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Full text of "O Panorama; semanario de litteratura e instrucção"

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JORNAL 

Lim^iiio E ramm 



TOiiUmi: XI 



TERCGIBO DA TERCKIRA SERIE. 





(PUBLICADO DE JANEIRO A DEZEMBRO DE 18S4.) 



LlSBOi^ 

TyPOGRAPHIA do PAmBAHA, TrAVESSA DA ViGTORlA, 52. 



\u 



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índice ilLPHABETICO 



AP 

es 
V.ii 



DOS 

ARTIGOS CONTIDOS 

NO 

VOLUME UNDÉCIMO— TERCEIRO DA TERCEIRA SERIE. 
(O0 a»tert»€O0 denotam as gravuras.) 



Adeus! (poesia) 64 

Academia céltica » 93 

Akalis (os) « 360 

Alicante * 329 

Allemanha. 

Vid. Cidade de Praga. 
Cidade de Trento. 
Dresde. 
Ratisbonna. 
Salzburgo. 
Trieste. 
America. 

Vid. Banbos de Saratoga. 
Mont-Vernon." 

Anno bom (poesia) 37 

Antiguidades de Beja (das) . 199 
Antiguidades egípcias • . . 260 
Antiguidades de Santarém. . 263 
Antiguidades scandinavas » . 308 
Apontamentos de um<i viagem 

á Itália. 74, 85, 93, 101, 319 
Aqueducto da Carioca * . . 409 

Araruta 184 

Arcfaeologia Portugueza. 
Vid. Ceremonias da ac- 
clamação de el-rei 
D. João IV. 
Memorias da villa de 
Arrayolos. 
A rchi pélago de Cabo Verde. 46 

49, fi38, 24o. 
Armas do mamelukoTotimuii- 

bey*i 197 

Arsenal de Veneza » . . . . 249 
Ásia menor. 

Vid. Tumulo de Midas. 
Atoula kan-Mesjíd na índia « 201 

Ausência (poesia) 284 

Áustria. — Vid. Trieste. 
Bahia. 

Vid. Bahia de todos os San- 
tos. 
Capella de S. Gonçalo. 
Cathedrai da Bahia. 
Bahia de todos os Santos • . ^ 
Banhos de Saratoga • . . . . 333 
Bibliograpkia. 

Aviso ao povo relativanien- 

á cbolera-niorbus .... Co2 
Catalogo dos manuscriptuis 
portuguezes existentes no 
museu britânico .... 400 
Cullecçao de legislação des- 
de 1603 até 1826, . . . 26 í 
Ensaio sobre a cbolcra-mor- 



bus epidemica, pelo dr. 
F. J. da Cunha Vianna, 
e A. M. Barbosa. ... 56 
Estudo moral e politico so- 
bre 08 Lusíadas 304 

Fastos da Igreja . . . 264, 383 
Instrucções contra a chole- 
ra-morbus epidemica, pe- 
los auctores do ensaio. . 56 
Natureza das Coisas, deT. 
Lucrécio Caro, trad. por 
Lima Leitão .... 80, 231 
Passeio de sete mil léguas 

(iim) 192 

Poesias de L. A. Palmei- 
rim 376 

Poesias de M. M. de Bar- 
bosa du Bocage. . . 80, 216 
Bibliotheca de el-rei D. Duar- 
te. — Vid. Memoria acer- 
ca da bibliotheca de el-rei 
D. Duarte. 

Bolonha • 209 

Brazil. 

Vid. Aqueducto da Cario- 
ca. 
Bahia de todos os San' 

tos. 
Capella de S. Gonçalo. 
Cathedrai da Bahia. 
Serra dos Órgãos. 
Bubi. — Vid. Ilha de Fernan- 
do Pó. 

Bulia de 1536 224 

Burro aguadeiro « 408 

Caldas de Vizella no Minho 

(as) 255 

Canoa da Java fugindo ao tu- 
barão • 1 45 

Cao do Cego (poesia) .... 8 
Capella de S. Gonçalo * . . 97 

Capri * 385 

Carro de carga equilibrada • 125 
Carro magnético dos chinas » 164 
Cartuxa (a) de Dijon ♦ . . . 81 
Cascata gelada de Giesbach « 289 
Catliedral da Bahia » .... 273 
Cathedrai de Lincoln «... 401 
Cer«inonias da a cela mação de 

el roi D. João IV. . . 2, • 9 
Chafariz de Saint-Macloud «161 
China. — Vid. Ponte sobre 

pilares. 
Cidade de Jiuxemburgo * . . 9 
Cidade de Praga v 225 



Cidade de Trento » 281 

Cocoroco. í— Vid. Ilha de Fer- 
nando P<5. 
Cocus hesperidum ««« . . . 284 
Collodion. — Vid. Emprego 

do — 
Commercio do gelo nos Esta- 
dos Unidos ........ 384 

Conde Soberano de Castella. 106 

127, 146. 
Construcçdes militares no In- 
dostão « 33 

O Corsário (poesia) 270 

Costumes moldo-valaquios ♦ . 57 
Costumes dos kalmukos « . . 393 

Criméa * 337 

Crime (o) quadro dePrudhon • 233 
Descobrimento da communi- 
cação entre dons mares ao 
norte do continente ameri- 
cano 1*26 

Descri pção da cidade de S. João 

d'el.rei 30 

Descri pção e recordações his- 
tóricas do paço e quinta de 

aueluz 365, 370, 393 

Desertor polaco. . 390, 398, 407 
Destruição dos parasitas dos 

vegetaes 398 

Dresde » 361 

Duas notabilidades 168 

Ecce Homo » 113 

Embaixada de el-rei D. Ma- 
nuel ao papa Leão X. 219. 253 
261,271,274. 
Embarcações e pessoas em- 
pregadas na pesca maríti- 
ma e fluvial em Portugal, 

no anno de 1853 280 

Embocadura do Bosphoro » . 158 
Emprego do collodion na agri- 
cultura 184 

Emprego vantajoso da fcrru> 

gem das chaminés 72 

Esbocetos da vida militar . . 39 
47, 136, 212, 247, 278, 358 
Escola normal de Paris • . . 121 
Escolas de la Marti nière ♦ . 400 
Escriptores portugnezes con- 
lemporaneos. — Vid. Poe- 
tas Iv ricos da geração nova. 
Estatistica dos cultos em Fran- 
ça 188 

E<{tatistica dos invernos . . . 191 
Estatistica da população dos 

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índice alphabetico. 



principaes estados da Ea- 

ropa .120 

Estremadura (na) Cartai. 1 93, 202 

Estribos-latiternas » 53 

Estudos litterarios. 

Vid. M. M. de B. du Bo- 
cage. 
Padre Manuel Ber- 
nardes. 
Estudos sobre os difierentes 
methodos de ensino de ler 
em Portugal. 22, 31, 79, 87 
96, 214, 226. 
Eteoclo e Polynice • . . . . 252 
£xequias da rainha de Por- 
tugal na cidade da Bahia «264 
Familia do Senhor Capitão- 
mÓT. 277, 286, 291, 300, 308 
317. 

Fragmento (poesia) 252 

França. 

Vid. Cartuxa de Dijon. 
Chafariz de Saint-Ma- 

cloud. 
Escola normal de Pa- 
ris. 
Igreja de S« Martinho 

d'Ainay. 
Pharol de Cordooan. 

Francisco Arago « 345 

Futuros (os) pintores do Por- 
to 307 

Gallipoli e os Dardanellos. . 139 
Garrett (Visconde de Almei- 
da—). 

Vid. Garrett. 

Gloria e Saudade. 
Morte do sr. Vis- 
conde d\\lmeida 
Garrett. 

Garrett (poesia) 412 

Gloria e Saudade (poesia) . . 402 

Grandes calores 160 

Habitantes de Bilbau «... 244 

Hannah Snell « 61 

Henrique o liberal • . . . . 68 
Hercules (o) germânico e . . 240 
He»panha. 

Vid. Alicante. 

Templo de S. Miguel. 
Tumulo de S. Ibidro. 
Tumulo do XV sécu- 
lo. 
Valência. 
Hollanda. —Vid. Cidade de 

Luxemburgo. 
Horroroso successo na Africa. 341 
Hospital de S. José * ... 297 
Hypopotamos (os) ea musica. 32 
Igreja de S. Martinho d'Ai- 

na y * 17 

Ilha de Fernando P6 ♦ * 77, 84 
Impérios bysantino c ottoma- 
no (os). 66, 76, 82, 90, 97 
138, 172, 181, 186, 229, 242 
258, 294, 298, 309, 314, 325 
338, 346, 356, 374, 378, 386 
403, 409. 
índia portuguesa. — Vid. Pra- 
ça d' Aguada. 
Indostão. — Vid. ConstrucçÕes 
militares. 



Inglaterra. — Vid. Cathedral 

de Lincoln. 
InscripçSo de S.Cotto eS. Pris- 
co ♦ 304 

Insomnia (poesia) 85 

InstrucçSo dos habitantes dos 

campos em Wurtemberg. . 367 
Instrucção publica e desen- 
volvimento intellectual na 
Grécia. . 280, 288, 303, 312 
327, 335, 351, 360. 

IntroducçSo 1 

Itália. 

Vid. Arsenal de Veneza. 
Bolonha. 
Capri . 
Palácios do canal gran- «• 

de em Venesa. 
Possuolo. 
Veneia. 
Kalmukos. — Vid. Costumes 
dos kalmukos. 

Kronstadt 324 

Lista completa dos pequenos 
planetas, com a data em 
que foram descobertos . . 272 

Loanda » 369 

Loterias (as) 390 

Macau. — Vid. Pagode eh inei. 

Macrobia celebre • 320 

Manómetros »«« . . . 213, 224 
Manuel Maria de Barbosa du 
Bocage. 6, 11 , 1 9, 25, 34, 42 53 

Margarida Finch « 149 

Memoria acerca da bibliothe- 

ca de el-rei D. Duarte . .315 
Memorias da villa de Arrayo- 
los. 17, 34, 58, 69, 135, 165 
180, 190, 198, 206, 229, 234 
250, 283, 290, 301. 
Minha lyra (a) poesia . . . 192 

Moléstia das vinhas 80 

Monstruoso prelo mechanico. 248 

Mont-Vernou « 2! 7 

Monumento de Gomes Freire. 368 

Monumentos 210 

Mortalidade da raga humana. 104 
Morte do sr. Visconde de Al- 
meida Garrett 402 

Navio do decimo terceiro sé- 
culo » 13 

Nota estatistica do gado exis- 
tente em França e Ingla- 
terra 88 

Nota sobre o consumo da car- 
ne em Paris e Lisboa. . . 16 

Novo betume 149 

Originalidade da navegação 
do oceano atlântico septen- 
. trienal e do descobrimento 
de suas ilhas pelos portu- 
gueses no século XV. 40, 48 
55, 62, 67. 
Padrão de pedra em Belém «101 
Padre Manuel Bernardes . . 322 
•330, 353, 362. 

Pagode chinez « 65 

Palácio (antigo) do duque de 

Aveiro em Belém ♦ . . . 177 
Palácio de recreio « . . . . 380 
Palácios do canal grande em 
Veneia » 105 



Paran de Achem • 352 

Pedro Subleyras » 140 

Pescadores indianos «... 205 
Pharol de Cordouan » . . .169 

Poesia (a) 178 

Poesias. 

Vid. Adeus! 

Anno bom. * 

Ausência. 
Cão do Cego. i 
« Corsário (o). 

Descri pçio da cidade 
de S. João dVl-rei. 
Fragmento. 
Garrett. 

Gloria e Saudade. 
Insomnia« 
Vida (a). 
Poetas lyricos da geração no- 
va. — Mendes Leal. . 60, 69 
78, 83, 91, 99, 109. 
Politica (a) e a agricultu- 
ra 188 

Ponte sobre pilares « . . . . 49 
Porteiro de Cromwell. . . . 296 
Portugal. 

Vid. Évora, quartel de ca- 
vallaria. 
Hospital de S. José. 
Monu mento de Gomes 

Freire, 
Padrão em Belém. 
Palácio do duque de 
Aveiro. 
Possessões portuguesas. 
Vid. I>oanda. 

Praça d** Acuada. 
Povos ichthyophagOB e créo- 

phagos. 339 

Poizuolo » 193 

Praça d^Aguada » 73 

Preservativo contra as moscas 

que perseguem o gado. . . 352 
Pretos jalofos (os) » . . . .189 
Principe Schamyl (o) ♦ . . . 305 
Prosadores portugueses. Vid. 
Padre Manuel Bernardes. 
Gtuadro de Pedro Subleyras» 137 
Gtuadros maritimos . . 318, 323 

332, 340, 348. 
GLuanto custam os ledes aos 

habitantes de Argel . . . 376 
â'Uartel de cavallaria em Évo- 
ra 5 

Rainha de Portugal (a) S. Ma- 
gestade a Senhora D. Ma- 
ria II. . . 129, 140, 150, 155 
162, 170. 

Ratisbonna « 89 

Receita e despesa do reino 

unido da Grã-Bretanha e 

Irlanda no anno de 1853. 64 

Reflexões relativas á videira, 

suas doenças e meios de as 

curar 148 

Reis (os) de França e os tri- 
butos 256 

Residência de Washington.— 

Vid. Mont-Vernon. 
Romances. 

Vid. Conde Soberano de 
Castella. 

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ÍNDICE ALPHABETIGO. 



Desertor polaco. 
San^o na vingança. 
Scenas de escravatu- 
ra. 
D. Sebastião o Dese- 
jado. 
Rússia. 

Vid. Criínéa. 
Kronstadf. 
Sebastopol. 
Russos (os) no decimo século. 383 
Sabão próprio para tirar nó- 
doas 24 

Salomão e o agricultor . . . 232 

Salzburgo * 185 

Sansão na vingança. 2, «14, 20 
•27, 36, 44 « 51 . 

Sapho * . . 376 

ScenAS de escravatura. 259, 268 
275, 282, 292. 



Scbamyl. — Vid. O prineipe 

Scbamyl. 
D. SebettUo o Des^ado. 380, 388 
396, 405, 413. 

SebaãLopol • 313 

Semana santa emRo«a. 114, 122 

Serra doa Orgãoa • 377 

Siluro ou bagre da Europa « . 173' 
Soldado de cavallaria grego* 20 
Soldados de infantaria gre- 
gos »».. ' 29 

Soissa. — Vid. Cascata gelada 
de Giesbach. 

Stearina económica 320 

Templo de S. Miguel • . . 328 

Thomas Guy « 229 

Touros (os) de Guisando « . 181 
Trento. — Vid. Cidade de 

Trento. i 

Trieste • 241 



Tumulo de Boncbanip • . . 344 
Tamnlo de S. Isidro «... 336 
Tumalo de Midas • . . . . 25 
Tumulo do XV século » . . 392 
Typompbia franceia (a) . . 248 
Uso do tabaco de forno nos 

campos 248 

Valência ♦....'.... 257 
Viagem ao Minbo. 104, 110, 159 

166,. 174. 
Viagens na Africa e na Am»- 

rica. 176, 182, 187, 205, 215 

222, 227, 236, 244. 

Vida (a) poesia 350 

Virgem dos Druidas (a) « . . 108 

Vocação 333 

Vocaçio (uma) 373 

Volume dos planetas .... 256 
Yak (o) ou boi com cauda de 

cavallo * 416 



FIM. 



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o PANORAMA 



IIlíVRODUCÇlO. 




O mohxuto solemne em que vae 
abrir-se para o Panorama uma 
nova c auspiciosa epocha nao de- 
ve estranhar-se, antes é mui na- 
tural, que nos dirijamos áquelles 
que o trato de longos annos e 
uma benevolência nunca desmen- 
tida, converteram de simples sub- 
scriptores em protectores e ami- 
gos mui Íntimos doeste jornal, 
assim para lhes agradecer a approva- 
çào com que têe.m honrado as nossas 
fadigas (approvação que vai um in- 
centivo poderoso) como para lhes com- 
rounicar o nosso pensamento, revelar- 
Ihes as nossas esperanças, indicar-lhes a es- 
trada, que havemos de seguir n^esta nao 
inglória, mas trabalhosa peregrinação que 
vamos emprehender, quando ainda ape- 
nas tínhamos repousado das lidas, e das 
contrariedades que nos accommetteram na que aca- 
ba de terminar com o numero 53 do 10.^ volume. 
Em primeiro logar confessaremos com toda a in- 
genuidade que o Panorama nâo foi, no anno de 
1853, nem podia ser talvez, aquillo que desejára- 
mos ardentemente que fosse, aquillo que confiámos 
que elle ha de ser um dia. Depois da existência at- 
tríbulada que levou, durante a publicação de uma 
parte do 9.^ volume, a difficuldade da nossa empre- 
za subia de ponto : era mister attenuar a influen- 
cia perniciosa de uma serie de circumst anciãs des- 
favoráveis, que semeavam de abrolhos o caminho 
que devíamos forçosamente de trilhar, e na realida- 
de nos embaraçaram os primeiros passos. Não era 
possível applícar sobre um s<5 ponto o esmero e a 
attençSo divertidas no empenho máximo de salvar 
o credito da publicação, e restabelecer a sua regu- 
laridade, posta em duvida pelas ultimas vicissitudes. 
O anno de 1853 foi pois de verdadeira provação e 
experiência, e por isso talvez nâo satisfizesse inteira- 
mente os mais exigentes. 

Sem que porém nos deixemos cegar do amor pró- 
prio, parece^nos poder asseverar que o volume, ago- 
ra concluído, nSo envergonha a epocha mais brilhan- 
te d 'este semanário. Alguns dos nomes de que mais 
se ufana e gloria a litteratura portugueza contem- 
porânea ali figuram, a par de outros muitos menos 
illustres de certo, mas já largamente credores á pu- 
.blica estimação. 

Se se pddem taxar de menos variadas as col um nas 
do Panorama, se este periódico, pela sua índole 
grave e sisuda, repelle esses escriptos fugitivos, que 
a moda hoje applaude, que amanhã ninguém lê, 
porque mui pouco ou nada valem, lá se encontram re« 
gistados alguns trabalhos de mais severo lavor, e bas- 
tante transcendência, que sempre hão de ser lidos 

Voi. III.^3.aSxRiB. 



com interesse. Falíamos com os documentos á vista. 
Percorra-se a coUecçao, e reconhecer-se-ha a verdade. 

Pois que temos a consciência de que o Panorama 
nos não deslustra ; se é nossa convicção intima, que 
elle não trahiu a missão, que lhe está confiada -, se, 
apesar de modesto nas aspirações, ninguém pôde ne- 
gar que ha concorrido, e continua a concorrer, obrei- 
ro diligente e zeloso, para a civilisação intellectual 
do nosso bom povo^ deixando praguentos e mur- 
muradores, que de tudo sentenceiam e de cousa al- 
guma entendem, alonguemos os olhos desassombra- 
dos por mais vastos horisontes, e cheios de con- 
fiança prosigámos na tarefa a que voluntariamente 
nos consagramos. 

Como até aqui o Panorama procurará ser bom e 
legitimamente portugnez, na direcção, no caracter, 
na linguagem : estudos sobre historia e archeologia \ 
quadros de costumes, que retratem o viver e o crer 
de outras eras; bio^raphias de personagens notáveis 
pela sciencia, pela litteratura, por suas virtudes 
(principalmente nacionaes) são assumptos, que hão 
de occupar de preferencia as suas columnas, sem 
prejuízo com tudo de outras matérias. 

Daremos a descripçao artística de alguns dos mo- 
numentos, que existem pelo reino, acompanhada dos 
respectivos desenhos, o que se nos affigura tanto mais 
necessário quanto é certo o inqualificável desprezo 
em que são tidas as nossas cousas por estrangeiros e 
estrangeirados. 

Alguns dos mais interessantes pontos da instruc- 
ção publica hão de ser no presente anuo tratados 
por uma penna mui competente. 

GL'Uando todos reconhecem a necessidade de ins- 
truir o povo ; quando em todos calou a convicção 
de que um povo ignorante nao p6de ser um povo 
feliz, estudos de similhante ordem parecem-nos ter 
de uma alta importância. 

As noções mais elementares das sciencias, toda a 
espécie de úteis conhecimentos, que entram no qua- 
dro de uma publicação doesta ordem, figurarão n'el- 
la, a par das composições mais amenas e agradáveis 
de alguns dos melhores prosadores e poetas contem- 
porâneos. 

Como é nosso desejo que o Panorama constitua 
uma espécie de bibliotheca selecta, que possa em todo 
o tempo consuitar-se com algum proveito, continua- 
remos a excluir d^elle todo o trabalho, que única* 
mente se recomm^nde pelo interesse do momento. 

Escripto por portuguezes e dedicado a todos os por- 
tuguezes, o Panorama conservar-se-ha como até aqui 
estranho absolutamente aos partidos políticos, que nos 
tem infelizmente dividido. As allusões, quaesquer 
que sejam, evitar-se-hão cuidadosamente; se recor- 
dar alguma vez as lutas civis, que ensanguentaram 
o nosso solo, e atrazaram por muitos annos a nos- 
sa civilisação, fal-o-ha unicamente para as lamentari i ^ 
Jaueiro 7, 1854. O 



o PÀiVORAMA. 



Pofto que 08 factos abonem o escrúpulo com que 
a redacção doeste semanário respeita ainda a mais 
melindrosa susceptibilidade, rectificaremos aqui a 
declaração solemne de que a moralidade será seve- 
ramente guardada, e que o sentimento religioso trans- 
pirará sempre nas suas paginas. Verdadeiro livro das 
famílias, o Panorama procurará offerecer a todas as 
idades uma leitura substancial, deleitavel e sã. 

Comprehenderiamos n^este pequeno quadro a mis- 
são do Panorama T Será este o modo por que deve- 
mos dirigir os nossos esforços na nova epocha? A 
consciência diz-nos que sim. Do que eila porém nos 
não segura é de que as forças nos não falleçam no 
empenho. Felismente já temos dado algumas pro- 
vas do que pode a boa vontade e a diligencia, ain- 
da quando desajudadas d^aquelles dotes eminentes 
que a Providencia concede a poucos dos seus esco- 
lhidos. 

Pelo que respeita á parte material procuraremos 
gradualmente aproximar o Panorama, na execução 
artística, do melhor que nos vem de paizes estra- 
nhos. 

A gravura em madeira, que este jornal introdu- 
siu em Portugal, ha de successivamente aprimorar- 
se, sob a direcção do insigne artista a quem até 
hoje tem sido commettido este trabalho. 

Resta-nos appellar para a protecção do publico 
intelligente, sem a qual nenhuma empresa é pos- 
sível. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

CSBSMONIAS DA ACCLAMAÇXO 
DE SI.-&SI D. loXo XV. 

O ALVOBOço em que estava Lisboa pelo feliz arrojo, 
que libertara Portugal do domínio de Castella ', o 
prazer que infundia no povo a presença do augusto 
chefe da casa de Bragança, sobre cuja frente pousa- 
vam as sympathias e esperanças de uma nação intei- 
ra 'j o enthusíasmo, finalmente, que todos sentiam ao 
ver entre si um rei português depois de sessenta an- 
nos de reis intrusos, depois de tantas humilhações ao 
decoro nacional \ todas estas circumstancias deram ás 
ceremonias da acciamação d'el-rei D. João IV uma 
solemnídade como até ali não presenccára esta capi- 
tal. A este immenso interesse veiu ainda juntar-se 
todo o apparato da realeza, e toda a pompa de uma 
funcção popular. 

O primeiro de dezembro de 1640 foi o dia dode- 
saggravo nacional. O brado de independência, le- 
vantado dentro dos muros de Lisboa por quarenta 
corajosos patriotas, havia resoado desde o Guadiana 
até ao Minho. Seis dias depois desembarcava no Ter- 
reiro do Paço el-rei D. João IV, e a 15 do mesmo 
mez celebra va-se a sua solemne acciamação. 

Teve por theatro esta funcção a grande praça do 
Terreiro do Paço, que estava situada onde hoje ve- 
mos a Praça do Commercio, e La qual se erguiam 
os paços da Ribeira. Esta vasta residência real, edi- 
ficada por el-rei D. Manuel, augmentaãa porFilip- 
pe II deHespanha, muito aformoseada por D. João 
V, e completamente destruída pelo terremoto dol.** 
de novembro de 1755, guarnecia quasi metade da 
praça da parte do norte, e todo o lado occidental 
até ao rio, terminando ahi em um bello torreão to- 
do de cantaria, e bastante simiihante ao que serve 
actualmente de secretaria da guerra. 

Levantou-se pois junto ao palácio um grande ta- 
blado até á altura de uma varanda ou galeria de ar- 
cos, que ficava no primeiro andar. Sobre o tablado 



construitt-se um throno com seis degraus mui largos, 
que se cobriram com ricas alcatifas de seda. O tabla- 
do estava armado interior e exteriormente de velu- 
do carmesim e outras telas. Sobre o ultimo degrau 
via-se uma magnifica cadeira coberta com um pa- 
no de brocado. A parede a que se encostava acba- 
va-se armada de veludo carmesim bordado de ouro, e 
de igual estofo e bordadura era o docel, que a co- 
bria. As paredes de um e outro lado do throno até 
ao fim do tablado eram guarnecidas de panos de ras 
de seda e ouro, tendo no centro, o da direita a fi- 
gura da Jtutiça e o da esquerda a da Prudeneui* 

Como era pouco espaço o que distava da camará 
d^el-rei ao tablado, vieram primeiro tomar n^elle 
logar, segundo a sua cathegoria, e funcções que ti- 
nham a desempenhar, os grandes do reino, os fidal* 
gos sem titulo, os membros dos tribunaes, os pre- 
lados, os alcaides-móres, os reis d^armas, arautos e 
passavantes, porteiros da camará, etc 

Logo depois appareceu el-rei, entrando no tabla- 
do pela varanda do paço, a que ficava contíguo. 
Trajava vestes de côr parda, e de uma fazenda cha- 
mada risso, bordadas de ouro, com abotoadura de dia- 
mantes, e mangas de tela branca com ramos de ou^ 
ro e prata. Trazia ao pescoço um coUar de pedras 
de muito preço, do qual pendia o habito da ordem 
de Christo em um circulo de diamantes. Tinha ao 
lado uma riquíssima espada, e lançada aos hombros 
o manto real, de purpura e ouro. 

Precediam sua magestade o alferes-m6r Fernão Tel- 
les de Menezes, trazendo enrolada a bandeira real \ 
o mordomo-mdr D. Manrique da Silva, marques de 
Gouvèa, empunhando a negrinha, divisa do seu car- 
go ^ D. Francisco de Mello, fazendo de condestavel, 
com o estoque desembainhado e levantado com am- 
bas as mãos ^ e os mais offíciaes-méres com as suas 
respectivas insígnias. João Rodrigues de Sá, camarei- 
ro-m<5ry segurava a cauda do manto real. 

Assim que el-rei entrou no tablado tocaram as 
charamelas, trombetas e atabales, e o reposteiro-mér, 
Bernardim de Távora, descobriu a cadeira. Sua ma- 
gestade subiu ao throno, sentou-se, e empunhou o 
sceptro de ouro, que lhe foi apresentado pelo cama- 
reiro-m^r, e o trazia em uma rica salva o tbesourei" 
ro do real thesouro. 

(Continua.) 

I. DX ViLHKNA BaKBOSA. 



SANSlO NA VINGANÇA í 
(1850) 

E sacudindo (SansSo) com grande 
for^ as columnas caiu a cata sobre 
todos 08 príncipes, e sobre todo o 
poTo que estava n'eUa ; e foram mui- 
tos mais os que matou morrendo, do 
que os que matara antes quando vivo. 

JviSBs, cap. XVI, T. 30. 



Um BAiiiBO nx Macav. 

£m todas as cidades ha um bairro immundo, decons- 
trucções mesquinhas, de miserável ppparencia, habi- 
tado pela parte mais indigente da população, e que 
é todavia o pedaço mais poético, mais monumental 
d^esses grandes corpos, e quasi sempre o seu berço. 
Ao aproximar de uma cidade antiga, o viajante 
adivinha logo onde começou a nascer essa povoação ; 



o PANORAMA. 



oft ftigpaes 8ao caracteriscos. Enxergue-se uma alta 
montanha coroada de ameias, eriçada de canhões, 
se é christâ a terra, vêr-se-ha também ali o eni- 
bleroa eterno da redempçãp •, essa eminência domi- 
na a planície, que em outros tempos estaria expos- 
ta a correrias de inimigos, logo as primitivas habi- 
tações deviam ser a abrigo da artilharia, pendurar- 
se pela coUina até ao sobpe do monte, e s6 mais 
Urde se espraiariam pelo valle. E assim que a pri- 
mitiva Lisboa desce pela encosta do castello até se 
abysmar em Alfama^ o velho burgo do Porto cir- 
cumda os paços acastellados do seu bispo soberano \ 
e em Macau, de que ora vamos tratar, a baixa do 
Monte espriguiça-se aos pés da sua antiga cidadella. 
Esta parte, a mais nobre de cada povoação, pelo 
seu foro de antiguidade, é, por uma triste contra- 
dicção das cousas humanas, votada pelo andar dos 
tempos a ser o receptáculo de todos os vicios e tor- 
pezas, de mistura com todas as misérias, uma como 
excrecencia da sociedade, um logar maldito, que a 
cidade nova repelle de si, como os sãos engeitam o 
leproso. Ainda esta circumstancia se dá no sitio de 
Macau, já apontado, onde tem logar a primeira 
içena do pobre drama, que nos propomos esboçar, 
tSo pobre como o seu auctor e o seu palco. 

Macau é uma cidade formosa, elegante mesmo, 
mas de poucas recordações históricas ; e esse mesmo 
pouco, que pode ainda interessar ao antiquário, está 
vinculado á fortale» de S. Paulo do Monte, que 
abre o seu manto de muralhas para acoutar os fieis 
que repousam nas humildes pousadas da encosta. 
Nunca houve um alvoroto popular, uma sedição de 
chins, uma conspiração do senado, que para ali se 
nao recolhessem as aucloridades da terra, a tropa c 
06 habitantes pacificos^^ ofogo de uma sò bombarda, 
dirigido pelos frades da companhia de Jesus, foi 
bastante para faser parar os hollandeies de Cornelio 
Reyersíoon, quando em 23 de junho de 1622 assal- 
taram a cidade, facto o mais glorioso da historia de 
Macau, que é até hoje commemorado com procissão 
• festa annual. 

A este lado da cidade encaminharemos pois o 
leitor. Supponha que desembarcou na praia Grande, 
que sobe pela calçada de S. João, que atravessa o 
largo da Sé, sem se demorar na contemplado da 
estranha architectura da cathedral, siga pela tra- 
vessa do Bispo, volte á rua do Hospital, e vera a 
pouca distancia o rotulo de uma esquina adiíer-lhe: 




E»ta tríplice indicaçSo do nome da rua encontra 



se em todos os ângulos da cidade \ a segunda do 
lumna tradui em caracteres chins o pensamento ca- 
primeira ; e a terceira dá a pronuncia aproximada 
dos referidos carhoteres. 

Galgando por essa ladeira chega-«e á hoÂxa do 
Monie^ logar mais arriscado no transito noturao do 
que o basar chinês da mesma cidade. É ahi que se 
refugiam os desertores e outros quaesquer crimino- 
sos, que fogem ao encontro da justiça, e que acham 
guarida nas miseráveis barracas e palhoças de mu- 
lheres sem nome, e qoasi sem classificação no gé- 
nero humano, pela sua hedionda fealdade. 

Entremos em um d^esses miseráveis alcouces, ha- 
bitação de uma filha de Timor, e observemos o que 
ahi se passa ao declinar do dia 26 de outubro de 
1850. 

A meio da casa está uma tosca banca, ladeada 
por dous assentos de bambu já quasi inúteis ^ é to- 
da a mobilia da casa. Sobre a mesa vê-se uma bo- 
tija de aguardente, duas canecas da mais ordinária 
louça da china, e uma escudela com restos de pei- 
xe^ é todo o provimento da habitação. Em um dos 
bancos está sentada uma mulher de vinte e oinoo 
ànnos, tes cobreada, olhos pequeníssimos, e corpo 
rachitico \ traia bajú e quimSo, ao uso das nhonbas, 
(nativas de Macau) e como ellas, tem pendente da 
cabeça a desbotada saráça, que já fora amarella com 
barra de varias cores; os pés nus e escuros estão ape- 
nas apontados em velhos chinelos, e uma das mSos 
segura o indispensável cigarro chim. Defronte does- 
ta miserável creatura, está igualmente sentado um 
homem de figura repulsiva, e que parece attingir o 
estado de embriagues completa. Alto, trigueiro e 
sórdido, JoSo António, um dos fieis d^artilharía da 
fragata D. Maria II, mostra no rosto, largo e enfar- 
ruscado, a ferocidade de uma alma perversa. Levan- 
do á boca o tarro cheio de aguardente, no momento 
em que nos aproximámos d^aquella porta, dliia o 
eondedavel (outro modo de designar o fiel d^artilha- 
ria de um navio de guerra) : 

— M Floríana, beMmos mais um trago doesta in- 
fernal beberagem, que talvez nos nSo tornemos a 
ver. w 

— (t Porque, JoSo, » respondeu a timora na sua 
estranha linguagem, que tem, pretensões a chamar- 
se portugueza, « nSo voltas ? £ porque a fragata vae 
a Wampu, como se diz?» 

— u NSo, n replicou o homem com ar sinistro, « 
despejando de uma vez o liquido contido na caneca, 
tto conselho do governo quer mandar a fragata a 
Wampu, mas eu hei de mandal-a ao inferno ! » 

E ergoeu-se, cerrando os punhos e alçando-os para 
o céu em ar de ameaça ; porém) a embriaguez ani- 
quilou-lhe o esforço, e caiu de novo sobre o banco. 
Proseguiu todavia : 

— «Hei de incendiar a fragata para me vingar 
dos maus tratos do commandante. . . ^ 

— u E que culpa têem os outros que estSo a bor- 
do, para morrerem também? 9» atreven-se a dizer 
Floriana. 

— u Q*ue me importam os outros ; todos me des- 
prezam, porque sou velho e jasqueroso... menos um, 
oh ! esse hei de eu salvar. E uma boa creança, co« 
nheci seu pae, que sempre me estimou ; não morre- 
rá. Esperarei por um dia em que elle venha para 
terra, e entSo. . . entSo, hão de ter fogo de vista, 
e ha de ser mais breve do que pensam \ » 

— u Pagar o justo pelo culpado ! Melhor obrou 
meu marido. Nao sabes cmno elle se vingou de uma 
affronta ? n 

— u Eu nSo, 91 respondeu o velho com enfado. 

-«Poi. ninguém o igJfgXerbiínfe^Ògfe 



o PANORAMA. 



que se nSo &Ila de outra cousa em Macau ; 
depois da morte do goTemidor é o objecto mais íal- 

— ttSim? pois conta-me isso, »» balbuciou JoSo 
António, fechando os olhos, e dispondo-se para dor- 
mir encostado á fraca mesa. 

Floriana repetiu ás gretadas anteparas da barraca 
o seu lamentável conto (1) n^estes termos: 

-^u Haverá raez e ibeio que casei, triste união de 
um dia s6 ! Na roanba seguinte ao noivado, ergueu- 
se meu marido muito cedo, e foi carregar uma pis- 
tola, que sempre o acompanhava ; chegou-se perto 
do leito em que eu ainda descansava, e disse-me 
com vos firme, mas com um gesto diabólico : « Flo- 
riana, fui enganado, roas tu nSo és culpada n^esta 
traição, porque foste obrigada por teu padrasto a 
casar comigo. . . dis-me quem foi que te deshon- 
rou ? . . . » — u Perdão l clamei eu, unindo asmSos, e 
sufibcada pelas lagrimas, n — u O nome do seductor, 
ou morres ! n retruquiu elle, encostando-me á fron- 
te a fria bdca da pistola. Vendo a morte de tão 
perto, pobre mulher, fraca como sou, não pude he- 
sitar, confessei a verdade, disse um nome : Albi- 
no !.. . i( Teu padrasto l ? n replicou elle espanta- 
do ;-— u Sim, r> lhe tornei eu, quasi desfallecida, e Ber- 
nardino correu para f<5ra da porta. Caí prostrada no 
leito; mas d^ahi a pouco despertou-me o estrondo 
de um tiro ; corro á janella, olho em roda da casa, 
e a principio nada vejo, nada ouço \ no momento 
porém em que ia a fixar a vista sobre a habitação 
de Albino, que ainda na véspera fora a minha ha- 
bitação também, enxergo um ténue fumo que se 
escapava da porta entre-aberta, e quasi simultanea- 
mente ouço uma segunda detonação. Eis aqui o 
que depois me contaram. Bernardino apenas me 
deixou atravessou a rua e entrou em casa de meu 
padrasto... o pobre almoçava tranquillamente ! Sem 
uma palavra de explicação, disparou-lhe a pistola 
contra a cabeça, e depois de pausadamente se haver 
assegurado « de que estava bem morto, carregou de 
novo a arma, e desfechou comsigo mesmo, caindo 
immediatamente ao lado da sua victima. Viuva de- 
pois de um dia de consorcio, sem amparo algum no 
mundo, vim acoutar-me a esta pobre barraca. . . 
porém deixemos isso: que te parece, João, a vin- 
gança do meu Bernardino não foi mais nobre do 
que essa em que meditas ? « 

João António resonava *, não respondeu, porque 
dormia desde o começo da historia. N^esse momen- 
to um novo interlocutor empurrou a esteira que ser- 
via de porta á biirraca, e penetrou na triste habi- 
tação de Floriana. Era um soldado do batalhão 
naval. 

— tíCá está quem eu procurava," disse o recém- 
chegado ao ver Joào António-, u 6 amigo, vamos 
para bordo. w 

£ sacudiu o|braço docond«slavel, que ficou im mo- 
vei, assobiando as harmonias de um somno de em- 
briaguez. 

— mO velho está tonto," disse Floriana para o 
soldado, «cé melhor deixal-o ficar ahi, e pela ma- 
nhã irá. " 

— uSim? e as chibatas que lá cstao a bordo? 
Como o commandante gosta muito d''elle!'^ accres- 
centou ironicamente o naval. 

— a Olhe. nhoHj melhor fora que este maldito ve- 
lho não tornasse ao navio. Metteu-se-lhe na cabeça 
incendiar a fragata, e é capas d^isso ! Elle nicsmo 



(I) O que se vae ler é histórico, como grande parte 
doesta uarrat^So ; mudei porém os uoines dos actores, que 
aliás se poderão ver no Boiedm do Governo de Macau. 



m^o disse ^ veja se previne os officiaes, para «vitar 
uma tal desgraça. » 

— u Historias, nhonha! Assim se bota fogo a uma 
fragata ? As chaves do paiol da pólvora nao estão 
em seu poder, e quando lá desce é sempre acompa- 
nhado, e com um official á vista, n 

— M E bom ter cuidado. . . » 

— « Ora adeus ! Se eu conheço o JoSo António ; 
falia, falia, e mais nada. Gtuantas ameaças lhe te- 
nho eu ouvido desde a saída de Lisboa, ha mais de 
um anno ? Já em Gôa era o mesmo : faço, aconte- 
ce, e por fim, ainda cá estamos todos. Porém é pre- 
ciso acordar este diabo. . . » 

— «Não vae assim, nhon, em quanto não dormir 
algumas horas. 99 

— te Pois que fique, e lá lhe ajustarão as contas 
amanhã^ eu vou-me até á Taipa ^ adeus, nhonha.«9 

E o soldado saiu cantando, sem comtudo deixar 
de pensar nas palavras de Floriana relativas ás amea- 
ças do condestavel, e fazendo projectos de avisar ura 
of&cial de quem era protegido. Km quanto elle ca- 
minha para o cães do embarque, e que Floriana se 
prepara para dormir ao som dos roncos de João An- 
tónio, deixemos a baixa do Monte, e vamos n^um 
relancear de olhos observar o estado de Macau na 
epocha a que nos referimos, para melhor intelligen- 
cia doesta pequena, mas verídica historia. 

Havia mais de um anno que o governador Ama- 
ral fora assassinado por alguns chins. Deus sabe man- 
dados por quem. . . é esse um ponto misterioso, em 
que não nos atrevemos a fallar, sem provas na mão!... 
Diziamos pois que havia mais de um anno que ti- 
vera logar esse bárbaro sacrificio, ficando a cidade 
em um estado de confusão e anarchia diffícil de 
descrever. Um joven official fie artilharia salvou por 
então Macau, collocando-se á frente de trinta solda- 
dos, e arrancando ao poder dos chins a fortaleza de 
Passaleão, com o que afugentou para longe os ini- 
migos^ porém a attitude da povoação portuguesa, 
isolada ali a um canto do immenso império celestial, 
estava longe de oíTerecer garantias de segurança aos 
seus próprios habitantes, e corria o ri.sco de se per- 
der para a coroa dos nossos reis. O conselho do go- 
verno, que tomara o leme da administração nestas 
tristes circumstancias, mal podia com o pezo de tau 
difficil encargo-, prote<itou, fez o que poude em de- 
saggravo das cinzas d'Aniaral, mas não podia tentar 
nenhuma empreza contra os chins, por falta de re- 
cursos, de instrucções e de chefe ^ para aggravar mais 
esta precária posição, revoltou-se a guarnição da 
cidade, por falta de pagamento, e foi misler arran- 
jar um emprebtimo para apaziguar com dinheiro a 
soldadesca. E incrível como os chins se nào apro- 
veitaram d'esta óptima opportunidade, para lançar 
de uma vez os portuguezen fora da ilha de Hian- 
Shan ! Já tarde, e beiíi tarde., cheirou a Macau o 
honrado e inteliigí»nte governador Prdro. Alexandri- 
no da Cunha, a bordo da corveta D. João I, e pou- 
co depois surgiu na rada a fragata D. Maria II; 
era pequena força, mas ainda se esperava do Rio de 
Janeiro outra corveta, a íris, que vinha reforçar a 
esquadra, e o novo governador dispunha -se animoso 
a exigir uma satisfação aos mandarins pela morte 
do seu antecessor, quando elle mesmo foi victima 
de uma curta enfermidade, ao cabo de quarenta 
dias de governo. Outro conselho, qua^ii com posto dos 
mesmos vogaes, tomou conta da gerência dos negó- 
cios, e sem inslrucções da corte, sem meios pecu- 
niários, sem unidade, sem pensamento de acção, olha- 
va com susto para aquelles três navios, tripulados» 
por setecentos homens, que reclamavam soldo e man- 
timentos,* para a tropa da cidade, a quem era mis- 



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o PANORA3IA- 



o 



ter pagar ^ para os empregados, que morriam á min- 
gua de pagamento \ e lançava ávidos olhos para o 
horisonte, procurando enxergar o paquete, que lhe 
trazia as letras do governo da metrópole, e alme- 
jando por um novo governador que os alliviasse de 
tao incommoda auctoridade. 

Os chins entretanto nada haviam tentado con- 
tra a cidade^ muitos ali habitavam pacificamente 
e continuavam o seu trafico commercial e artístico. 
Mas quem salvaria Macau de uma súbita invasão, 
quando o mandarim da cidade havia fugido, e os 
nossos se tinham apossado, pela força, dePassaleao? 
A guarda da porta do Cerco ou do Limite, tinha 
sido abandonada pelos imperiaes, que se fortifica- 
vam na Ccua Branca^ e podiam de um momento 
para outro avançar sobre Macau ^ nào havia decla- 
ração de guerra, é verdade, mas todos conhecem a 
boa fé dos chins, e de mais já tinha havido fogo de 
parte a parte ^ estavam pois suspensas as hostilída- 
dea, mas em paz não se podia considerar a cidade. 

Tal era o estado anómalo de Macau, quando 
aquelle soldado da exiincta brigada, o fiel d^arti- 
Iharla da fragata, se dispunha a farer voar um ópti- 
mo navio de teca, artilhado epctrcchado convenien- 



temente, e com mais de duzentas pessoas de tripulaçSo, 
para se vingar de um homem, para lavar uma aí!ron- 
ta, exagerada por elle, se nào imaginaria ! Era mais 
um recurso que se tirava á parca defeza da colónia, 
mais um motivo de gloria para o inimigo, mais um 
ensejo para os chins, supersticiosos como sào, cre- 
rem na justiça da sua causa^ mais um padrão de 
vergonha e de immoralidade para a nossa pobre ma- 
rinha, já tao perseguida e aviltada I 

O desfecho doesta t^agedia nenhum leitor o igno- 
ra, ainda está bem fresco na memoria de todos, e 
principalmente d^aqnelles que têem a lamentar nas 
victimas da fragata D. Maria II um pae, um filho, 
um espoio, um irmão, um protector, um amigo!... 
Porém nés propomo-nos a grupar em roda d''esse 
grande quadro algumas scenas de interesse dramá- 
tico e de costumes *, feliz, ao menos, se considerará o 
homem que escreve esta historia, se encontrar na 
approvaçào dos leitores a paga de haver emprehen- 
dido uma narração, cujo objecto ainda hoje lhe faz 
derramar pungentes lagrimas, porque soífreu com 
elle uma perda irreparável! (Continua,) 

F. M. Bordalo. 




XVOaA — {tTAHTJEI. BE CATAXJE»AJtIJ|. 



V. 



EsTB magnifico quartel, onde hoje fie acha o regi- 
mento de cavallaria n.^ 5, foi edificado sobre o cas- 
tello comprehendido na cerca de muralhas, com que 
o mal afortunado D. Fernando I mandou cingir a 
cidade de Évora. 

O celeiro commum, creado em 1576, teve seu as- 
sento n uma parte do mesmo castello, onde se con- 
servou até 1744. N'este anno o governador da pro- 
víncia do Alemtejo, conde d' Atalaia, mandou inti- 
mar os deputados do celeiro para que despejassem o 
castello^ a fim de se realisar o pensanvento, de ha 



muito concebido, de construir n^aquelle logar aqu 
telamentos para um corpo de cavallaria. 

Ignora-se quem deu atraca doedificio, bem como 
quem dirigira as obras, ao principio. Parece porém 
averiguado que os trabalhos, começados logo depots- 
de 1744, estiveram interrompidos até 1793, anno em 
que novamente prosegu iram sob a direcção do tenen- 
te coronel de engenheiros Thomás de Villa Nova, 
que poucos annos depois foi substituido pelo major 
do mesma corpo António José de Santa Ànna. y 

O quartel concluiu-se por 1807, e o vulgo ficou 





gle 



6 



O PANORAMA. 



denominaudo-o dos easUUos^ por ser construído so- 
bre o castello novo da cidade, assim chamado para 
le distinguir do castello antigo ou romano, onde os 
nobres sefixeram fortes para resistir á,acclamaçSo do 
mestre d' Avis, feita pelo povo. 

Tem esta, até certo ponto, sumptuosa fabrica a 
forma de um rectângulo, com 334 palmos de frente 
e 322 de lado. Era cada angulo sobresae um torreão, 
sendo maiores os da frente, ou lado do norte. Cons- 
ta do pavimento térreo em que se acham as caval- 
lariças, e de dous andares para alojamento dos of- 
ficiaes e praças depret, arrecadações, etc. No centro 
ha um pateo quadrado de 86 palmos por lado, que 
facilita a ventilação das differentes officinas. 

A fachada principal, que a estampa representa fiel- 
mente, não pode de certo considerar-se isenta de de- 
feitos architectonicos, mas tem certa nobreza e ele- 
gância que agrada. 

Não sabemos se este edifício reúne todas as con- 
diçues hygienicas, que hoje se julgam com raiSo in- 
dispensáveis nos alojamentos militares, eque infelia- 
mente se não encontram na máxima parte dos que 
eidstem •, é porém opinião geral que o quartel de ca- 
vallaria n.*^ 5 em Évora é um dos melhores do rei- 
no, a todos os respeitos. 



Makwkl Maria pk Barbosa du Bocaor. 

Aa Arcádia Mmano Sadino. 

Entre ferros cantei desfeito em pranto ! 
Valha a desculpa, te não vale o canto. 

VIL (1) 



Chegamos á parte espinhosa deste estudo. Temos 
de reproduiir a physionomia de um talento diffi- 
cultoso de colher com expressão fixa. 

Os traços próprios para esboçar a carreira de Bo- 
cage não chegam para o desenho das feições delica- 
das e caprichosas da musa, que voou do seu lado, 
depois dos últimos e bellos cânticos. A morte, pou- 
sando sobre a fronte do poeta, roubou o segredo das 
milagrosas harmonias, que não esmorecia mesmo o 
frio da sua mao, já levantada, em quanto a vida 
respirou. 

Apreciando emBUmano o homem arrebatado e se- 
dento de applausos, prompto em conceber c expri- 
mir, tão nobre de alma pelas prendas, como frágil 
de caracter pelas fraquezas, fei-se a pintura de um 
grande vultu, imperfeita e rude sim, mas s6 por cul- 
pa do pincel. Descrevendo a luta satyrica dos árca- 
des, e patenteando o animado drama das suas dis- 
córdias, tinha-se a tradição, e com ella presente não 
deviam trocar-se as cores, nem errar-se os traços. 

Agora não. Acabou o que dependia da escolha, 
e principiam as perplexidades e as conjecturas. 

Na elevação de Manuel Maria as figuras históri- 
cas não se medem sem receio, e as manifestações da 
actividade poética não se contrahem a uma vista ge- 
ral sem desafiar o perigo. E como um painel de 
Murillo feito para se olhar de longe. Ao pé tintas 
e toques empastam-se e representam grosseiras mas- 
carras , levado ao seu ponto de perspectiva tudo se 
adelgaça e se embelleza, até offereccr á admiração 
o primor que era. ! 



Ignorámos ainda, se a distancia basta para julgar 
o auctor de Lieandro e Hero, e se a nossa epocha 
será já verdadeira posteridade para cumprir sem il- 
lusSo os deveres da critica. 

Gluerendo penetrar com seguro conhecimento na 
intimidade d^aquelle engenho, não estaremos mui- 
to afastados ? Gloerendo avalial-o unicamente pela 
voz do seu tempo, e pelas paginas dos seos livros, 
será bastante? De qualquer lado é quasi inevitável 
a queda. Os passos escorregam com o declive ^ e a 
claridade, menos distincta á proporção que se cami- 
nha, se não occulta, também não descobre o preci- 
picio. 

Eis o motivo porque lavrar uma sentença sobre 
a Índole e a influencia de Bocage assusta a própria 
audácia. O escriptòr viveu próximo, as suas idéas 
foram diversas das de hoje, e interrompido no meio 
d^ellas, ficou maior o nome do que as obras. Os ad- 
miradores hão de tomar o exame imparcial por um 
ultrage, ao menos por um desforço, da nossa epocha. 
Os zelosos da seita romântica (se é seita e se chama 
assim 1) exclusivos no culto hão de assentar a censu- 
ra opposta, arguindo a equidade como acto reac- 
cionário. Estas exagerações não pezam, e convém 
desprezal-as ? de certo ! Somente duvidamos que se 
consiga com a facilidade com que se diz l 

As revoluções litterarias operam, como as politi- 
cas, por meio de abalos fortes, derrubando uns e 
elevando outros. Os que descem não perdoam ^ oa 
que sobem, forçando o passo, nao transigem. No 
meio do cortejo, que a fortuna ajunta aos domina- 
dores, os gritos do amor próprio não se calam na bo- 
ca da geração trilhada com a passagem do triumpho. 
O resentimento envenena-se ; e como o século não 
volta para traz, a impotência vinga-se sonhando in- 
justiças e encarecendo aggravos. 

Ha mais. Se o cantor expirou, tocando a idade, 
em que os fructos da intelligencia são mais perfei- 
tos ^ se a morte o atalhou na occasião de exaltar o 
génio, obrigada a notar a circumstancia, a critica 
não p6de admittir o que não existe para se louvar, 
nem dar á probabilidade o logar guardado aos fac- 
tos. O que faria um poeta do valor àe Elmano, se 
a imaginação xheia de seiva e de riso aprendesse a 
moderar o excessivo ardor, unindo a força á cor- 
recção ? Eis justamente o problema, que não é da- 
do resolver I Era extensa, como foi radiosa e vehe- 
mente, a sua inspiração? O calor e o brilho do 
estjrlo, dourando tanto a phrase quasi épica, aque- 
ceriam com o mesmo sol os cantos de um poema 
longo? Ousaria o poeta subir á língua trágica, cu- 
nhando nas paixões a interpretação do sentimento, 
e não dos livros ? 

Gtuem responderia a taes perguntas ? Nem o mes- 
mo Bocage sendo vivo. Antes de ensaiar a luta não 
se dá o sim da victoria. Antes de medir os instine- 



(1) Os primeiro» leit capilulot d^cttc estudo arbam- 
te puhlirado» no» numero» 12 e «eçg. do lO.® to!. d'eite 
semanário. 



tos e o alcance da vocação, não se estende a cabeça 
ao louro de Sophocles, ou á palma de Virgílio. 

Observando-se todavia o que Manuel Maria pro- 
d^uziu entre desgostos e distracções, não ha temerida- 
de cm dizer que devia exceder-se a si. próprio uma 
vez chegado a quadra mais serena. E aonde poda 
chegar a asserção. O resto cae no dominio das con- 
jecturas. Socegado o espirito depois da fogosa ju- 
ventude, e applacado o coração pela saciedade, a 
vista offusca-se menos, o orgulho preza a arte mais 
do que a vaidade, e o gosto mette-se adiante doa 
excessos para os conter. A experiência e os desenga- 
nos, ensinando a vida, não passam debalde,^ nem 
deixam o homem, qual estava. A transformação in- 
terior acompanha a outra. 8ente-se mais o que m 
pode, vêem-se melhor os obstáculos. A imaginação 



o PANORAMA. 



já nio te cré absoluta, cede á raiSo ^ amoldaste, e 
deixa-ae castigar por ella. Eft atando as melodias in- 
timas procara o tom, em que deve afinar os bym- 
DOS, Admirando a nataresa foge dos livros para ella, 
regenerando-se no seu seio e engrandecenao-se pela 
saa contemplação. O estro, como os bocagianos di- 
siam, ainda rompe em desordenados impulsos, ain- 
da lança fugases dardes -, porém a reflexão, graduan- 
do lua e sombras, refreia os Ímpetos, e sustenta a 
regularidade, sem desvanecer o matis ás formas, 
nem Ibes desbotar o lustre. 

N^esta epocba de equilíbrio entre as faculdades 
da razão e o thesouros da phantasia é que os grandes 
mestres colhem os seus primores. E a nora das com- 
posições, em que circula o repente lyrico, ou tras- 
borda a veia épica : mas em que a critica já preva- 
lece, adoçando as aspereias, reprimindo o demasia- 
do fogo, e contendo a arte na sua unidade natural 
Sara não rasgar o véu e desmanchar a formosura, 
elirando com a exageração, que assignala aa vergo- 
nhosas devassidões da intelligencía ! 

Infelismente, chegado a este ponto, Manuel Ma- 
ria não teve o tempo de provar aonde podia aspi- 
rar, se os mexes de meditação não fossem curtos com- 
parados aos annos de desassocego. Faltou-lhea vida, 
quando o engenho promettía mais. Entre duas esco- 
las, uma que expirava gasta da imitação, outra que 
ia nascer do ódio á servidão clássica, Etmano pelo 
molde e pelo colorido pertenceu á primeira, em 
quanto no rasgo das idêas, no arrojo do estylo, e na 
vivesa em pintar e sentir muitas vezes pareceu an« 
tever m segunda. €tuando se esquece dos modelos e 
•e eleva com a óommoção interior, ou diga as sau- 
dades do amor, ou troveje queimado de ciúmes, a 
ternura e a dôr cantam naysua harpa, como se os 
dedos de algum bardo moderno lhe fizessem estre- 
mecer as cordas. Sao momentos, são lampejos di- 
rão? Mas quem senão Bocage conseguiu adivinhar 



Aprova foi que, posta a lapide sobre o sen sepul- 
cro, a escola elmanista, no que tinha de bello, aca- 
bou com elle. As tradições do mestre declinaram ra- 
^ pidamente. Aquella inspiração, que em diversos voos 
quasi alcançou os nossos tempos, ficou sem herdeiro. 
Para as qualidades não houve continuador ; para os 
defeitos é que sobejaram copistas. Os imitadores ex- 
cederam-se em exacerbar os excessos, substituindo a 
timidez á nobreza da dicção, ou o estrépito á harmo- 
nia do traductor de Ovídio. 

Bocage estudava pouco ^ o seu cabedal de saber 
Ibi por tanto limitado \ com os dons naturaes, pela 
espontânea illuminação, e á força de génio, soppria 
geralmente o que os outros ganham a custa de vi- 
gílias. Versado na língua franceza e na latina, apro- 
priava á nossa com rara felicidade as bellezas do se- 
colo de Augusto e as dos auctores parisienses, real- 
çando-as a miúdo, e ostentando na magnificência do 
verso toda a pompa que o português comporta. Pre- 
so no grilhão clasMco, pouco feito [para meditar uma 
revolução na arte, o seu mérito consistiu mais no 
que deixou escapar do coração, retratando as scenas 
da natureza e os lances d^alma, do que nas reminis- 
cências romanas e estrangeiras, embora as vestissem 
as galas de um estro admirável. 

A lima nas suas obras é descuidada, e em repeti- 
das occasiões até omissa. A perfeição do metro, se- 
duzindo, occulta no primeiro instante que o pensa- 
mento, ou não é novo, ou nao está bastante desen- 
« volvido. A abundância excessiva ^offusca e suspen- 
de ^ mas um exame demorado mostra que nem sem- 
pre existe a necessária e íntima relação do estylo 
com o assumpto. 



O Garção, tão severo comsigo como rigoroso pa- 
ra os outros, reflectia muito sobre os traslados, que 
se propunha, tirava de Horácio a flor e o gosto, e 
dos bons exemplares a concisão e o traço incisivo. 
Era um antigo poetando entre os modernos. Nota- 
se-lhe certo enleio, sente-se oue a formosura e igual- 
dade da côr, que o aCabado do desenho, são imita- 
tivos*, mas não é possível negar que o effeito corres- 
ponde ao lavor, e que nas litteraturas da renas- 
cença raros possuíram a sua pureza e primor de for- 
mas. 

Philinto, horaciano desde a infância, confidente 
das musas latinas, e incansável em as introduzir, 
sem o suppor serviu de activo instrumento á sua 
queda. Censor austero das nódoas, que deturpavam 
a lingoa de Camões, tratando o metro como escra- 
vo, bem alheio de prever o êxito ínnoculon o prin- 
cipio da reforma no seio da geração, que ouvia de 
longe 08 seus oráculos. Nas odes, nas versões, e nas 
epistolas, admira-se um grande vigor em sujeitar, e 
ao mesmo tempo enriquecer a phrase, e por vetes 
muita novidade e gentileza em adornar o conceito. 
Gtuando o sol, adelgaçando o nevoeiro de Paris, lhe 
reanimava a mente ^ quando o apertavam as memo- 
rias da pátria e a dôr das injustiças, tomava-o sú- 
bito o enthusíasmo lyrico, o espirito sacudia-se dos 
gelos do desterro, e a mão do velho com a idade e 
com o ardor das sensações fazia correr na tela figu- 
ras cheias de fogo, e pensamentos tocados de graça. 
Sensível á gloria e aos afiecton, a sua niusa, coroando- 
se das rosas de Anacreonte, não fugiu de entrelaçar 
com brio o louro heróico de Pindaro, ou de gemer 
uma elegia debaixo do cypreste, ajoelhada na pedra 
dos túmulos. 

Tão áspero e ingrato metrificador, como o Gar- 
ção foi correcto e Manuel Maria era harmonioso, 
Philinto vulgarisou a poesia romântica e concedeu 
carta de naturalisação a Wieland e Chateaubriand, 
trasladando oOberon e osMartyres. Intimo desde os 
tenros annos com o amigo de Mecenas, a longa fa- 
miliaridade revelou-lhe os mais delicados segredos 
d^aquella elegância flexível e sóbria, d^aquella ima- 
ginação aonde o juizo e o gosto caminham juntos 
para o sublime. 

Mas o sal picante e fino da satyra cortesã passan- 
do por Francisco Manuel carrega -se de mais amar- 
gor ; e o eclectismo polido e amável do phílosopho 
de Tibur, se também desenruga com frequência a 
testa do traductor de Gresset, perde muito do sabor 
irónico^ e folga mais no que elle chama o soalheiro 
dos bons ditos, anexins, e allusões mordates. No seu 
rancor aos gallicistas, flagellos do idioma luso, la- 
cera-lhes a ignorância com tanta variedade de chás- 
cos, que parece inexgotavel. Na escolha dos origi- 
naes foi inconstante e infeliz. Como que ao acaso os 
adoptava, e com igual indifferença os deixava em 
fragmento. O capricho e a penúria decidiam quasi 
sempre do destino da sua penna ; e milhares de ver- 
sos engeitados á nascença avultam apesar de tudo 
nas collecções, desculpando-se com a necessidade do 
poeta, que era o primeiro a condemnal-os. 

Elspanta mais a falta da faculdade inventiva, e 
o curto alcance da inspiração. Na atmosphera mais 
litteraria, no meio do continuo movimento de livros 
e discussões, em Paris, o cérebro íntellectual da Eu- 
ropa, Francisco Manuel não colheu animo para ten- 
tar uma obra de proporções maiores, em que a sau- 
dade do berço, e o sentido nacional, que trazia tão 
fundos e ardentes, estampassem a imagem do génio ! 
E não pode aproveitar-lhe a desculpa, que soccorre 
a Bocage. j 

Philinto gosou-se de uma larga ?xistencia,(3(^ç[^ 



o FANOIiAMA. 



diai tristes carecia de ter o estudo por allivio, e a 
reflexão por companheira. Sem dizer que a desgraça 
acere o engenho, e faça rebentar mais eedo e mais 
fragrantes as flores da phantasia, o exemplo mostra 
(jue o espirito, se é fecundo, fertilisa as horas de 
solidão. Entretanto, o que se observa.' Mais de me- 
tade das suas obras accusam o nome de auctores es- 
tranhos, ou at testam a invencivel propensão para 
distrahir as forças em imitações, trabalho sempre 
inferior no mérito á difiiculdade ! Um talento mais 
productivo, com a aurora que principiava a raiar 
nas letras, gastaria menos os logares com m uns da 
poesia na repetição dos episódios e arrebiques my- 
thologicos. Era de esperar, que procurasse a verda- 
de á medida que se lhe dilatava o saber, e que aos 
cançados andaimes da fabula e da allegoria substi- 
tuisso. a jiovidade das idéas e dos lavores, do mesmo 
modo que esmerava a phrase atrevida e o vocábulo 
curioso. 

A miúdo lhe succede porem ir ao lado da ver- 
dade, e desencontral-a, perdendo dos olhos rasgadas 
e brilhantes perspectivas. A guerra aos corruptores 
da lingua, travada com valentia, e depois mantida 
com acinte, desvia-lhe da contemplação do ideal os 
sentidos poéticos, mutilando a percepção e descerni- 
mento das bellpzas c^dcfeitos nas mais elevadas ma- 
nifestações da arte. A força de corregir, implacável 
e assiduo, as barbaridades do idioma, e de apagar 
das folhas dos seus livros a mais pequena macula á 
correcção, veiu a cair no erro opposto. Os seus pe- 
riodos arrepiam pelo escabroso estylo e forçado ver- 
niz de antiguidade *, a sua construcção contrafeita e 
Cíirregada de obscuros archaismos torna-se pezada, 
desairosa e dura. Exaltado pela pureza da lingua, 
tomou-a para dama dos seus pensamentos, e por 
excesso de idolatria, cravou a bandeira mais longe 
do que era razoável. Justando com bizarria para 
lhe defender a formosura, não socegou de a trazer 
em competência com as mais opulentas, e não foram 
poucas nem desvaliosas as coroas que lhe mereceu o 
torneio. Cegou-se comtudo como acontece aos que 
se cnthusiasmaro por uma causa \ contentou-se com 
o menos e perdeu o roais, julgando que a victoria 
n^este ponto equivalia á palma, queos engenhos in- 
ventivos recebem das mãos das graças. 

fConiinúa.) 

L. A. Rbbello da Silva. 



O CXo DO Cego. 

Oh ! vem meu pobre cão ^ é mais um dia 
Gtue a já trilhada senda ensinarás 
A quem não tem no mundo outra alegria 
Que não seja a que tu meu cão lhe dás. 

Se os meus dias, Senhor, foram contados 
E de tanto soíTrer cheguei ao fím *, 
Não.queiraes dous amigos separados, . , 
Não deixeis o meu cão longe de mim. 

Na mesma sepultura, á mesma hora, 
Nossos dias se vão por fim quebrar 
Na extrema jazida, estreita embora. 
Para amigos assim sempre há logar. , 

Se no chão do*. repouso o não houvera. 
Também no mundotn,ão Senhor *meu Deus, 
Mas sempre junto a mim o meu cão era *, 
Os males qutt soffreu foram os meus. 



Se do coveiro a mão sem piedade 
Lançar ao vento as cinzas d^um de ndi, 
Separados por elle inda a amisade 
Nos eccos achará sentida voz ! 

Elle era o meu amigo ^ outro não tinha 
Depois que o mundo em mim lançou seu fel : 
Se me via chorar de rastos vinha, 
E na mudez dizia : — Eu sou fiel ! 

Se desdenhosa mão vendida ao ouro 
Me punha eni almoeda o coração, 
No sentido latir melhor thesouro 
Me parecia apontar meu pobre cão. 

E nunca se enganou I Se a vil mentira 
Dava a protestos vãos nome d^amor, 
Como se o pobre cão tudo já vira 
Olhava para mim com magua e dor. 

Se em torpes lutas de civis contendas 
Me via o pobre cão com fé entrar, 
Dizia-me chorando : Oh ! não attendas 
A quem longe te afasta do teu lar. 

Se um parente, um amigo, a crua morte 
Me roubava, deixando-me mais b6 ^ 
Sempre a meu lado o via. A mesma 9orte 
Partilhamos na dor, na fé, no d<5 ! 

Até que um dia de chorar cançado 
A luz dos olhos diurna vez perdi. 
A mão estendo, pela fé guiado, 
E n^ella um beijo murmurar senti ! 

Tentei-o as trevas, e a meu lado eu vejo 
Co^os olhos d^alma, submerso em dor 
6tuem resumira n^um fervente beijo 
Um só conselho — Precisaes valor '. 

Era um amigo ! Recupero o tino 
De perto o aflago, com a voz, co^a mão \ 
Em voz mais baixa soletrava o hymno 
Gtue aos dous amigos valerá de pão ! 

Desde esse dia, companheiro e amigo, 
De mim a sorte o separou jamais : 
O frio e a fome partilhou commigo, 
Ouviu-me as queixas, recolheu meus ais. 

Velho e mendigo, se é chegada a hora 
6tue o Ímpio teme que offendeu a Deui \ 
Por mim quisera que chegasse agora, 
Sendo cumpridos os desejos meus : 

Na mesma valia mão robusta e forte 
Pode d'um golpe profundar o chão ^ 
£ o somno eterno a que chamam morte 
Dormirmos juntos — o mendigo e o cão. 

E doeste mundo sem levar saudades, 
Rirei na campa d^essas mil ficções. 
Orgias torpes, pueris vaidades, 
€tue o mundo alcunha de leaes paixõet. 

Oh ! vem meu pobre cão •, e n'este pego 
Onde ao termo final se encontra a dor. 
Conduz índa uma vez o pobre cego ; 
Cifra n^um teu latir mundos d^amor ! 

L. A, Palmeirim. 



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o PAIfORABfA. 








HOI&ilWDA — CIOADS OS LtCUBMBUBGO. 



A CIDADE de Laxeroburgo, capital do grão ducado 
d^eftte nome (parte hollandeia) dívide-se em cidade 
aUa e baixa. A alta, sem duvida mais importante, 
é edificada sobre a extremidade de uma cordilheira 
de montanhas, cujas summidades formam uma vasta 
planura : a cidade baixa essa acha-se situada no meio 
de um profundo valle, por onde serpêa, formando 
graciosas curvas, o pequeno rio denominado Ahetie, 

E Luxemburgo praça de guerra de primeira or- 
dem. Duas das mais valiosas obras de arte que ali 
•e encontram nâo se emprehenderiam talvex se nao 
fora aquella circumstancia : a primeira é um profun- 
do poço artesiano, para abastecer de agua toda a po- 
pulação, quando os sitiantes intentem e consigam 
desviar a corrente do Alzette ; a segunda sao os vas- 
tos subterrâneos abertos no seio do montanha sobre 
que está assente a cidade alta, onde podem recolher- 
se com toda a segurança e ate commodidade muitos 
milhares de pessoas, ficando assim ao abrigo das 
bombas e outros projectís. 

Ainda que esta praça, pelas suas fortificações ver- 
dadeiramente formidáveis, pareça inexpugnável, tem 
corotudo soffrido alguns sitios cujo resultado desmen- 
te até certo ponto a sua reputação. Em 1434 foi 
atacada por Filippe, duque de Borgonha, que con- 
seguiu, n'uma noute tenebrosa, tomal-a d^assalto. 

VoL. III. — 3.a Serie. 



Em 1542 e 1544 foi conquistada e, saqueada pelos 
franceses, e em 1545 pelos imperiaes. £m 1684 
Luís XIV apoderou-se da cidade, e a separou do 
resto da Bélgica. Este ultimo sitio deu assumpto, a 
um quadro, que se conserva no museu do Louvre. 
Em 1802 Luxemburgo, ex pugnada pelos franceses, 
caiu novamente em seu poder. Sob a republica e o 
império foi esta notável povoação encorporada á 
França, gosando por algum tempo das preemineu' 
cias de capital do departamento de Forêit, 

A origem do Luxemburgo é mui incerta. Sup- 
pôe-se porém que fora seu fundador o imperador 
Galliano. Sigifredo, seu primeiro conde, com o in- 
' tento de a preservar da invasão dos normandos, 
mandou levantar as muralhas, que em grande par- 
te ainda hoje existem. 



AftCHEOLOGlA PORTUGUEZA. 



Cbremonias ojl aoclamaçXo 

DS Si-RXI D. JOÃO IV. 



Em seguida collocou-se o coodestavel 
el-rci, e dous degraus abaixo oalferes-mur 

Jakeiro 14, 1854. 



í direita de t 



10 



o PÁNORAMAi 



bispos de Lisboa e Braga , o inqaisidor geral^ e o 
bispo de Targa^ deão da capella real. Tomaram lo-' 
gar á esquerda o mordomo-m6r e os mais officiaes- 
móresy e os titulares. O camareiro-m<$r e o guarda- 
m<$r postaram-se por detraz da cadeira real. Os reis 
dWmas, arautos, passavantes, e porteiros de maça 
estavam no segundo degrau junto ao tablado. Seguiam- 
sc a estes os senhores de terras, alcaides-mdres, fi- 
dalgos, e membros de tribunaes. Como é doestylo 
em taes actos só el-rei estava sentado ^ todos os mais 
de pé e descobertos. 

Logo que todos tomaram os seus respectivos lega- 
res o rei d^armas Portugal disse em alia voz : « Man- 
da el-rei nosso senhor que n^este acto vão jurar e 
beijar a mão os grandes, titules seculares e ecclesias- 
ticos e mais pessoas da nobreza^ assim como se acha- 
rem, sem precedências, nem prejuízo de alguém. >« 
E pouco depois bradou três vezes : « Ou vide, estae 
attentos. n 

Subiu immediatamente alguns degraus do throno 
o desembargador Francisco d^ Andrade Leitão, e d^ahi 
recitou um discurso, em queexpoz os direitos que 
p duque de Bragança tinha á coroa doeste reino, e 
as injustiças e desgraças sobrevindas ao paiz com o 
dominio de Hespanha. Acabou por certificar o sobe- 
rano da firme resolução em que estavam os povos de 
consagrar suas vidas e fazenda á defensa do seu thro- 
no, accrescentando estas notáveis palavras: u Porque 
todos estão persuadidos, certificados, e muito inteira- 
dos que defendem justiça, e que os ha vossa mages- 
tade de governar com justiça, porque sem ella ne- 
nhuma republica pode ir em crescimento \ qne os ha 
vossa raagestade de sustentar e manter em paz quan- 
to for possivel, porque com ella crescem as cousas pe- 
quenas, as grandes se fazem maiores, e com discór- 
dia e máu governo se extinguem, perecem e aca- 
bam os impérios ^ e que lhes guardará e fará vossa 
m ages tade guardar suas leis, seus usos e costumes lou- 
váveis, seus foros, seus privilégios e isenções, suas li- 
berdades, prerogativas, preeminências e franquezas, 
fazendo-lhes em tudo honra e mercê, porque com el- 
las se concilia mais o amor dos vassallos, em que con- 
siste a maior riqueza e a maior opulência Áos reis. «> 

Acabado o discurso coUocou o reposteiro-raór jun- 
to d^el-rei uma cadeira coberta com pannos de velu- 
do. Poz n^ella uma almofada e outra aos pés do so- 
berano. Sobre a primeira veiu o capellão-mdr depo- 
sitar um missal aberto e um crucifixo. Aproxima- 
ram-se então os arcebispos de Lisboa e Braga e o 
bispo inquisidor geral, e ajoelharam j-unto á cadei- 
ra em que estava a cruz e o missal em frente d^el- 
rei, ficando no meio o primeiro d''aquelles prelados. 
Sua magestade ajoelhou immediatamente, e tendo 
passado o sceptro para a mão esquerda, e com a di- 
reita pousada sobre a cruz e Evangelho, proferiu alto 
e com voz clara o seguinte juramento : Jurámos e 
pronieiUmos de^ com a graça de Nosso Senhor ^ vos re- 
ger e governar bem e direiiameniey e vos culmÀnis" 
irar inteiramente justiça^ guanlo a humana perpiit- 
te, € de vos guardar vossof bons costumes ^ pHvilegios^ 
graças y mercês^ liberdades e franquezas^ que pelos reis 
passados nossos antecessores foram dados, outorgados 
e confirmados, n 

Tendo-se sentado o monarcha, e voltando os pre- 
lados aos seus respectivos legares, passou o secreta- 
rio doestado Francisco de Lucena a ler a formula do 
juramento, preito e menagem, que os representan- 
tes dos dous estados, clero e nobreza, deviam prestar. 
Feito isto ajoelhou junto da cadeira em que estavam 
o missal e a cruz, os quaes o reposteiro -mor e ca- 
pellão-mor tinham afastado mais para o lado esquer- 
do a fim. de deixar logar para o beijamão. 



D. Miguel de Menezes, duque de Caminha, foi 
o primeiro que prestou juramento, dizendo em alta 
voz: Juro €sos Santos Evangelhos^ corporalmente com 
minha mão tocados^ que eu recebo por nosso rei e se- 
nhor verdadeiro e natural ao muito alto e muiiopo^ 
deroso rei D. JoaoIF, nosso senhor ^ e lhe fago prei- 
to e menagem.segundo o foro e costume d!*estes sem 
reifios. Depois foi beijar a mão a el-rei. Todas as 
mais pessoas, á maneira que iam chegando, sem pre- 
cedências, junto do missal ajoelhavam, ecom a mão 
sobre o Evangelho repetiam unicamente estas duas 
palavras : Asam o juro, indo em seguida beijar a 
mão do soberano. O marquez de Ferreira, porque 
estava servindo do condestavel, e o secretario d'e»- 
tado Francisco de Lucena, por estar assistindo ao 
acto do juramento, foram os últimos a jurar. 

Concluída esta ceremonia disse el-rei ao seu mi- 
nistro, que acceitava o juramento, que os dous esta- 
dos acabavam de lhe fazer, e logo o mesmo secreta- 
rio d''estado dirigiu-se aos circumstantes n^estes ter- 
mos : El-rei nosso senhor acceitou os juramentos, prei- 
tos e menagens, qne os grandes, Hiidos seculares e ee- 
clesiasticosf e mais pessoas da nobreza, que estaes pre^ 
serdes^ agora lhe fizestes, 

O rei d^armas Portugal bradou então por três ve- 
zes — Ouvide — e oalferes-m^Sr, desenrolando a ban- 
deira, ergueu o brado : Real, real, real, pelo muito 
alto e muito poderoso senhor D. João IV^ rei de Por- 
lugal, Eeie brado foi repetido pelos reis de armas, 
arautos e passa vantes. E descendo estes e o alferes- 
m<5r até á extremidade do tablado, ahi postos em pé 
sobre bancos, e voltados para o povo, tornaram a 
repetir as mesmas palavras, a que correspondeu a 
immensa multidão, que enchia a praça. Com as vo- 
zes enthusiasticas do povo veiu misturar-se o som fes- 
tivo dos atabales, trombetas e charamelas. 

Concluidas asceremonias do juramento eacclama- 
ção dispoz-se sua magestade para ir á Sé dar graças 
a Deus por tão feliz successo. 

Saiu el-rei pela mesma varanda ou galeria do pa- 
ço por onde entrara para o tablado, e desceu para a 
praça por uma escada, que havia na dita galeria. 
Junto ao ultimo degrau estava a camará de Lisboa 
com uni rico pallio de outo varas, para receber sua 
magestade. Montou o soberano em um bello cavallo 
castanho, ajaezado de velludo preto e ouro. Deu-lhe 
o estribo o estribeiro-mór, e levando de rédea o ca- 
vallo D. Pedro Fernandes de Castro, na ausência do 
conde de Monsanto, a quem pertencia fazel-o na qua- 
lidade de alcaide-m<5r de Lisboa, poz-se o préstito 
em marcha. Era este mui numeroso e luzido, pois 
se compunha de todas as pessoas, que haviam toma- 
do parte nos actos do juramento e acclamação, que 
deixámos mencionados. Iam todos a pé e descober* 
tos excepto el-rei. 

Todas as janellas e portas do Terreiro do Paço e 
ruas do transito até á Sé estavam ricamente arma- 
das. Arêa e flores faziam alcatifa ás ruas, que a tro- 
pa guarnecia em alas. Apesar de não ser curto o 
trajecto, era ainda assim pequeno o espaço e poucas 
as janellas para accommodar a immensa multidão de 
povo, que affluíra de toda a cidade, dos arrabaldes, 
e até de terras distantes para ver «tão solem ne fun- 
cção, e participar do regosijo e enthusiasmo que a 
todos embriagava. 

Dirigiu-se o préstito do Terreiro do Paço ao largo 
do Pelourinho velho, onde devia ter logar a entre- 
ga das chaves da cidade. Assim que el-rei chegou 
diante de um estrado com três degraus, que haviam 
levantado para esta ceremonia á entrada da dita pra- 
ça, parou o acompanhamento. Subiu então aoestra- 
do um dos vereadores da^igftf^^^VgfliíPÇWl^- 



o PANORAMA. 



11 



curso em que patenteava o alvoroço e alegria dos ha- 
bitantes da cidade pela entrada e aoclamaçSo de seu 
iK>vo e legitimo soberano, e a decidida resolução em 
que todo6 estavam de concorrer para a sustentação 
de tão gloriosa e patriótica empresa. 

Acabado o discurso o conde de Cantanhede, pre- 
sidente da camará, pegou nas chaves da cidade^ as 
quaes traâa o vedor das obras do município em uma 
bandeja de prata dourada, e ajoelhando as entr^ou 
a el-rei, que as acceitou e restituiu logo. 

Proseguiu o préstito para a cathedral, a cuja por- 
ta veiu receber el-rei o arcebispo de Lisboa em ves- 
tes pontifícaes, acompanhado de todo o seu cabido, 
e com a relíquia do Santo Lenho nas. mãos. Depois 
de ajoelhar e beijar a relíquia, entrou no templo, 
que se achava armado com grande magnificência, e 
foi direito á capella-m6r, onde se achava exposto o 
Santíssimo Sacramento. Terminados oshymnos, ora- 
ções e benção, que a Igreja destina para estas solem- 
nidades, voltou sua magestade para o palácio com o 
mesmo acompanhamento. 

Assim terminou uma das maiores solemnidades na- 
cionaes de que a historia portugueza guardou memo- 
ria. Tem havido n^este paiz funcçoes em que a rea- 
leza tem ostentado mais magnificência, mas nenhu- 
ma como esta em que aos esplendores do throno vies- 
sem accrescentar tanto brilha as galas e eiithusias- 
mo do povo. 

I. DE Vilhena Bai|bosa. 



Makvxl Maria bx Barbosa du Bocagb. 

Na Arcádia Elmano Sadino, 

Entre ferros cantei desfeito em pranto! 
Valha a desculpa, te não vale o canto. 

VIL 

O SERVIÇO foi immenso, e o sacrificio generoso^ 
mas a fama do escriptor padeceu com as fadigas e 
violências do combate. Na luta que travou, e que 
se aggravou com a resistência, a perfeição e a origi- 
nalidade do poeta offuscaram-se. Para accudir á dic- 
ção desacurou o plano e a contextura ^ desaprendeu 
o tacto delicado em adequar as proporções ao as- 
sumpto, e fugíu-lhe o metu dtvtmor, que povoa de 
figuras próprias as ficções que o talento faz viver. 
Estas faculdades superiores debalde se procuram em 
Francisco Manuel. As suas Galathéas são estatuas, 
e a chamma do génio, principio da individualidade 
e do sentimento na creação intellectoal, não visita 
senão de longe, e por assomos, as composições do 
velho Fhilinto. Por muito conversar os mortos, de- 
corando as suas feições ímmoveis, perdeu a fior da 
vida em si ^ e a fria imitação poucos raios de luz 
encontrou para se aquecer. Os seus Apollos, Dianas, 
Joves e Cyprias, cortejo, vulgar com mais de duzen- 
tos annos de uso, satisfaziam- no cabalmente. Apre- 
senta-os sobre muletas como se fossem remoçados em 
milagrosa juventude. Taes como os acha, assim os 
introduz ! 

A adorável Velleda dos Martyrrs, e o risonho 
phantastico de Oberon parece que o não obrigaram 
a meditar. Traduzi u-os como exercício, e gostou-os 
su como difficuldade ? Por elles não anteviu o novo 
mundo, que descobriam, no maravilhoso, nos afiec- 
tos, e na elegante liberdade? Accessivel em tantos 
raptos á deliciosa melancolia christã, sensível deco- 
ra^*ao e fácil na ternura pela experiência do infor- 



túnio, embebendo-se-lhe o pincel nao poucas veies 
nos prantos amora ve is da tristeza, porque receia de- 
morar*se, e tão depressa esconde a nódoa de uma 
lagrima, voltando costas aos thesouros, quo a veia 
encerra ? 

Coincidência notável ! £ do mais romano dos nos- 
sos vates que tira uma das suas origens a escola mo- 
derna. O poema *de D. Branca quiz a Philinto por 
padrinho : o de Camões ufana-se de o lembrar. Co- 
mo se explica uma influencia tão contradictoria no 
sentido? Em que se fundam os títulos doauctordas 
odes aos Novo$ Gtimos, ao Albuquerque^ e a TVoi' 
hingUm^ para o seu vulto se erguer no limiar de uma 
epocha de renascimento e ínnovações— -elle o poeta 
clássico na fé e na essência — elle o conservador 
zeloso das tradições do Parnaso ? 

A soa gloria consistiu em concluir o que Bocage 
iprincipiou, em completar pelo cunho nacional, ba- 
tido nas obras, a revolução, de que Elmano venceu 
metade. O auctor do Tritão e da Medéa, plebeu e 
ardente, appeteceu os applausos do povo, e para os 
obter veiu das aulas de Minerva aos auditórios da 
praça publica. Como o verso era a sua língua, aon- 
de lhe acudia o enthusiasmo, e o assaltava o delírio 
do estro, ahi soltava o canto, acceitando sem exame 
os preceitos dos restauradores das letras no reinado 
do marques de Pombal. £m Philinto, pelo contra- 
rio, inutilmente lutavam os desejos e as intenções 
romanas contra a índole do engenho. Esta prevale- 
cia. £ fácil indicar até nas idéas e trechos imitados 
o reflexo especial de que se coram. Toda a sua poe- 
sia, sem elle sentir, lhe tomava esta feição particu- 
lar, e debaixo do falso trajo das divindades pagãs, 
guardava o ^r, o gesto e o dizer da pátria. O in* 
fluxo das suas versões românticas não concorreu me- 
nos para nacionalisar a arte. O cabedal de vocábu- 
los e as riquezas de phrase que ostentou, em emu- 
lação com os originaes, provaram as posses da lín- 
gua para tudo \ a verdade dos sentimentos e a pro- 
priedade e franqueza das formas attrahíram as sym* 
pathias e a curiosidade. Se Francisco Manuel, tími- 
do ou fanático, não concebeu o que promettiam es- 
tes bellos horísontes, ou não teve animo de voar pa- 
ra elles ', homem do passado, se a mudança lhe agra- 
dava nos outros, e o assustava em si, preferindo fi- 
car e morrer com o século, em que nascera, fervia 
a impaciência no peito de uma geração nova andas 
de pensamentos, e cobiçosa de sacudir ojugo de to- 
das as unidades poéticas e litterarías. 

Entrando na carreira,' reputou-a acanhada^ as ba- 
lizas eram tão perto, que nao havia espaço para a 
liberdade dos movimentos. Por outro lado, ainda 
lhe soavam nos ouvidos as vozes dos auditórios, ap- 
plaudindo em Bocage o plebismo da poesia, e nas 
obras de Philinto o sabor e a tendência portuguesa. 
D^ahi á revolução distava um passo. Deu-se. Dous 
poemas nacionaes pelo assumpto e colorido foram o 
signal : e o povo, que nao ama e entende bem se- 
não o que lhe falia na sua língua e das suas cou- 
sas, o que o entretém das suas saudades e das suas 
crenças, correu a abraçar a novidade e a reconbecer- 
se n^ella. Os clássicos durante a invasão dormiam ao 
som das bucólicas e das versões do theatro francez ; 
e quando acordaram, acharam-se sós. A fortuna ti- 
nha passado com o successo para o campo inimigo. 
O que restava aos pastores virgilianos e aos ex-con- 
sules da republica de Aristóteles ? Apenas o arco e 
as frechas do padre José Agostinho ! 

Em poucos, annos a reacção triumphou, e a poesia 
propriamente portugueza tomou posse da influencia, 
de que a esbulharam os commentadores dos chama- 
dos códigos greco-romanos. Macedo, o ultimo repray |^^ 



lâ 



o PANORAMA. 



sentaiite da Arcádia,' achando o throoo vago pela 
morte de Bocage, occupou-o, e foi da sua geraçSo o 
que le demorou para encerrar a epocha. Antes d^el- 
le fechar os olhos tinham-se calado os antigos com- 
batentes, uns na sepultura, outros, como D. GastSo 
e o Morgado de Assentis, recolhendo-se ás locubra- 
ç5es modestas. Assim, desaffrontado de emulos, £1- 
miro Tagideo dispôs com inteiro arbítrio da censura 
e do louvor, dictou leis absolutas, e Juvenal plebeu 
sacíou-se a tiros de setta e a rasgões de satyra nos 
maus auctores, dos quaes fes uma verdadeira carni- 
ficina. Nunca o hospital das letras recebeu tantos 
feridos e estropeados como durante a dictadura do 
critico tonsurado. 

Os adversários, que offendia e provocava, rodea- 
vam-no, batendo as palmas com apupos \ este belis- 
cava-o em metros paralyticos ou em mascavadas pro- 
sas; aquelle exaucto' ava-lhe a erudiçSo e a compe- 
tência em analyses ensopadas de fel, e exaltadas na 
aversão. Uns copiando-lbe o feitio do chapéu e o ta- 
lho quasí talar da casaca ecclesiastica^ trasiam-no 
em vera eiíigie por meio de António Xavier no 
«Mau Amigo» para as taboas áp palco, expondo-o, 
como alvo, á risada publica \ outros forjando os ver- 
sos vingadores da Agostinheida, penduravam o fia- 
gellador incorregivel no patíbulo beroi-comico de 
um libello á luz dos relâmpagos de engenho« que o 
ódio fuzilava do coração de Pato Moniz ! 

De que servia isso tudo? Macedo nao succum- 
biu ; e quando mais o accossavam virava as prezas 
aos imprudentes, e desforrava de uma vez as peque- 
nas contusões de muitas semanas : já não existia ne- 
nhum dos athletas dotados de pulso para o conter^ 
sabia-o, folgava com a impunidade, aparando em 
pscudo fácil os arremessos de toda a seita bocagiana, 
armada contra o zoilo, ingrato detractor da gloria 
de Manuel Maria. 

O que devia assustar a José Agostinho, se visse 
ao longe, era outro rebate serio, que ameaçava nao 
semente a pessoa, mas as instituições poéticas e o 
Parnaso, em qae pronunciava os seus decretos. As 
avançadas da escola, então denominada romântica, 
destaca vani-se da Allemanha, da Inglaterra, e da 
França, aonde foram as primeiras e grandes batalhas, 
e vinham tocar os clarins victoríosos ás margens do 
Tejo. Já nos últimos annos do seu reinado, Macedo 
encontrou-se com os campeões da heresia da arte, 
como diriam os Flamines de Horácio, e alguns ti- 
ros voaram de parte a parte. Se o cantor da Medi- 
tação podesse ler no porvir, e adivinhasse o destino 
das obras, que mal honrava talvez com um sorriso 
«céptico, ou com um movimento de hombrd^, a dor 
de ver próxima a declinar a sua fama, e a invejada 
gloria alheia, de que raiva lhe não envenenariam o 
orgulho para carregar o Yctrato dos illuminados da 
litteratura?! Ciuantas paginas acerbas iriam aug- 
mentar o archivo das suas vindictas, o poema dos 
Burros, aonde o verso nervoso e a expressão pungen- 
te aggravam o delicto ao género 1 

Mas o porvir tem adianto espesso véu. Torneando 
ás escuras, e não medindo o alcance dos botes, o &a- 
tvrico, fiado na fortuna, recostou-se nos louros, sup- 
pondo-os eternos. Para cevar as iras desguarneceu 
as posições importantes, c instaurando processo aos 
grandes nomes da poesia, desde Homero e Virgílio 
até Camões, ci ti mento da reputação dos mortos, co- 
mo do louvor dos vivos, ajudou a abater os altares 
da auctoridade clássica. Creadas forças para substi- 
tuir ás ficções gastas, a poesia nacional adiantou -se 
mais levemente encontrando a estrada sem guardas, 
e o accesso livre para o tribunal do gosto. Depois 
era comparativamente fácil. Estavam os elementos 



promptos e a oocasião madura. Bocage, PhifintOy 
José Agostinho, tinham entre os três acabado o mab 
árduo da campanha. Nenhum percebeu para si na 
boca de Virgílio o &moso verso da quarta écloga r 

Jam nova progénies coelo dimittitur alto ! 

Obedeciam á Índole, serviam o capricho, e, sem o 
quererem, eram as voies de um pensamento ainda 
confuso. Francisco Manuel nacionalisando a poesb, 
£lmano trazendo-a das academias para o meio do 
povo, e José Agostinho escarnecendo o respeito dos 
traslados impostos, e a pobreza dos copistas. Como 
acontece vulgarmente, trabalhando por conta do fo- 
turo, todos ignoravam que transpunham as frontei- 
ras da sua epocha ! 

Mas nenhum recebera em dote os favores, com 
que as musas enriqueceram Bocage. De todos os 
poetas do século anterior e dos principies do actual, 
o sen valido, o seu eleito foi Elmano. Disseram-lb» 
segredos que os outros não souberam -, prendaram-no 
com o maravilhoso dom de engrandecer o assumpto. 
Calor da alma para realçar a paixão, pompa ds 
phrase e magestade de metro para a pintar, nin- 
guém as possuiu em maior grau. Ouvido para afinar 
a harmonia dos sons, para sentir a melodia dos af- 
fectos, e inspiração para infundir a vida em ambas 
descendo radiosa, nunca lhe faltaram, antes sempre 
o soccorreram. 

Na effervescencia dos primeiros annos, enthusiasta 
e cantor arrebatado, transportou para o verso o na- 
tural violento e insoffrido, que foi em parte o in- 
centivo dos milagres d'aquella ardente phantasia, e 
que era na existência pratica o cruel inimigo do seu 
socego, e o precipício fácil do mais espantoso talen- 
to. Olhado de cima, e fora da rigorosa analyse, os 
raios, que despede, cegam e paralisam a critica. Os 
artifícios, a riqueza e a elevação da forma poética, 
não deixam ver senão as bellezas. Atraz da atropel- 
lada torrente, solta dos lábios em cachSes de fogo, 
mesmo as almas prosaicas, desejavam azas para subi- 
rem por momentos ás espheras por onde vagava ao 
vate a mente endeusada. £scutando-o fugia da vista 
o jugo da imitação, cuja sombra a miúdo escurece o 
lustre dos seus cantos, e parecia que o espirito, , não 
cabendo no mundo conhecido da arte, e superior a 
elle queria romper por novos trilhos ! Era o effeito 
seductor da viveza das cores, da illusão da palavra, 
e da magia dos sons restaurando o antigo quadro -em 
galas próprias. Se a idéa se remontasse á altura dos 
arrojos da palavra, se a intuição do bello se ani- 
masse do mesmo poder, se a concepção, e a scien- 
cia igualassem a lingua e o ouvido, o máximo poeta 
da sua epocha fora Manuel Maria, e o pedestal, que 
lhe levantaram os applausos dos auditórios, seria o 
throno, d^onde reinam com os séculos Virgílio e Ho- 
mero, Ariosto e o Dante, Camões e Milton. Infeliz- 
mente não \ O pensamento inventivo empallidecen 
ao pé do esplendor do estro. A faculdade de crear 
esmorecia, ou pouco ousava : e os traços, que faiem 
immortaes as ficções da imaginação, quasi sempre 
sujeitos, e raras vezes emulos e livres, davam o re- 
flexo da belleza alheia, em logar de expressarem o 
typo ideal da própria musa. 

ígneas canções brotei, co^om deus na mente ! 

Exclamava devorado de orgulho e despeito contra 
os zoilos, que o deprimiam. E assim era. Ao repen- 
tista assistiam a alma e o genío nas promptas ex- 
plosões. Pela segunda vista interior, a virtude por 
excellencia do poeta, passavam arremessados e im- 



o PAUOILàMA. 



13 



petuotos os affectos; ometrO) fremente e aodaz, ves- 
tia de inflaminadas imagens os filhos da lyra, gera- 
dos de um repente fascinante \ mas pouco depois, e 
apagados como visdes da exaltaçSo feoril, o que res- 
tava d^elles? Uma qualidade mais fatal /do que pro- 
veitosa á verdadeira gloria, nSo lhe podia dar o que 
nSo encerra. £ embora dissesse 

Sinto no coração, na voz, na mente 
Tropel de affectos, borbotões de idéas ! 

A fria razão, e o gosto nSo adoptaram, nem de- 
viam, os fructos na verdura, que o delirio fez cair, 
e não 'colheu amadurecidos com o aroma e graça na- 
tural. 

A originalidade, digna de durar, e a formosura, 

aue não perece^ atravessando as idades, nunca se 
eixam profanar aos olhos do vulgo, nem cedem me- 
nos castas aos amplexos da ebriedade poética. Aquel- 
le amor, sorriso e encanto dos primores nas artes, 
Jomo o perfume de certas plantas, esvae^se, quando 
o tacto menos melindroso lhes magoa as folhas. A 
claridade que illumina os grandes monumentos, e 
a luz divina, ser e vida das creaçoes do pensamen- 
to, não chegam á posteridade, fuzilando relâmpagos 
de enthusiasmo * ephemero. Revelam-se no silencio, 
crescem no recato, e ílores do sentimento, não for- 
mam a coroa do génio, senão depois do sol da inspi- 
ração, alto e contínuo, lhes rosar as pétalas, e desen- 
volver as formas. £ a lima de dez annos pedida por 
Horácio. £ a reflectida e sublime composição de 
Virgilio -, é em fim, com menor esmero, e com me- 
nos perfeição também, o lavor das obras modernas 
merecedoras da sua fama. 

£ntretanto, de não confundir a facilidade peri- 
gosa com a fecunda creação, vae longe a negar-se ab- 
solutamente o dom da invenção. Já se disse e im- 
porta repetil-o ; em Bocage ha duas physionomias, 
que se distinguem, e dous poetas, que se contradi- 
tem. O repentista e o grande auctor. O primeiro 
altea-se e precipita-se, paira sobre as nuvens, e ar- 
rasa a terra, conforme a vehemencia da exaltação, e 
o. instantâneo vigor do Ímpeto. O segundo, apaixo- 
nado e magestoso, teve lagrimas para a dor, rasgos 
profundos para' o ciúme, suspiros para a ternura, 
desenho e colorido para as paixões* 

Ninguém sabe o que lhe reservava o futuro. Nin- 
guém hoje inclinado sobre um tumulo é capaz de 
sondar nas cinzas frias as posses d^aquella intelligen- 
cia extincta antes de se revelar inteiramente, nem 
os prodigios de um engenho, que nãò entrou nunca 
em luta, que perdesse. Julgal-o pelas suas obras, não 
é senão soletrar incompletamente em umepitaphio, 
que a morte vedou acabar. Os defeitos foram os ex- 
cessos das suas qualidades. As prendas, que lhe eno- 
breciam o talento, eram jóias admiráveis da voca- 
ção feliz ^ o exame e meditação dos modelos, a pausa 
e a reflexão do trabalho, na idade própria deviam 
determinar uma phase nova : a das producções de 
longa e esmerada execução. A tragedia e a epopéa, 
para as quaes voltava j o ardor, oflereciam-lhe baze 
bastante vasta, para se dispertarem faculdades, que 
talvez estivessem adormecidas esperando pela sua hora. 

Não é no arruido e no viço dos annos de inquie- 
tação, que os pensamentos doesta grandeza téem oc- 
casião de tomar corpo. Antes de fallar a lingua de 
Homero, ou de Virgilio, o vate mais favorecido en- 
saia as forças, e degrau por degrau sobe as escadas, 
que levam á maior elevação da forma e da idéa. A 
oopia de noticias e de saber que requer o poema 
épico ^ e o conhecimento profundo e geral do cora- 
ção humano, que exige a interpretação dramática, 



não se adivinham, adquirem-se consecutivamente. 
6tualquer das duas manifestações mede a difficulda- 
de a que se abalança, e por uma absorpção lenta e 
continua, vae colhendo na experiência, no estudo e 
no espectáculo da vida das nações e dos indivíduos 
o immenso cabedal de que precisa. 

f Contínua.) 

L. A. RxBELLO DÁ Silva. 




«ATZO lio DSCZKO TSBOSIRO SBOUZiO. 

Dksdb a epocha semi-barbara da idade media até ao 
nosso século, em que seapplícou o vapor á marinha, 
descoberta importantíssima e verdadeiramente civi- 
lisadora, que, encurtando as distancias, aproximou os 
homens todos uns dos outros, a forma e apparelho 
dos navios empregados no trafego commcrcial, ou 
no serviço militar, tem soffrido immensas modifica- 
ções. 

Basta lançar os olhos para a nossa gravura, que 
representa um dos navios que faziam parte da arma- 
da com que S. Luiz, rei de França, se dirigiu á Ter- 
ra Santa, para conhecer, de um golpe de vista, a 
grande e enorme differença que apresenta com rela- 
ção ás actuaesconstrucções marítimas, ainda as mais 
imperfeitas *, e todavia o navio do decimo terceiro 
século symbolisava um grande progresso, comparado 
aos que se usavam nos séculos anteriores. 

Pouco temos que dizer sobre a forma e dimensões 
do navio do 13.^ século. A máxima parte dos que 
foram na frota de S. Luiz regulavam pela força do 
Santa Maria^ fretado aos venezianos. £ste era de 
duas pontes e dous mastros, tinha uma espécie de 
galeria de combate á popa, e á prda outra construc- 
ção quasi similhante.Tripulavam-no 110 marinheiros. 

Toda a armada de S. Luiz compunha-se de mil 
e outocentas velas, conduzindo 40:000 infantes e 
2:800 cavalleíros :• os almirantes eram os doosgeno- 
vezes Lercari e Levanto. 

O resultado doesta expedição foi, como todos sa- 
bem, desastroso, para o santo rei, que em subse- 
quente campanha a Tunes, pereceu victima do seu 
fervor religiow, no dia 25 d^^í»lOj^^^^Qgie 



14 



O PANORAMA. 



SANSÃO NA VINGANÇA ! 

(1850) 

£ sacudindo (SansSo) com grande 
fon;a as columnas caiu a casa sobre 
todos os príncipes, c sobre todo o 
povo que estava n'ella; e foram mui- 
tos mais os que matou morrendo, do 
que os que matara antes quando vivo. 

Juizes, cap. XVI, v. 30. 

II. 

O BAZAR DE Macau. 

Apenas começava a alvorecer o dia 27 de outubro, 
saiu João António de casa da timora, e dirigi u-se 
para a alfandega. Este edi6cio grandioso, que ser- 
viu em outro tempo de casa fiscal do porto, estava 
agora repartido para diíTerentes usos, visto que Ma- 
cau havia sido declarado porto franco \ acerca doeste 
enorme erro governativo, bjistante e bem se tem es- 
cripto, e uma tal discussão está fora do nosso pro-, 
gramma. O motivo que levava João António n^a- 
quella direcção era ser o espaçoso cães da alfandega 
o logar em que commummente embarcavam e de- 
sembarcavam as tripulações dos navios de guerra, 
tanto dos surtos no rio como dos ancorados na Tai- 
pa, pequeno porto defronte da cidade, onde entáo 
se achava a fragata D. Maria II. 

