixo — E V. ex.' já leu o romance do, nosso lur 
lio César Machado ? 

BahAo — Não duvido^ senhora condessa, & acho 
d'ísso mesmo sufficienle desculpa, se porventura vou 
ainda commelter nova inconveniência t {tirando d'algi- 
beira ouira caria) Honlem ás seis horas da larde» pou- 
co mais ou menos^ honrou-me alguém com esta carta 
que devia ser entregue á baroneza. 

VisconuB [aparte) — Que vae esle homem dizer ! ?... 

BahIo — £' um cavalheiro completo. Esta carta, 
dirigida á baroneza, linha por fim empenhal-a junto de 
V. ex/ em obler-lhe a mao de sua filha. 

CoNoiiSSA — Senhor barão, agradeçó^lhe o interesse 
que toma pela felicidade de Júlia, mas.. . a felicidade 
de minha (ilha, hade ser cormo eu a entender. 

BiiBZo — E V. ex.* hade entender que sua filha po- 
de ser feliz quando cu ihe disser o nome do cavalheiro 
que a soilicila, e que.. . 

Visconde (a meia^vo^) — Senhor, barão!.. • 

Barão — E' o unico meio de resgatar a caria, que 
eu não li, consentindo que a improvise n'esle sentido. 
Meu amigo, casar ou metier freira í 

Condessa — E quem é esse homem? 

Barão — Tenho o gosto de o apresentar a v. ex.* 
[inàicando o visconde) 

Condessa — O senhor visconde de Sandomil ! ? (á/uir- 



Jk) Sefá po^wrel qw JttUa se atreva a aiMr esle ho- 
mem!? 

AtB|3L0--Ó senhora condessa, o nosso povo tem 
rifOes bem certos ! b*onde não $e espera soe e coelho I 

. Comfo&à (ie^^ei/oda)*" Senhor visconde, v. ex.* 
ratifica tudo quanto acabo d'ouvir? 

ViscoHnB — Acoreseenlando.que d'abt resullará a mi- 
nha felicidade ! 

Aleixo {ápairie) — Bravo I E' curioso |.. . 

GoMDBssA {aparte) — A baroneza soube da minha 
affeiça<» e Yiagi«-se.de um mo(W bam cruel l {kaixo ao 
visconde) A' baroneza é muito sua amiga, visconde! 

YkooMDi — Calculo a sua amizade pela inimizade 
de V. ex • 

BabAo — Creio que brinquei com cU^ como um 
verdadeiro galo amestrado ! 

SCENA VII 

4 

os MESMOS, A BABO^bZA, t: JULU. 

Cf^oBSSA **- Ah ! minha amiga, cempreheudo ago^ 
ra O motivo da tua ausência em companhia de Júlia. 
Quizeste dar ao negocio um caracter puranMynte oDicial. 
Bem me parecia que a presença d'e^ dois homens era 
um enigma t Já está decirrado. 

Bae(»<bza — Pelo amor de Deus, Anna, respeita a 
minha dôr ! vê lá que compiometlimento l 

Conpbssa — Nao ihe digas epigrammas, porque se 
eu quizer, ainda posso esmagar-te 1 

Babobbza— Que dizes tu? Nio eotendi ! 

CoNnBSSA — Entende como quizeres e quando quí- 
zeres ; é o mesmo, (para a filha) JuIia, acabam de pe- 
dir-me a lua mio. 

JuLiA -- A minha mão ?. . . 



44 à* wámi^m €á«nMM' 

CoitiiBSSá — NSo qQíz decidir seni te consoltar. É 
o senhor visconde de Sandomil. 

JuLiÀ [tramporlada) — O visconde?... Ah! minha 
qnerida mãe. . 

Condessa (detmdiha Còm um olkar severo) — Res- 
ponda, minha fílha. 

Jvh\k — Que heide eu responder.. . que heide eu 
dizer, uma vez que o senhor visconde soube adivinhar... 
perdão... Eu subjeiló a minha resposta á vontade de 
minha mãe. 

' Condessa [aopiscande, áparie) — Que^contradicçSo 
ridicula em que me sinto ! 

BARONfiZà — Anua... tu descoras.. • que tens? Que 
quer dizer isto ? 

CoNMSSA (baixo) — Quer dizer, Laura, que heide 
saber víngar-me da intriga com que me feres! (ao vis- 
conde) Senhor visconde, espero que fará a felicidade de 
minha filha. 

Baronbza {aparte) <— Que escuto ! que mudança é 
esta ! ? (aUo) Dou lhe os parabéns, senhor visconde. 

Barao {entregando4he turraleiramente a carta e a 
bilha que elle lhe deu m primeiro acto) — £eu também, 
senhor viséonde, e eu lambem, (a meia voz) A minha 
' vingança limitou-se a fazer-lhe um casamento. 

Baroncza [áparie) — Quem me dera achar a chave 
de toda esta intriga ! A condessa eslá altamente contra- 
riada. 

Aleixo — Aqui ha um grande assumpto para folhe- 
tim : o caso é piil\al-o a dente ! 

BarXo (a Aleixo) — Em quanto a v. s.\ aqui tem 
a libra com que teve a generosidade de brindar hontem 
o criado que lhe deu noticias de minha mulher. 

Bahoneza — Que esculo ! . . . 

(Rumor geral.) 

BakXo — Sim, minha querida, este senhor pagava 



por Qina libra noticias tsas. O que brá» quando eMive- 
ras comigo na província ? ! Devcmos-lhe mnito I 

(RÍMdas geraesO 

Aleixo — Senhor barão, v. ex.* exaggera!. ... Se- 
nhora baroneza acredite v. ex.\, . {muito atrapalhado, 
pega no chapeo qn$ o barão lhe oferece, e $ae precipita- 
damene) 

SGENA VIIÍ 

■ 

A BARONEZA, O TISCOIIBF, ▲ CMiOfaiA^, J0UA, ■ O lAKÂO. 

ViSGONDR^Itoâo á baroneza) — Minha senhora, de- 
ve a seu marido muilomais do qpe julga. Evite 06 exem- 
plos da condessa, e, dizendo um adeus etdrooá nossa lou- 
ca affeição, dedique-se inteiramente á sua felicidade. 

BarXo — EntSo, senhor visconde, ainda njlo está 
disposto 8 assignar contra as irmls de cari^de^ran* 
eesa? 

YiscQMiHi — Sim,, senhor bário: existe na lista o 
nome do homeoi mais nobre e honrado que ponheço» e 
ao qual desejaria estender a mio; tio leal e cavalheira-* 
mente como elle se tem comportado I 

BaiIo — Oh ! senhor. . . {aporitmdo^he a mão) — 
Oh ! senhor visconde. * . simplícidades de provinciano, c, 
nada mais 1 Bem ouviu dizer k senhora condessa que eu 
desconheço coAiplolamente os usos da vldà em Lisboa U.. 

YiscoNDi — Oh 1 mas é d'esperar do juizo da se- 
nhora condessa que retire qualquer dia o sentido de tal 
asserçio ! {dirige-oe a fallar á condessa que e$tá junto 
de, Júlia, a quem o viseofède também parece dirigir a p^-: 
lavro) • I 

Baroneza {apròximando^is do barão, quê a recebe 

amavelmente) ^BdAo levar-me. paraq pro.yiiíci» , este ve- 
rio, sim ? 



V. 



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o 



vA H&@ M& aOmOSÍ««« 



COMEDIA SM UM ACTO 



ros 



ALFREDO mkH 




USBOA. 

TTPOORAPBIA 00 PANORAMA. 
TBATISU DA TICTOBU, 78. 

1860. 



PeBSOWACiEIlS. 



lbofoIiDiníl da silva. 

CABLOTA, criada. 

BBNTO DA SILVA, homeiD de negocio 

ANroNio ANTUNBS, procuradoF. 



A acção é em Lisboa na actualidade. 



ACTO UNlCO 



(8alt em east de-B^nto dt Silfa, jahellt á direita» portas á esquer- 
da e no ÍQBdo» mobília regalar). 

SCENA I 



CAiLOTA sacudi ndo o pó, depois LsopoLDifiA. 

Carlota — Era bem bom se ainda houvesse.. . 
Acabou-se ; já nao ha I 
Hoje em dia . . se eu pudesse.. . 

(Rindo)k\il ah! ahl ah! ahi ah! ahl 

Logo um chapeo de palhinha; 

Logo uma saia balàt ; 

Sedas e branca luvinha ; 

E p'r*o nao chega um barão !.. . 

Era bem bom se ainda houvesse. . . 
Acabou-se já nao ha I 
Hoje em dia . . se eu pudesse. . . 
(Rindo) Ah I ah ! ah I ah I ah! ah ! ah ! 

Leopoldina {pela esquerda, cabello caldo^ e peniea^ 
dor) — Nâo posso soffrer similhanle loucura!... De que 
te ris? 

Caklota — D'oulras coisas . . . 

Leopoldina — Que coisas!? Nao vês como estou 
tristei abatida, desconcertada?! 

Carlota — Desconcertada ?! 

Lropoldina — Se te parece ... 

Carlota — Nao me paí^ece nada ! 

Lropoldina — Tola ? 

1 



6 JÀ NÃO HA TOLOS 

Carlota — Seja pelo amor de Deus . . . 

Leopoldina — É o único amor verdadeiro I ' 

Carlota — Lá iâtt) èl ^q)iMAio) Mas esperem 
ahi . . • 

Leopoldina — Já nao espero nada, nada.. • nada 
e nadai... 

Carlota — Quem bem Muia aúo se afoga. IKas ve- 
nha cá ; diga-me que loucura é «ssa tal que nSo pode 
soflfrer? 

Leopoldina — Não posso ouvir cantar quando eu 
choro ! 

Garuíta '^Lá iam também eu nao... que até me 
dao cá certas aquellas . . . 

Leomlbina {tom os jnmAos fechadee, fcormnêo pela 
5C^a) -— Também a mim, de esganar alguém ! ... 

Carlota -^ Menos esta ! Vamos, sonegue . . . sente- 
se, e conte-me o que lhe succedeu Há ^ei« 4)aitho : . . 
Âh ! banhos ! banhos i . . . 

Leopoldina — Se t^ tornar a tenial-os. . . dou-te 
licença que digas . . • 

Carlota — Que toma banrbos: q^h sim. Que.. . 
eu nunca tive muita fé nos taes t^rrhos^.. . Ora .. . es- 
tá-se a gente a lavar na agua que já lá vem dos outros ... 

LfiOP<0LDfiNA — Pens sim; doesta feita fiquei lavada 
por uma vez . . 

Carlota -^E' muito melhor, meíiiina ; lave-se em 
casa. Olhé/ísto <ãe IbanUos . . . 

lEm agua de doces prantos, 
Para o mal do coraçSo, 
Por banheiro o padre cura^; 
D'esles só e il'outros nao ! 

Mas isto, hoje em dia, é muito díffiéil .. . muito'! Aqui 
estou eu que bem necessitava de cur^r^me d^uns eslre* 
mecimentos que tenho, a que o ^^iruFgiâo chama enervo- 



so, 6 qae nSo acho... Âí, minha queriijLa meninfit já 
d3o ha tolos > 

Lbopol#>ina — Um que liaha.. . [com emphase) 
mandei-o passear t 

^CiuLOTA — Quem, o senhor Zeferjno?! 

Leopoldina — Esse mesmo ! 
Carlota — Conte-me, coiUe*me isso. 

Leopoldina — Ha três dias que não esteava luvas ! 
Ora, um homem sem luvas. . . 

Carlota — Credo! oqueéumhomem^em luvas!?... 

Leopoldina — Eu cá sou assim ; tenho est;is idéas, 
6 não admitlo que m'as contrariem 1 Além d'isso. . . um 
homem que não calça luvas, é por que não as compra ; 
e quem não compra um triste par de luvas. . . 

Carlota — Está visto, não tem vintém!.. . 

Leopoldina -rr- Concluisle o que cu qq()c1ujI 
» J^Iarloia — E d'essc qiodo, fica tudo concluído... 

liEOPOLDiNÂ — Tudo ! .. . (seniando-se) Ma? .. . isto 
custa ! .. . não custa? (leva o lenço aos olhos). 

Carlota — Coitadinha ! quem (he.der^ um be(n rico t 
Um d'e3ses bazileiros de Braga que vão busca^ ao Bra- 
z^l que .^^ixar á sua familia ; que vêem de lá com as 
algibeiras conqertadas e os bofes desfeitos . . 

liEOPOLDiNA — Ora. . 

Carlota — O que? 

Leopoldina — Um marido sem bofes!... 

Carlota {rindo) — Isto digo eu cá ; e I}çm ipe en- 
tendo 1 

Leopoldina — Era melhor que pensasses na minha 
posição. 

Carlota — Pois sim, pensemos. No caso ^m ^ue as 
coisas estão. . . por exemplo . lemos aquelle esganaretio 
d'alí de fronte, .da poria do botequim^ que fuma cha- 
rutos de pataco e de três vinténs.. . Âi> senhora, mui- 
tos três vinténs hade aquelle homem ter.. ..nunca vi fu- 
mar assjm ! 

Leopoldina (com desdém) — E' alto ! .. . 

Car^^ota — Dizem que QB.alíos dobram-se muito 



. • • 



-S' JÀ NiO HA T0L09 

Leopoldina -—'Que quer isso dizer ? 

GalBLOTxV — Sim, que sao dóceis. . . mas. . . oh ! que 
idéa 1 E o filho do dono da casa de pasto ? Traz uns laes 
berloques na cadêa I... 

Leopoldina (como acima) — E' gordo 1... 

Carlota — Pudera, tem casa de pasto!... Os gor- 
dos dormem muito.. . 

Leopoldina — Um marido a doimir!... 

Carlota — E' verdade! lume e marido... 

Leopoldina — Adianle. . \ 

Carlota — Ai que lembrança ! E o homem do ca- 
vallo côr de mangericao secco ? Esse, sim ! nem gordo 
nem magro, nem alto nem baixo.. . 

Leopoldina — Já o visle a pé? 

Carlota — E' como diz! A pé e ao pé. 

Leopoldina — Qunndo ? {levanlanio->€). 

Carlota {cem mystcrin) — Certo dia ! 

Leopoldina — Falia . . . 

Carlota — Quer que falle? 

Leopoldina — Que demora ! 

Cartota — Saiba então que o homem anda mesmo 
por sua causa... da côr do cavallòl Uma vez, traz truz, 
na porta: quem é?! Faz favor? O senhor saiu, digo. 
Tenho uma carta para lhe deixar, respondeu elle Ah !... 
então eu abro. E abri. Qual historia, n*uma mSo a car- 
ta. . . e na outra... 

Leopoldina — E na outra? 

Carlota — Aquelles brincos que me deu o meu pa- 
drinho. 

Leopoldina — Olha como tu és!.. . 

Carlota — Que lhe havia de eu fazer?... pedia com 
tSo bom modo.. . o modoé tudo! Mas., .espere... sinto 
patas de cavallo.. . será ele? {vae á janella) Tal quai! 
Venha cá, menina... venha cá depressa, que vemfrotando... ^ 

Leopoldina — Ora,*aquiilo é cholol 

Carlota — Qual choto! Um trote inglez rasgado... 
pobre bruto... até por sua causa anda o bruto n'aquelle 
trote por esta calçada acima... 



JÀ NiO HA TOLOS 9 

Lbopoldíha — E* aquelleque passou pela direita da 
sege? 

Gaelota — E' aquelle mesmo. 

Lbopoldixa {reiirando-se da janella) — Com o que 
ta vens á praça i aquelle sujeito já eu conhecia. . . dos 
banhos. Ouvi dizer que era um jogador a toda a prova ! 

Cablota — Jogador., jogador o que!?... E que 
seja ou nSo . . . 

Isto de jogo é fatia 

À que o mundo em peso acode I 

Joga toda a Rdalguia... 

Só nSo joga quem não pode ! 

AproTeite, menina, aproveite t olhe que os tempos nSo 
estão para tolices. O seu papá tem alguma coisa, é ver- 
dade ; mas é um forreta que nao pensa senão em nego- 
cio ; e a respeito de a trazer no luxo. . . isso nao en- 
tende I 

Leopoldina — Tola! eu tenho snia-baíão.. . 

Carlota — E pulseiras de pcchibeque. . . 

Lkopold?na — Oiro francez, se faz favor! 

Carlota — Oiro francez.. . oiro francez!... é bo- 
nito! N3o vale mais bom oiro do Porto, bons brilhan* 
tes. . . bons aquelles.. . Pense nMslo., . dei\e-se do bo« 
nifrates. . . 

LbOpoldina — Tens razão. 

Eu quizera um marido bem feito, 
Que brilhantes me desse também ! 
Que estes mimos são de mais effeito, 
Do que os beijos que chovem aos cem ! 

Carlota — Ora . . . tem lá que ver ? ! . . • 

A edade» menina é negocio 

Que não lira.. . não lira nem p5§? 



10 Ujkípa^tpi^q? 

Se é velhote proponha n^ i>f io, 
Que a mulher sabiamente dispõe ! 



Leopoldina ^^ 7*1 e qual l bom calec,t^e par^a Cin- 
tra* • • e mais coisas. . . 

CARLOTA — Já se entende, outras coisas e loisa3. 

Leopoldiní — No inverno, S. Carios e Jbaíies. 

CARioTà — Bom regalo, menina*. . e bons chalés. 

Leopoldin/l — Mas eu estou com pena do meu Ze- 
ferino I 

Cablota. — Ora cale^se ahi com o seu Zeferino ! 
Olhe, para o formoso caslello que temos estado a fazer 
no ar, não vejo senão um inconveniente ! 

Leopoldina — Qual ? 

CalRlota — É' qpe j^ não ha tolos: mas emfim.. . 
muito alcança quem nãocança". e talvez que procurando 
bem... 

Leopoldina — Como se chama o tal sujeito... 

Carlota — O do cavallo côr de mangericãosecco? 

Leopoldina — Sim. 

Carlota — Teoho-o debaixo da Jjngual Ahljjá me 
recordo.. . chama-se.. . José. 

Leopoldina — De que?.. . 

Carlota — Ai.. . de que?... de que, Carlota?!... 
Elle é coisa assim como canudo... canu.. . Canulo! 
José Canuto ! E até me parece que jâ d'ali do botequim 
lhe ouvi chamar D. José. . . sim, elle bem se vê que tem 
Dom ! aquelle ar.. . 

(Ouve-^e uma argolada na porta). 

Leopoldina — Eslão batendo.. . 
Carlota — Ora. . . fdllae no mau. . . 
Leopoldina — Não ! não ! isso não ! Logo vi que 
me eslavas armando alguma. . . E' escusado, não quero... 
Carlota — Ora, que lhe hade fazer, se fôr ellel? 
Leopoldina — Era o que me faltava t n'6ste estado. . . 
CARLCdTA -^ EntSo q.ue tem e^i^se .eslíclo ? 



\ 



Ji HftO HA TOM>S U 

LcoroLDiNA -~ De penteador.. . cabelios sólios. . * 

Cablota — Então ; é um estado de pente^jdor e ea* 
bellos soltos ; teem-se visto muito peiores estados ! Sen- 
te-se, que eu V4>u abr^r.. . 

liBOPOLD!iffiL — Logo á primeira • . aao ! 

Carlota — Descanse que eu sei como se fazem es- 
te coisas; tealio uma tia qoe vende fruta. €aluda.* . 
Tou abrir, {me á poj-ta) Quem é ? {uma voz) E' «o ier- 
nal do €om meneio. 

(Apparece o jornal por debaixo da poria). 

Carlota — Ora, o Jornal do Commerotol 

Leopoldina ~ Quando nisiospertvvamos. . . quero «di* 
zer, tu é que esperavas!.- . (rindo) A esta hora, esta- 
rá elle jogando.. . Deus queira que perca ludoj ale o 
ca^allo oôr de mangericao secco, como tu dizes ! (4/^arl^) 
Ainda me bale o coração! 

Caklota — Emfim, não vale desanimar I O jornal 
sempre nos traz noticias frescas. . • (percorrendo -o) «Jío^ 
ticiario > E' o que me interessa. 

Leopoldina — Lé, para <eu »ouw. 

Cablota — Enlão, escute lá. 

(Leopoldina tenU-se : GarloU aproxíma-se e lê). 

Cablota — « Suicídio > {declame) Ai ! . . . «licidio. . . 
•é menina quem será este.. . Suicidio?.. • operem.. . 
«matou-se» {Heclama) Credo!.. . malou-sel o tal Sui- 
cidio matou-se !.. . coitado. . . quem seria ? I. . . Aqui 
bade dizer ; «ejamos. {lendd) « Suicidio» «ia4ou-se hon- 
tem um homem, Zeferi.. . 

Leopoldina finlerrompendo-a)-^0 que?,!... . Oh! 
Deus meu ! que dizes tu ?. . .Zeferi. . . seria Zefeiioo ?!. .. 
(linmdo^lhe o jornal). 

• Cablota —Bile pelo nome pareoe ! 

Leopoldina — Ora, quem se fia no qw lulésIíUlp 
é € referimos». . . (rejwtindb) Rrfertlios -esto ea».. . et 



<^ ' JÁ NÃO HA TOLOS 

catra: não interessa, (coniinm a kr) Oh\ aqui está 
uma noticia muito interessante ! 

Carlota — Diga, diga, menina. 

Leopoldina [lendo) — «Chegada» Ânnunciamos ás 
nossas compatriotas solteiras, a chegada, a esta capital, 
de um celebre viajante, nosso compatriota, que traz duas 
minas.de oiro nas algibeiras, e que segundo affirma, vem 
disposto a fazer uma mulher feliz, por que promettera 
lá aos seus santos nao casar senão com uma pessoa po- 
bre, e que não tivesse esperança alguma de herdar dos 
parentes. • 

Carlota — Viva o Jornal do Commercio! Que pe- 
chincha ! que bello casamento para uma pobre de Chris- 
to I (chegando machinalmenie á jandla). Se elle por 
aqui passasse. . . hade passar ! Pelo Chiado passa tudo.. . / C 

Leopoldina — Pois sim ! vinha mesmo por aqui 
passar para te namorar !. . . Vamos.. . tira-te d'ahi I ahi 
não é o teu logar I.. . 

Caklota — Ai, deixe estar que não a assombro! já 
cuida que lhe faço sombra, que... 

(Batem na porta do íando) 

Leopoldina - Olha, se fôr o teu amigalhaço doca- 
vallo côr de mangericão secco, diz-Ihe logo que não po- 
de ser. 

Carlota — Deixe estar, que nao hade ser! Minha 
rica.. . já não ha tolos! [ápane) Quem seria aquelle 
homem que eslava a olhar tanto para cá?!., .{janlo da 
porta) Quem é? 

Antunes (de fóru) — Está cá o senhor Bento da Silva? 

Carlota — O senhor Bento da Silva saiu. 

Antcnes — Mas é aqui que elh mora? 

Carlota — Está visto que sim ! 

Antunes — Eu queria fallar-lhe com urgência. 

Carlota — E' o mesmo que nada já disse; que não 
está em casa. 

Antcnes — Mas diga-Ihe que. . . 



XÀNiOHATOLOg It 

Carlota -— O* senhor. . . já lhe disse que nSo está 
em casa t 

Autunes — Queria deixar-lhe uma carta. 

GARLOTà — Metla-a por debaixo da porta, se faz fa- 
wr. 

Antunes — Queria lambem deixar-lhe oiitra coisa. 

Carlota — Mella por debaixo da porta. 

Antcnes — A outra coisa não cabe I 

Carlota — Então nSo sei como isto hade ser^ por 
que o senhor nao cslà em casa. 

Lbopoldina — E* coisa de muita pressa ? 

Antu?(es — E' sim senhor \ííl fallei com elle, eque* 
ria cá deixar isto. . . A menina é a filha da c^sa ? 

Lbopoldna — Nada ; eu sou filha do s3nhor Bento 
da Silva. Ó Carlota, abre a porta a esse senhor. 

SCENA 11 

CARLOTAy LEOPOLDINA C ANTÓNIO ANTUNES. 

(António Antones, padece maito de nervos : tem ataques qae o 
obrigam a abrir rapidamente a bocca de n^aneira qoe parece qae 
qaer morder ; e ao mesmo tempo encolhe a perna esquerda e o 
brafo. Logo que entra, tem um dos seus ataques) 

Cablota — Credo t que homem é este ?. . . 

A»T0NE3 — A senhora., (pulro alague)* 

Carlota — Nada I eu cà lenho medo d'elle t E esta !... 
parecia mesmo quo me queria morder i 

k^'^m ES (aparte) — Mau.. . agora estou de tal mo- 
do atacado*. . Eu em vendo mulheres.. . fico assim 1.*. 

Lbopoldna — E:itão que quer o senhor? 

Cariota — Ó menina, não se lhe chegue muito!... 

Aniunes (aparte)-^ Mau.. . mau.. . eu bem ni^ia 
M Jé Canuio qu'eu nSo ena pâ isto. . . Em vendo idu- 
Ihees. . . fico assim ! [alto) minha senhona, eu quenia 
ni^sele.. . [outro ataque). 

LwpoLDiNA — Ail... 



CkMMk — Yé? Eli: bem lhe dizift qaò eaWi lièmein 
nao era certo l Que empada ? 

LEOPOLDINA -^ Vaibes^ senhor, despache ; digaro que 
qtter» e deixe o que quer deixar para o pa^. 

Antunes -— Eu uigo, eu nigo . . (áparle) Tem uns 
olhos ISo maaaBOes !.. . está nit^i. .- estoa a temee.. . 
Tenho os nevos tonos a temeem. 

Leopoldina **-« Então, faz favof ? 

ANTTOBé — Eu vinha aqw. . . pâ lazee ao senho 
Silva.. . Ai 1.. . (tem um ataque foriissimo, no mMi«ttr 
to em que voe tirar d' algibeira da eoííacm um embrulho 
que lhe tae no chão) Não «'assustem ; é nevoat. • . é ne- 
voso. . . {aparte) Pois se ella teti tins olhos tio tiant* 
jiQes!..« 

LeopdLUNA (aparte) — O tolo parecO que me está 
namorando 1 

Antunbs (dpaf{6) -^ São tms olhos lao mananCesI... 

Leopoldina — Eslá bom, senhor, quer tomar um 
copo d'agua? talvex lhe passe. 

Carlota — Talvez: isso é flato, que eu também 
lenho ás vezes t 

Lkúpoldwa — Pois vae buscar-Die um copo eom 

agua* 

ANTUN«8-^Nana. . . nana, itão é peciso- . . já pas- 
sou. 

Leopoldina — Então o que é que queria para o 
pae? NSo se demore, por que eu n3o quero que ella 
venha entretanto, e que diga quê. . « 

Carlota — E' verdade. . . e que diga I. * • 

Antc.^bs — Ona. . . e qiw bane ella aizeei ? Uu to- 
lo- . . um penaco n'asno. . . como eu, nío melte meno a 
ninguém !.. . [rindo) Não é assim?.. . (aparte) Ohl que 
olhos tio mananOes ! . . {alto) Entetaato eu nSo Vf^m^. 
sento tô uma fotuna pâ vé fte niziam qu'ett ena penaço 
nasncf p6 causa ne4è uma alma tão sensível. .. fi de- 
pois ba olhos tio monitos que é mesmo. . . Ai I {tem ou^ 

tra ataque). 

LaopoLmNA {aparte a í7ar/alá) — Paka loUl Car- 



f 



^ 



loto, fi«a-o- ttl por eá aturaAdo, qoe Ai já me láft. 

Gablota — Eu, ficar com similhanle hoiDeia!?Uflii 
homOm ^*e parece que eelá a querer odordef 9 cada ins- 
tante. . . lá issonicrt 

Amtviies {qtêerendo delér Leopoldina) — Mm fax 
favo. • . eu lhe uigo o que queno pO eenhd seu pae. . . 

Leopoldína — Âhiesfá a criada ; diga liM qife quer 
k criada, (bale-lhe com a porta, e sae).^ 

SCEiNA III 

ANTÓNIO ANTirNESi 6 0ARL07A. 

ANTUNfis»-E foi-se embona!.. . Quando tonanei 
eu a vé uns olhos tao mananOes ! ? 

Carlota -^ Vamos, senhor, despache ; que a gente 
tem' mais que faízer! (tropeçand) no embrulho que caiu 
úa algibeira â^Anianio Antunes) Ai qw será \È%of(apa' 
nhando^o) E' «fn estojo... (abrindo^) Que vejo! ftln- 
cos, e collar de brilhaífttes! ? Como elles briHMm ! 

ANtuNES-^Eu bèm nifcia ao Jé Ganuto que eu não 
ena pâ estas coisas... mas elle teimou... 

CAtóoTA*-^ Que riqueza?..- O' senhor, isloéfteu?... 
Que lindeza?.. Ora, um homem que traz doestas coisas 
n^algibeira... 

ANTeNi6^N'algiheira?... caia cetamente... 

Garlota — Isto é seu, deveras ? Oh I que bons brifl- 
cèsl E o 0Ollar«.< só o collar... isto de collares!... mor- 
ro pelos coitares... 

Antttnbs — Mone ? Esse é de bílhantes... (áparle) 
A tal quiadinha também nao tem maus olhos... não... 
mas /ião são tão mananôes !... 

Carlota — Ora uma mulher que trae d'isto, brilha 
tanto como uma eslrella! por for6a!... .ÉnGio para que 
trazia o senhor isto na algibeira? Uma coisa d estas n'al- 
gibeira ! 

ÂNTUNiis-^&O tazia pA dá á menina... 



M Ji NÃO HA TOLOS 

Carlota — A' menina?... á menina ?!... Porque... 
isto é seu 7! 

Antuhes (áparie) — Tenem vé? (alio) E' sim senho*.* 

Carlota (aparte) — Uhml... Pois olhem que pela 
carroagem ninguém seria capaz... (aUo) Enlão o senhor 
já cjnhecia a menina? 

Antunes — Já, sim senhA... Pois se ella tem uns 
olhos lao mananõesi... 

Carlota {aparte) — Coitado ! {alto) Está melhor do 
seu nervoso? Sente-se, quer um copo de vinho? 

Aktunes {áparie) — Olhem como as mulhees são ! 
(alto) Muito annnecido ' 

Carlota {áparie) — E eu que dizia que já nSo ha- 
via tolos ! (alio) Então, sim, para offerecer isto á me- 
nina, é certamente por que. . . sim, por que a ama. Ora 
não hal E para um homem dar prendas doestas. . . é 
preciso que seja muito rico I 

Amtvngs — E' venane! sou nicof muilo nicoi.. . 

C4RL0TA {áparie) — E bem nico me parece elle I 
{alto) Enlão quem é o senhor? algum brazileiro ! 

A>TUN£s — Neu no vinte! Sou bazileio.. . 

Carlota — Ora não ha! A menina morre pelos 
hrazi loiros. 

Antunes — Sim ? isso é venane ? E ella hade ama- 
me? mesmo apesá d'eu sé um penaço n'asno? ^ 

Carlota — Que desconfiança! O senhor o que tem, 
é esse seu padecimento nervoso, que parece atacal-o mais 
quando se commove ; mas é por que não está acostuma- 
do a commover-se. . em se costumando, logo isso lho 
hade passar. 

Antunes — Eu sou puo bazileio , 
Pois nasci no Mananhão : 
Minha mãe ena n'An-ola 
. E meu pae ne Montalvão. 

Tenho mais ne nois engenhos.. • 

Tenho petos de Nine. 

Tenho mais ne cem navios. . . 



JÂ NÃO HA TOLOS it 

(lk9íiQTA(in(erromp€ndo) — Que riqueza que isso él.«. 

Anti^nvs — Venho a Lisboa casá-^ma 
Com moça no noslo meu ; 
Que o qu'eu lá vi põ fóa' 
As meninas não m'encheu ! 

Eu sou puo bazileio 
Pois nasci no MananhSo. 
Minha mSe ena n^An-ola, 
E meu pae ne Montalvão. 

Cabjlot^ (aparte) — Ai! queé a esta hora o bra^i^ 
íeiro das minas nas algibeiras, de que falia o Jornal do 
Commercioi Ora não ha!... corro a prevenir a meni- 
na, (alio) Diga-me cá ; e o senhor eslá ha muilo tempo 
«m Lisboa? 

Antunes — Nana: nina honlem. 

Cablotà — Enlão como conhece a menina? 

Antunes— Ni na nanella: e innanci quem epa. 

GalUlotí — Estes maganões! não ha (empo a per- 
der. . . com licença. . . (sae pela me$mú p^ria por ondt 
saiu Leopoldina). 

SCENA IV 

ANrrNES (sô) — Ahi eslá o que é esle mundo ! Ona 
eu bem conheço. . . sou assim I.. . chamam -noe penjatfo 
n'asQO.. . e noilam-me as costas! mas se eu lieséô uma 
foluna.. . oulfo gallo me cantaria I... ma? é que eu oão 
ena então pâ elias 1 Tao tolo que m^ fosse meliée na 
bocca no lobo! 

SCENA V 

ANTÓNIO A^TU.^ES, LEOPOLDIÍtA e CARLOTA. 

CintoTA (paixo a Leopoldina) — E' como Ih4 digO| 
Qienina ; o brazileiro que o Jornal do Commercío an- 
nunciou ( Diz que mal a viu na janella foi tirar infor- 
mações. .. E os brilhantes. • . hein? que lindas jóias t 
Islã sim?... 

2 



f- -•■ 



fS JÁ NÃO HÁ TOLOS 

LsopoLDiNi {com o estojo das jóias) — Custa-me 
fí crer similhante fortuna !... 

AktUíNss (aparte) — Esloa aqui, estou a tée outo 
jitaque ! 

Ca|(lota — O qae me parece é que elle é muito 
atadol Sao^geniosi Ande... agradeça-lhe... mas sempre 
lhe aconselho que se acautele I Um homem com aqueU 

les ataques. • . 

Leopoldina — Heu senhor... eu não sei se deva 

acreditar.. . 

AifTcNKS — Sim, pone aquedilá tuno, minha se- 
nhoa. {aparte) O diabo dos olhos tão mananões!,.. esr 
fqu aqui, estou... 

Lbopo¥.i>ina «r- Estas jóias. , . 

Antunes — Pone nuanai-as, pone nuanal-as .. p4 
que eu já nisse que. . • e o que nisse está nito ! Mas nâo 
sei se a senhòa, que é fomosa... tao inlessanle, se dina 
ostá n'um tolo, n'um penaço n'asno... feio e noente... 

CApi-OTA (ápa tf) — Faz dó ! 

Ieopoldina — Oh ! por quem é... nao diga tal I O 
(oração é tudo. E segundo me parece, o seu coração... 

Antunes — E'uma jilava que nao osso onunciá! 
ecusou-me até a natureza a enlua ne onunciá essa 
alava,. . (aparte) Cana vez eslou mais atacano !... {alio) 
Mas com õ seu amò. . . seei omleiamente feliz! milito 
feliz! E se me ná licença... (queendo pega -lhe na mãn) 

Carlota {baixo a Leopoldina) — Ctiui^h, menina, 
cautela, olhe aue é muito capaz de lhe morder... 

AttTUNBS (aparte) ^Como ellas são.. . e não ha 
peia hóa que meollou 9s costas! 

Leopoldieia {aparte) — Poère tolo ! 

Antunes — Quéo ainda demoá um momento a fe- 
licinane ne eiar-lhe a mão, pâ sê feli? em pensa que 
o soul E-esle, outo eneo ne felicinane que só entenne 
quem é infeliz 1 Oh 1 agona. . . (vae beijar-lhe a mão 
que eHa lhe estende ; mas é inierrompido por utts for lis r 
fifno ataque de nervos)* 

j^EOFOLDiNA (recuando) — Ai I 



JÀ NÃO HA TOLOS 19 

CAiLOTà — Chegou a morder-Ihe?!... Pois eu nlo 
lhe Unha dito que nunca fiando?! 

Leopoldina — Ainda me chegou com os dentes!.., 
Carlota, este infeliz é capaz de me devorar em sendo 
meu marido ! 

Carlotí -r- Nao faça reflexões, menina: nSo esta- 
mos em tempo de fazer reflexões! Ai que sinto passos... 
E' certamente o senhor t 

Lbopoldin\ — Hade ser o pae ! B se elle vir este 
homem aqui !... 

CARLOTà — Nao ó assuste que pode ter algum ata* 
que mais forte! mas elle bade querer fallar a seu pae... 

Leopoldní — Por ora não... Meu Deus! Vè se o 
escondes ali na casa de jantar em quanto meu pae entra... 

Clrlota — Pois sim, eu vou. {j)ara Aníuuesy Meix 
senhor, vem ahi o pae da menina ; e ella queria primei* 
ro prevenil-o. . . Se o senhor quizesse ter a bondade de 
entrar pqui para a casa de jantar.. . 

Antunes — Pois sim... vamos; mas imeiro, que 
elle me nia ainna uma vez.. . 

Carlota — Que o ama? Pois sim; díga-lhe, me-> 
nina. (baixo) Vale a pena ! 

Leopoldím\ — Sim. . . amo-o.. . 

Antunes — Muito? 

Leopoldina -^ Muito ! 

Carlota •*- Muitissímo t 

Antunes — Então é-me licença que lhe *eije a mão... 
e mais esta ez!... Só esta.. . 

Carlota (baixo a Leopoldina) — Acautele-se sem- 
pre I (Amónio Antunes beija-lhe a mão e sae pela di- 
rei ta: Carlota ficha-lhe aporta). 

SCÇNAVI 

LEOPOLDINA, CARLOTA C RENfO DA SILVA. 

Bento — O jantar na mesa. 
Cablota (aparte) — Ai, credo! com aquella em-» 
pada 14 na casa de jantar ! 



■■•■«r-»^i«Bi 



IQ Ji XiO HA TOLOS 

IpJOPOIPí^a — Passou hemi meu pac? 

BcifTo — Bem obrigado. Veiu cá um homem trA- 

zèr uma coisa ? 

ttoPOU>ifíA-*Uma coisa?... 

BfeNTO — Sim, coisa ó tudo que existo, lá diz Ge- 
oueose. Um estojo do jóias. 

CAia-iTA (áparie) — Ai, menina !. . • 
' Bento — Vamos, que lenho pressa ; quero vêl-as : 
9S0 de um lai D. José Canulo que precisa de duzentos 
mil réis sobre ellas, e se ellas valerem pelo mcoos qua- 
trocentos*. . nSo terei duvida de lhe fazer o negocio. 

Cawlota (nparle a Leop. Idina) — Estamos perdi^ 
das!.- 

Leopoldina — Fomos logradas. , . 

Carlota — E por um tolo!.. : 

ÀKTONfcS {apparecendo) —?ò um penaçon'asno I..4 
W venane. 

Bento — Olá, seu Antunes, trouxe as jóias? 

Antunes — Neias á menina, sim senho. 

Bento {Tomando o estojo da mão de Leopoldina)^ 
Venham ellas. Carlota, põe o jantar na mesa. Espere 
ahi, senhor Antunes ; vou examinal-as. (sae pila esjuer^ 
da). 

Leopoldina (baixo a Carlota) — Ai, Carlota I mor- 
ro de vergonha ! 

Carlota — Enlão menina, nem já n*esle desgraça- 
do paiz ba tolos I Tudo lhe falta hoje em diat Rem di^ 
zia eu, quando a menina me ouviu cantar. . . 

Era bem bom se inda houvesse... 
Acabo u-se já não ba ! 
Hoje em dia.. . se eu podesse... 
(Rindo) Ah I ah ! ah ! ah ! ah t ah ! ab I 



Cae o panno. 



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panhia deJesus 80 

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Tudo no mundo é comedia ; comedia em três actos 200 

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Amor e Amizade, comedia em um acto. 
Segredos do Coração, comedia-drama em três actos. 
A Roda da Fortuna, comedia-drama em três actos. 
Nem tudo que luz é oiro, comedia-drama em três actos. 
A Conversão d'um Agiota, comedia em dois actos. 
Anjo, Mulher, e Demónio, comedia-drama em dois actos. 
A Conquista das Amazonas, comedia-drama em dois actos. 
Um Risco, comedia em dois actos. 

Coração de Ferro, drama phantastico de grande espectáculo 
em cinco actos. 

A Pelle do Leão, comedia-drama em três actos. 
O Juízo do Mundo» comedia-drama em três actos. 
O Colono, comedia-drama em três actos. 
Não despreses sem saber, comedia em nm acto. 
Gil Braz de Santilbana, comedia em três actos. 
Maria, ou o Irmão e a Irmã, comedia em um acto. 
A Herança do tio Russo, comedia em três actos. 
Pedro Cem, comedia em cinco actos. 
O Maestro Favílla, drama em três actos. 
Remechido o Guerrilheiro, ou os últimos dez annos da sua 
vida, drama em quatro actos, e duas épocas, precedido de um pro- 
logo. 

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Os Brasões das cidades e villas dePortugal por I. deV.Barbosa. 



/■> 



o juízo do mundo 



COHB 



ORIGINAL 



- 



FOR 



ALFREDO RÓGAN 




LISBOA. 
TirootAraiA do rAiiokAiiA, 

TrmesM da Yietoria, 73*. 
1861. 



OBBAS DB QOE A. J. F. LOPBS fi BDrrOR, B SB VBNDBK 
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o JUÍZO DO MUNDO 



«•in»iA nuAMA ■■ Tmam Áové* 



ORIGINAL 



MB 



ALFIIM tKKUItf 



"^l&S^ 



^ USÈOk. 
tnMiirau do vaiioiaiia» 

Tr§9mada Yichri», 78. 
1881. 



I 



II«T£ni.OClJTORES 

D. PEDRO, marquez de Castro. 

D. JOÃO, filho do iKMr()|]^. 

MANUEL DO COUTO, hoDiem rico. 

THOMá, por alcunha — Thomé^pílhou -— sapateiro reli-^ 

rado. 
D. HEBMiNU, baroneza de S. Romão. 
D. ROBRETÂ, \iu\a de três maridos. 
VIOLANTE, pupilia de Thomé-pilhou e educanda de D. 

Roberta. 
JOANNA, criada de D. ft^lHlSf 
JERONTMO, criado de Thomé-pilhou. 
vu CRIADO, da baroneza. 

4 

Ji • f I 

^\ \ Damas n\i Cavalheiros 

Convidados de ambos os sexos, criados. 
A acçS0 •pMNHie ^m UsIm, eta 185' 



ACTO l 



(O tbeatro representa om mIío. Jenellas no fando, porU^ lateraei, . 
. mobilU magnifica. £ dia.) 



SCENA I 



(Ao levantar do panno, a baronéta de S. Romio está sentada n^oni 
fophá tomando a visita de Maniiel do Conto.) 



Manukl — Sim» sim, baroneza, é um perfeito mila- 
gre I (rindo) £ dizem que jà os não ha I {rinio mais) 
Ha-os. - . e grandes I 

Hermínia — O senhor Manuel do Coulo está hoje 
muito pobre de idéas ! ainda me não faltou n'outra coi- 
sa ! Tenho conhecido que não gosta de variar a conver- 
sação. 

Manubl — Pois se ei) não dou o assumpto por dis- 
cu}1do> baroneza. 

Hkriiínia— É pertinácia. 

Manuel — E' espirito de discussão. 

Hkrminu — Mas o seu espirito desagrada-me. 

Hânubl — Pacienóia, baronezaj pacMcia. Tem-me 

acostumado a desagradar-lho em tudo! Já não estranho: 

entretanto devo porfiar.. ., • .. j • " . 

HsRMiNu — Perde o seu tempo. j 

1 



^ o juízo do mundo 

Manuel — Quem sabe! as senhoras variam tanto... 

Hbriiinu {rindo) — Que sSo umas varíaçQes cons- 
tantes ! 

Manoel — Já ri ; é bom signal ! Ora diga-mef ba- 
roneza ; que mal Ibe fazia a fortuna d'este pobre pecca- 
dor ?1 

Hermínia — Não incommode os seus contos de réis: 
nto vale a [ena. 

Manurl — Ah! baroneza. « . ferir-me é crueldade! 

Hermínia — Por q«e se&io casou no Brazil, senhor 
Manuel do Couto? Talvez que là nio achasse barone- 
zas?i. . . {rindo). 

MANrei-i^NIo abttwlám; prívcipalmeote doestas» 
parecidas com uma que conheço.. . (áparíé) O pé, o 
pé d'esla mulher é o bico d'uma setta. {alio) Senhora ba- 
roneza, eu também sei o que sSo conveniências! se v. 
ex.* se rí^ hoje, das pretençOes de Manuel do Couto» 
que género d'altençSo daria» por exemplo, ás projiostas 
do barão do Couto ? 

Hermínia — Do barSo do Couto? 

Manoel — Sim ! um barão vale uma baronesa. 

'Hermínia — Se ella o estimar* . . 

HArnsL — E se elle fòr rico.. . 

Hermínia (com ironia) — Hetde pensar : entretanto 
vi procurando, vi procurando^ senhor Couto. Ha tan- 
tas baronesas. . . 

Maníibl — Minha senhora. • . 

SGBNA II 

HERMÍNIA, MANUEL DO COOTO, Um tRIARO^ dOpOIS O 

MARQUEZ ]>t CASTRO. 

Criado (anmueiímdo)'S. ex.* o senhor marquez 
d< Castro. 

Manuel {lef>antando-se, áparU) — * Sempre o mar- 
quei ! 



OIQIZ0 90IIIINDQ S 

HenaMu — Relira-ee» senhor Haauel do Coiilo ? 

HáiiutL — Ett? não» minba senhora. Preparo- oie 
para receber o marqoez. 

D. Pkdbo (entràndíis sem reparar em Manuel do 
CaulOj we eupenar a moo ia baroeuta). — Coiqq está, 
Hermínia ? 

Hkmijiu — Com o Mnhor ManoM do Couto sem- 
pre se está bem. 

0« Pedro (vollando-se) — Ah 1 a senhor Manoel do 
Gottlo. • • {cBTt^a^). 

Man ORL [comfr%meníandO'o) — Um seu criado» se- 
obor marqoez t 

Hrrminiá {ao marqwz) — O que me trouxe da 
feift, marquezf 

D. Pedro — Quando li f^r» que quer que lhe Ira* 

ga? 

EÍRRMiNià — Traga-me um aí. 

D. Prdro — Ais, baroneza? ha-os lia delicados 
que é pena experimental-os I 

HERsumà -— Quando se nio apro!r«item, podem guar<- 
dar-se para lembrança. Traga-m'os sempre. 

D. Pebro (com inttnçto) — Acho que os perece. 

Hbrmiii lá — Acha ? 

D. Psoao — Das pessoas que a estimam sincera- 
mente. 

Hermínia — Acredite que os heide guardar. {p(íra 
Manuel do Couto) Relíra-se, senhor Manuel do Couto? 

MANUEt — Napjf minh^ senhora ; é (jue eu não que- 
ria- . • 

Hermuíia -^ Nio fallavapos Am «agredo. 

Maruel — Mas por alggrismoip que é o mesmo. 

D. Pedro — Ora essa.. . por algarismos!? Desper- 
ta-roe a curiosidade, senhor Maauel do Couto ; qual é o 
verdadeiro sentido da sua expressão ? 

Manuel ^ B' um modo delicado do se fallar das 
pessoas diante d^ellãs.. . 



4 O juízo do mundo 

D. Pedro — .Mas as pessoas qué teem a consciên- 
cia pura, não devem suppor que se falia d'ellas! 

Manuel — Também nao me importa que se falle: 
o que desejo é que se não julgue.. . 

D. P£DKo^- Aht não deseja que se julgue. . [sqt^ 
rindo) Não entendo I. . . 

Manuíl*— Decerto ! quando se não teem vistas cen- 
sura veis* . . 

D. Pedro — Acredito que as não tem. {baixo a 
Hermínia) Comprehende? [alio a Manuel do Couto) A 
sua observação foi inútil. 

Hermínia — O senhor Manuel do Couto é diurna 
susceptibilidade. . . 

Manoel — O senhor Manuel do Couto l., . Estão 
sempre a atirar-me esle nome plebeu !.. « 

Hermínia — A susceptibilidade exaggerada torna-se 
n'um tormento perpetuo 1 . . . 

Manuel — Não, não, minha senhora; o senhor mar- 
quez entendeu perfeitamente. 

' D. Pedro — Eu ? pelo contrario ; olhe que não en- 
tendi nada. 

Manubl (á barone^s^a) — Que quer v. ex.* que lhe 
eu traga da feira ? 

Hermínia — Eu sei?!.. . um mialheiro. 

Manuel — Cheio? 

Hbbminia — Oh! não incommode as suas... libras! 

(D. Pedro ri-se. Manoel do Goato despede-se) 

Manuel (áparíe) — Eu lhe mostrarei que um ple- 
beu rico vale mais dò que um niarquez pobre ! {sae). 

^ • SCENA III 

HERMÍNIA, O MARQUEZ DE CASTRO. 

D. Pedro {sentandose ao lado de Hermínia e pegan^ 



o lUIZO DO MUNDO 5 

éo-lhe na mào) — Hermínia, confesse que é muito des- 
agradável dever obséquios a certas pessoas. 

Hhhinja — PoissuppOe que devo alguns a Manuel 
do Couto ?I Em que baseia símilhanle supposiçio ? 

D. Pkdro — E' pelo menos, o juízo do mundo, 
Herminia ! 

IIbrmiiiia — Ora.. • um juizo falso! 

D. Pedro -^ Ai. . . que o não fora. . . 

Herminía (rtndo^ — E' tâo subtil esse ai, marquezt... 

D. Prdbd — Entende-o, baroneza? 

Hbrminia — Parece-me que n3o! 

D. Pedro — E' um ai sentido^ no coração! Ai das 
pessoas que a estimam, Herminia, e que não podem des- 
mentir esse juizo temerário, que o mundo avança! 

HeuMiNià — EotãQ que diz o mundo ? 

D. Pedro — Queira ler. [apresentando-lke um papel 
impresso que lira d' algibeira) 
, Hermínia ^ E' o Jornal do Porto. 

D. Pedro {indicando-lhe o artigo) — Ali. 

Herminía (lendo) — ^^«Informam-nos que o senhor 
Manuel do Couto poz os seus milhSes em acção no as- ^ 
sedio da baroneza de** A baroneza defendesse com ha- 
roismo, tendo já aprisionado alguns». Ah ! isto é infa- 
me! 

D. PiiDRO — ^.Infelizmente, estas coisas que appare- 
cem. . . {correndo a Vísta pela $cena) umas vRo dando 
pasto ás outras. . . 

Hermínia — Tambcm o marquezl? 

D. Pedro — Eu, não*- não, Érminiat.. • Eu tenho 
o meu juizo suspenso, e. . . 

Hermínia — Venha cá ; sente-se e escute-me. {com 
familiaridade). O marquez é meu amigo? 

D. Pedro — Gomo se fosse seu pae, 'Hermínia I *e 
esta doce familiaridade que me concede, é a maior re^ 
compensa que me pode offerecer. . 

Hermínia— ^Queira ouvir. 
. D. Pedro— -Escuto. • 



« OJUISOBODOMM 

HcMiiiiA^— Disâe-me que era meu amigo, e € dà* 
baixo doesse titulo qoe vou fassal-o roeu confidente ; taN^ 
▼es . . meu conaelbeiro. Quer? Muito bem. Conbéce-me^ 
quasí diKKÍe creança. . • Meus pães casaram-me aos de- 
jMíto annos ; e Deus tornou-me viuva aos dezenove. Di- 
zlam-me que era formosa e rica ; e eu gostava douvir 
esse mundo adulador, que hoje me lere t 0iverlí-me e 
gastei ; mas depois endividei-me, e afinal. . . 

B. Pmio«-E afinal?... 

Bbrminia — Reconheci o meu erro. Logo>que rom- 
pi com todas aquellas pessoas que me pareceram sus- 
peitas na minha eârie, permitta-roe a expressSe, os cre- 
dores appareoeram*me á porta ! Pagar^tbes, era impos- 
sível.. . 

D. Pbdio — E que fez então ? 

HeBMiNiA — Cborei. Foi a primeira vec que me 
lembra de ter chorado. 

D. Pbdbo — Lagrimas não embolsam credores.. . 

HBaniRiA — Também, nSo foi 4iante díeiles que 
chorei ^ chorei aos pés d'uma cruz, onde me refugiei 
^s tenlftçCtes que me perseguiam I 

D. Pbi^bo — Entre os tentadores, vamos, aposto 
que estava o $enkor Manuel do Couto. . . 

HBBmMiA ~ Estava I 

D. pBDao — E.. . {pauêã) Ai, baroneca!.. 

Hrbmihia *-Deus ouviu a minha suppiica ! Eu ni9 
devo nada áquelle homem ! 

D. Pbdio — Ah.. • n'esse caso, retiro o meu se- 
gundo Bi. 

HBBHiif IA — Heide fazer que retire to.dos ! 

D. PEBao ^ Palie. • . 

HBVHNfi^ — Queira ler. {tira d^algibeira uma car- 
neira $ d^eUa uma cana que offerece ao ma^^quez) 

D Pbdbo (/«éío) -^ Minha senhora, uma pessoa 
inteiramente desinteressada, e ao facto de tudo que se 
tem passado, p6e á disposição de v. ex/ a inclusa let- 
tra, á sua ordem, no valor de trinta cantos de réis, pa- 



o JinSO AO HWfM 7 

gavel i vista, sobre a eaaa lint & Comp/ d'asta praça. 
Asaignado^ A. ^ 

HiAMiiiià — Perturbou-se t?.^. 

B. Pioao {dobrando a carta) — B' celebre. . . 

Hiaminà — Gonhecf Q a leUra ?• • • 

D. Pbmo — NSo. .^ nao conhect!.. . {entregando^ 
Ike a carta). 

HBaaiiivu — Aqui está pois decifirado o aegr^do que 
regenerou a minha casa. Ite dois m^es, o «lepor é um 
bem. E agora« não retira também o seu primeiro ai !r 

D. Pedho — NSo ; es«e deiío-o ficar I Ai- * . se Uie 
nio tivesse caido das nuvens esle recurso.. . 

HuMiNU — Concedo. Para completar o programinfi 
que Ibe apresentei, falta-me íazel-o nvfu conselheiro. Dá* 
me um conselho? 

D. Pbdbo — Case-se, Hermínia. 

Hbrminu — Com quem? 

D. Pedbò — Com meu- filho. 

HeBMiiiu •- Cpm seu filho?!.. . (aparte) Obl meu 
Deus!.. . 

D. Peobo — Está visto que n1f9 bade sipr comigo ! 

Hbriiinia — Porque ? 

D. Pbdbo — Porque I? Que pergunta, Hermínia! 
Nâo y6 que já passei a edade das iUusQles? Um marido 
velho.. . E o juízo do mondo? Não. Quando lhe acon- 
selhei que se casasse» foi com o sentido d'abrigalra d'es- 
se juízo terrível e inconsiderado a 4ue se v6 exposta 
uma senhora, viuvfiy moça e^formosa* E^se^a brigo, Her* 
mínia, bem longe estava de o encontrar em mim 1 O 
mwftdo ri*8e dos velb^, e persegue as unilberes <dos ve- 
lhos!.. . Prefiro ser seu pae. Aceeita o marido que lhe 
oSereço ? 

Hermínia — O senhor D. JoSo.. . (baixando os 
olhos). 

D. Pedéo {pegando4he na mio) — • Acredite que é 
um excellente moço, e que a estima ! 



9 O juízo do mundo 

SCENA IV 
HBRMiNU, D PKDRO^ t). JOÃO, pcIa direita. 

D. Joio {observando) — Cravo! Tem as honras de 
minha mSe !.. • E eu» que. • . (rindo e passando a mão 
pelo eabello) Dá licença, baroneza ?. . , 

Heeminu — Ahl. . - 

D. Pbdro — A propósito.. . 

D. João {aperiando-lhe a moo) — Gomo está ?. . 
(inclinando^e para o pae) Meu pae 1 

HBRMmiA — O senhor D. JoSo sempre nos dá o pra- 
zer da surpresa. 

D. Pedro — Ê mau costume; porém desculpa-se... 

D. JoXo — Não conheço nada mais docedoque sur- 
prebender as pessoas que estimo. Parabéns pela sua no- 
va casa i E* linda l 

Hbbminia — Já a viu bem ? 

D. Joio — Entrei pelo jardim, e fiquei maravi- 
lhado t 

D. Pedro — Estimo isso, D. João ; porém como se 
nSo deve julgar só pelo exterior, a baroneza vae ler a 
bondade de te mostrar as salas.. • 

D. Joio {aparte J — Mostrar-me as salas!? 

D. Pedro -^ Nao é verdade, Hermínia?. . . {ameia 
voz). Vamos, trale-o como creança. • . 

Hermínia {il^arte) — Que pensará elle!.. • 

D. João (examinando um quadro) — Aquella cara 
faz-me lembrar Violante I 

D. Pedro (a Hermínia) — Aproveito para ir á fei- 
ra comprar os ais. 

Heuminia {com* tristeza) ~ Bem pode trazer provi- 
mento ! (^D. Pedro sae). 



o lUIZO DO MUHDO S 

SCENA V 

HERMÍNIA» D. JOÃO. 

Hermínia {aparte) — Se o marques soubesse o mal 
que me fez!.. . 

D. JoAO (aparte) — Quaes serão as kléas dé meu 
pae !?. . . (notando que estào sós) Estamos sós : perce-^ 
bo! Vae mostrar-me as salas.. . \allo) Está hoje muito 
triste» baronezSt 

Hermínia — Parece- lhe ? 

D. Joio — Não tem razão. Uma bella casa, um 
dia magnifico, uma estrada concoriida, feira d'aquí a 
dois passos. . . 

Hermínia — Sim ; tudo isso é bom quando podemos 
dar-Ihe apreço ; mas.. . 

D. JoÀo — Mas.. . o que? 

Hermínia — Uma viuva. . . 

D. João — Melhor t Uma mulher bella, vestida de 
prelo, é uma dôr ou uma teatação. Em qualquer dos 
casos, interessa t 

• Hbrminia — Serei dòr! já vê que não tenho nada 
de commum com a sociedade. . . 

D. Jo;io — Ora, não temi À baroneza pode dizer 
o que quizer ; o mundo ajuizará como lhe parecer mais 
justo. 

Hbrminia — Crê nos juízos do mundo? 

D. ,JoÃo — Raras vezes mentem* 

Hbiiminu — Raras vezes acertam. 

D. João {sentando-se no sophá onde esteve Hermí- 
nia) — Creio que o seu criado vem annunciar-lhe vi- 
sita. 

SCENA VI 

HBRMINIA, D. JOÃO, O CRIADO, dcpoiS MANOBI. DO GOOTO. 

Criado — O senhor' Manuel do Couto. 



M onnoiMiinfDo 

HiiMiNiá — Importnio ! 

D. Joio {rindo) — N3o seja assim I Perca esse ge*- 

nio. 

Hbamiria (aparte) — Gomo elle me traia I 

Hambl — Nia qiiiz passar sem vir raeaber as suas 
ordens» senhora baroneza. 

HsirMiffiA «— Tanta bondade.. . 

Manuel — Ê uma necessidade do nw corado, que 

o seu nio entende I 

D. Joio — Pois o senhor Manuel ^(f Couto.. » 

MaKuil — Ah 1 o senhor D. Jo3a. . . 

D. Joio ~ Acbo-o muito adiantado !. . . já falia em 
eoraQio ás senhoras. . . 

Mancbl — Está na proporção... Também ha crean* 
ças que principiam muito cedo a fazer a barba para 
parecerem homens ! ' 

D. Joio — Bella tirada 1 (rindo). 

Hermínia ~ Que me trouxe da feira ? 

Manou — Un annel.. . E' eoisa que uma senhora 
Bio pode recusar i.. . Aqui está. 

Hbaminia — Ah . . sim. . . é bonito. 

(Joio pofi no jornal, qao Horminu ^ixoa no sophá, o príneipia 
« lor). 

Manoel — Então, não o mette no dedo?.. . 

HiRMiNiA (ápãrle) —D. Joio vae ler!. . . (alio) O 
senhor D. João espera grandes noticias do R^rlo ? 

D. Jo2o — O Jornal do Porto costuma dizer-nos 
seaspre o que sê faz «d nossa casa. 

Manvbl {ápartó)—A baroneza está transtornada 
com a presença do rapaz I 

Hermínia — Então. . . senhor Couto.. . a feira.. . 

gostou ?. . • 

D. Joiío (findo Je9M(iitiio-$e) — Aqui está uma coir 

sa que eu não sabia, [dando o jornal á baroneza, indi- 
cando o artigo) Já leu, baroneza ? 



«i 

Mmucl — Qm é ?. . . Vejaimii ; m leio» oiíbími se* 
nhora.. « 

Hkímiiii\ (para D. /odo) — Sealior D^.MSt.. . 

D. iolo {rindo) — ¥00 eiamioar o na treau novo. 
HoBlein, 10 Chiado» oio at fiiUava n'witra eoiaa. Talvai 
volte. (cíPTleja tronteoênenU 4 $m). 

SÇENA VII 

BBBUIMU» MAlfUBL DO GOOTO. 

Manubl {querendo pegar no jornal) -^ V^jaiBOi a 
notícia.. . veiamos.. • 

Hbbiknia (recusando, e amarrotando o formal) — 
Ohl i realmefite preciso ser muito deagraçada, para.. . 

Nabubl (aparte) -*- Que dis ella IT (ol/a) Que lem, 
haroneza ? 

Hbbxinia — Seahor Bíanuel do Couto, a sua obse- 
quiosa assiduidade compromello-me I B' necessário des* 
mentir. . • 

Manuel — Sim, compromette-a a minha assiduidade; 
mas a do marqnez de Castro, oio i B^li visto ; um mar'- 
fuee!. . . Eu conproheado 1 se aio fiasse ^Ue- * •. 

HaaMiifiA — Senão fosae eiie... ^ue die, aaiborff... 

Hanubl — Se nSo fosse elle, v. ei.* não teria des- 
«aipenhado a sua casa, nem aatiafeilo as aiiaa dívidas, 
aeoio com o meu dinheiro I 

HBBimHA — Entio, julga %m íoi o marquez ?. • . 

Manubl—- Julgo. . . 

HaaiiiaiA — Mas o juizo do mundo é outro 1 leia. 
(à/tM o jornal e offenoe^lVo) B' preoiso desmentir eaae 
artigo. 

Mabubl {depois de kr) — Desmenlíi-o ?! JOe que 
modo? 

HBBMimA — Protestendo contra elle ! 

Manuel — É o que me faltava ! Nao me importam 



Í8 t) lUIZO DO MUNDO 

essas coisas> baroneza, nao me importam essas coisas I... 
Ora, o qoe tenho eu com o que diz o mundo Tt. . . 

HBaHiNÍA — EntSo, o senhor Manuel do Couto es- 
tá disposto a compromelter^me* por todos os modosi?... 
lurou perder-me !? Recusei todas as suas offertas genero- 
sas, e apegar d'isso9 consente que se julgue. . . Oh I o 
seu procedimento, é.. . 

Manuel — E'? 

HcaMiNii — Poupe-me a expressão. . . 

Mancbl — Quem tem telhados de vidro.. • 

Hbriiinia — E' mais um favor que lhe devo. {locan-- 
do o reclamo^ diz ao criado) Mande chegar o trem d 'es- 
te senhor. ' 

Manoel — Enlão» despede-me !. . . 

Hermínia — Nâo desejo íncommodal-o. 

Mancbl — Muito bem, baroneza; aproveitarei o 
tempo que me deixa livre para tratar da minha deman- 
da contra o marquez. Comprei os tilulos de lodos os 
seus credores. . • Espero vencer. Boa tarde, baroneza I 
(sae). 

Hbbminia — A|)!.. . 

(N'este momento' oave-se grande ruido na estrada: yoies de mu- 
lher p^edindo misericórdia, gritos de homem, e o rodar de n^l 
carro, qve vae d'cneontro á parede. 

Herminu — Jesus! que é isto?... (indo ó janella) 
Oh ! meu Deus. • . pobres senhoras ! . . quasi que fica* 
ram debaixo do carro I Lá está D. J )ao. (faltando para 
a estrada) Senhor D. João. . . queira conduzir essas se- 
nhoras..! venham, venham depressa... [retirando-se 
da jarteVa) Oh ! ha certos dias fataes!.. . (voe ó porta 
do salão) Se tivesse saido hoje, estou cerla de que me 
teria acontecido o mesmol Pobres senhoras! Em tao boa 
hora que se nao tivessem pisado... 



o juno M> HDimo is 

SGBXA VIII 

BBBmNiA, O MABQUBZ DB cASTKO, depoís D. lOÃo, ampa- 
rando D. viOLAjiTB, em seguida d. boberta, e o se- 
nhor THOMtf. 

D. Pedbo — Socegue, baroneza ; podia ter sido 
peior.. . as senhoras pouco soffreram. Eu vinha enlran* 
do, juslamente quando os cavallos vieram d^encontroao 
gradil da casa Dois bellos hanoverianosl.. . mal em- 
pregados ! 

HBBMiifiA — Queiram entrar.. . queiram entrar.. . 
(para D. Roberta) Sente-se, minha senhora, (para JoSo) 
Encostemos esta menina n^aquelle iSophá (ajudando). 

D. JoAo {aparte) — Pohre Violante I.. . 

Hbbmiuia — Isto n9o hade ser coisa de cuidado. . 
(locando o reclamo) Paulo, traze vinho do Porto. . . 
Talvez seja melhor cerveja preta,., é excellente paraque^ 
dash. « Agua . . Depressa t depressa !•• . [voltando para 
o sophá onde está Violante) Ah i já voltou a si. . . 

Thomé [entrando) — Ficou tudo n'um bolol Mal 
empregado tremi parece que nSo Unha sido baptisadoi... 

D. Pbdbo [aparte) — Este é dos taes que não pre- 
.cisam de lettreiro! 

Thom< (limpando o mor com o lenço e drigindo-se 
ao marquez). Pobres animaes! Um está completamente 
estragado! partiu o pescoço; mas... também, para que tem 
um homem dinheiro ?* Lá se me foi d'esta vez uma boa 
maquia .... aqui por via doesta senhora, [indicando 
Roberta) que n9o gosta d'andar senão zeeil... [olhan- 
do para a baroneza) Quem é aquelia que acolá está?. . . 

(O marqaei volti-Ihe as costas). 

D. JoAo — Sentes-le melhor, Violante? (a meia 
wz). 

Hbbhinia (apreseniando4he um copo que tirou da 



14 O linW M MJIf DO 

bandeja) -^ Itlo hade faner-lbe bem, minha senhora. 

D. Joio {pegando no eopo) — Bebe, Violante. . . 

HnwNiA {deittando-^) -^ Àb L . • 

Viouim (a meia w€ a 1). João) — Estou melhor; 
o que tive foi apenas um ^usto de te perder. . . Oh I 
quando te ti correr ao encontro dos cavallos.» . 

D. Joio — Violante. . . (eominua a falíar4kt). 

Hemimu dlora Roberta disitmãdando) -^ V. ex.^ 
ttSo sente íncommodo ajgum ? Nio quer tomar um ealix 
de Tinbo, ao menos?.. . 

D. RoBsaTA-^Sím, minha senhora, muito agrade- 
cida. . . 

Tbomb— -Oiâ... convidem-na para a missa. . . que 
nSo é certo aeceitar : porém. . . {rindo) Basta dizer qu4) 
o vinho do Porto diante d'ella 6 manteiga em nariz de 
câol 

D. RoBKRTA (b^iso a Thomé) — Thomé!.. . 

(A btroneta troca um aorriso com o marquei de Caeiro). 

Thomií (enchendo um eopo) — Vá o primeiro. • . 

D. BoBBkTA — Thomé i... {esgotando o copo) Ah... 

Thomb — Descança, descança, já me calo. (enche 
outro copo e dc>peja-o d*uma aeeentada) Boa pinga, sim 
senhor ! O' senhora. . • (para a barofkeza) PerdSo, que 
não sei como é a sua graça ; onde comprou este seu 
vinho ?. . . 

D. RoBBBTA (baixo a Thomé) — Olha que ella é 
fidalga! 

Thomé -^ Ora adeusl também eu squ barão do meu 
dinheiro ! Historias ! isto hoje em dia, cada qual está 
valendo o que pesa. (bebendo segundo eopo) Aposto que 
em me vendo com tão boa cara, apezar de ter perdido 
o meu carro e uma parelha de cavallos, hade convidar- 
nos para jantar I . . Vê lá que horas são na tua cebo- 
linha ? O meu relógio parou com o trambtdhão ! (bebe 



aiBMOioiiinrDo h 

terceiro cepo : depeie aproreiiQ o memmíú em qme Ike 
velmm oe cosias^ e põe a garrafa á kocca). 

D. Pbdbo (a Hermínia) — E' preeiso despedir esta 
genle do melhor modo posei vet.. • Olfcreça-lfae o trem 
pare os eoDdiiiír. 

Hbimimia — Já me Unha lembrado* [a Roberta) Ui-- 
oha senhora, se v. ex.* quizesse dar-me o gosto d*acei- 
tar o meu trem para a coodaair.. . Talvez que soq ma- 
rido. . . 

Thomé — Que é lá isso ? ses maride !? (rindo) Lá 
caía eu n^essa! Uma viuva que já enterrou três*. . 

D. RoBBRTÀ — Thomé !••• Thomá I... (puxand<h4ke 
pelo f(ao, aparte) Se Deus quizer lu hasde ser o quartol 

Thom< {reparando em D. João) — Mas esperem. . . 
onde está a Violante? 0'lát.. . ó caro amigo» isso nâo 
sio modos doestar n'uma salaL. . todo derreado i... pa- 
rece até que quer engolir a pequena 1 

D João {voltando-ee) — O senhor está em casa da* 
senhora baroneza de S. RomSo ; as pessoas que o ro- 
deiam nao são da sua egualha ; deve pois escolher as 
palavras, senhor Thoroé-pilhou I 

D. PrtBAO (lorri fido) «-* Tbomé^pilbou !. . . 

Thoiijb -^ Que lhe importa se pilkei ou se nio pi- 
lhei?! O proveito é meu ! 

D. RoMiTà — O' Thomét vA lá o que fazes !. . . 

Thomí — O que lhe eu tinha dito, foi muito bem 
dito 1 Isso não são termos. . . 

Hiamifu (ao marquei) — Senhor D. Pedro.. . 

D. Pkdbo — Socegue ; escutemos. . . 

D. Joio — Eu sei conduzir-me; não pi^eciM das 
suas admoestações, senhor Thomé / e. • • 

ViOLANTB — Gala-te, D. João. . . bem aabes fue de- 
pois.. . 

D. Jo2o — Sim, sim, Violante.. . é mais uma que 
soffro; mas.. . 

Thomé (a Yiotanie) — Levante-se dahi t Nós não 
havemos de cá ficar de conserva ! • . 



u o juízo do mundo 

D. RoBBRTA — Thomé! mas se a menina eslá in- 
commodada !. . . Oh I seria abusar das suas forças obri- 
gal-a agora.. . 

Thomb' — Enlao háde cá ficar ?! 

D. João — Parece-me que a senhora baroneza. . . 

Hermínia — Decerto: creia que me interesso o 
mais que é possivel.. . 

Thomb' {baixo a D. Roberta) — Que dizes tu, ó 
Roberta ? 

D. Roberta — Então que tem?! a pequena fica 
muito bem ! (alio) N'esse caso, minha senhora, uma vez 
que V. ex.* quer ter a bondade d'incommodar-se.. . 

Hbahinia — Eu não me incommodof.. . Bem vê 
que. . • 

D. RoBBBTA — E' muita bondade ! nós aproveita- 
mos ; e se nos permitte, mandar-lhe-hemos o nosso me- 
dico. 

Thomb' {aparte) — Lá para fallar, ainda nao vi ou- 
tra ; isso é verdade ! 

D. RoBBRTA (a Fíoíaníe).— Violante, a menina, fi- 
ca Heide mandar-lhe o senhor Gaspar, e se elle enten- 
der que lhe não fará mal o transito, então virei buscal-a 
amanhã, (baixo a D^ João) Cá lhe fica l aproveite o 
acaso, e empregue, bem o tempo (a Hermirtia) Não 
quero incoramodai-a mais. minha senhora ; acredite no 
nosso reconhecimento {. . . Eu virei n'outra ocçasíão cum- 
prir os meus deveres. 

Thomb' {cortejando) — Aquella casa lá está ás suas 
ordens.. . 

D. Roberta (puxand^j-lhe o fato) — Thomé f.. . 

Thome' — Então disse alguma asnciía?!.. . 

D. RoBBRTA (fazendo uma mesura nmilo preíen- 
ciosa) — Minha senhora.. . 

Hermínia {correspondendo) — Minha senhora.. . 

Ihome' (da porta) — Até mais ver, alé mais ver. 

(Herminii acompanha D. Roberta, á porta do salão, 
6 corresponde á sua ultima mesura.) 



o JUÍ20 DO MUIIDO 17 

SGENÂ IX 

UBBMINIA, D. PEDRO, IK JOÃO, VIOLANtS, nO SOphá. 

Hbrminia {aparte) — Elle falla-Ihe» e ella sorrit. . 
[aproximando-se do sophá) O descanço bade fazer-Ihe 
bem, se quer repousar em mais socego.. . 

D. Pbdro — E' melhor ; n'estes casos o socego é 
meio caminho andado. 

Violante — Porém eu não desejava abusar de tan- 
ta bondade. 

HRBiiniA — Venha ; eu a amparo. . . 

D. JoÀo — Descance no meu braço. 



(Violante le? anU-se, Herminia aoipara-a» D. Jaio 
acompanha-as até á porta.) 

SGENA X 



o MABQUSZ, e D. JOÃO.* 

D. Pbdho {com irênia) — Desde quando o meu 
sangue deixou de ferver, ao ouvir uma expressão gros- 
seira, senhor D. João? 

D. João — Desde que os marqueses de Castro pro- 
fessam os nobres sentimentos de lealdade e cavalheiris- 
mo que eu herdei de meu pae ! 

D. Pbdbo — Adlnitto-lhe a razão ; mas peço-lhe al- 
gumas explicações acerca do modo pelo qual entende 
essa lealdSde e esse cavalheirismo. 

D. João — Qual é o homem que não se sacrifica 
pelas pessoas que mais estima, e que. . . Meu pae, obri- 
ga-me a confessar-lhe.. . 

D. Pbdro — Basta. E' preciso não ir mais longe. 
As primeiras impress5es d'esse género nao passam ge- 
ralmente d'um ensaio do coração. Já sabe que o tem ; 



ig o juízo do mundo 

agora é preciso empregal-o como melhor convier aos 
seus interesses. 

D- JoãOt— Aos meus interesses ?!.. . 

D. Pedro — Decerto, se pensa era casar-se; creio 
que lhe nao convém a filha do senhor Thomé pilhou... 

D. JoÀo — Violante nao é sua filha. 

D. Pedro — Então que é ? 

D. Jo&o — E' sua puptUa. 

D. Pedro — Filha de quem? 

D. Joio — De quem ?. . • 

D. Pedro — Creio que lhe não será fácil responder* 
Vamos; para um simples ensaio, não era preciso mais. 
Agora, se quizesse seguir o meu conselho, acho que de- 
via empregar o seu tempo em provar á baroneza que 
não é ingrato á verdadeira estima que ella lhe consagra, 

e que... . 

D. João — Perdão, meu pae; estima... amizade 

de mãe?. . . 

D. PfeDRO — De mãe?l Não, senhor; Herminia lem- 

me dado a conhecer que... 

D. JoÂo — A baroneza !?... 

D. Pedro — Sim, a baroneza! 

D. Joio — Oh I então o meu pae não sabe o que o 

mundo ajuíza da baroneza !?... 

D. Pedro — E' justamente d'esse juizo infundado 

que desejo salval-a ! 

D. JoÀo — Sdcrificando-me? 

D. Pbdro — Ainda ha pouco me citou a lealdade 
e o cavalheirismo que tinha herdado de seus avós. Es- 
ses princípios verdadeiramente nobres, não se provam 
com palavras ; são precisos factos para os demonstrar. 
E quando na minha presença sofiFreu insultos d'um mi- 
serável, por amor d'uma rapariga plebeâ, que muito 
seria affrontar um dia o juizo do mundo pelo interesse 
d'uma pobre senhora que se vè isolada, e exposta... 

D. Joio— Meu pae... . 

D. Pedro— Não posso dar-lhe o lilulo desposa; 



QTJinZO 00 MUNDO 19 

quizera cbamar-lbe filha; o meu nome era o melhor es- 
cudo qud. podia offerecer-lhe contra os impropérios do 
mundo ! Seja, na extensão da palavra, digno d'esse no- 
me, ennobrecendo-o ainda mais, se é possível, com es- 
te exemplo de dedicação que lhe aconselho (pé§a no 
chapeo e sae). 

SGENA XI 

D João (sô) — Oht a iaroneza. . . de quem ulti- 
mamente se diz ... . Nao ha que duvidar, meu pae es- 
tá fascinado t Meu pne, um homem de principies tão 
austeros... tão cioso do seu nome e da sua reputação... 
tão escrupuloso.. . aconselhar-me um casamento doesta 
ordem! Ah! baroneza. . . baronesa! quer uma salva guar^ 
da... e conta comigo! Pois sim; quando eu virdes? 
mentido o artigo do jornal do Porto; quando souber de 
onde lhe veiu este soccorro inesperado que a salvou das 
garras dos credores. . . talvez. N'esle negocio não basta 
a convicção de meu pae; é preciso que eu também me 
convença. Entretanto com. esperto, esperto e meio; vou 
escrever-lhe duas linhas (procurando com a vista o que 
precisa para escrever) Ah.. . ali tenho papel e tinteiro; 
estamos servidos, (senic^se a uma das mesas) No salão 
d'uma mulher da moda, nunca faltam d-estes recursos. 
(pegando na jMoajUmapenna excellente, ê papel inglez» 
a tinta hade ser francesa..* {molhando a penna) Comece- 
mos, (escreve). 

SCENA XII 

D. JOÃO, escrevendo, nBRSfiMA pela direita. 

(D* Joio, tetido-9« sentado con as costas voltaéts para a porta, nlo 
pode notar a presença da baroneia que o observa) 

Hbrminia — Escreve I. . . A quem escreverá elle?!... 
Provavelmente hade ser a Violante I 

D. JoÀo (repelindo algumas palawíu que escreveu) 



so o juízo do mundo 

-* Acredito que esta carta nSo passará das saasmSos, por 
isso escrevo-lhe com toda a franqueza. . . {breve pausa : 
continua escrevendo, e depois repete) Sim, Hermínia, um 
amor assim, o primeiro que« . * {continua escrevendo). 

Hermínia (dando vm passo e suspentendo-se) — 
Oh! meu Deus,. . {repelindo) cum amor assim, o pri- 
meiro que.. .» Ter-me-hia eu enganado?!.. . 

D. João [escrevendo) — Âgradecendo-lhe as suas ge- 
nerosas intençCes. (dobra a carta). 

Hermínia — Ali I. . . 

D. João {levantando-se) — Agora... {vendo Her- 
minia) Eslava aqui ?l . . (um pouco perturbado). 

Hbkminia — Entrei n'esto momento.. . (perturban- 
dose também: depois d'nm momento de hesitação) Escre- 
via para o Porto?.. • 

D. JoÀo — Não, baroneza ; para Lisl>oa, e para v. 
ex.'. 

Hbhminia — Ah !. . . escreveu-me? 

D. João — Não contava tornal-a a ver hoje. . . mas 
uma vez que já fiz a carta.. • (offereeendo-ih'a). 

Hermínia (hesitando) — Porque me não diz vocal- 
mente?.. . 

D. João — Desculpe, baroneza ; ha« certas coisas 
que. . . que produzem mais effeilo lidas com attenção.. . 

Hbrmínia [áparie, reanimando-se) — Está mais per- 
turbado que eu !.. . {alto) Falie, falle, D. João. . . Uma 
carta não pode terá expressão d'uns lábios que... Oh!. . 
uma carta revela^ mas não dizl E' melhor ouvir di- 
zer' 



•• • • 



D. João [serio) — Ouvir dizer o que, baroneza ? 

Hermínia — O que !?. . . 

D. João — Faça-me o obsequio de ler. Ha certas 
coisas que um homem não pode dizer a uma senhora : 
é melhor revelar-lh'as. 

Hermínia — Convenho; quando se não tem a cer- 
teza de ser ouvido com prazer. . . mas. . • 

D. João — Eu não tenho essa certeza, nem posso lel-a! 



o JUÍZO DO MUNDO 21 

HiRMiNu — Que a não tem, concedo; que a não 
pode ler, isso não ! Sou Ião velha como o senhor ; de- 
pois, a nossa familiaridade. . . o visível interesse que me 
produzem sempre as suas visilasi. . . D. João !.. . 

D. João — Não insista, baroneza ! Tudo isso que 
aliegou é exacto, e mais uma razão para. . . Mil descul- 
pas! queira ler. 

(Botregft-lbe a carta, corteja-a« pega no cbapeo e aae ; porém me- 
mentos depois volta ao limiar da porta e observa.) 

SCKNAXIU 

HBRMiNiA, D. joÀo, entre portas. 

Hrrminu {sorrindo e abrindo a carta) — E' tão in- 
nocente!.. . Ohl feliz da mulher que merece uma as* 
piração d 'estas i Obrigada... obrigada, D. João!... 
(beijando a caria). 

D. João (aparte) — Ella ama-mell.. . 

Hbbhinia — Eu esperava anciosa esta declaração!... 
Tenho-a aqui.. . e não me atrevo a lêl-a ! Porque?.. . 
Que facto ha na minha vida^ passada ou presente, que 
me torne indigna d'esta carta?.. . indigna d'um hotrem 
de honra, d'um coração ingénuo c nobre !?.. . Filha obe- 
diente, esposa sincera, viuva sem mancha.. . porque 
vacillo pois n'e8te momento em que, pela primeira vez, 
me offerecem a recompensa d'um amor, que é também 
o meu primeiro amor t?. . . Oht {beijando a caria) Bem 
hajas tu, D. João I... que vaes recompénsar-me de tan- 
tas lagrimas que tenho chorado em silencio!.. . 

D. João {áparié) — Meu Deus! que fui eu fazer!?... 

Hrrminia — E' de joelhos que quero ler a tua car- 
ta.. . por que esta carta é uma esperança que me cae 
das tuas mãos no centro da minha triste viuvez I Vou 
ler.. . 



fi> o ^UIIO DO MUNDO 

SCENA XIV 

HEKMIN14, D. io\o, precipilaDdo-se na scena. 

D. JoAc — Nãol Náo leia, Hermínia: 
Hbrminia {}evanlandO'$é) — Ah ! . . . 

(Bre?e pausa : D. Joio está confandido, Hermínia indecisa.) 

D. Joio — Perdão, Hermínia. . . não leia essa car- 
ia* • • 

Hermínia — Não quer que a leia?!.. . 

D. João — Nãof Reslilua-ra'a. . . eu lhe direi, de- 
pois.. . 

Hermínia — Oti/ hade convir que estou no direito 
de ler a sua carta, D. João!.. . Era melhor ler refle- 
ctido antes d'escrever. . . porém agora. • • ao menos, ao 
menos quero ler ! . . . 

D. João — Nãut Eu retiro todas as expressões d'es- 
sa carta ! 

Hermínia — Retira-as!?.. . (vacillando). 

D. João — Todas ! 

Hermínia — Não importa.. . quero ajuizar se faz 
bem ou mall {querendo sair). 

D. João (deitando-se-lhe aos pés) — Hermínia I.. . 
Hermínia !. . . Dé-me essa carta». . bem vê que lh'o pe- 
ço de joelhoSy e faço-o pelo seu interessei 

Hermínia — N'esse caso.*... vejo que a minha in- 
sistência é uma loucura.. . e... e aqui tem a sua carta I 
{deixa cair a carta da vnSo, e cofn a oulra lem o lenço 
aos olhos), 

SCENA XV 

HERMÍNIA, D. JOÃO de joclhos, VIOLANTE pcU osquerda. 

Violante (vendo D. João de joelhos, e sorrindo) 
— Parecia-me que o estava adivinhando ! 



o JÚIZO DO MUNDO 23 

D. João {levantando-sé) — Violante... 
' ViÓLANTB — Sou eu, sou!... (para Hermiwa) Mi- 
nha senhora... Oh! mande conduzir-roe a casa do roeu 
tutor... eu ]á me sinlo boa... nao quero continuar a in- 
commodal-a ! 

D. Joio — Violante . . 

Violante — Para que me tem enganado I?... me- 
recia-lh'o eu?.*. 

Hermínia {vacillando, aproxima-se pouco a pouco 
d*um sopháj onde cae) Ah!... Dores! dores sempre; e 
nunca uma esperança i 

Violante (indicando-a) — Qual de nós, D. João ?! 



Cae o panno. 



ACTO H 



(Sala : daas portas na fondo; a do lado direito, para um eorredor; 
a do esqaerdo para uma saleta. Portas lateraes, envidraçadas. 
MoTeis ríco^ porém de mau gosto, collocados quasi sem con?e- 
niencia alguma : notandoHie em tudo desleixo e abandono.) 

SCENA I 



(Ao levantar do panno, eatá uma cadeira com fato de homem, pró- 
xima da porta lateral da esquerda ; um dos sopbás carregado 
de fato de mulher, que para ali foi atirado ao acaso. Um cha- 
peo que parece ter rolado de cima d'algum movei até ao meio 
da casa : uma meia de mulher ao lado. Sobre uma jardineira, 
uma lâmpada franceaa, apagada, e sem cúpula: algumas jarras 
partidas, uma licoreira e alguns copos quebrados. Jeronymo 
entra' pela saleta, trazendo um par de botas engraiadas de fres- 
co que vae collocar em frente da porta lateral da direita: baten- 
do em seguida nos vidros. Momentos depois entra Joanna). 

JEBONYMO--OláÍ... sôr Thomé? O' sôr Thomé?.. 
Olhe que já lá voe a manhS, sim senhor, {baleado) 
Então i ó seu Thomé?... 

TiiOMc' (de dentro^ com voz rouquenha) — Dize lá 
que nao ha obra feita... 

Jbrontmo {comsigo) — Que nSo ha obra feita ?t Que 
quer elie dizer na sua !? Ai que já percebo t (alleando 
a voz) Sim senhor, as bolas?. . cá lh*as deixo á porta. 
Olhe... ouviu Icá lhe ticam as botas. 



o JUÍZO DO MUNDO Sft 

Joánnà [entrando pelo corredor) — Que está vocô 
ahi a grilar, senhor JeronymolfQuer acordar a senhora?! 

JsRONYMO — A senhora? pois esta nio é a porta 
do patrão? 

JoANNA — Mas o quarto delia nio fica longe, e a 
senhora tem o somno muito leve i 

Jebonymo — Olhe; palavra. qu'antes qu'ría acor- 
dal-a duzentas vezes na manhã, do que uma só o patrão! 
Estou aqui ha meia hora, e nada de novo! Sabe o que 
elle respondeu? que não linha obra feita; ora veja lá; 
ínté faz aborrecer uma pessoa I 

JoANNA {rindo) — Estava a sonhar com o tempo 
em que.. . {contitíua rindo). 

Jebontmo — Que tempo?.. . 

JoANNA — Isso são coutos largos, senhor Jeronymo; 
{andando para a scena, pisa o chapeo) Ai ! que é isto 
que eu pisei?!.. . 

Jebontmo — Ura ! ora 1 o chapeo do seu Thomé'... 
pois se você nunca vê onde pranta os pés I 

JoANNA — E quem lhe manda estar ahi badalando 
em logar d'arrumar as coisas ?l 

Jebontmo — Olhem quem fatia! A respeito d'arru- 
mação, {levantando o chapeo) é o que se vèl.. . (tndi- 
cando o faio sobre o sophá ; e depois, o meia que $slá 
no chão) inté uma meia desgarrilhada. . . 

JoANNA (apanhando a meia) — E que fez você da 
outra ?. . . 

Jebontmo — Eu pego cá nas meias da patr6a I? Vo- 
cê está sonhando. Parece que lhe pergunto alguma vez 
peias piugas do patrão ! 

JoANNA — Era o que faltava! (principiando a arrw 
mar o faio que eslá no sophá). 

Jebontmo — Ora vamos, vamos; sempre (juero ser 
bom para você, senhora Joanna. (querendo ajudal-a a 
dobrar e arrumar o falo). Ah! que se um dia um ho- 
mem chegar a ter dinheiro, senhora Joanna.. • 

JoANNA — Tire-sc lâ I Então que hade você fazer ? 



M O imZO DO MUNDO 



Jerontho (sorrindo) — Q}i\íúA% fazer?.. . Ai, se- 
nhora Joanna. . . só o que lhe digo, é que . . 

JoANNA — Que faz você T dobrando uma saia de 
gomma !. . . Enlãol já viraqi uma coisa assim?. . . Ar- 
reda! ^vt^AkI {dando-lhe com a tnão no kombro). 

Jbbonymo — Castiga, meu bem... castiga.. . 

Thomb' (dentro do quarto) — Jeronymo! 

JoAMNA — Oihe que o chamam.. . 

D. Roberta {dentro do quarto) — Joanna !. . . 

Jbrontmo — Já vou.. . já vou 1 

D. Roberta — Nao és tu, bruto t Estou chamando 
a Joanna. 

Jeronymo — Sim senhora; eu cá respondia ao patrão.. 

Thomb' —Jeronymo!! Traze-me com que matar o 
, bicho, ahi do lícorteiro. 

D Roberta — Joanna ! . . . 

Joanna — Já vou, minha senhora, já vou. 

Jbronymo {enchendo um copo com aguardente: para 
Joanna) — O' sôra Joanna, quer matal-o? o patrão a 
modo qu'alembrou bem ! 

Joannâ — Isso hade s$r muito forte, e as bebidas 
fortes fazem-me inflammar a garganta. 

Jeronymo — Tem razão! estas coisas inflammam mui- 
to as raparigas, e. . . Olhe, aqui tem do mascarrino 
qu'é a bebida da patroa. Também... nao tem senão um 
copo!.. . Vá abaixo! 

Joanna {despejando o copo) — Ai I que parecia fo- 
go t Isto não é lai roarrasquino I 

Jeronymo — Depois de o engulir! e é verdade! Era 
canhaco I 

Joanna — Foi peça que võcé me pregou, não tem 
duvida ! deixe estar !. . . Parece-me que morro se não 
fôr beber agua. . . (sae correndo) 

Thomb' — Jeronymo ! 

Jeronymo — r Já vou, já vou; estou enchendo o copo..; 

(Enche o copo e bebe, tornando logo a encher.) 



OJVIBODOINnilK^ n 

Thovi' — Tu ouviste, Jerooymo?!.. • 
Jbronyno — Sim senhor ; estou eocheodo o copo I 
{bebe : e quando vae encher terceiro copOy vi que não ha 
mais na garrafa) Olhe, a garrafi está vasial... Vou 
buscar mais á dispensa, {pega na garrafa e sae pelo 
corredor). 

SGENA II 

(Ifonentos depois, entreabrem-se ao mcf md teB|K> as porias laU- 
raes. Thomé-pilhoa e D* Roberta espreitam a scena.) 

TuoMK* — DesconGo que o maroto do Jeronymo... 

D. RoBKBTA (íosêindo) — Não é possível aturar 
aquella Joanna ! {vendo Thomé) Oh i o seu comporta- 
mento é inclassificável, senhor Thomé i. . . 

Thomk' — Olá! bons dias. Enlao que mal lhe fiz 
eu?! 

D. RoBBRTA — Não me parece decente espreitar, 
d'€8se modo, os movimentos d'oma senhora que julga 
estar só i Como por exemplo.. . 

Thomb' — Então! querecu-no assim?.. • Não tinha 
eu mais que fazer do que espreitar-lhe os movimentos! 

D. Roberta — Bem se vê 1 E se eu tivesse lido a 
innocencia d'avançar mais um passo. . . na persuasão 
d 'estar sói... 

Thomb' (jgritando) — Jeronymo! Ó Jeronymo!... 

D. Roberta — Sempre gostaria de o ouvir... senhor 
Thomé !. . . Ah ! isso não são termos^ repito ! E um 
abuso!... espreitar-mei?... Ora não ha! 

Thomb' — Sabe o que Ibe digo, senhora D. Rober- 
ta? Tenho conhecido que a senhora diverte-se em ar- 
mar-me ratoeiras ! 

D. Roberta — Ratoeiras !?. . . 

Thome' — É verdade; .porém fique certa que perde 
o seu tempo I 

D. Roberta — Quem foi que abriu primeiro a porta ? 

Thome' — A senhora ! 



M O lUIZO DO MUNDO 

D. RoBKRTA — Não ha tal ! foi o senhor* 

Thome' — Então, se diz que fui eu, ainda mais me 
ajuda ! 

D. BoBBRTA — Eis ao que uma pobre viuva anda 
exposta 1 l^edem^lhe para servir de tutora a uma meni- 
na, e no fim... Ah! eu me vingarei, senhor Thom*é-pi- 
Ihou. [fecha-lhe a porta) 

Thomb' — Se pilhei meu proveito, nao é da conta 
de você ! (zangado) Ainda por causa do seu dito, hade 
aqui haver grande mexida ! 

D. RoBEBrA (dentro soluçando) — Sim, já se es- 
queceu do tempo em que era sapateiro, quando ia to- 
mar-me medida ^e botinhas de salto !? 

Thomb' — D. Roberta, D- Roberta!.. . 

SGENA ni 

THOMii' á porta, ibrontmo pelo corredor com 
uma garrafa e um copo. 

Jbronymo — Promptol prompto! Fui buscal-o á 
dispensa, por signal qu*a senhora Joanna não me que- 
ria dar a chave; mas eu disse cdmigo: ah, sim, elie é 
isso... 

■ 

Thome' [grilando) — Não me importa saber do que 
disseste! Vamos, traga-me o falo, e venha ajudar-me a 
vestir. 

(Recolhe-se. Jeronymo le? a-lhe o fato. Joanna vem pelo corredor» 
leya também o fato de D. Roberta e entra no quarto d*ella. Oa- 
ve«8e tocar com violência a campainha da porta. Jeronymo torna 
a apparecer: Thomé grita-lhe do quarto.) 

Thomr' — Vé lá quemé: se fòv gente m^ndu entrar. 
Jkronymo — Sim senhor: e se não fôr? 



o JUÍZO DO MUNDO m 

Thomk — Pois o que hade ser, brulo !? 

(Jeronymo sae pela saleta e folta instanles depois» segaido de Ma- 
nuel do Coato.) 

SCENA IV 

MAMUBL DO COUTO, 6 JiiRONYMO. 

Manuel — Diga-lhe que é o commendador Manuel 
do Couto, que deseja fallar-lhe acerca d'um negocio im- 
^ portanie. 

JeRONYifO — Sim senhor; queira senlar-se. (prin- 
cipia a arrumar a sala) 

Marubl (/aliando comsigo) -- Se a baroueza esti- 
ma o marquez, é claro que hade interessar^se por elle* 
O marquez não tem vintém para pagar. A penhora e o 
vexame são -lhe inevitáveis; esó o empenho da baroneza... 

Jeiíonymo — O senhor faz favor d'eslar à sua von- 
tade? 

Manuel— Estou muito bem ; não lhe dè cuidado : 
o que desejo é que vá prevenir seu amo.. . 

Jeronymo — Sim senhor; agora mesmo {começa a 
sacudir o pó dos moveis) È qu'o patrão reuniu honlem 
• ahi uns amigos por via d'outro amigo que lhe chegou lá 
dos Brazis, e que traz chelpa... que é mesmo uma mi- 
na d'oíro ! 

Manuel — Ah.' sim? e quem é esse amigo? 

Jeronymo — O tal amigo é o pae da menina Kío- 
lanla, sim senhor ; e quer dotal-a para a casar bem. 

Manuel — Com quem? 

Jeronymo — Eu sei cá 1 verdade seja o psilrão pa- 
rece que.. . e é por isso qu^o $eu D. João anda com a 
pedra no sapato, qu'é mesmo um dó vèl-o ! é verdade! 
de modo que. . . 

Manuel — E o que se diz? 

Jeronymo — O que se diz é qu'o tal seu D. João, 
qu'é fidalgo ás direitas, o que quer é apanhar o dote às 



30 O lUIZO DO HUNDO 

unhas, por que tem a casa empenhada ate aos telhados, 

MàNUEL ^ E a menina ? 

Jbronymo — A menina Violanla 7 está bom ! Essa 
\eiu lá de casa da fidalga, que pracia mesmo uma bi- 
cha a rabeari De sorte que nim se importou com o pae, 
nim nada ! Em que se vingou foi em pôr a Joanna mais 
rasa do que. . . (rindo). 

VliíSvnL — Então diz-se?,. . 

Jbronymo — Sim senhor, qu'o seu D. João o que 
quer é casar, só por via da melgueira. . 

Manurl — Eslá bom, está bom. Vá prevenir o se- 
nhor Thomé, que é o seu dever. 

Jrrontmo — Agora mesmo^ sim senhor; Inté já ia, 
mesmo. . . [pega no candeeiro e sae pelo corredor). 

SCENA V 

MÀNUKL no COUTO, depoís thomf/ 

Manugl — Ahiestá como resoam no mundo os mais 
íntimos segredos d*uma família I \l quando nào é d'esle 
modo, a noticia dada á noite na tenda sobe de manhS 
ás cabeceiras dos leitos ; é discutida nas repartições, e 
mais tarde declamada nos botequins, onde acaba por se 
tornar publica ^ No dia seguinte» o mundo ajuizn ; e 
quantas vezes, este juizo quiçá infundado, transtorna 
o socego d'uma familia inteira* IMuito bem. Aproveite- 
mos a noticia que nao deixa de vir a propósito, e dei- 
xemos reflexões. 

Thomb' (entrando) — Quem me faz o favor?... 
Aht.. . o senhor Manuel do Couto!... e aquclle Jerony- 
mo que me nao tinha dito nada!... Então... por quem 
é?! queira sentar-se.. . 

Manurl — Desculpe-me de vir ineommodal-o tao 
cedo... senhor Thomé. - . 

Thomi' — Essa é boa 1 o seu chapeo. . . 



o juízo 00 MUNDO 81 

Manuel (depondo o ckapeo) — Sem ineommodo. . . 
{sen(am-se) O assumpto que me traz é propôr-lhe um 
negocio d'inleresse. O marquez de Castro lem a ca- 
sa empenhada. Os credores são poucos; mas as dividas 
grandes e claras. Examinet-as, caiculei quanto a casa 
" podia render, bem administrada, e comprei os títulos 
d'essas dividas na certeza de um lucro de meio por cen* 
to. Entretanto, não me convindo figurar directamente 
n'esta questão, em consequência de ter recebido a digni- 
dade de commendador... 

• Thome' — Ah!.. . saiu commendador?,. . Ora, di- 
ga-me, que passos deu o senhor paia isso? Tenho tam* 
bem minhas idéas. . . 

Manuel — Oh! é difficili... Merecimentos pes- 
soaes. . . serviços. . . e. . . 

Thome' — E.. . dinheiro?!. . . 

Manuel — Também. 

Thomb' — Por esse lado. . . 

Manuel — Voltando á questão ; dissc-lhe que. . . 

Thomb' — Que tinha saido commendador. 

Manuel — E que por isso nao me convinha figu- 
rar, directamente, contra o marquez. Entrenós, na clas- 
se aristocrática, ha certas conveniências que.. . (endi- 
reilando o laço da gravala) Em summu, venho propôr- 
lhe a agencia d 'este negocio, assegura ndo-Ihe, desde já, 
um lucro... 

Toomb' — E o marquez tem por onde pagar? 

Mandkl — Eu lhe digo. O filho do marquez, que- 
renda salval-o d'eçla crise que o ameaça, diz-se que 
mettera n'algibeíra os seus prejuízos aristocráticos, para 
se casar, ahi não sei com que rapariga plebea, mas ri- 
quissima.. . 

Thumk' (levantando^se) — Pois, senhor, asseguro- 
Ihe que o rapaz não hade casar! por que a rapariga co- 
nhece muito bem as intenções com que a procuram ; 
por que a rapariga sabe que o rapaz está d'amores, ahi 
com a baroneza. • . 



3s O juízo do mundo 

Manubl {l69antandO'$e) — Com a baronezai?... qual 
baroneza? 

Thomb' — Sim; essa, que lhe chamam a baroneza 
de S. Romão... 

MAN0Ki.^Está bem cerlo que?... 

Thomb' — Sim senhor; a rapariga sabe toda essa 
historia» e, como tem seu bocado de tino, faz muilo bem 
em não querer! Ah! estes peralvilhos de bigodinho lou- 
ro e* retorcido, julgam que nol-a hãode pregar assim» 
sem mais nem menos, na menina dos olhos!.. . Meu 
amigo, as raparigas, hoje em dia, lêem os olhos muito 
abertos t... 

Manuel — Basta; não faço questão do casamento. 
O que desejo é saber se lhe convém o negocio, assegu- 
rando-lhe, repito, um lucro. 

Thomr' — É preciso pensar. . .. 

Jbrontmo {chegando á poria do corredor) — ^ O al- 
moço está na mesa. 

Thomb' — A propósito. A' mesa é onde eu sei me- 
lhor tratar certos negócios. Venha fazer um bocado de 
eomp4inhia, e là conversaremos com vagar. Vamos. . . 
Uma vez que o lucro é certo!... 

Mamubl [aparte) — Se consigo fazer chegar este ne- 
gocio aos ouvidos da baroneza, calculando quanto eu 
seria capaz d'intentar contra o marquez, o que não fa- 
rá ella para lhe evitar este desgosto ?! 

(saem pelo corredor.) 

SC ENA VI 

p. ROBERTA, saindo do seu quarto, acompanhada 
de JOANNA, depois violante. 

D. Roberta — Vae dizer á menina Violante que de- 
sejo fallar-lhe antes do almoço. Olha, «e vier o senhor 
D. João, manda-o entrar. 

JoANBA — Mas o senhor Thomé deu ordem para se 
lhe dizer que não estavam em casa. 



o lUIZO DO MUNDO 33 

D. Roberta — Isso é uma grossaria do senhor Tho- 
nié. Faze o que te digo ! {Joanna soe) Ah ! senhor Tho- 
Olé. . . deixe eslar que comigo hade baver-se ! Não se 
muda assim d'opiniãó a respeito d'uma senhora que.. . 
que nSo está ainda no caso de se metler a um canto ! 
Apezar de completar os meus quarenta, no dia de San- 
ta Brigida, á Urde, e de ter enterrado os meus três maridos, 
parece-meque.. {arred ndando a saia do vestido) Ah .. 
afai vem Violante. 

Violante (com mau m-^do) — ^ Que mo quer ?! 

D. RoBBRTÀ (stfrrindo) — Que lhe quero?... Ora 
venha cá: sente-se aqui, e converso um bocadinho. 

VioLANTB — Estou pouco para conversas t 

D. RoBKRTA — Ferrinho ! pois o que hade ser?! 
Isso passa! 

VioLANTR — Hade passar bem t Surprehendel-o de 
joelhos aos pés d^lla beijando-lhe a mao ! Isto» depois 
de mé ler dito, como sabe, qu^. não tinha outra affei- 
çao no mundo, senão í minha; que.. . e maitas coisas 
que eu não quero repetir 1 

D. RoBBRTA — OtB, tados fazem outro tanto.. . e 
ás vezes ainda peior ! 

ViOLANTR — Que lenho eu com o que fazem outros? 
cada qual sente e responde por si. E demais, sabe o 
que se diz? Diz-se queellc não gosta do mim senão por 
interesse ! 

D. Roberta — Dizem que Diógenes respondera aos 
que o interrogai am vendo-o atravessar ao meio dia, com 
uma lâmpada accesa, a praça d*Atbenas. que procurava 
um homem. Pois se a menina procurar do mesmo mo- 
do um rapaz que se não case por interesse, receio mui- 
to que não o ache. E a menina rSo tem razão de pen- 
sar que elle é interesseiro t Foi antes de hontem ^ue seu 
pae a dotou : o pobre do rapaz ainda não tem tempo de 
saber. . 

VioL4NTE — Todos dizem que sabe i 

D. Robkrta—-' Juízos do mundo 1-.. Pois não se 

3 



^ o JUISO DO MONDO 

diz lambem que o senhor Thomé está eômpromellido co- 
migo... (rindo) quando eu lhe conheço oalras inclina- 

oSes?l. • • 

ViouMTB — Quaes? 

D. RoBBníA (com mícnpôo) — Oulras. . . outras... 

Violante (rindo) — Hãode ser boas!.. . Diga. 

D. RoBEOTà — Tentadora.! pois sim, eu lhe conto; 
mas... {com seriedade; engrossando a voi) Silencio! 
(chegando-se-lhe) Olhe, o senhor Thomé esta enamora- 
do da menina. . ■ 

ViouNTB — De mim!? . 

D. RoBBOTA — Ba muito tempo ! 

VioLAWTí— Ora essa.. • que poeira, senhora U. 

D. RoBEBTA — Consta-me que já fallou a seu pae, 
e que se disp5e a empregar lodos os meios... 

VioLAiWB — Está cassoando ? 

D. RoBBBTA — Fallo serio ' ^ . , ^ 

ViOLAiriB — Por isso elle tratava tao mal o pobre D. 
João!... Sim, sim, agora é que comprehendo certas 
coisas passadas».. . Ora não se dal.. . E nesse caso... 

D. Roberta — O caso é melindroso!.. . 

Violante— Tenho medo!.. • .,„-.„„« 

D. Robebta — Acho natural, {aparte) Nao ha na- 
da para assustar mais uma rapariga, como um mando 
— Thomé — em perspectiva I • 

Violante -Meu Deus!... Estou deveras sobre- 
salladal Se o senhor Thomé instar, e meu pae quizer... 

D. Robebta — Que se lhe hade fazer?! 

Violante (kvaniando-se) - Oh \ tudo, tudo! me- 
nos condescender!... Senhora D. Roberta. . . veja ia... 
já que me deu a noticia... dé-me lambem um conselho. 

D. Roberta — Em casos taes. . . 

Violante — Enlão ? , ..^ 

D. Robebta- Eu sou sua governante; e nesta 

qualidade, não devo dar-lhe maus conselhos. . • 

Violante — Ha males que vêem por bens. Talvez 



o IDIZO DO MUNDO M 

que d^um mau conselho dependa a minha feliciiiade. . . 

D. Roberta — Se.. . 

Violante ~ O que? 

D. RoBEiiTA —Se a meuiua liver coragem... {ápar^ 
te) Eslá por tudo, não ha duvida I A^ora « aíUiaçSo fa- 
rá o resto. 

VioLANiE — Que me aconselha T 

D. Roberta — Que siga a vontade do seu tutor, e 

que.- . 

Violante — Nunca ouvi peior conselho !. . . 

D. Roberta {sorrindo) — Quem sabe!? talvez que 
lhe Dao fosse mal.. . 

Violante (fallando comngo) — Ouvir dizer que 
apenas m'estima por interessei.. . não saber com cer- 
teza se. . . Oh ! a desconfiança é o peior de todos os 
tormentos! Tel-o amado, como o amei» e tão illudidâ pelo 
meu bem querer t.. . Sc elle ao menos viesse.. . 

SCENA VI 

VIOLANTE, D. ROBEKTA JOANNA, depoiS B. JOÃO. 

JoANNA — Alviçaras ! Lá vem o senhor D. JoSo. 

VlOL\NrE — Ah 1.. . 

D. Roberta (á;)arte) — Por força.. . (rindo). 

JoANXA — Mando entrar? 

Violante (a D. Roberta) — Que lhe parece?.. . 

D. RoBKRTA— ' Eu sei !?. . (fazendo-lhe signahffir' 
malivo) Uma vez que o senhor Thomè declarou que o 
não queria em casa, o mais que posso fazer, é tomar a 
responsabilidade do facto. Descance. 

(D. João apparece á porta da saleta. D. Roberta sae pelo corredor» 
Violante finge prestar attenção a um ramalhete de flores qae etf« 
tá n'Dva jarra.) 

D. João {arando vagarosamente e deiendo-se a 
alguma distancia de Violante) — Violante.. . 



36 O juízo do mundo 

ViOLANTR [voUando-se com rapidez) — Ahl.. . que 
susto t julgava estar só.. . 

D. Joio - Quer dar a enleoder que não me espe- 
rava !? 

ViOLÀNTB — É verdade; priucipalmeule, a esta hora. 

D. Jolo — Pode dizer-se que é cedo para uma en- 
trevista amorosa ; mas para um acto de justificação. . . 
nunca chegamos cedo de roais ! 

Violante — Não tem de que juslificar-se- O que o 
senhor fez, não é para admirar. 

