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STITUTO 



, A5 REVISITA SCIENTIFICA E L1TTERARIA 



RkdacçXo b administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e edição da Director Composto e impresso 11a 

Sociedade sçientiãca — bit. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Universi- 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 




Voiume bb.° 



1908 



COIMBRA 

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 

1908 



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O INSTITUTO 



VOLUME 55.° 



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O INSTITUTO 



REVISTA SC1ENTIFICA E L1TTERAR1A 



Redacção e administração — Roa do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e edição da Director Composto e impresso na 

Sociedade «cientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Universi- 
O I msiuuio de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



Volume '55.° 1908 



COIMBRA 

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 

1908 



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COLLABORADORES DO VOLUME 55. 



Aôonso Ferreira 
Daniel Rodrigues 
Fortunato de Almeida 
Gustavo Cordeiro Ramos 
Joseph Joúbert (Le Chevalier) 
José Maria Rodrigues (Dr.) 
José Sobral Cid (Dr.) 
Rodolpho Guimarães 
Sousa Viterbo 
Visconde de Villa-Moura, 



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ÍNDICE 



DAS 



MATÉRIAS CONTIDAS NO VOLUME 55.° 



Alliança (A) inglesa, i. 

Anteloquio do livro «A vida mental portugueza», 87. 
Artes e industrias metallicas em Portugal, 38, 126 e 1)91. 
Artes industriaes e industrias portuguezas, 248, 298, 348, 403, 432, 475 
e 538. 

O 



Camões e a infanta D. Maria, 121, 196, 256, 309, 358, 387, 45o, 485, 
e 55o. 



Dialectos transmontanos, 559. 
Diplodocus (Le) de 1'ère secondaire, 5oo. 



E 

Eine Musterlektion, 446. 

F 

Fontes dos Lusíadas, 60 e 142. 

Fr. João das Chagas ou Frey Juan de las Uagas, 218. 



Jornalismo, (O) 90. 



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' 1 



, 178, 235, 286, 33i, 369, 4'7> 



a a restauração da toponymia 

321. 



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RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO 



Acções civis e commerciaes, por Penha Fortuna. Braga, Imprensa Henri- 
quina, 1907. 

Accordãos do Tribunal da Relação de Loanda dos annos de igo4, igoS 
e jgoó. Loanda, Imprensa Nacional, 1906. 

Alguns problemas actuaes, direito da guerra marítima, por Vicente Al- 
meida d'Eça. Lisboa, Typographia de J. F. Pinheiro, 1906. 

Amato Lusitano (A sua vida e a sua obra), por Maximiano Lemos. Porto, 
Typographia da «Encyclopedia portugueza illustrada», 1907. 

Annaíes de rObservatoire Royal de Belgtque, tome íx, fascicule iu. Bru- 
xelles, 1907. 

Annuaire de l Université de Toulouse, pour Pannée 1905- 1906. Toulouse, 
Imp. Édouard Prívat, ipo5. 

Annuario da Eschola Medtco-Cirurgica de Lisboa, anno lectivo de 1904- 

1905. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 

Annuario da Eschola Medico-Cirursica de Lisboa, anno lectivo de 1905- 

1906. Lisboa, Imprensa Nacional, 1907. 

Annuario do Real dollegio Militar, anno lectivo de 1904- 1905. Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1906. 

Annuario do Real Collegio Militar, anno lectivo de 1905-1906. Lisboa, 
Imprensa Nacional. 1907. 

Annuario do Real Collegio Militar, anno lectivo de 1906- 1907. Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1907. 

António Cabreira (Noticia succinta da sua vida e obras), por Emilio 
Augusto Vecchi. Lisboa, Typographia Bayard, 1907. 

Archivo de marinha e ultramar. Inventario. Madeira e Porto Santo, 
1613—1819. (Bibliotheca Nacional de Lisboa), por Eduardo de Castro 
e Almeida. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1907. 

Archivo dos Açores (n.° 74), vol. xm. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 

Artificio (Um) de calculo sobre escalas thermometricas (Memoria apresen- 
tada ao Instituto de Coimbra), por João Alberto de Sousa Vieira. 
Porto, Typographia Central, 1902. 

Aspectos económicos do projecto vinícola (Separata da Revista agronó- 
mica)) por D. Luiz de Castro. Lisboa, Typographia La Bécarre, 1907. 



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X ^E^AÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO 

Assistência social (Folheto), por F. A. Rodrigues de Gusmão. Lisboa, 
Typographia Adolpho de Mendonça, 1907. 

Associação Commercial do Porto. — fcelatorio da Direcção no anno de 
jgoô. Porto, Officinas de «Commercio do Porto»», 1907. 

Associação dos engenheiros civis portugueses. — Os caminhos de ferro 
em Portugal, i856-igo6. — Synopse. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 

Atheneu Commercial de Lisboa. — Relatório e contas da direcção, gerên- 
cia de igoÕ-igoj. Lisboa, Typographia Campião, 1007. 

Attitudes viciosas nas escolas, por S. C. da Costa Sacadura. Lisboa, ■ 
Typographia de Christovao A. Rodrigues, 1906. 

Bacia (A) hydrographica de Aveiro e a salubridade publica. Dissertação 
inaugural apresentada á Escola Medico-Cirurgica do Porto, por An- 
tónio do Nascimento Leitão. Porto, Imprensa Portugueza, 1906. 

Bibliotheca Nacional de Nova-Gôa (Breves notas históricas), por Octávio 
Guilherme Ferreira. Nova- Gòa, Typographia da Minerva Indiana, 1906. 

Boletim do trabalho industrial (Relatório annual de igo5). Districtos de 
Leiria, Lisboa, Portalegre e Santarém. Lisboa, Imprensa Nacional, 
1907. 

Bosquejo histórico do Real Collegio de Nossa Senhora da Graça no Porto f 
pelo padre F. J. Patrício. Porto, Typographia da Real officina de 
S. José, 1907. 

Breves considerações sobre a hygiene das nossas escolas, por S. C. da 
Costa Sacadura. Lisboa, Typographia de Christovao A. Rodrigues, 
1906. 

Breves formulas vara requererem as acções e execuções auctorisadas 
pelo decreto ae 2g de maio de igoy. Seguidos do decreto de 11 de 
julho de igoj. Lisboa, Typographia da Bibliotheca Popular de Le* 
gislação, 1907. 

Bulletin pour Vannée 1904 (n.° 2. ). Station de pisciculture et d'hydro- 
biologie de VUniversité de Toulouse, par Louis Roule. Toulouse, 
Imp. Edouard Privat, editeur, 1905. 

Cancioneiro popular politico (2." edição), por A. Thomaz Pires. Elvas, 

Typograpnia e Stereotypia Progresso, 1906. 
Cândido de Figueiredo (Dr.J (escorço biographico), por César Correia. 

Vizeu, Tvnographia da Província^ 1907. 
Cândido de Figueiredo — Noticia sucinta da sua vida e obras, extraída 

do dicionário «Portugal». Porto, Typographia da Empresa Literá- 
ria e Typographica, 1906. 
Cândido Xavier Cordeiro (Elogio histórico), por A. Luciano Carvalho. 

Lisboa, Imprensa Nacional, 1907. 
Capacite (De la) requisepour opérer la conversion de titres nominatifs 

en titres au porteur. These, por Joseph Betmale. Toulouse, 1905. 
Cara (De) erguida — Pela Universidade, por Lopes d 1 Oliveira. Coimbra, 

Typograpnia de Luiz Cardoso, 1903. 
Carta de el-rei D. Manuel para os reis de Castelladando-lhes parte da 

descoberta da índia, da sua riqueza, e do proveito que d*ahi pôde vir 

á christandade. Lisboa ? Imprensa Nacional, 1906. 
Cartas diversas de el-rei D. Manuel de i5io-i5ig. Lisboa, Imprensa 

Nacional, 1907. 
Cartas do Bispo Matheus a el-rei D.^Manuel. Coimbra, Imprensa da 

Universidade, 1907. 



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RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO XI 

Castello (O) de Elvas, por A. Thomaz Pires. Elvas, Typographia Pro- 
gresso, 1907. 

Catalogo d'«A Editora», - 1 906. Lisboa, Typographia da «Editora», 1906. 

Collecção de leis (publicadas na Folha Official do Governo). Legislação 
judicial dispersa (desde 1 de abril de 1895 até 28 de fevereiro de 1905. 
Lisboa, Typographia da Bibliotheca Popular de Legislação, 1905. 

Collegio Lyceu Figueirense — Director, José Luiz Mendes Pinheiro. 
Figueira da Foz, Typographia do Collegio Lyceu Figueirense, 1906. 

Colonies (Les) portugiises, por A. de Almada Negreiros. Paris, Librairie 
maritime e coloniale, 1907. 

Commissão official da reforma do exercito de pharmacia. Relatório e 
projecto. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 

Compendio de desenho linear elementar, 2.* parte, por José Miguel 
d Abreu. Porto, Livraria Portuense, 1905. 

Compendio de desenho para a /.■, 2.* e 3.* classes e caderno de papel qua- 
driculado para execução dos exercidos do compendio de desenho 
(Ensino primário official). por Manuel Antunes Amor. Lisboa, Aillaud 
& C.ie. 

Concurso (O) da viação americana. Exposição dos direitos da Companhia 
Carris de Ferro do Porto, por Bernardo Lucas. Porto, Typographia 
a vapor da «Empresa Guedes», 1906. 

Consagração (Numero único commemorativo do 3i.° anniversario da 
creacão da Comarca de Paredes de Coura, 1875-1906). Porto, Typo- 
graphia Costa & Carvalho, 1906. 

Contos do Natal, por Carlos Dickens. Lisboa, Typographia do «Annuario 
Commercial», 1907. 

Cooperativa do Pao a Conimbricense. Relatório da commissão instai la- 
ãora, 4 de maio de igoõ a 3i de janeiro de 1QO7. Coimbra, Typogra- 
phia Popular, 1907. 

Copia et sumario di una letera di sier Domeneco Pixani, el cavalier, 
orator nostro in Spagna a la signoria, 2j de julho de i5oi. Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1907. 

Copia literal de las dos cartas dei Rer Don Manuel de Portugal exis- 
tentes en la Real Biblioteca dei Escoriai en el manuscrito II— s— 7, 
fols. 172, dl. 177. Lisboa, Imprensa Nacional, 1907. 

Corpo Diplomático Portuguef, tom. xm, por Jayme Constantino de 
Freitas Moniz. Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias 
de Lisboa, 1907. 

Corvs (Sur les) poly^gonaux, por António Cabreira. Coimbra, Imprensa 
da Universidade, 1907. 

Cunicultura pratica, por João Salema. Porto, Edição da «Gazeta das 
Aldeias», 1907. 

Curso dementar de botânica (3 vol.), pçr António Xavier Pereira Cou- 
tinho. Lisboa, Casa Editora Aillaud e C", 1907. 

Decretos de avaliação de prédios urbanos e descanço semanal (26 de 
julho de igoy). Lisboa, Typographia da «Bibliotheca Popular da Le- 
gislação», 1907. 

Demonstração mathematica do seguro ^Portugal Previdente», por Antó- 
nio Cabreira. Lisboa, Typographia Bayard, 1907. 

Desenho linear de ornato. Para o ensino nas escolas normaes, por José 
Miguel d'Abreu. Porto, Livraria Portuense, 1306. 

Dialecto indo-portugue% do norte, por Sebastião Rodolpho Dalgado. 
Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 



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XII RELAÇÃO DOS LIVROS OFFEREC1DOS AO INSTITUTO 

Diccionario biblio gr aphico português tom. xvm (u do supplemento), 
por Brito Aranha. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906. 

Die Werk des Medailleur's Hans Frei in Basel i8g4-igo6 mit sechs 
Tafelu Abbildungen, por Julius Meili. ZUrich, 1906. 

Divino Amor. Peça nistorica em 3 actos, em verso, por Mário Monteiro. 
Lisboa, Imprensa Operaria, 1906. 

Dona (Uma) Portuguesa na corte de Grão-Mogol, por J. A. Ismael Gra- 
das. Nova-Gôa, Imprensa Nacional, 1907. 

Dyssenterie amibienne et dyssenterie bacillaire. These, por Henri Pruès. 
Toulouse, Imp. J. Fournier, 1905. 

Educação physica, por S. C. da Gosta Sacadura. Lisboa, Typographia 
de Christovão A. Rodrigues, 1906. 

Elementos para a historia do município de Lisboa, 1 .* parte (tom. xiv) t 
por Eduardo Freire de Oliveira. Lisboa, Typographia Universal, 1906. 

Elogio fúnebre do Conselheiro de Estado Hxnt^e Ribeiro, pelo dr. Au- 
gusto Joaquim Alves dos Santos. Coimbra, Imprensa da Universi- 
dade, 1907. 

Elogio histórico de Bento Fortunato de Moura Coutinho d' Almeida 
a Eça, por Adolpho Loureiro. Lisboa, Imprensa Nacional, 1907. 

Em ferias, por Alberto Sinceiral. Figueira (?) 1907. 

Epistola de el-rei D. Manuel ao Doge de Veneza, Agostinho Barbadico. 
Coimbra, Imprensa da Universiaade, 1907. 

Epistola de el-rei D. Manuel ao papa Júlio II. Traduzida do texto latino 
por Damião de Góes. Ponta Delgada, Typographia do «Diário dos 
Açores», 1006. 

Epistola de el-rei D. Manuel ao papa Júlio II, de 12 de junho de i5o5. 
Ponta Delgada, Imprensa do «Diário dos Açores», 1900. 

Epistola do poderosíssimo e invictivissimo D. Manuel, rei de Portugal e 
dos Algarves, etc, ao Santo Padre em Christo e senhor nosso Leão X 
pontífice máximo, sobre as victorias dos portugueses em Africa. 
Ponta Delgada, Typographia do «Diário dos Açores», 1906. 

Epistole serenissimi regis portugaliae de victoria contra infideles habita. 
Ad Julium papam secundus ad sacrum collegium cardinalium. Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1905. 

Eros, por Cândido Guerreiro. Coimbra, Livraria França Amado, 1907. 

Escuelas (Las) dei sud, par le dr. J. B. Zubiâur. Buenos Aires, Typ. El 
Comercio, 1906. 

Espelhos, lentes e prismas. Noções rudimentares, por João Alberto de 
Sousa Vieira. Porto, Typographia Universal, 1906. 

Estatística do Ensino Normal, 1896- 1905 (annexo ao Bolletim da Dire- 
cção Geral da Instrucção Publica, fase. VII-XII, anno de 1904). Lis- 
boa, Imprensa Nacional, 1905. 

Estudos do Alto-Minho. (Um grovio autentico, IX. Ara celtiberica da 
época romana, X), por Félix Alves Pereira. Lisboa, Imprensa Nacio- 
nal, 1907. 

Excêntricos (Contos), por Alberto de Sousa Costa. Coimbra, Typogra- 
phia França Amado, 1907. 

Exercidos de desenho (i.° e 2. grau), por José Miguel d' Abreu. Porto, 
Livraria Portuense, 1906. 

Extincção (A) do Laboratório Chimico Municipal do Porto. Separata da 
«Revista de chimica pura e applicada». Porto, Typographia Occiden- 
tal de Pimenta Lopes & Vianna, 1907. 

Extranjeros (Los) en Venezuela, su condicion ante el derecho publico y 



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RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO XIU 

privado de la republica, pelo doctor Simon Planas Suarez. Carraças, 
Typographia Guttenberg, 1905. 

Faculte de Droit de Toulouse fondée en 1229. Centenaire de la réorga- 

nisation de i8o5.Histoire sommaire de la Faculte, por. A. Deloume. 

Toulouse, Imp. Édouard Privat, iqo5. 
Figueira, por José Ramalho Nunez. Figueira da Foz, Imprensa Lusitana, 

1907. 
Français et anglais devant Vanarchie europeéne, par Jean Finot. Paris, 

V. Giard S. E. Briere, Libraires-editeurs, 1904. 
Fr atiçais et anglais (UAngleterre malade. Medecins et remedes. Lepeu- 

ple anglo-Jrançais), troisième édition, par Jean Finot. Paris, Félix 

Juven, editeur. 
Fr. Caetano Brandão (Dom) — Poemeto, por Corrêa Simões. Braga, 

Typographia de J. M. de Sousa Cruz, 1906. 

George Buchanan in the Lisbon Inquisition, por Guilherme J. C. Henri- 
ques. Lisboa, Typographia da «Empresa da Historia de Portugal», 
1006. 

Gil Vicente — Auto da Festa, pelo Conde de Sabugosa. Lisboa, Imprensa 
Nacional, 1906. 

Gladiador, (O) por Oscar de Pratt. Lisboa, Livraria Ferin, 1907. 

Governo (O) e a Imprensa. — Conferencia, por António Macieira. Lis- 
boa, Typographia Lusitana- Editora, 1907. 

Herança Davidson (Parecer), pelo dr. José Frederico Laranjo. Lisboa, 
Typographia do «Annuano Commercial», 1907. 

Historia (A) económica, vol. II. Edade média, por Adriano Anthero. Porto, 
Typographia de A. J. da Silva Teixeira, successora, 1906. 

Historia (A) económica (Vol. III), por Adriano Anthero. Porto, Typogra- 
phia de A. J. Silva Teixeira, successora, 1907. 

Historia e memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Nova 
série, 2.* classe. Sciencias moraes, politicas e bellas artes. Tom. x, 
parte 11 (vol. i.vm da collecção). Lisboa, Typographia da Academia, 
1906. 

Hosanna, por A. Chateaubriand Baracho. Margão (Goa). Imprensa Pro- 
gresso, 1907. 

Hygiene alimentar (2.* edição), por A. X. Heraclito Gomes. Nova-Gôa, 
Typographia da «Casa Luso-francêsa», 1907. 

Hygiene infantil (Conferencia), por João Alberto de Sousa Vieira. Porto, 
Imprensa Commercial, 1907. 

Igne% de Horta (Comedia semi-tragica em 3 actos), por Francisco Xa- 
vier de Novaes. Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso, 1907. 

lmmaculidade (A) de Nossa Senhora (Breve memoria), por Soares Re- 
bello. Margão, Typographia das «Noticias», 1904. 

Importância estratégica da viação accelerada da provinda da Beira 
Baixa. Necessidade economico-militar de uma nova linha férrea, por 
Pedro Romano Folque. Lisboa, Typographia do Commercio, 1899. 

Jn memoriam (Discurso fúnebre), por soares Rebello. Margão, Typogra- 
phia das «Noticias», 1905. 



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XIV RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO 

inscripções indianas em Cintra. Nótulas de arçheologia histórica e biblio- 
graphia acerca dos templos hindus de Somnáth-Patane e Elephanta, 
por João Herculano de Moura. Nova Goa, Imprensa Nacional, 1906. 

Instrucçôes para o tratamento homopathico das hemorrhoides, por Fran- 
cisco José da Costa. Lisboa, 1906. 



Janina (Drama em 3 actos), por Mário de Artagão. Lisboa, Livraria 
Clássica Editora, 1907. 



Lei de imprensa. Carta de lei de 1 1 de abril de 1907. Lisboa, Typogra- 

phia da Bibliotheca Popular de Legislação, 1907. 
Lições elementares de joologia (3 vol), por F. Mattoso dos Santos e 

Balthasar Osório. Lisboa, Casa Editora Aillaud e C.»«, 1907. 
Ligas (As) de pharmacias, por Costa Godolphim. Lisboa, Typographia 

Eduardo Rosa, 1907. 
Lisboa Moderna, por Zacharias d'Aça. Císboa, Livraria editora Viuva 

Tavares Cardoso, 1907. 



Mapa de la provinda de Douro (Porto, Aveiro e Coimbra), por D. Benito 
Chias y Carbó. Barcelona, Est. edit. de Alberto Martin. 

Media Noche (Traducção espanhola), por D. João da Camará. Madrid, 
Imprensa de «La ultima moda», Velasquez, 42, 1907. 

Medição de obras de arte de linhas férreas num estudo de reconhecimento, 
por Pedro Romano Folque. Lisboa, Typographia do Commercio, 
1898. 

Memoria dei curso de igoô à igoy. Extension universitária de Oviedo. 
Oviedo, La Comercial Imprenta, 1907. 

Memoria sobre o templo e culto de Nossa Senhora da Encarnação, pa- 
droeira da cidade de Leiria, por Tito Benevenuto L. de Sousa Lar- 
cher. Leiria, Typographia Leiriense, 1904. 

Modelos pertencentes ao regulamento para a execução e contabilidade 
das Obras Publicas. Lisboa, Imprensa Nacional, 1907. 

Ministério das Obras Publicas. — Estudo sobre o estado actual da indus- 
tria cerâmica na segunda circumscripção dos serviços technicos da 
industria. Lisboa, Imprensa NacionaL 1906. 

Monte-Pio Conimbricense Martins de Carvalho — Relatório e contas da 
eerencia de igoô. Coimbra, Typographia M. Reis Gomes, 1907. 

Mulheres illustres (A marquesa ae Atonia), por Olga Moraes Sarmento 
da Silveira. Lisboa, Typographia do «Ánnuario Commercial», 1007. 

Muscideos e Culicideos (As Myasis), pelo dr. Miguel de Leoníssa. 
S. Paulo, Typ. de Maré, Monti sb., 1907. 



Narracionesy Poesias. (Mas Paginas de Extremadura), pelo Marquez 
de Torres Cabrera (D. Miguel Torres Gonsalez de la Laguna). Ba- 
dajoz, Tip. de Uceda Hermanos, 190J. 

Necessidade economico-militar da ligação directa de Lisboa com a rede 
do sul do Tejo e a sua solução pratica, por Pedro Romano Folque. 
Lisboa, Typographia do Commercio, 1899. 

Noites de inverno (Contos escolhidos), por Miguel Costa. Coimbra, 
Typographia Minerva Central, 1907. 



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RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERRCIDOS AO INSTITUTO XV 

Nota necrolôgica acerca dei matemático belga Teniente General José 
Maria De Tilly, por Juan J. Durán Longa. Coruna, 1906. 

Notes sur Vanesthésie des animaux domestiques, Separata de la «Revista 
de Medicina Veterinária», por José Miranda do Valle. Lisboa, Imp. 
la Bécarre, 1907. 

Noticias archeologicas (Addenda 11), por Eduardo Rocha Dias. Lisboa, 
Typographia da Casa da Moeda, 1908. 

Novo aiccionario latino-português, por Francisco António de Sousa. Pa- 
ris, Aillaud & C. ie , 1906. 

Novo methodo de documentação das despegas de obras publicas, por Pedro 
Romano Folque. Lisboa, Typograpnia do Commercio, 1900. 

Novos poemas, por Manuel da Silva Gayo Coimbra, Imprensa da Uni- 
versidade, 1906. 

Observações meteorológicas e magnéticas feitas no Observatório Meteo- 
rológico de Coimbra, nos annos de igo2 e igo3. Vol. xu e xui. Coim- 
bra, Imprensa da Universidade, 1507. 

Ouverture (L 9 ) de la grande navigatwn. A travers VOcéan au xv* siècle. 
LHnfant Dom Henrique le Navigateur, par José Carlos de Faria e 
Castro. Paris. Imp. Paul Dupont, 1002. 

Observatoires (LesJ astronomiques et les astronomes, par P. Stroobaut, 
J. Delvosal, H. Philipot, ElDelporte et E. Merlin. Bruxelles, Hayez. 
Impr. de Observatoire Royal de Belgique, 1907. 

Palhaço (O) (Monologo), por Thomaz d'Eça Leal. Lisboa, Livraria 
Editora, Viuva Tavares Cardoso, 1907. 

PechotefOJ (Monologo em redondilha maior), por Soares Rebello. Mar- 
gão, Typographia das «Noticias», 1904- 

Phuosophie de la longévité (Onzième edition définitive), par Jean Finot. 
Pans, Félix Alcan, editeur, 1906. 

Poesias (vertidas em italiano^ hespanhol y sueco, allemão e/rance^), por 
Ramos Coelho. Lisboa, Typographia de F. L. Gonçalves, 1007. 

Polynómes (Sur les) derives — Memoire presente a VAcademie des Scien- 
ces, Inscriptions et Belles-Lettres de Toulouse, por António Cabreira. 

. Toulouse, Imp. Douladoure-Privat, 1906. 

Portos (Os) marítimos de Portugal e ilhas adjacentes, por Adolpho Lou- 
reiro. Lisboa, Imprensa Nacional, 1906-1907. 

Portugal e Miguel Angelo Buonarrotu (Interpretação de um grupo do 
Juízo final na capeila Sixtina), por A. de Sousa Silva Costa Lobo. 
Lisboa, Typographia Lallemant, 1906. 

Portugália. — Materiaes para o estudo do povo portuguef, tom. 2. # , fas- 
cículo 3.°. Porto, Director, Ricardo Severo, 1907. 

Prejugé (Le) de races (Deuxième édition), par Jean Finot. Paris, Félix 
Alcan, editeur, 1905. 

Preito de obediência de el-rei D. Manuel ao Papa Júlio II prestado pelo 
seu embaixador Diogo Pacheco em 4 de junho de i5o5. Traduzido 
por José Pedro da Costa, professor aposentado do Lyceu Nacional 
de Ponta Delgada. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1907. 

Problema (O) naval português, (tom. I), por A. Pereira de Mattos. Porto, 
Typographia Pereira, 1908. 

Quelques considérations sur lesdimensions de la tète dufoetus à terme, 
pelo dr. S. da Costa Sacadura. Lisboa, Officina typographica, 1906. 



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XVI RELAÇÃO DOS LIVROS OFFEREC1DOS AO INSTITUTO 

Quelques renseignements statistiques sur la materrtité provisoire de JLiã 
bonne, por Alfredo da Costa. Lisboa, Officina Typocraphica, 1906. ' 

Questão de naturalidade, por Eça de Queiroz. Porto, Imprensa Portu 
gueza, 1906. 

Radio (O) e a radioactividade (Separata do «Instituto»), por João d 
Magalhães. Coimbra, Imprensa aa Universidade, 1907. 

Relatório e contas da Associação das Creches de Coimbra dos annos dê 
igo5 a igoj. Coimbra, Typographia Nova Casa Minerva, 1907. 

Relatório e contas da Associação de Soccorros Mútuos da Imprensa da 
. Universidade. Gerência de iqo6. Coimbra, Imprensa da Universidade, 
1907. " 

Relatório e contas da Associação dos Artistas de Coimbra, gerência de 
1906. Coimbra, Agencia de publicações, 1907. 

Relatório e contas da Associação de Soccorros Mútuos — União Artística 
Conimbricense. Relativas ao anno de 1906. Coimbra, Typographia 
Litterarra, 1907. 

Relatório e contas do Instituto de Nossa Senhora da Graça de S. João 
do Campo, iço5-igo6. Coimbra, Imprensa Académica, 1906. 

Relatório sobre as contas da gerência municipal de igo5, por Marnoco 
e Sousa. Coimbra, Typographia França Amado, 1906. 

Resumo de grammatica francesa, por R.Foulché-Deíbosc e A. R. Gon- 
çalves Vianna. Lisboa, Casa Editora Aillaud e C.» a , 1907. 

Rimas, 1 vol., por João Penha. Braga, 1906. 

S. João da Figueira, (O) por José Ramalho Nunes. Coimbra, Typogra- 
phia Minerva Central, 1907. 

Saudades da Fornarina, por José Ramalho Nunez. Figueira, Typogra- 
phia Barata Salgueiro, 1906. 

Scienciocracia (Socialismo pratico), por Pedro Romano Folque. Lisboa, 
Livraria Clássica Editora, 1007. 

Selecta Inglesa, por J. C. Berkeley Cotter e A. R. Gonçalves Vianna. 
Lisboa, Casa Editora Aillaud e C.»a, 1907. 

Sépulture (La) de Quinta da Agua Branca, prés Porto (Portugal), por 
José Fortes. Paris, 1906. 

Situação conjectural de Talabriga, por Félix Alves Pereira. Lisboa, Im- 
prensa Nacional, 1907. 

Sobre o calculo das reservas mathematicas, por António Cabreira. Lis- 
boa, Edição do «Jornal de Seguros», 1907. 

Sociedade aos Architectos Portugueses. Annuario de 1906 (2. anno). 
Lisboa, Typographia do Commercio, 1906. 

Soneto, por Fernanao Leal. (Dedicado ao commandante e officiacs do 
«Sado»). Nova Goa, 1906. 

Soneto á Bel la Fornarina, por José Ramalho Nunez. Figueira, Typo- 
graphia Barata Salgueiro, 1906. 

Spirale (La) prehistorique et dutres signes graves sur pierre. Etude sur 
les relations antéhistoriques de Vlberie avec Vlrlande, por J. Fortes. 
Paris, 1907. 

Stella, por "Eusébio de Queirós. Porto, Typographia Minerva-Famalicão, 
1907. 

Subsídios para a matéria medica e therapeutica das possessões ultrama- 
rinas portuguesas (Dois volumes), por João Cardoso Júnior. Lisboa, 
Typographia da Academia Real das Sciencias, 1902 (i.°), 1905 (2. ). 



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RELAÇÃO DOS LIVROS OFFERECIDOS AO INSTITUTO XVII 

j e tvyubsidios para o estudo das poffolanas e sua applicação nas construcçôes, 
loodl P or *' ** a **' Castanheira das Neves. Lisboa, Imprensa Nacional, 1007. 
pZZÈSupplicios d y amor. Chrunica d f aldeia, por Francisco Barros Lobo. Lis- 
^^ boa, Typographia de Francisco Luiz Gonçalves, 1906. 

Suspiros da praia, por José Ramalho Nunes. Figueira, Typographia 

Barata Salgueiro, 1906. 
Systèmes (Sur les) de numération, por Frederico Mariares. Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1906. 

Tachygraphia, por J. Fraga Pery de Linde. Lisboa, Typographia da 
«Editora», 1906. 

Tereies additionnels aux anciens fors de Béarn, por J. Brissand. Tou- 
louse, Imn. Édouard Privat, 1905. 

Trabalho indígena na Provinda de S. Thomé e Príncipe, por Jeronymo 
Paiva de Carvalho. Lisboa, Typographia do Commercio, 1907. 

Tratado elementar de trigonometria espherica, por A. Ramos da Costa. 
Lisboa, Officina Typographica, 1907. 

Trechos escolhidos de auctores portugueses, por J. Barbosa de Betten- 
court. Lisboa, Casa Editora Aillaud e C.ia, 1907. 

Trelado da carta que El-Rey nosso senhor escreveo a El-Rey e a Rainha 
de Castella seus padrees da nova da Imdya. (Reproducção). Lisboa, 
Imprensa Nacional, 1906. 

Trovador (O) da infanta. Romance histórico dos séculos vx e xvi por 
J. A. d'01iveira Mascarenhas. Lisboa, Typographia de Francisco Luiz 
Gonçalves, 1906. 

Últimos (Os) dias de Pompeia (traducção de Marianno Cyrillo de Carva- 
lho). Vol. I, por Lorde Bulwer Lylton. Lisboa, Ferreira & Oliveira L. dft 
Editores, ím 

Université de Toulouse. Année seolaire igo3-ioo4. Comptes rendus des 
travaux des facultes et de Vobservatoire. Kapports sur les \oncours 
lun au cosseil de l' Université le 18 novembre i8g4. Toulouse, Imp. 
Edouard Privat, 1905. 



Vida (La) sencilla, por C. Wagner. (Version espanola de H. Giner de 

los Rios). Buenos Aires, Est. Tip. El Comercio, 1907. 
Virgo Clemens 9 pelo padre F. J. Patrício. Porto, Typographia da Real 



Officina de S. José, 1007. 
Visconde de Santarém. Apontamentos para a sua biographia, por M. A. 
Ferreira da Fonseca. Lisboa, Typographia do «Annuario Commer- 
cial», 1907. 



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MISSÃO DE REDACÇÃO 

SUPERINTENDER NA PUBLICAÇÃO DESTE VOLU 



i da Silva Basto, secretario 
sé Gonçalvez Guimarãis, i.° redactor 
i.yres 
Castro 

itonio Pereira da Silva 
.zevedo Araújo e Gama. 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E HTTERARIA 



Redacção b administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e edição da Director Composto e impresso na 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Universi- 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SGIENGIAS MORAES E SOGIAES 



A ALLIANÇA INGLESA 

(Cònt. do vol. 54. , pag. 665) 

A commoção nacional foi enorme. Um abalo de dor pri- 
meiro, um impeto de indignação e de cólera depois se fez 
sentir d'um extremo ao outro do paiz. ímpeto de indignação 
e de cólera não só contra a Inglaterra, que nos havia affron- 
tado indignamente e covardemente no nosso direito, na nossa 
honra e na nossa fraqueza, mas principalmente contra os 
dirigentes imprevidentes, immoraes, esbanjadores e indiffe- 
rentes aos interesses collectivos que, durante dezenas e deze- 
nas de annos, haviam cuidado de tudo, menos do que lhes 
cumpria, que era assegurar a integridade politica e a autono- 
mia económica e moral da nação portuguesa, que lhes con- 
fiara os seus destinos e não lhes recusara jamais nenhum 
sacrifício. 

Legitima indignação, justa cólera era essa. 

E que fez o regimen, contra o qual se levantou, justiceiro, 
o gladio da justiça popular? 

Confessou os seus erros e, sinceramente arrependido, peni- 
tenciou-se d'elles, jurando emendar-se? Procurou identificar-se 
com o sentimento nacional e corresponder ás legitimas aspi- 
rações da nação, mostrando-se resolvido a cooperar sincera 
e honestamente, devotada e patrioticamente na obra do resur- 
gimerrto da pátria ? Jamais ! 

Vol. 55.°, n. os 1 e 2 — janeiro e fevereiro de 1908. 1 



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1 Ò INSTITUTO 

Não foram sentimentos de arrependimento e de amor da 
pátria o que o regimen experimentou, mas apenas uma sen- 
sação de pânico. O leão popular rugia, e a monarchia consti- 
tucional teve medo! Tremeu pejo seu throno, tremeu por si 
própria. Não se arrependeu dos seus erros ou dos seus crimes, 
não pensou nisso; o instincto da defesa, commum a todas 
as entidades collectivas na ordem moral, como a todos os 
indivíduos na ordem natural, tornou-se-lhe em obsessão feroz. 
Chamou ao poder dictadores e cercou-se de pretorianos. E 
partiu de então a obra declarada e decidida de repressão 
despótica. Às liberdades constitucionaes foram restringidas, 
qupsi asfixiadas, na razão directa do engrandecimento do 
poder do rei, tornado quasi divino pelo espirito de sabujice 
que, de alto a baixo, avassalou o organismo politico-burocra- 
tico da nação. 

A nação, espoliada nos seus haveres — uma divida enor- 
míssima e uma taxa de imposto superior á de todos os demais 
paizes civilisados, sem que a uma tão espantosa situação 
financeira correspondesse proporcional situação de beneficio 
publico — afírontada na sua dignidade — o ultimatum da In- 

§laterra — não tinha, no critério e na lógica do regimen, o 
ireito de se queixar e de se insurgir contra os que a haviam 
espoliado e conduzido á ruina e á situação infamante de não 
poder repellir as aífrontas que a petulância estrangeira cuspia 
nas suas faces. 

Mas á compressão feroz dos governantes respondeu a re- 
volta na praça publica. O 3i de janeiro foi a explosão natural 
da cólera popular, foi o grito lógico e fatal de quem se via 
roubado, insultado e premido. Seria falsear a verdade e des- 
mentir a fatalidade das leis históricas attribuir esse movi- 
mento a outros factores. A revolta lavrava no espirito publico 
desde o dia n de janeiro de 1890, nascida da commoção 
violenta soffrida com o ultimatum e da indignação causada 
pela criminosa imprevidência do regimen, único responsável 
da capitulação nacional perante a Inglaterra. A repressão 
exercida pelos governantes para suffocar os protestos da alma 
nacional elevou, pois, o estado de tensão em que se encon- 
trava o espirito publico ao seu máximo grau de gravidade, 
e, nestes termos, a explosão tornou-se inevitável. Mas, sem 
a necessária preparação prévia, por um persistente trabalho 
educativo, para uma transformação operada com methodo 
frio e seguro, pobre povo ignaro que era apenas arrastado 
por um impulso do seu sentimentalismo, essa explosão foi 
somente um grito, foi um desabafo. Até a rapidez com que 



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A ALUANÇA INGLESA 3 

se extinguiu, mais pela sua própria natureza que pela suffo- 
cação da força pretoriana, o attesta. 

Aviso aos governantes, elle não lhes aproveitou comtudo. 

O regimen suppoz-se forte e consolidado porque se per- 
suadiu ter triumphado da própria insurreição nacional, e 
envaidecido com a fácil victoria, como Tarquinio Soberbo 
com os louros de Gabias, tripudiou sobre as desditas da 
pátria e por tal modo tem reincidido em seus crimes que, 
noje, decorridos dezesete annos sobre esse acontecimento, se 
antolha ao povo português uma só solução, a única lógica 
para se libertar ae tão aviltante tyrannia — realisar a obra 
apenas esboçada naquella fria e nevoenta alvorada de janeiro. . . 



Recordemos agora, para concluir, alguns factos que dão 
a nota exacta da lealdade com que os ingleses procederam 
no respeitante á acquisição de títulos em que pudessem estri- 
bar as suas pretensões aos territórios em litigio, e bem assim 
como respeitaram o statu-quo estabelecido após o ultimatum 
nos mesmos territórios até á conclusão de um tratado de 
limites que definisse as respectivas espheras de influencia 
das duas nações. 

Ver-se-ha que as tradições do capitão Owen são fielmente 
conservadas, e sobre o valor jurídico de taes documentos 
não temos que discutir — elle transparece nitido dos próprios 
documentos, que são curiosíssimos como peças iuridicas da 
lavra dos dois conspícuos cônsules britannicos uohnston e 
Buchanan. Sobre a acquisição de territórios os ingleses se- 

fuiam passo a passo as tradições da gloriosa Companhia das 
ndias Orientaes. Vê-se assim que a veneração pelas glorias 
nacionaes é uma das virtudes mais preclaras do povo inglês. 
Não as esquece nem jamais deixa de seguir os bons ensina- 
mentos de seus maiores. 
Mas vamos ao que importa. 

Os títulos á pressa forjados pela Inglaterra para estribar as 
suas pretensões sobre os territórios do Chire eram d' este 
teor : 

«Eu John Buchanan t cônsul de Sua Magestade a Rainha 
no Nyassa, juro que Meulali, aqui presente, supersticiosamente 
receioso de pàr a sua mão neste papel, me auctorisou, em pre- 
sença de Katungo e Maxa, chefes dos Makololos e de grande 
numero do seu povo, e de todas as testemunhas abaixo assi- 



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4 O INSTITUTO 

gnadas, a fa\er a cru\ que está acima em nome d elle. — John 
Buchanan». 

Seguem-se as assignaturas das testemunhas, John Moir, 
Adão Mac-Culloch, Donald Malotta, Thomaz Faulker Fred, 
todos fieis súbditos de Sua Graciosa Magestade. No mesmo 
documento se faz ainda a seguinte declaração: 

«Nós, abaixo assignados, juramos que verdadeira e hones- 
tamente interpretámos o precedente convénio ás Partes Con- 
tractantes na lingua Chinyanja. — John Moir, Donald Malotta 

— Reconheço as assignaturas — John Buchanan». 

Este documento é datado de 24 de setembro de 1889. 

Havia muito mais d'um mez que Serpa Pinto acampava 
com a sua expedição nas margens do Chire, assegurando 
assim a oceupação portuguesa cTaquelles territórios. 

Mas Buchanan, não obstante, ia arranjando mais tratados. 
A 26 de setembro, em Chilomo, celebrava um convénio com 
os filhos de Chiputulo em que estes se assignavam Litvewe 
e Chitawonga e no qual era o próprio Buchanan quem jurava 
haver traduzido fielmente o convénio na lingua Chinyanja! 

Não vale a pena nem é necessário avultar o que taes docu- 
mentos téem de ridículo, visto como á face do direito elles 
são absolutamente destituídos de valor. Mas a sua falta de 
seriedade é tão flagrante, tão extraordinária, tão imprevista 
que elles não dão ja logar a que os classifiquem de ridículos 

— são simplesmente graciosos! 

Não se resiste a uma tal provocação á hilariedade. 

Buchanan celebra tratados com os régulos do Nyassa em 
nome de Sua Magestade a Rainha da Gran-Bretanha, mas 
nesses tratados nada apparece feito pelos citados régulos, 
tudo é da lavra do mesmo alegre Buchanan, que assigna de 
direito como representante de uma das partes contractantes, 
que assigna depois a rogo da outra parte contractante e de 
cruz porque essa parte não sabia escrever e tivera receio, 
como declara, de pôr a sua mão no referido papel, e é elle 
ainda, Buchanan, quem reconhece as assignaturas das teste- 
munhas do acto, as quaes são também todas inglesas! Em 
resumo, Buchanarç leva a effeito a negociação, lavra o instru- 
mento do convénio accordado, assigna-o em nome das duas 
partes contractantes, das quaes elle representa uma, e por fim 
authentica-o reconhecendo as assignaturas das testemunhas 
que nelle figuram ! 

Não é surprehendente ? 

Gomtudo era em taes títulos arranjados ad hoc por agentes 
tão joviaes e espirituosos que a Inglaterra fundava os seus 



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A AI.UANÇA INGLESA 5 

direitos em contestação aos de Portugal, que se baseavam 
em diversos actos de occupação e em authenticos actos de 
vassalagem. E, todavia, a Inglaterra sustentava também, 
havia dois annos, ser a occupação effectiva a condição essen- 
cial de posse de territórios, conforme a verdadeira interpre- 
tação das disposições do Acto de Berlim. 

Mas que occupação exercia a Inglaterra sobre a região do 
Chire e do Nyassa á data de ali se dar o conflicto com Serpa 
Pinto ? Ou seriam as manobras dos cônsules Johnston e Bu- 
chanan e a propaganda evangélica das missões de Blantyre 
considerados actos de jurisdicção e occupação mais authen- 
ticos que as expedições de Augusto Cardoso, António Maria 
Cardoso e Serpa Pinto ? 

O motivo invocado pelo governo inglês para reclamar con- 
tra o acto de Serpa Pinto e exigir a retirada da sua expedi- 
ção pjara o sul do Ruo foi o protectorado que dizia ter esta- 
belecido sobre aquelles territórios. Vamos ver que valor tinha 
tal declaração. 

Em 19 de agosto de 1889 o cônsul Buchanan intimava o 
major Serpa Pinto a não avançar em som de guerra pelo 
território Makololo porque, dizia, esse território estava com- 
prehendido sob 6 protectorado da bandeira inglesa, desde o 
Ruo. Tal protectorado não existia, é claro, senão na phan- 
tasia dos dois agentes Johnston e Buchanan, pois, como já 
vimos, ainda mais dum mez depois o mesmo Buchanan fa- 
.bricava, para confirmar essa declaração, os documentos gque 
citámos. Serpa Pinto, na celebre conferencia que realiza em 
26 com o cônsul Johnston, sustenta energicamente os di- 
reitos de Portugal, negando-se a reconhecer um facto que 
nenhum acto sério authenticava. E o próprio Johnston, impli- 
citamente, o reconhece também, pois devendo Serpa Pinto 
estar já a esse tempo além do Ruo, e portanto em território 
britannico, admittido o tal protectorado, é Johnston que vaie 
ter com Serpa Pinto a pedido d'este, para conferenciar acerca 
de assumptos importantes, conforme elle. mesmo declara no 
seu relatório ao governo inglês por estas palavras: «chegou 
um mensageiro num bote mandado pelo major Serpa Pinto 
pedindo-me que fosse ao seu acampamento para conferen- 
ciar com elle em assumptos importantes». E o sr. Johnston 
foi! Se elle estava em terra sua, se era elle o suzerano, o 
que parecia natural era que fosse Serpa Pinto que o procu- 
rasse, e não Serpa Pinto que o mandasse chamar (1^». 



(1) Pinheiro Chagas — .45 negociações com a Inglaterra. 



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6 O INSTITUTO 

Mas ha mais. 

Serpa Pinto respondeu á intimação de Buchanan em carta 
datada do acampamento de Massange em 21 de agosto. Nessa 
carta Serpa Pinto, depois de dizer ao cônsul inglês que or- 
dens só as recebia do governo do seu paiz, e de declinar 
sobre os agentes britannicos e os missionários de Blantyre a 
responsabilidade inteira de acontecimentos eventuaes que esta- 
vam provocando com a toda a qualidade de intrigas e mano- 
bras desleaes», falava assim ao cônsul Buchanan : 

«Se na verdade, os Makololos estão debaixo da protecção 
do governo, inglês, e por conseguinte lhe obedecem, estou 
certo de que a minha passagem será fácil e segura, porque 
o governo inglês representado por V. Ex. a só me pôde dar 
facilidades, sendo eu de um paiz que sempre tem abertas, 
franca e lealmente, as portas das suas colónias a expedições 
scientificas inglesas, prestando-lhes todo o auxilio e amparo ; 
mas em todo o caso, se é verdade o que V. Ex. a me diz, 
peço-lhe que convença os Makololos de que a minha expe- 
dição é pacifica e scientifica, que lhes diga que pertenço a 
uma nação amiga da Inglaterra, e que portanto não pertur- 
bem a minha marcha, perturbação a que V. Ex. a nesse caso 
não pôde ser considerado estranho; e, assegurando-lhe que 
não posso consentir que um chefe negro queira disputar-me 
a passagem ou fazer-me o mais insignificante insulto, asseguro 
além d'isso a V. Ex. a que, se na minha entrada no território 
Makololo eu for atacado, tomarei immediatamente a oftensiva 
e acabarei de uma vez com essa causa constante de pertur- 
bação nesta parte do Chire». 

Que respondeu a isto o cônsul Buchanan ? 

Insurgiu-se contra os termos altivos em que lhe escrevia 
Serpa Pinto? 

Protestava contra a ameaça do mesmo official.de que toma- 
ria a offensiva e acabaria com resistências que claramente 
dizia não reconhecer? Não. 

O cônsul Buchanan respondia somente isto: 

«Vossa Excellencia suppõe que, estando agora o paiz dos 
Makololos debaixo da protecção de Sua Graciosíssima Ma- 
gestade a Rainha da Gran-Bretanha e da Irlanda, imperatriz 
da índia, etc, pôde contar com segura e pacifica jornada 
atravez d'aquelle paiz. Lamento di\er que não posso promei- 
ter-lhe taes resultados. Despachei mensageiros aos chefes 
Makololos, informando-os de que a missão de V. Ex. a é pa- 
cifica e persuadindo-os a que , debandem as suas tropas e 
que voltem em paz e socego para as suas aldeias; mas a 



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A ALLIANÇA INGLESA 7 

grandeza da expedição de V. Ex.% e o numero de homçns 
armados que traz comsigo fa\em com que elles não acredi- 
tem em qualquer declaração que eu lhes possa fa\er a esse 
respeito. 

«Vossa Excellencia pôde ter a certeza de que farei o pos- 
sível para impedir a opposição da parte dos Makololos». 

Eis ahi no que consistia o prestigio da Inglaterra sobre os 
Makololos. Via-se obrigado o representante de Sua Graciosa 
Magestade a declarar, depois de arrogantemente haver affir- 
mado o protectorado da sua nação sobre aquelles povos, 
que não podia prometter a segurança de uma expedição 
scientifica no território Makololo e que os mesmos Mako- 
lolos não acreditavam no que elle, seu suzerano e protector, 
lhes dizia ! 

A prova de que este sr. Buchanan não passava d'um re- 
finadíssimo velhaco, dá-a elle próprio no officio enviado a 
lord Salisbury, datado de Chilomo, e em que dizia que, em 
presença da marcha dos portugueses, elle se^pira compellido 
a fazer uma declaração, em que affirmara que os Makololos 
estavam debaixo da protecção de Sua Magestade a Rainha 
de Inglaterra (1). Quer dizer, Serpa Pinto ia pregando em 
terra com o famoso castello de cartas armado pelos agentes 
britannicos no Nyassa. Se da parte do governo português 
tem havido mais habilidade e sobretudo previdência, e me- 
nos preguiça, Portugal não teria soffrido as terríveis ampu- 
tações que soflreu de vastíssimos territórios no interior da 
Africa e a bofetada do ultimatum. 

Entretanto proseguia activamente a occupação da Machona 
pela companhia South Africa, sob a direcção superior de 
Cecil Rhodes, a esse tempo o primeiro ministro da Golonia 
do Cabo. Depois do ultimatum essa actividade redobrou. 
Cecil Rhodes queria apossar-se dos territórios que Portugal 
podia reivindicar quando se procedesse á delimitação, abso- 
lutamente indispensável depois do ultimatum. 

Assim, aproveitando-se das vantagens obtidas pelo tra- 
tado com o Lobengula, rei dos Matabelles, Cecil Rhodes 
fez avançar os seus flibusteiros até aos extremos limites da 
Machona, terrenos já comprehendidos nos districtos portu- 
gueses de Sofala e de Manica e sobre os quaes exercíamos 
jurisdicção effectiva, e todos os postos de occupação portu- 
guesa foram intimados a retirar. 



(i) Pinheiro Chagas — As negociações, etc. 



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8 O INSTITUTO 

Contra esta descarada violação do direito das gentes e do 
modus-vivendi celebrado após a rejeição do tratado de 20 de 
agosto, protestaram alguns raros portugueses que ainda pos- 
suíam as virtudes antigas da sua raça. Paiva d'Andrada, 
Manuel António e Rezende foram presos pelos flibusteiros 
da South Africa por haverem protestado contra o inquali- 
ficável procedimento d'essa Companhia que se apoderara vio- 
lentamente dos estabelecimentos da Companhia portuguesa 
de Moçambique, e depois do confiicto de Mutaça, surge o 
conflicto de Massiquece, aonde Caldas Xavier com um pu- 
nhado de valentes se bateu valorosamente contra os ingleses, 
defendendo os territórios que occupava, até que a noticia do 
tratado de 28 de maio de 1891 poz termo a essas luctas 
bravas e quasi ignoradas nos sertões africanos, luctas que 
foram a bem dizer, o único protesto sério da nação esbu- 
lhada e aífrontada. 

O tratado de 28 de maio fez aos ingleses todas as con- 
cessões que elles exigiram sobre a liberdade de navegação 
do Zambeze e do Chire e de todas as suas ramificações, e 
sobre a liberdade de transito pelas vias terrestres e outras 
vantagens de caracter mercantil. Reconheceu o roubo de 
Manica e deixou-lhes nas mãos todos os territórios cuja posse 
nos disputavam e que constituíam a parte mais rica dos ser- 
tões de Moçambique, ficando esta nossa província consis- 
tindo numa faixa littoral cuja maior largura forma a reen- 
trância do Zumbo até á margem oriental do Aroangoa, num 
raio de 10 milhas inglesas, território do qual nunca podere- 
mos dispor sem o prévio consentimento da Gran-Bretanha 
(art. i. ), reentrância aberta ao norte pela cunha do terri- 
tório inglês (Blantyre, Makololos, etc.) que penetra pelo co- 
ração dos domínios portugueses até abaixo da confluência 
do Ruo e do Chire. O comprimento total da província ficou 
comprehendido entre a margem norte do no Maputo e a 
margem sul do rio Rovuma. Assim sanccionámos a expolia- 
ção: dos territórios do Chire, e dos comprehendidos para 
oeste do Zumbo, que formavam o districto d'este nome; do 
território da Machona, e do interior dos districtos de Manica 
e Sofala, ricos de minas de oiro, e domínios já do regulo 
cafre Gungunhana, cuja obediência a Portugal era incon- 
testada. 

A clausula da preempção apparece a cada passo no tra- 
tado, a propósito de todos os territórios cuja posse a Ingla- 
terra nos reconhece. Ella se estfnde sobre Lourenço Mar- 
ques e sobre Angola; além d'isso as concessões de caracter 



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A ALLTANÇA INGLESA 9 

commercial, e de livre transito feitas á Inglaterra collocaram 
o comraercio português, nas duas províncias, em perfeita 
egualdade de tratamento; por isso elle se desnacionalisou 
em Moçambique e decahiu em Angola, desde então. 

Em resumo: «Nunca, pôde affirmar-se sem hesitação, sof- 
freramos semelhante últrage. Ficamos num protectorado po- 
sitivo, como fellahs do Egypto, ou matabelles do centro da 
Africa. Nunca: nem os tratados do século xvn, nem o de 
Methwen, nem 1810, nem o da índia — nenhum juntou ainda 
assim á espoliação a sujeição, accrescendo por sobre ambas 
o escarneo» (1). 

Tal foi o resultado da ávida cubica britannica conjugada 
com a inepta politica colonial dos governos da monarchia 
portuguesa. 



CONCLUSÃO 
A questão das allianças 

Antes de mais nada ponhamos claro a questão. 

Portugal como um país pequeno que e e com vasto do- 
mínio colonial, dilatado por diversos pontos do globo, pôde 
assegurar a sua integridade territorial por si só com reaes 
probabilidades de êxito? 

Não podendo, como é fora de toda a contestação, qual 
a alliança mais vantajosa sob o ponto de vista politico e 
militar? 

Sem torcer caminho e sem contrariar a própria convicção 
intima diremos que, no momento actual, tendo bem em vista 
as condições presentes da politica internacional, a alliança 
que mais convém a Portugal é a da Inglaterra. 

Bem entendido: nós partimos, ao fazer esta afirmação, 
do principio jurídico da existência d'um contracto bilateral 
em que de parte a parte não haja a menor abdicação de di- 
gnidade nacional nem grave offensa de interesses alheios. 

Resumindo: Imaginamos uma alliança e não o que existe 
— uma situação de protegido e protector. 

Mas, é claro, para que tal alliança se possa firmar e possa 
subsistir dignamente é mister que vantagens reciprocas a 



(1) Oliveira Martins — Portugal em Africa, 



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10 O INSTITUTO 

justifiquem e os respectivos pactuantes procurem valorisá-la 
sob o ponto de vista do melhor aproveitamento das vanta- 
gens que mutuamente se possam ofierecer. 

Dissemos já — e fácil é a demonstração — que a Portugal, 
presentemente, lhe convém mais que alguma outra a alliança 
inglesa. Quanto á Inglaterra tem ella reciprocas vantagens 
na alliança com Portugal? Tem, sem duvida, e de incontes- 
tável valor. 

Nós portugueses, porém, é que jamais devemos deixar de 
ter o seguinte ponto em attenção: é a Inglaterra capaz de 
guardar sinceridade em sua alliança comnosco? Que a his- 
toria seja a nossa guia de cada instante; que ella, que é a 
melhor mestra da vida dos povos, nos allumie com a luz da 
experiência, sempre que em nossa marcha politica a duvida 
nos faça hesitar ou suspeitar. 

Lembremo-nos sempre d'aquella sincera confissão de lord 
Grey: «Desenganem-se todos, que o governo inglês não tem 
predilecção por nenhum governo estrangeiro, nem por ne- 
nhuma família reinante ; as suas resoluções teem somente por 
fim promover os interesses nacionaes». 

Lembremo-nos de que a bússola que orienta a politica 
britannica é : o supremo interesse da Gran-Bretanha. Nada 
perdemos em conservar bem vividas no espirito todas as 
recordações amargas da alliança inglesa. A isso visa este 
livro. 

Mas, nesta época de utilitarismo feroz, as razões do senti- 
mento não podem prevalecer. 

A alliança inglesa consolidada pela monarchia num intuito 
mesquinho de conveniência dynastica, é um acto politico que 
a nação pôde e deve aproveitar quando se decidir a metter 
hombros á empresa da sua regeneração. Eliminado que seja 
o particularismo dynastico que, em todo o tempo, como 
plenamente o demonstra a historia, desviou a alliança do 
que devera ser o seu verdadeiro e único objectivo, pôde 
fazer-se com a Inglaterra uma politica útil e digna, uma 
alliança, não fundada em vagos termos duma entente que 
ninguém conhece e em tratados caducos e anachronicos, mas 
num pacto explicito que, reconhecendo as conveniências re- 
ciprocas, estabeleça os direitos e as obrigações respectivas. 

E depois cuidemos de valorizar o mais possível a nossa 
alliança. Que ella se não restrinja ao papel passivo e inglório 
de ser para a Inglaterra apenas a facilidade de obter bases 
estratégicas, mas que seja uma cooperação apreciável e in- 
dispensável, se tiver que o ser. Só assim poderemos obrigar 



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A ALLIANÇA INGLESA 1 1 

a Inglaterra a guardar-nos o respeito que nos deve como 
nação livre que preza e se orgulha dos seus foros. 



Antes da convenção anglo-francêsa celebrada em 8 d'abril 
de 1904, quando pairava ainda no horizonte a ameaça d'uma 
guerra entre ingleses e franceses, a qual seria inevitavelmente 
o inicio da grande conflagração geral, o problema das allian- 
ças para Portugal apresentava-se mais complexo. Então ha- 
via que considerar qual dos partidos em lucta teria maiores 
probabilidades de victoria para assim nos decidirmos por um 
ou por outro, a fim de não compromettermos irremediavel- 
mente o nosso domínio colonial e a nossa própria autonomia 
na Europa. 

Afastado esse perigo, como parece, pelo menos immedia- 
tamente, nós temos que considerar principalmente a politica 
que, desde já, nos garanta o maior numero de vantagens 
para os nossos interesses em Africa. 

Possuímos no continente africano, além da Guiné, duas 
grandes colónias ás quaes se acham incontestavelmente liga- 
das as nossas esperanças de renascimento nacional. Moçam- 
bique, na costa oriental, é um verdadeiro empório sob o 
ponto de vista das suas admiráveis condições para a explo- 
ração d'um largo commercio e de empresas mineiras e agrí- 
colas em grande escala. Angola, no occidente, é a riquíssima 
colónia que podemos transformar numa como que extensão 
da própria pátria por meio principalmente da colonisação 
agrícola no género da que se fez nessas admiráveis colónias 
da. Austrália meridional, de Java e do Canadá. 

Ora, com a Inglaterra, depois do tratado de limites que 
succedeu, ao ultimatum, temos demarcadas as nossas fron- 
teiras e espheras de influencia em Africa. A Inglaterra, após 
ter-nos levado todo o hinterland, marcou os limites dos nos- 
sos domínios que reconheceu e authenticou por aquelle tra- 
tado. Assim, não ha fácil logar a novos litígios e controvér- 
sias com aquelle paiz. Mas nem por isso deixámos de ter 
inimigos em Africa. Temo-los, e temíveis, ao norte de Mo- 
çambique, ao sul e ao norte de Angola. A Allemanha, que 
já nos levou Kionga, continútf a ser uma ameaça permanente 
contra a nossa soberania no Cabo Delgado; no sudoeste afri- 
cano lança também os olhos cubiçosos sobre os terrenos 
Umitrophes do Cunene, extremo sul de Angola. Ao norte 



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H 



12 O INSTITUTO 



(Testa mesma província o Estado Livre do Congo tenta, por 
seu turno, por meio d'uma progaganda persistente e tenaz, 
crear embaraços de toda a ordem á expansão do nosso com- 
mercio no interior e á nossa occupação eftectiva do vasto 
país da Lunda, que ambiciona. Nestas circumstancias, a In- 
glaterra, pela proximidade das suas colónias e pela natureza 
especial dos seus interesses em Africa, é a única potencia 
que se encontra em condições de prestar-nos efficaz apoio 
para contermos em respeito as demasias da Allencianha e do 
Estado Livre. Vae nisso também o seu próprio interesse. 

De facto, á Inglaterra convém-lhe que os portos de. Lou- 
renço Marques, a Beira e as boccas do Zambeze, não po- 
dendo estar nas suas mãos, pertençam a Portugal. Portugal, 
além da sua qualidade de alliado, é para a uran-Bretanha 
um concorrente incomparavelmente menos perigoso do que 
a Allemanha, a França ou qualquer outro país. A Inglaterra 
não tem que receiar da nossa parte nem concorrência mer- 
cantil que possa aflfectar o seu largo commercio do centro 
d'Africa, nem ambição de mais território, visto como o já 
citado tratado de limites nos veda tal; ao passo que, já por 
este tratado, já por outras combinações realizadas e pela 
natural cooperação de pais amigo e alliado, ella pôde utilizar 
os portos do littoral de Moçambique e as vias que os põem 
em communicação com os seus territórios do interior — vias 
consideravelmente mais curtas que as do Cabo e Durban — 
para o transito do seu importantíssimo tracto mercantil. 

Nestes termos, as vantagens reciprocas de uma mutua 
cooperação entre Portugal e a Inglaterra em Africa, equili- 
bram-se. E quando mesmo outros motivos não existissem 
para justificar a sua alliança, esse bastava. 

Mas mesmo sob a hypothese duma conflagração na Eu- 
ropa a alliança com a Inglaterra merece e deve ser consi- 
derada, pois que, como já dissemos, em face das actuaes 
condições da politica internacional, ella é a que maiores van- 
tagens nos pôde oíferecer. As tendências recentemente ma- 
nifestadas da politica europeia fazem prever uma revolução 
completa na sua orientação. O accordo anglo-francês, ainda 
que de caracter colonial, a approximação da Itália e França 
coincidindo com as divergências manifestadas entre a Itália 
e a Áustria e a já inilludivel antipathia do povo italiano pela 
tríplice; a revolução de ideias e sentimentos cjue se opera 
em França com relação á alliança moscovita, coincidindo por 
seu turno com as publicas demonstrações de aftecto e pesar 
de Guilheme II pelo Czar e peles desastres da Rússia na 



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A ALUANÇA INGLESA i3 

guerra do Extremo-Oriente, constituem innegaveis e, sérios 
presagios da profunda modificação que indicamos. É pos- 
sível uma grande inversão de papeis, e que em vez de uma 
tenhamos duas tríplices: a da Allemanha com a Áustria e 
Rússia, e a da França com a Inglaterra e Itália. Sendo assim, 
é obvio que a alliança da Inglaterra nos asseguraria a maior 
somma de vantagens na Europa e perante o conflicto tra- 
vado. O domínio dos mares pertenceria indiscutivelmente a 
este partido, tanto mais que elle podia contar com o con- 
curso dos fortes recursos navaes do Japão e dos Estados- 
Unidos, e o dQmínio dos mares é precisamente a condição 
exigida pelos nossos interesses estratégicos á alliança com 
que contarmos. 

Por seu lado, para a Inglaterra, sob o mesmo ponto de 
vista, a alliança de Portugal é de inapreciável valor. 

Ainda ha pouco, no seu recente livro — A defesa das cos- 
tas de Portugal e a alliança luso-inglèsa — o sr. José Este- 
vão de Moraes Sarmento, illustre general do exercito portu- 
guês e ex-ministro da guerra, escrevia : aPara a solução dos 
grandes problemas de politica internacional, que se debatem 
ou venham a debater nas grandes chancellarias europeias, e 
a que estejam ligados interesses especiaes dos dois países 
situados na península ibérica, será da maior vantagem para 
a Inglaterra o poder contar, em Portugal, com uma solida 
base de operações para qualquer eventualidade subsequente. 
E, nas luctas que aquelle país venha a travar, de futuro, 
com outras nações marítimas, egualmente lhe serão de deci- 
dida importância, para abrigo e abastecimento das suas es- 
quadras, determinados portos de escala dos nossos domínios, 
entre os quaes tomam preferente locar Lisboa, Horta, S. Vi- 
cente, como vértices do notável triangulo estrategico-naval 
do Atlântico». 

E o mesmo illustre general, depois de reconhecer as van- 
tagens para Portugal da alliança inglesa, accrescenta: 

tPara que a alliança com a Inglaterra se mantenha, porém, 
nobre e honrada, e não redunde em protectorado odioso, 
torna-se indispensável que procuremos affirmar solidamente 
a nossa organização defensiva, não sob o ponto de vista do 
que mais útil possa parecer aos interesses da Inglaterra, mas 
sob a base do que propriamente represente a nossa melhor 
capacidade de resistência militar contra qualquer aggressão 
directa. Frederico II dizia, e dizia bem, que «errava todo o 
estado que, em vez de confiar nas próprias forças, se fiava 
nas dos seus alliados». 



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14 o instituto 

Assim é, na realidade, e o sr. Sarmento o demonstra á 
saciedade quando, estudando as condições especiaes da or- 
ganização do exercito inglês, cheia de deficiências, e todas 
as demais dificuldades e perigos inherentes á natureza das 
expedições por mar, consigna os pontos fracos da alliança 
inglesa, e, logicamente, conclue insistindo por que cuidemos 
do exercito de campanha. 

Sim, cuidemos do exercito de campanha. 

Mas ao mesmo tempo cuidemos da regeneraçãp moral e 
económica da pátria portuguesa. O sr. Moraes Sarmento, 
certamente porque o seu livro, sendo um estudo de especia- 
lidade, não visa outro fim mais que a demonstração cTuma 
these sob o restricto ponto de vista militar, não encara ou- 
tras questões importantíssimas, da resolução das quaes de- 
pende, a final, essa da organização de um efficaz exercito de 
campanha com que possamos assegurar a nossa defesa ter- 
restre, — que não podemos confiar absolutamente do auxilio 
das armas inglesas — , e valorisar a nossa alliança. , 

A nossa alliança valorisá-la-hemos tanto mais quanto 
maior for a nossa subida na escala da civilização e do 
progresso. 

Em primeiro logar é urgente expurgar, insistimos, a alliança 
inglesa do particularismo dynastjco que em todo o tempo a 
tem caracterizado e prevertido. É preciso que seja realmente 
uma alliança e não a combinação escura destinada a salva- 
guarda do interesse particular da dynastia em Portugal, em 
detrimento dos interesses geraes e das aspirações da nação 
portuguesa. Esta questão é fundamental, embora tenhamos 
por certo que o apoio da Inglaterra á dynastia seria hoje 
muito problemático, para não dizermos improvável. As allian- 
ças, hoje, por parte das nações que possuem a plena con- 
sciência dos seus interesses e do seu papel no mundo, obe- 
decem á superior razão do Estado e não a quaesquer conve- 
niências particulares dos governantes. Ora, a Inglaterra, tem 
um incontestável interesse na alliança de Portugal; a Ingla- 
terra é um país de liberdade e de opinião, de progresso e de 
ideias modernas e praticas. Suppôr, pois, que a Inglaterra 
sacrificará amanhã os seus interesses e as suas ideias ao so- 
nho romântico da conservação indefinida d'um regimen poli- 
tico em Portugal que se condemnou na lógica e na razão 
moral da sua existência, é dar muito pouco pela sagacidade 
e pela educação politica dos estadistas ingleses. Não. A In- 
glaterra sobre este ponto pensa com lord Grey: — Não tem 
predilecções por nenhum governo estrangeiro, nem por ne- 



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A ALLIANÇA INGLESA l5 

nhuma família reinante ; as suas resoluções teem somente por 
Jim promover os interesses nacionaes. 

Todavia, a monarchia em Portugal persuadiu-se talvez que 
os tempos de i836 e 1847 voltavam, e, seja assim ou não, é 
manifesto que a alliança foi reatada com esse exclusivo in- 
tuito, sendo certo que esse reatamento, nas condições em 
que se realizou, por inspiração e directa influencia dos rei- 
nantes, deu á alliança esse caracter. E isso basta a prever- 
tê-la, hoje como sempre. 

Nacionalisemos portanto a alliança para que ella possa 
inspirar-se nos interesses dos povos. E depois valorisemo-la, 
sim, debaixo do ponto de vista militar e debaixo do ponto 
de vista moral. 

Mas para isso regressemos á liberdade, pois que sem liber- 
dade os povos não caminham. Instruamo-nos, pois que sem 
instrucção não ha, não pôde haver consciência nos povos, 
não pôde haver cidadãos, não pôde haver pátria. 

Elevemo-nos progredindo, caminhemos elevando-nos sem- 
pre no conceito dos povos cultos. A inviolabilidade das fron- 
teiras não está apenas na força das armas, está também, está 
muito no conceito moral que se possa impor e na consciên- 
cia firme do próprio direito. 

Comecemos, pois, por eliminar as causas de preversão e 
decadência que temos internas. 

Ha um regimen-oligarchia, gasto, corrupto, que de ha 
muito se acha divorciado da nação e apenas olha a satis- 
fazer as necessidades creadas d'uma vida dissoluta de baixo- 
imperio ? 

Ha um povo de innata bondade, mas vegetando, lethar- 
gico, na noite negra da ignorância ? 

Eliminemos um, e demos ao outro o que lhe falta — uma 
consciência e a luz viva do sol d'um ideal. 

Está ante nós escancarada a larga porta da Civilização. 
Decidamò-nos finalmente e entremos nisso que está além, 
desenrolando-se indefinidamente ante nossos olhos deslum- 
brados — a feira gigantesca e luminosa da actividade e do 
progresso mundial. 

E nesta bella terra que tanto amamos haverá então uma 
pátria livre. E a alliança com a Inglaterra poderá então ser, 
não um protectorado odioso, mas um pacto nobre e honrado. 

Affonso Ferreira. 



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SCIENCIAS PHYSICO-MATHEMATICAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Com. do vol. 54. , pag. 699) 

x 3 32] — J. M. Dantas Pereira — Reducção das distancias 
lunares para a determinação das longitudes a bordo, 
Lisboa, 1807. 

x 3 32] — Jacome L. Sarmento — Methodo fácil para se obte- 
rem por uma única interpolação, de três em três 
horas, as distancias lunares calculadas directamente 
de do\e em do\e horas (I. C., i ère série, vn, 1859, 
94-95). 

x 3 32, 33] — R. R. de Souza Pinto — Nota sobre a carta 
de M. Wils Brown, na qual se indica um novo me- 
thodo para o calculo das distancias lunares obser- 
vadas no mar (I. C., i òre série, v, 1857, 10-11). 
Au sujet de le méthode de Wils Brown pour 
calculei* les distances lunaires observées sur mer, 
1'auteur fait voir que la formule de 1'astronome 
anglais est idemique à celle que F. de Paula 
Travassos avait exposée dans sa brochure: Me- 
thodo de reducção das distancias observadas no 
calculo das longitudes, Coimbra, i8o5. 

x 3 33] — Pedro Nunes — Tratado sobre certas duvidas da 
navegação, Lisboa, Germão Galhardo, 1337. 

La composition de ce Traité a été le résultat 
de la discussion de Pedro Nunes avec le fameux 
Martim Affonso de Souza, sur certains doutes 
que celui-ci lui avait proposés au sujet de la navi- 



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LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL 17 

gation. Martim Affonso avait reçu mission en 
i53o de naviguer avec plusieurs bâtiments dans 
les parties du Midi: il arriva au Rio da Prata et 
de retour à Portugal, au bout de trois ans de 
mer, il exposa à Pedro Nunes différentes manières 
de prendre la hauteur des endroits oú il se trou- 
vait et comment il vérifiait les routiers qu'il avait 
suivis, mais qu'il s'étonnait de deux choses: La 
première, que le Soleil étant sur Téquateur, il \€ 
vovait lever à Test et se coucher à Fouest le 
même jour, cela également, sans aucune diffé- 
. rence, soit au'il se trouvât du côté du nord, soit 
du côté du Sud, et il demandait à Pedro Nunes 
par quelle raison, quand on gouverne à 1'est, ou 
à Touest, on suit le même parallèle à la même 
hauteur sans jamais ateindre Téquinoxiale oíi Ton 
porte la proue conjointement avec le lest de Tai- 
guille. La seconde chose qu'il lui denganda fut 
que se trouvant à 35 dégrés de Tautre côté de la 
ligne équinoxiale qúand le Soleil était au tropique 
de Capricorne, il se levait au SE l /i E et se cou- 
chait, le même jour, à SW l /t W. 

Pedro Nunes répondit à ces doutes de Martim 
Affonso, et résolut ensuite d^crire plus large- 
ment, dans cet ouvrage, ce quil y jugea utile. 

Cest alors qu'il exposa tous les principaux dou- 
tes de la navigation, avec les tables du mouve- 
ment du Soleil et sa déclinaison, ainsi que la 
règle de la hauteur (Regimento da altura) à midi, 
comme autrefois. 

. Sur tout cela il apporta non seulement des 
choses pratiques de Tart de naviguer mais encore 
des remarques de géométrie. II corrigea quelques 
passages de Ptolémée, en vérifia d'autres, et in- 
terpreta ou expliqua ceux qui étaient obscurs, 
ou avaient été mal compris par les modernes. 
II fit voir les erreurs de Cardan, de Copernic, 
d ; Agustin Ricio, de Jacob Zeigler, d'ApiAN, d'AL- 
bert Pighio, de J. Stoffero, de Marco Beneven- 
tano, de Gebre, de Monte Régio, et d'autres 
savants de grande réputation. 

[r 3 33] — Pedro Nunes — Tratado em defensão da carta de 
marear, Lisboa, Germão Galhardo, 1537. 

VOU 55.°, N. ' I E 2 — JANEIRO E FEVEREIRO DE I908. % 



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1 



O ÍNSTilUTO 



Dans cet ouvrage, Pedro Nunes développe la 
doctrine de Ptolémée en plusieurs de ses conclu- 
sions ; il parle des régies et des instruments mari- 
times, de la carte de naviguer, de la table nau- 
tique, três utile pour trouver la diflérence de 
longitude, des instruments propres pour recher- 
cher 1'élévation des étoiles; il étudie plusieurs 
manières de déterminer la latitude; il trouve la 
solution de quelques problèmes nautiques, et enfin 
il étudie, le premier, sous le nom de rumbus (i), 
la loxodvomie (2), c'est-à-dire, la courbe qui ren- 
contre les méridiens de la sphère terrestre sous 
un angle constant, courbe que tracerait un navire 
dirige constamment suivant le même rhumb de 
raiguille (3). 



(1) Cette dénomination de rhumb a été longtemps conservée par les 
anglais sous le nom de Rhumb Une (W. R. Martin, A treatise on navi- 

fation and nautical astronomy, 3 e édition, London, New- York and Bom- 
ay, 1899, p. 7). 

(2) Dénomination proposée par Snellius (Tiphys Batavus, sive his- 
tiodromica de navium cursibus, et re navali, Lugduni Batavorum, 1624, 
p. 27). 

(3) II sera d'un certain intéret de transcrire ici les passages suivants, 
de deux remarquables écrits, qui confirmem, en effet, <jue Pedro Nunes 
a pose les permiers traits de la théorie de la loxodromie : 

«Den grossen und flir mathematisch-geschult Kopfe gewiss im hõchsten 
Grade anstõssigen Fehler, welchen man durch Verwechselung der wirkli- 
chen Loxodrome mit einem Kugelkreis oder gar mit einer Geraden be- 
gieng, bemerkte und bescitigte ais der Erste jener hochverdiente portu- 
gusische Mathematiker, welchem seit je einer der ersten Ehrenphatze 
unter scinen Zeitgenossen cingeràumt zu ^rden pflegt. Die Historiker, 
z. B-Chales (Geschichte der Geometrie, deutsch von Sohncke. Halle, 
1839. S. i36), érwahnen durchweg rlihmend des grossen von Nuncf 
angebahnten Fortschrittes, und in der That ist die betreflènde Leistung, 
sei es dass man speziell die dadurch bewirkte FOrderung des nautischen 
Wissens oder den betrãchtlichen Gewinn an rein-mathematischerErkenn- 
tuiss in's Augefasst, gewiss den anderen berUhmten Geistesthaten des 
universellen Mannes gleichzustellen». (S. Gíínther, Studien %ur Geschi- 
chte der mathematischen und physikalischen Geographie, Halle, a/ s , 1879, 
P. 34i). 

«Die dritte Scrift gleichen Druckjahres und gleichen Druckorts wk 
die eben genannte heisst De arte atque ratione navigandi. Von einem 
Punkte der Meeresoberflache zum anderen flihren zahllose Wege. Einer 
derselben ist der kurzeste und wlirde, wàYe die Meeresoberflacne eben, 
eine gerade Linie sein. Das war auch die ursprtingliche Meinung der 
Seefanrer, wclche in geiader Linie zu segeln vermeinter, wenn sie die 



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LÊS MATHÉMATIQtítES EN POftTlJGAl, tQ 

Pedro Nunes consideram les défauts des cartes 
planes en usage de son temps, chercha à les re- 
ctifier, et dans cette vue il examina les liçnes 
loxodromiques, en découvrit plusieurs proprietés, 
et proposa la construction aune table loxodro- 
mique, réglant la derive par angles de 45 dégrés, 
ou rhumbs. 

Bien que dans la théorie exposée Ton ait depuis 
remarque des erreurs, il est certain que ce fut 
Pedro Nunes qui montra la voie (1), pour que 
cette théorie reçút les additions et les perfection- 
nements que plus tard lui donnèrent cies céomé- 
tres célebres, tels que Snellius, Wright, Stevin, 
Dechales, Halley, Riccioli, Walz, Manpertuis, 
Leibniz, Bernoulli, Euler, Simpson, Schubert, 
etc. Cependant, Terreur la plus importante que 
Pedro Nunes a commise, ce fut de supposer que 
les cosinus des latitudes des points de la loxodro- 
mie, équidistants en longitude, sont en propor- 
tion continue, parce que cette propriété se vérifie 
à la fois dans les tangentes et cotangentes des 
moitiés des complements des latitudes, ou des 
demi-distances au pôle. Ce fut Simon Stevin qui, 



Richtung zum Bestimmungsort unverUndert festhielten. Nonius war der 
Erste, welcher es aussprach, dass die Schiffsbahn, welche sammtliche 
Meridíiane der Erdober flache unter gleichem spitzen Winkel schneidet, 
ais auf einer Kucel verlaufend keine grade Linie, aber auch kein Grttss- 
terkreis der ErdKugel und ebensowenig ein aus StUcken von GrOssten- 
kseisen zusammengesetzter Weg sein kõnne. Sie sei vielmehr durch das 
Zusammenwirken zweier ? unter Umstànden meherer Krafte zu Stande 
gekommen, gleich wie die Spirale durch zwei vereinigte Bewegungen 
entsteht^und sei eineeigenartige Linie, rumbus. Damit war die Entde- 
ckung derjenigen Linie doppelter KrUmmung, vollzogen, welche am 
Aufance des xvn. Jahrhunderts durch Willebrord Sneluus den namen 
Laxodrome erhield». (Moritz Cantor, Vorlesungen Uber geschichte der 
mathematiky vol. 11, Leipzig, 1892, p. 358). 

(1) «No acerto, sin embargo, aquel profundo matemático (Pedro 
Nunes) á exponer la verdadera teoria de la curva loxodrómica y la de 
las cartas esféricas ó reducidas, que se desprenden sin grande esfuerzo 
de sus mismas consideraciones; pêro, sin embargo, desde entonces el 
pilotage geométrico formo un cuerpo de doctrina cuyo desarrollo de- 
pendio ya casi exclusivamente de los adelantos de las ciências matemá- 
ticas y nsícas». (Discursos leidos ante la Real academia de ciências exa- 
ctas, físicas y naturaleSy en la reapción pública dei excmo sr. Don Acisclo 
Fernandez Vallin, Madrid, 1893, p. 90). 



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20 O INSTITUTO 

le premier, reconnut Terreur de Pedro Nunes (i). 
II la corrigea et publia alors une théorie plus 
exacte des lignes loxodromiques (2). 

Bien qu'aujourd'hui la loxodromie nait plus 
qu'un intèrêt théorique, comme le remarque 
Vannson (3), cette courbe avait besoin d'une syn- 
thèse que lui a donnée M. S. GUnther, proíes- 
seur à 1'Ecole polytechnique de Munich (4). 

[r 3 33] — Pedro Nunes — De arte atque ràtione navigandi 
libri duo, Conimbricae, A. de Mariz, 1546, 1673; 
Basileae, S. Fabricius, i566, 1692. 

Cet ouvrage est la refonte de celui que Pedro 
Nunes avait écrit auparavant sur la carte de navi- 
guer avec addition de matières nouvelles. II se 
termine par un chapitre (In problema mechanicum 
Aristotelis de motu navigti ex-remis, annotatio 
una) ou Pedro Nunes commente le problème 
d^RisroTE sur le vaisseau manoeuvré à rames, et 
ce fut beaucoup pour le temps que la solution de 
ce problème. Én effet, la raécanique n'avait fait 
presque aucun progrès; on ignorait les lois du 
mouvement; la théorie de la statique et surtout 
celle de Thydrodynamique était encore bien ar- 
rièrée, et les travaux des savants concernant la 
mécanique se réduisaient à peine à commenter 
les questions mécaniques d'ARiSTOTE. 

La marche suivie par Pedro Nunes, fut donc 
de se borner à expliquer et à illustrer la doctrine 
du philosophe sur ce problème, qu'il avait déjà 
traité dans les leçons de mécanique lues à ses 
élèves à TUniversité de Coímbre. 



(1) Albert Girard, Les osuvres mathèmatiques de Simon Stevin, de 
Bruges, Leyde, 1584. (Le vol. 11 traitant de la Cosmographie, 4 me livre 
de la géographie). (De Vhistiodromie ou cours des navires, Appendice, 
p. 166). 

(2) Ibid., p. 167 et 168. 

(3) N. A., lère série, xix, 1861, p. 3i. 

(4) Studien zur geschichte der mathematischen und physikalischen 
géographie, Halle, a / s , i; e partie, 1879, 333-407. Voyez aussi: le compte 
rendu de ce mémoire fait par M. Brocard (B. D., 2 e série, 1870, i è re p ar . 
tie, 329-33q); N. A., xx, 1861, 3i-4i, 229-233; 1888,486-502; J S., 2 e sé- 
rie, iv, 1 885, 85-86. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 21 

[r 3 33] — Jacobus Sá — De navigatione libritres: quibus ma- 
thematicce disciplina explicantur, Parisiis, Reginaldi 
Calderii & Claudii ejus filii, 1549 (1). 

Cet ouvrage est précédé d'une préface à 1'adresse 
de Don J0Á0 III, ou 1'auteur dit qui a écrit ce 
livre contre Pedro Nunes. 

Dès le commencement du livre, 1'auteur s'éfforce 
de préparer les bases de son argumentation, en 
compilant les opinions des anciens et de la Bible 
sur la forme et le mouvement de la Terre. A la 
page 54 on trouve le Tractatus Petri Nonii do- 
ctoris incipit, écrit sous forme de dialogue entre 
la Mathématique (Pedro Nunes) et la Philosophie 
{Vauteur), et ou les arguments sont suivis de leur 
réfutation immédiate (2). 

[t 3 33] — J. Baptista Lavanha — Regimento naotico, Lisboa, 
Simão Lopez, ibyb', António Alvarez, 1606. 

CXVI 

[r 3 33] — # — Tratado da arte de navegar (Manuscrit n.° ~ 

de la Bibliothèque de Évora). 2 ~ 

[r 3 33] — Duarte Abreu Vieira — Thesouro universal, breve 
tratado de navegação de Leste para Oeste, novamente 
achado pela regra das declinações do sol, e pedra 
de Cevar; com exposição da Agulha de Marear 
(Manuscrit). 



(1) II y a deux exemplaires pareils de la même année, avec la seule 
différence que, dans la partie supérieure du fronstispice, l'un a les armes 
de France et 1'autre les armes de Portugal. 

(2) 11 y a dans ce livre quelques passages curieux : par exemple, dans 
une sorte de résumé des matières de chaque livre, 1'auteur dit (foi. 6) : 
. . . aPhilosophia per dialogi modum cum Mathematica, de ea maxime 
conquerens, in certamen deveniret : et utraque hinc inde suas aflferente 
rationes, clara patet, quid quaelibet illarum praetendere possit : et quo 
pacto Mathematica respondere nequivit adid de quofinit interrogata. Et 
sic interrogado per Philosophiam explicata reíinquitur, eni explicatio 
illius convenit. In quo etiam libro notamdum est, ab interrogatione pro- 
venire totam cosmographiam, mathematicam, et philosophiam, etc.» Et 
ati verso de la page on lit:... «In codem (tractatu) etiam explicatur 
flanissimè, quo facto et quibus rationibus Mathematica non cognoscit, 
neque procedere debet per materiam et motum, neque per causam fina- 
lem neque efficientem, nec per rationem boni, neque^ropter quid aliqua 
res contingat vel sit, rusi tantum per rationem formalem». 



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22 O INSTITUTO 

Cet ouvrage renferme 10 chapitres, 4 tables 
et 1 globe. 

[r 3 33] — * — Quarto modo para sabermos o caminho no mar 
J r " *~^ste que he pola variação da agulha 

^ de la Bibliothèque de Évora). 

CXVI 

ica ou de navegar (Manuscrit n.° 5- 

íque de Évora). 2 ~ 

runo — Tratado da arte de navegar. 
\o collegio de Santo Antão da Com- 

;us, Armo domini 16. . . ( Manuscrit 



Iruno — Arte de navegar e em parti- 
? Oeste (Manuscrit n.° 44 de la Biblio- 
liversité de Coímbre). 

>Á — Regimento da Navegação, no qual 
n breve summario dos prtncipaes cir- 
a material, etc. Lisboa, Pedro Craes- 



Naiera — Navegacion especulativa y 
m madas sus regias y tablas por las 
de Ticho Brahe, etc. Lisboa, Pedro 
628. 

de Guevara — Libro de los inventos dei 
\r, y de muchos trabajos que se passan 
i, Coimbra, Manuel Dias, 1657. 

aentel — Tratado de navegação e pra- 
ta, 1669 (Manuscrit n.° i85 de la Bi- 
TUniversité de Coimbre). 

Carneiro — Hidrografia curiosa de 
, S. Sebastian, 1675. 

a Matta — O dextro observador, ou 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 23 

meio fácil de saber a latitude no mar, a qualquer 
hora do dia, sem dependência de observação meri- 
diana, etc. Lisboa, Officina de S. Thaddeo Fer- 
reira, 1781, 1789. 

[r 3 33] — J. Monteiro da Rocha — Explicação da- taboada 
náutica para o calculo das longitudes, Lisboa, 1801. 

[x 3 33] — J. A. da Silva Beltrão — Tratado sobre o modo 
geral de deduzir os rumos, etc. Rio de Janeiro, 
Officina de Silva Porto & Ç. a , 1822. 

[t 3 33] — A. Gregório de Freitas — Tratado de navegar, ou 
esclarecimentos precisos em caso de duvida, Lisboa, 
1823. 

[r 3 33] — A. L. da Costa e Almeida — O piloto instruído, ou 
/ compendio theorico-pr atiço de pilotagem, Lisboa, 

J. Baptista Morando, 1829, i83g. 

[r 3 33] — M. Coelho Cintra — Arte de navegar, ou tábuas 
de longitude, etc. Lisboa, Typographia de A. J. da 
Costa, 1849. 

Traduction de 1'ouvrage de Isaac T. Heartte. 

[r 3 33] — G. Nazianzeno do Rego — Nota sobre o methodo 
de determinar o ponto de partida pela marcação de 
dois cabos, Lisboa, i85o. 

[r 3 33] — J. Perigrino Leitão — Guia náutica, ou tratado 
pratico de navegação, contendo os princípios theori- 
cos em que se funda a astronomia náutica, bem como 
a resolução de todos os problemas pelo uso dos pro- 
cessos práticos os mais expeditos de emprego das 
tábuas de Norie, Lisboa, 1066. 

[r 3 33] — L. B. — Navegação orthodromica (A. C. N., vi, 
1876, 12 1-124). 

[r 3 33] — J. Nunes da Matta — Rectificação do ponto esti- 
mado pelo processo de Mr. Mareq de Saint-Hilaire 
(A. C. N., xii, 1882, 35-39, 117-122, 176-177, 
196-197). 



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24 O INSTITUTO 

[r 3 33] — E. C. Roza — Rectificação do ponto estimado, Lis- 
boa, Typographia Souza Neves, 1884. 

Dans cette brochure, 1'auteur fait un intéressant 

exposé des méthodes de la nouvelle navigation 

astronomique relatives à la détermination du point, 

• graphiquement, ou par le calcul, en faisant usage 

de resume. 

[r 3 33] — J. Nunes da Matta — O problema das longitudes 
e sua resolução a bordo. Lisboa, Typograpnia do 
tDiccionario universal portuguez», 1084. 

[r 3 33] — L. A. Moraes e Souza — Applicação dos logari- 
thmos de addicão e subtracção aos cálculos de bordo 
(A. C. N., xv; i885, 186-188, 242-248). 

[r 3 33] — E. C. Roza — Nota acerca do emprego da taboa 
«log rising time» de Douwes no methodo de Saint- 
Hilaire (A. C. N., xvi, 1886, 95-97). 

[r 3 33] — J. Nunes da Matta — Descripção, rectificação e 
uso dos instrumentos de navegação, Lisboa, 1889. 

[r 3 33] — A. Fontoura da Costa — Applicação dastaboas de 
entrada e logarithmos de subtracção ao methodo de 
Sai nt- Hil aire (A. C. N., xix, 1889, 405-407). 

[r 3 33]— -.A. J. Pinto Basto — Algumas considerações sobre 
os cálculos de bordo (A. C. N., xx, 1890, i56-i63, 
211-216). 

[t 3 33] — A. J. Pinto Basto — Sobre as approximações de 
estima (A. C. N., xxi, 1891-1892, 85-94). 

[r 3 33] — J. F. d'Avillez (i) — Sobre a depressão do hori- 
zonte no mar (A. C. N., xxn, 1893, 393-400). 

[r 3 33] — J. de Souza Bandeira — Typos de cálculos náuticos, 
Lisboa, Imprensa nacional, 1894. 



(1) Vicomte de Reguengo. 



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LES MÀTHÉMATTQUES EN PORTUGAL 25 

[r* 33] — A. A. — Calado do ponto determinado e da recta 
de altura, com único emprego da taboa m Norie 
(A. C. N., xxiv, 1894, 593-598). 

[t 3 33] — A. Ramos da Costa — Instrucçóes para uso do taxí- 
metro (R. E. A., xx, 1903, 1 56-i 59). 

[r 3 33] — A. Ramos da Costa — Instrucçóes para o uso do 
prumo de sir W. Thomson (lord Kelvin), (R. E. A., 
xx, 1903, 160-166, jo5-2io). 

-Simão d' Oliveira — Arte de navegar, Lis- 
dro Craesbeeck, 1606. 
c ouvrage (1), devenu assez rare aujourd'hui, 
rme quatre livres. Dans le Livre I, Tautcur 
des cercles de la sphère artificielle fonda- 
ile en cosmqgraphie, en astronomie et en 
ation; il donne les définitions de la sphère 
ses parties, de Thorizon, du méridien, de 
iteur, du zodiaque, des tropiques et des cer- 
Dolaires. Dans le Livre II, il parle des pró- 
is des lignes tracées sur la sphère. Dans le 
III, il s occupe de la construction des ins- 
mts nautiques, comme Tastrolabe, de la 
e armillaire, du quadram, de la boussole et 
n règlage, et de tout ce qui était connu à 
jue. 

ns le Livre IV, il explique 1'usage des ins- 
ints précités et des méthodes de navigation, 
strolabe, de la hauteur et de la déclinaison 
aleil, de la hauteur des étoiles et du pôle 
, de 1'usage de Taiguille, des vents, de Tusage 
carte de navigation de Test à Touest, de la 
Méditerranée, des lunes, des mers, des eaux 
et mortes, des signaux qui paraissent dans 
íers, et d'autres reiseignements utiles aux 
is et enfin du routier de Portugal pour Tlnde. 

— Manuel de Figueiredo — Hidrographia, 
ie pilotos, no qual se contem as regras que 



est dédié à Don Pedro de Castilho, évêque de Lei- 
r et vice-roi de Portugal. 



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O INSTITUTO 

iodo piloto deve guardar em suas navegações, etc. 
Com os roteiros de Portugal para o Brasil, Rio da 
Prata, Guiné, S. Thomé, Angola, e índias de Por- 
tugal & Castella,' Lisboa, ibo8; Vicente Alvarez, 
1014, 1625 ; Jorge Rodriguez, i632. 

L'exemplaire existant dans la bibliothèque de 
rUniversité de Coímbre est acompagné du sui- 
vant, en pagination indépendante : 

1 .° Roteiro de Portugal para o Brasil, Rio da 
Prata, Angola, Guiné & San Thomé. Segundo 
os pilotos antigos &* modernos. Terceira ve\ im- 
presso. 

2. Roteiro e navegaçam de índias e ilhas occi- 
dentaes. . 

3.° Roteiro de Portugal para a índia por Vi- 
cente Rodrigues & pilotos modernos. Segunda ve\ 
impresso. 

4. Kalendario perpetuo dos do\e me\es do anno, 
com as luas, logar do Sol, nos do\e signos do 
sodiaco & sanctos dos me\es. 

33], [U 10 b] — A. Mariz Carneiro — Regimento de pilotos 
e roteiro das navegações da índia oriental. Agora 
novamente emendado e acrescentado cõ o roteiro da 
costa de Sofala até Mõbaça, etc. Lisboa, Lourenço 
d'Anvers, 1642. 

33], [U 10 b] — A. Mariz Carneiro — Regimento de pilotos 
e roteiro da navegação e conquistas do Brasil, An- 
gola, S. Thomé, Cabo-Verde, Maranhão, Ilhas e 
índias occidentaes, Lisboa, Manuel da Silva, i655 
e 1666. 

33], [U 10 b] — L. Serrão Pimentel — Arte pratica de na- 
vegar e regimento de pilotos repartido em duas par- 
tes, etc. Juntamente os roteiros das navegações das 
conquistas de Portugal e Castella, Lisboa, A. Craes- 
beeck de Mello, 1681. 

33], [U 10 b] — Manuel Pimentel — Arte pratica de nave- 

far e roteiro das viagens e costas marítimas do 
Wazil, Guiné, Angola, índia e ilhas orientaes e 
occiaentaes, etc. Lisboa, B. da Costa Carvalho, 
1699; Deslandes, 1712. 



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^ J 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 27 

Ce livre est la réimpression de deux ouvrages 
de son père L. Serrão Pimentel, dúment corriges 
et annotés (i), savoir: Roteiro do mar Mediterrâ- 
neo, tirado do Espelho ou Taboa do mar, no qual 
se contem as derrotas, portos, baixos e correntes 
até avante de Nápoles, e pelas ilhas d' este mar até 
Sicília, Lisboa, João da Costa, 1675, et Arte pra- 
tica de navegar e regimento de pilotos, etc. Lis- 
boa, A. Craesbeeck de Mello, 168 1. 

[r 3 33], [U 10 b] — Manuel Pimentel — Arte de navegar em 
que se ensinam as regras praticas e o modo de car- 
tear pela carta plana e reduzida : o modo de gra- 
duar a balestilha por via de números e muitos pro- 
blemas úteis á navegação; e roteiro das viagens e 
cartas marítimas da Guiné, Brasil e índias occi- 
dentaes e orientaes, Lisboa, Deslandes, 171 2, Fran- 
cisco da Silva, 1746, Miguel Manescal da Costa, 
1762 e 1819. 

Cet ouvrage a donné une grande renommée à 

son auteur, et a servi longtemps dans les écoles. 

II paraít qu on pensait, encore en i83o, en faire 

une nouvelle édition. 

[r 3 33], [U 10 b] — J0Ã0 de Lisboa — Livro de marinharia — 
Tratado da agulha de marcar (copie et coordonné 
par J. J. de Brito Rebello), Lisboa, Imprensa Li- 
oanio da Silva, igo3. 

Ce Traité, qui vient de paraitre, aux frais de 
M. le duc de Palmella, et coordonné par M. Brito 
Rebello, fut écrit, selon toute probabilité, par 
rhabile pilote portugais João de Lisboa, explora- 
teur de Tlnde et du Brésil et compagnon de vasco 
da Gama. 

Cet ouvrage est peu scientifique, vu Tépoque 
(1514) oíl íl f ut écrit, mais il nous presente une 



(1 ) Dans cet ouvrage de Manuel Pimentel, ainsi que dans les éditions 
suivantes, fut publié le routier de M. de Mesquita Perestrello, accompli 
en i575, dédie à Don Sebastião. L'autographe est à la Bibliothèque de 

Évora. ÍManuscnt n.° «-). 



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28 o INSTITUTO 

oeuvre conscienciense et cTun réel intèrêt pour 
Tétude de la navigation. 

Au début de ce Traité, le célebre pilote nous 
montre qu'il connaissait Tun des plus importants 
éléments du magnétisme terrestre — la déclinaison 
magnétique, tandis que, comme il le remarque, 
les anciens n'avaient pas eu, jusqu'alors, la moin- 
dre notion de cet importam élément. L^nfluence 
de celui-ci étaij alors contrebalancée par le chan- 
gement des fers de Taiguille (barres de la rose 
magnétique) par rapport à la fleur de lys (nord 
de la rose) de telle sorte que les méridiens, ou 
ils se trouvaient, suivaient toujours la direction 
du pôle du monde. Cette indication si décisive 
oblige à proclamer que JoÁo de Lisboa est lè 
premier portugais qui observa les effets de la 
déclinaison magnétique au cours de sa route (i). 

Outre le Traité de 1'aiguille de naviguer, Tou- 
vrage renferme d'autres connaissances relatives 
aux marées, aux routiers et à d'autres objets de 
la navigation, le tout extrait du registre du xvi 6 
siècle qui fit partie de la bibliothèque de feu le 
marquis de Castello Melhor, aujourd'hui appar- 
tenant à M. le duc de Palmella. 

En ce qui concerne les marées, on voit que ce 
phénomène était três peu connu à cette époque, 
mais que les indications fournies par João de Lis- 
boa semblent être scrupuleuses. Il est certain que 
c'est seulement plus tard, au xvi e siècle, que le 
phénomène des marées fut explique par la théo- 
rie statique de Newton, dérivée du príncipe de la 
gravitation universelle, et encore ensuite par la 
théorie dynamique de Laplace. Ultérieurement, 
d'autres théories ont paru, plus rigoureuses, sur- 
tout celle de lord Kelvin, avec sa nouvelle mé- 
thode à'Analyse harmontaue. Les remarquables 
études de Lublock et de Whewell, réalisées dans 
les mers de TEurope, confirment la précision d'une 
méthode si avantageuse. 



(i) La déclinaison magnétique passe pour avoir été découverte par 
Colomb, quand, Je i3 séptembre de 1492, il traversa Yisogone \èro. La 
nremière mesure de cet angle est due à Hartmann, à Rome, vers i5io # 



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Á 



LES MATHÉMATIQCÊS EN PORTUGAL 2Q 

En cc qui concerne les routiers, écrits en por- 
tugais, nous sommes arrivés, avec M. Ramos da 
Costa (R. E. A., xxi, 1903, p. 335) à cette triste 
conclusion: En i5i4 il y avait des routiers, écrits 
en portugais, pour toutes les mers du monde, 
tandis qu'en 1903, il y a des routiers écrits dans 

[>resque toutes les langues du globe excepté dans 
a langue portugaise, même pour la cote du Por- 
tugal. 

[r 3 34] — Don Luiz C. de Lima — Gnomonica universal e 
methodo para toda a casta de relógios regulares e 
irregulares, astronómicos, etc. 

[r 3 34] — A. Carvalho da Costa — Tratado compendioso da 
fabrica e uso dos relógios de Sol, etc. Lisboa, 
A. Craesbeeck de Mello, 1678. 

[r 3 34] — F. de Faria Aragão — Horogy^aphia ou gnomonica 
portuguesa, Lisboa, i8o5. 



Astronomie théorique 

[r 4 5] — Pedro Nunes — Annotationes in theoricas planetarum 
Georgii Purbachii, Basileae, i566, 1592; Conim- 
bricae, 1578. 

Georges Purbach publia en 1460, un peu avant 
sa mort, ses Théoriques des planètes. Cet ouvrage 
n'était qu'une espèce dlntroduction à la lecture 
de Ptolémée; il eut le même sort à peu prés que 
celui de Sacrobosco, dont il était en quelque sorte 
la continuation ; il fut souvent reproduit et com- 
menté. Pedro Nunes fut un de ses continuateurs, 
et dans 1'opuscule susmentionné il se borne à 
éclaircir ce qui lui avait paru douteux ou obscur 
dans Purbach, et à montrer en quoi les tables de 
Ptolêmée et cTAlphonse s'écartent des òbserva- 
tions. 

[r 4 6] — J. Monteiro da Rocha — Determinação das orbitas 



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3o O INSTITUTO 

dos cometas (M. A. L., i ère série, i ère classe, n, 1799, 

402-479). 

Ce mémoire renferme deux parties. Dans la 
première, Tauteur établit les formules générales, 
exactes et rigoureuses, pour déterminer la traje- 
ctoire des cometes, en la supposant parabolique. 
Dans le seconde partie, il expose les formules qui 
conviennent à la détermination des trajectoires 
elliptiques, toutes les fois qu'une comete, durant 
son apparition, s'écarte sensiblement de la traje- 
ctoire parabolique. 

[r 4 6] — M. S. de Mello Simas — Definitip orbit elements of 
comet 1900, A A (A. N. K., 11, 1903, 1-16). 

L'auteur, un astronome amateur de beaucoup 
de zele, surtout comme calculateur, s'occupe dans 
ce travail, par la méthode de Oppolzer, du calcul 
de Torbite definitive de la comete d'une manière 
qui lui a valu Tapprobation de juges compétents. 

M. Simas adopte dans Tattribution des poids 

des observations considérées, une méthode nou- 

velle, si justifiée, qui commence déjà à être suivie 

actuellement en tous les cas identiques (1). Aussi, 

pour le calcul de Téclat de la comete, il remplace 

o 2 
la formule habituelle J = ~j\í P ar une autre, obte- 

nue expressement par les moindres carrés, oú au 
lieu de r a on a r 5 , laquelle est plus en harmonic 
avec les données du problème. 

[r 4 6] — M. S. de Mello Simas — Observations ofNova Persei 
(A. N. K., clv, 1901, p. 237). 

Observations photométriques de la grandeur 
de cette étoile. 

[r 4 6] — M. S. de Mello Simas — Elements ofPlanet 1901 GV 
(A. N. K., clvii, 1901, 147-148). 



(1) Un astronome américain, M. Poor, s'occupant indépendamment 
du même sujet, a plus tard publié de résultats presque identiques à ceux 
de M. Simas (A. J/ B., xxm, 1903, i83-i88), et a confirme ceux-ci avec 
une rigueur peu commune en pareilles circonstances. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 3l 

[ r 4 gj — m. S. de Mello Simas — Elements of Planet 1901 
GU (A. N. K., clviii, 1902, 379-380). 

[r 4 6] — S. M. de Mello Simas— Elements and ephemerís of 
Planet (478) Tergeste (A. N. K., clx, 1902, 379- 
382; clxviii, 1905, n.° 4016, col. 125). 

M. Simas se propose cTobtenir pour cet astre 
une éphéméride que lui permette de Tobserver 
de nouveau lors de ropposition de 1905, en te- 
nant compte soigneusement les perturbations pla- 
netaires qui peuvent influer sur Ia position appa- 
rente. Cette recherche était presque indispensable 
pour éviter que cette planète (1) ne fút perdue de 
nouveau, car les premières observations, faites 
en 1901, n'étaient pas suffisantes pour déterminer, 
avec une certitude absolue, cette position appa- 
rente, à long délai, et il avait par conséquent 
besoin de rectifier les elements d abord adoptes. 
On voit donc que cette note est une contribution 
aux importants et laborieux travaux dont Tauteur 
s'est fait une spécialité, et qu'il est le seul à cul- 
tiver en Portugal. 

[r 4 7] — M. C. Damoiseau de Monfort — Memoria relativa 
aos eclipses' do sol visíveis em Lisboa desde 1800 até 
igoo inclusivamente, Lisboa, 1801. • 

[x 4 7] — J. Monteiro da Rocha— Demonstração e ampliação 
do calculo dos eclipses proposto no i.° volume das 
ephemerides de Coimbra, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1806. 

[r 4 7] — J. Monteiro da Rocha — Calculo dos eclipses sujeitos 
ás parallaxes (Manuscrit G 3 o E. 46-á existant à 
la Bibliothèque de TAcadémie des sciences de Lis- 
bonne). 

[r 4 7] — R. R. de Souza Pinto — Additamento ao calculo dos 
eclipses, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1868. 



(1) Elle a été découverte en Arcetri (Italie), par A. Abetti, le &-q 
décembre 1901. 



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1 



32 O INSTITUTO 



[r 4 8] — A. M. da Costa e Sá — Annuncios das ocultações 
das estrellas pela Lua visíveis em Lisboa, para os 
annos de i83i até i836, Lisboa, Typographia da 
Academia real das sciencias, i83o. 

[r 4 io] — F. A. Ciera — Tábuas do nonagésimo para a lati- 
tude de Lisboa reduzido ao centro da Terra, 38° 
27 7 22" (M. A. L., i ère série, i ère classe, iv, 2 e partie, 
i8l5, 129-153). 

[r 4 10] — J. J. Dantas Souto Rodrigues — Estudo sobi*e a 
permanência dos poios terrestres, Coimbra, Imprensa 
da Universidade, 1869. 

[r 4 10] — L. Cabral Teixeira de Moraes — O deslocamento 
dos poios á superjicie da Terra, Lisboa, Typogra- 
phia Adolpho de Mendonça, igo3. 

Le sujet traité par Tauteur dans cette étude 
est Tun des plus importants problèmes que solli- 
citent actuellement Tattentioh des astronomes; il 
s'agit de la non coíncidence, ignorée longtemps, 
ou au moins révoquée en doute, entre les axes 
de figure et de rotation de la Terre. La rigueur 
avec laquelle sont déterminées les coordonnées 
locales et le perfectionnement toujours progressif 
des instruments d'observation, établisent la non 
coíncidence des deux axes et par suite la variabi- 
lité de la position des pôles, ou la variabilité des 
latitudes. 

L'auteur a reuni les indications de 1'observation 
en les approchant des ressources que la théorie 
commence à fournir pour Pinterprétation des faits 
observes, constituant ainsi un essai valable parmi 
les premières déterminations relatives au pro- 
blème de la variabilité de la position des pôles. 

[r 4 11] — M. Valente do Couto — Memoria em que se pre- 
tende dar a solução de um progi m amma de astrono- 
mia proposto pela Academia real das sciencias de 
Lisboa, em 24 de junho de 1820 (M. A. L., i èrc sé- 
rie, viu, i ère partie, 1823, 213-222). 

Le sujet de prix proposé était le suivant : Dé- 
montrer, soit par le calcul, soit par Tobservation, 
Tinfluence de Terreur qui peut se produire dans 



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LÉS MÀTHáMÀTI<}UES Éti POfttUÔAL ii 

les angles horaires du Soleil et de la Lune, quand 
on ne tient pas compte de la figure de la Terre. 

Un résumé de ce mémoire a été lu par Tauteur 
dans la séance publique de TAcadémie des scien- 
ces du u juin 1822. 

S'il n'a pas obtenu le prix qu'il avait mérité, 
c'est que le règlement lui interdisait cTêtre lauréat 
de PAcadémie, dont il était membre titulaire. 

[r 4 12] — G. X. d\Almeida Garrett — Estudo sobre o plano- 
invariável do systema solar, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1870. 

[r 4 i3] — Valentim Fernandes — Reportório dos tempos em 
lingoagem portugue\ com as estrellas dos signos, etc. 
Lisboa, i5i8, 1D21, 1524, i528, i538; Germão Ga- 
lhardo, i552, i557, i56o, i563; António Gonçalves, 
1570; Évora, André de Burgos, 1 373-1 574. 

Traduction de Pouvrage espagnol de André 
de Ly. 

[r 4 i3] — Hieronymo Chaves (i) — Chronographia o reporto» 
rio de los tiempos, el mas copioso y preciso que hasta 
ahora ha sahido a luz, Sevilla, 1548; Christoval 
Alvares, i55o, i5E>4; Juan'Gutierrez, i56i, i566; 
Alonso Escrivans, i&72; Lisboa, António Ribeiro, 
1576, i58o; Sevilla, Fernando Diaz, 1684, i588. . 

[r 4 i3] — Fr. N. Coelho do Amaral — Chronologia seu ratio 
temporum, Conimbricae, Joannem Barrerium, 1E64. 

[r 4 i3] — J0Á0 Barreyra — Repertório dos tempos, Coimbra, 
1579, i582. 

■[r 4 i3] — * — Calendarium perpetuum, Conimbricae, A. Ma- 
riz, i58i. 



(1) Bien que certains biographes le supposent portugais, il était es- 
pagnol, natif de Seville, com me il 1'avoue à la page 186 de ce livre, dans 
les termes suivants: «Por que todas nuestras cuentas que aqui en este 
Reportório pusimos, estan verificadas ai meridiano y horisonte de la 
mjjy noble e muy leal ciudad de Sevilla pátria nuestra, etc». II était 
donc un espagnol au service de Portugal. 

VOL. 55.°, N. 0f I E 2 — JANEIRO E FEVEREIRO DE IO08. 3 



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1 



34 O INSTITUTO 

— # — Kaiendarium gregorianum perpetuum, Olissi- 
pone,.Antonius Riberius, 1 583. 

— # — Calendarium gregorianum perpetuum, Conim- 
bricae, Antonius Mariz, 1 583. 

— André de Avellar — Chronogi m aphia ou reportório 
dos tempos: o mais copioso que até agora safo a lu\. 
Conforme a nova reformação do Santo Padre Gre- 
gório XIII no anuo de i582, Lisboa, Manuel da 
Lyra, 1 585 ; Coimbra, João Barreira, i5go; Lisboa, 
Simão Lopes, 1594; Jorge Rodrigues, 1602. 

Cet ouvraee rfest pour la plus grande partie 
aue la reproduction de celui de Jeronymo Chaves : 
Reportório de los tiempos, etc. 

— J. Baptista Feo — Calendário romano perpetuo, 
com as mais cousas aue na polia doesta folha se verão, 
Lisboa, António Ribeiro, i588. 

— * — Calendário romano perpetuo, etc. Olissipone, 
Joam Lopez, i588. 

— Manuel de Figueiredo — Chronographia. Reportó- 
rio dos tempoç no qual se contem vi parles dos 
tempos: *Esphera, cosmogi*aphia e arte de navega- 
cão* e arte de navegação, etc. O calendário romano 
com os eclipses até 63o, E no fim o uso e fabrica da 
ballestilha e quadrante geométrico com hum tratado 
dos relógios, Lisboa, Jorge Rodrigues, i6o3. 

— Manuel Bocarro — Discurso sobre a conjunção ma- 
xima que se celebrou no anno de 160J aos 3i de 
dezembro (Manuscrit n.° jo3 de la Bibliothèque de 
rUnivcrsitc de Coímbre). 

La conjunction máxima a rapport aux planètes 
Saturno et Júpiter. Presque tout ce qu'on trouve 
dans ce manuscrit, a été imprime, avec quelques 
variantes, à pag. 43 et suivantes du livre du même 
auteur Anacephaleosos da monarchia lusitana, pu- 
blié en 1624, et ou la matière est étudiée avec 
plus de développement. 

— Leandro de Figueiroa Fajardo — Arte do computo 



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LES MATHÉMATlQtíÉS EK PÔttTtfGAL 3& 

ecclesiastico segundo a nova reforriiaeão de Grb- 
. gorio XIII, Coimbra, Manuel de Araújo 1604. 

[r 4 1 3] — João de Faria — Calendário dós ternpoi, do anno 
de joio, e outro do anno de 1611, etc. Lisboa, 
Pedro Craesbeeck. 

[r 4 i3] — J. Fernandes de Coura — Almanach lusitano do 
anno de 17 ig, etc. Lisboa, A. Pedroso Galram, 
1718. ' ' 

[r 4 1 3] — A. Alonso Barrocal — Explicação alphabetica do 

ÍCI 
Manuscrit n.° r de 



la Bibliothèque. de Évora V 



[t 4 1 3] — * — Apontamentos de chronologia ÍManuscrits 
CV cv CV CXII CXIV CXXI CXXill 



n.°* 



1-6' i-i5' 1-2' 1-36' 1-39' 2-25' 2-19 
de la Bibliothèque de Évora j. 

[r 4 i3] — J. Castor — Lunar io perpetuo, Lisboa, 1757» 

[t 4 i3j — J. C. Valenciano — Lunar io perpetuo, Porto, 1764. 



fr 4 1 31 — J. Baptista de Castro — Opúsculo chronologico </e 

/ ■ CXII * ' 
Portugal no século xvm í Manuscrit n.° ~. de la 

bibliothèque de Evorfi V 

[r 4 1 3] — J. Baptista de Castro — Chronologia de Portugal 
abreviada desde ijoo até 1774 (Manuscrit n.° — ^- 
de la Bibliothèque de Évora j. 

[x 4 i3] — J. Baptista de Castro — Promptuario chronologico 
de Portugal, desde o nascimento de Oiristo até ij?5 

(Manuscrit n.° — — de la Bibliothèque de Évora). 



L 



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36 O INSTITUTO 

Fr 4 i3] — * — Diário ecclesiastico, histórico, chronologico e lu- 

f CXXVI 
nario prognostico para 178 5 í Manuscrit n.° «— 

de la Bibliothèque de Évora j. 

[r 4 i3] — * —Taboadas perpectuas astronómicas, Lisboa, 
Typographia da Academia real das sciencias, 181 5. 

[r 4 i3] — Francisco de Arantes — Compendio de chrónologia 
mathematica e histórica, Coimora, Imprensa da Uni- 
versidade, 1825. 

[t* i3] — # — Astronomia (Do mundo e sua divisão, Dos ven- 
tos, Indícios de mudança de tempo), (Almanak dos 
pobres, ecclesiastico, civil, etc. Lisboa, Typographia 
de A. J. da Rocha, 1849, 43-5.9). 

\t k i3] — J. Félix Pereira — Calendário (At. C, i85o, 25i- 
253, 2 58-261, 269-270). 

[r 4 i3] — J. Félix Pereira — Compendio de chrónologia, Lis- 
boa, Rua do Cruxifixo, 02-66, i85i, 1875. 

[r 4 i3] — F. de Medeiros Botelho — Noções elementares de 
chrónologia astronómica, civil, histórica, etc. Coim- 
bra, Imprensa da Universidade, 1862. 

[r 4 i3] — D. M. Victoria Pereira — Epithome de chrónologia, 
Lisboa, 1862. 

[r 4 i3] — J. L. Carreira de Mello — Compendio de chróno- 
logia universal, Lisboa, 1869. 

[r 4 i3] — C. E. Correia da Silva — Chrónologia (E. P. E., 
Lisboa, 1874, 275-288). 

[r 4 i3] — J. M. Pereira de Lima — Elementos de chrónologia, 
Imprensa da Universidade, 1876. 

[r 4 i3] — •— Chrónologia (B. P. E., f série, n.° 58, i883). 

(r 4 i3] — J. J. Pereira Caldas — Correspondência chranolo- 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 3*] 

gica dos dias do me\es e dos dias da semana pelas 
lettras dominicaes, Braga , 1889. 

[r 4 i3] — #— O tempo e suas divisões (Almanack t Serões & 
Sestas t, Lisboa, 1895, xv-xxiv). f 

[r 4 i3] — J. Eloy Nunes Cardoso — Calendário perpetuo 
(R. T. S., iv, 1304, 65-68). 

Ce calendrier, três simple, a des analogies avec 
celui qu'on trouve aux Almanachs Hachette, sous 
le nom de Pasteur, et avec celui de 1'Almanach 
Bertrand, (édité à Lisbonne), sous le nom de 
Christo, qui ne çarait au'une imitation de celui 
de Hachette. Mais ces deux calendriers, au con- 
traire de celui de M. Eloy, sont en défaut pour 
les années de 1700, 1800, 1900. II nous surprend 
que les français n'aient pas reconnu ce défaut 
pour Tannée 1900. 

[r 4 14] — André de Avellar — Sphcerce utriusque; Tabeliã, 
ad sphcerce hujus mundi faciliorem enucleationem, 
Conimbricae, et Barrerium, i5g3. 

[r 4 14] — L. Freire da Silva — Efemérides genet m ales de los 
movimientos de los ciclos por 64 anos desde el de 
i63j hasta el de ijoo segun Tycho y Copérnico, 
etc. Barcelona, Pedro Lacavallaria, i638. 

[r 4 14] — * — Ephemerides desde i665 até 1672 ( Manuscrit 
n.° ^— de la Bibliothèque de Évora ). 

[r 4 14] — J. Baptista de Castro — Ephemerides lusitanas 
(Manuscrit n.° de la Bibliothèque de Évora j. 

(Continua). Rodolpho Guimarães. 



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LITTERATURA E BELLAS-ARTES 



ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 



Serralheiros e ferreiros 

Se Portugal, no tocante ao ferro, não é um paiz privili- 
geado como a Suécia e a Byscaia, os seus jazigos, porém, no 
dizer dos intendidos, quando bem explorados, danam maté- 
ria prima sufficiente para occorrer a todas as necessidades 
da nossa industria, contribuindo além d'isso para o seu maior 
desenvolvimento. Outro factor importante é talvez a causa 
primordial de não se proceder a uma activa e poderosa ex- 
tracção do ferro. O combustível escasseia e as nossas minas 
de carvão,, nem pela quantidade nem pela qualidade, desafiam 
o appetite das competentes empresas que receiam não tirar 
um resultado rasoavelmente compensador. Estas duas cir- 
cumstancias, desastradamente conjugadas, explicam o atraáo 
industrial do nosso paiz, que se vê na dura dependência dos 
extranhos, não só por causa dos mechanismos, como também 
por falta das matérias primas. A extraordinária transforma- 
ção, por que passaram, depois do descobrimento da machina 
a vapor, as officinas de toda a espécie, paralisou o trabalho 
nacional, que só pôde resistir e luctar graças ao proteccio- 
nismo aduaneiro. Apesar de todos estes obstáculos e contrarie- 
dades, a industria de serralheiro e de ferreiro foi sempre 
bastante cultivada entre nós, tão popular como a olaria e a 
tecelagem de linho. Assim devia naturalmente succeder em 
um paiz agrícola, onde havia necessidade imprescindível de 
quem fabricasse e concertasse os instrumentos de lavoura. Em 
muitas aldeias a forja espalhava o seu clarão intenso e na 
vigorna ouvia-se o martelar continuo da musica dos cyclopes. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL $9 

No numero 3, do vol. vi do Archeologo Portngue\ (março 
de 1901) publicou o sr. D. José Pessanha um artigo intitu- 
lado Notas de archeologia artistica-ferreiros, em que prin- 
cipia por dizer que são raros entre nós, ao contrario do que 
Boccede em Hespanha, os trabalhos artísticos de ferro for- 
jado. Sem contestar em absoluto esta opinião, sem negar 
sequer a superioridade da Hespanha, neste importante ramo 
das industrias omamentaes, observarei todavia que tal deffi* 
ciência não é tamanha como se poderia suppôr e que mais 
se deve attribuir ao desleixo com que temos descurado o 
assumpto do que á falta de artífices que houvessem dado pro- 
vas da sua especial perícia. Os pintores hespanhoes con- 
tribuíram para tornar conhecidas do publico estas obras, 
despertando o interesse que ellas merecem. Fortuny, por 
exemplo, reproduz umas bellas grades de egreja no seu 
quadro Um casamento hespanhol. O próprio sr. Pessanha 
cita ainda alguns espécimens valiosíssimos, que nos indi- 
cam o grau elevado a que entre nós subiu a serralharia 
artística. Só ha muito pouco tempo é que foi revelada a mo- 
numental grade em estylo gothico de uma das capellas da 
charolla da Sé de Lisboa, onde jazem sepultados, em túmulos 
egualmente preciosos, os restos mortaes de Lopo Fernandes 
Pacheco e de sua segunda mulher D. Maria Rodrigues (1). 

O sr. Nicolau Bigaglia foi quem deliniou esta grade e 
elle mesmo reuniu em álbum grande numero de desenhos, 
reproduzidos de objectos análogos existentes em Lisboa e 
não sei se em mais alguns pontos do paiz. Esse álbum foi 
enviado a uma exposição de Madrid e cedido pela generosi- 
dade do ministro que então geria a pasta das obras publicas 
a um estabelecimento de ensino d'aquella cidade. Melhor 
fora que tivesse ficado no nosso paiz. 

No numero seguinte do Archeologo deu eu á estampa um 
artigo em que ampliava as noticias do sr. Pessanha acerca 
de dois artistas citados por elle, fornecendo além d'isso mais 
alguns documentos a respeito de outros. O trabalho de agora 
comprehende não só os apontamentos alli exarados, mas 
também outros inéditos, que nos dão uma ideia aproximada 



Íi) Veja-se o artigo do sr. Gabriel Pereira, Dois túmulos na Sé de 
oa, inserto no numero 1 da Arte Portugue^a } excellente Revista 
começada a publicar em i8<>5. Neste mesmo periódico e do mesmo au- 
ctor, merecem consultar-se dois artigos, que tratam egualmente de ser- 
ralharia: Ferragens (pag. 104) e A porta do celleiro da Bibliotheca de 
Évora (pag. 134). 



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40 O INSTITUTO 

do desenvolvimento que teve entre nós a arte de fabricar o 
ferro. Apesar de não serem poucos em numero, estão bem 
longe de representar toda a nossa actividade neste ramo das 
industrias metallicas. Escusado será dizer que muitos dos 
nomes apontados não representam artistas na verdadeira 
acepção da palavra, antes simples operários, o que não inhibe 
de que alguns d'elles venham a receber a devida consagração, 
em virtude de novos factos que surjam a seu respeito e em 
que se destaque a sua habilidade. A lista, de certo, ha de 
augmentar e enriquecer-se, á medida que forem explorados 
os archivos e cartórios de diversas corporações, tanto religio- 
sas como profanas. 

Aos que visitam e estudam òs nossos monumentos convém 
não passar de leve por certos objectos, que não ferem desde 
logo a vista, parecendo secundários, mas que, depois de mais 
detido exame, pagam bem o tempo despendido pelo obser- 
vador attento. A photographia e as artes graphicas não devem 
também desprezar essas producções, que são uma parte inte- 
grante e complementar da grande arte. 

O museu do Instituto de Coimbra possue uma apreciável 
collecção de ferragens, que muito ganharia em ser descripta 
em um catalogo profusamente ornado com as suas repro- 
ducçoes. Fora também para estimar que os outros museus 
do paiz, organizassem çollecções semelhantes, aproveitando 
o material que adorna as portas carunchosas, os arcazes, os 
cofres e bahus e outras peças de mobiliário. O que digo a 
respeito dos museus pôde applicar-se a todos os colleciona- 
dores de antiqualhas, estimulando o seu espirito curioso a 
cultivar uma especialidade, caida até agora em quasi abso- 
luto desprezo, 

O sr. José Queiroz, o auctor da notável monographia 
acerca da Cerâmica portuguesa, não se contenta em apre- 
ciar os objectos d'esta especialidade, antes faz incidir sobre 
' outros ramos das bellas artes e das artes industriaes o seu 
espirito investigador. É assim que elle está colligindo — adivi- 
nhem, se são capazes ! — braços de balanças, em alguns dos 
quaes se observa a notável perícia e o fino gosto do cinze- 
lador do ferro. Eu não sei se elle foi suggestionado por algu- 
mas çollecções similares existentes no estrangeiro ou se foi 
a curiosidade própria que o levou a fazer explorações neste 
sentido, num terreno que me parece virgem, de uma inques- 
tionável originalidade. Confesso ingenuamente que a minha 
imaginação estava longe de suppôr a existência de similhante 
veio. O que d'aqui se deduz é que não ha nada que deixe 



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ARTES E INDUSTRIAS METALUCAS EM PORTUGAL 41 

de merecer a nossa attenção, e que, a avaliar por estes sim- 
ples factos, as industrias metallicas em Portugal devem offe- 
recer muitos outros aspectos, até agora inéditos ou mal co- 
nhecidos, dignos de occupar um logar distihcto ao lado dos 
braços de balanças, colligidos com instincto artístico e ele- 
vado critério pelo sr. José Queiroz. 

A relação que dou em seguida comprehende serralheiros 
e ferreiros dos arsenaes de Lisboa e do ultramar, onde foram 
notáveis sobretudo as ferrarias de Goa. Havia também ser- 
ralheiros dos paços reaes, que, não raro, exerciam conjunta- 
mente o officio de relojoeiros. 



I 

Affonso (João) 

Mestre das obras de ferro do armazém de tercenas do 
reino. Era antecessor de António Fernandes, que lhe succe- 
deu por sua morte. 

Parece que houve outro do mesmo nome, por isso que 
era designado pela alcunha — O velho. 

II 

Allemanha (João de) 

Ferreiro, morador na cidade de Lisboa. D. Duarte con- 
cedera-lhe a tença annual de cincoenta mil libras, tença que 
o infante D. Pedro, regente do reino na menoridade de 
D. Affonso V, em nome d'este confiçmou em caçta assignada 
em Lisboa a 29 de junho de 1439. É muito natural que João 
da Allemanha seja o mesmo mestre João Allemão, ae quem 
trato no artigo subsequente. 

«Dom Afomso &. A quantos esta carta virem fazemos saber que per 
o liuro da nossa fazenda se mostra que Joham dAlemanha, ferreyro, 
morador em esta cidade de Lixboa, auia de teença dei Rei meu senhor 
e padre etc, en cada huú ano no nosso thesoureiro da dita cidade cyn- 
quoenta mill libras e porque a nos praz de as ell auer de nos emquãto 
nossa mercee for, asy e pella maneira que as ell auia em uida do dito 
senhor, lhe mandamos dar esta nossa carta pêra a teer pêra sua guarda 
e pêra per ella requerer en cada huu ano outra nossa carta per que lhe 



^!-_ 



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42 O INSTITUTO 

taaes dinheiros sejam pagos. Porem mandamos aos ueedores da nossa 
fazenda e espriuaaes delia que lha dem ; unde ali nom façades. Dada em 
Lixboa xxix de junho per a senhora Rainha e ifante dom P.° — Rui Uaaz 
a fez era xxxix anos» (i). 

III 

AllemÃo (João) 

D. Affonso V confirmou em 25 de fevereiro de 1445 uma 
carta de privilegio concedida por D. Duarte em 1434 a «Johá 
de Lixboa, criado de mestre Johã alemam, ferreiro, morador 
em a dita cidade de Lixboa». D. Duarte diz que egual mercê 
já lhe havia sido feita por D. João, seu pae. (2). 

IV 

ê 

Alvares (Diogo) 

Num auto de investigação, feito em 22 de fevereiro de 
1^09, sobre a maneira como cornam as cousas na Ribeira 
de Cochim, figura entre as testemunhas Diogo Alvares, mes- 
tre dos ferreiros, o qual fez o seguinte depoimento, que as- 
signou de cruz, por não saber escrever: 

«Diogo Alvares, mestre dos ferreiros, testemunha jurada 
aos santos avanjelhos, e perguntado per a dita rresposta, 
dise ele testemunha que dos outros ofícios nom sabia, somente 
que em seu oficio, e o aue ele vê per esa Ribeira, que nom 
sabe nem vee nenhum desaviamento que a nao do capitam 
.dee ás obras dei Rei, antes os via milhor aviados que nunca, 
somente dise que cm seu oficio lhe mandara que lhe fezese 
quatro pregos pêra a vitolla e huma craveira, e que ele lhos 
fezera, e dise ele testemunha que ouvira dezer que da pre- 
gadura que faziam pêra os vasos poderia o dito capitam to- 
mar alguma, e dise ele testemunha que ele ouvira dezer que 
ò capitam e andré dias pediram esta madeira a el Rei de co- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Affonso V, liv. 19, fl. Sq 
verso. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Affonso V, liv. 25, fl. 85. 



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ARTES E INDUSTRIAS MgTALLICAS EM PORTUGAL 



43 



chim pêra fazerem huma nao pêra el Rei de portugall, e 
mais nom dise ele testemunha. •— De diogo aluares huma 
cruz» (i). 



Alvares (Francisco) 



■m 



Era serralheiro em Coimbra. Tendo-lhe sido. derrubadas 
umas casas para construcção do Collegio das Artes, que 
D. João III mandara edificar, el-rei ordenou ao hospital da 
mesma cidade que lhe aforasse outras casas pelo mesmo foro. 

«Eu elRey faço saber a vos prouedor do espritall da cidade de Coim- 
bra aue auemdo respeito a perda que recebeo Francisquo Alluarez, 
sarraiheirq, morador na dita cidade, por lhe por meu madado serem to- 
madas e dirribadas huas casas suas pêra o Colégio das artes, que na dita 
cidade mãdey fazer, aue elle trazia aforadas emfatyota a coroa de meus 
Reinos, me praz que lhe sejam aforadas emfatyota outras casas que trás 
aforadas em vyda de três pesoas a ese dito espritall pello mesmo foro 
que ora delias paga em cada huu ano sem lhe nelle ser mais acrecem- 
tado cousa allgua; pello cjue vos mado que lhe façaees noua carta d afo- 
ramento emfatyota das ditas casas com no dito foro que ora delias paga, 
na qual se treladara ha carta velha que delias tem e este meu alluara % e 
se declarara nella com quem partem e confrontam pêra se em todo 
tempo saber como lhe torão haforadas emfatyota per meu mãdado. 
Cumprio asy. Pêro Cubas o fez em Allmeirim a x de janeiro de. mill e 
quinhemtos e cimcoemta e dous. E eu Alluaro Pirez o fiz escreuer» (2). 



VI 



Annes (Francisco) 

Era mestre de ferreiros em Cochim no anno de i5i4. Nesta 
qualidade D. Garcia lhe mandou dar um barril de vinho. 

«Aluaro Lopez almoxarife dos mantimetos desta cidade de Cochim 
per este vos mamdo que dees a Francisco Annes, mestre dos ferreiros, 
hum barril de vinho. E por este com asemto de vosso estprivan vos será 
leuado em comta. Feito em Cochim a bij de junho de b c e xiiin» (3). 

Dom Garcia. 



(1) Cartas de Affbnso de Albuquerque, tom. 11, pag. 438. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João IH, Doações, liv, 68 ? 
fl. 1 1. 

(3) Corpo Chronologico, parte 2.% maço 48, doe. 20. 



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Googk 



44 O INSTITUTO 

VII 

Annes (Lourenço) 

D. Filippe I, em carta de 4 de janeiro de i58i, o nomeou 
mestre das obras de ferreiro nos Armazéns e Ribeira de 
Lisboa, officio que vagara por fallecimento de Francisco 
Dias, accrescentando-lhe dois mii reaes de ordenado em 27 
de abril de i582. 

Lourenço Annes devia ser fallecido por 1600, pois a 17 de 
janeiro foi nomeado para o substituir seu filho António Lou- 
renço. 

Veja-se este nome e Francisco Dias. 

«Eu elRei faço saber a vos Luis César, do meu conselho e prouedor 
dos meus almazSs que auendo eu respeito ha boa SformaçSo que me 
foi dada de Lourenço Anes, ferreiro, morador na cidade de Lixboa, ey 
por bem e me praz de lhe fazer mercê do carguo de mestre das obras 
de ferreiro que se fazem nos ditos almazês e rioeira da dita cidade, que 
vagou por Francisco Diaz, que o seruia, com o qual carguo auera em 
cada hum anno oito mil reaes de ordenado alem do feitio das obras que 

Êela dita maneira fizer, que he outro tanto como tinha e auia o dito 
rancisco Diaz, os quais começara a vecer do dia que for metido em 
posse do dito carguo em diate, e lhe serão pagos no thesoureiro do 
almazem de Guiné e índias, que ora he e ao diãte for, com vosa certi- 
dam de como serue o dito officio e he cõtino no dito seruiço e pello 
trellado deste que será registado no L.° das despesas do dito thesou- 
reiro por hum dos spriuães do dito almazem com conhecimento do dito 
Lourenço Anes e a dita vosa certidam de como pella dita maneira serue 
será leuado em conta ao dito thesoureiro o que lhe pella dita maneira 
pagar a rezão dos ditos oyto mil reaes por anno como dito he. Notefi- 
couollo assi e mando que o metais em posse do dito cargo e lhe deis 
juramento que bem e verdadeiramente sirua, e este ey por bem que va- 
lha como se fose carta &. Baltesar de Sousa a fez em Almeirim a quatro 
de Janeiro de mil e quinhentos e oytenta e um. Bertolomeu Femandez 
o fiz escreuer» (1). 

Trellado de bua apostllla que se pos nas costas de bim alloara 
de Lourenço Anes 

«Ey por bem, auemdo respeito a boa emformação que me foy dada 
de L.° Anes, mestre das obras de ferro dos meus allmazens, que halem 
dos oyto mill reaes que tem de ordenado com ho dito honcio pello 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Sebastião e D. Henrique, 
Doações, liv. 46, fl. 4 verso. 



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ÀfcTES E INDUSTRIAS MEtALLICAS EM PORTUGAL 4& 

alluara esprito na outra mea folha atras tenha e aja daquy em diamte 
mais dous mill reaes pêra serem dez, que começara a vemcer de vimtoyto 
dias de março pasaao deste ano presente de b e lxxxij em diamte, em 

3ue lhe fiz a dita mercê e lhe serão paguos no thesoureiro do allmazem 
e Guiné e índias asy e da maneyra que se lhe paguão os biij mil reaes 
contheudos no dito alluara e esta apostilla ey por bem que valha e tenha 
forca e viguor na forma. Gaspar de Seixas o fez em Lixboa a xxbij dias 
da f>ril de b c lxxxij. E eu Bertolameu Fernandez o fiz escreuer» (1). 

VIII 

Anrique 

Mestre ferreiro na cidade do Porto no tempo de D. João I, 
sendo já fallecido em julho de 1435. Esta noticia colhe-se de 
uma carta de perdão relativa a seu filho Braz Anriques. 

IX 

Anriques (Braz) 

Filho de. Anrique mestre ferreiro na, cidade do Porto em 
cuja officina aprendeu. jSendo muito moço, foi induzido por 
um Luiz Affbnso, a jurar em falso que este dormira casual- 
mente com Beatriz Martins, irmã de uma mulher com quem 
o queriam casar. Por este motivo teve de responder perante as 
justiças, perdoando-lhe el-rei a culpa em carta de 1 5 de julho 
de 1435, depois de elle haver pago duzentos reaes brancos 
para as obras do mosteiro de Santa Clara da mesma cidade. 

«Dom Eduarte &. A todollos juizes e justiças dos nossos regnos, a 
que esta carta for mostrada, saúde, sabede que Brás Anriquez, filho de 
meestre Anrriq, ferreiro, ia finado, morador na cidade do Porto, nos 
evyou dizer que seendo ell moço de ydade de xbj anos pouco mais ou 
menos e viuê"do em casa de sua madre, aprendendo ho oficio, ell fora 
eduzido per huú Luis A.° filho d'Afonso de Cascaaes que andaua em 
preito com a preta ante os vigários da dita cidade que o demandaua 
por marido afagando o que testemunhasse que o vira jazer e auer copulla 
carnall com hua irraãa da dita preta que o demandaua por marido que 
chama Breatiz Martiz, e que esto fazia elle por que daua em sua defesa 
que a dita preta nom podia ser sua molher por ell dormir com a dita 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe I, Doações, Ihv. 6, 
fl. 106 verso. 



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46 .0 IKSTITUTÕ 

Breatiz Martiz sua irmãa, e que por elle seer moço e assy eduzído e afa- 
gado que testemunhara que o vira jazer e dormir com ella segundo lhe 
fora dito que dissese pella quall raizom lhe era ora dito que nas nossas 
justiças ho queriam por ello prender e que por quanto elle esto fezera 
com simprizidade e por enduzimento que nos pedia por mercee que lhe 

Êerdoassemos e nossa justiça a que nos por a dita razom era theudo. 
\ nos veendo o que nos assy dizer e pedir êviou e querendolhe fazer 
graça e mercê, a honrra da morte e paixom de nosso Senhor Jhesu X_E£, 
teemos por bem e perdoamoslhe a nossa justiça, a que nos por a dita 
razon era theudo cõtanto que ell pagasse duzentos reaes brancos pêra 
as obras do moesteiro de áanta Grara do Porto, e por que os elle logo 
pagou asy a frey D.° de Guimaraaes que tem carego de os receber segundo 
dello fomos certo per seeu aluara. E porem nos madamos &. Dada em 
a Arruda xb dias de julho — elRey o mãdou per A.° Giraldez e Luis 
Martiz do seu desêbargo — R.° Anes o fez era mj c xxxb anos» (i). 



X 

Anriques (Lamberto) 

Serralheiro dos armazéns. Succedeu-lhe António Machado. 
D'elle trato na 2. a parte da memoria sobre a Armaria. 

XI 

Brito (Gregório de) 

Gregório de- Brito, morador em Lisboa, filho de Francisca 
de Brito. El-rei o tomou por seu ferreiro. Alvará de 5 de 
maio de 1646 (2). 

XII 

GOFEM (MOUSEM) 

Mousem ou Moysés Cofem era judeu e exercia o officio 
de ferreiro em Coimbra. 

Queixou se elle a el-rei de que lhe faziam aggravos e in- 
justiças, assacando-lhe a culpa de que comprava objectos de 



( i ) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Duarte, Doações, liv. 3, fl. 5 1 
(2) Torre do Tombo, Matriculas, liv. 6, fl. i56. 



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AfcTES E INDUSTRIAS METMXJCAS EM PORTUGAL 47 

ferro que eram roubados, quando na sua boa fé intendia que 
eram de legitima procedência. El-rei despachou favoravel- 
mente o seu requerimento, ordenando ás respectivas aucto- 
ridades qiíe não molestassem o supplicante por estes casos 
e que só procedessem contra elle quando de feito se reconhe- 
cesse que tinha commettido algum crime. A carta de D. Af- 
fonso V é de 14 de maio de 1445. 



«Dom Afomso &. Á vos juizes da cidade de Coínbra, e a todalas 
outras nossas justiças e a outros quaaes quer a que o conhicimento 
deeto pertencer per quail quer gisa que seja, a que esta nosa carta for 
mostrada, saúde, sabede que Mouse Cofem, ferreiro, judeu, morador em 
a dita cidade de Coimbra, nos enviou dizer que alguas vezes lhe vendera 
alguas pessoas algúu ferro e ferramentas e que por ele cuidar que he 
de boo titolo as compra e que tabem lhe trajem alguas ferramentas a 
correger as quaaes ele correge cuydando que som ae boo titoio e que 
o dito ferro e coussas suso duas saae as vezes de furto e que, posto que' 
as pessoas, cu>as som som delas entreges querem defamar dei que as fur-< 
tou e que ele lhe aja de dizer que lhas deu, e que esto lhe fazem por lhe 
leuarem o seu sem dinheiro e lhe buscarem mal e danno e por lhe leua- 
rera o que asy comprara e vende e polo fazerem prender lhe vêem a 
demandar estas cousas maliciosamente nom podendo ele ja achar aque* 
les que lhas vendera por quanto se acontecia que era de fora parte, e 
que sem dando dele querela nem ajurando nem nomeando testemunhas 
como per nos era mandado e ainda sendo ele como era e he de boa 
lama que vos o poderíeis mandar prender por elo no que diz que lhe 
seria em ello feito agrauo e sem razã aue porem nos pedia por rnercee 
que a esto lhe ouvesemos alguu remeaio com direito, e nos veendo o 
que nos asy dezia e pedia, teemos por bem e mandamos quando acon- 
tecer que alguas pessoas demandarem ou quiserem demandar perante 
vos alguas das ditas coussas e eles fezerem certo que som suas e lhe 
fora furtados e nom quiserem querelar nem jurar nem nomear teste- 
munhas, segundo per nos he mandado em a nossa hordenaçÕ e vos 
souberdes ou vos el fezer certo que he de boa fama e que as ditas cousas 
comprou e vende puvricamente vos fazede auer entrega desas coussas 
a-eses que asy fezerem certo que som suas e lhes foram furtadas, como 
dito he sem lne pagado eles oá preços por que Jhes asy foram vendidas 
e vos nom prendaaes o dito judeu nem lhe façaes outro nenhum desa- 
gisado quanto he por a dita razã saluo se contra eles ouverdes outra 
algua certa e verdadeira êTormaçom per que o com direito deuaaes de 
fazer e se aqueles que lhe asy venderem as ditas ferramentas e cousas 
poderem ser achadas vos fazedelhe logo entregar per seus bêes ao dito 
judeu o preço que lhes ele por elas deu e fazede deles direito : unde ai 
nom façades. Dante em a cidade de Coimbra xmj dias de mayo. EIRei 
o mandou per o doutor Aluaro A.° e per P.° Lobato, do seu desêbargo 
e juiz dos seus feitos — Brás A.° a fez anno do Senhor Jhesu X põ de 
milliiij* Rb» (1). 



(1) Torre cio Tombo, Chancellaria de D. ArTonso V, liv. 2S, fl. 79. 



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48 O INSTITUTO 

XIII 

Dias (Francisco) 

D. Sebastião em carta de 24 de abril de 1564 o isentou 
de ser juiz do seu officio, embora para isso fosse eleito, por 

auanto o serviço que lhe competia na qualidade de mestre 
as obras de ferro do Almasem e da Êibeira não lhe per- 
mittia sobrecarregar-se de mais trabalho. Por fallecimento 
de Francisco Dias, substituiu-o no seu officio Lourenço Annes, 
nomeado a 4 de janeiro de i58i. 

«Eu elRey faço saber aos que este meu aluara virem que eu ey por 
bem e me praz por allgfis respeitos que me a isto mouem cjue Francisco 
Diaz, a que tenho feyto mercê do carguo de mestre das obras de ferro 
que se fazem nos meus almazeys e Ribeira desta cidade não seja obri- 
guado nem constrãogido a se ruir de juiz do oficio em quamto asy seruir 
de mestre das ditas obras, posto que seja pêra iso Slleyto, por quamto 
auemdo respeito a muyta ocupação que nade ter nas obras dos ditos 
. allmazeys o ey asy por bem e mando as justiças e oficiaes a que per- 
tencer que imteiramente cdprão e guardem este aluara como se nelle 
cotem sem Sbarguo de quaes quer prouisões ou pusturas da camará que 
aja em contrairo porque asy o ey por bem. Baltesar Ribeiro o fez em 
Lixboa a xxmj dias dabrill de fb c lxuij, e eu Bertollameu Froiz o fiz 
escprever» (1). 

XIV 

Dias (Jorge) 

Em 4 de abril de 1608, D. Filippe II o nomeou para ir 
servir o officio de ferreiro na fortaleza de S. Jorge da Mina. 



«Eu ElRey faço saber aos que este aluara virem que eu ey por bem- 
ue Jorge Diaz, ferreiro, vá servir o dito officio a fortaleza de sam Jorge 
a Mina pello tempo e com o ordenado cõteudo no Regimento. Pello 
que mando ... Francisco d Abreu o fez em Lixboa a quatro dabril de 
seis centos e oito. Janaluarez Soarez o fez escreuer» (2). 