Ligeiros ianeás (pequenos barcos, cujo nome se 
traduz por ccuca cTovo) guarnecidos por engraçadas 
mulheres chineias, que faliam um paióis portuguez 
divertidíssimo^ não pronunciando ore substituin- 
do-o sempre pelo /, e fazendo ainda outras transfor- 
mações, tudo em cadencia musical, conduziam a bor- 
do os nossos marítimos, alguns dos quaes morriam 
de amores pelas bellas tripulantes. E em verdade 
que tinham razão ^ aquellas carinhas morenas das 
tancarciras, molduradas em óptimos cabellos, escu- 
ros como os seus olhos pequeninos, mas vivos, com 
lindos dentes, mãos pequenas, pés delicados, apesar 
de coàtumados a andarem descalços, estatura baixa 
roas esbelta, trajo assas pi ntoresco; cabaia e calça 
atui ou preta, lenço de cores vivas na cabeça, sapa- 
tos de prodigiosa altura, um certo requebro no an- 
dar, era tudo isto de certo muito mais bonito do 
que 09 rostos cobreados das timoras, e d^essas raças 
cruzadas de malaio, chim e europeu, que parecem 
haver sido achatados ainda no berço. Até aquelles 
barquinhos, onde ellas vivem de dia edenoute, pa- 
recem chamar os passageiros pelo seu extraordinário 
accio; e com tudo dentro de um fraca tancá, tem 
uma familia o seu pagode, espécie de deuses pena- 
tes, sempre alumiado e bornido^ cosinha, cama, ban» 
cos, em fim a mobilía completa de uma pobrecasa*^ 
as tancureiras ahi vivem, ahi cozem o seu arroz e o 
comem, ahi dormem, rezam e folgam. A sua reli- 
gião manda-as dedicar á alegria até encontrarem 
marido, e ellas cumprem á risca este preceito, em 
quanto um esposo feliz nao oppõe a barreira do hy- 
mineu a essa torrente de loucuras *, desde então a 
taucareira tornou-se uma mulher seria; nao ri para 
o viandante, nem responde a nenhuma provocação, 
senão mostrando uma fita preta que lhe cinge o pes- 
coço, e que quer dizer : sou casada. A variedade 
acabou para ella ! 

Os nossos marinheiros c soldados gostavam apai- 
xonadamente de tudo isto, e João António, que con* 
tçm piava agora algumas d^ellas, empregadas a lavar 
escrupulosamente os seus barquinhos, comparava-as 
com Floriana, e dava-lhes a preferencia; porém, se 



elle fugia para a baixa do Monte, é porque a he- 
diondez da sua figura cansava terror aquellas aceia» 
das creaturas, que fugiam d^elle chamando-lhe dia- 
boy e nSa sei quantos nomes mais, que haviam apren- 
dido em português, para insultarem os que se por- 
tavam mal. As pobres tancareiras até tinham medo 
de o conduzir a bordo, mas oom isso se importava 
elle pouco ; e ia saltar para dentro de um barco, 
para obrigar as raparigas a leval-o á fragata, quan- 
do enxergou a hrcka do serviço do seu navio, que 
vinha atracando ao cães, para receber a ração da 
maruja. Om fiel de géneros, que vinha na popa da 
lorcha, saltou immediatamente para terra, e vendo o 
fiel d''artilharia, disse- lhe : 

— «O João António, não vás para bordo sem ar- 
ranjar alguma carta de empenho para o comman- 
dante ; olha que está desesperado comtigo, por fica« 
res em terra. Bem sabes que elle não pernoita fora 
do naviç, por mais duro que seja o tempo. 9» 

— <i E verdade, n respondeu o velho íleugmatica- 
mente ; u mas é que elle se adormece em casa dos 
seus amigos acordam-n^o a horas de ir para bordo ; 
e eu adormeci em casa de Floriana, e s6 acordei ha 
meia hora. Em todo o caso, sigo o teu conselho, nao 
vou para a Taipa. 99 

— u Mas toma conta em arranjares a carta quan- 
to antes. » 

Dizendo isto, o fiel de géneros encaminhou-se pa« 
ra a porta da alfandega ^ em quanto o patrão da 
lorcha, um velho chim, tendo desembarcado, con- 
templava de perto, com o sorriso peculiar áqoella 
raça especuladora e hypocrita, o rosto macilento do 
condestavel, e adivinhava, atravez da mascara de pla- 
cidez que o cobria, qual era a porção de fel que ha- 
via n^aquelle coração, e que ia a trasborda r-lhe dos 
lábios. Não se enganou. João António, julgando-se 
s6, e possuindo em alto grau o defeito dramático 
dos monólogos, começou a vociferar por entre den- 
tes: 

— u Maldito homem ! Nada perdoa !... Pois tam- 
bém eu lhe não perdoarei. Aquella timora contou- 
me uma historia de não sei que vingança, do ma- 
rido ou de outro. • . Talvez fosse uma lioa idéa. . • 
mas se eu nada ouvi, deu-me o somno I E o mesmo, 
seguirei o primeiro pensamento, n 

O chim acompanhava com o sorriso, tornado ca- 
da vez mais bondoso, as palavras meio confusas do 
chiidão (termo para designar qualquer estrangeiro 
na China, quando lhe não chamam dtaòo, o qua 
também é muito vulgar). Aproximou-se lentamente 
d^elle, e tocou-lhe muito de leve nohombro^ ainda 
assim João António virou -se sobresaltado. 

— icGtue queres tu, Ahu^fw perguntou o velho 
em tom desabrido. 

— uPenscf como tu, e como tu desejo vingar-me, 
João Diabo. 99 

— M Gluem te disse. . . n 

— M Adivinhei eu tudo, n atalhou o chim, adoci- 
cando ainda mais o seu já assucarado risinho. 

João António mediu de alto a baixo este homem, 
miseravelmente coberto por uma meia cabaia de còr 
duvidosa, e esfarrapada^ descalço, e com a cabeça 
apenas tapada por um chapéu de palha, já roto tam- 
bém. Isto foi o que elle viu quanto ao vestuário, 
porém no rosto não poude ler cousa alguma. O sor- 
riso do chim chegara a ponto de rebuçado, porém 
nenhum de seus músculos se contrahiu ou dilatou 
sob o olhar do soldado; os olhos pequenos e envio- 
sados, enxergavam -se coroo atravez de uma rara la- 
mina de gello, e elle afagava com as mãos calosas 
alguns cabellos brancos que lhe pendiam da barba, 
ou torcia a ponta do rabicho, quebacabavaxem/^i 



o PANORAMA. 



15 



cordSo de torçal vermelho. JoSo António esteve qua- 
8Í adar-lhe^um furioso cachaçlo, maneira amigá- 
vel de todo o bom cfaristão tratar nm chim !... po- 
rém teve cariosidade de saber o que aquelle homem 
lhe q«eria. Apesar de estúpido de sen natural, e 
embrutecido pelo uso immoderado de bebidas alcoóli- 
cas, o fiel d 'artilharia comprehendia perfeitamente que 
o patr£o da lorcha nSo viera despender aquella so- 
ma de sorrisos, e a Afrontar as suas iras, sem para isso 
ter fundados motivos. Resolveu-se pois a perguntar 
a Ahuy o que queria. 

— aVingar-me. Nâo t'o disse já?» respondeu o 
homem do Cathay. u Tu desejas ver morto o com- 
mandante, e eu preciso que morra o tenente Osó- 
rio. QfUeres que nos ajudemos mutuamente ? n 

— uDe que me podes tu servir ?w replicou ocon* 
desta vel com ar de despreso. 

— uDe tudo, porque pertenço a uma sociedade 
inimiga dos chrtstSos, que tem uma casa filial em 
Macau, e que trata de inutilisar a esquadra portu- 
guesa. 9) 

— u6ím?»9 

— uE a verdade, e tu podes vingar-te, ganhan- 
do ainda muito dinheiro, n 

— 41 Isso é magnifico, estou tentado com a tua 
sociedade ! n 

•— uPois se queres, o conselho dos anciSos deve 
estar reunido, e é occasiSo de seres admittido. Porém 
toma conta ; quem falta ao juramento morre ! n 

— mScí d^essas cousas. Lá na minha terra tam- 
beni disem que ha sociedades secretas, n 

— u Nas vossas terras tudo se abasta rdeia, nSo ha 
santidade de juramento, nem se guardam segredos. 
Na China é differente. Existem d''estas associações 
ha quatro mil annos, e nunca os mandarins desco- 
briram uma s6. Sâo ellas que vão mudar a face do 
império, restituir o throno da China á dynastia Ming, 

^ e 8^ os associados o sabem ! . . . Mas que te estou eu 
contando, que te importa a ti com as nossas desa- 
venças; nem talvez as doteupaiz te incommo^em. n 
O rosto do chim, que por um instante brilhara 
com a luz do enthusiasroo, caiu na sua habitual pla- 
ddez. JoSo António, cada vez mais impellido pela 
curiosidade, apressou-se a responder: 

— uQ,ue tenho eu com essas desordens dos gran- 
des, o ganho é para elles sé. Vamos nés á tua socie- 
dade, e pelo caminho me contarás o motivo da aver- 
são que tens ao tenente Osório. . . que ainda assim, 
nSo é dos peiores officiaes da fragata, n 

Saindo do edifício, o chim e o christão seguiram 
pela rua da Alfandega, e viraram á primeira traves- 
sa á esquerda, uma das entradas do bazar chinez. 
Em quanto cruzavam aquellas ruas estreitíssimas e 
immundas, orladas de boticas de commercioede in- 
dustria, sé coroadas por pequenas sobrelojas, e que 
arrostando com o turbilhão da gente, e aturdidos 
pelos gritos dos vendilhões, e dos homens carrega- 
dos, que pedem logar n^essas acanhadas devezas, cla- 
mando aos passeantes que se arredem, iam os nossos 
homens dirigindo os passos para o sitio de Matapau 
(carpinteiro, em dialecto luso-chim) e contava Ahuy 
ao companheiro a promettida historia do seu ódio ao 
tenente Osório, pouco mais ou menos n^estes ter- 
mos : 

— 4< O chim é reservado, e mostra rosto alegre ao 
seu inimigo, até ao momento em que possa cravar- 
Ihe o punhal no coração, ainda que seja atravessan- 
do-lhe as costas. E mais longo o transito, mas che- 
gasse do mesmo medo, e é mais seguro ! 

O soldado, apesar da sua natural ferocidade, nSo 
gostou doeste prologo. 

— (( Surprehendi um segredo de Luiz Osório, e 



lembron-me de tirar partido doesta descoberta. Ar- 
mar os christãos contra os christaos é o noSso melhor 
meio de triumphar. n 

— ttPor isso me convidaste ?n 

— «Tu eras dos nossos ha muito; tens coragem c 
és inimigo dos teus; o que eu quero é aproveitar-te, 
para que a vingança se nao limite á fragata. Estão 
cegos esses homens do occidente, nao viram nos teus 
olhos que és capaz de emprehender tudo para lavar 
uma affronta . . . cegos! riem*se das tuas palavras; 
chamam-te fallador . . . e os seus dias estão coutados ! n 

João António mal podia crer que estava ouvindo 
fallar o patrão da lorcha, que elle tinha por um idio- 
ta ; Ahuy proseguiu : 

— uEu podia dizer-te que era o amor das sapecas 
que me guiava, que era a necessidade de comprar 
arroz que me impellia. . • mas não, prefiro con ta r-te a 
verdade toda. Eu soube que o tenente Osório se cor- 
respondia com a mulher doMurray, um viajante ea- 
cocez que vive ali na praia Grande, e lembrei-me 
de avisar o marido, pedindo-lhe segredo. Era uma boa 
maneira de os armar um contra noutro. . não era?n 

— « De certo. E então ? n 

— u Então f Enganei-me. » Oescocez não fez caso 
do que eu lhe disse, nem me guardou o promettido 
segredo. A um chim ? nao merecia a pena ! . . . Em 
logar de se acautellar e esperar, como um de nés fa- 
ria, foi-se direito a Osório, a primeira vez que q 
encontrou, e disse-lhe tudo. Osório negou, como 
era de crer ; elle riu-se, e convidou-o para jantar, 
e eu. . . n 

— u Pobres costas d'Ahuy. »» 

— «Adivinhaste ... pobres costas! Hoje, antes 
de romper o dia, fui amarrado na proa da fragata, 
e surrado sem piedade, na presença e por mandado 
de Luiz Osório. Ainda me escorre o sangue das cos- 
tas. • • n 

— «Isso não é novo para mim, estou bem mar- 
cado da chibata ; e quem sabe se ainda me espera 
a bordo.» 

Chegavam a Matapau. Enfiando por um beco maia 
estreito ainda, e, se é possível, mais lamacento do 
que os precedentes, Ahuy fez parar o portuguez, • 
disse-lhe que o aguardasse em quanto, ia prevenir os 
anciãos. João António cruzou os braços, e esperou, 
sem poder adivinhar o desfecho d Vs ta estranha aven- 
tura. Ahuy entrou na porta de um chalé (espécie do8 
nossos pateos antigos) e sumiu-se por uma das mui- 
tas portas de miseráveis habitações, que para ali 
abriam ; passados porém alguns minutos, voltou a 
buscar o con d estável, e com elle entrou de novo na 
mesma casa. 

A scena que se passava lá dentro deixou estupe- 
facto o nosso João António. Era uma orgia incrível 
para elle, que, do género, sé conhecia as mais tor- 
pes saturnaes. Alguns homens deitados em pequenos 
leitos, destinados especialmente para se fumar o aro- 
phião, chegavam á luz, collocada em pouca distancia^ 
as extremidades do tubo por onde aspiravam aquel- 
le agradável narcótico, a qual continha a pequenina 
bola de ópio ; pareciam estar em uma perfeita bea- 
titude. Outros, já embriagados pelo fumo da mesma 
droga, jaziam em diíferentes posições, olhando fixa- 
mente para o que os rodeava, mas parecendo não te- 
rem a consciência de que viam nem de que sentiam v 
no meio da sala algumas huquU executavam as 
mais voluptuosas danças, e outras tocando em una 
pequenos bandolins, e cantando endeixas simples maa 
apaixonadas, acabavam de embriagar os fumadores. 
O portuguez ficou em êxtase perante este quadro, 
totalmente novo para elle, e Ahuy, aproveitando es- 
sa emoção, foi-o arrastando machinalmente para u^iO l^ 



16 



O PAIfOBAMA. 



eanto da casa, tocou em uma mola imperceptível na 
parede, e no mesmo momento desap^pareceram os deus 
em um alçapão, nSo sem que João António se agar- 
rasse fortemente ás goelas de Ahuy, por que receiou 
uma traiç2o. 

Apenas chegados ao pavimento inferior, a taboa 
que os conduura theatralmente volveu ao seu logar, 
e não puderam ver senão as trevas, 8egund9 a expres- 
são de Delisle. 

— u Aonde me conduzes?» perguntou o soldado, 
não largando o pescoço de Ahuy. 

— M E preciso esperar um momento ; eu já ve- 
nho. » 

— u 6tueres-me deixar só e ás escuras ? » 

— uTens medo?» disse o chim, dando uma so- 
nora gargalhada. 

— w Não, nao tenho medo, n tornou o portuguec 
largando-lhe a guela^ uvae-te com os diabos, e vol- 
ta breve. n 

João António não viu por onde passara Ahuy, 
mas ouviu-lhe a voz já detraz de uma antepara, ad- 
vertiu d o-o de que se não movesse do logar em que 
estava, porque haviam alçapões perigosos em roda 
d^elle. O fiel d^artilharia, que pensava a sangue frio, 
poucas horas antes, em imitar Sansão n^uma estron- 
dosa vingança, quasi que tremia de medo agora; não 
se moveu e esperou. Passados alguns instantes sen- 
tiu cousa que mais ainda o aterrou. O pavimento 
em que se achava começou a mover-se lentamente \ 
não sabia se devia ficar parado ou mudar de posição, 
convencia-se de que o chim o atraiçoara, e que al- 
gum inimigo seu o queria matar. Figuravam-se4he 
na imaginação esses mil castigos bárbaros dos chins, 
de que ouvira failar, entre os quaes não é contado 
como um dos mais dolorosos o rolar o criminoso, ou 
a victima, dentro de uma pipa cravejada de pre- 
gos ! • . . João António quasi que se lembrou de re- 
sar, e pedir perdão a Deus dos seus peocados. 

Emfim, este estado de perplexidade acabou, co- 
mo tudo acaba, porém de uma maneira com visos de 
prodigiosa, o que poucas vezes succede. Os olhos do 
condestavel foram de repente feridos pela luz de um 
enorme fogacho, no meio da completa escuridão que 
o cercava ; e quando poude descerral-os encontroo-se 
no meio de uma assembléa de anciãos, alguns dos 
quaes mostrando no peito a águia dos mandarins, e 
todos de longos bigodes postiços, que lhe caíam por 
iim e outro lado da boca, como se vêem nos quadros 
chineses, mas nao nas ruas e praças de Macau ou de 
Cantão. O fiel d ^artilharia procurou o seu amigo 
Ahuy, mas não o poude distinguir entre aquellas 
caras tão parecidas, graças á tinta e ao cabello pos- 
tiço, que pareciam irmãos gémeos. 

A um signal do presidente (chamemos assim ao 
que occupava o centro da assembléa, e pousava em 
logar mais elevado) cada um dos anciãos se armou 
de dous taifót^ alçando-os com um movimento bur- 
lesco ; João António, que já havia readquirido a sua 
serenidade com a presença da luz, e que tinha um 
•demne desprezo pelos filhos do celestial império, deu 
uma gargalhada, e disse : 

— «Se isso é para me assustar, estão perdendo o 
seu tempo ; tomara eu apanhar Ahuy, para lhe per* 
guntar o fim com que aqui me trouxe, n 

— 44 O fim, eu t'o digo, tf respondeu o presidente, 
em mau portuguez. tiNds queremos incendiar toda a 
esquadra portugueza, e consta^nos, por um de nos- 
sos irmãos, que tens em vista servir aos nossos fins, 
ainda que por di Aferentes razões ^ queremos que se- 
jas dos nossos, e que a troco de alguns milhares de 
patacas, estendas a tua vingança ás duas corvetas 
também, n 



— tt Pensarei n^isso. . .» 

— a E guardas segredo ? m 

— ««Como vós guardareis o meu.» 

— «< Gtnem responde por este homem ? » 

— «cEu,» disse um dos anciãos. Era Ahuy. 

— («Bem, podes partir. n 

E a casa ficou instantaneamente ás escaras, 
r Seguido o mesmo processo da entrada, João An- 
tónio acbou-se á porta da rua, e* encontrou o seu 
amigo Ahuy, que aocendia placidamente um cigar- 
ro cbinez. 

— tt Metteste-me em boa,»s diqse o soldado^ uos 
barbaças queriam assustar-me, mas enganaram-se. 
Vamos para bordo, n 

— u Vamos, »» respondeu Ahuy ; e aocresoentou w 
peetore ; a este é nosso de corpo e alma. n 

Ao mesmo tempo pensava comsigo o fiel d^arti- 
Iharia : 

— tt Uma tal revelação vale bem a melhor carta 
de empenho ! n 

E regressaram á Alfandega. (Oantinúa.) 

F. M. fioBDALO. 



Nota 



SOBRX o CONSUaiO DA CABKE 

XM Pabís e Lisboa. 



O covsuMo da carne (carneiro, vacca, vitella, porco 
etc.) (1) em Paris, no annode 1851, foi de69.673:932 
kilogrammas, oude 190:886 kil. e663 grm. por dia. 

Tendo a capital do império francês, como consta 
do Annuaire du Bureau de$ Langiludei pour 1851, 
996:067 habitantes \ segue-se que cada habitante, n'a- 
quella cidade, consumiu porannokil. 69,94874, ou 
*grm. 191, 640 por dia. 

O imposto sobre «a^ carnes produziu, no referido 
anno, para o cofre da municipalidade, 6,794:779 
francos e 5 cêntimos, ou réis 1*087: 164;jí648, calcu- 
lando cada franco por 160 réis. Foi o rendimento 
diário, termo médio, de réis 2:978#533. Se distri- 
buirmos o producto do imposto pelo numero de ha- 
bitantes, acharemos que cada um concorreu, no dito 
anno, com 1;^181 réis, que vem a ser 3 réis e 16 
avos por dia. 

Segundo os manpas officiaes, publicados pela alfan- 
dega municipal de Lisboa, respectivos ao anno eco- 
nómico de 1852-1853, vemos que o consumo das car- 
nes, na nossa capita], foi de 396:984 arrobas, ou 
5.830:900 kU. e 992 grm., ou de kil. 15:975,071 
por dia. 

Excluindo os dous novos concelhos de Belém e 
dos Olivaes calculámos que a cidade de Lbboa terá 
180:000 habitantes. Logo cada habitante consumiu 
kil. 32,70990992 por anno, ou grm. 87,19570909992 
por dia. 

Dos documentos apontados consta igualmente que 
os impostos lançados sobre as carnes, produziram, na 
mesma epocha, réis 329:589#787, ou 902^^1977 réis 
e 182 avos por dia. 

Distribuindo aquella somma pela população conhe- 
cemos ter cada habitante contribuido com 1;^831 réis 
por anno, ou 5 réis por dia ! 

Por esta nota estatística, collígida com escrúpulo 
de documentos insuspeitos, prova-se a grande desvan* 
tagem em que acha collocado o habitante de Lisboa 
com relação ao de Paris : pois que o cidadão lisbo- 
nense consome menos de metade da carne com que 
se alimenta o parisiense, e paga ao fisco, proporcio- 
nalmente, três vezes mais ! ! Às publicações especiaes 
cumpre estudar estes factos importantes com rela- 
ção á economia e hygiene publicas. 



(l) Cada kilommma equivale a 2 arráteis. S ouça», 
e 6 oitavai e meu. Digitized by V^OO^"* ' ^^ 



o PANORAMA. 



17 




raAMÇA — lOBSJA ]»« 8. MAMTlWBtO D^AINAT. 



SvssEiiTA tribus gauletas erigiram em Lyao deFran-^ 
ça (Lagduni) nm soberbo templo a Augusto. Com 
o decorrer dos annos este testemunho insigne do reco- 
nhecimento das Ganias ao famoso imperador, que, 
segundo a expressão dosetcriptores romanos, f(>x as de- 
licias do mundo, teve a sorte das outras muitas con- 
strucções similhantes^ istoé, caiu em ruínas ! Nos pri- 
meiros séculos da nossa era, no mesmo logar do tem- 
plo pagSo, consagrou-se uma pequena capella a S. 
Blandina, virgem e tnartyr. 

No tempo de Constantino para ali foi viver como 
solitário S. Radulpho, que pouco depois fundou um 
convento \ a igreja doesse convento, edificada sobre 
a capella subterrânea de S. Blandina, recebeu a in- 
vocação de S. Martinho. 

Destruída no fim do 5.^ século pelos vândalos, 
que saquearam a cjdade de Lyao, foi reconstruída 
pouco depois por S. Anselmo, abbade d^Aínay, que 
doesta vez a dedicou a S. Pedro. 

Mas a segunda igreja teve a sorte da primeira, 
ás mãos dos lombardos. A rainha Brunéh^ut, de 
França, a restaurou depois, dando-lhe novamente 
por orago S. Martinho. 

Esta igreja, opulentada pela munificência de al- 
|runs pontífices, e nomeadamente de Eugénio III e 
Innocencio IV, chegou aos nossos dias orfa do con- 
tíguo mosteiro, e tal qual a vemos representada na 
nossa gravura. ' 

Voi. III. — 3.aS«RW. 



Infelixmente o% que tiveram, em dííTerentes epo- 
chas, a sen cargo o reparo de tao precioso monu- 
mento de piedade christâ cuidaram em o preservar 
das maiores injurias ^dos séculos, sem comtudo res- 
peitarem os primitivos desenhos. Todavia ainda as- 
sim a igreja de 8. Martinho de Ly3o é mui digna 
do exame do archeologo e do arçhitecto. 

Do antigo templo de Augusto existem as quatro 
columnas que sustentam a cúpula do altar-m6r, e 
um baixo relevo sobre a portada, figurando três di- 
vindades do paganismo, que o povo em sua singele- 
xa porfia em venerar como três santas, de que julga 
serem as devotas imagens. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

MttMORIAS DA V.ILLA DX AhKAYOLOS. 

XVI. 

Requerimento de jírrayolot nas eôriei 
de Santarém de 1468. 

Vimos .como, em tempo do conde D. Álvaro Pires de 
Castro, os moradores de Arrayolos se queixaram a el- 
rei das vexações^ que padeciam, mormente de pou^^[^ 

Janeiro 21, 18o4. ^ 



. 18 



O PANORAMA. 



com elies em suas casas a família do conde^ e Ibes ti- 
rar mantimentos e forragens : e vimos igualmente co- 
mo se despachou essa controvérsia ao principio ,po^ 
composição, e ao depois por isençSo da viUa do senho- 
rio do conde. 

Alguns dos senhores da villa, que se foram succe- 
dendoy continuaram a exercer as mesmas vexações, 
até que novamente a villa se queixou a el-rei por seus 
procuradores nas côrtès de Santarém de 1468, de que 
o conde de Guimarães (que taçibem o era de Arraio- 
los, por ser herdeiro da casa de Bragança) pousava 
com os vassallos e privilegiados, o que nunca fizera 
o duque seu pae ^ e pediram que tal não consentisse 
el-rei *, e que somente pudessem pousar com elles quan- 
do o próprio rei estivesse na villa. Ao que el-rei res- 
pondeu, que lhe aprazia que assim se fizesse; e man- 
dava que fossem guardi^dos aos moradores seus privi- 
. legios. £ se porventura o dito conde^ quando esti- 
viesse na villa, Ih^os não guardasse, Ih^o escrevessem 
a elle rei, e elle escreveria ao dito conde por manei- 
ra que Ih^os guprdasse. 

Do que tudo lhe passou carta em Santarém, a 24 
de maio de 1468. (1) 

XVII. 



Demarcações do termo. 

Q-uAKs fossem as demarcações primitivas do termo de 
Arrayolos está visto nocap. III, por occasião dM-rei 
D. Aífoiíso II fazer doação dVsta terra ao bispo e 
cabido d'Evora em 1217. 

Vejamos agora como pelo decurso dos tempos foram 
novamente demarcados os seus limites com algumas 
das terras visinhas. 

Demarcação com Évora. 

Pot sentença do anno de 1533 se determinou a de- 
marcação de Arrayolos com Évora pelo modo seguin- 
te : Começando nos limites do termo de Arrayolos com 
Vimieiro, segue o caminho que sae das casas da her- 
dades das Figueiras, onde está o alemo, assim como 
vae por detraz das costas das casas e moradas dos la- 
vradores das herdades de Luiz Mendes de Oliveira 
e dos frades de S. Domingos, ficando ellas no termo 
d^Evora ; e d^ahí atravessando o Divor pelo açude 
do moinho dos ditos frades, epelo cabeço alto da ser- 
ra direito ás casas da quinta da torre do Adaj^ao, 
ficando a torre no termo da cidade (3) : e da dita 
torre pelo cabeço onde está o azambugeiro, que está 
sobre o valle da junca por junto do ditoazambugei* 
ro, e d^ahi atravessando o dito valle, e pomar da 
Sempre-noiva por entre os paços e a casa do poma- 
reiro direito ao curral, que está na herdade da Pe- 
dra da Missa contra o caminho de valle de Sobrados, 
o mais chegado á lagoinha junto da estrema da her- 
dade da Sempre-noiva, ficando os paços no termo 
d'Evora, e a casa dopomareiro no de Arrayolos. (2) 

Demarcação com o Vimieiro na era de 1458, 
peia parte do monte do Alcaide. 

Por avença feita entre os dous concelho» ficou li- 



( I ) Torre do Tombo. Li v. «8 de D. Affònso V, fl. 47. 

(8) Em tempos mais antigos houTe duvida sobre se as 
casas da torre do Dayão estão no termo de Arrajolo^, 
oii no de Évora; e por íiiquiri<;ao de testemunhas se de- 
cidiu que estão ao termo de Arrayolos/ (Doe. no car- 
tório da camará) 

(3) Documento no cartório da camará. 



I roitado entre ambos o termo desde o padrão grande, 
que está nas cimalhas do valle das Charruadas, como 
se vae direito para a cumiada da Anta, e vem-se á 
dita Anta, que está em direito do monte, que foi 
de João Alcaide, e da dita Anta ao ribeiro do Pi- 
geiro para cima até ao marco da cruz \ e desde dito 
ribeiro para Arrayolos 6 termo d^Arrayolos, e do 
dito ribeiro para além é termo do Vimieiro^ e do 
dito marco da crus vae-ae a am padrão, que jaz der- 
ribado áquem das quelhas, onde está o curral, e d V 
li vae-se direito traz o pardieiro, que está áquem da 
Murteira, e vae entrar no Ribeiro da Murteira. (1) 

Outra demarcação enire ot metmos termos 

em 1572, pela parte de Castello 

Picão e Ilha Fria. 

Por sentença doeste anno se decidiu partir o ter- 
mo de Arrayolos com Vimieiro por umzambugeiro, 
que está em cabeça de Castello Picão, e d'ahi por 
uma linda contra os freixos da fonte da Ilha Fria, 
e d^ahi valle abaixo direito ao canto da vallada dos 
Silvestres, que agora é de Álvaro Ferreira, e d'ahí 
aguas correntes até um álamo, que está no ribeiro, 
e ficando a vallada no termo de Arrayolos toda, e 
d'ahi até chegar á herdade da Murteira, que parte 
com herdade dos Silvestres, onde está uma barro- 
queira, onde se diz que arrancaram um marco por 
onde partiam os termos, e d'ahi vae até cabeça de 
Bardeira. (2) ^ 

Com as outras terras limitrophes não ha no car- 
tório da camará confrontação. 

XVIII, 

Foral d^elrei D. Manuel. 

Os chronistas e jurisconsultos contam como el-rei 
D. Manuel encarregara a Fernão de Pina a reforma- 
ção dos foraes das villas e cidades do reino, e como 
elle se desempenhara dVste encargo. 

Pelo que toca particularmente ao da villa de Ar- 
rayolos sabc-se que o próprio Fernão de Pina fora 
em pessoa á mesma villa, e ali dentro na fortaleza 
d'ella, a 7 de outubro delS09, inquirira as testemu- 
nhas, que julgou bastantes para alcançar cabal co- 
nhecimento dos usos^ e costumes antigos a respeito 
do pagamento do8 direitos reaes, e outras cousas, do 
que havia de fazer menção o novo foral ^ visto como 
na arca do concelho se não achou foral anterior per- 
tencente á dita villa. Foram presentes a este auto de 
inquirição Diogo Lopes e Gaspar Martins, escudei- 
ros e juízes ordinários ; João Nunes e João Ledo, 
vereadores^ e Fernão Martins Grangeiro, procurador 
do concelho •, e outrosim Diogo Bayao, e Gil Pires 
de Carvalho, cavalleiros e outros homens bons, to- 
dos moradores em a dita villa •, e estando mais pre- 
sente Lançarote Rodrigues, escudeiro e almoxarife 
do sr. duque de Bragança na dita villa. (3) 

A 29 de mar^o de 1511 se passou em Lisboa o no- 
vo foral, e se publicou em Arrayolos a 3 de abril 
de 1515, sem que conste o motivo de tamanha de- 
mora. Já vimos que o diamado antigo foral, dado 
por el-rei D. Diniz, não passa de ser uma simples 



(1) Outro ibid. 

(«> Outro ibid. 

(3) Torre do Tombo, corpo chronologico, parte 2.», 
masso 1 8, doe. 1 56, que contém a ioqnirlção para este Fo- 
ral. No mesmo archi vo gaveta SO^ masio 1 1 , n.^ 1 3 esta ou- 



tro papel, pertencente a mesma ínqnirjçuo, mas uadaadi- 
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anta. 



o PANORAMA. 



19 



carta de foro do reguengo da Vide a seus povoado* 
ret. (1) O novo foral porém ordenado por Fernão 
de Pina abranc^ as condições dos colonos dos dons 
regoengos de Vide e do Cavallo ^ designa que pen- 
são hajam de pagar os dous tabelHles da villa ; re- 
gula 06 tributos da açongajem, e docellayo (triboto 
sobre o pSo cosido) ; a disima da execução das sen- 
tenças ^ como se darão os maninhos ; que retribuição 
se pagará pelos montados ; como se arrecadará o ga- 
do io vefUo^ como se cobrará a pena d*arma ; e fi- 



Gtuem ler attento a admirável cantata de Lean- 
dro e Hero, e tirar a suspeita de um furto ás Heioi- 
des de Ovídio, confrontando as duas peças, achará 
no gosto e na imaginação, que a dictaram, mais do 
que os dotes limitados do imitador clássico. O toque 
e o primor do episodio auctorisam a soppor que, 
apurada a critica e concentrado o génio, a inspira- 
ção não seria infiel a Bocage, se a chamasse cheio 
de respeito pela própria gloria, e de admiração pela 
elevação da arte. Comprehenderia o vate assim os 



nalmente dá um extenso regimento sobre o imposto ' deveres do talento, e as condições do género ? Úaria 



da portagem. (2) 



J. H. DÁ CvKHA RiVABA. 



Manuel Maria dx Bakbosa du Bocagx. 

Ifa Arcádia Blmano Sadina. 

Entre ferros cantei desfeito em pranto ! 
Valha a desculpa, se não vale o canto. 

VII. 

Sb é exacto^ como se affirma, que Bocage tinha 
em projecto um poema sobre o deseobnmenlo da 
America^ e uma tragedia de Vasco da Gama, a mes- 
ma escolha dos assumptos inculca o distincto poeta. 
De todos os factos modernos, que se prestam para a 
tela da epopéa, este da contraposição de duas civili- 
sações, da revelação do mundo velho ao mundo no- 
vo, é o que apresenta as proporções gigantescas, o 
maravilhoso, e as tintas esplendidas, que o género 
imperiosamente pede. Chateaubriand concede ape- 
nas ás cruzadas e ao descobrimento da America a 
capacidade de inspirarem fabula e episódios dignos 
de rivalisarem na harpa christã com a lyra de Ho- 
mero, e com o cantor de Eneas. 

Quem, melhor do que BUmano, como Camões, 
desde a mocidade o baldão da fortuna, e o escolhido 
das musas, tendo visto na immensidade das aguas a 
imagem do iufinito, na tempestade os horrores su- 
blimes da naturesa, e nas regiões da Ásia o antigo 
theatro da gloria portuguesa^ descobriria no assump- 
to os painéis admiráveis, as scenas meigas epatheti- 
cas, as pinturas atrevidas e maviosas f Harmonia, 
pompa, traços e cores, no verso; sentimento lyríco, 
phrase épica, expressões cunhadas com um séllo dis- 
tincto, aonde se funde a graça na energia, tudo o 
que se deseja e raramente se alcança assim reunido, 
concorria para lhe alargar e enobrecer a carreira. 
Poderia percorrel-af O plano do edificio, e a sy- 
metria das partes corresponderia ás decorações? A 
imaginação, transportada a tão amplo lavor, acudi- 
ria poderosa e igual ao interesse, á regularidade, e 
ao acabado que elle demanda ? O drama, que está 
sempre i^o fundo da epopé#, seria concebido e de- 
sempenhado na altura precisa f 

Se nos guiarmos èuperficial mente pelo que ficou 
de £lmano parece licito duvidar. Se mais de perto 
contemplarmos alguns longes dos seus hymnos, no- 
tando a invenção original, que vislumbra atravez do 
tecido mythologico, não faltam motivos para acredi- 
tar que sim. 



(1) Atrazcap. VI. 

(2) Está no cartório da camará o original, que lhe 
pertence. Ena Torre do Tombo acha-se registado no li- 
vro de Foraés Novos do Alemtejo* foi. 75 v. col. t. 



ao assumpto a ,Hberdade regrada ; daria á poesia o 
sentimento da verdade, e ao maravilhoso o sentido 
christão ? 

O que José Basilio da Gama entendeu e conse- 
guiu no Uraguay, o moderno poema de maior mé- 
rito, apesar dos descuidos e da brevidade contrahi- 
da, a grande e bella execução descriptiva das scenas 
naturaes, e o quadro magnifico dos homens da Eu- 
ropa Occidental abordando a um mundo, que nunca 
suspeitaram, como crê o barão de Humboldt, esta- 
va na Índole e nos artifícios poéticos de Manuel Ma- 
ria deapil-o inteiramente do repintado verniz das' 
tradições da epopéa antiga, e do falso luzente da al- 
legoria pagã? 

Se nos induz a crer que não, por um lado a in- 
fluencia da escola dominante, e a servidão consenti- 
da ás suas leis ; por outro notámos nos arrebatamen- 
tos religiosos do poeta, nos seus extasis lyricos cur- 
vado á fé, a decidida victoria do espiritualismo, na 
invocação de um Deus ethereo e immaterial. Deus 
do Golgotha ! mas embora (e com a sua anciã de 
gloria era inexplicável) elle não houvesse afagado 
na mente o plano de mais altas composições, a obri- 
gação da critica seria julgal-o pelos titulos que dei- 
xou, e que são de mais para lhe grangearem elevado 
logar., O que ficou por acabar, se excede as dimen« 
soes do que poude concluir, unicamente prova a 
pausa com que aguardava o momento propicio de 
conversar as musas no recolhimento, indispensável 
aos pensamentos grandes. 

O padre José Agostinho, estampando na analyse 
da Fena de Talião as nódoas do seu rancor, varia a 
accusação com o requinte de maledicência, que não 
esquecia, quando se molestava com o merecimento 
alheio. Bocage, diz elle, foi um auctor sem metho- 
do e ligação de idéas, por eenio incapaz de sy metria, 
por ignorância desconhecedor de todos os preceitos 
communsdarhetorica. Não Unha tenão fogachos sem 
a força €- ordem do discurso lógico ou rhetorico! 

O censor queria introduzir as regras do syllogis- 
mo na poética f Se outra era a sua intenção tinha 
lido as cantatas, os idylios e as elegias de Elmano ? 
Affirmaria em presença de taes paginas que o can- 
tor de Medéa, do Tritão, e da morte de Maria 
Antonieta não passava de clarões, deslumbrantes, 
mas ephemeros ? Mau conselheiro é o ódio ; e £lmi- 
ro Tagideo, peccando contra a consciência, mordia 
ás escuras na sepultura aquelle, que exaltara vivo, 
reputando pequenos os maiores louvores. 

Em Manuel Maria sobrava o que em toda a sua 
carreira Macedo, poeta de arte, buscou debalde, a 
commoçSo profunda, a sensibilidade dolorosa, a vo- 
cação espontânea, e aquella segunda vista prodigiosa 
do vate, que illuminà as trevas do futuro, e accende 
na mau remota posteridade o resplendor de um as- 
tro, que não se eclipsa. 

Boileau, mais instruído critico do que Elmiro, 
nunca impôs ao génio o frio compasso das mathe- 
maticas. D^elle são os formosos versos applicados á 
ode, mais verdadeiros para a Índole dos outros gé- 
neros, guardada proporção conveniente: . r-*.r-^i^^r> 

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20 



O PAlfORAMA. 



Soit stile impetueux soavent marcèe au basard : 
Ohei elle un beau desordre est effiet de Fart. 

£ ficar bastante longe do molde impertinente do 
raciocínio lógico, e da severidade do problema al- 
gébrico. Horácio queria a mesma cousa, e Blacedo, 
tirado o fumo da inveja, seria do voto de ambos. 
Desgraçado poema da Meditação, e infeliies voos 
líricos das suas odes, se o raio, que fulminava, caís- 
se em casa a um detractor ! 

Em Philinto, se é estranhavel ao cabo de uma 
longa existência a falta de uma composição original, 
digna do seu nome, a observação nao se exagera a 
ponto de lhe negar inteiramente as forças de a con- 
ceber e executar. Sem ella não ficou menos illustre, 
nem menor poeta do que foi. Atrevendo-se a desem« 
penhal-Bi, delimitador clássico subiria ás eminências do 
génio, dilatando os reinos da phantasia. £ a diffe- 
rença ! 

Virgilio, parando nas £c1oga8 e Georgicas levaria 
comsigo ao tumulo o segredo da £neida, e com elle 
o da capacidade epíca. Perdia por isso o louro de 
Theocrito ? Lembrou-se alguém de diminuir na glo- 
ria de Corneille por nao commetter a empresa da 
epopéa, ou na de Milton por não calçar o cothurno 
de Soph^cles? Um engenho nobre e privilegiado por- 
que abraça os domínios todos da arte, já de distra- 
bido, já por falta de sentido especial de um género, 
já por lhe não chegar a vida para o lavor, ha o di- 
reito de estabelecer, que não podia o que não ten- 
tou, ou que baixa de valor intellectual pela medida 
do que lhe ficou intacto? 

Os talentos enciclopédicos, os Voltaires e os Goe- 
thes, são raros como César e Napoleão. Não se dis- 
persam com igual triumpho os poderes da imaginação 
pelas extensas províncias da poesia e do saber, sem 
o perigo de repetir as quedas, e de ser os primei- 
ros. Bocage pode crer-se menos inventivo e menos 
fecundo no pensamento e no risco das suas obras ; 
mas o que nao deve é condemnar-se como estéril em 
nome de sonhada impotência, quando os dias lhe 
correram curtos e angustiados, e a idade dos primo- 
res lhe despontava apenas! No que fesexaminem-te 
os defeitos e as bellesas. No que traduziu ou imitou 
procure-se o grau de mérito da difíiculdade venci- 
da, e os assomos de idealidade e invenção própria. 
No que temeu, ou no que destinou para a epocha 
viril do talento , na sua plenitude, quando muito 
aventuremos conjecturas. Nao se percorre de umasd 
respiração, nem com um simples volver de olhos a 
manifestação da sua actividade poética. Segoindo-a 
com o exame vê-se que alcançou muito adiante do 
que geralmente se acredita. 

Reservemos para o ultimo artigo a apreciação mais 
unida ás obras. Depois das linhas geraes entram as 
feições, e seguem-se os toques que dão a expressão, ' 
e constituem a vida, nas physionomias litterarias. 

f Continua.) 

L. A. Rbbello da Silva. 



•OXiDADO BS CATALLAKXA GRSOO. 

Os AVTieos gregos distinguiam-se pela superiorida- 
de da sua organisaçao militar, á qual deveram, em 
grande parte, a sua prosperidade, e a supremacia 
que alcançaram entre as nações do mundo. 

Costumados desde a infância ás mais rudes fadi- 
gas, os gregos frequentavam com enthusiasmo, na 
puberdade, os jogos públicos que podiam augmen- 



tar-lhes as forças pbjrsicas, tomando-se finalmente 
soldados robustos, aguerridos e sóbrios, que os ge- 
neraes e dictadores condutiam facilmente ávictona. 

Os gregos combatiam em geral defendidos apenas 
por um capacete de metal, doos ctcmenidet (coxotes) 
para defesa das pernas, e a couraça^ esta ooeradees- 
camas de ferro, ou de fio do mesmo metal, Connan- 
do uma espécie de tecido. 

Fllippe de Macedónia, Alexandre o mnde, e 
Philopemon fizeram grandes reformas, assim na ov- 
ganisação, como no equipamento e armamento das 
tropas gregas. 

Os exércitos gregos constavam de infantaria e ca- 
vallaria^ mas esta arma, como aconteceu sempre atá 
á invento da pólvora, considera va-se como a mais 
importante, assim pela qualidade dos indivíduos de 

2oe se compunha, como pela sua quasi decisiva in- 
uencia nos combates. 
A cavallaria dividia-se em caiapkraeUu (homens 
d^armas) lanceiros, e iicroboligíat. 

Os lanceiros, armados apenas de uma lança com- 
prida, tinham por missão nas batalhas carregar so- 
bre o inimigo, forcejando por lhe desordenar as fi- 
leiras. 

Qs catapkraelas e Oicroboligiag eram destinados es- 
pecialmente para o serviço a que hoje se applica a 
cavallaria pesada. 




A nossa estampa representa um lanceiro grego, 
montando a cavallo : 'serve-lhe de estribo uma pe- 
quena travessa pregada na parte inferior da lança» 



SANSÃO NA VINGANÇA 1 

(1850) 

E lacndindo (Sansao) com grande 
força at coluinnat caiu a casa sobre 
todos os princjpes, e sobre todo o 
povo que estava n^ella ; e foram mui- 
tos mais os que matou morrendo, do 
que os que matara anies quando vivo. 

JvizBs, cap. XVI, V. 30. 
III. 



Como tantas vezes succede no mondo, o soldado e o 
chim caminhavam para a alfandega, conversando 
amigavelmente, e mostrando reciprocamente um ar 
risonho, ao passo que cada um dMles odiava deco- 
ração o outro: qne este contava sobre os niaiis)Mn.- 
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o PANORAMA. 



21 



tioMnlot d^aquelle, para se vingar, 4 costa da sua 
bonra \ e aqoelle imaginava e8qiiivar*8e a um casti» 
go merecido, e alcançar as sympathia» dos seus che- 
ns> denunciando este. Triste quadro que de conti- 
nuo passa ante os olhos da humanidade ! 

A lorcha esperava no cães o seu patrão ', Ahuy e 
Joio António saltaram para dentro dMla, e a proa 
do barco dirigiu-se á fragata ancorada na Taipa. 
Ao portal6 do navio estava o ofificial de serviço \ era 
o tenente de marinha Samgij um i)om musulmano, 
que vieim de Goa na guarnição da fragata. Apenas 
elle viu o fiel d^artilharia, deu-Ihe a vos de preso á 
oídem do commandantcy e mandou que o levassem 
para o porSo, e, lhe lançassem ferros aos pÀ* João 
António declarou ao official que tinha graves reve- 
lações a faser:^ porém o mouro, que conhecia a seve- 
ridade do commandante, e era um cego observador 
da disciplina, nao attendeu a mais do que executar a 
ordem recebida ; enviou o soldado ao seu destino, 
e contentou-se em diser-lhe que elle informaria o 
chefe da necessidade que tinha de fallar-lhe. 

Ornando João António descia os degraus da es- 
cotilha grande, viu o guarda-marinha Innocencio, 
aquelle mancebo que elle estimava profundamente, 
e a quem se referira no dialogo com Floriana, e dis- 
se-lhe de passagem : 

— M Senhor guarda-marinha, salve-me mais uma 
ves, como tantas outras tem feito. » 

Innocencio fes-lhe um signal de assentimento com 
a cabeça, e dirigiu-se para a tolda, onde chegavam 
no mesmo piomento o commandante e o tenente 
Osório. 

O commandante era um homem de quarenta an- 
nos, elegante, de maneiras delicadas, mas de uma 
severidade militar a toda a prova; trajava como 
sempre rigoroso uniforme, e conversava com o seu 
official predilecto, Luiz Osório, igualmente unifor- 
misado, mais moço do que o commandante, porém 
serio como elle. O tenente Samgi e o guarda-ma- 
rinha Innocencio, apenas os viram, cortejaram mi- 
litarmente o superior, e apertaram a mao do cama- 
rada. 

— u Então, n disse o commandante, «já chegou 
o tal João António ? n 

— a Sim, senhor, » respondeu Samgi, u acaba ago- 
ra mesmo de descer para o porão, aonde se lhe es- 
tão pondo os ferros, porém. . . » 

-— u Porém o que ? » replicou o interrogante, de 
um modo brusco. 

— u Porém,» accrescentou o mahometano com a pla- 
cidez de um fatalista, uo homem diz que tem gra- 
ves revelações a fazer, e pede para faliar a v. s.^ n 

— MNão estou para o aturar. Gtuer-me contar 
historias ? ... que i^ conte aos ratos do porão, n 

-— wE um > pobre velho,»* disse o gaarda-marinha 
acercando-se e com vos doce, m tem trabalhado mui- 
to, está cançado e quasi demente, n 

— mCí temos o nosso advogado geral ex-officio^n 
interrompeu o commandante rindo; ««d^onde co- 
nhece o sr. Innocencio aquella pérola ? n 

—««Embarcou com meu pae quando eu ainda era 
pequeno, sempre me mostrou muita affeição. . . n 

— tf Pois não se desfaça d^aquella boa amisade ! n 
£ dizendo isto o commandante travou do braço 

de Luiz OsoriOf e separou- se dos outros dons offi- 
ctaes, accrescentando : 

— M Então vae boje a casa de Murray ? n 

— uSim, senhor, espero ir á noute. » 

— -uE porque não vem já comigo? eu vou jantar 
com elle. n 

— uMas eu entro de serviço ao meio dia, e s^ás 
q«atro horas estarei desembaraçado* » 



— tf Então lá o espero para uma partida de vol- 
tarete. '9 

— u Com todo o gosto, n 

— tf Samgi, » bradou o conlmandante, Mmande- 
me apromptar o escaler, n 

Poucos minutos depois formava a guarda do ba- 
talhão naval, e o chefe saía, recebendo as continên- 
cias do estylo. Os três officiaes ficaram na tolda con- 
versando a respeito de João António, como o fariam 
acerca de outro qualquer objecto, que reputassem in- 
significante. 

Um soldado do batalhão naval, aquelle mesmo 
que vimos no pardieiro da timora, chegou-se ao gru- 
po, e com a mão direita coUocada horisontalment» 
junto ao boné, disse ao tenente Osório que lhe de- 
sejava faliar. 

— mE segredo?» perguntou Osório. 

— tf Não, senhor ; mas é um aviso que preciso fa- 
zer a V. s.^» 

— mE a nés todos, porque não?» 

— tf Se assim o determina, não tenho duvida em 
faliar diante doestes senhores, n 

— tf Pois falia, il4. . . nunca te soube outro nome 
senão este de 114; venha de lá esse aviso salutar. « 

— tf Senhor, o João António disse que queria in- 
cendiar a fragata, lançando fogo ao paiol da pól- 
vora, n 

— tf Isso é romântico ! n bradou Osório dando uma 
estrondosa gargalhada, á qual fizeram coro Samgi e 
Innocencio. 

— tf V. s.^ ri-se ? . . • também eu me ri ; mas é 
que tenho pensado, e. • . » 

— tf E então ? n (novo riso). 

— tf £ então ? . . . o homem não é boa rez ; quem 
sabe se é capaz de cumprir oqueprometteu. Elle es- 
tá meio maluco, a pólvora corre-lhe pelas mãos, e 
pode algum dia. . .» 

— tf Vae dormir, 114, isso é somno ; deixa-nos com 
os teus prognósticos. Todos havemos de tornar a Lis- 
boa, se estes malditos chins nos não matarem lá por 
terra.»» 

O pobre soldado, desapontado^ fez nova continên- 
cia aos superiores, rodou sobre os calcanhares, e di- 
rigiu-se para a proa. Acompanharemos o 114, em 
prejuízo do poeta Osório, do joven Innocencio e do 
mahometano Samgi. 

O leitor já ,viu a proa de um grande navio de 
guerra ? Faz idéa do que sejam aquelias conversa- 
ções do fogão? Passou-lhe pela cabeça que pudesse 
haver poesia n^um dialogo de marinheiros? Se não 
viu, se não fai idéa, se nunca imaginou estas cou- 
sas, e vive contente porque conhece a boa socieda- 
de,' e já viu fazerem espirito quatro bonifrates de 
casaca, então ha de ser dif&cil que lhe interessem 
estas scenas. E não é porque seja nosso propósito ir 
desenhar esse variado quadro, que os limites doesta 
composição não comportam, mas porque as exigên- 
cias doesta historia nos levam imperiosamente á proa 
da fragata D. Maria 11, e teremos que roçar pela 
jaqueta alcatroada do grumete, e pela fardeta já rus- 
sa do soldado ; se se sente com animo acompanhe- 
nos ao fogão. 

O preto cosinheiro manipula conscienciosamente o 
frugal jsntar da companha ; cercam-o vários maru- 
jos, de differentes idades, uns fumando, outros lim- 
pando as espadas, ou a ferragem das suas bandejas 
de comer ; outros finalmente cozendo a própria rou- 
pa, ou conversando de seus amores pouco platóni- 
cos, de seus banquetes em dia de pagamento, de 
suas longas viajens e naufrágios, dos bons ou maus 
officiaes com quem serviram. 0111 chegou aomei» 
doesta assembléa, e tomou a palavra. t 

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22 



O PANORAMA. 



— u Vou tratar de ir destacado para a fortaleza | 
da Taipa,» disse elle ; u nuo me fio no João Anto-i 
iiio. M I 

' — a Então qnc ha de novo? por onde fax agua o i 
barco?» perguntou um velho cabo de marinheiros,! 
depondo o cachimbo sobre o fogão. 

— u Meu velho Madeira^ não te querem deixar 
passar pela decima quarta vez o cabo da Boa Espe- 
rança, n 

— ccQue élá isso,» replicou o Madeira (que tira- 
va a alcunha da sua terra natal) «as treze vezes já 
cá estão, e nao se me dava ainda de tornar a ver a 
Búa, Morrer por morrer, morra meu pae que é 
mais velho*, esta naifa ainda tem ponta, apesar da 
ordem, e o braço não perdeu o vigor. • . saibamos 
quem é o valente. » 

— u Eu nao o queria acreditar^ porém tive um 
sonho esta noute. . . » 

— uÂh! elle é historia de sonhos? pois sempre 
ouvi dizer que succede o contrario do que se sonha... 
6 Sopa de massa, dá-n)e fogo, que se apagou o ca- 
chimbo. » 

O moço ou grumete a bordo é criado do mari- 
nheiro; por isso o Sopa de massa, um rapaz de quin- 
ze aiinos, (?orreu a buscar o murrão para servir o 
Madeira, Antigamente nem os moços podiam fu- 
mar diante dos marinheiros, nem^passar por ellesde 
chapéu na cabeça, hoje tem-sc relaxado essa disci- 
plina ; os velhos lobos de mar clamam contra ainno- 
« vação, mas debalde. 

— uE o caso,» continuou o soldado, m O João 
Diabo é fiel d^artilharia, e prometteu lançar fogo ao 
paiol : agora está prezo e talvez leve pau *, mais exas- 
perado ha de ficar. Avisei os officiaes, e elles riram- 
se. . • pois eu vou tratar de mudar- me para ali. » 

E apontava com o dedo para o forte da Taipa, 
construido pelo governador Amaral em território chi- 
nezi para proteger a cobrança do imposto do sal. 

— u Vae, que és soldado, estás melhor em terra ; 
eu cá nao tenho medo do João, nem de todo^ os 
diabos juntos. Em morrendo faço trinta annosájus- 
tii. Mas assim mesmo eu lhe andarei na cola, e se 
o apanho em rascada nao lhe queiras tu estar na 
pelle. » 

— «Em quanto elle estiver prezo nao ha duvi- 
da, » disse sentenciosamente oCaralinda, marinhei- 
ro feissimo, mas ainda novo, m porém logo que este- 
ja solto é nao lhe largar a alheta. » 

— «O homem ha de ter amor ao corpo, » prose- 
guiu o Madeira^ puchando com força uma fumaça : 
c»se elle nào nxorrcsse tamt)em. . •» 

— «Lá isso é um calhar,» replicou o Cáralinda, 
que era o que se chama a bordo um letrado de fo- 
gão, um sábio de coberta ; homem lido em Carlos 
Magno e na Imperatriz Porcina; isso é um calhar, 
repetiu, como o outro que diz: Morra Sansão e quan- 
tos aqui estão. Tem-se visto d*is80. » 

A voz du oráculo fez sensação na assembléa. Sopa 
de massa ficou boqui-aberto de murrao em punho. 
Madeira deixou apagar novamente o cachimbo, e o 
114 meneava a cabeça cum sigiuiesde afflicçao. Ou- 
viu-se porém um toque de corneta, que chamou a 
alegria aos rostos, e a falia aos lábios. Era a hora 
de juntar. Nao estava desvanecida a fatal impressão, 
mas esquecia-se momentaneamente, para voltar mais 
tarde, e talvez mais pungente, porque os homens 
de mar sSo em geral supersticiosos. 

O chim Ahuy, i^ne ouvira a conversação que nar- 
rámos, e a quem não escaparam as expressões de 
João António no acto da prizâo, entendeu que era 
preciso sair de bordo, e confiar a outro companhei- 
ro o leme da lorcha e a missão de se corresponder 



com o preto, antes que descobrissem o seu verda- 
deiro nome e a causa d^aquelle disfarce, o que lhe 
parecia estar eminente. 

— a O chrístâo quer-me atraiçoar, » marmorou el- 
le, «nunca tal pensei! Aqaelle monstro <|uer mos- 
trar patriotismo á minhareusta; porém está 96 no 
porão, é necessário fugir antes que elle falle. n 

E dirigiu-se ao of&cial de quarto, já então o te- 
nente Osório, dizendo-lhe oom ar risonho, apesar das 
chibatadas que por sua ordem recebera, que tinha 
precisão de ir a terra, e pedia licença para embarcar 
em um tancá que ia largar de bordo. 

Osório concedeu sem difficuidade a licença, e Ahuy 
ia escapar ao perigo que via sobranceiro, quando as- 
somou á boca da escotilha o vulto esquálido e repu- 
gnante do fiel d^artilharia. Vinha elle fumar, com 
auctorisação do oílScial, e arrastava-se penosamente 
com as pernas unidas pelos ferros, quando enxergou 
o chim, que transpunha o portaló. 

— «Nao deixem fugir esse homem, m gritou elle 
com toda a força dos pulmões, «agarrem esse chim,- 
que trata de incendiar todos os nossos navios, t* 

Este brado achou ecco em toda a tripulação, ain- 
da impressionada pela historia do 114, e meia dú- 
zia de soldados e marinheiros se lançaram sobre opa-' 
trao da lorcha. Osório, que não tinha motivos para 
patrocinar Ahuy, revogou a ordem, e chamou á sua 
presença o accusador e o accusado. O leão e o tigre* 
achando-se face a face, nao se olham com mais ran- 
cor, não toem maior desejo de se dilacerarem mu- 
tuamente do que estes dous homens tinham ^ um d VI" 
les porém estava agrilhoado \ o outro era filho do 
celestial império, e por consequência dissimulou o 
seu ódio. 

— - « Q;ue temos ? » perguntou seccamente o official. 

— «Este homem,» respondeu João António, le- 
vou-me a uma reunião de chins, que querem dar ca- 
bo da fragata e das duas corvetas aqui estacionadas. 

— u Q;ue dizes a isto, Ahuy ? » 

— u Senhor, esse homem * está embriagado, como 
costuma*, não falia direito.» 

— «Eu bem sei aonde é a casa, em Mata pau, pos- 
so lá conduzir a v. s.^» 

— «Se elle provar o que diz, » respondeu o chim 
tranquillamente, ao menos na apparencia, « façam de 
mim o que quirerem. n 

— « Muito bem, » concluiu o tenente*, «fique para 
o commandante a investigação doeste negocio \ mas 
como o porão é largo, e não faltam machos de ferro^ 
ponham também um par d^elles a este chim falia- 
dor, e que conversem ambos lá em baixo, sem to- 
davia se aproximarem demasiado. » 

6tue se figure o leitor a deliciosa noute que pas- 
sariam estes dous malvados, defronte um do outro^ 
praguejando cada qual em seu idioma, na presença 
da sentinela, que os impedia desechocarem : era um 
supplicio anticipado pelos crimes que meditaVam. 

£m quanto clles ahi jazera, vamos n6s acompa- 
nhar a terra o tenente Osório, que nos encontrare- 
mos em melhor sociedade. (Qmiinúa.) 

F. M. BOKDALO. 



Estudos sobrx os differentxs methooos 
DE xvsriro ds ler em Portvgal. 



I. 



Joio DE BaBROS. 

O PRIMEIRO monumento que a imprensa nos conser- 
vou de methodos de ehsina de ler nas escolas de Por- 



'Digitized by V^OOQIC 



o PANORAMA. 



23 



tvgal, é a cartínfaa de JaSo de Barros, publicada pela 

Simeira vei em 1539, e impressa em casa de Luiz 
odrigues, impressor d ^el-rei. GLuem conhece osme- 
thodos ronceiros e irracionaes, que nas escolas de Por* 
tugal têem quasi geralmente dominado desde longos 
annoSy e que ainda hoje imperam na maioria das es- 
colas, ha de suppor que o celebre escriptor das He- 
cadasy escrevendo a primeira cartilha, ou methodo 
de ler em português, escrevera um s^Uabarío mais 
rude e mais rotineiro que aquelles que geralmente 
conhecemos. João de Barros porém, que foi, como sa- 
bepios, um historiador sincero e elegante, mostra-se 
também na philologia um homem que se levantou 
acima do seu século, e que soube prever muitas obser* 
vaçôes e muitas idéas, que depois se haviam de co- 
lher e formular nas idades de mais florente civili- 
saçao. 

A cartilha^) ou mais propriamente a cartinha de 
João de Barros, começa por apresentar o alphabeto 
minúsculo, contendo as vinte e duas letras, a, ò, c, 
^? «> /» 9, A> «) *9 ', wii w, o, p, çr, r, f, t, v, ar, » ,• 
collocadas cada uma dentro de uma pequena moldu* 
ra, ou quadro gravado em madeira, e tendo cada um 
doestes quadros pela parte superior a figura de um 
objecto familiar e muito conhecido, cujo nome co- 
meça pela letra a que pertence. Assim por cima do 
quadro do a está gravada uma arvore^ por cima do 
by umaò&s^a, arma de arremeço mui usada n^aquel- 
le tempo, ao c corresponde vtmcfitio^ ao d ximãailo^ 
ao e um espelho^ elo f um fogareiro^ ao g um 'gato, 
ao h um homem^ ao t um jarroy ao k um kãgado, 
ao l um livro j ao m um mocho, ao n uma nau, ao o 
um olho, ao /> um pente, ao g um quadrante, ao r 
uma rapoza, ao s uma tereia, ao t uma tesoura^ ao 
V uma vioUiy ao x unf xarroco, ao s um zodíaco, 

Vèse aqui apparecer pela primeira vez a idéa de 
acompanhar cada letra com uma figura^ artificio de 
que não consta haver exemplo antes dMIe, e que é 
o fundamento de todos os alphalsetos figurados, que 
depois se usaram, eque ainda hoje se empregam em 
toda a parte como deleitação ^ecomo auxilio mne- 
mónico. A razão pela qual João de Barros em- 
pregou este methodo engenhoso para o seu tempo 
sem duvida, foi a de que as creangas tivessem na fi- 
gura um auxilio immediato para a memoria. N^a- 
quelles tempos o ensino do ler estava muito pouco 
propagado, e os mestres eram raros, e esses mesmos, 
como se deprehende das queixas de João de Barros, 
nem satisfaziam pelas suas habilitações á altura da 
sua missão, ,nem seguiam os methodos mais adequados 
ao ensino da infância. A creança precisava de ter na 
ausência do mestre signaes figurados, pelos quaes 
pudesse distinguir perfeitamente as letras, depois de 
lhes saber os nomes. A creança, olhando para o a por 
exemplo, poderia entrar em duvida se lhe devia dar 
o som de a, ou o som de 6^ ou o de e , mas olhando ao 
lucsmo tempo para a figura, que era sempre de um 
objecto mui conhecido e d i fácil de confundir com 
outro, achava-lhe immediatamente o nome, que era 
ai'vore no caso supposto, e por este nome de arvore 
deduzia muito naturalmente que o som da letra nuo 
poderia ser nem 6, nem c, nem d\ mas forçosamen- 
te a, som muito pronunciado e muito aberto, por 
que começa a palavra arvore^ A creança com mais 
ou menos trabalho chegava, depois de uma ou duas 
lindes, a conhecer por si mesma, ao menos n' um gran- 
de numero de casos, o nome e o tom da letra que es^ 
tudava. Uma outra vantagem doeste methodo era 
pronunciar primeiro a letra não com o nome, mas 
com o seu verdadeiro valor, quando dizia o no- 
me do objecto, antes de deduzir o nome da letra. 
Assim no caso de/, a creança tinha de pronunciar 



fogareiro^ onde o/ entra com o seu verdadeiro va- 
lor, e só depois doesta primeira operação intellectual, 
que era por assim dizer instinctiva, e de que a crean- 
ça não tinha a consciência, é que ella dava ao f o 
seu nome efe, como n 'aquelles tempos se djzia, e 
ainda hoje se diz, posto que erradamente, na maio- 
ria das escolas. Não ousámos dizer que todas estas 
considerações viessem ao espirito de João de Barros \ 
que elle porém presentíra a vantagem de suas figu- 
ras como meio mnemónico, infere-se das suas for- 
mães palavras no prologo da cartinha, u £ ante que 
se trate da grammatica poerey os primeiros elemen- 
tos das leteras em modo de arte memorativa, para 
mais facilmente se aprender a ler. » Gtuem sabe que 
n^aquelles tempos se chamava á mnemónica arte 
memorativa ficará plenamente convencido de que 
João de Barros tivera a mira mais longe do que n^u- 
ma simples amenidade, e quizera de preposito facilitar 
a mnemonisação das letras, quando dedicara a cada 
uma a figura de um objecto conhecido. £ que nãu 
fora por simples apparato, mas pelo conhecimento 
profundo do que convinha aos principiantes, que el- 
le empregara as figuras, deprehende-se do que elle 
mesmo diz, quando confessa que omitttra tudo o 
que não era essencial, e só olhara ao que era indis- 
pensável ^ uca, » diz elle, «seria mais mostrar-me, . 
que aproveitar . . . e tratarei somente do necessário 
aos principiantes. f> 

Dúpois de conhecida » iWma-de cada letra, passa « 
João de Barros a ensinar ás-creanças uma cousa que 
senão ensina na maior parte das cartilhas que hoje 
se usam nas nossas escolas, e é o indicar os valores 
de cada uma das letras, de modo que o seu alpha- 
beto perfeito se compõe de trinta e uma letras da 
maneira seguinte : ec, a, b, ç, c, d, é, e, f, g, h, j, 
i, y, *, /, m, n, o, o, p, g, r, r, t,/, t, u, v, x, ». 

Doestas trinta e uma letras^ diz João de> Barros, 
outo servem de vogaes, á, a, é, e i 6 o u. 

D'*este simples enunciado se infere que João de 
Barros ha tresentos annos soubera eleva r-se á ana- 
lise dos sons fundamentaes da lingua portugueza, e 
se não poude achar todos os de que ella se compõe, 
não foi por falta de seu engenho, senão pelo atraso 
em que estes estudos se achavam no seu tempo. Re- 
conhecendo que além dos sons representados pelas le- 
tras vogaes, havia outros que não tinham signal par- 
ticular no alphabeto romano, elle diz expressamente : 
««Serue-se tãb§ a nossa linguage de alguas leteras á 
maneira dos Gregos, as quaes néstééra temos êuoz, 
e não ê figura, e são estas á, é, <$. » £ continuaE- 
do diz ainda : a Temos mais estas três prolações, 
eh, Ih, nh, as quaes são próprias da nossa lingua, e 
usam d^ellas e suprimento de três leteras de que não 
temos figura e assi temos esta letera ç que parece 
ter sido invetada para pronnnciação Hebraica ou Mou- 
risca ', assim que podemos dizer, temos vinte e três 
leteras em poder e vinte e quatro em figura. >« 

O a, segundo João de Barros, tem dons valores, 
que ambos antes d^elles escrever se representavam pe- 
la mesma figura. João de Barros designa o primei- 
ro valor por d, o segundo porá, e chama a estes dons 
signaes, duas figuras differentes, como quem diria que 
o á com acoento ficou sendo um novo signal até ali 
.nunca empregado. Deixemos fallar o nosso auçtor, 
para que elle nos ensine, na sua linguagem singela, 
mas elegante, o que antes d 'elle se usava, e o que 
elle se propoz substituir na sua cartilha. 

u Os Latinos . . . tem «emente estas cinquo ( Togaes) 
a, e, i, o, u. Nos . . . temos outo. O á grande, a pe- 
queno, é grande, e pequeno, t commum, o grande, 
o pequeno, u commum. £ a este modo os Grego» e 
os Cbaldeos tem leteras vogaes grandes e pequem^ |^^ 



24 



O PANORAIMU. 



ú% que usam em sua eicriptura. Nd» té ora em anos- 
aa não asamos d'esta diflFerença de figuras, que cha- 
mamos grande». E dado que a sintamos na prolação 
da uoi, com as letera» dobradas a este modo ck», 
cc, oo, suprimos o logar onde seruem, como n^estas 
dições, Mactt, pees, poos^ as quaes devemos escrever a 
este modo, mo», péh P»»- • • ^ ^™ *®^ 5"® P®"" ^^ 
novidade, e o uso estar em contrario será cousa tra- 
balhosa, ser logo estas nouas figuras recebidas emnos- 
aa ortbografia •, mas o tempo as fará tão próprias 
coroo sao as outra» de que usamos, w 

E mais adiante accrescenta João de Barro» : « A 
quê é no»»a primeira letera do abe tem dua» figuras, 
uma d'e»te á, que chamamos grande, e outra de pe- 
queno. Ambos seruem em com posição de diçoe», cea- 
da um tem seu officio cm que o outro nao entende, 
porque não escrevêdo as dições onde cada um serve 
ficariam amfibologicas e duvidosas, dado que o mo- 
do da construiçao as mais veies nos ensina tirar essa 
amfibologia, como n'estas e n^ outras dições, mos e 
mas.n 

Entre as consoantes admitte João de Barros as que 

vamos di»er: ,.,1. j 

1 .° o 6 *, 2.** dous cc, o c forte e o c cedilhado, c 
a propósito doeste» diz elle : «t ajunta-se semente 
estas três vogaes, ca, eo, cu ; e o segundo a 



a 
todas 



a este modo, jo, jc, jí, ço, pi, com que as sílabas fi- 
cam çeçeadas da maneira dos ciganos. Nós parece que 
ouvémos estas leteras dos mouriscos que vencemos. »» 
Na cartinha e na grammatica usa Barros do f , 
qualquer que seja a vogal que se lhe siga, quando o 
c tenha o valor a que elle chama ceceadoj e que não 
é mais de que o som do nosso « em principio de dicção. 
Admitte depois como letras sempre invariáveis D, 
P, T, X, Z^ a respeito dos quaes dis : u Estas 
sei» letera» não tem tãto» trabalhos njS mudSças ô seruir 
seus officios comouemos que tem as outras. . . E por 
isso as atamos em molho sem guardar a ordem que 
tem nem fasemos d^ellas muita men^o. 

Do G admitte dous valores, dos quaes escreve: 
tt G tem differença em seu serviço quando se ajunta 
ás uogaes,porque não pronunciamos, ga^ goy gu, co« 
mo ^e, gi\ cá estas tem prolação áejé eji. E para 
ajuntarmos a letera g^ estas duas vc^aes eei com que 
faça a prolação de ga^ go^ gu^ é necessário esta le- 
tera 11, a este modo guerra^ CkiUheltne. » 

Admitte o h como aspiração, e como signal para 
formar os signaes das três prolações cA, A, nh. Sobre 
o 1, não há novidade alguma. Gtuanto ao m, e ao 
n, admitte-lhe dou» valores, o primeiro quando é con- 
soante propriamente dita, o segundo quando serve a 
exprimir as vogaes nasaes. 

£ notável o modo por que João de Barros trata 
do ç, fazendo sentir a inutilidade doesta letra, e a 
necessidade de o substituir pelo c. 

u Esta letera q pelo nome que tem, e aasy pela 
.pouca necessidade que á d^ella (como vimos atrazna 
letera c) a o6s convinha mais que aoutranaçám des- 
terrála da nossa ortbografia, e em seu logár empos- 
sar esta letera c, mas já disse quan receoso sou de 
nouidades dado que as proveitosas tenham muita for- 
ça para serem recebidas. Como crés que se faria a 
esta letera c, se fizesse profusão de isso e diz : poi» 
este q tem tão preversa natureza, além do máo no- 
me, que se nã aiunta ás leteras vogaes senão me- 
diante estou, que lhe ésemelhauel. Ou são ellas tam 
limpas que senS prezem aiuntar a elle, cá não dis- 
semos, çfa, çftf, qif e dizemos qua^ que^ qui^ e assim 
fica aquella letera ti, sempre ligada sem força, prin- 
cipalmente acerca de n^, n^estas dições gii«, qui, 
•te. « 

Admitte dous rr, oferte r, e abrando para o qual 



elle inventa um signal partieolar, qoe nSo podeasos 
aqui apresentar pelos nossos typos, o que toraa des« 
necessário o emprego de dous rr. Ha aqui umaio- 
novaçSo revolucionaria de João de Barros, a qual nem 
elle mesmo se atreveu a popularisar, pois que na sua 
grammatica, empregando sempre o signal e, que in- 
ventara para o som de é aberto, escreve comtudo 
sempre dous tr e não o novo signal do r forte. A es- 
te chama erre^ e ao brando -^r«. 

S^ue-se finalmente o t, de que nãoaccusa osdif- 
ferentes valores, limitando-se apenas a apontar as 
figuras por que era representado n^aquelle tempo, as 
quaes sSo « e uma letra semilhante ao f, eliminado 
o traço herisontal, letra mui commum na typogra- 
phia d^aquelle tempo, e ainda usada nas. imprensas 
mais antigas 4^este nosso século. 

Depois da explicação do alphabeto passa João de 
Barros a tratar da soletração, dividindo as syllabas 
nos seguintes grupos : 1.^ 8yU. per aiuHtamenio de 
duas íeierat^ com a consoante antes ou depois da vo- 
gal, taes como 6a, 5e, bi^ 60, 6u, e ar, er, tr, oTj 
ur^ etc. 2.^ Syllabas per aiuniamento de tret leU- 
raty como 6a/, 6e/, 6t7, 60/, 6tiZ, etc; 3.^ Ouirama^ 
neira de syU. de tret leteras a meya das quaes é lu 
quiday taes como 6ia, 6íe, 6/t, 6/0, 6/u, etc. 4.^ Syl- 
labas per aiuniamenio de quatro letèrcu^ taes como 
6ra/, brel^ 6rt7, broiy 6ru/, etc. 5.^ (hítra maneira 
desyll. ditongádas, taes como 6at, 6«t, 6ot, 6ut, etc. 
6.^ Outra maneira de syll» propna da lingua por*' 
tu9ueza^ taes como cÀa, che^ chi^ cho^ chu ,* Ma^ the^ 
Ihij Iho^ Ihu ; nha^ nhe^ nAt, nho^ nhu. 

Reduzindo assim o syllabario portuguez a uma or- 
dem methodica e racional, João de Barros não se 
contentou de ensinar simplesmente as syllabas de que 
se compõem as palavras portuguez!as. Além dMsto pre- 
viu e formulou claramente a necessidade de indus- 
triar as creanças nas syllabas, que, não pertencendo 
á lingua materna, podem comtudo formar palavras 
estrangeiras. Esta pratica, como é hoje sabido, tem 
duas grandissimas vantagens. A primeira, que o lei- 
tor pode pronunciar ao menos com o valor que as le- 
tras tem na sua lingua as vozes peregrinas que occor- 
rem em todos os livros, onde os nomes estranhos de 
personagens, de nações, e de logares apparecem com 
muitissima frequência^ adquirindo o ledor ao mesmo 
tempo summa facilidade em ler as palavras estran- 
geiras, quando sededica a estudar um idioma em que 
aquelias syllabas são frequentes. EUtas vantagens apre- , 
ciam-se quando vemos nos nossos dias os leitores mais 
peritos estacarem diapte dos mais simples nomes es- 
trangeiros, sem saberem ao menos pronuncíal-os ao 
modo português; e quando vemos difgcnltar-se a lei- 
tura do latim e do grego, pelo apparecimento de syl- 
labas que no portuguez jamais occorrem^ taes são no 
latim spirUus por exemplo, e no grego mnemónica^ 
cujas primeiras syllabas são difficeis de pronunciaçao 
a quem t6 com o genuino syliabario portuguez se 
contenta. 

(Continua.) 



J. M. Latiko Coelho. 



SibXo P&OF&IO PARA TIRAR HOOOAS. 

M18TVRS-SB uma libra de sabão de Veneza com seis 
gemmas de ovos, meia colher de sal bem moido e 
sufficiente quantidade desummodeacelgas, e façam- 
se dous bolos, que devem pôr-se a seccar á sombra. 
Molhe-se a nódoa, esfregue-se com este sabão de am- 
bos 08 lados, depois «nxugue-se. muito bem^.e^ nó- 
doa desapparecerá. Jigitized by V:rUU^lV^ 



o PANORAMA. 



^ 2Ô 




OBL— TUMUXiO HX KIHAS. 



Na Ásia Menor encontram-se muitos túmulos que 
podem com certeza attribuir-se aos tempos heróicos 
de Priamo e de Agamemnon. Homero descreveu o 
tumulo erigido por Âchilles ao seu amigo Patroclo 
(iHaday 1. xxiii, v. 252^. O tumulo erigido pelo pró- 
prio Âchilles era da mesma naturesa \ porque Euri- 
pedes (fíeeuòa, act. 1) diz que a sombra dVste he- 
roe apparecera sobre o tecto do seu tumulo, e Séneca 
{TroM^ act. V, v. 11 49] assevera que, para immolar 
Polixena aos manes de Âchilles, Pyrrus subira a alta 
montanha, que formava o tumulo, arduitvhUmemon" 
iú Uiigit. Este tumulo ainda existe, ou pelo menos 
crêem os archeologos reconhecei- o em certas ruinas 
que se encontraram no cabo de Sigea, e que mr. de 
Choiseul fez examinar em 1787. 

De idades menos remotas existem n^aquella região 
nao menos curiosos monumentos. 

Nas cercanias de Koutaieh encontram-se construc- 
^es funerárias de bastante interesse :; sao os mausoléus 
dos reis da Phrygia, que se admiram em Nicoleia, 
boje Doganlou, a este da antiga Coiyaum. A edifi- 
cação doestes monumentos effectuou-se talvez entre os 
ânuos 570 e 740 antes de Jesus Christo. A nossa gra- 
vura representa ó que a tradição attribue ao rei Mídas : 
compôe-se de uma fachada lavrada na mesma rocha, 
onde seoljservam duas inseri pções, em umadasquaes 
Leake poude ler o nome de Midas, o que de certo 
modo confirma a tradição. O desenho doeste tumulo 
é mui singelo*^ comtudo existem bastantes mais sim- 
ples ainda, era que o contorno rectangular e ofron- 

VOL. III. — 3.aSERIB. 



tão são unicamente indicados, sem espécie alguma de 
decorações. 

Mamuel Maria de Barbosa du Bocage. 

Aa Arcádia Elmano Sadino, 

Kntre ferros cantei desfeito cm pranto ! 
Valha a desculpa, te não vale o canto. 

VIII. 

BocAtiE nao era próprio para conceber uma . revo- 
lução na arte, e que o fosse, não tinha soado a hora 
opportuna de ella raiar. 

Encaminhavam-se a uma renovação os sentimen- 
tos e o» costumes^ mas faltavam ainda as ultimas 
transições, fora das quues todo o impulso antecipado 
desfallece. • 

Em quanto os indivíduos e as cousas se nao agi- 
tam i, a semente escondida não rebenta. O tempo e 
as circumstancias, é que levantam as bazes ás refor- 
mas. A occasião faz a sorte das idéas activas -^ e se 
tudo estava disposto, o que balbuciava no principio 
e era tímido, ganha audácia com a resistência, e ter- 
mina firmando o cunho da sua victoria. Os homens, 
que a gloria privilegiou para voz e acção doestas im- 
mensas batalhas do mundo intellectual, quasi sempre 
pendem entre as duas epochas. Saem do passado pa- 
ra o futuro favorecidos com os dons das musas, e do- 
tados de amplos thesouros de saber e reflexão.^ 



Jai«eiro 28, 1854. 



Ôgle 



26 



O PANORAMA. 



primeiros para o exemplo : os segundos para a luta. 

Elmano tão soccorrido de vocação carecia ' do ca- 
bedal de sciencía, da perseverança no gosto e no 
juizo critico, e do olhar longo e penetrante, quali- 
dades distihctivas dos chefes. Vindo mais tarde, a 
Índole fogosa de certo o attrahiria aos arraiaes da 
liberdade \ mas ser elle o primeiro, não estava nas 
posses do seu engenho, e excedia muito ainda a al- 
tura do horisonte litterario em Portugal. 

O século, herdeiro do esplendor de Luiz XIV, 
veiu com a missão de demolir, e não de edificar \ 
chegou para duvidar e discutir, e nao para deduzir 
as consequências da sua obra, confusa e cega, como 
todo o esforço moral, trabalhando por um plano, 
que a Providencia não deixd ler a cada geração, se- 
não na parte que lhe respeita propriamente. A aus- 
tera disciplina da escola de Ârnaud, de Pascal, de 
Boileau, de Racine, de Corneille e Molíère succe- 
dia a ironia picante, a facilidade correcta de Voltai- 
re, e o incessante movimento da seita philosophica, 
de que foi o vulgarisador applaudido, e o activo 
instigador. 

Na esphera politica Montesquíeu, não arrastando 
a sua toga, e sem querer abalar as columnas das an- 
tigas instituições com o esforço da critica, ajudava 
no mesmo sentido a direcção do espirito humano. 
Rousseau começava a abrir as portas á famosa ca- 
tastrophe de 1789, illuminando com eloquência igual 
a apologia do paradoxo, e a defeza das verdades so« 
ciaes. As sciencia, a poesia e a historia baixavam 
do pedestal do século anterior aos espirituosos tor- 
neios em verso % prosa, que douravam a decadên- 
cia, levantaudo-se como exhalações inebriantes dos 
banquetes dissolutos e dos prazeres insaciáveis, que 
assignalam a Regência e o apogéo de Luiz XV. Unia 
velhice risonha e incrédula, disfarçando as rugas no 
apuro juvenil, e dando aos vicios a graça e a no- 
breza, que sabia tomar, carcomia o coração e as for- 
ças, encanecendo nos homens e nas cousas. 

A fidalguia, recostada nos privilégios, fazia da sa- 
tyra elegante o seu recreio, e do verniz aristocrático 
uma superioridade na devassidão; e entre dous sor- 
risos, um de orgulho, outro de scepticismo, philoso- 
pbava á meza e nos bailes sobre os volumes de João 
Jacques e do utopista Saint-Pierre. As paixões di- 
luídas •€ repintadas queriam uma poesia, comoellas, 
que voasse á superfície, roçando-as apenas com a 
ponta d^aza. O amor e a ambição, as damas e os 
cortezãos, passeiavam pelos jardins de Delille, em- 
bellezamdo os idylios de Trianon,* em que as pasto- 
ras eram CoUetcs de chapins bordados e colar de pé- 
rolas, e os Nemorinos marquezes, camaristas e gran- 
cruzes. A natureza eatudava-be da janella ou pela 
portinhola dos coches, extasiando-se a moda na fc e 
palavra dos Virgilios e Columellas de meia de seda 
e salto escarlate no sapato. As grandes transforma- 
ções dos estados concebidas pelos livros, commenta- 
vam-se nos tratados de moralistas Lycurgos na livra- 
ria, e pensionistas da corte, apenas o conseguiam ! 

A arte divulgada, e juntamente nobilitada, tinha 
de direito as suus entradas na Bastilha, nos touca- 
dores, e nas salas. Depois da ovação de Voltaire os 
poetas gloriavam-se de guiar os reis e o^ povos, me- 
neando um palmito de ilores. Os ideólogos nega- 
vam a immortalidade, a lei revelada, e a aspiração 
do infinito, propagando atheoria das sensações. En- 
tre a agonia do mundo, que ia expirar, e o baptis- 
mo de sangue da era que vinha amanhecendo, Beau- 
marchais fazia estalar na boca de Figaro aquella ri- 
sada flagelladora, que escarnece pintando os desva- 
rios da decrepidez enfeitada da França, próxima a 
declinar nos horrores da Convenção ! 



Mais abaixo, o povo ancioso queixava-se, escutan- 
do os risos e as festas em que as Aspasias e as Cleo- 
patras de 1788 derretiam as ultimas pérolas feadaes ^ 
e com a mão grosseira limpava as lagrimas da op- 
pressão e da orphandade. Uma inquietação vaga in- 
cutia-lhe desejos e impaciências desconhecidas antes \ 
e sem saber porque principiava a contar-se, e a me- 
dir os que viviam do ócio, dos privilégios e do faus- 
to herdado. Aponte, que, arrasada a Bastilha, igua- 
lou o throno com o cadafalso, ainda não surgia no» 
sonhos delirantes dos jacobinos \ mas o mais virtuoso 
dos Bourbons, victima expiatória dos erros e vicios 
da sua raça, já tinha sobre a coroa o véu da morte. 
Do Jogo da Péla ás conclusões do procurador da san- 
guinária alçada de Paris, as rodas da carroça fúne- 
bre depressa encurtaram as distancias. 

O gosto e a correcção caíam em decadência ^ e 
dos modelos mais estimados restavam apenas as tra- 
dições e a saudade l Tudo se desmembrava e dissol- 
via ! Homens, idéas e formas, em confusão, e atro- 
pelando-se, suflbcavam no aperto, forçando a voz pa- 
ra vencer o clamor geral. O ultimo- vate inspirado^ 
o auctor do poema da Imfoençõoj pagava com a ca- 
beça as illusões do engenho, e a generosidade da al- 
ma. Delille bomisLava no silencio a sua gloria da vés- 
pera \ Lebrun comprava a tolerância, vendendo co- 
varde louvor aos algozes dos bem feitores. Laharpe 
na solidão dos cárceres, entre a dor e o materialis- 
mo, aprendia a confessar a Deus. Lavoisier, Con- 
dorcet e André Chénier, o sábio, o philosopho, e o 
poeta, frontes que excediam o livel da tyrannia da 
plebe, e se honravam de protestar contra ella, caiam 
debaixo do cutello da guilhotina, porque a republi- 
ca não carecia de sábios, nem de chimicos para ser 
illustre! O despotismo da monarchia suppozera o 
contrario : o seu orgulho foram os louros das letras 
na testa de Racine^ de Molíère e de Boileau ! 

Todos' os elementos desenfreados se combateram 
até serenarem de. repente ao gesto de um soldado, e 
as paixões civis, curvando-se á prancha da sua espa- 
da, e ao esplendor do seu poder, foram espreitar nas 
antecâmaras de Bonaparte a hora de lhe voltar as cos- 
tas, promptas a dobrarem aos Bourbons proscriptos o 
joelho, calloso pelas prostrações, se afortuna os resti- 
tuísse ao throno. As artes que o governo militar com- 
prime, e que a aspereza dos acampamentos assusta, 
as artes, desterradas e perseguidas em uns, protegi- 
das por ostentação em outros, estudavam nas discus- 
sões intellectuaes da Állemanha, com M.me de Stael, 
ou suspiravam pela pátria, com o auctor de René, nas 
florestas virgens da America, e debaixo dasnebrinas 
do embaciado céu de Londres. 

Os três gigantes, destinados a dominarem a era do 
renascimento, Goethe, Chateaubriand e Byron* nas- 
cidos no século dezoito, tinham assi&tido á decompo- 
sição da sociedade, e recebido as grandes lições dos 
movimentos de uma prodigiosa epocha padecendo das 
injustiças e violências do tempo. Q.uando veiu ocla- 
rão de uma risonha aurora depois do passado tem- 
pestuoso, como a águia já podiam encarar o sol com 
a vista feita. A idéa triumphante, que acabava de 
modificar o mundo, erguia-se emfim plena e radiosa 
dtts gemonias da Convenção, e dos campos de bata- 
lha, consummada a Ilíada de Bonaparte ! 

De todo o terremoto, que das margens do Sena 
abalando a Europa alcançou as fronteiras nevadas da 
Rússia, e ao dedo de Deus »6 parou na ultima ba- 
liza de Mosco w, chegavam apenas a Portugal, rom- 
pendo a censura i, os successos de mais vulto, e os ge- 
midos de maior força. Os thronos alluidos, desaba- 
vam \ quinhentos canhões, troando em Austerlits e 
Friedfand -, um rei decapitado como criminoso ; sua 
Digitized by V^OOQlC 



o PAfr OBAMA. 



27 



60pota, um» dama, assassinada Jaridicamente, eram 
infortanioB que tinham um echo muito triste para 
bSo atravessarem todos os mares, ou para deixarem 
de soar ao coração e no ouvido da Teuinsnla ! 

EiQtretanto apenas uma ou outra pagina allude aos 
acontecimentos, que assombram hoje a nossa idade, 
e que alguns dias mais tarde talvex se figurem fabu- 
losos ás gerações seguintes. De que procede este si- 
lencio, que se interrompe apenas eque nos costa aex* 
plicar? Como fugiam pela face do espirito os reveses 
iUnstrta, as catastropfaes repentinas, e as sublimes 
convulsões da ambição, sem dispertarem na sensibi- 
lidade, ou na imaginação as grandes imagens de Pin- 
darp, ou a melancolia reflexiva de Virgílio? 

E que na hora, em que a epopéa está nas cousas, 
a Ijra mais audaz acaníia-se e o talento roais arro- 
gante prostra-se. 6tuando dous Titães, um do hor- 
ror como Robespierre, oUtro da gloria como Napo- 
leão, enchem a soena, e impõem um séUo quasi so- 
brenatural na successão dos factos, a vos do medo 
ou da lisonja ainda pode balbuciar um hjmno \ mas 
o canto livre, sente, porque se acha perto, que para 
as acções de Deus, assim reveladas, nSo chega a har- 
pa de um vate, senão depois das harmonias de dous 
séculos. 

E a rasSo, porque se tem negadora fiiculdade in- 
ventiva a esta epocha e á anterior. Tivemos tam- 
bém uma idade heróica, e os olhos de nossos pães 
contemplaram com espanto vultos d^equelles, que, 
segundo a palavra do poeta, já do meio da sua car- 
reira lançavam a sombra sobre a poster ida de. como 
grandes monumentos. Achamo-nos porém ainda per- 
to da scena épica. O presente quasi que dá a mão 
ao passado ; e o ideal quer-se menos próximo e mais 
alto do que as sociedades. 

A^m dUsso a ode, a iUuminação lyrica, depois 
dos dias em que se arrebatava com as maravilhas de 
Jehovah nos cantos de Débora e de Moysés, ainda 
não fei senão declinar. Mesmo em Pindaro esmore*. 
oe um pouco o ardor atras da pompa, e o Ímpeto é 
. mais artificioso do que espontâneo. Pelo contrario 
em Sapho. As queixosas estroghes deixam correr o 
cantOi, languido se é de amor, e tempestuoso, se os 
mumes o abrasam. €taer chame desvairada o ingra- 
to amante, quer invoque para morrer a deusa ^ que 
a não escuta, a vehemencia agita-lhe o verso, o seio 
palpita com os affectos, e a paixão toda delírio as- 
salta o peito, porque vem da alma. Percebe-se por 
entre o desalinho gracioso da ternura, ou na explo- 
são das, imprecações frementes aquelle toque admi- 
rável, aquelle fogo subtU, que melhor do que nin- 
goem descreve Horácio : 

Eaí Deus in nobis^ agitante callescimus illo 
ímpetos hic sacre semina mentis habef.' 

Depois dos grandes mestres, a imitação de Pin- 
daro, diluida em uns, e amaneírada em outros, po- 
liu o estylo, combinou os metros \ mas sempre es- 
crava, como nota Villemain^ nunca arremessou o vôo 
isento, ^ue é a perfeição real do género. Dir^- 
ia que o Promelheu moderno perdeu o segredo de 
animar a estatna. Nas diversas escolas clássicas, vé- 
se o talento percorrendo o circulo, mas não se atre- 
vendo a ultrapassal-o *, João Baptista Rousseau e Le- 
bron em França, Chiabrera em Itália, Garção e Di- 
nis entre nòs, esmerando o engenho, conseguiram 
colher algumas flores na lyra dos antigos. Orythmo, 
a pbrase ornada, a profusão das imagens e os desor- 
denados e estudados transportes estão nos seus poe- 
mas^ porém acommbção inspirada, e a ebriedade su- 
blime do enthusiasmo' no hjmno dos hebreus, a es- 



sência e o bello da ode, se geipem uma nota divina, 
ou se tentam alçar um esforço aodas logo sentem o 
pezó das asas abater-lhes o desfallecido cântico. A 
frescura natal não vec^a por elle ; os attractivos ori- 
ginaes não coram a idéa e os incidentes. Ha trechos 
famosos pelo gosto e correcção; balances de expressão 
vivente; mas a simplicidade na invenção, a riquesa 
desafectada, e o esmalte da allusão moral ou do tra- 
ço heróico dos primores antigos deixam longe pela 
superioridade sustentada os ensaios da arte moderna, 
como certos fructos perdem o perfume e a graça, 
creando-se fora do céu, que primeiro os viu nascer \ 

f Contínua.) 

L. A. Rebello da Silva. 



SANSÃO NA VINGANÇA ! 

(1850) 

£ sacudindo (Sansão) com grande 
força at columna» caiu a casa sobre . 
todos os príncipes, e sobre todo o 
povo que estava n'ella ; e foram mui- 
tos mais os que matou morrendo, do 
que os que matara antes quando vivo. 
JuisBS, cap. XVI, V. 30. 

IV. . 

Uif SALÃO HA Praia G&andb. 

Dn qualquer das alturas de Macau se gosa um bello 
panorama, mas os viajantes, em geral, preferem ver 
do mar esta formosa cidade. Dos navios ancorados 
no porto interior, abraça-se uma perspectiva ma- 
gnifica : começando na aldèa de Patane, sobre a qual 
se ergue a decantada gruta de Camões, e correndo 
ao longo do rio, aqui orlado de casas chinesas, acolá 
àé edifidos chrístãos, e todo semeado de embarca- 
ções de vários tamanhos e de diversissimas formas, 
desde o ligeiro gig briti^nnico até á pezada s^ma chi- 
nesa-, vendo mais para o interior da povoação as 
torres da cathedral, o simborio de S. José (collegio 
das missões, sem missionários) boas casas e jardins, 
e lá no fundo do quadro as fortalezas do Monte eda 
Guia» campeando sobre seus elevados outeiros^ o 
grandioso edificio da alfandega^ de que já falíamos, 
d^onde se continua ainda com óptimas habitações, 
em differentes planos, até á fortaleça de S.Tiago da 
barra, antes de chegar á qual está um dos mais ve- 
nerados pagodes doestas partes. Olhae que magesta- 
de apresenta o todo doesse templo chinês, desfeiado 
apenas por algumas carantonhas, barbaramente pin- 
tadas nas suas portas ^ vede como sobem essas ruas, 
costeando a montanha por entre uma vegetação pro- 
digiosa, conduzindo o viajante a varias capellinhas 
na progressão da subida, um pouco no gosto do Se- 
nhor Jesus da Serra em Braga, e mesmo em Bellas; 
lá está sobranceira a tudo isto a ermida de Nossa 
Senhora da Penha de França, já meia derrocada, e 
sobre a fortaleza da barraco seu, pessimamente collo- 
cado, paiol da pólvora. E encantador este quadro, 
mas todos lhe preferem, e eu com as massas, n^este 
ponto, o painel que apresenta Macau, visto do ocea- 
no, quando demandámos o seu porto. Logo para fo- 
ra da barra se encontra outro forte (pouco forte) 
que tem a invocação de Nossa Senhora do Bom Par- 
to (do bom porto teimam em chamar-lhe quasi to- 
dos os touristas doestes sitios ^) forma elle um angu- ^ 
lo agudo^ por am lado com a margem do rio, e pqO [^ 



28 



O PÂNORA9IA. 



outro com a Praia Glande, que se encurva por uma 
grande extensão ate aos escolhos, que servem de an- 
temural á fortaleza de S. Francisco. 

A Praia Grande, brilhante agglomerado de pala- 
cetes com columnas ao gosto asiatico-bretâo, e de- 
fendida em parte contra o oceano por muralhas de 
.pedra, tem sofiriveís cães, e próximo á residência dos 
governadores a caricatura de um fortim á beira-mar, 
que iucommoda os passeiantes e não tem utilidade al- 
guma. Por traz doesse enorme renque de columnas, 
sobre as quaes assentam arejadas varandas, encober- 
tas por ciosas gelosias, vâem-se os quíntaes do Bom 
Parto, a encosta da Penha, e outros risonhos jardins^ 
lá muito longe as montanhas do celestial império. 
Seguindo para o oriente torna-se a ver a igreja das 
Missões, a Sé e o frontespicio magestoso do conven- 
to de S. Paulo, única parte que resta da incendia- 
da fabrica; para dentro d^esses cancellos está o cam- 
po da igualdade, o cemitério christao. Depois lá se- 
guem os fortes de D. Maria II, do Monte, e da Guia 
(onde nunca estiveram os paços episcopaes, erro que 
já H em mais de um viajante,] e descendo sobre, o 
mar encontra-se a fortaleza de S. Francisco, fechan- 
do esta perspectiva, como dissemos, onde está aquar- 
telada a força de linha. Seguindo então com a vis- 
ta pela praia na direcção opposta, isto é do oriente 
para o occidente, temos anotar as igrejas de S. Fran- 
cisco e de Santa Clara (convento de freiras), e jun- 
to á casa da legação franceza a entrada da principal 
rua de Macau, que conduz á portando campo, uma 
das que fecham a cidade; continuando porém a exa- 
minar a beira-mar, deixando os assentos de pedra, 
que hoje estão assombrados por novas arvores, co- 
meça a longa fileira de habitações elegantes, ape- 
nas cortada aqui e ali pela entrada de uma estrei- 
ta deveza. Negociantes portuguezes e estrangeiros 
occupam quasi todas essas casas, com excepção das 
duas peiores e mais abarracadas, que são as resi- 
dências do governador e do juiz de direito. 

E tempo pois de conduzir o leitor a casa de mr. 
James Murray, o commerciante escocês de que fal- 
íamos em outro capitulo , e para que não dêem por 
nós, aproveitaremos a entrada de Luiz Osório e de 
outros officiaes da fragata e das corvetas, que não 
deixam de fazer um soffrivel motim, e sentar-nos- 
hemos a um canto da sala, como meros espectado- 
res. 

Próximo ao Chunambeiro (extremidade Occiden- 
tal da Praia Grande), seriam sete horas da tarde do 
mesmo dia em que se passaram os successos que fi- 
cam referidos nos dous precedentes capítulos, enxer- 
gavam-se atravez das gelosias as salas iiluminadas de 
uma casa, que Murray alugara já .mobilada para 
passar dous mezes n^aquella cidade. E aqui que nos 
dirigimos, amigo leitor \ antes porém de transpor o 
vestíbulo, guardado por alguns criados chins, uni- 
formemente vestidos de cabaia azul e meia branca, 
será certamente do vosso agrado ter algumas noções 
de quem sejam os habitantes da casa, a julgar- vos 
por mim, que não gosto de visitar quem não co- 
nheço. 

James Murray tinha, como muitos dos seus com- 
patriotas, a mania de viajar, mas de viajar sem des- 
canço de uma á outra extremidade da terra. Teria 
quarenta annos, e já a cataracta do Niagara lhe era 
familiar como aS montanhas dos Pampas ; de volta 
de Moscow embarcara para Senegambia, e enfastia- 
do de Ispahan correra para a encosta do Vesúvio v 
fora sob o céu de Nápoles que elle encontrara Eu- 
genia, uma formosa veneziana, que« como elle, ti- 



eabo de poucas semanas de eonhecimeato ttatuO) e 
partiram em seguida para o Egypto*, depoii de Te- 
sitarem Calcuttá, Bombaim e Ceyláo, lembroci-ae 
Murray de ir á China, e poeto que sua mulher, já 
fatigada de tanto exercicio, e quasi curada da soa 
monomania, preferia voltar ao meio dia da Europa, 
elle, que se enfastiara da companhia como se enfas- 
tiava depressa das terras que visitava, propot-lhe o 
seguirem diversos rumos nas suas perígrinações ^ £a- 
genia porém não acceitou, receia va expór-se aoa pe- 
rigos de viajar sosinha, e acompanhou como nma 
irmã o homem por quem mezes antes tivera ume 
decidida paixão. 

N^esta boa disposição vamos encontrar os cônju- 
ges sentados em macias otomanas, e cercados de vá- 
rios amigos, entre os quaes está o commandante da 
fragata D. Maria II. 

Luiz Osório apenas entrou na sala correu para 
Eugenia, e apertou*lhe cordealmente a mão ^ depois 
trocou com James idêntico signal de amisade, e paa- 
sou a conversar com o commandante, provavelmen* 
te acerca dos acontecimentos de bordo. Eugenia, que 
pareceu perturbar -se um pouco com a chegada do 
mancebo, readquiriu logo o seu natural sangue frio, 
e continuou placidamente o seu dialogo com um 
official do batalhão de artilharia de Macau. 

Eugenia não era uma doestas italianas de punhal, 
que apparecem em tantos romances ^ não tinha o so* 
brolho negro e carregado como o dVsses eternos ty- 
pos das filhas do Adriático, mas antes uma physio- 
nomia melancólica, um ar de resignação nos seus 
olhos húmidos e castanhos, que harmonisavam per- 
feitamente com cabellos quasi da mesma côr, e cujo 
único enfeite era um laço de fita que se confundia 
com elles, formando cambiantes aos raios da luz vi- 
vissima, que espalhava na sala um rico candelabro. 
Pequena de corpo, airosa, de agradável trato, a ita- 
liana era o enlevo de quantos a conheciam. O mi- 
litar era elegante, sem ser adamado, e posto que 
tivesse um rosto severo, nem por isso era menos gen- 
til. Fallavam da trágica scena de Albino e Bernar- 
dino. 