D. João — Então, que fiz eu, Violante? 

Violante — Parece-me que faz uma pergunta i 

D. João — Tem razão; não devo perguntar, depois 
de lhe ler annunciado que venho iustifícar-me. 

Violante — Perdão; leva muito tempoa justi&car-se? 

D. João — Não empregue a ironia antes d'ouvir- 



mct 



• • 



Violante — Não, é que o meu tutor. . . 

D. Joio — Sei que estou banid) d'esta casa ; não 
importa : o que não desejo é deixar impressões desfavo- 
ráveis, uma vez que tenho a consciência tranquilla, e o 
coração completamente convicto dos nobres sentimentos 
que muitas vezes lhe confessei, (tirando uma carta; con- 
vulso de commomdo) Essas confissQes, Violante, não lhe 
mereciam esta carta ! Podia dizer-me que se tinha en- 
fastiado das nossas relações ; que dava preferencia a ou- 
trem; que. . . nem eu sei! tudo quanto quizesse, menos 
uma ironia d'estas... permitta-me a expressão, um insul- 
to... 

Violante [interrompendo) — Desculpe ; expressões 
de gente grosseira. 

D. JoAO — Pois não acha que é um insulto recor- 
dar ao pobre a sua pobreza^ lançar -lhe em rosto a fa- 
talidade da sua posição social no momento em que, illu- 
dido, como todos se illudem, tem a fraqueza de julgar- 
se elevado, pela pureza dos seus sentimentos, acima das 
misérias humanas !? 



o JDIZO DO HDNDO 37 

ViOLANTK — Eu nao o insultei: d isse-lhe simples- 
mente que d'amor ninguém vivia. . . 

D. JoXo — Tem razão t essas palavras n9o insul- 
tam... matam o espirito! Oh! nao se illudem quatro 
annos da existência d'um homem, para se lhe arrancarem 
d'uma vez com tanta frieza todas as esperanças que se 
lhe tinham concedido! Violante^ que diria de mim se 
eu tivesse feito o mesmo 1? 

VioLAi^TR — Ora, o que diria !?. . . diria, diria que 
tinha feito o que todos fazem i E quem sabe o que teria 
succedido 17 E quem sabe se não teria de arrepender- 
me, um dia, de não ter feito o que fiz!? 

D. João — Vejo que me enganei completamente no 
conceito em que a tive até bojet 

VioiANTB — Também me succedeu o mesmo a seu 
respeito. 

D. JoÀo — Sem fundamento! 

Violante — Creio què o juizo do mundo 6 funda- 
mento bastante. 

D/ João — O juizo do mundo t? 

Violante — Sim: essas coisas que se dizem.. • 

D. JoÀo — Então o que ouviu dizer? 

Vio! AME — Ha dias, entrando eu e D. Roberta 
n'uma loja de modas, emquanto fazia as minhas com- 
pras, caíram me por acaso nos ouvidos estas palavras : 
«Sabem que D. João vae pedir. a pupilla áo pilhou f^ 
oPudera, se tem sessenta contos de dote!» 

D. João — Ah !. . . 

Violante (rindo) — O mundo bem sabe o que diz. 

D. João — Violante. . . dize-me tu que não ha tal ; 
dize-me que não tens esse dote, que és ainda tão desva- 
lida como no primeiro dia em que te vi I Deixa-me acre- 
ditar que a vaidade da riqueza não matou ainda esse 
coração que batia por mim.. . Dize-me que és orphã... 
repete-rae, repele-me, como ha um anno, que não tens 
outra fortuna que não seja o meu amor, nem outro abrigo» 
alem do meu coração! Poupa-mc, se ainda é tempo, ádecc- 



W o JOIZO DO MONDO 

pção mortal que ameaça o espirito de quem te amoa 
tanto I... tanto que nem te eu sei dizer... que nem tu 
comprehendes. . . que ninguém imaginai 

ViOLANTB (dl^trahida ootn as flores) — Pobres flores, 

se eu aqui nSo viesse, murchavam por falta dagual 

• (P^9<^ n^uma garrafa com agua que está tCouira mesa 

D. Joio (tirando o ramalhete da jarra e desfazen- 
do-o) — Deixa-as morrer I também eu morro . . e és tu 
que me matas I 

ViOLAifTB (moslrando4h€ a garrafa) — Se morre 
por falta d'agua. . . nao vale a pena. 

D. Joio {cruzando os braços e encarando^a) ~ Pois 
tu és a mesma que eu conheci ha oito diasl? Será possível 
que oito dias só de opulência tenham envelhecido tanto 
esse coração 17.. . Que queres que eu pense de ti, e do 
mundo? que queres que eu faça de mim? . . em que 
queres lu que eu tenha fé amanha?! 

YiOLANTB — Acabemos com isto ; hade ler-lhe sue- 
cedido muiias vezes acreditar no que ouve dizer a res- 
peito d'alguma senhora. . . 

D. João (eom uma idéa oecuUa) '— Ah I 

VioLAMTB *— Fica uma coisa pela outra. 

D. João {aparte) — B quem sabe se é verdade o 
que se diz de Herminia i 

Violante — Não posso convencer^me que o filho 
d'um marquez gostasse sinceramente d'uma rapariga que 
se não sabe ao certo quem é. . . 

D. João — Oh ! e quando lu me repetias que era 
eu a tua única esperança, Violante, eu também podia 
ter duvidado que mo dissesses sinceramente t Não te 
offerecia uma fortuna ; mas trazia-te um titulo de mar- 
qneza. 

Violante — E por que me não pediu antes d'esse 
acaso que me tornou rica? {rindo) Quem se lenabra de 
'dar um titulo a uma rapariga pobre I? E depois. . . a 
baroneza.. . 



OJUIBODOMDNDO at 

D. Joio — Falias da baroneza I. . . 

VioLANTs«— Não se assuste; não tenho ciúmes. 

D. Jo\o — Mal sabes lu^ Vidanle . . 

Y10L4NTB — Nem quero saber. 

D. Joio — Perdoa; basde ouvir-me.. . 

VioLANTK — Se não muda dassumplo, vou-me em- 
bora I 

D. JoÂo — Já agora, é preciso ouvir; vim aqui 
para me justificar; e quero convencer-le que os teus 
juizõs são falsos I 

ViOLANFB — É perder tempo I Bem me recordo de 
o ler visto ajoelhado aos pés da baroneza, beijando-lbe 
* a mao, e próximo a enlregar-lhè uma carta, que.. . 
(rindo) Não tinha animo de lhe dizer vocalmente o 
mesmo que já me linha dito a mim ; e sabe Deus a 
quantis, antes de mifn ! 

D JoÀo — Escuta-me. . . escula-me Violante..,. 

Violante — O senhor eslà-nie incommodando hor- 
rivelmente I já me deitou por terra o meu ramo de flo- 
r^; agora quer por força prégar-me um scimãol.. . 

D. Joio — Basla, não insisto. Já iwe não amas f 

VioLANTB (depois de pavsa) — Heide por forca 
responder-lhe? 

D. JoAO — Preciso ouvir-te. 

Violante — Pois bem; jà não! ao -menos. . . por 
emquanto é o que lhe respondo. 

D. João — N'esse caso é preciso satisfazer o que 
me pedes no teu bilhete, {tirando do bolso nm massinho 
de carias, e deixando cair uma em que não repara) Aqui 
estão as tuas carias. 

Violante — Todas ? 

D. JOÃO (^cora?;'a»áo) — Todas I Estimarei que se- 
jas mnito feliz. 

Violante (sem cortejar) — Oulro tanto. 

D. Joio [saindo, aparte) — Se Herminia está inno- 
cente do que se diz, Deus vingou-a bem f [detenáo-se) 
Violante!. . . 



40 OJUIZO 00 MUNDO 

ViOLANTK [áparie) — Elle hade voltar. . . 

D. João — Hade arrepender-se! {sae). 

VioLAifTR {vindo áscenaj — Saiu. (phreneíkn) OhU^ 
para que quero eu estas cartas?^ {rasgando algumas ao 
acaso) Que vao fazer companhia áq uel las flores I de ho- 
je em diante n^o quero gostar mais de flores, nem... 
de nadai Diz que veiu justiíicar-se... Olhem como s« 
justificou bemt pois não... Isso era d esperar; o que se 
diz sempre é certo, e mentir não é para todos, {vendo a 
carta que caiu a D. João) Que papel será este? ftaiu- 
lhe d 'algibeira... (apánhando'»o) Ê uma carta... {lendo à 
sobscriíio) Senhora baroneza de... Ah! uma carta delle 
para a baroneza I... 

(N'este momento B. Joio torna a apparecer como qoem procara 
alguma coisa, vê a carta nas mãos <k Violante e saspende-se.) 

D. João {áparie) -^ Achou a carta 1 . . • 
Violante {rinJo convulsa) — Hade ser curiosa I 
Agora-., agora 6 que eu vou saber tudo por miúdos l 
Vejamos: (vae abril-a e deiem-se) ô melhor oãol-.- 
Quem sabe se me faria mal?l Quem sabe como eu fica- 
ria depois de a ler!? porem tel-a aqui nas mãos, e nao 
a ler.. O que haverá em mim que me diz que a leia!... 
Para que quero eu saber d'istof? Elle ama-a, é o mes- 
mo ; bem sei quo a ama 1. . . é inútil ler o que já sei. 
Rasguemoi-a 1 (fazendo acção de rasgar a cartn, suspen- 
desse oufra vezyjiKo: já agora... por tão pouco. .. (aénn- 
do-a) Oh ! D. João, D. Joãol Deus te perdoe o fel que 
\aes eutornar na minha existência i Eu dera toda a mi- 
nha fortuna só para que este papel se me queimasse nas 
mãos ! (destiando n'uma das mãos a caria, e passando 
a outra pelos olhos) Não! não quero ler! {depois de 
pàusay com um sorriso seducíor e ingénuo) Que impoita 
eu não querer, se o coração m'o está pedindo 1? Veja- 
mos, (principia a ler) a Acredito que esta carta nao pas* 
sara das suas mãos, e por isso escrevo-lhe com toda a 



o JUlZe DO MUNDO 41 

franqueza. O meu coração é incapaz da menor falsidade. 
(interrompendo) Bem se vêl (continuando) Faltaria ao 
mais justo dever de gratidão, se deixasse de lhe confes- 
sar immedjatamenle um sentimento puro que nutre.. . 
(interromfendo) Oh! nãol... não! isto faz-me mal !... 
é loucura continuar!... Basta-me este período, (pausa) 
Mas... quem sabe se lhe diz ainda mais!? {lendo) Sim, 
Hermínia, um amor assim; o prímeiro que... {interrom^ 
f endosse) Aqui está ! diz-lhe que é o primeiro 1 e men- 
tiu doeste modo !? Oh ! agora, agora é que qu não posso 
deixar de ler... quando se tem sede, até o fel satisfaz I 
(lendo) Um sentimento doestes deve ser respeitado, até 
pelas pessoas que fazem da vida um jogo, e do coração 
um commercio. (com rapidez) Meu pae fallou*me de v. 
ex.* Guarde-se de perturbar a minha felicidade intima; 
e o respeito que devo a meu pae. Troco as pompas do 
mundo pelo coração d» Violante; (muito rápido) e agra- 
deço a V. ex.^ as suas generosas., i {inlerrompendo-se 
com um grito de alegria) Ah t... 

D. João (commovilo e querendo conier-se) — K ama- 
va-te por interesse. . . 

Vioi^ANTE (hnçando'8e4he nos braços) — D. João ! 
D. João!.. . (apenando-lhe as mãos sobre o peito) Ah! 
Sustém-me a alma que se me vae de prazer ! 

D. Jo.\ò — Violante!... 

SCENA VII 
viOLANTB nos braços de d. joâo, joanna apressada. 

JoANNA — ^Leva de rumor.. . o senhor Thomé le- 
vantou-se da mesa, e não tarda ahi ! 

D. João — Joanna, Violante não dá accordo de sil 
Violante?.. . Violante?.. . 

JoANNA — Sim I? alguma lhe fez o senhor !. • Me- 
nina.: . [sacudindO'lhe o braço). 

D. João — Meu Deus I . . . 



ia o JIJI20 DO vtmbo 

JoANN A — Não hade ser nada ! Eu lambem padeço 
disto quando apertam comigo. EncoslemoUa ii'este so« 
phá. • . Vamos, depressa. . . sinto os passos do senhor 
Tbomé (encêstam Violante no sophá). 

D. Joio {beijando'lhe a mão) 7- Violante. . . 

JoANNA — Então I diante d'oulra mulher, senhor 
D. João ! (aparte) Ai ! quem me dera ter também o meu 
D. João I Era capaz de lhe desmaiar três ou quatro ve- 
zes por dia, sem contar de noite I (alo) Saia d'ahi.. . 
ai! ai.. • que elles lé vêem... depressa, eseonda-se 
n'este quarto. 

D. João — Joanna, esconder-me!? 

JoAMNA — Por amor da menina ... nâo ha remé- 
dio. . , [me conduzindo-o mau grado seu para o quarto 
de V. Roberta e fecha-lhe a poria, voltando junto de 
Violante). 

SCENA VIII 

vioLANTH no sophá, JOANWÀ junto d'ella, toomé, 
MANUEL DO cwjTo, B. bobbbta pclo corredor. 

Thomé — O negocio tem seu risco ; mas se me ga- 
rurte o (uero, €8too prompto a demandar o marquez. 

Manuel •— Está dito. O senhor não desembolsa vin- 
tém antes de liquidar : e as despezas correm por minha 
conta. 

Thohé — Mande-me os tilulos dos credores. 

D: Roberta — Menino, veja lá em que se metle!.-. 

Thomé — Que lem a senhora com isso? Parece que. . . 

Manuel — As senhoras não entendem nada doestas 
transacções. 

TnoMÉ — É verdade; diz muito bemi Quem nasceu 
para os trinta réis não pode chegar ao meio tostão I 

D. Roberta — Ahi está ôomo este mundo ajoiza 
das mulheres! das mulheres que tantas vc^es influem 
nos seus destinos, verbi gralia, Helena que perdeu Tróia! 
Lucrécia j or amor de quem se expulsou Tarquinio de 



o JUÍZO IK> MUlfOO 4S 

Aomal Cava. que inlrodaziu os moiros em Hespanha... 
e finalmente, madama Pompadour que foi causa da ba- 
talha de Rosbac por lhe terem feito um certo versinho 
de que ella nSo gostou nada ! 

Mancbl {baito a Tkomé) — Sabe a historia como 
um Galão ! 

Thomé — Pois não lhe disse já que é viuva de três 
maridos?! 

D. RoBKRTA {aparte) — Sempre é bom mostrar o que 
se sabei (Thomé e Manuel do Couto conversam um mo- 
mento em particular, D. Roberta repara em Viohnte 
que já voltou a 5i) Então que tem, Violante?. . . 

ViOLAKTB — Já me passou mais alguma coisa. . . 

D. RoBiiRTA — Commoção nervosa. 

ViOLANTK — Logo lhe conto. 

D. Roberta — Pois sim, pois sim; agora vá tomar 
e ^eu chocolate. Joanna, acompanhe a menina. 

(VioUnte flaa acompanhada &t JoanM.; 

SC RNA IX 

MANUBIi DO GODTO, THONá, D. ROBBRTA. 

Manuel — Muito bem, estamos d^accordo, ^nhor 
Thamé. Até mais ver. {cortejando Z). Roberta) Sou um 
seu criado, minha senhora. 

D. Roberta — Essa é boa! nã^ quero criados tAo 
graves .'. . . {faz-^lhe uma mesura) Me« senhor. . - (Ma- 
nuel do Cota o sae). 

SCEiNA X 

THOMÉ, D. ROBERTA. 

D. Roberta — Agora nós, senhor Thomé. 
Thomií — Tomara eu que a senhora me deixasse! 
D. RoBEnTA — Decididamente que ai^imhadeacon* 



44 O JlJIZO DO MUNDO 

tecer, se o senhor niío fôr ass&s cavalheiro para fazer o 
qne deve 1 

Thomb' — Eu não lhe devo senão uma mezada; 
e já que me falia n'essa miséria, vou pagar-lha. . • 

D. RoBBRTii — Oh I o seu coração é feito de pata- 
cos falsos, senhor Thomé! Quem lhe falia em dinhei- 
ro?.. • Quem lhe pede dinheiro ?! Aprenda a conhecer 
melhor as senhoras! E saiba que prescindo da mezada i 

Thomb' (áparie) — E' a primeira vez que goslo de 
a ouvir? 

D. Roberta — Senhor Thomé, é preciso attender 
ao que se diz. . . 

Thomb' — Então que se diz ? 

D. RoBiíKTA — Dizem-se coisas que me comprpmel- 
tem ! Por força/.. . Dizem que ha cerlas relações entre 
nós. . • 

Thomk' — Ora adeus I quem se occupa a fallar na 
senhora?.. . Isso é prcsumpção. 

D. RoBBRTà — Presumpção !? Pergunte, pergunte 
ao seu criado o que se diz pela lenda^ pela botica. . . 
no barbeiro.. . em toda a parle!? E' preciso dar um 
cavaco formal ao juízo do mundo! Estas coisas, compro- 
mettem o credito d'uma senhora, e deixam-na depois 
mais rasa do que as coisas rasas ! Em summa, senhor 
Thomé, é preciso cumprir a sua palavra. 

Thomb' — Que palavra?! Está sonhando, senhora 
D. Roberta! 

D. RoBBRTA — Sonhando !? Pois não se lembra da 
passado? Ohl íempora, ó moresi Quando eu estava no 
Porto, eo senhor moravn nas minhas sobrelojas, passan- 
do a vida a bater sola, eque eu o mandava chamar pa- 
ra me tomar medida de botinhas, que por sigoal lh'as 
ensinei a fazer de salto ?! Nao se lembra ? 

Thomb' {zangado) — B também por s.ígnal que me 
ficou devendo trcs pares até hoje ; oh! se me lembra! 
Sempre é bom recordar mais esta. 

D. Roberta -.Nunca hade deixar de ser sapatei- 



o JUÍZO DO MUNDO 45 

ro, senhor Thomel Se lh*as. fiquei devendo, foi p)r que 
o senhor sabia pagar-se muito bem d'ellas, apertando* 
me mahciosamcnle o tornozelo!. . . Depois, lendo pilha- 
do a grande de Hespanha, não me pareceu decente dar- 
]he aquella ridicularia.. . 

Tbom< — Muito obrigado ao seu favor: pode en- 
contral-a com a mezada que lhe devo, e prescindir en- 
tão do resto. Ora esta, não está màl Por que um ho- 
mem teve a fortuna de pilhar a' grande d^Hespanha^ ha- 
de, á-mão de Deus padre, casar-sc com uma fregueza 
a quem, por extravagância, apertou um dia o tornozelo?! 
Então, querem- no assim? 

D. RoBBKTA — Não é só por isso, não senhor I Lem- 
bre-se que o senhor foi procurar-rae, pedindo-me que 
me dignasse acompanhal-o para Lisboa, para servir de 
tutora a uma menina que um amigo seu lhe queria con- 
fiar; lembre-se das promessas que me fez; lembre-se 
que me expatriei por sua causa.. . e que. . • 

Thomb ^ Lá por isso não seja a duvida ! se quer. 
pago-lhe a passagem pnra o Porto. 

D. RoBEHTA — E com que cara heide regressar 
agora á minha pátria ?!. . . (lecando o lenço aos olhos) . 

Thomb' — Com que cara?! A mesma com que de 
lá saiu. 

D. HoBERTA — E quem hade ficar com a menina 
Violante? pobre innocentinha que mal desabrocha na 
vida !?. . . 

Thomb' — A menina Violante... tem dezoito annos. . 

D. Roberta — É verdade, complela-os hoje! {apar- 
te) Oh ! que bella idéa !. . . 

Tuomb' — Está na edade de casar ; e o pae. . . o 
pae disse-me que não se importava com isso. 

D. Roberta — E que pae é esse, que. . • 

Thomb' — Ora o que é? Um homem a quem, ha 
quinze annos, disseram que esta menina era sua filha ; 
que soube ganhar muito dinheiro no Brazil ; e que por 
fim de conlas, voltou de lá, ha quatro mezes, para o 



46 O juízo do mundo 

Porto ; depois do Porlo para Lisboa ; abraçou a meni- 
na» pagou-me, e dolou-a com sessenta contos ! 

D. Roberta — Que homem tão excêntrico ! 

Tnoui — Faz muito bem, faz muito bem; estas coisas 
nao deixam dinheiro!.. . Pegou em si e foi para a In- 
glaterra ; fez muito bem !.. 

D. Roberta — Visto isso» o senhor Thomé considj- 
ra-se hoje o arbitro do destino d'essa menina ; não é 
\erdade? 

Thomk' — Ainda bem que me fallou do homem . . 
por que me trouxe á memoria uma carta que me dei- 
xou para a baroneza de S. Romão. Ê preciso mandar- 
lh'a logo. 

D. RoBBiiTA — fintão, não me responde? 

Thomk' — Que lhe importam os meus projectos a 
respeito da pequena ?!.. . 

D. Roberta — Ah! tem seus projectos a respeito da 
pequena 71 

Thomb' — Estou no meu direito!... Quero, posso, 
e mando ! 

D. RoBBRTA — Muito bem! E seelia não quizer?... 

Tuomb' — Hade querer por força; bem sabe que .. 

D. RoBBRTA (dando-lhe uma gargalhada) — Era o 
que lhe queria ouviri Ha muito tempo que já desconfiava... 
agora cerlifiqueí-met 

Thome' {áparle) — Até que dei com a língua nos 
dentes t (allo^ irado) Senhora D. Roberta, sabe que 
mais? já estou farto de a aturar I 

D.RoBBRTA — Senhor Tl^pmé^ as suas inlonçQes 
são um tanto precipitadas, e eu, para evitar desgostos 
à minha educanda, estou determinada a oppòr-me. . . 
por lodos os modos judiciaes, inclusive ; se fòr necessá- 
rio. 

Thomb' {puxando o reclamo) — Pois sim , pois sim. . . 
isso, hade ser muita gente a ver e ninguém a olhar, {a 
Jeronymo, danio-lhe uma carta) Dize a Paulo que leve 
esta carta á estrada do Campo Grande n."" 32. Não 



o juízo 00 MUNDO 47 

tem resposta, {dá-lhe a caria ^ Jeronymo vae sair) Es- 
pera^ animal t Mal se le dizem as coisas, deilas a correr! 
Como se desmanchou cá a futrica do carro ^ vae aluga r- 
me um, do meio dia em diante. Olha que quero um 
carro aceado!.. . Vae-te embora. (Jeronymo $ae\ 

D. Roberta — Tenciona sair? 

Thomb' — Sim senhor: e queira prevenir a minha 
pupilla, que é preciso acompanhar-me para um negocio 
de seu interesse. 

D. RoBUTA — Ahl pois nâo! Eu vou. . (á^aru) 
dar-lhe um conselho que hade pôr tudo em confusão ! 

SCENA XI 

THOMb' SÕ, depois JOâNNA. 

Thohb' {rindo maliciosomenie) — Podendo eu ca- 
sar-me com sessenta contos de réis, havia d'ir metter- 
me na bocca do sapoi?... {sentind » entrar Joanna) Quem 
está ahi?.. . Que quer? (vendo-a). 

JoANNA — Não se assuste, senhor Thomé; vou ao 

u-X ^li?^'^ ^^ senhora D. Roberta. 

Tbomb' — Mente I você eslava escutando.. . 
JoANNA — Eu? (aparte) Fiquei passada como um 
figo, como (Jízia o outro. 

Thome' — Está bom ; vá lá onde ia. . . 

JoANNA {aparte) — Safa . • não me roello n'outra ! 

^Entra no quarto de D. Roberta e fecha a poria.) 

Thomb' (puxando o reclamo) — Veremoa quem ven- 
ce! 

Jbronymo (correndo) — Prompto. 

Tboue' .{[aliando a meia voz) — Depois de leres 
alugado o carro, pega nas chaves da minha casa de 
Campolide.. . 

Jbbontmo {interrompendo) — Sim senhor : hade lá 



48 O JDIZO DO MUNDO 

haver ralo por ires direita I é raça d'inquilinos que tem 
cão! 

Thome' — Abre asjanellas dos quarlos baixos para 
arejar. Em sendo duas horas, hade lá parar uma car- 
ruagem à porta. Depois... sintas o que sentires... (com 
myslerio } 

Jbronymo — Nem pio».. . Isso é o costume, (sae 
um gesto de Thomé). 

Thomb' — Agora vamos tratar de nos vestirmos.. , 
[encaminha-se para o quarto. N" este fnomenlo ^ abre-se a 
porta (fo nulro quarto, D. João apparece sem fazer ruido) 

SCE.VAXIl 

» • 

thome', d. joao. 

D. João (aparte) — lisfame I 

Thomí [voltanao á scena^ como quem vae procurar 
alguma coisa sobre uma das mesc^, depara com D. João 
que o contempla de braços encruzados e com um sorri- 
so irónico). Oh I 

D. JoÀo — CotDo está, senhor Thomé??.. . 

TtiOMÉ (aparte) — A que propósito viria aqui este 
badamecol? Violante já o tinha despedido.. . 

D. JoÀo — Estou realmente gostando de o ver, se- 
nhor Thomé-piihou.. . 

Thomé — Pois se pilhei, meu proveito! Antes uma 
fortuna do que um titulo de fidalgo! Entende? A ver- 
dadeira fidalguia é o dinhein» ! 

D. João — Onde irá parar o mundo, se à sorte 
grande de Hespanha continua a sympalhisar com a Iri- 
peça? Receio muito que falte quem nos faça botas. 

Thomí — E' verdade, diz muito bem*; e n'esse ca- 
so, lenho a esperança de ver ainda algum fidalgo vir 
descalço pedir a nmo e a fortuna da filha d'um sapa- 
teiro i 

D. João — Quem tem um coração verdadeiramente 



Ò juízo do mundo 49 

nobre, reconhece e aprecia a virtude debaixo de qual* 
qoer condição que se lhe apresentei e, tendo a coragem 
de sacriGcar-se por ella, alcança novos titulou de no«*> 
breza que Deus lhe outorga, ainda quo o mundo lh'os 
nao conceda ! 

Tiioiié — Sim senhor ; bade ser isso, pouco mais 
ou menos. Queira dispensar-me ; lenho que sair com a 
minha pupiiia. Ah, e elia que já ahi vem prompla !., • 

SCENA XIII 

1). JOÃO, THOMi, VI0L4NTB, e D. ROBERTA» ambaS 

com chap€o e vestidas para sair. 

TaoM< (a .D. Roberta) — Entao que é isto, a se« 
nhora também sae7! 

D. Roberta — O meu dever é aconipanhár a me- 
nina ; depois voltarei. 

D. JuÃo — Violante.. . 

VioLANTB — D. João. . . 

TiioMé {desconfiado) — Acompanhal-a ? Enlão^ cu 
nao sou sufficiente companhia para a minha pupilla ? 

Violante — Senhor Thomé ; completo hoje dezoito 
annos ; roeu pae declarou-me maior n'uma carta que me 
deixou, e a sociedade descarrega-o do peso da minha 
tutela. Agradeço-Ihe a maneira por que me tem tratado, 
e o muito que sempre me quiz; mas não posso conti- 
nuar a viver em sua casa por que se oppõe a um acto 
da minha vontade que ninguém pode contestar-me. Es- 
te cavalheiro sollicita a minha mão, c eu concedo-lii'a 
annuindo ao desejo que manifesta de collocar-me em 
. casa duma senhora das soas relações ale ao dia do nos- 
jL s^casa monto. 

Jerontmo {apparecendo á porta da saleta) — E* 
meio dia, a carruagem está á poria. 

TiioMÉ (como aturdido) — Endoideceram todos em 
minha casal... Nao quero! tenho dito que não quero!.. . 

4 



iO o IU»0 00 UONDO 

m 

Ê do méu divtir impedir om escândalo doestes... (ápar-^ 
ie) Lá 80 me vão aqueiles sessenta contos, pela porta 
(ora*. • pra, ora esta ti.. . 

D. RoBBRTA (a meia taz a Th^mé) — Nao se des«* 
espere, que eu heide \oltar, senlior Ttiomé. 

Tooiíá *— Tomara eu que você me deixasse uma 
\ez para sempre I 
- D Joio (a Thomé) — Tenha paciência, senhor lho- 
mé ; um coração nobre é como a pedra philosophaU tor- 
na de oiro aqueiles em que toca. (dando a mão a Kto- 
laníe) Yioíantel nSo posso dar-te uma fortuna ; mas 
conduzo-te ao grémio diurna sociedade dislincla de que 
o teu coração é digno, {saindo com etia). 

D. RoDBUTA (a Thomé) — ^ Não se desconsole t logo 
Tolto» logo volto. • . 

(Thomé h% UB jogo de scena. D« Roberta segue D. Joio e Violante) 



Cae o panna. 



ACTO 111 



(Salas magniOcai em caia da baroneia de S. Romio. Ê noiU. 

Por toda a parta, luxes e flores.) 

SCENA I 



(Ao levantar do panno. a tala do fando está gaameeida de senho- 
ras ; os ca?albeiros passeiam e conversam, pelo centro da casa. 
Ouve se de quando em quando a sineta annunciar a chegada 
dos convidados, queapparecem e ae distribuem convenientemen- 
te pelas salas, k direita da seena^iim circalo da pessoas senta- 
das, conversando e rindo : a orchestra eiecutará por algum teai- 
po, depois de suhir o panno, uma abertura adequada ao effei- 
to : muitas vezes Interrompida pelo 'uido da «cena») 



1.^ DAVA — CoQte-DOS, senhor D. Miguel Amaro, 
essa nnecdota de D. JoSo. 

1.^ GAYALHEiBO — A' maneira de D. João de Cas- 
Iro que empenhou as barbas para salvar Goa, o nosso 
D. João, lambem de Caslro, á falia de barbas^ empenhou 
o coração para salvar a casa de seu pae. 

2.* DAMA {rindo) — Foi um nobre sacrifioío I 

3.* DAMA — Que Deus hade levar-lbe em conla. 

4* DAMA — E que diz o inarquez? 

i .^ GAVALuiKO — Respeita as convenienoias ; mas 
parece contristado pelo casamenlo do filho» 

1.^ DAMA — Logo, a noiva era de condição muílo 
obscura ? 



M O JUÍZO DO MUNDO 

1.* GAVÀL11EIK0 — Tanto, nao sei, minha senhora ; 
posso apenas informar que era pupílla d'um tal Tho-^ 
mé-pilbou.. . 

2/ CAVALHEIRO — O homem do desastre do Cam^ 
po-Grande. Nao se recordam d^aquelle carro que foi 
dar d'encontro á parede ? 

3.* D\MA — E' verdade; eu passava n'esse instan-^ 
te ! por signal que tive um susto t. . . 

1/ DAMA — Faz-me dó/ Sacrificou-se tao cedo.. . 
Pobre D. João ! 

2.^ DAMA — Tinha muito espirito; e se a casa do 
marquez nSo estivesse luo empenhada, era um casamento 
vantajoso. 

4.' DAMA — Ver-se tão cedo obrigado a casar por 
interesse, é passar á morte sem ter vívido 1 E é consi- 
derável a fortuna da menina ? 

?.• GAVAi,HEiRO — Cenlo e vinte contos, segundo 
affirmam. 

4*^ DAMA — Abl julguei que fosse menos. 

1.* DAMA — Ainda que ella seja d'uma condição 
obscura, estou certa de que hade merecer- nos algumas 
sympathias !.• . D. João terá o cuidado de a educar con- 
venientemente. 

3.* DAMA — Não se despresa assim uma senhora, 
s6 por que nasceu na mediocridade. 

l."* CAVALHEIRO — Pois uão ! Também já ouvi dizer 
que era bonita e muito interessante. 

1 .* DAMA — Mas onde escondeu D. João a sua pc-p 
rola, que não apparece f 

2.^ cAVALfiEiRo — Gonsta-rme que a senhora baro-*> 
neza convidou-os. 

4.» DAMA — Sim? Eslimo muito; por que desejo 
vèl-os. Se bem que a entrada da noiva não produza no 
mundo uma impressão lisonjeira, D. João deve consí- 
derar-se muito superior a essas bagatellas, por se ter 
sacrifícado a uma causa tal, como os interesses da sua 
casa : mas estou muito convencida de que a noiva ha- 



o JtJIZO bO BtJNDO Hi 

de apresenlar-se bem I nas classes inferiores da so^- 
cíedade, aoredila-se geralmente que a fortuna nivela as 
pessoas e por isso... 

i.^ CÀT/VLHBiRo — Ahi vem a senhora bat*oneza. 

(a estas palavras soecedeom peqoeno moTimento. Os caTalheiros 
vão recebei- a â porta da direita.) 

SCfiNAll 

hàmas e CÂYÃLnBiRoSy hebiíima pela direita, ricamente 
vestida, penteada no gosto de Maria Sluart, bella e 
seduclora/ 

Hermínia (comprimenlando es cavalheiros) — Meus 
senhores ! {atravessando o thealro para fallar ás senho- 
ras que a recebem de pé) Gomo estão, minhas senho- 
sas?.. . {demora-se um momento entre ellas foliando- 
íhes ; depois vem á scena) Meu Deus ! dae-me forças por 
esta noite ! (caminha vagarosamente para a oulra sala) 

SGENA III 

DAMAS e CAVALBEiBos, como na scena primeira 

depois o MABQDBZ. 

1.^ CAYALnEiRO {indíóando a hofoneza que pássá 
para o salão; e sorrindo) — É o sol que brilha no occa- 
sol.» . 

1.* DAMA — Que quer dizer^ senhor D. Higilel 
Amaro?! 

1.^ GAVALHBiRo {vollando ao eirculo) — Estamos 
n'um circulo quasi familiar, e por isso a noticia pode 
dar-se. Minhas senhoras^ a baroneza embarca amanhã 
para Alemanha. 

TooAs — Para Alemanha!? Enlao que lhe aconteceu ? 

1.^ CAVALnB^Ro — Oh! nada.. ^ nada que eu saiba 1 



H O juízo DO HOKDO 

Constá-me, apenasi, por pessoa fidedigna, que ?ae entrar 
na religiosa insliluiçio das irmSs de S. Lazaro ! 

(A 68U fatia laeoada certo rqflior, òO?es-56 algumas risadas aba- 
fadas etc. O marquei de Castro eotra ii'este momento, e lançan- 
do um olhar pela scena^ eonaerva-sea alguma distancia do gru- 

1.^ DANA — E' d'uma piedade (ai, que. . . 

2.* DAMA — Talvez seja penitencia.. . 

3.* DAMA — Ou coisa parecida com uma expiação... 

4.* DAUA — As grandes resoluçSes quasi sempre 
provam crises delicadas. . . 

Marquez [aparte) — Faliam de Hermínia I 

4.*^ CAVALUEmo — E' verdade, minha senhora. Não 
fogem do mundo senSo aquelles que temem o seojuizo! 

D. PiDno {aproximando' BC úo grupo) — Quando 
uma fslrella se desprende do firmamento, corre... edes- 
npparece!.. . o mundo nSo sabe por que mysterios se 
desprendeu, nem para onde vael 

(Ha um momento de surpresa, leyantam^se todos, algumas pes- 
soas cortejam e faliam ao marques, outras passam para o salão. 
Oove-se a orchestra tocar uma quadrilha,, e o baile principia a 
animar-se. 

SCENA IV 

D. PBDHO $6» dlBpOiS HEUHINIA 

D. PsDro — Assim é o oitindo ! Esle mundo que 
ajuiza e condemna l... Oue n^sndo este! (tim despreso) 
Um mixlo d'estouvados e de mulheres da moda, que 
passam os dias no leito, e aa noites nós bailes, alimen- 
tando o espirito com os soffrímentoe alheios, rindo dos 
que choram, em quanto nao choram também de os yer 
rir. E é esle o tribunal terrível a que es^ snbjeitos até 
as mais consideráveis reputaçiSes d'esla sociedade mal 
constituída, onde o mérito é nada e a apt>areficia, tudot 



o mtO 00 MDtlDd u 

Bmminia (entrando pelo /cinik)— Estavt miditan- 
do, marquez ? Já vejo que não o distrahe o mea baile i 

D. Pedro — Ah ! baroDeza. . ^ coqh) vem bella \ 

Hermiiiia ^— Não desejei causar tnedo aos meus 
convidados ; mas parece-me que o marquei eslava com 
algum medo de mimi por que me nSo procurava t 

D. PBDBO — Para lhe fallar com franqueza» Her*^ 
minia. . • tinha medo. . . tinha ! 

Hermínia (sentanio-se) — Ê sem razão« Ji me dls^ 
se que me achava bella. • . 

D. Pepro (senlando^sé) — Más assusta-me a soa 
disposição d'espirílO| Hermínia ; se eu fosse rapaz» não 
sei; talvez que não pensasse bem a respeito d'ellaí 

Herbunia — E' que. . * 

D. Pedro -*Â flor occulla o áspide» como o sor- 
riso o tormento. Lagrimas que caem sobre o coração, 
não as vé ninguém ! 

Hbbminia — E como tne falia das minhas 71 

D. Pedro — Por que as adivinharia^ á falta de as 
sentir também ! Oh I não me illudem estas apparencias ! 
O seu coração está ferido, e» não querendo homilhar-se 
pelo sofrimento aos olhos do mundo, transforma os pran-* 
tos em risos> as dores em flores... e*:* mas cuidado» 
Hermínia, que o mundo está desfolhando-asi... fr-cada 
folha que se desprende, é mais uma lagrima que terá 
de chorar ! 

RsEMiNiA {sojmando a dâr)-^%s\ét ilÍudido> mar- 
quez; sioto-me perfeitamente tranquilla! 

D. Pedro-— Se a tranquillidade fosse verdadeira^ 
não precisava d'estas apparencias! 

Hermínia -^ A vendade precisa, algumas vezes^ sef 
demonstrada. 

D. Pebro — Em auxilio da verdade, invocanse 
Deos ! Deus que protege sempre a innocencia collocan-^ 
do-lfae ao lado um amigo.. . um protector.. . (com tfi<* 
tenção). 

Hermínia (perlurbando-^ié) — Marquez. • . 



56 O JUÍZO DO MUNDO 

D. Pedro — Peia nossa amizade, Herminia, que é 
tão sincera, tao desinteressada.. . 

Hermínia — Que quer que faça, marquez?t 

D. PfiDRo — Que se lembre de si e de quem a es- 
lima anles de dar um passo precipitado!- 

Herminu — Oh ! tenho soffrido tanto, que já não 
devo esperar outra sorte ! O dia do meu casamento es- 
se dia que para as outras mulheres é de prazer e de 
gloria, foi-me apenas de lucto e de lagrimas. A coroa 
de noiva pesou-me como um circulo* de ferro debaixo 
do qual senti morrerem-me as illusõesl... ai, tantas que 
tive!... e todas sacrifiquei aos meus novos deveres. 
Quando enviuvei, fol-me pena a sorte que me desligava 
d^elles ; mas o coração não leve nem uma lagrima para 
me dar, confesso-lh'o, porque lhe renasciam com a li- 
berdade as illusôes que sacrificara 1 Eram toda a mi- 
nha fortuna^ eram toda a minha ventura... e a mão de 
um amigo tornou a roubar*m*as... e d'esla vez para 
sempre ! 

D. Pedro — Gomprehendol Pobre senhora 1 

Hermínia — Tomei por esperança a decepção, e 
o desengano matou-me! Oht agora já não posso, não 
quero soffrer mais ; preciso esconder estas lagrimas do 
mundo que não tolera prantos. 

D. Pedro — Oh! D. João, D. Joaol o juizo do 
mundo roubou-te um anjo \ 

Hermínia — E' preciso que lhe não roube também 
a amizade de seu pae 1 

D. Pedro — Que diz, baroneza? interessa-se por 
meu filho. • . por um ingrato.. • 

Hermínia — Escule-me, marquez : n'este adeus ex- 
tremo que digo ao mundo, no meio d'estas flores, does- 
tas luzes e doestas harmonias, com que me cerco na ulti- 
ma hora da minha vida elegante, quero deixar a cada 
um dos meus amigos uma lembrança indelcvd ! A D» 
João, a amizade de seu pae... 



o juízo do mundo »7 

D. Pedro (iuierrofnpendo)^Eermmdi.. . Henui- 
Dia.. . que IcDciona pois fazer?!.. . 

Herminíà — Morrer para esle mundo que me con- 
dcmna inoocentel para esle mundo desleal que insulta a 
mulher sem protecção, que lhe exige o sacrificio da hon- 
ra e que se ri da sua miséria quando já não tem nada 
que lhe roubar ! 

D. Pkdro — Oh ! nao ! nSo será a^sím ! Um^ nome 
respeitável e sem mancha pode ainda abrígal-a doesse 
juizo insensato com que o mundo a insultai... Hermí- 
nia, ipcgando-llie na mão) perdoe-me. . . mas eu quero 
sahal-a ! 

Hermínia — O meu coração está morto, marquez; 
o sacriflcio era inútil. 

D. Pedro — Sacriflcio ?! oh ! nao, é um dever á'amí- 
zaoe* • . e« • • 

Herm.-nia — Silencio! vem gente. 

SCENA V 

HEUMINIV, O MARQUEZ, D. JOÃO O VIOLANTE. 

(Tendo primeiro sido annuDciados pelo criado. Entram alguns con- 
vidados pelo fando.) 

D. pEDRO — Meu filho!.. . 
Hermínia — Marquez, lembre-se do que lhe pedi! 
D Pbdro — Oh! estou de tal modo commovido, 
que n'este momento. . . 

Hermínia — Pois bem ; será logo. 

D. Pedro {aparte) — E' ura sacriflcio que Ihefaçof 

(Sae pela esqaerda. N'cste momento» Hermínia vae receber 09 re- 
cém chegados.) 

j 

Violante {áparle a D. João) —Veja se mo faz 
arrepender I 



M O niBO DO IfONbO 

D. Joio {baixo a Violatué) — Estou complelamenle 

irio. 

HEBuiifiA {aparte) -- Gomo eu soffro ! 

(N*est6 nonieiito toca-se dentro uma Talsa, e ^ailc anima-se. Um 
câfilheiro feoa pedir para falsar a D. Violante.) 

!.• CAVALHEIRO — Minha senhora, v. ex." conce- 
de-me esta valsa? 

YiOLANTB — Com mtiilo gosto, (para Hermínia) Sc 
V. ex.* me pemitle, minha senhora, (aparte) Quem sa- 
be se já estava isto assim combinado para ficar só com 
elle ! (iá o braço ao primeiro cavalheiro que a conduz). 

Hermínia — Agora vou offerecer-lhe um par, senhor 
D. }o9o. • . 

D. Joio — Se Y. ex.* nSo quer valsar, é inulil. 

Hermínia (querendo vencer a commoção) — Eu?. . • 

D. JoXo (aparte) — Ella amava-me! e agora... 
(alto) Recusa, minha senhora? 

Hermínia — Recusar?. . . mas. . . 

D. Jo&o — Conceda-me esta dislíncçSo./ {passando- 
lhe o braço pela cintura para principiar a tafsa). 

Hermínia (aparte) — Primeiro e ultimo momento 
de prazer! (alto) Vamos, 

(Saem talsando para a sala do fundo onde se confandem na mul^ 
lidio.) 

SCENA VI 

MANOEL DO GOUTo» entra momentos depois pelo fundo^ 
seguido pelo 2,^ e 3.^ cavalheiros ; mais tarde, o 
MABQCEZ, pela esquerda* 

2.^ cavalheiro — Enlao, commendador, que lhe 
Jiarece aquella valsa com o filho do marquez? 
Man€el — Não me dá abalo. 



o JUÍZO 00 iiuinio M 

3.^ c4YALHBiRO-*-Ora9 o cammendador cslá segu- 
ro!.. • 

Mamjfl — Iríso é que é ver as coisas como ellas 
são I Gosto do senhor polo espirito que tem f 

3.^ cwALHEiRO (ápmte) — Cbama-me estúpido. 

2.® cwALBK RO — ó commendador, permrla-me que 
lhe lembre aquellas trinta libras que lhe pedi.. . 

Maniel — Isso amanha : nSo vac lá almoçar? Ago- 
ra, \amos ao caso : quero dar-lbes parte do que succe- 
de. 

3.* CAVALHRiao — ITntilG.que é? {aparte) Se eu ti- 
vesse occasião de lhe lembrar o meu pedido.. . 

Maniel — Os senhores sabiam do que por ahi se 
dizia de mim e da baroneza?! 

3^ CAVALHEIRO — Se sabiamos 1 Este nosso ami- 
go. . . (rindo) Quem é que o não sabe ! mas» tem-lhe 
custado carot a propósito... (^mais baixo) NSo se esque- 
ça dos trezentos mil reis em que lhe fallei ! 

Manukl — Amanhã. Vamos ao caso.. . 

1.^ CAVAI HBiRo — Ê verdade; conte-nos isso. 

Manoel — A coisa é muito simples: a baroneza, a 
formosa baroneza^ é finalmente minha! 

(N*este momenlo o i."* civalheiro Tem j^elo fundo e enfia o braço a 
Manoel do Coato.) 

I.** CAVALHEIRO — PcrdSo, commendador. Venho 
dar-Ihe os parabéns! A baroneza está disposta a sea fa- 
vor: acabo de perder uma somma considerável I Tem ahi 
dez libras que me empreste? 

Manuel (tirando dinheiro da Msà) — EnlSo a ba^ 
roneza ?. . . o que foi que ouviu dizer, ó amigo 7 

4.* CAVALHEIRO (recebendo o dinheiro) ^-^ Sim , di- 
zia-se já por ahi. . . Perdão, agora não posso demorar- 
me, os parceiros esperam-me ! (sae). 

Manuel — Bem! bem! já se diz, j& se falia.. • 
muito bem 1 [voltando para os dois cavalheiros), fois, 



#• o J0in> DO MOHDO 

meus aniigosi a barooeza... {coniinuam a fatiar emtoi 
baixa). 

(O marqoeK enira pelaesqaerda.) 

« 

t). P£i)RO — Oh! aquelle homem aquL. < 

(Hanael do Couio t os cavalheiros riem-se.) 

D. Pedro — Desconfio d'aquelle (erceito.. . 

Manuel— 'Pois está claro! O bilhete, eiUo aquL 
(mostranão-Jhes um bilhete) Escutem «Senhor, venha 
amanha a minha casa» e. Iraga-me o que sabe : ás duas 
horas» espere-me na sala \erdea . Assignado IT. 

bé Pedro iáparie) — Que quer aquillo dizer?! 

2.^ CAVALHEIRO — Enlão vae finalmente possuil-a^ 
commendadori Parabéns I 

3.^ Cavalheiro ^^ Parabéns. Foi uma conquista dif- 
ficil ! 

2.^ cavalheiro — Eu já a tinha previsto 1 Á baro- 
ncza gosta de gastar : e quando lhe faltarem os recur- 
sos. • • 

Manuel — E' verdade! 

D. Pedro (áfwr /é^ — Que estou eu ouvindo!? 

3.^ CAVALHEIRO — Para um homem rico, não ha 
impossíveis t 

If ANUBL — E' o caso ! Não ha virtude que resista 
ao dinheiro ! 

D. Pedro — ^ Singular contraste oíTerece a sua mo* 
ral com o emblema de honra que lhe decora o peito t 

1.^ e 2..^ CAVALHEIROS {áparlê) — O marquez! 

Manuel (surprehendido) — Que diz v. ex.®?t.. . 

D. Pedro — Digo que vejo ahi uma commenda de 
Christo bem mal assente sobre um coração desvirtuado! 

MA^UEL — Senhor marquez/ 

D. Pedro — Ohl emquanto estas condecorações ser- 
virem de mascara ao vicio, torna-se problemática a hon- 



o JUÍZO DO MUNDO «| 

ra de um cavalheiro f {arraneando a sua eommenda). 

Manuel — Ê de mais! V. ex/ hade me dtkr uma 
satisfação ! 

D. Pedro — Jà lh'a dei: metti a minha commenda 
D*algibeira! ' 

Manuel -^ Oh l*Ísto nSo ficará assim ' 

(sae pelo fando.) 

SCENA VII 

D. Pedro {só) — Infame I Oh \ porém que devo eu 
pensar do que lhe ouvi dizer? Será possivel que Her^ 
minia... Meu Deusl A insolência d^aquelle miserável é 
grande! e o coração das mulheres tão fraco... não! não 
quero ainda ajuizar mal da baroneza! masjád'aqui não 
me relíro sem ser testemunha da entrevista ! Quero ver 
de que lado está o engano a respeito do caracter de Her- 
mínia; do meu ou do do mundo I Sinto passos.. Ah! é 
meu filho. . desviemo-nos/ se bem que m'o não pedd o co« 
ração, o meu resentimento exige!,., {sae pela esquerda) 

SCENA VIII 

VIOLANTE, e D. joio pclo fúndo. 

Violante — Sim, não me sinto boa, estou aflDicta ; 
reliremo-nos. 

D. JoÀo — Não sei o que parece esta retirada as« 
9im t 

Violante — Pareça o que parecer. E* da minha 
vontade! 

D. João— *Apezar de não ser da minha? 
Violante — Oh ! isso sei eu ! 
D. João — Promolli á baroneza demorar-me até às 
duas horas. . . 



M OlVfZO DO MONDO 

ViouivTB -* Fez mal ; podia ter-lhe promeUido at^ 
ás cinco : mas eu quero sair já ! 

D. João — Perdoa-me^ Violante ! Ha um mez que 
estamos casados, e até hoje não tens IbíIo seolo contra- 
riar-me. Deixa-me pois n'este momento fazer a minha von- 
tade. 

Violante — E' justo : natura) mente, deseja dar ain* 
da algumas voltas com a baroneza... pois vá : não quero 
conlrarial-o mais! 

D. João — Como és iqjusta, Vioíanle!.. . 

Violante — Sou, sou, nau ha duvidai agora que 
estamos casados, pode voltar aos tempos antigos. Aquel- 
la carta que eu li, foi um estratagema I E eu que sof- 
fra o meu engano I que o soJQTra calada, porque não te- 
nho recurso contra a força de meu marido, senSo as 
lagrimas que nao o eommovem i 

D. João — Violante.. . 

Violante — Desculpe-me de lhe dizer estas verda- 
des que nenhum homem gosta de ouvir: mas eu heide 
dizer-lhas por que não tenho génio para me calar 

D. Joio — Violante, o ciúme é prova de fraqueza 
de espirito t Orna senhora que tem confiança nos senti- 
mentos que tributa a seu marido, devo julgal-o por si I 

Vioi.ANTB — Agora, para dar alguma razão ao seu 
comportamento, quer dcitan veneno nas minhas acções 1 
Então, é verdade que tem muitos ciúmes de mim? (com 
ironia, rindo). 

D. João — Olha, Violante, esta discussão não deve 
durar. , Desejo sempre evitar o fim desagradável, a que 
pode conduzir-nos um similbante dialogo 1 Queres reti- 
rar-te, eu cedo. 

Violante — Muito agradecida Vou ao toucador bus- 
car a minha capa de pelles, e volto já. 

(sae pela direita alia.) 



o juízo do miinbo ea 

SGENA IX 

fflBRHiRU, apparece ao fundo, e logo que viounts «ae. 

Tem para a scena. ^ 

Hermínia {apare) — Eslá só I... meu Deusl que ve- 
nho eu aqui fazer. 

D» João (vendo-a) — Hermínia 1.. . 

Hebmínia — Ah. . . 

D. João — Fez bem em me apparecer.. . eu preci- 
sava desabafar ! 

Hermínia — Senhor D. João. • . 

D. João — Oh^l Saciados que foram os ancetos do 
coração, o veo das illusões eil-o caido 1 ficou-me uma 
recordação faial, um remorso, e nada para o combateri 
Minha mulher também deixou de ter illus5es* . • e não 
lhe ficaram para agradar-me mais do que os recursos 
da educação! infelizmente reeebeu uma educação pessi- 
sima, e hoje... 

Hbbm:nia — D. João ! D. João, que está dizendo!?..; 

D. JtíÃo — Digo-!he, Hermínia, que me pesa o re- 
morso de a ter ofendido, e que lhe peço perdão I Insul- 
lei-lbe o coração no meio dos seus marlyriosi Foi gran- 
de o crime ; mas o castigo é maior, porque principiei 
a amal-a quando já não tinha direito de o fazer ! 

Hbrhinia r- Oh t por piedade, cale-se I 

D. JoAO — Que se calcule se é possivel o meu sof- 
frimento ! pergunle-se á fatalidade qual é o peior dos 
seus supplicios antes de se ajuizar doeste amor que me 
acompanha e fere/ Vamos separar-nos para sempre; 
mas iique certa que... 

(O criado ap^arece e anaoncia) 

Criado — A senhora D. Roberta, e o senhor Tho- 
mé. 

D. João — Perdão, Hermínia . . . (beijando-lhe « 



M ò juízo do mundo 

mao) e adeus para sempre! (soe por onde saiu Violante), 
Hermínia — Ohl meu Deus! meu Deus! que com- 
moção esla!.. . como poderei disfarçal-a!... . se ao me« 
nos aqui estivesse o marquez.. . Ahl se me não enga- 
no, vejo-o n'aquella sala.. . e elle viu-me lambem, [fa- 
itendolKe signa!). 

SCENA X 

HIRMLNIÂ, O MARQUEZ, dcpoiS D. ROBERTA e THOM^-PILHOU. 

Hkrminia — Não sabe, marquez, chegam duas pes- 
soas que nao convidei, e que me compromeltém.. . Âhl 
cll-os. 

(D. Roberla e Tèomé entram pela direita.) 

D. Roberta (cortejando a baroneza) — Minha se^ 
nhora.. . 

TuoMií — Sem incommodol fazem favor de nao se 
incommodar por nossa causa i E não se admirem de cá 
nos ver sem convite, por que eu lhes conto como a coi- 
sa foi. Senhora D. Roberta, disse eu, aprompte-se para 
fazermos uma visita á senhora baroneza, para lhe agra- 
decermos o favor que nos fez ; e d'uma paulada mate- 
mos lojo do's coelhos f como se là diz. 

D. Roberta (a meia voz) — Thomé 1. . . 

Thomé (a meia voz) — Deixe-me; é sentido figura- 
do I [alto) K verdade, e eu aproveito o ensejo para fal- 
lar com o senhor marquez, a respeito de um negocio 
que nos interessa. 

D. PiiD:io — Um negocio 1?. . . 

D. Roberta (a Hermínia) — E v. ex.* lerá a bon- 
dade de nos desculpar.. . 

Hermínia — Não ha de que.. . [risonha). 

Thomé — Foi o que eu logo disse I Em noites de 
balance, mais um não enche a casa 1 E depois, o senhor 
marquez hade estimar muito.. . 

D. PcoRO — Perdão^, nao estou na minha casa. 



Q IbiZO DO MUNBO^ #» 

tMOMé-— Enlao que (em lá isso? Para (ratar d'um 
negocio importante, toda a casa é casa. 

b. Pediio — Não é tanto assim; será melhor pro- 
cur*ar*me amanha. 

Hermimâ — Eolaoi marques?! {am um sctriso). 

Tiiome' — Diz o ditado cguarda que^ comer, nao 
guardes que fazer» e é bem certo. Emqoanto ellas lâ 
conversam^ isto de mulheres sempre toem- que dizer 
umas ás outras, \amos nós cá tratar do nosso negocio. 
{en/iando-lhe o braço). 

D. PfiDiio (desembara:anda-se d^elle) — Faz tanto 
calor ! 

Tqomk' — E' verdade, diz bem« Vamos a contas; 
Olhe, o senhor bem sabe que hoje em dia, cada qual 
está valendo o que pesa ; segundo dizem por ahi osjor** 
naes, todos nós somos eguaes; quero dizer, cidadãos ; 
pois nao é assim ? 

D. Pbdbo — Dd certo !. . • só com a differença dos 
nomes e dos corações ; bagaleiia ! 

TuoMi — Diz muito bem, cada qual vé as coisas a 
seu mòdo^ e não importa que se chame Pedro, PaulOf 
ou.. . 

D. Pbdbo — Ou Thoméf. 

TiioMÉ — Um seu criado i é verdade. Pois âu, sou 
a dizcr-lbe que estou, graças a Deus, em estado de po- 
der viver com acceio. • • e. . . 

D. Prdro — £^ uma felicidade 1 {findo) 

Thomb' — E assim, disse comigo — como quem dia 
que já está farto d'uma vida — nada, é preciso fazer bri- 
lhar o que tenho, e ver se arranjo por ahi alguma com- 
mendasita; por que ellas lizeram-se para quem tem de seu; 
e quem hade servír*-me de padriaho» é fulano ; venho a 
dizer o senhor marquez. 

D. Pedro — Escolheu mal. Olhe que ea nunea ne- 
gociei n'essas coisas; nlo estou no caso de lhe servir 
d'agente. . . 



«• ó juízo do mondo 

Thomé {interrompendo) — Quaodo o senhor souber 
a qualidade de serviço que eu posso fazer-lhe. . « 

D. PiDBo — Um serviço a mim ? 

Thom6 — Sim senhor, uro serviço! 

p. Pkdao — Eslá bem certo d'Í6so? 

Thqiis' —^ Eu Ib^o digo. O senhor conhece bm* tal 
liiaroto que anda por ahi, usurário, agiolae tudo quanto 
ha de mau^ um tal Manuel do Couto, que faz empresli- 
mos ao gOYenio ? Pois este amigo^ não sei que tranqui- 
Wnla fez, que comprou todos os titulos dos credores de 
Y. 8/ {emendandO'$e ao ouvir lossir D. Roberta) de v. 
ex.\ e foi procurar-lnè para lhe servir de testa de ferro... 
11'este negocio: o senhor entende?! A coisa, arranja-se does- 
ta modo; digo-lhe que sim« apanho-lhe a papelada e 
depois*. • depois v. ex.* hade arranjar-me também cá o 
meu negociosínho, heín ? 

D. Piuao — Eu nSo vendo commendas, senhor! 

Thoiií — Isso é modéstia 1 ao menos, hade ensinar- 
me a loja. 

D. Pedbo — Uma que tenho nãoacompreli Ignoro 
onde seja o mercado. • . com licença. . . 

Thomjb — Então que é isso. ó tôr marquez!? Pois 
um negocio doestes é mau? tendo o senhor a sua casa 
empenhada ? 

D. Pedro (sorrindo) — Espera-^me alguém; com li- 
cença. 

Herminu (letaníando-sé) — Dá-me o braço, mar- 
quez ? (0^ marquez offerece-lhe o braço) . 

SCENAXl 

TROHÉ, e P. ROBiaTA. 

TaoMÉ — Olhem que cortezia aqucUa ! Os. diabos 
me levem, se eu nSo sou mais delicado na minha casa, 
apezar de nSo ser fidalgo ! 

D. RoB8RTA~Nio lhe dizia eu» senhor Thomi^» 



o imZO DO MUNDO «7 

.que nos havíamos de arrepender ( Eu bem lh*o dizia ; 
mas o senbar é teimoso.. . 

TiroHif {feníando-se bmiatmenlê n*um$oj)há) — Pois 
agora quero ver até onde isto vae dar comsigo ! 

D. RoBBBTA — Eu sei tf. . . Mas c bem feito! mui* 
to bem feílo t 

ThjmA— Ó senhora D. Roberta, nSo prineipic rocé 
a azedar-me! 

D. Robbuta — Repito que é bem leito! e muito bem 
fcílot O senhor Thomé não me quer receber; e emquan- 
to o não fizer, olhe que nSo é tolerado em parte algu« 
mal E quer uma commenda eom^m o senhor Couto? 

(riíèdo). 

Tnoui — Pois se eu casasse oom a senhora, então 
é que elles nSo m'a davam por que me julgavam ma- 
luco. 

D ftoBEtiTA — Peço-lho que não exceda os limites 
du decência I Estamos em casa da baronesa, e. . « 

Tnoui — Como você enche essa bocca de baroueza. . 
a baroneza tem ainda peior nota do que a senhora ! 

D. KoBBRT\ — Sonhor Thémé !?. . • 

Tjo:é {aparte) — No fim de contas, nSo terei outro 
remédio senão casar-me com ella; mas, ao menos» heide 
moel-a!.. • 

D. Ro3rRTA •-* Dizer-me que tenho má nota ! (aparte) 
Hasde pagar tudo junto ; deixarmc ser tua mulher. . « 
{alto) Então, sonhor Thom^, ficamos aqui a olhar um 
para o outro? Ou sair, on entrar. Aht se eu fosse sua 
mulher... quem lhe arranjara a oommenda erâ eu« 

Tiioiftt' (hvantaiio-sc, aparte) — NSo duvido nadai 
S.ibe fallarcomo um procurador!.. . {alio) Assim mes^ 
mo, nao seria possíTel tentar por ahi alguma coisa, co-» 
mo o outio que diz . . Vanos; o D. JoSo hade cá es- 
tar e mais a pequena. . . (aparte) Ai, que passo aquelle 
da pequena! {sacudinlo a cabeça^ alio) Vamos, vamos 
lá dar uma entrada no salSo.. . 



«i 9l|l«eD0li|WI9& 

D. RoKB&TA -^ No ealioL . . ò senhor Thomé, veja 
1^ se estou ronilo córndâ? 

Tuous --<* Pudera 1 pois se a C9iu da iinla ficou 
vasia !. , , 

D. RoBBftrA 7^ Ai !. . . ai. . . o que é isso que me 
eslã mordendo atil nas cosias!? Veja là..«. faça favor. 

Thomé — Ora adeus! o que quer é que 9u Ih3 bulal 

D. RoBKRTA — Parece-me que é um aiíinele mal 
pregado . . veja; se. o vir, queira pregal-o melbar; em 
paga, quando tiver a sua comnienda^ heíde pregaHb'a 
pela míaba mio no peito da sua casaca. 

Tttcvi -9-Gas^ prcla, abotoada, j& se eabe. . « 
(examinando as rmras do decote de D. Roberta e pro- 
curando o al/ine'é) (J lai alfinete é que pão apparece I 

D* RoBURTA — Senli-o cair agora mesmo.. . ai! 
ai! 

(N*e8te moaiepto litaftel do Coulo apparece ao fondo, e solta uma 
risada.) 

SGENA XH 

D. R-OBERTl, THOliÉ, MANIEL DO COUTO. 

) 

D. RoBiRTÀ — Ahl... {para Tliomé) Quando se 
fiizem d'e$ies serviços, sempre se repara se vem alguém! 
VJ mais ura comproníicUimcnío, {alto paa Manuel 4'f 
Coito) Desculpe, senhor commçudador Cowlo ; a nossa 
união eslá já lao próxima^ que.. .' 

MAitcjiL — Era melhor lerem-na concluido, antes 
do SC apresentarem n'uma reunião d'esla ordem ! A bà- 
roneza eslá altamente escandalisada, e pede*mc o obsei^ 
quio de vir inlimnr-lhes que se retirem. 

Thomií' — Oue se retirem!? Então que genoro do 
corlezia é essa ? 

Manuel — Não estranhe; entre nós, na alta socie- 
dade, niaguam apresenta uma senjiora d'uma posição 
equivoca, 



>• • s 



omnoaoaiiiNM) «f 

D. ItOBsiTÂ — EfVif OM ti o senhor acha-me equi* 
voca ?!. • . Permitta-me dizeMbe que é muito grosseiro! 

THon' — Deixa-o relle julga que está laUaDdo oon 
o« Begraa, que veaden li nt Afiríea I 

D. RoBiBTA — E' verdade ! reUreroo-oes ; a cêún- 
ga chega a produziF-me syocopes morlaes I 

TnoMB' — Mas lá por iaao nia tqueiooa màU quan- 
do quízer concluir aquelle negocio, aippareça. 

MAICVBL---A esse respeito, modifiquei ta minhas 
idéas. 

D. Roberta (saindo eom Thamé) — * Ora bÍo ha I 

TflOMB' — Negocio de negreiros é seiopre assim. 

SGENÀ XIII 

MANOBL M OOOTO s6| dcpoiS • MABQUiZ. 

Manuel — Em tS« boa hora que aio tivesse fallado 
d'clle ao marquez. Sempre bajgeniet... {fuxando osco^ 
larinhos) Julgam que todos sSo eguaes» que nio exislcm 
distancias^ nem conToniencias. • . (conm/laitdo o relih 
gio) Quando terminará este baile!? tem*me parecido 
eterno I 

D. Pbdro (eniraniú pelo fundo « tocando^lki sobre 
a espadão) — Ú senhor commendador, quanto ganhou 
V. ex/ na compra das minhas dividas? quero levar em 
conta o prejuízo dos credores. 

Hancel — Não costumo confessar-me, senhor mar- 
quez I 

O. Pedro {rmdo) — Jâ isso é uma eonfissio que 
lhe faz honra, (s te pela eê^uerda). 

Manuel — Pobre e sempre soberbo I Se vao fosse a 
baroneza eu te faria arrepender. . • mas» é o mesmo : 
quem te salva ó quem me vinga ! A propósito. . . ellp 
abi veiç ! 



yd OJOIMDOMONDO 

SCBNAXIV 

(Â baroneit entra e fecha a porta do fondo, eiamina a acena, e 
Tae lonur-ie n'aM aophá. Manoel do Conto aproTeita o tempo 
fm pnxar o fato, alisar p eal»eUo« etc.) 

HsMiMiA-r<-)á me disse que tinha recebido o meu 
))iihete, se me nlo engano. . . 

Harubl — Tenho-o sobre o coraçSo, baroneza. 

HnmNu — E antes do bil)iele de bontem, ratifica 
a resposta á minha carta ? 

Mahuil -s- RaUflco. 

Hkbmínia — N'esse caso, vem munido de todos os 
documentos dos credores do marquez ? 

Mau UEL — De todos I 

HBaniiuA — Muito b6n* O baile nSo acabou ainda; 
mas é o mesmo ; estamos perfeitamente sós, e á vonta- 
iie ; entretanto as ultimas pessoas qoe por ahi dançapi 
ainda, irão saindo.. . 

MâíruEL — Obl.. . baronesa, nio tenho expressSes 
para agradecer^lhe tanta bondade ! 

Hermínia — Bondade, por lhe conceder uma enlror 
\ista !? Ha nada mais natural ? ' 

Maecel [scntando-se muito chegaJo ao sophá) — 
Baroneza.. . 

Haaif^iA — Sollicilei do seu cavalheirismo e das suas 
protestadas inclinações, que me sacrificasse os documen^ 
tos que possue contra o marquez. Pediu-me em troca 
uma entrevista. • . {recosiando-se com graça) Aqui estou. 

M\NUBL {chegando mais a cadeira) — Aqui eslá.. / 

Hkrmikia — Prostrada de fadigai Nâo faz idéa. 

Manubl — E mais formosa do que nunc9 I 

Hermínia — Bravo I como está flammante.. . de com^ 
fnenda !? 

MANCEf. — Pois não tinha ainda reparado I? 
Hrrminia - Ainda nao. 
IKi^VEi.— £' (Qda de brilhaiílcst 



o juízo. 00 MiniDO 71 

HiniiiNtA (com ingenuidade) — ^ Cada vm represen* 
ta milhares de lagrimas dos capUvos que vendeo^ não 
é verdade? 

UkwnL {desconceriado) ~ Esra refle&Io» bironenl.» 

HBiuiim — As lagrimas dos oaptivos tomaoHse em 
brilhantes na mSo dos senhores. 

Mamubl — Felizes d^elles se soubessem qm essas 
lagrimas, assim transformadas, podiam-me ornar tio 
lindo Gollo, baroneza I 

Hb MiNu — Acho que produzem mais efieito na 
sua commenda I S3o gostos, 

Manuel— Então a baroneza intereasa-se moilo pelo 
sosego do marquez? 

HER\i(ifiA— ^£' um am'go velho; não quero que 
soSra. A propósito, trouxe os papeis? 

Manuel {tirando do bolso do feiío da eataca um 
mas90 de papeis) — A minha palavra é uma ! Bii-oa 
aqui. 

(N'ette momepto, o mtrqoe» tbro i porU da ttqacfd»» rt para na 

qae se passa, e sospeode-se.) 

SCEXA XV 

HÇRMiMA reroslada no sopbá, ii vnubl do couro sentado 
ao lado d'ella, o marquiz db càstbo escutando 

D. Peuro {úparle) — Ah!.. . escutemos... 

H*''RttiNiA {estendendo o braço para os papeis) — » 
Então, não m'os dà? 

Maniçl — E' um sacrifício pecuniário. • . dos mais 
pesados I Sabe quanto empreguei n'esles papeis 7 

HERMiNfA— Nem quero sabel-o. Sacriflca-m'os? 

MA^UEL — Que me pediria v.cx.^queeu, deprom-' 
pto, lhe não Ozessel? 

(llerminia pega nos p;ipeis; apenas consegoe tirar am á cnata 
4' um beijo que Manuel do Couto lhe imprime na mlo.> 



H OJUIZODOMUfíDO 

recimeotos e cootínuoa; Procura-a, e vela pelo seu com* 
modo, em qoaDlo fòr possível. Tens sido alé h^je um 
criada flel« e por isso deposito no leu coração o meu ul* 
timo acto da confiança. EDeus chamou-o a si.» 

Heemnu — Meu pae t.. . 

Manuel (canlinuando) — «Um dia, v. ex.S que era 
^Ill3o uma creancínha de sete aonos, já virtuosa como 
sempre o tem sido, e cheia d*essa piedade evangélica 
que os pobres bem dizem, encontrou no seu caminho 
oma mulher, com uma menina nos braços, que lhe pe- 
diu esmola —NSo tenho dinheiro, respondeu v. cx.«; mas 
aqui está esla corrente e esta cruz de oiro que foi pre^ 
sente de neu pae. — » {interrompendo a leitura) Pois deur 
lhe tanto ?t 

HnsiiNiA (com as lagrimas nos olhos) — Não tinha 
mais I. . • Continue. 

Manukl {lendo) — cO valor d'aquella jóia salvou 
da fome a mSe e a filhinha, que era sua irmã Violan- 
te, senhora baroneza. (o marquez faz um movimfnto). 
A mulher morreu e só um dia depois da sua morte conse- 
gui encontrar a orphS, para cumprir o legada de meu 
amo. Tinha um amigo, enlreguei-lhe o pouco dinheiío 
que possuía, e confiei a menina ao encargo d'uma se- 
nhora que clle chamou para casa, e fui tenter fortuna 
Jonge da pátria. Annos depois, voltei rico. mas sempre 
pa (ninha condição obscura. Soube do apuro em que v. 
ex.' estava e tomei então a liberdade de lhe remelter um 
recurso de trinte contos^ lembrado do aclo de caridade 
que V. ex.' tinha feito à mendiga da estrada. Dotei Vio« 
laute, como se fora minha filha, e agora, ponho á dis- 
posição de V. ex.* em Londres^ Regenl Slrect, os servi- 
ços do seu muito fiel e velho criado. — António.» 

Hekmin^a — Agora, commendador, diga-m) que 
juizo faz d*essa carta? 

Manuel — Que juizo ?i PuU a baroneza pretendo 
ainda obrígar-me a fazer um juizo!? Naoseja Ião cruel... 

HenMiNiA— -Perdão ; diga^mc com franqueza o que 



o juízo do MUfTDO tf 

ajuíza d^cbsc homem* que fez, e escreveu tudo isto !? 

Maníel — Oh! baroneza,. . bem v6 que estou de 
tal modo preoccupado que.. . 

Herminu {letamando-ie €om dijftndiidé) — Preoc*» 
cu pado de que !? 

Manuel (soòresaliado) — De que I? 

Hkriín:a— ^Senhor commendador Manuel doCou* 
to» vexa-se do contraste que fax com esse homem vir- 
tuoso que foi criado de meu pae ! Compare o seu pei^ 
to condecorado áquelie peito cheio de sentimentos tto 
nobres» . . e diga-me com franqueza se nSo encontra na 
seu procedimento, a meu respeito, alguma coisa pare* 
cida com a infâmia > 

Manuel {aparte) — Ora esta I {com o de$e$pero éa 
fera que $e sente ferida) Senhora baroneza» nenhuma 
mulher prudente abusa por esta modo das sympathías 
e da credulidade d'um homem I Bem vé que estamos 

«MIS* • • 

D. Pedro (intervindo)— Hío tanto como julga. 

Her^iinia — Ah !.. . 

Manuel — O marquezl!.. • 

Marquez {cruzando os braços e rindo $m face 
ffelk) — - Ainda quer que lhe ái algum género de san 
lisfaçSo ? 

Manoel — A satisfação deve*m'a a senhora baro- 
neza^ porque não é decente ai^usar assim d'um cavalhei- 
ro, para o illudir.. • 

D. Pedro — Então iiludiram^^no ; e se me nSo en- 
gano, o senhor beijou ainda em cima as mios que o 
ensinaram \. . (rindo de raiva). 

Manuel — Fizeram mais do que illudír-mel A senho- 
ra baroneza estava d'accordo com v. ex.* para extorquir-» 
me, â força de mimo8« os títulos dos seus credores que 
eu Inha comprado. • • / 

D. Pedro — Oh i que diz aquelle miserável lf(pwra 
Hermínia) Que diz elle?t. • . estes papeis que vejo aqui 
rasgados. • . {commovido) Hermínia.. . Hermínia. 



i* • • 



76 O lUIZO DO MUNDO 

Hermixia — Desculpe, marquez ; eu queria evitar.^^ 
(levando o lenço aos olhos). 

D. Pburo — Ab! expor-se a um honem doestes, 
por minha eauâa, sem reflectir que podia perder-se !? 
E' um sacrificio ISo nobre, que a recompensa nao cabe 
nas forças humana»! (para Manuel do Coulo) Descanse^ 
senhor Manuel do Couto: amanha convocarei todos os 
meus ex-credorés, para esclarecimento da compra que 
lhe fez; e se na \erdade a coqipra fdr julgada valida... 

Mancel {fazendo um morimento de $us(o) — Oh! 
A?o é necessário tanto incommodo.. . Uma vez que os 
papeis estão rasgados. 1 eu nao quero saber d'isso mais! 
Com licença. • • 

D. Peimo (compreheniendo, e tomando-lJie a pas- 
sagem) — PerdSo. E' para fazer desconfiar essa genero- 
sidade no senhor Manuel do Couto ! 

Miif cBL — Com licença, senhor marquez. . • essa é 
boa. Não quer que eu saia ?! 

D. Pedao — Hade permitlir-me que mande primei-* 
ro prevenir os cabos de policia, (dhponda-se a puxar o 
cordão) 

Handii. — Com licença, senhor marquez.. . deixe- 
me passar!. . . Tenho aonde ir !. . . Isso é teima ! 

D. Pedho {rindo) — Desejo apreciar o effei to d'uma 
commenda de brilhantes entre espadas. 

Harubl {aparte) — Estou perdido f. . . (alto para 
Hermínia) Minha senhora.. . (dparle) Se me descobrem 
ima, desenrolam a meada ! [alto) Minha senhora !. . . 
seria um escândalo terrível f . . . Peço-lhe pelo amor de 
Deus^.. . 

R pEfruo (com seriedade, abrindo uma poria) — 
VíHse embora, senhor! , 

Manoel (aparta) — Saltet-^me n^^uma taboinha I {sae' 
tom rapidez). 



o juízo do mundo 77 

SCENA XVI 

HERMÍNIA, O MARQUBZ DE CASTHO. 

D. Pedro [pegando na tnS» de Hermínia e chegan^ 
do-a aos lábios) — E agora, Hermínia, por que nSo dá 
a este sea amigo velho a satisfação d'offerecer-lhe um 
nome sem mancha^ que podia abrigal-a para sempre do 
júizo do mundo?! 

Hbrminia — Por que nSo quero atraiçoal-o> mar^ 
quez! O meu coração resenle-se ainda muito do golpe 
que soffreu ; e só a resignação pode cural-o. Tomei uma 
resolução immulavel; vóu exilar-me, desapparecer de- 
baixo d'um habto humilde, e retribuir ao mundo, era 
caridade evangélica, o mal que o mundo me fezt 

D. Pedro (muiío commovido) — Deus precisava 
de mais um anjo; purificou uma mulher no.roartyrio 
das ddres moraes. O mundo perdeu.. . mas o ceo ga- 
nhou I 



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mm 



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TtPOGRAPHIA DO PANORAIU. 

TBAYESSA DA TICTOKIA, 73. 

186Õ. 



PBnSOfVACSEIlS^ 



ÂLEiio Teixo d'Azbredo Qoeixo. Advogado. 
Joio CES\a Febnândes. 

Brcto da Rocha Criado. 

D. Lucrécia Mulher do adrogado. 

Rosa Criada. 



A scena passasse em Lisboa, em casa de D. Lucrtcía, 

na actualidade. 



ACTO IJNICO 



(Sala. Portas lateraes e no fando; á direita ama secretaria. Na pa- 
rede do fondò oiti retrato dè homem tom ocalos e gravata bran- 
ca: do ontro lado da porta, faiendo symetria, ootro qoadro re* 
presentando nm cio sentado, com nm lafo encarnado no pes- 
coço.) 

SGENÂ I 

KOSA^ depois )OlO cesab FEHNíNDES. 

Rosa. (sacudindo o pó, e olhando depois para o re^ 
(raio) — Tinha bem bons bigodes o primeiro marido da 
senhora. Deus lhe falle n^alma, que bigodes nunca éíle 
avezou, mas é como o oulro que diz.. . Coitado, lião 
posso olhar para elle sem me dar vontade de rir ! Po- 
bre do tal senhor Feliciano dos Anjos ; cada vez qud 
me lembro que a esta hora está a senhora na fregueziaí 
à casar com o advogado!*. • {faltando ao retrato) Dei^ 
xa estar, deixa-o aproveitar o teu sobejo, que não hade 
ser assim mesmo por muito tempo, nao. V3o tirar-te 
d'ahi para pôr o outro no teu prego ? Deixa estar que..^ 

Por mais que faça o segundo^ 
Tu sempre hasde ser melhor : 
Que um marido no outro mundo 
Nunca pode ser peior. 



3 O «AlIDO HO F1B4I0. 

Ora eu nunca cheguei a crer que a senhora tornasse a 
casar!.. . pelo menos tão cedo! Estas viuvinhas que 
dão na visla a chorar os seus maridos. . . Muita bulha 
para nada no fim de contas: eslá-se vendo todos os dias! 

João (enlra pelo fundo e vem para a scenà) — Es- 
^iã em casa o senhor Aleixo Teixo d Azeredo Queixo? 
Ande diga-lhe que lhe quero fallar; ande que tenho 
pressa l 

Rosa — O senhor saiu. 

João — Isso não pode ser ! Eslava eu então bem 
aviado ! Um advogado não deve sair nunca ! 

Rosa — Nem ao menos para ir «asar? 

JoÂo — Ora, um advogado cae lá em simílhante 
esparreila ? t 

Rosa — Cae, sim senhor^ porque um advogado é 
homem que 9abe muito bem onde tem o seu aariz! 

João — EAk bom, não lhe peço explicações; de 
mais, o nariz não vem nada a propósito de casamento. 
A que hora se casa cHe? 

Rosa — Ao meio dia. 

JoÀo — N'esse caso voltarei aqui um quarto depois 
do meio dia. . . (saindo) Roa noite. 

Rosa — Bom dia, se faz favor. Já viram homem 
' mais mal acabado ? Credo, parece que nem atína oom 
o que quer dizer ! 

SCENA II 

ROSÂ, £ BROTO DA BOCHA.. 

Brvto (eepreguiçQndo^se^ entra pela direita e prin-- 
cipia a bocejar de somno) — Ahl.. • que rapozeirai... 

Rosa — Boa madrugada, senhor Bruto. • . 

Brcto — Mau.. . não principie ^ocê a cfaamar-me 
Bruto. . . Eu cá chamo-me -Rocha. 

Rosa — Era o que eu ia dizer, senhor Bruto da Ro- 
cha. Também... quem >dorme até ás onze lioras do dia... 

Bruto — E' br4ilo, não 6 verdade ? 



^ «émm no mmo. 4 

Rosà -- Credo que «3o me deixa aealMr nunca 1 
Ea ia dizer que lá irá para onde o pague. 

Bruto — Nâo é da cottta de ninguém ! Julgam qne 
por ter morrido quem morreu^ o meu amo, o meu amn 
go.. . MioJe estar agora sempre i^om aquellas... Vamos 
a saber, o meu café está quente ? % 

Ro8à — 0{(»e. . . vá perguntaf-o á cozinha. Cuida 
também que isto bade continuar assim ? Dêem ali a pa- 
finha ao menino. . . Meu rico^ a coisa é outra agora ! 

Bauro^ — Que coisa? 

Rosa (sorrindo) — Aquellas coisas que nós sabemos, 
senhor Br ut. . . 

BnuTO — E Tooé a dar-lhe ! 

Rosi-* Bocha, queria eu diser. 

Bauro — Maldito nomel. . . Vamos» diga lá. 

Rosa — Ah ! quer que diga? pois sini. Qttefazvo-- 
cè n'esla msa, Sjsnão almoçar, jantar e ceiar? 

fiauTo — B que tem Tocé que eu almoce, jante e 
ceie. . . como um bruto I ?. . « 

Rosa (soltando uma gargalhada) -^ Vocô alguma 
vez havia de convencer-se. . . 

' Bruto — E' por sua causa; é por sua causa, se- 
nhora Rosa* Você es(â sempre, bruto cá, bruto lá. . • 
Ora eu chamo-me Bruto, é verdade. • . 

Rosa — E confessa qne come como um bruto t 

Brcto — Mau I E' verdade que lenjio esse nome ; 
mas. . . a gente nem sempre gosta que lhe chamem co-> 
roo se chama !. . . £ quer saèer a razão ? Eu 4he digo. 
Bruto foi um heroe, dizem -que um heroe. • . 

Rosa — Ora, dMsso ha tanto- . . 

Broto — Mas olhe que foi um heroe doestes que nio 
accendiam charutos com phosphoros alsiisoarados. Eira 
um heroe, você já leu a historia de Carlos Magno?.. • 
Pois então, leia -a! E pensar eu que lenho 4uninome d'es-' 
sa ordem . . . Nada I «oeu pae quis que eu fosse grande 
coisa^ e começou por me dar um nome grande 1 Sabe 
agora? 



4 o «AiiiMi HO mB«o. 

Rosa — Pois sim, Dão vá fugindo ao que dizramos^ 
Que faz vocô n^esta casa ? faz favor de me dizer ? Lá pdr 
lér sido muílQ amigo do defunto, a senhora deixou-o 
para ahi ficar. Você falla-lhe d^elle, recoida*lhe as suas 
pieguices, commove-a, fal-a chorar. . . e ahi está ! 
f BnDTO — E' verdade, choramos juntos sobre as cin- 
zas d'aquelle pobre diabo. . • {suspendend^se) 

Rosa — Enlao, não querem lá ouvir!?.. . 

Rbuto — Isto é aqui entre nós. senhora Rosa; olhe 
que elle é que era um tal brutinho.. . (designando o re^ 
traio do cào) Ainda mais animalejo que o seu Neptuno 
que ali está com seu laço de 0la encarnada, com olhos 
de quem se lembra do quem o ser ma. Eavarento... ih !... 
gulolão... desconfiado, cabeçudo... n^isso entSo não fat- 
iemos ! 

Rosa — Uma coisa é ver, outra é ouvir I E quem 
o vir a vocô andar todo o santissimo dia a choral-o. ^ . 

Bruto — Pois ahi está ; é isso justamente o que eu 
tenho que fazer n'esta casa. 

Da 'sposa o pranto sagrado 
Trôzer sempre a borbulhar, 
Chorando o triste finado 
F'ra a saudade eternisar t 

Rosa. 

Logo é focê junto d'ella 
Uma espécie de chorão? 

Brcto. 

Você diz bem ; basta vêl-a ; 
Eis a minha posição. 

Rosa (rindo) — Que labía que você soube arran-> 
jar! 

Bruto — Não é de todo má, vamos com Deus* 
Rosa — Entretanto, fia-te na Virgem não corras^.. 
Bruto ^^ Porque diz Tocê isso, ó senhora Rosa ? 
Rosa — Nâo ha nada mais claro : se a senhora {to- 



o SAmiftO MO MttSO. i 

curou segundo marido, nio deseja «certamente lembrar- 
se muito do primeiro. 

Bbuto — Esquecer aquelle santo homem T Isso não 
é possível i 

Ros4 — Verá se é ou nlo. Digo-ihe com toda a cer- 
teza que v3o despendural-o. 

Bruto -^Despendurar o senhor Feliciano dos An« 
jos ! ?. . . Yocè não está em si ! Você não conhece a se* 
nhora. 

Rosa {fazendo^-lhe sorriada) <** Hãode despendu- 
ral-o! 

SCENA III 
BRCTO, BOSA, ALEIXO, D. LUcnF.GiA, vesllda de noiva, 

E GONViDADOS. 

(D. Lucrécia entra pela mSo do advogado, seguida pelos convida*- 

dos.) 

GORO. 

Dv*us bemdiga o doce enlace 
J>'estes meigos corações, 
Que á virtude dao realço 
N'cste largo do CamCes. 
Aleixo — Muito obrigado, meus amigos, de terem 
assistido ao meu casamento, (a D. Lucrécia) Em pre- 
sença de tantas testemunhas. • . já não ha dizer que não.. « 
Estamos finalmente casados I 

D. LucRFCiA {suspi an'o) — E' verdade! 
BiUTO [idem) — E' verdade I 
Aleixo (aos convidados) — Meus senhores, sinto 
muito não ser possivel offerecer-lhes algum género de 
refeição.. . pelo menos um paio e um prato de arroz 
doce. Islo é feito á capucha, e.. . 

D. Lucrécia — O calado éo melhor: além disso, 
o arroz doce caiu em desuso, e os patos este anno estão 
magríssimos ! 



o JiMUM IfO rftMO# 



Brcm — Magrittímoft ! 

Albixo (aparte 9 olhando fava Br^o) — Este ho- 
BiefD parece que se encarregou de ser o ecoo éa famí- 
lia I 

D. Lu:u€iA — Na minha posição, qualquer coisa 
que tivesse geito do fesla ou regosijo, ser-me-hia d'uin 
peso insupportavel 1 SonUria logo um tal remorso. • . 

Albixo — Um remorso ? L • . 

Brcto — Um remorso muito grande i 

Aleixo (áparu) — Então, querem^no as»m ? Mal- 
dito animal 1 

D. Lucfiixu (cortejando os convidados) — Meus se- 
nhores.. . 

Convidados {retirMdo^sc) — Minha senhora !. . . (^^e- 
peiem o coro e saem) ■ 

(O. Lacrccia sm pela esquerda; Bruto e Rosa pela direita; Aleixo 
fica olhando para todoi as l|tdos com ar de estopido.} 

SCENA IV 

Alkixo {só) — O passo eslá dado I Está dado o pas- 
so, nSo ha que dii vidar 1 Eis-me casado. Nao ha nada 
mais certo do que esta vida ser uma verdadeira roda 
d^alcalruzes I Não ha ainda quinze dias, eu nao era 
mais do que um triste primeiro escrevente, e trata- 
va de p6r em dia a escripturação do Feliciano dos An^ 
jos, que eslá com os anjos, e que não era tão tolo como 
parecia, apezar de parecer tolíssimo ! Fechava-me no ga- 
binete para trabalhar.. . e principiava a fazer barqui- 
nhos de cascas de nozes que guardava do jantar, costu- 
me ínnooeote que não fazia mal a ninguém ! de repente, 
truz, truz, na porta : entre lá quem é : eslà fechada 1 Ê 
verdade, eu abro ; abri ; e dou de cara com ura paren- 
te.. . como todos os parentes! Era um parente que no 
momento supremo se tinha lembrado de incómmodar 
ainda o defunto com um discuiso. . . muito estúpido, 



o «AtlSa HO tftMO. 7 

mas muito sentíneBtal I E' terdade. Coi&o eatá? bom, 
muílo obrigado, elesetora, queira sootar-se. Meu amigo, 
Tenho encarreiro de lhe diser, que a viuva do senhor 
Feliciano dos Anjos interessa-se por você. Obrigado ao 
seu favor, et caetera ; <l'aquí e d'alt, propõe^iho a sua 
mão, e as soas economias. Fiquei allooilol ainda que, a 
fallar verdade, eu já descobrira que tinha não sei o que 
na minha pessoa que attrahia viuvas : os olhos, talvez ; 
tenho olho para viuvas I Quiz ir immedialamenle lançar- 
me aos pés da tal viuvinha, mas o parente prohibiu-me 
de lá ir, prudência e juizo I D. Lucrécia não quer que 
você a veja senão no momento de dar o passo. Gaspile ! 
disse comigo: mas a coisa não é assim mesmo para re-% 
cusar I Uma mulher encantadora, algumas economias. . . 
casa pusia, e bem posta. . • {olhand') para todos os la- 
diS vêoretrao) Âhl lá está o patrão I Bom dia, patrão... 
Vá-^e fartando que não hade estar ahi muito tempo no 
meuslogar. Era o que me faltava.. . ter aquelja empa- 
da ali, e eu aqui a abraçar-lbe a mulher, queVo dizer, 
a minha mulher, que cada qual que tem uma tem di- 
reito para issol mas havia de parecer-me sempre que o 
outro me diaia lá de cima: «isso mesmo já eu fiz antes 
de ti.» Bonito! nada.. . abaixo!.. . não lhe aproveito 
senão a moldura para metter tambein o meu todo gra- 
cioso. 

SCENA V 

iLEixo, B bhuto entrando pela direita, escovando 

um paletot. 

Aleixo — Ahi temos nós este baboca do... Que es* 
tás tu a fazer, bruto. . . 

Bboto — Sim, senhor, eu é que o sou: o senhor 
não vô o que faço ? 

Albixo — Estás escovando o palelot; com um ca- 
lor d'esles. . . quem te disse que eu queria vestir o pa* 
letot ? 



8 o KAtlDO HO taMO. 

Buuio-^Ha mais Marias na terra. 

Al EIXO — Mas queoi te encommendoa o sermão do 
paletot ? I quem é que veste um paletot com este calor ? 

BiiUTo — Nada.. • este paletot ninguém veste. 

Aleixo -r Ninguém veste 7 Ora, dá cá. . . dá cá.. . 
por isso mesmo vou vestil-o agora. 

BauTo — Este paletot nSo é seu. 

Aleixo — Então de quem é? 

Bruto — E' de quem o n3o veste, nem pode ves^ 
tir... porque está no ceo... e no ceo ninguém usa d'esT 
tas misérias!.. , (chorando) Ora ahi está! 

Albixo — Então que cantiga é esta ! ? . « 

Bruto — A senhora disse-me : hasde continuar a 
servil-o. E todas as manhãs esco^o-lheofato, limpo-lhe 
as botas, levo-!I)e agua morna para a barba, tudo tal 
qual elle fosse vivo, sem diferença alguma! Já sabe? 
E no fim de tudo, sou bruto ! E' para que saiba que eu 
não tenho do bruto animal senão os instínotose do Bru- 
to homem a sensibilidade.. . S* por isso que todas as 
noiles lhe preparo ainda o seu copo d^agua com assucar« 
que ponho em cima da commoda, e que o bebo todas 
as manhãs pela sua alma. Coitadinho... está com os an-» 
jos ! 

Albixo (aparte) — Não ha nada mais agradável I 
(alto) Fazes-me tu um favor? 

Bbcto — Se estiver na minha mão.. . 

Aleixo — Tira o teu amo cuidadosamente d'aquel- 
le prego, carrega-te com elle, e vae choral-o á lua von* 
lade lá nas aguas furtadas. 

Broto — Para isso seria preciso que eu fosse um 
verdadeiro bruto animal t 

Alkixo — Fâze o que te digo, e não digas mais 
nada. 

Bruto — Com licença, vou fazer-lhe a cama. (ia- 
lendo mansamente aporia da esquerda) Dá licença, meu 
senhor? 



Q MABIDO NO PftMO. 9 

Aleixo ~ Qae me importa... uma vez que eile não 
slá lá. . . 

BatiTo — E' como se estivesse 1 Eu costumava ba- 
ter assim, e continuo na mesma : a senhora não quer 
(}ue se percam os costumes do tempo d'elle. • . (sae) 

SCI NA VI 

' ALEIXO, B ROSA. 

Aleixo — Está caçoando comigo, nSo tem duvida ! 
Ileixem estar que não me pára muito tempo em casa. 
Vou pedir a minha mulher que lhe ponha os quartos na 
i^ua . {dirigin fo^-se a uma das portas) 

Rosa [apparecendo de repente) — Perdão, meu se» 
nhor, aqui ninguém enlra. 

Al* 1X0-^ Ninguém entra ! ? Então porque? 

Rosa — E' o quarto da senhora. 

Aleixo -I- Ah I n'ess6 caso creio que. . • 

Rosâ — Cada qual tem o seu. 

AtBixo — O que?t dois quartos?,. . nada, eu não 
entendo isso t 

Rosa — São as ordens que tenho : a senhora que 
lh'ds explique. Ella ah! vem. 

Alixo — Puis bem, vae-le; preciso fallar-lhei 

(Rosa sae pelo fundo.) 

SGENA VII 

ALEIXO, B n. LUCRÉCIA vcslida de escuro com um cesto 
de costura na mão, pensativa, faltando comsigo mes- 
ma, enlra pela esquerda. 

Aleixo (aparte)— }k não estou nada contentei 
D. Li CHI cu — Fiz cu bem de me casar comaquel- 
le escrevente? O futuro m'o dirá! 



10 o MAMBO HO FBMO. 

Aleixo — Querida Lucrécia. . . 

D. Lucrécia {com indiferença) — Ah ! é o senhor?... 

Aleixo (aparte) — Là que ella é boa mulher. . . 
(bUo) Queria pedir-the um favor.. . Que veja! despiu 
o sen vestido de noivado?.. . 

D. Lucrécia — Não vê? 

Aleixo — Não acha triste de mrtis, para as circun- 
stancias em que estamos, esse vestido 7 ! 

D. Lucrécia — Bntão que quer?..-, uma viuva.. . 

Aleixo — Viuva!? Então que figuro eu aqui?! 
Oh I. . . em breve espero convencel-a- - . {rindo) 

D. LísCHiciA {com severidade) — Senhor Aleixo, de- 
testo as prctençOes a espirito ! 

Aleixo — Perdão ! (aparte) Parece-me que é algum 
tanto caprichosa I {alio) Não se escaodalise, querida Lu- 
crécia.. . 

D. LuGRBCu — Faça favor de me chamar senhora 
D. Lucrécia dos Anjos. * 

Aleixo-^ Quer dizer, D. Lucrécia Teixo d^Azere- 
do Queixo, pois sim I. . . 

D. Lucrecu -r- Tem razão: tinha^me esquecido... 

Aleixo — Peço licença para lhe recordar de quan- 
do em quando. . . * 

D. LuGRECu — Então ! Já lhe disse que não to- 
lero. . . 

Aleixo {áparíe] — Ao menos entende ! {alio) Pois 
bem : não torno a faílar em tal : juro-o sobre esta mão- 
sinha tão branca . . (tentando pgar-l^e na mão) 

D. Lucrécia (repellindoo com presleza) — Basta, 
deixe-me: detesto a licença.. . 

Al EIXO — Licença ! ? Ha nada mais innocente que... 

D. Lucrécia — Acha ? diante d'aquelle augusto re- 
trato?!... 

Aleixo — Tem razão, (aparte) K uma socied£.de 
de três, Feliciano dos Anjos & C* ! {offerecendo-lhe o 
braço) Ainda me não mostrou as casas I Consla-me que 
^ lem uma excellenle livraria.. . 



o MâBIB» M mHk H 



D. LucMcu — Não é da sua conta. 
Aleixo — Nío é?l 

D. LucBEciA — Vejaoos: qte preleado o senhor ? 
Aleixo — O que pretendo I Cumprir o meu dev^arf 
D. LocRiciA — O seu dever é comportar-se bem. 
Aleixo — E nada roais ?. . . • 
D. Lucrécia — Prohibo^Ibe que desça amais ex- 
plicaçSes. 

Albixo (aparte) — Vamos, ao menos nSo é desti* 
tuida do inlelligenciat entende tudo! 

D. LucHBciA — Senhor Aleixo» queira sentar-se: 
sou eu que de?o dar-lhe algumas explicaçSes a respei^ 
to da nossa reciproca posição, que me parece não ter 
comprebendido bem. (sinta-^se) 

Aleixo — Estou por tudo. (puxa tuna eadêira e 
sefda-se ao ladt de D. Lucrécia) 

D. LocRECiA — Queira afastar-se mais.. . 

Aleixo — Ah ! pois não !.. . [recuando a cadeiía) 
Tanto faz perlo como distante. Casados já nós estamos. 

D. LucKEGiA — Ainda lhe não ouvi dizer outra coisa. 

Albixo — Entremos em matéria. 

D. LrcREciA — Serei franca» senhor Aleixo ; amo 
apaixonadamenie meu marido. . . 

Aleixo (levanfando-se enthusiasmada) — Ah 1 que- 
rida Lucrécia, que amabilidade!.. . Creia que do meu 
lado. . . 

D. LucREcu — Não trato do senhor. Referia-meao 
senhor Feliciano dos Anjos! 

Aleixo (seníano-^sej — Ahl pois sim; reflra-se a 
quem quizer. {aparte] K um dia de noivado bem pasr 
sadol 

D. LucBKCu — O senhor conheceu aquella excellen** 
te e notável crealura ? 

Aleixo — Oh ! na verdade excellenle... (ápatte) E 
notável pela gordura ! 

D. Lic e^ia — Oh! se tivesse, como eu, tidoafC'- 
licidade de folhear o coraciio de Feliciano.. . 



Í2 9 Miimo no m«o. 

Aleixo — Confesso ingenuamente que nunca me pas- 
sou pela cabeça similhanle idéa 1 

D. LucRscu — Era complacenle , generoso , só- 
brio • • basta dizer que não tomava mais do que um 
o\o ao almoço. 

>LRixo — Era phr galanteria.. . 

D. LuGREGu — Em tudo era galante! 

Aleixo — Estou certo, minha senhora ; de outro 
tanto me não gabo eii, nem quero. 

D. LucBEGu — Deixe estar que heide mostrar-Ihe 
as cartas que me escrevia antes de casar ; verá como 
era terno, fiel, apaixonado. . . Oh f. . . que ternura ! se 
soubesse. . • 

Aleixo — Basta, minha senhora! nem tenho vonta- 
de de saber I.. . nao pedi simllhantes explicações. Não 
recuso uma Iagrin.a ao meu digno antecessor.. . maa, 
sejamos claro?, não quero de modo algum conhecer as 
vivacidades do seu caracter. Tudo que lhe posso dizer, 
minha senhoril, é que não receio comparação alguma ! 
{levanta- e) 

D. Lugbegia {levaníando-sr) — Em conclusão, se- 
nhor Aleixo, fiz um juramento de nunca mais pertencer 
a outro homem. 

Aleixo — Ora essa não está má! EiUão para que 
se casou ? 

D. LucnEniA — NJo insista, meu caro; não quebro 
o meu juramento I 

Aleixo — Bonito !. . . 

D. LuGRKc;^ — Ah ! meu Feliciano. . . [atirando 
beij s ao retraio) 

Aleixo — Basta, basta, minha senhora t .. Quer 
^ue lhe diga? Isto assim não tem geilo! Ninguém tem 
direito de fozer collecçào de maridos pelo amor da arte ! 
Quando o senhor seu parente me fez a hinra de me pro- 
por este casamento, não me preveniu de modo algum 
• doesta clausula.. . platónica I 



o «AiiDO 110 nrad* 13 

D. Li GHEGL4 — De certo que não ; aliás o senhor 
teria recusado. 

Aleixo — Nào digo tanto ; mas de ordinário... nin- 
guém gosta de empregar fundos n'uma sociedade que 
nao dá dividendos t 

D. LucRECii — Ver-me«hia obrigada a deixar esta 
casa, tào cheia de lembranças d'eile !• . . Renunciar a 
contemplar constantemente os seus livros, a sua secre- 
taria, o seu tinteiro, a sua penna.. . 

Aleixo - Sim, tudo que é preciso para escrever... 

D. Ldgrbgu — Renunciar a sent^r-me na sua ca- 
deira!.. . (seniando-se ti^uma pollrona) a mirar-me no 
espelhinho em que elle costumava fazer a barba !... Oh! 
similhanles sacriQcios eram superiores &s minhas for- 
cas ! {com socego d' espirito) Decidi-me então a pensar 
no senhor Aleixo. 

Aleixo — E eu íico-Ihe muito obrigado, minha se- 
nhora ! 

D. LuGuECU — Um simples escrevente, disseca co- 
migo mesma, sem posição, sem futuro algum.. . 

Aleixo — Pois olhe, minha senhora, a posição e o 
futuro que por esse modo quiz eslabelecer-me, são mui- 
to peiores do que imaginou t Acho-os até.. . immoraes! 

D. Lucrécia — Uepois, continuei eu, o senhor Alei- 
xo não é um estranho n'csla casa : conheceu muito bem 
o senhor Feliciano dos Anjos. . . vivia dos seus benefi- 
cios.. . 

Aleixo — Sim, de uns tristes dez mil réis que clle 
me dava por mez ! 

D. LucRbGiA — E assim, pensava eu, havemos deá 
noite conversar a respeito do meu pobre defunto.. . eii- 
ternecer-nos. . . Oh ! não é verdade que havemos de con- 
versar muito d'elle? 

Aleixo — Sim, minha senhora, muito, muitissimot 
(passeiando) 

D. LiGRLOA — Ao menos terei alguém que mecon- 



44 'O IMWDO IfO nuMo. 

«olo nas minhas horas de tristeza I Terei quem me en- 
xugue o pranlo. 

Aleixo — Tal qual ! 

Ooer que «u seja — mudo e quedo, 

Successor d'um mais feliz, 

luulo á viuvinha em prantos, 

Eslalua de chafariz ? 

D. LrcRECíA. 

E' isso mesmo que diz!.. . 

Albixo. 

Que lhe \embve do defunto 
Muila virtude exemplar ; 
Que lhe enxugue o triste pranto 
Que por elle derramar? 

D. Lucrécia. 

'Slá-me a idéa a adivinhar ! . . . 

Aleixo. 

Pois entSo, querida senhora, 
Fez muito mal em casar I 
O *sposo que lhe convinha 
Era um lenço d'assoar! 
D. LocRBciA — Oh! mas parcce-me que nSo é de 
todo má a posiçSo qne lhe offereço I casa, cama e me- 
sa.. . de verSo refrescado, de inverno agasalhado.: • 

Aleixo — E lavado^ na minha qualidade de lenço 
d^assoart Acabemos com isto, minha senhora. Acho 
muito bonito o que diz ; mas. . . nao posso de modo al- 
gum combinar com as suas combinações I 
D. Lucrécia — Que quer dizer? 
Aleixo — A lei concede-me certos drreilos que eu 
nSo estou disposto a deixar entortar ! e. • . 

D. Lucrécia — Direitos !... pois quel ? Ousaria por- 
ventura. . . 

Aleixo — Ousaria lambem a senhora. . . pensar que 
eu nao ousava. . . Que ousadia I 



o MAllOO NO PIIOO. 15 

D. LucRr.cu — Perdão, senhor AJeixo. {deêignait' 
do o relrata) Eu sou císada*! 

Aleixo — E eu ? eu sou solteiro ? 

D. Ll7CRe€IA. 

Livrae-me, ó Deus, d'esle susto t 
Senhor Aleixo entre em si ! 
Respeite o retrato augusto 
Do homem que tanto cri ! 
Quando cega obediência 
No altar lhe promeltí, 
Salvei do rol a innoceDcía, 
^o rol o amor não mclli t 

Alexo. 

Laboras n*um erro, querida, 
Que eu pretendo esclarecer I 
Mão quero mulher (ingida, 
Quero mulher p'ra viver! 
Quando em tudo obediência 
Me quizeste promelter 
Mandou da egreja a clemência 
O amor no rol Aelter 1 

• 

(D. Lucrécia refugia-se no quarto †FeHciano dos Anjos.) 

SCENA VIII 

ALEIXO, E ROSA. 

' Aleixo — Estou aviado. . . nao me casei com «uma 
mulher I Casei-me com uma urna de saudade! E eu que 
tinha promettido a meu pae. . . Nada« isto faade tomar 
caminho ! (olhando para o retrato do cào) £ pensar que 
tenho ali o meu rival.. . Oh! não é aquellet (volíof^ 
dose rapidamente para o outro retrato) E pensar que 
lenho aqui o meu rival!.. . Nao linha boa cara! Se eu 



16 o 11 AillDO RO ^Btci. 

podesse descobriMhe «alguns defeitos para lhe deslruir A 
memoria.. . Simi por foi:ca; um nariz d'aquGlles^ e 
aquelle olhar tSo desconfiado» são signaes certos de vi- 
cio encoberto ! Aposto que iiludia sua mulher ! Oh 1 se 
me fosse possível descobrir similhante coisa. . . 

RosiL {enlrand}) — Minha senhora, está ali uma 

pessoa. • • 

Aleixo — Rosa, vem cá. 

Rosa — Ahl.. • 

Aleixo — Não tenhas medo, vera cá; preciso de 



ti. 



• « 



Rosa — De mim t ? E a senhora ? K . . 

Aleixo — Espera; preciso que me ajudes a rebo- 
lir a sombra do senhor Feliciano dos Anjos 1 

Rosi — Credo ! 

Aleixo — Hasde fazer constar que elle te abraçava 
á queima roupa i que te fazia esperas pela escada ; que 
te mimoseou com um cordão de oiro, brincos e anneis, 
e o mais que te parecer^ tudo de oiro de lei t 

Rosa —Bonito! 4.. ficava arranjadinha quando quí- 
zesse achar marido. • . nada, não senhor, isso não t 

Aleixo— ^ Ah! queres um marido?! falia... co- 
nheço um em disponibilidade. . . 

Rosà — Não é por ahi que vaeogato ás filhozes!... 
Isso é lábia que o senhor tem ! 

Aleixo — Eslâ bom ; no dia em que tu me apre- 
sentares alguma prova da infidelidade do senhor Feli- 
ciano dos Anjos, dou-te vinte mil réis em oiro. 

Rosa — Oh! senhor^ isso é tão difficil... todos os 
maridos defuntos são exemplos de virtudes conjugaesf 
YSo lá achar agora... 

Aleixo — Procura, indaga ; s6 não acha quem não 
procura ! Liga-le. com o sapateiro cá da escada. 

Rosa— 'Ai, senhor, já se mudou ; agora é um bar- 
beiro ! 

Aleixo — Tanto melhor ! Um barbeiro d'escada va- 
le por dois sapateiros. Eu também farei o que puder... 



Ó VAIIOO 110 VftKGO. ii 

Vou esquadrinhar por toda a parle... Ahl eís-ac(ui a sua 
secretaria... 

Rosa -^ Está dito; e eu vou dar palha ao barbeiro. 

Aleixo — Promelle-lhe um volume de Chateau- 
briand. 

R(;s\ — Um.. . que vem a ser um volume d'es$a 
coisa? 

Aleixo — E^ um livro de ricas poesias ! 

Hosi — Ora. . . elle não sabe ler! 

Aleixo — E* o único barbeiro. . é o mesmo; ape- 
2ar d'isso bade ser lílleralo. 

Rosa — Era melhor offerecer-Ihe uma garrafa de 
vinho do Porto e quatro latas de sardinhas de Nanlesi 
para os seus almoços? 

Aleixo — Pois sim. 

Rosa — E os vinte mel réis f 

Aleixo] — Estão certos. 

(Rosa sae*) 

SCENA IX 

ALEIXO, depois JOÀO; 

Aleixo — Vamos, vamos... {esquadrinhando a se^ 
trBlariá) Muito alcança quem não cansa ! Ah !. . . estes 
papeis.. . (kndo) «Documentos particulares; receita pa- 
ra pintar o cabello.» Isto não serve ! Vejamos este. «Re- 
ceita para economisar o pau de campeche na tintura de. . 
(largando esles e pegando em outros) «Notas para servi- 
rem na historia da minha vida.v Olá! . . {examinando) 
«8 de Janeiro ; tomei um banho muilo quente. . . que 
me enfraqueceu, e impossibilitou de.. .» 

JoÀo {eMrando) — O senhor doutor Aleixo Teixo 
d' Azeredo Queixo? 

Aleixo —Sou eu ; um seu criado. 



i$ o MAAiDo NO rasao 

Joio (aparte) — E' maior o nome que a pessoa 1 
(alio) Enconlro-0 finalmente. . . 

ÂLCtxo — Em que posso ler o gosto de o servir? 

Joio — Vou expôr-lbe o negocio ent qualro pala- 
vras. 