I 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Sebastião e D. Henrique, 
Privilégios, liv. 4, fl. 264. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, Doações, liv. 18, 
fl. 277. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLÍCAS EM POfcTÚGÁL 49 

XV 

EsturÃo (J0Ã0 Gonçalves) 

Mestre das obras de ferro dos armazéns. D. João III lhe 
concedeu a tença annual de 12:000 reaes em carta passada 
em Almeirim a 2 de março de 1546. 

■Dom Joham &. A quamtos esta minha carta virem faço saber que 
auemdo eu respeito aos.seruiços que J.° Giz Esturão mestre das obras 
de ferro dos meus allmazes me tem feitos e espero que ao diamte 
faça me praz e ey por bem de lhe fazer mercê de xn mil reaes 
(12:000 reaes) de temça em cada hum anno em sua vida, os quaes lhe 
serão pagos no thesoureiro do allmazen de Gyne e Imdias, ao qual mando 
aue lhe faça pagamento delles de janeiro que pasou deste anno presente 
cie b e Rbj ; e pello trellado desta, que será registada no liuro de sua des- 
pesa, per hum dos scprivaes do dito allmazem e seu conhecimento, mãdo 
aos cotadores que lhos leuem em cota. Dada em Allmerim aos íj dias de 
março — Geronimo Corrêa a íqz — ano do nacimento de noso Senhor 
Jhu Xp3 de Tb e Rbj. E eu Manuel de Moura a fiz scprever e a dita temça 
será asemtada no liuro dos hordenados que anda na fazenda do negocio 
da índia com declaração de como per esta carta soomente ha de ser 
pago da dita temça no dito thesoureiro do allmazem» (1). 

XVI 

Fàbre (Balthasar) 

O sr. Gabriel Pereira nos Documentos históricos da cidade 
de Évora (parte 11, pag. 180), publicou um assignado de 
Balthasar Fabre, no qual declarava haver-lhe o cabido da 
Sé de Évora dado consentimento para que podesse no seu 
celleiro fabricar as grades de ferro para a capella de S. Pedro, 
obrigando-se elle a restituil-o tal qual Ih' o entregaram, compro- 
mettendo-se a pagar as despezas de qualquer reparação, se 
por ventura fizesse algum damno no mesmo celleiro. A obri- 
gação tem a data de 4 de dezembro de i545. 

D'esta grade monumental, em estylo do renascimento, 
existem apenas dispersos alguns columnellos. 

Naquelle magestoso templo admiram-se ainda duas grades 
notáveis, sendo a mais digna de apreço a do baptistério, 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 33, fl. 55 verso. 

VOL. 55.°, N. 0i I E 2 — JANEIRO E FEVEREIRO DE 1908. 4 



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5o O INSTÉTUtÔ 

século xv, em estylo gothico. A outra, que lhe fica fronteira, 
veda a porta da escada que dá para a vestiaria e para a 
torre (i). 

Balthasar Fabre vivia ainda, posto que muito velho, por 
i557 e tinha um filho, Francisco Fabre, de quem dou conta 
tio artigo seguinte. 

XVII 

Fabre (Francisco) 

Filho do antecedente, cujo officio muito provavelmente 
seguiria. Tendo sido mandado sair da cidade de Évora, por 
espaço de cinco annos, por ordem de el-rei D. João III, sem 
na respectiva provisão se declarar a causa, elle todavia por 
outras provisões alcançara licença para tratar de diversas 
demanclas na mesma cidade. Por ultimo vira-se obrigado a 
andar ausente, o que lhe causava grande transtorno por ter 
o pae idoso e irmãs a sustentar. D. Sebastião, em alvará de 
perdão de i3 de novembro de i557, permittiu-lhe que vol- 
tasse definitivamente a Évora. 

«Eu elRey faço saber aos que este alluara vyrem que Francisco Fa- 
bre, filho de Beltesar Fabre, saralheyro, morador na cidade deuora me 
e" uiou dizer que avera cimquo anos pouquo mais ou menos que elRey 
meu senhor e avo, que sãta gloria aja, pasou hua prouisão per que roa- 
dou que elle Francisco Fabre se sayse fora da dita cidade dEuora e de 
seu termo e não etrase nella emquãto o dito senhor não mãdase o con- 
trairo. a qual prouisão não declaraua a causa por que fora pasada e que 
por elle sup. e ter na dita cidade demãdas lhe forão pasadas outras proui- 
soeês pêra por certo tempo poder estar nella requerendo sua justiça e 
.que o tempo da deradeira prouisão se acabara navya cimquo ou seis 
meses e elle amdava ora ausemte da dita cidade e termo e tynha a seu 
pay velho e três irmãs solteiras que hajudaua a sostemtar e amdamdo 
ausemte se perdya de todo e o dito seu pay e irmãas pasauão muita 
necesidade: Pedymdome lhe mãdase aleuãtar a dita pena e desterro e 
lhe dese licença pêra emtrar e poder estar na dita cydáde e seu termo, 
e visto seu requerimento avemdo respeito ao tempo que ha que o dito 
Francisco Fabre amda ausemte da dita cydade e por outras justas causas 

3ue me a iso movem, ey por bem e me praz que elle posa daqui em 
iamte emtrar e estar nélla e seu termo todo o tempo que quiser sem 
embargo da dita prouisão e lhe ey por haleuãtado o dito degredo lyure- 



(i) Veja-se o artigo do sr. D. José Pessanha, Notas de archeologia 
artística, a pag. 61 e seguintes, do vol. vi do Archeologo Portuguef. 



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ARTES E INDUSTRfAS METALLICAS EM PORTUGAL 5l 

mente e mado a todas minhas justiças, a que este alluara for mostrado* 
que em todo o cumprão e guardem como se nelle contem, por que asy 
ho ey per bem. Fernão da Gosta o fez em Lhcboa a xiij de novembro 
de jlWbij» (1). 

XVIII 

Fernandes (António) 

Foi talvez um dos mais habalisados artífices da sua especia- 
lidade como de certo o poderiam comprovar diversas obras, 
?ue executou para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, 
n felizmente essas obras não chegaram até nós e só podemos 
aprecial-as por alguns documentos e descripções que d'ellas 
nos ficaram e que nos dão irrefutável testemunho da compe- 
tência de tão conceituado mestre. Uma carta de Gregório Lou» 
renço, de 19 de março de i522, dá conta a D. João III do 
estado das obras do Mosteiro de Santa Cruz, depois da morte 
de D. Manuel e num dos paragraphos refere-se á venusta grade 
do cruzeiro executada por António Fernandes. A este pro- 
pósito publiquei um artigo na Revista Archeologica (vol. 11, 
n.° 4, abril efe 1888) o qual vae transcripto abaixo, antes dos 
documentos. 

António Fernandes não fez só as monumentaes grades da 
egreja de Santa Cruz: fez também a estante do coro, pelo 
preço de 54^900 reaes, como se vê por uma ordem de paga- 
mento sem data. Por ella se verifica também a existência de 
mais três serralheiros: mestre Martinho, mestre Pedro e 
Martim Ferreira, encarregados de examinar e avaliar a obra. 

O sr. D. José Pessanha publicou o trecho de uma carta, 
sem data, de Bartholomeu de Paiva, o amo de D, João III, 
dirigida a AfFonso Monteiro, almoxarife das obras da Casa 
da índia, em que se refere a António Fernandes pelo theor 
seguinte : 

.«Eu vos esprevi que dissésseis a António Fernandes, o 
fereiro, que el-rei mandava que viesse logo cá, e que trou- 
vesse quantas boas mostras podesse haver, pêra fazer umas 
grades ricas, com seus coroamentos ricos, porgue eu tenho 
feito com Sua Alteza que as faça elle ; e não vi mais recado 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Legitimações e 
Perdões, liv. 5, fl. 419 verso. 



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&2 O INSTITUTO 

disso. Compre que logo na hora o façaes partir pêra cá, e 
que seja logo aqui» (1). 
Creio que dizem respeito ao artista de que me venho occu- 

Bando outros documentos que encontrei na chancellaria de 
K João III, num dos quaes, i5 de janeiro de i526, é desi- 
gnado por fetTeiro da minha moeda de Lisboa, e nomeado 
mestre de todas as obras de ferro que vem ao meu almocem 
e tarecenas do 'Regno. 
Em 9 de outubro de 1527 era-lhe concedida a tença de 

auinze mil reaes pelo cargo sobredito, o de mestre de ane- 
laria no mesmo armazém e pelas obras de ferro que se 
fizessem na villa de Thomar. 

, Em 28 de setembro de i528 era-lhe concedida licença para 
poder andar em mula e faca. 

Em 7 de dezembro de i532 era-lhe passada nova carta, 
com outras clausulas, da tença dos quinze mil reaes. 

As grades de Santa Cruz de Coimbra 

As obras de serralharia artistica entre nós nunca attingi- 
ram — ao que se nos afigura — a importância que tiveram 
em Hespanha. É possível, todavia, que ainda existam alguns 
specimens valiosos e que tenham passado até hoje completa- 
mente despercebidos á falta de um exame minucioso da 
parte d'aquelles que se dedicam ao estudo das artes indus- 
triaes. D'esta deficiência se queixa o diligente investigador 
sr. Gabriel Pereira na pequena noticia que sobre ferragens 
inseriu no seu folheto acerca das Bellas artes em Évora, e 
que faz parte da sua valiosa collecção de estudos relativos a 
historia, arte e archeologia d'aquella cidade. Ali verá o leitor 
a descripção de algumas obras de serralharia artistica, que 
actualmente se encontram em Évora. 

A Hespanha, apesar das guerras e commoçôes politicas, 
apesar do desleixo e vandalismo com que tem sido tratados 
muitos dos seus monumentos, ainda hoje possue alguns exem- 
plares notabilissimos, que despertam a admiração dos enten- 
didos. Poucas são as cathedraes e egrejas importantes que 
não possuam grades ou rejas dignas de especial menção, 
merecendo destacar-se em primeira plana, como modelo 
esplendido, a reja decorada com figuras em alto relevo e 



(1) Torre do Tombo, Cartas missivas, maço 3, n.° 388. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 53 

outra fina ornamentação do período do renascimento feita 
por mestre Bartholomé para a capella real de Granada nos 
princípios do século xvi. Egualmente admirável é a finíssima 
reja existente em Toledo e fabricada em 1 648 por Francisco 
Villapando. Outros exemplos se podiam citar e o leitor que 
tiver desejos de conhecer mais a fundo esta matéria recorra 
ao Essa/ on Spanish art, do sr. Juan F. Riafío, que precede 
o Catalogo da exposição de arte ornamental hespanhola e 
portugueza celebrada em Londres em 1881, no South Ken- 
sington Museum, e ainda mais particularmente ao livro do 
mesmo auctor The industrial avts in Spain. 

Dignas de rivalisar com alguns d'estes trabalhos artísticos^ 
de que se ufanam as cathedraes hespanholas, seriam por 
ventura as grades monumentaes, que, no venerando templo 
de Santa Cruz, separavam o cruzeiro do restante da egreja 
e as que vedavam os túmulos dos reis. Hoje já não as po- 
demos contemplar, mas sabemos da sua existência por alguns 
documentos e referencias históricas, que mais qu menos dire- 
ctamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro logar 
o trecho de uma carta de 19 de março de i522, em que Gre- 
gório Lourenço dá conta a D. João III do estado em que se 
achavam as obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara 
fazer no templo de Santa Cruz. Um dos items da carta é do 
theor seguinte: 

«Item Senhor^ mandou que fezessem huua grade de ferro 
grande que atravessa o corpo da egreja de xxv palmos d'alto 
com seu coroamento, e ao rredor das sepulturas dos rreix 
a cada hua sua grade de ferro, segundo forma dhum contrato 
e mostra que pêra ysso se fez. Estam estas grades feitas e 
asentadas, e pago tudo o que montou na obra dos pillares e 
barras das ditas grades porque disto avia daver pagamento 
a rrazom de dous mill reaes por quintal asy como fosse entre- 
gando ha obra. E do coroamento das ditas grades que lhe 
ade ser pago per avalliaçam nom tem rrecebidos mais de 
cinquoenta mill reaes, que ouve dante mão quando começou 
a obra, que lhe am de ser descontados no fim de toda hobra 
segundo mais compridamente vay em huua certidam que 
António Fernandes mestre da dita obra diso levou pêra amos- 
trar a V. A. E nom se pode saber o que desta obra he 
devido atee o dito coroamento destas grades ser avalliado» (1). 



(1) Esta carta de Gregório Lourenço publicámol-a no Conimbricense, 
n.°* 4188, 4189, 4191 e 4195. 



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54 O INSTITUTO 

O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente 
descriptivo, mas, apesar d'isso, muito agradecido lhe devemos 
ficar por ter salvado, ainda que involuntariamente, o nome 
do artista que fabricou a obra, António Fernandes. 

Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mos- 
teiro de S. Vicente de Lisboa (1540), escreveu uma des- 
cripção em italiano do templo de Santa Cruz, a qual D. João III 
ordenou se traduzisse em portuguez, sendo impressa nos pre- 
los d'este ultimo convento. De tão curioso opúsculo cremos 
que não se conhece hoje nenhum exemplar (i), mas D. Nico- 
lau de Santa Maria perpetuou-o, incluindo-o na sua Chronica, 
prestando assim um serviço, litterario e artístico, bastante 
apreciável. Mendanha não se esquece de fallar das grades e 
dedica-lhe as seguintes linhas: 

cAlém d' este púlpito espaço, de 20 palmos contra a capella 
mor, está a grande e venusta grade de ferro, que atravessa 
toda a egreja, ficando dentro o cruzeiro, e tem de alto trinta 
palmos 1 (2). 

O epitheto venusta synthetisa, para assim dizer, em toda 
a sua singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e 
Gregório Lourenço ha todavia uma discrepância no que res- 
peita ás dimensões; Mendanha dá a grade 5 palmos mais 
alta. Outra diíferença notamos ainda. O prior de S. Vicente 
diz que as grades dos túmulos eram de cinco palmos de alto, 
todas de pau preto e bronzeadas com ouro: Gregório Lou- 
renço claramente especifica que eram de ferro. 

Coelho Gasco (3) classifica de sumptuosas as grades do 
cruzeiro e accrescenta que nellas havia um epitaphio, ou 
antes letreiro, latino, em letras de ouro, que rezava da se- 
guinte forma: 

*Hoc templum ab Alphonso Portugaliae primo rege instru- 
ctum ac tempore pene collapsum, Regno succesore & actore 
Emmanuele restauraverit. Anno Natalis Domini MDXX*. 

Esta data 1D20 refere-se por certo á época em cjue foi 
assentada a grade e collocado o seu respectivo letreiro. A 



(1) Depois de escripto este artigo tive conhecimento de um exem- 
plar ao qual me refiro no opúsculo O mosteiro de Santa Crwç de 
Coimbra. \ 

(2) D. Nicolau de Santa Maria, Chronica dos cónegos regrantes, 
tom. 2. , pag. 30. 

Í3) Conquista, Antiguidade e Nobreza da mui insigne e Ínclita cidade 
loimbra, pag. 83. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 55 

egreja já estava reconstruída, como, além de outros docu- 
mentos, o demonstra o epitaphio do bispo D. Pedro, falle* 
eido a i3 de agosto de i5i6. 

No priorado de D. Acúrcio de Santo Agostinho (eleito em 
princípios de maio de 1 590) as grades foram pintadas e dou- 
radas de novo. Diz o chronista « . . . e porque as grades de 
ferro do cruzeiro e capellas da mesma egreja estavão pouco 
lustrozas, as mandou alimpar, pintar e dourar em partes e 
particularmente mandou dourar as armas reaes e folhagens, 
em que as ditas grades se rematão e tem as dò cruzeiro 
3o palmos de alto e as das capellas i5 também de alto, e 
ficarão depois de pintadas e douradas mui aprazíveis á 
vista» (1). 

Não sabemos até que época durassem as grades de Santa 
Cruz. Das que circumdavam os sepulchros temos informação 
de 1620. Ou haviam chegado a extrema ruina ou foram 
substituídas ineptamente por outras. Referindo-se ao governo 
de D. Miguel de Santo Agostinho, que foi eleito pela segunda 
vez em 3o de abril de 1618, escreve o chronista da ordem: 
«Nos últimos mezes do seu triennio ornou o P. Prior geral 
as sepulturas dos primeiros Reys d'este Reyno, que estão na 
capella mór de Santa Cruz com grandes grades de pau santo, 
marchetadas de bronze dourado» (2). 

«Eu elRey mado a vos Nicolao Leite, recebedor das remdas do moes- 
teiro de Sãta Cruz de Coimbra, e ao esprivam de voso oficio que do 
mais prestes dinheiro que teuerdes recebido ou receberdes do remdi- 
mfto das ditas remdas dees a Amtonio Fernadez, ferreiro e mestre das 
obras de seu oficio do dito moesteiro quaremta e quatro mill e nouecen- 
tos reaes, que lhe mando dar em comprymêto de pago dos cinquoéta 
e quatro mill e novecentos reaes em que foy avalliada a estamte de 
ferro, que fez pêra o coro dese moesteiro por mandado delRey, meu 
senhor e padre, que sãta glorya aja, porque dos dez mil reaes he paguo 
em vos segumdo vy por huma certidam asynada por Grygoryo Lou- 
renço, veador dese moesteiro, feito por J.° de Figueiredo espryuam da 
fazemda delia e asynada por ambos, em que dauam fee de como a dita 
estamte fora avalliada por mestre Martinho e mestre Pedro e Martim 
Ferreira, serralheiros, na dita contia, e como era pago dos ditos dez 
mill reaes, a qual certidã, ao asynar deste foy rota perante mym, e vos 
fazelhe dos ditos Rjõj ix c reaes boo pagameto, semdo primeiro certo por 
certidã do dito Grygoryo Lourenço feita pello dito J.° de Figueiredo, e 



(1) D. Nicolau de Santa Maria, Chronica dos cónegos regrantes, 
tom. 2. , pag. 376. 

(2) Idem, idem, pag. 407. 



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56 O INSTITUTO 

asynada por ambos, em que declare como fica posta verba no asSto da 
dita avalliaçã como he pago em vos. a por este aluara com seu conhe- 
cimento mado aos cõtadores que vollos leuem em conta. Feito» ( i ). 

«Dom Joham &. A quamtos esta minha carta virem faço saber cjue 
comfiamdo eu Damt.° Fernamdez, ferreyro da minha moeda de Lix.% 
que nesto me servira bem e fielmente como a meu seruiço compre e 
queremdolhe fazer graça e mercê, tenho por bem e ho dou ora aaquy 
em diamte por mestre de todas as obras de ferro que vem ao meu alma- 
zem e tarecenas do Regno que pertemcem ao dito oficio pêra estar a 
emtrega delias e ver se sam taees como devem e a meu seruiço compre 
e asv a$ avaliações delias pêra per minha parte refertar e dizer o que 
lhe bem e a meu seruiço pareeçe e asy por mestre dartelharya de ferro 
que se faz na dita cidade asy e pela maneira que ho elle deveser e como 
o foy Joham A.° ho velho que se finou, o qual Amt.° Fernamdez nam 
avera nenhuú" mamtimento posto que ho tequy tevese o dito Joham 
Afonso e em cada huu anno averey emformaçam de seu seruiço e asy 
lhe farey a mercê que me bem parecer, e porem mamdo a dom Amtonio 
dAlmeida, meu comtador moor,*e aos meus oficiaes a que esto pertem- 
cer, que ho metam ê pose dos ditos ofícios e lhos leixem seruir e deles 
vsar como lhe de direito pertemce e estar no dito aimazem e terecenas 
e ver as ditas obras e avaliações dartelharya sem duuida nem embargo 
alguG que lhe a ello seja posto, o qual Amt.° Fernamdez jurará em a 
minha chamcelaria aos samtos avamgelhos que bem e fielmente e como 
deve sirva os ditos ofícios como a meu seruiço compre. Dada em Al- 
meirim a xb dias de janeiro Gaspar Memdez a fez anno de noso snor 
Jhesuu X^Z de mill e b c xxbj. E eu Damyam Diaz o fiz espreuer» (2). 

«Dom Joham &. A quatos esta minha carta virem faço saber que 
queremdo eu fazer graça e mercê a Amtonio Fernandez, mestre das 
minhas obras de fero que v,am ao meu allmazem e tercenas do Reyno e 
dartelharya de fero que se faz na minha cidade de Lixboa, tenho por 
bem e me praz que elle tenha e aja de mim de temça em cada huQ anno 
com ho dito oficio e com ho oficio de mestre dartelharya e todas outras 
obras de fero que daquy em diamte se fizerem na minha vila de Tomar, 
auymze mill reaes, e porem mando aos vedores da minha fazenda que 
lnos façam asemtar no liuro das geeraes que nela anda e Ayres do Quymtall 
meu prouedor mor e feitor das minas dos metaes que do dinheiro, que 
receber pêra prouymento e despesa das ferraryas e armaryas, que se 
na dita vila de Tomar ande fazer, que de janeiro que vem de Jb c xxbiij 
anos em diamte em cada huu anno dee e pague ao dito Amtonio Fer- 
nandez hos ditos Scb reaes e per esta soo carta gerall sem mais tyrar 
outra de minha fazenda e por ho trelado dela que se registara nos liuros 
do dito Ayres do Quymtall pelo spriva de seu carguo e conhecimento 
do dito Amtonio Fernandez, mãdo aos meus cõtadores que leuem o dito 
dinheiro em conta ao dito Ayres do Quymtall ou a quem seu carguo 
teuer que hos pagar (sic) ao dito Amtonio Fernandez, o qual será obri- 



a 



Torre do Tombo, gaveta 20, maço i3, n.° 1 15. 

Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 36, fl. i3. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 67 

guado a estar na dita vila de Tomar Squãto hy ouver obras pêra fazer 
e lho requerer o dito Ayres do Quymtall ou quem seu çarguo teuer e asy 
hyra fazer quaesquer obras que necesaryo for : todas às obras que hasy 
fizer lhe serã paguas, e por firmeza de todo lhe mãdey dar esta por mira 
asynada e aselada do meo sello pêdemte. Dada em a minha cidade de 
Coimbra a ix dias do mes doutubro — Manoel de Moura a fez — de 
Jb° xxbij» (1). 

«Dom Joham &. A quamtos esta minha carta vyrem faço saber que 
eu ey por bem daar llugar e licença a Amtonio Fernandez! mestre das 
minhas hobras de ferro, pêra adar em mulla e faca sem Çbargo de na 
ther cauallo e de minha ordenaçã em contrairo em tall caso feita, e 
porem ho notifico asy a todos meus corregedores, ouuidores, juizes, 
justiças oficiaes e pesoas a que ho conhecimento desto pertemcer e lhe 
mãdo que lhe nã vam cõtra yso nem lhe ponha duuida nem embargo 
allguu por que heu ey por bem darlhe a dita licença como dito he. Jorge 
Fernandez a fez em Lixboa a xxbiij dias de setembro de Jb c xxbii>» (2). 

oDom Joham &. A quamtos esta minha carta virem faço saber que 
queremdo eu fazer graça e mercê a Amtonio Fernandez, mestre das 
minhas obras de ferro, que vam ao meu allmazem e terecenas do Regno 
e dartelharia do ferro, que se faz na minha cidade de Lixboa, tenho por 
bem e me praz que elle tenha e aja de mim de temça em cada hum anno 
com ho dito oficio e com ho oficio de mestre da artelharia e todas outras 
obras de ferro que se daqui em diamte fezerem em a villa de Tomar 
quimze mill reaes; E porem mãdo aos veadores de minha fazenda que 
lhos façam asemtar no liuro das geeraaes que nella amda e ao almoxa- 
rife ou recebedor de meu allmazem de Guine e índias que do dinheiro 
que recebem pêra a despesa e prouimento do dito allmazem de janeiro 
que pasou do ano presemte de quinhemtos e trimta e dous em diamte 
em cada hum ano dee e pague ao dito Amtonio Fernandez os ditos 
quimze mill reaes per esta soo carta geerall sem mais tirar outra de 
minha fazemda e pello trelado delia que se regystara nos liuros no dito 
allmazem per hum dos escriuães delle e conhecimento do dito Amtonio 
Fernandez mãdo aos meus contadores que leuem o dito dinheiro em 
comta ao dito almoxarife ou recebedor que lho asy pagar e elle seraa 
obrigado ha estar na dita villa de Tomar quando nella ouverem obras 
pêra fazer e lho requerer Ayres do Quymtall, prouedor moor e feitor 
das minas dos metais, ou quem seu cargo tever e asy hiraa fazer quais 
quer obras que necesarias forem e todas as obras que hasy fizer lhe 
sejam paguas e o dito Amtonio Fernandez tinha outra tall carta geerall 
pasada per minha chancelaria, per que avia pagamento dos ditos quimze 
mill reaes do dito Ayres do Quymtall dos dinheiros que recebya pêra 
provimento das ferrarias da dita villa que foy rota ao asinar desta por 
eu aver por bem que lhe fosem pagos no dito allmazem onde elle he 
. mais cõtinuo e necesario pêra servir nas obras que cumpre a minhas 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Doações, liv. 3o, 
fl. 172 verso. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 20, fl. 66 verso. 



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58 O INSTITUTO 

armadas e em outras de meu seruiço e o registo da dita carta que estava 
^* i;.,^o a~ a:*~ a„^« a~ r\.„ — »„u se riscou e fi ca posta verba que 

ígundo se vio per certidam de Lan- 
ça rguo que foy também rota e per 

► Amtonio Ferriandez esta carta por 

Ho pemdemte. Pêro Amriquez a fez 
do ano do nacimento de noso Se- 

?emã dAluez a fiz escrepver» (i). 



X 

(Gaspar) 

azens. Succedeu-lhe por sua 
este nome. 



(Guterre) 

a. D. Duarte o tomou por seu 
ineiro de 1434 sendo-lne esta 
sm 10 de janeiro de 1440 (2). 

:i 

s (J0Ã0) 

rôa em tempo de D. João de 
as peças de artilharia (berços 
azem das munições. Apparece 
e investigação mandaao fazer 
1 1546 sobre o estado em que 
)is aqui o seu depoimento : 

1 desta cidade, testemunha jurado 
mão, que lhe tora dados pelo dito 



ia de D. João III, liv. 19, fl. 27. 
ia de D. Aífonso V, liv. 2, fl. 22. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL S9 

ouuidor gerall e pregutado pelo conteúdo no auto que fala aserqua dos 
berços e falcois dise elle testemunha que he verdade que o dito senhor 
goueraador dom J.° de Crastro ymdo prover o almazem das minuções 
achou em elle muitos falcois e berços desgornecidos e sem piães e rabos 
e que he huú" grande soma deles. E que agora os mandou logo coreger 
e elle testemunha he o que os correge e gornece de todo ho nesesareo 
— s — de rabos e piais e que os ditos berços e falcois estava no dito 
almazem malltratados e ora esta aproveitados pêra todo o que comprir 
e que nã sabe cãtos são os que tem corregidos e porem que sã ya 
muitos e que esto he verdade e ai não dise» (1). 

(ContinúaJ, Sousa Viterbo. 



(1) Torre do Tombo, Papeis da Casa de S. Lourenço, tom. 4.% 
pag. 134. 



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H 



60 O INSTITUTO 



FONTES DOS LUSÍADAS 

(Cont. do vol. 54.°, pag. 721) 



Como se vê pelo que fica dito, Camões estudou e apro- 
veitou para os Lusíadas algumas das producções litterarias 
de António Ferreira, como estudou e aproveitou as de ou- 
tros escriptores portugueses, seus contemporâneos, André 
de Resende, João de Barros, Francisco de Moraes (1), etc. 

Pena é que o auctor da Castro (1528-1569) não chegasse 
a ler os Lusíadas, para se convencer de que o odiado Ché- 
rilo, que parece ter sido o seu pesadello de muitos annos, 
tinha talento de sobra para levar a cabo, com bom êxito, o 
emprehendimento de que um grupo de invejosos o julgava 
incapaz, e era um espirito suficientemente elevado e gene- 
roso, para só muito por alto se mostrar conhecedor das 
aggressões e malévolos intuitos desse grupo, e para a tudo 
antepor o desejo de fazer uma obra verdadeiramente nacio- 
nal, em que collaborassem, e ás vezes por uma forma bem 
visível, os principaes representantes da mentalidade portu- 
guesa no campo que elle se propôs percorrer na epopea. 

Desta curiosa pagina da nossa historia litteraria direi aqui 
apenas o que reputo indispensável, deixando para outro logar 
o desenvolvimento de que ella é susceptível. 

Quando em i553 Camões se viu forçado a embarcar para 
a índia, nas circumstancias que são sabidas, toda a gente de 
certa ordem que em Portugal fazia ou lia versos, tinha co- 
nhecimento de cjue elle havia annos trazia entre mãos ura 
poema épico, cujo assumpto era a historia de Portugal. 

Já na egloga 5. a (2), escripta, segundo a ultima conjectura 



(1) Sobre a influencia da leitura do Palmeirim de Inglaterra no 
estylo da nossa epopea nacional, fallarei no respectivo capitulo destes 
estudos. 

(7) Cito pela edição da Bibliotheca portuguesa (Lisboa, i852). 



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joogte 



KONTES DOS LUSÍADAS 6t 

de W. Storck (i), de 1544 a 1545, dizia que apparelhava 

hum novo esprito 

E voz de cysne tal, que o mundo espante, 

e fazia esta promessa a D. Francisco de Noronha: 

. . . quando tempo for, em melhor modo 
Ha de me ouvir por vos o mundo todo. 

Alguns annos depois, o trabalho já estava adeantado (se- 
gundo o primitivo plano, é claro) e o poeta procurava inte- 
ressar em seu favor três pessoas altamente collocadas na 
corte: a sua gentil amiga e admiradora, D. Francisca de 
Aragão, a dama predilecta da rainha D. Gatharina; D. Ma* 
nuel de Portugal, o amigo do príncipe herdeiro e apaixonado 
cortejador daquella dama (2), e o bispo d'Angra, D. Rodrigo 
Pinheiro, Governador da Casa do Givel. 

A D. Francisca de Aragão diz o. poeta (egloga 4.*): 

. Cantancfo por hum vallo docemente 
Descião dous pastores 



O que cada hum dizia, 

Lamentando seu mal. seu duro fado, 

Não sou eu tão ousado, 

Que o pretenda cantar sem vossa ajuda ; 

Porque, se a minha ruda 

Frauta deste favor for dina, 

Posso escusar a fonte Caballina (3). 



(1) Vida de Camões, § 161. 

(2) «A romântica paixão de D. Manoel de Portugal, lume da corte, e 
das damas mimoso, que fez de D. Francisca (de Aragão) a inspiradora 
dos seus versos, ficou sendo proverbial •. Dr. J. Priebsch, Poesias iné- 
ditas de Caminha, pag. xxxvi (Halle, 1898). 

(3) A. Caminha, furioso com a audácia do intruso, julgou esmagá-lo 
com o seguinte epigramma, suggerido pelo epitheto caballina : 

Quando teus versos, deste nome indinos, 
Me lembrão, mao poeta, inda m'aballo 
De nom serem teus versos caballinos, 
E parecerem versos de cavallo. 
São louvados os versos peregrinos 
E eu nunca seu louvor escondo ou caio ; 



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62 O INSTITUTO 

Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso ; 
Em vós tenho Calliope e Thalia 
E as outras sete irmãs co fero Marte ; 
Em vós deixou Minerva sua valia ; 
Em vós estão os sonhos do Parnaso ; 
Das Pierides em vós se encerra a arte. 



Podeis fazer que cresça d'hora em hora 
O nome Lusitano e faça inveja 
A Esmirna, que de Homero se engrandece. 
Podeis fazer também que o mundo veja 
Soar na ruda frauta o que a sonora 
Cithara Mantuana só merece. 

Segue-se a egloga propriamente dita, em que são interlo- 
cutores os dous estremosos amigos, Camões (Frondoso) e o 
joven D. António de Noronha (Duriano). O estado d 'alma 
de Camões a respeito da sua amada, D. Catharina de Athaide, 
gue elle suppõe tê-lo trocado por outrem, exprime-o, numa 
forma condensada, o seguinte estribilho, clez vezes repetido: 

Perca quem te perdeo também a vida. 

É a mesma situação de espirito que deu origem aos so- 
netos 70 e 147: 

Porque te vás de quem por ti se perde 
Para quem pouco te ama ?. . . 

Quando esses olhos teus noutro puseste, 
Como te não lembrou que me juraste 
Por toda a sua luz que eras so minha ? 



Mas nom louvo^ poeta, os versos que usas, 
De Febo peregrinos e das Musas. 

(Epigramma 141). 

O desastrado poeta não viu, porém, a indelicadeza que o epigramma 
envolvia para com a intelligente e altiva dama, e teve de penitenciar-se 
em uma longa e insulsa ode (a io. a ), cheia de elogios á formosíssima 
Francisca, ode que enviou ao seu destino por intermédio cfo enamorado 
D. Manoel de Portugal (Poesias, pag. 210-216 e 369-370). 

Sobre as relações entre Caminha e D. Francisca de Aragão, lê-se na 
interessante introducção do dr. Priebsch á obra ha pouco citada : «Do 
culto prolongado e fervoroso que Andrade Caminha dedicou (a D. Fran- 
cisca de Aragão), assim como da pouca impressão que produziu, são 
testemunho os sonetos e as balatas que hoje sahem á luz pela primeira 
vez». (Pag. xxxvi). 



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FONTES DOS LUSÍADAS 

E no fim da egloga, o poeta dirige-se de novo 
dama, a quem depois tão gentilmente agradeceu a i 
rencia que teve na publicação dos Lusíadas (soneto i 

Se aquillo aue eu pretendo 

Deste trabalho haver, que he todo vosso, 

Senhora, alcançar posso, 

Não será muito haver também a gloria 

E o louro da victoria, 

Que Virgílio procura e haver pretende, 

Pois o mesmo Virgílio a vos se rende (i). 

A D. Manuel de Portugal diz o poeta (ode 7.*): 

O rudo canto meu, que resuscita 

As honras sepultadas, 

As palmas ja passadas 

Dos bellicosos nossos Lusitanos, 

Para thesouro dos futuros arinos, 

Comvosco se defende 

Da lei Lethêa, á qual tudo se rende. 

Na vossa arvore, ornada de honra e gloria, 

Achou tronco excellente 

A tenra e florescente 

Hera minha, 'téqui de baixa estima, 

Na qual, para trepar, se encosta e arrima. 

E nella a subireis 

Tão alto, quanto os ramos estendeis (2). 

E a D. Rodrigo Pinheiro dirige-se por esta fórr 
neto 190): 

Oh ditoso Pinheiro ! Oh mais ditoso 
Quem se vir coroar da rama vossa, 
Cantando á vossa sombra verso eterno ! 



(1) W. Storck, que, diga-se de passagem, suppõe esta egl 
gida a D. Catharina de Atnaide, collige dos dous últimos vers 
poeta já então tinha conquistado o sobrenome de Versilio, qu< 
admiradores lhe davam por causa das eglogas ( Vida, g 172). 

Parece-me acertada a inferência, que aliás deriva so do p< 
verso, pois o ultimo refere-se ao mantuano. Se este se rena< 
que aas Pierides em si encerra a arte, não é muito que o novo 
obtenha também, por intermédio delia, o louro da victoria. 

(2) Reproduzo esta estrophe tal como a reconstruiu a Sr. 1 
lina MichaSlis, a illustre escriptora a quem tantos e tão releva 
viços deve a nossa lingua e litteratura. Vid. a nota (#) á pag. 69c 
de Camões de W. Storck. 



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64 O INSTITUTO 

E o verso eterno, que então era constituído essencialmente 
pela historia, completa ou incompleta, dos reis de Portugal, 
era já conhecido e admirado por uns e ridicularizado por 

>s primeiros entrava o grande amigo do 
ibem, João Lopes Leitão, que assim expri- 
íasmo por Camões: 



ie este que na harpa Lusitana 
s musas gregas e latinas, 
tie ao mundo esqueçam as plautinas 
com graça e alegre lyra e ufana ? 

Camões he, que a soberana 
a lhe influiu partes divinas, 
:m espiram as flores e boninas 
lerica musa e Mantuana. 

riumphante Roma, este alcançaras 

theatro e scena luminosa, 

do gran Terêncio te admiraras, 

tes, sem contraste, curiosa 
. d'ouro ali lhe levantaras, 
te de ventura tão ditosa (i). 



i capitaneados por Andrade Caminha (i52o- 
irtou de escrever epigrammas contra Ca- 
1 duas amostras: 



o, mao poeta, me deixaste 
'sos, que t'ouvi, seccos e duros ; 
prendeste tal, como inventaste 
iproprios versos, tam impuros? 

(Epigr. 140). 



a, Rimas varias de Luis de Camões, t. 1, escreve: 

riguar quien fuesse el autor deste soneto, mas pre- 

ís Leytam. Un manuscrito dize que es de Francisco 

y de quien el fuesse no tengo noticia» (Juipo destas 

ophilo Braga, Camões. Época e vida (Porto, 1907), 
e livro, que merece ser estudado, apresenta, a meu 
livas, algumas com o caracter de inteira novidade, 
pontos da vida do poeta. 



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tfoNTÉs bos Lusíadas 

Dizes que o bom poeta ha de ter fúria. 
Se nom ha de ter mais, és bom poeta ; 
Mas se o poeta ha de ter mais que fúria, 
Tu nom tens mais que fúria de poeta (i). 

(Epigr. i 4 5). 

Nesta guerra, que continuou depois de Camões v 
para o Oriente, Ferreira collocou-se ao lado do seu 
Caminha e tomou a si a especialidade de arranjar um 
para ver se assim ficava inutilizado o trabalho que o C 
ainda não tinha publicado. 

A ode i.* do 1. i.° é, digamos assim, o annunciõ para 
se quizesse apresentar, — com a indicação do program 

Fuja d'aqui o odioso 

Profano vulgo ; eu canto 

A brandas Musas, a hus spritos dados 

Dos Geos ao novo canto, 

Heróico e generoso, 

Nunca ouvido dos nossos bons passados. 
Neste sejam cantados 

Altos Reis, altos feitos. 

Costume-se este ar nosso á lira nova. 

Accendei vossos peitos, 

Ingenhos bem criados, 

Do fogo qu'o Mundo outra vez renova. 
Cad' hum faça alta prova 

De seu sprito em tantas 

Portuguesas conquistas e victorias, 

De que ledo t'espantas, 

Oceano, e dás por nova 

Do Mundo ao mesmo Mundo altas historias. 

Depois vem os convites individuaes. 
A U. António de Vasconcellos (2) (ode 8.*, 1. i.°) es 
Ferreira : 

Té quando assi, cruel, o peito duro, 

gas nove irmãs morada, 
errarás, como ingrato ao dom divino ? 



(1) Observação do Dr. Theophilo Braga (obr. cit, pag. 452) : 
prehende-se a certeza do golpe, aproximando este epigramma da 
phe da invocação dos Lusíadas : 

Dae-me uma fúria grande e sonorosa». . . 

Caminha, como se vê pelo epigramma 140, citado no texto, tini 
certo, conhecimento do que Gamões ia escrevendo para os Lusia< 

(2) Vid. Sousa, Historia genealógica, t. xii, i. 1 parte, pag. 139 

VOL. 55.°, N. M I E 2 — JANEIRO B FEVEREIRO bE I908. 



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O INSTITUTO 

teu, eu digo a lira, 
o Apollo, 

; para gloria nossa, 
utro polo 



em tanto 

armas perdem nome. 

cargo tome 
ama e eterno espanto 
os, quaes Deos sempre mande ? 
?m que tanta parte 
i chegados 

ai sangue, ás altas Quinas, 
os 

/o Marte. 

> serão por ti negadas 
ie seus nomes dignas? 
nadas 

em tão justas guerras, 
mãos, que coroavam 
i suas terras, 
de tão longe entradas, 
í, já s'encommendavam. 
ua sorte te não chama 
eza 

í), com as Musas paga 
sa 

ortal fama, 

lo ao Mundo, sempre viva 
cruel, que tudo apaga. 

Lutonio de Castilho (carta 6.% 1. 2. # ): 



is versos douta lima, 

e eu veja a clara historia 

;uês por ti entoada, 

ta Roma a grã memoria ? 

mpresa está guardada. 

eive, retirado no seu canonicato de 
d pelo antigo discípulo, que se satis- 
íer com verso, e até com o emprego 
M.2.«): 



ino nos renova 

:io, ora outro grande Maro ; 

Pádua, Arpino innova. 



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'UE F* . 



frONTfeS DOS LUSIAbAâ 6? 

Por ti começou já ser çrande e claro 
O Português Império: igual' aos feitos 
No Mundo raros teu estilo raro. 

E o justamente afamado latinista, respondendo ás sollici- 
tações que no mesmo sentido lhe havia feito D. André de 
Noronha, declçra-se disposto a cantar os feitos dos reis ly- 
siadas (Opuscula, p. 3 14. Paris, 1762): 

His me rationibus urges 

Atque aliis, nostrae, Andrea, claríssima gentis 
Gloria, Lysiadumque jubes ut máxima Regum 
Facta canam. Nostri laudes ab origine regni 
Aggrediar: nostris opus hoc ego viribus impar 
Esse quidem fateor, verum conatibus ingens 
Egregiis semper laus haeret, têmpora sternent 
Longa viam, longum poscit res tanta paratum. 

Parece também que o dr. António de Castilho, quer para 
se ver livre das instancias de Ferreira, quer por iniciativa 
própria, escreveu sobre o assumpto a Diogo Bernardes ; mas 
este, embora então colligado com os inimigos de Camões, 
deu uma resposta pouco modesta, mas muito pratica, e que 
contrasta com as ingénuas confissões de Ferreira, a que logo 
me hei de referir: 

Pesa-me não poder em nova historia 

Dos Lusitanos Reys a origem clara 

Levar ao templo da immortal memoria, 
Não por falta de ingenho e invenção rara, 

Estilo e arte, que Fébo em tal sogejto 

Desusados conceitos nVinspirara. 
Mas sabes de que nace este defeito ? 

De não ver neste tempo hum novo Augusto, 

A quem tão bom trabalho seja aceito. 
Logo necessário he, não digo justo, 

Negar-me a meu desejo, por buscar 

Cousa que à pobre vida Faça o custo (1). 

Mas o bom Ferreira, como lhe chama Diogo Bernardes, 
não se contentou com pretender hostilizar indirectamente 
quem, só por si, valia incomparavelmente mais, em dois 
géneros litterarios, do que todos os seus adversários jun- 
tos; contra elle e contra os seus admiradores extravasou 



(1) O Lyma, carta 14.* Ao Dr. António de Castilho, 



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68 O INSTITUTO 

toda a má vontade, que lá dentro tinha represada, em uma 
carta a Andrade Caminha, o medíocre, invejoso e mal en- 
tranhado chefe da colligaçao. 

nto é a carta 8. a do 1. i.°, escripta, 
se vê, depois da morte do príncipe 
Camões já tinha ido para o Oriente. 
hender o alcance da primeira passa- 
pre ter presente o seguinte : i .°) Ca- 
rcar para a índia, aspirava, cantando 
portugueses, a obter a fama de um 
:>; 2. ) havia quem já nelle admirasse 

ica musa e Mantuana ; 

íve por cantor dos seus feitos a Ché- 
nos que medíocre, que aliás o grande 
a generosamente, mas a quem Ho- 
o de Ferreira, deprecia em mais de 



regi Magno fuit ille 
; qui versibus et male natis 
regale nomisma, Philippos. 



. . Idem rex ille, poema 
í, tam care prodigus emit, 
(Epistula i, 1. u, 232-239). 

mm cessat, fit Choerilus ille, 
bonum cum risu miror. . . 

(Arte poética, 357-358). 

n Ferreira: 

ibalho, tempo e lima 
lies nomes tam famosos, 
antiguidade se honra e estima, 
huns Cherilos tam pomposos 
s nomes ir tomando, 
>s que os ganharam tam custosos ? 
spnto, se roubando 
preço e a quem não é devido 
idos o estão dando. 



escreveu um poema épico — Os An- 
issumpto a historia de Roma por or- 



i 



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FONTES DOS LUSÍADAS 



dem chronologica, e cujo valor Jitterario era muito 
ao da Eneida. Pergunta agora Ferreira aos que se 
vám a considerar Camões um Vergilio: 



D'hum louvor 

Quereis pagar os bons e os maus escritos ? 
Que gosto, que esperança, que fervor 
Acenderá hum peito, 

Que os claros feitos erga, heroes afame, 
Armas de pó victorioso ornadas, 
Que milagres despois o Mundo chame, 

Se tão rudes estão, se tão cerradas 

As orelhas ao som, que de Ennio a Maro 
Não fazem as differenças approvadas ? 



Mais adeante, Ferreira appella para as Musas, qu( 
venham em auxilio do seu despeito: 



Vinde, Musas, armadas ; soccorrei 

A vossos louros e heras, que forçadas 
Vos levam os que não guardam vossa lei. 

Sejam as boas cabeças coroadas 

Das sempre verdes folhas, outras sejam 
De vossos sacros bosques desterradas. 

Trazei-nos vossa luz, para que vejam 

Quam longe estaes, quam altas, quanto acima 
Dos que em vão a chegar-vos se despejam (1). 



E, desolado por nem elle nem algum dos seus am 
der alcançar para si a gloria que está reservada ao j 



(i) Na carta 12.» do 1. i.° diz também Ferreira a Diogo B 
com o pensamento em Camões : 

Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima, 
Que a si se favorece e se perdoa, 
Que sprito mostrará em prosa ou rima ? 

Taes sam algus, a que triste a hera coroa, 
Roubada do vao povo ao claro sprito, 
Que esconder-se trabalha e então mais soa. 

Aquelle dá de si publico grito, 

Este cala e s'encolhe: o tempo emfim 
Hum apaga, immortal faz d'outro o sprito. 



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70 O INSTITUTO 

~ v pondera resignadamente: 

jue esperei algu'hora em vão me deço. 

Cante quem canta ao som dos seus louvores. 

Qu'eu nem os acharei, nem os mereço. 

iassem-se em mim meus vãos ardores, 

Tivesse boa paz sempre comigo, 

Outros cantassem reis e imperadores. 

pre aos mais dos engenhos foi perigo 

Escrever; os bons temem; escrevam ousados i 

Esses que tem grã credito comsigo. 

sos os que vivem bem calados 

Mettidos em si mesmos e contentes 

De não serem ouvidos nem julgados (2). 

empre com a idéa fixa numa epopea, diz a Ca- 
rnais claros heroes hum, que cante, 
Escolha teu sprito. Real sujeito 
Tens na alta geração do grande Iffante. 



, como já houve quem notasse, para ridicularizar Camões j 
eólico, tinha-lhe chamado Magalio (egloga 3.»): 

. . . Magalio çle inveja este morrendo, 
Que a rodos para si rouba os louvores, 

rto lhe foi suggerido por este verso da Eneida (1, 421) : | 

diratur molem Aeneas, magalia quondam. 

: Camões era para Ferreira um épico das duçias e um 

»/ 

bernardes abundava então nas mesmas idéas. Basta citar 

agem do Lyma, carta 4." : 

te quem mais quiser feitos alheos ; 

Diga mal, diga bem, falle á vontade, 

Use palavras novas, novos meos. 

cure de razão, nem de verdade, 

Em tudo contentando á vulgar gente, 

Enchendo peitos vãos de vaidade. 

o poeta logo, ei-lo excellente, 

ídolo do pequeno, e mais do grande : 

Sofrei se chamo grande a quem mal sente. 

ca permitta o ceo, nunca tal mande, 

Que, merecendo nome meus escritos, 

Este na voz do povo em muitos ande. 



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FONTES DOS LUSÍADAS 



7< 



Ergue-te, meu Andrade, arca esse peito, 
Jnflammado ^Apollo, cante e soe 
Igual tua voz ao teu tão alto obgeito. 
Ouça-se o grã Duarte, por ti voe 

Pelas bocas dos homens ; de sua mão 
Inda Palias ou Phebo te coroe (i). 

É obvio que Ferreira não escreveu a carta contra o pom- 
poso Chérilo e contra os seus admiradores, para ser lida só 
por A. Caminha. 

E como Camões estava então no Oriente, presumo que lhe 
fez chegar ás mãos uma cópia, por intermédio de João Lopes 
Leitão, sendo muito possível que essa cópia acompanhasse a 
carta 7.* do 1. 2. , dirigida áquelle amigo de Camões, que 
tinha também ido para a índia, depois da morte do príncipe 
D. João. 

Era bom que o enthusiasta auctor do soneto, que apre- 
goou em Camões fulgores 

Da homérica musa e mantuana, 

ficasse sabendo que havia diferenças approvadas de Enmo 
a Mavo, além do mais que da carta consta (2). 



(1) O empenho que Ferreira tinha em que Andrade Caminha can- 
tasse os feitos* que nunca chegaram a ser fettos, do neto de D. Manuel, 
mostra-se ainda na ode 1.*, 1. 2. , na egloga io.* e na carta i3.% 1. i.° 

O que era preciso era que apparecesse um poeta épico, quer can- 
tasse as gloriosas façanhas dos portugueses, quer as de um futuro he- 
roe. O que era preciso era livrar Minerva 

Das mãos. . . da baixa gente, 

Gente cruel e cega e indouta e indina 
De tal dom, só devido a quem o sente. 

(Citada carta 1 3). 

(2) É verdade que Ferreira se diz intimo amigo de João Lopes, 

Lá de mim tens, amigo, a melhor parte, 

mas o grave canonista e conspicuo magistrado tinha idéas um pouco 
singulares a respeito da amizade : 

Pague-se amor fingido a quem o empresta, 
Mas quem bom amor dá ; receba-o bom. 

(Citada carta 8.% 1. i.°). 



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f2 O INSTITUTO 

Camões ia lendo o que escreviam contra elle e natural- 
nente sorria-se da fúria impotente dos seus adversários, que 
>or todas as formas continuavam a querer prejudicá-lo. 

Ha, porém, nos Lusíadas umas expressões que me pare- 
em intencionaes. 

Assim, no final da ode i. a do 1. i.°, acima transcripta, 
•erreira escusa-se de cantar os feitos dos portugueses, di- 
;endo : 

A mim pequena parte 

Cabe inda do alto lume, 

Igual ao canto ; o brando Amor só sigo, 

Levado do costume. 

Pelo contrario, Camões espera obter das musas igual canto 
\os feitos da gente que vai immortalizar (i, 5). 

Ferreira, na mesma ode, appella para os ingenhos bem 
riados e estimula-os a accenderem os peitos do fogo que o 
nundo renova. 

Camões reconhece em si um novo engenho ardente e pede 
is musas uma fúria, 

Que o peito accende e a cor ao gesto muda (i, 5, 3). 

Na ode i. a , 1. 2. , Ferreira declara que a sua baixa lira 
ião ousa cantar os feitos do infante D. Duarte (o que outro 
>oeta, Andrade Caminha, fará), e prosegue: 

Em quanto tal não tento e veda Apollo 

Que os tão altos louvores 

Do grande Rei, senhor de polo a polo, 

e os teus, menores 

Não faça, escurecendo 

Com baixo canto o qu'outro irá erguendo, 



Comece ser sentida 
De ti a voz . . . 

Na estancia i5, c. 1, diz Camões: 

E emquanto eu estes canto e a vós não posso, 
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, 

Comecem a sentir o peso grosso, etc. 
Ao terminar este capitulo, seja-me permittido acreditar que 



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FONTES DOS LUSÍADAS 7$ 

o auctor da Castro, se hquvesse vivido mais uns annos, 
para poder ler os Lusíadas, se converteria, apesar do sett 
amigo Caminha, em um enthusiastico admirador de Camões^ 
e se desvaneceria com a honra de ter ministrado elemento* 
para a nossa epopea nacional. 



VII 

Camões e Marcantonio Cocei Sabellico 

Camões estudou a historia geral principalmente pelas En- 
neades ou Rhapsodiae historiarutn de Sabellico (i), volumoso 
tratado que foi traduzido em português por D. Leonor de 
Noronha (2), prima co-irmã do amigo e protector do poeta, 
D. Francisco de Noronha, segundo conde de Linhares. 



(1) A respeito de Marcantonio Cocei, que, como membro da Acca- 
dmia Romana, instituída por Pomponio Leto, tomou o nome de Sabeis 
lico, diz V. Rossi, na sua recente obra 11 Quatrocento : «Per la via se- 
gnata dal Biondo alia storiographia procedettero Marcantonio Sabellico 
da Vicovaro (1436-1^06) e Giorgio Merula;... quegli non tanto nelle 
deche Rerum venetarum, . . . quanto nelle Enneades seu Rhapsodiae hi&- 
toriarum, che, movendo dal principio dei mondo, giungono, in 92 libri, 
fino ai 1504. . . L'uno e 1'altro non solo ricercano e citano vecenie cro- 
nache ed altri monumentie ne discutono e vagliano le testimonianze.... 
ma anche attingono a piene mani dalTopera massima deH'umanista ror- 
livese» (Biondo). Pag. 1 12; cf. p. 218. A i. a edição das Enneadas (a obra 
está dividida em onze partes, cada uma das quaes, excepto a ultima, 
abrange nove livros) appareceu em Veneza em 1498- 1 504. A historia 
geral de Sabellico foi continuada por Paulo Jovio e outros. Sirvo-me 
da edição de Basilea, i56o. 

(2) Sobre esta tão interessante e tão sympathica figura feminina do 
nosso século xvi, diz J. Cardoso, no Agiologio lusitano, 1, p. 45^ : «Illus- 
trissima e piissima senhora,.. . filha do segundo Marquez de Villa Real, 
que, sendo ornada de singulares dotes da natureza & da graça, propôs 
hrmemente de perseverar até morte no sublime estado virginal (como 
fez), oceupando-se no estudo das humanas & diuinas letras, em qué foi 
eminente. Pois traduzio com muita elegância & louuor de Latim em 
vulgar as Enneidas (sic) de M. António Sabellico, parte das quaes an- 
dam impressas, parte manuscrittas. Assi mesmo compôs e imprimio 
alguns Tratados spirituaes» etc. Veja-se também Sousa, Historia ge- 
nealógica, v, p. 204-205. 

Pena é que da traducção das Rhapsodiae sejam conhecidos apenas os 
dous volumes que foram impressos em Coimbra, um em i55o e outro 
em i553, e que abrangem respectivamente a i. a e a 2.» Enneada. Ha um 



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74 O INSTITUTO 

É na obra do douto humanista italiano, — a primeira ten- 
tativa de coordenação da historia geral — , que se encontra a 
origem de certas opiniões, erróneas ou singulares, adoptadas 

Eelo poeta ; é também por meio delia que melhor se compre- 
endem algumas passagens dos Lusíadas e se pôde, em mais 
de um logar, restituir o texto á sua forma primitiva. 

Restringir-me-hei aqui ao mais importante, seguindo a or- 
dem dos cantos e das estancias e começando por um ponto 
em que Sabellico só indirectamente intervém. 

Em i, 53, 5-8, um dos moradores de Moçambique diz aos 
portugueses que demandavam a índia: 

Nos temos a lei certa que ensinou 
O claro descendente de Abrahão, 
Que agora tem do Mundo o senhorio : 
A mãy Hebrea teue & o pay Gentio. 

Commentando a asserção contida no ultimo verso, diz 
Burton: tSome refer the couplet, wich I have purposely 
left doubtful, to El-Islam, then held to be a compound of 
Judaeism and Arab idolatry. Others see in it Mohammed, 
who claimed descent from Ishmael». Esta opinião, porém, 
é inadmissível: tNo Moslem would say that he was of He- 
brew blood. His father, Abdullah, and his mother, Aminah, 
were puré Arabs, pagans of the Kuraysh tribe» (Commen- 
tary, u, 572) (1). 



exemplar na Bibliotheca nacional e possue outro na sua selecta livraria 
o sr. Conselheiro Jayme Moniz. 

Vale a pena transcrever aqui as seguintes palavras da dedicatória á 
rainha D. Catharina : «Por2j me nã conheci por menos indigna do que 
sam pêra fazer cousa de q V. A. se seruisse, treladey pêra as suas da- 
mas, de latim em lingoage Português, hua coronica geral, pêra q na 
gaste tam be auenturado tSpo pêra nos, como este em q vossas altezas 
reynã, em ler fabulas, se nã verdades . . . Treladey eu, Senhora, a coro- 
nica de Sabelico, assi porq he muy geral & chegou elle em cotar ate o 
tempo dos reys vossos auos, & os q após elle acrecêtarã, ate o de VV. 
AA., como porq he bõ latino & os que o souberem lhes aproueitará co- 
tejar o seu latim com a nossa lingoagem». 

Todas as vezes que tenha de citar alguma passagem das duas pri- 
meiras Enneadas, servir-mehei da versão portuguesa. O titulo desta é: 
Coronica geral de Marco António Cheio Sabelico des ho começo do mundo 
ate nosso tempo. . E no fim : Acabouse a primeira eneida (sic), etc. 

A obra de Sabellico segue o chamado methodo synchronico e a 2. a 
Enneada termina, na historia romana, em Coriolano. 

(1) Burton tem neste assumpto uma auetoridade especial. Sabe-se 



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FONTES DOS LUSÍADAS 7& 

Não ha duvida que o poeta incorreu em erro, dizendo 
ser hebrea a mãe de Mafoma. 

Vejamos comtudo o que se pôde adduzir em seu abono. 

Nas Historiarum ab tnclinato Romano Império... Decades 
escreveu Biondo (ou, pelo menos, é o que ahi se lê) : t Maço- 
metus quidam, ut aliqui, Arabs, ut alii volunt, Persa, fuit no- 
bili ortus parente, deos gentium adorante, sed matrem He- 
braicae gentis habuit Ismaelitam* (i). 

Como se vê, este escriptor, a quem Langlois chama com 
razão cie premier des historiens modernes de la Rome anti- 
quei e «le premier (historien) qui ait conçu le moyen âge 
comine une époaue distincte» (2), este escriptor, repito, ainaa 
não sabia se Manomet era persa ou árabe e, se no texto não 
ha alteração, diz que era filho de uma ismaelita de nação 
hebraica ! 

Veio depois Sabellico e reproduziu, com uma importante 
modificação na ultima parte, a passagem citada das Decades 
impressas: cMahometus,. . . uir dubium Arabs an Persa, 
utrunque enim traditur, patre malorum daemonum cultore, 
matre Ismaelita, & ob id Hebraicae legis non ignara» (E. viu, 
1. 6, p. 532). Isto é : a mãe de Mahomet era ismaelita e, como 
tal, não desconhecia a religião hebraica (3). 



que este erudito traduetor e commentador dos Lusíadas foi um in- 
fatigável e arrojadíssimo viajante, entre cujas mais arriscadas proezas 
se canta a de uma peregrinação a Meca e a Medina, que elle realizou 
jtfb o disfarce de muçulmano da índia. Vid. Encyclopaedia Britannica, 
xxvi, p. 482-483 (Edinburg, 1902). 

(1) Década i. a , 1. 9. , p. 123 (edição de Basilea, i56o). Sobre Flávio 
Biondo (i388-i4Ó3) veja-se // Quatrocento de Rossi, p. 107-in. A i. a 
edição das Décadas é de 1483. O facto de estas só terem sido impressas 
vinte annos depois da morte do seu auetor torna possível a hypothese 
de haver sido alterado o respectivo texto num ou noutro ponto. 

Como curiosidade direi que Biondo se achava em Nápoles em 1452 
e ahi proferiu um discurso laudatorio por occasião da visita feita ao rei 
das Duas Sicilias pelos recem-casados Frederico 3.°, imperador da Alle- 
raanha, e D. Leonor, filha do nosso rei D. Duarte. Sobre as festas que 
por essa occasião se realizaram naquella cidade, veja-se o curiosíssimo 
Diário de Valckenstein, reproduzido na^ Provas da Historia genealó- 
gica, 1, p. 601 e segç. 

(2) Manuel de Btbliographie historique, p. 248-249 (Paris, 1901-1904). 

(3) As Enneades de Sabellico começaram a publicar-se quinze annos 
depois de ter apparecido a 1.* edição das Decades de Biondo, mas quando 
aquelle jé contava 47 annos de edade. E portanto licito inferir que Sa- 
bellico conheceu ainda em manuscripto a obra de que tanto se aprovei- 
tou ç que frequentes vezes copiou textualmente. 



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76 O INSTITUTO 

Seria neste sentido que o poeta, ampliando a phrase de 
Sabellico, disse que a mãe de Mafoma era hebrea ? 

Talvez; mas o que é certo é que João de Barros, numa pas- 
sagem das Décadas, que o poeta leu, se exprime também por 
esta forma: «(Mahamed) nasceu em Itrarip, lugar pequeno 
de Arábia. Seu pae (segundo dizem os Mouros) era de numa 
linhagem, a que elles chamam Corax e vem de Ismael, e ha- 
via nome Abedelá, Gentio; sua mãe Emina, a qual era He- 
brea, ambos pessoas do povo, da creação dos quaes recebeu 
duas doutrinas, Gentílica è" Hebrea» (1). 

E o historiador português indica como sua fonte para a 
vida de Mohamed «alguns escriptores latinos», no numero 
doá quaes entra por certo Flávio Biondo, em cujas Decades 
leu que Mahomet era filho de uma ismaelita de nação he- 
braica. 

João de Barros, porém, era suficientemente illustfado para 
reproduzir integralmente esta asserção e porisso omittiria um 
dos dados que brigava com o outro, dando comtudo a pre- 
ferencia precisamente ao que não era verdadeiro. E o poeta, 
que aliás conhecia a passagem em que Sabellico diz que a 
mãe de Mafoma era ismaelita, transcreveu o que encontrou 
em João de Barros. 

Mas a inexactidão principal provirá de Biondo ou este teria 
escripto, não Hebraicae gentis, mas sim Hebraicae religionis, 
sendo a correcção feita posteriormente? 

O texto de Sabellico, dada a dependência em que está do 
de Biondo, auctoriza a segunda supposição (2). 

E não seria de estranhar que um escriptor italiano do sé- 
culo xv dissesse que a mãe de Mafoma, embora ismaelita, 
isto é, de raça árabe, seguia a religião dos judeus. Fallando 
da religião da Arábia antes do apparecimento do mahomer 
tismo, diz Dozy : «Le mosalsme attirait bien plus les Árabes. 



(1) D. n, 1. 10, c. 5 e 6. No final do c. 5 diz Barros: «Convém tratar 
do nascimento e secta de Mahamed, e esta relação será té sua morte 
segundo alguns escritores Latinos e o mais segundo o Tarigh dos Mou- 
ros, que he da vida dos Califas que o succederam». 

(2) Todas as edições das Décadas que pude consultar trazem He- 
braicae gentis^ E na traducção* italiana do resumo latino da obra, feito 
por Pio 2. , lê-se também: «In questo tempo Maumeto (come vogliano 
alcuni) nato in Arábia o (come alcuni altri) in Pérsia, nato, dico, di no- 
bili famiglia (il cui padre fu gentile, la madre hebrea & Ismaelita), es- 
sendo di acutissimo ingegno» etc. Le Historie dei Biondo. . . Ridoite in 
compendio da Papa Pio e tradotte per L. Fauno, 1, p. 58 (Veneza, i543). 



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FONTES DOS LUSÍADAS 77 

Un grand nombre de juifs, après 1'échec de la revolte cortfre 
lempereur Adrien, avait trouvé asile en Arabiç et différentes 
tribus de ce pays avaient embrassé leur religion. . . Le mo- 
saisme fut même pendant un certain temps la religion d'état 
dans le royaume du Yémen» (1). E Burton, em seguida ao 
logar ha pouco transcripto, accrescenta: «The Hebrews (Si- 
meonites?) were, however, powerful in the MoslenVs Holv 
Land, and hence the vulgar report wich made the apostle $ 
uncle a Jew». 

Entrando agora mais propriamente no assumpto do pre- 
sente capitulo, começarei por observar que o verso 7. , ha 
pouco citado, de 1, 53, é a traducção, pela boca de um mu- 
çulmano, das seguintes palavras de Sabellico, que precedem 
a passagem em que elle se refere á ascendência de Mafoma : 
«(Arabiae) defectio magnum peperit humano generi inoen* 
dium: inde seminarium illud malorum terris ortum, errore 
incxtricabili, qui mortalium partem multo maximam in Veri 
oblivionem addúxit». 

Em m, 7, indicando os limites da' Europa pelo lado do 
oriente, escreveu o poeta: 

Da parte donde o dia vem nascendo 

Com Ásia se auizinha ; mas o rio 

Que dos montes Rifeios vay correndo 

Na alagoa Meotis, curuo & frio, 

As diuide, e o Mar que, fero & horrendo, 

Vio dos Gregos o yrado senhorio, 

Onde agora de Tróia triumfante 

Não vê mais que a memoria o nauegante. 

Devo dizer que o epitheto triumphante do 7. verso con- 
stituiu para mim, por bastante tempo, um enigma, que che- 
guei a suppôr indecifrável (2). Porque é que o poeta chama 



(1) Essai sur 1'histoire de Vislamisme, p. 14 ÍLeyde, 1879). 

(2) O mesmo me aconteceu com a petrina de 11, 3o, 5, com os roxos 
lírios de 11, 37, 4, e com o se o não é } parece-o de iv, 29, 5. 

Como espero mostrar por meio da respectiva fonte, o poeta escre- 
veu Do alvo ventre no primeiro caso, e brancos lírios no segundo. 

Em iv, 29, 5, estou convencido que se trata de uma gralha. Camões, 
depois de ter dito que, nos grandes perigos, o temor é muitas vezes 
maior que o perigo, accrescqnta que pôde o temor não se mostrar, não 
se parecer, sendo este ultimo verbo empregado como em ui, 141, 3. 

Também creio accehavel a conjectura de G. de Amorim, a respeito 
da substituição a fazer no que è do 7. verso (1, 43o). 



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78 O INSTITUTO 

triumphante a Tróia ? Pois não se refere elle, em iti, 57, 4, 
a Dardania, accesa por engano de Ulysses ? E não falia tam- 
bém em vi, 19, nos 

• • muros de Dardania, 

Destroidos despois da Grega insânia ? 

E em vni, 5, não diz que Ulysses 

... la na Ásia Tróia insigne abrasa ? 

Foi em Sabellico que encontrai a solução desta difficul- 
dade. O escriptor italiano, ao referir-se ás differentes opi- 
niões a respeito, da guerra de Tróia, especifica a de Dião 
Chrysostomo, que se resume no seguinte: A guerra foi mo- 
tivada pelo facto de os pretendentes gregos á mão de He- 
lena levarem a mal que esta preferisse o estrangeiro Paris, 
com quem casou. Depois de uma luta porfiada, em que os 
gregos soffreram maiores perdas que os troianos, fez-se um 
tratado de paz, pelo qual aquelles se obrigaram a não fazer 
guerra á Ásia, «em quanto a geraçã de Priamo possuísse 



A meu ver, a estancia deve ler-se assim : 

Quantos rostos ali se vêm sem cor, 
Que ao coração acode o sangue amigo 1 
Que, nos pensos grandes, o temor 
E* maior, muitas vezes, que o perigo. 
E se não se parece, é que o furor 
De offender ou vencer o duro immigo 
Faz não sentir a perda grande e rara 
Dos membros corporaes, da vida cara. 

Também me occorreu a lição : E se não o parece, é que, mas julgo 
preferível a que fica exposta. 

Ainda a propósito da possibilidade ou, talvez melhor, probabilidade 
de haver também uma gralha em 1, 55, 2:0/ maiúsculo de indo aucto- 
riza a supposição de que o verso começava por esta palavra : 

Indo buscando o Hydaspe e terra ardente. 

Cf. no Palmeirim de Inglaterra : «Indo perguntando a Palmeirim cufo 
filho era (1,47); indo assim enganando o trabalho (1, 5i); vindo occu- 
pando os olhos» (1, 58), etc. (Cito pela edição de i852). 



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FONTES DOS LUSÍADAS 79 

Phrigia*. tE feyto cõcerto cÕ estas cõdições, os gregos, por 

3uam mal lhe socedera essa guerra, leuantarã logo discor- 
ias ãtrelles & cada hu per desuiados caminhos tornara a 
suas pátrias t (T. i, 244) (1). 

Na estancia 7." do canto ra, a qual entrava no primitivo 
começo do poema, Gamões fez-se echo desta opinião. Em m, 
57, vi, 19 e vm, 5, preferiu a versão tradicional, apesar do que 
contra ella diz Sabellico (2). Mas não se limitou a isto, pois 
em m, 140, 3, exprime-se como se, a respeito do rapto de 
Helena, adoptasse, não esta versão, mas a narrativa que Sa- 
bellico transcreve da obra apocrypha attribuida a um troiano 
— Dares Phrygio — , que teria tomado parte na euerra (3). 
tEste escreve q Elena casou com Menellao & lha tomou 
Paris per força & elrey priamo ho tinha mãdado a Grécia, 
dizendolhe que, se Telamon lhe nã quisesse entregar sUa 
hirmãa Hesiona, mandandolha pedir por embaixadores, que 
fizesse algua injuria aos Gregos» (T. 1, 245). Só em presença 
disto se comprehende bem o que o poeta tinha na mente ao 
referir-se em m, 140, aos 

. . . que foram roubar a bella Elena. 

Surge, porém, uma dificuldade. Se os gregos não conse- 
guiram tomar Tróia, se esta ficou triumphante, como se ex- 
plica o irado senhorio do verso 6.° ? Creio que o poeta escre- 
veu, não senhorio, mas poderio (4). Assim o exige o contexto 
e é o que se infere da respectiva fonte. fíDiom} trabalha de 
persuadir os Illienses que nunca foy Troya destroida dos 
Gregos, né Helena casou com Menelao, senão com Paris: 



(1) Vid. Dionis Chrysostomi Orationes lxxx. Paris, 1606. A oratio xi 
(pag. 1 5 i-ig3) intitula-se Troiana, aut de eo quod llium non sit captutn. 

(2) «Desta roubada de Helena a hi muitas openioes excludidas: aquel- 
las poéticas que Homero escreue^ cj he toda enuolta e fabulas: Heródoto 
& Diom prosiense & Dares phrigio se deuem com mais rezam de crer 
nisto» (T. 1, p. 241). 

(3) Sobre a Historia de excidio Troiae veja-se Teuffel-Schwabe, 
Geschichte der Rõmischen Literatur, 5.* edição, §471. 

(4) Erro de imprensa ou emenda propositada ? Se ás vezes é fácil a 
distincçao, outras vezes não ha motivos sufficientes para decidir. Mais 
alguns casos em que me parece foi alterado o texto do manuscripto : 
em n, 41, 7, creio deve ler-se soltá-la e não segui-la; em iv, 5o, 1, mui- 
tos annos, e não tantos annos; em x, 12, 3, o mar, e não ao mar; em x, 
128, 4, parcelosos e não procellosos; em vn, 80, 5, a custo e não ás cos- 
tas; em vi, 87, 3, provavelmente frescas flores, e não roxas flores; etc. 



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8o O INSTITUTO 

&, porque muitos de Grécia a pedia em casamêto & com 
elles Menelao hirmão Dagamenõ,... indignados de se ante- 
poer hú home estrageiro a tãtos príncipes de Grécia neste 
matrimonio de Helena, por persuadimento dos Atridas fize- 
ram os Gregos guerra a Priamo». E depois da recusa de 
itregar Helena, «se ajãtou guerra de quasi toda Grécia 
mtra Phrigia* (T. i, 243). Frustrada a primeira tentativa 
e desembarque, aos gregos, lançados fora da praya,... se 
>rnarã a trás Tfc nauegarã a Cheronenso : & dali per todo o 
tar, mais a maneira ae cossairos que de guerreiros, roubara 
Iguús lugares marítimos de Troya*. 

voltemos aos primeiros versos da estancia. Sabellico, de 
onformidade com um grande numero de escriptores, quer 
a antiguidade, quer do renascimento, considera o rio Tanais 
)on) como o limite, pelo lado de nordeste, entre a Europa 
a Ásia. Mas, neste ponto, o poeta tinha também presente 
seguinte passagem do tratado De montibus, syluis, etc, de 
occaccio: «Tanais borealis est fluuius, ingenti cognitus fama. 
x Ripheis montibus sub arctoo prorumpens, praecipiti cursu 
índit in Orientem et postquam diu oberravit, velocitate sua 
ugnans ne frigoribus cogatur in glaciem, in occiduum ver- 
tur, multas Sarmatum atque Scytharum irrigans nationes, 
ec diu ante in meridiem mergitur quam a palude suscipia- 
ir Meotide . . . Idem cursu suo Europa ab Ásia separata in 
ontum, Euxinura. . . ingreditur» (1). 

O poeta passa do nordeste a sudeste e designa por uma 
eriphrase o Mar do Archipelago : é o mar que viu o irado 
oderio dos gregos no sitio onde agora só se vêem as ruínas 
a cidade que elles debalde .tentaram tomar (2). 
É também Sabellico a fonte de 111, 9: 

Aqui (3) dos Cytas grande quantidade 
Viuem, que antigamente grande guerra 
Tiueram, sobre a humana antiguidade, 
Cos que tinham entam a Egípcia terra. 



(1) Este tratado, em forma de diccionario, costuma vir junto ás edi- 
Ses das Genealogiae. 

(2) Emquanto aos epithetos fero e horrendo, applicados a este mar, 
áo 6 difficil justificar o poeta com passagens dos escriptores clássicos, 
eja-se, por exemplo, Horácio, Odes, 1. 11, 16, 2; 1. m, 29, 63; Vergilio, 
'neida, xn, 365; Ovidio, Metamorphoses, xi, 665. É sabida a violência 
)m que ahi sopram, por vezes, os etesios na época própria. 

(3) O poeta refere-se ás regiões mais setentrionaes da Europa, onde 
:am ,os montes Hyperboreos e os Rhipheos. Sobre as opiniões dos an- 



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Fontes nos lusíadas Si 

» 

Mas quem tam fora estava da verdade 
(Já que o juizo humano tanto erra), 
Pêra que do mais certo se informara, 
Ao campo Damasceno o perguntara. 

«Scythia vay de Europa, cuja parte assina a que do* rio 
tanais, para a bãda do norte & do oriente, e se estende lar- 
gamente a terras nã conhecidas. Da mão dereita vay ao mar 
ponto & a Ásia e da outra estaa enxirida dos hõbros aos 
montes ripheos & dali se estende largamente pêra oriente^ 
tendo abraçado de pouco conhecidos termos muytas gen» 
tes.-. E pois venho a tratar destes reis (do Egypto e da 
Scythia), nã será sem rezam falar da antiguidade deites & 
breuemente direy o q disso achey. Vulgarmente hay fama 
d' antiga contéda que estes dous reys & pouos tinlia qual 
era ho mais antigo. Os Egiptios queriam leuar esta palma, 
dizêdo que a terra do Egipto era muyto temperada. As ouh 
trás ou feruiã de quentura ou geauã de frio... Os scithas 
respondiam a isto que o temperamento do ceo nam era proua 
de mayor antiguidade . . . Com estas rezões defendia cada hu 
destes pouos sua antiguidade... Muyto mais verdadeiramente 
parece q se pode afirmar que a terra que primeiro se pouoou 
estaa antre estas ambas: a qual he ho campo Damasceno & 
os lugares circujeitos a elle. Esta foy a primeira terra que fò? 
pouoada: & assi o mostra a sagrada scriptura, porque ho 
trato dessa terra. . . he Hure dos danos que te a do Egipto 
& a dos Scythas» (T. i, i3-i5). 

Passemos á estancia 10: 

Agora nestas partes se nomea 
A Lapia fria, a inculta Noroega, 
Escandinauia Ilha, que se arrea 
Das victorias que Itália nam lhe nega. 



tigos a respeito da localização destes montes e da sua existência ou não 
existência, veja-se D'Arboís de Jubainville, Les pretnters habitants de 
VEurope,** edição, i, p. 232-241. 

A periphrase empregada pelo poeta para designar os montes Rhi- 
pheos, 

. . . aquelles onde sempre sopra Eolo 
E co nome dos sopros se enobrecem, 

provém destas palavras de Boccaccio (De mottíibus, etc.) : «Rhiphei mon- 
tes sunt Scythiae,. . . a perpetuo flatu ventorum nuncupati» (Edição de 
1J11, fl. i38). Boccaccio e com elle o poeta alludem á etymologia grega 
- — f \ff — (sopro). 

VOL. 55.°, N. ' I E 2 — JANEIRO E FEVEREIRO DE 1908. 6 



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82 o iNSTtrtrro ' 

Aqui, em quanto as aguas nam refrea 
O congelado inverno, se navega 
Hum braço do Sarmatico Oceano 
Pelo Brusio, Suecio & frio Dano. 

A respeito da Escandinávia ilha o poeta leu em Sabeliico 
o seguinte: cFuit gens ipsa (trata-se dos Lombardos) ex 
Scandinauia oriunda. Est insula haec Germanici Oceani, in 
Gxlano sinu, quem Seuo mons nihilo Rypheis jugis minor 
uasto efficit circumacto, ad Cymbrorum usque promontorium 
extensum. Multae in eo insulae; Scandinauia omnium má- 
xima, ac tantae magnitudinis, ut Hilleuionum gens quotam 
insulae portionem quingentis colat pagis; caetera maçnitudo 
incomperta, quae quanta sit uel ex eo potest intelligi, quod 
accolae alterum orbem terrarum uocant» (i). Quer dizer: a 
Escandinávia, para o historiador italiano, é uma ilha muitís- 
simo grande do archipelago chamado hoje dinamarquês. 

As palavras 

que se arrea 

Das victorias que Itália nam lhe nega, 

ailuderh genericamente, segundo W. Storck, ás lutas entre 
Roma e os Germanos: cGemeint sind Roms Kãmpfe rait 
den Germanen Uberhaupt» (Die Lusiaden, p. 394). 

Vemos, porém, por Sabeliico que o poeta se quer referir 
ao estabelecimento dos Lombardos na Itália. 

E esta não nega, antes reconhece pela boca de um de seus 
filhos — o auetor das Enneadas — , as victorias que a longín- 
qua ilha então obteve e de aue tem direito a gloriar-se. 

Eis o que elle diz, antes da passagem que acabo de repro- 
duzir: «Non deerit, credo, pretium operae si hic, priusquam 
Longobardorum in Italiam accessus referatur, paululum in 
vetustate gentis explicanda immorabimur, ut qui hominum 
fuerint sciri possit, qui tunc Alboini duetu tetTam omnium 
nobilissimam oceuparunt, oceupatam ducentos & amplius an- 
nos tenuerunU (2). 



(1) E. 8.% 1. 5.°, p. 5 10. A fonte de Sabeliico é Plinio, Naturalis His- 
toria, 1. iv, cap. i3. 

(2) Na En> 7.", 1. 1, p. 240, le-se : «Satis constat quicquid terrae intra 
Alpes iacet & Apenninum Umbrorum olim fuisse, qui inde a Tyrrheois 
sint eiecti ; Tyrrheni a Gallis, Galli a Romanis, Romani a Longobardis, 
qui postremo nomen ipsi terrae indiderunt». E na En. &•, 1. 5, p. 5i5, a 



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FONTES ÍK)S LUSÍADAS 85 

Os dois primeiros versos da estancia io. a não se ligam 
bem, quer com o pensamento principal da estancia anterior* 
quer com o verso que se lhes segue. O presente viuent da 
9, 1, e o agora de 10, 1, se não são antagónicos, também 
não se acham em perfeita harmonia. Por outro lado, a Scan* 
dinauia ilha, além da falta do nexo grammatical com o verso 
anterior, não se coaduna com a referencia á Lapia-e á No- 
ruega, a qual já suppõe noções mais exactas e mais precisas 
a respeito desta região. 

Mais ainda. Esta referencia ultrapassa o horizonte geôgra*» 
phico, quer de Boccaccio, quer de Sabellico, dentro do qual 
o poeta se mantém, ao fazer a descripção do norte da Eu- 
ropa (1). 

Esse horizonte coincide com o das cartas que costumam 
acompanhar as antigas edições da Geogi*aphia de Ptolemetu 
É o mesmo que se encontra na tabula 1, 0, Piolemaei orbis à 
do bem conhecido Atlas antiquas de Perthes. 

Ao norte da Germânia e da Sarmacia (Scythia) da Europa, 
não longe dos montes Rhipheus e a oeste dos Hyperboreos, 
estende-se um grande mar, em que avultam uma ilha (Sc,an- 
dia, Scandinavia) e uma península (a actual Jutlandia). É o 
Mar Septentrional de Boccacio: «Ultra (montes Ripheios) 
iacet ora quae spectat ad oceanum aquilonarem, pars mundl 



Í>roposito da invasão dos Lombardos: «Nulla unquam maiore clade 
talia concussa èst». 

Nas Rerum Venetarum. .. Decades diz também Sabellico, referin- 
do-se ao mesmo povo : «Ex Scandinauia, Germanici Oceani insula, gens 
ipsa oriunda dicitur... Procedente tempore... in Panoniam uenere; 
hinc. . - in Italiam irrupere, ubi eorum opes eousque creuerunt, ut annos 
ducentos et amplius in ipsa terra rerum sint potitio (Dec. 1.% 1. i.°). 

(1) Embora a Escandinávia appareça já como península em uma 
carta-portulano do século xiv, ainda nó século xvi navia auetorizados 
geographos que a consideravam como ilha. Sobre aquella carta diz R. 
Beazley no seu monumental trabalho The dawn of modem geography^ 
m, 5 18-519 ( Oxford, igoó) : «Of far more complete scope and of rar more 
perfect workmanship is the admirable... portolano-map left us by «Iohn, 
rector of St. Mark in the Gate of Genoa», a personage probably iden- 
tical with that Giovanini da Carignagno, who. . . dies in 1344. . . Scan* 
dinavia.. . is shown as a península, for the first time in existing carto- 
graphy». Dos tratados de ceographia do século xvi citarei apenas o 
Gosmographicus liber do afamado Apiano (edição de Gemma Phrysio, 
Antuérpia, i533), fl. 49. Na Geographia di C. Tolomeo .. nuovamente 
tradotta ai Greco (Veneza, i56i), G. Ruscelli julga-se ainda obrigado a 
corrigir o antigo erro: «Queila (falia das ilhas próximas da Germânia) 
che Pomponio chiama Cadanonia & Plínio Scandinauia & noi Scan dia, 
non è isola, ma peninsola grande» (p. 118). 



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84 O INSTITUTO 

a ; natura rerum danata et densa demersa caligine *(Dè monti- 
fyu*. «tc M fl. i38). É o Mar Scythico de Saoellico, que nas 
costas da Polónia, da Prússia e da Lithuania se chamava 
dantes Oceano Sarmatico e depois, recebeu o nome de Bál- 
tico, e se liga com o Mar Germânico (Mar do Norte) : «Bal- 
teum maré nunc quod Sarmaticus olimfuit oceanus... Intra 
Scythicum oceanum & Germanicum Balteum maré consti- 
tuunt recentes. Scythicus oceanus a Scythia est, cujus septen- 
trionalior pars Almachium dicitur ab Hecateo, quod Scythica 
sonet lingua congelatum. Philemon Morimarusam a Cimbris 
Uocari, prodidit, hoc est, mortuum maré. Id secuti nostro- 
runD quidarn glacialem uocant oceanum, insolubili glacie con- 
cretum» (En. 10, I. 4, p. 923-924). 

. Tudo. isto me leva a suppôr que em m, 10, 1-2, houve 
uma alteração do primitivo texto, que poderia ter sido, escrí- 
ptú assim: 

Para lá bestas partes se 'nomea 

O Mar Gelado, onde ninguém nauega, 

E a Escandinauia ilha, etc. 

< E a substituição poderia ter sido motivada pela seguinte 
passagem da 3. a década de Barros, publicada em i5ôJ: cA 
Europa,... começando da ilha Cález,... vae torneada & 
cingida do mar occidental & despois q chega ao cabo de 
fijs terra, corre ao norte até chegar ás regiões & reino Di- 
namarcha, & des i faz a grande enseada, a que chamão mar 
Balteo entre a Sarmacia & TVòrduegia, com o mais que se 
vae continuando com a terra Laponia & a outra regelada, 
a nos incógnita» (L. 2, cap. 7) (1). 



(1) É também possível que em 10, 8, se lesse primitivamente Suero 
e nao Suecio. Com effeito, Tácito e outros escriptores faziam chegar os 
Suevos até a costa do Báltico (d'ahi o nome que também lhe foi dado 
de Maré suevicum) : «Ueber ihre Ausbreitung und Wohnsitze herrschten 
sehr verschiedene Meinungen, die jedoch alie daria Ubereinstimmen dass 
suevische Stámme die grõssere Hàifte von ganzen Germanien bewohne- 
ten. Tacitus Gertn. 2 u. 5 nennt das ganze Õstliche Germanien voo der 
Donau bis zur Ostsee (an welcher auch Nepos bei Plin. n, 67, u. Mela, 
m, 5, 8, Sueven wohnen lassen) Suevia*. Pauly, Real-EncyclopSdie, 6, 
?.• parte, p. 1480. 

Nesta nypothese o poeta, no verso citado, mencionaria, de leste para 
oeste, os povos que circumdavam a costa, para elle conhecida, do Bál- 
tico. Nem deve causar estranheza o anachronismp resultante da inclu- 
são dos Suevos entre os Brusios e os Danos. Basta recordar os Panno- 
nios da estancia seguinte (11, 6). 



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FONTES DOS LUSÍADAS 85 

Em ih, ii, 3-4, diz-se que 

na montanha 

Hircinia os Marcomanos são Polónios. 

Ora em Sabellico leu o poeta que os Marcomannos eram 
de raça germânica. Basta citar esjta passagem, relativa aò 
tempo de Marco Aurélio: «Marcomanni facti sunt hostes, 
gens Germânica, Quadis uicina. . . » (En. 7.% 1. 4. , p. 3 17). 
A respeito da raça dos polacos, o que ahi se diz é que elíes 
eram sármatas: «Moravos & Sarmatas, qui Poloni sunt ho-* 
diet, etc. (En. 10.% 1. 4, p. 922). 

Que escreveria então Camões ? Poucas linhas depois destas 
palavras, prosegue Sabellico: «Masouitae, aut ut quidam scri- 
bunt, Massagethae, Poloniae regi parent... Inter Liuoniam 
accolunt & Pruteniam, siue Prusiam. Itinere unius diei Her- 
cinia sylua totam percurrit Poloniam, panditurque latius circa 
Cracouiam, regiam urbem. . . Masouitae sunt A Poloni» (p- 
923-924). 

O "poeta não fez mais do que traduzir estas ultimas pala- 
vras. E se pudesse ainda subsistir qualquer duvida, esta des- 
appareceria com a referencia que raz Sabellico, aliás inexa- 
ctamente, á Silva Hercynia, que, como é sabido, não che- 
gava tão longe (1). 

Em iii, 19, 1, especifica-se, como uma das nações que ha- 
bitam a Península, 

... o Tarragones, que se fez claro 
Sojeitando Parténope inquieta. 

W. Storck commenta: «Alfons V von Aragonien ist ge- 
meint. % . — Warum ihn Camoens den Tarragonen nennt, 
weiss ich nicht zu sagen» (Die Lusiaden, p. 39?). 

A referencia, porém, é mais propriamente ao povo arago- 
nês, do que ao rei que conquistou Nápoles. E, antes de em- 
pregar a palavra, leu o poeta em Sabellico: «Magna & in 



(1) Também o poeta não foi feliz, vertendo aqui silva por montanha, 
apesar de Sabellico dizer : «Aiunt Poloniae nomen a Pola esse, quae vox 
planitiem significet; plana est plurimum regio» (Ibid. ? p. 022). A tradu- 
ção seria mais exacta, se se tratasse das regiões que a floresta Hercy- 
ma effectivaraente cobria. 



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86 O INSTITUTO 

Hispânia rerum & nominum, immutatio facta est. Quae enim 
Bethica fuit in Granatae nomen abiit... Tarraconensis in Ca- 
talauniam & Aragoniam abiit» (En. 10.*, 1. 8.°, p. 1012). 
Em 111, 60, 3-4, diz-se que Lisboa 

Aa grande força nunca obedeceo 
Dos frios pouos Sciticos ousados. 

Foi também nas Enneades que o poeta encontrou a se- 
guinte noticia, a propósito da invasão da Espanha pelos ala- 
nos, vândalos e suevos: tTum vero multiplex clades est 
omne Hispanum nomen adorta, foedaque hominum & rerum 
strages secuta, quicquid a Pyrénaeo ad Oceanum patet soh 
in praedam & populationem abiit... Olisiponenses Oceani 
accolae sibi auro pacem redemerunt, ne urbs ab ea gente 
circumsessa maiorem aliquam adiret cladem» (En. 7.*, I. q.°, 
p. 418). E esta informação colheu-a Sabellico em Biondo: 
«Secundum Tagi amnis rluenta ad Átlanticum descenderunt, 
nec prius quam ad Olysiponis moenia consedere ; non tamen 
sunt potiti, sed>pecunia per pactionem accepta abscessere du- 
xereque quo furor eos aut praedae spes certior attrahebatt 
(Dec. i.% 1. i.°, p. i3). 

(Continua). Dr. José Maria Rodrigues. 



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ANTELOQUIO DO LIVRO — A VIDA MENTAL PORTUGUEZA 87 



ANTELOQUIO DO LIVRO 
A VIDA MENTAL PORTUGUEZA 



Eu não sei se ajustam bem ao titulo cTeste livro as paginas 
aventureiras que o teceram. 

Provavelmente não. 

^Prender num só aro a causa vária da mentalidade de um 
povo, se é fito possível, pendemos a crer .que o não alcan- 
çássemos, na preferencia d'aquelle titulo. 

Também, a bem dizer, não o tentamos. Procuramos um 
ponto de apoio, sobretudo um ponto de partida. 

D'este ponto seguiu a Idéa psychologica, um tanto livre e 
incuidada na sua derrota, a marcar o mais das tonalidades 
caprichosas dos homens e factos contemporâneos, as baixas 
e altas marés da mentalidade portugueza. 

Conseguir-se-ia o fim d'esta jornada ? 

Cremos que sim, em parte. 

Dando de todo as velas a tal pensamento começámos pela 
Arte, tratando-Ihe os prejuízos, e offerecendo numa exem- 
plificação precisa a figura de Camillo, como a mais ajustada 
a bater o erro positivista, pela alta individualidade que foi 
e valeu de encontro á litteratura official ou militante. 

E a razão dos primeiros capítulos d'este livro, por ventura 
os que mais sentimos e cuidamos, de tal forma vae ajustando 
ao plano e execução geral do estudo, que invariavelmente 
seguimos com os methodos ahi usados, na versão das mais 
figuras e successos, que a obra extrema. 

Contrariamente aos processos correntes, inclinamo-nos á 
particularidade e á miudeza. 

E por estas alcançamos a cambiante mental do espirito 
portuguez, no que podiam refrangel-a as figuras e casos vá- 
rios que a obra enlaça. 

Aquella resultante poderá parecer uma illação custosa e 
mal atida a poucos factos, inquinada, portanto, de multípli- 
ces defeitos. 

Será assim. Entretanto vale por mais verdadeira ou seja 
como mais próxima, na casuística que verte. 



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88 O INSTITUTO 

Tratam-se de parceria roxos e vermelhos, figuras sem 
cor, espíritos alheios a empecilharem no successo da rua, os 
ídolos da multidão, ainda aquelles que todos applaudem, 
poucos lêem, e menos comprehendem, todas as figuras, emfim, 
que na jornada portugueza podiam ser agentes de um pensa- 
mento lançado a dirigir e entregue á selecção do tempo. 

E ainda com este inquérito a todos os credos, segue parai- 
lelamente o estudo do meio, onde demo9 entrada ao proble- 
roismo moral, educativo, económico e politico, em capitulo 
especial : — A mentalidade portuguesa. 

Também foi versado o Jornalismo, e mal podia deixar 
de sel-o, pois importa uma das maiores forças do tempo, 
figurando de sonometro na vida publica, mal regulada. w 

-Ha no assumpjo verdades tristes. Entretanto, terminamos 
archivando esperanças e bons serviços, á conta das ultimas 
campanhas, que bem aferem da vida superior de alguns jor- 
nalistas, e devem ser ponto de sahida a ulteriores e sequentes 
jornadas. 

Importa insistir, 

Emquanto a imprensa extrangeira, alheada dos princípios 
da mais rudimentar humanidade, se dava a espalhar remo- 
ques e injurias sobre a nacionalidade portugueza, á tristís- 
sima opportunidade do brio portuguez em descida, o nosso 
jornalismo batia-se no mesmo campo de perseguição em que 
a vida official o fechara, c redimia a isenção e sacrifícios 
velhas cumplicidades e a desorientação passada. 



Emfim, de entre os prejuízos accumulados pelo tempo 
numa sociedade fácil, como tem sido a nossa, destacam os 
melhores elementos de renascimento, que importa aproveitar 
numa tentativa de difterenciação de núcleos, famílias politi- 
cas, e espíritos approximados, — tudo grupado segundo as 
afijnidades mentaes e os mais perduráveis laços affectivos. 

Também foi este um dos pensamentos que superintende- 
ram neste livro. 

Quanto a urdidura melhormente decidirá nella quem de 
animo sereno ler e cotejar com aquelle pensamento as pagi- 
nas diversas que vae ler. 

Se valerem tal canceira. 



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ANTELOQUIO DO LIVRO-- A VIDA MENTAL PORTUGUEZA 8$ 

Finalmente importa prevenir uma eventualidade porque já 
pagamos: — a de que nos alcunhem de libertário, em com- 
mento de qualquer pagina mais ensombrada (i). 

Se os capítulos que o leitor vae seguir resumarem, num ou 
outro traço tristeza excessiva, não nos inculpe de tal delicto. 
Cremos que o facto advém da mesma circumstancia de ver- 
sarem a causa humana no que ella tem de peor — a vida 
mental. 

Mas qualquer outra explicação relevámos. 

Pôde esta ser a nossa índole e sentir intimo, qualquer 
circumstancia de momento, a própria influição d'este retalho 
de paisagem, de onde escrevemos, abundante em névoa e 
sombras, e tão de geito a lembrar que vemos a vida por 
lentes esfumadas... 

Tudo admittimos, uma vez que nos concedam os melhores 
intuitos de verdade na urdidura fácil d'este livro a que ren- 
demos as mais serenas e sentidas horas. 



(i) Um dos mais importantes jornaes portuguezes de entre os avan- 
çados — O Mundo, alludindo com palavras de benévolo acolhimento a 
um dos últimos trabalhos do Auctor, A Moral na Religião e na Arte, 
diz que este opúsculo, «a despeito da um certo pruído orthodoxo, 
consegue irmanar na obra libertaria d'este fim de vida». 

E insiste : «Faz-se de facto no brilhante opúsculo a apologia da mis- 
são; destaca ahi a vantagem histórica d'um predomínio que enraíza no 
passado o valor da moral na seita. Mas no fim de tudo que conclue o es- 
criptor ? Que a moral da arte é uma mentira e a moral religiosa é uma 
tentativa fallida. Quer dizer depara-se-nosj sobretudo em demolidor, 
um libertário o appellidamos e bem. Demolir para construir depois pa- 
rece o seu fim e deve ter sido o seu propósito. D'ahi a irritação com 
que embate contra a vida publica de hoje, o traço com que estigmatisa 
a moral da arte ; finalmente, escravo d'esta, é curioso ver como, talvez 
sem dar por isso, lhe faz a apologia, saudando nos trabalhos do seu 
adorado Camillo, outro demolidor, a mais artística das nossas obras. 
Aquelle escriptor, note-se, é o mesmo que no opúsculo lhe merece o 
titulo de arbitro supremo na discutida arte. E que o não fizesse, lel-o é 
ver quão cuidado é o seu processo de dizer — processo que soube se- 
leccionar em obras que podiam ter ou não ter moral, mas que tinham 
necessariamente uma grande forma, aquella mesma que tão brilhante- 
mente caracterisa o opúsculo da primeira á ultima pagina. Emfim, oxalá 
que corrigida a má vontade do nosso escriptor, para com a sociedade 
que ás vezes bem injustamente maltrata, elle se dê a futuros trabalhos 
em que de novo faça destacar ao lado da sua bagagem erudita o seu 
fino processo de critica e forma». 

(Do Mundo, 5 de fevereiro de 1906). 



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90 O INSTITUTO 



O JORNALISMO 



Entre nós não é o, leitor quem inspira a vida jornalística. 
O leitor só a paga. É o jornalista quem determina e explora 
a leitura, quem orienta ou desorienta a vida social pelas opi- 
niões cjue versa e impõe. 

Assim, em regra, idéas acanhadas, e para mais servidas 
por espíritos vedados ao motivo social da vida portugueza, — 
são também uma causa da desordem moral que temos con- 
signado, bem que isto pese aos poucos que importa dife- 
renciar. 

Vimos já do poder de adaptação da gente portugueza. O 
mesmo foi que explicar o vaivém da opinião, sempre calma 
e tolerante, 30 propósito dos motivos mais desencontrados 
e oppostos. E a lei de todos os povos fracos. 

E muito especialmente a nossa lei. 

Obedecemos por costume e commodismo, por preguiça, 
educação e índole. Por Índole, sobretudo. 

Assim é que, se, de facto, os jornalistas se impuzessem a 
tarefa de uma evangelização superior, os milhares de leitores 
que Portugal conta, apesar do analphabetismo qué domina, 
lançar-se-iam na corrente da imprensa, de tal forma orien- 
tada, em beneficio de uma redemptora modificação de am- 
biente. 

Mas tal não succede. 

Da mesma forma, se o commum dos leitores gosassc de 
uma vontade bem educada c alheia a suggestôes de rhetorica, 
cm serviço de themas superficiaes ou absurdos, também me- 
Ihormente o jornalismo teria de conduzir-se. 

Mas também isto sê não dá. 

Excepcionalmente as empresas jornalísticas, começaram, a 
partir de ha poucos annos, a chamar á imprensa diária es- 
rriptores já consagrados. 

T entaram-no a medo. 

Tinha-se accordado em que os jornaes eram órgãos das 
famílias politicas, em que Portugal se dividira, e este accordo 
era de molde a vedar ás empresas um convite, que reputa- 
vam perigoso. * 

Os primeiros a romper com o preconceito foram os diários 
nculcados como independentes, — que numa grande incer- 



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O JORNALISMO 91 

teza de interesses jogaram a novidade a mesquinhos orde- 
nados. 

Houve sempre um chronista no jornal, a quem se exigiam 
mais cuidados, conhecimentos litterarios e portanto uma certa 
cultura geral ; mas a nota dominante foi sempre a miudeza 
na reportagem, á conta do melhor esclarecimento, no que 
pudesse entender com a predilecção leveira do publico por 
educar. 

E aquelles mesmos a quem exigiam serviço mais cuidado, 
não podiam furtar-se ao ambiente dominante, presos ainda 
á idea de conquistarem o grande numero de ledores, razão 
porque se desobrigavam, chalaceando burlescamente, ou pren- 
dendo dos successos mais notórios phrases ocas de problemá- 
tica moral. 

Os chamados jornalistas de talento foram aquelles, que ao 
serviço de uma idéa sectarista, ou ainda de um homem pu- 
blico embrenhado no mais porfiado intento politico, faziam 
da penna alavanca de governo e por ella ergueram ou alija- 
ram ministérios. 

Foram disto exemplo Sampaio e Teixeira de Vasconcellos 
c, em dias mais chegados, Navarro e Marianno de Carvalho. 

Não ha duvida de que os jornaes poctuguezes tem evolu- 
cionado em bem. Mas muito lentamente. Literariamente 
superiores aos passados, deixam, entretanto, muito a desejar 
sob o ponto de vista da finalidade doutrinaria que mais devia 
encaminhal-os. 

Vingam ainda principalmente como fonte de receita. Amoe- 
dou-se a idéa, á conta de uma profissão indevidamente escan- 
carada a todos os indisciplinados que a ousam. 

E, assim, tornou-se vazadouro de uma classe de gente de 
meia instrucção, em regra incapaz de semear princípios que 
sirvam a orientar, e que afinal vêem tentar para o jornal um 
apprendizado de vida opportuna, á conta de uma melhoria 
de situação pessoal. Este opportunismo vaza, quasi sempre, 
na circumstancialidade politica, que simultaneamente serve 
de bordão e mascara. Depois, a pouco e pouco, a incompe- 
tência alçada até á força do jornal, que é muitas vezes o 
clarim de centenas de leitores, pregoa, de animo lasso á 
Idiotia que applaude e paga, tudo o que o momento suggere : 
— a verrina, a insinuação, os casos de familia, a disputa po- 
litica condimentada a brejeirice saloia, tudo emfim o que 
pócje magoar, mas render. 

É que a commentar o caso vale bem a observação de 
Com te: a força sem a auctoridade é o que ha de peor. 



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§2 O INSTITUTO 

Demais, também, em regra, os improvisados no jornalismo 
são creaturas açodadas por uma complicação de vida que os 
torna infelizes e em geral impertinentes. 

Quando menos de tal infelicidade e impertinência tempe- 
ram os escriptos, commentos de vinte e quatro horas, aos 
casos e homens da occasião. 

Claramente que é aos mais salientes que fitam, e no ba- 
lanço feito entre a situação própria e a felicidade alheia, 
contrapesa o resentimento pessoal, a que a inferioridade 
mental não sabe reagir. 

E quando o jornalista d'aquella forma tirocinadá* se revela 
com talento, peor ainda. 

Então é um triumphador a seu modo. Chega a tudo, pois 
em tudo desdobra aquella índole, pessimamente creada e 
amplamente garantida. 

Do facto tem resultado, cjue dentre as dezenas de jorna- 
listas, que em nome da Liberdade e para ella se dizem 
creados, — raríssimos juntaram ao talento a primeira condi- 
ção da sua obra messiânica — a independência pessoal. E 
d'ahi também a idéa que tem lavrado, de ser o jornalismo 
uma força péssima e as redacções sociedades de interesse. 

Já o ultramontano Veillot promovia querella, creio que no 
livro Les libres panseurs, contra os diários, á conta do que 
elle bem appellidava as questões lateraes. 

Estas questões são em França, e também entre nós, em- 
bora em menor escala, a causa das parcialidades commer- 
ciaes, os alarmes de bolsa, o credito ou descrédito negociados 
das industrias, a questão vinícola do sul contra o norte, ou 
do norte contra o sul, etc. 

Isto no que respeita á exploração clandestina. 

Ha outra exploração de lucro constante e que melhormente 
tem servido os jornaes, pelo meio a que se destinam entre nós. 

E a exploração da pasmaceira pelo escândalo do dia, bem 
descripto e até illustrado nos jornaes da primeira hora, em 
serviço de informação a este soalheiro de indolência e senti- 
mentalismo nacional. 

Ahi se tem feito o alarde de toda a miudeza ridícula, e 
quando esta tem faltado ao successo, a reportagem inven- 
cioneira jamais deixou de imaginal-a para o caso de a fazer 
valer no estipendio da miséria impressa. 

Tristíssima vida! mau grado ser lucrativa e celebre. 

Quando foi do porfiado Caso das Trinas, Fialho d' Almeida 
versou bem esta forma particular de jornalismo, em que 



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O JORNALISMO t)3 

dois dos* mais lidos diários de Lisboa se deram á traficar 
com a infelicidade de uma pobre rapariga, á conta do seu 
desfloramento e morte, entregues aos tribunaes. 

Era de ver a maneira porque um particularisava o successo 
do desfloramento, que não tivera testemunhas, para pendu- 
rar ao rosário dos odiados Jesuítas, um novo medalhão de 
infâmia; do mesmo passo que o outro desdobrava também 
hypotheses, futilezas e sophismas, com destino a baralhar a 
questão e salvar os padres ; culpava o -tutor da desflorada 
e aventava circumstancias emmaranhadas de conhecimentos 
ultra-scientificos para agradar d gente do bom tom, feita pa- 
ladina dos bons e mau$ successos ecclesiasticos (i). Uma boa 
miséria... 

Taes os processos que têem confluído á vida portugueza, 
por parte de grande numero de diários, e que com outros 
elementos de desordem, também já elucidados, determinaram 
o presente estado. 

A relação de dependência entre esta imprensa e a politica, 
explica a baixa parallela das duas forças que um interesse 
mal encaminhado enlaçou. 

Por estes processos têem especialmente seguido aquelles 
a quem a falta de escrúpulos deu ainda força para as mais 
notórias campanhas. 

Ainda os de menos talento têem sido bem aproveitados. 
Demais taxou-se que a obra politica prescindisse de quali- 
dades superiores, para attentar na condicionalidade aventu- 
reira das formas opportunas, e assim foi alargado o âmbito 
do recrutamento a effectuar. 

A vontade ambiciosa, alcatruzada pela necessidade occa- 
sional, num meio de subserviência, tem dado a todos garan- 
tia de boa jornada, no que importa a tal forma de seguir. 

Infelizes tempos, diria ainda Veillot, que tão legitimas tor- 
nam as aspirações dos tolos!» 



O crime das classes médias tem sido a comparsaria d'esta 



(i) Importa esclarecer que qualquer dos diários a que alludimos 
soffreu já transformações importantes, nassando um d'elles, pelo menos, 
a nova Empresa, depoÍ9 da uata d'aquelles successos. 



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94 O INSTITUTO 

vida desorientada, numa declinação censurável, e de todo o 
ponto impossível. 

Os interesses moraes cederam o passo ao utilitarismo mais 
desenfreado. 

Vingaram os empenhos amoraes, que não os intentos su- 
periores. 

Na enxurrada da opinião a custo têem destacado os raros 
que se propuzeram valer pelo grito irreverente de unia vida 
á parte, com os olhos no futuro. 

Çste futuro parece longe aos mais desalentados. 

E que a historia do homem, nas multíplices sinuosidades 
que patenteia, não raro instrue os mais inesperados ou ilk>- 
gicos regressos. 

Depois, ha ainda para justificar taes desalentos o caso da 
Europa, quer em conjuncto, quer na vida particular dos 
aggregados em que se reparte. 

Ainda mais, é na imprensa extrangeira que melhormente 
podemos ver das misérias moraes, que agitam os povos con- 
siderados cultos. 

Aos fitos materiaes acodem as attenções das Empresas. 
E mercê de taes intentos corresponde sempre ao meio maior, 
uma peoração de jornalismo, que bem inculca a lassidão do 
mesmo meio. 

Sempre o mais notório egoísmo. 

Assim as questões externas, as mais escrupulosas de versar, 
e ás quaes era devida uma indispensável isenção, — instruem, 
pelo contrario, a mais patente e vergonhosa deshumani- 
dade. 

O facto recente da dictadura portugueza deu campo a tal 
desorientação. Era de ver o empenho da imprensa extran- 
geira, e mormente da que se inculca o sonometro dos povos 
mais civilisados a encarecer as virtudes do nosso regresso 
ao despotismo! 

E sempre assim procede. 

A imprensa inglcza, por exemplo, incompatível com a me- 
nor quebra de liberdades próprias, remotamente conquistadas, 
achou naturalissimá a dictadura portugueza, e do mesmo 
passo applaude e serve o absolutismo russo, o regimen turco 
e todo e qualquer arbítrio, que, por mais deshumano exceptue 
das suas malhas o povo bntannico. 

Da França e' demais nações outro tanto pôde dizer-se. 
E comtudo é ainda a Europa que, suppondo-se carreada 
por princípios humanitários, por ter alijado as manhas e tam- 



J J 



~^r~ 



O JORNALISMO g5 

bem as virtudes antigas, se dá a encarecer progressos ruido- 
sos, pregoando civilização e paz 1 

Em fim, morosíssima vae sendo a jornada do homem, para 
o alvo da sua perfeição moral, e consequentemente também 
morosa continua sendo a travessia dos ággregados sociaes, 
no que importa a isenção e finalidade superiores. 

Assim a Imprensa, um tanto lógica com estes estados, 
caminha, em regra, á mercê dos successos, amoedando opi- 
niões e commentarios, e explorando o tempo. 

É que todos os defeitos do homem, typo no aggregado, 
se desdobram e estampam no conjuncto a que a sociabili- 
dade o chama. A vida do jornalismo é erro parallelo d'este 
estado. 



E entretanto não pôde negar-se que na consciência portu- 

Sueza a Imprensa accendeu ultimamente a boa luz da digni- 
ade civica, que uma aventura politica conseguira apagar 
em parte, mercê da triste cumplicidade dos titans mercená- 
rios d'áquem e alem dos Pyrenéos. 

E que da boa dezena de espíritos que nas Empresas jorna- 
lísticas foge á dependência de que vimos faltando, partiu o 
grito austero da revolta na hora em que a dignidade não 
podia calar e a nullidade tinha de regeitar-se á arena estreita 
da vida subalterna. 

Em competência com o jornalismo de fora cumpriu a Im- 
prensa portugueza o sopesante mas compensador dever de 
affirmar a opinião honesta, contra todos os entraves officiaes, 
na guerra aoerta a que o despotismo a reptara. 

A rudeza do ataque de cima deu alentos aos que de baixo 
jogavam felinamente o melhor das suas forças em que inte- 
ressavam o destino de cinco milhões de creaturas. 

Por fim a alma portugueza teve de lamentar o epilogo de 
sangue que a fatalidade poz no incidente histórico. Não o 
queria a Nação, certa como era da nobreza da causa porque 
luctava, e de todo extranha ao processo tristemente summa- 
rio de tal liquidação. 

Entretanto, a tensão de animo que melhormente animava 
o combate e mais amadurecera a solução do problema, de- 
ve-se á Imprensa que accordou a tempo, em bem da Nacio- 
nalidade, amesquinhada ao ultimo vexame. 



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96 O INSTITUTO 



sforço o primeiro voo d'uma ascensão melhor ? 
ffirmal-o. 

rchive-se o acontecimento e inclinemo-nos antes 
orizadas que desbravaram o mattagoso terreno. 
> jornalismo valia e como atravez das mediôcri- 
m occupado a Imprensa, destacava a guarda 
jornalistas conscientes, sabedores dos talentos 
próprios, e bem de molde a baterem-se e a 

não abandonem as posições tomadas, em bene- 
as mediocridades aventureiras, pois muito ha 
ia etfectividade na Imprensa, no que interessa á 
a da gente portugueza, tão cabida e opportuna 

intervirem. 

Visconde de Villa-Moura. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Redacção k administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e edição da Director Composto e impresso na 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Universi- 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SGIENCIAS PHYSICO-MATHEMATICAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n. 0> 1 e 2, pag. 37) 



[r 4 14] — * — Taboa da diferença dos meridianos dos logares 
principaes da terra relativamente ao Observatório 
da Universidade de Coimbra com as suas latitudes 
ou alturas do polo. Taboa cosmographica dos portos, 
cabos, ilhas e logares das costas marítimas do Orbe 
terraaueo, com as latitudes e longitudes contadas do 
meHaiano de Coimbra (Sans fronstispice). 

[r 4 1 4] — Eusébio da Veiga — Taboas perpetuas e immudaveis, 
ordenadas na forma, com que se explicam no Plane- 
tário lusitano, para o uso mais commodo e piaxe 
mais fácil dos seus problemas. 

[r 4 14] — Francisco António — Taboadas perpetuas e immu- 
daveis, etc. Lisboa, Officina de J. António da Costa, 

i 7 65. 

[t 4 14] — Eusébio da Veiga —Effemeredi romane... per Varino 
ij85, Roma, 1784 (Ettemeridi iitter. di Roma, xiv, 

81-82). 

VOL. 55.°, N.° 3 — MARÇO DE I908. I 



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98 O INSTITUTO 

[r 4 14] — Eusébio da Veiga — Tavole delV Efemeridi romane 
per Varino 1786, Roma, 1785 (Eflfemeridi litter. di 
Roma, xv, 17-18); Ibid , 1787, Roma, 1786 (Ibid., 
xvr, 23-26); Ibid., 1788, Roma, 1787 (Ibid., xvn, 
p. 33); Ibid., 1789, Roma, 1788 (Ibid., xvm, p. 65); 
Ibid., 1790, Roma, 1789 (Ibid., xix, 73-75); Ibid., 
1791, Roma, 1790 (Ibid., xx, 41-4.3); Ibid.,_j792, 
Roma, 

(Ioid.," xxiv, p. 11 3). 



, Koma, 1790 (ibid., xx, 41-45); íoia., 1792, 
a, 1791 (Ibid., xxi, 41-42); Ibid., 1794* Roma, 
(Ibid., xxiii, 193-194); Ibid., 1795, Roma, 1794 



1 14] — # — Ephemerides náuticas, ou diário astronómico 
para o meridiano de Lisboa (1), Lisboa, Typogra- 
phia da Academia real das sciencias, 1788 e se- 
guintes. 

Cette publication faite par TAcadémie des scien- 
ces de Lisbonne, a commencé en 1788. 

À cette époque-là, le méridien de Lisbonne 
était celui qui passait par 1'Observatoire de TAca- 
démie des sciences (2) et qui était à 9 9' à Pouest 
de ^Greenwich. 

À partir de 1799, jusqtfà i863, ces éphéméri- 
des ne furent plus dressées par TAcadémie des 
sciences, mais par l'Observatoire astronomique de 
la marine, par celui annexé à TEcole polytechni- 
que, etc, les calculs étant faits par rapport à di- 
vers méridiens. 

14] — J. MilitÃo da Matta — Taboas de reducção para 
conhecer facilmente a differença de latitude e apar- 
tamento do meridiano, que se obtém com qualquer 
derrota, Lisboa, 1800, i8o3, 1807. 

14] — # — Taboas auxiliares nos usos das ephemerides 



(1) Les savants qjjí ont calcule ces ephemerides, sont: C. Gomes 
.las Boas (1789-1705). J. M. Dantas Pereira (1796-1798), Damoiseau 

Monfort (1799-1809), A. Diniz do Couto Valente (i820-i835), 
Valente do Couto (i836-i863), ce dernier ayant déjà composé les 
íémérides relatives à 1'année 1826 et collaboré à celles de 1827 à i835. 
De 1809 jusqu'à 1819 la publication des ephemerides a été interrompue. 

(2) La latitude de cet observatoire est 38° 42' 42" nord. 



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LES MATHÉMAT1QUES ÉH PORTUGAL 99 

náuticas e astronómicas, Lisboa, Typographia da 
Academia real das sciencias, 1800, 181 5. 

[r* 14] — J. Monteiro da Rocha — Taboada náutica para o 
calculo das longitudes, offerecida á «Sociedade real 
marítima». Gravada em 1801. 

[r 1 14] — P. de Paula Travassos — Taboas para o calculo da^ 
longitude geogravhica segiindo o methodo de J. Mon-* 
teiro da Rocha, Lisboa, Regia officina typographica, 
i8o3. 

[x 4 14] — Observatório Astronómico da Universidade de Coim- 
bra — Ephemerides astronómicas calculadas para o 
meridiano do Observatório de Coimbra. 

La publication de ces éphémérides a commencé 
en 1804 sous le savant professeur Monteiro da 
Rocha. Au début elles renfermaient d'importantes 
innovations (A. Souchon, Traité d'astronomie pra- 
tique, Paris, i883, p. xxiu). Plus fard elles devin- 
rent lobjet de nombreuses critiques et cessèrent 
de paraítre depuis 1899, mais en tout cas, et ex- 
ceptionnellement, elles ont paru en 1903, pour 
commémorer le centenaire des éphémérides, 

[t 4 14] — J. MiuTÃo da Matta — Taboa das latitudes e lon- 
gitudes dos principaes togares marítimos da terra 
suppondo o primeiro meridiano o que passa pela 
margem qcctdental da ilha do Ferro, Lisboa, Offi- 
cina de S. Thaddeo Ferreira, 1807. 

[r 4 14] — * — Exposição dos methodos particulares em que se 
fa\ uso no calculo das ephemerides de Coimbra, 
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1807. 

[r 1 14] — * — Taboas astronómicas ordenadas a facilitar o 
calculo das ephemerides da Universidade de Coim- 
bra, Coimbra, 181 3. 

[t 4 14] — # — Taboadas perpetuas astronómicas para uso da 
navegação portuguesa, mandadas compilar pela Aca- 
demia real das sciencias, Lisboa, Typographia da 
Academia real das sciencias, 181 5. 






85095A 



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100 O INSTITUTO 

[r 4 14] — Filippe Folque — Taboas para se calcularem prom- 
pta e directamente os mais importantes phenomenos 
celestes, Lisboa, i83i. 

Filippe Folque — Ephemerides das distancias do 
centro do Sol e planetas Vénus, Marte, Júpiter e 
Saturno, ao centro da Lua, calculadas para o Real 
observatório da marinha, Lisboa, i832." 

R. R. de Souza Pinto — Calculo das ephemerides 
astronómicas de Coimbra, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1849. Supplemento ao calculo das 
ephemerides, ibid., 1887. 

Dans cette brochure, Tauteur s'est proposé de 
coordonner et de régulariser le calcul des élé- 
ments contenus dans les Ephemerides publiées 
tous les ans par TObservatoire astronomique de 
Coímbre, car ce calcul était fait avant 1894, au 
moyen de formules que les observateurs se pas- 
saifnt les uns aux autres sans démonstration, ou 
sans répreuve néccssaire à Tappréciation du degré 
de connance qu'elles méritaient. 

F. M. Barreto Feio — Taboas da Lua reduzidas 
das de M. Burckhardt, ao meridiano de Coimbra, 
Coimbra, Imprensa da Universidade, i852. 

Le professeur Souza Pinto en a donné une 
, notice (I. C, i e,e série, 1, i853, p. 258). 

T. d' Aquino de Carvalho — Taboas para o calculo 
das declinações (Manuscrit existant à TObservatoire 
astronomique de Coímbre). 

Rufino G. Osório — Taboa auxiliar para o calculo 
dos eclipses. 

Jacome L. Sarmento — Taboas auxiliares para o 
zalculo das ephemerides astronómicas do Observató- 
rio da Universidade de Coimbra, Coimbra, Im- 
prensa da Universidade, 1 853. 

Le professeur Souza Pinto en a donné une 
notice (I. C, i èrç série, 11, 1854, p. 296). 

F. M. Barreto Feio — Novas taboas da parallaxe 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 101 

da Lua de J. C. Adans, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1854. 

[r* 14] — * — Tabeliãs astronómicas (Almanak familiar dos 
ricos e pobres para o anno de 1857, Lisboa, Im- 
prensa de M. J. M. da Silva, i856, 49-64). 

[r 4 14] — Jacome L.- Sarmento — Calculo da passagem da 
Lua pelo meridiano (I. C, i ère série, vii, 1859, 

22-23). 

[r 4 14] — Jacome L. Sarmento — Methodo fácil vara se obte- 
rem, por uma única interpolação, de nora a hora, 
as ascenções e declinações da Lua calculadas directa- 
mente de do\e em do\e horas (I. C, i ère série, vii, 
i85g, 141-143). 

[r 4 14] — Fiuppe Folque — Collecção de taboas para facilitar 
vários cálculos astronómicos e geodésicos, Lisboa, 
Imprensa nacional, 1864, i865. 

[r*.i4] — R. R. de Souza Pinto — Taboas para a correcção 
das passagens meridionaes no Observatório astronó- 
mico da univei*sidade e intervallos equatoriaes dos 
fios do retículo do circular meridiano de Coimbra, 
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1867, 1868. 

[r 4 14] — R. R. de Souza Pinto — Taboa de interpolação para 
o meio dia do intervallo, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1874. 

[r 4 14] — R. R. de Souza Pinto — Taboa dos factores de 
L, A, C, para correcção das passagens met*idianas 
no Observatório astronómico da Universidade, Coim- 
bra, Imprensa da Universidade. 

Cette table, publiée vers 1875, est destinée au 
calcul de la formule 

1 5 sin A 1 5 sm A 1 5 sin A 

inscrite sous le n.° (5) à la page 71 du i** volume 
des Elementos de astronomia (edition de 1873) de 



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102 ô INSTITUTO 

1'auteur, et qui exprime le temps du passage tné- 
ridien d'une étoile, corrige des erreurs L, C, A, 
du nivellement, de collimation et d 7 azimut. 

La table donne, avec la déclinaison de Tétoile, 
ou 90 o — A pour argument, la valeur des coeffi- 
cients de ces éléments dans la formule pour la 
colatitude D de TObservatoire de Coimbre. 

[r 4 14] — R. R. de Souza Pinto — Taboas dex=&- sen (H+tt), 

Coimbra, Imprensa da Universidade, 1877. 

L'auteur indique Temploi de deux tables don- 
nant le calcul de Télément t de la théorie des 
eclipses, qui ont été dressées, Tune par A. J. 
Pinto d' Almeida, et 1'autre par Rufino G. Osório, 
la première encore manuscrite et la seconde in- 
sérée à TEpliéméride pour 1844, sous le titre: 
Taboa auxiliar para o calculo das occu Ilações de 
est relias. 

[r 4 14] — J. E. Lopes Banhos — Taboas para o calculo da 
hora a boiado, Lisboa, Imprensa nacional, 1897. 

[r 4 14] — A. Fontoura da Costa — Taboas vara o ponto no 
mar, Lisboa, Imprensa nacional, 1898. 

[r 4 14] — Eugénio Guedes — Taboas de ponto (A. C. N., xxxm, 
1903, 481-484). 

L'auteur s'inspirant dans une remarque de la tri- 

?;onométrie de J. A. Serret, expose une nouvelle 
òrme à donner à la résolution du triangle de 
position au moyen de tables. 

[r 4 14] — A. Fontoura da Costa — Sobre as tábuas náuticas 
de Martelli e similares (A. C. N., xxxm, igo3, 
6bo-656, xxiv, 1904, 1 45-1 53). 

[r 4 14] — A. C. Ramalho Ortigão — Guia de navegação, 
Lisboa, Livraria Rodrigues & C.% igo5. 

[r 4 J4I, [r 4 i3] — F. Leitão Ferreira — Ephemer ide histórica 

fclV çjy 

e chronologica (Manuscrit n. 08 — «^ et — «- de la 
Bibliothèque de Évora). 



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LES MATHEMAT1QUES EN PORTUGAL IO. 

[r 4 14], [r 4 i3] — J. J. Pereirn Caldas — Tabeliãs chronolo 
gicas para com as lettras dominicaes sabermos o 
aias da semana nos dias dos me\es, Braga, 1889. 

[r 4 14], [r 6 3i] — Eusébio da Veiga — Planetário lusitano 
calculado para o anno de jjSj (1), Lisboa, M. Ma 
nescal da Costa, 1757. 

[r 4 14], [r 6 3i] — Eusébio da Veiga — Planetário lusitano 
calculado vara os annos de ij58, ij5g e 1760, ai 
meio dia ao tempo verdadeiro, no meridiano de Lis 
boa, Lisboa, M. Manescal da Costa, 1758, 1 75< 
e 1760. 

[r 4 14], [t 6 3iJ — Eusébio da Veiga — Planetário lusitano 
explicado com problemas e exemplos práticos pare 
melhor intelligencia do uso das ephemerides, qtu 
para os annos futuros se publiquem no Planetaru 
calculado (2), etc. Lisboa, M. Manescal da Costa 
i 7 58. 

[T»J 

Astronomie physique 

[r 3 2] — # — Nova astronomia. Na qual se refuta a antiga 
Da multidão de 12 ceos pondo só três: aéreo, ctde 
reo e impireo (Manuscrit n.° 44 de la Bibliothèque 
de TUniversité de Coimbre). 



(1) Le P. E. da Veiga avait commencé ses éphémérides pour Tannée 
1756, mais son travail a été détruit lors du tremolement de terre de 1755 

La deuxième édition du «Planetário lusitano» pour 1757, renferme 
les trois notices suivantes, dont la 2 en collaboration avec le P. Josepa 
Teixeira, et la 3 e avec les PP. Aloísio Gomes, C. da Silva et G. de Barros : 

Observatio eclipsis solaris die 26 octuber anno ij53. 

Eclipsis partialis lunae observai a Ulysipone, die 27 martii ij55. 

Observatio lunar is eclipseos habita ulysipone, die3ojulii i^Sy. 

(2) II y a aussi une édition, imprimée en 1758 à I Jsbonne par Miguel 
Manescal da Costa, sous ce titre: Planetário lusitano explicado com 
problemas & para uso da náutica e astronomia em Portugal e suas con- 
quistas. 



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104 ° INSTITUTO 

[r* 2] — Jeronymo Cortez — Fysiognomia e partos segredos 
da natureza, Coimbra, José Antunes da Silva, 1728. 
La 2 e partie de cet ouvrage a trait à la région 
celeste. 

[r 5 2], [r 7 34] — J. Nunes da Matta — Rápido estudo da ori- 
gem e constituição da Terra (A. C. N., xxxi, 1901, 
§27-376). 

[r 5 6] — R. R. de Souza Pinto — Noticia dos pequenos pia- 
netas descobertos em i855 e 18S6 (I. C, i ère serie, 
iii, i855, 291-292; v, 1857, 128-129). 

[r 5 9] — A. F. Rocha Peixoto — Translação solar, Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1870. 

[r s i3] — F. Henrique Ahlers — Instrucção sobre os corpos 
celestes principalmente sobre os cometas, Lisboa, 
Officina de M. Manescal da Costa, 1758. 

[r 5 i3] — J. H. de Magalhães — Informação do novo cometa 
ou astro de 1781, Paris, 1781 (Manuscrit G 3. # E 
5-2i de 1'Académie des sciences de Lisbonne). 

[r 5 i3] — * — Breve discurso sobre os cometas, Lisboa, Im- 
pressão regia, 181 1. 

[r 5 i3] — J. de Moraes Pereira — Borellfs comet (1903, c). 
Positions determined tvith a ring micrometer on 
the */* inch Refractor (E. M. L., lxxviii, 1903-1904, 
p. 14, 63, 377). 

[r 5 i3, 14] — Bento Morganti — Breve discurso sobre os co- 
metas, em que se mostra a sua natureza, sua duração, 
etc. Lisboa, F. Borges de Souza, 1757. 

[t 5 14] — Luiz de Avellar — Nox attica. Hoc est. Diálogos 
de impressione metheorologica, et cometa. Anni Do- 
mini 1618, Conimbricae, Nicolaum Carvalho, 1619. 

[r 5 14] — M. Bocarro — Tratado dos cometas que apparece- 
ram em novembro passado de 1618, Lisboa, Pedro 
Craesbeeck, 1619. 



i 

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LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL 105 

[t* 14] — Pedro Mexia — Discurso sobre los dos cometas, que 
se vieron vor el mes de noviembre dei afio passado 
de 1618, Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1619. 

[t 5 14] — M. Pacheco de Brito — Discurso em os dous phamo- 
menos cereos do anno de 1Ú18, Lisboa, Pedro Craes- 
beeck, 1619. 

[r 5 14] — António Pimenta — Sciographia da nova prostima- 
sia celeste e portentoso cometa que appareceu no 
anno de 1664, Lisboa, Domingos Carneiro, i665. 

[r 5 14] — M. G. Galhano Louroza — Polymathia exemplar. 
Doctrina de discursos vários. Cometogiwphia me- 
teorológica do prodigioso e diuturno cometa, que 
appareceo em novembro do anno de 1664, Lisboa, 
A. Craesbeeck de MeIlo v 1666. 

[r 5 14] — * — Relação notável de um cometa que novamente 
appareceo em Africa sobre a Praça de Tangere, 
etc. Lisboa, Domingos Rodrigues, 1756. 

[r 5 14] — J. Araújo Freire Borges da Veiga — Dialogo episr 
tolar astronómico sobre o cometa apparecido em La- 
mego a 7 de abril e observado até ao dia p do dito 
me\ do anno de 1766, Salamanca, Nicolas Villar 
Gordo y Alçaras, 1766. 

[r 5 14] — M. C. Damoiseau de Monfort — Mémoire sur la 
comete de 1807 (M. A. L., i ère série, i* 1 * classe, m, 
i ère partie, 1812, 198-201). 

[r 5 14] — R. R. de Souza Pinto — Noticia sobre um cometa 
que se observou em abril de 1854 (1, C., i èrc série, 
iii, i855, 3-í>). 

Fr* 14] — FimppeFolque— CometadeM.ò'AmEST(A. S. L. L., 
1, 1857, i83-i88). 

[r 5 14] — R. R. de Souza Pinto — Cometa em agosto de 1862 
(1: C., i ère série, xi, i863, p. 120). 

[r 5 14, 17] — Fr. Jeronymo de S« Thiago — Tratado do co- 



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IOÔ O INSTITUTO 

meta que appareceu em dezembro passado de 1680, 
Coimbra, Manuel Dias, 1681. 

. de Moraes Pereira — Photometrie measurement 
stars near Rigel (E. M. L., lxxiii, 1901, p. 1 19). 



r 



írnesto de Vasconcellos — A astronomia photo- 
raphica, Lisboa, Typographia da viuva de Souza 
eves, 1884; B. P. E., 17* sériç, n.° i34, 1886. 



Astronomie pratique 

A. Oom — Considerações áceixa da organização 
o Real obsewatorio astronómico de Lisboa, Lisboa, 
nprensa nacional, 1875. 

Bien que cette brochure ait eu notamment pour 
objet la réfutation de certains príncipes insolites 
aue la Chambre des Deputes prétendait introduire 
dans la loi organique de FObservatoire royal de 
Lisbonne, on y trouve un exposé de régies géné- 
rales devant présider à un pareil instituí, et si 
judicieusement choisies que se sont encore, pres- 
que textuellement, celles qui viennent d'être re- 
commandées pour la réorganisation de TObserva- 
toire de Washington, par un comité des plus 
remarquables astronomes américains. 

F. de Souza Pinto — Algumas informações sobre 
observatório astronómico da Universidade, Coim- 
ra,- Imprensa da Universidade, 1892. 

Sanches Dorta — Observações astronómicas feitas 
tnto ao Castello da cidade ko Rio de Janeiro, para 
eterminar a latitude e longitude da dita cidade 
A. A. L., i èrc série, 1, 1797, 325-344). 

jsebio da Veiga — Observatio ecclipsis solaris die 
5 octob a ij53. Ulyssipone, 



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LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL IO7 

[r 6 2] — Bernardo Oliveira — Observatio eclipseos lunaris, 
Conimbricae, 1757. 

[r 6 2] — F. A. Ciera — Observações astronómicas feitas na 
casas da Regia ojficina tjyographica, junto ao Rec 
collegio dos Nobres (M. A. L., i ère série, 1, 179^ 
416-449). 

[r 6 2] — F. d'Oliveira Barboza — Observações astronómica 
feitas na cidade de S. Paulo, com um óculo achrc 
matico de 3 1 /* pés (M. A. L., i èrc série, 11, 179c 
40-42). 

[r 6 2] — B. Sanches Dorta — Observações astronómicas feita 
na cidade de S. Paulo na America meridionc 
(M. A. L., i èrc série, 11, 1799, 190-195). 

[r 6 2] — B. Sanches Dorta — Observações astronómicas e mi 
teorologicas feitas na cidade do Rio de Janeiro n 
anno de 1784 (M. A. L., i ère série, 11, 1799, 346-368] 
Ditas no anno de ij85 (Ibid., 369-401); Ditas n 
anno de 1186 (111, i èrc partie, 181 2, 08-107); Dite 
no anno de ij8j (Ibid., 1 08-1 53); Taboas e diart 
meteorológico pertencente ao anno de ij88 (Ibid 
154-167). 

[r 6 2] — Don Joaquim da Assumpção Velho — Observaçõi 
astronómicas feitas no Real collegio de Mafr 
(M. A. L., i òre série, 11, 1799, 5i2-5i6). 

[r 6 2] — C. Gomes Villas Boas — Noticia das observaçõi 
astronómicas feitas em o anno de ijgo (M. A. L 
,èrc s érie, 11, 1799, 517-520). 

[r 6 2] — C. Gomes Villas Boas — Observações do eclipse d 
estreita r< do Leão, acontecida a 28 de março a 
ijg8 (M. A. L., i èrc série, m, i ère partie, i8ií 
168-182). 

[r 6 2] — C. Gomes Villas Boas — Exposição das observi 
ções astronómicas feitas no atino de ijgg, e comp< 
ração da passagem de Mercúrio com as taboas ma 
acreditadas do mesmo planeta (M. A. L., i* re sérii 
111, i èrc partie, 1812, 173-182), 



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Ol8 O INSTITUTO 

[r 6 2] — M. do Espirro Santo Limpo — Observações astro- 

nomicas feitas no Observatório real da marinha 

, L., i ère série, iii, i èrc partie, 18 12, io5-i 10). 

Ciera — Eclipse de ij8g de 2 de novembro, 
%do em Lisboa na Academia real de marinha 
, L., i ère série, m, 2 e partie, 1814, 7-8). 

J. M. Ciera — Observações astronómicas feitas 
sboa no Observatório real de marinha, nos 
de i8oy a 18 12 (M. A. L., i ère série, 111, 
:ie, 1814, 61-69). 

>e Souza Pinto — Observações feitas em i858, 
\ervatorio de Coimbra, para a determinação 
longitude (I. C, i òrc série, vi, i858, 2i5-2i6, 
I.7, 252; vil, 1859, 84, 108, 168, 204). 

de Souza Pinto — Observações do cometa de 
ie 1861 (I. C, i ère série, x, 1862, 204-206). 
auteur conclut de cette observation, comparée 
résultats de celles de Rio de Janeiro, de 
s, de Londres et de Lisbonne, que cette co- 
1 n'est pas celle de Carlos V, parue cn 1264 
1 i556. 

de Souza Pinto — Observação do cometa de 
[. C, 2 e série, xxix, 1881-1882, 111-112). 

>e Souza Pinto — Observações feitas no vri- 
vertical do Observatório astronómico da Uni- 
ide com o instrumento de passagens transpor- 
le Repsold, Coimbra, Imprensa da Univcrsi- 
1882. 

Dom — Observações meridianas do grande co- 
1881, iii, etc. (J. M. P. N., 2 6 série, viu, 
882, 281-285; A. N. K., civ, 1882, n.° 2473, 



bservatorio Astronómico de Lisboa — Nasci- 
e occasos do Sol e da Lua em Lourenço 
es, Lisboa, 1895- 1896. 



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LtíS MATHEMATIQUES ÉN PORTUGAL IO9 

[t 6 2] — C. A. Campos Rodrigues — Observations des Léoni- 
des 1898, i8gg (A. N. K., cilix, 1899, n.° 3575, 
393-396; cli, 1899, n.° 36o8, 1 19-122). 

[x* 2] — C. A. Campos Rodrigues — The faiture of the Leo- 
nids in i8gg. Observations at Lisbon. Portugal 
(P. A., viu, 1900, 24-25). 

Tableau synoptique des obscrvations des Léo- 
nides en 1899 à 1'Observatoire royal de Lisbonne 
(Tapada), d après le plan recommandé dans un 
précédent numero du même recueil, avec une 
carte des 1 1 trajectoires qui ont pu être observées. 

[r 6 2] — Gago Coutinho — Uma observação de precisão com 
o sextante (R. C. M., xi, 1902-1903, 221-225, 
245-25i). 

[r 6 2] — C A. Campos Rodrigues — Observatiom des Léoni- 
des igo3 novembre i5- (A. N. K., clxiv, 1904, 
p. 419). 

[r* 3, 4, 8] — José Falcão — Determinação do a\imuth da 
marca meridiana do Observatório astronómico da 
Universidade de Coimbra (I. C, 2 6 série, xxxvii, 
1889- 1890, 480-488, 555-563; xxxviii, 1 890-1891, 
232-237). 

[T 6 3, 6, 8, 9, 26, 27], [T7 64, 66], [T* 2] — Real Observatório 
Astronómico de Lisboa — Observations méridiennes 
de la planeie Mars pendant Vopposition de i8g2, 
Lisbonne, Imprimerie nationale, i8g5. 

Sous une titre peut-être trop modeste, cet ou- 
vrage renferme ^'importantes informations sur 
les travaux, les instruments, et les méthodes en 
usage à TObservatoire de Lisbonne (Tapada). 
L'exposé est de M. F. Oom. 

Quant aux observations elles-mêmes et à leur 
réduction, faites par MM. Campos Rodrigues et 
F. Oom, c'est le premier travail d'astronomie de 
précision publié en Portugal, et bien qu'il y en 
eút d'autres, antérieurement executes dans ce 
même établissement, et qui paraitront bientôt, 
le fait est que celui-ci ouvre cnez nous Tère des 
observations astronomiques exécutées et réduites 



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I IO O INSTITUTO 

avec tous les soins minutieux qu' exige la sciencc 
actuelle. 

Dans le Bulletin astronomique, publié par 
TObservatoire de Paris (xiu, p. 3u), se trouve 
le témoignage impartiel que cet ouvrage eát celui 
«d'observateurs habiles» capables de cmener à 
bien des recherches astronomiques les plus déli- 
catesi. 

Ces observations ont été- entreprises sur Tinvi- 
tation de TObservatoire de Washington pour une 
nouvelle tentative de mesure de la parallaxe so 
laire par celle de Topposition de Mars, comme 
Tavaient fait Winnecke en 1862 et Eastmann en 
1877. En égard à cet objet, ces observations som 
remarquablement completes, démontrant une assi- 
duité pcu ordinaire, puisqu'il n'y a eu que três 
peu de nuits perdues pendant toute Ia période 
indiquée par TObservatoire de Washington. 

Comme résultats subsidiaires, on trouve de 
nouvelles déterminations de la latitude de TObser- 
vatoire, du diamètre de Mars, des lieux moyens 
pour 1892 de toutes les étoiles observées, et une 
comparaison des observations aux éphémérides 
de Mars, selon la Connaissance des temps, le Nau- 
tical Almanac, le Berliner Jahrbuch et YAmm- 
can Ephemeris, représentées en tableaux graphi- 
quês montrant de curieuses divergences entre ces 
divers recueils. 

[T 6 5] — R. R. de Souza Pinto — Uso do instrumento de pas- 
sagens pelo primeiro vertical, com as taboas dos 
ângulos horários e das distancias ^emithaes nas pas- 
sagens pelo primeiro vertical do Observatório astro- 
nómico da Universidade, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, 1870, 1871. 
> 

[T 6 5] — R. R. de Souza Pinto — Additamento ao uso dò 
instrumento de passagens pelo primeiro vertical, 
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1889. 

[P 6, 25] — R. R. de Souza Pinto — Estudos instrumentai 
no Obsei % vatorio astronómico da Universidade, Coim- 
bra, Imprensa da Universidade, 1887; continuação 
dos estudos instrumentaes, ibid., ibid., 1890. 



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LÉS MATHÉMATIQUES EN 1'ORTUGAL 1 1 1 

Cest une descriptíoa du cercte méridien de 
Repsold, installé à rObservatoire de Coimbre en 
1879, et des collimateurs horizontaux, Tun au 
nord, 1'auu-e au sud, étabíis en i885, 

[Y 6 8] — R, R. de Souza Pinto — Noticia sobre as paríaçôes 
da collimação do polo de um circulo mural de For- 
tin, achadas jw>r Mr. Mauvais (L C, i tvt série, i f 

i853, p. 198). 

[Y 6 9] — C. A. Campos Rodrigues — Personal equation (O., 

XXV, I9O2, 121-123, 

À 1'occasion d'une discussion soulevée dans la 
Royal astronomical society de Londres, au sujet 
de Tinfluence que la façon dobserver peut avoir 
sur Téquation personnelle dans les observations 
de passages,J auteur expose le résultat de sa 
longue expérience, comme sous-directeur et dire- 
cteur de rObservatoire royal de Lisbonne (Ta- 
pada), et lcs régies qui lui semblent préférables, 
d'après cette expérience toujours concordante. 

[Y 6 i3] — C. A. Campos Rodrigues — Einfache einrichtung 
%ur belenchtungder fàden eines kollimators (Z. I., 
xxii, 1902, 142-143). 

Description d'un moyen três simple d'obtenir 
des fils brillants sur fond obscur dans le réticule 
d'un collimateur, daprès Tinvention de Tauteur, 
appliquée au cercle méridien de 1'Observatoire 
astronomique de Lisbonne (Tapada) pour simpli- 
fier et préciser les pointés sur ces fils. 

[Y 6 i5, 5], [Y 4 5, 14] — J. Monteiro da Rocha — Mémoires sur 
Vastronomie pratique (traduits du portugais par Ma- 
nuel Pedro de Mello), Paris, Courcier, 1808. 

Le traducteur, Pedro de Mello, a pense avec 
beaucoup de raison, que ces mémoires méritaient 
d'être vulgarisés encore devantage, et en consé- 
quençe il les a presentes dans une langue beau- 
coup "plus connue que le portugais. 

II y a ajouté des notes qui sont en partie son 
ouvrage, et en partie celui de Tauteur même, son 
ancien mahre. 
Le premier mémoire a pour objet Tusage du 



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112 O INSTITUTO 

réticule rhomboíde. L'auteur en propose un nou- 
'veau, dans lequel il a supprimé les deux diagona- 
les, afin«d'en rendre la construction plus exacte 
et plus facile. Les angles aigus sont de 4S ; les 
côtés qui les comprennent sont prolongés jusqu'à 
la circonférence et formem des cordes qui divi- 
sem en portions symetriques tout le champ de la 
lunette. Par ce moyen,- à côté du réticule princi- 
pal, on a quatre demi-réticules qui suppléent aux 
diagonales. Cette construction ne laisse presque 
plus aucun moyen pour amener le réticule à la 
position orthogonale, mais les passages aux diffé- 
rents fils fournissent des moyens varies pour 
reconnaítre la position inclinée du réticule, et cor- 
riger les différences observées, soit en ascension 
droite, soit en déclinaison. 

L'auteur a trouvé toutes les formules nécessai- 
res pour ces réductions, et il ne s'y borne pas; 
il y joint encore celles qui servent à tenir compte 
de la réfraction et de la courbure des parallèles, 
dont les effets, nuls le plus souvent, deviennent 
três sensibles si Tastre est voisin du pôle ou de 
Thorizon. 

Le second mémoire a trait à Tinstrument des 
passages. L'auteur expose avec beaucoup de soin, 
toutes les conditions requises pour le but des 
observations. 

Le troisième mémoire concerne le calcul des 
eclipses sujettes aux effets des parallaxes. 

Enfin, le quatrième expose les méthodes parti- 
culières employées dans le calcul des éphémérides 
de Coimbre. 

[T 6 20] — M. S. de Mello e Simas — Méthodes nouvelles pour 
observer le Soleil (S. P. P., 3 e série, x, 1896, 1 29-1 33). 
Recueil de régies et d'indications utiles et três 
interessantes. 

[T 6 22] — Hugo de Lacerda — Mais algumas considerações 
sobre o sextante (A. C. N., x, 1880, 259-268, 285- 
292, 325-334). 

[T 6 25] — Theodoro d' Almeida — Descripção do novo plane- 
tário universal. 



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Ll£S AÍAtHéMATIQÚiiS Étí POftTUGAL llí 

[T 6 25] — Hugo de Lacerda — Apvarelho para exame dos 
parafusos micrometricos do capitão de mar e guerra 
C. A. Campos Rodrigues (A. C. N., xxii, 1892, 
314-320). 