— u£ muito cruel, querido capitão, t* dizia Euge- 
nia sorrindo \ « pois approva aquelle acto de feroci- 
dade do marido?» 

— u Certamente, senhora, e ainda mais, n respon- 
dia o official com modo grave, mas decidido ; u em 
seu logar eu teria matado também a mulher que me 
enganasse, n 

— uMeu Deus ! . . . parece que nunca leu aquel- 
le episodio de Ignez no immortal poema de Camões ? 
Pois eu, com ser estrangeira, lhe recordarei dous 
versos : 

Contra uma dama, 6 peitos carniceiros. 
Feros vos amostraes e cavalleiros ! 

— u Bravo ! n exclamou Osório, largando o com- 
mandante, e correndo para Eugenia, wjá troca os 
versos do seu Dante e do seu Ariosto, pelos do nos- 
so Camões ! » 

— -uGtuero fazer mais humano este nosso guerrei- 
ro. Diga-me, Osório, em idêntico caso obraria como 
esse pobre Bernardino, ou iria mais longe, assasM- 
nando igualmente a sua esposa ? » 

— mEu respondo pelo nosso tenente^») atalhou 
Murray, tomando parte na conversação ; mq melhor 
era dizer adeus á esposa, e embarcar para a outra 
extremidade do mundo, n 

Eugenia doeu-se mais doesta indiffierença, do que 
se sentira da crueldade do militar:; Osório não se 



nha um amor decidido pelas viagens*, apatxonou-se i •» ««u..*.» ^^ w.u^tuauc uv «.»««.«. , win#ti«# »«v .» 
instantaneamente pela italiana, casou com ella ao ( achou cem animo de imitar a jna opinião, segiur e 



o PANORAMA. 



29 



«e-ía provavelmente um loDgo nleneio se o comman- 
dante se nSo aproximasse também do grnpo, e não 
tomasse a palavra. 

— uFeío objecto tomaram para thema daconver* 
saçSo. Já Osório fallava comigo de um assumpto si- 
mUbante ; denunciava-roe duas conjurações contra a 
firagata, e uma d^eilas por minha causa; naoacbam, 
meus senhores, que um homem que teni a queixar- 
se de mim, deve antes faser como Bernardino, dar- 
me um tiro e outro em si, do que pretender assas- 
sitaar dusentos innocentes de envolta com o culpa- 
do?» 

— u â.ue está ahi dizendo, commandante, nSo creia 
n^esses agouros, m apressou-se a responder Eugenia. 

— uNao creio, nSo, e tanto que conservo abordo 
o preconisado malfeitor, n 

Ainda se failava nVstes objectos pouco divertidos, 
quando annunciaram o chá. 

£ vulgar por estas partes ir-se tomar ochán^uma 
mexa commum, onde ha mais do que os simples bo« 
los, que costumam acompanhar aquella infu&ão *, gas- 
ta-se por isso mais tempo á mesa do que é usual na Eu- 
ropa ; como porem ocalorincommodariaoscommen- 
saes, ainda mesmo no mes de outubro, agita-se por 
cima da mezaiuma ampla ventarola, a que ali cha- 
mam pancá, a qual refresca com doçura o ambien- 
te. Osório deu o braço a .Eugenia para a conduzir á 
sala da refeição, e aproveitou os momentos que esse 
pequeno transito lhe proporcionava, para pedir,* em 
voz muito baixa, uma resposta já promettida de certo. 

— tt A^ manhã de tarde, na gruta de Camões, n bal- 
buciou a italiana com voi quasi inintelligivel ; e de- 
pois virando-se para as visitas com modo gracioso, 
coDvidou-as a tomarem logar em roda da meza. 

A conversação tornou-se mais alegre dVsse ponto 
em diante, e a noute pássou-se agradavelmente ; al- 
guns dos convivas jogavam o voltarete, outros o 
whist ; dous ingleses jogavam o xadrez em silencio ; 
Eugenia cantou algumas árias, e Osório acompa- 
nhava-a ao piano. Os mais jovens da companhia 
preferiam dançar, mas faltavam as damas, e resi- 
gnaram-se a jogar o bilhar. Todavia o prazer bri- 
lhava em quasi todos os rostos. . . e muitos d^esses 
homens tinham a vida contada por horas ! 

Em fim por volta da meia noute recolheram para 
bordo 03 offíciaes da fragata, e disse o commandan- 
te para Osório : 

— uA^manhã pertence-lbe ir para a fortaleza da 
Taipa render o official ali destacado \ é bom logar 
para quem gosta de socego, para quem é poeta co- 
mo o nosso Osório ; o peior é que por estes quinze 
dias não pode vir á Praia Ghrande. » 

— u E se o camarada que lá está preferir conti- 
nuar no mesmo posto, v. s.^ consentirá n^este ar- 
ranjo ? it 

— u Certamente, até muito estimarei a troca ; 
bem sabe que, de todos os officiaes, é o sr. Osório 
quem eu mais aprecio, como merece. » 

— w Obrigado, commandante ; então creio que não 
irei para o degredo, n 

— u Chama-lhe degredo ? . . . o que é ser rapaz e 
ter amores ! m 

— u Não acredite... » começou a balbuciar Osório, 
porém não continuou, temendo que apezar da escu- 
ridão da noute descobrissem a vermelhidão que lhe 
tingia o rosto. 

— uNão atredito nada que lhe esteja mal,» pro- 
seguiu o commandante, u mas alegro- me que esteja 
amanhã a bordo para me ajudar na investigação 
d^aquelle negocio em que me faliou, e mesmo para 
tratarmos de preparar o navio com decência, qlie 
depms de amanhã é o anaiversario de d-rei.» 



Seguiu«se um loogo silencio, sé inteivompido pelo 
compassado remar dos marinheiros do escaler, até 
que atracaram á fragata ; esse portalé que transpu- 
nham, era para quasi todos que ahi iam como a 
porta do tumulo que se fechava sobre os seus cadá- 
veres ! 

(ConUnúa,) 

F. M. BORBALO. 




SOIiOAOOt OB nrVAHTABIA ORBOOt. 

Posto que a cavallaria, como dissemos no numero 
antecedente, constituísse a parte senão a mais nume- 
rosa pelo' menos a mais importante dos exércitos na 
antiguidade, nem por isso os que os commandaram 
desconheceram a utilidade do emprego das massas de 
infantaria nos combates, posto que não as soubessem 
applicar de um tão vantajoso modo como o que a 
moderna táctica ensina. 

Muito para estranhar seria que assim não aconte- 
cesse, sabendo-se que a tetraphalange., que (fallando 
da Greota) constituía um exercito, contava entre 
28:672 homens, apenas 4:096 cavalleiros \ sendo por 
conseguinte a proporção entre as duas armas, como 
de 1 para 7. 

Mas ainda na infantaria se reconheciam duas di- 
visões*^ como entre nés, que temos a infantaria de li- 
nha e caçadores. Os pulot^ combatiam sem couraça, 
nem escudo ; as suas armas eram o arco e a funda, 
com que arrojavam sobre o inimigo pedras e frechas : 
formavam em frente doê hoplUet^ infantaria mais re- 
gularmente armada, e provavelmente composta de 
soldados escolhidos, que o general reservava para as 
occasiões decisivas, ou quando era mister restaurar 
a batalha compromettida pela imprudência da peo- 
nagem. 

Arriano falia ainda de uma outra espécie de sol- 
dados de infantaria, que reunia as vantagens dos ^- 
pUíes e dos psHoSy chamavam-se pelUuies : não eram 
tão pesadamente equipados como os primeiros ^ mas 
usavam ao mesmo tempo de um armamento que os 
habilitava a pelejar com mais vantagem e segurança 
que os segundos. 

Os gregos conheceram também a vantagem dos ^ua* 
dradoi. Timotheo, general atheniense, tendo de atra- 
vessar uma campina, onde devia esperar e recear o 
ataque da numerosa cavallaria dos olynthienses, for- 
mou o pUnthion^ ou quadrado., mettendo no centro 
as bagagens, e de tal sorte se houve a sua gente que 
o inimigo niaieatKvea .íncomm^^ gy^ty^^^gle 



30 



O PANORAMA. 



DaSCBlF^fo »A VlLIiA, WWB CCDABB D« S. JoXo 
Sa SL«&XX KA PROVnfCXA DX MlVAt GSBABS, 

IMPXRIO DO BrAZIL. 

Nas faldas d^agra montanha, 
Gtne o Tejuco vae banhando, 
Ternas moções despertando . 
C^o seu doce murmurar : 

^ N^um valle curvo e espraiado, 
Q.ue áureas arêas povoam, 
Onde mil aves revoam 
Com seu canto enchendo o ar : 

Onde aqui e ali dispersas 
Se observam toscas moradas, 
As mais d^ellas povoadas 
Por gente de negra côr : 

Onde em pas vive e respira, 
Nos braços da Natureza, 
A candura, a singeleza, 
£ talvez também amor : 

£m sitio ameno e risonho 
Doeste valle deleitoso 
No logar mais espaçoso 
Jaz a minha habitação. 

Tão simples, como a minha alma, 
£m inoveis e arch i tactu ra, 
£ntre as moradas figura 
Da villa de S. João. 

D^ella abaixo em curto espaço, 
Curvos meandros fazendo, 
Vae o ribeiro correndoí 
Té n^um triste rio entrar. 

De negro, funesto agouro 
Nome tem as suas aguas. 
Nome, que horrores, que maguas 
S6 costuma despertar : 

D^elle junto ás margens tristes 
£m já longa, escura idade 
Victimas mil sem piedade 
Cortou da parca o furor. 

Rio da% morteM chamado 
Desde então té nossos dias, 
Desperta inda hoje agonia 
Inda hoje desperta dor 

Mas ao ribeiro voltando, 
6tue pelo valle serpeia, 
D^ellc oh quanto a fugaz veia 
Límpida e bella não é l 

N^ella a belleza espelhar-se 
Pode ver a imagem «ua \ 
NMle o sol, e a clara lua 
Copiada a vivo se vê : 

Nas duas margens oppostas 
A illustre villa se assenta, 
£ aqui activa alimenta 
Commercio rico e feliz. 

Por duas formosas pontes 
Da valente cantaria 



IpaMO 
idaiik 



Pfovida indiuftria «brír <|iiit. 

Por eUa frequente entrada 
Tem do precÍBO a abundanda, 
6loe até de longa distanelR 
Vem a villa abastecer. 

O dima é doce e maeio, 
€tual da £uropa o mais ameno. 
Ar puro, limpo e semno 
Convida aqui a viver. 

Os fmctos d^outro bembpberío. 
As plantas maia preciosas 
Vegetam livres, viçosas 
N^este abençoado terrio 

Da gente o trato é polido, 
£ franco e hospitaleiro, 
£ntre o indígena e o estrangeiro 
Não se observa distioc^. 



Gosam-se aqui as doçuras 
D'uiiia justa liberdade \ 
A palavra humanidade 
Não é som, ou noção vi : 

Vive em pas das leis á sombra, 
â>uem do império as leis respeita ^ 
Tranquillo á noute se deita, 
TranquiUo o encontra a manbi. 

Do valle em torno vistosas 
Chácaras mil se descobrem, 
Cujo chão frondosos cobrem 
Lindos, úteis vegetaes. 

Por entre as suas ramadas 
De nunca extincta verdura 
De modesta architectura 
Se erguem tectos desigoaes : 

£m vários ti^ellei habitam 
Almas cândidas, singelas, 
Gtue ajuntam ao ser de bella s 
Milhares de perfeições. 

Com suas mimosas graças, 
Com seus ditos innocentes 
Ateiam paixões ardentes 
Nos sensíveis corações. 

Dos effeitos da ternura 
Se alguém quizer isentar-se. 
6tuem pretender esquivar-se 
Do cego deus ao furor ; 

Ah ! fuja doestas moradas. 
Fuja do sexo mimoso. 
Aliás ser-lhe-ha forçoso 
Cingir os ferros d^amor : 

São Circes mui perigosas. 
Irresistíveis Medêas ^ 
Faiem coar pelas veias 
Veneno prompto e lethal. 

Fuja do lar, onde habitam 

Thalía, Aglaura, £uphrosina, 

Da Joven, bella Èrydna 

Foja da «t«»cj^*g<^Ulj ,y GcOglC 



o PAlfORAMA. 



31 



Gom teus divinacf eacttiitM 
Prendem tado «• ires prímeinu. 
Mandam nas almas inteiras 
Co^aa suas prendas sem par. 

£rjcioa attrahe, commove 
O mais intimo do peito, 
Gera amor, gera respeito, 
Chega as deusas a igualar. 

De Cypris une á belleza 
De JuQO o ar magestoso, 
Sem ostentar um vaidoso 
Frio, indifiTreote desdém. 

E um céu limpo e sereno 
£m manhã de primavera, 
Qrue a esperança anima e gera, 
Sem dar audácia a ninguém. 

Como a rosa fresca e pura 
Vence em fragrância as mais flores, 
A lua como em fulgores 
Vemps aos astros vencer : 

Erycina assim vencendo 
Vae todas as formosuras, 
Todas deixando ás escuras, 
Mal que chega a apparecer. 

Mas doesta imperfeita copia 
GLuem é a imagem divina? . . . 
S6 o diria a Erycina, 
A ninguém mais o direi : 

Direi sim, sem que o segredo 
Meu tema ver divulgado, 
6tue d^ella quem for amado, 
Por mui felis contarei. 

Aqui chegava : eis que a musa, 
Gtue se dignou de inspirar-me, 
Cessando de bafejar-me, 
A penna me cae da roSo : 

Mas, se eu tenho desenhado 
Doesta villa deleitosa 
A producção mais mimosa ^ 
Acaèou-se a descripçao. 

Francisco Freirs ns Carvalho. 



ESTVDOS SOBRE OS DIFFBRSNTES MKTHODOS 
DS BNSIJro OK LBR BM PoRTVGAL. 



João BB Barros. 

A sbocuda vantagem é desembaraçar a lingua e 
aco6tumal-a a todas as prolações, por desusadas e exó- 
ticas que sejam. 

E também digno de se mencionar um pequeno 
circulo que JoSo de Barros trás á frente das tabeliãs 
da s^-llabaçSo, em que se acham engenhosamente 
expostas todas a^ syllabas da lingúa portuguesa. 

Em outro logar da obra que analisámos explica 
João de Barros mui judiciosamente, e como quem 
tinha lição profunda das letras clássicas, os aecidentes 
das syllabas, professando a theoria tantas veses di- 



latada e contrariada de existir verdadeira quantida- 
de nas syllabas portuguesas^ e de poder»se iútrodu* 
úv uma espécie de canto na nossa linguagem, á ma- 
neira do que usavam na sua pronunciação os gregos 
e os romanos. E curiosa a ratão com que João de Bar- 
ros se escusa de entrar em mais particularidades so- 
bre este* assumpto, allegando que para o faser lhe se- 
ria mister exemplificar as suas regras com trovas, 
que tem medida de p^s e quantidade dç syllabaé \ o 
que era impossivel para oescriptor, por haverem caí- 
do as trovas em tal descrédito, que gente seria e si- 
suda não ousava de as faser sem arriscar a sua gra- 
vidade. Eis as próprias palavras d*elie : 

u E dado que em alguma maneira nos poderemos 
estender cÕ regras para a cantidade e acento das nos- 
sas syllabas': leixamos de o fazer, porque pêra se bem 
exêplificar as suas regras, ouvera de ser em trovas, 
que tem medida de pées e cantidade de syllabas. 
È porque o tempo em que se as trovas fazia e os ho- 
mêes não perdiam sua autoridade por isso é degra- 
dado destes nossos reynos : ficará esta matéria pêra 
quando o uso o requerer, n 

Segue-se depois na cartinha de João de Barros a 
parte que elle intitula Preceitos e Mandamentos da 
Igreja com algQas doutrinas cathólicas, era que os 
meninos devem ser doutrinados. Esta parte é com- 
posta em português e em latim ; e parece verosímil 
que Barros usasse doesta ultima lingua n^uma car- 
tilha de infanda, com p fim de industriar as orean- 
ças na pronunciação de sjllabas que na lingua por- 
tuguesa nao existem, facilitando-se-lhes assim a lei- 
tura do latim que era n*aquelles tempos aquillo a 
que se encaminhavam principalmente, e a que ser- 
viam de preparatório indispensável os estudos pri- 
mários. 

Attentando, depois daanalyse que temos feito, na 
tal ou qual perfeição a que João de Barros levara 
a cartilha no seu tempo, suscitasse naturalmente a 
questão de saber se fdra elle o primeiro que publi- 
cara alphabeto e sjrUabario de letra redonda, visto 
que desde a invenção da tjrpographia até 1539, em 
que se a cartilha imprimiu, decorrera já mais de um 
século. 

A instrucção, considerada oomo encargo officialdo 
estado, não existia ainda n^aqoelles tempos. A ins- 
trucção,' que hoje ehamâmos primaria, existia unica- 
mente nas Sés, onde o mestre-escola não era como 
boje uma dígi^idade honorifica do cabido, nlas um. 
cónego encarregado de ensinar os que se votavam 
ao estado clerical, e os estudantes pobres da diocese, 
e nos conventos instituídos com essa condição. Fora 
doestes logares havia mestres particulares que edu- 
cavam nas casas nobres e opulentas, incluindo o pró- 
prio paço dos nossos reis^ especialmente o de el-rei 
D. Manuel, onde João de Barros aprendera, e ha- 
via outros mestres que abriam escola, onde por um 
preço convencionado admittiam os que se dedica- 
vam a officios de papeie iinia^ como lhe chama João 
de Barros, aos que se destinavam ás faculdades aca- 
démicas de então. 

Copiaremos aqui alguns trechos com que o nosso 
auctor exdarece com dados preciosos^ e judiciosas 
observações o estado da instrucção primaria no seu 
tempo. 

u Nem todolos que ensinam ler e escreuer, na são 
pêra o oficio que tem, quãto mais entêdella, por 
crára que seia. E ainda que isto nã seia p*era ty, 
dilloey pêra quem me ouvir, como hómil zeloso do 
bem commil. Hda das cousas menos oulbáda que 
á nestes reynos, 4 consentir ê todalas nobres uillas 
e cidades, qualquer idiota e nã aprouado em costu- 
mes de bd uiver, poer eseoJa de insinar j ' * ** 

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;<!!íl3t)|ie 



32 



O PANORAMA. 



h(Í çapateiro que é o mais baixo oficio dos macani- 
cos \ lifi põem tenda sem ser examinado. £ este, to- 
do o mal que faz, é danar a sua pélle, e na o cabe* 
dal alheo, e máos mestres leixam os discípulos da- 
nados pêra toda a sua uída, na (somente com ui- 
cios d'alma, de que poderamos dar exemplos : mas 
ainda no modo de os ensinar. Porque auendo de ser 
por uma cartinha que aby á de letera redonda, por- 
que 08 mininos léuemente saberám ler, e sasy os 
preceitos da nossa fé, que nella estam escriptos : con- 
vertem ôs a estas doutrinas rooráes de bôos costu- 
mes ^ saibam quantos esta carta de xienda : £ despois 
desio aos iãtos de tal mes : E perguntado pelo cos- 
tume disse nickiL De maneira que quando bu moço 
say da escbola, na fica cõ nicbil, roas pode fazer mi- 
Ibor bua demãda, que hum solicitador delias, por- 
que mama estas doutrinas cathdlicas no leite da pri- 
meira idade. E o que pior é, que per letera tirada 
anda bu anno aprendendo por bu feito : porque a 
cada folha começa nouamente conhecer a differença 
da letera que causou o apuro. da pena com que o 
escriuám fez outro termo indiciai. 

u As audiências e na as escholas fizeram todolos 
iuristas destros em o ler dos feitos: e os òfficiaes pú- 
blicos (cuja profissão é papel e tinta) que a nam ti- 
ueram de letera redonda, nS sabem rezar hja^ oraçã 
per ella, e pela tirada tam mais corrêtes que bu ce- 
go na oração da eparadada. A&sy que desta esperien- 
cia podes en ferir ler a eschola ô ensina, desenvoltura 
os negócios â dano^ letera redonda se aprenda^ e a 
tirada sem mestre se alcança. Gtuê quizer filhos que 
lhe nSo saiam da escola, . desesperados de poder ir 
auante, per os barrancos que tem o caminho da le- 
tera tirada, per a redonda os manda primeiro ca- 
roinbar, cá esta cõ pouco trabalho, e muito prouei- 
to, e em menos tSpo se alcança, e fica per ella abi- 
les pêra maiores doutrinas. » 

D''este logar de João de Barros se concluo, que 
antes d^elle já existia uma tal ou qual cartinha de 
letra redonda. Porque naoé provável que n^este logar 
dos Diálogos em louvor da nossa linguagem, se referisse 
á soa cartinha, mas sim a outra quedevia já existir 
por onde se ensinaria nas Sés enas instituições reli- 
giosas. Porém que ade jToao de Barros necessariamente 
levaria grande vantagem ás do seu tempo, facilmen- 
te se deprehende do grande vulto e importância que 
Barros occupava então na corte de D. João III *, con- 
fiando-se-lhe a historia da conquista da índia, e os 
altos cargos que exercia no paço. Ainda se conjec- 
tura a excellencia da sua cartinha sobre todas do seu 
tempo, attendendo ter sido escripta para aprender 
por ella o príncipe D. Filippe, filho de D. João III, 
sendo seu mestre o bispo Fr. João Soares. 

João de Barros te^ por todos os titules di- 
reito incontestável a ser julgado um homem superior 
para o seu tempo, e para a illustração geral do seu 
paiz. A analyse das obras pedagógicas dVste escri- 
ptor insigne prova que elle, mais do que nenhum ou- 
tro do seu século, e da sua terra, e talvez que da 
Hespanha toda, se applicou com uma intelligencia 
pouco vulgar, e com um fervor sem exemplo, a com- 
por e a divulgar os livros de que a pueric ia havia mis- 
ter para sua educação e ensino. 

Vemos a João de Barros coordenar pela primeira 
vez uma cartinha systematica e fácil de letra redonda, 
para remediar o damno que os mestres indou tos cau- 
savam com as suas cartilhas manuscriptas. Não se 
contenta o Pestalozzi portuguez do século 16.^ em 
vtilgarisar os primeiros elementos da leitura. Era 
preciso que os meninos doutrinados no ler tivessem 
em que exercitar esta arte preciosa, porque, diz Bar- 
ros no prologo do dialogo da viciosa vergonha^ de- 



pois que os meninos saem das letras, que é o leite da 
sua creação, começam a militar em costumes, para 
que lhe convém armas convenientes aos vícios natu- 
raes de sua idade. João de Barros, para offereoer ás 
creanças um livro de leitura, oue ao mesmo tempo 
fosse como cathecismo de moral, escreveu o livro da 
viciosa vergonha. E para que a forma fosse amena 
e deleitavel para as imaginações^ dos leitores a quem 
o livro dedicara, compol-o em forma dialogai, muito 
usada em livros de doutrinação e pbilosophia desde 
a maior antiguidade, e muito frequentada por to- 
dos os que quiseram tirar á sciencia e á moral as as- 
peridades dogmáticas, e os rigores da dialéctica. 
E logo em 1540 a obra veiu á luz publica, na offi- 
cina de Luiz Rodrigues, typograpbo d^el-rei. Sobre 
este assumpto da viciosa vergonha, encommendára 
Barros ao doutor António Luiz, medico e philoso- 
pho roíi^ nomeado. n'aquella idade, e conhecido pe- 
la sua muita erudição nas letras, que Ibe escrevesse 
um tratado, em que a sciencia opinasse o que sobre 
tal assumpto se podia dizer. Aotonio Luiz escrevea 
de feito o tratado, intitulando-o De Pudore liber 
unus occulia guadam exkibens é Gra^onum hidoriis 
excerpta, o qual saiu em Lisboa em 1540 em casa 
de Luiz Rodrigues, livreiro d^el-rei. No mesmo an- 
no de 1 540 deu João de Barros a publico a sua gram* 
matica da lingua portuguexa^ que é em parte ocom- 
inentario, a explicação e desenvolvimento da sua car- 
tilha, em tudo o que se refere áos valores das diffe» 
rentes letras do alphabeto portuguez. 

Estas três obras, a cartilha, a grammatica, e o 
dialogo provam em João de Barros idéas lumino^tas 
e concretas sobre a educação primaria, e os meios 
mais racionaes de. a dirigir, e dão-lhe durante secu* 
los, copiado e plagiado pelos seus continuadores, a 
preeminência de mestre em todas as escolas de Por- 
tugal. 

Sendo porém reconhecida a excellencia da sua dou- 
trina sobre toda a do seu tempo, e dos que se lhe 
seguiram, porque razão vemos nos a cartinha do cs- 
criptor da» Décadas por tanta maneira esquecida e 
proscripta, que nas escolas rapidamente desappareceu 
o seu nome, e apenas entre eruditos ficou memoria 
de que o historiador profundo descera da elevação 
do talento a encaminhar os meninos e idiotas na pri- 
meira doutrina? Como é que um methodo deler, 
abonado pela sua própria bondade, recommendado 
pela auctoridade de tamanho nome, dedicado á edu- 
cação de um príncipe, e necessariameate celebrado 
no seu tempo, poude cair tão depressa em tamanho 
esquecimento f 

Parece^nos poder conjecturar alguma plausível ex- 
plicação a este caso. 

J. M. Latino Coelho. 



Os HYFOPOTAMOS B A MUSICA. 

Escreve omajorDenham, que os hipopótamos não 
são insensíveis aos encantos da musica, u Ao nascer 
do sol,» diz elle, u quando nds íamos marchando ao 
longo das margens do Moggaby (lago de Boruu, na 
Africa central) os hypopotaroos seguiam a nado os 
tambores dos difiereutes chefes. Algumas vezes apro* 
ximavam-se tanto da terra, que a agua, que expel- 
liam das ventas, vinham alagar os que passavam pe- 
las bordas do lago. Contei uma vez quinze d^aqnel- 
les monstruosos anlmaes retouçando á superficie da 
aguH. n 

— Um magistrado parcial é um homem perigosís- 
simo, um inimigo publico, ou antes um monstro na 

sociedade. . r^r^r^ir^ 

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. 5 



O PAm>RAMA. 



38 




nfSOSTlO — OOMSTaUOÇÒBS KIUTAAXS* 



O IvdostIo está litteralroente coberto de pequenos 
fortes de terra (red actos) construídos em differentes 
períodos pelos «émmc/art, que ali se acolhiam, quan- 
do pretendiam evadir-se ao pagamento dos tributos 
e ás extorsões dos nababos. Também se encontra n^a- 
quella vasta região grande copia de fortalezas edifi- 
cadas com grandeza, roas na realidade mais respei- 
táveis pela apparencia e desenho, que pelos meios de 
defeza^ consistindo na máxima parte em vários re- 
cintos, com prehepd idos uns dentro dos outros ; mas 
que a disposição dos bastiões e a vastidão das corti- 
nas permittia bater facilmente em brecha. 

O forte mais antigo, de que saibamos a data, é 
o de Toglok-abad, perto de Debli, levantado por 
Toglok-shah no 9.^ século : a soa fabrica é de um 
género imponente, e as suas muralhas enormes po- 
diam zombar de todos os meios d^ataque conhecidos 
n^aquella epocba. 

' O forte deChunarGour, situado no Ganges, a 20 
kilometros de Benares, é construido sobre um ser- 
ro, e cindido de muralhas, flanqueadas de torres cir- 
culares. Na extremidade, que deita sobre o rio, er- 
gue-se a velha cidadella, que n^outro tempo devia 
de oflerecer fácil defensão. No interior ha um altar, 
que condiste em uma meza de mármore negro, so- 
bre a qual, segundo a tradição, a divindade tutelar 
do paiz está assentada continuamente, salvo desde o 
nascer do sol até ás 9 horas da manhã, que é quan- 
do se acha em fienarés ! E^íta superstição faz suppor 

VOL. III. — 3.aSBRI». 



qae n^aquelle intervallo épossivel tomar a fortaleza. 
Em vários sitios d^la encontram -se esculpturas an- 
tigas muito mutiladas, e inscrip^ôes em idioma pér- 
sico, nas quaes se declara os nomes dos que, por 
diversas vezes, mandaram restaurar o edificio. 

O forte de Gv^alior, no centro do Indostão, a 80 
milhas de Agrah, remonta a mui remota epocha, 
por quanto é notório que soffrêra 'um assedio, eftka 
tomado em 1008. Os ingletes o conquistaram em 1780, 
e pelas successivas addiçôes que lhe têem feito, tor- 
naram -no uma das praças mais seguras do seu vastu 
império na índia. 

A nossa gravura representa um dos mais formosos 
monumentos do antigo systema de construcçoes mi- 
litares dos indous ; que vem a ser o magestoso por- 
tal do coiitlah (residência fortificada) de Firoz-shah, 
príncipe da segunda dinastia patane, que o levan- 
tou desde os fundamentos em 1220, a pouca dis- 
tancia de Dehli. 

E também aFiroz-shahqaesedeveofortede Juan- 
' pour, sobre o Goomty, a vinte e oito kilometros da 
sua confluejicia com o Ganges, um dos mais im* 
portuntes de todo o paiz, que domina todo atéLuk*^ 
now e Fizabad. Foi durante algum tempo sede de 
um império : Chaja-Jehan, vizir do sultão Mahum- 
med-shah,' na menoridade de seu filho Mamoud-shah, 
tomou o titulo de SuUan-íhirhi \ ou rei do JE'*ite^ e 
fixou a sua residência em Juanpour, pelos annos 



1393 de Jesus Chmto. 



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gle 



34 



O PANORAMA. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

MsMOBIAt DA VILLA DS ArBAYOLOS. 

XX. 

¥orca e Pelouninho, 

Em todas as cidades e villas do reino havia sem falta 
dous symbolos da jurisdicçao e independência muni- 
cipal ^ ambos instrumentos de justiça^ a forca e o 
pelourinho. 

A forca era situada sempre fora da povoação, em 
logar alto, e formada mais ou menos singelamente 
de duas columnas de alvenaria, que sobre si susten- 
tavam um arco da mesma matéria. A de Arraiolos 
foi mandada fazer em 1523 pelo ouvidor JoSo Alvres. 
A camará preferia se fizesse um chafariz á fonte da 
Arregaça pára beberem bois e bestas, primeiro que 
fazer-se a forca. (1) Mas ou fosse formada então, ou 
algum tempo depois, ficou situada n^um oiteiro ao 
sul da villa sobre a estrada de Évora ; e conserva- 
va-se em bom estado, quando foi demolida nos fins 
do anno de 1844 para se edificar no mesmo sitio o 
telegrapho. Nao consta que houvesse n'ella execução 
alguma. Os curiosos de contrastes nao deixarão de 
notar que se a forca, representante dos interesses mo- 
raes da justiça, foi levantada em 1523, supplantando 
então o interesse material do chafariz \ veiu por sua 
parte a cair em 1844 debaixo da influencia donoyo 
invento do telegrapho, que pertence por igual aos 
interesses materiaes e moraes. 

O pelourinho, transformação christa da estatua 
pagã de Sileno, que era o symholo da liberdade bur» 
gueza nos municípios romanos (2), é outro apparelho 
d^alta justiça, também clássico e indispensável iios 
nossos municípios. Sua situação é sempre na praça 
principal da povoação. A fornia dos pelourinhos é um 
obelisco oucolumna, executada ás vezes com capricho 
e elegância, atravessada superiormente de braços de 
ferro com ganchos, e levantada, do chão sobre alguns 
degraus. Os ganchos superiores serviam para espetar 
as cabeças ou mãos dos condem nados, quando assim 
o mandava sua sentença. Em baixo junto á baze, e 
sobre os degraus'se atavam os sentenciados á expo- 
sição publica, ou a outros castigos corporaes, e para 
isso havia argolas de ferro em altura proporcionada. 
O pelourinho de Arra3'olos é um bom obelisco de 
mármore de E&tremoz, fabricado em 1634. (3) 

Tal respeito merecia ainda no século passado este 
symbolo da justiça d^el-rei, que acontecendo no dia 
l4 de outubro dê 1757 apparecer derribado e posto 
por terra o pedestal do mesmo pelourinho, e quebrada 
a* esphera do remate superior, ordenou el-rei, por pro- 
visão da junta do estado de Bragança de 26 de no- 
vembro do mesmo anno^ que o juiz de fora tirasse de- 
vassa d''este caso, e acção tao horrorosa eoffensiva ao 
respeito da justiça, e aremettesse á mesma junta sem 
pronunciar. (4) 

J. H BA Cunha. Rivara. 



(M Livro das verea<;ucs de Í5S3 a d. 18, uaverea<;So 
de 18 de abril. 

(S) £' opinião do sr. Alexandre Herculano, no 4.^ 
vol. da sua Hutoria de Portugal^ a nag;. H. 

(3) Em Terea(;ão de 30 de dezembro de 1634 foi ar- 
rematada a couducçào e carreto do pelourinho de Estre- 
moz para Arrayolos por 2^700 rs. (L.^ das vereações de 
2634 a 1636, fl. 27 v ) 

(4) h.^ de registo da camará de 1756 a 1674, fl. 38. 



Mahubl Mabia de Babbosa dv Boca«b. 

iVa Arcádia Ehnano Sadino, 

Entre ferros cantei desfeito em pranto ! 
Valha a desculpa, se nSo vale o canto. 

VIII. 

Bocage nas formas lyricas nSo excedeu a arte do 
seu tempo desviando-se dos modelos próximos da poe- 
sia franceza, e varias veies dos traslados da latina ; e 
a sorte com que tentou a ode nÍo foi igual. Eleva- 
se em algumas a grandes alturas \ ao paaio que, se- 
gundo succede a Rousseau e a Lebron, se offusca ou 
tMilbucia em outras. A formosa invocaçSo á JB^peran- 
ça, de um cinzel delicado e de ama imaginação mi- 
mosa, nas primeiras estrophes, resente-se de pouca 
lima nas seguintes, baixando a allegorias diffnsaS) 
cuja nudes disfarça apenas a versificação brilhante. 
O u Gtuadro da vida humana » abre por uma ima- 
gem descriptiva, que recorda as de Horácio e do 
Garção, mas aonde realça a energia de £lmano. É 
uma idéa usada, que a magia do estylo remoçou 
embelleiando-a \ a pintura resae tão rica e natural 

3ue assistimos em espirito ás vicissitudes e tormentos 
o naufrágio, enlaçados em episódios successivos os 
pallidos sustos, a anciosa luta, e a alternativa da es- 
perança para a morte até, arquejando desarvorado, 
se inclinar o navio ás ondas, sepultaodo-se com mil 
agonias conglobadas em um siS grito. 

A ode á Fortuna, reminiscência de Rousseau e de 
outros poetas, mal resgata afriesa do logar commum 
que atavia, e parece-nos inferior á elegância, que 
atenua em parte os defeitos censurados ao lyrico 
fraucex. Mas o hymno mA^ Virgem'* aonde pensa- 
mentos, figuras e metros nãotéem que invejar aos 
mais louvados, vinga depressa os momentâneos ecli- 
pses doestas composições. No exórdio fulgura um cla- 
rão de Milton, e a magestade lembra o Dante : 

Além do firmamento, além do espaço^ 
Q.ue por lei summa^ franqueara o seio 
A mundos sem medida, a s^ sem conto 

Im movei tbrono assonui : 
De um lado e de outro lado é todo estrellas. 
Vence ao diamante a consistência, o lume; 
Absortos cortezãos o incensam curvos, 
Tem por baze e docel a eternidade. 

N^esta poesia inspirada, em que circula o espiri- 
tualismo, a vehemencia cresce com o assumpto, e o 
enthusiasmo sobe de estrophe em estrophe. Leves nó- 
doas, em um ou outro verso, alguns epithetos im- 
próprios destoando, nao assombram as bellesas, nem 
diminuem o ardor da commoção. £is como acaba : 

Salve, oh l salve^ im mortal, serena Diva, 
Do Nume occulto incombustivel çarça, 
Rosa de Jerichó por Deus disposta ! 

Flor ante quero se humilham 
Os cedros de que o Líbano alardéa I 
Ah i No teu grémio puro amima os votos 
Aos mortaes de que és mãe : seu pranto enxugue. 
Seus males abonance um teu sorriso. 

Q.ue doce e consoladora supplica á mãe de Deus e 
dos homens ! Aquella que nos próprios martyrios co- 
nheceu o amargoso fel do infortúnio f Gtue visão sua- 
ve a d a -Virgem subjugando pelo amor as soberbas da 
tentação, e acolhendo piedosa as lagrimas dos que- 



o PjkHORAMA. 



35 



RA06 dos nouM poetas comprebeoderaro aanm a 
miua religiosa^ oa aentiram paasar-lhe pelo coraçSo 
este 8Ópro<| que estremece sempre qae entoa um hy m* 
no a Deus. Bocage adora - e crê ^ pinta os diversos 
temores do coraçSo. No soneto, na elegia, ou na 
ode, quando cala a apotheose dos sentidos, e applaca 
a desesperação dos selos, para vir ajoelhar-se aos pés 
da crus, não é o calculo, nem a arte, é a mais pro- 
funda fe, quem se eleva dos seus lábios. E^e bo- 
mem consumido de desejos e paixões, que o orgu- 
lho dos applausos devorava, comprimia a consciên- 
cia para fingir a impiedade. Ektaalma engolphada 
em deleites sensuaes, escrava do mundo e da vai- 
dade, hypocrita de erros e de crimes, que detestava, 
como outros figuram as virtudes, rompendo o capti- 
veíro, e prostrando-se deante do altar, adivinhava a 
unção e a melodia cathoHca de Chateaubriand e La- 
martine, como parecia feita para antever a ironia 
pungente de Byron, e a opulência da matizada es- 
tropbe de Hugo. 

Entretanto (é forçoso d ízel-o) se parece demasiado 
severa a opinião de um distincto censor, coUocando 
Bocage no ultimo logar como poeta lyrico, nSo pô- 
de contestar-se que ficou longe dos bons modelos, ri- 
valisando apenas em uma ou outra pagina com as 
perfeições elogiadas nas odes de Diniz e de Pbilinto. 
O canto heróico não o favoreceu ; e como advertimos, 
as catastropbes dos dias agitados da revolução fran- 
cesa, soberbo thema para a magnificência do estro, 
passaram pela iyra e rara vez acordaram as suas vozes. 

Correndo-se a collecção mal se encontra poema, 
que recorde a elevação tão sublime em Francisca 
Manuel, quando entre esplendores a gloria lhe des- 
ponta com o vulto de Albuquerque, ou o enthusias- 
mo accommette o assumpto dos Novos Gamas. Na 
imitação romana Bocage desce deante da graça cor- 
recta e sóbria do Garção ! Na elegância e variedade 
está distante do traductor 4^ Oberon ! Faltava-lhe 
o que distingue osdous familiares de Horácio, o gos- 
to apurado pela lição do original latino. Lutava além 
d^isso a Índole com a reflexão dos primores clássicos. 
Infundia-se-lhe pouco do perfume e do saber do ini- 
mitável lyrico de Augusto. 

Nas anacreonticas o passo vae mais livre, c os re- 

3uebros de amoroso jubilo casam-se com a melodia 
o verso, e com os risos da imaginação : e n^esta 
parte assim mesmo Elmano não compete com o Di- 
nis. Somente admira quanto a alento pindarico, que 
a leitura de Lebron, então popular, e o estudo de 
João Baptista Rousseau, lhe não illuminassem mais 
o talento, quando em outras manifestações disputa 
a primazia, e não empallidece na presença das dos 
emolos. 

As canções, aonde o génio de Camões, e de gran- 
des vates, derramou tanta sensibilidade, sentimento 
e gentileza, em Manuel Maria também quasi nada 
se levantam. Tirados os bellos versos, e estes eram 
para elle esforço fácil, e algumas expressões com ac- 
cento lyrico, o geral do canto é pobre, surdo á voz 
sincera dos fortes efieitos, e moldado pelas exagera- 
ções de um estylo mais estudado do que verdadeira- 
mente imaginoso. O uso desmedido da allegoria, e 
o emprego das machinas mythologicas, aonde o pai- 
nel não admittia senão a eloquência da alma e o co« 
lorido da natureza, esfriam o interesse e dissipam o 
que ha de agradável n^essas obras poucas e breves por 
felicidade da fama do auctor. 

O DeUrío Amoroto e o Gume (11 e IV) revelando 
a inexperiência dos annos, em que foram escriptas, 
já deixara escapar comtudo diversos traços que de- 
nunciam o ^edo do futuro poeta. O apaixonado can- 
tor dot selos, já d^ali indica 'o sea vigor. 



Os Canto§ á Conceito da Senhora, pela nobreza, 
pela contricção, e pela riqueza dos pensamentos e or- 
natos, lutam com os modelos recentes mais applau- 
didos, se os não excedem. Logo' na invocação, o 
poeta do primeiro impulso mede a distancia, que ha 
do céu á terra, despindo as purpuras e os adornos 
profanos do paganismo. E nas azas refulgentes do 
cberubim da fé, que a radiosa inspiração ascende : e 
tão alto se remonta, que parece fugirem lhe da vis- 
ta os horisontes humanos. Extático e deslumbrado 
inclina-se á visão da suprema e adorável formosura 
da Virgem de Israel ^ e a cythara de David, como 
despertando, levanta estas harmonias : 

Profana lyra, a molles sons affeita. 

Vil instrumento, minha mão te engeita : 

Caducas perfeições, servis amores. 

Não mais, não maculeis os meus louvores. 

Tu doce chamma, angélica ternura, 

Q*ue o Creador envia á creatura. 

Oh dadiva celeste, oh dom do Immenso, 

Com que atterrâmos Satanaz infenso. 

Baixa dos céus, e purifica esta alma. 

Assim resôa a voz do Dante, quando o celeste cla- 
rão lhe vem dourar a fronte. Doeste modo subia ao 
empyreo entre o incenso da oração, e perfumando a 
alma, o hymno doa prôphetas, e dos solitários nas 
grandes idades do mundo, e no maior dos séculos da 
Igreja ! Aqui, sim, existe não a forma, mas o ser, 
e a divina agitação da ode ! É o coração fremente, é 
o espirito ancioso, é a com moção em transporte, e 
não a arte, quem adora e canta. 

Manzoni, dos poetas actuaes, aquelle que respira 
mais sentimento religioso, apar de Lamartine, na 
Saudação ao nome de Maria, apresenta na deducção 
dos movimentos e no geral da veia lyrica incontes- 
tável superioridade, sobre tudo pela correcção do 
cântico \ mas em compensação faltam-lhe os repen- 
tes inspirados, qáe de curto em curto espaço fuzilam 
da crença inílammada de Bocage. Ha maior doçura 
e maior ternura espiritual no italiano \ as suas preces 
afinam^^e por um tom suave e desabrocham da sere» 
nidade da alma ; roas não as aquece também aquelle 
fogo intimo, que dão á musa catholica de Bocage a 
contricção e a eloquência. Em Manzoni a harpa 
maviosa suspira estas estrophes : 

NMle paúre delia veglia bruna 

Te noma ii fanciulletto \ a Te tremante 

GLuando ingrossa rugendo la fortuna, 

Ricorre il« navegante. 
La femminetta nel tuo sen regale 
La sua spregiata lagrima depone, 
E a Te, beata, delia sua immortale 

Alma gli affani espone; 
A Te, che i preghi asculti e le querele 
Non come suole il mondo, ne degPimi 
E dei grandi il dolor col suo crudele 
Descem 1 mento estimi. 

l 
Elmano não matiza o hymno com tanta varieda- 
de de toques, mas em partes disfere o vôo ás maio- 
res alturas épicas. No segundo canto a pintura do 
abysmo, aonde mora a eterna dor, d^onde a esperan- 
ça fugiu para sempre, recorda na concisão o som- 
brio desenho da Divina Comedia. A perÀ)niôcação 
dos vicios e peccados, que rodeam em pavorosa confu- 
são 

O praguejado throno ao rei das sombras ! . 



• da um vigoroso pinctl : ali 



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Vjoogie 



36 



O ^ANORAJMA. 



A negra Inveja, qae alarido arranca 

Das carcomidas faaces ! 
Veneno em borbotões, lagrimas saas, 
O carão, côr da noute, ao monstro escalda ! 
A Desesperação lhe jas ao lado, 
£ no raivoso coração lhe enterra 
De quando em quando as lacerantes garras* 

Do throno, cujos degraus de ferro ardente povoam 
as indómitas fúrias das paixões, Satan rebelde, le- 
vanta o orgulho contra a pesada pena, que o pnne \ 
e e da sua boca assim fervendo em ira que rebenta 
constrangido o louvor d^aquella que lhe firmou a 
planta sobre a cerviz, encadeando-o aos pà da cruz,' 
escravo do Messias. 

Exceptuados pequenos descuidos, as audácias feli- 
zes abundam n^este poema, aonde a invenção e a 
forma se libertam dos moldes ordinários! N^estas 
paginas, bem como em varias outras, vislumbram 
aquelles assomos de originalidade creadora, que mui- 
tos negam a Manuel Maria, eque o desleixo, emais 
do que tudo, a falta de tranquillidade intellectual, 
lhe esterilísaram durante a sua breve e amargurada 
carreira. 

(Contínua.) 

L. A. RSBELLO DA SlLVA. 



SANSÃO NA VINGANÇA 1 

(1850) 

E sacudindo (SaniXo) com grande 
forqa as columnaf caiu a cata sobre 
todos os prindpef, e lobre todo o 
povo que estava n^ella; e foram moi- 
tot mais OS que matou morresdo, do 
que os que matara antes quando vivo'. 
JvisBs, cap^ XVI, V. 30w 



A o&rTA Ds Camões. 

O LEITOR, que teve a bondade de acompanhar-nos 
na contemplação exterior de Macau, que penetrou 
mesmo coronosco até á Baixa do Monte, e não te- 
meu' perder-se na confusão do bazar, ha de certa- 
mente ter desejos de ser guiado para o mais poético 
sitio da cidadci) único ob),eeto que o estrangeiro é 
obrigado j por assim dizer, a visitar em Macau, lu- 
gar delicioso, não s6 na Chiua, mas em qualquer 
parte do mundo onde estivesse collocado, a gruta de 
Camões. 

Para chegar a este Éden, que campêa junto a 
uma das portas da cidade, atra vessam-se algumas das 
melhores ruas da povoação *, vêem-se casas de bella 
apparencia, imitando as que já observamos na Praia 
Grande ; igrejas aceiadas, porém despidas de orna- 
tos architectonicos \ e poucas lojas de insignificante 
valor. O que entretém mais o viajante n^este tran- 
sito, é a diversidade de raças humanas que encon- 
tra, e o seu variadissimo trajo. O europeu, geral- 
mente fallando, não se veste ali como em uma ci- 
dade de oeste ; usa jaqueta branca ou tcmUau-bitr^ 
que de phantasia, chapéu de cortiça forrado de seda, 
uma fita por lenço do pescoço, sapatos em vez de 
botins^ na extravagância do trajo avantajam-se sem- 
pre os ingleses, como era de suppôr. Além doestes 
encontra-se o malaio cobreado, o siamês pequeno e 
pardo, o japonez mais pequeno ainda, o chim de 



Tarias cores, mas d^aqueile eterno typo qoe ne- 
nhum leitor desconhece, os nativos de Macao, mes- 
da de europeu, chim e malaio, que ou são padres 
ott calafates^ poucos marinheiros, e o resto vadios \ 
nhonbas de saráça, chinas de pé quebrado, qaasi pé 
de cabra, mal podendo snster-se sobre elles, e algu- 
mas senhoras earopeas, americanas ou nativas, que 
trajam pelo figurino de Paris do anno anterior. 

Estamos chegados ao campo de S. António; além 
está a porta da cidade, o cemitério inglei, o thea- 
tro em ruinas, e finalmente o pórtico de uma bella 
quinta; a entrada é livre, passemos; é aqui dentro 
que está a gruta, onde a tradição diz que o nosso 
immortal poeta compôs uma grande parte dos Lu- 
siadas. 

O meu amigo Caldeira acha com rasio muito sí- 
milhante esta quinta á de Penha Verde em Cintra. 
Lindas ruas de copado arvoredo, serpenteando em 
volta de uma montanha, e ladeadas por enormes 
massas de granito, d^entre as fendas das quaes sur- 
gem bellas arvores, não sé das espécies chinesas, mas 
de Java, das Fillipinas, da índia e da península 
malaia, tal é o caminho que conduz o viajante ao 
pincaro de um monte, sobranceiro á povoação chi- 
nesa de Patane e ao rio, onde está a procurada ctu- 
U de Camões. ^ 

£il-a, dous Foehedos quasi perpendiculares e pró- 
ximos um do outro, sustentam um terceiro, que ser- 
ve de tecto á gruta. As entradas doeste recinto, que 
devera ser sagrado, a acreditar-se que o grande can- 
tor ahi pousou alguma ves (do que não ha memoria 
escripta) estão fechados por gradarias de pau, e as 
suas paredes caiadas ! Lá dentro vé-se o busto de 
Camões, de côr bronzeada, e tirado em greda por 
artistas chineses : está assente sobre um pedestal tos- 
co^ onde se lé o nome do poeta, e as datas prová- 
veis do seu nascimento e morte, bem como seis oi- 
tavas dos Lusíadas. Da parte do occidente tem um 
pórtico coroado por vários emblemas, taes como a 
Ijrra, o escudo, o capacete, a nau antiga, a trombe- 
ta da £sma, a avena, a ooróa de poeta, etc.^ e em 
volta do arco os seguintes caracteres chins collocados 
por esta forma : 



^ 



± * t 



li 



4 



€ 



A 

m 



As três letras do meio dizem : O uMo por exeel- 
iencia ; nas columnas dos lados trados-se : jh çtcolí- 
dadet do e^dnio e do. corcição o eievaram acima da 



a PANORAMA. 



37 



motor parle do» homem* 0$ UtUraioê loòibi o hon- 
raram e veneraram^ moã a.invefa o roAmu á mi- 
teria, Seui mhSmes vcnoê etíSo etpalhadot por iodo 
o mundo. EãU monumenio foi erigido para perpe^ 
iuar a tua memoria. 

Não encontrAniM peaioa algona n^cstas poéticas 
raas que vimos de percorrer oom o leitor ^ ao chegar 
por^m á gruta devisámoa um mancebo, vestido, com 
o uniforme da marinha de guerra portugueiai que 
escreve na parede caiada estes versos do nosso Her- 
culano : 

£ tSo doce esta vaga saudade 
Na soidâo das montanhas colhida. 
Para quem entre mil tempestades 
Transitou pelos campos da vida l 

£ logo uma mulher formosa e elegantemente tra- 
jada á europâa, que pisando de leve sobre as folhas 
soltas da avenida, chega ao pé do mancebo, sem ser 
presentida, e o surprehende agradavelmente lendo em 
vos alta o primeiro verso. 

— u £ugeDÍa ! » exclamou o joven, vpltando-se de 
repente \ e segurando as mios da encantadora mu- 
lher, beijou -as repetidas veses. 

— u Continue, Osório ; sSo tSo lindos esses versos, 
que já sinto havel-o interrompido, n 

— aOh ! não, essa poesia não me. pertence; é de 
um amigo e mestre de náè todos os que presâmos as 
letras era Portugal. Mas não se trata agora d^isso. 
Vejo-a, £ugenia, e a harmonia doesse todo, que fi- 
lera esqueoer-se da sua Natércia o homem que ge* 
meu n^esta grota, tem para mim mais poesia do que 
todos os cantos dos poetas, ou mesmo os cânticos dos 
anjos. » 

T— uNada de exagerações! Sabe que o estimo 
muito ... oh ! muito ! porém não desconhece que a 
minha posição na bociedade me impõe deveres, w 

— ^uTuájoven, bella, encantadora ... e teu ma- 
rido não te ama ! » 

— -icOlha, Luís, conheço bem o teu amor, e sei 
que és um moço honrado ; confio-me de ti, e vou 
fazer-te uma confissão ingénua dos meus sentimen* 
tos ^ diser-te o que tens a esperar de mim, desenga- 
nar-te. w 

— a Oh ! tu és uma santa !...»» 

— c«Mas tu queres íaier-me peccadora. Escota. 
Murray é uma excellente pessoa, muito meu amigo. . . 
e que o não fosse, é meu marido, e hei de guardar- 
Ihe aquella fidelidade que a mulher pode guardar. . . 
do coração sé Deus dispõe, n 

— « Então, o teu coração é meu ? » 

— u Sim *, o meu coração, os meus pensamentos, 
pertencem-te ; não sobrevivirei á tua perda . . • po- 
rém tenho um esposo. . . n 

— M Embora \ sou muito felis ! f> 

— u Ainda me resta que diser. Todos desconfiam 
da nossa intjmidade, e nos apontam ao dedo nos bai- 
les, nos passeios, até na igreja ; tu sabes que as mu- 
lheres, principalmente as feias, são implacáveis, e 
então nas terras pequenas, aonde tudo se sabe ; é 
mister pois afiutarmo-nos. n 

— M Afastarmo-nos ? Pois não o estamos bastan- 
te !.. . £ntão que me resta í n 

— uO meu amor, o meu coração, os meus pensa- 
mentos, já te disse ; mas é necessário que um ho- 
mem pBobo e leal como é James Murray, não soffra 
na sua reputação pela leviandade de uma mulher, 
que tem obrigação de honrar o nome, qne é tam- 
bém o seu. £ tu que meamas... muito, nãooduvi- 
do \ quererias ver manchado o nome da tua amante ? n 



— M Tanto como a mim \ a resignação • . • mesmo 
a esperança, n 

— a A esperança ! oh I essa idéa áeduz-me ! £ se 
ea me conservar por muito tempo na China ? n 

— u Estarei aqui. . . n 

— m£ se partir para Lisboa?» 

— tf Chegarei lá antes de ti.'> 

— tf Terei resignação ^ sofrerei tudo o que quise- 
res \ dis-me o que hei de £uer í n 

— tf É preciso frequentares menos a Praia Gran- 
de, não ires ao templo interromper as minhas ora- 
çdes, não me seguires quando vou passear a cavallo 
fora da porta do Cerco, e visitar-me, o muito, uma 
ves por semana, n 

— tf Bem: não tornarei a desembarcar senão no 
cães da alfandega^ sé ouvirei a missa docapellãode 
bordo \ poucas veses voltarei a terra, porque Ma- 
can não tem outro.passeio senão essa estrada do cam- 
po, que custou a vida a quem a mandou abrir ; eso* 
bre tudo contarei bem os dias, para sé de sete em 
sete te visitar. Sou obediente?» 

O mancebo fingia que estava risonho, mas viu que 
Eugenia tinha os olhos húmidos de lagrimas, e não 
poude suster as suas \ abraçaram*se, deram o primei- 
ro e ultimo beijo . . . d*esses beijos que, após muitos 
annos de tormentos e decepções, parece que ainda es- 
caldam os lábios . . , e £ogenia, soluçando, corren 
pela avenida, e desappareceu á vista do mancebo por 
entre o copado arvoredo d^aquellas formosas ruas. 

Osório ficou um momento estático, todo concen- 
trado na felicidade do momento que passara, como 
que alheio ao presente ^ quando porém voltou a si 
e não encontrou Eugenia, sé se lembrou de a pro- 
curar, de tornar a vel-a immediataniente, esquecen- 
do todas as promessas que pouco antes fiitera. 

Desceu apressado o caminho em espiral que oon* 
dos á porta, e quando transponha os cancellos via 
ainda a sumir-se por detrás da igreja de Santo Antó- 
nio a cadeirinha de £ogenia, condusida por dons 
chins. . • Não tinham de se encontrar mais na terra ! 



— tf Mas que me resta . . 
tefn 



> que me resta? A mor^ 







fOmim<ía,) 




F. 


M. Bordalo. 




Anno bom. 






I. 




Hoix, é hora bemfadada 

A hora da meia noute. 

Como flor, que ao duro açoute 

Do tufão, meio tombada, 

Toma a si de madrugada \ ' 

Remoça a vida cançada. 



Na encendida phantasia, 
Pinta-se mago horisonte \ 
£ a esperança, lá, defronte. 
Como sol, em claro dia. 
Brilhante lus irradia. 
De ditosa propheda. 

N^esta hora, todos são 
Obreiros d^immensa mina \ 
Sé, ás leis da própria sina. 
Sujeitos na exploração : 
Mil raios, que a um centro vão^ 
Por mil modos— amí ' ~ 



íifíiiedby Google 



5$ 



O PAIfORAMA. 



Q.aemy se o peito trai rendido, 

£ni amorosa procella ; 
Qiiial, DO mar perdida "véla, 
Vendo o porto appetecido ', 
No futuro, não ha lido, 
O desejo seu cumprido? 

Q>ual, se anhella os dons da fama 
Por coroa do seu lidar \ 
Aberto^ de par em par, 
Vé o templo, vè a chamma, 
6lue ethereo fogo derrama, 
E seu nome alto proclama. 

Este, em vasto, urdido plano, 
Interesses conta, regula, 
E montes dVuro accumula. 
6lual medita novo engano, 
E prepara, deshumano. 
Vingança, em alheio damno. 

Um, na cúpula celeste. 
Engasta nova saphyra; 
A cadente, ebúrnea lyra, 
Outro, d^almos sons reveste : 
E gelo polar investe, 
Longe terra, explora este. 

Q^ual, no filho estremecido, 
Na obra do seu querer, 
Vé novos dotes crescer. 
Seu nome reproduzido, 
Em doce eeho, bem querido, 
6tue lhe bafeja o ouvido, 

II. 

Hoje, é hora bemfadada, 
Da meia noute o bater. 
Quem receios ha de ter. 
Se maus encontros na estrada. 
Nem bruxas, na encruzilhada, 
Nem feitiços, não ha nada? 

6lue se quebre o seu encanto 
Espera a moura encantada ; 
£ donsella namorada, 
Enxugar o triste pranto, 
E curar-se de quebranto, 
Por milagre do seu santo. 

A meia noute a bater, 
O anno bom começando, 
E todos mercês cuidando ! 
Até a bruxa ha de ver 
A creancinha a nascer. 
Para o sangue lhe sorver. 

E o lobishomem, que o fado 
Obrigou, por avarento, 
A tornar-se n^uro jumento \ 
Vê o fato seu, deixado 
Ao sair do povoado. 
Já do avesso mudado. 

lII. 

Vé a velha presomícfa 
Novos cremes, patchouUsy 
Cabelleiras e rUryt, 
Vé a coqueU sarrida, 
Via Iflotea indefinkk, 
De seus galãs esottlptda. 



A beata, no rosário 

Conta ias missas,- procissões, 

Jubilcras, círios, sermões. 

Vé juros o usurário. 

Postos o revolucionário, 

O padre ', • . doces no armário. 

Nas guerras do Oriente, 
Forma seu juiio critico, 
' Vé triumphos o politico. 
Um a russa, amada gente, 
£il-o abraça de contente, 
E a turcos vira o dente ^ 

Vendo já, por toda a terra, 
6luaes, por festa, as espadanas. 
Chover águias russianas. 
u Livre monstro, era crua guerra. 
Arda agora ! 99 disse, berra, 
Mette a pique a Inglaterra. 

Outro, arranca, ao braço enfia. 
As coroas de todo mundo : 
Reis, rainhas vão ao fundo. 
Em republica harmonia. 
Une os povos á porfia, 
E desterra a monarchia. 

E noviço deputado. 
As coroas da ovação, 
Vé na próxima sessão. 
Vé o pingaf prolongado 
O subsidio almejado ; 
Vé pculas^ o mais ousado. 

E ministro, d^antes lhano. 
Da justiça defendeu te ; 
( 6tue ora, ao triste pretendente. 
Rala a paciência um anno, 
86 para ver do novo Jano, 
Fero rosto deshumano) ; 

Vé, qual área de Noé, 
Sobre as aguas do diluvio. 
Em eterno plenilúnio. 
Seu poder, alto, de pé; 
Cantado em alamiré. 
Desde o pdlo á Santa Sé. 

Sé venturas hoje deu, 
A todos o anno bom. 
D^empregados — Osòrton, 
O agiota — judeu •, 
Até esse — appello eu ! 
Vê aircuoty por bem seu. 

E já lucros augmentados. 
Nas mil cédulas, recibos ; 
Q,ue —« tristes, humildes chibos, 
Em sacrifieio levados ; 
A^ mingua deixam — coitados ! 
Os captivos empregados. . . 

IV. 



Meia noute que resda, 
.Vél*o andado, uma unidade, 
O cursor da eternidade. 
Passado, presente véa ; 
E vot do futuro ech^. 
No brev* inrtaDt^.gtjffe^, 



Google 



o PANORAMA. 



39 



Ctual a corTB indefinida 
De cumiada di&tante, 
Como tinta cambiante, 
6tae na onda colorida, 
A nm tempo confundida, 
Tem a morte, tem a vida. 

Oh ! nos olhos d^alma entSo, 
Reflectem verde florir, 
As campinas do porvir : 
Dons de magica visSo ; 
Gtue vistos por todos sko, 
QLoe bem poucos gosarSo. 

Afiara, 31 de dezembro de 1853. 

J. DA Costa Cascaks. 



ESBOCKTOS DA VIDA MILITAR. 
III. 

Peneveranga» 

É MO decurso da vida, semeada de gosos e de sofiri- 
mentos, que a perseverança, esta virtude heróica, 
vem prestar-nos salutar égide : realisa os design ios 
mais espinhosos^ reanima os espirites no meio das 
fadigas e das empresas mais laboriosas ; fortifica a 
constância na luta com a adversidade : s6 para o in- 
dolente é que ella não tem valia ^ dorme o pesado 
somno da indiflerença *, e por lhe faltar o valor pre- 
ciso lá se despenha em total abandono. Na verdade 
o que não sente o fogo d^uma nobre ambição, ou o 
influxo de generoso incitamento, não vive \ 8<$mente 
vegeta, mas sem desejos, sem a menor inspiração, 
habituado ao jogo estúpido diurna vã mobilidade. 

As artes e as sciencias, tanto moraes, como physicas 
na cadeia prodigiosa das suas producçoes, olham a 
perseverança, como a sua oolumna inabalável, coroo 
o seu poderoso talisman. Com effeito, se os vestígios 
incertos do homem, encetando a vereda do saber, 
não fossem dirigidos por essa radiosa luz, a nobre 
inspiração pela gloria e pela immortalidade, que ao 
passo que esclarece, electrisa o espirito, debalde ten- 
taria superar o elevado coroe em que a sciencia re- 
pousa, quando o caminho que a ella nos conduz é 
costa arriba, fragoso, semeado de embaraços, erriça- 
do de difficuldades, que é mister vencer coro ener- 
gia e decisão ; aliás terá o homem por menos reso- 
luto de passar pelo supplicio da incerteza e da hesi- 
tação, que attenuani o génio e constrangem as me- 
lhores inspirações. 

Um hábil artista, que ao génio ajunta iiffatigavel 
ardor, vendo-se coroado pelo successo dos seus esfor- 
ços, é o senhor, é o rei dà sua obra \ sobre ella ím- 
pêra. Sem duvida a perseverança immudavel tudo 
pode. Primeiro que um pedaço de mármore se trans- 
formasse n^um ApoUo de Belveder, saindo com per- 
feição eximia das mãos do abalisado artista ; que a 
transfiguração, filha do pincel do grande Homero da 
pintura, Raphael Sansio, avultasse entre as maravi- 
lhas da arte; que um Sequeira fizesse a admiração 
de Roma ; que o génio de um Pergolese, de um 
Rossini fiasse desprender os encantos da harmonia, 
e os magos sons da lyra de Euterpe; prínwira que 
um Newton descobrisse as maravilhosas^ leis da at- 
tracção no sjrstema do universo ; que um Vauban, 
o grande transumpto, o iypo respeitável na arte da 
guerra, deixasse padrões indeléveis do seu profundo 



saber e trabalho; finalmente que um Turenne, • 
um Conde se immortalisassem na arte de comman- 
dar os exércitos, suceederam na sua carreira bri- 
lhante a dias de estudos, dias de experiências e de 
laboriosas lidas. Todos perseveraram no prosegui* 
mento das soas fadigas artísticas e lítterarias ; to- 
dos sacrificaram a mobilidade dos seus desejos, e tal- 
vez os desvios de uma imaginação fogosa e arrojada 
a um mdhor sentir para o feliz acabamento das 
suas obras. — Omnia labor t;tncft — tudo cede aos 
longos trabalhos. 

Não se nutre a virtude do deseanço ; 

(diz o nosso Boileau) 
Árduas emprezas, ríspidos trabalhos. 
Em nobre coração d^mmortal gloria 

Accendem claro lume. 

A perseverança é necessária em todas as profis- 
sões ou estados da vida social ; e tanto mais se acri- 
sola esta virtude, quanto mais numerosos e difficeis 
são os obstáculos que a combatem. Ora o estado mi- 
litar deixa ver um contraste bem sensivel com to- 
das as partes, ou classes da sociedade ; certamente 
n''esta profissão o corso da vida é cheio de mais acti- 
vidade e de mais accidentes, e sobmettido a uma in- 
fluencia muito mab poderosa dos caprichos da for- 
tuna. 

A perseverança em relação á vida militar apre- 
senta-se debaixo de dous aspectos ;' já no prosegui- 
mento e alcance da sciencia e conhecimentos preci- 
sos, fazendo com que a pericia nas armas appareça 
sempre a par do exaltado patriotismo ; já em^ rela- 
ção com o estado moral da mesma profissão. £ n^es- 
te sentido ou segunda referencia, que versa o pre- 
sente bosquejo. 

A vida das armas oíTerece, mais que nenhuma das 
outras,- grandes e não poucas difficuldades a vencer, 
e não menor numero de sacrificios, que é mister 
tolerar com provado valor e decisão. Na verdade 
expõe aquelle que lhe consagra os seus dias a inci- 
dentes ou conjuncturas assaz penosas, e quasi sem- 
pre i^ievitaveis, attentos os laços de familia e de 
amísade em contemplação dos interesses que pode 
trazer um estado feliz. Mas a cansa que mais con- 
tribue para que appareçam na ,vida militar frequen- 
tes razões de desalento e de afrouxado serviço, pren- 
de essencialmente com a iionra, com o amor pró- 
prio, e com o desejo da gloria, por inspirarem estes 
sentimentos nobres a esperança de futuras recom- 
pensas na escala das promoções ^ sim, a comparação 
que qualquer faz da sua má estrella com a felicida- 
de de um outro, .é quasi sempre acompanhada de 
desgosto e de descorçoamento. E sem duvida n^es- 
ta carreira militar que assas nos surprehendem de- 
sapercebidos as elevações rápidas, que apresentam 
em curto espaço de tempo grandes distancias entre 
aquelles que marcham nivelados na mesma linha. 
Não criticámos nem a epocha nem as cousas ; em 
todos os tempos têem havido injustiças e patrona- 
tos^ os homens, dadas as mesmas circo mstancias, 
são sempre os mesmos. 

O militar que ama sinceramente « seu paiz, não 
deve olhar jamais a vida das armas como um meid 
de chegar a certo termo, ou a fins absolutamente 
tranhos ao seu estado» O exercito, ou o corpo a 
que pertença, não será para elle o ultimo dos seus 
pensamentos \ mas antes oocupará no sen espirito o 
primeiro e principal logar, importará um verdadei- 
ro centro de unidade para onde faça convergir to- 
das as suas affisições, hábitos e esperanças. O homem 
que for essencialmente militar. 



^^hi^z^fníim^ie 



40 



O PANORAMA. 



rem reaet e de reconhecido Valor, nio fai das armas 
que lhe são confiadas escala de ambições, nem olha 
a sua carreira como fonte inexhaariYel de gosos e 
vlos caprichos. Este é sem contradicçSo uma pessoa 
sobremaneira útil ao exercito, vivendo sempre com 
o soldado, estuda-lhe o seu espirito, conhece-lhe o 
seu caracter, precisões e hábitos ; e por conse^inte 
sabe a maneira de bem se condutir, nSo desmentiu* 
do jamais o seu comportamento, quer no remanso 
da paz, quer no meio do estrépito das armas \ habi- 
tuado a partilhar com o soldado todas as eventua- 
lidades e sacrifícios, sabe também adquirir aquella 
philosophia que s6 pode caracterisar o verdadeiro 
cabo de guerra. 

Uma boa lei de promoções, e de recompensas 
muito concorre para faser nascer, e arreigar estas 
bellas inspirações e conducta \ importa a alma dos 
exércitos, mantém a dignidade militar, e restaura a 
ordem e a disciplina, formando os bons militares. 
Sâo estas as nossas ideas, e as mesmas que envolvi- 
das com outros objectos annunciámos já na Revista 
Militar. A gloria deverá ser olhada como a única 
ambição do militar, sem duvida a mais apreciável 
das compensações por todas as fadigas e arriscados 
trances*, por ella renuncia a todos os praseres e do- 
çuras dos lares domésticos, preferindo uma existen* 
cia inquieta, agitada, e a todo o passo cheia de pe- 
rigos e de privações. Cumpre por tanto, em vista do 
eterno principio de justiça — nAum euique — combi- 
nar os diversos direitos *, recompensar o selo e a du- 
ração dos serviços, dependendo assim o direito que 
todo o militar tem ao seu accesso,'não nó da anti- 
guidade ; roas da livre escolha em contemplação do 
seu mérito, isto é, da sua intelligencía, e comprova- 
da capacidade. Certamente a profissão da^ armas 
(distincta pelas paixões preclaras e magnânimas que 
em epochas gloriosas tem feito brotar • do seu seio) 
alimenta-se com os sentimentos de nobre emulação, 
e com. a esperança de um melhor futuro, que inspi- 
ram a coragem e a perseverança. 

J. C. DA Silva. 



OníftlV ALIDADE DA HAVXGAÇÃO DO OGKAVO ATLÂN- 
TICO SXPTXIITBIO]! AL, E DO OXS COBRI BfXK TO DX 
SUAS ILHAS PELOS POBTUttVEZXS XO .SÉCULO XV. 

IV. 

Desde fins do século Í6.^ tem muitos escriptores na- 
cionaes e estrangeiros tomado d* um nosso chronista 
a noticia de termos achado, quando descobrimos a 
ilha do Corvo, a menor e a mais septentrional das 
ilhas dos Açores, uma estatua equestre, talhada em 
pedra e saindo maciça d^uma lagea, sobre a rocha 
noroeste d^aquella ilha. 

Grande escuridade e incerteza ha sobre as circum- 
stancias, que acompanharam o descobrimento de to- 
das as ilhas dos Açores, porque nenhum documento 
até hoje conhecido, nenhum escriptor contemporâ- 
neo, nol-as transmitte. Da ilha do Corvo apenas se 
aabe que estava descoberta em l452, porque ha na 
chancellaria dM-rei D. Affonso V carta de doação 
dVUa ao duque de Bragança, conde de BarceDos. 
D. Afibnso, tio do mesmo rei, datada de 20 de ja- 
neiro de 1453, onde nem se faz menção de quem a des- 
cobrira, nem do anno em que fdra achada. N^outra 
memoria particularisaremos as razões que nos levam 
a crer, que os descobridores, tanto dVsta ilba como 
da ilha das Flores, foram Diogo deTeivç e seu filho 
João de Teive. 



Só mais d^um século depois é que *um chronuta 
português fallou do achado d^uma estatua equestre 
na ilha do Corvo. Referimo-noa a Damião de Groes, 
que na ehronica do prineipe D. João (depois rei 
D. João n) porelle publicada emlÀsboa em 1567, 
a fl. 9 V., col. 1.^ e segg., tratando d^aquella ilha, 
escreve : — u Hos mareantes lhe chamam ilha do mar- 
quo-, porque com elhi Qx>r ter hfia serra alta) sede« 
marqã, quando vã demandar qualquer das outras. 
No cume doesta serra, da parte do noroeste, se achou 
hiia statua de pedra posta sobre hfia lagea, que era 
hfi home encima de hú cauallo em osso, e ho home 
vestido de hiia capa quomo bedem, sem barrete, 
com hfia mão na coma do cavallo, e o braço direito 
stendido, e hos dedos da mão encolhidos, salvo o de- 
do segundo a que os Latinos chamam index, com que 
apontava para ho ponête. Esta imagem que toda sa- 
bia maciça da mesma lagea mãdou elRey dom Ema- 
nuel tirar pelo natural por hum seu criado debuxa- 
dor, que se chamava Duarte darmas, e depois que 
vio ho debuxo, mãdou hum homÕ engenhoso natu- 
ral da cidade do Porto, que andara muito em Fran- 
ça e Itália, que fosse a esta ilha pêra cõ aparelhos 
que leuou, tirar aquella antigualha, ho qual quãdo 
d'elia tornou dixe a el Rey que ha achara desfeita 
de bua tormenta quefezera ho ínuerno passado. Mas 
ha verdade foi que a quebrara per máo aio, e trou- 
xerão pedaços d^ella . s . a cabeça do homã, e ho 
braço direito cÕ a mão e hfia perna, e ha cabeça do 
cauallo, e hfia mão que staua dobrada e aleuãtada, 
e hfi pedaço de bua perna, ho que tudo steoe na 
guarda roupa dei Re^ algfis dias^ mas ho que se de- 
pois fes destas cousas, ou onde se puseram eu nam 
ho pude saber. Esta ilha do Coruo, e santamtam 
foram de Joam da fonseca, scriuam da fazenda dei 
Rey dom Emanuel, e delle has herdou seu filho Pê- 
ro da fonseca, scriuão da chancelaria do mesmo Rey, 
e dei Rey dom Joam terceiro seu filho, ho qual Pê- 
ro da fonseca no Anno de MilDXXIX, has foi ver, 
e soube dos moradores que na rocha, abaxo donde 
steuera ha statua, stauam talhadas na mesma pedra 
da rocha huas letras, e por ho lugar ser perigoso pê- 
ra se poder ir onde ho letreiro stá, fes abaxar algfis 
homês per cordas bem atadas, hos quaes imprimirão 
has letras que ainda ha antiguidade de todo nam ti- 
nha cegas, em cera que pêra isso leuaram, com tu- 
do has que trouxeram impressas na cera eram já mui 
gastadas, e quasi sem forma, assi que por serem taes, 
ou por uentura por na cõpanhia nã hauer pessoa que 
tiuesse conhecimêto mais que de letras Latinas, e 
este imperfecto, nhu dos que se ali acharam presen* 
tes soube dar rezão, nem do que as letras dizia, n^m 
ainda poderã conhecer que letras fossem.»* 

(Contínua,) 

JOSB DE TOBRES. 



— Ninguém procure a felicidade pelas tortuosas ve- 
redas da inju&ttça. E esta regra é universal, é abso- 
luta, não admitte limitação, não tem excepção al- 
guma, nem em quanto aos indivíduas, nem em quan- 
to ás sociedades; nem a respeito dos que mandam, 
nem a respeito dos que obedecem. 

— Q^uando a fortuna te persegue, disse um sabie, 
a quem a adversidade ensinou aconbecel-a, refugia- 
te em teu coração : e se o asylo for puro, ella não 
poderá ahi alcançar-te. Mas os homens injustos ca- 
recem d"esteasyl(), porque o seu coração nuo épuro. 



o PANORAHA. 



41 




BBAZZIi — VOBTO »▲ BABtlA BX TOBOB 08 BAVTOS. 



Na primeira serie dWe semanário (paginas 289 do 
4.^ volume) lê-se um mui curioso artigo acerca da 
cidade de S, Salvador^ que é uma das mais impor- 
tantes e mais ricas do florescente império doBrazil. 
Aquelle notável escripto nada temos que corrigir ou 
accrescentar, e por is&o para elle remettemo» o lei- 
tor, que pretender conhecer a origem, fundação e 
fastos da Bahia. 

Hoje apresentámos o desenho do magnifico porto 
d^aquella cidade, que é considerado pelo hábil hy- 
drographo francez, auclor do Piloto do BrazU^ co- 
mo um dos melhores que existem na America do 
Sul. 

u A bahia de Todos os Santos, » dis o auctor ci- 
tado, u considerada em toda a sua extensão, forma 
um golfo mui profundo no continente *, este golfo, 
conhecido pelo nome de Recôncavo (que os formosos 
versos de Durão eternisaram) tem cerca de trinta le- 
gtias de circuito, e recebe as aguas de vários rios, al- 
guns dos quaes são consideráveis* 

uAs maiores esquadras podem surgirna Bahia com 
segurança. £m alguns pontos, os navios, ancorados 
em bom fundo, resistiriam a todos on ventos, propor- 
cionando-lhes ao mesmo tempo as costas circumvisi- 
nhãs abundantes recursos. 

uDo lado do oriente da entrada principal, a terra 
levanta-se em amphitheatro : a cidade de S. Salva- 
dor occupa grande parte do litoral \ é edificada em 

VoL. III. — 3.a Serie. 



terrenos desiguaes, e divíde-se cm cidade alla^ e ci- 
dade baixa. Depois do Rio de Janeiro a cidade da 
Bahia é a mais importante de todo o Brazil : cal- 
culam se-lhe, pelo menos, cem mil almas. Alguns 
fortes, erigidos em diversos pontos da costa, domi- 
nam o porto e protegem a povoação : o arsenal da 
marinha é defendido pela fortaleza do Mar, situada 
em 12" 51' 23" de latitude S., e 40" 51' de longi- 
tude O., e construída sobre um banco de aréa, a du- 
zentas tóezas da praia. 

Para se fazer umaidéa da actividade mercantil do 
porto da Bahia basta dizer que os direitos arrecada- 
dos na sua alfandega e consulado, durante o anno fi- 
nanceiro de 1850-1851, subiram áenormesomma de 
4.357:451^642 réis, moeda fraca! Mas nem »6 é no- 
tável a Bahia pela grossura do seu commercio exte- 
rior : a cultura intellectual não é ali desprezada co- 
mo presumem muitos talvez^ pelo contrario a cida- 
de de S. Salvador contém bastantes estabelecimen- 
tos litterarios de importância, distinguindo-se entre 
todos a escola de medicina. Temos á vista um bem 
elaborado mappa estatístico dos trabalhos dVsta es- 
cola, pelo qual se mostra que a frequentaram no an- 
no lectivo de 1850, 215 alumnos; dos quaes ficaram 
approvados 196; e reprovados 7 \ 8 perderam u 
anno, e 4 deixaram de fazer acto. EUte movimento 
considerável mostra assas o fervor com que os bahien- 
ses se dedicam aos estudos médicos. 



^^-Wfz^e^dbV elogie 



42 



O PANORAMA. 



Mamvei. Maria d« Barbosa du Bocaok. 

Na Arcádia Elmano SacUno. 

Entre ferros cantei desfeito em pranto! 
Valba a deêculpa, te não Tale o canto. 

VIII. 

N^ovTRo género, ainda ba dVle um Canto, nas 
galas capaz de bombrear com producçôes análogas 
dos bons auctores. E o que celebra a intrépida as- 
censão do capitão Lunardi em 24 de agosto de 1794. 
A novidade da empresa, e do espectáculo arreba- 
tam o poeta. O seu entbusiasmo leva-o com o na- 
vegador aerio pelos espaços do céu e do futuro, e 
no ardor das sensações e do espanto a admiração ar- 
ranca-lhe da lyra, um brado. As figuras e o estylo 
campeam em todo o lustre da fogosa phantasia ^ e 
á grandeza da scena corresponde a galhardia do ver- 
so. Dirigíndo-se ao atrevido aerostata, Bocage com 
a viva commoção do perigo e do assombro exclama : 

Teu espirito, insano, ah ! que procura 
Pela estrada do Olympo alcantilado? 
Não temes despenha ndo-te dos ares, 
6tual ícaro infeliz, dar nome aos mares ? 
Não temes (quando evites o espumoso 
Campo, que é dos tuíoes theatro á guerra) 
Não temes que n^um baque pavoroso 
Teu sangue purpurôe a dura terra ? 
Tentas, qual Prometheu, roubar vaidoso 
O sacro lume, que nos céus se encerra ? 
Ah ! não, não faças tão medonho ensaio : 
Ou teme o precipício, ou teme o raio. 

A allusSo aos Gamas e aos Colombos, que doman- 
do os trémulos terrores, abriram os mares até ao 
berço da aurora, nasce do assumpto, e brilha com 
relevo. Outro bello rasgo aos filhos adoptivos da glo- 
ria, cujo berço é o theatro das façanhas, termina por 
este nervoso verso : 

O sábio é cidadão do mundo inteiro ! 

Encerra-se o poema com uma imprecação á luta 
civil, que ardia em França, envergonhando a liber- 
dade com a tyrannia da plebe desenfreada, e com 
o sangue que o delirío dos tribunos derramava para 
emmudecer a consciência. .E das poucas referencias 
ás afflicções do mundo, nvesta epocha, que se en- 
contram nas obras de Bocage, e dos poetas contem- 
porâneos portuguezes. 

Fugi, fu^i aos climas desditosos 

Onde, exposta á voraz ferocidade 

De monstros de impia garra, aguda preza, 

Estremece, desmaia a natureza. 

Temos outro exemplo ainda n^elle de allusão his- 
tórica \ é a famosa elegia á morte de Maria Anto- 
nieta, rainha de França, decapitada por or^em da 
convenção em 16 de outubro de 1794, A indigna- 
ção da sensibilidade ferida estampa o cunho ahraza- 
do lio verso do cantor. A ira dardeja raios nos atro- 
pellados epithetos, maculando na fronte os verdu- 
gos ■, mas é ira severa •, nao se desgrenha em Ímpe- 
tos de^icompostos e maldições. São stigmas e não 
brs^midos os que solta a lyra enramada de cipres- 
te. A nódoa das lagrimas, e o corte do soluço, com 



que a voz recua na garganta, realçam pela ternura 
viril o desabrimento da musa. Sobre as minas de 
uma sociedade em agonia, olhando para a sombra 
dos cadafalsos, manchas da liberdade, vendo um po- 
vo inteiro abrir as veias diante do medo de alguns 
furiosos, o poeta pede ao Dante austero o seu ter- 
ceto, e faz retinir, como aço, os metros vingadores : 

Gtue fataes producções, que azedos fructot 
Dás aos campos da Gallia abominados, 
Nunca de sangue oa lagrimas enchutos!... 

Augmentando-se a vehemencia perante o espectá- 
culo doloroso, exclama mais alto ainda : 

Crimes soltos do inferno a terra atroam, 
£ em torno aos cadafalsos lutuosos 
Da sedenta vingança os gritos soam. 

A brilhante nação que blasonava 
D^exemplo das n9ções, o throno abate, 
E de um senado atroz se torna escrava. 



Vae grassando o furor sanguinolento. 

Lavra de peito em peito, e d'alma em alma, 

Q<ual rubra lavareda exposta ao vento : 

Não cede, não repousa, não se acalma, 

E a funesta, insolente liberdade 

Ergue no punho audaz sanguínea palma. 

Q^ue vigoroso buril ! Como a elegia, d^entre os 
prantos fúnebres, ergue aqui a fronte coroada de 
goivos, recordando a angustia sublime da antiga 
Electra ! Antes de se ajoelhar, beijando a lapide se- 
pulchral com os lábios pallidos, carrega como pé so- 
bre o horror do crime, e alçando o tom, incendida 
a face, altivo o gesto, faz curvar o futuro, que se 
avisinha, dictando-lhe a sentença dos nossos dias ! 

Vicenzo Monti, nos celebrados Cantot da Bosvil- 
Hana^ também no rigido e acerbo terceto dantes- 
co vingou com valentia igual o sangue de Hugo de 
Basseville, assassinado indignamente em 1793 em 
uma sediçlío da plebe romana. As proporções do seu 
poema abraçam maior perspectiva, do que a estrei- 
teza do género seguido por Elmano. O exórdio sae 
por um movimento cheio de imagens, cujo effeito é 
deslumbrante : 

Gia vinta deirinferno era la pugna, 
E lo spirto d^Abisso si partia, 
Vola stringendo da terribil ugna. 

Come lion per fame egli ruggia 
Bestemmíando TEterno, e le commosse 
Idre dei capo sibilar per via. 

AUor timide Tali aperse e scosse 
L^anima d^Ugo alia segonda vita 
Fuor delle membra dei suo sangue rosse : 

E la mortal prigíone ondVra uscita. 
Súbito indietro a riguardar si volse 
Tutta ancòr sospettosa e sbigottita. 

A poesia de Bocage, que tem tercetos que não ce- 
dem a Monti, e versos de um Ímpeto, que disputa 
comparações aos jambicos afamados-deChénier, sua- 
visa-se por uma gradação habilmente conduzida, e 
contemplando a immortalidade consola-se das triste- 
zas da orphandade e do terror. A figura da rainha 
de França, resignada, e já celeste pela formosura da 
martjrrio, offerece encantos e doçura que suspendem. 
Com a opposição das tintas fortes e sombrias na pin- 
tura dos algozes, ainda mais destaca a harmoniosa 
belleta da victima : 



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o PANORAMA. 



43 



Já cerrados estaes, olhos divinos ^ 
Já voando cumpriste, alma formosa, 
A férrea lei de aspérrimos destino». 

Do rei dos reis na corte luminosa 
Revés o pio heroe, por nds chorado, 
6tue da excelsa virtude os louros goea. 

Na mente vos observo: eil-o a teu lado 
Implorando ao Senhor, que os maus flagella, . 
Perdão para seu povo hallucinado. 

Despido Q véu corpóreo, oh alma bella, 
No seio da immortal felicidade, 
S^ sentes nao voar mais cedo a ella. 

Eis a elegia moderna ! De que serviria notar em 
outras do poeta os trechos, que as exaltam, e os 
defeitos, que as assombram í Dado assumpto grande 
e adequado, este canto não mostra quanto podia 
ousar' o engenho, apezar de quasi captivo pelo mol* 
de? 6e alcançasse a nossa idade, com a isenção e 
as liberdades que a arte conquistou, até aonde che* 
garia com o génio ? * 

Q>uando assim se julga, e ao lado das obras filhas 
das idéas litterarias do século 18.^ se coUocam os 
nomes e as producçdes dos auctores actuaes, está lon- 
ge da mente o vicioso methodo de sair do mérito in- 
trínseco para o vago parallelo de confrontações, que 
tiradas em rigor seriam erróneas pelo menos. 

Bocage não podia ser senão Bocage. A discussão 
sobre as regras e os modelos dos antigos, travada 
entre a escola clássica e os innovadores, não tinha 
passado a fronteira, deve suppor-se ; ou se a atra- 
vessou, o homem menos apto para lhe colher o sen- 
tido era Elmano na mocidade, e com as impaciên- 
cias de repentista. Se lhe escapam algumas faíscas, 
se o calor dos sentimentos lhe inspira em diversas 
poesias os trechos, que excedem o estádio usualmen- 
te percorrido, e a Índole do seu engenho, notando- 
as, não se quis senão tornar sensível a transição, 
que ia opera ndo-se lentamente. 

O que succedeu cem Philinto, Macedo e outros, 
aconteceu com Manuel Maria. Somente de todos el- 
les (ousámos crel-o!) este foi o que nasceu dotado 
de mais prendas para illustrar um período de re- 
novação. Aonde lhe íbgem da vista os traslados, e 
não encontra as machiuas mytbologicas para faxer 
firmeia, ás graças com formosura própria sorriem 
nos seus versos. Attestam-no os exemplos citados, e 
o que falta expor não é provável que o destrua. Não 
ha ainda no trama dô tecido poético a novidade de 
matiz, e a franqueza de episódios, que de Chateau- 
briand e Byron por diante sujeitam as formas á ac- 
ção, o lavor á scena, e o estalo aos costumes em ras- 
gadas pinturas da natureza^ mas no fundo do qua- 
dro, gasto dos empréstimos de tantas gerações de va- 
tes, entre as tintas desbotadas de tantas copias, sen- 
te-se já como um reflexo das idéas próximas, euma 
aragem mais animada vem refrescar a aridez da imi- 
tação. A musa nacional ainda está distante dos la- 
res da arte, segundo a phrase de um critico recente, 
porém o echo do seu canto, com aquelle timbre ju- 
venil que sõa vivo, já se annuncia de longe, afinan- 
do aqui e acolá uma nota feliz no meio da uniformi- 
dade. 

QfUando Elmano expirou em dezembro de 1805 
havia cinco annos que o futuro ministro de Luiz 
XVIII tinha publicado Atalá ^ e três que o Génio 
do Christianismo levantara com a eloquência da ra- 
zão os alicerces da escola do maravilhoso christão. 
Estes ensaios, é duvidoso comtudo que se naturali- 
sassem desde logo, t a ponto de formarem seita \ 
mesmo no foco iotellectual de França, sobre tudo o 
ultimo, encontrou a resistência contumaz dos invá- 



lidos do Parnaso. Os^Martyres, a epopéa da religião, 
e a demonstração plena da fecundidade da nova dou- 
trina, s6 viram a luz em 1809, sendo morto Boca- 
ge : e a sua vulgarisação na copiosa versão de Fran- 
cisco Manuel, tão auspiciosa pvra os poetas da re- 
nascença romântica, veiu tarde de mais para o tra- 
ductor de Delille e de Castel. As letras allemans, 
e a poderosa iniciativa de Goethe, escusado é dizer, 
que só qUasi no fim do primeiro quartel do século 
19.^ principiou a sentir-se em Portugal, e com bem 
fracas sympathias ainda. Lord Byron, o cantor com 
quem mais afinidade tomaria o engenho dfi Bocage, 
não estampou os seus prelúdios métricos, as Horas" 
de Ociosidade ( Hourt of Ildneu) senão em 1805, no 
mesmo anno do fallecimento de Manuel Maria, e %S 
em 1809 verificou a viagem áHespanhae a Portugal, 
de que o Child Harold é a recordação injusta é ad- 
mirável ao mesmo tempo. Assim as perspectivas da 
inspiração e do gosto não tinham mudado^ por isso, 
no louvor e na censura, nunca separámos Elmano 
da sua epocha, nem o julgámos fora d^ella. Consi- 
derâmol-o sempre no ambiente, que respirou, e na 
sociedade, que o influiu. O contrario era falsificar- 
Ihe a physionomia, dando á critica uma direcção, 
que não comporta. 

No apologo Curvo Semedo vence a Bocage, como 
no dithyrambo Belchior não cede a primazia a ne- 
nhum. Os toques de ingenuidade e malícia, e o re- 
levo da concisa moralidade, que alegram com a 
phrase, e o requebro desafectado do verso, tomam 
deliciosas as suas fabulas, dignas de se desvanecer 
com alguma d^ellas a própria penna do mestre. 
Francisco Manuel, na traducção de Lafontaine, pro- 
digalisou os thesouros da lingua, cuidando supprir 
com esta gala um pouco forçada o que falta em sa- 
bor picante á sua copia, comparada ao original. Se- 
medo não ; sem esforço sobresae com a naturalida- 
de, e fica em pé, mesmo em presença do traductor 
dos Martyres. Mas o soneto, o idylllo, e a cantata, 
três géneros cuja difficuldade nem sempre é recom*- 
pensada pelo êxito, são a coroa de Elmano. Pode 
asseverar-se aflbotamente que não teve competidor 
quanto ao primeiro, e que a respeito dos segun- 
dos não receia medir as composições com as melho- 
res! 

O soneto deveu-lhe uma superioridade, que de- 
pois, e antes nunca teve. Rivalisando com oPetrar- 
cha, se a miúdo o não offusca, faz pasmar a facili- 
dade com que entra na estreita medida imposta 
pelas regras. Modulando os tons mais árduos zomba 
dos curtos limites concedidos á idéa, e aligeira, co- 
mo se lhe não pezassem, as prizões artificiosas da 
metrificação. As suas victorias quasi que se contam 
pelos combates nos variados typos que deixou. A 
viveza une-se á valentia do metro, e á opulência da 
rima. Euma galeria de inimitáveis miniaturas, mui- 
tas respirando a malícia de um painel de Hogarth, 
estas exprimindo os sentimentos e os affectos deli- 
cados em mimoso apuro *, aquellas, reproduzindo os 
movimentos impetuosos do amor e do ciúme em pas- 
sos vehementes. N^estes quadros de espontânea per- 
feição, ou estale a risada de Juvenal, ou se queixe 
a ternura de Properdo, ou a aspiração catholica 
eleve o canto, a chave de ouro arremata sempre com 
realce, e coroa de brilhante conceito o verso ul- 
timo. 

Em Bocage acha-se realisado o dom de ApoUo, a 
que allude o auctor da Arte poética. Vencidos os 
obstáculos, de propósito accumulados para precipício 
dos temerários, a suprema belleza desce sobre o poe- 
ma ^ e não é sem motivo que Boileau accrescenta nO 



canto II : 



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byVjOogie 



44 



O PAlfORAMA. 



Un sonDet sans défant vaut seul un loDg poeme : 
Mais en yain mílle aateun y pensent árriteT \ 
Et oet heureox phénix est encore k troa ver. 

Essa raridade, que o critico jalgava im possível, á 
força de a repetir, aGostumou-nos Manoel Maria a 
reputar-lhe em menos a difficuldade. Nos repentes, 
nas maguas, oa nas iras, o soneto era a sua forma 
predilecta. Podem citar-se dúzias d^elles excellen^- 
tes ^ e pelos rápidos esbocetos aonde a travessa ma- 
lignidade carregou o retrato das suas victimas é ain- 
da fácil reanimar na figura e na expressão bastan- 
tes d^ellas. Algumas vivem ali eternamente por in- 
felicidade sua, votadas ^ immortalidade do ridícu- 
lo, por um lápis sem rival ! 

Nos idyllios (e escreveu não menos de vinte) não 
observou tanto o exemplar de Virgilio, como se in- 
clinou ás modificações introduzidas por Gesner. Es- 
quece-lhe' frequentemente o preceito capital, e ra- 
rebata-se em figuras superiores á modéstia do assum- 
pto, perdendo da vista a simplicidade, que é a flor 
do género. Lendo-se alguns logares lembra logo a 
censura de Bernardes : 

Está tSo mal a um pastor de cabras 

Tratar dé astrologia e medicina. 

Como a um grande rei de gado e lavras. 

Gtuer adopte a narrativa, quer ponha em scena a 
écloga dramática, Elmano pouco sustenta a graça e 
a frescura dos quadros pastoris, disfarçando o que a 
forma envolve de falso e constrangido. A symetria, 
a repetição, e as descri pções, ás quaes um fio té- 
nue conserva apenas o equilíbrio entre a ingenuida* 
de verdadeira e a affectaçaoamaneirada, violentam- 
no, e a índole acaba sempre quebrando o molde era 
algum esforço mais rijo. Succede-lhe o que Boíleau 
disse de outros. A flauta rústica impacienta-o com a 
monotonia, e pouco tarda que não emboque a trom- 
beta no centro dos bosques, fazendo espavorir o me- 
droso Pan, e os Sylvanos, e afi'ugentando as nym- 
phas assustadas. Bion eMoscho. se acaso o guiara, é 
de longe; os mais beltos passos cie Bocage não descen- 
dem da Morte de Adónis nem do Amor Fugitivo. 
O que se admira, por exemplo, no seu idyliío de 
Tritão, são qualidades de es t)' lo estranhas á poesia 
campestre. N aquella figura magestosa ha tudo, me- 
nos o que permittem as regras. A descripção toma 
a grande altura, e a voz do amante geme em accen- 
tos trágicos, embora um ou outro período mais fle- 
xível lhe adoce os tons. Nesta écloga o poeta luta 
em elevação com os épicos, e recorda bem pouco a 
lição de Theocrito ou de Virgilio : 



Um dia a viu na praia, e só de vel-« 

Seu coração feroz enfeitiçado 

Voou, gemendo, para os olhos d^ella ! 

# 

As imprecações nascidas da contradicç&o entre a 
ternora e a ira das palavras, e os encontrados trans- 
portes do ciúme e da ameaça, estão pintados com o 
maior vigor n^este formoso poema. O mesmo defei- 
to e a mesma elegância, mas em dífiêrentes propor- 
ções, se nota na contextura e execução das outras 
éclogas. Pelas suas tendências, o poeta avísinboa-ae 
mais do canto elegíaco de André Cbánier, nos idyl- 
líos do Cego e da Liberdade, do que estudou a es- 
cola já reprehendída por Fontenelle. O perfume pas- 
toril e sentimental de Gresner rescende ás veies tam- 
bém nos seus versos, mas pouco activo. 

Causa pena, que em uma forma tao fâcil de en- 
riquecer pela representação de paizagens novas e ri- 
sonhas, como as da Ásia e de Portugal, Bocage fi- 
casse inferior ao Alvarenga, e não se mostre primo- 
roso senão em lances patheticos, e voos épicos, que 
o género dispensa, se não oondemna ! 

(Continua.) 

L. A. RXBSLIA DA SllVA. 



SANSlO NA VINGANÇA 1 

(1850) 

B lacodindo (SantSo) com grande 
força at columnas caiu a cata sobre 
todos os príncipes, e sobre todo o 
povo que estava n'ella; e foram moi- 
tot mais os que matou morrendo, do 
que os qoe matara antes quando vivo. 
JviiBS, cap. XVI, V. 30. 

VI. 

O PSLOURIVHO. 



Luziam -lhe as espáduas escamosas, 
Sustentava o marítimo instrumento, 
O búzio atroador nas mãos callosas : 

Conchas da cór do liquido elemento 
Parte do corpo enorme lhe vestiam, 
'Igual na ligeireza ao próprio vento: 

Da barba salsas gotas lhe caíam, 
£ nos olhos, que amor afogueava. 
Em borbotões as lagrimas ferviam. 

Como estamos próximos do Adamastor de Camões ! 
Dos vaqueiros, ou dos pescadores, que disputam em 
contendas métricas nos diálogos de Rodrigues Lobo, 
e dos imitadores, que deixa bem distantes da sua 
harmonia singela, é que não achámos senão a som- 
bra. Vejamos agora como Lilia em um instante se 
apodera da alma apaixonada de Tritão : 



Nem todo o dia 28 de outubro de 1850 passara tio 
poeticamente para Luiz Osório, como aquellas horas 
de colloquio com Eugenia, na gruta de Camões; an- 
tes e depois d^esses doces momentos, tivera muito 
que fazer a bordo com a denuncia dada pelo con- 
destavel contra o patrão da lorcha ; aquelle persis- 
tindo na accusação, este negando com omaíorsangae , 
frio, nada se podia concluir ali, e era .preciso man- 
dal-os ambos, bem escoltados, ao logar de Matapau, 
para ver se se descobria a casa, ou algum outro in- 
dicio da conjuração ; foi isto o que aconselhou o te- 
nente, e cuja execução se reservou para o dia 29 : o 
resultado da indagação vae o leitor conhecel-o. 

Eram oito horas da manhã. A fragata D. Ma- 
ria II e a corveta americana Marion, fundeadas no 
porto da Taipa, estavam garbosamente embandeira- 
das em arco, da mesma forma qtie as corvetas íris 
e D. João I, que ancoravam no porto interior, em 
proximidade da alfandega ; o dia nascera formoso, 
um brilhante sol fazia luzir a artilharia dos navios, 
e avivava as cores das bandeiras : era um dia de. fes- 
ta, o anníversarío de um príncipe sábio, parecia que 
tudo respirava alegria a bordo da nossa pequena es- 
quadra. 

Nem tudo, nem todos. Dous homens desciam a 
essa hora as escadas do portaM da fragata, ambos de 
gesto sombrio-, alguns soldaddl os escoltavam, e o 
guarda-marinha In nocencio seguia a comitiva, encar^ 
regado de dirigir as indagações em terra, e entregar 



o PANORAHA. 



45 



Ahuy ao procurador da cidade. O outro doa presos^ 
era, Já se vê, e nosso JoSo António. 

Deixaremos por agora os navios, e seguindo a lor- 
eha, que abica á Praia Ghrande, veremos desembar- 
car 00 prexos entre doas fikiras de soldados, e atrat 
d^elles alguns chins da tripulação do barco, que vSo 
ser perguntados pelo interprete da lingaa synica 
acerca do assumpto da denuncia ; finalmente o guar- 
da-marinha Innocencio, que vem conversando com o 
oapellSo e o escrivão da fragata, cuja boa eitrella os 
guiou n^este dia para fora do navio ! 




(LORCBA CBIKEXA.) 

Encaminbaram-se para o largo do Senado a bus- 
car o procurador e o interprete, e logo que estes se 
encorporaram no préstito seguiram direitos a Mata- 
pau. Abi repetiu João António a sua deposição.^ e 
procurou debalde a casa em que estivera dous dias 
antes; entrou em muitos chalet^ penetrou em mui- 
tas barracas; todas se pareciam, mas nenhuma era a 
que elle buscava. £m vão carregava em quantas sa- 
liências via pelas paredes, buscando ra mola do alça- 
pão ; por fim já lhe parecia que fora um sonho tu- 
do que vira no conselho dos anciãos, e n^uma per- 
plexidade estúpida declarou que não atinava com a 
casa, que a haviam tirado d^ali, ou que nunca exis- 
tira. 