Aleixo — Se vero para negocio, é impossivei. Ca- 

seí-me hoje. . - e faço feriado. 

jqXq .^ Que lenho eu com isso ? Para um iu<)rido 
iiludido.. . nunca ha feriado ! 

Aleixo — Ah I o senhor é ? . . 

João — Sou, sim, senhor! 

Aleixo — Queira senlar-se. 

João — Não senhor, nao quero senlar-me! 

Aleixo — N'esse caso, não se senle. (senla-se á ser 
crelaria e coniima a ler) c4 de Março: lomeí um ha- . 
nho muito frio.. .» 

Joio {sentando-se junto d'ele) — Senhor Aleixo ; 
minha mulher.. . usa de saia bordada! 

Alhxo — E' moda. 

João — Levanta o veslido para mostrar a saia^ e 

deixa ver o pé. 

Aleixo — Se fossem os dois.. . 

joxo — Pois supponha que são ! 

Aleixo — O caso lorna-se mais aggravanteí 

Joio — Ora, o senhor não ignora quanto é capaz 
de caiísar o pé d'uma mulher l 

Aleixo — Perdão ; ura pé, ou os dois pés? 

João — E o senhor a dar-lhe! supponha que são os 

dois pés l 

Aleixo — D'accordo. Adiante. 

João — Minha mulher principiou a padecer derheu- 

malica. 

Aleixo — Aonde? 

JoAo — Ohl senhor! que quisilia! no pél^ 
Aleixo — Perdão, n'um pé, ou nos dais pés? 
João — Eu ainda não vi homem que mais se eiw 



o lláftllM Ho ^IttOv IS 

gasgue com a questão dos pés ou do pé diurna molher ! 
Supponha que são os dois pés ! 

Aleixo — E depois? 

Joào — Receilaram^me 03 banhos das Caldas* 

Aleixo — A quem? 

JoÂo — Com effeilo ! Pois a quem hayia de ser ? Re^ 
ceitaram-m^os para minha mulher. 

A* EIXO — Perdão, para os pés de sua mulher ? 

Joio — Pelo amor de t)8us. . . cão faltemos mais 
em pés ! Deixe os pés da minha mulher, e escute t 

Aleixo — Queira continuar. 

Jo\o — Banhos das Caldas. Partida para as Caldas^ 
fiquei só, completamente só. 

Aleixo — E* desagradável. E depois^ 

Joio — Com a pedra no sapato andava eu I apenas 
6Ó me vejo, corro, abro o guarda-vestidos^ procuro, re« 
mexo, e... taie ha rato aqui! 

Aleixo — Terdão, aonde ? 

Joio — Este -^ aqui ^é lá no guarda-vestidos : e 
o rato... 

Aleixo {rindo) — Ah ! o rato... 

JoXo — O senhor ri-se de mim ? 1 

Aleixo — Não... rio-me do rato. 

João — Pois senhor, era o tal rato, um cofre de 
ébano contendo trinta e seis a cincoenta cartas d'amor^ 
em que um tal Feliciano lhe fallava do lindo pé, e do 
effefto produzido pelo lindo pé... Oht com um pé de ca^ 
bra precisava elle! 

Aleixo — Feliciano ? ! 

João -^ Tal quaP que a tratava por tu, que lhe 
chamava sua roiinha de toucar^ seu pé dê salsa /... 

Aleixo — Feliciano? mas tal ves o senhor tivesse 
lido mal !... 

Joio (levanãndo-se) •— Senhor I Então eu não sei 
ler? 

Aleixo — Não digo isso... 

JoXo — Então menti ?l 



to o «AlIDO NO PtMO. 

Ai EIXO — Também não; queira escutar... 

João — Sou algum bruto!... algum idiota!... Uma 
esci ipla que nunca mais me saiu da cabeça ! uma lellra 
grande e grossa... que parecia bastardo de rapaz de es- 
cola !... (vendo o caderno que Aleixo tem na mão) Mju 
Deus!... parece-me que a estou vendo... 

Alrixo — Onde? 

João (tvandO'lhe o calema) — Dé-me licença . . . 
tal qual ! E' a mesma ! ' 

Aleixo — A mesma ? ! 

JoAo — Tal qual! E' a lellra do tal Feliciano! 

Aleixo — De Feliciano... será possível?! 

João — Nao ha nada mais certo 1 O senhor conhe- 
ce-o ? 

Aleixo — De visla. . . Ah! meu amigo. . . se sou^ 
besset... Hade enlregar-me as taes cartas, sim? Quero 
^êl-as ao menos; lraga-m'as aqui..; 

JoÀo — Dentro de uma hara estarei de volta com 
ellâs. 

Aleixo - Denlro de uma hora... (principia a dan-- 
çar e a caníar) 

JoÂo — Que diabo tem elle? I... Será doido ! ! 

Aleixo — Ah! meu caro senhor... não faz idéa do 
interesse que me causou a sua anecdola .. 

Joio — Interesse ? I Então o senhor interessa-se em 
que minha mulher... 

Aleixo — Se me interesso I... {dançando e cantan- 
do) Hade jantar hoje comigo. . . O ^nhor foi um anjo 
que me appareceu... Vá buscar as carias... Vá buscar 
as carias... Quer tomar um copo de vinho da Madeira? 

João — Obrigado ; nao tenho sede senão de vingan* 
ca I Diga-me onde pára o tal Feliciano... quero parlil-o 
em dois ! 

Aleixo — Ali o tem, meu aniígo, ali o tem... 

JoXo — Ah! aquelle é o retrato delle?! {arremei- 
tendo o íeiroto) Estás em meu poder ! 



1 



d MAIIDO RO Pik«0. 11 

Aleixo (deUnio^o) — Pof em quanto nadu de vio- 
lências ! 

João — Seduclor! Seduclor! Seduclor!... 

AtEixo — Mais alto, para a sua mulher ouvir... 

JoÂo — E de mais a mais é casado ?! Ah ! tanto 
melhor! Hade pagar a divida na mesma moeda. 

A' EIXO — Na mesma moeda? Isso é mesquinho, é 
baixo... Nao consinto ! A vingança deve de ser grande ! 

Joio -^ Tem razão. Prefiro malal-ol 

Alkixo — Justamente! fdpam) Hade incommoda!-o 
menos. 

Joio — Venha papel e penna ; vou escrever-lhe pa* 
ra o provocar. Veremos se sae á espora. 

SCENA X 

jo .0, 4LBiX0y E 1). Lucarcii. 

D. LuGHi-ciA (se do quarto da di eia^ tnuilo conh- 
mcvila, e li ipando o pranto) — Acabo de contemplar a 
sua casaca... dei-lhc chá... depois tirei-lhe d'algibeira a 
caixa do rapé, meio grosso legitimo, e cheirei .. fprt«- 
eipia a espirrar) Nunca me foi possivel acostumar-me 
ao meio grossp ! 

Aleixo — E' pena ! 

D. Lucrécia — Ahl é o senhor?... 

Aleixo — Sinto perturbal-a nas suas saudosas re- 
flexões ; mas está ali um homem que deseja faliar-ihc a 
respeito do virtuoso ser.bor Feliciano que Deus hnja 1 

D. LuJitEci\ — Um amigo de meu marido?! 

Aliuo — Um amigo intimo! 

D. Lucrécia — Mande entrar, mande entrar de- 
pressa ! 

Aleixo — Eil-o aqui. {mostrando-lhe João) 

D. Lu:iuG A — Ah!... 

Aleixo (a João) — E' a senhora D. Lucrécia dos 
Anjo5, 



tt •' HAllDO NO raMOr. 

D. Lgcregi\ {fa:íendôumameiurà)^^\Jm^$nhcm^ 
da', (a Aleixo) Queira dei\ar-nos um momento. 

Aleixo {á;ar!e) ^ Isio hade ser muito bom : vou 
espreitar para rir. . . e evitar que o tal amigo se pague 
tia mesma moeda t {corteja e deiapparece pelo fundo) 

SCENA XI 
Joio, D. Licieru, e aleixo occuUo. 

D. LuGiiECiv — EnlSo v. s.* conheceu aquelle vir- 
tuoso homem ? Foi seu amigo ? 

João — Amigo d'elle?l O seu marido, minha se- 
nhora, era um libertino! 

D. Lig:'.ec!A — O senhor Feliciano dos Anjos! 

JoXo — Enganada! E' um seductor! 

D. Lucrécia — Oh! que calumnia lerrivel 1 

João — Tenho em meu poder trinta e duas cartas 
eseriptas pela sua própria mão... e para cumulo de im- 
moraiidade/dirigídas a minha mulher!... 

D. Lu:re;:ia — E' impossível! quero vèl-as. Ondo 

çstSo ? 

João — Em minha casa ! Vou buscai* as. 

D. LccRKciA — Repito que é impossível ! 

João— Impossível ? ! Verá ! Até lhe chama por tu ! 
chama-lhe o seu pésinho de salsa! 

D. LicRBciA (despei'aia)—Qw escuto 1 O nome 
que lambem me dava ! ? Deus meu... que não sei o que 
sipto., E' um golpe terrível! {caindo no sophá) Ah!... 

Joio — Desfallece... Oh ! não ha duvida..- éencan- 
ladora !. . . Se eu applícasse ao tal Feliciano a pena de 
Talião... 

Aleixo (entreabrindo a poria e deitando a cabeça) 
— Que significa este silencio t f 

João — Está decidido, vou vingar-me t (toe abra- 
ç r D. Lucrécia j mas suspende-se á voz de Aleixo » que 
vetn CO rendo) 



o MABIDO RO TMIÍM. SS 

Alkixo — Alio lá! alto lá. . . E* p(jphibido cada qual 
pagar-se por suas mSc^ i 

Joio — Que leni o senhor com isso ?. . . Melta-se 
lá com a sua vida ! 

Ai.Bixo — MellOj sim senhor, e é por isso mesmo 
que não consinto ! Yá-se embora. . . se nao quer obri- 
gar-me a algom extremo. . . E esta ! ? 
Já lhe disse... rua ! rua 1 
Cada um manda no que é seu I 
NSo lhe empeço que se vingue 
Mas primeiro cá 'slou eu ! 

João. 

Rua? rua? Vou puxando ! 
' Já vou as provas buscar! 

Mas primeiro da vingança 

Um signal quero deixar f '{quer beijar D. Lu- 
crécia, Alefiro eviía; luclamesaem pela fundo ; a porta 
fecha-se Cvm es rondo : D. Lucrécia desperta) 

SCENA XII 

B LUCRÉCIA, depois ROSA. 

D. Lucrécia — Malvado i... E eu que andava com 
a sua memoria em panninhos quentes 1. . . Chorando de 
noite e de dial.. . Canalha! 

N'esta vida é tudo engano ! 

Sj cautela nSo ht mal ! 

O mais sincero é magano, 

O mais fiel desleal! (dvigindo-se ao retraio) 

Trahias-me sem consciência 

Ó velho tonto e venal, 

E rias da minha innoceneia 

Lá com a tua bachanal ? 

Pois verás que sem clemência 

Heide prefrir-te o rival ! {tocando o timbre) 



Rosa (apparecendo) — Minha senhora ? ; 
D, LccRic.A (iniicando o relraio] — Despendura^ 
ice (i'alí aquiilo. 

Rosa (ápar/«) — Bravo 1 E!la já chama aquiilo ao 
rejralo l ? 

D. I^u:begia (enxugando o$ <lhos) — Malvados! 
hypocrilas!.. . {rindo) Muilo bm\ ficabo hoje o meu 
julo, {sae pela ergueria J 

SCENA XIII 

fiOSA, E A{.!:UQ. 

Rosa — Bonilot segundo a minha fraca opioiito., , 
é nada menos do que uma bermrda á poria fechada ! 
Ksle pobre marido que estava ha lanlo lempp no pre- 
go. . . Ora n^o ha ! Bem dizia çu que nao havia de pa^ 
rar aqui muilo Icmpo! Nada, islo foi coisa que o outro 
achou algbm meio de lhe provar que um marido em 
Tullo valia muilo mais do que um marido pinlado. Va- 
mos, dcspenduremos o patrão, (subindo a uma cadeiía) 

Aleixo (entrando) — Cuslou-me a livrar d'ellc! 
(vendo R>sa) Ó Rosa, que fazes tu ahi? 

Rosa — Vou apanhar o senhor Feliciano dos Anjos 
que já está maduro. 

Amíixo — Pois alrcves^le.. . 

Rosa — Nâo lhe dê cuidado; foi a senhora que 
piandou. . 

Aleixo -- Mandou 1 ?... Ah ! enlao... dès^^e d"ahi... 
nao queiras roubar-me simiihanie prazer ! {sulindo á 
cadeira de qve desceu Rosa) 

R)SA — Sim, sení^or, 6 muilo justo. Suba lá. Mais 
vale um gosto que quatro vinténs I 

Aleixo — Já era tempo I. . . Irra !. . . eslá ferrado 
com unhas e dentes.. . Ah 1 cil-o emfim! Abuixo os fe- 
lipianQ^I. , , 



o VABIOO MO PIMO. 95 

Rosa — » Acima os Aleixos t. . • 

(Aleiío tira o painel e prÍDciph a correr com elle pela seena» imU 
taodo o tom da trombeta. Rosa ri a bandeiras desprcfidas, alé 
que eile atira com o quadro para um canto e cae esla^do sobra 
osopbá.) 

Aleixo — Vicloria ! Viclorial Vicloria I 

Rosa — Palavra que lenho medo quo endoideça 1 

AiJ&ixo {hva»landose) — Também eu! Ah i se lu 

soubesses, Rosa !. . . Eslou prevendo um horisonle im- 

menso de amor e de felicidade 1 Rosa, úí-mt cá um 

abraço ! 

Rosa — Porqiie?! Também eu enlro na conla? 
Aleixo — Finge que não é nada comligo... Oh!..* 

sim. . • os abraços hãode ser assim.. . loucos... phrene- 

licos.. . delirantes! {'ihraçandoá) 
Rosa [grilando) — Ai ! 

s:ENA XIV 

oi MESMOS, BBKUTo com um jornal, 

BniTO {rendo Aleixo abraçar Rosa) — Bonito I faz 
fa^or de nSo se incommodar. . . 

Aleixo — Ah! ^vendo lituio) Julguei que era al- 
guém 1 

Bauo — Não é ninguém, não senhor, sou èu que 
vou levar o jornal ao senhor Feliciano dos Anjos. Con- 
servámos-lhe a assignalura d'eeti folha tal qual.. . 

Aleixo (interrompendo-o) — Não principies com as 
luas brutalidades do costume.. . 

Bruto — Sim, senhor, eu é que as tenho! O que 
eu >i ainda agora... 

Rosa — Então que >iu vocè?!... 

Broto [arremcdando-a) — Então que viu você. . . 



i€ ^^ MAftlOO HO HIMO. 

sor. . . diga» diga. . . chamc-me bruto á sua vontade, 
chame. 

Rosa — Bruto á miniia voDladd. . . se você sou- 
besse qual ella era... 

BiiuTO — Faço idéa... 

Aleixo — Chiton t está tudo acabado 1 

Lruto — Eu julguei que ainda agora principiava... 

Au ixo — O teu oflScio de zelador ^ meu amigo^ es- 
tá acabado ! S;be para teu governo que te ponho na 
rual 

Rosa — E' muilo bem poslo... 

Bruto— Sim? pois se a senhora soubesse... que- 
ríamos \er se você não era lambem muito bem posta... 

Rosa — Olhe, senhor, nao ouviu? foi procurar ro- 
deio para me chamar jiosa! Posia, \eja lá como falia, 
ou\iu? 

^ Almxo — Põe-leao fresco. 

Brito — Eu nao recebo ordens senão do meu ver- 
dadeiro amo. 

Aleixo — Bem lembrado ; é uma excellente lábia 
para me ficares elernamenle em casa t O teu amo aca- 
bou-se, gastou-se... 

Bruto — Gastou-se ? 

Almxo — Gastou, sim! gaslei-o eu t Engoli-o... 
traguei-o ! 

BiicTO — Tragou-o ? 

Albixo — Era um farçola... Olha, se queres que 
te pague o mez por inteiro,* conta-me alguma das suas. 

Bruto — Senhor, um Bruto não traho seu amigo, 
morre por elle ! 

Aleixo — Ah I sim ? pois vae puxando I Rosa, leva 
este i*etrato para a agua furtada. 

Brito — Para a agita furtada. . . Senhores, isto é 
nada menos do que uma profanação I 

AiKixo — Deixa ser. Vae arrumar o bahu, c p5e- 
le ao fresco. Tenho dito ! 



a VAMAO HO MIlMb . Sf 

BaiiTO. 

Ver assim, quem tal diria. . . 
Seu retrato profanar! 

Rosa. 

E' bem feito ! eu bem dizia 
Que isto havia assim parar ! 

Alrixo. 

Hoje revive a alegria : 
Vae esse gebo queimar t 

B.iUTO. 

Mas senhor» essas maldades. . . 
Que hade a senhora dizer ?f 

Aleixo. 

Nâo' digas brutalidades; 
Que te imporia o que disser? 

Põe-le na rua, 

Bruto. 

NJo quero pranlar ! 

k verdade nua» 

Já vou contar 1 {repele) 

(Rosa sae pelo fando. Bruto pela direita, D. Lucrécia entra 

pela esquerda.) 

SCENA XV 
ALEIXO, X D. LCGRBCU vostida do còr de rosa. 

Albixo — Respiro . . Consegui limpar alguma coi- 
sa a praça ! 

D. Li^cisE^iA — Ah. . . ah. . . ah t. . • não sei o que 
lenho. . . Ha um quarto de bora que estou perdida de 
riso!,. . Naturalmente é nervoso! 



f t • MAM1D0 NO Fano. 

Auixo — Pravo! vestida de cõr de rosa... {ápar- 
te) Bom signal! 

D. LCGBFVU. 

Esta cõr diz alegria • 

Ah! ah! ah i ah! ah! ah! ah!... 

Aleixo. 

Parabéns i quem lai diria. . 

D. LUGREGU. 

Ah! ah! ab! ah! ah! ah! ahi... 

Aleixo — Gomo é bonito ver rir uma mulher en- 
cantadora!... Bia-se. minha senhora... ria-se muito... 
D. LuciiEGL\ — Riamos ambos ! 

(Riem muilo.) 

Aleíxo — Então eslá dilo? 
D. LiciiLGU — Dito eslá! 

Aleixo. 

Que prazer, que alegria. 

D. LUCRI:CL\. 

Ah ! ah ! ab ! ah ! ah ! ah ! ah ! 

Aleixo. 

* 

Parabéns ! quem la! diria ! 

D. Lucrécia. 

Ah ! ah ! ah ! ah I ah ! ah I ah ! 
Sen te mo -nos. 

Alhixo — Com muilo goslo, senhora D Luciecia 
dos Anjos. 

D. Lu :;í::i\— -Lucrécia dos Anjos? Oh I 

A LKixo — Recordo magoas ? 

D. LucRECu — Não... Chegue-se mais. (senlando- 
se) Nio ha que duvidar.'.* o passo eslá dado. 

Aleixo — Creio que sim. (recuando a cadeira) 



o MAMIDO MO PMI«0« 9f 

Dé LiiCRiGu — X3o parece! Apenas dos conhece- 
mos. 

Aleixo — SuperRcíàlmentc. 

D. LccRBCiA — Aleixo, lenho de lhe fazer confi- 
dencias. 

Aleixo — Escuto! 

D. Lu^i;E^u — Jesus! seria preciso grilar.. . 

ALBixo--Aqui estou, {aproiimaado a eadeva) 

D. Lu.iRBciA - Olhe.. . d*este lado, não ; do ou- 
tro. . . 

Aleixo — Obedeço : mas porque hadoser doeste la- 
do? será possixel saber? 

D. LvGR£GiA — Era d>stc lado que... que elle 
também escutava as minhas confidencias. . . 

Aleixo — EnlSo, se me dá licença vollo para a di- 
reita, {passandj rapidamenie para a direita d'$*la) Ou- 
ço melhor d'este ouvido. Queira pois dizer. 

D. LicRECiA — Aleixo.. . é sentimental? 

Aleíxo — Eu?.. . isto é . . com melhodo e manci- 
ras bem entendido! 

D. LccREcu — O seu coração faz versos? 

Aleixo — Versos, o meu coração? Ah! sim; so« 
nho um viver que nSo é vida.. . sempre o mesmo. » . 
Nâo 1 não é isso ! (aparte) la-me confundindo com Ber- 
nardim! (a//o) Sonho... viver continuamente... conti- 
nuamente viver .. àroda d'um Is^go azul, ásombra d*u- 
ma mulher verde... 

D. LvcaBciA — Uma mulher? .. 

Aleixo — Perdão... equivoquei-me I os arrojos do 
coração teem disto ! Eu queria dizer á sombra d'um 
bosque verde... e abraçar minha mulher... beijar meqs 
filhos... 

. D. LccRBOíÀ — domo é palheticot Ah!... combina- 
mos perfeitamente 1 ainda agora reparo ! 

Aleixo — E' exquisíto . . 

D. Lucrécia — £ não hade enganar-me? 

Aleixo — Eu? juro-te que não ! 



o IIAtt»0 HO Mtf40* 

D. Iccmc:a — Sou feliz!... (olham-se pormbmen* 
tos e desatam a rir) Que mulher que eu sou ! quando 
amo... é assim» é com pai&ãol com .. furor t 

Aleixo — Approvo^ gosto d'isso. . . sejamos furlo-^ 

SOS. 

D. LuGREcià — Com furor ! 

Aleixo — Com furor i 

D. LtJCBECiA {desconsolada) — Que furor Ião frio. 

Aleixo — Acha? E' lodo cá deulro. Eu ardol 

D. LuGRsciA — Ardei 

Autxo — Ardo, sim, senhora D. Lucrécia dosAn-^ 
jos! 

D- LicRfiCiA — Por me fazer chorar... não? 

Aleixo — Ah! desculpe... era costume... 

D. LccRBCiA '^ Ninguém dirá que sou sua mu- 
lher ! 

Aleixo — E porque nSo ? Essa é boa 1 Se nos vis- 
se nã... (abraça-d) 

D. LuGRBCià — Hasde amar-me sempre ? 

Aleixo — Sempre* 

D. LccREciA — Pr jmetles ? E eu quero consagrar- 
me á tua felicidade. Então» nao dizes nada? Abra- 
ca-me ! 

Aleixo — Mil vezes* {ahraça^-a) Estás satisfeita? 

D. LuGBBGiA — Eu? não; e tu? 

Aleixo — Eu... 

D. Ldgrecia -^ Abraça-me. 

Aleixo [aparte) — Jesus I mal me deixa respirar. 
Vou fazer-lhe provimento d'abraços para todo o dia. 
[abraça-a repetidas vexes) - 

D. 'Lucrécia — Agora, senta-le ao meu lado: diz- 
me muitas coisas agradáveis... Quero que me digas va^ 
rias coisas. 

. Aleixo — Pois sim ; que queres que te diga? 

D. LrcRECiA — Que me tens muito amor. 

Aleixo — Isso entende-^se. 

D. LicREciA — Quero ouvir ; quero que m*o digas. 



Albixo — Esiá dito! 

D. Lucrécia — Mas tu não m'o disseste I 

Aleixo — Disse, está dilo# amo*le muito. 

D. LucKEcu — Então abraçanne... 

Aleixo — (aparte) — Que tal está o da rabeca?! 
{aUo) Pois sira, querida. • . minha querida, meu anjo... 
anjo meu t (abraça-a) 

D. Lucrécia — Aujo teu ! Ah !.. . 

Aleixo — Que é?. . . 

D. Lucrécia — Vou desmaiar. . . sustém-me t 

Aleixo — Aqui, aqui n'este sophá. . . Dasmaia aqui, 
minha querida, em quanto vou buscar um copo' d 'agua. 

D. Lucrécia — N:ío é preciso; volto a mlml Oh! 
repete-roe. . . Espera, hasdo repetir. . . 

Alrixo — O que? 

D. Lucrécia — Xada ; hasde-me dar o teu retrato 
a oleo, com o código na mão, com moldura doirada.. • 
quero pôr-te n'aquelle prego. 

Aleixo — No prego ? {aparte) Pareae que tem a ma- 
nia de pôr os maridos no prego! {alo) Prefiro Gcarahí 
em cima de qualquer mesa ! 

D. Lucrécia — E as baralas ? 

Aleixo — As baralas? 

D. Lucrécia — Por Ires vezes roeram o nariz d'a- 
quelle. . . Ai que táialembrando-me d'ell6. . . por amor 
de ti! 

Aleixo — Agradecido! basde convir que foi por amor 
das baralas! 

D. LrcRECiA — *Não ha tal! se não teimasse.. . 

Aleixo — Em que? 

D. Lucrécia — Em não querer que o poltba no 
prego I 

Aleixo — Eu nao teimo ; digo que não quero, e 
não quero ! 

D. Lucrécia — Hade querer I 

Aleixo — Nesse caso nao consentirei que me re- 
tratem. 



Bit o MAMIDO MO rtUO. 

D. LucttBCiA — Ha arlislas que sabem furtar relra^ 
tos. 

Almxo-^Isso, minha senhora, não são artistas, 
s&Q ladrOes! e eu \ou já escrever á família pedindo-Iha 
que esconda o meu retrato que lá está ! 

D. Ldcrbcu — Não \á, não ^à; eu cedo. 

Aleixo — Está bom ; nno ireL . . 

D. LucRseiA— Então onde vae? 

Alkixo — Deixe-me passar.. . por quem é. . . 

D. L( cr: CIA — Hade dizer-me onde vae. . . 

Al £1X0 [aparte] — Estou n'um lago d'agua! (alo) 
Vou. . • vou vestir um palelot. . . vou a casa de um ho- 
mem a quem lenho de fallar... 

D. Lucrécia — Ilasde vir abraçar-me antes de sair. 

Aleixo — Venho, lá isso venho. 

D. Lucrécia — É quando voltares, sim? 

Al EIXO — Também ; descansa ; antes e depois, de- 
pois e antes, a todas as horas, a todos os momentos. .^ 
sempre 1 {aparte) — Oh! isto 6 de mais; enfastia... ti- 
ra a vontade 1 

Se isto assim vae noite e dia. 
Não sei que de mim será ! 
O excesso em tudo enfastia... 
Trá, tra, tra, Ira, lá, rá, lál 

D. LUCBCCIA. 

Esse tempo que eu perdia . 
E' precise ganhar já ! . 
Cesse o pranto, haja alegria. w 
^ Tra, tra, tra, Ira, lá, râ, lá ! 

Ambos. 

Tra> tra, tra, tra, lá, rá láí... 

(Aleixo sae pela direita.) 



6 «AUBO nó HmA6. fi 

SCENAXVI 

D* LUCABCA, E BRUTO. 

í). LncRKGU — Ma& nSo sei o qtid lhe acho. . . pa- 
l^ece-roe timido i qual !. . . que será ? 

Bruto (entrando com um emhrulhB no lenço) — Mi- 
ilha senhora. . , venbo dízer-lhe adeus. Já lá vae aquel- 
le... aquelie que acolá estava n'aquene prego... e eu... 
eu*. . eu... 

D. LuGRFcu — Prohibo-lhe que me falle d^aquel- 
le. .. 

Rrlto — D'aq«eUe?.. . Ah! d^aquelle.. . 

D. Lucrécia — Sim I d'aquelle. . . 

Bruto — Está dito.. . d'aquelle I. • . 

D. Lucrécia — Pois se está dito, melhor! 

Bruto — Fiquemos n' aquelie. 

D. Lucrécia — D'aquella, cigano! 

Broto — Cigano!.. * [chorando) 

D. Lucrécia — É já que tu eras o seu confidente» 
ò seu espertalhão» o seu baboca*. . anda com a trouxa ; 
vae puxando ! 

Bruto — Mas primeiro ê preciso prevenir a senho* 
ra. . . 

D. Lucrécia -^ N&o quero ouvir ! 

Bruto — Que o senhor Aleixo.. . Adeus minha se- 
nhora I 

D. Lucrécia — Espera, que dizes ta ? 

Bruto ^— Eu? digo-lhe adeus ... 

D. Lucrécia — Antes d'iaso.. • que disseste? 

Bruto — Disse. • . que ia prevenir a senhora.. 

D. Lucrécia — tal qual ! de que ? 

Bruto — De que me vou embora reboiiodo. • . por 
ahi fora. . . 

D. LucaieiA-^-NSo!.. . tu disseste mais alguma 
coisa t 

I 



M a IIABIIK) HO FBK«»* 

D. LucftEciA — Agora aao. 
Aleixo — Como assim ?. . . 
D. Li}CRBciA — Será possível saber onde leociona ir ? 
Aleixo — Nada mais fácil : a casa do meu alftiiale. 
b. Lucprcu — Já se \ê ; pretexto para sair.., pois 
não hade sair! 

Albixo — Ora. . . preciso de ir encommendar-lhe 
falo de inverno. . . disse-lhe que lá ia ás três horas. , . 

D.^ Lucrécia ((lrand(hlhe o chapeo que atira para 
o sophá) — E eu digo-lhe que não hade ir ! 

Aleixo — Enlao. . . então. . . o meu. chapeo novo! 

D. LucRLciA — Ha muitos 1 e como o senhor ain-» 
(]a ha mais. 

Alfjxo— Chapeos? (áparie) Que tem ella? 

J). Lucrécia — Se precisa fallar com o seu alfaiate, 
escreva-lhe, mande-o cá vir. 

Aleixo — Que idéa I Um alfaiate já nSo vae a ca-^ 
sa do freguez.. . senão para lhe pedir., . E de mais, 
querida, ando tomando banhos, e de caminho vou á 
barca. 

D. Lucrécia — Ah! também eu os ando tomando; 
temos tina e agua salgada em casa. {tocando) 

Brcto — Minha senhora? 

D. Lucrécia — Vá preparar o banho d'agua do mar 
para o senhor. 

Aleixo (aparte) — hlo é de mais! {alio) Queria 
também passar pelo'cabelleireiro,. . 

D. Lucre::ia — Pelo cabelleireiro?.. . [tocando) 

Brdto — Minha senhora? 

D. LucRKciA — Mande chamar o cabelleireiro para 
pentear o senhor. 

Brcto (áporle) — Anda lá. . vae-le amanhanàocora 
essa cabellcira !.. . (sac) 

Aleixo — Muilo bem ; agora mande-nie prender pe* 
lo pé, se lhe parece. . . 

D. Lu Rv:iiA — Não é necessário. Estarei semprç 
(Jc olhos abertos. . . ao sju lado.. . 



1 



• «aum Kd nono.' ff 

Aleixo «-Tattben no banho f 

D. LuGRLGiA — Advírto*lhe que nÍo gracejo! 

Aleixo — £' impossível.. . 

D. LucRRciA — Díga-me ; desde que estamos casa- 
dos nào tete.nada de que o accuse a consciência? 

Aleixo — Eu ? quando ha apenas meia hora que 
nos casámos. . . 

D. Lucrécia^— E' capaz de jurar? 

Al«ixo~ De certo !•• . juro 1 

D. Lucrécia — Oh! é realmente uma infâmia! 

Aleixo — Minha senhora, queira explicarsel 

D. LucRE^ià — Também Feliciano dos Anjos jura* 
va com o mesmo sangue frio !. . . lambem elie me abra^ 
cava assim, dando-me os nomes mais ternos que sabia ! 

Aleixo — Feliciano era um hypocrita 1 

D. LuGHBGu — Nunca julguei que um marido fos- 
se capaz de enganar sua mulher.. . tal era a minha In-* 
nocencia I nem mesmo sabia o que era o ciúme. . • lau- 
to eu confiava no omor t Porém hoje. . • boje., . Oh I o 
senhor deu-me uma lição exemplar ! 

Aleixo [aparte) — Enlao que diabo fiz eu ? 

D. Luguecu — Hoje não acredito já em ninguém ; 
nem no senhor, n3m n'elle.. . em ninguém! 

Aleixo (áparle) — Será doida? 

D. L' GRÉCIA — Saiba pois que a contar de hoje, 
nunca mais o largarei I heide ser a sua verdadeira me- 
tade f seguil-o, observal^o, espialo. . .Tem ahi a sua 
bolsa de dinheiro? 

Aleixo {aparte) — E' doida , decididamente ! passa 
por este modo de umas ídéas a outras I (alio) Quer « 
minha bolsa de dinheiro? 

D. LucKEGiA — Se faz favor.. . 

Al EIXO — Pois não; eil-a. {enirega-lh^a) . 

D. LiGHE^^.iA — Muito bem, aqui tem.. . cinco tos- 
tões. 

Aleixo — Cinco tostOcs? para que? 



tt o MAUDO NO mae. 

D« LucRBciip — Dar-lh^hei outro tanto lodos os sab- 
bados. Hoje é sabbado, nSo é ? 

Aleixo (rindo) — Bravo. . . dá-me cinco tostSes pa- 
pa bolos. . . Ora mande-me agora à escola com o cesti- 
nho da merenda no braço; mande, mandai E' o que 
$il(a. 

D. Lucrec:a — Emquanlo & chave da carxai conti- 
nuarei a guardal-a. 

Aleixo — Mas permilta-me adverlir-Ihe, minha se-? 
nhora*. . 

D. Lugric:à — Escusa dizer coisa alguma i Sei tudo ! 

Aleixo — Perdão, parece ignorar completamente 
certos deveres. . . 

D. LuGRBcu — De me deixar enganar em todo o 
sentido, não? meu rico, isso foi tempo I 

Aleixo ^^ Um marido é senhor de sua mulher.. . 
e. . • 

D. Lucrécia --r Que quer dizer ? 

Aleixo — Pode abraçal-a á sua vontade i (finjimfa 
que vae abiaçal-a) 

D. LuGREcu — Não me toque, senão. . . 

^LEixo {áparíe) — Bravo... creio que vae aqui ha-j 
ver sí|co í 

SCENA XVIII 

os MESMOS, E ROSA, 

Rosà — Está ali uma senhora que quer fallar so 
senhor. 

D. LiCRtciA — Uma senhora ! Ah ! já ellas o pro^ 
curaiíi.. . Vamos, diga quem é essa tal senhora que o 
procura, senhor Aleixo? 

Aleixo — Essa é melhor I se eu aiuda não \i quem 
é!? 

D. LucRbCu — Ah I não queres dizer ? 

Aleixo — Cum a fortuna I pois eu adivinho? 



D. LuGKscu — Não quer dizer qiftm seja ? 

Aleixo — Pois sim, digo.. • ea voa ver.. . 

D. Lcgri:c;a — Espere! Sou en que quero rece- 
bel-a. 

Aleixo — Receba. . , 

D. LucREGiA (aparte) — Deixal-ossós... [alto) Rosa Y 

Rosa — Minha senhora? 

D. LvcRBciA — Mande entrar a lai senhora para q 
meu gabinete. 

SCENA XIX 
ALEIXO» depois aos A. 

Aleixo — Com trinta mil qfiacacost se ist) assim 
vae.. . depressa me farto; porém que mau torto me viu 
que tudo assim torto me tem corrido?! Que diabrura 
fiz eu?.. . Ah ! já sei ! despendurei o Feliciano, calurn^^ 
niei-o, accordei a suspeita, exaltei o ciúme, e eil-os ago- 
ra comigo.. . é o que hade seri Estou prompto!.. . 

Rosa (mtravdo apressada) - Senhor? seqhor? 

Aleixo — Que ha de novo? 

Ro^A — Jesus ! o que lá vae no gabinete I. . . 

Aleixo -^ Falia ; e a tal mulher, quem é? que 
quer ? 

Rosa — Chama-se. . . é a baroneza do Rio Secco. 

Aleixo — A baroneza.. . A miQha melhor cliente, 
com uma demanda infinita i.. • ' 

Roa — Pois sim.. . a senhora fel-a boa ! se tives- 
se ouvido.. . aié lhe chamou eu sei cá . , 

Aleixo — Eu sei cá!.. . 

Rosa — Isto digo eu de mim para mim ; chamou-^ 
lhe m'ysquinla mo7*ta ! 

Allixo — Mosquinha morta, à baroneza que é viva 
como . . Ah ! se eu lá não vou. . . 

Ri SA — Vá, que xae tudo pelo pó dó gfilol 



SCENA XX 

os atCSMOSy S o. LUGRECÍà. 

D. Lucrécia (ópafte) — Cá estavan juntos! 66 eu 
parecia adivinhar isto mesmo, (alio) Que dísia o seuhor 
a esta rapariga? 

Aleixo — Eu, nada ! 

D. Llcreciv — Sira ! {a Rosa) Vae-te. (Rêia sae) 
K Está muito agitado, senhor Aleixo, passeia tanto. . . 

Atfeixo — Agora, minha senhora, é preciso que me 
explique o seu comportamento com a baroneza de Rio 
Secco . 

D. LfCREGi — Peguei-lhe pelo braço, e pul-a na 
rua i 

Aleuo ípasseiand» aguado) — Pude limpar. a mão 
â parede I 

D. LcGRBGiâ — E de boje em diante quero receber, 
todas as pessoas que vierem procurai-o. 

Aliixo — Se é pnra as tratar de simiihante modo, 
perca d'dhi o sentido t 

D. LuGREcu — Se eu tivera leito outro tanto com 
o tal senhor Feliciano dos Anjos*. . 

Ajleixo — Pelo amor de Deus, minha senhora, não 
me quebre mais a cabeça com esse homem ! (ápane) Ê 
definitivamente necessário rehabilital*o e mudar de tá- 
ctica, {alto) Minha querida, quero confessar-te uma coi- 
sa..'. 

D. Lucrécia — Ah. . . 

Aleixo — Enganei-le ! 

D. LcJGRtc A — Sim?l.. . 

Aleixo — Confesso que tudo quanto d'sso a respei- 
to delle, foi calumnia, gracejo.. . invenção. 

I). LiGRLGu — Com que fim? 

Aleixo — Ora. . . para passar tempo. E tu acredi- 
taste a« serio ?. . . 

D. Llcklc.a — So acreditei ; ainda m'o pergunta ! 



Aleixo — Tonliaba! Maridos iafiebé coisa que nSo 
ha ; só no Ihealro é que vemos isso para realçar o eo-^ 
redo das peças. . . mas i>o moDdo, nos usos da vida.. . 
(rind^) Qual historia t 

D; LucRLGiA — Sim? eaquetle homem qoe me fál^ 
lou de nao sei quantas cartas. . . 

Aleí\o {rindo) — Nilo adivinhaste quem era? um 
pobre barbeiro a quem promelli uím libra para repre^ 
sentar aquclle papel. 

D LcGnECi\ — Sjrá possível. . , ^ 

SCENA XXI 

* 03 ME£MOS, E JOXO GEí^AR FERNANDES. 

JoÂo — Promplo, promplo.. . vim a galope! 

A1.BIX0 (ápaf ie) — Não ler tropeçado e quebrado a 
cabeça !. . . 

D. LiCREciA (áp irle) — Ah ! é o lai barbeiro. . . 

João {Irando da algibeira um maço de carias) —* 
Aqui trago as lues sugeltinhas. 

Aleixo (á;ja Vj) — Estamos servidos, (alh) Está 
bom... esla senhora já sabe tudo; o seu papel acabon-se^ 

JoÃi — Quaj papel? 
, D. LccBE.iA — Dè-lhe a meia libra e mande^o em* 
bora. 

Suo —-Meia libra .. e mande-o embora!? 

Ale xo (rccebenlo meia libra da mào de D. Lucre^ 
cia ^ qucrjnlo d.l-a a /oaí^) — Sim, sim.. • aqui tem 
o seu di^ibeiro^ e passe muito bem. 

Ji)Xo — Eu nào careço do seu dinheiro, a minha 
fortuna nào é ahi uma bagatella. . . tenho duas tendas, 
uma confeilaria. . . e faço descontos. Se não sabe a quem 
falia, Cqtie sabendo : e se não quer encarregar-se de 
instaurar o rneu processo, diga-o já sem mais rodeios, 
para' meu go^c^no| 



|3 o HAMDO NO FftMO. 

Aleixo — Muito bem... queira procurar outra pesk 
soa* . • 

Joio — Agente pelo fallaré que se entendei Saúde. 

D. LuGREGiÀ (delendo-o) — Um momento. Queira 
entregar-me essas cartas. 

A LBixo {aparte) — Estou perdido. 

D. LucHbCiA — NSo sei o que me adivinha o cora* 
çSoi {examinando as carias) Ah ! Deus meu !.. . eslas 
expressões I. . . estas phrases 1.. . 

Aleixo — O que? 

D. Lucrécia — Eslas cartas. . . sao as mesmas : as 
mesmas que elle me tinha escrípto.. . e que eu tinha 
confiado aos cuidados de uma das minhas amigas cha* 
mada Rosalina. 

Joxo — Rosalina é o nome de minha mulher ! 

D, Lucrécia — Tinbim-me prohibido lerc^tascar^ 
las, porque me faziam mal aos nervos, tanto eu me com* 
movia ao 161-as ! foi por isso que as dei a guardar a Ra* 
salina... Ah! Feliciano está innocenlel.. Eu bem sabia 
que elle nunca me foi infiel !..; 

Tooos — Santo homem I 

D. LucREri\ {para Aleixo) — CalumniadorI 

JoAO — Com a fortuna ! E cu que escrevi a minha 
muIhcT uma verdadeira verrína conjugal '. . . Corramos 
no fio eSccIrico para reparar a oíTensa... Corraníos! {(or- 
tejando com pressa) Minha senhorn... Meu senhor. . (sae) 

D. Lucrécia — Ah I é preciso pôr immediutamenle 
o retrato de Feliciano no seu logar. 

Aleixo — Nâo me opponho, minha senhora ; po- 
nhamol-o no prego quanto antbs. 

SCEN V XXII 

os ME-Mos, BMTj DA ROCHv com O rolralo, 

c depois uoj\. 

B-UTO — Aqui eálá o innocente pedindo juslica. 



o MABIDO NO m«0. 4t 

Aleixo — Que nobreza de cara ! NSo ha n^aquelle 
todo um gesto que não seja um característico d'aiguma 
Tirlude I 

Bruto — Tinha muitas! 

Alf.ixo (dando um pontapé em Biulo) -^ Bem se \d. 

D. LucRBciÀ — Ah t vou ler todas as suas carias I 
(a Aleixo) Boa tarde. 

/leixo — Boa tarde! Oh! permitta-me» por quem 
éy que a acompanhe. Offereço-me para fazer a leitura. 

D« Li CRBciA — E' impossível ! Bem sabe que fiz um 
juramento!... 

Aleixo (ápa te) — Bonito, começa a historia do ju- 
ramento, (alto) Pois bem^ não faltaremos senão do se- 
nhor Feliciano dos Anjos, e das suas mil e uma virtu- 
des. 

D. LocBEcu — Exclusivamente? 

Aleixo — Exclusivamente, compteíameníe I 

Ro3A {entrando — Senhor, o banho está prompto, 
e o cabcileireiro chegou agora. 

Aleixo — Sim? pois diz ao cabelleireiro que se 
melta no banho. 

Brcto [a D. Lucrécia) — Continuo a preparar-lhe 
todas as noites o seu copo d^agua com assucar? 

D. Lucrécia — Todas as noites, sem a menor dif- 
ferença... 

Aleixo — Excepto que sou eu que o devo tomar. 
(ao publico) 

■ 

Fiz uma promessa insensata, f 

Que eu não sei se posso ou nSo, 
Junto d'ella, á concordata 
Subjeitar o coração i 



Mas no fim de nove roezes 
Venham cá que eu lhes direi 
Se apezar de taes revezes 
A promessa sustentei!... 



s 



fí 



\ 



• -, 



44 •• «AtiM m PMêé* 

Por ora nSo digam Mda..« 
S6 se qaerem applandir 
Do meu consorcio a farçada 
Que nio sei se vos fez rir ! 



Cae o panno 






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vida, drama em quatro actos, e duas épocas, precedido de um pro- 
logo. 

Carlos ou a Familia de um Avarento, comedia em quatro ac- 
tos. 

Os Brasões das cidades e villas dePortugal por I. deV. Barbosa. 




A MÁSCARA SOCIAL 



COMBDIA HBAMA ■■ TWB« ACT#S 



OHIGINAL 



POR 



AiPREDO HOGAN 




LISBOA. 

TfrMtAPBU DO PANOIAMA, 

frooMM da Vietoria, 78. 
i861. 



^M* 



OBRAS DK QUK A. J. f/LOPES £ EDlTOa. E SE VENDEM 
NA SUA LOJA. RUA ÁUREA )Y.* 132 E (33. 

. Panorima, semintrio de ioslracção e lítteratura, fundado em 1837 
Uma colecção de 15 folames, sendo o preço em pape) 22:000 

Encadernada 27:000 

Ulnstração Lftao-Braii leira, periódico universal, col labora- 
do por muitos escriptores díslinctos. Tem completos três 

volumes, sendoQ preço dos trea em papel 11:600 

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do do original latino para verso portugoez — 2 vol. 8.* 800 
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mens de Mármore) 1 vol. 8.* francez 300 

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Pedro, drama em 5 actos, 1 vol. 8.* francez. Preço... 400 

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Memorias de litteratura coutemporanea, 1 vol. 8.^ fr 720 

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Poesias, 3.* edição, correcta, 1 vol. 8.° francez. Preço 600 

Dois casaoieuios de conveniência, comedia em 3 actos; 1 vol. 360 
Como se sobe ao poder, comedia em 3 actos. 1 vol. 8.° fr... 400 

O Sapateiro d'escada, comedia cm 1 acto, 1 vol. 8.** Er 160 

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A. ABRANCHES. 
Stambnl* comedia em 3 aclos e 9 quadros. 1 vol. 8.» fr 300 



A MASCARA SOCIAL 



C#HBDIA DBAHA BH VBBA A€V#S 



ORIGINAL 



ron 



ALniDO HOGAN 



^^íJSBS^ 



USBOA. 

fravMM (to FíefoHa, 78. 
1861. 



lillTEttl.O€lITOREft 

o CONDE DB ViLLA-NOVÁ DA SERRA, D. CarloS. 

ANMIBAL DE SOUSA. 

O DOUTOR CÂNDIDO DE ANDRADA. 

ADELAIDE. 

O barIo DB souzEL, Jorgo Portalegre. 

A BARONBZA DB SOUzGL, D. Luíza. 

CARLOS MONTSIRO. 

O CONDE DB SAKTA BRÍGIDA. 

A CONDESSA DE SANTA BRÍGIDA, D. Anna, beata. 
ANDRÉ, O homem de negQeio. 
EZEQUIEL, O barbeiro. 

Um cabo de policia, gente de baile^ críadoSi e povo. 
A acção (em logar na actualidade em Lisboa. 



ACTO 1. 



JPlas jeone qoe la jeone «orott» 
^lus limpide qae ce ÍTot pur, 
ToD anie att bonheor TÍen à^Moré^ 
Et jamaia aacan aouflle encore 
I>I'en a lerni le tagae aiar. 

La Mãrtint. M^dUêçõés. 



(Salões de baile. Laxes e flores cona profasio.) 

SCENA I 

(Ao levantar do panno as salas estio gracioumente cbèias. ÁBe- 
laide, sentada ao lado direito da baronexa de Sonxel» que con- 
versa com o conde de Santa Brígida, leni a vista lixa n'um ra- 
malhete peqneno de camélias com que parece distrahirs^. O 
conde de ViUa-nova da Serra, próximo d'el1a, devora-a com 
um olbar apaixonado. No angalo esquerdo da scena ute grnpo 
de bomens e entre elles Annibal de Sonsa e Carlos Monteiro. A 
condessa de Santa Brígida está entre outras senhoras ao fand^ 
da scena.) 

Carlos (rtndo) — A beala condessa de Santa Brí- 
gida ainda nao deixou de observar aqaelle lado da sala. 

ânuibal — Porque? 

GàRLos — O conde de Santa Brígida parece empe*- 

nhado em recordar á baroneza de Sousel o tempo em 

que era formosa. Não ha nada melhor, n*uma reunião 

1 



2 A MASCARA SOCIAL 

d'esla ordem, do que observar o que se passa. Vamos 
girar? 

ÂNNiBAL — Ndo posso lirar-me d'aqui. 

CiRLos — Ah ! já sei o que le prende. Fazes a se- 
gunda á condessa de Sanla Brígida. * 

ÂNNiBAL — Não reparas no oihar d'aque!le rapaz? 

Carlos — É um tolo que nao sabe disfarçal-o. 

Annb\l — E não estranhas o modo d'ella? 

Carlos — Sabe que a estSo namorando, e finge que 
nao : c natural. Espera.. . a condessa de Santa Brigida 
eslá-me fazendo signal de me aproximar. 

Annibal — Finge que não vês. 

Carlos — Elia manda-me salames tâo bonsl... 
faproxima-se da condessi e escula-a um momento: de- 
jwis aproxinMhSi do tondt de Sanla Brigida e diz-lhé) 
V. ex.* comprou, ha pouco, uma linda parelha de ca- 
vallos I FeliciloH) pela feliz acquisição. A senhora con- 
dessa fez outra nao menos feliz, ./um par do aposto- 
hs perfeilamenlc modelados! (á baroneza de Souzeí) 
Como está v. ex.% baroneza? 

(N'e8te momento oare-se a ôrchestra nas salas interiores. Ha mo- 
vimento na scena. Alguns cavalheiros tiram pares e saem pelo 
fundo.) 

GoRBi (a Adelaide) -^Y ex.* faz-me a honra de 
tlançnr esta contradança? 

AnuLAinii -- Dá licença, minha mae? 

(K baroneiade Sooielfax um signal afiirttativo. O conde offeroce- 
Ihe o braço, ella sorri-lhe com doçara). 

ANNtBAt (despeitado) *-^ Foi dançar com ella 1 {sa 
pensativo) 

Baronbza {ao conde de Santa Brigida^ dandú-lhe 4> 
hraço) ^^ Não a acha tão engraçada ? 

S. brigida ~ Convenho quo é um anjo..* come 
sua mãe. 



Jl MASeARÁ SOCIAL t 

Baroxeza {em reprehensão) — Conde t 

(A condessa de Santa Brígida faz outro signal a Carlos MonteirOi 
que se aproxima.) 

Condessa — Tire aquella mulher para par e vá 
dançar com ella. 

(Carlos Monteiro aproxima-se outra vet do conde e da barooeza de 
Souze) que conversam a meia toc.) 

S. BBiGiDi — Perdão» creio que desejam tiraUa para 
dançar. 

CàBLOs — Se V. ex.' se dignasse. . * 

* 

(A baronesa de Souzel deixa o braço do conde e tomt o de Carlos 
Monteiro, que sae com ella.) 

Condessa (indo ao encmlro do conde de Santa Brí- 
gida) — Vamos ver dançar, conde? 

S. BRtGiDA — Já sei que comprou um par de aposld- 
lo&.. . (suspirandíí) É com elle9 que hade salvar-se, 
condessa I 

SGBXA U 

(Completamente deserta. O doutor Cândido de Andrada entra» 
momentos depois pelo fando, bocejando; e atira-4e para nm so-^ 
phá.) 

DocTOR — Vamos, senhor conde^ cá estou esperan-^ 
do que se farte. . . Qual historia ! Quem, aos dezoito an- 
nos. se farta de flores e de mulheres? {rindo) Mulheres 
6 flores ! e dizemos estas duas palavras. . . como se nao 
houvesse differença alguma entre uma^ flor e uma mu« 
Iher i. . . Aos dezoito annos^ uma é o synonymo da ou'- 
trai 



4 A MASCAliA. SOCIAL 

SCENA IH 

(O doalor sentado no sophá. O conde «ntrando ptlo fondo, e bei- 
jando repeiidai vetes om pequeno ramo de caneliaa.) 

Conde — Que valsa aquellai lio depressa se fati- 
gou.. . E eslas mães que não deixam valsar as filhas 
alé morrerem I E estas rosas?. . . Iodas suas! e lao che* 
gadas as trazia ao sei) que uoi beijo dado u'eslas flo- 
res. . . 

DouTOB — Cuidado! nSo tenham por abi alguma 
abeiba que lhe morda. - . 

CoNDB — Ah. . . e doutor. . . 

DovTOB — Tem gostado do baiie? 

CoHDE — Se tenho I.. . Vou dizer-ihe.. . 

DouTOB — Já sei. {bocejando de $omf*o). 

CoADB — Já sabe?!.. , 

Doutor — Admira-se? Um homem da minha edade 
é uma espécie de lanterna magica, onde pode achar 
muitas iilusDes similhaules ás suas. Dè-se ao trabalho 
de me consultar. 

CoNDB — Agora r So, porque estes momentos. . . 

Doutor — Cautela com elles, que podem cnstar-Ihe 
Rnnos de desgostos \ 

CoNDK — Oh t a fé que ligamos a coisas doeste gé- 
nero é tSo viva. . . que nSo consentiria. Deus.. • 

DoLTOR {interrampendo-ó) — Para que falia de Deus 
no centro dum baile !? Para que invoca a verdade no 
meio de uma das mais notáveis mascaradas d'esta vida?! 
Cr£» porventura, no que vê e no que ouve? (com um 
sotriso irónico: bate^do4he sobre a espadoa) Amanhã 
hade esse lindo raminho dé rosas, que tem na mão, es- 
tar sem côr, sem graça nem vida. 

CoNDB — Çue quer concluir? 

Doutor — Pobre mocidade! Estas verdades destoaro- 
Ihe como o som austero do bronze no domingo do cai- 
xeiro I A vida^ a verdade, a ventura, estão aqui n'eslas 



A If ASCARá SOCIAL v S 

noites perfumadas, tâo cheias de flores, de musica, e de 
mulheres ! O sonhar delicias, o esquecer trabalhos, de- 
veres, conselhos, todo, é aqui, na rapidez de uma val- 
sa em que julgamos ingenuamente voar superiores ao 
mundo ! Acredite, conde, que no centro de um baile os 
olhos não vêem, o coração não sente, e a cabeça não 
pensa ! que o homem não é o homem ; nem a mulher, 
esse ente excepcional que sonhamos ao entrar no 
mundo : a uns, domina-lhes a presumpção o espirito ; a 
outros, afaga-Ihes o coração a vaidade I {dá-lke a bra- 
ço e passeia com elle peta seena^ parando iepoit á par^ 
ia do fundo) Quer ver o avesso de todo este bello qua-- 
dro? O capitalista reúne todos os seus amigos e conhe- 
cidos, não para os obsequiar ; mas sim para que estes 
lhe dêem o voto de confiança nas próximas eleiçSes. . « 
Oh ! quem é aquelle peralvilho que o está designando 4 
outro?.. . E vem ter comnosco! (vem para a ecena}. 

SCENAIV 

o OOOTdR, o CONDS D3 TILLA-*lfOVA BA StMA, AUNIBU 

Dl SOUSA e OAtLOS MOKnino* 

Carlos (baixo a Annibal) ^^ Vi perleitamente. Não 
foi ella que lh'o ceden : foi elle que lti*o tirou. 

AifNiBAL(ao conde) — Dá^me uma palavra? 

Conde — Com muito gosto, [larga o braço do dou- 
tor e desvia-se com Annibal de Sousa para o angulo di- 
reito da scena). 

ÂNif iBAL — Venho encarregado de sollicitar que tenha 
a bondade de restituir esse ramo. 

CoNDK ^ Nio sei a quem tenho a honra de fallar, 
e sinto dizer-lhe que a minha bondaie não chega a tanto, 

Amiibal — Senhor ! 

Carlos -^E' que este senhor não te conhece. . . 

Annibal — Chamo-me Annibal de Sousa, e sou.. , 
sou sobrinho do dono da casa. 



ê A MASCARA SOCIAL 

Conde — - E' rcalmeiUe um titulo honroso. . . 

Doutor — E mais que sufficienlc para ihe provar 
que o seu comporlamenlo é pouQO louvável ! 

Carlos — NSo sei com que firo v. ex.* vem inlro- 
mcUer-rse n'uma questão particular do meu amigo. . * 

DoiiTOR — Ah 1. • . sao amigos ?. . . 

Gari^os — 1^ oao admiUo que v, ex/ duvide dos 
laços d^auiizade que me ligam ao senhor Anuibal de 
Sousa t 

DooTÓR — Peço desculpa. A minha duvida era bem 
fundamentada. Sou assignanle de quasi Iodas as folhas : 
e tendo lido» ha tempos, algumas diatribes escriplas pelo 
senhor -Carlos MoQleiro contra o senhor Annibalde Sousa, 
quando este senhor fez parle da commlssao de. . . nao 
me recordo de qual, julguei por isso.. • 

Aniiibal--^0 senhor Monteiro modificou as suas 
idcas. 

CoNnB-*Bcm: n'esse caso eu espero que v. ex.* 
(Dodifique lambem as suas a respeito da nossa questão. 

Doutor (áparle) — Bem saccada ! (alio) Sim..' 
por q<ie o senhor conde presa muito as flores*. . 

ANXiBAL-^Bem se \èi e tanto, que se esquece de. 
resliluil-as. . . a quem estas pertencem. 

CoNOB — Rogo-lhe que relire a expressão! 

DouToa — Será bom annuir. . . mesmo para fazer 
honra ás salas do seu lio* 

Annsbil — Senhor commendador, v. ex.* abusa da 
sua edade. . . 

Doutor — Nao admira quando v. s.* não sabe res- 
peitai-^ i 

Co*NnK— :Finalisemos, senhor Annibal deSoosa; moro 
lia rua do Alecrim n.^ 13; e se quizer dar-me a hon- 
ra.. . 

A>NiBAL — Não vale a pena ! É questão q«e vae 
decidir-se já I (sae cow Carlos Monieito^ mas enenlra 
na passagem O bardo de Soutel dando o braço a Ade- 
taidey e volta com elles á scena^ falhndo-lhes ameia voz). 



A MASCARA SOQAL T 

CoNBB (ao dúoíor) — Creio que roeu pao« na mi- 
nha edade, nao leria respoodido de outro modo áquelle 
laluo?! 

DacTO» — Seu pae, na sua edade, fez muitas crean* 
cices e disse ostras tantas. 

SCENA V 



o DOLTOn, o CONDIS ÂNNIBAL Bfi SOUSA, CARLOS MONIKIBO^ 

O BARÃO DB SOUZEL 6 AB6LÂ1DE. 

Annibal (depois de ter conversado com Adelaide 
um momento) — Gonfes&di que lhe deu o ramo? Logo, 
que figura fiz eu 1? Agora c necessário insistir. . . 

BasAo — Decerto I Quem é elle? 

Carlos — O conde de Villa-Nova da Serra: nulli- 
dade.. . uma creançu. . 

Barão — Prohibo-le o conde! Finjamos que pro- 
curamos o teu ramo de camélias. 

Adelaide — Meu pae. « . 

Barão — Já disso ! 

Annibal {do outro lado^ a meia voz) — Ingrata f o 
que me cumpria fazer . • era retirar a minha palavra i 
Ê se nao fossem algumas conveniências de família.. • 

(N'e8te momefilo o côade t è Adelaide.) 

Conde — Ella !• . ; 

Barão — O ramo hade appareoen • . algum cava^ 
Ibeiro o apanhou, sem duvidaj e espera saber de quem 
é para restituil-o. Ah I creio que o achámos. 

AMNiBAt-*-£' verdade, está nas mãos do senhor 
conde. 

Domou (aparte) — Estão comnosco. 

CoNDK {aproximando^se) — Parece-me que ouvifal- 
lar de mim. . • 



8 A MASCARA SOCIAL 

BarIo — V. e\.^ achou um ramo que pertence a 
minha filha, e que nós procurávamos. 

Adelaide (aparte) —Meu Deus! que pensará ellc 
de mim s? 

Conde [fixando Adelaide) -r- Ser k este? 

Annibál — Sem tirar nem p6r. Gonbeço-o perfei- 
tamente ! se fui eu que o fiz. . . 

Conde — N'esse caso, minha senhora, estou promp- 
tQ a rçstituil-Q . . {offerec0ndo'o) 

ÀDKLiiDE (largando o braço do barãn: tremula, e 
' sem levantar os olhos para o conde^ examina^ um mo- 
mento. o ramo.e devolve-lk'o^ dizendo) — Nao é este- 

CoMDB {exui(ando) — Ah I. . . 

Anmibal (despeitado) — Nao é aquelle?!.. . 

(Ha um momento de silencio em que Annibtl de Sousa t o conde 
trocam alguns olhares expressivos. 0-barãod« Souzel fslU a meia 
Toi com Adelaide que parece enxotar nmi lagrima.) 

Doutor {tendo fis:ado o barão^ aproxima-se de Car- 
los Monteiro e toca-lhe no b aço) — Desejava muito fal- 
|ar-Ihe. 

(Toca-se, dentro, uma pplka\^ 

CoKDE — Vae dançar-se.. . (a Adehide) V. e\.' 
çoncede-me esta poika ?' 

AwNiBvt — Perdão, eu linha pedido primeiro! 
BarIo — E eu sou testemunha.. . 

f Anntbal offer^ce o braço a Adelaide e sac com ella, diíeado-lhe 
4ei>a8sagem, a meia yo%.) 

Annibal — Hade explicar-mc o seu comporlamentQ. 
Quero ouvir como se desculpa.. . 

Barão {olhando por cima do hombro para o dou- 
tor que nao deixou ainda de o contemplar com um sor- 
fíío irónico) ^Ji vi aquelíe homem !... Parece-me que 



A MASCARA SOCIAL f 

taDibem não lhe soo estranho. . . mas aquelle sorriso 
irónico.. . Evilemol-ol (saé) 

GoKDB {pensadvo^ olhando para o ramo que tem na 
mào) — Sou amado ! {zenta-^te^ ao fundo da icena) 

m 

SCENA YI 
o CONDE, sentado, o dootoe e monturo. 

Doutor (indicando a Carlos Monteiro^ o barão de 
Souzel qvê vae entre portas) — Sabe quem é aqoelle ho- 
mem ? 

Carlos — Perfeitamente I (iorrindo) Uma das mais 
acreditadas flrmas da nossa praça I O barão de SouzeK 

DoLTOR — Tem propriedades T 

Carlos — Tem uma : saber ganhar dinheiro. 

DouroR — E' d'elle que desejo fallar-lhe. 

Carlos — Estou ás suas ordens. • 

DocTOR — V. s/ 6 escriptor publico? 

Carlos — Sempre que se tratar de dar no governo! 

Doutor — Histerias, meu caro senhor, sempre que 
se tratar dos seus interesses. 

Carlos — Oh I v. ex.* é d'uma franqueza tal . . 
que é mais do que excentricidade I 

Doutor — Pois se eu quero fallar-lhe a respeito dos 
seus interesses... Diga-me : que lhe parece a qiiestio da 
moeda falsa, para explorar t 

Carlos — Está no espirito da época. Hoje tudo é 
fingido. 

DouroR — Mas. - . permitta-me pergunlar-Ibe o que 
entende o senhor pela minha pergunta ? 

Carlos — Ella foi, na verdade, tão simples que. . • 

Doutor — Acredita que se faça moeda falsa? 

Carlos — Estamo-la nós fazendo» ha um quarto de 
hora^ doutor. Conversando sem sabermos em que. 

Doutor (rindo) — Gostei d'esse seu dito [ 



to A MàSCáRÂ SOCIAL 

Carlos (áparU) -^ Apustara, sem receio de perder, 
que este homem lem vislas sobre mim. 

DouTOt — Olhe, a questão da moeda falsa é esta : 
ha hom^efis, uos parque tiveram foiluna, outros porque 
trabalharam, que adquirirão), já pela inveja^ já pelas 
circunslaucias do seu modo de vida, inimigos acérrimos 
que tanto mais desceram em inimizade quanto em ha- 
veres subiram os primeiros. O espirito da liberdade da 
imprensa, mal interpretado por elles, abriu-lhes o campo 
do insulto gratuito e pessoal, da affronta publica e im- 
pune, do vitupério ede toda a casta de maledicências 
que a raiva é susceptível de vomitar! A abundância do 
género fcUo barato. Oinsulto ternou-se proverbial e o mun^ 
do prifloipioa a eneber-se então á^lraficantes de escra- 
vos^ moedêiros falsos^ e de toda a qualidade de falsarias, 
que andam, por ahi, atirando lama, pisatfHloe esmâf/an" 
do a alguns centenares de martyres rotos e esfomeados; 
victimas ia£aUiveisd'essB gente que nao tem coração por 
que lhe attribuem dinheiro ! 

Gablos (aparte) — Este homem folia de um modo 
tal que não deixa conhecer o seu verdadeiro modo de pen- 
sar! o cada vez me convenço mais de que o seu fím é 
comprar-me ! 

DoDTOB — ^^Se o faQmem enriqueceu, fez moeda fal- 
sa ! Se vae ao poder, foi capacho, ou é tranquibernista; 
i^e se sustenta no poder, eil-o descomposto e injuriado, 
^té em relação á ana vida privada, pelos jornaes da op- 
posição 1 E ao cabo de tantas penas, marlyr, considera- 
do pelos seus amigos ; monstro, pelos inimigos, o ho- 
mem não passou de ser um excellenle pae de fami* 
lia, que ceou algumas Tezes no Matta, e acabou pergun^ 
tando, de manhã, no primeiro bocejo do somno^ se já 
o tinham feito barão* 

Carlos — Oh! t. ex/ pensa de um modo inteira- 
mente incompatível com o syslema actual I 

DocTTOR — Eu ? ora essa I Vejamos : se eu quizesse 
dever a um jornal o obsequio de me chamar nomes ? 



A MÀSCAa SOClkJL 11 

Cab^os {aparte) — Temos horaem ! (alio) Oh! v. 
ex.^ é de um espirito.. • 

DocTOR - Não acha que seria um meio de me tor« 
nar salienle? Em poiilica tudo s3o meios! 

Carlos — Pois bem: divirja v. ex.' das idéas da 
opposiçao.. . 

Doutor — Vou com ella, meu caro senhor I 

Carlos — Dè no governo, por exemplo. 

Doutor — Eu t se lambem vou com o goveriol... 

Carlos — Senhor commendador... a sua pohlica é 
realmente.. . 

Doutor — Furlacòres? Essencialmente furlacõrest 
Diabo.. . nao haver quem me dê uma diatribe publica! 
Apenas se lembr&ram de me chamar, ha tempos. Tendi-' 
Jhão de carne humana*. . moedeiro fakc. e outras mi^ 
serias ! A coisas tão pequ^as, julguei melhor não res- 
ponder!... Sou millionario, na lopiniâo da imprensa, 
quero dizer. . . lenho uma ial ou qual fortuna, que meu 
trabalho me custou! e Deus sabe.. . 

Carlos — É verdade ! Deus sabe de tantas coisas... 

DoLTOR — Permilta-me que ponha á disposição da 
Y. s.* a minha casa na rua do Alecrim n.* lâ. 

Carlos — Sei perfeitamente onde é; e agradeço 
muito a V. ex.'. . . 

Doutor — Espero-o para almoçar, anr.aflha. 

Carlos — Com muito gosto, senhor commendadori . . 

Doutor — Tinha vontade de organisar a empresa 
de um novo jornal politico. 

Carlos (áparie) — Estou ledactor ev chefe! 

Doutor (aparte) — Creio que lhe tenho inspimdo 
confiança. 

Carlos — A favor do governe ? 

Doutor — Achava talvez melhor.. . de quem mais 
garantias desse : está claro ! Descrjava muito dar no ha* 
rão de Souzel. ... 

Carlos — tio barão? 

Doutor — £ em mais alguém : no capitalista que 



Í3 A MASCARA SOCIAL 

lanto DOS obsequeia esta noite. Sou inimigo d'elles; 
^ qnero chamar a um moedeiro falso, e a outro, seu tes- 

ta de ferro ! E' natural. 

Carlos (aparte) — Misericórdia! Corro a preve- 
nil-os. 

DoiTOR — Tenho contra elles uma prevenção fatal! 
aquelles homens fazem-me sombra I 

Galhos — Mas senhor... o barão é governo pur 
snng t 

DocTOR — A politica d'elle é mascara! 

Carlos — Mas, repito que o barão. . . 

DooTOR — Salvo se viesse a um accordo. 

Carlos — Qual ? 

DocTOH — Elle que o procure, por que. . . (dá-lhe 
o braço e continua a conversar com elk passando insen* 
SMlmeníe para as o*i(ra.f salgs.) 

CoNDB {como saindo de um sonho, suspirando e bei- 
jando o ramo de camélias) Mais pura que a aurora t 
mais innocenle que estas flores!. . . Oh ! como eu a amo ! 
(recae no mesmo leihargo, na mesma ationia^ ficando qua- 
si escondido pelas almofadas do sophá). 

SCENA VII 

^ o CONDE, no sophá, adrlaidb, gelo braço de 

ANNIBAL DE SOCSA. 

Anmbal — Achamos, finalmente, uma sala deserta. 
Queira dizer-me o que devo colligir do seu procedimen- 
to? 

Adelaide — Nada.. . 

Annibal — Essa resposta equivale a ter-me em con- 
ta de.. . parvo! Não posso, com franqueza, admittir 
ifcie, depois do que está tratado entre as nossas famílias, 
desconsidere, por similhanle modo, aquelle que hadeser 
seu marido ! 

Adblaidb -— Senhor Annibal de Sousa/ que o senhor 



A MASCA KA SOCIAL 13 

queira lomar-mc conta reslricla do letnpo que me per- 
tence ainda, c de uma sofreguidão que me assusta ! 

Anmbal — E' que você, estando-me promcllida, se 
comporte assim, é de uma certa excentricidade que nSo 
deixa de me assustar menos!.. . 

Adelaide — E* que a alegria traz o susto: isso é 
lisonjeiro i Diga-me, porém, senhor Annibal, a idéa que 
faz de mim. 

ÁNMBAr — Oh ! é realmente uma boa pergunta ! 

Adklaide — Muito razoável. 

Annibal — Sim, quando se deseja ouvir elogios... 

Adelaide — Estou certa de que você hade ser fran- 
co bastante para me poupar ao ridiculo de ouvir o meu 
próprio elogio. 

A^'MBAL — NâOy pelo contrario • . nunca seria tao 
franco. . . 

Adklaide —Porque? 

Anníbal — Por que, algumas franquezas ha que 
destoam completamente no centro de certas conveniên- 
cias. . 

ÀDELUDB — Ah. . . ainda bem que se lembrou d*isso! 

Anníbal — Porque? cabe-me perguntar agora. 

Adelaide — Por isso mesmo. Deixemos pois as pri- 
meiras, conservemos as segundas. Eum segredo de vi- 
ver bèm : não lhe parecie ? 

Anníbal — Mas isto nao deve íicar assim! Viver 
bem por similhanle preço.. . Oh! quando se trata do 
nosso futuro, não se repVesenta comedia alguma ! con- 
vém^ pelo contrario, que tiremos a mascara, que pos 
dispamos das illusões, e que nos apresentemos como 
. realmente somos. Não quero ver o seu coração alravez 
do sorriso estudado das conveniências : pretendo obser^ 
^ val-o debaixo do seu verdadeiro ponto de vista» das suas 
verdadeiras commoçSes ! Sei que ama o conde de Villa- 
nova da Serra.. . 

Conde (que tem escutado parie io dialogo^ diz 
áparie) — Que escuto I {levoma-se e vem para a scena). 



14 Â MASCáRA SOCIAL 

Adelaide -^E quando assim fosse?. • 

Co^w {transportado d$ alejria) — Oh 1 lornar-me- 
hía entSo bem feliz t.. . 

Adblaidb — Ah. . . 

Annibal (ápavlé) — Elle aquil {alto, despeitado) N:io 
lhe sabia da prenda, senhor conde, de escutar ás poi las! 

€oNDE — E' a inveja que o faz fallar. 

Annibal (eomumriso contrafeito) — Inveja? de que 
lenho eu, porventura, de a nutrir? Pelo contrario.. . 
Vou, de bom grado, ceder-lhe o terreno, por que as 
flores que por elle semearem agora, serão, sem muito 
esperar, abrolhos que hSode vingar-mel (sae pelo fundo). 

GoNDB {pegando na mão de Adelaide) — Oh ! diga- 
me. . • diga-me o seu nome. . . 

SCENA VIII 

ADELAIDE, O O CONDE. • 

Adelaide (perturbada) — Conde. . . 

GoNDB — Eu eslava ali, n'aquelle sophá, entregue 
aos doces pensamentos que a sua imagem me inspirava: 
sem outro querer nem outra esperança senSo este lindo 
ramalhete de rosas, cada uma das quaes parecia repetir- 
me, ainda, aquellas palavras meigas, aquelle sorriso en- 
cantador que tive a honra de merecer-lhe na nossa pri- 
meira valsa ! Eslava para ali. • . entre a esperança e a 
incerteza, mais morto por uma queaniraado pela outra... 
E accordar d>ssa attonia ouvindo justificar as minhas 
Idéas.. . os meus pensamentos, as minhas esperanças; 
destruir a duvida, e firmar o império dos meus sentU 
mentos.. . Ohl foi um accordar esse tão cheio, tão ri- 
co d'enlevosJ... foi como se me tivera adormecido n'uma 
noite tormentosa, para despertar no seio de uma aurora 
perfumada, cheia de luz, de vida e de harmonias 1 Oh l 
diga-me. . . diga-me o seu nome t 

Adelaidb — Feliz de mim se, na verdade, naohou- 



À MASCARA SOCIAL * iS 

vera, nessa aurora que rdealíson, nuvens sombrias. . . 

Conde — Não I. .. não ha nem uma! E que as hou- 
vesse. . . ponho tanta fé n*esle amori que em \ão taes 
nuvens viriam assombral-o! O sofifrimenlo, querida, é 
o vidro de augmenlar, pelo qual vemos muitas vezes 
engrandecer a idéa da nossa felicidade futura. 

ADtL.\inB — Se nos nao exhaure as forcas d cadéa dos 
males; nem louba a energia, a desesperança d'essa fe- 
licidade! Enlrelanlo, qualquer que sejam os males a que 
esta commoçào nos conduta.. . asseguro-lhe que não 
tem outra mais intima o coração de Adelaide. 

CoNi K (beijatd ^Ihe rapidamente a n.ão que eV.a 
lhe abandono) — Adelaide ! 

SC ENA IX 

AnELAIDP, O CONDE DR VIU.A-NOVA Dl SKRBA, 
e a BARONEZA DC SOUZEÍ.. 

Baronrza [a^reêkoáa e diefarpanio n'um sarriso 
amável certa prevençà} contra o conie) — Minha filha... 

Ad£L4idb {com um sorriso angélico, lançando um 
olhar de despedida ao conde) — Ah I minha mãe. . . 

CoNDB — Minha senhora ! 

Babobeza {á filha) — Não te via no baile. . . assus- 
tou-me a tua ausência l Julguei que estivesses incommo'- 
dada ! tinhas valsado tanto. . . 

Conde — A culpa é minha, de a ter alguns mo- 
mentos roubado ás ternas vistas de v. ex.^ ; mas, podia 
eu, porventura, cuidar de simiihante culpa quando o 
meu pensamento estava completamente dominado. . . 

Babonbza — Senhor conde, os sentimentos que por* 
fiam contra a felicidade real de quero os inspira. • . são 
egoístas I {ápariCy apertando a mão de Adelaide) Oht mi- 
nha filha 1 Vamos, {sae com Adelaide que se deixa con- 
dazir abstractamente sem olhar para o eondé), 

CoNDB — Por que motivo, na sociedade, todo pa« 



i« A HA8CARA SOCIAL 

rece. de ordinário, coDspirar-se coolra o sentimenlo mais 
perfeito que Deus poz no nosso coraçio ?l Oh 1 meu po- 
bre coração. . . mal de ti t {sae pensativo seguindo a ba- 
roneza e Adelaide). 

SGENA X 

o BAftXo DR soczBL, pelo braço do CARLOSMONTeiao^con^ 
versando» entra por upa porta laleral. 

Carios — E' como lhe digo, barão ; agora mesmo 
deixei o homem, que me deu uma mas5ada soffrivell 
Acho que deve tomar algumas medidas de prevenção, 

BarIo — E que género de medidas devo eu tomar? 

Caklos — £ntenda-se com eile. E', pelo menosi 
o que eu faria no seu caso. O homem lem influencia... 
^dispOe de fundos.. . 

BiiAo — Entendo f Capazes de voltarem do avesso 
as convicções de todos quanto por ahi. . . 

Carlos — Perdão; faltemos com seriedade. V. ex/ 
bem sabe que se estou na opposiçSo é por simples con- 
venção com V. ex.*, para dar importância ás suas idéas^ 
balendo-as e censurando-as de certo modo. . . 

Barão — Basta I isso não vem ao caso. . . 

Carlos — Pelo contrario : e no momento em que 
V. ex.^ se tornar ridículo^ passo-me para o governo. 
Isto é| perdem as idéas dev. ex.^ o contraste que acha-^ 
vam na minha critica. • . 

Barão — Tornar-me ridiculoi eu!? O senhor empre- 
ga taes expressões 1.. . Tornar-me ridicuto... por que?! 

Carlos — Por que o doutor é inimigo de v. ex/. 
Tem uma intelligencia àuperior.. . e não tolera quem 
lhe faz sombra nem na politica n )m no commercio i 

Barío — Então eu faço-lhe sombra?! (meditando) 
Está bem certo. . . 

Carlos — Gertissimo 1 

Barão {aparte) *-* Isto salta aos olhos I (aUo) E el^ 
le fallou-lhe de mim, directamente ? 



. A UASCáKA SOaárL 4T 

Carlos — E com tanla propriedade que. . . 

3aiuo — Concluiu que me conhece 71 

Carlos — Gomo eu conheço os aeus artigos de 
fundo. 

Babão — Tomara que assim fosse! era certo que 
nao me conhecia . muito bem; por que o senhor hade 
confessar, que nao sabe, muilas vezes, o que os seus ar- 
tigos querem dizer I 

Carlos — Convenho, quando o assumpto é v. ex.^ 
a sua politica e o seu commercio a sua economia po- 
litica, e a de muitos mais.. . 

Barão {aparte) — Gomprehendo! O homem está, 
entre mim e o doutor, tratando de ver para qual dos la- 
dos hade armar o pulo I [alto) O doutor é governo ou 
opposíção ? 

Carlos — VJ como v. cx.* 

Bauào — Não entendo. Ha dias que nSo me falia 
senão por enigmas. . . e charadas 1 * 

Carlos — Divirto-me a fazer charadas,* e em bre- 
ve lhe darei o conceito d'ellas. Quando os homens da 
politica e do commercio são coroo v. ex.', a missão do 
escriptor lorna-se em dever de charaisla.. . faltar em 
alhos para dar a entende» que se refere a bugalhos! 
Barão. . • vou tomar um sorvete. 

(Os criados atravessam as salas do fuado com bandejas dp sorvete.) 

Barào (aparte) — Se me falta a penna d'este ho- 
mem, quem mais se occupará das minhas idéas I (alio) 
Senht)r Monteiro, esperou amanhã para almoçar. 

Carlos — Amanhã sou do doutor. 

Barão — Então. . . para jantar.. . 

Caulos — Talvez : mas se o doutor instar. . . 

Barão {áparie) — Que desgraçai âe a lítteratura 
deixar de ter fomel.. . 

(N'e8te momento um dos criados qne faiiam o serviço nas ootras 
salas entra em scena com orna bandeja com refrescos^ Carlos 
Monteiro oíTerece ao barão nm sorvete.) 

2 



M A UkKiAA SOCIAL 

Gablos — Um sorvete, biriío. 

Barão {ucceifãndo, ápmttt) -^ •em preeiao d*elia ! 

SC ENA XI 

# V4R\0 DE SOUZn, CARLOS MÒNTR»RO, ANNIRAL M SOCSA, 
depois o TOUTOR CÂNDIDO DE ANDRAUA. 

Armiral (cemo prúeurando algt^m) — Ah I |>rocu- 
rsva-te^ Monteiro. 

Carlos^- Que bellos sorvetes que nos oflferece o 
teu bom tio I 

AhrtiRAL — Que te parece, lerá vólos?. . . 

Carlos — B ú deitar ford, se tiver. ceia t 

Akmibal (dando-lhe o braço) — Ouve cá. [faUa-lht 
a meia voz) Estou desesperado I Adelaide aomba de mimi 
Quero vingar-mei 

Carlos— ^ De qtle itaodo? 

AN!iiBAL-^€tnn escândalo.. . um escândalo publi- 
co I NSo hade ser á vingança traiçoeira que se afrasfa 
ftas sombras para ferir pelas cosias* . . Hade ser a vin- 
gança esplendido e i^isoAfaa, no meto doestas luzes, does- 
tas flores, doesta gente perfumada e vaidosa que já se 
ri de mim !. . . 

Carlos — Tu ainda nSo tomaste sorvete? 

Ba* lo (ápafte, ois&undchos àèscóhfiáãb) — O 
que dirio aqueiíes dóiS? Um tolo 6 um tratante. . . nSo 
podem tratar de coisa boa ! Faitemo»-lhê. (aíto^ nproan-- 
manda-se-lhúê) Ent&o, relalivamentoaoquedíziamos» se- 
nhor Monteiro. . . Ah I perdi»^, Mo re|larei que estavam 
conferenciando ! 

AimtftàL (a Céifoe Èhnteíra) -*^\ém ; vem temígo. 



(Voltam as costas ao bário e aaem pelo fSmio. O «teolòr 
de Aodrada apparece a oma das portas, põe a lnoeta e flia o 
bário coiÉ mr somfto Irainc»^ ta profvéantie;) 

Éarão [venio 9 doutor) -^ Ora^ este hoaiMi eom 



^ seu sorriso iQYariavel e a soa luneta constante l.. ^ E' 
fatalidade t 

DovTon {depois de ler ohnnalo miudamente o ba^ 
rio) — Cuido que tenho o gosto de tornar a ver o se- 
nhor.. . t senhor?.. . Ah! o senhor lorge Portalegre! 

B^aXo— ^PerdSi. • . Creio que v. ex«*. . . 

DocTOE — Oh! perdão.. « perdão^. . estou certo 
de que. . . 

Babão -^ Mas... desculpe.. . eu é que.^ . 

[Com repetidas corteiias de parle a parle : uolaDdo-$e ridieolaríai 
estadada/BO dontor^ e muito embaraço no bário*) 

DotTOR — Oh! V. ex.* é cruel na sua teilDâ. . . 

Barão — Menos de que v. ex.* nasnadelieadesa... 

DocTOR — Vamos> sejamos rapazes : bem vè que o 
eslou reconhecendo. . . 

BarXo--* Então quem é v. ex.*T (fingindo). 

Doutor [rindo) —- Quem sou ? . * . Pois não se re-^ 
corda d'aquelle pbilosopho por excellenciati . o grande 
ratão do tempo de D. Luiza.4 . e dos amores do Viscon- 
de de Villa-nova da Serra. . • que Deus tenha? 

Barão — Ah !. . . sim. . . o doutor Cândido de An« 
•d rada. . . 

Doutor {com malina) '^ Ju^mente ! . ^ . 

Barão — Quem tal diria!... {ápã' té) Estou servido, é. 
com becca para o Porto /... {alto) Pois^ doutor. . . 

Doutor — Folgo, realmente, de o Ter tão bem dispos- 
to.. « enxertado em Qdalgo t... Tendências! tefideacia8!..é 
Faz-mo lembrar a historia do corvo que pedira a inxío 
a plumagem do pavão. 

Bâkào {com um riso amorfl/i^)—- Sempre O mesmo 
espirito t... 

DouToa — Nunca live mais do que v. ^xM (aparte) 
Bile quer convencer-se de que faço espirito i*. . mas 
vou desilludii-o. ^l^) Como conseguiu escapar do li- 



SO A MASCARA SOCIAL 

m 

mofiroj senhor Porlalegre, e melamorphosear-se por es- 
le modo ?l 

Babío (encordoado) — Sejamos francos, doutor: não 
é sem má intenção que v. ex.^ eslá referiodo-se ao que 
já lá vae, ha dezoito, ou dezenove annos ! A yida tem 
accidenles que mudam a faCe das coisas, e o espiíito 
dos homens.. , 

buuTOB — Excepto o seu, creio eu ! 

Bahão — V. ex.^ foi sempre meu inimigo.. • 

DouTOB — Nunca me cansei n'isso. 

Barão [continuando e faUando rápido^ — E agora 
mais do que nunca, por que julga, e não julga bem, que 
eu, já pelo systema das minhas idéas politicas, já pela 
força e pelo género das minhas transacções commerciaes, 
posso de algum modo fazer-lhe sombra. . • causar-Ihe 
prejuizo. . . Ohl sejamos francos! sejamos francos i.. . 

(N*este momento o conde de ViUa-nova da Serra apparece ao Toa- 
do da scena, preoccupado, beijando o sen ramo de rosai. • ati- 
rarse para nm sopbá sem prestar attençio ao qae se dix.) 

SGENA XII 

O BARÃO OE SOUZBL O DOUTOB CÂNDIDO DB AlIlDBAUA, á 

bocca da scena; o gonds sentado n'om sophá, ao 
fuhdo« 

Dgutob — V. ex.* fallou-me no iyslema das suas 
idéas politicas j e na força e género das suas transacr 
ções commerciaes : accrescentando que — julgava que 
me fazia sombra — 

BabXo — Perdão: que v. ex.^ julgava que eu lhe 
fazia sombra. 

DouTOB (com mysterio e muita impor lancia) — Lo- 
go confessa. . . 

Babão [duvidoso) — Confesso o que ?! 



k IIASCIRA SOCUL 21 

DotTOR — Mau: se nâo houver franqueza, vejo 
que nâo no3 podemos entender I 

BaIro — Sdjamos pois muito francos, (afroximan- 
d ^edodotUôr^ e fa'land<Hlhe com mysterio) O negocio es- 
tá de* tal modo ameaçado» que não tarda que me retire. 
U Brazil parece que abriu os olhos ! 

Doutor — N9o ha muito tempo, dois honradissímos 
agentes que partiram d'aqui para o Maranhão. . . 

BarIo — Por esse iado vamos bem I isso sempre 
hade ser maranhão f Lá é que é a força.. . 

Doutor — Emquanto lhe não tiram a cediiha a 
despeito dos nossos cônsules. 

Barão — O cônsul é meu. 

Doutor — Eu lenho uma bciiidade incrível om fa- 
zer despachar barris de manteiga no Pará. 

BiRlo — Ah? V, ex.* é Pará?.. . 

DoijTOR-— E' preciso acabar a força no Maranhão 
para a augmentar no Pará» onde^. como lhe disse» lenho 
uma extrema facilidade.. . 

BarXo ^Sim. . . os barris de manteiga. Percebo. 

Doutor — E ha falta de manteiga no Pará i 

BauXo — Nós pozemos o Maranhão a nadar n'ella ! 

Doutor — Perdão, deixe-me observar se estamos 
cobertos. . . 

BarIo - Ab i aqui não chove, doutor. 

(Dio as mios, a estas palavras, e parecem fratemisar. O doutor 
dá oma volta pelascena, vè o conde, toca-lhe no hombro, efai* 
lhe nm gesto, como qnerendo diíer-lhe «escute o que se disser» 
Emquanto se effectua o jogo de scena acima dito, o bário fica 
pensativo, batendo com os fcdos da mio direita entre as cavida- 
des das juntas dos da mio esquerda.) 

Barão (áparié) «-> Obomem quer comprar. . . man- 
leiga para o Pará. 

Doutor — Já éramos observados; convém que con- 
tinuemos, mudando de assumpto. 

Barío — Mas não vejo ninguém!.. . 



M 4 M4SCAIIA 90CIM 

DouTOtt — Taoto melhor : eonversaremos ealio um 
pouco da sua vida, senhor Portalegre. Diga-ine, como 
depois de ter sido desbaratada a casa de jogo da D. 
Luiz^, conseguiu enlabolar os seus negoGÍo& « • 

ÊaeIo — Vicissitudes da vida. Enquanto estive no 
Brazil.* • 

DouToa -^ Ab I esteve U ?. . . 

B\ft]Lo — Com o negocio da manteiga, doutor. 

Douto* — Ah.. • Continue. 

B^aio r^ EloH|uaato por lá eslÍTe» D. Luí2a caiu 
env desgraça. Depois, quando voltei, eslava melhorsi- 
nha ; mas tinha uma filha. 

PorroB (r^ndo) — lá em tempo I 

BAftio -* A app^ariçâo da menina parece qiie mu- 
dou inteiramente o caracter d^aqueUa molberi que, en-- 
tre nós, sempre leve bous exlinctos! 

Douioa — Bfileodo. Hagdalena arrependeu-se. 

BiBlo — Eis o caso. D Lulas estremeceu ao ac* 
cordar do seu passado, em presença da filha. A idéa de 
corar, um dia, oa presença dessa filha innocenle e pu- 
ra^ ellà que da tanto devia corar quanto de mais se re- 
cordasse. . . E&U idéa vexou-a, e fel -a procurar, no 
abrigo do verdadeiro amor materno, a uncçSo para. o seu 
coração quasi defunto ! E o coração reviveu-lhe ás pri-* 
roeiras commoçSes doesse amor t/. . Mas, faUava p pae 
(la menina.. . 

D(icTD«-^E V, ex/ remedipu similbante falta? 

BABiíe--Por fél 

Detiton — E^ sempre a (é o qtte seha I 

B^ttÂQ — fi boJe« D« Luiza 6 baroneza dç Souzel ; 
p Adelaide, minha filha. 

Conde (áp,ai'ie) — Qw escuto !? 

Doutor —« E. . . enquanto ao titulo ?* . ^ 

Bar\o — Fiz donativos piedosos. . 

DoDToa (cMi cvi^ 4€ipre$o qtt$ apends diifarfa) — 
Donativos piedosos ! Oh t quando taes donativos sid, nn 
Verdade, feitos do coração, fica-se^ como eu, na classe 



1 M àSCAlA flOCUL S3 

^ > 

o^ora ; por qae nio se natda iikfcreTer o Dome em 
segQímeiito á cifra I 

Babão {$ipantado pelo gesta do iou$or) ^— Ed» é 
boa, ó senhor doutor, e essa cemineoda?. • . 

DocTOR — Devo-^ ao selo com qoe professei t 
aeiMcia» á ju^Uça do rei, ae estudo e ao trabalho I 

ÍmIq — Ora, que o doutor sempre hade ser cxo- 
yeo! 

(S»ate«-fe «Ifi^ni minor pi Itla do f««44^. Apptr#c« um e? Udo qa« 
)[iroc0r»Q barip.) 

Criado -^Sinbor barão!... . a senhora baroQeza 
ro^a a V. ex.' o obsequio de lá chegar. . . 
B^KÃQ — Com licepça, doutor, f.qe) 

SCENA 1U\ 

o DOUTOR CÂNDIDO DB AlÍ»aADA O O CONDE 
M VILLA NOVA DA 6«RBA« 

(jN9« 4onBU «fU •c«na ka § mpde npovimnto bu lala» do Aiiido^ 
O raido e o tosmut angaiODUlD (radaaJueDU alé ao 001 dio neto. 

• 

IkMifOA (ao con4e, que um par0 a seena) ~ Coo* 
segui arrancar a mascara social do rosto d^aquelle ho^ 
mesa : fiz um grande servido á nossa amizade» conde I 

Contm ~ Oh I doutor. • . a sua amizade mata-me t 

Doutor — NSo seja insensato, conde ; nSo julgue 
pelas apparencias, que era um provérbio de sua boa 
m&e. Mergulhe, por assim dizer, o pensamento no co* 
ração do amigo, antes de eondemnar as affeiçOes. Ou- 
vju judo que dissemos ?. . . 

CpwB -m Unvi tudo I 

Doovoa -^ Logo, saèe qM o pae de Adelaide era 
afnda bontem, pedense dicer, um vadio, um Jogador de 
má fé : e que hoje. . . Que sua m9e, de um proceder 



âi A MASCÂEA SOCIAL 

pttblicameule irregolar, especula com os seus altraetí- 
vos, vendendo, quasi que em mercado, o coraçSo ! Que 
rínalmentpi Adelaide.. • 

CoNDB{cojn Ímpeto e nobre resenlimento) — Perdão, 
doutor, nem uma palavra de Adelaide ! 

DonroR--» Arranquei, como lhe disse, a seusolbos, 
a mascara social d'aquella gente I Considere agora se a 
acha digna da sua alliança. E mnilo hiais que a filha 
hade seguir o exemplo da n>ae. . . 

Go>DS«--A innoccneia, a virtude, e a belleza, em 
qualquer logar que appareçam sSo dignas^ sempre, dos 
senlimenlos que inspiram a um coraçSo verdadeiro e no- 
bre 1 A rosa que nasce enlre abrolhos nao c menos pu- 
ra nem menos digna que a do jardim cultivado ! E a 
ludas as razQcs que o doutor me apresentasse agora. . . 
contra Adelaide, responder-lhe-hia apenas que a amo I 

Doutor — A despeito dos meus conselhos, do seu 
nome e da memoria de seus pães? 

Condg — Sim t de tudo! 

Ddutob — Ainda mesmo que cu lhe revelasse que 
a baroneza de Souzel foi, oulr'ora, amante de seu pae? 

CoKDE — Oh! que diz, doutor?.. . quer dar-me a 
entender que Adelaide. . . é minha irmã?! 

DocTOB — Nuo: mas que, se os desgostos matam, 
Ttm dos que matou sua mãe, conde, foi preparado pela 
baroneza ! 

CoNWí — Oh! cale-se . . não desmascare mais-esla 
sociedade, a meus olhos I Deixe-me vêl-a pelas minhas 
itIuiOes ! O que é a vida sem el las?! 

(O roido que tem aQgmçntado interrompe o diah)go.} 

SCENA XIV 

(o coRDB B O DOLTOB. Toda a gente entrando pelo fundo: as mulhe- 
res, despeitadas ; e os homens rindo e murmurando. Um mo- 
mento depois, a babonbia »b sodbbl is aobl^wb. Aigomas d'es- 
tas pessoas qne appareoem, homens e mulheres, vêem prompto^ 
para sair e saem eflecti vãmente pelas po rias latcr.acs riodo com 
escândalo.) 



A MASC4R4 SOCIAI. SS 

Carlos — Còni que brevidade se derramou a doIk 
cia ! Mas que fizeste, Anuibal de Sousa? malas aquella 
mulher I Um escândalo doestes. . • 

Annibal — Desmascarei-a, contei a soachrooica... 
vinguei-me d'ella e da filha! Oh! eu lítilia promellido 
a Adelaide abrolhos, pelas rosas que dava ao conde ; 
cumpri a minha promessa ! 

Caif i>G (áparu) — Que escuto I? 

Annibal (a algumas pessos) — Minhas senhoras, 
meus tios pedcm-lhes desculpa. Nós ignorávamos com* 
pletamenle os precedeiHes d'aquella senhora • . Espe- 
ro-a para a conduzir ao seu trem. 

(N'este momento apparecem i baroneza e Adelaide. A primeira 
lançando um olhar altivo sobre t turba como o instincto dt 
fera já ferida que pretende defender a cria: a segunda, pallida 
e tremula, olhando assustada, som comprehender a situação, e 
refugiando*se nos braços da mãe.) 

DouioR (a meii voz ao conde) — Desmascararam* 
na ! 

GoRBE — Ohl eu evitarei similbante escândalo. • . 

Adelaide — Minha mãe.. . que é isto? que mal fi* 
zcmos a csla genle para se rir assim de nós? 

CoNDc — Dei\e-me o braço, doutor ! c«mpre-me 
defendel-a ! 

DoiTOR — Deixe«se d'is30, conde, que nSo faria 
mais do que ir cobrir-se de ridiculo t Bella entrada no 
mundo !. . • 

Conde — O mundo I pois nSo vé o que é este mundo, 
doutor, DO procedimento insensato d'essa gente que es- 
maga a virtude com o crime, e não sabe perdoar ao 
crime pelo amor da virtude?! Òhl deixe-me, quero de- 
fcndel-a. . . 

DocTOR — Defendel-a ?. . . e com que razões. . . 

Conde — N'um caso doestes, quando faltam razões, 
sobra o coração i 

Doutor (no escapar-se-lhe o conde) — Iraprudenlel 



» A 11 49C4RA SOCIAL 

A humanidade seria mailo mais feliz se nao Uvesee co^ 
ração! 

(O eoadt twmde pelo les nobre jnipolfo, consogoe ronper pela 
lurbe e ^beftr ate á bar^aeza de Sooiel e Adelaide. CoUocaodo* 
9M eatio ao lado d'e5U» no centro da sceoa, domina com nm 
olhar enérgico a sociedade e exclama.) 

CoNDB — Pdra traz! Para traz, meus senhores e 
senhoras ! que nSo se esmaga^ doeste modo, o eoraçSo 
de uma mSe aos olhos de sua Rlha ! (uai silencio pro^ 
fundo succede ao rumor quê havia nas salas. O conds 
continua com a voz pausada e firme) Olhae! eseutaei to« 
dos! Âquelle» de entre vós, que tiver, conscienciosamen- 
te, um coraçSo sem mancha» desfolhe este ramo de ro-- 
888 virgeos ! 

(Lança o ten ramo de rosas no centro da tvrba ^le mirmwa, im- 
preisionada» e recaa.) 



Cai O panno. 



ACTO n 



Moa ene tfee dimt 00 |»lQiit«« 
St jt nifi dif : Ce D*Mt qo^an iOiif« 
Qae la bonbear qai doit fioir I 



(S«]a em casa do bário de Souxel. Mobília laxaoa e elegante.) 

SGENA I 

(Ao loTantar do panno a baroneia 4siá senUda * ^ daiUor Cindido 
de Andrada ezicoBtado a um moyel.) 

DouToii — Fallo-Uie «em roasMra^ \aitwat\ po- 
nhamos as coisas nos seus devidos legares, consíderaii* 
dp a sociedade, nao como nos convinha que fosse; co* 
mo ella é de facto, egoísta e critica e pouco amiga de 
perdoar, [rindo) cHomens sem cora(So» dizeis võs oih 
Iras quando^ fartas do enredo» da me^tira^ e da bypo- 
crisia, somos ainda ISo bons que liaiitames a vingança 
a desmascarar-vos as misei*ias do vosso passado, no meio 
das pompas luxuosas do vosso viver presente ! aMuibe^ 
res sem consciência» respoodemoB nós, relhos ciosos da 
honra, e do porvir dos nossos Glhos, sobrinhea, ou tu*» 
^ados, moslrando-Ihes, na UsSo das nossas decepçOes 



M A MASCARA SOCIAL 

moraes, os perigos a que as suas ílIusSes podem con- 
duzil-os I Sim» baroneza» ha homens que o tempo tem 
guardado, e guarda para marlyrio de mais de uma mu- 
lher de espirito.. . e que as occasiões fazem surgir dian- 
te d'ellas, para vexame dos seus dias faustosas ! Ha ho- 
mens. . . 

Babombza — Basta, doutor 1 (despeilada e querendo 
parêccr risonha) Âs suas palavras prelenciosas. . . can- 
çam^me o espirito, e não me convencem de que a so- 
ciedade é justa 1 E emquanto ao que já temos dito de 
Adelaide, o doutor falia tão sem provas. . . 

DouTOA — Tão desavisado fora que sem ellas ci 
viei*a7!.. . Baroneza, quaodo dou um passo, sei onde 
Voul quando avanço uma proposição sei o que quero 
concluir I 

BARONF.ZA — O dontor pretende entrar n'uma ques- 
tão bastante delicada para o espirito de uma mae. . . 

Doutor — V. ex.* devia ter evitado immediala- 
mente as ilIusQes de sua filha 1 auxilíal-as foi desafiar 
os factos á publicidade i 

BARONBZá {rasgando o lenço e levaniando-se) — Que 
factos,^ doutor 7( 
' Doutor (rindo) — Alguns. 

Baronkza -^ Oh 1 é preciso, realmente, não ter co- 
ração!.. . 

Doutor -— E não me sobra ello. . . pelo que faço ? 
interessando;me tanto por uma creança ingrata que não 
e meu filho... que me envelhece com osseusdesvarfos... 

Baronbza — O doutor foi sempre infeliz com as mu- 
lheres e com as creanças. 

DouioR — Com as mulheres, por que nunca achei 
uma que o não fosse em. todo o sentido material da pa- 
lavra ! com as creanças, pelo amor fingido das primei- 
ras t mas se o visconde de Villa-nova da Serra foi o lu* 
dibrlo de v, ex.% seu filho não o será nunca da sua filha, 
baroneza t 

> Baroneza — Ha realmente uma coisa bem difficil 



# 
/ 



.'A HASGARA SOCIAL M 

n'esle inundo I — é representar cora propríedide a co- 
media, quando o Jiosso coração anceia por \oroitar ò 
fel que lhe derramaram ! Diga-me se os meus erros, $e 
o meu passado, que a sociedade ainda ha pouco me lan- 
çou cruelmente em rosto, devem acaso manchar a re- 
putação da minha filha? 

Do!3Ton {tirando um jornal ijue ^he apresenta para 
ler) — Ê a sociedade que lhe responde. Queira ler, 

Babonkza {ienio) — c.\ respeito da entrada que o 
conde de Vilia-nora da Serra fez no mundo, o mais in- 
decoroso e rídiculo é que a Glha da baroneza já nSo po- 
dia corresponder á pureza d'aqucllas rosas com que tan- 
ta bulha fez o conde ! Todos sabem que a filha da ba- 
roneza tem lido bastantes felaçCes com um cavalheiro, 
nosso amigo... [lagando o jornal) — Ohl infames! 
É até onde pode chegar a intriga ! o cumulo da malva- 
dez!.. . Eu dera tudo que possuo por saber quem é o 
autor de simiíhante artigo/ 

DouTon — Comprehende agora, baroneza, a raEâío 
que nre faz failar? E piecíso que v. c\.* convença sua 
filha a escrever ao cunde, despersuadindo-o das iltusOes 
a que clle se entrega. Evitaremos, doeste modo, muitos 
desgostos. . , 

Baroneza — E nSo haver uma voz que se levante 
a favor de Adelaide 1.. . um coração nobre e justo que 
a defenda d*esses insultos gratuitos com que a socieda- 
de pretende \c\al-a ! Oh 1 lerei eu de véí-a succumbir 
debaixo da minha cruz!?..: perder-se como eu me per- 
di pela força da fatalidade, pela fieira das circunstancias, 
cair do engano no erro, e do erro, no crime. • • para 
arraslar-se depois até ao vicio. •• á perdíçSo?/ ((/e«ei- 
perada) Doutor, aquelle artigo contém uma intriga. . . 
uma calumhia terrivel I E' obra sua ou de Annibal de 
Sousa ! 

Doutor — Oh ! baroneza, nSo costumo defender-me 
de um. modo tSo vil ! 

Baroneza^ Mas acredita o que elle diz? . 



M A lIAfCiftâ MCIAL 

Domot — Nio te trata de oiim I é da sociedade. 
O qoe Qos oMvem fozer, é dissuadirmos as nossas ereaa*- ' 
fas das íllosOes a.que ae entregam /é« pelo menos, isto 
o que me interessa de mais perto. Espero que a baro* 
neea nao seja surda ás razOes que lhe tenho exposto, a 
peço-lhe as soas ordens. 

Biaonvzi^^ Fique mais um instante, doutor; te- 
mos fallado cora tanta franqueza que não devo hesitar 
«m lhe revelar a dilBculdade da minha actual posiçSo ; 
e vou revelar-^lha por que desejo pedir-^lhe um consc-- 
Um. E' um segredo da fomilia que lhe vou contar. Quan- 
do a justiça, n'aquella noite fatali invadiu e sequestrou 
a tniiiha casa^ fiqueit como sabe, quasi que sem recurso 
algum; nio contando a prol«cç2o da viscondessa de Vil*^ 
la*B0Ta da Serra» d'essa mulher que. . . 

DufJTon «~ Perdão# baronezal 

BauoriZí -^ Eu continuo. O conde de S. Brigida 
fez-me então a corte. Vivi cinco annos com elle, e tiva 
Adelaide. Quando» porém» esta menina nasceu» o con-^ 
dCi receieso do encargo^ ou temendo as iras da condes*^ 
na» que o dominava, abandonou-me. Desde esse perio<- 
do, o meu coração loraou-se outro s e&perimentooi ao 
primeiro grito, ao primeiro vagido de minha filha, não 
sei que suave avogão de novos affeclos que me tornou 
auperior até á idéa da minha equivoca situação I Pare^ 
x^eu ter-me illumioado t fortalecido o e^pirUo a idéa 
dos meus deverei de m&f Adelaide era, para mim, o 
anjo que Deus tiaha mandado ao centro do meu viver 
errado» d^essa vida de diSsipaçGes em que não tinha por 
minha culpa caido, para consolar-me ò coração» tão 
Jrituradúí pda magoa ; e lavar^me, com o seu pranto in- 
nocenle» o rosto aumchado pelo escub do interesse ! 
Pensei aaaim ; e retíreiMlie do mundo. Mas Adelaide 
crescia y e eu tremia ainda da pergunta que cila podes- 
M fazeiHM um dial Gaaei. A posição que Jorge em bre- 
ve adquiriu chamava-o á sociedadei Tinham pss^do 
dez annoS... deas annos da arrepeadimento... voltei com 



A lUSCàiA SOGiU M 

ell« e apresefitei-me outra/ vez debaíu do smnoaeodo /^ 
sen tít4jlo. A benevoleDcU com nw a sociedada lae re- 
cebeu^ ai! iliadiu-me laulo, que cbeguei % varrer da 
loeroeria a recordação do meu passado t Hoje^ repallída^ 
escarnecida, menospresada, o pensamenla qoe maia na kN^ 
lura é o futuro de minha filha ! Asnibal de Soma não 
a ama ; capricha em possuil-a ! Os inleresseade Jorge estSo 
de lai modo ligados aos do tio de Anníbal, 6 easa faomea 
presa lanlo o sobrinho, que qualquer desiolalligancia ^ 
dia trazer graves dcàgoslos Affroolal^oa» ou ao8Ír>er I E 
eu, e« que nasci para a desgraça, para a verfonha, para 
o soffrimento emfim, sem amparo, sem uai coração ami- 
ge que me aconselhe.. • que devo fazer ?,hêi4e ver 
minha filha entregue a um homem que não a ama^aym 
devasso ; em breve, ludibrio dos seus insultos, em bre* 
ve perdida, em breve mcrla?! Oh t doutor. . . fui pecca- 
dora ! não haverá, porém, no coração de um homem da 
sua cdade, um sentimento favorável á mullier que, em 
vez de lançar fora do leito da impudicicia o fruclo da 
licença, leve o nobre instíncte de o conáeiA'air jofilo de 
aí, com a idéa de purincar-se no rçligioSo cumprítnènto 
de todcs os seus deveres de m3c7 

(N'estd momento Adelaide apptreoe, lUlpeade-ie t eicaU.) 

Doutor {commomdo) — Qu6 quer, bàroneza?!. . * 
Que imporia haver no meu cornçSo d^efóêd sobliatêAlos 
generosos, se elles não são admissiveis no espirito da sò* 
cledade ?! 

Baroneza — Oh ! Eu metter-me-hiá vívá ii'âm Ui« 
mulo pela felicidade da minha filha! (em lagrimas) 

Doutor — Baroneza.. . 

Baíion£za — Seja nosso ami^o^ dootor,,» « aahé- 
me Adelaide I . Oh ! os homens bons cumprMi «a tarra 
uma missão sublime ! Salve-me a minha filha. . . 

Doutor (áparlê, tommomãò) -^ Axf^l <Slá faia que 
BU desmascarei tamboiã o meu cora^. % t^fB ^ sentir 



32 A M4SCAR4 SOCIAL 

movido pela voz da desgraça ! (alto) Baronera. . . ea 6Ó 
conseDlíria Da união do conde com a sua filha.. . per- 
milta-me mais esla franqueza, se v. ex^ quizesse reco- 
Iher-se a um claustro para sempre t E' menos que met- 
ter-se viva n*um tumulo. 

BAnoNBZA — Dá-me a sua palavra?.. . 

DoirroE — Ê a primetlra vez que .acho uma occa- 
sião digna de a eoipeuhar ! Dou*lhe a minha palavra de 
honra, baroneza I 

Basoneza — Acceílo ! 

Doutor {aparte, muilo contrariado) — E . . ora abt 
está! eu que entrei aqui para desfazer justamente aquiilo 
que fizt.. . A minha sina é aturar creanças.. . está 
visto ! 

SCENA II 

A BARONEZA, DOCTOR, ADELAlDB. 

Adelaids (iudo beijar a baroneza) — Ainda hojo 
nSo lhe tinha fallado, minha qucridii mãe. 

Babotibza — Anjo meu!... {abraçando-a ^ aparte) 
Meu Deus» teria ella escutado.. . 

Doutor — Rogo á baroneza o favor de me apre- 
sentar a sua interessante filha. 