[P 25] — C. A. Campos Rodrigues — Bewegliche leitern qur 
beobachtung des Nadirs (D. M. Z., 1902, p. 178). 
Description d'un systèmc extrémement simple 
de leviers et de galets que 1'auteur a imagine pour 
manceuvrer promptement et facilement les lourds 
escaliers tribunes, servant aux observations du 
Nadir à 1'Observatoire royal de Lisbonne (Ta- 

Eada), tout en leur assurant la plus complete sta- 
ilité au repôs. 

[r 6 26] — C. A. Campos Rodrigues — Chronographo eléctrico, 
Lisboa, 1877. 

Cet ingénieux appareil, outre les détails qui 
assurent Tuniformite du mouvement, au moyen 
d'un régulateur à ailettes spécial isochrone, réalise 
le moyen d'affranchir des inconvénients des chro- 
noeraphes électriques, tant du système français 
à deux plumes, que du système américain à une 
jeule plume, les premiers exigeant des méthodes 
lissez laborieuses pour corriger la parallaxe des 
plumes, et les seconds, donnant en moyenne Tobli- 
tération d'un signal d'observation sur dix par les 
signaux de seconde. 

Pour éviter la correction de parallaxe, on em- 
ploie une seule plume; quant à la difficulté de 
faire écrire par cette plume unique les signaux 
de seconde et ceux d'observation sans roblitéra- 
tion d'aucun, tout en pouvant fermer le circuit 
de la clef aussi longtemps qu'on le désire, elle^ a 
été résolue en faisant commander Tunique encriêr- 
plume par le point milieu d'une espèce de palon- 
nier horizontal dont chaque extrémité est liée à 
Tarmature de l'un des électro-aimants ; il obéit 
donc indépendamment aux mouvements de Tune 
quelconque des armatures, ou des deux ensemble, 
et il suftit d'une petite différence d'amplitude dans 
leurs jeux pour que le sienal soit toujours évident, 
même lorsque Tune d'elles est attirée au moment 
0C1 1'autre est repoussée. 

Vol- 55*°, n.° 3 — março de 1908. 3 



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Õ INSTITUTO 

C. A. Campos Rodrigues — Interruptor eléctrico (i), 
Lisboa, 1880. 

Cet interrupteur a *été invente dana le but 
cTobtenir des signaux aussi exacts que possible, 
de la coíncidence de deux images, quel que fut 
le sens du mouvement. 

En general, les interrupteurs analogues ont tou- 
jours une légère différençe de phase, dans un sens 
ou dans 1'autre, due aux épaisseurs des contacts. 
Dans celui-ci on obtient ngoureusement une in- 
terruption du circuit au moment de la coíncidence 
géométrique. 

II se compòse d'un Voscillant dans son plan 
sur sa pointe, et appuyant toujours lime de ces 
branches contre un aoigt d'arrêt placé entre elles, 
perpendiculairemente à ce plan. L'image mobile 
porte un doigt entièrement identique ; on voit donc 
que lorsque ces deux doigts, et Taxe d'oseillation, 
ont leurs centres sur une ligne parallèle à Tune 
des branches de V, la position de Timage fixe est 
toujours la même, qucl que *oit le sens. 

Le circuit électrique passe de la pointe du V 
dans ses branches et de là dans le doigt fixe. Le 
doigt mobile produit Tinterruption, faisant trébu- 
cher le V, ce qui écarte la branche appuyée et 
fait appuyer Tautre à son tour. 

Cet interrupteur est appliqué à un appareil à 
équation personnelle et à la pendule etalon de 
rÒbservatoire astronomique de Lisbonne (Ta- 
pada). 

* — Fabrica do radio latino (Manuscrit n.° 65 de la 
iibliothèque de TUniversité de Coímbre). 

Ce livre renferme trois parties: la première a 
trait au nom, à la matière, aux organes, etc, de 
cet instrument, et indique comment doit être cons- 
truit Yhorloge universelle; la seconde, trai te des 
usages terrestres de rinstrument; enfin, la troi- 
sième partie concerne ses usages astronomiques. 



. Oom a récemment publié (B. D. I., iv, 1905, 33z-336) une 
Létaillée de cet interrupteur électrique. 



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LÊS MATHÉMATlQUÊS EN POftTtfGAL 1 I 

[t* 128] — J. de Moraes Pereira— Eclipse totale du Soleil c 
16 avril i8g3. Calcul pour Ponta Delgada et obse 
pations(X. S. T., xii, i8g3, 23i-232 et J. B. A. A 
ih, i8g3, p. 384). 

[r 6 28] — J. de Moraes Pereira — Observations of occulh 
tions of stars during the total eclipse of the Moo: 
sept 3, i8g5 (J. B. A. A., v, 1894-1895, 5o9~5ic 

[r 6 28] — J. de Moraes Pereira — Observation of the occult 
tion of Júpiter by the Moonjune 14, i8go (J. B. A. A 
vi, 1896, 452-453). 

[r 6 28] — Real Observatório Astronómico de Lisboa — 
eclipse de sol em Portugal de igoo, maio 28 t Lisbo 
Imprensa nacional, 1900. 

Cette brochure, rédigée par M. F. Oom, a poi 
objet de fournir au public les notions les ph 
essentielles au sujet des eclipses de Soleil, < 
general, et les prévisions pour celle du 28 m 
1900, en particulier. 

Elle comprend deux cartes géographiques, dei 
cartes celestes et d'autres planches à part. 

[r ô 28] — F. Oom — Obsewations d 1 eclipses de Lune (A. N. K 
clxv, 1904, 178-184). 

Exposition des résultats des observations fait 
à Lisbonne par MM. Campos Rodrigues, F. Oc 
et A. Teixeira Bastos, de quatre eclipses lunaire 

Les eclipses de Lune étaient antrefois obse 
vées seulement par les contacts du disque lunai 
avec 1'ombre de la Terre, observation três pr 
caire car 1'ombre disparaissant insensiblement dai 
la pénombre, ne peut jamais se distinguer av< 
exactitude. 

' On a donc été amené à délaisser un peu < 
genre d'observations, nonobstant leur grande ir 
portance pour la vérification des lois des mouv 
ments celestes par les positions relatives des trc 
corps: Soleil, Terre et Lune. On sait d'ailleu 
que ces eclipses peuvent rendre de grands sen 
ces pour la détermination des longitudes, par < 
fait que chacune des phases d'une eclipse lunai 



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11Õ O iNSTlTUtO 

a lieu au même instam pour tous les observateurs 
en toute localité oíi Téctipse est visible. 

Pour tourner la difficulté, on a decide aujowxThui 
d'observer non pas des contacts, qui, même dans 
la meilleure hypothèse, ne pourraient fournir que 
quatre observations, mais Tarrivée de Tombre à 
chacune des cratères ou d'autres points remar- 
quables du disque lunaire; de cette manière le 
nombre d'observations augmente énormément et 
Ia difficulté susmentionée est masquée en partie, 
car, s^l est presque impossible de definir visible- 
ment les lignes oíi Tombre puré commence à dis- 
paraitre dans la pénombre, il est au contraire 
relativement facile de préciser le moment oíi un 
point donné de la Lune est atteint et de cette 
façon conclure alors quelles sont les positions 
relatives occupées à chaque instant par la satellite 
et par Thombre de notre planète. 

Telle est la méthode employée aux observa- 
tions de MM. Campos Rodrigues, F. Oom et A. j 
Teixeira Bastos, avec d'autres, d'un genre diffé- 
rent, savoir: celles d'occultations d'étoiles et ecli- 
pses totales de Lune. 

L'observation de Toccultation ou de Tappari- 
tion d'étoiles par le bord obscur de la Lune, est 
três exacte, mais elle a, comme inconvénient, de 
n'être pas possible que pour quelques étoiles les 
plus brillantes, les centres étant invisibles dans 
ces circonstances, soit par eflet de la clarté de 
Lune, soit par la proximité apparente du Soleil. 
Mais quand la Lune est éclipsée, on peut observer 
alors des étoiles aussi faibles que le permette la 
force de la lunette employée, et accumuler ainsi 
en três peu de temps une série considérable d'élé- 
ments qui définissent assez rigoureusement les 

f>ositions successives de la Lune au ciei, ainsi que 
a forme et les dimensions apparentes de cet astre. 
Afin dobtenir encore de résultats plus nom- 
breux, M. Campos Rodrigues a imagine un pro- 
cede graphique qui permet de signaler immédia- 
tement les positions des étoiles cachées et de 
prédire rapidement le point du bord de la Lune 
et Tinstant ou elles doivent reparaítre. 
Cette méthode fut asservie aux • observations ! 



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LES MATHÉMATíQUBS EN PORTUGAL 117 

dont nous nous occupons, mais le résultat obtenu 
a été três amoindri, à cause des mauvaises con- 
ditions atmosphériques (i). 

[r 6 3o] — J. J. Soares de Barros e Vasconcellos — Observa- 
tions et explicatiòns de quelques phénomènes vus dans 
* le passage de Mercure audevant du disque du Soleil 
observe à V Hotel de Cluny, à Paris, le 6 mai ijSS, 
et leur avplication pour la perfection de fastrono- 
mie (2), Faris, 1753. 

Daprès Stockler, Fauteur conjecturant aue 
Taccroissement du diamètre apparent du Soleil 
produit par Taberration de espnéricité de 1'occu- 
laire du télescope, et la diminution du diamètre 
de Mercure due à 1'inflexion de la lumière solaire 
lors du passage de cette planète, pouvaient avoir 
de Tinfluence sur les moments des contacts des 
bords de l'un et de Tautre astre, et par consé- 
quent aussi sur la durée totale du passage du 
Mercure, s'est proposé de débarrasser, dans la 
mesure du possible, les observations de ce remar- 
quable phénomène de 1'effet de ces apparences 
optiques. Et en reconnaissant que le moyen le 
plus efficace à employer serait de mettre au de- 
vam de loculaire deux carreaux de vitre, Tun 
fume et Tautre vert, ce système a obtenu en effet 
Ia consécration de Texpérience. 

Quand le contact intérieur, par ou devait com- 
mencer Témersion, était sur le point de se pro- 
duire, Soares de Barros a remarque que le mou-. 
vement apparent de la planète devenait sensible- 
ment plus rapide, et le contact paraissait se 
produire avec une rapidité extraordináire. 

Cétait alors le moment de vérifier, en defini- 
tive et pratiquement, si 1'altération due à 1'opacité 
des vitres dans la grandeur apparente des diamè- 
tres et des deux astres avait mflué sensiblement 



(1) Cette notice est extraite d'une communication faite devant 1'Aca- 
démie des sciences de Lisbonne par M. F. Oom. (Preces verbal de la 
séance du 1 décembre 1904). 

(2) Publiées par de IIsle, de TAcadémie des sciences de Paris. 



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1 



O INSTITUTO 



sur Tinstant de ce contact, et ayant donc éloigné 
le carreau vert, il reconnut qu entre les deux bords 
on apercevait encore une petite partie dè lumière, 
et pour qu'ils se touchassent de nouveau, il fallait 
attendre quatre secondes de temps. 

II lui sembla que le contact extérieur observe 
avec les deux carreaux, n'éfait pas suivi'd'une 
séparation instantanée, et que, tout au contraire, 
cette même apparence continuait pendant six ou 
sept secondes. Mais dès que la séparation se pro- 
duisait, en ôtant le carreau colore, il reconnut 
que la planète se rétablissait sur le bord du Soleil, 
et que seulement au bout de six on sept secondes, 
elle s'en séparait de nouveau. 

Cette alternative, combinaison et séparation de 
carreaux, lui avait déjà.fait remarquer que dès 
que Mercure était écarté du bord du Soleil de 
trois diamètres, 1'observation étant faite avec les 
deux carreaux, cette distance diminuait sensible- 
ment, et le diamètre de la planète s'allongeait 
dans le sens du mouvement, aussi bien que la 
partie du bord du Soleil, par oíi devait se termi- 
ner le passage, lui semblait plus rougeâtre que la 
partie restante, quand elle était observée seule- 
ment avec le carreau fume, apparence qui se 
dissipait, toutc entière, en combinam de nouveau 
les aeux carreaux. 

II est en verité remarquable, comme Tont bien 
dit Bouguer et de Mairan, qu'un seul homme en 
si peu de temps, put faire tant d'observations, 
toute nouvelles et subtiles, et qui devaient exiger 
Tattention et le concours de plusieurs observa- 
teurs. 

[r 6 3o] — F. A. Oom — Aus einem schreiben des Henvi Dr. 
F. A. Oom an den herasgeber (A. N. K-, lxxxui, 
1874, 3 1 5-3 16). 

Extrait d'une lettre au Dr. C. F. W. Peters 
contenant le plan proposé pour Tobservation du 

(>assage de Vénus en 1874 par Texpédition que 
e gouvernement portugais se disposait à envoyer 
à Macao dans ce but, mais qui fut contre- 
mandée. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL I 19 

^ T 5 3o] — J. de Moraes Pereira «— Transit qfMercury across 
the Surisdise. Nop. 10, 1894 (J< B. A. A., v, 1894- 
1895, io5-io6 et A. S. T., xiv, 1895, p. 6) (1). 



PH 

Monographies des oorps prinoipauz dn systòme solaire 

[y 7 2J — J. de Moraes Pereira — Observations of Suns pois. 
Drawings and measurements of position and surfaçe 
everj available dayfrom i8g3 to i8g8 (M. B. A. A., 
iií, 1894, 3 e partie, 49-120; iv, 1896, 3 e partie, 
43-iob; v, 1896- 1897, 4 e partie, 82-122; vi, 1898, 
5 e partie, 143-174; vn, 1899, 2 ° P a rtie, 17-46; ym, 
1900, 2 e partie, 24-52). 

Ce recueil a été fait en collaboration, mais pour 
la plus grande partie par M. Moraes Pereira. 

[v 7 9, 10] — F. A. Oom — Bericht tn beobachtunjg der totalen 
sonnen Jinsterniss in pobes (A. P., 7° serie, ív, 1861, 
p. 39). 

Pour Tobservatiòn de Téclipse totale de Soleil 
Tde 1860, 011 avait organisé une nombreuse mis- 
sion anglo-russe. connée aux deux observatoires 
de Greenwich et de Poulkova, à la tête desquels 
se trouvaient les célebres astronomes Ahot et 
Struve. À cette mission fut designe le lieutenant 
de la marine portugaise F. A. Oom, plus tard 
dirccteur de TObservatoire de Tapada, que se 
trouvait alors à Poulkova, ou il étudiait Tastrono- 
mie de précision comme .disciple des Struves. 

Chargé d'observer le couronne, Fune des plus 
importantes phases du phénomène, il s'en acquitta 
avec pleine réunite. Ce fut la première fois que 
Ton obtint des photographies que démontrèrent 
que les protubérances appartenaient au Soleil et 
non à la Lune. 



Ji) Cette observation a été faite avec le concours des officiers du 
useiir-école «Inhieénie» 



croiseur-école «Iphigénie». 



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120 ô INMiIlítÔ 

Le travail de F. A. Oom fut jugé excellent, 
d'après Airy, qui chargé de rendre compte des 
résultats de cette mission, dans une conférence 
publique à Londres, dit que la photographie obte- 
nue par F. A. Oom était une admirable reprodu- 
ction de la couronne {extremely fair representa- 
tions of the corone) telle qu'elle s'était présentée 
dans r eclipse susmentionnée. 

[r 7 10] — R. R. de Souza Pinto— Eclipses do Sol em i5 de 
março de i858 (I. C, i èrc série, vn, i85g, 22-23). 

[r 7 10] — L. A. de Andrade Moraes — Eclipses do Sol (I. C, 
jère série, vii, 1859, 5-6). 

|T7 10] — R. R. de Souza Pinto — Eclivse de 18 de julho de 
1860, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1860 et 
I. C, i ère série, x, 1861, 57-66. 

Mémoire presente à M. le ministre du royaume 
par une commission dont faisait partie R. R. de 
Souza Pinto, J. C. de Brito Capello et J. A. de 
Souza. 

[T 7 10] — A. Ramos da Costa — Algumas palavras sobre o 
eclipse do Sol de iqoo, e sua influencia no magne- 
tismo terrestre, Lisboa, M. Gomes, 1900. 

p* 7 10] — Hugo de Lacerda — Eclipse do Sol de igoo em 
Portugal (A. C. N., xxx, 1900, 59D-620). 

[r 7 10] — # — Eclipse do Sol de 28 de maio de 1000. Obser- 
vações dos professores do collegio de S. Fiel, Lis- 
boa, La Êécarre, 1900. 

(Continua). Rodolpho Guimarães. 



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w 



LITTBRATURA E BELLAS-ARTES 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 



Entre as encantadoras redondilhas de Camões figuram 
duas voltas ao mote: 



Perdigão perdeo a penna, 
Não ha mal que lhe não venha. 

Dizem ellas, num tom de accentuada melancholia: 

Perdigão, que o pensamento 
Subio a um alto logar, 
Perde a penna do voar, 
Ganha a pena do tormento. 
Não tem no ar, nem no vento, 
Asas com aue se sostenha. 
Não ha mal que lhe não venha ! 

Quis voar a uma alta torre, 

Mas achou-se desasado ; 

E vendo-se depennado, 

De puro penado morre. 

Se a queixumes se soccorre, 

Lança no fogo mais lenha. 

Não ha mal que lhe não venha ! 

O pobre perdigão depennado, que nem ao menos sepoc 
queixar, sem lançar mais lenha no fogo, sem aggravar 
sua situafção, era o .próprio Camões. 

O alto logar até onde subio o seu pensamento, a ai 
torre a que quis voar, era uma das mais nobres e mais syi 
pathicas figuras femininas que tem vivido sob este bello : 



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^ 



122 O INSTITUTO 



de Portugal: era a filha mais nova del-rei D. Manuel, a in- 
fanta D. Maria (i). 

Como o genial doido, que tanto soffreu e tanto fez soffrer 
com os seus erros, com a sua má fortuna (2), como o ge- 



(1) É muito interessante a monographia da Sr.* D. Carolina Michaèlis 
de Vasconcellos a respeito d 'A infanta D. Maria de Portugal (i5uj- 
í^Tj) e as suas damas (Porto, i<£>2). 

Delia transcrevo aqui a seguinte passagem: «De sangue real, her- 
deira da coroa, se não morresse um anno antes*da catastrophe de Alca- 
cer-Quebir, pertence á historia e teve biographos conscienciosos. Em 
creança e na flor da edade viu refulgir diante de seus olhos a coroa de 
França ; foi escolhida repetidas vezes para o throno imperial — orbis 
destinai a império — e outras tantas j>ara o império de Hespanha. Acari- 
ciando sempre, no intimo do coração, este ultimo projecto, ficou ainda 
assim innupta, uma triste sempre-noiva. Este estado tragicomico que lhe 
foi imposto, mas que afinal acceitou com sublime altivez, apparentando 
tê-lo escolhido livremente, despertou a dolente sympathia dos coevos. 
E ainda hoje é capaz de suscitar a dos pósteros» (pag. 4). 

(2) Basta citar por agora os sonetos 27 e 193 : 

Males, que contra mim vos conjurastes, 
Quanto ha de durar tão duro intento ? 
Se dura, porque dure meu tormento, 
Baste-vos quanto já me atormentastes. 

Mas, se assi porfiais, porque cuidastes 
Derribar o meu alto pensamento, 
Mais pôde a causa delle, em que o sustento, 
Que vós, que delia mesma o ser tomastes. 

E, pois, vossa tenção com minha morte 
É de acabar o mal destes amores, 
Dai já fim a tormento tão comprido. 

Assi de ambos contente será a sorte : 
Em vós, por acabar-me, vencedores ; 
Em mim, porque acabei de vós vencido. 

Erros meus, má fortuna, amor ardente, 
Em minha perdição se conjuraram. 
Os erros e a fortuna sobejaram, 
Que para mi bastava amor somente. 

Tudo passei. . . Mas tenho tão presente 
A grande dor das cousas que passaram, 
Que já as frequências suas me ensinaram 
A desejos deixar de ser contente. 

Errei todo o decurso de meus annos ; 
Dei causa a que a fortuna castigasse 
As minhas mal fundadas esperanças. 

De amor não vi senão breves enganos, 

Oh ! Quem tanto pudesse, que fartasse 
Este meu duro génio, de vinganças ! 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

nial doido, ao compaFar-se com o perdigão des 
devia recordar, com amarga saudade, do tempo, i 
afastado, em que julgava poder arriscar o voo a 
alta torre! 

Num tão alto logar, de tanto preço, 
Este meu pensamento posto vejo, 
Que desfalleee nelle inda o desejo, 
Vendo quanto por mi o desmereço. 

Quando esta tal baixeza em mi conheço, 
Acho que cuidar nelle é grão despejo, 
E que morrer por elle me é sobejo 
E mór bem para mi, do que mereço. 

O mais que natural merecimento 

De quem me causa um mal tão duro e forte 
O faz que vá crescendo de hora em hora. 

Mas eu não deixarei meu pensamento, 

Poraue, inda que este mal me cause a mor 
Un bel morir tutta la vita honor a (i). 

(Sone 

Como o doce sonho se desvaneceu num mome 
substituído pela triste realidade! 

Doce sonho, suave e soberano, 

Se por mais longo tempo me durara ! 
Ah! quem de sonho tal nunca acordara, 
Pois havia de ver tal desengano ! 

Ah ! deleitoso bem ! ah ! doce engano ! 

Se por mais largo espaço me enganara! 
Se então a vida mísera acabara, 
De alegria e prazer morrera ufano. 

Ditoso, não estando em mi, pois tive, 

Dormindo, o que acordado ter quisera. 
Olhae com que me paga o meu destino ! 

Emfim, fora de mim ditoso estive. 
Em mentiras ter dita razão era, 
Pois sempre nas verdades fui mofino. 

(Sone 

Mais tarde, depois de ter chegado o cruel d 
seguido de tantos trabalhos e de tantos soffriment< 



(i) O desvairado sonhador queria tanto ao seu pensam* 
julgaria feliz morrendo por elle.- E com que enlevo repet 
passo, o bello verso de Petrarca I Com que intensidade sen 
ceito nelle expresso ! O cantor de Laura nunca teve, por 
ponto melhor interprete. 



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4 O INSTITUTO 

rde, com que dolorosa impressão não seria relido pelo atri* 
liado poeta aquelle audacioso • soneto 129, escripto num 
tado de verdadeira allucinação : 

Crescei, desejo meu, pois que a ventura 
Já vos tem nos seus braços levantado; 
Que a bella causa de que sois gerado 
O mais ditoso fim vos assegura. 

Se aspiraes por ousado a tanta altura, 

iNão vos espante haver ao sol chegado, 
Porque é de águia real vosso cuidado, 
Que, quanto mais sofíre, mais se apura. 

Animo, coração ! que o pensamento 
Te pôde inda fazer mais glorioso, 
Sem que respeite a teu merecimento. 

Que cresças inda mais é já forçoso, 
Porque, se foi ousado o teu intento, 
Agora de atrevido é venturoso. 

Quantas lagrimas não teria custado ao grande devaneador 
desoladora, a dolorosa confissão, expressa no final do so- 
íto 137! 

O filho de Latona esclarecido, 

Que, com seu raio, alegra a humana gente, 

Matar pôde a Pythonica serpente, 

Que mortes mil havia produzido. 
Ferio com arco e de arco foi ferido, 

Com ponta aguda de ouro reluzente. 

Nas Thessalicas praias docemente 

Por a nvmpha Penea andou perdido. 
Não lhe pôde valer contra seu dano 

Saber, nem diligencias, nem respeito 

De quanto era celeste e soberano. 
Pois se um deos nunca vio nem um engano 

De quem era tão pouco em seu respeito (1), 

Eu que espero de um ser, que é mais que humano t 

A ardente paixão do tresloucado poeta pela formosa, in- 
ruida e sisuda filha do Rei venturoso constitue, como a priori 
: pôde presumir, o ponto culminante da sua atormentada 
da. Dessa paixão derivaram factos aue ainda não foram 
ibalmente explicados. É, além disso, ella que nos ministra, 



(1) Para a plena comprehensão das referencias mythologicas deste 
neto veja-se Ovidio, Metamorphoses, i, 438-567, que o poeta tinha 
m presente. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA I2S 

por assim dizer, a chave da maravilhosa obra lyrica de un 
dos maiores poetas de todos os tempos. 

Recorrendo ao Parnaso (i) do immortal poeta, verdadein 
diário da sua alma apaixonada, vou procurar fornecer algum 
elementos para o capitulo mais importante da nossa historii 
litteraria. 

Dr. José Maria Rodrigues. 



( i) Informa Diogo do Couto : «E aquelle inverno que (Camões) estev 
em Moçambique ... foi escrevendo muito em um livro que ia fazendc 

3ue intitulava Parnaso de Luif de Camões, livro de muita erudição 
outrína e philosophia, o qual lhe furtaram. E nunca pude saber no rein< 
delle, por muito que o inquiri. E foi furto notável». (Década viu, c. 28] 
Seja-me permittido. dar o nome de Parnaso ás admiráveis composiçõe 
lyricas que nos restam do poeta e suppôr que foi elle próprio que fe 
correr a historia do furto. Uma boa parte delias não podiam, sem grav 
escândalo, ser publicadas durante a vida, quer da infanta, quer mesm< 
do poeta. 

Não pretendo, porém, com isto dizer que possuamos hoje toda a lyn 
de Camões. 



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126 O INSTITUTO 



AMES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 

(Cont. dos n.° 8 i e 2, pag. 59) 

XXII 

Fernandes (Lopo) 

Era criado de Pêro João e servia a D. Affonso V no officio 
de ferreiro. Residia em Lisboa. El-rei lhe passou carta de 
previlegio a 25 de setembro de 1450. 

«Dom A.° &. A uos corregedor e juízes da nossa muy nobre e sempre 
leall cidade de Lixboa % aos nossos apousemtadores da Rainha e Iffantes 
meus irmaaos e tio e a todolas outras justiças dos nossos Regnos e ou- 
tros quaes quer a que desto o conhecimento pertencer e esta nossa carta 
for mostrada, saúde, sabede que nos querendo fazer graça e mercee a 
Lopo Fernandez, fereiro, criado de P.° Joham, fereiro, ja finado, morador 
em essa cidade, por quanto elle nos serue e ha de seruir em a dita ci- 
dade em o dito officio de ferreiro ? teemos por bem e mandamosuos que 
daqui en diante o ajaaes por priuilligiado. Dada em Simtra xxb dias de 
setembro Ruy Vaaz a fez anno de nosso Senhor Jhu Xp£ de mil iuj'1. 
E eu Lourenço Aabul escpriuam da camará do dito Senhor Rey aqui 
sobscrepruy»(i). 

XXIII 

Fernandes (Manuel) 

D. Filippe II, em alvará de 16 de julho de 161 1, o nomeou 
para ir servir o officio de ferreiro na fortaleza de S. Jorge 
da Mina. 

«Eu elRey faço saber aos que este aluara virem que eu ey por bem 
e me praz que M.* 1 Frz, serralheiro, vá a fortaleza de são Jorge da Mina 
seruir o dito officio e de ferreiro, avêdo respeito a informação que tenho 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Affonso V, liv. 34, fl. io5 
verso. 



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ARTES E INDUSTRIAS METÀLLICAS EM PORTUGAL H7 

de sua suficiência, o qual officio seruirá pello tempo e com o ordenado 
cõteudo no Regimento, pello que mando ao capitão e officiaes da dita 
fortaleza lho deixem seruir e auer com elle o dito ordenado e os proes 
e percalços que lhe pertencerem, e ao prouedor e officiaes da Casa da 
índia lhe dem a posse delle e êbarcação na forma costumada, e o dito 
M. el Frz jurará na chancelaria aos santos euagelhos que o seruirá bem 
e verdadeiramente, do que se fará asêto nas costas deste que será regis- 
tado nos liuros da Casa da índia dentro de quatro meses primeiros se- 
guintes e valerá como carta sem embargo da ordenação do 2. liuro, 
titulo 40 em contrario. João Tauares o fez em Lixboa a xbj de julho de 
mil bj c e onze, e o dito M. cl Frz será obrigado a se êbarcar e ir seruir 
o dito officio sabSdolhe êtrar nelle dentro de oito meses primeiros se- 
guintes e nã o fazedo assy esta mercê não auera e ff eito, eu o secretario 
António Uiles de Cimas o fiz escreuer» (1). » 

XXIV 

Fernandes (Manuel) 

Era ferreiro e pelos annos de 1647 trabalhou juntamente 
com o. serralheiro Domingos Marques nas obras da capelta 
da Universidade. 

Vide Marques (Domingos). 

XXV 

Fernandes (Pêro) 

Já foi incluído no primeiro volume, do meu Diccionavio 
dos architectos, baseado numa citação de Diogo do Couto, 
que, referindo-se á empresa de D. Constantino de Bragança 
contra Damão, diz que Pêro Fernandes «era grande enge- 
nheira e mestre das ferrarias de Goa». Ahi ncou/ também 
exarada a carta de D. João III de 25 de novembro de 1547, 
em que o nomeou mestre das sobreditas ferrarias. 

Parece que é differente de Pêro Fernandes um mestre 
Pei~o, que foi com D. Álvaro de Castro em soccorro da for- 
taleza ae Diu, onde fez bons serviços, pelo que foi armado 
cavalleiro por D. João de Castro, sendo-lhe depois este titulo 
confirmado por D. João III em carta de 11 de setembro 
de 1549. 



(r) Torre áb Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, Doações, liv. 23, 
fl. 280. 



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120 O INSTITUTO 



XXVI 

Ferreira (Martin) 

Serralheiro em Coimbra. Foi um dos três peritos que ava- 
liaram a estante de ferro fabricada por António Fernandes 
para o mosteiro de Santa Cruz da mesma cidade. 

XXVII 

Gargia (António) 

Exerceu por largos annos o cargo de mestre das ferrarias 
de Goa, tendo além disso prestado importantes serviços 
militares. Assistiu ao cerco grande de Chauí; foi dos que 
tomaram a fortaleza de Chamei e acompanhou o governador 
Francisco Barreto na sua expedição ao Manamotapa. 

Mathias d 1 Albuquerque o nomeara mestre das ferrarias 
de Goa, sendo confirmado neste cargo pelo conde almirante 
D. Francisco da Gama. 

D. Filippe II lhe passou carta de confirmação a n de no- 
vembro de 1601. 

«Dom Filipe &. Faço saber aos que esta carta virem que auendo res- 
peito aos seruiços que António Garcia, mestre da ferraria de Goa, me 
tem feitos nas 'ditas partes por espaço de vim te e quatro annos, e se 
achar no cerco grande de Chaul, na tomada da fortaleza de Xarael e 
acompanhar o gouernador Francisco Bareto na conquista de Manamo- 
tapa; ey por bem e me praz de lhe fazer mercê de lhe confirmar o dito 
carego de mestre da dita ferraria de Goa em sua vida, de que o proueo 
em meu nome o Viso Rei Matias dAlbuquerque e lhe depois confirmou 
o conde almirante para que o sirua em sua vida sem embargo do Regi- 
mento que ha na índia que diz que os officios e caregos das ditas partes 
se não possao seruir por mais tempo que três annos, com o qual cargo 
auera sessenta mil reaes dordenado cada anno e todos os próis e per- 
calços que lhe direitamente pertencerem, pello que mando ao meu Viso 
Rei ou gouernador das partes da índia, que ora ne e ao diante for e ao 
vedor de minha fazenda em ellas, que lhe dê a posse do dito cargo e 
lho deixem seruir e auer o ordenado, próis e percalços que lhe perten- 
cerem, como dito he e ao vedor de minha fazenda das ditas partes lhe 
dará o juramento dos santos euangelhos que bem e verdadeiramente o 
sirua, guardando em tudo meu seruiço e as partes seu direito, de que se * 
fará asento nas costas desta carta, que será registada na Casa da índia 
da feitura delia quatro mezes, a qual se lhe passou por duas vias, cum- 
prida hua, a outra não auera efeyto, e antes que se de a posse deste 
cargo ao dito António Garcia apresentará ao meu Viso Rei ou gouer* 



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ÁfcTÉS E iNbUSTRÍAS MEfALlJCAS tíM K)fcfUGAL líg 

nador das ditas partes a patente que se lhe de He passou para a romper 
e se porã em seus registos as verbas necessárias. Luis Figueira a fez *em 
Lixboa a xi de novembro de mil bj c e huu. Janaluez Soares a fez es- 
creuer» (i). 

XXVIII 

Gentil (Diogo) 

Succedeu em 1592 a António Machado, por cuja morte 
vagara o cargo de serralheiro dos armazéns do reino. Vide 
António Machado. 

XXIX 

Gomes (António) 

Nomeado por D. João IV, em carta de 4 de março de 1643, 
mestre das ferrarias da Ribeira do Ouro, na cidade do Porto, 
onde já servia ha muitos annos, acudindo com as ferragens 
necessárias para o apresto dos galiões que alli se fabricavam. 

«Dom João &. Faço saber aos que esta minha carta virem que hauendo 
respeito ao bom prosedimento com que António Gomes tem seruido de 
muitos annos a esta parte no fabrico das ferrarias da Ribeira do Ouro, 
acodindo com as ferragens necessárias para o apresto dos galiões que se 
fabricarão na cidade do Porto ; Hei por bem de lhe fazer mercê do offi- 
cio de mestre das ditas ferrarias da Ribeira do Ouro da cidade do Porto, 
com o qual officio hauera o dito António Gomes o ordenado que lhe 
tocar e todos os proes e precaiços que lhe direitamente pertencerem; 
pello que mando . . . Manoel Antunes a fez em Lixboa a inj de março 
anno do nassimento de Nosso Senhor Jesu X^õ de mil seis centos qua- 
renta e três. João Pereira de Betancor a fez escreúer. EIRei» (2). 



XXX 

Gonçalves (André) 

D. João IV\ em alvará de 29 de novembro c^e i65o, o 
nomeou mestre das obras de ferro nos armazéns, para succe- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, Doações, liv. 7, 
fl. 190. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João IV, Doações, liv. 14, 
fl.94. 

VOL. 55.°, N.° 3 — MARÇO DE I908. 3 



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l3o O INSTITUTO 

der a Gaspar Fernandes, já fallecido. Havia oito annos que 
servia no mesmo armazém como official de ferreiro, empre- 
gando-se com muito cuidado e deligencia no fabrico das obras 
de ferro necessárias para as armadas reaes. 

oEu elRei faço saber aos que este aluara virem que auendo respeito 
a André Gonçalves, officral de ferreiro, auçr oito annos que serue nos 
meus almazeris de fazer todas as obras de ferro necessárias para minhas 
armadas com muito cuidado e dilligencia como se vio por informação 
da prouedor dos ditos almazens, e a Gaspar Fernandes, que seruio de 
mestre das ditas obras, ser falecido, hey por bem de fazer mercê ao 
mesmo André Gonçalves do dito officio de mestre das ditas obras, assy 
e da maneira que o seruio o dito Gaspar Fernandes, por quem vagou, 
com o qual hauera dez mil reaes de ordenado em cada hum anno e o 
valor do feitio das obras que fizer, que he outro tanto como tinha seu 
antecessor : os quaes lhe serão pagos no thesoureiro dos ditos almazens 
e seruira o dito officio em quamto eu ouuer por bem e não mandar o 
contrario, com declaração que hauendo eu por meu seruiço de lho tirar 
ou extinguir em algum tempo, lhe não ficara por isso minha fazenda 
obrigada a satisfação alguma : pello que mando ao prouedor dos meus 
almazens e armaaas lhe de posse do dito officio e lhe deixe seruir e 
hauer o dito ordenado, que começara a venser do dia em que lhe for 
dado a posse em diante e jurara em minha chancellaria aos santos euan 
gelhos que bem e verdadeiramente o sirua guardando em tudo meu ser- 
uiço, do qual juramento e posse se fará assento nas costas deste aluara, 
que quero que valha, tenha força e vigor como se fora carta feita em 
meu nome por mym assinada e passada pella chancellaria sem embarco 
da ordenação do Jiuro 2. titolo 40 em contrario e pagara o nouo direito 
que deuer na forma do Regimento. Luis da Gosta Corrêa o fez em Lix- 
boa a vinte e noue de nouembro de seis centos e sincoenta annos. E 
eu João Pereira de Betancor o fis escreuer. Rey» (1). 

XXXI 

Gonçalves (JJalthasar) 

D. João III nomeou-o serralheiro dos paços reaes, cm carta 
de 12 de agosto de 1028, pela qual lhe concedeu os previle- 
gios inherentes. Por sua morte, succedeu-lhe seu filho, Gaspar 
Gonçalves, cuja carta de nomeação é de 22 de dezembro 
de 1546. 

«Dom Joham &. A quamtos esta minha carta virem faço saber que 
auemdo eu respeito aos almoxarifes dos meus paços desta cidade de 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João IV, Doações, liv. 26, 
162. 



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ARTES £ INDUSTRIAS MeTàlUCÁS EM t>ÕRTtiGAL l3 1 

Lixboa terem sempre nysesydade de húu saralheyro que comtynuadar 
mente este prestes pêra fazer ho que compre a bem de seu ofício que 
for necesaryo pêra eles, me praz tomar por meu saralheiro a Baltezar 
Giz, morador nesta cidade, por ser emformado que he bom oficyall do 
dito oficio de saralheiro, ho quall ey por bem que faça todas as obras 
de seu oficyo que lhe forem mamdadas fazer pelos almoxarifes dos ditos 
paços e quando as fizer nã seja costramgido per nenhuas pesoas a fazer 
outras nenhuas de quaes quer pèsoas que seyam, ey por bem que ho 
dito Baltezar Giz goze de todolos prevylegios e lyberdaaes de que gozam 
os meus oficiaes doficios macanycos, posto que nam tenha com ho dito 
oficyo mamtymento, saluo as obras que fizer pagas pelos ditos almoxa- 
rifes segundo se soem a pagar. Porem mamdo a todas minhas justiças 
e a outros quaes quer meus oficiaes, a que esta minha carta for mos- 
trada e o conhecimento dello pertemcer que em todo cumpra esta como 
se em ela comtem por que asy he minha mercê. Aluaro Neto a fez em 
Lixboa a xij dias dagosto anno de noso Senhor Jhuú X^ de myll 
b e xxbiij. E porem se os almoxarifes quyserem fazer as ditas obras com 
alguQs outros oficyaes, fazemdolhas mais baratas podeloam fazer» (i). 



XXXII 

Gonçalves (Gaspar) 

Nomeado, em carta de 22 de dezembro de 1546, serra- 
lheiro dos paços reaes, officio anteriormente exercido por seu 
pae, de quem se trata no artigo anterior. 

oDom Joham &. A quamtos esta minha carta virem faço saber que 
eu ey por bem e me praz de fazer mercê a Gaspar Giz, serralheiro, mo- 
rador na cidade de Lixboa, do oficio de serralheiro dos meus paaços da 
diia cidade que ora vagou per fallecimento de Balthesar Giz seu pay, 
que ho tynha per minha carta, ho qual ey por bem que faça todas as 
obras de seu oficio que forem necessárias pêra os ditos paços^ e quamdo 
as fizer não seja costramgido a fazer outras nenhuas de quaes quer 
pesoas que seja, e o dito Gaspar Giz gozara de todos os preuilegios e 
liberdades de que goza os meus oficiaes doficios macanicos, posto que 
não tenha com ho dito oficio mantimento allgum salluo as obras que 
fizer paeas pelos allmoxarifes dos ditos paços, segundo se custumão 
pagar. Notencoo assy as justiças, a que ho connecimento desto pertencer, 
ejnes mando que lhe cunprãe guardem esta minha carta como se nella 
cotem sem duuida nem embargo allgum que a ello seja posto, e mando 
aos allmoxarifes, que ora são e ao diamte forem dos ditos paços que 
ajã daqui em diamte ao dito Gaspar Giz por serralhairo delles e lhe 
deixem seruir como dito he. E porem, se os ditos allmoxarifes quyserem 
fazer as ditas obras com allgús outros oficiaes que lhes facão mais bara- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Doações, liv. 14, 
ÍL 175. 



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1^2 Ô INSTITUI O 

tas do que has o dito Gaspar Giz fizer podelloam fazer. Dioguo Neto a fez 
«m Almeirim a xxn dias de dezembro, ano do nacimento de noso senhor 
Jha X^ de jb c Rbj» (i). 

XXXIII 

Guis (Mestre) 

Era allemão e exercia em Lisboa o officio de serralheiro. 
D. Aífonso V lhe passou carta de previlegio a 18 de abril 
de 1452 (2). 

Henriques 

Vide Anriques. 

XXXIV 

Henriques (Diogo) 

Era serralheiro na villa (hoje cidade) de Thomar e traba- 
lhava para o convento de Christo. Exercia variadamente a 
sua aptidão, executando, entre outras obras, um relógio, de 
que foi avaliador Pêro de França, relogoeiro em Figueiró. 

Tirei esta noticia de um dos livros do cartório do mesmo 
convento. 

t Pagou mais o dito recebedor per mandado-do dito padre 

e perante mim spriuã a D.° Anriquez, serralheiro desta 

villa de ajudar a fazer ho Relógio nouo seis mil e setecêtos 

e sateta e dous reaes com quatro cêtos que dera a Pêro de 

. França Relogoeiro morador em Figueiró que ho veo avaliar». 

«Pagou mais o dito recebedor per mandado do dito padre 
e perante mim spriuã ao dito D.° Anriquez de soldar o ba- 
dallo do sino grande e de hu ferro grande pêra estar hua 
alampada na charolla e de duas enxós e de três martellos e 
cte hua cutella pêra cortar liuros e doutra ferramenta pêra 
os frades mil e b c R reaes». 

J0Ã0 (Mestre) 
Veja-se Allemão (João). 



(\) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 33, fl. 12. 
(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Afíbnso V, liv. 12, fl. 94. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALUCAS EM PORTUGAL 1.33 

XXXV 

João (Domingos) 

Mestre serralheiro. D. João IV, em aJvará de 14 de maio 
de 1648, lhe permittiu que podesse ir pelo seu officio á casa 
dos vinte e quatro apesar de ser moedeiro, contanto que não 
usasse dos previlegios doestes. 

«Eu elRei faço saber aos que este aluara virem que auendo respeito 
ao cjue por sua petição me emuiou dizer Domingos João, mestre sara- 
lheiro, sobre poder ser eleito pello seu officio pêra hir a casa dos vinte e 
quatro sem embargo de ser moedeiro, e visto o que alega e a imforma- 
ção que se ouue pello licenceado Jasinto Pimentel Arnauto, coregedor 
do ciuel desta cidade que serue de comseruador delia e reposta que deu 
o juiz do pouo e casa dos vinte e quatro, ei por bem e me praz de des- 
pencar com o dito Domingos João pêra que posa ir a dita casa dos vinte 
e quatro sem embargo de ser moedeiro contanto que não uzara do pre- 
uflegio de moedeiro. E mando as justiças officiaes e pesoas, a que o 
conhecimento disto pertencer que cumprão e guardem este aluara como 
se nelle contem. Manuel do Couto o fez em Lixboa a catorze de maio 
de seis centos quarenta e oito. Jasinto Fagundes Bezera o fez escreuer 
Rei» (i). 

XXXVI 

J0Ã0 (Pêro) 

Era ferreiro em Lisboa e tinha um criado de nome Lopo 
Fernandes, de quem se trata no logar competente. Era já 
fallecido em 1450. 

XXXVII 

Lopes da Costa (Fernando) 

Serralheiro com residência actual em Villa Franca de Xira. 
Acaba de requerer patente de invenção para uma bomba 
aperfeiçoada para elevar agua a grandes alturas, constituída 
por um cylindro com fendas verticaes em parte da sua altura, 
que assenta no fundo do poço, e no qual trabalha um embolo 



(1) Torre do Tombo, Ghancellaria de D. João IV, liv. ao, fl.QQ, 



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l34 O INSTITUTO 

metallico, sendo o mesmo embolo posto em acção por meia 
de um varão que se liga á cambota de um eixo situado na 
parte superior do apparelho, onde existe uma camará devi- 
damente estanque, de onde a agua sae para a tubagem de 
elevação ou de distribuição. 



XXXVIII 

Lourenço (António) 

Por morte de seu pae, Lourenço Annes, foi nomeado para 
o substituir no cargo de mestre ferreiro nos armazéns da 
Ribeira de Lisboa, por alvará com força de carta de 17 de 
janeiro de 1600. 

«Eu elRey faço saber aos que este aluara virem que por pane de 
António Lourenço, filho de Lourenço Annes, me foi apresentado hum 
aluara de lembrança delRey meu senhor, que Deus tem, de que o tras- 
lado é o seguinte : «Eu elRey faço saber aos que este aluara virem que 
pella informação que tenho de António Lourenço, filho de Lourenço 
Annes, mestre das obras de ferro aue se fazem nesta cidade de Lixboa, 
pêra despeza de meus almazes, e de sua suíficiencia no dito officio, ey 
por bem e me praz de per falecimento do dito Lourenço Annes, seu pai, 
lhe fazer mercê do dito officio para o seruir em quamto eu o ouuer por 
bem e não mandar o contrario, e auer outro tanto ordenado como o 
dito seu pai com elle ora tem, e isto com declaração que auendo eu 
por bem cie extinguir o dito officio ou que elle o não sirua lhe não ficara 
minha fazenda por ysso em obrigação algua e pêra sua guarda lhe man- 
dey dar este meu aluara, pello qual mando aos vedores de minha fazemda 
que quando for tempo lhe facão fazer prouisão em forma do dito officio 
apresentando a que o dito seu pai tem e este valerá e terá força e vigor 
& na forma, e valerá outro si, posto aue não seja pasado polia chance- 
laria sem embargo da ordenação do dito liuro em contrario. Gaspar de 
Seixas o fez em Lixboa a xxbij de abril de mil b e lxxxij. Eu Bertolameu 
Frois o fiz escreuer e o dito ordenado serão oito mil reaes somente, que 
he outro tanto como o dito seu pai até ora teue». E pidindome o dito 
António Lourenço que por quanto elle era filho do dito Lourenço Annes 
e lhe pertencia o dito officio de mestre das obras de ferreiro que se fa- 
zem em meus almazes por elle ser falecido como constou por certidam 
de justifficação do doutor António Dinis, do meu desembargo, do con- 
selho de minha fazemda e juiz das justificações delia, lhe fizesse mercê 
de lhe mandar passar prouisão em forma delle, e visto por mim seu 
requerimêto e o aluara neste incorporado e certidão de justifficação, ey 
por bem e me praz de lhe fazer mercê do dito cargo de mestre das obras 
de ferreiro que se fazem em meus almazes e Ribeira desta cidade de 
Lixboa, com o qual auerá dez mil reaes.de ordenado cada anno, alem 
do feitio das obras que fizer, que he outro tanto como auia o dito seu 
pai — s — oy to mil reaes polia prouisão que tinha com o dito officio e 
os dous mil reaes de acrecentamento por húa postilla que se nelle pos, 



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ARTES E INDUSTRIAS METALUCAS EM PORTUGAL l35 

os quaes dez mil reaes lhe serão pagos no thesoureiro dos meus alma- 
zens, assy e dtf maneira que se pagauáo ao dito seu pai, e o dito António 
Lourenço o seruirá em quãto eu o ouuer por berne não mandar o con- 
trario com declaração que tirandolho ou extinguindosse por qual quer 
via que seja lhe não ficará por isso minha fazenda obrigada a satisfação 
algOa. Pello que mando a Vasco Fernandez César, fidalgo de minha casa 
e prouedor de meus almazês e armadas, que lhe de a posse do dito offi- 
cio e lho deixe seruir e auer o dito ordenado, que começará a vencer 
do dia que lhe for dado posse delle em diante e lhe dará o juramento 
dos sanctos euangelhos que bem e verdadeiramente o sirua, de que se 
fará assento nas costas deste aluara, que quero que valha &, e o aluara 
neste incorporado e certidão de justifficação e a prouisão que o dito 
Lourenço Annes tinha do dito orneio foi tudo roto ao assinar deste e 
nos registos delia que estão nos liuros de minha fazemda chancellaria e 
mercês e asi nos registos do aluara de lembrança que estão nos ditos 
liuros de minha fazemda mercês e no dos almazês se porão verbas de 
como se passou este aluara ao dito António Lourenço do dito officio, 
de que os officiaes a que pertencer passarão suas certidões. Luis Figueira 
o fez em Lixboa a xbij de janeiro de mil bj c Janaluez Soarez o tez es- 
creuer» .( i ). 

XXXIX 

Lourenço (Diogo) 

De Villa Viçosa. D. Affonso V o tomou por seu ferreiro. 
Carta de previlegio de 2 de junho de 1456 (2). 



XL 

Machado (António) 

Foi nomeado, em alvará com força de carta de 9 de no- 
vembro de i5c)i, serralheiro dos armazéns e marcador da 
artilharia que nelles se fizesse, cargo que tinha vacado por 
fallecimento de Lamberto Henriques. A António Machado 
succedeu Diogo Gentil em 1592. 

«Eu elRei faço saber aos que este alluara vyrem que eu ey por bem 
de fazer mercê á Amtonyo Machado do oficio "de serralheyro dos meus 
almazêes e de mercador (marcador) de toda a artelharia que se fumdyr 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, Doações, liv. 7, 
fl. yz. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Affonso V, liv. i3, fl. i33 
verso. 



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l36 O INSTITUTO 

dos ditos allmazêes, com ho qual oficio teraa e avera blíj reaes de orde- 
nado em cada hum ano, que he outro tamto como tinhaLamberte 
Amriquez per cujo falecimento vaguou e halem dos ditos bi]j de orde- 
nado averaa pelas obras que asy fizer os preços em que se comcertar 
com ho prouedor dos ditos allmazêes, as quaees obras se darão todas ao 
dito Amtonyo Machado e não a outro allgGu oficiall e elle seraa hobri- 
guado a estar aualiação das cousas de ferro que o dito prouedor e hofi- 
ciaes dos allmazêes mãdarem fazer pêra despois delles pêra se ver se 
são da bomdade que deuem ser e dyzer ho que vallem e se por ellas 
deuem de paguar da maneyra que ho fazia o dito Lamberte Hamriquez, 
e os ditos bíTj reaes de ordenado começara a vemcer do dia em que lhe 
for dado pose do dito oficio e lhe serão paguos no thesoureiro dos meus 
allmazêes aos quartéis de cada ano e mando a João Gomez da Syllua 
do meu conselho do estado e vedor de minha fazenda que lhe faça 
asemtar os ditos blíj reaes de ordenado no L. q do asemtamento de minha 
fazenda para lhe irem cada ano na folha que se faz dos hordenados dos 
hoficiaees delles e a Luis César do meu conselho e prouedor dos meus 
allmazêes e armadas que lhe dee a pose do dito oficio por este alluara 
que valeraa como carta & na forma. D.° de Sousa o fez em Lixboa a ix 
a novembro de lrj (1591): o quall hordenado lhe seraa paguo com cer- 
tvdão do prouedor dos allmazêes de como serue e he comtyno. Pêro 
Gomez Dabreu o fez sepreuer» (1). 



XLI 

Marinho (Duarte) 

Martim Aftbnso de Mello, sendo governador de Malaca, 
nomeou a Duarte Marinho mestre das ferrarias d'aquella 
fortaleza. Esta nomeação, confirmada primeiramente pelo 
conde da Vidigueira e por Ayres de Saldanha, foi por ultimo 
confirmada por D. Filippe II em carta de 10 de abril de 1604. 

«Eu elRey faço saber aos que este aluara virem que auêdo respeyto 
aos seruicos que Duarte Marinno, estamte nas partes da Imdia, me tem 
feitos nellas ategora e do prouer em meu nome do cargo de mestre da 
ferraria da fortaleza de Malaqua Martim Afonso de Mello semdo capitão 
delia e lho cõfirmar o cõde da Vidigueira e Ayres de Saldanha viso Rey 
da Imdia, ey por bem e me praz de fazer mercê ao dito Duarte Marinho 
de lhe cõfirmar o dito cargo de mestre da ferraria da fortaleza de Ma- 
laca pêra o seruir emquanto eu ouuer por bem e não maodar o contra- 
rio sem embargo do Regimento que ha na Imdia que diz que os officios 
das ditas partes senão possão seruir por mais tempo que três annos 
somente, pollo que mando ao meu viso Rey ou gouernadòr das ditas 
partes da Imdia, que ora he e ao diamte for, e ao vedor de minha fa- 



( 1 ) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe I, Doações, liv. 22, 
fl. 204. 



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Li 



ARTES E INDUSTRIAS METALMCAS EM PORTUGAL l3y 

zemda em ellas, que cQprão e guardem e facão imteiramente cõprir e 
guardar este aluara como se nelle cotem, cjue valera como carta & na 
Forma, e se lhe pasou por duas vias, cõpnda hGa, a outra não auera 
effeito. Belchior Pimto o fez em Lixboa a dez dabríl de mil e seis cemtos 
e quatro. Janaluarez Soares o fez escreuer» (i). 

XLII 

Marques (Domingos) 

Era serralheiro da Universidade de Coimbra e pelos annos 
de 1647 trabalhou nas obras que se fizeram na capella da 
mesma Universidade, juntamente com o ferreiro Manuel Fer- 
nandes e com o vidraceiro Francisco Jorge. 

Estes apontamentos vêem revelados na monographia do 
sr. dr. A. Garcia de Vasconcellos acerca da historia da so- 
bredita capella. 

XLIII 

Martinho (Mestre) 

Serralheiro em Coimbra na primeira metade do século xvi. 
Foi um dos três peritos que avaliaram a estante de ferro 
fabricada por António Fernandes para o mosteiro de Santa 
Cruz da mesma cidade. 

XLIV 

Noronha (André de) 

Era serralheiro em Extremoz, donde veiu para Lisboa, 
afim de exercer o mesmo officio nos paços reaes, cargo 
para que foi nomeado por alvará de D. João IV com força 
de carta de 19 de agosto de 1643. D. João IV o nomeou 
também relogoeiro dos seus pajços. 

«Eu elRei faço saber aos que este aluara virem que eu ei por bem 
e me pras de fazer mercê a André de Noronha, saralheiro e fereiro das 
obras de meus paços, de dez mil reaes de ordenado com os ditos offi- 



(i) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, Doações, liv. 14, 
• 114. 



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l38 O INSTITUTO 

riosj auendo respeito a sua sufficiencia e a ser mandado vir de Estremoz 
a meu seruiço, os quais dez mil reaes de ordenado comesara a vencer 
oito dias do mes cie abril deste ano prezente de mil e seis centos 
irenta e três em diante ; pello que mando aos vedores de minha fa- 
lda e conssilheiros delia lhe facão asentar os ditos dez mil reaes de 
lenado no liuro da dita minha fazenda e do tempo acima declarado 
;pachar cada ano em parte onde aja delles bom pagamento. E este 
ara ei por bem valha como carta sem embargo da ordenação em con- 
rio, comtudo não se faça obra per elle sem primeiro constar por cer- 
áo nas costas do mesmo aluara do escriuão do nouo direito como o 
d André de Noronha tem pago em minha chancelaria do que deuer 
Ha mercê. Luis de Lemos o fez em Lixboa a dezanoue de agosto de 
s centos quarenta e três. Fernão Gomes o fez escreuer. Rei» (i). 



XLV 

Nunes (Diogo) 

Era de Alegrete e D. Aftonso V o tomou por seu ferreiro, 
ssando-lhe carta de previlegio a 28 de fevereiro de 1467. 
ta carta foi confirmada por D. João II em 1472 (2). 

XLVI 

Ortega (Diogo) 

Em 25 de outubro de 1529 D. João III lhe passou carta 
\ que o nomeava seu serralheiro de estribeira, conceden- 
-lhe ao mesmo tempo os previlegios inherentes ao oflScio. 
ta carta substituía dois alvarás do mesmo teor, um dos 
aes havia sido subscripto por D. Manuel. 

«Dom Joham &. A quatos esta minha carta virem faço saber que por 
te de Dioguo Ortega serralheyro me foy apresemtado huú meu aluara 
que ho teor tall he : «Eu elRey faço saber a quitos este meu aluara 
itn que Diogo Ortega tinha hum aluara delRey meu senhor e padre 
\ samta gloria aja per que o tomou por meu (sic) serralheyro e pêra fa- 
estribeiras, o qual aluara emtregou nas comfirmações pêra se comfir- 
r per mim e se perdeo nelas pelo que me pedio por mercê que ouuese 
• bem lhe mandar dar outro tall aluara e visto por mim seu dizer e 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João IV, Doações, liv. 12, 
$63. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João II, liv. 6, fl. 137. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALUCAS EM PORTUGAL l3g 

por ser certo como se o dito aluara perdeo nas confirmações e por mos- 
trar huua certidã de Brás da Costa escrivã que foy da cozinha do dito 
senhor que elle dito Diogo Ortega tinha este meu aluara, pello qual ey 
por bem que elle seja meu serralheyro e pêra fazer estribeiras, auemdo 
respeito ao aluara que asy tinha do dito senhor e por sua guarda e mi- 
nha lembramça lhe mãdey dar este aluara per mim asynado Amtonio 
Paez o fez em Lixboa a biij dias de mayo de mill b c xxix e porem elle 
na auera moradia nem apousemtadoria». Pedimdome o dito Diogo Ortega 
que ouuese por bem lhe mãdar fazer o dito aluara em carta e pasar carta 
em forma e queremdolhe fazer graça e mercê, tenho por bem e o tomo 
por meu serralheyro e pêra fazer estribeiras e porem o notifiquo asy a 
todos os meus oficiaes pessoas e justiças a que esta minha carta for 
mostrada e o conhecimento dela pertencer e lhes mado que o aja por 
meu serralheyro e quero que goze de todas as liberdades que tem e de 
que goza os meus oficiaes macanicos que amdã em meus liuros, e mãdo 
ao meu tesoureiro e oficiaes que lhe dem minhas hobras a fazer aquelas 
que tocarem a seu oficio de serralheyro e destribeiras e ao meu apou- 
semtador moor que ho mãde apousemtar nos lugares omde eu estiuer 
asy como aos meus oficiaes macanicos e nos lugares das apousemtado- 
rias será yso mesmo apousemtado por seu dinheiro que elle pagara a 
sua custa e por certidã dello lhe mãdey dar esta carta por mim asynada 
e aselada com o meu selo. Amtonio Paez a fez em Lixboa a xxb dias 
doutubro de mill b c xxix» (1). 

XLVII 

Pedro (Mestre) 

Serralheiro em Coimbra na primeira metade do século xvi. 
Foi um dos três peritos que avaliaram a estante de ferro 
fabricada por António Fernandes para o mosteiro de Santa 
Cruz da mesma cidade. 

XLVIII 

Pedro ou Pêro (Mestre) 

No artigo Pêro Fernandes fiz referencia a mestre Pedro, 
mestre das ferrarias de Goa, que acompanhou D. Álvaro de 
Castro no soccorro de Diu e alli prestou bons serviços até 
a fortaleza ser descercada por D. João de Castro, que o 
armou cavalleiro. D. Garcia de Sá lhe passou alvará aesta 
mercê, alvará que foi confirmado por D. João III em 1 1 de 
setembro de 1549. 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 17, fl. 120 verso. 



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140 O INSTITUTO 

No anno de i562 apparece um mestre Pedro, mestre das 
ferrarias de Goa, a quem o viso-rei Conde de Redondo fez 
mercê ide um pedaço de chão que está no baluarte junto 
com o postigo na rua que vem da fortaleza para o hos- 
pital». 

A 21 de fevereiro de 1 565 o viso-rei D. Antão de Noronha 
publicou uma provisão sobre o vencimento dos ordenados 
de diversos oíncios da cidade de Goa e nella se faz uma 
referencia a mestre Pedro pela forma que adiante vae men- 
cionada. Numa lista das pessoas a guem el-rei deu licença 
para mandar vir especiarias da índia, figura um mestre Pedro, 
mestre das ferrarias, ao qual foi permittido mandar vir de 
Ceylão cinco bares de canella. 

«Dom Johao &. A quantos esta minha carta virem faço saber que 
por parte de mestre Pedro, mestre das ferrarias da cidade* de Goa, me 
foy apresentado hum aluara de Garcia de Saa, que ora serue de goucr- 
nador nas partes da índia, pello qual se mostraua que por dom Johno 
de Crasto, que Deos perdoe, que foi Viso Rey nas ditas partes, ter recado 
de dom Johão Mazcarenhas, capitão da fortaleza da cidade de Dio, de 
como a dita fortaleza estaua cerquada per Goje Çofar, capitão delRey 
de Cambaya, mandara a socorro delia dom Aluaro de Castro, seu filho, 
capitão moor do maar das ditas partes, com muitos nauios, gente e mo- 
niçÕes, e que per o dito mestre Fedro ir ao dito socorro na armada do 
dito dom Aluaro e se achar no dito cenjuo e no combate e pelleja que 
tiuerão com os mouros, de que ouuerao vencimento : no qual o dito 
Viso Rey se achou per também acodir ao dito socorro depois do dito 
seu filho^ que foy a dez dias de nouembro do ano de mil b e Rbj, e o 
fazer muito bem de sua pesoa, o fizera caualeiro, segundo maU inteira- 
mente hera contheudo e declarado no dito aluara, pedindome por mercê 
que lho confirmasse e mandasse que lhe fossem guardados os priuilegioá 
e liberdades dos caualeiros. E visto seu requerimento, e por wzer certo 
de seu seruiço, e querendolhe fazer graça e mercê, ey por bem e ír.p 
praz de lhe confirmar, e por esta lhe ey por confirmado, o dito aluara, 
e quero que elle goze e uze daauy em "diante de todos os priuilcgios c 
liberdades, graças, franquezas, ae que gozão e de direito deuem gozar c 
gouuir os caualeiros per mym confirmados, e elle será obriguado a ter 
armas, segundo forma da ordenação. Noteficoo asy a todos meus desem- 
barguadores, corregedores, ouuidores, juizes, justiças, oficiaes e pesoas, 
a que esta carta for mostrada e o conhecimento delia pertencer, e lhes 
mando que a cumprao e guardem e facão inteiramente comprir e guar- 
dar sem a ello poerem auuida nem embarguo algum, por que asy hc 
minha mercê. Dada em Lixboa a xj dias de setembro. Balthesar F^man- 
dez a fez anno do nascimento de nosso Senhor Jhu Xfiy de mil o c Rix. 
João de Castilho a fez escreuer» (i). 



(í) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Privilégios, liv. 2, 
fl. 89 verso. 



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ARTES E INDUSTRIAS METALLICAS EM PORTUGAL 141 

SUMMARIO- 

«Carta do Viso rey, conde do Redondo, em nome cTel-rey, 
fazendo mercê a mestre Pedro, mestre das ferrarias de Sua 
Alteza na cidade de Goa, de um pedaço de chão, que está 
no baluarte junto com o postigo na rua que vem da fortaleza 
para o hospital, onde elle tem umas casas térreas, e lhe faz 
mercê do aito pedaço de chão em fateota para sempre para 
elle e seus hercfeiros ascendentes e descendentes, e faça nelle 
todas as bemfeitorias que quizer, e por bem tiver como cousa 
sua, e que se possa sobradar, e armar sobre o muro, com 
declaração que se em algum tempo for necessário despejal-o 
e dar serventia ao dito muro, fique obrigado a isso. Gôa, i5 
de maio de i562» (i). 

tltem, Mestre Pedro, mestre das ferrarias de Sua Alteza 
(Testa cidade, tinha de seu ordenado 20^000 réis com ho 
dito cargo, e depois lhe foy acrescentado pelos governadores, 
que com sua aposentadoria e mantimento emportavão 90^000 
réis por anno. Eu lhe assentei no dito Regimento 6o#>ooo réis 
com ho dito cargo, e por elle ter servido Sua Alteza muito 
1 bem, e ter feito na ribeira de Sua Alteza muitas cousas de 
! proveito da fazenda do dito senhor, e esperar cTelle que asy 
o faça sempre, ey por bem que ele haja com ho dito cargo 
I em quoanto o asy servir os ditos 90^000 réis de ordenado 
} por anno entrando nisso os 6ç#ooo réis do Regimento. E 
; socedendo outra pessoa no dito cargo não averá mais que os 
l ditos 6o#ooo réis por anno». 
1 No fim da Provisão vem esta aclaração: 

«Em quanto a Mestre Pedro já não serve de mestre das 
ferrarias de Sua Alteza, e portanto não averá hordenado 
algum do carrego, e por-se-lhe-ha verba em seu titulo pêra 
o não vencer, etc.» (2). 

«Item a Mestre Pedro, mestre das ferrarias, deu licença 
que podesse mandar trazer de Ceilão cinquo bares de canella, 
avendo respeito ao muito serviço que faz el rei nosso Senhor 
em seu officio» (3). 

(Continuei), Sousa Viterbo. 



(1) Rivara — Archivo Português Oriental, fase. 5.°, doe. 419» 

(2) Rivara — Archivo Portugue\ Oriental, fase. 5.°, doe. 540, pag. 5o 1. 

(3) Lista das pessoas a que el-rei concedeu licença para trazer da ín- 
dia especiarias. Torre do Tombo, gaveta i5, maço 12, n.° 1» Transcripto 
do volume de leitura nova, gaveta i5, maço 9 a 12, fl. 239. 



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142 O INSTITUTO 



)NTES DOS LUSÍADAS 

(Cont. dos n. 0i i e 2, pag. 86) 



>r patriotismo que o poeta deixou de men- 
que, no dizer de Saoellico, recorreram os 
sboa, para afastarem os bárbaros (r). 
e força demais a nota. Nem Sabellico queria 
10 se vê por uma passagem um pouco poste- 

sta apenas escnpto nam obedeceo? 
-5, lê-se: 

n Atila, que Itália toda espanta, 
ttica gente trouxe tanta. . . 



> de Brito também não acceita, senão parcialmente, 
3us historiadores italianos. Para elle, foi principal- 
dos santos martyres lisbonenses, Veríssimo, Ma- 
laquella occasião livrou a cidade de cair em poder 

estes santos patrões & defensores particulares da 
orno naturaes delia ; & com milagres notáveis mos- 
ccasiões quanto a tinhão á sua conta : porque, sendo 
>osta em grande aperto pelo exercito dos Alanos & 

em perigo manitesto de ser entrada por força & 
udirão os moradores com lagrimas & orações aos 
virão tão presente, que os bárbaros, assaltados de 
na & de certo medo & temor espantoso, levantarão 
intarão com pouca quantidade de moeda, que lhe 
irte dos gastos feitos na jornada. Este é o dinheiro 
o Sabellico dizem que Lisboa remio sua liberdade, 
o do favor dos Santos». Monarchia Lusitana, liv. v, 
ap. 2. No liv. vi, cap. 3.°, explica o nada escrupuloso 
sboa & toda a terra, que ha ao longo do mar até o 
vos». 

m com intuito de descobrir a fonte de m, 60, que 1 
3 de Fr. Bernardo de Brito e, por intermédio delias, 
ia obra de Sabellico. 



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FONTES DOS LUSÍADAS 143 

Ora Sabellico é muito expresso a respeito do povo que 
tinha Attila por chefe : eram os hunnos. 

E se a propósito da invasão da Itália falia nos ostrogodos, 
é apenas para os enumerar entre os muitos auxiliares do 
terrível chefe bárbaro. «Jussi itaque in certum diem adesse 
concilio dimittuntur, nec longior inde mora fuit; pleraeque 
ferócissimae gentes cum suis regibus affuere, Ostrogothi, 
Heruli, Turcilingi, Quadi, Rugi, quibus Hunnus auxiliis fre- 
tus», etc. (En. 8>, I. i.°, p. 436). 

aue escreveu então o poeta ? Naturalmente, ou o adje- 
ctivo nunnica, que Sabellico emprega: — hunnicam uirtutem, 
hunnico tumultu, — ou talvez scythxca, por causa de passa- 
gens como esta: tHunni gens sc/thica* (En. ().*, 1, i.°, p. 63o), 
iHunni, quos Scytnicam esse gentem docuimus», etc. (Dec. 
i.\ 1. 3.*). 

Em 111, 110, affirma o poeta que o exercito agareno 

. . . com titulo falso possuindo 
Está o famoso nome sarraceno. 

Que quer isto dizer? Explica-no-lo Sabellico: «A Sara, 
quae fuit Abrahae, sese ortos arbitrati, quam Mahometus 
ansam araplexus, facile uanissimae genti persuasit solos eos 
omnium mortalium legítimos esse diuinae professionis suc- 
cessoresi. (E?i. 8.% 1. 6.°, p. 536). . 

Mas se a palavra se deriva de Sara, mulher de Abra- 
hão, é obvio que deve escrever-se saraceno e não sarraceno. 
Foi assim que o poeta a leu em Sabellico, em Ariosto, etc. 
E foi também esta- a graphia que para ella adoptou, aliás 
não se comprehenderiam os versos de 111, 110. 

Em nota a este passo observa Freire de Carvalho: tEscre- 
vemos neste logar Saraceno, e não Sarraceno, como se lê 
em todas as edições*, que, ao contrario, faríamos dizer ao 
poeta uma grande necedade». (Os Lusíadas, Lisboa, 1843, 
p. 3og). 

Mas porque é que só neste logar se deve escrever assim 
a palavra, e não também em todos os outros dos Lusíadas, em 
Que ella apparece ? O poeta acceitou a etymologia, portanto 
foi com certeza coherente (1). 



(1) Divergem os auctores sobre a origem e significação primitiva da 
palavra, que aliás nada tem com Sara. São outras as razões que justifi- 
cam a graphia saracenos, que parece merecer hoje a preferencia dos 



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144 O INSTITUTO 

Em ih, i|6 r 1-4, encarecendo a mortandade dos mouros 
na batalha do Salado, diz o poeta : 

Não matou a quarta parte o forte Mário 
. Dos que morreram neste vencimento, 
Quando as agoas co sangue do aduersario 
Fez beber ao exercito sedento. 

A que batalha allude Camões ? Qual é o sentido preciso 
das suas palavras ? 

Esclarecem-nos as Enneadas, que, ao occuparem-se da 
batalha de Aquae Sextiae (1), em que Mário desbaratou os 
teutões, dizem que elle acampou dç propósito um pouco 
afastado dum rio, em um sitio onde não havia agua, e que aos 
soldados que disso se lhe queixavam, respondera, apontando 
para a corrente: acolá é que haveis de tr comprar a agua 
com sangue. E quando os romanos foram buscar agua, os 
inimigos caíram sobre elles, mas foram destroçados, ficando 
o rio cheio de cadáveres. aConsul, ... ut pugnandi necessi- 
tatem militi imponeret, aliquanto remotius a flumine castra 
locat, loco minime irriguo, quod quum milites quererentur, 
ad flumen manum intendens, inde (inquit) potus vobis san- 
guine emendus est. Lixae igitur & calones ui, si prohiberen- 
tur, aquaturi, dextra armis instructa, altera urnam habentes 
ad fluuium decurrunt. Hic aliquot hostium repente circa 
amnem oppressi,... continuo tumultum exciuere, ac primi 
omnium Ambrones, triginta milia numero,... arma capiunt... 
Ambronibus primi Ligures ex Romanis castris occurrunt... 



mais auctorizados escriptores. «Saracens was the current designa tion 
among the Christians. . . especially for the Moslems in Europa. In eariier 
times the name of Saraceni was applied by Greeks and Romans to the 
troublesome nomad Arabs of the áyro-Arabian desert.. . No sattsfactory 
explanation has been given of the reason why the Romans called the 
frontier tribes Saracens. It is most natural to suppose that they adopted 
some name of a tribe or confederation and used it in a extended sense.. . 
The common derivation from the Arabic sharki «eastern», is quite unte- 
nable. Springer suggests that the word may be simply shoraká «allies» 
(Encyclopaedia Britannica, xxi, 304). Mais tarde os cnristáos suppose- 
ram que os árabes tinham adoptado o nome de Sar acenos f para faze- 
rem crer que descendiam da mulher legitima de Abrahâo (Sara) e não 
da escrava Agar. 

( i) Freire de Carvalho, no commentario a este logar, supnoe que se 
trata da batalha de Vercelli, em que Mário derrotou os cimbnos. A 
fonte do poeta não deixa duvidas a este respeito. 



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FONTES l>OS LUSÍADAS 14& 

Ambrones fusi fugatique sunt, caedesque circa ripas ingens 
edita & flumen cadaveribus oppletumi. (En. vi, 1. 2.% p. 
36-3 7 ). 

Em ih, 126, diz-se que a mãe de Nino foi creada por 



. . . auçs agrestes, que somente 
Nas rapinas aerias tem o intento. 



Ora, referindo a lenda que essas aves foram pombas, como 
é que o poeta se exprime desta maneira? Sao as pombas, 
porventura, aves de rapina ? 

E que Sabellico, ao expor o assumpto, não falia de pombas, 
mas de taqua tiles uolucres». «Dizem que Semiramis foy 
filha de húa nimpha de hu lago... E hu mãcebo dessa terra 
ouue delia esta rilha : & ella lhe mandou que a posesse junto 
de hu lago, em húa parte da terra que a agoa descobria,... 
no qual lugar andava muytas aues das q anda no mar, pêra 
se abrigar ali: as quaes, quando aquella menina ali foy lan- 
çada, a tomara &>criarã com grade diligencia». (T. 1, 21). 

Em iv, 36, 37, falla-se, fazendo uma comparação, no pastor 
de Massylia que furtou os filhos á leoa, a qual 

Corre raiuosa & freme & com bramidos 
Os montes Sete Irmãos atroa & abala. 

Ora sabendo-se, por um lado, que os montes a gue se al- 
lude neste ultimo verso se acham nas imraediações de Ceuta (1), 
e, por outro, que a região habitada pelos massylios ficava no 
interior da Numidia (parte oriental da Argélia), é obvio que 
o poeta não escreveu Massylia. 

A palavra que elle empregou para designar a região onde 
ficam os montes Sete Irmãos foi evidentemente Maurusia 
ou Maurisia, suscitada pela Mawmsia gens da Eneida, iv, 
206-207, e pelo termo Maurisii, que Sabellico por vezes 
emprega, para indicar os mouros da costa do Atlântico. 

Basta citar uma passagem em que elle falia também dos 



(1) Segundo alguns, foram até esses montes que deram o nome á 
cidade, que porisso se aeveria escrever Septa ou Seuía. «Septem montes 
qui prope civitatem erant, fratres ob similitudinem appellatos, a quorum 
numero Septa nomen sumpsit...» (Mattheus de Pisano, Guerra de 
Ceuta, pag. ai, nos Inéditos de historia portuguesa da Academia Real das 
Scienctas, tom. i.°. 

VOL. 55.°, N.° 3— MARÇO DE 1908 4 



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146 O INSTITUTO 

massulos (massylios), povo da Numidia: «Carthaginienses, 
adiuncto sibi Gala Massulorum rege (sunt et ipsi Massuli 
Numidae), bellum Massinissae filio aduersus Syphacem ge- 
rendum crediderunt. . . Qua clade Syphax perculsus, in Mau- 
risios, qui iuxta Oceanum incohmt, paucis comitatus con- 
cessitt. (En. v, 1. 3.°, p. 983). 

E a desastrada substituição effectuou-se também em v, 6, 1, 
onde Vasco da Gama, ao fazer a narrativa da sua viagem, 
diz ao rei de Melinde: 

Deixamos de Massilia a estéril costa, 
Onde seu gado os Azenegues pastão, 

como se tivesse passado na costa da antiga Numidia (em 
cujo interior habitavam os Massylios) e como se os Azene- 
gues houvessem mudado da costa marroquina do Atlântico 
para a da actual Argélia. 

' Como explicar a emenda, que apparece em dous logares 
distantes, e que, porisso, difficilmente se pôde attribuir a 
en*o de imprensa ? 

Creio que Fr. Bartholomeu Ferreira se viu embaraçado 
ao querer conciliar v, 4, 5-7 com v, 6, 1, e que, porisso, 
cortou, mas só apparentemente, a dificuldade, substituindo 
Maurisia (ou Maurusia) por Massylia na segunda estancia, e 
reforçando a correcção com a mesma mudança em iv, 36, 8. 

Ora a dificuldade que se apresentou ao revedor da inqui- 
sição — o referir-se Vasco da Gama duas vezes ás costas da 
Mauritânia, uma antes, outra depois da passagem pela Ma- 
deira — é real, mas não é a única que ofterecem as estancias 
4 a 12 do canto v. 

A primeira está já em fallar-se na passagem pela Ma- 
deira, pois que Vasco .da Gama não avistou esta ilha, mas, 
como se sabe, foi por entre as Canárias e a costa d'África. 
E a ultima está em fazer entrar Vasco da Gama por duas 
vezes no mar largo, uma ao sair da ilha de Sant'Iago (9, 6-7) 
e outra antes de chegar ás alturas da Serra Leoa (12, i-3). 

É que nessas estancias se encontram dous roteiros, — o da 
primeira viagem de Vasco da Gama, cuja fonte foi Barros 
e Castanheda — , e o da própria viagem de Camões. 

Comecemos pelo segundo. 

A S. Bento, em que foi o poeta, deixou a Mauritânia i 
mão esquerda (ív, 5-8); passou á vista da Madeira (v, 1); 
passou o trópico e a foz do Senegal, com rumo ao Cabo 
Verde (7, 1-8); rodeou a costa que fica entre este cabo e a 



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FONTES DOS LUSÍADAS \tf 

foz do Gambia (10, 1-8), passou pelas Dorçadas (archipelago 
de Bijagós) (u, i), e, seguindo para o sul, deixou a Serra 
Leoa, mettendo se pelo grandíssimo golfão (12, i-3) (1). 

Vasco da Gama, por seu lado, passou entre a costa d'Africa 
e as Canárias, em direcção á ilha de Santiago, intemando-se 
depois no mar largo. É o roteiro que se encontra nas estan- 
cias 6, 8 e 9 : passou a costa de Maurisia (Marrocos) e, tendo 
passado as Canárias, aportou á ilha de Santiago e d'aqui 
tomou a cortar o immenso lago. 

Se, como presumo, em 6, 1, se lia no manuscripto do 
poeta : 

Passamos (2) de Maurusia a estéril costa 

e se Fr. Bartholomeu Ferreira não notou que estava em pre- 
sença de dous roteiros com rumos diversos, comprehende-se 
a estranheza que este verso lhe devia causar, comparando-o 
com o que acabava de lêr na estancia 4.*: 

De Mauritânia os montes & lugares 
Deyxando aa mão ezquerda ... 

D'ahi, creio eu, por um lado, a substituição do primitivo 
passámos por deixámos, com o fim de tornar inteiramente 
coherentes os dous versos; mas, por outro lado, a mudança 
de Maurusia em Massflia, fazendo desapparecer o inconve- 
niente da repetição de 4, 5-7, embora á custa da verdade. 

Em ív, 62, diz-se que os mensageiros que D. João 2. 
mandou ao Oriente pelo Mediterrâneo foram a Memphis. 
E Sdbellico que nos explica o emprego desta palavra, em 
vez de Cairo, que corresponde á verdade e que o poeta, leu 



(1) Direi de passagem que o Grande rio, mencionado no 5.° verso 
desta estancia, não é nem o Rio Grande* como suppõe W. Storck («D/e 
Lusiaden, p. 411), nem o Zaire, como affirmam outros, mas sim o Níger. 
Deste e doutros assumptos que prendem com a interpretação das pri- 
meiras estancias do canto v me oceupei já em uma communícação apre- 
sentada á Academia Real das Sciencias. 

(2) Do confronto das primeiras estancias do canto v com as respe- 
ctivas fontes collige-se que o poeta emprega o verbo passar, quando 
foi avistada a terra, e deixar, quando se navegou ao largo, sem a ver. 



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I48 O INSTITUTO 

nas respectivas fontes. É que para o auctor das Enneadas 
tMemphis olim fuit quae nunc est Cairus». (En. x, i. 8.% 
p. 1010). 

O final da estancia 64 do canto iv, onde se diz que os 
mensageiros de D. João 2. partiram do Golpho Pérsico para 
a índia, 

. . . pelas ondas do Oceano, 

Onde nam se atreueo passar Trajano, 

foi suggerido ao poeta pela seguinte passagem de Sabei- 
lico: i(Trajanus) ad Ctesiphontem peruenit urbeque ui 
capta statuit Oceanum petere, quo secundo Tigri deuectus, 
conspicatus quosdam in Indiam nauigantes, ó quam, inquit, 
libenter istuc nauigarem ni ingrauescens impediret aetas, 
beatum uocans Alexandrum, qui multo longius uincendo pro- 
gressus esset». (En. vn, 1. 4. , p. 307). 

Em vn, 5 e 6, suppõe o poeta que os monarcas de Ingla- 
terra usam o titulo de reis de Jerusalém : 



Vedelo duro Ingres, que se nomea 
Rei da velha & sancnssima cidade, 
Que o torpe Ismaelita senhorea. 

Guarda-lhe por entanto hum falso Rei 
A cidade Hierosolyma terrestre. . . 

Annotando esta passagem diz W. Storck: «IrrthUmlich 
legt der Dichter den englischen Herrschern den Titel: cKõnig 
von Jerusalém» bei (vgl. Mickle, 11, i3i, C, und Burton, 
Com. u, 620); oder denkt Camoens vielleicht an Heinrichs 
viu Titel: « Defensor jideu ?» (Die Lusiaden, 421). E no logar 
citado pelo illustre camonista allemão, Burton observa: tBlufl 
Harry (falla-se de Henrique 8.°) did not claim to be King of 
Jerusalém. . . The title was offered by the army to Robert of 
Normandy, son of William the Conqueror, but declined, as 
the Duke expected the English throne. It was then bestowed 
upon Regnier, count qf Anjou, whose daughter Margaret was 
married to Henry VI». 

O poeta neste ponto cahiu effectivamente em erro, mas a 
responsabilidade é de Sabellico, que na Enneada ix, 1. 5.° 
(p. 727) diz o seguinte: tRicardus rex (falia de Ricardo Cora- 
ção de Leão) Guidonem Lusignianum comiter appellando 



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FONTES DOS LUSÍADAS 149 

multaque pollicendo eo pellexit, ut sibi Hierosolymitani regni 
iura permiserit, quo contigit ut Angliae reges in hunc diem 
regiam eius urbis appellationem usurparent. Id regia eius 
gentis diplomata edictaque demonstrant*. 

Em presença de uma asserção feita por um modo tão 
categórico, que, de mais a mais, se diz baseada nos diplomas 
assignados pelos monarcas ingleses, não é de extranhar o 
que se lê nos Lusíadas. 

Devo ainda dizer, e isto bastaria para justificar o poeta, 
que, dos reis de Inglaterra, não foi Ricardo i.° o único que 
se intitulou rei de Jerusalém; uma rainha, contemporânea 
de Camões, a filha de Henrique 8.°, Maria Tudor, adoptou 
este titulo, por causa do seu casamento com Philippe de 
Hespanha (Philippe 2. ). Eis o que a este respeito se lê no 
Genealogical and heraldic Dictionary de Burke: «Queen 
Mary I, styled the same as Henry VÍÍI, until her marriaee, 
when she was styled, with her husband, Philip II: Philip 
and Mary,... King and Queeh of England and France, Na- 
ples, Jerusalém and Ireland...i. 

Se não fosse conhecida a fonte do poeta, podia este facto 
explicar-nos a inexactidão dos Lusíadas. Nada mais natural 
do que ter Camões visto um diploma de Maria Tudor (mor- 
reu em i558) e suppôr que era por herança que ella se inti- 
tulava rainha de Jerusalém. 

Em vil, 19, 5-8, refere-se Camões ao rumor antigo, que 
conta havtr perto da nascente do Ganges moradores, que 

Do cheiro se mantém das finas flores. 

É que Sabellico reproduziu esta velha lenda, embora de- 
clare não acreditar nella: «Sed haec cunctantius referenda, 
quae talia sunt ut fidem haud dubie abrogent historiae: cuius 
legis ne oblitus videar, sciens praetereo, quae Graeci scripto- 
res & nostrorum quidam eos secuti, de eius terrae (refere-se 
á índia) monstris memoriae prodiderunt:... quosdam etiam 
hominum naso carentes & qui sine ore solo odore uiuant, 
quorum in Alexandri castra pauci admodum perducti fuerint». 
(En. 1, 1. i.°, p. 16). 

Foi também de Sabellico que o poeta reproduziu o dicto 
de Dário a respeito de Zopyro (m, 41, 3-8); a resposta de 
Numa, que se lê'em viu, 3i, 5-8; a allusão aos desregramentos 
de Semiramis (vii, 53); a referencia á liberalidade de Ale- 
xandre Magno (ih, 96, 4) e ás pescarias com que Cleópatra 



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l5o O INSTITUTO 

enganava António (vi, 2, 4); as informações que dá a res- 
peito da procedência dos turcos (1, 60, 5; vn, 12, 5-7) e da 
oroçraphia da Ásia (vu, 18), etc. 

Finalmente, se, no intender de Sabellico, parte dos deuses 
da gentilidade foram personagens que tiveram existência real, 
também Camões em ix, 90-52, 4, perfilha abertamente e 
sem restricçôes a mesma opinião (1). 

Eis o que se lê nas Enneadas (1, 1. i.°, c. 3, p. 6-7): cOs 
desta geraçam de Cham, que primeiro passaram ao Egipto, 
como nam tinha casas & dormiam no campo, olhauam de 
noyte as estrellas: & marauilhados da fremosura & moui- 
mento das lumieyras celestiaes, que elles ali com mais fe- 
mença esguardauam, por quanto ahi ho ar & os vetos sam 
mays serenos que nas outras partes, começaram de ter ho 
sol & a lua por deoses... & chamaram a lua Isis & ao sol 
Osíris... Chegou a tãto a paruoice dos homes que cuidará 
que ho fogo & ar, mar & terra, & todolas outras partes do 
mundo... era cada húa seu deos... Ao spirito vital chama- 
ram Júpiter, ao fogo Vulcano, ao ceo Palias, a terra Ceres 
& a outros outros nomes. Per derradeiro, deranse tãto a 
paruoices os homes que algfis, porque excederam os outros 
em conselho, riquezas & em inuetar cousas proueitosas que 
ensinara, os honrralrã por deoses. E mormente aquelles que 
acertara de ter os nomes que os antigos poseram ao -sol & lua. 
Daqui veyo teré a Júpiter (2) por deos & a Ceres, Vulcano, 
Isis, Osins, e com elles os modernos, que poserã no numero 
dos deoses, como Apollo, Mars, Cupido oí Mercúrio & ou- 
tros, que delles descendera. Mas, quã paruoamente os homes 
isto fingiram & creram, se pode bé ver em celebrarem, a 
estes que poseram no ceo, ca na terra com representarem 
peccados que elle$ cometeram de amores cujos & forças 
& mortes & adultérios & furtos & outros peccados com que 
por maldades se sobiam ao ceo». 



(1) É o chamado evhemerismo, a respeito do qual escreve A. Lange 
no artigo Mythology da Encyclopedia Britannica: «According to (Eue- 
merus, 3 16 6. C), the myths are history in disguise. Ali the gods were 
once men, whose real feats have been decorated and distorted by later 
faney. This view suited Lactamius, St. Augustine and other èarlyCbris- 
tian writers very well. . . As there can be no doubt that the gnosts of 
dead men have been worshipped in many lands, and as the gods of 
many faiths are tricked out with attributes derived from ancestor-worship, 
the system of Euemerus retains some measure of plausibility». 

(2) No original: Idaeus Juppiter (En. 1, 1. i.°, p. 4). 



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FONTES DOS LUSÍADAS l5l 

Confrontem-se as estancias já citadas dos Lusíadas: 

... As immortalidades que fingia 
A antiguidade, que os illustres ama, 
La no estellante Olimpo a quem subia (i) 
Sobre as asas ínclitas da fama, 
Por obras valerosas que fazia (2), 
Pelo trabalho immenso, que se chama 
Caminho da virtude, alto & fragoso, 
Mas no fim doce, alegre & deleitoso, 

Não erao senão prémios que reparte, 
Por feitos immortaes & soberanos, 
O mundo cos varões, que esforço & arte 
v Diurnos os fizeram, sendo humanos : 
Que Júpiter, Mercúrio, Phebo & Marte, 
Eneas & Quirino, & os dous Thebanos, 
Ceres, Palias & Juno com Diana 
Todos foram de fraca carne humana. 

Mas a fama, trombeta de obras tais, 
Lhe de*u no mundo nomes tam estranhos 
De Deoses, Semideoses immortais, 
Indigetes, Eroicos & de Magnos. 

Em x, 82-85, 2, o poeta, não já por iniciativa própria, 
mas; como creio (3), por conselho de Fh Bartholomeu Fer- 
reira, volta a occupar-se dos deuses da antiguidade clássica^ 



(1) Cf. Palmeirim de Inglaterra, 11, 104: «Palmeirim se alongou deite 
e, sobindo-se no mais alto outeiro, esteve vendo» ? etc. Emquanto á collo- 
cação do quem quasi no fim da oração relativa, já me referi a caso idên- 
tico em 11, 82, 3, se ti está, como creio, em vez do primitivo quem. 

Devo observar que, ao fazer esta substituição por causa da métrica, 
Fr. Bartholomeu Ferreira se lembrou naturalmente da particularidade 
estylistica da passagem do pronome relativo para o demonstrativo, de 
que não faltam exemplos tanto na lingua grega, como na latina. 

(2) Evidentemente o poeta não escreveu japa, mas sabia. Isto é: a 
antiguidade elevava ao Olympo os homens notáveis, pelos feitos illustres 
que delles sabia. Por obras valerosas que cila, antiguidade, fajia, é que 
não faz sentido. Trata-se por certo de um erro de imprensa, como sus- 
tentava, em vez de sustentava-os (1, 33, 1), tomais em logar de mostrais 
(íx, 93, 3) e tantos outros. 

(3) W. Storck suppõe que foi o poeta quem indicou a Fr. Bartholo- 
meu Ferreira a justificação que este, no parecer acerca dos Lusíadas, 
faz do emprego da mythologia no poema : «Esta explicação provém da 
estancia 82 do canto x; mas ainda aqui foi, certamente, ô auctor quem 
guiou o censor». ( Vida, § 372, nota 3). Com Costa e Silva (Ensaio, 111, 
106), Gomes de Amorim (Lusíadas, 11, 256) e outros, supponho que foi o 
contrario disto que se passou. 



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IÍ>2 õ INSTITUTO 

com o intuito de se justificar do emprego que delles tinha 
feito nos Lusíadas. E a opinião que agora apresenta, se não 
é necessariamente inconciliável com o evhemerismo, também 
o não suppõe. 

Segundo aquella hypothese, os deuses tiveram existência 
real como homens; agora o poeta attribue a Tethys as se- 
guintes palavras: 

Eu, Saturno & Jano, 

Júpiter, Juno, fomos fabulosps (i), 
Fingidos de mortal & cego engano : 
So pêra fazer versos deleitosos 
Seruimos, & se mais o trato humano 
Nos pode dar, he so que o nome nosso 
Nestas estrellas pos o engenho vosso (82). 

A estes versos seguia-se, parece-me, no manuscripto do 
poeta um parenthesis, que abrangia as estancias 83, 84 e os 
dous primeiros versos da 85. Fr. bartholomeu Ferreira teria, 
porém, eliminado o parenthesis, ligando a estancia 83 com a 
precedente pela conjuneção porque, pondo assim as palavras 
do poeta na bocca de Tethys, embora tivesse de fazer dizer 
a esta que os espíritos mãos nos empecem (83, 8). 

Conforme o texto da primeira edição do poema, seguido 
por todas as outras, Tethys diz que no empyreo, no globo 
que circumda todos os outros que constituem o universo, só 
estão verdadeiros divos, ao passo que ella própria e as outras 
divindades a que prestavam culto os gentios foram fabulosas, 
e prosegue : 

E também porque a Santa prouidencia, 

Que em Júpiter aqui se representa, 

Por espíritos mil que tem prudência 

Gouerna o mundo todo que sustenta. 

Insinalo a prophetica sciencia, 

Em muitos dos exemplos que apresenta. 

Os que são bons guiando fauorecem, 

Os maus emquanto podem nos empecem (83). 

Quer logo aqui a pintura que varia, 
Agora deleitando, ora ensinando. 
Darlhe nomes que a antiga Poesia 
A seus Deoses já dera fabulando : 



(1) Fabulosos no sentido evhemcrista ou nem mesmo como creaturas 
humanas tiveram existência ? Para conciliar esta passagem com ix, 90-91,4, 
é necessário admittir a primeira interpretação. 



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FONTES DOS LUSÍADAS I 

Que os, anjos da celeste companhia 
Deoses o sacro verso está chamando ; 
Nem nega que esse nome preeminente 
Também aos mãos se dá, mas falsamente (84). 

Em fim aue (1)0 summo Deos, que por segundas 
Causas oora no mundo, tudo manda. 
E tornando a contar-te (2), etc. 

A primeira dificuldade que estes versos offerecem é q 
em 83, 1-4, a pesar da forma exterior da construcção, 
não contém qualquer explicação adequada ao que fica dic 
no começo da estancia 82. Do que se trata é de uma no 
afirmativa, que accresce á de 82, 1-2, mas que a esta 
não acha ligada pelo nexo causal ou explicativo. Se no ei 
pyreo só estão verdadeiros divos, a razão não é porque 
Providencia governa o mundo por espíritos intermediaric 
pelos anjos bons. 

Em segundo logar, o adverbio aqui de 83, 2 e de 84, 
proferido por Tethys, refere-se evjdentemente ao globo qi 
cila está mostrando ao Gama, tem a mesma significação qi 
em 80, 1 ; mostra, porém, o contexto, sem sombra dç duvid 
que nas estancias 83 e 84 se allude ao poema, para justific 
o uso que nelle se faz da mythologia clássica. 

Repare-se finalmente no pronome nos de 83, 8. Teth) 
não contente com se declarar fabulosa a si própria, arre 
cjue se pôde explicar pela complacência com o revedor < 
inquisição, incluir-se-ia também no numero daqu-elles a que 
os espíritos mãos empecem ! 

Seja-me permittido suppôr que no jnanuscripto do poe 
a estancia 822 terminava por um ponto final e que a seguin 
começava assim: 

(E também que a Diuina Prouidencia, 
Que em Júpiter aqui se representa, 
Por espíritos mil que tem prudência 
Gouerna o mundo todo que sustenta, 
Insinalo a prophetica sciencia, etc. 



(1) Presumo que o poeta escreveu : Assim que. 

(2) Na hypothese de no manuscripto haver um parenthesis que t< 
minava no nm do 2. verso da estancia 85, estas palavras estabeleceria 
a ligação com o final da estancia 81, constituindo a estancia 82 ur 
digressão no discurso de Tethys. E o contexto mostra que assim é. 



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l54 O INSTITUTO 

No i.° verso da estancia 84 creio que o poeta empregou 
a palavra escriptura, onde agora se lê pintura. E a sub- 
stitpição seria devida ao desejo de melhorar a métrica. 

É verdade que o poeta em vji, 76, 8, chama á pintura 
muda poesia e W. Storck appella para este logar a propósito 
do verso de que me occupo (Dte Lusiadeti, p. 4J7). Mas 
entre chamar muda poesia á pintura e pintura, sem qualquer 
qualificativo, á poesia, medêa uma grande differença. 

Referindo-se directamente aos Lusíadas, Camões teria as- 
sim começado a estancia 84: 

Quer logo aqui a escriptura, etc. 

Para se justificar do uso que faz da mythologia, Camões, 
depois de ter dicto na estancia 83 que, nos Lusíadas, Júpiter 
representa a Providencia, e_ os outros deuses correspondem, 
quer aos anjos bons, por que ella governa o mundo, quer 
aos anjos mãos, que procuram empecer-nos, explica na estan- 
cia 84 que, para designar as duas espécies de anjos, recorreu 
aos nomes 

cjue a antigua poesia 

A seos deoses já dera, faoulando. 

E quem o auctorizou a chamar deoses aos anjos? Foi o 
sacro verso, foi a sagrada escriptura, que emprega aquella 
mesma expressão: responde Camões nos versos 5-8. 

Esta resposta foi -evidentemente lembrada ao poeta por 
Fr. Bartholomeu Ferreira, pois se basea na interpretação 
que Santo Agostinho dá a alguns textos bíblicos, interpre- 
tação que se encontra em uma passagem que Camões por 
certo não foi descortinar. 

Eis, com eôeito, o que se lê no liv. ix, cap. 23, do tratado 
De civitate Dei: «Hos (daemones) si Platonici malunt deos 

2uam daemones dicere, eisque annumerare quos a summo 
>eo conditos deos scribit eorum auctor et magister Pia to, 
dicant quod volunt; non enim cum eis de verborum contro- 
vérsia laborandum est... Et in nostris sacris litteris legitur: 
Deus deorum Dominus locuius est. Et alibi : Confitemini Deo 
deorum. Et alibi : Rex magnus supet* omnes deos. Illud autera 
ubi scriptum est : Terribilis est super omnes deos, cur dictum 
sit deinceps ostenditur. Sequitur enim : Quoniam omnes diigen- 
tium daemonia, Dominus autem caelos fecit. Super omnes ergo 



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FONTES DOS LUSÍADAS í55 

deos dixit, sed gentium, id est, quos gentes pro diis habent, 
quae sunt daemonia... Illud vero ubi dicitur: Deus deorum, 
non potest intelligi Deus daemoniorum, et Rex magiius super 
omnes deos absit ut dicatur Rex magnus super omnia daemo- 
nia» (i). 

VIII 

Camões e Fernão Lopes 

Para a historia dos reinados de D. Pedro I, D. Fernando 
e D. João I, Camões, como era de presumir, serviu-se prin- 
cipalmente das respectivas chronicas de Fernão Lopes. 

a) D. Pedro I (m, i36-i37). a~ %as estancias em que o 
poeta se occupa deste rei reproduzem,' em resumo, a impres- 
são que deixa a leitura de Fernão Lopes (2). 

Assim, referindo-se â vingança que D. Pedro exerceu sobre 
os fugidos homicidas de D. Ignês de Castro, diz o poeta : 

Do outro Pedro cruíssimo os alcança, 

Que ambos, imigos das humanas vidas, 

O concerto fizeram, duro & injusto, 

Que com Lépido & António fez Augusto (i36, 5-8). 

Lea-se agora Fernão Lopes: «Por que o fruito principal 
da alma, que he a verdade, pela qual todallas cousas estam 
em sua firmeza, e ella ha de seer clara e nom fingida, moor- 
raente nos Reis e senhores, em que mais resplandece qual- 
quer virtude, ou he feo o seu comtrairo: ouverom as gentes 
por muj gram mal huum mujto davorreçer escambo, que 
este ano amtre os Reis de Purtugal e de Castella foi feito; 



(1) No juizo que, por mandado da inquisição, Fr. Bartholomeu Fer- 
reira emfttiu sobre os Lusíadas, encontra-setambem citado o mesmo 
doutor da Igreja : «E ainda que Santo Augustinho nas suas «Retracta- 
ções» se retracte de ter chamado nos livros que compoz «De Ordine» as 
Musas Deoses, todavia, como isto é poesia e fingimento e o auctorcomo 
poeta não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por 
inconveniente ir esta fabula dos Deoses na obra, conhecendo-a por tal, 
e ficando sempre salva a verdade de nossa santa fé, que todos os deoses 
dos gentios são demónios». 

(2) Chronica do. Senhor Rei D. Pedro I, nos Inéditos de historia por- 
tuguesa, publicados pela Academia, tom. iv. 



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l56 O INSTITUTO 

cm tanto que, posto que escripto achemos delRei de Purtugal 
que a toda gente era manteedor de verdade, nossa teençom 
he nom o louvar mais, pois contra seu juramento foi con- 
semtidor em tam fea cousa... Pêro, depois de todo esto 
(trata-se do assassínio de D. Ignês), foi elRei (D. Affbnso IV) 
dacordo com o Iffamte seu filho, e perdohou o Iffamte a estes 
e a outros em que sospeitava ; e isso meesmo perdohou elRei 
aos do Iffamte todo queixume que delles avia, e forom so- 
bresto grandes juramentos e promessas feitas;... e viviam 
assi seguros Diego Lopez e os outros no Reino, em quanto 
elRei Dom Affonso viveo. E seemdo elRei doemte em Lixboa, 
de door de que se estomçe finou, fez chamar Diego Lopez 
Pacheco e outros, e disselhe que el sabia bem que o Iffamte 
Dom Pedro seu filho lhe tijnha maa voomtade, nom embar- 
gamdo as juras e perdom aue fezera;. . . e que. . . lhes com- 
pria de se p.oerem em salvo fora do Reino : . . . e elles se 
partirom logo de Lixboa e se forom pêra Castella ; . . . e elRei 
de Castella os reçebeo de boom geito e aviam delle bem fazer 
e merçee, vivemdo em seu reino seguros e sem reçeo. E 
depois que o Iffamte Dom Pedro reinou, deu semtemça de 
traiçom contra elles e deu os bens. . . a outras pessoas como 
lhe prougue . . . Semelhavelmente fugirom de Castella neesta 
sazom, com temor delRei, que os mandava matar, dom Pedro 
Nunez de Gozman . . . e Meem Rodriguez Tenoiro e Fernam 
Godiel de Tolledo e Fenam Sanchez Caldeirom; e viviam 
em Purtugal na merçee delRei Dom Pedro, creemdo nom 
receber dano, também os Purtuguezes, como os Castellãos, 
porque razoada fe lhes dera ousado acoutamento nas faldras 
da segurança, a qual nom bem guardada pelos Reis, fezerom 
calladamente huuma tal aveemça, que elRei de Purtugal 
emtregasse presos a elRei de Castella os fidallgos que em 
seu Reino viviam e que el outro si lhe emtregaria Diego Lo- 
pez Pacheco, e os outros ambos que em Castella amdavom» 
(cap. 3o). 

É depois de contar, no cap. 3i, «como Diego Lopez Pa- 
checo escapou de seer preso, e forom emtregues os outros, 
e logo mortos cruellmente», observa o chronista, repetindo o 

3ue já tinha dicto no começo do cap. 3o: t Muito perdeo elRei 
e sua boa fama por tal escambo como este, o qual foi avudo 
em Purtugal e em Castella por muj grande mal, dizendo 
todollos boons que o ouviam, que os Reis erravom muj muito 
himdo comtra suas verdades, poisque estes cavalleiros estavom 
sobre seguramça acoutados em seus reinos». 

A respeito do Pedro cruissimo de Castella, também imigo 



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FONTES DOS LUSÍADAS 1*7 

das humanas vidas, leu o poeta em Fernão Lopes, além de 
muitos factos, esta asserção genérica: • Matou mujtas honrra- 
das pessoas, delias sem rezom,... e outras sem por que e por 
ligeiras sospeitas, em tanto que mujtos boons se afastavom 
delle, mujto anojados por temor de morte; ca nenhum nom 
era com el seguro, posto que o bem servisse, e lhe el mujta 
merçee e honrra fezesse» (cap. 16). 
Passemos á estancia 137: 

Este, castigador foi rigoroso 

De latrocínios, mortes & adultérios. 

Não faltam na chronica passagens onde se diz isto mesmo. 
tSe ouvia novas dalguum ladrom ou malfeitor, alongado 
mujto donde el fosse, fallava com alguum seu de que se 
fiava, prometendolhe merçees por lho hir buscar, e manda- 
valhe que nom vehesse ante elle, ataa que todavia lho trou- 
vesse aa maão; e assi lhos tragiam presos do cabo do reino 
e lhos apresentavom hu quer que estava . . . Nom achamos, 
em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte dalguuma 
pessoa, nem que a merecesse per. outra guisa, nem lha mu- 
dasse em tal pena per que podesse escapar a vida.. . Mandou 
e pOs por lei que qualquer casado que com barregaã vivesse, 
ou a tevesse dentro em sua casa, se fosse fidallgo ou vassallo, 
que delle ou doutrem tevesse maravedijs, que os perdesse, e, 
segundo os estados das pessoas, assi hordenou as penas do 
dinheiro e degredo, ataa mandar que pubricamente por a 
terceira vez, elles e ellas por esto fossem açoutados, e quando 
diziam a elRei que se agravavom mujtos de tal hordenança 
como esta, respondia elle que assi o entendia por serviço de 
Deus e seu e prol delles todos. . . ElRei Dom Pedro. . . fazia 
grandes justiças em quaes quer que dormiam com molheres 
casadas... Quem ouvio semelhante iustiça da que elRei fez 
na molher Daífonso André, mercador honrrado, morador em 
Lixboa ? Andando iustando na rua nova, como era costume 
quando os Reis vijnham aas cidades, que os mercadores e 
çidadaãos iustavom com os da corte por festa, estando elRei 
presente e avendò enformaçom certa que sua molher lhe fa- 
zia maldade, entendeo que entom era tempo de a achar e 
tomar em tal obra, e per enculcas mujto escusadamente foi 
ella tomada com quem a culpavam e mandouha queimar e 
degolar a elle, e o marido conthinuando a iusta, guando 
cessou, soube disto parte e foisse a elRei por se queixar do 
que lhe feito avia, e elRei como o vio, ante que lhe el fal- 



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i58 o iNsiiTtrro 

lasse, pediolhe a alvissera do que mandara fazejy dizendo 
que ja o tijnha vingado da aleivosa de sua molher e do que 
lhe poinha as cornas» (capp. i.°, 5.°, 6.°, 7. , 8.°, 9. ). 

Fazer nos mãos cruezas, fero & iroso, 
Eram os seus mais certos refrigérios. 

«E da mesa se levantava (elRei), se chega vom (com algum 
ladrão ou malfeitor) a tempo que el comesse, por os fazer 
logo meter a tormento ; e el meesmo poinha em elles maão 
quando vija que confessar nom queriam, firindoos cruellmente 
ataa <jue confessavam. A todo logar honde elRei hia, sempre 
achanees prestes com huum açoute o que de tal offiçio tijnha 
encarrego, em guisa que como a elRei tragiam alguum mal- 
feitor, e el dizia chamemme foaão que traga o açoute, logo 
elle era pre;stes, sem outra tardança» (cap. 6.°). 

E o cap. 7. , — em que se descreve a typica scena passada 
çom o adultero bispo do Porto, que D. Pedro se dispunha 
a azorragar por suas próprias mãos, — termina por esta razão, 
adduzida pelos privados do monarca: «Demais que o seu 
poboo lhe chamava algoz, que per seu corpo justiçava os 
homeens, o que non convijnha a el de fazer, por mujto mal 
feitores que tossem». 

As cidades guardando, justiçoso, 
De todos os soberbos vitupérios, 
Mais ladrões castigando á morte deo, 
Que o vagabundo Alcides du Teseo. 

Seja-me permittido suppôr que no 1 .° destes versos o poeta 
escreveu, não As cidades, mas A seu povo. Auctorizam esta 
conjectura vários logares do chronista. «Deste Rei achamos 
escripto que era mujto amado de seu poboo, por os manteer 
em dereito e justiça, des i boa governança que em seu Reino 
tijnha. . . Falando elRei huum dia nos feitos da justiça, disse 
que voontade era e fora sempre de manteer os poboos de seu 
reino em ella, e estremadamente fazer dereito de si me«mo, 
e por quanto elle sentia que o moor agravo que el e seus 
filhos e outros alguuns de seu senhorio faziam aos poboos de 
sua terra, assi em o tomar das viandas por preço mais baixo 
do que se vendiam, que porem el mandava que nenhuum de 
sua casa, nem dos Iffantes, nem doutro nenhuum que em 
sua merçee e Reinos vivesse... que nom tomasse... ne- 
nhuumas cousas acostumadas de tomar, salvo compradas 



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fontes dos lusíadas i 59 

aatontade de seu dono, e sobresto pos pena de prisorri e 
dinheiros aas honrradas pessoas, e aos galinheiros e pessoas 
vijs, açoutados pello logar hu as tomassem e deitados* fora 
de sua merçee... E quando lhe diziam que poinha muj 
grandes penas por muj pequenos excessos, dava reposta di- 
zendo. . . que assi o entendia por serviço de Deos e prol de 
seu poboo. . . E pois que escrep vemos que foi justiçoso, por 
fazer dereito em reger seu poboo. . . » (capp. 4.% 5.°, 6*°). 

Em seguida ás palavras que ficam transcriptas do cap. 6.*, 
narra o cnronista o caso de dous escudeiros «que gram tempo 
avia que com (elRei) viviam», e que este, apesar de muitos, 
pedidos, mandou matar, por haverem roubaao e assassinado 
um judeu, cque pelos montes andava vendendo speçeariát. 
E só num dia, estando em Braga, mandou cortar a cabeça 
a ihoum dos boons escudeiros dantre Doiro e Minho e bem 
aparentado, porque cortou os arcos dhuma cuba .de vinho a 
huum pobre lavrador», sem lhe valer o «rogo de quantos 
com (elRei) andavam» ; ordenou que enforcassem um escrivão 
do thesouro, porque «reçebeo onze livras e mea sem o the- 
soureiro, . . . e forom aquel dia, com estes dous, onze mortos 
j per justiça antre ladrooens e malfeitores» (cap. 9. ). 

| b) D. Feimando (111, 1 38-143). As estancias relativas a este 

| reinado resentem-se, sob mais de um aspecto, da crise amo- 

I rosa que tão intensamente tinha agitado o poeta, algum tempo 

| antes de as escrever (1). São evidente reflexo desse estado 

i d 1 alma as considerações feitas a propósito 

Dos laços que amor arma brandamente (143, 2). 

Também no final da estancia 143 me parece ter intervindo 
a mão de Fr. B. Ferreira : 

Quem vio hum olhar seguro, hum gesto brando, 

HCfa suave & angélica excellencia, 

Que em si está sempre as almas transformando, 

Que tivesse contra ella resistência ? 

Desculpado por certo está Fernando, 

Para quem tem de amor experiência ; 

Mas antes, tendo lrvre a phantasia, 

Por muito mais culpado o julgaria. 



(1) Deste assumpto me occupo em outro logar. 



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IÔO O INSTITUTO 

A falta de nexo, tanto gramma tical, como lógico (i), entre 
os dous últimos versos e os que os precedem, leva-me a crer 
que o poeta escreveu: 

Ninguém que tenha presa a phantasia 
Por culpado de certo o julgaria (2). 

rave dominico, a quem o crescendo do poeta (descul- 
não culpado) pareceria um pouco desafinado, teria feito 
tituição, calcando-a pelo original, mas não reparando, 
: este presente, na falta de ligação dos novos versos 
5 anteriores. 

t> ainda observar que no i.° verso desta estancia me 
que o poeta teria escripto sereno e não seguro. Olhar 
>, suave, sereno, piedoso, é como elle costuma dizer. 
í, por exemplo, a canção 4.* e o soneto 91. 
ibem supponho que no i.° verso da estancia 141 está se, 
1 de que: 

E pois, que os peitos fortes enfraquece 
Hum inconcesso amor desatirtado, 
Bem no filho de Alcmena se parece. 

xtinúa). Dr. José Maria Rodrigues. 



3uem é o sujeito de julgaria f Como se explica o comparativo 

]om o intuito de se justificar de ter posto o desejo onde não devia, 
«retendido levantar o pensamento a um alto logar, havia escripto 
, não muito antes : 

Não pôde quem quer muito, ser culpado 
Em nenhum erro, quando vem a ser 
Este amor em doudice transformado. 

(Egloga 2.-). 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Redacção b administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COJMBRA. 



Propriedade e edição da Director Composto e impresso na 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Umversi- 

O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SCIENCIAS MORAES E SOCIAES 



NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA 

Subsídios para a restauração da toponymia em língua portuguesa 



PRÓLOGO 

Ha muito se introduziram na nomenclatura geográphica 
estrangeirismos, que, além de contrários ao génio e tradi- 
ções da língua portuguesa, tendem a apagar a lembrança da 
nossa epopeia marítima e militar. 

Em suas viagens através de todos os mares e pelo interior 
de tantas terras, conheceram os nossos antepassados ou de- 
ram por seu arbítrio nomes de terras, que aos demais povos 
civilizados ensinaram com a narrativa de feitos gloriosos. 
Accommodaram esses povos á índole das respectivas línguas 
a nomenclatura geográphica dos nossos navegadores e via- 
jantes; mas quis a nossa desfortuna que, esquecidas as tra- 
dições da história nacional, fossem portugueses mendigar a 
línguas estranhas, corrupto e avariado, aquillo que da nossa 
os outros tinham aprendido. 

Prover de remédio a mal tão deplorável é obra de ha 
muito reclamada por quantos conservam amor á língua e ás 
tradições nacionaes, mas tal reforma se não fez ainda, antes 
novos obstáculos se lhe teem levantado, como se para a dif- 

VOL. 55.°, N.° 4 — ABRIL DE 1908. I 



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IÔ2 ò iNSTITtíTO 

ficultar nSo bastassem as intrusões da moda Inveteradas pela 
ignorância. 

Bello ensejo se deparou, ha annos, para reforma de largo 
e seguro effeito, quando o governo mandou organizar e im- 
primir o Atlas escolar português, para uso dos nossos lyceus; 
mas logo se deixou fugir a opportunidade, confiando á mercê 
do acaso os nomes geográphicos, que, em vez de receberem 
forma portuguesa, ao menos aquelles que a tinham já nas 
tradições da língua e os que eram de sua origem portugue- 
ses, saíram na maior parte enxertados em línguas estrangei- 
ras. Os próprios termos communs da geographia tiveram 
essa mofina .sorte; e, quanto aos nomes próprios, geralmente 
lhes conservaram as formas francesas, inglesas, hollandêsas 
e germânicas, como se taes línguas fatiassem os navegadores 
e viajantes que os crearam ou d'elles trouxeram conheci- 
mento á Europa. 

Mas peor que tudo foi a pretenção, num ou noutro ponto 
revelada, de accommadar á língua portuguesa a forma es- 
tranjeira de nomes portugueses. Sirva de exemplo o nome 
da cidade de Çuaquem, que os franceses, para pronunciarem 
aproximadamente como nós, escrevem Souakim ôu Souakin. 
No Atlas, por maior desgraça edição official, houve o escrú- 
pulo de aportuguesar o ditongo francês ou, e appareceu im- 
presso o nome de Suakim. Risutn teneatis. . . 

Reconhecidos os absurdos e inconvenientes do abastarda- 
mento dos nomes geográphicos, em detrimento da língua e 
das tradições nacionaes, nomeou o governo ha annos uma 
commissão de pessoas notáveis por seu saber, encarregadas 
de restabelecerem a nomenclatura geográphica tradicional e 
accommodarem á nossa língua os nomes estrangeiros que 
nella não tivessem ainda forma própria. Infelizmente não 
levou a commissão a cabo os seus trabalhos. 

Meio de fazer resurgir os nomes geográphicos de forma 
portuguesa seria o emprego d'elles pelos auctores de com- 
pêndios destinados a uso das escolas; mas tal processo nem 
seria de fácil e uniforme execução, nem, para quem o ttn- 
tasse, isento de perigos que facilmente se adivinham. 

Quando o sr. Cândido de Figueiredo publicava o seu Novo 
Diccionário da língua portuguesa, permitti-me a liberdade de 
lhe encarecer o grande serviço que prestaria, addicionando- 
ttie rio fim um vocabulário geográphico, em que se restabe- 
lecesse a ortographia portuguesa dos nomes próprios. Me- 
receu a idéa approvação do illustre escriptor, mas a publi- 
cação ia adeantada e não era possível sacrificar a sua regu- 



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NOMENCLATURA GEOGRAPHlCA l63 

laridade á confecção, naturalmente morosa, do vocabulário 
geográphico. Na medida do que o tempo lhe permittiu, addi- 
tou o sr. Cândido de Figueiredo um vocabulário, em que 
muitos dos erros mais vulgares se encontram corrigidos. 

Nos presentes subsídios não reproduzo do trabalho do sr; 
Cândido de Figueiredo senão os vocábulos a respeito dos 
quaes cheguei a conclusões diflerentes, aquelles em que foi 
possivel accrescentar algum esclarecimento novo, e finalmente 
os que pude reconhecer como incluídos- numa escassa lista 
de apontamentos, que em tempo, longe dos meus livros, 
numa praia de banhos, organizei para remetter a s. ex. a 
Estes últimos vão indicados com o signal #. 

Não procurei accommodar á nossa língua nomes estran- 
jeiros que nella não.teem forma consagrada, porque para 
tanto me faltava auctoridade, e limitei-me a fazer resusdtar 
aquelles que já foram sanccionados pelos nossos clássicos. 
Semelhante empresa, por modesta que pareça, demanda tan- 
tas leituras e representa por vezes taes dificuldades, que me 
apresso a reconhecer que ha de haver no meu trabalho im- 
perfeições e lacunas certamente numerosas. Aos eruditos será 
fácil encontrá-las. 

A corrupção dos nomes geográphicos na Kngua portuguesa 
data principalmente de ha um século, embora algum se con- 
servassem na sua forma primitiva até ha poucos annos; por 
isso mal pude, para o efteito, recorrer a livros modernos. O 
tratado de geographia de Casado Giraldes, obra volumosa e 
notável, publicada na passagem do primeiro para o segundo 
auartel do século xix, apresenta já uma incongruente mistura 
de formas portuguesas e nomes estranjeirados. Tudo o que 
posteriormente se publicou é geralmente muito peor no gé- 
nero, com excepção, entre os livros que, conheço, da Descri- 
pção e roteiro da costa occidental de África, de Alexandre 
Magno de Castilho. Nesta obra notabilíssima, que me forne- 
ceu muitos esclarecimentos, houve sempre o cuidado de in- 
dicar os nomes portugueses, alguns dos quaes andam tão 
avariados de formas estranhas, que difficílimo se torna re- 
conhecê-los. 

Foi em livros mais antigos que recolhi maior número 
de vocábulos. Dentre elles citarei, como aquelles que mais 
consultei, as Décadas, de Barros e de Couto, a Arte de na- 
vegar, de Manuel Pimentel, as Noticias para a história e 
geographia das Nações ultramarinas, o Oriente conquistado, 
a vida do padre Francisco Xavier, de Lucena, a Peregrina- 
ção, de Fernão Mendes Pinto, vários itinerários de viajantes 



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164 O INSTITUTO 

portugueses, algumas chrónicas de reis e outros livros clás- 
sicos, muitos dos quaes vão citados no vocabulário. 

Uma das dificuldades que frequentemente surgem nesta 
espécie de trabalhos é a identificação dos nomes que appa- 
recem nos clássicos com os nomes hoje em voga. A identi- 
ficação de certos nomes deu-me que pensar por largo tempo, 
roas quasi sempre consegui o intento. Eliminei todos os no- 
mes cie terras cuja identidade não pude reconhecer nos map- 
pas modernos. Para o effeito consultei especialmente o no- 
tável Atlas de Stieler e o Atlas grande de Schrader. 

Quando o mesmo nome se me deparou com formas di- 
versas, preferi aquella que prevaleceu. Em certos casos in- 
dico duas ou mais formas do mesmo nome, e ponho em pri- 
meiro logar a que me pareceu mais auctorizada ou plausível. 

Aos nomes próprios juntei alguns nomes gentílicos menos 
vulgares, e registei egualmente, acompanhadas da respectiva 
significação, diversas palavras estranjeiras que entram na 
composição de nomes geográphicos e cujo conhecimento é 
subsídio valioso. 

Na sua Orthogi*aphia Nacional (pag. 244), diz o sr. Gon- 
çalves Vianna, quanto á romanização dos vocábulos germâ- 
nicos terminados em berg, que lhe parece bastante accres- 
centar ue ao g, terminando-os em bergue. Todavia é tradi- 
ção muito antiga na língua portuguesa, como na castelhana, 
accrescentar a a esses nomes, que assim ficam femininos, e 
entendi não quebrar a tradição, de mais a mais sem ponde- 
rosas razões que tal me persuadissem. 

Com todas as deficiências e imperfeições que possa ter, 
estou certo de que o presente trabalho alguns serviços ha de 
prestar. Outros com mais saber e de occupações e cuidados 
menos absorventes farão mais e melhor. 



ABREVIATURAS 

Por economia de espaço e de tempo empreguei abreviaturas 
na citação de obras e auctores. Eis a chave das principaes: 

Arte Arte de navegar, etc, por Manuel Pimentel. Con- 
sultei a 4.' edição (Lisboa, 1762). 

BI Vocabulário de Bluteau. 

Cardeal Saraiva . . . Obras completas. 

Casado Giraldes . . . Tratado completo de cosmographia e geographia. 

Chron Chrónica de El-Rei D. Sebastião, por Fr. Bernardo 

da Cruz. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA l65 

D. Décadas, de João de Barros e de Diogo do Couto. 

Godinho Relação do novo caminho quefef por terra e mar, 

vindo da índia para Portugal, o padre Manuel 
Godinho. 

Hist. gen História genealógica da casa real portuguesa, por 

D. António Caetano de Sousa. 

Inéd Collecção de livros inéditos de história portuguesa 

, publicados pela Academia Real das Sciéncias. 

índ índice chronológico das navegações, viagens, des- 
cobrimentos e conquistas aos portugueses, etc, 
pelo cardeal Saraiva (Lisboa, 1841). 

Itin Itinerário da índia por terra, por Fr. Gaspar de 

S. Bernardino. 

Lucena História da vida do padre Francisco de Xavier, 

pelo padre João de Lucena. 

Mon Monarchia Lusitana. 

Or. conq. Oriente conquistado, etc, pelo padre Francisco de 

Sousa. 

Peregrinação Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. 

Roteiro Descripcão e roteiro da costa occidental de Africa, 

por Alexandre Magno de Castilho. 

Tenreiro Itinerário de António Tenreiro, que da índia veio 

por terra a este reino de Portugal. Foi impresso 
no mesmo volume com a Peregrinação de Pinto 
em 1725. 

Topon Toponymia árabe de Portugal, por David Lopes. 

Empreguei a numeração romana para indicar os volumes e a nume- 
ração árabe para indicar as páginas das obras citadas. 



Aargan. Vid. Argóvia. 

Abarilla, cidade de França, banhada pelo rio Somma. 
Em francês, Abbeville. 

Abecre, cidade do Uadai, no Sudão central francês. 

Abouié 9 cidade capital do antigo reino de Dahomé, na 
costa occidental de África. Os franceses escrevem Abomey. 

Adamiiá, região do Sudão central alemão, a N. e NE. da 
colónia dos Camarões. 

Adão {pico de), monte na ilha de Ceilão. Foi nome dado 
pelos portugueses, como se vê em Barros (D. Ill, 1. II, cap. I). 

Adda, rio de Itália, affluente do Pó. 

Adeger {ilha de), no golfo de Arguim. Ind., 26. 

* Adeqi, cidade porto de mar da Arábia. 

idlge, rio de Itália. A palavra tem o accento tónico na pri- 
meira syllaba, como em italiano {Ádige) e em latim {Ãthèsis). 

Adoiiara, ilha a E. da de Flores, na Oceania. Em alguns 
mappas modernos, Andonare. 



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l66 O INSTITUTO 

Aglier (cabo de), situado na costa occidental de Marrocos e 
geralmente designado em livros estranjeiros por cabo de Ghir. 
Também lhe chamaram cabo de Guer {Arte, 188) e de Gué 
(Cruz, Ckron., 1 1 ; lt., cap. VII). 

Ajuda. Vid. São João Baptista de Ajuda. 

Alasca, território a NW. da América. 

Alcácer Ceguer ou Alcácer Ceçuii\ povoação do império 
de Marrocos. Alcácer Ceguer signinca o castello pequeno, 
como Alcácer Quivir significa o castello grande. Os nossos 
antigos escriptores escreviam geralmente Alcácere, como se 
vê em Cruz, Ctoon., u, etc. 

Alcácer Quivir (e não Kibir, nem nenhuma de tantas for- 
mas extravagantes que a este nome se teem dado). Também 
é auetorizada a forma Alcácer Quebir. Quipir prevateceu em 
Guadalquivir, rio de Espanha. Cf. Alcácer Ceguef\ 

Alcocer, porto de mar do Egypto na costa do mar Ver- 
melho. (D. II, 1. VIII, cap. I; D. V, I. VII, cap. VIII). Em 
mappas estranjeiros, Kosseír. 

* Alderney, ilha inglesa, uma das anglò-normandas. Os 
franceses chamam-lhe Aurigny. No vocabulário do sr< Cân- 
dido de Figueiredo vem Anderney, por manifesto equívoco 
typográphico. 

Almança, cidade de. Espanha. 

Alpes, grande cadeia de montanhas na Europa. Porque 
andam errados alguns dos nomes das partes em que se cos- 
tuma dividir a cadeia, indicamo-los em seguida: 

jAlpes Marítimos. Em latim, Alpes maritimee. 
Alpes da Ligúria. 
Alpes do Var\ 

Pequenos Alpes da Provença. 
Grandes Alpes da Provença. 
Pequenos Alpes do Delphinado. 
Grandes Alpes do Delphinado. 
o, Alpes Cocios ou Cocianos, assim chamados do rei Cotfius, 
~ ) contemporâneo de Augusto. Em latim, Alpes Cottice ou 
g \ Cottiance. 

Grandes Alpes da Sabóia. 
Pequetios Alpes da Sabóia. 

Alpes Graios ou Alpes Gregos. Suppõem alguns que se 
deveria dizer Alpes Cinzentos, porque se trata prova- 
velmente de designação céltica ; nem se sabe a que 
propósito veio a Grécia para os Alpes. Em latim, Alpes 
Graix ou Grcecce. 
\Alpes Penninos. Em latim, Alpes Pennince. 



e/J 

u 

0- 

< 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA 167 

í Alpes Helvéticos. .;* 

[ Alpes Beineses. 
w I Alpes dos quatro tCantões. 
5| M/pes de álaris. 
g5 1«*4//?és Leponíinos. Em latim, Alpes Lepontiorum ou Le- 
g ] pontice. 

es do Tecino. 

fes Algavinos. 
es Rhéticos. 
es Bergamascos. 
AÍpes Tridentinos ou Alpes do TiroL Em latim, Alpes 
\ Tridentince. 

u Alpes da Baviera. * 

í l^foes rf* Sal\burgo« 

g j-4/pes- Noviços. Em latim, -<4/pes Noricce. 

g (AÍpes Cânticos. Em latim, -4/pes Cwnicce. 

ca j/!/pe$ Julianos. Em latim, i4ijpes. Júlia. 

£ lAlvós da Carinthia e da Estiría. 

^ ,^4//?es <fe Áustria. 



X/i 



V 

LU 
O. 



Alpes escandinavos, cadeia de montanhas na Escandiná- 
via, aantes mais conhecida pela designação de Do/rmas^ do 
nome particular que ellas teemnuma região da Noruega. 

Àlquivir ou AlqueMr, neme por que também se designou 
o rio mais conhecido por Guadalquivir. Vid. Uad. 

Altemburgo, cidade de Alemanha, capital do ducado de 
Saxónia-Altemburgo. 

Áltona, cidade do império alemão. 

Amacnça (ilha de)* no archipélago do Japão, a SW. de 
Ximo ou Kiú-Siúi Em mappas modernos, Amakusa ou Ama- 
kousa. 

Amara, reino antigo da Ethiópia. Em livros estranftiros, 
Amhara. 

Amboino (ilha cie), no mar de Banda. 

Ambundo, e não Mbundo, região da província de Angola. 

Ainn-Dária, rio da Ásia. Vid. Geum. 

Ananibas. Vid. Siantôes. 

Andamfto (ilhas de), grupo a N. das ilhas de Nicobar. 

Andtttare. Vid. Adonara. 

Angolenia ou Angoleima, cidade de França. Em francês, 
Angoulême. 

Anguilla (Hha), uma das pequenas Antilhas, e Ni da 'ilha 
de S. Martinho. • ■ 



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l68 O INSTITUTO 

Anjú, antiga província de França. Teve o título de du- 
cado. 

Antígua (ilha), uma das pequenas Antilhas, a N. da ilha 
de Guadalupe. 

Antuérpia, cidade da Bélgica. Em francês, Anvers, d'onde 
alguns transcreveram Anveres. 

Aor. Vid. Pulo Laor. 

Apulha ou Apúlia, região da Itália, a SE. Apúlia é a 
forma erudita; Apulha, forma popular que obedece á conhe- 
tida regra da mudança do grupo li em Ih. Apulha é forma 
vulgar nos clássicos. Barros escreveu Apúlia (D. III, 1. I, 
cap. III) e Apulha (D. IV, 1. I, cap. VIII). ^ 

Araito-shlma. Vid. Araitoxima. 

Araitoxima {ilha), uma das Curilhas. 

Ardennas {floresta on planalto das), constitue em grande 
parte o departamento do mesmo nome, a NE. de França. 

Arequipa, cidade do Peru. 

* Argel, cidade, capital da Argélia. 

• Argélia, colónia francesa da África septentrionah 
Argóvia, cantão da Suiça. 

Àrguiin {golfo e ilha de), na costa occidental de África, ao 
sul do cabo Branco, cerca de 21 o N. 

Aroa. Vid. Aru. 

Arrábida, serra de Portuga). Segundo Edrici, citado pelo 
sr« David Lopes {Topou., 21-2*), a palavra árabe Arrábita 
ou Arrábida não tem a significação de castello, ou aldeia, 
mas a de t quartel, onde estão os guardas do caminho; e 
significa tamoem «convento» ou «eremitério», logar onde 
alguém se retira longe do mundo para só se entregar a 
obras de devoção». Cf. Rebate. 

Arraeão {montes de), na Birmânia inglesa. {Arte, 197; Or. t 
pref. ; D. I, 1. IX, cap. I). 

Arrakan Vid. Arraeão. 

Aru {ilhéus de), no estreito de Malaca. 

Assu&o, cidade do Egypto, na margem direita do Nilo. É 
a antiga Syene. 

jístures, os habitantes das Astúrias. 

Ausburgo, cidade de Alemanha. 

Auvergne. Vid. Auvérgnia. 

Auvérnhia ou Alvérnia (do latim Arvernia), antiga pro- 
víncia de França. Em francês, Aupergue. 

Avinhão, cidade de França. 

Axem, nome de bahia e de povoação inglesa da costa- dos 
Quáquaas, a W. do cabo das Três Pontas, no golfo de 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA 169 

Guiné. Existe ahi um castello fundado pelos £ortug«ê*s. 
Em livros estranjeiros lê-se Axim. 

Axlm. Vid. Axem. 

Axtni, nome de povoação francesa e de um rio na costa 
do Marfim (golfo de Guiné). Em livros estranjeiros lê-se 
Assini e Assinie. 

Azanior, povoação na costa occidental de Marrocos, a N. 
de Mazagão. Nos mappas modernos vem Asemmtir e A\tm- 
' mour. 

Baear, cidade na margem esquerda do rio Indo. D. IV, 
1. IX, cap. X. Em mappas estranjeiros, Bhakar. 

Baehio, uma das ilhas Malucas. Em livros estranjeiros, 
Batjan. Vid. Malucas. 

Baçorá, cidade banhada pelo rio Euphrates. 

Bacu, porto da Caucásia, no mar Cáspio. (Godinho, cap. 
XXI). Em livros estranjeiros, Bakou. 

Bade. Vid. Baden. 

Baden (grão-ducado de)> no império de Alemanha, a W, 
do reino de Vurtemberga* 

Bagada ou Bagodá, cidade da Turquia asiática, geralmente 
designada por Bagdad. O sr. Cândido de Figueiredo regista 
Bagodad como antiga designação portuguesa. Nos nossos 
amigos escriptores encontrei Bagadad (D. t, 1. VIII, cap* I; 
D. IV, 1. III, cap. XIII) e Bagodá (It. de Tenreiro, cap. 
LXIV). Quanto á segunda syllaba de Bagada é ainda con- 
corde o cardeal Saraiva (Ind. 279), que parece ter seguido 
o Itinerário de Nicolau da Orta. A queda do d final é abo- 
nada pela graphia de Tenreiro, pelo exemplo de nomes se- 
melhantes e pela pronúncia usual, em que essa letra se não 
faz ouvir. Portanto não pôde haver dúvida de que Bagada 
e Bagodá são verdadeiras formas portuguesas. O sr. David 
Lopes (Topon., 38) escreveu Bagdade, segundo regras de 
transcripção do árabe; mas de certo é preferível manter a 
antiga tradição da língua portuguesa. 

Bagdad. Vid. Bagada. 

Bahia da Âlagôa, a mesma que também se chama bahia 
de Lourenço Marques. Bahia da Alagòa foi o seu primeiro 
nome. Chamaram-lhe os ingleses Delagoa bay e os france- 
ses baie Delagoa, o que é muito menos lastimável do que o 
facto de terem portugueses emprega.do esses nomes estran- 
jeirados. 



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I7O Ò INSTITUTO 

Bakr ou Bar, palavra árabe que significa rio e entra na 
composição de muitos nomes geográphicos, principalmente 
na região do alto Nilo: Bahr-el-Gha\al, ou Bar-eígaçal* rio 
das Gabelas; Bar-el-Abiad, rio Branco; Bar~el~Arab> rio 
Ái-abe, etc. 

Bateal (togo), situado na Sibéria. 

Baiona, cidade de França. 

Baltasar, cidade do Indostão, junto ao golfo de Ben- 
gala. 

Balque (em livros estranjeiros, Balkh), cidade do Afega- 
nistão, na antiga Bactriana. Na antiguidade chamaram-lhe 
Bactvia e no século xvi Bohara. (D. IV, 1. VI, cap. I). 

Banca (ilha de), e não Banka, a E. de Çamatra, da qual 
está separada pelo estreito de Banca. (Arte, 435). 
\ Banda (mar de), e não Battdà, como alguns se pennitti- 
ram accentuar, a E. do mar de Java. 

Banda (ilhas de), grupo de pequenas ilhas no mar que 
d'ellas tirou o nome. r oram cinco as ilhas que os portugue- 
ses conheceram especialmente por esse nome, particular de 
uma d'ellas : Batida, Rosolanguim, Ai, Rom e Neira. (D. Ill, 
J. V, cap. VI). 

Banda Oriental, nome que também se deu á região ame- 
ricana oceupada pela república do Uruguai- 

Barbacim, rio, na Africa occidental, a S. do cabo Verde. 
(índ., 32). 

Barbada ou Barbadas (ilha), a mais oriental das peque- 
nas Antilhas. Pertence aos ingleses, que lhe chamam Bar- 
bados. 

Barbuda (ilha), uma das pequenas Antilhas, a N. da An- 
tigua. Os portuguesas também lhe chamaram Barbada. 

Barca, região de Africa, na Tripolitánia. 

Barka. Vid. Barca. 

* Basileia, cidade e cantão da Suiça. 

Batceâló, porto da ilha de CeilãQ. 

Beirut, cidade porto de mar na costa da Syria. 

Bella (ilha) e estreito da ilha Bclla, a NW. da ilha da 
Terra Nova, entre esta e a península de Labrador. 

Benguela, região da província de Angola e um dos distri- 
ctos em que se divide a província. 

Benim (costa de), parte da costa occidental de Africa com- 
prehendida entre os cabos de S. Paulo e Formoso. 

Bequia (ilha), uma das pequenas Antilhas, a S. da ilha de 
S. Vicente. 

Berg, palavra alemã que significa monte e entra na com- 



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NOMENCLATURA GBOORÁPHICA 171 

posição de muitos nomes geográphicos. Para português tran- 
screvesse por berga, ficando o nome feminina, como Conis- 
berga (em alemão Kônigsberg, <jue significa monte da rei). 

Berg&, antigo ducado, que hoje faz parte da Prússia Rhe- 
nana. 

Bermudas, grupo de ilhas a N. das Antilhas. 

* Berna (e não Berne), cidade da Suiça. 

Blllntôes (ilhas dos), situada entre as ilhas de Camatra e 
de Bornéo. Parece que também chamaram á maior d'eVas 
Bilitão. (Arte, 43o e 434). 

Bima, nome de cidade e de sukanato na ilha de Sum- 
bava. 

Birmânia, região da Indò-China. 

Blsiguiche. Vid. Goréa. 

Blzeaia ou Biscaia, uma das províncias vascongadas. Em 
castelhano, Vt\caya. 

Blzcafnhos ou Biscaínhos, os habitantes da Bizcaia. Bi^ 
caia e Biseaínhos é melhor graphia, e assim se escrevia nou- 
tro tempo. (Mon., 1. VI, cap. XXV). 

Bizerta, cidade da Tunísia. 

Blcemfontein, cidade capital da antiga república de Orange, 
boje colónia inglesa, na África austral. O nome é hôllandâs e 
pronuncía-se Blurnefántain. Pelo menos o elemento os deve- 
ria trasladar-se para a nossa língua por u, que é o valor cor- 
respondente ao oe hollandês. 

Boa Vista (cabo e bahia da), na costa de NE. da ilha da 
Terra Nova. Em livros estranjeiros lê-se Bonavista. 

Boers, povo da África austral, descendente de antigos co- 
lonos hollandêses. Pronuncia-se bitrs. O nome é hollandês 
e carece de ser accommodado á nossa língua. 

Bona, cidade da Argélia. Tem o mesmo nome o golfo vizi- 
nho. Bona é a antiga Hippona. 

Boiiaire (ilha dé), uma das pequenas Antilhas, no grupo 
de sotavento. 

Bondia, povoação hespanhola de Castella a Nova. Em cas- 
telhano, Buettdia. 

* Bordéus, cidade de França. 
Borntt, sultanato do Sudão central. 

Borysthenes, rio da Rússia, hoje mais conhecido por Dnie- 
pre. Casado Giraldes deu-lhe o nome de Borysthenes, o que 
demonstra que a designação de Dniepre é entre nós relati- 
vamente recente. 

Bongle. Vid, Bujia. 

Bo urges. Vid. Burges. 



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172 O INSTITUTO 

Brabante, província da Bélgica. 
Brandeburgo, província da Prússia. 

# Braail, nação da América do Sul. O nome do país vem 
do nome do pau chamado brasil, que deriva de brasa, e esta 
palavra não se escreve com \. Os nossos clássicos escreviam 
Brasil. 

Brunsrique ou Brunsvic, ducado de Alemanha. O mesmo 
nome se deu a outras terras. 

Budomel, região na África occi dental, a S. do Senegal. 
(índ. 3a). 

Bnjla, cidade marítima da Argélia. É a antiga Salde. O 
nome de Bujia (os franceses dizem Bougié) deriva do árabe 
Bedjaia. 

Surges, cidade de França. 

Buton. Vid. Pulo Botum. 

# Byzánclo (e não Bysánció), antigo nome da cidade que 
hoje se chama Constantinopla. 



O 

Cabo Bretão, na costa oriental da ilha do mesmo nome, 
á entrada do golfo de S. Lourenço, a E. do Canadá. 

Cabo Corso, situado na costa da Mina. Ha alli um castello 
fundado pelos portugueses. Á povoação vizinha chamam os 
naturaes Iguah. Hoje é feitoria británnica e os ingleses dão- 
lhe o nome de Cape Coast Castle. 

Cabosa. Vid. Cabotes. 

Cabozes (ilha dos), junto da costa de Tanassarim, a W. 
da Indò-China. 

Çaeatecas, cidade do México. 

Cáfçllari. Vid. Cálaru 

# Çáhara, grande deserto africano ao norte do Sudão. A 
escripta e pronúncia vulgar é, á francesa, Sahará. A pala- 
vra é árabe, e d'ella deriva o vocábulo português çdfaro, ou 
sdfaro, como menos escrupulosamente se costuma escrever; 
isto bastaria para não haver dúvidas quanto ao accento tó- 
nico na primeira syllaba. Nos nossos antigos escriptores en- 
contra-se o nome "do deserto com diversas formas, algumas 
das quaes auetorizam também a prosódia Çáhara. Barros 
escreveu Çahara (D. I, 1. I, cap. II) e Zara (D. I, I. 1, cap. 
XIII); Bluteau (in-vb.° Negro) escreveu Zaara e Zara; no 
Oi\ conq. (I, 8o3) lese Sarra. Em árabe lê-se Çáhara. Os 
espanhoes e os italianos, cujas línguas teem tantas analogias 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPH1CA 173 

com a nossa, também fazem o accento tónico na primeira 
syllaba. 

Calenna, cidade da Guiana francesa na ilha do mesmo 
nome. 

Cftiraio, cidade da Tunísia. 

Calabar (costa do), parte da costa occidental de África 
comprehendida entre o cabo Formoso e o rio dos Camarões. 

Calantão {região e porto de), na costa oriental da penín- 
sula de Malaca. Em livros estranjeiros, Kalantan e KeJantáti. 

Cálari, cidade da Sardenha. É mais usada a forma italiana 
Cágliari, que se pronuncia Cálhari. Pimentel (Arte, 216) 
escreveu € Cálari ou Calher*. Em latim dizia-se Cârâlis, o 
que justifica a forma Cálari. 

Calháo, cidade marítima do Peru. 

Callngapatio, cidade na costa oriental do Indostão. 

Catoario (cabo de), na costa de Venezuela. 

Camarões, colónia alemã na África occidental. Ha alli, 
com o mesmo nome dos camarões, um cabo, um rio e uma 
serra. Em livros estranjeiros, Cameroun e Kamerun. 

Camarões (bahia de\ na costa da República Argentina. 

* Çamatra, grande ilha a S. e SW. da península de Malaca. 
Cambaia (golfo de), entre a península de Guzarate e o In- 
dostão. 

Cambaya. Vid. Cambaia. 

Cambraia, cidade de França. Em francês Cambrai. 

* Çamora, cidade de Espanha. 

Canal de Inglaterra ou Canal inglês. Eram estes os no- 
mes por que antigamente se designava o canal que separa 
a Gran Bretanha da França e que hoje é conhecido por mar 
da Mancha. Mancha é detestável accommodação do francês 
Manche, que significa manga, em sentido figurado passagem 
estreita e comprida. Os ingleses chamam-lhe English Chan- 
nel (Canal inglês) 9 , os alemães dizem Der Canal. Ingleses, 
franceses e alemães todos dizem bem; nós, aportuguesando 
o nome francês, dizemos pessimamente, e por isso convém 
restabelecer o nome de Canal de Inglaterra, usado em Por- 
tugal até ha menos de um século. (G. G., III, 5o e nos log. 
propr. ; Bluteau, in-vbo. França). 

Cananor, cidade e antigo reino do Indostão. Em mappas 
estranjeiros, Cannanore e Kananur. 

Canem, região vizinha do lago Chad, no Sudão central 
francês. 

Cangoxima, cidade do Japão na ilha de Ximo ou Kiú»siú. 
(Lucena, 467). 



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174 ° 1NSI1TUTC 

Caso, cidade do Socoto, no Sudão central británnico. 

Cansim, província da China a N. da de Cantão. (D. IH, 
I. II, cap. VII). Em livros estranjeiros, Kiang-Si. 