Innocencío ficou bastante penalisado com este des- 
fecho, porque antevia o que teria de soflTrer o solda- 
do, tomando-lhe porventura como efieito dVmbria- 
guez aquella denuncia, que se não provava; JoSo An- 
tónio emmudecêra, e scismava n^aquelle mysterio por 
tal forma, que teria endoudecido se homens d^aquel- 
la ordem pudessem enlouquecer ; quanto a Ahuy, 
que havia mandado previu ir o chefe dos anciãos por 
um dos marujos da lorcha, estava certíssimo que não 
se encontraria a casa, por que tudo estaria mudado 
áquella hora. Assim succedeu ; João António carre- 
gava com as oulpas, e em outro pais qualquer seria 
logo posto em liberdade oaccusado; porém em Ma- 
cau ha dm processo especial* para administrar justi- 
ça aos chins, e os meos leitores vão ver porque for- 
ma Ahuy foi convencido de crime, e como se des- 
cobriu quem era este personagem. 

O guarda-marinha despachou dous soldados de es- 
colta ao condestavel, e disse-lhes que embarcassem 
n^algum escaler que estivesse na alfandega ; escre- 
veu á pressa um oíficio de poucas linhas, narrando 



o resultado da investigação em Matapau, e entrq^u«o 
a um dos soldados; depois cortejou o procurador, c 
retirou-se, deixando-lhe Ahuy, os chins da lorcha, 
e o resto da tropa. 

Acompanhe-nos o leitor á-*procoratura da cidade, 
e encontrará um tribunal como não podia suppor que 
existisse ainda no século 19.^, em um pais que se 
dis português e civilisado ! 

£m um dos lados de uma praça triangular está si- 
tuado o palácio da municipalidade; esta corporação 
ainda ali tem o pomposo titulo de Leal Senado de 
Macau, mas nenhuma das suas antigas attribuições 
governativas; é porém composta pela seguinte for- 
ma : —^ um presidente, dous vereadores, dous juises 
ordinários e um procuradt>r, todos de eleição popu- 
lar ; reunidos, não tem mais prerogativas do que qual- 
quer camará do reino ; funccionam porem, alterna- 
dos, na junta de justiça, tribunal superior da pro- 
vincia imaginaria de Macau, Timor e Solor ; mas o 
procurador, por si «5, exerce^ uma auctoridade sem 
I limites sobre a população chipeza da cidade, isto 4j 
sobre nove décimos dos seus habitantes. N^esse mes^ 
mo edifício do senado está o terrivel tribunal da pr(^ 
curatura; tem um interprete superior do idioma chi- 
nês, e outros subalternos a que chamam /intuas; t^m 
meirinhos e carrasco ; e tem além, no meio da pra<* 
ça, essa columna de pedra que, em outra pa/te, ^ 
denotaria o foro da povoação, mas que n'esÍA cida* 
de é um logar de supplicio e exposição deirriíiuno- 
sos : o pelourinho ! 

Ali se amarra com a própria trança, e de barrete 
na cabeça designando as culpas, á guisa de carocha 
da inquisição, o miserável ratoneiro qiie não teve 
com que amaciar a policia ! Ali se prende o infelis 
que roubou um pão ou algumas sapecas, para levar 
centenares, milhares de pancadas com um grosso bam- 
bu ! Ali se arranca a pelle ao criminoso que não tem " 
dinheiro para se remir . . . etudo isto por sentença do 
procurador, que é graduado mandarim do império 
celestial, mas não graduado em leis, e mediante um 
processo verbal e summario, em que intervém o in- 
terprete ou um dos linguas, porque o procurador vul- 
garmente não falia chinês, além de não saber mes» 
mo ás veses escrever o seu nome, nem ter as meno* 
res noções de direito. E^te funccionario tem, af<5ra a 
sua agencia, tresentos taéis de ordenado, apesar de 
ser eleito pelos seus concidadãos, e gosar das honras 
de mandarim chinês. 

Explicado pois o que é o procurador e a procura- 
tnra, vejamos entrar o esguio mandarim in pariUnu^ 
seguido do interprete, doslinguas, dos meirinhos, da 
tripulação da lorcha, dos soldados, e do povo que aco- 
de sempre a estes espectáculos grátis^ com a curio- 
sidade de gente ociosa . Mesmo no vestibulo do pa- 
lácio começa o interrogatório do réu e das testemu- 
nhas, e como nada se conclua de seus depoimentos, 
manda o procurador amarrar khuy ao pelourinho, 
e ordena que seja fustigado por outro alentado chim. 
O padecente não grita muito; como o geral dos seus 
compatriotas quando os flagellam, soffre calado aquel- 
le inclassificável arbítrio, e todavia já o sangue lhe 
escorre das feridas, e a pai lides lhe assoma ao rosto^ 
Depois de receber uns d use n tos açoutes, manda o 
procurador retirai- o do pelourinho, e ameaça o res- 
to dos tripulantes da lorcha de soffrerem igual sor- 
te se recusarem como Ahuy confessar aonde se reú- 
ne o conselho dos anciãos, e que género de relações 
existe entre o próprio Ahuy e esse conselho. 

Aterrado pelas ameaças, um dos roais jovens de 
entre os marinheiros chins depõe que era verda- 
de existir a casa mysteriosa em Matapau, mas que 
desde a véspera os seus moradores haviam fugido pa- t 

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46 



O PAJÍORAM A. 



ra Cantão*, que Ahuy se fizera patrão da lorcha com 
a intenção de prejudicar os christaos, e que aquelle 
disfarce encobria o mandarim da cidade, que fugi- 
ra por occaaiSo do assassinato do pintou (palavra 
chinesa que designa um caudilho^ -chefe de soldados^ 
e que elles applicam ao governador de Macau). 

N^esse calamitoso dia o procurador teria receio $6 
de encarar o mandarim, seu collega, mas agora era 
dififerente ; Resolveu eile em sua alta sabedoria reen- 
viar para bordo o pobre Abuy, mas antes, pelas du- 
vidas, mandou-lhe dar outros duzentos açoutes, que 
o misero soffreu com a maior resignação (1). 

Era qoasi uma hora da tarde quando se concluiu 
este auto de Sé \ já as fortalezas da cidade e os na- 
vios de guerra nacionaes e estrangeiros haviam sal- 
vado.) e o conselho do governo recebia os cumprimen- 
tos dos ministros estrangeiros e das corporações na- 
cionaes pela festividade do dia, quando' compareceu 
no palácio o nosso procurador, que também perten- 
ce ao conselho,* e qu(^ vinha dar parto aos seus col- 
legas do famoso acbad(} que fizera ^ approvado o seu 
procedimento, resolveram entregar a causa ao juiz 
de direito, para desde o seguinte dia proceder ao 
competente processo. 

Em quanto porém Ahuy e os outros chins em- 
barcavam na lorcha sob a vista dos soldadas, e se 
encaminhavam para a Taipa, outros sucoessos tinham 
logar a bordo da fragata D. Maria II, que prepa- 
ravam o trágico fim d*esta historia, como verá quem 
ler o seguinte e ultitao capitulo. 

fConiinúa,) 

F. M. Bordalo. 



AR6HIPELAOO DK CaBO VbRDB. (2) 

Como todas as ilhas doeste archipelago, a de San- 
tiago, ou como disse a de Cabo Verde, é orlada de 
uma quantidade mui grande de calhetas, portinhos 
e abrigos (pela maior parte 96 próprios para lambo- 
tea e embarcações menores), os quaes me não demo- 
rarei a designar pelos seus nomes para me não tor- 
nar fastidioso, e até porque de uma grande parte 
até já elles me esqueceram : ha porém alguns que 
não são indignos de que faça d^eiles menção espe- 
cial, já pela sua tal ou qual importância commer- 
ciai, já pela capacidade do seu fundeadouro, onde po- 
dem ancorar bem á vontade escunas^ brigues c até 
embarcações de maior lote ; ainda que a todos fal- 
tem algumas das condições que são necessárias a 
qualquer fundeadouro para merecer o nome de porto. 

Deixando para ultimo logar o que a todos os res- 
peitos merece a primazia, estes portos são os seguin- 
tes : 

O porto da Cidade ^ ao sudoeste da ilha, e que 
dista da villa da Praia umas seis milhas» Ainda que 
e ordinariamente procurado s6 pelos lambotes, e al- 
gumas pequenas escunas, podem n^elle fundear gran- 
des embarcações, como brigues e até galeras ; com- 
tudo semente é procuyido por alguns estrangeiros, 
que ali vão enganados pela apparencia de ric»e vas- 
ta povoação, que em distancia parece haver ali, ou 
para fazerem a salvo o contrabando. Era nos scca- 



(I) Esta sceua de invenção não é menos verdadeira 
BO fundo, posto que os acces9orio9 o não sejam. No pró- 
prio boletim official da provinda se encontram doestes 
j alagamentos. 

(S) ConUnuado do n.» %$ do vol. 2.<>, serie 3.* 



los 16.^, 17.^ e ainda em grande parte do 18.^ um 
porto frequentado : e só começou a decair depois que 
a companhia do Grão-Pará e Maranhão probibiu 
aos seus navios que demandassem aqúelle ancora- 
douro^ e'que o governador Joaquim Salema de Sal- 
danha Lobo, em 1770, transferiu de direito a sua 
residência e a das repartições superiores para a vil- 
la da Praia, em observância do alvará de 14 de 
agosto de 1612, que assim o tinha determinado, 
mas que até então ficara em letra morta. E^ pou-~ 
CO abrigado no tempo das aguas, e muito dieio 
de rato, o que se attríbue á incúria com que as au- 
ctoridades toleravam que as embarcações, que ali 
iam carregar, lançassem ao mar os seus lastros de 
pedra (o mesmo ha de succeder a todos os outros 
portos da província se não se cuidar mais do que 
se tem até agora feito na observância do regulamen- 
to dos portos de 23 de dezembro de 1842). Ainda 
hoje ao pé de terra, confrontando com as torres da 
Sé, ha um bom pedaço de ancoradouro de fundo 
de arêa, onde não chegavam as embarcações gran- 
des por a difficuldade e perigo da saída, nas occa- 
siões de travessia, e que por isso escapou á má sor- 
te do restante. 

O porto da Ribeira da Barca^ a oes-noroeste, 
e dibtante da cidade umas vinte milhas. E peque- 
no, pois apenas poderão estar n^^elle fundeados qua- 
tro brigues ou cinco ao mesmo tempo \ com o espa- 
ço necessário para carregarem, mas abrigado, e de 
bom fundo, e a pouca distancia da terra, o que é 
muito commodo para carga e descarga. 

Ainda que todos os annos vão a este porto pata- 
chos e brigues carregar purgueira e milho, e que 
ainda em princípios de 1842 ali fossem algumas bar- 
cas estrangeiras, antes que o governador geral Bas- 
tos fizesse observai* as leis que vedam aos estrangei- 
ros a entrada em portos sem alfandega, e os princí- 
pios de direito publico, que lhes vedam o commer- 
cio e navegação de cabotagem, houve já um official 
da nossa marinha de guerra, que sendo commandan- 
te d^uma pequena escuna, empregada no serviço )ia 
província, teve medo, ou fingiu td-o, de demandar 
este porto e de n^elle ir fundear em cumprimento 
de ordens superiores, que força foi revogar por um 
motivo bem fácil de apreciar,, e que por isso é des- 
necessário que «qui o declare ! 

E um bom ponto de commercio pelos muitos ar- 
tigos de producção do paiz que a elle se podem fa- 
cilmente trazer, e que com a mesma facilidade te . 
podem carregar a bordo dos navios. Se a capital da 
província se transferisse da villa da Praia para o 
sitio d^Achada-Falcão, que lhe fica a distancia ape- 
nas talvez de meia legoa, este fundeadouro cresceria 
em importância pelo movimento marítimo que logo 
se havia de estabelecer ^ e a povoação próxima, que 
ha pouco mais de onze annos começou aqui a fun- 
dar-se, e que vae crescendo pouco a pouco, chega- 
ria em pouco tempo a mui alto estado de grandeza e 
de prosperidade. 

A bahia do Tarr<ifal encostada ao monte do mes- 
mo nome de Tarrafai, e situada a ^. da ilha, of- 
ferece aos navios um bom porto, limpo, e que é se- 
guro no tempo das aguas, ainda que bastante desa^ 
brigado, e por conseguinte não sem perigo no tem- 
po das brizas. Tem bom fundo de arêa fina de 8 a 
12 braças de profundidade, c é bastante frequentado 
pelos navios que vão buscar purgueira, como d^an- 
tes o era pelos que iam carregar ursella. O9 baleei- 
ros também frequentavam muito este porto ha cou- 
sa de 14 annos, e não sei se ainda agora os deixam 
lá ir. 

Não ha Doeste sitio povoação \lgumaj^^ one^^or- 
igi ize y g 



o PAIfORAlMA. 



47 



na este porto muito accomniodado ás operações do 
commercio fraudulento por meio das quaes introdu- 
xem os contrabandistas géneros prohibidos, e merca- 
dorias que o não sio, mas de que nSo querem pagar 
direitos. Desde 1842 até 1847 estas fraudes quasi 
que exclusivamente se realisavam por meio dos na- 
vios baleeiros, o que a tornava muito menos impor- 
tante : depois que se permittiu aos estrangeiros que 
fossem a este e a outros portos chamados do interior, 
consta-me que as fraudes tomaram tamanhas dimen- 
sões, que o commercio licito da villa da Praia che- 
gou a resentir-se. Mais modernamente não sei se se 
tomaram algumas providencias tendentes a fechar de 
novo este e os demais portos aos estrangeiros -, ao me- 
nos eu tenho uma idéa oonfusa, de que assim se fes, 
a instancias do sr. deputado Arrobas. Desejo muito 
que seja assim. 

O porto de Pedra Badefo, situado a L. da ilha, 
dista da villa da Praia umas quatone milhas, pouco 
mais ou menos. £ porto seguro, e como tal muito 
frequentado, na estação das aguas e meses próximos, 
mas é por isso mesmo de algum risco no tempo das 
brisas. Aqui costumam vir embarcações carregar de 
milho, e feijão chamado vulgarmente favona, assim 
como semente de purgueira, artigos que concorrem 
cora muita abundância para a exportação. 

(Continua,) 

J. M. Ds Sousa Moictxiko. 



ESBOCETOS DA VIDA MILITAR. 
IV. 

O dever. 

EsTVDAVDo a marcha dos acontecimentos da Europa 
actual, que se apresenta cheia devida, de actividade 
e de industria , assim como as phases ou circumstan- 
cias, que téem acompanhado o seu desenvolvimento, 
vemos uma politica menos reflexiva trilhando veredas 
oppostas, e fazendo alentar com reconhecido estudo 
tendências notáveis, ou para uma retrogradação in- 
sensata, ou .para os excessos d^nm maior impulso no 
espirito do progresso. Sabemos é verdade, que a lei 
que preside a este, é a lei da própria natureza \ mas 
também conhecemos que esta é lenta na sua marcha, 
que as suas forças téem limites, e que só no equilí- 
brio d^ellas está a sua conservação. Pretender passar 
além sem pdr cadéas razoáveis a essa expansão, que 
tanto lisonjéa o coração do homem, que peln sua na- 
tureza corrompida é nnau, é querer igualmente re- 
trogradar á infância da sociedade, ou antes a um es- 
tado de liberdade selvática. Pretender vincular em 
extremo as acções do homem, sofiTrendo contrarie- 
dade absoluta, e a reacção de idéas, que já formam 
para o mesmo homem um código, um dogma, ^des- 
conhecer no estado presente o império da superiori- 
dade inteliectual e moral. Por tanto ambos o^ prin- 
cdpios pela sua demasia poderão encontrar-se, ou at- 
trahir-se ; um por caminhar de mais, e porque á for- 
ça de se apurar, se desvirtua ; outro porque debalde 
trabalha em procurar os mesmos elementos para a 
sua recomposição, que já não encontra : para este 
falham completamente os recursos da synthese \ e 
para aquelle tornam-se infructiferos os da analjse : 
porque também á força de tanto definir os direitos 
do homem, estancam-Ihe todos os mananciaes da sua 
real e solida felicidade. São verdadeiras utopias. 
No meio de todas estas considerações, em que di- 



vaga o nosso sentir, temos sempre a olhar o espirito 
militar, em rasSo dos diversos aspectos, que nos of- 
ferece, como o principal elemento a operar conjun- 
tamente com os outros constitutivos da sociedade. 
Muito se tem agitado nos tempos modernos a impor- 
tante questão dos exércitos permanentes; mas qual- 
quer que seja a face, que possa apresentar, discuti- 
da ella \ nenhuma outra resolução poderia ter^ que 
não fosse aquella, filha da necessidade, em que estão 
os povos de fiíser a guerra, para repellir as aggres- 
sões, que lhes são feitas, e defenderem-se, ou para 
recuperar legitimamente direitos usurpados :; e não 
para atacar e conquistar : as necessidades politicas 
equivalem ás melhores razões. Logo só devem fabri- 
car o instrumento de guerra para aquelles fim, e já 
mais para transtornar os destinos pacificos dos povos, 
ou para sustentar os interesses de uma facção, ou de 
um poder. 

^ Assim, para purificar o espirito militar em rela- 
ção aos pontos de vista, em que o considerámos n 'ca- 
tes diversos quadros, que vamos traçando, da vida 
das armas, é mister invitar, e reduzir aquelles que 
a exercem ao desempenho absoluto dos deveres d^um 
acrisolado civismo. Com efièito ha uma lei de rela- 
ções, que obriga todo o mundo: ninguém a. desco- 
nhece; basta boa fé, e razão clara. Cada um em vir- 
tude dVsta lei deve praticar certas acções, e omit- 
t,ir inteiramente outros. A sua linguagem é na ver- 
dade imperativa; manda, ou prohibe; até violenta, 
e d^algum modotyraunisa a nossa vontade : n^isto se 
dá o bem do homem. Por tanto ha deveres para el- 
le ; e se falham esta condição, este grande movei, 
nenhum sentimento haveria de condemnação, ou de 
premio ; de bem, ou de mal ; de vicio, ou de vir- 
tude : cada um só praticaria aquillo, que ihe aprou- 
vesse. 

Toda a moral, todos os deverea civicos se refun- 
dem nos seguintes preceitos fundamentaes, sanccio- 
nados pelo tempo, pela raUo eterna, e pelas tradi- 
ções religiosas, e philosophicas, ainda as mais remotas. 

— Nãofaçae» a outrem aquHIOj quevós nôoquere^ 
rieis^ que $e voifiseue, 

— Tratae os outros homens^ como desefarieis^ quê 
elles vos tratassem, 

— Amae o vosso próximo eomo a v6t mesmos. 
Esta triplice foimula importa regras de proceder, 

enriinentemente santas e populares : é fecunda e lu- 
minosa em todas as suas generalidades. 
. Militares : Os vossos deveres são innumeraveis : a 
vossa intelligencia vos descortina os meios de pro- 
curar a maior somma de felicidade para os vossos 
similbantes, fazendo reinar a fraternidade pelos bel- 
los sentimentos de uma Justa liberdade, e razoável 
equidade : conformae-vos com as leis da razão, e da 
consciência por elia illustrada. Olhae, que estas tam- 
bém vos dictam, que a humildade, virtude tão apre- 
ciável, bellamente se pode alliar, assim como todas, 
com o caracter militar. E necessária em todos os ins- 
tantes da vida do soldado ; deve acompanhal-o des- 
de o momento, em que elle empunhar as armas, até 
ao mais elevado grau da escala militar, a que possa 
ser chamado em razão do seu mérito e serviços. Ahu- * 
mildade, de que aqui falíamos, não é a humildade 
evangélica, que consiste n^uma sublime pureza , aquel- 
la que prescrevemos étoda philosophica : certamente 
não queremos m vsticos ; mas sim patriotas. 

Os vossos direitos são também innumeraveis, mos- 
trae-vos diligentes no exercício d^elles, ou oo modo 
de 08 fazer valer, isto é, na exigência dos deveres, 
que possam corresponder-lhes da parte dos outros ho- 
mens, sem lhes causar a menor quebra, ou detrimen- 
to. Sabei q«e o d,v.r é o ««i«gi «í^e^g^VJ^bglC 



48 



O PANORAMA* 



tem legitimo império sobre a nona vontade. As pai- 
xões todas, e todos os sentimentos que podem agitar 
a alma, têem a ceder-lhe a preferencia, obedecendo- 
Ibe, curvando-se diante d^elle, e até emmudeçendo *^ 
é universal e im mutável, como a lei natural, donde 
elle nasce, u Nec vero erii (dis o immortal oráculo da 
liberdade romana) lex alia Romat^ alia Aihenúj oita 
nunc^ alia poúhac. n 

Felizes aquelles paizes, que tèem produzido homens 
cheios de santo amor pátrio, e de fidelidade militar, 
como um d** Assas, como os dous Régulos, romano e 
português, como um Gonçalves de Faria, e outros. 
A historia geral e militar citarão sempre com in- 
teresse o nome doestes beroes, admiráveis prototypos 
de virtudes civico-militares^ assim o mérito de taes 
acções, em tudo distinctas, dá-se na execução d 'es- 
se sagrado dever, que olhámos como verdadeiro eixo, 
em que gira a esphera da sociedade. E diremos mais, 
que esse dever da parte d'aquelle, que exerce a pro- 
fissão das armas, não consiste unicamente em saber 
yotar-se com brandura pela pátria^ mas em saber vi" 
ver como homem, e como cidadão, isto é, de modo 
que contribua, quanto possa ser, para a prosperida- 
de da nação, a que pertença. £ pois ao militar, a 
quem mais cabe aguarda doeste posto glorioso, dVs- 
ta ara santa, onde s6 lhe cumpre offertar incensos 
puros. 

J. C. DA Silva. 



OrIGIU ALIDADB DA NAVXOAÇÃO DO OCKAWO ATLAJf- 
TICO SEPTBNTRIONAX, B HO DBSCOBRIMBKTO DB 
SUAS ILHAS PELOS PORTVOVBZES NO SBCVLO XV. 

IV. 

N^feSTB ponto a auctoridade de Góes não é tão ab- 
soluta nem tao incontestável, como muitos irreflecti- 
damente têem inculcado. A capacidade e agudeza do 
chronista nao as negaremos, mas no século em que 
viveu a arte critica nas suas phOosopbicas applica- 
ções á historia era desconhecida, e o mister de chro- 
nista reduzia-se a cirgir noticias mais ou menos dis- 
paratadas ou coiitradictorias, sem discussão da ver- 
dade ou da verosimilhança, sem inducção, nem res- 
peito ás consequências emergentes. Góes foi coevo e 
domestico d'el-rei D. Manuel, que ordenou as dili- 
gencias a respeito da estatua : nascido em Alem quer 
em 1501, passou em 1510, á corte onde se educou, 
e foi seu camareiro e guarda-roupa ^ mas não diz que 
viu o debuxo, que do monumento fizera Duarte de 
Armas, que pelos annos 1507 apparece empregado 
em commissões do rei, tempo em que proximamen- 
te, se effectuaria, se se eflectuou, a sua ida á ilha do 
Corvo ^ nem que vira os fragmentos da estatua, que 
alguns dias estiveram na guarda-roupa do rei ; sen- 
do provável, que, quando taes cousas occorriam, nem 
ainda Góes tivesse entrado no paço, ou, por sua ju- 
ventude, nem fosse empregado n^elle. £Ístascircum- 
stancias diminuem, se não destroem, a possibilidade 
de o suppormos já por aquelle tempo em occasião 
próxima e contacto directo com as cousas de estado^ 
tirando-lhe para . o nosso caso a força que teria se 
pudesse ser, ou elle mesmo se confessasse testemu- 
nha presencia), como o faz, a respeito d^outro obje- 
cto, na IV parte, c. âO da chronica do mesmo rei 
D. JManuel, relatando cousas que na camará real ou- 
vira em 1517, quatro annos antes do fallecimento do 
monarcha. Finalmente também não contestámos a 
probidade do chronista, mas sim a dos de quem te. 
ve lição, e que abraçaram porventura a nuvem por 



.Juno, conservando-fle até ao fim no primeiro enga- 
no, ou fazendo profissão d VUe com tão damnada con- 
sciência, que sacrificavam a verdade ao amor próprio. 
A quem não mentiria quem assim mentia ao rei, 
accusando a tormenta invernal, do que tá fÒra im- 
perícia ou desleixo próprio? Uma mentira reconhe- 
cida dá margem á desconfiança, e a supporem-se ou- 
tras. Moeste caso a probidade de Góes porventura 
naufragou archivando sem consideração ou correcção 
palavras dos que mentiam ou por innocencia, ou 
por necessidade do orgulho revoltado contra o de- 
sengano; e não se leve a mal que procuremos cor- 
rigil-o, porque já no t. 5.® p. 474, 476 e seg. da 
Historia genealógica da ea^a real poriuguezaj o pa- 
dre António Caetano de Sousa se permittiu ccn- 
surar-lhe pouca advertência a respeito deoutro pon- 
to ; e o sr. visconde de Santarém, a p. 27 da tua 
obra Recherches mr la déeouverie des pays iiiuéseur 
la cote occideniale de Afi-ique^ foi contra elle, ape- 
sar dds argumentos que produzira acerca da data 
da primeira viagem de Cadamosto. 

Parece-nos ter definido o que n^esta discussão de- 
ve valer a auctoridade do chronista. As considerações 
feitas dão a quanto d 'elle transcrevemos o caracter 
de noções recebidas d^outrem, e a favor das quaea 
está bem longe de empenhar o seu testemunho. En- 
traremos agora n^alguns reparos ao texto. 

A cada passo nos revela Damião de Góes os pou- 
cos conhecimentos adequados que tinha no ponto que 
ora discutimos. 

Como é que com a ilha do Corvo, por ter uma 
serra alta, se demarcam Os navegantes, quando de- 
mandam qualquer das outras? A ilha é a menor e 
a mais septentrional das açorianas. Gluem vae do 
norte, leste, ou sul ; quem vae do velho mundo, to- 
pa primeiro concas outras, maiores, mais elevadas, 
mais grupadas emfim.. 6Uiem %em do sul ou de oes- 
te \ quem vem do novo mundo, suocede-lhe outio 
tanto, ou primeiro avista a ilha das Flores, que se 
apenas está separada da do Corvo por um canal de 
nove milhas e meia, fica porém roais ao sul e mais 
a oeste, e é terra muito mais alU e volumosa. %6 
quem vem do norte ou nordeste da America, (o que 
n'aquelle tempo era derrota desconhecida ainda) a 
pode avistar pelo noroeste, ou norte, e ainda assim 
não sabemos se a avistará primeiro ou independen- 
te da próxima ilha das Flores, quando a maior mon- 
tanha doesta (o Morro grande ao norte) mede 942 
metros, em quanto a maior elevação da ilha do Cor- 
vo é de 777 metros, no pico pelo sul da Caldeira, 
Escrevendo do achado da estatua na chronica de 
D. João II em ouanto principe herdeiro, (chronica 
que no tempo só alcança até agosto.de 1481) mos- 
tra Góes que não fora contemporâneo do achado. 
£ não será cousa muito para admirar que tão sin- 
gular antigualha fosse descoberta no reinado de D. 
AíTonso V, atravessasse o de D. João II, e fosse per- 
der-se no de D. Manoel, sem que nem um s6 docu- 
mento ou escriptor contemporâneo falle nMla, glo- 
ria que ficara reservada, a quem, depois de tudo 
consumado, e passado o reinado de D. João III, 
apparecesse no de D. Sebastião ? 

(Continua.) 

JOSB DB TORBBS. 



— A justiça chama sobre nds as bênçãos de Deus 
e dos homens : e o iman não attrahe roais o ferro, 
nem o conductor o raio, do que a injustiça attrahe 
sobre as nossas cabeças todo o género de males. 



Bastas — , 

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tJ<!ff5§^* 



o PANORAMA. 



49 




CHIHA — VOVTX aOBBX VIIAHXB. 



Os cuiifxzss, povo verdadeiramente singular sob 
vários pontos de vibta, distinguem-se mui particu- 
larmente pelo caracter, para assim dizer, típico <]e 
todas as suas construc^^, já religiosas, já civis ou 
militares, algumas das quaes podem sustentar o pa- 
rallelo com as roais arrojadas obras produzidas pela 
engenharia moderna. 

£m nenhumas edificações comtudo os chinezes 
mostram possuir tão extensos conhecimentos archi- 
tectonicos como nas das pontes, que em grande nu- 
mero .se encontram pela superficie do império ce- 
lestial. 

A mais notável de todas as pontes que existem 
na China é a de Suen-tcheou-fou, na provincia de 
Fo*kien. Tem mais de mil e duzentos metros; é 
suftentada sobre duzentos e cincoenta grossos pila- 
res, que terminam de uma e outra parte em angulo 
agudo. Todas as pedras empregadas são de dimen- 
sões enormes, custando a comprehender como se pu- 
dessem conduzir aos togares em que se acham collo- 
cadas. 

£m Fou-tcheou-fou, capital da mesma provincia, 
existe uma outra ponte quasi tao admirável como 
esta, por quanto o rio sobre o qual foi lançada nao 
tem menos de dous kilometros de largura ; mas ex- 
cede a todas sem duvida, no arrojo, na ligeireza, e 
até na elegância, a que ex^iste na provincia de Chen- 
si. Pode comparar-se, pelas suas dimensões, aos 
mais excellentes trabalhos que nos legaram n^este 

VoL. III. — 3.*SaRix. 



género os romanos, aos quaes aliás é mui superior 
no systema geral da construcção. Aquella ponte é 
a que a nossa estampa representa com toda a fide- 
lidade. 



Aaohipelaoo dx Cabo Vekoe. 

Havia também no século 17." um porto chamado 
dos Mangitety que me parece hade ser o que actual- 
mente se nomAa Mangue^ conjectura . que procede 
da muita similhança de nome. Coufesso porém que 
se a minha supposiçao é exacta ha hoje uma bem 
grande diíTerença entre o que então era, e e hoje : 
áquelle iam, e {undeavam bem á vontade alteros^os 
navios, e este hoje apenas pode ser visitado por hu- 
mildes lambotes. Se ambos não são realmente senão 
um si5 e mesmo porto, digo eu que as revoluções ma- 
rítimas também tem aqui causado profundíssimas al- 
terações : mas se elles são distinctos, ainda essas al- 
terações foram mais profundas, pois não ha quem de 
jioticia doesse porto dos Mangues. Em todo o casio, 
ou como matéria a estudos e averiguações, que po- 
dem ser de grande utilidade, ou como uma recor- 
dação histórica, parece-me que não fiz mal em con- 
sagrar estas poucas linhas a este assumpto. 

O porio da Villa da Praia^ que é sem contradic- 
ção o melhor da ilha, eque entre todos os da provín- 
cia occupa o segundo logar, demora ao S. £ uma 



50 



O PANORAMA. 



bahia, formada pela ponta dãsBictidat a L., e ada 
Temei^osa a O., que offerece espaçoso e limpo fun- 
deadouro desde a ponta do Visconde e o ilhéu de 
Santa Ma^ia (Já dentro da bahia), ilhéu que está 
visinho da ponta da Temer oia. No tempo das bri- 
xas é porto seguro por ser abrigado dos ventos deN. 
O. a N. E. que reinam n^aquella quadra, compro* 
fundidade de 3 até 20 braças de bom fundo pela 
maior parte. 

Os ventos de nordeste a les-sueste incommodam 
bastante por açoutarem muito o mar, ou causarem 
grande resaca na praia, o que torna difâcil o desem- 
barque das pessoas, e causa grandes avarias no de 
fazendas com prejuízo do comraercio, e detrimento 
das rendas fiscaes. Este mal que se sente ha mais de 
um século, que ha quarenta annos pelo menos se la- 
menta, ainda está hoje fazendo os mesmos prejuiios, 
porque ainda senão quíz deveras fazer um cães. En- 
tenda-me quem quizer. 

Na estação das aguas em que frequentemente so- 
pram os ventos dos quadrantes de su.este a sudoeste, 
este porto, por ser descoberto por esse lado, é peri- 
goso para os navios que fundeam no ancoradouro 
ordinário a nao ser que se possam encostar ao ilhéu, 
dando comtudo resguardo aos baixos que ha em ro- 
da dMle-, porém nao aconselharei a que o façam ca- 
pitães que nao estejam bem práticos do porto, pois 
c necessário attender por uma parte ás trovoadas, 
que sao aqui mui perigosas, e por outra ás restingas 
que o ilhéu deita para fora, de sorte que se ficar mais 
ao mar do que deve para evitar as restingas corre 
grande risco com as trovoadas, e se para as evitar 
encostar-se ao ilhéu mais do que convém, corre pe* 
rigo de encalhar. 

Como não sou marítimo, naomecomprometto pe- 
la inteira exactidão dVstas informações que, como 
facilmente se presumirá, me foram fornecidas por pes- 
soas que considerei competentes, mas que poderiam 
enganar-se : ò mais seguro portanto, é que os navios 
que demandarem este porto depois do plenilúnio de 
julho, ou que n^elle &e acharem por essa occasião, 
fundêem fora de pontas ao sul da^onta das Bicudas. 

Lembro porém que nao é conveniente levar a/^fu- 
dcncia fao longe, que se siga o conselho que dá o 
nuctor dos ¥lnsaiose%iaii$íxco%^ no volume em que tra- 
ta d^est^ província, a pag. 10 da segunda parte, co- 
mo vi fazer a alguns offíciaes da nossa marinha de 
guerra, que, logo nos princípios de junho, nâo que- 
riam fundear de pontas adentro^ servindo assim 
de ludibrio, não wá aos offíciaes da nossa marinha mer- 
cante, roas, o que é alguma cousa mais custoso, aos 
offíciaes estrangeiros diambas as marinhas. Digo isto, 
porque bastantes vezes ouvi o que uns e outros di- 
riam d Vitacs offíciaes, edasuasciencia e perícia^ ten- 
do assim, por culpa de alguns, em menor conta uma 
corporação tão respeitável, o que já é um grande mal, 
posto que haja outro ainda peior, que c o desfavor 
que reflecte sobre todo o paiz, que não é culpado na 
i<^norancia, ou na excessiva timidez d^aquelles a quem 
me refiro. 

E possível que aqui ha 50 annos, quando a esta- 
ção das aguas começava em maio e terminava em ou- 
tubro, fosse necessário começar em mciados de maio 
as cnutellan que agora basta hó que se tomem depois 
tio meados de julho \ mas essas alterações em paiz 
pertencente a Portugal, e tão próximo d^elle não de- 
vem ser 'ignoradas de quem nenhuma desculpa me- 
rece quando as não saiba. 

NV;>ta ilha ha sJniente duas povoações que mere- 
çam uma descripção especial ; e são a que ainda ho- 
je se chama a cidade da Ribeira Grande^ e a villa 
da Praia, Aquclla pelo que foi, eesta pela sua im- 



portância actoaly exigem que d^las diga alguma 
cousa. 

A cidade da Ribeira Chrande foi por muito tem- 
po a capital não %6 da ilha, mas de toda a capita- 
nia. O seu nome provem-lhe de ser o ponto aonde 
se reuniam duas caudalosas ribeiras, que assim for- 
mavam uma ribeira grande, a qual ia desaguar do 
oceano. 

Constava nos seus bons tempos, n^esses tempos de 
opulência, de que hoje nem ao menos ha lembrança 
entre os seus moradores, de cinco mil visinhoe para 
mais, distribuídos por duas freguezías que eram : a 
de Nossa Senhora do Rosário, e a da Sé. Havia aqui 
famílias ricas e nobres, que habitavam em casai sum- 
ptuosas feitas de cantarias e mármores de Portugal, 
e ornadas com os seus brazôes. Attestam-no os es- 
combros que atulham aquellas ruas e praças, d^antet 
tão cheias de vida e de magnificência, e hoje mise- 
ráveis de immundicie, e desertas \ e attestam-no os 
mármores e cantarias, que em diversos tempos m 
tèem tirado do entulho, e conduzido para a villa da 
Praia . 

Dista por terra, da villa da Praia, cousa de trei 
léguas para O. Está situada n^uma baixa, entre ser- 
ras a pique e o mar. Cortam-n*a duas ribeiras, que 
no tempo das aguas são. caudalosas e medonhas, e 
que vão reunir-se formando uma lagoa a pouca dis- 
tancia domar. A estas duas ribeiras se deve em gran- 
de parte a destruição da cidade, porque depois de gran- 
des chuvas faziam correntes tão violentas, que sain- 
do de seu leito arrastavam comsigo gente e até edi- 
ficios, como aconteceu na noute de 18 de outubro de 
1763, em que foram derribadas muitas casas, e pere- 
ceram nove pessoas de que nunca mais houve noti- 
cia. Ainda ha poucos annos se viam no fundo do por- 
to cunhaes, pedras de sacada, eumbreiras, restos de- 
ploráveis doestes e d'outro8 muitos edifícios. 

No dia de hoje apenas contém 94 fogos, pela maior 
parte miseráveis, com 500 a 600 habitantes, entre os 
quaes figuram os ecclesiastícos e outros empregados 
da Sé, e as suas famílias, tudo gente tão pobre, que 
em 1839 ou 1840, não podendo pagar a decima de 
14;^400 réis, que lhes estava lançada, e sendo por 
isso relaxados ao contencioso, o juiz de direito, o sr. 
Guardado, pagou porelles, para não augmentar mais 
a sua desgraça. Esta miséria, realmente digna de las- 
tima, data do tempo em que pareceu abandonar-se 
inteiramente todo o culto religioso ^ mas deve actual- 
mente estar mais melhorada, porque já na diocese 
ha um bispo. 

A cada passo encontram-se restos de fortificações 
dos tempos anteriores a 1712, e de obras de defeza 
feitas depois: eram pela maior parte paredes de pe- 
dra e barro, que se condecoravam com pomposos 
nomes, e que serviam mais para augmentar lucros 
indevidos, do que para defeza e segurança. da povoa- 
ção. Estes destroços e os das casas dão ao terreno um 
aspecto sinistro, que magoa o coração. 

Aquella de que as ruínas ainda captivam a atten- 
cão, é a fortaleza chamada real, que foi construída, 
segundo a tradição, no tem podo domínio hespanbol. 
Ainda hoje se conhece perfeitamente o seu traçado. 
Está assentada no topo da mais alta das serras que 
dominam a povoação, c constava de quatro baluar- 
tes, com seus competentes quartéis para a guarni- 
ção, cisterna, paiol c as demais officinas necessárias ; 
hoje vôem-se ruínas sobre as quaes descançam algu- 
mas peças de ferro (sem reparos, e encravadas des- 
de a invasão dos huguenotesfrancezes), quedormem 
preguiçosamente um somno de morte. Ainda em 
1844 havia aqui- um condestavel, que realmente nao 
«ei o que fa«a, nem o gl«»,if|ftfy'\Í3?e!)Ogie 



o PAJÍORAMA. 



51 



As igrejas de Nossa Senhora do Rosário e a da 
Misericórdia, qae ainda existem, posto que n*um de- 
plorável estado de ruina, principalmente a segunda, 
e a da Sé, ainda em soffrivel estado, parece que es- 
tão ali para condemnar os governos que Portugal 
tem tido ha um século atras pelo seu criminoso des» 
leixo, ou seu ódio mal disfarçado, e para convidar 
a geração actual, tao' descuídosa e ingrata, e tão 
inimiga de si mesmo, a que volte a melhores senti- 
mentos, mostrando-lhe o nada das grandesas huma- 
nas, e que b6 a religião catholiea é eterna. Tudo 
caía em derredor d^ellas, ha um século que as ruí- 
nas se amontoam por todos os lados, já pela acção 
destruidora dos tempos, já pela picareta demolitoria, 
tó a crus está ainda em pé, e estende os braços pa- 
ra que n'*elles se lancem os homens se querem ser 
felizes mesmo n^este mundo. 

Esta igreja do Rosário, que por alguns annos ser- 
viu de Sé, consta que foi mandada construir pelos 
chrístaos de Guiné (quando ainda lá havia chris- 
tãos), aos quaes ajuntaram seus donativos os pretos 
naturaes da ilha. Era ella muito rica em ornamen- 
tos e alfaias preciosas, que os franceses saquearam 
em 1712. 

Do grande numero de ermidas e capellas que ha- 
via, já nem uma se vê ! • 

A igreja e o convento dos frades capuchos, cuja 
ordem foi extincta em 1834, pode dixer-se que já 
não existem pelo desleixo dos homens que governa- 
ram a provincia até 1840, ainda mais que pela in- 
clemência das estações, e pelos estragos do cu))im. 
Em 1842 mandou-se tirar uma porção de telha pa- 
ra se não perder como a outra que já tinha caído 
com a armação do telhado, e algumas poucas alfaias 
que haviam escapado á rapina^ e em 1845 já s6- 
menfe se viam de pé algumas paredes, que se iam 
esboracando pouco a pouco. O seminário diocesano, 
que não chegou a concluir-se em 1826, apenas con- 
serva a frontaria e as paredes lateraes com algum 
vigamento podre e carcomido ; o palácio episcopal, 
inhabitavel, é de todos os edificiús o que tem resis- 
tido mais, porque sendo abandonado no tempo do 
bispo D. Fr. Pedro Jacinto Valente em 1754, ape- 
nas com breves intervallos servia de residência aos 
srs. bispos, e desde 1826 nunca mais se fez caso dM- 
le. Pode por tanto dar-se mui bem a esta povoação 
o nome de cidade dcis ruínas^ que lhe quadra muito 
mais^ que o faustoso de cidade da Ribeira Grande, 
com que ainda a appellidam, e que é uma ironia 
bem amarga, ou uma mentira bem inútil. 

(Continua,) 
J. M. DE Sousa Mostkiho. 



SANSÃO NA VINGANÇA ! 

(1850) 

E lacudindo (Sansao) com grande 
forqa as columnas caiu a casa sobre 
todos 09. príncipes, e sobre todo o 
povo que estava n'elU ; e foram mui- 
tos mais os que matou morrendo, do 
que os que matara antes quando vivo. 
JviiBs, cap. XVI, r. 30. 

VIL 

FatalidadsI 

Qlíjâmdo João António caminhava de Matapan pa- 
ra o eaes da Alfandega, Ul calculando que o espera- 



va a bordo um bem merecido castigo, como falso 
denunciante, e que parecia haver mofado dos seus 
superiores, ao passo que Ahuy estaria livre e a rir- 
se da sua imbecilidade \ aquelle projecto infernal de 
incendiar a fragata tornava de novo a apparecer-lhe 
como um meio de salvação, e resolvido a executal^o 
tratou de buscar coragem na embriaguez ; os solda- 
dos que o acompanhavam não pram dos mais cegos 
respeitadores da disciplina, e por isso entraram com 
o prezo em uma botica chineza de vinhos e licores, 
e a convite seu beberam largos tragos de aguar- 
dente. João António prcveniu-se ainda escondendo 
uma botija entre o capote e a fardeta, e já todos 
três alegres, embarcaram n^um escaler, e atracaram 
á fragata depois da uma hora da tarde. 

O com mandante e Osório passeavam na tolda, e 
o guarda-marinha Pereira, que estava de quarto, veiu 
entregar-lhe o ofâcio de Innocencio, que relatava a 
historia de Matapau nos termos menos capazes de 
provocar a cólera do chefe contra o fiel de artilha- 
ria ^ entretanto o caso era grave, e o commandante 
volveu-se para João António fallando-lhe irado^ até 
ao ponto de lhe lançar a mão ás barbas e sacudir- 
lh''as com força : 

— u Hoje e um dia solemne, n concluiu elle, u não 
ha castigos a bordo d*este navio ... mas amanhã... 
oh 1 amanhã conhecerás se podes divertir-te impu- 
nemente comigo. 99 

— uNão ha pólvora nos paioes volantes, a que ha- 
via gastou-se quasi toda na salva,») disse o guarda- 
roarinha para distrahird^aquelle ponto aattenção do 
commandaute^ use v. s.^ dá licença vae-se tirar ao 
paiol, n 

— uPois sim, mas tomem conta com esse fiel de 
artilharia, que está talvez Já embriagado, não faça 
alguma das suas. n 

— a Como o guarda-marinha Innocencio, que é o 
encarregado do paiol, está em terra, e eu de serviço 
aqui, mando o cabo da guarda assistir a tirar a pól- 
vora.» 

— uPois sim,» respondeu o commandante, e vi- 
rando-se para a amurada encontrou Osório de ócu- 
lo em/ punho olhando attentamente para a Praia 
Grande. 

— u6tue ha ahi, que tanto o attrahe?» 

— u Oh ! nada de valor, uma cavalgada, algumas 
senhoras. . . » 

— wVae Eugenia?» 

— iiSim, parece-me que é aquella amazona da 
pluma branca no chapéu. » 

— uNão ha em um dos seus dramas uma histo- 
ria de uma dama de pluma branca no chapéu?» 

— « Creio que sim \ inas não vejo a que propósi- 
to. .. » 

— uFoi uma lembrança como outra qualquer. £ 
agora me recordo, a ,pobre dama morria ás mãos do 
marido por causa de um amante. . . » 

— u Espero em Deus que não succeda o mesmo á 
pobre Eugenia.» ^ 

Osório vira desapparecer a galope o cavallo que 
conduzia a bella italiana, ficou perturbado e as pa- 
lavras do commandante augmentaram o seu en- 
leio ^ tratou de mudar de assumpto, e continuou a 
passeiar pela tolda com o seu interlocutor. 

Entretanto o guarda-marinha Pereira chamara o 
cabo da guarda, mandara apagar o fogão equalq^ier 
luz que houvesse a bordo, e entregando-lbe as cha- 
ves do paiol da pólvora que recebera das mãos do 
segundo commandante, recommendava-lhe a maior 
attenção para aquelle serviço. Já o cabo dVsquadra 
(a na proa, e ainda o joven guarda-marinha bra- 

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52 



O PAJVORAniA. 



—-U Cuidado com o fiel, olhe que nSo desça ao 
paiol com sapatos de talxas ; escusa de levar a lan- 
terna própria do paiol ; para tirar meia duiia de 
cartuxos vae bem mesmo ás escuras. » 

Jo3o António retirou para a proa logo que o com- 
mandante lhe largou as barbas, e ouviu a ordem pa- 
ra se ir mecher na pólvora \ disse comsigo que era 
o diabo que encarregara de uma tal coincidência, e 
dirígíndo-se ás fornalhas pegou de um pedaço de 
murrao, desceu para a despensa d^artiibaria e met- 
t^u-o cuidadosamente dentro de um -por ta -cartuxo; 
depois sentou-se^ e com um olhar desvairado como 
que interrogou aquellas anteparas ; soltou uma pa- 
lavra ic seja ! n com accento infernal, e pondo á bo- 
ca a botija de agua-ardente^ despejou-a até ao ulti- 
mo gole. 

Mal tinha concluído, vieram dizer-lhe que trou- 
xesse para a tolda alguns porta-cartuxos, o que elle 
logo executou, nao se esquecendo de incluir o do 
raurrão. 

Fatalidade ! . . . Se alguém se lembra de exami- 
nar os porta-cartuxos, salvava a fragata e duzentos 
homens ! 

Ao chegar á tolda, João António viu cousa que 
lhe deu infernal praser, e blasfemou : 

— u Deus ou o diabo está pela parte da minha 
vingança •, ali está Ahuy para morrer também ! » 

De feito, a lorcha havia chegado, e Ahuy, palli- 
do, desfeito, ouvia as poucas, mas incisivas palavras 
que lhe dirigia o commandante, ao mesmo tempo 
que alguns soldados do batalhão naval desciam para 
a lorcha ; era o destacamento que £a para a fortale- 
za da Taipa . . . estavam salvos ! 

O commandante depois de fallar com o chimvol- 
tou-se de novo para Osório, e disse-lhe apontando 
para a lorcha que largava de bordo : 

— Lá vae o destacamento, o sr. nao aquizacom- 

Í>anhar, nao quis ir governar por quinze dias aquel- 
e presidio da Taipa. » 

--•((£ verdade que troquei esse serviço, com au- 
ctorisaçSo do commandante, mas boje estou arrepen- 
dido. 99 

^ — «(Rapazes! rapazes! Ora anded'ahi, venha co- 
migo para terra, vou mudar de roupa e nSo tardo 
aqui. n 

— uNâo, não, commandante ; não posso, nao devo 
ir . . . desculpe-me. »> E o pobre tenente afastou-se 
arrebatadamente do seu chefe, e correu para aproa 
muito suffbcado. O commandante sorriu-se, lançou 
um derradeiro olhar por todo o navio, e desceu pa- 
ra a sua camará. 

Ao mesmo tempo o cabo da guarda dizia para João 
António: «Vamos. 99 E o fiel de artilharia repetia 
com placidez : « Vamos. 99 O malvado deu alguns pas- 
sos, parou, e com um sorriso satânico, accrescentou 
mentalmente: ulnnocencio está em terra, o com- 
mandante a bordo, Ahuy também . . . é pena que 
aquelle pobre Osório nao se lembrasse hoje de ir 
passeiar, terá sina de morrer queimado ! . . . Já o 
114 foi mais feliz, que lá Vae chegando á Taipa !... 99 

— u Então vens d'ahif99 

— u Ahi vou cabo d^esquadra. . . Glue pressa que 
elles têem ! ! . . . Vamos. 99 

E desappareceram ambos pela escotilha de proa. 
O sino dava duas badaladas, depois outras duas, e 
ainda mais uma; eram duas horas e meia da tarde. 

De repente um estampido medonho, um abalo 
súbito nas aguas do porto da Taipa, e nuvens de 
fumo e chammas que. envolveram a fragata, chama- 
ram as attenções de toda a gente da cidade para 
aquelle ponto . . . quando a fumarada foi impellida 
pelo vento, appareceu a mi a triste realidade! AK 



gunt madeiros, qúe boiavam a par de muitos cadá- 
veres, cabos e poleame que se enleavam em homens 
agònisantes . . . e entre estes viam-se desfigarados o 
tenente mouro Samgi e o guarda-marinha Perei- 
ra !.. . uma chuva de sangue, que tingia de verme- 
lho os toldos da corveta americana Marion ... gri- 
tos de agonia, estertor de moribnndos, espanto, cons- 
ternação, horror . . .* eis-ahi o quadro que apresen- 
tava a Taipa ! Os bravos americanos da Marion sal- 
taram logo para dentro das ruinas da fragata, deli- 
gencianda salvar ainda alguém que lá pudesse estar, 
e n^essa ocòasião rebentaram 00 paioes volantes, que 
pouca pólvora tinham, é verdade, mas que assim 
mesmo fizeram uma pequena exploÃo . . . porem os 
valentes marinheiros dos fjstados-Unidos prosegui- 
ram impávidos na sua philantropica tarefa. Foram 
elles que salvaram das oudas os poucos que escapa- 
ram da explosão, e alguns que pouco depois morre- 
ram. . . Honra a esses homens, que dignamente ca- 
pitaneava o commandante Glendy. 

Perante aquelle espectáculo horrível do aniqui- 
lamento de um grande navio, e^ da sua numerosa 
guarnição, ooçorreu também aos homens corajoso» 
que estavam na cidade a iáéa, de voarem em soe-, 
corro de alguém que houvesse escapado do incêndio, 
e que corresse o perigo de morrer nas aguas por fal- 
ta de auxilio ^ entre esta gente que corria ás praias 
e embarcava para o logar do sinistro, appareceu 
aquelle official de artilharia, que encontramos em 
casa de Murray, o qual saltando ligeiramente para 
dentro de uma lorcha, ia mandar remar com força 
para a Taipa, quando outro objecto, horroroso tam- 
bém, o fez suspender junto ao cães. 

Eis o que elle viu. Um cavallo corria desenfrea- 
do pela Praia Grande, trazendo sobre o dorso uma 
bella amazona \ mas o notável era, que em vez de o 
sofrear, a linda senhora incitava ,0 cavallo a galopar 
ainda mais com repetidas chicotadas ! O official ob- 
servou com horror aproximar-se essa mulher, e 
reconheceu que era Eugenia ^ quiz desembarcar pa- 
ra lhe acudir . . . mas já era tarde ! O cavallo che- 
gou, voando, ao parapeito próximo do palácio do 
governo, e galgando-o de um pulo, cego como vi- 
nha da carreira, abysmou-se nas aguas com a sua 
dona, que não deu um s^ grito a pedir soccorro ! 
Então o official fez vogar a lorcha para o sitio em 
que se sumiram cavallo e cavalleira, e viu appare- 
cer á superficie das ondas unicamente o cavalíd; de 
um salto arremessou-se ao mar, mergulhou, e trou- 
xe acima seguro pelos vestidos um corpo, que encon- 
trou sem movimento... era o cadáver de Euge- 
nia ! 

— u Q.ue amor ! 99 disse comsigo mesmo o militar, 
u s6 eu com prebendo talvez este mysterio ^ o que o 
mundo ha de tomar por um desastre filho do aca- 
so .. . foi um suicidio ! »9 

Nao sabemos se este homem se enganava, mas é 
certo què por muitos dias nenhuma senhora de Ma- 
cau se atreveu a passeiar a cavallo. Murray partiu 
no dia seguinte para Hong-Kong, e não tardou a 
regressar á Europa. 

Floriaha, a pobre timora, que estavti na praia 
chorando pelas victimas da fragata, abraçon-se so- 
luçando ao cadáver da formosa veneziana . . . ella, 
collocada no ultimo degrau da escala social, teve la- 
grimas para dar ao infortúnio alheio ! . . . Q>uaes 
eram mais infelizes, os que partiam ou os que fica- 
vam f 

Com o desastre da fragata D. Maria II acabav>^ 
a ultima idéa de guerra com a China, a derradeiri^ 
esperança de se vingar a barbara e traiçoeira JQQtt* 
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o PANORAMA. 



53 



do governador Amaral. As corvetas retiraram cada 
uma por sua ves d^aqueilas paragens, e tratou^se 
unicamente de voltar ás antigas relações com o im- 
pério celestial ; deitoo-se abaixo, a porta do Cerco, 
as forças chineias não passaram para áquem da Casa 
Branca \ depois foram reconhecidos os nossos cônsu- 
les nos portos do império abertos ao commerdo eu- 
ropeu \ e lá está de pé um tosco pilar no sitio do 
asiassinato, indicando a nossa vergonha, como dege- 
nerados netos que somos dos vencedores do Oriente ! 

F. M. BOKDAIO. 




SBTHIBOS-LAVTBaVAS. 

£bí 1816 um parisiense, provavelmente de origem 
estrangeira, mr. Scbwickardy, impressionado dos in- 
convenientes e perigos a que anda exposto quem 
tem de viajar a cavallo de noute, durante a estação 
invernosa, e por caminhos difficeis ou desconheci- 
dos, inventou o estribo-lanieínaj para o qual tirou 
privilegio de invenção. 

O problema que mr. Scbwickardy tinha de re- 
solver não era tão fácil como á primeira vista pare- 
ce. Duas difficuldades de mor momento tinha elle 
a vencer : 1 .^ evitar que o azeite se extravasasse 
em consequência do saccudi mento preveniente dos 
movimentos do cavallo ^ 2.^ assegurar a progressão 
regular da torcida. 

As communicações necessárias da torcida com o 
deposito do azeite são mantidas por melb de um pe- 
queno apparelho, que evita que aquelle se entorne. 
Para faxer subir gradualmente a torcida, serviu-'Se 
mr. Scbwickardy do machinismo que Lambertin e 
Desais haviam anteriormente applicado aos candiei- 
ros, que se usam nas nossas salas. 



Todo o apparelho, que o inventor designa pelo 
nome de pyrophoro^ apresenta a forma de um pão 
de assucar, ou cdpe de folha de ferro : o azeite oc- 
cupa o fundo (3) \ a parte superior está solidamente fi- 
xada ao estribo. Se o ca valleiro pretende empregal-o 
de dia para lhe aquecer os pâ, conserva a lanterna 
fechada, salvo o numero de orifícios necessários (1) 
para a renovação do ar, e para dar saída ao fumo 
da luz. Se tem de se servir dVUe de noote^ basta- 
Ihe puxar uma pequena corrediça (2) por detraz da 
qual se acha um caixilho com vidro. O viajante, 
bem embrulhado em seu capote, com os pés suffí- 
cientemente aquecidos, vè o caminho, que vae se- 
guindo, e pode doeste modo percorrer de noute, ain- 
da np tempo mais tempestuoso, quaesquer estradas, 
por más que sejam, com toda a segurança ecommo- 
didade possiveis. 



Manukl Maria db Barbosa du Bocage. 

Na Arcádia Ehnano Saditw, 

Entre ferros cantei desfeito em pranto ! 
Valha a descnlpa, se não vale o canto. 

VIII. 

Na cantata, o engenho em liberdade e mais se- 
nhor de si, legou-nos paginas, que nem Rousseau, 
o aperfeiçoador da forma, nem o brazileiro Caldas 
(A. P. de Sousa) nem o mesmo Garção excederam, 
se é que as igualaram. Os segredos quasi milagrosos, 
que a arte e a natureza ensinam, fecundadas pelo 
estro, revelam-se nas composições que nos deixou 
com este nome. Para o que a dor e o affecto encer* 
rapn de recôndito, sublime e melindroso, nunca lhe 
fallece a expressão e o matiz \ para as commoçoes, 
em meigas ou atrevidas vozes, se exhalarem ani- 
mando de sentimento, ou de fremente indignação o 
canto, também nunca lhe faltou a phrase e a ima- 
gem. No meio da tempestade das paixões, quando 
as trevas mais profundas /cegam a alma, como é doce 
a maviosa sensibilidade, que as atravessa ! Gtue ma- 
gnificência no verso, que opulência nas figuras, que 
variedade melodiosa nas combinações métricas ! 

Das cantatas escriptas por Bocage quatro merecem 
o primeiro logar : a Medéa, a Morte de Ignez, 
Leandro e Hero, e a, Conceição da Virgem, não 
têem que invejar a nenhuma lyra : sobretudo a que 
celebra a desventura do nadador de Abydos deixou 
tão longe mesmo as outras de Elmano, quanto se 
avantaja (em nosso ver) aos modelos nacionaes e es- 
tranhos pela originalidade, riqueza e movimento dos 
incidentes. 

O Garção, tomando para assumpto a desesperação 
de Dido, tira do livro IV da Eneida os traços mais 
correctos. Sua em rigor é sé a ligeira moldura, em 
que o painel se imbebe. O esmero, a pureza, e a so- 
briedade attica, recebeu-as da imitação, eml>ora for- 
mosa, do épico romano ; assim as mesmas lagrimas^ 
de que se molha o episodio de Virgílio, posto que 
antigas, e meias cobertas pelo véu do género, vão 
mais direitas ao coração, do quedas modernas, de- 
masiado frias para a exaltação, d^onde rebentam. 
Em Bocage não ! A pintura nasce do ardor da al- 
ma, e da sensibilidade própria. Divisam-se em furí- 
tivos accidentes as reminiscências clássicas, porem 
como accessorios unicamente. Lembra-se deOvidio, 
e dos latinos^ mas não os copia, nem se arrasta 

servilmente atras dos seus vestidos. Comparada /k ■/> 

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ã4 



O PANORAMA. 



poesia portuguesa com as duas heroidesdoauctordas 
Metamorphoses, o pensamento, o colorido, e o gosto 
attestam não deverem á musa p^gã senão a indi- 
cação do motivo trágico. O amor e as suas tristezas, 
interpretado com sublime vehemencia, não dilue o 
interesse em conceitos aprimorados, que oamoUeçam 
como nas duas epistolas do Sulmonense. A narração 
dramática, entrelaça os effeitos, e completa-se pelo 
terror. Otheatro da catastrophe, o mar, embraveci- 
do em todos os seus horrores, é o immenso e espan- 
toso fundo, aonde começa e se desata a acção. Opa- 
thetico procede da situação do mancebo, que bus- 
cando a lu2 nos olhos de Hero, encontra o Fado que 

Punge, ameaça, desespera os ventos, 
Enrola a morte nas horrendas vagas ! 

e das anciãs da terna donzella, que suspira longe^ 
combatida pelos desejos da paixão, e pelos presagios 
do desastre. 

O estylo ílexive] e apropriado veste cada lance 
moral, e cada accidente physico, da energia, e da 
representação natural, que lhe quadra. O verso dó- 
cil reflecte o toque mais fino da idéa, o cambiante 
mais transparente aviva na gradação do afiecto. Ron- 
ca e troveja com a tempestade, altêa-se e recua co- 
mo ò nadador nas aguas \ geme entre as roxas ago- 
nias, que o suffocam ^ soluça com a extrema dor de 
llero, que se despenha. As delicadas transições, que 
a palavra mal pode tornar perceptivas, acham ex- 
pressão, nobrexa e suavidade na deliciosa metrifica- 
ção do cantor. A harmonia imitativa, como em Vir- 
gilio e Horácio, tira effeitos seductores da colloca- 
ção das phrases, e da conjuncção dos sons. Sente- 
se, ouve*se e prcsenceia-se o doloroso espectáculo, 
desde a partida de Leandro^ até ao instante em que 
Hero no seu delírio entrega o derradeiro gemido ao 
mudo amante. Na grandiosa visão dos phenomem>s 
naturaes, Elmano fica a par dos maiores poetas des- 
criptivob desde Camões; assim como eiles retrata de 
vista a peleja dos elementos e o pavor do mais ani- 
moso peito deante d^ella. Escutemol-o alguns mo- 
mentos : 

Eis manso e manso as nuvens se intumecem 

Eis o liquido pezo 
Rompe os enormes, carregados bojos. 
Em torrentes susurra, e cae na terra. 
Rebentam furacões, flammejam raios, 
' O estrondoso trovão no céu rebrama, 
O Helcspouto nas rochas ferve e ronca. 

Depois d'estes onomatopaicos versos, cuja excel- 
lencia uma analvse rigorosa faria sobresaír ainda, a 
dicção acalma, e o vate mudando para as meias tin- 
ctas, que exige o sentimento, endoudece o infeliz 
mancebo, e o arremessa ao pego, quando a sua per- 
da é qu.')^i certa. 

, Nau nieiiíos vivo n^outro aspecto lhe saiu o qu£(- 
dro da morte de Leandro : 

Eis dos olhos gentis lhe turva o lume, 
O tardo movimento eis lhe sobpêa, 
Pelas aguas o imbebe, e d^Ibero o nome 
Do suciado coração n^um ai lhe arranca. 
Abaixo, acima, com as cavadas ondas 
Vae, Vem mil vezes o infeliz mancebo. . . 

Era preciso transcrever tudo se quizessemos citar 
os trechos, tocados de notável belleza. Illumiuadode 
uma inspiração, que não desmaia, o engenhe vence 
a arte, upezar da arte envidar todos os prodigios. A 



perfeição, com que foi acabado o canto, responde aos 
detractores, que rebaixando Bocage, o suppunbam 
incapaz de uma obra de mais largas proporções. Na 
Medéa e na Ignez de Castro admiram-se as mesmas 
qualidades, porém o grau que ascendem é menos ele- 
vado. A confrontação com a Morte de Leandro e He- 
ro assombra-lhes o mérito. 

Resta considerarmos em Elmano o traductor, ou 
antes o quasi imitador, de Ovidio^ de Delille^ e de 
Castel nos combates de estalo, e na rivalidade de 
génio em que foi inimitável. Ufanando-se com mo- 
tivo dos seus triumphos, e fulminando na Pena de 
Talião a José Agostinho, que o accusava de verter 
por debilidade de. invenção, o louvor foi então des- 
culpável, embora viesse da sua boca. Transportar as 
riquezas de uma lingua para outra diversa, e algu- 
mas vezes opposta na Índole e na construcçSo^ or- 
nando a phrase alheia do galas próprias, quando es- 
morece, sustentando-lhe o brilho quando fulgura, e 
ao mesmo tempo fugir da exactidão infiel e prosaica 
sem trahir o pensamento, requer um conhecimento 
tão intimo dos dous idiomas, e um tacto tão subtil 
em apreciar as opulências e as pobrezas de ambos, 
que torna o passo difficilimo, e a victoriá quasi mais 
gloriosa, do que se a palma se cortasse no lavor de 
composições originaes. • 

Bocage nada omittiu para o conseguir, honrando- 
se com as apuradas versões, que andam nas mãos de 
todos como typos. Do latim traduziu o Canto de 
Tripoli e a Elegia a D. Rodrigo de Sonsa Coutinho, 
de Cardoso : o Consorcio das Flores de Lacroix •, fra- 
gmentos das Metamorphoses de Ovidiò; e alguns 
epigrammas de Marcial. Do italiano, transportou o 
Atilio Régulo de Metastasio, e trechos da Jerusa- 
lém do Tasso. Do francez verteu os Jardins porDe- 
lille, a Agricultura de Rosset, as Plantas de Castel, 
a Euphemia de Arnaud, a Vestal de D'Anchet, • 
varias poesias lyricas, novellas fugitivas, epigram- 
mas, e fragmentos de poetas elogiados. 

Para tornar mais sensível o mérito da difficul- 
dade vencida, seria necessário' cotejar o texto com a 
versão, e diante doesta ultima e verdadeira prova, 
proferir a ^sentença. Mas nem o espaço o permitte, 
nem um ensaio como este offerece a margem in- 
dispensável para isso. De mais, para que serviria 
repetir o que passou em julgado e ninguém contes- 
ta ? Não se escusaram reflexões críticas e desenvol- 
vimentos, aonde se descobriu alguma sombra mais 
escura, e menos justa ^ resplandecendo porém sem 
nódoas a formosura de que vale asseverar o que to- 
dos vêem ? Severo, quando o devíamos ser, as qua- 
lidades e os defeitos do poeta foram sujeitos a uma 
balança imparcial ; e se o erro tirou alguns quila- 
tes ao louvor ímmerecidamente, foi a intelligencia 
quem faliiu. Manuel Maria não carece de que a 
posteridade negue a verdade, e ultraje o gosto para 
o exaltar. Sustem -se na grande altura, que tomou 
com o seu equilíbrio próprio. Se lhe falta a rara 
perfeição, que em Virgílio suppre a imaginação crea- 
dora de Homero, e se não se abalança aos atrevi- 
mentos pasmososode alguns auctores modernos, no 
seu tempo e na 8u« escola colloca-se entre prínci- 
pes da arte. 

No capitulo IV indicamos as causas principaes 
dos lapsos, que disformam a elegância e a concisão 
da sua phrase, a nobreza do estylo, e a harmonia 
da metrific%ão. Nocapítulo VII avaliou-se" a sua fa- 
culdade inventiva, e pelos trabalhos conhecidos ar- 
riscou-se a conjectura dos que seria capaz de empre- 
hender. Agora cumpre-nos encerrar a longa excur- 
são intentada em uma província das letras, das mais 
árduas de atravessar. . r^r^^^^wr^ 

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Q PANORAMA. 



55 



A leitura attenta do poeta é mais do que suffí* 
ciente para se observar o resto. O methodo de La- 
harpe, o exame parcial e miúdo de cada trecho, 
desmembrado verso a verso, hemestichio por he- 
mestichio, daria em resultado a lição pratica, que 
|6 minuciosa aiialyse facilita^ mas essa excede os li- 
mites e o sentido de um simples estudo. 

A £lmano para ser o primeiro, depois de Ca- 
mões, talvez não faltasse senão a epocha própria, e 
a vida mais larga. £ a conclusãoque auctorisam as 
suas obras» Com os annos, em mais ampla esphera, 
os defeitos, n^elle quasi sempre produzidos pelo ar- 
dor das qualidades, haviam de gastar-se com a li- 
ma, e desapparecer com a reflexão. A^ medida que 
o repentista fosse o inspirado poeta Bocage, pelo es- 
mero das suas composições, subiria novos graus até 
chegar (quem sabe!) áquell^ eminência rara, d^on- 
de reinam sobre a admiração dos séculos os con- 
quistadores intellectuaes, qualquer que seja a mani- 
festado, que escolham para agitarem o mundo pe- 
las idéas ! 

L. A. Rkbello da Silva. 



OrigiNAUDADE da NAVEOAçXo do OCEAKO ATLÂN- 
TICO SBPTENTRIONAL, £ DO DESCOBRI BCBNTO DE 
SVAS ILHAS PELOS POBTUOUEZES NO SÉCULO XY. 



IV. 



A ESTATUA saia toda maciça da lagea. Para isto 
O conhecimento d^uina arte já adiantada era indis- 
pensável. O emblemático destino do monumento, 
para que do mar fosse avistado pelos navegantes, 
parece obrigal-o a dimensões colossaes. O chronista 
não nos falia no primor ou na rudeza da obra. N\im 
ou n^outro caso a inverosimilhança pelas dificulda- 
des inglórias não díminue. Mais improbabilidade 
no primeiro caso, e no segundo nunca a execução 
fora tão fácil, nem a imperfeição tamanha, que não 
tivesse bem caracterisados a posição, o vestido, o ca- 
vallo, e a inscripção^ o que >udo accusa grande tra- 
balho e soccorro d^arte, por menos correcta que a 
obra fosse. £ tudo isto para que? com que fím, em 
mar de que não ha memoria ter sido jamais nave- 
gado antes de n<!>s? 

O dedo Índex da mão direita do cavalleiro apon- 
tava para o poente. Esta circumstancia parece estar 
dizendo que a idéa da estatua e d'*esta altitude é 
posterior á descoberta de terras occidentacs, poste- 
rior a 1492, em que Colombo fez sua primeira via- 
gem* Até então a tradição doesta tuas em ilhas de- 
sertas^ ou oceânicas, que pela fieira árabe nos pas- 
sara dos gregos e romanos, nao falia dVstatuas eques- 
tres ; sendo constante em repelir, que apontavam 
para traz, como quero indicava que para diante (pa- 
ra o poente) não havia caminho : — tradição que es- 
tava d^accôrdo com a scíencia de então, que negava 
a possibilidade de navegar no alto mar Atlântico. 
Para comproval-o, além do testemunho de Ibn-War- 
dy, Ibn-Said, Bakui, Ben-Ayàs, e Almakkari, que 
invocamos na II c III parte doeste trabalho, ainda 
agora diremos algumas palavras para maior illustra- 
çào^do ponto. 

£ hoje cousa sabida e incontestável, que os povos, 
desde a maior antiguidade, costumavam erigir pa- 
drões, que marcassem o termo de suas viagens. Mui- 
tos escriptores nos conservam memoria de se ter as- 
sim praticado, tanto na extremidade oriental, co- 
roo na Occidental da terra por então conhecida, eri- 
gindo columnellos, columnas, aras, etc. Aos padrões 



reaes ou suppostos, que para ooccidente assignavam 
termo á terra conhecida, collocados nos montes Cal^- 
pe e Abyla, na boca do estreito de Gibraltar, cha- 
maram os antigos columnas de Hercules, nome eidéa 
já conhecidos an\es dos tyrios, que em três expedi- 
ções successívas vieram procurar aquelle extremo lo- 
gar da terra, na ultima das quaes, segundo se diz, 
fundaram Cadix. 

£stes monumentos porém feitos pela arte, ou sup- 
postos nos confins^ foram-se multiplicando na razSo 
das varias direcções das viagens. De columpas, tan- 
to na £uropa como em Africa, faliam Strabão^ Scy- 
lax, Posidonio, Díonizio, Periegeta, Ethico, Pris- 
ciano, Hesychio, ePalcepliato. Ainda os portuguezes 
seguiram aquelle uso nus suas descobertas ao longo 
das costas africanas, deixando n^ellas padrões á pro-^ 
porção que proseguíam. 

Da varia accepção que no grego tinha a palavra 
iiéle (que a principio significava columna, e depois 
significou estatua) foi a idéa de columnas de Her- 
cules passando de gregos e romanos aos árabes, que 
por uma vez as transformaram em estatuas (Sanamonj 
no urabe Ídolo, imagem, estatua): vindo d^ahi povoa- 
rem d^ellas terras e ilhas incógnitas, nos confins da ^ 
terra, de que dão testemunho muitos escriptores orien-. 
taes, (afora os já apontados) de que faremos abre- 
viada menção. 

Masúdí, referindo-se a Ptolomeu, diz, que o Medi- 
terrâneo u principia no mar dos Ídolos de cobre (co- 
lumnas de Hercules) »> e accrescenta, que onde o Me- 
diterrâneo e o oceano confinam u levantou o reiHi- 
rakl (o gigante) columnas de cobre e pedras, e so- 
bre as columnas ha inseri pções e figuras, que mos- 
tram com as mãos, que não se pode ir mais adian- 
te. Dizem alguns que estas columnas não estão n^es- 
te estreito, mas n^umas ilhas do oceano, o. das suas 
costas. » No fragmento d*um manuscripto árabe, que 
se conserva na biblíotheca real de Paris, com o titulo 
Akhbar az-Zemân^ que alguns attrtbuiram ao mes- 
mo Masúdí, o. que o sábio orientalista barão, de Sla- 
ne põe em duvida ^ se lè a respeito do mar Atlânti- 
co, que elle u tem . . . Ídolos feitos por Abrahah (oti^ 
iigo rei dos árabes himyaritas :) uma d''estas estatuas 
é amarella, e faz signal com a mão, como se se diri- 
gisse a alguém, ordenando-lhe que voUasse pçira iraZ' 
A segunda estatua é verde, e tem o braço levanta- 
do e estendido, como se quizesse perguntar : onde é 
que voes? A terceira é negra, e aponta com o dedo 
para o mar, como para advertir que quem passar 
doeste logar será afogado. Esta estatua tem no pei- 
to a inscripção seguinte: Feita por Abrahah Zul- 
Menar o Himjarita, a seu senhor o sol, para con- 
ciliar o seu favor, n 

Edrisi, fallando do Atlântico {mar tenebroso) • 
de suas ilhas, diz: uHa nMle duas ilhas chamadas 
as ilhas Afortunadas. Dizem que em cada uma ha uma 
estatua de cem covados d^altura feita de pedras, e 
sobre cada estatua uma figura de bronze, que indica 
com a mão o espaço que fica para traz. Os Ídolos 
doesta natureza são seis, segundo se conta.» £ con- 
tinua : wQ,uanto a Masfahan (t7Aa), o auctor do Li- 
vro das Maravilhas refere, que no centro doesta ilHa 
ha uma montanha redonda sobre a qual se vê uma 
estatua de cdr vermelha, elevada por £saad-abu- 
K.erb-el-Hairi na sua expedição ... (o qual) fez pór 
ali aqnella estatua, para indicar aos navegantes que, 
para além doeste ponto, não ha caminho, nem to- 
gar onde se desembarque. Accrescenta-se que na ilha 
de Lamghoch {ou de Lagos) se vé também uma es- 
tatua de mui solida construcção, a que é impossível 
chegar. Diz-se que aquelle que a fez erigir morreu 
lá. . . » • T 

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56 



O PANORAMA. 



Além do que de Ibn-Wardy já transcrevemos a 
este respeito na 2.^ parte, o mesmo auctor ainda re- 
pete no capitulo das ilhas o seguinte : u Entre as ilhas 
dõ mar circumdante estão as ilhas Khaledat {peren- 
nes, eUmat) e em duas doestas ha duas estatuas de 
pedra muito dura, de altura de cem covados, e em 
cima de cada uma d^ellas está uma figura de bronze, 
apontando com a mão para traz, como quem diz : 
VoUa^ que para ali não ha nada, . . n 

De Ibn-Said já transcrevemos o testemunho. 

£ não fica aqui a tradição de estatuas entre os ára- 
bes, já também em voga entre os cartographos eu- 
ropeus, antes das descobertas maritimas dos portu- 
gueses, como tivemos occasião de notar fallando da 
carta dos irmãos Pizzigani de 1367, onde no extre- 
mo Occidental, sobre um duplo circulo, assenta o meio 
corpo d^uma estatua rude e colossal, com o braço es- 
querdo levantado, e o direito, inforníé, apontando 
para traz, ao que os cartographos puzeram esta le- 
genda. «(Hec sont statuoe q^ stat St ripas AtulliS 
quãr que o fundo at^segurtart hommes navegantes 
quare est fuso ad este maria q^uoz poxit navegare 
et foras porreta statua est Maré sordequo non po- 
xit intrare nautS. 9^ 

Ainda depois de nossos descobrimentos, ainda de- 
pois de Damião de Góes publicar a sua chronica, 
continuou seguida a tradição de estatuas entre escri' 
ptores árabes, mesmo dos princípios do século 17.^,' 
como já mostrámos na III parte, citando Bakui, 
Ben-Ayâs, e Al-makkari, a que agora juntaremos 
um novo testemunho dos princípios do 15^. 

Schems-eddèn-Mdhammed-ad-Dimischki diz na 
sua cosmographia : «< Na praia doeste mar (o orieniaí) 
ha três estatuas de pedra para a parte do norte, de 
figura horrivel, e as pedras de que são feitas foram 
lavradas nas sUas planícies, e tiradas das suas mon- 
tanhas. Cada uma d^ellas está apontando com a mão 
para a face do mar, dando a entender que n^elle não 
ha caminho, da mesma sorte do que ha na ilha de 
Cadiz^ ua Hespanha, e nas ilhas Afortunadas, den- 
tro do mar Allablába, aonde as três estatuas estão 
igualmente apontando para dentro do mar circum- 
dante Occidental, que ali está próximo. » 

Vê-se pois, que a idéa da preconísada estatua da 
ilha do Òorvo não só .era continuação das phantasias 
da antiguidade e da idade media, mas também des- 
quitando-se da primitiva posição e significação, se 
inspirava já do moderno progresso da sciencia ^ e bem 
longe de advertir que a navegação occidental era im- 
possível, apontava, e chama va a attenção para o poen- 
te como para cousa conhecida I Parece-nos ver ares- 
ta circumstancia o fio de uma fabula de sinistra ten- 
ção. Releve-se-nos que nos expliquemos sem rebuço, 
porque mal p6de ser tachado de desnaturai, quem 
por amor da gloria portuguesa se dá a tão infado- 
nhas indagações. Só sacrificámos á verdade, e para 
entrar no caminho d^ella não ha poupar a menor 
conjectura, que próxima ou remotamente possa lá 
conduzir. 

. Ha uma suspeita que nos peza e tortura a con- 
sciência se a calámos. Aquella estatua, aquelle apon- 
tar para o poente sobre tudo, não esconderá porven- 
tura uma inveja indigna, uma sinistra tenção de pre- 
judicar á gloria de Colombo? Não seria que algum 
phariseu aproveitasse um boato innocen te para o re- 
vestir de circumstancías calculadas^ pondo ate a pa- 
tranha debaixo da égide real, com o fim de vincu- 
lar de alguma forma á gloria portugueza, a gloria 
que Colombo acabava de ganhar para si e para Hes- 
panha, quando a nossa fatal imprevidência nol-a dei- 
xara primeiro sair das mãos? Se Góes o não explica 
pode bem ser que nem mesmo desse attenção ao al- 



cance da noticia que archivava, ou que não tivesse 
força para resistir ao sophisma dos sacerdotes da men- 
tira. 

(Omtínúa.) 

José dk Torkes. 



BIBLIOGRAPHIA. 

Ensaio sobre a ckolera epidemicaj pelo doutor Fran- 
cisco da Cunha Fianna e António Maria Barbo- 
sa, Lisboa, 1854, SP Preço 480 réis. (1) 

Instrucções contra a cholera-morbus epidemicOf pe- 
los auctores do Ensaio, Ibid. Preço 100 réis. 

O terrível flagello, que a Europa conhece desde 
1817 sob a denominação de cholera-morbus asiática, 
parece aproxima r-se ás nossas fronteiras. Se n^esta 
sua quarta digressão se suppõe ter assumido um ca- 
racter mais benigno, nem por isso nos cumpre me- 
nos de previnír-nos para a sua, infelizmente, possi- 
vel invasão. Christãos roguemos a Deus, que afas- 
te de nos o flagello \ mas se é nosso dever confiar 
tudo da misericórdia divina, a religião não se op- 
poe, e a prudência aconselha-nos a que nos prepa- 
remos com todos os meios de que a sciencia huma- . 
na pode dispor para attenuar sequer os efieitos d^a- 
quella enfermidade, já que os não temos para a ex- 
tinguir e debellar. 

A publicação do trabalho dos srs. Vianna e Bar- 
boza foi puis nas actuaes circumstancías mui oportu- 
na, e cremos que será ainda mais útil. 

Estranhos absolutamente á sciencia medica não 
podemos emittir opinião segura sobre a parte scien- 
tifica do Ensaio : cremos porém, que a mais valiosa 
garantia da sua excellencia é a reconhecida capaci- 
dade e talento dos seus ^Ilustres auctores, ambos mui 
distinctos facultativos do hospital real de S. José. 
Podemos entretanto af&rmar que de todo^ os traba- 
lhos que se téem escripto em portuguez sobre a cho- 
lera-morbus é este sem duvida o mais completo, e 
mais rico de esclarecimentos estatísticos, que hão de 
ser de um grande auxilio para o estudo da epidemia . 

Ha porém no Ensaio dos srs. Barboza e Vianna 
uma parte essencialmente popular y que considerá- 
mos do maior interesse, e são as instrucções contra 
a cholera-morbus, de que mui avisadamente fizeram 
uma edição em separado. Contêem aquellas instruc- 
ções conselhos, que todos (qualquer que seja a posi- 
ção social em que se achem collocados} podem enten- 
der, e devem acceitar, e cujas prescripções muito 
convirá que se cumpram escrupulosamente, por que 
a sua profícuidade está sanccíonada pela experiência 
dos paizes estranhos, e mui especialmente da Ingla- 
terra e da França. 

Recommendâmos pois com todo o einpeuho o En- 
saio e as Instrucções dos srs. Vianna eBarboza, que* 
prestaram assim ao paiz, com o seu bello trabalho, 
um serviço importantíssimo. 

O editor do Panorama declara que o único 
individuo encarregado por elle de receber ns- 
signaturas para o dito semanário na cidade 
da Bahia (império do Brazil) é o sr. Justino 
Severiánno Paiva. 

Lisboa^ 18 de fevereiro de 1854. 

(1) Esta» duat obras ▼endem-se na lÍTraria do sr. J. 
P. M. Lavado, rua Augusta n.^ 8. 



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8 



O PANORAMA. 



57 




GOSTUmS — K0L90 — TALAOBIOS. 



A avbstIo do Oriente, por muitas vezes adiada, e 
reprodunndo-se sempre sob variadas formas, busca fi- 
nalmente na guerra uma solução definitiva; nio es- 
tá realmente este meio muito em barroonia com as 
pretenções e tendências do século ; mas também nio 
sabemos que houvesse outro, depois de exbaustos 
todos os recursos da diplomacia, empregados com 
perseverança e com intelligencia por espaço de mui- 
tos mezes. Seja porém corno foros negócios do Orien- 
te attrahem a attençSo geral '^ é por isso que n6s, 
conservando-nos afastados do campo da politica, cu- 
jos limites temos por sjstema respeitar severamente, 
tencionámos, em um pequeno trabalho, dar umaidea 
VoL. in. — 3.aSERIK. 



da iraportantissima questão, que hoje (em portheatro 
as margens do Danúbio. Como iiitroducçao a esse 
trabalho começará no seguinte numero a publicação 
dé um exceilente artigo de um dos nossos collabora- 
dores, sobre os impérios bizantino e ottomano. 

A nossa estampa representa uma scena de costu- 
mes moldo-valachios. A Moldávia e a Valaebia, bem 
como a Servia^ constituem os três principados que se 
denominam do Danúbio. A Servia é dividida em dese- 
sete circulos: capital Belgrado. A Valaebia divi- 
de-se em dezoito districtos, e tem por capital Bu- 
charest; a Moldávia, é repartida em treze districtu»^ 
a capital dWe ultimo principado é Jassv. 

Fevereiro 2o, ISoi. j 

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58 



O FAIfORAMA. 



oommum e publico doeste reino, e em particular o 
doesta villa ; e outrosim tudo o que se contém nos 
•eguintes 

Ccqnhilos perá eóries. 

mOJuís, vreadores, e procurador do concelho abai- 
xo aadgnados pela confiança que temos dos procura- 
dores de cortes eleitos por nds, que no bem publico 
commum e particular doesta villa tratarão bem e fiel- 
mente d^elles, fazemos inteira confiança pêra que to- 
do o que lhes parecer haverem detratar*, e só acha- 
mos o que pêra este povo podem pedir a sua mages- 
tade n^esta occasiao as cousas seguintes. 
uQ^ue nSo haja alçadas de aj untos. 
«1.** Tratarão de pedir a sua magestade que man- 
de reparar os muros e castello e barbacã pêra defen- 
sa doesta villa. 

u 2.^ Tratarão de pedir a sua magestade se con- 
serve o castello com habitação de gente, para que 
ob"g"e aos moradores d'esta villa, aos ricos e abo- 
posta d^el-rei forma a substancia da carta de 24 de j nados, para que lá façam casas. 
|i)A|o^do mesmo anno de 1468, e se viu no capitu- «<3.^ Pedirão a sua magestade se faça igreja dos 
"^^ bens ecdesiastlcos. 

"4.^ Pedirão, que este povo está pobre, eque es- 
tá muito carregado no cabeção geral, que se abata. 
« 5.^ £ qae as fintas lançadas por os reis deCas- 
tella se não use dMlas. 

«6." l*edirão armas, tambores, bandeiras, e peças 
de artilharia pêra o castello. 

« 7.^ Pedirão a sua magestade, faça esta terra pri- 
vilegiada e livre de portagem. 

u8.^ E que havendo fintas presta comarca, senão 
lance sem se achar presente huma pessoa doesta ter- 
ra, e não se achando presente, a não cumpram n^es- 
ta villa. 

«(9.^ Q^ie não hajacoudellaria, pou as não ha nas 
terras de sua magestade, e fax muita vexação a este 
termo e povo. 

« 10.® 6tue n^este povo, e nos mais, ou a maior 
parte do reino costumavam eleger escrivão dos ór- 
fãos, e avaliadores, e pôr os posteiros. Seja sua ma« 
gestada servido conservar o que se costumou antiga- 
mente.» 

Estes capítulos foram entregues aos procuradores, 
escriptos pelo escrivão, eassignados pelos officiaesda 
camará (4). 

EUes porém, na forma da clausula geral de sua pro- 
curação e Juramento, requereram além doestes capi- 
tulos alguns roais que lhes pareceu, como se vê de 
uma memoria na Torre do Tombo (5), que dis: 

Requereram — Art. 1 .® Mandar reparar os paços e 
muralhas, e limpar a cisterna. — Art 2.*^ Fazer no- 
va igreja á custa .do prelado, por comer perto de 2 
contos de réis em disimos. — Art. 4.*^ O hospital 
chamado do Trolho de S. Pedro, e o hospital da 
mesma villa se reunisse á Misericórdia. 

Parecer das cortes. — Parece-lhes deve vossa ma- 
gestade conceder esta mercê, asay como se fes em 
Évora, Leiria, Tentúgal, e outras partes do reino, 
por quanto se tem experimentado que de se anne- 
xarem estes hospitaes e albergarias resulta o maior 
e melhor aproveitamento dos bens d'elles, e utilida- 
de aos pobres •, que é a tenção, com que a maior 
parte d^elles foram instituídos, m 

Assentou a camará que se desse aos procuradores 
o salário, que sua magestade lhes taxasse, assim dos 
dias de estada, como dos 6 dias de ida e vinda ; de- 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

Memorias da villa db Abratolos. 

XIX. 

Arrayolot em cdrie$. 

A villa de Arrayolos tinha assento nas antigas cortes 
dos três estados no banco 1 5.® do braço dos povos. 

Bem desejara eu dar um exacto catalogo dos pro- 
curadores doesta villa ás mesmas cortes, com miúda 
noticia de suas eleições, da forma e poderes das pro- 
curações, e do tçor dos artigos e capítulos particula- 
res, que lhe foram com mettidos. Porém só interrom- 
pidamente apparecem alguns documentos sobre a ma- 
téria, dos quaes pude colher o seguinte : 

Cortes de Santarém de 1468. — Entre os capítu- 
los especiaes foi o da queixa contra o conde de Gui- 
marães, senhor da terra, o qual capitulo com a res- 



lo XV. 

Cortes de Évora de 1481. — A estas foi por pro- 
curador de Arrayolos eEvora-Monte Diogo do Valle* 
Eleito por influencia do duque de Bragança, de 
cuja casa «ra criado, levou instrucçÔes do mesmo du- 
que para se oppor aos conhecidos planos de reforma 
d'el-rei D. João II, como se viu no capitulo XVI. 
Cortes de Évora (1) de 153^. — Foram procura* 
dores Gallar Rodrigues, e Diogo Barreiros (2). 

Cortes de Almeirim de 1544. — Foi um s6 pro- 
curador, cujo nome todavia não acho declarado. São 
conhecidos dous capítulos especiaes. Um pedindo fos- 
se abolido o couto do castello, o qual com a resposta 
d'el-rei forma a matéria da carta de 21 de julho do 
dito anno. — Vid. o capitulo IX. 

Outro sobre a Adua, consignado no alvará de 8 
de julho de 1546. — Vid. o capitulo XXIV. 

Cortes de Lisboa de 1579. — Procuradores Antó- 
nio do Valle, e Francisco do Valle. 

Cortes de Almeirim de 1580. — Procurador Fran- 
cisco do Valle. . 

Cortes de Thomar de 1581. — Procuradores Pêro 
Coelho, e Jerónimo Varella (3), cavalleiros da casa 
d'el-rei. i 

Cortes de Lisboa de 1583. — Procuradores Fran- 
cisco do Valle, e Pêro Coelho. 

Cortes de Lisboa de 1619. — Procuradores Mar- 
lim do Valle, e André Nunes. 

Cortes de Lisboa de 1641. — São as de que acho 
• mais ampla noticia no que toca a esta villa. 

Era 6 de janeiro doeste anno se leu em camará a 
carta d'el-rei em que manda se elejam dous procu- 
radores para irem ás cortes, que se devem faxer em 
Lisboa a 20 d'e8te mesnio mes ^ e logo foram elei- 
tos Manuel Carneiro da Veiga, e Custodio de Víl- 
lalobos de Almeida, que sendo chamados acceitaram •, 
e tornando a ser chamados no dia 12 foram notifi- 
cados que estejam em Lisboa a 19; e prestaram ju- 
ramento de requererem nas ditas cortes todo o bem 



(1) João Pedro Ribeiro na sua Dissertação sobre 
as eóries (Memor. de litter. portug. da acad. real 
das SC. de Lisboa, tooio2.^) dá estas cortes por cele- 
bradas em Évora ^ eu achei algumas memorias, que 
as referem a Lisboa. 

(2) Torre do Tombo, cart. da coroa, masso 5, n.^ 5. 

(3) Kbte procurador está assigiiado Jerónimo no 
original das mesmas cortes (Torre do Tombo, casa 
da coroa), e João no exemplar impresso. 



( 4) Tud o isto consta do li v 
a 1642, de íl. 43 até fl. 51. 

(5) Liv. 3.<^ de Guadiana, fl. 24 



das vereações de 1640 



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o PANORâJUA. 



59 



cYarando logo os oíficiaes da camará que lhes seria 
todo pago dos bens do concelho no 1.^ quartel (1). 
£ el-rei depois de concluídas as cortes mandon, por 
provisSo do deienibargo do. pa^ de 30 de fevereiro 
de 1641, qoe se lhes pagasse aquillo que constasse ter- 
se pago aos procuradores qoe foram áso6rtes de 1619, 
e dá mesma parte donde a estes se havia pago (2). 

Ém virtude doesta provisSo, e da certidão que trou- 
xeram constou dever-se aos ditos procuradores de 
ajuda de custo ÍO^fi rs., que nSo receberam logo no 
1.^ quartel, como lhes fdra promettido, mas em três 
pagamentos (3). 

Cortes de Lisboa de 1642. — N We anno chamou 
novamente el*rei os povos a cdrtes^ e em camará de 
3 de agosto se abriu a carta, em que el-rei manda- 
va «cque se elejam dous homens, que vSo á cidade 
de Lisboa por procuradores d*este povp aos quinie 
dias do mes de setembro doeste presente anno, em 
o qual tempo serão obrigados a estar em a dita ci- 
dade de Lisboa, para assentarem o modo, com qoe 
esta villa hade contribuir pêra os gastos da guerra, 
e as mais cousas, que por serviço de sua magestade 
se propuzerem nas ditas cortes, pêra o que levarão 
procuração bastante na forma, que soa magestade 
ordena. 

u E tomados os votos dos officiaes da camará, as- 
sentaram que fossem por procuradores d'etta villa 
Custodio de Villalobos de Almeida, e Balthazar Q.ua- 
resma'^ e porque esta matéria envolve o bem com- 
mom do povo, feita adita eleição chamaram os^pro- 
curadores dos misteres, e lhe deram conta dMla, e 
elles a approvaram, de que se fet este termo etc. E 
feita a dita eleição n^esta forma, vendo os ditos of- 
ficiaes da camará que as rendas doeste concelho es- 
tavam esgotadas por este anno, e que ainda para o 
que vem ficava um grande empenho, assentaram que 
se nao podia dar a cada um dos procuradores mais 
de um cruzado por dia, de que outrosim mandaram 
fazer este termo; e os ditos procuradores acceitaram 
o dito salário, e prometteraro estar em a cidade de 
Lisboa no dito termo de 15 de setembro (4). 

Apezar porém de prometterem os procuradores con- 
tentar-se com este salário ; é certo que Vindo das 
cortes apresentaram em camará de 25 de outubro 
da 1642 uma carta regia, que mandava selhespagas- 
se ajuda de custo como nas cortes do anno antece- 
dente (5) : e a camará em vereação de 1 4 de mar- 
ço de 1643 lhe mandon pagar 40 dias na razão de 
dous crazados por dia, e mais 24^^000 réis a cada 
tim de mercê \ o que tudo monta em 112j^000 réis 
para ambos (6). £ se lhes pagou em prestações (7). 

Cortes convocadas para Thomar em 1643.* — Pa- 
ra estas cortes, que não chegaram a celebrar-se, es- 
creveu a camará de Arrayolos á de£vora, pedindo 
que os procuradores doesta cidade lhe acceitassem 
suas procurações (8). 

Cortes ile Lisboa de 1668. — Procuradores Tho- 
mé Rodrigues Santiago, e Christovão do Soveral 
Neto. 



(1) Liv. das vereações de 1640 a 1642, fl. 46. 

(2) Registada no liv. das vereações sobredito a 
a fl. 66. 

(3) Liv. id. n. 66 V. efi. 106. £ liv.dasver.de 
1642 a 1645, fl. 34 v. 

(4) Liv. das ver. de 1640 a 1642, fl. 141 v. 

(5) Liv. das ver. de 1642 a 1645, fl. 9. 

(6) Liv. id. fl. 35. 

(7) Liv. id. fl. 98cfl. 143 v. 

(8) Cartório da camará de Évora, liv. 9.^ dos 
orig. fl. 392. 



Entre os capítulos particulares, que estes procura- 
dores levaram, foi um sobre a queixa que havia nos 
moradorea da villa acerca da baixa, a que tinha vin- 
do a governança d^ella, admittiodo-se ás eleições pes- 
soas inferiores na qualidade, e de officios humildes, 
cujos pães e avós nunca tinham servido os cargos da 
republica, por cuja causa os mais homens nobres se 
escusavam de servir de vereadores : e o príncipe, por 
desejar favorecer em tudo a seus vassallos, e aug- 
mentar a nobreza, houve por bem fazer mercê que 
06 ouvidores não raettessem nas eleições d^ahí por 
diante cântaro de vereador a pessoa alguma, salvo 
áquellas cujos pães e av<$s tivessem servido de verea- 
dor -, e em falta de sujeitos, que não possam chegar 
ao numero de doze em razão dos reprovados, a cama- 
rá por sua escolha perfizesse o mesmo numero de do- 
ze cântaros de homens, que parecessem mais idóneos 
para o cargo, de maneira que a escolha não fosse dos 
ouvidores, que como não eram da terra, não tinham 
tanta razão de conhecer os moradores e nobreza d^el- 
la, e costumavam fazer n^este particular alguns er- 
ros; advertindo que os taes eleitos de novo não ti- 
vessem servido officios mechanioos, nem fossem casa- 
dos com gente de nação. E tudo consta do alvará 
passado em Lisboa a 12 de dezembro de 1688 (9). 
Cortes de Luboa de 1674. — Em camará de 22 
de outubro de 1673 com reunião da nobreza e mis- 
teres foram eleitos para procuradores ás cortes Ma- 
nuel Rodrigues Lasso com 18 votos, e Manuel Car- 
neiro da Veiga (filho) com 22 votos, e logo deram 
juramento, e prometteram estar em Lisboa no 1.^ 
de dezembro, na forma da ordem de S. A. (10). A 
estes procuradores mandou a camará em 21 de no- 
vembro dar 40;^000 réis de ajuda de custo, que se 
pediram por empréstimo dos bens de raiz, até reso- 
lução de 8. A. (11). 

N^estas eleições, e nas seguintes se guardou diffe^ 
rente estylo, convocando-se a nobreza e misteres, e 
votando todos com a camará \ a qual nas outras fa- 
zia por si s6 a eleição. 

Cortes de Lisboa de iê79 el680.—- Sd consta de 
um procurador, que foi o doutor Manuel do Valle 
Cardoso, a quem foi passada a competente procura- 
ção em acto de camará, escripta pelo tabellião An- 
dré da Veiga Pinna em suas notas, a 6 de novem- 
bro de 1679, com poder de substabelecer a um e 
muitos procuradores ^ na qual procuração lhe conce- 
dem todol os poderes, que adita camará e povo tem 
em direito, e lhe são concedidos para elle assistir ás 
cortes, que de presente o príncipe nosso senhor man- 
da fiizer, para que elle dito procurador de cortes, 
ou cada um de seus substabelecidos poasam requerer 
nas ditas cOrtes tudo o que lhe parecer, assim a bem 
do príncipe, nosso senhor, como a bçm doestes rei- 
nos de Portugal, e bem commum do povo d^aquella 
villa, e lhe dão poderes para assignarem em tudo o 
proposto nas ditas cortes sem limitação alguma ; e 
em especial para o casamento da senhora princesa, 
e para todas as dependências do dito casamento, que 
para bem d^elle convierem a estes reinos \ e para de- 
clarar e revogar as leis das cortes de Lamego, tudo 
na forma da carta do príncipe, nosso senhor *, e tudo 
por elle dito procurador feito, dito e reouerido e 
assignado, ou por seus substabelecidos o na a dita 
camará e povo por bom, firme e valioso d^aquella 
hora para todo sempre ^ e prometteram de não eh- 



(9) Liv. de registo da camará de 1661 a 1673, 
fl. 38. 

(10) Liv. das ver. de 1669 a 1674, fl. 17 

(ti) Liv. id. fl. 177 v. Digitized by 



tíSogIe 



60 



O PAIVORAMA. 



contrar em tempo algum a tudo por elles feito eas- 
signado, para o que obrigavam suas pessoas e bens 
do concelho (1). 

Cortes de Lisboa de 1697.-— Em camará de 28 
de setembro de 1697, em consequência de carta de 
sua magestade, se fei eleição de procuradores ás cor- 
tes, que havia de celebrar na cidade de Lisboa, a 
15 de novembro, para juramento do pfincipe^ e saí- 
ram eleitos o doutor Balthazar Mousinho do Valle 
com 29 votos, e o deiembargador Manuel do Valle 
Cardozo com 23 votos. Este ultimo se oflereceu pa- 
ra ir gratuitamente sem salário, nem ajuda de custo. 
Ao primeiro mandaram dar para ajuda de custo 
50;^000 réis (2). E em cateara de 7 de desembro 
de 1698 apresentou ordem do deiembargo do paço 
para lhe serem pagos os dias, e 30^000 réis de aju- 
da de custo ^ e como assistiu nas cortes 6 mexes e 
23 dias, lhe mandaram pagar 5 meies (por quanto 
requereu que os 23 dias se abatessem por duas jor- 
nadas, que veiu a este povo) a 800 réis por dia, que 
faiem 120#000 réis (3). r » m 

Cortes de Lisboa de 1828. — Em vereação ex- 
traordinária de 16 de maio de 1828, em virtude de 
carta regia do sr. infante* regente de 6 de maio, que 
foi apresentada^ se procedeu á eleição de procura- 
dores para as cortes, que dentro de um mes se ha- 
viam de celebrar em Lisboa, para reconhecer a ap- 
plicaçâo de graves pontos de direito português^ e á 
pluralidade de votos ficaram eleitos Manuel José Men- 
des de Carvalho, capitão-m6r d'esta viUa, e caval- 
leiro de Christo, e António Joaquim Parto, natural 
d esta viUa, cirurgião da real camará, cavalleiro de 
Cbristo, e ambos actualmente residentes em Lisboa 
(*). E em vereação de 24 de maio, prestaram jura- 
mento por seus procuradores (5). Não se lhes arbi- 
trou salário, nem ajuda de custo, por serem resi- 
dentes em Lisboa. 

J. H. DA CUKBA RiVABA. 



escriptores porto oubz es contemporâneos. 

Poetas lyricos da oeraçXo nova. 

Mbndss Leal. 

No MES de agosto de 1838, o theatro normal, ho- 
misiado no arruinado barracão da rua dos Condes, 
coroava de merecidas ovações o auto de Gil. Ficente^ 
n^este género a obra mais animada do visconde de 
Almeida Garrett, depois de Fr. Luiz cU Sousa, 
Drama e elegia igual na correcção ao Chatertion 
de ^íjffiy, e digno na paixão do pathetico de So- 
phocles, as musas teceram-lhe a coroa n'um mo- 
mento de risonha inspiração. 