Baroneza {á filha) — W um coração nobre e gene- 
roso, que não tem mais de um defeito í persuadir-se de 
que é pbilosopho. O doutor Cândido de Andrada. 

Adelaide — Ah. . . (faz uma mezura). 

Do€Toi [aparte) — ' Hade conhecer-me. • . por tra- 
dição! [sorrindo amavelmente). 

(Adelaide depois de ter comprimentado o doutor, voUa-se para a 
bâroneM, encara-a eon tristeia. e abaixa • rosto para occolUr 
o praato.) 

Baronbza — Que tens tu, Adelaide?. . . 
Abelaio^ fteí>o á baroneza) — Nada. , . Parece^ 



A MASCARA SOCIAL 33 

me que sofFro já o peso (l'essa felicidade que hado cus- 
tar-me o sacriGcio de minha mae ! 
Baroneza — Cala-le querida. . * 



(Entra pelo fando um criado.) 

Criado {atmunciando) — Os senhores Annibal de 
Sousa e Carlos Monteiro, [saé) 

Baroneza — Annibal de Sousal... (baixo úo doutor) 
Doutor.. . deu-me a sua palavra.. . 

Doutor — Por uma vez para sempre! 

Adelaide [suspirando e enxugando opranto) — An- 
nibal/.. • 

Babgnbza [baixo, ao doutor) — A presença d'aquello 
homem lorlurar-me-hia tanto o coração que talvez des- 
truísse a resignação de que preciso! (para Adelaide) Tu 
ficas> Adelaide. Esconde essas lagrimas e convence-te de 
que uma dás maiores necessidades da vida social é sa- 
ber mascarar com sorrisos a dôr que nos retalha o co^ 
ração ! [beijando-a) Lembra-le bem d'estc conselho que 
este beijo assignala. [saej 

SCENA III 

ADI LVIDÈ, O DOtlTOR, dcpoiS ANftlBAL DÉ áOUSA 

e CARLOS MONTBIRO. 

* 

Adelaide — Doutor, sabe dízer-me sé ha algum 
segredo para sermos completamente felizes? 

Doutor — Sei. Consiste em pouco: nSo fazermos 
do impossível necessidade, nem das illusSes Verdades. 

Adelaide — Oh! meu Deus.. . que nSo é, pois, 
mais do que um sonho a felicidade que tao depressa 
acaba ! por que a necessidade é quasi sempre o impos- 
sível, e a verdade as íllus3esl 

s 



34 À MASCARA SOCIAL 

DoLTOR {aparte) — Aprenda senhora phílosophia, 
pela bocca doesta creança ! 

(AnDÍbal de Sousa e Carlos Monteiro entram n'este momento. 
Annibal detem-se e dii algamas palavras a Carlos Monteiro.) 

Aní«ib\l — O doutor cá está» 
Carlos — Pois se o barão o esperava» 
Annibal — Que tal seria o effeito do artigo ? 
Carlos — Descanca: ella é tua! 

(Descem a scena « vêem cortejar Adelaide que está sentada, á di« 

reita.) 

DotTOR — Ohl o senhor Sousa?. . . 

Annibal — Prompto sempre a apertar-lhe a mao. 

Carlos —Como está, doutor? 

DocTOR — Sempre promplo a admirar a sua iodole 
articulista» senhor Monteiro. 

Annibal — Creio que o ministério cae. 

Doutor — E' uma notícia bastante desagradável, e 
muito mais para esta senhora que nao tem o mau gosto 
dMnteressar-se pela politica. 

Anmbal — Pelo contrario, é preciso fazer mais jus- 
tiça ao espirito da senhora D. Adelaide. Esta senhora 
nao ignora que os interesses do barão dependem do mi- 
nistério, e que, se o ministério cair, a opposição podees- 
magal-o ! 

Carlos {baixo a Ànnibal de Sousa, rindo) — Ó 
Sou$a> nunca te ouvi dizer tantas sandices t Cuidas que 
ella não sai^e dos barris de manteiga capturados pela 
policia brazileira?. . . 

Annibal — Como passa o barão? 

AdBlaide — Bom: devem tel-o prevenido.» . 

Anmbal — Como está o conde, doutor? 

Doutor — Esse, ri muito. 

Annibal — Ri !? de que ? 



k IlASCAftA SOCIAL 33 

t>otJTOR — Dc quem lem a vaid.ide de julgar que des- 
acreditar uma mulher equivale a acreditar-se no espi- 
rito delia : dos fátuos que, sendo o escândalo vivo da 
sociedade, cuidam ser os seus principaes ornamentos : 
dos homens, finalmente, que no meio das suas lucu- 
braçoes estultas contra os seus similhantes, pensam que 
escapam & justiça de Deus, como escapam i d'elles, de- 
baixo da mascara impostora onde se occultam;, 

Annibal — O' doutor, o senhor imagina, pelo que 
VejOj grandes coisas ! Representa<-nos, ahi , uma espe^ 
cie de Gagliostro. • • por exemplo. 

DoDToit — tanto, não! mas um homem que lem a 
suà polícia muito regular e que está no caso de dizer. .. 
por exemplo, o dia e a hora em que entrou para ca-^ 
sa de um certo capitalista a quantia de trezentos con^ 
tos de réis em cédulas (álsas do Braeil para serem ven- 
didas. • . 

Annibai {amareilo) — Ah ! n^esse caso retiro a ex- 
pressão : nSo é um Gagliostro que representa ; é apenas 
um simples denunciante ; juntando á baixeza da denun- 
cia a vilania do espião 1 

(Doutor solU uma risada, Volla-Ilie ai costas e Vae <^oaversar wm 

Adelaide.) 

Annibíl {haixo, á Carlos Monteiro) -^iHo te dis- 
se eu, sempre, que o homem não era o que se inculca- 
va?! O barão abriu-se com elle, que simulou desejos 
de negociar. « « e. . , tem^nos em seu pod6r ! Corre a 
prevenir meu lio e^ ■. . 

DoutoR — Somos tão pouco amáveis.. . meus se^^ 
nhores, que ainda nao achámos uma palavra agradável 
para diser a esta senhora ! 

Carlos*^ Eu peço desculpa de me retirar antes 
de comprimenlar o barão. Lembrou-me um dever a qu6 
nao posso faltar. . ; [torleja e sae). 



3C k UASCAnA SOCtAI. 

SC ENA IV 

ADHLAIDE, O DOUTOR, C ANMBAL DB SOISA. 

A.NMBAL {aparte) — Sangue frio! 

UoiTOit (olhando para Annibal e depois para Ade- 
laide ; com amabilidade) — Creio que sou demais, aqui.. . 

Adelaide — Asseguro-lhe que não. 

Annibal — Homens como o doutor, nunca sao de 
tnais nem dè menos em parle alguma. 

DotTOR — Um velho conta historias que se ouvem 
ou não. . . continuando cada qual a pensar no que lhe 
convém. A propósito de conveniência.. . 

Adelaide O 'i^^''^^*'*/'^'*^'^) — A propósito, disse o 
doulor ha pouco uma coisa que me pareceu uma íih 
conveniência.. . 

DouTOtt — Agrada-me a sua franqueza, D. Adelai- 
de. Então que disse eu ? 

Adelaide — Disse que desacreditar uma mulher, 
equivale a acreditar-se no espirito d^ella. Éxplica^me o 
sentido verdadeiro d'estas palavras? 

Annibal — Que encerram uma grande verdade 1 

Doutor — Infelizmente! Supponha v. ex.* que uma 
mulher, no seu caso, era publicamente desacreditada a 
favor de um homem.. . no caso do senhor Sousa.. . 

Anníbal — O doulor esquece que enlre nós já nao 
ha caso algum i 

Doutor — Foram supprimidos na grammatica; mas 
hade convir que. . 

Ann:bal — Não posso, doulor, por que o seu mo- 
do de fallar é^tão equivoco. ; . 

Doutor — Não ha nada mais equivoco do que as 
interrupções reticenciadas feitas por uma pessoa a quem 
nâo nos dirigimos directamente. 

Annibal — É que, apezar de tudo, esta senhora 
merecc-me vivos .sentimentos. . . c eu. . . [para Adelai- 



. A MASCARA SOClAt 37 

de) Perdão, minha senhora, todos sabem... e todos cen- 
suram a minha infelicidade I 

Adelaide — O doutor dizia.. . que?.. . 

DonroR — Que se um homem disser, ou fízer cons- 
tar que tem relações com uma mulher, e laes relaçGes não 
existam, embora, de facto.* . ficam existindo de direito 
no espirito da sociedade ; porque a sociedade tem direi- 
to de acreditar tudo que lhe dizem os jornaes t 

ÂDELAiDB — E depois ?. . . 

AitNiBAL — Ê uma coisa sem consequência. Quem 
presta ouvidos ao que dizem os jornaes ?! 

DauTon — Ninguém, se contam a virtude... Todos, 
se promovem o escândalo I (para Adelude) Como lhe 
dizia, minha senhora, uma vez produzida similhante 
impressão no espirito da sociedade, a mulher fica, por 
assim dizer, no dominio d'esse homem, sem outro rc« 
curso de fugir á censura, senão desposal-o. £* d'este 
modo que muitos fátuos conseguem acredilar-se no espi- 
rito da mulher que invejatn e que os desprcsa, desacre* 
ditando-a aos olhos do mundo ! 

AoEiAiDB — E nao ha uma voz na consciência de 
similhantes homens, que lhes falle a favor de uma po- 
bre mulher, a quem elles, por vaidade, capricho ou con- 
veniência, procuram immolar na flor da edade sobre o 
seu coração defunto ! Oh ^ se um homem qualquer se 
tivesse assim comportado comigo. . . 

Doutor — Que faria v. ex."? 

Adblaídè — Eu? {levantando-se) Eu?. . . que faria 
eu ? {olhando com despreso para Annibal) Nem lhe dava 
a importância de lhe querer mall.. . despresava-o ! 

Annibal — O despreso de uma mulher interessan- 
te exalta muitas vezes o pensamento até á vertigem da 
paixão ! e desafia o resenlimento á vingança ! 

[O doutor ri-se. O barão de Souzel entra pela esquerda.} . 



3S A MASCARA SOCIAL 

SCENA V 



ADELAIDE, O DOUTOR, ANNIBAL DE SOUSA» 6 O 

BAUlO DK SOUZEL. 

Babão -^ Desculpem^me a demora, meus senhores: 
eslava com o meu guarda-Iivros. . . Ahf . . . doutor. . . 
{aperíanio-lhe a mão) Como eslá, senhor Annibal i^ 
Sousa ? Ifallando-lhi a meia voz) Já fallasle com o ho- 
mem? 

Doutor {notando a familiaridade eom que o barão 
falia com Annibat) -^ Como o interesse liga os homens 
a despeito da honra I 

Adelaide (áparle) — E eu beíde onir-me a quem 
despreso tanto?! 

BarSo [íendo escutado Annibal: a meia vez) — Es- 
tás fora de ti I pois se elle tratou formalmente comigo 
a compra d'aquella porção de fazenda. . . 

Annibal (batxo) — Repilo que é um )ogo para dos 
apanhar ! 

Barão -^ Estás sonhando !. . • um jogo. . . 

Amnibàl — Quiçá de accordo comligo! 

BarIo — Comigo?! Sabes que mais? Tão de má fé 
és tu, como o teu tio.. . 

Annibal — Não sei porque. O dinheiro de meu tio 
íez-te barão.. . 

BarAo — Mal feito. . . se eu lhe tenho ajudado a 
abarrotar a burra !. . • 

Annibal — E as minhas inclinações pela tua Glha..» 

Barão — Obrigado ao teu favor ! 

Annibal — Podiam tornal-a feliz. 

Bar\o — Sim.. . isso é lá com ella 

Annibal — Mas se tu nos atraiçoas, Jorge, nòs sa- 
beremos esmagar o nosso lesta de ferro, entendes ? Bem 
sabes que não ha nada mais facil do que levantar a pe- 
dra que pasa sobre o processo dos torris de manteiga, 



À MASCARA SOCIAL M 

I 

capturados no MaranhSo, e a ti consignados por uma 
fírina supposta ! 

BabIo — Ora esla t pois será possível que eu tenha 
sido logrado pelo doutor 1?. • . 

AifiOBAL — A ponto de te abrires com elie a nosso 
lespeito! Cuidado, Jorge, a pedra levanta se, e o pro- 
cesso corre os seus tramites t Remedeia a tua imprudên- 
cia, sendo nas nossas mãos o que nós quizermos que se-« 
jas. A escriplura do teu divorcio está prompta : a do 
casamento de Adelaide, também : amanha, é preciso quo 
tu obrigues a baroneza a assignar uma, e tua filha a 
assignar a outra. Isto é positivo ! Emquanlo á dotação de 
Adelaide, também esperamos ser obedecidos, barão. 

Barão (ápané) — E' quasi o dinheiro que tenho 
ganho que lhes volta para as mSos \ O bom filho i ca^ 
sa torna. Mas eu vou descoroçoando. . « 



(Doraate o dialogo entre o bário e Anmbal de Soos», Adelaide 
depois de ter conversado um momento com o doutor, senta-s» 
no sophá sobre o qaal a baroneza deixara o jornal qne o dontor 
Ibe deu a ler, pega-lhe, corre-o« e um momento depois solta um 
pequeno grito.) 



Adelaide — Meu Deus ! .. . que infâmia li eu aqui!?, o 
Será possível.. . Ohl Annibal. . Annibal. . . 

BarIo {dirigindo-se ao doutor, mal contendo a t?on-> 
lade de o esganar) — Doutor.. . linha agora tanta von- 
tade. • . de lhe offerecer um copo de vinho do Porto t..^ 

DocjTOR (rindo) — Ê natural t pelos que teve a bon- 
dade de beber de mais no meu almoço de hontem. Con- 
venho... que V. ex.^ não deve acceitar almoços sem ter 
a sabia precaução de se prevenir contra o vinho do Por- 
to. Os testas de ferro também se exaltam. . . 

Barío (a meia voz) — V. ex.* ó um traidor \ 

Annibal {idem) — Um denunciante!.. . 

Doutor — Mas hãode confessar que os tenho na 
mão! 



40 A MISCIRI SOGUL 

Annib\l — Meu lio eslá a esla hora prevenido, e 
em sua casa nada se enconlrará. . . 

Dourou — Seu lio eslá na melhor fé possível a meu 
respeito. O senhor Carlos Monleiro, em logar de ir pre- 
Yenil-0| foi, aposto eu, redigir um artigo que hade sair 
amanha no meu jornal, cujo é redactor em chefe! E eu 
peço licença pari lhe ir dar os últimos apontamentos.. . 
(corieja e sae). 

Barão — Estamos desmascarados^- 

Annibal [aparte) -r^ko menos, não suspeitou que 
eu (raz'a comigo a^ cédulas! 

SCENA YI 

ANftlHÂL DK SOUiA, O BAKÂO, O ÂDELAU)I\ 

Adbi AiDE (nolando a preoccupação do barãOy e apro-^ 
ximando-se d^clle) — Meu pae. . • 

BarXo (áparie) — A innocencia com que esla crea- 
tura. . . (alto) Nào estou bem comtigo... Adelaide!... 
Teimas em contrariar a minha vontade.. . recebes mal 
um amigo meu que podia fazer-te feliz. . . E queres que 
te diga? Também a felicidade de teus pães depende muito... 

Adelaide -r- Mas eu estou prompta a ceder... (á/?ar- 
te) Aí de ti, meu triste coração ! 

Annibal — Lembre-se do que lhe diàse, barão. 

Barao — Porque. . , relira-se ?. . • 

Annibal — Preciso ir entender-me com o tio.. . 

Barão — Mas escule que.. . {dá4he o braço e vas 
conversando com elle para o angulo direvo da scena^ ao 
fundo). 

Adelaide {aparte, á bocca da scena) — Sim! que 
cu seja ao menos feliz com a idéa de ler-me sacrificado 
por meus pães ! 

fN'c2>te momenlo apparccc ao fundo um criado.} 



A MASCARA SOCIAL 41 

Criado {annunciando) — O senhor conde de Villa- 
nova da Serra. 

(O bário e Anoibal de Sottsa fazem am gesto de surpresa. O con- 
de enlra in mediatamente, vè Adelaide e corre a fallar-lhe sem 
reparar em nada mais.J 

SCENA VU 

ADBLAIDK, CONDE DE VlLLA-NOVA DA SER1IA, O lABAO 
DE SOUZSL, e ANNIBAL DE SOUSA, aO fuodo. 

GoNne — Adelaide. . . Oh ! eu venho aqui. . . nem 
lo posso dizer como venho ! como trago o coração, como 
HtUo as idéas !.. . Adelaide... o mais horrível veneno. .. 
uma anciã I.. . Oh ! e todas as minhas illusOes ameaça- 
das por uma verdade.. . uma verdade tal . • nao; não 
quero chamar-lhe verdade ; por uma desconfiança. . . não; 
lambem não quero dizer que é desconfíança... porque a des- 
confiança in volve uma accusação tacita, eeu não teaccuso! 
não tenho forças para tanto !. . . Creio em ti : n'esse 
respirar brando que não sae, por certo, do um peito 
desleal I no fogo d'esse teu olhar que não vem de uma 
alma traiçoeira t.. . na tranquillidade com que me escu- 
tas, que não é. . . não pode ser de uma culpada ! mas 
apezar de tudo.. . Adelaide.. . ha não sei que terrí- 
vel, talvez o susto, sim, é simplesmente o susto de te 
perder ; o susto de não ser verdade o que pensei de ti, 
o que adorei em ti 1 Oh I perdòa-me 1 perdôa«me, que- 
rida: ha umas palavras n*este jornal.. . (tirando do 
bolso um jornal) Calumnia, que tu vaes desmentir já, 
com os teus lábios puros e a tua voz celestial.. . {pro- 
curando rapidamente com a vista ó artigo do jornal). 

Adklaide {aparte) — Expira, pobre coração, expi- 
ra ! que a hora do sacrifício é esta ! Renuncia â felici^ 
dadc, despede-le das tuas crenças.. . e offercce-te, in- 
nocente, no holocausto frio da conveniência l . . 



•# 



4S A IIASCIRA SOCIAL 

CoKDE — Obi. • . A imprensa.. • esle órgão popu- 
lar que devia reconhecer a honra da sua missão, e se- 
guir, sem desvios, os nobres princípios das suas ínslj- 
luiçOes*. . o que é boje entre nós? a lingua farpada da 
inveja e da intriga que nos fere, desapiedada, bem ve- 
zes no mais intimo do nosso coração ! Pennas desvaira- 
das que assim insultaes uma mulher, levando a virgem 
ao pelourinho da deshonra ; que fazeis do vitupério um 
costume^ correndo sem censura nem juizo sobre o pa- 
pel que tudo vos consente !. . . Homens sem fé, sem con- 
vicções, sem meiito; nódoas escandalosas da saciedade, 
que a lodos julgaes pela vossa cartilha licenciosa.. . eu 
vos amaldiçdo, pelo fel que derramaes na minha exis- 
tência ! Adelaide.. . Ohl pelo amor que te consagro... 
pela felicidade de teus pães dize-me.. • dize-me que este 
artigo é uma calumnia ! 

Adelaide — Carlos... é bem pela felicidade de meus 
pães que te vou responder. Esse artigo. . . 

CoNDB— Devo eu ouvir-le?!. . . 

Adelaide — E' verdadeiro ! 

CoKDB {palUdo e desfeilOj recuando) — Que diz el- 
]a I? Que dizes tu, Adelaide ?. . . que fazes de mim ?• . .. 
Oh ! que deveremos nós respeitar, de hoje em diante, 
^ a virtude nos engana, assim, n'este mundo !? Que 
deveremos respeitar. . . 

Annibal (que se tem aproximado tagarosamente 
responde-lhe, interrompendo-o) — As conveniências, se- 
nhor conde. 

Babão — E o interesse das familias! 

Conde {encarando-os com profundo despreso) — A 
conveniência e o interesse das famílias o que é, tradu- 
zido ao pé da lettra, senão a ambição mal entendida dos 
pães que, por salisfázel-a, vendem*, quantas vezes, qua- 
sí que em mercado.. • no mercado das salas, as filhas 
a quem roais dá* 

Barão -«- Insolente I 

Annibal — As creanças lecm liberdade poética. 



A MASCARÁ SOCIAL 43 

Conde — Corações interesseiros, vis ! Homens am- 
biciosos que no centro das suas lucubrações escandalo- 
sas alcançaram crear um rosto inaccessivel ao pejo, por 
mais que lhe lancem em face os crimes e as vergonhas 
a que desceram t Oh ! mas a virtude em vão tentará pôr 
a mascara da impudicicia ! E' Ião difficil de crer que se* 
ja V. ex/ o pae d'esla senhora, como o ler-se ella dei- 
xado seduzir por aquelle homem sem coração e sem 
espirito ! (designandOy am o dedo, Annibal de Sousa}^ 
BarAo — Saia da minha casa. senhor conde t 
ÂivMBAL — Ó barão» deixe-o. . . que nos diverte ( 
Conde — Ohl Adelaide.. . e nem uma palavra tua, 
senão aquelle sim falai em que não tenho espirito para 
acreditar I. . . 

Barao — Basta, senhor I Jà lhe disse que se reli* 
rasse t 

SCENA VIU 

ADELAIDE, O BARAO, ANNIBAL DB SOUSA, 
CONDE, e a BABONEZA. 

Baroneza (abrindo rapidamenie uma poria) — E 
eu rogo-lhe que fique ! 

Adelaide {correndo a abraçar a màe) — Oh! mi- 
nha querida mãe. . . O sacrificio está feito ! Eu disse-lhe 
que tudo era verdade ^ 

Baboneza — Que loucura, fiIha^• . 

Barão (aparte) — Aqui ha, por força, alguma coi- 
sa que eu não entendo bem ! 

Baroneza — Não. . . não consinto que . a intriga 
d^aquelle miserável manche por simílhante modo a tua 
innocencia! Senhor Annibal de Sousa, já que promoveu, 
em casa de seu tio, aquelle escândalo, desmascarando- 
me, soffra as consequências agora.. . 

BarIo — Que escuto I Foste lu, que provocaste si- 
mílhante escândalo?!.. . Tu, Annibal?!.. . 

Anmibal — A baroneza acredita pois?.. • 



M A MASCARA SOCIAL 

Baron«za — De tudo estou bem informada, por 
que o leu amigo Monteiro tem a virtude de nao 
guardar segredos! AnnibaK e nao temeste achar de- 
baixo d'aquella mascara que me arrancaste uns lábios 
que te desmascarassem a li ; nem um pensamento que 
nSo cedesse a palma na arte de esmagar, sorrindo, tu* 
do quanto pode haver, santo e puro, no intimo do co- 
ração ? 

BarIo — Ora, vem cá, Annibal, no fim de tudo, 
vou concluindo que és um refinado velhaco • que te pa- 
rece? 

Annibàl — Estou allonitot Creio que endoideceram 
todos.. . e n'esse caso retiro-me. Em breve te mostra- 
rei, barSo, que nSo se dizem, impunemente, certas coi- 
sas a um cavalbeirj. . . 

Baronbzá {rind')) — O amor próprio!.. . Tu, ca- 
valheiro? Cavalheiro é o conde e outros como elle que 
provam instinctos de honra, tanto nas suas acçSes co- 
mo nas suas palavras! Tu dizes que és cavalheiro? de 
industria, convenho, por que tens nas algibeiras tre- 
zentos contos de réis em cédulas falsas do Brazil.. . 

Annibal — Baroneza I 

Barão {assustado) — Perdão, baroneza, com isso é 
que não devemos brincar!. . . ^ 

Baroneza {para Annibaí) — E' bem pesada a ar- 
ma com que te firo, não achas? e, todavia, não passa 
de um simples bilhete! {m'}StrandO'lhe um bilhete). 

Conde (á/?ar/^) — Que mundo eslel 

Bauào (idem) — Que famosa ideal (psra Annibal) 
Vinhas, então, prevenido com a manteiga que o doutor 
simulou querer comprar? E affirmavas que nãol Hasde 
convir que o doutor tem mais espirito do que nós ! 

Annibal — Jorge Portalegre. . . os teus interesses 
estão ligados com os nossos: prevejo uma cilada I.. . 
Põe-me em segurança.. . 

Barão — Ah ! isso de certo ! seguro estás tu I Bem 
me recordo da ameaça, que me fizeste, de levantar aquel- 



A UASCARA SOCIAL 4S 

la cerla pedra. . . do processo relativo aos barris de man- 
teiga. Querias quebrar a cabeça do teu testa de ferro? 
pois agora é o lesta de ferro que te quebra a lua t 

ÂNMBAL — Essa linguag)m. . . barão, que intentas 
fazer ? 

Bàrào — Pôr-tc cm segurança ; não te assustes. . . 
Vou chamar um criado. . . 

Annibal — Cuidado I nao dés um passo! [mettendo 
a mão n' algibeira, tira rapidamente alguma coisa que 
ninguém vê). 

Baroneza [prevendo a situação, por que nolou o 
movIfneMo de Annibal, colhca-se com rapidez na frente 
do barão que se dirigiu para a poria e diz) — A victi- 
'ma serei eu i (solta um grilOy e coe) Ah !. . • 

Aknibal (recuando) — Quem o teria previsto l 

Adblaide {ccrrendo a amparar a baroneza) —Que 
tem» minha querida màc?. . . Oh! que tem? falle-me... 
diga-me o que é. . . 

Conde — Que é isto, minha senhora? [amparan- 
do^a também). 

Barão — Que succede ?. . . Ah . . conduZamol*a 
para este sophá.. . E' uma syncope. ' 

Annibal {aparte) — Cala-te consciência ! Aprovei- 
temos o tempo, e sal^emo-nos. 

(Vae sair, mas o doutor Cândido de Andfada» apptreceodo de 
repente, toma-lhe a passagem.) 

Doutor — Por aqui ninguém sae ! 

SCENA IX 

A BARONEZA, rccIinada n'um sophá; adblaide^ amparan- 
do-lhe a cabeça; o conde^ junto de Adelaide o ba- 
RÃOy pegando na mao da baroneza; annibal, no cen* 
tro da scena, muilo perturbado ; o doutor em frente 
da porta do fundo. 

Annjbal — Estou perdido I. 



16 A HASCAEÁ SOCIAL 

ADEL4IDK — Ohl nSo vêem que minha mãe nao esli 
boaf*-- Jesus 1 nao \èem como revira os olhos?.. . a 
pallidez. • . esle suor frio. . . eslas convulsões 1. • . Ah ! 
isto é já a morle ! 

BaeIo — k morte !?. . . 

BAMNBZà {muito débil) — Ainda ahi está Annibal 
de Sousa? Quero fallar-lhe. 

Conde — Senhor Sousa, a baronesa quer fallar-lhe. 

Anmibíl (muito palUdo e tremulo) — A mim T [apro- 
xima-se da baroneza). 

BàROMBZA — Afaslem*se todos... deixem-nos sós... 

ÀDELiine — Oh! minha querida mãe.. . [em lagri- 
mas). 

BiBONKzA — Deixa-me lambem am instante.. . 

(Todos se retiram para o fondo da scena, cada figora com • gesto 
adeqmado á commo^o qao esperimeAtat o ás idéas qae tem da 
•cçio.) 

Babonêza {com a voz entrecortado conslantemenle 
pelo principio do estertor) — Annibal de Sousa, o golpe 
que preparavas contra Jorge, que te embargava a pas- 
sagemt previsto por mim, recebi«-o eu / Não sei com que 
arma traiçoeira me feriste!.. • sin|o as entranhas como 
traspassadas por uma agulha subutil I (pausa) Sei que 
Tou morrer ; e a'esta hora tremenda, em que me arre- 
pendo dos meus erros, já em face da eternidade ; em 
que desejo que Deus me perdoe, quero perdoar-te tam- 
bém I Mas para que este perdão seja sincero é preciso 
que tranquiilises o meu coração, desmentindo em pre- 
sença do conde o artigo que escreveste contra minha 
pobre filha^ pedindo-lhe perdão de a teres ultrajado. 
Apressa-ie, que poucos momentos me restam de vida... 
(profundo silenciosa haroneza continua) Não contes, po-^ 
rém, deixar-me morrer n^uma esperança vã. . . 

Annibal {aparte^ observando-a) — Estou salvo... 
pouco tarda que expire!... A agulha tocou-lhe o coração ! 



A MASCARA SOCIAL 47 

Baronbz4 (lio ullimo esforço da existência) — An- 
nibai, assassinaste a mae, e queres malar a honra da 
filha?. . . Duas vezes assassino! Vou denunciar-le. . , 

ANNiBAt-^Baroneza.. . niú momento L. . 

Baronbza — Já, se queres que leve para o tumulo 
o segredo do teu crime ! Já, ou eu te denuncio. . . 

ÂNNiBAL — Oh! nãol.. . naolEu vou.- . {em com- 
pleía desordem de espirilo, dá alguns passos e aproxi- 
ma-se de Adelaide). 

BKnojiíiZií [conseguindo erguer meio corpo, no sophá, 
estende ò braço direito, designando-lhe imperiosamente a 
filha) — ii\.. . 

Annibal (para Adelaide) — Calumniei uma mu- 
lher. . . 6 peço-lhe perdão 1 

Baroneza (caindo exhaustay^ Ah !.. . minha filha... 
\em dar-me o teu ullimo beijo 1 

AuuLAiDB {correndo a abraçal-a) — Minha mãe da 
mính*alma!.. • 

Baroneza — Filha !. . . {pausa com voz sepulchral) 
— Eu era a nodoa do leu viver innocenlel O escânda- 
lo vivo que te acompanhava! A Providencia livra-le 
il'el!e! Guarda a saudade de uma mae infeliz... sé vir- 
tuosa... {com a ultimo fôlego de ^ida) s6 feltz !... 

Adelaide (caindo de joelhos e encostando a fronte, 
sobre o peito do cae/aoer) -«- Eil-a morta... Perdi tudol 

(O conde eslá sombrio, de braços crniados sobre o peito. O bário, 
como iiin homem que não entendeu de todo senão as nltimas 
palavras. Annibal, pallido e desfeito, encostado a nm moTel.) 

Doutor (aproximando-se vagarosamente do conde e 
tocando-lhe no kombro) — Tem fé na sociedade» conde ? 
CoNDR {com formal despreso) — Não ! 
DocjTOR — E cré em Deus ? 
Conde (cheio de convicção) — Creio t 

Cae o panno. 



ACTO 111 



Se no mal, porém, ha um bem, tran- 
sem comtigo os ÍDfortuDÍos o faxer 
sentir uma impressão desconheci* 
^ da e indifinÍTel> na primeira ale- 
gria qae quebra a cadèa dos males* 

Vid. O Portuguex de 90 de Maio de 1858. 



(O thealro representa o interior de um quarto andar: duas sa- 
las pequenas, de uma das quaes o teclo é em declive para o 
fnndo, difididas por um tabique até meia altura da parede, 
com uma porta : na da direita, um leito, umá mesa de pinho, 
e uma cadeira: em cima da mesa, uma imagem de Nossa Senho" 
ra da Conceição, em marfim, de palmo e meio d'altura: no quarto 
da esquerda não ha movei algum, excepto um pote. Na parede 
do fundo, porta praticaTel. A scena offerece um aspecto de mi-^ 
seria sem desleixo.) 

SCENA I 

(Ao levantar do pauno, Adelaide trajando simplesmente vestido 
de sarja preta, com os cabellos graciosamente sustidos por um 
pente (sem género algum de penteado) está sentada na borda 
do leito, olhanio e sorrindo para a imagem, em frente da qual 
uma pequena lâmpada ameaça apagar-se.) 

Adelaide — A vida é corao a chamma d^aquella 
luz I Apaga-se pouco a pouco, o parece-Dos sempre que 
vae reanímar-set £ lu, minha boa e Sanla Virgem, has- 
de ficar sem luz que te allumie a tua veneranda imagem? 



à MÁSCARA SOCIAL M 

Quem sabe se eu nSo morrerei primeiro !? assim o que- 
ria bem !.. . sinlo-*me ISo desanimada.. • E aqui morre-^ 
rei só! Já não espero que Gertrudes appareça: ha qua^ 
tro dias que nSo volla. . . foi procurar a sua vida ; fez 
muilo bem ; que não lhe era vida esla existência passa<^ 
da a par de mim, quando lào desvalida mo vejot (kvan- 
ia-se e vae machinalmenle abrir a gaveta da mesa^ on- 
de melle o braço como procurando alguma coisa) Pão?..» 
(sorrindo e abanando a cabeça) que idca que live ago- 
ra! Pão?.. . é um pensamento invariável.. . (fechadno 
a gavela) Acabou-se hunlem de manhã, (beijando a ima-' 
gem) Sus!ente-me a fé que tenho em ti, ó Virgem imma- 
eulada, e esperemos.. . (sorrind») o que? Esperanças 
no mundo? Oh! quantas illusões por lá deixei nosabro* 
lhos por onJe passava incauta !. (patifa) Mas..; havia, 
ali, na gaveta, para um recanto.. . Vejamos, {torna a 
abrir a gavela e a procurar) Não. . . nem migalha I (olhan* 
do agúnisada a) redor de si) Tenho fome! (pausa) E 
se este soffrimento» que desafiei sorrindouao fugir de ca- 
sa, augmentar i. . . Meu Deus: quantas vezes passei, 
louca de illusOes, farta de luxo, saciada de prazeres^ 
por quem me dizia que tinha fome sem comprehender 
o que elles soffriam !? Ânda-se, pelas ruas, tão cheio de 
amor próprio, que raras veees se escuta a vó^ que pe- 
de pelo amor de Deus ! Ninguém sabe o que 6 este sof- 
frimento que me tortura agora 1 Oh l Virgem Santíssi- 
ma. . . livra-me tu do que a fome puder propor-mel... 
(n*este momento batem na porta praticável. Sobresaltada 
por wna esperança vaga, levanía-se, como para ir á 
porta ; mas suspendesse) Se fosse Gertrudes. . . uão i não 
é : do contrario já tinha chamado. Estou só. . . e. . • 
Ohl agora me recordo que não fechei aquclla porta !«.. 
Tenbo medo ! 



í 



50 A MASCAnA SOCIAL 

SCEXA II 

ADELAIDE, HO quorlo da esquerda: andré, abiínda 

a poria pralicavel. 

Audré (correndo a vista pela sreta, mues de en- 
trar) — Ninguém ! c a poria aberta 1 Tale I a pomba 
l)aUeu azas? [entrando) Deus seja n'e5la casa, ó lá de 
donlro.. . 

Adelaide (á, arlc) — É o homem de negocio, que 
nos vendeu esle Uilo.. . 
W A^DiiÉ — O' lá de denlro ? 

AuEUiDE — Nao é mau homem.. . 

André — O' lá de dentro?-.. Volla redonda, creio 
que e&lá a casa deserta I 

Adelaide — Quando se soiTre lanlo.. . alguém que 
apparoça é uma esperança que nos entra n*alma I (em 
toz alta ^ junto d i poria do quarto) E' você, senhor An- 
dré? 

Andíie — Um seu criado, em corpo e alma para a 
servir, menina Benta. Você está doenle? 

Adelaide — • Nao. . . doente, iiSo t eu vou. {abre a 
p:>r(a e passa para a sala de fora), 

André — Oh t que magreza! que amarelleza, meni- 
na Ucnla, viicè tem fome?! 

Adelaide — Que lembrança, senhor André! 

Andbé — Vamos. . . níto negue, que hoje em dia 
é o que se está vendo Você aqui mettida sem ver sol 
nem lua ; nao vem aqui viv'alina, não desfazendo em 
fnim ; que historia de \ida cesta? Ah!... mundo... 
mundo! Volta d'amores, hein? 

Adelaide — O que o traz por cá, visinho? 

Anpré — Negocio. 

Adiíl.vide — Negocio?... nao entendo! (aparte) Qu^ 
terri\eis dores de cabeça ! 

André — É o caso. Puz-me a pensar c disse comi- 
go, que vocô, que vive aqui sem officio nem beneficio. 



A MASCARA SOCIAL SI 

nem caisa de onde elle lhe venha — o JoSo da Cruz — 
modo de fallarl que os pintos, hoje sao meias coroas... 
pouco mais ou menos; mas... saot lá isso... sSo! Ora, 
depois, alembrei-*me â'aquclla sanla que vocô para ahi 
lem e que eu já vi, de volta redonda ; mas que vocò 
nao quiz vender nem trocar pelo leito. . . 
Adeliide — Â minha sanla Virgem I?. • 
ÂNDBÉ — E' ella que cá me traz c anda sempre na 
minha guarda, pela devoçiio que lhe tenho d'alma! E' 
cila, repilo, que cá me traz, pois bem sabe que assim 
lhe dará alguns recursos para ir esperando mais alguns 
dias; que islo de quem espera, e como o oulro que 
diz... [pousa] Vamos, volla redonda, meia libra pela 
imagem. 

ADELMD8^*-*Separar-me delia ?1... da minha úni- 
ca amiga o companheira... da estrella que mo brilha, 
única, n'estc mar de angustias, n'cste deserto... Oh !... 
{entra no quarto e vae ajoelhar^ exhausia, em frente da 
imagem, a/.oíi^ído-se na mesa.) 

André — Temos negocio ! A condessa de Sanla Brí- 
gida morre pelas imagens do marfim. Volta redonda, ha 
Ires mezes, quando me comprou o seu par d'aposlolos, 
obra para ver 1 da mao do meu compadre Zé dos San- 
tos, fiillou-me n'ellâs. Por esta dá-me ahi... pelo me- 
nos — volta redonda — as suas Ires inglezast {chegan- 
do á porta do quarto) Então você quer, ó menina Ben- 
ta ? e trate de ir, quanto antes, ás salchichas cá da ca- 
sa de pasto da sobre-loja, que deitam um cheiro por 
essa escadaria arriba, que c mesmo — volta redonda — 
como o outro que diz... E mais, eu nao morro por el- 
las! Como-as, comoras... mas é dizer que... sim, que 
não é com muita' aquella! [entrando no quarto) E olhe 
que é por ser... que a imagem — volta redonda — está, 
a bem dizer... mas é por ser... é por ser!... Aqui lhe 
ponho meia íibra. {fazendo tenir sobre á mesa) Escuto 
como canta! Eslá mesmo a dizer — volta redonda — 
pão e salchichas!. . (pegando na imagem e exatninan^ 



52 A UASGARA SOCIAL 

do-a) Julguei quo fosse melhor! já agora —volta re- 
donda — a minha palavra é amat (sae do quarto; ti- 
ra do hoho dois jornaes para embrulhar a imagem; mas^ 
SúbejandO'lhe um, deixa-o ao acaso no chão) Vamos, 
amigo André t ala c larga á condessa de Santa Brígi- 
da... e, bem pensado, não farei nenhuma aquella se, ao 
passar, me desse veneta de contar ao regedor a miséria 
e.n quo esta pequena está, para que a Icfem — volta re- 
donda — para o hospital. 

SCENA 111 

ArELAlDE SÓ. 

(Ha um momento de proruudo sileDcio: depois, a orcbestra execu- 
ta algumas harmonias adequadas ao senlido da seena, acompa- 
nhando o monologo de Adelaide.) 

ADBUiDtt {como accordando de um leihargo) — Ti- 
nha um^a niãc que me abraçava, e que, na minhi infan* 
. cio, me sentava sobre os joelhos, e me dizia assim — 
reza minhj fílha-^ Salve rainha, mae de misericórdia, 
\ida, doçura, esperança nossa! [pausti) tViu-le nascer, 
viu-le baptizar» e hade ver-me casar, accrescentava eu, 
c hade ver-me morrer, dízefído-lhe sempre — Salve rai- 
nha, mae de misericórdia, vida, doçura, esperança nos- 
sa (\pafsa. A orckestra deixa de se ouvir, pouco apou- 
co Adelaide lança pela scena uma visla quasi exlincla; 
c correndo a mào pela aresta da mesa, corno pva am- 
parar-sj, e iConi^-a a moeda de oiro, que ali deixara An- 
dré, e que se precipia. Adelaide, ouvindo aquelle som 
mclalico, fixa a visla e procura) Que foi isto que ouvi?.. . 
lenir dinheiro?.,. Mas... quem trouxe aqui este dinhe- 
ro?/ que (iz eu paia o ganhar?! {amargurando-se) Di- 
nheiro .. oiro... oiro... e quem m'o deu?... {nota paw- 
5a; oiIm pela seena com espanto, ajitoda pela febre; de- 
pois como fulminada por um pensamento doloroso, sol- 
ta um grilo ogu-o c dUaceranSe) Ah!... desgraçada I 



A M ASCAftÁ SOCIAL S3 

(cobre o rato com as mãiSf apoiando os cotovelos eon^ 
Ira a parede) . 

SCENÂ IV 

ABBUiD£, no qaarlb da esquerda^ o doctor cândido db 

ANDRADAi 6 O GONDS DB YlLLA-lfOVA DA SERRA^ peU 

poria praticável. 

DoUTOB (antes de entrar) — Ainda é mais em ci^ 
ma?... Eslou cshfado! Um quinto andar... e que va- 
mos nós là fazer?! 

CoNDB {antes de entrar) — Subamos sempre. 

DouTOB {idem) — Podíamos ler esperado na rua^ 
esperado que a maca subisse, que levassem o doente ; e 
leríamos feilo a nossa esmola sem este incommodo t 

(Entram em fcena.) 

GonDB — A casa eslá deserla ! 

DouTOE — E' que nos enganaram... viram-me ve* 
lho e quizeram-me armar esla peça ! 

CoNDs — Mas o cabo de policia linha ordem de su- 
bir ao quinlo andar 1 lalvez eslejamos no quarlo. 

Doutor — Eu, d'aqui, nAo subo nem mais um de- 
grau. Por mais algum incommodo era melhor subir lo- 
go de Tez para o ceo I E nem uma cadeira !... Ora, ora, 
os meus peccados!... Não, meu caro senhor! acho mui- 
to louvável que tivesse mandado parar a carruagem 
quand) avistou a maca ; acho muito louvável que tives- 
se perguntado se havia, aqui, algum infeliz que preci- 
sasse de soccorro, que se deliberasse a presta r-lh 'o ; 
mas o quu de modo algum posso approvar, é ler-me obri- 
gado a seguil-ol Acho pouco lógico, podendo evitar o 
incommodo, expõr-nos, para fazer uma esmola, ao accom- 
metimento d'essas legiões belligerantes que não assignam 
protocolo t 

Conde — Descnipe-me, doutor: desde aquelle dia 
fatal em que Adelaide dcsappareceu, que nao acho pra- 



•^ 



M A MlgCAEl SOCIAL 

zer senão em enxugar, pelas minhas próprias mios, o 
pranto dos desgraçados t Oh 1 tenho soffrido tanto.,, quo 
aproveito e procuro com anciã todas as occasiOes de tor- 
nar os outros felizes ! 

DouTOB— Nao faltemos no que lá vae... A primei- 
ra virtude é a resignação, que bem vezes nos dá for* 
ça para resistirmos ao insulto das desgraças ! A propó- 
sito, vou contar-lhe uma historia... {tomando uma pilada) 

CoNDB (aborrecido) — Uma historia.. . aqui? 

DouroH — Eu conto-as em toda a parte; caso ó 
que venham a lume. 

Conde {lendo visio o jornal que André deixara no 
cJião)-^Que papel é este? O Jornal do Commercio.. . 

DocTOR — Aposto qoe é falso! 

CoNDR — O que ? o jornal ?. . . 

DooTOR — Ah ! cuidei. . . 

Conde — Por que motivo estará aqui esta folha?! 

pocTOR — Talvez estejamos em casa de algum ar- 
trcuIUta, jornalista... . até d'algum litterato! 

CoNDB — É natural!.. , 

DúuroR — Pela mobilia.. . 

CoNDB {lendo ao acaso) — cDegradados que embar- 
caram hontem para cumprirem sentença. •• António Cas- 
tro de Sousa» 

Doutor — O tio de Annibal ! 

Conde (continuando) — c Annibal de Sousa, Jorge 
Portalegre» 

Doutor — Bravo! Ê assim que eu quero a justiça 
n*esla terra 1 sem olhar a commendas nem a títulos, 
quando se trata de castigar o crime! Agora, mais do 
que nunca, sou governo pur $anj t na pbrase do digno 
âcriba Monteiro. 



(O conde Urgi o jornal, e disp5e-se a sair: n'esie momento appa- 
féce á porta o cabo de policia, quatro homens com a maca, e 
povo. Ecequicl não tarda, (orna-sc saliente pela curiosidade que 
p domina.) 



Alf A8CARA SOCIAL tS 

Conde — Ah !. . . ahí vem a maca. 
Doutor — Sim ? pois sempre desconfiei que nos 
tivessem enganado/ 

SCENA IV 

o GoNDB, O D>UT0R> O c.\B0 de policla, KZBQiiBL, qiiatro 

homens com a maca e povo. 

GofiDB — E (anto conversámos... que nâo repará- 
mos n'aquella poria, {indicando a poria da esquerda). 

DoGTOR — E' verdade ! 

GoNBB {dirigindo-se á porta: aparte) — Não sei 
que aperto me constrange o coração, sempre que venho 
em auxilio da miséria/ c agora, mais do que nunca/... 
e ao mesmo tempo um prazer indefinível/... (entrando 
no quariOj vê uma mulher com o rosto oecuUo nas mãjs 
e os coiovellos apoiados contra a parede) Oh / ali está a 
infeliz/.. . mas» em que posição desesperada/... {tiran* 
do machinalmentê o chapeo e dirigindo-se devagar^ a 
Adelaide^ sem a reconhecer) Minha senhora?... (aparte) 
Parece cadáver/ Santo Deus.... teria ella expirado, 
assim» hirta de frio e de fome ?/ E nós estávamos, 
ali» a dois passos, conversando... (examinando-a) Ella 
respira. Ah^.. que illusao é esta... que estou eu ven- 
do// .. {perplexo de dor e de alegria^ sem poder soltar 
uma palavra nem fazer um movimento: até que, final- 
mente, exclama) Adelaide I Adelaide!.. (Adelaide vol- 
la-se para elle, que a abraça soffrego e selvagem, t/i- 
teiramenle dominado peh seu amor violento) Enconlvéi-z! 

Doutor — Que escuto /? (entrando no quarto) Oh/ 
será possível!... Conde» conde... pelo amor de Deus., 
esse transporte pode ser-lhes (alai/ Por piedade... tenha 
juizo... seja prudente* {querendo separal-os^ e impedir 
os beijos loucos, frenéticos com que o conde cobre as fa- 
ces ^ o seio e as mãos de Adelaide). 

Co^DE — O' minha Adelaide... anjo meu... queri* 
rida !.., Yive, accorda c olha para mim ; ouse morres, 



5ft A MASCARA SOGl A. 

estreita esles braços frios sobre o meu coração e uoe-o 
ao teu no abraço da morte / 

Doutor — hso é malal-a, conde! Deixe*me tomar* 
lhe o pulso, dei\e-me soccorrel-a... E* preciso reani- 
mar-lhe, sem demora, este viver que bruxulea já entre 
as sombras da morte ! 

Co^DE — Resolve-se nos meus braços 1 sinlo-lhe 
palpitar o coração... silencio I 

(O pdTè priocipia a invadir o quarto, o doutor despede-o, e fe- 
cha a porta.) 

DoiTon — Sim, o calor do seu corpo transmilliu- 
se-lbe. E' utn d*aqueltes prodígios perante os quaes a 
sciencia pára espantada ! fluência do principio vitai^ ma* 
goetismo... o qoe quizerem ! 

Adblaide [abnndo os olhoSj lança ao conde um 
olhar desvairado^ e faz e.<forços para lhe fugir ^ grilan- 
do) — Infame! Voltaste? E' inútil... Oh! deixa-mel 

CoNDB — Adelaide. . 

Abelhidb — Sim I sou eul... accordei ainda uma 
vez da morte para te encarar com estas faces onde ac- 
cende&te o pejo da vergonha , e lançar-te em rosto, in- 
fame, a tua vil moeda ! {atirando-lhe a moeda de oiro 
que conservava fechada na mão, cae nos braços do dou- 
tor que já lhe previa novo delíquio). 

Conde (recuando horrorisado) — Que diz ellal?... 
Oh ! doutor. . . perguntou-me um dia se acreditava em 
Deus ? pois bem ! na presença de tão profundos c irre- 
paráveis desgostos. . . 

Doutor — Nao blaspheme, conde! A justiça de Deus 
é incomprehensivel ! 

Co.xDR {saindoy furioso para a sal% da direita) — 
Quem esteve aqui antes de mim?! Digam-me. . . digam- 
me quem foi?... Quero saber! Ohl se alguém, ahi, 
tem amor a Deus, que me responda pelo amor de Deus! 

EzEQriEL — Aqui não eslcvc, que cu visse, senão 



A MASCARA MCIAL ' 51 

O André-ganha-dinheiro que passou lá pela loja. Eu sou 
brabeiro para servir a v. ex.*, e que me disse que tinha 
vindo comprar uma santa de tnãrafim ei ao quinto an- 
dar.. . que isto a bem dizer são aguas-furtadas!.. . e 
que lhe custara meia libra. 

CoNOB (vtUando ] ara o quarto) ^»^ Oh i Salve t Sal« 
vel Deus omnipotente c cheio de graçil.. . Ella deli- 
rava.* . 

Doutor — Tragam agua, vão já huscar estes remé- 
dios à primeira botica. . . 

EzLQiiLL (apresentando-se e recebendo a rceeiía) 
— Sim senhor, cu vou á pharmacia. . . 

DooTOH — Aqui está dinheiro..* (dando-lhe di- 
nheiro) . 

Ezequiel (lendo já saião, volta ao doutor e per^ 
gnnla-lhe) — E bixHS hãodo ser precisas, senhor dou- 
tor? Tenho-as magnificas! 

(O doutor faz um gesto. Ezequiel sae correndo. O conde eiU de 
joelhos aos pés de Adelaide a quem o dootor faz respirar um vi- 
dro de saes.) 

DocTOR — Felizmente vinha munido dos meussaes. 
Noto que lhe vão fòzendo bem. 

CoNDs — Doutor.. . ella morre? 

DotTOR — Peço á sciencia que a salve. 

CoM>E — Por que não pede antes a Deus?! 

Doutor — Deus é a sciencia. Escuto.. • ella abre 
os olhos. . . 

Conde — E sorri.. . 

Doutor {pulsando^a) «— Diminuiu-lhe a febre. 

Conde — Já não tem o olhar desvairado. 

Doutor — A respiração regularisa.. • 

Conde — Olha i ara mim. . . 

Dourou — Chame-a. 

Co.NDE— Adelaide?.. . tu conheccs-mc? 



58 A MASCARA SOCIAL 

Adelaide [com a voz muito débil) — Trouxe-te a 
minha santa Virgem da Conceição ! E'6 Carlos. . . 

CoNDB — Ohl bem hajas... querida 1 {quereinlo 

abraçai-^). 

DoDTOR {impeiinlo) — Por emquanlo, pregue sem 
baler no púlpito ! E' um costume péssimo ! 

CoN»B {a Adelaide) — Ainda me queres e amas? 

DocTOR (aparte) — Sim, não é mal lembrado. . . 
Como cunforlativo. 

Adelaide — Se le quero?! Se le amo?!.. . E tu? 

Conde — Eu? Ohl minha Adelaide! Responde-mc 

Adelaide — Não me interrogues... {debruçando-se 
para ette que a ampara nos fcrafoí, sem se levantar) Não 
me interrogues, metade de mim mesma ; deixa-me abra- 
çada por ti, quando me falias do teu amor, arrepender- 
me do que te fiz soffrer.. . e pensar que sou feliz! 

Conde — Para que nos fugiste? Para que nos aban- 
donaste ? 

Adeliide — Perdendo minha mãe, linha perdido 
tudo! não sentia mais do que a minha dôr, e queria 
morrer também I Pensava na minha posição e na tua ; 
e lembrava-me das palavras que minha mãe me linha 
dito, já moribunda !. . . teu era o escândalo vivo que 
le acompanhava; a Providencia livra-le d'elle!»10ra eu 
lambem disse comigo: — mulher obscura c diffamada, 
não serei eu o escândalo vivo d'elle ! — 

Conde — Tu és um anjo, Adelaide! Se me fizeste 
soffrer, hasde, em recompensa, amar-me muito! Sim? 

Adelaide — Mais do que já te amo? é impossível! 
E' todo o amor de uma mulher, que te consagro I so 
achas que é pouco, pede a Deus que l*o explique me- 
lhor. . . saberás então como e's amado ! 

(Continuam conversando a meia toz.) 



A MASCARA SOCIAL 80 

SCENA VI 

ADELAIDE 6 O GONOB, no quarlo da esquerda; o doutor , 
entre porias; ezeqciel, com os vidros dos remédios. 
Momentos depois o condb de s. brisida, a condesa 

e A^DIIB. 

(O povo occupa sempre a sala da entrada.) 

FZEQuiKL — Aqui estou de volta, senhor doutor, 
com toda a bodcada I N5o quebrei senío o vidro do 
olher.. . 

DouTon (rindo) — Pois, agora, podes quebrar to- 
dos á tua vonlade. 

Ezequiel — Então ella morreu ?! 

Doutor — Applicou-se-!he outra medicina.. . Está 
lá com ella outro physico melhor. 

Ezequiel — Ah I o francez que cura com agua fria 
e boccadinhos de camphora?! 

Doutor — Nao. . . coisa melhor ! E' um que cura 
só com olhos. 

Ezequiel — Que pena • E eu que Unha trazido por 
prevenção seis dúzias de bixas^ que sSo seis dúzias de 
cobras!.. . Pergunlemos-lhe sempre se elle as quer?... 
{preiendendo entrar). 

Uma voz — Àhi vem os condes de Santa Brigidal 

OuTRà — Us pães dos pobres !. . . 

(Q povo agita-se e corre para a escada.) 

• 

Doutor — Oh ! a que propósito. . . 

Outra voz — Ainda nâo hs) oito dias, que o conde 
empregou meu filho na fravica t 

Outra — O mez passado foi a condessa em pessoa 
levar-me esmola a casa ; que eu estava para ali n*uma 
cama, estirada.. . mais morta que vivai 



CO k II4SGAKA SOCIAL 

Todos — Deus os traga! Deus os traga, que vectn 
por bons *• 

Doutor — Estas yozes sinceras são os seus mais 
bellos diplomas de nobreza ! 

(N'ette momento apparecem os condes : o |k>vo fax-lhe r^da. O 
doutor Tte recebel-os.) 

Anwt — E' aqui, meus senhores. 

Doutor — Vv. ex.*^são sempre os primeiros a ap- 
parecer em auxilio da miséria, mas d*esla \ez. . . hão- 
Jííj>aL de perdoar-nos de lhe termos roubado esta palma ! 

S. BEIQI5À — Foi um acaso singular*. . que pode 
(omar-se por milagre ! Depois da carta com que o dou- 
tor me honrou a respeito d'aquella menina. . . 

Condessa — O doutor bem sabe, conde 1 

Doutor — Se fui eu que informei o senhor conde... 

S. BRieiDA — A condessa teve a bondade de annuir 
aos meus desejos de. . • 

Condessa — Peço perdão. Foi o conde que se di- 
gnou tomar o meu conselho a favor d'essa pobre des- 
protegida. . . 

pouToa — Perdoe-me, copdessal desprotegida, naol 
tinha as sympalhias do conde de Villa-nova d* Serra, e 
a minha amizade. 

S. BRÍGIDA — Finalmente^ a condessa achou no es- 
pirito da sua religião verdadeira que. . • 

Condessa — Devemos perdoar, para que Deus nos 
perdoe também, (^eom inlenfão, e^ando para o conde). 

S. BRÍGIDA — E assentámos em legitimar Adelaide. 

Doutor — r Oh 1 6 uma resolução tao nobre que jus- 
tifica os olevados sentimentos que a sociedade altribue a 
TV. ex."». 

Condessa rrf. E' religião. 

Doutor — Não, minha senhora^ hade perdoar-me ; 
é philosopfaia ! 

Condessa — Não convenho, doutor. 



A MASCARA SOCIAL $i 

S. BiuGiDA — Continuemos: angustiados, eomo lo- 
dos» pela fuga de Adelaide» tivemos hoje o prazer de 
lhe descobrir o asylo. 

DouTOB — Ah.. . sim?! mas já nao recebem alvi- 
caras !. . . E como foi que. . . 

S. BRÍGIDA — Havia uma imagem de Nossa Senhora 
da Conceição, que eu linha, ha annos, comprado.. . 

Condessa — N*esse ponto nao concordamos, conde! 

S. BRÍGIDA — Pois sim, coudcssa. Que eu linha, ha 
dezoito annos ofTerecido... 

Condessa — Quanlos pormenores.... O conde é 
infatigável... 

S. BRÍGIDA — Em resumo ; a tal imagem foi-nos 
hoje apresentada para a comprarmos. Ora, sendo ISo 
nossa conhecida, a condessa alegrou-se de a ver. 

CoKDBSSA — Chorei muita lagrima por ellal Havia 
dezoito annos que desapparecera do meu oratório! 

S. BBiGiDA — Inquiri dò vendilhão*. . 

Andbí — Um criado de v. ex.*! {cortejando) 

S. BRÍGIDA — E finalmente aqui viemos ter. 

Doutor — Em tão boa hora que Adelaide está sal* 
\a, e capaz de acompanhar seus pães.. PerdSo, v. ex.* 
linha-me dito que a senhora condessa consentia em ser 
a sua segunda mae 1 (a condessa faz um gesto de beata. 
O doutor continua) Para evitar-lhe, porém, mais com- 
moçOes perigosas, no estado em que eslà, rogo-lhe que 
por emquanto. . . 

Condessa — Ê prudente, doutor. 

S. brisida^-- Vamos pois tratar deòonduzil-a. On- 
de está ella ? 
' Doutor — Ali. . . 

S. BRÍGIDA — Só? 

Doutor — Oh i muito beni acompanhada. Está eom 
medico. 

S. Brígida — o medico? pois v. ex.V. . 
Doutor — Oh I eu nunca saberia curar o coração, 



es A MASCARA soaAL 

a DÍo ser d'alguma simples congestão. . . com licença, 
conde» vou prevenidos, [entra no quarto) 

S. BBiGiDÀ (observando da porta e commovendo-se) 
— Minha pobre filha ! 

(O doator aproxima-se do conde do Villa-nofa da Serra, e dii-Ihe 
algamas palavras.) 

Conde — Sim, vamos arrancada d'osta casa, d'esla 
miséria ! 

Adelaibk — E vens comigo, Carlos? 

Conde — Se eu vou comligo ? e para sempre ! Par- 
tamos. 

(Adelaide letanta-ae; o conde ampara-a de um lado, o doator, do 
oatrOf e vêem á bocea da scena. O conde de St.* Brigidii tae 
apertar a mio á condessa.) 

S. BBioiDji — Obrigado, condessa I 

Condessa — E diga amanhã que os meus santos 
não fazem milagres ! Diga t . . . 

ADEtiiDB — Sou feliz» Carlos 1 A minha santa Vir- 
gem da Conceição trouxe-te e salvou-me f Os milagres, 
são assim : e só os comprehende quem sabe guardar a 
íil Oh! sou feliz!.. . 

CoKBE — Parlamos! E, para em tudo ser justifica- 
da a bondade infinita de Deus, reconheçamos que mesmo 
<no mal, ha o bem de trazerem comsigo oi infortúnios 
o fazer sentir uma impressão desconhecida e índefiniveU 
na primeira alegria que quebra a cadéa dos males.» 

Doutor (exultando) — Verdadeiro tríumpbo para a 
philosophia l 

(Adelaide, Kmpre amparada pelo conde e pelo doutor, atraressa 
ragarosamente o tbeatro.) 

Cae o panno. 



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raversoportuguezporA.J deLimaLeitfto.1851— t8S8,i vol. 8.* br.rs. ;80(> 

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L. A. ftebello da Silva, com censora e aotorisaçfto do patúareaAo. PobUea-sa 
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por José da Silva Rendes Leal Júnior, oom um prologo polo autor, e um 
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AftodoMpeio. eonadÍA-drana OM t Mtoo por Inotto Biestor, com misaintro- 

doccio'poio ir. leidos Loftl JaBior, 1 Tol 0.* francas, rs. . - - . . 3C0 

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Rocio, com o parecer do oxcellantissimo sankor conselheiro Garrett. — ^Praco 

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ballo da Sílfa a Ernesto Biestar, 8.« francas br 480 

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pei feito conhecimento do idioma de Camões. 
A Pobreza envergonhada, drama em 5 actos com prologo, por José da Silva 

Mendes Leal. 
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É IILHOR NlO RXPKRIIINTAI 



COMIDIA BK UX ACTO. 



/ 



o 



É MELHOR 



HlO MFMIMfifif ÃB ! 



COMEDIA KM UM ACTO 



ADQUADA Á SCENA P0RTD6DEZA 

A 



por 



ALFREDO H06AN. 



^t^Ê^ 



liISBOA 

TYPOGRAPHIA DO PANORAMA 

TRAVESSA DA VICTORIA, 51. 

4 858 






ÍIlTBIiL.OCIJTOItBS 



ANSELMO DOS RBI8, oegòciante retirado. 

I 

cítÍo, seu filbo — 16 annos. 
ÁLFENiM, pedagogo. 
JOÃO, caseiro. 

o SKNUOB CàST»0-VflDB ] p., , , 

o SM»0. CA8TII0-.0X0 j ^"'"'«'" *' PrO"°««- 

Ai*<NiNHA, mulher de José. 



Na província — 1700. 



ACTO ÚNICO 



(Campo t arvoredo. A' direiu nma casa com nna porta e Jaoella.) 



SCENA I. 



(Ao lovanUr do panno. onve-se a detonaçio d'um tiro d'espÍD§af- 
da ; em seguida dois gritos de malheres : Catio, em trem de ca- 
çador» vem correndo peio fundo e topa com Joio que mo da casa.) 



Irra ! Logo pela manhS, uma doestas ! . . . 

CATÃO. 

Vi8tel-os?. . Eu ia jurar que levaram chumbei . . . 
Espera. . . {escutando) 

jo2o. 

De chumbo tem voei os pés, seu C;itao ! E esta ! 

Ainda me doe ? 

1 



4t MELHOR \iO KYPKRIMENT.i». 



CATÃO. 

rmpivstíí-ine o lou cão. . . 

Qual c3o, nem moio cão! ! * . . Ora não se dá! * • . 
EnUio que significa. . . (aparte) Pareceu-me que tinha 
ouvido gritar mulheres... 

catXo» 

{Sempre distrahido, prestando úuvidos ao menor 
som (fue lhe parece) Eu fodigo, João. Levanloi-me com 
o prime Vo alvor do dia: abri a janella para tomar 
fresco. . . 

loio. 
E' o que o senhor seu pae Ibe recommenda 1 

■ 

CATÃO. 



Rezei. . . 



Tal qual! 



Lavei-me. . . 



joZo. 



catXo. 



JoXo. 



Outro tanto não ílz eu. . . 

GATÃO. 



t MILBOI nXo IXVimnKTAI. 



JOÃO. 

Fumou li O' seu Calão. . . pois você já fuma? E se 
o pae vem a saber ? . • 

C\TAO. 

K já faç^ muitas coisas que elle nSo sabe. . . 

JOÃO. 

Heim ? 

CATÃO. 

Depois. . . imagina o que eu \i ! . . . Imagina. . . 

JOIO. 

Eu sei cá imaginar I . . . 

catXo. 

Vi. . . Ti. . . 

JOÂÒ. 

Então que \iu ? 

CiTAO. 

{Perufativo) Vi. . . 

joZo. 

{A^parte) Que diabo viu o rapaz 1. . {ob$ervand(ho) 
Aquelies modos I . /. Homem ! parece^me, assim. . . como 
quem perdeu. • . 



4 % «VLHjji nlo iircimE^rTAV. 

CATátO. 

Vi. . . 

JOÃO. 

Seria lagarto ? ! , . 

{Com ingenuidade) Nada!... lagarto?!.. Elias 
Toavam. .> 

40lO. 

EntSo «ram pássaros 1 ... 

catAo. 
Ob 1 que pássaros ! . . . {fica pensawo) 

JOÃO. 

[Aparte) O rapaz não está em si I (a/to) O* leuCa- 
tiosínbo. . . então qne é isso, homem ! ? 

GAtlO. 

Peguei na espingarda» corro. . • métlo á cara, e. . . 

zas! 

loZo. 
Não caiu nem umT 

ClTlO. 

Gritaram e fugiram I • . . Não os ouviste gritar f . . 



t MsiHoa Frio ixvrBuiBWTAm. 



lOSo. 



Aj. • . ai, que dei nos vinte ! O que ea oavi gritar, 
tram« . . {aparte) Safa ! o que me ia saltando pela bocca 
fora! 

Ckrlo. 

{Com enthusiasmo) Porém eu vou jurar que um 
levou' chumbo ! Sim ; levou chumbo e anda ahi pelo 
milho. . . Empresta-me cá o leu cão para o descobrir. . . 
Yte busca 1-0. 

JOIO. 

íA^parie ) O que faz a innocencia ! 

CVTÃO. 

Não te demores. . . parece-me que eetou ouvindo 
piar. . . 

JOÂO, 

{Rindo) Aquillo é coxixar. . . 

CkjlO. 

{Dispondo-se a carregar a arma) Dou-te a minha 
palavra ; heide virar um dos taes pássaros se tornam a 
epparccor-mc ! . . . 

JOÃO. 



{impedindo) O' seu Calão, deixc-se d*is8o! 

CATÍO. 

Que me deixe d'isso? ! . . Dei\a-me tu- 



6 t MiLHoi nlo BxmuiBirrAm, 

JOZO, 

Nio deixo, não senhor! Quer matar os pavOes 
aqui do visinho fidalgo ? • • , 

GATÃO. 

PavOes ! qual historia ! . • . Eu sei muito bem o que 
são pavOes I . . . [querendo carregar) 

JoXo, 

(Impedindo sempre) O' seu Gatão ! seu Catão ! • . 

GATÃO. 

Arreda. . . 

{Tomando-lhe a arma) Não' se)a creança, meu se- 
nhor [., , 

GATÃO. 

{Chorando) Dá^me a arma,, Jfoão [ 

JOÀO. 

Não do», não, senhor! O menino, auda afazer des- 
atinos, a perseguir os pavões ! , . , 

CATÃO. 

Não são pavOes, jâ l'o disse ! Mas. . . espera. . . se 
me não dás a espingarda vou queixar-me ao papá. . . 
{sae, chorando) 



t HBLnOB NiO BXPBflIMB^TAI. 



SCENA II. 



lOiOj 8Ów 



Ainda nSo estou em minv' O senhor Ct^itSo á caça 
de mulheres» come quem anda atirando a gallinholas ! 
E mulheres cá na fazenda ! . . . Bravo ! Se o senhor Af\- 
seimo dos Reis toma conhecimento da asneira do i^eu 
íiiho. . . quem o hade pagar^ sou eu ! Vamos tratar de 
descobrir o gado. . . e pò|-o ao fresco. . . Mulheres cá 
na fazenda ! £' preciso vestir a luinha vestia azul e o 
meu collete de guizos ! . . . Vamos, ainda que é para as 
enxotar como quem enxota pardaes. . , mas, sempre são 
mulheres I> * (emra na easa^ e sae momentos depois) 



SCENA III. 



LEONOR K iLNNIIf HA ,, depois JOXO. 



kVíTilWk, 



Nao lenha susto, menina ; eu conheço o caseiro 



f • • 



£I20!S0R. 



Mas se o maldito nos descobre ! . . . Ah ! quem o 
havia de crer ! atirar a mulheres como quem atira aos 
pardaes ! 



ÍI«TBIiL.OCl)TOR»i 



ANSELMO DOS BBI8, oegociante reurado. 
GiTÁO, seu filho — 16 annos. 
ÁLFENiM, pedagogo. 
JOÃO, caseiro. 

o SKNUOB GàSTBO-VMDB ? «. . , , 

o SENHOR CASTRO-Roxo } *^'^*'«^^ ^« proviocia. 

JOSÉ, criado 1 i ,^ . r» . 
woNOK, filha r« ^"''°'" ^««'••«-•'«''0 

Ai*<NiNHA, mulher de José. 



Na província — 1700. 



IQ t MILBOI NiO EirERUflIUTAII. 

res. . . qw huo eslá mais na sua mau! ... E se cife 
soubesse fue. . . 

LHONOR. 

Quando tu lhe disseres ({uc sou uma pobre rapa- 
riga, perseguida por uma desapiedada madrasta, sem 
protecção de ninguém, nenv de meu próprio pae; que 
fugi de casa com medo de casar com um pobre dia- 
bo, q ie é seu sobrinho, e que cila me quer dar por 
marido, . . Oh ! • . estou cerla que hade commover-se. 

ja\o. 

Q[ ai carapuça ! O patrão não cré nas caalilonas^ 
de mulheres ! Conheço-o m.uilo bem. 

ANMNUA. 

Pois eu aposto que as nossas lagrimas haod& local-o.! 
Principalmente aqui as da menina Leonor. Olha» eu, 
apenas as \i correr por aquelle semblante abaixo, não 
pude resistir. . . Abandonei a minha casa, para a acom- 
panhar, e deixei o meu José, que vem a ser criado 
do senhor seu pae, e com quem estou casada ha onze 
mezcs, apesar de ser o melhor noarido que conheço ! d 
teu patrão não hade ler mais escrúpulos dO' que eu! 

JOÀO. 

Valha-me SanfAnna \ Isso é teima. 

LEONOR. 

Ao menos vae chamar-nos o filho ; veremos seelle 
resiste ! . « « hade alcançar-nos a protecção do pae. 



( MILHOt «lo IxmiVtlITAl. ti 



JOÃO. 

{Rindo) E' bem certo que d3o ha nada mais duro 
do que uma cabeça de mulher I £' mesmo por causa do 
filho que ellc não quer mulheres cá oa fazenda ! Pois eu 
não lhes tinha dilo que. • . 

LEONOH. 

Não ; tu nao nos disseste nada. . . 
Conta-nos. . . 

JOÀO. 

O pae não quer que o filho veja mulheres ; o filho 
não sabe o que são mulheres. . . 

ANNINHA. 

{Inicrrompendo-0 a rir-se) E não lhe pergunta pela 
mãe?.. . 

JOIO. 

Sim. . . o pae conta-lhc tudo a seu modo. . . e o 
filho, que não vé, como se lá diz, um palmo adiante do 
nariz, acredita que.. . que. . . Yalha-le. a hrecQj rapa- 
riga, eu não contei já tudo isso?. . • 

LEONOB. 

E porque não quer elle que o filho saiba o qu^ 
são mulheres T Seremos porventura tão má gente que* • • 



ti Ir MILHOa KIO BirEftlKSllTA»> 

JOiO. 

Ydlba-me S. Barnabé! Isso adivinha-se L . princí- 
pali^eule tendo-lhes eu* já conlado de fi,o a i^aúo, . . 

ANNINItA. 

Enganas-le ; ainda nSo eonlaste coisa alguma. 

wio. 

{ytproximaiido-5^ e olhando petd scena) E' q|iie a, 
pae. . . 

Conta. . Ninguém nos ouve. - 

lolo. 

Sim, venho a dizer que o pae. . • tendo-se casado. • . 
parece que a mulhar era d'eslas que mandavam vir as 
modas là da frança. . . Heim? Vocês percebem. Ora, 
succede que. . . o homem, vendo-se viuvo, o com um fi* 
lho. n3o quer, pelos modos, que o rapazote. . . não digo 
bem; não quer qu3. .. sim, era o que eu lhes dizia; 
não quer que o estorninho do filho vá cair na mes- 
ma esparreUal Ileim? (ellis ricu) Mas., que esloa 
eu aqui a (hr á língua, á maneira do sini> (h freguczia 
em dia de fesla.! Vamos. • . ponham-se ao fresco I 

LEONOR. 

{Dando-lhe dinheiro) Já que foliaste em dia de resta, 
toQia lá para a festa. 



1í KILHOB XlO IKPBaiMSNYAB. 13 

JOIO. 

{Mostrando mau modo e acceiíando) Toma lá para 
a festa I . . em boa fesla me meíbm vocês ; mas eu nÍo 
t;a!o ! . . . 

ANNINRA. 

iFica-te a matar o tea collelo de guizos ! 

JOÍO. 

F/ o que se pôde arranjar. 

LBONOn^ 

[Dando-the mais dinheiro) Pobre rapaz. . . 

. JOXO. 

(A'parteJ Ai que me querem namorar 1. . . Isto dt 
mulheres. . . bem o diz o patrSo ; homem I (rindo e eo^ 
çando a cabeça) 

ÀNtflNfiA. 

Anda, vem d*Hhi. . . 

jcXo. 

Vem d'ahi ? . . . {úpnne) H enlâo. . . 

annikha. 

Vamos; nÓ6 nSo podemos ficar aqui\ exfMtas. .. 



H t HRI.ROn ViO KirERIMRKTlll. 



LEO\OK. 

[DanàoAhe dinheiro) E não digas a ninguém que 
nos tens cm casa ! 

JOÃO. 

O' mulheres, xiicês nao íeem vergonha de me esta- 
rem ádnlar? ! . . . [tulamenie) 

rjíONOR. 



ramos. . . 



JOÃO. 



Mas se o rapaz por ahi apparece ; elle, que mette 
O ncríz em toda a parle. . . 

LEONOB. 

Havia de ficar bem satisfeito de nos ver, e fallar. 
Eu lhe ensinaria que se nSo atira d^aquelle modo, a 
mulheres ! 

ANNINHA. 

A raparigas bonitas. . . 

JOiU. 

Pois sim, fiem-se n'elle ! Âquillo é um gralha que 
nSo deixaria de ir contar tudo aopae. . . E'um riso ou- 
vil-o a précurar-Vie certas coisas ! . . . Esperem vocês ; 
eu vou observar se nSo está ninguém ahi pelos arredo- 
res, fsae pelo fundo J 



« MCLflOl NlO KX^KRIMENTAR^ 1$ 



SCIC.NÀ IV. 



r.BONOR. 

Respiro^ Ànnica ; lemos abrigo por hoje. 

ÁNM.nA. 

E' verdade ; porém é necessário advertir quo nao 
estamos nada longe de casa. . . Receio muito que por 
ahi venham piociirar-nos. 

LIONOIU 

Ouem hade desconfiar que eslou no abrigo do ca- 
seiro d 'esta quinta? 

ANNIISIU. 

K até quando? E' preciso pensar no dia d^amant^i. 

l.P.ONOK. 

Dizes bem : pensaremos. Por emquanlo, a melhor 
que temos a fazer, c uma obra de caridade para agra- 
darmos a Deus. 

Qual c a obra? Bem sal)e que sou muito cari- 
dosa! 



i€ t xrLHOi nio ciremvcTrAftk 



I EOnOA. 



A Oura õ, nom mul^ nem mf nos« tirarnirs e>se po- 
bre rapa/ cias ire^a8 (]a ignorância cm que o traz se- 
pu&ado o tonto do pne ! 

(Sorrindo) Sim ? Olhcrp !á como vae puxando a 
braza á sua sardinha ! . . 

NSo entendo o que dizes. 

Eu nSo sou Uio dcsassisada como pareço. Certo dia, 
quando eu a vi espreitar com o oculo o rapaz que an- 
dava ás carreiras cá pela quinta, disse comigo : Ahieslá 
a menina Leonor que. . . nào sei se me entende ! ? £ se 
o sobrinho da patroa tivesse tão bonita presença como 
aquelle novilho, creio que não leríamos de andar fugi- 
das pelas quintas alheias ! 

LEONOR. 

Percebeste mais do que eu ! Se te disse que tinha 
vontade de tirar o rapaz da cegueira em que o trazem, 
dou-te a minha palavra, entendi que o meu coração ape- 
nas so commovia de compaixão. 

AIÍNINHA. 

Pois sim : as senhoras de tratamento são todas as- 



r»-.» _* -^ 



t MtLaaR NlO RXPKRIMKNTAII. 17 

sim; cm vez d'ircm direitas ao que pretendem, tomam 
por atalhos, e fingem nâo querer o que querem ! No fim 
de tudo iá vao ter ! . . As pobres de Deus, dós outras, 
nao fazemos a mesma ceremonia ; quando o meu José, 
que Deus ajude, me pegou na mao, pela primeira vez, 
para dançarmos, apertou-m'a tanto que me deu a en- 
tender. . • E eu, lambem, nao estive corn mais aqueHas : 
respondi-lhe que, se queria casar, era despachar logo ! 

(Ottf e-te gritar, a voi de) 

JOSÉ. 

Olá ! . . Olá ! . . . 

LEONOR. 

Credo ! . . . . 

a:(T<ihiia. 

Ah ! que é a voz do meu José ! . . • 

J05É. 

O' da quinta!... Olá... se tem cOío por ahi, 
prenda-o. . . 

lEONOR. 

Estamos perdidas. 

4NNl!VnA. 

Depressa, minha senhora^ corramos para o cubi- 
culo do caseiro ! . . » 

(OoTe-se a voi de) 

AI.FKMM. 

Joiio 1 1 O' João ? . . 



18 -t MBLHOB NiO SIKtlMIflTAft. 



SClíNA Y. 



i.f-o:^OR, \NxiNUA, JOÃO, npivssada. 

Io AO. 

Não ha um momento a perder ! Para casa. . • para 
casa ! Fechem a poria, e nâo a abram a ninguém ! 
{Leonor e Anninha entram na ca,^a) 

SCEXA Vi. 

À1FRNIM, JOÃO, jo^, que nao tem ácixado de grilar. 

AI.PBNlSr. 

Quem está a gritar doeste modo ! ? . . 

JOAO. 

Hade ser alguém que está por ahi a grilar. 

àltenim. 
Alguém hade ser! . . . Vejamos. . . 

Com a foríuna ! E' uma quinta de mudos ! O' se- 
nhor! o senhor é mudo? 



* MILHOt NiO lIPERIVINTAt. 19 

ALFKINIM. 

Eu íToio que nao I 

JOSÉ 

* Talvez seja surdo? 

ALFK?flM. 

Senhor, veja como falia ! {com importância) Eu 
sou o pedagogo da casa ! 

JO K. 

Que diabo é você da casa ? . . . 

ÀI.FENIM. 

Pedagogo. 

josf:. 

Raios me partam se eu o entendo ! . • 

jolo. 
Pedagogo ! 

JOSÉ. 

Pois, senhor. . . pedagogo, {vollando-se para J^ào) 
com perdão de vncemecê, não sei se o oíTendo. . . 

ALFI^MM. 

Que quer o senhor? 



20 ^ MEUlOn Nio EII^EHIIICNTAI. 



josfe. 



o ?onhor sãlwírá <lizer-mc se vou bem, por aqui, 
para achar o que procuro ? . . . 

AlFKNIM. 

Ora adeus ! Eu não sei o que você proètira ' Dci- 
xo -me! Nào e desse modo que se prende ã állcnção 
d 'um pedagogo I 

JOSÉ 

Perdoo vocemecê senhor pedagogo, [cusiando-lhe á 
pj^onunciaraquellapalivra. Á* parle) Que nome tao cheio 
de (jô(jis que lem esle raio à'homem ! {alio) Meu se=^ 
nhor. . . 

ALFCNIM^ 



Nao me deixará? 



JOSÉ. 



Mas o senhor não sabe o que procuro?. . . Pro- 
curo minha mulher. . . 

ALFKMM. 

Siia mulher?!* 

JOSlc. 

Sim, -^^enhor! minha mulher... 

ALFKISIM. 

Fiíz bem em procurar mulheres n'esla quiulal . . * 
Hade achai- as! 



t MELHOR y\0 E.\r2:inME^T4R. Hi 

loXo. 

Lá rsíso c uma verdade. 

• • • • 

A minhí), chama-se Annica ; oiilros chamam-lhe 
Annínha ; é alia, bcrii feila, muito prendada; nunca 
leve filhjs. . , E depois, vae. . . fugiu de casa para fazer 
favor á fílha da palroa que queria casar a enteada com 
o papa-^moscas do sobrinho, que é mesmo um papa- 
moscas^ nao desfazendo iios senhores! .. . E d'ahi, sue- 
cede que, lendo-me dciladou hontem, ao lado da minha 
amelade, vaé. acordo, ^>oje, sem a ver ! . . . O senhor 
já ouviu na()a maia ex(}uisilo ? . . . 

ALFEIM. 

E' O cumulo da immoralidade! . . 

JOSÉ. 

Tal e quall Foi o que eu pensei logo, e por isso 
akmbrei-me de cá vir precurar. . . 

ALfENIA(.. • 

{Hindo pa-a /oô/) Ifede achal-a ; hade. . . 

JOSÉ; 

O' senhor ,^ vocemecé não m'amostre os dentes dessa 
maneira, que me faz andar a cabeça o redor! 






22 t mbluo* nIo siritimitTáB. 

ALFKNIM. 

Socega ; não tenhas medo . 

JOSÉ. 

* 

Enl5o um homem, que niio sabe oiule pára a sua 
mulher, nao hade ler medo ! ? . . 

ALFBNIM. 

Sequizcr saber o que cila faz. . . n5o ha nada mais 
simples. 

JOSÉ. 

Sim, o senhor acha simples. . . Enlâo como éisso? 
Saber o que ella faz! Km casa, sei eu o que ella faz, 
porque nao faz nada. 

JOÃO. 

m 

E por fora ? 

JOSÉ. 

Essa pergunta é para deixar patola um homem í 
Eu sei cá ! . . . Ainda que lhe perguntasse o que faz por 
fora, era capaz de nao responder nem pio! Voei nao 

sabo o que é a minha Annica l 

ALFKMM. 

lemos um meio excellenle de a experimentar ! 



J06£. 



De a experimentar 1 . • . 



t MELUOR NÃO EXPEaiHENTAB. 33 

JOÃO. 

Sim. Ali o seqhor Oiz bem. 
Faz favor. . . 

ALFIíNIM. 

0> senhor Anselmo dos Reis lem um ccilo copo de 
praia que serve para esí^e lim. Enche-se de ^inlio. . ^ 

JOSÉ. 

De vinho bom ! 

MFKMN. 

) 

Bcpois, bcbe-se. . . 

Perdão ; nós é que bebemos ?! 

ALFENIM. 

Bçbe o marido. 

JOÃO. 

O marido; entende? 

JOSÉ. 

Sim, eu é que bebo. 



2i k MKLHOR NiO llPEtlMI^ITAt. 

ÀLFBNIM. 

So a sua mulher lhe Tòr fiel. . , 

JOSÉ. 

E se o não fòr? 

ALFEMIM. 

O vinho inflamma-se, referve, e trasvasa-se ! 

JOS^. 

E' raUiot E onde comprou elte esse copo? 

ALFKNlM. 

Trouxe O d^uma lerra d'arahes, por curiosidade. 

JOSÍ. 

Elle era casado?.. . 

ALFBnIM^ 

Era. 

JOÍO, 

Kslá claro. . . 
E cx|eriiiienlou? 

ALFKMM. 

Creio que sim. 



ItMELIlon ^iO EXPEfilXE5TAII. 



CkV 



E o unho, Irasvascu-sc ? 






Creio (]uc não. . . 

JOSÉ. 

Eslá íeilo ! . . . E nao experimentou segunda vez? 

ALFENIM. 

Experimentou. 

JOSÉ. 

Caiu n'essa?!.. . E que tal? 

ALFeNIM. 

D'esla vez. . . 

JOSÉ. 

O' senhor pedag. . .g . -o. . .ôgo. . . perdão, que me 
esqueceu a sua graça. . . 

ALIEIHIM. 

Chamo-mc Alfciiim. 

JO?É, 

Meu caro senhor Alfeniiu, conlc-mc essa historia 
para rir um boccado. 



26 MKLHOI ^Â0 RirEimCNTil*. 



ALFENIM. 

O homem quiz exporimeular a fidelidade de sua 
mulher. Escreveu 4hc, mandou-lhe prcsonles sob um nome 
supposlo, e afina) recebeu um bilhete d'ella. Assim que 
o leu^ corre ao copo, enche- o de vinho. . 

JOSÉ. 

(liindo ás gurr/alhadtís) Ai que patela!... E o 
vinho?. . . 



ALFI-MM 



Sallo'í-ll>e^ ao nariz ! 



JOÍ?B. 



{llÍMdo muito) Quem alcança o que procm-a, a si 
O deve ! . . . 



AI.rfcNlV. 



Desgosloso com a experiência, apartou-se da se- 
nhora, que foi passear ale ao Rio de Janeiro, sua pa-* 
tria, e vciu encerrar-se cora o filho n'esla quinta solitá- 
ria, onde, por assim dizer, é raro entrar viv^alma!.. 



JOSE. 



Pois meu caro senhor, esse tal copo émara\ilhoso^ 
O meu patrão anda senipre ás resingas com o pobre d 
cunhado, a respeito da patroa; eeu estou, como ooutr 
que diz, que não seria mau convidal-os para beberem 
uma pingri. . . 



ft MELHOR >'Â0 BlPBSlMENTAn. 27 



JU\0. 



Silencio! Ahi vem o palrão. 



SCKNA VII 



ANSELMO, ALFfeNIM, JOt^B, JOiO. 
ANSELMO. 

Ah I . . Senhor Alfenim, senhor Alfcniin. . . lodo o 
nosso trabalho cslá perdido ! . . 

ALKfiNlM. 

Que siicccde, senhor Anselmo? 

ANSELMO. ^ 

Estou desesperado ! . . . não sei o que devo fazer ! 
Meu. . . {vendo José que o saúda) Quom é aquclle ho- 
mem i 

ALFENIM. 

E' um pobre homem que deseja experimentar o 
copo. 

JOSÉ. 

E se me dá licença vou buscar mais dois amigos 
para o mesmo fim. 

Anselmo 

Pois sim ; vac. . . vac meu filho I {trágico) Trema 



28 Ê MKLBOB NiO BXr ER I MENTAL 

O mundo ! tremam as inficis W . . Nada de piedade ! 
nada de capitulação ! . . A verdade nua ecrua !. . . Eis. 
amigos, a nossa divisa! 

(José comprin^enVt. e lae.) 

JOÃOv 

( \'paf'te) O palrao, hoje, cslà bravo ! 

SCENA Mil 



JVNSl-LMO, ALFBMM, J0\0. 



A!<si:lmo. 

[Uepàíi de paasa^ lomvido uma pilada de labacny 
Senhor A.lfenim. . . para ([ue lhe pago eu, com o meu 
diuhcira? 

ALF:NIM. 

Egsa c boa ! Para educar a senhor *Cata(K 



JOÍO, 

(A'pa^'le, collocand >"Se de modo que possa ouvir o 
que se vue dizer enire tVes) Dar-sc-ha o caso que o ra- 
paz lhe tivesse dito. . . 

ANSELMO. 

Pois O meu filho.. . (urido JoàOy dá-tke vm ponta- 
pé} Que fazes aqui, maroto? 



t MELHjB NIo ttiPKIlIlINTAR. 29 



ÍOAO. 



Nada. . . 



Vac-le I 



ANSELMO) 



JOÃO. 



{.Vparíé) Cora os pavões do visinho mellidos om 
casa ! . . . que tal estai o n ^gocio, heim ? ! . . . 



SCkNA IX. 



\N.^ELMO ALFR?ÍIV. 



ansblMo. 

Senhor Alfením, meu fiiho, aquclle Calão ionocento 
e ingénuo; um verdadeiro Calão de innocencia, que 
tanto trabalho me tem dado a educar ; e que eu tenho 
educado com o esmero que podia empregar um jardi- 
neiro, no tratamento d'uma planta dVstufa. . . aquellc 
virgíneo mocinho, que mcllc doze mil reis per mcz n'al- 
gibeira de vossa senhoria a troco de quatro palavras de 
latim e de grego^ acaba do fazer-noe perguntas que me 
deixaram o ospirilo í?rcgo I ! {passeando ugvado) 

AUhM». 

O senhor Caluo?! Apostara que o meu pupillo nào 
estava no caso de fazer perguntas. . . 



^^ k MBIHOft NiO CirERIMENTAB. 

Assnguro-ihe que iu'as fez! P«írgunlas que me dei- 
xaram tremulo I que mo locaram o nervoso I . : . que. . . 

ALFKNIH. 

Ahi eslá o que faz a natureza ! . . . 

A^Sl-I.MO. 

« 

Qual natureza ! Eu mo enteniJo assim ! Nào quero 
que nieu filho lenlía natureza alguma ! Cá tenlio as nii- 
nlios razoes ! Kslou no meu direito ! 

AI.FKNIM. 

Mas cscule/senhor Anselmo; o menino lem génio. 
Eu, é verdade que lhe fallo só das flores, das arvores, 
dos fruclos: de Cicero, de S. Malheus, dos peixes, de 
Carlos SIagno. . . 

ANSELMO. 

Pois sim, falla-lhe muilo bem ; mas o rapaz foi per- 
gunlar-me sc haviam cavallos-eguas ! . . . I)'aqui apouco 
perguntar-me*ha se ha peixes-mulhcres; e ahi o temos 
a sonhar no bello sexo, senhor Alfeniml n'esse escolho 
terrível em que naufragam tantas intelligencias! «'esse 
pomo de discórdia que traz o mundo n'uma confusão 
constante ! Eeu lonho-lhedilo, senhor Alfením, que quero 
acabar a minha raça! qno quoro poupar o meu filho aos 
desgostos que. . . o senijor l)t:m me entende. 

ALFKNIM. 

Valha-me Deus, senhor Anselmo. O homem não 



t MKLUOR NlO EXPBllIftNTAK. 31 



vem a este inundo ahi como qualqiK^r pepino ou berin- 
gela. Tudo lhe dá a entender que a sua nalureza c rica 
de rctursos. .. O coração palpita, esta palpitação des- 
perta 05 sentidos ; os sentidos formatn as idcas. . • e 
aqui está como a coisa succcde. 

ÀXSELMO. 

Tudo isso c bom ; mas cu nào quero! Tenho dito ! 
nao quero que meu filho. . . Âh ! eiUo ahi. . . Cuidado. 
•senliar Alfcnim ! cuidado... senSo!.. [sne pelo lado 
opposio) 

SClíXA X. 



ALFENIM, <:ATA0. 



CVTiíO. 



Parece que o papá anda a fupir diante de mim 1 

AKFlíNlM. ^ 

E sou eu qtie o pago I . . . Ora esta. . . 

CATÃO. 

x\h ! senhor Alfenim ; ainda l>cm que o encontro. 
Diga- me: como se chamam uns pássaros que eu vi, muito 
Joifos. . . um era loiro, o outro . , o outro não me lem- 
tra. E tinham uns olhos muito bellos. . . que olhavam 
para mim ! ... Oh I que lindos pássaros ! Como se cha- 
mam? 



3â t MELHOR .NiO »F|RIUCN'TAI. 



ALFEMJI. 



{xVparle) Bravo! o rapaz viu mulheres, nao ha 
que duvidar! {alio) Isso hã<yde ser pavões. 



CATÃO. 



Ora, pavões! estes pássaros que eu vi nao Unham 
rabo de cores. O que elíes tinham era um papo. . . um 
papo ! . • . que lindo papo ! {fica pensalitoj 

ALF.ENIM. 

(Limmnào o roslo) £s|ou aviado ! perco os meus 
doze mil reis! U rapaz está examinado. . . está prompto ! . . 
As lições que lho faltam. . . essas nao é de mim que 
tem de as receber ! . . . 

cxtAo. 

E os meus pássaros, como se chamam, senhor Al- 

fenim ? 

ÀLFENIN. 



NSo sei, nSo sei ! . . elles que lh'o digam ! 

CXTiO. 

Ah ! elles faliam? Sim, o senhor ensinou-me que 
in UIk tempftre havia animaes palradorcs, . . 

AI-FENIM. 

E ainda os ha, meu senhor! Ainda os ha ! 



t MtLBOI Nlg EIPKilMBNTAft. 33 

CATÃO. 

Nua í>abe, senhor Alfenim, eslou dií^poslo a sair 
doesta quinta. 

ALFENIM. 

-A sair?. . 

CATÃO. 

Sim ! o verbo sair. . . eu saio. . . 

ALFENIM. 

Percebo. Quer por o verbo em aceao! Koixde vacf 

CATÃO. 

Vou ver o que por ahi ha. Cá na quinta não \ejo 
novidades ! Arvores defnícla. • . 

ALFENIM. 

E nao lhe mostrei hontem umas ^ue se chamam 
mosqueiros, e que dà0 moscan? 

GATÃO. 

Foi O que me despertou a lembrança de ir procu- 
rar as que dão os outros animaes ; por exemplo, bois. . . 

ALFBNIM. 

NSo seja creança ! Os animaes nao nascem das ar- 
vores. 

3 



dl 



O senhor d3o f asioial? 

Nâo .M»í, nào sei o que sou! O que lhe d'go e que 
nSo loroar juízo, senhor Calão, heide dizer ao senhor 
seu pae que.. . [griíando muito) Sim, senhor! Aprenda 
o que lhe dfço, e não aprenda mais do que lhe digo ! 
Estude ! . • . estude o que deve estudar ! as suas rçOes, 
e nada mais ! Hora, kont, ablalivo do singular ? . . . ( Cala ) 
dá uma risada) 

câtIo. 

Rscule, senhor Alfenim ; o que eu queria aprender 
era a ler n'um livro portuguez como o senhor lè, e como 
lé meu pae : mas uma' vez que nao querem ensinar-me, 
eslou determinado a. . . a fugir ! Convido-o para acoropa- 
nhar-me. 

ÂLFENIM. 

Senhor Calão, nãò diga disparates. Isso nao lhe en* 
sineí eu ! 

CATÃO. 

Decida-se ale á noite. Dinheiro nao faltará ; ire- 



ft MILIIOB Rio nmnRNTAi, 35 

mos por esse mundo fora á procura dos meus pássaros. 
Tome sentido; se fôr denunciar-me ao papá, dir-lhc-hei 
que o senhor ensinou-mc que havia pcixcs-roulheres J 
[Alfenim dá um salít») 

ALFKNIM. 

{A'parle) O caso é serio! Eile já falia cm mulhe- 
res!. . . Se o denuncio ao pae, o pae volta-sc contra 
mim ! Se o acompanho, acabasse a historia dos mous 
doze mil réis ! 

GATÂO. 

Em que pensa, senhor Alf(»nini? 

ALFENIM. 

Com sua licença. . . até togo. 

catXo. 

Dccida-sc. Esperal-o-hei, ás oito horas, ao pé das 
arvores que dào moscas. 

ALFFNIM. 

Talvez, {sae) 

SCENA XI. 



CATÃO SÓ, depois LEONOR E AnNINHA. 

CATÃO. 

Está dito ; heide sair d'aqui, ainda que eu sou 
besse que ficava esmagado debaixo da porta í 



36 < «Kiiiu» >Àu'Kii-caiiii:vrAB. 

(LcoDor e Annioka^eiilreabrfoi a porta da râ^.-eianfoam, e v^ea 
para a scena.) 



{.{'parle) Lá eslá ollr só. 

I.FONOR. 

Vejamos o que faz ipiando nos vir. 

{Sem as ver) Meu pne nao é bom pae poríjire me 
iiiío ensina Indo o que sa^ ! •£ heide ler pena de o dei- 
xar? 

f.l Leonor) Nâo devemos dizer-llie quem somos. 
Veremos seelle adivinho, 

CATÃO. 

Naturalmente, o que elles me nao ensinam é cem 
mil vezes melhor do que latim e grego! Sabe Deus 
quantas coisas bonitas ha por esse mundo fóra. {Vendo 
Leonor e Anninka, rectm maravilhado) Que vejo!., • 
Os meu$ pássaros ! . . . {(ica maravilhado) 

ANRINHA. 



Pássaros ! ? E' mais tolo que innocente ! . . . 

(Calio, legi oour aprozimar-ic, contempla-as D'um verdadeiro ez- 
Uai, — k orchtftra prelodU e acampanba aa le^intM •atro- 
pbof.) 



ft MBLnJS 5&0 KI?CSIXK?CX&R. 37 



CA Tio. 



Oh ! que lindos passarinhos.! . . . 
Mas. . . sem bico ! c de pasmar ! 
Heíde procurar-lh os ninhos, 
PVa a meu mudo o^ educar. 

^Eilas fazfní-lhc mesuras,.) 

GAJÃa. 
Elles fazem como as rolas. . . 

ANMNHA K IJCONOK. 

Dçus o guarde, meu senhor ! 

CATÀO. 

Eu sinlo ídéas Ião tolas! ... 

AFIN;ifR\ B TRONOR' 

V^nha cá, se faz favor! . . 

CATiO. 



'Stâo faltando I serão geale? 
Mas sem pernas? nunca vil 
Eu não sei que coisa ardente. . 
Só (|'ouvil-o$ já senli ! 



\ 



Acabemos com isto t Parece que nunca viu. . . 



40 * MBLiMR ?ilo BirstuiKrrài. 

LKOMOII. 

Que Ibc parece esle ? 

CATiO. 

Os léus olhos. . . se eu pudera, 

O que Díi"iQspiram dizer ! • . • 

E o leu riso- . . Oh ! quem me dera. . . 

{Heciiando) Ri-lc mais um pouco para eu \cr. 

LBOMOR. 

f Rindo J Enlào amas-me, nào c assim? 

í:àtào. 
Se te amo ! . . . 

ARNiNHA. 

Vamo? ; mas c preciso saber para que ? 

CATÃO. 



Esse que pôc-me a lorturas ! 
Eu não sei dizer para que ; 
Minh'alma sonha as ternuras, 
Que lhe inspira isto que vè ! . 

ANiMNHA. 

Então ? 

CAI ÃO. 

Peço oito dias para responder. 



• • 



ft ttELflOa ViO BXPSIllHRlITâa. it 

LBOMOR. 

Enlrclaolo, não lens nada bonilo para me contar? 

GATÃO. 

Oh ! se lenho ! mas. . . não sei expressar-roe. . • 

AJ^NjfiHA. 

Eu o auxílio. O que faria o senhor para lhe pro- 
var que a ama ? 

catSo. 

Tudo ! 

ANN.NHA. 

£' costume : porém como le decides a estimar- 
nos, vamos dar-te alguns conselhos que não deves 
qoecer. Escuta. 

DUETO. 

Se quizeres ser um dia 
Compleiameole feliz. 
Da mulher que te dá mimos 
Não creias o que se diz ! 

Ao mundo não dês ouvidos ! 
Só no que tu tires, crê» 
Nao a enganes, nem lhe peças, 
Mais do que tem, que te dé! 

Não a sigas por teimoso. 
Nem a guardes por traição ; 
Se não quer's que o mundo ria 
Dos teus trabalhos em vão ! 



4^ Ifc MELnOl Jfio EirUlMCMiAft. 

{Apaiíe para Aíminha) Que faremos? 
Enlao que pretendem ^ 

■ 

CATÀO. 

Vê? Veja bem qtie uSo são pavões, como jo senhor 
dizia ! 

Cate-^e T {oliando para etfas) 

[A^parié) Como elle está olhando para nós^r 

LKONOR. 

{A'par(c) Se soubesse como é feio T. . . 

Quero saber o qne vieram cá buscar ! ?• 
( Vparle) E' peior que um lobo cerval f 

CATÀO. 

Ora^ senhor Âifenim, nSo as espante ! 



t MCLHOII >ÂO KKPEIIIIIC5TAB. 4S 

Cale-Sf, inipriHlrale ! (aparte) Qxie bellas mparí- 
Se é crime «star aqiii^ desculpo ; nós igncNrava- 

XLFKMH. 

{A^parlCy iniieund't Leonor) 1!' seduclora ! . 

A1«NI>;]|A. 

Se soubéssemos que nos haviam de receber ISomal, 
nao teríamos vindo ! 

ALFKNIM. 

[A' parle) E os olhos d'esía ! . . , 

€ATÍO, 

O' senhor Alfenini, fiâo é verdade que nao ha nada 
tao lindo como. . . 

AI.FKMM. 

Deixe eslar, que seu pae Ih^o dirá! 

CATÀO. 

flade ficar contentissimo quando a» vir. Eu mes- 
mo quero levar-lhas. 



^ - 



i€ É IfStSOl HlO BXPttlMlKTAI. 

AI.PENIM. 

O qu€ ? airever-sc-hia ? I . . Oh ! saia da minha pre- 
sença ! . . . 

CATÃO. 

E' O que me fallava. . . 

ALIEHilM. 

Senhor Calão, ordcno-Ihe que se relire. 

CATÃO, 

E eu nito quero. 

AIFFNrM. 

Pagará tudo junlo. {A Anninhay dando-lhe uma 
chave) Corram a occullar-se no meu quarto. . . no fim 
d'esta rua, á direita. Aqui está a chave. 

LEONOR. 

{A Anninha) No quarto d'ellet Eu cá não vou. 

alfenim. 
( Vend(His hesitar) Depressa. . . 

catXo. 

Qual depressa I Depressa. . . o que 7 Oh ! não fa- 
çam caso do que elle diz ! Eu vou procurar meu pae ; 
tral-o-beí aqui. . . e veremos quem manda ! (soe cer-^ 
rendo) 



t MILHOI niO KIPBBIMIRTAI. 47 



SCE^A XIII. 

LKONOR, ANNINIIA, AI.FINIM. 
ALFfNIW. 

Agora 6 que as senhoras devem considcrar-sc per- 
didas! Sabem o que vae succedcr? . . . 

LE0N')R. 

Oh! será coisa sem remodio? 

ANNlNJíA. 

Nós esperamos (udo da sua bondade. 

ALPi.NtllC. 

A belleza sempre encontra defensores, nas mais ar- 
riscadas crises ! 

anniniia. 
Obrigadas ao seu favor. 

ALFEMH. 

Nao se fiem n'aquelia creança que d^aqui saiu : é 
uma cabeça de venlo capas de transtornar tudo. . . 

ANNINOA. 

Assim nos fareeeu.. . 



48 k MC! aoK Nio hkiiiuiitai. 

ALFI-NIM. 

O pae jurou acabar a sua raça ; e nao con^^ntírhi 
DUDca.. . 

ANNlflIlA. 

Perde-5e a dasa dos bicos ! 

LEONOR. 

Gottduza-nos a um logar seguro, onde possamos con- 
tar-Ihe a nossa desgraça, e ouvir os seus conselhos. 

AKFfeNjM. 

Queiram seguir-me. 

SCENA XIV. 



09 MESMOS, R JOÃO. 
JOÃO. 

{Surpreheniendo'^) Viva a bella sociedade! Com 
que então. • . 

alfcnim: 
Que contratempo ! 

JOIU. 

Sem ceremonia ^ . . Uma vez que o senhor quer car- 
regar com eilas, eu faço-lh'o barato. • . se a coisa der de 



É IflLHOB Itle BIPBIIIIKNTAK. 49 

si. . . seremos ambos postos ao fresco ! E' uma consola- 
ção não ir só. . . 

ÂLFBNIM. 

Não te calarás, tagarela ! 

joio. 

Calar-rae ! Só se consentem que retire o meu alfi- 
nete do jogo. 

ILFBNIM. 

r 

Que queres dizer? 

JOÀO. 

Quero dizer, -sim, venho a dizer como quem diz que 
se houver perigo seja todo para o seu lado : e que não 
se falle no meu nome, se perguntarem por quem as es- 
condeu ! Senão, vou d'aqur procurar o patrão, e. . . 

ALFSNIM. 

Basta ! Eu só me sacrificarei. 

JOÀO. 

E' como quem diz que toma o fardo todo em peso 
sobre si ? . . N'esse caso. . . 

AMII\HA. 

* Estamos de mal a peior ! Ahi vem gente. . . 

lEONOR. 

Entremos. . . {dirigindo-se á casa da direita) 

4 



10 * MCLBOB níú «VtVaiMKIITAII. 

JOiO. 

(Tomando aporia) Entremosl?. . Aqui entro eu só. 

ILFENIM. 

Joio. . . deixa-as entrar. . . 

lOÀO. 

Leve-as o senhor lá para o seu quarto ! Eestal . . . 

ANNINUà. 

Tenham compaixão. . . 

m 

LBONOK. 

{Dando dinheiro a Joào) Tu és^ um bom rapaz. 
(r/ e deixa-as entrar) 

loXo. 
Rapaz ! . . Ar que fico rico e moço d'esta vez ! . . 

SCENA XV. 



ll«SELMO, CA.TÀ0. A.LFENIM, JOÃO. 

CATÀO. 

Sim, papá, é impossivel que me recuse este favor 
depois de ter visto. . . {olhando espantado pela scena) 
Onde estão elles?... Senhor Alfenim, que fez o senhor 
dos meus rapazes? 



O BOQhor não eslá em si I {áp arte) Que carranca, 
meu Deus, que traz o \elho! 

ANSELMO. 

Então que é isto ! Tu estás cassoando comigo I ? . ; 

citXo. 
O' João, para onde foram elles ? ! . . 

JOlO. 

Elles, quem, meu senhor? 

GATlO. 

Senhor Alfenim, dè*aie conta dos meus rapazes. . . ou, 
apesar da presença de meu pae. . . . 

ILFFNIM. 

Não o entendo. . . 

CATÃO. 

{Pegando com força n'um braço de João) João, de- 
clara-me o que lhes succedeu I . . . Quero saber I . . . 

joio. 

Ai I . . meu senhor. . . ai o meu braço ! ... O se- 
nhor está louco ! ? . . . 



5a A MBLSOl filo BmiIMBNTAR. 

citAo. 

Meu pae. . . ordene que ra'os restituam, senão morro 
desesperado ! 

JOÃO. 

N5o é dos pavões que vocemecê quer fallar, senhor 
Calão? 

GiT/LO. 

Não são pavQes, não, velhaco I . . . 

JOÃO. 

Espere. . . pareceu-me ouvir piar. . . Vamos em 
cala d^elles. . . por aqui. . por aqui. . . {indicando ciado 

opposio á casa) 

CATA o. 

Vamos, meu bom João. . . vamos. . . Ah ! . . . se os 
não achar, o senhor Alfenim é quem me hade pagar ! 

(Sae com Joio.) 

SCENA XVI. 



ANSELMO, ALFENIM. 
ALFENIM. 

Senhor Anselmo dos Reis, o seu filho é incorrigí- 
vel ! 

ANSELMO. 

Vou mandal-0 frender. 



t «KLIOft Mio KlPIBUIUITAl. 63 

ALFENIM. 

Não ; deixe-o ir. . . talvez lhe faça bem a distrac- 
ção. . . 

ANSELMO. 

Tenho medo que endoideça ! . . . Se ouvisse a tra- 
palhada que elle me foi contar. . . 

ÁLFBNIM. 

Justamente ; é o que eu lhe dizia inda agora. São 
idéas que lhe passam pela cabeça ; e aposto que são 
idéas de mulher. . . 

ANSELMO. 

De mulher I O senhor deseja divertir-se comigo ? 
Ninguém tem idéas do que nunca viu ! 

ALFENIM. 

Bella theoria ! Ora diga-me : nunca lhe aconteceu 
sonhar 7 

an:^elmo. 

Poucas vezes. . . 

ALFENIM. 

E ver coisas que não teria visto se não tivesse 
dormido ? 

ANSELMO. 

Mas o meu filho anda acordado. . . aquíllo não é 
sonhar ! 



54 t IffiL^oa Mt> ttt»fetntfe?rTiv. 

E' sonhar acordado ; 6 um soitbo de poeta. . . 

ANSELMO. 

Ora adeus ! o rapaz não é poeta ! 

ALFENIH. 

Aos dezeseís annos todos os hom ns são mais oo 
menos poetas. 

ANSrLMO. 

Ob ! o senhor dá razào de tudo ! E eu não admitto 
que meu filho pense em mulheres ! 

ALFiNlM. 

Cada qual admitte o que lhe convém ; mas receio 
muito. . . 

ANSELMO. 

Ao menos, se lhe não puder occultar absolutamente 
a existência das mulheres, heide conseguir que elle as 
odeie ainda mais do que eu ! 

ALF£NIM. 

£' difficil. . . 

ANSELMO. 

No fim de tudo, o senhor Aifenim é um apostolo 
do bello sexo ! Faz bem ! Emprega mttito bem o seu 
tempo! Quem \em ali?.. 



t MBLaoi Hlo ■xrttiinurrAi. tS 



ALFfiNm. 

Ah ! é aquelle bomem que deseja experimentar o 
copo. {aparte) Chega á propósito. 



SCENA XVII. 



ANSELMO, ALFENIM, O SENHOR GASTRO-VERDE, O SENHOR 

cASTuo-ROxo, losjí, LEONOR B ANNiNRA, HR jaoella da 
casa. 

ANNINHA. 

(.4 Leonor) O rapaz já lá não está. . . 

LEONOR. 