Cantio, cidade e província da China meridional. Em livros 
estranjeiros, a cidade apparece com o nome de Cantem, e a 
província com o de Kouang- Toung, ou Kwang- Tong. 

Cape Coast Castle. Vid. Cabo Corso, 

* Çaragoça, cidade de Espanha. 

Careassona, cidade de Franca. 

Carimata (ilhas de), grupo a W. da ilha de Bornéo. Os 
portugueses também lhes chamaram ilhas de Surute. Em 
mappas modernos, Karimata. O nome de Carimata per- 
tence particularmente á ilha maior; o nome de Surute per- 
tence á immediata em grandeza, que fica a WSW. da pri- 
meira. 

Carnae Logone, cidade situada a S. do lago Chad, do Su- 
dão central alemão. 

Cárpathos (e não Karpáthos), cadeia de montanhas da Eu- 
ropa central. 

Cartam, antiga capital do Sudão egypcio. 

Casa Blanea. Vid. Casa Branca. 

Casa Branea, nome de cabo e de povoação na costa occi- 
dental de Marrocos. Uma e outra cousa houve antigamente 
nome de Anafe. Os marroquinos chamam-lhe actualmente 
Dar-eUBeida; e em livros estranjeiros lê-se, á castelhana, 
Casa Blanea. 

Casamansa, rio da Guiné francesa. Rio Casamansa vale o 
mesmo que rio do rei dos Cassangas, pois a palavra mansa 
quer dizer rei ou senhor em língua dos naturaes. Em muitos 
livros, alguns de bom nome, apparece erradamente Cara- 
mansa e Caraman\a. 

Cebtt (ilha de), uma das ilhas Philippinas. Nos manuscri- 
ptos antigos apparece o nome desta ilha com muitas varian- 
tes: Cabo, Çabu, Zebu, Zabu, Subsuth, Zubut, Cubo, Subo 
e Zubo. O nome de Cebn (em espanhol Zebu) foi o que 
prevaleceu. 

Cedros (ilha dos), a W. da península da Califórnia, na 
América do Norte. 

Celebes (ilha de), a E. da ilha de Bornéo. O mesmo nome 
se generalizou a várias ilhas vizinhas. Tiveram este nome de 
Celebes «por os moradores d'ellas assim serem chamados». 
(D. III, 1. X, cap. V; D. IV, l. IX, cap. XXI). 

Cervino (monte), nos Alpes. 

Cestos (rio dos), na costa occidental de África. Banha a 



■ 



NOMENCLATURA GBOGRÁPHiCA 175 

república de Libéria. Em alguns mappas apparece com o 
nome de Sestws. 

# Cevtàinas, montanhas de França. 

Chalons do Marna, cidade de França, capital do departa- 
mento do Mama. Em francês Châlons-sur-Marne. Cf. neste 
vocabulário Francfort do Meno e Francfort do Odet\ 

Champagnc Vid. Champanha. 

Champanha, antiga província de França, afamada pelos 
seus vinhos. A forma Champanha, em vez do francês dham- 
pagne, tem largas tradições na nossa língua. (BI. in-vb.° 
Franca; M$t. gen., I, 14). 

Chang-tehouen. Vid. Sanchoão. 

Chan-Toang. Vid. Xantom. 

Char, palavra que em samoiedo significa estreito e appa- 
rece na composição de nomes geográphicos : ao estreito aue 
separa as duas ilhas da Nova Zembla se chama Matotchkin 
Citar. 

Chatigão, cidade da índia, conhecida em livros estranjei- 
ros por Chittagoitg. O sr. Cândido de Figueiredo escreveu 
Cattigão, forma que nSo encontrei. Deparou-se-me Cathu 
gão, e, mais frequentemente, Chatigão, no Or>, pref., em 
várias e estimadas edições dos Lusíadas e noutros livros 
clássicos (D. I, 1. IX, cap. I; D. II, 1. II, cap. VI; D. IV, 
l IX, cap. 1). Camões, no logar citado pelo sr. Cândido de 
Figueiredo (c. X, est. 121), não considera a palavra nome 
de região, mas de «cidade das melhores de Bengala». Tam- 
bém a um rio se deu o nome de Chatigão. 

Chatt, palavra árabe que significa rio e entra na compo- 
sição de nomes geográphicos: Chatt-el-Arab, rio Árabe, ou 
rio dos Árabes, aquelle que resulta da confluência do Ku- 
phrates com o Tigre. 

Chanl, cidade da índia, um pouco ao sul de Bombaim. 
Em alguns mappas modernos apparece Tschaul. 

Chedubé (ilna) : junto da costa da Birmânia inglesa, na 
Indò-China. Em livros estranjeiros, Tchedouba e Tsneduba. 

CheqniSo (proríncia de\ na China oriental. Nos mappas 
modernos, Tsche-Kiaug. (D. I, 1. IX, cap. I). 
. Chertargo, cidade de França, importante porto de mar 
no Canal de Inglatei*ra. 

1'heu, palavra chinesa, que, junta a um nome de cidade, 
indica que esta é sede de governo regional. Em mappas es* 
tranjeiros apparece a palavra chinesa trasladada por Tchéou 
e Tschoiu 

Chlmtoraço, monte muito elevado da cadeia dos Andes, 
oa república do Equador* 



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1 



176 \ O INSTITUTO 



(Mncfon, cidade marítima da província de Focjuiem, na 
China, onde os portugueses fizeram muito commércio. (D. III, 
1. II, cap. VIII). Muitas vezes falam os nossos clássicos em 
Chtncheu. Nos mappas modernos, TchanfÇ+Tchéou-FoH c 
também Tsehang- Tschou. Fou ou Fu significa cidade sede 
de governo regional. 

Chittagong. Vid. Chatigão, 

Choa. Vid. Xoa. 

Choromandel ou Coromandel, nome por que se designa 
a costa oriental do Indostão. 

Cimbèbasia {costa da), parte da costa occidental de África, 
comprehendida entre os cabos Frio e da Serra. 

Cinde. Vid. Sinde. 

CIngapnra {cidade, cabo e estreito de), ao sul da península 
de Malaca. Nas fontes mais auctorizadas encontrei sempre 
Cingapura e não Singapura. (D. II, 1. VI, cap. I, passtm; 
D. III, 1. II, cap. IV, e KV, cap. IV, etc). 

Cireeios, antiga cidade do Lácio. 

Clarença (e não Claretice). Este nome tornou-se célebre 
por ser um título de ducado, que usaram pessoas da família 
real de Inglaterra. Clarence não é nome de origem inglesa, 
como muitos suppõem, mas simples accommodação inglesa 
de nome estranjeiro. O título foi dado pela primeira vez no 
princípio do século xiv a Mathilde de Hainaut, duquesa de 
Athenas, que tinha estabelecido residência perto de Claren- 
t\a, cidade marítima da Grécia no ângulo occidental da Mo- 
réa, e a esta cidade foi ligado o título. De Clarent\a se for- 
mou o inglês Clarence e o português Clarença, que antigos 
escriptores nossos usaram. O mesmo nome de Clarença deve 
ser dado a uma bahia da península de Alasca, a um rio da 
Austrália e a outro da Nova Zelândia, os quaes geralmente 
são designados á inglesa por Clarence. 

Cobe, cidade do Japão na ilha de Nipon. 

Coblcnça (em vez de Koblentf), cidade da Prússia Rhe- 
nana. 

Cochim, cidade e antigo reino do Indostão, a SW, Em 
mappas estranjeiros, Cotchin e Katschhi. 

Cocos {ilhas dos), a N. e NE. das ilhas de Andamão. 

Colberga, cidade da Prússia. 

Coliure, porto de mar francês no Mediterrâneo, perto dos 
Pyreneus. 

Conisberga, cidade da Prússia, banhada pelo rio Pregel. 
Em alemão, Kõnigsbei*g, que significa monte do rei. 

Cordoiio, região do Sudão egypcio, a S. da Núbia* 

Corta, nome por que os portugueses designaram a Coria* 



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NOMÉtfCLATtífcA 6EOGRÁPHKÍA 1^7 

(Or. conq., I, 478). Essa designação estava em harmonia com 
a pronúncia que os coreanos ainda hoje conservam. Coréa 
parece derivar da pronúncia japonesa. f 

Coma, cidade situada junto á confluência do Tigre e do 
Euphrates. (D. IV, 1; III). Em mappas estranjeiros, Kourna. 

* Corauallia, condado de Inglaterra na península do mesmo 
nome. 

Correntes (cabo das), a SW. da ilha de Cuba. 

Cosença, cidade da Calábria, na Itália. 

Costa de Oiro, nome de uma cadeia de montes em França, 
e de um departamento. Em francês, Cote d*Or. 

CoulSo, cidade e antigo reino do Indostão, a SW. Em 
mappas estranjeiros, Quilan, Qiiilon, Kollam. 

Cracatfto, ilha entre Çamatra e Java. 

• Çuaquem, cidade da Núbia, na costa do mar Vermelho. 
Caca. cidade, capital do sultanato de Bornú, a W. do lago 

Chad. 

Cufra, oásis na zona desértica da Tripolitánia. 

Curaçáo ou Curassau {ilha de), uma das pequenas Antilhas, 
no grupo de sotavento. 

Cnrilhas, grupo de ilhas que se estendem desde o extremo 
meridional da península de Camchatca até ás ilhas do Japão. 

Cyclades, grupo de ilhas a SE. da Grécia. 

Cynoscéphalas, nome de duas collinas da Thessália, onde 
se deu uma batalha célebre. 

Cyrenaiea, região da parte oriental da Tripolitánia. 

# Cyzleo (e não Cfqica), antiga cidade da Ásia Menor. 
(Continua). Fortunato de Almeida. 



VOL. 55.°, N.°4 — ABRtLDE I908. 



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SCIENCIÀS PHYSIGO-MATHEMATICAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n.° 3, pag. 120) 



[r 7 10] — F. Oom — O eclipse total do Sol, visível no dia 3o 
de agosto de íooSriuma \ona comprehendida em Hes- 
patina entre Ferrol e as ilhas Baleares (R. O. P. M., 
xxxv, 1904, 289-291). 

Communication faite à V Associação dos enge- 
nheiros civis portugueses, à la séance du 4 juin 1904. 

[v 7 10] — # — O eclipse total do Sol no dia 3o de agosto de 
. igo5, Lisboa, La Bécarre, 1905. 

Observations faites par les missions scientifi- 
ques des Collegios de S. Fiel et de Campolide. 

[r 7 i5] — R. R. de Souza Pinto — Nota sobre a parallaxe 
equatorial do Sol e additamento a esta Nota, Coim- 
bra, Imprensa da Universidade, 1869. 

[r 7 i5] — J. F. de Souza Pinto — Parallaxe do Sol, Coim- 
bra, Imprensa da Universidade, 1879. 

[r 7 i5, 16] — Don J0Ã0 da Costa — A parallaxe do Sol e as 
passagens de Vénus sobre o disco solar, sob o ponto 
de vista da determinação da distancia do Sol d Terra, 
Lisboa, Typographia da Academia real das scien- 
cias, 1895. 

Cette dissertation de concours est une notíce 
générale des travaux relatifs aux passages de 
Vénus, que 1'auteur s'est efforcé de rendre com- 
plete en y insérant quelques observations inédites. 



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LÊS MATH^MATlQÚES ÉN PORTUGAL tjQ 

[r 7 16, 17, 18J — F. A. Manso Preto — Parallaxe solar (no- 
ticia histórica acerca dos meios empregados para a 
determinar) (I. C, 2 a série, xix, 1074, 11-10, io5- 
iii, 154-162). 

[r 7 L7J — Real Observatortó Astronómico de Lisboa— O novo 
planeia Eros e a distancia do Sol á Terra (1). 

Les observations de Tastéroíde Eros en 1900- 
1901, constituem, au dire de M. L(evy (2), dire- 
cteur de 1'Observatoire de Paris, la série la plus 
complete dont il a disposé. Non seulement elles 
som três nombreuses (3:8oo observations, tandis 
qu'à Washington, Tobservatoire collaborateur oú, 
on a, après celui de Lisbonne, le plus travaillé, 
seulement 2:700), mais elles possèdent aussi 1'exa- 
jctitude la plus satisfaisante. 

[v 7 19] — G. X. d 'Almeida Garrett — A questão dos planetas 
intramercuriaes, Coimbra, Imprensa da Universi- 
dade, 1869. 

[v 7 41] — V, da Silva Pinto — Do pêndulo electrico-magne- 
tico para a demonstração expei*imental do movi- 
mento de rotação da Terra (R. P. B., 1, 1873-1874, 
179-181). 

Cet appareil a été envoyé à TExposition inter- 



(1) De ce travail, non encore imprime, le journal périodique de Lis- 
bonne O Popular (n.°' du 24 et 25 avril 1901) a donné un resume, pu- 
blié ensuite dans A. C. N. (xxxi, iqoi, 249-255). 

(2) «Je vois que votre activite ne se ralentif pas et que vous avez 
accompli beaucoup de travail». 

«... Vos travaux méridiens sont certainement les plus avances». 

(Lettre de M. Lcevy du i3 janvier hjoi). 

«... Vos observations constituem la série la plus complete dont nous 
disposons. Elles ne sont pas seulement les bienvenues au point de vue 
de leur nombre, mais aussi parcequ'elles possèdent 1'exactitude la plus 
satisfaisante. ..». 

«La seconde série des étoiles será fournie aussitot que je serai en 
possession de la suite de vos résultats. En raison de la qualité de vos 
observations méridiennes, il me semble nécessaire d*attendre leur ar- 
rivée». 

(Lettre de M. Lcevy du i5 octobre /O0/). 

# 



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l8o O INSTITUTO 

nationale de Vienne, en 1873, oh íl a reçu une 
médaille d'or. 

[r 7 44] — J. J. D. Souto Rodrigues — Considerações acerca 
da equação secular do médio movimento da Lua, 
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1870. 

[r 7 45, 46] — C. A. Campos Rodrigues — Observations tfoccul- 
tations petidant V eclipse totale de la Lune, 1891, 
novembre i5 (A. N. K., cxxxvm, i8g5, 107- mo). 

[r 7 5o] — J. de Moraes Pereira — Lune (AST., xii, 1893, 
pp. 3o3 et 3go; xiii, 1894, p. 34). 

[r 7 5i]— Theodoro d' Almeida^- Memoria sobre a rotação da 
Lua (Manuscrits n. os G 3, q5-3 et 21 existants à la 
Bibliothèque de TAcadémie des sciences de Us- 
bonne). 

[r 7 77] — J. de Moraes Pereira — Júpiter* Observations 
(AST., xii, i8g3, p. 89; xm, 1894, p. n5). 

[r 7 83] — I. Kcegler e André Pereira — Observations faties 
à Pekhtg sur les satellites de Júpiter par les Peres 
Kcegler, Pereyra, de la Charme, et Gaubil, missio- 
naires de la Compagnie de Jesus (1737-1738) (Mé- 
moires pour 1'histoire des sciences et des beaux-arts, 
Trévoux, 1740, i8o bi % i8o ter ). 

[r 7 83] — I. Kcegler e André Pereira — Immersiones atjue 
emersiones satellitum Jovis observatce Perkini à 
P. P. Ignatio Kcegler & Andrea Pereira, Soe. Jesu, 
a mense novem. ij3o, ad rev. á P. Johannem Baptis- 
tam Carbone, Soe. Jesu. R. S. S. transmissce; et ex 
ejusdem CL visi epistola ad Jacobum de Castro 
Sarmento, M. D. Col. Medic. Lond. L. & R. S. S. 
exearptae (T. R. S. L., xxxvn, i83i-i832, 3i6-3ao). 

[r 7 83] — J. de Moraes Pereira — Jupiter's satellites i5 oct. 
içoi (E. M. L., lxxiv, L901, p. 247). 

[r 7 83] — J. de Moraes Pereira — Transit ofCallixto 8 ang. 
igo3 (E. M. L., lxxviii, 1903-1904, p. 63). 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL l8l 

[r 7 83] — J. de Moraes Pereira — Observations of Júpiter' s 
and Saturn's satellites in i8g3 (J. B. A, A., ív, 
1894, 210-214). 

[r 7 84] — A. Peixoto do Amaral — Habitantes do planeta 
Saturno, Porto, Livraria Chardron, 1886. 

[ir 7 89] — J. de Moraes Pereira — Saturne en i8g2. Dessin 
et observations (AST., xl, 1892, p. 35 1). 



[v«] 

Astronomie stellaire 

[y 8 2] — Abraham Zacuto — Tabulce tabulorum ccelestium mo- 
tnum astronimi Zacuti, nec non stellarum Jixarum 
longitudinem ac latitudinem ad motus Unitatem mira 
dilt gentia reductce, ac in principio cânones (1), Lei- 
ria, 1496. 

[r 8 2] — C. Gomes Villas-Boas — Atlas celeste, arranjado 
por Flamsteed, publicado por J. Fortin, correcto e 
augmetitado por Lalande e Machain, Lisboa, Im- 
prensa regia, 1804. 

[r 8 2] — I. Gomes Guerra — Catalogo das ascensões rectas e 
declinações das estrellas susceptíveis de occultação 

{ela Lua, calculadas para o i.° de janeiro de i832, 
lisboa, Imprensa regia, i83i. 

[r 8 2] — F. A, Oom — Vergleichung des armagh-catalogs von 
Robinson mit dem aboer von Argelander (A. r. B., 
111, 1862, p. 43i ; A. N. K., lix, i863, 241-254). 



(1) Une autre édition, beaucoup plus connue, a pour titre : Almanack 
perpetttum exactíssima nuper emenaatum omnium celi motuum eum addi- 
tionib in cofactis tenens complementum, Venetiis, Petrum Liechtenstein 
coloniensem, Anno salutifere incarnationis, i5o2. 

Cette édition de 1.S02 renferme les corrections de Alfonse de Cor- 
doue. Les éphémérides sont calculées pour le méridien de Salamanque. 



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l82 O INSTITUTO 

[r* 2] — F. A. Oom — Déclinaisons des étoiles qénithales (Ob. P., 

III, 187O, p. 223). 

Cie travail a trait à la détermination, que Tami- 
ral Oom a faite à Poulkova, des déclinaisons de 
toutes les étoiles jusqiTà la septième grandeur, 
comprises dans la zone de 58° 46' à 59 o 46' D. C, 
en employant pour cela le grand instrument de 
passages de Repsold, établi au premier vertical, 
par la méthode d'observation que W. Struve 
avait suivie quand, avec le même appareil, ii 
determina la vitesse de la lumière/ 

[í 8 2] — J. de Moraes Pereira — Étoiles. Cartes per for ées, etc. 
(AST., xii, 1893, p. 147; xiii, 1894, p. 71). 



[r 8 2] — J, de Moraes Pereira — Corrections of the positions 
' vo stars of D. 0T MartVs C ' ' ~ 
(M. N., liv, 1894, p. 175) 



of ttvo stars of D. or MartWs Galactic Long. % and 
Lat. 



(V 8 2] — C. A. Campos Rodrigues — Corrections aux ascett- 
sions droites de quelques étoiles du Berliner Jahrbuch 
(A. N. K., clix, 1902, 329-360). 

Résultats des observations de 1'auteur à Tinstru- 
ment des passages portatif de TObservatoire de 
Lisbonne (Tapada), en 1887- 1890, precedes dune 
description de cet instrument et de la méthode 
d'observation employée, qui a permis d'obtenir 
par Temploi judicieux d'un instrument relative- 
ment petit, la précision remarquaWe qu'indique 
Terreur probable de +o 8 ,oi5 sec 8 pour une cor- 
rection. L'ensemble comprend environ 8:000 obser- 
vations de 353 étoiles, chaque passage étant tou- 
jours doublé du renversement de Vinstrument. 

D'après Tavis de M. Anwers, sécretaire de 
1'Acaaémie des sciences de Berlin, les corrections 
des ascensions droites des étoiles du Berliner 
Jahrbuch, déduites des observations faites à 1'ins- 
trument des passages à TObservatoire de Lis- 
bonne, pourront rendre des services três impor- 
tants dans la construetion du nouveau catalogue 
d'étoiles fondamentales. 

En effet, les résultats obtenus par M. Campos 
Rodrigues, qui «démontrent une précision remar- 
quable des positions obtenues par Temploi soigne 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL l83 

d'un instrument relativement petiti (i), une fois 
publiés, ont servi à Téminent directeur de 1'Obser- 
vatoire Dudley (Amérique), le professeur L. Boss, 
pour un travail de compilation qu'il avait entre- 
pris, en les classant parmi les meilleures qu'il 
avait pu reunir. Plus tard, ce savant, racontant 
incidemment, quelle était sa méthode de calcul, 
et à quelles conditions il était faculte de 1'appli- 

3uer aux observations modernes les plus parfaites, 
présenta comme exemple de «ce quon peut 
obtenir à présent» les données resultantes des 
corrections obtenues par M. Campos Rodrigues. 
Le travail du directeur de TObservatoire de Ta- 
pada represente donc un réel progrès scientifique, 
se distinguant parmi tous les congéneres. 

[V* í>]— ,F. Oom — The alleged change of colour in Sirius 
(O., xxv, 1902, p. 167). 

À propôs cPune lettre publiée par W. T. Lysen 
dans le même recueil, rauteur rectifie une opi- 
nion qui lui était attribuée, et se prononce pour 
la haute probabilité des conclusions du professeur 
Schiaparelli, en opposition de celles qui admet- 
tent un changement dans la couleur de Sirius, 
depuis le temps d'AuGusTE jusqu'à nos jours, 

[í* 8 6] — J. de Moraes Pereira — Observations of variable 
starsfrom tnay 1892 lo january i8g4 (M. B. A. A., 
in, 1894, 2 e partie, 37-47). 

Série de io56 observations photométriques de 
57 étoiles variables à longue période, avec un 
equatorial de i48 mm . 

[V» 6] — J. de Moraes Pereira — Observations of variable stars 
from january 1894 to january i8g6(M. B. A. A., v, 
1896- 1897, 2 e partie, 20-28, 46-48). 

Série de 1096 observations photométriques de 
69 étoiles. 



(1) Lettre.de M. Anwers à M. Campos Rodrigues du 11 septembre 
1902. 



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184 O INSTITUTO 

pr* 6]~J. de Moraes Pereira — Small stars in Orion, etc. 
(E. M. L., lxxii, 1901, 573-574). 

\p 6\ — J. de Moraes Pereira — Dr. Schn>abe's algol variable, 
etc. (E. M. L., lxxv, 1902, p. 76). 

P* 9]i [ r6 2 ] — R- R- DE Souza Pinto — Breves reflexões so- 
bre a varallaxe das estrellas e sobre os instrumentos 
do Observatório de Coimbra (I. C, i ère série, i, 
i853, 45-46). 

P" 8 9], [T a 5], [J 2 e] — H. de Barros Gomes — A astronomia 
moderna e a questão das parallaxes sideraes (J. M. 
P. N., i*** série, m, 1 870-1 871, 73-120, 1 39- 1 5 1 , 
2o3-23i; iv, 1872-1873, 1-29). 

Cette série d'articles represente le premier mé- 
moire 0C1 Tastronomie de précision moderne, 
c'est-à-dire de Técole de Bessel et de Struve, 
est traitée en langue portugaise. 

A sa sortie de 1'Ecole polytechnique de Lis- 
bonne, Tauteur ayant, pendant une année d'envi- 
ron, frequente assidúment le nouvel Observatoire 
de Lisbonne (Tapada), dont 1'installation s'ache- 
vait à ce moment, a jugé utile et três importam, 
sur 1'avis de ses anciens professeurs, de reunir 
et de publier les principaux perfectionnements 
apportes à Tastronomie aobservation et qui ont 
permis de. mesurer avec précision les parallaxes 
des étoiles. Ces notions étaient d'ailleurs encore 
peu répandues en Portugal, même parmi les spé- 
cialistes. 

Frappé du vaste champ qu'il découvrait dans 
les leçons du savant directeur de T Observatoire, 
Tamiral Oom, et dans les ouvrages et méraoirs 
étraneers, que celui-ci avait mis gntre ses mains, 
il s^donna avec ardeur à leur étude, et put, en 
consequence, produire un véritable traité de tout 
ce qui avait manque jusqu'alors à Tenseignement 
officiel. 

N y joiguit, à propôs des determinations de 
paralfaxe aétoiles, la description de Tinstrument 
des passages de Repsold, établi dans la premier 
vertical à rObservatoire de Tapada, et dont la 
forme avait été suggérée par W. Struve, pour 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL l85 

déterminer les parallaxes des étoiles zénithales à 
Lisbonne et particulièrement de a Lyre, 61 Cygne 
et i83o Groombridge. 

L'ouvrage est aussi accompagné d'une exposi- 
tion de la méthode des moinares carrés et de ses 
applications aux calculs astronomiques, qui n'était 
guère vulgarisée alors dans le pays. 

[U i] — F. X. Monteiro de Barros — Breve tratado analy- 
tico do movimento ellivtico dos planetas, Lisboa, 
Regia officina typographica, 1802, 

[U 1]— Jacome L. Sarmento — Methodo fácil para obter a 
equação final, que deve dar todos os i valores de h 
que entram nas formidas das variações seculares das 
excentricidades e longitudes dos perihelios (Théorie 
analytique du système du monde de Pontécoulant, 
2 e édition, livre 2. , cap. 8.°, n.° 64), (I. C, i ère sé- 
rie, vi, i858, p. 121). 

[U 1] — Jacome L. Sarmento — Reflexões acerca da passagem 
das equações do movimento elliptico para as do mo- 
vimento nyperbolico (I. C, i ère seriei vi, i858, 273- 
276). 

[U 1, 2] — Jacome L. Sarmento — Analyse das demonstra- 
ções dos theoremas de Laplace : 1 .° invariabilidade 
dos eixos maiores das orbitas planetárias; 2. cott- 
servação das peauenas excentricidades e inclinações 
das mesmas oroitas (I. C, i ère série, viu, 1860, 
54-55). 

[U 2] — M. C. Damoiseau de Monfort — Mémoires sur les 
variations séculaires des éléments elliptiques de Palias 
et Ceres (M. A. L., i ere série, 111, i ère partie, 1812, 
15-67). 

[U 3, 4] — Jacome L. Sarmento — Discussão do valor da 
funcção perturbadora R, dada pela série n.° 48 do 
livro 2. da Théorie analytique du système du monde 
de Pontécoulant, 2* edição, no caso em que se des- 
pregar os quadrados das forças perturbadoras; e 
indagação da melhor ordem dos termos d' esta série, 



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í86 O INSTITUTO 

que dependem de um argumento dado (L C, i*** sé- 
rie, vi, i858, 93-96, 107-108). 

[U 3, 4, 5] — P. Benjamim Cabral — Calculo das perturba- 
ções dos movimentos celestes, Lisboa, Typographia 
da Academia real das sciencias, 1877. 

Exposé des procedes employés d ordinaire pour 
calcuier les perturbations des mouvements celes- 
tes, et suivi des ingénieuses méthodes dont 1'usage 
a été conseillé par Hansen. 

[U 4] — Jacome L. Sarmento — Desenvolvimento de alguns 
cálculos da Théorie analytique du système du monde 
de Pontécoulant (I. C, i èrc série, viu, 1860, 343- 
352). 

L'auteur déduit des valeurs de i% et iv des 
n. os 84 et 91 du livre de Pontécoulant (2* édi- 
tion). 

[U 6 d] — R. de Mello Castro Aboim — Será indefinida a 
existência dos anneis de Saturno? Porto, Typogra- 
phia central, 1877. 

[U 8] — Conde d' A vila (i) — Escolha do horizonte funda- 
mental para as altitudes da Europa, Lisboa, Im- 
prensa nacional, 1892. 

[U 8] — A. J. Pinto Basto — A theoria de Newton e as ma- 
rés em Macau (A. C. N., xxi, 1891-1892, 228-238, 
477-482). 

[U 8] — F. Pinto Coelho — Estudo sobre as marés do porto 
de Lisboa (R. O. P. M., xxvm, 1897, 209-25Ó). 

[U 10] — F. de Mello e Torres (2) — Introducção geogra- 
phica. 

Cet ouvrage du comte da Ponte et marquis de 
Sande, renferme 3 volumes. Le premier a trait 
à la sphère; lc second aux príncipes géographi- 



(i) Plus tard marquis d' Ávila e de Bolama. 
(2) Comte da Ponte et marquis de Sande. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 1 87 

ques et le troisième concerne les questions géogra- 
phiques, avec un compendio mathematico, dedié 
à Don Francisco Barreto, évêque de 1'Algarve 
en i638. 

[U ioj — F. de Mello e Torres — Vários fragmentos da mi- 
nha geographia começados em o anno de Í63j até 
1640 (manuscrit). 

Cet écrit, remarquable pour le temps, n'est que 
la première partie du Traité de géographie que 
Tauteur avait Tintention d'écrire. 

D'après Stockler, cet ouvrage comprend un 
volume in folio, écrit en deux localités difterentes, 
et par deux collaborateurs : la première partie 
semble être de Tauteur; la seconde est d'un autre, 
et n'a pas été terminée. 

La préface est à la fin du volume et elle est 
datée de Sete Rios, i er décembre 1639. 

On trouve aussi, dans le même volume, deux 
autres opuscules, l'un adressé à Don Francisco 
Barreto, évêque de f Algarve, sur les diftérentes 
parties de la mathématique, écrit à Tavira rfe 8 
au i5 janvier 1639, et 1'autre, dont il n'existe 

3u'un fragment, a pour titre: Exposição á esphera 
e J0Ã0 de Sacrobosco, por Fr. Luiz de Miranda, 
annotada e accrescentada por Francisco de Mello 
e Torres, em Tçvira, aos 16 de julho de i63S. 



[U 10] — M. F. Araújo Guimarães — Elementos de geodesia, 
Rio de Janeiro, Imprensa regia, 181 5. 

[U 10] — Filippe Folque — Memoria sobre os trabalhos geo- 
désicos executados em Portugal (M. A. L., 2 e serie, 
i èrc classe, 1, i ère partie, i8Í3, 1-148, u, i èrc partie, 
1848, i-3oo, 11, 2 e partie, i85o, i-i63; m, i ère par- 
tie, i85i, 1-.59, 233-333). 

Cette étudc constitue un remarquable aperçu 
historique suivi de la description des travaux géo- 
. désiques accomplis en Portugal. 

[U io] — Filippe Folque — Instruccões pelas quaes se devem 
regular o director e officiaes encarregados dos tra- 
balhos geodésicos e topographicos seguidos da dçs- 



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l88 O INSTITUTO 

cripção e rectificação do theodolito, Lisboa, Im- 
prensa nacional, i85o. 

[U 10] — # — Resumo da geographia mathematica, Coimbra, 
Imprensa da Universidade, i855. 

[U 10] — Filippe Folque — Instrucçôes para a execução, fisca- 
li sacão e remuneração dos trabalhos geodésicos e 
chorographicos do reino, Lisboa, Imprensa nacional, 

i858. 

[U 10] — J. de VellaKova e Vasconcellos Correia — Curso 
de topographia iheorico e pratico, Lisboa, i858- 
1859 (litnographié). 

[U 10] — M. J. Barruncho d' Azevedo — Noções elementares 
sobre o levantamento das plantas topographicas, 
Lisboa, Sousa Neves, 1859. 

[U 10] — F. A. de Brito Limpo — Simplificações das rectifi- 
cações dos theodolitos, Lisboa, Typographia do «Fu- 
turoi, 1861. 

[U 10] — M. F. de Medeiros Botelho — Geographia mathe- 
matica, etc. Coimbra, 1867, 1870. 

[U 10] — J. Félix Pereira — Compendio de geographia mathe- 
matica, Lisboa, Typographia de António José Ger- 
mano, 1867. 

[U 10] — R. R. de Souza Pinto — Posição geographica do 
Obsei-vatorio da Universidade de Cotmbra, Coimbra, 
Imprensa da Universidade, 1867. 

Les observation qui ont servi de base à ce tra- 
vail avaient déjà paru dans I. C. (i ère série, ix, 
1861, 24-25). En se qui concerne la longitude de 
PObservatoire de Coímbre (o h 33 m 34%5i), elle 
renferme, par rapport aux travaux des astrono- 
mes nord-americains (Green, Davis and Norris, 
Telegraphic determination of longitudes) une dis- 
cordance de 8 8 ,54, ou 2' 8'',i en are (Voy. Brito 
Limpo — Algumas palavras sobre a determinação 
das longitudes, Lisboa, 1882, p. 11). 



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LES MATHÉMATtQUES EN PORTUGAL 189 

[U 10] — C. A, Carneiro de Souza e Faro — Levantamento 
topographico, Nova Goa, Imprensa nacional, 1868. 

[U 10] — Filippe Folque — Rapport sur les travaux géodési- 
quês du Portugal, et sur Vétat actuei de ces mêmes 
travaux, pour étre presente à la commission perma- 
nente de ta conférence internationale, Lisbonne, Im- 
primerie nationale, 1868. 

[U ioj — Filippe Folque — Relatório dos trabalhos executados 
no instituto geographico durante o anno económico 
de 1866-1807 e de 1867-1868, Lisboa, Imprensa 
nacional, 1869. x 

[U 10] — Filippe Folque — lnstrucções sobre o sei*viço geodé- 
sico de primeira ordem, Lisboa, Imprensa nacional, 
1870. 

[U 10] — A. A. de Pina Vidal — Princípios de geographia 
mathematica, Lisboa, Typographia da Academia 
real das sciencias, 1871, 1877, i883. 

[U 10] — J. J. D. Souto Rodrigues — O n.° 36g da Geodesia 
de Puissant (I. C, i ère série, xvi, 1873, 11-20). 
L'auteur dopne de développement du calcul que 
Legendre a iugé inutile de faire dans un mémoire 
presente à 1 Institut de France (1806), mémoire 
que Puissant a transporte presque intégralement 
dans son Traité de géodésie. 

[U 10] — Hugo de Lacerda — Topographia (E. P. E., 1874, 
340-348). 

[U 10] -~J. M. Cabral Calheiros — Apontamentos de geode- 
sia theorico-pratica, Lisboa, 1874 (lithographié). 

[U 10] — Filippe Folque — lnstrucções e regulamento para a 
execução e Jiscalisação dos trabalhos geodésicos, 
chorographicos e hydrog\*aphicos do reino, Lisboa, 
Typographia da Academia real das sciencias, 1874. 

[U 10] — F; A. Pereira da Silva — Relatório dos trabalhos 
geodésicos, topographicos e geológicos do reino, per- 
tencente ao anno de i8i5, Lisboa, Imprensa nacional, 
1876. 



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igO O INSllTUTO 

[U 10] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Rapport 
sur les travaux géodésiques, topographiaues, hydro- 

{rraphiques et géologiques du Portugal, Lisbonne, 
mprimerie nationale, 1878. 

10] — J, M. Barruncho d' Azevedo — Tratado pratico de 
topographia regular e irregular, Lisboa, J. A. Ro- 
drigues, 1880. 

10] — F. G. — Descripção do globo terrestre (O Atheneu 
artistico-litterario, Porto, 1880, 3o-3i, 62-63, 70; 
1881, 83, 119). 

10] — # — Escolas regiméhtaes. Curso da classe de sar- 
gentos (2. anno). Noções geraes de topographia, 
Lisboa, Imprensa nacional, 1881. 

10]— # — Topographia (B. P. E., i2 e série, n.° 91, 1884). 

10] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Ligação 
do Observatório astronómico de Lisboa com a trian- 
gulação fundamental, Lisboa, Typographia da Aca- 
demia real das sciencias, 1886. 

Ce mémoire renferme la description des opéra- 
tions faites sous la direction de Brito Limpo pour 
relier TObservatoire de Lisbonne à la triangula- 
tion qui s'étend sur toute 1'Europe. 

10] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Calculo 
das direcções provisórias em uma estação geodésica, 
Lisboa, Typographia da Academia real cias scien- 
cias, 1887. 

Continua). Rodoijwo Guimarães. 



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t 



LITTERATURÀ E BELUS-ARTES 



ARTES E INDUSTRIAS METÀLLICAS EH PORTUGAL 

4 

(Cont. do n.° 3, pag. 141) 

XLIV 

Pereira (João) 

Era mestre da officina de ferreiro da real obra do palacic 
da Ajuda. Tendo fallecido a 23 de novembro de 1820, foi 
proposto para ò substituir o contra-mestre João José Rodri- 
gues (1). 



\ 



Pires (Aleixo) 



Era serralheiro, e nesta qualidade trabalhou para o mos 
teiro de Belém em 1571 nas obras aue alli se andavam exe 
cutando na capella-mór. Fez as grades de ferro para as oitc 
frestas da mesma, pelo que a rainha D. Catharina, que entãc 
tinha o governo do reino por seu neto D. Sebastião, ordenou 
se lhe pagassem 403P000 reaes á conta do que havia de haver 
O respectivo mandado, abaixo transcripto, é de 2 de abri 
d'aquelle anno, sendo o recibo assignado no dia seguinte. 

«Guomez Ribeiro mandouos que deys alexo pirez sarralheiro coremtí 
mil reaes que lhe mando dar a cota ao que hadaver pellas grades de 



(1) Torre do Tombo, Papeis do Palácio da Ajuda. 



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192 O INSTITUTO 

ferro que faz pêra as vidraças das oyto frestas da capella moor do mos» 
teiro de Belém e per este que não passará pella chamcellarya com seu 
conhecimento vos serão leuados e cota os ditos coremta mill reaes. 
Francisco Lopez o fez e Lixboa a dous dabrill de mill e quinhentos 
e Lxxj. E eu Sebastião dAfonseca o ffiz escreuer. — Raynjia. 

«Rê Gomez Ribeiro* alexo pirez sarralheiro que V. A. lhe mada dar 
a conta do que hadaver pelas grades que fas pêra as vidraças das oito 
frestas da capella mor do mosteiro de Belém e.que este não pase pela 
chamcelaría. 

«Recebeo aleixo pirez cerralheiro do thezoureiro Guomez Ribeiro 
os corenta mill reaes conteúdos neste aluará em Lixboa a iij dabril de 
1571 — aleyxo píz — dioguo míz» (1). 



LI 
Pires (Francisco) 

A 4 de julho de i566 foi nomeado mestre das obras de 
ferro dos Armazéns e Ribeira de Lisboa, cargo que tinha 
vagado por fallecimento de Francisco Dias. 

Vide este nome. 



«Eu elRei faço saber a vos Luis César, fidallguo de minha (falta casa) 
e prouedor dos meus allmazees, que eu ey por bem e me praz de fazer 
mercê a Francisco Pirez, ferreiro e morador nesta cidade de Lixboa, do 
carguo de mestre das obras de ferro que se fazem nos ditos allmazees 
e Ribeira da dita cidade, que vaguou per falecimento de Francisco Dias, 
que o dito carguo seruia, com ho qual o dito Francisco Pirez auera em 
cada hum anno oyto mill reaes dordenado, alem do feytio das obras 
que pela dita maneira fizer : os quaaes FíIJ reaes lhe serão pagos no the- 
soureiro do meu allmasem de Guine e índias que ora he e ao diamte 
for do primeiro dia deste mes de junho e ano presemte de b c lxbj em 
diamte com certidão vosa de como serue o dito oficio e he contino no 
dito seruico e pelo trellado deste que será registado no Liuro da des- 
pesa do dito thesoureiro per hum dos scripuães do dito allmasem com 
conhecimento do dito Francisco Pirez e a dita vosa certidão de como 

ftela dita maneira serue seraa leuado em conta ao dito thesoureiro o que 
he pela dita maneira paguar a rezão dos ditos biij reaes por ano como 
dito he. Noteficouolo asy e mado que o metaees em pose do dito carguo 
e lhe deis juramento que bem e verdadeiramente o sirua, e este ey por 
bem que valha, tenha força he viguor como se fose carta feyta em meti 
nome he asellada de meu sello pemdemte sem embarguo da ordenação 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologico, parte !.*, maço 29, docu- 
mento 47. 



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ARTES K INDUSTRIAS METALLICAS PM PORTUGAL I q3 

do 2. liuro titulo 20 que diz que as cousas cujo efeito ouuer de dur 
mais de hum ano pascm per cartas e pasamdo per aluaras não vali 
Baltesar Ribeiro o fez em Lixboa a iiij de junho de jb c lxbj. E eu Berl 
lameu Fernandez o fiz escpreuer» (i). 



LII 

Rodrigues (Christovão) 

Executou alguns trabalhos para o convento de Christo e 
Thomar. 

LIII 

Rodrigues (Garcia) 

Era ferreiro em Montemór-o-Novo. D. João III lhe pass< 
carta de previlegio em 8 de maio de i525 (2). 

LIV 

Rodrigues (João José) 

ETa contra-mestre de ferreiros das obras do Palácio < 
Ajuda, tendo sido elevado ao cargo de mestre por fallei 
mento de João Pereira. 

Vide este nome. 

LV 

Rubim (P. Fr.) 

«Ao P. Fr. Afonso Gago de venerável memoria se segi 
na vigairaria desta casa o P. Fr. Rubim, francez de naçã 
porem muito parecido com os naturaes do ceo. Veio em r 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Sebastião e D. Henriqi 
Doações, liv. 18, fl. i85 verso. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Doações, liv. 
fl. 29 verso. 

VOL. 55.°, N. d 4 — ABRIL DE IÇ)o8. 3 



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194 ° INSTITUTO 

maria a Sant-Iago de Galiza, e estando na sua mesma igreja, 
onde nosso P. S. Francisco foi informado por revelação d*um 
anjo do que então lhe convinha, elle também entendeo ser a 
vontade de Deos, que fosse frade da nossa Religião. Pelo 
que, dando repudio logo #s vaidades do mundo, professou 
o grande desprezo delle, em que no mesmo Reino vivião os 
Oratórios da Regular Observância. Mas ouvindo pelo tempo 
adiante as muitas vantagens que em tudo lhe faz ião os nossos 
de Portugal, fez mudança pêra elles com grande melhora- 
mento da vida e dos rigores. Era muito penitente, humilde 
e devoto; e juntas estas virtudes á mansidão natural, que 
Déos lhe comunicou, roubava os corações, fazendo-os tão 
brandos como de cera pêra nelles imprimir o amor deste 
Senhor. Sabia algua cousa de serralheiro e ferreiro, e sendo 
esta ocupação tão mecânica, por não estar ocioso, nçm perece- 
rem as casas, com muita humildade se exercitava nella quando 
era súbdito e quando era prelado. Tinha forja, martelos e 
todos os instrumentos que se avião mister, com os quaes 
fazia perfeitamente a ferramenta e ferragem que lhe era ne- 
cessária. Mas não dava martellada no ferro, que com eUa 
não ferisse de devação os corações de quem estava presente. 
Acabava os trabalhos nesta triste oficina e logo se passava 
pêra outra mais limpa e mais quieta, a qual era um cantinho 
da igreja, onde estava ardendo em o espirito na santa con- 
templação, e confessando-se ainda por servo muito indigno 
de Deos, não ouzava levantar os olhos pêra o ceo» (i). 



LVI 

Sobrinho (António) 

Serralheiro que tinha cargo de fazer obras de ferro para 
os armazéns reaes. D. João fil, em alvará com força de carta 
de 21 de junho de 1 554, ordenou que lhe fossem dadas umas 
casas na rua da Ferraria, para nellas estabelecer sua tenda, 
pagando o aluguer a "seu dono pelo preço que estavam alu- 
gadas a outra pessoa. 



(i) Fr. Manuel da Esperança, Historia Seráfica, tom. 2.°, pag. 433. 
Convento de S. Francisco de Vianna. Fr. Rubim era já vigário em 1444. 



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AfcTÉS E INDÚSTRIAS METALLICAS EÍM PÔR 



«Eu elRey faço saber a vos L. c0 de Sousa, meu ap 
soprior das apousêtadorias de mynha corte e aos ofic 
cidade de Lixboa, que eu ey por bem e me praz que d 
Amtonio Sobrynho, seralheiro que tem cuvdado de fa 
meus almazes, huas casas na rua da Feraría, em que s 
salhar e poer temda de seu oficio, e esto sem ebargo de 
prouisõ e regimemto dapousetadoria em comtrairo, aí 
pagara a seu dono por ano e comtia por que as tiuer 
pesoa. Mãdonos que asy o cumpraes. Baltesar Fernande; 
a auatro de junho de mill quynhemtos cymquoemta e q 
tilno o fez espreuer. As quaes casas lhe asy fares dar 
em quamto eu o ouuer por bem e na mamàar o contn 
tilla e o alluara acima esprito me praz que valha como 
da ordenação do segundo liuro titolo vymte que ho < 
Joam de Castilho a tez em Lixboa a xxj de junho de n 

Soi 



(i) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, i 



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> 




l(fi O INSTITUTO 

CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 3, pag. 125) 

/ I 

Em Lisboa 

Chronoloeicamente, a primeira poesia em que Gamões se 
occupa da rilha de D. Manuel é, me parece, o soneto 134. 

Apresentado á excelsa e gentil senhora e por ella affavel- 
mente acolhido, o modesto escudeiro ficou deslumbrado! 

No dia seguinte, o seu amigo João Lopes Leitão, pagem 
da lança do mallogrado príncipe herdeiro, e pessoa muito 
apreciada na corte, recebia estas confidencias : 

Senhor João Lopes, o meu baixo estado 
Ontem vi posto em grau tão excellente, 
Que, sendo vós inveja a toda a gente, 
Só por mi vos quiséreis ver trocado. 

O gesto vi, suave e delicado, 

Que já vos fez contente e descontente (1), 
Lançar ao vento a voz tão docemente, 
Que fez o ar sereno c sossegado. 



(1) O poeta allude, naturalmente, a algum facto análogo (se não é 
o mesmo) ao que deu occasião a uns conhecidos versos de Andrade Ca- 
minha e á resposta de Lopes Leitão. Diz a rubrica, que precede esses 
versos: «A João Lopes Leitão, estando preso em sua casa, por entrar 
uma porta a ver as damas contra vontade do porteiro». P. de Andrade 
Caminha, Poesias, p. 3<>i (Lisboa, 1791). 

Eis como termina a resposta do jovial amigo de Camões : 

Estou-me agora doendo 
De quem tiver para si 
Que é melhor andar vendo 
Verduras, que estar aqui. 

Ninguém haja dó de mi, 
Por me ver nesta prisão ; 
Hajam de meu coração, 
Que vê tanto dano em si. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA I97 

Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto 

Ninguém diria em muitas. . . Mas eu chego 
A espirar, só de ouvir a doce fala ! 
Oh ! Mal haja a Fortuna e o Moço cego ! 
Elle, que os corações obriga a tanto ! 
Ella, porque os estados desiguala ! 

Para bem se comprehender a impressão sentida pc 
poeta, que bebera 

O veneno amoroso de menino, 

(Canção 11, v. 65) 

e que já então se tinha na conta de galanteador eme 
roubava vontades alheias e as matava com amor, 
tinha (1), para bem se comprehender, digo, a imprei 
tida pelo joven, mas já afamado poeta, transcreverei 
passagens de obras e documentos coevos e de es< 



(1) De vontades alheias, que eu roubava, 

E que enganosamente recolhia 
Em meu fingido peito, me mantinha. 
O engano de maneira lhes fingia, 
Que, despois que a meu mando as subjugava, 
Com amor as matava, que eu não tinha. 
Porém logo o castigo que convinha 
O vingativo Amor me fez sentir. 

(Canção 2. a ). 

Nesta canção, escripta em Ceuta, o poeta attribue ao Am 
do ousado atrevimento, cujas consequências está soffrendo : 

Se elle (o Amor) ordena 

Que eu pague seu ousado atrevimento, 
Saibam que o mesmo Amor que me condemna 
Me fez cair na culpa e mais na pena. 

Depois compara-se a Tântalo, a Ixião, a Ticio e a Sisypho, 
thologia clássica figurava como soffrendo, no Tártaro, castigos 
por determinados crimes. Assim, por exemplo, Ixião quis abri 
mas encontrou-se com uma nuvem. Por isso diz o poeta: 

Despois que aquella, em quem minha alma vive, 
Quis alcançar o baixo atrevimento, 
Debaixo deste engano a alcancei : 
A nuvem do contmo pensamento 
Ma figurou nos braços e assi tive, x 
Sonhando, o que acordado desejei. 



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I98 O INSTITUTO 

modernos, as quaes constituem o melhor commentario ao 
soneto que fica reproduzido, especialmente aos versos 5 a 10. 

Começarei pela informação que, em carta de 21 de janeiro 
de i557, enviava a Carlos V o seu embaixador, D. Sancho 
de Córdova, que tinha vindo a Lisboa tratar da entrega da 
filha de D. Manuel a sua mãe, a rainha D. Leonor, já então 
viuva também de Francisco I. Repare-se que o diplomata 
espanhol chega até a empregar palavras que também se lêem 
no soneto. «(La sefiora Infanta) es persona de grande enten- 
dimiento y cordura, y mui reposada, y de poças palabras y 
bien dichas y de las valerosas personas que he vistoi (1). 

Quatorze annos mais tarde, em 1571, recebia a infanta a 
visita do cardial Alexandrino, legado e sobrinho de Pio V. 
Eis como um dos membros da comitiva do prelado romano 
começa a narrativa dessa visita: «Tendo anoitecido, acom- 

?>anhados com vinte tochas adiante fomos ao palácio da in- 
anta D. Maria, irman de D. João III, a qual, tendo ficado 
orphan em tenra edade, não quis jamais casar, posto que 
fosse robusta, formosa e procurada. Era alta e teria de edade 
cincoenta annos, posto que não pareça á primeira vista» (2). 

Agora o testemunho de Jorge Ferreira de Vasconcellos, 
que teve muitas occasiões de ver a infanta. 

Ao dar pormenorizada noticia do celebre torneio, realizado 
em Xabregas, no anno de i552, diz o escriptor cortesão que 
«a infanta D. Maria. .. se mostrava a fermosa Minerva, com 
que pôde contender com divida confiança, assi em rara gen- 
tileza e sotil engenho, como toda outra sobre humana per- 
feyçãoi (3). 



Ao comparar-se com Ticio, que pretendera forçar Latona, começa 
assim : 

Suando a vista suave e inhumana 
eu humano desejo, de atrevido^ 
Commetteo, sem saber o que fazia 
(Que da sua belleza foi nascido 
O cego moço, que com seta insana 
O peccado vingou desta ousadia), 
Afora este penar, que eu merecia, 
Me deu etc. 

(1 ) Veja-se Fr. Miguel Pacheco, Vida de la Sereníssima Infanta Dona 
Maria, hija dei Rey D. Manoel, fl. 58 (Lisboa, 1Ó75). 

(2) Viagem do cardeal Alexandrino. i5jr, em A. Herculano, Opús- 
culos* vi, 90-92. 

(3) Memorial das proezas da segunda tavola redonda, 2." edição 
(Lisboa, 1867), p. 334. A propósito deste c doutros escriptores, observa a 



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CAMÕES E A INFANTA* D. MARIA 



199 



Vejamos agora o que se lê em duas obras modernas. 

conde de Villa Franca, que preparava um estudo acerca 
da filha de D. Manuel, apresenta-no-la assim : • Alta, de esplen- 
didas formas, elegantíssima,... alliava á gentileza majestá- 
tica do porte, denotando grande energia e isenção de caracter, 
uma formosura suavíssima, bem revelada na alvura da peile, 
no azul celeste dos olhos vividos (1) e na cor loira dos ca- 
bellos que lhe coroavam de ouro a espaçosa e ampla fronte (2), 
onde o talento espontâneo evidentemente se espandia. Este 
talento era ainda abrilhantado por muita erudição, incessante 
amor ao estudo e ininterrupto trato, não já com os livros 
clássicos, senão ainda com os múltiplos escriptos do tempo, 
considerado, como se sabe, a idade de ouro da litteratura 
portuguesa» (3). 

Transmittindo-nos as suas impressões a respeito do retrato 



Sr. â D. Carolina Michaêlis : «Evidentemente, entre os eruditos da corte 
constava que a Infanta, bizarra, e na consciência da dignidade do seu 
estado, não admittia que ao vulgo profano se fallasse das linhas do seu 
rosto ou da elegância das suas esplendidas formas esculpturaes. Apenas 
o velho Resende, ao tributar-lhe homenagens, adiantava-se até tocar 
em alguns pormenores : os cabellos ruivos, o andar divino, incessu dea. . . 
Mas esse. . . fallava latim». (A infanta D. Maria, p. i5). 

(1) O poeta, que, como veremos, tantas vezes manifesta a sua admi- 
ração pelos bellos olhos da infanta, só num ou noutro logar allude, mais 
ou menos vagamente, á cor que elles tinham. É assim que á menina dos 
olhos verdes, de cuja affeição se queria ver livre, por causa do novo e 
alto pensamento, que o fascinara, diz elle : 

Ouro e azul é a melhor 

Cor, por que a gente se perde. 

(Redondilhas). 

Na egloga 8.", que talvez seja de Camões, falla-se expressamente, 
é certo, nos olhos afues de Galatea, que seria a infanta. Mas não era de 
estranhar que os olhos da nympha marítima fossem daquella côr. 

(2; Como os cabellos louros eram mais vulgares que os olhos azues, 
o poeta a cada passo se refere á côr dos cabellos da infanta, pois não 
havia perigo de revelar onde estava posto o seu pensamento. Um exerrt- 
plo, dentre muitof : 

» 

São estes, por ventura, os olhos bellos, 
Que têm de meus sentidos a victoria ? 
São estas, nympha, as tranças dos cabellos, 
Que fazem de seu preço o ouro alheio, 
Como a mi de mi mesmo, só com vê-los ? 
(Egloga 2. a , 298-302). 

(3) D. João I e a alliança inglesa, p. 275 (Lisboa, 1884). 



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200 INSTITUTO 

da infanta, existente em Madrid, no museu do Prado, e exe- 
cutado pelo celebre pintor António Moro, escreve a Sr. a 
D. Carolina Michaêlis de Vasconcellos: aD. Maria contava 
então trinta annos... Chegadqt 4 apparentemente ao termo 
dos seus desejos,. . . oficialmente desposada ao futuro senhor 
do immenso império hispânico (i), a princesa fulgurava como 
nunca dantes, em toda a plenitude das suas faculdades, em 
todo o esplendor da sua gentileza majestática, acariciando a 
fugidia esperança de ver afinal acabadas as intrigas intermi- 
náveis e deprimentes de que fora alvo. Ainda assim, An- 
tónio Moro não pôde varrer completamente as sombras de 
uma dolorosa meditação d'aquclla testa alta, espaçosa e ge- 
ralmente plácida. É <^ue, entristecida por repetidas decepções, 
a filha de D. Manuel mal ousava dar credito ás mais solemnes 
promessas. Como symbolo de magoas, fora envolvendo o 
rosto gracioso, de feições tão regulares e puras, e parte do 
formoso cabello, castanho-claro ou louro-escuro, que o emmol- 
dura, num veo ténue que desce ao peito. A mão direita, 
de afilados dedos aristocráticos, segura uma pérola que lhe 
serve de firmai. Uma lagrima reprimida ? Talvez. Todavia 
o pintor vio e reproduziu apenas uns olhos azues muito lím- 
pidos, com expressão serena e franca, suavemente perscru- 
tadora, nos quaes se reflecte uma intelligencia lúcida, altiva 
rectidão e principalmente um coração valente. Aos lábios 



(i) Philippe de Espanha foi pretendente á mão da infanta desde 1549 
até i552 (Sr." D. Carolina Michaêlis, A infanta D. Maria, p. 10). 

Como não ficaria o coração do pobre Endymion, loucamente enamo- 
rado da Lua, da casta e formosa Diana, ao ouvir fallar em semelhante 
enlace ! 

Lêa-se o admirável soneto i65 : 

En una selva, ai dispuntar dei dia, 

Estaba Endimion, triste y lioroso, 

Vuelto ai rayo dei sol, que, presuroso, 

Por la falda de un monte descendia. 
Mirando ai turbador de su alegria, 
* Contrario de su bien y su reposo, 

Trás un suspiro y otro, congojoso, 

Razones semejantes le decia : 
Luz clara, para mi la mas escura. 

Que con ese paseo apresurado 

Mi sol con tu teniebla escureciste, 
Si alia pueden moverte, en esa altura, 

Las quejas de un pastor enamorado, 

No tardes en volver á dó saliste ! 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 201 

finos, cerrados por inviolável sigillo, .e ao terço inferior da 
cabeça não falta energia... O trage, cujos tons sombrios 
dão realce á singular alvura das mãos e do rosto, finamente 
modelado, está em harmonia, na sua singeleza distinctissi: 
com a nobreza natural do porte e com a melancholica su 
dade da physiognomia» (i). 

Relêa-se o soneto i34 e, dada a compleição amorosa 
moço poeta, veja-se como está bem traduzida a impres 

Sue nelle devia ter produzido o gesto suave e delicado 
lha do Rei Venturoso, a doce falia da gentil senhora, 
então se achava na plena posse de todas as suas graças 
mininas, aureoladas pelo prestigio da ascendência real. 

Eu chego 

A espirar, só de ouvir a doce fala ! 

exclama Camões, pondo em confronto o seu baixo est 
com a amabilidade com que fora recebido por tão elev 
personagem (2). 
E o predestinado do amor, em quem 

As lagrimas da infância já manavam 
Com uma saudade namorada, 

(Canção 11, 52-53) 

o predestinado do amor não pôde conter-se que não se qu( 



(1) A infanta D. Maria, p. 12-14. 

(2) Veja-se como mais tarde custava ao poeta ver essa amabilú 
dispensada a outros : 

Se a ninguém tratais com desamor, 
Antes a todos tendes atícição ; 
E se a todos mostrais um coração, 
Cheio de mansidão, cheio de amor : 

Desde hoje me tratai com desfavor, 

Mostrai-me um ódio esquivo, uma isenção. 

Poderei acabar de crer então 

Que somente a mim me dais favor. 

Que, se tratais a todos brandamente, 
Claro é que só aquelle é favorecido 
A quem mostrais irado o continente. 

Mal poderei eu ser de vós querido, 

Se tendes outro amor na alma presente, 
Que- amor é um, não pôde ser partido. 

(Soneto 309). 



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202 O INSTITUTO 



do moço cego e da fortuna. D^quelle, porque a doce falia da 
infanta o deixou como morto ; desta, porque lhe não permitte 
amar quem tão profundamente lhe havia: abalado o coração. 



Oh ! Mal haja a Fortuna e o Moço cego ! 
Elle, que os corações obriga a tanto ! 
Ella, porque os estados desiguala ! 



as depois, dominado por estas ideas % o poeta foi 
)lemmdades da semana santa na igreja do mos- 
ta Clara, onde tinha a certeza de ver a infanta (i). 
nples olhar da angélica figura, que 

Parece... tinha forma humana, 
Mas scintilava espíritos divinos, 

(Canção n, 75-76) 

e todo! 

xias as almas tristes se mostravam 

Pela piedade do Feitor divino, 

Onde, ante seu aspecto benino, 

O devido tributo lhe pagavam, 
eus sentidos então livres estavam 

(Que até hi foi constante seu destino), 

Quando uns olhos, de que eu não era dino, 

A furto da razão me salteavam. 



npo provável dos serões (no paço real) (i538 ou 1540 até 
:ilio (da infanta) era em Santa Clara» (Sr.* D. Carolina 
x/anta D. Maria, p. 83, nota 89) «(A infanta D. Maria) mo- 
de Santa Clara, nas casas que ncão junto ao dito mosteiro, 
do Desembargador Luis de Abreu de Freitas e delias ia 
) tal mosteiro, por um passadiço, do qual se conservam 
parede alguns vestígios». Padre A. Carvalho da Costa, 
>rtuguèsa, 111, 365-366 (Lisboa, 1712). «Deste mosteiro am- 
>tuando o dormitório, chamado da benção, e o dos corre- 
randas e algumas capei las, tudo mais, que em dormitórios 
ilares recolhia mais de seis centas mulheres,... ficou ou 
lo ou irreparavelmente arruinado com o terremoto. O seu 
o, que era um monte de ouro e na grandeza excedia a 
nais mosteiros da corte, ficou totalmente prostrado, ex- 
1 e costas da capella mór». J. B. de Castro, Mappa de Por- 
[Lisboa, 1870). 1 odos os outros edifícios, que ncavam nas 
lo convento, foram derrubados, excepto o templo de Santa 
greja parochial. (Ibid., p. 161). 



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CAÇOES E A INFANTA D. MARIA 

A nova vista me cegou de todo ! 

Nasceo do descosturae a estranheza 
Da suave e angélica presença. 

Para remediar-me não ha hi modo ? 
Óh 1 Porque fer a natureza humana 
Entre os nascidos tanta differença ? 

(Soneto 3o3). 

Ficou captivo, com a razão perturbada : 

O culto divinal se celebrava 

No templo, donde toda a creatura 
Louva o Feitor divino, que a feitura 
Com seu sagrado sangue restaurava. 

Amor ali, que o tempo me aguardava 
Onde a vontade tinha mais segura, 
Com uma rara e angélica figura 
A vista da razão me salteava. 

Eu, crendo que o lugar me defendia 
De seu livre costume, não sabendo 
Que nenhum confiado lhe fugia, 

Deixei-me captivar. Mas hoje, vendo, 
Senhora, que por vosso me queria, 
Do tempo que fui livre me arrependo. 
(Soneto 77 

Ficou como o passarinho, morto por traiçoeirc 

Está o lascivo e doce passarinho 

Com o biquinho as pennas ordenando 
O verso sem medida, alegre e brando. 
Despedindo no rústico raminho. 

O cruel caçador, ^ue do caminho 

Se vem, calado e manso, desviando, 
Com pronta vista a seta endireitando, 
Lhe dá no Estygio lago eterno ninho. 

Desta arte o coração, que livre andava, 
Posto que já de longe destinado, 
Onde menos o temia, foi ferido, 

Porque o frecheiro cego me esperava, 
Para que me tomasse, descuidado, 
Em vossos claros olhos escondido. 

(Soneto 3o) 

Havia, é certo, um obstáculo que, desde logo, 
tara ao poeta. como insuperável — o abysmo entre 
ção e a da infanta — : 



Oh ! Porque fez a natureza humana 
Entre os nascidos tanta differença! 



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204 INSTITUTO 

Mas a voz da razão foi supplantada pelo magico fulgor 
os admiráveis olhos azues da filha de D. Manuel: 

Tomou-me vossa vista soberana 

Adonde tinha as armas mais á mão, 

Por mostrar a quem busca defensão 

Contra esses bellos olhos, que se engana. 
Por ficar da victoria mais ufana, 

Deixou-me armar primeiro da razão. 

Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão ; 

Que contra o ceo não vai defensa humana. 
Com tudo, se vos tinha promettido 

O vosso alto destino esta victoria, 

Ser-vos ella bem pouca está intendido. 
Pois, inda que eu me achasse apercebido, 

Não levais de vencer-me grande gloria : 

Eu a levo maior de ser vencido. 

(Soneto 36). 

De que valia a razão, para que servia o jui\o sossegado, 
m presença de tanta gentileza ? ' 

Quem pôde livre ser, gentil senhora, 

Vendo-vos com juizo sossegado, 

Se o menino que de olhos é privado 

Nas meninas dos vossos olhos mora ? 
Ali manda, ali reina, ali namora, 

Ali vive, das gentes venerado ; 

Que o vivo lume e o rosto delicado 

Imagens são adonde Amor se adora. 
Quem ve que em branca neve nascem rosas, 

Que crespos fios de ouro vão cercando, 

Se por entre esta luz a vista passa, 
Raios de ouro verá, que as duvidosas 

Almas estão no peito traspassando, 

Assi como um crystal o sol traspassa. 
(Soneto 6o). 

O poeta foi forçado a render-se, perante as armas com que 
Lmor o assaltou : 



Leda .serenidade deleitosa, 

Que representa em terra um paraíso ; 
Entre rubis e perlas, doce riso ; 
Debaixo de ouro e neve, cor de rosa ; 

Presença moderada e graciosa, 

Onde ensinando estão despejo e siso 
Que se pôde, por arte e por aviso, 
Como por natureza, ser formosa ; 



/ 



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Goog 



l . 



CAMÕES E A INFANTA D. MARÍA 

Fala, de que ou já vida ou morte pende, 
Rara e suave, — emfim, senhora, vossa ; 
Repouso na alegria comedido : 

Estas as armas são com que me rende 

E me captiva Amor. Mas não cjue possa 
Despojar- me da gloria de rendido. 

(Soneto 78). 

Mais tarde, voltou o poeta a occupar-se da memc 
em que foi apresentado á infanta, accrescentando s 
menores interessantes. Refiro-me ás três canções . 
Amor que cante. 

Reproduzirei integralmente uma delias — a que 
primeira na ordem chronologica (1). 



Manda-me Amor que cante o que a alma sente, 
Caso que nunca em verso foi cantado, 
Nem dantes entre a gente acontecido. 
Assi me paga, em parte, o meu cuidado, 
Pois que quer que me louve e represente 
Quão bem soube no mundo ser perdido. 
Sou parte e não serei da gente crido ; 
Mas é tamanho o gosto de louvar-me 

E de manifestar-me 
Por captivo de gesto tão formoso, 

Que todo o impedimento 
Rompe e desfaz a gloria do tormento 
Peregrino, suave e deleitoso, 

Que bem sei que o que canto 
Ha de achar menos credito que espanto. 

Eu vivia do cego Amor isento, 
Porém tão inclinado a viver preso, 
Que me dava desgosto a liberdade. . 
Um natural desejo tinha acceso 
De algum ditoso e doce pensamento, 
Que me illustrasse a insana mocidade. 



(1) É a canção 8.". Na 7.» e na 18.» (publicada por Jurom 
manifestos os indícios de contrariedades : 

Manda-me Amor que cante docemente 
O que elle já em minha alma tem impresso, 
Com presupposto de desabafar-me. 
E. porque com meu mal seja contente, 
Diz que o ser de tão lindos olhos preso 
— Cantá-lo — bastaria a contentar-me. 



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O INSTITUTO 

Tornava do anno já a primeira idade ; 
A revestida terra se alegrava, 

Quando o Amor me mostrava 
De fios de ouro as tranças, desatadas 

Ao doce vento estivo, 
Os olhos, rutilando lume vivo, 
As rosas, entre a neve semeadas, 

O gesto grave e ledo, 
Que juntos movem em mim desejo e medo. 

Um não sei quê suave respirando, 
Causava um desusado e novo espanto, 
Que as cousas insensíveis o sentiam, 
Porque as gárrulas aves, entretanto, 
Vozes desordenadas levantando, 
Como eu em meu desejo, se incendiam. 
As fontes crystallinas não corriam, 
Inflammadas na vista clara e pura ; 

Flore cia a verdura, 
Que, andando, cos ditosos pés tocava ; 

As ramas se baixavam, 
Ou de inveja das hervas que pisavam, 
Ou porque tudo ante elles se baixava. 

O ar, o vento, o dia, 
De espíritos contínuos influía. 

E quando vi que dava intendimento 

A cousas fora delle, imaginei 

Que milagres faria em mi, que o tinha. 

Vi que me desatou da minha lei, 

Privando-me de todo sentimento 

E em outra transformando a vida minha. 

Com tamanhos poderes dq Amor vinha, 

Que o uso dos sentidos me tirava, 

E não sei como o dava, 
Contra o poder e ordem da natura, 

Ás arvores, aos montes, 
A rudeza das hervas e das fontes, 
Que conheceram logo a vista pura. 

Fiquei eu só tornado 
Quasi em um rudo tronco, de admirado. 

Despois de ter perdido o sentimento, 
De humano um só desejo me ficava, 
Em que toda a razão se convertia. 
Mas não sei quem no peito me affirmava 
Que, por tão alto e doce pensamento, 
Com razão a razão se me perdia. 
Assi que, quando mais perdida a via, 
Na sua mesma perda se ganhava : 

Em doce paz estava 
Com seu contrario próprio, em um sujeito. 

Oh caso estranho e novo ! 
Por alta e grande certamente approvo 
A causa donde vem tamanho efleito, 

Que faz num coração 
Que um desejo, sem ser, seja razão. 



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Gooéle 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 20*] 

Despois de entregue já ao meu desejo 
Ou quasi neile todo convertido, 
Solitário, silvestre e inhumano, 
Tão contente fiquei de ser perdido, 
Que me parece tudo quanto vejo 
Escusado, senão meu próprio dano. 
Bebendo este suave e doce engano, 
A troco dos sentidos que perdia, 

Vi que Amor me esculpia 
Dentro na alma a figura illustre e bella, 

A gravidade, o siso, 
A mansidão, a graça, o doce riso. 
E, porque não cabia dentro nella 

De bens tamanhos tanto, 
Sái por a boca, convertida em canto. 

Canção, se te não crerem 
Daquelle cíaro gesto quanto dizes, 

Por o que se lhe esconde, 
— Os sentidos humanos, lhe responde, 
Não podem dos divinos ser juizes, 

Senão um pensamento, 
Que a falta suppra a fé do intendimento — . 



As três canções informam-nos (o que aliás se confim 
os sonetos 77 e 3o3) que o poeta foi apresentado á. 
no começo da primavera : 

Tornava do anno já a primeira edade; 
A revestida terra se alegrava. 

(Canção 8.*). 

Ou, como com mais precisão se lê na canção 7.* : 

No Touro entrava Phebo e Progne vinha ; 
O corno de Acheloo Flora entornava (1). 



(1) aPela chronologia moderna (fixada no calendário gregoi 
Vis de outubro de 1 582) Phebo, ou o Sol, entra no signo taur 
20 e 22 de abril. Pela chronologia antiga temos de menos uns < 
chegando assim á data de 10 a 12 de abril. O resto das metaphc 
diz perfeitamente com esta estação : a andorinha Prokne volta ao 
climas, e a bem-amada do Zephyro, a deusa prímaveral Flora, vi 
cornucopia (o corno de Acheloo ou de Amaithea), espalhando 
botões de rosas sobre a terra». Storck, Vida de Camões, p. 3a 
ducção da Sr.* D. Carolina Michaélis de Vasconcellos). 



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2o8 O INSTITUTO 

E foi recebido nos jardins do palácio, em que ella re- 
sidia: , 



... O Amor me mostrava 
De fios de ouro as tranças, desatadas 
Ao doce vento estivo. 

(Canção 8. a ). 

Um não sei quê suave respirando, 
Causava um admirável, novo espanto, 
Que as cousas insensíveis o sentiam. 
Ali, as gárrulas aves, levantando 
Vozes não ordinárias, em seu canto, 
Como eu no meu desejo, se encendiam. 
As fontes crystallinas não corriam, 
De inflammadas na vista linda e pura ; 

Florecia a verdura, 
Que, andando, cos divinos pés tocava ; 

Os ramos se baixavam, 
Ou de inveja das hervas que pisavam, 
Ou porque tudo ante ella se baixava. 

Não houve cousa, emíim, 
Que não pasmasse delia, e eu de mim. 

(Canção 7.*). 



ie anno se passou isto? W. Storck, que pensa se 
D. Catharina de Ataíde e não distingue entre a 
ição (soneto 134; canções 7. 8 e 18), e a estada 
(sonetos 77 e 3o3), escreve: «Sendo certo, caso 
(3o3) interpretado por nós falle verdade, que 
: avistou a bella lisbonense, pela primeira vez, no 
officios fúnebres da sexta-feita de endoenças, temos 
e procurar qual seria a verdadeira entre as três 
ras santas do biennio que decorre de i&43 (termo 
hegada a Lisboa) até 1545, anno em que as más 
Dmeçaram a mexericar dos seus amores. Ou, visto 
nonistas que collocam a chegada a Lisboa no anno 
e o seu desterro da corte (isto é, de Lisboa) no de 
á bom alargarmos o campo a explorar, investigando 
> de 1542 a 1546. O calendário universal de Kessel- 
uda-nos a encontrar de um modo fácil e seguro as 
iejardas. Os cinco dias cm que recahiram as sextas- 
endoenças são: para o anno de 1542 o dia 7 de 
>ara os auatro seguintes o 23 de março; o undécimo 
iro de abril e o dia 23 do mesmo mez. Entre elles, 
: todo em todo corresponde melhor ás indicações 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 2<X) 

metaphoricas, que temos examinado, é o dia 1 1 de abril, a 
sexta-feira santa do anno de 1544* (i). 

Mas, se é verdade que a apresentação no paço de Santa 
Clara precedeu, de alguns dias, as solemnidades da sexta- 
feira mór, e se, por outro lado, o poeta quis indicar por uma 
forma precisa a data da apresentação, o anno que melhor 
satisfaz a estas condições é o de 1546, em que a sexta-feira 
santa, segundo se lê na passagem que fica transcripta, caiu 
nó dia 23 de abril, quasi duas semanas depois da entrada do 
sol no signo de tauro. 

Prosegue o illustre professor allemão: «Direi, comtudo, 
que, pessoalmente, não ligo grande importância á data exacta 
do tcoup de foudre*. A sexta-feira santa pertence á mytho- 
logia convencional da poesia moderna, desde que Petrarca 
— a fim de fazer coincidir poeticamente o principio das suas 
magoas e o dia da Paixão do Salvador — remodelou acinte- 
mente, levado pela vaidade do seu coração de artista, as 
datas do anno de 1327, postulando que a sexta-feira da Pai- 
xão recahisse, por milagre, na segunda feira da semana santa ! 
isto é, trocando o dia seis de abril (em que de facto avistara 
a madonna Laura) pelo decimo do mesmo mez e anno !». 

E certo que Camões, ao escrever o soneto 3o3, se lembrou 
do soneto 3.° de Petrarca, In pita <fi madonna Laura. Tam- 
bém não ha duvida que no soneto 77, que é de data poste- 
rior ao 3o3, é manifesta a imitação dos referidos versos do 
poeta italiano (2). Mas, pelo que fica exposto, não creio que, 
por parte de Camões, se trate de uma ficção. 



(1) Vida citada, p. 327. 



(a) Era '1 gioroo ch'al Sol si scoloraro 

Per la pietà dei suo Fattore i rai, 
QuandT fui preso, e non me ne guardai, 
Che i be'vostr' occhi, Ôonna, mi legaro. 

Tempo non mi parea da Far riparo 

Contra colpi d'Amor : però n'andai 
Secur, senza sospetto : onde i miei guai 
Nel comune dolor s'incominciaro. 

Trovommi Amor dei tutto disarmato, 
Ed aperta la via per gli occhi ai core, 
Che di lagrime son fatti uscio e varco. 

Però, ai mio parer, non gli fu onore 
Ferir me di saetta in quello stato, 
E a voi armata non mostrar pur 1'arco. 

VOU 55.°, N.° 4 — ABRIL DE 1908. 



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210 O INSTITUTO 

Quem apresentou o poeta no paço de Santa Clara ? 
Presumo que foi o seu amigo e protector, D, Francisco de 
Noronha, mais tarde segundo conde de Linhares. 
Além de não faltarem Noronhas na casa da infanta (i), ha- 



(i) Fr. M. Pacheco, Vida de la sereníssima infanta, fl. 91 V.-94- Abre 
a extensa relação do pessoal D. Affonso de Noronha, aue por algum 
tempo exerceu o cargo de mordomo-mór. Pertencia também á casa da 
infanta e era filha do seu mordomo-mór, D. Francisco de Guzman, e da 
sua confidente, D. Joanna de Blasfet, aquella D. Guiomar de Bla&fé, a 
quem o poeta, a propósito de ella se ter queimado com uma vela no 
rosto, dirigiu o galante soneto 3o, e estas graciosas redondilhas : 

Mote 

Amor, que todos offende, 
Teve, senhora, por gosto, 
Que sentisse o vosso rosto 
O que nas almas accende. 

Volta 

Aquelle rosto que traz 
O mundo todo abrasado, 
Se foi da flamma tocado, 
Foi porque sinta o que faz. 

Bem sei que Amor se vos rende ; 
Porém o seu presupposto 
Foi sentir o vosso rosto 
O que nas almas accende. 

Quem sabe se as duas poesias, de que tanto se devia desvanecer a 
gentil dama, não seriam a causa de vir parar ás mãos do apaixonado 
poeta o trançado da infanta, que mereceu este bello e entnusiastico 
soneto : 

Lindo e subtil trançado, aue ficaste 

Em penhor do remédio que mereço, 
Se só comtigo, vendo- te, endoudeço. 
Que fora cos cabellos que apertaste t 
Aquellas tranças de ouro, que ligaste, 

Que os raios do sol têm em pouco preço, 
Não sei se, ou para engano do que peço, 
Ou para me matar, os desataste. 
Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, 
E, por satisfação de minhas dores, 
Como quem não tem outra, hei de tomar-te. 
E, se não for contente o meu desejo, 

Dir-lhe-hei que, nesta regra dos amores, 
Por o todo também se toma a parte. 

(Soneto 42). 



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CAMÕES E A INFANTA D. MAKlA 

via motivos especíaes para o ex-emhaixador d 
na corte de França ser persona grata da filha ( 

Bastava o facto de esta ser a filha estremeci 
rainha D. Leonor. «Não havia por certo embaixa 
na corte de França que não se encarregasse de m 
da filha para a mãe e desta para aquella; todc 
porisso bem acolhidos e bem vistos por D. 1 
que aconteceu por certo com D. Francisco c 
também com o seu adjunto (Francisco de Mora* 
elle próprio conta, recebeu mercês da rainha cl 
Nos annos que durou a embaixada, entre 164c 
tou-se do casamento de D. Maria com o duque 
plano que ficou frustrado com a morte deste» 

Comprehende-se o desgosto que depois devia 
fidalgo com o estouvado procedimento do po< 
desgosto allude manifestamente Gamões na cí 
i8i-i83: 

A piedade humana me faltava, 
A gente amiga já contraria via, 
No perigo primeiro. . . (2). 

Isto, porém, não obstou, como veremos, a 
cisco de Noronha continuasse a ser o desvelado 
tector do grande génio, que, em uma hora ami 
diou assim a sua atribulada existência: 



Que segredo tão árduo e tão profundo ! 
Nascer para viver e para a vida, 
Faltar-me quanto o mundo tem para ella ! 

E não poder perdê-la. 
Estando tantas vezes já perdida ! 

(Canção 11, 187- 



(1) Sr." D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos, Paln 
terra na Zeitschrift fúr Romanische Philologie, vi, 57-5 
criptora prosegue : «Tem assim uma explicação na tu rali 
Moraes aedicar o Palmeirim, escripto na corte da rainl 
filha desta, a infanta D. Maria, cuja superior illustracão 

Também não deixa de ser interessante que na eglogs 
Ribatejo e um dos documentos mais importantes para a 
xão de Camões pela infanta, se a Iluda ao auctor do Pal\ 
amor por uma dama da corte de França. O namorado 
sega.), com effeito, não é senão Francisco de Moraes. 

(2) Este perigo foi o desterro, primeiro para o Ri 
para Ceuta, por causa da infanta. 



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! 



212 O INSTITUTO 



Em algumas das poesias que já foram citadas (soneto 3o3, 
canções 2, 7, 8 e 18), assevera o poeta que, ao apaixonar-se 
pela infanta, conservava ainda livre o seu coração. Na egloga 
?.* insiste neste ponto (v. 438-461): 



Lembra-me, amigo Agrário, que o sentido 
TSo fora de amor tinha, que me ria 
De quem por elle via andar perdido. 

De varias cores sempre me vestia ; 
De boninas a fronte coroava ; 
Nenhum pastor,, cantando, me vencia. 

A' barba então nas faces me apontava. 

Na luta, na carreira, em qualquer manha, 
Sempre a palma, entre todos, alcançava. 

Da minha idade tenra, em tudo estranha, 
Vendo, como acontece, affeiçoadas 
Muitas nymphas do rio e da montanha, 

Com palavras mimosas e forjadas, 
De solta liberdade e livre peito, 
As trazia contentes e enganadas. 

Mas, não querendo Amor que deste geito 
Dos corações andasse triumphando, 
Em quem elle criou tão puro affeito, 

Pouco a pouco me foi de mi levando, 
Dissimuladamente, ás mãos de quem 
Toda esta injuria agora está vingando. 



Apesar destas repetidas declarações, havia alguém que 
então se julgava com direito a um logar muito especial no 
coração de Camões. 

Era a menina dos olhos verdes, já celebrada em deliciosos 
versos, que talvez não fossem de todo extranhos á maneira 
como elle foi recebido no paço de Santa Clara. 

Basta citar aqui (1) as voltas ao mote: 

Verdes são os campos 
Da côr do limão ; 
Assi são os olhos 
Do meu coração. 



(1) Trago entre mãos uma coordenação da lyrica amorosa de Ca- 
mões. A i. a parte intitula-se a Menina dos olhos verdes. 



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J 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 2l3 



Voltas 

Campo, que te estendes 
Com verdura bella ; 
Ovelhas, que nella 
Vosso pasto tendes : 
De hervas vos mantendes, 
Que traz o verão, 
E eu das lembranças 
Do meu coração. 

Gados, que pasceis 
Com contentamento : 
Vosso mantimento 
Não no intendeis. 
Isso que comeis, 
Não são hervas, não ; 
São graça dos olhos 
Do meu coração. 

Pobres olhos verdes ! Quantas lagrimas nã< 
ramar, por causa dos olhos azues da infanta! 

Com que surpresa e com que amargura nã< 
rada menina as voltas aos motes: 

Vós, senhora, tudo tendes, 

Senão que tendes os olhos verdes ; 

Sois formosa e tudo tendes, 
Senão que tendes os olhos verdes. 

Veja-se como o poeta ia mettendo ferroada 

Dotou em vós natureza 
O summo da perfeição ; 
Que, o que em vós é senão, 
E em outras gentileza. 
O verde não se despresa, 
Que, agora que vós os tendes, 
São bellos os olhos verdes. 

Ouro e azul é a melhor 

Cór (1), por que a gente se perde. 

Mas a graça desse verde 

Tira a graça a toda a côr. 

Fica agora sendo a flor 

A côr, que nos olhos tendes, 

Porque são vossos e verdes. 



(i) Allusão, como já fica dicto, aos olhos azues e a 
da infanta. 



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214 O INSTITUTO 

Tudo tendes singular, 

Com que os corações rendeis. 

Senão que, rindo, fazeis 

Covinhas para enterrar 

E para resuscitar. 

Tem força a graça que tendes, 

SenSo que tendes os olhos verdes. 

Tudo, senhora, alcançais, 
Quanto o ser formosa alcança ; 
Senão que dais esperança 
, Cos olhos com que matais. 

Se acaso os alevantais, 
£ para as almas renderdes. . . 
Senão que tendes os olhos verdes. 

Ninguém vos pôde tirar 
Serdes tão bem assombrada ; 
Mas heis-me de perdoar, 
Que os olhos não valem nada. 
Fostes mal aconselhada 
Em querer que fossem verdes. 
Trabalhai de os esconderdes. 

E assim por deante, num misto de depreciação, de fingido 
elogio e de troça, que tão profundamente deviam magoar 
quem tinha inspirado tão lindos versos e tanto se desvane- 
ceria da côr dos seus olhos. 

E com que arte consummada o grande poeta reproduz os 
queixumes e protestos da desolada menina! Vejarm-se, por 
exemplo, estas redondilhas, tão sentidas, de uma tão encan- 
tadora ingenuidade : 

Mote (alheio) 

De pequena tomei amor, 
Porque o não entendi. 
Agora que o conheci, 
Mata-me com desfavor. 



Voltas 

Vi-o moço e pequenino, 
E a mesma idade ensina 
Que se incline uma menina 
As amostras de um menino. 

Ouvi-lhe chamar Amor ; 
Pelo nome me venci. 
Nunca tal engano vi, 
Nem tamanho desamor. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 213 

Cresceu- me, de dia em dia, 
Com a idade a affeiçao, 
Porque amor de criação 
Na alma e na vida se cria. 

Criou-se em mim este amor, 
E senhoreou-se de mi. 
Agora que o conheci, 
Mata-me com desfavor. 

As flores me toma abrolhos, 
A morte me determina, 
Quem eu trouxe, de menina, 
Nas meninas dos meus olhos. 

Desta magoa e desta dor 
Tenho sabido que, emfim, 
Por amor me perco a mim, 
Por quem de mi perde amor. 

Parece ser caso estranho 
O que Amor em mi ordena, 
Que, em idade tão pequena, 
Haja tormento tamanho ! 

Sejam milagres de Amor . . . 
Hei-os de soffrcr assi, 
Até que haja dó de mi 
Quem entender esta dor. 

Mas o poeta não se limitou a depreciar, a met 
culo, o que até então o tinha encantado na menim 
perdes. 

Desvairado com os novos amores, que suppunh 
rava ver correspondidos, querendo a todo o custo 
da importuna affeiçao de quem, de menina, o tra\ 
ninas dos seus olhos, esqueceu-se de <que tinha obi 
ser correcto e, num tablado, expôs á irrisão e á mi 
aquella que tanto lhe queria e que talvez não tiv( 
a desaggravasse. 

Lea-se esta estranha passagem do prologo dí 
El Rei Seleuco, em que o próprio Camões, autoi 
fazia o papel do representador : « Mordomo. Pare 
nhor, que entra a primeira figura. Moço, mette-te 
baixo desta mesa, e ouçamos este representador. . 
Senhor, elle parece que aprende a cirurgião. Ambt 
parece o ourinol capado, que anda de amores com 
dos olhos verdes». 



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l6 O INSTITUTO 

Ficou assim o allucinado poeta desembaraçado desta peia, 
>ara mais á vontade pôr o desejo onde não devia (i). 

Quando elle, porém, diga-se de passagem, se viu forçado 
, penitènciar-se 

Do error em que caiu o pensamento, 
(Soneto 94) 

|uando já se lastimava da queda que tinham dado os seus 
\ltos pensamentos (2), procurou rehaver a affeição da menina 
los olhos perdes (3) e para isso empregou todos os esforços. 
? oram, porém, baldados (4). 



(1) Estas são as verdadeiras penitencias 

De quem põe o desejo onde não deve, 
De quem engana alheias innocencias. 

(Egloga 2. a , v. 357-359). 

(2) O meus altos pensamentos, 
Quão altos que vos pusestes 
E quão grande queda destes ! 

(Redondilhas, Juromenha) 

(3) É claro que o poeta agora já não alludia á côr dos olhos, para 
ião suscitar dolorosas recordações. 

(4) Veja principalmente a egloga 3.", escripta depois de o poeta ter 
roltado de fceuta, sob promessa de não pensar mais na infanta. São 
iessa egloga os seguintes versos : 



Almeno 



Se más tenções puseram nódoa feia 
Em nosso firme amor, de inveja pura, 
Porque pagarei eu a culpa alheia ? 



Belisa 



. . . Teu sobejo e livre atrevimento 
E teu pouco segredo, descuidando, 
Foi causa deste longo apartamento. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MA&IA 



Só na occasião do embarque para a índia, é que < 
congraçou com quem tão profundamente a tinha maj 
com quem havia dado motivo a que pusessem nodc 
em uma pura affeição, em um amor honesto, 

(Continua). Dr. José Maria Rodrig 



Um só segredo meu te manifesto : 

Que te quis muito, emquamo Deus queria, 
Mas de pura affeição, de amor honesto. 

E, pois de teus descuidos e ousadia 
Nasceu tio dura e áspera mudança, 
Folgo que muitas vezes to dizia. 

Fica-te embora e perde a confiança 

De ver-me nunca mais, como já viste : 
Que assi se desengana uma esperança. 



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3l8 



O INSTITUTO 



FR. JOÃO DAS CHAGAS ou FREY JUAN DE LAS LLAGAS 



Frei João das Chagas não vem mencionado na Bibliotheca 
Lusitana. D'aaui se deve concluir uma de duas cousas: ou 
que Barbosa Machado o omittiu por ignorância, ou que, o fez 
propositadamente, na certeza de que era extrangeiro. 

Egual esquecimento se nota no Catalogo ra\onado biográ- 
fico y bibliográfico de los auctores portugueses que escribieron 
em Castellano, de Domingos Garcia Peres. 

Nicolau António, considerando-o lusitano, inscreveu-o na 
sua Biblioteca Hispânica Nova (tomo i.°, pag. 676), dedi- 
cando-lhe o seguinte artigo: 

tF. Joannes das Chagas, Lusitanus, ordinis Minorum Re- 
formatorum províncias da Rábida nuncupatae, scripsit: 

t Triunfos de la Evangélica pobreza dei orden de S. Fran- 
cisco. Ulisipone 1626, 4. . 

«Supplicem libellum ad Gregorium XV. Papam & Ulisi- 
pone apud Craesbec anno 1622. 

«Apologeticum de usu Syndicorum. Ibidem apud Anto- 
nium Alvarez i63o. 

«Ministrum fuit suae províncias, quem pietatis & dignitatis 
nomine laudatum non mediocriter dimittit Wadingus». 

A aual dos dois grandes bibliographos peninsulares deve- 
mos dar credito ? 

A Barbosa Machado, pela negativa, resultante do silencio, 
ou a Nicolau António pela sua affirmação incondicional? 

O nosso compatriota é quem leva neste caso a palma, 
porisso que João das Chagas não era natural d'este reino, 
embora aqui tivesse decorrido grande parte da sua vida, no 
exercício de importantes cargos monásticos, vindo nelle a 
descançar para sempre, depois de longa permanência lia sua 
pátria adoptiva. 

João das Chagas, o flamengo, como geralmente era desi- 
gnado, nascera em Culemburg, nos estados da Baixa Alle- 
manha e muito cedo, por iniciativa própria e. desejo de seus 



J 



FR. JOÃO DAS CHAGAS 219 

paes, se filiara na ordem de S. Francisco. Por motivos que 
na chronica da ordem se attribuem simplesmente a uma força 
irresistível de attracção virtuosa, fr. João veiu para Portugal 
na companhia de um religioso portuguez, batendo ás portas 
da Província da Arrábida, que jubilosamente o acolheu, con- 
vencida de que adquiria um novo membro, que muito utili- 
saría ao Instituto, já pela bondade do seu coração, já pela 
excellencia do seu espirito lettrado. E o futuro não deixou 
duvidoso, antes confirmou o conceito que d' elle então se 
houve, conforme se deduz da sua biographia, elegantemente 
tracejada por fr. José de Jesus Maria a pag. yb e seguintes 
da sua Chronica da Província da Arrábida. 

Em 1689 (1) reuniu-se o Capitulo da Ordem no convento 
de Loures, para se proceder á eleição do Provincial, e como 
existissem fortíssimas divergências entre parcialidades caste- 
lhanas e poftuguezas, por insinuação de fr. António da As- 
sumpção, o Saldanha, recaiu a escolha em fr. João das 
Chagas, que não ofierecia nenhum dos inconvenientes anta- 
gónicos, pois não era natural de qualquer das duas coroas, 
nem tão pouco filho da Província, sendo por conseguinte um 
meio termo conciliador entre os dois partidos que se degla- 
diavam. Tinha elle então 42 annos de idade e i5 de pro- 
víncia. 

No exercício doestas funcções se houve fr. João das Chagas 
com austeridade de diciplinador inquebrantável, não se con- 
tentando em reprehender, mas até em punir os menos zelosos 
no cumprimento dos seus deveres, sobretudo no tocante ás 
praticas espirituaes. Apesar da benevolência com que o trata 
o seu biographo, ou antes panegyrista, quer-me parecer que 
elle tinha um génio auctoritario, inclinado ao arbítrio, como 
o demonstra um facto, que muito devia impressionar o seu 
caracter altivo, se a humildade religiosa o não predisposesse 
á resignação evangélica, acceitando como favor divino a re- 
primenda dos homens. Ordenou elle que se desfizesse e 
demolisse o convento de Palhaes, o que produziu grande 
alvoroço nos. moradores do sitio, que offereceram resistência 
ámão armada, não tardando o padroeiro a vir em seu auxi- 
lio, reforçando o seu protesto. Foi o pleito levado a Capitulo 



(1) Não sei se haverá erro aqui da parte do Chronista, allegando que 
andavam então accesas as dicençõcs no reino «com a acclamação do Se- 
nhor D. António, Prior do Crato, e filho do Infante D. Luis, por morte 
«lo Cardeal Rey». 



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220 O INSTÍTTJTO 

e o indiscreto zelo de fr. João foi punido de um modo rigo- 
roso, não se limitando a sentença a uma só demonstração 
cond-emnatoria, antes descarregando sobre o indiscreto pre- 
lado três golpes successivos, qual d'elles mais violento: — 
privado de voto, excluído do Capitulo e degredado por três 
annos para o convento de Óbidos. 

Não obstante este contratempo desairoso, que muito devia 
abater os seus créditos, fr. João continuou a merecer a estima 
e consideração dos seus confrades, o que parece demonstrar 

3ue as suas virtudes e talentos eram superiores aos reveses 
a fortuna, dos quaes escapava victorioso, como nau rija- 
mente construída^ que sae sã e salva das iras do temporal. 
A sua existência prolongou-se por muitos annos num grande 
fervor de devoção, realizando o ideal do ascetismo fradesco, 
procurando sempre occasião de se abater a sçus próprios 
olhos e aos olhos dos seus confrades, privando-se de todos 
os cómodos e não deixando nunca de faltar, por mais que 
a doença o molestasse, ao exactíssimo cumprimento das suas 
obrigações, ainda que neste ponto o dispensassem as honras 
da prelasia que disfructara. Algumas das suas acções tinham 
o quer que fosse de pueril, embora resultassem do pensa- 
mento constante de se humilhar, apagando-se na turba dos 
obscuros. Assim se dilatou a sua existência e de provecta 
idade veiu a fallecer. 

Tinha fr. João estreita amizade com um inglez de nome 
Gualter Jaquez, a quem pediu mandasse fabricar no con- 
vento de S. José de Ribamar, na cella que fora de fr. João 
d'Aguila, uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Quieta- 
ção. Teve o requerimento favorável despacho e no retábulo 
da capellinha se pôz um painel com a imagem de S. Gualter. 
O súbdito britannico sobreviveu a fr. João e com a morte 
d'este não esmoreceu a sua amizade antes deu mostras de 
venerar a sua memoria, fazendo com que elle fosse enterrado 
na mesma ermida, que mandou forrar de finíssimo azulejo, 
no qual se lia esta inscripção: 

iNesta capella ao pé d'este Epitaphio está • sepultado o 
P. fr. João das Chagas, Flamengo de Nação, Ministro Pro- 
vincial que foy d'esta Província de Nossa Senhora da Arrá- 
bida e nella viveo 66 annos com grande exemplo da vida, c 
muitas mostras de santidade. Faleceo a 4 de março de 1637». 

Fr. José de Jesus Maria, se nos dá conta das virtudes 
praticadas por fr. João, ennumera também os predicados da 
sua intelligencia que desabrocharam em alguns livros, pelos 
quaes podemos avaliar os seus merecimentos de escriptor 



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FR. JOÃO DAS CHAGAS 221 

místico. Eis a nota que a tal respeito nos ofterece o chro- 
nista : 

tCompôz vários tratados pertencentes ao bom regimen da 
ordem, os quaes mandou imprimir, e hum d'elles, em que 
recompilou o methodo da oração mental, teve tanta acceita- 
ção, que logrou a fortuna de se ver posto em uma taboa na 
capella Pontifícia. Também foy author d'um livro em quarto, 
a que deu o titulo de Triunfos da Pobresa Evangélica, em 
que se nota o raro da sua erudição e o elevado do seu espi- 
rito. Em suecintas folhas comprehende as vastas noticias da 
nossa Seraphica Ordem, divididas por tantos tomos, quantos 
são os que em multiplicado algarismo dão nome ás mayores 
Bibliothecas. Com estylo cómico declara as proesas do nosso 
Patriarcha Santo, as excellencias da Ordem, os mimos, que 
tem recebido de Deos, as graças, que lhe tem concedido a 
Igreja, os martyrios, e virtude dos Santos, que a tem illus- 
trado, vestidos no humilde e pobre habito Franciscano». 

Mais adiante (pag. 94) acerescenta: 

«D'esta (cella) não saiu mais que para os actos da commu- 
nidade, gastando nella o tempo ou em orar, ou em estudar; 
de que resultou compor não só os tratados, e livros, de que 
já fizemos memoria; mas hum memorial, que fez das funda- 
ções dos conventos da Província, e sujeitos que nella flores- 
cerão em virtudes. Também compoz dous livros de questões, 
e duvidas de Regulares, muito doutos, e curiosos, que a nossa 
pobreza não permittio se podessem imprimir». 

Além das obras supra mencionadas, tanto em Nicolau An- 
tónio, como no Chronista da Ordem, tenho nota de outra, 
assim descripta, sob o n.° 1880, no Catalogo da livraria do mar- 
quez de Castello Melhor, vendida em hasta publica em 1879: 

€jRasonamiento que no conviene que tengan los Religiosos 
Franciscanos Descalços Vicários generalis*. Lisboa, redro 
Craesbeeck, 1622, 4. . 

A Bibliotheca da Universidade de Coimbra não possue 
nenhuma das obras de fr. João das Chagas. Na Bibliotheca 
Publica Municipal do Porto existe a seguinte, cuja descripção 
devo á benevolência do sr. José Pereira de Sampaio (Bruno). 
Intitula-se : 

€ Tratado apologético dei Uso que la Seraphica Orden 
Franscicana de la Regular Observância tiene de syndico apos- 
tólico, adonde despues de explicar la origen y modo com que 
se platica, se resueluen algunas objeciones nascidas de igno- 
rância, y zelo indiscreto. 

tHecno por Fray Juan de las Llagas Padre de la Saneia 



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222 O INSTITUTO 

Prouincia de Nuestra Senhora de la Arrábida. Natural de 
Culemburgue en los eslados de Allemanha baxa, mas criado 
en Portugal. Con todas las licencias necessárias. En Lisboa, 
por, António Alvares, i63o*. 

É um volume em' 8.° de 32 folhas, tendo esta ultima o 
algarismo errado, 12 em vez de 32. 

Quando o chronista da Ordem falia dos Triumphos da 
pobresa diz que este livro é escripto em estylo cómico, o que 
me causou estranheza, pois só um mentecapto ou um sujeito 
de um caracter extraordinariamente original é que poderia 
compendiar d'aquelle modo os feitos gloriosos da sua commu- 
nidade, a não ser que o fizesse com a mais irreverente ironia. 
Estou portanto convencido que houve erro typographico e que 
em logar de cómico se deve ler conciso. Effectivamente a obra 
de fr. João das Chagas é uma breve historia apologética da 
vida prodigiosa de S. Francisco e do instituto por elle fun- 
dado, cuja principal característica consiste no amor á po- 
breza, levado até ao excessb. Tenho presente um exemplar 
que faz parte da selecta livraria do sr. Annibal Fernandes 
Thomaz e d'elle posso por conseguinte dar circunstanciada 
noticia bibliographica. Intitula-se: 

« Triumphos de la Sancta evangélica pobreza en la reli- 
gion Seraphica de nuestro padre èan Francisco. Collegidos 
por frajr Juan de las Llagas Ministro pretérito de la Sancta 
Prouincia de nuestra Sefiora de la Rábida de los frayles 
Menores de la Obseruancia Regular en Portugal. Con todas 
las licencias necessárias. En Lisboa por Pedro Craesbeeck. Im- 
pressor dei Rey. Afio i625t. 

E um volume em oitavo, (cadernos rubricados A, A 4, 
B, B 4, etc.) de quatro folhas innumeradas, incluindo o fron- 
tispício, mais i32 folhas numeradas pela frente. É adornado 
de quatro estampas em folha separada, gravadas pelo artista 
portuguez Bento Mialhas. Nos preliminares comprehendem-se 
as licenças e um soneto em hespanhol, á tençan e excellencia 
da obra, de. D. Henrique de Portugal. No verso da folha 5i 
vem um pequeno capitulo, De las peregrinaciones de los Re- 
liposos Franciscos a los Reynos de Japan, y de las conver- 
siones que en ellos hisieron, em que se 1c esta phrase, com 
referencia ao rei de Quanto : que es el que ai presente dei 
ano de 1607 govierna el Japan. Isto faria suppôr que a 
obra se andava compondo por este tempo, mas logo adiante 
(folio u5 verso) no capitulo intitulado: Los frayles Fran- 
ciscanos martyrisados en Japon, relacionam-se os indivíduos 
raartyrisados em i632, o que destroe a hypothese que se 



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FR. JOÃO DAS CHAGAS 22$ 

podesse formular sobre o anno de 1607, pois é impossível 
admittir que entre um e outro capitulo mediassem tantos 
annos em que a penna do auctor estivesse em ócio, O soneto, 
de D. Henrique de Portugal é concebido nesta forma : 



De Dom Henrlqve | de Portvgal a tençom, | & excellencia desta obra 



Soneto 



Como nó triumphará la alta Pobreza 
De todo lo que Dios tiene creado, 
Si dei mismo Senor ha triumphado, 
Traiendolo aun Pesebre de su alteza ; 

Por ella conoscida su grandeza 
En el mundo, con ella fue adorado; 

Y el la tiene assentada ai diestro lado, 
Del Padre Eterno en su naturaleza, 

Delia (aquel senalado su heredero, 
El segundo llagado blando, y fuerte, 

Y uruco retrato dei primero ;) 

Enriqueciô sus hijos de tal suerte 

Que triumphan en Dios trás su cordero, 

Del mundo, dei diablo, y de la muerte. 

Creio que este D. Henrique de Portugal é o mesmo su- 
jeito a que se refere o diploma abaixo transcripto. É uma 
carta de D, Filippe 2. , fazendo mercê a D. Henrique de 
Portugal dos fructos da comenda de S. Pedro de Calvello, 
da Ordem de Christo, que elle havia renunciado em seu filho, 
D. João de Portugal, já fallecido. A comenda ficaria perten- 
cendo a seu neto, D. Diogo de Portugal, certamente filho 
de D. João, que só entraria na posse definitiva d'ella, quando 
tivesse a idade competente para professar. D. João havia 
servido em Tanger e tomado parte na empresa de Larache. 
Eis agora o documento : 

«Eu Elrey faço saber aos que este aluará virem que auendo respeito 
aos serviços de í)om João de Portugal, já fallecido, que foi Fidalgo de 
minha casa e ter servido por carta húa comenda na cidade de Tangere 
á sua custa, de que não foi provido, e a que depois* disso sérvio em al- 
gQas occasiões, achandose na empresa de Larache, evaguar por elle a 
comenda de São Pedro de Calvello da Ordem de Nosso Senhor Jesu 
Christo, que seu pai Dom Henrique de Portugal tinha renunciado nelle 



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O INSTITUTO 



) tempo : Hey por bem de fazer mercê ao dito Dom 
^al da dita comenda de São Pedro de Calvello para 
go de Portugal, com declaração de que os fructos 
dito Dom Henrique de Portugal, até o mesmo seu 
ara professar na Ordem de ChristOj e até elle ser da 
5 dito Dom Henrique dispor dos ditos fructos, para 
dividas, como lhe parecer : Pello que mando a Nuno 
minha casa, contador do mestrado da dita ordem ou 
vir, deixe pessuir os fruitos da dita comenda ao dito 
J ortugal, em quanto o dito seu neto não tiver idade 
e entregue os cahidos delia por quanto sua Santidade 
por seu breve assim o ouve por bem e este se cum- 
e valera como carta sem embargo de qualquer pro- 
d em contrario sendo passado pella chancellaria da 
d de Lemos o fez em Lixboa a 20 de fevereiro de 624. 
Castro o fez escrever» (1). 

Sousa Viterbo. 



ombo, Ordem de Christo, liv. 12, fl. u verso. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTC 

REVISTA SCIENT1FICA E LITTERARIA 



Redacção e administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA 



Propriedade e edição da Director Composto e im 

Sociedade scientifica — Dn. BERNARDINO MACHADO Imprensa da 

O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SCIENCIAS MORAES E S0C1AES 



NOMENCLATURA GEOGRAPIIICA 

Subsídios para a restauração da toponymia em língua portug 
(Cont. do n.° 4, pag. 1 77) 

I> 

Dacar, cabo e cidade -francesa, porto de mar, na cc 
Senegal. Os portugueses chamaram-lhes ponta de Ga 
porto de Gaspar, designação que por corrupções succ< 
se mudou em Dacar. Os franceses escrevem Dakar. I 
muito que o primitivo nome era corrente em livros 
guêses. {Roteiro, I, 112). 

* Dakomé, região, antigo reino da costa occiden 
África, no golfo de Guiné. 

Dakar. Vi d. Dacar. 

Dalccárlia, provínci^ da Suécia. 

Dália, província da Suécia, a W. do lago de Vener 

Darfur, região do Sudão egypcio, a W. do Cordof 

Delagoa bay. Vid. Bahia da Alagóa. 

Delphineses, habitantes do Delphinado, antiga províi 
França. 

Desiderada (ilha), uma das pequenas Antilhas, a 
ilha de Guadalupe. O nome foi-lhe dado por Colorr 

VOL. 55.°, N.° 5 — MAIO DE I908. 



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T 



226 O INSTITUTO 



língua da sua pátria e vale o mesmo que Desejada. Em li- 
vros franceses, Désirade. 

Déslradc Vid. Desiderada. 

Dcvénia, condado de Inglaterra, na parte meridional da 
Gran Bretanha. 

Dicppa, cidade de França, porto de mar, no canal de In- 
glaterra. 

Djezlré. Vid. Je\irè e Gi\aira. 

Djllolo. Vid. Halmaheiva. 

Djohor. Vid. Jor. 

Dofrinas. Vid. Alpes escandinavos. 
m Dolon, cidade do Sudão central alemão, ao sul do lago 
Chad. Em alemão, Doloo. 

Dominica (ilha), uma das pequenas Antilhas. 

Donaverta, cidade da Baviera banhada pelo Danúbio. Em 
alemão, Donauwert. 

Dordonha (rio), affluente do Garonna, em França. 

DoYcr, cidade inglesa, porto de mar, no canal de Ingla- 
terra. Os franceses dizem Douvres. 

Down, palavra inglesa que significa monte, outeiro, e entra 
na composição de nomes geográphicos : North Downs, montes 
do norte, e South Downs, montes do sul, a SE. de Ingla- 
terra ; Black Down, monte negro, a S. de Inglaterra. 

DraguinhSo, cidade francesa, capital do departamento do 
Var. Em francês,, Draguignan. 

Dravo, rio de Áustria, affluente da margem direita do Da- 
núbio. Em latim, Dravus; alemão, Drau; eslavo, Drava; 
francês, Drave. 

Droina, rio de França, affluente da margem esquerda do 
Rhódano. Em francês, Dràme. O rio dá o seu nome a um 
departamento. 

Ducoxima, ilha do archipélago do Japão, a W. de Ximo 
ou Kiú-siú. (Lucena, 466). 

Dunquerque, cidade de França, porto no mar do Norte. 

Dnrança ou Drucnça, rio francês, affluente do Rhódano. 
Em latim, Druentia. 

Dz ungtria. Vid. Zungária. 



E 



Egates ou Egatas (ilhas), grupo a W. da Sicília. 

El-Araich. Vid. Larache. 

Elba, rio de Alemanha. Alguns escreveram erradamente 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA W] 

Elbo. Em latim, Albis; em cheque, Labe. Com a forma la- 
tina Albis justificar-se-hia em português Elbe. 

Elmina. Vid. S. Jorge da Mina. 

Elseneur. Vid. Helsenor. 

Emília, região de Itália. 

Endeh. Vid. Flores. 

Engano (ilha do), a sul da ilha de Çamatra. 

♦ Escalda, rio cjue banha a França, a Bélgica e a Hol- 
landa. Em latim, Scaldis; em francês, Escaut; em flamengo, 
Schelde. A forma latina justificaria em português Escalde, 
mas Escalda é forma tradicional muito antiga. Cf. Elba. 

«Escócia, e não Escóssia, região da Gran Bretanha se- 
ptentrional. 

Eslinga, povoação austríaca próxima de Vienna, célebre 
na história das guerras de Napoleão I. Em alemão, Essling. 
Ha no reino de Vurtemberga uma cidade com o mesmo 
nome, na margem direita do rio Necar, affluente do Rheno. 

Espira, cidade alemã no Palatinadò. 

Espoleto, cidade de Itália. 

• Espóradcs, grupo de ilhas a E. das Cyclades. 
Estácio. Vid. Santo Eustáchio. 

Estetim, cidade de Alemanha. 

Estíria, região do império austrò-húngaro. 



F 

Fachoda, cidade do Sudão egypcio, na margem esquerda 
do Nilo. 

Faença, cidade de Itália, a SW. de Bolonha. É notável 
pelas suas fábricas de louça. Em italiano, Faença. 

Falster, ilha da Dinamarca no mar Báltico. 

Famagosta, povoação da costa oriental da ilha de Chypre. 
Foi outr'ora cidade notável. 

Fartaque (cabo), na costa da Arábia, a SE. 
, FaruJho (ilha de), fronteira á costa da serra Leoa, na 
Africa occiaental. Os portugueses também lhe chamaram 
ilha Serbera (Arte, 189). Em mappas estranjeiros vem com 
o nome de Sherbro e também com o de Sherboro. 

Fernando Pó. Vid. Fei*não do Pó. 

Fernão do Pó (ilha de), no golfo de Guiné. 

Fiord (em norueguês, F/ora, que se lê Fiord), espécie de 
esteiro longo, estreito, profundo e apertado entre montes. Esta 
palavra passou á linguagem geográphica de todas as nações. 



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228 O INSTITUTO 

Firando, ilha do archipélago do Japão, a W. de Ximo, 
também indicada modernamente com o nome de Hirado. 
(Lucena, 466). 

Flrth, palavra inglesa, que significa o mesmo que fiord 
ou esteiro, e entra na composição de nomes geográphicos : 
Solway Firth, a W. da Gran Bretanha, entre a Escócia e a 
Inglaterra. 

Flessingue, forma francesa de Flissinga. 

Flissinga, cidade, porto de mar da Hollanda. (Arte, i85). 
Em hollandês, Vlissingen. 

Flores (ilha de), na Oceania, a S. da ilha de Celebes. 
Chamaram-lhe também Solor, nome que depois ficou só a 
uma pequena ilha a E. da de Flores ; e ilha de Oende, desi- 
gnação que ainda se vê, embora sob forma estranha (Endeh\ 
nos mappas modernos. O nome de Flores veio-lhe do cabo 
de Flores, que tem a ENE. e agora se vê indicado com o 
nome de cabo Bunga. (Arte, 433 e 434). 

•Fo-kien ou Fou-Kicn. Vid. Foquiem. 

Fonda. Vid. Funta. 

Foquiem ou Fuquiem, província marítima da China, onde 
está a cidade de Chincheu. Também se chama canal ou es- 
treito de Foquiem e de Formosa á parte do oceano que se- 
Eara .a ilha Formosa do continente. (D. III, 1. II, cap. VII; 
K I, 1. IX, cap. I). 

Forteventura (*7/ia), uma das Canárias, indicada muitas 
vezes pela forma castelhana do seu nome, Fuerteventura. 
(Arte, 188). 

Franefort do Meno, cidade da Prússia. Francfort sobre o 
Meno é estranjeirismo inadmissível. Cf. Francfort do Oder. 

Francfort do Oder, cidade da Prússia. Á não se restabe- 
lecerem as formas Francoforte ou Francfórdia, que teem 
tradições na língua (Mon., III, 3; BI., in vb.° Francofofie), 
dever-se-ha ao menos evitar o intoleravelestranjeirismo Franc- 
fort sobre o Oder. Os espanhoes dizem Francfort dei Oder 
e teem também Francoforte. Nós dizemos Miranda do Douro, 
Valença do Minho, Moimenta do Dão, etc, e também deve- 
mos dizer Francfort do Meno, Francfort do Oder, Chalons 
do Mama. 

Franco Condado, antiga província de França. Em francês, 
Franche Comté. 

Freiberga, cidade da Saxónia. 
. Frísia, região da Europa occidental, hoje parte da Hol- 
landa e parte da Alemanha. 

Frisdes, habitantes da Frísia. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁl>HICA 229 

Fu, palavra chinesa, que, junta a um nome de cidade, in- 
dica que esta é sede de governo regional: Nimpó-fu. 

Falda, cidade da Prússia. 

Fnnta ou Nefunta (enseada de), na costa occidental de 
Africa, a S. da foz do rio de Congo ou Zaire. Em livros 
estranjeiros chamam-lhe bahia de Fonda. * 

Fusi-Iama, monte da ilha de Nipon (Japão), onde ha um 
vulcão notável. 

O 

• 

GaMo (cosia do), tracto da costa occidental de Africa, 
entre a foz do rio dos Camarões e o cabo de Lopo Gonçal- 
.ves. Em livros estranjeiros lê-se Gabon e Gabun. 

GaMo (rio do), na costa occidental de África. 

Galas, povo da Africa oriental* ao sul da Ethiópia (Or. 
conq., II, 017). 

Ga ihI. Vid. Gante. 

Gante, cidade da Bélgica. Em francês, Gand; em fla- 
mengo, Getid ou Gení. Convém não confundir com Gandia, 
cidade de Espanha, a que se referem por vezes os nossos 
clássicos. 

Garças (ilha das), no golfo de Arguim. (fnd., 26). 

Garonna, Garumiia ou Garunna, rio de França. Garonna 
é hoje a forma maifc usada, e, como é legítima, deve ser pre- 
ferida, embora os antigos empregassem mais o nome de Ga- 
runnq. 

* Gasconka, região da França. Do latim Vasconia. Assim 
escreveu Lucena (I. II, cap. XIX) e outros auctores consi- 
derados. Os espanhoes dizem Gascuna. 

Gate (serra de), no Indostão. Ha duas serras com este 
nome, uma do lado da costa de Malabar, outra do lado da 
costa de Coromandel, e distinguem-se pelos nomes de Gates 
occideniaes e Gales orientaes. Em livros estranjeiros, Ghates. 
(D. IV, 1. VII, cap. IV). 

Gebirge, palavra -alemã, cuja significação é cadeia de mon- 
tanhas, e entra na composição de nomes geográphicos : Er\- 
Gebirge (entre a Saxónia e a Bohémia), montanhas dos Me- 
taes ou montanhas MetalUferas (e não montes Metállicos, 
como alguns teem dito); richtel- Gebirge (na Baviera), mon- 
tanhas aos Pinheiros; Riesen- Gebirge (entre a Silésia e a 
Bohémia), montanhas dos Gigantes, etc. 

Gellolo (ilha de), a mesma que também foi conhecida pelo 
nome de Halmaheira. Vid. Halmaheira. 



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230 O INSTITUTO 

# Genebra (cidade da Suiça), e não Genebra, como alguns 
ainda pretendem. Do latim Génêva, ce. Por muito tempo se 
conservou em português a forma latina Geneva. 

Geórgia, região da Transcaucásia. C. Geraldes escreveu 
Jórgia, por analogia com o nome de um dos Estados Unidos 
norte-americanos ; mas a analogia é só apparente, pois em 
verdade é desconhecida a origem do nome da região da 
Transcaucásia, ao passo que se sabe a origem do nome de 
Jórgia na América. Vid. Jórgia. Já Plínio falou dos habi- 
tantes da Geórgia, aos quaes chamava Georgi. 

Geum 9 .nome por que os portugueses conheceram o rio 
que na antiguidade se chamou Oxus e hoje tem o nome de 
Amu-Dária. (D. IV, 1. VI, cap. I). Alguns lhe chamaram 
também Abia. 

Ghates. Vid. Gate. 

Ghir (cabo de). Vid. Aguer. 

Gibaltar (com o accento tónico na última syllaba), forma 
verdadeira do nome da cidade e do estreito hoje conhecidos 
por Gibraltar. O nome deriva do árabe Geb-al-Tariq (monte 
de Tariq), e foi destinado a commemorar a vinda do famoso 
chefe muçulmano Tariq, quando os árabes invadiram a pe- 
nínsula. Gibraltar, com o accento tónico na penúltima syl- 
laba, é forma e pronúncia inglesa. 

Gidá, porto da Arábia. Alguns escreveram ora Gidá e 
Giddá, ora Jadá. (Itin., cap. VII, VIII e XVII; Arte, io5; 
D. II, 1. VII, cap. VIII e 1. VIII, cap. I; D. III, 1. I, cap. III 
e seg.). 

G ir onda, rio de França, que dá o seu nome a uni depar- 
tamento. 

Gizai ra (ilha de), nome por que os portugueses conhece- 
ram certa extensão de território junto á foz do Euphrates, 
cercado e cortado pelos braços do rio. O nome deriva do 
árabe al-ja\air 9 d'onde veio também a nossa palavra lenira 
ou leniria. Os persas chamavam á referida ilha Gt\era. (D. 
IV, 1. III, cap. XIII). O mesmo nome se deu ao território 
situado mais a N-, entre os rios Tigre e Euphrates, desde 
Bagada até Corna, conhecido na antiguidade por Mesopotâ- 
mia e hoje também representado nos mappas com o mesmo 
nome e com o de El-Dje^iré. 

Gogá, cidade na península de Guzarate, junto ao golfo de 
Cambaia. Em mappas estranjeiros, Goghá. (D. IV, l. IV, 
cap. XVII). 

Gojame, antigo reino, hoje província da Ethiópia. Em li- 
vros estranjeiros, Godjam. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPH1CA 23 I 

Goleta, cidade marítima da Tunísia. (Itin., cap. VII; Arte, 
218). Os franceses dizem La Goulette. O nome é de origem 
italiana, Goletta, e provavelmente d'esta mesma palavra, que 
é nome commum, veio o vocábulo português goleta, que si- 
gnifica o mesmo que em italiano : angra, ou pequena barra 
ou canal estreito que dá entrada a um golfo ou porto. A ci- 
dade de Goleta está junto á entrada de um canal que esta- 
belece communicação entre o lago de Tunes e o mar; d'ahi 
o nome que lhe deram os italianos. 

(romeira (ilha), uma das Canárias, mais conhecida pelo 
nome castelhano de Gomera. (Arte, 188; Couto, D. IV, 1. III, 
cap. III). 

Gtorage, região, antigo reino, a SE. da Ethiópia. Nos map- 
pas estranjeiros, Gurage e Gouragué. 

Goréa (ilha de), situada na costa occidental de África, 
pouco ao sul do cabo Verde. Na ilha existe a villa de Goréa. 
Uma e outra houveram também nome de Bisiguiche. 

Gotemburgo ou ttotheburgo, cidade da Suécia. 

Grothlándta, ilha no mar Báltico. Antigamente, aos nomes 
terminados em land dava-se em português a forma landa, 
como ainda hoje em Hollanda e Irlanda, o que seria prefe- 
rível; actualmente é costume empregar a terminação látidia, 
como em Islândia, Zelândia, Finlândia, etc. 

(jotinga ou ftotttnga, cidade da Prússia. Os alemães di- 
zem Gòttingen, os franceses Gcettingut, os espanhoes Go- 
tinga. 

tfotoxima, ou simplesmente Goto, ilha do archipélago do 
Japão, a W. de Ximo. (Lucena, 466). 

ftoulette (La). Vid. Goleta. 

Granada (ilha de), uma das pequenas Antilhas, a N. da 
ilha da Trinaade. 

Oranadilhos, ilhéus a NNE. da ilha de Granada, nas pe- 
quenas Antilhas. 

Oranvllla, cidade francesa, porto de mar no golfo de S. 
Maio. 

Gravellnes. Vid. Gravelinas. 

fcíravelinas, cidade francesa, porto commercial no mar do 
Norte, perto de Dunquerque, òs franceses dizem Graveli- 
nes. Em português também se lhe chamou Gravelinga, do 
seu primeiro nome, que lhe veio do canal chamado canal do 
Conde (grape-linghe). 

Graresenda, cidade, porto de mar de Inglaterra. 

(írcat, palavra inglesa que significa grande e entra na com- 
posição de nomes geográphicos : Great Lake, lago Grande, 



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232 O INSTITUTO 

na Tasmánia ; Great Salt Lake, grande lago Salgado (nos 
Estados Unidos), etc. 

Grenobla, cidade de França. 

Grisões {cantão dos), na Suiça. 

Gronelândia, região insular ao norte da América. E mais 
vulgar dizer-se Groenlândia, mas a forma correcta é Grone- 
lândia, que tem tradições na língua portuguesa. O nome é 
ná sua origem norueguês (Grõnland) e significa terra verde. 
Cf. neste vocabulário Olándia. 

Groninga, cidade de Hollanda. Em hollandês, Groningen. 
Cl. Gotinga e Flissinga. 

Groot, palavra hollandêsa que significa grande e entra na 
composição de nomes geográphicos. 

Guadalaxara, nome de duas cidades, uma na Espanha, 
outra no México. 

Guadalupe (ilha de\ uma das pequenas Antilhas. Ha um 
rio na Andaluzia com o mesmo nome de Guadalupe. 

Guaíra, cidade marítima da Venezuela. 

Guarmei, cidade do Peru. 

Guaseo, porto de mar do Chile. 

Guer (cabo de). Vid. Aguer. 

Guiena, antiga província de França. Em francês, Gnyenne, 
provençal Guyana, alteração e não forma regular por desen- 
volvimento phonético do latim Aquitania. 

Guiné de Cabo Verde (costa da), trecho da costa occi- 
dental de África entre os cabos Verde e de Sagres. 

Guipúzeoa, uma das províncias vascongadas, em Espanha. 

Guisa, povoação francesa. Foi título de ducado. Em fran- 
cês, Guise. 

Giuiuape, uma das ilhas de Banda, a NE. da de Sumbava. 
Em mappas estranjeiros, Gunung Api. (D. Ill, 1. V, cap. VI). 
Os portugueses também lhe chamaram Guno Api. (Arte, 435). 

Gunung Api. Vid. Gunuape. 



HL 

Hacodate, cidade do Japão na ilha de Iesso. 

Hafen, palavra alemã que entra na composição de nomes 
geográphicos. Designa uma lagoa littoral alimentada pelas 
aguas de um ou mais rios, separada do mar por um cordão 
de areia onde se abre uma passagem ou communicação es- 
treita. Ao norte da Prússia ha, entre outras, a Kurísches 
Ha ff e a Frisches Haff. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA ^33 

Haia, cidade de Hollanda. 

Halinahcira (ilha), a maior das ilhas Malucas, 
conhecida por Geilolo (Djilolo em mappas estranjei 
lolo é apenas um logar da ilha, cujo nome passoi 
car-se a toda ella. Os portugueses conheceram-na 
pelo nome indígena de Batochina do Movo. (D. 
cap. V; D. IV, 1. I, cap. XVIII e I. VII, cap. IX). 

HatiOTcr (e não Hanovre, forma francesa e ing 
tigo reino, hoje província da Prússia. 

Havana, cidade da ilha de Cuba, porto de mar 
de NE. 

Hébridas (ilhas) situadas a NW. da Escócia. Luc 
escreveu Hér bidés. 

Heidelbcrga, cidade do grão-ducado de Baden, 
rio de Alemanha. 

Helsenor, cidade da Dinamarca, porto no estreito 
ou Sund. Os franceses dizem Elsenear e os dinan 
Helsingòr. (Arte, 1 85). 

Helsimburgo, cidade da Suécia. 

Helsingftr. Vid. Helsenor. 

Hcmo, nome da cadeia de montanhas hoje ma 
cida pelo nome de Balcans. Hemo era o nome coi 
português ha menos de um século, como se vê, \ 
pio, em Casado Giraldes, III, 12. 

Hendaia, cidade de França. 

Himalaia, cadeia de montanhas da Ásia, a N. 
tão. Os antigos chamaram- lhe Emódw. A palavra 
significa habitação das neves» 

H irado. Vid* Firando. 

Hiroxima, cidade do Japão na ilha de Nipon. 

Ho, palavra chinesa que significa rio e entra na 
cão de nomes geográphicos: Hoão-ho (rio Amar 
vai desaguar ao mar da China oriental. 

H011S0 ou Honam, província da China. 

Hondo. Vid. Nipon. 

Horne (ilha e cabo de), no extremo meridional 
rica. O nome foi dado ao cabo por Lemaire e Schc 
o dobraram em 26 de janeiro de 1616, e o chamara 
do nome da cidade hollandêsa, pátria de Schoute 
de partida da expedição. Também lhe chamaran 
Santo Ildefonso. 

• Hu 5 palavra chinesa que significa lago e entra r 
sição de nomes geográphicos: Taihu, lago Tat, 
Xangai. 



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234 O INSTITUTO 

Huarmey. Vid. Giiarmei. 
Huasco. Vid. Guasco. 



lama, palavra japonesa que significa monte e entra na com- 
posição de nomes geográphicos : Fusi-Iama, monte da ilha 
de Nipon onde existe um vulcão notável. 

Iesso, ilha do archipélago do Japão, a N. de Nipon. 

Indostão, península da Ásia. 

Indu-Cuche. Vid. Paropamiso. 

Iocohama, cidade, notável porto de mar do Japão, na ilha 
de Nipon. 

Ionecopinga, cidade da Suécia. 

Irmac ou Irmak, palavra turca que significa rio e entra 
na composição de nomes geográphicos : Kt\il-Irmac, rio da 
Ásia Menor que vai desaguar ao mar Negro. 

IspahSo ou HispahSo, cidade da Pérsia. Godinho, passim. 

ImuiSo ou Iunnaiii, província da China meridional. Em 
livros estranjeiros, Yun-Nan. 

(Continua). Fortunato de Almeida. 



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SGIENGIÀS PB YSIGO-M ATHEM ATIG A 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Gont. do n.° 4, pag. 190) 



[U 10] — A. G. Ferreira de Castro — Trabalhos g 
em Angola, Lisboa, 1887. 

Rapport presente au Ministre cie la M 
des Colonies. 

[U 10] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — 
nadas geographicas dos pontos geodésicos 
meira ordem, Lisboa, Typograpnia da A 
real das sciencias, 1889. 

Cette brochure contient les coordonr 
graphiques des points de premiér ordi 
triangulation portugaise. 

Les longitudes ont pour origine le méi 
TObservatoire du Castello de S. Jorge 
bonne, et les altitudes, le niveau moyen 
du Tage en face de Lisbonne. À la suit< 
bles qui contiennent les latitudes, longi 
altitudes, on trouve une rapide descri] 
chacun des signaux géodésiques. 

[U co] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — ' 1 

sobre a determinação das coordenadas geog 

do Observatório do Castello de S. Jorge em 

Typographia da Academia real das sciencii 

L'Observatoire du Castello de S. Jorç 

bonne est le point d'oii l'on a observe le 

azimuth de la triangulation portugaise, 

par conséquent on a cherché à obtenir 



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236 ' O INSTITUTO 

plus grande rigueur possible ses coordonnées 
géographiques. 

Ces coordonnées ont été déterminées d'abord, 
au moyen d'observations directes par le Dr. Gera, 
à la fin du xviu siècle, puis par le general Folque 
en 1837; plus tard, elles ont été obtenues indire- 
ctement, en les déduisant des coordonnées de 
1'Observatoire astronomique de Lisbonne, avec 
lequel avait été relié l'Observatoire du Castello 
de S. Jorge par des petites triangulations. Quel- 
ques discordances ayant été relevées dans les 
valeurs obtenues pour la latitude de cet Obser- 
vatoire, les géodesiens portugais ont décidé de 
déterminer à nouveau, au moyen d'observations 
directes, les coordonnées de cet important point 
géodésique. 

Ce mémoire renferme les résultats de ces obser- 
vations, eflfectuées du 10 mai de 1886 au 14 juin 
de la même année, et du móis de mai de 1888 
au même móis de 1889 par Brito Limpo et M. Fer- 
nando Costa et le comte d' Ávila (i). 

10] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Triangu- 
lação fundamental, i. a parte. Ângulos aqimuthaes, 
Lisboa, Typographia da Academia real das scien- 
cias, 1892. 

10] — Miguel V. P. Garcia — A topofp*aphia em campa- 
nha, Lisboa, Adolpho Modesto & CÍ. a , tom. 1, i8g3; 
tom. 11, 1894. 

10] — F. L. de Oliveira -*- Estudos cartogt^aphicos, Lis- 
boa,' M. Gomes, tom. 1, i8g3; tom. 11, 1894. 

10] — F. A. Oom — Instrucções sobre o emprego de um 
Universal como instrumento de passagens, Lisboa, 
Imprensa nacional, 1893. 

Oeuvre posthume destine à satisfaire à de nom- 
breuses demandes formulées par les officiers mu- 
nis duniversels de Rkpsold. 



1) Plus tard marquis d'Avila e de Bolama. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

[U 10] — A. A. Freire d' Andrade — Nota sobre alguns 
viços de topographia e geodesia expedita, em 
gados em Moçambique (R. E. L., 11, 1897, 137-1 

[U 10] — * — Geographia mathematica (R. P. E., 26° s 
n.° 201), 1897. 

[U 10] — Rodolpho Guimarães — Sobre um problema de t 
grapljia (R. O. P. M-, xxix, 1898, 355-358). 
Etant donnée une longueur servant de ba 
une série de triangles rectangles, 1'auteur se 
pose de déterminer la limite et la. forme de 1 
totale des triangles successifs autour de la b 
II considere aussi le cas particulier des triar 
rectangles isoscèles. 

[U 10] — A. Mendes d' Almeida — Sobre um problema de t 
gi*aphia (R. E. L., iv, 1899; i3i-i34). 

L'auteur fait une généralisation des form 
de Brito Limpo (R. O. P. M., 111, 1872, 225- 
relatives à la solution analytique du problèm< 
Pothenot. 

[U 10] — A. Mendes d' Almeida e Rodolpho Guimaráe 
Curso de topogi*aphia, Lisboa, J. A. Rodrig 
vol. 1, 1899; vol. 11, 1900. 

[U 10] — J. M. Ribeiro Norton de Mattos — Relatório s 
os serviços de agrimensura (1898-1899), 2. a pi 
Nova Goa, Imprensa nacional, 1900. 

[U 10], [I] — J0Ã0 L. Skinner — Tratado de geographia < 
mercial e alguns problemas para uso dos glo 
reducções de câmbios, etc. Porto, Imprensa de ( 
tinho, i836. 

[U 10], [K] — * — Tratado de geogi*aphia e geometria 
tica (Manuscrit n.° 25 1 de la Bibliotnèque pubí 
municipale de Porto). 



[U 10], [T 4 i3] — J. da Silva Tavares — Lições elemení 



de geographia e chronologia, etc. Coimbra, Impr 
" 1 universidade, i83o. 



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238 O INSTITUTO 

[U 10], [í 4 i3] — Bernardino J. S. Carneiro — Elementos de 
geographia e chronologia, Coimbra, Imprensa da 
Universidade, i85i, i858. 

, [U io b\ — A. L. da Costa e Almeida — Tratado 
elementar de geographia e hydrogtwphia, Lisboa, 
Typográphia Rollandiana, 1841. 

a] — C A. Carneiro de Souza e Faro — Construcçóes 
geodésicas e proporções, Nova Goa, Imprensa na- 
cional, 1868. 

a] — F. A. de Brito Limpo — Estudos sobre nivela- 
mento, Lisboa, Imprensa nacional, 1870. 

Cette brochure comprend trois parties. La pre- 
mière a trait à la théorie du nivellement; dans 
la deuxième, 1'auteur s'occupe de la détermina- 
tion des différences de niveau par les procedes 
topographiques ; enfin, dans la troisième, il fait 
la descriptioh et expose la théorie de son niveau 
de précision. 

a] — F. A. de Brito Limpo — Sobre os nivelamentos 
applicados á geodesia (R. S. P., 1, i885, 129-136). 
L'auteur fait, au début de cet article, quel- 
ques considérations sur la vraie figure de la Terre, 
qui est diíférente de la figure moyenne obtenue 
par les triangulations géodésiques, à cause des 
attractions locales. II aborde ensuite et discute 
les deux méthodes de Villarceau pour obtenir 
cette figUre, et il expose une méthode nouvelle 
pour resoudre une difficulté relative à la réfra- 
ction qui se presente dans une de ces méthodes. 

a] — Conde d' Ávila (i) — Dos nivelamentos de precisão 
e da sua superjicie de referencia (B. S. G. L., 
14* série, 189o, 197-281). 

a] — A. dos Santos Lucas — A determinação da figura 



Plus tard marquis d'Avila e de Bolama. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 2$$ 

da Tenra pela observação da gravidade, Porto, 
Typographia a vapor de Arthur & irmão, 1898, 
1899. 

Cette brochure comprend cinq chapitres, oíi 
Ton remarque Texposition du théorème de Clai- 
raut, des études de Stokes sur la réduction des 
observations de la pesanteur au niveau de la mer 
et des méthodes de Booguer, Faye et surtout de 
Helmert. 

[U 10 a] — Direcção dos trabalhos geodésicos — Nivelamentos 
de precisão em Portugal, Lisboa, Typographia da 
Academia real das sciencias, 1898. 

Cette brochure comprend les nivellements des 
deux lignes principales, de Cascaes à Valença, 
et de Mealhada à Barca d'AIva, et leurs liaisons 
respectives avec les lignes espagnoles qui abou- 
tissent au pont international sur le Minho, et à 
Fregeneda, ainsi que le nivellement de la ligne 
secondaire de Cascaes à Caldas da Rainha, par 
Cintra. 

[U 10 a] — Direcção dos trabalhos geodésicos — Nivelamentos 
de precisão em Portugal, Lisboa, Typographia da 
Academia real das sciencias, 1900. 

Cette brochure comprend les nivellements des 
trois lignes suivantes: Caldas da Rainha à Elvas, 
Santarém à Mealhada et Porto à Valença. 

[U 10 a] — A. A. da Costa Mendes d'Almeida — Curso de 
geodesia (Curso da Escola do Exercito), 191*5-1906 
(lithogi-aphié). 

[U 10 a], [X 8] — F. A. de Brito Limpo — Estudo sobre os 
theodolitos, Lisboa, Typographia da Academia real 
das sciencias, 1891. 

Interessante brochure ou Tauteur fait la des- 
cription des théodolites, traitant surtout des erreurs 
instrumentales et de la pratique des observations. 

[U 10 b] — # — Memoria das armadas que de Portugal pas- 
saram ha índia e esta primeira e ha com qve Vasco 
da Gama partio ao descobrimento dela por mandado 



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240 O INSTITUTO 

de El-Rei Dom Manoel no segundo anno do seu rei 
nado e no do nacimento de Xpo e de i4gj. 

Le texte de ce beau recueil cTaquarelles, que 
possède TAcadémie des sciences de Lisbonnc, 
nous apprend que Tautcur a séjourné aux Indes 
de 1 549 à 1 555, puis de i56i à i566. Le nom de 
1'artiste est probablement dissimule sous le mono- 
gramme L. V. E. R., quon lit dans un rectangle 
au-dessous du titre. 

Bien que 1'exactitude n'en puisse être vérifiée, 
ce travail est de réelle importance pour la recons- 
titution de Thistoire de la navigation portugaise 
vers les Indes. 

[U 10 b] — Valentim Fernandes — Marco Polo. Ho livro de 
Nycolao Veneto. O trabalho de hún genoi>es das 
ditas terras, etc. Lisboa, i5o2. 

Cest une traduction du livre du célebre naviga- 
teur Marco Polo, faite par Valentim Fernandes. 
allemand, ecuyer de la reine Dona Leonok. 

[U 10 b] — Duarte d 7 Armas — Este liuro he das fortalezas que 

sam situadas no extremo de portugall e castella, etc. 

Manuscrit en parchemin, de o,35ox 0,24o, ren- 

fermant 134 cartes en noir, existant aux Archives 

nationaux (Torre do Tombo). 

[U 10 é] — Gaspar Viegas — Portulano das costas occiden- 
taes da Europa e Africa, costa oriental da America 
meridional e terra do Labrador, i534- 

Manuscrit colorié en parchemin, de 0,89 x 1,14. 

[U 10 b] — Bartholomeu Velho — Carta geral do orbe, /5fo. 
L'exemplaire unique de cette carte existe à Ia 
Bibliothèque de 1'Institut roval des Beaux Arts 
à Florence. En 1898, M. de Iraria, cônsul de Por- 
tugal à Livourne, a fait faire une reproduction 
photozincographique (d'une vingtaine d'exemplai- 
res) du planisfêre de B. Velho, à l'Institut géogra- 
phique de Florence. 

[U 10 b] — Lazaro Luiz — Liuro de Todo ho Vniverço, i563. 
Atlas de 0,62 x 0,44, renfermant 1 o feuilles en 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL Í4I 

parchemin, non numérotées. Exempla 
existant à 1'Académie des sciences de 

[U 10 b] — F. Vaz Dourado — Mapamundo q. f( 
uaz dourado fromteiro nestas partes qu 
todos os reinos e terás rios ilhas q. a na 
da terá com todas ssuas alturas e derota 
lliuro fe^ pêra o muy Illustrisimo ssnõr \ 
taide, vigorei nestas partes da india. j 
ssnõr prospere em vidaa e estado por te 
Em uoa ho anno de i568. 

Cet atlas, fait à Goa en i568, et de 

Luiz de Athayde, vice-roi de Finde, es 

de 40 feuilles en parchemin (i). 

[U 10 b] — F. Vaz Dourado — Mapa-mUdo que Jj 
uaz dourado fromteiro nestas partes. Qt 
todos os Reinos, terás. Ilhas aue haa na 
Da terá cô ssuas derotas e alturas. Per 
Em Goa, 1571. 

Cet atlas, existant aux Archives 
(Torre do Tombo), et qui a appartent 
tuxa dEvora, se compose actuellenn 
cartes maritimes manuscrites et riche 
minées (2). 

À la Bibliothèque royale de Munich 1 
un exemplaire d'un atlas de Vaz Doi 
de if>8o. II y avait encore un autre 
à la Bibliothèque nationale de, Madric 
perdu, dit-on, et il parait qiTun autre 
ment acquis par le Musée de Londres 
S. M. le Koi de Portugal possèd< 
atlas, composé de vingt cartes, lequel 
à ce cartographe dans le catalogue àt 
portugaise de TExposition historiqui 
ténue à Madrid, lors du centenaire c 



íi) II est décrit dans le Catalogo de las colecciones exp 
vitrinas dei Palácio de Leiria, publié par la duchesse de I 
Alba (Madrid, 1898, p. i5o, n.° 171). 

(2) Une description assez détaillée, faite par F. Adolphí 
se trouve insérée au tome m du Tratado elementar de g< 
Don José de Urgullu, Porto, 1839, 494-500. 

VOL. 55.°, N.° 5 — MAIO DE 1908. 



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O INSTITUTO 

iuel Gaspar — Libro universal de derrotas, 

s, longitudes e conhecenças de todas as nave- 

destes Reinos de Portugal e Castella, índias 

les e occidentaes, etc. Lisboa, i5qj. (Manus- 

CXVI 

* £~ de la Bibliothèque de Évora). 

Collecção de portulanos. 
ette colleciion composée de 1 1 portulans de 
4 x o,2Ô5 n'a pas de dote, ui nom de Tauteur. 
existe à la Bibliothèque de la Société de 
;raphie de Lisbonne. Le dessin et Técriture 
:es portulans appartienent sans doute à la 
le école de ceux de Vaz Dourado, de Lazaro 
: et de João de Lisboa. 

Portulano original colorido representando o 
j Indico Occidental -desde o Cabo da Boa 
inça até ao golfo de Bengala. 

Ilvaro Secco — Portugallice quce olim Lusi- 
wvissima et exactíssima descriptio, 1600. 

Tratado da viagem que fe\ D. Álvaro da 

da índia oriental d Europa, nos annos do 

" de 1G10 e j6ii, por pia da Pérsia e Tur- 

om particular relação de toda a Terra Santa, 

cxv 

idade de Jerusalém, etc. (Manuscrit n.° — f- 
iibliothèque de Évora) (1). 

Cerveira Pereira e Domingos Fernades — 
9 da costa de Angola e da altura de i5° e 
>ara Loanda, de como se corre a costa, das 

CXVI 

mças delia, etc, 161 7. (Manuscrit n.° — «— 

iibliothèque de Évora). l ~ ó 9 

Barreto de Resende — Descripção das Forta- 
a índia oriental (2), 162c? 



í reproduction de ce manuscrit à la Bibliothèque pu- 

ie Porto. 

i reproduction de ce manuscrit à la Bibliothèque na- 



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LES MATHEMATIQUÉS EN í 

[U io b] — António Bocarro — Livro 
as fortaleças, cidades, e povo 

dia Oriental, etc. (Manuscril 
thèque de Évora), i635. 

Ouvrage dédié à Fillipi 

[U io b] — A. de Mariz Carneiro — 
le\a de Sofala e das mais de 
cam das Religiões todas, q 
*i63 9 . 

[U 10 b] — JoÃo Teixeira — Descrípçc 
da Terra de Santa Cru%, cl 
Brasil, 1640. 

[U 10 b] — João Nunes Tinoco — Ph 
em q se mostrão os muros de 
Ruas e praças da cidade do, 
de claraçôes postas em seu L 

[U 10 b] — # — Carta do Curso do 
El Reino de Portugal de 
Castellos e lugares que tem < 
Viana, i652. 

[U 10 b] — JoÃo Nunes Tinoco — Liv 
tugal com suas fortificações 

[U iob] — i. Teixeira Albernaz — ( 
lhas e Rio da Prata, 1681 

[U 10 b] — J. da Costa Miranda — C 
Lisboa, 1681. 

[U 10 b] — J. da Costa Miranda — t 
tico e parte das terras que o 

[U 10 b] — A. Carvalho da Costa — 



( 1 ) Cette carte a été gravée et publiée s< 
rection générale des travaux géodésiques. 

(2) Exemplaire existant à la Bibliothèque 



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r 



244 O INSTITUTO 

dividido em três tratados, i.° da projecção das es- 
pheras em plano, construcção de mappas e fabrica 
de cartas hydrogi^aphicas, 2. da hydrographia dos 
mares, 3.° da aescripção geographica das terras, 
Lisboa, João Galrão, 1686. 



U 10 b] — Fr. António do Rozario — Cai*ta de marear, Lis- 
boa, 1699, 1717. 

Q 10 b] — M. Mexia da Silva e M. d'Azevedo Fortes — 
Planta do rio Mondego desde Ce\imbra até ao mar, 
etc, 1703 (1). 

U 10 b] — A. Carvalho da Costa — Corografia portuguesa 
e descripçam topográfica do famoso Reyno de Por- 
tugal, etc, Lisboa, 1706. 

U 10 b] — J. Thomaz Correia — Planta da cidade de Chaves 
que se tomou e demoliu, 1706 

U 10 b] — J. Thomas Correia — Planta do Castello e Villa 
de Barca Rota, 1706. 

U 10 b] — J. Thomaz Correia — Planta do Castello e villa 
de Alconchel, 1706. 

LJ 10 b] — # — Derrota que fes J0Ã0 Nicoláo Schmerkell, 
etc, saindo da Bahia de Cascaes na fragata, etc, 
1711. 

LJ 10 b] — Francisco João Cardoso (2) — Mappa de Chang 
Toilng, ijii. 

J 10 b] — Francisco João Cardoso (3) — Mappa do pai\ dt 
Hami, 1711-1712. 