O auto de Gil Vicente foi o primeiro passo firme 
da escola moderna pela scena portuguesa. Como in- 
terpretação histórica subia ás origens do theatro na- 
cional no século 16.*^, abrindo com ellas o quadro 
da nova epocba. Atava as tradições, e honrava a 
arte, começando a renovação pelo retrato do funda- 



(1) O traslado authen tico da procuração, que ser- 
viu ao mencionado procurador, conserva-se em Ar- 
raiolos no cartório de seu descendente, o ill.°^° sr.^ 
João José de Almeida Cardozo do Valle Mexia. 

(2) Liv. das ver. de 1694 a 1700, fl. 111. 

(3) Liv. id. fl. 150. 

(4) Liv. das ver. de 1825 a 1830, fl. 109 v. 
(ô) Liv. id. fl. 112 V. 



dor. Como pintura de paixões e de oostumes, prín*- 
cípiando em Bernardim Ribeiro, e acabando no 
Flauto portugaei e no sen Mecenas, el-rei D. Ma- 
nuel, 08 personagens, todos no eeu logar e no tea 
caracter, concorriam sem esforço para tomarem exa- 
cta a revelação do aspecto elevado de om doe nudo» 
res séculos de Portugal. 

Hoje a distancia do triumpho não é íacil conce- 
ber o ardor dos applausos, nem toda aratãod^eUes. 
Os espectadores acordavam do petadello de infor- 
mes e desgrenhadas peças, e vinham respirar o ar 
fresco e temperado que circula nas paisagens da pá- 
tria. Escutando os eccoa plangentes em que parece 
soluçara ainda a vos do cantor das saudades, a poe* 
sia meiga e sincera exprimia as penas do amor, 
deixando chorar o coração. Recolhida na sua tria- 
tesa, não occultando o pranto das faces, disse a ma* 
gua como a sentia, oomp ella commove, sem ^»\»»^ 
contorsdes, sem frenéticas imprecações. Vendo-a la- 
crimosa e terna, a ahna foi atras d^ella para a ver- 
dade ; mais ou menos, a paixão queixosa nos aeoa 
lábios, tinha sido e podia ser a paixão do todos. 

Mas o auio de Gil Vleenie, na mente do poeta, 
que estreou com elle a scena, mirava a um alvo 
mais importante. Na sua id^ o drama devia ser 
um estimulo e um convite. O triumpho tinha-oi«- 
gosijado como penhor da restauração do gosto, co- 
mo fiança da futura carreira aberta. Tinham-lhe as 
artes cortado tantas palmas, que outra, mesmo a 
scenica, era inferior jio resultado que procurava. O 
seu objecto fora regenerar o theatro, purifical-odas 
devassidões, e levantando-o com o culto das graças 
castas, salval-o do despreso pela estimação de boas 
obras. Se a decadência precedeu o esplendor, se a 
imitação quasi que desvairou logo á nascença, a cul- 
pa será de todos menos do auctor de i>. Eranea. 

£ entretanto os primeiros dias promettiam mais 
do que o tempo*veiu realisar. Da corda dramática, 
cingida essa noute pelo sr. Garrett, brotou uma es- 
perança, e d'ella floresceu a vocação do poeta, qué 
mais victorias colheu no palco. Diante da gloria a 
da commoção dos seus triumphos, Mendes Leal sentia 
na mente^ o Ímpeto que Bocage chamava o estro, « 
que não é senão o enthusiasmo lyrico da alma, de»- 
! cobrindo subitamente em si o canto e a harmonia. 
Perdido no silencio, era somente ainda um man- 
cebo estudioso que frequentava os livros, via pouco 
o mundo, e conversando com o seu espirito na soli- 
dão ignorava as forças de que nascera dotado. Os 
grandes mestres da» arte antiga foram os seus primei- 
ros amigos de infância. No trato pueril, e depois 
na reflexão da idade mais adiantada, colheu a inti- 
midade, já hoje rara d^elles, do vate moderno com 
a musa pagã. O esplendor de algumas estrophes, aon- 
de brilha o primor desses modelos quasi inimitáveis, 
é devido a esta convivência, que não se sappce, ca- 
já falta se sião remedeia. 

Empregado emcommíssão litteraria na bibliotbe- 
ca publica, desvalido da fortuna, e declinando visi- 
velmente de saúde, o talento serviu-lhe de introductor 
no mundo. 6tuanto é, deve-o a si. A sua maior glo* 
ria consiste em ser filho das suas obras. Vendo-se 
passar, alguns dias antes, um mancebo abatido, pal- 
lido, e com a fronte pendida, quem ousaria prever 
a carreira que auspiciosa o esperava l Parecia que no 
instante em que vivia mais pelo engenho, lhe kiv* 
cava a morte no rosto as sombras do sepulcro ! 

Luctando com a apprehensão dos padecimentos, e 
com a fadiga do trabalho, cojofructo appUcava ása* 
tisfação das obrigações filíaes, abrigo quasi único de 
umafamilia, e esteio futuro d^ella, nas horas dedes- 
canço é que avivava sobre a tela as paixões exalta- 



o PANORAMA. 



61 



áã» da sua prâMua peça os Hoiis lUnegadot. Se fo- 
ram temerárias as esperanças concebidas ao desenhar 
esta pagina, o êxito excedeu-as. Respondeu*lhe o 
trinmpâ) ! Nataralisando as liberdades da Melpome- 
ne, entSomais que arrebatada de A. Damas, e real- 
çando à manifestaçSo dos affectos com as ^as e a 
magnificências da phrase poética de V. Hugo, exgo- 
toa, como o anctor de Catharina Howard, as situa- 
çSes TÍoleatM) cojo interesse é a andedade ; enchen 
de lanrimas e delírios o amor, como o anctor de 
Rnj Blas. Depois de tantos annos, Mendes Leal ha 
de sorrir-se das exagerações do priaseiro ensaio \ mas 
n*aqaella noute, entre as palmas, as aodamaçoes e 
as flores, nem o poeta nem a critica advertiam, que 
o bello e o suUime estSo mau perto, na verdade da 
natareia e do covaçSo ; e que as fusdes abrasadas, 
correndo para dentro de defeituosos modelos, que- 
brados estes, e frias ellas, ficam estatuas aonde acrea- 
^ko original nâo accendeu a chamma divina, que fas 
▼iver as grandes figuras das id^ e do sentimento. 
D^ali não pode sair nunca Desdemona nem Othello ! 

Filho dageraçSo nova, recebido nos braços d^uma 
ovaçSo á sua entrada nas letras, o auctor dos Rene- 
gados achou-se de repente exposto aos perigos e se- 
ducções da popularidade. Chegava em um período 
de revolução ; e os seus primeiros triumphos eram- 
Ihe decretados pelos caprichos do publico volúvel dos 
theatros, que todas as novidades attrahem, e que 96 
a lição constante consegue fater justo regulador do gos- 
to. Nao admira portanto que o poeta, pouco expe* 
riente e ainda verde para a analyse e a observação, 
preferisse as exagerações da forma á simplicidade 
grandiosa, que é a expressão trágica da paixão ; e 
tomando a emphase e a antithese pela sublimidade 
natural, arriscasse alyra ainda balbuciante, e a mu- 
sa íadl em illusões pelos precipícios que n^esse tem- 
po nem os próprios mestres evitaram. 

O exemplo e a consciência da sua fecundidade en- 
levaram o poeta moço. Entregou-se ao publico, e se- 
guiu-o em vet de o dirigir. Depressa lhe pareceu a 
scena curta para a actividade que o consumia, evelu 
pedir á imprensa horisontes vastos e mais largo cam- 
po. Cada dia foi uma lucta difierente, uma empresa 
nova, uma aposta atrevida, parada com precipitação, 
e ganha ás veies com mais fortuna que Justiça. Na 
epocha felix em que as imaginações ardentes, enten- 
dem que a pompa e o colorido resumem tudo, lan- 
çou-se á torrente e quis atravessal-a em todas as di- 
recções : as forças cedendo enganaram-lhe a vontade 
em umas occasiões ; a onda passando-lhe por cima, 
ameaçou-o com o desastre em outras. 

O verdadeiro êxito consistiu em não se ter perdi- 
do ^ em chegar a tomar a terra, nos jardins menos 
phantastices, aonde a vos dos grandes cantores, ou 
nas melodias imitadas da Grécia eRoma, ou nos sus- 
piros e carmes da inspiração christã acompanha com 
as harmonias danaturesa e da creação ostypos eter- 
nos e admiráveis do bello ! 

£m poucos annos, raros escriptores terão percor- 
rido como elle tão longo espaço, marcando a passa- 
sem de bastantes padrões. A &cilidade repentista 
da invenção, e osthesouros inexauríveis diurna phan- 
tasia quasi pródiga, permittiam-lhe tudo e anima- 
"vam-no a tudo. Do drama á comedia, da ode á sa- 
tyra, da romance histórico á novella da actualida- 
de, não houve género que deixasse intacto, não hou- 
ve corda naliaipa que ficasse muda, nem diffiouldade 
que o suspendesse. Combateu com todas ellas; pas- 
sou pelos domínios de Walter Scott, e' ao lado da in* 
terpretaçãophjrsiologica de Balsac; pisou ao de leve 
e sem demorar os rosmaninhos e os goivos da medir 
tacão catholica de Chateaubriand ! 



Se o ímpeto o trahiu *, se os poucos annos lhe fa- 
tiam promessas temerárias ; emfira se a confusão das 
línguas nas Babeis da arte lhe desvairaram a ima- 
ginação, propondo luctas em desproporção e com a 
idade e a índole poética, não pode desconhecer-se^ 
que d^essa epocha de ensaios, ainda nos resta mais de 
um quadro felis na galeria, demasiado cheia das suas 
obras. Depois quando a reflexão corregiu as verdu- 
ras ', quando o poeta, ainda crente, mas já observa- 
dor, e homem desenganado, voltou ao lar paterno, 
e vi^ante saudoso, veiu assentar-se debaixo das som- 
bras da sua in&ncia, ao lado da musa do primeiros 
amores, levantando os olhos e pousando-os nas fei- 
ções inquietas da mocidade, havia de gosar certo de- 
leite em correr com o sorriso melancólico muitos pai- 
néis do seu arrojo; devia tomal-o também certo or- 
gulho achando dignos do seu nome de hoje alguns 
aonde vive alyrica expansiva do sentimento virgem. 
Não lhe acudiu aos lábios um suspiro ; não sentiu 
desejos de díier ao presente os bellos versos de Le- 
brun : 

Prend les ailes de la colombe 

Prends, disaís-je amonâme, et fuisdans lesdeserts? 

Apesar das tentações da politica aos talentos ele- 
vados, Mendes Leal, mesmo cedendo algumas vezes, 
nunca abjurou o culto das letras. Vocação espon- 
tânea, de repente suspende as armas da polemica, 
e solta a estrophe dourada, que sobe extática e fre- 
mente de ternura como a de Sapho, queixosa e mei- 
ga como a capliva de Chénier, ou heróica, opulen- 
ta e enebriada como a de Victor Hugo. Estes car- 
mes de uma aspiração tão firme e tão nobre, melo- 
dias da alma refugiada nas regiões superiores, vin- 
gam a musa do pugilato que se arrasta, aos seus pes, 
e obrigam o clamor dos interesses a faier silencio em 
volta dos seus altares. 

(CorUinúa.) 

L. A. RxBSi.Lo DA Silva. 




Hahmab Snell nasceu em Worcester no anno ^* T 
1723. Aos vinte annos, orfa de pae • mãe, casou) QLC 



62 



O PANORAMA. 



com um marítimo hoUandez, que em breve a aban- 
donou. Privada de meios de subsistência, sòsinha no 
mundo, tomou a sin^^ular resolução de se vestir de 
homem, e debaixo doeste disfarce assentar praça de 
soldado. Pouco tempo depois, como chegasse ao re- 
gimento em que jurara bandeiras um joven recruta 
de Worcester, receando ser reconhecida por elle, 
desertou, e foi servir, como soldado de marinha, em 
um dos navios da esquadra do almirante fiosca^ven, 
que partia para as índias. Hannah Snell distingui»» 
se ali pela sua agilidade, destreza, presença d 'espi- 
rito e valor, já nos muitos temporaes, em que o na- 
vio se achou em grande perigo, já em diversos com'* 
bates. Em Pondicherj foi gravemente ferida, e pa-* 
ra evitar que descobrissem o seu segredo, teve a 
constância e a habilidade de extrahir a bala. De- 
pois de andar exposta a innumeraveis perigos, re- 
gressou a Inglaterra, onde não tardou que nSo se 
divulgassem as suas aventuras. O governo, em re- 
compensa dos seus serviços e coragem, coneedeu-lhe 
uma pensão de 20 libras (90j^000 réi^»). A Snell 
acabou pacificamente os seus dias em uma pequena 
casa de pasto, que estabelecera perto de Wapping, 
e que deveu de certo á excentricidade do viver da 
heróica proprietária grande parte da freguesia que 
tinha. 



Originalidade da navxoaçXo do oceavo atlân- 
tico SEPTXNTRIONAL, E DO DESCOBRIMENTO DE 
SUAS ILHAS PELOS PORTUGUEÍES NO SÉCULO XV. 



IV. 



Antes da descoberta de Colombo nSo apparece a 
menor memoria da estatua. Se ella existia, porque 
a junta composta de D. Diogo Orlis, bispo de Ceu- 
ta, mestre Rodrigo, e mestre Josepe a a quem elle 
(rei D, João II) commettia estas cousas de geogra- 
phia e seus descobrimentos, » e com a qual á for- 
ça de importunações o mesmo rei mandara que Co- 
lombo conferisse sobre a sua empresa, teria por vai- 
dade as palavras doeste « por tudo ser fundado em 
imaginações e cousas da ilha Cypango de Marco Pau- 
lo ?>» Isto passava cerca de 1484, quando havia ao 
menos 32 annos que a ilha do Corvo era conhecida 
e possuida pelos portuguezes. A ser verdade o acha- 
do da estatua,, fora crivei que ajunta não descobris- 
se n^este monumento singular algum indicio a favor 
da empreza de Colombo? Se esta vinha de imagina- 
çOes de Marco Paulo, porque não accrescentava a 
junta a esta raiao de decidir a de fazer o pretenden- 
te fundamento vão na estatua da ilha do Corvo? 

Porque é que Behaim no seu globo de 1 492, de- 
pois de ter casado e vivido na ilha doFayal, apon- 
tando muitas circumstancias insignificantes a respei- 
to do descobrimento das ilhas dos Açores, Cornem 
de sciencia em quem a geograpbia e cosmographia eram 
estudo de vocação, poude esquecer a memoria d^um 
facto tão espantoso e único T Não queremos affrontar 
o chronista, dizendo que fdra o inventor da fabula, 
roas como historiador, dá escola da sua epocha aoceitou 
tudo quanto ouvias convertendo^ emescriptura sem 
a menor sombra de critica. 

Posta n^estes termos a invenção da estatua pare- 
ce-nos cousa fácil de explicar. Os ofiereci mentos de 
Colombo, primeiro desprezados por Portugal, depois 
acceitos por Hespanba, e coroados do successo pro- 
inettido, foram uma accusação á ignorância, á im- 
previdência, ou á má vontade de nossos sábios e po- 
líticos. Despeitara m-se contra os novos descobrimen- 
tos, qup iam enriquecer outra nação rival. D^aqui 



porventura iwvcotarem ou apodmarein-se da noção 
popular e phantastíca d' ama estatua lu ilha do Cor- 
vo, com o iotento secreto de tirar por este meio a 
Colombo a originalidade e prioridade de seos deno- 
brimentos, qoe desde muito o dedo do eavalleiro 
apontando pava o poente indicava Ooohttoer. Aisim 
o descobrimento da Anerica pelos nossos rivaes &•« 
cava reduzido á fácil consequência de um descobri- 
mento português^ e da luz que d^elle emanava . Qtuan- 
do não podiam desluàr « feito por elles perdido, ni- 
navam-lhe a sua reputação de original, e queriam de 
algum nodo associar Portugal, ao menos pela histo- 
ria, á gloria d^aquella descoberta. Se a sua impro- 
dencia nos fizera perder o domínio d^aquellas im- 
porta ntissimaa regiões, queriam, e em compensação, 
levantar ao oi^oiho nacional um falso monumento 
que attestasse a paternidade da idéa \ contentar o 
descontentamento publico com a vangloria, e dis- 
trahir-lhe a attenção das* accusações que tão bem me^ 
reciam os que aconselharam, e ca que rejeitaram as 
propostas do aventurado navegante genovês. Entre- 
tanto mal sabiam que, lisonjeando as ruins paixões 
do seu tempo, combatendo surdamente a priorida- 
de dos descobrimentos hespanhoes no novo mundo, 
também davam falsas armas com que os inimigos 
pudessem combater a originalidade da nossa nave- 
gação e descobrimentos modernos no alto mar Atkn- 
tico septeatrional. Para salvarem o ciúme nacional 
dos martírios daoceasião, sacrificavam ás consequên- 
cias de uma fabula grande parte da nossa gloria pas- 
sada. 

E não se diga que as nossas conjecturas são sem pre- 
cedente, porque obra de meio secnlp depois de Góes, 
o infatijgavel Manuel de Faria e Sousa nos seus com- 
mentarios aos Luãiadtu^ menos reservado, ou mais 
minucioso do que o primeiro ohronista, nos pareoe 
dar a chave do segredo, quando diz não «iccharémos 
mano de no faltar quiendiga, que el (Cókmbúpara 
a descoberia da Ameríea) ... ie pudo ayudar ma- 
cho da de aquella esUtua (que con el índice apon- 
tava ai Occidente, como ensenando aquellas tierras) 
bailada por los portugueses en laisladelCuervo ...»i 
o que ainda, no ultimo tomo dos mesmos eommen- 
Urios repete nos seguintes termos : « Tambíen es de 
creer le serviria de lui... ai miemo Cólon ... aquel- 
la estatua equestre, hallada de los portugueses enla 
islã dei Cuervo, una de las llamadas Azores, i la 
mas Occidental, i Septentrional delias... cõ... 
el braço derecho tendido, apuntando con el indioe 
ásia Poniente : que sin duda mostrava essa Ameri- 
ca Occidental ...» Ruy de Pina na Chromea de 
el^ei D, João 11^ c. tt6, fiillando da chegada de 
Colombo ao Tejo, depois do seu primeiro descobri^ 
mento, bem deixa perceber a má vontade com que 
lhe estavam o rei e os cortesãos. A sua auctoridade 
como contemporâneo é n'este ponto de grande valia, 
u E seendo EURey logo disso avisado (diz eUe)j bo 
mandou hir ante si, e mostrou por isso receber no- 
jo, c sentimento, assy por creer que o dieta desco- 
brimento era fecto dentro dos mares, e termos de 
seu Senhorio de Guinee, em se oferecia disensam, 
como porque o diclo Almirante, (Colombo) por ser 
de sua condiçam hG pouco alevantado, e no recon- 
tamento de suas cousas excedia sempre os termos da 
verdade, fez esta cousa em ouro, prata, e riquezas 
muito maior do que era. Elspecialmente acusavase 
ElRey de uegrigente, por se escusar delle por min- 
goa de credito, e autoridade, acerca deste descobri- 
mento pêra que primeiro o viera requerer. £ com^ 
quanto El Rei foy cometido, que ouvesse por bem 
d^ho ali matarem -^ porque com sua morte o prose- 
giiimentq desta empresa, acerca dos Reys deCastel- 



o PAJfORASfA. 



63 



la, por falecimento do descobridor cessaria ; e que 
se poderia fiftxer, sem sospeita de sen consentimento 
e mandado ; por quanto por elle ser descortês, e 
alvoraçado, podiam com elle travar p^r maneira, 
que cada híi destes seus defectos, parecesse a verda- 
deira cansa de sua morte. MtisElRej como era Prín- 
cipe mny temente a Deos, nom soomente o defen- 
deo, mas antes lhe fei honra, e muita mercee, e co 
dia o despedio. E porem perseguido ElRei em sua 
memoria deste cuidado, e teendo sobr^isso primeiro 
conselho junto com Aldea-Gavinha, se foi a Torres* 
Vedras. . . » O que tudo repete com a mesma or- 
dem, e pouca alteraçSo nas píalavras, Garcia de Re- 
sende no c. 164 da Vida efeiioi dei rey Dom Jo" 
hatn Segvndo; e Joio de Barros Da Am^ década I, 
parte I, c. 11. 

Continuaremos nas considerações que o fexto de 
Damiio de Góes nos suggere. 

O rei mandou tirar o debuxo da estatua por 
Duarte d^ Armas. No archivo nacional nSo ha o me- 
nor vestígio doesta diligencia. Nenhum escriptor con- 
temporâneo a menciona. No livro de Duarte d^ Ar- 
mas intitulado Dasfortalatas que ttam tiiuadas no 
extremo de Portugal e Castella^ existente na Torre 
do Tombo, única obra que d^elle nos resta, nada ha 
concernente ao debuxo da estatua. O sr. abbade 
. Castro, quando na sua Carta dirigida a Sahuiio, ama- 
dor de aniiguidadesy disse que o debuxo estava n Pe- 
quena obra, errou, á força de nSo a conhecer por 
inspecção própria. O livro é em folio de pergaminho, 
com 139 folhas numeradas, afora 4 primeiras sem 
numeração, occupadas com titulo e índice. Tem a 
folha numero 56 repetida. Faltam -lhe as folhas nú- 
meros 37, 38, 39 e 46, mas consultado o índice ne- 
nhuma d'ellas contivéra nada a respeito da estatua. 
£xaminamol-o attentamente, e d^isto damos teste- 
munho. Góes em 1567 é o primeiro que falia em se- 
milhante debuxo. E porque não fas d 'elle menção 
na 2.^j parte c. 27 da Chronica de D. Manuel, que 
já primeiro compusera (1558) onde de direito devia 
notar-se, por ser cousa doeste reinado, á similhança 
do que, fallando^do mesmo Duarte d^ Armas, que em 
1507 foi mandado a Africa sondar a barra d^Aza- 
mor, da Mamora, de Salé, e de Larache, diz que 
«c traçou e debuxou as entradas doestes rios, e a si- 
tuação da terra f » N2o parece isto indicar que a falsa 
importância histórica, que quiseram dar á preceden- 
te illosSo da estatua, é de data posterior á compo- 
sição e publicação da U,^ parte da> Ckroniea de 
D. Manuel! 

Gtuebraram a estatua por mau aso, mas desculpa- 
ram-se com o rei que a tinham achado desfeita por 
tormenta do inverno passado. Esta falsidade, que 
o próprio cbronista reconhece, é significativa, como 
já tivemos occasiao de notar. Gtuem ousava mentir 
ao rei não é muito que mentisse aoclero^ à nobreza 
e ao povoy auctorisando com o falso voto da sua in- 
specção enganos que deviam desenganar, porque não 
fosse por diante o precouceito ou a malignidade que 
dera corpo, formas, e existência real a uma visão. 
Foram talvez estes vícios originaes, -que induziram 
em erro o cbronista. 

Trouxeram ao rei fragmentos da estatua. Masque 
perfeição aocusavam ? Eram própria ou vagamente 
caracterisados, a ponto de nãu deixarem duvida so- 
bre a. verdade e identidade de sua anatomia geral? 
As rochas volcanicas dos Açores, maximè nas suas 
cristas, apresentam a certa distancia formas tão phan- 
tasticas, e linhas tão pronunciadas de parte ou todo 
de figuras humanas, anímaes, edificios, etc. que cus- 
ta resistir á illusão que produzem. Como isto pode 
prender com a origem da invenção da estatua, cla- 



ramente nol-o esplica o sr. general António Homem 
da Costa Noronha, no artigo Estatua da ilha do Cor- 
vo^ que publicou no jornal litterario e histórico, a 
Revista dosAgorei^ t. I, p. 93. Seja per mítt ido soc- 
corrermo-nos ás palavras d^aquelle bom amigo. 

M Nunca foi tenção minha (diz o escriptor açoriano) 
entrar na discussão histórica do que se escrevera n ^ou- 
tro tempo a respeito do achado de uma estatua eques- 
tre roacissa de pedra, sobre a rocha do noroeste, na 
occasiao em que a ilha do Corvo foi descoberta ^ facto 
que unicamente, e como vaga memoria, o cbronista 
Damião de Góes conta na chronica do príncipe D. 
João, e sobre o qual tem havido grande discordân- 
cia entre os escriptores posteriores^ inclinando-se a 
maior e a mais judiciosa parte d^elles a contestal-o. 
Entretanto ainda esta matéria não appareceu no pu- 
blico discutida como convinha á honra das nossas des- 
cobertas e da nossa historia : sei que um meu ami- 
go prepara sobre ella uma memoria especial (refere- 
te a este trabalho que agora sae á luz) cuja publica- 
ção eu aguardo impacientemente. Para satisfazer pois 
a esse amigo não me poupei a investigações locaes, 
durante a minha residência na ilha do Corvo, no mes 
de julho do anno passado (1850). Eis o que ali colhi. 

M Os naturaes, que não excedem mil almas^ nenhu- 
ma tradição têem de haver na ilha nem vestígios d'a- 
quella estatua, sendo que, se o achado d^ella fosse 
histórico, memoria de monumento tão notável não 
deixaria de perpetuar-se de pães a filhos. O que po- 
rem e incontestável é que ja sobre as rochas, já na 
superfície do terreno, se avistam penedos^ que em 
certa distancia, ao olho nú, parecem figuras simi- 
Ihautes a organisadas. Nas immediaçdes do Caldei- 
rão, agradável cratera d'um volcão extincto, cober- 
ta de lagos e ilhotas, matizadas, como as margens, 
de bella verdura, ao norte da ilha, e já notada nas 
cartas marítimas do capitão Vidal, abundam os exem- 
plares dos taes penedos-estatuas. 

u Nenhum outro resultado colhi nos meus traba- 
lhos. Consultei paciente e aturadamente a tradição, 
que nada me respondeu : percorri e investiguei at- 
teuto os logares ao noroeste, e tudo pareceu dizer- 
me que a estatua fora uma illusão óptica, m 

Este testemunho sincero de quem pessoalmente in- 
vestigou os logares é d^um grande valor, e se não 
termina abertamente a questão da existência ou não 
existência da estatua, derrama incontestavelmente 
grande luz sobre o caracter dos fragmentos que, di- 
zem, vieram ao reino. O que veiu porventura, não 
era mais do que borcelos de cristas volcanicas, com 
que, ainda depois do desengano, se obstinavam sus- 
tentar o erro da primeira idéa, quando sd por mui 
longe dariam visos dos membros que o cbronista in- 
ventaria. Não seria por isso, por essa sua imperfei- 
ção extra-monumental, que ninguém os tomasse pe- 
lo que diziam ser, e fossem d«>sprezados a tal ponto, 
que poucos dias estivessem na guarda-roupa do rei, 
desappa recendo d^ella para sempre, o que de certo 
não succederia, se n^elles claramente se reconheces- 
sem fragmentos d^um monumento único na origem, 
no achado, e em todas suas circumstancias ? 

Os fragmentos estiveram na guarda-roupa. O cbro- 
nista não diz que os viu. Buscou saber o que fdra 
feito d^elles enão o alcançou. Pois das camarás reaes 
desappareciam cousas importantes impunemente, e 
nem sequer ficava em memoria o caminho que leva- 
vam ? Se entre 1517 e 1521 é que Góes foi guarda- 
roupa do rei, é de dataanteríor o extravio doa fra- 
gmentos, porque não falia dMsso como de cousa oc-' 
corrida no seu' tempo. Logo a perda s6 pudera ter 
logar ahi entre 1507 (em que ha memoria de tra- 
balho» de Duarte d^Armas) e 1517. Será pois cri- 



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64 



O VAJÍORAMA, 



vel que em dez aonos suocedesse tudo isto, e a me- 
moria do desapparecimento se perdesse de modo qae 
já Dada constasse a tal respeito, quando Góes entrou 
DO serviço da guarda-ronpa ? Na quitação que em 
Évora a 11 de maio 1535 D. João III passou a Pê- 
ro Carvalho da entrega de todos os objectos recebi- 
dos na guarda-roupa d'el-rei D. Manuel, desde 19 
de dezembro 1520, até 21 de novembro 1521^ nSo 
se faz nem menção nem allusão a fragmentos da es- 
tatua que no acto da transição da guarda-roupa lá 
estivessem, ou houvessem precedentemente estado. 

Gtuando o donatário da ilha do Corvo Pêro da 
Fonseca a foi ver em 1529, soube dos moradores que 
na rocha abaixo d^onde estivera a estatua havia umas 
letras. S^ de dous modos podia descobrir-se inscri- 
pção : ou achando-a explorando a ilha por terra, ou 
vendo-a contornando a costa pelo mar. Pelo primei- 
ro modo de certo não foi ella descoberta, porque pa- 
ra ir ao logar onde diziam que ella estava foineces* 
sario descer homens por cordas bem atadas : pelo se- 
gundo, descobrir do mar ou da praia letras grava- 
das n^uma alta rocha, negra e volcanica, como é a 
de toda a ilha, particularmente a do noroeste, fora 
cousa inconcebivel, mesmo que allegassem o auxilio 
do melhor telescópio ! Mas, se a estatua foi destruí- 
da pela tormenta, ou apeada, pelos emissários, sem- 
pre no logar onde estivera ficaria vestigio da sua 
base : entretanto é o que nunca se poude achar n*um 
trato de terra tão peqpeno, nem a memoria do lo- 
^r se conservou na tradição dos habitantes, o que 
de certo succederia se a primeira idéa doesta visão 
ou realidade d^elles viesse originalmente. Tudo le- 
va a crer que não foi dos corvinos que a phantasia 
da estatua partiu. Não repugna porém que da il- 
lusão óptica, que porventura foi a origem primeira 
do falso monumento, derivasse a segunda lUusão da 
inscripção -, porque era facii, a quem tanto propen- 
dia a descobrir maravilhas, deixar-se seduzir pela ge* 
ral apparencia da rocha volcanica do Corvo, que por 
sua natural porosidade, e sulcos que o rocio das on- 
das n^ella faz, carcomendo-a nas partes menos resis- 
tentes, pode facilmente induzir os desprecatados em 
erros similhantes. 

Taes são as considerações que o texto de Damião 
de Góes pedia que fizéssemos para illustração do pon- 
to ^^ e das contradicções e absurdos que notamos pare- 
ce inferir-se logicamente que a auctoridade das pa- 
lavras dochronista é nV^te particular nenhuma, por- 
que não dá testemunho pessoal de quanto relata da 
estatua, e é natural suppor-se fosse victima da geral 
credulidade, produzida pela invenção (innocente, ou 
damnada ?) do estranho monumento. Resta ainda 
apontar alguns argumentos geraes, já directos, já indi- 
rectos, que, na ausência de vestigio, ou documento 
insuspeito da existência real da estatua, tornem im- 
possível acréditar-se n^ella. 

(Continua,) 

José DX TORRXS. 



ADEUS ! 



Adeus, eu volto ao mundo, e dentro em breve 
No turbilhão revolto das paixões 
Quem da paz no remanso ind^hoje escreve 
A^manhã sondará tredos volcões. 

Eu deixo a solidão hospitaleira 
Onde vim minhas lagrimas seccar 
Pela confusa grita traiçoeira 
Que os bandos soltam no confuso mar ! 



A^s tão lindat manhãs d^ain lindo outono 
Ao sol, á brisa, ao campo, e mais á flor, 
A* quieta choupana do colono 
Resumo n^este canto um adeuf d^amor ! 

Aqui, na solidão, ai como é bello 
Abrindo o coração fatiar oom Deus 
Pór em nobre aíTeição nobre ditvello, 
Na lyra modular segredos seus ! 

£ eu vou deixar-tf , solitária estancia ! 
Ao. mundo das paixões volto outra vet ! 
Doestes, formosos campos a fragrância 
Não voltarei a ter nunca talvez ! 

Adeus, 6 solidão, meu grato asylo : 
Se a tormenta amanhã me sepultar, 
Não reveles, não digas o sigiilo 
De quanto, 6 solidão, te vim contar. 

Debaixo de mens pés vejo um abysmo ! 
Ao mundo volto ! — Solidão — adeus ! 
QfUknto mais em deixar-te eu penso e seitmo 
Mais preso, 6 solidão, encantos teus ! 

L. A. Paimuribi. 



RSCXITA X DXSPBZA DO KBIlffO ITiriDO DA Gr2- 
BrXTAHHA X IrLAHDA HO AHlffO DB 1853. 

Receita. 





Lb. str. 


sh. 


dins 


Alfandegas 


20.902:734 


4 


8 


Excise 


15.337:724 


4 


6 


Tymbre 


6.975:416 


19 


9 


Income-tax 


3.153:867 


6 


5 


Contribuição territorial. 


5.588:171 


18 


8 


Correios 


1.104:000 


M 


»• 


Propriedades da corda. • 


402:888 


19 


3 


Entregue pela comp.*^ das 








índias 


60:000 


n 


.»» 


Receitas diversas .... 


905:540 


16 
9 


5 




54.430:344 


8 



Despeta. 



Divida consolidada . 
Bilhetes do thesouro 

Lista civil 

Pensões , 

Corpo diplomático . 
Tribunaes de justiça 
Exercito • • .... 

Marinha 

Soldos civis 

Guerra da índia . . 
Outras despezas. . . 



27 



.436:193 
368:650 
399:572 
352:435 
149:777 
.107:094 
.763:488 
.640:595 
.463:690 
260KMM) 
233:340 



8 
16 
10 

2 
19 
13 

5 
19 

3 



4 

2 

5 
8 
2 
1 

6 

8 



16 II 



51.174:839 14 11 



Sobras no anno de 1853. 3.255:504 14 - 9 



— O casamento é o acto mais grave da vida do 
I homem, e corotudo é commummente o que sepra- 
; tica com maior irreilexão. 

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o PANORAMA. 



65 




nAOAU — PAGODS CBZNSZ. 



O Nosfto fntigo estabelecimento de Macau éomdos 
maÍ8 gloriosos padr5es da gloria portuguesa ^ e em 
nenbum talvez a Providencia nos tem deparado tao 
frequentes occasiôes de conhecermos o errado cami- 
nbo que levámos, e quanto nos convém adoptar no- 
vo systema, senão queremos que se perca de todo a 
preciosa herança que nos legaram nossos av6s a pre- 
ço do seu generoso sa'ngue. 

NSo trataremos porém agora da historia de Ma- 
cau^ aliás resumida no bello artigo publicado a pa- 
ginas 185 do tomoquerto da primeira serie doeste 
semanário \ nem faremos tão pouco n^este logar as 
considerações philosophicas que a situação da remo- 
ta provincia luso-sinica suscita, mas que exige tam- 
bém mais larga escriptura. e mais abalisada penna. 
Ltfimitar-nos-hemos ao objecto da estampa. 

Representa elta a frontaria de um dos mais bel- 
los pagodes de Macau ^ e porque não possuímos par- 
ticulares noticias doeste monumento, extractaremos 
o que a respeito dos edifícios chineses de Macau em 
geral se lé no excellente livro do sr. Carlos José 
Caldeira, intitulado — Aponiamentoi de uma Vic^- 
gem de .Litboà á China : 

u Entre as construcções chinesas em Macau so sao 
para notar quatro principaes pagodes, um em cada 
uma das aldêas de Moha e Patane, outro no cami- 
nho de Patane para a porta do Cerco, e o quarto 
perto da fortaleza da Barra; os dous ultimus suo de 

VoL. III. — 3 a Sbbib. 



bonita a rchitect ura no estylò chinez, e muito bem 
situados, principalmente o da Barra, que tem dif- 
ferentes nichos ou capellas em amphitheatro, por 
entre grandes penedos e frondosas arvores, que o fa- 
zem muito pittoresco. Os chinas escolhem com mui- 
to tacto e gosto oslocaes dos seus pagodes, construiu-^ 
do-os de ordinário por entre penedias e arvoredos, 
e em sitios românticos; sao muito amadores dasar- 
vores, e sendo grandes e bellas as conservam pelo 
meio dos muros e edifícios, ou affeiçoando estes de 
modo que não tenham de as derrubar. 

u Todos os edifícios de Macau e na China estão 
sujeitos aos estragos da formiga branca, que ataca 
toda a qualidade de madeira e a destrue com in- 
crível rapidez, chegando a fazer cair de repente os 
sobrados e tectos das casas, por novos que sejam, 
quando não haja a prevenção de fazer chegar a to- 
das as partes do edifício o ar e a luz, único meio 
conhecido' até hoje para diminiiir um pouco este 
flagello, que se estende a todos os objectos, e parti- 
cularmente a livros e papeis. '« 

Cabe n^esta occasião recommendar a leitura do 
livro supracitado do sr. Caldeira. Com effeito em 
obra alguuia se encontram tão copiosas e tão recen- 
tes noticias de algumas das nossas possessões ultra- 
marinas, que o auctor visitou, e para cujo melho- 
ramento aponta alvitres, que abonam muito a sua 
i Ilustração e pátrio tismu. 



66 



O PANORAMA, 



Os IKPEBIOS BY8AHTIN0 B OTTOMABO. 

N^BSTE momento em qne todas as attençoes estão 
toltadas para o jmperio ottomano, att rábidas pela 
gravidade de uma questão e importância de aconte- 
cimentos, que ameaçam envolver a Europa em unia 
das mais porfiosas luctas por que tem passado, creio 
que será lida com algum interesse uma noticia bis-' 
torica sobre aquelle império. 

O quadro será resumido, porque assim o pedem 
os limites dVste jornal : entretanto farei todo o pos- 
sível para que n''elie destaquem bem duas circum- 
stancias muito necessárias a quem quiíer apreciar 
todo o alcance da presente guerra, tanto em relação 
aos interesses da Rússia, como aos da Europa. Fal- 
lo de duas grandes influencias contrarias, que avul- 
tam n^aquella historia \ a que a cidade de.Constan- 
tinopla exerceu pela sua posição geograpbica no rá- 
pido engrandecimento de dous impérios, e a que o 
gabinete de S. Petersburgo tem exercido, principal- 
mente desde o meiado do século passado, na progres- 
siva decadência do império ottomano. 

A importância pois de Constantinopla como por- 
to commercial e como ponto estratégico, e por ou- 
tra parle a constância e tenacidade com que a po- 
litica russiana tem ido desmembrando a Turquia, e 
minandando-lhe moral e pbysicamente a existência, 
devem servir para a apreciação dos iramensos inte- 
resses que se agitam e chocam no oriente da Euro- 
pa, e também para se ajuizar da extensão do em- 
penho e esforço que farSo^ a Rússia para levar a ca- 
bo a em preza a que metteu hombros, e as potencias 
occideutaes para Ih^a frustrar. 

Ainda quando não se envolvesse n^essa guerra que 
abi está travada, a lucta de vida ou morte dos dous 
grandes principios politicos, que tem abalado toda 
a sociedade^ e na qual se resume por assim dizer a 
historia geral da civilisação, a desmembração da 
Turquia, e a OQcupação de Constantinopla pela Rús- 
sia é de per si uma questão da maior transcendên- 
cia para a sorte futura da Europa, e principalmen- 
te para a supremacia da França e da Inglaterra. 

I. 

Pundoíção de Constantinopla; divisão do impei^io 
romano; engrandecimenio e decadência do im- 
pério do oriente, 

O iMPBRio romano havia tocado o apogeu da sua 
grandeza e esplendor. O immenso poder com que 
avassallára tantos povos, já não era bastante para 
guardar e defender fronteiras tão dilatadas, que se 
estendiam peia Europa, Ásia e Africa. Começaram 
pois as invasões pelo lado do norte, e a estas suc- 
cederam-se outras não menos perigosas, as que vi- 
nham da Ásia, tanto roais temíveis quanto mais 
distava da fronteira ameaçada a sede do governo 
imperial, u centro de toda a acção. 

Constantino o Grande viu o perigo em toda a sua 
extensão, e para o vencer, ou pelo menos afastar, 
resolveu transferir a capitai para um ponto d^onde 
melhor pudesse velar pela segurança do império. 
Em taes circumstancias não podia deixar de lançar 
suas vistas sobre Bysancio. Assentada na Europa e 
junto ás portas da Ásia ; banhada pelas aguas de 
uma vasta bacia, chamada mar de Marmara, qne 
lhe proporcionava um dos mais bellos portos do jnun- 
do i colíocada entre o mar Negro c o Mediterrâneo, 
com os quaes se communicava por meio de dous ca- 
naes, o do Bosforo e o dos Dardanellos, que lhe 
serviam ao mesmo tempo de pontos naturaes de de> 



fesa e de caminhos de prosperidade, a antiga By- 
sancio ei^ o logar mais bem fadado pela natureza 
para servir de assento a uma grande cidade, assim 
como também o sitio mais apropriado aos desígnios 
do imperador Constantino. 

Correndo pois o anno de 328 deu principio este 
monarcha á sua obra, e passados dous annos Bysan- 
cio tinha mudado completamente de aspecto. A sua 
área havia-se alargado extraordinariamente \ as suas 
ruas estreitas e tortuosas tinham desapparecido para 
dar logar a vastas praças e a magnifioos edifícios. 
Esplendidos palácios, tbeatros e aqueductos, colum- 
nas, arcos triumphaes e outros monumentos artísti- 
cos; sumptuosas igrejas, d^entre as quaes se extre- 
mava por sua vastidão e riqueza a basitica de Santa 
Sophia, um dos mais bellos e grandiosos templos que 
a piedade christã tem erigido, tudo isto metamor- 
pboseára Bysancio era uma cidade romana, quando 
no dia 2 de maio do anno 330 foi dedicada á Virgem 
Maria, recebendo então o nome de Constantino- 
pla. 

As vantagens commerciaes e a importância po- 
litica que lhe provinham da sua situação geogra« 
phica, desenvolvidas ainda mais pelas instituições 
que já haviam feito de Roma a capital do mundo 
civilisado, imprimiram-lhe um tão grande progresso, 
que em menos de um século excedeu a antiga ca- 
pital do império em população e riqueza. 

As vistas politicas de Constantino o Grande fo- 
ram sem duvida satisfeitas, pois que doeste novo cen- 
tro de fof^a communicou-se energia e vida ás pro- 
vincias do império que mais d^ellas careciam. '£ 
doesta arte poude o governo imperial refrear por 
muitos annos a audácia de perigosos inimigos. 

Por morte de Constantino dividiu-se o império 
entre seus três fílhos, mas fallecendo logo depois 
um d^elles ficou aquelle immenso estado dividido 
em dous impérios, o do occidente, com a cidade de 
Roma por cabeça ; e o do oriente com a sede do 
governo em Constantinopla. 

Passado pouco tempo voltaram as duas coroas a 
ornar uma bó fronte, mas pouco durou esta união, 
pois tornaram a separar*se para nunca mais se uni- 
rem 

Como bem se pode imaginar a divisão enfraque- 
ceu os dous estados ; todavia as suas consequências 
fizeram-se sentir primeiro em Roma do que em 
Constantinopla. O império do occidente, envelhecido 
pelos séculos, quebrantado pelas luctas intestinas, 
amoliecido pelo luxo, e pervertido por toda a casta de 
devassidões, correu com passos de gigante desde aquel- 
le acontecimento pelo caminho da decadência atese 
alluir completamente ao impulso dos que appellida- 
va — bárbaros do norte. 

O império do oriente achou porém recursos com 
que neutralisar os terríveis effeitos d^aquella separa- 
ção. Achou-«s na energia e vigor de um estado nas- 
cente, e na situação geograpbica de Constantinopla, 
tão vantajosa para a politica como para o commer- 
cio. Assim apesar d^aquelie successo viu ainda por 
algum tempo dilatar-se a sua influencia, augmentar 
o seu poder, e multipHcarem-se as suas riquezas. 

Todavia nas veias d^aqueile corpo social tinha-se 
innoculado um virus, que lhe minava a existência. 
Juntamente com essa organisação singular, que ha- 
via dado ao império romano tanta força e solidez '^ 
a par d^essa civilisação, que enchera Roma de tan- 
tas galas e magnificências, e que a fizera celebre na 
posteridade, introdoziu-se na capital dO novo impé- 
rio, e lavrou com rapidez por todas as províncias, a 
relaxação de costumes, essa mesma desmoralisaçio, 
que corrompera o povo romano, e que por fim o en* 



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o PAIVORAM A. 



67 



tregára fraco e entorpecido ao raocor e brutalidade 
doa vândalos e outras naçdes. 

Não tardaram pois a começar as discórdias civis. 
A morte de um soberano era o signal para o rom- 
pimento de porfioeas lactas. £ da guerra a peito 
descoberto passon-se ás mais infames traições, aos 
mais covardes assassinatos. Ora o punhal e o vene- 
no abriam aos arobiciosoè o caminho dotfarono^ ora 
os mais cmeis tormentos despojavam da vida os ri- 
vsies do poder* A estes excessos vieram ainda accres- 
centar novos horrores as dissenções religiosas. 

A ereoçSo de Constantinopla em patriarcbado deu 
origem, ou direi melhor, facilitou a propagação does- 
se grande sci&ma, que dividiu a Igreja catholica em 
duas communbões, que se guerrearam phrenetica- 
mente, a latina e a grega, scisma que tanto sangue 
fez correr era toda asuperficiedo império do oriente. 
Por este tempo despovoava-se a Europa para cor- 
rer á conquista da Terra Santa. E esses formidá- 
veis exércitos, saídos pela maior parte de regiões 
agrestes e semibarbaras, onde a civilisaçao ainda não 
tinha levado as commodidades da vida e o progresso 
das artes, ao passarem por Constantinopla, na sua 
marcha para a Palestina, ficavam maravilhados e 
tão. cheios de assombro como de inveja ao contem- 
plarem as quatrocentas igrejas d^aquella soberba ca- 
pital, e os seus magnificos palácios, obeliscos e ar- 
cos triumphaes^ a riqueza das alísias consagradas ao 
culto divino, e finalmente a variedade e abundân- 
cia de todo o género de provisões, e de toda a cas- 
ta de mercadorias que affluiam de todos s os paizes 
áquelie grande emperio. 

Os exércitos da quinta cruzada não puderam re- 
sistir á tentação de se apoderarem de uma tão rica 
e fácil preza. Corria pois o anno de 1204 quando 
ali chegaram 'e lhe puseram cerco. Ao terceiro dia 
de assedio foi entrada a cidade, e farta a cubica e 
satisfeita a inveja dos sitiantes. Foram roubados to- 
dos os templos, destruídos ou mutilados todos os mo- 
numentos e objectos de arte. 

Os conquistadores acclamaram por imperador a 
Balduíno, conde de Flandres, e seu general. Duran- 
te meio século esteve no throno a familia de Bal- 
duíno, até que um aventureiro, Miguel Paleologo, a 
expulsou, apoderando*se da coroa imperial no anno 
de 1261. 

(Contínua,) 

I. DB ViLHKiiA Barbosa. 



Origi«alidai>k da naveoaçIo do ocsaho atlam- 
septxntrional, e do descobrikeiito db 
ilhas pelos portvguezxs eo século xv. 



TICO 
SUAS 



IV. 



A DEDvcçlo de provas que fizemos na primeira e 
segunda parte doeste trabalho levam á evidencia que 
até aos modernos descobrimentos marítimos dos por- 
tuguezes no 15.^ século não ha memoria de que ne- 
nhum dos antigos povos, de que ha vestígio históri- 
co, fizesse a navegação do alto mar Atlântico septen- 
trional. Se pois esta proposição é hoje irrecusável, 
e se a primeira estatua equestre de que falia a his- 
toria é a romana levantada a Julti/ Cezar, a exis- 
tência d^ima estatua equestre n^uma ilha perdida no 
meio do oceano, e desconhecida não so na antigui- 
dade, roas também na idade media, é historicamen- 
te im possível. 

O estado virgem em que todas as ilhas dos Aço- 



res foram achadas no acto de as descobrirmos tam- 
bém está depondo contra a realidade do monumen- 
to, que attesta a passagem do homem. E como nao 
ficaria d*ella senão a estatua sem nenhum outro ras- 
to t Azurara, chronista contemporâneo da descoberta 
doestas ilhas, affirma, que achadas desertas n^ellas 
u nom avya outra povoraçon senom allymarias mon- 
teses. M As cartas de doação das capitanias dUlgu- 
mas d^ellas, passadas pelo infante D. Henrique, ou 
pelos monarcfaas portugueses d^aquelle tempo, tam- 
bém não s^ nâoalludem a que n^ellas se achasse ves- 
tígio de mao de homem, mas sao todas uniformes 
em declarar que não havia ab iniiio memoriando que 
taes ilhas fossem conhecidas. SolHarioi insulas lhes 
chama a bulia do 6.^ dia dos idos de janeiro de 1454. 
Finalmente n2o é também razão de menor pezo o 
silencio absoluto que, antes de Góes, todos os escri- 
ptores, nomeadamente oschronistasdeD. AffonsoV, 
D. João II, e D. Manuel, guardam a respeito do 
achado da estatua. Azurara, Ruy de Pina, Garcia 
de Rezende, Fernão Lopes da Castanheda, João de 
Barros, Maffeu, etc. nem uma sé palavra dizem dM- 
la» Todos os demais testemunhos que se queiram - 
addusir a favor da estatua, sao posteriores a Góes, 
e cegamente o seguiram. Fructuoso, historiador in- 
sulano que d^isto trata no 1. l.^c. 32 do inédito Sau- 
dades da Terra^ é doesse numero \ assim como Cor- 
deiro no 1. 9.^ c. 5 da Historia Insulana. O sr. car- 
deal Saraiva, que sem grande estudo das contradic- 
çoes do facto, e sem cabal conhecimento da historia 
do logar, quebrou no n.^ 10 da Revista Liiieraria 
do Porto uma lança a favor da realidade da estatua 
equestre da ilha do Corvo, fundado unicamente na 
fluctuante e duvidosa auctoridadê d^aquellesauctores, 
cuidando advogar a causa gloriosa dos nossos desco- 
brimentos, comprometteu a condição da sua origina- 
lidade e prioridade á força de confiar demasiadamen- 
te em testemunhos equívocos e sem valia. 

Muitos escríptores sisudos dados ao estudo da his- 
toria dos descobrimentos marítimos, e guiados por 
luz de melhor critica, vem em abono da proposição 
que defendemos. 

O sr. vice-almirante Ignacio da Costa Q.uintel]a, 
contando o facto extraordinário do achado da esta- 
tua, que tinha por si o testemunho de Damião de 
Góes, accrescenta a p. 111, do t. 1 dos Annaes da 
Marinha Poriugueza : « Não sei se isto basta para 
o acreditar, n ^ 

O sr. Francisco AíTonso da Costa Chaves e Mello, 
distincto escriptor roichaelense, escreve a p. 5 da 
Memoria histórica sobre as ilhas dos Açores : u He qui- 
mérico o dizer>se . . . que no descobrimento doestas 
Ilhas se achara huma estatua de pedra, representan- 
do hum cavalleiro, que apontava com o dedo para 
o Oocidente. Deo lugar a esta fabula huma rocha 
natural, que havia na Ilha do Corvo. . . v 

O sr. visconde de Sá da Bandeira, na parte his- 
tórica que acompanha a interessantíssima Folhinha da 
Terceira para o anno de 1832, é da mesma opinião. 
O sr. conde Vargas de Bedemar, director do mu- 
seu da historia natural, e sócio da academia das scien- 
cias de Copenhagen (Dinamarca) que fez cm 1836 
uma investigação scientifica em todas as ilhas dos 



Açores, a p. 4 do seu Resumo de observações geolo- 
gicasj diz, referindo-se á sua viagem, que uella sér- 
vio para verificar, que é uma pura chymera a Es- 
tatua equestre, que se dizia existir 'na Ilha do Cor- 
vo, com a mão estendida para o lado da America. . .j^ 
E já no principio do século 18.^ o próprio padre 
Cordeiro, que na Historia J&uu2ana compilou asSau- 
dades da Terra de Fructuoso, crendeiro e sem cri- 
tica a tantos outros respeitos, sente tamanh; 

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le 



68 



O PANORAMA. 



culdade em justificar o achado da estatua, depois de 
confessar que na ilha não se achou signalj ou indi- 
cio de gaiie humana^ que só com o -Detn ex macM' 
na sae de tamanho aperto, escrevendo a p. 490, que 
« aquella fatal estatua do Cavalleyro apontador de 
outras Ilhas, foy obra do mesmo Author da nat ure- 
ia, e Provisor Divino. . . »* 

A' falta de noção authentica, que ainda um dia po- 
de apparecer e dar á historia do facto ai verdadei- 
ras feições ^ seja-nos licito, depois de apontadas tan- 
tas contradicçôes e inverosimilhanças no texto do chro- 
nista, supprir com luz conjectural, nao totalmente 
destitifida de fundamento, as trevas da incerteza e 
da duvida, cm que naturalmente se fica quando se 
voem abalados presuppostos fundamentos históricos. 
Suppomos que depois de descoberta e começada a 
povoar a ilha do Corvo, dos habitantes, ou navegan- 
tes que costumavam fazer o contorno maritimo da 
costa noroeste lhes veiu a primeira idéa de estatua 
equestre, originada da feição particular da crista de 
algum rochedo \ idéa a que originalmente nao da- 
riam a importância e significação que depois teve, 
porque bem veriam que ali nao havia monumento, 
mas apenas mais ou menos remota similhança d^el- 
le. A principio a noção popular conter-se-ia prova- 
velmente em seus justos limites. Nao via prodocto 
d^arte no que era obra da natureza, até que estra- 
nhos novelleiros se apoderaram do pensamento e o 
entreteceram com imaginações calculadas. Só depois 
das descobertas de Colombo é que a pretendida es- 
tatua, de natural que era e se mostrava aos insula- 
res, a transformou o conceito dos cortezãos em obra 
d^arte, aproveitando-se para isso da idéa vaga, sem 
mais attenção ás circumstancias particulares e illus- 
tratívas do preconisado monumento; que s6 assim 
conseguiriam chamar sobre elle a attenção d^el-rei 
D. Manuel. Não repugna que Duarte d' Armas fos- 
se tirar o debuxo ; que da própria natureza copiasse 
cousa, que em verdade se parecesse com estatua eques- 
tre ; e que com isso demovesse o rei á mandal-a sa- 
car e conduzir ao reino. N^esta segunda diligencia 
porém éque nos parece descobrir falta de lealdade 
em quem operava, ou no chronista que a relatou, 
porque mal podesuppor-se que se não convencessem 
logo, e não desenganassem o rei, de que não havia 
ali monumento d'arte. Aquelles fragmentos que tra- 
riam do rochedo-estatua, e de que tão pouco cabe- 
dal se fez no paço, não parecem dizer que só á vis- 
ta d^elles se desenganaram da illusão maligna em que 
tinham estado*, desengano a que ainda assim por fe- 
rir o amor próprio e pundonor real se impoz silen- 
cio? Na opinião dos habitantes do Corvo supporem 
existir uma in•^cripção na rocha que era base do mo- 
numento, não foi tíilvez illusão original e gémea com 
a da estatua, antes parece ser já consequência da 
prévia transformação d 'esta. Illusão ou mentira, diu- 
rna ou d^outra foi vietima Pêro da Fonseca, como 
já o tinham sido da rocha nietamorphoscada el-rei 
D. Manuel, e provavi^lmente mais alguém com elle. 
Fora assim pois, que ou adulteração ou inexacti- 
dão das primeiras noticias recebidas da ilha do Cor- 
vo depois do seu descobrimento, enganariam muitos 
dos contemporâneos, earchivadas meio século depois 
sem critica nem conimentario por um chronista, tem 
induzido em erro grave muitos que confiaram n^es- 
ta umica auctoridade. uQ,nantas vezes tem succedi- 
do, (escreve o sr. Costa de Mactdo) mesmo nos tem- 
pos modernos, serem as primeiras noticias que se re- 
cebem d''um paiz novamente descoberto bem diffe- 
rentes do que depois se verificam em novas viagens ? n 
Concluímos esta quarta parte do nosso trabalho. 
Parece-nos ter dito sufficientemente para convencer 



de que é falso e tem fondamento o caracter que ae 
dá á illusão que capitulou monumento d^arte o que 
fora apenas capricho de fogos interiores. O preten- 
dido achado d^uma estatua equestre na ilha do Cor- 
vo, sobre ser historicamente iro possível, ante a los 
que o estado actual da sciencia projecta sobre elle *, 
não tem por si provas relevantes \ e estaria tão lon- 
ge de ser obra da mão do homem, quanto em ver- 
dade mais próxima era de prodacto espontâneo da 
natureza. Tal ficção não pode mais servir nem figu- 
rar na historia. Releguemol-a aos domínios da poe- 
sia. Contente-se em inspirar ao poeta algnm episo- 
dio mais ou menos brilhante, como já o fes a Cha- 
teaubriand, nos 8ouvcmr$ d^HaUcf d! AngleUrre ei 
d*Amérique^ nos Naichez^ no Génie du Chridianii' 
me, e nas Mémoires d'*ouire-tombe : — ti Frei Joee de 
Santa Rita Durão no canto 1 P do poema O Cara- 
murú: e ao padre José Agostinho de Macedo no can- 
to 3.^ do poema O Oriente, 

José bx ToBBXft. 




BBVBIQUS I O UBSlUiA. 



Apesar da pequena importância do seu reinado, 
Henrique I merece um logar distincto entre escon- 
des deChampagne e deBrie. FilhodeThibeautlV, 
succedeu a seu pae em princípios de 1152. No an- 
no de 1147, sob o titulo de conde de Meaux, fes 
parte da segunda cruzada pregada por S. Bernardo. 
Na sua volta casou com a princesa Maria, filha do 
rei de França liuiz o moço. 

Com quanto merecesse oappellido de generoso ou 
liberal por sua grande piedade e innumeraveis doa- 
ções a igrejas e conventos, o conde Henrique parece 
que não fora de um procedimento irreprehensivei 
na sua mocidade. Existem cartas em que a prince- 
za, sua mãe, se queixa mui amargamente d^elle ao 
abbade de Claraval ^ mas S.* Bernardo, que exercia 
sobre o n)oço príncipe grande influencia, soube ro* 
conduzil-o ao cumprimento dos deveres filiaes. 

Um dos seus primeiros actos de piedade íbi a doa- 
ção que fez aos religiosos de S. Remy. Depois e 
successi vãmente estabeleceu ricas conezias na igreja 
de Sezanne, na de Pouzi, etc. ; garantiu rendimen- 
tos sufficientes aos religiosos de Ciuny, de Chamoie, 
de Andécies, de Soisi e muitos outros. Fundou qua- 
torze ou quinze hospitaes, e além d'isto treze igre- 
jas, sendo a principal a collegiada de S. Estevão de 
Troyes. Fixou para esta igreja setenta e doas pre- 
bendas em honra dos setenta e dous diseipulos de 
Jesus Christo; aos titulares doestas prebendas, que 
chainava seu. filho,, »e«g^^j'g«\í5'bCfg'ie- 



o FAUORAMA. 



69 



mUom» meof ^ dooa grandes bent, e moitas casas de 
liãUtasSo, sitaadas entre oe doas braços do Sena» 
qne atravessam a cidade. É o arrabalde que ainda 
heie se cbana o ekntdro de 8. Eilevõo, Emfim as 
soas prodigalidades eram tao ^traordinarias, qne 
mnitas vens achava-se sem meios algons de que pu- 
desse dÍH>6r. 

Hennqne repndiou, pelos annos de 1162, a con- 
dessa Maria, assim como Luís o moço tinba feito á 
rainlia Leonor^ mas a instancias de S. Bernardo, 
a tornoQ a receber em 1164. O abbade de Clara- 
Tal convidoa-o a entrar na nova ctniada ^ eoom ef- 
feito no anno de 1178 partiu pela segunda ?espara 
a Terra Santa em companhia de Pedro de Çourte- 
nay, irmío do rei e de Filippe, bispo de fieauvais, 
sobrinho do mesmo príncipe. Esta nova ezpedisSo 
militar nSo surtia resultado algum. 

Sendo obrigado a voltar para França, ao atraves- 
sar em 1180 a Ásia menor e a Illyria, Henrique I 
caiu em uma embuscada, e foi feito prisioneiro, 
oom amaxima parte dos que o acompanhavam. Res- 
gatado pelo imperador dos gregos, conseguiu regres- 
sar a França no mes de março dó 1181 \ mas sete 
dias depois de reeutrar nos seus estados, falleceu. 

A condessa Maria, saa viuvaj mandou erigir-lhe 
um tumulo na collegiada de S. Estevão, que depois 
foi substituído, talvei no 16.<> século (?) por outro 
de bronse dourado, de um estylo e lavor admirá- 



veis. 



A nossa gravura represeçta o séUo equestre de 
Henrique I, que p<5de considerar-se um verdadeiro 
tjpo dos príncipes da idade media. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

MSMORIAS DA VILLA BE AnaAYOLOS. 

XX. 

Adua. 

I&M que sentido se tome aqui a palavra Adua^ cla- 
ramente se conhece do primeiro capitulo, que a vil- 
la de Arrayolos deu aos seus procuradores ás cortes 
de Almeirim de 1544, eé o seguinte : 

«Primeiramente que por ser esta villa de muitas 
vinhas e olivaes, e outras bemfeitorias, e os mora- 
dores d^ella os mais honrados ordenarem la voira, pê- 
ra a qui^l tem bois, que damnam as ditas bemfeito- 
rias, por não haver Adua, em que se recolham :; que 
S. A. haja por bem que se tomem as herdades per- 
tencentes pêra ella, e que os senhorios os não to- 
lham, ainda que pêra ella tenham posse e privilé- 
gios •, e sejam avaliadas as herdades por três ou qua- 
tro homens pêra se pagarem, e se pagará como ora 
estão arrendadas \ e que toda pessoa, que tiver bois 
dentro na villa, seja carreteiros como lavradores, 
vio lá pastar sob pena de pagar de vazio, e mais 
da postura da camará o que for ordenado, n 

£m virtude doeste capitulo mandou el-rei um mi- 
nistro a íníòrmar-se da justiça e conveniência do pe- 
dido, e com o fundamento d^essa informação expediu 
de Santarém a 8 de julho de 1546 um alvará, por 
que ordenou se escolhesse para Adua a herdade de 
Sant^Anna, que é do hospital da mesma villa, edea 
as providencias para ser paga pontualmente a renda, 
e não ser deteriorado o prédio (1). 



(1) Registado no Ur. das vereat^dei de 1546 a 1547, 
11. 60. 



Com effeitofoi a dita herdade escolhida para Adua, 
e d^ahi veiu que mudou o seu artigo nome de her- 
dade de Sant^Anna, no de herdade da Adua, pelo 
qual ainda hoje é conhecida. 

E porque pelo tempo adiante a descuriosidade ou 
a malevolencia destruía o arvoredo e. damnificava a 
herdade ^ e além d^isso os pastos d^ella eram comidos 
indevidamente por gados, a que não competiam \ a 
camará proveu de remédio com uma postura de 20 
de agosto de 1588 (2). 

Em muitos e successivos accordãos do 1 .^ quartel 
do século 17.^ continda a camará as suas providen- 
cias para o bom regimen da Adua (3), a cuja obri- 
gação se esquivavam principalmente os singelleiros, 
a quem era mais commodo e maisbaratocomer jun- 
to da villa as pastagens alheias, sem lhes importar 
os damnos, que assim faziam nas fazendas e fructifi- 
cados. 

Ha mais de dous séculos porém que em camará se não 
falia em Adua, talvez não tanto por se considerar 
desvantajosa esta instituição, como por não haver co- 
pia de singelleiros e seareiros,' que chegasse parapa> 
gamento da renda da herdade. 

J. H. DA CVHBA RiVARA. 



escriptorxs portuguxzbs contxmforalfxos. 

Poetas lxricos da oxraçIo vova. 

Mbitdes Lba.l. 

GtiJBM estudar n^esta manifestação da arte o ta- 
lento do joven poeta acha-lhe a sensibilidade me- 
lindrosa, o ardor e a saudade do ideal, que toma- 
vam Bocage o rei da harmonia, e quasi o precursor 
da escola moderna. Na pintura dos aflèctos, nasdes- 
cripções e no sentido moral, o coração do cantor pal- 
pita, a ternura v4-se que não éjingida ; a alma in- 
flammavel, prompta na admiração, fácil no enthusiaa- 
mo não se esconde. Dorido ás vezes do contacto do 
mundo, desíUudido pelas amarguras do desengano, 
e não conhecendo §6 de nome os revezes, Mendes 
Leal nao chegou a ser o lyrico que é, senão, como 
El mano, por saber de experiência os horrores subli- 
mes da tempestade, e as estreitezas e conílictos dos 
trabalhos da vida. 

Se a sua tinta é forte, se o seu desenho é anima- 
do e exacto, se as arvores e penedias, as flores e as 
aguas, as estrellas e a noute têem viveza e côr; se 
retratam as paisagens e a vida meridional, é por- 
que não copiou dos livros a natureza morta ', é por- 
que pelos seus quadros passa o reflexo visível do in- 
timo abraço do céu com a terra ^ e reinam o myste- 
rio e a elegia do coração com a existência. As la- 
grimas correndo >ensiuaram-lhe a compadecer nos 
outros as próprias maguas! 

Por isso o echo da sua voz é tão sentido, e a lyra 
tanto acerta com as notas sensíveis, que sé diz a al- 
ma lacrimosa, e o amor mais terno. So assim radio- 
so da gloria do'passado, ou melancólico pela catas- 
trophe presente pode levantar o enthusiasmo daoa- 
tria esses hymnos que não morrem. Como os coiros 
de Eschylo formam exéquias dignas dos deuses aos- 
infortúnios humanos. 



(S) Liy. das peitaras de 1588, a fl. 92 v. 

(3) YereaqSo de 27 de marco de 162L— diU de 9t 
de Janeiro de 1622— diU de 1 3 de a;;osto id. —dita de 
199 de novembro id. — dila de 6 de Sjstembro i 

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a.— aiia ae 

;e!J^ogIe 



70 



O PANOBAMA. 



Leiam a Indiana a Vasco da Gfama, e digam se 
o volto heróico desceu no cântico. Veja-se a Nenia 
de Cario» Alberto, o Ave César! e n^aquelle cerni- 
do quasi épico, lembrando o9 faneraes de Achifies no 
epodo grego, cada traço resume tim dos martyrios e 
desastres da grande lucta da Italjia. 

Na contemplação religiosa, na meditação cbrista, 
que profundo sentimento se aspira para Deus \ que 
fragrância perfuma a phrase elevada como o assum- 
pto ! Q«ue harmonia no verso, que sobriá grandeza na 
imagem, que vôo alto e rasgado na idéa moral ! 
Como é largamente interpretada a vida espiritual 
perante o mysterio da RedempçSo, como a magesta- 
de da religião reflecte a face consoladora, e a um 
raio de luz divina a poesia solevanta da terra apon- 
tando com a roao da esperança c celeste refugio das 
misérias do mundo ! 

No cântico de amor, no devaneio elegiaco, a phra- 
se soluça, o pranto escalda, a desordem dos sentidos 
falia ^ e o véu transparente da forma não faz senão 
tornar mais bella a dôr, nao a offendendo com fal- 
sos artificios. Se estas qualidades, que mais ou me- 
nos nas ultimas obras caracterisam a inspiração do 
poeta, e que o seu gosto e observação todos os dias 
hão de aperfeiçoar, pudessem ter sido os dotes da sua 
musa desde o principio^ se a precipitação ás vezes 
o não impedisse de corrigir o primeiro cunho, que 
monumentos houvera erguido, e que esplendida epo- 
cha abria na poesia nacional ! 

O que lhe falta em diversas paginas nao é o es- 
plendor, nao é o sentido *, mas a unidade, a igual- 
dade, e a reflexão critioa que tornam immortaes^as 
odes de Horácio, e o hexametro de Virgilio. E o 
tempo, o amor da correcção e o respeito da arte, 
em que os antigos sobresaem pela castidade da for- 
ma, e por aquella belleza e graça dbs seus quadros, 
na maior parte sublimes e originaes á força de es- 
merada elegância. 

. A faculdade que melhor caracterisa Mendes Leal 
é a creaçSo lyrica. Antes de tudo fel>o Deus poeta ! 
A sua lingua é o verso. 6luando acceita a prosa pa- 
ra meio de vulgarisação, a sua phantasia acha-se 
como constrangida ; a viveza esmorece um pouco, e 
por vezes a periphrase affrouxa o nervo do período. 
A pureza e o calor de algumas paginas não salvam 
outras de certo frio e contracção, que lhe assombram 
o est)rlo. O toque fino, o traço arrojado, ametapho- 
ra grandiosa, que dão o colorido épico a tantos dos 
seus cânticos, não sustentam as qualidades correspon- 
dentes na construcção prosaica. 

De certo o poeta é um dos eMsriptores mais cor- 
rectos da lingua, a palavra obedece-lhe ; diz quasi 
Sempre imaginosamente o que deseja exprimir, po- 
rém a vista rasgada, que a sua musa levanta sobre 
horisontes cheios de magnificência, tirada da altura 
poética, e posta no plano inferior da tetra perde 
muito da perspectiva magica. 

No verso é o contrario. A arte sente*se, e não se 
vê. A harmonia é espontânea. Nunca apparece o 
esforço nem o martello do metrificador. Os rythmos 
maisdiffíceis de^atam-se cadentes, diaphanos, que se 
revê a idéanMlefi, flexíveis á pintura da paixão, que 
não deixam um suspiro sem voz, uma sombra, a mais 
leve, sem còr. Senhor do instrumento ly rico não pre- 
cisa forçal-o para o fazer suave e brando como a 
i saudade do amor ingénuo, elevado e heróico como a 
figura homérica dos vultos dos seus hymnos. 

A melodia nao faz a inspiração escrava, esta é que 
> a domina. No systema poético de Mendes Leal as 
estances e as estrophes em que a idéa parece cinze- 
lada \ a opulência do estylo em que circula a luz e 
o brilho do colorido oriental, e a phrase, de um la* 



vor puro, onde fulgem, como diamafotes, as imagens 
engastadas, são vestes ricas e pomposas sim, mas ape* 
nas invólucros e accessorios do pensamento. Acima 
da variedade e cadencia dos metros e da perfeição 
da rima, superior aos artificíos do verso e á harmo* 
nia dos sons, é raro deixar de se encontrar logo o sen- 
tido histórico ou a formula phílosophica, laço visí- 
vel entre o ideal e a realidade! A superioridade das 
suas manifestações poéticas é esta união intima da 
idéa com a forma ^ esta lógica (permitta*se o termo) 
da imaginação e do sentimento ; esta relação da ima- 
gem com o canto, e da phrase oom a imagem. Re» 
petimos, se mais de um descuido é fácil notar ain- 
da nas ultimas composições, deve accresoentar-se que 
o progresso tem sido constante, e á vista d Vlle nin- 
guém saberá prever aonde pode aspirar esta vocação, 
que na idade em que muitos nem começam, hombrèa 
já com os mestres da harihonia. 

£ sem pensamento o que diz ou o que significa a 
poesia ? 

As notas que deixam fugir as cordas da lyra, os 
rythmos em que o cântico se expande, as azas res- 
plandecentes de matiz e de luz da invenção, cujo 
vôo sobe tão alto, e roubando um raio ao sol. o vem 
pousar na harpa, se a expressão poética tomar o 
meio vocal por termo, e fõr muda quanto ao fim 
transcendente, serão mais do que sons e cores, do que 
formas e metros vazios ? 

A interpretação da existência, a eterna e anciosa 
aspiração da alma, e a observação profunda e ana- 
lytica da natureza e das paixões constituem a gloria 
dos grandes modelos desde Virgílio, no livro IV da 
Eneida, até Shakspeare e Milton, d^de o Dante e 
Tasso até Camões e a Goethe ! Da epopéa pagã ao 
drama philosophico e ao poema christão, da epopéa 
theocratica, e da epopéa de sentimento e de nacio- 
nalidade, até á formula geral e pantheista do Foui- 
io! 

Sem o affecto e o enthusiasmo, sem o pensamen-; 
to e a contemplação, o verso é uma vox que lison- 
jeia vagamente o ouvido, adormecendo-o á força de 
melodias, enlevando-o pela doçura, sem dizer nada 
ao espírito, sem levantar uma s<5 prega ao véu do 
destino humano. Pintar a paisagem e não sentir 
n^ella o sopro de Deus; importunar amagua em me- 
tros cadentes, e não lhe perceber nem os delírios 
nem o silencio ; buscar nas jóias do turbante mou- 
ro, no chaveco do pirata africano, na estrelk palli- 
da, na onda inquieta, na flor ou no regato o the- 
ma de variações perdidas, o pretexto de rimas pom- 
posas, é confundir a espiritualidade com a mechani- 
ca da palavra, preferindo a copia do morto á ex- 
pressão da alma. 

A arte imita de certo ; mas imita creando \ o seu ob- 
jecto não é trasladar servilmente, é interpretar a vi- 
da pela analyse do coração \ a natureza pelas, ma- 
ravilhas do universo, e pela sublimidade doCrea- 
dor. 

A deprecação de Príamo implorando ás iras da 
Achilles o cadáver de Heitor \ os queixumes tão se- 
renos á superficie, e tão agitados no fundo, da filha 
de Agamemnon, dizendo saudades á vida, despidos da 
forma harmoniosa commovem e arrebatam mesmo no 
pallido reflexo de uma língua moderna. Homero e 
Euripedes são os grandes cantores que sabemos, por- 
que a sua voz poderosa sem o auxilio do verso en- 
terneceu, subjugou e fez sempre inclinar os séculos. 
Sapho, a amorosa poetisa de Lesbos, se tanto attrahe 
é porque a sua dor não está nos sons de uma lyra 
afinada, mas na expressão ardente da ternura, na de- 
sordem natural dos sentidos, na agonia verdadeira 
do coração cortado, cujo sangue vemos correr quasi, 
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o PATfORAMA. 



71 



cujas lagrimas depois de mais de dous mil aoaos ain- 
da renascem, molhando os nossos olhos. 

O defeito da poesia recente, .da nossa sobre tudo, 
tem sido o culto exclusivo da harmonia, a escrevi- 
dSo da idéa á forma. O gosto é fracto da experiên- 
cia e da polidez do espirito ; a correcção dá-a o es- 
tado \ o estylo vem da imaginação e do gosto \ mas 
reunam-se todos em um quadro, e negue-se ás figu- 
ras a alma, de que resulta o gesto e a expressão \ o 
sopro que na creação faz eloquente o silencio nas so- 
lidões, e magestosa á noute a voz dos mares ^ deixe- 
se pender a flor sem os beijos do ^1 ^ os murmu- 
«rios da aragem \ cale-se nas ramas inertes o gorgeio 
das aves ^ apague-se a luz de repente, ou cortera-se- 
Ihe assombras^ roube-se emfim á serenidade noctur- 
na o branco sudário da lua ^ e o espectáculo da na- 
tureza muda, a repetição de uma 96 côr embora for- 
mosa, a pausa lúgubre das harmonias do céu e da 
terra farão triste e inerte a própria belleza, provan- 
do que aonde falta a vida, não ha sublimidade nem 
poesia^t vnas b6 o horror do sepulcro. O agrado con- 
vencional e monótono depressa cansa, como se a vis- 
ta estivesse condemnada a nao fitar senão um ca- 
dáver, mesmo que fosse o corpo gentil de Aspasia, 
ott a belleza incomparável da Vénus cypría, mor- 
tos nos lábios os travessos amores do sorriso. 

Mendes Leal estima a forma, procura-a, mas não 
se deixa absorver por ella. O seu verso diz sempre 
alguma cousa ao espirito e ao coração. Ha nas poe- 
sias d^elle cânticos, que o sentimento catholico de 
Lamartine nao julgaria abaixo de alguma das ele- 
gias ãeJocelyn, Tem estrophes, cujo Ímpeto e pom- 
pa, cuja clamyde bordada de imagens fulgentes, te- 
cida com o fio d^ouro e purpura do estylo árabe, 
Victor Hugo julgaria dignas do phantastico bando 
das aladas irmãs, chamadas Orierãaes, 

Se houvesse applicado tão ricas faculdades ao la- 
vor mais longo de um poema filho das grandes sce- 
nas do passado, ou do rasgo sublime de uma figura 
heróica, ás guerras da Ásia ou da Africa por exem- 
plo, tão queridas doenthusiasmo épico, o monumen- 
to nao daria melhor a altura do poeta, do que a pa- 
gina fugitiva ainda que esmerada, em que lançou o 
canto solto de alguma d^ellas ? 

Se perguntarmos d^onde procede a musa risonha, 
enlevada e ligeira umas vezes, pensativa, magoada 
e religiosa outras de Mendes Leal ^ se indagarmos 
a filiação do verso elegante e ornado \ do metro har- 
monioso e viril \ d''essa veia, que ora é funda como a 
paixão, ora vae tanto á superficie da vida, como a 
briza arraza ligeira o cálice das flores, não seria fá- 
cil marcar de leve as fontes donde deriva o seu ta- 
lento, nem indicar de perto os modelos, em que for- 
mou o gosto e castigou o estylo. 

Ouvindo-o suspirar no alahudechristao diriam que 
descende dos melancólicos trovadores, cuja endeixa 
respira com graciosa soltura isenta dos artificies da 
faroia. Ouvindo-o celebrar as armas e as conquistas 
ou infortúnios dos povos, e a lição dos reis, julgar- 
se-ia que roubou parte do segredo á perfeição clás- 
sica, e que o seu canto é, ainda um echo dos anti- 
gos lyricos. No seu verso, terno como os enlevos d^aU 
ma quando os descreve ^ altivo e potente como a phra- 
&e aberta em bronze dosprophetas quando a suscita; 
ha tons, ha luz e sombra \ «acha-se a força unida á 
graça e á invenção. Para durar o que duram as obras 
dus mestres falta- lhe s6 unidade de desenho, propor* 
çues roais amplas no quadro, e aquella tinta forte, 
que se nuo come com o tempo, antes se faz bella com 
a idade. 

Nas suas mãos' o instrumento tem dado todas as 
notas desde o cântico a Deus até ao suspiro mais tí- 



mido do amor. A idéa anima e cora a estrophe, ou 
se eleve a Christo nas azas da fé, ou suba fulguran^- 
te, como os raios do sol, á gloria dos Albuquerques 
e dos Gamas. Porque não tira o poeta detantosele- 
mentos uma creação completa ? 

Insistimos n^este ponto, porque nos fere desagrada- 
vel mente a indifferença com que tem sido tratada 
a musa até aqui \ e a repugnância com que deixam 
; de lhe offerecer assumpto digno d^ella. Esta uegli- 
1 geucia não é so de Mendes Leal. O desejo da pu- 
' blicidade e a sede do applauso, arrastam a revelações 
; imprudentes alguns versejadores que não deviam for- 
{ çar a inspiração ; mas preparar-se para a receber cas- 
, tamente, quando ella os visita. 
j • Se o poeta que analjsâmos chegou á idade dospen- 
i samentos fundos e das obras férteis, sem murchar a 
I sua corda, deve-a á inexgotavel riqueza das faculda- 
I des. Prodigalisou-se como os outros; esparziu os car- 
mes por t€>dos os caminhos \ obrigou-os a seguil-o e 
I a gemerem muita vez da violência com que os hu- 
j milhava, da precipitação com que os expunha a cu- 
! riosidade, menos compostos, do que permittia o pu- 
! dor da arte. Se a muitos fez bellos o próprio pejo ; 
se assim mesmo, na forma mia e quasi primitiva da 
creação espontânea, ha que admirar n^elles, o que 
seria se a imaginação os aíFagasse mais nas azas cari- 
nhosas, e 08 não deixasse fugir de si senão formados 
e robustos para as provas da critica e do gosto? 

Hoje Mendes Leal já se não entrega com a mesma 
facilidade ás seducções da veia repentista. Sente-se ^ 
no periodo sisudo da creação poética ; e nas bellas 
e correctas paginas, em que n^estes últimos tempos 
tem experimentado as forças já respira o amor do 
I seu nome, e o respeito do futuro. Homem de idéa 
e de intellígencia deve principiar a ver além do pre- 
sente, e a trabalhar para a posteridade. Possue os 
dotes precisos para subir \ deve prezar a gloria por- 
que tem direito a merecel-a. 

O que desvia da inspiração original e prende den* 
tro do circulo imitativo os talentos nascidos para 
maior destino, não é tanto o temor dos assumptos, 
como o horror da fadiga. Lançam os olhos para o 
espaço que hao de percorrer, assusta-os o lavor que 
a obra pede, e em pallidecem. Compor uma ode é mais 
breve do que urdir e levantar um poema. Imitar a 
idéa e a forma de uma poesia estranha custa menos, 
do que vestir de imagens, e illuminar de cores uma 
invenção própria, cujo sentimento seja o sentimen- 
to histórico, cuja expressão deva tudo ao coração e 
ao pincel do cantor. A preguiça de pensar, é a gran- 
de inimiga das letras portuguesas, e a cul(>ada da 
invasão estrangeira que as escravisa. Meudes Leal, 
nos seus cantos mais poros, embora seja ainda estrei- 
to o quadro, libertou-se já um pouco doeste captivei- 
treiro. Resta ver se tomará animo, pisando uma 
senda nova, em regiões aonde tudo está por explo- 
rar. 

O visconde de Almeida Garrett, no eclectismo gra- 
cioso, da sua musa, apresenta exemplos aproveitáveis. 
O Camões veiu depois de D. Branca \ o autodeGit 
Vicente foi escripto antes de Fr, Jjuizde Sousa ! A 
coroa que lhe enfeita a harpa romântica não cede 
em primor á que adorna a fronte quasi clássica de 
muitas cantos pagãos das suas lyricas. Ogrande vul- 
to do sublime e inspirado cantor da Illiada portu- 
guesa não o fez recuar \ mediu-se com a grandeza d^a- 
quelle nome, immenso como a epocha, e ganhou a 
gloria de não succumbir, ficando igual ao arrojo. Por- 
que nao o imitam nMsto ? Porque não vão também 
ás tradições colher das flores e saudades que se con- 
servam viçosas, para tirarem um livro nacional da ira- 
grante e.imple. e«enei. d'.!!..^.^.^.^^^ by ^^OOgIe 



72 



O PANORAMA. 



Tem sido fado da litteratura peninsular este erro 
de imitar os desenhos e pensamentos de fora. 

Se applicarmos a anal jse ao systema poético de 
Mendes Leal, acharemos no verso, nos metros e na 
phrase, mais de uma recordação feliz da boa escola 
portuguesa. Lendo-o, sente-se algum sabor da arte 
clássica, e ao mesmo passo o fino e agradável picante 
dos cantores a quem os homens da prosódia alatina- 
da, e do compasso horaciano chamavam bárbaros. 

No seio da verdadeira originalidade de phrase que 
ha em muitos trechos do poeta? e acompanhando-o 
das transições juvenis á expressão actual, é possivel 
caract«risar os elementos da apropriação successiva, e 
descobrir o laborioso tecido do estylo, a reflexão pro- 
veitosa dos bons modelos. 

A sua harmonia e o seu iropeto lembram o fogo- 
so Bocage, a firmeza do contorno e o cunho da idéa, 
recordam Philinto. mas com a melodia, que pouco o 
favoreceu. Na vaga tristeza de algumas estances, na 
singelesa de alguns toques presentem-se uns iongesde 
Bernardim Ribeiro ; no relevo da pintura descriptiva, 
e na perspectiva mimosa de certos painéis passa co- 
mo um sopro das éclogas do Q/uita, do tom engra- 
çado e puro de Rodrigues Lobo. Todos os escripto- 
res oferecem estas affin idades de parentesco inteU 
lectual, estas camadas, mais ou menos espessas, com 
que fecham a tinta da forma própria. So o ignora, 
quem julga que os livros se fundem de um jacto, e 
os períodos caem da penna como a publicação os 
mostra. ' 

Mendes Leal portanto, no grau a que chegou ecom 
a docilidade a que trouxe o metro e « rima, está 
no caso de ser um poeta decreação, um continuador 
das tradições interrompidas no século 16.^ pela re- 
nascença romana. Um leve esboço da physionomia das 
differentes epochas, e a rápida apreciação dos escri- 
ptores que as illustram, justificará a asserção que re- 
petimos, censurando a Índole imitativa, o ardor da 
versão e da paraphrase, que tanto entorpeceu desde 
o principio em Portugal o desenvolvimento e o es- 
plendor das artes. 

A poesia nacional, ainda mimosa ao sair do ni- 
nho rústico das primeiras canções, encontrou logo 
as copias frias e quasi pedantes da renascença clas- 
lica. Da suavidade singela, em um ou outro logar já 
tocada da sombra imitativa, com que se queixa amo- 
rosa e simples nos romances de Bernardim Ribeiro, 
até ao sul de Camões teria chegado até nós sem as 
afiectações e enfeites estranhos, que lhe desmancham 
a belleza. Desde os cantos attribuidos a Gonçalo 
Hermigues atéaos Echos, infelizmente perdidos, do 
vate das saudades (Bernardim) os cancioneiros, en- 
tre muita lamentação insulsa e descorada, deixam 
entrever, pelo rasgo espontâneo, muitas galas ly ricas 
quo a disciplina dos greco-romanos suíTocou qu^si no 
berço. 

Sá de Miranda e Ahtonio Ferreira, que vieram 
logo depois de Gil Vicente, sectários do gosto italia- 
no, e do traslado latino, foram em Portugal os pro- 
cônsules da epistola aos Pisões, e os verificadores do 
sublime pela pauta de Longino. Não pode negar-«e^ 
lhes o muito que aperfeiçoaram na lingua poética e 
na correcção da forma ^ deveria mesmo agradecer-se- 
Ihes a introducção sapiente dos modelos toscanos e 
latinos^ mas ha a censurar n^les a intolerância da 
escola. O seu influxo arrancou á musa aquelle véu 
cândido, mais negligente embora, com que nem es- 
condia o rosto. Toucando-a dos enfeites venusi- 
nos deram -lhe ares de estrangeira, modos e serieda- 
de de contrafeita-, metteram-na em salas alheias, 
com requebros falsos ; e separada do povo e da pai* 
sagem, em que nascera, depressa Ibe marchou o vi- 



ço, o encanto e a innocencia quasi travessa de vir- 
gem moça, esquecida dos primeiros e sinceros suspi- 
ros, com que disse amor e natureza ! De toda a obra 
de Sá de Miranda sobreviveram as suas Quttiii7&af, 
que elle prezava menq^ talvez que nés ^ do verso de 
arte, e da inspiração quasi rebelde ^e António Fer- 
reira, em quanto a lingua existir, restam-nos os ad- 
miráveis oéros da sua Castro^ cujo perfume e sensi- 
bilidade parecem milagrosos na penna de tal poeta. 
D^ahi até Camões, e do cantor do Gama até aos 
lab^rrintos intrincados do gongorismo refinado, as boas 
obras, que temos, mais ou menos, são reflexos do es- 
tudo das letras romanas, das escolas italianas, e da. 
hespanhola prevertida. Os episódios adoráveis, cuja 
saudade natal, cuja grandiosa paixão, é o primor da 
única epopeia portuguesa os Jjuziadcu^ luctam ^assim 
mesmo com a sombra de Homero e de Virgílio. 
O maravilhoso pagão trava-se com o maravilhoso do 
christianismo ^ e é pouco todo o génio de Camões 
para resistir ao perigo das imitações, que em tanta» 
oitavas applaudidas teriam desvairado outro. As suas 
canções, as elegias, sobre tudo a XI, alguns dos so- 
netos, e as inimitáveis redondilhas, em que parece 
rever-se a graça de Catullo, e voarem os suspiros do 
Petrarcha, dariam nome a outro poeta, que não ti- 
vesse como elle gravado o seu na face d^um monu- 
mento. 

(Continua.) 

L. A. Rbbello da Silva. 



Empbboo vantajoso da ferrugem í)as chamiués. 

A FBERVOEH das chaminés e dos fogões, onde se quei- 
ma lenha, compõe-se de um erande numero de cor- 
pos. Mr. Braconnot, que a aualysou, achou vinte por 
cento de matéria azotada, dealuinina, de carbonato, 
phosphato, sulphato e acetato de cal, diversos outros 
saes, tendo a cal por base, potassa, magnesia e am- 
moniaco, ema terias carboníferas^ é necessário accres- 
centar-lhe um óleo essencial em py reumático, algumas 
vezes uma pequena porção de acido acético, e outras 
carbonato de potassa em pequena dose. • 

Poder-se-ía augraentar a acção estimulante da fer- 
rugem misturando-a com um volume igual de cinza 
de lenhft* ' 

Nas immedíaçÕes de^Lille servem-se da ferrugem 
de chaminés como adubo, e sobretudo com o fim de 
livrar os rebentos da couve dos insectos que os co- 
mem : 5 kectolitros chegam para distribuir por 10 
ares '^ algumas vezes deitam também a ferrugem nas 
folhas das couves picadas do bicho, no mez de mar- 
ço ou abril. 

Se se dissolver a ferrugem em duas ou três vezes 
o seu volume d^agua, e depois se filtrar por umpan- 
no ou por outro meio equivalente, obtem-se uma dis- 
solução, que poderá empregar-se com vantagem pa- 
ra conservar a carne dos animaes, dando-lhe um gos- 
to símílhante ao da carne curada ao fumeiro. 

A mistura da ferrugem com um volume igual de 
matérias animaes puras, taes como o sangue coagu- 
lado e outras similhantesé mui conveniente para re- 
tardar a putrefacção, diminuir o cheiro infecto, e li- 
vrar os adubos e as plantas^ dos animalculos e dos 
insectos. 

A. Payeh. 



— Ha muitos atheus por libertinagem ^ alguns por 
philosophismo ', poucos por vangloria ; talvez nenhum 
por conviosão. ^.^.^.^^^ ^^ \^OOgie 



10 



o PANORAMA. 



73 







IVDIA VOBVIUOVXZA — PBAÇA DA AOUA9A. 



Todos os que nos prezámos do nome de portugue- 
zes mentimos arfar o coração de nobre orgulho sem- 
pre que se falia dos estados da índia. Com effeíto 
o território que hoje os constiiue foi o theatro dos 
espantosos feitos dos nossos maiores^ ali fizeram os 
nossos heróicos capitães respeitar a civilisação euro- 
pêa e o nome de Portugal ; ali pereceram muitos 
nossos conterrâneos, uns pelejando pela religião do 
crucificado, pela sua pátria e pelo seu rei ^ outros 
nas luctaa não menos perigosas das missões \ porque 
os portuguezes d^entâo, quando nao triumphavam 
como soldados, sabiam morrer como heroes, ou co- 
mo martyres! 

E nosso propósito publicar uma noticia do estado 
actual da índia portugueza, que apezar de decaden- 
te, ainda é uma das mais importantes partes damo- 
narchia, para o que nos serviremos de trabalhos mui 
curiosos, que se têem recentemente publicado. 

Hoje porém limitar-nos-hemos á descripçao da 
fortaleza da Aguada, objecto da estampa, a qual 
extracta mos dos Bosquejot das possessões poriugue- 
zas no Oriente^ pelo sr. capitão de mar e guerra, 
J. P. Celestino Soares. 

u A praça da Aguada é o ponto fortificado mais 
militar da costa do norte de Gôa, e talvez de todo 
aquelle território, já pela natureza, já pela arte 
com que o tornamos formidável. Occupa o extremo 
da peninsula que forma o limite boreal da foz do 
IVlandovim, debaixo de cujas baterias todos os na- 
vios, que demandam o ancoradouro, suo forçados a 
fundear, para soíTrerem o registo. Com efleitoéuma 
bella e grande fortificação, consistindo principal- 
mente n^uma serie de baterias á borda d^agua, li- 
gadas entre si, que poderão comportar até duzen- 

VuL. III. — 3/^S»RI«. 



tas l>òcas de fogo \ protegidas por uma grande ci- 
dadella no cume da rocha sobranceira, ligada tam- 
bém com a maior d^aquellas, onde está o palácio do 
governador por cortinas flanqueadas debastiões^ com 
seus terraplenos para morteiros. Esta cidadella éum 
rectângulo com seus baluartes, seus fossos e revelins, 
sua estrada coberta, seus quartéis á prova de bom- 
ba, e duas immensas cisternas, abertas na mesma 
rocha, de um acabamento perfeito. Domina toda a 
campanha ao maior alcance de canhão, pelas tena- 
Ihas do norte e nascente ; e além d^ellas ha uma 
muralha ou recinto exterior da praça a tiro de fu- 
zil, com seus baluartes, que completa a fortificação, 
e a fecha entre o mar e o rio deSínquerim, de ma- 
neira que ella ficaria isolada se o fosso que parte 
d''este rio estivesse concluído. Próximo ao angulo 
reintrante do baluarte do sudoeste, da parte exte- 
rior, mas dentro da cortina que desce da fortaleza 
real para a bateria da praça, está a torre circular 
do farol, bem construída e espaçosa. No baluarte 
do noroeste ergue-se o mastro que supporta o mas- 
taréo do telegrapho de bandeiras ^ tremulando só a 
portugueza no angulo mais saliente da bateria da 
praça, em outro mastaréo de immenso mastro. Den* 
tro da praça ha uma nascente primorosa de agua, 
incorruptível nas viagens de longo curso, com uma 
machina bem imaginada, que a deita em calhas, 
por onde corre até ao fim do cães, e d^onde com- 
modamente a recebem as embarcações. 

u Por cima da porta do primeiro recinto ha ama 
inscripção, da qual se prova que esta grandiosa fa- • 
brica foi obra do vice-rei Rui Lourenço de Távora, 
no reinado de Filippe II (1612). 
*aO farol era antigamente entretido por fiiclios 

Mabço ÍU 185*. T 
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74 



O PjLNORAMA. 



ensopados em azeite, cujo costeio fasiam aa camarás 
agrarias deBardez. Hoje tem uma boa lanterna com 
eclipses regulados pela roachina de um grande reló- 
gio, que bate as horas n^um sino de cento e cin- 
eoenta arrobas de pezo, transferido para ali da tor- 
re do extincto convento dos agostinhos deGôa. Por 
portaria do governador geral interino Lopes de Li- 
ma (que tinha feito este melhoramento) de âO 
de novembro de 1841^ foi ordenado o seu serviço, 
que nao tem soffrido alteração. N^uma das lomba- 
das do terreno sobranceiro ao rio, e olhando para a 
barra, está a ermida de S. Lourenço de Linhares, 
que serve de parocbia do mesmo orago, erecta pelo 
conde d^aquelle titulo em 1630. 

M A guarnição doesta praça foi sempre numerosa, 
e era residência do general da província, quando os 
havia . »t 

Hoje compôe-se do regimento de artilharia (qae 
em 1851 tinha mais de 500 praças) e da compa- 
nhia de veteranos do norte. 

O governador da praça da Aguada é um major \ 
compõe-se o estado maior, além do governador, de 
um com mandante do presidio, de um ajudante, de 
um alferes, de um capellâo, de um almoxarife e de 
um fiel. 

Em 1832 havia montadas nas baterias d^ Aguada 
noventa bocas de fogo, sendo de calibre Ires, 1 ^ de 
nove, 29 ; de doze, 33 ^ de dezeseis, 8 \ de deioíto, 
17 ^ e de vinte e quatro, 2. 



A PONT AMENTOS DE UMA VIAGEM Á ItALIA. 

Resolvi finalmente fazer apparecer a publico os 
meus ^oníam^n^os de umtL xnagem á Itália: ainda 
que tardia seja a appariçao nem por isso dispensa a 
indulgência, que solicito. 

A cargo da menos boa observação, do pouco tem- 
po da viagem, e de qualquer informação inexacta, 
fique o menos preço doeste trabalho. 

Para salvar a incoherencia que se possa notar na 
orthographia por mim usada u^estes Aponiamenios, 
comparando-a com a que tenho empregado n^ou- 
tros escriptos, direi : que annui a que se seguis- 
se n^esta publicação a orthographia do Panora- 
ma. 

Divididos os Apontamcnio% em differenles artigos 
lhes poremos o ponto com a nossa assignatura em 
breve, bastando, que a ponhamos por extenso ao 
cabo doesta como introducção. 

Lisboa, 22 de fevereiro de 1854. 

D. António do Santíssimo Sacramento 
TMOMA.Z DE Almeida e Silva Saldanha. 



I. 



Tarde dizemos algumas cousas, das que vimos na 
nossa viagem de Lisboa a Napules, e ainda assim 
poucas. 

Em quatro mezes e alguns dias, que abrangeram 
os últimos de 1850, e os primeiros de 1851, não po- 
deríamos adquirir jus ao que se applicou ao duque 
de Lafões, D. João — Hic mores hominum multo- 
rum vidit et urhet ; mas também hão foi tão cur- 
ta a nossa viagem, que não possamos fazer algumas, 
ainda que abreviadas narrações, e não foi tão de- 
pressa, que não víssemos muitos homens e cidades, 
embora menos que o duque. 

Em 2 de outubro de 1850 nos embarcamos no 
vapor de guerra portuguez Infante D. Luiz, que 



deitado de barra em fora se dirigiu para o sul, co- 
mo lhe era necesaario para buscar o Mediterrâneo. 
Passamos a nossa costa, e na do Algarve encontra- 
mos, segundo informações do navio, duas balèas. 
Nas alturas da boca do estreito tivemos uma cerra- 
ção, que nos obrigou a fazer algumas milhas desne- 
cessárias. 

Em occasião opportuna entramos o ettreiioj e en- 
costando ao sul vimos de mais perto a Africa, que 
excita sentimentos tSo grandes e tão differentes aos 
portuguezes. Avistamos Gibraltar, esse morro so- 
berbo, que, quasi separado da terra, parece queier 
precipitar-se |no mar. 

Deitamos ferro na bahia de Gibraltar, porto lar- 
go e porto franco para o commercio, roas nSo de 
uma inteira confiança para ancoradouro. 

Tivemos a visita da policia da saúde ^ cujo official, 
dando-nos a pratica, nos permittiu o desembarque, 
que effeituado e recebido o bilhete da policia^ noe 
poz ao alcance de conhecermos a praça e a cidade, 
que é povoada por gentes mui difierentes, porém 
recordando^e o viajante, que a Hespanha a domi- 
nou. 

A condição de poria franco anima o commercio 
de Gibraltar, se bem que hoje se lhe sente a deca- 
dência. Entretanto Portugal ainda faz um commer- 
cio importante com Gibraltar, e maior podia ser se 
algumas cousas ali chegassem mais aperfeiçoadas, co- 
mo o disse o cônsul geral portuguez José Benso em 
suas interessantes informações de 5 de agosto de 
1853. 

O governo da praça é dado, como bem se anto- 
lha, a pessoa de grande confiança, e a cidade se 
mantém no pé de guerra, apenas modificado, por- 
que o inimigo não está á vista. A sua população é 
de 20:000 a 24:000 almas, e tem sobre si uma le- 
gislação calculada que difficulta o seu augmento. 

A guarnição ordinária da praça é de uns 4:000 
homens, e mette 500 a 600 sentinellas ! 

Deixando Gibraltar entramos no Mediterrâneo, 
costeando a Hespanha, que por tanto tempo se pro- 
jecta á beira doeste mar. Passamos em menos tem- 
po a França, e chegamos á Itália. 

A costa de Hespanha é montanhosa, e áquelle 
tempo estava desprovida de pbaroes, que tanto ser- 
vem para a navegação e para animarem os via- 
jantes. > 

A corrente do estreito pelo centro é toda para 
levante^ e muito sensível até defronte de Málaga. 

O Mediterrâneo não tem marés, é um mar cuja 
ondulação é mais curta do que a do Grande Oceano. 

O Mediterrâneo é pouco frequentado pela nave- 
gação portugueza. £jscambamos pouco com os povos, 
que se assentam ao derredor doeste mar, em parte 
porque elles e niSs temos os mesmos productos, prin- 
cipalmente pelo que diz respeito á Itália, França e 
Hespanha; e em parte pela decadência do nosso 
commercio e navegação, que ainda poderia dirigir 
as suas carreiras para o Mediterrâneo em maior es- 
cala do que o faz actualmente. 

Se se fizesse conhecer bem e mais geralmente o 
exquisito dos nossos vinhos, e se se animassem as 
nossas pescarias*, ainda poderíamos abrir novos mer- 
cados ao nosso commercio, que chamassem para el- 
les a sua marinha. 

A respeito dos vinhos diremos, que a Itália não 
carece dos nossos vinhos commons, porque cultiva 
no seu solo os do seu gasto ordinário ; porém isto 
não obsta a que deixemos de lhe fazer conhecer os 
vinhos de gosto, que serão apreciados para as mezas 
finas. 

A este propósito diremos, que no Piemonte são 
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o PANORAMA. 



75 



mais conhecidos hoje os vinhos portugaexes \ nSo 96 ^ 
pontue a vinda do rei Carlos Alberto trouxe aqui 
alguns piemonteses, que quizeram faser conhecer a 
excellencia de talproducto^ mas porque se estabele- 
ceu em Turim um português, (1) que tem feito nego- 
cio com os nossos vinhos, e que assim presta tam- 
bém um serviço ao seu pais. 

Ainda poderíamos fazer outro negocio importante 
para a Itália, e seria o das pescarias, que lá são le- 
vadas pelos inglezes e franceses. 

A França, querendo animar os seus pescadores, 
tem }Á concedido um premio de oito francos por 
quintal de bacalhau francês importado na Itália. 