£' o mesmo ; vejamos o que se passa. 

GASTRO-VERDB. 

E' como lh'o digo ! imbecil ! o senhor é um pés- 
simo cunhado ! 

GASTRO-ROXO. 

Oh ! meu senhor, seja mais delicado com o marido 
da senhora sua irmã ! 

ANMNHA. 

Menina, lá está o meu José. . . 

LEONOR. 

{A Anninha) E meu pae, também ! E meu tio. . . 



56 t HILBOR 5i0 



OASTRO-VfiKDE. 

(.1 Caslro-roxo) O senhor é um intrigante I . . 

• CASTRO-BOXO. 

{A Casiro-verdc) E o senhor, um. . . um. . . 
{Inienindo) Por quem são, meus senhores.,. 

CA*iTRO-V RDF. 

{A Casiro-raxo) A sua irnia ! . . . 

CASlTiO-liOXO. 

[A Castro-vcrde) E a sua ! . . . 

CASTUO-VKRIiR. 

A minha, nâo tem nada^ que se lhe dizer ! . . . F/ 
uma fidalga da minha raça. .' . que comprehende perfei- 
tamente os seus deveres ! 

CASrno-ROXO. 

A minha nobreza é mais antiga ! E minha irmã, 
além de ser muito mais illustre que a sua, tem a vanta- 
gem de ser martyr nas suas mãos, senhor Caslro-verde ! 

CASTRO-VERDE. 

Senhor Castro-roxo, quando eu fallo da sua irmã, 
lenho razão ! 



ft MBLH^I NiO BIPBIIIIIBNTAR. 57 



CASTRO-ROXO. 

Não tem ! 

CASrRO-VFRhK. 

Tenho, sira senhor! 

CAbiRO-ROXO. 

Não lein ! . . . 

JOSÉ 



f Recorrendo a Anselmo e Alfenim] Meus senhores, 
r.judem-mc a apartal-os! Se elles pegam á unha, a coisa 
lem que se lhe diga ! . . . ^ 



ANSKLMO. 



Olá, meus senhores, que é isso?.. . Dois homens 
maduros! 

CASTRO-VEROB. 

Ah! ainda bem que lemos um terceiro: vou fazel-o 
juiz da nossa eau>a. Queira escutar: eu faço a honra 
áquelle senhor, de dar meu filho, que é tão nobre como 
eu, em casamento ásua filha, que não étão nobre como 
meu filho ! E como a sua filha evacuou a casa paterna 
na véspera do casamento, elle tem a insolência de dizer 
que foiporminrha culpa; porque sou severo de mais com 
a família, e que por isso a pequena lendo medo de ir 
para minha casa. ... 

CASTRO-ROXO. 

O negocio é este; eu dou a minha filha, que tem 



5Í t HELMOB niO ■XPKKIMBlfTAft. 

dez coutos de réis, ao filho d'esle senhor que e pobre 
como Job! Ora, succede que a menina foge de casa por 
que lhe desagrada o casamento; o este senhor injuria- 
me dizendo que sou um pnc relaxado, sem animo nem 
vigor^ para se fazer respeitar! que a minha mulher eslá 
sempre ao redor de mim a fazer-me meiguices ; e que 
eu Boffro que cila me chame seu menino, seu brinqui- 
nho, seu nené. . . emais coisas que nao quero dizer!.. . 
Porém aquilJo é inveja ! Se a minha mulher me faz fes- 
tas é porque me estima deveras! nao é como a d'elle 
que. . . 

CASTKO-VEBDE. 

Que tem o senhor que dizer da sua irmã ! ? . . 

CilSTRO-ROXO. 

Dig3 que é martyr nas suas mãos, e heide dizel-o 
sempre ! Se nao gostar do senhor, faz muito bem 1 

ANSELMO. 

Segundo concluo, os senhores 'discordam sobre ca- 
l^itulos d*amor conjugal O caso nao é novo, e admitia 
uma experiência infallivel! (Para Alfenim) Faz favor de 
ir buscar a ferramenta. 

ALFKMM. 

Sim senhor, {sae e volta momentos depois trazendo 
um copo de prata e uma garrafa) 

CASTRO-Vkrd::. 

Muito bem ! Vamos ver ! . . . Eu ^ou austero, é ver- 
dade. . . mas. . . 



Ê fetLUOft feio BlMllMtNTAII. ti 



CASTRO-ROXO 



Vamos ver I Vamos ver ! . . . 



ÀNNINHA. 



{A Leonor) Isto hade ser bom 



LEONOR. 



(A Anninha) Eu ca não entendo nada. . . 

ANSELMO. 

A José) E vocé, também qaer experimentar?.. 

JOSÉ. 

{Coçando a cabeça) Veremos . . veremos. . . 

ALFKNIM. 

Aqui está o copo. (enchendo-o de vinho) 

GASTRO-VBRDE. 

Dé cá, décá ; tenho tanta certeza do que se passa, 
que quero ser o primeiro a experimentar {pega n» copoy 
e quando vae a aproximal-o daòocca^ treme-lhe amàf, e 
o vinho entornasse,) 

TOIROS. 

Ah ! Ah ! Ah ! . . 



60 t MiLBOi nko BimiauTAi. 

* 

CAftTRO-VK.DB. 

Ouc quer islo dizer?.- 

TODOS. 

Isso quer dizer.. . f hilaridade geral J 

CASTRO-VEROE. 

Nau percebo. . . 

castro-roxo. 

Se a minha irmã se comporia mal, a culpa é sua, 
meu senhor! Hade dar-me uma satisfação com as ar- 
mas, na mão ! 

CASTBO-\>RnB. 

O que I se o vinho se entornou foi porque me tre- 
meu o braço ! Este maldito nervoso . . Vamos : quero 
mostrar-ihes que. . \ {enchendo o copo) Là vae. {torna a 
iremer-lhe a mào ; o vinho saHa-lhe ao rosto) Aii ! . . . 

(Grandes risadas) 

CASTRO HOXO. 

E então? 

CaSTDO-VKRDE. 

Pois se a minha mulher me não ama, o senhor 6 
que me deve uma explicação ! . . . Bem se vê que é sua 
irmã ! Uma familia ordinária ^ . . Vejam de que meu fi- 
lho se livrai . • a sobrinha hade sair á tia ! 



ft HELHOB ylO EKPIllMINTAl. 61 



ANSPJ.MO. 



{Apresentando o copo a Castro-roxo) Agora o se- 
nhor. 



CASTBO-HOXO. 



Pois se lhe eu digo que minha mulher está sempre 
a fazer-me festas, a chamar-me seu nené. . . 



CASTRO -VíRDE. 



E' verdade! prohibo-lhe que beba! Duvidar dos 
sentimentos da minha irmã, que é tão nobre como eu, 
é insultar-me ! 

CASTBO-ROXO. 

Agora, quero experimentar 1 

(O vinho salta-lhe ao rosto. Todos riem.) 

CASTRO-VERnS. 

Foi elle que o fez de propósito ! 

CASTRO-ROXO. 

Não ha tal 1 Assim como usa* cuidas / . . . O çpnhor 
foi que entornou duas vezes o vinhcr, para desacreditar 
rainha irmã ! . . . Eu percebi muito bem o seu macha- 
velismo ! 

CASTRO-VERDB. 

Insolente ! traidor ! . . . Entornar o vinho s6 para 
corapromelter uma senhora ! ... Eu lhe farei ver o que 
é um homem de probidade e de honra quando lhe tocam 



99 ft HBIBOl HlO BXP*»I||KIITAB. 

na família ! . . . O senhor é um mau cunhado e um pes 
simo irmão ! {sae enfurecido) 



SCENA XVIII. 



ANSELMO, O 8BNHOR GASTRO-BOXO, lOSâ, ALFBMM ^ LEONOR 

E ANNiNHA, na janella. 

ílfknim. 

Agora, meu camponio, {para José) é chegada a tua 
Tçz. Andavas procurando tua mulher, e não Unhas grande 
certeza de ser amado. . . Vamos, experimenta- • . {apre- 
sentando-lhe o opo) 

JOSÉ. 

Isso é comigo? 

ANSELMO. 

{A Castro-roxo) Não se contriste, meu senhor! não 
vale a pena ! A*s vezes succeda tremer a mao. . . 

alfenim. 
{Para Joséj Então ? . . 

I.B0N0R. 

{Para Anninha) Anninha, o teu marido vae beber. 

AWNINHA. 

E' séu ibrte ; porém era melhor que se deixasse 



ft ■iLHoi ifio BXPiíiMiirrAi. 69 

d'isso ! . . . não que eu tenha algum receio. . . . entre- 
tanto. . . 

ÁLFcNIAI. 



{Insistindo) Quando se tem certeza de ser amado, 
bebe-se sem hesitar ! Vá abaixo I 

JOSlé. 

Nada I . . . Eu não lenho sede. 

ALFBNIM. 

Nao se trata de ter sede ; trata-se de saber m tqa 
mulher te ama. . . 

ANNIlfHA. 

{A'paríe) Pobre José. . . 

losi. 

O' seu pedagogo, ou que diabo 6 você ; e se o \i- 
nho me saltar ao nariz ! o que lucro eu com isso ? Ahi 
íica um homem pateta a scismar na macaca.. . Nadai 
Eu cá não bebo ! Beba ^ocê e mais a su'aima. 

AANINHA. 

« 

{A'parle) Nunca pensei que o meu José fosse tão. 
assizado ! 

ANSELMO. 

{A'parte) E' para admirar o espirito d'este bruto ! 



((4 * HlLBOft ?liO 



CàSTRO-ROXO. 

Enfâo que é isso, José? não queres beber á saúde 
da tua mulher?. 

JOSÉ. 

Ella lem uma saúde de ferro, como se lá diz, ca- 
paz de dar e vender ! Graças a Deus. E' minha mulher 
para Deus e para o mundo ; eslimo-a, e não leria figa- 
dos de a trocar por outra! Lá se ella me quer ou não, 
isso é ura segredo que só ella sabe e que não diz a nin- 
guém! O caso é que a encontro sempre á minha espera, 
quando vou para casa ; é verdade ! e ainda que não 
acho nada feito, ella faz, depois, tantas coisas que me 
agradam, que até me obrigam a mostrar-lhe os dentes. 
Eu cá, sigo um systemá que me ensinou o cura da fre- 
guezia, que é um homem que sabe dar duas palavras : 
e vem a ser deixar ir as coisas como vfio, nem muilo 
bem, nem muito mal, dizendo sempre bem do padre ca- 
pettào. E assim, venho a dizer, como quem diz que é 
melhor nào exjyerimeniar ! 

ALFBNIN. 

Tu és o typo do marido prudente ! 

N 

- ANNINHA. 

Ah! estou de tal modo contente que não posso re- 
sistir ao desejo de lhe saltar ao pescoço ! 

LEONOR. 

Espera, Annica. . . vaes deítar-nos a perder.. . 



É HBLHOR Mio EXPBKIllKKTAB. 65 

(Retiram-sc da janella; momentos depois apparec^m nascena.j 

ALFBIHIM. 

Toca n'esla niao : és o beijinho dos maridos ! 

JOSÉ. 

Sou um seu criado. 

CASTR0410XO. 

E' o exemplo das pessoas de bem. Abraça-me, José ^ 

JOSÉ. 

Meu senhor! 

ANSELMO. 

Verdadeiro espelho da vida domestica ! 

JOÍ^É. 

Obrigado ao seu favor! 

SCENAXIX. 



os MCSMOS, AI«NINHA, LEONOR. 



ANNINUA. 

XCornjkào a abraçal-o) Meu José, nao ha palavras 
que expliquem os teus merecimentos ! 



66 * MILBOB NÃO liniIIIE!ITAI< 



JOSÉ. 

O' Annica, tu por aquil. . . 

ANSBKMO. 

Santo Deus ! Mulheres na minha fazenda ! ? 

JOSÉ. 

[A Anninha) Que te parece, o copo ter-me-hia dito 
alguma coisa ? . . . 

ANiffNHA. 

Asseguro-te que nao ; mas fizeste muito bem em 
não querer experimentar I Agora, ainda gosto mais de 
li, meu José. 

CASTKO-ROXO. 

Anninha, onde está minha filha? Já se fartou de 
correr por montes e vallcs? . . . 

' LBOKOR. 

Eis-me aqui, meu pae : queira perdoar-me ! . . . 

CASTRO-ROXO. 

Filha indignai. . {áparié) Se o meu cunhado aqui 
estivesse, veria se tenho ou não vigor para. . . 

TO nos. 
Senhor Castro-roxo, por quem é, perdoe-Ihe. . . 






È MKLaOB NÃO KXPBRmftHTlB. 67 

GASTRO-ROXO. 

Está perdoada. 

ANSBLMO. 

Mas o que vieram estas mulheres cá fazer á mi- 
nha fazenda 7 ! . . . 

SCENA XX. 



os MBSMOS^ CÀTÂo E JOÃO, pelo fundo. 



JOÃO. 



Nao estao lá, nao senhor, é engano ! Pois eu ha- 
via de OS ler em casa ! ?. . . 



A>SBLMO. 



[Torcendo-llte uma orelha) Ah! lu é que as tinhas 
escondido \ maroto. . . 



JOÃO. 



Nao senhor. . . não senhor ! . . foi o mestre. . . 

catAo. 

. Meu pae. . . {vendo as duas mulheres) Ah ! bem 
o dizia eu ! Cá estao os meus rapazes ! . . . Meu pae. . . 



70 t HBLBOm !fiO BinmBlVTAl 



CATÀO. 

{Para as duas mulheres) Ora os meus rapazes ! . . . 
Heim? {pegando na mà) de Leonor) Heim? {batendo k- 
vemenie no rosto de Anninha) 

JOSÉ. 

Então que é isso ? I . . . 

ANNINHA. 

o que hade ser ! nao vês que é iunoccnlc ? . . 

JOSÉ. 

Ah! é ínnocenle. . . 

I.EONOB. 

{Para Catão) O senhor, por pouco me nao malou 
es(a manhã ! Isso faz-se ? 

catAo. 
Perdoa ! . . agora és tu que me malas 1 . . . 

ANSELMO. 

Meu filho, acabo de tratar com o pae doesta m3- 
nina. Amanha, far-se-ha o teu casamento, e cila ficará 
sendo tua mulher. 

CATÃO. 

{Abraçando o pae) Que bella co^a ! mas. . . expli- 



£ MBLEOm NlO E1PBRIMB5TAI. 71 

que-me, meu pae, o que quer dizer ser minha mu- 
lher?.. . 

ANNINHÀ. 

{Ao ma' ido) Explica-lhe, coilado. 

JOSÍ. 

o pae que lh'o diga ! . . 

ANSELMO. 

Isso depois. . . depois. . . 

CAIÃO. 

{para Leonor) Não estás contente?. . Como /e cha- 
mas tu? 

LEONOB. 

Leonor. . . 

ALFkNlM. 

Senhor Anselmo, creio que v^e findar o meu ma- 
gistério ; o meu pupiilo já arranha o Tito-Livío, e a 
menina Leonor acabará de lhe formar o espirito: entre- 
tanto se precisar d'um preceptor intelligente para as seus 
netos vindouros. . . 

ANSELMO. 

Paliaremos. Agora, meus amigos, convido-os para 
jantar. Vamos. E tu também, honrado José. . . 



72 t HELHO» KlO CXPEIISBITAR. 

JO^é. 

Obrigado ao seu favor. 

ANSRLMO. 

(A' bocca da scena com o cepo na mão) Vamos; 
roas primeiro 

Esle copo enfeitiçado, 
Que me fez enca vacar. . . 
{Arrojando o copo)Le\e'<^ a breca! Certas coisas 

E* melhor nSo experimentar ! 



FIM. 



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daèiWa, 1 Tol 8.' írancez, rs. -.'------Sn 

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O Génio da língua portugueza, obra ne(;ei(saría a quciu quixer Adqalrii 
pvi ícito ronlicriroento do idíonia lic CamOcs. 
A Pobreza envergonhada, drama f m 8 actos com pro1o(,'o, por José da Sii** 

Mendes Leal. 
F>tá->r imprimindo cm «cpar«'MÍo a comedia. LiçOes para maridos 



i3 



wM mifmu SIM umi. 



COMEDIA Kll VM ACTO 



ORIGINAL PORTUGIJEZ 



«« 



?0R 



ALFRKDO HOGAHi 



Para se representar no iheatro io Gymnasio Dramático. 



PKECO 120 RÉIS 



LISBOA. 

TTrOQBAPHIÁ ' 00 rAMOIÀMi, 

Travessa da Yktoria, 19. 
1861. 






aUÂS DK QDE i. J. JT. LOPBS t EDITOE, B SB TBRDBH 

NA SUA LOJA, ftUA ÁUREA N.« 139 E 138. 
VâBorana, temaDario de inslrocçio e liOeratara, fandado em iS37. 
Uma oolleeçio de IS ? oinmea , aendo o preço en papel 23:000 

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Illaitraçlo Loio-Braiileira, periódico nnifersal, eoliabora- 
do por aaitoi escriptorea distinctos. Tem completos ires 

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Encadernados '. , 13:(00 

Historia dos festejos reaes por occasiio dosdesposorios de S. M. 
cl-rei o senhor D. Pedro v «-tUm folheto com des graTuras SOO 

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da SiWa; e precedidas d' um estudo bíographico e líttera- 
rio sobre o poeta, escrtpto por Rebello da SiWa — 6 rol. 4.'3S0 
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Poesias, .3.* edição, correcta, 1 vol. 8.* francês. Preço. ... 600 
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o 



Hi&O A^illwFailiwa wAuK wnBsa 



««• 



COMEDIA KM UM ACTO 



ORIGINAL PORTUGUEZ 



MB 



AinSDO HOCIAN 



Para se representar no theairo do Gymnasio Dramático. 



<@^EI^ 



LISBOA. 

TTPOABAPHU DO PÀMOBAMA, 

Trtmettê da Yietoria, 78. 
186i. 



NkO DESPRESE SEM StBER 



<2iiairtas vfzes teremes paasad0 pela ferlima, des« 
preMBdcHa? E quantos ooa (ksfasettoa <^wí Hidifiaren*- 
ça de qualquer objecto de que depois sentimos a foJU 
icreparayel? Isto suocede-iiDs todos os 4ia^, c<»qi# mui- 
ta4Íeifi o ealio pr^^^ndo, a «adi passo^ «atas palavras 
tão cofthecídas e preverbíaês « se eu soubesse. . . « se 
eu adivinhara.. . » etc. > 

fi o 4 ue DOS acottoce em relação aos oJbjeiDl^s que 
O06 cercam, laaifeem lem iogar a respeito dos seaiuwA* 
tos que nos afiectam^ Vemos, por exettpU^, una yes*- 
«aa« q«e o acaso nos depara no caminbo da vida ; e tan^ 
to «lais sympaibia Ibe kispinames^ imanto meim dia*- 
postos nos senlfemos a seu favor. Despfesamos aqu^Ua 
symprthíai; e lá vem depois, quaatas vmm^ o momen- 
to «« que prclaadem^s aoordai-adosomMem queadei^ 
xáiMs dormir 1 Para quem nio vive eocerradoy Qomr 
^etamento encerrado m força da ex|ureasão, a vida 
aposenta phases tãodiversas«tão teesperadai^ qite^ma^ 
g^yrnn dev«, por qw nao pode .£we^la com segara nça^ 
úmr ^ue nao ibade precisar, um dia, das «coisas 04i 
das ipí^as que ahaadonoa .na viespara. E por jisao ià 
vem o dictado para ee nao diaer d'esia agu(í »ão U- 
berei, 

La Fontaine foi um dos que, com mais espirito a 
graça, tratou de comprovar^ com exemplos notáveis, on- 
de a vardarie se encontra logo á flor do sentido^ a exa- 






Si^ 



ctidSo d^esses dí ciados em geral, que, para os aprecia- 
dores, constituem um dos roais ricos legados de nossos 
avós. 

Pena é que o estylo demasiadamente franco com 
que estão escríplos alguns dos mencionados exemplos, 
nio permitia conservar-lhes a precisSo graciosa com 
que o sábio nol-os deixou. 

A fouce do moralista despoja-os de parte das suas 
bellezas, na resolução do problema difBcil de os trazer 
ao Iheatro. A consciência vacilla por vezes.. . como po- 
rém na resolução d^esses problemas, a necessidade do 
thealro impera, força é guardar a consciência na gave- 
ta e deixar a penna fazer a sua obrigação 

Não Desprese sem saber.. . é uma lenwiva in- 
nocente de que o publico ajuizará. Vão, n'esta come- 
dia, dois contos do illuslre escriplor francez ; talvez os 
mais espirituosos de toda a sua collecção. Vão, porém, 
francos dé porte até para o mais -escrupuloso leitor, 
que não verá no folheto^ coisa alguma além das scenas 
intimas de uma família honesta, na época do marquez 
de Pombal, o que sem duvida me livra da facilidade 
dos nossos dias, onde podia, contra \ontade, naufragcur 
sem esperança de salvação. 



O autor 



lIVTBHI.lICVTOItRS 



MAHUBL \IGBNTB BORGA. 



FBDRO PERES CABRAL. 



D. BPHiriBNU. 



MARIANNA. 



A acção lem logar em Lisboa em 47* 
depois do terremoto. 



** 



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44 ■ * 



/ 



: • ' '' ^ 



ACTO UNICO. 



« On ne 8*avi8e jamais de toai » 

Coiil«« el fiimveffef dê la fomtauii. 



(Sala de um palácio de Lisboa em 17*** No fondo entre as duas 
portas principaes o retrato do marqaei de Pombal. Porias laie- 

raes). 

SCENA I 

(Ao levantar do panno Marianna está sentada em frenie dd orovtc 

D. Epbígenia em pé ao lado d'ella). 

Marunna — Gostou^ senhora D. Ephigenia? 

D. Epuígenu — Aí, sfe^oslei. menina ttariannalt 
Quem é que nao sente derreler-se-lhe, em ternuras, o 
coração, ao ouvir essa leltra tão mimosa.. ^ diga-a, di- 
ga-a lál 

Mariâmna (entoando) — Esta t 
« Joven Leiia abandonada. . . 
cPor seu lindo, ingrato, amable.. . 

D. Ephigenia {imitando) — Por seu lindo ingrato 
amante. . . 

Harianna {rindo) — Meio ponto abaixo I 

D. Ephigbnia — N'algum dia, assim é que era! Eu 
sei muito bem que não tenho voz ; mas para curiosa* . . 



2 NiO DESPRESE SEM SkBEh 

Habianna {lecanlando se) — Sim ; não é de todo 
má. O que a faz descer» é o demasiado sentimento de 
que se deixa possuir.. . {rindo) 

D. Epíiigbi^u — Mal feito que assim não fdra^j Eu, 
tudo desculpo na voz, menos a falta de senlimeuto. Olhe, 
algum dia.. . 

Marianna — Amava*se muilo ? 

D. Ephigi:nia {suspiranlo) — O que sei dizer-lhe 
é que não se via o qu^ lyij^ se plk iendo, desgraçada- 
mente a cada passo. . . E ttfdo, t)Of eausadequem?Ah l 
desde que o senhor Sebastião de Carvalho se melteu a 
fazer casamentos . . pode-se dizer sem mentira que o 
- amor bateti âs az^s f 

MàktíiíNí — Mas, como c isso então» senhora D. 
Ephigenia ; se o amor fugiu, como é que se casa ? 

D. EpHiGBNíA. — Pobre innocçnle! Casa-se. . . che- 
ga até a ser qma monstruosidade Ul que.* . airipia! 

Marianna — Credo ! 

D. Ephigenia — Olhe ; (vend) se alguém as escu(a) 
uma das maneiras que o Àebhor Sebastião de Carvalho 
tem de proteger os seus afilhados» 6 casal-os vantajo- 
samente' Saèe> por exemplo» que ha esta oa aqudia 
moça rica em circunstâncias de casar; e o que faz el- 
le?! Kscreve uma carta ao pae, ao tutor, ou isso que é, 
da moça ; manda-lh*a pelo afilhado ; o pae, o tutor, ou 
" isso que é» tnette a viola nosacco ; e d*a1ia oito dias tem 
logar o casamento f Não. . . que ninguém se metle a jo- 
^ gar as peras com o tal senhor.. . 

Maiuanna — O que devemos pedir a Deus é que 
s. ex.» tenha afilhados bonilos. . . (de repente) Mas se 
a moça tiver quem lhe arraste a aza ?. . . 

b. EpíiGEiiíiA — Ahi ! ahí é que vae o taftu dito ! 
E' ahi mesmo ! Se a moça tiver rufião. . . qffe feme- 
dio, minha rica? {suspirando) O sacrificio é urgente ! 
E .por isso, hoje, ninguém quer já arriscar-se.. . E' o 
que me da razão de dizer que o amor bateu as azas ! 
Vê? 



NÃO BIStRBSB »H HJMÊti % 

MàRtiNMA ^- Hade «ler desagradável. . 

D. Ephigenu — Pois não é ! ? 

MABiAmA — Já experiíuenlon ? 

D. Ephicenu — Ai, deixe*me} tnentna; nom fallar 
n^jsso é bom ... 

Mauanna — Bu, por mim, venha que Jiao venha 
por ahí algum afilhado de s. e\\ . • 

D. EpHiGENiA — Louvado sejaes, meu Dcusl E' 
âlé onde podin chegar] Uma âienina de bem, dizer si- 
milhante coisa ! 

MâttiAmA-^-Se eu «io amo irínguém. . . 

D. EpBiacNiA — Poinbinjia dinnocenda ; é por is- 
so que falia assim : {suspirando) sçnão. . • 

MARI4NNA — (rindo) Desconfio, senhora D, Ephige- 
nia, que lenho na minha presença uma vtcUma «('algum 
nfiibidA. ..! 

D. EpirnsmA [suspirando) — Só n'oma palavra se 
6âgaKMi. Eu lhe conto. . 

Mabíanna — Conte. 

D. EpHiGBNtA *-^ Eu sempre foi uiu mulher hones- 
ta, mui sizuda e recatada com os homens ; e que ouo- 
ca gastoi de dirás tu, direi eu ; nem d'es£as dares e to- 
mares que muitas outras . . Deus me perdoei Vamos 
ao caso. Fui educada de fiequena em casa da mãe do 
senhor seu tio, o senhor Manoel Ticenle» que Deus guar- 
de, e como creánças que éramos, tínhamos certa iacli-- 
nação que não lhe sei explicar.. . 

Maki^kma — Mas ea percebo. Continae. 

D. Ephigenia — Esta inclínaçia foi natada pelos 
pães do senbor Manuel Vicente ; e qQa«d9 chegámos 
aos dêEoíto aanas, ialermmaram casar-nos. Jkquillo 
sim; é que era um casamento d'amor vardadeirol.. . 
Mas o démo^ fkfús me perdoe, que aio caaçii d'armal-as^ 
mordido de ver Ião santa harmonia eai easa, 4ece uma 
4as suas, e eis que tudo se transtorna t O senhor Ma- 
nuel Vicente casa-ae com a vizinha do lado que ena ama 



4 NlO DB8PRBSB 8IM SABKR 

fidalgota pobre. . • e qae. . . já lá êstá^ Deus Ihd falle 
n'alma. . • 

Mârunha — Pobre de quem ama t E* o que eu 
sempre digo ! Mas meu lio esli viuvo, e v. m.^ podia 
muito bem, agora.. . 

D. Ephigiiiiã — SilçQcio! silencio... siuto-lheos 
passos, (eipreitando) W elle, é. 

SGENA U 

D. EPHlQBNIA, MiEUlflfA, MÀlfOKL VIGINTB, VesUdo á C6r- 

te entrando pelo fundo; seguido de pedbo pbrbs, 

que fica junto da porta. 

Manqil — O diabo não é tio feio como o pintam I 
{fazendo uma profunda cortezia ao retraio do marqugz) 
Obrigado ! obrigado, meu senhor ! (vindo para a scoaa) 
Boas tardes, minha sobrinha ! boas tardes, senhora D. 
Ephigenia. 

D. Ephigbnu (áparie) — Que differença agora l kl 
tempo. . . tempo ! 

Harianiia — Sua benção, meu lio? {beijando-lke a 
mio). 

Hahcel (sorrindo) — Deus a faça uma santa, (sm* 
tando-se) Senhora D. Ephigenia, trate de mandar abrír 
o oratório e accender quatro velas ao Senhor dos Bem 
Casados que é promessa que lhe fiz. 

D. Ephigbma — Então porque, v. mM casa-se7! 

Manukl -^ Que remédio tenho I ? 

D. EraiGBEu [aparte) — Oh ! meu Deus.. . 

Mariânna {baixo a D. Ephigenia) — Ouviu? já 
lhe dou os parabéns. 

D. EpHfGEifiA (áparie) — Que sobresalte que sinto l 

Manubl — A minha fortuna não hade por ahi ficar 
ao Deus dará. E além d'isso a estreita familiaridade 
com que temos vivido, não podia trazer outro resulta- 
do.. . 



NÃO DE8PRBSE SBM 8ABBR 5 

D. Ephi6emi\ — Ai, senhor Manuel Vicente... con- 
fesso que nSo eslava preparada. . . 

Manobl — Preparada para que? 

D. Epuigemu — Verdade seja • • (aparte) Morro 
d'alegría. . . Deus queiía que nSo me dé o flalol.. . 

Marianna {baixo a D. Epigenia) — Então 1 Ani- 
me-se. 

Manuel -- V. m.cè tem alguma coisa, senhora D. 
Ephigcnia ? 

D. EraiGENiA — Oh! Um caso d'esles.. . é quasi 
uma estocada. . . {ápar:e) Não estou boa t sinlo tonturas... 

Manuel — Que diz ella !? Uma estocada t ? 

Mariannà — Senle-se n'esla cadeira, senho: a D. 
Ephigenia ; isso nao hade ser nada. (a meia voz) Ani- 
me-se, aníme-se. . . 

D. Ephigenia — Ah! senhor Manuel Vicente.. . a 
sua sobrinha, esta amável menina.. • que fortuna I 

Makianna — Para v. m.cé 

Manuel — E é mesmo uma fortuna. Minha sobri- 
nha tem dezenove annos. Ê orpha, é minha pupila ; as 
mesmas observações que z a fiz. e\/ 

D. Epbigcnía —Pois V. m.cè fallou-lhe dé mim? 

Manufx — Também, sim senhora, lambem lhe fat- 
iei de V. m.cê para lhe provar que minha sobrinha 
tem vivido santamente na minha companhia, e que não^ 
ha n^este negocio a menor manha. . • 

D. Ephigbnia — Não! lá isso, não. E accrescenlou 
que era uma inclinação de vinte e tantos annos?.. . . 

Manuel — Que sandice! Pois se a menina não tem 
ainda os dezenove completos!? 

Mamanna (áparle) — Quo esculo t. . . Dar-se-ha o 
caso.. . 

D. Eph!Gkma — Não percebo I 

Manuel — Tem pouco que perceber. Se a menina 
não completou ainda dezenove annos, como podia eu 
sentir inclinações ha vinte e tantos? 

D. EPBiGENtv — Ainda não percebo ! A minha con- 



6 NÃO DCamBSl SEM SAHUr 

la é outra, senhor liaDoel Vicente! Olke; t. m.<^leai 
cincocnta e oito. . . 

Hancel — Eh lá I . . . menos oito, se faz favor I 

D. EpgraHKiÀ — Upa ! se não fòr mats I 

Mandei. — Y. m.c* foi sempre murto mais velha 
do que eu ! 

D. Ephigenu — Não ha lai, senhor Manuel Vieen- 
lei 

Mahcbl — Foi, sim senhora. 

D. EpmcBffiA—*- Menos essa! Olhe, lembrense v. 
m.€^ d'aquelle dia.. . sim, d'aqoelle dia. . . do meu mk 
talicio. 

Manucl — Qual dia nem meio dia ! O íH» não/az 
nada ao caso. . . E esta t 

Marianna (áparie) — Ralham as comadres desço* 
brem-se as verdades I 

D. Epmigbnia — Foi um dia que nunca me esque- 
ceu, senhor Manuel Vicenle Borga. 

Manuel — Nem a mimi que per uuki ooísql que 
nio valeu a pena, fui bem tosado por «mm pae, Deus 
lhe falle n'almal Mas, no fim de contas, o que eu te* 
nho pêra dizer é a minha sobrinha ; e por consequên- 
cia, cale-se v. m.cô e deixe*me fallar. 

HámÂNNA {áparie) — Meus dilos, meus feitos ! (alio) 
A mim, meu lio? 

D. Ephigenia — Então que tem v. m.cè que dizer 
á sua sobrinha? 

Manuel — E' o seguinte. Minha sobrinha, seu pae 
deixou-m'Q conGada á minha guarda e á minha tnlelia. 
Tenho Jodo o direito de dispor da sua mfio e da sua 
fortuna. Foi o que fiz. 

D. Ephigenia — Mas. . . 

Marianma — Meu tio. . 

Manuel — Deixem-me acabar, senhoras 1 Juntando 
a inclinação ao dever, satisfaço*os do melhor okmIo pos-- 
si\el dispondo da sua mão em meu favor, e. . . 

D |S«><i«rriffx«-.Aí í. . quem me acode.. . 



Marianní — Senhora D. £phtgciu».. . 

MANUt:L — Irra! Senhora D. EpbigcDÍa, queo) foi 
que lhe fez mal ?. . . Que é isso qu« lem. . . 

Pbdro (que tem observado (udo^ baUndo levemen- 
te no braço de Manuel Vicente, dia^lhií em seg^e^o]-^ 
Já descobri um ! 

Mamu£l — Um, que?l 

Pediio — Um namoro. 

Manuel — Ora essa.. . com qMoni?! 

Pkdro — Isso é que nós havemos de MbQr depois. 

Manuiíl —Já percebo. . . (aparte) Por is&o cUa 
quer alrapaliiar-iue o fio da historia . . 

D. Ephigenia — Enlao v. mM deseja casar-secom 
a sua sobrinha ? (aérapan<io-n) íLoiladinhal {soluçando) 

Manuel — S.^ex.* consenlo : e é quanta basla. A 
dispensa, alcança-se. Accenda-se pois a$ qualro velas, 
ao Senhor Jesus* dos Bem Casados, quo assim lh'o pro- 
melti ; e V. m.cé, minha sofbrrfha, se tem alguma coisa 
a objectar.. . 

D. KpuiGKNu -^ Ella, qui» bado ler /|ue objectar^ 
pobre pombinha, que nem sal)e, a bera. dizer, o que são 
os homens.. . 

Manuel — Também ou aos dezenoi^eiinnos nlo sa- 
bia o que eram as mulheres.. . c.. . 

D. Ephigbnia — Ai, não? Ora vejam!.. * 

Manubl — Cala-lo bocca, vae bebendo o leu café. 
Estamos pois d accordo Senhora D. Epbigenia, m sua 
qualidade de governante, aqui lho apresento este rapaz 
que tomei para <neu criado. E' preciso maiul^r^lke dar 
roupa, e fazer conla coni olie cá i^ taiuilia. (a Pedro 
Peres) Anda, vae beijar a mao da tua ama, que está 
para ser. {indicando -lhe Marianna). 

Pedro (envergonhado) — Se a senhora co^entir... 

Manukl — E por quo nãul E' def\'er i^ lodfrofiel 
criado beijar a m2o dos seus anoos. 

Pedro {hesitando) — Mas eu cá tenho vergonha I.^. 



• NÃO DBSPttBSE SEM SàBBK 

t 

Mãnubl — Oh desaforado. . . pois espera. . queeo 
(e voa tirar a vergonha. . . 

Marianna — Meu tio. . . 

Mamçbl {pegandO'lke n^uma orelha c fazenàfMt ajoe- 
lhar diante de Mariama) — Quem di o pSo, dá o etr- 
sino ! Beije a mão de sua ama I 

Pedro (aparte) — Vamos a esle sajíTíficio. . . ($om 
ironia) 

MANrBL — Ah t já? 

Marianfia — Meu lio, a noticia que me deu, com- 
mbveu-me tanto que não acho palavras para agrade- 
cer-lhe. . . Eu mesma quero pela minha mão accender 
as quatro velas ao Senhor Jesus dos Bem Casados : e 
n^esse caso, dè-me licença, {faz uma mesura e saé). 

D Ephigbnií {aparte) — E laz bem ^ Eu é que 
Dão lh'as accendia. (corteja e segue Marianna). 

SGENA III 

MANUEL VIGENT6, O PEDRO FBBES. 

Pbdro — Irra! v m.^ê puxou-me esta orc)ha!... 

Manuel — Ora isso já iá vae. . . 

Peduo {aparte) — Hade custar-lhe caro 1 - 

Manubl — Foi para mostrar a minha «obrinba que 
não ha a menor inlelligencia entre nós. 

Pedro — Sim, d 'esse modo creio que não hade ha- 
ver nenhuma ! 

Manuel — As mulheres são capazes de ver mos- 
quitos na ouira banda : aquelle segredo que me disses- 
te> já a tiu4ia feito desconfiar; e assim, bom foi que vis- 
se como eu te puxava pelas orelhas. . . 

Pbdro — Em paga do segredo ? 

Manuel — Isso é conta aparte. Se me servires com 
zelo, conforme s. ex * afiançoUf terás no fim do anno 
tudo quanto quizeres de mim. 

Pedro — K também da senhora ? 



NÃO DBSniBSE 8BM SABER 9 

Mamtel — Já ella te deve muito I. . . 

Pedro — Ê verdade ! mais do que pensa l 

Manubl — È andar sempre alerta I Como te disse» 
o teu maior serviço é vigiar quem entra e quem não en- 
tra n'esla casa. Ver o dar fé, se quizeres merecer, de 
tudo quanto se disser e não disser. Emfim. . . 

Pbdro — Já entendo. E para experiência.. . veja 
se o que lhe digo é certo. Sua sobrinha tem rvfião I 
Olé se tem. * . Não reparou nas caretas da velha ? N'a- 
quelle modo com que a menina pregou os olhos no chão.. . 
São sígnaes certos, que não falham. 

Manuel (aparte) — O marquez tem razão. O rapaz 
é esperto, (alio) E' uecessarío descobrir tudo. 

PiiiRO — Deixe v. m.cè estar, que mais tarde ou 
mais cedo, a coisa hade dar de si ! 

Manuel (pensativo) — Se não fosse o meu flato. . . 

Pedro — Que fazia ? 

Manuel —-Uma espera. 

Pedro — Ora ahi está. Desengane-se que um na- 
morado não é um coelho! Mais facilmente pode ser pa- 
to.. . o então. • . 

Manuel — Sim, e então ? 
. Pedro — Se fôr paio, melhor. . . E' sempre o que 
digo. Deixe v. m.cA o caso por minha conta. 

Manuel (aparte) — Nunca me lembrei que ella po- 
dia ter um namorado!.. . 

Pedro (aparte) — Tem ciúmes e medo ! Ja não po- 
de passar sem mim ! 

Manuel — Então, sempre é certo que desconfias? 

Pbdro — Como é (jprto eu ser Pedro Peres, filho 
de outro, c criado de v. m.cA N'eslas manhas tenho fa- 
ro. Antes de s.vex.* me trazer para Lisboa, servi lá no 
Pombal um senhor que me fazia andar n a cola da se- 
nhora, e então, foi lá que me desinvolvi ! Isto de mu- 
lheres, ainda ellas não faliam, já eu sei se faliam ver- 
dade ou não. 

Mancel — Muilo bem/ meu rapaz. Descanso em i. 



to 



Mio DBWWBSK SBM SáBSR 



Conlra um velho, qualquer pode tirar partido; e o que 
eu não puder faeer por velho. . . 

Pbdio — Heide (azel-o eu ! Descanseem miai. Olhe, 
medo dSo me acompanha i 

Mámcbl -^ Bravo 1 

Pedro — Sei respeitar oa meua amos, e livr^-se aV- 
guem da lhes faxer aljguma. . . 

Mamubl -*-^ Bravo ! hravo 1 Aqui lens para easla- 
nhãs. [dárlU alfum dtnheir^) Fica por ahi, em quanto 
eu vou a casa do '«izinho aqui do lado eonvidal-o para 
padrinho. Até logo. {$aindo, aparte §wmdo passa peh 
rHratd) Muito obrigado, meutenhorl M^teiinne m ca- 
sa um leão qoo hade guardarnne a {lorla ! {sae). 

SGBNA lY 

Pedro [íó) — Muito bem, senhor Pedro Peres^ 
muito bem. O mais difficil eMá feito: já dei mi passo 
para a farluna. B que ferlãna ! Ohl bem me diiia meu 
padrinho, que eu farta fortuna em Lisboa ! E e\le que 
me trouxe para cá alguma condição boa achou em mim. 
Está cfaro ! cada qual bem sente para o que naaoen. A^ão 
via s. ex.^ o geilo com que eu lhe oopia:\'a as cartas, e 
a diligencia com que corria a enlrcgal*«s.. . e algumas 
bem arriscadas. Vamoa com Deus, que niaganw é elle 1 
E de conta ! {dando com os olhos no rsirato) Ai ! per- 
dSo. . . perdãOi meu senhor, já aqui mo eslà quem fal- 
tou. Chamam-lhe mau ; é mau para quem o não serve, 
boa duvida. É mau para qnèn não o respeita ; mas pa- 
ra as pessoas qud o estimam. . • vejam isto i afiançou- 
me de modo tal ao bom do velho que.. . [seniindo pas- 
s^) Caluda ! vem gente. 



NiO IKWRESE au SUBR ti 

SCENAV 

PBDRO PSimS, 6 MiRIAPiNA. 

MAiifANNA — Meu tio, dou-lhe parle que accendi oi- 
to velas em logar d<e quatro. . . 

Pedro — Para quo? 

Makunna — Âh ! meu Uo já aqui não eièlk ? 

P£i>RO — A senhora não vê? 

Marianna — Se visse não perguntava. 

PauRO ~ Parece que é cega I 

Marianna — Atrevido ! 

Pedro — O que? Veja lá como falia I 

Marunnà — Insolenlei Vá )á para a cozinha ! 

Pedro — Olhem como falia já na cozinha : p«dera, 
vae casar f. . . 

Makianna — Isso rm é da soa conta I E ^uem és 
Ui para me fa liares d 'esse modo ? t 

Pedro — E quem é a senhora para me mandar pa- 
ra a cozinha? 

Jf ABfANNA — Esiou na minha casa I 

Pedro — Está bom, basta.. . nao grile, que nin^ 
guem )he ftus mal ! Se quer ^ua vá para a cozlnlia, eu 
cá Tou. (sae $ deixa cair um p0f)€l). 

SCENA VI 

MARIANNA SÓ, de||0ÍS HA««EL. 

Marianna — E eslat (passeando) Ainda não estou 
em mim t Um mariola similhanle. . . quando eu espera- 
va en<y>filrar outra coisa muito diversa!.. . Àbl o que 
são os sonhos d'esta vida? Illusões que não se realisamt 
Meu Deus I até me envergonho de lembrar o (ine me 
passou pela cabeça no mom€fito em que senti aquQlle 
beijo ardente n'eftla mãtt. - . Fora com laes idéas ! Fora 
com ellas que me perturbaram lanio, que não m^ dío 



19 Mio DBtMtBSB SEM SABER 

para o sasto I Ah! sinto passos.. . se fosse meu lio. . . 

(volianâo) Que pena casar-me com elle! É Ião velho... 

Manuel — Só ás quatro horas é que está em casa. 

(pifa o papel) Olé!.. . que é isto? {apanhando^) Uma 

carta. . . 

MABiANifà — Ah! meu tio, ainda bem que chegou. 

M,>NUKL — Sim^. . Ent2o porque? 

Marianna — Porque f Estou muito zangada ! Diga- 
me uma coisa : quem é aquelle rapaz que para cá nos 
trouxe ? 

MiHCEL — Ah! o Peres? É um afilhado do senhor 
marquez, que s. e\.^ me recommendou, e que eu tomei 
para meu criado do quarto.. . 

Mabiánna — E tem muita conflança n'elie ? 

Ma^ukl — Se é afilhado do senhor marquezl.. . 

Maiianna — E eu não o posso soffrer ! 

Mancel — Caluda... Dizem que os retratos do mar- 
quez tem ouvidos que ouvem ! Então que te fez o mar^ 
cano? 

Marianna — É um rapaz muito grosseiro, que não 
sabe tratar com senhoras, e. . . emfim, não gosto d'el- 
le. . • Acho-o bruto ! 

Mandbl (aparte) — Aqui ha coisa! [alio) Se elIe 
veiu lá dos saloios. . . {rindo) Devemos desculpaUo. Va- 
mos : faltou 00 respeito ? Vou buscal-o por uma ore- 
lha. 

Marianna — É melhor despedil-o. 

Manuel {aparte) — Bem bom ! goslo d'is(o. (aHo) 
E o marquez! que diria o senhor marquezl? Além dis- 
so, as palavras do senhor marquez não costumam ficar 
em palavras.. . 

Mabunna— Díga-lhe que não serve por qualquer 
motivo. . . 

Mandbl — Pensaremos n'isso. 

Maiuanna-*- Então não se esqueça. Olhe que já ac- 
cendi quatro velas ao Senhor Jesus dos Bem Casadcis. 
(áparie^ saindo) E vou apagar outras quatro. - 



NÃO DESPRESB SEM 8ÂBKR is 

MANfiBL {aparte, obserrando-a) — Muito bem, sim 
senhor.. . sim senhor.. . {senta-sé). 

SCENA VII 

MXMUfiL VIGKNTB SÓ, dcpOÍS PfiDKO P£RKS. . 

MAifUBt — Vou comprehendendo I Vou comprehen- 
detido ! Olhem o que é um furão n'uma toca ! (abrindo 
a carta) Saem logo os coelhos que é um gosto ! {kndo) 
«Minha adorada M.» (declama) A iniciai por causa dos 
lolos I {lendo) «O mais ardente ciúme ioflaroma o peito 
«que se te rendeu d'amorf Trema quem ousa roubar-le 
«ao meu coração.. .» (declamando) NSo me sinto nada 
bom I. . . não sei o que tenho. . . {tocando a campainha) 
Confesso que não nasci para isto ! 

Pedeo (entrando) — Perdão pela demora ; a palrôa 
linha-me mandado para a cozinha. . . 

Manuel — Vem cá.. . que papel é este? 

Pedro— Esse papel.. . é um papel! 

Manuel — £' uma carta. 

Pedro — Então já v. m.c* sabe o que é; e é o que 
eu ia dizer também. 

Manlel — E' uma carta.. . 

Pedro — E' sim senhor: d'onde veiu? Será do 
padrinho ? 

Mauoel — Esta caria achei eut 
Pedro — Aonde ? 
Manuel — Aqui ! 

Pedro — Pois eu tenho outra para lhe mostrar, que 
tirei das mãos da patroa.. . {procurand%9 na algibeira) 

Maiiuel (aparte J — Por isso ellá lhe chamou bru- 
to L. . 

Pedro — Ora esta..« e então I não a acho! querem 
^er que me caiu com a pressa. . . Onde achou v. m. cè 
essa carta ? . 

MjkNUBL — A' entrada d'aquella porta. 



14 HiAOBtPBBSKSSIIiáBM 

Prbro — Abl ai)l9o é a niesi»a que eu tinha tira- 
do das mãos da pairâa. . . 

Manoel — Tolo! £ deixaslcUa cair! Foi um aca- 
so achal-a. . . £' precisa ler mais prudência ; ver comj 
fazes as coisas, e. . . 

Pebao — Sim, senhor; eu it porén co» Imla pres- 
sa que nao reparei onde me ficava a algit)eira ; e além 
dMsso a patroa eslava tao assanhada contra mim, que eu 
receia va murlo peta sorte Altura das minhas orelhas I 

MAiftjeL — Vamo6| deixemo-nos do petas. De quem 
é esta caria ? ^ ' 

Pbdko — Uso é lá com ella ; muito Qz eu em ih'a 
sacar das mios! 

Mamjrl — B* urgente saber quem foi que cscrevea 

esta carta ! 

Pedko — Tal qual! 

Manoel — Que $e hade pois faieer?.. . 

Pedro — Pòr-se a gente a cogia. • . 

Mancbl -^ E depois ? 

P£DRO — Dar para baixo I 

Manuel — Em quem? 

PiiDRO — No dito sujeito ! Olhe, já cá tonho o meu 
plano. Que ha melro no bosque, isso i coisa que e^lá 
nos livros. Agora é ver sê elle vem aa reclamo^ armar 
o laco e puxar a linha a lempo de o segurar. Fâlie v. 
m.cé com a patroa, mostre-lhe a caria, ralhe, troveje i 
vontade, e deixe o resto por minha conia ! 

Manuel — Parecia-me melhor dissimular. . . 

Pedro — Ora, persuade-se que uSo lhe baliam de 
prever a pedra no «apalo? Nada : se qaer vencer, siga 
o meu ^nselhA A patrOa quando mais apertada (òr por 
Y. m.c^ tanto mais hade desejar dasabajhr com o tal su- 
jeito da carta: naturalmente espreve-lhe, elle vem á fat- 
ia, e depois. . . depois veremos o qiw succede. Fica 
n'isto. 

Manuel — ^^Muito bem, meu rapaz: vae-le, c man- 
da-me cá a senhora D. Ephigenia. 



Ni^BBttEnBMHiMUE u 

P&DRO ^ £' a irelfaa, nio» meu senhor?' (saindo) 
O' senhora D. Ephigenia!? Senhora D. Ephigenía. 

(Oute-se por alf un tettpo, no interior úès cMas, a tos de Fedro 

Peres chamaftdo J>. Bpbigenia), 

SCENA VIII 

M\NUEL VIGENTE SÓ, depOÍS D. EPillGENI.V. 

Makukl — Cada vez estou mais contente coani eile I 
(para o retrato) Muito obrigado, meu senhor, muito 
obiigado I 

D. EpHiQKMk X^enlro) — Jesus! qus if^reni dizer 
laes beiTOsI? Oiá. . . julgas que isto tqui é o I\irreiro 
do Paço?! 

Pedro (dentro) -^HÍo, senhora, porque a estatua 
do Terreiro do Paço está a cavalio I Vá ler com o pa^ 
Irão que a chama. 

D. Ephiginia {entrando) — Não ha um caso assimi 
E' positivamente um gaiato que o senhor Manuel Vi^ 
oefile nos trouxe para casa ! 

MàNUEL — E^ixe-o sert Ali onde o vé, é mais leal 
do que v. ro«eè| 

D. EpaicmiA -^ Ah t v. m.«^ está nsfi seus dias? 
pois por aqui me sirvo. - . 

Manuel — Venha cá, senhora D. Ephigenía. Te- 
nho muito que lhe dizer, e muila ratão para lh'o di- 
zer.. » 

D. EpmGBMiÀ — V. m.cé sempre tem razão ás car- 
radas 1 mesmo nos seus desarr^aoadof . . . 

Manuel — Veremos se a tenho ou nSo! Senhora 
D. Ephigenia, dado o cado que v. íx^cé se^ capaz de 
me responder, diga-^me cá ama palavra : quem é, e co- 
mo se chama o nadnorado de minha sobrinha t t 

D. Ephigenía — Credo l Padre, Filho, Espirito San- 



16 NiO DBWUUE SEM SAUDl 

lo! Y. iD.cé perdeo a cabeça, senhor Manuel Yioeote 
Borga? 

Manuel — Não me faça v. m.o^ perder cornas suas 
exclamações ! Eo lenho nas minhas mãos um documen- 
to formidável para confundil-a! E'.. . 

D. Epeigenia — Não diga, que não posso ouvir 
mais.. . 

Manuel — Hade ouvir I O documento é. . . 

D. Epbigbnií— Gale-se! Cale-se.. . que me foz 
desorientar ! 

Manurl — E'. . . é uma caria ! 

D. Ephigenia — Isso não se pode soffrer! E' uma 
tyrannia, um abuso de poder. - 

Manuel — Uma carta d'amores. 

D. Ephigenu — Senhor Manuel Vicente I 

Manuel — Ella aqui esta, minha senhora ! E lendo 
V. mM promellido velar pela minha sobrinha, admira 
muito que consentisse n'uma traição doesta ordem / Es- 
ta carta, ameaça a minha tranquillidade ! p&e talvez 
em risco os meus dias. . . os meus dias que tào caros 
me são. . • senhora D. Ephigenia, que Ião necessários 
se tornam ao senhor marquez que tenho a honrai de ser* 
vir lia tantos annos.. . e que tão úteis iam tornar-se 
também ao commercio porluguez, por que eu linha in- 
tenção de n3gociar com a fortuna de minha sobrinha ! 

D. Ephigenia [áparle) — Santo Dçusl se eu po- 
desse tirar partido da sua perturbação para chagar a 
brasa á minha sardinha.. . 

Manuel — Então que me diz v. m.cè a isto?! 

D. Ephigenia — Digo. . . eu lhe digo : digo que 
não percebo 1 

Manuel — Veja ! {dá-lhe a carta). 

D. Ephigenia {passando a vista pelo • pa^l) — 
Ahl. . . ifinginlo-se perturbada) 

Manuel — Já percebe ? 

D* Ephigenia — Alguma coisinha melhor. . 



NÃO DE8PEESB SEM 8AKR 17 

I 

Manubl — Eslimo muito, por qae desejo que me | 

dê algumas explicações. 

D. EraiGBNi A — As explicações que posso dar-lhe. . . 
(aparte) Veremos o que sae. {abo) Sim ; a respeitoso 
explicações, uão ha outras, senSoquea senhora sutf^so* 
brinha ha muito que está apaixonada ; eque... (aparte) 
Naturalmente estou fallando verdade 1 {alio) e que. . • 
n'es66 casot que podia eu fazer contra os arrancos de 
um coração sensível.. . 

Manuel — Nau me faça novellal v. m.cè sempre 
teve queda para os contos Ja caroxinha^ mas d^esla vez 
não lh'os consinto ! Quero a verdade nua e crua I 

D. Ephigenia — Já lh'a díese : e peço-lhe que não 
me compromelta coro a menina I A paixão de que lhe 
faliei, é uma d'aquell8s. . . que não eslá mais na nossa 
mSo ! O rapaz é militar, é afilhado do senhor marquez... 

Hánubl {aparte) — Aí, ai, ai, que estamos perdi- 
dos I 

D. EpHiGEHiÀ — E' mesmo um louquinho por el- 
la ; e não duvido que seja muito bem capaz de fazer 
por ahi alguma' das suasl Isto de rapazes que trazem 
ferro ao lado e] ferro no coração.. . sãx) mesmo uns ho- 
mens de ferro, quando se trata de coisoê e loisas. . . 
et ecstra; v. m.^^ entende bellamehle, o que lhe que- 
ro dizer. 

Hàitobl (sentando-se aparte) ^^Vm militar! Um 
afilhado do marquez !. . . (levantando-se) Mas v.- mM é 
que tem a culpa ; por que se v. m.«A tivesse torcido o 
pé ao pepino a tempo e a boras. . . (exaliando-se) na- 
da teria succedído como suceede ! E eu já estou cança- 
do de a aturar ; não quero na minha casa quem me co- 
ma os olhos. . . 

D. Ephigbiiia — Ora essa!... só se v. m.^^égoraz. 

Mahgbl — Nem quem me desfructe a minba mesa 
para depois mofar de mim; e tenha v. m.cê entendido 
que se a tal paixão não acaba, eu dou-lhe ordem de des- 
pejo, e ponho-lhe os quartos ua rua ! 



18 MfcQSeifilkBfBâBiaÁlBB 

D. EraiOEiíu — Ora ahi estai E* Iratar-nne peíor 
do que se traia uma criada.. . Tkixt e^r que v. tn.^ 
se arrepeiMlerà de me kaver injuriade assim ! Pois não 
ppeeiBo nada de v. m^cè, tenho quem me queira. • . o 
afilhado do senhor iparquez j& me oflkreeeu a saa casa' 
para acompanhar a menina. . . e para lá too puxando: 
fiquense por cá muito bem ! 

MAiKon — isso é indecoroso 1 Ea aio oonsinlo. • . 

D. EpHifiBN u — Hade consenlir. . . 

Hambl — Não beide, nSo senhora t 

D. EaaiGBruá — flade sin senhor! 

SGENA IX 

ã. ai>0|€ÍBMlA, MilfnBL VlGaifT£, MAaUNNi 

entrando pela esqaerda. 

MiBiAMNA — Meu Deusl que altercação éesU 1f.^. 

D. EpHiGBNíi — A mioha «vontade é livre; a lei 
fes-me maior I 

Mancbl -^E os annos tornaram-na moaor! 

MiRUNif ik — Meu tio, então que motim 6 este. • . 
que dirá a vizinhança ? (para Ephigenia) Socegae, se- 
nhora D. Ephigenia; a tempestade já vae passar... ^ra 
o lio) Meu tiol. . . {carinhoM). 

Manuel (tipellindora) ^-Deií^e-m» v. m.^ também t 

l^ARiAMii {ápflrte}^Ohl D'esta voz chega a to- 
dos I (alto) Fizrlhe algum mal, meu tio ? 

MANÇEL-^Deixe-me, se quer 1 

IMÍ ARuiWA — J>eixaÍ-o^ eu ? E para quem quer sim 
tio que o^e vqlte ? 

Manuel — Volte-se para o seu militari para o afii- 
Ihado (lo ^ienbor marquez. . • 

M4|iiia«NA — Oh t meu Deusi meu Iíq enieuqae- 
çeu!. . . 

llAisíqBiu — Ah 1 enlouqueci ? Enlouqueci, bein ? Pois 
eu lhe conto.. . 



ItiO DESFftBSfi âBil bÁMtá M 

D. EPHiGBifu (baiio à MaAuel Vicente) — Senhor^ 
não me comprometia.. . 

Manuel — Aquí está a sub me^lf* que me contou 
tudo! 

Maríahna — Tutftf ! . r. mas eu n3o séi áiMa. . . 

Manuel — Faça-sede novas ! Eu não sei que^con-* 
Ira as mrnhas recommeMações. . . ellá, èlla ^tie repita 
o que já me contou ! 

D. Ephigbhia — Eq ?. . . perdão; creio qtie bffò con* 
lei nada ! 

Mancel — O que? não contou nada !7 

D. EpHiGENiA — Ora TBja à uMinlfia, q0«íp(fdiaeu 
Gontar-lhe ? I 

MAaiAKNÁ -^ De certo. 

Mancbl — E a chftaf.. . 

D. ÊMiftiíMií — Ah ! a etti^U que i. ro.«* mlf deu; 
éstá aqui. 

MARiitiiNA — Uma carta ? [pegandá^hê) Ah !. . * Qw 
quer isto dizer ?. . ; 

Mahubl — B^uâado d ehUníir-si á ign^ramia : 
por que a senhora D. Bphígenia )á ifie eontou. . . 

D. EpMiofiNiA — Perdão: insiste qw flio lhe cen- 
lei nada. 

Manuel — Não contou T 

D. EPHiGtniA — B não I 

Manuel — V. m.cês juraram endoidecer-mé I ?Pòi* 
v>v nt.^ não acabo« agora mesmo de òbnfeMir qile mi- 
nha sobrinha. . 

D. EpHiâwiA^«-Nio, não^ e não! Ahi t. à\M é 
que quer emáoidqeer a gente l E entSo, cpianfdo é6tá lá 
com a liia^ oo^tra mim é que se volla sempre ! NSe ha 
umk muíber mais infeliz do que eu ! Não ha, iiã« ha, 
6 nSo ha ! Ora, está acabado I {904 gritando mãt^ u//»- 
mas patawas). 



I ^i^ 



SO NiO IMKSraBSB SBM SABER 

SCENA X 

MiNQBL VIGHTS^ 6 MÀlUlQfÀ. 

Mabunra (aparte) — Aqui ha segredo ! E' jyrecíso 
decifral*o. 

MAmit (tm^it^^^Q^) ~ Bem vè que esli GOBfun- 
dida, minha sobrinha ! 

Mjlriànnà — Sim, meu lio, nunca me vi em tao 
grande confusSo I Mas. . . {rasgando a carta) para me 
livrar d'ella, principio d'esle modol.. . 

MiifWL — Será possi vel ?1 . . . 

Maiiahna —Não vd? 

Marcbl — E o militar.. . esse tal afilhado?. . 

lUaiANifA — Nio o conheço I 

Mawbl -« Comprehendo o sentido verdadeiro d^essa 
palavra, e agradeço-t'a muito. Oh t {pegando4ke na mio) 
De um erro, ninguém se livra. . . Eu errei oi mias vezes 
na tua edade ; mas, hoje, louvado Deus, a experiência 
tornou-me sensato. O mesmo hade acontecer-te. Verás 
que as ilIusQes da juventude sSo chímeras que ninguém 
aprecia no mundo real onde temos de viver 1 que a bel- 
loza, essa mascara risonha que nos seduz, em brevetem 
de ser destruída pelo tempo I 

MAHiiififA — Meu tio está fazendo um discurso Un- 
dissimo t 

IHahubl -r- E' para te provar que nao devemos ea- 
ganar-nos pelas apparencias ; e que desgraçado d^aqud- 
le.. . £ melhor sentarmo-nos, não achas? 

Marianna— . Parecia-me melhor que meu tio fosse 
mandar pôr o jantar na mesa, por que lhe pode fazer 
mal a fraqueza em que está. Veja lá que horas sSo ? 

Manuel — Que boa dona de casa que tu hasde sen 
(vendo o relógio) E assim chegamos até âs quatro i.. . 
E^a hora de ir a. casa do vizinho. Olha, se ms demo- 
rar, vão jantando. 

Harlanna — Por que sae ? 



NÃO DBSPRBSB SBM SâBSR f 1 

lliiniRL — Mas já venho. Adeus.. . ê (a qae v«es 
fazer entretanto? 

Márunna — Âccender quatro velas ao Senhor Je- 
sus dos Bem Casados. 

Hanuil (aparte) — E' moita cera I Já lá tinha ou- 
tras quatro, (alto) Talvez fosse melhor âccender a lâm- 
pada de prata, ou o cirlo. 

Haríànna — Lembrou bem^ vou âccender tudo! 

MamiEL {ápartey saimlo) — ^^Sáfa! sé me demoro, 
accende-me Uimt)emt.. . tanto é o demai$ como o de 
menos ! 

SCENAXI 

Mabianna (só) — Deus o tenha por lá muito tem- 
po. Que devo eu pensar de tudo isto! Aquella carta .. 
Oh I meu Deus I quem escreve uma carta d^aquellas, é 
por que ama deveras !' E como deve ser bom ouvir di- 
zer aquellas palavras.. . ouvll-as de quem se estima ; 
esUmal-o lambem. . . Ah I não será vida um viver as- 
sim^ mais vida que esla que vou passando sem pena 
nem gloria, quasi que sem ver sol nem lua ; exposta r 
ser dona de casa. depois de ter aqui vivido desde a in- 
fância.. . Meu Deus! se mais cera houvesse em casa» 
mais cera accenderia por saber quem escreveu tal car* 
la. . . , 

SGENA XII 

MARiANNii, e PEDRO PKRss entrando pelo fundo com uma 

vassoura e uma pà. 

Pedbo — Perdão, patroa.. . venho apanhar olixo, 

Mabunna — Qual Lixo? 

Pedro — O patrão foi que me mandou, (jttntando 
com a vassoura os bocados da carta) Eu cá faço o que 
me mandam . . . 

Mauianna (aparte) — Este rapaz^ ou é muito bom 



011 muilo mau l Cada Tez qoe o v^ . . (aio^) Be que 
te estás a rir? 

Pbdio — De nada.. . é do lixo, . . 

Mariànna — Realmeole, não ba nada fuebor para 
Tir. O lUo foi vma coisa que seiqpre foc rir. . . 

Pbqbq — Conforme.. . 

Harunna — Conforme o que ? 

Pbdm — Quand» se \é ir um çpração oo Uxo. . . 

Marunní — E onde o vés lu ? 

Pbmo — lE^lava ali n*aqueUe bocado de papel. 

Mariànna — Sim!? Eu não vi. 

Pedro — Pois se quer ver. . . 

Mariànna — Só para te pnxar as orelhas, se não 
fôr verdade. . . 

Pedro — Doesta vez, escapam ellas. Olhe, [mostran- 
do-ihe o poípel) c, o, co ; r, a, ra ; ç, 5, o, cão ; cora- 
çao. • • 

Mariànna {puxando-lhe uma orelha)^ A, m, o, 
r, am^r, é o que eu lá vejo ! 

Pedro — Ai! ai!... não puxe lanlo.. . Espere 
V. m;c4 que eu lhe apresento o coração que não deve 
estar muito longe do amor. Enganei-me.. . {pegai^o 
n'omiro pedaço de papel) Será este? Ah! câ está... Me- 
nina, não puxe mais, que elle cá está : co, ra, cão : 
bem claro, não vô? 

Mariànna (vendo) — Ci, u, me. Mentiroso! (tor- 
cendo-lhe a orelha) 

Pedro — Valba-me sanlo Ambrósio; ai! a minha 
Quelha I Promfittfl um par de. calções ^ S,^ Sebaaliã<;ii se 
me apparscer já o que procuro! Elle não deve estar 
muito longe agora do ciúme.. . Ah! Eil-o aqui ! 

Mariànna — Agora sim- Cá cslà. Co, r?, cão. 

Pbdro — E a minha orelha» fioouT^he pegada á 
)pao?.. . 

Mii^iANN^ {lflrga^dO'lh^ a orelha) — ii Ir^e não 
lembrava. 

Pf Di^o — Nãç deve comer t^ntí) queyp^ . • E esla i 



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MibmàNKA — Sim, ^\im <nw ftW: Uwrna efl|ueci- 

dos l. . . , , , 

Pedro — Eu, por mi», era quanta durar a moda 

das orelhas, que é má como a beecav b«id« «empre 

larobrar-me do amor,, do ciúme e do coraçae, por mais 

queijo que metia no estômago ! 

Mawanna— Enlao n5o apanhas o lixo? 

Pedro — Estava esperando que v. m.P^ para lá. bo- 

l%6&% os papeis que tem Ba mâa. 

MiiRUNWii (largando um dos pedaços de pmfel) Ata 

vae o ciúme. . . 

Pedro— ^ Faz, hem, faz hem, patroa.. . 

Mabiarní - Prohibo-te que me chames patroa. 

Prdro — Eoiao coma q wr que the ohame t 

Marunnà — O meu nomie é Marianna. 

Pkdro — Pois V. m.c^ não estima ser patr^ does- 
ta easa? mulher do patrão ?. . . 

Maruisna {senlanio^e ao crato e mexen/iú, no 
teclado) — Olha, a fallar-te verdade. . • E ta gastavas T 

Pedro — Eu l,? Ah! já entendo. Eu, no seu caao, 
talvez não desgostasse : se eUe me tratasse beip., . 

Marianna — E a que chamas lu trmar íwT 

Pedro*- Ter uma boa mesa. Muita a(»pa bom co- 
zido, bom arroz, coroo em ca^a' do mou padriifco. . • 

Marianna — Qual padfinho? 

Pbdro — O senhor marquez. 

Maruwia — Ahl és afilhado d^^ marqucz?! B do- 
peis ? 

Pemo — Depois, dando-me boa sopa, boa carne e 

bom arroz.. . Saber girar com os meus fundos. . . 

Marianna— Bem; se fosses mulher consideravas- 

te feliz com isso ? * . • 

Pedro — Se fosse m^her.. . a patroa \»m coi- 

sas I • . : ' ' • > 

"lifWJkiiNi— N'es8e caso julgas ^ufi a gpssa; felici- 
dade consiste em comer muilo e Var oii^i aawido «§p«rto 
00 comoMrcto ?! 



st Mio MSniBSB SEU SABBt 

Pbdm — Hoje em dia qoe mais é preciso ! ? Boa 
mesa e muito dinheiro, felicidade completa. 
Marunha — Gomo te enganas ! 
Pboro — Ora deixe-se de petas, patr. . • 
Haiunna {interrompenão^n) — O meu nome. é M a- 

ríanna t 

PsDRO — Gase-se com o lio, menina Marianna, e 
deixe ir o barco* • . 

MáRiANNà (rasgando um dos papelinhos o suspiram- 
do) — Que remédio tenho eu. . . 

Pedro — Ora ahi está !.. • está fazendo mais lixo ! 
(jantando os papelinhos com a vassoura) Se olo me en- 
gano, rasgou o coraçUo. . . Mal sabe o que fez I 

Marianna — N9o o escrevessem; um coraçio de pa- 
pel nio pode esperar outro fim. . . 

Pedro — GoraçSo de papel 1 ? Como queria entio 
que lhe confessassem amar se n9o fosse por escríplo 7 

Marunha — Nio sei: mas por escríplo.. . 

PiDRO — Vá para o lixo. . . {sorrindo) Falta ainda 
o amor. . . 

Marianna-^ Este guardo-o. 

Pedro — Que tolice, patr. . . 

MARiAiufA — O meu nome é Marianna! 

PfiDRO — Guardar o amor. . . {sorrindo) Olhe que 
faz mal, menina Marianna, muito mal ! Se o guarda ve- 
rá como seu tio lhe parece logo mais velho, como os 
dias lhe parecem longos a pensar, e as noites curtas a 
sonhar !. . . Como perde a vontade de comer a sopa, a 
carne e o arroz; emfim, verá a vontade que tem de an- 
dar sempre a derriçar-me petas orelhas. . . e eu despe- 
ço-me ! 

Marianna — Porque ? 

Pbdro — Porque nio quero ficar sem orelhas na 
physionomia I Se lhe parece. . . 

Marianha — Coitado... em paga do mal que te fiz 
pede-me o que quizeres. . . 

Pedro — Bravo, patr. . . perdão; sempre me esque- 



Nid DBSFftSn SBM 8AB<1 iS 

ce I. . . Pedir-lhe o que quizer?. . . (apr$ximando^0) £ 
certo o que me disse?.. . Ohl.. . enlio. . . então.. . 
(htêilanJo parvammlé) Yocé engana^roe, 6 paU** • . (««tf- 
pendendo-se) Sempre eatou a enganar-me I Se eu lhe pe- 
disse o que quero. . . {aproximando -se mais) Que posso 
eu querer.. . (ajoelhando) Perdão; deixou cair estopa^ 
pelinho. {apanhando o pedacinho de pavel qne ella dei^ 
xou cair) Foi o amor que caiu entre nos ! 

Makianma [aparte) — Yisto ao perto não é feiot... 

PxDao — Então, dá-me na verdade licença que lhe 
peça o que quizer?.. . {ajoelhando) Sabe o que lhe pe* 
ço ?. . . 

Maruicna — Levanta-te. . . eu não sou Nossa Se- 
nhora. 

Penao — É a minha senhora, a minha patr.. . ai, 
desculpe-me, desculpe-me patroa I.. . Mau... e eu a en^- 
ganar-me.. . 

MABtAKrfA — Avia -te.. . (períurbadm) 

Pbdbo — Isto custa... custa muito a pedir; mas, em- 
flm, como é com sua licença, ^à*me três cruzados no- 
vos? 

Marianha (díportó) — Ora esta!.. . 

Pedro — Se lhe parece miiito. . • 

MARuim A — E' ró o que queres ? 

Pkdro — Yalha-me S. Barnabé, menina Maríanna, 
V. m.c^ mette-me em conftisOes ! Que mais posso eu pe- 
dir-lhef Eu, que desejava pedir-lhe tanto.. . 

Marianha — Está bom; vou buscar os três cruza- 
dos novos... [rasgando o papel em pedacinhos) Sou uma 
louca t {alto) Entretanto apanha o lixo. 

Pmro — Pobre amor ! E pobre coração ! 

UARuimA — Que dizes tu ? 

Pbdro — Nada. . . Fallava com a vassoura. 

Mariarna — Como se ella ouvisse I.. . 

Pkdro — Então I f Ha pessoas que só &s vassouras 
teem alma para dizer o que sentem I Eu cá sou assim. 

Mabianna — E' perder tempo sem res ultado. . . 



M Mio MIPBBSK MB SâBU 

Pkmo -^ Otha, tem raiio I nas eu sigo um syskH 
ma que me ensinou o padrinho, e nia me teaho dado 
45al. As mulheres peço dinheito^ e ás vassouras amor. 

MAaiAirNi -** Gooceituas pouco de -umas, e muilo da 
outras I 

PfcDBo — ^ Se me quisesse ouvir, veria que nSo. 

MàRLiiiNA— -«Pilhas- me disifoeta. (lenroncfí^-se) K- 
ze para ahi. 

Pedro (encoãt^ndo^sê ê cadeira e» gne eVa ar Mn- 
lou) Olhe, menina Marianna : amor e iiêkêira sao duas 
coisas tio diferentes coma M^oura e nmlHer: entretan- 
to ha certa analogia entre ellas que passo a explicar. 
Com licença. • . 

MABLVfiifA [aparte) — Se meu tio viesse!.. . Estou 
a tremer e a gostar l 

Pedho — Amor é oAa coisa que serve para entre- 
ter o tempo tal e qual como a vassoura. A mulher pdira 
nos fazer o jantar, coser a roupa, ensaboar, co^anmary 
el ea^tra^ asaim como o dinheiro para oon^prarajanlar, 
a roupa, o sábio, aa linhas, as agulhas. . . e todo vgvm 
á proporção. . . 

Marianna — Yisto isso tonbo pena da Síer Aulher. 

Pedro — Gostava mais de ser vassoura f 

Marianna — Tal^^ . . 

PiiMo — Nio tem barbas para isso! VaaMs ao ca- 
so. A mulher aão anu sen» dinheiro. . * 

Marianna — Mentes, neotiroao ! 

PKDno-**Ahl minto? Bata bonti quer dioâr que a 
menina Marianna ama alguai* rapaz pobre? Dei no vinte ! 

Marianna — Pobre Ibmbem eu sou^t . 

PeoRo--01be, sabe que mais? Vá! a menina bus- 
car-me depressa os meus tree cruzados novM^ o deixe- 
mo-nos de maia conversaa, antes quA me 4iga que nio 
m'os pode dar ! ' 

Mariarna -- Caki4e ahi #001 isflo ! Contiaib o que 
eatavQS a diaer. : / ^ 

PfiDRo — Eu Mtendo que uma mulhep iMiuaa é po- 



2 



■• 'rt^i ^^^«pp 'vy^^^n f9^^^n f^(^"^^iw^^ ^c 

br« qviapdo ^901.. . bastafile credito para se Iba pediram 
três cru^doa iiovoa ! Aade, vá^ai^o^ busaar. « . 

]^Aau£»u — És um usurário t \m boiaem feito de 
diabeiro, que não pensa ii'outra «oiaa, que nâo.\é, uâo 
deseja maia do que diobeiro I 

Pmw *^ Na ininba posição, três cruzados novos ^ 
uma fortuna i Em quanto me durarem beide peasar em 
V. msé Depois volto a failar com a vassoura.. . para 
entreter (empo. A vassoura aio precisa de agulbas nem 
de linhas, nem de sabão nem de sopas. E' sempre a 
mesma com as suas salas muito direitas, o seu corpi- 
nho muito apertado a dançar diaate da ygeivl^. . . Que 
laça calma^ que faça frio. « . 

Marianma — E se te apparecetee uma mulher rka? 

Pf i>ao — Oh ! finas disem que o que taem aio lhes 
chega para viver» e querem o dúbro para viverem me- 
lhor. « 

AlAauiiiu^ T-n Se tu nuffta Jíoste mulber, não digas 
o que não sabes. Disseste coesas que me entristeceram^ 
e se não fosse porque, tinha um desmaio; mas vou cho- 
rar. . . porque chorar. . . 

Pbdro — E' um passatempo.. . tem razão. 

Marianna (limpando os olhos) — Por amor de ti ! 

PcDMo r- Ora aki esli I Yíngua-s#, vinguenae aqui 
n'esla orelha.. . aada, puxe á vontade, v . 

Marianna — Não quero I Se eu não te tivesse pu- 
)^ado a Qutra, talvez que não tivesse razão p^jra ehorar 
ag(xra 1 Não sei o que linha a tua arelhs^ . . 

Pedro — Que a faz ahorar I Bem lemt^s^do. . . Eu 
sof[ri a dôir e v« mM é quem cbcra t Mas 9^0 chore 
mais; o que lhe dissOvja 14 ^^ coaio vento^M Foi cha- 
laça, aieaina Man>b«a t As va^ur^s não serviam senão 
para apanhar o lixo.. . £ as múlherçf|. . . 

Marianna — Sim, pa^ça ensflbc5|rem, .J^owrím so- 
pas, e.. . ; 

P«PRO -^Qb I um^ • . p q^ a hocça rep^lt nem 
sempre vem cá de dentro L De que servem as estrellas 



^ 



y-l 






3g NÃO DBSniM SEM 8ABBR 

vfy ceoy 6 as rosas D'uin jardim? para embellezarem a na- 
tureza, como as mulheres nos enchem de encantos a vi- 
da i Se tivesse aqui um espelho, veria como fallo ver- 
dade ! Veria se essas duas lagrimas parecem ou nSo duas 
pérolas formosas que a usura Irac de tributo zo amor l 
Oh ! qoc^o recolher essas lagrimas. . . {pegandthlhe na 
fnào) Quero, n'esta mio que me fez mal. . . {chegando^ 

aos hbioi) 

BIaiiaiina {levantando-se) — Mea Deus!... que 

atrevimento I 

Pkdro — Marianna. • • 

Mamunha — Maríannai?.. . 

Pkdro — V6 ? se eu tivesse fallado á vassoura, ei- 

la nSo se teria zangado ! 

Mahianna (perturbada)^ Oh l nSo sei o que sin- 
' lo! (saindo) Tenho vergonha de estar diante d'elle!.. . 
Lembrar-roe que lhe puxei as orelhas !.• . 

PiDBO {pegando rapidameme na vaseam^a e ma pá) 
_ Ahi vem seu lio!.. . (finge qne mrré) 

SCENAXIII 

mabianna, PEDRO pB«BS, O manukl vicBBTB, onlrando; 

1 - depois M ABI ANUA, C fákWEL VICBnTB SÓS. 

Mawel— Padrinho já tenho. Agora é preciso Ira- 
,.. i tar do reslo. Olé I (aparte) Que teremos por cá t ? (« 

"Z J'edro Pern) Que fazes aqui ? v i- 

J^ ' Pedbo — A palrôa chaniou-me para apanhar o U- 

- Xo. (a/fonha Q< popm na fà, t mí) 
"" Márdbl — E tu que tons, Marianna? Yejo-te os 

. olhos (So vermelhos.. . 

Mabiahmí — Eitive chorando. 
M ARDIL — Ora «ssal Porque? 
Mabianha — Porfie v. m.«« se demorava para jan- 
tar. 



»-^-.' 



V 



■ 



N iO DBSMMB HM SANA S» 

MAnUBL — E jantei com o vizíiiho. nj 

Mariahna — Ora abi está! 

Manuel — Não sejas creaBçal Se isto esaiai vae« 
que será depois f. . . ^ 

Mabianna — Depois. . . depois de qae 7 

Mandbl — De que ? t 00 passo que vamos dar. 

Masiafíma — Ah ! Primeiro hade v. m.^ê ... (aparte) 
Lancemos uma ameixa i pueara.. . {alio) Faz-me isto ^ 

que lhe pedi 7 

BftANtBL — Ainda o8o me pediste nada! (áparie) 
Quem sabe se é algum vestido de seda 1*. . (alto) Olha, 
Marianoa, eu tive idéas de te' comprar um corte de se- 
da; mas resolvi esperar que ella baixasse mais. . • 

Marianna (ápari0) — Quando isto é agora, que fa 
ria depois t ? (alto) O que Ibe quero pedir é diftrente. 

Manuel —Cassas?. . . as cassas, sim: quantos ce- 
vados pouco mais ou menos.. . 

Marianna — Queira ouvir. Olhe, meu tio, o afi- 
lhado du marquez.. . 

Manubl— Ora deixa-te d'isso; é um bom rapaz! 

Mahianna — Eu fallava-lbe d'aqueUe que. . . Do 
militar.. . 

Manvbl — Ah t E então? i.. . 

Mabianna — Ê preciso despedil-o para sempre; mas 
de nm modo enérgico 1.. . 

Manuel— ^Nio sei que comi em casa do vizinho» 
que me fez tanto peso no estomago I quasi que não pos* 
so com elle. . . (senta-sé) 

Marianna — Eu tinha-lbe promelUdo uma coisa. . . 

Manuel — Que coisa, filha? !•• • 

Marianna — Desculpe-me, meu tio. Tioba promet- 
tido uma entrevista. . • i 

Manuel — Realmente; sinto-me agoniado. . . 

Mabianna — £ elle. . . 

Manuel — Sabes que mais 7 não me sinto nada 
bom. . . 

Marianna — Elle bade vir. . . 



M ltàl> MfMIBIfe ÊÊH BktÈÊL 

Manubl {ápârii) — Bm Ufo boei hdfa qrifl jí tk nao 
esteja !. . . 

MAKfAmA — Edtâ noite. . . 

Mamobl — Isso é uma asneira, minha* sobríftha ( 
You meltel-a ii'am convento ! 

MARtikNNA (rindo) — Valha^o Deus, métl tio, d que 
étt quero é que v. m.^ tenha uma éxptioaçio cein elle. 

MáfinaL^Bu? !.. . Eu sei c& explicar o que íAú 
fiz!? Não me mettes em confusOes! Que o leve o dia- 
.bo. . fc 

Mariauiia -^ Uma explicaçio . por exemplo: v. 
mM explíca-ihe q«e o estimo.. . 

IManobl^^Bu nâo sirvo para isso, minha sobri- 
nha ! E veja como falia. . . 

MAMANNA^-^Qoe o eMíoio a V. ift.cè; que qaero 
coadesoender cem a soa vo«Ude.. . 

Manuel — Ah.» . e eu que nfio te comprehendfa / 
Marianaa, tu és a rainha das raparigas! nfaa o ^tie me 
parece asneira é explicar-lhe uma coisa que o tempo lhe 
podia mostrar.. . 

.Maaut«na — Não, senhor; comtoilita^es Ioda açor- 
tezia é pouca. Y. m.cè deve fazer-me o que lhe peeo, e 
dar-me assim uma prova de estima. Fiqttemoa pois en- 
tendidos. Bsla noite o milíter veniv v. id.cò apiMrece- 
Ihe em meu logar, diz-lhe o que ha* . . 

Mantol — Mas, se podessemos guardar )SA# para 
ámanhS. . . sinto-me' tio inoommodado. 

Mariamna — «Guarda que oomér nao guardes que 
iazer.» Lemhre-se, mei tio, que á o-meií defMSor, o 
meu protector, o meu abrígo. Já o éra, e Agora mui- 
to mais, visto o desejo que tem de me dar & sitfu no- 
me. É quasi noite: vou jantar. O^e). 

SCENAXIV ^ 



• ■ • 



Manuel (só) — Vae janter. . . é quasi noite, o 
boas noites; eu cá fico, tia Awiita f OrA, ora, #ra, o 




NáOBISnsnfliiliABBi st 

diabo da rapariga que ptreoe que veiu ao mundo para 
apoqueolar a gente ! . . . Safa I Diverliu^^se a (ecel^as, e 
eu que as desfaça i Estamoe aviados t Ver-me a barbas 
com um militar; por ahi algum espadachim... Ahl Pe«* 
dro Peres le valba I {indo ao fumio e c$r$ejanéQ o re- 
traio) Obrigado, obrigado, meu senhor I netlestes^me 
em casa um bomem que é o meu braço direito! {cka^ 
mando) Peidro Peres? 

PfiDao {dentro) — A's ordens, meu amo ! 

SCENA XV 

MáNJUKI. yiQWIB, e PE»II0 HtnES. 

Manucl — Vem cá, Pedro: ba muita obra na loja I 
Pedro — Vamos a ella. 
Manufl — Um militar pela proa! 
PsDRo — Virar de bordo, e, correr com o tempo. 
Manuel — É tarde. 
Pedro — Já deram cinco e meia. 
Manuel — O homem hade cá vir. £ preciso ter 
uma explicação com elle. . . 

PfDKO — Âbl iifo é fácil: v. m.cè explica-se mui- 

to bem» * ! 

Manuel — Tenho uma dõr de dentes que não me 
deixa fiallar: para a noite é provável que augmeote. Eu 
padeço dos dentes. 

Pedbo — Então que quer que lhe faça? 

Manubl — Que tu faties por miui. 

Pedro — A quem ? 

Manuel — Ao militar. 

Pedro — Qual militar? 

Manuel — Um que hade cá vir. 

Pedro — Que hade cá vir?l Para que*^ 

Mandsl<--« Para ter uma. ex.plicação comigo. 

Pedro ^á/?ar/6) — Que diabo de íramoía é esta !?.. . 
[alto) Ah ! ja percebo. . . 



3» NÃO DBSPUHB SBM BÈMtíi 

MiNORL — Essi militar foi quem escreveu a caria 
a minha sobricha : veai pedil-a, talvez ; e é Decessario 
explicar-lbe decentemente a razio por que lh'a nao dou. 
Entendes ? 

Pinao — Perfeitamente, {éparie) E mais do que el- 
le julga I Bile, é que me parece que não entende, na- 
da I {alio) E entioT.. . 

Manuel — E' preciso combinar. . . 

pBDiío — Olhe ; v. m.cè está com os olhos abotoa- 
dos. Este negocio, nio é assim. O homem não é mili- 
tar. Já o vi rondar abi pela rua. K' um rapaz da mi- 
nha estatura.. . parecido comigo.. . um joio ninguém 
que até iaz dói E' um desses meninos bonitos, de pu- 
nhos de renda, cabelleira á fránceza, lenço almiscara- 
do, e que não é capaz de puxar pelo espadim para 
matar uma mosca. 

Manoel — Espadim! Eatio é fldalgo? 

Pbdko — Nlo tem ares de outra coisa, porém eu 
até o conheço; é filho de um negociante rico.. . Deixe 
lá ser o que é. Eu no seu caso, fazia outra coisa : dis- 
farçaM-^me ie mulher; senta va-me n'aquelle recanto: 
mandava-lhe abrir a porta, e quando elle julgasse que 
estava na presença da menina Marianna, saltava-lhe 
com um cacete no lombo I Dè-lhe sem medo I que se 
elle respingar, acudo eu ! Eu c& estou ! 

Hanvbl — Sim ?t parece-me que não dizes mal ! 
" Pedro — Leve o caso como um homem, e deíxe- 
se de pelas. . . 

Manuel — Dizes bem ; bravo, meu rapaz I Um ves- 
tido da D Ephigenia faz a festa. Elias estão a jantar, 
e eu vou aproveitar o tempo para me vestir. Toma sen- 
tido 1 se elle respingar, acode logo ! 

Pedro — Vá descançado. 

(Manuel Vieente fte peit direiu) 



NÍ0BBiPlI8BiBM8A911l U 

SGENA XVI 

PBDRO PEIBS 80, depOÍS VilBIANNA 

Pedro ~E eu... i guarda roupa I {sae pelo fundo) 

(Prineipia a eseareeer; a orchestra eiíecuta ama liamoiiia adquaát 
á sitaaçio. Mariasaa oHra pela osqoarda, (remola e agitada). 

MARiAimA — Meu Deus, quaes serSo os seus pla- 
nes?.. . Que irá elle fazer?.. . É noile! Meu tio dis- 
tareado em mulher. . . sentado n*aquelle recanto.. . Oli ! 
como as coisas succedem I Quem me teria dito que este 
rapaz que para aqui entrou com um ar tão estúpido.. . 
£ quem será elle!?.. . Que me importai É um rapaz 
bonito e bem feito.. . e se fftr sm João Fernandes?. . . 
Oh! não, não é possivel ' mas seofôr?! N'esse caso. . 
como não ha o menor compromettimento, salvo-me com 
Ioda a decência: finjo que não entendi nada do que se 
tem passado. Que pena se assim acontecer I.. . (escure- 
te de lodo) E é noite fechada. Escutemos. . • (uae escu- 
tar á poria da direita) Meu tio está no quarto de D. 
Ephigenia, vestindo-se com um vestido d'ella... (esprei- 
tando pela fechadura) Se ella o visse.. . I& pOe uma 
touca. . . fica-lhe tfio bera !• . . (rindo) Que pena o can- 
deeiro não dar mais luz para o ver melhor.. . Isto ha* 
de ser bom !. . . Vamo-nos esconder para ouvir tudo. 
(sae pela esquerda) 

(O reflexo de laz qae vinha da porta da direita extíogne-se. tfa* 
nnol Vicente, coberto com am vestido de mulher, ?ae caatelo- 
Munente senta Me no canapé, collocando aabre os joelhos uma 
iMngala). 

SCENA XVII 

Manoel {só) — Faço idéa de como estou interes- 
sante ! Pois não I Deixa estar meu aimiscarado que tu 

3 



34 ' NÃO DBSPRBSB SEM SABER 

me pagarás o trabalho que tive ! Hade saír-te do lom- 
bo. . . roas caluda. . . sinto passos. É elle ; pelo cheiro 
já se conhecei Irra! Almíscar purol E' de lombar. 

SCENA XVIII 

MANUEL VIGENTE, O PEDRO PCRBS elegantemeDte vesUdo ; 

com espadim e bengala. 

Pedro (disfarçando a voz em falsete) — Cheguei 
ao paraízo ! Eis-me a teus pés, oh casta, mimosa, ru- 
bicunda Marianna ! És tu, que eu adivinho ahi, n^essa 
dúbia posiçào tào cheia de graças e d'enlevos. . . no fo- 
fo canapé que, como um throno d'amores, se eleva ao 
lado ? 

(Manael Vicente sospirt) 

PfiDBo — Sabe pois, ó deusa do meu pensamento, 
sabe, Marianna adorada, que o mais nefando projecto 
ameaça os dias do teu prosado tio, enlucland# assim o 
nosso já tSo ameaçado consorcio. 

Manuel (dparíe) ^— Que diabo diz elle dos meus 
dias ? I 

Pedro — O afilhado do marquez, que por amor de 
ti, matei em duello, tem um irmão que jurou vingal-<k 
Esse irmão, suppondo que o matador é o teu presado 
tio, jurou aos seus santos a morte do pobre ínnocente j 
Ainda, isto nao é tudo. Aquelle celebre procurador de 
causas que te fazia a corte aos domingos, juntando-se, 
DO seu desespero, com o amanuense da secretaria do 
reino que te fatiava aos sabbados, juraram também dif- 
ferenles coisas contra elle, e por ultimo, eu nao espe- 
ro senão que tu cases para obter o que me promettes 
depois de viuva — a posse da tua mão ! Epara esse fim, 
rogo-te que annuas quanto antes aos desejos do teu pro- 
sado tio, antes que os homens façam por ahi alguoia 
travessura, e desde já deposito nas tuas mimosas e ala- 



NiO DBSPRKSB SBM SABIA 3S 

bastrinas mãos o vidrinho da essência que deve man- 
dal-o para a vida eternât que bem merece! 

Manuel {levanlando-se e caminhando para a scena 
até chegar á poria da direita^ aparte) — São dignos 
um do outro ! Eu é que não me reputo digno de ne- 
nhum d'elles. . . Com licença, (despe apressado o vesti- 
do, tira a touca, aiira tudo ao chão, e grita) Marianna 1 
Senhora D. Ephigenia, venham cá e tragam luz. 

Pedro [desfarçando sempre a voz) — Um homem ! 7 
Cruzemos o ferro ! 

Manuel — Não íncommode o seu espadim, que 
não é necessário. 

Pedro — E', sim senhor I Exigem-no es leis da eti^ 
queta. Em guarda ! 

Manuel — Accommode-se, senhor ! O senhor équi*- 
zilento I 

Pedro — Em guarda !. . . 

Maííubl — £' disso que vou tratar. Marianna 1 7 

SCENA XIX 

MANUEL VIGENTE, PEDRO PERES, MARIANNA, 6 D. EPHIGR- 

NiA, trazendo um candeeiro de cobre, de três bicos. 

Marianna — Aqui estou, meu lio.. . 
D. Ephigbnia — Que me quer» senhor Borga? 
Marianna {4p(irte) — Ouvi tudol Estou contentís- 
sima. 

Manuel — Minha sobrinha, este cavalheiro vem 

pedi^ a lua mão, e eu não me opponho. Acbo-o até mui- 
to digno de ti. Mas... que é isto!.. . parece -me. . . 
(aparte) que já vi aquella cara em outra cabeça !. . . 

Pedro (a Marianna, com o mais distincto galan- 
teio) — A esperança é muitas vezes um sentimento que 
mata consolando ! 

D. EpmGBNíA (aparta) — Elegante e galanleadorl 
Perfeito rapaz ! (a Manuel Vicente) Reconciderou , senhor 



Manuel Vicente Borgn ; e fes muito bem I nas, aqMlIe 
não é o militar . de q^ie Ibe foliei I (aparte) Pudera ! 
{alto) Quem é poiB^ 

Manoel — Ê outros I Deiíe-os comigo I Ella tinha-os 
ás dúzias.. . Dcixe-os comigo ! 

Pedro (que lem conversado com Mariannã) — Bei- 
jo, com o mais verdadeiro prazer, a mio que se me 
confia i (beijando-lke a mão). 

Manuel — Muito bem; esUmos d'aecord#. Ora... 
(para Pedro Peres) vossa mercê sabe que miaba sokri- 
nha -herdou de seu pae, meu irmão que Devs tenha, 
uma fortuna de quinze mil cruzados. E' naloral que 
saiba. Muito bem ; ha todavia uma carta legal de meu 
defunto irmão, a respeito do casamento da minha so- 
brinha, que ^asso a ler. Com licença, {indo buscar a 
caria a um movei). 

Pedro — Marianna!.. . 

Marianna — Que será ! ?. . . 

Manuel -^Eil-a aqui. [abrindo) Como este papel 
está legal e lem de apparecer em juizo, passo a ler o 
ultimo paragrapho do seu conteúdo. Queiram ouvir, 
«Im^ofSe, pofém, minha filha Marianna casar cdb- 
tra vontade de »eu tio, Manuel Vicente Borga, tujo dei- 
xo por seu tutor, ficará desherdada da mfnha jleixa, etc. 

D. EpBiGENiA — Ora ahi está*. . coiMinbff. 

PbDfto — Guarde os seus imiilos mil eruzados , 
senhor Manuel Vicente, junte-lhes ainda os que deviam 
pertencer a sua sobrinha, e compre com elles, se é 
possível, o que a posse doesta mão vem 1raze^4»e. Um 
coração verdadeiro t A respeito de «noiva antes pobre 
c(xm amor, que muito rica htm elle» Aprenda mais es- 
ta máxima do seu criado Pedro Peres. 

Mandsl — Pedro Peres !. . . 

D. £pDiGBNi\ — Ai que tem que rir! Oi^itaeha ! 

Manuel (aparte) — Estou codilhado. . . 

Pedro — Eu sou Pedro Peres Cíbral, escrevente 
particular e afilhado dtí s- ex.V Tinha visto esta me- 



m 




\ 



NÃO DBSPRESE SEM SABER 37 

nina, quiz estodal-a de perlo, e conhecendo a dificul- 
dade que y. m.c^ oppunha, determinei servir-me do es- 
tratagema que empreguei. Estou muito satisfeito^ senhora 
D. Ephigenia ; quando o casamento se concluir, offere- 
ço-lbe^a minha casa. 

Manuel — Pois vao-se todos com a fortuna.. . Dei- 
xem-me para ahi finar-me só no meio das ratazanas!... 

D. Ephigenia — Descance, que eu ficarei, senhor 
Borga: quero amparar-lhe a velhice. 

Manuel — Olhem quem falia !. . . 

Pedro — O melhor é convir em amparar-se mutua- 
mente. Senhor Manuel Vicente, siga ainda o conselho 
do seu criado Pedro Peres.. . 

Manuel — Ao menos, tem razão, vá até ao fim.. . 
Conte comigo, senhora D. Ephigenia.. . 

D. EpBiGENiA {com affeclo ridículo) — Que suave 
alegria derrama no meu amante coração i. . . 

Manuel (pensando um momento) — Sejamos tam- 
bém generosos t [áparie) E' preciso não escandalisar o 
marquez ! (alto) Minha sobrinha, podes contar egualmen- 
le com os teus quinze mil cruzados, que eu abençoo o 
teu casamento, em nome de teu pae. 

Maiíia!vna — Ahi meu tiot.. . quanto lhe devo.. . 

Manoel — Sim.. . sim.. . elle que te ature; que 
eu já não sirvo senão para as ratazanas Dê-me a sua 
mão, senhora D. Ephigenia. 

Pedro (beijando a mão a Marianna) — Foi um 
amor que apanbeí no lixo.. . 

Marianna — Desculpe-me. Deitava-o fora, sem sa- 
ber o que era. 

Pedro — Pois beo), Marianna, para o futuro « Não 
Desprese sem saber. . . » 

D. Efhígenia — Sim, minha filha, que. nunca é 
bom ! . . . 

Çae o panno. 



i 



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áFj^ 



PILATOS NO CREDO 



*ÍU 



COMEDIA. EM UM ACTO 



roK 



ALFREDO HOGAN 




TYPOGRAPHIA DO PANOKAMA 

TRAVESSA Di VICTORIA, 73 

'1802 




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•^••^^ 






PILATOS RO CREDO 



COMEDIA EM UM ACTO 



roa 



ALFREDO HOGAN 



TYPOGRAPHIA DO PANORAMA 

TláYBtSA DA TICTOniá, 73 

\ 862 



F 



lilTEIILittCDTORES 



Pántalexo Penteado 

Carlos Penteado 

JoLio DA Silva 

Julieta 

Marianna 

Augusto de^ A zevedo 

Um criado 



è 



ACTO ÚNICO 



Sala regularmenle mobilada em casa de Paolaleio. 



SCENA I. 

J D LI ETA R MARIANNA 

(Julieta a ler, MariaDoa a bordar.) 

Maiiianna — Cuidado, Julieta; ainda tens a vista fra* 
ca; não deves abusar. 

Julieta — Nem o li\ro convida. Ohl lembrar-me 
que casei cega, e ver como vejo agora .. 

Marianna — Não és a primeira a quem o casamento 
abriu os olhos. 

Julieta — O casamento! que magica palavrat É um 
sol que surge na aurora da nossa existência^ que declina 
enao torna a nascer. 

Maiiianna — Hade tornar. Quando teu marido vier... 

Julieta — Amar-me tanto, aquelle homem, apezar 
de cega; casar comigo assim mesmo; e abandonar-me 
depois para ir viajar. . . 

Mahianna — Os homens amam de ordinário a for- 
tuna que lhes levamos. Nao chores.. ., 

Julieta — Ingrato! 

MAniANNA -Uom fizeste de sair também do Rio de 
Janeiro para fugir às recordações do teu infeliz e cego 
amor. Deus permiltiu que recuperasses a vista... e ago- 
ra deves ser bastante senhora de ti para te vinga- 
res! 

Julieta— Jâ lhe escrevi.. . 

Mahianna — Dizendo-lhe que estavas cà muito bem 

sem elle> e que estivesse elle por là quanto tempo quí- 

zesse? 

i 



2 PILATOS NO CREDO 

JcLiETA — ^Tal qual. Pedi-lhe Umbem que me mao- 
dasse o seu retrato. 

Haiumna— EDtiio disseste-lhe que ttohas recupe- 
rado a vista? 

Julieta — Não. A minha vingança é a surpresa que 
quero causar-lhe quando o abraçar. Pedi>lhe o retrato 
para o ter sobre o coração . • oh! estou niorta por ver 
as feições de meu marido. 

Marianna — E se fôr feio? 

Julieta — Feio? Deus meul se fôr feio.. . Oh! ter 
recuperado a vista para ver um marido feiol Feio! não 
é possível: todos os Julios são bonitos.. . ao menos por 
fora: e não ha ninguém que não ame um Júlio. 

Marianna — É assim que eu penso a respeito dos 
Carlos. 

JcLiETA — Amas algum? 

Marianna — Meu primo, o filho de meu tio Pentea- 
do, que foi para o Rio de Janeiro. . . por ser eitraxa- 
gante. . . Oh! mas era o rei dos primos! Amo-o do co- 
ração; e elle tem-me escrípto promettendo-me sempre 
vol!ar para casar comigo. 

Julieta (suspirando) — Tomara já que chegasse o pa- 
quete.. . 

Marianna [suspirando)— lom^vdi jà que chegasse o 
primo! 

SCENA II 

AS MESMAS e PANTALEAO PENTEADO 

Pataleâo— Jâ chegou.. . elle cã está. 

Marianna — O primo? 

Julieta — O paquete? 

Mariahna— Vem muito gordo? 

Pantaleão — Gordo!? Ó sobrinha.. . um paquela 
gordo!... 

Marianna — Pois não faliava do primo? 

Pantaleão— Qual! O extravagante. . . foi para Pa- 
ris: tive noticias. 



PILATOS NO CREDO Ò 

Mârianná — Ingrato! 

Paistalkão — O paquete francez é que chegou.. • 

JuLiBrA — E yeiu a encommenda? 

Pantalrão — Corri ao correio, e assim que fizeram 
a primeira distribuição, entregaram-me.. . 

Julieta — Dè cà, dê câ. . . 

PANTiinElo {danàO'lhe uma carta) — Eil-a, com as 
iniciaes J. S. — K custou-me a havel-a, foi preciso as- 
sigaar um recibo, e là assignei: Pantaleão Penteado. 

JtLiKTA {abrindo a carta) Aht Finalmente vou ver 
as feições de meu marido!.. . (hesitando) Mas se fõr 
feio. . . horrendo. . . 

Paittale o Vamos; vejamos emfim a verónica do 
tal senhor que teve bojo para abandonar sua mulher.. • 
e ir comer-lhe o dote em Paris . Ah! é o que se está 
Tendo! E ellas sempre a cair! 

JULIETA — Vejamos primeiro o que me diz. (lendo) 
«Querida, ahi vae o retrato; o original fica de perfeita 
«saúde.» 

Marianna (rindo) — É amável.. . 

Pantalbào—Poís não diz mais nada? 

Julieta — Para que? Elle julga que ainda estou ce- 
ga. • • 

PantaleIo— Sabe que mais, menina, seu marido 
é um homem sem coração' Bom era eu para me ter 
comportado assim com a minha mulherl.. . andava-lhe 
ali derretido como um tótól., . 

Julieta (tirando o retrato). — Eil-o emlSm! Eis o meu 
marido.. . Ah que bonito rapaz! Sou feliz. 

MáBiANNA — É bonito? {vendo o retrato) 

Pantaleão — E eu leria apostado que era mais feio 
do que um pé de cabra t 

Mauianna — Ahl.. . que vejo eu?! Jesus! quem me 
soccorre.. . 

Pantaleão — Então que temos?.. . tão bonito é elle 
que faça deslumbramentos? 

Marianna— Veja, veja, meu tio! Ah! infeliz de 
mim! 



4 PILATOS NO CREDO 

Pant4LB*o (vendo o retrato) — E é verdade. . . é a 
cara do Carlost E' o nosso Carlos! 

MARiÂ?èNA (enraivecida, a Julieta) — Senhora, pro- 
hibo-lhe que beije esse retrato, ao menos na minha 
presençal 

Jui iBTA — Ora essa . , que lhe importa que eu beije 
o retrato de meu marido? Heide beijar uma> duas, mil, 
muitas mil vezesi 

Marian^a — Esse homem.. . 

Fantaleão — Accommoda-te, sobrinha, por quem 
és\.. . Vamos elucidar-nos primeiro.. . 

Julieta — Mas de que se trata? Senhor Pantaleão, 
conhece meu marido? 

Mabianna (hatenio o pé). — Seu marido? E' impos- 
sível; repito, impôs ivell 

Pantalfão — A ccommoda-le, sobrinha.. ■ 

Marianna — Não sei onde estou.. . que n*o faço 
algum disparate maior.. . que não a engulo'.. . (baten* 
do os pés) 

Pantalfão— Minha sobrinha.. . aquillo não hade 
ser nada de cuidado!., pois o Carlos casava lá^ .. 

JuLiHTA— Finalmente, senhores, expliquem-me. . . 

Pantalíí\ó— Jà.Asenhora conhece bem essehomem? 

JuLETÂ — Pois não diz esta carta de meu marido 
que é o seu retrato, este? 

Pantaleão — E como se chama seu marido? 

Julieta — íulio da Silva. 

Pantale*o — Ahi está o engano. Esse retrato é de 
meu filho Carlos. 

Julieta — De seu filho? Então sou ou mulher de 
seu filho? que feliz acaso! 

Mariannx — Feliz acaso!? E atreve-se na minha 
presença a dizer que é feliz similhante acaso? Oh! nãi 
lhe chame acaso, chama lhe astucioso enredo! Faça-me 
crer que não foi de propósito que pediu recommenda- 
ções para nossa casa; comeram o que tinham; a senhora 
veiu melter-se em casa do sogro e elle.. • quem sabe 
o que elle foi fazer a Paris. . . alguma das suasl 



PILATOS NO CREDO 5 

Julieta— Ob! é de mais! E não estás aqui para me 
viDgar^ meu Júlio. . . 

Mabiânka — Seu Júlio?!... Que diria ellej diante de 
mim que posso apresentar-lbe as cartas em que falsa* 
mente me promette casamento'? Talvez negasse: não ad- 
mira. Um homem que muda de nome é capaz de tudo. 

Pamtalbãu — E effectivamente o maganão mudoa 
de nome. Apezar de Penteado, melteu-se pelas Silvas. • • 
pois fez mal; o nome de Penteado vale muito mais: é 
histórico. 

Julieta — Seja como fõr, eu não tinha obrigação de 
adivinhar. . . 

Mabianna — Uma de nós vae sair jà d'esta casa! 
(a Pantaleão) Será justo que sejaeu?..*. Eu, meu que- 
rido tio^ que não tenho outro tecto> eu que fui enga- 
nada pelo primo?. . . 

Jilieta — E eu, que sou mulher de seu filho; eu 
que não conheço mais ninguém em Lisboa.. . que será 
do seu innocente neto, sr. Pantaleão? 

Mahianna — Vamos, decida! 

Pantaleão — Que decida? è tão engrime que escor- 
rego.. . Safa! 

Makian A — Eu ou ella! 

Pantai EÃo— Ou eu. Sim, è o mais prudente: saio 
eu, e arranjem-se cà do melhor modo possivel. 

Marianna — Ahl meu tio, ainda em cima graceja?! 
Quem hadc pois llvrar-me da companhia daquella mulher! 

Julieta — Basta, senhora^ jâ não posso soUrel-ai 

Marianna — liu, que era tão sua amiga.. . que me 
deixei ílludir pe'a sua astúcia!.. . Está visto, o que a 
senhora quiz foi melter-se em casa para deitar os bra- 
cinhos de fora. 

Julieta — Pois bem; acredite o que quizer: mas 
uma vez que cà estou, e sou nora do sr. Pantaleão, se 
não valho alguma coisa.. . appelio pelos direitos do seu 
neto .. 

PantvleXo— Eslà claro: quem nunca teve filhos 
chorara-lhe os netos. 



6 PILATOS NO CREDO 

MARiANNA-Era o que faltava, expulsarem-me por 

amor do tal neto .. 

Pantaleão — Vamos là, basta d© desatino; é pre- 
ciso que nos conformemos todos; cada qual com o sea 

mau bocadot 

MAHIA^NA— Eu não vejo, era tudo isto, quem le- 
nha peior bocado do que eu Ella eslà casada e em casa 
de seu sogro: o tio tem um neto; mas eu .. victima do 
primo, sem achar apoio no tiol 

PatítaleXo— Hasde ter lodo o apoio possível, des- 
cança. Olha, o Carlos era um extravagante; deixal-o 
là. Temos aquelle rapazito que ahi vem ás vezes .. vou 
tomal-o para caixeiro, e . hein, nào sei se me entende. 
Mas... biquinho calado. Olha... failae no mau... 

SCENX IH 

os MESMOS e AUGUSTO DE AZEVEDO. 

Augusto— Bons dias, boas novas, e muitos parabéns. 

ToDOii— Que mais leremos* 

Augusto— riiogou o homem. 

ToDOs — Qual homem? 

Augusto— Ora qual?I O que esperavam .. 

Maiíianna— O primo? 

JuLiKTA — O meu marido? 

Pantamão— O Carlos*^ 

AuGi'STO— Veiu no paquete. Fui a bordo fallar- 
Ihe, e corri a trazer a noticia. Venham alviçaras em re- 
buçados de ovos. 

Ma'ianna— Eu dava-lh'as em rebuçados de fel! 

Pantaleâo— E eu em rebuçados... de casca de 
carvalho! 

Julieta — Pois eu heide-lh'as dar em rebuçados .. 

do que quizer. 