(1) Cette carte a été réimprimée en 1780, dOment réctifiée par G. J. 
aes de Menezes. 

(2) En collaboration avec le P. Regi. 

(3) En collaboration avec le P. Tartre. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

[U io b] — Francisco João Cardoso — Mappas de 1 
Kouang toung e Kouang si. 

Ils font partie du grand atlas publié 
en 1718. 

[U 10 b] — J. Thomaz Correia — Planta do Castello 
do Conde, 1720. 

[U 10 b] — Eusébio da Costa — Carta do mundo, 
1720. 

[U 10 b] — M. d' Azevedo Fortes — Tratado do modi 
fácil e o mais exacto de fa\er as cartas ga 
cas, assim da terra como do mar e tirar as 
das praças, etc. Lisboa occidental, Pascoal d 
1722. 

[U 10 b] — M. dos Santos Raposo — Carta das cosi 
dentaes da Europa e Afinca, e costa do 
Lisboa occidental, 1726. 

[U 10 b] — * — Relação da jornada e descobrimento 
de Sam Lourenço que o Vice-rey da índia 
nymo de Azevedo mandou fa\er por Paulc 
guês da Costa, capitão e piloto descobridor. 

CXVI 

crit n.° p— de la Bibliothèque de Évora) 

jU 10 b] — * — Cadei*no que contém roteiros dos pc 
Japão para a China, Philippinas, Malaca 

CXVI 

etc. (Manuscrit n.° — 7i — de la Bibliothí 

Évora). l ~ ó 9 

[U 10 b] — J. T. de Vellez Guerreiro — Jornada qu 
nio de Albuquerque Coelho, governador e 
general da cidade do nome de Deus de M 
China, fe\ de Goa até chegar á dita cidade 
de 1710, Lisboa, Officina da musica, 1732. 

[U 10 b] — * — Mostrador da parte da Costa N. d 
de Bombaim athé a de Baçaim, etc, , 1739 ( 



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246 , O INSTITUTO 



Happa das Prov.™ e Ilhas de Goa perten- 
o Domínio de Portugal, 1747? 

Abreu GorjÃo — Africa Oriental e índia, 
747- 

\breu GorjÃo — Africa, Bra\il, índia, Lix. a , 



ptista de Castro — Taboas geographicas de 
il, ij5o. 

larta geographica de que se serviu o ministro 
enciario de S. Magestade Fidelíssima para 
o Tratado de limites na America Meridional, 
io em i3 de janeiro de iy5o. 

nio Dias — Carta do estreito de Malaca 
.° Lao\ bocca do estreito até o Achem, jy52. 

nio Dias — Carta plana de todo o golfo da 
\té i bocca do Estreito de Malaca, Macau, 



nio Dias — Carta plana desde Linga estreito 
a e de Sonda enthe ilha do Príncipe, ij52? 

*io T. de Brito — Carta Topographica da 
Moçambique, etc, 1754. 

ntonio Alvares da Cunha — Planta Topo- 
1 da margem e Certão do Rio Coan^a do 
ie Angola, 1754. 

dnteiro de Carvalho — Carta geographica 
nncia de Tra\-os-Monte$, ijSS. 

ih Luiz Jacob— Planta da Praça de Mourão, 

•enferme des plantes de plusieurs fortifica- 



da Rocha — Cartas do pai\ dos Tourgouths 
leuthes. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 247 

Cest à lui que Amiot fait référence, en disant: 
«Les P. P. Spignha (?) et Rocha ont été chargés 
ces dernières années de faire des cartes du pays 
des Tourgouths et des Eleuthes jusqu'assez prés 
- de la mer Caspienne» (Mémoires sur les chinois, 
11, p. 5o8), et dans un autre paragraphe (Ibid., 
vi, p. 3 16) il dit que le P. Rocha a succèdé au 
P. Hallurstein à la présidence du tribunal des 
mathématiques (1774). 

Les cartes du pays des Eleuthes (Pekin, 1756) 
ont été rééditées en 1^64, à On-Tchang, aans 
la géographie intitulée: «Hoang thac tchoug wai 
i tong ni tow». 

[U 10 b] — F. Pinheiro da Cunha — Carta corographica do 
rio Douro desde São João da Fo\ até a carreira, 
i 7 5 7 ? 

[U 10 b] — * — Mappa da ilha do Maranham e das ilhas, 
enseadas e rios adjacentes, ijS^j. 

[U 10 b] — Pedro Gendron — Plaúta do Porto de Lisboa, e 
das Costas Visinhas, Paris, 1757. 

[U 10 b] — Gregório T. de Brito — Carta Topogi*aphica da 
Ilha de Moçambique, etc, 1758. 

[U 10 b] — Gregório T. de Brito — Carta Topographica de 
Sofala, ij58. 

[U 10 b] — # — Mappa Topographico da Costa de Concon 
desde Dabul até ao Pico Danum, 1762? 

(Continua). Rodolpho Guimarães. 



L 



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LIHERÀTURÀ. E BELLAS-AHTES 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 



A industria saoharina 



Gaspar Fructuoso, nas Saudades da Terra, ao tratar das 
ilhas de Porto-Santo, Madeira, Desertas e Selvagens, diz no 
capitulo XII que o infante D. Henrique, como administrador 
da ilha da Madeira, na qualidade de mestre da Ordem de 
Christo, a cuja jurisdicção a terra pertencia, mandou a Cecí- 
lia buscar cannas de assucar vara se plantarem na ilha, pela 
fama que tinha das muitas ribeiras e aguas que nella havia; 
e com ellas mandou vir mestres para temperamento de assu- 
car, se as cannas nella se dessem ; e esta planta trtultiplicou 
de maneira na terra, que é o assucar d ella o melhor que 
agora se sabe no mundo, o qual com o beneficio aue se lhe fa\ 
tem enriquecido muitos mercadoi*es forasteiros e boa parte dos 
moradores da tem* a. 

Mais adiante, no capitulo XXXIV, narra com muitos por- 
menores o presente que Simão Gonçalves da Gamara, capitão 
donatário da ilha, enviou ao Papa Leão X, numa espécie de 
embaixada, á testa da qual figurava, como orador, um João 
de Leiria. Entre os objectos destacavam-se muitos mimos e 
conservas da terra, sobresaindo o «Sacro Palácio todo feito 
de assucar, e os Cardeaes todos feitos de alfenin, dourados a 

E artes, o que lhes dava muita graça, e feitos de estatura de 
um homem». 

Sem de modo algum querer pôr em duvida a probidade 
histórica do dr. Gaspar Fructuoso, seja-me licito advertir 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 249 

que tanto uma como outra das suas asserções se baseiam 
apenas na sua palavra, não citando elle nenhum outro teste- 
munho abonatorio. A descripção da embaixada, em que Si- 
mão da Gamara parece ter querido rivalisar com o próprio 
D. Manuel, quando enviou a Roma Tristão da Cunha, é teita 
com tal minuciosidade, que dificilmente se acredita ter saido 
tão completa da pura phantasia do chronista insulano. 

Emquanto á cultura da canna na ilha da Madeira, é possí- 
vel que se realizasse nos termos por elle indicados e que no 
Archivo da Ordem de Christo existam documentos compro- 
vativos da ingerência dos sicilianos, expressamente vindos da 
sua terra para tal fim. Parece-me comtudo que seria supér- 
fluo lançar mão de semilhante expediente, quando no Algarve, 
em tempos de D. João I, e talvez ainda antes, já era conhe- 
cida a producção da canna sacharina. Uma carta de privilegio 
cTaquelle monarcha, passada em Lisboa a 16 de janeiro de 
1442, coutava os terrenos da quarteira, punindo com diversas 
penas a quem por qualquer modo prejudicasse o plantio e 
cultura da canna do assucar, que alli tinha mice Joham da 
Palma, mercador genovês, nosso servidor das nossas cannas 
do assucar que no reyno do Algarve tynha mestre Joham. 
Esta ultima clausula e importante, pois demonstra que João 
da Palma havia encontrado um antecessor no seu officio. 

Silva Lopes (João Baptista da) na sua Corographia do 
Algarve, impressa em Lisboa em 1841, já menciona este 
facto, sem todavia acrescentar mais nenhuma circumstancia 
ou documento, por onde se fique sabendo de que modo e 
até quando se desenvolveu e prosperou a cultura sacharina 
naquella província. Intende porém que não seria de grande 
utilidade introduzil-a novamente, pela falta de lenha e de 
braços para a sua manipulação. Em seu logar recommenda 
a extracção do assucar de outros vegetaes, citando o medro- 
nho, a castanha pilada e o figo. 

Havendo já a cultura da canna no Algarve não me parece 

3ue o infante D. Henrique tivesse necessidade de a importar 
a Sicilia e com ella os respectivos operários e manipuladores. 
Admittindo ou não esta origem, qualquer que fosse o re- 
curso de que lançasse mão, o que é certo é que elle iniciou 
na Madeira o plantio da canna, onde attingiu extraordinário 
grau de prosperidade, tornando-se a ilha um dos centros 
mais notáveis d'esta producção. Durante os séculos xv e xvi 
floresceu ella quasi sem rival, mas os desastres e inclemên- 
cias de diversa natureza que pesaram sobre a terra, as molés- 
tias que danificaram a planta, os ataques e invasões dos 



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25o O INSTITUTO 

corsários e finalmente a concorrência que lhe fizeram outros 
paizes, foram a causa do abatimento e quasi total ruina de 
tão importante industria, que só ha pouco tempo começou 
a readquirir o seu antigo vigor. 

O dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, que editou a obra 
do dr. Gaspar Fructuoso, addicionou-lhe notas eruditas e 
circumstanciadas, algumas das quaes se podem considerar 
verdadeiras dissertações. Neste caso a que diz respeito á 
cultura do assucar na Madeira, cujas phases, mormente sob 
o ponto de vista económico, historia com proficiência, baseado 
em documentos extrahidos do Archivo do Município Fun- 
chalense. 

Entre elles destaca-se a ordenação de 21 de agosto de 1498, 
assijjnada em Saragoça por D. Manuel I, que se encontrava 
então em Hespanha por motivo do seu primeiro casamento. 
Esta circumstancia não o desviava de olhar pelos negócios 
do seu reino, vendo-se a singular attenção que lhe merecia 
o commercio do assucar na ilha da Madeira, que atravessava 
então um período de crise pelo excesso de producção e pela 
baixa de preço nos mercados europeus. Para obviar a esta 
precária situação, D. Manuel, além de outras providencias, 
determinou fixar a quantidade de assucar que deveria ser 
exportada todos os annos, a fim de evitar o manejo dos im- 
portadores que obtinham, pela abundância e concorrência do 
género, a sua depreciação. Esta medida, apesar do seu in- 
contestável alcance, não deu o resultado que se previa, e novas 
e suecessivas providencias a vieram modificar e regulamen- 
tar. Ha nella um ponto especial, que bem nos demonstra o 
grau elevado a que subira a cultura e o preparo do assucar 
madeirense e qual o destino que se lhe dava com rumo a 
diversas partes da Europa. 

A exportação não excederia 120:000 arrobas, repartida 
por este modo: Flandres, quarenta mil arrobas; Inglaterra, 
sete mil; Ruão, seis mil; Rochella, duas mil; Bretanha, mil; 
Aguas Mortas, seis mil; Génova, treze mil; Porto-Liome, 
seis mil; Roma, duas mil; Veneza, quinze mil; Xio e Cons- 
tantinopla, quinze mil. 

Á sua parte, d'essas cento e vinte mil arrobas, el-rei to- 
mava quarenta mil, que se encarregava de distribuir por esta 
guisa: Flandres, vinte mil; Veneza, quinze mil; Roma, duas 
mil ; Inglaterra, três mil. 

Para Portugal viriam directamente sete mil arrobas, po- 
dendo todavia, augmentar-se esta somma, com a clausula 
porém de que o carregamento só seria efíectuado em navios 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 25 1 

nacionaes, podendo depois d'aqui ser transferido por terra 
para os reinos de Castella (1). 

Afastando-nos por um pouco da linguagem positiva 
vezes, fastidiosa dos historiadores e documentos, levan 
a vista ás regiões da poesia e substituamos os algai 
pelos números harmoniosos dos versos. 

Manuel Thomaz, que floresceu na primeira metade do 
xvn e cuja biographia, ainda tão obscura, está requerend 
diligente investigação (2), publicou diversos poemas, er 
quaes a Insulana (Anvers, i635) que passa por uma da 
melhores composições. É em oitava rima e em dez livi 

No 5.° ha um vaticínio, em que faz referencia á culti 
canna de assucar na ilha da Madeira, cuja iniciativa ai 
ao infante D. Henrique, que para este effeito mandán 
planta e os competentes operários da Sicília, no qu< 
conforme com a opinião do dr. Gaspar Frutuoso. A 
centa a curiosa particularidade que o primeiro plan 
effectuára no campo do Duque, depois denominado de 
bastião, por se ter alli erigido um templo a este martj 

No livro X, volta-se a tratar da matéria, especificando-s 
receita deveras original, o emprego de um pé de gallii 
com barro para branqueamento e purificação do assuc 

Transcrevo a seguir os dois trechos alludidos: 

114 

O generoso Infante que procura, 
Fazer a nova terra mais famosa 
Por cannas mandará pêra a cultura 
A ilha de Sicília venturosa, 
Cannas, que o riquo açuquar com doçura 
Darám, que sendo Ambrósia preciosa 
Será por ser no Mundo a mais prezada 
De Júpiter e Juno dezejada. 



(1) Vide Saudades da Terra, pag. 682 e seguintes. 

(2) Innocencio da Silva nada adeantou ao que escreveu 1 
Machado, e os dados que este apresenta, quer-me parecer que estí 
cendo de rectificação. A circumstancia de alguns dos seus livro: 
impressos em Anvers e Ruão faz-me suppôr que elle residiria no 
geiro, talvez por ser christao novo. Esta suspeita fundamenl 
algum modo na asserção de Miguel de Barrios na sua Relaciot 
poetas y Escritores espanoles de la Nacion judaica Amstelodam 
diz : «Jonas Abarbanef, irmão de Manuel Thomaz (que diz esc 
Phenix nas Terceras islãs j». Julgo que este irmão de Manuel " 
escapou ao conhecimento dos nossos bibliographos. 

(3) O pé de gallinha seria sem duvida um instrumento ou ap 
assim denominado. 



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232 O INSTITUTO 



n5 



antadas ham de ser, a vez primeira 
m o campo do Duque celebrado^ 
nde despois com gloria verdadeira 
irá Templo a hum Martyr levantado, 
que por ter a Vénus por solteira, 
Joue por hum torpe amancebado 
setteado em Roma com victoria 
orréo, por exaltar de Christo a gloria. 

116 

m engenhos de fabrica eminente 
ada qual, enredado labyrintho 
orno o que em Creta tíedalo prudente 
abricou com as glorias que nao pinto, 
eram, render o néctar excellente 
utenta mil arrobas só ao quinto, 
or quem concederam largas idades 
s Reis á Ilha, insignes liberdades. 



81 



Liv. V. 



o Açuquar, ou néctar na jactância, 
or comida de Joue saborosa 
era por agoas taes, mais abundância, 
ue a índia, que he por elle tão famoza ; 
melhor e mais puro, na substancia 
e toda Europa, Insigne e Poderosa, 
or quem crescendo irá de dia em dia 
a sustancia, no trato e mercansia. 

82 

era que branco fique, claro e puro, 
e huma galinha o pé com barro o toca, 
ue o secreto descobre mais seguro 
a purgação com barro lhe provoca ; 
egredo que em prudência, no futuro 
ivura poe, ao que por pranta ou soca, 
escobre feito, a singular belleza, 
om que mais se engrandesce na pureza. 

83 

arios engenhos, novos labyrinthos 
eram pêra o tal néctar fabricados, 

nos sítios da Terra, mais succintos, 
era proveitos grandes augmentados, 
irando os Reis, não dízimos, mas quintos, 
elas mercês e previlegios dados, 

ilha, aonde todo o mantimento 
ntrará livre e de direito izento. 

Liv. X. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 253 

Manuel Thomaz não foi o único a inspirar-se 
glorioso de Zarco, o descobrimento da ilha da Mac 
formosura, abundância e prosperidade, da Ocean f 
Flor do Oceano, como delicadamente a designa um ( 
inglez. 

Francisco de Paula Medina seguiu-lhe os passos, pu 
em Lisboa em 1806, um poema heróico, intitulado Za 
descobrimento da ilha da Madeira, em que celebra 
.do seu heroe e as belezas da pátria. 

Na oitava lxiii do canto 4. leem-se os seguintes 

Aqui florecerão em mata densa 
As doces cannas que o assucar gerão, 
E abundarão por certo em copia immensa 
Bem como nas Américas prosperão. 

No breve estudo aqui elaborado apresentarei algum 
sobre fabricantes e productores d'aquella ilha, de que 
investigador, atraz citado, não teve noticia, decerto 
haver encontrado vestígios a seu respeito no archivo 
lense. 

A cultura da canna fez-se, por assim dizer, por sue 
pontos de escala, passando da Madeira para S. 1 
para as costas africanas e por ultimo para o Braí 
encontrou as mais favoráveis condições. Para alli cl 
a emigrar famílias madeirenses que levaram comsig 
gredos de uma industria, de que tinham tão longa j 
em que eram tão peritos. O Brasil entoou denniti 
o seu canto de triumpho e ainda hoje é um dos m 
dos melhores productores do género, embora a cu 
café lhe tome a primasia. 

De diversas enronicas e escriptos de outra nati 
deduz facilmente quanto a cultura da canna se prop 
Brasil, convertendo-se num dos principaes recursos < 
novos moradores. Citarei apenas para comprovar e 
mação um trecho da interessante obra de Pêro de M 
Gandavo, publicada em Lisboa em 1676, sob o ti 
Historia aa provinda de Santa Cru\ f a que vul^ 
chamamos Brasil. No capitulo V, em que trata «das 
mantimentos e fruitos que ha nesta província», escr 

«Além das plantas que produzem de si estas f 
mantimentos que na terra se comem, ha outras d< 
moradores fazem suas fazendas, convém a saber 
canas de açucre, e algodoaes, que he a principal 



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O INSTITUTO 

as partes, de que todos se ajudam e fazem muito 
1 cada uma destas capitanias, especialmente na 
nbuco que sam feitos perto de trinta engenhos, 
do Salvador quasi outros tantos, donde se tira 
anno grande quantidade de açucares, e se dá 
>dam, e mais sem comparaçam que em nenhuma 

sião das festas, celebrando a entrada de Filippe I 

erigiram-se ás portas da Ribeira columnas e pe-, 

)bre um d'estes foi collocada a estatua do Brasil, 

a das mãos cannas de assucar. Adornava-a esta 



Brasília 

)sa ego nectarea cui dulces arundine succus 

Clauditur, & Cererem mitia ligna ferunt, 
ontibus exilium fueram, sed digna merentis, 

Nunc foueo (vt genitrix) diuitiisque beo. 
lec tu parua putes cordis monumenta fidelis, 

Quo nulla est superis victima grata magis. 

>s latinos acham-se traduzidos na mesma obra 
te forma: 

que produzo canas, que tem em si um licor muito doce 
n brando pau. Fui já desterro para os culpados, mas digno 
lerecedores de alguns bens. Agora os favoreço como mãe 
o. Não tenhaes em pouco os oferecimentos de um coração 
lum outro sacrifício é mais aceito. 

3ção d'estas festas pôde ver-se na obra de mestre 
erreiro: Das festas que se fizeram. . . Lisboa, i58i- 
ísta a ultima vez em que a poesia, em versos lati- 
ou as excellencias da canna do assucar. O jesuíta 
do Amaral consagrou-lhe um poema intitulado 
>*i opificio Cármen, que foi publicado em Roma, 
jntamente com outro de seu confrade José Rodri- 
illo, intitulado De rebus rusticis brasiliis. 
>nto de vista technico, postos de parte os adornos 
:m-se publicado diversos tratados, de que apon- 
s uns três, visto não me dar ao encargo de fazer 
)hia doesta especialidade. Eis os seus títulos: 
v hodo de fazer o assucar, etc, por Manuel Jacintho 
> e Mello. Bahia, 1816. 
ões sobre o commercio do assucar, e estado pre- 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 255 

sente d'esta industria em vários paizes, acompanhadas das 
instrucções praticas sobre a cultura aa camxa e fabrico dos 
seus productos. Bahia, Typographia do Correio Mercantil, 
1847, 8.° gr. de xvi-i5o pag. e uma de errata, por George 
Eduardo Fairbanks. 

Da utilidade da cultura do sorgho sacharino e da canna 
de assucar no centro e no sul do pài\ e do Algarve. Lisboa, 
i885, 8.° de 47 pag., por Luiz António Rebello da Silva. 

Todos estes trabalhos vem descriptos no Diccionario Bi- 
bliographico de Innocencio Francisco da Silva. 

Como se pôde verificar, o elemento extrangeiro teve uma 
parte importante na cultura da canna e no preparo do assu- 
car, preponderando todavia os italianos, sobretudo nos sécu- 
los xv e xvi. Na primeira metade do século xvn, os inglezes 
tinham o monopólio da refinação do assucar em Lisboa. Se 
os filhos de Itália cooperavam com o seu esforço e habilidade 
nesta industria, os mercados italianos eram um derivativo para 
esta producção, effectuando-se vendas importantes em Roma, 
em Veneza e em Milão, onde os nossos monarchas tinham 
encarregados, permanentes ou temporários, para tratar d'estes 
negócios. A nossa feitoria de Flandres, primeiramente em 
Bruges, depois em Anvers, era o principal foco do movi- 
mento mercantil, que os nossos reis mantinham com o resto 
da Europa. Numa quitação passada a Thomé Lopes, pelos 
oito annos que elle foi nosso feitor naquellas partes, de 1498 
a i5o5, vê-se que recebera noventa e uma mil duzentas e 
noventa arrobas e três libras de assucar (1). 

Darei em seguida uma resenha de diversos indivíduos, 
alguns dos quaes tem a sua actividade intimamente ligada 
á cultura e preparo do assucar, outros apenas ao seu com- 
mercio e fiscalização. Sou o primeiro a reconhecer a insufi- 
ciência d'estes dados e elementos, mas creio que sobre elles 
já se poderá erguer, em monumental edifício, a historia da 
industria sachanna no nosso paiz, historia, de que nos deve- 
mos por certo orgulhar, pois é a prova evidente de que bem 
soubemos comprehender e por egual desempenhar o honroso 
papel de nação colonisadora de primeira ordem. 

(Continua). Sousa Viterbo. 



(1) Veja-se Archivo Histórico Portuguef, vol. V, pag. 477. 



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256 O INSTITUTO 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 4, pag. 217) 



s voltemos ao novo e alto pensamento do poeta e veja- 
is principaes phases por que elle foi passando, até a 
ara o exilio. 
meçando pela celebre" canção 11 (1), ahi se encontram, 

o assumpto, importantes indicações, que é pena não 
icerem á ordem chronologica. 

como o poeta, nessa canção (v. 81— 15 1) falia do seu 

por aqueíla que 

Parece. . . que tinha forma humana, 
Mas scintillava espíritos divinos : 



81 Que género tão novo de tormento 

Teve Amor, sem que fosse, não somente 
Provado em mi, mas todo executado ? 
— Implacáveis durezas, que ao fervente 



É assim que a ella se refere W. Storck: «Naquella incomparável 
)..., que a edição de Hamburgo chama, com toda a razão, uni 

da natureza que retumbará no mundo, emquanto nelle houver 
falle ou entenda a lingua portuguesa, temos Iragmentos de uma 
ographia do poeta, esboçada a largos traços... Compenetrado e 
do perante o majestoso conjuncto das ideias, o fulgor da lingua- 
nascula e vigorosa, a riqueza da phraseologia, o cunho original 
juras, a ardência dos sentimentos; abalado pelo peso esmagador 
^ustia que palpita naquellas linhas, pela violência das saudades e 
ido amor pátrio que ellas eximiam, pela suecessão dos golpes 
rantes alli enumerados, ferindo sem piedade o desterrado, penso 
juella canção, rainha entre todas as canções de todos os poetas 
ores e posteriores a Camões, ou seus coevos, deve pertencer á 

viril do homem, retemperado pelos trabalhos do espirito, pelas 
is do coração e pelas experiências crudelissimas, mas ainda desdi- 
»or culpa própria e descarinho alheio». Vida de Camões, pag. i^g 

É por estes motivos que o illustre professor allemão suppõe a 
d 11 escripta durante o período indio (1554), abandonando assim 
lião, que anteriormente tinha seguido, de que «o sublime poema 

1 dos annos posteriores ao regresso da índia». 

oportunamente direi o que penso, quer sobre a data da composição 
sobre a intelligencia de alguns logares obscuros desta canção. ' 



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Camões e- a infanta t>. màría 267 

85 Desejo, que dá força ao pensamento, 

Tinham de seu propósito abalado 

E corrido de ver-se e injuriado : 

Aqui sombras phantasticas, trazidas 

De algumas temerárias esperanças : 
90 As bemaventur ancas, 

Também nellas pintadas e fingidas. — 

Mas a dor do desprego recebido. 

Que todo o phanta^iar desatinava, 

Estes enganos punha em desconcerto. 
95 Aqui o adivinhar e o ter por certo 

Que era verdade quanto adivinhava; 

E logo o desdizer -me, de corrido; 

Dar ás cousas que via outro sentido ; 

E para tudo, emfim, buscar razões. 
100 Mas eram muitas mais as semrazões ! 

Não sei como sabia estar roubando 

Cos raios as entranhas, que fugiam 

Para ella por os olhos, subtilmente. 

Pouco a pouco invisíveis me saíam, 
io5 Bem como do veu húmido exhalando 

Está o subtil humor o sol ardente. 

O gesto puro, emfim, e transparente, 

Para quem fica baixo e sem valia 

Este nome de bello e de formoso, 
1 10 O doce e piedoso 

Mover d'olhos, que as almas suspendia, 

Foram as hervas magicas, que o ceo 

Me fez beber, as quaes, por longos annos, 

Noutro ser me tiveram transformado, 
1 1 5 E tão contente de me ver trocado, 

Que as magoas enganava cos enganos, 

E diante dos olhos punha o veo, 

Que me encubrisse o mal que assi cresceo, 

Como quem com afagos se criava 
120 Daquella para quem crescendo estava. 

Pois quem pôde pintar a vida ausente, 

Com um descontentar-me quanto via, 

E aauelle estar tão longe donde estava, 

O fallar sem saber o que dizia, 
125 Andar sem ver por onde, e juntamente 
• Suspirar, sem saber que suspirava ? 

Pois quando aquelle mal me atormentava 

E aquella dor, que das Tartareas aguas 

Saío ao mundo, e mais que todas doe, 
i3o Que tantas vezes soe 

Duras iras tornar as (1) brandas magoas ? 

Agora, co furor da magoa irado, 

Querer e não querer deixar de amar, 

E mudar noutra parte, por vingança, 



(1) Substituo por as a lição usual em. 

VOL. 55.°,, N.° 5 — MAIO DE 1908. 



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258 O INSTITUTO 

i35 O desejo privado de esperança, 

Que tão mal se podia jà mudar ? 

Agora a saudade do passado, 

Tormento puro, doce e magoado, 

Que converter fazia estes furores 
140 Em magoadas lagrimas de amores? 

Que desculpas, comigo só, buscava 

Quando o suave amor me não soffria 

Culpa na cousa amada, e tão amada ! 

Eram emfim remédios que fingia 
145 O medo do tormento, que ensinava 

A vida a sustentar-se, de enganada. 

Nisto uma parte delia foi passada, 

Na qual, se tive algum contentamento, 

Breve, imperfeito, timido, indecente, 
1 5o Não toi senão semente 

De um comprido, amaríssimo tormento. 

Reproduzirei agora, tentando approximar-me da ordem 
chronologica, algumas das muitas poesias lyricas de Ca- 
mões (1), que servem, por assim dizer, ou de commentario, 
ou de complemento, a esta passagem de canção 1 1 . 

Embora o poeta, em composições posteriores, faça datar 
a sua paixão pela infanta, quer do dia em que lhe foi apre- 
sentado (canções Matida-me Amor que cante\ quer da occa- 
sião em que a viu na igreja (soneto 77), o que é certo é que 
o soneto i34 não é tão explicito a este respeito. O que nelle 
e no 3o3 se accentúa é a diíferença de estados, <jue então 
apparecia ao poeta como um obstáculo muito difficil de ven- 
cer, se não mesmo insuperável, parado seu novo pensamento. 

Basta reler os versos com que elle termina os dous so- 
netos, especialmente o segundo: 

Para remediar-me não ha hi modo ? 
Oh 1 Porque fez a natureza humana 
Entre os nascidos tanta differença ? 

Houve, portanto, um período de hesitações, em que o 

f>oeta, armando-se da ra\ão (2), chegou, num momento de 
ucidez, a formular esta pergunta: 

Eu que espero de um ser, que é mais que humano ? 

(Soneto 137). 



(1) Na edição que preparo da lyrica amorosa de Camões, procuro 
seleccionar e coordenar tudo o que se refere á infanta. 

(2) Relêa-se o soneto 36, já anteriormente transcripto. 



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CAMÓES E À INFANTA t). MARÍA 2^9 

Mas era tão difficil arrancar-lhe da alma a esperança de 
que podia vir a ser amado pela nobre e formosa senhora, 
que tão profundamente o havia impressionado! Oucamo-lo: 



Mote 

Se espero, sei que me engano ; 
Mas não sei desesperar. 



Glosa 

O meu pensamento altivo 
Me tem posto em tal extremo, 
Que, quando esperando vivo, 
O bem esperado temo, 
Muito mais que o mal esquivo ; 

Que, para crescer meu dano 
No gosto da confiança, 
Ordena o Amor tyrahno 
Que, na mais firme esperança, 
Se espero, sei que me engano. 

Deste novo sentimento 
Chega a tanto a -nova dor, 
Que se enlea o pensamento ! 
Ver que, no mór bem de amor, 
Se descobre o mór tormento ! 

Folgara de me enganar, 
Mas não é cousa possível, 
Pois, para sempre penar, 
Sei que espero o impossível. 
Mas não sei desesperar ! 

Foi também neste estado de espirito que o poeta 
além d'outros, o soneto 9: 

Tanto de meu estado me acho incerto, 

Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio 
Sem causa, juntamente choro e rio ; 
O mundo todo abarco e nada aperto. 

É tudo quanto sinto um desconcerto ; 

Da alma um fogo me sái, da vista um rio ; 
Agora espero, agora desconfio, 
Agora desvario, agora acerto. 

Estando em terra, chego ao ceo voando ; 
Numa hora acho mil annos, e é de geito 
Que, em mil annos, não possa achar uma h 



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2ÔO O INSTITUTO 

Se me pergunta alguém porque assi ando, 
Respondo que não sei : porém suspeito 
Que só porque vos vi, minha senhora. 

Nesta phase o poeta quasi que se contenta só com ver a 
infanta : 

Quando da bella vista e doce riso 

Tomando estão meus olhos mantimento, 

Tão enlevado sinto o pensamento, 

Que me faz ver na terra o paraíso. 
Tanto do bem humano estou diviso, 

Que qualquer outro bem julgo por vento. 

Assi que, em termo tal, segundo sento, 

Pouco vem a fazer quem perde o siso. 
Em louvar-vos, senhora, não me fundo, 

Porque, quem vossas graças claro sente, 

Sentirá que não pôde conhecê-las ; 
Pois de tanta estranheza sois ao mundo, 

Que não é de estranhar, dama excellente, 

Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas. 

(Soneto 17). 

Mas este estado de alma tendia necessariamente a modi- 
ficar-se : 

De amores de uma Ínclita donzella 

Ferido o mesmo deus de Amor se viu 

E preso emfim, por mais que resistiu ; 

. Que a tudo vence e rende a força delia. 

Jamais o mundo viu dama tão bella f 
Com ella a natureza repartiu 
A graça, com que ao mesmo Amor feriu, 
Laços, com quem não vale força ou cautella. 

Oh rara e nunca vista formosura, 
Formosura bastante a subjugar 
O mesmo deus de Amor, tão soberano ! 

Olhai se poderá de um fraco humano 
A força, a força tal muito durar, 
Quando a forca de Amor tão pouco dura 1 

(Soneto 3o8). 

Lá dizem também as redondilhas á tenção de Mira- 
guarda (1): 



(1) Allusão a uma passagem do Palmeirim de Inglaterra, que a in- 
fanta muito bem conhecia. No capitulo 53 diz-se que á entrada do cas- 
tello da formosa Miraguarda estava um escudo de mármore e nelle em 
campo uma imagem de mulher, que tinha no regaço umas lettras brancas, 

3ue diziam : Miraguarda, nome que parecia querer significar que a senhora 
o castelto era muito pêra ver e muito mais pêra se guardarem delia. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 26 1 

Ver e mais guardar 
De ver outro dia, 
Quem o acabaria? 

Voltas 

Da lindeza vossa, 
Dama, cjuem a vê 
Impossível é 
Que guardar-se possa. 
Se faz tanta mossa 
Ver-vos um só dia, 
Quem se guardaria ? 

Melhor deve ser, 
Neste aventurar, 
Ver e não guardar, 
Que guardar de ( 1 ) ver. 
Ver e defender 
Muito bom seria ; 
Mas quem poderia ? 

E por isso que o desejo prevaleceu sobre 

Mote 

No meu peito o meu desejo 
Da razão se fez tyranno ; 
Vejo nelle certo dano, 
Incerto remédio vejo. 

Voltas 

Para de todo defender-me, 
Este mal por passar tinha : 
Ir eu contra a razão minha, 
Que morre por defender-me. 

Da parte de meu desejo 
Me passo, para meu dano. 
Vejo que nisto me engano, 
Mas nenhum remédio vejo. 

O poeta confessava a inutilidade da sua a 

Senhora, quem a tanto se atreve, 

Que consente em servir vossa leíhbi 
Sabendo que a tem sem esperança, 
Não pouco é que por isso se lhe *de> 



(1) Lição usual: e. 



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O INSTITUTO 

Mais cala esta minha alma do que escreve, 

Sem esperar que seu mal faça mudança, 

Não querendo outra bemaventurança 

Maior, do que o amor com que vos serve. 
Que esperar grandes casos da ventura 

É offender vosso merecimento ; 

Com esse pagareis meu tormento. 
Tenho por impossível sua cura, 

E inda ficará meu pensamento 

Devendo sempre a vossa formosura. 

(Soneto 304) (1). 

fa, porisso, firmemente resolvido a esconder lá bem no 
o segredo do seu coração : 

Mote (alheio) 

De dentro téngo mi mal, 
Que de ruera no hay serial. 

Volta 

Mi nueva y dulce querella 

Es invisible á la gente. 

El alma sola la siente. 

Que el cuerpo no es dino delia. 

Como la viva centella 

Se encubre en el pedernal, 

De dentro tengo mi mal. » 

Mote (alheio) 

A dor que a minha alma sente, 
Não na sabe toda a gente. 

Voltas 

Que estranho caso de amor ! 
Que desejado tormento ! 
Que venho a ser avarento 
Das dores de minha dôr ! 
Por me não tratar peor, 
Se se sabe, ou se se sente, 
Não na digo a toda a gente. 



► texto deste soneto está bastante alterado. Reproduzo as cor- 
propostas por W. Storck para algumas passagens. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 2Ô3 

Minha dor e causa delia 

De ninguém ouso fiar, 

Que seria aventurar 

A perder-me ou a perdê-la. 

E pois só com padecê-la 

A minha alma está contente, 

Não quero que a saiba a gente. 

Ande no peito escondida, 
Dentro na alma sepultada ; 
De mi só seja chorada, 
De ninguém seja sentida. 
Ou me mate, ou me dê vida, 
Ou viva triste ou contente, 
Não na saiba toda a gente. 

Mote (alheio) 

Parai que me dan tormento, 
Aprovechando tan poço ? 
Perdido, mas no tan loco, 
Que descubra lo que siento. 

Voltas 

Tiempo perdido es aquel 
Que se passa en darme afan ; 
Pues, cuanto más me lo dan, 
Tanto menos siento dél. 

Que descubra lo que siento ? 
No lo haré, que no es tan poço ; 
Que no puede ser tan loco, 
Quien tiene tal pensamiento. 

Sepan que me manda Amor 
Que de tan dulce querella 
A nadie dé parte delia, 
Porque la sienta mayor. 

Es tan dulce mi tormento, 
Que aun se me antoia poço ; 
Y, si es mucho, queao loco 
De gusto de lo que siento. 

Datam, a meu ver, deste idyllio in partibus, além d'< 
as seguintes poesias: 

Eu cantarei de Amor tão docemente, 

Por uns termos em si tão concertados, 
Que dous mil accidentes namorados 
Faça sentir ao peito que o não sente. 



i 

i 

L 



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264 . O INSTITUTO 

Farei que Amor a todos avivente, 
Pintando mil segredos delicados, 
Brandas iras, suspiros magoados, 
Temerosa ousadia e vida ausente. 

'ambem, senhora, do despe/o honesto 
De vossa vista branda e rigorosa 
Contentar-me-hei dizendo a menor parte. 

'orem, para cantar de vosso gesto 
A composição alta e milagrosa, 
Aqui falta saber, ingenho e arte. 

(Soneto 2) (1). 

Transforma-se o amador na cousa amada, 
Por virtude do muito imaginar ; 
Não tenho logo mais que desejar, 
Pois em mim tenho a parte desejada. 

>e nella está minha alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar ? 
Em si somente pôde descansar, 
Pois com elle tal alma está liada. 

ias esta linda e pura semidea, 

Que, como o accidente em seu sujeito, 
Assi co a alma minha se conforma, 

£stá no pensamento como idea, 

E o vivo e puro amor de que sou feito, 
Gemo a matéria simples, busca a forma. 

(Soneto 10). 

ulga-me a gente toda por perdido, 

Vendo-me, tão entregue a meu cuidado, 
Andar sempre dos homens apartado, 
E de humanos commercios esquecido. 

ilas eu, que tenho o mundo conhecido, 
E quasi que sobre elle ando dobrado, 
Tenho por baixo, rústico e enganado, 
Quem não é com meu mal engrandecido. 

/á revolvendo a terra, o mar e o vento, 
Honras busque e riquezas a outra gente, 
Vencendo ferro, fogo, frio e Calma ; 

Jue eu, por amor, somente me contento 
De trazer esculpido eternamente 
Vosso formoso gesto dentro da alma. 

(Soneto 1 5 1 ). 

Zríou a natureza damas bellas, 

Que foram de altos plectros celebradas ; 
Delias tomou as partes mais prezadas 
E a vós, senhora, fez do melhor delias. 



irso 4 accrescentei o pronome o. No verso 8 creio que o 
eu, não pena, mas vida. Cf. a canção n, verso 121, e o so- 
2 se segue ao immediato a este. No verso 9 leio despejo e 
>. Cf. o soneto 78, já transcripto. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MA 

Elias, diante de vós, são as estrellas. 
Que ficam com vos ver logo ecli 
Mas se ellas têm por sol essas r< 
Luzes de sol maior, felices delias 

Em perfeição, em graça e gentileza, 
Por um modo entre os numanos 
A todo o bello excede essa belle 

Oh ! Quem tivera partes de divino, 
Para vos merecer ! Mas se purez 
De amor vai ante vós, de vós soi 

(S 

Mote 

Tal estoi, despues que os vi, 
Que de mi propio cuidado 
Estoi tan enamorado, 
Como Narciso de si. 



Voltas 

Una scfla deferência 
Hallo neste amor altivo : 
Que el mu rio de su presencia ( 
Mas yo con la vuestra vivo. 

En el punto que yo os vi, 
Se realço mi cuiaado 
De modo que enamorado, 
Por vos, me quede de mi. 

Nacieron de un amor dos, 
Cupido fue el tercero, 
Que haze que bien me quiero, 
Solo porque os quiero a vos. 

Los estremos que en vos vi • 
Me han traído a tal estado, 
Que me veo enamorado 
De amor de vos y de mi. 

Mas esta situação não podia prolongar- 



( i ) No texto corrente lê-se : 

Que el murio con preferenc 

Mas não sei bem o que isto significa. O que 
quis alludir ao ter Narciso morrido de paixão 
plando a sua própria imagem na agua de uma f< 



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2Ô6 O INSTITUTO 

O poeta, enamorado como estava, começou a impacientar-se, 
porque a infanta o não percebia: 

Mote (alheio) 

Se a alma ver-sc não pôde 
Onde pensamentos ferem, 
Que farei para me crerem ? 

Voltas 

Se na alma uma só ferida 

Faz na vida mil sinais, 

Tanto se descobre mais, 

Quanto émais escondida. 

Se esta dor tão conhecida 

Me não vêem, porque não querem, 

Que farei para me crerem ? 

Se se pudesse bem ver 
Quanto calo e quanto sento, 
Depois de tanto tormento 
Cuidaria alegre ser. 
Mas, se não me querem crer 
Olhos, que tão mal me ferem, 
Que farei para me crerem ? 

o poeta não se atreveria a fazer directamente 
o de amor á infanta. Era um passo por demais 
;ar da disposição de espirito em que elle se 
|ue tão bem descripta se acha na canção 1 1 : 

Lqui o adivinhar e o ter por certo 
Jue era verdade quanto adivinhava ; 



)ar ás cousas que via outro sentido. 

re as poesias de Gamões, algumas que pode- 
m ter sido escriptas para serem recitadas na 
ustre senhora e em que não seria difficil desco- 
ção reservada, 
r exemplo, estas redondilhas : 

Cantiga alheia 

Pastora da serra, 
Da serra da Estrella, 
Perco-me por ella ! 



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*TA D. MARIA 267 



Voltas 

Nos seus olhos bellos 
Tanto Amor se atreve, 
Que abrasa entre a neve 
Quantos ousam vê-los. 
Não solta os cabellos 
Aurora mais bella. 
Perco- me por ellal 

Não teve esta serra, 
No meio da altura, 
Mais que a formosura, 
Que nella se encerra. 
Bem ceo fica a terra, 
Que tem tal estrella. 
Perco-me por ella ! 

Sendo entre pastores 
Causa de mil males, 
Não se ouvem nos vales 
Senão seus louvores. 
Eu só, por amores, 
Não sei fallar nella : 
Sei morrer por ella ! 

De alguns que, sentindo 
Seu mal vão mostrando, 
Se ri, não cuidando 
Que inda paga, rindo. 
Eu, triste, encobrindo 
Só meus males delia, 
Perco-me por ella ! 

Se flores deseja 
Por ventura, bellas, 
Das que colhe — delias 
Mil morrem de inveja. 
Não ha quem não veja 
Todo o melhor nella. 
Perco-me por ella ! 

Se na agua corrente 
Seus olhos inclina, 
Faz a luz divina 
Parar a corrente. 
Tal se vê, que sente 
Por ver-se a agua nella. 
Perco-me por ella ! 



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268 



O ÍNSTITTJTO 



Note-se também como elle insinua que, par$ o amor, não 
ha difíerenças sociaes, por maiores que pareçam : 

Mote 

Descalça vai pela neve : 
Assi faz quem Amor serve. 

Voltas 

Os privilégios que os reis 
Não podem dar, pôde Amor, 
Que faz qualquer amador 
Livre das humanas leis. 
Mortes e guerras cruéis, 
Ferro, frio, fogo e neve, 
Tudo soflre quem o serve. 

Moça formosa despreza 
Todo o frio e toda a dôr. 
Olhai quanto pôde Amor, 
Mais que a própria natureza ! 
Medo nem delicadeza 
Lhe impede que passe a neve. 
Assi faz quem Amor serve. 

Por mais trabalhos que leve, 
A tudo se offreceria. 
Passa pela neve fria, 
Mais alva que a própria neve ; 
Com todo frio se atreve. 
Vede em que fogo ferve 
O triste que Amor serve ! 

É também este o thema do Auto de Filodemo, que o poeta 
naturalmente leu ou tencionava ler no paço de Santa Liara. 

Eis como principia o argumento: «Um fidalgo português, 
que acaso andava nos reinos de Dinamarca, como, por largos 
amores e maiores serviços, tivesse alcançado o ajnor de uma 
filha de el-rei, foi-lhe necessário fugir com ella em uma gale, 
porquanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo 
chegados á costa de Espanha, onde elle era senhor de grande 
património, armou-se-lhe grande tormenta, que, sem nenhum 
remédio, dando a galé á costa, se perderam todos miseravel- 
mente, senão a princeza, que em uma tábua foi á praia : a 
qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de uma 
fonte pariu duas creanças, macho e fêmea; e não tardou 
muito que um bom pastor castelhano, que naquellas partes 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe 
a tempo que a mãe já tinha expirado. Crescidas, eu 
creanças debaixo da humanidade e criação daquell 
o macho que Filodemo se chamou, á vontade de 
baptizara, levado da natural inclinação, deixando c 
se foi para a cidade, aonde, por musico e discrei 
muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu pae, 
muitos annos serviu, sem saber o parentesco que enti 
havia. E, como de seu pai não tivesse herdado m 
que os altos espíritos, namorou-se de Dionysa, filh; 
senhor e tio, que, incitada ao que por suas obras 
partes merecia, ou porque ellas nada engeitam, lhe 
ria mal». 

Vejamos agora o que, no acto I, diz Filodemo, ap 
por Dionysa, a filha de seu amo: 

SGENA I 

Filodemo, só. 

Triste do que vive amando, 
Sem ter outro mantimento 
Que estar só phantasiando I 
Só ua cousa me desculpa 
Deste cuidado que sigo : 
Ser de tamanho perigo, 
Que cuido que a mesma culpa 
Me fica sendo castigo. 



Ora bem, minha ousadia, 
Sem asas, pouco segura : 
Quem vos deu tanta valia, 
Que subais a phantasia 
Onde não sobe a ventura ? 
Por ventura eu não nasci 
No mato, sem mais valer, 
Que o gado ao pasto trazer ? 
Pois donde me veio a mi 
Saber-me tão bem perder ? 
Euj nascido entre pastores, 
Fui trazido dos curraes 
E dentre meus naturaes 
Para casa dos senhores, 
Donde vim a valer mais. 
E agora logo tão cedo 
Quis mostrar a condição 
De rústico e de villão ! 
Dando-me ventura o dedo, 
Lhe quero tomar a mão ! .* . 



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27O' O INSTITUTO 

Mas oh! que isto não é assi, 
Nem são villãos meus cuidados 
Como eu delles intendi ; 
Mas antes, de sublimados, 
Os não posso crer de mi. 
Porque, como hei eu de crer 
Que me faça minha estrella 
Tão alta pena soffrer, 
Que somente pola ter 
Mereço a gloria delia ? 

SCENA II 

FlLODEMO, SÓ. 

Ah 1 senhora, que podeis 
Ser remédio do que peno 1 
Quão mal ora cuidareis 
Que viveis e que cabeis 
Num coração tão pequeno! 
Se vos fosse apresentado 
Este tormento em que vivo, 
Creríeis que foi ousado 
Este vosso — de criado — 
Tomar-se vosso captivo ? 

SCENA IV 

Filodemo, cantando. 

Adó sube el pensamiento, 
Seria una gloria imensa, 
Si allá fuese quien lo piensa. 

Falia. 

Qual espirito divino 

Me fará a mi sabedor 

Deste meu mal : — se é amor, 

Se, por dita, desatino ? 

Se é amor, diga-me qual 

Pôde ser seu fundamento, 

Ou qual é seu natural, 

Ou porque empregou tão mal 

Um tão alto pensamento ? 

Se é doudice, como, em tudo, 

A vida me abrasa e queima ? 

Ou quem viu num peito rudo 

Desatino tão sisudo, 

Que toma tão doce teima ? 

Ah ! senhora Dionysa, 

Onde a natureza humana 

Se mostrou tão soberana ! 

O que vós valeis me avisa, 

Mas o que eu peno, me engana 1 



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CAMÕES E Â INFANTA D. MARIA 27 1 

Lêa-se também no acto II, scena 2. 4 , o dialogo entre Filo- 
demo e Duriano. 

Filodemo... Já vos dei conta da pouca que tenho com 
toda a outra cousa que não é servir a senhora Dionysa; e 
jposto que a desigualdade dos estados o não consinta, eu 
não pretendo delia mais que o não pretender delia nada, 
porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este 
meu amor é como a ave phenix, que de si só nasce, e não 
de outro nenhum interesse. 

Duriano. Bem praticado está isso, mas dias ha que eu não 
creio em sonhos. 

Filodemo. Porque? 

Duriano. Eu vo-lo direi: porque todos vós outros, os que 
amais pela passiva, dizeis que o amador, fino como o melão, 
não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e virá logo 
o vosso Petrarca e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos 
Platões, mais çafado que as luvas de um pagem de arte, 
mostrando razões verisimeis e apparentes, para não querer- 
des mais de vossa dama que vê-la, e, ao mais, até fallar com 
ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores de amor 
mais especulativos, que defenderão a justa, por não empre- 
nhar o desejo; e eu (faço vos voto solemne), se a qualquer 
destes lhe entregassem sua dama, tosada e apparelhada entre 
dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sobre pedra. E eu 
já de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser 
pela activa, e que ella ha de ser a paciente e eu agente, 
porque esta é a verdade. Mas comtudo vá vossa mercê co a 
historia por deante. 

Filodemo. Vou, porque vos confesso que neste caso ha 
muita duvida entre os doctores. Assi que, vos conto que, 
estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou qua- 
renta legoas pelo sertão dentro de um pensamento, senão 
quando me tomou á traição Solina ; e, entre muitas palavras 
que tivemos, me descobriu que a senhora Dionysa se levan- 
tara da cama por me ouvir e que estivera pela greta da porta 
espreitando quasi hora e meia. 

Duriano. Cobras e tostões, sinal de terra. Pois ainda vos 
não fazia tanto avante. 

Filodemo. Finalmente, veio-me a descobrir que me não 
queria mal, que foi para mi o maior bem do mundo. . . 

«Duriano.. . Boas esperanças ao leme, que eu vos faço bom 
que, ás duas enxadadas, acheis agoa». 

Camões estava chegado á phase da audácia. 



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272 O INSTITUTO 

Eis como elle agora raciocina : 

Nunca em amor danou o atrevimento ; 
Favorece a fortuna a ousadia, 
Porque sempre a encolhida covardia 
De pedra serve ao livre pensamento. 

Quem se eleva ao sublime firmamento, 

A estrella nelle encontra, que lhe é guia ; 
Que o bem que encerra em si a phantasia, 
São umas illusões que leva o vento. 

Abrir-se devem passos a ventura; 

Sem si próprio ninguém será ditoso ; 
Os princípios somente a sorte os move. 

Atrever-se é valor e não loucura. 

Perderá, por covarde, o venturoso 
Que VOS vê, se os temores não remove. 

(Soneto i32). 

Mote (alheio) 
Tudo pôde uma afifei cão. 

Glosa 

Tem tal jurdição Amor, 
Na alma donde se aposenta 
E de que se faz sennor, 
Que a liberta e isenta 
De todo humano temor. 

É com mui justa razão, 
Como senhor soberano, 
Que amor não consente dano. 
E pois me soífre tenção, 
Gritarei por desengano : 
Tudo pôde uma affeição ! 

(Continua). Dr. José Maria Rodrigues. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Redacção e administração — Rua do Infante D. Augusl 



Propriedade e edição da Director 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto 



SCIENCIAS MORAES E Si 



NOMENCLATURA GEOGE 

Subsídios para a restauração da toponymia em 
(Gont. do n.° 5, pag. 234) 



Jaem, cidade de Espanha. (Lucena, 46*; 

Jaffanapatão, cidade da ilha de Ceilão. 

Japara, porto de mar na costa septer 
Java. 

Jaus ou Jáos, habitantes da ilha de Jav 

Jentssei, rio da Sibéria. 

Jcziré ou Djezlré, palavra árabe que 
tra na composição de nomes geográphico* 
Dje\iré, a ilha, chamam ainda hoje ao ter 
eido pelo nome de Mesopotâmia. Vid. Gi: s 

Jónio {mar), parte do Mediterrâneo qi 
a Itália, a Turquia e a Grécia. 

Jor (rio e cidade de), ao sul da peníns 
estranjeiros dizem Djohor. 

Jórgía, um dos Estados Unidos norte- 
lónia foi fundada em 1732 e recebeu o noj 
que então governava em Inglaterra. P01 

VOL. 55.°, N.° 6 — JUNHO DE 1908. 



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2 74 ° INSTITUTO 

com muita razão Jórgia, em vez da forma estranjeirada 
Geórgia. Este nome pertence propriamente a oytra região. 
Vid. Geórgia. Ha uma ilha no Atlântico, a W. da Terra do 
Fogo, e um estreito a W. do Canadá, com o nome de 
Jórgia. 

KL 

>shfma. Vid. Cangoxima. 

ntan. Vid. Calantão. 

is. Vid. Capa\. 

mata. Vid. Carimata. 

>atkos. Vid. Cárpathos. 

rtoum. Vid. Cartum. 

lg. Vid. Ouiam. 

tg-Níng. Vid. Nanquim. 

ig-Sl. Vid. Cansim. 

9lú. Vid. Ximo. 

-Tchéou ou Kwel-Tsehou. Vid. Quicheu. 

Igsberg ou KSnigsberg. Vid. Conisberga. 

0. Vid. Cocos. 

lodofan. Vid. Cordofão. 

\elr. Vid. Alcácer. 

(ta. Vid. Cuca. 

tatan. Vid. Cracatão. 



itorc, monte a E. da ilha de. Flores. Os portugueses 
ram-lhe Guno de Labatove. É também nome de um 
>róximo do monte e de um canal entre a ilha de Flo- 
l de Solor. 

rdes (ilhas dos\ no mar da China* meridional, a SE. 
cau. 

wiialra. Vid. Guaira. 
Jidia, ilha da Dinamarca no mar Báltico. 
garote (ilha de), uma das Canárias, 
d, palavra que em várias línguas do norte significa 
; entra na composição de muitos nomes geográphicos. 
\othldndia. 

^uedoc. Vid. Linguadoque. 

iche, cidade na costa occidental de Marrocos. Lara- 
corrupção do nome mourisco El-Araich, pelo qual a 
é conhecida dos estranjeiros. 



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NOMENCLATURA GEOGRAPHICA 27 

Larantuca, povoação, na parte oriental da ilha de Florei 
na Oceania. Nos mappas modernos, Larantoeka, que é form 
hollandêsa e se pronuncia como o nome português. 

Larec {ilha ae), no estreito de Ormuz, a E. da ilha d 
Quéixome. 

Lansanna, cidade da Suiça. 

Ledo (cabo), na costa occidental de África, designado er 
livros estranjeiros pelo nome de Sierra Leone. 

Lelda, cidade de Hollanda. 

Lema. Vid. Leme. 

Leme (ilhas do), no mar da China meridional, a SE. d 
Macau. 

Léquias (ilhas) e não ilhas de Lieu-kieu nem Riú-kiú. Liei 
kieu é a transcripção francesa do nome chinês, do qual der 
vou a forma portuguesa Léquias. Riú-kiá é o nome japonêi 
Os nomes Lieukieu e Riúkiú são ás vezes dados em pai 
ticular á ilha principal (Oquinavaxima\ ou collectivamente 
esta e ás que lhe ficam mais próximas. O mesmo fizeram c 
portugueses chamando Léquia a essa ilha principal. Tamber 
lhes chamaram ilhas do Léquio. 

Léquios, habitantes das ilhas Léquias. 

Leaeópetra, nome antigo de um promontório nas costí 
da Itália. O nome significa pedra branca. 

# Leaetras, cidade antiga da Beócia, onde Epaminonda 
alcançou uma victória célebre. Leuctres é forma francesa. 

Liampó ou Límpó. Vid. Nimpó. 

Lieu-kleu. Vid. Léquias. 

Ligor, porto na costa oriental da península de Malaca. 

LUla, cidade de França, capital do departamento do Nort< 
Em francês, Lille. 

Liinbargo, província da Bélgica. 

Lincólnia, cidade e condado de Inglaterra. Em inglê: 
Lincoln. 

Lineeopinga, cidade da Suécia. 

Llnga (ilha), a E. da ilha de Çamatra. O mesmo nom 
se dá collectivamente a algumas ilhas vizinhas. 

Lingnadóclos, habitantes do Linguadoque. 

Linguadoque ou Linguadoc, antiga província de Franç; 
Languedoc (langue d'oc) era a região onde se dizia oc pc 
oui (sim), como geralmente é sabido da história da litter; 
tura. Linguadoque parece a forma preferível e não é no\ 
em português. 

* Liorne, cidade de Itália. 

Lippa, rio e principado do império de Alemanha. 



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I76 O INSTITUTO 

Lípara ou Líparl, a principal das ilhas Lipárias, que d'ella 
houverarp o nome. 

LIpárias (ilhas), situadas a N. da Sicília. 

Loango (costa de), trecho da costa occidental de Africa, 
comprehendida entre o cabo de Lopo Gonçalves e o rio Zaire. 

Loch, palavra inglesa que significa lago e entra na com- 
posição de nomes geográphicos escoceses : Loch Lomond, etc. 

Lombok. Vid. Lumbó. 
, Lopo Gonçalves (cabo de), situado na costa occidental de 
Africa e considerado como limite entre a costa do Gabão, 
que do norte começa no rio dos Camarões, e a costa de 
Loangq. Os estranjeiros chamam-lhe cabo Lope\. 

Lorenos, habitantes da Lorena. 

* Lovalna, cidade da Bélgica. 

Lncípara (ilha). Vid. Lusápara. 

Luçoes, habitantes da ilha de Luçon. 

Lulsiana, um dos Estados UAidos da América do Norte. 

Lambo (ilha de), na Oceania,- archipélago da Malásia, a 
W. da ilha de Sumbava. 

Lusápara (ilha), entre as de Gamatra e Banca. Nos atlas 
modernos, Lncípara. 

Luxemburgueses, habitantes do Luxemburgo. 



Maeaçar, cidade a SW. da ilha de Celebes. Á ilha se deu 
também o mesmo nome de Maeaçar ou Macaca. O sr. Cân- 
dido de Figueiredo indica a leitura de Maeaçar. Nas D. de 
Couto (V, 1. VII, cap. II) encontro accentuado Macaçd, e 
Çialvão accentuou sempre do mesmo modo (Arte, $2 e seg.). 
E certo que nas Décadas se encontram errados os accentos 
de várias palavras, o que se explica em certos casos por 
lapsos de revisão, noutros talvez por deficiência de caracte- 
res typográphicos ; mas já outro tanto se não pôde dizer do 
livro de Galvão. 

Madeburgo, cidade da Prússia, banhada pelo rio Elba. 

Madura (ilha), a NE. de Jam 

Mainlándia, uma das ilhas Orcades, a N. da Escócia. 

Maísl (cabo ou ponta de), na costa septentrional da ilha de 
Cuba. 

Malabáriea (costa), o mesmo que costa do Malabar. 

Malaca (e não Malacca; península, cidade e estreito de), 
na Ásia, ao sul da península da Indò-China. 



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NpMENCLATURA GEOGRÁPHICA 277 

Malagueta (costa da), parte da costa occidental de Africa 
comprehendida entre os cabos de Monte e das Palmas. Tai 
bem.se lhe chama costa de Libéria. 

Maldivanos, os habitantes das ilhas Maldivas. (Or. com 
I, 89). 

Maléa (cabo), ao sul da Grécia. Tem-se dito erradamen 
Maleu. 

Malhorca^ uma das ilhas Baleares. 

Salinas, cidade da Bélgica. Em flamengo, Mechelen; e 
francês, Malines. Em português também lhe chamaram Aí 
chlinia e Mactilinia. 

Malucas (ilhas) ou ilhas de Maluco. Acerca do nome d'c 
tas ilhas diz Couto: cE posto que debaixo d'e$te archipélaj 
se comprehendam outras muitas ilhas, todavia quando se n 
meiam as de Maluco, não se entende mais que destas cin 
ilhas, por serem as senhoras e principaes de todas, e assi 
por excelléncia se chamam Moloc (que é o seu verdadei 
nome) e não Maluco, que é corrupto d'elle, cujo nome i 
sua língua própria quer dizer cabeça de cousa grande*. (1 
IV, 1. VII, cap. VIII). Foi de Moloc, talvez, que alguns tir 
ram o nome de Molucas; mas a designação mais consagrai 
e pelos melhores clássicos é ilhas Malucas ou ilhas de M 
luco. Um facto demonstra que a designação de Molucas n 
é intrusão moderna: é que a encontramos em livros mui 
antigos e tão auctorizados como o Ch\ conq. (I, 336, 337 
seg.), o que mais persuade que ella se filia no Moloc de q 
fala Couto. As cinco ilhas a que se refere Couto, cor 
aquellas que os portugueses especialmente comprehendia 
sob esta designação, eram as de Ternate, Tidore, Mout 
Maquiem e Machão, como se vê do log. cit. e também 
Barros (D. III, 1. V, cap. V). Estão situadas a W. da ilha < 
Halmaheira ou Oetlolo. 

Malucos, os habitantes das ilhas Malucas. (D. V, 1. V 
cap. II). 

Manado, cidade a NE. da ilha de Celebes. Em mappas ( 
tranjeiros, Menado. Ha uma ilha vizinha com o mesmo nonr 

Manar, nome de um golfo e de uma ilha a NW. de Ceilá 

Mançanares, rio que banha a cidade de Madrid. 

Mancha (mar da). Vid. Canal de Inglaterra. 

Manchúria, região da Ásia oriental. 

Mangalor, cidade do Indostão na costa do Malabar. E 
livros estranjeiros, Mangalore e Mangalur. 

Maquiem, uma das ilhas Malucas. Em livros estranjeirc 
Makjan, forma hollándêsa. Vid. Malucas. 



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278 O INSTITUTO 

Marca, nome de duas regiões da Itália: Marca de Ancona 
e Marca Trevisanà. A Marca de Ancona, província dos an- 
tigos Estados pontifícios, foi dividida, em duas: Marca de 
Ancona a N., Marca de Fermo a S. É a estas duas que se 
refere o nome, quando no plural {Marcas) designa região 
dos Estados pontifícios. — Marca é nome de anti^i provín- 
cia e dp várias povoações francesas. Em francês, Marche. 

Marches, designação francesa das Marcas de Itália. Vid. 
Marca. 

Marfim {costa do), entre o cabo das Palmas e o das Três 
Pontas, na África occidental. Á parte oriental cha/naram tam- 
bém costa dos Quaquaas. 

Marigalantc (ilha de), uma das pequenas An/ilhas. 

Mania, rio de França, affluente do Sena. Em francês 
Mame; em latim, Matrona, ce, ou Madema, i. 

Martaban. Vid. Martabão. 

Martabão (golfo de), na costa da Indò-Chin*. Também se 
encontra em antigos livros portugueses Martavão. 

Martinica (ilha), uma das pequenas Antilhas. Costuma-se 
fazer o accento tónico na penúltima syllaba. O nome não é 
de formação latina, como á primeira vista parece; se o fosse, 
deveria ter o accento na antepenúltima. Quando Colombo, 
na sua última viagem, a descobriu (i5 de junho de i5o2), os 
naturaes chamavam-lhe Malinina, ou Madxana, ou Manti- 
nino, e d'ahi veio por corrupção Martinica. 

Mascarenhas (ilhas de), grupo a E. de Moçambique. Os 
navegadores portugueses deram o nome de ilha do Masca- 
renhas á ilha da Reunião ou ilha Bourbon, que é a mais 
occidental do grupo. 

Masulipatão, cidade, porto de mar, no Indostão. 

Matanças, cidade, porto de mar, na costa de NE. da ilha 
de Cuba. 

Matão (ilha de), uma das Philippinas, a E. da ilha de Cebu. 
Em Matão perdeu a vida Fernão de Magalhães. 

Matapão (cabo de), ao sul da península da Moréa. 

Mazag&o, cidade da costa occidental de Marrocos, indi- 
cada em livros estranjeiros por Ma\agan. 

Medelliin, povoação espanhola na margem esquerda do 
Guadiana. 

Menado. Vid. Manado. 

Menorca (ilha), uma das Baleares. 

Merguim, porto na costa occidental da IndòChina. Em 
livros estranjeiros lê-se Mergui. 

Mesopotâmia. Vid. Gi\aira. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPH1CA 279 

Mesurado (cabo), na costa occidental de África. Tem-se 
dito erradamente Mesurade. 

Mezieres, cidade de França, capital do departamento das 
Ardennas. 

Mina (costa da), trecho da costa occidental de África com- 
prehendido entre o cabo das Três Pontas e o de S. Paulo. 

Mintarnas, antiga cidade do Lácio. 

Miseito, promontório da Campánia, na Itália. 

Moçandão (cabo de), na costa oriental da Arábia (estreito 
de Ormuz). Ha defronte uma ilha com o mesmo nome. Em 
livros estranjeiros, Masandam e Mesandym. 

Médena, cidade de Itália. 

MogostSo, região da Pérsia junto ao estreito de Ormuz. 
(D. II, 1. II, cap. II). Em livros estranjeiros, Moghistan. 

# Mogúncla, cidade de Alemanha. Costuma-se escrever 
erradamente Mayença, do francês Mayence. 

Molissa, província de Itália no antigo reino de Nápoles. 
Mombaça, cidade, porto de mar, na África oriental inglesa. 

# Moinpilhcr, nome por que d'antes os portugueses conhe- 
ciam a cidade francesa de Montpellier. Também alguns es- 
creveram Mompelier. 

Monserrate (ilha de), uma das pequenas Antilhas, a NW. 
da ilha de Guadalupe. 
Morante (ponta de), na costa oriental da ilha de Jamaica. 

# Mosa, rio que banha a França, a Bélgica e a Hollanda. 
Mosella, rio de França e de Alemanha. 

Montei, uma das ilhas Malucas. Em livros estranjeiros tem 
o nome de Motir. Vid. Malucas. 

Mouth, palavra inglesa que significa fo\, embocadura, e 
junta ao nome de um rio designa a povoação situada junto 
á foz d'esse rio. Como nós dizemos roç-Dão, Fo\ dç Douro, 
Fo^ de Arouce, os ingleses dizem Dartmouth, Exmouth, 
Tetgnmouth, etc, que é como se dissessem Fo\ do Dart, 
Fo\ do Ex, etc. Em Portsmouth, a palavra mouth não se 
liga a nome dfe rio, mas, por semelhança, ao nome de ura 
canal chamado Port-bridges-creek. 

Mnculo (enseada de), na costa occidental de África, a S. 
da foz do rio de Congo ou Zaire. Em livros estranjeiros cha- 
mam-lhe Moculla. 

Xunic, cidade capital da Baviera. 

Murzuque ou Murzuc, oásis na zona desértica da Tripo- 
litánia. 

lylas, nome de cabo e antiga cidade da Sicília. Alguns 
lhe teem chamado, á francesa, Myles. 



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i 



28o INSTITUTO 



IV 



Nagapatam. Vid. Negapatão. 

Nagasaqul ou Nangasaqui, cidade do Japão na ilha de 
Ximo ou Kiú-siú. 

Nagoia, cidade do Japão na ilha de Nipon. 

Nan, que no final de nome se traslada também jK>r Nam 
ou Não, é palavra chinesa que significa sul e entra na com- 
posição de nomes geográphicos : Nanquim, córlt do sul. 
Vid. Pe. 

Nanei, cidade de França. 

# Nanquim, cidade capital da província chinesa do mesmo 
nome. Em livros estranjeiros, Nankin. Mais geralmente ap- 
parece em livros estranjeiros a província desiguada com o 
nome de Kiang-Ning. Vid. Nan. 

Não {cabo de), na costa occidental de África. Em livros 
estranjeiros lê- se Noun e Nun. 

Narbona 9 cidade de França. 

Narcodão (ilha de), a NE. das ilhas de Andamão. Em 
livros estranjeiros lê-se Norcondam e Narcondam. 

Neear, rio de Alemanha, afflucnte do Rheno. Banha o 
reino de Vurtemberga. 

Neder, palavra hollandêsa que significa baixo e entra na 
composição de nomes geográpnicos. A própria Hollanda se 
chama oficialmente Nederlanden, isto é, países baixos, ou 
terras baixas. 

Negapatão, cidade porto de mar a SE. do Indostão. 

Negrais (cabo ou ponta de), na Indò-China británnica. 

Negrilho (ponta de), na costa occidental da ilha de Ja- 
maica. 

Neganibo, porto da ilha de Ceilão, a N. de Columbo. 

Nclra, uma das ilhas de Banda. Vid. Banda. 

Neves (ilha de), uma das pequenas Antilhas, próxima da 
ilha de S. Christovam. 

Nieobar (ilhas de), grupo a NW. da península de Malaca. 

Nleder, palavra alemã que significa haixo, inferior, e en- 
tra na composição de nomes geográphicos: Niederbayem, 
baixa Baviera ou Baviera inferior, d. Ober. 

Nijnii (masc), Nijniaia (fem.), Nijneié (neut.), palavra 
russa que significa baixo, inferior, e entra, em qualquer das 
suas formas, na composição de nomes geográphicos : Nijni- 
Novgorod, cidade da Rússia cujo nome significa, á letra. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA 28 1 

baixa nova cidade, em correlação com o nome de Terras 
baixas que outrora se dava á região onde a cidade existe. 

Nimpó, cidade e rio da China, perto dos quaes fundaram 
os portugueses, no século xvi, uma feitoria, que se tornou 
em povoação de importante actividade commercial. Nesse 
tempo diziam os portugueses Liampó e Limpo: *Nimpó, a 
que os nossos corruptamente chamam Liampó*. (D. III, 1. II, 
cap. VIL Peregrinação, cap. LXVI). 

Niphon. Vid. Nipon. 

Mpon (ilha de), a maior das ilhas do Japão. No século xvi 
e já em tempos posteriores escreviam os portugueses Niphon. 
Também lhe chamaram Hondo. 

Norcondam. Vid. Narcodão. 

Xoreopínga, cidade da Suécia. Em sueco, Norrkòping. 

Nordlingen. Vid. Norlinga. 

Norlinga, cidade da Baviera. 

* Nova- York, cidade dos Estados Unidos da América do 
Norte. 

Novyi (masc), Novata (fem.), Novoié (neut.), palavra russa 
que significa novo e entra, em qualquer das suas formas, na 
composição de nomes geográphicos: Novaia-Zemlia ou No- 
vaia-Zembia, Nova Zembla, isto é,. Terra Nova, grupo de 
duas ilhas russas no oceano glacial Árctico; Novaia-Lddoga, 
cidade vizinha do kigo Ládoga. 

Nano {rio de), na costa occidental de África. Os estran- 
jeiros chamam-lhe rio Nuneç. 

Nurhiiberga, cidade da Baviera. 



Obcr, palavra alemã que significa alto, superior, e entra 
na composição de nomes geográohicos : Oberbayern, alta Ba- 
viera ou Baviera superior. Cf. Nieder. 

Obi. Vid. Pulo UbL 

Ode, forma que predominou em português para a transcri- 
peão de uma palavra árabe cjue significa rio e entra na com- 
posição de nomes geográphicos: Odiana (vid. esta palavra), 
Odivellas, Odemira, Odiaxere, Odeleite, Odelouca, Odeceixe, 
Odearce, e não sei se mais algum em Portugal. Em caste- 
lhano prevaleceu a forma Quad para a transcripção da mesma 
palavra, e assim dizem Guadalquivir, Guadalaviar, Guada- 
lupe, Guadalete, etc. ; mas também la existe, se não me en- 
gano, a forma Ode, em Odiei (rio da província de Huelva), 



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282 O INSTITUTO 

e parece que em mais alguns nomes que agora não occor- 
rem. A mesma palavra árabe se transcreve também por Uad, 
Uadi e Ued, quando applicada aos nomes de certos rios do 
norte de África. Vid. Uad. 

Odiana, forma portuguesa do nome do rio geralmente co- 
nhecido por Guadiana. Odiana encontra-se nos In., I, 396 e 
em vários auctores clássicos. 

Oende. Vid. Flores. 

Olándla (ilha de), no mar Báltico, junto á costa da Sué- 
cia. Em sueco, Õland. Costuma-se representar o d alemão 
e escandinavo por oe; mas é forçar a consequência dar ao e 
valor distincto do o escrevendo e dizendo Oelandia. Cf. Gro- 
nelândia e Gothlándia. 

Oldemburgo, grão-ducado do império de Alemanha. 

Orão, cidade da Argélia. Em francês, Oran. O sr. C. de 
Figueiredo regista Ourão, que encontrou nas Décadas; mas 
a forma geralmente seguida pelos nossos antigos escriptores 
é Orão. 

órcadcs (ilhas), situadas a N. da Escócia. 

Orehilla ou Urchllla (ilha), uma das pequenas Antilhas, 
no grupo de sotavento. 

Orchómcno, antiga cidade da Beócia, onde Sylla venceu 
um general de Mithridates. 

Orleães, cidade de França. Orleães & forma portuguesa 
consagrada, que deve applicar-se at> nome da cidade fran- 
cesa e a todos os outros nomes próprios em que entra esse 
como componente. 

Orléans. Vid. Orleães. 

Oruba (ilha de), uma das pequenas Antilhas, no grupo de 
sotavento. 

Osaca, cidade do Japão, na ilha de Nipon. 

Ouida. Vid. São João Baptista de Ajuda. 

Ouro (rio do), na costa occidental de África. 



Paleacate, cidade, porto de mar, no Indostão. 

Palcnça, cidade de Espanha. Em castelhano, Palencia. 

Palikat. Vid. Paleacate. 

Palimbão, nome de região, cidade e porto de mar na ilha 
de Çamatra, defronte da ilha de Banca. Em livros estranjei- 
ros/ Palembang. 



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Ú 



NOMENCLATURA GEOGRAPHICA 2 

Palmeiras (ponta das), na costa do Indostão (golfo 
Bengala). Em livros estranjeiros lese Palmyras e Palmm 

Pam ou Paham (cidade e rio de), na costa oriental 
península de Malaca. Em livros estranjeiros lê-se Pahan 
Pekan. 

, Pantallária ou Pantelária, ilha italiana entre a Sicilia c 
África. E a antiga Cossyva ou Cossura. 

Papou (Grande e Pequeno), povoações da costa de Benii 
no golfo de Guiné. O Pequeno Papou pertence á Alemanl 
e o Grão Papou á França. Alguns dos nossos antigos tai 
bem escreveram Popó. (Roteiro, II, 67). 

Parles, rio e povoação na costa occidental da penínsi 
de Malaca. Nos mappas estranjeiros lê-se Perlis. 

Paropamiso, nome clássico, antigamente usado em Pon 
gal para indicar a cadeia de montanhas que em mappas rr 
demos vem com a designação de Indo Cuche (em franca 
Hindou Kouch). A uma cadeia mais occidental ainda h< 
se dá o nome de montes Paropamísadas. 

Pássaro (cabo), a SE. da Sicília. 

Patane (cabo e porto de), na costa oriental da penínsi 
de Malaca. 

Pater noster (ilhas de), ou de Pater nostres (Arte, 43 
grupo ao norte de Sumbava. 

Pe, palavra chinesa que significa norte e entra na comj 
sição de nomes geográphicos : Pequim, isto é, corte do nor 
Cí.Nan. 

Pegií, cidade capital do antigo reino do mesmo nome 
Indò-China. Das antigas tradições acerca do nome de Peq 
fala Couto (D. V, 1. V, cap. IX). Em alguns livros estranj 
ros lê-se Pegou. 

Pekan. Vid. Pam. 

* Pequim, cidade capital da China. 
Perplnhão ou Perptnham, cidade de França. 
Pescadores (ilhas dos), grupo a W. da ilha Formosa. 
Phillppevllla, cidade da Argélia. 

Philippos, cidade célebre da Macedónia. Philippos é forr 
legítima e tradicional na língua portuguesa. Vid. Pereira 
Figueiredo, Biblia, pref. ad Philippenses. Philippes é fort 
francesa. Em latim, Phílippi, orum. 

Plainonte, região de Itália. Piemonte é forma estranjeirac 

Plctavienses, os habitantes do Poitú. 

Plasença, cidade de Espanha. 

* Plateias, antiga cidade da Beócia. Alguns teem escrip 
erradamente Plateia. 



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284 O INSTITUTO 

Plimuth, cidade inglesa, porto de mar no canal de Ingla- 
terra. Em inglês Plimouth. Plimuth é como se lê em antigos 
auctores portugueses, e d'aqui se poderia tirar lição para ou- 
tros nomes de cidades que em inglês terminam em forma e 
pronúncia semelhante : Dartmoutn, Teignmouth, Exmouth, 
Weymouth, Portsmouth, etc. Vid. Moutn. 

Pompeia. Vid. Pompeios. 

Pompeios, antiga cidade de Itália, destruída por uma eru- 
pção do Vesúvio. Não se justifica a forma vulgar de Pompeia. 

Ponta de Gtalle, porto da ilha de Ceilão, ao sul de Co- 
lumbo. {Arte, 106; D. III, 1. I. cap. I). 

Popó {Grande e Pequeno). Vid. Papou. 

Porto de Cavai los ou Pdrto Cortez, cidade marítima da 
república de Honduras. 

Porto Desejado, na costa da república Argentina. 

Porto Ferraio, cidade da ilha de Elba. 

Porto-Mahon, cidade da ilha de Menorca, uma das Balea- 
res. Pimentel {Arte, 216) escreveu Porto Maun. O nome 
veio-lhe do seu fundador, o carthaginês Magão (em latim, 
Mago, -anis). 

Porto Príncipe ou Porto do Príncipe, cidade da ilha dç 
Cuba. 

Preparis. Vid. Properais. 

Properais ou Prepaís {ilhas), a N. das ilhas de Andamão. 
Em livros estranjeiros lê-se Preparis. 

Pude, ilha a E. da Madura, na Oceania. Ha próxima outra 
que se chama de Respude. Em mappas modernos não as en- 
contrei distinctamente indicadas ; representam no logar várias 
ilhas, e junto das duas maiores põem a designação de Sa- 
peedi. E forma hollandêsa, e em hollandês oe pronuncia-se w. 

Pulo, palavra malaia que significa ilha e que entra como 
componente dos nomes de muitas ilhas. 

Pulo Botam {ilha), a W. da península de Malaca. Em li- 
vros estranjeiros lê-se Buton. 

Pulo Camblm, ilha portuguesa a N. de Timor. Em livros 
estranjeiros e até em modernos livros portugueses lê-se erra- 
damente Kambing e Cambing. 

Pulo Capaz (ifíia), a E. da península de Malaca. 

Pulo Carimão (e não Karimon), ilhas, que da principal 
tiram o nome, ao norte de^Java. 

Pulo Ceclr do Mar (ilha), no mar da China meridional, a 
SE. da península da Indò-China. 

Pulo Ceclr da Terra {ilha), no mar da China meridional, 
a SE. da península da Indò-China. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPH1CA 285 



Pulo Condor (ilha), no mar da China i 
da Cochinchina. 

Pulo Laor {ilha), a E. da península de 1 
estranjeiros, Aor. 

Pulo PanjSo (ilha), no golfo de Sião, a \^ 
Em livros estranjeiros, Poulo Panjang e F 

Pulo Pêra (ilha), na entrada septentrio 
Malaca. 

Pulo Pinão (ilha), a W. da península 
livros estranjeiros, Pulu e Poulo Pinang. 

Pulo Timão (ilha), a É. da península 
livros estranjeiros, Tioman. 

Pulo Tingi (ilha), a E. da península de 

Pulo UM (ilha), á entrada do golfo d< 
Cochinchina. Em livros estranjeiros lê-se C 



Q 



Quanclm, província da China, a NW. < 
III, 1. II, cap. VII). 

Quaquaas. Vid. Marfim. 

Quedec. Vid. Szneeal. 

Quéixonie (ilha ae), a maior das ilha 
entrada do golfo pérsico. (D. II, 1. II, ca 
estranjeiros, Kichm e Towilah. 

Qulão on Quiam (em outras línguas trás] 
lavra chinesa cjue significa rio e entra na c 
mes geográphicos : lansequião (em livros t 
ou Iang-tse-Kiang), rio que vai desaguar 
oriental e ao qual se deu erradamente o n 
Seauião ou Chequião, nome de província, e 

Qulcheu, província da China a NW. 
livros estranjeiros, Koei-Tchéou ou KiveiA 

(Continua). Forti 



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SGIENGIAS PHYSICO-MATHEMÀTICAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Gont. do n.° 5, pag. 247) 

[U 10 b] — J. Silvério Carpinetti Lisbonense — Mappas das 
provindas de Portugal, etc. (1), Lisboa, 1762. 

[U 10 í] — J. E. M. S. — Mavpa da Provinda de Trados- 
Montes e Minho, 1702. 

[U 10 J] — J. Maria Cavagno — Carta Topographica da 
Raya desta Provinda do Minho que divide o Repto 
de Galliza, as Provindas de Tra%-os-Montes e Porto, 
etc, 1763. 

[U 106] — * — Parte do Mappa topographico 'do Repio de 
Portugal com a mesma escala aelle, tomando por 
base as villas de Abrantes e Villa Velha, etc, 1763. 

[U 10 b] — J. Baptista de Castro — Roteiro terrestre de Por- 
tugal, etc Coimbra, officina de L. Secco Ferreira, 
17Õ7; Lisboa, impressão de J. Nunes Esteves, 1823. 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira — Mappa que sè tirou de huma 
parte do Alemtejo, com a relação dos Fogos, e Lu- 
gares, que comprehende o dito Mappa, ij68. 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira — Planta da Costa desde Nella 
de Ovar até ao Porto, jj68? 



(1) Au nombre de sept. Ils sont oflerts au Comte de Oeiras. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 287 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira, Reynaldo Oudino e T. Mar- 
ques Pereira — Mappa que se (irou de huma parte 
das Lezírias situadas da frente a 
dra e Villa Franca entre o Tejo e 
1768. 

[U 10 b] — Guilherme Elsdem — Mappa e. 
Salvaterra e do seu circuito, Lisl 

[U 10 b] — # — Planta das Provindas e li 

[U 10 b] — António Tão — Planta de um 
da Africa que comprehende a c 
etc, 1769. 

U 10 b] — J. Manuel Lopes — Planta de h 
de Leste comprehendida entre a l 
do sul e 12 graus e S4 minutos á 

[U 10 b] — # — Carta topographica da P 
agoas, lenhas e sementes á Fal 
nova Oeiras, 176c. 

[U 10 b] — Custodio de Azevedo Rendo — 
de Macdo, 1772. 

[U 10 b] — # — Plano da Costa de Goa qi 
dim athe Amgediva, etc, Goa, 1 

[U 10 b] — » — Mappa da Costa do Reino 

[U ioí] — J. de Sande e Vasconcellos e J. 
Carta topographica dos salgados 
Occidental da cidade de Tavira < 
rinhas, etc, 1773. 

[U ioi] — J. Carlos Mardel — Carta top 
ras incultas Salgadas e Baldios d* 
Marim divididos os terrenos q\ 
Marinhas, etc, 1773? 

[U 10 b] — F. Xavier da Cruz Madeira — 
Uma, 1774. 



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288 O INSTITUTO 

b] — Fr. Luiz de S. José Castello Branco — Viagem 
que fez de Lisboa ao Rio de Janeiro em 1774, 117$* 

CXXVII 

(Manuscrit n.° de la Bibliothèque de Évora). 

b\ — J. Moraes Antas Machado — Projecto da cidade 
de Goa, 1775. 

b] — J. Gomes d' Alves — Mappa da enseada V.* da 
Povoa de Varzim, 177S. 

b] — J. de Sande e Vasconcellos — Carta topogra- 
phica dos baldios, e terras incultas do termo da 
Villa de Castella, etc, 1775. 

b] — J. de Sande e Vasconcellos — Carta topogra- 
phica das terras incultas salgadas e sapaes do termo 
da V.* de Santo António d Aranilha, 177S. 

b] — J. de Sande e Vasconcellos — Carta topogra- 
phica dos salgados e sapaes da parte orientai da 
cidade de Tavira, etc, 1775. 

b] — J. de Sande e Vasconcellos e J. Carlos Mardel— 
Carta tovographica das quatro léguas que jaçem 
entre Villa Nova de Portimão e Villa Nova de 
Monxique con o alinhamento dos caminhos que se 
devem abrir, etc, 1775. 

6] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado e Pedro Mi- 
gueis — Theatro ou caria geographica dos domínios 
de S. M. F. nos sei* toes de Angola e Benguella, 1776. 

b] — J. de Moraes Antas Machado e J. António 
Aguiar — Planta Icnograjica do sitio de Pangin, 
1776. 

b] — J. de Moraes Antas Machado — Projecto para a 
» nova cidade de Goa se erigir no sitio de Pangin, 
1776. 

b] — # — Plano do Rio Grande de S. Pedro, 1776* 

1777. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 289 

[U 10 b] — * — Carta geogi*aphica dos Estados de Goa, 
1776-1778. 

[U 10 b] — J. Monteiro Sallazar — Planta de toda a Costa 
da Europa, Mar Mediterrâneo athe Jerus Alem 
Costa d Africa athe o Cabo de Boa Esperança e do 
dito cabo para leste athe ao Cabo de Jasques e todo 
o Mar Roxo ou mar da Meca Ilha de S. Lourenço, 
etc, 1777. 

[U 10 b] — * — Carta corogt % aphica que comprehende a Capi- 
tania de S. Pedro, varte do Governo de Montevideo, 
Inclusa a Cidade a este Nome, 1777* 

[U 10 b] — J. A. Aguiar Sarmento — Projecto para a nova 
Cidade de Goa, 2777. 

[U 10 b] — Thomaz de Souza — Carta ou plano da capitania 
de Goya\, 1778. 

[U 10 b] — # — - O estado e cavitanias do Grão Pará e Rio 
Negro com as do Maranhão e Pianby, etc, 1778. 

[LJ 10 b] — I. Paulo Pereira e M. qe Souza Ramos — Mappa 
topographico da Barra, Rios e Esteriores da cidade 
de Aveiro com parte do Rio Vouga, etc, 1778. 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira e M. de Souza Ramos — Mappa 
topographico da Barra da Cidade de Aveiro que 
presentemente existe, e da Costa para o Norte athe 
o sitio da Torreira, etc, 1778. 

[U 10 b] — Carlos Julião — Elevasam e F asada que mostra 
em prospeto pela marinha a cidade do Salvador 
Bahia ae todos os Santos na America Meridional, 
etc, 1779. 

[U 10 b] — J. C. de Sá e Faria — Carta geral do Brasil, 
'779- 

[U 10 b] — J. Monteiro Sallazar — Mappa da Barra e Ryo 
da Cidade do Porto, etc São João da Foz, 1779*. 

[U 10 b] — # — Carta limítrofe do pai\ de Mato Grosso e 

VOL. 55.°, N.° G — JUNHO DE 1908. 2 



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tgO Ò INSTITUTO 

Cuyaba, desde a fo\ do Rio Mamore athe o lago 
Xarayes e seus adjacentes, 1780 a 1782. 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira — Carta da costa de Sines, 178 1. 

[U 10 b\ — F. Roíz d' Oliveira — Planta Topographica da 
Ilha e Fortaleza da Bei*lenga, 1781. 

[U 10 b] — J. A. Águia Pinto Sarmento — Mappa topogra- 
phico da Jurisdição da Praça de Damão, 1782. 

[U 10 b] — # — Planta Militar da Praça de Bixolim e Muros, 
1782. 

[U 10 b] — # — Mappa Topographico do Esteiro da cidade 
de Aveiro, 1782. 

[U 10 b] — F. Pinheiro da Cunha — Carta corographica do 
Rio Lima e suas correntes, etc Vianna, 1782. 

[U 10*] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado — Planta em 
que se nota o acampamento, configuração do terreno 
e porto, com o estado actual aa obra do novo forte 
de Cabinda, 1783. 



[U 10 b] — J. de Sande e Vasconcellos — Configuração coro- 
graphica debaixo dos preceitos de Geogravhia Mo- 
derna do Repto do Algarve, Tavira, 1780. 



[U 10 í] — * — Mappa topographico da Barra da Cidade 
de Aveiro, conforme se achava no dia 27 de setembro 
de 1783; na qual se vê a diferença que tem da figura 
que estava a 3i de maio de 1780, 1784? 

[U 10 b] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado — Mappa em 
que se representa o projecto para o forte que se 
achava levantado em Cabinda, etc, 1784. 

[U 1 o b] — M. Godinho de Mira — Planta da Prosa de Lorna, 
1784. 



[U 10 b] — L. C. Cordeiro — Plano e prospecto das terras 
djacentes ao Port 
fegro, etc, 1785. 



adjacentes ao Porto de Mossameaes na Angra do 



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LÉS MAIHIíMATIQIJIÍS EN PORTUGAL 2Ç)l 

[U 10 b] — L. C. Cordeiro — Plano do Porto e prospecto 
das tendas adjacentes á Andada da Lapa, etc, 
i 7 85. 

[U 10 b] — C. J. dos Reis e Gama — Demonstração dosprin- 
cipaes logares em que se acha a Fortaleza da Praça 
de Moçambique arruinada, etc, 1786. 

[U 10 b] — # — Carta reduzida da Costa de Portugal 
panha e Barbaria e huma piquena parte do E 
de Gibraltar, etc, 178?. 

{U 1 o b] — Manuel de Souza Ramos — Villa d' Alhandra, 

[U 10 b] — L. C. Cordeiro — Mappa de uma parte da 
Occidental de Africa, comprehendida entre a 
de S. Filippe de Benguella e a Andada das t 
1786. 

[U 10 b] — J. Simões de Carvalho — Carta do Rio B 

i 7 8 7 . 

[U 10 b] — J. A. Águia Pinto Sarmento — Planta do 
e monte de Pangin, 178. . . 

[U 10 b] — C. J. dos Reis e Gama — Plano da Ilha a 
çambique, 1788. 

[U 10 b] — M. Nascimento da Costa e J. Joaqutm Ribi 

Diário náutico, 1789, 1790, 1791, 1792. (Man 

os CXVI x CXVi . V __.... . x . c 

n. os à -- de la Bibliothèque de E 

2-24 2-28 ^ 

[U 10 b] — * — Carta Chorographica das Correntes c 
Douro e terrenos adjacentes desde o Rio Te 
athe S. João da Pesqueira, etc, 17. . . 

[U 10 £>] — Reynaldo Oudinot — Planta que demonstre 
tado da Barra do Douro em janeiro de 1 
configuração do Cabedello e do Banco em X 
ij8g, etc! 

[U 10 b] — J. M. de Medeyros — Mappa das sondas do 
de S. Pedro de Moei, 1789. 

* T 



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±9} O INSTITUTO 

[U io b] — # — Planta da Villa de Salvaterra de Magos, 
1789. 

[U 10 b] — Eusébio de Souza Soares — Planta geral do ter- 
reno próximo ao Rio Guadiana, etc, 1790? 

10 b] — Eusébio de Souza Soares — Planta da Praça de 
Jerumenha, e seus contornos, 1790. 

10 b] — Diogo C. da Motta — Carta da Costa do Go- 
verno de Sines, ijgo. 

10 b] — # — Planta da Tapada de Alcântara com ajigura 
do acampamento, intrincheiramento e ataque, 1790. 

10 b]— J. Gabriel Dechermont — Planta da Villa de 
Sines, 1790. 

10 b] — J. Gabriel Dechermont — Planta de Villa Nova 
de Milfontes, 1790. 

10 b] — F. António Cabral — Plano das Ilhas de Cabo 
Verde, 1790. 

10 b] — # — Mappa Geographico da Costa Occidental de 
Africa, etc, 1790. 



10 b] — L. H. da Cunha d'Eça — Mappa geographico 
comp * ~ 

1790. 



L. H. da Cunha d'Eca — Mappa geographico 
comprehendendo: Costa Occidental d 9 Africa, etc, 



10 b] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado — Carta geogra- 
phica da Costa Occidental d 9 Africa, etc, 1790 (1). 

10 b] — F. X. Pinheiro de Lacerda — Planta da Forta- 
leza de Nossa Senhora da >Na\areth e S. João da 
Lage, 1791 (?). 

10 b] — # — Plano da Cidade de S. Sebastião do Rio de 
Janeiro e parte principal do seu porto, 1791. 



(1) Cette carte a été gravée à Paris en 1825. 

• 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 2\ 

[U io b] — B. d' Aze vedo Coutinho — Mappa Geographico < 
Reyno do Algarve, etc, 1791. 

[U 10 b] — B. d' Azevedo Coutinho^ — Carta Hydrographi 
do Rio Guadiana, etc, 1791 ? 

[U 10 £] — Maximiano J. da Serra — Projecto da estrada . 
Me\ao Frio athe os Padroens da Teixeira, 17QI. 

[U 10 b] — # — Mappa das Caldeiras das Furnas na ilha 
S. Miguel, 1792. 

[U 10 b] — Joaquim d^liveira c J. M. da Silva — Map\ 
Topographico para servir ao delineamento da < 
trada desde Leiria athe Coimbra, etc, 1792. 

[U 10 b] — Maximiano J. da Serra — Planta dos delineameni 
das estradas do Alto Douro, da Villa de Bertian 
até o Pe\o da Regoa, 1792. 

[U 10 b] — # — Planta da cidade de Lamego, e seus an 
dores, I7g3. 

[U 10 b] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado — Mappa Tot 
graphico levantado em mdccxci para servir de ai 
neamento da estrada desde a serra de Rio-Mai 
athe Leiria, etc, 1793. 

[U 10 b] — Henrique Niemeyer — Planta do Rio Lena e su 
margens no sitio de Porto Moni\, etc, 1794. 

[U 10 b] — J. de Sande è Vasconcellos — Mappa topogi 
phico do sitio e Ribeira do Diachere em que se most 
a necessidade que nella ha de ponte para o trans 
de tropas, etc, 1794. 

[U 10 b] — J. de Sande e Vasconcellos — Mappa topogi 
phico da Ribeira e do sitio de Alcantarilha, et 

'794- 

[U 10 b] — J. de Sande e Vasconcellos — Mappa Hidrogí 
phico da Costa que forma a Enceada da Praça 
Lagos, etc, 1794. 



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294 • ° INSTITUTO 

[U 10 b] — Fimppe Nery da Silva — Planta das duas Barras 
formadas pela Insula de Caminha, 1794. 

[U 10. b] — J. de Sande e Vasconcellos — Mappa Hidrogra- 
phico da Costa do R. no do Algarve, I7g5. 

[U 10 b] — I. Paulo Pereira — Ligeira configuração da raia 
da provinda do Alemtejo, ijg5? 

[U 10 b] — L. C. Cordeiro Pinheiro Furtado — Carta Topo- 
graphica de huma parte da Provinda da Beira 
comprehendida entre Sovereira Formosa e Pena 
Macôr para servir as Manobras do nosso Exercito 
conforme o curso dos Rios, etc, 1796. 

[U 10 b] — J. Fernandes Portugal — Plano da Bahia de 
Todos os Santos, 1796. 

[U j o b] -— Joaquim d'Oliveira, H. Niemeyer e João Manuel— 
Mappa Topographico desde Rio-Maior até Coimbra 
para servir ao delineamento da Real Estrada, ijgô. 

[U 10 b] — L. Manuel de Serpa — Copia do Theatro Topo- 
gi~aphico da Fronteira do Reino na Provinda da 
Èetra, com a Raya de Hespanha entre Salvatetra 
do Extremo e o Riá Tejo, etc, 1796. 

[U 10 b] — Maximiano J. da Serra — Planta dos terrenos de 
Caminha thé a Insola, e sitios posteriores, 1797. 

[U 10 b] — * — Topographia de huma parte da Provinda 
de Alemtejo conwrehendida entre a Praça de Arron- 
ches e o Rio Guadiana para representar a Fron- 
teira e Raia de Hespanha, 1797. 

[U 10 b] — (1) Mappa topogi*aphico da fronteira da Provin- 
da do Alemtejo, 1797. 

[U 10 b] — J. Rafael Nogueira — Mappa topographico da 
parte do Tejo pertencente a Villà Velha, 1797- 



(4), Oflkièrs du génic sous les ordres de L. C: Cordeiro Pinheiro 
Furtado. 



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LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL 2g5 

[U io b] — M. de Souza Ramos e J. M. Ferreira da Fonseca — 
Mappa topographico da parte do Tejo da Villa de 
Abrantes, em que está lançada a Ponte das Barcas; 
e dos terrenos próximos, etc, 1797. 

[U 10 b] — L. Gomes de Carvalho — Carta topographica da 
parte da' Provinda de Tra\-os-Montes comprehen- 
dida entre o Douro e o Sabor até Bragança, Bra- 
gança, 1797. 

[U 10 b] — M. Tavares da Fonseca — Mappa do Forte de 
S. Sebastião e porto das Pipas cia ilha Terceira, 
i 79 8. 

[U 10 b] — M. Godinho de Mira — Planta da Praça de 
Agoada, ijg8- 

[U 10 b] — # — Carta reduzida comprehendendo da Equino- 
xial athe 44 o de latitude Norte comprehendendo 
parte da Costa da Europa e Africa Ilhas do Oceano 
Setentrional, etc, Lisboa, 1798. 

[U 10 b] — A. Garcia Alves — Pellano do Porto de Paraíba, 
i 79 8. 

[U 10 b] — J. Vieira da Silva — Topographia da Cidade Ca- 
pital de S. Salvador, etc, 1798. 

[U 10 b] — J., Joaquim Freire — Mappa da Bahia e Porto 
d f Angra na Ilha Terceira, 179c. 

[U 10 b] — I. Joaquim de Castro — Plano da Villa de Ma- 
xico, etc, 1799. ' 

[U 10 b] — I. Joaquim de Castro —Plano particular da Praia 
Formosa, etc, 1799. 

[U 10 b] — I. Joaquim de Castro — Plano da Villa de Santa 
Cru^, 1799. 

[U 10 b] — J. de Sande e Vasconcellos — Planta da cidade 
de Tavira, 1800. 



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í 




296 O INSTITUTO 

[U 10 b] — B. d' Azevedo Coutinho — Carta Hydrogi*aphica 
do porto e barra de Villa Nova de Portimão, ctc, 
1800. 

[U 10 b] — J. J. Valério — Planta do porto do Rio Paraíba, 
1800. 

[U 10 b] — B. José Pereira, F. da Silva Freire e D. José 
Fava — Mappa geral do Reino, 1800. 

[U 10 b] — J. A. Águia Pinto Sarmento — Carta Geométrica 
Geográfica das Províncias de Batagi*ama e do Sa- 
teri, fronteiras e contíguas ás ilhas de Goa, etc, 
1801. 

[U 10 b] — L. H. da Cunha d'Eça — Configuração do Campo 
de Gavião, 1801. 

[U 10 b] — L. H. da Cunha d'Eça — Mappa da Fo\ do Rio 
Zêzere no Tejo com a Villa de Punhete testa de 
Ponte para a defensa da sua passagem, 1801. 

[U 10 b] — J. d'Oliveira, J. Xavier d'Andrade e Luiz Má- 
ximo — Planta da Villa d' Abrantes com huma parte 
do Tejo, Ponte das Barcas, e o Reduto feito no 
Oiteiro do Carneiro, 1801. 

[U 10 b] — B. d' Azevedo Coutinho — Carta militar, 1801. 

[U 10 b] — L. Gomes de Carvalho — Planta da cidade de 
Bragança e suas dependências, 1801. 

[U 10 b] — Eusébio Dias Aredo — Carta topographica da 
Península de Peniche, 1801. 

[U 10 b] — * — Mappa da fronteira da Barra para intellh 
gencia das disposições de defensa feitas pelo Marque; 
d'Alorna em quanto Commandou em esta Província 
no anuo de 1001. 

[U 10 b] — I. António da Silva — Ma\agão, 1802. 

[U 10 b] — J. Cardoso Xavier — Mappa geral de toda Capi- 
tania de Villa Boa de Goyas, i8o3 (?). 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

[U io b] — J. António da Roza e C. H. de Niemeyer — PU 
do terreno e limites da contenda de Moura a c 
se trata de dividir entre Portugal e Hespanha, il 

[U 10 b] — J. Manuel da Silva e J. Carlos de Figueired 
Mappa geographico da vigessima segunda Brig 
d' Ordenanças, divididas cada uma em 8 Capita\ 
Mores, segundo o novo plano feito em j8o3. 

[U 10 b] — J. B. da Fonseca Piloto — Plano da Barre 
Villa Real, i8o3. 

[U 10 b] — C. Gomes Villas Boas — Desenho topograp 
de huma porção do Concelho de Lindoso na p< 
que confina com o Reino de Galli\a, etc, i8o3. 

[U 10 b] — C. Gomes Villas Boas — Mappa da provi\ 
d'Entre Douro e Minho com o Quadro da sua P< 
loção, etc, 1804. 

[U 10 b] — Maximiano J. da Serra — Planta da Praç 
Villa de Setúbal, 1804. 

[U 10 b] — J. J. Leão — Copia et hum Reconhecimento 
Margens do Rio Tejo, etc, i8o5. 

[U 10 b] — José de Saldanha — Mappa geographico que t 
tra toda a Fronteira do (Jommanao do Rio Pa\ 
etc, 1806. 

[U 10 b] — C. Gomes Villas Boas — Planta da villa de 1 
cellos, 1806. 

[U 10 b] — F. G. da Silva Torres — Planta do rio \ 
desde as Ornas athe ás bocas do sitio dos Canei 
1807. 

(Continua). Rodolpho Guimarães. 



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MTERÀTURA E BELLÀS-AItTES 



ARTES INDDSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 

(Cont. do n.° 5, pag. 255) 

I 

Acciaiuoi.i (Simão) 

Apesar de extremamente adulterado o seu appellido, creio 
não poder haver a menor duvida que Simão Chiole, floren- 
tim, é o mesmo Simone Acciaiuoli, com que o meu erudito 
amigo, sr. Prospero Peragallo abre a série biographica dos 
seus Cenni, e que na ilha da Madeira exerceu preponderância, 
chegando a desempenhar o cargo de Almoxarife da dita ilha, 
certamente por se haver naturalizado. 

Simão fundou um morgado, a sua descendência proliferou, 
e ainda hoje, tanto em Portugal, como no Brasil, existem 
famílias com o seu appellido. 

O documento a que me refiro, é uma espécie de despacho 
de D. Manuel I a uma sua petição, a fim de pagar uma certa 
porção de assucares, não pelo preço corrente no anno de 
i5i8, no que softria grande prejuízo, mas sim pelo dos dois 
annos anteriores. 

El-rei restringiu o preço da arroba a trezentos e noventa réis. 

«Nos elRey fazemos saber a vos prouedor da nossa Ilha da Madeira 
ou a quem uoso cargo teuer e ao noso almoxarife ou Recebedor da parte 
do Funchal que Simão Chiole frorêty morador na dita Ilha nos emuiou 
dizer como elle fora rendeiro do peixe fresco da dita cidade em huúa 
quinta parte de b c xij arrobas daçuquares de meles os anos de b e xbj 
b° xbij e asy teue os ditos dous anos os cinquo dozaaos da rrenda do 
Porto Santo em contia de iiij c lx arrobas daçuquar de meles pedim- 
donos que por o açuquar de meles naqueles dous anos estar embaixo 



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■TP^r 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 299 

preço auêdoo de pagar como valeo no ano de xbiij perdia muyto nos 
prouuese oolhar a yso e ouuesemos por bem que o pagase como valeo no 
ano de xbj e visto per nos seu rrequerimento praz nos que o pague a rezam 
de trezêtos e nouenta reaes a arroba porem vos mandamos que a este 
preço lho contees e lho façaees pagar. Fecto em Allmeirym a ij dias dabril 
ano de mjll b c xix. = Rey (com rubrica e guarda) = no Conde = que 
Simão Chiole rrendeiro do peixe fresco do Funchal e do Porto Santo 
os ij anos de xbj xbij pague o açuquar de meles a rrezam de iij e Ir reaes 
a arroba. Vale as iij c xxxj arrobas xj arráteis que vale ao preço de iij* 
Ir, cxxix ij^ viij reaes s. cxxx bij arrobas xxix arráteis do ramo do pes- 
cado do Funchal e as clr iij arrobas xiiij arráteis do ramo do Porto 
Santo» (1). 

II 

Affaitati (João Francisco) 

De duas maneiras se encontra ortographado o nome d'este 
individuo, negociante de grosso tracto em Lisboa, nos fins 
do século xv e princípios do século xvi. Joham Francisco 
delia Feitad, Carmones, e Joam Francisco de Lafeitate. Da 
primeira forma cncontra-se numa carta de 16 de julho de 
1507, pela qual D. Manuel o dá quite da somma de oito 
contos novecentos e vinte um mil reaes, resultantes de dois 
contractos relativos á compra de assucares na ilha da Madeira 
nos annos de i5o2 e 1604. No contracto primeiro tivera por 
consócio a Jeronymo Cerniche, sendo a quantidade do assu- 
car de 18:000 arrobas e o seu preço de sete contos novecentos 
e "vinte mil reaes a razão de 440 reaes cada arroba. O segundo 
contracto importou em um conto e mil reaes, preço de 3:5oo 
arrobas. 

Affaitati era natural de Cremona, conforme se deduz do 
appellido e que se acha um pouco deturpado Carmonez em 
vez de Crcmonez ou Cremonense que lhe vem applicado na 
respectiva carta de quitação, a qual saiu impressa a paginas 
93 do volume 111 do Árchivo Histórico Portugue\. 

João Francisco deli Aftaitate continuou a exercer o com- 
mercio do assucar da ilha da Madeira até os últimos annos 
da sua existência, como se prova por um estenso documento, 
ou antes série de documentos, que se conservam na Torre 
do Tombo, na collecção das gavetas. 

Aos 18 dias de março de 1.529, nas casas da fazenda de 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologko, parte 1.% maço 24, docu- 
mento 5o. 



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300 O INSTITUTO 

el-rei, foi celebrado um contracto, por meio do qual Lucas 
Giraldi, como procurador de João Francisco de Lafeitade, 
se comprometia, em nome do seu constituinte, a tomar todo 
o assucar que fosse do rendimento real no referido anno na 
ilha da Madeira. São diversas e curiosas as cláusulas, tanto 
com respeito ao preço e qualidade dos assucares, como ao 
systema da sua arrecadação na ilha da Madeira, e ao modo 
de realizar o pagamento, parte do qual se havia de effectuar 
em Lisboa e parte na feira de Medina dei Campo. 

A procuração passada a favor de Lucas Giraldi tem a data 
de io de outubro de i52Ó, parecendo d'esta circumstancia, 
poder deduzir-se que Lucas Giraldi tinha orocuração geral 
de Lafeitad para tratar dos seus negócios. O seu procurador 
no Funchal era Capelano de Capelani, sendo-lhe passada a 
respectiva procuração em Lisboa a 8 de abril de 1529. 

João Francisco de Lafeitad era fallecido poucos dias depois 
de ter passado esta procuração, como se declara terminan- 
temente numa carta de D. João III ao provedor, almoxarife 
e officiaes da ilha da Madeira datada de 28 d'esse mez, em 
que lhes diz que prosegue validamente, em nome de seus 
herdeiros, o contracto celebrado com o dito João Francisco, 

3ue Deus haja, pois a sua casa ficava inteira, particularidade 
igna de nota. 

Nobre de origem, tendo até o titulo de Conde, João Fran- 
cisco era sujeito de não vulgar illustração, como se infere das 
suas numerosas cartas, felizmente conservadas nos Diários 
de Sanuto, nas quaes minuciosamente vae dando conta dos 
progressos dos nossos descobrimentos e conquistas, assim 
como dos productos do oriente, em cujo commercio também 
tomou larga parte. 

Alvare Annes e João Lopes de Sequeira, os dois emmissa- 
rios que acompanharam a Sabóia a infanta D. Beatriz, para 
liquidarem as contas do seu dote e cobrarem as respectivas 
quitações, escrevendo a el-rei sobre este negocio, em 5 de 
novembro de i52i, diziam-lhe achar-se alli um banqueiro, 
correspondente de João Francisco, que se responsabilisaya 
pelas lettras d'este, o qual, por certo, não era outro se não 
o cremonense com casa bancaria em Lisboa. 

O sr. Prospero Peragallo dedica-lhe um artigo nos seus 
Cenni, e refere-se a outros membros da sua família, cujo 
appellido se aportuguesou em Lafetá. Um d'elles, Cosme, 
portou-se briosamente no cerco de Chaul, merecendo ser 
decantado tio Chauleidos, poema latino de Diogo de Paiva de 
Andrade. De outra maneira, mais original ainda, se perpetuou 



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ARTES 1NDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 3oI 

a sua memoria, numa colcha artisticamente bordada pelas 
damas portuguezas de Malaca, e que existia na collecção do 
Duque de Luines. Nella se via a seguinte legenda em ita- 
liano — Cosimo La f et a fece cadere in potere dei porloghèse 
il monte di ChauL 

Para não avolumar esta memoria, e para não fugir do seu 
principal assumpto, espero outra occasião, se me não faltar 
o animo, para tratar a biographia de Cosme de Lafetá, a 
cujo respeito e da sua parentella, se encontram não poucos 
vestígios nas chancellanas regias. 

Segue o documento a que acima aludo. 

«Apresentaçam do comtrato que el Rey noso senhor fez com Joam 
Francisco de Lafetate sobre a venda de seus açuqueres deste presente 
ano de mjll b e xxix apresentado por Capelano de Capelane ao Senhor 
prouedor: 

«Ano do nacimento de noso senhor Jhesu Christo de mjll b c xxix 
anos aos xx dias do mes de majo do dito ano na Ilha da Madeira na 
cidade do Funchall nas casas dallfandega da dita cidade estando hi Cres- 
touam Ermeraldo fydalgo da casa dei Rey noso senhor prouedor de 
sua fazemda nesta Ilha e Porto Santo etc, perante elle pareçeo Cape- 
lano de Capelane morador estamte ora nesta cvdade e lhe presemtou 
hu comtrato que ho dito senhor tinha feito com Joam Francisco de Lafe- 
tate sobre a venda de seus açuqueres deste presente ano com hua pro- 
curaçam do dito Joam Francisco para por elle receber os ditos açuqueres 
e asy mays apresemtou duas cartas do dito senhor em que na htja ha 
por oem que os ditos açuqueres que posto que Joam Francisco seja fa- 
lecido se cumpra ho dito comtrato e na outra lhe manda dar as casas 
que os anos pasados os tratantes tiveram seus açuqueres, o quall con- 
trato cartas e procuraçam todo he o seguinte». 

«Ano do nascimento de noso senhor Jhesu Christo de mill quinhentos 
e vinte noue aos dezoito dias do mes de março do dito ano em Lixboa 
nas casas da fazenda dei Rey noso senhor perante os veedores dela 
pareceo Lucas Giraldo em nome e como procurador de João Frtncisco 
de Lafetade segundo mostrou per sua procuraçam que parecia ser feita 
e asynada per firas Afonso publico tabelliam na dita cidade de Lixboa 
aos dez do mes de outubro ano de b e xxbj e dise aos ditos veedores que 
a elle aprazia como loguo de feito' aprouue de comprar todollos açuqua- 
res que o dito senhor ouuer de suas rendas e direitos na Ilha da Madeira 
este dito ano de b e xxix Asy de canas como de melles mazcabados 
escumas e rescumas sem ficar cousa alguua de todos os ditos açuqueres 
que das ditas rendas e dereitos o dito senhor ouuer daver da nouidade 
do dito ano, pellos quaes açuquares o dito Lucas Giraldo em nome do 
dito João Francisco se obrigou loguo a paguar nesta maneira, s. por 
todolos açuqueres de cana que forem alealdados e de receber de mer- 
cador a mercador a seiscentos reaes a arroba de peso da dita Ilha em 
paz e em salluo pêra o dito senhor. £ pellos açuqueres de melles e 
mazcabados e escumas e rescumas daraa menos aquella comthia que 
geralmente se acostuma na dita Ilha menos valerem que os açuquares 
de canas respeytando o dito preço de seiscentos reaes a arroba segundo 



L 



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302 O INSTITUTO 

forma dos comtratos pasados. E paguamento de todo o aue montar nos 
ditos açuquares flaraa nesta maneira, s. dez mill cruzados demtro em 
oyto dias que se começarão da feitura deste em dinheiro de contado a 
Fernão daluarez meu tesoureiro e o mais nera comprimento de todo 
paguaraa em Medina deli Campo na feira de mayo que ora vem deste 
dito anno ao tempo dos paguamentos delia per suas letras de caynbo 
ao dito Fernam daluarez de que cobraraa seu conhecimento em forma. 
E porque ao tempo da dita feira senão poderaa ajmda saber a soma dos 
ditos açuquares que na dita Ilha aueraa este ano pêra liquidamente 
fazer o dito paguamento o faraa na dita feira per orçamento doutros 
tamta comtija quamta se mostrar per certidoees dos oficiaes da dita Ilha 
que montou nos açuquares do ano passado e na ffim deste dito anno se 
veraa pelas certidoees que da dita Ilha hão de vijr o que nos ditos açu- 
quares monta e remde mais do que jaa tiuer paguo, o paguaraa tamto 
que assy vierem as ditas certidoees. E asy tendo o dito João Francisco 
paguo mais do que se montar nos ditos açuquares lhe seraa paguo ou 
tomado em paguamento de seus comtratos. E o allmoxarife e oficiaaes 
da dita Ilha que o dito açuquar. ouuerem de entregar cobrarão conhe- 
cimentos das pesoas que* em nome do dito João Francisco e per sua 
procuraçom receberem e tanto que o dito almoxarife e oficiaes os teue- 
rem assy entregues emuiarao ao dito Fernão dalluarez as certidoees da 
cantidade dos ditos açuquares E quanto he de cada sorte, as quaes cer- 
tidoees serão obriguados de enuiar per duas vias nos primeiros nauios 
que vierem despois de os ditos açuquares asy serem entregues. Os quaees 
açuquares serão entregues aos ditos feitores ou pesoas que pêra yso 
leuarem procuraçam do dito João Francisco posto que a elles não 
dee fiança allguua, porquanto o dito senhor o ha por abortado nyso. 
E nesta venda não entrarão os açuquares que íforem neçesarios pêra 
despacho da casa do dito senhor e da Rainha nosa senhora e dos 
sennores Ifantes e assy os das esmollas por que estes se mandarão tra- 
zer que serão atee mill e seiscentas arrobas e mais não. E quando os 
ditos açuquares cheguarem dos outros lueuares ao porto do Funchall 
omde se hão de carregar o almoxarife e oficiaes do dito senhor despa- 
charão loguo os batees em que vierem e não serão tirados dos ditos 
batees atee primeiro seerem despachados pelos ditos officiaaes. 

«It. Com condição que a emtregua dos ditos açuquares seja ífeita aos 
procuradores do dito João Francisco nas casas dos lauradores omde rece- 
oerão os quintos do dito senhor bem allealdados como se costumão 
a receber de maneira que o dito João Francisco não receba agrauo e 
segundo forma das obrigaçõees que os ditos lauradores tem fFeitas. Os 
quaaes não poderão tirar açuquares algOus de suas casas atee terem 
paguo o dito quymto sob as penas que nas ditas obriguaçõees e regi- 
mento sobre ysó feito são conteudas. E asy como os feitores do dito 
João Francisco ham de receber da mão dos ditos lauradores os ditos 
açuquares allealldados assy mesmo receberão os ditos officiaecs as ditas 
mill e seiscentas arrobas pêra as ditas esmollas e despesa do dito senhor. 

«It. Sendo caso que os açuquares que os lauradores derem nSo sejáo 
bem allealdados e da bondade e prefetção que devem ser e de receber 
de mercador a mercador o procurador do dito João Francisco o faraa 
saber ao prouedor e oficiaaes da dita Ilha os quaees lhe darão pêra yso 
pessoas que vejão os ditos açuquares e os facão benf alealldar de ma- 
neira que o dito João Francisco nam receba agrauo nem engano e se 
os receber, sem o fazer saber aos ditos oficiaaes não seraa mais ouuydo 
sobre a bomdade dos ditos açuquares. 

alt. E com comdição que elle tratador posa carreguar os ditos açuqua- 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZÀS 3o$ 

res em quaeesquer naaos ou nauios estrangeiros ou naturaees que elle 
quyzer sem embarguo de qualquer ordenação ou defesa em comtrairo. 
L pêra a despesa que nos ditos açuquares ha de fazer poderaa vender 
na dita Ilha da Madeira atee três mill arrobas e mais não, e das vendas 
que asy fezer o faraa saber ao Juiz dallfandeeua e officiaees pêra flfaze- 
rem delle asemto e não vemder mais que as ditas três mill arrobas. 

«It. com condição que durando o tempo deste comtrato os feitores 
que o dito João Francisco na dita Ilha tiuer e assy seus criados pêra o 
nejguocio e maneyo dos ditos açuquares guozem é guoyuão de todollos 
pnuillegios e liberdades e franquezas que tem os remdeiros do dito se- 
nhor atee seis feitores e mais não. 

«E visto pellos ditos veedores o dito comtrato ouuerão por bem em 
nome do dito senhor e o dito Lucas em nome e como procurador do 
dito João Francisco o açeytou e recebeo e se obrigou pellos bSes e 
fazemda do dito João Francisco asy mouel como raiz auyda e por auer 
ao assy comprir e manter pela maneyra aquy comtheuda e por firmeza 
dei lo asynou este no lliuro dos comtratos da fazenda omde ffica trelladado 
com testemunhas e seraa obriguado de emuiar este comtrato ha dita 
Ilha aos oficiaaes do dito senhor nos primeiros nauios que daquy parti- 
rem Afazendo pêra yso tempo e não no fazendo o faraa saber na dita 
fazenda pêra se lhe asynar mais tempo e a dilação que pasar pela dita 
maneira não escusaraa o dito João Francisco de paguar todo o que 
asy he obriguado. E aalem dos seiscentos reaes que asy hade paguar 
os que comprão açuquares na dita Ilha. Pedro Anriquez o fez no dito 
dia mes e era. Fernão dalluarez o fez escreuer. — DÔ Joham — ho conde». 

«Eu el Rey faço saber a quamtos este meu aluara virem que eu vy 
este comtrato acima escrito que os veedores de minha fazemda fizerão 
com Johão Francisco de Laíetad sobre os açuquares deste anno que 
ouuer na Ilha da Madeira. E o aprouo e ey por bom pello preço e com 
as condições nelle declaradas notyfficoho assy ao meu prouedor e ofi- 
ciaees da dita Ilha e a quaeesquer outros a que pertencer e lhes mando 

3ue em todo cumprão e guardem e facão inteiramente comprir e guar- 
ar o dito comtrato como se nelle çonthem. Pedro Amrriquez o fez em 
Lixboa aos xix dias de março de mill quynhentos vinto e noue. Fernam 
dalluarez o fez escreuer. — Rey- | • — Fernam dalluare^ — ho conde. 

«Confirmaçom deste comtrato que os veedores da fazenda fizerão cõ 
Johão Francisco sobre os açuquares deste anno da Ilha da Madeira». 

«Prouedor almoxarife e officiaees da Ilha da Madeira eu el Rey vos 
enuio muito saudar. 0s uedores de minha fazenda fezerão húu comtrato 
sobre os açuquares deste ano com Joham Francisco de Lafetade que deus 
aja, o quaí comtrato elle laa enuiou amtes de seu falecimento e por que 
posto que seja falecido sua casa fica inteira, Vos mando que cumpraees 
e façaes inteiramente comprir o dito comtrato e façaes emtrega dos 
açuquares segundo forma delle asy como o auies de fazer semdo viuo, 
o que asy cumpry sem duuida nem embarçuo allgQu que a ello seja 
posto. Manuell da Costa a fez em Lixboa a xxbiij de abrill de mil b? xxix. — 

«Pêra o prouedor e oficiaes da Ilha da Madeira sobre o comtrato de 
Joham Francisco dos açuquares que V. A. manda inteiramente comprir 
posto que seja fallecido*. 

«Sobrescrito. — Por el Rey. Ao prouedor almoxarife e officiaes da sua 
liba da Madeira». 



L 



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304 O INSTITUTO 

«Provedor e oficiaes da Ilha da Madeira. Eu el Rey vos enuio rouyto 
saudar, eu ey por bem que as casas minhas que nesa Ilha estão em que 
se recolhem os meus açuquares que o ano pasado destes aos tratadores 
delles pêra os em ellas agasalharem As deis este ano presemte de quy- 
nhemtos vimte e noue aos feitores de Joham Francisco que este dito 
ano tem comprados os ditos açuquares pêra yso mesmo os recolherem 
nellas sem paguar diso cousa allguua. E comprio asy sem duuida que a 
elo ponhaaes. Pedro Amrriquez a fez em Lixboa aos biij° dias de abrill 
de quynhentos vimte e noue. — Rey * ; • — . 

«Ao prouedor e officiaes da Ilha da Madeira que dem aos feitores de 
Joham Francisco as casas em que se recolhem os açuquares de V. A. 
pêra nellas os recolherem este anno, que serão aquelfas que o ano pa- 
sado derão aos tratadores dos ditos açuquares. E isto sem pagar dyso 
cousa allguua. 

a Sobrescrito. — Por el Rey. Ao prouedor e oficiaaes da Ilha da Ma- 
deira». 

«Saibam quamtos este estromento de procuração virem que no ano 
do nacimento de nosso senhor Jhesu Christo de mill e quinhentos e 
vimte e noue annos aos oyto dias do mes de abrill na cidade de Lixboa 
nas casas omde pousa Joham Francisquo de Llafetad mercador vezinho 
desta cidade estamdo elle presemte disse que elie tem comprado deli 
Rey nosso senhor aos seus veadores da fazemda todos os açuquares 
que sua alteza hadaver e receber este presemte ano na Ilha da Madeira 
asym de quymtos como dizimo segundo todo mais compridamente se 
contem no comtrauto que sobre yso he feyto e que ora por este pubryco 
estormento fazia como loguo de feito fez e ordenou por seu certo pro- 
curador avomdosso a Capellãao de Capelani mercador estamte na dita 
Ilha da Madeira e lhe deu e outorgou todo seu liure e comprido poder 
e mandado espiçiall pêra que por elle cõstytuimte é em seu nome possa 
arrecadar e receber todos os ditos açuquares que a sua alteza perten- 
çam de quaes quer seus feytores ofyciaaes e pesoas que os ouuerem de 
emtreguar e do que receber posa dar conhecimentos e quitações e os 
asynar e fazer dos ditos açuquares todo o que lhe elle cõstytuimte or- 
denar e se lhe todo nõ quiserem entreguar posa sobre ello fazer pro- 
testos e requerimentos e tomar estormentos e cartas testemunháveis se 
comprirem e pêra todo o sobredito e qualquer parte dello possa sobs- 
tabelecer outro procurador ou procuradores e os reuoguar se quiser 
fiquandolhe sempre esta procuraçam firme e em todo o que dito he e 
a ello pertemcer e dello nacer e depender posa usar de todolos termos 
e autos judiciaaes que nessesarios forem e fazer e dizer todalas outras 
diligencias e cousas que comprirem asy e tam imteiramente como 
elle cõstytuimte poderia fazer e dizer se a todo presemte fose prome- 
tendo elle cõstytuimte de auer por feito fyrme e valioso pêra sempre 
todo o que por o dito seu procurador e por cada hum de seus sobsta- 
belecidos for feito dito e neguociado no que dito he sob obriguação de 
todos seus bens e rendas que pêra ello obrigou e em testemunho de ver- 
dade asy ho outorgou e mandou fazer este estormento e dous e três 
se lhe comprirem. Testemunhas que presentes foram Joham Bycudo 
mercador estamte nesta cidade e Gonçalo de Seixas criado do dito 
Joham Francisquo e eu Sebastiam Àluarez publico tabeliam gerall da 
casa do civell per autoridade deli Rey nosso senhor por Symão Dia* 
cujo o dito orneio he este estormento escrepvi e o concertej e asinej de 
meu publico signall. — Logar do sinal publico. — Com nota e duas idas 
e estribuiçam pagou oytenta reaes. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PÔRTUGUEZAS 3o5 

«E apresentado todo como dito he mandou que se comprise como em 
todo he comteudo e que Capeiam aprouase a procuraçam do recebi- 
mento dos ditos açuquares. Joham Mealheyro escripuam dallfandegua 
o escrepuy. 

«Avaliacam dos açuquares de melles mazcabado escumas e rescumas 
do ano de d c xxix». 

«Anno do nacimento de noso senhor Jhesu Christo de mjll b° xxx 
annos aos xxiij dias do mes de feuereiro do dito anno na Ilha da Ma- 
deira na cidade do Funchal na casa dallfandega estaua hi Ruy Mendez 
tacam recebedor da fazenda dei Rey noso senhor etc, e Joam Gonçalvez 
e Capeiam de Capelani procuradores dos tratamtes do anno pasado 
de b c xxix e per o dito almoxarife lhes foi dito que por quamto os açu- 
quares eram vemdidos a traíamtes de que elles eram procuradores se- 
gundo forma do comtrato a preço de seis centos reaes arroba e que os 
melles e mazcabados e reres e escumas foram avalliados e respeitados 
segundo forma dos contratos pasados e auendo respeito ao preço de bj e 
reaes por arroba do. . . e que pêra se fazer a dita avalliaçam elles aviam 
de tomar sua procuraçam e elle tomara outras por parte do dito senhor 
pêra cõ hos onciaaes cio dito senhor fazerem a dita avaliaçom mandar 
moslhes que se louuasem em huua pesoa e elle por a parfé do dito senhor 
se louuara em outras por quamto o prouedor por estar doente nÕ po^ 
dera vyr a dita avalliaçam e lhe spreuera que ha fezese ioguo fazer e 
lloguo o dito Joam Gonçalvez e Capeiam se louuarõ por sua parte em 
Afonso Pymto e o dito almoxarife se louuou por parte do dito senhor 
em Jorge Fernamdez moradores na dita cidade os quaes sendo presentes 
o dito almoxarife lhes deu juramento dos santos euanjelhos e per o dito 
juramento lhes mandou que cõ hos oficiaes do dito senhor íezesem a 
dita avaliacam segundo forma do dito comtrato os quaes receberam ho 
dito juramento e o prometeram asi de fazer. Francisco Vieira que ho 
espreuy. — Capelano de Capelanis — Joam Gonçalves — Ruy Mendez». 

«E loguo o dito recebedor com hos ditos louuados e cõ Joam Mea- 
lheiro e Pêro dOrnellas espriuães dallfandegua e comiguo scrípuam 
abaixo nomeado se apartou com os ditos louuados e oficiaes aos quaes 
oficiaes deu juramento dos samtos auanjelhos e elle per si o tomou e 
todos prometerom de fazer verdade e visto por elles ho comtrato e a 
forma delle e conformandose cõ hos comtratos pasados e vista a forma 
do dito comtrato e a sustamcia delle e auendo respeito aos açuquares 
brancos serem vendidos a seiscentos reaes arroba segumdo forma do 
dito comtrato auallyarÕ hos outros açuquares nesta maneira seguimte : 
s. o açuquer de melles a quinhentos, reaes arroba. E o açuquer mazca- 
bado a quatro centos cinquoenta reaes arroba. E as escumas a quatro 
centos reaes arroba. E as rescumas a dozentos cinquoenta reaes arroba. 
E os açuqueres de melles mazcabados a quatro centos reaes arroba e 
por que todos nisto foram conformes pelio dito juramento e vendo a 
forma do dito comtrato o asynorõ aqui. Francisco Vieira que ho spreuy. — 
Jorje Fernandez — Francisco Vieira — Pedro Mealheiro — Ruy Mendeç 
— Gonçalo Mealheiro — . . . — Pedro Dome 11 as». 

«Sejam certos quamtos [este] estormento de certidam virem como 
he verdade que Capellam de Capellani e Joam Gonçalvez como procu- 
radores dos herdeiros de Joam Francisco e Dioguo de Teues e Amam 
Martinz tratamtes que o ano pasado de b° xxix comprarõ hos açuqueres 
dei Rey noso senhor desta Ilha da Madeira conheçerõ e confesarom 
receber e ter recebido de Ruy Memdez Tacam recebedor dei Rey noso 

VOL. 55.% N.° 6 — JUNHO DE 1908. 3 



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3o6 O INSTITUTO 

senhor o dito ano os açuqueres seguintes : s. trezemtas arrobas de açu* 

âuere branco a preço de seis centos reaes arroba como foi a venda do 
ito anno em que momta cento oy tenta mill reaes e dozentas arrobas 
de açuquar de melles a preço de quinhemtos reaes arroba em que momta 
çem mill reaes e sesemta arrobas daçuquar mazcabado a preço de quatro 
centos cinquoenta reaes arroba em que momta vymte sete mill reaes. 
E cemto sete arrobas meia descumas a preço de quatro cemtos reaes 
arroba em que momta quaremta três mill reaes que todo o dito dinheiro 
fez soma de trezentos cinquoenta mill reaes e em arrobas bj c lxbij arro- 
bas e meia os quaes açuquares sam de quimtos e dízimos forros de redi- 
zima do dito anno pasado e desta parte do Funchall aliem doutras cer- 
tidões que ja tem pasado da mais comtia dos ditos açuquares do dito 
anno e porquanto os ditos procuradores dos tratamtes confesaram ter 
recebido os ditos açuquares o dito anno do. dito Ruy Mendez % recebedor 
em que se momtou os ditos iij r l reaes como dito he lhe mandarom ser 
feito este conhecimemto de certidão pêra per ele os ditos tratamtes 
fazerem o pagamento de dozemtos mill reaes somente a Fernam da lu arei 
thesoureiro do dito senhor a que sua alteza pello dito comtrato o manda 
emtregar por quamto dos outros cimquoenta mill reaes confesou o dito 
Ruy Memdez que tinha ja recebido dos ditos tratamtes por os mandar 
dar aos filhos do capitão desta Ilha e por certidam dello lhe mandaram 
dar este conhecimento e outros deste teor pêra que auemdo húu efeito 
e fazemdose per elle o pagamento dos ditos dozentos mill reaes de reste 
o outro nom valha feito no Funchall per mim Francisco Vieira esprivam 
dos contos e asinado per todos aos xx dias do mes de julho de mill b € xxx 
anos. E os açuquares de melles mazcabados escumas foram avalliados 
ao dito preço pello prouedor almoxarife officiaes todos nomes ajura- 
mentados em que has partes se louuarom auemdo respeito e aualiamdo 
os ao respeito de bj e reaes arroba como foi a venda do açuquar branco 
segundo forma do comtrato. 

«Dizemos nos os procuradores dos herdeiros de Joham Francisquo e 
António Martinz e Dioguo de Teues que pagueis por esta cerndam 
duzentos mill reaes dizemos i,V reaes por quanto os cemto e cinquoenta 
mill reaes ja sam pagos ao almoxarife por noso mandado. Feito vt supra. 
— Francisco Vieira — Joham Gonçalveç — Capelano de Capelania. 

«Sejam certos quamtos este estormento de certidam virem como he 
verdade que Capellam de Capellani e Joham Gonçalvez como procura- 
dores dos herdeiros de Joham Francisco de Lafetate e seus parceiros 
tratamtes que ho ano pasado de mill b c xxix comprarom os açuquares 
dei Rey noso senhor desta Ilha da Madeira conhecerom e confesarom 
receber e ter recebido de Ruy Mendez Tacam recebedor do dito senhor 
nesta capitania do Funchall os açuquares seguintes : s. cinquo mill 
seis centas vymte cimquo arrobas quinze arrates daçuquar branco a 
preço de seis centos reaes arroba como lhe foj vendido em que monta 
três comtos trezentos setenta cinquo mill dozentos oytenta núu reaes. 
E mill sete centas vynte oyto arrobas biij° arráteis e meio daçuquar de 
melles a preço de quinhentos reaes arroba em que monta oyto centos 
sesenta quatro mill cento trimta três reaes e meio. E mill ctnquoemta 
quatro arrobas bij arráteis e meio daçuquar mazcabado a quatro cemtos 
cinquoenta reaes arroba em que monta quatro centos setenta quatro 
mill quatro centos cinquo reaes. E mill nouecentas doze arrobas xij arrá- 
teis e meio descumas a quatro centos reaes arroba em que monta sete 
cemtos sesenta quatro mill nouecentos cinquoenta seis reaes. E trezentas 
nouenta quatro arrobas xxbij arráteis de rescumas a preço de dozentos 



Jf 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 3c>7 

cinquoenta reaes arroba em que monta nouenta e quatro mill sete centos 
dous reaes e meio. E cento dezoyto arrobas xbj arráteis e meio de 
melles mazcabado a preço de quatro centos reaes arroba em que monta 
quarenta e sete mill quatro centos seis reaes e meio que todas has ditas 
arrobas fazem soma em arrobas dez mill oito centas trinta três arrobas 
xxij arráteis e em dinheiro cinquo comtos seis centos vymte quatro mill 
oyto centos oytenta quatro reaes os quaes açuquares sam de quimtos 
e dizimas que rendem des começo do ano ate fim delle e forros de redi- 
zima e os açuquares de melles escumas rescumas raazcabados foram 
avalliados ao dito preço pello prouedor allmoxarife e oficiaès com dous 
homens ajuramentados em que has partes se louuarem auendo respeito 
ambos ao respeito de seis centos reaes arroba de açuquar branco como 
foy vendido segundo forma do comtrato e por que ne verdade que rece- 
berom os ditos açuquares em que se montou o dito dinheiro lhe man- 
darõ ser feito este conhecimento de certidam pêra per elle os ditos tra- 
tam tes fazerem o pagamento do dito dinheiro a Fernão daluarez thesou- 
reiro do dito senhor a quem pello dito comtrato o mandou entregar 
feito no Funchall per mim Francisco Vieira espriuam dos contos e 
asynado per todos três aos xij dias do mes de março de mill b c xxx anos. 
E deram outros deste teor pêra aue auemdo huu efeito e fazendose per 
elle pagamento o outro nõ valha. — Joam Gonçalvej — Capelano de 
Capeiem is — Francisco Vieira» . 

«Eu el Rey ffaço saber a vos contadores de minha casa que no Liuro 
da Receita de fernam dalluarez meu thesoureiro moor aas cxxbiij 
ffolhas delle estam dous asentos de que o theor tall he : 

«Item em bij de mayo de b c xxix recebeo fernam dalluarez dos her- 
deiros de Joham Francisco de llafeitad dez mill cruzados em começo de 
fiago do dinheiro que lhe ham dentregar do comtrato dos açuquares da 
lha da Madeira deste ano presente de quinhentos e vinte noue que o 
dito Joham Francisco tinha comprados a el Rey noso senhor e ouue 
conhecimento. 

«Item em Lixboa a xiij dias do mes de dezembro de b c xxix recebeo 
fernam dalluarez dos herdeiros de Joham Francisco de llafeytad dez mill 
cruzados do dinheiro que lhe hão dentregar do contrato dos açuquares 
da Ilha da Madeira deste ano presente de b c xxix que o dito Joham 
Francisco tinha comprados de que ouve conhecimento. 

«Nos quaes asemtos foram postas verbas pollo contador Vasquo Lou- 
renço.de como se auião de ieuar em conta a Ruy Mendes Tacão e a 
Bastião Carualho recebedores dos açuquares na Ilha da Madeira em 
suas contas sete contos sete centos trimta e cinquo mil quinhentos trinta 
e cinquo reaes que se montou nos açuquares de toda sorte que per elles 
foram entregues na dita Ilha da Madeira aos feitores do dito Joham 
Francisco do contrato de compra que em minha fazemda delles fez o 
ano de vinte noue. ss. b contos biij c xxiiij biij c lxxxiiij reaes que se 
montou nos açuquares de toda sorte que o dito Ruy Mendez recebedor 
na dita Ilha na capitania do íTunchall lhe entregou como se vyo per duas 
certidões que de lia enuiou hua de b contos bj c xxiiij biij c lxxxiiij reaes 
feita a xij de mayo de b c e trimta e a outra de ij c reaes feyta a xx. te de 
julho da dita era, por que de cento e cinquoenta mill reaes que na dita 
certidão mais vyerão pêra conprimento dos trezentos e cinquoenta mill 
reaes que valerão os mais açuquares de sortes que foram emtreges aos 
ditos feytores se nã ha de dar despacho allguu ao dito Ruy Mendez rece- 
bedor pollos elle ter recebidos em dinheiro laa na Ilha dos ditos feytores 



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08 O INSTITUTO 

era pagamento dos filhos do capitão e lhe seram carregados em recepta. 
\ os j conto ix c bj c lj reaes que se montou nos açuquares de toda sorte 
ue o dito Bastião Carvalho recebedor na Jurdiçam de Machiquo aos 
ítos feytores emtregou asy mesmo na dita Ilha como pareçeo per outra 
ertidam que de lia veyo, segumdo todo esto mais ynteíramente era 
iecrarado em htia certidam em forma do dito contador Vasco Lourenço 
ue foy rota ao asinar deste pello qual vos mando que leueis em conta 
despesa ao dito Ruy Mendez recebedor do funchal os cinquo contos 
ytocentos vinte quatro mil oytocentos oytenta e quatro reaes que se 
ion taram nos açuquares de toda sorte que elle entregou aos ditos fey- 
ores como acima decrarado, por que dos hum conto nouecentos e dez 
íill seis centos cinquoenta e hum reaes que montam nos açuquares que 
mtregou Bastião Carvalho recebedor de Machiquo lhe foy dado outro 
landado pêra lhe serem leuados em despesa. Os quaes b contos 
iij c xxiiij biij c lxxxiiij reaes lhe asy leuareis em conta ; sendolhe carre- 
ados em receita. Manuel da Costa o fez em Lisboa a xix dias de outu- 
»ro de Jb c xxxij. — Rey- \ • — O Conde». 

«Que leuem em conta a Ruy Mendez Tacõo recebedor dos açuquares 
a Jurdiçam do Funchal b contos biij c xxxiij biij c lxxxiiij reaes que 
lontaram nos açuquares de toda sorte que elle emtregou aos feytores 
os herdeiros de Joam Krancisquo pelo contrato da compra que "delles 
2z o ano de xxix de que o dinheiro foy entregue . . . segundo se vyo per 
ertidam em forma do contador Vasco Lourenço que foy rota» (i). 

(Continua). Sousa Viterbo. 



(i) Torre do Tombo, gaveta i5, maço 21, n.° 8. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3oÇ 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 5, pag. 272) 



Resolvido o enamorado poeta a fazer-se intendei 
fanta, não tardaria muito, podemos suppô-lo, que < 
não percebesse os intuitos. 

E sem querer dizer que o meio empregado por < 
fosse uma declaração escripta, o que é certo é que 1 
uma das suas poesias se pôde considerar como pi 
destinada. Lêam-se, por exemplo, estas oitavas (episi 



I 



Senhora, se encobrir por alguma arte 
Pudera esta occasião de meu tormento, 
Não crêas que chegara a declarar-te 
Este meu perigoso pensamento. 
Mas, por mais que te oifenda, não sou parte 
No crime de tamanho atrevimento. 
Elle é de Amor, e delle fui forçado 
A que te declarasse o meu cuidado. 



II 



Se merece castigo a confiança 
Com que descubro agora o que padeço, 
Aqui prompto me tens : toma a vingança., 
Que, por tao grave culpa, te mereço. 
Bem me podes negar toda esperança, 
Mas eu não desistir deste começo, 
Porque tempo e fortuna não são parte 
Para deixar uma hora só de amar- te. 



III 



Já que ver-te os meus olhos alcançaram, 
Descansem neste bem com alegria, 
Pois já, com ver os teus, tanto ganharam, 
Quanto, estando sem vê-los, se perdia. 



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$10 O INSTITUTO 



Que eloria querem mais, se a ver chegaram 
Aquella pura luz, que vence o dia ? 
Qual mór bem ha no mundo que querer-te, 
Se não ha que ver, despois de ver-te ? 



IV 

Minhas dores mortaes, bella senhora, 
Tiraram a virtude ao soffrimento, 
E, fazendo- se mais em qualquer nora, 
Levando vão trás ti meu pensamento. 
Porém soberbos vejo desde agora, 
Por a causa gentil de seu tormento, 
Minha alma, meu desejo, meu sentido, 
Porque á tua belleza se não rendido. 



A par de tua rara formosura 

Se desconhece o mór merecimento ; 

A tua claridade torna escura 

Do sol a clara luz em um momento. 

Se Zeuxis, ao formar bella figura, 

A vista em ti pudera pôr attento, 

Mais alto original houvera achado, 

Para admirar o mundo co traslado. 



VI 

Aquelles que escreveram mil louvores 
De formosura, graça e gentileza, 
Todos foram, senhora, uns borradores 
De tua perfeitíssima belleza. 
Agora se vê claro cm teus primores 
Que em ti se esmerou mais a natureza. 
E que eram os seus cantos prophecias 
Do que havias de ser em nossos dias. 



Vil 

Vê, pois, se vinha a ser culpável falta 
Em mi o não render-te amante a vida, 
E se deixar de amar gloria tão alta 
Era digno da pena mais crescida. 
Emfim, eu te amarei, que Amor me exalta 
Co castigo de culpa assi atrevida. 
E, quando delia caia, maior gloria 
Terá o Tejo, que o Pó, com sua historia. 

Ás vezes, Camões pede á infanta corresponda ao seu amor, 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

lembrando-lhe até a brevidade da vida : 

Formpsos olhos, que cuidado dais 

A mesma luz do sol, mais clara e pura, 
Que sua esclarecida formosura, 
Com tanta gloria vossa, atrás deixais: 

Se, por serdes tão bellos, desprezais 
A fineza de amor que vos procura, 
Pois tanto vedes, vede que não dura 
O vosso resplandor, quanto cuidais. 

Colhei, colhei, do tempo fugitivo 
E de vossa belleza o doce fruto, 
Que em vão fora de tempo é desejado. 

E a mi, que por vós morro e por vós vivo, 
Fazei pagar a Amor o seu tributo, 
Contente de por vós lho haver pagado. 

(Soneto 269). 

Outras vezes limita-se a confessar-lhe que a ama : 

Mote (alheio) 

Vos teneis mi corazon. 

Glosa 

Mi corazon me han robado 
Y Amor, viendo mis enojos, 
Me dijo: Fuéte llevado 
Por los mas hermosos ojos 
Que, desque vivo, he mirado. 

Gracias sobrenaturales 
Te lo tienen en prision. 
Y, si Amor tiene razon, 
Senora, por las senales, 
Vos teneis mi corazon. 

Até que, emfim, o arrojado poeta, sempre dispostc 

Dar ás cousas que via outro sentido, 

suppôs que a infanta correspondia ao seu amor. 

Foi assim que elle interpretou as lagrimas que e 
occasião lhe viu deslisar pelas lindas faces: 

Amor, que o gesto humano na alma escreve, 
Vivas faiscas me mostrou um dia, 
Donde um puro crystal se derretia 
Por entre vivas rosas e alva neve. 



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3 12 O INSTITUTO 

A vista, que em si mesma não se atreve, 

Por se certificar do que ali via. 