Portugal devia estudar este exemplo, e aprovei- 
tal-o do modo possível. Os governos dos differen- 
tes povos devem considerar a posição geographica 
dos mesmos povos como uma das bases, ou como 
um elemento, que tem sempre de entrar nos seus 
cálculos e acção governativa. Assim a Inglaterra 
desenvolve a sua marinhif, e o Piemonte, ou reino 
tardo, sustenta um exercito, que em tamanho aug- 
mento não reclamam as suas necessidades ordina^ 
riat ; mas porque é um pais intermédio para a po« 
lítica austríaca e francesa, quando é decidida pelas 
armas, as quaes por isso mesmo carece de ter em pé 
de respeito. 

Portugal, que se poderá diser um litoral, não de- 
ve menos attender á importância que lhe pode re- 
sultar do desenvolvimento da sua marinha, quando 
seja devidamente animada. 

O animo que se âzer crear á nossa marinha ha de 
ser a consequência do estado profundo sobre a de- 
cadência do nosso commercio, e sobre os meios de 
o proteerer com auxílios director e indirectos. 

Se se concedesse um premio animador ao proprie- 
tário de ianioi navios ', se se desse um premio por 
todo aquelle, que dentro de um certo prazo fosse 
deitado ás aguas ; se se isentassem de direitos de 
saída as carregações que o nosso commercio fisesse 
para novos portos, o se se conservassem essas isen- 
ções, mais ou menos modificadas, até que se estabe- 
lecessem importantes relações commerciaes ^ com es- 
tas e outras medidas se animaria o nosso commer- 
cio, se augmentaria a nossa marinha commercial, e 
augmentada esta seria mais considerável a marinha 
de guerra, e por isto mais em circumstancías de dar 
a devida protecção áquella. 

Falia ndo do nosso commercio para o Mediterrâ- 
neo lembraremos de preferencia, ou como aquelle 
de entre os productos da grande agricultura que po- 
derá convidar á demanda d^aqoelle mar, o vinho 
genei'Oio^ pois que os vinhos eommun* nSo encon- 
trarão gasto, se bem qne as nossas observações, pe- 
lo que respeita aos portos do Mediterrâneo, se devem 
entender mais a respeito do sul da Hespanha, da 
França e mui principalmente da Itália, que se ba- 
nha «'este mar. 

Os nossos trigos, a não ser em algum caso de apuro 
e falta, ou a não se recommendarem por uma exoellen- 
te qualidade, nao acharão fácil mercado nos portos 
de Hespanha, França ou Itália do Mediterrâneo; 
e dizemos fácil, porque ainda o não julg&mos impos- 
sível, porque a França recebe em Marselha o trigo 
da Alexandria. 

A Itália tem bello trigo, e a Toscana tem-no de tal 
qualidade, que o manda para Inglaterra, e por tal pre- 
ço, que a anima a expôr-se a compral-o para o seu 
consumo se lhe fôr necessário. Génova reccbe-o ex- 
cellente, para as suas maças, da ilha de Sardenha *, 



ilha que pertencendo a um pais de civilisação, o rei- 
no sardo, e tão perto de uma parte da Europa mui 
adiantada em policia, com tudo, ao menos em par- 
te, está atras do conceito que porventura farão aqael- 
les que não tenham ouvido fallar d*ella de mais per- 
to. Porém ultimamente tem recebido algum impul- 
so para o seu desenvolvimento económico, promovea-» 
do-se-lhe as obras de estradas etc. 

O nosso sal também não se exporta para o Me- 
diterrâneo, e nem para lá vae o aseite, que é um 
dos productos mais apreciáveis da Itália, e mui prin- 
cipalmente o de Buii e o de Celcci, Fique entendi- 
do que tratamos das circurastancias ordinárias. 

Como acabamos de fallar do azeite de Itália, di- 
remos : que é importantíssima a colheita que lá se 
fas d VUe. As oliveiras em Itália passam também pda 
alternativa da $<tfra, 

A oliveira em Itália também é fustigada (ao me- 
nos em algum paíz) para a apanha do fructo ; mas 
ou porque se lhe espera um estado de mais matura- 
ção, ou porque a sacodem com um instrumento me- 
nos pesado, não se achará tão ingrata a vista dos 
olivaes. 

A cultura da oliveira é mui cuidada na Itália, o 
pé da arvore é cavado de dous em dons auios, e 
tem-se por conveniente o cavar a terra que está em 
torno *, o pé é estrumado com o mesmo intervallo, e 
não sé com o estrume mais vulgar, mas juntando a 
este algum trapo de lã. 

Os fabricantes do azeite em Itália não admittem 
.a salga da azeitona antes de levar esta á moedura. 
Para dar uma idéa da importância do aseite na 
Itália diremos : que a producção da Toscana não 
baixa de 300:000 barris; Nápoles não produs menos 
de 200:000 a 300:000 ditos /tnoi,' porque a sua pro- 
ducção bruta excede muito isto. E o reino de Sar- 
denha, incluindo por isso mesmo as ribeiras de Gé- 
nova e Nizsa, não produs menos do valor de trinta 
e cinco a quarenta milhões de francos, que dividi- 
dos por dous annos, visto que a grande colheita é 
biennal, poderemos dizer, que o valor ann uai do asei- 
te no reino sardo é o de vinte milhões de francos. 

Tornando á pouca importância do nosso commer- 
cio no Mediterrâneo, diremos que tendo-nos encon- 
trado com os cônsules ou agentes consulares portugue- 
ses em differentes portos do dito mar, e tendo tra- 
tado com seis d^elles, apenas encontramos n^este 
numero um português, que era o cônsul de Barce- 
lona. 

Isto prova contra a importância actual do nosso 
commercio para taes portos, porque sendo pequenos os 
ordenados que dá o governo português, não é pos- 
sível que um nacional possa sustentar-se e sustentar 
a dignidade do seu cargo com os emolumentos e 
interesses que porventura teria, -se fossem a esses 
portos carregações importantes e amiudadas do com- 
mercio português. 

Se se quiser faser alguma transacção directamente 
de Nápoles ou de Liorne, que são dous mercados 
importantes para Lisboa^ não se encontrará meio 
de a fazer. 

Não acontece assim em Génova, e não porque 
seja de muito vulto o commercio que para lá fase- 
mos, tíías porque é o único porto de Itália d^onde 
ainda recebemos, ou para onde ainda mandámos 
mais alguma cousa. 

N 'outro tempo embarcavam em Génova para Por- 
tugal as massas; (estas ainda vâem, porém menos) o 
papel, o arros (ha annos (2) que não o recebemos de 
e 



(I) Chama SC Joté de CarvalbQ. 



(2) Ainda desde 1836 até 1843 importamos de Geno- 



76 



O PANORAMA. 



Itália), a seda que nos continua a vir, ao menos a de | lados da Ásia o crescente ottonsano. £rthogroal, 
melhor qualidade, pois que a cultura d^ella tem ti< chefe de uma triba que habitara nas margens do 

Eufrates, e que depois se ficera errante, tendo prés- 
tado importantes serviços a AladinoIII (Ala-eddin) 



do ultimamente um certo desenvolvimento no paix, 
e assim ficámos com menos necessidade da seda es- 
trangeira que não seja eapecicU \ entretanto é o ra- 
mo de commercio mais importante que conservámos 
com a Itália. 

Estes e porventura alguns outros productos, mas 
de pouco valor, sao os que a Itália nos manda. E 
dos outros portos do Mediterrâneo pouco recebemos, 
e doesse pouco uma parte é por baldeação feita em 
Génova, v. gr. as drogas. Os productos que exportá- 
mos dos nossos portos para os do dito mar são : algum, 
mas pouco, vinho, a cera, a alfarroba, a grã de car- 
rasco, ou kermes, o peixe salgado^ pouco ou na- 
da mais nos recebe a Itália, isto e, dos productos 
portuguezes, pois que o marfim, a gomma copal e 
outros géneros coloniaes, mandamos-lh^os como inter* 
mediarios. 

A França recebe -nos, por Marselha, a urzella e os 
resíduos da purgueira, e porventura a própria se- 
mente d^ella, a grã de carrasco ou kermes, além de 
algumas outras insignificantes carregações. 

A Hespanha pouco importa dos productos do nos- 
so commercio, a Catalunha compra-nos algum pei- 
xe salgado e pouco mais^ parece-nos que nos recebe 
ainda menos que a França. 

Para Marrocos tem muita saíáa o mel, porém se 
passa d^isto a pouco mais se estende o nosso escam- 
bo com a gente de Fez. 

O nosso commercio feito por o mar Mediterrâ- 
neo em navios nacionacs e estrangeiros não emprega 
moitas dnzias de navios no decurso do anno. 

Com este rápido estudo commercial e marítimo, 
e dizendo que a navegação quando é animada tam- 
bém se emprega nos carregamentos de commissao, 
ou de portos estrangeiros para portos estrangeiros, 
como os hollandezes, dizendo isto, pedimos seria at- 
tenção para o commercio e navegação portugueza, 
e que se repare na sua^ouca importância no Medi- 
terrâneo. 

£ pedimos também que seja recebida com indul- 
gência esta nossa breve noticia, com a qual não se 
deseja offender a verdade. 

Prestar-nos-hemos ás correcções, e mui principal- 
mente n^aquellas cousas em que nos fiamos na no- 
ticia d^outros, ou para que somos menos competentes, 
e menos o estamos pelo pouco tempo da nossa obser- 
vação rápida e mui seguida. 

Fecharemos, fazendo sentir que apreciamos com- 
mercial mente as carreiras dos vapores francezcs vin- 
dos do Mediterrâneo, c ha pouco estabelecidas, por- 
que podem motivar relações de commercio não lem- 
bradas, e outras menos possiveis sem taes carreiras. 
D. Aktovio de Alubida. 



Os fMPHKIOS BYSANTINO K OTTOMANO- 
II. 

Fundação e progressos do império oUomatio^ 

Começava cntao a levantar* so no horisonte para os 

va {Kira Portugal a quntitidade de arroz que Tunos mos- 
trar: 



Km 



1836—. 

1837 — 

1838 — 

1839 — 
18i0 — 
18ií — 

1842 — 

1843 — 



1:739 

2.3S0 
29:258 

8:328 

106 

12:211 

25:890 

9:949 



sultão d^Iconium, recebeu doeste em recompensa um 
pequeno território a £. do monte Olympo da By- 
thinia. Este modesto património onde £rthogroul 
accommodou a custo a tua tribu^ foi o berço do im- 
pério ottomano. Osman Gashi, filho doeste valente 
chefe, foi o seu fundador. 

Intrépido e corajoso como seu pae, por tal modo 
se distinguiu na carreira das armas ao serviço d'a- 
quelle sultão, que em pouco tempo se viu elevado 
aos primeiros cargos do estado, cheio de honras 
e accrescentado em possessões. Os seus repetidos 
triumphos contra os tártaros e outros povos não me- 
nos guerreiros, que infestavam continuamente os 
estados de Aladino, e as victorias que alcançava 
contra o império do Oriente nas amiudadas incur- 
çôes que lhe fazia, e que sempre terminavam pela 
con4[uísta de uma cidade ou de um castello, alcan- 
çaram-lhe o sobrenome de GhasÃ, que quer dizer — 
o victorioso. 

Assim havia chegado Osman á mais íntima pri- 
vança do seu soberano, e ao maior grau de influen- 
cia no exercito, de que era commandante em che- 
fe, e no povo que o idolatrava, quando rebentou uma 
sublevação contra Aladino, promovida pelos grandes 
da sua corte, cujo ciome e inveja tinham sido ex- 
citados pelos favores e valimento concedidos ao jo- 
ven Osman. 

O sultão, vendo-se desamparado do seu valido, que 
se achava em serviço longe da corte, fugiu para Cons- 
tantinopla ^ mas o imperador Miguel Paleologo, em 
vez de um asylo que o infeliz lhe implorava^ deu-lbe 
una cárcere por hospedagem, e logo depois a morte. 
Este passo errado da politica do imperador teve 
as mais fataes consequências para o império do orien- 
te. Julgando desfazer-se por meio doeste covarde as- 
sassinato do inimigo que mais inquietava os seus es* 
tados, não fez senão elevar outro mais temivel, agui- 
Ihoaudo-lhe a ambição e excitando-lhe a coragem 
com o desejo da vingança. 

Apenas Osman Ghazi soube da sorte do seu des- 
ditoso soberano correu á capital, aniquilou a re- 
volta, efez-seimmediatamente ncciamar sultão. Cas- 
tigar os que tinham pretendido supplantal^o, der- 
rubando Aladino ^ restabelecer a ordem em todo o 
paiz^ firmar o seu novo throno com varias medidas 
populares e actos de generosidade^ e á frente do 
seu valente exercito transpor as fronteiras do impé- 
rio do oriente, foi tudo obra de pouco tempo. 

A paz custou a Miguel Paleologo penosos sacrifí- 
cios, entre outros a perda de uma boa parte das suas 
provindas asiáticas. 

Osman, o victorioso, falleceu em 1326, deixando 
por successor a seu filho Orkhan. Creado nos cam- 
pos de batalha, dotado de todas as grandes qualida- 
des, que distinguiram e elevaram seu pae, e herdei- 
ro finalmente da sua immensa gloria, o novo sultão 
proseguiu no caminho trilhado por Osman. N'esse 
mesmo anno da sua elevação ao throno, pondo-se á 
frente de seu aguerrido exercito, invade o império 
bysantino e toma Nicomedia. Nicea, a mab impor- 
tante cidade depois de Consta ntinopla, Berghama , ca- 
pital da Mcssia, e Gallipoli, na margem europêa do 
Hellesponto, caem também em poder do vencedor, 
que levou suas armas victoriosos ate quasi ás portas 
de Scutari. 

A importância e influencia do império do grande 
Constantino já tinham acabado no meio das luctas 
civis, e das primeiras invasões dos turcos. Mas d^ 



o PANORABfA. 



77 



pois do6 triumphoa alcançados por Orkhan, perdeu 
qaaai inteiramente a sua independência. Desde esta 
epocba ficou devendo a sua existência ou a ruinosas 
allianças^ ou á generosidade de seus inimigos, algu- 
mas vezes ainda mais cara, e sempre humilhante. 

Tão precária e miserável situação foi aggravada 
pelas consequências do procedimento criminoso de An- 
dronicoy filho do imperador João V Paleologo. Ten- 
áo-se ligado aquelle príncipe com um filho de Amu- 
ra t I (Murad Kan) successor de Orkhan, para ex- 
pulsarem do throno a seus pães, foram vencidos e 
prezos pelo sultão. O príncipe ottomano foicondem- 
nado á morte, e Andronico, enviado para Constan- 
tinopla, foi arremeçado para o fundo de um cárcere, 
e por exigência do sultão mandou seu pae tírar-lhe 
a vista. Fallecendo pouco depois MurudKan, esuc- 
cedendo-lhe seu filho Bajazeto I, conseguiu Andro- 
nico fazer-lhe chegar ks mãos uma proposta para o 
libertar e collocar no throno, obrigando-se a pagar- 
Ihe annualmente um innmenso tributo em ouro e pra- 
ta. Bajazeto acolheu com prazer uma proposta, que 
tanto favorecia os seus projectos de ambição. Pôe-se 
á frente do exercito, marcha sobre Constantinopla, 
e sem uma unicu batalha apriziona o velho impera- 
dor, e conduz Andronico do cárcere para o throno. 

A fronte do parricida ornou-se, é verdade, com 
a coroa imperial, mas o seu triumpho foiephemero. 
João V poude escapar-se da prizâo, e apresentando- 
se também a Bajazeto alcançou facilmente contra seu 
filho o mesmo auxilio, que Andronico conseguira con- 
tra seu pae. So no que houve difierença foi no pre- 
ço, que d'esta vez foi muito mais pezado e vergo- 
nhoso. 

As meias luas do propheta tornaram a transpor 
triumphantes as portas de Constantinopla, e o mo- 
narcha desterrado empunhou de novo a insígnia do 
poder. Mas desde esse momento o imperador não foi 
mais do que um delegado do sultão, de quem se de- 
clarou vassallo, obrigando-se apagar-lhe todos os ân- 
uos um tributo onerosíssimo, e a fornecer- lhe um con- 
tingente de doze mil homens, quando Ih^os exigisse. 

£ não parou aqui tanta baixeza, o aviltamento foi 
muito mais longe quando Bajazeto, querendo apode« 
rar-se da Philadelphia, a ultima cidade que restava 
na Ásia ao império grego, e encontrando no gover- 
nador c na guarnição uma resistência tão heróica, 
que zombava de todos os esforços dos sitiantes, e des- 
obedecia até ás ordens do imperador, que lhe man- 
dava entregam praça, quando Bajazeto, repito, obri- 
gou a João V a ir com os seus soldados dar assalto 
á sua própria cidade ! 

Em quanto pois o império grego assim se ia des- 
moronando com tanta rapidez, os exércitos do sultão 
caminhavam pela Ásia e pela Europa devictoriaem 
victoria, estendendo sempre as fronteiras do impe- 
rio ottomano. Por duas vezes veiu Bajazeto pôr cer- 
co a Constantinopla, e de ambas deveu esta capital 
a sua salvação aos triumphos dcTamerlão [Timour- 
Xjeng] que obrigaram o príncipe mussulmano a levan- 
tar mão da preza, que tanto cubicava, para voar a 
defender seus estados, ameaçados na Europa pelos 
húngaros, e na Ásia pelo celebre guerreiro da Tar- 
taria. 

A estrclla de Bajazeto começou então a empalli- 
decer. Afortuna, que sempre o acompanhara, desam- 
parou*o nas planícies d' Angora, onde foi derrotado 
e aprizionado por Tamerlão (1402). A sua morte, 
que foi immediata a este succcsso, e filha do pezar, 
que elle lhe causou, lançou o império ottomano nos 
horrores da anarchia. A herança do grande Bajazeto 
foi disputada por seus três filhos Solímão, Mousa e 
Maliomet, que entre si a dividiram, apoderando>se 



cada um do maia que podia, e guerreando-se deses- 
peradamente. 

Durou onze annos esta lucta fratricida, que veiu 
dar tréguas a Constantinopla, e prolongar a exibten* 
cia ao definhado império bysantino. 

Mahomet, tendo supplantado seus irmãos, reuniu 
sob o mesmo sceptro todos os estados de seu pae (1413). 
Mas como os seus últimos triumphos foram devidos 
em grande parte aos auxílios prestados pelo impera- 
dor Manuel 11 Paleologo, Mahomet, cheio de reco- 
nhecimento, prometteu-lhe paz c amizade. E cunh- 
príu religiosamente a sua promessa. Em quanto este 
príncipe viveu gosou de paz o império grego, porém 
no reinado de seu filho Amurat II [Murad Kan], 
que lhe succédeu em 1421, começou novamente a 
guerra. Constantinopla foi outra vez sitiada ^ travou- 
se renhida peleja, masapezar do valor com que com- 
batiam os sitiados, esta capital deveu unicamente a 
sua salvação a uma revolta nas províncias asiáticas 
do império ottomano, que obrigou o sultão a levan- 
tar o cerco, para correr a aniquilar os rebeldes. 

Amurat continuou depois as suas conquistas, de 
maneira que na uccasião da sua morte o império do 
grande Constantino estava reduzido simplesmente á 
capital e arrabaldes, quecomprehendiam um peque- 
no território. 

(Continua.) 

I. OE Vilhena Bahbosa. 




UBA FZBir ASTDO PÓ — BUBI. 



A ILHA de Fernando Pu está situada no golfo de 
Guiné, a oito léguas da terra firme, e em frente 
das fozes dos rios Calabar, Benim e Camarões. 

E^ta ilha foi descoberta por um capitão portu- 
gu€z, que se chamava Fernando P<5, no anno de 
1486, segundo a opinião mais verosímil. Em nosso 

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78 



O PAIVORAMA. 



poder se conservou esta descoberta do valoroso e 
ousado argunauta, até que foi cedida á Hespanha 
pelo tratado de 1778. 

A ilha de Fernando P6 é montoosa em grande 
parte •, entretanto contém alguns valles deliciosos, 
e planícies mui férteis, regadas por vários ribeiros, 
que vão desembocar na bahia de S. Isabel, onde se 
acba a povoação doeste nome, que é a capital da 
colónia. Dão-lhe uns as seguintes dimensões: 17 lé- 
guas de comprimento, 9 de largura, e *26 de cir- 
cumferencia. Outros porém asseveram que ella tem 
10 léguas de comprido, 14 de largo, e 45 a 4S de 
circumferencia. 

A temperatura é ali bastante elevada (34 a 45 
graus) ; todavia a do continente próximo é menos 
benigna e saudável. Nos mezes das chuvas, que são 
os de junho, julho, agosto e setembro, o calor diminue 
bastante de intensidade. Não se conhecem em Fer- 
nando V6 certas enfermidades terríveis próprias dos 
climas africanos, como a elephantiasis, ahydrocelee 
as escrófulas. 

O numero de habitantes não excede a 15:000, 
segundo os cálculos mais moderados. Dividem-se em 
raças, e as raças em famílias*^ umas são originarias 
ou indígenas, e outras estrangeiras. Das primeiras 
não ha realmente mais que uma^ a buln^ a qualgo- 
sa de todos os privilégios e distincçôes. Das segun- 
das as mais conhecidas suo a dos Crumanos, Tima- 
né. Acra, Cabo-costa e Jamaica. 

A bubí é dividida em famílias, presididas por 
certos chefes, denominados cocorocos. Os costumes 
doestes negros são, em geral, similhantes aos das 
nossas possessões de Guiné. 

O governo primitivo, ou patriarchal, é o que co- 
nhecem estes ilhéus. O cocorocoj chefe de familia, 
costuma aconselhar-se nos negócios graves com os 
anciãos da mesma, que constituem como uma espé- 
cie de senado. 

Os bubís adoram um deus ctija unidade reconhe- 
cem, c a que, por uma singular coincidência, dão 
um nome que sôa como Yehovah. São mais huma- 
nos e menos supersticiosos, que os naturaes do visi- 
nho continente, e por isso cremos que grande ser- 
viço prestariam ali á religião alguns missionários 
catholicos. 

Os negros de Fernando Vó aborrecem profunda- 
mente o adultério, e o punem cortando os braços á 
mulher delinquente. Comtudoa polygamia é ali to- 
lerada, como acontece em toda a Africa. 

. A sua lei religiosa resume-se nos seguintes pre- 
ceitos : Não deveis mentir; amae a Deus de iodo o 
vosso corarão ; não d*vtis iomar o alheio ; se pec- 
cardes não vereis a Deus ; fazei bem a iodos os ho- 
mens* 

Pelo que respeita ás outras raças pouco ha que 
dizer. A dos crumanos, que é pequena, procede de 
Settra-kron, paiz continental dooccidente^ exer- 
cem ordinariamente o emprego de carregculores. 
As de timané, acra e Cabo*costa são originarias de 
Serra Leoa. A de Jamaica corapôe-se de um pe- 
queníssimo numero de famílias emigradas d^aquella 
possessão ingleza. Como os bubís são hospitaleiros to- 
das aquellas raças encontraram protecção eagazalho 
em Fernando Pó, sendo porém sujeitas á òuòt, que 
é a verdadeira senhora da ilha. 



escriptorbs portuquezbs cohtkmporakxos. 

Portas lyricos da geração nova. 

Mekdes Leal. 

O âVE seriam os Luziadas se o Camões 'puzesse 
menos os olhos na lUiada e na Eneida ? Q.ue formas 



e que traços acharia, com mais liberdade de estylo e 
de invenção, um pintor, que foi tão fino e desgraça* 
do amante, tão heróico e enthusiasmado poeta da 
gloria nacional ? Se a invasão clássica o tivesse dei- 
xado escutar %6 as palpitações do coração do povo, 
e tirar todas as cores e tons da palheta delicada das 
tradições, que ninguém làelhor sabia admirar e re- 
stituir, que altura nova, que enlevo raro, que senti- 
mento profundo e christão no seu livro immortal? 
O que seria o theatro, se depois de Gil Vicente, de 
António Prestes, e de Simão Machado, viesse um 
talento observador, um poeta de paixão e de ana- 
lyse, e fosse o Calderon e o Shakespeare da nossa 
scena, o homem da idéa, d^ tradição e da verda- 
de, em vez dos plagiários e prosaicos ensaios de Sá 
de Miranda e de António Ferreira, cuja Thalia re- 
gelada não tem um sorriso, um movimento, nma po- 
sição que não seja copiada ao espelho de Piau to e 
Terêncio f Q/ue rica e florejante seara perdida no 
primeiro viço! Gtue céu baixo e crasso abatendo so- 
bre os horisontes, que eram d^antes tão altos e ras- 
gados ! 

Veiu a poesia bucólica invadir tudo. As descri- 
pções falsas, as finezas dos Corydons e Menalcas, pas- 
tares de meia de seda e çurrão de veludo, os reba- 
nhos monótonos, as avenas nada sylvestres, fizeram 
da rica e viçosa natureza de Portugal uma cousa 
morta, um thema de inextricáveis requebros entre 
as Galatheas da corte e os presumidos Melibeus da 
sua insulsa paixão. Ao som vazio e martellado das 
ecclogas adormeceu a veia pura, a corrente pouco 
funda, mas tão enlevada ás vezes, da poesia original. 
Raramente, por uma aberta nos arvoredos doestas 
paizagens tiradas de Virgílio e dos versos toscanos, 
se rasga alguma nesga do nosso puro céu recamado 
de estrellas. A fresca e amorosa viração, tão agra- 
dável de respirar, cujo picante tanto levanta o per- 
fume ás verduras naturaes, nunca endoudeceu nem 
brincou por aquellas ramas agitando-as ! 

A periphrasé, o tom precioso, e o ódio do dese- 
nho e da côr exacta desterraram para os verdadei- 
ros montes a musa ingénua, chamando em vez d^el- 
la uma rhetorica artificiosa, que imitou em seda ^ 
arminhos o corte simples dos trajos pastoris ! Tiran- 
do bellos trechos de prosa, e lindos versos de roman- 
ce, na Primavera e no Paúor Peregrino de Rodri- 
gues liobo, exceptuada uma ou outra pagina do 
Fernão Alves do Oriente, quando é pintor e nao 
copista, o resto quasi tudo é um pesadello incom- 
modo de n7vas, madrdgaes^ e desafios métricos, pró- 
digos de conceitos e ôccos de sentimento. Nenhuma 
olwervação^dos sítios descriptos*, nenhuma analogia 
dos costumes e da linguagem com a vida e o cara- 
cter dos interlocutores! Parece impossível como taet 
buccolícas, generalisando-se^ distrahiram engenhos, 
aliás distinctos em diversos ramos do saber. 

Pomos de parte as numerosas epopéas sem origi- 
nalidade, ás qoaes nunca foi dado seguir de longe 
mesmo o rasto luminoso de Camões ', e com prazer 
saímos das epochas decadentes para o período em 
que a poesia começa a remir-se dos labyrinios « 
acrósticos j e soltando um vôo alto, passa por cima 
dos enxames de versos, pousados á superficie dos bre- 
jos da Phenix jRenasct^,^ curioso epítome dos delí- 
rios da seita gongorista. £ o período da Arcádia do 
Quita e do Garção, Esses sim, embora não 8ubissc^m 
com a vista além dos horisontes da imitação, eram 
capazes de entender e exprimir o bello, de procn- 
rara verdade e de a sentir, purificando a forma. O 
Garção incorreu nas iras do marquez de Pombal, 
talvez por alguma allusão satyrica \ a vingança do 
ministro entristeceu em ferros os últimos annos da 



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o FAIfORAlHA. 



79 



nia vida, e primeiro veiuja norte acabar-lhe o tor- 
mento, do que a liberdade. £m tudo o que etcre- 
veu sobresae a delicadeza e o gosto da musa maia cas- 
ta. A famosa Ccmicda de Dido nao sei que se lhe 
possa notar senSo um verso único mais negligente^ 
todos os outros são de uma perfeição que desafia a 
crítica. EiSaeDcialmente horaciano, as suas odes lu- 
ctam alguma ves sem desmaiar com as do modelo 
latino. Ha n^ellaa pureia e correcção que parecem 
milagrosas. 

António Diniz (Elpino Nonacriense) cuja inspi- 
ração se eleva mais arrojada, cujos Ímpetos sSomais 
pindaricos no geral, fica-lhe inferior, repete-se, en- 
tumece \ e perde a elegância sóbria que é o primor do 
GarçSo.* As AnacreonUcca e o Hyssopc são os seus 
tituloB sólidos de gloria. Gtuita era um pobre cabel- 
leireiro, que nasceu poeta e no género buccolico foi 
o pintor mais natural, mais parente de Gesner que 
hão de citar as nossas letras. Pagaram-lhe com des- 
prezo e miséria *, deíxaram-no consumir na indigên- 
cia*, mas o seu nome viveu, e empallidecem hoje 
diante d^elle muitos aos quaes a inveja ou a igno- 
rância assopraram brilho falso, concedendo-lhes o lou- 
vor que lhe negavam a elle. 

Se as ultimas sombras da affectaçSogongorica ain- 
da mancham algumas oitavas do poema de Fr. José 
Durão o Caramurúy ha quasi suhlimidades em ou- 
tras que o resgatam. A scena offerecia quadros ex- 
cellentes a quem a pintasse com as cores do paiz. O 
auctor, nas que não desprezou, é feliz. O episodio de 
Moema seria irreprehensivel, se o pincel não fugis- 
se ao de leve com as tintas fortes, e fosse menos ti* 
mido em interpretar a vida e a natureza. As lyras 
de Gonzaga (árcade cujo pseudonymo pastoril era 
Dírcéo] peccam no mesmo defeito na sua MariHa^ 
apezar da graça e da rara forma de algumas. Poujo 
e Virgínia estão revelando o que seria a MariUa 
se o poeta a sentasse ao pé das bananeiras entre a 
esplendida vegetação dos trópicos. O Vraguay de 
José Bazilio da Gama, depois dos JLuziadoi e da 
epopéa de Q/Uevedo, Affonso Africano^ c o melhor 
poema português de tantos publicados. As descri- 
pçôes respiram verdade e animação \ vê-se o paiz e 
todas as magnificências da sua vegetação; a pinta- 
ra muitas vezes tem o calor do céu e das verduras 
que retrata. O verso sente, e sabe dizer a paixão. 
Só lhe faltou mais extensão no quadro, e mais cui- 
dado na lima, para ser um modelo. 

GLuando chegou Bocage, a escola da Arcádia de- 
clinava depois de consummada a soa revolução. Aos 
mestres succediam os copistas, e incapazes de crear, 
lançavam-se na importação fraudulenta de palavras 
e construcções francezas, odiosas á língua. Não con- 
tentes de tirarem tudo de fora, ainda pervertiam 
os traslados servis com as impurezas de uma incor- 
recção mais que devassa. Francisco Manuel do Nas- 
cimento (Philinto Elysio) nutrido no estudo e na 
admiração da antiguidade, feliz imitador de Pinda- 
ro e Horácio, do exilio aonde escapava aos rigores 
da Inquisição, continuou a disciplina do Garção, e 
oom as famosas versões dos Martyres e de Oberon 
abriu as portas á renovação romântica. A sua lucta 
Gom 08 piratas que poUuiram a prosa e o verso; as 
odes á Virtude, a AíTonso de Albuquerque, aos Novos 
Gamas, em que a poesia é elegante, sublime, e cheia 
de enthusiasmo ; o Hymno a Noute, alguma das 
epistolas, e tantas obras primas são thesouros de lin- 
guagem, de esteio e de imaginação, que de direito 
o collocam no eminente logar que ha de oecopar 
sempre. 

Bocage, vivendo trinta an nos depois, talves fosse o 
Byron portuguez. Desgraçado e enthusiasta visitou 



o theatro das proezas nacionaes, e como Camões viu 
o rosto ao fero Adamastor nas iras da tormenta. 
Irascivel e ardentíssimo de temperamento, a hyper- 
bole ainda era esmorecida alguma ves para o fogo- 
so repentista. A excessiva sensibilidade tornava-o 
desconfiado, ingrato e quasi mysanthropo. Filho do 
povo, inquieto, negligente, dos dias de delirio pas- 
sando aos dias de escaces ; e em muitas occasiões 
prostituindo a musa por outeiros e cafés ; em outras 
vingando-a em raptos quasi cpicos, tinha as quali- 
dades e os defeitos, que fazem a gloria e o infortú- 
nio dos poetas. Bocage imitou e traduziu admira- 
velmente, mas creou pouco. A invenção não o soc- 
corria coroo a harmonia, a ponto de não soltar um 
verso duro, frouxo, ou mal soante. Deixada a si 
mesma erá terna e sensível a sua alma \ a graça e 
o pathetico da bella Cantata de Leandro e Hero 
não se excedem. Nas versões de Ovídio, em que o 
iguala, e nas primorosas de Castell e Delille, em 
que os vence, derramou riquezas poéticas, que em 
quadro seu (se o tentasse) lhe promettiam maiores 
triumphos. A inspiração espontânea, o ardor da 
phantasia, e o sentimento verdadeiro que lhe eno- 
brecem algumas paginas, mostram que era talhado 
para ser maior vulto do que foi. Mais próximo, res- 
pirando as tendências da nossa epocha, quem sabe 
o que poderia cantar esta voz poderosa \ aonde su- 
biria um engenho formado de tempestades e de har- 
monia, ora delirio e fogo, ora ternura e prantos? 
O seu fado condem nou -o a reinar sobre imitadores 
como primeiro imitador, e adivinhando quasi a arte 
moderna destinou-o a morrer sem deixar senão bri- 
lhantes copias, e soltos cânticos, sombras apenas do 
nionumento que devera erguer ! 

A roda de Bocage, e depois d^elle, tudo tende ao 
occaso, menos a satyra de sociedade na quintilha de 
Nicolau Tolentíno, cujo buril familiar grava o ri- 
dículo pela felicidade do epitheto, cuja inspiração 
travessa ri sem ódio, e com malicia, de todos, e de 
si próprio. N^este género mesmo sepultado o mestre, 
decaiu o gosto alimentado s^ pelos gracejos de José 
Daniel, e pelas torpezas diflamatorias do padre Ma- 
cedo. As rimas de João Xavier de Mattos offerecem 
rasgos felizes, mas são desiguaes. António Lobo de 
Carvalho, quando se levanta do cinismo habitual, e 
não imita a sordidez de Bafio, é critico engenhoso, 
e faz lamentar o talento polluido em levianas devas- 
sidões. 

(Continua,) 

L. A. RxBSLLO DA Silva. 



Estudos sobre os diffsrentks mxthodos 

DE BNSIirO DE LER EM FoRTVGAL. 
II. 

Duarte Nunes de LeIo. 

Entre os litteratos e eruditos que no século 16.^ cul- 
tivaram os estados grammaticaes e pbilosophicos figu- 
ra em eminente logar o celebre chronista e juriscon- 
sulto Duarte Nunes de Leão. A sua Origem da Un- 
gua portugueza é a primeira obra que doeste género 
se escreveu e publicou em nossa terra. £ a sua Oriho^ 
graphia^ posto que imperfeita, como devia ser n^a- 
quelle tempo, é um livro que devemos comprehen- 
der na analyse que estamos fazendo dos n»ethodos de 
leituray e de todas as obras que a elles se referem. 
N.icdicaloriaq« Duarte r^«^^f^^d.^Ort^g|^ 



80 



O PANORAMA. 



pliia ao regedor das justiçais Lourenço da Silva, dá 
cUe a entender que fora ena sua mocidade que se re- 
solvera a reduzir a preccptos e regra» (como elle diz) 
a orthographia da nossa língua. O que é certo porém 
é que; só em 1576 aquella obra se publicou, seis an- 
nos depois da morte de João de Barros. Parece pois 
que Duarte Nunes, escrevendo-a na sua juventude, 
a guardara por muito tempo, seguindo o preceito de 
Horácio, e esperara pela morte do que podia ser sou 
emulo' e competidor, nas cousas pbilologicas, para a 
seu salvo o refutar, posto que indirectamente, em 
algumas passagens da Orthographia^ oude sao trans- 
parentes as allusôes ás doutrinas do illustre-escriptor 
das Décadas, Por aqui se vê já que Duarte Nunes^ 
esperando que a arena estivesse deserta paraappare- 
cer então, dava um triste documento da idéaquede 
si fazia, e reconhecia tacitamente a superioridade do 
seu rival. 

As novidades que João de Barros introduzira e pro- 
puzera naorthograpliia ena orthoepia da lingua por- 
tqgueza acharam em Duarte Nunes um reaccionário 
decidido a oppugnal-as e a aconselhar a retrograda- 
ção para os erros e preconceitos que João de Barros 
tinha condem nado. João de Barros distinguira dous 
aa, o pequeno e o grande, e fizera sabiamente adis- 
tincção das letras em quanto ao seu valor e á sua fi- 
gura. Duarte Nunes insiste na idéa de que não exis- 
te mais do que uma, e de que as dífferenças de seu 
som são puramente accidentaes. E Julga ter demons- 
trado a sua proposição com uma tautologia absurda 
que nada pVova nem adianta. 

João de Barros tinha proposto que o c tivesse sem- 
pre o valor de 9, ainda mesmo quando estivesse an- 
tes de e e de t. E propunha que se usasse do ç ce- 
dilhado, todas as vezes que o c tivesse de pronun- 
ciar-ae com o som brando, ainda nos casos em que 
ao g se seguisse um e ou um t. Duarte Nunes recom- 
menda e defende o erro antigo, e quer que o c te- 
nha o som brando antes de c; e de t, equeselhepo* 
Ilha cedilha s6 antes das tresvogaes o^ o, u. Aqual 
cifra (cedilha) diz Duarte Nunes, não poremos quari" 
do depois do c se segue e^ t\ como fazem os idiotas» 
Esta qualificação de idiotas ia comprehender dire- 
ctamente a João de Barros, cujas obras Duarte Nu* 
nes conhecia e julgava assim acintemente de um mo- 
do mais injurioso para a sua própria intelligencia do 
que para a reputação do afamado historiador. 

Além dMsso João de Barros assi milhará a pronun- 
cia do ^ à do cecear das cigarras, e Duarte Nunes, 
com pouco exacto conhecimento da verdadeira pro- 
nuncia d^então, ensítiavaque o g se devia proferir co- 
mo fazendo uma espécie de s ; concordando com tu- 
do com João de Barros, ou copiando dVlle a idéa, 
de que o g nos viera dos mouros e não da antigui- 
dade clássica. 

A respeito do e segue Duarte Nunes a mesma opi- 
nião que estabelecera sobre o a. Pensa pois Leão que 
não ha mais que um é: e éaqui que aallusão a João 
de Barros se torna mais directa e aggressiva. 

u E é letra vogal simples, e não de duas manei- 
ras, como alguns cuidam, que fazem e pequeno co- 
mo em besta por animal, e e grande como em béUa 
per arma e instrumento de tirar ^ o que não ha. Por- 
que na pronunci^ção d'cssa letra, nenhuma difi«ren- 
ça teemos dos latinos. E a difierença, quevae d''es- 
Be cr, que aos vulgares parece longo, ao outro, a que 
«rradan.eute chamam bfeve, notamos com accento 
agudo ou circumfiexo, ou grave (como teemos dito 
du a, e diremos adiante na letra o) oucoradousce. n 

Aqui se vê na palavra ò^sía que Duarte Nunes ti- 
nha á viftta a cartinha de João de Barros, e que era 
a elie que se dirigia principalmente o epithato de 



vulgares j applicado como uma palavra injuriosa, e 
como que sendo o contrario de doutos c latinistas, 
aos que como João de Barros se queriam afastar da 
orthoepia e da orthographia latina, para crearem á 
lingua portugi^eza uma escriptura sua e maisconso- 
nante á sua pronunciação. E que estes vulgares co- 
mo João de Barros era o contraposto dos seguidores 
da etymologia latina, deprehende-se da insistência 
de Duarte Nunes em comparar com as latinas as le- 
tras do alphabeto portuguez. 

No trecho que citamos fica bem patente o pouco 
fundamento com que Duarte Nunes refuta a João 
de Barros, porque no fim sempre vem a confessar 
que o e tem dous sons, visto que reconhece a neces* 
sidade de distinguir pelo accento agudo e pelo cir- 
cumfiexo a difierença de um d^esses sons do e ao 
outro som. 

O que principalmente transparece em todo o dis- 
curso de Duarte Nunes é o seu ardor de desacredi- 
tar e combater as innovaçoes ousadamente revolucio- 
narias de João de Barros, cujo engenho superior pa- 
rece n^estas cousas suffocar a musa acanhada e ras- 
teira do chronista mais pueril, posto que elegante, 
d^entre todos os chroniqueiros portuguezes. 

(Continua.) 

J. M. Latino Coelho. 



BIBLIOGRAPHIA. 



A Natureza das Cousas^ poema de Tito Lucrécio 
Caro^ traduzido Jo, original latino para verso pov' 
tuguez pelo doutor António José de Limalécitão. — 
Lisboa, tomo !.<> 1851 --tomo 2.^ 1853, 8.<> — 
Prego 960 réis, 

Poenas de M. M, de B, du Bocage ^ colligidas 
«m nova e completa edigão^ dispostas e annoiadaspor 
L F. da Silvoy e precedidM de um estudo biagra- 
pkico e lUterario sobre o poeta, escripto por L. A. 
Rebello da Silva. — Lisboa, 1853, 6 volumes gros- 
sos em 8.^ franeez. — Prego 4^320 reis. 

As duas obras acima indicadas vendem-se em Lis- 
boa na Livraria do editor, A . J. Fernandes Lopes, 
rua do Ouro n.^ 227 e 228, na do sr. Lavado, rua 
Augusta n.^ 8, e na do sr. Bravo, rua do Ouro n.^ 212. 

São correspondentes do editor no Porto o sr. Cruz 
Coutinho \ em Coimbra o sr. A. H. Dardalhon *, em 
Braga o sr. A. de Freitas Guimarães \ em Santarém 
o sr. J. F. d^ Azevedo Pereira ; em Penafiel o sr. M. 
Dias de Castro; em Setúbal o sr. Manuel José Fer- 
reira ', na ilha de S. Miguel o sr. Albergaria e Val- 
le ^ na Terceira o sr. J. M. de Mesquita Pimentel ; 
na Madeira o sr. A. J. d^Araujo*, em Loanda os 
srs. Lino &. Pinto; em Pernambuco o sr. M. J- 
Alves ; no Rio de Janeiro os ars. Sousa &. Comp.^ ; 
na Bahia o tr. Justino Severianno Paiva. 



Moléstia das Vihuas. 

Suppòe Foxque oapparecimento do oidiumtucke- 
ri nas videiras é o resultado de uma moléstia pro- 
duzida pelo desenvolvimento de uma espécie parti- 
cular de vermes^ cuja primeira geração se reconhece 
por pequenas picaduras nas folhas das videiras, nas 
quaes depucm os ovos. Aconselha portanto estean- 
ctor que se arranquem as folhas logo que apresenta- 
rem signacs d^aquellas picaduras. 

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11 



o PANORAMA. 



81 



.^^^?^í^^ 




raAWÇA— ▲ OABTUXA 9Z 9IJ0V. 



A CBLBBRB cartuxa de Dijon foi fundada em 1383, 
peio duque de Borgonha, Filippe, o Atrevido, pri- 
meiro duque da terceira dynastia, e segundo do no- 
me. O sitio escolhido para esta fundação, que fica 
a um kilometro da cidade, thamava-se Campo-mol- 
U. Filippe, o Atrevido, quis tornar o mosteiro um 
estabelecimento modelo, e para esse fim destinou 
sommas enormes ^ recolheram-se ali vinte e quatro 
religiosos. A nada se poupou o duque para dar ao 
edificio uma vastidão e caracter dignos da capital 
dos seus estados. A igreja sobre tudo foi o objecto 
da sua munificência, e o que ainda se conserva dM- 
la prova a riqueza das suas decorações. Designou-a 
Filippe para seujaxigo e dos seus descendentes. Com 
efTeito ali foi o seu cadáver flepositado, bem como 
os dos príncipes que lhe nuccederam. Todavia o seu 
mausoléu e o de seu filho João, Sem medo, foram 
os únicos erigidos aos principes doesta raça. Áquelles 
dous mausoléus, feitos de alabastro, vandalicamente 
profanados por occasiào da revolução, foram depois 
restaurados com muito esmero, e transferidos para o 
museu de Dijon, onde tèem sido objecto da admi- 
ração de antiquários e artistas, porque na verdade 
são dous soberbos specimens da arte de esculptura 
do 15.^ século. 

Voi. III. — 3.»S«RIE. 



A cartuxa de Dijon está hoje convertida em um 
hospício de alienados. A sua magnifica igreja quasi 
que desappareceu completamente *, resta apenas uma 
torrinha isolada, de 20 metros de altura, pouco mais 
ou menos, e o portal onde se observa um grande 
numero de figuras esculpidas por ClauxSluter, hol- 
landez de origem. Entre aquellas figuras tornam-se 
notáveis, mormente pelos personagens que represen- 
tam, as do príncipe fundador e da duqueza sua es- 
posa, Margarida de Flandres, postos de joelhos aos 
pés de Nossa Senhora. 

O pateo do claustro está agora transformado em 
pomar: no centro porém copserva-se ainda um mo- 
numento, conhecido pelo nome de pogo de Moysés : 
é também obra de Claux Sluter, e os entendidos 
na matéria fazem d*elle tao grande apreço, que bem 
mostram quanto vai o trabalho do eminente escul- 
ptor da renascença. 

O terreno sobre o qual estava assente a igreja é 
hoje um formoso vergel. Lá existe comtudo uma 
excavação, que designa o logar em que outr^ora es- 
tiveram os túmulos de Filippe, o Atrevido, e Joãu. 
Sem medo. 

O architecto da cartuxa de Dijon foi Drouet de 
Dampmartin. 



ífti^sfecíg^MSfòogle 



82 



O PANORAMA. 



Os XMPBRI09 BY8A1ITIN0 K OTTOMAHO. 

ni. 

Cêreo e tomada de Comianiinopla, 

Ao SULTÃO Amarat II succedeu seu filho M ahomet II 
[Muhamed Kan], ao qual seus vassallos deram o epi« 
theto de el Faihy^ o Conquistador. Guerreiro e am- 
bicioso de gloria como seus antecessores, apenas su- 
biu aothrono resolveu empregar todos os esforços pos- 
síveis para fazer de Constantinopla a sede de seus vas- 
tos estados. 

Depois de muitos mezes consumidos nos preparati- 
vos para esta em preza, apresentou-se Mabomet ás por- 
tas de Constantinopla, capitaneando um numeroso 
exercito. Mandou logo levantar 14 baterias em que 
fez collocar muitos canhões de grosso calibre, entre 
os quaes avultava uma colubrina de extraordinárias 
dimensões, fundida expressamente em Adrianople pa- 
ra este assedio. Gastou dous meses a percorrer o es- 
paço de 36 léguas, sendo puchada por 50 juntas de 
bois, auxiliados por 400 homens. Eram necessárias 
duas horas para a carregar ^ nao podia por conseguin- 
te dar mais de oito tiros por dia% Logo no primeiro 
dia matou com a explosão o húngaro, que a tinha 
fundido, e nao tardou Mahomet a reconhecer que o 
auxilio que esta peça lhe dava era muito menos ef- 
ficaz do que «esperara. 

£m quanto o exercito musulmano sedispunha pa- 
ra o assalto, o imperador Constantino fazia os maio- 
res esforços para lhe oppor a mais tenaz resistência. 
Infelizmente porém escaceavanb-lhe os meios, falta- 
vam-lhe soldados, e peior do que tudo isto, a discór- 
dia entre as igrejas latina e grega, lavrando nas fíl- 
leiras do exercito christão, vinha ainda annullar os 
poucos recursos que a cidade tinha para sua defeia. 

No dia 15 de abril appareceu uma esquadra ottó- 
mana á entrada do Bosphoro. Compunha-se demais 
de 400 embarcações de diversas grandezas. Para re- 
sistir a tão grande poder não havia mais do que cin- 
co naus, e doestas apenas uma era grega, nas outras 
fiuctuava o pavilhão da republica de Génova. Po- 
rém tal é a disposição do porto de Constantinopla, 
que esses cinco navios, collocados na estreita gargan- 
ta por onde o Bosphoro derrama no mar de Marma- 
ra as aguas do Euxino, bastaram nao s6 para embar- 
gar o passo a poderosa armada de Mahomet, mas 
também para lhe destroçar uma divisão, que lhe of- 
fereceu combate. 

Este successo reanimou o valor amortecido dos gre- 
gos. Julgando-se seguros da parte domar que banha 
as duas faces do triangulo, que a cidade apresenta 
na sua configuração, corriam cheios de ardor e con- 
fiança a guarnecer as muralhas, que a defendiam do 
lado da terra. Imagine-se pois qual seria o seu as- 
sombro e terror, quando um dia ao alvorecer desco- 
briram mais de 70 embarcações turcas fundeadas no 
porto, e junto aos muros da cidade ! E o desalento 
cresceu ainda quando constou o modo por que ali 
viera ter a esquadra ottomana, quando souberam 
que era o resultado do projecto audacioso, que Ma- 
homet concebera, de transportar por terra em uma 
noute e pelo espaço de duas léguas uma parte da sua 
frota, fazendo-a escorregar sobre pranchas de madei- 
ra untadas de gordura. Tão arrojada ídca e tão há- 
bil execução desconcertou os defensores da cidade, 
menos o imperador, que respondeu á proposta que 
lhe dirigiu o sultão para a entrega da cidade,. di« 
zcndo que defenderia até ao derradeiro suspiro o im- 
pério, que Deus confiara á sua guarda ! 

Assim que esta resposta chegou ao conhecimento 



de Mahomet tomou as ultimas disposições para o as- 
salto geral por mar e por terra ^ e para excitar oar- 
dor de seus soldados prometteu grandes recompensas 
aos primeiros que escalassem os baluartes, e a todo 
o exercito o saque da cidade, não querendo doesta 
mais do que o terreno e os edifícios. 

O alvoroço que está promessa causou nas phalan* 
ges musulmanas foi tão grande que n^essa noute (28 
de maio de 1453) resplandeceram com variadas il- 
luminações as duas margens do Bosphoro, e atroa- 
ram os ares mil cantigas festivaes acompanhadas de 
dansas e outros folguedos com que os turcos pare- 
ciam festejar antecipadamente a tomada da cidade. 
E os echos do Bosphoro traziam a Constantinopla, 
d^envolta com a grita enthusiastica do exercito ot- 
tomano, um sinistro presentimento, que apertava to- 
dos os corações, que fazia desfallecer todos os braços, 
e que impellia para dentro dos templos a implorar 
a protecção da Virgem homens e mulheres, velhos 
e crianças ! 

Entretanto o imperador percorria as fortificações 
e todos os postos militares, exhortava os soldados, or- 
denava novas obras de defeza, e organisava uma le- 
gião estrangeira composta de allemães, italianos, fran- 
ceses e hespanhoes, collocando á sua frente o intré- 
pido Giustiniani, aquelle mesmo valente genovez, 
que destroçara a esquadra ottomana. 

Ao despontar da aurora do dia seguinte [29 de 
maio] rompeu de todas as baterias turcas vivissiroo 
fogo contra a cidade. E immediatamente o exercito 
musulmano se precipitou com tremendo impulso so- 
bre as portas e baluartes. 

Durante duas horas esteve indecisa avictoria. De 
uma e outra parte combatia-se freneticamente. Ao 
furor dos sitiantes respondiam os sitiados com o va- 
lor e coragem da desesperação. Mas em quaAto nas 
muralhas se jogava a sorte do império, no interior da 
cidade efa tudo desordem e confusão. Os partidos 
religiosos, lançando em rosto um ao outro os males 
públicos, accusando-se reciprocamente do perigo, que 
ameaçava a pátria, travavam combate nas ruas e 
praças. 

Não tardou a communicar-se ao exercito oefieito 
moral de similhante lucta. Continuas rixas, ora mo- 
tivadas pelo scisma, ora excitadas por um mesqui- 
nho sentimento de ciúme da legião estrangeira, vi- 
nham a cada passo pôr em ultimo perigo os pontos 
mais importantes da linha de defeza. 

Todavia, apezar d^essas scenas de discórdia, que 
paralisavam tanto a defeza da cidade \ apezar da im- 
mensa desproporção de forças entre sitiantes e sitia- 
dos, subindo aquelles a mais de 150 mil homens, 
em quanto que estes apenas contavam uns nove a dez 
mil, Mahomet esteve quasi a desesperar davictoria. 
Começava já a manifestar-se o desalento nas fileiras 
musulmanas, quando uns cincoenta soldados turcos, 
reparando que estava aberta uma das portas da ci- 
dade, chamada a Cercoporta, entram repentinamen- 
te para dentro das muralhas. Por descuido bem sin- 
gular ficara aberta na véspera do assalto. Os solda- 
dos pois que defendiam este lanço do muro, toma- 
dos de sobresalto e atterrados á vista de similhante 
tkpparição, fogem desordenadamente, e levam o ter- 
ror por tqda a parte. 

Debalde tenta o imperador Constantino oppor um 
dique á torrente invasora. O grosso do exercito ini- 
migo arremeçára-se cum tal Ímpeto sobre a Cerco- 
porta, que não houve mais resistência possível. Cons- 
tantino vendo tudo perdido arroja-se ao meio das 
phalauges turcas, combate desesperadamente até con- 
seguir morte de heroe, e d^est^irte alcança uro fin» 
glorioso para si e para o império do oriente. 



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o PANORAMA. 



83 



£m um momento toda a cidade foi invadida, e 
logo entregue ao roubo, ao incêndio, á carnificina 
e a toda a casta de profknaçoes. O povo abandonara 
as casas para se refugiar nos templos a implorar a 
misericórdia divina, ainda esperançado na realisasSo 
de uma prophecia popular, que dixia que n^um caso 
extremo viria um anjo libertar acidado do poder dos 
infiéis* Mas em breve a vingança e cubica dos ven- 
cedores lá iam mesmo junto aos altares fartar-se de 
sangue e de ouro. 

A cabeça do imperador Constantino separada do 
corpo, que fdra reconhecido entre os mortos pelos 
seus borseguins de purpura bordados de águias de 
ouro, foi exposta por alguns dias sobre acoUimna de 
Jnstiniano, e depois levada como trophéu a todas as 
cidades da Asía. 

Assim acabou pois o império do oriente 1 125 an- 
nos depois da fundação de Constantinopla. A mara- 
vilhosa situação geographica da Mia capital deveu sem 
questão na prosperidade a rapidez e extensão do seu 
engrandecimento, e na decadência a prolongaçao da 
sua existência^ já quando lhe faltavam todos os ele- 
mentos de força, e todas as condições de independên- 
cia necessárias á vida das nações. 

(Contínua.) 

I. OB Vilhena Barbosa. 



escbiptorbs pobtvoubzbs contxm for ambos*. 

Poetas lyricos da oera^Xo kova. 

* Mendes Leal. 

Nos versos do padre Macedo (José Agostinho), so- 
bre tudo nos poemas descriptivos, acham-ae lances 
de grande merecimento ', admiram-se asidéas e o es- 
talo muitas vezes'; porém favorecia-o pouco a mu- 
sa ^ e a inveja e o orgulho, mettendo-o em empre- 
sas atrevidas, acabaram de o desvairar a ponto de não 
temer a lucta formal com o génio de Camões l A sua 
prosa, em geral correcta, e por occasiões elegante, as- 
pira a uma erudição mais apparatosa, do que real. 
Critico roas e ciumento denegriu muito, e ensinou 
pouco. Vão passando, e ignorando-se as suas obras \ 
e a posteridade, que tanto pedia e proclamava, to- 
dos os dias foged^elle. Entretanto das suas obraa al- 
gumas merecem viver, e hão de sobrenadar do es- 
quecimento. 

Tal era o estado decadente da poesia, enfeste cre- 
púsculo se apagava, quando principiou a revoluçSo 
litteraria, e á testa d^ella o visconde de Almeida 
Garrett, enthusiasta nos primeiros passos da escola 
do Garção e de Philinto ; um pouco severo com a 
harmonia bocagiana, e o gosto pastoril de Gesner. 
D. Branca, publicada em 1826, deu o rebate en- 
tre nós do movimento geral \ e a débil resistência 
tentada pelos últimos conservadores do Parnaso or- 
thodoxo succumbtu -depressa, tornando mais estron- 
doso o triumpho. 

Não é n'este artigo, que nos cabe apreciar com 
detido exame os dous chefes da escola nacional em 
Portugal, Garrett e Herculano. Pertence ao primei- 
ro a gloria da iniciativa poética ; ao segundo a prio- 
ridade na introducção do romance e da philosophia 
histórica. Outro poeta distíncto e melodioso, o sr. 
Castilho, representa a transição elegante e primo- 
roso da arte clássica para a musa christã. 

O auctor 'de D. Branca, vulgarisador popular, 
com o exemplo, percorreu os domínios da poesia, e 



assentou os padrões da forma moderna. O auctor de 
Eurico e do Monge de Citiery interpretando a vida so- 
cial com a paciência e a critica do erudito e a phan- 
tasia do poeta, restituiu na manifestação ideal da sce- 
na-romance a physionomia das epochas, e ao mesmo 
passo no livro de sciencia ergueu o sudário ao pas- 
sado, fazendo palpitar o coração dos reis e dás gera- 
ções da meia idade. As qualidades de um comple- 
ta m-se portanto pelas do outro. Na Perda de Ar- 
zilla^ por exemplo, ou na Harpa do Crente, Hercu- 
lano funde a imagem no verso incisivo ; illumina a 
estrophe de uma luz ardente, e quasi sempre a fe- 
cha pela formula, cujo sentido abraça o mysterio da 
existência em qualquer dos estados da alma, ou a 
sjrnthese social em um dado aspecto histórico. 

Hymno guerreiro ou meditação religiosa que en- 
toe, o verso retine, a phrase é austera, e a aspira- 
ção elevada. A rima opulenta, os variados metros, 
e a harmonia viril e quasi áspera, são vestes apenas 
do pensamento; cobrem-n^o, mas não o prendem. 
Filho da musa idealista do norte, pela profundidade 
da analyse^ Herculano descende mais de Schiller e 
Byron, de Burger e Shakespeare, do que dos poetas 
mais risonhos quasi sempre do meio-dia. N^elle a 
tendência philosophica predomina. No seio de cada 
forma que molda, está sempre a idéa \ e cunhando-a 
o verso em imagens bíblicas cheias de magestade; 
e a prosa fundindo-a em phrase épica, como no Eu- 
rico, accusam na contextura nervosa a mão do gi- 
gante ! 

Escriptor eminentemente nacional, e critico feli- 
císsimo em descobrir o verdadeiro sentido das sau- 
dades e tradições do povo, Garrett é grande pintor 
pela attica simplicidade dos quadros, e pela trans- 
parência da côr. Demarcando os limites da indepen- 
dência litteraria, evitando com igual certeza, a li- 
cença e a servidão, admira o passado, cré no futuro, 
e não exclue nem toma, como absoluta, para expri- 
mir o bello, nenhuma días formas da arte, quer pro- 
ceda do gosto clássico, quer venha da infância ro- 
mântica. Depois de triumphar com a revolução, dá 
o exemplo da sobriedade na opulência, mantendo pu- 
ra a restauração da poesia e do theatro. Nas suas 
bj ricas acham -se em agradável convivência todas as 
escolas desde a imitação clássica até á canção erótica 
e á satjra politica. 

As ficgões risonhat da Greda cunavel^ a crença Kn- 
da de Vénus rainha dos amores, abjurada em uD. 
Branca» pelo vate catholico com certa ostentação, 
acharam-no depois menos austero, do que elle dis- 
se, e receberam mais de uma ofierenda nas suas aras. 
A SESTA, aonde se revêem as graças nuas e melin- 
drosas deCatullo, nada, tem que invejar a uma pin- 
tura da antiguidade. E preciso lel-a para ver aon- 
de chega o sorriso doesta imaginação flexível, e a 
finura de um estylo tão hábil em dizer tudo sem 
ofiender a castidade. Na cantiga popular,' quem, se- 
não o collector do Cancioneiro Poriugue», o inspi- 
rado traductor do Bernal Francez e da Silvaninha 
(Adozínda) soube o segredo de a repassar de senti- 
mento, requebrando-a em uma formosura meiga ^ e 
com os enfeites e galas mais singelas, fazendo-a vis- 
tosa e galante, que ás vezes leva o passo adiante das 
sublimes ? 

As Pegas de Cintra oflerecem um dos modelos do 
género. E forma só, bem sei^ mas que delicadeza, 
que sabor fino em contar, que infinita arte na pró- 
pria simplicidade ! O auctor da admirável elegia do 
Camões, e da novella poética de D. Branca, n ^es- 
tas creações fugitivas tem o direito de ser cultor da 
forma. De mais, quem fez nunca sem ella obra di' 
gna de viver na estimação do^,gf(^g^>\^QQQie 



84 



O PAJiORAMA. 



Doeste resumo de certo longo, mas nio inútil, co- 
mo vista geral das transições porque chegamos á re- 
nascença da poesia nacional, resulta que se imitou 
e trasladou quasi tudo havendo engenhos capazes de 
crear, se entrassem em nova e rasgada estrada. 



A experiência e a madureia ensinaram-Ihe a ar- 
te difficil de apropriar com originalidade osthesou- 
ros das línguas mortas e das litteraturas modernas. 
Na admiração do bello, na contemplaçSo da vida e 
da natureta, e no enthusiasmo pelas glorias do seu 



Mendes Leal achou a revolução feita^ e os dous herço, achou os suspiros, os hvmnos, e a ode fulgu 
chefes ainda encostados ás armas que lhes tinham rante, que ás margens do Tejo levantou um car- 
dado a victoría. £stava-se no calor do enthusiasmo, ; me digno da harpa de Manzoni. O Gnque Mag 
os Ídolos proscriptos arrastavam comsigo na queda ^^ "—- ''" •*-'^—- -•'—5 •- 



os melhores painéis dos seus templos ; e a plebe dos 
imitadores em ódio a Apollo ameaçava queimar os 
primores da língua e da poesia, quasi não perdoan- 
do a Philinto nem a Bocage ! Nos modelos romanos 
era crime fallar ! Estavam no índice. A ignorância 
e o horror do estudo, compondo o seu código penal, 
parodia das ordenações clássicas, não se esqueceram 
de os condem na r. A muito custo tradusiam-se nas 
aulas entre as fustigações da ferula ; mas curso de 
latinídade, amor e comprebensão das suas bellesas 
era diffícultoso achar. Se algucm a conhecia, cala- 
va-se. Os aguazís da originalidade copiada de Paris 
eram vigilantes, e nao parecia fácil escapar-lhes com 
um volume de Horácio ou de TibuUo escondido no 
bolso. 

Mendes Leal, mesmo lançando-se nos braços da 
revolução, conservou a familiaridade antiga com os 
amigos da adolescência. Deixando clamar os arma- 
dores continuou a tratal-os com respeito, como ve- 
lhos e sábios conselheiros. S<!>mente não via em Ho- 
rácio o inexorável pedagogo inventado pelos bonzos 
clássicos. Parecia-lhe quasi calumnia converter em 
legislação a epistola aos Pisões, escripta de um ami- 
go para outros, picante de sabor grego a cada linha, 
e discorrendo com a elegância negligente que está 
provando, que o critico conversava agradavelmente 
sem lhe passar pela idéa, que um dia fariam da sua 
carta a prizão perpetua dos poetas. A leitura dos 
escriptores naturaes, cujas obras hão de viver em 
quanto viver a língua, não a desprezou também 
Mendes Leal, apesar das zombarias c roomices dos 
arrematantes de versões a vapor. Rindo-se d^elles, 
e da sua mascavada prosódia, consultou sempre, co- 
mo d^antes, as grandes e nobres paginas de Fr. Luiz 
de Sousa, do padre Vieira, de Rodrigues Lobo, e 
de tantos insignes prosadores ^ colheu no verso de 
Camões, de Bernardes, de Philinto, de Bocage edos 
mais harmoniosos cantores as delicadezas do enge- 
nho, e os segredos felizes do estylo. Por isso, logo 
dos primeiros ensaios, e fácil notar certa opulência, 
certa lima e certa facilidada de phrasc, que tirando 
os dous chefes e poucos mais, raramente se desco- 
brem nos caudatários da reforma. 

Conhecendo-os entretanto, e tendo com alguns 
dos mestres antigos cojiviveiicia assídua, igual á in- 
timidade do espirituoso Janin com o epicurista Ho- 
rácio, o joven poeta, se algum tempo deixou pen- 
der certa inclinação á prosa torcida e enviusada- 
que se quiz oppor como resurreiçao da pureza ver, 
nacula ás dcflorações dosgallicístas, salvou-se atem- 
po dos estragos d'*esta deplorável aberração, que li- 
gava a idéa viva a períodos mortos, e fazia consistir 
a correcção no diluir em locuções apagadas de cu- 
nhos os pensamentos e a originalidade moderna. E 
justo igualmente confessar, que ncceitando de Gar- 
rett e de Herculano o progresso da idéa e da for- 
ma, manteve a independência, e dentro em pouco 
soube caracterisar-se por uma .pbj^sionoraia distin- 
cta. A sensibilidade e o sentimento inclinam-no pa- 
ra o auctor de Camões e ^Josinda em algumas com - 
pobiçõcs ^ mas em outras o rapto lyrico, o traço épi- 
co, a image/n scintillante e a phrase incisiva apro* 
ximam no de Herculano com mais harmonia de verso. 



^, uma das paginas admiráveis dWe século, não 
envergonha o Ave César ! a nenia da magestade 
decaída e do infortúnio heróico. Cada um dos Ijri- 
008 eleva-se á altura do assumpto, e deu o sentido 
profundo que elle encerra. Diante d^aqoellas doas 
urnas, os gemidos da musa sobem para Deos com a 
religiosa aspiração que o sublime antigo desconhece, 
e de que s6 ha algum reflexo na tristeta pensativa 
de Virgílio e de outro dos 'cantores latinos. Napo- 
leão, o Alexandre moderno, que dous séculos saú- 
dam ; Carlos Alberto, o rei cavalleiro que a fortuna 
torna heroe pelo martyrio; novos Prometheus da 
idéa, presos ao rochedo do exílio ,* lacerados do abu- 
tre da saudade, ambos com a dor de tanto proje- 
cto destruído sobre o coração; eram vultos que a 
Ijra sacerdotal e aristocrática de Pindaro teria ce- 
lebrado; mas vultos que a arte fria e a inspiração 
curta não profana sem castigo. Para se medir eom 
o Titão é preciso ser de estatura adequada. 

(Continua,) 

L. A. RsBXLLo DA Silva. 




ZX.BA rSBNANDO f6 >- COCOROCO. 



Demos no numero antecedente uma breve noticia 
da ilha de Fernando P^i^tgfff^d^ingelos habitadoi@ ^ 



o PAIfORAMA. 



85 



ho}e pottoo temos a acereacentar ao que ali se es- 
creveu. 

O coecroeo é o que nas nossas possessões de Afri- 
ca occidékital se chama toba^ isto é, regulo ou chefe 
de um certo numero de famílias. 

As famílias mais notoveis da raça òuòl, que é a 

n domina na ilha de Fernando P^, s3o as que se 
Dguem pelas denominações de — pcdahittUaj lé- 
bola, batipúj bcuilé e banapa. 

Estes insulares, como todos os povos para assim 
diser primitivos, d2o-se muito á caga e á pesca, d*on- 
de tiram qoasi que os únicos meios de subsistência. 

Nao sSo muito affeiçoados aos trabalhos de lavou- 
ra ; todavia cultivam algum inhame, café, tabaco e 
outras plantas indígenas. Como os seus visinhos do 
continente gostam de folgar e de adornar-se a seu 
modo : pintam o rosto, polvilham a carapinha de 
vermelhão, e usam furar o nariz e as orelhas. Inve- 
josos das nossas barbas e bigodes, que a naturesa 
avara lhes não concedeu, costumam trasel-os posti- 
ços, com o que se persuadem inspirar respeito, e 
imitar a dignidade européa. Pobre gente! 



Imsomvia. 



Altas horas da noute, e quando a aldéa 
Em paz repousa, envolto no mysterio. 
De lúgubres visões a mente cheia 
Em demanda me vou do cemitério. 

Ninguém que me pertença aqui repousa ', 
N^este chão, onde dorme tanta gente. 
Não ha nem uma s6 rasteira lousa 
Onde o meu coração ^iga o que sente l 

Mendigo de affeições venho p^rigrino 
As campas consultar. Mudas embora 
Venho aqui recompor o meu destino, 
E n^esta solidão minh^alma chora. 

Ao orvalho que fresco se pendura 
Dos braços doesta cruz, e cristalino 
Com meus prantos ferventes se mistura 
Contarei minha dôr — direi meu hymno. 

Como a rollinha triste que se acouta 
Fugindo ao caçador entre os salgueiros, 
Minh^alma foge ao mundo, e vem aflbuta 
Cantar aqui seus cantos derradeiros. 

E como veia d^agua serpeando 
Pela verde campina o rio engrossa. 
As lagrimas que eu fdr aqui chorando 
Augmentarão, oh cruz! a gloria vossa. 

Eu venho de tao longe e tão cançado 
Como ainda ninguém voltou do mundo ^ 
Foi penoso o caminho . . . eis-me chegado 
Aonde termo encontra um mal profundo 

Busquemos dVstas campas a mais pobre : 
€tual d^ellas o será f Talvez aquella. . . 
Um singelo chorão resguarda e cobre 
De brancas rosas virginal capella f 

Convulso afasto do chorão as ramas, 
E as rosas todas com meus pés esmago : 
Depois no peito que me ardia em chamma» 
Melhor idéa com amor afago. 



Talvez que as rosas innoeentes, puras. 
Tecidas fossem pelas mãos amantes 
D^alguem que n^ellas virginaes doçuras 
DVras passadas memorou constantes. 

O fogo ao rosto me subiu de pejo. 
Apanho as rosas com febril loucura. 
Ao peito as uno, com feryor as beijo 
Para as deixar depois na sepultura ! 

tt Profano e torpe ! Nem as pobres flores 
tf Aqui te escapam das abjectas iras, 
M Trazes do mundo pueris rancores 
M E aqui, nas campas, infeliz deliras. 

M Deixa na pedra do sepulchro as rosas 

M Já desmaiadas de perfume e cõr, 

M 6Lue foram postas pelas mãos piedosas 

u D^alguem que amava com fervente amor ! n 

Súbito aos olhos me assomara o pranto, 
Envergonhado me sentira então, 
Ao Deus supremo murmurando um canto 
Do intimo d^alma lhe implorei perdão I 

. L. A. Palmxibiic. 



Apomtamvhtos dx vma viaoxm á Itália. 

II. 

Ao KOHO dia de viagem achavamo-nos nas aguas de 
Génova, aonde chegáramos mais cedo se fora mais 
curta a arribada a Gibraltar, que pudemos observar 
por mais de vinte e quatro horas, e se alguns ou- 
tros motivos nos não fizessem demorar, como por 
ex. a cerração que nos escondeu o rumo á entrada 
do estreito. 

Demandamos o porto de Génova na manhã do 
dia 10 de outubro de 1850. Entramos o porto, por 
sem duvida acanhado para os ni^merosos navios que 
ali estão sobre ferro, e em uma certa ordem, para 
economUar a ancoragem. O porto (que é o de maior 
importância commereial entre os da Itália) é peque- 
no e aberto, ficando assim exposto aos ímpetos da 
tempestade, como aliás não acontece em Marselha, 
cujo porto é fechado. 

Demorado algum tempo a bordo, porque como 
inexperiente de viagens em países estrangeiros, não 
tinha feito vitar o meu passaporte pelo ministro sar- 
do em Lisboa, tive de me deter até que a policia 
ficasse certa da minha boa fé attesUda pelo bom ca- 
valheiro iStvort, nosso cônsul, espécie de emprega- 
dos, cuja importância melhor é avaliada pelos via- 
jantes. 

Depois de ter desembarcado do vapor, mas con- 
servando grata recordação das attenções que nos fo- 
ram dispensadas pelo seu digno commandante (o 
sr. Pedro Ollegario Alves), distincta oíficialida- 
de, e demais praças, tendo saltado em terra, e re- 
cebido as obsequiosas 'delicadezas do digno parocho 
Vial, e dos srs. marqueses de Paulluiccini, propus- 
me á viagem para Turim, que effectuei monUndo 
os Appeninot noJughi, que depois se passariam sub- 
terraneamente, quando concluído o caminho de fer- 
ro deGrenova a Turim (quejá está acabado) e na mi- 
nha viagem o aproveitei s6 desde Nowi a Turim, 
havendo ainda um pequçno intervallo em que se di- 
vidia o comboyo, e eram os nagons tirados por ca- 

^•'•'*' DigitizedbyVjOOgle 



86 



O PJUNOBjLMA. 



o caminho de ferro era, e nlo sei qae agora dei- 
xe de o Her, do governo, sendo elle quem sustenta- 
va todo o movimento do serviço. Gostamos de ver 
como se mantinham as regras para a bem suooedída 
celeridade, que nao a observamos mais polictada nos 
outros caminhos de ferro da Itália, França e Hes- 
panha. Offerecemos este argumento áquelles econo- 
mistas e estadistas que só acreditam no bom êxito 
das obras, quando entregues a particulares^ ou a 
companhias formadas por elles. 

Chegando a Turim esforcei«me por encontrar um 
bom irmão, que havia annos se achava ausente do 
nosso Portugal. Vimo-nos durante a minha estada 
n^esta capital, porém guardo para mim as expan- 
ções de familia, embora aproveite de novo a occa- 
siao para dizer : que D. Manuel de Almeida con- 
fessou a religião, não envergonhou a pátria, *e dei- 
xou mui gratas recordações á' sua familia, que lhe 
diz com resignação e fé : Requiescai m p<tce. 

Muito a propósito se offerece agora a noticia de 
Turim, que daremos mais tarde, embora receiando 
que o bom empenho faça naufrágio, mais de assus- 
tar ainda ^ quando tentarmos fallar de Roma, Ná- 
poles e Florença *, tencionando nds o dar uma idéa 
doestas três e d^aquclla capital em diíferentes arti- 
' gos, começando a fallar de Roma depois de passado 
este artigo, que vamos continuar com uma breve e 
interessante observação a respeito d^aquella grande 
parte da Itália, por onde passamos, se bem que a 
correr^ e sem que tenhamos pretenções a que se di- 
ga no começo doesta parte do nosso trabalho, e no 
começo de todo elle, o qne o padre Vieira disia a 
D. Rodrigo de Menezes, fallando-lhe de certo nego- 
cio : A obia ha de ser larga, e já o começa a ter, 
e ainda não é obra* 

Apontando nus os pontos cardeaes com que mar- 
camos a nossa viagem na Itália, ver-se-ha a exten- 
são d'e]]a, que corremos desde outubro «de 1850 a 
janeiro de 1851. 

Fomos, como é já dito, de Génova a Turim, de 
Turim voltamos a Génova^ e seguimos viagem para 
Liorne, Civitavecchia e Roma, de Roma saímos na 
diUgencia para Nápoles, d^oude em prebendemos e 
realisamos viagem para Liorne, Pisa e Florença, vol- 
tando pelo mesmo caminho para Liorne, onde em- 
barcamos com grande risco e perigo, para seguir via- 
gem para Génova ^ porém sú fizemos embarcados uma 
parte d^ella, porque o máu tempo nos obrigou a ar- 
ribar ao excellente porto da Spezzia, o qual nos facili- 
tou o desembarque, que foi aproveitado por a maior 
parte dos passageiros, que fizemos o resto da viagem 
para Génova por terra. 

A Spezzia, onde embarca o tao conhecido már- 
more de Garrara, é um bello e lindo porto, e eom 
taes condições, que se tem dito, que o governo sar- 
do tenciona mudar de Génova para Spezzia os ar- 
senaes de marinha, tornando este ultimo porto o 
primeiro da sua marinha de guerra. A apparencia 
do porto, sem prejuízo de estudados argumentos, de- 
fende a mudança, e ainda mais pelo acanhamento 
do de Génova. 

Pela terceira vez chegados a Génova, tendo visto 
uma mui grande parte da bella ribeira d'este no- 
me, tão piltoresca earborisada com oliveiras, torna- 
mos a Turim d^onde regressamos' a Génova, seguin- 
do viagem pelo outro lado da ribeira para Nizza ^ 
fizemos por terra toda esta parte da nossa jornada, 
subindo os Alpes marítimos em um dia de janeiro 
tno lindo como os nossos formosos dias de inverno. 
Descendo os Alp*^ na sua extrema com o Mediter- 
râneo, depois de termos visto uma parte do prin- 
cipado de Mónaco, entramos em Nizza, que é por- 



ia fratu^Oj e atravessamos o Vár para entrar em 
França. 

Se fosse mais detalhada a noticia da nossa via- 
gem teríamos de falJar doesta ultiina cidade, e de 
mil episódios do nosso roteiro •, v, gr. d^aquelle fra- 
de que tomamos por companheiro de jornada, e que 
vestido com hábitos de penitencia inculcava as vir- 
tudes da pessoa, e augmentava a esperança da via^ 
gem. Fallariamos também d^aquella proveitosa con- 
ferencia que houvemos em Nizza eom um proprie- 
tário de olivaes, e com um negociante de azeite so- 
bre a cultura d^aquelles, e sobre o processo para ob- 
ter das azeitonas o melhor azeite. E não esqueceria 
a descripção d^aquella histórica taberna, onde tinha 
estado Napoleão, quando no dia primeiro de marco 
de 1815, desembarcou, vindo da ilha d^Elba, no 
golfo Juan, para começar o governo do$ cem dia$, 
eque demorando a pouca distancia da fronteira pres- 
ta seu auxilio aos viandantes. 

Deixemos pois estas e outras cousas, se é que es- 
tes Apontamentos para mais servem, do que para 
entreter horas menos afanosas ; e vamos sempre em 
busca de alguma cousa que desculpe com mais clara 
prova o emprego do tempo. 

Para conhecer bem um povo é necessário privar 
com elle; ouvir as suas conversações domesticas, e 
apagar com opyoprio pé as suas pegadas, aliás a dis- 
tancia entrará como desconto a deduzir nojuizo pro- 
nunciado a respeito do seu caracter e das suas inten- 
ções. 

Assim é necessário ir á Itália para fazer um ver- 
dadeiro conceito sobre o pensamento da união ita- 
Uana, 

Véda-nos a natureza do jornal, onde publicamos 
estes Jponiamenios, o irados por diante n'esta ques- 
tão ^ porém, nem com tento rigor, que se nos recu- 
se o logar para perguntarmos, como, tendo tante força 
na Itália o espirito municipal, e alentando-se de con- 
tinuo esse espirito com a historia particular de ca- 
da uma das tantas cidades celebres d^aquella penín- 
sula, será possivel unil-a toda sob um s<$ governo! ! 

O espirito municipal na Itália apalpa-se nas oc- 
casiões mais communs, e ouve-se e se conhece pela 
multiplicidade dos dialectos, que ainda não foram 
esquecidos, apezar da aproximação dos italianos, 
produzida pelas bellas estradas e pelo vapor. 

Será mais possivel á Itália a confederação ? A Eu- 
ropa apresenta-lhe vários exemplos, e nós em todo 
o caso lhe desejámos a paz, que é bera do céu. 

Gostosos presenciamos n<$s o espirito religioso da 
Itália, a. piedade do seu povo. De sobre aviso, e me- 
nos preparado estaria qualquer que prevenido com 
os acontecimentos recentemente occorridos antes da 
nossa viagem, não tivesse a critica necessária para 
avaliar bem como, n'uma occasião de desordem, o 
menor numero acarreta o desfavor sobre um maior 
numero de innocentes ! Não podemos desenvolver- 
nos mais nVste ponto. 

Assim como não é possivel extirpar d'uma arran- 
cada a religiosidade d'um povo, e apagar d'um so- 
pro a sua piedade^ assim também a não ser por for- 
ça extraordinária, não surgem de repente aquelles 
monumentos, que costumam attestar a crença dos 
nossos maiores. Esses monumentos, que por sua gran- 
deza fazem elevar o homem em si mesmo, impellin- 
do'0 para as considerações da eternidade, tem sido 
de ordinário começados n'uma geração, mas conti- 
nuados e concluídos n 'outras, testemunhando aos pre- 
sentes a religiosidade dos passados, e convidando a 
ella os futuros. 

Amiudam-se na Itelía os monumentos queexpri- 
mem os «alimento. rdigi^^g^j,çjç5^ Apre- 



o PANORAMA. 



87 



8eiita«Be ella, por taes edificações» oomo penetrada 
do aentimento. religioso ; e cresce o convencimento» 
qnan4o se tem alcançado alguma noticia de soas ii^- 
stituições pias e de caridade. 

Tendo estado em tantas povoações da Itália, fo- 
mos encontrando um povo piedoso, e orando com 
eile no templo, pudemos vèr que se congregava com 
devoçSo na casa de Deus. £ se isto não equivale a 
díser que muitos italianos se nao tenham desmanda- 
do, ao menos serve para ajudar iquelle juizo geral, 
a que se chega por o estudo feito sohre qualquer 
povo. 

O templo e o logar onde se toma mui exactamen- 
te a medida á piedade do povo, porque ahi, desde 
a edificaçio d^elle até á oração em particular ou em 
commom, faz publica a idéa e o respeito, que tem á 
Divindade. 

Se entrardes na cidade e virdes a igreja ale vanta- 
da, e se, ultrapassando as portas, encontrardes o po- 
vo em oração e cheio do respeito do logar, sem que 
mesmo o queiraes, sentireis, que esse povo cr^. Po- 
rem, se virdes o templo derrocado, as portas da igre- 
ja feitas pedaços, e o povo sem o laço da oração com- 
mum, então exclamareis, como o fasia o bispo de 
Colômbia a respeito de um templo de Pekin : Viot 
Sion bigeni ; porta: ejw destructcs^ et xpta oppretsa 
amaritudine{í). 

Vimos que ò povo corria á igreja, fora das occa- 
siões, em que o fazia por força de especial preceito. 
£ tanto mais observamos isto, quanto o povo das 
difierentes cidades se aproveitava da indulgência que 
o santo padre tinha concedido para supprir o jubi- 
leu, que se devia ter ganho no anno anterior, senão 
foram os acontecimentos extraordinários. O clero tra- 
balhava para que o povo lograsse tao grande bem 
espiritual. 

Um dos poucos monumentos que se erguem nas 
praças de Turim, éumacolumna sobre a qual é ado- 
rada a Virgem Mae, que ali col locou em imagem a 
povoação d^aquella capital em cumprimento de um 
voio^ pois que pela intercessão da Senhora não foi 
a cidade flagcllada pela cholera-morbusy quando pela 
primeira vez atacou com tanto Ímpeto a Europa* 

£ cousa frequente na Itália o vér nas lojas ou ca- 
sas de comniercio alguma imagem religiosa, collo- 
cada em logar ostensivo, mostrando-se assim como a 
tutellar da casa e negocio. 

Na cidade de Nápoles ha bairros, onde se guar- 
da semanalmente a abstinência de carne, além dos 
dias em que é prohibido o uso pela Igreja. 

E serão estranhos a certas praticas religiosas os 
exércitos italianos? Não nos esqueceremos que em 
uma das vezes, que chegamos a Génova, nas proxi- 
midades do Natal, vimos que a guarnição militar 
da cidade em forma acudiu ao templo para. assistir 
á novena^ com que a devoção antecede tão grande 
festa. Nâo deixaremos de applaudir o bom exem- 
plo dado pelo duque de Génova, Irmão do rei Victor 
Manuel, indo a pé á frente do corpo d^artilharia, 
que comroanda, assistir á missa nos dias santifica- 
dos \ e menos admira isto uma vez que este prínci- 
pe pertence a uma familia real, a quero está con- 
fiada a guarda d^aquelle sudário^ cuja tradição tão 
respeitável o faz ter coroo o próprio, em que foi en- 



(1) Este templo era dedicado á Immaculada Coacei- 
<;So de Nossa Senhora, e pertencia aos portugueses. Per- 
mitta Deus, que terminem as ne);ocia<;$es pendentes en- 
tre B Santa Sé e o governo portugnez, a respeito do pa- 
droado^ e que de futuro se uao apresentem provas de 
descaído* 



volto o Redemptor. £ se o chefe doesta familia s« 
acha envolvido em questdes religiosas, console-nos a 
lembrança da sua docilidade bem recente ante o pae 
com mum doe fieis em negocio de alta ponderação, 
e de interesse religioso. 

Importa-nos ainda fallar de outros testemunhos de 
religião, dados por outro exercito \ que tanto toca o 
coração o vêr os depositários da força humana reco- 
nhecer a sua fraqueza ante o Senhor da força divina. 
' 6Luando chegamos a Nápoles corria o exercito aos 
templos para ganhar aquella indulgência, de que já 
falíamos n^este artigo. £ a poucos dias da nossa che- 
gada veiu a festa da Conc€Í£ão^ que em Nápoles é 
passada com grande e, digamos assim, nacional de- 
voção. 

Cumpre todos os annos um voto a coroa de Nápo- 
les, indo no dia da Concessão (8 de dezembro) ou- 
vir uma missa no campo. Chegou esse dia no annu 
de 1850 e d voto foi cumprido. 

Reuniu-se a tropa no campo chamado de Marte, 
e levantado o altar do verdadeiro Deus dos exérci- 
tos, se celebrou a missa a que assistiu orei, a familia 
real, e treze brigadas de tropa em grande uniforme, 
e em numero que nao baixaria de trinta mil homens. 
A tropa desfilou depois por diante do rei : vimos pas- 
sar^ também de perto, essa brilhante parte do exer- 
cito napolitano, que comprehendendo o da ilha Si- 
cília, não terá menos de noventa mil homens. 

Não querendo esquecer aquelles exercícios reli- 
giosos, que *tanto a miúdo são feitos pelo povo na 
pequena igreja dos Berga mastros, em Roma, e no 
templo da Consolata em Turim ^ diremos: que se 
quiséssemos fazer conhecer mais cabalmente o espi- 
rito religioso da península italiana, teriamos de hl- 
lar, por tempo mais detido, dos templos, hospitaes, 
asjlos, casas de educação, e de tantas instituições 
de soccorro á humanidade, e filhas da caridade. O 
que publicámos são apontamentos^ que não apontam 
tudo, e que deixarão ainda muito por dizer, quando 
se lhes puzer o ponto. 

No seguinte artigo daremos alguma noticia de 
Roma. 

f Contínua.) 

D. Antohio db Albisida. 



Estudos sobrx os z>irFBRBNTES methodos 

DE XKMirO DE LBB SM PoRTUOAL. 

n. 

Duarte Nunes de LeXo. 

Duarte Nunes era, como se prova do seu livra, 
um homem erudito, e não um philosopho ', tinha 
mais memoria do que engenho e observação. Tinha 
lido osauctoreslatinos, que trataram mais largamente 
da philología ^ tinha lido os livros de Messala, que 
escreveu um tratado sobre cada uma das vinte e duas 
letras do alphabeto romano, tinha versado com mao 
diurna os livros de Varrão, e tinha-se imbuido de 
respeito e quasi idolatria pelas cousas da antiguida- 
de clássica, o que era desculpável n^um século como 
o 16.^, ávido de erudição; e tinha chegado a con- 
cluir que as letras do alphabeto latino deviam con- 
servar-se em toda a sua pureza, não sd em quanta 
á figura, senão também em quanto ao seu valor. Ar- 
dia além d^isso no desejo immoderado de fazer eru- 
dição, vaidade que exagerada mata a inspiração, aca- 
nha a intelligencia e redui a escriptor a ser um in- T 

Digíized by VjOOQIC 



88 



O PAIfOBAMA. 



dioe monótono de textos e de citas5e8 estranhas. 
Duarte Nanes partia pois do principio de que alin- 
gua latina era o modelo e a norma única do fallar 
e do escrever português ; e uma Tea assentada a sua 
theoria pouco lhe importava que os factos contra el- 
la se rebellassem a cada passo. 

Assim n6s vemos o erudito desembargador empa- 
relhar como três letras affins e congéneres o 6, o p 
e o phf e estender-se em largas considerações sobre 
a differença radical dp ph ou / grego e do / latino, 
sobre o digamma dos eólicos, sobre a letra inven- 
tada pelo imperador Cláudio, e estabelecer como le- 
tra portuguesa o ph^ considerado como som differen* 
te do /. Infelizmente os factos vinham estorvar as 
idéas systematicas do chronista, e mais alguns pa- 
ragraphos adiante Duarte Nunes tinha de confessar 
com grande constrangimento da sua alma, e com ma- 
nifesta derrota da sua erudição, que o/ e o phersLm 
de facto uma única articulação, e que a pronuncia an- 
tiga se corrompera e demudárá a ponto de ser impos- 
sível achal-a de novo. 

Eis aqui as palavras em que elle deplora a sorte 
do pA, condem nado, apesar da sua nobresa e da sua 
magestade grega, a ficar confundido com esta ple- 
beia letra/ de som hórrido. 

uMas é denotar que entre o/latfno, e o pAgre* 
go hauia muita differença na pronqnciação, que ago- 
ra nao sentimos. Porque (como screue Gluintiliano) 
o ph dos gregos tinha hum soido brando, e stiave, 
e o/ dos latinos hórrido, que quasi nSo parecia de 
voz humana. Donde se pode coUigir quam adulte- 
rada, e mudada sta a pronunciaçSo de muitas letras, 
e quam delicada he a musica dãlas. » 

Sobre os valores do g nada fez Duarte Nunes se- 
não dizer o que no seu tempo se usava e ainda hoje 
se segue. Mas é de notar o desdém com que elle fal- 
ia do som do g antes do ^ e do t, dizendo que ésom 
alheio do$ gregoi e latinot e s^ próprio do* mourot 
de quem o recebemot. 

Duarte Nunes considera no t um b6 valor, e es- 
tranha a confusão que doesta letra se fazia no seu 
tempo, usando*a indistinctamente como vogal e co- 
mo consoante Adduz como razão que nas palavras 
Janellaj Jefum^ eic, nãoseniimotnapronuneiaçao ai' 
guma timilhança do i consoante do* la1ino$. 

Leão propõe que se dlstingnam em figura osdous 
t, consoante e vogal, e que n^aquelle tempo se de- 
signavam indistinctamente por uma letra única, e 
accrescenta que se estivera -em seu poder inventara 
uma figura particular para todas aquellas articula- 
ções que se escrevem erradamente com duas figuras, 
como ^, cA, M, nh. Esta proposta, que estava nas 
idéas de João de Barros, prova até certo ponto que 
Leão consentia em transigir com a pronunciação, e 
desprezava a etimologia, todas as vezes que se tra- 
tava de representar sons que nao tinham equivalen- 
tes em latim. 

Reconhece Duarte Nunes que o k é letra ociosa, 
mas conserva-a no alphabeto português, citando em 
•eu apoio esta razão : 

wE porque não façamos differença do nosso alpha- 
beto ao latino, a deixamos na posse e logar, que ti- 
nha ^ e para que os nossos a não estranhem, quan- 
do vierem a aprender as letras latinas. 6tue quanto 
aa nossa lingoa e scriptura portuguesa, he letra so- 
beja, 'e ociosa.» 

Assim como Nunes assígna um valor único ao a 
e outro ao e, contra a opinião de Barros, assim tam- 
bém combate a opinião dos que crêem distinguir no 
o doas valores differentes, um grande e um peque- 
no. £ a razão que elle jalga ter havido para se dar 
dous valores ao o, a exemplo dos g^regos, nasceu, diz 



Nunes, u de verem a differença da pronunciação does- 
ta letra que em uns logares a pronunciamos com gran- 
de hiato, e abertura da boca, e em outros com mui* 
to menos, como se vee nesta palaura otio, no singu- 
lar, que na primeira syllaba parece, que pronun- 
ciamos com um pequeno o, e quando dizemos ouos, 
no plural, o pronuneiamos de maneira, que parece 
um o grande. Polo que pêra mostrar a differença do 
o que chamão grande, screvem muitos esta palaura 
no plural com dous oo^ dizendo, oot«of, e assim poouoiy 
e oolhoij e os mais doesta qualidade. » 

£ fácil de ver, avaliando bem as razões contidas 
n^este trecho, .que a dialéctica de Duarte Nunes nas « 
questões philologicas não era mais elevada ,do que a 
sua crítica nos assumptos históricos. Duarte Nunes, 
fazendo uma ostentação ociosa dos seus conhecimen- 
tos na pbilologia romana, insistindo sobre a idéa dos 
accentos, morta já e inexplicável para o sen tempo, 
suppondo que a lingua portuguèza herdara da pro- 
sódia latina as differenças de longas e breves nas syl- 
labas, cae quasi sem o querer na affirmação do que 
pretende oonfutar, e reconhece em despeito de todas 
as distincções e subtilezas que o o se prononcia real- 
mente, ao menús^ de duas maneiras totalmente di- 
versas. 

(Continua.) 

J. M. Latiho Coxlho. 



Nota estatística do gado bxistbxtb 

KM FrAHÇA S PoBTUBAL. , 

França (em 1839;. 

Gado vaccom —cabeças 9.936:538 

» lanígero » 32.151:430 

n suíno » 4.910:721 

n cavallar n 2.818:496 

n muar n 373:841 

» asinino n 413:419 

n caprino n 946:300 

51.550:745 



Portugal (em 185i;. 

Gado vaccum — cabeças 618:289 

n lanígero n ..^ 2.787:827 

» suino n 993:266 

n cavallar >i 69:919 

» muar n 40:545 

n asinino h 126:623 

M caprino n 1.146:243 

5.782:712 



Convém advertir que a população da França era, 
em 1846, de 35.400:486 almas, e a de Portugal 
(em 1851) de 3.814:771 almas, isto é, pouco mais 
de um decimo. 



— A boa fama que deizâmos no mundo, dobra 
de alguma maneira a nossa existência. Q.uem d Vila 
nos priva, commette um rigoroso furto^ e pratica a 
maior das infâmias. 



Digifz*e'cf8?CÍbÇ5gle 



12 



o PAirOllAMA. 



89 



-^ ;iiJv,'iii'.'':' ,,■■ 




AXASnAVBA — RATISBONV A. 



Ratisbonma., hoje capital do circulo de Regen, no 
reino de Baviera, é uma das mais antigas povoações 
da parte superior do Danúbio. Está situada na con- 
fluência doeste rio e do Regen, em um torrão fértil 
• deleitoso. 

Os romanos davam a esta cidade o nome de Re- 
^«mcm ou Cadra regina ; o imperador Tibério ali 
mandou estanciar a 4.^ legião. 

A. origem de Ratisbonna perde-se na noute dos 
tempos. Os seus habitantes converteram -se ao chris- 
tianismo em 185 ^ mas somente no 8.^ século fun- 
dou S. Bonifácio a sua primeira diocese episcopal. 
Pouco depois Ratisbonna tornou-se cidade livre, e 
começou de crescer em riqueza e importância. Ape 

VOL. III.-.3.aSEBiE. 



sar do incêndio, que a reduziu quasi totalmente a 
cinzas, no anno de 1406, esta cidade foi durante a 
idade media uma das praças de commercío roais im- 
portantes da AUemanha. 

Depois que o ousado argonauta portuguez Vasco 
da Gama, dobrando o cabo da Boa Esperança, abriu 
um novo caminho para a índia, Ratisbonna perdeu 
grande parle da sua importância, que debalde se 
pretendeu depois restituir-lhe. Todavia pôde ainda 
dizer-se uma povoação florescente. Contém actual- 
mente 25:000 habitantes. Cingida de velhas mura- 
lhas e de um fosso largo e fundo, é, como todas as 
antigas povoações, cortada de ruas irregulares, rs- 
trcifas. sombrias, mal calçadas. Em poucas cidades,^ 

Março 23, 1851. 



90 



O PANORAMA. 



não tó da Allemanfaa senão da Europa, se encon- 
tram tantos monumentos da meia idade \ as mes- 
mas habitações dos abastados, flanqueadas de tor- 
res, recordam a epocba em que estes tinham de de- 
fender-se e á sua propriedade e fazenda da aggres- 
s3o dos próprios cidadãos. 

Mas o edifício principal de Ratisbonna é acathe- 
dral de S. Pedro, uma das maravilhas da archite- 
ctura gothico-allemâ. Depois do desastroso incêndio, 
a que acima nos referimos, começou-se desde logo a 
construcçao da nova igreja. No 17.^ século porém 
os trabalhos nao tinham terminado, e ainda hoje es- 
tão por acabar as duas torres. 

S. Pedro é um monumento notável, tanto pelo gos- 
to da decoração interior, como pela imponente ma- 
gestade do exterior. 

O rei Luiz de Baviera ordenou modernamente 
que a cathedral de S. Pedro fosse completamente 
restaurada^ os trabalhos que se executaram em cum- 
primento dVsta ordem são eloquente prova do gosto 
e intelligencia artística do monarcha, bavaro. 

Um dos objectos mais curiosos da cathedral ésem 
duvida o poço gothico, que a estampa representa, 
e d^onde se extrahe a agua necessária para os exer- 
cícios religiosos. 

Existem em S. Pedro, entre outros muitos túmu- 
los, o do grande Alberto (Alberius Magnus) famoso 
doutor do 13.® século, e o do celebre astrónomo 
João Kepler, que falleceu em 15 de novembro de 
1Ç30. ' 

Não é comtudo S. Pedro o único momimentoque 
merece ser visitado em Ratisbonna. São dignos de 
attenção igualmente a velha igreja parochial de S. 
Ulrico, o convento dos benedictinos de S. Thiago, a 
^gi*^Ja> de S. Emerant, os antigos paços da munici- 
palidade, que foram desde 1663 até o começo do pre- 
sente século, a sede da dieta germânica, e a ponte 
de pedra lançada sobre o Danúbio, que remonta 
ao 12.® século. 



Os lUPBRIOS BYSANTINO E OTTOMANO. 

IV. 

FoliUca de Mahoniei 11^ continuação de suas 
conquistai^ e sua morte. 

Posto que^a tomada de Constantinopla e queda do 
império do Oriente tivesse sido um acontecimento de 
ha muito previsto e esperado, causou porém em to- 
da a Europa a mais profunda sensação. Não houve 
um sé governo, que ao receber tal noticia deixasse 
de se possuir de seYios receios pela sorte do seu paiz. 
Tarde se arrependiam de nao terem amparado e pro- 
tegido esse império cuja queda tanto ós assustava. 
Tarde e muito tarde, porque tal amparo e protecção 
so podiam ser profícuos, quando aqueile grande co- 
losso principiou a desuioronar-se, e a engrandecer 
com 08 seus despojos o gigante, que o devia devorar. 
Depois já não valiam auxílios humanos para segurar 
a existência de um corpo decepado e moribundo, 
donde a vida se escapava independente mesmo de 
violência estranha. 

Em vez de se unirem para oppôr uma barreira á 
invasão musulmana, todos os soberanos permanece- 
ram na mais completa inacção em quanto progredia 
o desenvolvimento d'aquelle drama. Sé depois da 
oatastrophe é que viram bem patente o desequilíbrio 
da balança europôa. Mas aiuda então, era vez de se 
armarem contra o inimigo commum, apenas deram 
mostra do terror que os tomara e da fraqueza que 



os possuia. Toda a Europa soffreu nas pessoas de cen- 
tenares de auxiliadores, pertencente a diversos pai- 
zes, que haviam corrido voluntariamente em defeza 
da causa grega, e entre os quaes se achavam nomes 
muito illustres, soffreu dizemos, ivas pessoas d'elles 
quantas affrontas e humilhações foram precisas para 
saciar o orgulho e altivez do conquistador. E na re- 
signação com que foram soffridas todas essas injurias 
viu Mahomet através do futuro as victorias,' que o 
destino lhe guardava. 

lUustrado na politica, como estremado na guerra, 
Mahomet tratou logo depois da tomada de Constan- 
tinopla de consolidar o seu governo no paiz conquis- 
tado. Fez voltar para a cidade os habitantes, que a 
tinham desamparado ; promulgou leis adaptadas aos 
usos e costumes de seus novos súbditos, em que lhes 
dava garantia para a segurança de suas proprieda- 
des e para a satisfação de sua justiça*, consentiu -lhes 
o culto da religião chrístã, mandando conservar e 
respeitar os seus templos, á excepção da basílica de 
S. Sophia e de mais algumas outras igrejas, que de- 
dicou ao islamismo \ finalmente reparou os edifícios 
públicos das ruínas que a guerra lhes causara, e 
levantou outros de novo. E fei ainda mais para con- 
ciliar a boa vontade da população christã. Como ti- 
vesse morrido o patriarcha de Constantinopla, (Jr- 
denou qee se procedesse á nomeação do seu succes- 
sor, observando-se n^este acto todas as ceremonias .do . 
costume. Apenas nomeado o prelado, convidou-o pa- 
ra um lauto banquete, durante o qual póz todo o 
desvelo em obsequial-o e honral-o. E assim se per- 
petuou até nossos dias a successão e nonieação dos 
patriarchas de Constantinopla. 

Tendo regulado d^est^arte os negócios internos de 
seus estados, preparou -se Mahomet para proseguir no 
caminho das conquistas, para onde o impelliam o 
seu caracter guerreiro, a sua ambição de gloria e 
de poder,' e a sorte dos impérios que reservava para a 
raça ottomana um património immenso, e a mais 
brilhante gloria. 

Fortalecido pois moral e physicamente com a des- 
truição do império bysantino', e cercado de um pres- 
tigio, que fazia caminhar o terror diante de suas ar- 
mas, empunhou Mahomet o estandarte do prophe- 
ta, e lançou a luva a toda a Europa. 