AuviusTO — Ora estai 

JuLitTA — Dou-lhe jà um abraço pela noticia.... 
(abraça-o rapidamente e sae) 



PILATOS NO CREDO 7 

AcGUSTo— Um abraço, e sem rebuço..- Darse-ha 
o caso que estejam todos doidos cà em casa? 

SC ENA rv 

PÂNTÂLIsÃO, MÂRU\NA9 6 AUGUSTO. 

Mariânna — Então, meu tio, que faremos? Devo eu 
tornar a ver aquelle monstro? 

Pantaleão — Monstro? (risonho) Dobre a lingua, 
cbame-lhe tudo menos monstro, porque, segundo di-> 
ziam, o Carlos era o meu retrato. 

Augusto — Mas, senhor Pantaleão, v. s/ não me 
dirá.. . 

Tantaliíão— Cale-se, senhor! nem uma palavra a 
respeito d^ellel Não vé as lagrimas de minha sobri- 
nha? 

Augusto — Sem duvida, de alegria! 

Mauianna — Oh! é impossível que osenhor não sai- 
ba!.. « 

Augusto — Eu? 

Marianna — Elle já lhe havia de ter contado' E o 
que o trouxe a dar a noticia, não foi a idéa de nos ob- 
sequiar^ a mim nem a meu lio! O senhor foi sempre 
amigo d'elle. . . e lá se entendem! 

Augusto (á parle) — É o que eu digo; estão affecla- 
dos da cabeça... 

Pantaleão (á parte] — Convém preparar as coisas 
jà, para evitar maiores conflictos. (alto a MgustOyClia- 
mand0'0 á parte) Díga-me, senhor Augusto, já tem 
emprego? 

Augusto {á parte) - Que salto na conversa! Está po- 
sitivamente desvairado! 

Pantaleão — Já tem emprego? 

Augusto (ó parte, — Vamos, é preciso não o enfu- 
recer, {alto) Ando ha dez annos a sollicítar umlogar.. 

Panialbão — Rasgue todos os seus requerimentos. 
Está servido. 



8 PILATOS NO CREDO 

Augusto — Ahl de certo... conto com isso... 

PantaleZo — Eu me respoDsabiliso; palavra de hoD- 
ra! £••• aíoda outra coisa: está compromettido? 

AuGcsTO — Hein? compromettido? 
- PantaleZo— Ah! seu maganão... 

AuGcsTO (á parte)— Qne desgraça... que atacou 
esta pobre familia! 

Marun.na lá parte) —O tio està-lbe faltando a meu 
receito. Se elle nSo disser que nao, eu... só para 
mostrar^ ao tal senhor primo, que não fiquei com agua 
na bocca... 

PantalbZo {qtie (emfallado a nieia voz com Augusto) 
— É negocio fei lo. 

Augusto — Mas... senhor... eu não sei se devo acre- 
ditarl. . . Sua sobrinha estava promeltida a Carlos; eile 
^nda hoje me fallou d'ella. . . 

PantaleZo— Nem mais uma palavra, senhor! não 
aggrave a situação! Prohibo-lhe que nos falle.. . 

Marianna— D^aquelle monstrol 

Pantalbão — E a dar-lhe! Lã isso, não, Marianna; 
um monstro é uma coisa tão feia. . . 

Augusto ^aparte) — Decididamente, esta pobre gente 
Dão está boa de cabeça. Far-lhes-hia um favor se fosse 
fallar d*elles ao sr. Pulido. . . 

PantalbZo — Então, sr. Augusto de Azevedo, o em- 
prego è com a tal condiçãosinha^ quer? htin, seu ma- 
ganão, quer? Olhe, eu, na sua edade.. . não sei o que 
faria. . . e era bem modesto! Até me chamavam o D. 
Maria, (acotovelando -o) Ande, vá-lhe dizer jà alguma 
fineza.. . 

Augusto — Mas.. • (á. parte) Se o contrario é peior; 
saio d'aqui certamente com algumas azas de pau. {dlo) 
Mas o Carlos.. . 

PantalbZo — Nem meia palavra! nem uma syllaba 
d'esse nome. . . (tossindo em ar de convenção) Tem en- 
tendido? E .. até logo. (sae) 



PILATOS NO CREDO * 9 

SCENA V 

AUGUSTO e UARIAITNA 

• 

AuGDSTO — E deixa-me só com ella.. . Oh! masea 
não quero atraiçoar o Carlos que ainda boje "de bordo 
do paquete me perguntou tanto por ella. . .dizendo-me 
que vinha disposto a casar.. . Se podesse safár-me. . • 

Marianna — Retira-se, sr. Augusto? 

Augusto (ápar/^)— Peiorl (alto) Minha senhora. .-. 

Marianna — Ha tantos dias que não vinha yer-nos. • 

Augusto — V. ex.* estava sempre tao entretida com 
a sua amiga.. . 

Marianna (levantando-seJ—^inhdL amigai Sabe o 
que diz?! 

Augusto (á parte) — Mau!. . . esta creio \xe está 
perto de furiosa! 

Mamianna— Amiga! Uma vibora que aqueci no seio 
e que me mordeu sem piedade! Ea quizera mordel-a 
também com dentes doleão^ deelephante'.. . emettel-a 
debaixo dos pés! 

Augusto aparte) — Estou servido! 

Marianna (chorando^-^Ohl mas eu não posso es- 
quecel-o.. . é impossivel! Ah! Carlos . . Carlos.. • 

Augusto— Pois é mesmo o Carlos que chegou, que 
não tarda ahi; anime-se, minha senhora, a presença do 
meu amigo hade fazer-lhe bem. 

Marianna— Cale-se, senhor, cale-se, pelo seu e 
pelo meu futuro. Eu esqueço tudo, tudo, tudo.. . 

AuíírsTO (á parte)— Eslk cada vez peior! Olhem o 
bello quadro que o pobre (larlos vem achar no seio da 
sua familia? Sempre acontecem coisas .. . 

Marianni {aproximanao-se de Augusto) — Meu tio 
fallou lhe? O senhor disse-lhe que sim? ainda bem! |{ís 
a minha mão, sr. Augusto de Azevedo.. . 

Augusto — Acceito-a com procuração de Carlos. 
Marianna — Oh! sempre a mesma ironia! Fique cer- 
to, sr. Augusto, digo-lh'o eu! Carlos. . • morreu! 

2 



10 PILATOS NO CREDO 

AcGUSTO— Parou uma sege*. . querem ver.. . que 
é elle que vem resuscitado? 

Ma ianna— !:fe íõr?.. • £stà dito, morreu! {sae ra- 
pidamente) 

AuGisTO (indo á janella) — Eéelle! Coitado; não sei 
como devo preparar lhe o espírito. . . Pobre rapaz. . . 
Abi está Como o diabo costuma tecel*as! 

SCENA VI 

AUGCSTO e CARLOS 

Carlos — Eccomi ai fine in Babilonial.. • 

AccrsTO — Carlos.. . 

Cahi.os — Olà, meu Augusto!.. . Vieste dar a notí- 
cia da minha chegada? Fizeste bem. Onde está meu pae^ 

Augusto — Teu pae. . . 

Carlos — E Mariannal 

Augusto — Tua prima.. . 

Carlos— Augustol Pareces-me triste!.. . Respon- 
des-me de tal modo.. . 

Augusto— O que eslâ para succeder a Deus perten- 
ce, diz o ditado. 

Carlos — Com a fortunal Deixa-te de preâmbulos... 
acaba jà! 

Augusto — Teu pae. . . não está bom. 

Ca»los— E Marianna?. . . 

Augusto — Também soíTre.. . 

CAiaos— Mas de que soffrem? 

AuorsTO — Da cabeça. 

Carlos — Dores? 

Augusto — i\ão. Preoccupações. . . 

Carlos — Falia claro.. . 

AicusTO— Não te digo mais. . . sofifrem certas preoc- 
cupações.. . 

Cmíi.os— Preoccupações, preoccupações, enãosaes 
d'ahi! Pois quero saber o que vem a ser isso; quero 
vôl-osi (dingindo-se a uma porta, recua á apparição de 
Pantaleão) Meu pae.. • 



PILATOS NO CREDO 41 

SCENA VII 

AUGUSTO, CARLOS 6 PANTALBXo 

Pantaleão {de gravíssimo aspecto cómico)— Qnem é 
você? 

Carlos — Quem sou? pois Ião mudado estarei que 
me não reconheça?! 

PANTALfcÃo — O seu nome? 

Carlos — Meu pae. . . 

Pantaleão— O seu nome, senhor!'! 

Augusto (baixo a Carlos^ — Não teimes, nao teimes; 
tem paciência. 

Caklos (á parte) — Oh! meu Deus! {alto} Pois não 
reconhece o seu filho Carlos? 

Pantaleào — Carlos? E.. . sabe dizer-me quem será 
um sugeito chamado, chamado.. . JuIio da Silva, que 
mandou o seu retrato a sua mulher, e que promeciia 
casamento a sua prima, e que casou sem cônsul ar a 
vontade de seu pae, e que é um tratante, um troca tin- 
tas que enganava duas mulheres, e que afinal mandou 
sua mulher para casa de seu pae, assim por portas tra* 
vessas, com um filhinho nos braços, em quanto que o 
tal senhor ia gastar o resto do dote de sua esposa em 
Paris? 

Carlos— Meu pae.. . {aparte) Que barafunda de 
idèas! {encostando-se a Augusto) Ah' meu amigol 

Pantaleão--E não cae ahi de joelhos a pedir per- 
dão?. . 

Carlos (animando-se) — Perdão, meu pae: diga-me 
agora como está a prima Marianna' 

Pantaleào-- Eu lhe respondo {abre tfma porta e 
conduz pela wão uma creancinha) 

Caiilos — Que vejo?! 

Pantalkâo — Atreve-se em face d'este innocente a 
perguntar pela prima Marianna? 

Carlos — Linda creança! mas então a prima Ma- 
rianna.. . casou? 



12 PILATOS NO CREDO 

Pantalkão— Não reconhece este menioo? 

Carlos — Mas meu pae.. . 

PantalkAo— Sim ou não? 

Augusto (aparte) — O negocio vae-se complicando... 

Pantalg^o — Responda, senhor! 

Caiilos — É realmente uma creança. . . linda! 

Pantalrão — Dà seus ares do avô.. . 

Tablos— Então quem é o avô? 

Pantaleao— Quem é o avô, hein?» (sentimental 
dramático Ainda ha pouco eunãosabial Ha horas, ape- 
nas, que sinto esta doce commoç ol . Ahl Carlos! Car- 
los.. . como é possivel que tanta maldade caiba em tea 
peito!? 

Caklos— Em meu peito ? 

Pantaieão — Não finjas mais.. . Eu devia ser o teu 
severo juiz; mas a presença d'este innocente desarma 
a minha cólera! Carlos, aq^ii me tens supplicante. . .sé 
humano, abraça o teu filho.. 

Carlos (sobresaltado) Meu filho'? 

AiGusTO— Seu filho?.. . (aparte) Ora esta; e não 
queria então o velho casar-me com Márianna?! 

Pantaleao — Carlos, Carlos.. . 

Carlos - Meu pae. eu não entendo nada do que 
está acontecendo! Parece-me até que estou louco 

Tantaleão — E o que tens sido até agora senão lou- 
co^ abandonando tua mulher?.. . 

Caiilos Minha mulher?! 

Aigusto — Ah. tinhas casado? 

Carlos — Deixa-mei que já não sei o que digo nem 
o que faço! É realmente uma interessante historia; mas, 
sabe o que lhe digo, meu pae, é que me vejo n'ella 
como Pilatos no credo! 

Pantaleao — Logo pensará^ de outro modo; quando 
souberes que tua mulher herdou de um padrinho perto 
de meio milhão. . • 

Carlos — Supplico-lhe que me não falle mais em 
similhante coisa, se não quer endoidecer-me!. . . 

Pantaleío— Sr. ÂugustOi junte a suà voz à ml* 



PILATOS NO CREDO i3 

nha.« • rogoe-lhe que abrace este innocente e que re** 
ceba sua mulher.. . 

Augusto — Então, Carlos, sempre fostes muito bom 
rapaz; o que estás fazendo é indigno de til 

Carlos —Ora livrem*se lá de uma d'estas! Com a 
fortuna! então onde está essa minha improvisada mu- 
lher? quero vêl-a. é preciso acabar similhante engano! 

Pantalkâo — Fngano, engano, hein? maganaot Eu a 
vou chamar. . . coitada, e é linda como as flores! [saecom 
a creança nos braços) 

ser NA VIII 

AUGUSTO, CARLOS, momeutos depois nariarna 

AuGisTo— E eu a pensar que estavam doidos, eno 
fim de tudo.. . 

Carlos— Também tu? no fim de tudo.. . o que? 

AuGisTO — Ora.. . o que? 

Cai:los — Sim. . . falia.. . falia, ou arrebento de cu- 
riosidade! 

Augusto— Silencio, ahi vem tua prima Harianna; e 
eu deixo-te em plena liberdade com ella [em acçào de sair) 

Mauianna {entrando) — 1'erdão, sr. Augusto, queira 
demorar-so para ser testemunha do que vou dizer àquelle 
senhor. 

Caklos— Oh! prima Marianna. . . 

Marianna — Detenha-se, senhor! 

Carlos — Nem um abraço, ao menos, à minha che- 
gada. . . 

Marianna — Um abraço! 

Carlos — Um simples abraço.. . 

Marianna — O senhor ignora que eu.. • sei tudo!? 

Carlos — Sabe tudo?! É muito mais feliz do que eu, 
que não sei nada. 

Marianna — N5o julgue, porém, que me tem feito 
chorar a sua ingratidão! O que quero é mostrar lhe 
bem o apreça que dou às suas cartas e promessas! Olhe, 
yeja! {principia a rasgar cartas que tira da algibeira) 



14 PILATOS NO CREDO 

Primeira! segundai terceira! quarta! Todas, todas» to* 
das! E está tudo acabado. 

Carlos —Safa* isto é para endoidecer um homem! 
Se me demoro mais uma hora n'esta casa, vou decerto 
daqui para Rilbafolles' Expliquem-meejniimoqueque* 
rem de mim, o que quer dizer toda esta embrulha !a... 
Olà! olà.. . venha mais alguém, toda a gente, toda a 
gente de casa.. • 

IVUrianna — Agora, sr. Augusto, o meu coração é 
completamente seut 

Augusto — Minha senhora.. • 

CARLos--Que escuto Ah! tu atraíçoaste-me. Au- 
gusto?! 

Arc! STO — Socega, Carlos: olha que eu não estou 
mais ao facto d'esta historia . 

Carlos— Comprehendo. E' tudo intriga tua, para 
pilhar um bom casam^ nto, hein? 

AuíiíSTo — Por quem és, Carlos, não creias lai. 
Desde esta manhã, apenas, é que me vejo n'islo: cons- 
tituído em noivo, do pé para a mão, sem saber porque. 

Marivnna — A raz"o é obvia, /ssim como elle ca- 
sou no Rio de Janeiro com quem lhe pareceu, posso 
eu casar em Lisboa com quem fòr do meu agrado 

Carlos— Oh' minha senhora, não diga desproposi- 
tosl Aposto que foi este meu amigo de Peniche quem 
propagou similhante falsidade? 

Augusto - Eu I . . 

C\RL0s — Hasde arrepender-tel Não sei onde estou 
que não te imprimo já a cabeça na paredel 

Augusto— Então.. . então!.. . Ora esta! em que eu 
estou mettido! 

Maria>n\— D'eixe-o, sr. Augusto. Elle ignora que 
sua mulher saiu di lá; que veiu para Lisboa, e que por 
um feliz acaso.. . está entre nós. 

Car.os — Sabe que mais? enlrenós estou- eu; mas 
$e os não desatam depressa, dou por paus e por pedras!... 
já mo falta a paciência.. . 

Mari^nna— Faz o mal c a carawiwnAa. (Vmdo) Ora, 



PILATOS NO CREDO IS 

senhor meu primo, o melhor é dar as mãos á palmató- 
ria . . (para Augusto) Sr. Augusto. . • o dito, dito! {$ae) 

SCENA IX 

AuGcsTO e Carlos. 

Carlos — Então? , 

AiGUSTO — Que dizes a isto? 

Carlos— Que digo?.. • que és um infamei 

Augusto — Por quem és, Carlos, nao me condem- 
nes assim. Teu pae oiTereceu-me um emprego de guarda 
livros no seu escriptorio, sob a condição de acceitar 
por esposa a tua prima Mar anna: e todos n'esta casa 
acreditam que estás c sado, não sei se clandestinamente.. 

(íaiílos — Va'ha-os a fortuna! Casa-se então assim... 
sem a gente saber; e é-se pae como quem tem um ata- 
que de febre amarella? Mas aonde está então miuha mu* > 
Iher? 

SCENA X 

os MESMOS e PANTALEÀO 

Pantalfao — Tua mulher, uma vez que tu recusaste 
reconhecer teu filho, também recusa ver-te. Está lá 
dentro a chorar.. . que parece mesmo um ohafarizl 

Ca los— Meu pae é preciso acabar com isto por 
uma vez! Eu nunca èm dias da minha vida . • nem por 
sonhos. . . 

Pantaleão— Cala-te ahi, que até de te ouvir se me 
arripiam as carnes e os cabellos! Marido immoral, pae 
desnaturado.. . Casaste no Rio de Janeiro com um nome 
supposto, abandonaste tua mulher, e hoje recusas es- 
tender os braços a teu filho! . . E o mais foi que atrai- 
çoaste a prima Marianna.. . que eu amo como se fora 
minha filhai Es immoral, Carlos, muito immoralt 

Carlos— Então! Livrem-se lá de uma d'estasl. . . 
Oh! mas isto.. • parece até impossível.. . Uma mulher. 



16 PILATOS NO CREDO 

e um filho talhados ã queima roupa logo que ponho 
pé em terra! Segundo vejo os casamentos cà na minha 
terra estão-se fazendo por magia.. . e os Glhos deram 
em nascer como o arroz de telhado?! 

SCENA XI 

os MESMOS e UM CniADO« logo JDLIO DA S LYA 

Criado — Está là fora um sqgeito que deseja faliar 
ao sr. Pantaleão. 

Pantaleão— Como se chama? 

Criado— Diz que vem de França. 

PANrxLEÂo — De França? Manda entrar.(o criado me 
— enlra momentos depois Júlio da Silva: typo excêntrico, 
faltando a/rancezal , maneiras desabusadas) 

JuLio — Mr Pantaleon? 

PantaleXo — Pois não, um seu criado.. . 

JuLio — Capitaliste? . . • 

PANTALtÃo— .. liste. Queira senlar-'se, por quem é.. 

(JuIío senta-se) 

Carlos [á parte) — Creio que vi aquella cara a 
bordo do paquete. Era um pobre diabo que vinha sem- 
pre enjoado . . e constipado.. . 

Augusto {baixo a Júlio) — Tem maneiras de tolo. 

Pamaleão — V. s.* é?.. . 

JuLio— Jules de Silve, Vôtre serviteur. 

Pantalrao— Julio da Silva? 

AcGusTo — Júlio da Silva? 

Carlos — Júlio da Silva? 

JuLio — Servileur! 

Pantaleão — Portuguez? 

Carlos — Brazileiro? 

JiLio (a Pantaleào. — Comment donc?l Chega no 
paquebot e traz sobre vous une lellra pagável avista .. 

Pantaleào — Uma letlra pagável á vista? É a pri- 
meira coisa que diz em bom portuguez! 



PILATOS NO CREDO 17 

JuLio (apresentando a lettra) — Fot-tò. 

Pantalkão — Sim, senhor: está em regra, voo sa- 
tisfazer: mas.. * diga-me uma coisa, y. s^ entende bem 
portiiguez? 

JuLio— Qualquer cose,. . 

Carlos — V. s* chama-se JuIio da Silva? 

JuLio {levantando se)-- 0]\\ o príncipe deKossuth- 
tenber. . . 

Pantaleão— O que? 

JcLio — Mr. le princo.. . 

Augusto— Qual príncipe? 

Car os — Eu?1... 

Júlio — Eu acheté portrait de vosse a/íwse en Paris. 

Carlos— O meu retrato?... Mas eu não sou prin- 
cipe, senhor! Bravo, este agora quer fazer-me príncipe! 

JuLio — Eu ser amateur de photographiesy e com- 
prar porlion Entre elles, acheter portrait de vôtre altes- 
se, que tem nome por bjiixo. Oh! permettez, Mr.... 

Augusto É divertido este afrancezado, que com- 
prou a pholographia de Carlos pelado príncipe de tal.., 

Carlos— Pois meu caro senhor, cu sou tanto prín- 
cipe, conK) V. s • é francez. Se o vendilhão de retratos 
escreveu o nome do tal príncipe por baixo do meu re- 
trato, ou foi por engano ou para o vender melhor. 

Pantxleão — MaSi . 

Jui 10 — Serviteur. Eu estar prewé .. ter alguma pres- 
sa .. de realisar minha] lettra... 

Pantalcâo — Ora, uma palavra, v. s.* jà esteve no 
Brazil? 

Jul'o — Brazil, senhor? 

Carlos— E casou là? 

Júlio — Orror au mariage! Sapristil 

AcGiSTO— Ah' detesta o {casamento? 

Pantaleão — Temos homem. Mas o senhor chamâ- 
se Júlio da Silva, Júlio da Silva, hein? 

Ju iO-Plait-íl? 

AiGusTo — írabes que mais, Carlos; desconfio d*elle. 
Chama-se Júlio da Silva, veiu de Paris^ esteve no Rio 



18 PILATOS NO CREDO 

de Janeiro, e comprou o teu retrato.... Qaem sa- 
bei .... 

Carlos — Quem sabe!? 

PANTAUÃO-Com que entlo, senhor... Júlio da Sil- 
va» •> 

JoLio — Finissom-ent 

Pantaleão — Vou pagar-lhe a leltra; queira esperar 
um momento, [sae olhando muitas vezes para elle) 

SCENA XII 

CABLOS, JULIO, e AUGUSTO 

JuLio {á parié" — Estao a olhar para mim de um 
certo modo que... Qual historia! Não me conhecem... 
e acasos d'estes são raríssimos^ 

Augusto ^a Carlos) — O homem parece-me preoccu- 
pado! 

Carlos — Tens razão!... não sei que pense... 

AuGiSTO — Até me parece mais branco. 

Carlos — Olhou para a porta. 
• Augusto — Pelo sim pelo não, vamos tomando-lhe 
o. caminho. 

Caki.os — Sinto pas os, ahi vem meu pae. Mas eu 
não o deixo sair sem mais alguma explicação O homem 
chamar-se Julío da Silva .. 

Augusto— É verdade: o teu supposto nomel 

SCENA XIII 

os mesmos; pantatiXo com o menino em um braço, e 
dando a mão a juiieia, que traz uma pala de seda 

verde sobre os olhos 



Pantaleâo — Mr, Jules da Silva . voi la. 
JuLio— Z>« Vnrgeni? Ahl que vejo eu'. Será possí- 
vel? Que imprevisto acontecimento! 

PantalbXo — Affectos do coração também dão o seu 



PILATOS NO CREDO 10 

jaro como qualquer capital empregado. Creio qne posso 
entregar o capitai a resentando Julieta) e o juro (a/>re- 
sentando l'ie a creança) ao seu verdadeiro proprietário. 

JtJLio {de bocca aberta, com a creança nos braços) 
Riqueza inaudita! 

Carlos -O que? será possível.. . achou-se OnaN 
meute a palavra (i'este enigma? 

Jdlio— Julieta .. 

Julieta — Cada vez mais cega... por ti... apezar de 
tudo! 

JoLio (irónico) — Sou feliz.. * 

Carlos — ' nde là que essa felicidade tenho eugo- 
sado até agora. 

JcLio— O que? que diz este homem?!.. 

Pantaleão — Não admira; como v s.* enviou a sua 
mulher o retrato de meu filho, e como sua mulher é 
cega^ e não tem o gosto de conhecer as feições de seu 
marido, nòs todos investimos Carlos com os plenos pode- 
res e direitos que só a v. s* pertenciam. 

Càr os — É exacto. 

JuLio - Ohl isto agora é monstruoso^ é para endoi- 
decer* Senhora, com que direito saiu do Rio de Janeiro? 

Julieta — E com que direito me abandonaste, Jú- 
lio? 

JuLio— O seu castigo .. hade ser uma separação 
eterna. 

Pantal' Ão — Ah! a senhora hade viver muito bem 
com a herança de duzentos contos que tem por morte 
do padrinho. 

Juno— omo duzentos... (aparte) E eu que estou 
tão necessitado de fundos... 

Carlos (ó paríe)— Duzentos pontapés precisavas 
tu, meu estróina! 

Augusto (á parte) --Xieus meu casamento com a 
prima Marianna' 

JuLio -Julieta, meus senhores, confesso que tenho 
sido extravagante... Que mandei a minha mulber o re- 
trato... um retrato qualquer em logar do meu, porque 



SO PILATOS NO CREDO 

temia que em Lisboa soubessem do meu casamento... 
por motivos particulares. Queira desculpar senhor... (a 
Carlos) 

Cari.os — Essa é boa, não tem de que pedir-me 
desculpa: constituiu-me por momenlos marido de um 
anjo, sou eu que devo agradecer... 

Juno — Mau!... não me diga similhante coisa, que 
vou aos ares! 

Carlos (a JuHeta) — E peço desculpa av. ex* se 
n*esses breves instantes fui tão mau marido que nem 
ao menos a abracei! 

JuLio — Ah! nem ao menos a abraçou? Respirol 

Pantaleão (a Júlio) — Mas suou' suou deveras! 

AUGUSTO {aparte) — Adeus casamento coma prima 
Hariannal 

Juiio — Pois, Julieta, jà que tão singular acaso dos 
juntou, juro-te pelo nosso fllho que continuarei seni* 
pre a amar-te. 

Julieta — Assim mesmo cega? 

JuLio-Juro! 

Carlos (á parte) — Pudera! com duzentos contos... 
ama-se até uma tinhosa... 

Pantalkâo [a Carlos)'-E tu... desculpa algum ter- 
mo mais forte que empreguei... K Marianna, onde eslà 
Marianna? 

SCENA XIV 
os MESMOS, e marianna 

Marianna— Aqui estou, meu tio: tudo ouvi d'a- 
quella porta Ah! Carlos... 

Carlos — Comprehendo o teu suspiro, prima, tudo 
te desculpo. Eu bem te dizia que andava n'esia histo- 
ria como Pilatos no credo! 

Augusto (a Marianna) - M nha senhora, acceito a 
minha demissão. 

Pantaleão— Mas hade ficar com o emprego. E' mea 



PILATOS NO CREDO 21 

guarda livros. Pobre rapaz... jà que perde a moça... 
En cã sou assim. 

Mari\nna (a Julieta) — Abraça-me, minha amiga^ 
está tudo DOS eiíos e ninguém tem jà razão de queixa. 
Então jà viste o teu marido? 

• JuLio — O que? se jà me viu? Pois ella v6? Ai de 
mimt acha-me bexigoso... [adeus amores! 

Julieta {tirando a pala) — Quando Deusmerestitue 
níeu marido, seria injusto se me não tivesse concedido 
a vista para o ver! Sou feliz! 

JiLio — E eu. . eu mais do que mereçot Mas... é 
verdade. . agora reparo que estamos dando espectáculo! 
Tanta gentel... pois, meus senhores., {ao publico) 

«O Pilatos que andou n'este credo, 
«Por momentos me fez descorar! 
«Mas a culpa foi toda do enredo; 
a Que eu não sei, com franqueza enredar! 

«Mas, jà que tãó calados ouvistes, 
«Minha historia, pór elles contar, 
«Contentae-me dizendo que Vistes, 
«O Pilatos as mãos ir lavar! 

TODOS 

«Contentae-o dizendo |que] vistes, 
^0*Pilato8 as mãos ir lavar. 



WIU 



íM 






Trabalho e honra, comedia em três actos. — Preço. . 

A Aristocracia e o diuhciro, comedia em três actos ol 

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actoj sete quadros e um prologo 300 

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SOPHIA 19 » 

Ansblmo DUt 24 » 

POLTGAIPO 60 » . 

ESTItlO DIAS., 70 9 

Uma mulhh, de capa e lenço 

1/ HomM, de sobrecasaca e de capa 

S.* Hoyix, de fraqae 

Um lacaio 

Vn lAYAz^ que Tende cautelas , 

Criados 

ictvalídade 



DmiGNÁÇÃO DOS àCTOS 

l.« No bazatr. 
!.• Na sala. 
3/ Naraa. 

Po i.* ao S/ passa-se um dia; do t.* ao 3.^ dois. 



ACTOl 



I«0 BAZAAR 



(O theatro representa o interior de am rico bataar. Â direítt un 
biombo formando com a parede om pequeno recinto onde eatá 
uma carteira, uma cadeira e um cofre de ferro. Três portas no 
fundo, para a roa; e uma á esquerda, chapeada de ferro, queda 
serTcntia para a loja contigua.) 

SGLNA I 

^Ao levantar do panno, Polycarpo acaba de fechar o cofre, e vat 
entregar algum dinheiro a um homem ainda moço que está no 
centro da scena* O homem tem nos hombros uma capa.) 

PoLYCARFO (dando-lhe o dinheiro) — Uma libra. 

Homem (recebendo-a e voUando-lhe a$ costas) — É a 
conta. 

PoLTGARPO {tirando^lhe a capa dos hombros. — Adeus, 
roeu senhor, (o homem sae pela porta lateral. Polycarpo co» 
bre-se com a capa) Aquece que nem um brazeíro ! Gosto 
mais das capas que dos ponches. Mas. . . não venha elle 
por ahi.. . qual historial Em dez minutos perde a libra... 
passam-se quinze dias a liquidar outra; jogo te valha, e a 
capa é minha! Tenho por ahi tantas.. . E' celebrei desde 
que abri aquella porta, para os envergonhados, tem sido 
este anno uma inundação de ponches e de capas !. . . 

SCENA II 

POLYCARPO e a MULHER dc Capa e lenço 

Mulher — Dá licença, senhor Polycarpo? 
PoLTGARPO — Essa é boa, minha senhora. . . senhora ?.., 
Mulher — Rosa Brites Martha para servir a y. m.cè. 

1 



^ A RODA DA FORTUNA 

PoLTGABPO — Obrigado ao seu favor. 
MuLHKB — Eu venbo aquL. . 

SGENA III 

poLiCAtPO, a MiiLHKB, O O HOMBii ootrando apressado com 

um pequeno embrulbo. 

Homem — O senhor quer comprar estes óculos? 

PoLYCARPO — Dou quatro pintos por clles. 

HoMBM — Essa é boa ! pois se o senhor ainda não os 
tíu... {de$etnbrulkand0'09) 

PoLTGARPO — kit são brsncos?!.. . DoQ três pintos. 

HovBM — Essa agora é melhor ! de quatro passa a 
três !?. . 

PoLYGARPv (paro. a mulher) — Diga então o que quer^ 
minha senhora I 

MuLBEB — Eu vinha aqui ver se v. m.cé queria com- 
prar esta casaca»^ 

Homem — Enlão não chega aos cinco!? 

PoLYGABPO (á mulker) — Casacas t isso hoje está pela 
hora da morte t não deixa nada. 

HoMBM — Então, senhor ? não me demore. . . não que- 
ro que me vejam aqui. . . 

PoLYGAEPo — Descance, meu senhor, que muita gente 
boa aqui tem entrado I Não julgue que é s6 o senhor. 

HoMBM^-Pois, está bom. Tome ii os óculos. 

PoLYGABPO — Elles são d'estes que. . . {pegando-lhe) Ai, 
tome, tome. . . Não fazera arranjo. 

Homem — Então já não quer!?.. . 

PoLYCABPo — Por um quartinho, se lhe serve. 

Homem — Mas o seahor. . « 

PoLYGÀRPO {á mulher) — Traz ahi a casaca ? 

Homem — Mas senhor Polycarpo.. . 

Polycàbpo — Já lhe disse, roeu senhor: se serve, ser- 
ve. Eu não obrigo ninguém ! 

Homem — Ahi os tem. (aparte) Um quartinho são cinco 
paradas. 

PoLYCABPO {dando-lhe o dinheiro) — E é por ser para o 
senhor. 

(O homem sae pela porta lateral.) 



A RODA DA FORTUNA 3 

IluLHKB — Aqui esl a casaca, (descmbrulkando-a) Ert 
de um rapas fioo, janola/ olhe.. . olhe para a largura das 
mangas. O dito rapas meUeu-ae lá na hospedaria, eu alugo 
quartos, e vae depois. . . Veja que é toda forrada de seda, 
e que seda I Mas eomo ia dizendo a ?. m.cé, comeu, bebeu, 
e poz^se ao fresco até hoje ! Tae em oito dias. E eu, digo, 
Dada, isto é desaforo 1 Yi-lhe a casaca no cabide.. . e cada 
qual não pode ter o seu dinheiro empatado 1 Não 1 que os 
tempos não estão para graças. Quanto dá v. m.cè por ella? 

PoLYCABPO — 01be« para lhe faliar a verdade, eu não 
dou nada: roas o que lhe posso fazer.. . 

MuLHKs — Pois sim senhor. Tudo quanto fiser é favor 
que me faz. 

PoLYGAapo — Ha ahi alguém que me encommendou uma 
casaca, se apparecesse coisa capaz, e n'esse caso, se quer 
deixaNa Gear. . . 

* MuLHEB — Deixo^sim senhor. Então ahi lhe fica; e eu 
logo Yolto pela resposta. Adeus, meu senhor, {saê) 

(Polycarpo vae guardar a casaca n''uma gaveta.) 

SCENA IV 

POLTGABPO, só, depois EDUARDO 

PoLYCARPO — Parece que hade servir-lhc. Isto é por lhe 
fazer favor; que eu, a respeito de negócios d'estes. . . 

Eduabdo (entrando pela porta lateral) ^— Decididamente, 
quando ella começa a desandar não é possível ter-lhe mão ! 

PoLYCARPO — Olé! fallae no mau, apparelhae o pau! 

Eduardo — Parece incrível I Atê aos últimos cinco réis!... 

PoLYCABPO — Sim? pois a coisa ci está. 

Eduardo — Que coisa? 

PoLYCASPO — A casaca. E papa fina! 

Eduardo — Ahi esquecia-mc dar-lhe aquellc annel de 
que lhe fallei. Pouco vale, mas sempre vale mais do que os 
quatro pintos que me emprestou por elle. (dá-lke um annel) 

PoLYCARPO {dparte) — É um homem de palavra 1 que 
pena, não ter por lá mais d'es(es anneis! (alto) Ora, isto 
não era pressa.. . Então tem-se dado mal no primeiro an- 
dar? 

Eduabdo — Tão mal que lhe fiz cruzes á porta I Se sou* 



y 



i A RODA DA FORTUNA 

besse qoanto estou arrependido de lá ter entrado!. . Se 
nio ine iíTessem desinquietado. . . em oceasiio que tinha 
dinheiro^ e um bom jantar no estômago. . . 

Polycàbpo — Mas para que continuou?! 

Eduardo — Diz bem. Então que quer? ojogo tem isso!.. . 
Quem perde quer a desforra, e quem procura a desforra 
perde tudo ! 

SCENA V 

POLYCARPO, EDUABDO, e ANSELMO pela porta lateral 

Amssliio Diabo! já não tenho nada que empenhar! 

E de que modo heide começar a desforrar-me. . . (oeiufo 
Eduardo) Ah !. . . Ó Eduardo, empresta-me cá uma de do* 
ze para lá ir acima fazer uma yacca. Tem paciência.. * 

Eduardo — Voita-me de cima para baiio... dou-leo 
que me cair das 'algibeiras. 

Ansblmo — Está bom, está bom ! Estamos aviados com 
beca para o Porto. Eu também perdi tudo 1 Como hade ser 
isto, senhores !? (passeando) Não ha um diahp mais infeliz 
que eu* {parando de súbito) Ah ! que idéa ! Ó Eduardo, tu 
ainda tens um recurso. 

Eduardo — Eu ?! 

Anselmo — Sim! Aquella medalha de oiro que para aht 
trazes ao peito em ar de bentinhos. . . 

Eduardo — Nâo penses n'isso. Quando tivesse de ven- 
del-a ou empenhal-a, seria para comer, se me faltasse a co- 
ragem de morrer á mingua I Nunca para o jogo 1 

Anselmo — Ora que parvoíce, homem! Pareces-me crean- 

ça • • • . 

Eduardo {suspirando) — São prejuizos.. . 

Anselmo — Prejuizos? Eu chamo-lhe asneiras! Que 
apego tens tu a essa medalha?.. . 

Eduardo — Perdão, Anselmo: fallemos d'outra coisa. 

Anselmo — Pois sim: fallemos. Dá-me ci um cigarro. 

Eduabdo {dandO'Wo) — Filho único. 

Anselmo {accendendo umphosphoro e depois o cigarro) — 
Está bom, está bom 1 E a respeito do jantar de boje. . . Que- 
ro dizer; o jantar está para a ceia de hoje^ como o almoço 
d'amaDhã está para X. Olha que, assim mesmo, ainda ma 
recordo. . . Oh 1 n'esse tempo, almoçava-se, jantava-se e 
ceiava-se, por costume t Que bello tempo, ó Eduardo 1 Um 



A RODA DA FORTUNA B 

pataco de cigarros, uma de seis para o monte, e nm murro 
em qoem o levata. . . olha que tempo aquelle I Raposas por 
três direila.. . 

Eduardo — E por causa d*ellas andamos agora n'este 
bello estado i O estudo está para a pandega como a pande- 
ga para a miséria. Esta, agora. 6 uma proporção.. . 

Anselmo — Geométrica. Bem percebi. 

Eduabdo — Se nio fossem as pandegas, o anda d'ahi 
constante dos amigos. . . 

Anselmo — Obrigado pela carapuça. 

Eduardo — Seryiu-te ? 

Anselmo — Olha, o que não me serve é aturar mal* 
creados ! Isto é fallar-te com franqueza. 

Eduardo — Puz-te nm dedo na ferida; doeu^te a cons- 
ciência. . . 

Anselmo — Não doeu, não. Quem vae lá acima, ao pri- 
meiro andar, costuma deixar a consciência cá em baixo. Eu 
segui o exemplo. 

Eduardo — Fizeste bemt Do contrario, irias expôl-a 
ao remorso ! Anselmo, os degraus que conduzem á sala de 
jogo, elevam*nos, muitas vezes, ao nivel da forca t 

Anselmo — Belia coisa. Reflexões de moral com molho 
de lagrimas. E' um jantar económico, c muito hygienico I 

Eduardo — Estas lagrimas, Anselmo, provam-te. . . 

Anselmo — Que tiveste ferro de perder, nada mais. Isso 
é natural. Não estás ainda acostumado. . . 

Eduardo — Provam-te que me envergonho do que fízl 

Anselmo — Então que fizeste?! 

Eduardo — Eu te digo. Sabes que andava sem vintém... 

Anselmo — E' um mal epidemico. 

Eduardo — Que sollicitava um emprego, umarranjo. . . 

Anselmo — Andam todos assim. 

Eduardo — Diz o ditado tquem procura sempre acha» 
E eu achei o que procurava. 

Anselmo — Um emprego? 

Eduardo — Um arranjo, ahi para fora... Tratei de com* 
por o negocio, e recebi vinte moedajs. . . 

Anselmo — Não digas mais. 

Eduardo — Porque .fazes idéa do resto t Encontraste* 
me n'esse dia e convidaste-me para jantar. . . 

Anselmo — Vilão ruiml.. . 

Eduardo — Paguei o jantar.. . 



6 A RODA DA FORTUNA 

Ansblvo — Por que qniieste ! Ora abi esU . 

Eduauo •— Fiseste^ae beber mais.. . e do fim. . . 

Anixliio — E no (im viemos jogar. Grande coisa !. . . 

Eduàído — Perdi. Quiz desforrar-iue, no dia segaiotCp 
e tornei a perder! Continuei, boje, e forani*se as vinte moe- 
das I 

Anselmo — Meu amigo, são unhas do oflScio. . . Oiha, 
também, não ha muito tempo qae me succcdeu uma coisa 
muito eiquisita. Queres saber? Fui receber o importe de 
umas lettras do patrão, e. . . ietlras foram ellas. . . não te 
conto nada ! Isto de lettras tem que se lhe diga I 

Eduaxoo — E agora. . . 

Anselmo — Agora, o teu homem espera por ti, como 
o patrão por mim. Olha que os principies da matbelHalica 
.servem de maito nos usos da vida ! lia uma hora que esta- 
mos a fazer proporções I 

EouAaoo — O que te invejo é esse teu gente.. . 

Anselmo — Então que queres?! Se a roda da fortuna 
principiou a desandar, heide enforcar-me por isso? Não! 
Eu até já me' lembrei de roubar, por abi, algum diabo. . . 

Eduardo — Com que sangue frio falias no crime! 

Anselmo — Deixemo^nos de coisas $ loisas. Ladrões, já 
não nos livramos que nos chamem. E se não roubámos mais, 
foi por que não pudemos. Cá o meu systemaè «morra Mar- 
tha, morra farta» 

Eduardo — Oh I não foi, porém, com a idéa de roubar 
que dispus d'aquella somma: ao recebel-a, julguei que a 
fortuna me tivesse favorecido, e que podia, arriscaado-a, ga- 
nhar o dobro: porque, n'c8se caso, restiioia-a e ficava em 
Lisboa.. . 

Anselmo — Foi exactamente o que me succedeu com o 
importe da lettra; mas. sabes o que te digo? d'agttas pas- 
sadas não moem moinhos 1 E eu estou determinado. . . 

Eduardo — Se a fatalidade nos impelliu para o cami- 
nho do erro, lembremo-nos que o horisoote do crime é li- 
mitado, triste e sombrio como as abobadas do cárcere ! 

Anselmo — Ora adeus! Não ha por esse mundo tantas 
coisas que desmentem a tua lógica ? Queres que te diga ? 
Os ladrOes são os que. roubam pouco. E depois, que have- 
mos de fazer? morrer de fome. é absurdo I Por ultimo, que- 
res pôr a tal medalha no prego, para ir buscar, decente- 
mente, a desforra lá acima? Se não queres.. . adeus! 



À RODA DA FORTUNA 7 

PoLTGAftFO (quê 09 Um eitutado^ tocando sohn a etfa* 
doa de Edmardo, om voz baixa) — SeDbor Eduardo, siga um 
conselho de ruim cabeça; livr«r-se de mis companhias. 

Anskliio (a Ednardê) — lietta-lhe a medalhaoas anhasl .. 

Eduaido — Silencio! Vem grate. . . 

SCENA VI 
EDUARDO, poLYGAUYo, ANSELMO, a mulher de capa e lenço 

MuLUKa — Com sua licença, senhor Polycarpo; enlfojá 
tem alguma resposta para me dar? 

AnsblWo — Ai I at. . . ai. . . aqnella tos I. . . 

MoLHBR — Ora esperem !. . . Nio me engano. . {emami" 
nando Amelmo que lhe voUa as eostat) E' elle, é I. . . Agora 
è que vae haver aqui o bom e o bonito. Uma sua criada, 
senhor Anselmo Dias. . . 

Anselmo— Ó Eduardo.. . vamo*nos tiogaodo. . . 

Mulher — Que è isso! você quer raspar-sel Os lobos 
me comam se eu IhenSoderriçar pelas abas da quinzena... 

EofJARoo — Que è isso, senhora ?l Anselmo, que quer 
esta mulher? 

Molhem — Espere que eu lhe digo o que quero. . . Ora 
não ha !.. . 

Anselmo (a Eduardo) — Tu nao Tés? E' um cão.. . 

Mulher — Guarde lá os seus olhos franzidos para quem 
lhe tiver medo; ouviu sen janota? Eu cá, Rosa Brites Mara- 
lha, o que quero 6 que este senhor me pague o que comeu, 
senão., protesto que o heide envergonhar aqui t 

Anselmo — Senhora Rosa, v. m.cè tem razão; masn'es* 
te momento. . . 

Mulher — Hade ser já! Eu nio o largo sem você me 
pagar ! 

Anselmo — Mas attenda. . . 

Mulher — A tenda fica ali para baixo. Nio quero cá 
saber de coisas: quero o meu dinheiro. 

Anselmo (a Polffcãrpo)^^Ó senhor Polycarpo, empres- 
te*>me v. m.cè.. . 

PoLYGARiK>«-Gu?f Nem a duzentos por cento! 

Aissblmo (a Eduardo) — Ó Eduardo, como bade ser is- 
to!? Eu esgano aquelle cão 1 Estou sem vintém.. . vale-me 
peio amor de Deusi Bera sabes que sou teu amigo 1 Peço- 



8 A RODA DÂ FOftTUNA 

1 

te qve me Talhas.. . qae me Ures d'esU eartscaçio 

Eduaem — Mas, como posso eu Taler-te? valba-me Deus 
a mim, qae nio tenho vinten ! 

AifSBuio — Eu estou doa mesmos aparos. . peior aio- 
da, por que não tenho o recurso qae ta tens! ó Eduardo... 

Mllhbb — Então, Tem ou não tem dinheiro?! Eu cá 
estou de verga d'allo; e não arrio o patarraz 1 Tome sen- 
tido ! 

Anselmo (a Eduardo) — Que vergonha, Eduardo! Aqael- 
la vibora é da Ribeira nova, capaz de tudo 1 Ningaem tira 
partido contra um demónio d'aquelle8, quando solta a lin- 
gaa. . . 

EnuABDO-^Não sei, não qaero saber! Quem as arma, 
que as desarme !. . . Tu bem vès que não te posso ser bom... 

Anselmo — Empenhemos a medalha. Eduardo, faze-me 
este sacrificio. . . 

Eduaboo — Deixa-me« deixa-me ! tudo te faria menos 
isso! 

Anselmo — Pelo que tu mais estimas, Eduardo.. . 

HuLHEB — Então, Tocés despacham d'ahiT! 

Anselmo — Pelo que tu mais estimas. . . fsze-me o qae 
te peço, Eduardo I 

Edoabdo — Oh I basta I basta, Anselmo I Pelo qae eu 
roais estimo daria até a vida t 

HuLHBR — Ai que a temos travada t Yocés não acabam 
com essas reringas, e eu solto a língua, ouviram seus ja- 
notas ?. . . 

EouABDO — Senhora ! Veja com quem está faltando I? 

Mulher.^ Os grandes lord$$ que voeès são!. .^ Nio 
querem lá ouvir. . . 

Eduabdo — Este senhor vae pagar-lhc. E de que modo 
pagará t;oc^ os insultos que nos dirige ? 

MuLHEB — Não é insulto nenhum, cada qual pedir oqoe 
è seu ! E esta !? 

Eduabdo — Pedir por meios lícitos. 

MuLHEB — Não sei d'isso! o que quero é o meu dinhei- 
ro. E não se ponha você com mais aquellas, se não quer 
ouvir então o que é bom ! Olhe que Rosa Brites Martha quan- 
do solta a língua, é peior que o diabo. Entende ? 

PoLYCABPo — Está bom, senhora^ se quer gritar vá para 
a rua ! 

Eduardo — Anselmo, quanto deves tu a esta mulher? 



A RODA DA FORTUNA » 

MuLHBB — Doze mil réis, nem mais nem menos. 

Eduardo (a Anselmo) — E* preciso pagar-ihe. 

Ansblmo {baixo a Eduardo) — E' sim, infelismente i 

Eduardo {dando uma volta e tirando do fmío uma me- 
dalha amarella, volta junto de Anselmo s enírega-lWa disfar^ 
çadamente) Yae empenhaNa. 

Anselmo — Oh ! que generoso coração! Dize-me cá, sa- 
bes quanto vale? 

Eduardo — Nada. E' fazenda que nioguem aprecia. 

Anselmo — Ora, pois enUo se não vale nada. . • Olha, to* 
ma-a lá; íico-le muito obrigado ! 

Eduardo — Ea referia-me ao coração. 

Anselmo — Ah! e eu á medalha. Isso, sim! {tomando 
um gesto d'importancia e passando pela mulher) Senhora Bri* 
tes Martha, já lhe pago. (a Polycarpo) Dé-me uma palavra, 
senhor Polycarpo. {desvia-se com elle para o recinto forma^ 
do pelo biombo^ falla-lhe e mostra-lhe a medalha.) 

Eduardo {aparte) — Pedia-me pelo que eu mais estimo 
n'esta vida.. . que lhe recusaria eu.. . se eu estimo tanto 
Sophia ! {vae sair pelo fundo, encontra-se com D. Margari^ 
da de Castro e Sophia, que entram. Entretanto, Polycarpo 
pesa a medalha, toca-a na pedra^ depois abre o cofre, e dáo 
dinheiro a Anselmo.) 

SCENA VII 

polycarpo, e anselmo, do recinto formado pelo biombo, a 
MULHER de capa e iengo, eduárdo, a sair, d. margarida e 
sophia, entrando seguidas de um lacaio. 

Eduardo (aparte) — Ella e a tia ! 

Sophia [aparte) — Eduardo ! 

D. Margarida (ao lacaio) — Espera. 

Eduardo {aparte) — E' preciso comprimental-a. {alto) 
Minha senhora. . . {cortejando D. Margarida; depois Sophia) 

D. Margarida — Oh! não esperava ter o gosto.. . 

Eduardo {aparte) — Não disse de que! {alto) Nem eu, 
minha senhora. E', realmente, uma surpresa. 

D. Margarida {com maltcia) — Agradável, não? 

Eduardo — V. ex.* tem a certeza dos sentimentos que 
merece. 

D. Marúarida rrindo)— Tenho, é verdade I {deitando- 
lhe a luneta) Peço-lhe desculpa de não o ter favorecido. . . 



10 A IkODA DA FORTUNA 

SoPHiA (àp^urte) — Qoe diz ella? 

Eduardo (sem e^omprehendêr) — Nio tive a satisraçâo de... 

D. Margarida — E espero qoe não torne a dar^meoc- 
casíâo de nm tio vivo desgosto. . . por que os tempos.. . 

Edoardo {áparté) — Que veia d*estupidez com qoe es- 
tou I Não entendo nem palavra !. . . 

(N'esie momento ó interrompido o dialogo, pela 
presença de Anselmo.) 

Ansbliio (dirigindo se á mulher de capa elenco) — Prom- 
pio. {dá'lhe o dinheiro.) 

MuLHEB — Malditas libras! Em cada uma perde-se di- 
nheiro ! E' a conta. Pdsse muito bem 

Anselmo — Viva. {dando eom os olhos em D. Margari- 
da, aparte) — Aí que é a viuva ! Ó diabo! Ella ji ter/a fat- 
iado na carta a Eduardo? (cortejando) Minhas senhoras.. . 

D. Margarida (a Polycarpo) — Constou-me que o senhor 
tinha excellentes pérolas. Desejo comprar algumas. 

PoLYGAKPO — Sim, minha senhora. Vou mosirar-lhe as 
que ha. Tenham a bondade de senlar-se emquanto voa.. . 
{indo buscar as pérolas a uma vidraça) Bom ! aqui posso fer- 
rar a unha á vontade. 

Anselmo (a Eduardo) — Ó Eduardo, vem d'ahi. Sobe- 
jaram dez tostões. Vamos fazer duas vaccas, . . 

Edtjakdo — Deixa-me; por favor. 

Anselmo — Pois eu vou.. . E em sendo cinco horas, 
podes encontrar-me nos Irmãos-unidos. Convido-te para jan- 
tar. 

Eduardo — À minha custa. 

Anselmo — Qual historia. Verás que vou ganhar. (sfl« 
pela porta lateral.) 

SCENA VHI 

D. margarida, SOPHIA, EDUARDO, POLYGARFO, 

e o LACAIO ao fundo. 

D. Margarida {baixo a Sophia) — Vés, minha Sophia, 
a qualidade de gente com que Eduardo convive? Aquelle 
rapaz era caixeiro da casa Braga & Comp.* c roubou, ha 
dias, OS patrOes. E' um ladrão. 



k RODA DA FORTUNA II 

SoPHU (com ingenuidade) — Talvez qoe.Edaardo nio 
saiba. 

D. Mabgarida — Talves qae seja sen complice. . . 

SoFHiA — Ora !.. . 

D. Margarida — Aqui, no primeiro andar, ba uma sa- 
la de jogo. Eduardo veio talvez empenhar alguma roupa... 
para jogar. E' um jogador, por isso lhe nâo emprestei o di- 
nheiro, que, ha tempos, me mandou pedir n'aqnella carta... 

SoPHiA — E talvez que precissasse bem d'ellel 

D. Margarida — Gomo tu o defendes. . . 

SoPHiA — Eu?l. . . (aparte) Pobre Eduardo ! (suêviran' 
do.) 

PoLYCARPO — Aqui estio as pérolas, minhas senhoras. 
(mostrando- lhe os fios de pérolas) 

Eduardo {aparte) — Ella encarou-me e suspirou. . . 

D. Margarida — São boas.. . é preciso, porém« esco* 
Iher. . . {baixo a Polycarpo) Conhece aquelle cavalheiro, que 
ali está? 

Polycarpo — Cavalheiro? Só se íòr de industria.. . 

SoPHiA {baixo a Polycarpo) — Por que diz isso? 

PoLYGABPo — Por que é pobre como Job. Mas... assim 
mesmo, não é dos peiores, vamos com Deus. O seu maior 
mal é uma paixio que lhe conheço.» . 

SopHiA — Ah. . . conhece? 

Polycarpo — A paixSo; lá por quem ella é, d2o sei. 
Creio que é coisa que o obriga a andar mais puxado do que 
lhe permidem as posses.. . 

Eduardo {aparte) — Quem sabe se faliam de min. Con- 
vém cortar o dialogo; n'este logar, nlo podia ser bom I 
(alto) Nâo teria achado, minha senhora» um vendedor mais 
consciencioso. 

Polycarpo — Nem melhor fazenda I Isso é verdade. 

D. Margarida (para Sopkia) — Queres dois, ou três fios ? 

SoPHiA — Basta-me um. 

Eduardo — A singeleza è um dosprincipiosd'elegancia. 

D. Margarida — Quando não fór exaggerada, tanto no 
vestuário, quanto nas palavras. 

Eduardo — Eu distingo, minha senhora, o singelo, do 
simples. 

D. Margarida — Coofunde-os, por vezes, q\i^náo escreve. 
Nâo admira. O estylo epistolar é difficil. 

Sopuia {baixo a D, Margarida) — Wmhsí tia.. . 



It k BODA D\ FORTUNA 

Eduardo (aparte) — Esta linguagem. . . estas palarras 
tio accentttadas. . . {alto) Minha senhora, v. ex.* dá-me a 
entender qae me tem feito a honra de ler os meãs escriptos... 

D. Margarida — Ah.. . E* escriptor? 

Eduardo — Pelo n9o ser admira-me a censora com que 
▼. ex.* deseja obsequiar-me. 

D. Margarida (a Polyearpo) — Quero estes dois fios 
de pérolas. Quanto é?. . . {continua a faltar em voz baixa 
eom Polyearpo.) 

SopHiA (aparte) — Quanto mais o amo tanto mais ella 
o odeia 1 E ter que mascarar, constantemente, debaixo das 
apparencias mais frias, o sentimento mais vivo do meu co- 
raçlloi.. . 

Eduardo {aparte) — Nâo tornou mais a olhar!... A 
primeira Tez, foi por acaso ! Mas, aquelle suspiro que á flor 
dos lábios lhe veiu?. . . uma coincidência. 

SopHiA (aparte) — Perturba-se.. . . Amar-me-ha como 
eii o amo? 

Eduardo (timido) — Vae a algum baile, minha senhora? 

SopHiA (sobresaltada) — Ah.. . perdão, tinha-me esque- 
cido que estava ahi. 

Eduardo (aparte) — Em tudo sou infeliz I Oh I se ella 
sentisse por mim algum affecto, tratar-me-hia com esta in* 
differença ? 

SoPHiA — Perguntou*me, se gostava de pérolas, nâo?... 

Eduardo — Creio que sim, minha senhora. . . 

SoPHiA — Minha tia gosta muito! 

Eduardo — Mas r. ex.*? 

SopHiA {eom iniençâo) — Devo tantas obrigações a mi- 
nha tia que preciso seguir. . . (aparte) Comprehenderá elle 
porventura. . 

Eduardo — N'esse caso, não tem gosto seu? perdão; 
eu queria dizer que sacrificava sempre o seu gosto.. . 

SoPHiA — A conveniência. 

Eduardo — Esses sacrifícios custam e são louváveis.. . 
até certo ponto. 

SopBiA — Que ponto f 

Eduardo — O de não se tornarem fatacs. 

Sopeia — Desgostos não matam. . 

Eduardo — Physicamenle: mas partem-nos o coração.... 

SopuiA — Deus o concertará. A consciência é muitas 
vezes um medico excellenle. . , para as aSecçOes intimas. 



A RODA DA FOBTUNA II 

EovABDO {aparte) — Bslas palavras ! 
D. Margabida (a Polycarpo) — Estamos d'accordo. Creio 
qae é a conta.. . {dandoAhê dinheiro). 
PoLYCABPO — Exactamente. 

SGENA IX 

D. MARGARIDA, SOPHIA, BDUARDO, O LACAIO, OntrC pOrtBS, O 

MARQUBZ DB montalvIo, eolrando. 

Marquez {ao lacaio) — A senhora D. Margarida está 
aqui? 

Lacaio — Sim, meu senhor. 

Marquez (vindo d scena) — Oh ! {apertando a mão dê 
D. Margarida) Coroo está v. ex.*? (a Sophia idem) Venho 
surprebendel-as... comprando, talvez, muitos objectos de gos- 
to, (a Sophia) V. ex.* parece qae estava em ajuste. . . #aly- 
rico. 

Eduardo — Porem não chegava ao preço. 

Marquez — Oh 1 o senhor. . . Eduardo. . . 

Eduaboo — Barthoiomeu. (cortejando) 

Marquez — De?.. . 

Eduardo {aparte) — Não tenho um appellido nobre I 

Marqubz — Do que Deus fór servido, {rindo amável- 
mente) Então v. ex.% minha senhora.. . Está visto I prepa- 
rativos para o seu baile!.. . 

Sophia (a D. Margarida) —Mo convida Eduardo ? EU 
le decerto hade reparar. . . 

Marquez — Ah t sim. . . D. Margarida, como raridade... 

Sophia (sorrindo) — Para rir.. . 

Marquez {baixo a D. Margarida, tendo notado o ri$o a 
Sophia) — Convide-o sem receio. Ella não lhe dá attençSo 
alguma. 

D. Margarida {para Eduardo) — Até ámaohS, senhor 
Eduardo. Espero que nos dé o prazer de ir tomar uma cha- 
vana de chá comnosco. 

Marquez — E dançar uma schottich com a interessante 
Sophia.. . K um par muito egual.. , {lançando-lhe a luneta) 

Sophia — Na côr. 

Eduardo {aparte) — Ridiculisam-me ! 

D. Mabgarida — Vamos, marquez?. . . Chegou aj des* 
manchar da feira. 



16 A RODiL DJL FORTUN\ 

PoLYCAEPO — Souconscitttcioso. (aparte) Renego da for- 
tuna se cila é assim I .. . ^ 
Marqmz — Agora, desejava cooheccr quem lha vcd- 

dea. nT. 

PoLYCABPO — Nada í lá isso não, senhor marquez. Nao 

quero compromelier ningaem. , . ■ . „ . 

Marqubz — Não ba o menor compromeltimenlo. Bsla 

medalha nfio foi roubada. 

PoLYGAEPO — Mas ninguém gosta que se lhe ponham as 
calvas á mostra. Quem m'a vendeu eslava necessitado. - . 

Mabqubz (djwiríe) ~ Comprehendo 1 [alto) Senhor Pa- 
lycarpo, conheço o valor d*esta peça, e sabendo que a com- 
prei barato, junto mais cinco libras. . . 

PoLTCAUPO— V. ex.» quer lenlar-mt a consciência! 

SCENA XI 

POLYCABPO, O MABQUSZ, c ANSELMO, pela pofU lateral. 

Ansblmo — Não sei que torto me viu, que perco em 
todas as cartas!.. E* fatalidade! Parece qu« eslá alguém 

a torcer contra mim l j il i i \ 

Polycabpo {baixo ao marquez^ tndicanio-lhe AnselfM] 

— Ali o tem. 

Ansblko — Ó senhor Polycarpo, o Eduardo jà lá vae?... 

PoLYGARpo — Foi esperal-o para jantar. 

Anselmo (aparte, vendo o marqtiez)—Qne susto! ps- 
receu-me que era algum dos meus patrOes! 

Marquez (aparte) — ?ois será possível.. . {contemplan- 
do Anselmo) 

Anselmo (aparte) — Desconfio da moca! Não lira os 
olhos de mim! Mas eu vou-me raspando. . . 

Mabqubz (detendo-o) — Perdão.. . 

Anselmo {dparte) — Não sei o que adivinho... [alto] 
Eu tinha alguma pressa. . . 

Mabqubz {aparte) — Deve ter vinte c ires annosl.. . 

Anselmo {aparte) — Querem ver que me salta por am 
algum cão, sem ser esperado. . . 

Marquez — O senhor foi caixeiro dos senhores Bragas? 

Anselmo {aparte) --ki ai ai !. . . Adeus minhas encom- 
mendas I No limoeiro jantar*se-ha ? 



A RODA DA FORTUNA 17 

Marquez — Recordo-mc de o ler vislo, ha dots mezes, 
n*aqaelle escriptorio. . . 

Anselmo — Nada t Isso era, nataralnienle, um irmão 
que tenho. . . 

Marqucz — Ah l tem um irmio. . . (aparte) Perturba-se, 
está mentindo l {altg) Olhe, eu desejava dizer-Ihe algumas 
palavras cm particular. . . Negocio de seu interesse, e se 
quizesse dar-me o gosto de vir jantar comigo. . . 

Anselmo {aparte) — Bem percebo! o jantar é isca. . . 
(alto) Agradecido ao seu favor; mns o meu estômago ..sim, 
eu padego alguma coisa do estômago. . . {aparte) Quando es- 
tá vasio!.^ . 

Marquez (aparte) — Perturba-se e desconfiai E velha- 
co! (alto) Então ? o carro está á nossa espera. 

Anselmo {aparte) — Estou entre a cruz e a caldeirinha. 
Nada I isto é marosca l Ora que tntalação esta, senhores! 

Maeqdez (dando-lhe o braço) — Venha que não bade 
arrepender-se. Preciso de um trabalho de escripta. Sei que 
tem boa lettra; e asseguro-lhe que nos entenderemos per- 
feitamente ! 

Anselmo — EmPira. ,. cpmo v. cx.* exige... {aparte) 
Isio SC não f-ôr uma grande pouca vergonha haJe ser uma 
fertuual Quem não arrisca, não ganha! Animo! {alto) Es- 
tou á sua disposição, senhor marquez. {saem pelo fundo) 

SCENA Xíl 

polycarpo só, depois eupjaroo 

PoLYGARi»o {que os observou durante o dialogo) — A me- 
dalha comprada a olhos fechados ! Cinco libras, para saber 
quem m'a tinha vendido !,.. Tacto ! aqui ha rato ! Mns que te- 
nho eu com as vidas alheías?Deus permítta qac chovam me- 
dalhas e que haja muitos marquezes assim. Olé. . . quem 
teremos agora?.. . 

Eduardo (voltando pelo fundo) — Anselmo pelo braço do 
marquez de Montalvão! Eraelle, era ! Até medisse adeus.*., 
e lá sobe para o caleche.. . lá partem.. . Que myslerioé es- 
te, pois !? (vindo para a scena) Ó senhor Polycarpo, Ansel- 
mo esteve aqui?.. . 

Polycarpo — Esteve, sim; esta casa é o passadiço da 
sala do primeiro andar. . . olhe que admiração ! Elle então, 
que entra e sae trezentas vezes por dia. . . 

9 



18 A RODi Vk FORTUNA 

Eduaaik) •:-* Mas. . . perdão, não é isso ^ae lhe qaerrar 
perguntar. . « Tenho a cabeça em tal estado. . . E ámanhi a 
baile, e en sem vintém !. . . O marquez também aqni esteva? 

PoLTCARPO — E d'aqQÍ saiu com o senhor Anselmo. 

Eduabdo — Pois elles eonbeeiam-se ?! Que devo eu pen- 
sar ?. . . 

PoLYCARPO — Que o sen amigo Toi jantar com o marr- 
quez. É dar um passo no caminho da fortuna. Agora« a res- 
peito do nosso negocio, tenho ali a tal casaca.. . vou mos- 
trar-lh'a. {vae buscal-a) Ora experimente. 

Eduardo — Que remédio. . . não pos30 fatiar áquelle 
baile 1 Isso hade servir. . . 

PoLYGABPO — Experimente sempre! (aparte) Fazer di- 
nheiro de todos os modos. E além d'isso, ínteresso-me por 
este pobre diabo. 

(Eduardo pega na casaca, exa mi na-^a. despe a qamxeaa e vae enflar 
o braço, porém mette-o na algibeira fartada ) 

Eduardo — Enfiei o braço pela algibeira! Ah!.. . ama 
carta ? {ao tirar o braço cao uma carta^ e elle levanta-a^ len^ 
do o sobreescripto) clll.'"* senhor Eduardo Bartholomeu» 
{declamando) O meu nome I . . . Logo, posso ler. . . (abrin^ 
do-a e lendo) cEm resposta á sua carta, só tenho a dizer- 
lhe que não me é possível emprestar-lhe os duzentos mil 
réis que me pede. Ainda que tenho alguma fortuna, não é 
para despender com vadios e jogadores I {declamando) Ah t 
Eu enlouqueço I. . . Mas, de quem é. . . de quem é esta car- 
ta ?.. . {vendo a assignatura) D. Margarida de Castro, (de- 
clamando) Porém eu não pedi nada a esta senhora 1.. . Isto 
é uma falsidade í £' uma intriga ! Comprehendo, agora, as 
suas palavras equivocas. . . Ah ! minha senhora. • . minha 
senhora I. . . um vadio^ um jogador. . . Insensato t E que soa 
eu^ eu que não tenho um emprego? Eu, que joguei, e que 
joguei o que não era meu I 

PoLYCARPO — A fallar a verdade. . . 

Eduardo — E esta carta. . . aqui! B' claro que alguém 
escreveu em meu nome ! Que infâmia ! (a Polycarpo) Oh ! 
diga-me de quem era este fato. . . 

PoLTGARPo — Para que?l Para fazer intrigas! O senhor 
bem sabe que não é dos meus costumes. . . 

Eduardo — Quero que m'o digal 



X HODA DA FORTUNA 19 

t^oLYCARPO — Isso não lhe faço eu. Socegae, sirva-se 
d^ella, amanhã, por um quartinho, que é por ser para quem 
é ! e o dono não bade envergonhal-o. 

Eduardo — Oh! tudo, tudo se junta para me perder! 
mas se eu conhecer o infame que, assim, abusou do meu 
nome. . . 

SCENA XIII 

EDUABDO, POLYCAUPO, BAPAZ daS CaUteUs, 

entrando pelo fundo. 

Rapaz — Vàl uma de seis que è o resto! Fique-roe 
com esta que é o resto. . . (para Eduardo) 

Eduardo '—Vae para o inferno! Deixa-me. . . Oh t se 
eu conhecesse o infame. . 

PoLTGARPO {irónico) — Quem sabei talvez seja algum 
amigo seu. 

Rapaz — Ora.. . fique-me com esta que é o resto, {of- 
ferecendõ a cautela a Ednardo^ que lhe faz um gesto amea- 
çador) Aqui está como se dá um pontapé na fortuna ! {cor^ 
rendo para o fundo e saindo) Sortes 1 Sortes 1 Quem se ha- 
bilita ás sortes I?. . . 



Coe o fonno. 



ACTOn 



HA H.\Ké\ 



(Salões ricamente mobilados em easa de D. Itargatidt 

de Gasiro. È dia.) 

SGENA I 

(Ao levantar do panno, D. Margarida está sentada. O manpiex, em 
pé de cbapeo na mio, eomo quem vae sair. Siophia passeia na 
segunda sala, pelo braço de Anselmo r) (*) 

D. Mabgarida — Visto isso, D. José, descoaSa (|tte é 
elle? 

Mabqubz-— Nega sempre! porém... não posso darí- 
darl E' elle! Oh! abençoado momento em que chamou a 
minha atteoção para aqaellas joías, hontem, no bazaar de 
Polycarpo! Creia que tiro am peso da consciência.. . 

D. Margabida {guêfiranio) — Pudera eu farer outro 
tanto. • . 

Marquez — Era sobre mim que pesava o remorso. 

D. Mabgarida — Cada qual sente por si. E só tu, D. 
José. . . só tu podias, com uma palavra, dar-me o prazer de 
o abraçar! 

Marquez — Os annos teem-me tornado sceptico. . . nlo 
creio avesse prazer. 

D. Mabgabida — Duvidar do affecto maternal!.. . 

Marquez^- Que nunca appareceu senão hoje! 

D. Mabgabida — Por qae estava suffocado.. . 

Harqubz — Por que não existia. 

D. Maboarida — Dormia sob a idéa de ter perdido o 
meu filho. 

(•) Anselmo» está vestido com luxo exaggerado. 



À RODA DA FORTUNA 21 

HÂRQuiz -^ Nós discutiremos com ragar essa questSo. . . 
esse projecto d'amor roaieraal. Ora.. . ha vinte e tres ao- 
oosi... Emfim, respeite aquellas inclioaçdes. {indicando^ 
lhe a sala do fundo) Olhe que é o meu herdeiro. E até logo. 

D. Margaeida — Não tarda ? 

Marquez — Vou fallar ainda a Polycarpo, e voltarei 
breve, {corteja t sae) 

SCENA II 

D. MAKGARIDA, SÓ, dcpois ANSELMO 6 SOPHIA 

D. Margarida — Esta coroa de marqueza que pula cons- 
tantemente diante de mim!.. . Este titulo de nobreza, que 
sempre me fascinou.. . que por uma vez julguei alcançar... 
e que ine fugiu até boje. . . ha vinte e tres annos !. . . e que 
torna a aproiimar-se. . . Oh 1 Eu o segurarei d'esta vez ! 
Se o coraçSo da donzelia era fraco, a vontade da mulher 
será forte! 

(N'este momento, Anselmo entra, dando o braço a Sophía) 

SopBiA {baixo a Anselmo) — Não tenho duvida alguma. 
Entretanto é preciso entender-se com o seu amigo, no sen- 
tido que lhe disse. . . 

AifSELMO — Descauae. Heide entender*me perfeitamente 
com elle. Escrevi-lhe, e espero-o por instantes. 

SoPBiA — Então, vou buscar o que lhe disse, e espero 
que advogue a minha causa, de modo, porém, que nSo o 
escandalíse. 

Anselmo — Fique descançada. 

SopHiA (largandO'lhe o braço) — Até logo. (aparíc) Coi- 
tados dos pobres d'espirito 1 d'elles é o reino do ceo. (sae) 

Anselmo {aparte) — Que fortuna! (vendo D. Margari- 
da) Ah.. . V. ex.' estava aqui?!.. . 

SCENA III 

ANSELMO, C D. MARGARIDA 

D. Margarida «~ Não se perturbe. Approvo as felizes in- 
clinações que vejo nascer entre o senhor e minha sobrinha. 
Anselmo {aparte) — Casta isempçâo. no género das lias! 



n A ROBi DA FORTUNA 

Desde bontam que a roda da fortuna gira para o iBe« fa- 
do, com tal Telocidade, qae nem me dá tempo de entender 
bem o qoe se passa ! {alio) Realmente, minha senhora, pa- 
rece incríTel qae tendo sido apresentado a v. ex.*, apenas 
esta manhã. . . 

D. Uargarida — Os mais puros aflectos aio os que 
nascem de momento i 

Anselmo {aparte) — Sim, eo qaeria segnrar-me por es- 
te lado, por que me parece pocco firme o terreno em qae 
me collocou a fortuna, (alto) Y. ex/ è muito amayell 

D. MAacAaiDA {aparte} — Irónico e lisonjeiro como seu 
pae *• (alto) Senhor Anselmo. . . 

Anselmo — Minha senhora.. . 

D. Maroaeida (aparte) — Em vão procuro n'aimaoaf- 
fecto que esle rapai devia merecer-me. É um mysterto da 
natureza !. . . 

Anselmo (aparte) — Embirro altamente como esta mu- 
lher, sem saber porque 1 Lembrar-me que recusou empres- 
tar uma ridicularia de duaentos mil réis t. . . 

D. Margabida — Senhor Anselmo.. . 

Anselmo — Minha senhora?.. . 

D. Mabgabida (apar(e) — Eia! eeragem! (alio) senhor 
Anselmo. . . 

Anselmo (rfparl^) — Terceira vez l (alto) Minha senho- 
ra. . . {aparte) Eu creio que nenhutt ile nós está no sen ele- 
mento. 

D. Margaiida — Quando duas pessoas ae encontram pela 
primeira vez, no caminho da vida, senhor Anselmo... {aparte) 
Anselmo! Com que nome o foram baptisart um nome vil- 
Ião!.. . 

Anselmo -^V. ex.* dizia que? 

D. Margarida — Queria perguntar-lhe. . . Não era is- 
so; olhe, escute. 

Anselmo {aparte) — Estou aqui, estou fazendo-me atre- 
vido.. 

D. Margarida {indieanio-lhB um lugar no sophá) — 
Queira ouvir. . . 

Anselmo {indo sentar^se ao lado d'ella) — Sou todo ou- 
vidos. 

D. Margarida — Quando duas pessoas se encontram, 
pela primeira vez, no caminho da vida, sentem forçosamente, 



k RO»A DA FORTUNA 23 

anil impressSo favorável ou desfavorável, a respeito uma 
da oQtra.. . 

Anselmo — Convenho, minha senhora, e não sei com 
qne palavras exprima a que v. ex/ me produziu. . . 

D. Maegarida (aparte) — E' a voz do sangue que falia ! 

Ansbluo (aparte) — Mentir é um principio d'amabili- 
dade ! 

D. Mabgarida — Senhor Anselmo.. . isso que me disse 
é exacto? 

Anselmo (aparte) — Onde iremos nós dar com os os- 
sos, se vamos por este andar?! 

D. Margarida — Diga.. . 

Anselmo — Eu lhe digo, minha senhora... V. ex.S 
apezar de ter mais edade. . . (aparte) Qual será mais rica, 
a tia ou a sobrinha?! 

Margaeida — Então ? 

AnsELMo — Pode ter a certeza que o meu coração. . . 

I). Margarida — Oh! já que me fallou do coração, pe^ 
ço-lhe que o interrogue muito. . . muito ! Ha entre nós um 
segredo que é preciso esclarecer! Estamos n'uma posição 
falsa de qne precisamos sair. 

Anselmo (aparte) — Ora esta I que devo pois entender... 

D. Margarida — Ha uma ferida no meu coração^ que 
é preciso curar. . . 

Anselmo (muito admirado) — Mas, que quer v. ex/ que 
eu faça ?. . . 

I). MAitGAEiDA — A mão da minha sobrinha será o 
preço *do que (izer para curar o meu soiTrimento. 

Anselmo — Porém, diga, minha senhora, diga que dia- 
bo è isso que quer que eu faça. . . 

D. Margarida — Que vá lançar-se aos pés de seu pae ! 
que lhe supplique^ pela sua honra... por tudo, Anselmo, 
por tudo que lhe lembrar, que cumpra a sua palavra, ha 
vinte e quatro annos compromeltída ! Que não zombe por 
mais (empo da minha affeiçâo^ nem despreze estas lagrimas... 

Anselmo (no auge do espanto) — Pois meu pae. . . (apar- 
te) Oht que maganão de pae! (alio) Basta, basta, minha 
senhora: dou-lhe a minha palavra. . . Elle é viuvo. . . Oh f 
minha querida senhora, parece-me que já posso ter o gos- 
to de lhe dar o titulo de mãe ! 

D. Margarida — Será a sua felicidade, Anselmo, e a 
minha I (aparte) Realisar o meu sonho, -preencher toda a mi^ 



24 A RODA DA FORTUNA 

nba ambiciol Ohl.. . {alto) Desculpe-me. . . {retiranãa-se 
áparU) Veremos quem vence agora, senhor marqaez de 
Montalvão ! 

SCENA IV 

Anselmo (só) — Se isto não è uni coato das mil e ama 
noites, não sei que lhe chame! Com que então o senhor mea 
pae, com aquelles óculos verdes e o seu bigode branco, faz 
pular, assim, o coração d*esla bicha de rabiar?! Vão lá fiar- 
se nos velhos ! Não; que elles agora são peiores que nós 
outros! muito peiores/ Está dito, vou escrever-lbe para cá 
vir. E que arranjo este para a faroilia ! O pae com a tia, e 
cu com a sobrinha ! Realmente que me parece um sonha! 
O marqucz declarando-se meu protector, dando-me dinhei- 
ro ; Sophia attendcndo a minha confissão; D. Margarida & 
querer casar com meu pae!.. . Bem certo è o ditado que 
ca fortuna è cega» Vamos a isto.. . ali ha papel epennas... 

SCENA V 

ANSELMO, sentado a escrever, sophu, entrando 

SopHu — Estou de volta, senhor Anselmo. 

Anselmo — Faz favor de ir dizendo, emquanto escrevo? 

SoPHiA — Pois sim; escreva á sua vontade; não faça ce- 
remonia. Esteja como na sua casa. 

Anselmo — Vá dizendo, vá dizendo; eu não escrevo com 
08 ouvidos, (escrevendo) 

Sophia {aparte) — Não parece Olho do marquez ! E que- 
riam endossar-me esta firma /? E' lettra que não desconto 
nem a meio por meio ! Um incivil, pedante e presumpçoso, 
sobre o ser malcreado a não mais ! (rttido) Oh I eu lhe da- 
rei uma lição de espirito, que o hade corrigir para o fu- 
turo! 

Anselmo {levantando-se) — Já lhe dou atlenção, mioba 
senhora. . . 

SoPHiA — Quando queira. Para quem è essa carta? 

Anselmo — E' cá um negocio. . . 

SoPHiA {tocando o reclamo^ diz ao criado que apparece) 
— Receba as ordens d'este senhor. 



À RODA DA FORTUNA SS 

Ansblvo {ao criado dando-lhe uma carta) — Leve esta 
carta, a correr, ao beco do Imaginário n.* I. 

(O criado recebe t carta e sae.) 

Anselvo {vindo para a scena) — Agora, eslott ao sea 
dispor, minha senhora, {aparte) Já não é preciso ser delica- 
do; isto é negocio feito. . . 

SoFHiÀ — Moito bem. Recebi, como lhe disse, algumas 
insinuações a seu respeito, que muito estimei por que 
sympathiso com o senhor. Sou orphã; devo muitas obriga- 
ções a minha tia; devo ao marquez a tutela da minha for- 
iuna, que nas suas mãos tem augmentado; e nSo quero ser* 
lhes ingrata, rejeitando, sem motivo, essas insinuações que 
n&o me contrariam. Preciso pois dispór-me a ser sua ami- 
ga, e a maior prova d'amizade que lhe offereço, reduz-se 
ao acto de confiança que vou praticar. O seu amigo Eduar- 
do, sendo um d'esses rapazes elegantes, que das mais pe- 
quenas coisas sabem tirar partido aos olhos de uma rapari- 
ga, que não tem pretençõcs de passar por santa, mereceu- 
me, um dia, um olhar, talvez mais demorado, mais expres- 
sivo. . . 

Anselmo — Sim?! pois olhe que olhou para boa peça, 
não ha duvida ! £' um tal especulador de olhos. . . 

SopHiA — Depois soube que era pobre.. . 

Anselmo {enfatuado) — E, já se sabe, deu-lhe de mão ! 

SopHiA — Porém, clle insistiu.. . 

Anselmo — E' o seu costume ! teimoso, até ali i 

SopHiA — Faz-me rirl Escreveu-me; tornou a escrever.. . 
Depois disse-me que, para evitar que lhe interceptassem as 
cartas, iria depôl-as á meia noite debaixo do portão, e que 
as mandasse eu lá buscar por uma criada de confiança; em- 
fim, mandou-me este annel. . . {rindo) Ora vejam para que 
quero eu o annel?.. . Basta, poupemos o pobre rapaz. Ago- 
TB, senhor Anselmo, entrego nas suas mãos este symbolò de 
uma alliança que não me convém, e peço-lhe que o resti* 
tua da minha parte a Eduardo, dizendo-lhe. . . 

Anselmo — Entendo I Que tire d'ahi o sentido. 

SopHiA — Por boas maneiras. . . 



M A RODA DA FORTUNA 

knwnMO — Deixe-o comigo. Estoa i espera d*elle, e... 
deize-o, deíxe-o comigo. 

(N'este BOBeiito apptrece um criado) 

CftUDO (annunciando) — O senhor Eduardo Barlholo- 
meu. 

SoPHiA — Ah.. . 

SCENA VI 

SOraiA, ARSBLMO, O EDUARDO 

Anselmo (aSophia) — Uè-me o braço. 

(Sophia dá*lbe o braço e passeia com elle pela scena 

ríodo e coiivcrsaDdo) 

Eduabdo {entrando e vendo-os) — Que qaer dizer esU 
intimidade I? 

/'N*este momento Anselmo e Sophia passam por elle, 
dirigindo-se para a aala do fundo) 

Anselmo (côtn desdém) — Ah. . . és tu ? já te dou allen- 
cão. 

Eduardo {cortejando Sophia, aparte) — Estarei sonhan- 
do !?. . . (vem para a scena) 

SCENA VII 

EDUARDO, SÓ, depois ANSELMO 

Eduaado — Eu acabo por endoidecer! Anselmo passean- 
do por aqui, como nós por nossa casa; Sophia pelo seu bra- 
ço, rindo e conversando como se o conhecesse ha muito 
tempo I.. . Meu Deus! meu Deus.. . quem me explicará. . 

Anselmo {entrando pelo fundo e fechando as portas) — 
E quem sabe explicar os caprichos da Tortuna? Recebeste a 
minba carta? 

Eduardo — Recebi sim; que me queres? 

Anselmo — Quero.. . quero fazer-te feliz. 

Eduardo — Fazer-me feliz !? 



A RODA DA FORTUNA t7 

Ansblmo — Sim ! então que ha para admirar, em eu 
querer fazer-te feliz? Quando o homem sobe, nao deve es- 
quecer-se dos que ficaram cm baixo. Era teu amigo; que 
muito é que me lorne agora teu protector I? 

Eduardo — Meu protector I? 

AnsELHO — Sim! sim! Diabo... Parece que oio en- 
tendes portuguezl A pobreza podia representa r-se por um 
ponto de admiração. 

Eduardo — Então, estás rico ? 

Anselmo — Arranjado, arranjado. 

Eduabdo — Choveu-le dinheiro?! 

Anselmo — Levei um pontapé da fortuna, que me ati- 
rou para cima doestes sophás. {sentorse) 

Eduardo — Ensinas-mc por que preço cila vende os 
seus pontapés ? 

Anselmo — Senla-te para aqui, e vamos a coutas. Tu^ 
já se sabe, estás sem vintém !? È escusado perguntar. Olha, 
a faliar a verdade, és um pobre diabo que me fazes dó. 
Dize*me uma coisa. Tu, és orphão, não é assim? Tinhas-me 
dito que foste creado. . . cm casa de uma madrinha que te 
dava surras quando eras petiz. . . 

(N'este momento entra umeriado trazendo uma bandeja de prata com 
duas garrafas de vinho e biscoitos, que põe sobre uma mesa em 
frente do sophá, retírando-se depois.) 

Eduabdo — E já mandas aqui como nós em nossa casaf 

Anselmo — Isto naturalmente foi lembranga da Sophia 
para obsequiar-me. {vendo ai garrafas) Vinho do Porto I 
{enchendo os copos) Bebamos. Muito bem; agora, tratemos 
de negócios. Olha, Eduardo, é preciso faílar-te com fran- 
queza. A franqueza é o meu elemento, bem sabes. Pois, como 
te disse, mudei de posição. . . 

Eduardo — E que posição tens agora ? 

Anselmo — A posição que tenho. . . {aparte) Verdade 
seja, eu não percebo qual é ! {alto) Sim, a minha actual po- 
sição. . . Deixemo-nos de coisas ! (batenda no bolso) Aqui ha 
dinheiro! 

Eduardo — Deus sabe por que preço, Anselmo! 

Anselmo — Ora essal Cuidas?.. . que diabo cuidas lu?l 

Eduardo — Representam-se, por vezes, nas classes me** 
dias e ricas da sociedade, dramas terríveis. . . 



A RODA DA FORTUNA 

Aksilmo— Nada, nada! ci, ningaem pensa em Ulf 
Olha, o negocio 6 este. Lá vae, sem prologo, a historia. Es- 
tou para me casar com Sophia. 

Eduardo (levantando-se) — Tu?!. . . 

Ansblmo {offereandoAhe) — Come um biscoito.. . 

Eduaido — EntSo disseste-me. . . 

ANSELMO — Que me caso com Sophia. Caso-me, sim ! 
Ji Tés que A preciso entender a coisa ao pé da letlra. e 
deixar de a apouquentar com as tuas declarações, com as loas 
dadivas. . . 

Eduardo — Que diabo estás tu abi a dizer!?.. . 

ArfSBLMO — E olha, para te provar que não inveolo, 

?[ue não ponho de minha casa, dize-me. conheces este anoel? 
moUra-Wo.) 

Eduardo — E' a primeira vez que o vejo I 

Anselmo — Ora nlo te faças de novas 1 Est« annel é o 
que tu mandaste a Sophia 1 Tem paciência; elladevolve-t*o. 
Anda lá: abi o tens. [entregando-lh^o) 

Eduardo (pensativo, pondo o annfl no dedo) — Dar-se- 
ha caso que eu seja tolo !? 

Anselmo — Tolíssimo I 

Edua rdo — Ainda mais do que tu?! 

Anselmo — A prova é que pensaste que Sophia secan- 
çava em ir ou mandar procurar as tuas cartas debaixo do 
portão, á meia noite ! Se soubesses como se riu quando m'o 
contou. . . 

Eduardo (comprehendêndo) — Ah ! sim ?. . . {aparte) Fi- 
co sabendo ! 

Anselmo -^ Isto è de tolo! Tem paciência, meu pobre 
Eduardo, tira d'ali o sentido; e se queres que te proteja, 
toma juízo. 

Eduardo — Sim, preciso ter juízo e prudência! (apar- 
te) Obrigado, obrigado, Sophia, por esta prova d'affeiçâo, 
{beijandê a furto o annel) que tão graciosamente me oflfere- 
cesi 

Anselmo ^m dignidade e$tudada) — Eduardo, nã« é 
dado ao homem adivinhar os caprichos da fortuna; e lodo o 
homem.. . sim, todo o homem, ou, para melhor dizer, os 
homens todos, devem subjeilar-se de cara alegre. . . {chulo) 
£ por isso, não te desconsoles ! 

Eduabdo — Não, não me desconsolo! Tenho bastante 



A RODA DA FORTUNA 19 

philosophia para solTrer d'estes revezes. Sophía despreza-me, 
e eu também a desprezo I 

Anselmo — Bravo .* 

Eduardo — Vou dar-le uma prova.. « 

Anselmo — Toma um biscoito, {offerecendo-lhe e co- 
mendo) 

Eduardo — A prova é remeller-lhe também um annel 
que me tinha dado. Eil-o aqui. E, em vista da bondade que 
tiveste, rogo-te que iiro restituas da minha parte. 

Anselmo — Dá cá . (guardando o annel) Mas, hasde 
prometter-me. . . 

Eduardo — Qoe está tudo acabado? Pois não vés?i 
(aparte) Coitados dos cegos i 

Anselmo — Muito bem I Agora, venha um abraço; e, se 
precisas de dinheiro. • . Eduardo, entretem-te por aqui um 
instante, emquanto vou perguntar pela resposta de uma car- 
ta que mandei. . . A propósito, dou-te a noticia do próximo 
casamento de meu pae com D. Margarida. 

Eduardo — Ora essa !?. . . 

Anselmo — E' o que te digol Podes acreditar. 

Eduardo — Estás caçoando comigo ! 

Anselmo — Yél-o-has. O caso não tem outra explica- 
ção: D. Margarida ama-o ha vinte e três para vinte e qua- 
tro annos ! Então ficamos d'accordo, se precisas de dinhei- 
ro. . . Tu tens uma casaca muito bem feita ! caspUè í Ainda 
agora eu reparo. . . ($urprekendendo-se, aparte) Já me tinha 
dado na vista ! E se o meu olho me não mente.. . é a mi- 
nha casaca !. . . Não ha que duvidar. . . 

Eduardo — Âcha-la boa? (aparte) Que suspeitai.. . 

Anselmo — Pudera ! (rindo) Tem, ahí na manga esquer- 
da, uma farpa muito bem serzida. 

Eduardo (aparte) — A suspeita verifica-se ! (allOy exa- 
minando) E é verdade. . . que vista ! (olhando fixo para An- 
selmo,) 

Anselmo (rindo) — Ora o que são as vissicítudes d'esta 
vida ! Mal sabia a minha casaca. . . (rindo) Que tinha de vir 
um dia visilar-me. . . (rindo mais) Uma casaca nunca sabe 
para que foi feita ! 

Eduardo (tirando da algibeira a carta que ahi achou, 
no final do primeiro acto) — Dizes beml mal sabiam ellas, 
que de ordinário são talhadas para o homem cavalheiro, que 



90 A KODA DA FORTUNA 

teem muitas vezes de esconder nas algibeiras os documen- 
tos das maiores infâmias I.. . 

AnsBLMO — Que queres diier !?. . . 

EouAtDO — Quero dizer que te serviste do meu nome 
para assignar uma carta, pedindo dinheiro ! a resposta aqui 

está. i 

Aksiliio (d)Nir<#) -^ Oh ! De todo me esqueceu rasgar 
aquelle papel quando abandonei a infeliz ás fúrias da lia 
Brites Martha ! 

(N'tste momento, Sophia entreabre oma porta lateral e espreita 

para a seena, escutando.) 

SCENA VIU 
BDOAaDO, ANSELMO, 80PBIA, eutro portas. 

Eduardo — Anselmo! Esta senhora a quem tu pediste 
dinheiro em meu nome, para poupares o teu, seria a ulti- 
ma a quem teria recorrido se me perseguisse^ um dia, a fo- 
me ! Envergonhaste«me; e não tiveste duvida de me obrigar 
ao sacrificio que te fiz hontem, para te salvar da vergonha! 

Anselmo — Obrigar-te!? Se te parece dize que te paz 
uma faca aos peitos i 

Eduabdo — D'esse modo nio o terias conseguido 1 Em- 
pregaste, por velhaco, uma arma ainda mais forte — a invo- 
cação de quem eu- mais estimava ! E • que deixaria eu de 
fazer pelo amor d^essa mulher?.. . 

Anselmo — Que hoje te diz um adeus saudoso ! 

Eduabdo — A tua amizade era poiâ velhacaria! Feliz- 
mente os velhacos deixam por onde passam um rasto pelo 
qual, tarde ou cedo, são conhecidos I 

Anselmo — Leva de pregações. Diz quanto queres pela 
medalha. . . 

Eduabdo «^ Quanto quero? quero que m'a restituas! 
Vae desempenhal-a. 

Anselmo — Ora adeus! eu vendi-a. 

Eduardo — Yendeste-a?l Oh! E' bem feito I O meu 
castigo devia ser maior ! Aprendi bem á minha custa o que 
são as más companhias; mas fico sabendo esta lição tremen- 
do ! Adeus, Anselmo, (sae precipitadamente) 

Anselmo — Tafiro se me di como se me deut Saúde. 



A kODÁ DA FORTUNA 31 

SGENA IX 

ANSELiro, depois sophia 

Anselito — Ora ahi está para que ain homem tem sen- 
timentos de gratidão t Chamei aquelle estúpido, com idéas 
de o proteger. . 

SopHiA (entrando)^ NSo faça caso. Os pobres são uns 
villões ruins t 

Anselmo — Âhl E' w ex.*?. . . E são, diz muito bem. 

Sopflu — Deu-ibe o annel? 

Anselmo— Dei, e d isso- lhe tudo que tinhamos combi- 
nado. E' verdade, aqui tem o outro que elle lhe devolve 
também. (iando-Wo) 

SoPDiA [mettenio-o no i$io) — Ah I já d'aqui não sairá f 
[aparte) Comprebendeu-me ! Desafio agora a roais sagaz vi- 
gilância. . . (alto) Senhor Anselmo, asseguro-lhe que, d'es- 
de este momento, principio a considerar-me feliz t 

Anselmo [com ternura) — B' exactamente o que me sue- 
cede ! (querendo pegar- lhe na mão) 

SoPHiA {esquivando- se) — E as conveniências!? .. Per- 
dão. . . 

Anselmo — Era am transporte involuntário.. . mas res- 
peitoso ! Guardarei, pois, para esta noite. . . 

SoPHiA— O que!? 

Anselmo — O prazer de lhe apertar a mão, se me con- 
ceder uma poika. E' verdade; a que propósito se dá este 
baile? 

SoPHiA — Para festejar o natalício do marquez. E' um 
costume velho de minha tia.. . 

Anselmo {aparte) — Que meu pae lhe fará perderl Por 
essa tico eu. Conheço-lhe o génio. 

SCENA X 

ANSELMO, SOPUIA, UM CRIADO, dcpois ESTEVÃO DlAS 

Griabo — O senhor major Estevão Dias. 
Anselmo (aparte) — Meu pae!.. . 
Sopeia — fermitta^me que me retire. Não conhe{o o 
major, e uma senhora solteira não deve receber as visitas. 



32 A RODA DA FORTUNA 

(soe por uma porta lateral, ao mesmo tempo que Estevão 
IHas entra pelo fundo.) 

EsteyJCo (vendo-a) — Olél... Tem bom olho o mea 

rapaz I 

Anselmo {ao criado) — Previna a senhora D. Margari- 
da, (o criado sae) Boas dias, meu pae. 

EsTEvIo — BoDS dias, meu tratante ! 

Amsblmo — Recebeu o meu bilhete? 

Estevão — E venho a marche marche saber que géne- 
ro de embrulhada é esta I Que tu eras extravagante, gas- 
tador e tratante, isso já eu sabia; mas que fosses capaz de 
te metteres a caçoar comigo. . . 

Anselmo — Caçoar? Não senhor! o que lhe disse, é 
exacto! O meu casamento, a minha fortuna, tudo depende 
de que meu pae seja humano com. . . 

EsTBvIo — Se não te explicas mais, quebro-te a ben- 
gala nos ossos ! Olha que è a tua conhecida, heín ? 

Anselmo — Venha á razão, meu pae. Não seja ingrato 
com uma senhora que o estima tanto. • . e que lem tantos 
direitos ao seu affecto. . . 

Estevão — Anselmo, Anselmo! não brinques.. . 

Anselmo — Peço-lhe até de joelhos, se preciso fór, meu 
querido pae. A minha fortuna, depende do seu casamento. 
Além d'isso, ha vinte e três annos que a sua palavra está 
compromettida ! Pela sua honra, meu pae, pela sua honra 
de militar. . 

Estevão — Tu endoideceste, Anselmo i? Que diabo de 
historia, de palavra compromettida ha vinte e três annos, es- 
tás para ahi pregando 1? Eu conheço cá essa tal senhora 1?... 
Onde está ella?. . . Quero-lhe fadar. 

Anselmo — Verá, verá, meu pae, que sulcos profundos 
a paixão lhe tem cavado n'aquclle roslo piedoso! Oh! se 
não fizer o que lhe peço, dar-me-ha uln exemplo, que eu 
não esperava I 

Estevão — Mas tu és um tolo, por que não sabes 
que eu nunca olhei para outra mulher além da tua mãe, e 
que eu não faço caso de mulheres. . . e que nâo como ara- 
ras. . . 

Anselmo ---Olhe, o que lhe digo é que ella, com o ge* 
nio que tem, é capaz de ir fazer queixa ao general. Tome 
um biscoito, meu pae, beba um copo de vinho do Porto. 
(offerecendo-lhe) 



k ftODÀ DA FORTUNA 33 

EsTKVXo — Qual carapaça, com mil bombas! Pois eu 
acredito cá em amor, aos setenta annos!? Aqui ha uma 
grande tratada, seja ella qual fôr, e não estou disposto a 
servir de capa de velhacos! Pouco mais ou menos, já des- 
confio em que pára o negocio. . . Mas, onde está ella, onde 
está? Tenho alguma curiosidade de the ver os bigodes.. . 

Anselmo — Pelo amor de Deus, meu paet Ella ahi vem. 

Estevão — Que venha ! 

Anselmo — Escute, meu pae« se nio está convencido do 
que lhe tenho díio, façamos uma coisa: esconda-se detrsE. 
d*aquelle reposteiro, e escute. 

EsTEvío— Estratégia I Approyo. 

Anselmo — Talvez que lhe desperte as idèas. . . 

EsTEvIo — E tu a dar-lhe! Já te disse que eu nunca 
olhei para mulheres. . . 

Anselmo — Depressa I Não ha um momento a perder I 

EsTBVío — Cá vou. {esconde-se com ê repoBteiro ie uma 
porta lateral. 

Anselmo — Ora ! se ella não tivesse a certeza do quo 
se passou, linha-me porventura fallado em meu pae?l 

SCENA XI 

ANSELMO^ D. MARGABIDA, BSTEViO BIAS OCCUltO. 

D. Margabioa — Disseram-me que tinha chegado al- 
guém. . . 

Anselmo (fazendo-lhe signal de silencio, e a meia voz) 
— Chegou meu pae. 

D. Margarida {aparte) — Ah 1 {alio) Fallou-lhe? 

Anselmo — Elle duvida. 

D. Margarida — Duvida!? 

Anselmo — Que um homem, na sua edade, possa me- 
recer um sentimento d'essa ordem. . . 

D. Margarida — É o insulto que em todas as edades 
me tem feito I Felizmente a mãe encontra um defensor no 
filho. Seu pae, Anselmo, seu pae que até hoje tem zomba- 
do dos meus sentimentos.. . e que recusa, á voz de seu fi- 
lho, satisfazer o coração de quem lhe deu o ser.. . 

EsTEvXo {apresentando-ee de súbito) — Isso é falso, 
minha senhora I 

D. Margarida (aseuslada) — A hl.. . 



34 A RODA DA FORTUNA 

Anselmo — Que modo de falUr é este agora ?I 

D. Margarida — Quem é aqaelle senhor i? 

Ansbliio — Quem é? Pois v. ei.* não conhece qoem 

D. Margarida — En!? 

EsTBvXo — Simi Diga lá quem eu sou, se faz favor! 

D. Margarida (para Anselmo) — Mas, senhor Ansel- 
mo. . . 

Anselmo — Sabe que mais, minha senhora! En não z 
-entendo! Apresento-lhe meu pae, e passe muito bem! 

D. Margarida — Sen pae!?. . . Obl meu Deus... men 
Deus!.. . 

Estevão — Então y. ex.* duvida que eu seja o pae d'es- 
te rapaz I? 

D. Margarida <— Oh ! isto não é possível, senhores.. . 

AjisuLUo (eiicolerí$andO'Se) — Como?! não è possível, 
diz a senhora? Não é possivel? Pois eu havia de ter espe- 
rado até aos setenta annos para me dizerem uma coisa does- 
tas !? 

D. Margarida — Aqui ha equivoco, por forçai Senhor 
Anselmo, quando lhe faltei de seu pae, referi-me ao senhor 
marquez. . . 

Anselmo— ^ Ora essa.. . ao marquez?! 

Estevão {aparte) — Não ha um caso egual 1 (alto) Mi- 
nha senhora, eu não tolero equivocos d'esta ordem ! E' pre- 
ciso apparecer um homem que me responda. . . que me dè 
uma explicação razoável !. . . 

SCENA XII 

D. MARGARIDA, ANSELMO, ESTEVÃO DIAS, 
O MARQUEZ DE MONTALVÃO. 

Anselmo — A propósito, ahi vem o senhor marquez. 

D. Margarida — Oh! ainda bem que chegou, {ao mar- 
quez.) 

Marquez — Que succede ? 

EsTEvÃQ — Succede, meu senhor, um caso singular, que 
me parece uma invenção de comedia ! £' positivamente uma ' 
comedia, que v. ex.^ vae, segundo espero, explicar-me sem 
demora. 

Marquez — Quando souber de que se trata. 



A hODA Dâ fortuna 35 

Akselmo — Eu lhe digo, senhor raarquez. E' qac meu 
pae, que tenho o gosto de lhe apreseatar. . 

Marquez (sorrindo) — Ah ! já sei, já sei a que se re- 
duz a questão. 

EsTEYÃo (aparte) — Elle ri -se ! 

Marquez (a i>» Margarida em particular) — Fez mal 
de ihe tocar em siiailhante ponto t Eu aíoda lhe não tinha 
declarado coisa alguma ! 

D. Margarida — Por que m'o não disse a tempo? 

Marquez — Julguei que não levasse a precipitação até 
aqui! (irónico) EíTeitos do seu amor maternal! 

D. Margarida — Marquez 1? 

Estevão (a Anselmo) — Esta gente será doída? 

Marquez (a D. Margarida) — Queira deixar-nos. E' 
preciso entender-mc com elles. (alto) Senhor Anselmo^ te- 
nho de conferenciar com o senhor major, e n^esse caso. . . 

(D- Margarida sae pela porta lateral, Anselmo pelo fundo.) 

SCENA XIII 

o MARQUEZ, e ESTEVÃO DIAS 

Marquez — Estamos sôs. Queira sentar-se, s«nhor. . . 

Estevão — Estevão Dias, major de artilheria reforma- 
do, para servir a v. ex.\ (senta-se) 

Marquez (sentando-se) — Senhor major, ha certos casos 
n'esta vida social das cidades, aos quaes ninguém concede- 
ria as honras do histoficos, se porventura nos lembrássemos 
de os levar ao dominio do puhlico. Todavia, esses casos for- 
mam, por assim dizer, a cbronica, mais ou menos escanda- 
iost, do reino das nossas paixões; e acham-se muitas vezes 
registadas, de uma maneira indelével, na vida privada das 
famílias. 

Estevão — Senhor marquez, na minha, não houve, nun- 
ca, d*esses taes casos. 

Marquez — Peço perdão. 

Estevão —Mas.. . 

Marquez — Queira escutar. Ha vinte e quatro annos... 
linha eu vinte e seis. 

Estevão — E eu quarenta e seis. 

Marquez — A senhora D. Margarida era uma menina 



36 A RODA DA FORTUNA 

de dezeseis para dczesete: soUeira, espíriluosa. . . direi a(é« 
um tanto emprekendedora. 

Estevão — Percebo. 

Marquez -— Eu, maito fácil de me apaixonar. 

Estevão — Mas, senhor marqaez, vamos ao facto.. . 

Mabqubz — O facto foi este. Aquella menina tioha 
imaginado fazer-se marqueza de Montalvão; porém, saa fa- 
mília, que conhecia toda a influencia dos prejatzos arisu^ 
craticos, calculando a opposição que devia encontrar da par- 
te de meus paes« deu o negocio por conclurdo, e, para en- 
cartar razões, casou-a com um bomem quasi da sua égua* 
lha. Aos vinte e seis anno9, ama-se ainda sinceramente; e o 
meu coração resentiji-se d'aquelle golpe. O marido da se- 
nhora D. Margarida era capitão de navios. Fez ama via* 
geffij de interesse inesperado, um mez depois do seu casa- 
mento, e em breve correu a noticia da perda áo navio. In- 
dagou-se, e na verdade, o navio tinha-se perdido, dando-se 
por morta a tripulação. A dár não foi profunda no coração 
da viuva, por que não fez mais do que livral-o d^esses la- 
ços que tant.. o contrariavam ! As nossas relações aagmen- 
taram. Uma noite, noite de S. Bartholomeu.. . 

ESTEvXo — Mas, senhor marquez, vamos ao facto ! Que- 
ro saber. . . quero que v. ex.* me explique. . . 

Marquez — Queira ouvir. 

lisTBvXo — Mas a sua historia parece que não tem ca- 
pitulo final! 

Marquez — Tínhamos ficado.. . na noite deS. Bartho- 
lomeu do 1832. N'essa noite, não havia luar. Eu tínba ido 
visitar a senhora D. Margarida, que, por incommodada, não 
saíra do seu quarto. Tendo acabo de conversar, escutávamos 
ainda em silencio o echo intimo que as nossas palavras nos 
tinham, por assim dizer, despertado no coração. Eu tinha a 
mão d'ella. unida aos lábios. . . 

EsTEVio — Senhor marqaez! Essas recordações são de 
um ridículo. . . que me faz nojo ! 

Marquez — Por que não sabe avaliar uma recordação 
â'estas! Imagine, uma noite perfumada; luz, o reflexo das 
estrellas; amor. . . quanto uma mulher d'espíríto é capaz de 
accordar em peito de homem.. . 

Estevão — Oh i passemos tudo isso em claro. O can- 
tar das vivandeiras ao som da metralha tinlia muito mais 
graça. No campo^ ama-se com honra. Nas cidades, com ver- 



A RODA DA FORTUNA 87 

gonha ! {eneolerisado) Mas, senhor marqaez, lado isso nSo 
me diz. . . 

Maequbz — Vou dizeMhe tudo. Dé-me licença que eu 
sinta, por momentos, o effeilo d'essas recordações. . . £ra 
uma noite perfomada. . . 

Estevão — Voltamos á vacca fria I 

Marqubz — De repente, abre-se a porta, e o capitão, 
que se julgava morto, cae sobre mim 1 Lalámos Eu, como 
se pretendesse aterrar o espectro que vinha assombrar-me a 
felicidade. Elle, como se quizesse esmagar entre as mãos ca* 
lesas a vespa que lhe mordera no rosto i 

Estevão — E ea assim o teria feito, 

Marquez — Sentindo-me agarrado peio fato, faço um 
esforço, e detxando-lhe nas mãos o peitilho da camisa, um 
cordão de oiro, e uma medalha que por devoção trazia, al- 
canço a janella, polo, e desappareço pela noite dentro I 

Estevão — O facto, senhor roarqnez! Vamos ao que me 
interessa ! Quero saber por que motivo parece que se duvi- 
da n'esta casa de um facto, de que eu não tenho duvida al- 
guma! 

Marquez — Vá ouvindo: lá chegaremos. Pouco tempo 
depois, nasceu am menino. O capitão tinha uma suspeita 
cruel ! Não podia culpar a mulher, que se julgava viuva ; 
inas repudiou o fifho. Lançou-lhe ao pescoço a medalha, que 
me tinha caído na luta, e mandou-o expor na santa casa. 
Muito bem. Passaram-se vinte e quatro annos. Achei a me- 
dalha, achei o homem que a possuia, de vinte e quatro an- 
nos de edade. Devo ou não suppôr que esse homem é meu 
Hlho? 

Estevão — Mas, senhor marquez. . . 

Marquez — Queira responder. 

Estevão — E quem é esse homem ?. . . 

Marquez — E* Anselmo. 

Estevão — Meu filho! 

Marquez — O major vio-o nascer? 

Estevão — Oh t que pergunta esta I Que barafunda de 
pães para um filho só I Quando o meu rapaz nasceu, estava 
eu nas linhas do Portol 

Marquez — Logo não pode affirmar! 

Estevão — Eu sempre tive muita fé em minha mulher, 
que Deus haja. E além d'isso nunca ouvi fallar cm tal me- 
dalha. . . 



38 A RODA D\ FORTUNA 

Marqubx — Elle affirma qne a possae desde qoe se en^ 
tende. 

Estevão — PoU sabe qae mais, senhor marquez?. . . 
{encoUritando-sé) Irra ! Uma doestas nio parece questão de 
homens series t Se v. ex.^ julga que o rapaz é seu, camo 
lhe altribue outra mãe, que é o principal, faça d' elle o que 
quizer. Um filho homem, não é coisa que se dispute i pon- 
ta da espada. Guarde-o. Dé-lhe dinheiro, empregos, honras, 
tudo quanto lhe lembrar, que eu não abro bico \ E passe 
por cá muito beni; o meu temperamento não é para estas 
comedias.. . 

Marquez — E o que é, infelizmente, a vida, major? 