Foi convertida em fonte, que fazia 

A dor ao soffrimento doce e leve. 
Jura Amor que brandura de vontade 

Causa o primeiro effeito. O pensamento 

Endoidece, se cuida que é verdade. 
Olhai como Amor gera, em um momento, 

De lagrimas de honesta piedade 

Lagrimas de immortal contentamento. 

(Soneto 8). 

Foi também essa a impressão que lhe deixou o aspecto i 
formosa senhora, em uma noite de luar: 

Diana prateada, esclarecida 

Com a luz que do claro Phebo ardente, 

Por ser de natureza transparente, 

Em si, como em espelno, reluzia, 
Cem mil milhões de graças lhe (?) influía, 

Quando me appareceo o excellente 

Raio de vosso aspecto, differente 

Em graça e amor do que soía. 
Eu, vendo-me tão cheio de favores, 

E tão propinquo a ser de totfo vosso, 

Louvei a nora clara e a noite escura, 
Pois nella destes côr a meus amores ; 

Donde collijo claro que não posso 

Dé dia para vós já ter ventura (i). 

(Soneto 280). 



(1) Loucamente apaixonado pela infanta, comprehende-se com que 
calor, com que enthusiasmo, Camões recitaria, na presença delia, algu- 
mas das suas poesias, sobretudo as que envolviam segunda intenção. 
Era natural que uma ou outra vez fizesse commover até ás lagrimas a 
intelligente e amável senhora, ou a levasse a manifestar-lhe directamente 
quanto o apreciava. Natural era também que elle, na disposição de espi- 
rito em que se achava, desse as cousas que via outro sentido. 

Eis mais uma dessas poesias, escriptas com segundo intuito : 

Mote 

Irme quiero, madre, 
A aquella galera, 
Çon el marinero 
A ser marinera. 

Voltas 

Madre, si me fuere, 
Do quiera que vó, 
No lo quiero yo, 
Que el Amor lo quiere. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3l3 

Veja-se como o illudido poeta manifestava agora 



Aquel nino fiero % 

>Iace que me mueva, 
Por un marinero, 
A ser marinera. 

El que todo puede, 
Madre, no podrá, 
Pues el alma vá, 
Que el cuerpo se quede. 

Con el por que muero 
Voy, porque no muera ; 
Que, si es marine ro, 
Seré marinera. 

Es tirana ley 
Del nifío senor 
Que, por un amor, 
Se deseche un rey. 

Pues desta manera 
Quiero irme, quiero, 
Por un marinero 
A ser marinera. 

Decid, ondas, cuando 
Vistes vos doncella. 
Siendo tierna y bella, 
Andar navegando ? 

Mas qué no se espera 
Daquel nino fiero ? 
Vea yo quien quiero, 
Sea marinera ! 

A joven destas redondilhas abandonava a mãe, para se a\ 

{>or amor, a uma vida cheia de riscos ; a bella infanta tinha visi 
he a occasiSo de ir para junto da mãe querida e ahi casar cor 
deiro do throno de França. E não muito antes (1545) tinha m< 
que estivera para ser o seu segundo noivo francês, o duque de < 
Emquanto á intenção reservada do poeta, basta ler o que 
diz acerca de Filodemo, no acto v, scena iv, do respectiv< 
«Esse galante, em satisfação de muitas mercês que elrei de Dii 
lhe fizera, metteu-se de amores com uma sua filha, a mais r 
como era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a c 
mulher abalam, desejou ella de ver geração delle. Senão quand 
nos Deus 1 se lhe começou de encurtar o vestido ; e, porque este 
não se desistem em nove dias, senão em nove meses, foi-Ihe a 
tão necessário acolher-se com ella. . . Acolheu-se em uma galé 
la princeza em uma galera nueva, con el marinero á ser marinei 



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3 14 O INSTITUTO 

enthusiasmo, por julgar bem succedido o atrevimento de 
pensar na infanta : 



Onde mereci 'eu tal pensamento, 

Nunca de ser humano merecido ? 

Onde mereci eu ficar vencido 

De quem tanto me honrou co vencimento ? 

Em gloria se converte o meu tormento, 

Quando vendo-me estou tão bem perdido, 
Pois não foi tanto mal ser atrevido, 
Gomo foi gloria o mesmo atrevimento. 

Vivo, senhora, só de contemplar-vos ; 
E, pois esta alma tenho tão rendida, 
Em lagrimas desfeito acabarei. 

Porque não me farão deixar de amar-vos 
Receios de perder por vós a vida } 
Que por vós vezes mil a perderei. 

(Soneto 202). 



Eis o que então affirmava do amor, quem depois tanto 
delle se havia de queixar: 



Quem diz que Amor é falso ou enganoso, 
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, 
Sem falta lne terá bem merecido 
Que lhe seja cruel ou rigoroso. 

Amor é brando, é doce e é piedoso. 

Quem o contrario diz, não seja crido ; 

Seja por cego e apaixonado tido 

E aos homens e inda aos deoses odioso. 

Se males faz Amor, em mi se vêm ; 
Em mi mostrando todo o seu rigor, 
Ao mundo quis mostrar quanto podia. ; 

Mas todas suas iras são de Amor ; 

Todos estes seus males são um bem, 
Que eu por todo outro bem não trocaria. 

(Soneto 2o5). 



O equivoco em que estava o poeta augmentou-lhe, por 
certo, a audácia, e a infanta comprehendeu emfim do que 
se tratava. 

Adoptando então uma norma de proceder, que estava em 
perfeita harmonia com o que sabemos do seu caracter, a 
sisuda filha do Rei Venturoso deu claramente a intender ao 
audacioso poeta que lhe .não acceitava a corte. 

Ouçamos o interessado, dando-nos conta da nova phasc 
em que entravam os seus amores : 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3l5 



Mote 



Olhos, não vos mereci 

?ue tenhais tal condição : 
ão liberais para o chão, 
Tão irosos para mi l 



Volta 

Baixos e honestos andais, 
Por vos negardes a quem 
Não quer mais que aquelle bem, 
Que vós no chão espalhais ? 

Se pouco vos mereci, 

Não me estimeis mais que o chão, 

A quem vós o galardão 

Dais, e mo negais a mi. 



Agora já o poeta se não queixa do olhar indifferc 
infanta, como tanta vezes o havia feito: 

Mote 

Ojos, herido me hábeis ; 
Acabad ya de matarme ! 
Mas, muerto, volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 



Voltas 

Pues me distes tal herida, 
Con gana de darme muerte, 
El morir me es dulce suerte, 
Pues con morir me dais vida. 

Ojos, que os deteneis ? 
Acabaa ya de matarme ! 
Mas, muerto, volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 

La Uaga cierto ya es mia, 
Aun que, ojos, vós no querrais. 
Mas, si la muerte me dais, 
£1 morir me es alegria. 



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O INSTITUTO 



Y assi digo que acabeis, 
O ojos, ya de matarme. 
Mas, muerto, volved á mirarme, 
Porque me resusciteis. 

(Redondilhas). 



Nunca manha suave, 
Estendendo seus raios por o mundo, 

Despois de noite grave, 
Tempestuosa, negra, em mar profundo, 
Alegrou tanto nau, que já no fundo 

Se vio, em mares grossos, 
Como a luz clara a mi dos olhos vossos. 

Aquella formosura, 
Que só no virar delles resplandece, 

E com que a sombra escura 
Clara se faz e o campo reverdece, 
Quando o meu pensamento se entristece, 

Ella e sua viveza 
Me desfazem a nuvem da tristeza. 

O meu peito, onde estais, 
É para tanto bem pequeno vaso. 

Quando acaso virais 
Os olhos, que de mi não fa\em caso, 
Todo, gentil senhora, então me abraso, 

Na luz que me consume, 
Bem como a borboleta faz no lume. 

Se mil almas tivera, 
Que a tão formosos olhos entregara, 

Todas quantas pudera, 
Por as pestanas delles pendurara ; 
E, enlevadas na vista pura e clara, 

Postoque disso indinas, 
Se andaram sempre vendo nas meninas. 

E vós, que descuidada 
Agora vivereis de taes querellas, 

De almas minhas cercada, 
Não pudésseis tirar os olhos delias, 
Não pôde ser que, vendo a vossa entre ellas, 

A dor, que lhe mostrassem 
Tantas, uma só alma não abrandassem. 

Mas, pois o peito ardente 
Uma só pôde ter, formosa dama, 

Basta que esta somente, 
Como se fossem mil e mil, vos ama, 
Para que a dor da sua ardente flamma 

Comvosco tanto possa, 
Que não queirais ver cinza uma alma vossa. 

(Ode 5.«). 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3l7 

Formosos olhos, que, na idade nossa, 
; Mostrais do ceo certíssimos sinais, 

« Se quereis conhecer quanto possais, 

I Olhai-me a mim, que sou feitura vossa. 

í Vereis que do viver me desapossa 

Aquelle riso com que a vida dais ; 
Vereis como de Amor não quero mais, 
! Por mais que o tempo corra, o dano possa. 

E se ver-vos nesta alma emfim quiserdes, 
Como em um claro espelho, alli vereis 
Também a vossa, angélica e serena. 
Mas eu cuido que, só por me não verdes, 
Ver-vos em mim, senhora, não quereis. 
Tanto gosto levais de minha pena ! 

(Soneto 38). 

O qUe agora o tortura, mas ao mesmo tempo lhe < 
é o áspero desprego com que a infanta olha para elle 
acerto o vê, é a crueza com que por ella é tratado: 

Vossos olhos, senhora, que competem 

Com o sol em belleza e claridade, 

Enchem os meus de tal suavidade, 

Que em lagrimas, de vê-los, se derretem. 
Meus sentidos, prostrados, se submettem 

Assi, cegos, a tanta majestade 

E da triste prisão da escuridade, 

Cheios de medo, por fugir, remettem. 
Porém, se então me vedes, por acerto, 

Esse áspero desprezo, com que olhais. 

Me torna a animar a alma enfraquecida. 
Oh gentil cura ! Oh estranho desconcerto I 

Que dareis c'um favor que vós não dais, 

Quando com um desprezo me dais vida ? 

(Soneto 65). 

Esses cabellos louros e escolhidos, 

Que o ser ao áureo sol estão tirando, 
Esse ar immenso, adonde naufragando 
Estão continuamente os meus sentidos ; 

Esses furtados olhos, tão fingidos. 

Que minha vida e morte estão causando, 

Essa divina graça, que, em fallando, 

Finge os meus pensamentos não ser cridos ; 

Esse compasso certo, essa medida, 

Que faz dobrar no corpo a gentileza ; 
A divindade em terra, tão subida : 

Mostrem já piedade e não crueza, 

Que são laços que Amor tece na vida, 
Sendo em mi soffrimento, em vós dureza. 

(Soneto 104). 

Ás vezes, a infanta, suppondo que o poeta já teria c 
da sua louca pretenção, e não querendo, por certo, qi 



V 



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3l8 O INSTITUTO 

parasse na maneira como o tratava, olhava-o com pista mais 
suave. Era o bastante para elle ficar doido de contente! 

Se, algum'hora, essa vista mais suave 
Acaso a mi volveis, em um momento 
Me sinto com um tal contentamento, 
Que não temo que dano algum me aggrave. 

Mas quando, com desdém esquivo e grave, 
O bello rosto me mostrais isento, 
Uma dor provo tal, um tal tormento, 
Que muito vem a ser que não me acabe. 

Assi está minha vida ou minha morte 
No volver desses olhos, pois podeis 
Dar c'uma volta delies morte ou vida. 

Ditoso eu, se o ceu quer, ou minha sorte, 
Que ou vida, para dar-vo-la, me deis, 
Ou morte, para haver morte querida 1 

(Soneto i56). 

Por fim a situação tornou-se irreductivel : 

Em não ver-me ella só sempre está firme, 
Mas eu firme estarei no que emprendi ! 

exclama o resoluto poeta : 



Tudo. . . faz mudança, 
Quanto o claro sol vê, quanto allumia ; 

Não se acha segurança 
Em tudo quanto alegra o bello dia ; 
Mudam se as condições, muda-se a idade, 
A bonança, os estados e a Vontade. 

Somente a minha imiga 
A dura condição nunca mudou, 

Para que o mundo diga 
Que nella lei tão certa se quebrou. 
Em não ver-me ella só sempre está firme, 
Ou por fugir de Amor, ou por fugir-me. 

Mas já sofFrivel fora 
Que em matar-me ella só mostre firmeza, 

Se não achara agora 
Também em mi mudada a natureza, 
Pois sempre o coração tenho turbado, 
Sempre de escuras nuvens rodeado. 

Sempre exprimento os frios 
Que em contino receio Amor me manda ; 

Sempre os dous caudais rios, 
Que em meus olhos abrio quem nos seus anda, 
Correm, sem chegar nunca o \erão brando, 
Que tamanha aspereza vá mudando. 



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..1 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

O sol sereno e puro, 
Que no formoso rosto resplandece, 

Envolto em manto escuro 
Do triste esquecimento, não parece, 
Deixando em triste noite a triste vida, 
Que nunca de luz nova é soccorrida. 

Porém seja o que for : 
Mude-se por meu dano a natureza ; 

Perca a inconstância Amor ^ 
A fortuna inconstante ache firmeza ; 
Tudo mudável seja contra mi : 
Mas eu firme estarei no que emprendi ! 

(Ode i 



A infanta resolveu então fazer saber ao t 

cebo que não queria tornar mais a vê-lo (i). 

Eis como elle encara a sua nova situação : 



Dai-me uma lei, senhora, de querer-vos, 
Porque a guarde, sob pena de enojar 
Pois a fé gue me obriga a tanto amai 
Fará que ngue em lei de obedecer-vo 

Tudo me defendei, senão só ver-vos 

E dentro na minha alma contemplar- 
Que, se assi não chegar a contentara 
Ao menos nunca chegue a aborrecer- 

E se essa condição, cruel e esquiva, 

Que me deis lei de vida nao consente 
Dai-ma, senhora, já, seja de morte. 

Se nem essa me dais, é bem que viva, 
Sem saber como vivo, tristemente ; 
Mas contente estarei com minha sort 

(Sone 



(i) É natural que desta delicada missão fosse en 
cisco de Noronha. Camões, como se infere do sonet 
pondido que cumpriria as ordens da infanta e que se 
contempla-la dentro da sua alma. Gomo o apaixona 
com sinceridade, se achava illudido ! E como não 
toso, se não irritado, o illustre fidalgo, com o pr 
protegido ! É este mesmo que o declara : 



A piedade humana me faltava, 
A gente amiga já contraria via, 
No perigo primeiro. 

(Canção n, 181-18: 



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320 O INSTITUTO 

Senhora minha, se, de pura inveja, 

Amor me tolhe a vista delicada, 

A cor, de rosa e neve semeada, 

E dos olhos a luz, que o sol deseja, 
Não me pôde tolher que vos não veja 

Nesta alma, que elle mesmo vos tem dada, 

Onde vos terei sempre debuxada, 

Por mais cruel imigo que me seja. 
Nella vos vejo, e vejo que não nace 

Em bello e fresco prado deleitoso 

Senão flor que dá cheiro a toda a serra (i). 
Os lirios tendes numa e noutra face ; 

Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso 

Quem os tiver, se ha tanto bem na terra. 

(Soneto 3o3). 

(Continua). Dr. José Maria Rodrigues. 



(iJ Parece-me que soffreu alteração o texto deste verso. Seja-me 
>ermittido propor esta correcção : 

Igual flor, que dê cheiro a toda a serra. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Redacção e administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBR/ 



Propriedade e ediçáo da Director Composto e in 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da 
Instituto de Coimbra ' Presidente do Instituto dade. 



SCIENC1AS MORAES E.SOCIÀES 



NOMENCLATURA GEOGRÁPHICA 

Subsídios para a restauração da toponymia em língua portuj 
(Cont. do n.° 6, pag. 285) 

IR, 

Rabat. Vid. Rebate. 

Ragusa, cidade austríaca, na Dalmácia. 

Raia (cabo de), na costa meridional da ilha da Tern 
(Arte, 21 5). Os livros estranjeiros dizem Raye, Raie 

Range, palavra inglesa que entra na composição de 
geográphicos. Tem a significação de cadeia de mon 
Cascaae Range (montamas das Cascatas), nos Estad 
dos e no Canadá. 

Ras 9 palavra árabe que tem a significação de cabo 
na composição de nomes geográphicos : Ras Fartaq, 
de Fartaque, na costa da Arábia. 

Ras el Hadd. Vid. Rosalgate. 

Raso (cabo), na costa oriental da Terra Nova. (Ari 
Os livros estranjeiros dizem Race. 

Rattsbonna, cidade da Baviera, banhada pelo Dan 

Rebate, cidade na costa occidental de Marrocos, 
diz o sr. David Lopes, tem a mesma significação qu 

VOL. 55.°, N.° 7 — JULHO DE 1908. 



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^ 



322 O INSTITUTO 



bida. «Os rebates eram originariamente quartéis fortificados 
que se construíam nas fronteiras do império. Além das tro 
pas que os guardavam, havia gente piedosa que ahi ia fazer 
o serviço militar, para obter os méritos que derivam de fazer 
a guerra santa aos infiéis: a prática da devoção tomava-lhes 

3uasi todo o tempo, e pouco a pouco os costumes e hábitos 
o convento substituíam os do quartel». (Dozy, Suppl aux 
dict. árabes), (Topon., 22). , 

Régfo, cidade de Itália. 

Respnde. Vid. Pude. 

Rkódano (e não Rhòne, nem Rhonó), rio que banha a Suiça 
e a França. 

Rkódope, montanha da península dos Balcans. 

Rife, região septentrional de Marrocos, vizinha do Medi- 
terrâneo. Os habitantes chamam-se rifenhos. Também se deu 
o nome de Rife ou Arrife a uma região situada ao longo do 
Nilo até Alexandria, e a essa chamou D. João de Castro 
Rifa. (Rot., 187; Topon., 23). 

Riú-Kilí. Vid. Léquias. 

Rochella, cidade francesa, porto de mar. 

Romanha, província de Itália. 

* Roménia, nação da Europa. 

Rosal gate (cabo de), na costa da Arábia. Rosal gate é a forma 
mais vulgar, mas escrcveu-se também Roçalgate. Na com- 
posição aeste nome entra a palavra ras, que em árabe signi- 
fica o mesmo que cabo. Nos mappas modernos lê-se Ras el 
Hadd. 

# Rnão, cidade de França. Em francês, Rouen. 



Saealina (ilha), próxima da costa oriental da Sibéria. 

Sadoxlma (ilha de), no archipélago do Japão, a W. de 
Nipon. Cf. Ximo. 

Sáhara. Vid. Çáhara. 

Sália, rio de Alemanha, affluente do Mosella. 

Salisbiírta, cidade de Inglaterra, mais conhecida pelo nome 
inglês de Salisbury. 

Samarão, cidacíe e porto na costa septentrional da ilha de 
Java. Nos mappas* estranjeiros, Semarang. 

Samarcanda, cidade do Turquestão russo. 

Sanchoão ou Sanch&o, ilha no mar da China meridional, 
a WSW. de Macau Em livros estranjeiros apparece com 



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NoMKNCl.ATUfeÀ CiKOGRÁPHldA ^2^ 

os nomes de Chang-tschouen ou Schang-tschua 
I, 614 e seg. ; Lucena, 890 e seg.). Alguns 
errradamente ilha de S. João, 

Sanctm, província da China, a N. da de H 
1. II, cap. vil). Em livros estranjeiros, Schan-s 

Sangatão (ponta de), na costa occidental d 
do cabo de Lopo Gonçalves. Também é non 
voação vizinha. Em livros estranjeiros, Sangai 

Sangulin, ilha a E. do mar de Celebes. Em 
jeiros, Sangi. O mesmo nome se dá collectiva 
vizinhas. 

Santa Bárbara (ilha de), entre as ilhas de 
Borneo. 

Santa Cruz (ilha de), na América, a SE. da 
Rico. 

Santa Lnzia (ilha de), uma das pequenas 
grupo de barlavento. 

Santo Eustáquio (ilha de), uma das pequen 
NW. da ilha de S. Christovam. 

Santflago de Cuba, cidade, porto de ma 
Cuba. 

Santo Ildefonso (cabo de). Vid. Home. 

Santomer, cidade de França. Em francês, í 

Santos (ilhas dos), nas peauenas Antilhas. 
dizem lies des Saintes (ilhas das Santas). 

São Bartholomeu (ilha de), uma das pequ 
a N. da ilha de S. Christovam. 

São Christovam (ilha de), uma das pequen 
NW. da ilha de Guadalupe. 

SSo Cr ai lo, cidade da Suiça. 

São João Baptista de Ajuda, forte portugu< 
Benim (África occidental). Os ingleses chamar 
e os franceses Ouida. 

São Jorge da Mina, feitoria inglesa da cost; 
golfo de Guiné, onde os portugueses fundaran 
castello e em volta d'elle uma povoação. Em 
jeiros lê-se Elmina, corruptela de S. Jorge da 

São Maló, porto de mar francês, no golfo do 

São Marinho (cidade e república de), na Itáli; 
S. Marino. 

São Martinho (ilha de), uma das pequenas 
da ilha Anguilla. 

Saona. Vid. Sona. 

São Quintino, cidade de França, banhada pe 



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324 ° INSTITUTO 

São Remígio, cidade de França, na Provença. Em francês, 
Saint-Remy. Também se disse S. Remo. 

São Thomás {ilha de), uma das ilhas Virgens, nas peque- 
nas Antilhas, grupo de barlavento. Chamaram-lhe também 
Virgem Gorda. 

São Vicente {ilha de), uma das pequenas Antilhas, no 
grupo de barlavento. 

Saragão {ilha de\ uma das Philippinas, a S. da ilha de 
Mindanau. Em mappas estranjeiros, Sarangani. (D. V, 1. VIII, 
cap. X). 

Sarbnrgo, cidade da Prússia Rhenana. Em alemão, Saar- 
briicken. 

Saro, rio da Austria-Hungria, affluente da margem direita 
do Danúbio. Latim, Savus; alemão, Sau ou Save; eslavo, 
Sapa; magyar, S\ava. 

Saxe. Vid. Saxónia. 

Saxónia, reino do império de Alemanha*. Em alemão, Sa- 
chsen; em francês, Saxe; em latim, Saxonia. Sempre em 
português se chamou Saxónia a este reino; mas introdu- 
ziu-se o uso de dizer Saxe, quando o nome entra em com- 
posição com outro: Saxe-Weimar, Saxe-CoburgoGotha t 
Saxe-Meiningen, Saxe-Altemburgo, etc. Nada mais absurdo. 
Além de que a palavra é a mesma, quando simples e quando 
componente, accresce que Saxe é forma francesa e portanto 
de modo nenhum admissível para designar em português 
terras alemãs. Deve-se dizer Saxónia-Veimar, Saxónia-Co- 
burgo-Gotha, Saxónia- Meiningen (ou - Meininga), Saxónia- 
Altemburgo, etc. D'antes eram estas as formas correntes em 
português, como se vê em Sousa, Hist. Gen., II, 208 e seg. 

Schen-sf. Vid. Xiamxim. 

Scilly, um dos nomes por que em livros estranjeiros se 
designam as ilhas Sorlingas. 

Seeland. Vid. Zelândia. 

Seinarang. Vid. Samarão. 

Sendaf, cidade do Japão, na ilha de Nipon. 

ttenegámbia {costa da), parte da costa occidental de África 
comprehendida entre os cabos Branco e Verde. 

Serra Leoa, nome de uma região africana designada em 
livros estranjeiros por Sierra Leone. Chama-se costa da 
Serra Leoa a que está comprehendida entre os cabos de 
Sagres e do Monte. 

Se-Tchouen. Vid. Sujuão. 

Sererno, rio de Inglaterra. Em inglês, Severn. 

Sherbro. Vid. Fartdho. 



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NOMENCLATURA GEOGRÁPHICxV 325 

Shirna. Vid. Ximo. 

Siamês, habitantes do reino de Sião. E forma invariavel- 
mente usada pelos nossos clássicos. * 

Siantôes {ilhas dos), situadas a E. da península de Malaca, 
e hoje designadas nos mappas por Anambas. A alguma ou 
algumas d'ellas ainda se dá em mappas estranjeiros o nome 
de Siantan. 

Siau, ilha do mar de Celebes. Em livros estranjeiros, 
Siauw e Sijau. 

Sierra Leone. Vid. Serra Leoa e Ledo. 

Sikok. Vid. Xicoco. 

Sima. Vid. Ximo. 

Simonoseki. Vid. Ximonoxeque. 

Slnde, nome que se deu ao rio mais conhecido por Indo, 
e á costa onde elle acaba. Alguns clássicos também escre- 
veram Cinde. (Or. conq., pref. ; D. IV, 1. IX, cap. VI). Em 
latim, Sindês, -#, ou -is. 

Singapura. Vid. Cingavura. 

Socoto, cidade, capital do sultanato do mesmo nome, no 
Sudão central británnico. f 

Solor, pequena ilha a E. da de Flores, na Oceania. Quando 
á ilha de Flores se chamava também Solor, dava-se a esta 
o nome de Solor o velho. 

Sombreiro (ilha do), uma das pequenas Antilhas, a NW. 
da ilha Anguilla. 

Sòmma, rio do norte de França. v 

Sona (melhor do que Saona), rio de França, affluente do 
Rhódano. 

Sorlingas (ilhas), grupo a SW. da Gran Bretanha. Em 
alguns mappas trazem o nome de Scilly. 

Spira. Vid. Espira. 

Spréa ou Espréa, rio da Prússia que banha a cidade de 
Berlim. 

Stettfn. Vid. Estetim. 

* Sucre, cidade da Bolívia a que alguém já deu o nome 
de Assucar. O nome veio-lhe de José Sucre, um dos heroes 
da independência d'aquella república. 

Sudão, região da África, ao sul do deserto de Çáhara. 
Sudão é palavra de formação árabe e significa ten*a de pre- 
tos. O nome clássico é Negricia,, que é de origem latina e 
significa o mesmo que Siiaão. É vulgar a forma francesa 
Soudan. Em jornaes e livros, alguns bem conceituados, tem-se 
dito Soldão, com pretenções de forma clássica. Soldão é pa- 
lavra vulgar nos clássicos, mas vale o mesmo que sultão. 



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326 O INSTITUTO 

* Sniça, nação da Europa central. É errónea a forma 
Suissa. 

SajaSo ou Sujaam, província da China, a E. do Tibet. 
Em livros estranjeiros, Se-Tchouen ou Se-Tchouan. (D. II, 
I. II, cap. VII). 

Samba (ilha de), ao sul da ilha de Flores e a W. de Timor. 
(Arte, 443; Godinho, XXVII). 

Sambara (ilha de), no mar de Flores, entre a ilha de Flo- 
res e a de Lumbó. (Arte, 435, 445 e 446). 

Sand (estreito de), entre a ilha de Zelândia e a Escan- 
dinávia. Os portugueses chàmaram-lhe Zonte (Arte, io5), 
imitando a pronúncia dinamarquesa. Seria bem preferível 
adoptar Zonte a escrever Sund, que todos pronunciam á 
portuguesa, sem nenhuma relação com a língua original nem 
conformidade com as leis da nossa língua. A palavra Sund 
significa estreito. (BI., in vb.° Sunda e Carneiro Geraldes, I, 
10) escreveram Sunda, o que parece menos justificável do 
que Zonte. 

Surabaia, cidade da ilha de Java. Nos mappas modernos, 
Soerabaja, á hollandêsà. 

S uru te. Vid. Carimata. 

Suxima (ilha de), no archipélago do Japão, a NW, de 
Ximo ou Kiú-siú. 



Ta ou Tal, palavra chinesa que significa grande e entra 
na composição de nomes geográphicos : Tai-não é nome chi- 
nês da ilha Formosa. 

Tabago (ilha), uma das pequenas Antilhas, a NE. da ilha 
da Trindade. 

Tabarca, nome de uma povoação na costa de Tunes e de 
uma ilha que lhe fica próxima. 

Tafllete, povoação de Marrocos, capital do antigo reino do 
mesmo nome. 

Tanassarim ou Tanaçarim, rio da Indò-China, que vai 
desaguar á costa occidental. É também nome de região e de 
cidade na mesma península. (D. II, 1. VI, cap. I; D. V, 1. V, 
cap. IX). Também se disse Tenassarim. (D. I, 1. IX, cap. I). 

Tarne, rio de França, affluente da margem direita do Ga- 
ronna. Em latim, Tarnes ou Tamis. 

Tartaruga (ilha de), uma das Antilhas, a NW. da ilha de 
S. Domingos. Nos mares da América existem várias ilhas 
com o nome de Tartaruga, por vezes reproduzido nos map- 



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NOMENCLATURA GEOGRÂPH1CA 3^7 

pas em castelhano (Tortuga). Uma cTellas pertence ás pe- 
quenas Antilhas, no grupo de sotavento. 

Tau, palavra chinesa que significa ilha e entra na compo- 
sição de nomes geográphicos: Tau-pim, ilha junto á costa 
oriental da China. 

Tarai {porto e ilha de), na costa occidental da Indò- 
China. 

TaygetOj antigo nome de um monte da Lacónia, região da 
Grécia. 

Tchang-Tckéon. Vid. Chincheu. 

Tchedouba. Vid. Chedi(bé. 

Tehe-Kiang. Vid. Chequião. 

Tcheu. Vid. Cheu. 

Tehuantepeqne (cidade, isthmo e golfo de), no México. 
Pimentel escreveu Tecuantepeque. (Arte, 202). 

Tenes (cabo), na costa da Argélia. 

Temate, uma das cinco ilhas a que os portugueses deram 
o nome genérico de Maluco ou ilhas Malucas, vid. Malucas. 

Terra de Labrador ou Terra de Côrte-Real, região a NE. 
da América do Norte. Sobre a origem do nome, Cardeal Sa- 
raiva, V, 201 e Luciano Cordeiro, De la découverte de VAmé- 
ríque. 

Terra Nova, ilha a NE. da América do Norte, defronte do 
golfo de S. Lourenço. Os portugueses, que primeiro a des- 
cobriram e lhe percorreram o littoral, chamaram-lhe terra 
ou ilha dos Bacalhaus, em razão da pesca que alli se faz. 
A ilha foi descoberta em i5oo por Gaspar Corte Real. 

Tetuão, povoação do império de Marrocos. Em livros es- 
tranjeiros lê-se Tetuan. 

Thuríngia, região, da Alemanha central. 

Tibet, região da Ásia. 

Tidore, uma das ilhas Malucas. Vid. Malucas. 

Tinhosa (ilha), no mar da China meridional, a SE. da ilha 
de Ainão. 

Tioman. Vid. Pulo Timão. 

Tirol (e não Tyrol), região da Áustria. 

Tiroleses, os habitantes do Tirol. 

Tobago. Vid. Tabago. 

Toeoxinia ou Tocuxiina, cidade do Japão na ilha de Xi- 
coco. 

Tolosa, cidade de França. 

Tom ou Tum, palavra chinesa que entra na composição 
de nomes geográphicos e significa leste ou nascente: Xan+ 
tom, província da China oriental. 



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328 O INSTITUTO 

* Tonquim, região a NE. da península da Indo- China. Por 
variante na transcripção do elemento tom ou ton, também 
se disse Tunquim; mas prevaleceu Tonquim. 

Trfr, porto da península do Sinai, no golfo de Suez. (D. V, 
1. VII, cap. VIII). 

Tordesilhas, povoação espanhola na margem direita do 
Douro. 

Tortnga. Vid. Tartaruga. 

Town, palavra inglesa que significa cidade e entra na com- 
posição de nomes geográphicos : Capetoivn, cidade do Cabo. 

Tranquebar, cidade, porto de mar, no Indostão. 

Transbaicália, província da Rússia asiática, a E. do lago 
Baical. 

Travancor, região e antigo reino do Indostão, a SW., 
junto ao cabo Comorim. Em livros estranjeiros, Trapaticore. 

Tréveris, cidade da Prússia. Em francês, Tréves\ em ale- 
mão, Trier. 

Trêres, nome francês da cidade alemã de Tréveris. 

Trevlso, cidade de Itália* 

Trinquinamalo, vasto porto a NE. de Ceilão. 

Truxtlho, nome de povoação espanhola e de cidades nas 
repúblicas de Honduras, da Venezuela e do Peru. Em caste- 
lhano, Trujillo. 

Tubão, cidade a N. da ilha de Java. Nos mappas moder- 
nos, Tceban, forma hollandêsa. 

Tublnga, cidade de Alemanha. Em alemão, Tubingen. 
Tubinga é forma tradicional em português e em castelhano. 
Tubingue, que se encontra frequentes vezes, é forma fran- 
cesa. 

Turâo, porto de mar na costa oriental da Indò-China. Em 
livros estranjeiros, Tourane e Turon. 

Turenna, povoação francesa. Teve o título de viscondado. 

Turon, Tourane. Vid. Turão. 

Tutocorlui, porto de mar, a S. do Indostão. 

Tyrol. Vid. Tirol. 

U 

Uad 9 UadJ ou Ued, palavra árabe que significa rio e entra 
na composição de nomes geográphicos, principalmente ao 
norte de África: Uadi Ricana,Uadi Lh*á, rios de Marrocos. 
O elemento uad encontra-se representado por Guadi ou Guad 
nos nomes de alguns rios da península : Guadiana, Guadal- 
quivir, Gmdalaviar. Ao passo que em Espanha prevaleceu 



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NOMENCLATURA GEOGRAPHICA 

a forma Guad, em Portugal tomou o elemento árab< 

Ode : Odemira, Odelonca, Odiana (= Guadiana), 

Ode. 

Uadai, região do Sudão central francês, a E. do la 
Uadelai, cidade do Sudão egypcio, a N. do lago 
Uara, cidade do Sudão central francês, 
Uei-hai-Uel, cidade, porto inglês na costa oriental < 

Os ingleses escrevem Weihai-Wei 
Uganda, região da Africa. 
Ulma, cidade do reino de Vurtemberga. 
Ussuri, rio da Ásia oriental, que em parte serve 

teira entre a Sibéria e a China. 
Útica, antiga cidade da África. 



V 

Vaeea (ilha da), situada perto da costa de SW. c 
Haiti. Também lhe chamaram, talvez por corrupção 

Valáquia, região da península dos Balcans. 

Valença, cidade espanhola na costa do Mediterrá 

Valencienas ou Valenccnas, cidade de França, pr 
fronteira da Bélgica. Em francês, Valenciennes. 

Valeta, nome que em português se deu á cidac 
Valette, em Malta. A cidade tirou o nome do seu í 
La Valette, grão-mestre da ordem de Malta. 

Valhadolid, cidade de Espanha. Em castelhano, Vc 

Valladolid. Vid. Valhadolid. 

Vandoma, cidade de França. Teve título de duca 

Varella (porto e cabo da), na costa oriental da Inc 

Varennas, povoação francesa, onde Luís XVI fo 
22 de junho de 1791. Ha em França outras povoai 
o mesmo nome. 

Venaissino, antigo condado em França. Em fra 
naissin. 

Véner (lago de), na Suécia. 

Vesel, cidade de Alemanha (Prússia). 

Vestphália, província da Prússia. Alguns escreve 
phália. 

Vétter (lago de), na Suécia. 

Vicéncia, cidade de Itália, capital da província d 
nome. (Lucena, 1. I, cap. V). Em italiano, Vicen\a. 

Vicentinos, os habitantes de Vicéncia, na Itália. 

Vintemilha, cidade de Itália. Em italiano, Vintim 



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330 O INSTITUTO f 

Virgens (cabo das), á entrada oriental do estreito de Ma- 
galhães, do lado do norte. 

Virgínia, um dos estados Unidos norte-americanos. Na 
mesma União ha outro estado com o nome de Virgínia Occi- 
dental. 

Visagapatão, cidade na costa oriental do Indostão. 

Vitemberga, cidade da Prússia, na província de Saxónia. 

Yolínia, região da Polónia russa. 

Vórmia ou Wórinia, cidade do império alemão. Em ale- 
mão, Worms. 

Vurno, cidade do Socoto, no Sudão central británnico. 

Vurteinberga, reino do império de Alemanha. 



TV 

Wald, palavra alemã que significa floresta e entra na com- 
posição de nomes geográphicos. Aos nomes das suas monta- 
nhas costumam os alemães juntar a palavra Wald, porque 
ellas offerecem realmente o aspecto de florestas : Schn>ar\n>ald 9 
a Floresta Negi*a; Thuringerivald, a Floresta da Thuringia. 

Wei-hai-Wei. Vid. Uei-hai-Uei. 

Westphália. Vid. Vestphdlia. 

Whydah. Vid. São João Baptista de Ajuda. 

Worms. Vid. Vórmia. 



X 



Xantom, província da China oriental. Nos mappas moder- 
nos, Chan-Toung. 

Xerez ou Xerez de la Frontera, cidade de Espanha, na 
Andaluzia. (Or. conq., I, 885). 

Xtanxim, província da China. Em livros estranjeiros, 
Schen-Si. 

Xieoeo (ilha de), uma das do archipélago do Japão, a 
SW. de Nipon. Os portugueses também lhe chamaram 
Tonça. Em livros estranjeiros, Sikok. (Lucena, 466; Or. 
conq., I, 478). 

Ximo, palavra japonesa que significa ilha e entra na com- 
posição de nomes geográphicos. Vid. Cangoxima, Sadoxima, 
Ximo (ilha de) e Ximonoxeque. Em livros estranjeiros appa- 
rece a palavra japonesa trasladada por Shima e Sinta. 

Ximo (ilha de), uma das do archipélago do Japão, mais 



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Goo 



H 



NOMENCLATURA GEOQRÁPHICA 33 I 

conhecida nos mappas modernos pelo nome de Kiú-siú. Tam- 
bém os portugueses lhe chamaram Saxi/ma, e por este nome 
se' designa ainda cm alguns mappas modernos uma reeiã 

Êarte meridional da ilha. (Lucena, 466; Or. conq., I, 
>. V, I. VIII, cap. XII). 

Ximonoxeque ou Ximoiioseque, cidade porto de ma 
Japão, a SW. da ilha de Nipon. Em livros estranjeiros 
monoseki ou Shimonoseki. Cf. Ximo, Cangoxima e Sadox 
(Couto, D. V, 1. VIII, cap. XII). 
Ximoxú (ilha), uma das Curilhas. 
Xôa, reino antigo na Ethiópia. Em livros estranje 
Choa. 



Yama. Vid. lama. 
Yokoama. Vid. Iocohama. 
Ynn-Xan. Vid. lunnão. 



Zoila, porto inglês na costa oriental de África (goli 
Adem). 

Zelândia, nome de uma província da Hollanda e de 
ilha da Dinamarca, no mar Báltico. 

Zemlia ou Zeinbia, palavra russa cjue significa ler 
entra na composição de nomes geográphicos : JNovaia Ze\ 
isto é, terra nova, grupo de duas ilhas no oceano gl 
Árctico. 

Zonte. Vid. Simd. 

Zufdcrsé, grande golfo na costa da Hollanda. 

JZungária, região da Ásia central. Em livros estranjí 
D^oungarie. 

Zúngaros, os habitantes da Zungária. 

Fortunato de Auieii 



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VJ 



SGIENGIAS PHYS1G0-MATHEMAT1GAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n.° 6, pag. 297) 

[U 10 b] — R. Eloy d' Almeida — Carta militai* das princi- 
pães estradas de Portugal, 1808. 

[U 10 b] — # — Carta da Cqsla da Goiana Portuguesa e 
Francesa, etc, 1808. 

[U 10 í] — L. H. da Cunha d'Eça — Reconhecimento militar 
de uma parte da Provinda da Beira Baixa em que 
entra parte da Extremadura, 1808. 

[U 10 b] — # — Carta militar de Santarém e dos seus arre- 
dores, 1808. 

[U 10 b] — J. Bento da Fonseca — Plano topographico da 
Cidade de Macau, 1808. 

[U 10 b]— * — Mappa da derrota do Naturalista Joaquim 
Joséh da Silva da Cidade de Benguella ás praias 
de Cabo Negro onde achou o Real Padrão, etc, 
1809. 

[U 10 b] — # — Planta da cidade de Leiria, i8og. 

[U 10 b] — L. H. da Cunha d'Eça — Reconhecimento militar 
comprehendendo o Terreno desde Villa Franca até 
ao Arco da Cru% de Pedra, i8og. 

[U 10 b] — J. N. Xavier de Brito — Mappa de reconhecimento 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 333 

í de uma parte do Grande Districtc 
Corpo, i8og. 

[U io b] — J. M. das Neves Costa — Car 
estrada militar, 1810. 

[U 10 b] — # — Mappa da Villa e Arrede 
com o acampamento de tropas porti 
no anno de 1810. 

[U 10 b] — Carlos F. B. de,Caula — Ca) 
terreno compréhendido entre Mui 
Rio-Maior e Peniche, 1810. 

[U 10 b] — Marino M. Franzini — Carta n 
de Portugal desde Cabo Silleiro < 
Huelva, etc. (1), 181 1. 

[U 10 b] — J. M. das Neves Costa — Carta 
de supplemento á Carta Topogi 
parte da Provinda da Extremaau 
boa, etc, 181 1. 

[U 10 b] — # — Plano geral da Cidade de 

[U 10 b] — F. A. M. Cabral — Planta topog 
de Goa, 1812. 

[U 10 b} — F. A. M. Cabral — Planta da i 
1812. 

[U 10 b] — Marino M. Franzini — Roteiro a 
tugal, ou instrucçôes náuticas pa\ 
uso da carta reduzida da mesma ca 
particulares dos seus principaes po 
prensa regia, 1812. 

[U 10 b] — Academia Real das Sciencias < 
lecção de noticias para a historia 



(1) 11 y a une autre édition de 1816. 



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334 ° INSTITUTO 

nações ultramarinas que vivem nos domínios portu- 
gueses, etc, Lisboa, Typographia da Academia real 
aas sciencias, 1812. 

Le livre II de cette collection, en 7 volumes, 
renferme: Navegação de Luiz de Cadamosto a 
que se juntou a. viagem de Pedro de Cintra, capi- 
tão por tu gue^; Navegação de Lisboa á ilha de 
S. Thomé escripta por um piloto portugue\; Na- 
vegação de Pedro Alvares Cabral escripta por 
um piloto portugue\. 

[U 10 b] — J. F. António de Souza e F. d 7 Assis Blanc — 
Mappa topographico da campanha de Elvas em que 
se mostra a posição d' esta Praça e sua disposição: 
a posição aos Fortes e novos reductos destacados 
cujas obras vão notadas com as letras e iniciaes das 
suas denominações, 181 3. 

[U 10 b] — * — Mappa do districto de entre Douro e Minho, 
i8i3. 

[U 10 b] — F. A. Monteiro Cabral — Planta da praça de 
Mormugão, 1814. 

[U 10 b] — # — Projecto do Porto que deve construir-se no 
areal de S. Francisco da Cidade de Ponta Delgada 
na Ilha de S. Miguel e obras accessorias, 1814. 

[U 10 b] — J. Thoresio Michelotti — Cartas da costa da 
Cidade de Ponta Delgada, etc, 18 14. 

[U vo b] — Officiaes do Real Corpo de Engenheiros (1) — 
Planta da Praça de Peniche, 1814. 

[U 10 b] — J. Bento da Fonseca — Copia da Vil la de Cayenna, 
i8i5 (?). 

[U 10 b] — Diogo J. de Brito — Planta Hydrographica do 
Porto de Tamandaré, i8i5. 



(1) Sous les ordres du general Azede. 



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LES MATHÉMATIQUES 

o b] — J. J. S. — Mappa Gec 
\onas e do Rio Negro, 1 

o b] — J. Carlos de Figuei 
Projecto de suas Defe\a\ 

o b] — Ambrozio J. de Souza 
Franca do Campo na ill 

o b] — A. Leão — Prospecto 
Loanda no Reino de An { 

o b] — * — Carta Topograpt 
estado da obra do Cana 
1816. 

o b] — A. L. P. da Cunha — 
S. Paulo de Loanda no 

o b] — P. Dias d' Almeida — 
chal, etc, 1817? 

o b] — A. J. da Silva Paule* 
graphica da capitania d 

o b] — Real Archivo Militar 
Geo-Topo- Graphica da 

o b] — P. Dias d\Almeida — 
Madeira, 1817. 

o b] — J. D. da Cunha Mach/ 
Planta da Praça e Povo 
tes, i8ij. 

o b] — A. J. da Cunha Salg 
Elvas, i8ig. 

o b] — Maximiano José da Si 
Campo Maior, i8ig. 



(1) Elle a été lithographiée à Paris < 



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336 O INSTITUTO 

[U io b] — A. R. G. C. — Projecto de Edificação da Nova 
Villa Real da Praia Grande, iSig. 

RJ io b] — A. B. Pereira do Lago — Planta do Forte da 
Ponta d! Areia na Capitania do Maranhão, etc, 
1819. 

\J 10 b] — J. A. d'Abreu -»— Planta da Villa e Praça de 
Abrantes, 181 ff. 

U 10 b] — J. M. das Neves Costa — Carta militar de huma 
parte da ponteira do Alemtejo entre o Tejo e a 
villa de Assumar, i8ig. 

[] 10 b] — F. P. A. Moreira — Carta hydrographica da 
Costa da Provinda de S. Paulo, 1820. 

U 10 b] — * — Nova carta do Brasil e da America portu- 
guesa, 18 21. 

LJ 10 b] — A. B. Pereira Lago — Roteiro da costa da pro- 
vinda do Maranhão, desde Jericoacoara até á ilha 
de S. João, e da entrada e sahida pela bahia de 
S. Marcos, que deve acompanhar a carta reduzida 
da costa da sobredita provinda, Lisboa, 1821. 

U 10 b] — A. H. da Costa Noronha — Planta da bahia da 
Villa da Praia da Victoria, 1822. 

LJ 10 b] — J. Carlos de Figueiredo — Carta militar e Topo- 
Hydrographica da ilha de S. Miguel, 1822. 

U 10 b] — S. Lopes Ramos — Plano do Porto de Moçambi- 
que, 1823. 

LJ 10 b] — # — Mappa Topog\ % aphico de parte da Capitania 
do &rão Pará, 1823. 

LJ 10 b] — * — Plano do Porto da Bahia de Todos os Santos, 
1823. 

U 10 b] — A. G. da Costa e Silva — Mappa que compre- 
hende os limites das Fronteiras do Brasil desde a 
Villa de Albuquerque até S. Paulo, 1824. 



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LÊS MATHáMÀfKjUÈS Eti PORTUGAL 33*7 

[U ro b) — F. X. Ribeiro Sampaio — Diário da % 
em visita e correição das povoações da a 
S. José do Rio rfegro fe% no anno de iy 
Lisboa, Typograpnia da Academia real 
cias, 1825. 

[U 10 b] — F. A. Monteiro Cabral — Esbouco e 
pássaro da provinda de Sattary, 1Ê25. 

[U 10 b] — A. H. da Costa Noronha — Copia 
Topographica da Ilha de S. Jorge, 182Í 

[U 10 b] — * — Carta militar e chorographica d 
Algarve, 1825. 

[U 10 b] — J. Rodrigo d' Almeida — Carta milite 
Terceira, 1825. 

[U 10 b] — * — Carta militar e chorographica d 
Algarve, levantada em julho de 182$. 

[U 10 b] — Maximiano J. de Serra — Copia da 
Camarate, 1826. 

[U 10 b] — # — Plano Gwal da Cidade de Lisboi 

[U 10 b] — * — Esboço da Beira Baixa entre 1 
Zêzere onde se notam graphicamente as j 
pontes e estradas militares, e se dá pel 
uma ideia das questões de Strategia que l 
tivas, 1828. 

[U 10 b] — * — Planta do Porto d' Amieira, ond 
as Posições da Ponte Militar e das ba 
a sua defeca, 1828. 

[U 10 b] — 3. Maria Gonçalves — Mappa do ter 
tugue\<ie Goa, i82g. 

[U 10 b] — Miguel A. de Souza — Plano Reform 
de Macao, 182Q. 

[U 10 b] — J. A. d'Abreu — Carta topographica 
adjacente ao Rio d' Alcântara, j82Ç. 

VOU 55.°, N.° 7 — JULHO DE 1908. 



1 



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338 . O INSTITUTO 

[U 10 b] — António Teixeira — Itinerário em que se contem 
como da índia veio por terra a Portugal, 182c. 

[U 10 b] — J. Aniceto da Silva — Carta do Território de 
Damão e suas dependências, i83o. 

[U 10 b] — Brandão de Souza — Carta topographica do Istmo.», 
da praça de Peniche, i83o. 

[U 10 b] — Duarte J. Fava — Carta topogi*aphica de Lisboa 
e seus arredores, i83i. 

[li 10 b\ — Cândido A. Osório — Planta topographica da ci- 
dade de Macao, i83i. 

[U 10 b] — J. Victor Moreira — Carta iopographica dos pre- 
sidios d' Angola e Benguella, 1 83o- 1 835 (?). 

[U 10 b] — J. Aniceto da Silva — Perspectiva da Praça de 
Dio, i833. 

[U *o b] — J. A, da Silva — Planta da ilha de Dio, i833. 

[U 10 b] — Don J0Ã0 de Castro — Roteiro em que se contem 
a viagem que fizeram os portugueses no anno de 
1541, partindo da nobre cidade de Goa até Soe%, 
que he no fim e stremidade do Mar-roxo. Com o 
sitio e pintura de todo o Sino Arábico. . . Dedicado 
ao infante Don Luiz. Tirado á lu% pela primeira 
ve\ do manuscripto original (1), e acrescentado com 
o Itinerarium Maris rtubri, etc. Paris, Typogra- 
phia de Casimei, i833. 

U 10 b] — A. J. Mourão — Planta da costa comprehendida 
entre o cabo de Roca e Cascaes, i833. 



(1) L'original qui existe au British Museum et qui a servi à cette 
sdition, pubnée par A. Nunes de Carvalho, parait avoir été acheté au 
:ommencement du xvn e siècle par sir Walther Raleigh, qui le fit tra- 
iuire en anglais dans les collections des Pilgrims de Purchas (Londres, 
1, 1625, p. 1122). II fut publié aussi en français dans YHistoire générale 
tes voyages de Tabbé Prevost (Liv. 1, cap. xvm), et aussi, à ce qu'il pí- 
•ait, en latin, seus le titre d' Itinerarium Maris Rubri. 



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LtíS MATHlÍMATlQUfcS:£N POftTUGAL 3^9 

[U 10 b] — A. L. da Costa e Almeida — Roteiro geral das 
costas, ilhas e baixos reconhecidos no globo, Lisboa, 
Typographia da Academia real das sciencias, Par- 
tie i, tom. i, i835; tom. u, 1845; Partie 11, 1845; 
Partie 111, tom. 1, 1837, tom. 11, i838; Partie iv, 
1845; Partie v, 1840; Partie vi, tom. 1, 1 841; tom. 11, 
1843-, tom. ih, 1844; Partie vm, 1846; Partie x, 
tom. 1, 1842, tom. 11, 1846; Partie xi,'i83g. 

[U 10 b] — J. P. Celestino Soares — Planta das ilhas de 
Solor e Timor e outras adjacentes, i836. 

[U 10 b] — C. J. M. Garcez Palha — Carta Hydrographica 
das Barras de Agòada e Mormugão, i836. 

[U 10 b] — M. J. Pires — Carta topographica do terreno em 
que se médio a pequena Base de verificação M. B. 
de 4:789,941208 braças reduzida á temperatura do 

feio fundente e ao nivel das aguas do Oceano, Lis- 
oa, i836. 

[U 10 b] — J. M. R. — Mappa do Reino do Algarve, i83j. 

[U 10 b] — Álvaro Velho (?) — Roteiro da viagem de Vasco 

da Gama em I4grj, Porto, Typographia commercial 

portuense, i838; Lisboa!, Imprensa nacional, 1861. 

Publié en i838 par Diogo Kopke et A. da Costa 

Paiva (i); en 1861, par Alexandre Herculano 

et Ia baron de Castello de Paiva. 

[U 10 b] — * — Plano da Povoação de Mindello, na ilha cie 
S. Vicente de Cabo Verde, j838 (?). 

[U 10 b] — P. Lopes de Souza — Diário da navegação da 
armada que foi a terra do Brasil em í53o sob a 
capitania mór de Martim Affonso de Souza, Lisboa, 
Typographia da Sociedade propagadora de conheci- 
mentos úteis, i83g. 

Publié par F. Adolpho de Varnhagen. 



(1) Plus tard baron de Castello de Paiva. 



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|0 O INSTITUTO 

J io b] — J. C. Lima — Planta topographica da Cidade à 
Porto, etc, 1839. 

J 10 b] — J. M. Marques — Carta hydrogi^aphica das Ma 
de Timor, Solor, i83g. 

J 10 b] — M. L. Pereira Nunes — Cartas das Barras <i< 
Agoada e Mormugão, i83g. 

J 10 b] — Lourenço G. Possollo — Planta da Praça e Pit> 
montorio de Sagres, 1840. 

J 10 b] — J. M. das Neves Costa — Minuta de huma carta 
do reino de Portugal, 1840. 

J \o b) — A. M. Fontes Pereira de Mello — Planta do 
Porto da Villa da Praia, na ilha de S. Thiagt, 
1840. 

J 10 b] — A. M. Fontes Pereira de Mello — Planta de 
Porto Grande na ilha de S. Vicente, 18 41. 

J 10 b] — A. L. da Costa e Almeida — Roteiro geral dos 
mares, costas, ilhas e baixos reconhecidos no globo, 
Lisboa, Typographia da Academia real das scien- 
cias, 1841. 

J 10 b] — F. M. Pereira da Silva e C. Maria Batalha — 
Carta topographica do pinhal nacional de Leiria t 
seus arredores, 18 41. 

J io b] — Vicomte de Santarém — Atlas composé dê carta 
des xiv e , xv% xvi e et xvn e siècles, pour la plupart 
inédites, et devant servir de preuves à Vouvrase sur 
la priorité de la découverte de la cote occiaentale 
d' Afrique au dela du cop Bojador par les portu- 
gais, Paris, 1841. 

I 10 b] — J. B. da Silva Lopes — Carta corograpkica do 
reino do Algarve que fa\ parte da Corographia de 
mesmo reino, 1842. 

f 10 b] — F. José d' Araújo — Carta topographica da pracâ 
de Damão, 1842. 



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I 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 341 

U i o 6] — Manuel Godinho — Relação do novo caminh 
fe\ por terra e mar, vindo da índia para Por 
no anno de i663, Lisboa, Typographia da í 
dade propagadora dos conhecimentos úteis, 

[13 10 b] — Fr. Gaspar de S. Bernardino — Itineran 
índia por terra d ilha de Chypre, Typograph 
A. S. Coelho, 1842. 

jU 10 b] — Vicomte de Santarém — Atlas composé dem 
mondes et de cartes hydrographiques et histoi 
depuis le vi e jusqtfau xvu e siècle, pour la ph 
inédites, etc. Paris, Fain et Thunot, 1842. 

[U 10 b] — Don J0Ã0 de Castro — Primeiro roteiro da 

da índia, desde Goa até Dio; narrando a vi 

que fe\ o vice-rei D. Garcia de Noronha, em so 

(Testa ultima cidade /538-i53g. Segundo m 

cripto autographo, publicado por Diogo Kopke 

Porto, Typographia commercial portuense, i& 

Le manuscrit autographe, sur lequel a été 

cette impression, comme le declare 1'éditeur 

sa préface, est celui qui a appartenu à la B 

thèque du comte da Barca. 

[\] 10 b) — F. Leão Cabreira — Carta Topographica da I 
e Porto de Dilly na Ilha de limor, 1843. 

[U 10 b] — i. A. Abreu — Planta do pinhal das Cour 
1844. 

[U 10 b] — J. J. Lopes de Lima — Carta hydrographic 
Archipelago de Cabo Verde, 1844. 

[U 10 b] — J. J. Lopes de Lima — Carta hydrographic 
Guiné Portuguesa, etc, 1844. 

[U 10 b] — L. Pereira de Campos — Planta topographk 
feitoria Portuguesa em Siam situada na cidac 
Bangkok, 1844. 

[U 10 b] — Isidoro E. Baptista — Planta topographia 
cidade e arrabaldes de Coimbra, 184S. 



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342 O INSTITUTO 

[U io b] — F. M. Pereira da Silva, C. M. Batalha c C. B. 
de Vasconcellos — Plano hydrogf % aphico do porto 
de Lisboa, 1845- 1847 (0- 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta da Real Quinta do Calvá- 
rio, Lisboa, 1847. 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta do Almoxarifado do Paço, 
1848. 

[U 10 b) — Vicomte de Santarém — Atlas composé de mappe- 
mondes, de portulans et de cartes hydrographxques 
et historiques depuis le vi e jusqu 9 an xvu e siècíe, pour 
la plupart inéaites et tirées de plusieurs bibhothè- 
ques de FEurope, Paris, E. Thunot & C. ie , 1849. 
Cet ouvrage sur Thistoire de la cosmographie 
et de la cartographie du moyen âge est un monu- 
ment géographique de la plus grande importance, 
mais il est à regretter <ju'il soit demeuré inachevé. 
Une notice três detaillée de cet Atlas (beaucoup 
plus complet que ceux, du même auteur, de 1841 
et 1842), a été insérée récemment par M. Mar- 
tinho da Fonseca dans B. S. G. L. (21* série, 
1903, 357-376). 

On doit aussi voir Tarticle publié le dessus 
dans R. C. M., xiv, 1903-1904, 17-32. 

[U 10 b] — * — Planta da Lagoa d' Albufeira e do terreno 
adjacente, i84g. 

A Techelle 1:10000. 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta da Real Tapada d? Ajuda, 
1849. 

A Techelle r.5ooo. 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta das Sete Quintas do Real 
Sitio do Alfeite, 1849. 



(1) Ge plan a été rectifié, amplifié et sonde en 1878, par plusieurs 
ingénieurs-nydrographes sous la direction de F. Foi.que et F. M. Pereira 
da Silva. 



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LES MATHÉA1ATIQUES EN PORTUGAL 343 

[U 10 b] — J. A. Abreu— Planta do pinhal do Cabral, 184Q. 
A Techelle 1:2000. 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta do Real Paço e de Vilía 
de Cintra, i85o. 

[U ioi] — J. A. Abreu — Planta da par 
i85i. 

[U 10 b] — Carlos Bonnat — Mappa C 
vinda do Alemtejo e do Reir 
i85i. 

[U 10 é] — A. B. César da Silva — Cc 
Ilha de Timor e Visinhas, i85 

[U 10 b] — # — Planta da cidade de Lisi 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta do pit 
e das suas cercanias, i853. 
A Techelle i:5ooo 

[U 10 i] — J. A. Abreu — Tombação 
Grande, j853. 

A Techelle i:25oo. 

[U io b] — F. M. Pereira da Silva, C. 
Vasconcellos — Carta de Be 
Enseada de Peniche, na Costa 
1884. 

A 1'echelle r.5oooo. 

[U 10 b] — Frederico Perry Vidal — PI 
tremo\, i855. 

A Techelle 1:1000. 

[U 10 b] — Carlos Pezerat — Planta 
Lisboa, estabelecida com as < 
referidas ao nivel médio das 
i856. 

[U 10 b] — J. A. Abreu — Planta do R 
1856. 



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344 ° INSTITUTO 

[U io b\ — A. F. de R. Gandra — Esboço topographico da 
Villa e Praça de Melgaço, j85j. 

[U io b] — F. M. Pereira da Silva, G. M. Batalha e C. F. B. 
de Vasconcellos — Plano hydrographico da barra 
do porto de Lisboa, i85j (i). 
A Pechelle 1:20000. 

[U iuí] — F. M. Pereira da Silva — Planta provisória dos 
campos inundados pelas máximas cheias do Mondego, 
seus affiuentes, etc, i858. 

[U 10 b] — Don Martinho de França — Esboço da carta mi- 
litar do terreno limitado pelo Oceano e comprehen- 
dido por Peniche, Santarém, Setúbal, redigido no 
archivo militar, 1860. 
A Techelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b]-— A. J. Pery, C. A. da Costa e G. A. Pery — 
Carta geographica de Portugal, 1860-1865. 

[U 10 b] — Vicomte de Sá da Bandeira — Zambe\ia e Sofalla, 
1861. 

[U 10 b] — Bettencourt — Carta da rede telegraphica de Por- 
tugal no fim de junho, 186 1. 

[U 10 b] — # —Districto Marítimo de Benguella na Provín- 
cia de Angola, 1861. 

[U 10 b] — F. P. Dutra — Planta da cidade de S. Paulo de 
Loanda, 1861. 

A Techelle 1: 10000. 

[U 10 b] — J. C. de Brito Capello — Guia vara uso das car- 
tas dos ventos e correntes no golpno da Guiné, Lis- 
boa, 1861. 

[U 10 b] — J0Ã0 Gallego — Descripção e roteiro das posses- 



% (1) Ce plan a été sonde et rectifié de nouveau en i8q3, par MM. J. 
Schultz Xavier et A. Ramos da Costa. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

soes portuguesas do continente da Afnl 

no xvi século, Florença, Typographia r 

Ce travail a été annote et commen 

de Brito (B. S. G. L., i3 e série, 189* 

[U 10 b] — F. P. Dutra — Loanda. Capital de 
thographia da Imprensa nacional, 1862 
A 1'echelle 1:10000. 

[U 10 b] — F. Perry Vidal — Planta da cidad 
contendo o ateiTo de Boa- Vista, etc, I 

[U 10 b] — Don Martinho de França — Carta 
de Portugal, 1864. 

[U 10 b] — Marquis de Sá da Bandeira e F. da C 
Angola, Lisboa, 1864 e 1870. 

[U 10 b] — F. Perry Vidal — Mappa geographi 
de Portugal, i865. 

[U 10 b] — A. A. d'C)liveira — Planta da aber\ 
ganta da Serra de Chella, etc, i865. 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira Carvalho — Plan 
de Mossamedes e da zona do Paii que 
á Huilla, 186S. 

[U 10 b] — Barcellos — Planta do Castello d 
Beja, i865. 

[U 10 b] — F. da Costa Leal — Villa de Mossamt 
Paris, Lithographia Dupuy, 1866? 

[U 10 b] — A. Magno de Castilho — Descripçãc 
Costa occidental de Africa, desde o cab 
até o das Agulhas, Lisboa, Imprensa Ní 

[U 10 b] — Álvaro M. da Cunha e J. C. Gordili 
Miranda — Planta do acampamento ei 
charneca de Tancos, 1866. 

[U 10 éj — J..C. de Chelmick — Carta itinera\ 
de Coimbra, 1867. 



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H 



346 O INSTITUTO 



[U 10 &]~Marquis de Sá da Bandeira — Zambe\ia e Paires 
adjacentes, 1867. 

[U 10 b] — Deposito geral de guerra — Carta chorographkâ 
dos terrenos em volta de Lisboa, 1869, 
A Techelle du 1:100000. 

[U 10 b] — T. d' Aquino de Sousa Júnior — Planta das mura- 
lhas da cidade de Beja, 1869. 
A Techelle de 1:1000. 

[U 10 b] — R. R. Carreira Mendes — Planta topographica dt 
Nova Goa, 1870. 

[U 10 b] — T. Andréa e T. Machado — Plano do Porto e cí- 
dade de Dilly, 1870. 

(U 10 b] — B. de Vasconcellos, J. E. de A. e Albuquerque, 
A. G. T. Ferreira, C. A. Guerreiro — Plano hydro- 
graphico da barra do Porto, Lisboa, 1871. 
A 1'echelle i:25oo. 

[U 10 b] — # — Carta Topographica da Cidade de Lisboa, re- 
duzida da que foi levantada na escala de 1:1000 em 
i856e i858, 1871. 

A Techelle 1:10000. 

[U 10 b] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos. Secção 
hydrographica — Aviso aos navegantes em 1868 aU 
1881. Idem em 1877, Lisboa, Imprensa Nacional, 
1872, 1878. 

[U 10 b] — A. L. N. de Carvalho — Carta de Portugal t 
suas Colónias, coordenado por Hugo de Lacerda, 
1873. 

[U 10 b] — ♦ — Planta topographica entre Lisboa e Torra 
Vedras, 1874. 

A Techelle 1:100000. 

[U 10 b] — F. M. Pereira da Silva — Carta dos pharoes t 
posições escolhidas ao longo da costa de Portugal, 
etc, 1875. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 347. 

[U 10 b] — Barros Gomes e Cunha e Silva — Carta orogi*a- 
phica e regional de- Portugal, 1875 
A Techelle i:225ooo. 

[U 10 £] — M. Ferreira Ribeiro — Mappa Medico -Geoí 
phico da Região Guineana Equatorial, etc, i< 

[U 10 b] — A. Pedro da Silveira — Reconhecimento mil 
da Ilha da Madeira, 1877? 

[U 10 b] — A. G. Sollari Alegre — Planta da Praça < 
parte da villa de Ce\imbra, 1877. 

[U 10 b] — A. Pedro da Silveira (i) — Carta $eo-hydro[ 
phica da ilha de Porto Santo e dos tlheos e ba 
adjacentes, levantada em 1842-1843, publicada 

1877. 

[U 10 b] — F. A. de Brito Limpo — Apontamentos para J 
litar a leitura de cartas chorographicas e topo± 
phicas (R. O. P. Al., VIII, 1877, iáo-146, 169- 
203-219). 

Dans cette brochure, Taut^ur explique, ei 
mettant à la portée de tout le monde, la re 
sentation des principales conventions en uí 
dans les cartes chorographiques et topogra 
aues, et la méthode à suivre pour déduire 
1 inspection de la carte, la disposition et les í 
dents du sol. 

(Continua). Rodolpho Guimarãe 



(1) En collaboration avec les officiers du vaisseau anglais «Styx 



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LITTERÀTURA E BKLLÀS-ARTES 



ARTES INDDSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 

(Cont. do n.° 6, pag. 3o8) 

III 

Alvares (Armão) 

Certamente allemão aportuguesado o nome próprio de 
Herman. 

Era mestre de fazer assucares na ilha da Madeira, segundo 
declara uma carta de perdão, que lhe foi conferido por 
D. Manuel I, em 14 de maio de 1496. 

D'ella se vê que tivera de ajustar contas com a justiça 
por ter dado com uma espada uma pancada num hombro 
de Brites Annes, mulher de João Alvares Mexias, que estava 
ausente da ilha. O golpe não produziu ferimento, mas só 
contusão, de que ella se curou sem deformidade. Tendo-lhe 
os queixosos perdoado, el-rei confirmou o perdão, impondo, 
entre outras clausulas, a do mestre de fazer assucar, aliás 
de génio tão azedo, não dizer mal dos queixosos, quer por 
deante quer por traz. 

Numa carta de quitação de João Saraiva, vem Armão 
Alvares, juntamente com João Lombardo, designados como 
rendeiros das meunças do ramo da Ribeira Brava. 

aDom Manuell &. Saúde, sabede que Arma aluarez mestre daçucar 
morador na ilha da madeira nos emviou dizer que hu Joham aluarez 
Mexias e britiz eanes sua mulher moradores em a dita ylha querelaram 
dele as nossas Justiças dizendo que sendo elle quereloso fora da dita 
ylha elle sopricante ouuera rezões com a dita querelosa sobre as quaes 
rezo es lhe dera a ella hua pancada cõ húa espada por hu onbro e lhe 
iezera húa noda e maçadura da dita pancada de que loguo fora sara e 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 849 

sem aleijam sem auer outra nenhua ferida e sobrelo andara feito e em 
seguindo sua Justiça sederam do dito feito e acusaçam delle e lhe per- 
doaram todo dano e Injuria que lhe feita tinha e o nom queria por elo 
acusar nem demandar com tall comdiçam que ele sopricante no dissese 
dele quereloso nem de cousa sua nenhua maa fala por diante nem por 
detrás e fazendo ele o contrario que ho perdam lhe no valese segundo 
o uer poderíamos por huu publico estormento o jqual perante nos foy 
apresentado e parecia ser feito e asinado per Martim dalmeida tabeliam 
por nos em a dita jlha aos xxbij dias do mes de feuereiro do ano e era 
presentes de mill hij e l Rbj anos em o qual se continha antre as outras 
cousas que per os ditos querelosos fora dito que eles perdoauam ao dito 
sopricante todo mall a sem rezam e injuria com pamcada que lhe asy 
dera e fezera e o nom queriam por ello acusar nem demandar com 
comdiçam que ele sopricante nom disese maa palaura comtra elle que- 
reloso por diante nem por detrás segundo que todo esto e outras cousas 
melhor e mais compridamente se em o dito estormento comtinha enuian- 
donos elle sopricante pidir por mercee que lhe perdoasemos a nosa Jus- 
tiça se nos a ela por rezam da dita querela e malefício delle em algua 
gisa era teudo e nos vendo o que nos elle asi dizer e pidir emuiou se 
asi he como elle diz e hi mais nõ ha visto o perdam das partes e que- 
rendolhe fazer graça e mercee visto hú noso pase temos por bem e per- 
doamoslhe a nosa Justiça a que nos ele por rezam da dita Querela e 
malefício dele era theudo com tamto que elle cumpra as comdiçÕes do 
perdam do dito quereloso que nõ diga comtra elle nenhua maa palaura 
por diante nem por detrás e pagase sete centos reaes pêra arca da pie- 
dade e por quanto ele loguo pagou os ditos dinheiros a Simão Vaz the- 
soureiro da nosa capela que tem cargo de os receber polo noso esmoler 
segundo delo fomos certo por seu asinado e dalvaro fernandez noso 
capeiam que hos sobre el pos em receita mandamos que ho nôm pren- 
daes nem mandees prender etc, em forma. Dada em betuuell xiiij dias 
do mes de mayo El Rey ho mandou poios doutores Fernam Rodriguez 
do seu conselho daiam de Coimbra e Gonçalo dazeuedo ambos desem- 
bargadores do paço. Joham Jorje a fez ano cio nacimento de noso senhor 
Jhesu Christo de mill iiij c 1 Rbj» (1). 

IV 

Amador (Benoco) 

O seu appellido em italiano é Amatort, e como tal se acha 
inscripto nos Cenni do meu amigo Prospero Peragallo, que 
nos informa ter elle sido auctorisado por D. Manuel I por 
carta de 25 de abril de 1 5 14 a usar do brasão da sua família» 

Foi fiador de Salvador Gramaxo, almoxarife na ilha da 
Madeira nos annos de i5o6 a i5o8, em que recebeu 66:660 
arrobas de assucar e vendeu 2:600. 

Por causa d'esta fiança foram passadas duas cartas de 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 34, fl. 35. 



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35o INSTITUTO 

quitação a 21 de dezembro de 1 517 e 24 de maio de i5ao 
referindo-se a ultima á sua viuva e a Lopo d 1 Azevedo pro- 
curador d'esta e herdeiro d'aquelle (1). 

Em i5 de junho de i5o8, Bartholomeu Marchioni e sea 
sobrinho, Benedicto Morelli faziam seus procuradores bas- 
tantes a Feducho de Lamarote e Benoco Amador, florentim, 
residentes na ilha da Madeira, a fim de poderem receber 
vinte mil arrobas de assucar, que el-rei, por um contracto 
que fizera com os ditos constituintes, lhe mandava pagar 
naquella ilha. 

O respectivo documento vae no artigo em que se trata de 
Lamarote {Feducho de). 

No artigo concernente a Aftaitate vem um documento em 
que se faz referencia a Benoco Amador. 

V 

Capellani (Capellan de) 

Residia na ilha da Madeira, onde foi, em negócios de assu- 
car, procurador de João Francisco deirAffaitati, como se 
pôde ver no artigo referente a es.te individuo. 

Carducho (Francisco) 

Juntamente com Francisco Pinhol foram rendeiros das 
ilhas dos Açores durante três annos, a começar no S. João 
de i5o2 e a acabar em egual dia de i5o5, devendo pagar 
durante aquelle período i5:ooo arrobas de assucar de uma 
só cosedura, á razão de 5:ooo cada anno. Satisfazendo esta 
obrigação D. Manuel os deu quites em carta de 2 de junho 
de 1507, a qual está publicada a paginas 354 do 4. volume 
do Archivo Histórico Portugueç, tendo saido anteriormente 
no volume I, paginas 5i, do Archivo dos Açores. 

No artigo Coelho (Fernão) se faz referencia a Carducho. 

Este nome em italiano Carducci, vem mencionado na obra 
do sr. Peragallo, o qual cita uma carta de Lunardo Vardi, 



(1) Archivo Histórico Portuguef, voL I, pagg. 362 e 363. 



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ARTES INDUSTRIABS E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 35 1 

escripu em Lisboa a 20 de setembro de i5o2, em que diz 
ao seu correspondente que em uma das náos da armada de 
João da Nova, recentemente chegada da índia, haviam sido 
compradas duzentas toneladas de especiaria por um Cardu\i 9 
nostro florentino. 

VII 

Cerniche 

Importante casa commercial de Lisboa, que negociava 
já por si só, já de parceria com outros seus compatriotas* 
A respeito dos Cemiches publiquei alguns documentos na 
memoria intitulada : — A Livraria Real, mormente no reinado 
de D. Manuel. 

O sr. Peragallo orthographa á italiana o appellido por esta 
forma Sernige. 

VIII 

Coelho (Fernão) 

Cavalleiro da Casa de el-rei, e almoxarife da alfandega da 
ilha da Madeira na parte do Funchal em tempo de D. Ma- 
nuel I. Na chancellaria cTeste monarcha estão registadas duas 
cartas de quitação, uma de 27 de janeiro de i5o5, e outra 
de 16 de agosto de i5ii, relativas ao exercício do seu cargo 
nos annos de i5o2 a i5o6; nellas apparecem verbas impor- 
tantes de dinheiros, géneros e assucares. D'estes especifi* 
cam-se as seguintes qualidades refinado e branco de uma 
cozedura. 

Na segunda carta mencionam-se alguns italianos, interes- 
sados nas rendas do assucar: Quirio Catanho, Benoco Amador 
e Francisco Carducho, rendeiro que foi das ilhas dos Açores. 

As alludidas cartas de quitação acham-se publicadas a 
pag. 234 do vol. 11 do Archtvo Histórico Portugue\. 

IX 

Conforte (Bernabé) 

Era negociante inglês, com residência em Lisboa, no co- 
meço da segunda metade do século xvn. D. Affonso VI, por 
alvará de 1 3 de abril de i658, lhe concedeu o privilegio e 



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352 O 1NST1TUT0 

monopólio, por espaço de dez annos, da refinação dos assu- 
cares baixos, da mesma forma e maneira, que já usava e 
gosava um seu compatriota, Martim Sistre, que havia falle- 
cido, vagando por este motivo aquelle privilegio. Se acaso 
o novo concessionário viesse a fallecerno praso de dez annos 
que lhe fora outorgado poderia dispor do mesmo privilegio, 
em favor de pessoa que previamente designasse. Ser-lhe-ia 
facultada, livre de direitos, a importação de machinas e uten- 
sílios para a fabrica, assim como o assucar mascabado, pro- 
veniente do Brasil ou das ilhas. 

A carta da primitiva concessão feita a Martim Sistre não 
se encontra registada, nem tão pouco o nome cTeste nos índi- 
ces das chancellarias. 

«Eu EIRey faço saber aos que este aluara virem que hauendo respeito 
ao que se me reprezentou por parte de Bernabé Conforte, mercador ingres, 
morador nesta cidade sobre a fabrica de refinar os açuqueres baixos que 
prinsipiou e intirduzio Marty Sistre, por cujo falecimento o mesmo Ber- 
nabé Conforte com ordem minha continuou nella, e querendolhe fazer 
mercê e fauor, asim por me hauer seruido no que se ofereceo como em 
rezão da despeza que tem feito nesta fabrica e pella outulidade que delia 
pode rezultar a esta coroa e outros justos respeitos que a isso me mouem, 

Íterzedendo as deligencias nessesanas e comsultas do conselho de minha 
àzenda, de que ouue vista o porcurador delia, fuy seruido rezoluer e 
hei por bem e mando que o dito Bernabé Conforte uze da dita fabrica 
do refino asi e da maneira que ouzou (usou) até gora que tinha por 
estanque sem que outra pessoa possa fazer semelhante refino so pena 
de perdimento dos açuqueres que asim refinar e da fabrica com que o 
fizer e das mais que pareserem justas, e isto por tempo de des annos, 
que comesarão da data deste aluara e falecendo elle Bernabé Conforte 
aa vida perzente poderá deixar o dito refino a pessoa ou pessoas que 
lhe parecerem que posam de continuarem nelles na mesma forma ate se 
comprir os ditos des annos, e os -aparelhos, caldeiras, tachos e outros 
perteixos que mandar vir para esta fabrica não pagarão direito algum, e 
porem o poruedor da aliandiga desta cidade e mais menistros a que 
tocar porão ordem em que nao venham mais que os necessários, e o 
dito poruedor da alfandiga lhe fará despachar com toda a beruidade e 
com menos custo que. for posibvel os açuqueres mascauados e panellas 
que por sua conta vierem do Barzil as Ilhas ou portos deste Remo ahy 
tiuerem pagos os direitos e forem despois tarsidas a esta cidade pêra se 
refinarem : pello que mando a todos os menistros a que o conhecimento 
disto pertencer lhe guarde e facão guardar inteiramente este aluara, que 
quero e hey por bem se guarde, posto que seu efeito aja de durar mais 
de hum anno sem embargo da ordenação do livro 2. titolo 40 que o 
contrario dispõem. João da Silva o fez em Lixboa a treze de abril de 
mil e seis centos e sincoenta e outo. Sebastião da Gama Lobo o fes 
escreuer. Rainha» (1). 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Aflbnso VI, Doações, liv. 21, 
fl. 80 verso. 



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AfcTÉS 1NDUSTK1AES E INDUSTRIAS PORTtJGUBZAS 353 



CORVINELLI (FRANCISCO) 

Era florentino, e no primeiro quartel do século xvi appa- 
rece dando provas da sua actividade e inteligência, tanto 
no commercio e navegação, como no desempenho de im- 
portantes commissões na índia, mandadas executar por 
Affbnso de Albuquerque, o qual depositava nelle grande 
confiança. Provavelmente o assucar constituiria um dos ramos 
do seu commercio, o que não pude averiguar, assim como 
não averiguei também se elle traficaria por conta própria ou 
emparceirado com algum dos seus compatriotas. Sou todavia 
inclinado a crer que elle fosse parceiro de Bartholomeu Mar- 
chioni, com quem estava intimamente apparentado, pois se 
unira pelos laços matrimoniaes a uma sua filha. 

Sei (festa circumstancia por uma carta de D. Manuel, x de 
26 de novembro de i5i5, approvando o trespasse de urnas 
casas sitas no Arco dos Barretes, que Bartholomeu Marchioni 
fizera em favor de uma sua neta, filha de Francisco Corvi- 
nelli, para seu casamento. D'aqui se pôde inferir que Mar- 
chioni já era de edade avançada, pois tinha uma neta casa- 
doira. O parentesco dos dois era desconhecido do sr. Prospero 
Peraçallo, que nos seus Cenni consagra um artigo a Francisco 
Corvinelli. 

«Dom Manuell etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber 
que por parte de Bertolameu Marchione mercador estante em a nosa 
cidade de Lixboa nos foy apresemtada húa carta daforamento da quall 
o theor he o segujmte : 

«Saybham quamtos este estormento de emnovaçom e trespasaçam 
de buas casas em três pesoas per mandado deli Rey aoso senbor virem 
que no anno do nacimento de noso senhor Jhesus Christo de mill e b c xb 
annos aos xxx dias do mes doutubro da dita era nas terecenas e alma- 
zem do Regno peramte André Diaz cavalleiro da casa deli Réy noso 
senhor e recebedor do dito.almazem e terecenas em esta cidade de 
Lixboa e de mim scripvam do dito oficio e das testemunhas adiarate 
aomeadas pareceo Bertolameu Marchione mercador e morador na dita 
cidade e logo per elle foy dito ao dito recebedor que hasy era verdade 
que elle trazia por titolo de compra huuas casas foreyras ao dito alma- 
zem que estam na Rua Nova sobre o arco honde vendem os barretes 
que trazya aforadas Catarina Fernandez molhcr que foy de Joham Alua- 
rez em três pesoas de que pagava em cada huu anno ao dito almazem 
dous mill e novecentos corenta reaes segundo mais compridamente se 
contem na carta do aforamento que da dita casa tem. E que por quanto 
elle queria trespasar as ditas casas em sua neta Elle na filha de Francisco 

VOL. 55.°, N.° 7 — JULHO DE I908. 3 



L 



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35 4 



O INSTITUTO 



Corvinell pidia ao dito senhor que lhe prouvese de lhas trespasar e de 
ella ser a primeira pesoa do que prouuera ao dito senhor e lhe dera mlu 
aluara que logo hy apresentou de que o theor tall he : 

«Nos El Rey fazemos saber a vos almoxarife ou recebedor do noso 
almazem e terecenas do Regno e ao sprivam dese oficio que Bertolameu 
Marchione nos enuiou dizer que elle comprara a molher que foy de 
Joham Aluarez de Mancos huas casas que elle trazia do dito almazem 
ao arco da Ruo Nova em vida de três pesoas de que ella era a primeira 
pesoa e elle ficara a segunda por foro de Ij ix c R reaes pidimdonos por 
mercê que por quanto as queria dar a hQa sua neta per nome Rena 
filha de Francisco Corvinel peia seu casamento lhe desemos licença 
pêra iso e ouuesemos por bem que ha dita sua neta fose ao dito afora- 
mento a primeira pesoa da quall cousa a nos praz e auemos por bem 
por lhe niso fazermos mercê que elle posa trespasar nella as ditas casas 
e iso mesmo nos praz que ha dita sua neta seja a primeira pesoa e per 
seu falecimento posa nomear a segunda e a segunda nomee a terceira 
pelo quall vos mandamos que nesta maneira lhe façaes* seu aforamento 
em forma no quall se treladara este noso aluara pêra firmeza e lembrança 
de todo e comprio asy fey to em Lixboa aos xxij dias do mes doutubro. 
Jorje Fernandez o fez de d c xb e pasou pela nosa chancelaria da camará 
e esto com o dito foro de i] ix c R reaes cada ano que nos dise que pa- 
gaua e esto nos praz asy se a dita molher de Joham Aluarez he a pri- 
meira pesoa nas ditas casas como diz. 

«E apresentado asy o dito aluara como dito he ao dito recebedor 
logo*per elle foy dito ao dito Bertolameu Marchione que lhe mostrase 
o contrato e aforamento da dita casa pêra nelle uer se a dita Catarina 
Aluarez molher do dito Joham Aluarez era ao dito aforamento das ditas 
casas a primeira pesoa como dizia e loguo pelo dito Bertolameu Mar- 
chione íoy apresentado ao dito recebedor o aforamento das ditas casas 
o quall amtre outras cousas nelle contheudas asy era que em xiij dias 
do mes de mayo de mill iiij* Ixxbiij Tristam Imgres que entam era almo- 
xarife do dito almazem aforou as ditas casas a dita Catarina Fernandez 
molher do dito Joham Aluarez per vertude de húu aluara dei Rey dom 
afomso que samta gloria aja em vyda de três pesoas pelos ditos jj ix c R 
reaes segundo mais compridamente se comtnem no dito aforamento. 
E visto asy todo pelo dito recebedor logo o dito Bertolameu em nome 
da dita Ilena sua neta por ella ser minina requereo ao dito recebedor 
que lhe cumprise o dito aluara e lhe mandase fazer nouamente carta 
daforamento pela guisa e maneira que se no dito aluara comthem. E o 
dito recebedor em comprimento do dito aluara em nome do dito senhor 
ouue por trespasadas as ditas casas na dita Ilena neta do dito Bertola- 
meu Marchione filha do dito Francisco Corvinel e lhas ouue por aforadas 
em vida de três pesoas com tall comdiçam que ella dita Ilena seja ao 
dito emprazamento das ditas casas a primeira pesoa e que amtes de seu 
falecimento posa nomear a segunda e a segunda nomear a terceira pela 
dita guisa em tall maneira que hao dito emprazamento sejam três pe- 
soas e mais nam. E que semdo caso que em allguu tempo as ditas casas 
venham a perecer per foguo agoa ou terremotos ou per outro quallquer 
caso fortuyto cuidado ou nam cuidado que avyr possa o que deus de- 
femda ella dita Ilena e pesoas que depois delia vierem a tornem a k- 
uantar e fazer de nouo as suas próprias custas e despesas em tall guisa 
que sempre sejam casas como ora sam sobradadas de dous sobrados 
milhoradas e nam pejoradas e com tall comdiçam que ella nem as pe- 
soas que depois delia ham de vir nam posam vender dar nem doar tro- 
car nem escambar as ditas casas nem em outra alguua maneyra que 



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ARTES INDUSTRlAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 355 

seja emlhear nem fazer sobre ellas outro nenhum foro pêra Igreja nem 
moesteiro nem pêra outra nenhua pesoa sem licença e autoridade do 
dito senhor e quamdo vyer caso que as aja de vender que ho façam 
primeiramente saber ao dito senhor ou ao seu almoxarife que emtam 
for do dito almazem se as quer tomar pêra o dito senhor tamto por 
tamto quanto outrem por ellas der. £ quamdo as tomar na quiserem 
que emtam as posam vender a quem lhe por ellas mais der comtanto 
que a primeira pesoa que lhas comprar nã seja daquelas que ho dereito 
e o dito senhor em este caso defemdem mas que seja pesoa abonada e 
leiga e realmente da jurdiçam do dito senhor tall que bem e sem nenhua 
reierta pague o dito foro que sam íf ix c R reaes em cada húu anno que 
damtes soya de pagar a dita Catarina Fernandez e asy como pagauam 
os outros foreiros. s. a metade per dia do nataal e a outra per dia de 
sam Joam bautistae dhy em diamte em cada hGu anno pela dita guisa 
e que cumpra e guarde todallas clausollas e comdições deste empraza- 
mento e de tpdas as outras com que o dito senhor afora suas heramças 
posto que aqui não sejam expressas nem decraradas e que pague a quo- 
rentena do preço por que as casas forem vendidas e com tall comdicam 
que da feitura deste aforamento a dous meses primeiros seguintes leue 
ou mande este emprazamento a fazemda do dito senhor pêra lhe la ser 
comfirmado segundo sua ordenança. E com tall comdicam que quando 
a dita Ilena deste mundo falecer â pesoa a que as ditas casas ficarem 
nomeadas seja obrigada a o vyr fazer saber como lhe ficarem as ditas 
casas pêra se asy asentarem no liuro dos próprios e se arrecadar _o foro 
delias e asy faram as outras pesoas que depois vierem os quaes ij ix° R 
reaes pagaram per CRbij reaes de prata desta moeda ora corrente de 
Cxbij em marco e de ley de xj dinheiros ou seu justo valor pagos dentro 
no dito almazem ao almoxarife ou recebedor ou a quem for ordenado. 
E o dito Bertolameu Marchione em nome da dita sua neta a todo pre- 
sente e que de todo o que ho dito recebedor dizia e mandaua que de 
todo lhe prazia e que com todallas comdições tomaua e recebia em sy 
as ditas casas e aforamento delias e que pêra ello obrigaua todos os 
beens da dita llena sua neta e das duas pesoas que depôs ella vierem 
a todo comprir e manter e pedio asy ao dito recebedor que lhe man- 
dase dar de todo hGu estormento e o dito recebedor em nome do dito 
senhor lhe ouue asy todo por outorgado com todas as outras condições 
com que ho dito senhor afora suas eranças posto que aqui nã sejam 
expresas nem decraradas e mandou a mim scnpvam que lho dese teste- 
munhas que no presente foram Bellchior Diaz homem do dito almazem 
e pêro mestre e Domingos Afomso bombardeiro dei Rey noso senhor 
e scripvam do dito almazem e terecenas que este estormento screpvi e 
asyney de meu sygnall acustumado. 

« Pi dim donos o dito Bertolameu que lhe comfirmaremos e ouuesemos 
por confirmada a dita carta e visto per nos seu dizer e pidir por lhe 
fazer graça e mercê lha confirmamos e auemos por confirmada e man- 
damos ao dito almoxarife e a qualquer outro noso oficia 11 ou pesoa a 
que pertencer que lha cumpram e guardem façam comprir e guardar 
imteiramente como se nela contem por que hasy nos praz e auemos 
por bem. Dada em a nosa cidade de Lixboa aos xxbj dias do mes de 
novembro el Rey o mandou per dom Pedro de Castro do seu conselho 
e vedor de sua fazenda. Diogo Vaaz a fez de mill b p e quimze» (i). 



(i) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 25, fL 18. 

* 



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356 O INSTITUTO 

XI 
Drago (Carlos Francisco) 

A colonização europeia do Brasil effectuou-se em grande 
parte pelos christãos novos, gente de nação, como se cha- 
mava aos que haviam abjurado forçadamente o judaísmo. 
Não obstante professarem, com mais ou menos sinceridade, a 
religião christã, as suspeitas infamantes, aue pesavam sobre 
a sua raça, não se extinguiam com facilidade e as próprias 
leis concorriam para fazer perdurar a vexatória distincção 
entre christãos velhos e christãos novos. 

Carlos Francisco Drago era d'esta procedência ou assim 
o consideravam, pelo que não podia realizar qualquer tran- 
sação, sem para isso ser competentemente autorisado pelo 
poder real. Residente na capitania de Pernambuco, possuia 
elle na ribeira de Jaboatão, termo da villa de Olinda, um 
importante engenho de assucar, sob a invocação de Nossa 
Senhora da Apresentação, o qual vendera, ou pretendia ven- 
der a Balthasar Gonçalves Moreno pela quantia de vinte e 
dois contos e quatrocentos mil réis. Este preço revella-nos 
bera o valor da propriedade. 

Drago obteve o devido consentimento por alvará régio de 
23 de agosto de 1618, o qual passo a transcrever: 

«Eu ellRej faso a saber aos que este Alvará virem que auemdo res- 
peito ao que me emviou dizer por ssua pitissom Carlos Francisco Drago 
morador na Capjtanja de pernambuco partes do Brasil asserca do consser- 
to que fes com Baltezar Gonsalluez Morenno para lhe vemder o sseu 
emgeoho de fazer asuqar da fnvocassam de Nossa Senhora da Apressen- 
tassom sitoo na rjbejra de Joboatam termo da villa de Oljnda em preso 
de vinte e dous contos e coatro ssentos mil reis por escrito que para 
isso passou escritura por que dipois sse celebrou a dita vemda Feita 
em vjmte nove de fjvjrejro de sseis sscmtos e dezesseis a as causas que 
alegou pêra nam dever sser conpremdido na lej por que sse prohjbe a 
gemte da nassam poder vemder sseus bêes ssem lljcensa mjnha e dellj- 
gemssia que por meu mandado sse fes com os mjnjstros da jnqujsissam 
ej por bem de revalljdar a dita vemda pêra que por resam da dita projjbis- 
sam sse lhe nam possa mouer a ella duvida mando as justjssas a que o 
conhecimento desto pertensser cumpram e goardem este Alvará como 
sse nelle contem o coal me apraz que valha tenha forssa e vigor posto 
que o efeito delle aja de durar mais de um anno ssem embargo da orde- 
nassam em contra jro. Sypriam de Figejredo a fes em Lixboa a vinte três 
dagosto de mil ssejs ssentos e desojto. Eu Pêro Chamches Farinha o 
fes esscreuer» (1). 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe III, Doações, liv. 1, 
fl. 10 verso. 



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ARTES INDUSTR1AES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 35 

XII 

Fernandes (Manuel) 

Cavalleiro da casa de el-rei D. Manuel I, e seu feitor m 
ilha da Madeira e em Milão. 

Era 16 de dezembro de i5oi, foi-lhe passada carta d< 
quitação de tudo o que recebeo e despendeo em a dita ilhc 
para o encaixamento e carregaçam aos açuqueres que em c 
dita ilha recebeo e carregou em a nossa náo Rainha e nái 
Cirne e náo Corterreal pêra Fr andes; e bem assim de todi 
o que recebeo e despendeo em compra das armas que nos fo 
comprar a Millam. 

Esta carta, publicada a paginas 440 do volume ív do Ar 
chivo Histórico Portugue\, é bastante estensa e curiosíssima 
por mais de úm motivo. « 

Nella se faz menção de alguns banqueiros, e entre os quaej 
o bem conhecido Bartholomeu Marchione, florentino e de sei 
sobrinho Benedito Morelli, e se enumeram muitas peças de 
armaria adquiridas em Milão. 

A nau Corte Real, pertencia muito provavelmente a algum 
dos fidalgos d'este appellido, entre os quaes sobresaem os 
grandes navegadores da America do Norte. 

Manuel Fernandes, sendo ainda escudeiro, exercera o cargc 
de feitor em Flandres de 1495 a 1498 e alli vendeu 29:681 
arrobas e meia de assucar da ilha da Madeira, das quaes 
cinco mil recebeu de Gomes Martins e João Rodrigues de 
Parada, quando de cá partiu para aquella feitoria. Consulte-sc 
a pagina 43 1 do citado Archivo. 

(Continua). Sousa Viterbo. 



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358 O INSTITUTO 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 6, pag. 32o) 



Mas era muito pouco ver, contemplar, a bem-amada só 
m os olhos da alma. Quem tão apaixonado estava, não 
dia limitar-se a isso. Era-lhe melhor a morte. 



Mote 

Vida da minha alma, 
Não vos posso ver ! 
Isto não é vida 
Para se soffrer 1 



Voltas 

Quando vos eu via, 
— Esse bem lograva — -, 
A vida estimava, 
Pois então vivia, 
Porque vos servia, 
Só para vos ver. 
Já que vos não vejo, 
Para que é viver ? 

Vivo sem razão. 
Porque em minha dor 
Não a pôs Amor, 
Que inimigos são. 
Mui grande traição 
Me obriga a fazer : 
Que viva, senhora, 
Sem vos poder ver ! 

Não me atrevo já, 
Minha tão querida, 
A chamar-vos vida. 
Porque a tenho má. 
Ninguém cuidará 
Que isto pôde ser : 
Sendo-me vós vida, 
Não poder viver ! 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3ÍX) 



Mote 

Da alma e de quanto tiver 
Quero que me despojeis, 
Com tanto que me deixeis 
Os olhos para vos ver. 

Volta 

Cousa este corpo não tem, 
Que já não tenhais rendida. 
Despois de tirar-lhe a vida, 
Tirai-lhe a morte também. 

Se mais tenho que perder, 
Mais quero que me leveis, 
Com tanto que me deixeis 
Os olhos para vos ver. 

Mote 
Que veré que me contente ? 

Glosa 

Desque una vez yo mire, 
Senora, vuestra beldad, 
Jamas por mi voluntad 
Los ojos de vos quite. 

Pues sin vos placer no siente 
Mi vida, ni lo desea, 
Si no quereis que yo os vea, 
Que veré que me contente ? 

E não se tratava, de mais a mais, de uma ordem 
de uma imposição tyrannica? 

De uma fonte se sabia, 
Da qual certo se provava 
Que quem sobre ella jurava, 
Se falsidade dizia, 
Dos olhos logo cegava. 

Vós, que minha liberdade, 
Senhora, tyrannizais. 
Injustamente mandais, 
Quando vos fallo verdade, 
Que vos não possa ver mais 1 

(Carta a uma dama). 



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6o O INSTITUTO 

Não é, pois, de admirar que o poeta, apesar do que se 
nha passado, procurasse tornar a ver a infanta : 

Mote 
Vida da minha alma. 



Volta 

Dous tormentos vejo, 
Grandes por extremo : 
Se vos vejo, temo, 
E se não, desejo. 

Quando me despejo 
E venho a escolher, 
Temendo o desejo, 
Desejo temer. 



Foi, porisso, necessário avisá-lo novamente, dando-lhe um 
>rmal desengano, expondo-lhe os perigos que a sua teimosa 
iviandade lhe poderia acarretar e fazendo-lhe sentir o pro- 
jndo desgosto da infanta. Elle, porém, a nada se movia. 



Se com desprezos, nympha, te parece 
Que podes desviar do seu cuidado 
Um coração constante, que se offrece 
A ter por gloria o ser atormentado : 

Deixa a tua porfia e reconhece 

Que mal sabes de amor desenganado, 

Pois não sentes nem ves que em teu mal cresce, 

Crescendo em mi, de ti mais desamado. 

O esquivo desamor, com que me tratas, 
Converte em piedade, se não queres 
Que cresça o meu querer e o teu desgosto. 

Vencer-me com cruezas nunca esperes : 
Bem me podes matar e bem me matas, 
Mas sempre ha de viver meu presupposto ! 

(Soneto 124). 

Se tanta pena tenho merecida, 

Em pago de soffrer tantas durezas, 
Provai, senhora, em mi vossas cruezas, 
Que aqui tendes uma alma offerecida. 

Nella experimentai, se sois servida," 
Desprezos, desfavores e asperezas, 
Que mores soffrimentos e firmezas 
Sustentarei na guerra desta vida. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 36 1 

Mas contra vossos olhos quaes serão ? 

É preciso que tudo se lhes renda ; 

Mas porei por escudo o coração. 
Porque, em tão dura e áspera contenda, 

E bem que, pois não acho defensão, 

Com metter-me nas lanças me defenda. ' 

(Soneto 33 

Uma vez ou outra, a desesperança apoderava-i 
do renitente poeta : 

Apollo e as nove musas, descantando, 

Com a dourada lyra me influíam 

Na suave harmonia que faziam, 

Quando tomei a penna, começando : 
Ditoso seja o dia e hora, quando. 

Tão delicados olhos me feriam ; 

Ditosos os sentidos, que sentiam 

Estar-se em seu desejo traspassando. 
Assi cantava, quando Amor virou 

A roda a esperança, que corria 

Tão ligeira, que quasi era invisibil. 
Converteu-se-me em noite o claro dia, 
' E, se alguma esperança me ficou, 

Será de maior mal, se for possibil. 

(Soneto 5i) 

Mas é bem certo que não ha peor cego do qu< 
quer ver: 

Bem sei, Amor, que é certo o que receio, 

Mas tu, porque com isso mais te apuras, 

De manhoso mo negas e mo juras 

Nesse teu arco de ouro, e eu te creio. 
A mão tenho mettida no meu seio, 

E não vejo os meus danos ás escuras ; 

Porém porfias tanto e me asseguras, 

Que me digo que minto e que me enleio. 
Nem somente consinto neste engano, 

Mas inda to agradeço, e a mi me nego 

Tudo o que vejo e sinto de meu dano. 
Oh poderoso mal, a que me entrego ! 

Que, no meio do justo desengano, 

Me possa inda cegar um moço cego 1 

(Soneto 79) 

E, cego pelo moço cego, praticava desatinos, ài 
pedia perdão, mas que, por certo, não tardarian 
metter a infanta, se não se lhes pusesse cobro. 






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O INSTITUTO 

Senhora já desta alma, perdoai 

De um vencido de Amor os desj 

£ sejam vossos olhos tão benin< 

Com este puro amor, que da alr 
A minha pura ré somente olhai, 

E vede meus extremos, se são fi 

E, se de alguma pena forem din 

Em mim, senhora minha, vos vil 
Não seja a dor que abrasa o triste pt 

Causa por onde pene o coração, 

Que tanto em firme amor vos é 
Guardai-vos do que alguns, dama, di 

Que, sendo raro em tudo vosso 

Possa morar em vós ingratidão. 

(S 

11 então as promessas de que ninguém o veria ver a 

• Mote 

Pois dano me faz olhar-vos, 
Não quero, por não perder-vos, 
Que ninguém me veja ver-vos. 



Voltas 

De ver-vos a não vos ver ; 
Ha dous extremos mortais. 
E são elles em si tais. 
Que um por um me faz morrer. 
Mas antes quero escolher 
Que possa viver sem ver-vos, 
Minha alma, por não perder-vos. 

Deste tamanho perigo' 
Que remédio posso ter, 
Se vivo só com vos ver, 
Se vos não vejo, perigo ? 
Mas quero acabar comigo 
Que ninguém me veja ver-vos, 
Senhora, por não perder-vos. 

n então as apaixonadas supplicas para que a infanta 
ísquecesse do seu triste coração, para que lhe pou- 
rida: 

Mote 

Pois é mais vosso que meu, 
Senhora, meu coração, 
Eu vosso captivo sao, 
Meus olhos, lembre-vos eu. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 



363 



Volta 

Lembre- vos minha trisf 
Que jamais nunca me d 
Lembre-vos com quant 
Se queixa minha firmez 

Lembre-vos que não é j 
Este triste coração ; 
E pois ha tanta razão, 
Meus olhos, lembre-vos 



Mote 

Senhora, pois minha vic 
Tendes em vosso podei 
Por serdes delia servid 
Não queirais que destru 
Possa ser. 



Volta 

Isto, não por me pesar 
De morrer, se vós quise 
Que melhor me é acab 
Mil vezes, que supporta 
Os males que me nzerd 

Mas só por serdes servi 
De mi, emquanto viver, 
— Vos peço que minha 
Não queirais que destru 
Possa ser. 



Mas, se a infanta se conservava ii 
supplicas do enamorado poeta, este é 
firmemente resolvido antes a tudo 
de vê-ia e amá-la : 



Quando se vir com agua o fogo 
Juntar-se ao claro dia a noi 
E a terra collocada lá na ali 
Em que se vêem os ceos, pr 

Quando Amor á razão obedecer 
E em todos for igual uma v 
Deixarei eu de ver tal forme 
E de a amar deixarei, depoi 



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H 



O INSTITUTO 

i, nSo sendo vista esta mudança 
o mundo, porque, emfim, não pôde ver-se, 
inguem mudar-me queira de querer-vos. 
asta estar em vós minha esperança 
o ganhar-se a minha alma ou o perder-se, 
ara dos olhos meus nunca perder-vos. 

(Soneto 145). 

ia, por amar-vos, se merece, 
uem delia estará livre ? quem isento ? 
que alma, que razão, que intendimento, 

instante em <jue vos vê, não obedece ? 
nór gloria na vida já se offrece, 

ue a de occupar-se em vós o pensamento ? 
ão só todo rigor, todo tormento, 
om ver-vos, não magoa, mas se esquece, 
1, se heis de matar a quem, amando, 
er vosso de amor tanto só pretende, 
mundo matareis, que é todo vosso, 
i podeis, senhora, ir começando, 
ois bem claro se mostra e bem se intende 
mar-vos quanto devo e quanto posso. 

(Soneto 82). 

:om o exilio, Camões respondia altivamente: 

) tremendo estrépito da guerra, 
om armas, com incêndios espantosos, 
ue despacham pelouros perigosos, 
astantes a abalar uma alta serra, 

1 pôr medo a quem nenhum encerra, 
espois que viu os olhos tão formosos, 
or quem o horror, nos casos pavorosos, 
e mi todo se aparta e se desterra. 

i posso ao fogo e ferro dar 

perdê-la em qualquer duro perigo 

nelle, como pnenix, renovar, 
óde mal haver para comigo, 
e que eu já me não possa bem livrar, 
snao do que me ordena Amor imigo. 

(Soneto 210). 

remédio. O poeta recebeu ordem de sair de 
Ribatejo e para aí se encaminhou, levando na 
em-amada, a sua alma, ou antes indo sem a 
va em poder daquella: 



Mote (alheio) 

Sem vós e com meu cuidado : 
Olhai com quem e sem quem 1 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 365 



Glosa 



Vendo Amor que, com vos ver, 
Mais levemente soffria 
Os males que me fazia, 
Não me pôde isto soffrer. 

Conjurou-se com meu fado, 
Um novo mal me ordenou: 
Ambos me levam forçado 
Não sei onde, poisque vou 
Sem vós e com meu cuidado. 

Não sei qual é mais estranho, 
Destes dous males que sigo : 
Se não vos ver, se comigo 
Levar imigo tamanho. 

O que fica e o que vem, 
Um me mata, outro desejo. 
Com tal mal e sem tal bem, 
Em tais extremos me vejo. 
Olhai com quem e sem quem ! 



Outra glosa ao mesmo mote 



Amor, cuja providencia, 
Foi sempre que não errasse, 
Porque na aíma vos levasse, 
Respeitando o mal da ausência, 
Quis que em vós me transformasse. 

E vendo-me ir maltratado, 
Eu e meu cuidado, sós, 
Proveu nisso de attentado, 
Por não me ausentar de vós, 
Sem vós e com meu cuidado. 

Mas esta alma, que eu trazia, 
Porque vós nella morais, 
Deixa-me cego e sem guia, 
Que ha por melhor companhia, 
Ficar onde vós ficais. 

Assi me vou de meu bem, 
Onde quer a forte estrella, 
Sem alnrta, que em si vos tem, 
Co mal de viver sem ella : 
Olhai com quem e sem quem ! 



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O INSTITUTO 



Mote 



Ferro, fogo, frio e calma, 
Todo o mundo acabarão : 
Mas nunca vos tirarão, 
Alma minha, da minha alma ! 



Volta 

Não vos guardei, quando vinha, 
Em torre, força ( i ) ou engenho, 
Que mais guardada vos tenho 
Em vós, que sois alma minha. 

Alli nem frio nem calma 
Não podem ter jurdição; 
Na vida sim, porém não 
Em vós, que tenho por alma. 

uando foi o poeta forçado a sair de Lisboa ? 
respeito da estação do anno, não pôde haver duvida: 
ia primavera. 

Mote (alheio) 

Campos bemaventurados, 
Tornai-vos agora tristes, 
Que os dias em que me vistes, 
Alegres, já são passados. 



Glosa 

Campos cheios de prazer, 
Vós que estais reverdecendo, 
Já me alegrei com vos ver ; 
Agora venho a temer 
Que entristeçais em me vendo. 

E pois a vista alegrais 
Dos olhos desesperados ? 
Não quero que me vejais, 
Para que sempre sejais 
Campos bemaventurados. 



) Deverá Icr-se praça? 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

Porém, se por accidentc 
Vo" pesar de meu tormento, 
Sabereis que Amor consente 
Que tudo me descontente, 
Senão descontentamento. 

Porisso vôs, arvoredos, 
Que já nos meus olhos vistes 
Mais alegria, que medos, 
Se mos quereis fazer ledos, 
Tornai-vos agora tristes. 

Já me distes ledo ser, 
Mas despois que o falso Amor 
Tão triste me fez viver, 
Ledos folgo de vos ver, 
Porque me dobreis a dor. 

E se este gosto sobejo 
De minha dor me sentistes, 
Julgai quanto mais desejo 
As noras que vos não vejo, 
Que os dias em que me vistes. 

O tempo, que é desigual, 
De seccos, verdes vos tem, 
Porque em vosso natural 
Se muda o mal para o bem, 
Mas o meu para mor mal. 

Se perguntais, verdes prados, 
Pelos tempos differentes, 
Que de Amor me foram dados, 
Tristes, aaui são presentes, 
Alegres, ja são passados. 

(Redondil has). 



Alegres campos, verdes arvoredos, 
Claras e frescas aguas de crystal, 
Que em vós os debuxais ao natural, 
Discorrendo da altura dos rochedos ; 

Silvestres montes, ásperos penedos, 
Compostos de concerto desigual : 
Sabei que, sem licença de meu mal, 
Já não podeis fazer meus olhos ledos. 

E pois já me não vedes como vistes, 
Não me alegrem verduras deleitosas, 
Nem aguas que correndo alegres vem. 

Semearei em vós lembranças tristes, 
Regar-vos-ei com lagrimas saudosas, 
E nascerão saudades de meu bem. 

(Soneto 40) 



36'7 



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368 O INSTJIUTO 

Em que anno, porém, se passaria isto? Temos, me pa- 
rece, uma indicação valiosa nas seguintes redondilhas : 



Mote 

De atormentado e perdido, 
Já vos não peço senão 
Que tenhais no coração 
O que tendes no vestido. 



Volta 

Se de dó vestida andais 
Por quem já vida não tem, 
Porque não o haveis de quem 
Vós tantas vezes matais ? 

Que brado, sem ser ouvido, 
E nunca vejo senão 
Cruezas no coração, 
E grande dó no vestido. 

Atormentado e perdido, isto é, vendo já deante de si o 
exilio, o poeta pede á infanta que tenha por elle o dó que 
traz no vestido. 

Ora pouco depois do começo da primavera de 1S47 tomou 
a filha de D. Manuel luto rigoroso pelo padrasto, Francisco I, 
fallecido em 3i de março desse anno. 

Se é fundada a conjectura que acima apresentei acerca do 
anno em que o poeta começou a pôr o pensamento na infanta 
(1546), teria assim durado uns doze meses o período que aca- 
bamos de percorrer. 

E devo accrescentar que, se o minimo não pôde deixar de 
ser um anno, — de primavera a primavera — , também dificil- 
mente a pretenção do poeta se poderia ter prolongado por 
mais tempo, sem ser necessário pôr-Ihe cobro. 

(Continua). Dr. José Maria Rodrigues. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



RkoacçXo e administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e cdiçáo da Director Composto e impresso 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Univer 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SCIENGIAS PHYSIGO-MATHEMATICAS 



LES MATHEMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n.° 7, pag. 347) 

[U 10 b] — H. de Brito Capello e Roberto Ivens — Cari 
da Africa Occidental Austro-Equatorial, contendo 
itinerário e explorações de Capello e Ivens, 187* 
1880. 
. A Téchelle 1:481480. 

[U 10 b] — A. A. Baldaque da Silva — Planta da Ilha c 
Sacranambáca, 1877- 1879. 
A Téchelle 1 : 10000. 

[U 10 b] — J. da Silva Caetano — Carta topographica c 
Ilha de S. Nicolau de Cabo Verde, 1878. 

[U 10 b] — J. F. d' Assa Castel Branco — Carta do tetTit 
rio Portugue^ de Goa, 1878. 
A Téchelle 1 : i25ooo. 

[U 10 b] — E. C. d'Oliveira Pimentel — Carta vinícola c 
Portugal, 1878. 

A Téchelle 1:1000000. 

[U 10 b] — A. C. Celestino Soares, F. Vicente de Sá e 1 

VOL. 55.°, N.° 8 — AGOSTO DET I908. 1 



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370 O INSTITUTO 

Teixeira Reis — Plano hydrographico da Bahia de 
Loanda, 1879. 




[U 10 b] — A. Pedro d' Azevedo (i) — Carta geo-hydrogra- 
phica da ilha da Madeira e dos ilheos e baixos adja- 
centes, levantada em 1842-1843 e publicada em 18 jg. 



[U 10 b] — A. de Moraes Sarmento — Terrenos adjacentes 
aos rios Zambeze e Chire desde as suas cachoeiras 
até ao mar, 1880? 

[U 10 b] — B. de C. Ribeiro, A. M. dos Reis, B. M. F. An- 
drade, A. M. de Castilho, Don António de Al- 
meida e Nery Delgado — Plano hydrographico da 
barra e porto da Figueira e costa adjacente desde 
Palheiros de Lavos até ao Cabo Mondego, levan- 
tada de i855 a 1862 e publicada, depois de recti- 
ficada, em 1880, 

A 1'échelle 1: 10000. 

[U 10 b] — Direcção geral do Estado Maior — Carta itine- 
rária da /.* Divisão militar, Lisboa, 188 1. 

[U 10 b] — A. M. dos Reis, A. J. Pery, G. A. Pery — Plano 
hydrographico da bahia e Porto do Rio Guadiana, 
levantado em 1874 e 1876 e publicado em 188 1. 
A Téchelle 1:20000. 

[U 10 b] — Guilherme Capello, Gomes Coelho e Guerreiro 
x de Amorim — Plano hydrographico do porto de Am- 

bri\, 1882. 

[U 10 b] — * — Plano hydrographico desde o Cabo da Roca 
até Cerimbra, contendo a entrada do rio e seu porto, 
1882. 

A 1'échelle 1 : 5oooo. 

[U 10 b] — Emygdio Fronteira, F. Assis, Camillo Júnior e 
Hugo de Lacerda — Planta hydrographica do porto 
da Praia (Ilha de S. Thiago de Cabo Verde), 1882. 



(1) En collaboration avec les officiers du vaisseau anglais «Styx». 



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LÊS MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL tyt 

[U io b] — Don João de Castro — Roteiro de Lisboa a Goa. 
Annotado por J. de Andrade Corvo, Lisboa, Typo- 
graphia da Academia real das sciencias, 1882. 

Le routier proprement dit va seulement jus- 
qu'à la page 376. De la page 377 à la page 428 
on trouve un appçndice de J. Andrade Corvo 
sur les lignes isogoniques au xvi e siècle, qui avait 
du reste déjà paru, en français, dans J. M. P. N. 
(i re série, vii, 1879-1880, 145-176). 

Ce routier de Don João de Castro est celui du 
premier voyage qu'il accomplit en i538, mais il 
est le dernier qui fut publié, cet honneur apparte- 
nant à TAcadémie des sciences de Lisbonne, qui 
en chargea le savant J. d* Andrade Corvo. 

[U 10 b] — F. A. de Brito Limpo — Parecer sobre a adopção 
de um meridiano universal (R. O. P. M., xm, 1882, 
569-572). 

|U 10 b] — R. R. de Souza Pinto — Adopção de um meri- 
diano universal (I. C, 2. a série, xxx, 1882-1883, 
3o4-3o6). 

[U 10 b] — Luciano Cordeiro — La question du méridien uni- 
veisel à la Société de géogi*aphie de Lisbonne. Rap- 
port du secretariai envoyé au gouvernement portu- 

gais et à la Société de géogi~aphie italienne (B. S. 
r. L., 4 e série, i883, 5-i6). 

; [U 10 b] — J. B. Ferreira d'Almeida — A questão do meri- 
j diano universal, Lisboa, Typograpnia de Christovão 

j A. Rodrigues, i883. 

Cette brochure renferme le rapport de la So- 
ciété de géographie de Lisbonne relativement au 
méridien à prendre pour origine des longitudes, 
ainsi que les opinions formulées à ce sujet par 
d'autres sociétés savantes portugaises. 

[U 10 b] — A. C. Borges de Figueiredo — Cartada Geogra- 
phia dos Lusíadas, i883. 

[U 10 b] — J. Aniceto da Silva — Planta do Castello, Praça 
e Cidade de Diu, i883. 



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r,*i- 



/ 



fr- 



H* 




Z*]2 O INSTITUTO 

[U io b] — H. de Brito Capello e Roberto Ivens — Caria 
do curso do Rio Zaire de Stanler-Pool ao Oceano, 

i883. 

[U io b] — Gomes Coelho — Plano hydrographico da Costa 
de Loanda desde o t Morro das Lagostas d Ponta 
das Palmeirinhas, i883. 
A Téchelle i : doooo. 

[U 10 b] — J. C. O. Miranda e J. M. Elvas Cardeira — 
k Carta da linha de posições de Santarém- Óbidos, 

| . Lisboa, 1883-1884. 

í [U 10 b\ — F. M. Pereira da Silva — Planta do Rio Tejo 

* * pertencente ao plano geral das obras que convém 

realizar nas margens ao Tejo em frente de Lisboa, 
i etc, 1884. 

í A 1'echelle 1 :1000o. 

u . £U 10 b] — L. de Moraes e Souza, C. de Magalhães e E. de 

; Vasconcellos — Rio Zaire, 1884. 



fU 10 b] — A. A. d'Oliveira — Carta do traçado dos Cami- 
nhos de Ferro e das estradas estudadas e construí- 
das no Districto de Loanda, 1884. 

[U 10 b] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Carta 
topogi-aphica da cidade de Lisboa e seus an*edore$, 
referida ao anno de i8jg, 1884. 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Xavier de Mattos e Moreira de Sá — Estudo do 
Rio Incomati e sua barra, 1884. 

[U 10 b] — # — Planta da Península e Porto de Macau, etc, 
1884. 

A Téchelle 1: 10000. 

[U 10 b] — J. A. Andrade — Carta do território proposto 
para constituir o novo districto de Manica, etc., i885. 

[U 10 b] — J. Francisco da Silva e F. Diogo de Sà — Bahia 
das Salinas, i885. 

A Téchelle 1 :2000o. 



^ 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL $*]3 

[U io b] — Direcção geral dos trabalhos geodesicps — Carta 
chorographica do Districto de Évora com a dentar- 
cação dos concelhos, Lisboa, i885. 
A Téchelle 1:100000. 

[U io b] — * — Planta da Cidade de Setúbal, 188! 

[U io b] — Moreira e Souza — Planta da Praça 
Maior, i885. 

A 1 échelle i : 2000. 

[U 10 b] — B. M. F. de Andrade, A. J. Pery e G 
— Plano hydrographico das bai*ras eport 
e Olhão, levantado em 1870 e J87S e pui 
i885. 

[U 10 b] — (1)— Novo atlas universal, Paris, Gui 
laud &O, i885. 

[U 10 b] — Emygdio Fronteira — Rio Pungue. Pia) 
gi*aphica, i885. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Provinda c 
Planimetria. Limites septentrionaes segu\ 
ferencia de Berlim, i885. 
A 1'échelle 1 :46000o. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta rf< 
S. Thomé, 1 885 e 1891. 
A Téchelle 1 :i5oooo. 

[U 10 b] — A. A. d^liveira — Carta da Afinca A 
Portuguesa, 1886. 

A Téchelle 1:6000000. 

[U 10 b] — A. A. de Oliveira — Carta dos Terr 
Cabinda, Molembo e Massabi, 1886. 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira, L. de Moraes e So 
nesto de Vasconcellos — Carta de Angol 
A Téchelle 1 : 3oooooo. 



(1) Dans cet Atlas ont collaboré plusieurs professeurs 
braziliens. 



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374 à INSTITUTO 

[U io b] — D. C. de Vasconcellos e Noronha e A. G. T. 
Ferreira — Plano hydrofpraphico da Barra e porto 
do Rio Lima e Cosia adjacente, levantada em i865, 
Lisboa, 1886. 

A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Emygdio Fronteira, Camillo Júnior e Hugo de 
Lacerda — Archipelago de Cabo Verde. Ilha de S. 
Thiago. Plano hydrographico do Porto da Praia, 

1886. 

[U 10 b] — J. A. Coutinho e F. de Siqueira — Província de 
Moçambique. Ponta de Bayona á Ponta de Nama- 
lungo y 1886. 

[U 10 b] — J. A. de Coutinho e F. de Siqueira — Provinda 
de Moçambique. Infusse. Barras do rio Muite e ca- 
naes que cortam as mesmas terras, 1886. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da Ilha do 
Príncipe, 1886 e i8g3. 
A Téchelle 1:100000. 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira — Carta do Districto de Manica 
e dos teiTitorios circumvisinhos, 1887. 
A Téchelle 1 : 2000000. 

[U 10 b] — * — Esboço geographico do districio de Timor, 
etc, Dilly, '1887. 

[U 10 b\ — A. M. dos Reis e C. A. da Costa — Plano hydro- 
graphico da barra e porto da ria de Aveiro, levan- 
tado em iS65 e publicado em 1887. 
A Téchelle 1 : 20000. 

[U 10 b] — # — Cartas das Ilhas de S. Vicente e Santa Liqia 
(Cabo Verde) e dos ilheos Branco e Ra\o, 1887. 
A Téchelle 1 : 1 00000. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da Ilha de 
S. Nicolao (Cabo Verde), 1887. 
A Téchelle 1 : 1 00000. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Embocadura do Zatrt* 



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f 



LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL 

Reconhecimento hydrographico para lançameni 
Cabo submarino, 1887. 
A Téchelle 1:750000. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da Ilh< 
Santo Antão (Cabo Verde), 1887. 
A Téchelle 1:100000. 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da ilha de 
(Cabo Verde), 1887. 

A Téchelle 1 :i 00000. 

[U 10 b) — E. A. Gomes de Souza — Reconhecimento hy 
phico da Ponta Banana á bahia de Cabinda, 1 
A Téchelle 1 : i85ooo. 

[U 10 b] — # — Bahia de Anna de Chaves (cidade de S. 
me), 1888. 

A Téchelle 1 :5ooo. 

[U 10 b]-*— Cabo Verde. Villa de S. Filippe, 1888. 
A Téchelle 1 :25oo. 

[U 10 ft] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da Ilhc 
Boa -Vista (Cabo Verde), 1888. 
A Téchelle 1:100000. 



[U 10 b] — * — Planta do Forte portugue^ em S. João 
y a de Ajuda (Dahon 
A Técnelle 1 : 200. 



ptista de Ajuda (Dahomé), 1888. 
":he" 



[U 10 b] — # — Villa de Sal- Rei, povoação da Ilha da < 
Vista (Cabo Verde), 1888. 
A Téchelle 1 : 25oo. 

[U 10 b] — Borro, Coutinho e Silva — Bahia do Tu 
(Parte oeste), 1888. 

A Téchelle 1 : 10000. 

[U 10 b] — A. Oscar d'Azevedo May — Novo atlas univi 
de historia e de geographia antiga, medieval e 
derna, Paris, 1888? 



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376 O INSTITUTO 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da Ilha Brapa 

{Cabo Verde), 1888 e 1891. 
A A Téchelle 1 : 1 00000. 

[U 10 b] — J. Pereira do Nascimento — Districto de Massa- 
medes. Exploração e viagens, 1888-1896. 
A Técnelle 1:1000000. 

[U 10 b] — L. F. Marrecas Ferreira — Sur la projection \t- 
nithale de Lambert, Lisbonne, Imprimerie nationale, 
1889. 

L'auteur expose une solution géométrique de 
ce problème qui a reçu de M. Ed. Colugnon de 
remarquables développements (J. E. P., xxn, 
1867, p. 73), et qui donne immédiatement le trace 
désiré; il essaie ensuite de démontrer que parmi 
de nombreuses projeptions cartographiques, qui 
exigem le maniement de formules et de tables 
compliquées, il en est une, toute entière du do- 
maine de la science du trait, à laquelle, en défi- 
nitive, toutes les projections vont demander la 
solution finale de la question, c'est-à-dire le trace 
de la carte. 

[U 10 b] — A. A. Baldaque da Silva — Roteiro marítimo das 
costas de Portugal, Listfoa, 1889. 

[U 10 b] — Augusto de Castilho — Barra do rio Linde. Re- 
conhecimento hydrogi-aphico até Miahume, levantada 
em i885 e publicada em i88g. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Carta da Guiné 
portuguesa, 1889. 

A Téchelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Planta hydrogra- 
phica da Provinda de Moçambique, 1889. 
A Téchelle i:3oooooo. 

[U 10 b] — A. Heitor — Planta da provinda de Macau, 1889. 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — F. Correia Leotte e J. D. Leotte do Rego — 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 3jJ 

Plano hydrographico da Bahia do Mocambo, levan- 
tado em 1888 e publicado em i8go. 
A Téchelle 1:40000. 

[U 10 b] — # — Plano hydrographico do Porto de Le**™* 
1890. 

A Téchelle 1 : 25oo. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Reconhecimen 
drographico da fo\ do Pungiie, levantada em 
e publicada em i8go. 

[U 10 b] — Senna Barcellos, Fonseca Rodrigues e 
Curado — Archipelago de Cabo Verde, 1890. 
A Téchelle 1 : 5ooo. , 

[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Carta da II 
S. Thiago (Cabo Verde), 1890. 
A 1 échelle 1 : 1 00000. 

[U 10 b] — L. Caetano Pereira, Álvaro Andréa e . 
Costa Rodrigues — Provinda de Moçambique, 
hydrographico da Barra e Porto do Rio C 
1890. 

A Téchelle 1 :2000o. 

[U 10 b] — J. C. — Limites da Provinda de Moçambiqi 
postos pela Inglaterra a Portugal, 1890. 
A Téchelle 1:6000000. 

[U 10 b] — Nunes da Silva e Aprá — Plano hydrogr< 
do Feijão d* Agua (Ilha Brava), 1890. 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Comte d'Avila (i) — Nos travaux géodesiqi 
S. G. L., io e série, 1891, 167-160). 

Considérations sur Touvrage du general ] 
cagaix intitule: Des cartes topographiques 
péennes (Paris, 1889), tendant à rétablir la 
des faits concernant une affirmation y con 



(1) Plus tard Marquis d' Ávila e de Bolama. 



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378 o instituto 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira — Atlas s das possessões portu- 
^ue\as para a instrucção secu 
r erreira Machado & C. a , 1891. 



gue\as para a instrucção secundaria, Lisboa, A. 
Fer * ---.—- ~ 



[U 10 b] — Ernesto de Vasconcellos — Esboço das Bacias 
hydrographicas dos Rios Pungue, Revue e parte do 
rio Bu\io, 1891. 

A 1'écheííe 1 : 5ooooo. 

[U 10 b] — J. Renato Baptista (i) — Reconhecimento para os 
estudos do caminho de ferro da Beira a Aíanica, 
1891. 

A Téchelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b] — Officiaes da canhoneira Ave e Bengo — Província 
de Angola. Plano hydrographico de Landana ao 
Massabi, levantado em 1884 e publicado em i8gu 
A Téchelle 1:40000. 

[U 10 b] — A. de Moraes Sarmento — Carta do Delta do 
Zambeze e Terrenos adjacentes, 1891. 
A Téchelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b] — Vasco de Carvalho, L. Caetano Pereira, A, An- 
dréa e À. da Costa Rodrigues — Plano hydrogra- 
phico da barra e porto do rio Chinde, levantado em 
i8go e publicado em i8gi. 
A Téchelle 1 : 20000. 

[U 10 b] — A. Fontoura, Newton, A. Valle — Provinda de 
Angola. Plano hydrographico da Bahia do Lobito, 
1891. 

A Téchelle 1: 10000. 

[U 10 b] — Jayme F. de Serpa Pimentel — Carta do Terri- 
tório Portugue\ de Damão e Nagar Avely, 1891. 

[U 10 b] — G. Ivens Ferraz — Reconhecimento hydrogravhko 
da fo\ do Pungue e do Bu\io, levantado em i8go e 
publicado em i8qi. 



(1) En collaboration avec les officiers du génie sous ses ordres. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL $79 

j_U 10 b] — J. D. Leotte do Rego — Planta hydrographica 
da Barra de Quelimane, 1 891- 1892. 
A Téchelle 1 : 5oooo. 

[XJ 10 b] — # — Port of Leixões (Hydrographical Chart pu- 
blished by the daily paper «O Commercio do Porto», 
1892. 

A Téchelle i:25oo. 

[U 10 b] — Direcção do serviço do Estado Maior — Carta < 
arredores de Lisboa, 1892 et suivants. 

La première carte, dont le lever a été fait 
1891, a été publiée en 1892, et de nouveau j 
bliée, dument rectifiée, en 1898. Cest la carte r 
(Campo Grande). 

• Tous les ans sont publiées de nouvelles car 
et rectifiées celles qui s'épuissent. 

A notre connaisance il ne manque que la | 
blication de 7 feuilles pour que le plan proje 
soit acompli. 

[U 10 b] — Duarte Pacheco Pereira — Esmeraldo de s\ 
orbis. (Edição commemorativa da descoberta 
America por Christovào Colombo no seu 4. c 
tenario, sob a direcção de Raphael Basto, Lisb 
Imprensa Nacional, 1892 et B. S. G. L., 2i e sei 
1903, 180-189, 222-226, 336-345, 377-387, 4< 
40a; 22 e série, 1904, 11-22, 78-88, i35— 141, i( 
168, 200-209, 24^" 2 ^4^ 3o8-3i8, 339-348, 367-3 
414-437). 

Le manuscrit original de Touvrage de Pachi 
Pereira, demeuré inédit, existait au milieu 
xviii siècle dans la Bibliothèque 4 U Marq 
d'Abrantes, d'après Barboza Machado, dans 
travail paru en 1741. Aujourd'hui on le consid 
comme perdu. 

II en existe, en tout cas, deux copies, Tun 
la Bibliothèque nationale d'Evora et Tautre i 
Bibliothèque nationale de Lisbonne. 

Suivant Duarte Pacheco, lui-même, le plan 
son ouvrage «de cosmographie et marinhei 
était de faire la description de la cote africai 
à partir du détroit de òibraltar, dans la direçt 



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38o O INSTITUTO 

du Sud jusqu'au cap de Guardafui, puis de là à 
la cote méridionale de 1'Asie, en comprenant 
«toute 1'Inde». L'ouvrage devait renfermer 5 li- 
vres, les trois premiers décrivant la partie de la 
cote africaine qui va jusqu'au fleuve de Hnfant, 
c'est-à-dire, jusquà la limite des découvertes an- 
térieures au règne de Don Manuel; au 4* la cote 
africaine du fleuve de Tlnfant au cap Guardafui; 
au 5 e le cote de 1'Arabie méridionale, de la Perse 
et de Tlnde. Mais 1'auteur n'acheva pas son en- 
treprise, et Tinterrompit juste au moment ou il 
devait entrer dans la partie la plus importante de 
son travail, c'est-à-dire, quand il commençait à 
décrire la cote africaine au dela du fleuve de 
Tlnfant. En eftet, d'après Barboza Machado, le 
manuscrit original avait 4 livres, et le 4 e seule- 
ment 6 chapitres, exactemént le même nombre 
au'on trouve dans les copies des Bibliothèques 
a Evç>ra et de Lisbonne. 

Pour donner plus d'éclat à la célébration du 4* 
centenaire de la découverte de rAmérique, on 
publia, pour la première fois, en 1892, Y Esme- 
raldo. Cette édition fút faite par les soins de Ra- 
phael Basto, conservateur aux Archives natio- 
nales (Torre do Tombo). 

Le volume ouvre par une notice préliminaire, 
suivie de la transcription de plusieurs documents 
inédits, et finit par une remarque à quatre pas- 
sages du texte du Esmeraldo et un index des 
noms et sujets les plus importants que le volume 
renferme. 

La note préliminaire est destinée, dans son en- 
semble, à donner les principales données biogra- 
phiques du célebre Achiles Lusitano. Le texte 
du Esmeraldo est celui du manuscrit de Lis- 
bonne avec des corrections d'après le manuscrit 
d' Évora. 

Au dire de M. Epiphanio Dias, cet ouvrage est 
assez incomplet. Ce professeur en remarquant 
d'ailleurs qu'il restait encore à faire une édition 
critique du Esmeraldo, s'en est chargé, en pre- 
nant pour base de ce travail, publié dans le B. 
S. G. L., le manuscrit d'Evora, le quel, a son 
avis, est plus exact que celui de Lisbonne. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 38 1 

[ti io b] — J. M. de Mendonza Souza Vidigal— Planta topo- 
graphica da Cidade de Damão, 1892. 
A Téchelle 1 : 2000. 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira — Mappa da primeira circum- 
navegação da terra por Fernam de Magalhães e 
Sebastião del Cano (i5ig-i522), 1892. 

[U 10 b] — A. A. d'Oliveira — Mappa do caminho m 
da índia por Vasco da Gama (1497-1499)1 

[U 10 b] — E. J. da Costa Oliveira — Carta do Cl 
Rio Zaire de Noqui ao Oceano, 1892. 
A Téchelle 1:200000. 

[U 10 b] — A. G. Telles Ferreira e F. da Costa J 
Carta Topographica da Cidade do Porto, 1 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Direcção geral da Agricultura — Carta c 
de Portugal, levantada em 1890 e 18 91, e pu 
de 1892 a 1899. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Carta dot 
ctos de Lourenço Marques e de Inhambane, 
A Téchelle 1 : 1 000000. 

[U 10 í] — J. Affreixo — Traçado rápido dos Cur 
rios Inhamacuna, Moali a Lamaduro, 1893. 
A Téchelle 1 :7400o. 

[U 10 í] — F. Ferreira Deusdado — Chorogi*aphia c 
tugal, Lisboa, 1893. 

[U 10 b\ — * — Planta hydrographica da barra dt 
mane, i8g3. 

[U 10 b] — J. D. Leotte do Rego — Plano hydrograj. 
barra e curso do rio Maccuse até 25 milhas d 
levantada em 1892 e publicada em 1893. 

[U 10 b] — J. F. d'Avillez (i)~ Sobre a represente 



(1) Vicomte de Reguengo. 



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382 Ò INSTITUTO 

Terra pelas projecções orthogonaes (J. M. P. N., 

2.* série, iii, 1893-1895, 78-94). 

Uauteur étudie ía forme des projections ortho- 
graphicjues orthogonales, dans te cas ou le piai] 
ae projéction est parallèle, soit à Téquateur, soh 
au méridien. II indique ensuite les formules qui 
fixent la position sur la carte d'un point quelcon- 
que dont la colatitude et la longitude sont con- 
nues. II considere, enfin, les déformations de ces 
systèmes de projéction et il fait connaitre les con- 
ditions de leur emploi. 

[U iu b] — Eduardo de Noronha — Esboço da carta dodis- 
tricto de Lourenço Marques, 1894. 
A 1'échelle 1 :25oooo. 

[U 10 b] — * — Plano hydrographico da barra e porto de 
Villa Nova de Portimão, 1894. 
A 1'échelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — * — Mappa das linhas férreas e localidades onde 
ha guarnições e estabelecimentos militares, 1894. 

[U 10 b] — Nunes da Silva e Francisco Cid — Planta hydro- 
graphica do Porto de Furna (Ilha Brava), Itpan- 
tada em i8ç2 e publicada em i8g4. 
A Téchelle 1 : 2000. 

[U 10 b] — G. Ivens Ferraz — Reconhecimento hydrographico 
da Bahia do Ba\aruto, 1894. 
A Téchelle 1 : 200000. 

[U 10 b] — J. A. Ludovice, Bettencourt Furtado e Alves 
Dias — Reconhecimento da Barra de Limpopo, le- 
vantada em i8q3 e publicada em i8g4. 
A Téchelle 1 : dooo. 

[U 10 b] — J. J. Xavier de Brito e A. Ramos da Costa— 
Plano hydrogiyphico da barra e porto de Vilk 
Nova de Portimão, 1894. 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10M — Ernesto de Vasconcellos — Carta da ilha do 
Fogo (Cabo Verde), 1894). 
A Téchelle 1 : 1 00000. 



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LES MAfrHÉMATIQUES ÉN PORTUGAL 

[U io b] — J. Affreixo — Reconhecimento hydrograph 
barra do rio Licungo (M f Gondó), levantai 



i8q3 e publicada em i8g5. 
A Téchelle i : 10000. 



[U 10 b] — Commissão de cartographia — Carta dos 
ctos de Benguella e Mossamedes, 1895. 

[U 10 b] — Francisco Gonçalves — Itinerário de duai 
chás feitas de Cassualella ao Bailundo e d'este 
a Catumbella, 1896-1897. 
A Téchelle 1 : i5ooooo. 

[U 10 b] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — 
chorographica da Ilha de S. Miguel, 1897. 
A Téchelle 1 : 5oooo. 

[U 10 b] — Valente da Cruz — Reconhecimento hyd\ 
phico do rio Limpopo desde a sua fo\ até 
fluência do Chengane, 1897. 

[U 10 b] — A. Filippe de Andrade — Estudos do plane 
Districto de Benguella, 1897. 
A Téchelle 1:1000000. 

IU 10 b] — F. Moreira da Fonseca, C. Villar, J. J. de í 
Couto Pinto e Proença Fortes — Provinda c 
çambique. Reconhecimento do Porto Interior da 
1897. 

A Téchelle 1 : 10000. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Reconhecime 
barra de Limpopo, 1897. 
A Téchelle 1: 10000. 

[U 10 b] — Gabriel Prreira — Roteiros portugueses d 

fem de Lisboa á índia nos séculos xvi e xvi 
oa, Imprensa Nacional, 1898. 

M. Gabriel Pereira fait, dans cette bro 
un interessam exposé des routiers, par h 
des Indes, de Vicente Rodrigues et Gasp* 
nuel et de celui de Aleixo da Motta. 

[U 10 £]— J. Fortunato de Castro — Planta da dei 



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^"IPI 



384 o iNSTrnrro 



cão e demarcação da Praça de Castro Marim cem 
seus arredores, 1898. 
A 1'échelle 1 : 1000. 

[U 10 b] — Corpo do Estado Maior — Carta itinerária de 
Portugal, 1898 (1). 

[U 10 b] — F. T. Vieira da Rocha e Adriano A. de Sà — 
Goa. Reconhecimento hydrographico da Barra de 
Betul e Fo\ do Rio de Sal, 1898. 
A 1'échelle 1 :25ooo. 

[U 10 b] — J. G. da Silva Nogueira e C. A. Gomes d* Amaral 
— Reconhecimento hydrographico da barra do rio 
Tejungo, 1898. 

A 1'échelle í:25ooo. 



[U 10 b] — J. G. Ferreira da Gosta — Atlas de geographia 
universal, etc, Lisboa, Typographia e lithographia 
da Companhia nacional editora, 1898 e 190Í. 



[U 10 b] — J. F. Nery Delgado e Paulo, Choffat — Carta 
geológica de Portugal (2), 1899. 
A 1'échelle 1 : dooooo. 

[U 10 b] — Augusto de Castilho — Reconhecimento da bahia 
do rio Linde, Lisboa, 1899. 



[U 10 b\ — A. Eduardo Neuparth — Landana e Fo\ do Chi- 
loango, 1809. 

A 1'écnelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Alexandre A. Terry — Planta itinerária da Mor- 
da Expedição do Nyas. 
A Técnelle 1 : 200000. 



[U 10 b] — Commissão de cartographia — Esboço do Curso 
do Zambeze, 1899. 
A 1'échelle 1 : 200000. 



(1) On a publié postérieurment plusieurs feuilles de cette carte, dú- 
ment corrigées. 

(2) Cette carte a reçu un Grand Prix à 1'Exposition Universelk de 
Paris -en 1900. 



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LES MATHEMATlQtJES EN POfcTUGAL 38$ 

[U io b\— C. J. de Senna Barcellos — Archipelago de Cabo 
Verde. Plano hydrogi*aphico do Porto Grande de 
S. Vicente, 1899. 

A Téchelle 1:20000. 

[U 10 b] — C. J. de Senna Barcellos — Plane 
phico do Porto da Ponta do Sol, 1900. 
A Téchelle 1:10000. 

[U 10 b] — A. A. Freire d 7 Andrade — Carta da 
neira de Manica, 1900. 
A Téchelle 1 : 5oooo. 

[U 10 b] — J. A. Alves Roçadas — Planta de 
1900. 

A Téchelle 1 :3ooo. 

[U 10 b] — J. A. Alves Roçadas — Planta de 
S. Paulo de Loanda, 1900. 
A Téchelle 1 : 5ooo. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Are 
Cabo Verde, 1900. 

A Téchelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b]. — Commissão de cartographia — Carte 
1900. 

A Téchelle i:3oooooo. 

[U 10 b] — F. L. Pereira de Souza — Estudo , 
Polygono de Tancos, 1902. 

[U 10 b] — Gomes da Costa — Africa Oriental 
igo3. 

[U 10 b] — Commissão de cartographia — Carte 
bique, igo3. 

A Téchelle 1 : 3oooooo. 

[U 10 b] — Direcção geral dos trabalhos geodesi 
de Portugal, 1903. 

A Téchelle 1 : 5ooooo. 

[U 10 b] — A. F. Moniz Júnior — Carta de ju 
Damão em 16^4, igo3. 

VOL. 55.°, N.° 8 — AGOSTO DE 1908 



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D O INSTITUTO 

10 b] — J. J. Xavier de Brito — Plano hydrographico da 
barra e porto de Setúbal, levantado em i884*e pu- 
blicado em igo3. 

A Téchelle i : 20000. 

10 b] — Direcção geral dos trabalhos geodésicos — Carta 
chorographica da Ilha de Santa Maria (Açores), 
levantada em i8g8 e publicada em igo3. 
A Téchelle 1 : 5oooo. 

10 b] — Marquis d' Ávila e de Bolama — Sobre nivela- 
mentos de precisão em Portugal (R. M. L., lvu, 
1905, 521-526). 

Compte-rendu des travaux réalisés en Portugal 
concernant le nivellement de précision, entre Cas- 
caes et le pont international sur le Caia, prés 
d*Elvas, pour être relié aux nivellements espa- 
gnols, dans le but de déterminer la différence de 
niveau entre Ia Méditérranée à Alicante, et à 
1'océan atlantique, à Cadix, à Cascaes et à San- 
tander, et par suite de savoir si Ton doit adopter 
ou rejeter la proposition présentée par M. Lalle- 
mand que toutes les mers ouvertes qui environ- 
nent 1'Èurope, ont la même surface à niveau. 
(Continua). Rodolpho Guimarães. 



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/_ 



LITTERATURA E BBLUS-ARTES 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 7, pag. 368) 

Antes de acompanharmos Camões no seu amargurado 
exilio, cumpre fazer referencia a alguns factos anteriores, 
de que elle nos dá noticia. 

Seja o primeiro uma ausência da formosa infanta, que 
motivou, entre outras poesias, estes três sonetos, tão bellos, 
tão repassados de amorosa saudade: 

Ondados fios de ouro reluzente, 

Que agora da mão bella recolhidos, 
Agora sobre as rosas esparzidos, 
Fazeis que sua graça se accrescente : 

Olhos, que vos moveis tão docemente, 
Em mil divinos raios incendidos : 
Se de cá me levais a alma e os sentidos, 
Que fora, se eu de vós não fora ausente ? 

Honesto riso, que entre a mór fineza 
De perlas e corais nasce e apparece, 
Oh! quem seus doces ecos já lhe ouvisse ! 

Se, imaginando só tanta belleza (1), 

De si, com nova gloria, a alma se esquece, 
Que será quando a vir ? Ah quem a visse ! 

(Soneto 84). 



( 1 ) Brantôme, que era intendido no assumpto, dá-nos também teste- 
munho da formosura da infanta, em uma pagina das Dames galantes, 
que vale a pena transcrever na integra. Fallando de senhoras aue não 
quiseram casar, diz o celebre cortesão e aventureiro francês : «J ay veu 
1'infante de Portugal, filie de la feu reyne jEleonor, en mesme resolu- 
tion ; et est morte filie et vierge en Tange de soixante ans ou plus. Ce 
n'est pas faute de grandeur, car ell'estoit grande en tout ; ny par faute 
de biens, car elle en avoit force, et mesme en France, ou M. le general 
Gourgues a bien fait ses affaires ; ny pour faute de dons de nature, car 
je l'ay veue à Lysbonne, en 1'aage de quarante-cinq ans, une tres-belle 
et agreable filie, de bonne grace et belle aparance, douce, agreable, ôt 
qui meritoit bien un mary pareil à elle en tout, courtoise, et mesmes à 
nous autres François. Je le peux dire pour avoir eu cest honneur d'avoir' 
parle à elle souvant et privement. Feu M. le grand prieur de Lorraine, 
lorsqu'il mena ses galleres du Levant en Ponant pour aller en Escosse, 



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388 O INSTITUTO 

Do estan los claros ojòs. que, colgada, 
Mi alma trás de si llevar solian ? 
Do estan las dos mexillas, que vencian 
La rosa, quando está mas colorada ? 