Debalde lhe saíram ao encontro HungadaseScan- 
derberg (Iskender-Bey), dous illustres guerreiros, 
tão experimentados na arte da guerra quão affeitos a 
vencer. Nem os esforços do heroe da Hungria, nem 
o valor do chefe albanez puderam obstar a que a 
Servia,' a Valachia, a Bósnia, o Péloponeso, Athe- 
nas e toda a Grécia, e o império de Trebisonda cur- 
vassem o colo ao jugo musulmano. A Hungria viu- 
se continuamente talada pelos exércitos turcos, e a 
moderna republica de Veneza, a soberba senhora dos 
mares, perdeu o Negroponto, viu oífuscada a sua glo- 
ria marítima pelas esquadras ottomanas, e até de- 
vassadas pelos vencedores as próprias margens do Ta- 
gliamento ! 

Emfím, depois de ter avassallado dous impérios, o 
do Oriente e o do Trebfsonda, sete reinos, e além 
d^isto mais de duzentas cidades e villas, Mahomet 11 
morreu repentinamente junto a Maltépe, cm fren- 
te da ilha dos Príncipes, a 3 de maio de 1481, acban- 
do-se então á frente de um poderoso exercito, cuja 
empresa ficou ignorada. Pouco tempo antes da sua 
morte teve o pezar de ver eclipsada a meia lua do 
propheta junto aos muros de Uhodes, galhardamen- 
te defendidos pelos cavalleiros de S. João de Jeru-» 
salem. Mas nem por isso deixou de alimentar um 
projecto audacioso, a conquista da Itália, que o oc« 
cupava seriamente I^^^^^^OjjQ^jIBgfJÇ f^urprehendo» 



o PANORJUH A. 



91 



aos cincoenta e doas anoos de idade, e trinta de 
reinado. 

Mahomet, apesar de alguns graves defeitos, qnede 
ordinário andam a par das grandes qualidades, reu- 
nia em si qaasi tudo qaanko oonstitae o homem de 
génio. Conquistador e legislador, protector das artes 
e «ciências, que elle próprio cultivava ; fundador de 
quantos estabelecimentos úteis a civilisação da epo- 
cha aconselhava ; audas em conceber e metter bom- 
bros a empresas arriscadas e grandiosas \ valente e 
corajoso no campo da batalha ; pradente e politico 
no gabinete \ enérgico finalmente na paz e na guer- 
ra, Mahomet II pode ser jalgado como um d^esses 
homens, qae o destino envia ao mundo de séculos 
a séculos para fundar ou engrandecer impérios, edar 
nova face á civilisação geral da sociedade. 

Entretanto, apesar de todos esses dotes eminentes, 
que o distinguiam sobremaneira, apesar de muitas 
circunistancias especiaes que favoreceram seus pla- 
nos ambiciosos, não lograria por certo subir tao al- 
to em poderio e gloria, que fez sombra a toda a Eu- 
ropa, nem veria tantas nações sujeitas ao seu sce- 
ptro, se Constantinopla o nio habilitara pelo seu 
magnifico porto a crear esquadras, que elevaram a 
Turquia ao grau de primeira potencia maritiroa, e 
pela sua posição geographica a dominar na Ásia e 
a estender pela Europa a sua influencia e poder. 

V. 

Pftmetrai relações entre a Rutwia e a Turquia f 
primeira revoUa d<n janitarot. 

A MORTX de Mahomet II veiu dar tréguas á chris- 
tandade, e paralisar os triumphos das armas otto- 
manas. Apenas seu filho Bajaseto II foi proclama- 
do sultão rebentou a guerra civil entre este princi- 
pe e seu irmão mais novo, chamado Djiro, e mais 
conhecido na Europa pelo nome deZizimo, que lhe 
disputava o tbrono. Duas vezes em campo, e outras 
tantas derrotado e obrigado a expatriar-se \ ora re- 
fugiado no Egypto, ora acolhendo -se á protecção dos 
cavalleiros de fihodes *, prisioneiro em Paris, capti- 
vo em Roma \ umas vezes feito o joguete da diplo- 
macia, victima outras vezes da perseguição de seu 
irmão, este desafortunado príncipe, depois de percor- 
rer toda a escala do infortúnio durante o longo es- 
paço de quatorze annos, morreu envenenado em Ná- 
poles em 24 de feyereiro de 1495. 

Só então Bajazeto se considerou seguro na posse 
do império e livre para proseguir no caminho tri- 
lhado por seu pae \ livre, porque até ali o receio do 
partido de Zizimo constrangia-o continuamente a 
ter deferências ou a fazer tratados desvantajosos com 
os diversos governos, que a seu tarno dispunham da 
pessoa de seu irmão, ou podiam influir na sua sorte. 

Tornou pois a accender*se a goerra, que durou 
bastantes annos comsuccesso vario, e na qual toma- 
ram parte a republica de Veneza, o papa, a Hun- 
gria, a Polónia, a França, Hespanha e outras na« 
coes. A tomada de Lepanto e algumas outras con- 
quistas não indemnisaram comtudo a Turquia das 
graves perdas que soffreu, quer no mar, quer em 
terra. 

. Iqfeliz no começo do seu reinado, e em quasí to- 
da a continuação d ^elle, Bajazeto não foi menos des- 
ditoso no fim da sua carreira. Obrigado pelos jani- 
saros a abdicar em Selim seu segando filho, em pre- 
juizo do primogénito, fialleceu poucos dias depois 
envenenado, segundo dizem, por ordem de Selim 
(1512). 

N^este reinado tiveram logar dous acontecimen- 



tos de pouca importância ao primeiro intuito, mas 
que foram sem da vida o gérmen da decadência do 
império ottomano. O começo das relações entre a 
Rússia e a Porta, e a parte que os janisaros toma- 
ram na abdicação de Bajazeto II, foram esses dous 
successos de fataes consequências para a prosperida- 
de e independência da Turquia. O primeiro, que se 
realisott «o anno de 1495, quando o czar João III 
(Ivan III) enviou um embaixador a Constantino» 
pia para negociar um tratado commercial, que con- 
seguiu concluir, foi o preludio d^essa sinistra in- 
fluencia, que a Rússia tem exercido na sorte do im- 
pério turco desde o reinado de Pedro o Grande até 
nossos dias (1). O segundo, posto que não' tomou as 
feições de um grave conflicto, pois que os janisaros 
se limitaram a pedir a Bajazeto a sua abdicação em 
favor de Selim, attendendo á sua idade avançada, 
foi o principio d 'essa terrivel intervenção, que tão 
poderosa milicia exerceu d^ali por diante nos negó- 
cios do estado, fazendo pezar a sua força, sempre 
maleficamente, na balança dos interesses públicos (2). 

(Continua.) 

I. DB ViLHEVA Barbosa. 



escriptorss portvoúbzbs contbm porá n sos. 

Portas ltricos da gbra^Ão kova. 

Mevobs Lbal. 

As poesias de Mendes Leal podem dividir-se em 
três cathegorias : MeditagÕet religiosas ; Cantos he- 
róicos ; Paixão e Sentimenio\ Ha uma quarta a Sa" 
tyra politica^ cuja indignação fremente, cujo verso 
armado de acúleos, desgrenha sem baixeza as tran« 
ças da severa' Nemesís, ainda bella apesar da ira. 
Começaremos pelas Meditações. 

O primeiro hymno Teligioso é á resurreição de 
Christo e foi escripto em 1842, Em verso endeca- 
sylabo, a contemplação catholíca exprime-se com a 
magestade própria da grande scena. Loctando com 
o cântico de Manzoni ao mesmo assumpto, Mendes 
Leal não lhe é inferior, se o não excede. A pompa 
e a propriedade do metro, a opulência viril da lin- 
gua, a harmonia do verso, e a cdr severa e quast 
biblica do estylo, não affrouxam acompanhando o 
espirito crente que estuda sobre o tumulo do ho- 
mem Deus a novissima verba do futuro. Manzoni 
abre a primeira estrophe por uma interrogação*, 

E risorto : or come a morte, 
La sua preda fu ritolta ? 
Come ha vinte Tatre porte 
Come é salvo un^altra volta 
6tuei che giacque in forza altrui f 

O poeta portuguez encerra-se no templo, e prin- 
cipia descrevendo o terror santo e a escuridão ape- 
nas cortada pela alampada agonisante que : 



(1) Desde 1492 que João III faiia as maiores diligen- 
cias para eatdbolar rela<;des com a Turquia. 

{t) O corpo dos janisaros foicreado por Orkan I. Em 
seu cometo foi coraposto de mil mancebos christãos feitos 
prbioneirosi e constranpdos a abraçar o islamismo, e to- 
dos os ânuos era pela mesma forma angmentado. De Ma- 
homet II por diante o recrutamento para esta milícia fi- 
cou-se. fazendo unicamente nos filhos dos janisaros e nos 
índigeuas. Digitized by V^OOQ IC 



92 



O PiOrORÂMA. 



Em súbitos dardes intermit tentes 
Q.ua8Í finge suspiro derradeiro 
* lyhomem que vae morrer. . . 

A hora é meia noute, hora sagrada ao mjsterio 
e á meditação. A^ medida que a descripçSo se apro- 
xima do Sepulcro, a pbrase anima-se, a idéa aviva, 
, e a alma absorta e reverente eleva o canto : 

Na funda solidão s<5mente ea \é\o. 

Dorme tudo em redor. A paz solemne 

GLue me cerca, e me envolve, 4 paz do tumulo. 

Tumulo ! . . . Acaso um tumulo nío vejo 

Lá no estremo da nave tenebrosa ? 

NSo a vejo eu também crescer-me ao longe, 

£ alongar-se, e alongar-se ?... é certo ! Ao fundo 

Os muros emblemáticos do templo 

Deixam patente, como um véu, rasgados, 

Em deserta campina, calva e triste, , 

De informes, cadavéricos penedos 

Toda orlada em redor, o vulto grave 

D^um tumulo singelo. — Eil-o, que o vejo, 

Vejo-o d^aqui. . . A^ lisa cabeceira 

Pendida a fronte, o rosto annu veado, 

Com ar de quem magoado se lamenta. 

Um anjo d^azas cândidas se assenta. 

6luem jaz abi f . . . Eis súbito refulge 

De viva luz, de iromensa claridade 

O rosto ao Cberubim — celestes cdros 

Suspensos os sentidos arrebatam 

O coração. — Os ângulos do tumulo 

Raios lançam, que cegam deslumbrando, 

A pedra sepulcral partida estala 

Lyme vivo golphando... é Elle !... o Eterno 

O Homem Deus, o Martyr da montanha. 

Faces no chão, mundanos. Já por terra. 
Homens vaidosos. Universo exulta, 
Humilha-te ao teu Deus. £il-o que surge 
Em toda a pompa, em toda a magestade 
Da sua eterna gloria 

Como é cheia de anciedade a antithese, e repas- 
sada de sentimento christào ! Gtue esplendida ima* 
gem a que responde á pergunta : m GLuem Jaz ahi ? »» 
com as torrentes de luz súbito derramadas, com o 
darSo divino nas aurcdlas do cberubim, com os ce* 
lestes cdros saudando Christo rei da vida, e os raios 
faíscando das trevas do tumulo, cuja pedra estala á 
mao potente de Deus !' Como o Messias, o Martyr, 
o Mestre, sae radioso da noute e do terror da mor- 
te, e o ceu em jubilo abre os braços dos archanjos 
as tjistezas da terra ! Glue movimento de adoração 
na voz do poeta \ como a estropbe tem um cântico 
para cada harmonia do mundo resgatado ! E no meio 
do concerto mystico, descendo da montanha ao bos- 
que, das trepidas torrentes entoado aos desertos sus- 
pirosos, como a vista deslumbrada segue nas alturas 
a grande victima do Golgotha, quando o vate no ex- 
tasis exclama : 

Alumiae-o, estrellas. 

Astros do céu bordae-lhe o caminho. 
Curvae-vos, gerações, e respeitosas, 
Sumi no pó as frontes orgulhosas ! 

' E menos pomposo, e nao tao elevado o hymno de 
Manzoni. Falta-lhe igual amplidão nas imagens e 
nos tons. O sublime drama nao passou pelo seu es- 
pirito, como o sopro de Deus pela face de Job, fa- 
zendo aquelle estremecimento do coração, se o bello 



nos arrebata. Os versos finaes da poesia portogueia 
dão o sentido catholico do mysterio a que a maaa 
ofEerece o incenso. No dogma da remissSo, a figura 
suave da esperança sobre o tumulo d^ondé vaioa a 
vida espiritual, é uma idéa grandiosa que o génio 
theocratioo do Dante faria sua. 

E o Cherubim, que o tumulo guardava 
Permaneceu no mundo á voi do Eterno 
Para o. velar sem fim — que n^esse tumalo 
Porta augusta dos céus ficou patente 
De Christo, Martyr, Deus, a estrema herança, 
O thesouro dos homens, a esperança *. 

Manioni termina com unçSo evangélica, poiéoa 
menos profundamente : 

Oh, beati ! a lor piu bello 
Spunta il sol de^giorni santi. 
Mi che fia di chi rubello 
Mosse, ahi stolto ! i passi erranti 
Stt la via che a morte guida? 
Nel Signor chi si confida 
Col Signor rissorgerá. 

Outro hymno o Chruhu sepuUm! composiçSo 
posterior, pareoe-nos mais desigual. Nas descripções 
a interpretação da natureza liga-se com a formula 
catholica para chegar á contemplação do mysterio. 
Em um exórdio cheio de vigor pinta o véu melan* 
eólico que peza sobre o mundo ^ as trevas descendo 
da cruz aonde o sacrifício se consumou sobre o cora- 
ção do homem remido por elle. E o mesmo rjrthmo, 
a mesma palavra pittoresca, o mesmo verso nervoso. 
O campanário, erguendo-se na aldêa entre casas ai- 
vejantes, apparece ao poeta durante as meditações da 
paixão, em que a escuridão é profunda, e o silencio 
prenhe de terror : 

Como o Apostolo da fé, que a fé pregoa 
Entre um povo a seus pés, orando curvo. 

Sobranceiro, de pe, erguido ao alto 
No anguloso contorno, recqrtado : 
Grave e austero, n'um céu austero e grave 
Só elle e mais ninguém — braço estendido 
D^entre o luto da terra á paz da noute ! 

Depois a' imagem levanta os gemidos das ondas 
nas fragosas ribas da costa, e afigura do oceano em- 
braveddo : 

Gtuando a pino 

Sacode sobre a terra a crespa Juba 
E na juba o terror ! 

é de um efieito épico. Nada mais contricto do que 
a exclamação da alma inclinada perante o Calvário, 
quando o homem : 

Rei d^um momento 

Larga o throno mortal, roja o diadema, 
Depõe o sceptro seu, e pobre e humilde, 
Sobre aquella realeza d^um captivo 
Por fraco se confessa, e nú se prostra ! 

Uma cousa nos desagrada n^esta pagina de tanta 
força lyrica : é a alteração repentina do metro, e o 
captiveiro da rima acceito sem necessidade. A ettro- 
phe de dnco versos quebrados (quintilha) destâa da 
amplidão magestosa do verso branco. A paixão se- 
vera e trágica em quad|;Qip{j^|^,não admitte estet 



o PAJVORAMA. 



93 



ardfieios da foinia. £ ama belleia a variedade dos 
rythflios ^ é uma opulência ás veies o primor da ri- 
ma e o lavor da phrase ^ mas nem todos os assum- 
ptos as abraçam ; sobretudo se fòr preciso que o pen- 
samento domine, e que alce o vóo sem grilhSo. A 
expressSo nas medidas curtas affrouxa e amollece; as 
desinências uniformes e a sjrmetria sacrificam a id^ 
ao ouvido, estreitam e descoram a imagem. Gtuan- 
do o espirito e a imaginação se elevam a Deus, e 
das alturas épicas contemplam o nada do homem e 
das suas vaidades a forma nSo deve apertai-as em 
proporções inferiores ao vigoroso rapto» Línguas ri- 
cas e numerosas dispensam estes ornatos^ se a natu- 
reia e o movimento da obra os nSo suscitam. 

Estamos longe porém de condemnar em absoluto 
a applicaçSo dos metros rimados. O gosto e o as- 
sumpto dão a verdadeira lei aos segredos da forma. 
Na Fitão de JEixecMel, composta depois, Mendes 
Leal sabe colher d^elles todo o êxito. Exprimindo 
a desordem dos sentidos e o sublime horror do vi- 
dente, a variedade e a medida roais ou menos len- 
ta do verso estão no seu logar, e acompanham na- 
turalmente os Ímpetos da alma, e a imagem orien- 
tal em que se engasta a phrase bíblica. 

(Continua.) 

L. A. RxBSLio DA Silva. 




ACAIDSMIA CSLTZOA. 

A ACADEMIA céltica, fundada em Paris no anno de 
1804, tinha por fim reconstruir^ quanto fosse possí- 
vel, a historia dos celtas, com os elementos que se 
encontram nosesctiptos dos antigos, procurar e estu- 
dar escrupulosamente os seus monumentos, restaurar 
a sua língua, e esclarecer por meio d^ella as origens 
•dos diversos idiomas da Europa. Celebrou-se a sua pri- 
meira sessão no dia 15 de fevereiro de 1805. 
' A academia compunha-se de setenta e doas mem- 
bros residentes, cento e quarenta não residentes, e 
sessenta e seis correspondentes. Entre os sócios con- 
tavam-se algumas das maiores capacidades daepocha 
como, por exemplo : Lalande, Fontanes, Fourcroyi 



Lacepéde, Pastoret, Volney, Humboldt, Fourier, 
etc. 

Em 1807 publicou-se o primeiro volume das me- 
morias da nova academia céltica, cujos trabalhos pro- 
segniram com certa frouxidão nos annos seguintes, 
até que, reconhecendo-se que em França não exis- 
tiam monumentos célticos em numero tal que pu- 
dessem fornecer exclusivamente assumpto para os e»- 
tudos de tantos e tão abalísados antiquários, foi ex- 
tincta a academia céltica, ou, para melhor dizer, re- 
fundida na sociedade dos antiquários de França, que 
ainda subsiste, e tem prestado importantíssimos ser- 
viços ás sciencias históricas. 

A medalha, reproduzida na nossa gravura, foi 
mandada cunhar pela academia céltica para coroar 
os trabalhos, por ella approvados. No reverso tinha 
uma coroa de carvalho e de agárico, o nome da aca- 
demia, a data da fundação, e a inscripção: Gloriat 
majorum. 



AP05TAMXMT0S DX UMA VIAGXM L ItAUA. 

ni. 

No DIA 27 de outubro de 1850 navegámos por ou- 
tra ves os mares d^Italía, tendo-nos embarcado em 
Génova no vapor francez Lon^uedoc^ que poucos dias 
antes tinha sido benzido pelo bispo de Marselha, o qual 
fez a bordo do mesmo uma pequena viagem, em de- 
sempenho das suas obrigações pastoraes, e queseai>- 
tecipou áquella, em que nés o aproveitámos, com 
perto de cento e quarenta e oito companheiros via- 
jadores. 

Saímos de noite, que estava escura ; via-se a dis- 
tancia a trovoada \ o tempo correu contrario, porém 
Deus guardou-nos, e gastámos umas oifze horas de 
Génova a Liorne, onde nos demorámos até por seis 
horas da tarde, reembarcando, e seguindo viagem 
para Civitavecchia, que nos recebeu pela manhã, e 
com pouca dífferença do nuníero de horas, emprega- 
das a navegar, de Génova para Liorne. 

Muitos são os barcos de vapor que, differentemente 
embandeirados, partem d^uns para outros portos da 
Itália, e que por esta passam para mais longe. Não 
foi de muito tempo a nossa viagem, entretanto na- 
vegámos no Mediterrâneo em quatro d^elles. 

A nossa demora foi até a hora da partida da dili-. 
genciof que nos apresentou em Roma, com umas on- 
ze horas de caminho. 

Rendidas as graças a Deus pelo successo da via- 
gem, começamos a visitar, no mesmo dia da chegada, 
a cidade eiema^ que o é realmente quando se con* 
sidera como a sede do supremo pastor, do chefe vi- 
sível doeste grande corpo moral, a Igreja catholica. 

Para fazer a descripção de Roma, seria necessário 
residir ali por muitos annos, reunir muitos conhe- 
cimentos, ter um gosto delicado, uma imaginação 
viva, o talento de communicar aos outros os senti- 
mentos por que se é penetrado, e escrever finalmente 
muitos livros. Roma s<$ se assimelha a Roma. 

Eis como começa uma das suas cartas o abbade 
De Geramb, na sua Poyage de la Trappe àRome. 

E continua : Imaginae uma cidade com trinta e 
cinco portas, contendo trinta basílicas, duzentas igre- 
jas, cento e cincoenta grandes capellas, qae são co- 
mo igrejas, cincoenta palácios notáveis, sessenta tem- 
plos antigos, dezeseís arcos detriumpho, muitos obe- 
liscos trazidos do Egypto, um grande numero de mu- 
seus cheios de estatuas, e um maior numero de ga- 
lerias contendo milhares de quadros. N^esses monu- 



mentos, nW. «tatu.., •»'*"^i<í^a|j«g5;sq5,\9t!>gle 



94 



O PANOBAMAi 



tencem a differentea séculos, que bellezas se nSo con* 
têem, que génio se não revela f 

Faltam*nos os elementos e a força para descrever 
e fazer sentir tanta arte, tanto esmero, tanto valor! 

Roma, que André Crénier cantou assim : 

Rome antiqne, partout, Rome, Rome, immortelle, 
Vit et respire, et tout semble vivre par elle. 
De TAtlas au Liban, de TEuphrate fio Betis, 
Da Tage au Rhin glacé, de TEIbe au Tanals, 
£t des âots de l'£uphrate a ceuz de PHyrcanie, 
Partout elle a grave le sceau de son génie. 



' Roma não admitte ama meia descripçSo. 

O viajante, que entra n'esta capital vive em mui- 
tos séculos ! Parece-lhe passarem antes seus olho» es, 
ses exércitos de soldados romanos^ gallos, germanos* 
gregos, africanos, armados e trajados a uso dif- 
íerente. Encontra-se com o Coptío/io, e com o Fó- 
rum ; pára ante o Paniheon de Agríppa e o Colytieu ; 
vê o circo de Nero e o Tibre ; e quando vê este, 
com as suas aguas túrbidas, lembra-se como correm 
pressurosos os séculos, e como a ignorância dos ho- 
mens os confunde ! 

O viajante em Roma fita curioso os olhos sobre 
esses monumentos de todas as idades*, sobre esses tra- 
balhos dos reis, dos cônsules, dos césares e dos pontifi- 
ces : sobre esses obeliscos arrebatados ao Egypto \ sobre 
esses mausoléus tirados á Grécia, sobre essas thermas 
ornadas de bibliothecas ; sobre esses palácios, uns em 
ruinas outros meio demolidos para se alevantarem no- 
vas edificações, além dos que sustentam toda a sua ma- 
gnificência e elegância ; se o viajante mira a grandexa 
doesse horisonte bem adequado ás grandes linhas da 
architectura, e se ainda estende os olhos por de so- 
bre esses aqueductos, ao modo de raios de circulo, 
convergindo em um só ponto, e dando passagem so- 
bre arcos de triumpho ás aguas, que deviam apagar 
a sede d^um povo rei ^ se o viajante se vê rodeado 
dVssa immensa quantidade de estatuas, que com a 
«ua mudez parece quererem corrigir este século gár- 
rulo *, e se ouve esses ruidos fontanaes \ depois de 
de tudo isto dá ranao a Chateaubriand, quando 
diz : Roma foi destinada para o dominio e duração. 

Roma ergue -se magestosa, parecendo querer fazer 
gala do seu isolamento ! sua sombra s6 quer abrigar 
recordações e memorias! e assim o viajante depois 
de ter com fadiga superado a cúpula de S, Pedro^ 
amostra-se-lhe das varandas exteriores uma campina 
inculta e despovoada, enxergando aqui, acolá, ao 
longe, os fragmentos dispersos de algum monumento. 

Mas o que importam as bellezas da campina, os 
risos do campo, o pratear dos rios, o verdejar dos 
bosques, e ainda o canto das aves, e o cheiro das 
flores, quando a alma entregue a meditação profun- 
da, é arrebatada pelo desejo de saborear a historia, 
estudar as artes, e vêr o papa? o papa, a cuja ins- 
tituição divina se acha ligado tudo, que em Roma 
se encontra de notável ou curioso ? \ 

E de feito, se Roma é visitada por todas as gen- 
tes e nações, é porque não só reside lá o chefe vi- 
sivel da Igreja, mas porque aos successores de S. 
Pedro deve essa cidade a conservação dos seus mo- 
numentos, a creação de muitos d'elles, a riqueza de 
seus museus. 

E nem se julgue, que isso é estranho aosdesignios 
da Providencial Gtuantossâoattrahidos a Romapor 
a curiosidade e estudos archeoloçicos, por a belleta 
das artes, e que extraviados do rebanho de Pedro, re- 
cebem ali impressões, que s6 se acalmam ao entrar 
no grémio catholico ! Em Roma vivemos n^s com 



uma familta, cuja dona da casa era protestante, e 
que não teria ido a Roma, senio fora a nomeada 
que a acclama. Porém como as idéas cathoUcas actuam: 
ali com tanta íbrça, esta senhora, como tem aconte- 
cido a outras muitas pessoaà, fex-se eatholica : seu 
marido tinha sido também protestante. 

A affluencia dos estrangeiros á Itália, e a Roma, 
é tal, que a sua falta se torna sensível, se qualquer 
evento os afasta, como no tempo de revolução. 

Depois dosiilttmos acontecimentos, era o inverno 
de 1850 para 1851 o mais concorrido. 

Na igreja, nos museus, nas ruinas, junto de qual- 
quer pedra, se encontrava o observador do oriente 
e do occidente, do norte e do sul, e sempre a con- 
fissão de que a Igreja é ca^Ao^a. 

E boa descri pção poder iamos fazer, se concertas» 
semos com tanta gente discreta, que de continuo 
se reveza em Roma, a noticia bem imperfeita, que 
vamos dando. 

Comecemos por fallar de S. João de LatrSo. S. 
João de Latrão, o primeiro, e principal templo 
de Roma e do catholicismo — Eeelesia urò» et orbU 
mater et caputj fundação de Constantino Magno, 
foi consagrada pelo papa S. Silvestre, no anno de 
323. S. Silvestre a dedicou Christo Salvatori^ a 9 
de novembro de 324, e se lhe chamou batilica d'*0U'' 
ro^ hcuUica aurea^ em razão das preciosidades, que 
a enriqueciam. No século 12.*^, foi dedicada a S. 
João Baptista, e depois ficou charoando-se commum • 
mente Basílica de 8, João de Latrão (1). 

Esta basilica, também celebre por os doze conci- 
lios, entre geraes eprovinciaes, ahi celebrados, de- 
pois de ter sido conservada por dez séculos, foi quasi 
toda destruída pelo fogo em 1 308, no tempo de Cle- 
mente V. Porém o mesmo papa Clemente destinou 
uma grossa somma para a sua reedificaçao, e foi 
depois adornada por Urbano V, Alexandre VI, Pio 
IV e Sixto V, e d^ella tem continuado acurar seus 
successores. 

Sobre o portal se collocou a estatua de Constan- 
tino o fundador ; e foi também collocada, sobre a 
porta lateral, a de Henrique IV de França, como 
bemfeitor. 

Clemente VIII, Innocencío X, Clemente XII e 
Alexandre VII, fizeram também sentir em S. João 
de Latrão a sua acção benéfica. 

N^esta basilica se guardam duas venerandas e pre- 
ciosas relíquias j que são as duas cabeças deS» Pedro 
e S. Paulo, fazendo parte de dous bustos de prata, 
que tem sobre o peito uma flor de lis em diaman- 
tes, presente feito á igreja por Carlos V, de França. 

Ha em S. João de Latrão três bellas capellas^ a 
mais curiosa e a Corsiniy dos príncipes d*estenome. 
Clemente XII, doesta família, lá descança em uma 
urna de porphj^ro, que esteve por muito' tempo de- 
baixo do Panthcon, e crê-se ter guardado as cinzas 
de Agrippa. Esta capella é s6 per si digna diurna 
descri pção. 

Em S. João de Latrão, sobre o jazigo de Boni- 
fácio VIU, vê-se uma pintara afresco^ representan- 
do o pontífice no meio de doas cardeaes no acto de 
publicar o primeiro jubileu do anno santo, era de 
1300. 

A descripção exacta de tal basilica, a primeira 
igreja em que os papas se assentaram, e assentam, 
não cabe nos estreitos limites de um artigo de jornal. 
Passemos pois a dar uma breve noticia da igreja de S. 
Pedro. 



(1) E dedicada como »e dls no texto, e também a 
S. Juao Evanj^elista. Não sabemos se esta ultima de que 
falíamos foi feita pela mesma occatiio no.ttçiUo^.o ^ 
Digitized by V^ODxlC 



o PAIfORAMA. 



95 



Este magestoBO edifieio, segundo a express2o de 
Geramby nSo pode ser comparado com algum outro, 
nem na vastidão e regularidade das proporções, nem 
na ríqueia e elegância do9 ornamentos. É necessá- 
rio entrar ali muitas veies, e ainda depois achareis 
novidade. A primeira visita fica-se attonito da ma- 
gnificência da fabrica^ da nobreza do pensamento, 
do arrojo da traça, e do primor da execução artística, 
que tornam a igreja de.S. Pedro uma verdadeira 
maravilha. 

No anno 323 tinha Constantino feito edificar, no 
mesmo logar onde hoje está a basilica de S. Pedro, 
uma outra, em honra do príncipe dos apóstolos. No 
meado do século 15.^ ameaçava ruína \ o papa Ni- 
colau V desde logo formou o propósito de a recon- 
struir, e Júlio II lançou a primeira pedra nos fun* 
damentos do templo que hoje admirámos, aos 18 de 
abril de 1506. 

A praça *que antecede esta basílica é como con- 
vém a tão magestoso edifício. £ circomdada por oo- 
lumnas, formando uma balaustrada, que sustenta cen- 
to e triata e seis estatuas de santos martyres e fun- 
dadores de ordena religiosas^ estas estatuas são in- 
terpostas por os escudos das armas (distinctivo de fa- 
mília) dos pontífices que tiveram parte na edifica- 
ção. No centro da praça ergue-se a cruz, que sobre 
uma só pedra de granito de setenta e quatro pés de 
altura annuncia o seu triuropho. As estatuas colos- 
saes dos santos Pedro e Paulo, e duas elegantes fon- 
tes mui ricas d 'aguas aformoseam também a bella 
praça de S. Pedro. 

Foi tal o empenho na erecção do obelisco, que se 
levanta no meio da praça, que quando se conseguiu 
assental-o na base os sinos e canhões annuneiaram 
vieioria! Diz-se que tendo-se enganado Fontana, o 
archítecto, no tamanho das cordas, estivera para ser 
desastroso o successo no acto de o erguerem, se um ma- 
rítimo deSan-Remo, chamado Bresca, não bradasse: 
Acque aUe funL . . Este episodio acha-se represen- 
tado em um fresco da bíblíotheca do Vaticano. 

£ grande a quantidade de obeliscos que se vêem 
collocados em Roma, e que ornam as suas praças. Os 
imperadores romanos, dominando o £gypto, fizeram 
transportar muitos a Roma para decorar as praças 
publicas, os circos e outros togares, onde queriam 
ostentar o seu poder. 

A respeito das fontes que correm na praça de S. 
Pedro, conta-se, (e far-se-ha assim uma idéa da sua 
magnificência e belleza) que quando a rainha Chris- 
tína de Suécia as viu pela primeira vez, as achou 
de tal eífeito, que agradeceu o espectáculo aos offi- 
daes que a acompanhavam, julgando que lhe esta- 
va preparado, correndo aliás ellas sempre assim e 
coram omnibus. 

Se a praça de S. Pedro apresenta efleítos mages- 
tosos da arte, não nutre com menos impulso a fé, 
á lembrança de que era o circo de JV^ro, o theetro 
de seus furores, onde se saciava do sangue dos fieis. 

A fachada da basilica, precedida por soberba esca- 
daria, tem duzentos e cíncoeuta palmos de altura 
sobre quinhentos e trinta e dous de largura, nota-se 
esta imperfeição, talvez calculada para que a maior 
elevação não assombrasse a magnificência da cúpula. 

£ntrando-se no vestíbulo, que é tal que se conta 
haver satisfeito a curiosidade de um suisso, que ti- 
nha ido a Roma para ver S. Pedro \ vê-se á dírejta 
a estatua histórica de Constantino, no acto da visão 
da Cruz, por cuja fprça devia vencer ^ e á esquerda 
a de Carlos Magno, da mesma dimensão, e com a 
fronte laureada ao modo dos imperadores romanos. 

Os dous imperadores são de grata nomeada nos 
annaes da Igreja. 



A^s cinco portas da fachada estão fronteiras as do 
templo, que conserva a clausura por uma d^ellas, e 
s6 a quebra no jubileu santo, como em um tempo 
especial de graça e indulgência. A essa porta, ain- 
da quando fechada, são attrahidos 08 peregrinos, apro- 
xímando-se-lhe devotamente. 

Ao ingresso no templo fica-sesurprehendido, eaté 
porque parece achar-se menos do que se esperava ! 
e tudo ibto resulta da impossibilidade de se compre- 
hender em tão* pouco obra tamanha ! A boa medida, 
que outra cousa não é a proporção, e que é uma das 
maravilhas de S. Pedro, illude agradavelmente o pe- 
regrino, que visita a basílica ; e a riqueza tão varia- 
da deslumbra-o. 

O templo mede oitocentos e trinta e sete palmos 
de comprimento e seiscentos e sete de largura ! 

Andando na basilica, fica da direita uma antiga es- 
tatua de bronze, que se venera, porque representa 
S. Pedro \ e nòs a veneramos, unindo-nos aos mui- 
tos outros peregrinos e viajantes que com seus oscu^ 
los tem gastado alguns dos dedos dos pés da imagem. 

Na extremidade da nave principal se levanta o al- 
tar maior uu pontifical, que foi benzido por Clemen- 
te VIII, em 1594. N^este altar se conserva, segun- 
do uma pia tradição, um altar, dedicado a S. Pe- 
dro no templo de S. Silvestre e de Constantino, no 
anno de 330. O papa ofácia nMle três vezes por an- 
no : Natal j Paschoa^ e S, Pedro ; e s6 por um bre- 
ve especial, e feito por uma s6 vez, ali pode cele- 
brar um cardeal, como de ordinário acontece na fes- 
ta da cadeira de S. Pedro. 

Sobre o altar pontifical ha um tabernáculo precio- 
so e de fqrma antiga, á maneira de sobrecéu ou do- 
cel, e sobre quatro coluranasespiraes. Esta obra, en- 
tre as de bronze a maior, foi executada por Bernini^ 
no pontificado de Urbano VIII. A fundição de tal 
obra custou 60:000 escudos romanos ^ e adouradura 
40:000. O metal foi comprado em Veneza; e em- 
pregaram-se 186:000 libras romanas de onze onças. 

Ao fundo da igreja levanta-se o sumptuoso monu- 
mento, oude como em relicário se conserva a cadeira 
de S.Pedro; obra deBernini, executada por ordem 
de Alexandre VII. 

Inferiormente ao alta r-mór encontra -se uma capei- 
la subterrânea, allumiada por oitenta e nove alam- 
padas de bronze dourado, aonde é fama que os pri- 
meiros christãos iam orar : acham-se n^esta veneran- 
da capella as relíquias dos dous apóstolos, e a estatua 
de Pio VI, devida ao primoroso cinzel de Canova. 

As alam padas apagam-se na sexta feira santa, e 
antigamente eram substituídas por uma crus íllumi- 
nada, que fazia tal effeito e admiração, que em 1824 
Leão XII prohíbiu a continuação doeste costume, pa- 
ra evitar os escândalos a que a curiosidade de a ver 
dava logar. \ 

aluando se entra no templo a primeira capella á 
direita é a de Nossa Senh ara. Alise admira um qua- 
dro representando a Virgem com o santíssimo Filho 
morto nos braços, que é a primeira obra do grande 
Miguel Angelo. 

Na capella, chamada gregoriana por ter sido con- 
struída no pontificado de Gregório XIII, existe o cor- 
po de S. Gregório Nazianzeno, e o tumulo d 'aquelle 
papa, muito conhecido pela reforma do calendário, 
que. effectuou em 1582. 

£ também díguo de notar-se o mausoléu da rai- 
nha Christina de Suécia, que abjurou o lutheranis- 
mo em Inspruck no anno de 1655, e o da condessa 
Mathílde, celebre por suas doações á Igreja, e por 
ter defendido os papas. 

Mas nada ha mais admirável em S. Pedro, que a 
famosa cúpula ^ é esta sustentada por pilas tras^ que j 

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96 



O PANORAMA. 



medem em circumferenuia tresentos e vinte palmos. 
Nos vãos das. pilastras ba quatro capellas de coradas 
com as estatuas colossaes de S. André, da S. Veró- 
nica, de S. Helena e de S. Longuinhos. EIstas es- 
tatuas tem relação com as relíquias preciosíssimas, 
que ahi se encontram, e são ã Santa Verónica^ uma 
parte da Cruz, achada por S/Helena \ a Lança com 
que o soldado, conhecido depois por Longuinhos, fe- 
riu o lado de Jesus Christo, e a cabeça de S. An- 
dré. Estas relíquias s6 se mostram em certos dias ^ 
e para se subir ao sitio em que se acham é mister 
ser cónego em S. Pedro, ao menos titular ', simílhan- 
te titulo somente é concedido a estrangeiros de alta 
jerarcbia. Ladislau, depois rei de Polónia, o recebeu 
de Urbano VIII \ Cosme III, grào-duque de Tosca- 
na, de Innocencio XII. £ o imperador Frederico 
m, achando^se em Roma para a sua coroação, ob- 
teve de Nicolau V licença para ver, vestido de có- 
nego, a toalha da Santa Verónica, 

A cúpula é coroada por uma como lanterna, que 
pode considerar-se um segundo simborio, e em torno 
da qual se passeia seguro. Aesphera de queé sobre- 
pujada tem oito pés de diâmetro-, sobre aesphera as- 
senta a cruz, com treze pés de altura '^ desde a ex- 
tremidade superior doesta até o nível da praça não' 
se contam menos de seiscentos pés ! 

JR.emataremos esta imperfeita descripção do templo 
de S. Pedro apontando os nomes dos pontífices que con- 
correram para tão pasmosa obra. Júlio II, como já dis- 
semos, lançou a primeira pedra a 18d^abril de 1506. 
O desenho primitivo deveu-se a Bramante. Leão X 
mandou continuar a obra, alterando porém um pou- 
co a antiga traça. Depois da morte doeste papa sus- 
penderam-se os trabalhos, que Paulo III ordenou 
que proseguíssem, escolhendo outro architecto, que 
propoz um novo plano. Estava porém reservada ao 
grande Miguel Angelo a gloria de conceber, e em 
grande .parte executar, o pensamento de tão mages- 
tosa basílica. Miguel Angelo ialleceu em ^560, mas os 
trabalhos continuaram em conformidade do sen risco. 

Q«uarenta e seis annos depois, sob Paulo V, Mo- 
derno acabou a igreja, e levantou a fachada. No 
pontificado de Alexandre VII o cavalheiro Bernini 
construiu a galeria que circumda a praça. Pio VI 
mandou construir a sacristia, que Miguel Angelo não 
tinha incluído no seu plano. Desde que se lançou a pri- 
meira pedra no ediâcio de S. Pedro tem decorrido 
três séculos, em que foi governada a Igreja de Chris- 
to por trinta e quatro pontífices ! 

Nem poderão esquecer entre estes Gregório XIII, 
Sixto V, Cleniente VIII e Innocencio X. Também 
são dignos de memoria os architectos Giacomo d^el- 
la Porta, e Cario Marchionini, cujos nomes se acham 
ligados á historia da basílica de S. Pedro. 

Não é fácil calcular as sommas que ella tem cus* 
tado. Fontana orçou-as, até 1693, em quarenta e 
sete milhões de escudos romanos ! Mas quanto se 
não terá despendido depois ? A totalidade deve de 
ser eiíbrme. 

Hoje fiquemos aqui. f Continua.) 

D. Aktojiio db Almeida. 



Estudos sobrb os diffbrbntes irsTHonob 

DB BVSlirO BB LBR EM PoRTVOAL. 

II. 

DVARTR NCNBS DB LeXo. 

A BBS PEITO do g, apesar de que os antigos o tives- 
sem declarado ocioso, admitte Dvarte Nunes a sua 



necessidade, upara escrevermos todas as diogoes que 
06 latinos por ella escreviam, como por a adulterina 
pronunciação que por ella viemos dar ao c, junto a 
estas letras e, é, de que nos ficou necessidade desoc- 
corrermos com çrtie, çut, para correrem todas vogaes 
de um soido e pronunciado, e dizermos : ca^ que^ 
çtu, c5, cú etc. n 

O empenho de ir sempre contra as idéas profes- 
sadas por João de Barros leva Duarte Nunes a ne- 
gar o que todos geralmente tem hoje por incontro- 
verso, a existência de dous sons distinctos para a le- 
tra r. Duarte Nunes reconhece apenas um ; mas co- 
mo na questão dos oo^ vem por fim a concluir que 
sendo apenas um em potestade se pronuncia real- 
mente de dous modos, o que em ultimo resultado é 
exactamente a mesma cousa. 

*uR, diz Leão, é letra semi- vogal simples, e não 
de duas maneiras, como os vulgares cuidam, que 
põem no seu alphabeto duas figuras ; uma que di- 
zem ser de r síngello, e outra de r dobrado, que se 
põem no principio das dicções, ou quando soa como 
dobrado. O que é grande erro. Porque d'essa manei- 
ra a todas as lettras podiam dar duas figuras, uma 
pêra quando são singellas, e outra pêra quando 'São 
dobradas. Pelo que hemos de dizer, que não ba mais, 
que um r em potestade. O qual quando se dobra em 
voz, se dobra também em numero. E o que enga- 
nou aos vulgares foi, que aas vezes sem se dobrar, 
se pronuncia, quasi como dobrada, sendo na verda- 
de singella, etc. n 

Duarte Nunes negaTtambem, contra João de Bar- 
ros, que o s tenha dous valores, e estranha que os 
vulgares o representem de duas maneiras se/. 

4c S, diz elle, é letra semivogal, e mais assovio que 
letra, segundo, dizia Marco Messala. Donde veo, que 
a figura d^ella denotaram como uma cobra enroscada, 
por parecer mais pronunciação de cobra, que de ho- 
mens. A qual lettra, ainda que os vulgar&t a figu- 
rem em seu alphabeto de duas maneiras, assim / s, 
em potestade e força, é uma «5 lettra. Porque essa 
differença é para a graça da scriptura, mas não pa- 
ra fazer differença na pronunciação. Esto lembro, 
porque ha alguns que cuidam que de $ ha duas es- 
pécies, isto é, um que se pronuncia dobrado, e que 
se usa no principio, que é o comprido/, outro curto, 
assim s, mais brando, para o cabo dasyllaba. O que 
não é assim etc. n 

O V é confundido por Duarte Nunes com o ti, se- 
gundo era usança do seu tempo, distinguindo-os ape- 
nas no começo das dicções, e usando do u no meio 
das palavras, quer para representar vogal, quer pa- 
ra exprimir consoante. 

Sobre o a^ o y e o te não ha nada de particular 
na doutrina de Leão, tendo o x um valor único, o 
y o som de t, e o s uma pronunciação feita por uma 
maneira que sda entre s e ç. 

Leão passa agora a tratar dos dithongos. Diz pos- 
suir a língua portuguesa dezeseis, que sao âa, ãe, 
a», tto, au^ êcj et, et<, y, ou^ oij õi, ôò, ou^ «t, õii, 
que divide em três cathegorias. 1 .* os latinos, que 
diz serem ao^ et, e eu. 2.^ os comrouns, com os cas- 
telhanos: aif ot, uú 3.^ os que são peculiares do nos- 
so idioma, que são os restantes. 

Passa depois a tratar das palavras em que elles se 
empregam \ porém esta parte pertence mais á ortbo- 
graphia do que á arte de ler : portanto encerrare- 
mos por aqui a analyse de Duarte Nunes de Leão. 

J. M. Latino Coelho. 



— Nao ha cousa que nos possa enfadar, sendo fei- 
ta de boa vontade. 



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13 



o PANORAMA. 



97 




BAHIA — CAniAA PS 8. OOVÇA&O. 



Na estrada que vae da Bahia de Todos os Santos 
para o lindo arrabalde que chamam Bom-fim^ er- 
gue-se aindi^a capella de S. Gonçalo. £ apenas de- 
corrido um século que se ajustaram as ultimas pe- 
dras de sua fachada, e já as plantas liliaceas, as pal- 
meiras, as bananeiras, até os coqueiros, crescem sem 
amanho em torno dos seus muros e vedam comple- 
tamente a sua entrada. Mil outras plantas parasitas 
nascem nas roturas das suas paredes, abreviando a 
sua destruição. £sta capella, admiravMmente situa- 
da,, foi construída pelos Jesuítas em 1753, e acabada 
seis annos antes da eztincção da ordem poderosa a 
quem pertencia. Foi abandonada logo depois, e já 
no começo doeste século Lendley descrevia at suas 
ruínas pittorescas como um dos sítios mais delicio- 
sos da Bahia. 



Os IMPÉRIOS BY8A.NTIIIO S OTTOMANO. 

VI. 

Tvmada de Rhodesj e outras conquislas pelos tur- 
cos, apogeu da grandeza e poder do império oilo- 
mano. 

Selim I subiu ao tl^rono por meio de ura grande de- 
licto. Uma serie de crimes foram os primeiros actos 

VoL. III. — 3.^ Serie. 



do seu reinado. Para que nao viessem a perturbal-o 
na posse pacifica do império, mandou matar a seus 
irmãos e sobrinhos. 

Os janisaros logo lhe patentearam as consequências 
do passo, que elle lhes fizera dar, excitando-os áre- 
belliSo, pois que no próprio dia da sua elevaçlo ao 
throno obrigaram -o aaugmentar-lhes o soldo. E pas- 
sado pouco tempo ainda tornaram a sua influencia 
mais pesada e amarga ao sultão, e mais perniciosa 
aos interesses e gloria do paix. 6tuando Selim, ten- 
do transposto as fronteiras da Pérsia com um exer- 
cito de 200 mil homens, e depois de haver anniquil- 
lado nas planícies de Tchaldiran todo o poder dos 
persas, se dispunha a tomar posse de um reino, que 
a sorte das armas lhe entregara n^uma só batalha, 
foi constrangido pelos janisaroa, queixosos das fadi- 
gas da guerra, a voltar costas á fortuna, e a regres- 
sar á pátria, abandonando tão rica presa. Entretan- 
to o sultão sempre conseguiu como fructo doesta cam- 
panha reunir a seus estados o Kurdistan, província 
importante da Pérsia. A conquista do Egypto, de 
Paimjrra, Damasco e toda a Palestina foram osprin- 
cipaes successos do resto do seu reinado, que durou 
quasi 9 annos (1512 a 1520). 



A epocha seguinte forma um dos períodos maisjz] 



^ Abril 1, 1851. 



'§le 



98 



O PANORAMA. 



riosos dos annaes da Turquia. O longo reinado de 
SolimSo I, Suleiman filho e sacceasor de Selim I, 
correspondeu perfeitamente ás esperanças populares. 
O seu nascimento no começo de uni século [900 da 
Hégira] como aconteceu a Osman, 6 fundador do 
império ; o seu nome de Solimão, ou Salomão, que 
recordava o principe propheta tão reverenciado dos 
rausulmanos :; o decimo logar, que ia occupar na se- 
rie dos sultões, sendo o numero dez considerado pe- 
los turcos como o mais perfeito ^ todos estes felizes 
presagios levaram o povo a saudar com alvoroço o 
seu novo soberano, e a solemnisar a sua exaltação 
ao throno com grandes e prolongados festejos em to- 
da a extensão do império. 

O primeiro uso que o sultão feis da auctoridade 
real foi para exercitar a clemência e a justiça. Lo- 
go depois tratou com singular actividade e desvelo 
de reorganisar e augmentar o exercito e marinha. 
£ assim que se julgou apercebido para as grandes 
eroprezas, que meditava, aproveitando-se das quere- 
las em que se achavam envolvidos, e em que se ex- 
tenuavam reciprocamente o imperador Carlos V, e 
Francisco I, o papa Leão X e os sectários deLuthe- 
ro, apreseuta-se ás portas de Belgrado, empenha com- 
bate e assenhorea-se d^essa invicta cidade, posto 
avançado da Hungria, que os seus antecessores por 
tantas vezes e tao baldada mente disputaram (29 de 
agosto de 1021). , 

No anno seguinte punha cerco a Rhodes, e ao quin- 
to roez de anedio essa orgulhosa praça, que tinha vis- 
to despedaçar-se contra as suas muralhas todo o po- 
der e valor das armas ottomanas, por tantas vezes 
quantas ousaram aífrontal-as ^ esse glorioso baluarte 
do Christianismo, que o heróico esforço dos caval- 
leiros de S. João de Jerusalém havia feito crer in- 
vencível, abriu finalmente suas portas ao vencedor 
de Belgrado (21 de dezembro de 1522). Franqueou- 
as porem depois de uma defeza desesperada, em que 
os cavalleíros, e todos os habitantes, até as próprias 
mulheres, se illustraram por mil acções de verdadei- 
ro heroismo^ depois de ex ha ustns todas as forças, con- 
sumidos todos os recursos, e perdidas todas as*espe- 
ranças. 

Como a tomada de Constantinopla a conquista da 
ilha de Rhodes encheu de terror todas as cortes eh ris- 
tãs. Agora, como então, é que avaliavam a grandeza 
da catastrophe. Não se lembraram, durante os cinco 
mezes do côrco, da importância d^aquella praça de- 
pois da queda de Constantinopla. Só quando soube- 
ram que o crescente campeava sobre a velha sé de 
Rhodes, é que reconheceram, que a navegação do Me- 
diterrâneo ficava de hora avante á mercê dos tur- 
cos, e que a destruição d^essa barreira, que impedia 
a livre communícação da Turquia com o Egvpto, 
e que obstava a que os sultões tirassem doesta sua re- 
cente preza todos os recursos e elementos de força, 
que ella lho podia ministrar, ia augmentar conside- 
ravelmente o podi^r e influencia do império otto- 
mano. 

Rhodes na sua queda arrastou todas as pequenas 
ilhas, que a avisinhavam, as quaes se submetteram 
sem resistência ao jugo do vencedor. 

Ensoberbecido com tão assignalado triumpho So- 
limão volta as suas armas contra a Hungria; destro- 
ça nas planicíes de Mohacz o exercito de Luiz H, 
que ahi perdeu coroa e vida, apodera -se da capital, 
e em pouco tempo todo esse paiz, quefôracumpode 
;;loria do grande Hunyada e do celebre Corvino, e 
onde sempre naufragaram a ambição e esforços dos 
sultões, ronde preito e homenagem ao successor de 
' IMafoma. Grande numero de fortalezas e praças de 
uruerra da ' 



os tropbéus do conquistador. E finalmente um exer- 
cito de 250 mil homens com 400 peças de artilha- 
ria, penetrando no coração da AUemanha, vem acam- 
par junto aos muros de Vienna d^ Áustria^ e lançar 
a luva a toda a chrístandade (setembro de 1529). 
Os prodígios de valor obrados pela guarnição de 
Vienna, levando o desanimo ás fileiras ottomanas, 
e a aproximação do inverno, ameaçando o exercito 
sitiador com mil desastres e privações, foram causa 
de que se levantasse o cerco, e o sultão renunciasse 
á sua em preza. 

Foi este o primeiro eclipse da gloria de Solimão. 
Suas armas victoriosas nunca até ali tinham experi- 
mentado revez. Para o encobrir^ ou pelo menos ate- 
nuar, invade a Pérsia, conta os triumphos pelo nu- 
mero das batalhas, e conclue a campanha depois de 
reunir ao império Chirvan e outras províncias d^a- 
quelle reino. 

Em quanto os exércitos de Solimão devastavam a 
Pérsia, as suas esquadras commandadas pelo celebre 
Barba rouxa (Khaír-uddin) assolavam as costas do 
Mediterrâneo, triumphavam das esquadras alliadas 
das potencias christãs, e faziam chegar o terror até 
S. Marcos de Veneza. E ao mesmo tempo o gover- 
nador doEgypto, á frente de numerosas tropas, atra- 
vessava a Arábia, invadia o reino de Aden, e íadis- 
putar-nos na índia a posse de nossas conquistas. 

Finalmente, depois de uma tão longa e tão bri- 
lhante carreira, falleceu Solimão de uma apoplexia 
na sua barraca de campanha, sob os muros de Szi- 
gelh, que estaya escalando. Contava 74 annos de 
idade e 48 de reinado. 

Os seus súbditos deram-lhe o epitheto de legisla'^ 
dor (el-Kanouni), ao qual a historia accrescento^ o 
de grande, E ambos mereceu. O principe que em 
pessoa conduziu á victoria os seus soldados durante 
treze campanhas; que conquistou Belgrado; que ar- 
rebatou aos cavalleiros de S. João de Jerusalém a 
ilha de Rhodes; que subjugou a Geórgia e Chirvan; 
que submetteu a Hungria; que retalhou a Pérsia; 
que zombou do poder dê Carlos V, e dos seus allia- 
dos ; que promulgou um código de leis,, pelas quaes 
ainda hoje se governa aquella nação ; que deu im- 
pulso ás bellas artes, en nobrecendo Constantinopla 
com magnificas construcções ; que protegeu as scien- 
cias, e que deu singulares exemplos de justiça e de 
moderação; o soberano em fim que elevou a tão al- 
to grau de explendor o império do Osman, adqui- 
riu solemnes jus a esses honrosos epithetos. 

Solimão viu abatido a seus pé« o orgulho de todos 
os potentados da terra, que a seu turno sollicitaram 
a álliança ottomana. A França foi a primeira, que 
concluiu com o sultão um tratado de allíança offen- 
siva e defensiva (1). Gluasi todas as outras nações. 



(1) Antes de se efifeituar este tratado, Francisco I 
mandou a Constantinopla um embaixador, portador 
de uma carta, em que pedia ao sultão soccorro con- 
tra o seu poderoso rival, o imperador Carlos V. A 
resposta de Solimão é tão notável pelos títulos, que 
se arroga, que não posso resistir ao desejo de os trans- 
crever : 

Chah Sultão Solimão Khan 
Filho de Selim Khan, sempre victorioso. 



EscJavonia e da Croácia vêem augmentar 



mEu, que sou o sultão dos sultões, o rei dos reis, 
o destribuidor das coroas aos príncipes do mundo, a 
sombra de Deus na terra, o imperador e senhor so- 
berano do mar Branco e do mar Negro, da Rume- 
lia e d^Anatolia, da Caramania, do pais de Roum 
{aliajármenia)^ da província de Zulkadriia, do Diar- 



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o PATf ORAIUA. 



99 



l 



que tanto estranharam este proceder ao monarcfaa 
ue se intitulava cbristianbsimo, viraia-se maistar* 
e obrigadas a seguir o «eu exemplo, posto que os 
seus esforços nem sempre foram coroados de bom êxi- 
to. O czar da Rússia diligenciou debalde obter as 
boaa graças do sultão : ou íos^ por desprezo para com 
este paiz, entSo semi-barbaro, ou por antipathia, tal- 
Yez presentimento das futuras injurias, Solímão não 
quiz tratar com aquelle principe. 

Apesar todavia das eminentes qualidades de Solí- 
mão \ apezar da ordem, economia e firmeza com que 
sustentou as rédeas do governo, e com que debellou 
as revoltas de alguns pacbás na Ásia e dos janisaros 
cm Constantinopla:; apezar do poder eriqueza^ que 
tantas victorias grangearam para a sua pátria, io- 
troduziu-se e lavrou na administração umabíiso, que 
concorreu poderosamente para no seguinte reinado 
se começarem a sentir os primeiros symptomas da 
decadência do império. Consistiu tal abuso na ve- 
nalidade dos empregos e cargos públicos, introduzi- 
da pelo grão-visir Roustan, e arvorada depois como 
sjstema financeiro para acudir ás necessidades do the- 
souro. Também n'este reinado teve principio a in- 
tervenção do harém nos negócios do estado, que tão 
funesta veiu a ser aos sultões e ao paiz. 



(Contínua.) 

I. DB ViLMJBKA Bà&BOSA. 



E o mar levanta-se afflicto 
Corre-lhe o fúnebre grito 
Longe, mais longe a soar. 
£ o raio fulge e rebenta 
£ o despedido bulcão, 
Sobre as azas da tormenta, 
Tinge de fulvo clarão 
A espuma da vaga alçada, 
Gtual de chammas erriçada 
ígnea juba afogueada 
N''um phantastico leão. 



escbiptorbs portuovezbs contbmfobanbos. 

Poetas lybicos da gbraçIo kova. 

Mbhdbs Leal. 

A Fi$ão de Ezechiel^ cujo thema foi o capitulo 
37 das rropfaecíafs, é uma grandiosa pagina de sen- 
timento christao. O sopro lyrico corre-a e anima-a 
da primeira á ultima estrophe. A palavra é cheia 
de poder e suspensão como o espectáculo. E que 
espectáculo l Os ossos unindo-se aos ossos, ca mor- 
tos que se levantam ^ o p6 da dissolução tomando 
forma e côr. Um povo de espectros era volta do ho- 
mem vivo posto em espirito sobre o sepulcro das 
nações para ver o symi)olo da redempção. Como o 
verso pinta o terror da natureza no instante em que 
um prodigio quebra as suas leis, entreabre os sudá- 
rios á terra, e am momento arranca do silencio os 
que já viveram ! 

As harmonias da tremenda scena são os bramidos 
do mar, as tempestades do céu, ovolcão e os relâm- 
pagos : 



békir, do Kurdistau, do Azerbaidjan {Mediaj^ do 
Adjcm {Perda), deCham (Syria), d*Alepo,doEgy- 
pto, de Mekke {Mecca) de Medina, de Jerusalém, 
de todas as regiões da Arábia e do Yeroen, e além 
dUsto de muitas outras províncias, que têem sido 
conquistadas pelo poder victorioso de meus gloriosos 
predecessores, e augustos antepassados (que Deus cer- 
que de luz a manifestação da sua fé), assim como 
também de muitos outros paizes, que minha glorio- 
sa magestade tem submettido ao meu alfange ílamme- 
jante, á minha espada triumphante; eu, filho do 
sultão Seliní, filho do sultão Bajazeto, Chah-SuUão- 
Solimuo*Khan 

a ti Francisco 
que és rei do reino de FVança. 



Começa a visão; como o horror da morte um ins- 
tante imitando a vida, passa pelo espírito do poeta, 
e se retrata na expressão ! 

E o propheta no transporte 
D' um santo e mudo terror^ 
Viu aquelle p<5 da mgrte 
Tomar vulto, forma e côr. 

£ viu um povo de espectros 
Tornar-se um povo real. 
£ ousou calcar temerário 
Em passo convulso e vario, 
O tenebroso sudário 
Doesse império s^ulcral ! 

A formula christã, o dogma da remissão resplan- 
dece logo, quando erguendo a vista para Deus na 
cruz, com os braços abertos ao mundo, e prostrado 
diante da expiação divina, o poeta exclama : 

Duas vidas lhe dá por um só trance, 
£ offr^ece-lhe rompendo o escuro véu 
N'um verbo o mundo, n^um suspiro o céu. 

D^um tegurio fez um templo, 
D^um madeiro um mundo fez! 

Nos cantos heróicos as bellezas não são inferiores. 
Senta ndo-se como os antigos bardos junto da ama 
funerária dos séculos, ou acompanhando de um ge- 
mido sublime a gloria e o infortúnio, a aurora e o 
occaso das grandes scenas de hontem, quando passa 
os dedos pelas cordas, a l^ra estremece, e o canto 
sobe para hão morrer. - O Avé César ! que citamos, 
a Indiana a Vasco da Gama, FlebilUs ille ! ao anni- 
versario da morte do imperador D. Pedro, e a Ne- 
nia fremente ao coronel Cardoso, victima de uma 
sedição militar, estão cheias de toques c de cores, 
que podem competir com o arrebatamento mais ar- 
tificioso de Lebrun, ou com o jambico vingador de 
Chénier. Manzoni, o auctor da ode a Napoleão, não 
duvidaria adoptar algumas das estrophes consagra- 
das á paixão de Carlos Alberto. Victor Hugo, o ar- 
rojado colorista, abriria os braços á musa do meio 
dia repetindo os carmes da segunda lUiada, e sol- 
tando a cada verso as pérolas e os rubis do diadema 
oriental. 

Que* desenho atrevido, que fogo, que rapto na 
grandiosa invocação de Vasco da Gama, o primeiro 
navegador portuguez ! Como a luz se despede das 
azas da estrophe \ como a imagem fulge no esmera- 
do lavor da phrase \ como o poeta sente a acção he- 
róica, e com que voz a pinta \ 



Esse feito audaz, que inflamma 
Foi preciso á nossa fama 
Para commettel-o lím Gama 

£ um Camões para o cant 

^ iigiTizei 



«■^v Google 



100 



o PANORAMA. 



Os doas maiores vultos da epocha, um- entregan- 
do á pátria o sceptro dos mares ; o outro acabando 
de a tornar immortal pela çreaçSo do monumento 
epioo, encontram-se no pensamento lyrico, ambos da 
mesma estatura, ambos eleitos da gloria ? É nobre, 
dis bem o terror da admiração, a hesitação da musa 
quando, mais próxima da figura homéricai a estro- 
phe pergunta suspensa : 

O seu vulto venerando 
Gtuem o pode ir hoje erguer! 
Era Sólon meditando, 
Era Ajax a combater ! 
Não cança o braço possante : 
Ganha um mundo : marcha avante 
E vae depois, como Athiante, 
O mesmo mundo suster. 

À imagem alt<^ia, a inspiração incende-se e pai- 
ra radiosa. A palavra enche -se de luz como o solo 
oriental, theatro das proezas. O estylo desata-se em 
flores admiráveis, como as jóias scintillantes de que 
a vegetação orna os seios formosos da Ásia. A phra- 
se é sublime pela idéa, e sublime pela historia : 

Apesar de salpicado 
Pelo sanguento matiz. 
Traz o saio arregaçado 
Trasbordando de rubis. 



Q/uando a juba sacudia 
O leão Occidental, 
Goa arfava, Adem tremia 
No seu leito de cristal. 

Entre as dobras da bandeira 
Pendente do mastaréii, 
Involta a figura inteira 
Como em novo, régio véu *, 
Os castellos constellados 
Revistas como soldados 
Pela costa perfilados 
Pés no mar, frontes no céu.^ 

E o final, a digna coroa de tão belhi pintura ? 

D^esses oceanos athleta 
Venceste' até no louvor: 
Poude a penna do poeta 
Mais que o ferro do esculptor : 
Em vão porque o Athos dome 
Alexandre se consome : 
Mas Camões gravou teu nome 
Na face do Adamastor ! 

Não citamos mais, o que se viu basta. A correc- 
ção do verso quasi sempre éirreprehcnsivel. Asidcas 
correspondem ao assumpto', a relação da imagem 
com o pensamento, a nervosa concisão da palavra, 
e a propriedade do estj^lo ofi^erecem n 'estas oitavas 
um primor raramente dado em manifestações, que 
o enthusiasmo e o ardor poucas vezes deixam assen- 
tar na perfeição da forma. E possivel indicar algum 
verso menos esmerado, alguma rima mais descuida- 
da \ mas sombras leves não empanam o esplendor da 
obra. São as negligencias, os senões com que o pin- 
cel se esquece de propósito para a uniformidade não 
cançar. 

Ouçamos agora o cântico á catastrophe recente. 
Escutemos a voz plangente do vate, ajoelhado com 
virtuosa dôr aos pés de um tumulo, no qual a co- 
roa partida c a espada solitária ensinam mudamente 



aos homens as vaidades do orgulho. Carlos Alber- 
to, o vencido de Novara, repousa ali. 

Não dobra a fronte suprema ! 
Impondo o pé no diadema, 
Dos estranhos foge á lei, 
E holocausto derradeiro. 
Expia a dór do guerreiro 
Na sepultura do rei ! 

Foi longa aquella agonia, 

Foi curta aquella afflicção 

Desceu rápida n'um dia 

Da cabeça ao coração. 



Pela Itália, Hespanha, e França 
Depois, calado, galgou ^ 
E por momentos descança 
Onde o mundo lhe faltou. 
Chega, observa, scisma e pára : 
O soldado de Novara 
Q.uer ter por leito final, 
Gtuer por leito das batalhas 
Esse berço de muralhas, 
Gtue fez livre Portugal ! 
* \ 

Com que traço firme e lyrico está aooi pintada a 
dór ! Como é bella a analogia do tumulo do rei sol- 
dado com o berço da liberdade ! Os metros variam 
e amoldam-se ao movimento da acção. O poeta faz- 
nos assistir ao conflicto da ultima lucta, á agonia 
heróica da nação e do monarcha. São estrophes ad- 
miráveis como as do famoso coro do Carmagnola de 
Man^oni á guerra civil. 

Ferve o sangue, troveja a batalha; 

Tine o ferro, rebomba o canhão ; 

Pavorosa, sibilla a metralha, 

Varre as filias, dispersa-as no chão. 
Lá galopam, se embebem, se enlaçam 
Uns nos outros rivaes esquadrões ! 
Corpo a corpo ! Ferventes se abraçam 
Em sanguentos, cruéis turbilhões. . . 

D^essa immensa procella de guerra 
Doesse ardente, confuso stridor 
Q/ue ficou ? Uma c'rôa por terra ^ 
Uma bella captiva ', um senhor! 
Pobre Itália, tão bella e tão triste 
No teu vasto florido jardim ! . . . 
Foi-te ingrata a fortuna ! Caíste ! 
Mas a queda d'um povo tem fim ! 
Mudos prantos os rostos consomem 
Dos valentes do Goito. — Gtue adeus ! — 
Era a sombra de um rei, d^um homem 
GLue passava em silencio entre os seus. 
E passava I — Expirar não lograra 
Sob o golpe que em vão procurou ; 
Mas a vida que o céu lhe deixara 
Entre os braços da pátria a deixou ! 

Não serão dignas de luctar com estas de Manzo- 
ni a Napoleão as estrophes que deixámos citadas? 

Oh quante volte ai tácito 
Morir d^lm giorno inerte, 
China ti i rai fulminei 
Le braccí ai sen conserte 
Stete, e dei di che furono 
L^assalse il sovvenir. 
Ei ri penso le móbil i 
Tende c i percossi valli, 

E il lampo «^Igjfff "J^fGOOgle 



o PANORAMA. 



101 



£ londa ^ei cavalli 
E il concitato império 
£ il célere obbedir. 

Cada rnn dot dons poetas, dando alma evoíá mes- 
ma interpretação da dôr, n2o chegou á mais eleva- 
da esphera ? Com qoe terna piedade suspira o canto 
na lyra portuguesa, quando recolhe as lagrimas 
da Tendda Itália ! 6tue doçura e que esperança 
n^etta apostrophe : 

Foi-te ingrata a fortuna, caíste l 
Mas a queda d^um povo tem fim ! 

Como é vivo e onomatopaico o verso £uendo sen- 
tir o fragor das armas, a rapídet do embate, e o es- 
tampido do fogo ! Como a musa curvando-se sobre 
o campo da ultima peleja, é concisa em resumir a 
Incta, diiendo tanto com o coração, e tão pouco com 
os lábios : 

Q.ue ficou t Uma c^rda por terra :; 
Uma bella captiva ; um senhor ! 

(Qmtínúa.) 

L. A. RSBSLLO DA SllVA. 




PADAlO J>B VSDBA 



BUBM. 



£sTK padrão (que o vulgo denomina marco talgado) 
foi erigido no sitio em que estavam as casas do du- 
que de Aveiro, que foram demolidas até o chão, e 
salgado este. Compoe^se de uma columna de vinte 
palmos de altura, assente em um plintho ou pedes- 
tal, no qual se lê a inscripçao do teor seguinte : 



] u Aquí foram as casas arrasadas, e salgadas de Jo- 
sé de Mascarenhas, ezauctorado da honra de duque 
de Aveiro, e outras \ e conderonado por sentença pro^ 
! ferida por a Suprema Junta da Inconfidência em 12 
I de janeiro de 1759 ^ e justiçado como um dos che- 
I fes do bárbaro, e execrando desacato, que na noute 
dft 3 de setembro de 1758 se havia consumado con- 
I tra a pessoa de el-rei N. S. D. Jíoze I : N^este ter- 
I reno não se poderá edificar em tempo algum, n 

Os. pequenos prédios de que se acha cercado este 
j curioso monumentinho facem com que elle não seja 
visto de todos os lados ^ descobri ndo-se por cima de 
I um telhado apenas a parte superior do fogaréu ou 
' chamma, que se figura sair docimo dacolumna/S6 
penetrando em um estreito beco próximo se conse- 
guirá vél-o todo, conhecendo-se então estar tão per- 
to da parede de uma casa, que com muita difficul- 
dade se pode ler a inscripçao. 

Ao principio observou-se escrupulosamente a pro- 
hibição de edificar n^aquelle sitio \ depois foram-sa 
levantando em torno barracas de madeira. Os pro- 
prietários doestas barracas construirá m-lhes interior- 
mente paredes de alvenaria, e deixaram que o tem- 
plo carcomisse e destruísse as taboas do forro exte- 
rior \ de sorte que dentro em poucos annos o que 
eram barracas de madeira appareceram prédios^ pe- 
quenos sim, mas de uma matéria mais solida do que 
aquella. O mesmo nos consta que acontecera em Ma- 
fra, onde também era pr imiti vãmente prohibido edi- 
ficar quaesquer prédios na proximidade do conven- 
to monumental. 

Hoje, que é decorrido quasi um século, que teve 
logar o acontecimento mencionado na inscripçao, 
parece-nos que se deverá levantar oanathema ao po- 
bre terreno, consentindo-se que a camará municipal 
do recente concelho de Belém ali promova novas e 
mais elegantes edificações. Para memoria do atten- 
tado de 1758 julgámos sufficiente o padrão religioso 
isto é, a sumptuosa capella erigida nas terras de Al- 
colena. 



A POHT AMENTOS DB UMA VIAGEM Á ItALIA. 

IV. 

Prosbouimdo com os nossos Apontamentos^ vamos 
continuar até seu termo a nossa noticia de Roma, 

Findou o próximo anterior artigo com a descri- 
pçao da Basílica de S. Pedro no Vaticano, e agora 
começaremos pelo palácio que lhe está contiguo. Da- 
do por Constantino aos papas, o Vaticano foi de no- 
vo levantado por Eugénio III no mexado do século 
12.^ Por o fim do século 15.^ SixtoIV lhe ajuntou 
a capella chamada Sixtina, onde está o grande qua- 
dro afresco de Miguel Angelo, o Juizo final, além 
d^outras pinturas notáveis que a enriquecem. Pau- 
lo III, por meiado do século seguinte, accrescentou- 
Ihe a capella Paulina. Sixto V, em 1588, coUocou 
ahi a bibliotheca, que se tornou a mais celebre da 
Europa, e que sem duvida é uma das repartições 
mais attendiveis do Vaticapo, até pelas preciosi- 
dades e antigualhas que se guardam nos seus 'gabi- 
netes. Sixto V começou um palácio que acabaram 
08 seus successores. E Urbano VIII ahi fex também 
lembrado o seu nome. 

Ao Vaticano, obra de muitos papas, faltn-lhe a 
regularidade que poderia ser filha de um s6 pensa- 
mento, e supposto ser um todo em que tiveram par- 
te os mais babeis architectos, não puderam estes 
vsupprir a íalta de um risco geral, e assim de aecr^i^l^C 



102 



O PANORAMA. 



centaraento cm accrescent amento chegou aos dias de 
hoje tal como o vemos. 

Nem fallaremos da transfiguração^ representada 
pelo celebre Raphael Saniio em um quadro cuja re- 
putação é universal. Nem das Iqjai e quartos de Ra- 
phael cujos frescos se distinguem e avantajam so- 
bre outros mais modernos, até nu firmeza das co- 
res. 

Não descreveremos outros quadros clássicos^ nem as 

tapeçarias preciosas de Globem ; nem as cartas geo- 
graphicas, afresco^ de Fr. í-iourenço Dante*, nem o 
museu de esculpt ura consistente em estatuas, bustos, 
baixo-relevos, inscripçoes, e tantos outros trabalhos 
em pedra, fazendose admirar a delicadeza dos gregos, 
e o engenho dos romanos. E o que nao deveria di- 
zer do grupo formado por Laocoonte e por seusdous 
filhos, exprimindo em perfeito caracter, a dôr e a 
afflicção, que lhe causam, t morsi di due orribilú e 
emisuraii serpente ntandati par Minerva ; trabalho 
dos três excellentes artistas, de que Plínio faí men- 
ção, e "cujos nomeà são Agesandro, Polidoro, e Ate- 
nodoro deRhodes. E como poderia obliterar o A pol* 
lo di Belvedere^ estatua que passa por a mais subli- 
me da arte, e que se encontrou pelo fim do século 
15.^? E como as estatuas dos dous gregos, Pussitipo 
e Melandro? Como o Perseo^ e os dous gladiado- 
res de Canova ? E como os sarcophagos, os vasos 
antigos, e os mosaicos, e os basaltos, e tantas cou- 
sas que faiem único tal museu ? 

Mas demos fim a tão desalinhada descripçSo do Va- 
^ticano, assim chamado por se acliar sobre o campo 
d'este nome, occupando-nos por momentos das duas 
capellas Sixtina e Paulina. 

A primeira, celebre por as ceremonias, queahise 
fazem na semana santa, o é também pelo quadro, a 
fresco, do Juizo final, de que já falíamos. Este qua- 
dro occupa i6áo o fundo da capella, e é quanto bas- 
ta para dar uma idéa do génio do seu auctor. No 
alto do painel vêem-se os anjos, que levam emtrium- 
pho os attributos da paixão i no meio está Jesus-Chris- 
to, tendo á direita os escolhidos, e á esquerda os 
réprobos i mais abaixo estão anjos em grupo, tocan- 
do a temerosa trombeta ; á direita d'estes anjos so- 
bem os justos ao céu, e á esquerda descem os repro- 
vados ao inferno. Por baixo corre um rio, e o ve- 
lho Caronte congrega os homens em sua barca. Ao 
fundo do quadro s«í vêem espectros, fúrias, figuras 
monstruosas, e imaginações do auctor. E apezar da 
mistura du divino com o profano, é tal o trabalho, 
que os entendedores sustentam não se haver produ- 
zido cousa mais bella em similhante género. Nota- 
sse no quadro uma certa desordem, que segundo a 
opinião de alguns, lambem concorre para o succes- 
so cPesta composição. 

A capella Paulina, que GregorioXVI fez restau- 
rar com tanto gosto como magnificência, tem dous 
«^randes quadros de Miguel Angelo a Conversão de 
S. Faulo, e o marlyrio de S, Fedro. Aos setenta c 
cinco annos os pintou, julgando-se terem sido osseus 
bUimos trabalhos. 

A basílica de Santa-Maria-Maior, assim chamada 
por ser n maior templo elevado a Maria, foi funda- 
da por Joiío Patrício Romano e sua mulher, no tem- 
po do papa Liberio, e restaurada por Sixto III, sub- 
stituiu uma pequena igreja erigida em memoria de 
um milagre. 

Ha templos, cujo aspecto severo faz sustentar o ca- 
racter d'nm tribunal supremo-, ha outros cuja ale- 
íçria parece chamar a alma pela misericórdia. Santa- 
Maria-Maior é o templo da Virgem, e a Virgem in- 
tercede, e não julga! 

N'csta basílica tinham os reis dellespanha (e te- 



rão hoje?) o titulo e as prerogativas de primeiros có- 
negos. 

A igreja tem três naves, formadas por trinta e 
seis columnas de mármore branco, d^ordem jónica. 
A nave do meio, a roais elevada, é d' uma riqueza 
e gosto exquisito. Foi dourada no tempo de Alexan- 
dre VI com o primeiro ouro, que Fernando e Isa- 
bel receberam da America. 

O altar pontifical é isolado, como nas outras ba- 
sílicas, e collocado sob um baldaquino que sustentam 
quatro columnas de porpbido, e que assombra perpea- 
dicularmente uma grande urna, que se diz ter ser- 
vido de catafalco ao fundador. 

Perto do altar maior estavam duas magnificas ca- 
pellas : uma fundada por 8ixto V, onde se admira 
o mausoléu doeste papa, formado por quatro colum- 
nas de verde antigo^ sustentando umdocel, sobrepu- 
jado pela estatua de Sixto V. Fronteiro se vê omo- 
numento de Pio V, cuja urna também de verde anti* 
go, é de excellente trabalho. N^esta capella está o 
Santíssimo Sacramento, em magnifico tabernáculo. 
A outra capella, a Borghésianna, guarda os restos 
de Paulo V, da ilíustre família Borghése. Diz-seque 
talvez so este papa restaurasse a capella, porque Cle- 
mente VIII, que morreu antes, ahi se acha soter- 
rado. O altar éd^uma riqueza extraordinária. O fun- 
do do altar é de lapis-lazuli, e debaixo d^uma co- 
roa de diamantes está a Virgem, cuja pintura se at- 
tribue a S. Lucas. Na frente do altar ha um baixo- 
relevo, representando um milagre. Nicolau IV, e 
Clemente IX ahi descançam no somno do tumulo. 
Deve-se fazer menção dos mosaicos, que no 5.^ sé- 
culo foram collocados na igreja sobre o arco que separa 
o choro da nave, pwr ordem de Sixto III". Este pa« 
pa mandou ali pôr a imagem da Santíssima Virgem, 
para dar testemunho da sua qualidade de mãe de 
Deus, depois que o concilio geral de Ephéso con- 
demnou a heresia de Nestorío. Este monumento da 
antiguidade christã tem muito valor,, e tão precio- 
so, que no segundo concilio de Nicéa foi citado co- 
mo uma prova da tradição da Igreja sobre o culto 
das imagens. 

Alguns sábios asseguram, que a igreja de Santa- 
Maria-Maior está sobre a área, que antigamente era 
occupada pelo templo de Juno Lucina, e que das 
ruínas doeste templo procedem as columnas que o de- 
coram. Outros porém combatem esta opinião. 

A basílica de S. Paulo, que é também muito no- 
tável, entre os templos de Roma, foi começada pelo 
grande Theodosio, acabada por seu filho Honório, e 
enrequecida por muitos pontífices e imperadores. Con- 
sumiu-a um incêndio em 1823. Trabalha-se na sua 
reedificação. Destinam-se a ornar o templo quatro 
preciosas columnas com que Mebemet-Ali presenteou 
Gregório XVI. 

Passaremos agora aos mais notáveis monumentos 
do paganismo. 

O Pantheon é onde a antiguidade pagã pode me- 
lhor estudar-se. 

Crê-se oomm um mente que Agrippa, genro d' Au- 
to, o fizera construir, dedicando-o a Júpiter vinga- 
dor, em memoria da batalha d^Actium. A fachada 
é nobre e sumptuosa ; interiormente apresenta a for- 
ma circular d^onde lhe vem o nome de Rotonda. 
Tem cento cincoenta e quatro pés de diâmetro, e 
outro tanto de altura. A luz recebe-a por uma ampla 
clarabóia, ao meio da abobada que cobre o edifieio. 
Bonifácio IV obteve do imperador Phocas a per- 
missão de tornar o Pantheon em igreja, dedicando-o 
em 607 á Santíssima Virgem o a todos os martyres. 
Gregório IV, em 830, consagrou esta igreja a todos 

o* «^"****- Digitized by ^OGglC 



o PANORAMA. 



103 



Descançam no Fanth^n as cinzas de Raphael d^Ur- 
bino. Ate certo tempo ahi se guardou o seu busto, 
e os d^outros homens illustres \ mas Pio VII os mandou 
transferir para uma das salas do palácio dos conser- 
vadores, onde, entre outros, vimos o de Pio VII, 
obra de Canova, o de Galileu, o de Beccaria, e o 
de Manuel Felisberto, duque de Sabóia, e neto de 
el-rei D. Manuel. Ahi se admira também o monu- 
mento erigido a Canova. N^este mesmo ediíicio ti- 
nha fundado Benedicto XIV uma galeria de qua- 
dros comprados ás familías Sacchetti, e Carpi, que 
hoje se franqueia ao publico. 

Oiiianto ao Colysseu ha quem diga, que esta obra 
excedia por sua magnificência as pyramides do Egy- 
pto<, o templo d^Ephiíso e ainda outras maravilhas 
do mundo, era destinado aos combates dos gladia- 
dores, e foi muitas vezes regado pelo sangue chris- 
tão. Flávio Vespasiano, depois da sua volta da guer- 
ra judaica, o fez edificar, e d^aqui nasce o chamar- 
se-lhe também amphitheatro Flávio. Foi edificado no 
anno 72 da era christa, e no penúltimo anno do reina- 
do d'*este imperador, no logar onde estavam os jar- 
dins de Nero, pode- se dizer no meio de Roma an- 
tiga ^ foi terminado em quatro annos, istoé, por Ti- 
to seu filho no ultimo anno do seu reinado. Adria- 
no fez transportar para a praça doeste amphitheatro 
o celebre colosso de Nero, que este imperador ti- 
nha posto no vestíbulo do seu palácio ; porém não foi 
d^aqui que nasceu seu nome, vindolhe antes de suas 
dimensões colossaes. Beda foi o primeiro esçriptor 
que assim lhe chama. Tito ao aca*bal-ò o dedicou. 

A forma do Colysseu é oval, sua circumferencia 
exterior é de doos mil quatrocentos e dezeseis pal- 
mos, e tem de altura duzentos trinta e dous. O 
sitio onde se combatia denominava-se arena^ por a 
quantidade de arêa que ali se deitava para o com- 
modo dos luctadores, tendo a mesma forma que o 
exterior do edifício, e quatrocentos e vinte palmos 
de comprido sobre duzentos sessenta e oito de lar- 
gura e mil e cem de circumferencia. Havia o logar 
destinado ao imperador, sua família, senadores, prín- 
cipes, magistrados, e ás vestaes, a que se chamava 
Po(íto. Os logares de entrada e saída se chamavam 
Vomitórios, Nao acommodava menos de cento e se- 
te mil pessoas. Esta grande fabrica, apesar dos es- 
forços que se têem feito para a sua conservação, acha- 
se comtudo em ruínas, tendo porém ale vantada uma 
parte mui sufficíente para fazer supprir pela imagi- 
nação o que lhe falta na realidade. Assim o diz o 
Itenerario de Vasi, accrescentado por Nibby, quan- 
do, ao faltar do Colysseu, escreve :«(... um bello 
piiiorefco á ifisensibilmenie acquidaio nelle sue rui' 
ne medenme^ che si giunge per fino a non desidera^ 
rue il restauro ; poiendo Pimmaçinazione suppUre a 
cio che manea^ e cosi vedere tutlo iniero il sorpren^ 
dente edifício. 

Hoje faz-se a via-sacra na arena^ e ganfaa-se in- 
dulgência plenária n^uma pequena capella, e é as- 
sim que aquelle logar está santificado. 

Pio V venerava tanto o Colysseu, por ser ahi que 
milhares de christaos sofireram o martyrio, que atra- 
vessando-o uma vez com o embaixador polaco, e pe- 
dindo4he este por essa occasiâo algumas relíquias pa- 
ra o seu paÍE, abaixou-se, recolheu nas mãos uma 
pouca de terra, deitou-a no seu lenço, e disse ao em- 
baixador : Tomae, que nao vos poderei dar cousa mais 
preciosa . 

Nem nos levem a mal que tão complacentemente 
fallemos dos monumentos do paganismo, porque é so- 
bre as ruínas doeste que o christianismo ergue trium- 
phante os seus padrões \ é de sobre a oolumna traja* 
na, d^onde o famoso imperador apregoava outr^ora a 



sua victoria alcançada contra Deeebalo, rei dos da- 
cios, é d^ahi que a estatua de Pedro assombra as ruí- 
nas áo fórum do mesmo Trajano ! 

Os bronzes e os granitos, os arcos de triumpho e as 
columnas rostratas^ os templos e os circos ainda não 
desappareceram, ainda existem depois de uma lucta 
de tantos séculos I 

A Providencia parece ter permittido que resistam 
ás injurias do tempo os vestígios da energia doesse po- 
vo, que soube alargar os seus domínios com o ferro, 
e com o ferro sustentar por tanto tempo um poder 
immenso, que ainda assim é pequeno se o comparar- 
mos com o que, tendo em Roma o seu chefe visível, 
se ha propagado, constante e unicamente pelo esforço 
da palavra, ha dezenove séculos ! 

As circumstancias e o espaço limitado de que dis- 
pomos não nos permíttem dar uma noticia circum- 
stancíada dos estabelecimentos de caridade que exis- 
tem em Roma : limitar nos-hemos por isso a offere- 
cer uma idéa dos mais importantes. 

Merece de certo esta qualificação o monte de pie- 
dade. Deve-se a sua fundação a Barnabé de Terni, 
humilde irmão menor, e tem por fim salvar o pobre 
da tjrrannia e da rapacidade dos usurários. E um es- 
tabelecimei\to mui útil e interessante, que tem sem- 
pre sido patrocinado pelos pontifices romanos, e no- 
meadamente por Leão X, Paulo III, Gregório. XIII 
e Pio VII. Ha poucos aunos tinha em circulação 
1.150:000 francos, e recebia duzentos mil penhores 
por anno ! 

A congregação da Divina Piedade tem por insti- 
tuto soccorrer os desgraçados, que a sua antiga posi- 
ção na sociedade ou outras circumstancias inbíbem 
de mendigar. Foi fundada por João Stanchi de Cas- 
tel Nuovo, e teve por primeiro protector o cardeal 
Carpegna. 

Para os ecclesiasticos indigentes não faltam em Ro- 
ma asilos e soccorros : nem admira isto n^uma socie- 
dade governada pelo primeiro dos padres, e em que 
estes são tão numerosos. 

A confraria de Santa-Maria-Maior tem por obri- 
gação soccorrer as donzellas desvalidas e de honesto 
viver. A archiconfraria da Santíssima Annunciação 
toma a seu cargo também as donzellas pobres. Estas 
confrarias serviram de modelo ás de S. Apolónia, do 
S. Rosário, do S. Redemptor e dalmmaculada Con- 
ceição, todas instituídas com fins eminentemente cha- 
r idosos. 

Ha também em Roma uma associação, que tem 
por fim defender perante os tribunaes os direitos do' 
pobre, assegurando doeste modo o triumpho da jus- 
tiça, sem que a execução doesta fique dependente dos 
meios pecuniários dos indiciados. 

Existem igualmente n^aquella capital diversas con- 
frarias que se dedicam a visitar, soccorrer, consolar 
e instruir os prezes. Finalmente os pobres acham ali 
recursos, os velhos amparo, os orphãos cuidado, as 
donzellas protecção, osprezos allivio, os enfermos re- 
médio. 

Faltando dos estabelecimentos pios nao pode dei- 
xar de se mencionar o hospital di San-Spirito in Sas- 
tia, (que contém umas seis mil camas) o hospital de 
S. Salvador, o da Santa Trindade, que se abre aos 
peregrinos de todas as nações para aproveitarem as 
graças do thesouro da Igreja, e que em 1825 recebeu 
nada menos de duzentos mil peregrinos. £jste hospi- 
tal recebe também os expostos, cuidado devido aln- 
nocencío III, que assim fundou o primeiro estabele- 
cimento d'este género que conheceu a Europa. Tam- 
bém ahi se acha o consef^vatoj-io dos catechumenos, 
onde estes se preparam para a vida ecclesiastica. E 
á nossa estada em Roma tratava-se decrear um hos- t 

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104 



O PANORABLI.. 



pitai de alienados^ com todas as condições que a. scien- 
cia requer. 

Em Roma existem maitos e importantes estabe- 
lecimentos de instrucçSo publica. O collegio roma- 
no confiado á companhia de Jesus por LeSo XII, é o 
roais completo que Roma possue depois da univer- 
sidade. Ali se ensinam gratuitamente as letras e as 
sciencias exceptuando o direito e a medicina. Cur- 
sam ordinariamente o collegio romano uns dous 
mil estudantes; e n^elle se confere aos habilitados 
o grau de doutor em theologia e philosophia. 

Na Sapiência^ ou universidade, o ensino 4 exer- 
cido por professores ecclesiasticos ou seculares ', é ura 
estabelecimento de primeira ordem. 

Além doestes ha outros, secundários, onde mestres 
escolhidos ensinam os elementos das bellas letras. 
Para os pobres ha muitas escolas de instrucçSo pri- 
maria, onde podem mandar seus filhos. 

Devemos também fazer especial menção das da- 
mas du Sacré-Coeur^ congregação estabelecida na 
Trinitá'del'Monie^ situada no monte jPrncto, e que 
te emprega dísveladamente na educação das meni- 
nas. .Esta instituição parisiense foi introduzida em 
Roma pelo cardeal Lambruschini com approvaçao 
de Leão XII. Tem três casas em Roma : a primei- 
ra é a de que falíamos, e em um convento antigo ; 
a segunda é a de Santa Rufina em Transteveri, on- 
de se educam as meninas pobres ; e a terceira é a casa 
do noviciado na f^illa Santa. A esta congregação 
respeitável pertencem senhoras da mais alta gerar- 
chia. 

Cremos que muitas vantagens tiraria o nosso Por- 
tugal se ao menos nas suas primeiras cidades, Lis- 
boa e Porto, recebesse esta instituição. Muito mais 
poderíamos dizer da cidade eterna e dos seus esta- 
belecimentos pios se nos propozessemos fazer un;a 
descripção minuciosa ; nem nos esqueceríamos de fal- 
lar da nova Roma, onde se notam a bellissima pra- 
ça dei Fopulo e a comprida e formosa rua do Cbrso. 

Mas emfim se pouco dizemos, também as nossas 
promessas não foram grandes. 

Poremos remate a este artigo, affirmando com a 

mais perfeita convicção que Roma, é sustentada pela 

religião, pela historia e pelas artes, ou para melhor 

dizer, Roma é sustentada sdmente pela religião, pois 

«os papas se deve a conservação dos seus admiráveis 

monumentos. >.^ ^. -. . 

fConimua,) 

D. AivTovio ns Almxida. 



VIAGEM AO MINHO. 



CAPITULO T. 



O aucior pede Jfscti/jpa de $e Ur demorado ianlo a 
contínuaçao d^eiia tnieretsanie viagem. Depois de 
se haver justificado para com o leitor ^ proseguefi- 
nalmenie na descripção de tudo que viu na sua ex- 
tensa perigrinaçao (1). 

As vazKs ponho-me a meditar sobre oi muitos de- 
feitos de que me dotou a natureza, e concluo sem- 
pre de mim para mim, que sou um homem incor- 
rigível. Ora entre todos esses defeitos, ha dous que 
estremamente me penalizam. Eu creio mesmo, que, 
sem os offender, se lhe podem chamar más qualida- 
des. O que porém é bastante singular, é que estas 
duas más qualidades, de que me accusa a conscien- 
ciat s3o inteiramente oppostas uma á ^outra. A pri- 



meira, de que faço confissão publica ao leitor, é uma 
preguiça monstruosa, que se apodera de mim duran- 
te muitos dias^ ou muitos mezes, impossibilitando* 
me de escrever uma única linha dVstas minhas in- 
teressantes viagens. E a segunda, apeior, a mais de- 
testável, e talvez a mais detestada, das minhas ruins 
qualidades, é a mania perniciosa de fazer litteratu- 
ra. Tenho jurado moitas vezes^ quando predomina 
a preguiça, de me consagrar todo a uma vida pací- 
fica, no meio dos algarismos, que são o melhor an- 
tídoto para curar de poeta ,* mas vem depois o dra- 
ma, o romance, o poema e todas essas fontes puras 
de finíssimo veneno que se não prohibe, e que opera 
infiltrando-se no espirito ; e eu bebo a longos tra-i 
gos toda a seiva necessária para alimentar a mania 
que me apoquenta. Então o primeiro deleito desap' 
parece, e o segundo domina cegamente. Faço como 
os chins, que fumam o seu amphyão com delicias, 
até se tornarem côr de pergaminho, e morrerem sob 
a influencia do veneno que saboreara •, com a diíFe* 
rença, de que em mim não succede a morte ao pe- 
ríodo litterario^ mas sim um ócio muito maisdelei- 
tavel do que todo o ópio com que se embriagam os 
súbditos do filho do sol. 

Tenho estado pois debaixo da maligna influencia 
do meu primeiro defeito vae para dous mezes, sem 
que o leitor benévolo me possa condemoar, pois bem 
vê que a culpa não é minha. £ aqui para nds, pa- 
rece-'me que o leitor não perdeu nada com esta in- 
terrupção da minha longa viagem, porque teve bas- 
tante tempo de reflectir, se lhe será ou não conve- 
niente continuar a ler até ao fim. Affianço-lhe po- 
rém, que tenho gravíssimos acontecimentos para lhe 
relatar, e revelações tão importantes, que de oerto 
se ha de arrepender, não passando comigo ao capita- 
lo seguinte. 

(ConUnua.) 

F. GoMBS D^ Amorim. 



(1} Continuado de pag. 417 do lO.o volume. 



MORTALIDADB BA RAÇA HUMAKA. 

Por uma estatística recente prova-se que, sobre 
mil indivíduos, morrem, termo médio, quinhentos 
de um a dezenove annos de idade -, cem, de deseno- 
ve a trinta e sete *, cem, de trinta e sete a cincoen- 
ta e um -^ cem, de cincoenta e um a sessenta e dous ; 
cento e quarenta e quatro, de sessenta e dous a se- 
tenta e dous; cincoenta e um de setenta e dous a 
setenta e nove ; vinte e cinco^ de setenta e nove a 
oitenta e quatro ; dezeseis, de oitenta e quatro a 
noventa ; finalmente oito de noventa a noventa e 
seis. f 

O celebre medico e naturalista Ilaller organisou 
em 1777 um quadro estatístico dos casos mais ex- 
traordinários de longevidade humana ; n^esse qua- 
dro vê-se que mil indivíduos viveram de cem acen- 
to e dez annos \ sessenta de cento e dez a cento e 
vinte ; vinte e quatro de cento e vinte a Cento e 
trinta ; quinze de cento e trinta a cento e quaren- 
ta \ seis de cento e quarenta a cento e cincoenta ; 
e um finalmente que alcançou a idade cento e ses- 
senta e nove annos. 



O excellente romance Conde Sobskano db 
Castblla, interrompido infelizmente por doen- 
ça do seu illuslre auctor, ha de proseguir nos 
seguintes números. 

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14 



O PASrORAUIA. 



105 




PAIAOXOS DO OASAIi OBAVDS 



O viajautk, que por ventara nSo podeaae demorar- 
te em Veneta roais de duas horas, deveria dedicar a 
primeira á praça de S. Marcos, basílica, • palácio du- 
cal, e a segunda ao cana] grande e palácios adjacen- 
tes. Este pouco tempo assim empregado lhe deixa- 
ria a alma penetrada de tantas imagens maravi- 
lhosas que a sua memoria ficaria poetisada no res- 
tante da vida. Parece um sonho extático o passeio 
em gôndola ao longo do canal grande desde a esplen- 
dida igreja de Santa Maria da Saúde, erecta pela 
republica em cumprimento de um voto finda a pes- 
te de 1630, até a igreja de S. Simão e S. Judas. N 'es- 
te espaço que andará por três kilometros temos da 
direita e da esquerda dous renques de edificios todos 
quasi contiguos, que se estivessem separados e dis- 
persos bastariam para ornamento de um reino intei- 
ro. Toda a extensão do canal mede 3:750 metros: 
a architectura árabe ou sarracena e a da renascença 
ahi ostentam profusamente os seus mais ricos e va- 
riados desenhos. 

A nossa gravura ofierece um t^ypo famoso do pri- 
meiro doestes estylos que excita principalmente a 
curiosidade do viajante europeu \ e é talves o que 
perdeu menos na decadência de Veneza. E o palácio 
Pisani construido no começo do 15.^ século, tendo 

Voi. III.-.3.«SiKi». 



ao pé o palácio Barbarigo, cujo frontispício deita pa- 
ra uma rua lateral \ nMle se conserva o quadro de 
Paulo Veronese que representa, a familia de Dário 
prostrada perante Alexandre. E um edifício tão bem 
ornado, e tão magnifico por sua composição, que é 
dificil imaginar todo o esplendor e enlevo que ás suas 
nobres e elegantes fachadas accrescentavan\ o ouro, 
as pinturas, os tapetes asiáticos, as flores, os trajos 
luzidos, o fausto dos senadores, as vozes, cantos e ins- 
trumentos, o movimento, a vida. 

Defronte doestes monumentos, certos viajantes sú 
descortinam as injurias do tempo; reparam logo nos 
tectos estragados, nas fendas das paredes, nos degraus 
de mármore partidos ou deslocados :, aqui as janellas 
e varandas tapadas com tábuas, e onde outrora pen- 
diam cortinados de purpura e seda, lhes revelam mi- 
séria e abandono; além um cartaz lhes aqnuncia que 
o antigo palácio de um almirante, de um senador, 
de um doge, está convertido em casa de aluguer mo- 
bilada. Com tal espectáculo é natural que os que 
vêem tudo tó pelos olhos corpóreos se sintam tristes 
e desilludidos ; acharam-se enganados e voltam-se 
com indignação contra os poetas, os pintores, oís guias. 

Para esta classe de viajantes a vasta frontaria qua- 
drangular de uma hospedaria suissa ou americana, 



loe 



o PAIfOBAMA. 



rebocada de freaoo^ e de lustrosas vidraças, tem de 
certo um aspecto mais agradarei e jucundo, está mui- 
to mais em harmonia com o pensamento das com- 
modidades e com a idéa da abastança ,* e na verda- 
de é uma construcçao com o seu merecimento rela- 
tivo, pois que perfeitamente corresponde ao seu des- 
tino. Mas, quem quízer ser justo ha de reconhecer 
também que os vetustos palácios do canal grande, 
na sua ancian idade e silencio, evocam melhor as re- 
cordações da sua passada gloria, a arte de quem os 
construiu, a grandeza de quem os habitou, do que 
se transformações recentes os amoldassem ao uso da 
opulência moderna. 



O CONDE SOBERANO DE CASTELLA, 
Febnao Gonçalves. 



SÉCULO X. 



IX. 

Em quanto o califa delibera, vamos conduzir o lei- 
tor á presença de um personagem, que até agora 
lhe occultámos. 

Silencio. 

Atastado um pouco do campo militar erguia-se so- 
bre' collina de verdura um pavilhão magnifico de 
seda, branco e franjado de ouro. Rodeava m-uo 
/Ura basto circulo de lanças, plantadas na terra, e 
uma guarda dccavalleiros negros da Africa, cujo ri- 
co uniforme fazia contraste á sua horrenda fealdade. 
De dentro das lanças, e correspondendo a ellas de- 
senh^va-se outra circumferencia bordada de cy pres- 
tes e plátanos, cujos troncos naturaes se vestiam de 
ramagem e folhas, que a arte imitara com perfeita 
illusao. dos olhos. N^uma espécie de átrio interior 
viam-se elegantes vasos mouriscos de flores. Mais 
adiante deparavam-se grutas musgosas, estatuetas de 
alabastro^ lagosinhos arleficiaes, onde nadavam cis- 
nes mudos. Graciosas fontes portáteis de prata, ser- 
vidas de um reservatório copioso, jorravam ali pe- 
rennemente as suas aguas em repnxos com varieda- 
de de figuras, cahindorecruzetadas ora sobre tanques 
também de prata, ora sobre a relva. Postado aoves- 
tibulo do pavelhSo, como para defender-lhe a entra- 
da estava um leão de mármore, deestatura ecór na- 
tural. A imitação tirada ao vivo, a soberba, e a ca- 
tadura terrível do animal eram realçadas por duas 
torrentes de luz, que despedia dos olhos. Salvas as 
dimensões, e a matéria da fabrica, fazia lembrar o 
leão colosso, de Córdova, que o califa reinante man- 
dara assentar no reservatório de aguas do palácio An- 
naMrah, situado na parle occidental da cidade. So- 
bre o arco, coberto de myrtos e rosas, por onde se 
penetrava no interior d'aquelle aposento velado, le- 
vantava-se um vulto de jaspe, onde o cinr.el do ar- 
tista tinha esmerado as formas mais perfeitas de 
mulher. Penteada ao estjrlo encantador das estatuas 
antigas da Grécia, estava com o índice sobre os lá- 
bios parecendo dizer : silencio ! 