Estevão — Senhor marquez, n'esta vida ha comedian- 
tes e espectadores: a gloria é dos primeiros, por que repre- 
sentam ; mas a felicidade verdadeira, intima, sem sobresal- 
tos, sem remorsos, essa é dos segundos l E passe muito bem: 
sou um seu criado, {aparte) Nada, tudo isto não passa de 
uma grande entremczada para algum fim 1 {sae,) 

SCEN\ XIV 

o MARQUEZ, só, dopois D. MARGARIDA 

Marquez — Sim! Elle tem razão. Leva a consciência 
traquilla, emquanto que eu, pobre comediante que a edade 
recolhe aos bastidores, não encontro ahi essa felicidade que 
elle vae gozar no centro da sua existência obscura mas tran- 
quitla. Para elle, foi o amor um sentimento puro ! Para mim, 
um pensamento criíhinoso! Gozou, e na recordação, encon* 
tra ainda um prazer. Eu, não acho mais do que a infâmia, 
e o remorso! {Q, Margarida entra pela esquerda, o marquez 
continua) Sim 1 A minha mocidade foi um prejuízo; o meu 
amor, um crime; o que será a velhice!?.. . Não! Essa, ha- 
dc ser o arrepeodiroento; mas o arrependimento por acçOes, 
que é o que mais vale ao homem, na eternidade! 

D. Margarida {com ironia) — Gomo é ridicula a sua 
commoção, marquez! 

Marquez — Ahl estava ahi!.. . (perturbado) 

D. Margarida {com sarcasmo) — Vim recolher a lagri- 
ma que vejo nos olhos do sceptico ! (rindo) 

Marquez — E talvez não creia que esta lagrima. . . 

P. Margarida {rindo) — Seja uma fraqueza da velhice? 



A RODA DA FORTUNA 89 

Marquez — Margarida I . . . Não me faz jastiçal 

D. Margarida — Os velhos choram como as creanças. 
Uds pedem bolos; os outros, piedade. . . 

Marquez (ferido) — Fez mal em cantar a yictoria, mi- 
nha senhora! 

D. Margabida (rindo sempre) — Pobre marquez. Quer 
que me cale? 

Marquez — Falle, se quizer, minha senhora! Acredite 
porém que não chegou o momento de lhe pedir piedade l O 
laço que nos podia prender, creio que não existe como sup- 
púnhamos ! Illudi-me !. . . 

D. Margarida — Que escuto i 

Marquez (trontco) — Que resfriamento para o seu amor 
materno í 

D. Margarida {aparte) — Oh! ainda d'esla vez se dis- 
sipa o meu sonho 1? Será possível ? 



Coe o panno. 



ACTO III 



!!.% Kt]% 



(Rqi eom arfares. À direita, na segundo plano, um moro com um 
porlio de postigos. O muro segue até um prédio de dois andares 
que se projecta no panno do fundo. Véem-se ao longe as princi- 
pães torres da cidade, desenhadas n'om horisonte esclarecido 
pelo luar.} 

SGENA I 

(Ao ievanlar do panno, Eduardo, embuçado n'uma capa eo chapeo 
carregado^ sobre o rosto, rem pela esquerda, como quem deseja 
esqui var-se d'alguem que o persegue.) 

EDUAnoo — Perderam-me de vista, (olhando êm ãiúersas 
direcções) Pareeeii«me que me seguiam os passos. . . Foi tal- 
vez uma desconíiaDca infundada, {vindo para a seena) Quem 
me persegne, é a minha própria consciência I Oh ! ainda 
bem que assim è. O vadia, o homem errante, que se escon- 
de de dia, para apparecer de noite, precisa d'e8sa voz inex» 
plicavel que ibe brade, incessante, acaulela-te 1 Qnando pts- 
sa, a desconfiança geral caminha ao seu lado. Quando olha 
para qnalquer pessoa, esse olhar inquieto e invejoso ia- 
dispOe o animo ! Todos se afastam d'ene, o burgaez^ o ho- 
mem honrado, por que o julga um ladrSot o ladrSo, por 
que o suppOe um agente de policia; e só a policia lhe vae 
na colia, só eila o procura, só ella lhe abre os braços 1 Epara 
que ? Será porventura para o julgar, pesando-lhe os sentimen- 
tos na balança da justiça, e fazer d'elle« se tal merecer, um ho- 
mem de bem, um cidadão utii? Não! É para lhe suffocar, n*es8e 
abraço correccional, os restos de pundonor que a miséria e 
as privações, ainda, por acaso, lhe tiverem deixado n'alma ! 
E quando fór dito que um d'estes homens, sem abrigo, abri- 
ga n'a]ma uma paixão sincera que lhe eleva o pensamento 



A RODA DA FORTUNA II 

desde o Iodo da miséria até Deus; que o snstèm na beira 
do precipicio do crime, superior ás tentações, que faseinam 
os pobres, os desvalidos.. . quem, ainda assim, ousaria crer 
qae esse desgraçado é um homem de bemi? Mas, para que 
nutro eu esse sentimento? Para que conservo estes pensa- 
mentos de brio e de honra, que me fazem morrer de fo- 
me^ sem pedir uma esmola para comer?! Ohl Esmolas I 
Ninguém as dá a quem não cobrem os últimos farrapos da 
miséria l Os outros... que o vão ganhar. Ganhar aonde? De 
qae modo? Oh I não pensemos em tal ! Pedir uma esmola? 
{com desprezo) Quem ha que ligue ao coração uma idèa no- 
bre, que vá envergonhar o rosto na presença de outro ho- 
mem !? Esmolas ?. . . Quem ha ahi que as saiba fazer, sem or- 
gulho, para que possa haver quem as receba contricto?! Obl 
Dão ! Sou pobre, mas sou nobre como qualquer homem que 
não yerga a fronte, nem abaixa o olhar, nem estende a mio, 
senão para saudar ou punir! Sou, portanto, digno d'esse amor 
que mereci em dias mais fclíres. . . e. . . {n'este momenio^ 
illumina-se uma janella do prediOy projectando na tcena um 
reflexo pallido) Oh! lá está o signal.. . E' a hora. {tirando 
uma carta) Ultima carta. . . despedida. . . quem sabe se para 
sempre I? (detendo-se) E atrever-me-hei a perturbar aquelle 
coração verdadeiro, aquella felicidade intima que é também 
a minha felicidade umca?. .. Mas... podem, porventura, 
continuar estas relações?!.. . Não! Animo.. . {dirigindo-se 
ao portão, a luz desapparece) Animo ! que o meu dever 6 
este! 

(Logo que Eduardo se aproiíma do portão, como para ali passara 
Cérla qae tem não, abre-sc um dos postigos e apparece um vulto ) 

SCENA II 

BDUABDO, e SOPHIA 

Eduardo (recuando um passo, aparte) — Traição!.. . 

Sopeia {aproximando-se) — Perdoa ao traidor? 

Eduaedo — Sophia!?. . . 

SoPHiA — Não pense mal de mim, pelo que faço. Escu- 
te^ Eduardo. Eu tinha necessidade de o ver, de lhe fallar^ 
de o ouvir. As suas cartas não me satisfaziam; o que eu ti* 
nha p^ra lhe dizer taróbem não podia ser expresso por uma 



11 A RODA DA FORTUNA 

carta. Uma carta nlo dá a um adeus de despedida a ddr 
exacta com que nos sae do coraçio \ 

Eduardo — Oh! também tu... também tu pensavas 
Doesse adeQs?t. . . E' a primeira vez que me favorece a far- 
taoa I 

SoPHiA — Que queres dizer ?t 

Eduabdo — Que não me custará tanto a despedida. Eo* 
tSo não será isto uma fortuna, para quem não tem outra? 

SoPHiA — Meu Deus! Ohl se me vissem aqui.. . só... 
tão só comtigo I Meu Deus, agora 6 que tenho medo do que 
fiz. . . 

Eduabdo — B' infundado o medo que sentes Sophial En, 
não seria tão ingrato que te pagasse com a mais leve afiron- 
ta o instante de felicidade que me concedes! Sê tranquii- 
la; dá-me a tua mão.. . e. . . 

SoPHiA (aparte) — Bile abraza i 

Eduahik) — E cré que não terás outro amor mais since* 
ro, nem mais profundo! 

SoraiA — Gala-te, cala-te, Eduardo... não me faltes, 
não te fa liarei também 1 E' melhor assim. Estejamos um ins- 
tante juntos, silenciosos. . . (pausa) B adeus 1 

Ebuabdo — Para sempre?! (pausa) Oh ! que noite esta 1 
{estendendo o braço esquerdo para o ceo) Qual será, d'aquel- 
las, a minha estrolla no ceo; quando os teus olhos me dei- 
xam na terra t? 

Sophia — Eduardo! Oh! não.. . não posso separar- ne 
de ti^ assim, sem uma promessa^ sem uma esperança. . . Mas 

Sue promessa, mas que esperança, triste de mim, posso ea 
eixar-te !? Contrariam-me; obrigam-me!.. . Queres ouvir? 
O marqoez casa com minha lia. Desejam viajar. E para se 
livrarem de mim, casam-me também.. . Resistir? de que 
serve?! Posso porventura dizer-lhes qual éa minha verda- 
deira affeição?. . . 

Eduabdo (atalhando) — Oh ! não! seria provocar o des- 
prezo e expôr-me ao ridículo ! Comprehendo bem a necessi- 
dade que temos de nos separar! Desculpa-me aquellas pa- 
lavras sentidas que te abalaram o animo! O que tem de ser, 
é immu|avell Seja pois! 

SofoiA — Muito obrigada, Eduardo! Agradeço-te mui- 
to. . . muito, mais do que è possível dizer, mais do qae é 
possivel pensar, essa nobre resolução que me fortalece o 
animo, n*esie momento, que eu jà de longe tinha previsto ! 



A RODA DA FORTUNâ iS 

Fica-me, ao menos, a consolação de ter sido o mea primei- 
ro amor inspirado por um homem de um coração nobre e 
generoso! Esla lembrança, acredila-me, é o que vae conso- 
la r-me nas magoas da minha vida futura. E' tado qae pos- 
so dizer-te ! Quizera deixar-te uma lembrança também. . . 

Eduardo (<) — Ohl Esta. {indo beijal-a na fronte, de^ 
tem-se rapidamente) Não ! Quem d*esle modo se confiou á 
honra de um homem, não deve levar ao leito do esposo a 
fronte já manchada pelo osculo do amante 1 {conduzindo-a 
aoportâo) Entra ! E que esla porta nos separe para sempre, 
fechando-se sobre ti com o mysterio da campa I 

SoPHiA — Eduardo.. . 

Eduardo {dando-lhe a carta) — Sophia 1. . Adeusl Adeusl 
{invohe-se na capa e sae precipitadamente.) 

« 

(N'este momento, um homem que deve ler apparecido onde está 
este signal (•)» aproiima-se rapidamente*) 

SCENA III 

SOPHIA, C ANSELMO. 

SoruiA — E deixou-me ! Nunca me persuadi que o G- 
zesse I. . . Mas eu fallei-lhe de dever. . . de honra. . . Oh I 
que coração aquelle ! Podia porventura uma mulher, pensar 
mais nas conveniências d'esle mundo, se fosse possivel achar 
outro eguni? {vendo Anselmo que se conserva immovel) Aht 
Eduardo !. . . Eu amo-te !. . . {correndo para elle,) 

Anselmo-:— Colhi a rosa, não me importa o espinho! 

SoPHiA — Jesus I?. . . 

Anselmo — Aposto que tem medo, agora I? 

Sophia — Pek) amor de Deus. . . 

Anselmo — Não grite que se perde. 

SoPHiA —Que pretende fazer? 

Anselmo — Demonstrar-lhe que a força^ na rua, equi- 
vale ao espirito^ nas salas. Zombou de mim; constituiu-me 
seu correio de novas: é o mesmo. Agora, porém, hade acom* 
panhar-me. . . 

SoPHiA — Para casa?l 

Anselmo — Salvo a differença das ruas. 

Sophia — Pois quer roubar-me? Para que? 

Anselmo — Para brincar. Não tenho nada que fazer. 



' • 



I( A RODA DA FORTUNA 

SoPHiA — Nio Tale a peoa. Amanhã assignam-se ases- 
cripturas. . . Vamos, não me aperte a mão I 

Anselmo — Não faça espirílo comigo, Sophía, qae o 
nio tenho! Nem sombe do homem qae lomou uma resolu- 
ção d'esU ordem! Tenho ali uma sege, todas as noites ali 
tem esperado o momento de me ser ulil. E' agora! Acora- 
panbe-me por bem, senão quer.. . 

SoPBU — Mas que maní^a de roubar as mulheres cora 
qaem está para se casar I 

Anselmo— Obriga-me a empregar outros meios! 

SoPHiÀ — Visto isso, o senhor é um facínora? 

Ansblmo — Pois bem! entenda como quizer. . e n' es- 
se caso, deve convencer-se que serei capaz de todo ! 

SoPHu — Vou comprehendendo !. . . mas. o senhor An- 
selmo Dias esquece que fez favor de attribuir-me algum es- 
pirito. Ora, uma rapariga de espirito, não faria o que eu 
^z, sem vir accompanhada de uma criada de confiança, qoe 
no momento em que me viu perigar, leve a feljz ídéa de ir 
chamar em meu auxilio o marquez. . . 

(A proporção que Sophia vae fallando, um homem sae vagarosa- 
mente do portão, e rodeia a scena, tomando o angulo opposto 
áquelle onde Anselmo podia esperal-o.) 

Ansblmo — Bella invenção; faz-lhe honra ! 
SopBiA (continuando) — E que o marquez 



• • • 



SCENA IV 

SOPBIA, ANSBLMO, MAHQOBZ 



Marqubz {tocando4he sobre a espadoa) — Tenho o gosto 

de saudal-o, senhor Anselmo ! 

Anselmo — Oh ! (tiratido uma faca) Passagem 1. . • 
Marquez (guardando-se com um florete) — Aqui ninguém 

passa ! 

Anselmo (largando a mão de Sophia^ aparte) — Estoa 
perdido I 

SopHiA (saindo pelo portão) — Estou salva. 

Marquez — Imagine o senhor o effeilo que lhe podia 
produzir em todo o systema das suas idéas a apparição de 
uma serpente no logar onde fosse mitigar a sede, que não 



A RODA DA FORTUNA 4» 

calculará exactamenteo que me produz esta scena desagradá- 
vel ! Eotão essa faca, esse ferro que vi luzir, efa para me 
matar ? 

Anselmo -^ Senhor marquezi (aparte) Abí me princi- 
cipia a fortuna a desandar! 

Marquez — EstaYa enfastiado dos benefícios que lhe te* 
nho feito» e premeditou descarregar, da gratidão, aconscien* 
cia, mettendo-me um ferro no peito? 

Anselmo — Mas. . . v. ex.^ . . também está armado. . . 

Marquez — E dou-me parabéns pela minha fortuna! 
Deixemos, porém, este incidente, e tratemos de coisa mais 
seria. Durante este pouco tempo que temos vivido* por as- 
sim dizer, juntQS, deve suppor, que não me esqueci de es- 
tudar minuciosamente o seu caracter, tanto pelas indagações, 
quanto pelas observações directas que tenho feito. O resul- 
tado do estudo, loDge de satisfazer as minhas esperanças, 
inspirou-me suspeitas pouco lisonjeiras que este seu ultimo 
acto acaba de confirmar. 

Anselmo {aparte) . — Coragem e sangue frio, aliás estou 
perdido sem recurso! {alte) Mas, eu desejava que v. ex.^ 
tivesse a bondade de me explicar o comportamento d'quel- 
la senhora; por que.. . eu vim encontral-a aqui.. . 

Marquez — A comedia que o senhor tem representado 
até hoje, torna-se impossível desde o momento em que pu- 
xou por uma faca para mimi Senhor Anselmo, creio que 
ambos nos enganámos I E para evitar questões, vamos a um 
resultado positivo ! Eu sou o marquez de Montalvão. V. s.* 
quem éf 

Anselmo — Essa é boal V. cx * que me procurou, de- 
ve saber. . . 

Marquez — Se soubesse com certeza tel-o-hia procurado 
de outro modo. Illudi-me talvez. Houve uma coincidência 
que nâo posso revelar-lhe. . . e não ba meio de me certifi- 
car senão confiándo-me na sua declaração. 

Anselmo (aparte) — Se tivesse um meio de me livrar 
d'esle homem. . . {alto) Senhor marquez, o que posso é ra- 
tificar as respostas que já dei ás perguntas que me fez. 
Chamo-me Anselmo Dias. A medalha de que se tem trata- 
do é minha, e. . . 

Marquez — E' sua !? 

Anselmo — Sim, senhor, lembra-me que brincava com 
ella quando era pequeno; que a trazia ao peito.. . {aparte) 



46 A RODA DJL FORTUNi 

Estou mentindo como um desesperado!. . . Ao ponto a que 
chegaram as coisas, nlo tenho outro recurso. . . 

Hàiquez {aparte) — Experimentemos ainda ! (alto) Mas 
se eu lhe disser que está mentindo. . . que lhe vou provar 
o contrario do qce affirmou. . . 

Ansblmo {rectíando^ dá com o pé nó florete quê o mar^ 
qiêez largou, e fica pensativo^ aparte) — Este homem é a 
minha perdição 1 

Marquez — Recua ?. . . 

(N'este momento, Eduardo apparace ao fundo, janto do prédio^ e 
detem-se.) 

SCENA V 



o MARQUEZ, ANSELMO, EDUAEDO 

Eduardo (aparte) — Não tenho forças que me tirem d*es- 
tes legares! 

Anselmo (aparte) — A noite, a solidão. . . tudo parece 
favorecer-me ! 

Marquez — Então? 

Anselmo — Senhor, marqoez, não comprehendo o seu 
comportamento. Obriga-me a dizer-lhe que esiou farto de 
soffrer os seus equívocos dos quaes me não julgo pago pe* 
los beneficíos que me tem feito. Não lhe pedi que ui'os ti* 
zesse! A gratidão pesa-rae, todas as vezes que me falia d'eN 
lesl E n'e8tc caso, (pegando no florete) Restitua^me a me* 
dalha. 

Marquez — Anselmo ! . . . 

Anselmo — Não admitlo replicas. . . 

Marquez (aparte) — Meu Deus! (alto) Mas... n'esse 
caso, é um monstro d'ingratidâo ! 

Anselmo — Serei!. . . (fere^o no peito com o florete) 

Marquez — Ah !. . . (vacillando.) 

Eduardo (correndo) — Este grito.. . 

Marquez (com voz dehil) — Soccorro. . . 

Eduardo (detendo Anselmo) — Para traz! Quem pede 
soccorro?. . . 

Anselmo — Eduardo.. . ah 1 deixa-me.. . 

Eduardo — Anselmo I Tu, aqui ! Quesurpreza !. . . Meu 
Deus 1 Apostara que não está longe o crime t 



A RODA DA FORTUNA 47 

Mabquez (iMestando-se . ao portão) — Quem me soccor-* 
re ! {puxando pelo cordão da sineta.) 

Eduardo — Qae é isto, Anselmo l? Que homem é aquelle 
que pede soccorro. . . (sem largar o braço de Anselmo, cami-' 
nhando para o marquez) Ah f senhor marquez. . . 

Mabquez (caindo) — Parece*me que morro! 

SCENA VI 

o MARQUBZ, EDUARDO, ANSELMO, O doÍS CfíadOS, pelo pOFtãO 

Eduardo (aos criados) — Segurem este homem t (entre^ 
gando-lhes Anselmo. Ao marquez, querendo ajudal-o a le- 
vantar-se) Animo» senhor marquez. . . aqui está um amigo... 
Vejamos onde é a ferida.. . (rasgando-lhe o fato no peito) 
Animo, animo I (aparte) Mas elle desrallece. . . 

Marquez — Sinto-me mait Se eu desfallecer queira ter 
a bondade de se responsabilisar por esta medalha que tenho 
ao peito.. . 

Eduardo — Esta medalha. . (observando-a ao reflexB 
do lampião) Oh . . . 

Marquez — Que é?. . . 

Eduardo — A minha medalha! Como a encontro aqui!? 

Marquez — Que escuto!? Meu Deus! qual d'e!les será 
o meu filbo ! Quem me salva, ou quem me fere?!., . 

Eduardo (gritando) — Soccorro ! Soccorro !. . . Venha 
alguém. . . 

[K este grito saem diversas pessoas pelo portão, qoe cercam o gru- 
po O panno desce.) 

SCENA VII 

(Interior de uma sala térrea, espécie de arma/em vasto e profundo, 
cortado em alguns pontos por pilares de al-venariaquesaslentam 
o sobrado superior. No fundo uma porta forte, com três degraus 
de pedra. Um lampião sobre os degraus, 

EDUARDO, está encostado ao muro, do lado esquerdo; 
ANSELMO examinando a scena. 

Anselmo — Ji lá vão oito a dez horas que estamos aquil 



48 A RODA DA FORTUNA 

Ea adivinhava^ por iostiacto, qoe não podia ler bom resul- 
tado aquelle pontapé da fortanal E estamos aceados! Um 
qaarto decente 1. . . cama, i Tontade 1. . . Boa illami nação... 
A propósito: ó Edaardo, di-me cá um cigarro. 

EouÀEDO — Pensa no que fizeste.. . é melhor! 

Anselmo — Se não fis uma obra capaz, foi por tat caa* 
sa; ort ahi tens I Ea apenas arranhei o marquez para me 
ver livre d'elle: o meu plano era tocar depois a sineta do 
portio para qne lhe acudissem, e metter pernas ao cami- 
nho t Entendes? E ta o que fizeste? Eu t'o digo. Agarraste- 
me por ama aza, que parecia que m'a querias arrancar^ 
gritaste, mandaste-me filar, e. . . emfim. . . fizeste ama ré- 
caa de sandices, e. . . o premio ahi o tens ! É bem feito I 

Eduàido — Tenho a consciência tranquilla. 

Anselmo — Ah! a consciência.. . Pois sim; mas se am 
de nós é criminoso, ySo li adivinhar qual é o innocenle, 
uma vez que estamos presos! Que é um grande desaforo» 
não sei se sabes. Cárcere privado. . . 

Eduabdo — Em breve seremos mudados... E quando 
ouvires fechar as portas do Limoeiro sobre li. . . Anselmo, 
verás a sensação que te accammette 1 

Anselmo — Ora essa.. . parece que já lá estiveste! 

Eduárbo — Faço uma perfeita idéa 1 O homem qae lá 
entra por criminoso, deve ter uma commoção similbante á 
que podia soffrer um homem enterrado vivo, sob um epila- 
pbio diffamante 1 

Anselmo — Tens coisas !. . . 

Eduardo — E depois, o remorso, a lembrança, e a sau- 
dade do mundo. . . a comparação mental do que fomos com. 
o que somos. . . Todos esses tormentos preenchem as noites 
do condemnado, até lhe endurecerem o coração. • . 

Anselmo — Mas. • . espera, eu não estou n'esse caso. O 
meu crime. . . 

Eduardo — Perante Deus, é dos peiores: a ingratidão! 
Perante os homens, p mais degradante: o assassinio. 

Anselmo — Eu não sei: tu sempre tens resposta para 
tudo, na ponta da lingua; e o caso é que me fazes.. . as- 
sim, meio medroso. . . 

Eduardo {danda-lhe a m^) — É justo que tenhas medo, 
Anselmo. E' assim que te quero ver. . . tremendo. . . Mas, 
o qne tu sentes, não é medo. E' o principio do remorso, é 
a reacção tremenda do espírito contra a matéria ! Do pensa- 



A ROOà DA FORTUNA 49 

f 

mento eosira o instincto. Honcena, obomeo ?encea a ilma, 
boje, a alma vence o bemen t Oh I deixaste prostrar ua lu- 
la» que alcaaçaria, caindo, ama palma de gloria, e arre- 
pendimento i 

Anselmo — Sim, para ie fallar a verdade. .. apezar 
de estarmos jantes, ambos prezes, a tranquillidade com que 
me falias, e o saor frio que me eobre. . . Ó Eduardo, aqui 
faz frio, não faz? 

Ebuárdo — Não te disse eu, um dia, Anselmo, que o 
borisonte do vício era triste e limitado como as abobadas do 
cárcere? A experiência evidencioa a minha assergão/ 

Anselmo — Olha, o que te digo« é que se o arrependi- 
mento salvasse o culpado, ji eu aqui não estava, não ! 

Eduardo — Oh I abraça-me ! abraça^me, Anselmo ! 

Anselmo {recuando^ aparte) -^Q\ui o abrace... Eul? 
Eu que lhe fiz tanto mal... (alto) Oh! desculpa-me, Eduar- 
do, tu não estás de boa fé! sim, é impossivel que estejas de 
boa fé comigo, lembrando-te do mal que te (iz: abusar da 
lua generosidade, roubar-te, por assim dizer, a mulher de 
quem gostavas, dizer mal de li, metter-le a ridiculo.. . 0hi 
o que tu queres é humilhar-me 1 Sim; desejas humilhar-me; 
e esse abraço, quem sabe para que seria. . • 

Eduardo — Que dizes tu !? 

Anselmo — A tua má sina, sou eul Fui en que te rou- 
bei o dinheiro, jogando de mi fé ; tu ji o sabias, cuidas que 
náo percebo?! Fui eu que te arrastei para o vicio, que te 
desinquietei. . . E que tomei o teu logar, dizendo ao mar- 
quez que a medalha er^ minha.. 

Eduardo — Que escuto ! . . . 

Anselmo — Ora já vés que não^ posso acreditar na boa 
fé com que desejavas dar-me uni abraço ! Eu estou desar- 
mado.. . tu és pouco animoso.. . querias abraçar-me para 
me ferir pelas costas. . . 

Eduardo — Anselmo I Anseluiol... Estás louco?! Eu, 
ferir-te? Pois julgas-me tão piM-verso?. . . 

Anselmo — Também eu não era assassino, nunca o fui^ 
e n'om momento de não sei que allucinação fatal, peguei 
n*um floreie para ferir o marquez 1 E não tinha contra elle 
as razões que tu tens contra mim I. . . 

Eduardo — Escuta-me, Anselmo. Eslavas representando 
com o marquez uma comedia impossivel, achavas- te com- 
promettido, illudiam-te projectos loucos^ e aqucJle assassi- 

4 



60 A RODA DA FORTUNA 

nato Ií?rava4e, segando o teu juízo, de am desfecho desa-- 
gradiTel. O tea pensamento era este. Agora, tratando de 
roim, que conveniência podia eu tirar do crime ?1 Evadir-» 
me? não. Vingar-me?. . . 

Anselmo — E cuidas que te não percebi I?. . • 

Eduàbdo — Anselmo, todo o mal, que a tua própria 
consciência te accasa de me teres íeito, é menor do que me 
causas, pensando que te quero assassinar ! 

Anselmo — Como és velhaco! Mas, tu bem vês que é 
nma covardia. . . (aparte) Oh I nem isso tenho direito de lhe 
dizer I attentar contra um homem indefeso. . . E o que fiz 
eu!.. . 

Eduardo — Anselmo.. . Anselmo.. . 

Anselmo — Não te movas! se dás d'ahi um passo.. . 

Eduardo {áparté) — O desgraçado enlouquece! (alio) 
Anselmo.. . 

Anselmo {allucitiado) — Oh ! e nem uma arma para me 
defender . . 

Eduardo (segúinio-o) — Escuta-me, Anselmo; tranquil- 
lisa-te. . . 

Anselmo — Estou em seu poder 1 Ah ! Eduardo... Eduar- 
do. . . perdoa ao assassino de teu pae 1 (caindo de joelhos,) 

Eduardo (recuando) — Ah !. . . (momento dè silencio) De 
meu paei • . (levantando-o) Que dizes tu, Anselmo? Quem 
é então meu pae?.. . Não sabes que sou orphão, enjeitado... 
filho da misericórdia?.. . (aparte) Oh! mas que pensamento 
me esclarece agora!... Aqnella medalha.. . (tirando-a) Esta 
relíquia que o marqucz me confiou.. . Meu Deus! Compra- 
hendo tudol (para Anselmo) E's realmente mau, Anselmo! 
Tinhas razão de vergar, por esse modo, ao peso da tua cons- 
ciência.. . Mas eu perdóo-le! 

Anselmo — E salvas-me ?! Pela vida de teu pae, Eduardol 

SCENA VIII 

ANSELMO, EDUAHDO, O MARQUEZ, SOPBIA, O D. MARGARIDA, pcU ' 

porta do fundo. O marquez vem amparado pelas duas se* 
nhoras. 

U. Margarida — O marquez compromellc a sua saúde! 
O ar (l'este armazém é húmido. . . 

Marquez — E quem mandou encerral-os aquil? Sophia 



A RODA DA FORTUNA 51 

disse muito bem. O castigo de um está no seu próprio de- 
Hcto 1 como a recompensa do outro acima das mais vivas 
demonstrações i. . . 

D. Margarida — Emqnanto à segunda parte, convenho. 

Marquez — E hade convir também a respeito da pri- 
meira i (para Eduardo) Senhor Eduardo, desculpe a hospe- 
dagem que lhe deram. . . Foram prendendo a torto e a di- 
reito 1. . . 

Eduardo — Agradou-me mais do que lhe parece, senhor 
marquez, por que obtive mais um exemplo da bondade in- 
finita de Deusl 

Marquez — Essa linguagem, dà-me a entender os prin- 
cípios que professa I 

Eduardo — (mproprios talvez de um homem, a quem 
seu pae dispensou de lhe honrar o nome t 

Marquez — Esse pensamento é austero, e fere como a 
ponta de uma espada! Eduardo.. . Tinba-lhe confiado uma- 
medalha. . . 

Eduardo — Eil-a, senhor marquez. {com firmeza) 

Marquez (commovido) — E quizera, em recompensa do 
serviço que me prestou.. . 

Eduardo — Perdão, senhor marquez. A única recom- 
pensa que posso acceitar é a liberdade do seu aggressor. 

Marquez — Oh! depois do que se me tem contado.. . 
Tanta nobreza d'dlma, que mais provas quero eu para lhe 
chamar m^u filho, Eduardo !?. . . (abriíido-lke os braços.) 

Eduaudo — Senhor marquez. . . mas, como sabe v. ex.*?.. 

Marquez — Esquece a carta que escreveu a Sophia, 
despedindO'Se d'ella, dizendo-lhe as razões por que a aban- 
donava? não lhe confessou que era um triste enjeitado, fi- 
lho da misericórdia ?. . . E a sua edade ? E esta medalha ?. , . 

Eduardo — Ah! bastai basta! O enjeitado não pro- 
nuncia com facilidade a palavra pae ! 

Marquez — Kduardo!. . . 

Eduardo — Senhor marquez! Enjeitailo, era lilho de 
Deus, e o mysterio do meu nascimento era um mysterio de 
Deus que nâo podia envergonhar-me! Se a fortuna de achar um 
pae me traz comsigo a deshonra da bastardia. . . não a quero l 

Marquez — Eduardo! D. Margarida de Castro é mar- 
queza de Montalvão! 

D. Margarida Crfj>rir/e) — Caiu-iue, íinalmcnte, aos pés 
esta coroa I 



5S A RODA DA FORTUNA 

Eduardo — Ah f Agora. . . agora sim I quero pois expé-* 
rimentar o abraço, o beijo materno I {ajoelhando diante ie 
D. Margarida que o levanta nos braços.) 

Mabqubs — B tu, Sophia, que tio calada teos presea- 
ceado a minha felicidade^ nlo queres partilhal-a comigo, 
dando uma faimilia a meu 6lho ?• . 

SopBiA — Marquez.. . Ahl Eduardo I. . . 

Eduardo — Sopbia I Oh I bem haja, meu pae! Sou fe« 
liz, muito feliz! 

Marquez (a D. Margarida) — E muito mais do que eu! 
Elle encontra ali um amor verdadeiro! Eu... nunca achei 
mais do qne a ambição mascarada pelo amor. 

Eduardo — Obl sou verdadeiramente feliz 1 De tudo a 
que a roda da fortuna lança sobre os homens, o dom mais 
precioso, mais preciso e raro, que geralmente nio achamos 

3ue se empenham com avidez na colheita das honras, das 
istincções e do dinheiro^ é o amor sincero de uma mulher! 



Cae o panno. 



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K 4 



SEGREDOS 



1^0 



GORAÇÍO 



é^ÈÊMBlÁ UmAMA MM TWMM ACV^lH 



FOR 



ALFREDO HOGAR 




LISBOA. 

tnOaKAPHU DO VAHOIAIU, 

Trmtt$ã ia Yietoría, 72. 
1801. 



IMTEREiOCVVOlIBS 



THEODOBO B^AiMBibAi propríetarío; 

PEDRO BOBBRTO, actOF. 

D. CBSAR, amigo de Theodoro* 

PASCOAL, soldado veterano, maneta. 

UI.UBA, actriz, filha de Pascoal* 

D. CECÍLIA, mulher de Theodoro. 

BBSiLiA, menina de 6 annos, filha de Cecília, 

UM gríabo. 

PAULINA, criada de D. Cecília. 

o CONTBA-BEGRA, 



1 de um theatro publico. 



/ 



• / 



ACTO 1 



(Interior da caíia de am theatro poblieo» •oppoodo-ie o jialco á di- 
reita da sceDa (1.) 

SGENA I 



(Ao levaDlar do panno d. cisam e thiodoio d'aliiuda estio con- 
▼erssDdo em sceDa ; om poQco retirados para o foDdo : riscoAi., 
soldada invalido, maneta do braço direito, eom sobrecasaca mi- 
litar antiga e chapee redondo, differentes pessoas occQpando*se 
dos trabalhos próprios de ôma noite de representação.) 

Thboi>oiio {fumando um charuto) — É realmente 
uma bella mulher ! bella como ha pouctis ! 

D. Gksar — E tu ama-la? 

Theodoro — Que eu saiba, nao. 

D. Gbsar — Mas estás aqui*. . 

Thbodoro — Como em outro qualquer logar. 

D. César — E não falias senão de Laura.. . 

Thbodoro — Se é a novidade do dia t . . 

Pascoal (aparte) — Faliam de minha filha I 

Thbodoro — Tendo de julgal-a da plaléa, quiz vél-a 
ao perlo. 

(1) Na ezecoçlo d*esta peça, a scena representa um gabinete 
fechado : nma porta lateral e outra no fando. 

1 






t SBGaBDOS DO CORAÇiO 

D. Chsi« — Não sei se fiiesle bem.. . Para o co- 
racíío iodifferenle do espectador é necessário a dislancia 
da*plaléa ao palco. Lá os eflFeilos, aqui a causa. 

Thbodoro — Que queres dizer ? 

D. Cbsab — Que essa causa é por vezes Ião inliraa 
Que inlerrogal-a chega a ser profanação 1 

TiiEonoM — Bravo 1 ahi principias lu a moralisar! 
mas pcrmilte que lè diga.. . moralisar aqui !.. . ífas 

um aeslii). _ . 

D CíSàK — Cuidado, theddoro ; nas taboas que 

estás pisando, lagrimas sentidas mais de uma vez lêem 

caído 1 \ f\k 1 «»« 

PáSGOAL {ea^mhanit paro a seena) — un i se 

leeml.. . e tóo bem pagas quanto mal enlendidas! 
Tbbouobo {baixo a D. Caar) — Quem é «quelle 

homem ? 

D. Cesab — É o pae de Laura. 

Pascoal — E ahi vão lambem correr as da minha 
filha» por que é bem capaz de senlir o que disser ! e 
I)«as permilla que me não cuslem outras tantas t Svuj, 
smhores, não estranhem estas palavras . . sandices tal- 
vez d'um velho ; mas que querem, se o velho não Unha 
nascido para isto ; para acceitar sacrificios d'esta ordem l 

Thbodoro (baixo a D. César)— Ta entendes o que 
cUe diz? E«, por mim,, nem palavra! 

D. Cesau— A filha fez-se actriz para salvar da 

fome o.pae. 

Tbeodoro (aparte, preoccupadoj — \n.. . 

D. Cesab (a Patcoal) — Creia no futuro artístico 
de sua filha. Um coração bera educado, sensível, nao po- 
de deixar de reproduzir na .«;cena commoções que ar- 
rebatem o publico t 

Pascoal — Mas. . . 

D. Cbsar — Creia e esperei 

Thbodoro — E tem razão para esperar muito, tma 
helia mulher produz sempre Ul eíFeito, que. . » 

Pascoal {com Miargura) — E' d'i880 mesmo que 



Iremo ! Vcl-a, alf, crmando pela scena deb^ixci dos 
olhares cubiçosos d'uma plaléa.. . descuipem-mel tre« 
mo de que na sua coroa d'artisla venha uoi espinho para 
o coração do pae ! 

TuEODORo (lindo) — Ora deixe-se de pelas meu 
caro senhor {rind(i mais]. 

Pascoal (ferido) — Oh ! o senhor é bem d'esse 
mundo indiffer^ale que esmaga, sem mud^r ^t geslo, o 
coração do arlisla debaixo da sua corôà dç gloria ! Deus 
permitia que essa coroa não pese um dia à minha filhai 

Tbeodoro T— Eslá fatiando por enigmas, meu ami- 

Pascoal — Ppís eu me explico; fui soldado, lido 
e havido por vaienlc c ieat ; e sempre o primeiro lanto 
no conteilo dos meus superiores como no (empenho dos 
combales. Ficou-me, por lá, o meu braço direilo, o 
dei-o por beni empregado! Vamos adiante; ^as voltas 
que dá o mundo, digam quem pode livr:r-se! Não dou 
razão nem a Pedro nem a Miguel ; foi-3e-me o braço no 
officio e fiquei, a bem dizer, incapaz d^ lodo o real ser- 
viço. . . é o mesn)o! Gz o que pude, prestei para o que 
prestei, e agora não presto para nada! Xinha uma fa- 
mília a sustentar ; esmolas não as sabia pedjf* q solda- 
do, que o fui do coração! Caíam-me de vergoqha as fa- 
ces ao receber o obojo da miséria ; e a miséria^, a fome, 
depois doenças.. . Encurleipos razOes. Ficou-me uma 
* filha j^ra amparo na velhice : triste amparo ! ^o carva- 
lho que verga não sustém o vime que Ihç nascera ao 
pé ; mas o vime fortaleqev die<}aíxo do peso, como a co- 
ragem de minha filha ao apertar da miséria. N'uma pa- 
lavra, 'eii-a ancetando esla carreira para su^ianlar seu 
pae invalido ! Ê nobre o empenho ; correspo4d|i-lhe o 
mundo!.. . 

TuBODOKO *-r Oh t hade corresponder... (áparle) 
Muito ben), herdaram de Job; e a pequena hade ter 
s£de na carreira.. . {tirando o porte monaie) Meu amjr 
\go, prego o valor, e respeito a pobreza. . . 



4 SKGBBD08 DO COEâÇlO 

Pascoil— Mas oão me diz que presa lambeoi a 
virtude!... Guarde o seu dinheiro, por que a minha 
mão direita esqueceu-se à» ensinar á esquerda o modo 
de receber uma esmola I {retira-se para o fundo), 

(Theodoro fu am gesto de sorpresa). 

D. Cbsab {tocanio-lhe sobre a espaáoa) — Heide 
aproveitar esta scena para um drama. 

THBOuoao — Desde que te metteste a autor dramá- 
tico, ficaste insupportavel ! Então o terceiro aelo não prin- 
cipia? essa gente não apparece? promellesle apresenlár- 
me a Laura.. . {tnfanào-lhe o braço) Bem sabes que. . . 

D. Cbsib — Perdão, eu não sei nada.. . ^ 

Thbodoro (fixando-^o) — D. César, desconfio de li 1 
Essas luas continuadas reticencias. . . 

D. Cbsab — Desculpa; é costume d'autor quando 
não sabe o que deve dizer. 

Theodoro — Será j mas. . 

D. Cesar — E sou eu que faço reticencias T 

Theodoro — É tão fácil seguir exemplos. . . 

D. Cbsar — Lembra-te do que disseste! 

Theodoro — Porque ? 

D. Cbsar — Talvez t'o diga um dia- 

TuBODORO — Parece que estás em guerra com o 
senso commum ! (dando alguns passos e olhando para 
o bastidor) Ahl.. , é ella.. . (para D. César) Alô ja. 
fsae peta esquerda). 
^ ^ SCENA 11 

D. CesàR («)) — Quem pudera ler um coração as- 
sim I trocar, pelo menos, este que se me revolve e can- 
çu no lidar do sentimento, por um instante apenas, por 
algum d'e88es que dormem ao ruidar das idéas ! Pensar 
e nSo sentir, oh ! quem pudera. d*esse modo, dar liber- 
dade ao pensamento sem lhe ficar captivo] o coração t 
reduzir-lhe as aspirações a desejos, e crer n'um dia de 



SEGREDOS 00 CORAÇÃO 5 

satisfação sem lhe associar a idéa de um futuro de des- 
goslos? desejar a mulher sam saber amai^ ; e fazer 
doesse desejo a felicidade suprema sem lhe encontrar a 
dòr inexplicável... esta que me punge, atormenta e 
que eu nao sei definir !? 

SCENA iir 

U. CBSAB, PEDRO ROBKKTO. 

Pbdro {calçando uma luva) — Decididamente, se 
aquelle homem não sacd'aqui| nSo entro em scena ! Ahl 
D. Gesar. . . {coriejando-^), 

D. GhSAR — Como vae, marquez? 

Pedho — Marquez de comedia, mascara de nobreza 
e de honradez ; mas debaixo d'ella ha, realmente, um 
coração nobre e honrado /embora duvidem! Um cora- 
ção que não comprehende muitas coisas que por ahi ve- 
jo fazer e que passam todavia por acçCes, senão louvá- 
veis, ao menos naturaest 

D. Gesar — Que suceedeu então? 

Pbdro — Oh... nada, nada, senhor D. César; hão- 
de dizer que é tonlice h.inha ; será, o homem de thea- 
tro nem sempre é actor ; o coração que finge, lambem 
sentei e eu.. . 

D. r.RSAR — Falte. . . 

Pedro — E* melhor calar-me ! nasci para repetir o 
que outros dizem, e não tenho direito de dizer o que 
sinto! {com ironia) Se o mundo é assim!.. • Somos 
applaudidos no Iheatro, e.. . 

D. Cesar — Perdão, Pedro Roberto; parece-me 
que não ia fazer justiça aos seus amigos ! 

PFDRf) {pegando lhe na mão) — Ob! D. Gesar! sinto 
urra dôr tão profunda que chegaria a autorisar tudo 
que o desespero me dita.-^sel.. . O sentimento que aos 
outros homens purifica e eleva, mancha-nos e confun- 
de-nos. Perdão, deixe-me fallar. Ha quem se ria de 



C MÁlilSDOi DO 

DÓS quando OQvem dizer que kmamos! A arte revolve* 
se ainda, por assim dizer, no berço ; e o mundo igno- 
ra o que é um artfsla ! 

D. Gbsar — À civilisaòao do Uiealro lh'o dirá em 
breve. Quando a convicção do mérito enraizar no cora- 
ção das actrizes, elevando-as pelo seu comporlamenlo a 
par dos seus irmãos d*arte, veHi desapparecer da coroa 
arlistica essas folhas fatídicas que muitas vezes lhes mao- 
cham a fronte ! Pedro ftoberto, ò amor e o trabalho 
purificam tanto como as chammas do purgatório I creia 
no futuro, por qUe o fâluro é nosso ; promettitlo por 
Deus, não pode serrnos negado peio mundo i 

Pb uno — Obiigado, D. César, obrigado por essas 
palavras que me fortalecem o espirito ! 

(Oofe-se o apito do oontra-r^ra, ha nrnor ntaeena de pesaoas 
qoe se Tcfciram. Lavra apparece pelo fondo TCilida cone para 
• etttrar tm acena). 

■ 

SCKNAÍV 

PEDRO ROBIRTOi I). CESAR, LAURA. 

D. CpsAR — O panno não tarda a subir; lenho 
que fazer algumas observações ao ensaiador, até já. Oh! 
ahi vero Laura, (indo-lhe ao encontro e pegaf^o^he na 
mSo) Minha senhora, Deus lhe dé uma estrêa tão fe- 
liz, como a desejo para a minha peça, (eondul-^ até á 
scena, olha para Pedro Roberto, esae). 

SCENA V 

(No momenio eon qae D. César Yae sair, encontra-ee com Theoil»- 
ro d' Almeida, e Aetem-Ro). 

Theoooro — Dfeixa-me, é impossivel escutar-te ago- 
ra ! Lá está ella !. . . Não posso. . . não posso. . . 
D. César — Oma coisa de interesse. . . 



JB$iaBDD6 DO GOBAÇfa) ' ,7 

t 

TflBUDORe ^!^ Mas «a eu nio posso t . « . 
' D. Cbsaw — Hasdc ouvir-me. . . 

TflBODOfio — Que teima !.. . 

D. Cj^ar-^ Vem.. • {iandn^lhe o braço) 

Th Koooao — Estás insupporUiYel!.. . Já te disse.. . 
{í^ae guesiionando). 

SCENA VI 

PBDRO ROBtRTO, 6 LAURA 

Phbro — Nào esteja assustada» Laiira, o publico 
ikade recebelra bem . Dislraia-se agora ; conversemos. 
Gosto tanto de lhe fallar, :e de a ouvir. . . 

Lauiia — £ bondade sua.. . 

Pedro — Ou força de sympalhia : parece-roe que 
é isto. 

Laurâ — Ha tão pouco tempo que me vê. . . 

Pedro — Engana-se. 

Lwik — Gomo? 

Pedro — Quero dizer. . . 

Lairv [áparíe) — Perturba-se. {alto) Efttao (yie 
dizia?. . . 

Pkdeo — Dizia que . Oh t nem eu sei já t 

Laurv — Esquecido I era alguma falsidade. 

Pedro — Falsidade não era^ Laura ; talvez que 
por demasiadaibente i^erdadeiro. . . 

Laura — Era algum segredo do csjaçao? 

Pedro — Era, sim ; muito intimo ! d'esses que nos 
causam medo, que nos collocam entre a vida e a morte, 
a esperança e a desesperação, e que.. . 

Laura -^ Diga^me, iCstá representando antes de tjBm- 
po? 

PRDRo^Oh! (|uSo mal c^Ahsce o coraj^ão d'um 
artista ! E' a primeira vez que me arrependo de te^ qiv- 
celado esta carreira, onde se duvida da existência do 
nosso coração 1 



8 8B6EBD08 DO GORAClO 

Laoka — Pelo costume de se diíer o que se nSo 
sente.. . 

PfiDEo — Quem o disser d'esse modo nSo cons^uí- 
ri fazel-o sentir ás plaléas! Laura, pode recusar^-nie o 
direito de lhe manifestar o menor dos sentimenlog que 
me inspira ; más duvidar. . . 

LàOEA — Gale-se« que me faz mal ! 

Pbdm — Laura.. . 

LAuniL — Teem-me dito que n'este recinto é ludo 
falsidade e fingimento. Que o interesse é o único insen- 
livo capaz de movef os ânimos, que. . .. 

PBono — Uh i não creia tai I Menliram-lhe, sim, 
Laura» quizeram dísp6l-a para a perdiçio, para. . . Ohl 
não creia similhante coisa 1 Se eu a engano quando Ibe 
digo que a amo, se esta confissão me não sae do inti- 
mo d*alma, que sei eu ... • perca-se para sempre esta 
alma.. .. expire-me a fé, seja toda a minha eiistencía 
um tormento.. . . • - 

Laura — Basta. • . 

Pimno — Goncede-me alguma esperança 7 

Lauea — Bm vão quízera recusar-*ih'a. . • roas, 
ifixando-o) . 

PsDao — Falle. . . 

Laura — Jura-me.. . 

Pbdro — Peia mem )ria de roeu pae, que eu aban- 
donei, que impelli paYa o sepulchro & força de desgos- 
tos ; pela terra que o cobre e que jâ fui beijar arre- 
pendido!. . . Mas a um juramento d'estes, Laura.. . 

SCENA VII 

LAURA, PEDEO ROBERTO, O O CONTEÂ-RBOEA eotraudo 

Gontra-Rbora (inlerrompendo-os) — Minha senho- 
ra, vae subir o panno, a symphonia está por instantes: 
queira vir para a scena. 

Pbdho*— Vá, Leonor, éjustamenleumascenad'amo- 



SEGREDOS bO COEiCiO f 

res que tem de representar ; conceda-me as esperanças 
que lhe pedi, creia no que lhe disse, creia em quem tan- 
to a ama. . . Verá como o autor e o publico dirão que 
comprehende o seu papel. 

(Offerece-lhe a mão esae com elU pela eaqaerda.) 

SGENA VIII 

THEOUORO UB ALMEIDA, O PASCOAL CUtra pclo 

fundo conversando. 

TflBODOEo — Ora este caro veterano I preso a arte 
e ínteresso*me por lodos aquelles que encetaram a car- 
reira artística. Se o offendi com a dadiva qiie ha pouco 
desejei fazer-lhe, crera, pelo menos, que eram puras as 
minhas intenções. 

Pascoal — Essa é boa, meu senhor, quem é um 
triste sargento invalido para merecer-lhe tal satisfação? 

Thbodoro — Um servidor da^patria é digno de to- 
das as altenções dos que se presam de portuguezes. 

Pascoal — Oh 1 e assim deve ser. . . tSo pouco nos 
tem custado esle pobre torrSo ! 

TuEODORo (aparte) — Levemol-o pelos sentimentos 
patrióticos, {alio) Com que então o amigo fez a guerra 
peninsular? foi 1& que perdeu o braço? 

Pascoal — Não senhor; d'essas guerras só trouxe 
por lembrança quatro balas n'uma perna. 

Thbodoro {aparte) — É uma lembrança infeliz. 
{alto) E o braço. . . 

Pascoal — Isso é conto mais largo. . . vou contar- 
Ih'o. . . 

Thbodoro {áparié) — Ai, que me vae contar o cer- 
co do Porto, de fio a pavio.. . 



to IIMSD06 00 OOBAÇlD 

Pascoal — Qaando as tropas líberladoias desem- 
hercaram no MíndeUo. . . 

(N'Mte momento oave-ie em disUneía o roído dot applauios. Pis- 
eoal fai am getU de surpresa. Theodoro d* Almeida, onti^de 
ooftleptaBieDta.J 

THBODoao (aparte) — Âpro%'ei lemos o ensejo para 
mudar d'a8suroplo. (alto) Ah ! meu amigo. . . enlao que 
diz a isto ? Nio se ^ocnmove. * . não exuUa ? . . 

Pascoal (swyrehsndido) — Pois deveras ?. . . 

Throdoro — Sim, é sua filha que compra o lilulo 
d 'actriz. 

Pascoal — E j>or amor de mim ^ . . Oh t filha da 
minha alma.. • 

Takoooro {aperiandíhlhe a moo) — Muitos para- 
béns.. . acredite que lambem sinlo um vivo prazer.. . 
Áh! venha comigo.. . vamos beber ura copo de vinho do 
Porto á saúde da sua fílha. 

Pascoal — Senhor^ tanto honra para um pobre sar- 
gento.. • que o foi ás direUas. . . lá isso é verdade 1 

Thkodobo — Um filho e nelo da mililar^ss Aão se 
desdoura de lhe fazer esta offerla. Dè-me a sua mão. 
{aperlundo^lhe a mão) Vamos beber á saúde de sua fi- 
lha. ... 

Pascoal — Klla merecei... pois vamos lá... (saem 
pelo fundo). 

fiCBNA IX . 

(A seena fica por momeatos vaiia. Pedro Roberto e Laurt entram 
pela esq«erda). 

f^vDRO -- Mirilo beoi^ Lamai tiiuito bem !.. . Oh ! 
quem sabe dar mais força ás palavras ? mais exipressão 
ao gesto ?. . . 

Lacra — Pensava em ti, Pedro Roberlo. 

Pfdro — Oh! minha Laura, merecia-le esse pen- 



ttGBBDOS DO GOftâVftO Jl 

samento?!.. . Sim, bem Vq mereço por que te amo 
lanlo. . . nem eu sei dizer como te amo 1 

LàuiiÀ — Repele-m'o. . , . 

Pedro — Ai, se te amol Eu ^oe vivia, tão só, sem 
pães, sem amigos.. . sem irmãos t.. . Eu, que sentia 
chorar-me em silencio o coração, sem poder offei*ecer- 
lhe uma esperança.. . porque pensava na lua vida mo- 
desta e recolhida, e não acreditava que me quizasses! 
Eu, que me consumia de dôr na desesperança da mi-* . 
•ha vida. . . Ai, se te amo agora« Laura !? n|[o l^o diz 
a minha commoção? se te amot pois nao me dás tu 
uma familia» a mim, que não tinha nioguesn ?i Não me 
offereces um abrigo no leu coração, e a ventura aos 
teus sorrisos, no teu olhar ? 

Lura — E crés tudo isso? Bem hajas! Também 
eu em silencio te amava ha muito I Era pobre; não me 
enfeitavam sedas nem rendas, e por isso não me cba* 
mavam formosa nem olhavam sequer para mim; se por 
acaso alguém parava á minha ijaneila, e me dizia uma 
palavra, essa palavra era um insulto t Todavia, umho- 
jnem houve que me viu, e que me faltou sem jne insul- 
tar ; esse homem enas tu. . . 

Pkdho— Laura.. . 

Laura — E a tua imagem flcou-me para sempre 
n'alma t Também te amo. . . 

Pedro — Obrigado, obrigado, Laura ; mas ha um 
homem que ie persegue.. • um homem rico.. . um de- 
mónio que tem um cofre de dinheiro no logar do co- 
ração! O ar que sê respira n'este recinto embriaga 
como o v9(pov do vinho. . . .perdoa ; iporém, jur«^me... 

Laura — Pela memoria de minha mãe 1 



n SIGUUMM DO COBACiO 

SCBNA X 

PBDBO ROBSRTOy LitMà, FASGOAL 6 T0BOBOM 

D^ALVEiDA peio fundo. 

Pascoal {que ouviu as tJlimas palavras^ atançan-' 
do) — Sua mãe já deu baixa de serviço.. . {dando le- 
ves signaès de embriaguez) E eu n3o quero !. . . 
• Li0RA — Ah I. . . 

Pbdro (aparte) — Pascoal/.. . (vendo Theodoro)^ 
lambem aqueiíe homem!. . . 

Pascoal (olhando para Roberto) — Tratante f... 
{para a filha) Estou bem informado de tudo.. . e eu lhe 
mostrarei o que é ser pae ! Laura. . . eu fui sargento, 
e sargento ás direitas!.. . quando um recruta se mos- 
trava insubordinado, dava-lhe um bilhete 1 {fazendo ac- 
çio de lhe dar) Vé lá se queres. . . 

Laura — Ah! meu pae! meu pae.. . é a primeira 
vez que me trata assim I por que me n9o mata?... (abra- 
çafwho). 

Pascoal (como querendo vencer a allucinaçõo do 
vinho) — Filha.. . que te disse eu?!.. . Mas tu nSo sa* 
bes quem é aquelle vadio a quem pretendias entregar 
o teu coraçSo puro, que lhe seria nas mãos um bríDco 
de creança ; e que éile Q^agariai rindo; depois de o 
ter manchado?.. . 

Pedro — Senhor, nao lhe mereço tal conceito ! Os 
meus sentimentos.. . 

(N*este momento o Coiitra*regra entra pelt esqnerda). 

GoNTRA-RiGRA {iuierrompendo-oj — Senhor Pedro 
Roberto, nSo se demore, que vao dizer-lhe a deixa. 

Pascoal — Ê bem bom para que uos deixe. 

Pbdro — Oh ! e ter de abandonar agora I {contem- 
plando Laura). Levo o seu juramento! (sae pela esquer- 
da). 



SBGRBDOS DO CORAÇÃO í9 

SCENA XI 

meoDOKO d'almbida, pascoal, e lílha. 

Pascoal — Laura . . Jslo não pode serl.., aquelie 
rapaz é um peralta- . . Oh 1 pergunta cá ao amigo quem 
elle é. . . 

Theudobo — Oh! um extravagante, um... um jo* 
gador, um pródigo. . . {continua a faUar a meia toz a 
Pascoal que faz signaes de inlê ligencia). 

Laura — Meu Deus ! {aparte) Será verdade t. . . 
mas eu tenho ouvido dizer o contrario ! Aqueite homem 
é suspeito... Oh^ eu não creio no que elie diz! 

Pascoal — Sim senhor, sim senhor, íico-ihe muito 
obrigado I heide sempre leoibrar-me .• {para a filha) 
Está dilo, minha filha, não quero qne olhes para elle ! 
Desculpo-te o que flzeste; quem não sabe é como quem 
não YÔ : o mal remedeia-se ; e a ferida não é mortal I 

Throdouo — Permitta-me, minha senhora, que apio 
veile o momento para lhe dirigir as minhas atteoçOes- 
e prolestar-lhe... sim, protestar-Ihe... 

Lacra [com ironia) — Oh I muito agradecida I 
{áparie) Gomprehendo tudo I 

Theodoro — A senhora debutou n^uma bella pe- 
ça... é de um amigo meu : sim, eu sou amigo do au- 
tor... 

Pascoal — Ora se até foram collegas .. 

Theodoro — Gondiscipulos, condiscípulos, e... 

Lacra — Perdão, tenho que dizer a meu pae .. 

{voUand(hlhe as castas, continua a meia voz). Meu pae, 

como travou relações com aquelie homem ? 

Theodoro (aparte) — Isto hade ir indo... hadç ir 
indo. 

Pascoal — Principiei por me zangar coro elle, mas 
depois, o homem deo-me uma satisfaço ; .declarou-me 
que tinha boas íntençQes ; que só olhava para estas coi- 
sas pelo lado artistico ; emfim, fomos tomar uma gar- 



Id SMBBJMlS Ml GORA€ÍA 

rafa de Porto, elie é filho d^ oiiKlar, faliou-me da guer- 
ra peninsular e do cerco do Porto. . 

L\v%k (eBO0SlMfifh4he a cabeça no piilo) — Oh * 
meu pae !... 

Pasco;il — Bnlao que (eos lu? choras?!... Pois 
que diabo Icm o cerco do Porto para te fazer chorar !? 
A filha de um sargento que !oi sargento ás direitas!... 
Laura ? 

TMADom {iparté) — lalo hade ir indo; hade ir 

indo... ^ 

Pascoal — Nio derriees assim por mim, que me 
faees dar um bordo, como dizem os marinheiros ! B' 
má gente, pulam como macacos» c não ha fazer-Ahts 
uma postaria... 

LiLijRA-~Ah! isto é horrivell 

Pascoal {principiando a dar signae$ de embriaguez) 
~ Ora vae-le confessar ! Tu não pareces filha de un 
sargento que o foi ás direitas I Olha que subordinação 

esta... 

Lauba — Gale-se, meu pae! Cale-se, pek> amor do 
Deus! pela amizade que minha mãe lhe linha... 

i^i^scoAL ^^ Mau ! já lhe disse que não faltasse lá 
na defunta I Você está insubordinada ! 

Laura — Ah 1 que farei ?. . meu Deus ! 

Thbodoeo {áparle) — Isto hade ir indo ; hade ir 
indo... 

?A%coki.'griiúnd(r) — Tan, tan, tau, lerran... lani 
terraR tap*... Três direita... 

Lauha — Meu pae, pelo amor de Deus, oale-se, 
olhe que aalio rapreseiítaudo... que está o panno e«i 
cima... 

Pascoal*— Poto que o abaixem! irra! querem im- 
pedir que eu me recorde daquelles tempos? Com mil 
bombas t {baíêndo no peite) Com mil bombas! Bu fui 
sargento, e fuHO ás direitas! (passeia pela scena). 
"* Lao ha — Ah! isto é indigno!... {para ne^dara). 

Theoiioko — Indigno, u que, oiinha senhora? 



S£G11BD0S DO GOftAdO 11^ 

Lâuba — Não pretenda disfarçar o seu procedimen- 
to : conheço-ihe as inlenç5es e digo-lhe que faz mal em 
porfiar I 

Xhi:odoro — É cruel, Laura, não n^e crimin«?, por 
que eu amo-a.. * e não podia vél-a etilregar-se a um 
homem sem consideração alguma.. . que nia faria nun- 
ca a sua felicidade. . . 

Laur\ — Basla, senhor! nem o seu bilhete rasga- 
do e devolvido lhe despertou o memr resentímenlo !? 
Quem é pois o senhor, que vem fatiar de a4nor a uma 
mulher que lhe deu tão verdadeira prova de olupreso ?t^ 

Pascoal {iniervindo) -^ Olk, olL. . meia volta á 
direita, volver! não leve a sua insubordinação m pon- 
to de faltar ao respeito a um amigo de seu pae ! 

Laura — Oh I coração que te desilludes! 

Pascoal — Então .faz favor?.. . Já lhe dei a voz 
de meia volta ! (a Thêodoro) Vamos nós cá ver o fun- 
do da segunda. . . e não faça caso do que diz aquella 
recruta!.. . 

TuEonoRO (a meia toz a Lãura) — Laura, pense 
bem ! 

Pascoal -^ Então você vem d'abi ó sóy não sei 
como se chama.. . {rindo) é o mesmo! Olhe, empreste^ 
me você cá uma libra, que eu vou só. . . 

Theodoro (abrindo-lhe o porte motme) — Pode ti* 
rar.. . 

Pascoal (fazendo continência) — Bravo! rasgo de 
capitão 1 bem se vê que é filho de militar! * 

Lalba — Não, não, meu pae.. . cada moeda que 
d'ahi tirar, é uma lagrima de sangue que eu lerei de 
verter I Volte a si, lembre-se de mim.... 

Pascoal - Silencio ! 

Laura — Esse homem quer perder-hos!. . . esse 
homem é.. . 



16 SlfimBDW DO COftACiO 

« 

SCENA XII 

os MiCSMOS, e o CONTRA-RBfíBÂ. 

Gontbí-ITÉma — Senhora D. La^ura, venha para 
a scena, já, sem demora! Yio dizer-Ihe a deixa.. . 

Laqhi — Ah).. . meu Deus.. . em que estado le- 
vo paca a scena este coração 1?. . . 

Comtba-Rbg ▲ — Não se demore nem um minuto 1 
Lacba — Obl meu Deusi Valeí-me.. . {sae) 
Pascoal — Tan, lan, tan, terran, tan, lerran, tan. 
Ordinário, marche! {$ae cantarolando). 
Throdobo — Muito bem ! 

SCENA Xill 

THeoDORO SÓ, depois d cksak. 

Thcodoro — Muito bem ! veremos qual vence, o 
amor ou o dinheiro! Amor.. . (rindo) palavra, palavra 
irrisória^ ridicula, com que o mundo baplísa o desejo, 
e que fica erma de sentido* logo que o desejo é satis- 
feito ! Dinheiro, expressão abreviada de tudo que nos 
encanta satisfaz e concorre para a nossa felicidade ! si- 
gnifica a vida no seio de todas as commodidades, os 
respeitos e as attençGes do mundo, o luxo, a satisfação 
plena de todos os nossos caprichos.. . tuJo, tudo! E 
chamam-nos devassos quando empregamos a influencia 
do dinheiro para^ mover corações que nSo cedem á sup- 
plica ! Inveja ! Foi decerto um invejoso que se lembrou 
de compor o primeiro compendio de moral ! Mas que 
é isto?. . . {ouve-^sê em distancia o ruido dos applaasos). 

(D. GeMr entra pelo fando maito satisfeito.} 

D. Gbsar — AhlTheodoro. . . não é possível repre- 
sentar com maior commoçaot Lnura comprehendeu as mi- 



SEGREDOS DO CORAÇÃQ iH 

Ilhas palavras c s.ent:u-{\sl Esculns os applausos? Parc»- 
cia,q»e «ma dôr >eiiladeira lhe pungia n'alma!.. é 

TuRODcnò {irónico) — Dou-le os parnhens. . . 

D. CiíSAii — Sc a ouNií^ses, quando ella repeliu es^ 
las palavras «meu pac, não vos percacs que me perdeis 
lambem!» O senlimcnlo profundo, com que se expri- 
miu. . . a» lagrimas sinceras que lhe correram pelas faces 
que o soffrer lhe desl)í)lara. . . [curem-se ap;:lausos) Es- 
cuta. . . escula!.. . E' ella que dá \ida á minha com- 
posição ; é ella que põe por obra o meu pensamento. . . 

TuRODOKO— Ou a lua composição que a anima, o 
leu pensamento que a inspira.. . {uonico) Acho mais 
nalural.. . [rindo) ,K\i\ meu pobre D. César, creio que 
vés ludo alra\6z do veo das luas illusõcs! Poéla! 

D. CiiSAR — Que qu^.res dizer?' 

Theodoro — Que nSo estamos no Parnaso, e que 
as .actrizes sao mulheres como todas as outras ! Nao 
creias em inspiração, meu amigo« Agora sou eu que le 
ensino ; quando as circunstancias commovem deveras, 
qualquer é bom actor t 

D. César — Explica-le melhor. . . 

TiiEODORO — Um autor dramático deve conhecer a 
fundo lodos os segredos do coração (rindo). 

D. César — Receio conhecer lodos ! esse, por exem- 
plo, que te afasta da tua mulher e que^. . 

Theodoro — Mau! lá isso não; não me falles erh 
coisas de que não entendes. Eu gosto de minha mulher.4. 

D. César — Bem lh'o provas ! 

TuBODono — Oha, meu amigo, mudemos de assum- 
pto.. . minha mulher tem um génio muito particular/ 
que não hàrjnonisa com o meu I Por exemplo, gosto de 
li» não posso passar sem ti, e ella aborrece-te i 

D. Ghsar {risonho) — Ah.. . aborrece*me ?* . . 

Thbodoro — Disse-l'o para que te deixes de defen- 
dei- a ; de hoje em diante espero, que me não mates o 
bich^ do ouvido... Theodoro, olha tua mulher ;e lua 
mulher para aqui,, e lua mulher para ali.« . Desculpa a 

2 



Ift 8EGBBD0S DO COftAÇiO 

franqueza e alé logo; vou ver Laura, [faz alguns pas^ 
$0$ para o fundo). 

D. Cesaii (áparle, satisfeito) — Ella aborrece-me f ..• 
E eu que me julgava despregado.. . Oh! cão sou lào 
Infeliz como julgava ! 

SCENA XIY 

D. GBSAn, TíIBODORO dVlMBIDA € ^ASCOAt/ . 

completamente embriagado. 

Pascoal — Alto lá, 6sôr capitão... {rindo) cupil.. 
Sío... {tomando a passagem dê Theodoro) Pois você é 
lá capit.. .ão?... é lá coisa alguma n'esta Tid..«a? 

Thbodobo — AmigOy quem tem dinheiro é alguma 
coisa ! (com intenção) . 

Pascoal-^ Se tem muit«..o dinheiro guarde.. . o! 
mas é mclfa...or passar alg.. .um par.. .a cá. 

Tb£Odoiio — Sem duvidai já lhe disse que... e o 
dito, dito I 

Pascoal (arremedando^) — J& lhe dis.. .se que o 
dit...o» dit«..ó... nao esl& má... sandi«..ce! Olhe, eu 
não o larg...osem você fazer... o que me promell...euf 
A rico não dev...as e a pobre nao promel-tas; dizia 
um recrut...a là da companhi...a I... 

D. Cbsar (que os tem o6«frtfldo) -— Theodoro, si- 
tnilhante procedimento !. . • lembra-le dé tua mulher ! . 

Theodoro — E tu com a teima! Ora nâo eslá má 
a cassoada t Se soubesses a raiva que lhe inspiras... 

D. CESAn [satisfeito, aparte) — Raiva!... oh l me- 
rcço-lhe um sentimento doesta ordem t?... Eu, eu que 
me suppunha apenas aborrecido por ella... [alto) Mas 
Theodoro, o teu comportamento-.. 

(Theodoro fax um gesto de atforreciíttento) 

Pascoal — Olé! então que tem o comporta rnen... lo 



MGflÉDOá Od COftAÇÂO 19 

cá do atnig..o!? Gonvidou-nos para pa9...sar o dia nâ 

sua casa de campí.,o...Y]yWííin(/o)'Tres á frente... vol.u 
ver..,! fan, tau, tani terran, tórran^ lani [acaba 
ríndc). 

D. Cksar {aparte) — É Cecília ficará só! queiil 
tne dará forças para deixar de a ir ver I 

SC ENA XV 

PASCOAL^ D. GESAft, THBO&ORO, 8 PfctfKO bOBkRTOi 

Phdro (rt D. tiesar) — Ah I meu amigo, venho des^ 
tjspcrado !.. . Laura teve occasiao de me cohlar ita sce- 
na o infame procedimento de Theodoro;.. 

fuEonoRO-^Énlãd que lhe corito^j, meu taro se- 
nhor? 

Pfd o-^AhI..4 ouviu f é o mesmo; nãd retiro fl 
expressai ! 

TiitODORo— « As coisas tomam-sâ como da mão dtí 
quem vêem 1 

Penso— -Nlo (ne desdouro da itlitíha posição ha 
sua presença f Sou um artista/ honro-me de o ser ; po- 
nho todas as mascaras ; maS| liro-as e fida-fne tão des- 
assombrado o rosto como tranquilla a consciência f Ert 
quanto que o senhor Do desempenho do seu papei díf- 
famanle, não conseguirá nunca laVar-se das manchas 
i|ue lhe deixar I 

D. Cbsà» — Pedro Roberto..* 

TflBODORo— -E' umbello aclori esté (juerido Pedro 
Àoberto I Oh D. César, isso que elle recitou é uma faU 
la do teu drama, não é ? 

Peduo — Falla^lhe o final 1 Ha um homem cyníco 

^ lai ponto, que para lograr uma mulher^ embebeda-^lhe 

o pae , que era o seu único abrigo^ o sou único protè- 

•ctor^ e por amor de quem ella abraçara esta carreira 

tão árdua t 

Pascoal -*• Cale-se ahi iâr re<írut . . a q«ffi não sab. . .é 



SO SEGREDOS DO CORAÇÃO 

ond...e tem o nariz!... Tan, lan, terran, Icrran^ plan. 
Eu cá fui sargento, e fui-o ás direit...asl 

(Pascoal passeia cambaleando pela scena.) 

Pedro [ronlemplandõ-o) — Desgraçado, que te per- 
des arrastando na queda a filiia ! Em vao te morderás 
de remorso, ao accordar do teu errol Ohl mas esta vi- 
da é na^ verdade um drama terrível ^ (oucem-se em dis- 
tancia os applausos do publico). 

GoMaA-RBGRA [aò fundo) -^ O publico* chama o 
autor ao proscénio. 

Pedro — Vá, vá, D. César; vá receber essa ova- 
ção que lhe pertence. 

D. Cksar {pegando'lhe na n:ão) — A execução é 
muitas vezes a condição do louvor publico: não pres- 
cindo da sua companhia ! (sae com Pedro Rober:o). 

SCENA XVI 

PASCOAL, THEOnÒRO, depoiS lAURi, PEDRO RO* 

BERTO, e P. CE^AR. 

Theodoro — Oh! possuil-a, possuil-a por um momento 
apenas! Apertar nos meus braços essa mulher que opu* 
blíco admira applaude e inveja ( Quem nâo daria meta- 
de da sua fortuna, metade da vida para se considerar 
superior a todos, no momento em que tocasse o pomo 
que a todos fascina, devolvendo-Ih'o depois còm despre- 
zo I e ver ainda esse resto que desprezara ser acolhido 
com enthusiasmo, querido e disputado com ardor!? 

(N'este momenta entra D. César eondoiindo pela mio Laara e Pe- 
dro Roberto. D. Gesar trás na mio uma coroa de flores.). 

D. César [conduzindo-os á bocca da scena) — Lau- 
ra, acaba de comprar o seu titulo d'aclriz. [mosiran- 



SliGitBDOS DO CORAÇÃO i i 

do lhe Pedro Roberio) Dou-lhe um irmao^ e a coròa do 
merilo {colhcando-lhe a coroa na fronte) A quem escre- 
ve, basta a palma de martyr ! 

THBODORO-^Que dizes, D. César !T 
* I). César — E' um segredo do coraçSo! 

TuEonoBO {aparte) — Poeta ! (para Laura) Minlia 
senhoro^ ponho & sua disposição a minha carroagcm... 
• Pedro (óparíi') — Que diz elle !?..<» 

Laira — E' um favor immcrecido. Onde está meu 
pac?... {procurando'0 com os olhos). 

SCEiNA XVII 

os MESMOS, e PASCOAL embriagado, depois um criado- 

• 

Pascoal— Toca a relir,..ar! Tan , lán,-.. lan, 
Icrran, lerran, tan! 

Laura — Meu Deus! Meu Deus!... 

Pascoal — Dè o braço, ali ao amig...o e ordinaii .. 
o... mar...chel 

Laura — Meu pae... pelo amor de Deus!... 

Pascoal — Embirrei para aqui. Olha que te dou 
uma bofei.. .a. ..da... se brinc...as! 

PíDRO — Oh! isto é indigno! 

LiVuiiA (áparie) — Que farei?... 

D. César [a meia voz) — Evite o escândalo ! 

The doro — Estou á sua disposição, minha se* 
nhora ! 

Laura {aparte) — Meu Deus ! 

PiíDRO (a meia voz) —Laura... 

Pascul — Enlao... vae .. ou... n5o vae?... Três 
direila... volver... 

Laura {dando o braço a Th€oioro) — MQ venceu 

ainda ! 

Pascoal — Marche 1 (caminha cambaleando, Laura 

sae iom Theodoro e Pascoal.) 

Pedro — E eu, eu que a amo lanlo I Oh ! pelo amor 



n •goKBMs DO eoii«io 

de Deus, D. César... que tie aconselha Doesta afflkçpol 

Chudo {mirando pfira enlreior umm caria a J>, 
César) — Uma caria para o autor. 

D. Cbsap — Uma carta? Que vejo l a leUra de Ce- 
cília!.. . será possível!? {abre). 

Pkdko — D. César. . . eu morro de desesperação... 

D. Cvsia ^ Oh ! também eu f também eu I {feckeh 
io a caria na tnao e fazendo un gesío de domp^o). 



Cae o panno. 



ACTO II 



(Gamara mobilada no ollímo gosto. No fuDdo uma porta com re- 
posteiro de veludo carmesim .* ditas lateraes.) 

« 

SCENA I 

(Ao levantar do panno Theodoro d' Almeida, vestido para sair, pas- 
seia pela scena com impaciência e consulta o rdogioO 

Theodoro — É um defeito que lhe nao desculpo!.., 
Ifade, sempre, fazer-se esperar meia hora, pelo menos i 
Eslou pelos cabellos.. . E' um excellente amigo, nao 
ha duvida : pena é que junte ao defeito de se faaer es- 
perar, o de ser poetai Estes poetas!... primeiro que 
consigamos trazel-os, dos^ campos da imaginação» aos 
factos da vida positiva !. . . 

SCENA II 

THEODORO D^ALITEIDA, UM CR!ADO| depolS D. CÉSAR, 

Criado {afaàiando o reposteiro e annunciando) — 
O senhor D. Gesar [sae). 

Tiibodoro — Ah I fallae no mau apparelhae o pau! 
julguei que nao viesses, D. César.. , 



21 SEGREDOS DO CORAÇÃO 

D. Cesau — Desculpa a demora, Thcodoro. O ho- 
mem nem sempre é senhor de si.. . 

TuEouoKo — Principalmenle um poela.. . 

D. Cesab (fazctdp ww ncsto de abor ecintento, e 
seníando-fc) — Que me queres? 

Theoo:)»o— Eu To digo. A lua peca agradou miii- 
lo; mas, iufelizmeiito, uào pede coulinuar. 

D. Cesau — Porqirc? 

Theodoro — Por que me lembrei de roubar Laura 
ás caricias doesse publico indulgenle... 

D. CErAH — Oue dizes?!.. . 

Tbeodoho — D:go-le que morro pela aclrizl amo-a 
a lai ponlo, que chega a parccer-me impossível ! Levei-n 
para fora de Lisboa; tcuho-a escondida.. . e não lor- 
iiarà a ser do publico, sem primeiro ser minha ! Porém, 
come sou leu aníigo, c calculo o Iranslorno que esla 
falia pode fazer-le, quero que me digas francamenlc que 
género de indcmnisação posso dar-.le. 

D César— Olha, Theodoro, tombem sou leu ami- 
go ; e esla amizade dá-me o direilo de le foliar com fran- 
queza.. . 

TuEODCBO — S:m, sim... quero que sejas franco ! 

D. Cksar — O leu- proGedin>cnlo é inclassificável ! 

Theodoro — Ainda não le pedi o favor iò o classi- 
ficar. 

D. Cesah — Se le commovera um senl^menlo pro- 
fundo, d'esses a que não pod« lesislir, nem sabe, a iii- 
lelligencia dos homens, seria eu enlâo o primeiro a des- 
culpar-le; mas.. . 

Thkodoko (ín'crrcmp(ndO'o) — N5o concedes logo 
que lenha um coração sensivel, por \)ão ser poela!? 

D. César — O coração que ama deveras, sacrifi- 

ca-se-, não sacrifica ! . 

Theodoro (comtco^ — Oh! mas é ura amor lai, 

que. . . 

D. Cesar — Queres dizer que 6 um amor cego? 

TuEDOuo -r- Achaslc a palavra ! 



SEGREDOS DO COR AÇÃG ãS 

D. f ESAu — O amor, Tlieòdoro, esse amor puro e 
icrdHcleiro a que me refiro, senlimenlo sublimo, quasi 
díMuo, que nos inspira o espirilo da mulher, commove, - 
nao allucina! O que allucina, não é amor; é a paixão 
Aulgr.r ; é o desejo ! 

TuEi;Do«o— És um compendio de moral e de phi- 
losophisi I Mas, desculpa-me cm lodo o caso : eu preci- 
so parlir... 

D. Ceíar — Partir..^ > 

TiitoDDiio — Sim; quero ir passar uns dias cora a 
minha Laura. ... 

•D. Cksar— Elua mulher?!... 

T.ii:oDO»o — Mau ! D. César, nao me fãllcs, pelo 
amor de Daus, de minha mulher! E' Icima!... Eihamo 
Laura, cslá acabado ! 

]}. Ce?ar — Nao me.digaslal!...desculpa-me,Theo-' 
doro, nào posso ou\ir-le. . 

Ths:odoro — Nilo podes ouAÍr-me?. . quem te en- 
carregou de advogar a causa de Cecília? Se soubesses 
como le aborrece. . . 

D. Cesab — E* sem razão... mas, nao é d'cHa, é 
de li que se Irala. 

TiíECDouo ■=— Pois bem ; n'esse caso escula-me. Vou 
parlir e nao sei o lempo que por lá ficarei. Quero que 
me faças um favor. Vigiar Cecilias. 

D. Cesar — Vigial-a !? Vigial-a, emquanlo vaes en- 
Iregar-te a oulra mulher !? (í/paríe) Ohl Cecilia! Cecí- 
lia I.,. [alt») Theodoro, o comporlamenlo do homem 
serve de garanlia ao da mulher. Alem disso, bem sa- 
bes ; as mulheres e as creanças são entes fracos... fa- 
cilmente seguem o exemplo do mal ! 

TiíEODORo (r/nJo) — Descança, D. César; Cecilia 
comprehende perfeitamente os seus deveres. Além d is- 
so, quem lhe dirá que eu nao respeito os meus? O único 
de| osilario do mpu segredb és tu. 

D. Cksak — E pcsa-rae, como não imaginas, o de- 
posito I 



SG SEGREDOS DO CORAÇÃO 

Theodoko — NSo S6Í por que... Sou leu amigo, 
Geeilia aborrece-le!... A propósito, queres saber «e le 
engano ?. . . Esconde-le, aqui, n*este quarto e escuta . 
(indicando-lhe a p>r(a da esquerda). 

D4 Cesvb — Escuta. . o que? 

TuRODOBO — Vamos, não percas tempo; Gccilia vem 
abi. . . olba não a \ès? [apoMando-lhe a porta da di-- 
rei ta). 

D. GesAB (aparte) — Tem um coração que eu não 
entendo!... 

Theodoko — Então,* D. César?... depressa I quem 
sabe se já te viu... (abrindo aporta e empuxando-o 
para o qmrió). Escuta, e ouvirás que é bom ! (D. Cé- 
sar entra no qua to da esquerda) Veremos se lhe faço 
perder aquellas idéas de patronato a favor de Cecília, 
determinando- a a au\ilíar-me. 

SGENA III 

THEODOBO e CECÍLIA. 

Cecília (aparte, correndo a scena com a vista) — 
lá aqui não está!... (a//o^ Vinha procurado, Theodoro. 

Theodobo — lEu também ia» n'este momento, pro* 
cural-a, Cecília. * 

Cecília — Isso é tão raro... 

Throdoeo — Mas succede algumas vezes. Eu ia 
procural-a. . 

Cecília — E eu vinha procural-o para lhe pedir o 
favor de me acompanhar hoje para Cintra. Tenho pas* 
sado tão mal com o calor... 

Theodouo — Refrescos fazem bem... a neve, por 
exemplo... 

GeciLfA {com irisieza) — Obrigada. 

Thbodoro — Infelizmente, a repeilo de Cintra, não 
posso ter o gosto de a acompanhar. Uqi negocio ur-. 
gente.*. 



SEGREDOS DO CORAÇlO 27 

Gkcilia — Sempre negócios urgentes t 

TiiEODORO — Então! quem os (em... Mas por Ião 
pouco, não vale afiligir-se. Peço ao meu amigo César 
para a acompanhar... 

Gecilu — Oh t pelo amor de Deus, senhor, não 
me falle de D. Gesar ! 

Thbodoro — E' um amigo verdadeiro; lem-me da- 
do, da sua amizade, taes provas que não posso duví- 
dar... 

Gcci! u — Pois sim ; porém não me fallc d'elle* 
Eu. . aborreço*o ! 

Theodobo — Não aborrece lai! é capricho... é lei- 
ma t... é uma loucura... 

Ci:c:liâ [aparte) — K um segredo do coração I 

THEODono — D. Gesar é um rapaz de excellenle 
eomportamento, perfeito cavalheiro... hade lisonjear-sc 
de a acompanhar a Gintra. Vá... vá com elte; vae 
muito bem I 

Cecília — Escule-mc, Theodoro ; confesso-lbe que 
me faz mal a presença d'aquelle homem ! não sei que 
mau destino lhe inspirou aquella amizade. Não me fal- 
ia senão d'elle; vive quad exclusivamente comeile: 
elle sempre a cbamai-o, a desinquíetal-o^ a prívar*m# 
da sua companhia... Oh Theodoro, tu esqueces-me pou- 
co a pouco... esqueces tudo... 

THEonoRO — Basta, Cecília ; já sei o que ia dizer... 
{mais laixo) Hade ser este anno. 

Cbgilia — Essa promessa já era do anno passado! 

TfleoDORo — Hade ser este ; este» sim : Oca certa... 
mas, agora não é occasião opportuna para tratar d'essas 
coisas... tenho tanto que fazer I E' preciso partir quan* 
lo antes... 

Cecília — Outra vez? Ha oito dias que me não^ 
apparccias.. . vieste hontem, e tornas a deíxar-me hoje? 
Oh ! bem digo eu I. . . Não sei o que me presagia o 
coração. . . Theodoro I tu não sabes que o coração de ' 
uma mulher parece adivinhar?. . . 



^9 SEGREDOS DO CORAÇÃO 

THEODorto — NSo creio em feiliços. 

Ce^ii.u — Feiliços ! nao são feiliços ! E* que eu 
Icio-le no roslo os segredos do leu coração t 

Theodoro — É juslamenle o que clle não lera. 

Cv:riLiA — N5o? Diz-nro sem desviar a visla. {pe- 
ganlO'lhe na viao) Diz-nro, Theodorol 

. Thlo »oro — Desculpa ; lenho pressi. O lempo cor- 
te... 

CuciLiA — Oh! pelo amor de Deus, Theodoro, não 

me abandones; acompanha-me.. . eu preciso sair de 

liisbua ! 

TiiHODORO — Sim, sim, hade fijzer-lc bem ; eu vou 

escrever a D. César. . . 

Gkcilia (ápané) -Ohl islo é um supplicio !.. • 
{aU») Não! não escrevas!. . . PreOro ficjr. 

TuEODORO — Cecilia, a. raiva que lens a D. Cesar 
offcnde-nie ! E' inconcebível !. . . faz-me suspeitar. . • 

Cec L!A — Meu Deus! o que? [assustada^.' 

TuronoRO — Suspeitar que... Suspeitar do seu ca- 
valheirismo ! 

Cecília — Oh! não! D. Cesar nunca me dirigia 
ò menor palavra offensiva. 1ísle desamor que lhe le- 
nho.. . nem To sei explicar. E' um segredo do cora- 
ção I 

TiiEOD)RO — Vulgo: capricho, phantasia. As se- 
nhoras presam e despresam os homens como gostam 
6 desgostam das flores. Adeus. . . 

Ce^tiua — Detem-le. 

Theíidoro — Faz-se-mc tarde. 

Cecilu — Um inslanle ainda, Thsodoro! E a lua 
promessa realisar-se-ha este anno ? {pegando-llie nas 
mãos) . 

TiiaoDORO — E' provável. 

Cecília — Jura-ra'o ! 

TiiRouoRo — Faz-se-me tarde, Cecilia; adeus. ^ 

C2CIL^\ {aparte, levando o Unço aos olhos) — Aeiu 
esta esperança para ifortalccer-me o animo I 



SEGREDOS DO CORAÇÃO 29 

TiiEonoRo (ápart*^ — d-eio que vou comprehcn- 
dcndo I Estimo muito ! (al'o) Adeus, Cecília, adeus. 
(sae jeli esquerda sen lhe dar tempo de o de ler). 

SGENA III 

Cec la [só) — Haprescnlimenlos que nos assustam 
tanto que nao podem doixar de realisnr-se ' E o que será 
de mim \. . % Oh ! meu Deus, va!c;-me ! valei-mc i Aquel- 
]e homem que nào cança d'amar-me em silencio, hado 
cançar-mc de o desprezara lia oito dias que me sinto 
çançadaL. . E quando eu vinha procurar alento nas 
palavras de Theodoro, refugiar-me nos seu^ braços. . .' 
Theodoro, cala-se, abandona-me, deixa-me só ; liio só 
que tenhi) medo .. Tenho medo, sim, de estar só, aqui, onde 
ludo que me cerca é uma. lembrança de D. César ! Sj pro-* 
curo distracção no p'ano, as musicas em que pego foram en- 
viadas por elle a Theodoro! Se recorro á leitura, os Hr 
vros lambem foram escolhidos por elle.. . tudo, tudo é 
gosto seu ; tudo me falia d'elle, ale estas flores!.. . (n- 
rando uma rosa). Tudo me diz que sou eu o seu pen* 
samento constante, único, invariável* (ptndo ab$'racta* 
mento a (lor no cabulo) Gosto tanto de flores . . Ohl 
vou mandar vir minha ftlha. (chegando á pona do fun^ 
do) Paulina-, traze-me Ersilia. A lecordaçao dos meus 
deveres, que nào encontro era Theodoro, achal-a-heí no 
riso innocenle da minha filha- [indo recete^.-a) Vem^ 
vem minha filha. 

SCENA IV 

(Paulina apparece á porta do fundo conduiindo Ersilia, que cor* 
re a precipitar-se nos braços de Cecília.) 

Ersili\ — Mamã.» . mamã. . . 
Gecili.v — Meu anjo! (abraçando-a) 
EttsiLiA — Olha, não sabes, elle deu-meum beijo. •♦ 
perguntou-me pela mama, e nãe tardí\ ahi. . • 



iO SEGREDOS DO CORàC^O 

Cetiua — Oucm, minhn filha ? 

Eu5iLi.\ — D. César. 

Cbc Lt\ — Ah!.. . Vem minha filha; vamos para 
o meu quarto. . . 

Ersilia — Eu sou muito soa amiga, porque ellc gos^ 
ta muito da minha mama. 

Cbcilu — Oh! cala^^le* Ersilin/ cala-ie I.. . Meu 
Deusl até esta creança! (sae com ela pela direita). 

SCEXA V 

(À tcçna flci por momentos visia. D. Cestr eatrt pelo fundo, triste 
c penulivo» seguido de um criado qoe trai lui.) 

D. César (aparte) — Amal-a assim, e ser confiden* 
te dos desvarios do msn-ido \. . 

Criado (pondo a tampada sobre a jirdineird) — ^ 
Eu vou prevenir a senhora (sae). 

D. Gesàr— ^ AmaUa com este sentimento inexpli- 
cavei que tanto mais augmenta quanto menos esperan- 
ças tem* E eu julgava. tel-a esquecido! Insensato, esla 
Ckrta (tirando uma carta) (acordou-me o coração que 
dormia apenas atormentado pela ddr • {abre a carta e 
li) c César, estive no theatro e vi a tua composição i 
das commoçOes que recebi com o interesse d^aquelle 
drama de sentimentos, tão nobres, ISo elevados, nasceu- 
me o desejo de te escrever para te felicitar. ^As relações 
que entre nós existiram estão hoje de (ai maneira ani^ 
quitadas, e eu sinto-me ISo senhora de miro. que n|o 
pode esta carta acordal-as, nem dar-te de mim outra 
tdéa que não seja a de tua amiga sincera- Se não Ri 
um dia por ti todos os sacrifícios, não foi minha a cul- 
pa, nem é ainda hoje, se me não sinto arrependida de 
ter cumprido o meu dever. Guardo no coração um tal 
sentimento, que outro algum terá força para desarrei- 
gar t Mas este sentimento não é, decerto, amor ; se o 
fdra, assim como entendo que devia ser, e como tu o 



SEGREDOS DO COR A cio St 

descreves, que dever n'esle mundo podíamos hesílar em 
sacrifícaHhe?! Adeus, não me respondas nem venhasi 
ver-me ; sou lua amiga ; scl-o-hei alé á morle í {fechm* 
do a caria na mão) Minha amiga ! Oh I não ! a amiza- 
de é preço muilo diminuto para o valor da mercancia ! 
Quizcra-íhe antes merecer a raiva, o ódio... . {s^nía" 
he aniquiladn). 

SCENA VI 

i)« ceSAir, c::c)UA trazendo pela mao a (ilha. 

Ckc:l'a {acarte) — Dae-mo coragem, meu Dousl ., 

EiisiLíA — Adeus, D. Cesar.. . como está? 

D. Cesar (áparle) — Ah I {alio levaniando^se) Vl\^ 
Ilha senhora. . . 

Cecília (senlando-sc) — Senhor», . (pausa). 

D. Cesar — Eu venho cumprir um dever lisonjei- 
ro de educação -/ agradecer-lbe as obsequiosas expres- 
sões da sua inesperada carta,. . 

Ckcilia — Ê o^que me fiz arrepender de • ler es- 
criplo t 

D. Ggsak — Cecília.. . o seu coração é incxptica^- 
vel ! 

CiíCiLiA — Encerra segredos, fora da comprehern 
são dos homens 1 

Ersilia {em pé no sophá, e abraçada com a màé) -^ 
O' mamã, tu cslás hoje tão bonita.. , não está, D. Cé- 
sar? Com esta rosa no cabello.. . 

Ckcilia — Cale-se, menina 1 {tirando a rosa) Ahi 
tem para brincar. 

Ersilia {cheirando-a) — Cheira tao bem! Vou dal-a 
de piesente a D. Cesar: quer, D. Cesar 7. • . 

D. Cbsar {pegando avidamefitê na riM das mãos 
da menina e beijando-a) — Quero I. 

Cecília — Senhor D. Cesar, lèmbre-se que foi mi- 
nha filha quem- lh'a oíFereceu 1. . • 

D. Cksar — CeciliaJ... 



82 SEGREDOS DO CORAÇÃO 

Cecliv — A recordação dó mnu dever, csln n>f;- 
Ic innocenle!.. . A sua presença, senhor.. . contraria- 
mcl 

D. Te 'AR — Pois nao me f.flirmon, que eslava per- 
feilamenlo senhora de si, que não linha força para acor- 
dar recordações do passado, a carta que me escrc\eu... 

CECiLi\-r- Disse.. . 

D. Cb.-ah — Para que me falia cnlao dos seus de- 
veres 7. • . . 

Ckcilia — Por que o senhor níio eslá frio como cu; 
eslá-se lembrando do que desejo esquecer ! 

D. Ci:sArt — EuT e quem lh'o disse, minha senho- 
ra, senSo a sua consciência?! 

€KCit.u — A minha consciência? {agitada) Ohl... 
D. César. . . {puxando rapiiauente a fílka c abraçan* 
do-a) Minha filha ! 

EnsiuA — Eile fez-lhc mal, minha mama? 

GiGiLià — Pez, sim, minha filha, nâo gosles d'ellc 
que me atormenta ! 

£ii3iLÍA~-Haul 

D. Cbsab — Eu atormenlal-a, Cecilia?. .. Eutl 
Para que me escreveu enlào? para que fim arremeçou 
aquella carta ao centro da minha vida resignada ?.« • 
Para que me acordou o coração?. . . E nao seria c:uel- 
dade acordal-o da resignação, para o ver expirar, nu 
afilícção das saudades, á míngua de uma esperança? 

Cijgilia — Perdoe me. Revelou-me que soffria mui- 
lo, commoverara-me as siluaçOes que descreveu... e 
quiz dar-lhe a amizade por bálsamo, D. César.. . (mos- 
trando'lhe a filha) Bem \6 qual é a conveniência que 
me fecha n^um circulo de ferro o coração ! mas ha den- 
tro d'elle um senlimenlo.. . uma amizade eterna!.. . 

D. Gesar — A amizade por amor, Cecilia, a ami- 
zade é um sentimento de convenção, que os factos esta- 
belecem, que depende do tempo] e que o tempo ani- 
quila de um instante a bulro^ sem nos deixar dcíle a 
menor impressão! O amor, sentimento inspirado, in- 



SEGREDOS DO CORAÇÃO 33 

voluntário que nos conduz do vício á virtude» por uin 
caminho de tormentos onde nos purifica t Veja se é pos- 
sível acceílar o primeiro em recompensa do segundo. 
Um que nao tem aspirações algumas por outro que é to- 
do esperanças e desejos. . • 

Cecília (interrompendo-o) — D. César, devo á mi- 
nha filtia o exemplo do meu comportamento I Por tudo 
quanto para o senhor ha de sagrado^ não só n*este mun- 
do, como na eternidade» abandone-me ! Eu sou mulher... 
sou fraca. . . (abraçando a filha) Oh 1 minha filha, que 
sacrificio estou fazendo ao teu futuro I 

D. César — Agora é essa a conveniência que nos 
separa I Respeito-a ; mas, díga-me, ha sete annos an- 
ies> • • 

Cbciua {interrompendo-o) — Escute-me, D. Gesar, 
nao me crimine. Ha sele annos, foram ainda as conve- 
niências que nos separaram ! Fui, como sabe, educada 
na família de theodoro. Era orphS, e tinha por condão 
o soffrímento. Amsrva-o. . . çmava-o muito, D. César ; 
era a minha única felicidade esse amor 1 Mas o desti- 
no. . . (periurbando-se). 

D. César (irónico) — É sempre o destino.. . 
Cecília — Creia-me].. . 
D. Cesak — Enganou-me ! 
Cecília — Eu amava-o- . . 
D. Gesar — E Theodoro?.. . 
Cecília — Theodoro. . . [penurbando-^se) Oh 1 pelo 
amor de^Deus! respeite este segredo do meu coração !.. . 
por mim, pelo seu amigo.. . pois acredita que posso 
ter-lhe amizade ? Eu ?! ter amizade a Theodoro !. . . Eu 
que me tenho consumido de ciúmes^ inyejando-lhe a sor- 
te! que lenho supporlado dias inteiros a sua presença 
para lograr um momento do a ver. . . Oh I maldito seja 
elle ! 

D. Cbsar — Que diz? que diz, Cecília? o meu ami- 
go?. .. 

Cbcilía {ajoelhando junto do sophá onde Ersilia se 



âeiêou ê dorme) ^ Meu Dm8, «Bo esonteis iludia onU 
díçio f B' o pae doesto íonoeente I 

SCENA VU 

GKÇILIA, D. CB8A1, EES|LIA dormíndo, UM CBUDO, 

depois PVDRO i&OBEKTO 

Criado — Spnhor D. César, aprcsenlou-se abí um 
senhor qoe deseja fallar-lhe sem j^erda de tempo. . . 

D. Cisar — pevia tel-o despedido. Kao estoo em 
minha casa. 

CtciLi (ao criado) — Mande entrar, {ò triaio soe) 

D. César — Mas, Circília.quem sabe o que me quer 
esse homem ?. . . 

Cbcilía — E' algum amigo seu. C^enta-seeéUtrai' 
se folheando um livro). 

D. Cksar {aparte) — Desconfio!... 

(N'estf «loiReAto o criado torna a tpparac^ e awiucift.) 

GmiADO -^ O senbar Camacho. 

D. Cbsar {dpar(e) — Gamac^ ?!. . . 

(N'atte momento apresenta-se Pedro Roberto perfeitJ^eniB cara- 
cterisado de bargnez pretencioso. TVpo antipatfaírco^ rcfoltante 
e inconTeniente» e?itando todat ia o micolo.) 

Pedro ((fei/ando a /im^/iij r— Q;«enhor IjK. César, é 
Y. ex,.*^? 

1^. CuSAR (aparte) — Esta voz ! . . . {allfO Em que 
p^sso é^rvíl-o, meu senhor? . 

PuBpRu ^r Oh ! servír-me !• • . soii eu que ponho á 
.sua díifo^íolio os meus serviços, o meu prestíma... tu- 
do 1 C^u^me Pedro José SímSes da Silva Xavier Ca- 
mac)to/ uqíi cr^fido de v. exA.. e d^esU inleressaote 
senhora, (cortejando) Minha senhora I 

Cbciua (4;7aríe) — Anlípathica figura! 

D. César (aparte) — Já vi este homem.. . nSo mt 
recordo * . . . {alio) Senhor. . . 



I^Mbro finterrompemJo) —Pedro José Si mOés dá Sil- 
T« Xavier Camacho, um criado áen aqui e em lòda a 
parte... Otil sem íncommodo. senhor D. Gesar : por 
qwm é . . . {ckegmáií caitira) Estou perftftanittnle 1 
{sen (ase) ^ 

D. GssAR — Posso ter o gosto de saber efa <|[ue ihe 
devo ser útil? 

PíDto — Ulil, meu caro senhor!? ^! s^yu cuque 
dteejo servil^-o, aqui e em toda a parte.. . 

P» G«sAii — PerdSo; entremos em matéria. 
Pemo — Entremos. Eu sou Pedro José Simões da 
Silva Xavier Gtmacho.. . morava em Campolide, mas 
d&9culpe-me de não fhe oíTerécer a casa, porque um fa- 
cto escandaloso.. . 

D. Cesar — Kogo-lhe qUe voltéAjos tío âéStfhafpto. 
PsDRO — Voltemos ; como tive o goilo de lhe dizer, 
ou sou PeAPo José SimSes da . . - 

D. CfiSAtt — PedSo, senhor Camacho ; abreviemos 
o mafs possível.. . 

Pbbbo — Concordo tie plus q^e possihle» como di- 
zem os francezes. Pois, íwm cher, cofrespondo-íhè com 
o Braz Tisana, e tendo om interé^afitissítno dssUmpto, 
trop inieressani, para fornecer-lhe, quiz lodhvia, sçm 
páxift êé tetnpo, consultar a sua opinião.. . e aproveitou 
momento pbrá o felicitar pêlo bom resultado da suapâcX. 
é. CESAfc — Ma& talvez que o logar.. . 
Pi^no — fistou perfcilomenle. A' mon aise Enlr^ 
mos em matéria Ha dias que desapparébeú uma actrílE 
chamada Laura, que tinha d^bli todo na peca com ({Ue 
V. ex.» nos mimoríou. . . 

D. Cesar — Senhor, eSsa qliftSlío paftecé-me impró- 
pria do logar. . . 

Pedro — Perdão, còhbetío loda§ as efi^íbílítf^ tf 0§- 
(otf cíonvèncido. . . Ora, diz*se que um tal Theod^H) d Al- 
meida.. . 

CíCfLiA — Como?!.. . (sobf*esalladâ). 

D. Cbsar — Scrthor.. . (aparte) Este honv*iô. . . 



^ SB6RBD0S DO CORAÇlO 

PiMO — Diz-6e nio sei, que o tal rajeilo Theodo- 
ro roubara a actrix. tendo primeiro o caidaáo de lhe 
embriagar o pae.. . 

D. Gisài — Senhor rogo-lhe que mudemos de as- 
sumpto, reservando para melhor occasifti. . . 

CaciLiiL — Perdão, D. César ; (a Pedro Boberío) 
queira continuar.. . 

PiDBo — O maganSo do homem Theodoro roubou 
a mulher, como dizia, e foi encerrai«a em uma casa de 
Campolide, paredes-meias com o meu prédio; porém^ 
como se não desse bem ali, entendeu-se comigo, e eu 
cedi-Ihe a casa. Vi a actrit ; é formosa, é mulher d'es- 
pirito ; pouco mais ou menos, ler& a édade de v. ex.^, 
minha senhora. 

CaciLU (aparte) — Meu Deus ! 

PiDftO — O homem está louco d*amores ; ella re- 
siste, e aborrece-o 1 scena de melodrama, itmjowrs ; sup- 
plicas, e ameaças de um lado ; lagrimas e despresos, do 
outro ; chega finalmente a hora dos sacrificios ; Theo- 
doro promette-lhe casamento ! 

Cbgilià — Ah!.. . 

D. CisAa — Senhor 1 Theodoro é casado ! 

Pboho — Se é, não sei ; era justamente a esse res- 
peito que vinha pedir a sua opinião, {para Ceeilia) Ora 
veja, minha senhora, coiioque-se v. ex.^ no caso dV 
quella pobre rapariga, que recusa a amizade de Theodo- 
ro, por lhe repugnar a felicidade, á custa da desgraça 
de outra mulher.. . porque Theodoro abandonara por 
ella, mulher e filhos, tudo . . • 

GaciLiA — Realmente, é infamei 

D. Cbsar -*- Minha senhora. . . 

GiCiUA — Sim 1 é infame ! é até onde pode chegar 
a desffloralísaçSo de um homem! 

Pbdro — E' sim, minha senhora! Veja quantas vi- 
ctimas arrasta o seu louco desejo ! O pae de Laura, po- 
bre soldado veterano que morre de arrependimento e de 
vergonha ! sem saber onde lhe pára a filha. . 



SBGRBDOS DO CORAÇÃO 97 

Cecília — Eu sei, eu sei melhor do que ninguém 
o numero das viclimas I Oh I senhor D. César, isto é 
indigno! Ahl minha filhai Que hade ser de ti, pobre 
innocenle I? 

D. Cbsar (para Pedro Roberto) — Senhor, nem 
mais uma palavra a este respeito ! NSo sabe qde está em 
casa de Theodoro d'Almeida?. . . 

Pedbo —Sim i? Então aquella.. . 

D. Cbsàb — Ê sua mulher I 

Cbgiua [aparte) — Oh ! comprehendo, agora, o 
procedimento de Theodoro ; mas. . . quem me assegura 
que este homem diz a ?erdade ?. • . D. Gesar parece en- 
tender-se com elle.. . Ohl Santo Deus, que suspeita!... 
[dirigindO'9e a Pedro Roberto) Senhor, quem quer que 
seja, rogo-lhe por tudo quanto preza, que se desdiga 
sem demora ! Sim, confesse que mentiu I que veiu com- 
prado aqui para desconceituar Theodoro no meu espiri- 
to. . . Oh ! n^o sabe como soffro. . . 

PiiDRO — Que vim comprado! (para D. César) Faz 
favor de me explicar o que esta senhora quer dizer 71... 

Cbcilia — E V. ex.% senhor D. César, que me per- 
segue com o seu amor ínsensalo, ponha os olhos n'aquel- 
le innocente que ali dorme, e lenha dó de sua mãe I 

D. Cesar — Cecília ! está àllucinada.. . 

Cbgiua — Já roe disse que odiava Theodoro, co- 
nheço-Ibe os sentimentos.. . Oh! o seu procedimento... 
é indigno I 

D. Cesab {para Pedro Roberto) — Senhor 1 saia im- 
mêdiatamente d'e8ta casa, se não quer que o faça pular 
pela janella ! 

Pbdro (natural) — Senhor D. Cesar, eu não sou 
arlequim, sou actor. 

D. Gbsab — Pedro Roberto.. . 

Pbdbo — A Providencia fará o resto I (sae) 

D. Cbsar — Ah!.. . 



SGBNA Vm 

GKCiLi/b e D. 



Gbcilií^ — D; G^^r. . . perdoe-flie o que Iliê disse ! . , . 
«B soubesse a tormento que soffro . . Quem era aqmlle 
homem? EUe mentiu; não mentís? 

D. Gbsar — Não me pergunte nada, GeeiUa. Deixe 
á conta de I>eus o comporlaoiMlo de Theodoro. Tran- 
quillise-se, e se|}aremo*nos ( 

Gbcilu — Deixar-met quer deiiar-me agora ?í. ,. 
Isso nao» D. Gesar ; preciso fezer-lhe perguntas sobre 
perguntas. . . 

D. Gs$4B — È melhor nao. liodere a ehiiw que 
lhe causa o comportamento de Theodoro. . . 

GEaLiá {com muii^à dôr) — Oh ! nao é ciuflw !. . . 

D. Gbsab — Então que é ?l 

Gkcilia-^É.. . {perlurbada). 

D. Gesail — Incomprehensivel coraçSotGeirilía, Ce- 
cU^a ... Oh ! separeRM)-nos I 

Gecilia — Pelo amor de Deus, D. Geaarl». . não 
me abandone, se me tem algum amor i 

i). Gbsar — Algum atpor! Ubl GeciHa» pois nio 
comprehendeu aÍQ4a a que ponto chega esie aalor. . . 
{abraçando-a e beijanio-lhe a- mão). 

Gbcilia^t^D. Gesafi acredito que arrisquei ateste 
momento o futuro de minha filha!.. . 

SCBNA. IX . 

CECÍLIA, D. GESAR^ TifEODOao^ cnlrando pela esquerda, 
seft) fazer rumor e observando-os com um riao íro^ 
nico. 

D. Ggsak {tornando a beijar^Vie^ a mió) *— Mas 
desle-me uma esperançai.. . 

Thbodoro — Que eu venho aulorisar • 



I 



SEGREDOS DO CORAÇÃO 39 

Cecília — Ah 1.. . 

D. César (áparle) — Theodoro !.. . 

TflEonoiío {tranquU'o) — Ê realmente para admirar 
a minha appariçSo, quando me suppunhas bem longe 
d'aqui ! {rindo) Mas o teu comportamento, D. César, 
admira muilo mais! 

D. Cksar — Basta, Theodoro ; offendi-te, e reco- 
nheço o meu dever. Devo-te uma reparaç3o I Tel-a-has 
quando quizeres. Agora qufi os laços da nossa amizade 
estão para sempre qlêlrádife, p<»r que me venceu, na 
luta, o coração; lavar-te-hei com o meu sangue da 
nódoa que te lancei I 

Tui^ODORo — Aconselbo-lei D. César, <|tte para me* 
IhtMT oecaáSé guardes o (»»• songue aabre, . v 

D.. CB*Ait^€e«»o ttwiffí Thcwíofo,- rwesa». . i 

TuBOnoRO — Recuso, sim. . . 

D. Cbsar — Mas então és um homem infame! 

Theodoro — Pareée^éf f Ora diz-me : qual será mais 
infame , o homem que, insultado d'este modo por um 
amigo que parecia merecer-lhe toda a sua confiança, 
t^cMsi 6 dttello ; oti aqúelltí f]fue' sb éi^fú^dif dé lotfò^ M 
deveres da amizade, de' todos óâ preqéílós 4^ iqofal, 
para commelter uma acção d'eslasl? Desça n ça ; se te 
fiz essa reflexão não foi para me justificar de não te 
acceitar o duello: paiK eisse fim b^ta dioefir*lei/ , 

Cecília (precipiianikhse a&s pés âe Theodoro, fal- 
lofkdo-lkê Msuiiada, a meiú téi^ eefito se temera fer ou- 
vida por D, César) — Perdão Theodoro ! mata-me ; mas 
nífa) me aviltes na sua presença ! 

Thbodoro (repellindthú eofn iespre» e $lhahdú'paru 
D. Cêsar) — D. Cesar, Mnhum homem de sensç com- 
ffium^ se bale pela soa atiante ! (QpomíoHdo pisra CeeHh) 

Cecília —Oh meu Detii^! meu Beue.. vere^D(le(A« 
CesofT fam uvt ^estp de surpreéa). 



Coe o panno. 



ACTO III 



(Gamara Iqxoom. Portas no fando para om jardin: ditas laloraep. 
Dois bellot retratos a óleo, representando nma mulher e «m ho- 
mem, decoram a parede principal nos intenrallos da» portas. 
UmajanelUádiMU.) 

SGENA I 



(ko lerantar do panno» Theodoro d' almeida está entre os sens ami- 
gos. Reina a mais completa Mtisfaçie nos conrfyas — algnns cria- 
dos serfem-lhes Tinho.) 



!•• CONVIVA — A' saúde de Theodoro! 