Do está la roxa boca, y adornada - 

Con dientes, que de nieve parecian ? 
Los cabellos, que el oro escurecian, 
Do estan, y aquella mano delicada ? 



du temps du petit roy François, passant et seiournant à Lvsbonne quel- 
quês jours, la visita et veid tous les jours. Elíe le receut fort courtoise- 
ment et se pleust fort en sa compaignie, et lui fit tout plein de beaux 
presens. Entre autres, luy bailia une chaisne pour pendre sa croix, toute 
de diamans et rubis, et perles grosses, proprement et richement elabou- 
rée ; et pouvoit bien valloir de quatre à cinq miU'escus, et luy faisoit 
trois tours. Je croy qu'elle pouvoit bien valloir cela, car il 1'engageoit 
tousjours pour trois miH'escus, ainsi qu'il fit une fois a Londres, lorsque 
nous tournions d'Escosse ; mais aussitost estant en France il 1'envoya 
desengager, car il 1'aymoit pour Tamour de la dame de laquelle il estóit 
encaprissé et fort pris. Et croy qu'elle ne 1'aymoit point moins, et que 
voluntiers ell'eust rompu son neud virginal pour luy ; cela s'apelle par 
mariage, car c'estoit une tres-sage et vertueuse princesse. Et si dirá? 
bien plus, que, sans les premieis troubles qui commençarent en France, 
oú messieurs ses freres Vattiroient, et l'y tenoient, il voulut luy-mesmes 
retourner ses galleres et reprendre mesme routte, et revoir ceste prin- 
cesse et lui parler de nopces ; et croy qu'il n'y fust point este escon- 
duict, car il estoit d'aussi bonne maison qu'elle, et extraict de grands 
roys comm'elle, et surtout 1'un des beaux, des agreables, des honnestes 
et des meilleurs çrinces de la chrestienté. Messieurs ses freres, principal- 
lement les deux aisnez, car ilz estoient les oracles de tous et conduisoient 
la barque, je vis un jour qu'il leur en parloit, leur racontant de son 
voyage et les plaisirs qu'il avoit receuz lá, et les faveurs : ilz vouloient 
fort qu'il reffist encor le voyage et y retournast encor ; et luy conseii- 
loient de donner là, car le pape en eust aussitost donné la dispense de 
la croix ; et, sans ces mauditz troubles, il y alloit et en íust sorty (à mon 
advis), à son honneur et contentement. Ladite princesse 1'aymoit fort, 
et m'en parla en três boné part, et le regreta fort, nVinterrogeant de sa 
mort, et comme esprise, ainsi qu'il est aisé, en telles choses, à un homme 
un pèu clairvoyant le cognoistre» (Edição de E. Flammarion, Paris, p. 
435-436). O grão-prior de Lorena era Francisco de Guise l professo na 
ordem de Malta e irmão do celebre segundo duque de Guise e do car- 
dial de Lorena. O petit roy François é Francisco 2. , que subiu ao throno 
em julho de i55o, e falleceu em dezembro de i56o. Brantõme, que não se 
enganou muito a respeito da idade que tinha a infanta, esteve em Lisboa 
de 1564 para 1 565. Apesar de já não ser viva a rainha D. Leonor, compre- 
hende-se o interesse com que a enteada de Francisco i.° ouviria o cele- 
bre fidalgo francês. Creado na corte de Margarida de Valois, filho, neto, 
sobrinho e irmão de empregados superiores da casa real, gentil-homem 
da camará de Carlos 9. , ninguém melhor do que elle podia informar a 
infanta a respeito de pessoas que tanto interesse lhe deviam despertar. 
Pois se elle até sabia que a rainha D. Leonor, «estant deshabilléej pa- 
roissoit du corps une geante, tant elle 1'avoit long et grand ; mais, tiram 
en bas, elle paroissoit une naine, tant elle avoit les cuisses et jambes 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 38g 

O toda linda! Do estarás agora, 

Que no te puedo ver, y el gran deseo 

De verte me da muerte cada hora ! 
Mas no mirais mi grande devaneo ? 

Que tenga yo en mi alma a mi senora 

E diga : Donde estás, que no te veo ! 

(Soneto 328) (1). 

De cá, donde somente o imaginar-vos 

A rigorosa ausência me consente, 

Sobre as asas do Amor, ousadamente, 

O mal soffrido esprito vai buscar- vos ; 
E, se não receara de abrasar-vos 

Nas chammas, que por vossa causa sente, 

Lá ficara comvosco, e, vós presente, 

Aprendera de vós a contentar vos. 
Mas, pois que estar ausente lhe é forçado, 

Por senhora, de cá, vos reconhece, 

Aos pés de imagens vossas inclinado. 
E pois vedes a fé que vos offrece, 

Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado, 

E dar-lhe-eis inda mais do que merece. 

(Soneto 116). 

Como tardava para o enamorado poeta o dia em que po- 
desse tornar a ver a sua saudade! 

Mote 

Saudade minha, 
Quando vos veria ? 

Voltas 

Este tempo vão, 
Esta vida escassa, 
Para todos passa, 
Só para mim não. 
Os dias se vão, 
Sem ver este dia, 
Quando vos veria. 



courtes avec le reste» ! (Dames galantes, ediç. cit., pag. 166). E quem 
lhe havia dito isto tinha sido madame de Fontaine-Chalandrajr, dite la 
belle Torcy, aquella que, em solteira, tão ardente paixão havia inspirado 
a Francisco de Moraes e que Camões trata de formosa e falsifica nym- 
pha (Egloga 2. â . v. 495 e segg.). Direi ainda que Brantôme recebeu de 
D. Sebastião o habito de Cnristo. E talvez a filha da rainha D. Leonor 
não fosse estranha á concessão desta mercê. 

(1) Reproduzo o soneto como elle se lê no Cancioneiro de L. Franco 
Corrêa (H. 114 v.), mudando apenas está em estan no v. 8. A transcripção 
de Juromenha contém algumas inexatidÕes. 



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3Ç0 O INSTITUTO 

Vede esta mudança 
Se está bem perdida 
Em tão curta vida, 
Tão longa esperança 
Se este bem se alcan 
Tudo soffreria, 
Quando vos veria. 

Saudosa dor, 
Eu bem vos intendo ; 
Mas não me defendo, 
Porque offendo Amor. 
Se fosseis maior, 
Em maior valia 
Vos estimaria. 

Minha saudade, 
Caro penhor meu, 
A quem direu eu 
Tamanha verdade ? 
Na minha vontade, 
De noite e de dia, 
Sempre vos teria. 

Estaria a infanta fora "de Lisboa, durante alguma tempo- 
rada, no período que decorre da primavera de 1546 até a 
de 1 54.7 ? 

Pela chronica de Francisco de Andrade sabemos que a 
corte se achava em Almeirim no começo de junho de 
1546 (2). E do Corpo diplomático portugue\ t tomo vi, se 
deduz que residiu todo o anno nesta villa ou em Santarém. 
E, portanto, natural que a infanta também para alli fosse 
passar, pelo menos, a estação calmosa. 

E não seria esta a primeira vez que ella, depois de ter 
casa á parte, acompanhasse o irmão e a tia para fora de 
Lisboa. Em setembro de 15^3, por exemplo, encontravam-se 
todos em Cintra (3). 

Em principio de fevereiro de 1 547, é certo, assistiu a in- 



(1) Que quer isto dizer? Teria o poeta escripto : 

Vede esta ordenança- 
Se está bem urdida ? 

(2) Crónica de D. João ///, 4.* parte, cap. 11. Refere o chronista a 
cerimonia com que D. João III recebeu o collar do Tosão d'ouro, que 
Carlos V lhe enviou por um rei d'armas. 

(3) Crónica citada, 3." parte, cap. 95. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3c)I 

tanta em Almeirim ao faustuoso casamento de D. João de 
Lencastre, primeiro duque de Aveiro, com D. Juliana de 
Lara, irmã do quarto marquês de Villa-Real, D. Miguel de 
Meneses (i). 

Não me parece, porém, que fosse esta a ausência que 
motivou as poesias de Camões. 

Creio, em primeiro logar, que ella não foi longa. Demais, 
nessa occasião já os amores de Camões deviam ter sa 
da phase idyllica, em que as referidas poesias foram es< 
ptas. Accresce ainda que talvez o poeta se achasse tamb 
presente ao acto. A noiva, com effeito, pertencia, muito 

Eerto, á família do seu amigo e protector, D. Francisco 
íoronha (2), e era natural que o pequeno D. António fo 
também a Almeirim, acompanhado do seu preceptor. 1 
uma festa de família, transformada em festa da corte (3) 
D. Francisco de Noronha quereria, por certo, que o i 
primogénito a ella assistisse. E comprehende-se bem qu 
poeta procuraria remover quaesquer obstáculos, se os h 
vesse, para ir còm o seu discípulo e olhar por elle (4). 

Supponho, por isso, que as poesias a que acabo de me ref< 
foram escriptas durante a estação calmosa do anno de i5 
Outro grupo de poesias, anteriores ao exílio, é o que 
motivado por uma doença da infanta. 

Mote 

Deu, senhora, por sentença 
Amor que fosseis doente, 
Para fazerdes á gente 
Doce e formosa a doença. 

Voltas 

Não sabendo Amor curar, 
Foi a doença fazer, 
Formosa para se ver, 
Doce para se passar. 



(1) Sousa, Historia genealógica, xi, p. 5o e segg. Provas, vi, n. 45- 

(2) Foi até elle que assignou, em nome e com procuração da no 
a escriptura do casamento, feita em Almeirim em 1 de fevereiro de 1. 
Encontra-se esta escriptura impressa nas Provas da Historia genet 
gica da Casa real, vi, p. 45 e segg. 

(3) Vid. Historia genealógica, xi, p. 5o e segg. 

(4) Sobre a affluencia de gente ao casamento, veja-se a curiosa c; 
do cónego Brás Luis da Mota (Provas da Historia genealógica, vi, p. 



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392 O INSTITUTO 

Então, vendo a differença 
Que ha de vós a toda a gente, 
Mandou cjue fosseis doente, 
Para gloria da doença. 

E digo-vos de verdade 
Que a saúde anda invejosa, 
Por ver estar tão formosa 
Em vós essa infermidade. 

^ Não façais logo detença, 

Senhora, em estar doente, 
Porque adoecerá a gente 
Com desejos da doença. 

Que eu, por ter, formosa dama, 
A doença que em vós vejo, 
Vos confesso que desejo 
De cair comvosco em cama. 

Se consentis que me vença 
Deste (1) mal, não houve gente 
Da saúde tão contente, 
Como eu serei da doença. 



Mote 

Da doença em que ora ardeis 

Eu fora vossa mezinha, 

Só com vós serdes a minha. 



Voltas 

É muito para notar 
Cura tão bem acertada, 
Que podereis ser curada 
Somente com me curar. 
Se quereis, dama, trocar, 
Ambos temos a mezinha, 
Eu a vossa, e vós a minha. 

Olhai que não quer Amor, 
Porque fiquemos iguais, 
Pois meu ardor não curais, 
Que se cure vosso ardor. 
Eu cá sinto vossa dor ; 
E se vós sentis a minha, * 
Dai e tomai a mezinha. 



(1) Não deverá ler-se este ou esse ? 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3gi 



Mote 

Com razão queixar-me posso 
De vós, que mal vos queixais; 
Pois, sennora, vos sangrais, 
Que seja num corpo vosso (i). 

Voltas 

Eu, para levar a palma, 
Com que ser vosso mereça, 
Quero que o corpo padeça 
For vós, que delle sois alma. 

Vós do corpo vos queixais ; 
Eu queixar-me de vós posso, 
Porque, tendo um corpo vosso, 
Na minha alma vos sangrais. 

E sem fazer differença 
No que jie mi possuís, 
Pelo pouco que sentis, 
Dais á minha alma doença. 

Porque dous aventurais ? 
Oh não seja o dano nosso 1 
Sangre-se este corpo vosso (2), 
Porque, minha alma, vivais. 

E inda, se attenderdes bem, 
Seguis medicina errada, 
Porque, para ser sangrada, 
Uma alma sangue não tem. 

E pois em mi sarar posso 
Males, que á minha alma dais, 
Se inda outra vez vos sangrais, 
Seja neste corpo vosso (3). 



Tudo me leva a crer que a doença a que se refer 
poeta é a mesma de que falia Fr. Miguel Pachea 
guinte passagem : «Enfermo vna vez de tercianas, co 
malignidad; hallauanse los médicos con cuidado; mai 



(1) .E não na minha alma, que lá tendes. 
(*) O sentido mostra que deve ler-se, aqui, corpo nosso, < 
anterior, dano vosso. Cf. a primeira volta : quero que o meu cc 
(3) Aliás corpo nosso. 



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3g4 o instituto 

Princesa, haziendo menos caso de los socorros de Hypocrates 

y Galeno, acudio a buscarlos en la Reyna dei Cielo. Ordeno 

a su confessor fuesse a pedirlo a la milagrosa imagen de la 

Luz, que se venera en templo que dista poço de Lisboa,..- y 

elebrada en su iglesia la missa, se traxesse vna cantarilla de 

gua, de vna admirable fuente que corre debaxo de su altar... 

ieuio esta Princesa (la salud), porque, en el mismo punto 

ue tomo el agua, se despidio la calentura y cesso la enfer- 

íidad» (1). 

Em que phase se achavam os amores do poeta, quando 

screveu os versos que ficam transcriptos ? 

O tom geral que nelles domina, ao mesmo tempo que in- 

ica não ser considerada grave a doença da infanta, mostra 

imbem que, para a ardente paixão do poeta, já ia tardando 

remédio : 

Olhai que não quer Amor, 
Porque iiquemos iguais, 
Pois meu ardor não curais, 
Que se cure vosso ardor. 

Camões achava-se, me parece, na phase em que tanto o 
icommodava a indifferença da infanta. Jà havia chegado ou 
stava próxima a occasião de perguntar a si próprio: 

Se esta dor tão conhecida 

Me não vêem, porque não querem, 

Que farei para me crerem ? 

Confirmam esta conjectura as redondilhas seguintes: 

Olhai que dura sentença 
Foi Amor dar contra mi : 
Que, porque em vós me perdi, 
Em vos me busque a doença 1 



(i) Vida de la sereníssima infanta DoHa Maria, fl. 107 V.-108). Não 
icontro referencia a qualquer outra doença da infanta, além destas 
Tçãs e da calentura lenta, de que morreu (Ibid., fl. 126 v.). Diz Fr. M. 
acheco que a infanta, para que as miraculosas aguas da Luz podessem 
>roveitar a todos, «compro vnas casas immediatas a aquel Santuário 
ordeno se diessen de valde a los que quiziesen hazer nouenas», etc. 
r l. 108). Foi talvez esta uma das razões por que a filha de D. Manuel, 
interiormente, mandou construir e escolheu para seu jazigo a sum- 
tuosa capella-mór da Senhora da Luz, que fica no próprio local onde 
ttava o antigo templo. E lá corre ainda agua de que a infanta bebeu, 
ira se curar das 'terçãs. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 3g5 

Claro está 
Que em vós só me achará ; 
Que em mi, se* me vem buscar, 
Não poderá mais achar 
Que a forma do que foi (i) já. 

Que, se em vós Amor se pôs, 
Senhora, é forçado assi, 
Que o mal, quê me busca a mi, 
Que vos faça mal a vós. 

Sem mentir, 
Amor me quis destruir 
Por modo nunca cuidado ; 
Pois ha de ser já forçado 
Pesar-vos (2) de vos servir. 

Mais sois tão desconhecida, 
E são meus males de sorte, 
Que vos ameaça a morte, 
Porque me negais a vida. 

Se por boa 
Tal justiça se pregoa, 
Quando desta sorte for, 
Havei vós perdão de Amor, 
Que a parte já vos perdoa. 

Mas o que mais temo, emfim, 
É que, nesta differença, 
Que se não torne a doença, 
Se me não tornais a mim. 

De verdade, 
Que já vossa humanidade 
De que se queixe não tem, 
Pois para as almas também 
Fez Amor infermidade. 



Para festejar o restabelecimento da saúde da 
creveu Camões a bella canção 19, que o viscor 
menha publicou pela primeira vez : 

Porque a vossa belleza a si se vença, 
Tais extremos mostrastes, 
Que mais bella ficastes 

Co passado rigor desta doença. 



(1) Não será preferível ler fui? 

(2) Talvez lhe, referindo- se a Amor, 



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3^6 O INSTITUTO 

Assim, depois, a descorada rosa, 
Se reverdece, fica mais formosa; 
Assim, depois do inverno e seus rigores, 
Se mostra a primavera com mais flores ; 
Assim, depois que eclipse o sol padece, 
Com mais formosos raios resplandece. 

Já de vossa saúde o sol se alegra ; 

E, se negro vestia, 

Se veste de alegria, 
E se mostra mais clara, a noute negra. 
Os campos secos floreceis, senhora, 
Sem flores já enferma a sua Flora (1). 
Também os elementos se alegraram, 
Que o vosso mal sentiram e choraram. 
Alegre canta o pássaro mais rudo ; 
Tudo se alegra, ou vós alegrais tudo. 

Alegrais terra e ceo co as luzes bellas 

Desses olhos formosos, 

Que são tão milagrosos, 
Que dão flores á terra, ao ceo estrellas. 
Ao Tejo, que ainda tem maior ventura, 
Dais o retrato dessa formosura (2), 
Que é de riquezas bem maior thesouro, 
Que o levar as areias do fino ouro. 
Pois tudo enriqueceis, senhora, vemos 
Que sois mais rica e tendes mais extremos. 

Festeja o mesmo Amor vossa ventura 
É a saúde, de soberba nella (3), 
Se mostra já mais bella 

E se enriquece em vossa formosura. 



(1) Este verso foi manifestamente alterado. Proponho se lêa: 

Com flores já se enfeita a deusa Flora. 

(2) O paço de S. Clara ficava sobranceiro ao Tejo e é natural que o 
erreno annexo, ajardinado ou coberto de arvores, descesse até á mar- 
;em do rio. 

Foi talvez junto desta que o poeta viu a infanta, quando a foi feli- 
:itar pelo seu restabelecimento. 

(3) Verso evidentemente errado. W. Storck propõe esta correcção: 

E a saúde nella. 
É claro que não satisfaz. Lembro-me de qualquer destas, embora 



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}• 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

. As Graças, coroadas de mil flores, 
Vos coroam por Deusa dos Amores 
E vos dão o que o vosso abril lhes (i) dera, 
Que também sois das Graças Primavera. 
Já aue alegrais a tudo com saúde, / 
Tudo se alegre e ella não se mude. 

Como se vê, nesta canção # o poeta não allude ao 
pela filha de D. Manuel. É que naturalmente foi 
para ser lida ou ouvida pela illustre senhora. 



também offereçam difficuldades : 

Vénus, soberba e bella, 
ou 

Vénus, por causa delia. 

Cf. o soneto 120, que também se refere á infanta : 

Tornai essa brancura á alva assucena 
E essa purpúrea côr ás puras rosas ; 
Tornai ao sol as chammas luminosas 
Dessa vista, cjue a roubos vos condena ; 

Tornai á suavíssima sirena 

Dessa voz as cadencias deleitosas ; 
Tornai a graça ás Graças, que queixosas 
Estão de a ter, por vós, menos serena ; 

Tornai á bella Vénus a belleza ; 

A Minerva o saber, o engenho e a arte, 
E a pureza á castíssima Diana: 

despojai- vos de toda essa grandeza 

De does — e ficareis em toda a parte 
Comvosco só, que é só ser inhumana. 

A propósito dos versos 5-6 citarei estas palavras de J. 
«E tanto truito tem Vossa Alteza colhido das letras, que achí 
quam espiritual cousa he a musica, & quanto levanta os cor 
o Ceo, nella se exercita». Panegírico á mui alta e esclarecia 
infanta D. Maria, em Severim de Faria, Noticias de Portug 
ib55, p. 329-33o. 

(1) W. Storck rejeita, a meu ver, com razão a emenda vo, 

Sara este logar. Diz o poeta que, se a Primavera coroa as 
ores, o mesmo lhes havia feito a infanta, que por isso se 
bem chamar a Primavera das Graças. O vosso abril lhes dera 
que : vós, em abril lhes déreis. A referencia ao (passado) abrx 
pos secos da canção confirmam, parece-me, a conjectura d 
fanta estaria doerçte nos fins do verão ou no outomno de 1 
de ter voltado para Lisboa. 



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398 O INSTITUTO 

Com o restabelecimento da saúde da infanta relaciona 
também W. Storck o passeio .no Tejo (1), que teria dado 
origem ao soneto 309 da edição de Juromenha. 

Eis como elle se lê na fonte donde este indefesso camo 
nista o extraiu (2): 

Em hG batel qcom doce meneio (3) 

o aurífero Tejo deuidia. 

vi belas damos, ou melhor diria, 

belas estrelas, e hú sói no meio. 
As delicadas filhas de Nereo 

cÕ mil coisas (4) de doce armonia 

ião amarrado (5) a bela companhia 

(q se eu não erro), por honrralas (6) veio. 
Ó fermosas Nereidas, q cantando 

lograis aquela vista tão serena (7) 

q a vida em tantos males quer trazerme (8) : 
Dizeilhe q olhe q se vai passando 

o curto tempo ; e a tão longa pena 

o esprito (9) he própto, a carne enferma (10). 

Anteriores também ão exilio, mas já do tempo em que a 
infanta, ao ver o poeta, punha os olhos no chão (11), são, 



(1) Luís* de Camoens Sàmmtliche Gedichte, iv, p. 377-378. O ilhistre 
camonista suppõe que o passeio se realizasse numa tarde ae primavera. 
Mas a doença da infanta, a que se refere o poeta, deve ter siao anterior 
á primavera de j 547, se são fundadas as conjecturas chronologicas que 
já apresentei. 

(2) Cumpre-me dizer que o visconde de Juromenha, se, por um lado 
procurou corrigir o soneto, por outro lhe introduziu novos erros. 

(3) Não deverá ler-sè : que, doce em seu meneio? 

(4) Juromenha emenda para rojes. Mas talvez no original se lesse 
cantos. 

(5) Creio que será alegrando. 

(6) Juromenha : honrala. Proponho honrá-lo, referindo-se ao sol do 
verso 4. 

(7) Juromenha : visão serena, o que torna o verso errado. 

(8) Dr. Th. Braga e com elle Storck : trajer-m'a. 

(9) Juromenha : o tempo, ficando o verso estropiado. Storck tinha 
apresentado a conjectura : o espirito está. No v. 1 1 talvez : e que. 

(10) Cancioneiro de L. Franco Corrêa. (Manuscripto da Bibliotheca 
Nacional). 

(i 1) Olhos, não vos mereci 

Que tenhais tal condição : 
Tão liberais para o chão, 
Tão irosos para mi ! 



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CAMÕES E A INFANTA D, MARIA 

creio eu, estas redondilhas: 

A umas suspeitas : 

Suspeitas, que me auereis ? 
Que eu vos quero aar logar 
Que, de certas, me mateis, 
Se a causa de que nasceis (i) 
Vós quisésseis confessar (2). 

Que de não lhe achar desculpa (3) 
A grande magua passada 
Me tem a alma tão cansada, 
Que, se me confessa a culpa, 
Te-la-ei por desculpada. 

Ora vede que perigos 
Tem cercado o coração, 
Que, no meio da oppressão, 
A seus próprios inimigos (4) 
Vai pedir a defensão ! 

Que, suspeitas, eu bem sei, 
Como se claro vos visse, 
Que é certo o que já cuidei. 
Que nunca mal suspeitei, 
Que certo me não saísse. 

Mas queria esta certeza 
Daquella que me atormenta, 
Porque, em tamanha estreiteza, 
Ver que disso se contenta (5) 
É descanso da tristeza. 



.13 



Aquella que vos dá origem, a infanta. 

Estou convencido que deve ler-se : Vos quisesse con é 
quisesse declarar que sois verdadeiras, certas. A 2* quinti 
comprehensivel, se na primeira se não fallasse na infanta. 

(3) Cf. canção 11, 141-143: 

Que desculpas comigo só buscava, 
Quando o suave Amor me não soffria 
Culpa na cousa amada, e tão amada ! 

(4) A infanta, que o atormenta e de quem elle quer ot 
de que são fundadas as suas suspeitas, para ficar mais tran 

(5) Ver que é vontade da infanta dar origem a suspe 
certas, isto é, saber que ella ama realmente outrem. 



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* O INSTITUTO 

Porque, se esta só verdade 
Me confessa, limpa e nua 
De cautela e falsidade, 
Não pôde a minha vontade 
Desconforme ser da sua. 

Por segredo namorado 
É certo estar conhecido 
Que o mal de ser engeitado 
Mais atormenta, sabido, 
Mil vezes, que suspeitado. 

Mas eu só, em quem se ordena 
Novo modo de querella, 
De medo da dor pequena 
Venho a achar na maior pena 
Refrigério para ella (2). 

Já nas iras me inflammei, 

Nas vinganças, nos furores, 

Que já, doudo, imaginei ; 

E já, mais doudo, jurei 

De arrancar da alma os amores. 

Já determinei mudar-me 
Para outra parte, com ira. 
Despois vim a concertar-me 
Que era bom certificar-me 
No que mostrava a mentira (3). 



2) O poeta, 



salteado 

Das lembranças de temer 
Ser por outrem desamado,, 



o diz na carta a uma dama, v. 193-195, deseja antes um desengano, 
ora este seja mais doloroso do que as suspeitas. E porque 



Estas suspeitas tão frias, 
Com que o pensamento sonha, 
São assi como as harpias, 
Que as mais doces iguarias 
Vão converter em peçonha. 

(Carta cit , 196-290). 



3) Assentei em ter como certo o amor da infanta, sabendo muito 



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JÊÀ 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 4ÓI 

Mas, despois já de cansadas 
As fúrias do imaginar, 
Vinha em fim a rebentar 
Em lagrimas magoadas 
E bem para magoar. 

E, deixando-se vencer 
Os meus fingidos enganos 
De tão claros desenganos (1), 
Não posso menos fazer 
Que contentar-me cos danos, 

E pedir que me tirassem 
Este mal de suspeitar, 
Que me veio atormentar, 
Inda que me confessassem 
Quanto me pôde matar. 

Olhai bem se me trazeis, 
Senhora, posto no fim, 
Pois, neste estado a que vim, 
Para que vós confesseis, 
Se dão os tratos a mim. 

Mas, para que tudo possa 
Amor, que tudo encaminha, 
Tal justiça lhe convinha, 
Porque da culpa, que é vossa, 
Venha a ser a morte minha. 

Justiça tão mal olhada, 
Olhai com que côr se doura, 
Que quero (2), ao fim da jornada, 
Que vós sejais confessada, 
Para que eu seja o que moura ! 



bem que ella me não ama. Cf. o soneto 79, já anteriormente transcripto 
Bem sei, Amor, que é certo o que receio. 



Porém porfias tanto e me asseguras, 

Que me digo que minto 

Nem somente consinto neste engano, 
Mas inda to agradeço, e a mi me nego 
Tudo o que vejo e sinto de meu dano. 

(1) Bem me queria enganar a mim mesmo; mas os enganos que ei 
finjo, têm de ceder perante desenganos tão claros. Assim, não ha reme 
dio senão soffrer e pedir que me confessem a verdade, embora esta m< 
possa causar a morte. 

(2) Parece-me que deve ler-se : quer. 

VOL. 55.°, N.° 8 — AGOSTO DE 1908. 3 



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4<>£ O INSTITUTO 

Pois confessai-vos já agora, 
Inda que tenho temor 
Que, nem nesta ultima hora, 
Me ha de perdoar Amor 
Vossos peccados, senhora. 

E assi vou desesperado, 
Porque estes são os costumes 
Do amor, que é mal empregado ; 
Do cjual vou já condemnado 
Ao inferno dos ciúmes. 

Se o tresloucado poeta, quando se achava ainda na phase 
idyllica, não podia softrer que a infanta a ninguém tratasse 
com desamor, antes a todos tivesse affeição e mostrasse um 
coração cheio de mansidão, cheio de amor, e pedia á formosa 
e amável senhora que, para o distinguir dos outros, o tratasse 
com desfavor e lhe mostrasse um ódio esquivo (1), que impres- 
são lhe não devia causar a mesma norma de proceder, agora 
que elle era realmente tratado pela forma como, por des- 
peito, havia sollicitado (2) ? 

Daqui a suspeitar o poeta 

Ser por outrem desamado, 

daqui a suppôr que o desagrado que a infanta lhe mostrava 
tinha por motivo a preferencia dada a outrem, — muito pouco 
ia (3). Não era preciso para isso possuir uma imaginação 
tão ardente como a de Camões. 

("Continua). Dr. José Maria Rodrigues. 



(1) Soneto 309, já reproduzido. 

(2) Em versos, é claro, que não eram destinados a ser lidos pela in- 
fanta, mas que traduziam fielmente o pensar intimo do poeta. 

(3) Sobre a lenda que fez de Jorge da Silva, terceiro filho do quarto 
regedor das justiças, João da Silva, um apaixonado adorador da infanta, 
por causa da qual teria estado preso no Limoeiro, veja-se o que diz a 
Sr.* D. Carolina Michaèlis (A Infanta D. Maria, p. 69 e segg.). aQuanto 
á nossa Infanta (observa também a illustre escriptora), é natural que 
nova, bella, cheia de espirito e amável, exercesse também certa seducçáo 
mundana sobre os moços-fidalgos da corte. Um sorriso benévolo, um 
lampejo de luz nos olhos geralmente serenos, uma suave commoção na 
voz bem timbrada, ao pronunciar palavras de agradecimento, seriam de 
longe em longe a recompensa de acções nobres... ou de versos subli- 
mes, escriptos em sua honra . . . Galanteios exagerados não podiam, po- 
rém, ser do seu agrado. Uma grande reserva, seu justo orgulho de filha 
e irmã de reis protegiam-a, como couraça impenetrável, contra a paixão 
dos outros e os impulsos do próprio coração» (Ibid., p. 73). Confirma 
estas palavras tudo o que se passou com Camões. 



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ARTES INDUSTRIAIS B INDUSTRIAS PORTUGUÊZAS 4o3 



(i) Archivo Histórico Portugue^ vol. vi, pag. 76. 






ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUÊZAS \ 

(Cont. do n.° 7, pag. 357) 

XIII 

Fernandes (Vasco) 

Escudeiro e mais tarde cavalleiro da Casa Real, morador 
na ilha da Madeira e encarregado do recebimento dos quar- 
tos dos açuqueres nos annos de 1497, 1498, 1499, l ^°4 e >5o5. 
Por este motivo lhe foram passadas duas cartas de quitação 
a 23 de dezembro de i5oo e a 28 de julho de i5o8. Numa 
d'ellas se especializa a circumstancia de elle ter tido á sua 
conta as carregações para Veneza e Flandres. 

Vê-se também que no anno de 1604 toda a ilha tinha sido 
arrendada a Martim de Almeida e parceiros por 36:ooo ar- 
robas (1). 

No anno de 1507, determinou el-rei D. Manuel, negociar 
por .conta própria a escapola ou carregação de assucares 
para Veneza, e, por este motivo, em carta de 23 de abril 
de 1507 incumbiu Vasco Fernandes, escudeiro da sua casa 
que alli se achava encarregado do recebimento e venda dos 
assucares, que puzesse toda a presteza e diligencia no avia- 
mento d'este negocio. A quantidade do assucar primeira- 
mente designada era de quinze mil arrobas, subindo depois 
a vinte e uma mil, que parece deveriam ser contidas em três 
mil caixas. Uma circumstancia curiosa nos aponta D. Manuel. 
O assucar seria transportado em uma nau grande e forte, 
recentemente vinda de Flandres, onde fora mandada construir. 
D'aqui se conclue que os estaleiros portuguezes eram insufi- 
cientes para abastecer as nossas armadas. 

A partida d'esta nau, segundo el-rei expressamente recom- 
mendava, não se retardaria além de i5 de agosto. 

Dou em seguida os documentos relativos a esta negociação, 



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404 o wsTfruTO 

nos quaes apparecem diversos encaixadores e negociantes de 
assucar na ilha da Madeira, sendo dois d'elles italianos, Be- 
noco Amador e Benedito Pravisim, o primeiro dos quaes já 
é nosso conhecido. 

«Francisco Alvares, fidalgo da cassa dei Rey nosso Senhor e seu 
contador e juiz dalfandega nesta sua Ilha da Madeira e porto santo e etc. 
mando a vos Saluador Gramaxo escudeiro do dito senhor que ora tendes 
cargo do recebymento dalfandega, que todo o açuquere que receberdes 
do rendimento da dita alfandega este ano presente de b° bij ate todo o 
mes de junho do dito ano des e entregues a Vasco Fernandez escudeiro 
da casa do dito senhor a que os sua alteza manda entregar pêra os fazer 
encaixar pêra a carregasom de Veneza que o dito senhor o dito ano 
manda fazer o que comprj com deligencia sem duvida algua que a ello 
ponhaes; e tanto que lhe o dito açuquere entregardes cobray do dito 
Vafsco Fernandez o trelado de nua carta que me Sua Alteza sobre ello 
escrepveo e este com seu conhecimento feito per Pêro Botelho moço 
da camará do dito senhor que Sua Alteza qua mandou pêra escripvam 
de suas cartas em que de fe quanto açuqre lhe asy entregaes e como 
ficam sobre o dito Vasco Fernandez carregados em recepta pêra por 
elle vos ser todo leuado em conta o que compry feito no Funchal] aos 
xxxj dias do mes de mayo Marcos Lopez escripvao o fez ano de myl 
e b c bij. — Francisco Alluarez». 

«Trelado das cartas dei Rey noso Senhor per omde manda a Vasco 
Fernandez que tenha carego de receber hos açuqueres pêra vemder e 
pêra caregaçam de Veneza no anno de i5oy». 

Pêra Saluador Gramaxo 

«Vasco Fernandez nos el rey vos emvyamos muyto saudar nos faze- 
mos fundamento de tomarmos este anno presente pêra nos a escapola 
de Vepeza e ordenamos de emvyar la dos nosos açuqueres quimze mill 
arrobas e por que queryamos que se fyzesem logo prestes e vos as reçe- 
beseys pêra as mandardes emeaixar e empapellar e emtregar aa pesoa 
que nordenarmos que as receba escrevemos a Francisco Aluarez noso 
comtador que llogo as faça prestes e volas faça emtregar e ajude no 
que vos neçesaryo for pêra o avyamento do despacho disto e por que 
a acupaçom que temdes da vemda dos açuqueres de que vos emearega- 
mos he de muyto cuidado per homde fora rezam deste vos escusarmos 
porem por que sabemos a vomtade com que folgaes de nos servyr e 
também que pêra estes caregos e outros mayores soes abastamte vos 
emearegamos dyso e emeomendamosvos que des ao recebimento e 
emcayxamento destas quinze mill arrobas grande avyamento em ma- 
neyra que hos navyos que emvyaremos em que am dvmom façam nesa 
ylha demora e quamdo em boora forem achem todo prestes e ho di- 
nheiro aue pêra ysso for neçesaryo tomareys de qualquer que receberdes 
da vemaa dos açuqueres que fyzerdes e fará voso escryvam dyso asemto 
em seu lyvro escryta em Àbramtes a xxiij dias dabryll Vicente Carneiro 
a fez de i5o7 annos». 

«Vasco Fernandez nos el rey vos emvyamos saudar. Nós vos temos 



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ARTES INDUSTR1AES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 4<)5 

escripto sobre a vemda dalgfta soma daçuqiíere que avyamos por bem 
que fyzeseys por nos parecer que nestas vemdas prímeyras se poderya 
nem vemder algus e se a ver deles dinheiro e agora determynamos de 
mandar este anno húa nosa nao grande que foy feyta em Framdes a 
Veneza com três mill caixas que bem pode levar e queryamos que fose 
despachada e partida desa ylha atee xn dias dagosto que vem por que 
por ser nao grande se hy mays tarde estyvese serva muy to noso deservyço 
per o quall vos mandamos que se com este fundamento de serem prestes 
atee ho dyto tempo as ditas três mill caixas poderdes vemder algfia soma 
dos ditos açuqueres ho façaes : e se nam fazee prestes e certa a carega 
da dyta nao e nom cureys de vemder, aynda que a nós nós parece que 
bem pode aver pêra hua cousa e pêra outra e bem folgaryamos que se 
fyzese vemda dalguma soma e pêro com seguramça da carega cia nao 
como dito he e vos tomae cuydado do emcayxamento das ditas três 
mill caixas e de as fazerdes prestes atee ho dyto tempo de quinze dias 
dagosto e aymda primeyro se poderdes por que quamto mays cedo for 
tamto será mays noso servyço emcomendamosvos que ho açuquere da 
carega da nao seja ho mylhor que poder ser e nos escrevemos ao com- 
tador que vos de toda ajuda e boõ avyamento e vos escrevemos na pri- 
meyra pasagem ho que em ambas esas cousas, s. da vemda e da carega 
da nao se poderá fazer e em que tempo vos parece que as ditas três mill 
caixas podereys ter prestes por que folgaryamos de logo aver disso re- 
cado. Escripta em Abramtes a xxbij dias dabryll. Amtonyo Carneiro a 
fez de iSoy annos. E posto que em outra vos dygamos. que amde ser 
quimze mill arobas avees de fazer fundamento de vimte e hGa mill arobas 
afora ho açuquer do anno pasado que a dyr em outro navyo. E por que 
folgaryamos de saber ho avyamento que vos da ho comtador a este 
açuquer que adyr nesta nao e asy a que tempo será prestes pêra se po- 
der caregar e yrem as nãos em que adyr e também se vos parece que 
se poderá vemder algu" alem destoutro que se ade caregar, tudo nos 
faze logo a saber per vosa carta». 

Verba do regymento 

«Nós hordenamos por escripvam de voso cargo Pêro Botelho noso 
moço da camará o quall ffara huQ lyvro em que asemte decraradamente 
hos açuqueres que recebes e de que pesos sam e asy as vemdas que 
fyzercfes, asy como per o meudo ou em groso as fordes fazemdo decra- 
ramdo ho dya e mes em que se fvzeram e a quem e por que preço vem- 
des ho dito açuquer* e asy ho dinheiro da dyzyma que dele per sy aves 
de receber e vos dares conhecy mento aos almoxarifes e pesoas sobre 
que ho dyto açuquer que receberdes caregar em receyta feyto per o 
dyto sscrinvam decrarando como ho recebeys per noso mandado pêra 
o vemderdes e será asynado per vos e per elle è per o dyto conhecy- 
mento com ho trelado deste capytolo aos quaes mandamos que volo 
emtregem alem do que escrevemos ao comtador pêra lhe ser levado 
em conta. Emcomendamos vos muyto que desta vemda tomes grande 
e espyçyall cuydado por nos em ello servyrdes b # em e fyelmente como 
de vos esperamos avemdo que volo teremos muyto em servyço escripta 
em Tomar a xbij dias de fevereyro de 1 507 annos. As quaes cartas e verba 
ea Pêro Botelho escripvam dos dytos caregos treiadey e comcertey com 
os propios que ssam em poder «do dyto Vasco Fernandez as quaes eu 
dou fe que ssam asynados per sua alteza e por verdade asyney aquy. — 
Pêro Botelho». 



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406 O INSTITUTO 

«Sejam certos hos que este conheçymento vyrem como he verdade 
que Vasco Fernandez escudeyro da casa dei rey noso Senhor que hora 
tem carego de receber hos açuqueres per espycyall mandado de sua 
alteza pêra caregaçam de Veneza recebeo de Saluador Gramaxo escu- 
deyro da casa do ayto senhor e recebedor dalfandega duas mill e nove- 
çemtas e quarenta e nove atobás dacuquer pêra dyta caregaçam os quaes 
recebeo. s. per Jacome Curvo que lhe por ho dyto Saluador Gramaxo 
emtregou quatro cem tas e vymte arobas dacuquer, e per Vycemte de 
Olyveyra que lhe por elle entregou mill e trezemtas e sesemta e oyto 
arobas, e per Pêro Fernandez çemto e vymte e seis arobas, e per Ruy 
de Canha que lhe por elle emtregou quinhemtas sesemta e quatro aro- 
bas, e per Fero Afomso que lhe por elle emtregou quatroçemtas e se- 
tem ta e hua arobas, e asy fazem a dyta soma de duas mill e noveçemtas 
e quaremta e nove arobas dacuquer has quaes ho dyto Vasco Fernandez 
recebeo do dito Saluador Gramaxo e per as pesoas sobredytas que lhos 
por elle emtregâram e por que he verdade que as recebeo e lhe por mvra 
ficam caregadas em recepta sobre ho dyto Vasco Fernandez lhe deu 
este conheçymento feyto per mym Pêro Botelho e asvnado per ambos 
em bij dias do mes de março de i5o8 anos. — Vasco Fernandez. — Pêro 
Botelho. Sj ix c R ix arobas». 

•Item pêra venda lhe dey mães. . . J xx arobas». 

«Sejam certos hos que este conheçymento de qitaçam vyrem como 
he verdade que Vasco Fernandez escudeyro da casa dei rey noso Senhor 
que hora tem careço de receber hos açuqueres pêra vender per espycyall 
mandado de sua alteza recebeo de Saluador Gramaxo escudeyro da casa 
do dyto senhor mill e quatro cemtas e setemta e sete arobas e mea dacu- 
quer as quaes recebeo per esta maneyra. s. cemto e oyto arobas dacuquer 
que lhe por elle emtregou Ruy de Canha emcaixador em ho Funchal, e 
cemto e sesemta arobas que lhe por elle emtregou Benoço Amador rem- 
deiro dalfamdega, e vymte e seis arobas dacuquer de retame que lhe por 
elle emtregou ho dyto Ruy de Canha, e cemto arobas dacuquer que lhe 
por elle emtregou Joham Amtam çeser mercador, e quaremta e cymco 
arobas dacuquer de retame que lhe por elle emtregou Diogo Borges, e 
quarenta e três arobas que lhe por elle emtregou Jacome Curvo emcay- 
xeydor em Santa Cruz, e duzemtas arobas que lhe por elle emtregou 
Pêro Afonso emcayxador em a Rybeyra Brava, e cemto e cymcoemta 
arobas que lhe por elle emtregou Benedyto Pravysym mercador de que 
ho dyto Benedyto Pravysym tem outro conheçymento com tudo nam 
vai se nam este posto que ho outro pareça, por que ade ser mostrado 
ao despacho da nao de Gravyell Afonso em que caregou seus açuqueres, , 
e cemto arobas que lhe por elle emtregou Gomez Eanes emcayxador 
em a pomta do soll, e vymte arobas que lhe por elle emtregou Jorge 
Anes mercador, e sesenta e oyto arobas que lhe por elle emtregou Ruy 
de Canha, e quatro cemtas e cymcoemta e sete arobas e mea que lhe 
por ele emtregou Joham Coelho cavaleyro da casa dei rey noso Senhor 
morador em esta vyla da compra do hofyçyo de Fernam Coelho, e asy 
fazem a dyta soma de mill e quatroçemtas e setemta e sete arobas e 
mea dacuquer, e por qtic he verdade que ho dyto Vasco Fernandez re- 
cebeo do dyto Saluador Gramaxo as dytas J iiij c lxx bij arobas e mea 
dacuquer per a maneyra sobre dyta as quaes lhe por mym fycam care- 
gadas em reçey[taj sobre ele dyto Vasco Fernandez e as quaes ho dyto 
Saluador Gramaxo dyz que sam foras do qimto todas, lhe deu este co- 
nheçymento feyto per mym Pêro Botelho e asynado per ambos em xbj 
dias do mes de março de i5oS anos. E todas estas mill e quatroçemtas 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS , 407 

e setemta e sete arobas e mea dacuquer ho dyto Vasco Fernandez re- 
çebeo pêra vemder. Nom a el rey de pagar emcaixatnento por que sam 
vemdydas com ese emcarego aos mercadores. — Vasco Fernandez. — 
Pêro Botelho». 

«Francisco Aluarez fidalgo da casa dei rey nosso Senhor e seu con- 
tador e Juiz dalfandega nesta sua Ilha da Madeyra e porto santo etc. 
mando a vos Saluador Gramaxo escudeiro do dito senhor que ora tendes 
cargo do recebymento dalfandega na dita Ilha que tanto que este vyrdes 
a conta da dyzema de qualquer açuquer que Joham Antam çezer carre- 
gar des e entregues a Vasco Fernandez outrosy escudeiro do dito senhor 
cem arrobas dacuquer que lhe mando dar pêra as aver de vemder como 
lho dito senhor manda. E asy lhe entregares todollos retames dos açu- 
qres de voso recebymento que estam em poder dos encaixadores pêra 
outrosy os aver de vemder e tanto que lhe todo entregardes cobray do 
dito Vasco Fernandez este com seu conhcçymento feito por Pêro Bote- 
lho moço da camará do dito senhor e escripvam do seu cargo, em que 
de ie de quanto açuquer lhe asy emtregaes e como lhe fica carregado 
em recepta pêra delle ou do dinheiro delle dar conta pêra por elle a vos 
ser levado em despesa o que compry, feito no Funchall a úij dias do 
mes de novembro Marcos Lopez escripvam o fez ano de myl b e bij. E 
asy todos outros açuqueres que esteverem prestes pêra poder vemder. 
E isto ate myll arrobas. E aueres conhecymento pela maneira de cima 
dita. — Francisco Aluarez» (1). 

XIV 

Lamarote (Feducho de) 

Florentim, residente na ilha da Madeira. A elle e a una 
seu compatriota, Benoco Amador, constituíram Bartholomeu 
Marchioni e seu sobrinho, Benedicto Morelli, procuradores 
bastantes para em seu nome poderem receber naquella ilha 
vinte mil arrobas de assucar, que D. Manuel I lhes mandava 
alli pagar em virtude de um contracto, que celebrara com 
elles. Eis o respectivo documento: 

«Saybham quantos esta precuraçam virem que no anno do naçymento 
de nosso Senhor JhQ X^ de myll e quynhentos e oyto quinze dias do 
mes de junho na cydade de Lixboa no paço dos tabaliães pareceo hy 
mjçer Bertolameu Marchone e Benedyto Morrelle seu sobrinho frolentis, 
mercadores vezinhos da dita cidade e disseram que elles faziam como 
logo de fecto fizeram he hordenaram por seus certos precuradores avon- 
dosos Feducho de Lamarote e Benoço Amador outrosy frolentis mer- 
cadores estantes na Ilha da Madeira e ha cada hufl in solido pêra por 
elles averem de receber vimte myll arrobas daçuquar que lhe ehrey 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologico } parte 2.% maço 12, docu- 
mento i83. 



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e 



408 O INSTITUTO 

nosso Senhor manda paguar na dita Ilha em este presente axmo per 
huQ comtrauto que com sua alteza tem feito e per hufí desenbarguo que 
os ditos precuradores mostrarom e posto que o dito desembarguo seja 
feito em nome do dito Benedyto porem hos ditos açuquares perteocem 
ao dito Bertolameu e por tanto elles ambos dam poder como dito be 
aos ditos Feducho de Lamarote e Benoco e a cada huG in solido pêra 
que em nome deJles ambos e de cada huu delles posam receber todalias 
vimte mill arrobas daçuquar do comtador da Ilha ou de quaesquer alliDo- 
xarífes e recebedores e pesoas a que o paguamento delles pertemçer 
"er qualquer modo e de todo o que recebere posam dar conhecymétos 
e quitações e se lhe todo paguar nom quiserem que posam sobre eflo 
fazer protestos e requerimetos e todollos outros autos e deiigemcias 
que conpriren en juizo e ffora e tomar dello estormentos e cartas teste- 
munbaues, assy e tam ymteiramSte como elles comeste tuymtes pode- 
ryam dizer e nazer semdo presemtes e prometerom daver por firme e 
valioso pêra sempre todo o que pollos ditos seus precuraaores e per 
cada huG in solido ffor recebido Afecto dito e negoceado no que dito W 
sob obrígaçam de seus bees que pêra ello hobrigaram em testemunho 
asy houtorgaram e lhe mãdaram sseer fecta esta precuraçam, testema- 
nhãs que presentes fforom Johã Martinz tabaliam e Duarte Gomez e 
Gomçallo do Reguo escripuães. Eu Braz Afomso publico tabaliam per 
autorydade dei rey nosso SenHor na dita cidade e seu termo que este 
estormento de minha nota per meu scripvam ffiz tirar e ho sob asynei 
e comcertey e amtrelinhey onde diz receber he ho asyney de meu po- 
blico synall ffiz que tall he. A quall procuraçam eu Joara Saraiva fiz 
trelladar a meu nell escrípuam e có ella ho cbncertey oje xbij dias de 
abrill de myll e b* e ix anos. — Joam Saraiva» (1). 



XV 

Lomelim (Urbano) 

No artigo João Saraiva, que vai adeante, se faz referenda 
a Urbano Lomelim. Em 1 517 ordenou el-rei D. Manuel I, a 
João Saraiva, que tinha cargo de recebedor do dinheiro dos 
assucares na ilha da Madeira, que pagasse a Urbano Lome- 
lim genovez cento e trinta mil reaes em parte de pago das 
duzentos e setenta mil reaes que lhe montaram havpr pelos 
quinhentos cruzados de parceria que forneceu para a arma- 
ção das quatro naus que Jeronymo Cernige (vid. este nome) 
e parceiros armaram para Malaca sob o commando de Diogo 
Mendes de Vasconcellos. 

Urbano Lomelim dono de um engenho de assucar no Porto 
do Seixo, possuia avultados bens de fortuna, que legou, á 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologico, parte 2.*, maço 14, docu- 
mento i5o. 



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^J 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 409 

falta de filhos, a um seu sobrinho de nome Jorge, que man- 
teve uma importante posição social, perpetuaaâ pelos seus 
descendentes, que chegaram até nós, sendo bem conhecido 
na JMadeira o appellido Lomelino. 

E possivel que Urbano Lomelim procedesse de Marcos ou 
Daniel Lomelim que no reinado de D. Affonso V, obtiveram 
o monopólio da cortiça. 

O sr. Prospero Peragallo cita uns indivíduos do mesmo 
appellido, que tinham a exploração e o commercio do coral 
em Tunis e Génova, negociando neste género com o nosso 
paiz, muito provavelmente, por intermédio dos Lomelinos 
de cá. 

XVI 

Lourenço (André) 

Residia em tempo de D. João III na ilha da Madeira, onde 
era mestre de fazer engenhos de assucar. Tendo mandado 
construir uma barca para conducção de madeira, lenha e 
taboado para caixas de assucar, as justiças da terra o con- 
demnátam e lhe impozeram certa pena, alegando que a barca 
excedia os limites do regimento, sentença de que elle appellou 
para el-rei, que lhe deferiu favoravelmente em carta de per- 
dão de 27 de junho de 1541. 

«Dom Joham &. A todolos corregedores t ouuidores, juizes, justiças, 
oficiaes e pesoas de meus Regnos e senhorios a que esta minha carta 
de perdam for mostrada e o conhecimento delo pertencer, saúde, façouos 
saber que André Lourenço, mestre de fazer moynhos daçuquar, morador 
na Ilha da Madeira, me emuiou dizer per sua pitiçam que ele cortava 

Eer licença da camará da vila de Santa Cruz certa madeira pêra nua 
arqua que fezera pêra seruiço da terra e trazer as madeiras, lenha e 
tauoados pêra as caixas dos açuqueres pêra a jurdiçã do Funchall e que 
por eu ter mandado que se desem as taes licemças nas camarás por 
prouisam que de mim tinha pêra harquos e pella dita barqua sayr maior 
de que se pertemdia em meu Regimento era ora demandado pelo pro- 
curador do concelho pela pena e a barqua perdida e por ser visto 
por pesoas que entendia a dita seruidão se na poder escusar e no tal 
seruiço da terra andarem outras mayores barquas e se aproueitar a ma- 
deira que ja fora cortada e nã sair de mais de trinta e cinquo toneladas 
pouquo mais ou menos e ora pêra seruiço da terra dos pescadores e 
trigo e cousas necesarias eviandonos ele sopricante pedir por mercê que 
lhe perdoase a pena em que asy emcorrera por rezão do sobredito e ele 
daria fiança a seruir a dita terra com a dita barqua e a nom vender pêra 
outra parte e isto auendo respeito aos muitos seruiços que me ele so- 
pricante fazia em fazer os egenhos em a dita ilha e ser o milhor oficial 
do dito oficio e por asy ser tão necesario na terra e nom deixaua yr pêra 



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4*0 O INSTITUTO 

outra terra pela necesydadc que dele tinha, e eu vendo o que me ele 
sopricante asy dizia e pidia, se asy he como ele sopricante diz e hy 
mais nom ha, visto hum parecer com o meu pase e queremdolhe fazer 
graça e mercê tenho por bem e me praz de lhe perdoar... Dado na 
minha cidade de Lixboa a xxbij dias do mes de junho elRey ho mandou 
pelos doutores Christouã Esteuez da Espargosa, fidalgo aa sua casa e 
Luis Eanes, ambos do seu conselho & João Gonçalvez a fez por Pêro 
da Lagea Corrêa (?) ano do nacimento de noso Senhor JhQ x° de J b c Rj. 
E eu Pêro da Lagea a sobsprevy» (1). 



xvn 

Maestro (António del) 

Não vem relacionado no trabalho do sr. Prospero Pera- 
eallo. Era um dos mercadores florentins estabelecido em 
Lisboa no primeiro quartel do século xvi e genro de Bartho- 
lomeu Marchioni, embora o documento, em que se patentea 
esta circumstancia, estropiasse o appellido do sogro. Creio, 
porém que n£o será erro identificar Marchione com Mar- 
chiole. E possível que a sua mulher se chamasse Maria, filha 
natural de Catharina Dias, mulher solteira ao tempo do seu 
nascimento, a qual foi legitimada por seu pae, sendo confir- 
mada a legitimação por D. Manuel I em carta de i de março 
de 1496. 

O primeiro destes diplomas é uma escriptura de 27 de 
abril de i52i, pela qual foram aforados uns pardieiros em 
frente das casas que foram fangas da farinha e que soía de 
trazer Cairo Rodofe, também florentim, o qual tendo deixado 
de pagar o foro, se ausentara do reino para parte incerta. 
O aforamento foi confirmado pelo referido monarcha em carta 
de 11 de junho do mesmo anno. 

«Dom Manuell etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber 
que da parte de António deli maestro forlentym jêro de Bertolarueu 
Marchole nos foy apresentado huum estormento asynado polo noso 
com» dor mor e per Diogo Lopez esprivam do noso almazem do Reyno 
de que o teor ta II he como se ao diamte segue : saybam quamtos este 
estormento daforamento de huumas casas emfatyota e pêra sempre 
vyrem que no ano do nacymento de noso Senhor Jhesu Christo de 
mjll b c xxj annos aos vinte e sete dias do mes dabrill da sobre dita era 
nos comtos e fazenda desta cidade de Lixboa perante dom António 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Perdões e Legiti- 
mações, liv. 8, fl. 242 verso. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 4 II 

de AJmeyda do comselho delRey noso Senhor e comtador mor em a dita 
cidade e de my esprivam do almazem e tarcenas e das testemunhas ao 
djamte nomeadas pareceo Dyoguo Fernandez porteiro do concelho desta 
cidade com huum ramo verde na mão em alltas vozes apregoamdo 
huuns pardyeiros com paredes que foram casas de morada que estam 
de fromte das casas que foram famgas de farynha que soya de trazer 
Cairo Redofe que partem de huma parte com casas que traz Maria 
de Almeida molher de Tomas de Carmona e por de trás com casas que 
traz agora António deli Maestro que sam todas do dito senhor e dambas 
as partes com rua das Famgas da farynha e deu em sua fee que avya 
mais de huum anno que os trazia em pregam apoias praças e ruas açus- 
tumadas desta cidade quem nelas mais querya lamçar as quas soyam 
de trazer Cario Redofe e se foy destes Reynos e que nunca achara quem 
em elas mais lançase nem em mayor momta posese que António deli 
Maestro mercador forlentym jêro de Bertolameu Marchyole que nelas 
lançou três mjll reaes de foro emfatiota e pêra sempre e o dito com- 
tador mor vendo asy sua fee fez pergunta a mi esprivam se eram ja 
pasados os dias das cartas dedytos que sobre estas casas foram pasados 
e por my esprivam lhe foy dito que sy o quall comtador mor vemdo asy 
todo mandou a my esprivam que pêra mais abastança e decraraçam 
treladase aquy a carta dedytos aquall eu treladey em comprimento de 
seu mamdado da quall o teor tall he como se ao diamte segue. Dom 
António de Almeyda do comselho delRey noso Senhor e seu comtador 
mor em a dita cidade — faço saber a tõdalas pesoas a que este meu 
aluara dedytos virem e o conhecimento delo pertence que Cario Redofe 
forlemtym estam te que foy nesta cidade trazia hatoradas humas casas 
ao dito senhor que estam as famgas da farynha em três pesoas de que 
ele era a primeira e era obrigado a pagar ao dito senhor dentro no seu 
almazem do Reyno cymquo mjll e seiscemtos reaes e duas gallinhas em 
cada huum anno e por quamto o dito Cario Redofe se foy destes Reynos 
e nam aparece nem outra nenhuma pesoa que por ele pague o dito foro 
mas amtes se em as ditas casas danyfecaram e estam no chão e note- 
fycoo asy a todalas pesoas asy parentes como amjguos que o dito Cario 
conhecem lhe mandem dizer que da poruicaçam a três nove dias ele 
venha comprir o comtrauto das ditas casas e pagar o foro que delas deve 
dos annos atras que sam em três annos e asy daqui em diamte nam 
vindo ao dito tempo sejam certos que todo o direito e auçam que nas 
ditas casas teuer lhe nom seja valjoso mas amtes o dito senhor os 
aforara aquém quyser como cousa sua porpya e senhoryo que he delas 
feito oje vymte e seis dias de março Dyoguo Lopez o tez atino de mjll 
b c xx j. — Visto asy todo pelo dito comtador fez pergunta a mi esprivam 
que quamto avja que o dito Cario Redofe hera nydo desta terra e 
quamto tempo avya que nam pagara ho foro e por mym lhe foy dito 
que des natall que se acabou de b c xbij que avya de paguar dous mi 11 
biij c /eaes de mea pagua ate feytura deste comtrauto nunca aparecera 
nem outrem nígem por ele pagara foro das ditas casas. Visto asy todo 

Slo dito comtador mor como dito he tomou o ramo da mão ao dito 
oguo Fernandez porteiro e ele dito pregoero apregoando outra 
vez os ditos pardjeiros quem neles quyrya mas lançar dizemdo doulhe 
huma doulhe duas nam achou quem por eles mais dese que o dito Antó- 
nio dei Maestro e o dito comtador mor vemdo asi todo como por eles 
mais nam davam meteo o ramo na mão ao dito António dei Maestro e 
lhos ouve por arrematados em nome do dito senhor per os ditos três 
mjll reaes de foro emfatiota e pêra sempre em cada huum anno com 
tall condiçam que ele dito António dei Maestro dee e page estes ditos 



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4*3 O INSTITUTO 

tres mjll reaes dentro no dito almazem por dia de Sam Joam e a outra 
por dja de natall loguo seguinte que da feitura deste comtrauto e com- 
praroento (sic) ate huum anno primeiro seguinte faça loguo nos ditos par- 
djeros casas de pedra e call e madejra e perguadiíra e tenhaha sobra- 
dadas como compre a tall rua omde o dito pardjeiro esta e que despois 
de fejtas em casas vymdo em alguum tempo a perecer por fogo augoa 
e ou taramotos ou per outro quallquer caso fortuyto cuydado ou flam 
cuydado que vyr posa o que Deus defenda que ele dito António dei 
Maestro e pesoas que despois dele amde vyr os tornem a leuantar de 
novo a suas custas despesas em tall gisa que sempre sejam casas sobra- 
dadas melhoradas e nam f>ejoradas con tall condjçam que ele dito An- 
tónio dei Maestro e pesoas que despos ele amde vyr nam posam vemder 
as ditas casas dar nem doar trorquar nem escanbar em outra nhuraa 
pesoa emlhear nem fazer sobre elas outro nhuum toro pêra jgreja nem 
mosteiro nem pêra outra nhuma pesoa sen licença e autorjdade do dito 
senhor e quamdo vyr causo que as ajam de vemder que o façam pri- 
mejramente saber ao dito senhor ou ao seu almoxarife que amtam for 
do dito almazem se as quer tomar pêra o dito senhor tamto por tamto 
e queremdoas tomar nam quyser que amtam as posam vemder a quem 
lhas comprar comtamto que a pesoa que lhas comprar nam seja daque- 
las que o direito e o dito senhor neste causo defende mas que seja pesoa 
abonada e leygua da jurdjçam do dito senhor e tall que bem e sem 
nhuma Referta pague o foro ao dito senhor aos tempos devydos asy 
como pagam os outros forejros e pague a corentena do preço porque 
forem vendjdas e que cumpra e guarde todalas crausolas e comdiçoes 
deste emprazamento e todalas outras com que o dito senhor afora suas 
eranças posto que aquy nam sejam espessas nem decraradas e o dito 
António dei Maestro a todo presente dise cjue ele tomava em sy o dito 
aforamento do dito pardjero com todalas ditas comdiçõos e que obrigava 
pêra yso todos seus beens moves e de raiz avydos e' por aver bem asy 
os beês das pesoas que despos ele ande vyr a todo comprir e manter 
e o dito comtador mor em nome do dito senhor lhe ouve todo por 
outorguado e com todalas ditas condições e com todalas outras com 
que o dito senhor afora suas erãcas posto que aquy nam sejam espresas 
e decraradas e o dito António ael Maestro pydyo asy de todo nuum 
estormento e o dito comtador mor lho mandou dar contall condiçam 
que da feitura deste estormento a huum mes primeiro seguinte o leve 
ou mande a fazenda do dito senhor pêra lhe la ser comfirmado segundo 
sua ordenaçam e nam o levando fique aao dito senhor querer lho comfir- 
mar asy mesmo poeraa o dito António dei Maestro as armas do dito 
senhor sobre a porta das ditas casas pêra em todo tempo se saber como 
as ditas casas sam suas e a ele pertence o foro delas testemunhas que 
presentes foram Gomçalo Coelho e Jorge AfFonso e eu Dyoguo Lopex 
esprivam do almazem que este estormento esprevy e asyney com o 
comtador mor pydymdonos o dito António dei Maestro por merçe que 
lhe comfirmasemos o dito estormemto como se nele comtinha e visto 
por nos seu Requyrjmento e querendolhe fazer graça e merçe temos 
por bem e lho comnrmamos e avemos por comnrmado asy pola ma- 
nejra que neele he conteúdo. E porem mamdamos ao dito comtador 
mor e ao almoxarife e oficiaes do dito almazem e a todolos outros ofi- 
ciaes e pesoas a que esta carta for mostrada e o conhecimento dela 
pertence que a cumpram e guardem e façam jnteiramente comprir e 
guardar como se nela contem sem duvjda nem embarguo alguum que 
Bie a iso seja posto por que asy he nosa merçe. Dada em a nosa cidade 
de Lixboa aos xj djas do mes de junho elRey o mamdou per o comdc 



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ARTES INDUSTRIABS E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 4l3 

do Vymyoso etc, vedor de sua fazem da. Jorge Fernandez a fez anno de 
mjl b c xxj annos. E esto nos praz de lhe comfirmar asy sem embarguo 
de pasar do tempo que era obrigado ao comfirmar e pasar por nosa 
fazemda» (i). 

«Dom Manuell etc. A quamtos esta nosa carta de despemsaçam 
virem fazemos saber que nos queremdo fazer graça e mercê a Maria 
Marchona filha de Bertollameu Marchone írorentim e de Catarina Diaz 
molher sollteira ao tempo de sua nacença e de nosa carta cyemcia e 
poder aussolluto^que avemos despensamòs com ella e iegitimamolla e 
abylitamolla e fazemolla legitima e queremos etc. em forma. £ esta 
despensaçom lhe fazemos ao pedir do dito seu padre que nollo por ella 

f>edio parecendo perante nos per sua pesoa e a seu Requerimento a 
egitimamos como dito. he e soprimos todo falecimento de solenidade 
que de feito e de direijto for necessário pêra esta legitimaram firme ser 
e mais valler empero nom he tençom que per esta legitimaçam seja 
feito nem huu prejuízo algus herdeiros lídimos se os hy ha e a outras 
quaes quer pesoas que alçúu dereito ajam, em os ditos bêes e cousas que 
lnes asy forem dadas e leixadas. E em testemunho desto lhe mandamos 
dar esta nosa carta. Dada em a villa de monte mor o novo primeiro dia 
do mes de março. El Rey o mamdou pellos doutores fernam rrodriguez 
do seu comselho dayam de Coymbra e Pedro Vaz seu capeiam mor e 
vigário de Tomar ambos seus desembargadores do paço. Joham Jorge 
a fez anno de noso Senhor Jhesu Christo de mill iiij c IR bj» (2). 



XVIII 

Marchioni (Bartholomeu) 

Entre a colónia italiana, tão numerosa em Lisboa, nos fins 
do século xv e princípios do século xvi, avultava Bartholomeu 
Marchioni, florentino, chefe de uma das mais importantes, 
senão a mais importante casa bancaria d'aquella epocha. 

Já em 1443 ha noticia de um Bartholomeu Marchioni, egual- 
mente florentino, a auem o infante D. Pedro, regente na 
menoridade de seu sobrinho D. Aflfonso V, concedeu, assim 
como a um seu parceiro, o marselhês, Júlio Forbi, carta de 
privilegio para a pesca do coral nas costas do nosso paiz. O 
respectivo documento publiquei-o no opúsculo intitulado A 
pesca do coral no século xv. 

Apesar da identidade do nome e da pátria, não é de crer 
que este individuo seja o mesmo,. que vemos occupar iogar 
tão distincto nos reinados de D. João II, D. Manuel e 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 39, fl. 85 verso. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 20, fl. 44. f 



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414 O INSTITUTO 

D, João III. Seria necessário admittir que elle fosse apenas 
uma creança', quando lhe foi feita acjuella concessão, para 
ainda ser do numero dos vivos nos últimos annos do primeiro 
quartel do século xvi. 

Num folhetim sahido á luz no diário lisbonense O Econo- 
mista, de 24 de outubro de 1884, tracei eu um breve estudo 
historico-biographico do afamado banqueiro italiano, cujo 
nome e cuja actividade andam tão intimamente ligados ás 
nossas empresas marítimas. Por intermédio da sua casa 
effectuavam-se as mais valiosas transacções mercantis e cam- 
biaes com os nossos monarchas, sendo elle que ficou depo- 
sitário do dinheiro que Diogo dePaiva eAftonso da Covilhã, 
os dois enviados de D. João lia viagem da Ethiopia e visita 
do Prestes João, deviam receber em Florença para as des- 

fezas da sua árdua e longa travessia. Para a Africa, para a 
ndia e para o Brasil partiam os seus navios em companhia 
das frotas reaes. 

O meu douto amigo sr. Prospero Peragallo consagra-lhe 
um artigo a pag. 100 e seguintes dos seus Cenni intorno alia 
colónia italiana in Portogallo, nei secoli xiv, xv e xvi, em 
que ha sobretudo a aproveitar as citações de origem italiana, 
como os Diari di Mavin Sanuto. 

Bartholomeu Marchioni cabe-lhe um logar de primasia na 
historia da nossa vida económica, mas não fica deslocado 
aqui, por isso que, já individualmente, já associado a outros 
seus compatriotas, foi um dos principaes agentes do trafico 
do assucar, e tanto que D. Manuel, prohibindo, pela sua orde- 
nança de 21 de agosto de 1498, interferência dos negociantes 
estranjeiros no trafico do assucar madeirense, faz honrosa 
excepção de Bartholomeu Marchioni e Jeronymo Sernige... 
hos mercadores nossos naturaes, no comto dos quaes queremos 
e nos apra% 4 ue caybam Bertolameu Frorenlim e Jeronymo 
Sernige; e antam entraram os estrangeyros (1). 

Transcreverei aqui os trechos principaes do artigo que 
publiquei no Economista, ampliando-o com mais informa- 
ções e documentos. 

«A individualidade de Bartholameu foi-nos apparecendo 
succeesivamente em diversos documentos e dispertando assim 
a nossa curiosidade. Traçar-lhe o retrato seria diflicil senão 
impossível, porque nos faltam os pormenores da vida intima 
d'esse homem, que de certo havia de sustentar em Portugal 



(1) Saudades da Serra, pag. 685. 



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ARTES INDUSTRIÀES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 4-l5 

as tradicções dos burgueses seus compatriotas, cujos haveres 
se transformavam tantas vezes nas mais admiráveis manifes- 
tações da arte. Oriundo da corte dos Medíeis, onde a renas- 
cença desabrochava toda a sua opulenta flora, a residência 
na corte de D. Manuel não lhe tingiria de sombras a imagi- 
nação, peninsular, saudosa da sua republica. A Ásia inclina- 
va-se então perante o extremo dó occidente, e os rios indianos, 
como no episodio dos Lusíadas, vinham entornar, submissos 
e vencidos, na ampla bacia do Tejo, os seus riquíssimos 
cofres cheios de pedrarias e perfumes. 

«Mas fosse um verdadeiro patrício, ou fosse simplesmente 
um mercador absorvido pela ambição da ganância, o que é 
innegavel é que Bartholameu era um homem, de cuja activi- 
dade e préstimo ainda hoje nos restam evidentes provas. 
seu nome era familiar no paço, e os reis chamavam-n'o a 
cada momento, para os mais diversos negócios. Era necessá- 
rio pagar em Roma a despesa feita com a expedição de 
Bulias? Bartholomeu é quem era o banqueiro (i). Quando 
se aueria presentear os potentados orientaes, os armazéns 
do florentino é que davam o principal fornecimento. Assim 
no alvará dirigido a Ruy Leite acerca do magnifico presente 
enviado por D. Manuel ao Preste João, lê-se o seguinte: 
o qual brocado he daquelle que ouvemos de bertellameu (2), 
Annos depois* quando D- João III mimoseou o rei de Cam- 
baya, ainda por essa occasião apparece o nosso personagem. 
Ao principio tinham sido escolhidos uns pannos de armar, 

tertencentes a Bartholameu, os quaes representavam os 
'apas e os Prophetas, mas o devoto monarcha teve escrú- 
pulos e julgou irreverência e profanação enviar a mouros 
similhantes santidades. Trocaram-se os pannos por outros 
pertencentes a Luiz Coelho e que representavam a vida de 
Eneas. Não resa a historia se os manes de Virgílio ficaram 
satisfeitos, e se o piedoso filho de Anchises seria devidamente 
acatado pelos sectários de Mahomet (3). 

«Nas Cartas de Affonso de Albuquerque parece-nos en- 
contrar uma importante referencia ao grande commerciante 
florentino. O terribil general portuguez não era somente um 
superior homem de armas, era também diplomata, adminis- 



(1) J. P. Ribeiro, Dissertações chronologicas, tom. 5.°, pag. 3i5. 

(2) Boletim da Bibliographia Portuguesa, 2. vol., pag. 22. 

(3) Sousa Viterbo, Notas ao Catalogo da Exposição de Arte Orna- 
mental 



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41 6 O INSTITUTO 

trador e hábil negociante, uma organisação diamantina de 
primeira agua, embora os seus rivaes e inimigos patenteassem 
acrimoniosamente os seus defeitos. Na carta que elle dirige 
de Gôa, aos 22 dias de outubro de 1614, faz a D. Manuel 
as mais valiosas e attendiveis considerações sobre o trafico 
da índia. Mesmo nestes assumptos a sua penna tem cplorido 
e a sua linguagem sabe ser eloquente. Não é uma carta para 
.se lançar num copiador e ficar archivada num escriptorio da 
rua dos Capellistas ; é um documento para se dar á estampa 
como brilhante pagina litteraria. 

«Grande lago de mercadorias (escreve o conquistador de 
Gôa) he a Imdia, e grande soma douro e de prata ha nela, 
e grandes sam os ganhos: o marfim que se das vosas casas 
de lá manda a framdes, he lamçado a lomge, e quá tem 
muy gram preço : nam me pesa, senhor, senam porque vejo 
vosos tratos e feitorias amdar em poder domeens cortesãos; 
apegai-vos, senhor, cos mercadores que tiverem imtiligencia 
e saber, e terees mayor tisouro na Imdia do que tendes em 
Purtugall, e deus sabe que eu vos esprevo estas cousas 
sáamente, porque me doy a carne de as ver em mato mani-* 
nho, e vejo a vosa jemte quá com um barco dum palmo em 
alto serem homeens de muito dinheiro, e os capitães que 
trazem suas companhias, também tocam dinheiro e o sabem 
bem dobrar, e não vos vejo feitor na Imdia que vos saiba 
mamdar hum avyso destas cousas, porque vejo cadano nas 
canas de vosalteza falarme neste feito, como cousa nova que 
mamdaes apalpar e de que nem tendes nenhua emformaçam 
nem aviso; e eu, senhor, nam m'espanto diso, porque nam 
ha d^emtemder Pedr'omem tanto na mercadaria como Berto- 
lameu (1). 

(Continua)» Sousa Viterbo. 



(1) Affonso de Albuquerque, Cartas, Lisboa, 1884, tom. i.°, pag. 274. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Redacção b administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA.. 



Propriedade e edição da Director Composto e ii 

Sociedade scientifica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa d. 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dade. 



SCIENCIÀS PHYSIC0-MATHEMATIGA5 

LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n.° 8, pag. 386) 



Outre cette longue liste de cartes, il y en a cTautn 
nous ignorons absolument la date, savoir: 

[U 10 b] — A. C. de Souza — Carta de uma parte < 
vincia de Angola desde Molembo até ao Que 

[U 10 b] — # — Aden, Mombaça, Lisboa, Cefala. 

[U 10 b\ — A. Paes d' Almeida — Esboço geographico 
goche. 

[U 10 b] — A. Tavares Pereira — Carta hypsometrica 
tugaL 

[U 10 b] — António A. Monteiro — Mappa de Portu 
a rede completa dos caminhos de ferro port 

[U 10 &] — B. A. Ligorne — Mappa de Portugal Im 

[U 10 b] — Belchior J. Garcez e Miguel B. Maciel — 
da cidade de Braga. 

VOL. 55.°, N.° 9 — SETEMBRO DE I908. 



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41 8 O INSTITUTO 

[U io b] — Brandão de Souza — Carta topographica e mili- 
tar da linha fortificada ao Sul do rejo, desde Ca- 
cilhas até á Trafaria e alturas da Costa. 

[U io b] — # — Carta Chorogrqfica das Correntes do Rio 
Douro e terrenos adjacentes desde o Rio Teixeira 
athé S. João da Pesqueira, etc. 

[U 10 b] — * — Careta chorographiea das margens do Douro 
desde o Rio Tua até b. João da Fo\. 

[U io b] — * — Carta d' Africa Occidental desde o Trópico 
de Câncer até d ilha de S. Thomé. 

[U io b] — # — Carta da Barra de Mossambique. 

[U io b] — # — Carta do Districto do Congo. 

[U 10 b] — * — Carta do Sul de Portugal. 

[U io b] — # — Carta dos canaes entre Macau e Cantão. 

[U 10 b] — (i) — Carta geographica marítima. 

[U io b] — # — Carta geral que comprehende os planos das 
principaes Barras da Costa de Portugal, etc. 

[U io b] — # -- Carta militar de parte da ponteira de Por- 
tugal e Hespanha, próximo de Fuentes de Onor, em 
a qual se vê os combates parciaes entre os exércitos 
aluados e france\ em maio de 1811. 

[U 10 b] — * — Carta militar da parte do reino de Portugal 
em que o exercito francês, commandado pelo gene- 
ral Massena fe\ a sua retirada em Março de 1811, 
principiando dos pontos de Pombal, Ancião e Espi- 
nhal athé á sahida do ditto reino. 



(1) II parait qu'elle est due au cartographe portugais Pedro Reinel. 
(Voy. Catalogo da Exposição de Cartographia nacional, Lisboa, 1904, 
207-208). 



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LES MATHEMATIQUÊS EN PORTUGAL 419 

oí]-# — Carta militar topographica da parte da Costa 
do Mar entre Ericeira e Forte de Mogoite. 

o b] — * — Carta topogt % aphica da continuação da Car 
de Esposende até villa do Conde. 

o b] — # — Ce fala. 

o b] — # — Cidade de Santarém. 

o b] — Commissão de Cartographia — Esboço da Car 
do Antigo Reino de Mapica. 

oJ>] — Companhia de Moçambique — Mappa da Regi 
do Barné, etc. 

o b] — Coronel Moreira e A. C. de Lemos — Carta 1 
pographica das linhas do Porto. 

o b] — # — Costa do Algarve. 

o b] — * — Demonstração do Porto e Illias de Mossa: 
bique. 

o b] — * — Derrota axie fes JoÃo Nicolao Schmerkei 
etc. Partindo aa Amarração da Junqueira pel 
Barra fora no dia 2Q do mes de agosto de 2771. 

o b] — E. A. de Bettencourt — Catita Geographica < 
Provinda de Timor. 

o b] — E. A. de Bettencourt — Carta de Portugal cc 
a divisão administrativa por Districtos e Concelhi 

o b] — Eugénio Ré — Maré Atalanticum. Cartas Oo 
dentaes da Europa e da Afinca até a ilha das Ga 
ças (1). 

o b] — F. A. de Mattos e Carvalho — Planta da cida 
do Funchal. 



RADO. 



(1) Cest la copie d'une partie de la 2 e carte de TAtlas de Vaz Dc 



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420 O INSTITUTO 

[U io b] — F. J. de Carvalho — Plano do Rio Grande de 
S. Pedro. 

[U 10 b] — F. Pinheiro da Cunha — Carta corographica das 
correntes do Rio Lima, etc. 

U io b] — F. Pinheiro da Cunha — Planta da Ria de Aveiro 
desde a bouça Vouga aíhé a barra novamente aberta, 
etc. 

•U 10 b\ — F. X. Pinheiro de Lacerda — Planta Topogra- 
phica do Pai% do Marque^ de Mossulo e do Éombe, 
etc. 

U io b] — J. A. Diener — Planta projecto d! uma estrada 
desde Lamego até o alto de Fefreirim. 

U io b] — J. B. Vieira Godinho — Planta do Palácio da 
Fortaleza em que residiram todos os governadores 
e Vice-Reys, etc. 

U io ' b] — J. Baptista de Castro — Mappa de Portugal, 
Officina de M. Manescal da Costa. 

U io b] — J. C. Ribeiro — Planta das Feitorias de Noque e 
terrenos circumvisinhos. 

U io b] — % J. da Costa Ferreira — Cartas corographicas e 
hidrogi*aphicas de toda a Costa e portos da Capi- 
tania de S. Paulo com as plantas topographicas das 
suas jnllas e fortificações respectivas. 

U io b] — J. de Macedo Corte Real — Demonstração da 
baira de Itamaracá. 

U io b] — J. Fernandes Portugal — Plano da rilla de S. u 
Catharina e da enseada dos Garopes. 

U io b] — J. Moraes Antas Machado — Projecto para a 
Nova Cidade de Goa, 

U io b] — J. Peito de Carvalho — Planta da Estrada da 
Regoa athé Santa Marília. 



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LES MATHEMATIQUES EN PORTUGA!. 421 

[U io b] — J. Raphael Nogueira — Configuração do Tejo em 
Villa Velha e pista dos montes observados do lugar 
aonde se deitou a ponte das barcas. 

[U io b] — J. Sande e Vasconcellos — Mappa das Terras do 
Almargem divididas em quatro partes iguaes, etc 

[U io b] — João Pedro Ribeiro — Planta Topographica < 
cidade de Lisboa arruinada, e tanweni^ segundo 
novo alinhamento dos Architetos Eugénio dos Sa 
tos Carvalho e Carlos Mardel. 

[U 10 b] — J. Vieira de Carvalho — Planta da Villa de H 
Grande de S. Pedro do Sul. , 

[U io b] — Joaquim de Oliveira — Planta Topográfica < 
Terreno entre o Palácio de N. S. rã d Ajuda e 
Quinta de Queliq. 

[U 10 b] — José da Trindade — Carta de Huma Parte d 
Costas da China e das Ilhas adjacentes desde Ilh 
Sanchoão até Pedra Branca. 

[U 10 b] — José Júlio Rodrigues (?) — Carta da Africa Ce 
trai e Meridional e dos territórios portugueses c 
contidos para servir para o estudo do itinerário c 
expedição Africa- Portuguesa de 1877. 

[U 10 b] — L. H. da Cunha d ? Eça — Configuração do R 
de Sacavém até Frielas e do Terreno Contíguo e 
que estão situadas as Baterias. 

[U io£] — L. Marques — Planta de parte do traçado c 
Caminho de Ferro de Lourenço Marques á fro 
teira do Transvaal, etc. 

[U 10 b] — M. A. de Lacerda e Luiz Ignacio — Mappa d 
Preços do Districto do Zumbo. 

[U 10 b] — M. J. Brandão — Planta da cidade de Leiria. 

[U 10 b] — M. Isidoro Marques — Carta de Cabo Verd 
Ilha de S. Vicente, ilha de S. u Lúcia e parte c 
ilha de 67° Antão. 



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422 O INSTITUTO 

[U io b] — M. Roíz Teixeira — Prospecto da Gd.* de S. Sal- 
vador. Bahia de todos os Santos. 

[U 10 b] — # — Macáo e ilhas próximas, 

[U io b] — * — Mappa da Africa Equatorial. Itinerário da 
Viagem de Henry M. Stanley (1874-1877. 

[U 10 b] — * — Mappa da baiTa de Lisboa e do seu rio Tejo. 

[U 10 b] — * — Mappa da Capitania da Bahia, etc. 

[U 10 b] — # — Mappa da Circunvalação e das fortificações 
de Lisboa. 

[U 10 b] — * — Mavpa da fronteira da Beira para a inteh 
ligencia das disposições de Aefe\a feitas pelo Mar- 
d'Alorna emquanto commandou nesta provinda «o 
anno 1801. 

[U 10 b] — # — Mappa das Prov.** e Ilhas de Goa perten- 
centes ao Domínio de Portugal. 

[U ioí] — * — Mappa chorographico, estatístico, topogra- 
e histórico ao reino ae Portugal. 

[U 10 b] — # — Mappa geographico do reino de Portugal. 

[U 10 b] — # — Mappa Thepografico da cidade de Coimbra 
com a divisão das antigas Freguesias. 

[U 10 b] — # — Mappa topographicb da Barra da Cidade de 
Aveiro, confoiwe se achava no dia 27 de Setembro 
de 178 3; no qual se vê a diferença que tem da figura 
em que estava a 3i de Maio de ij8o. 

[U 10 b] — # — Mappa Topographico da Costa de Concon 
desde Dabul até ao Pico Danum. 

[U 10 b] — * — Mappa topographico das ilhas e provindas 
de Goa, etc. 

[U 10 b] — # — Mappa topographico de parte Fronteira da 



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LES MATHÉMATIQUES líN PORTUGAL 423 

Provinda de Tras-os-Montes entre Chaves e o rio 
Sabor. 

[U 10 b] — * — Mavpa topographico dos Concelhc * ~ 
daval e Olndos. 

fU io b] — Miranda — Carta da índia. 

[U 10 b] — * — Moçambique. 

[U 10 b] — P. Dias d' Almeida — Plano de Peruana 

[U io b] — P. Dias d' Almeida — Planta de parte 
de S. Lourenço, etc. 

[U io b] — * — Parte da Africa (i). 

[U io b] — Paul Choffat — Carte géologique de 
de Montejunto et du bassin d!éfrpndement 

[U io b] — Pedro da Nova — Carta das ilhas de 
Solor. 

[U io b] — # — Plano da Bahia de Mossamedes. 

[U io b] — # — Plano da Derrota que fe\ a Náu « 
Gama» no cruzeiro que principiou em 18 
e acabou em 3i de julho de 1818. 

[U 10 b] — * — Plano e perspectiva da praça de M< 
da província de Pondá, sitiada pelas arm 
gue\as e tomada ao i.° de junho de ij63. 

[U 10 b] — * — Plano e perspectiva das ilhas de Ge 

[U 10 b] — # — Planta da acção de 11 de agosto de 
Villa da Praia da ilha Terceira. 

LU ,io b] — # — Planta da Cidade de Aveiro. 



(1) Cest une carte hydrographique de la Cote Occidental 
dès Péquateur júsqu'à Cabo Negro. 



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424 O INSTITUTO 



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o b] — # — Planta da Cidade do Funchal. 

o b] — # — Planta da Cidade de Lamego. 

o b] — # — Planta da cidade e península do nome de 
Deus Macau na China. 

o b] — # — Planta da Fortaleza de N. S. da lnsua. 

o b] — * — Planta da Fortificação de Monção. 

o b] — * — Planta da Fortificação de Villa Nova de 
Scrv* 

o £j — * — Planta da Ilha e Cidade de Goa e ilhas fron- 
teiras. 

oí] — # — Planta da Praça de Caminha. 

o b] — # — Planta da Praça de Melgaço. 

o b] -▼ # — Planta da Villa de Ovar. 

o b] — # — Planta da Villa de Pombal. 

o b] — * — Planta das Ilhas de Goa e Provindas de 
Bardes e Salcette até Tiracol e Cabo da Rama, 
provindas de Pondá e as de Bounçalos, etc. 

o b] — * — Planta das terras da Província de Salcette 
de Goa. 

o b] — * — Planta de Lisboa, de Alcântara a Pedrouços. 

o b] — # — Planta de Monção & Seus arredores. 

o b] — * — Planta de Villa Nova e seus arredores. 

o b] — * — Planta do Castello de Vianna. 

o b] — * — Planta do Castdlo e Fortaleza da AgoaJa, 

o b] — * — Planta do curço do Tejo junto a Villa de 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 42D 

Abrantes aonde se ve os sitios em que foi lançada a 
Ponte Militar de Baixas. 

[U 10 b] — * — Planta do Porto de Goa. 

[U 10 b] — * — Planta do Rio Tejo e suas margens, na 
comprehendida entre as portas da Cru\ da Pe 
a ribeira de Algés. 



[U io b] — * — Planta dos aproxes, baterias e galaria 
j. e o inimigo Marata rendeo por capitulaçc 
Praça e cidade de Baçaim, em Mayo de ij3( 



[U io b] — * — Planta incompleta da cidade da Pr a 
-Ilha de S. Thiago. 

[U io£] — * — Planta topographica da cidade de 1 
comprehendendo na sua extensão á beira M 
Ponte d' Alcântara até ao convmto das Comn 
deiras de Santos, etc. 

[U 10 b] — # — Planta Topographia da Ilha de Aios 
que, etc. 

[U 10 b] — * — Portugal, Atlas. 

Collection de 14 cartes de Portugal dè x^ 
cie au xvn e siècle. 

[U 10 b] — # — Povoação de Porto Alexandre. 

[U 10 b] — # — Praça do Commercio de Lisboa. 

[U 10 b] — * — Planta de Coimbra e seus contornos i 
Rio Mondego. 

[\J 1.0 b] — # — Provinda de Moçambique. Limites seg 
tratado de 20 de agosto de iõqo. 

[U 10 b] — Simões dos Santos — Planta da Praça c 
^agan. 

[U 10 b] — * — - Sofala. 



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4^6 O INSTITUTO 

[U 10 b] — * — Topographia da Costa de Caminha a Viamia 
& dos Fortes. 

[U 10 b] — # — Villa d' Azambuja. 

[U 10 b] — # — Villa Nova da Rainha. 

ciasse "V 



Pbllosopble et blstolre des selences mathématlqaes. 
Biograpbles de mathématielens 

[V 1] — J. Anastasio da Cunha — Princípios mathematicos, 
etc. Lisboa, Officina de A. R. Galhardo, 1790. 

Cet ouvrage (1), bien que três peu volumineux 
renferme # une grande somme de matériaux dis- 
posés d'une manière toute nouvelle pour le temps. 

II a été Tobjet de 1'éloge des uns et du blâme 
des autres. J. M. d' Abreu a traduit ce livre en 
français et Ta fait imprimer à Bordeaux (2), don- 
nant ainsi plus de celébrité au nom de Tauteur. 

Playfair dans le journal The Edinburg Review 
(xx, 18 12, 425-433) a inséré une notice critique 
de Touvrage ^Anastasio da Cunha, qui fut tra- 
duite dans le Investigador portngue\ em Ingla- 
terra (vn, 181 2, 5 1 5-547), m i P art i e favoraWe, 
mi partie défavorable, ce qui a donné lieu à une 
replique de la part de J. M. d' Abreu, dans lc 



(1) J. Anastasio da Cunha n'a pas eu la satisfaction de voir comple- 
te ment imprime son livre, il mourant quand celui-ci était sur le point de 
paraitre (le 1 janvier 1787). 

D'après Innocencio da Silva (Diccionario bibliographico, t. iv, p. 227), 
et en vue des déclarations de Anastasio da Cunha devant les ministres 
de rinquisition, ce livre fut composé et medite pendant les 12 années 
anterieures à sa disgrâce, c'est-à-dire, de 1766 à 1778, date oú il était 
termine. II ne restait plus qu'à le recopier. L/impression, d'après des té- 
moignages non douteux, commença en 1782, et Anastasio da Cunha, la 
veille de sa mort, c'est-à-dire, le 3i décembre 1786, venait de corriger 
les épreuves de la dernière feuille. 

(2) Príncipes mathématiques de feu Joseph Anastase da Cunha, Bor- 
deaux, Imprimerie d'André Kacle, 181 1. 



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LES MATHÉMATIQUES KN PORTUGAL 427 

susdit Investigador portugue\ em Inglaterra {vn, 
i8i3, 235-249, 442-455, 612-623). 

[V 1] — J. Anastasio da Cunha — Ensaio sofo*e os princípios 
de mechanica, Londres, 1807, i83g. 

Le marquis du Funchal (Don Domingos de 
Souza Coutinho), ministre plénipotentiaire de Por- 
tugal, à Londres, désirant honorer la mémoire 
d'ANASTASio da Cunha, a fait imprimer à Lon- 
dres une brochure, dont il possédait le manuscrit, 
que Anastasio da Cunha avait laissé sous le titre: 
Ensaio sobre os princípios de mecânica (1). 

Ce travail était, à vrai dire, une esquise d'un 
projet plus étendu que Tauteur avait imagine. A 
cette oeuvre posthume, réeimprimée plus tard 
dans I. C. (i re série, iv, i856, 212-214, 222-223, 
236-238), Silvestre Pinheiro Ferreira a ajouté 
des remarques ayant pour but de développer quel- 
ques passages. Ces remarques ont été publiées à 
Amsterdam en 1808, et plus tard transcrites dans 
I. C. (i re série, v, 1857, 21-23, 33-35, 57-58, 71- 
72, 82-84). 

[V 1] — S. Pinheiro Ferreira — Princípios de mechanica, 

Amsterdam, Officina de Belinfante & C ie , 1808. 

L'auteur a publié ces fragments, réeimprimés 

plus tard dans 1. C. (r e serie, iv, i856, 93-o5, 

107-108) dans la crainte de voir mal interprétees 

quelques unes des remarques faites à XEnsaio 

sobre os princípios de mechanica de Anastasio da 

. Cunha. 

[V 1] — # — Lição duodécima dos elementos de geometria phi- 
losophica escriptos por Francisco de Borja Garção 
Stockler, a qual tem por titulo: «Das correlações 
que existem entre as operações elementares da te- 
chnia geométrica, e da technia algébrica» (2), Lis- 
boa, Impressão regia, 1819. 



(1) D'après Silvestre P. Ferreira, Anastasio da Cunha a écrit son 
ouvrage sur la demande de son élève et admirateur Manuel Pedro de 
Mello. 

(2) L'auteur anonyme écrit dans la préface de cet opuscule, qui est 



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428 O INSTITUTO 

[V 1] — A. M. de Castilho — Traité de mnémotechnie, ou 
exposition cies príncipes de cet art et de ces princi- 
pales çipplications (1), Bordeaux, i83i. 

[V 1] — I. Emílio Baptista — A geometria em progresso, Lis- 
boa, Imprensa Galhardo, 1846. 

Cest une réfutation critique et enjouée cTune 

f>roposition absurde présentée par un éléve de 
'Ecole polytechnique. 

[V 1] — L. A. d 1 Andrade Moraes — Ensino de arithmetica e 

{geometria elementar em Portugal (I. C, i. re série, 
I, 1854, 171-173, 184-186). 

[V i], — Marcus Dalhunty — Coincidências notáveis dos mm 
algarismos co?n a historia de Portugal, emquanto 
durou neste reino a linha afonsina (Panorama, 4* 
série, xiv, 1857, 245, 253, 2O0, 269, 279; xv, i838, 
79, 88, 95, 142, 1Ó2, 159, 166, 3oi, 3n, 319, 327). 



un chapitre de 1'ouvrage de Stockler dont nous avons fait mention (I. 
C, i e série, li, 1904, p. 676): «Não tendo lido livro elementar mathema- 
tico superior em merecimento ao da=Theorica dos limites =, apenas 
vi que o seu Author escrevia huns Elementos de Geometria Philosophica 
para uso de seu filho, assentei que esta obra seria grandemente benemé- 
rita: com tudo não suppuz que me fosse tão nova como tem sido, ape- 
zar de ter lido alguns elementos da mesma sciencia escritos desde o 
tempo de Euclides até o nosso ; e por Geómetras ou Philosophos de 
merecimento reconhecido, assim pelo que publicarão, como pela vene- 
ração constante das edades decorridas desde os dias daquelle Grego iro- 
mortal, e do preeminente Archimedes até os de Clairant, Conijiii-ac, 
Bertrand, Legendre, Lacroix, e Laplace. 

«Por isto, e porque as circumstancias do nosso Compatriota (que 
nos merece tanta veneração quanta ufania deve causar-nos) lhe não te- 
nhão permittido acabar esta composição com a brevidade que muito 
conviera, pedi-lhe que me confiasse a Lição duodécima, por ser huma 
d'aquellas que, dependendo menos das restantes, me parecia vantajoso 
publicar sem demora, a bem do progresso da Sciencia e dos Alumnos: 
o que faço com licença do Author obtida a instancias minhas ; licando- 
me a satisfação de concorrer por este modo, seja para a gloria das Le- 
tras Portuguezas, seja para o melhor dos prémios devidos ao verdadeiro 
merecimento, se he verdade o que Xenofonte afíirma no segundo livro 

dO SeU A^O[XV7)(JLOVEV(X0CTWV». 

(1) II existe à la bibliothòque de Bar-le-Duc (France) cet ouvrage, 
manuscrit, renfermant le cours professe en i833 par A. M. de Castilho. 
Ce cours a été suivi et rédigé par Mercier, véténnaire. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 429 

[V 1} — R. R. de Souza Pinto — Duas consultas de 27 de 
abril de iSSj: a primeira pedindo a mudança do 
observatório para o sitio do Castello, etc; a segunda 
a creacão de uma nova cadeira na faculdade (I. C, 
i re série, vi, 1808, 3 7 -38). 

[V 1] — F. P. Torres Coelho — Necessidade de crear uma 
cadeira de geometria transcendente na Faculdade 
de mathematica (I. C, i re série, ix, 1861, 8-9). 

[V 1] — F. Folque — Contagem decimal (A. Feliciano de 
Castilho, Os fastos de Publio Ovídio NasÃo, Lis- 
boa, II, 1862, 225-229). 

[V 1] — Justino M. d'Oliveira — Discussão sobre os princi- 

Íios fundamentaes da mechanica, Porto, Imprensa 
ãtterario-Commercial, (87O. 

[V 1] — F. Gomes Teixeira — Sobre a origem e sobre os prin- 
cípios do calculo infinitesimal. Prelecção feita aos 
atumnos da Universidade de Coimbra (J. S. M., 111, 
1881, 21-4D). 

* Cest un développement de la note: Sur les 
príncipes du calcul infinitesimal (M. S. B., 2» sé- 
rie, iv, 1880, (41-47). 

[V 1] — J. M. da Ponte Horta — Conferencia acerca dos in- 
finitamente pequenos, Lisboa, Typographia da Aca- 
demia real das sciencias, 1884. 

[V 1] — J. M. da Ponte Horta — Conferejicia acerca da 
circulação da matéria, Lisboa, Typographia da Aca- 
demia real das sciencias, 1886. 

Cette conférence a été objet d'une sévère cri- 
tique de la part de Junio de Souza (i), publiée 
dans I. C. (2 série, xxxvi, 1888, 17-25, 89-94, 
i3i-i36, 196-202, 282-289, 344-35o). 

[V 1] — J. J. Pereira Caldas — Proposta justificada para 
novos compêndios no curso mathemàtico do Lyceu 



(1) Pseudonyme du professeur A. J. Teixeira. 



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4? O O INSTITUTO 

de Braga, Braga, Typographia Minerva commer- 
cial, 1890. 

[V 1] — C. Roeder — Algumas palavras sobre a producção 
de forças (R. M. P., 11, 1894, 8-12). 

[V 1] — J. M. d' Almeida Lima — Energia e relativismo (R. 
S. L., 1, 1901, 6-8, 49-52, 65-68). 

[V 1] — J. M. d'Almeida Lima — Estudo sobre a energia (R. 
Art, L., 1, 1904-1905, 3o-33, 64-68, 106-110, 201- 
2o5, 327-334, 383-388, 438-44.3, 493-499, 587-5g5; 
11, 1905- 1906, 7-1 5, 146-150, 202-210. 

[V 1 a] — Eduardo Andrka — O ensino da divisão de deci- 
mães (B. A. M., 1, 1904-1905, 122-123). 

[V 5 b, 6] — F. de Castro Freire — A mathematica nas duas 
primetras dynastias (I. C, 2 e série, xxxi, 1884, 
405-410). 

[V 5 b, 6, 7] —A. Ribeiro dos Santos — Memorias históricas 
sobre alguns mathematicos portugueses e estrangei- 
ros domiciliados em Portugal, ou nas conquistas (M. 
L. A. L., xii, 1812, 148-229). 

[V 5 b, 6, 7, 8] — F. B. Garção Stockler — Ensaio histó- 
rico sobre a origem e progressos das mathematicos 
em Portugal, Paris, Officina de P. N. Rougeron, 
1819. 

L'auteur y traite aux pages 1-75 Phistoire des 
mathématiques en Portugal depuis la fondation 
de la monarchie jusqu'en 1819; les pages 76-168 
contiennent une série de 36 notes, oú quelques 
points mentionnés dans le texte sont développés 
et éclaircis. 

[V 5 b, 6, 7, 8, 9] — F. de Castro Freire — Memoria histó- 
rica da Faculdade de mathematica, Coimbra, Im- 
prensa da Universidade, 1872. 

Cette monographie a été publiée lors du premier 
centenaire de la reconstitution de 1'Université de 
Coímbre, en 1772. 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 43 1 

Dans 1'Introduction, Tauteur considere la pé- 
riode depuis la fondation de la monarchie jus- 
qu'en 1772; ensuite il s'occupe plus en détail de 
la période de 1772 à 1872. A la fin, on trouve 
deux appendices contenant une liste des profes- 
seurs de TUniversité (1772-1872) et la bibliogra- 
phie des écrits mathématiques publiés en d^«^»««i 
dans le même temps. 

L'exposition de 1'histoire des mathémai 
Portugal est étroitement lieé à celle de 
de la Faculte de mathématique à Coírr 
est, en effet, d'objet principal de Touvraj 

[V 6] — J. Freire d' Andrade — Vida de D. João de 
Lisboa, 1747. 

[V 6] — A. Ribeiro dos Santos — Da vida e escripta 
Francisco de Mello (M. L. A. L., vu, 18 

*49)- 

[V 6] — A. Ribeiro dos Santos — Da vida e escriptc 
dro Nunes (M. L. A. L., vu, 1806, 250-28 

[V 6] — J. J. Pereira Caldas — Primeira arithtne 
pressa (J. S. M., 1, 1877, 1 56- 157). 

(Continua). Rodolpho Guia 



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LITTERATURA E BELUS-ARTES 



ARTES INDDSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 

(Cont. do n.° 8, pag. 416) 



«Nas mesmas Cartas lê-se ainda outra passagem abona- 
toria dos créditos do grande commerciante : «Cá tenho es- 
crito a Elrei que creia mais no escritório de Bertolameu com 
Leonardo soo nelle, que em quantas feitorias e quantos fei- 
tores cá tem na índia (1). 

«Bartholameu era auctoridade commercial de peso para 
Affonso de Albuquerque. 

«E não era só entre negociantes que elle grangeara credito; 
entre os homens de lettras não passava desconhecido o seu 
nome. Francisco Albertini num opúsculo que em i5io publi- 
cou em Roma (Septem Mirabilia, etc.) e que dedicou a el-rei 
D. Manuel, trás a seguinte referencia: nostvo Bartholomeu 
conterrâneo Florentino qui in regno tuo Lusitanico agit... (2). 

«Somos chegados ao facto principal da vida do nosso pro- 
tagonista : ao contracto celebrado entre elle, como represen- 
tante dos negociantes estranjeiros residentes em Lisboa, e 
D. Manuel, para a navegação commercial da índia. E em 
Gaspar Correia, que encontramos mais circumstanciadamente 
narrada a transação. O feliz suecesso da viagem de Vasco 
da Gama tinha enchido das mais douradas esperanças a 
mente de D. Manuel. Logo em i5oo sahiu a armada de 
Pedro Alvares Cabral, a quem um acaso feliz conduziu ás 
terras de Santa Cruz. Mas no soffrego desejo de conquistar 



SI 



1) Affonso de Albuquerque, Cartas, Lisboa, 1884, tom. i. Q , pag. 274. 
Warnhagen, Shoner e Appiano. Vienna, 1872, pag. 11. 



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joc^lc 



ARTES INDÚSTRtAÈS E INDÚSTRIAS PORTUÒUÊZAS 4.33 

toda a índia, o venturoso monarcha ainda não estava satis- 
feito e pensou nos meios de enviar todos os annos, na monção 
de março, uma armada ao Oriente, sem que houvesse neces- 
sidade de esperar pelo regresso da anterior. Foi assim que 
em i5oi se preparou nova esquadra, da qual foi comman- 
dante João da Novoa, fidalgo gallego, homem experiente na 
navegação e que exercia % ao tempo'o honroso e importante 
logar de alcaidje de Lisboa. Não sendo os recursos da coroa 
inteiramente sufficientes para occorrer a tamanhas e tão suc- 
cessivas despesas, julgou D. Manuel, apoiado por Vasco da 
Gama e outros do seu conselho, que era da mais alta con- 
veniência interessar na empresa os mais ricos negociantes e 
armadores estranjeiros existentes na capital da monarchia, 

«Postos estes preliminares, caiba agora a palavra ao pitto- 
resco narrador das Lendas da índia: 

a Sobre o que logo EIRey moveo contractos com merca- 
dores riquos, .estantes de muyto tempo em Lisboa, que ante 
si (deve sei" antre) fizerão armador a hum Bertholameu Flo- 
rentym, homem de grossa fazenda, que fizerão seus aponta- 
mentos muyto de seus proveytos, que esperavão muyto mais 
proveyto que de Framdes, nem outras muytas partes em que 
tratavam per todo ponente e levante ; sobre o que assentarão 
contracto, que EIRey armou duas nãos, e os mercadores 
outras duas de seu dinheiro, de todo acabadas e postas á 
vela, e amarinhadas com todolos officiaes que lhe pertencião, 

3ue havião de ser a contentamento d'ElRey; todos naturaes 
o Reyno: e EIRey as havia d'armar d'artelharia, armas, 
moniçóes e fazer os mantimentos para toda a viagem, e 
mettia as mercadorias que se havião de gastar na carga, e 
dava-lhe EIRey de frete a vinte e dous cruzados da fazenda, 
logo limitadamente o que havião de carregar de pimenta e 
de cada sorte de drogas, segundo o que a nao podia carre- 
gar, e o pagamento havia de ser em dinheiro de contado, 
descarregada e entregue a fazenda na casa, emprestando-lhe 
logo sobre esses fretes a cada nao oito mil cruzados (i). 

«A armada de João da Novoa partira de Lisboa a i de 
março de i5oi : compunha-se de quatro nãos numa das quaes 
ia Mice Vinet Florentym, feitor de mercadores. 

«João de Barros trata egualmente d'este assumpto, embora 
com menos desenvolvimento. E elle quem nos revela o sobre- 



(i) Gaspar Correia, Lendas da índia, tom. i.°, pag. 233 e i35. 

VOL. 55.°, N.° y — SETEMBRO DE 1908. 2 



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434 O INSTITUTO 

nome do rico negociante florentino. Depois de fallar da reso- 
lução de D. Manuel de mandar todos os annos á Ásia, na 
monção própria, uma armada, passa a enumerar a frota de 
João da Novoa e cita em quarto logar o navio de Fernão Vinet, 
florentim pelo navio ser de Bartholomeu Marchioni, também 
Florentim; o qual era morador em Lisboa è o mais principal 
em substancia de fazenda que ella naquelle tempo tinha feito. 
E continúji, explicando o motivo do procedimento de D. Ma- 
nuel : 

«Cá ordenou EIRey pêra que os homens d'este Reyno, 
cujo negocio era commercio, tivessem em que poder tractar, 
dar-lhe licença que armassem nãos para estas partes, d^lles 
a certos partidos e outros a fretes; o qual modo de trazer a 
especiaria a frete ainda hoje se usa. E porque as pessoas a 
que EIRey concedia esta mercê, tinham por condição de seus 
contractos que elles haviam de apresentar os capitães das 
nãos ou navios que armassem, os quaes EIRey confirmava: 
muitas vezes apresentavão pessoas mais suficientes pêra o 
negocio da viagem e carga que havião de fazer do que erão 
nobres per sangue. Fazemos aqui esta declaração porque se 
saiba, quando se acharem capitães em todo o discurso d'esta 
nossa historia e que não sejam homens fidalgos, serão d'aquel- 
les que os armadores das nãos apresentavam ou homens que 
por sua própria pessoa ainda que não tinha muita nobreza 
de sangue, avia nelles qualidades pêra isso (1). 

«Damião de Góes não faz mais que resumir o que neste 
ponto escreve o Livio portuguez. 

«Este facto é não só curioso, mas importante para a historia 
das nossas relações commerciaes e económicas com o Oriente. 

«Vimos que em i5oi fora um italiano, Bartholomeu Mar- 
chioni, que se poz á testa dos armadores estranjeiros de 
Lisboa, e que fora elle que mandara uma nau, por conta 
sua, na armada de João da Novoa. Em i5o2, na armada de 
D. Vasco da Gama, um dos commandantes dos navios era 
João de Buonagracia, italiano. Em i5o3 apromptaram-se não 
menos de três esquadras. Uma d'ellas era commandada por 
Aftònso de Albuquerque e entre os navios havia um, em que 
ia por feitor João de Empoli, florentino. Sabemos esta impor- 
tante circumstancia pela narrativa que elle próprio nos deixou 
e que se pôde consultar no tomo 2. da Collecção de Noticias 



(1) João de Barros, Década i.«, liv. 5.°, cap. io.°. 



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ARTES INDUSTRIA ES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 435 

para a Historia e Geographia das Nações Ultramarinas. 
Annos depois, vemol-o viajar na índia, não feitor, mas dono 
de navios. 

«Gaspar Correia faz menção de diversos italianos com o 
nome de Gerniches. Um d'elles, mice Diniz Cerniche, foi 
num dos navios de armadores contractados com a rainha e 
que acompanhavam a armada de Gonçalo de Sequeira, que 
partiu do reino em i5io (i). Falcão usa de outra ortogra- 
phia, e dá por capitão d'um dos navios que foram nessa 
armada a Jerpnymo Sernige, indubitavelmente um dos Cer- 
niches, de que falia Gaspar Correia (2). Damião de Góes 
escreve Hierpnimo Cerniche, apontando-o como um dos bravos 
que ajudaram Affonso de Albuquerque a tomar Goa (3). 

«Quando D. Estevão da Gama foi ao mar Vermelho, expe- 
dição que o roteiro de D. João de Castro não deixou esque- 
cer, na sua numerosa armada contava-se myce Bernaldo em 
outro navio carregado de mantimentos seus, para no estreito 
vender, que era mercador, com que muito serviço fe\ (4). 

«O predomínio commercial da casa Marchione prolongou-se 

Èor largos annos. Em i5i8 partiu para a índia a armada de 
>iogo Lopes de Siqueira. Segundo o livro da Casa da índia, 
entre as naus que a compunham ia a Annunciada de Bartho- 
lameu Florentino, de que era capitão Álvaro Telles (5). João 
de Barros cita entre os capitães Pêro Paulo, o que Damião 
de Góes não faz senão repetir. Gaspar Correia diz. que Si- 
queira levara na sua companhia António Lobo Teixeira e 
Lopo Cabreira e Pedro Paulo, filho de Bartholameu Froren- 
tim, naus de mercadores. A Annunciada regressava da via- 
gem em 11 de agosto de iSiq. 

«Em i520 lá foi outra vez Tejo fora, na armada de Jorge 
de Brito, a nau Annunciada, sendo seu capitão, segundo o 
livro da Casa da índia (6) Belchior Marchone. Gaspar Cor- 
reia, com referencia a esta viagem, cita Pedro e Paulo Bel- 
chior Marchone, armadores (7). A 28 de março de iÔ22, 



(1) Gaspar Correia, Lendas da índia, tom. 2. , pag. 1 3 1. 

(2) Luiz de Figueiredo Falcão, Livro em que se contém toda a fazenda, 
etc, pae. 144. 

(3) Damião de Góes, Chronica de D. Manuel, cap. io.° e n.* da 
3.* parte. 

(4) Gaspar Correia, Lendas da índia, tom. 4. , pag. 164. 

(5) Falcão, Obr. cit., pag. 148. 

(6) Idem, pag. i5o. 

(7) Gaspar Correia, Lendas da Índia, tom. 2. , pag. 609. 



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""~H 



436 ô INSTITUTO 

conforme o testimunho de Falcão, estava de volta. Fr. Luiz 
de Sousa (i), arrimando-se indubitavelmente á auctoridade 
de Barros, refere que no anno de ib'22 entraram no porto 
de Lisboa nove naus com carga de especiaria, contando-se 
neste numero a Annunciada de Bartholameu Floreniin, de 
que era capitão seu filho Pêro Paulo Marchone. 

«No anno de i5o5 partiu para a índia a poderosa armada 
de D. Francisco d'Almeida. Nem nos historiadores da epocha, 
nem no livro da Casa da índia encontramos indicio dos três 
navios enviados pelas casas allemãs, a que se refere um 
nosso escriptor moderno. É possível todavia que fossem por 
essa occasião alguns navios mercantes estranjeiros sob a 
égide d T aque!le capitão. Nem sempre estes acontecimentos 
mereciam a consideração dos nossos chronistas, a quem 
enfeitiçava sobretudo a narrativa minuciosa das proesas bel- 
liças. 

«Na armada de 1009 vemos designado um Marco Alemão 
como capitão da nau Santa Clara. E desde 1644 era deante 
que o livro da Casa da índia nos indica maior numero de 
armadores. Os Marchiones são os que primeiro e mais vezes 
apparecem, fazendo-lhes honrosa companhia alguns dos seus 
compatriotas. 

tNão encontramos na Torre do Tombo a norma do con- 
tracto celebrado em i5oi ; basta a authentical-o o testimunho 
de João de Barros, de Gaspar Correia e ainda de outros 
historiadores. Encontramos, porém, dois documentos de 
grande importância e que vem confirmar exuberantemente, 
se mais fora necessário, a grandeza das relações commer- 
ciaes da casa Marchione. São duas cartas de quitação, uma 
de 16 de junho de 1607, outra de 28 de maio de 1D14, 
passadas a este poderoso contractador por D. Manuel: d'ellas 
dimana uma grande luz para a historia commercial, marítima 
e económica d'aquella epocha. Por ellas se vê a série das 
importantes transacções celebradas entre o florentino e a 
coroa; as avultadas quantidades de especiarias, o seu valor 
no mercado, os navios comprados ao estado e outras indi- 
cações valiosas». 

Julgo desnecessário reproduzil-as agora aqui, pois também 
já vem transcriptas na longa série de Cartas de Quitação, 
de D. Manuel publicada no Archivo Histórico Português 

Do reinado de D. João II existe um documento, pelo qual 



(1) Annaes de D. João III, pag. g3. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS $7 

se mostra que Bartholomeu Marchione dera uma lettra de 
cambio, no valor de quinhentos e cincoenta ducados, a Ber- 
tholameu Fernandez, quando este foi ao reino de Napgles a 
effectuar certas compras por mandado d'aquelle monarcha. 
A carta regia, concernente a este assumpto, é de 19 de outu- 
bro de 1403 e acha-se concebida nos seguintes termos: 

«Dom Joham &. A quamtos esta nossa carta virem faze- 
mos saber que nos mandamoS Bertollameu Fernandes ao 
Regno de Napolle pêra nos la auer de comprar e trazer 
alguuas cousas que compriam a nosso seruiço segundo leuou 
per noso regimento, per as quaes lhe foy dado per Bertolla- 
meu Marchone Florentin letara de caybo pêra o dito Regno 
de quinhentos e cinquoenta ducados, que loguo mandamos 
pagar ao dito Bertollameu Marchone... Dada em Simtra a 
dezanove dias do mes doutubro de 1493» (1). 

Convém advertir que, não obstante a sua importância e 
predominio, a colónia italiana em Lisboa não conseguira 
assambarcar o commercio das especiarias, fazendo-lhe con- 
corrência os allemães que haviam formado uma companhia, 
á testa da qual se achava, como feitor, um Rodrigo Allemão, 
segundo vem declarado numa carta de quitação, passada 
por D. Manuel em 27 de abril de 1 5 15 a favor de André 
Rodrigues, thesoureiro que fora da especiaria. Na mesma 
carta, publicada a pag. 283 do vol. I, do Archivo Histórico 
Portuguei, vem mencionado também Joham Rem, allemão, 
que havia pago ao sobredito thesoureiro a quantia de 6:824^801 
reaes. 

Bartholomeu Florentin não commerciava unicamente nos 
assucares da Madeira e nas especiarias da índia: os seus 
agentes e os seus navios iam também ás outras partes do 
nosso domínio colonial. D. Manuel dera-lhe licença para ir 
ao resgate do ouro na Guiné, segundo se deprehende do 
seguinte trecho de uma carta de Aloise de Prinli, o qual, 
aportando a Lisboa, de volta de Flandres, escrevia estas pala- 
vras: «uno merchadante florentino, riccho di 100 mila ducati, 
á la mina di Toro a fito, e l.ui serve de danari la Corte» (2). 

Marchioni armava também navios para a America, recen- 
temente descoberta por Pedro Alvares Cabral, como se in- 
fere d'um manuscripto existente na Torre do Tombo e que 



(1) Quitação de Bertolameu Fernandes — Livro de Extras, fl. xb. 

(2) Diaridi Marin Sanuto, vol. iv, coluna 621. Citação do sr. Pros- 
pero Peragallo no artigo referente a Bartholomeu Marcnoni. 



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4-38 O INSTITUTO 

foi dado á estampa, por mais de uma vez e em mais de 
uma das suas obras por F. A. de Warnhagem, depois vis- 
conde de Porto Seguro. Intitula-se: 

*Úfuro da nãoo Bertôa que vay pêra a terá do Bra\yll 
de que som armadores bertoíameu marchone e benadyto mo- 
relte e fernã dê lloronha e francisco mz» . 

A nau Bretôa saiu do porto de Lisboa a 22 de abril de 
i5u (1). 

Nas quitações de D. Manuel apparecem frequentes verbas 
relativas a Bartholomeu Marchione. Assim na quitação pas- 
sada a 1 de agosto de 1S10, a Affonso Martins, nosso feitor 
em Flandres, Tê-se o seguinte: «3:900 (libras) per uma letra 
de caimbo que passou Bertoíameu Marchone, florentim, pêra 
o dito Jerónimo Frascobalde, das quaes o dito Bertoíameu 
é já pago». Nas passadas a Martim Affonso, comprador de 
el-rei-com relação aos annos de 1499 e i5o5, diz-se que elle 
recebera de Bartholomeu Marchone, da primeira vez 3i6tfooo 
reaes e da segunda 2 contos. 

Bartholomeu Marchione parece aue estava ligado por inte- 
resses mercantis com Tristão da Qmha, o grande capitão 
e navegador, que tanto renome alcançou na Europa, quando 
foi na solemne embaixada ao Papa Leão X, conforme se 
deprehende dos dois seguintes mandados: 

«Nós elRey mamdamos a vos noso almoxarife ou recebedor da casa 
do paço da madeira desta cidade c ao escpriuam dese ofício que do 
remdimemto. dele deste ano prese*te de b c iij dees e emtreguees a Tris- 
tam da Cunha, do noso conselho, e a Bertoíameu Marchione cyra- 
quoemta e huQ mil reaes que lhe mamdamos emtregar em parte dos dez 
contos que lhe apartamos per certas remdas nosas pêra pagamento das 
nosas moradias e compras, o qual dinheiro lhe asy emtregarees aos quar- 
tees do dito ano pagando o noso quartel prymeiro que nenhG outro, 
segundo forma de seu contrato. E per este com seu conhecimento ou 
de seu procurador que pêra receber o dito dinheiro ordenarem, mam- 
damos aos nosos contadores que vollo leuem em despesa. Feito em 
Lixboa a xbiij de março. — Francisco de Matos o fez — de b c iij.— 
Rey- :—•,. 

«Segue-se o recibo assignado por Bertoíameu Marchione e Tristam 
da Cunha» (2). 

«Nós elRey mamdamos a vos, recebedor da nosa sisa da marcaria 
desta cidade e ao spriuam dese ofício que do rendimento da dita casa 



(1) Warnhagem — Diário de Navegação, de Pêro Lopes de Sousa, 
4.* edição. Rio de Janeiro, 1867, pag. 97 e seguintes. 

(2) Torre do Tombo, Corpo Cnronologico, parte 2.*, maço 7, docu- 
mento 71. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 4$<) 

deste presente anno de b c tres dees a Tristam da Cunha, do noso con* 
selho e a Bertolameu Marchione oytocemtos setemta e quatro mill reaes 
que lhe mamdamos dar por outros tantos que nos dam pêra o paga- 
mento de nosas moradias per contrato que tem cõnosco feito, dos quaes 
lhe vos fazee boo pagamento polo dinheiro que vos nos caderno vai 
apartado pêra as ditas moradias, que he este mesmo, e per este e seu 
conhecimento vos serã leuados em despesa. Feito em Lixboa a xix dias 
de maio de b 6 e tres. — Rey- | • — . 

«Segue-se o recibo assignado por Tristam da Cunha e Bartoiameu 
Marchione» (i). 

Um 'dos negócios mais curiosos entabolados entre o pode- 
roso banqueiro e a corte portugueza é o que se refere a uma 
valiosa somma de dinheiro — 20:000 cruzados — que Fer- 
nando Annes, arcediago de Santarém, havia recebido por 
ordem do Cardeal de Portugal, nas rendas do arcebispado 
de Évora e da abadia de Alcobaça, para lh'os mandar a 
Roma por lettras de cambio. Fernando Annes para este 
effeito, depositara o dinheiro em casa de Bartholomeu Mar- 
chione, d'onde D. Manuel o levantou, por empréstimo, fa- 
zendo para isto um contracto, para o cumprimento do qual 
obrigava as rendas da alfandega de Lisboa. O diploma em 
que se narra este facto tem a data de 2 de março de 1498 
e é do teor seguinte : 

«Dom Manuell etc. A quantos esta nosa carta virem fazemos saber 
que a serviço de deus e nosso e bem da coroa de nossos regnos he 
necessário e compridoyro de nos servirmos de húua soma de dinheiro 
que ho cardeall de Portugall tem ao presemte em esta nosa cidade de 
Lixboa em poder de Fernamde Annes arcediago de Santarém que o dito 
Fernamde Annes tem recolhido de suas remdas do arcebispado e abadia 
dallcobaça sabemdo nos que ho dito cardeall mandava ao dito Fernamde 
Annes que lhe fezesse dos ditos dinheiros cambo pêra os aver em corte 
de Roma e com esta temçam e fundamento pêra os lia poder aver 
encomemdamos a Bertolameu Marchione frorentim estamte na dita ci- 
dade que lhe fezesse delles o dito cambo e recebesse llogo do dito Fer- 
namde Annes vimte mjll cruzados, s. dezoyto mjll de comtado e dous 
mjll em que nos éramos devedor ao dito cardeall per huu desembarguo 
de certo dinheiro seu que aquy recebemos emprestado os quaes xx cru- 
zados logo pella dita maneira o dito Bertolameu recebeodo dito Fer- 
namde Annes e lhe deu delles seu conhecimento de obrigaçam de os 
dar ao dito cardeall em corte de Roma atee fim do mes de dezembro 
do anno presente de mjll iiii c lRbiij com suas obrigaçóees e pennas 
segundo costume e letras ordenadas pêra seu cambo homde os o dito 
cardeall mande receber. E por quanto nos ouvemos e recebemos empres- 
tados llogo do dito Bertollameu os ditos x~x cruzados e lhe demos a elle 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologico, parte 2.% maço 7, docu- 
mento 72. 



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440 O INSTITUTO 

disso sua segurança e firmeza a nos praz que pêra segurança ysso mesmo 
do dito cardeall que acomtecendo quallquer caso que se posa dizer ou 
cuydar por onde o dito Bertolameu nom faça emtrega dos ditos « cru- 
zados ao dito cardeall ao termo limitado todos ou alguua parte nos per 
esta nosa carta de fiamça e obrigaçam prometemos per nosa fee reall 
de lhos dar e pagar demtro em estes regnos com todas custas e despesas 
e cambos e recãybos que se nello fezerem atee serem pagos. E pêra ello 
obrigamos as rendas da nosa alfamdega da dita cidade de Lixboa a quall 
será metida em poder do dito cardeall ou de seu certo recado des pri- 
meiro dia de janeiro que uem do anno de mjll iiij c IRix em diante pêra 
que receba todo o rendimento delia e que nos nem pesoa allguua per 
nosso mandado receba em ella húu soo reall atee que ho dito cardeall 
seja pago dos ditos ix cruzados com todas perdas e dampnos cambos e 
recaymbos que por ello ouver atee ser inteiramente pago, como dito he 
e em testemunho de verdade lhe mandamos dar esta nosa carta asynada 
per nos e asellada do nosso sello pendente. Dada em a dita cidade a 
dous dias do mes de março Joham da Fomseca a ffez anno de nosso 
Senhor Jhesu Christo de mjll iiij c lRbiij annos» (i). 

Na Emmenta da Casa da índia, recentemente publicada 
pelo sr. Anselmo Braamcamp Freire, ha as seguintes verbas, 
com relação a navios da casa Marchione: 

«Pedro Paulo Marchione, capitão de uma das naus da ar- 
mada que em 1 5 1 8 partiu para a índia (pag. 19); Em 1544 
partiu a nau Salvador de Pedro Paulo e Belchior Barreto (?) 
(pag. 46); No anno de 1 55 1 partiu para a índia uma armada, 
em que vae a nau Santa Cru\ capitão misser Paulo Mar- 
chione e a nau Jesus de Lucas Giraldes (pag. 56) ; No anno 
de i55g foi para a índia Belchior Marchione Arraes, filho de 
Pedro Paulo Marchione (pag. 69)». 

Bartholomeu Marchioni, a não ser que haja outro homonino, 
ainda era vivo em i532, pois neste anno D. João III lhe con- 
cedeu licença para andar em besta muar de sela, conforme 
se expressa na seguinte carta: 

«Dom Joam &. Fazemos saber a quamtos esta nosa carta virem que 
a nos praz darmos lugar e licemça a Bertolameu Marchione per que sem 
embarguo das nosas ordenacomês e defesas, e de nom ter caualo posa 
amdar em besta muar de seía e em faca. Porem o noteficamos. . . Dada 
em a nosa cfdade de Lixboa aos xbij de novembro. Symão de Matos o 
fez de mill b° xxxij anos» (2). 

Procuremos agora indagar algumas particularidades acerca 
da família -de Bartholomeu Marchione, que deixou descen- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 3i, fl. 5i. 

(2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, Doações, liv. i> 
fl. 84 verso. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 44 1 

dencia, cuja legitimidade todavia não poude averiguar, igno- 
rando o nome da consorte, se porventura foi casado. Nos 
chronistas da índia, quando se trata da partida das armada? 
para alli, fazem-se referencias, não muito claras, a filhos de 
Bartholomeu, Paulo e Belchior, nomes que por vezes se 
confundem num só. Nas notas tiradas do livro da Emmentc 
da Casa da índia, atras incluídas, além de se fallar em Pedrc 
Paulo Marchione, falla-se egualmente num Belchior Mar 
chione Arraes, filho de Pedro Paulo. 

No que não ha menor duvida é na existência d' uma filha 
de nome de Maria, filha de Catharina Dias, mulher soltein 
ao tempo do seu nascimento e legitimada por seu pae err 
1496. O mesmo se pôde affirmar de uma sua neta, chamadí 
Helena, filha de Francisco Corbinelli, seu genro. Outro genre 
era António Del Maestro. Consultem se estes dois nomes. 

Bartholomeu tinha um sobrinho, Benedetto Morelli (veja-s< 
o artigo que lhe diz respeito), que estava interessado enr 
sua casa. 

Os descendentes de Marchioni parece que se domiciliararr 
na índia e os que não fixaram alli residência, prestaram pele 
menos bons serviços. Citarei em primeiro logar Leonardc 
Marchione, filho de Belchior Marchione, fidalgo cavalleiro dí 
casa de el-rei D. João III, o qual se achara, no anno de i5Ô4 
na armada, que, sob o cominando de D. Fernando de Me 
nezes, filho do viso-rei D. AíTonso de Noronha, fora ao es 
treito de Baçorá, onde houve uma rija batalha com a armadí 
de quinze gallés, sob as ordens do capitão de Suez e d< 
Alexandria. A peleja, que se travou por duas vezes, foi muite 
encarniçada, gloriosa para as nossas armas, que tomaram seis 
gallés e trinta peças de artelharia, aprisionando grande nu 
mero de rumes, além de causarem sensíveis destroços n< 
inimigo. Leonardo bateu-se valentemente, pelo que foi armad< 
cavalleiro, confirmando-lhe D. Sebastião este titulo, em carti 
de 2 de novembro de i56o, a qual passo a transcrever, po 
nella se encontrar a narrativa de um brilhante feito da nossi 
epopeia naval. Antes porém de a reproduzir, seja-me licit< 
declarar que na Chancellaria de D. João III não encontre 
nenhum documento relativo a Belchior, o qual era já falle 
eido ao tempo em que seu filho alcançou as honras da ca 
vallaria. Eis a carta: 

Dom Sebastiam ctc. Faço saber aos que esta minha carta virem qu 
por parte de Leonardo Marchone filho de Bellchior Marchone defunt 
fvdallgo da casa deli Rey meu senhor e avo que samta gloria aja [m] 
% apresentado húu alluara de dom Fernando de Meneses que foi po 



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442 O INSTITUTO 

capitão mor da armada o,ue dom Afomso de Noronha seu pai meu muito 
amado sobrinho sendo Viso Rey nas partes da índia mandou aos estreytos 
de Meca e Baçorá feyto a vinte de setembro do anno de mill b e liiij no 
qual se continha que vindo ao estreyto cje Bacorá achara recado que 
era partido para Meca por mandado do Grão Turco o capitão de Suez 
e de Allexandria por capitão mor de quinze galles reais e saindo a bus- 
callas as encontrara no cabo de Mossatão onde pellejou cõ ellas as 
bombardadas por espaço de meio dia e que por acallmar o vento lhe fogi- 
rão a remo e as perdera de vista pollo que lhe fora tomar a dianteira e 
tornando em sua busca as encontrara mia legoa do Ilheo de Mazcate onde 
outrosy pellejara com ellas de pela manhãa ate tarde e as desbaratara 
com tomar seis das ditas galles e trimta peças dartelharia de metal e lhe 
matar e cativar todos os rumes que nellas vinhao e o dito capitão mor 
lhe fugira cõ as mais galles indo muyto destroçadas e com muita gente 
morta e que por o dito Leonardo Marchone se achar com elle dom Fer- 
nando em todo o sobredito e o fazer bem de sua pesoa o fizera caval- 
leiro segundo mais largamente era contheudo no dito alluara pedim- 
dome que lhe conformase e mandasse que lhe fosem guardados os pri- 
villegios e liberdades dos cavalleiros e visto seu requerimento e por 
fazer certo de seu serviço e da callidade de sua pesoa querendolhe fazer 
mercê ey por bem e me praz de lhe confirmar e per esta lhe ey por 
confirmado o dyto alluara e que goze e use daqui em diante de todos 
os privilégios lyberdades graças e franquezas de que gozao e de direito 
devem de gozar e usar os cavalleiros per mym confirmados e elle será 
obrigado a ter armas e cavallo segundo forma de minha ordenaçam e 
mando a todas as justiças officiaes e pessoas a que esta carta for mos- 
trada e o conhecimento delia pertencer que lha cumprao guardem e 
facão inteiramente comprir e guardar como se nela contem. André Sar- 
dinha o fez em Lixboa a dous dias de novembro anno do nacimento de 
noso Senhor Jhesu Christo de J b c lx. Balltesar da Costa a fez es- 
crever» (i). 

Um Luiz Marchone tinha em Goa, em i5<)o, o officio de 
thesoureiro do fisco da cidade, cargo que exercia ha 20 annos. 
Em attenção a esta circumstancia e em recompensa dos seus 
serviços, D. Filippe I, em carta de 3 de março de 1590, 
ordenou que o íínesmo officio passasse para seu filho, Bar- 
tholomeu Marchone, depois do fallecimento de seu pae. 
Creio que ainda se refere ao mesmo outra carta de ióoi, 
pela qual aquelle monarcha nomeia a Luiz Marchone, chris- 
tão da terra, casado, morador em JGôa, para o logar de lín- 
gua e contador da alfandega de Diu, por espaço de seis 
annos, isto em attenção aos serviços que elle prestara aos 
padres da Companhia na propaganda da fé. 

Em 1604 havia em Goa um christão da terra, chamado 
Valentim Marchone, o qual ajudara muito os mesmos religio- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Sebastião, Privilégios, 
liv. 2, fl. 293. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 443 

sos na conversão do gentio. Por este motivo, D. Filippe II, 
em carta de 22 de fevereiro de 1604, o nomeou lingua d'aquella 
cidade por espaço de três annos. 

Provavelmente o Bartholomeu Marchone, atras referido, 
nomeado para succeder a seu pae no cargo de thesoureiro 
do fisco de Goa. era o mesmo gancar que em 1 D77 interveio 
num caso prodigioso com respeito á invocação que se havia 
de dar á ermida, da quinta do recreio, que os estudantes 
do collegio de S. Paulo, tinham na ilha de Goa. Eis como 
o Oriente Conquistado transmittiu á posteridade o facto mira- 
culoso: 

«Na Ilha de Goa no anno de mil quinhentos setenta & sete 
nos comprarão huns devotos o sitio em que se fez a quinta 
de Santa Anna, aonde todas as somanas se vão recrear os 
estudantes do collegio de S. Paulo. O Padre que aqui resi- 
dia, tratava da conversão dos gentios da Aldeã de Moula, & 
Taloulim: & depois de haver conduzido ao Bautismo hu bõ 
numero de gentios de ambas as aldeãs, se dispoz a fabri- 
caHhe hua Ermida, & duvidandose do Santo, 3 quem se 
havia de consagrar, attirmou hum gancar por nome Bartho- 
lomeu Marchona, que elle vira decer do monte á Igreja, que 
então se começava, hua Matrona velha com canna na mão 
& chapeo na cabeça, a qual dissera que aquella casa era 
sua, & queria morar nella. Duvidou o Padre do nome desta 
Matrona, & divulgandose o caso pela aldeia, foy ter com 
elle hua Bramana velha convertida de pouco, & lhe referio que 
estando ella gravemente enferma, lhe apparecera em sonhos 
a mesma Matrona, & lhe pogara por hua mão, & a mandara 
levantar, dizendolhe que o seu nome era Anna, & que dese- 
java ter hua casa naquella Aldeã» (1). 

Da estirpe dos Marchiones encontra-se ainda nas partes 
da índia uma senhora de nome Maria Marchoni, á qual era 
concedido um importante subsidio na sua qualidade de re- 
gente do collegio das Orphãs de Goa (2). 

Eis os documentos relativos a Luiz Marchone e Valentim 
Marchone : 



«Eu el Rey faço saber aos que este alluara vyrem que hauendo res- 
peito aos seruicos de Luis Marchone thesoureiro do fisquo da cidade de 



(1) P. e Francisco de Sousa, Oriente Conquistado a Jesus Christo, II 
(1710), pag. 108. 

(2) Documentos remettidos da índia, vol. II, pag. 426. 



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444 ô INSTITUTO 

Goa e auer xx annos que serue o dito oficio com muita satisfação e por 
lhe fazer mercê ey por bem e me praz que per seu fallecimento fique 
o dito oficio ha Bertolameu Marchone seu filho pêra que syrua asy e da 
maneyra que o ora serue o dito Luis Marchone he pêra minha lembrança 
e sua guarda lhe mandey dar este alluara que se Ine cumpriraa inteyrá- 
mente como se nelle conthem. João da Costa o fez em Lixboa a três 
de março de ~j b c IR e por que do theor deste lhe mandey dar outro 
pêra irem por duas vyas de que esta he a primeyra e tanto que hú ouuer 
efeito o outro se rompera» (1). 

«Dom Felipe etc. Faço saber aos que esta carta virem que auendo 
respeito a Luís Maxione cristão da terra casado morador em Goa ajudar 
aos religiosos da companhia da índia na conuersam da cristandade 
daquellas partes ey por bem e me praz de lhe fazer mercê do cargo de 
limgoar e comtador dallfandegua de Dyo por tempo de seis annos na 
vagante dos próuidos antes de oito de feuereiro deste anno presente 
de seis centos e hú em que lhe fiz esta mercê o qual cargo seruira pelo 
dito tempo de seis annos como dito he sem embargo do regimento que 
ha na índia que diz que os officios e cargos das ditas partes se não 
possao seruirpor mais tempo que três annos e posto que tenha ja ser- 
uido de porteiro e lingoa dallfandegua de Goa com o qual cargo não 
auera ordenado algum a custa de minha fazenda somente os proes e 
percalços que lhe dereitamente pertencerem pelo que mando ao meu 
viso rei ou gouernador das ditas partes da índia que ora he e ao diante 
for e ao vedor de minha fazenda em ellas que tanto que pela dita ma- 
neira o dito Luis Maxione couber entrar no tal cargo lhe dem a posse 
delle e lhe deixem seruir pelo dito tempo de seis annos e auer com elle 
os proes e precaiços que lhe pertencerem como dito he sem lhe a isso 
ser posta duuida nem embargo algum e o vedor de minha fazenda das 
ditas partes lhe dará juramento dos santos euangelhos que bem e ver- 
dadeiramente o serua guardando em tudo meu seruiço e as partes seu 
dereito de que se fará asento nas costas desta carta que será registada 
nos liuros da casa da índia da feitura delia a quatro meses e este se lhe 
passara por duas vias, comprida hua a t outra não auera effeito. Belchior 
Pinto a tez em Lixboa a oito de nouembro anno de mill e seis centos 
e hú\ Janaluez Soarez a fez escreuer» (2). 

«Dom Felipe etc. Faço saber aos que esta carta virem que auendo 
respeito a informações que tiue de Valentim Marchone christao da terra 
morador na cidade de Goa ajudar aos religiosos da companhia de Jhesus 
das ditas partes na conuersão do gentio a nossa santa fe ey por bem e 
me praz de lhe fazer mercê do cargo de lingoa dante o capitão da dita 
cidade de Goa por tempo de três annos na vagante dos próuidos antes de 
dous de janeiro do anno passado de seis centos e três em que lhe fiz 
esta mercê cõ o qual cargo não auera ordenado alguu a custa de minha 
fazenda e somente os próis e precaiços que lhe direitamente pertence- 
rem pello que mando ao meu viso rei ou gouernador das partes da índia 
que ora he e ao diante for e ao vedor de minha fazenda em ellas que 
tanto que pella dita maneira ao dito Valentim Marchone couber entrar 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe I, liv. 19, fl. 320. 
{2) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, liv. i, fl. 63 verso. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZ 

no tal cargo lhe dem a posse delle e lho deixem seruir e 2 
e precalços que lhe pertencerem como dito he e o vedor 
zenda das ditas partes lhe dará o juramento dos sanctos eu 
bem e verdadeiramente o sirua guardando em tudo a mym 
e as partes seu dereito de que se fará assento nas costas àt 
será registada nos liuros da casa da índia da feitura delia a 
a qual se lhe paçou por duas vias cumprida húa a outra não 
Luís Figueira a fez em Lixboa a xxij de feuereiro anno c 
de nosso Senhor Jhesu Christo de mil bj e e quatro. Janal 
fez escreuer» (1). 

("Continua). Sousa 



(i) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Filippe II, liv. 



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44^ O INSTITUTO 



EINE MUSTERLEKTION 



Nach den gesetzlichen Verordnungen war ich gezwungen, 
Deutschland zu verlassen imd mich nach einem anderen 
Lande, wo die deutsche Sprache ais eine fremde unterrichtet 
wird, zu begeben. 

Es fiel mir sofort die franzõsische Schweiz ein, indem ich 
der richtig ausgedrUckten Worte des Herrn Jullien von 
Paris: «Aux autres nations offrant un grand exemple De 
Téducation 1'Helvétie est le templc» gedachte. 

Das hõhere Schweizer— Unterrichtswesen weicht nicht viel 
von dem in den anderen curopãischen Staaten ab; man ist 
nuch dort derselben Meinung dass es vorzuziehen ist, auf 
das Veranlagen der Schuler RUcksicht zu nehmen, ais die 
Zeit mit leeren Erõrterungen íiber den grõsseren oder min- 
deren Wert des sogenannten «Realismus» im Gegensatz zu 
dem «Humanismus» zu vertreiben. Nach dem Gesetz vom 
,gten Februar 1892 werden im Waatland ais hõhere Schulen 
die folgenden betrachtet: écoles supérieures des jeunes filies, 
école cantonale d'agriculture, école industrielle et i' école de 
commerce, collège cantonal classique, gymnase classique, 
gymnase scientifique et Técole normale. 

Von diesen, die ich zuerst besuchte, war Collège cantonal 
classique, in welche Knaben von 10 bis 16 Jahren aufgenom- 
men werden und ais Vorbereitungsschule ftir die «Gymnase 
classique» deren Unterrichtszeit zwei Jahre dauert, drent. 

Nach Beendigung der letzteren kann der Schúler in die 
Fakultãten der Universitát eintreten und ebenso wie die 
Schtiler der a Gymnase scientifique» in die technische Hoch- 
schule unter der Bedingung dass er anstatt des Griechi- 
schen, Zeichnen und Mathematik betreibt. 

Die EindrUcke meines ersten Besuches waren sehr gunstig 
und ich finde kaum passende Worte, durch welche ich meine 
Bewunderung fur das Talent des Herrn D r Schacht, eines 
durchaus tUchtigen Lehrers der deutschen Sprache in dem 
Cantonal Gymnasium niederschreiben kõnnte. Er bedient 
sich in seinem Unterricht der direkten Methode. Was fur 
eine andere kõnnte auch der bekannte Philolog befolgen wel- 



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EINE MUSTERLEKTION 447 

cher die praktischen und wissenschaftlichen Kenntnisse der 
neueren Sprachen mit den alten, unter denen Sanskrit her- 
vorzuheben ist, verbindet? In allen Staaten, in denen das 
Studium der modernen Sprachen ais ein pãdagogisches, 
moralisches sozial-õkonomisches Bedíirfniss angesenen wird, 
kann die Richtung keine andere sein. Ich finde es uberflíissig 
in diesem kurzen Artikel in náhere unnutze und unnõtige 
Auseinandersetzungen iiber die Methode einzutreten, da ich 
dieselbe in meinem Buch a Die modernen Richtungen im 
deutschen neusprachlichen Unterricht» geschildert habe. In 
allen Klassen hat mir besonders der Fleiss und die Begeiste- 
rung der Schiiler, die vielfachen Uebungen in der Aussprache 
und die Erklârungen des unbekannten Wortschatzes durch 
konkrete Beispiele gefallen. Eine nãhere Erwâhnung ver- 
dient die vierte klasse. Das erste Wort, welches in der Klasse 
erklãrt wurde, war «nachgeben». Damit die Schiiler einen 
genauen Begriff von dem Worte haben sollten, hat D r Schacht 
die folgenden mit den betreffenden Handlungen begleiteten 
Beispiele, angeftíhrt: Wenn ich mich setze, gibt der Stuhl 
nicht nach ; wenn ich dich ziehe, musst du nachgeben, weil 
du schwácher bist. Du bittest mich auszutreten, ich erlaube 
es dir nicht, du bittest mich noch einmal und noch einlnal, 
endlich gebe ich nach. Es wurde auch das Sprichwort: «Der 
kliigere gibt immer nach» erwâhnt. Auf diese Weise haben 
alie Schiiler verstanden, was nachgeben bedeutet. Dieses 
ist das Unterrichtsverfahren, welches Herr Max Walter in 
der Musterschule zu Frankfurt */m anwendet und empfiehlt. 
D r Schacht behandelt die Schuíer unbezwungen, nicht nur 
durch Gemutsstimmung, sondem dadurch dass er meint, die 
Anregung der Klasse und das durch Handbewegungen auf 
die Schiiler erweckte Interesse sei das rechte Mittel der di- 
rekten Methode. Der Vorzug eines solchen Unterrichts ist 
nicht zu verneinen: i) die Verbindung der Handlung mit 
dem Worte erleichtert das Behalten des Wortes, 2) belebt 
die Klasse, was von einer grossen Wichtigkeit fur die guten 
Erfolge der Schularbeiten ist. Vor aliem muss man den Schú- 
lern immer eine lebhafte Tatsache vor den Augen schildern 
und nur, wenn diese nicht zusagt, eines Bildes sich bedienen. 
Ebenso hat Comenius im XVII Iahrhundert die Anschauung 
und die Uebung ais die grõsste Notwendigkeit in jeder 
Wissenschaft und Kunst angesehen. Mit seinen Werken: 
«Orbis pictus» und «Schola ludus» (1679) fing die Reform im 
neusprachlichen Unterricht an, welche sich jetzt nach allen 
Richtungen verbreitet hat. Ais Beweis vom oben erwãhnten 



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448 O INSTITUTO 

und zu eleicher Zeit von den im schweizer neusprachlichen 
Unterricht gemachten Fortschritten, fíihre ich vom gesamten 
Bericht úber die Schweizer National-Ausstellung in Genf 
1896 den folgenden Abschnitt an: Herr Centurier, Lehrer 
der deutschen Sprache an der Ecole industrielle zu Lausanne 
hat ein Kàstchen mit Aussichten die sich auf die Lesestúcke 
aus Reitzels Lesebuch bezogen und fúr ein Projektionsapparat 
bestimmt waren, ausgestellt. Der pãdagogische Vorteil dieses 
Verfahrens liegt darin dass der Schúler, indem er eine auf 
der Tafel projektierte Abbildung sieht, úber welche die Un- 
terhaltung sich handelt, ein regeres Interesse zeigt und folglich 
sich weniger ermúdet. 

In den Schweizer ebenso wie in den deutschen Schulen 
verwendet man die Hõlzeschen Bilder, um die notwendigsten 
Umgangswõrter zu lernen ; vom Anfang an bildet das Lese- 
bucn den Mittelpunkt des ganzen Unternchts. Es fãngt deswe- 
gen mit den leichtesten Ausdrúcken an, die grammatischen 
Schwierigkeiten steigen sich nach und nach. Dasselbe Buch 
wird ais Lesebuch und Grammatik benutzt. Erwãhnenswerte 
Búcher fúr diese Methode sind Algés «Deutsche Leitfaden» 
(i ter Teil und 2 ter Teil) und Schachts «Deutsche Stunden». 

Auf das Vorhergehende zurúckkommend, habe ich bemerkt 
dasswãhrendmeinerAnwesenheitvieleKonversationsúbupgen 
in den Klassen gemacht wurden. Unter anderen habe ich 
die folgenden notiert : Welcher Schúler arbeitet ? Der fleissige 
Schúler arbeitet, er ist also ein guter Schúler-Was ist das 
Gegenteil von Heissig? Das Gegenteil ist faul — Hõrt der 
faufe Schúler auf das, was der Lehrer sagt ? Er hõrt nicht, 
er ist unaufmerksam — Welcher Schúler ist hõHich ? Derjenige 
ist hõflich, welcher seinen Lehrer grússt. Ich sehe die hõni- 
chen und aufmerksamen Schúler gern; alie diese sind mir 
lieb. Der hõHiche $chúler ist auch freundlich, gut und brav. 
Wenn du deine Aufgabe nicht vorbereitet hast, wie bin ich 
dann? Sie sind uimifrieden und bõse mit mir — Darauf fragt 
der Lehrer auf sich weisend, wie bin ich ? Die Schúler antwor- 
teten : Sie sind gross, stark und alt. Und wie bist du ? fãhrt 
Herr D r Schacht fort, sich zum Schúler wendend — Ich bin 
klein, schwach und jung. Was tut dein Vater, wenn er mit 
dir unzufrieden ist ? Er schimpft mich und oft schlãgt er 
mich. Schlãgt der Lehrer auch? Nein, er schlàgt íiicht. Was 
tut er denn ? Er tadelt den Schúler, gibt eine schfechte Zensur 
oder schickt ihn sogar zum Direktor, der ihn mit Arrest 
bestraft. Was tut der Lehrer, wenn er mit dem Schúler 
zufrieden ist? Er lobt ihn. Wie sind deine Haare? Sie sind 



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ÊÍNE MlJSTERLEfcTlOtf 449 

dunkel. Und die deines Kameraden? Sie sind blond. Sind 
deine Hãnde schmutzig ? Nein, sie sind rein. Zeige sie mir. 
Was fíir Wetter haben wir heute? Wir haben schõnes, 
helles, warmes Wetter. Ist der Ofen heiss} Der Schuler, 
indem er den Ofen beruhrt, antwortet: Nein, der Ofen ist 
nicht heiss, er ist kalt. Wann wird der Ofen geheizt? Man 
heizt den Ofen ira Winter, wenn es friert. Ist dieser Stuhl 
hart? (Der Lehrer fúhlt den gepolsterten x Stuhl). Nein, er ist 
weich, aber meine Bank ist hart. Alie haben gelacht, ein- 
schliesslich Herr D r Schacht, und meine Wenigkeit auch. Wie 
sind die Wãnde ? Sie sind angestrichen, sie sind nicht tape- 
ziert. Der Lehrer nimmt die Kreide und lãsst einen Schíiler 
die Eigenschaften der Kreide beschreiben. Dieser antwortet: 
sie ist weiss, díinn, kurz und hart. Darauf liess D r Schacht 
einen anderen Schuler die Kreide mit einem Federmesser 
schneiden. Da er sie nicht schneiden konnte, fragte der 
Lehrer: Ist das Messer nicht scharf? Nein, es ist stumpf. 
Indem der Schuler die Kreide mit den Zãhnen abbrach, stellte 
D* Schacht die Frage : Was hast du getan ? Ich habe sie 
mit den Zãhnen zerbrochen, antwortete der lebhafte Knabe. 
Die Uebersetzune in den obersten Klassen war nicht ganz 
vollstãndig ausgeschlossen, es wurde aber frei íibersetzt und 
nicht wõrtlich. Der Wortschatz, den die Schíiler besassen, 
wurde aus den zusammenhãngenden Sátzen gesammelt. Wer 
kõnnte den Vorteil eines solchen Unterrichts lãuenen, der 
die Sprach-und Gehõrorgane entwickelt und vervollkommnet 
und die Schúchternheit íiberwindet ? Ich denke, Man betra- 
chtet nur in Deutschland das Hospietieren, d. h. das Besu- 
chen der Schulen und des Schulunterrichts, wâhrend erfahrene 
und zuverlâssige Lehrer unterrichten, durch die Kandidaten 
des hõheren Lehramtes ais eine von den wichtigsten Bege- 
benheiten ihres Studiums. Demselben Prinzip gehorchend, 

flaube ich dass es noch viel besser ist, sich eine Idee vom 
fnterricht durch die direkte Anschauung zu machen, ais 
durch das Lesen pâdagogischer Schriften und Programme 
die oft nur auf dem Papier gut sind. Wie ich persõnlich die 
guten Erfolge der direkten Methode beobachtet habe, halte 
ich sie for die einzig praktische und erfolgreiche. Indem ich 
Herrn D r Schacht meinen aufrichtigsten Dank fúr seine 
freundliche Zuvorkommenheit ausspreche, bitte ich ihn, auf 
diesem Wege meine Huldigung anzunehmen. 

Gustavo Cordeiro Ramos, 
Kandidat des portugiesischen hOheren Lehramti. 
VOL. 55.°, N.° 9 — SETEMBRO DE 1908. 3 



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450 O INSTITUTO 



CAMÕES E A INFANTA O. MARIA 

(Cont. do n.° 8, pag. 402) 

II 

No Ribatejo 

Ao ver-se obrigado a sair de Lisboa, Camões nota, não 
sem estranheza, que o duro desfavor, que o condena a apar- 
tar-se da sua tão querida, lhe tem os sentidos por tal forma 
embotados, que a dor da ausência é mais pequena do que 
devia ser. Vai, porém, reagir: essa dor ha de soffrê-la bem 
intensamente. Como é possível, com effeito, que o não faça 
morrer o ter de afastar-se d'aquillo que mais quer? Mas ainda 
mais do que a morte lhe custaria não lhe ser bem doloroso 
o inevitável apartamento. 

Quando vejo que meu destino ordena 

Que, por me exprimentar, de vós me aparte, 
Deixando de meu bem tão grande parte, 
Que a mesma culpa fica grave pena (1), 

O duro desfavor que me condena, 

Quando por a memoria se reparte (2), 

Endurece os sentidos de tal arte, 

Que a dor da ausência fica mais pequena. 



(1) Presumo que o poeta escreveu : 

Deixando de meu ser tão grande parte, 
Que á culpa não fica grave pena. 

Emquanto ao sentido do primeiro verso, veja-se, por exemplo, a can- 
So 11, v. ioi-io3, e a 2.* glosa ao mote Sem vós e com meu cuidado. 
J se o poeta leva comsigo apenas uma pequena parte do seu ser T a peoi 
do desterro, imposta á sua culpa, não fica sendo grave pena, pois a ellt 
escapa a grande parte que fica. Não quer, porém, isto dizer que nfio seji 
bem grande a dor da parte que se ausenta. 

(2) Quando se me apodera de v todas as potencias da alma. Está 1 
parte pelo todo. 



t 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARÍA $ í 

Mas como pôde ser que na mudança 

Daquillo que mais quero, este tão fora 

De me não apartar também da vida ? 
Eu refrearei tão áspera esquivança, 

Porque mais sentirei partir, senhora, 

Sem sentir muito a pena da partida. 

(Soneto 55). 

Ainda outro soneto, escripto também pelo apaix 
na occasião da ida para o exilio (i): 

Se alguma hora em vós a piedade 

De tão longo tormento se sentira, 

Não consentira Amor que me partira 

De vossos olhos, minha Saudade 1 
Aparto-me de vós, mas a vontade, 

Que na alma pelo natural vos tira, 

Me faz crer que esta ausência que é menti 

Mas inda mal, porém, porque é verdade. 
Ir-me-ei, senhora, e neste apartamento 

Tomarão tristes lagrimas vingança 

Nos olhos de quem fostes mantimento. 
Assim darei a vida (2) a meu tormento, 

Que emfim cá me achará minha lembranç 

Já sepultado em vosso esquecimento. 

O estado d'alma do poeta, -durante os prime 
do exilio, acha-se reproduzido na egloga 2.*. 

Saudades da infanta, queixumes contra a cru 
havia mostrado, desesperança, tristeza, prof 
mento, mas, ao mesmo tempo, o propósito de 



(1) Reproduzo este soneto tal como se encontra no 1 
Luis Franco Corrêa, fl. 129, v., mudando apenas, no pe 
achara em achará, e modificando, em parte, a orthograpl 
ção das Rythmas (ify5) encontram-se algumas variantes c 
verso 5.°, Apartei-me; v. 7, esta ausência é de mentira; v. 1 
vida; v. 14, sepultado no. Em Faria e Sousa as variantes 
numerosas. Verso i.°: Se somente hora alguma em vós 
Amor soffrera mal que eu.. . V. 5 : Apartei-me. V. 6 : Qia 
na alma ... V. 7 : esta ausência é de mentira. V. 8 : Porén 
v ar que é de verdade. V. 12: Desta arte darei vida. V. 
no. Faria c Sousa remodelou o soneto ou rcproJuziu va 
encontrou ? 

{2) Darei a vida, isto é, entregarei, sacrificarei a vida 
farei viver? No primeiro caso occorre ler acharão (v. i3) 
(v. 14). 



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4^2 O INSTITUTO 

por cousa nenhuma, o seu cuidado tão ditoso — eis os tópicos 
do bello poemeto (i). 

Figurando-se á beira do Tejo, num valle triste, em noite 
escura, Camões (Almeno) lastima assim a sua sorte: 

Corre, suave e brando, 

Com tuas claras aguas, 
Saídas de meus olhos, doce Tejo, 

Fé de meus males dando, 

Para que minhas maguas 
Sejam castiço igual de meu desejo, 

Que pois em mim não vejo 

Remédio nem o espero, 

E a morte se despreza 
De me matar, deixando-me á crueza 
Daquella por quem meu tormento quero. 

E insistindo na idéa expressa nestas ultimas palavras, diz 
pouco depois: 

Não cesse meu tormento 

De fazer seu officio, 
Pois aqui tem uma alma ao jugo atada ; 

Nem falte o soffrimento, 

Porque parece vicio 
Para tão doce mal faltar-me nada. 

Não pôde, porém, deixar de extranhar que a sua bem- 
amada procedesse com tanta crueza: 

Oh nympha delicada, 

Honra da natureza ! 

Como pôde isto ser, 
Que de tão peregrino parecer 
Pudesse proceder tanta crueza ? 



\ (1) Baseado nos versos 7-10: 

No derradeiro fio 
O tinha a esperança, 
Que com doces enganos 
Lhe sustentara a vida tantos annos, 

observa Faria e Sousa : «Escribió el Poeta esta Egloga en mayor edad ; 
ni pudo ser menos, porque ella no es de quilates hallados en verdores». 
(Rimas varias de Lui{ de Camões, iv, 2.* parte, 202). Qualquer, porém, 
aue seja a explicação que deva dar- se ao tantos annos, não pôde haver 
ouvida que a écloga foi escrípta no Ribatejo, quando o poeta foi obri- 
gado a sair de Lisboa para alli, por causa da infanta. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA aW 

Como é aue de uma causa divinal pôde provir um 
contrario? Como se explica tanta pena, motivada 
causa ? 

Não vem de nenhum geito 
De causa divinal contrario effeito. 
Pois como pena tanta 
£ contra a causa delia ? 

Ha aqui alguma cousa que se não pôde explicar p< 
da natureza: 

Fora do natural é minha tristeza. 

Não é, porém, só nisto que com a infanta são contr 
essas leis: 

Mas a mi que me espanta ? 

Não basta, ó nympha bella, 
Que podes perverter a natureza ( i ) ? s. 

Não é a gentileza 

De teu gesto celeste 

Fora do natural ? 
Não pôde a natureza fazer tal. 
Tu mesma, ó bella nympha, te fizeste. 

Mas, por mais gue o poeta busque desculpas, pois 
suave Amor lhe nao soffre 

Culpa na cousa amada e tão amada, 
(Canção u). 



( i ) Vid., por exemplo, as três canções Manda-me Amor qt 
Referindo-se ao deslumbramento que lhe causou a apparição da 
quando lhe foi apresentado, diz o poeta na terceira das referidas c 

Os passarinhos com a luz presente 
Pasmados, uns aos outros se diziam : 
— Que luz é esta ? que nova claridade ? 
As fontes, inflammadas de beldade, 
Detinham a sua agua, doce e pura. 

Florecia a verdura 
Que,andando, cos divinos pés pisava. 

Todo o ramo abaixar-se 
Senti no bosque, e mais verde tornar-se. 

Amansavam-se os ventos 
Ao som dos suaves seus accentos. 



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454 O INSTITUTO 

surge no seu espirito a inevitável pergunta : 

Porém, porque tomaste 
Tão dura condição, se te fizeste ? 

E o magoado poeta prosegue : 

Por ti o alegre prado 

Me é penoso e duro ; 
Abrolhos me parecem suas flores. 

Por ti do manso gado, 

Como de mi, não curo, 
Por não fazer offensa a teus amores. 

Os jogos dos pastores, 

As lutas entre a rama, 

Nada me faz contente ; 
E sou já do que fui tão differente, 
Que, quando por meu nome alguém me chama, 

Pasmo, porque conheço 
Qu& inda comigo próprio me pareço. 

Ainda se ao menos a sua tão querida lhe ouvisse os quei- 



xumes 



Se aí no mundo houvesse 

Ouvires-me algum'hora ; 
Assentados na praia deste no, 

E d'arte te dissesse 

O mal que passo agora, 
Que pudesse mover-te o peito frio . . . 

Porém o pobre poeta reconhece logo que é impossível a 
realização deste desejo, que não passa d'um desvario: 

Oh quanto desvario, 
Que estou imaginando ! 

Mas se não ha outro remédio para o seu tormento, senão 
entreter assim a phantasia ... 

Já agora meu tormento 
Não pôde pedir mais ao pensamento 
Que este phantaziar, donde, penando, 

A vida me reserva. 
Querer mais de meu mal será soberba. 

Entretanto vinha rompendo o dia e o triste Almeno, vendo 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 4DD 

apparecer Agrário, outro pastor, resolve pôr termos aos seus 
queixumes : 

Calar-me-ei somente, 
Que o meu mal nem ouvir se me conse 

Como o monologo em que Agrário vinha 
prolongando, o enamorado Almeno voltou i 
que agora reveste a forma d'uma hallucinaç 

Oh doce pensamento ! oh doce gloria 1 

São estes por ventura os olhos bei 

Que têm ae meus sentidos a victor 
São estas, nympha, as tranças dos cabe 

Que fazem de seu preço o ouro a 

Como a mi de mi mesmo, só com 
£ esta a alva coluna, o lindo esteio, 

Sustentador das obras mais que hu 

Que eu nestes braços tenho e não 

Mas a visão da bem-amada desappareceu 

Ah falso pensamento, que me enganas 

Fazes-me pôr a boca onde não dev 

Com palavras de doudo, ou quasi i 
Como a aíçar-te tão alto assi me atrev< 

Tais asas dou-t'as eu, ou tu mas d 

Levas-me tu a mi, ou eu te levo ? 
Não poderei eu ir onde tu vás ? 

Porém, pois ir não posso onde tu f 

Quando fores, não tornes onde est 

Entretanto Agrário, que tem ouvido os de 
Almeno, vai-se approximando e fazendo, a< 
varias considerações a propósito do triste s/< 
que a este aconteceu. Trava-se por fim o di 



Agrário 

Quero fallar com este, que enredado 
Nesta cegueira está, sem nenhum te 
Acorda já, pastor desacordado. 

Almeno 



Oh ! porque me tiraste um pensamento, 
Que agora estava aos olhos debuxar 
De quem aos meus foi doce mantim 



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Ò INSTITUTO 



Agrário 



Nesta imaginação estás gastando 

O tempo e a vida, Almeno ? Perda grande 1 
Não ves quão mal os dias vás passando ? 



Almeno 



Formosos olhos, ande a gente e ande, 

Que nunca vos ireis desta alma minha, 

Por mais que o tempo corra, a morte o mande. 



Agrário 

Quem poderá cuidar que tão asinha 

Se perca o curso assi do siso humano, 
Que corre por direita e justa linha ? 

Que sejas tão perdido por teu dano, 

Élmeno meu, não é por certo aviso ; 
só doudice grande, grande engano. 



Almeno 

O Agrário meu, que, vendo o doce riso 
E o rosto tão formoso, como esquivo, 
O menos que perdi foi todo o siso ! 

A sombra deste umbroso e verde louro 

Passo a vida, ora em lagrimas cansadas, 
Ora em louvores dos caDellos d* ouro. 

Se perguntares porque são choradas, 
Ou porque tanta pena me consume, 
Revolvendo memorias magoadas : 

Desque perdi da vida o claro lume, 
E perdi a esperança e causa delia, 
Não choro por razão, mas por costume. 

I Almeno conta como vivia liwe e bem isento, rindo-sc 
; paixões que inspirava, até que por fim o Amor o castigou: 

Pouco a pouco me foi de mi levando, 
Dissimuladamente, ás mãos de quem 
Toda esta injuria agora está vingando. 

Lgrario, considerando o lastimoso estado em que se en- 



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CAMÕES E A INFANTA D. MApIA 



45 7 . 



contra Almeno, procura induzi-lo a que ponha um freto a 
mal tão forte: 

Vejo-te estar gastando em viva fragoa 

E juntamente em lagrimas, vencendo 

A grã Sicília em fogo, o Nilo em agua. 
Vejo que as tuas cabras, não querendo 

Gostar as verdes hervas, se emagrecem 

As tetas aos cabritos encolhendo. 
Os campos, que co tempo reverdecem, 

Os olhos alegrando descontentes, 

Em te vendo, parece se entristecem. 
De todos teus amigos e parentes, 

Que lá da serra vêm por consolar-te, 

Sentindo na alma a pena que tu sentes, 
Se querem de teus males apartar-te, 

- Deixando a choça e gado, vás fugindo, 

Como cervo fendo, a outra parte. 
Não vês que Amor, as vidas consumindo, 

Vive só de vontades enlevadas 

No falso parecer d'um gesto lindo ? 
Nem as hervas das aguas desejadas 

Se fartam, nem de flores as abelhas, 

Nem este Amor de lagrimas cansadas. 
Quantas vezes, perdido entre as ovelhas, 

Chorou Phebo de Daphne as esquivanç 

Regando as flores brancas e vermelhas 
Quantas vezes as ásperas mudanças 

O namorado Gallo (1) tem cnorado, 

De quem o tinha envolto em esperança 



Ora se tu vês claro, amigo Almeno, 

Que de Amor os desastres são de sorte 
Que, jpara matar, basta o mais pequeno 

Porque nao pões um freio a mal tão forte, 
Que em estado te põe cjue. sendo vivo, 
Já não se intende em ti viaa nem mort 

A tudo isto, porém, responde 

Almeno : 

Agrário, se do gesto fugitivo, 

Por caso de fortuna desastrado, 
Algum'hora deixar de ser captivo, 



(1) Francisco de Moraes, o auctor do notável romai 
Palmeirim de Inglaterra, que o immortal Cervantes 
Veja-se no fim do tom. 3.° das Obras de Francisco de 
18Í2) a Desculpa de uns amores que tinha em Paris com 
ce%a da rainha dona Leonor, por nome Torsi, sendo por\ 
fe\ a historia das damas francesas no seu Palmeirim. 



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4^8 O INSTITUTO 

Ou sendo para as Ursas degradado, 

Adonae Boreas tem o oceano 

Cos frios hyperboreos congelado ; 
Ou donde o filho de Climene insano, 

Mudando a cor das gentes totalmente, 

As terras apartou do trato humano ; 
Ou se já, por qualquer outro açcidente, 

Deixar este cuidado tão ditoso, 

Por quem sou de ser triste tão contente : 
Este rio, que passa deleitoso, 

Tornando para trás, irá negando 

A natureza o curso pressuroso ; 
As cabras por o mar irão buscando 

Seu pasto, e andar-se-ão por a espessura 

Das hervas os delphins apascentando. 
Ora se tu vês na alma quão segura 

Deste amor tenho a fé, para que insistes 

Nesse conselho e pratica tão dura ? 
Se de tua porfia não desistes, 

Vai repastar teu gado a outra parte, 

Que é dura a companhia para os tristes. 
Uma só cousa quero encomendar-te, 

Para repouso algum de meu engano, 

Antes que o tempo emfim de mi te aparte : 
Que se esta fera, que anda em traje humano, 

Por a montanha vires ir vagando, 

De meu despojo rica e de meu dano, 
Com os vivos espritos inflammando 

O ar, o monte e a serra, que comsigo 

Continuamente leva namorando, 
Se queres contentar-me como amigo, 

Passando lhe dirás : Gentil pastora, 

Não ha no mundo vicio sem castigo. 
Tornada em puro mármore não fora 

A fera Anaxarete, se amoroso 

Mostrara o rosto angélico algum*hora (i). 
Foi bem justo o castigo rigoroso, ' , 

Porém quem te ama, nympha, não queria 

Nódoa tão feia em gesto tão formoso. 

E Agrário, despedindo-se, promette cumprir os desejos do 
seu apaixonado amigo: 

Tudo farei, Almeno, e mais faria, 
Por algum dia ver-te descansado. 
Se se acabam trabalhos algum dia. 



(i) Anaxarete (no texto de Camões, Anaxarete), de ascendência real, 
lesprezou o amor do modesto Iphis. Este suicidou-se por tal motivo, 
aas ella foi transformada em estatua de pedra. Ovidio, Síet amor pho ses y 
iv. 14, versos 698-760. 



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I 



CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 4 

Como se vê, se o poeta, por um lado, manifesta bem c 
ramente o firme propósito de nunca esquecer a infanta, j 
outro lado revela também um profundo desanimo. Nas ho 
de reflexão surgiam as desoladoras perguntas : Porque pot 
a boca onde não devo? Como me atrevo a alçar tão alU 

Íiensamento? E a par destas interrogações, vinha tambenr 
embrança de que estava desperdiçando inutilmente o ten 
e a vida: 

Nesta imaginação estás gastando 

O tempo e vida, Almeno ? Perda grande ! 
Não ves quão mal os dias vás passando (i) ? 

Neste estado de espirito escreveu também o poeta o 
guinte soneto, extraído por Juròmenha do Cancioneiro 
Franco Corrêa (fl. \3g): 

Quando descansareis, olhos cansados, 

Pois já não vedes quem vos dava vida, 

Ou quando vereis nm e despedida 

A tantas desventuras e cuidados ? 
Ou quando quererão meus duros fados 

Erguer minha esperança tão caída ? 

Ou quando, se de todo é já perdida, 

Alcançar poderei meus bens passados ? 
Bem sei que hei de morrer nesta saudade, 

Em que meu esperar é todo vento, 

Pois nada espero ao que desejo. 
E, pois tão clara vejo esta verdade, 

Bem pôde vir a mim todo o tormento, 

Que não me ha de espantar, pois sempre o vejo. 

E cada vez mais desanimado, cada vez mais ancioso ] 
ver terminar o seu exilio, escreveu Camões a bella Ele 
do desterro, que, segundo W. Storck, «excede tudo qua 
até então poetara, tanto pela pureza de suas linhas consl 



( i ) Escreve W. Storck ( Vida de Camões, p. 397) : Podemos presi: 
que agora o Camões veio a conhecer 

come sa di sale 
lo pape altrui, e com'è duro calle 
lo scendere e il salir per 1'altrui scale ! 

(Dante, Paradiso, xvn, 58-6o). 



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460 O INSTITUTO 

ctivas e unidade de concepção, como pelo vigor das ideas c 
formosura da expressão pathetica»: 

O sulmonense Ovidio, desterrado 

Na aspereza do Ponto, imaginando 

Ver-se de seus penates apartado, 
Sua cara mulher desamparando, 

Seus doces filhos, seu contentamento, 

De sua pátria os olhos apartando, 
Não podendo encobrir o sentimento, 

Aos montes já, já aos rios se queixava 

De seu escuro e triste nascimento. 
O curso das estrellas contemplava 

E aquella ordem com que discorria 

O ceo, e o ar, e a terra adonde estava. 
Os peixes por o mar nadando via, 

As feras por o monte procedendo. 

Como o seu natural lnes permittia. 
De suas fontes via estar nascendo 

Qs saudosos rios de crystal, 

A sua natureza obedecendo. 
Assi só, de seu próprio natural 

Apartado, se via em terra estranha, 

A cuja triste dor não acha igual. 
Só sua doce musa o acompanha 

Nos soidosos versos que escrevia 

E nos lamentos com que o campo banha. 
Dest'arte me figura a phantasia 

A vida com que morro, desterrado 

Do bem que em outro tempo possuía. 
Aqui contemplo o gosto já passado, 

Que nunca passará por a memoria 

De cjuem o trás na mente debuxado. 
Aqui vejo caduca e débil gloria 

Desenganar meu erro co a mudança 

Que faz a frágil vida transitória. 
Aqui me representa esta lembrança 

Quão pouca culpa tenho e me entristece 

Ver sem razão a pena que me alcança. 
Que a pena que com causa se padece 

A causa tira o sentimento delia ; 

Mas muito doe a que se não merece. 
Quando a roxa manha, dourada e bella, 

Abre as portas ao sol e cái o orvalho, 

E torna a seus queixumes Philomela, 
Este cuidado, que co sono atalho, 

Em sonhos me parece, que o que a gente 

Por seu descanso tem, me dá trabalho. 
E despois de acordado cegamente 

(òu, por melhor dizer, desacordado, 

Que pouco acordo logra um descontente), 
• D'aqui me vou com passo carregado . 

A um outeiro erguido, e ali me assento, 

Soltando toda a rédea a meu cuidado. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MArÍa 46 1 

Despois de farto já de meu tormento, 

Çstendo estes meus olhos saudosos 

A parte donde tinha o pensamento. 
Não vejo senão montes pedregosos 
* E sem graça e sem flor os campos vejo, 

Que já floridos vira e graciosos. 
Vejo o puro, suave e rico Tejo 

Com as concavas barcas^ que nadando 

Vão pondo em doce effeito o seu desejo 
Umas com brando vento navegando, 

Outras com leves remos brandamente 

As crystallinas aguas apartando. 
D'ali falo com a agua que não sente, 

Com cujo sentimento esta alma sái 

Em lagrimas desfeita claramente. 
O fugitivas ondas, esperai, 

Que pois me não levais em companhia, 

Ao menos estas lagrimas levai. 
Até que venha aquelle alegre dia, 

Que eu vá onde vós ides, livre e ledo. 

Mas tanto tempo quem o passaria ? 
Não pôde tanto bem chegar tão cedo, 

Porque primeiro a vida acabará, 

Que se acabe tão áspero degredo. 
Mas esta triste morte que virá, 

Se em tão contrario estado me acabasse 

Esta alma assi impaciente adonde irá ? 
Que, se ás portas tartaricas chegasse, 

Temo que tanto mal por a memoria 

Nem ao passar do Lethe lhe passasse. 
Que se a Tântalo e Ticio for notória 

A pena com que vai e que a atormenta, 

A pena que la têm, terão por gloria. 
Essa imaginação, emfim, me aumenta 

Mil maguas no sentido, porque a vida 

De imaginações tristes se contenta. 
Que pois de todo vive consumida, 

Porque o mal que possue se resuma, 

Imagina na gloria possuída. 
Até que a noite eterna me consuma, 

ôu veja aquelle dia desejado, 

Em que a fortuna faça o que costuma, 
Se nella na hi mudar-se um triste estado. 

Vê-se que o poeta, nesta elegia, só muito ^ 
refere aos seus amores, que, além disso, consi 
que sejam considerados como cousa já passad 



(1) É o gosto, que, embora nunca haja de lhe sair 
poeta considera como já passado, h o erro, de que esi 
É a gloria, possuída, isto é, que já possuiu. É a parte oi 



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.-, 



462 o iNbiiruro 

elle procura tornar bem patente é a desproporção entre a 
sua culpa — pequena ou nenhuma — e a dura pena que está 
sofírenao. O que o preoccupa é o ardente desejo de voltar 
nara Lisboa, é o receio de que venha a morte antes de chegar 
sse alegre dia. 

Documentando o seu pedido com esta elegia, é natural 
|ue pessoas amigas do desolado poeta intercedessem por 
:lle e lhe obtivessem a necessária auctorização para poder 
r oltar para a capital.. 

Pelo seu caracter, e ainda por circumstancias especiaes a 
iue em breve me hei de referir, a grave, intelligente e bon- 
tosa infanta seria a primeira a desejar que terminasse quanto 
mtes, e sem deixar vestígios, um incidente em que ella, 
:mbora involuntariamente, se achava envolvida. 
Quanto tempo se demorou o poeta no Ribatejo ? 
Vimos que o exilio começou na primavera. Ora a egloga 2. a 
eporta-nos ao fim desta estação ou ao começo do estio, 
lepare-se, com efléito, nestas passagens: 

A noite escura dava 

Repouso aos cansados 
Animais, esquecidos da verdura ; 

O valle triste estava 

Cuns ramos carregados, 
Qu'inda a noite faziam mais escura ; 

Offrecia a espessura 

Um temeroso espanto. 

As roucas rãs soavam 
Num charco d'agua negra } e ajudavam 
Do pássaro nocturno o triste canto. 



Ao sonoroso pranto, 
Que as aguas enfreava, 
Responde o valle umbroso. 



Lêa-se também esta deliciosa descripção da madrugada: 

Formosa manha, clara e deleitosa, 
Que, como fresca rosa na verdura, 
Te mostras bella e pura, marchetando 
As nymphas (1), espalhando teus cabellos 



amento. É talvez o bem que em outro tempo possuía, se com isto nio 
uer alludir, por exemplo, á perda do logar que desempenhava em casa 
le D. Francisco de Noronha. 

(1) Não teria o poeta escripto : ceu e terra? 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 4Ô3 

Nos verdes montes bellos : tu só fazes, 
Quando a sombra desfazes, triste e escura, 
Formosa a espessura e a clara fonte, 
Formoso o alto monte e o rochedo, 
Formoso o arvoredo e deleitoso, 
E emfim tudo formoso co teu rosto, 
D'ouro e rosas composto e claridade. 
Trazes a saudade ao pensamento, 
Mostrando, em um momento, o roxo dia, 
Com a doce harmonia nos cantares 
Dos pássaros a pares, que, voando, 
Seu pasto andam buscando, nos raminhos, 
Para os amados ninhos, que manteem. 
Oh grande e summo bem da natureza ! 
Estranha subtileza de pintora, 
Que matiza em uma hora de mil cores 
O ceu, a terra, as flores, monte e prado ! 



E a elegia do desterro deve ter sido escripta no fim d 
verão ou no outomno (i): 



Daqui me vou, com passo carregado, 

A um outeiro erguido e alli me assento, 
Soltando toda a rédea a meu cuidado. 

Despois de farto já de meu tormento, 
Estendo estes meus olhos saudosos 
Á parte donde tinha o pensamento. 

Não vejo senão montes pedregosos, 

E sem graça e sem flor os campos vejo, 
Que já floridos vira e graciosos. 



Finalmente, se é de Camões o soneto publicado por Jure 
menha, sob o numero 333 (2), o exílio ainda durava nos fin 



(1) Segundo W. Storck, o poeta mandou esta elegia para Lisbo 
apenas chegou ao desterro ( Viaa de Camões, p. 396). 

(a) «Este soneto vem em um manuscripto com este titulo : Sonei 
de Luif de Camões a hum velho faltando com o Tejo, Noutro mani 
scripto mais moderno em nome de Francisco Rodrigues Lobo, em outr 
em nome de um Henrique Nunes, de Santarém, e no ultimo, em nom 
de Estevão Rodrigues, porém não vem nas poesias deste auetor, qu 
imprimiu. . . Lourenço Caminha» Juromenha, Obras de Lui\ de Camõe, 
u, 496. Na hypothesè de ser de Camões este soneto, Juromenha reli 
ciona-o com o ig5, e diz que provavelmente foram ambos escriptos n 
mesma occasião. Estou, porém, convencido de que o segundo soneto 



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~^^nW^^B 



464 O INSTITUTO 

do outomno ou princípios do inverno: 

Fermoso Tejo meu, quam differente 
Te vejo e vi, me vês agora e viste 1 
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste ; 
Claro te vi eu já, tu a mim contente. 

A ti foi-te trocando a grossa enchente, 
A quem teu largo campo não resiste ; 
A mim trocou-me a vista, em que consiste 
Meu (1) viver contente ou descontente. 

Já que somos no mal participantes, 

Sejamo-lo no bem. Ah quem me dera 
Que fossemos em tudo semelhantes 1 

Lá virá então a fresca primavera ; 

Tu tornarás a ser quem eras d J antes, 
Eu não sei se serei quem d'antes era ! 

(Continua), Dr. José Maria Rodrigues. 



de data muito posterior. A meu ver, foi motivado pelas intempéries do 
estio de 1570. (O poeta, como Gil Vicente, chama verão á primavera, 
no v. 5.°, se é que não escreveu inverno). 

Correm turbas as aguas deste rio, 

Que as rápidas enchentes enturbaram ; 

Os floreciaos campos se secaram ; 

Intratável se fez o valle e frio. 
Passou, como o verão, o ardente estio ; 

Umas cousas por outras se trocaram . . , 

(1) Decerto O meu viver, etc. 



IMPRENSA DA UNIVERSIDADE 



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O INSTITUTO 

REVISTA SCIENTIFICA E LITTERARIA 



Rsdacçáo s administração — Rua do Infante D. Augusto, 44 — COIMBRA. 



Propriedade e ediçlo. da Director Composto e impresso na 

Sociedade scientífica — Dr. BERNARDINO MACHADO Imprensa da Univirsi- 
O Instituto de Coimbra Presidente do Instituto dadk. 



SCIENCIAS PHYSICO-MATHEMATICAS 



LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 

(Cont. do n.° 9, pag. 43 1) 

[V 6] — Rodolpho Guimarães — Investigações históricas sobre 
as obras de Pedro Nunes (L C., 2® série, xlviii, 

1901, 396-401, 700-705, 776-781, 903-910; xux, 

1902, 3i-36, 97-100, 732-740; 3 e série, l, 1903, 
483-486, 541-554, 61 3-621, 681-687, 739-741 )• 

L'auteur dans ces recherches met en relief les 
. passages les plus remarquables des ouvrages de 
Pedro Nunes, en se basant sur les critiques de 
mathématiciens les plus auctorisés. 

[V 6] — Rodolpho Guimarães — Un manuscrit intéressant (M. 
A. L., nouvelle série, classe de se. math., vu, 2 ê par- 
tie, iqo5, 1-10). 

Transcription d'un manuscrit existant à la Biblio- 
thèque de boissons ayant le n° i83 (ancien n* 176), 
dont Tauteur est inconnu et le titre : «Briefue com- 
pon et fabri || que dun aneau astronomic et || ge- 
neral, aultre que ceulx qui eut || este parcy deuant 
junoutes (1)». 



(1) Quelque soit Tauteur qui ait rédigé ce projet cTappareil, il a bico 

VOL. 55.°, N.° IO — OUTUBRO DE I908. \ 



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4^6 , O INSTITUTO 

\ 

£ Le manuscrit de Soissons renferme aussi la tra- 

P , duction de deux ouvrages de Pedro Nunes, et il 

est la copie d'un autre manuscrit existant à la 

f Bibliothèque nationale de Paris (ancien fonds n° 

i338) (I. M., rx, 1902, p. 41 et 210; xi, 1904, 
75-76). 

M. Brocard qui nous avait comraunique ce texte 
de YAnneau astronomique a tenu à profiter de sa 
recente publication au recueil des mémoires de 
TAcadémie des sciences de Lisbonne pour pu- 
blier, à son tour, un article bibliographíque oíi il 

) fait plus complètement la comparaison des deux 

% mahusdrits (1), 

^ [V 8; — # — Conclusões mathematicas em que se propõe hum 

universal extracto de todas, ou quasi todas as mate- 
- rias, que commumente tratarão e ensinarão os au- 

y thores> mestres e professores d'estas sciencias mathe- 

; maticas, Lisboa, M. Manescal da Costa, 1757. 

[V 8] — Theodoro D. d Almeida — Cartas fisico-mathematicas 
de Theodosio a Eugénio. Para servir de comple- 
mento d Recreação philosophica, Lisboa, S. Roiz 
Galhardo, 1784. 

\ [V8]-F, B. Garção Stockler — Elogio de José Joaquim 

Soares de Barros e Vasconcellos (2). {Obras de 
Francisco de Borja Garção Stockler, Lisboa, Ty- 
pographia da Academia real das sciencias, 1, i8o5, 
189-224). 

; [V 8] — F. B. Garção Stockler — Elozio histórico de João 

T Le Rond d'Alembert. (Obras de Francisco de Borja 

Garção Stockler, Lisooa, Typographia da Acade- 



étudié la qucstion, et est arrivé à décrire un système géométrique qu'on 

Í>eut regarder commc une réduction proportionelle du système solaire, 
imite à la Terre et au Soleil. Uappareií est malheureusement un peu 
encombrant. 

(1) M. Bosmans, ajoute, à sou tour, (R. Q. S., 3 e série, xi, 3i* année, 
1907, 644-646), quelques remarques três interessantes. 

(2) Cet éloge a été reimprime en 1897, à Livourne, aveç des notes 
de' M. A. de Portugal de Faria. 



Ê 



J 



LES MATHÉMAT1QUES EN PORTUGAL 

mia real das sciencias, i, i8o5, 3— 188, et M. 1 

i re série, t, 1797, 53 1—577* 

L'auteur, qui avait vive sympathie pour h 
vants français, en le manifestam publiquem* 
écrit 1'éloge de d'Alembert, et d'une telle í 
que Link le jugeait ctrop bien écrit et trop 
pour le Portugal». 

[V 8] — F. B. Garção Stockler — Elogio de Guilherme 
António de Valleré. (Obras de Francisco de 1 
Garção Stockler, Lisboa, Typographia da A 
mia real das sciencias, 1, i8o5, 297-337). 

[V 8] — F. B. Garção Stockler — Elogio de Bento Sai 
D'Orta. (Obras de Francisco de Borja GarçÃc 
ckler, Lisboa, Typoeraphia da Academia rei 
sciencias, 1, i8o5, 280-296). ' 

[V 8] — A. de Portugal de Faria — Ouwages de José 
quim Soares de Barros e Vasconcellos, Livc 
Imprimerie de Raphael Giusti, 1899. 

[V 8] — Theophilo Braga — Biographia de José Anaí 
da Cunha (Filinto Elysio e os dissidentes da . 
dia, Porto, Chardron, 1901, 402-447). 

[V 8] — F. A. Martins Bastop — José Monteiro da F 
(I. C., i re série, vi, i858, 261-262). 

[V 8, 9] — F. Gomes Teixeira — Sur les écn'ts d'histoit 
tnathématiques publiés en Portugal (B. M., 

9*-9 2 )- 

[V 9]— J. M. Dantas Pereira — Observações acerca c 
escripto do Sr. Francisco de Paula Travasso 
intitulou: «Analyse e reflexões sobre um me 
de reducção das distancias lunares, para a dei 
nação da longitude». (Manuscrit G 3 o E, 5-4 
Bibliothèque de TAcadémie des sciences de 
bonne). 

[V 9] — J. M. Dantas Pereira — Notice sur la vie et h 
prés de Joseph-Marie-Dantas Pereira, Parií 
primerie de Casimir (satis date). 



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468 



O INSTITUTO 



(V 9] — • — Carta de hum astrónomo a hum seu amigo geo- 
metra sobre o cometa de 1811, Lisboa, Impressão 
regia, 181 1. 

[V 9] — ♦ — Litter atura portuguesa («Investigador portuguez 
em Inglaterra», iv, 10 12, 3o-43): 

L auteur anonyme y transcrit un passage três 
interessam, concernant le malheureux mathéma- 
ticien J. Anastasio da Cunha (i). 



(1) Ce passage étant três interessam, à plusieurs titres, nous ne pou- 
vons mieux faire que de le transcrire textuellement : «Não deixaremos 
de transcrever o que se lê num Jornal inglez do tempo em que elle (J. 
Anastasio da Cunha) era official de artilharia em Valença. O seguinte é 
cópia de huma carta de hum cavalheiro inglez, que' viajava por aquelle 
tempo em Portugal. Não posso deixar Valença sem fallar de um dos 
génios mais extraordinários, que jamais se ouvio. He hum moço de quasi 
24 annos portueuez e tenente de artilharia naquella Praça. He de família 
pobre e sem alguma educação, veio a ser por força de seu engenho e 
grande applicaçao hum prodígio d'este século; he tão grande mathe- 
matico que o coronel Ferrier profundo nesta sciencia me diz que este 
moço o excede em muito. Elle he senhor de todas as obras de Sir Isaac 
Newton, ainda d'aquellas partes mais escuras, que os mesmos mathe- 
maticos iulgão dificultosas ; conseguintemente he um algebrista com- 
pleto e num bom astrónomo; tem-se applicado nas m a them atiças a 
sciencia particular, que se requer na sua profissão, que inclue engenha- 
ria, artilharia, e outras muitas cousas apouco necessárias em matnema- 
ticas puras ; mas o que é ainda mais extraordinário, elle accrescentou a 
esta applicaçao (que absorve a attenção de todos os que as estudão) 
um perfeito conhecimento da historia^ das lingoas e bellas lettras. He 
excellente poeta, he bom critico nas lingoas mortas, e sabe muito bem 
a italiana^ franceza, espanhola e ingleza ; e o coronel Ferrier que pos- 
sue perfeitamente estas lingoas e pode ser juiz competente, me diz que 
este moço escreve a sua própria lingoa com mais pureza que muitos, e 
talvez que qualquer dos mais celebres autores d*este paiz. Tem tradu- 
zido em elegante portuguez, não só algumas das melhores obras de Pope, 
mas também algumas das nossas mais formosas comedias, sendo pre- 
ciso um perfeito conhecimento de ambas as lingoas, para conservar o 
espirito e fineza das expressões, porque não percao a sua força e bel- 
leza. Elle traduziu no mesmo edioma algumas peças do celebre poeta 
grego Anacreonte, por onde diz o coronel Ferrier, bom conhecedor do 
grego, que lhe parece que a graça d'estas peças não só se conservou, 
mas se aperfeiçoou com a sua traducção. Parece que não emprega o 
seu tempo em estudar ? e pela sua grande cobardia (sic) não conversa 
ainda nas matérias mais indifferentes se não com os seus Íntimos ami- 
gos. Elle é tosco na sua pessoa e familiaridade ; e parece que tam pouco 
conhece os termos da civilidade, quanto elle é intimo com a sciencia e 
litteratura. Com seus amigos algumas vezes repete algumas das melho- 
res obras de nossos poetas inglezes, particularmente Schakespeare ; e 
faz nclle tal e Afeito a sua repetição, que parece arrebatar-se, e nestas 



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LÉS MATHEMATIQUES EN PORTUGAL 

[V 9] — * — Escríptos de José Maria Dantas Pereira. Pcl 
— Escritos marítimos. Volume que contém a 
cção I da parte I da Memoria sobre tatica e 
systema de signaes, Rio de Janeiro, Imprensa n 
1816. 

[V 9] — M. Pedro de Mello — Memorias sobre osvadrôi 

Íesos e medidas, fabricados nos reinados aos srs. 
I. Manoel e D. Sebastião, depositados na can 
de Coimbra, comparados com os padrões corres 
dentes das novéis medidas francesas (Jornal de G 
bra, ix, 181 7, parte I, 382-3g5). 

[V 9] — A. A. da Silveira Pinto — Biographia de Joa< 
Maria de Andrade (Revista litteraria, Porto, T 
graphia portuense, 11, i838, 149-157). 

[V 9] — F. Ferreira de Carvalho — Memoria que tem 

objecto revindicar para a nação portuguesa a gl 

da invenção das machinas aerostaticas (Hist. e N\ 

de A. S. L., 2 e série, 1, i re partie, 1843, i33-i 

L'auteur a aussi fait une addition à ce mém< 

insérée aux Actas das sessões da Academia 

das sciencias, 1, 1849, 193-219. 

De son côté F. Recreio a aussi publié dar 
tome II des Actas mentiónnées (io5o, i3q- 
une note concernant la révendication de 1 in 
tion des ballons par le P. Bartholomeu Louri 
de Gusmão, intitulée Nota em que. se prodi 
mais testemunhos relativos d invenção aerostc 
do P. Bartholomeu Lourenço de ÓusmÃo. 

[V 9] — J. de Parada e Silva Leitão — Necrológio de D 
Kopke, Porto, Typographia commercial, 1844. 

[V 9] — A. Joaquim Damásio — Biographie de Manuel ! 
reira de Araújo Guimarães (I. B., vi, 362-369) 



occasiões uma só gotta de. vinho do Porto, de que elle gosta, o faz 
nar. Este homem extraordinário parece a qualquer desconhecido 
simples. Ri-se muito e em toda a sua conducta não descobre nent 
d'aquellas excellencias de que é ricamente adornado». 



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47° O INSTITUTO 

[V 9] — C. Baptista de Oliveira — Biographia de Francisco 
Villela Barboza (í. H. G., 2 e série, 1847, 398-408). 

[V 9] — L. A. d' Andrade Moraes — Astronomia («Revista aca- 
démica», i, 1848, 245-247). 

[V 9] — Francisco Recreio — Elogio necrologico do i//. - " c 
Ex.™ senhor Mattheus Valente do Couto, etc, 
Lisboa, Typographia de A. J. da Rocha, 1849. 

[V 9] — J. Félix Pereira — A Terra é um espheroide acha- 
tado nos poios (R. P. L., 1, 1849, 237-239). 

[V 9] — J. Feux Pereira — A Terra gira sobre si mesma (R. 
P. L., 1, 1849, 268-269, 292-293). \ 

[V 9] — * — Os cometas (R. P. L., 1, 1849, 278-280, 3i6-3 17). 

[V 9] — Francisco Recreio — Memoria em que se mostra que 
o systhema estratégico dos odres Jluctuantes na pas- 
v sagem dos rios, quer empregados de per si, quer for- 

mando pontes, era já usado dos antigos. (Actas da 
Academia real das sciencias de Lisboa, 1, 1849, ! 86- 
193). 

[U 9] — J. Maria d'Abreu — O conselheiro Agostinho José 
Pinto d' Almeida (R. P. L., iii, i85o, 177-178, i85- 

188). 

[V 9] — * — Planetas (R. P. L., m, i85o, 109-1 10, 1 17-1 18). 

[U 9] — Marino M. Franzini — Breves reflexões sobre o fo- 
lheto do sr. Filippe Folque que tem por titulo Tra- 
balhos geodésicos e topographicos do reino, Lisboa, 
Typographia da revista universal lisbonense, i85o. 

[V 9] — F. Folque — Varias reflexões a um artigo do ill.™ 
e ex. mo sr. Marino Miguel Franzini sobre os traba- 
lhos geodésicos e topographicos do reino. Lisboa, 
Imprensa Nacional, i85o. 

[V 9] — J. Félix Pereira — Systema do universo (R. P. L., 
iii, i85o, 21Q-220; iv, i85i, 1 55-i 56, 364-365, 370- 
370-371, 3$6-387, 402-404). 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 47-1 

[V 9] — H — Noticia analytica da Balística de Didion (R. 
M. L., i re série, n, i85o, 417-420, 519-522). 

[V 9J — Justiniano J. da Rocha — Biographia de Manuel 
Jacinto Nogueira da Gama, Lisboa, i85i. 

[V 9] — F. M. Barreto Feio — Astronomia (I. C, i re série, 
1, i853, p. 181). 

[V 9] — R. R. de Souza Pinto — Noticia sobre o Tratado 
elementar de mathematica, por D. .A. F. Vallin e 
Bastillo (I. C, i re série, 11, 1854, 166-167, 186- 

187). 

[V 9] — R. R. de Souza Pinto — Programma da cadeira de 
astronomia (I. C, i re série, 111, i855, 26-27). 

[V 9] — R. R. de Souza Pinto — Influencia da Lua nos ter- 
ramotos (I. C, i re série, 111, i855, 1 16-1 18, 195- 
196). 

[V 9] — R. de Moraes Sarmento — Observações aos proble- 
mas propostos pelo sr. marquez de Higoza de Alava, 
transcriptos na Revista Militar w.° 7, julho de i85j ( 1 ) 
(R. M. L., i Td série, ix, 1857, 541-547). 

Ces remarques sont sans importance mathéma- 
tique, même tenant compte de Tépoque oíi elles , 
ont été publiées. II s'agit d'un aocument, tout 
simplement, et non d'un travail original, mar- 
quant un progrès à signaler. 



(1) Ces problèmes sont: 

i° Etant donné le logN, quelque soit le système, exprimer sa valeur 
exacte au moyen d'une construction géometrique. 

2 o Démontrer que dans toute hyperbole il y a plusieurs systèmes de 
logarithmes. 

3 o Trouver, au moyen de 1'intégrale I , = are. sin-v-j-C, une 

ligne droite égale à un are donné; ou ce qui vient au même, détermi- 
ner exactement, ou sous forme finie ? la dite intégrale, et en déduire la 
valeur :: = 3,14159. . . de la forme finie. 

4 o Donner quelques exemples montrant la possibilite d'évaluer l'in- 



/m 
x 2 



dx". 



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47^ O INSTITUTO 

[V 9] -~ Francisco Horta — Parecer da commissão que pro- 
põe o sr. Daniel Augusto da Silva ao logar de só- 
cio de mérito da /. a classe da Academia real das 
sciencias de Lisboa. (A. S. L. L., 11, i858, 193-212). 
Compte rendu des principaux travaux de Da- 
niel da Silva. 

[V 9] — G. Ribeiro d* Almeida — Curso de mathematica; ou 
exposição methodica da arte de calcular. Historia 
d' esta sciencia, Coimbra, 1860. 

[V 9] — * — Escriptos de Sebastião Corvo d' Andrade (I. C, 
i re série, viu, 1860, 291-294, 299-301, 372-385]. 
Cette oeuvre posthume comprend deux parties, 
savoir : i re Nota sobre a dirima periódica; 2 B Nota 
sobre o livro V de Euclides. 

[V 9] — R. R. de Souza Pinto — Relatório sobre a visita 
dos observatórios de Madrid, Paris, Bruxellas e 
Greenwich, Coimbra, Imprensa da Universidade, 
1861. 

[V 9] — F. Maria da Cunha — Dos^eclipses («A Voz do Alem- 
tejo», n. 08 i3, 24, 25 de 1861). 

Extrait de plusieurs articles de Bresson. 

[V 9] — J. M. da Ponte Horta — Primeira conferencia de 
astronomia no Grémio litterario, Lisboa, Typogra- 
phia portugueza, i865. 

[V9] — A. Osório de Vasconcellos — Os génios da astro- 
nomia moderna, Kepler («Archivo pittoresco», ix, 
1866, 07-98, 111-112, 120-127, i54-i56, 223-224,- 
259-260, 294-295, 319-320, 362-363, 385). 

[V 9] — A. Osório de Vasconcellos — Cartas a uma senhora : 
brevíssima descripção do systema solar («Archivo 
pittoresco», ix, 1066, i2-i5, 23-24, 27-28, 38). 

[V 9] — F. Folque — Relatório acerca do estado do Observa- 
tório astronómico de Marinha, com a noticia histó- 
rica d' este estabelecimento (t Diário de Lisboa» du 
3o aoút 1866, et «Gazeta de Portugal» du 3i aoút 
et 1 septembre). 



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LES MATHÉMATIQUES EN PORTUGAL 473 

[V 9] — A. Filippe Simões — A invenção dos aerostatos rei- 
vindicada, Évora, Typographia da Folha do Sul, 
1868. 

[V 9] — A. J. Teixeira — Questão entre J. Anastasio da O 
nha e José Monteiro da Rocha («Jornal litterario 
Coimbra, 1869,97-100, io5-ii2, 125-127, 129-1 3< 
139-142, 1 47-1 5o, 1 56- 159, 1 65- 166, et réimpritr 
dans I. C, 2 e série, xxxvm, 1890-91, 20-27, uç 
i3i, 187-202, 268-279,350-357,431-442,512-52 
573-570, 653-662, 739—746, 816-820; xxxix, 1891 

92, 49°-497)- 

Cet écrit commence par une lettre de J. Ana 
tasio da Cunha adressée à son disciple et ar 
J. Manuel d' Abreu. Puis vient la réponse de 
Monteiro da Rocha, et enfin la replique, sous 
titre: Factos contra calumnias, de J. Anastas 
da Cunha. 

A. J. Teixeira a dú, cependant, faire suivi 
chacune de ces lettres de nombreuses remarqui 
et observations destinées à bien préciser la pol 
mique élevée entre les deux grands mathémai 
ciens. 

[V 9] — L. A. d' Andrade Moraes — Resumo do relator 
apresentado á Faculdade de mathematica como v 
gal da commissão encarregada de obsei*var o eclip 
total do Sol de 22 de dezembro de 1870, Coimbr 
Imprensa da Universidade, 1871. 

[V 9] — J. Silvestre Ribeiro — O real observatório astron 
mico de Lisboa {noticia histórica e descriptiva), Li 
boa, Typographia da Academia real das sciencii 
de Lisboa, 1871. 

L'auteur a reuni dans cette brochure, une sér 
d'articles, inseres dans le Jornal do Commerci 
de Lisbonne, lors des premièrs travaux aya 
pour but Tédification dans cette ville d'un obse 
vatoire répondant aux exigences de Tépoque, Tir 
tiative de ce projet étant due au general F. Fo 
que, directeur de TObservatoire royal de la M 
rine, alors entièrement dépourvu d'instrumen 
modernes, et dans une situation três défavorab 
à leur stabilité et à leur fonctionnement. 



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474 ° INSTITUTO 

L/auteur fit partie de la commission parlemen- 

taire qui vota la création du nouvel Observatoire, 

dont la réalization fut promptement garantie par 

une subvention de 167:000 francs du Roi alors 

( régnant (1857) Don Pedro V. 

Dans les premiers chapitres, on trouve Thisto- 
rique de ces diverses circonstances et des démar- 
ches effectuées auprès des savants les plus renom- 
més, Faye, Struve, Airy, dans le but d'obtenir 
leurs avis quant aux régies conseillées par la 
science et la pratique pour Térection d'un Obser- 
vatoire astronomique. 

Au 5 e chapitre, commence la description de 
1'édifice et des instruments existant à cette épo- 
que, et des projets de ce qui restait à faire. 

Cette partie de la brochure, depuis ce chapitre 
jusqu'à la fin, est entièrement calquée sur les 
notes fournies par le savant directeur de T Obser- 
vatoire, feu Tamiral F. A. Oom. 

L'ouvrage comprend encore une reproduction 
de quelques documents officiels relatifs à 1'éta- 
blissement; il est d'ailleurs reproduit en substance 
dans le grand ouvrage du même auteur : Historia 
dos estabelecimentos scientijicos, m, 1871, 36 1 -365; 
viu, 1879, 214-230. 

(Continua). Rodolpho Guimarães. 



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F 



UTTBRATURA E BELLAS-ARTES 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 

(Cont. do n.° 9, pag. 445) 

XIX 

Medina (Diogo de) 

Era mestre de refinar assucar na ilha da Madeira. D. M 
nuel I em 3i de outubro de i5o4 lhe deu carta de privileg 
isentando-o dos cargos e serviços do concelho. 

«Dom Manuell etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos sal 
que a nos praz por fazermos graça e mercê a Dioguo de Medina mes 
de rreíinar açuquares morador em a nossa Ilha da Madeira o priui 
giamos e escusamos de todollos emcarguos do concelho e seruiços c 
mesteres na dita Ilha e queremos que nam seja pêra os ditos emcarj 
e seruiço costrangido nem seruir nelles por quamto o auemos dií 
por escuso. £ porem mandamos ao nosso capitam da dita Ilha e í 
juizes e Justiças oficiaes delia que lhe cumpram e guardem esta n( 
carta sem outra comtradiçam por que asy ne nosa mercee. Dada < 
Lixboa ao derradeyro dia doutubro. Vicente Carneiro a fez anno de n 
e b e iiij » (1). 

XX 

Morelli (Benedito) 

Sobrinho de Bartholomeu Marchione, celebre commi 
ciante e banqueiro em Lisboa, com o qual, de certo, esta 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. Manuel, liv. 22, fl. 82 ver 



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476 O INSTITUTO 

associado. Fora arrendatário dos rendimentos da ilha da 
Madeira nos annos de 1609, i5io e j5ii, e como por isso 
ficasse em divida para com el-rei, este lhe moveu demanda, 
de que se desceu por aquelle se obrigar a pagar dez mil arro- 
bas de assucar pela maneira especificada na carta de quitação 
de 2 de setembro de i5i4, passada tanto a favor de Morelli, 
como a favor de Marchione, que figura como fiador do pri- 
meiro (1). 

D'este documento, assim como de outros dos nossos ar- 
chivos, não teve conhecimento o meu erudito amigo Prospero 
Peragallo, que todavia se utilizou de informações tiradas dos 
archivos italianos para biographar Morelli nos seus Cenni in 
torno alia colónia italiana in Portogallo, etc. 

XXI 

Odom (João de) 
1 
Não sei se o nome de João de Odom terá aqui perfeito 
cabimento, pois não cheguei a averiguar, se elle negociava 
em assucar, sendo certo que negociava em especiaria. Rela- 
cionando tantos commerciantes italianos em Lisboa, é mais 
um membro a ajuntar áquella laboriosa colónia, contribuindo 
assim para ornais desenvolvido conhecimento d'este assumpto. 
João de Odom era genovez e vendera a el-rei um grande 
lote de fio de Saona, não menos de 76 quintaes, 1 arroba 
e 9 libras, ao preço de 950 réis o quintal, prefazendo tudo 
setenta e dois mil quinhentos e setenta e um reaes, que não 
lhe foram pagos em dinheiro de contado, mas sim em pi- 
menta, vinda na nau Bernalda, na importância de 8 quintaes, 
1 arroba, 26 arráteis e 10 onças, a preço de 22 cruzados o 

3uintal. Como se vê, esta operação não passou de uma troca 
e géneros. 

«Nos el Rey mandamos a vos Joham de Saa caualeiro de nosa casa 
noso thesoureiro da casa da índia e aos scripvaes dese officio que dees 
a Joham de Odom mercador genoes estante nesta cidade setenta e dous 
mill e quinhentos lxxj reaes que lhe mandamos dar em pagamento de 
lxxbj quintaes huua arroba e ix libras de ffio de Sayona aue lhe pêra 
vos foram comprados per Jorge de Vasconcellos a preço ae ix c 1 reaes 



(1) ArçhivQ Histórico Portuguef, vol. I, pag. 362. 



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ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 477 

auintal os quaes se caregaram em Recepta sobre Janaluarez almoxarife 
ao nosso almazem per Aluaro Diaz seu scripvam segundo pareceo per 
certidam do dito Jorge de Vasconcellos que ao asynar dele foy rrota e 
fezelhe dos ditos dinheiros boo pagamento em pimenta a preço de xxij 
cruzados o quintal semdo primeiro certo per outra certidam do dito 
Jorge de Vasconcellos de como asentou verba honde o dito ffio fica em 
Recepta de como ouve em vos o dito pagamento e por este e seu conhe- 
cimento mandamos aos nosos contadores que votos leuem em comta. 
Feyto em Lixboa a dous dagosto. Gaspar Rodriguez o fez de b c xj. 
— Key- ; • — O Barom. 

ixxíj b c lxxj reaes a Joham de Odom mercador em pagamento de lxxbj 
quintaes j arroba e ix libras de ffio de Saona que Jorge de Vasconcellos 
dele ouve a preço de ix c reaes quintal pagos em pimenta. Ja fyca verba 
posta na adyçom onde este fyo Jaz em recepta ssobre Janaluarez almo- 
xarife como ouve delle Joam de Edom pagamento como se neste desem- 
bargo decrara e por verdade lhe dey esta certydam per mim asynada e 
esprita per Aluaro Diaz espriuam desta casa que assentou a dieta verba 
em bj dagosto de b c xj. — Jorge Vasconcellos. 

Conheceo Joam Dodam que recebeo de Joam de Saa oyto quintaes 
nua arroba vymte seis arráteis x onças de pimenta de naao bernalda que 
se montou nos iJxfj b c lxxj reaes neste desembargo contheudos e por 
verdade lhe dou delle este conhecimento asynado per elle em Lixboa 
a ix dagosto de mill b c xj. — Joam de Odom. — Christovam Caldeyra» (1). 

XXII 

Olmo (João del) 

Era cônsul dos venezianos em Lisboa e numa apostilla de 
9 de maio de i553 lhe foi feita extensão do privilegio de 
refinação de assucar, concedido a João António Pryoli. 

Havia também em Lisboa um architecto do mesmo nome, 

3ue foi chamado a dar o seu parecer sobre as obras da egreja 
o Loreto. D'elle tratei no segundo volume do Diccionario 
dos Architectos. 

Trelado de huua apostilla que se pos ao pee de huua carta de Joam 
Amtonio de Prioly, que pasou pola cnamcelaria em Lixboa a dous dias 
do mes daguosto do anno de mill b c Rj anos e o trelado da dita apos- 
tilla hee o seguimte : 

«E por quamto os doze annos comteudos nesta carta acima seprita 
sé acabão no mes de setembro que vem deste anno presemte de qui- 
nhemtos cimquoemta e trez, ey por bem por fazer a João del Olmo 
venezeanno, eomsull dos venezeanos desta cidade de Lixboa e nela es- 
tamte, que por tempo de seis annos que se começarão despedimento 



(1) Torre do Tombo, Corpo Chronologico, parte 1.% maço 25, docu- 
mento 9. 



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47^ O INSTITUTO 

dos ditos dez annos em diarme ele e as pesoas que ele quiser e a que 
der seu poder posao raíinar nestes Reynos de Purtugall e do Alguarue 
os ditos açuqueres, asy e da maneira que pola dita carta ouue por bem 
que os rannase Joam Amtonio de Prioly, procurador da senhoria de 
Veneza, e as pesoas que teuesem seu poder e esto sob a pena comteuda 
na dita carta e alem diso me praaz que guoze de todallas liberdades na 
dita carta declaradas saluo na mercê dos direitos não guozara mais que 
de dez mill reaes soomente, e mamdo que em todo o mais nela conteúdo 
se lhe cumpra e guarde imteiramente como se espicialmente pêra elle 
fora pasada, porque asy o ey por bem. Pêro Cubas o fez em Lixboa a 
noue dias de mayo de mill e quinhemtos e cimquoemta e três e posto 
que diga que guoze de dez mill reaes soomente guozaraa de todos os 
quimze mill reaes como o dito Joam Amtonio» (1). 



XXIII 

Olmo (Vicente del) 

t 

Era feitor da falência de refinação de assucar, que Mathias 
de Pryoli tinha em Lisboa. Vide este nome. 

XXIV 

Palma (João da) 

João da Palma, genovez, era servidor das cannas de assucar 
de el-rei D. João I no Algarve no sitio da Quarteira, onde 
tinha a dita plantação, que anteriormente fora de Alestre 
João. O sobredito monarcna lhe coutou aquelle terreno e lhe 
deu carta de privilegio, em que o defendia de qualquer damno 
causado por invasão de extranhos, em carta de 16 de janeiro 
da era de 1442. 

«Dom Joham pella graça de Deus Rey de Portugal e do Algarue, a 
quantos esta carta virem fazemos saber que nos demos e fizemos mercee 
a mice Joham de Palma mercador janues nosso seruidor das nosas canas 
do açúcar que no regno do Algarue tijnha M. e Joham e elle as ha de 
despoer e teer em as terras da quarteira. E porem querendo nos fazer 

§raça e mercee ao dito Joham de Palma por el poder milhor criar as 
itas canas e auer mais proueito delias teemos por bem e coutamoslhe 
o dito térreo em que as ditas canas teuer despostas. E mandamos e 
defendemos que nam seja nenhuu tam ousado de qualquer stado e con- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 61, H. i56. 



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Li 



ARTES INDUSTRIAES E INDUSTRIAS PORTUGUEZAS 479 

diçom que seia que despois que as ditas canas forem postas no dito 
ter reo em quãto em el steuerem entre no dito térreo nem tome das 
ditas canas nem faça cm ellas outro nenhuu mal nem dapno sob pena de 
pagar por cada vez que em elle entrar os nossos encoutos de bj mil soldos 
em três dobro e pagar e correger ao dito Joham de Palma ou aaquel a que 
el das ditas canas der encarrego todo mal e dapno que for achado que 
lhe he feito. E porem mandamos ao nosso corregedor e justiças do dito 
regno que ora som e forem ao diante que o façam assy apregoar e con- 
prir e guardar o dito couto costrangendo auaaes quer que em elle 
entrarem ou dapno fizerem como suso dito ne e tomandolhe e ven- 
dendo e rematando seus beés e nom ponham sobrello êbargo nenhuu 
em nenhua guisa em tal maneira que o dito Joham de Palma nom torne 
nem êuie a nos mais sobresto queixarse se nom sejam certos que lhe 
será stranhado grauemente como aaquelles que nom guardam e com- 
prem mandado de seu Rey e senhor. Unde ai nom façam. Dante na ci- 
dade de Lixboa xbj dias de janeiro elrrey o mandou per Aluaro Roiz 
seu vasallo e ouuidor a que esto mandou hurar por gue os do seu desem- 
bargo eram ocupados em outras cousas. Gonçalo (íaldeira a fez era de 
miliiiij 6 Rij anos» (1). 

XXV 

Pryoli (António) 
Pae de Mathias Pryoli. Vide este nome. 

XXVI 

Pryoli (João António) 

Vejam-se os artigos referentes a João dei Olmo e Marco 
António Pryoli. 

XXVII 

Pryoli (Marco António) 

O meu erudito amigo, o sr. Prospero Peragallo, a paginas 
144 e 14D da 2. a edição das Cenni in tomo alia colónia ita- 
liana in Portogallo nei secoli xiv, xv e xvi (Génova, 1908), 
consagra um artigo a Marco António Pryoli, veneziano, o 
qual, por indicação de seu pae, António Pryoli, procurador 
da republica de S. Marcos, desejava estabelecer em Lisboa 
uma casa de commercio. Para este fim, Marco António tra- 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João I, liv. 2, fl. 200. 



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480 Ô INSTITUTO 

zia uma carta de recommendação do doge Pietro Lando, 
datada de 1 de agosto de 1 641 e dirigida a D. João III, carta 
que se conserva no Archivo da Torre do Tombo, o que pa- 
rece provar que Marco António fora o seu portador. É es- 
cripta em latim. O sr. Prospero Peragallo, que a encontrou 
no nosso Archivo, foi também o primeiro a dar-lhe publici- 
dade no alludido artteo. Diz que não se lhe deparara qual- 
quer outro vestígio da sua existência em Portugal, mas é 
muito de crer que fixasse aqui residência, pois apparecem 
pela mesma epocha outros indivíduos de egual appellido, 
certamente seus parentes, dos quaes faço menção, em artigos 
que lhes dizem directamente respeito. 

É curioso que do mesmo anno de 1541, mas de 18 de 
junho, anterior portanto á missiva do doge, exista uma carta 
de D. João III privilegiando João António Pryoli, procurador 
da senhoria de Veneza, para que elle, ou um seu filho, vies- 
sem estabelecer-se em Lisboa, a fim de fundarem uma fa- 
brica de refinação de assucar, cousa que, a ajuizar pelo dizer 
da carta, parecia nova em Portugal. O privilegio era por 
doze annos. Confronte-se portanto este documento com a 
carta latina do doge. 

Tendo expirado o praso dos doze annos, foi o sobredito 
privilegio trespassado em apostilla a João dei Olmo, cônsul 
veneziano. (Veja-se este nome). 

Mais um documento a embrulhar esta questão da família 
do Pryoli. Uma carta de D. João III, de 3 de setembro de 
1547, concede privilegio a um Mathias Pryoli, filho de Antó- 
nio Pryoli. (Veja-se este nome). 

A esta carta foi, segundo julgo, feita a apostilla em nome 
de João dei Olmo que mencionei atraz. 

«Dom Joham etc. A quamtos*esta minha carta virem faço saber que 
Joam Amtonio de Prioly procurador da senhoria de Veneza me enviou 
dizer que ele queria mandar a estes Regnos huu seu filho pêra neles 
r afinar açuqueres da maneira que se costuma fazer na dita cidade de 
Veneza pidindome que por quamto isto era cousa noua nestes Reinos 
e que nunqua se neles fezera e de que meus vasalos receberiam proueito 
lhe fezese mercê de lhe dar priuilegio que nenhua pesoa podese rafinar 
os ditos açuqueres senam ele ou as pesoas que pêra iso emuiase pelo 
que ey por bem auemdo a iso respeito que do dia que o dito Joam 
Amtonio ou seu filho vier ou mandar asemtar sua casa nesta cidade de 
Lixboa pêra o dito negocio a doze anos primeiros seguintes nenhua 
pesoa de qualíquer comdiçam que seya nam posa nestes Regnos de Por- 
tuguall e do Alguarue rafinar os ditos açuqueres senam o dito Joam 
Amtonio ou as pesoas que ele pêra iso emviar sob pena de quallquer 
que ho contrairo fezer e lhe for prouado pagar por cada vez cem cru- 
zados a metade pêra eles e a outra pêra os cativos pobrss quaes manda 



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AfcTES iNbUSTRlAgS' E MDUSTfclAS PORTUGUEZAS 481 

a quaésquer justiças a que for requerido que os denvloguo com efeito 
a execuçam nos culpados os quaes açuqueres eles poderam tornar a 
vemder nestes Regnos e os tirar pêra fora deles liuremente asy e da 
maneyra que o podem fazer em quaésquer outros açuqueres que nara 
seyam ramnados e alem diso me praz por lhe fazer mais mercê que 
durando os ditos doze anos eles nam paguem direitos de quaes quer 
cousas que mandarem trazer pêra huso de suas casas ou meneodos 
ditos açuqueres e esto ate comtia em que se monte nos dereitos que 
delas ouuerem de pagar de dizima ate quinze mil reaes cada ano nos 
ditos doze anos e mais não: porem o notefico asy a dom Rodrigo Lobo 
veador de minha fazenda e a quaésquer outros meus oficiaes a que per- 
tencer e lhes mando que cumpram e façam comprir esta carta como 
nela he comtheudo sem duvida que a elo seya posto a quall se registara 
nos livros do registo das casas de meus dereitos omde ouverem de des- 
pachar as ditas cousas pêra os ditos oficiaes delas saberem como lhe 
tenho feito esta mercê e que por rezão deste prevylegio sam escusos de 
pagarem a dita dizima ate a dita comtia de quimze mil reaes de dereitos 
cada anno durando os ditos doze annos e que se mais deuerem alem 
dos ditos xb mil reaes que o ham d arre ca d ar deles e aas ditas justiças 
mando que no tocar aa dita pena a cumpram iso mesmo e por firmeza 
delo lhe mandey dar esta carta per mym asynada e aselada do selo 
pendente Ayres Fernandez a fez em Lixboa "a dezoito dias de junho 
de J b° Ri anos e eu Damiarn Diaz o fiz escrever e esta carta se reeis- 
tara na alfandega desta cidade somente por que nela ham de despachar 
as ditas cousas de que lhe asy quito os ditos xb mil reaes de dereitos 
durando os ditos doze annos como dito he» (1). 



XXVIII 

Pryoli (Mathias) 

Filho de António Pryoli, gentil homem veneziano, a pedido 
do qual D. João III lhe concedeu carta de privilegio, seme- 
lhante ao dos súbditos allemães. Mathias Pryoli tinha casa 
de commercio em Lisboa, sem se designar qual o género 
em que negociava. A carta é de 3 de setembro de 1647, 
período em que estava incluído o privilegio da refinação ae 
assucar concedido ao filho de João António Pryoli. A pagi- 
nas 45 1 do tomo viu do Corpo diplomático encontra-se uma 
interessante carta do nosso embaixador em Roma, Lourenço 
Pires de Távora, o qual, em data de 16 de maio de i56o, 
faz uma intercessão á rainha regente (D. Catharina, viuva 
de D. João III, avó de D. Sebastião) em favor de Mathias 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João III, liv. 3i, fl. 85 verso.- 

VOL. 55.°, N.° IO — OUTUBRO DE I908. 2 



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482 O INSTITUTO 

Pryoli, gentil homem veneziano, a quem fora concedido o 
privilegio para uma fabrica de refinação de assucar em Lis- 
boa, onde tinha um feitor, Vicente dei Olmo, que não dera 
boa conta de si, fallindo e escondendo-se certamente para 
evitar a perseguição dos seus credores. Távora recommenda 
muito o Pryoli, allegando que estava sempre prompto a servir 
o nosso paiz. Reproduzo a seguir a carta, em que tudo isto 
se pormenorisa: 

«Senhora. — El Rey de boa memoria e que este em gloria fez mercê 
a Mathias de Priule gentilhomem venezeano que em Lisboa esteve algum 
tempo de licença para nove annos poder mandar refinar açuqueres e 
lha confirmou por outros nove. Tem o dito Mathias de Priule entendido 
ter Vossa Alteza spedida a ditta licença por lhe dizerem prejudicava o 
gasto daquella refinação a ovos e a lenha, a qual despesa elle Priule 
prova pórleve e de pouco momento por rezões que a isso dá tem enten- 
dido que Vicentio dei Olmo seu feitor por dividas esta quebrado e es- 
condido e desse effecto recebe o dito Mathias muita perda não podendo 
o Vicentio comprir com elle e com outras partes pedio me escrevesse a 
Vossa Alteza em sua recommendação para que lhe não mandase impedir 
a licença concedida por el rey que Deus aja, mas que mande se use 
delia declarando se se concede ao dito Priule e porque o requerimento 
me pareceo justo o apresento a Vossa Alteza e por o requerente ser dos 
principaes de Veneza e muito servidor dessa coroa e assi o mostra em 
tudo o que se offerece pelo qual merece esta minha intercessão e Vossa 
Alteza vera o que he seu serviço e fará a mercê que o caso sofrer. Nosso 
senhor vida e real estado de Vossa Alteza guarde e acresente em seu 
serviço de Roma xvi de mayo 1 56o». 

«Dom Joham etc. A quamtos esta minha carta virem faço saber que 
Amtonio de Priolle, gemtil homem venezeanno, me emuiou dizer que 
ele tinha nesta cidade Matia de Priolle, seu filho, com casa pêra tratar, 
neguocear e esperaua de a conseruar e sostemtar pêra o diamte por seus 
filhos e feitores, pedimdome que lhe fizese mercê ao preuilegio que tenho 
comcedido aos mercadores alemaaes estamtes nesta cidade, e por eu ser 
emformado que o dito Amtonio de Priolle hee pesoa de muito credito, 
fazemda e autoridade pêra fo ligar de lhe fazer mercê e asy ao dito Matia 
de Priolle, seu filho, me praaz e ey por bem que elles ou outro quall 
quer seu filho ou pesoa que mandar a esta cidade pêra estar na dita casa 
por seu feitor e nelle resydir em seus tratos e neguocios e os criados e 
feitores do dito seu filho ou pesoa que em sua casa e neguocios tiuer 
tenham e guozem daquy em diamte de todollos preuillegios, liberdades, 
graças e framquezas, que elRei meu senhor e padre, que santa gloria 
ajaa, e per mim athee ora são dados e outorguados aos ditos mercadores 
alemães... Joam dAmdrade a fez em Lixboa aos três dias do mes de 
setembro do anno do nascimento de noso Senhor Jhesu Xpo de j b e Rbij. 
Fernam dAluarez a fez escprever» (1). 



(1) Torre do Tombo, Chancellaria de D. João IH ? Doações, liv. 29, 
fl. 49 yerso. 



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ARTES INDUSTRIAIS E INDUSTRIAS PORTUGUESAS 4§3 

XXIX 

Rangel (Simão) 

Era moço da camará de el-rei D. Manuel, que o encarre- 
gou de ir á ilha da Madeira receber 2:909 arrobas de assucar, 
que transportou depois a Roma, onde as vendeu, elevando-se 
o producto da transacção a um conto, quatrocentos e sessenta 
mil, quatrocentos e noventa reaes. D'esta quantia ficaram 
depositados em Roma um conto, cento e cincoenta e dois 
mil reaes, em casa do banqueiro «Esteva no Ranuches e com- 
panhia». 

A carta de quitação passada por este negocio tem a data 
de 26 de maio de 1404 e acha-se publicado a paginas 476, 
çlo volume v, do Arcnivo Histórico Portugue\. 

XXX 

Rodrigues (Pêro) 

Almoxarife do assucar dos quartos na ilha da Madeira, 
da jurisdicção do Funchal. Em 10 de junho de i5i3 lhe pas- 
sou D. Manuel carta de quitação de todo o assucar e dinheiro 
que dispendeu nos annos de i5o6 e 1607, Nella se especificam 
as diversas verbas, que entraram nesta conta, senão em as- 
sucar 60:218 arrobas e 8 arráteis, e cento e vinte e quatro 
mil, quatrocentos e sessenta reaes em dinheiro. O preço da 
venda de cada arroba foi de 340 e 33o. Menciona-se no 
mesmo documento um Joham Lombardo, morador na Ponta 
do Sol. 

A carta de quitação foi dada á publicidade no volume v, 
paginas 237, do Archivo Histórico Portugueç. 

XXXI 

Rodrigues de Carvos (Vicente) 

Feitor que foi em Veneza nos annos de 1507, i5o8 e parte 
de i5og, havendo succedido neste cargo a Gaspar Dias. Por 



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484 O INSTITUTO 

este motivo lhe foi passada carta de quitação a 18 de setem- 
bro de i5i f e por ella se vê as importantes verbas de assucar 
da ilha da Madeira que effectuára. Numerosas verbas alli 
especificadas demonstram a qualidade de transacções mer- 
cantis entre Portugal e Veneza (1). 



XXXII 

/ 

Rodrigues Mascarenhas (João) 

Negociante abastado em Lisboa em tempo de D. Manuel I 
com o qual celebrou contratos para a compra de seis mil 
arrobas de assucar na ilha da Madeira no anno de i5o5, sendo 
passada carta de quitação pela importância d'esses contratos, 
aos seus herdeiros em 26 de junho de i5og. Fora também 
arrendatário da chancellaria da corte e da vintena de Guiné. 
As respectivas cartas de quitação podem ver-se a paginas 73, 
do volume iv, do Archtvo Histórico Portugue\. De uma 
d'ellas se colhe que João Rodrigues Mascarenhas fallecera 
a 5 de fevereiro de i5o6. 

(Continua). Sousa Viterbo. 



(1) Archivo Histórico Português vol. VI, pag. 157. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 485- 



CAMÕES EA INFANTA D. MARIA 

(Cont. do n.° 9, pag. 464) 

III 

Em Ceuta 

Procurando explicar a ida de Camões para Ceuta, escreve 
W. Storck: cTodos os esforços próprios ou alheios para 
abreviar a pena (do desterro no Ribatejo) foram baldados, 
caso alguém os fizesse. E apertado pelas necessidades mate- 
riaes da vida, o poeta recorreu a um expediente, que ante- 
riormente sempre tinha rejeitado como contrario ás suas 
inclinações: resolveu servir o deus Marte, já que a capri- 
chosa e cega Fortuna não o favorecera, emquanto fora pres- 
tando homenagem ao Amor e ás Musas. Havia muito que 
era costume em Portugal commutar a criminosos as pena- 
lidades (não somente o exilio, e o degredo para o Brasil, 
mas até a pena capital) em serviços militares, pagáveis no 
mar ou nas colónias. Porque havia de negar-se a Camões 
uma concessão semelhante? Podemos calcular que dirigiu a 
D. João III um requerimento, supplicando-lhe decretasse 
serviço militar na Africa setentrional ou, por outra, a trans- 
ferencia do desterro para Ceuta. Aquellas partes da Africa 
davam então sérios cuidados ao governo português: as for- 
talezas careciam de gente... Por isso pedidos daquella ordem 
eram bem aceites. O pleito de Camões se recommendava a 
favorável decisão. Mas que triste pleito ! O cavalleiro-fidalgo, 
o poeta predilecto da corte, transformado em soldado raso! 
Comtudo, não havia que escolher. A decisão régia não tardou 
muito. O favor foi outorgado. Luiz de Camões obteve licença 
para se alistar por dous annos na guarnição de Ceuta» (i). 



(1) Vida de Camões, p. 397. Em nota observa o illustre camonista : 
aO facto de Camões ter estado em Ceuta, e não em outra qualquer 
fortaleza portuguesa, resulta evidentemente da Elegia I «de Ceita a um 



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486 O INSTITUTO 

O que, porém, julgo fora de duvida é que o poeta, depois 
de ter voltado para Lisboa, com o propósito, mais ou menos 
firme, de não pensar mais na infanta, viu reaccender-se a 

{>aixão que por ella sentira (1), sendo este o motivo por que 
òi degradado para Ceuta. 

Comecemos pela carta, toda cheia de meias palavras, toda 
cautelosa, que elle da cidade africana enviou a um amigo, 
talvez João Lopes Leitão. 

Depois de lhe recommendar que a não mostre a ninguém 
ou, pelo menos, que supprima o nome do signatário, Camões 
prosegue citando estes versos de Garcilasso de la Vega, tão 
accommodados ao estado da sua attribulada alma : 

•La mar en médio y tierras, he dejado 
A cuanto bien, cuitado, yo tenia. 
Cuan vano imaginar, cuan claro engano 
Es darme yo á entender que. con partirme, 
De mi se ha de partir un mal tamafío I» 

E como elle, apesar de reconhecer que ca tristeza no 



amigo» (versos 22-57). — E a outra circumstancia, de ter' estado ahi 
como aue «exilado», está documentada pelas oitavas primeiras (epis- 
tola 1A No verso 196 (aliás 180), declara-se *em terra alheia degra- 
dado: Sobre o tempo de serviço (dous annos), a que eram adstnctos 
os soldados portugueses nos Algarves d f além, veja-se» etc. 

(1) Presumo hoje que foram escriptas por esta occasião algumas 
poesias qué já transcrevi como immediatamente anteriores ao exílio do 
Ribatejo. Tal é o soneto 145, em que o poeta declara terminantemente: 

Quando Amor á razSo obedecer, 



Deixarei eu de ver tal formosura 

E de a amar deixarei, depois de a ver. 

Ninguém mudar-me queira de querer-vos. 

Tal é também o soneto 210, em que o poeta affirma nada recear: 

Nem o tremendo estrépito da guerra, 

Com armas, com incêndios espantosos, 

Podem pôr medo a quem nenhum encerra, 
Despois que viu os olhos tão formosos, 
Por quem o horror, nos casos pavorosos, 
De nu todo se aparta e se desterra. 



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CAMÓES E A INFANTA D. MARIA 847 

coração é como a traça no panno», só triste quer \ 
viver! 

E por tão triste me tenho, 
Que, se sentisse alegria, 
De triste não viveria. 
Porque a tal sorte vim, 
Que não vejo bem algum 

Em quanto vejo, 
Que não nasceu para mim. 
E por não sentir nenhum, 

Nenhum desejo. 

E o pobre poeta, «porque cousas impossíveis, é i 
esquecê-las que desejá-las», continua: 

Só, tristeza, vos queria, 
Pois minha ventura quer 

Que só a (1) ella 
, • Conheça por alegria ; 

E que, se outra quiser, 

Morra por ella. 

Vem depois uma volta ao mote 

Perdigão perdeu a penna, 
Não ha mal que lhe não venha, 

differente da que já fica transcripta no começo deste tra 

Em um mal outro começa, 
Que nunca vem só nenhum ; 
E o triste, que tem um, 
A soffrer outro se offreça, 
E, só pelo ter, conheça 
Que basta um só que tenha, 
Para que outro lhe venha. 

É inútil aconselhá-lo a que mude do seu propósito, c 
seja certo que não ha magua como a do vê-lo-ás e nã( 
paras. «Que graça será esperardes de mim proposi 
cousa que os não tem para comigo ? Pois aincfa que 
não posso o que quero; que um sentido remontado, 
pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi. E ca 



(1) Supponho que o a não estará aqui demais. 



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fk' 



488 Ô INSTITUTO 

acode ao que mais lhe doe; e mais eu, quk o que mais me 
entristece é ter contentamento, pois fujo delle, que minha 
alma o aborrece, porque lhe lembra que é virtude viver sem 
elle. Que já sabeis que magua é: vê-lo-ás e não o paparás». 

Numa das mais curiosas passagens da carta, o poeta^ se 
não me engano, insinua terem-lhe offerecido dinheiro, para 
não importunar outra vez a infanta com os seus galanteios. 

Eis o que elle diz: «Quero-vos dar conta de um soneto 
sem pernas, que se fez a um certo recontro que se teve com 
este destruidor de bons propósitos (i), e não se acabou, 
porque ?e teve por mal empregada a obra; cujo teor é o 
seguinte : 

Forçou-me Amor um dia que jogasse ; 
Deu as cartas e az (Touros levantou, 
E, sem respeitar mão, logo triumphou, 
Cuidando que o metal que me enganasse. 

Dizendo, pois triumphou, que triumphasse 
A uma sota d'ouros, que jogou. 
Eu então, por burlar quem me burlou, 
Três paus joguei e disse que ganhasse». 

Julgando que o poeta se deixaria enganar pelo dinheiro, 
o Amor, contra as regras ,do jogo, puxou pela aatna de ouros, 
aue era trumpho. Vendo-se ludibriado, o poeta jogou o três 
de paus (três paus, symbolo da forca) e disse ao parceiro 

Sue ganhasse. Isto é : Camões não acceitou a proposta que 
ie foi feita e preferiu arriscar-se a tudo, inclusivamente a 
perder a vida. 

Como lhe appeteceu então cavar na fidalguia dos ante- 
passados da infanta! «Príncipes de condição, diz elle, logo 
em seguida ao soneto sem pernas, príncipes de condição, 
ainda que o sejam de sangue, são mais enfadonhos que a 
pobreza. Fazem, com sua fidalguia, com que lhe cavemos 
fidalguias de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que 
não tenha alguma hervilhaca». 

Nas primeiras poesias escriptas em Ceuta, o poeta quei- 
xa-se mais abertamente da infanta, do duro petto, cruel e 
empedernido, que ergueu a mão para o matar. 



(1) Para W. Storck é o Amor (tom. i.°, pag. 400). A meu ver, é do 
próprio poeta que se trata. Foi elle que destruiu os bons propósitos, 
com que tinha voltado do Ribatejo. E foi por isso que houve o recontro 
com alguém, que lhe fallou em nome da infanta. . 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 489 

Comecemos pela ode 3.% verdadeiro protesto contra a 
implacável dureza havida com elle (i). 

Se de meu pensamento (2) 
Tanta razão tivera de alegrar-me, 

Quanto de meu tormento 

A tenho de queixar-me, 
Puderas, triste lyra, consolar-me. 

E minha voz cansada, 
Que em outro tempo foi alegre e pura, 

Não fora assi tornada, 

Com tanta desventura, 
Tão rouca, tão pesada, nem tão dura. 

A ser como soía, 
Pudera levantar vossos louvores ; 

Vós, minha Hierarchia, 

Ouvíreis meus amores, 
Que exemplo são ao mundo já de dores (3). 

Alegres meus cuidados, 
Contentes dias, horas e momentos, 

Oh quanto bem lembrados 

Sois de meus pensamentos, 
Reinando agora em mi duros tormentos ! 



(1) As ultimas estrophes desta ode mostram que ella foi escripta 
beira-mar. Pelo conteúdo conclue-se que o foi em Ceuta. 

(2) Isto é : d'aquillo, ou antes, d'aquella, em que penso. 

(3) Supponho que esta estrophe se deve ler : 

A ser como soía, 
Pudera levantar altos louvores ; 

Vós, divina Hierarchia, 
Ouviríeis meus amores, etc. 

Isto é : se a voz do poeta fosse o que dantes era, poderia, cantand 
os seus amores, elevar-se até os coros celestes, formados pelos anjo 
archanjos, etc. 

Variações de Faria e Sousa, a propósito da minha Hierarchia : aQui 
Hierarquia será esta ? Para estas Hierarchias de Poetas quisiera yo lc 
Comentadores. Pêro dexado esto, porque cada uno estornuda com 
Dios le ayuda, digo que por este no fácil termino de entender (mi 
galantíssimo), llama el Poeta Serafin a su senora». O que o irritad 
poeta chamava então a su senora dizem-no-lo as estropnes i3. a e 14 
desta mesma ode. Para W. Storck trata-se das damas do paço (Luís' t 
Camoens Sàmmtliche Gedichte, ni, 338). 



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49° O INSTITUTO 

Ai jgostos fugitivos ! 
Ai gloria já acabada e consumida ! 

Ai, males tão esquivos, 

Qual me deixais a vida 1 
QuSo cheia de pesar ! quão destruída ! 

Mas como não é morta 
Já esta vida ? Como tanto dura ? 

Como não abre a porta 

A tanta desventura, 
Que em vão com seu poder o tempo cura 1 

Mas, para padecê-la, 
Se esforça o meu sujeito e convalece ; 

Que, só para dizê-la, 

A força me fallece 
£ de todo me cansa e me enfraquece. 

Oh bem afortunado, 
Tu, que alcançaste com lyra toante, 

ôrphêo, ser escutado 

Do fero Rhadamante, 
E cos teus olhos ver a doce amante ! 

As infernais figuras 
Moveste com teu canto, docemente ; 

As três fúrias escuras, 

Implacáveis á gente, 
Applacadas se viram de repente. 

Ficou como pasmado 
Todo o Estygio reino co teu canto, 

E, quasi descansado 

De seu eterno pranto, 
Cessou de alçar Sisypho o grave canto (i). 

A ordem se mudava 
Das penas, que regendo está Plutão ; 

Em descanso se achava 

A roda de Ixiao, 
E em gloria quantas penas alli são. 

De todo já admirada 
' A rainha infernal, e commovida, 
Te deu a desejada 
Esposa, que perdida 
De tantos dias já tivera a vida. 



(í) A pesada pedra. Cf. canteiro, cantaria. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 49 1 

Pois minha desventura 
Como já não abranda uma alma humana, 

Que é contra mi mais dura, 

E inda mais deshumana, 
Que o furor de Callirrhoe profana (\^^ 

Oh crua, esquiva e fera, 
Duro peito, cruel e empedernido, 

De alguma tigre fera ? 

Lá na Hyrcania nascido, 
Ou d'entre as duras rochas produzid< 

Mas que digo, coitado ! 
E de quem fio em vão minhas quere 

Só vós, ó do salgado, 

Húmido reino bellas 
E claras nymphas, condoei-vos delia 

E, de ouro guarnecidas, 
Vossas louras cabeças levantando, 

Sobre as ondas erguidas 

As tranças gotejando, 
Saindo todas, vinde a ver qual ando. 

Sai em companhia 
E, cantando e colhendo as lindas floi 

Vereis minha agonia, 

Ouvireis meus amores 
E sentireis meus prantos, meus ciam 

Vereis o mais perdido 
E mais infeliz corpo, que é gerado, 

Que está já convertido 

Em choro, e, neste estado, 
Somente vive nelle o seu cuidado. 



( i ) Commentando este logar, observa W. Storc 
que deve ler-se, falhou aqui a extraordinária mera 
e possivel saber-se — e também Faria e Sousa decla: 
propósito se faz aqui menção de Callirrhoe»... (Luís' d 
che Gedichte, m x 63g). Mas a Callirrhoe, a que se rei 
como suppõe o íllustre camonista allemão, aquella d< 
dio nas Metamorphoses, íx, 41 3 e segg. ; é outra, de q\ 
Graeciae descriptio, liv. 7. , cap. 21. Esta desprezou 
sacerdote de Baccho, na cidade da Calydonia, cujo 
por isso, punidos por aquella divindade. D'aí o ej 
como começa a narrativa do escriptor grego : «Am 
lirrhoen virginem et quanto erat Coresi amor vehc 
puellae animus ab ejus cupiditate alienior». (Ediçí 
p. 575). Ainda desta vez não foi o poeta quem se ei 



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49* ' ' -O INSTITUTO 

Na ode i. a (i) ainda o poeta se queixa da infanta, mas já 
reapparece a sua paixão por ella. Novo Endyndíion, dirige-se 
á Lua (Delia, Diana, Lucina), que em seguida identifica com 
a sua bem-amada. 

Detém um pouco, musa, o largo pranto, 

Que Amor te abre no peito, 
E, vestida de rico e ledo manto, 

pernos honra e respeito 

Aquella cujo objeito (2) 

Todo o mundo allumia, 
Trocando a noite escura em claro dia. 

O Delia, que, apesar. da névoa grossa, 

Cos teus raios de prata 
A noite escura fazes que não possa 

Encontrar (3) o que trata, 

E o que na alma retrata, 

Amor por teu divino 
Raio, por que endoudeço e desatino : 

Tu, que de formosíssimas estrellas 

Coroas e rodeias 
Tua cândida fronte e faces bellas, 

E os campos formoseias 

Co'as rosas que semeias, 

Co'as boninas que gera 
O teu celeste humor na primavera : 

Para ti guarda o sitio fresco d'Ilio 

Suas sombras formosas ; 
Para ti o Erymantho, Olympo e Pilio (4) 

As mais purpúreas rosas; 

E as drogas mais cheirosas 

Desse nosso oriente 
Guarda a Felice Arábia, mais contente. 

De qual panthera ou tigre ou leopardo 

As ásperas entranhas 
Não temeram teu fero e agudo dardo, 

Quando por as montanhas 

Ligeira atravessavas, 
Tão formosa que Amor de amor matavas ? 



(1) W. Storck (m, 33o-333) transcreve a ode de Bernardo Tasso, 
pu imitada por Camões. 

(2) Não deverá ler-se aspeito? Cf., na estrophe seguinte, trata e 
rtrata. 

(3) Apesar da névoa grossa (allusao á maneira como o poeta havia 
do tratado pela infanta), apesar da névoa grossa, os teus raios de prata 
izera que nao seja escura a noite para aquelle que te ama. 

(4) Cf. W. Storck, tom. m, pag. 335. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 4g3 

Pois, Delia, do teu ceu vendo estás quantos 

Furtos de puridades, 
Suspiros, maguas, ais, musicas, prantos, 

As conformes vontades, 

Umas por saudades. 

Outras por crus indícios, 
Fazem das próprias vidas sacrifícios (i) : 

Já veio Endymião por estes montes, 

O ceu, suspenso, olhando. 
E teu nome, cos olhos feitos fontes, 

Em vão sempre chamando, 

Pedindo suspirando (2) 

Mercês á tua beldade, 
Sem que ache em ti unVhora piedade. 

Por ti feito pastor de branco gado, 

Nas selvas solitárias 
Só de seu pensamento acompanhado, 

Conversa as alimárias, 

De todo o amor contrarias, 

Mas não como a ti duras, 
Onde lamenta e chora desventuras. 

Das castas virgens sempre os altos gritos, 

Clara Lucma, ouviste, 
Renovando-lhe as forças e os espritos ; 

Mas os d'aquelle triste 

Já nunca consentiste 

Ouvi-los um momento, 
Para ser menos grave o seu tormento. 

Não fujas, não, de mi ! Ah não te escondas 

D'um tão fiel amante l 
Olha como suspiram estas ondas 

E como o velho Atlante (3) 

O seu collo arrogante 

Move piedosamente, 
Ouvindo a minha voz, fraca e doente. 



(1) O texto desta estrophe deve ter soffrido alteração. Permitta- 
propôr que se lêa : 

Pois, Delia, do teu ceo vendo estás tantos 

Furtos de puridades, 
Suspiros, maguas, ais, lagrimas, prantos, 

E as amantes vontades, 

Que, umas por saudades, 

Outras, por crus indícios, 
Fazem das próprias vidas sacrifícios: 

Amantes é uma variante da edição de 1595. 

(2) A suspirar, com suspiros. 

(3) O monte Atlas. Prova de que a ode foi escrípta em Ceuta. 



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494 ° INSTITUTO 

Triste de mi ! Que alcanço por queixar-me, 

Pois minhas queixas digo 
A quem já ergueu a mão para matar-me, 

Como a cruel imigo ? 

Mas eu meu fado sigo, 

Que a isto me destina, 
E que isto só pretende e sé-me ensina. 

Oh auanto ha já que o ceu me desengana ! 

Mas eu sempre porfio 
Cada vez mais na minha teima insana ! 

Tendo livre alvedrio, 

Não fujo o desvario, 

Porque este, em que me vejo, 
Engana co'a esperança o meu desejo. 

Oh quanto melhor fora que dormissem 

Um somno perennal 
Estes meus olhos tristes, e não vissem 

A causa de seu mal 

Fugir a um tempo tal, 

Mais que d'antes (1) proterva, 
Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva ! 

Ai de mi, que me abraso em fogo vivo, 

Com mil mortes ao lado, 
E quando morro mais, então mais vivo 1 

Porque tem ordenado 

Meu infelice fado 

Que, quando me convida 
A morte, para a morte tenha vida ? 

Secreta noite amiga, a que obedeço, 

Estas rosas, porquanto 
Meus queixumes me ouviste, te offereço, 

E este fresco amaranto, 

Húmido já do pranto 

E lagrimas da esposa 
Do cioso Titão, branca e formosa. 

Contemporâneo das duas tão bellas, tão sentidas odes, 
talvez escripto entre uma e outra, é também o soneto 74: 

Aquella fera humana, que enriquece 
A sua presunçosa tyrannia 
Destas minhas entranhas, onde cria 
Amor um mal, que falta quando crece (2), 



(1) Aqui, se não me engano, escreveu o poeta o nome de trai animal, 
tigre, por exemplo. 

(2) Não teria o poeta escripto : que dia a dia crece f 



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CAMÓES E A INFANTA D. MARIA 4^5 

Se nclla o ceu mostrou, como parece, 

Quanto mostrar ao mundo pretendia, 

Porque de minha vida se injuria ? 

Porque de minha morte se ennobrece ? 
Ora, emnm, sublimai vossa victoria, 

Senhora, com vencer-me e captivar-me. 

Fazei delia no mundo larga historia ; 
Pois, por mais que vos veja atormentar-me, 

Ja me fico logrando desta gloria 

De ver que tendes tanta de matar-me. 

Como se vê pelas três poesias que acabo de transcrever, 
Camões attribue o seu desterro para Ceuta á interferência 
directa da infanta (1). Foi ella que, inda mais deshumana 
que Callirrhoe, ergueu a. mão para o matar; é ella a fera 
humana que se injuria da sua attribulada vida e se ennobrece 
com a sua morte. • 

Qual o motivo da enérgica, da inexorável attitude, assu- 
mida pela infanta, quando viu que o renitente poeta, depois 
de ter voltado do Ribatejo, continuava a mostrar-se apaixo- 
nado por ella ? 

A meu vêr, o motivo, — pelo menos o principal, se houve 
mais d'um — , foi o seguinte: a illustre senhora, que tinha 
então em perspectiva o casamento com o herdeiro da coroa 
de Espanha, viuvo desde »545 (2), sabia muito bem que o 
seu régio e tortuoso meio-irmão, para lhe crear obstáculos, 



(1) Costuma dizer-se que o exilio do poeta, pelo menos o exilio para 
o Ribatejo, foi obra pessoal de D. João III e da rainha D. Catharina. 
E, entre outras razões, adduz-se o Auto d'el-rei Seleuco, pois não só o 
entrecho-da peça lhes não podia ser agradável, por avivar o que se pas- 
sara com o ultimo casamento de D. Manuel, mas ainda no argumento, 
propositadamente disparatado, se falia na Catharina Real, que havia de 
entrar em scena com uns poucos de parvos numa joeira e os havia de 
semear pela casa, de que nasceria muito mantimento ao riso. Quer-me 
parecer que o poeta, effectivamente, quis ser desagradável ao rei e á 
rainha, com o intuito de lisongear a infanta. Toda a gente sabia, com 
effeito, as razões de queixa que ella já então tinha do meio-irmão e da 
tia e cunhada. Mas se el-rei (que, diga-se de passagem, no anno de 1546, 
em que o auto foi escripto e representado, residiu fora de Lisboa, 
como já fica dito) teve conhecimento do caso, é provável que se 
não incommodasse muito, se estava informado das loucas preten- 
ções do poeta. É até natural que gostasse houvesse um leviano que 
compromettesse a infanta. D. João III por cousa nenhuma queria desem- 
bolsar as 400:000 dobras d'ouro a que ella se julgava com direito, em 
virtude do contracto matrimonial celebrado entre D. Manuel e a ex-noiva 
de seu filho e successor. 

(2) «Depois de todos estes negócios (projectos de casamento da 
infanta com o Delphim, filho de Francisco I, e com o archiduque Ma- 
ximiliano, herdeiro do throno imperial) serem tractados pelo modo que 



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49^ O INSTITUTO 

era muito capaz de fazer correr que ella dava ouvidos a um 
doidivanas cTum poeta (1). 

Se nas odes 3. a e i. a e no' soneto 74 se acha reproduzido 
o estado de espirito do poeta ao começar o novo exílio (pri- 
meiramente irritação contra o peito duro, cruel e empeder- 
nido da infanta; em seguida, reviviscencia da paixão amorosa, 
porfia na teima insana)^ a elegia 2. a revela-nos a phase inter- 
média e a epistola i. a patentea-nos a ultima. Vejamos. 

Na elegia 2.% dirigida, segundo creio, a D. Francisco de 
Noronha, o poeta reconhece que nada o defende das lem- 
branças amorosas. e declara escrever o seu derradeiro canto. 
Se o exílio não termina, venha a morte. 

Aquella que, cTamor descomedido (2), 
P«r o formoso moço se perdeu, 
Que só por si d'amores foi perdido, 



dixe, veo a morrer no anno de 1545 ha princesa donna Maria, filha dei 
Rei dom Joam terceiro, que era casada com. dom Phelippe Príncipe de 
Castella, filho herdeiro do Emperador D. Carlos, depois da morte da 
qual, elle e ha Rainha donna Leanor trataram de casar (a infanta D. Ma- 
na) com este Principe dom Phelippe». Damião de Góes, Chronica do feli- 
císsimo rei dom Emanuel (era assim que escreviam esta palavra Erasmo 
[Opera omnia, ed. de 1703-6, t. vi, p. 10, t. vn, p. 7, t, vm, p. 2] e outros 
grandes latinistas do renascimento), 4.* parte, cap. 68 (Lisboa, i566). 
«Muerta esta Princesa (D. Maria), se trato luego de buscar otra muger ai 
Principe Don Felipe. . . De espacio iba mirando Carlos Quinto, a quien 
tocaua este cuidado, lá mayor conueniencia en este segundo casamiento de 
su hijo ; y assi perseuerò viudo algunos afíos, tiempo em que siempre el 
César se inclinaua a õ casasse con la Infanta Maria, porque, fuera de ser 
el mejor acierto, con la execucion satisfacia a su hermana Leonor, que, 
viuda ya dei Rey Francisco de Francia, auia passado a Flandes, y instaua 
por elefecto, por ver a su hija acomodada de estado; y como el nego- 
cio se auia platicado entre los dos, apretauase por parte de la Reina 
sobre èl ai Rey Don Juan, para que preuiniesse la entrega dei dote que 
tocaua a su hija». Fr. M. Pacheco, Vida, etc, fl. 39. 

(1) Continua o consciencioso bigrapho da infanta: a Afligia n ai Rey 
estas diligencias, que nada deseaua menos que dexar salir esta Princesa 
de Portugal, asi por escusarse de pagar tan grande suma, como por el 
poço afecto q algunos dezian que siempre tuuo a esta media hermana: 
mas hallandose apretado destos Príncipes, y de otras personas dei Reino, 
que le hablauan en lo mismo en fauor de la sefíora Infanta, trato de 
buscar ocultamente médios de.estoruarlo». E o ardil a que nesta occa- 
sião recorreu o astuto monarca, — cujo jogo, aliás, sobre o assumpto 
passou, em breve, a ser bem conhecido por todos os interessados—, 
consta da curiosa carta que -elle enviou, em 27 de junho de i55o, a Lou- 
renço Pires de Távora, seu embaixador junto de Carlos V, carta que 
Fr. to. Pacheco transcreve e commenta devidamente (fl. 40-42). 

(2) A nympha Echo, que debalde se apaixonou por Narciso. Juno 
tinha -a condemnado a repetir somente os últimos sons que ouvisse. 



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dAMÓES E A INFANTA D. MARÍA 49? 

Despois que a deusa em pedra a converteu, 

De seu humano gesto verdadeiro 

A ultima voz só lhe concedeu. 
Assi meu mal do próprio ser primeiro 

Outra cousa nenhuma me consente, 

Que este canto, que escrevo derradeiro. 
E se uma pouca vida, estando ausente, 

Me deixa Amor, é porque o pensamento 

Sinta a perda do bem de estar presente. 
Senhor, se vos espanta o soffrimento, 

Que tenho em tanto mal, para escrevê-lo, 

Furto este breve espaço a meu tormento. 
Porque, quem tem poder para soífre-lo, 

Sem se acabar a vida co cuidado, 

Também terá poder para dizê-lo. 
Nem eu escrevo um mal, já acostumado, 

Mas na alma minha, triste e saudosa, 

A saudade escreve e eu traslado. 
Ando gastando a vida trabalhosa 

E esparzindo a continua soidade, 

Ao longo d'uma praia soidosa. 
Vejo do mar a instabilidade, 

Gomo com seu ruído impetuoso 

Retumba na maior concavidade. 
De furibundas ondas poderoso, 

Na terra a seu pesar, está tomando 

Lugar, em que se estenda cavernoso. 
Ella, como mais fraca, lhe está dando 

As concavas entranhas, onde esteja 

Sempre com som profundo suspirando. 
A todas estas cousas tenho inveja 

Tamanha, que não sei determinar-me, 

Por mais determinado que me veja. 
Se quero em tanto mal desesperar-me, 

Não posso, porque Amor e saudade 

Nem licença me dão para matar-me. 
As vezes, cuido em mi se a novidade 

E estranheza das cousas, co a mudança, 

Poderiam mudar uma vontade. 
E com isto figuro na lembrança 

A nova terra, o novo trato humano, 

A estrangeira progénie, a estranha usança. 
Subo-me ao monte que Hercules Thebano 

Do altíssimo Calpe dividiu, 

Dando caminho ao Mar Mediterrano; 
D'alli estou tenteando adonde viu 

O pomar das Hespérides, matando ' 

A serpe que a seu passo resistiu. 
Estou-me cm outra parte figurando 

O poderoso Anteu, que derribado 

Mais força se lhe vinha accrescentando ; 
Porém, do Hercúleo braço subjugado, 

No ar deixando a vida, não podendo 

Dos soccorros da mãe ser ajudado. 

VOL. 55.°, N.° 10 — OUTUBRO DE 1908. 



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O INSTITUTO 

Mas nem com isto, em fim, que estou dizendo, 
Nem com as armas tão continuadas. 
De amorosas lembranças me defendo. 

Todas as cousas vejo demudadas, 

Porque o tempo ligeiro não consente 
Que estejam de firmeza acompanhadas. 

Vi já que a primavera, de contente, 
Em variadas cores revestia 
O monte, o campo, o valle,, alegremente. 

Vi já das altas aves a harmonia, 

Que até duros penedos convidava 
A algum suave modo de alegria. 

Vi já que tudo emfim me contentava (i) 
£ que, de muito cheio de firmeza, 
Um mal por mil prazeres não trocava. 

Tal me tem a mudança e estranheza, 
Que, se vou por os prados, a verdura 
Parece que se secca de tristeza. 

Mas isto é já costume da ventura, 

Porque aos olhos que vivem descontentes, 
Descontente o prazer se lhes figura. 

Oh graves e insoffriveis accidentes 

Da Fortuna e d'Amor ! Que penitencia 
Tão grave dais aos peitos innocentes ! 

Não basta examinar-me a paciência 
Com temores e falsas esperanças, 
Sem que também me tente o mal de ausência ? 

Trazeis um brando espirito em mudanças, 
Para que nunca possa ser mudado 
De lagrimas, suspiros e lembranças. 

E, se estiver ao mal acostumado, 

Também no mal não consentis firmeza, 
Para que nunca viva descansado. 

Já quieto me achava co a tristeza (2) 

E alli não me faltava um brando engano, 
Que tirasse desejos da fraqueza (3). 

Mas, vendo-me enganado estar ufano, - 
Deu á roda a Fortuna, e deu comigo 
Onde de novo choro o novo dano. 

Já deve de bastar o que aqui digo, 

Para dar a intender o mais que calo 
A quem já viu tão áspero perigo. 

E, se nos brandos peitos faz abalo 
Um peito magoado e descontente, 
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo, 



1) Isto é: me procurava contentar. 

2) Creio que o poeta allude ao seu estado de espirito, ao voltar do 
itejo. Estava resignado a não pensar mais na infanta, mas achou-se 
lido. 

3) Que lhe tirasse desejos de fraquejar, de abandonar o proposto 
que estava. 



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CAMÕES E A INFANTA D. MARIA 

Não quero mais senão cjue largamente, 
Senhor, me mandeis novas dessa ten 
Que alguma delias me fará contente. 

Porque, se o duro fado me desterra 

Tanto tempo do bem, que o fraco es 
Desampare a prisão, onde se encerra. 

Ao som das negras aguas do Cocito, 
Ao pé dos carregados arvoredos, 
Cantarei o que na alma tenho escript 

E por entre estes ( i ) hórridos penedos, 
A quem negou Natura o claro dia, 
Entre tormentos ásperos e medos, 

Com a tremula voz, cansada e fria, 
Celebrarei o gesto claro e puro ? 
Que nunca perderei da phantasia. 

O musico da Thracia, já seguro 

De perder sua Eurydice, tangendo 
Me ajudará, ferindo o ar escuro. 

As namoradas sombras, revolvendo 
Memorias do passado, me ouvirão, 
E com seu choro o rio irá crescendo 

Em Salmoneu as penas faltarão, 

E das filhas de Be lio juntamente 
De lagrimas os vasos se encherão. 

Que, se amor não se perde em vida ausen 
Menos se perdera por morte escura, 
Porque, emfim, a alma vive etername 

E amor e effeito da alma, e sempre dura. 

{Continua). Dr. José Maria 



(i) Talvez: esses. 



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*5oò ò ifíSTrrtrtd 



\ 



LE DEPLODOCUS DE I/ÈRE SECONDAIRE 



Rarement la paléontologie a été à pareille fête; un de ses 
monstres les plus extraordinaires a eu à Paris, comme il 
aura aussi sans doute à Londres et à Berlin, les honneurs 
officiels; nous voulons parler du fameux Diplodocus, dont 
le milliardaire américain, M. Andrew Carnegie (i), a fait 
cadeau d'un moulage au Président de la Republique en 
France, comme il avait fait don de deux semblables: Tun 
au Roi d'Angleterre et Tautre à 1'Empereur d'Allemagne. 
Cest le i5 juin 1908 qu'a eu lieu la prise de possession 
solennelle de 1'animal géant au Muséum d'histoire naturelle, 
section de paléontologie, en présence de M. Fallières, de 
M. Holland (2), professeur à 1'Institut Carnegie (3) de Pittsburg 
(Pensylvanie), de M. White, ambassadeur des iLtats-Unis à 
Paris, de M. E. Perrier, directeur du Muséum, et de M. Mar- 
cellin Boule, Téminent professeur de paléontologie à ce céle- 
bre Instituí, ou il a succédé à M. Albert Gaudry, le maitre 
de cette science préhistorique en France et qui vient malheu- 
reusement de disparaítre. 

Grâce à la munificence du Mécèné (4) américain, des 



(1) Fils ainé d'un pauvre tisserand écossais qui, à 1'âge de i3 ans, 
s'engagea dans le Nouveau -Monde comme chauffeur avec un salaire 
hebdomadaire de 7 fr. 5o; c'est aujourd'hui un des hommes les plus 
riches de 1'Univers. 

(2) M. Holland, qui avait dirige les fouilles du Wyoming, a été, au 
cours de la cérémonie, décoré des insignes d'officier de la Légion d'Hon- 
neur. 

(3) L'Institut Carnegie de Pittsburg, qui a coGté 2400.000 livres 
sterlinç, est un magnifique établissement scientifique, pourvu de nom- 
breux laboratoires, observatoires, d'une bibliothòque de 25o.ooo volu- 
mes et d'autres installations remarquables, créées pour faciliter 1'étude 
des problèmes scientifiques d'un grand intérêt general. La dotation de 
Tlnstitut est de 9 millions de dollars avec un revenu annuel de 450.000 
dollars. 

(4) Cet amasseur cTargent a donné vingt-cinq millions de dollars à 
Tlnstitut Carnegie, dix millions de dollars aux Universités d'Ecosse, 
quinze aux retraites des professeurs des Collèges et Universités d'Amé- 
nque, douze pour une caísse des Recherches scientifiques à Washington, 
etc, etc. ' 



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LE DIPLODOCUS DE L*ÈRE SECONDAIRE 5o£ 

fouilles profondes ont pu être effectuées en 1904, sous h 
direction de M. Holland, dans les terrains des Montagnes 
Rocheuses appelées Atlantosaurus-beds (à cause des enormes 
quantités d^ssements de ces reptiles gigantesques qu'ils ren- 
ferment). En une localité du Sheep-Óreek, Albany County, 
(Wyoming), dans des couches puissantes de grés, datant dç 
la nn du Jurassique, on a découvert parmi de nombreux 
fossiles, adocuments et textes, comme a dit Buffon, du passe 
cdisparu», Tunique spécimen encore connu dun Diplodocus 
presque complet, et dont Toriginal fait la gloire de Tlnstitut 
Carnegie. 

Cest le moulage exact en carton-pâte de cet animai géant, 
transporte d'Amérique en France sur le paquebot «Gascogne» 
et arrivé à Paris emballé en 34 caísses, contenant 340 pièces, 

3u'on peut maintenant admirer au Muséum, ou Tinstallation 
u monstre, vu sa taille phénoménale, ne s'est pas faite $ans 
difficultés; ainsi, pour ly mettre, il a faliu aóplacer cjuel- 
ques-uns des spécimens les plus rares de la faune préhisto- 
rique. 

Le grand saurien a été érigé entre VIguanodon bernissar- 
tensis, lui aussi, type (inférieur) de Tordre des Dinosauriens, 
et une 4 tête de Sténéosaurus heberti, qui fait songer à celle 
dij crocodile ; en arrière se dresse un Dinocéras mirabile, de 
TEocène moyen, grand paclryderme omnivore et provenant 
également du Wyoming; ennn, en avant du prodigieux am- 
pnibie, àú à la générosité du richissime concitoyen de Jqna- 
than, est exposé un Parciasaurus buini, étrange type de 
reptile, ayant des affinités à la fois avec les amphibiens et 
avec les mammifères. 

Le Diplodocus se trouve donc là, presque en famille, avec 
des congéneres; mais même le plus grand de ses cfrères», 
ou plutôt tcousins», par exemple VIguanodon bernissartensts, 
aux formes colossales, puisqu'il mesure 9 m 5o de long sur 4 m 5o 
de haut, parait un nain à côté du géant (1), le roi américain 
non híu cuivre ou du pétrole, mais de la faune paléontologir 

3ue, avec ses formidables et majestueuses dimensions: 25"*oo 
e la tête à Textrémité de Tappendice caudal, En se dressant 
sur ses pattes de derrière, le gigantesque reptile aurait.bjeo 



(1) Pourtant le D r G. R. Wieland a découvert dans les Black Hills 
(Colimes Noires) du Dakota-sud un animal de même structure, encore 
plus colossaie, le Barosaurus, dont le cou serait enorme et dont les 
dimensions auraient largement dépassé celles du Diplodocus, n 



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502 O INSTITUTO 

atteint la taille de i5 à 16 mètres; aussi a-t-on fait cette 
plaisante remarque qu'il aurait pu aisétnent cueillir une plante 
au cinquième étage d'une de nos maisons modernes. 

*L'esprit demeure confondu en présence de tels phénomènes 
de la nature, vivant aux temps prénistoriques, fabuleux témoins 
d'une grandiose époque disparue, plongeant dans rabime dcs 
siècles et dont Tétude jette quelques Tueurs sur les ombres 
énigmatiques d'un passe nébuleux. Quelle émotion, faite de 
respect et peut-être aussi comme d'une crainte quasi-supersti- 
tieuse, n'ont pas du éprouver les ouvriers yankees en mettant 
à nu dans des formations fossilifères des Montagnes Rocheu- 
ses, tcatacombes des anciennes créations miraculeusemcnt 
•conservées par les siècles», les vénérables Vestiges du co- 
tasse antédiluvien, et le vers grandiloquent du chantre des 
Géorgiques, à propôs de la découverte des ossements de 
grande taille des ancêtres, revient spontanément à la mémoirc: 

«Grandiaque effossis mirabitur ossa sepulcrisU 

Cest un genre d'émotion analogue que ressentit sans doute 
Mariette, lorsque le célebre Égyptologue français, en péné- 
trant dans le Sérapéum découvert par son merveilleux génie, 
aperçut tout à coup Fempreinte du pas d'un Égyptien qui, 
~3lusieurs milliers d'années avant lui, avait foulé de son pied 
e sol oíi reposaient, dans leurs gigantesques sarcophages 
de granit, les momies des Apis sacrés qu'adoraient les Pha- 
raons des dynasties memphitiques ! 

Quant au squelette fossile du Diplodocus, il mesure, 
avons-nous dit, plus de 25 mètres de long et, si ce monstredé- 
passait le Brontosaurus qui, lui, n'atteignaitguère,estime-t-on, 

3u'une vingtaine de mètres, il ne venait dans Tordre de gran- 
eur qu'après Y Atlantosaurus, dont certàins individus n'au- 
raient pas mesure moins de 3o mètres au dire de M. de 
Parville, de 36 mètres d'après M. Gaston Boissier (de Tlnsti- 
tut), et, même de 5o mètres suivant M. Guillaume Grandidier. 
Le Diplodocus (i) (ôitcXóò?, double 8ox<5$, poutre, charpente) 
est classe parmi les Sauropodes (*aupoç, lézard, «oGç, *o$©ç, 



r« 



(i) Devenu le type de la famille des Diplocidce, «caractérisée par des 
«dents greles, cylindriques, en forme de chevilles, presentes seulement 
«dans la partie antérieure de la mâchoire». 



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LE DIPLODOCUS DE l'ÈRE SECONDAIRE 5o3 

pied) fi), sous-ordre des Dinosauriens (2) (8«vóç, terrible* 
«tupoç, lézard), dont Tépithète est peut-être usiirpée (3), et 
dont «la forme du corps, suivant la judicieuse remarque de 
«Trouessart, ou plutôt la démarche était plus semblabk à 
tcelle des mammifères et des oiseaux qu'à celle des reptiles 
•quadrúpedes de Tépoque actuelle». Èn tout cas, c'est un 
quadrúpede amphibie, dont on a pu dire avec assez de vérité 
qu'à part la tête d'une structure spéciale il est la simple 
reproduction, à une échellc deux cents fois plus grande, du 
petit lézard vert qu'on voit se chauífer au soleil ou courir 
dans les fissures des vieux murs. Ce saurien avait, d'après 
le paléontologiste américain H. Fairfield Osborn, la faculte 

Íhysique de sè lever sur ses pattes de derrière, comme le 
ançourou de TAustralie, en s'appuyant faiblement sur la 
partie moyenne de sa queue. «Dans une telle position 1' animal, 
«a écrit ce savant, aurait été capable non seulement de brouter 
«parmi les branches supérieures des arbres, mais encore de 
«se défendre contre les Dinosauriens carnivores en se ser- 
«vant de ses pattes de devant relativement courtes, mais 
«puissantes pour repouser des attaques». 

Un autre étrange détail de structure chez le Diplodocus 
consiste en ce aue les pattes de ce reptile étaient sigulière- 
ment rapprochees, surtout eu égard à Tallongement de la 
tête ; les antérieures et les posténeures se trouvaient presque 
d'égale longueur, bien que les premières fussent cependant 
un peu plus courtes que les secondes ; aussi les naturalistes 
se sont-ils souvent demande comment une telle masse chez 
un animal, à la fois bas sur ses quatre pattes et à forme três 
allongée, pouvait se mouvoir à la surface du sol. 

La particularité la plus saillantc du Diplodocus est sa 
double charpente, (presque symétrique par rapport au milieu 
de Tanimal) constituée par deux enchainements de vertèbres, 

3ui vont en décroissant progressivement : d'une part les cau- 
ales jusau'aux greles extrémités de la ciueue, et de 1'autre 
les dorsales jusqu'à la tête minuscule, dont nous parlerons 



(1) Parce que leurs pieds sont ceux du lézard. 



Groupe des Dinosauria, ainsi designe par Owen et complètement 
éteiht dès le début de Tépoque tertiaire. 

(3) Dénomination peut-être exagérée, mais en tout cas ces animaux 
comptaient parmi les plus monstrueux du globe. — «Aucun animal ter- 
«restre, a écrit M. H. Fairfield Osborn, n'a jamais approché, comme 
«taille, de ces gigantesques Dinosauriens». 



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504 O INSTITUTO 

plus loin; c'est d'ailleurs à ce curieux caractere, à cette sin- 
gularité anatomique que ce type de Dinosaurien doit son 
notn significatif. 

■ M. H. Fairfield Osborn, le savant professeur de zoolo- 
gie (i), a fait ressortir les caracteres remarquables de Tar- 
chitecture du squelette du Diplodocus. aUépine dorsale, a 
«écrit ce spécialiste américain, est, en effet, une merveille! 
•La perfection de la structure de Tanimal consiste en ce 
«qu'elle atteint le maximum de force avec le minimum de 
«poids. Ce résultat est obtenu par le fait qu'il n'y a pas un 
«millimètre cube d'os de trop qui puisse être épargne, sans 
«que les vertèbres soient aflfaiblies pour les divers efforts et 
fies tensions auxquels elles sont soumises, et ils doivent, ces 
• efforts, être certes formidables chez un animal mesuram de 
«soixante à soixante-dix pieds de longueur. . . Ainsi, compa- 
•rant une vertèbre de Dinosaurien camarasaurus . avec le 
•poids par pouce cube d'une vertèbre d ? autruche, on arriva 
«à Tétonnante conclusion qu'elle ne pesait que vingt et une 
•livres, soit la moitié du poids de la vertèbre d'une baleine 
«de même grosseur». Le squelette d'une baleine de soixante- 
quatorze pieds de long pèserait 72.000 livres environ, tandis 
que celui d'un Dinosaunen de même longueur ne dépasserait 
pas approximativement 10.000 livres. 

Nous avons dit que les vertèbres caudales, de plus en plus 
effilées jusq^à Textrémité de la queue, étaient au nombre de 
soixante-dix environ et ne mesuraient guère que o m 25 à o m 3o, 
tandis que les vertèbres dorsales, moins nombreuses, fixées 
les unes aux autres, mais atteignant prés d'un mètre de hau- 
teur, étaient bien plus dévelojppées aue les caudales. Quant 
aux formidables pattes massives, elles étaient si enormes 
qu'à lui seul le fémur de notre Diplodocus mesurant i m 5o de 
long dépassait le poids invraisemblable de 100 kilos; les 
pieds, de o m 5o chaque et rappelant en enorme ceux du lézard, 
comptaient chacun cinq doigts, dont trois munis d'une griffe 
de o ra io à o m 2o, et on peut observer que le bassin, três déve- 
loppé, evoque à Tespnt 1'idée de Tanatomie ornithologique. 
Le cou, démesurément long et três flexible, était composé 
de vertèbres en nombre plutôt restreint, mais mobiles les 
unes sur les autres et excessivement allongées (o m 5o environ 



(1) A TUniversité de Columbia, conservateur du Musée américam 
d'Histoire Naturelle. 



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LE DIPLODOCUS DE l'ÈRE SECONDAIRE 5o5 

de longueur), súivant une particularité de structure qúi se 
rçtrouve chez la çirafe. 

Mais le plus bizarre c'est que la série de ces vertèbres 
cervicales aboutit à une tête ridiculement réduite par rapport 
au reste du corps, anomalie d'autant plus frappante qu'Osborn 
estime à une tonne par mètre courant le poids moyen de ces 
géants à poil ras avec leurs chairs; d'après cette estimation, 
peut-être un peu forcée, le Diplodocus du Musée Carnegie 
aurait pese plus de vingt-cinq tonnes. 

Musurant à peine o m òo de long sur o m 20 de large, amincie 
en avant, la tête a la dimension de celle d'un poney avec un 
cerveau (incline obliquement en arrière et en bas), de o m io 
de long environ, gros comme le poing tout au plus. On en a 
conclu que ce monstre au minuscule encéphale avait une 
intelligence des plus bornées; par contre, autre bizarrerie, 
la moelle épinière a un diamètre double et, en certains points, 
même triple du cerveau. 

Chaque mâchoire, présentant comme Tapparence d'un 
peigne ou dun double rateau, est garnie de vingt-six. dents 
cylindriques, analogues à des incisives allongées, faiblement 
tranchantes à leur extrémité, et curieux détail: ces dents 
chez cè reptile, comme chez Thomme les dents de Tadulte 
succédant à celles de Penfant, étaient susceptibles de se rem- 
placer; mais au lieu de se produire une fois seulement le 
remplacement pouvait s'effectuer un grand nombre de fois, 
comme Tindique la coupe verticale de la mâchoire du Diplo- 
docus, qui révèle «à côté de la racine de la dent visible les 
fsommets de quatre à cinq dents de plus en plus petites et 
«situées les unes à côté des autres, comme prêtes à se rem- 
cplacer successivement». 

D'après les caracteres de la dentition et aussi d'après la 
structure des membres et la constitution des articulations du 
Diplodocus, comme Ta fait observer le grand paléontologiste 
américain Marsh, on a déduit que cet animal était aquatique 
et de plus herbivpre. tD^ailleurs, ainsi que Ta remarque 
t M. G. Bonnier, tous les squelettes fossiles de ces amphibies 
«se sont rencontrés dans des dépots formes par de grands 
«lacs d'eau douce peu profonde». 

Marsh, que la découverte de ces géants de la faune pré- 
historique a fait appeler «le père du Diplodocus», suppose 
que ce saurien ne devait se nourrir que de plantes aquatiques, 
précisément riches en sue et pauvres en parties ligneuses. 
Suivant ce savant le Dinosaurien vivait sans doute dans les 
marécages ou au milieu de lagunes de faible profondeur. 



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5o6 o iNSTrroTo 

D'ailleurs les formes même du reptile n'indkpjent-elles pas 

3ue le Diplodocus devçit être un animal lacustre ou palu- 
éen, se plaisant sur les rives marécageuses, au milieu des 
estuaires et des lacs si nombreux parmi les archipels de 
Tépoque jurassique ? 

Lorsque le Diplodocus, au long col, se tenait dans des 
bassins lacustres, sa tête émergeant des eaux lui permettait, 
soit au moyen de son double râteau de dents d'arracher et 
de brouter les herbes à la surface, soit d'aspirer l*aijr de 
temps à autre. Sa queue formait, en outre, un puissant or- 
gane de natation, tandis qu'à terre elle lui servait, à Tocca- 
fcion, d'arme redoutable. Alors promenée par son col allongé, 
la tête de cet animal si agile (i) pouvait tantôt raser le sol, 
tantôt atteindre aisément les arbres pour y cueillir sa nourri- 
ture frugale, car il fallait nécessairement au monstçe une 
quantité considérable d'aliments, et on a calcule que ce corps 

ffigantesque devait journellement engloutir 5 à 600 livres de 
euillages; comme on a dit plaisamment, «ce n'était pas une 
«sinécure que de manger un tel repas avec une si petite tête 
cet de si mauvaises dents!» En tout cas, le Diplodocus, 
dévorant nuit et jour, mangeant voracement sans tréve ni 
repôs, menait, sans doute, une vie analogue à celle des'hippo- 
potames de Tépoque actuelle, eux aussi herbivores, que les 
voyageurs voient nager dans les grands fleuves , ou les lacs 
de rÁfrique équatoriale, tantôt allant sous 1'eau, tantôt mar- 
chant sur les terrains marécageux des rives plantureuses, 
bref vivant à la manière des amphibies. 

LMntelligence du colosse n'était pas, vraisemblablement, 
en rapport avec sa voracité, puisque, eu égard aux dimen- 
sions de son corps, la grandeur de son cerveau était cent 
fois moindre que celle de Pencéphale d'un crocodile, dont 
les capacites intelligentes sont fort rudimentaires ; d^illeursj 
le Diplodocus contemporain, comme nous allons le voir, de 
Tère secondaire, existait à une époque ou, suivant une judi- 
cieuse observation de M. Gaudry, les facultes quimarquent 
le perfectionnement des étres animes étaient incomplètes, oíi 



(1) «Les demiers résultats des fouilles (au Wyoming) contredisent 
«la théorie traditionnelle, d'après laquelle les gicantesques Dinosauriens 
«étaient toujours indolents. Cet animal aux membres élancés était grand, 
«muni d'un long cou et, pour sa taille, d'une remarquable agilité».— 
Fóssil Wonders ofthe West, par Henry Fairfield Osborn — Tfie Century 
Magazine, London, septembre, 1904. 



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LE D1PL0D0CUS DE l/ÈRE SECONDAIRE 5<>7 

il n'y avait encore dans le monde que peu de sensibilité et 
cTintelligence, celle-ci chez les betes de 1 ère secondaire allant 
en raison inverse de leur taille. 

tA un autre point de vue, remarque M. G. Grandidier, 
«ce Dinosaurien est encore un type intéressant, parce qu'il 
«est un des derniers représentants du rameau phylétique de 
€ces enormes reptiles. Les temps géologiques ont, en effet, 
€vu disparaitre un grand nombre de ces rameaux, car il en 
«est três peu, relativement, qui aient été doués cTune sève 
«suffisante pour parvenir jusqu'à nous». 

On s'est demande quand vivait le Diplodocus, à laquelle 
de ces tépoques de la ^Nature, qui nous sont encore pre- 
ssentes par leurs fossiles, a dit Buffon, comme 1'histoire de 
«1'Humanité nous est presente par les monuments et les 
«médailles des peuples disparus». Cest à la fin du Jurassique 
et au début du Crétacé, à cette ère que la géologie et la 
paléontologie ont appelée secondaire (i), époque aailleurs 
des plus regparquables (2), pendant laquelle TEurope septen- 
trionale était à nouveau submergée par les flots de TOcéan, 
les plaines liquides de la Méditerranée allaient en s'élargissant 
avec ampleur et rAmérique du Nord, soumise à une extreme 
humidité, présentait Taspect d'un immense continent maré- 
cageux. C est Tépoque du Grand, ou s^talent les formes 
gigantesques ét insolites de betes prodigieuses (qui évoquent 
à Tesprit les images d^nimaux mythologiques, de sphinx 
ou de dragons), ère 011 atteignent leur apogee des monstres 
étranges,j#à la taille colossale, à la structure fantastique, 
moitié reptiles et moitié oiseaux, plus remarquables, comme 
le Diplodocus, par leur énormité irrégulière et dispropor- 
tionnée que par leur instinct sans doute fort borne. «Antiques 
tet incompréhensibles habitants du globe, comme a observe 



(1) «Les traces de mammifères sont alors assez rares, et les végétaux 
«aui prédominaient à cette époque sont les Cycadées et les Conifères». 
Lâge de la Pierre, par Georges Rivière, Ch. «Les Temps géologi- 
ques», p. 12. 

(2) «Jamais à aucune époque de Thistoire, telle aue nous la con- 
«naissons actueilement, il n y a eu des tableaux champetres aussi remar- 
«quables que ceux qui étaient representes, lorsque le règne de ces repti- 
«les titans était à son apogée. Nous pouvons nous figurer des troupeaux 
«coraposés de ces créatures, de 5o à 60 pieds de long, avec des mem- 
«bres et une démarche analogues à ceux d'éléphants gigantesques».-— 
H. Fairfield Osborn. 



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5o8 O INSTITUTO 

«Pouchet (i), que le génie des Cuvier et des R. Owen res- 
«titua de toutes pièces à nos yeux émerveillés!» 

Sans doute à cette époque ce rfétait plus la végétatioo 
des temps carbonifères avec ses imposantes forêts aux équi- 
sétacées et aux fougères gigantesques sous un ciei sombre et 
voilé, mais de plus en plus luxuriante s'étalait sous rinfluence 
de Ia chaleur humide une flore nouvelle, dont les tj r pes ma- 
jestueux, avec les enormes Lépidodendrons, les immenses 
Sigillaires, les élégants Cyras aux branches recourbées et 
les Trancarias géants, devaient, d'après les empreintes décou- 
vertes dans des formations secondaires, ressembler en grand 
à nos conifères, à nos palmiers, à des plantes aquatiques ã 
loneues feuilles et à vastes nervures aqueuses (2). 

Cest alors qu'à une épocjue des dimensions máxima et 
dite aussi a des Reptiles» vivaient les Ichthyosaures et les 
Plésiosanres, titaniques lézards, les uns aftectant la forme 
de poissons, les autres remarquables par lcur encolurc ser- 
pentiforme, les Ptérosanriens, volant à 1 instar de nos chauves- 
souris, pendam que d'autres monstres terriens ou amphibies 
se plaisaient à fouler le sol ou à se promener dans les maré- 
cages, par exemple le Labyrínthoaon, crapaud de la taflle 
d'un boeuf, le Tricératops, quadrúpede aussi grand quun 
éléphant. au crâne arme de trois cornes redoutables, Tunc 
sur le nez et les deux autres au-dessus des yeux (3). Cest 
alors, pedant 1'ère secondaire, que «les continents, a écrit 
«M. Guillaume Grandidier, ont vu la force brutale parvenir 
«à son apogée sous la forme des Dinosauriens (4)», reptiles 
quadrúpedes de taille enorme, les uns carnassiers, les autres 
herbivores. Dans le premier groupe figure par exemple le 
Cératosaurus á Tallure du kangourou et se signalant pas sa 
corne de rhinocéros; dans le second se montraient V Iguana- 



(1) L'Utiivers. — Les infiniment grands et les infiniment petks 
p. 289. 

(2) «A certaines époques de la période secondaire, depuis le Lias 
«jusqiTà la Craie inclusivement, la végétation serrble avoir approchédt 
«celie des grandes iles de la zone équatoriale, telle, par exemple, que 
«celle qui est aujourd'hui en pleine vigueur aux Antilíes». Príncipes de 
Géologie, par Charles l^yell. i re Partie, Gh. ix, p. 328. 

(3) Le crâne d'un Tricératops fossile, découvert dans les terraios 
crétacés du Wyoming, pesait à fui seul 1.800 livres. 

(4) Definis par Trouessart : «oiseaux à sang froid et prives de Ia ta- 
«culté de voler». 



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Le díplodôcus de l'ère secondairê 5oç) 

don, au type três répandu dans les musées de paléontologie (i), 
r Atlantosaurus, dont le squelette n'a pu encare être reconsti- 
tua en entier, le Bothriospondylus, dont les vestiges ont été 
retrouvés à Madagáscar, le Stégosaurus, à la queue munie 
de doubles piquants et protege par une puissante cuirasse 
de plaques dermiques, le Brontosaurus (2), plus trapu que 
le Diplodocus, qui, lui aussi, appartient à cette catégorie de 
Dinosauriens herbivores, et dont la longévité aurait été três 
grande d'après Osborn, qui Tévalue à deux ou trois siècles, 
mais en prenant comme terme de comparaison la durée 
moyenne des reptiles de notre époque; d'ailleurs, leur gigan- 
tisme s'expliquerait plus facilement, si Ton admet Ia théorie 
suivant laquelle ces sauriens. n'auraient pas cesse de croitre 
pendant toute leur longue vie. 

Le Diplodocus, sorte de serpent fabuleux attaché à un 
corps d'éléphant gigantesque, nous reporte donc à une époque 
excessivement reculée, bien antérieure à Tapparition de 
Thomme sur notre planète, bien .avant, que nos ingénieux 
ancêtres primitifs, contemporains de YEléphas Antiquas ou 
du Rhinocéros Merckii, se missent à fabriquer leurs premiers 
instruments en utilisant des silex comme percuteurs, à tenter 
leurs ébauches d'industrie ou d'art rudimentaire en taillant 
leurs haches en amande, leurs coups de poing chelléens et 
leurs perçoirs solutréens en forme de feuille de laurier, % en 
sculptant leurs harpons barbeies en corne de renne, en traçant 
des profils de bisons noirs ou rouges au fond des cavernes 
d'ou ils avaient chassé les fauves, en élevant ces curieuses 
habitations lacustres sur pilotis, ces palafíttes, que ale génie 
«de Thomme avait appris à isoler dans les eaux», enfin, bien 
avant cette époque idyllique dont le doux chantre des Géor- 
giques semble avoir eu Tintuition, lorsqu'il disait: 

« Ver illud erat, ver magnus agebat orbis» 



(1) On sait qu\in grand nombre de squelettes de ces animaux ont 
été trouvês dans les cnarbonnages de Bernissart, près de Tournai, d'oú 
le nom de Bernissartensis. On peut admirer 20 de ces Dinosauriens 
(dont deux Mantelli), dressés dans une pose aussi pittorcsque que natu- 
relle, au Musée d T Histoire Naturelle de Bruxelles, qui a pour conserva- 
teur Féminenf paléontologiste et géologue, M. Rutot. 

(2) «Le Brontosaurus, le «Thunder saurien» de Marsh, était «beau- 
«coup plus massif (que le Diplodocus). dans sa structure et son corps 
«était relativement plus petit». H. Fairfield Osborn. 



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5 IO O INSTITUTO 

allusion poétique à un éternel printemps qui aurait régné 
sur la terre! ^ 

Un problème des plus intéressants a souvent été pose à 
propôs du Diplodocus, comme des autres animaux gigan- 
tesques de Père secondaire ? Comment ces monstres torrai- 
dables ont-ils disparu ? L'hypothèse de Cuvier, qui en expli- 

auait Textinction par sa théone des «Révolutions du globe» (i), 
'après laquelle les différentes espèces apparaissaient et dis- 
paraissaient dans Tintervalle de deux cataclysmes, semble 
écartée depuis les célebres travaux de Lyell (2), qui soutient 
au contraire la série des lentes transformations cosmiques, 
donnant Texplication de Thistoire de la Nature. 

Faut-il, par ailleurs, accepter. Topinion formulée par Dar- 
win (3), 1'apôtre du «transformisme», à savoir que les Dinosau- 
riens devaient trouver avec difficulté à s'alimenter et qu'ils 
ónt du ceder la place à d'autres animaux mieux adaptes 
qu'eux dans la lutte pour la nourriture, qui était la lutte 
même pour la vie ? Pour le célebre naturaliste anglais «Vévo- 
«lution, a écrit M. Cartailhac (4), s'explique par Tinfluence 
«qu'exerce la sélection naturelle, conséquence nécessaire de 
«la lutte pour la vie, qui donne la victoire au plus fort, au 
«mieux doué»; mais on sait que le transformisme a été vive- 
ment combattu par les disciples mêmes de Tauteur de rOri- 
gine des Espèces et qu ? en fait «les biologistes les plus récents 
«traitent le darwinisme avec quelque aedain et comme une 
«hypothèse vieillie (5)». 

ÍVailleurs dans le terrible struggle for life entre gigan- 
tesques compétiteurs luttant avec férocité pour Texistence, 
les puissants et monstrueux Dinosauriens devaient offrir une 
force de combativité et de résistance suffisante au regard 
de leurs formidables rivaux. Le Diplodocus, par exemple, 
au cours de Père secondaire qui a vu sa disparition, n*avait 
sans doute rien à craindre pour la concurrence vitale des mam- 
mifères qui, eux, ne datent que du tertiaire, «ces êtres dont 



(1) Discours sur les Révolutions du globe (1812-1824). 
(1) Príncipes de Géologie íi83o-i834). . 

13) Origine des Espèces (1059). — Darwin fut le disciple enthousiaste 
-yell, dont il étendit les nouvelles doctrines par le transformisme 
à la biologie même. — Voir sur cette interessante question Charles 
Darwin, par Émile Thouvenez, Paris, 1908. 

(4) La France préhistorique, Ch. aL'ère tertiaire», p. 3i, Paris, 1896. 

(5) Voir Particle três suggestif dVUfred Russel, The present positton 
0/ Darwinism dans The Contemporary Review, London, august, 1908. 



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LK DIPLODOCUS DE l'ÊRE SECONDAIRE 5ll 

fia peau est le plus souvent délicate, unie ou cou verte de 
«poils, a écrit M. Albert Gaudry (i), et qui n'ont eu leur 
«complet développement que lors de Textinction des enormes 
crep tiles secondaires, auxquels une peau coriace et quelque- 
«fois cuirassée donnait des avantages dans la lutte pour 
«la vie». 

Ce n'était pas là Topinion du naturaliste M. Trouessart, 
qui a écrit: «II semble que les Dinosauriens ont vécu sur 
«le terrain américain plus tard que sur 1'ancien continent. 
«Les Dinosauriens ont disparu au moment même ou les pre- 
«miers mammifères de grande taille ont fait leur apparition, 
♦ et leur extinction est due, sans aucun doute, à la concurrence 
*vitale que ces derniers leur ont suscitée (2)». 

Ne faudrait-il pas plutôt chercher les causes de la dispa- 
rition de ces monstres à la fois «dans la révolution» cosmique 
aui s'est produite à la fin de Tépoque jurasique à travers 
1 Amérique du Nord et dans le changement de température 
qui Ta accompagnée ? 

Cest alors que la région marécageuse ou lacustre, qui 
formait là un immense bassin, s'est progressivement abaissée 
jusqu'à constituer d'abord des lagunes, puis une vaste mer 
intérieure, et,