Todos — A' saúde de Theodoro ! 
. Thbodoeo — Agradecido ; muito agradecido, Wus 
amigos. 

2.** CONVIVA — Somos realmente teos amigos : a toa 
felicidade enche-nos de jubilo 1 

3/ CONVIVA — E que felicidade ! Três coisas ao 
mesmo tempo. A herança de um lio, o agrado de Laura 
6 a fuga de uma amante já usada 1 

4.* CONVIVA — Que levou comsigo a bagagem! ac- 
crescentem mais esta. 

1 .• CONVIVA — Como assim ? 

4.** CONVIVA — Levou comsigo uma filha. 



SEGREDOS DO CORáÇiO 41 

Todos {rindo) — Para edacar. . . 

1.* GONYivÀ — Ora este caro Theodoro.. . 

Theodoro (aparte) — E que será feito d'ella!.. . 
(alio) Yaraos, meus amigos» uma saúde a Laura ! 

Todos — Viva Laura I 

1 .^ GoirviYA (aproximando-êê de Theodoro) — Mas, 
no fim de contas, és um maganão de bom gosto ! todos te 
julgavam casado com Cecília! Recebiam-na como se f6ra 
tua mulher.. . 

Theodoro — Ora, por saberem que eu era rícol 
Se o não fosse, nenhuma das senhoras que a obsequia- 
vam se leriam dignado olhar para ella. Felizmente, Ge- 
ciiia trahiu-me, e eu desfiz-me d'aquelle pesol.. . 

1.® CONVIVA — Foi ella que te fugiu ? 

Theodoro — Foi sim. Fiquei*lhe muito obrigado ! 
Deixemos o que lá vae ! Amigos, o que passou, passou ! 
O futuro, ninguém vê. Ooòupeaio-nos do presente, que 
é nosso ! A' saúde de Laura I 

Todos — A' saúde de Laiíra ! 

1.^ GONYiYA — Astro da scenal 

2.* GOHviVA — A pérola das formosas! 

3.^ CONVIVA — A mais fiel das amantes. . . 

Todos — Viva Laura ! Viva '.. . 

Theodobo — Silencio. . . silencio. . . parece-me que 
ouvi parar uma carruagem... nio me enganei.. . E* 
ellal relia... 

(Theodoro sae polo fando, sogaido do todos.) 

SCENA II 

(Ascena fica por momentot valia. Thoodoro volta polo fando traioB" 
do Laora pola mio. Laura vem toda TOttida do negro, eogoid a 
pelos seas convidados.) 

Thbodoro — Esta casa pertenc^lhe, Laur a. E' o 
primeiro presente que lhe faço. 



It MMMDOS OO COiAÇlO 

Lkv^k {eom iesprao) — Podi» set iiieth^r. 

Tbbodom — Porém, Boteque ^ ma» deoídido luxo, 
os dbjeoUs de imior preços . 

La»à — A milha imaginnçio vae muito maii lon* 
gel Vá buscar o meu cãosínho que ficou na Gfrroagem. 

TfiBMOEO-^Ingrvtiil. . . fiu tmi. . . (êãêpelo ftm- 
êo. Laura sentasse). 

1 .^ Goiwivà [imw Ai íigfsikdo) — Onde vae ellé ? 

2/ CONVIVA (ilem ao segunio) —Vae busca r-lhe o 
cio.. • 

!.• GoitviTA (fdeiN) — Ora essa*. , 

i.*" GONVità {iiem) -^ B' natural ! Eu iria busor- 
lhe o cio, o gata« . . tudo que elia qBiiesse ! 

l."* GONViTA «-«^ Menos essal Fazer do amaalfe mo- 
ço de cies I não sei o que me parece^/ 

Laura -- lleu» eavalheíros, smlo^nt Ho íaligãfB 
qm me meommoda o «msbof Mido. Qmco estar sã. 

1.^ CONVIVA {áparié)'^U9Í criadh! 

2.* CONVIVA (aos cmrôs) — Como é ÍBteresâttDle ! 
(saem €artêjando-a). 

SCENÀ iU 

LAUBA, TBseDOBa Bf^AAiiKioA IraBondo^u» ciosinlio, 
os ceifnrivAS prestes a sairew. 

Theodoro — Que é isso, então retiram-se ja ?. - . 
Ora essaiir. . ^ cmmka^ fiÊÊnmt^Vi^ atffmmÉ& observa- 
ções) Queria que fossem testemunhas do rico serviço 
que comprei... {n*esie fàoráenla^cão lança um latido). 

LâVRA — Tome cuidado no que faz t Parece que 
astâ» yagando. o^algum^ brabr! 

SuTOBeao-^ B' tao (Mroto q«e^ me* de# )» » dotai- 
der quantos dentes tinha nas queixãtfa^ ! MliAa' íeriBo- 
ra, eu não me entendo com cães I Aqui o tem. 

Labbni^ {deitãtedthihô a hneia) — Had6 apmder. . . 
{pausa) Vá deital-o sobre ^ mittfca cam«, e eorie*lbic( as 



WfiK W08 na CM Aofte m 

cortinas pard evitar os niosquila$^ S» é que e»sa eaiM 
tem cortinas.. . 

Tbkodoro — Pois não hade tof ! Ora essa. * . 

Lav»a — Então, faça o que lhe digo. 

Theodoko ((iparu) — 91uil9 soflre quem aima. . . 
{saindo pela direila, e fingindo acariciar o cao) Deixa 
estar meu interessante brulinbol.... 

L^utià [recoUandO'$$ nf^sopiháê Iwoqndo o l0nç0 aoa 
olhos) — Oh t meu pae ! 

(Tb60doro toIU monèDlos dtpoia.) 

TegoDORO (iVido fàchar as p^rms do j^fimi^ -~ Es- 
tá correndo ar. . . pode constipal-a L. . {púkandê á sce- 
nas contempla Laura, t faUurlhe cof» doçura) Laura... 
Dão queres tirar o chapeo ? 

Lauia — Que lhe importa? se quisesse» nSo espe* 
rava que m'o perguntasse ( 

TiiEoooRO-<- Desculpa. Foi uma perguata indisere^ 
t^f coubeço ; mas. . . 

La ^HttA — Vamos ; não foi tanto como Ifae pareceu ; 
(^im Q chapeo. ThsaAoro me gegar-llijs, ella atirai para 
nm sophá) Theodoro, fa^me um favor ? 

TuBOBoao — Se te faço um favor ?• ^ . mil I 

LA.UIIA — Sente-se aqui : dei:ie-me descaaçsir os pés 
nos seus joelhos. « . 

TuBOiíofto — Minha Uuna. . . (subjeiíandio-êfi) Sim; 
o meu logar é a teus pés. Vens encher-me de. encanloe 
a vida ; é j^usto que te adore ! A beIJea» suty^yga o po- 
der ! 

Laura {indolenle) —^ F^l^a e34)lica^. qoO; o orgu- 
lho inventa para nSo corar de pejo ao ^^er-6e abatido/ 
Quem te prende ahi» Theodoro? 

Theodoro — Os teus attractivos, Laura I 

Laura -^ Os- meusi aUrapttvot! QumáA.eu era po- 
br(: e vivia vida honesta, era acaso menos bella na pu- 
reza do meu viver? Quanrtas^ vece» fwssaste pela minha 



44 taOUDOS bO GORACiO 

porta, emproado e conteDle de ti no luxo do leu Yeslua- 
rio, sem te dignares iançar-me sequer um oihar de ter- 
nura atra vez a nurem de fumo que o teu charuto me 
deixava? 

Tbbodom {inierrampendo-a) — Gonhecías-me de 
vista. . . e gostavas de me ver ?. . . 

Laora — Para rir. Eu ria-me dos ricos por ser 
pobre I Escuta. Viste-roe depois nas salas do conserva- 
tório appiaudida pelos mestres ; e mais tarde no thea- 
tro victoríada pelo publico. Foi no meio do meu tríuia- 
pho que o teu coraçio sensivel descobriu os attracUvos 
que te prendem agora, a meus pés ! 

TasoDoio {interrompendo) — Ejâ nao ris de mim^? 

Lauba — Tenho-te dó. A rapariga honesta, reco- 
lhida, e pura, nÍo era digna dos teus olhares. A mu- 
lher victoríada, mereceu lodos os teus desejos. Se al- 
guém dissesse que te prendiam os &llractívos da primei- 
ra, ria-se de ti o mundo doirado I Se proclamarem que 
desfructaste a actriz formosa, invejam-te á sorte ! Uma 
não podia dar-te mais do que algumas horas de prazer. 
Outra, dá-te com ellas a importância de te chamarem 
seu amante ! A cada eorõa que a benevolência publica 
arrojar a meus pés, será o teu nome pronunciado com 
inveja! E tu hasde apresentar-le ufano e sobranceiro 
nas platéas, por que torturas e esmagas, sobre o teu co- 
ração de mármore, a mulher que o publico victoreia I 

Thbodoho — Laura t É o amor que me prende aqui! 
Tu amas-me? 

LiiJBA — Di-me um copo de champagne. (Theodo-- 
ro leoanta-êe e obedece). 

Thbodobo (opor/a) — Na noite das prímicias, impe- 
ra o capricho t 



(Ltart esgota o copo e ttíra-o ao acaso.) 

Thbodouo (aparte) — Quebra desapiedadamente ! 



SBGBEDOS DO C0R4CÍO H 

(alto) Muito bem, Laura. Os sacríficíos que lhe fiz, de- 
Tem nierecer-Ihe alguma atlenção ! Ama-me ? 

Laura — A convivência com o senhor fez-me notar 
que essa palavra nSo tinha sentido, e por isso risqueí-a 
do meu diccionario. 

Thzodoro — O que? Como? pois nSo é ter-Ihe 
amor^ sacríGcar-lhe a mulher a quem tiúha promeUido 
casamento, despresar uma filha, fazer gastos extraordi- 
nários.. . 

L4i?Rà {rindo) — Um coração índifferente ás lagri- 
mas de uma mãe, recusando a sua filha o nome » o fu- 
turo que lhe deve, fica realmente muilo habilitado para 
fallar d'amor a outra mulher I A palavra é tão fácil de 
se dizer, como o sentimento difficil de se provar ? Então, 
ama-me muito? 

Theodobo — Se a amo ! 

LiORA — Abusou da credulidade de meu pobre pae, 
embriagou-o, levou-nos enganados para fora de Lisboa, 
depois oncerrou-me ; e durante esse tempo meu pae 
finou-se de arrependimento e vergonha! Roubon-me a úni- 
ca affeição pura que linha ! E ama-me muito ? 

Theodobo ~ Muito !^ com toacura, com delírio í. . . 
Oh I tu tens muito espirito, Laura ; sabes fazer de tudo 
um argumento lógico, philosophícó. . . o que quizeres ! 
Eu não sou forte por esse lado ; conheço ; é defeito 
meu. . . involuntário. . . não vou bem por ahi ! Mas em 
compensação, pede-mè o que te parecer ! Tudo que o 
capricho e a vaidade de uma mulher pode inventar até 
á saciedade, tudo satisfarei sem murmurar! 

Lacra — Pois sim I Vejamos se te acho fraco onde 
te julgas forte I. 

Thbodoro — Oh ! ainda que eu tivesse de ficar re- 
duzido á miséria, a comer terra K. . 

Ladra — Typo do denonio tentador! Admiro-te! 
£s grande na tua obra de iwrdição ! 

Thbodoro — Laura. . . 

Lacra — NSo receies que te eaoape ! Infelizmente 



jâ colhi algamas d^essas floíts que o mundo seííieia ao 
caminho do vicio e do erro para attrahir os incautos ! 
Já loméi o gosto ao luxo e á opulência! Sim, agradam- 
me estas sedas, estas rendas ; amanhS, depois de ama- 
nhã, no outro dia ; um dia, ao acabar o luto de meu 
pae, enganarei a dôr do coração cobrindo*me de jóias e 
cravando n'etlas o meu olhar ambicioso ! Tbeodoro l Ea 
não te amot não me entrego!.. . {mais baixo) Vendo- 
me, porque me arrasta a ambiçiol 

TiieoDORo — Mas és minha finalmente?! . . 

L\iiR\ {vacilando) — Oh! ainda não, ainda não... 
Quero ainda por um instante conserrar-me pura, para 
meditar n'aquelles queime votavam uma aGTeiçâo since- 
ra! Respeita esti despedida solemne do sentimento ao 
despejar-me o coração!. . . Ohl meu pae!.. . Ohl Pe- 
dro Roberto !.. . 

SCfíNA IV 



f.AVRi, TBBODOftO D'À|.Mt(DA, Um Cfiado, 

depois pBoao robrhPjd. 

CauDO^Meu senhor, eslà aht nm homem que de- 
seja ler uma peça & senhora. 

fíiEODORO — Agora não' pode ser. 

Laura — Mande entrar. 

Tbeodoro — Nãb quero! Ê algum draitia em cinco 
actos. . . Diga que não pode ser. 

Eaotra — Não teimeis, Theódoro ; eu nãd^eídobrar- 
me ! Mande entrar ! 



(OcBiidosaQ.) 

Thbodoro — Realmente, é um despropósito 1*. . 
Latoa (séH$Hm4(h$e) ^ Tetn gt-açi'. . . 



f BOBADOS DO 4K»*€dU> 49 

TfleoDMo {muiio contrariado) -^ Um autor dramá- 
tico, n'es(as alturas.. . excellente coisa! 



(O criado introdui Pedro Roberto disfarçado, perfeito maeaeo so- 
cial, cabelleira, lantta, ftito usado e rí^Ucalo, obrigado ao re- 
quinte da moda» Maneiras pooco desembaraçadas, e maita pre- 
sampçioO 

Pedbo — - Peço licença. . • 

Theodoro — Pode eatrar. (áparie) Parfeito maca- 
co I Temo-la travada ! O rolo de papel pesa mais do 
que elle I 

Pbiuio — A senhora D. Laura... . 

Laub^*— Sou*eu. {deilando-lhe a lunetu). 

Pedro (idem) — Minha senhora.. . 

Laura {áparie)^ Oh i meu Densi aquaUa voz!... 

Pedro (aparte) — Quem sate se venha a. tempol.,. 

íadra {(^arté) — E' elle t . . . 

Thbodoro {aparte) - O iisigne aiilor está pertur- 
bado, (alto) Então v. s.* quer ler um drama a D. Laiih 
ra? E' favor; D. Laura queixa-^ dt dares» de cabeça... 

Lacra — Estou meihor, poss) ouvir. 

TflBODORO (aparte) ^^ Mo ha remédio. 

Laura — Quando quizev . . (aparte) Mal posso fal- 
lari 

Pedro (sentando-se) — Tanta bondade I . . . (toêsindo 
ao desenrolar o papel) E' um drama em ckiCM> actos. . . 

Tbeoooro — Em cinco acl:«s ! olhe. . • {áfartêj que 
excellente idéa que tive. (aho) Diga-m» uma ^msa : o 
senhor quer vender %peça? compro-lh'a a olhos Cecba* 
dos ! (pegandO'lhe e calculando o peso) Com licença. . . 
ellA parece boa. . . bade convir ao Iheatoo^ Guoip(|o-lh'a 
a olhos fechados I 

Pedro — E' como por ahi se eslá comprando tu- 
do!.. . Vende-se quasi que ai peso I 

THEcnoao — Ouer vender-f 

pRUjio — Não senhor ; quero ler. 



M sBcanot DO coiaçío 

Theodoro {aparte) — Este prefere a gloriai Cas- 
murro ! 

Peuro {tossindo) — V. ex.* di licença? 

(Lt«ra fat •■ gatto.) 

TuBODORO (sentandú<e em disianeiãj aparte) — Qúe 
vontade que tinba de lhe torcer o pescoço ! 

Pedro — O título é — o amor de um actor. 

Thbodoio — Perdio ; o título cae em verso ; e pa- 
rece-me inverosímil, além de soar mal. {aparte) O er- 
ro começa pelo título ! 

Pedro {aeanhtJido) — Acba que ^a mal T E invero- 
símil, será? Pois um actor nSo pode amar?t Eu conhe- 
ci um que.. . 

Ladb^ — Queira ler. {aparte) Com prebendo ludo l 

Pedro — Us personagens do' acto s3o um usurá- 
rio, Thereza mulher do dito, Anna, filba dodito, Aman- 
cia, amante do dito, e Augusto, amante da amante do 
dito! 

Tbbodoro — E' um catalogo de ditos! 

Pedro — O tbeatro representa uma casa, mas eu 
acho melbor que seja uma rua com a casa praticável ao 
fundo, e á roda lampeSes de gai. A casa do fundo que 
tem DO fundo uma porta, deixa ver ao fundo, quando 
esta se abra, uma alcova funda. , 

Theodoro — Como o senhor arranjou ahí uma reu* 
niio de fundos ! (aparte) Fundo não tem o tal autor ! 

Pedro — Scena primeira, Augusto,' que é o actor, 
vae beijar a porta do fundo. 

Theodoro — Tem alguma novidade. 

Pbdro — E diz, —Augusto — Ella habitava aqui 
Tâo bella e pura na sua miséria. . . Branca açucena que 
a lama das cidades manchou ! 

Laurí {aparte) — Oh I meu Deus ! 

Pedro {aparte) -^ Ella comprehendeu t {alto) Hoje, 
perdida no ruidar lisonjeiro dos salCes, quem lhe terá 



SEGREDOS DO CORAÇÃO «f 

amparado o coração contra a vaidade dos hoidens ! 
Àmam-na por vaidade ! Seineiam-Ibe de flores o camí^ 
nho, para que não pise os abrolhos que na voUa hade 
encontrar i {em tom differemé) N'isto vem uma rapari- 
guínlia e pede-lhe esmola. Dá uma esmolinha para 
sustentar minha mãe que morre de fomel —Augusto-^ 
Ê quem é tua mãe? — Rapariga — Era uma senhora 
que meu pae desprezou por amor de outra mulher, (mo* ' 
vimenio de Theodero. Pedro Roberto cmiinua) Se visse 
como se tem arrastado por essas ruas» de noite» pedin^ 
do esmola, que lhe não dão, para me sustentar; as la«* 
grimas que eu lhe tenho enxugado com os meus bei- 
jos I. .. E agora que está doeste, peço eu também para 
ella ! Dá-me uma esmolinha ? 

TuEODORO — Isso é fastidioso !. • ; 

LkVfkk — Mas inleressu 

PiiDRO — Pois é possível — diz Augusto — que ha^ 
ja em peito de homem um coração assim i?.. ; 

Thbodoro (levantando-se) — E' inverosímil i 

Pedro {continuando) — Será possivel que uma mu- 
lher acceite a felicidade á custa da desgraça de outra?! 
Que se não dôa de remorsos ao lembrar que. . . 

Laoba — Perdão. Tbeodoro, dé-me um copo de 
champagne* 

Thbodobo — Ê' uma receita infallível para ouvir 
com paciência um drama discursador I {eollocando a gar- 
rafa e os copos sobre a mesa, e servindo Laura que be-^ 
be com avidez). 

Pedro [aparte) — Oh! meu Deus I Embriaga-se 
para não sentir a dôr do remorso, nem a vergonha da 
sua posição ! 

TuBonoRO — O senhor nSo quer servir-se t 

Pedro ( continuando) -^ E essa mulher que trahiú 
o mais sagrado juramento.. , 

Lkvuk {esgotando outro copn) — Era realmente cul- 
pada t Que faria ella para não morrer de remorso ?. . . 



Pbmo-* Paria o qoe .v. ex/ (azi Bebia coro eir- 
cesso! 

Thbodobo — Senhor i.. . 

LioaA {levantando-se e Cémbakaiuh um insfanie} 
^«^iDfelial talvez qoe ji nio podesse recuar! Teria, 
eoiDO eu, aspirado o perfume das grandezas, deslumbra- 
do a visla oa centemplaçSo de jóias e aibías ; ter-lb»- 
hía devorado o coraçSo o luno ? pervertido a alm^ as 
pompas mundanas?!. . . Ob ! meu Deus, se ba um Deus 
para quem se perde, Talei^me! (cae aniquilada em um 
êophá á direita da scena). 

Pfínao (aparte) -^ infeliz t e desgraçado úe miro ! 

Thbodoro *- Ueu caro jseohor, bem lhe tinha eu 
dilo que Laura eslava ineommodada. . . 

pKono — E' o mesmo; virei n^outra oceasiSo. (enro- 
lando o papel, aparte) Fiquei sabendo que ainda ha n^aquel- 
le cerado um resfo de pudor f Empregarei o tempo 1 

Theodoro «<^ Eu lhe vou indicar o caminho. Por 
aqui. (^indtaande-M^ a poria 4a esquerda). È maia breve. 

SCENA V 

LAUiA SÓ, momentos depois nciuÂ, entrando pelo ftindo, 
trazendo a filha pela mão, e dando signaes de alie* 
nação. 

Czcau (oUkan^o para traz) ^^ik o nSo vejo t . . . 
Era elle*. . era elle !. . • (correndo e largando a ^ha). 

EasiLU {dirigindo-se a Laura} ^^1^ uma esmoU- 
nha para a minha mamã ? 

Laura (como acordando de um lethargo) «^ One ir 02 
e esKd iT. • • 

Ersiiu^Dí? 

Laura (levantando-se) -^ Ibu Deus! Esta creança. . * 
{olkanio e vendo Ceeilia), Aquella mulher.. . lesust... 
quem é esta gente It.. . 

Cecília -^ Onde estou eu ? (caminhando para £aic« 



SEGRBDOS DO COAAClO 51- 

ra) Senhora.. . (dafaUeeida é supplicanie) A minha fi* 
lha morre de fomel.. . 

Laura {cemslgo mêtma) — Uma mSe ver padecer 
fome a iilba ! Deve ser hornvel 1 

Ckciiu [ie$c(m$olad ) -^Kxfigwm escula a \02 da 
pedinte que meadiga a jsubsislenoia de sua filha I. * . Ail 
vamos» rilha4. w Suja feita a vontade de Deusl [dizeném 
isto, volta, e dmd) com o$ olhos no retrato de Tkeodo^ 
ro^ lança um grito), Ah! Theodoro !. . . 

Laura (aus tem ficado pensativa ^ acordando^ s 
c mprshendendo a situação). Jesus 1 £' o meu remorso 
vivo, esla mulher! [pausa: em uma lula ((triiisima de 
commoções intimas, Laura tonlempla Cecilia, e passa 
gradualmente da expressão do terror ao sorriso parli^ 
eutar da niitt^r que se sente pitr' ficada pela ^Mtepçãa 
de um pensamento elevado). 

GeciLiA {murmurandi) ^«Seja feita a vontade de 
Deus! 

Laura [pegando-lhe na fnão e conduzindo-a eomá 
inspirada). -^-^Yenhà comigo, senhora. 

/tiecilia deíxa-se conduzir abstractamente e ambas saem pelo fundo) 

SC ENA VI 

(A soeaa Bca por momentot tasia, senle-ae quebrar o eafiillho da ja« 
neUa da direita» moiienloa depois apparece Pascoal.) 

Pascoal (só) — Bembom I Os annos nao prostraram o 
vigor d*um soldtido da restauração ! {com ironia) Re- 
peliíram-me na porta, sem se lembrarem que me ficara 
a janelia 1 Estou na praça I Falta- me o inimigo.. • òhi 
dVsles que por aqui passam, em deleites, a vida, so- 
bre sophás tão macios, mulherengos t que honra deixa 
combnlcl-os ao veterano usado nas mais duras cargas 
de cavallaria ! {com ironia) E' o mesmo que se eu pe« 
gasse n'eslas garrafas de vinho, (pegando-hes) e as ati« 
rasse por esta janella fora. {atira-as) Agora fechemos- 



8» S8GRBD08 DO GQRAÇiO 

lhe as barreiras, {dirigindo-se para as porias do fando^ 
depara com o reirato de Latra) Ah i aquolle retrato. . . 
é de Laura ! da minha filha l (paissa, con muita com- 
moção) Quem sabe por que preço estás ahí retratada I 
filha da minha alma ! E fui eu, eu, teu pae, teu único 
defensor, que te. . , entreguei !. . . Mis, tínham-me em- 
hebedado ! {rin^o e chorando amargamente] Sim ! línhaim- 
me embebedado ! 

SCENA Vil 

PA^OAL au fundo, TUKOoono entrando pela 
esquerda sem o ver. 

TuBODdão — Pobre poeta... pilhou aquella bisto- 
rf a a dente, e arvorou-a em drama ! (rindo) Eáles dra- 
maturgos das duztas.. . Entretanto, Laura commoveu- 
sc. . . vamos vèl-a. 

Pasgo/l (que o escutou, tocando-ihe m kombro no 
momento em que elle v le abrir a porti da direita). — Pri* 
i^eiro l^ade ajustar as contas com o pae. 

Theodob'j {surprehendiio) — Quem está ahil? 

Pascoái. (faze-hdo-ihe continiencia com ironia) — O 
pobre diabo do sargento Pascoal.. . 

THBODORo-(pí^r/iir&ado, correndo a scena com a til- 
íq; aparte) — Estou só com eilel (o<'o^Olá, nobre veterano, 
como o nSo esperava. . então nSo quer tomar um copo 
de champagne ? [procurando as garrafas). 

Pascoal (tirando do seii da sobrecasaca tciii:i pis- 
toU, e engatilhando -a con placidez) — O senhor sabe 
fazei* o acto de contricção? (tomandik4he a reiiradaj. 

Thbodo::o — Que quer dizer?.. . 

Pascoal {com sangue frio) — Que o v«u «atar. 

Theodoro (fiiiit^o perturbado) — Ora essa. . . {tre- 
mendo de melo) Ora essa.* . matnr-me!.«. {aparte) 
Falta*nic a voz ! nao posso chamar soccorro. . . (cntn- 
ffo aniquilado e entupido de medo, sobre uma cadeií^a). 



SEGREDOS DO CORAClO tt 

Sargento ! quer envilecer-se, commeltendo am assassina- 
lo!?. . . 

Pascoal — E quem é que me chama ao caminho 
da honra ? o homem que me desbonroti! Então, este bigode 
branco, que me nasceu entre o fogo das fileiras; que um ini-» 
migo nunca, impunemente, viu de perto; o habito que a au- 
gusta mSi) do imperador me coUoooa ao peito; este peito que 
serviu de muralha ao ibrono dos nossos reis, e à Hberda* 
de do povo portugnez ; tudo isto hade ficar assim des- 
honrado por um homem que nunca pegou n'uma espa* 
da, por um. . * Oh ! meu senhor^ isso não! A honra é 
um ^gredo do coração, que só o soldado .entende ! 

TuEODORo (áparle) — Elle mala-mel (/«vanfantfo^ 
se) Senhor Pascoal.. • mas bem sabe que n'esle mundo 
a convenção faz tudo ! Lembre-se da convenção d*Evo^ 
ra-monte. . . pois também nós convencionamos ; eu dei* 
lho. . . Perdão, não é por fallar n'aquella ridicularía ; 
eslou prompto a duplical-a !. • . Fal-o-heí feliz. • • 

Pascoal {atirando^lhe uma bolsa com dinheiro)'^ 
Ahi' tem o seu dinheiro I O meu castigo, é lembrar-me 
que estendi esta mao para o receber.. . mas, eu eslava 
tonto 1 E' ahi onde vejo a soa maior infâmia 1 Abusou 
de um pobre velho, que ha tanto tempo não via nem 
oiro nem vinho do Porto.. . e Urou parlido de um mo« 
mento de fraqueza ! . . . Oh i. . . minha pobre filha. • . 

Thbodoro [áparie) — Oh I que idéa que livet Não 
vejo aqui o champagne, naturalmente Laura fez*lhe as 
honras da casa^ e decerto está embriagadal.. . E' capaz 
de despedir o pae ás gargalhadas. . . 

Pascoal — Então, senhor, isto hade acabar ! Con- 
sulte a sua consciência. . . Oh I se a esta hora eslou des- 
honrado. . . 

Thbodí>ro — Perdão; não senhor, não senhor; Lau- 
ra vae lançar- se-lhe nos braços.. . 

Pascoal— Oh! minha filha.. . com que vergonha 
you apparcccr diante 4c ti !it • 



51 ' SICÍRBOOS 00 CORAÇÃO 

Thbodoro {abrindo a porta) — Estou certo que ha- 
de perdoar i (com ironia). 

SCENA VIU 

m 

PkSM\L, 1HB0DORO, O GB€iLi% appareceudo 

á porta com a fiUia 

Ci-GL^À (precipítaniit-se-lke no$ braços) — Sim» 
sim*. . cu le peidòo, Theodoro.. • 

Cecília — Aqui tens a lua filha que vem pedir-te o 
8en nome e a honra de sua mãe I 

PAScojit {aparte) — Oh ! este homem, era pois um 
perverso!.. . 

TiiBODORo — Cecília. . 

C:c L>A-«Bem vês que se o erro, em que pequei 
por pensamento, me tivera manchado o coração, Theo- 
doro, Dão me atreveria a levant.ir os olhos para li ! 
Descttipa-me um desvario, respeita aquelle segredo Talai 
do meu coração... o dá um. nome á lua filha, cumpriíH 
do assim as luas proniessasl 

Pascoal — E Laura?! quem hade restituir a um 
pae a filha, ao soldado a honra dos seus cabellos brau* 
cosi?.. . 

SCENA IX 

PASCOAL, TK1R0I>0R0, CECÍLIA, EHSILIA, PEDRO BOBEBTO 

trazendo pel% mao laus^. 

Phdro — Eu, senhor Pascoal I 

Pascoal — Ah!... Laura... minha Lnura... {abra-' 
çando-a) Tu vés-me corar?!.. . Ê a primeira vez que 
se me fazem vermelhas as faces. E^dcarrependimenio! •• 
Mas, fiilla, falia.. . dize-me.. . Mas eu lenho medo!.. . 
Também é a prWr.eira vez que lenho medo! {pegando^ 
lhe nas mãos e aperiando-as sobre o coração). Oh! mas 



SEGREDOS DO COHACiO S5 

a filha deshonràda nâo sorri assim díanle do poe. . . 
(abraçando-a) Minha filha!.... minha Laura I.. . E tu, 
{para Pedro Roberío) Oh ! bem hajas pelo que fizeste I 
devo-te tanto.. . 

Lauiia — Eu pagarei a divida de meu pne. 

Pf.dro — Quero o capilal na forma da lei, c o ju- 
ro em ternuras.. . (pegando-lhe na mão). 

Pascoal — Sim t Que Deus abençoai â comigo! 

PcBBO — Mas, escuto ali um gemido. . . 

Lacha — Pobre mulher t 

Pedro — Representei uma comedia tão nova, quan-- 
to intima e original, a que vou pôr um termo, possuí* 
do do mais vivo prazer, {para Theodoro). Senhor, ha 
segredos tâo profundos no coração humano, que nos 
nao é dado comprehender, por mais que lhes estude- 
mos os effeitos ! Acrcdite^se na honra de um cavalhei- 
ro que se expatria para não faltar aos deveres da ami- 
zade t D. Gesar partiu hoje de Lisboa; embarcou^se 
para Africa. 

Theodoro — Cecília !.. . {abraçando a filia) Minha 
filha.. .Tens um pael 



Cae o panno. 






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Tudo DO mundo é comedia ; comedia em três actos .' ^ -^ 

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pboses políticas de um homem particular feito homem 

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NO PRELO. 
Remechido o Guerrilheiro, ou os últimos dei annos da sua 
vida, drama em 3 actos, e duas épocas, precedido de am prologo. 
Carlos ou a Família de um Avarento, comedia em qaatro acios 
A Roda da Fortuna, comedia-drama em três actos. 
Nem tudo que luz é oiro, comedia-drama em três actos. 
A Conquista d as Amazonas, comedia-drama em dois actos. 
Um Risco, comedia em dois actos. 
A Pelle do Leão, comedia-drama em três actos. 
O Juízo do Mundo, comedia-drama em três actos, 
lufaria, oa o Irmão e a Irmã, comedia em am acto. 
A Herança do tio Rasso, comedia em três acto$. 
Pedro Cem, comedia em cinco actos. 
O Maestro Favilla, drama em três actos. 
O Arrependimento sal^, drama em 1 acto. 
Amor e arte, drama em 3 actos. 
Fernando, comedia-drama em 4 actos. 
Graziella, drama e 1 acto. 

Não envenenes tu, a mulher, qui-proquo em 1 acto. 
Sccnas intimas, comedia-drama em 1 acto. 
Dois cães a um osso, comedia em 1 acto. 
Minhas Lembranças, poesias de F. D. d^ Almeida Aranjo. 
Os Brasões das cidades e rilias dcPorlu^al por I. deV.j^rbosa 



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*-8 




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O iMiiio Dii DOS imim m portoal 



BRAiNA ORIGINAL HISTÓRICO PORTUGUEZ 



ESI 



QUATRO ACTOS, OITO QUADROS E UM EPILOGO 




Y 



POR 



i 



ALFREDO QUGA^i 








LISBOA 

TTPOGBAIHIA DO PANORAMA. 

Travessa da Vktoria 73 

-- 48C2 




^=^yt-^^ 



I5>n--^ 




ACTO 1 

QVADRO I — O ministro e o jesuíta. 

ACTO U 

QUADRO 11 — Uma jesuíta l 
QUADRO 111 — o desconhecido. 

ACTO Ul 



QUADRO lY — A vingança mallograia, 
QUADRO y — O dedo de Deus. 



ACTO IV 

QUADRO VI — O rei ea favorita. 
QUADRO yii — O conde de Oeiras. 
QUADRO Yiii — A vingança da ordem. 

BPlIiO«0 



INTERLOCUTORES 



D. JosB I, rei de Portugal. 

Sebastião josá DE gabvalho b mbndonça, miaistro do reiao. 

O Desconhecido. 

D. Leonor tello, jesuila. 

D. UAnu TBLLo, aliás d. maria tdehesa tavora, filha nata- 
ral de Sebastião de Carvalho^ e de Leooor TaTora. 

Diogo de Mendonça coaTE-RBAL, ex-ministro de estado, ou- 
trora valido d*el-rei. 

O Dbsehbaroador do paço, ÀDtonio da Costa Freire. 

Nuno d'aliisida, filho natural de Sebastião de Car?alho, e 
de D. Leonor Tello, jesuíta. 

O Padre vigente de deus, jesuíta. 

Diogo pães, espião de Sebastião de Carvalho. 

Julião, velho criado e aio de Theresa Távora, 

Um sacerdote celebbante. 

Um official militar. 

Um gamarista ) ^^ ^^^^^ 

Um porteiro i ^^ P^'^^- 

Gabriel, negro-criado de Sebastião de Carvalho. 

Soror paula, abbadessa do mosteiro do Bom Successo. 

Soror joanna. 

Religiosas. 

Uma secular. 



A acçao é em Lisboa — 1^59. 



ACTO! 



QUADRO I 



0. MINISTRO E O JKSUITA. 



(Sala em casa de Sebastião de Carralho, mediocremente mobi- 
lada e destituída de laxo e apparato. Portas no fundo cofflmn- 
nicando com o exterior: outras laleraes : e ama outra falsa, do 
lado esquerdo do espectador.) 

SCENA I 

(Âo levantar o panno, 8bbástião dbcákvalho está sentado n'uma 
poltrona, em frente da qual ba uma pequena mesa de pé de 
gallo com papeis, e objectos para escripta. o^BaiiL ao fundo 
da scena parece aguardar, em profundo silencio, as ordens de 
seu amo.) 

Carvalho {para Gabriel) — Gabriel, repete os nomes 
das pessoas que solicitam íallar*me. 

Gabriel — D. Leonor Tello, .e o re>rerendo padre Vi- 
cente de Deus. 

Carvalho — E qaem procura o ministro do reino? 

Gabriel — Ninguém, senhor. 

Carvalho — Dão hoje mais que fazer os negócios do- 
mésticos, que os de estado; assim era de esperar, (a Ga- 
briel com modo significativo) Fazei entrar D. Leonor. (Ga- 
briel eaepelo fundo) O que ahi vae de reboliço por Lisboa, 
e agora talvez já pelo reino I Seja embora este o meu ul- 
timo passo na corte, mas ao menos Geará gravado como pe- 
gada de bronze sobre o gelo l E' a minha despedida : são 
os meus adeuses. A ultima medida de um governo solido» 

i 



2 O ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTDGAL 

calcaodo a hydra abominável, qoe procurava roer-lhe os ali- 
cerces enroscando-se na base do throno, e perante a qual 
attonitos recuavam os pequenos; submissos, baixavam os 
grandes a cabeça I Cairei victima do meu zelo.. . terei fim, 
como todos que sabem governar junto do rei! Nâo importa. 
Eu sei que pode arraslar-me o colosso infernal no abjsmo 
em que vae cair!.. . Não importa. Cairemos juntos.. . mas 
a corte 6ca limpa de quantos traidores a inundavam cooi 
triampho. Ficam aterrados^ confundidos ; jamais bãode le- 
Tantar-se ! 

SCENA H 

o MESMO eo. LBONOBTBLLO, vestida de preto: fazoma pequena 
vénia antes de se aproximar, e Sebastião a comprimenia^ 
sem se levantar, índicando-Ihe uma cadeira em íreo£e 
da sua. 

D. LvoNoa — Eu venho queixar-mea v. ex.*, de um 
acto de barbiridade que se commeileul Pondo de parle o 
insulto, feito à minha família, só direi a v. ex.^ que meu 
irmão, D. Pedro Tello, foi ignominiosamente arrebatado de 
sua casa, e preso no caslellol (pausa) V. ex.* decerto 
ignora. . . 

Carvalho — Pelo contrario: sei tudo. % 

D. Leonor {com resenlimenlo) — I^áo o suppunba. . . 
senhor. 

Carvalho — Pelo menos, deveria ter suspeitas.. . 

D. Leonor {interrompendo-o) — Que v. ex.* nào achou 
outro meio de nos aviltar. . . é meu irmão um criminoso?. . . 

Carvalho {com frieza) — Assim o creio. 

D. Leonor — Como assim? 

Carvalho — Senhora D. Leonor, os vossos interesses, 
posto que muito indirectamente, estão ligados com os da na* 
ção, c esta requer segurança. 

D. Leonor — Nào vos comprehendo ! 

Carvalho — Em que posso servir-vos, senhora? 

D. Leonor — Eu desejava uma explicação.. . 

Carvalho— Já vol-a dei. 

D. Leonor — Uma licença para visitar meu irmão.. . 

Carvalho — Torna-se impossível. 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 3 

D. Leonou — Incommunicavel I Ah... senhor... eu 
sou a sua irinâ. 

Carvalho — E cu o primeiro iBÍnislro;^d'cl-rei nosso 
amo, e cumpro com as suas ordens. 

D. Leonor [levantando-se) — Islo é abominável I Assim 
se arranca à sua família um chefe, para ser arrojado nos 
cárceres do caslello, e de là.. . quem sabei Talvez que as 
Pedras Negras lhe sirvam de abrigo, como a muitos outros 
senhores, que de um dia para uma noite desapparecem, co- 
mo se um horrível sorvcdoiro estragasse! (pat«a)^Mas, se- 
nhor Sebastião de Carvalho, nem ao menos me é dado co- 
nhecer os crimes de meu irmão?.. . 

Carvalho {com mysterio) — Estão sellados como segredo 
de estado. 

D. Leonor — Oh ? meu Deus! {pausa) E poderei des- 
terrar a idéa de o ver? 

Carvalho — Se dependesse de mim.. . 

D. Leonor — Diga, senhor.. . de quem dbpcnde.. . que 
eu irei implorar-lhe misericórdia para meu irmão. 

Carvalho — D'el-rci. 

D. Leonor {com pezar) — D'el-rei t E quantas barreiras 
se hSo collocado enlre seus pés e os joelhos dos infelizes! 
A quem é hoje permitlido implorar compaixão do monar- 
cha ?. . . Yós sabeis que el-rei ouve só de vossa' fbocca as 
queixas dos desgraçados; masé raro quando cs^tes fercm^scus 
ouvidos, com o som lastimoso que possuem! 

Carvalho — È porque a maior parle d*ellas são de sua 
natureza injustas. Senhora D. Leonor.. . 6 preciso estar ao 
facto dos negócios de estado, para d'elles 4)oder julgar, {com 
gesto reprehensivo) 

D. Lhonor-^ Basta, senhor. Só me resta o consolo de 
esperar a veniade de alguns boatos que principiam a levan- 
tar-se e aati^itar os espiriios. 

Carvalho {com indifferença) — Eu mesmo concorro para 
que se acreditem, e heide concorrer para se realisarem. Nada 
mais tendes a dizer-me?. . . 

D. Leonor — Só a pedir-vos... 

Carvalho — Fallae. 

D. Leonor — Que tenhaes a bondade de me explicar, 
se è para segurança da nação que recolhendo-me] antes de 
hontem na minha carruagem pelas 11 horas da noite, fui 
detida em nome d'cl-reí ! 



4 O ULTIMO DIÂ DOS JESUÍTAS EM POBTUGAL 

Carvalho — Em vista de onde dimaooa a^rdem. . . 

D. Ltoivoa — Mas isto Toi om aboso! D. Leonor Tello 
Bio é sombra que possa ameaçar a (raaqoiliidade da naçáo 
porlagueza. É ama tjraooiadev. ex.* emQomed'ei-rei ! De 
▼. ex.*, que tem espesínhado a hoora dos nobres, e abatido 
suas cabeças aos p6s do povo t 

Carvalho — É porque s2o inimigos dei-rei. 

D. LcoNOR — £ não è v. ex.* que os tem feito seus ini- 
migos, revestindo com o saogne de seus irmãos o maoto de 
purpura ?. . . 

Carvalho — D. Leonor !. . . 

D. Leonor (brando) — São duras estas verdades, mas 
de ninguém ignoradas. E todos anelados esperam a tossi 
queda, para poderem erguer a fronte, e respirar, do jngo 
de ferro que vossa mão lhes tem lançado. 

Carvalho — Quando eu cair, senhora D. Leonor^ perco 
a responsabilidade, que sobre mim também pesa. Mas em 
quanto eu calcar o solo do poder, os inimigos do rei não 
levantarão cabeça. 

D. Leonor — E por que não lhe cbamaes vossos ini- 
migos? 

Carvalho (com ht/pocrisia) — Porqne a minha pessoa nâo 
vale amigos, nem inimigos^ senhora D. Leonor. 

D. Leonor — É porque os julgaes tão iosignificantes, 
que não podem atacar os vossos interesses pessoaes. E assim 
tem sido!.. . 

Carvalho {baixo) — E infelizmente. . . 

D. Leonor — Assim continuará, {como pretendendo aba- 
far o que disse) Ah. . nâo. . . Deus tat não permittat (rápido) 

Carvalho — Nada mais pretendeis?.. . 

D. Leonor — Saúde, senhor. 

(Carvalho toca uma campainha: Leonor levanta-se, fazendo uma 
pequena vénia, á qual Sebastião (fe Carvalho corresponde.) 

SCENA III 

os UESUOS, e GABRIEL. . 

■ 

(Gabriel acompanha D. Leonor, eCarTalho a segue coma vista.) 
Carvalho (í(/) — Hâode cair..- hSode cair ! {Uvan- 



o ULTIMO DIÂ DOS J ESUITAS EM PORTUGAL 5 

ta-sé) E se formos juntos^ no abysmo em que rolarmos,, 
heidé fazel-os tremer perante quem os humilhoa 1 Tem maíia 
viava derramado lagrimas. Tem muitos filhos perdido seu 
pae. Tem as Pedras Negras absorvido muita gente. . . mas 
o throno de D. José não tem jã quem lhe mine os alicerces. 
(com triumpho) Cairei' talvez, mas em todos os coragOes fi- 
cará gravado o meu nome. Cairei, mas deixarei na corte 
inextingaiveis rastos de sangue, {olhando para sobre a mesa) 
Miseráveis! em quanto em segredo ardem alguma trama, eila 
sae das trevas em que buscam involvel-a, e vem sobre esta 
mesa patentear-se aos olhos de Sebastião de Carvalho; e 
aqui, convertendo-se em fogo^ lança raios de exterminio so- 
bre quem a urdiu, confundindo-os com o p6 da terra I 

SC ENA IV 

o MBSMO, e DIOGO PAES, entrando pela esquerda. 

Diogo — V. ex.* dá licença? 

Carvalho — És tu, Diogo?.. . podes entrar. Qu© ^ac 
de novo?.. . 

Diooo — A*respeito do mancebo, por em quanto, nada : 
mas espera-se lá para a noite, que elle vá] a casa de D. 
Leonor. Tem custado I 

Carvalho (jfrace/anáo) --= Nem sempre te ajuda a tua 
vista de lince. 

Diogo — Não julgue v. ex.* antes do negocio ]oonclui- 
do. Hoje haveis de saber quem ellc é. E se não fosse a pouca 
confiança que em mim depositava o senhor D. Pedro Tello. . . 

Carvalho — Esse, já esta noite não impedirá teus pla- 
nos. 

Diogo — Bem.. . 

Carvalho — £ o que se diz em quanto á expulsão dos 
jesuitas?. . . 

Diogo — O que é de esperar: uns criticam ;'e os mais 
sensatos louvam o bom golpe de mestre. Em quanto a el^ 
les. . . cuidam de si, e mal podem cuidar dos outros. Dizem 
também, coisas do povo.. . que.. . 

Carvalho — Que eu cairei 1?.. . 

Diogo — É verdade.. . mas.. . {abananio a caheça) 

Carvalho.^ Bem.: lembra-te que esta noite.. . 



6 O ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EH PORTUGAL 

Diogo — Coroo foram tomadas as minhas medidas de 
prevenção. . Dae*me as vossas ordens, (faz profunda vénia 
ê sae^ depois de Sebastião, de Carvalho lhe designar a porta , 
tocando ao mesmo tempo a campainha) 



SCENA V 



SBBASTliO DE GAIYALHO C GABRIEL. 

Carvalho {a Gabriel) — O padre Vicenle de Deus. (Ga- 
briel inclina-se e sae) A enlrevisla dos tigres que buscam 
de$pedaçar*se! Vão enconlrar-se face a face os dois tremen- 
dos poderes que se chocam, assombrando Portugal 1 É a ul- 
tima entrevista de dois poderes que se abatem, e que na sua 
queda, braço abraço, peito a peito, lularào silenciosos! {ao 
padre que entra) Entrae padre.. . {com ironia) Se não sou- 
bera o que vosaQlige, por certooadivinJiara. Haveis de con- 
fessar que dei um golpe de mestre! 

Vigente — SeUo-hia, se o alvo a que se dirigiu não 
fosso tragado pelo inferno, em cujas entranhas se occulta 
á vossa vista. Nós partimos.. . somos vergonhosamente ex- 
pulsos, (com ameaça) Mas lembrae-vos que o mundo inteiro 
é pátria de um jesuita ! E tirado o ^ solo do poder, nada 
inais existe para Sebastião de Carvalho. 

Carvalho — Olhae, padre, que se cu cair, será sobre 
vossos cadáveres, para impedir com o meu corpo que tor- 
nem a levantar-se. Deide esmagar-vos na quedai 

ViCBNTE — Para tal, seria preciso um peso enorme, e 
uma força^ superior à vossa. Nós caimos, e no abysmo nu- 
triremos esperançosas idéas de nos levantar., .-mas vâs. . . 

Carvalho — tforrerei com a palma da victoria, e os 
alicerces de minha lousa hâode ser os jesuitas. 

YiCENTB {com èscarneo) — É muito prophetisar! 

Carvalho — Padre, eu nunca costumei revelar os se- 
gredos de estado, e muito menos os meus pensares ; mas, 
agora, acho prazer em communicar-vol-os para destruir essa 
idéa que pretendeis nutrir. Ueide aniquilar com os jesuí- 
tas as sHas esperanças. 

Vicente — Talvez não. * 

Carvalho — Vós contaes um apoio em todas as naç5e&. 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTA^ EM PORTUGAL 7 

Env Franga e em Inglaterra sois fortes, e n'outras mais. . . 
mas se os tossos irmãos forem como vós expulsos. . . 

Vicente (estremecendo mau grado seu) — Se tal^fosse, 
restava-Dos o mundo. 

Caryalho {com mofa) — E se o moodo inteiro, iilu- 
minado pelo meu exemplo, vosexpellir, direis talvez. . . que 
vos resta o inferno I?.. . 

Vicente — Não: mas direi que o mundo iiluminado pela 
vossa terrível queda, não levantará mão sacrilega sobre 
nós. 

Carvalho — Por toda a parte ha homens de espirito 
grande. O que vaie a queda de um homem, em troca do re- 
pouso de uma nação?! Padre.. • a França e a Inglaterra, 
seguirão o meu exemplo. Dãode ficar como Portugal livres 
da peçonha jesuítica. Chegou o século; em que os povos re- 
cuam do vosso jugo. Esses povos sobre os quaes elle se es- 
tendia, hoje impávidos o calcam aos pés! 

Vigente — O nosso poder é superior ao dos povos: e 
a nossa prevenção hade impedir a nossa ruína. Não deixa- 
remos de ter a posse ou o impt^rio do mundo, que se humi- 
lha ante nossos decretos. Firmaremos de novo nossas raí- 
zes em Portugal.. . em Portugal donde nos expellis, mas 
no qual fica nosso domínio. 

Carvalho {designando a mesa) — Ali estão as molas 
para tocar o cutelo exterminador.. . e estas molas.. . pa- 
dre.. . eslas molas.. . cruzam o mundo. O cutelo por toda 
a parte será le^antado sobre vós.. . e eu o farei cair. 

ViCE^iTE — Mas segurae-vos que a sua queda hade pro- 
duzir terrível abalo. . e esse abalo... pode scr-vos -fa- 
tal!.. . 

Carvalho — Talvez. . . 

ViCENfE — Vós caireis, e vossa queda será horrível!.. . 

Carvalho — Não importa, padre, porque os jesuítas 
ficam arrasados. 

ViCKNTE — Adeus^ senhor.. . e na vossa extrema hora 
lembrae-vos que vossa mão recusou a nossa. Procurae {apon^ 
iando para a mesa) que aqueihs molas sejam seguras. 
Adeus, pela ultima vez, e lembrae-vos do que vos disse, que 
o mundo inteiro é pátria de um jesuíta I {sae pelo fundo) 



8 O ULTIHO DIA DOS JESUÍTAS EM PORT0Í3AL 

SCENA VI 
caitálho, depois o desconhecido. 

Gaivalho — Não me amedrontam as tnas ameaças^ nem 
o abysmo que vejo a meos pés. Qnefo serinexoravei, e nem 
o temor do inferno seria capaz de fazer-me retratar, ou re- 
trogradar no camintioqae encetei. E' o meu derradeiro passo 
talvez no solo do poder : além ^e abate o cabos, e ainda mes»- 
mo nas suas orlas. . . 

O Desconhecido {entrando pela porta falsa rebuçado 
n'uma capa escura) — Sois tremendo eterrivel, como a von- 
tade do Eterno I 

(Carvalho incHna-sa respeitosamente, e Gabriel annuncia no fundo 

de scena.) 

Gabriel — Sua ex.*, o encarregado dos negociou da 
França, (retira-se) 

(Carvalho e o Desconhecido se olham miitaaroente, e este indí- 
ca-lhe a porta do fundo, pela qaal Sebastião de Carvalho tae, 
faiendo profunda vénia.) 

O Desconhecido {designando-o com a destra) — O rei de 
Portugal ! 



Cae o pánno^ 



ACTO II 



QUADRO II 



UMA JESUÍTA! 



(Sala em casa de D. Leonor Tello. Portas no fundo commoni- 
cando com o jardim. Portas lateraes. B' noite : noia serpen- 
tina com lozes, coHocada sobre nm tremo, á esquerda do es* 
pectador, illomina a scena.) 



SCENA I. 



Diogo (stf, entrando pela direita) — S' custosa a minha 
commissáo, masbeide preencbel-a, porque é Tontadede Se- 
bastião de Carvalho, e sua Tontade é de ferro I Triste de 
mim, se fraqueasse! D. Leonor é segara, e de sua bocca 
nada saberei. . . mas. . . quem sabe t?.. . Talvez queaceoan- 
do-lhe com alguma fabula por mim inventada, se deiíe 
cair, e^eu me eleve. Dizer*lhe-hei o que me parecer a res- 
peito do rapto de seu irmão. . . lançar-lhe-hei parras, e es- 
tou certo que heide colher os bagos, A confiança qae em 
mim deposita hade trabil-a ! 

SCENA II 



o MESMO, e D. LEONOR TBLiO. 

D. Leonor — Já aqui estás, Diogo?.. . Ainda bem, por 
que preciso de ti. Dize-me primeiro.. . tens sabido algoma 
coisa?.. . 



10 . o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

Diogo — Maito t. . . {com mysterio) 

D. LKonon (aneiada) — E de meu irmão?... Falia.. . 

Diogo — E da sua repentina prisio! {aproximando -se 
e»m muito myjtterio) Outí dizer ao ministro* que julgando 
elle o senhor D. Pedro Tello. . . {olhando em seu torno des- 
confiado) Não virá ninguém 1?... Nem aquelie mancebo 
que. . . 

D. LeoNOR — Para com elle, aqui, não ha mysleríos : 
IQ bem o sabes. 

Diogo — Sei.. . não ha duvida que sei: mas eu.. . des- 
conGo!.. . 

D. Leonor — A revelação que vaes fazer-me, em nada 
me prejudicaria, se fosse d'elle ouvida. Diogo.. . apressa-te: 
dize-me» se na verdade sabes o motivo do rapto de meu 
irmão. 

Diogo — Se na verdade o sei I ?. . . Tão certo, como ser 
eu Diogo Paes, um criado de v. ex.^, que ouvi, com esies 
que a terra hade encher; ao ministro, quando fâUava.. . 

D. Lkokor {precipiiadameníe) — Coiu o desconhecido? ! 

Diogo (aparte) — Qual desconhecido! {alto) Esta ma- 
nhã.. . 

D. Leonor {com rapidez) — F.illou com elTe!. .. Com 
aquelie homem desconhecido e uiysteríoso que a todos pa- 
rece superior! Com aquelie homem terri^el.. . 

Diogo — Sim.. . cu estou louco!... È sim.. . comesse 
mesmo, (aparte) Desconhecidos no palácio!.. . 

D. Leonor — E dísse-lhe. . , 

Diogo — Que vosso irmão.. . era.. . 

D. Leonor — Da congregação jesuitica ! ?. . . 
Diogo — É verdade. 

D. Leonor — Bem : não careço já de ti : retíra-fe. 

Diooo {aparte, saindo) — Ainda mais» um maroto t.. . 

SCENA 11^ 

D. LEONOR, depois VICENTE DB DEUS. 

D. Leonor {só) — Deteve-o, para com elle deter os seus 
bans ; mas engana-se, porque Leonor Tello dispõe d'elles : 
Bio ficarão em Portugal! Ah.. . e meu irmio preso.. . des- 
terrado talvez se eu partir. . . preciso ficar t Mas ainda po* 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS Eli PORTUGAL 11 

nho todas as minhas esperanças n'esse 'homem terrível, a<^ 
qual parece aléhumjlhar-se a vontade deOeos. .. elle bada 
valer-me 

Vicente (entrando pela esquerda) —D. LeoDor... qac- 
reis ajudar-nos?. . . 

D. Leonor — Km lodo ! 

YicB.NTE — E'-nos forçoso urdir um laço para Sebastiio 
de Carvalho; calcal-o como elle nos calcoai 

D. Leonor — Fallae . . explicae-vos.. , 

Vicente — De Nuno de Almeida lançaremos mão para 
nossa lerrivel vingança. E' mister atear-lhe no peito a- cha* 
ma do eTLaspero, annar-lhe a desira, e lançal-o face a face 
com o inin.igo. 

D. Leonor — Mas como virá o ministro a minha casa ! ? 

Vicente — De sua livre vontade, para romper as tre^ 
vas de um myslerio. 

D. Leonor (confusa) — Exprr.ae-roe qual seja esse mys- 
lerio 1. . . 

Vicente — Silencio!... Ahi vem Nuno. . . retiremo-nos. 

(Retiram-se; e Vicente de Deus deixa cair uma carta no chio.) 

SCENA lY 

NUNO, depois MARIA. 

Nuno {sô^ indo examinar o fundo da scena) — A' decima 
primeira hora, o preludio de uma harpa, e Maria nos meus 
braços.. . Esses melodiosos vibrares são as vozes de amor 
ique me chamam. Maria. . . {vindo para a scena) oonca eu te 
vira que assim me poupava a tormentos infernaes. Estou 
collocado enlre oceo eo inferno..*, entre a vida ea morte! 
Oh.. . anjo divino.. . amar-te, e sem poder nutrir a riso* 
nha esperança decomligo me unir.. . e no momento em que 
de minha bocca ouvires o. terrivel nome, que o meu prece- 
de. . . fugirás. . . como o anjo de satanaz !. . . Ah. . . maldita 
existência, porque te nâo acabas!?... {ouvê-se onze horai. 
Nuno as conta) Ajzora, quero-a mais que nunca, porque este 
bronze a ella me chama, (ouve-se o som de uma harpa^ nojar^ 
dim; Nuno escuta) E' Maria que me abre os braços. . . i 



IS o ULTIMO DU DOS JESUÍTAS Eli PORTUGA.L 

« 

ella.. . com seus Ubios de anjo.. . com sea cântico divino, 
porqae elia è toda do ceo. 

(Yaê até á porU do fundo, e Maria se lhe lança nos braços.) 

■ 

MAaiA {com transporte) — Nuno. . . 
Nono — Maria... 

{kHim caminham até á bocca da scena.) 

Maria — Ha muito tempo já que aguardavas?.. . 

Iiloifo -^ Desde a nossa ultima entrevista, Maria, que 
Dio tenho deixado de aguardar com impaciência a de hoje. 
Se podesses adivinhar como hei padecido. . . eu te mereceria 
uma lagrima, {pegando-lho na mâo que aperta contra o peito) 
Se conhecesses a força d'este fogo que me abrasa. . . 

Mabia-^E tão puro, que de amor o peito me faz ar- 
far.. . Nuno.. . olha como o coração me bate.. . como o 
sangue me pulsa nas veias.. . eè porque estou a teu lado, 
porque nutro a risonha esperança de um dia me conduzires 
á face do altar, e me chamares tua. 

Nuno — E nâo és tu minha já?. . . não te pertenço eu?. . . 
não te hei votado já minha existência ?. . . não somos um do 
outro?.. . Que mais ambicionas?.. . 

Mabia — As bênçãos do Eterno. 

Nono {com pezar) — Do Eterno.. . {rápido) E não tem 
elle ouvido nossos juramentos, filhos de um amor sem limi- 
tes?.. . Não nos terá elle já abençoado?.. . 

Maria (com meiga reprehensão que a seu despeito prefere) 
— Nuno! 

Nuno {como se um pensamento o horrorizasse) — E ea 
tevictimo!.. .Oh. . . perdoa-me. . . perdoa-me. {ajoelha segu- 
rando-lhe uma das mãos) Maria.. . eu sou um louco, que 
saindo das trevas que o involvem. . . que esquecendo-se do 
jugo de ferro que sobre elle pesa. . . e do anathema que ó 
reveste.. . fee lançou era teus braços 1 Que ousou unir seu 
coração abrasado de impuro fogo ao teu de virgem, que sò 
conhece :i chamma divina !. . . (levantando -se rápido) Oh. . . 
mas eu partirei. 

Maria — Nuno.. . In deliras I.. . {delendo-o) 

Nuno {comprimindo o peito) — Tu não sentes a luta 
horrível que aqui se passa?.. . E' o inferno, {designando a 



o ULTIMO Dli DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 13 

fronte) E aqoí. . . um peD^amenlo. . . único. . . só. . . é por 
li. . . por ti, Maria. 

Maria {arrebatada de amor) — Nuno. . . 

Nuno — Eu tenho no peito oinfemo.. . e estes tormen- 
tos que me offerece. . . são novos. . . ainda ninguém os ex- 
perimentou t 

MARfA — Eu noto em leu rosto negro pezar que te la- 
cera o coração ! E nãtf m'o contias ! 

Nuno — Que dizes, Maria! Queres que pela minha bocca 
pronuncie minha s^nlença !?. . . Queres que eu mesmo te se- 
pare de mim collocando entre nós nma eterna barreira.. . 
que me despedace a alma I?. . . Mulher. . . mulher, que fazes 
a delicia de minha existência, eque também lhe lanças todo 
o fel do exaspero!.. . mulher que me offereces o ceo, e 
logo o inferno ! mulher que com o teu sorrir de anjo me 
partes o coração!.. . Ah.. . eu deveria ter calado este amor 
que me abrasa f. . . Eu deveria alongar-me de ti. . . morrer 
coro este amor desgraçado. . . porque tu nãu podes ser mi- 
nha L.. 

Maria (ajoelhando) — Nano ! . . . Nano I. . . Que me ar- 
rancas o coração I {toma-lhe a destra, que chega aó peito) 

Nuno {olhando com ternura para Mana) — Como tu és 
bellal.. . Gomo eu desejava possair-te. . . {com pezar) Mas 
é impossível ! {como tomado de súbito pensamento; levanta-a 
com rapidez) Oh !. . . levama-te. . . levaota-te. . . não curves 
tua fronte de anjo. . . aos pés do filho de satanaz ! Maria. . . 
pela ultima vez. . . {abraçando-a) e adeus. . . para sempre!. . . 
para sempre!. . . {em acção de partir) 

Maria {como se o pejo e a dór lhe embargassem a voz; po^ 
dendo apenas proferir um nome) — Nuno !. . . {correndo pjra 
elle) 

Nuifo {no limiar da porta do fundo, detendo^se repenti^ 
namente) — Maria I. . . {corre de novo para ella) Pára que me 
chamas! ?.. . 

Maria — Que motivo poderoso e terrível te arranca de 
meus braços!?.. . de ao pé d'aquella que te ama apar de 
Deus.. . da tua Maria! Oh!.. . tu meoccultas um segredo, 
que temo, e busco saber. 

Nuno — Não sabes que a minha alma de satanaz não 
pode ser do ceo? Não sabes que me lancei no inferno?.. . 
que se me ateou no peito a chamma impura que ali traga os 
innocentes?. . . que o meu contacto te avilta e deshonra ?!. . « 



It o ULTIMO Dlà DOS JBSUITAS EM POBTUGAL 

Mabia — Oh.. . por piedade; falia., . falia.. . 

Nono — E juras não me amaldiçoar?.. . 

)Iabi4 — Pelo ceo, te abençoarei. 

Nuno — Joras não me abandonar?.. . 

Maria — Pelo nosso amor i'o juro. O .mais criminoso 
que fosses. . . o mais condemnado pelo ceo^ e petos ho- 
mens. . • o mea coração nunca de outro seria. 

Nuno — Nem meu. porque não quero manchar-le com 
o opprobrio que me cobre ! 

Mabia A ti., .opprobrio!?.. . Ah!.. . falia.. . falia.. . 

pelo ceo, ou pelo inferno. . . falia. . . 

Nuno (agarrando-lhe bruscamente no pulso e conduzm- 
do^a ao fundo da scena como se temesse ser ouvido de alguém 
maii. Descrevendo em seus passos um semi-circulo^ piza a 
carta^ que depois Ike fica em frente) Queres saber queraé 
Nuno... o homem que te votou corpo e alma... o teu 
louco amante?. . . é. . . (caminha apressado para a scena ; dd 
com o pi nacarta^ larga Marias que continua a caminhar para 
a bocca da scena) Ahl. . . meu Deus. . . que ia eudizer-lel. . . 
(pausa) Uma carta.. . (apanha-a) sem nome. . . sem sobres- 
CT'\[iio. (lendo) fEsta noite... à uma hora, na sala conti- 
gua ao jardim, Maria.. . serei comtigo, e Nuno segurof. . .» 
Ah !. . . {momento de silencio: Nuno caminha de braços cruza- 
dos sobre o peito até Maria: no semblante, se lhe nota a raiva 
e o eiume concentrados) 

MAftiA — Meu Deus. . . ! traição !. . . {muito alterada) 

Nono — Deus me rasga o veo de myslerio que me ven- 
dava! 

Maiiia — Nuno. . . acreditarás?.. . 

Nuno (interrompendo-a) — Que tu me aviltavas! Acre- 
dito que o teu coração nunca foi meu, mas sim de um ri- 
val 1. . . Ah. . . mas este ferro. . . 

Maria {ajoelhando) — Fere. . . é vida I 

Nuno — E' vida, sim.. . porque teu olhar^rae desarma 
o braço i E' vida porque jamais te arrancaria o coração ! E' 
vida^ porque antes mil golpes no meu e'no seu peito, do 
que um só no teu! . . . Oh. . . vingança !. . . vingança ! {soe 
rapidamente pelo fundo) 

Maria (levanta-s^ e corre para onde saiu Nuno : depois 
volta para a scena e cae sobre uma cadeira escondendo o rosto 
entre as mãos, acabrunhada pelo pezar, e pela dôr) — Virgem 
Santa, valei-me !. . . 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL «S 

SCENA V 

MARIA e D. LEONOR TELLa. 

D. Leonor — SSo horríveis seus projectos de vÍDgança, 
mio hâode ser preenchidos : n<no me cumpre recuar ante 
o meio, o mais criminoso que seja, para satisfazer os decre- 
tos da ordem. E' forçoso Livar com o sangue de seu inlmi* 
go a mancha de ignominia qtie sobre ella lançou, (pendo 
Alnria) Aqui eslá Maria : faç»inoj(-lhe renunciar aessemao* 
cebo. que não pertence já a este mundo, senão como o int- 
trumento de infernal projecto t [despertando-a) Maria I.. . 

Maria (muito abatida) — Quem me chama?!.. . 

D. Leonor — Sou eu.. . é vossa madrinha. 

Maria (levnntnmlo-se confusa) — Senhora. . • 

D LfeiONOR — Que fazii>is aqui?! 

Mahu — Eu. . . seniiora. . . 

D. Lbonor — Nâo bu<;'{U'Ms illu<lir-mc. Estou ao facto 
de vossa condiicta ! {com dignidttdi») Maria, é forçoso enicn- 
dal-a : esquecer esse mancebo louco, a quem insen«iata, cu- 
tre^.isUis vo:>so amor! Maiia. . . andies errada na vereda 
do dever, e da honra, e a mim cumpre-me chamar-vos a 
ella. 

M\RiA — Senhora ! Será errar o trilho da honra amar 
um homem como Nuno d^Almeida! ?. . Maria conhece bem 
os deveres que o seu Si*\o lhe impõe, e náo é preciso que 
ninguém liros recorde. 

D. Leonor — Minha afilhada, lembrae-vos que por em 
quanto estai^s sob a minha tutela. E se vos prczaes de co« 
nhecer bem os vossos deveres, não o pareceis.. . esquecendo 
qu(* eijes vos impõe cej^a obediência áquella que vossa tia 
confíoii o cuidado de màe. 

Makia — Minha pobre lia'... . 

D. Leonoh — C com o vosso comportamento, que de- 
veis respeitar-lhe a memoria. B' preciso mudar de condu- 
cta : deixar de amar Nuno d'A!meida, porque vós não po- 
deis pertencer^Jhe. 

Maria — Exigi de mim o maior sacrificio que puderdes 
imaginar.. . mas renuncial-o.. . Oh.. . isso nunca I Eu sei 
que não posso talvez pertenccr-lhe.. . queelle me nâo ama 
já. . . mas. . . senhora. . . senhora. . . eu morrerei com o meu 
amor. 



16 O ULTIMO DIl DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

D. Lbonoí — Senhora l {com dignidade) 

Maru — Ha coDventos. . . mas se D'algum fôr sepulta- 
da, nem mesmo a imagem do Eterno riscará de mea coração 
a de Nuno d'Alineida i Nem os maiores tormentos me farão 
proferir outro nome, que não seja o seu I 

D. LsoNoa — Desgraçada !. . . (aproximafido-se-lke e se- 
gwrandO'lke o pulso ; conduzindo-a á bocca da scena) E sabes 
quem èNuno d'Almeida?. . . Sabes quem é esse homem exe- 
crafel a quem te votaste corpo e alma! ? 

MAaiA {iupplicanté) — Senhora.. . 

D. LsoNoft — Queres saber quem é p teu louco aman- 
te. .• o homem reprovado pelo ceo, e pela terra?. . . 

Mabia — Por piedade. . . 

D. Lbonor — Aquelle cuja memoria nem a face do 
Eterno riscaria de teu coração ; aquelle cujo nome proferireis 
no meio de horríveis tormentos? 

Maeia — Senhora. . . senhora. . . 

D. Lbonor — O vosso Deus.. . o vosso ídolo... é um 
jesuíta 1... 

Maria {como ferida de um raio) — Ah ! . . . 



\ 



Cae o panno, 



QUADRO III 



o DISCMIICIM. 



(Gamara particular de D. Leonor Tello: janellas no fundo, e 
porias lalteraes : uma pof ta falsa da esquerda. Ê noite : a 
scena está illumínada pela lui de duas Telas de cera, colloca- 
das sobre um tremo doirado, e com espelho, entre as jenellas 
do fundo.) 

SCENA I 

(Ao levantar o panno, d. lboicoii está setttada n*um sopbá, á di- 
reita do espectador, e vkintb dk »bu8, de pé a alguns passos de 
distancia. 

YiGBNTB — Ea vos assegarO) que o sol de amanhã hade 
illaminar nossa partida, e o cadavei' de Sebastião de Car- 
valho ! D. Leonor, coragem, e tudo será vencido. 

D. Leonor — Desculpae-me. . . a idéa de um assassi- 
nato em minha easa. . . è um receio infundado talvez., . 

YicENTB — Sim.. . e pouco digno de quem soist 

D. Leonor — É preciso vencer-me. . . ide seguro, que 
Leonor Tello será quem deve ser. 

Vicente — Assim vol-o ordenam os vossos interesses, 
senhora, {vae-se) y 

SCENA II ^ 

Leonor {só) — Uma voz occulta se ergue em meu cora- 
ção, ainda a favor d'esse homem maldito I Forcejo para me 
vencer, e é-me totalmente impossível I (letanta-se) Ah!..^ 
Maria... Maria... que futuro a esperai... Temo adivi^ 
nhal-o 1 E eu é que sou a culpada. . . eu que me esqueci 
do meu juramento.. . de velar sobre sua vida.. . de IhQ 

2 



18 O ULTIMO DU DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

servir de mãe!., . Oh mea Deusl... meu Deus!.. . {pau$a, 
com resolução) Embora: é mister que Leonor Tello cum- 
pra seus deveres. É mister que o ultimo dia dos jesuítas 
em Portugal, n'elle deixe traços de sangue, que o tempo 
não apaguei {examinando) Ahl vem Julião: vejamos o que 
elle sabe. {vae seníar-ie) 

ãCENA III 



D. LEONOR e JULIÃO. 

JtLiXo-^É certo que v. et.* mandou cbamar-me? 

D. LtfOTfoti — Sim, Julião: aproxíma-te. {Julião apro* 
xima-se) Coisas me hão constado^ que muito me desgostam, 
por teu respeito. Com tuas loucas palavras, sei bas lançado 
um terror pânico entre os servos de minha casa, prophetí- 
sando-lhes uma desgraça, um eminente perigo, qu» nem tu 
mesmo» por certo crés, próximo a rebentar, u'este palácio! 
Não sei que razões possa ter o bom eleal Julião, para assim 
fallar, em casa d'aquetla, que o ha tratado com todas as 
considerações, que sua edade e seus serviços lhe tem grau- 
geado I 

JdliÂo—: Prouvera aos ceos que a desgraça e o perigo 
dé que faltastes, senhora D. Leonor, estivessem tão longe 
de nós, como m*o quereis fazer acreditar! Eu também 
prophetisei a queda da nobre familia dos Tavoras ! 

D. LiONOR — Tuas palavras, só as posso crer (ilhas 
de teus muitos atinos. 

JuLiXo — De meus annos, e dalal*ga experiência de ler 
nos corações, os seus menores sentimentos. 

D. Leonor — Julião: é forçoso que te expliques! 

Julião — Eu vos satisfaço. Em 1740, que eu servia 
como aio de D. Maria, em casa da senhora e infeliz D. 
Leonor de Távora, em um bello e sereno dia, pquco depois 
do romper d'alva, passeiava eu pela praia de Belém : ouvi 
nns gemidos, que chamaram minha attenção eme dirigi para 
onde elles partiam; chego ao pórtico da egreja dos frades 
Jeronymos, em cujas lageas chorava uma pobre creancíuha, 
que um mez, se tanto« teria de nascida \ Torneira em meus 
braços, é voltando para o palácio, a fiz crear por uma mu- 
lher que perto morava: o infeliz deíitro d'ama pequena bolsa 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 19 

de veludo, pendente do collo e toda cosida, trazia uma car- 
ta, e um retrato pequeno em marfim. 

D. Leonor (surpr$hendida) — E abriste essa carta?.. . 
Conheceste as feições do retrato?!.. . 

JoLiÃo — O retrato.. . como se me Tira n'um espelho. 
A carta.. . abri-a, porque assim o julguei conveniente. 

D. Leonou (o mesmo) — B essa carta.. . 

JuLiXo — Revelava coisas acerca do nascimento do me- 
nino, calando comludo o nome de sua mãe : e dizia mais, 
que o retrato era o de seu pae. 

D. Lbo.^or {levantandO'Se) — B como se chamava o in- 
feliz ! ?. . . 

JuuÀo — E para que m'o perguntaes, senhora I ?. . . 

D. Lbonor — Mas o seu destino?.. • 

JuLiIo — Tinha o menino oito annos, quando entrou 
n'um collegio, do qual um dos directores era um frade 
que frequentava o palácio de D. Leonor de Távora. 

D. Leonor — E nunca mais soubeste d'elie?. . . 

Julião — Nunca o perdi de vista. 

D. Lbonor — E sabes ainda hoje quem elic é. . . oude 
está?.. . 

Julião — Sei.. . senhora D. Leonor. 

D. Leonor {andada) — E quem é. . . quem é?. . . 

Julião — E para que fim quer D. Leonor Tello conhe- 
cer um infeliz, que sua mãe expelíiu de seu seio ! ?. . . 

D. Leonob [aparte) — Oh!.. . cruel reprehensãol [ba- 
tem uma pequena pancada na porta falsa; sobresalêada) É 
elle. .. o mysteriosol.. . (a Julião) Bom Julião... dentro 
em pouco nos veremos. . . por emquanto, deixa-me. 

JoLiÃo [saindo, e aparte) — Heide salval-os. (vae-se) 

SCENA IV. 

D. LEONOR, depois DESCONHECIDO. 

D. Leonor — E como impedirei o delicto ! ?. . . E' tarde 
jàl.. . Diogo Paes foi avisado da entrevista com o Desco- 
nhecido, para a minha casa conduzir Sebastião de Garva^ 
lho.. . omyslerioso, está ali. [designando) A traição está no 
seu auge.. . o golpe não tarda.. . [repete o signal na porta 
falsa) Âh. . . que farei!?. . . meu Deus.. . meu Deus. [diri- 



20 O ULTIMO DU DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

ge-se para a porta falsa, carrega em uma mola^ e ella te 
abre) Enlrae, senhor, eslou só. 

O Desconhecido {pela porta falsa) — Só. . . sempre só 
com tea amor. (abraça-a) • 

D. Leonor {depois de fechar cautelosamente aporta) — 
E com o pensamento n'aqoelle que me faz palpitar o cora- 
ção. Com o pensamento naqaelle que extremosamente amo ; 
n'aquelle, do qual me não é possível colher um olbar de 
ternura, que não seja filtrado atravez essa impassível mas- 
cara, que me impede chegar meus lábios aos vossos I D*essa 
mascara que me occalta um sorrir de amor, pelo qual eu 
trocaria a minha existência ! 

Desconhecido {com ternura) — Leonor. . . 

D. Leonor— rAmar-vos, como ninguém ainda amou.. . 
aperlar-vos contra meu peito. . e não poder de vossos lá- 
bios colher um osculo ardente. . . Oh !. r . isto é doloroso l 
{pausa) O que temeis aqui junto da vossa Leonor, onde nin- 
guém mais vos escuta nem vé. . . que temeis pois, que não 
descobris o rosto ! ?. . . 

Desconhecido — Tu dcspedaças-me o coração, mulher 
querida! Oh.. . nao me ser permillido satisfazer teu justo 
flescjo, é para mim mais que a morte! Mas acredita-me... 
tem piedade de mim se me amas, se teu amor nasce como 
o meu do coração. . . desculpa-me. . . não me obrigues a 
arrancar a mascara ! 

D. Leonor — E não ter eu força para esquecer esse 
amor que me inspiraes ! Na primeira entrevista, um poder 
irresistível me arrojou em vossos bragos. . . uma idéa vaga 
se apoderou de mim. . . um pensamento que explicar não 
sei. . . Oh. . . quem sois. . . quem sois ! ?. . . 

Desconhecido — No momento em que na tua presenga 
teu amante descobrir o rosto, era-the mister deixar-te. . . 
esquecer. . . esse amor que lhe tem feito arrostar tantos 
precipícios para chegar a teu lado. . . que lhe tem feito esgo- 
tar o cali^ de amargura, para repousar em teus braços ! 

D. Leonor — Meu amante!.. . Mas que mysterio hor- 
rível vos involve ! Quem sois, que só podeis amar atravez 
uma negra mascara? Quem sois tão myslerioso como -a mor- 
te« que quando me aperlaes contra vosso peito... um pen- 
samento sublime parece collocar-me acima de todas as ou- 
tras mulheres de meu nascimento!? Quem sois, que pos- 
suis o segredo de fazer palpitar o coração de bronze de Leo^ 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 2i 

nor Tello I ? Quem sois vós, que o mea coração collocaes du- 
vidoso, entre a honra e a deshonra ! Que me pareceis sa« 
perior a todos os outros homens I.. . 

Desconhecido {vivamente) — Leonor... não busques co- 
Dhecer<-me. Eu lenho-le dito mais que deyera.. . teu amor 
tem-m6 arrancado palavras, que eu sempre deveria ter ca- 
lado i Eu sou um homem que te ama, com um amor vio- 
lento... e não queiras saber quem é teu amante, porque 
essa revelação fatal te arrancaria de seus braços. 

Leonor (aparte) — Sempre... sempre as mesmas pala- 
vras I (alto) Logo não éD. Leonor digna de vós... seu amor 
vos avilta?... 

Desconhecido — Não. 

D. Leonob — Sois um plebeu que teme aviltar-me?... 

Desconhecido — Não. 

D. Leonob {aparte) — Quemysterio! (aUo) E vós tudo 
podeis?... 

Desconhecido-— Abaixo de Deus. . tudo. 

D. LsoNoa — E roais que o monarcha?... 

Desconhecido — Podel-o-hia ató humilhar aos pés de D. 
Leonor. 

D. Leonor {andada) — E podeis mais que o primeiro 
ministro?... 

Desconhecido — E que todos os homens. 

D. Leonor — Basta. Haveis de me dar uma prova do 
vosso poderio. 

DEscoNHiciDO-*r E do amor que te consagro... falia... 
ordena ... 

D. Leonor — E prometteis... 

Desconhecido — Tudo t 

D. Leonor — Meu irmão foi preso no castello^ por 
ordem do primeiro ministro... desejo-o em liberdade. 

Desgonhegado — Será cumprido teu desejo. 

D. Leonor — Mas isto não basta. É-me forçoso rasgar 
hoje o veo de mysterio que vos involve... é-me forçoso co- 
nhecer-vos. 

Desconhecido — Mulher... mulher... pelo nosso amor... 

D. Leonor — Ainda que fosse mister calcal-o aos pés, 
despedaçar os seus laços, para vos conhecer... eu o faria.. , 
nada de mysterios... eu quero saber quem sois... 

Desconhecido — E' irapossivel! 

D. Leonor — Eu vos supplico... homem ou demónio..» 



22 O ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

{lançando^€'lhi aos pét) Arrancão essa iofernal mascara... 
é Leonor»., é vossa amante qae toUo pede .. 

Desconhecido {afastando-se vivamente) — Oh... por pie- 
dade... por piedade... Tu não podes avaliar asiortar^s qae 
lanças cm meu peito ! Nâo me peças que te deíKe... que en^ 
ine nós cave um abysmo que nos separei Mulher, que mais 
ambicionas, que o amor de um bomeoll, qae pode quanto 
quer... de um homem, cuja força e poderes podiam sacri- 
ficar Portugal ao menor capricho de Leonor Tello... que po- 
dia arrancar do throno a D. José, e avassailai-o a teus 
pési... 

1^. Leonor — Eu ambiciono conhecer esse mysterioso tio 
potente. Ambiciono chegar aos seus, estes lalúos que vezes 
tantas lhe hão jurado um amor sem limites... e se meus 
afagos não podem vencer-vos, {'ecnand^ e mndanda de tom) 
kinbra^-vos que sois em minha casa, onde tudo posso! 

Desconhecido — Leonor. .. ousarás.. . 

D. Leonor — Todo... tudot .. Sei que è uma traição 
infame... porém o exaspero a que me redua o amor/ me 
veda conhecer deveres e honrai Estaes em mèu poder... e 
d'aqui não saireis sem que eu saiba quem sois. 

Desconhecido (iurprehendido) — Leooor. . . Leonor. . . 
adeus para sempre 1 {dirige-se para a porta falsa que aehM 
fecliada) 

D. Leouou — Nâo tenteis evadir-vosl Vede que posso 
aqui sobre vós, como podeis sobre os homens I Se elies se 
curvam á vossa mysteriosa vontade de ferro, no meu palá- 
cio, todos se curvam á voz de Leonor Tello t 

Desconhecido — Leonor... abre aquella porta*.. 

D. Leonor — Nunca, sem que primeiro saiba quem sois. 
(«• cumule do exaspero) Filho de satanaz... que me despe- 
daças Q coração.., «qae lhe alteaste uma chamma ierrív^i 
que o abraza... o cneu ooração... ometi coração que jamais 
havia palpitado de amori Oh.T. descobre teu rosto... ou eu 
chamarei meos criados... {em acção de partir) 

Desconhecido — Conhecerão teus criminosos amores... 
e a tua d^shonra. 

D. LeoMon — £u te designarei como um homem que 
tentava surprehender-me. Eu lhes direi q»e ôs um ifiíarae 
salteador... q«e te introduziste furtivamente em rainha casat 
{chamando) Acudam, senhores t 



o ULTIMO DIÂ DOS JESUÍTAS EM PORTUGiL 23 

Dbsgonhbgido {á bocea ia scena^ embuçando-si na capa) 
— Ah I . . . {exasperado) 

SCENA V 

os MBSMOS, DIOGO GOliTE BEiL B O DESBMBABGADOR. 

D. Leonor (apontando o desconhecido) — Descobri aqaelle 

homem. 

(Os dois armados de ponhaes, avançam.^ 

Desconhecido (com voz forte) — Diogo de Mendonça 
Corte-Real... António da Costa Freire... recaae... etremei... 
miseráveis ! . . . 

Desembargador {recuando) ^^E qu«m sois' vós que as- 
sim nos fallaesi?... 

Desconjiegido — Eu sou um homem que pode aterrar- 
Yos e conrnndir-vos com o pó da terra I 

(Os dois o1kam*se surpresos.) 

D. Leonor — Ah... demónio... demónio que ainda aqui, 
na tua presença, recuam os homens... e que não saiba eu 
quem soisi... 

Desconhecido — A vida de teu irmão, é o preço domys- 
terio que me involve I 

D. Lbomor.^M6u Deasl... mea Deufil (ahr^ a porta 
falsa) Sai... 

(EUe passa pela frente de Diogo e do Desembargador qiie reevafii 
atemorisados e abalados pof un reepeito iavoluntario.J 



Coe o panno. 



ACTO 111 



QUADRO IV 



A VINfiANCA lALLOGRADIl. 



(A mesma decoração do segando qoadro.). 



SCENA I 



(Ao levantar o panno» d. lionoe tcllo, coitb-ibil e o dbskk- 
BARGADoa, estão em scena. Os dois últimos confasos e'atter- 
rados.) 



D. Leonor — Com effeito, senhores, desiorolfesles gran- 
de coragem ! 

Desembargador — E' porque o susto continuo çm que 
iBe traz a vigilância do ministro do reino, me faz recuar ao 
mais leve susurro I Estou como sabeis, fora d*essa maldita 
Santarém para onde fui abrigar-me pelo terremoto, e onde 
fui mandado ficar até morrer. Ah I... que nâo suspeite elle, 
que estou em Lisboa... 

Coete-Real — E eu poregual intriga, e por abandonar 
el-rei n'ebse fatal dia descendo do seu valimento ao seu des- 
prezo... 

D. Leonor — Sempre receios... só meu peito os nao 
conhecei Na verdade, senhores... que me não pareceis dois 
homens instigados pelo amor da vingança 1 Da vingança 
que devia sobresaír em vossos corações, e d'elles desterrar 
todo o temor, {pausa) Em vista do respeito involuntário 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 25 

que de vós se apoderou, na presença d'aquelle mysteríoso... 
acabo de conhecer quem elle seja í Ah i... podia a es^tas ho- 
ras no thrpno de Porlugal faltar o rei, e amanhã no minis- 
tério Sebastião de Carvalho t Podiamos a estas horas estar 
vingados t 

Desembargador — Senhora D. Leonor, Icmbrae-vos da 
desgraçada conspiração de 175S, e do lamentoso fim de 
Leonor Távora ! 

D. Leonor {aparte, muito alterada) — Ah I... 

Corte-Rbal — Sebastião de Carvalho foi quem lhe er- 
gueu o patíbulo.-. . e Sebastião de Carvalho ainda está no 
ministério, e tem o valimento do rei t... 

D. Leonor — Basta... basta! (rápido) Se em tal con- 
siste vossa coragem, Leonor Tello seria capaz de vos dar 
lições de valor, {sae pela direita) 

SC ENA II 

COITB-BBAL 6 O DES^MBAItOAOOB. 

Corte-Real — Confesso-vos que tomei parte na conspi- 
ração, fascinado pelas palavras de D. Leonor; mas estou 
arrependido porque prevejo... 

Desembargador — Talvez como eu, a vingança do mi- 
nistro! Oh... quem sabe se elle estará ji informado pela 
bocca de D. Joséf... Nunca suspeitei que aquelle Desco- 
nhecido fosse... {aterrado) Nem eu quero pronnnciar-lhe 
o nome, por que traz comsigo a idéa do cadafalso!... 

Corte-Rbal — Verdade seja... mais seguros seriamos 
se nossos punhaes... lhe cravassem o seio... e nem d'elle 
um rasto ficaria... que podesse indicar os culpados... 

Desembargador — Quem sabe... quem sabei... Por mais 
espesso que fosse oveo domysterio... um indicio qualquer... 
denunciaria os assassinos} 

SCENA III 

os MESMOS, e o. MARIA TÁVORA. 

Maua (vem caminhando com passos incertos e vadllantes 



2« O ULTUO DIA DOS JESUÍTAS EM POBTUGAL 

atéáboeea ia $eena, o Desembargador e Corte-Real se afas- 
tam^ ficando no meio) — Descai pae-me senhores, se venho ia- 
terrDmper-T<>s as rossa pratica l«.^ Não sei que presagío fa- 
Besio ma faz borrorisar até de mim mesma l Em todas as 
pbysionoipias, noto não sei qae de terrível e mysteriosol 
Uio ha muitas horas se me agitou o coração de maneira 
lai, que mo obrigou a abandonar meus aposentos, e a fa- 
pir... Ah!... differentes sentimentos inexplicáveis, me com- 
batem no peito e sua luta é terrivel i 

Deseubaroadoi — Desterrae da vós, senhora D. Ma- 
ria, essas idèas que vqs perturbam e que podem toraar- 
se de graves consequeiuMas. Bem vôdes que são infunda- 



• • # 



CoftTs»RE4L -^ E pouco díguss da quem possue em re- 
pouso a consciência... senhora. 

Mabia — Não. . . algum myslerio horroroso se passa no 
palácio; sim, eu o leio em todos os semblantes.. . uma per- 
turbação n'elles se acha gravada com expressivos caracteres, 
que a ninguém é dado^occultar I Mesmo vós, senhores. . . 
sois inquietos e desassocogados. . . minha madrinha muito 
mais. . . e enlre os servos. . . uns rumores. . . umas vozes... 
circulam de bocca em bocca. . . causando o assombfb eo ter- 
ror!. . . muitos bão ji abandonado o palácio. . . Oh. . . não 
busqueis ílludir-me. . . não busqueis comsupposta tranquíN 
lidade. . . pccuUar-me o que eu leio. . . em vossos cora- 
ções!.. . 

DESEMBABfiADoa -^ Senhora D. Maria.. . a vossa agita- 
ção, é que vos figura encontinl-a nos outros 1.. . nós vos 
deixamos, (inquieto olhasido para Corte-Real^ lhe diz aparte) 
Não seria desarrazoado prevenir D. Leonor. . . 

Gortg-Rbal (6aiâpp) *— Assim o entendo, (f^o-se) 

SCENA IV 



MARIA, depois NUNe. . 

Mabia (s(f) — Aquella carta... aquella traíçãol.. . aquelle 
veneno que occnlta mão lançou em meu peito.. . teve um 
alvo. . . e esse alvo. . . meu Deus. . . temo adivinhal-o 1 . . . 
Oh. . - qttem seria o autor d'esse projecto infernal I Quem 



o ULTIMO Ulk DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL S7 

seria què achou um pra^r bárbaro em ^parlar, com mão 
de fcvo, dois corações que eram já um 4q outro . . dois 
corações, que a mimosa uiâo do amor havia unido cem o 
sorriso aos lábios I... Oh!... Nuno... Nudo.«. perdi-te... 
perdi4e para sempre i... Exlieguiram em teu peilo o logo 
puro que te havia inspirado... para o substituírem pelo de 
ciúme e da vingança I Da vingança cujos brados horríveis 
sufTocaram a minha vozl... (pausa) Meu Deus... misericor* 
dia... misericórdia para mim... {ajoelhando pouco apouco) 
Arrancae-me esta vida que não aprecio jà 1... Vós sois justo 
e bondoso... soiso paedosaSlicios. . . eu nunca vosoffendi... 
meu Deus... roeu redemptor. . . abri-me os vossos paternos 
braços, {neste momento Nuno apparece á porta da esquerda^ 
rebuçado n'uma capa negra, e contempla Maria, com expres^ 
são mixta de dôr eãe raiva. Bate uma porta. Levantando-se 
como tomada de súbita e horrível idéa) Talvez quen'este mo- 
mento um brado de maldição, seierguesse com minha prece 
ao throno do Eterno I... (aterrada) E esse brado... era de 
Nuool... Talvez que a estas horas o seu punhal... (corren-^ 
do ascena com a vista^ olha para onde está Nuno) Ah... 
não... não... és tu... Uà mesmo... 

Nuno (deumbuçando-se) — Efigastas-te, D. Maria... eu 
sou Nuno d'Almeida. EngaAas-ie m«lher... que agaardavaa 
o amante e surge-4e salaaazi Vè... eJba bem para mim. . • 
desengana-te. (aproximando-se) Julgavas que não seguiria 
os teus mais (eves passos... insensatail Aquiesiou... quero 
ser lestemunhn do tua entnevista ii'esíta sala... n^esta sala 
onde tantas vezes hallucinado pelos teus carinhos Talsaríos^ 
depunha a teus pés meu amor. e meu coração 1 Aht... eaU 
caste-os... zombaste d'elles... escarneceste-me I.. . E em 
quanto ás tuas aras eu erguia o incenso de um amor puro 
e santo que te tributava.. . tu só pensavas.. . no meu ri* 
vai... n'esse rival odioso que um veo de mysterio involve... 
mas que a ponta de meu punhal hoje rasgará 1 

Maria — Nuno... que acreditas uma traição da qual 
has sido o ludibrio.. . e da qual ambos seremos victimasl 
Eu nunca' amei outro quenãoíosse Nuno d'Almeâda... nunca 
por outrem bateu este ooraçiD... 

Nur<ro (interrompendo-a) — Insemjsata... buscas descul- 
par«te, e não attendcs que tudo te atraiçoa?!... Nuca 
amaste senão a Nuno d'AI'meiâa... masq^ buscavas aqui?... 



28 O ULTIMO DIA. DOS JESUI TAS EM PORTUGAL 

A' uma hora... na sala contigua ao jardim... Ahl... eram 
as formaes palavras da cartai... 

'Maria — Meu Deus!... Foi uma calamnia horrorosa ! 
Nuno... {ajoelhando ao$ pis de Nuno) pela ultima yez te 
rogo... acredita-me... nlo sei o que me diz o coração... 
não se: o que prevejo de terrivel... que me assusta... 
Nuno... Nuno, eu sempre te amei... tu nunca tiveste um 
rival... 



SCENA V 



os MBSMOS, e D. LEONOR TCLLO 



D. Lbonoi (com gesto reprehensivo) — Maria/... {Maria 
levanta-se rapidamente^ e Nuno se afasta) Assim desobedeces 
ás minhas admoestações!... (a Nuno) Senhor... rclirae- 
vos... porque Maria jamais poderá pertencer-vos. Seu cora- 
ção deverá ser... 

Maria {interrompendo-á) — Senhora... senhora... 

D. Leonor [com severidade) — Calae-vos Maria 1 {a Nuno) 
Eu disponho de sua mão como o julgo conveniente... reti- 
rae-vos portanto, que nada chama vossa presença D'este 
Jogar. 

Nuno — Eu me retiro, senhora, mas ha um peito e um 
coração que chamam a ponta d'esle ferro, (tira um punhal 
e soe rapidamente pela esquerda) 

SCENA VI 



D. LEONOR e MARIA. 

D. Leonor — Minha aBlhada, a vossa conducta mancha 
a minha 'honra ! E eu vos ensinarei a ser mais exacta no 
cumprimento de minhas determinações ! 

Maria — Acabo de conhecer que me destinaes um es- 
poso, e é do meu dever declarar-vos, que jamais pronuncía<- 
rei o sim fatal que me entrega nos braços de um homem 
pelo qual jamais senti o menor amor, e que nem mesmo co* 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM POR TUGAL 2» 

nhcço. Maria Távora, senhora, a nio ser de Nuno, não 
será de outrem. Foi este um juramento que prestei á 
face do ceo, e que o Eterno sem duvida se dignou aco- 
lher. 

D. Leoj^or — O ceo não houve nem acolhe juramentos 
insensatos ! Nâo busqueis interpretar as minhas idéas» mas 
cumpri as minhas ordens. 

Maria — Em tal ponto, nunca o espereis, senhora. 

D. Leonor — Maria,., reflecti bem no que acabaes de 
dizer ! 

Maria — Se quereis que vol-o repita... 

D. Leonor — Nem mais uma palavra i Recolhei-vos 
aos vossos aposentos, até que eu me digne dar-vos nova 
ordem. 

Maria (retirando-se) — Eu vos obedeço. 

SCENA VII 



D. LEONOR, depois VICBNTB DB DBUS. 

D. Leonor {sõ) — A hora se aproxima com rapidez I. . . 
Está prestes a consummar-sc o crime espantoso, cuja enor- 
midade agora conheço !.. . (vacillante) Esforço-me por ter 
animo e coragem. . . mas parece-me. . . que me abando- 
nam !. . . 

VicENTB (entrando pelo fundo) — Tivestes a precaução 
de mandar-Ihe pregar as janeílas do aposento?.. . 

D. Leonor — Temeis que o seu exaspero.. . 

Vigente — A obrigasse a suicidar-se!. . . 

D. Leonor — Estão as providencias tomadas. 

Vicente — Bem, retiremo-nos. . . e velae què nin- 
guém seja próximo d*esta sala. {dirige-se a apagar as 
luzes) 

D. Leonor {saindo^ e dparte) — Parece-me que o diabo 
vela sobre sua vida maldita I.. . (vae-sé) 

(Vicente de Deus sae pelo fundo cujas portas fecha.) 



30 O ULTIMO Dli DOS JESUÍTAS EM POBTUGAL 

scENA vni 

(A scena fica por um momento vasía. Mood pabs condoí «bbastiío 
DB CAI VALHO, pclâ csqucrda. Depois kuro ciilra em scena ) 

Diogo — Tudo.. . ludo como vos cu disse.. . {marati- 
Ikaio) NSo tardará muito que Leonor aqui lenha a entre- 
vista com o tal Desconhecido, e vós podeis, occalto por de 
trazd'esta porta, observar muilo e 4 vossa vontade; por aqai 
só eu costumo entrar, e ninguém roais. 

Ca&valho — Bem; retira-le. (Diogo sae) Não me convém 
Ignorar certas coisas, que produzem elTeitos contrários á 
minha vontade. D. José errou no caminho, e eu preciso 
destruir o erro, por que me não convém no seu valimento 
pessoa alguma; amo.-o muito.. . sou muito cioso destra es- 
timai Ahl.. . que de tudo meus inimigos lançam mâo para 
me fazerem guerra ! 

Nuno {apparecendo no limiar da porta) — Eil-o l. . . 

GiiRVALHO — Mas a vitoria será minha. 

Nuno — É cedo para contardes com eila. 

Gabvalho {surprekendido) — Ah !. . . 

Nuno — Esqueceu-vos segurar Nuno, como annancias- 
tes na carta, para não haver quem perturbasse vosso pra- 
zer. . . e vossa entrevista 1 . . . Esqueceu-vos que esse man- 
cebo esprertaría vossos passos. . . 

Carvalho (aparte) — Negra traição de Diogo Paes!.. . 

Nuno — Esqueceu-vos que esse mancebo tornaria mor- 
tifero o amor de Maria Tellol.. . Ah!.. . tu me alteaste 
DO peito a chamma que vae consumir-te !. . . De joelhos. . . 
(travandO'lhe do puUo) De joelhos miserável. . . 

Gabvalho — Vós, por certo não sabeis quem eu sou !. . . 

Nuno — Sejas embora o diabo.. ..nada te poderá sal- 
var. . . (tirando o punhal e erguendo sobre Carvalho) 

SCENA IX 

JULIÃO trazendo um brandão acceso, e d. lbonor entram 

pela direita. 

JuLiXo (a D. Leonor) — Appressae-vos. . . appressae- 
vos. . . 



o ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS BM PORTUGAL 31 

D. Leonob {lança-se entre Nuno e Carvalho muiío alte- 
rada) — Nuno. . . Nuno, suspende I. . . 

Nuno {recuando) — O ministro do reino i. . 

D. Leonor — Ob. . . não sabes quem é.esse homem.. . 
esse homem que loucamente ias assassinar. . . 

S™r°}-»- ■-"""■ • 

D. Leonor — Esse homem. . . é. . . (destinando Car- 
valho) 

YiGBNTB {apparecendo rapidamente no fundo^ e com voz 
forte) — Silencio!.. . 

JcLiAO — O padre 1. . . {baixo) 



Cae o panno. 



QUADRO V 



• DIM Dl DRUS. 



(Casa subterrânea no palácio de D. Leonor Tello : no fando en- 
costada i parede, uma escada com porta no topo. Do lado es- 
querdo uma banca com um cruciGxo de madeira, janto da 
banca uma tocheira de prata com brandão de cera, cuja lax 
íllumina a scena. Em frente do lado direito uma porta, ootra 
por de baixo da escada.) 



SCENA I. 



(4o levantar o panno, d. lboroi está sentada e encostada abanca 
sobre a qual apoia os cotovelos, escondendo o rosto entre ^s 
mios. vicBNTK DB DB08. de pé O braços crusados sobre o peito, 
a alguns passos de distancia.) ' ^ 

Vigente {depois de pausa) — Tudo perdido!... Tudo 
perdido por vossa causa 1 

D. Leonor — Ha certos sentimentos do coração* que 
DOS não é dado combater, {erguendo os olhos para a cruz) 
Eu vos rendo graças, meu Deus. . . por não haverdes per- 
inittido que se consummasse esse crime. . . esse crime hor- 
rendo cujo remorso não deixaria de me dilacerar o peito. 
{pausa) 

Vigente — Bem, senhora: resla-nos uma única taboa de 
salvação que nos è forçoso abraçar, {pausa) D. Leonor. . . 
recordae os deveres dos quaes vos tendes olvidado. . . e em 
nosso derradeiro passo, buscae ser quem alè hoje tendes 
sido. Todo o tempo nos è precioso, está por momentos a 
raiar esse dia fatal que pela ultima vez nos verá em Lisboa 
e no reino I Esse dia fatal, que illuminará nossa partida I... 
Ah!... que não possamos deixar gravados, n'este maldito 
sollo, traços de sangue, que o tempo não apague f... 



o ULTIMO DiA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 33 

D. Leonor — E essa taboa de salvação... c... 

Vicente — O aliar I... 

b. LzofiOh {levaníandO'S0 e aparte) — Uoil-Od!... Ah!... 
unil-os... DUDcat... {alto) E nâo baoulromeio? 

Vicente — Nenhum, senhora. É o único de maníeiar 
Sebastião de Carvalho... de suspender-lhe a massa terrível 
com que pretende calcar-nos! 

D. Leonor — E se eile Tór inexorável á voz da nala* 
reza... 

Vicente — Ah!.. ..o inferno tal não perqailta 1 D. Leo- 
nor... vós sabeis que foi descoberta a conspiração... e por 
consequência que estamos perdidos I E-nos pois necessário 
dar um derradeiro passo que nos salve, ou que de todo nos 
confunda e aoniquile 1 Dentro em meia hora deve Maria ser 
toda de Nuno, e o ministro todo nosso, [sobe a escada de 
fundo i desappartce) 

SCENA li 

Leonor (sd) — Maria não pôde ser de Nuno, embora o 
ministro não possa tambcm ser nosso, (pausa) Talvez que 
por outro meio que tenho estudado, possamos chegar ao 
mesmo lim, poupando-mc assim a um remorso continuo! 
Maria será a pesada cadéa que agriolhará o ministro ao carro 
do nosso triumpbo. A declaração que voufaaer-lhe..; as al- 
gemas pezadas que lhe vergarão os pulsos... e... ou calcar e 
despedaçar os laços da natureza... sulTocar suá voz biem no 
fundo do coração... comprimil-o e lortural-o... ou revogar 
a ordem fatal, {indo á porta do fundo e chamando) Julião.. « 
Julião... 

SCENA III 

D. LEONOR e JDLlXO. 

D. Leonor — Um perigo eminente ameaça Maria.. . 

Julião {interrompendo) — Ah. . . minha pobre mení- 
nal... Um perigo... Ah senhora... dizei... dizei... o 
que é preciso fazer para a salvar?... Pobre menina... 
quando o cadafalso de sua familia a aguardava.. . eu com 
lagrimas de sangue, lhe beijei aquella fronte cândida e 
pura. . , (pausa) Julião^ me disse D. Leonor Távora ; ponbo 

3 



34 O ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 

ao teu dispor este dinheiro e estas jóias. . . aGm de com- 
prares o padre Malagrida, que deve celebrar a missa ritual 
dos coDdemnados. . . faze com que etle misture na sagrada 
particula alguma lethargica droga... que faça passar por 
morta a lua pupilla. . . que yiva. . . mas de todos ifi^norada, 
em quanto Sebastião de Carvalho fór o valido de D. José t 
E no silencio da noite. . . tirando-a da ermida onde fora de- 
positada.. . corri.. . voltei.. . com aqueMe precioso fardo. . . 
a impIorar-Yos nm abrigo. . . 

D. Leonor — Que eu de bom grado vos concedi.. . 

Julião — Ab. . . senhora D. Leonor. . . o pobre Julião. . . 
não acha expressões para agradecer-vos tanta generosidade. 

D. Leonor — Amparar e proteger a iunocencia, é am 
dever sagrado que todos devem cumprir; Julião, aquelles 
papeis que D. Leoúor Távora conGou de teu zelo, para se- 
tem abertos, se algum dia a sorte menos adversa para com 
Alaria a conduzisse ao altar, devem hoje ser íidos, porque 
ebegou a época marcada. 

Julião — Oh meu Deus.. . eu vos agradeço. . . o have- 
res conservado esta mesquinha vida^ para acabar d^ cumprir 
toda a minha missão. 

D. Leonor — Vae pois buscal-os. . . bom velho, e sê 
breve. . . porque um momento de demora pôde arrojar Má- 
fia n'um abysmo de infâmia e de vergonha. 

JuLiXo {saindo apressado) — Oh. . . Virgem santa. . . 
Bão a desampareis. . . 

SCENA IV 
í), LEONOR e NUNO d'aliíeída, pela escada. 

D. Leonor — Nuno, que motivo vos conduz a este la- 
gar!?.. . 

Nono — SIo dois, o primeiro para ser o esposo de Ma- 
ria. . . o segundo para que me expliqueis o myslerio que se 
passou entre mim e o ministro, eu quero saber quem elle é. 

D. Leonor — Insensato.. . nào sabes o que pedes I Que- 
res saber quem é o homem contra cujo peito.. . alçaste o 
punhal da vingança?.. . Mas não te arrependas depois de 
eu faltar, porque minhas palavras vão ser terríveis.. . vâo 
roubar-te a felicidade que procuras!.. . 

Nuno (resoluto) — Mo importa, fallae. . . 



o ULTIMO Dlk DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL 35 

D. Leonor — Olha queellasvâodespedaçaMeaalma;. * 
vão cobrir-te de opróbrio !. . . vão lançar sobre ti o anathe* 
ma da deshonra I 

Nuno — Irei pedir-lbe úma reparação. S^h.. . failae. . . 
fallae. 

D. Leonor — E se a reparação que obtiveres, fôr de 
maneira que selle para sempre o segredo fatal que buscas 
saber.. . sim.. . se fores calcado.. . e morto.. . como o 
marquez de Távora que tentou já assassioai-o. . . 

Nuno — Sou assis mesquinho, para que se me levante 
um cadafalso de tanta honra. 

D. Leonor — Entre as agonias e as torturas do supli- 
cio.. . uma idéa.. . um pensamento atros, te pungirá mais 
que ellas.. . é a do dcshonroso nascimento!.. . {allongando 
as syllabas das ultimas palavras) 

Nuno (recuando horrorisado) — Ah ! . . , maldição I . . . 
maldição!.. . {pausi, baixo) E eu não o assassinei.* . (le- 
vantando a voz pouco a poueo) Não lhe roubei aquella vida, 
que sobre mim cuspiu todo o fel do anathemal Não lhe 
rasguei com mil golpes aquelle peito, que para n'um mo- 
mento arfar de amor e de prazer. . . condemnou até á mor^" 
te, o seu fructo innocentel Aquelle que arrancou do nada 
um infeliz, para o lançar entre as chammas do inferno! 

D. Leonor -^ Nuno. . . o excesso de tua dâr, te arranca 
palavras horríveis. Agradece á providencia, o náo te haver 
constituído um parricida, á providencia que lançou o re- 
morso n'este coração até hoje inacessivel a qualquer sen- 
timento. 

Nono — Porque se não abre o chão para me tragar.. . 
porque não fico aqui.. . anniquilado. . . involvido com o pò 
da terra.. . porque se me não gclla o sangue nas veias.. . 
(batendo sobre o peito) Coração. . . coração cessa já de palpi-^ 
tar, para me poupares ásede de vingança que me devora!. . . 

D. Leonor — Desgraçado... desterra de ti o pensa- 
mento de uma vingança que não te compele tomar. 

Nuno — Não me compete 1.. . a mim.. . a mim que fui 
ultrajado. . . a mim. . . em cuja existência lançaram todo o 
fel da ignominia!? E não me compele a vingança!?... 
Ah !. . . sim. . . D. Leonor. . . {dirigindo-se para o altar^ so^ 
bre o qual colloca o punhal^ estendendo sobre elle a mSo di- 
reita) Perante este Deus que nos escuta, eu juro vingar-me, 
se o aucior de meus dias fór ião inexorável á voz da nata- 



36 O ULTIMO DIA DOS JESUÍTAS EH PORTUGAL 

reza, que não me abra seus paternos braços, e que nâo apa- 
gue, reconhecendo-me, a nódoa fatal que sobre mim lançou 1 

D. Leonor — Ahl.. . nio^ tal não digas I Infeliz.. . que 
juraste!. ... 

Nuno — Vingança I. . . Vingança ! (guarda o punhaC) 
Eu preciso abrandar estes tormentos que me laceram o pei- 
to. . . eu preciso encontrar amor e prazer. . . 

D. Leonob (ápaHe) — Meu Deus I.. . (alto) Agora Nana 
que bem conheces o horror de teu estado. . . quererás por 
yentura arrastar Maria, noabysmo quea teu^pés secara?.. . 
Quererás lançar sobre cila, toda a tua deshonra?. ^ 

Nono — Ah!.. . callai-vos. . . basia já de padecei. 

D. Leonor — Queres cnvcnenar-lhc sua existência de 
anjo?.. . Âb. . . não.. . não.. . ella mesmo re