O silencio parecia com effeito ser a palavra de pas- 
se n^aquelle sitio demysterios. Os cavalleiros negros 
da guarda exterior nao-conversavam senão em segre- 
do, e os próprios* officiaes davam as ordens em voz 
submissa* Sentinellas avançadas prohibiam mesmo 
toda a approximaçSo áquelle logar sagrado. O ins- 



tineto até as aves afugentava de um arvoredo men- 
tiroso, ena que s6 os troncos eram naturaes. Os mes- 
mos cavallos da guarda resfolegavam menos do que 
é costume. Apenas se ouviam ali o cicio da viração 
nas folhas, o murmúrio suave das fontes, e o rumor 
afastado do acampamento. A agua,, a verdura, as 
flores, o ponto de vista picturesco, os horisontes vas- 
tos, o sitio exposto aos quatro ventos do céu, diziam 
a paixão eterna, as afinidades intimas da raça mos- 
selemana com a natureza exterior, as mesmas afini- 
dades que se desenhavam no alcácer de Córdova, e 
nas moradas regias e de recreio daRissafa, as mesmas 
que se descobriam nas villas e casas de campo do califa 
mais admiradas por magnificência de estructura, ou 
magia de situação, n^essas habitações voluptuarias, 
cujos nomes eram em quasi todas o symbolo do senti- 
mento que as fundara, no palácio do confluente, no 
palácio dojardim, no palácio das flores, no palácio dos 
amantes, no palácio dos afortunados, no palácio do 
contentamento, no palácio do diadema, e no palácio 
das novidades. 

N'aquelle sitio estava o harém. 
Harém em miniatura, que se compunha de apenas 
300 pessoas de ambos os sexos, contendo ovigessimo 
do grande harém de Córdova que contava 6000 in- 
divíduos, uns destinados aos momentos mais suaves 
de Abd-el-Rhaman, outros que vigiavam, outrosque 
serviam as esposas ou as servas do califa. Tepdo fi- 
cado na sede do império o maior numero das oda- 
liscas, escravas, e pessoal do serviço do vasto gyne- 
ceu do emir, áquelle pequeno destacamento do gran- 
de exercito dos prazeres não faltavam quanto fausto 
e esplendor, eram compatíveis com os embaraços de 
uma longa jornada, e de um campo militar. Cerca- 
vam a sultana valida as mesmas honras, commodos, 
e pompas, as mesmas adorações,' senão maiores, que 
na capita] do califado 

Era hora do banho. Nos repartimentos do' pave- 
Ihão apropriados para elle tinha o pintor fingido na 
tela os azulejos, que vestiam as paredes dos banhos 
de Córdova, e ainda hoje as forram em quasi todo 
o Oriente. Espiravam nWes aposentos o aloés, a 
mirrha, a cinaraona, o nardo dePalmyra, a essência 
de roSas agradavelmente temperados, e o olfato não 
differençava este aroma do que esparzia áquelle ma- . 
nuscripto árabe, que o leitor viu na sala de armas 
do conde de Castella. No primeiro quarto estava uma 
vasta banheira portátil de alabastro encaixada em 
cedro com entalhe» de ouro, quesustinham seis leões 
de mármore veiado, em cujas garras prendiam as ro- 
das doeste utensílio. A' banheira sobrepunha -se uma 
armação de setim do candor da pérola com folhagens 
e lavores de prata. Sobre as cortinas da armação 
abriam-se fendas em forma de estrellas com matiz ex- 
terior de azul celeste e prata, ministrando a meia luz 
do amanhecer. Eram similhanças d^e!>sas aberturas, 
que o artista rasgou na abobada das casas de banhos, 
ainda hoje existentes nos poços da Alhambra. 

Azzarath está reclinada nos coxins mórbidos do 
aposento. Desnuda-a do veu transparente que se- 
meiam estrellas tremulas de ouro e robíns uma es- 
crava andaluz. Destouca-lhe a coifa moirísca e o aj- 
rao de ouro e saphiras uma joyen donzella da Sy- 
ria, cujas longas tranças se entreteciam de flores de 
laranjeira, de rosas, e dos lilazes da Pérsia, cujos 
artelhos nus se cingiam do braceletes de prata, e cu- 
jas vestes com a pompa do oriente molduravam uma 
d'essas bellezas serenas e ideaes, de que se afama ain- 
da hoje a pátria de Semiramís. Desata-lhe as tran- 
ças perfumadas uma escrava arménia, cujo punho es- 
belto avantajavam enormes cadeias de ouro. Descer- 
ra-lhe da fronte a faixa de pérolas uma airosa filha 
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o PAKORABiA. 



lor 



da cidade de Constantino. DeBcinge-lfae o eollar de i 
brilhantes uma donxella nascida em Jaen. Desabro- 
xa-lhe os braceletes uma insulana deCadix. Descai* 
ça-lhe as alparcas de seda uma africana do Atlas. 

Uma a uma, e curvando-se, sabem as escravas do 
aposento. Ficam sós com a sultana Noiratedia, sua 
privada, Fátima, a quasi rival em formosura da for- 
mosa entre as formosas, e Tharub. 

Assara th tira ella mesmo lentamente os anéis dos 
dedos. Noiratedia desfranse-lhe a capa mourisca, e 
desda-lhe as outras vestes, que cabem, ficando agre- 
, ga adorável velada somente pela camisa de ranzalfi- 
nissimo, e puro e branco como a flor do lyrio. Co- 
bre então o seio com as mãos de neve. Collo e seio 
se lhe afogueiam no vivo carmim do pejo. Nunca a 
Praxiteles em seus sonhos de artista se lhe revelou 
appariçao tao formosa. Nunca aos grandes estatuá- 
rios da Grécia as filhas de Eleusis e Megara offere- 
ceram tão acabado modelo para desentranharem dos 
mármores de Paros as suas obras immortaes. E se a 
Yenus padica dos antigos ao sacerdote, que a coroa- 
va de myrto na véspera das suas festas, inspirava de- 
lírios de amor, aos encantos de Azzarath animada da 
aura da vida quem resistiria ? As três mulheres vol- 
tam-se para não profanarem com a vista o que s6 po- 
dem ver os olhos do sublime califa, e a sultana en- 
tra no banho 



• Pouco depois Azsarath saindo do banho, tomava 
a harpa. Mas os dedos corriam machinalmente pe- 
las cordas, porque o pensamento estava absorvido no 
conde de Castella. 

O WAI.I. 



traça, capeam-toos com bandeiras, esgrimem-lhes es* 
padas, tangem*lhes tambores : q3o podem. em ai vin- 
gar-se os soldados do conde. 

Os pinhaes, e as florestas, ás aldeias, e os castel- 
loa desapparecem como illusões fantásticas aos olhoa 
dos cavalleiroa infiéis. Os rafeiros, que lhes ladram, 
ficam n^um relance de olhos a grande distancia, • 
o ecco de seus ladridoa soa longínquo, e pèrde-se no 
espaço. 

Rota batida pela planície, já os árabes avistam 
a retaguarda da hoste do conde, auera é o wali, 
que capitatiea a escolta monelemana ! Era tempo de 
romper-se este segredo, mas continua a encobril-o 
uma j/iseira de aço pulido. 

Já o wali refrea a sua carreira fervida. Já avis- 
te a bandeira quadrada de Castella. Já lhe divisa, 
ondeando em cada uma das quatro pontas, os dous 
leões e os dous castellos. Já os cavalleiros da saga 
castelhana sé voltam ao ouvir a estrupida nas suas 
costas. Os árabes aprumam então as lanças, e giram 
com 08 cavallos a meia rédea de uma a outra parte 
para significarem, que vem em som de pas. Chia- 
dos á falia, e entendido que o wali desejava confe* 
renciar a s^s com Fernão Gonçalves, fes alto a es- 
colta a breve distai^cia da hoste. Afastaram-se cada 
um do seu bando uns 200 passos o conde e o che- 
fe árabe. Entraram ambos n^um abrigo, cujas ar* 
vores copadas os recatavam á curiosidade. Uma soin- 
bfa protectora temperava ali os ardores do signo de 
agosto, e o leve sussurro das folhas embaladas pelo 
vento mais persuadia ao repouso da meditação do 
que interrompia a solem nidade da conferencia. 

Mas antes de assistirmos á conferencia dos dous 
personagens, vejamos o que oocorria em Burgos de- 
pois do roubo do annel. 



O tMíB. annunciou aos cabos de guerra que o rodea- 
vam esta retirada dos almogaures. Esperavam osge- 
neraes que elle mandasse abaixar ao encontro do con- 
de uma parte da almofalla. E que ignoravam, que 
o óculo, de que o califa estava armado, correndo p«f- 
lo horisonte, lhe trouxera outras novas, que elle quis 
occultar aos seus tenentes -^ novas, que despertavam 
no animo do califa uma serie de idéas, impressões, 
e aíTectos, a que s^ elle, de quantos guerreiros ali se 
achavam, podia ser accessivel. Grande foi, portanto, 
o pasmo doscircumstantes, quando Abd-el-Rhaman, 
sem expedir nenhumas tropas contra o inimigo que 
avançava, chamou de parte um dos walis que mais 
próximos estavam, conversou com elle alguns minu- 
tos*, e o wali, sem mais detença, partiu com uma 
pequena escolta na mesma direcção donde vinham 
os almogaures fugitivos. 

Pela campina de Lerma vae galopando o wali com 
o seu diminuto destacamento em ginetes, que di- 
ríeis alados. Assopram de continuo, porque o norte 
lhes peja as ventas^ mansos como pombos, parcos co- 
mo eremitas, mas na carreira são mais que gamos. 
Corredores da mais nobre linhagem arábia, quasi 
todos elles são filhos da comarca de Lasah na Deser- 
ta, onde nascem as melhores raças. Nobilíssimo en- 
tre os de mais, o do wali descende em linha recta 
do famoso corcel Al-Aawadj. 

Cortando o ar com o peito, como um vapor cor- 
ta as ondas oom a proa, o espaço é devorado por el- 
les. Fluctuam ao vento bandeirolas e albornozes. Fre- 
cbas e pedras, que dos logares fortificados são arre» 
messadas sobre os cavalleiros, caem sempre muitos 
passos á retaguarda d^esses velocipedes, cuja carrei- 
ra de águias não calculam do alto das ameias os fre- 
cheiros castelhanos ao encarar os arcos, ou os fun- 
dibuldrios ao^despedir as Tundas. Mas dão-lhes ma- 



A BXSOLUÇXO. 

nHontem era rei de Hespanha, 
u Hoje nem de pobre alfos ; 
u Hontem torres e castellos 
M Juravam por minha vos. 
w Criados eu tinha hontem, 
t* Gente de serviço tinha ^ 
u Hoje não tenho uma tenda, 
u Q^ue possa dizer : é minha ! 
M Triste foi, bem triste a estrella, 
uE o dia bem desditoso, 
u Em que nasci, em que herdei 
M Senhorio tão poderoso, 
« Pois tinha de perder tudo 
u N^um combate desastroso l 
u O^ morte, se por piedade 
u Tu me levaras n^est^hora 
tf A triste alma desolada, 
M Qtuão doce o morrer me fora ! n 

Cantava Argemyro este romance melancólico do 
rei Rodrigo. Ajustava com a alma do pagem a 
poesia cheia de tristeza. Da situação da Hespanha 
gothica depois da batalha do Chrysses não desseme» 
Ihava inteiramente a situação de Castella ji^aquel- 
la crise. E ora no romance, ora n^estas palavras re- 
sumia o mancebo a sua dor profunda : u As esporas 
de escudeiro perdeste-as, pobre pagem, e ainda an- 
tes de as ganhares ! » E as suas noutes veladas eram 
mais amargas do. que os dias do inconsolável Arge- 
myro. 

Aquella nympha despeitorada, que par^ elle se 
não cobria com o véu do recato, aquella flor, que 
se abria toda para a.borboleta dos seus amores, Pa- 
q«iU, tod. pranto. • de.n.«oj.. áj^o^^^iyç^^^ 



108 



O PANORAMA. 



catastrophe do pagem, ia já deitando um terço do 
olho em soilaio a Orbita Fernandes, 09J0 galanteio 
pertinaz, até ali sempre desdenhado,* nunca ella o 
denunciara ao seu antigo, agora emérito, amante. 
Não era ainda um afago, nao era um ftm ,* mas um : 
u Veremos » m Talves w « P^e ser w que se promet- 
tia ao novo pertendente u^um certo olhar de mulher, 
isso era-ojá. Passava um desdém fugitivo pelos lábios 
da loirei ra, quando se falia va no valor do pagem. 
Idas se na conversação com as suas Jovens amigas 
por acaso figurava o nome de Orbita . . . w porque 
Orbita fei . . . porque aconteceu . . . porque Orbita 
é . . , e um moço interessante ...no ouvido da in- 
grata não era Já de mármore. £ram punhae» para 
Argemyro, que o sabia. 

Ruy-Flaino, o recebedor de districto^ esse encru- 
zava as mãos, e volteava os poUegares. £ dobava, e 
desdobava a meada dos seus pensamentos, deitando 
contas á* sua vida. Ao cabo de todo o seu esforço 
arithmetico-poHtico apparecia-lhe sempre um j^, e 
um exercito musulmano. Com isto sentia uma in- 
fernal constricçâo nas entranhas metallícas de agiota, 
o recebedor Ruy Flaino. Aquelle momento, em que 
lhe pareceu poderia ser substituído por umcollector 
árabe na tarefa paternal de escorchador das bolças 
do próximo, n^esse perdeu toda a elasticidade dos 
seus meneios, e toda a poesia das suas meditaçõe». 
— u Náo entendo . . . pois eu puxo bem as barbas 
á roca ; e ainda me não sinto lá muito balda de for- 
ças, mercê de Deus ! n E admirava-se de fiar todoa 
os dias boa meia quarta de linho de menos, todos 
os dias desde o roubo do annel, e a approximação 
dos árabes ', admirava se dMsto a pobre velha daVe- 
jarrua! Tinha esquecimentos mais que de costume : 
perdera o uso da lanceta : cabiam-lhe a miúdo as 
cousas das mãos ^ na mesma semana quebrou um pú- 
caro, duas escudellas, e um cangirão de barro, a 
maior perda de loiça, que desde nraitos annos lhe 
acoâtecera. O órgão da avareza tinba-o porém mais 
alerta do que nunca. «Dinheiro é sangue, n Os tem- 
pos vão esquivos. «Não o ha, não o ha. >« Uma pes- 
soa não p6de contar com o dia d^amanhã : « elí- 
minava-os assim, muito sem ceremonia^ aos fregue- 
ses habituaes da sua burra a tia Josefa, em cuja al- 
ma faziam uma excellente liga um terço de amor 
á sua terra com dous terços de afiecto ao seu ouro. 
Para Suejro Gaindis não havia mãos amedircoro 
uma safra de testamentos, que de memoria de ho- 
mens ninguém se lembrava de a ter nunca havido 
tamanha, como n^aquella conjunctura de desastres, 
perigos immínentes, e terrores da vida eterna, ter- 
rores que nas almas incutia a invasão estrangeira, 
que se appropinquava. Dia e noute lavrara o notá- 
rio actas de ultima vontade. Impavam de soldos a 
sua arca, e de gloria a tia Anastácia, sua fiel com- 
panheira. Mas a Sueyro Gaindiz doiam-lhe no co- 
ração as desgraças do condado, e de vez em quando 
exclamava elle com o poeta, ainda que um tanto 
prematuramente : 

«Fuimus Troes, fuitlllium, et ingens gloria Teu- 
crorum. Nunc saevus omnia Júpiter in Argostrans- 
tulit. » 

A multidão de peccadores buscando reconciliar-se 
aos pés du confessionário, a frequência de offertas 
propiciatórias aos altares e nichos dos santos, roma- 
rias de penitentes a S. Pedro de Arlança, preces pu- 
blicas, orações, jejuns, mortificações e disciplinas con- 
ventuaes exprimiam a anciedade das almas, e era 
um espectáculo^ que fazia dissonância ao ar de sa- 
tisfação, á alegria, mal reprimida, dos escravos nKMi* 
ros e judeus do burgo e visinhanças 



tanio. Uma tarde veio frei Pedro, todo pallido e 
aasastado, contar ao conde que as campainhas pen- 
dentes do altar de S. Millan tinham tangido per ti 
mesmas, annancio certo de grande desastre. Outra 
vez era Fruelindo, um mancebo doudo e dizidor, cu- 
ja loucura mansa e sempre jovial, e cujas historias 
divertiam «muito a gente miúda do burgo, que de 
repente se tornara sorumbático. De dia sumia-se, e 
de noute ouvia-se-lhe a vos fresca e argentina, cantan- 
do melancolicamente as preces dos mortos. 

Muitas pessoas devotas attribuiam os perigos pre- 
sentes ao não cumprimento dos votos de S. Millan , 
e referiam asvillas e povoações, que estavam em di- 
vida ao santo de vinho, cevada, grãos, queijos, car- 
neiros, soldos, alnas de sayal e lenço, jnlgando-as 
refeces e excommungadas, que por culpa d^eUas, e 
em castigo de sua irreverência com o bemaventura- 
do servo de Deus pagava toda a província. 

O episodio da fugida do judeu era muito commen* 
tado. Dos grupos do popular sahiam amuráveis ac- 
cusações a Fernão Gonçalves, e entre os altos ho- 
mens do condado soltavam-se meias palavras com as 
reticencias e reservas do estylo sobre a imprudência 
de S. Honra. 

(ConUnáa»}^ 

AnTOIflO DK Ol,lVKIBA MaBBSCA. 




Appareciam também signaes temerosos de infot- coMÍderal-a como um ti 



A ViaOBU llOft DBUISAft. 

Por este nome era designada, segundo uma tradt^ 
ção extravagante emui antiga, a esculptura que Tae 
aqui representada, e que não passava de uma obra 
da arte imperfeita da idade media. Conservava-«e 
na Sé de Chartres, e a crença publica porfiava em 



antigos habitan- 



o T^ÁNOÍLAMA. 



109 



tes das Crallias, qQ« provaTelmente nonca fiíeram 
lavores de estatuária. O que mais admira é qne et* 
sa lenda vdgar fosse aactorisada pela penna de et- 
criptores graves, que nio duvidaram propalar a este 
respeito uma serie de destem peros : alguns, ha que 
nSo se envergonharam de escrever que os ministros 
do paganismo n^esta regiSo inculta , três ou quatro 
séculos antes do nascimento da Virgem Mae de Deus, 
tinham levantado altar e estatua virgitu pariturtBy 
nas grutas onde faxiam seus sacrificios, e onde d^abi 
a muito tempo os christãos acharam abrigo e refu- 
gio. A credulidade popular assim mantida attraía 
a igreja monumental de Chartres grandes romarias ; 
acreditavam-se os milagres e penduravam-se pelas pa- 
redes documentos das promessas que obtiveram de- 
ferimento. A imagem foi queimada por ocasi3o da 
tormenta revolucionaria de 179â \ tinha de altura 
quasi quatro palmos, era de cór escura como ainda 
apparecem algumas mui antigas, feita de pau de pe< 
reira, symbolo da fecundidade, e de um lavor tão 
singelo que, segundo a expressio do padre Etienne, 
pare<;ia obra afeiçoada com um podSo. No inventa- 
rio dos haveres da igreja de Chartres, formado em 
1726, ha uma descripção doesta imagem, e ahi se 
diz que infundia respeito, e que até a coroa guar- 
necida de folhas de carvalho, a cadeira e de mais 
accessorios denotavam tempos remotos. 



ESCBIPTORES PORTUGUXZSS CONTXttPORAiriOS. 

Postas ltricos da geraçXo vorA. 

Mbkdes Lbal. 

A MOBRX figura do rei vencido, sombra de si mes- 
mo, passando em silencio por entre os seus ; e os 
Srantos consumindo o rosto aos valentes, são jóias 
e estjlo que nao acodem senão ás grandes inspira- 
ções. São rasgos que os antigos comparavam em Fin- 
daro ao raio fendendo a nuvem, e que o poeta lati- 
no explica pelo espirito divino accendendo a excita^ 
çSo na alma do cantor : 

"Est Deus in nobis, agitante callescimus illo :; 
Impetus hic sacrte semina mentis habet. 

Falta-nos es[5aço para seguir a analyse com a mes- 
ma extensão. Na poesia á morte do imperador D. 
Pedro, as duas primeiras estrophes abrem á saudade 
e á magua um pórtico digno^ do heroe moderno. São 
as honras da guerra, e as lagrimas dos companbei 



ros da sua i Ilíada, que o poeta lhe offerece. 
to é magestoso e severo. 



O effei- 



Armas em funeral ! Rolae tambores ! 

Rufae lugubremente*! 
Soltae da guerra, 6 bronzes troadores, 

O gemido fremente ! 
Dos olhos dos valentes do Mindello 

Corre o pranto cakdo ! 
Guerreiros não coreis : o pranto é bello 

Nas fac^a de um soldado ! 

E concisa e profunda igualmente a apreciação 
philosophica do principe guerreiro. Poucos traço» 
pintam tudo. 

Igual na torte, ao vencedor do Egjptc^ 
Caíste muito cedo ^ 



Tropeçaste, na campa, (estava escripto) 

Como eUe n^om rochedo. 
Escala de Tities, o teu prcjecto 

Derribaram-t^o os fados \ 
Na base do edificio, não completo^ 

Ficamos nás • . . pasmados ! 

Nas poesias de SentímerUo e Paixão Mendes Leal 
não deu ainda quadros do mesmo valor. N^elle a 
graça e o mimo da forma não nos parecem por ora 
iguaes á força e ao Ímpeto lyrico dos hymnos herói- 
cos. As soas tendências procuram moldes mais am* 
pios. Mesmo na Mo$a Mraneaj poemeto de uma 
inspiração pródiga, inexperiente e quasi sempre abai- 
xo da correcção actual, as descri pçoes grandiosas da 
tempestade e da natureza abundam sem vencer a diC- 
ficuldade. Comtudo n^esse ensaio, filho dos annos ver- 
des, nota-se por veies uma ternura affecti^osa, e na- 
tural que enleva^. Se a idéa estivesse mais desenvol- 
vida, e as perspectivas fossem menos abafadas, le o 
pincel de hoje retocuse nos sentimentos a verdada 
e a expressão, no estjrlo as florescencias juvenis e pa- 
rasitas, a Rosa Branca^ facilmente limada de impu- 
rezas casuaes, podia entrar na galeria das obras e^ 
colhidas do aiictor. Os Stupiroi de Abril e o Poeia 
f%o Século attestam que a melancolia e o devaneio 
amoroso acham voz e canto na sua lyra quando m 
repousa do vóo ás espheras épicas *, mas estão longa 
ainda da perfeição obtida nos outros carmes. 

A relato da idéa com a forma, a constante aspi- 
ração para um destino melhor, a interpretação fa- 
cunda dos fins e deveres moraes do homem, a pro- 
priedade com que a imagem se adapta ao pensamen- 
to; sãp as qualidades mais características do syste- 
ma poético de Mendes Leal. Por isso o enthusia»' 
mo arrebata-o, e o bello sol do passado vemdourar- 
Ihe a estropbe e illuminar^lhe o.verso. Por isso, poe- 
ta mais de sentimento épico e de idéa, do que de 
forma, o seu engenho sabe todas as notas, tem po- 
der para todas as seenas, mas sobre tudo exulta quan- 
do as domina o vulto homérico dos grandes nomes. 
O suspiro da paixão confiado ás flores, e fugindo por 
ellas, como o hálito embalsamado da aurora, fiiz soar 
na Ijrra a corda do amor, e tem um sorriso entre la- 
grimas doces no formoso rosto da arte \ mas o pin- 
tor prefere ás harmonias um pouco vagas, aos deli- 
quios estremosos, as explosões do coração que vivem 
no mundo ideal chamatido-se Otfaello e Lear ; os ras- 
gos audazes que illuminara até ao fundo dos séculos 
o tumulo das nações, fazendo estremecer no seu lei- 
to final á voz da gloria os ossos de César, e a purpu- 
ra real de Alexandre I 

Na idade em que alguns principiaram, Mendes 
Leal percorreu o mais ardao na carreira lyrica \ e 
mereceu o premio que trouxe das lactas do estro e 
da harmonia. Se ainda não disse o ultimo segredo 
do seu talento, se o gosto cada vez mais viril e cas- 
tigado promette ao futuro obras mais altas, já occu* 
pa de direito um logar distíncto, e para ser um dos 
primeiros poetas entre a geração nova não precisa de 
novos titules. O applauso que o saúda não é o grito 
ébrio das multidões escravas dos sons e da rima \ é 
o voto observador e critico dos que procuram no 
verso além da harmonia a aspiração moral • o pen- 
samento philosophico. 

João 'de Lemos entre f» poetas moços é o mais 
robusto emulo que elle encontra; mas os géneros 
apesar de próximos são distínetos, e com vocações 
diversas. Mais suave, mais cultor da symetria e da 
forma, o cantor da Lua de Londreê e de tantas pa- 
cas deliciosas, distingue-se por outras qualidades de 



gosto • de imaginação. Harmonioso, esmerada 



tífJogIe 



110 



o PANORAMA. 



um toque- de meiguice e de tristeza petitativa, a sua 
lyra não se fes (parece-nos por ora) para os ímpetos 
heróicos. Eleva-se muito, veste a phrase de pompa, 
alegra o verso de colorido, rico, mas o sopro das gran- 
des inspirações do auctor do Ave Centr encurta-se 
na sua vos. 

Em João de Lemos a forma prevalece, em Men- 
des Leal o pensamento domina mais. Um é doce, 
reflexivo, enlevado como a graça, afinado, melódi- 
co, e puro como um cântico de Lamartine. O ou- 
tro arroja a estrophe, rege a invenção e funde pela 
imagem, quasi era bronse, o busto dos heroes. Não 
traçamos [círculos fataes, nem demarcamos fronteiras 
invencíveis, a nenhum dos dous, é apenas o contor- 
no geral da sua pb^sionomia. O Fe$tim de Ballha- 
§ar e o Tumulo de Nero marcam a passagem de João 
de Lemos pelas espheras da ode. Algumas estancas 
sentidas e maviosas colheram os suspiros de amor da 
harpa de Mendes Leal nos mesmos jardins encanta- 
das aonde impera o cantor das Intwcencias. 

Segue-se d^ahi que as aptidões sejam similhantes 
e que um não brilhe como superior no mesmo as- 
sumpto, em quedesfallece a vos ao outro? Ambos el- 
les t^em paginas admiráveis ^ ambos podem olhar-se 
e saudar-se como irmãos na gloria e na harmonia. 
Aonde vac a ternura do devaneio sobe a fogosa es- 
trophe do hyrono heróico, e encontram-se na subli- 
midade, embora partissem de regíô^ oppostas. Na 
historia da poesia será tão falso separal-os, como nar- 
rar a obra de Garrett sem lhe pôr ao lado o vigoro- 
so impulso de Herculano. 

N^este momento cada um d^elles applica a lavor 
mais durável as faculdades de que é dotado, e na 
própria escolha do assumpto grava o cunho particu- 
lar da sua inspiração. João de Lemos orna da for- 
ma seductora e da harmonia terna do seu verso o 
desastre de Alcácer e a perda do ultimo rei-caval- 
leiro, sepultando comsigo a coroa e a monarchia. 
Mendes Leal tira do mármore da historia o grande 
vulto do César francês, e na estrophe impetuosa e 
fremente d^enthusiasmo, entoa o maior bymno mo- 
derno Napoleão no Kremlim» jD. Seba$iiSo! BonO' 
parte! datas memoráveis* infortúnios gigantescos^ 
a elegia e a epopea moderna ! eih a idéa que os agi- 
ta e crescerá talves a altura de monumento na ima- 
ginação dos dons poetas. Não se definem elles a si 
mesmos pelo caracter das aspirações, justificando o 
logar que lhes assignamos ? Não acharam o pensa- 
mento do poema segundo a natureza do seu talento 
e a côr da sua phantasia, um na dolorosa catastro- 
phe, a que as illusões arrastam o neto de João III *^ 
o outro no esplendor e no occaso do maior astro, 
que viram sobre o horisonte da historia os séculos ? 
étue mais se deve accrescentar, quando é o operário 
da idéa, e não o critico, quem abre o dístico descre- 
vendo a origem e as feições de uma ph jsionomia in- 
tellectual ? 



Cabb-nos introduzir aqui algumas noticias acerca 
da familia do poeta, e da sua carreira politica. 

Por parte de seu pae o sr. Mendes Leal pertence 
a uma familia natural de Penafiel^ seu visavô .pas- 
sou a Hespanha por violências commet tidas contra 
um parente, a propósito de administração de vincu- 
les ; voltou depois, e mudado o primeiro nome esta- 
beleoeu^e na Estremadura. 

Por parte de sua mãe foram seus tios, em terceiro 
grau, o abbade de Sever Diogo Barbosa Machado, 
auctor da Bibliotheca Lusitana, o desembargador 
Ignacio Barbosa Machado, auctor do Catalogo das 
Raiuhas Portuguesas, e D. Fr. Caetano de Barbosa 



Machado, frade theatino, «nctor da Historia Sebaa* 
tica e outras obras estimadas. 

O vigário de Loures o desembargador Francisco 
de Borja Ferreira, sacerdote modelo, foi tio segando 
do poeta, e deixou um nome que recordam, com saa^ 
dade todos os moradores da parochia, á qual servia 
de conselho e de providencia com as suas virtudes e 
exemplos. 

O abbade Barbosa Machado doou ao estado a sua 
copiosa livraria, forroando-se com ella a bise da bi- 
bliotheca nacional ; em recompensa o governo conce- 
deu uma pensão aos herdeiros, que foi paga até aos 
últimos annos do avô do sr. Mendes Leal. 

As desgraças do tempo, e os desastres particulares 
fizeram declinar a casa., e obrigaram o seu chefe 
actual a procurar no honroso exercício de uma arte 
liberal a subsistência de uma familia numerosa. 

Gtuando supportado com nobreza o apuro dascir- 
cumstancias illustra sempre \ e para qualquer se ele- 
var acima da fortuiia, e a domar, é necessária uma 
lucta que representa numerosos sacrificioa. 

Ao poeta compete esse elogio. Fet-se a si. Com- 
bateu com obstáculos graves para sobresair, e trium- 
phou apezar d^elles á custa de trabalho • de pene- 
verabça. 

Agora compre-lhe não desmerecer o que tem ad- 
quirido. O mais árduo está vencido \ e chegado ao 
ponto a que subiu, torna-se comparativamente fácil 
respeitar nas obras e em si a consciência das letras, 
e o decoro do engenho. 

Os verdadeiros talentos na epocha da madurem i 
que produzem os mais bcllos fructos-, mas não os 
colhem senão do estudo, da reflexão, e da lima es- 
crupulosa que dá o gosto e rege a arte. 

O sr. Mendes Leal serviu de governador civil em 
Vianna do Castello em 1847, merecendo ao gover- 
no de Lisboa approvação e louvor pelo seu procedi- 
mento em tão delicada conjunctura. 
. Alistado em um dos corpos organisados n^esse 
tempo, ás ordens do sr. conde do Casal, fez parte 
da campanha, tendo assistido dentro do castello de 
Vianna a outra parte durante o cerco. 

Em 184S recebeu a nomeação de secretario geral 
do conservatório real da arte dramática \ e em 1830 
foi promovido ao logar de bibliothecario-mór da bi- 
bliotheca publica de Lisboa. É membro de diversas 
academias e sociedades em Coimbra, nas ilhas, e no 
Brasil, começando pelo instituto histórico. 

Citamos estes factos como informação. Primeiro 
do que ninguém conhecemos que são indifferentes 
para a apreciação critica de qualquer poeta. 

L. A. RXBSLLO DA SllVA. 



VIAGEM AO MINHO. 



CAPITULO VI. 



O Porto ao domingo. — A devoção, — Prqftnão de 
fé do aueior, — Mulheres bonitas. — OUun preto» 
dai padeiraê de Avintes^ ' e olhot azue» das podei-' 
rcu de VaUongo, — Ora porque não haviam de 
ser pretos os olhos verdes da menina dos rouxs- 
noes f — Simia Janota Botiquineies, — Os Pu- 
namlndos. — S. Letzaro, 

O PorTo aos dias de semana é de uma barbara mo- 
notonia para quem não tem que fazer. Eu confesso 
que não sou dos que se enthusiasmam por aquelle 

grande movimento commercial; inte|Mia«me4e cer- 

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o PAKORAMA. 



in 



to ; como todo o bom portngnei, amo a prosperidade 
da minha pátria, mas ituoca senti a menor admira» 
$io ao ver carregar am carro com linho, ou atalhar 
um armasem com bacalhau. Por isso os meus dias 
eram insípidos como utúfolhelim^ e mais aborreci- 
dos do que um poeta moderno a faser o seu elo- 
gio. 

No theatro de Santa Catharina annunciou-se um 
espectáculo a henefieio ; graças a Deus ! Corri a com- 

Írar um bilhete, mas a representaçSo transferiu-se. 
Intremos no Gaichard até 'ás sete horas da tarde. 
Depois vamos faser uma visita. Nem divertimentos 
públicos, nem particulares ! 6tue gente tao bem mo- 
rigerada ! Lembraram-me os tempos de Sparta e La- 
cedemonia, mas os tempos de hoje diíTerem muito, 
e suspirei pelo grémio litterario, apesar de nunca lá 
ir ; lembrou-me O centro commercial, o dub, as 
trinta phylarmonicas de Lisboa, S.Carlos, a loja da 
neve ^ e tive saudades sinceras do repucho do pas- 
seio publico e do neptuno do Loreto ! Oh ! Lisboa ! 
minha querida Lisboa \ E ha bárbaros que te aban- 
donam ! Deixa-os ir, deixa-os cevar a sua curiosida- 
de nas misérias dos outros paizes, que lá está o cães 
da alfandega para os receber, quando arrependidos 
e contrictos voltarem ao teu seio. Gtuando desem- 
barquei no cães das columnas, dous meses depois da 
minha partida, e encarei com o vulto severo do mar- 
ques de Pombal, que parecia lançar-roe em rolto uma 
garrafa de precioso vinho de encommenda, que eu tra- 
zia escondida, confesso que tive tentações de a be- 
líer, e beijar o chão do Terreiro do Paço ! Oh ! 
quanto me arrependo de o n3o ter feito. Então ab- 
jurava todos os meus erros com aquelle sanguento 
holocausto e não me tinha aventurado mais a via- 
jar, como já me succedeu, por essas perigosas fragas 
do Alemtejo. Mas n6s estamos no Porto, e eu aca- 
bo de commetter umattentado, infringindo as regras 
da arie^ que prescrevem a unidade de tempo, de lo- 
gar, e d^acção. Já me não salvo da censura-libello 
de algum juiz de pai da litteratura, mas se assim sue- 
ceder, peço humildemente perdão ao critico, oucft-* 
ticos, e prosigo a minha historia. 

Sete horas a soar, e eu que entrava em uma ca- 
sa das principaes do Porto, apresentado pelo meu 
amigo M. Tudo quanto a fortuna e o bom gosto po- 
dem reunir, ali estava n ^aquelle salão. Todos os ob- 
jectos eram d^unia riqueza elegante, e sem ostenta- 
ção*, não era necessário ser grande entendedor para 
tomar o dono da ca^a, logo á primeira vista, por 
um grande amador de bellas artes. Por toda aparte 
se viam livros, pequenas estatuas, gravuras magnifi- 
cas, algumas copias a óleo, entre as qoaes uma da 
céOf de Leonardo da Vinci, e outra a descida da 
cru», de Daniel de Volterra. Vários retratos de fa- 
mília, paitagens, flores, tudo emfim respirava gosto, 
arte, e o verdadeiro sentimento do bello. 

Uma das mais preciosas qualidades dos habitan- 
tes do Porto é a franqueza. N^esta casa fui recebido 
pelos donos d^ella, como se fosse um parente que não 
viam ha muito tempo. Trataram-me com tanta de- 
licadeza e bondade, que sempre me lembrarei do aco- 
lhimento lisongeiro que me fizeraiA, quando eu me 
julgava n^um paiz de bárbaros. A fina educação d ^a- 
quella família e a variada instrucção do seu chefe 
me fiseram passar algumas noutes bem agradá- 
veis ! £ força porém confessar, como narrador fiel, 
que me custou muito a sujeitar ao costume extrava- 
gante da terra. Na uoute da minha apresentação, 
apenas o ponteiro do relógio marcou des horas, duas 
lindas meninas começaram a manifestar o somno pe- 
lo modo mais significativo do mundo. Aos primei- 
ros abrimentoB de boca, o meu amigo, que éommo* 



Ço intelligente, comprehendeu o melindroso da nossa 
situação, e despedimo-nos. 

Da rua de Cedofeita ato á Praça nova não en- 
contramos ninguém *, parecia que atravessávamos uma 
cidade abandonada. 

Entramos no café. Estavam três pessoas . . . creio 
que eram estrangeiros. Ajsim que acabamos de to- 
mar chá, puseram -nos fora a todos, para fechar a 
porta ... oh 1 Lisboa ! . . GLue remédio ! Vamos dei- 
tar-nos, è dormir, que no fim de contas ^ uma gran- 
de resolução que tomamos. 

O dia seguinte amanheceu brilhante, como sem- 
pre são em Portugal os dias de agosto. O Porto é 
sincera e lealmente religioso. Entrei em alguns tem- 
plos, todos estavam cheios de povo e rezava-se com 
grande devoção. Oh quebella e sublime que é a de- 
voção ! Em todos os pontos do orbe cbristão pe- 
netrae nas igrejas, durante as cerimonias augnstat 
do nosso culto, e vêde-me como se i^everbera n^esses 
rostos femininos, piedosos e contrictos, a humildada 
do coração! Vede como esses olhos, postos quasi sem- 
pre no livro de orações, se voltam, por momentos so- 
mente, a contemplar as misérias da terra. Fatígam- 
se das riquezas esplendidas do céu, que vem descri- 
ptas nas paginas bentas do livro*, roas olhae quanta 
religião existe na expressão doesse olhar furtivo, que 
procura e encontra outro ardente de penitencia, e 
brilhante de celestial esperança ! Como elles se con- 
fessam entre si, aquelles olhos, e se entendem ! . . . 
Oh ! mamans do universo, eu 

De vós não conhecido, nem sonhado. 

Aconselho- vos a que não deixeis nunca demandar 
as meninas á missa. A alma purifica-se e robustece na 
assiduidade do culto, e ganha forças para resistir ás ten- 
tações do peccado! A Igreja é a fonte de todo o bem*, el- 
la nos abençoa quando entramos na vida, e nos absol- 
ve os nossos erros, quando saímos do mundo. Mas o 
que ella tem de mais interessa nte^ para v6s, oh! mi- 
nhas jovens e amáveis leitoras, é ser a porta por on- 
de muitas vezes penetra a realidade dos vossos so- 
nhos. . . Isto é mais enigmático do que uma figura 
do Apocalipse, mas apostava agora toda a gloría 
que me hatle provir doesta famosa narração, em co- 
mo as amáveis leitoras me perceberam ! 

Mas percebessem ou não, já disse, e repito que a 
devoção é sublime. Eu vi os elegantes beatificamen- 
te ajoelhados, e lembrou-me o devoto e piedoso mo- 
do, por que Fernão Mendes Pinto e António de Fa- 
ria atiraram âo mar con^ um homem vivo, atado de 
pés e de mãos ! Porque me veio á memoria simi- 
Ihante destempero, não o disse nunca, porque ain- 
da hoje o nao sei ^ mas era um espectáculo muito 
para ver e admirar, como as lunetas Ímpias faziam 
partilhar ao nariz onde cavalgavam o peccado mor- 
tal que tentava os olhos ! Como passeavam atrevi- 
damente aquellas vistas mundanas sobre o oceano 
de cabeças femininas que tinham diante! E ellas, 
as devotas, olhavam também para elles *, olhavam sim, 
mas era para os lastimar*, para se condoerem de os 
ver tao endurecidos na impiedade, por que n6s, os 
homens, «ómos todos Ímpios. Olhavam ellas, e ba- 
liam rijamente no peito, pedindo a Deus que per- 
doasse aquelles corações iropedernidos, áqnelles pe- 
cadores incontrictos, o crime que ellas mais adora- 
vam, a contemplação em que elles estavam, nSo pa- 
ra Deus, mas para a mais perfeita, para a mais bel- 
la, a mais adorável das suas obras, a mulher. * 

Sahi tão compungido, tão cbristão d^aquelle tem- 
plo onde tinha entrado e onde vi tão radiantes o 
amor de D^us e o amor do próximo, que me senti 
deveras compenetrado por um sentimento religioso. 

Ali fia um voto, a que sempre tenho sido f 

' ^ ^ Digitizedh' 



Sfe^ò<0gle 



112 



O PJiMOlUlIA. 



jamais deixarei de o ser -, por que no meu coraçSo^ 
na minha alma, e em todo o meu ser, estão as ten- 
dências irresistiveis para. essa divindade a que mevo-. 
ieiy e que até entáo sefçuia pelo instini^o, pela rela- 
ção, sympathtca que havia d^ella para mim. 

£ uma profiaão de fê^ que vou faser, uma con- 
fissão publica, que escrevo sem receio do futuro, sem 
vergonha do passado, porque vivi, vivo, e espero que 
Deus me conserve sempre no grémio doestes prinoi- 
pios justos e santos, que se alimentam desde a crea- 
çao do mundo com o hello e o suMtme da naturesa. 

Jurei, no fundo da minha alma, de amar até ao 
derradeiro instante da vida iodM as cquíom que fo- 
rem verdadeiramente heUat. E um juramento que 
tenho por tao singrado, como se fosse feito a Deus, 
porque a bellesa é um atributo inseparável das ma- 
ravilhas divinas. A minha religião é pois a reli- 
gião dobeUo^ cujos symbolos admiráveis (exceptuam- 
se as mulheres feias)^ estão por todas as superfícies 
dos mundos. Uma estrêlla é um symbolo, como é 
symbolo a flor \ symbolos a abobada celeste, a lua, 
o sol, o mar, e a terra. O mytho doesta religião é 
o suò/tme. Acima do sublime está Deus, porque Deus 
é supelÂor a tudo. D^elle dimana, por tanto, a reli- 
gião do bello. As mulheres^ e os anjos sao symbolos 
diversos ; por qye estão uns no ceu e outros na ter- 
ra. Não sei bem quaes são os superiores, mas adoro 
AS mulheres, na minha religião, mais do que os an- 
jos. Não sei também até onde pode levar o fanatis- 
mo ^ sou apostolo da belleza, e a minha ambição é 
poder illustrar o meu apostolado pelo martyrio. Ape- 
lar de ter meditado bem nos dogmas e princípios 
doesta religião, de me nascer a fé espontaneamente, 
por convicção e acordo dos sentidos todos,, a minha 
adoração é exaltada pela sublimidade dos symbolos. 

Comigo nasceu, comigo hade morrer o grande hor- 
ror que tenho ao feio. Se ha mais tempo não decla- 
rei as minhas idéas religiosas, não é por que fossem 
dias indeterminadas, não*, a minha irresolução pro- 
vinha do receio de offepder a religião que fdra de 
meus passados, substituindo-lhe um culto que julga- 
va profano. Das lições da experiência e dos annos 
colhi a solução do problema. A belleza vem de Deus, 
logo amo a Deus, amando tudo que é bello. 

£ aonde fui eu aprender esta verdade dogmáti- 
ca? Aonde a sabedoria divina a collocou, muito de 
propósito. Nos olhos pretos de uma padeira de Avin- 
tes, e nos olhos azues de outra padeira de Vallongo« 

Logo nos olhos das padeiras ! estou d^aqui ouvin- 
do diser a algum dos bellôs symbolos da minha re- 
ligião. Porque não haviam de ser duas senhoras, e 
êleganiesT Perdão, porque eram duas padeiras. Lá 
estavam na mesma igreja physionomias aristocráti- 
cas, e olhos formosíssimos, porém que me fizessem 
esquecer tudo para me tornar ali mesmo sectário 
apaixonado da belleza, esse poder sé o tiveram dous 
beUos pares de olhos de duas lindas padeiras. Mas 
que olhos ! . . . Jurei, que d^ali em diante havia de 
adorar todos os bonitos olhos, todos quantos focmo- 
•oi rostos pudesse encontrar na minha vida *, e tomo 
a Deus por testemunha, de que não faltei, e não es- 
pero faltar a esse juramento, para o cumprimento 
do qual me impellem todas as minhas faculdades ! 
Belleza ! bellesa ! tenho-te invocado sempre nas mi- 
nhas horas de angustia, e por ti, e para ti vivo, 
roais do que para mim próprio. Se alguma vez eu 
amar uma cousa feia, se commetter o sacrilégio de 
não ajoelhar a teus altares, permitta o anjo da vin- 
gança, que eu morra de nojo diante de um rato 
branco, e de um sapo negro, que são as peíores cou- 
sas que conheço depois de uma mulher feia. 

Aqui vinha maravilhosamente a propósito uma 



larga dissertação philosophica a respeito do betío^ 
d^aprh Victor Cousin \ mas eu antipathiso com 
a pedantíce que afecta erudição, e não quero imi- 
tar muita gente que anda (qtankando idéas dos oa- 
tros, para depois as dar coroo suas. 

Duas formosas padeiras eram aquellas duas mu- 
lheres que vi no Porto ! A de Avintes principalmen- 
te. Tremo desfazer a descri pção com receio de que 
me chamem exagerado \ mas a verdade é que nun- 
ca vi olhos mais negros n^um rosto mais branco • 
delicado l Já me não admira que os pastores da Ar- 
cádia tivessem a pachorra de fazer grosas de sonetot 
ás Marilias e Anardas. Se eu fosse poeta ia direito 
ás margens do Douro, apaixonava-me por aquelles 
negros olhos, e passava o resto de meus dias n^uma 
lamuria de colcbâas. Os olhos azues da outra eram 
também admiravelmente bellos, e de um cristalino 
puríssimo ! O ' rosto porém era trigueiro, e menos 
ariútico do que o da primeira. Comtudo, valia bem 
um volume das rimas de João Xavier de Mattos. 

Ambas ellas eram tentadoras, adoráveis mesmo 
com os seus tamanquinhos pequeninos, e as meias de 
linha fina e alvíssima cobrindo os contornos de uma 
perna, trabalhada admiravelmente pela natureza! 
A trigueira ganhava em formas o que perdia em 
physionomia^ quanto á belleza dos olhos, levei mui- 
to tempo a scismar por qual me decidiria, e no fim 
optei por ambas. £ra o que tinha a fazer de melhor. 
Mas se me obrigassem positivamente a decidir-me 
por um dos lados, confesso o meu peccado, ia paira 
os olhos pretos. O auctor das Viagens na minha ter- 
ra também se confessou pelos olhos pretos ... a pro- 
pósito dMle e das suas viagens-^ porque não haviam 
de ser pretos os olhos verdes da menina dos rouxi- 
noes ? Nos olhos verdes ha não sei que predestina- 
ção para a fatalidade, que a gente pão pode ver 
com prazer n ^aquelles que ama. O verde é uma côr 
bonita, mas tão pouco duradoura, que ás vezes bas- 
ta para desbotal-a uma pouca de sombra, um golpe 
de ar, ou um raio de luz* £ por isso que eu sempre 
me temi dos olhos verdes, e logo disse comigo, len- 
do as Viagens do sr. Garrett, que a historia da Joaa- 
ninha havia de acabar como acabou. £maisaquelle 
verde dos olhos da Joanninha era do mais vivo que 
ha I Mas quem se lembra de iazer olhos verdes a 
uma creança tão formosa ! Caprichos de poeta ! No 
meio de tanta harmonia, depois da combinação ad- 
mirável do iodOf onde não diziani bem senão un- 
olhos pretos, o artista, sé porque era um grande 
mestre, creou os olhos verdes \ £ para que ! Para imi- 
tar a natureza que produz d^esses phenomenos mui- 
tas vezes por um simples accidente de luz ! Contem- 
plar a gente um a um os encantos d^aquella figura 
toda proporcionada ^ ver tudo em perfeita harmonia 
de cdr, de forma e de tom com a fina gentileza d^es- 
sas feições, para achar depois nos olhos aquella dis- 
cordância, a falta do rythmo que presidiu até ali, 
que ali se perdeu para gloria do artista \ porque os 
entendedores chamam o bello da arte áquella nota 
discordante ! Pobre da Joanninha 1 Feliz do roman- 
cista, se não tem remorsos de a haver deixado mor- 
rer, porque foi «He o culpado, porque Uu deu os 
olhos verdes. £ra predestinação? Foi a fatalidade 
da côr ! . . . 

(Continua.) 

F. GoMKs d^Amokim. 



— o máu filho não espere ter bons filhos : seu 
exemplo sancciona a lei de Talião que o ha de 
punir. 

M. Carvalho — Aphorismos. 
Digitized by V^OOQIC 



15 



o PA<efOllÁ»IAI 



IJ3 




Vet. m._3.« Skrib. 



A BHigitií&i tíJiiirOOQ IC 



114 



O PANORAMA. 



A SxMAirA Saxta xm Roma. 



«Un Tolnine ne tnffinit pai pour peindre cu 
détaillei seules cérémonies de la Semaine Saio- 
te ; on lait de qaelle marnificeDce ellat étaient 
daoi la capitale da monde chrétien. 99 

Chatbavbriávd. Geaie dn Christ. 

Um amigo meu, a quem um sentimento de gratidão 
moveu m acompanhar n^uma viagem ao norte de 
Itália um compatriota velho, enfermo e perseguido, 
que ali ao cabo de poucos mexes morre u, passando 
logo depois de experimentar esta perda á capital do 
mundo christao, para alliviar o espirito, e satisfazer 
uma pia e antiga curiosidade, vendo o espectáculo 
pomposamente religioso das ceremonias misteriosas 
da Semana Santa, fallava-me ha dias nas impressões, 
que lhe fizera esta romagem, pintando tanto ao vi- 
vo as magestosas scenas de que fora espectador, que 
eu tomando notas de tudo entendi, que mesmo sem 
serem limadas (para o que me faltava o tempo) po- 
deriam apropriadamente ser reproduzidas n^este nu* 
mero do Panorama. 

Foi* no principio da primavera de 1842 que o 
viajante de que fallo se embarcou n^um navio que 
o transportou de Génova para Civita-Vecchia, d^on- 
de por terra seguiu para Roma. O primeiro objecto 
que fere os olhos dos que, por qualquer estrada que 
tomem, chegam aos contornos d^aquella cidade é o 
zimbório da basilica de S. Pedro do Vaticano, um 
dos immortaes monumentos do engenho moderno, e 
no qual o christíanismo, por bôça da architec tónica 
que elle fez renascer e polir, como que está bra- 
dando : 

/ 

mVoící mon Orient, peuples, levez les yeux,n 

Bem que o nosso viajante nao entrasse pela por- 
ta e piazza* dei Popolo, magnifico átrio da antiga 
dominadora do Orbe, a sensação que lhe causou, ain- 
da antes de contemplar os grandes monumentos, a 
simples idéa de se vêr em Roma, igualou o enthu- 
aiasmo que a mesma consideração excita em todos 
os ânimos, e que o meu illustre e saudoso amigo 
Cbateaubriand exprimiu com uma elegância de pa- 
lavras que não cabe nas minhas, na interessante e 
bem conhecida descripção da sua primeira viagem 
áquella metrópole tão rica de recordações gloriosas. 
A multidão de gente de todas condições que ali 
afflue n^aquella occasião, tornando ainda mais so- 
lem ne a pompa das funcçÕes sagradas, dá a Roma 
moderna o mesmo ar senhoril de princeza do Uni- 
verso, que tinha Roma antiga, quando dentro de 
seus altos muros recebia as homenagens de todas as 
nações. 

Mas comecemos a esboçar o quadro annunciado no 
titulo doeste artigo. 

D0MIK60 DC Ramos. ^ 

N^ssTB primeiro dia da Semana Santa assiste o Pa- 
pa aos officios Divinos na basilica de S. Pedro do 
Vaticano. Está ella para^ este fim ornada de ri- 
cas tapeçarias, que fecham a grande nave da igreja 
no logar onde dous degraus de porfido a separam do 
fundo do coro, que durante afuncção doeste dia ser- 
ve de sala onde esperam as pessoas empregadas ho 
serviço de sua santidade, cujo sólio arrumado áquel- 
las tapeçarias fica próximo aosepulchro de S. Pedro. 
Duas tribunas reservadas enchem o vazio das arca- 
das lateraes : das cinco mais pequenas em que então 
' está dividida, as do lado esquenlo são destinadas aoi 



príncipes de sangue real, da mesma^ banda em que 
está o estrado do corpo diplomático. A direita e á es- 
querda da chamada c<mfí$$ão de 8. Pedro^ isto 4 o 
logar em que, segundo a tradicçSo, o principe dos 
Apóstolos foi martyrisado, ha logar para as senho- 
ras. Os músicos da capella pontificia estão n^um co- 
reto armado debaixo da estatua da imperatriz San- 
ta Helena. Um soberbo tapete cobre o espaço entre 
o altar-mdr e o throno pontificio, desenhando o pres- 
bitério, fechado de ambos os lados pela qucídraturoj 
ou as bancadas em que pelas suas ordens estão senta- 
dos os cardeaes. 

A^s nove horas da manha baixa o papa do palácio 
do Vaticano á basilica de S. Pedro, passando pela 
capella do Sacramento, e pela da Piedade onde o 
esperam os cardeaes revestidos dos paramentos roxos 
correspondentes ás suas respectivas ordens, e toman- 
do ali sua santidade os ornamentos com que costu- 
ma assistir ás grandes solemnidades, sobe depois á 
Sedia Gestaioria, ou cadeira collocada sobre uma es- 
pécie de andor, levado por doze palaferneiros vesti- 
dos de opas encarnadas, que o conduzem, precedido 
da prelatura e docollegio cardinalicio, ao sólio, on- 
de depois de sentado recebe a obediência d^aquelle 
senado, cada um dos membros doeste, lhe beija reve- 
rentemente a mão coberta com o pluvial. 

Iromediatamente depois sobem ao throno, o mon- 
senhor sacristã, e o diácono e o sobdiacono da ca- 
pella, levando cada um uma palma na mão, que ajoe- 
lhando no primeiro escabello (onde dous acólitos le- 
vam a caldeirinha e o thuribulo) apresentam ao Pa- 
pa, o qual, depois de se recitarem a antifona, a ora- 
ção, lição, gradual e evangelho, que se acham no ri- 
tual, benze, asperge, e incensa por três vezes as pal- 
mas, que sendo tomadas pelo governador ãe Roma, 
são por este apresentadas ao cardeal decano, ou ao 
mais antigo dos cardeaes bispos suburbicarios, que 
as entrega ao santo padre, que guarda uma, manda 
remetter a segunda ao principe assistente ao sólio*, 
e dispõem da terceira como lhe apraz. Sentando-se 
depois sua santidade, dístribue todas as outras pal- 
mas, bentas na mesma acção e que lhe são offercci- 
das pelo primeiro cardeal diácono, pelos cardeaes, 
patriarchas, arcebispos, bispos, abbades raitrados, 
penitenciários, governador de Roma, priacipe assis- 
tente ao sólio, auditor da camará, mordomo, the- 
soureiro, protonota rios apostólicos, geraes das ordens 
religiosas, conservadores de Roma, chefe do santo 
hospício, prelatura, caudatários dos cardeaes, por- 
teiros da vara vermelha, masseiros, e quando o papa 
o permitte, os estudantes que terminam o curso 
theologíco no collegio Germânico, bem como os es- 
trangeiros admittidos por bilhete do mordomo de sua 
santidade. 

Durante a distribuição dhs palmas os músicos da 
capella cantam a antifona Pueri Hebreorum^ e logo 
que, se conclue este acto, o principe assistente acom- 
panhado de um auditor da rota, de dous escrivães 
da camará, e de dous niasseiros, vae dar agua ás 
mãos ao papa, a quem o cardeal decano apresenta a 
toalha. Diz logo depois o soberano pontífice a ora- 
ção final, que é im mediatamente seguida da procis- 
são, enviando antes d^ella pelo camareiro secreto, que 
serve de secretario das embaixadas, as palmas ben- 
tas aos soberanos e príncipes de sangue real que se 
acham em Roma, levando um bussolante as palmas 
aos cardeaes, que por motivo de moléstia não po- 
deram comparecer n^aquella ceremonia. 

Ctuaudo o subdiacono toma a cruz pontifical or- 
nada com uma palma, para com este emblema da 
redempção, e com a imagem de Chrislo, que deve- 
mo. tomar po, guia ^..^Bot^i^f^çj^^ç «e 



o PANORAILL. 



115 



por á fronte da prociaaio, que segundo ou liturgis- 
tas «gnificn a peregrinação do homem mortal á eter- 
nidade, o primeiro cardeal diácono, virando-se pa- 
ra o povo, dit : Procedíamos in pace^ a que o eôro 
responde In nomine ChrUti amen ; e começando os 
musico» da eapella a cantar a antifona Cum appro- 
pinquartty pdem-se a procissão em marcha na seguin- 
te ordem : os criados de soa santidade,- os procura- 
dores geraes, os advogados consistoriaes, os cama- 
reiros do papa, os capelUes cantores, os abrevíado- 
res, os votantes da assignatora, os clérigos da ca- 
mará pontificia, os auditores da rota, o mestre do 
sacro palácio (que é sempre utn dominicano) \ a cruz 
processional, os penitenciários ou confessores da ha- 
silica de S. Pedro, os bispos, arcebispos e patriar- 
chas, os cardeaes acompanhados dos officíaes da sua 
casa, o primeiro mestre de ceremonias, e o soberano 
pontífice coberto, nSo com a tiara, roas com uma 
mitra simples, levando uma palma na mão .esquer- 
da^, e conduzido na sua tede gettatona por doze pala- 
freneiros, ou sedarii^ como lhe chamam em Roma., 
liOgo que a procissão tem stfído da basilíca para a 
estupenda galilêa ou átrio d^aquelle portentoso edi- 
ficio *, fecha-se a porta do templo, dentro do qual 
ficam dous capellães cantores, que d^ahi entoam o 
bello hymno glçria lau% el honor ^ composto na pri- 
são de Angers por Theodulo bispo de Orleans, ou de 
Langes, que áquella sua composição, e á occaslão 
em que foi feita deveu a sua liberdade. Ao canta- 
rem os músicos o ultimo verso d^aquelle hymno, o 
subdiacono apostólico toca com a haste da cruz na 
porta da igreja, que logo se abre para o regresso da 
procissão ; e os cardeaes tanto que chegam ao pres- 
bitério, despem os paramentos e tomam a capa ma- 
gna violácea, com a qnal na quaresma assistem aos 
oíBcios que não são celebrados pelo Papa. Começa 
logo a missa de pontifical em que officia um car- 
deal presbytero, e na qual a paixão segundo o Evan- 
gelista S. Matheus é cantada, parte por três sacer* 
dotes em cantochão, e a outra parte pelos mosicos 
da eapella em cantochão figurado, composto em 1595 
por Thomaz Luiz .d^Avila, contemporâneo do famo- 
so Palestrina, e cuja musica mandada vir por el-rei 
D. João IV, para a sua rica colleção musical^ e pa- 
ri» se executar na antiga eapella real, ainda não ha 
muitos annos se cantava na sé patriarchal de Lis- 
boa. O motéte Slabai Mcder dolorosa^ que n^esta fun- 
ção se canta logo depois do credo^ foi posto em mu- 
sica por Palestrina e o Hoianna^ a seis vozes com 
acompanhamento do coro, é composição de Baini, 
mestre da eapella do Vaticano. Acabada a missa, o 
cardeal celebrante publica uma indulgência de trin- 
ta annos, e o pontífice volta com o mesmo ceremo- 
nia), com que entrou, á eapella da Piedade, onde des- 
ce dk tede getiatoria e deixa os ornamentos, que ali 
tomara, voltando pela eapella do Sacramento para 
o seu palácio. 

Segundo a opinião de Benedicto XIV, a ceremo- 
nia das palmas foi introduzida na Liturgia no fim 
do 5.^ século, ou no começo do 6.^, e nos primei- 
ros tempos doesta instituição commemorativa da en- 
trada triumphal de Christo em Jerusalém, as pal- 
mas colhidas nos campos visinhos da igreja deS. Sil- 
vestre in capite^ e benzidas pelo cardeal hebdoma- 
dario de S. Lourenço extra muros, eram levadas no 
chamado iricUnium de Leão III, a S. João de La- 
trão, onde o papa as distribuía pelos fieis. As pal- 
mas que actualmente servem para esta ceremonia 
vem de San Remo^ pequeno paii situado na ribei- 
ra de Génova, e são fornecidas ha mais de dous se* 
culot e meio peki familia Aresta, que obteve de Xis 
to V este privilegio por uma singular circumitancia. 



que passo a referir. Acontecendo que na inauguração 
do magnifico obelisco de Sesostris lavrado no Egypto, 
e que entre dous tanques, onde como dit Dupatj, 
caem aguas imroortaes, se ergtte'pomposamente em 
frente da basílica deS. Pedro, aquelle papa, quecon* 
fiou uma tão delicada operação ao celebre archite- 
cto Fontana, decretasse, para que ella se fizesse sem 
confusão, nem desordem, uma pena severa contra 
quem n^aquella oecasião levantasse a voz ; e socoe- 
dendo que, aoerguer-se apnimo amagestosà agulha 
estivessem para qiiebrar-«e as guindarezas dos guin- 
dastes que a alçavam, um joven marinheiro geno' 
vez, a quem o perigo imminente fez esquecer a lei ', 
gritou no meio da praça : molhem oê cordat^ conse- 
lho que logo foi seguido, e de que resultou o bom 
«xito da e m preza ^ mas que nem por isso deixou, de- 
pois de evitado aquelle risco, de mover ó auctor a 
pôr-se a salvo da p^enalidade incorrida. Descoberto 
porém e chamado á presença do papa, que longe de 
o querer castigar, lhe perguntou que recompensa que- 
ria em paga 'do serviço por elle prestado, o moço ma- 
rítimo respondeu : çue a uniea recompenta que de* 
tejava^ era que sua santidade lhe concedesse e á sua 
familia o privilegio exclusivo de fornecer as pahnas 
para a basilica de 8> Pedro do Vaticano. Privile- 
^o que Xisto V então lhe deu, e ainda hoje se 
conserva n^aquella familia. 



GtuARTA VBIRA DX TbbTAS. 

EsTK segundo officio grande, que é para assim di- 
zer a primeira parte da ce^monía do dia seguinte, 
toma o nome de Matinas^ ou Trevas^ ou Noctur» 
nos^ desde a meia noute até á madrugada, em que 
n^outro tempo era celebrado. A eapella xistiixa, 
que fas parte do palácio do Vaticano, e cujas pri- 
morosas pinturas foram feitas pelo insigne Miguel 
Angelo Buonaroti, é onde se celebra o officio does- 
te dia. A^ hora dada, sáe o papa do seu aposen- 
to para a sala regia^ onde toma a capa magna de 
sarja vermelha com o capuz forrado de arminhos, e 
seguido dos cardeaes vestidos de capa magna violá- 
cea entra na eapella, e vae depois d*uma breve ora* 
ção sentar-se no sólio, que ali está preparado. Come- 
çam logo as matinas, cujos salmos, antífonas e ver- 
sículos, são de musica de cantochão, bem como a 
segunda, e a terceira lamentação de Jeremias, e as 
lições e responsorios dos três nocturnos. A primei- 
ra lamentação de musica de canto figurado é com- 
posição do grande mestre Gregório Allegri. Depois 
das matinas seguem -se as laudes. Dita a antifona Tra^ 
diior^ depois do cântico Benedictus, desce o papa e 
ajoelhando no genuflexório posto defronte do altar- 
mòr, permanece alin^esta posição até á conclusão do 
officio que finda com a oração Respice quaaumut^ 
recitada em vos baixa pelo pontífice, e depois da 
qual sua santidade se retira com os cardeaes á sala 
regia, onde depõe a capa magna, e d^onde acompa- 
nhado das pessoas do seu serviço se recolhe ao seu 
aposento. 

A deliciosa musica do Miserere a vozes, doeste e 
dos dous Mias subsequentes, foi composta por Gre- 
gório Allegri e por Baini. 

Não posso deixar de notar aqui quanto a nossa ^ 
musica de igreja « d iffere d^aquella, de que acabo de 
fallar ; sendo força confessar que ha já muitos annos 
que em Portugal o progresso n^este ponto tem sido 
tão pouco feliz, como em outras muitas cousas, a 
com vénia dos nossos tão abalisados compositores, 
direi primeiramente que o instrumental, salvo o oré- 
gão, não me parece apropriado aos templos ; obser- 



,1 



116 



O PAirORÁMA. 



k), e em cujo numero entram «Iguns que muito ad- 
mirei nas suas oomposisôes de muiica de theatro, e de 
quero fui amigo, nao se appltcararo, <»mo Palestri- 
na, Orlando di Lasso, Ávila, Leo, Durante, Scar- 
lattt, Anerio^ Bai, Allegri, Pergolete, Jomelli, 
Peres, Mosart, e outros grandes mestres, ao que eu 
tomarei a liberdade de chamar veruimilhan^a reli- 
giota. Cem effeito, e sobre tudo depois da mudança 
que tem havido na musica em geral, e que (per- 
doem-me, ou não me perdoem os cultos da moda) 
mais me parece feita para estrugir, que para delei- 
tar os ouvidos, tenho assistido a glorias^ ques^tèem 
de celebres o serem eternas, e a credoi em que os 
cantores christSos têem mais ar de fazer arremeços 
ao ceu, do que de offerecer-lhe humildemente o sím- 
bolo de sua crença. 

Tornando a tomar o fio da minha narração, farei 
também aqui menção do bodo, que por occasiio das 
solemnidades doeste dia, e dos dous subsequentes os 
cardeaes, a nobreza, e as diíferentes classes dos habi- 
tantes de Roma, bem como muitos estrangeiros, que 
formam a confraria do Hospício, ou como nós d^an- 
tes chamávamos. Albergaria da Trindade^ fundada 
em 1548 por S. Filippe Neri em favor dos homens 
e mulheres pobres, que affluem áquella cidade, dão 
a estes peregrinos, cujo numero n^estes dias costu- 
ma passar de tresentos, usando os principaes perso- 
nagens lavar os pés dos forasteiros, e fazendo asprin- 
cezas romanas o mesmo pio mister para com as pes- 
soas do seu sexo. 



Q^uiNTA Feira Santa. 

Celebra VAM-SK antigamente duas, quatro, e mais 
commummente três missas n^este dia, a primeira 
para a reconciliação dos penitentes públicos, a se* 
gunda para a benção dos santos óleos, e a terceira 
em memoria da instituição do Sacramento Eocha- 
ristico, na qual o clero e o povo eram admittidos á 
commnnhão. Hoje somente se celebra uma missa, em 
que se fazem as ceremonias, que tinham logar nas 
duas ultimas missas, de que acabo de fallar. NVsta 
âolemnidade, que como a antecedente, é feita na ca- 
pella xistina, primorosamente ornada com uma 
magnifica tapeçaria, que tem as armas de Clemen- 
te VIII, representando a imagem do Senhor morto, 
sustentado por dous anjos, a descida de Christo ao 
liimbo, e a sua apparição á Magdalenu, o espaldar 
e docel do sólio pontifício são de um estofo pratea- 
do e de brocado de ouro. O frontal do altar, e o véu 
que cobre a cruz da banqueta, são de seda branca. 

O papa tendo tomado na tala regia o pluvial 
branco e a mitra aurifrigia, segue precedido dos car- 
deaes com a capa magna violácea, e do acompanha- 
mento costumado até á capella xistina, onde ora, e 
sobe ao soIio, e depois de lhe ser prestada pelo sacro 
coUegio a obediência, como fica referido, começa o 
cardeal decano, que é o officiante n^este dia, a mis- 
sa pontifical, na qual se observa o rito ordinário até 
á consagração. Então o celebrante consagra duas 
bostias, uma que elle ha decommungar, e outra que 
ha de ficar reservada para afuncçãodosegtiintedia, 
e que o diácono depõem dentro de um cálix de pra- 
ta dourada, e de cristal de roca lavrado com a maior 
perfeição, e em que* se vô representada a figura de 
Christo no meio dos doze Apóstolos. Continua de- 
pois a missa segundo o ceremonial, e em que não 
commúnga pessoa alguma além do celebrante, contra 
o uso, que em todas as outras igrejas se pratica, de 
haver n'esta solemnidade communhâo geral. 

I>ep(Hs de acabar a missa, revestem-ae todoa os 
cardeaes, patriarchas, aroehi^MM e bispos, doa orna- 



mentos das soas respectivas oídent,* pondo-ae a pre- 
latura em duas filas. Dous cardeaes diáconos sobem 
ao throno pontifical para acompanhar o pipa, que 
desce para vir ante o altar receber ocaliz, que con- 
tém as sagradas espécies. Põem-se então a proeiíslo 
em marcha atravet da saia ra9ta alumiada por dosa 
magnifico» candelabros da bronae. Cantam logo qoa 
começa a procissão os músicos dacapeHa oi\m^M- 
gua de maneira a começar a estrophe Ftrbum caro, 
quando o Santissimo levado pelo pontífice, qaen*es- 
ta occasiio vae de pé debaixo do pallio, em cujas 
varas pegam oito bispos, entra na capella Ftnãina. 

Logo que sua santidade chega ao altar doesta ca- 
pella entrega o cálix ao card«d diácono, que este 
põem nas mios do monsenhor sacristã, que o vae de- 
positar no cofre, que fecha á chave, entregando esta 
ao cardeal penitenciário m^r, a quem compete ofi- 
ciar no dia seguinte. 

Dito o TatUum ergo^ passam todos á Loggiaj ou 
varanda vaticana. 

BbuçIo Povtificia\ 

A Loggia ou varanda de que fallo, situada no pon- 
tificio da basílica de S. Pedro está alcatifada com 
um tapete franjado de ouro e coberta com ora gran- 
de toldo, que a preserva dos raios do sol. O santo 
padre chega ali levado na tedia gedaioria em que 
fica, e da qual pondo-se em pé lança a tríplice ben- 
ção apostólica, do modo que mais extensamente re- 
ferirei quando tratar das ceremonias de domingo de 
Páscoa. 

Dada a benção pelo santo Padre, dous cardeaes 
lêem, o primeiro em latim, e os^undo em italiano 
a indulgência concedida por sua santidade a todos 
os circumstantes, e lançam na praça o broTe doeste in- 
dulto. Era d^antes costume faierem também n^esta 
oocasiâo leitura da bulia In Cctna Donwni, depois da 
qual se deitava da varanda abaixo uma tocha de ce- 
ra amarella, mas ha quasi um século que foi sup- 
primido este uso. 

Lava pís nos Apóstolos. 

Esta tocante e edificativa ceremonia, chamada em 
estylo litúrgico Mandaium (porcomeçar por esta pa- 
lavra latina a antifona, que então se canta), e em 
italiano la lavanda^ que hoje se faz na basilica de 
S. Pedro, no espaço que ha entre os dous pilastres 
da capella dos Santos Processos e Martiniano, ti- 
nha antigamente logar ou em S. Lourenço ad San* 
cia Sanciorumy {la Scaia Sania^ assim denominada 
por se conservar ali os vinte e cinco degraus da es- 
cada do Pretório transferidos de Jerusalém para Ro- 
ma), ou no pequeno mosteiro de Si Martinho, s^un- 
do acontecia que o papa habitasse o palácio de La- 
trão, ou o do Vaticano. Cencio Camerario quer mes- 
mo que n^aqoelles tempos remotíssimos se fizessem 
dous lava pés, um logo no fim da missa a doie sub- 
diaconos, e outro depois de jantar a treze pobres, 
accrescentando que as muitas ceremoniai, que com o 
andar dos tempos se íbram accumulando n^este dia, 
dessem motivo a supprimir-se um d^aquelles actos 
religiosos. Como quer que fosse, e sem fazer menção 
de outras particularidades menos interessantes, e acer- 
ca das quaes os liturgistas não esUo de acordo, di- 
rei que o papa lava em tal dia os pés no logar, qae 
deixo indicado, a treze sacerdotes pobres para este 
fim, designados pelos ministros das quatro cortes de 
Portugal, França, Hespanha e Áustria, pelo car- 
deal secretario de estado, pelo cardeal Cametlengo, 

p«l0 CUdMl pcfnto 4^^^^J^ÇI,^^^(^»HM>. 



o PAI90IUMA. 



117 



dons neeidote), pelo cardeal protector doa arme*- 
nioa, pelo capitSo das gaardaa suiasat e pelo mor- 
domo de toa aantidade, que al^m da prero|;ativade 
Cuer tiet nomeaçõet tem o direito de approvar as 
ostras* 

A cadeira pontificia esta para esta oeremonia col* 
koada sobre um estrado elcTado, servindo de espal- 
dar uma tapeçaria» em qoe está representada a Pro- 
ndepcia sentada sobre nm globo terrestre entre as 
doas ftgaras allegoricas da Justiça e da Caridade, 
, vendo-te também n^esta tela dous hSm sustentando os 
estandartes da SanU Ikreja Romana. A bancada dos 
tme sacerdotes pobres ^ quem n We acto se dá a de- 
nominaçSo de Apóstolos) está á direita do sólio so- 
bre um segundo estrado, que está unido e tem com- 
nuniça^o com o primeiro. Por detrás da bancada 
d^aqueUes presbiteros está encostada á parede a ta- 
peçaria representendo a ceia do Senbor, tela pre- 
ciosa, £sbrioada em S. Miguel de Ripa-grande pelo «- 
oellente desenho da fiimosa pintura a fresco ue Leo» 
nardo de Vinei, que está no refeitório dos doroiní- 
cos de MilSo. Os cardeaes assistentes tomam lo- 
gar ao pé do throno. As tribunas dos príncipes de 
sangue real, e do corpo diplomático, estSo dispostai 
na arcada, que fica do lado esquerdo. As senhoras 
admittidas a vèr esta funcçlo têem logares reserva- 
dos na arcada do lado direito, e os homens vestidos 
de uniforme, ou de outro trajo de corte, pddem cir- 
cular no âmbito interior do templo. Muito de pro- 
pósito narro estas distribuições de logares, contra as 
quaes ninguém se levanta, para mostrar- que podem 
mui bem muitos centenares de indivíduos de todaa 
as condições, e até de diversas religiões assistir a 
uma solemnidade no mais vasto templo do mondo 
sem faserem a bulha mais que incommoda, e as es- 
candalosas irreverências, que ainda no anno passado 
pela semana Santa muita gente presenciou com dôr 
e com vergonha n^uma das nossas igrejas de Lisboa. 
SeoSo ha devoção, haja ao menos decência. 

Tornando á minha descripçSo mencionarei que 
o papa revestido de alva, cingulo, estola e pluvial 
de còr encarnada, e da mitra ornada de palhetas de 
prate, entra precedido da prelatura dos cardeaes e 
das demais pessoas, que formam o seu préstito, na 
basílica de S. Fedro, vindo primeiro á capella do 
Sacramento, d^onde pela porta que fica debaixo da 
tribuna dos príncipes passa a tomar o seu logar ; e 
ali depois da benção do incenso, e da do diácono que 
Tevestido de estola e dalmatica branca ha de can- 
tar o Evangelho, fica em pé, até que finda este lei- 
tura beijii o sagrado texto, e é incensado por três ve- 
tes. Logo os músicos da capella levantem a primeira 
antifona, de que íallei ^ e sua santidade pondo-se de 
pé, largando o pluvial, e cingindo uma toalha, vae, 
levando ante si os maceiros, o primeiro mestre de ce- 
remonias, e dous cardeaes diáconos, ao estrado dos 
apóstolos, revestidos de uma túnica branca com ca- 
pus de férma cónica, e tendo o pé direito descalço. 
O papa, pondo-se de Joelhos diante década um d'el- 
les^ lava-lhes n^um^ bacia de prate dourada os pés, 
que limpa e beija sucoessivamente, recebendo logo 
ali cada um dos presbiteros, tento do santo padre, co- 
mo do cardeal diácono, e do thesoureiro do estedo. 



que o acompanham, um ramalhete de flores e duas 
medalhas, uma de ouro, e outra de prate em memo- 
sia doesta acç2o. 

Terminada ella com as orações indicadas no ceri* 
monial, passa o pontifico com o cortejo e as pessoas, 

Sue assistiram áquella ceremonia, ao logar, onde des- 
e os últimos annos do pontificado de êregorioXVI 
se põem a mexa do Jantar dos apóstolos. GLoando o 
liajor^ realisando o projecto de uma peregrinação 



de loiigo tempo sonhada, entra em Roma^ e sobe 
com a emoçSo de uma pia coriosfidade a grande e 
magnifica escada do Vaticano, ch^a depois de per- 
correr as maravilhas de todas as cidades, e de todos 
os peites do mundo, JuntÉs n^esta augusto morada, 
a um local, que pede ser chamado o Santuário ehriê^ 
ião dat beUoê artetj que sio as salas conhecidas pelo 
nome artistico de Loggie âí Rafaelh^ bem conheci- 
das pelas bellascalcographias que d^ellas deu um cele- 
bre abridor iteliano. Traçou ali aquelle grande pintor, 
n^uma serie de pinturas a fresco historicas e sjrmbo» 
liças, as illustrações e os beneflcios do catholiei^ 
mo. A meta de férma rectangular e devada sobve 
um estrado, está elegantemente ornada de flores e 
de primorosas peças de prata, algumas das quaes fo* 
ram fabricadas no 16.^ século pelo eximio pintor, e^ 
cultor, gravador e ourives florentino, Benvenqto Cel- 
liní, ao valor do qual Clemente VII commetteu a de- 
fesa do castello de Sant^Angelo sitiado pelo condes- 
tevel de Bourbon. Chegando os apóstolos um depois 
do outro aos seus respectivos logares em tomo da 
mesa, ali esperam de pé a chegada do papa. Logo 
que o santo padre vestido de sotena de IS, roquete 
emurça branca forrada de arminhos, e aoompannado 
dos oiificiaes-méres de sua casa, em manielUme entra 
ntíLoggia destinada, pdem-«e os apóstolos de Joelhos e 
sua santidade depois de lhes dar agua ás m2os benze a 
meta, dlpoisdo que um capellSo secreto fas uma lei- 
tura análoga áquelle acto. Os pratos grandes em 
que se servem as viandas sSo trasidos pelos prelados, 
que de Joelhos os apresentem ao papa, que os põem 
diante dos apóstolos, aos quaes por algum tempo mi- 
nistra o comer e o beber, e dando-lhes pela segun- 
da vez a bençio se retira. 

Matikas ou Trevas. 

A* HORA do costume vae o santo padre capitular 
as matinas, como no dia antecedente na capella xis- 
tina, onde a musica da primeira lamenteçSo a quuf 
tro vozes é de Palestrina, e o miserere também de 
canto figurado da composição de um dos eximios 
mestres, Alexandre Scarlatti, Felis Anerio, Bal, ou 
do que passa pelo melhor, de José Baini. Ao tem- 
po em que na sobredita capella pontificia se celebra 
este officio, cantem-se n^este dia, como no antece- 
dente e no subsequente, matinas também com musi- 
ca de capella na basílica de S« Pedro, onde pelo 
meio dia concorrem todas as confrarias da cidade 
para receberem a benção das santas relíquias do sa- 
grado Sudário j do Sanio Lenho j e da ktnça^ com que 
ocenturiao atravessou o lado de Christo ^ devoção que 
o cabido d^aquella basílica vae igualmente fazer ae- 
pois das matinas, tendo procedido á purificação do . 
alter papal, exclusivamente reservado ao santo pa- 
dre e aos cardeaes. Fas-se este ceremonia da nuinei- 
ra seguinte: depois das matinas o cónego hebde- 
madario revestido de estola e da pluvial de còr 
preta, acompanhado dos seus cónegos mais antigos 
vestidos de roquete, e precedido do cruciferario en- 
tre dous acólitos, os quaes vão collocar-se da parte 
do Oriente Junto ao sepulchro que como disse 
tem o nome de Om/usõo, ;rem ajoelhar diante do 
mencionado altar, e entoando depois de orar u an- 
tiiòna DivUeruni sibt, continuada sem canto peloa 
capellães, aspergem os cónegos com hvsopes molha* 
dos em vinho aquelle alter que o celebrante imme- 
diatemente limpa com estopa e toalhas subminis- 
tradas pelo soto-altareiro, e feito bto e repetida a 
predito antífona dit a onçio Aaiptee gtkBsuimis e 
retira-se o cabido. 
Apagam-ee então todas as akmpndas, e Imas doa j 

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118 



O PAlfORAMA. 



«Itares e dos tocheiros, ficando toda a vasta basili- 
ca apenas alumiada pela claridade que dá a cruz la* 
tina colossal de folha d^arame illuminada, e penden- 
te ante o altar de que acabo de falia r. Tem esta 
ortti trinta e três palmos de altura, e desesete de 
largara, e contém tresentas e quatorze placas, cada 
uma com duas luzes, o qae faz seiscentos e vinte oito 
lumes. A bellissima estampa gravada no anno de 
1783 pelo hábil abridor Piranesí, e onde se vè re- 
presentado o prospecto interior d^aquelle templo nas 
Aoutes de quinta feira santa, e de sexta feira de pai- 
xão em que se repete a mesma illuminação, dá ape- 
rtas uma leve idéa do grande efleíto óptico, qUe ella 
produz, parecendo duplicar as proporções d^aquelle 
grandioso ediácio, que então mais fortemente do 
qae em outra qualquer occasiao imprime respeito e 
impressiona a alma. Antigamente havia outra crus 
illuminada, e muito maior, contendo mil tresentos 
e oitenta lumes, dada por um dos papas que tomou 
o nome de Adriano, Chateaubriand tao grande pin- 
tor litterario, como investigador de origens, disse- 
me que fdra o elevado esensivel Dante, quem na sua 
Divina Comedia^ rica de imagens fortes, deu idéa 
doesta invenção symbolica da clara e civilisatlora luz 
do christianismo aclarando e esclarecendo o Orbe. 

• £ntre as inumeráveis igrejas de Roma onde por 
sentimentos religiosos se vae fazer a visita do Santo 

^ Sepulchro, mencionarei a de S. António dos portu- 
guezes, de S. Thiago dos hespanhoes, da Torre di 
Specckif de S. Silvestre m Capilé^ do Bom Jesus, 
casa capitular dos Jesuitas, dos Santos Apóstolos, 
dos Menores Conventuaes, (onde até ao seu pontifi- 
cado morou Ganga nelli, que supprimin a Companhia 
de Jesus) e as de Santa Maria em Minerva, e deS. 
André delia Valle^ ea que aos olhos dos eruditos tal- 
vez agrade mais na sua simplicidade a da Propaganda, 
onde o venerando cardeal Uorgia, amante e intelli- 
rente dos antigos símbolos dos christaos, íeit pintar 
debaixo do monumento o profeta Jonas saído das 
faoces da baleia com a lenda misteriosa : 

c( Plnsquam Jonas Híc. » 

allusiva ao Salvador. Nao se dá propriedade mais pró- 
pria, nem inseri pção mais conveniente. 

Sexta Fbira db PaixIo. 

N*KSTX dia especialmente consagrado á memoriado 
Redemptor, e do instramenlo da redempçao, costu- 
mavam n^outro tempo os papas fazer esta devota 
funcgâo de feria sexta m Paratceve^ que em frase 
biblica quer dizer véspera de sabbado e na liturgia 
grega Mina do% PresaniificcUÍoSj em que o celebran- 
te communga a hóstia consagrada na missa do dia 
antecedente na basilica de Santa Cruz em Jerusa- 
lém ou Sessoriana^ onde a rubrica ainda marca a 
estação d'*este dia ^ descrevendo eu porém a pratica 
que hoje se ségge, direi que na capella xistina, on- 
de actualmente se faz esta ceremonia, estSo as val- 
ias e tochas amarellas dos castiçaes do altar e dos 
cancellos apagadas, e a cadeira pontificia sem docel 
nem outros ornatos, bem como a quadratura cardína- 
licia sem armação nem tapetes, quando o cardeal ptf- 
niienciariomorj aqnem toca ofBciarn^este dia reves- 
tido de paramentos de côr preta, e sem sandalhas, 
vem com o diácono e snbdiacono, similhantemente pa- 
ramentado, e precedido do respectivo mestre de cere- 
moniase dos acólitos, que nÍo levam ceriaes, nem tbu- 
ribulo ao encontro do papa, que entra na capella com 
pluvial de Arja encarnada e mitra delhama de prata, 
sen tniflrannal, nem dar bençSos, e assim avatça até 



ao presbitério, onde depondo a mitra faz uma brave 
oração ajoelhando no faldistorio. Passando então o car- 
deal celebrante para a esquerda de sua santidade, ajoe« 
lha ahi também e ora, em quanto dous mestres de ce* 
remonias estendem sobre o altar despido de ornamen- 
tos uma s6 toalha. Feita a oração, levantanáo-se e 
cobrindo-se o santo padre vae sentar-se na sua ca-^ 
deira, ante a qual um bispo assistente lhe apresen^r 
ta o missal, sem que outro ministro allumie, na for* 
ma do estalo, com candella, ao passo que o celebran* 
te sobe com o diácono e o subdiacono ao altar, e o i 
beja, dirigi ndo-se logo depois ao seu faldistorio, mi- 
de se senta em quanto o musico mais moderno can* 
ta sem pronunciar o titulo a profecia de Oseas Heee 
dixit Dominiu^ a que segue o tracto DtHnme audiuif 
e a oração Dem aquo et Judeu \ terminada a qual o 
subdiacono lê em tom de epistola a segunda lição 
In diebus illisy tirada do Êxodo e seguida do tracto^ 
que como o precedente é cantado em cantochio. 
Findo este chegam três diáconos vestidos de alvas e 
de estolas e manipules de côr preta, e depois de 
saudarem o altar e sua santidade, cantam a paixio 
segundo S. João na forma praticada em domingo de 
Ramos. Ao cantarem -se as palavras Et inclinais oa* 
pite emiti t spinium^ poem-se todos de joelhos. De- 
pois que no fim da paixão o diácono lá em tom de 
evangelho Pott hctc^ sem benção, nem ceriaes, nem 
incenso, nao se dá a beijar o texto sagrado ao papa 
nem ao celebrante. Começa logo depois o sermão em 
latim pregado, por um jesuíta, e no fim do qual O 
orador annuncia a concessão de uma indulgência de 
trinta annos. Em seguimento canta o cardeal offi- 
ciante as dezoito orações ternas pela Igreja, pelosnm- 
mo pontífice, pelo clero e os mais fieis, pela aa- 
ctoridade civil, pelos cathecumenos, pelos enfermos, 
pelos encarcerados, pelos viajantes, por todos .oa at- 
tribulados, pelos hereges, pelos judeus, pelos pa« 
gãos, n^uma palavra por todos os homens creadot 
por Deus. S6 quem, como o viajante de quem to- 
mei estas notas, e como eu, esteve por longo tempo 
longe da pátria, é que pede avaliar a impressão de 
grande, mas nao esmorecida saudade, que a oração 
em que a Igreja pede pela volta ao ninho paterno 
de todos os peregrinos, por este tempo em que a 
natureza cobre os campos da côr da esperança, íes 
em nossos ânimos, quando por divenas razões esti- 
vemos ausentes da nossa amada pátria. 

AnoRAçXo DA Cruz. 

Ditas aquellas orações saem do coreto dous tenores 
escolhidos, que vão para o lado da epistola responder 
ao cardeal celebrante, que depondo a planeta aposto 
d^aquella banda, recebe do diácono na extremidade do 
altar a crus da banqueta coberta com um véu preto, 
que se vae tirando nas repetições da antífona. Des- 
coberta a parte superior da cruz, entoa o officiante 
Ecce lignum erticii^ a que o diácono e o subdia* 
cono accresceutam In qtio talus mundi pependit^ e 
os dous coristas respondem Venile^ adoremuM, todos 
ajoelham excepto o celebrante, que avançando alguns 
passos para o meio do altar descobre o braço direito 
da cruz, e repete-se a antífona acima citada. Gtuan- 
do o eôro responde Veniie^ adoremu$^ o cardeal ce- 
lebrante chegando ao meio do altar descobre intei- 
ramente a cruz, e entoa pela terceira vez a referida 
antífona, e no mesmo ponto um acolito da capella 
tira o véu da crus pontifical. 

O cardeal celebrante desce então os degraus do al- 
tar, levando em suas mãos a cruz descoberta e a vae 
collocar sobre uma rica almofada peparada para es- 
te fim. 

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o í»AJíORAMA. 



119 



O papíi etodo0 08 assistentes pSein«9e de pé. Doas 
camareiros sobem até á cadeira pentificia para tira- 
rem os sapatos a soa santidade, que deixando o plu- 
vial e ficando de alva, estola e mitra, desce com 
mSos postas á porta da quadratura cardinalicia, onde 
tira a mitra, e o solideo e d^onde acompanhado dos 
bispos e assistentes, e do primeiro e segundo mestre 
de ceremonias vae faser as três adorações da cruz, 
beijando depois da ultima o crucifixo ^ e tendo dei- 
tado na bacia de prata dourada, que está do lado 
esquerdo, uma bolsa de damasco roxo encerrando cem 
escudos de ouro, volta á sede pontifícia. 

Apenas sua santidade dá principio ás adorações, 
começam os músicos da capelía o ternissimo canto a 
vozes, composto por Palestrina, dos chamados trn- 
properii (termo latino introduzido nos últimos tem- 
pos do império romano, quê quer diser exprobra- 
ç6es) por conterem as que o Senhor affectuosa e pa- 
ternalmeute fez aos judeus pela ingratidão sacrílega^ 
com que tão impiamente corresponderam a tantos e 
tamanhos benefícios, que d^elle tinham recebido. No 
fim de cada um dos improperii canta um dos coros 
em latim, e o outro em grego o Trisagion^ ou para 
^ melhor dizer, imitação das palavras repetidas três 
vezes (que isso significa Trtsai/ton nalinguagrega) de 
Isaías, e do livro do Apocalypse Sanciíu, Sanctus, 
Banchii^ DominusDeussabaiho^ que aqui se mudam 
pelas palavras Ágios o Theos^ Ágios Ischyros^ e. Agias 
Athanatos^ e as equivalentes na língua latina. A mu- 
sica, que é a linguagem mais expressiva, e o concer- 
to de vozes, que mais que o de instrumentos toca os 
corações, nunca fizeram tão sensível a ddrda alma, 
como nVsta admirável producçSo do artista encan- 
tador, que impediu pela doçura das suas obras que o 
canto figurado fosse, como estava para ser, vedado nos 
templos por um pontífice que não pensou, como o 
professor Frederico Creuser, que o cantochão, que 
este doutor, não sei com que fundamento, entroncou 
no canto dos gregos, era a grande e verdadeira musi- 
ca por excellencia. 

Proseguindo na minha narração, para que os meus 
leitores nao cuidem que abusei descortezmente da 
sua paciência, farei menção das adorações, que logo 
depois do papa vão fazer oscardeaes, os patriarchas, 
os arcebispos, os bispos, e os geraes das ordens, o 
governador de Roma, o principe assistente ao solío, 
e todas as mais pessoas, que teèm logar na capella 
pontificia. 

Acabadas as adorações accendem'Se as vellas da 
banqueta, e o diácono estende o corporal sobre o al- 
tar, onde repõem o crucifixo, que é circumdado de 
rosetas brancas de esmalte, e tem entre safiras, ru- 
bins e granadas, vinte e duas pedras preciosas. £sta 
TÍquissima peça, na qual a obra excede á matéria, foi 
feita em Vicenza, d'onde era bispo o famoso Pedro 
Barbo, depois papa com o nome de Paulo II, que a 
mandou fazer, e doou á reverenda fabrica. 

Dispõem-se logo tudo para a procissão da reposição 
do Santíssimo, e o santo padre precedido do coUegio 
dos músicos, que divididos em dous coros param na 
sa/a>*e^ta, e dos officiaes da sua casa, e das demais 
pessoas já referidas que formam o seu préstito, vae 
immediatamente depois do cardeal celebrante acom- 
panhado do diácono e subdiacono á capella Paulina, 
onde ajoelha e ora por algum tempo. Accendendo-se 
entretanto as tochas, e abrindo o monsenhor sacristã 
a urna do Santo Sepulchro, extráe dVlla a caixa de 
cristal, d^onde tira a hóstia consagrada, ali depositada, 
e que elle põem no cálix com um véu, que elle en- 
trega ao primeiro cardeal diácono que a põem nas 
mãos do papa, o qual antes d^isto insença por três ve- 
zes o Sacramento, que leva prossecionalmente debai- 



xo do palio, entoando o primeiro caro o hymno^ ;qne. o 
outro segue, Vexilla Regit prodeunt^ composto nó 5.^ 
século pelo bispo de Poitiers Venantius Honoriui 
Clementinus Fortuna tus, grande poeta latino, ami« 
go de S. Martinho de Tours, e secretario da rainha 
Santa Radegonda^ esposa da imperador tílotafio I. 
Ao entrar o papa com o Sacramento na capella xis- 
tina, cantam .os músicos a bellastrophe O Ct%ue om 
spes única, e, á entrada para dekitro dos cancellos, 
a immediata Tefons sahiik Trinãoiis, Chegado ao 
altar entrega o summo pontífice o cálix ao diácono, 
que vae collocaLo sobre o altar, e tirando o véu que 
o cobre insença sua santidade por três vezes o Sa- 
cramento, e volta ao seu logar. Segue então a missa 
na forma ordinária, e depois da oração lAbcra nos 
qiKKtumusy volve .o santo padre ao faldistorio ante o 
altar, e ahi fica de joelhos até á communhão. Põem 
então o celebrante a hóstia na patena e depois ele- 
va*a, e dividia-a em três partes, lançando a mais 
pequena dentro do cálix ^ e, em seguida doestas ceri- 
monias, que nao são acompanhadas das orações costu- 
madas, recebe as sagradas espécies. 

Retira-se immediatamente o pontífice com o seu 
cortejo, bem como o cardeal celebrante com os seus 
ministros^ e começam as vésperas, que terminam, co- 
mo todos os offícíos doeste dia, pelo versículo CÁrti^ 
tus f actua est^ e pela oração Respice. 

CxposiçXo doSantoLenho haCapblla Xistiha. 

Tem desde o anuo de 1840 logar esta exposição de 
uma assas volumosa porção do Santo Lenho, em que 
ektá esculpida a imagem de Christo, e as da Santa 
Virgem, dos Apóstolos, e mais oito de diversos San- 
tos, assim como alguns caracteres runícos, usados nos 
paízes septentrionaes antes da invenção das letras 
gregas, uso que, segundo Borèo, Vérílius, e o irlandês 
Snorro, se perdoo no 10.^ século. 

Elsta preciosa relíquia enviada no 5.^ século ao 
papa S. Leão por Juvenal bispo de Jerusalém, des- 
appareceu durante os primei ressaques de Roma pelos 
bárbaros do norte, e foi achada no anuo de 687 n^um 
recanto obscuro do tbesouro' de S. Pedro do Vatica- 
no. Perdida pela segunda vez na tomada d^aquella 
cidade pelo condestavel do Borbon era 1527, foi el- 
la de novo achada pouco depois sem a caixa de pra^ 
ta em que d^antes estava guardada \ por cu|o moti- 
vo o papa Clemente VII, no pontificado do qual oc- 
correu este segundo desappareci mento, mandou faier 
o relicário de cristal e prata dourada em que elle 
até hoje se conserva. Roubada finalmente em 1730, 
poude esta relíquia ser recobrada' por Clemente XII, 
ficando desde então entregue á vigilância do cabido 
da basílica de S. Pedro. 

Depois doesta exposição, a que por devoção e por 
curiosidade concorrem muitas pessoas, seguem-se as 
matinas na capella xistina ás quaes assiste, como át 
do antecedente dia, o papa com o sacra ooUegío e 
a prelatura na forma que já fica mencionada. A pri- 
meira lamentação é cantada a quatro vozes pela mu- 
sica d^Allegri, que compoz igualmente a doMtsera** 
re, que se executa no fim do officio. 

Depois de matinas desce o papa do seu palácio á 
basílica de S. Pedro a venerar todas as sentas reli- 
quias depositadas n^aquelle santuário, acção que cos- 
tuma ter logar no alto da denominada Jjoggia da 
Verónica, Ha n^este dia grande concorrência nas 
igrejas do Bom Jesus, de S. André delia Valle^ de 
Santa Maria in Transtevere, de Santa Crus de Je- 
rusalém, de Caravita, de Santa Praxedes, onde está 
a columna da flagellação, de S. Agostinho, de San- 
ta Cecília, de San ta Maria Transpontina 
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?Vit5(^-ie 



120 



O PAlVOlUlIA. 



^1, e de 8. Lourenço In Dâmaso*^ a seftio publi- 
ca, que n^esta tarde ha da academia doa Árcades, 
t2o favorecida doa nossoa reis, e de que foraa e sSo 
membroa vários portugneiea, é conaagrada á recita- 
ção de peçaa de poesia, e de escríptoa em prosa, em 
commemoraçâo da morte do Redemptor. Esta sessão 
costuma ter logar em casa do custodio geral da re- 
ferida academia, chamada il Serbatojo. 

SaBBADO B^AlJLLXLUIA. 

A PABTK da ceremonia doeste dia de louvar eom 
alegria^ que isso quer diíer o vocábulo hebraico hal- 
leluiah que com pouca oorrupçSo passou para todas 
as lioguas, assiste o papa revestido de pluvial en* 
camado e mitra de Ihama de ouro,' e o sacro colle- 
gio de capa magna violácea na capella xistina, cujo 
frontal do altar, bem como a armação do sólio, é 
ainda de côr roxa, mas onde Já se vêem tapeçarias 
cobrindo o presbyterio, e a quadratura cardinalicia, 
e outros ornatos festivos. 

Começa a funcçao pela benção da agua, do fogo, e 
dos cinco grãos de incenso que se hão de coUocar no 
drio pascoal, ceremonia que se fai f(5ra da capella 
na saía re^a. visinha. Segue-se a benção d^aquelle 
cirid, para o. que o prelado celebrante acompanhado 
dos ministros, dos acólitos,, e dos masseiros vão pri- 
meiro á capella Paulina levando o iricereo ou cana 
com três vellas, o incenso e lima tocha accesa. Che- 
gando, á porta íerrea, chamada a cancella da tala 
róf/fo, acoende o diácono umfr das referidas vellas, e 
-dejo^hos canta Lúmen CAràit, a que o coro res- 
ponde Deo GraUan* Accende-se a segunda vella do 
iricereo no meio da capella xistina, e a terceira jun- 
to ao sólio pontificio. Cauta em seguida o diácono 
n^um púlpito próximo ao cirio pascoal o hymno 
JSxulUif attribuido. ppr uns a S. Ambrósio, ou a 8. 
Agostinho, e por outros ao papa S. Leão, ou a Pe- 
dro o diácono, e que passa na opinião das pessoas 
intelligentes pela mais bella peça doeste género que 
se conhece^ accendendo-se o cirio com o iricereo 
quando o diaco&o canta m ignem <MpcendU. 

Terminada esta benção recitam, o celebrante em 
vos baixa, e oa capellSes em vos alta, as lições das 
dote profecias, a primeira das quaes tirada do pri- 
meiro capitulo do Genem era recitada antigamente 
^»^ g^o» Depois da ultima lição (que é quando de 
ordinário chega o papa e o sacro colleglo) despe o 
monsenhor celebrante a planeta, e vaecom os mi- 
nistros prostrar-se por terra ante o altar, e dous co- 
ristas ajoelhados no presbitério começam a cantar a 
ladainha de todos os Santos. Dito o verso PropiUta 
e$io vão os ministros tomar oa paramentos bi-ancós 
na sacristia d^onde voltam, quando os coristas can- 
tam Peeeaioretf ie rogamtUj oudt nos ; e então o 
celebrante levanta-^ e passa ao seu logar onde igual- 
^mente toma ornamentoa brancos. Começa então a 
missa, chamada do Papa Marc^UoU^ por uma cir* 
cumstancia a que Já alludi, e que passo a narrar. 

Gtuando esle papa, noa brevea dias que em 1555 
durou o seu pontificado aboliu da sua capella a mu- 
sica de canto figurado, pediu o grande mestre Pales- 
trina ao pontiáce que antes de tomar qualquer' de- 
liberação a tal respeito, lhe permittisse compor para 
•e executar no sabbado d^Âlleluia uma missa a seis 
voieè, o que lhe foi concedido, e tal foi a impreaaão 
qoe eata composição, que ainda n^este dia se execu- 
ta oa capella pontificia, fes no animo d*aquelle pa- 
pa, que o dissuadiu do seu primeiro propósito. 

Havendo não pouca gente que seaclmire, por não 
saber a ratão da commemoração de uma gloriosa re- 
surreição em dous dias oonsccuti vos, observarei aqui, 



que a «eremooia que ealóa detorevendo, e que ainda 
hoje conserva em phraae litúrgica o nome e rito de 
missa da noute de páscoa, celebrava^se antigamente 
antes de raiar a aurora n^aquelle grande dia, e que 
foi para evitar os inconvenientes que resultavam doa 
i^untamentoa nocturnoa, que se antecipou eata cere- 
monia, faiendo que tivesse logar no sabbado. 

Passando a referil-a direi, que accesas as vellas da 
banqueta, assim como oatocheiroa dos cancf lios, ten- 
do-se virado o frontal roxo e posto o branco, o papa, 
o cardeal celebrante, e oa minutros revestidos dos res- 
pectivos paramentos da mesma côr, vão ao supeda- 
neo, onde sua santidade dix com elles o Intróito da 
missa, depois do que sobe ao sólio e ali, tendo-lhe 
os cardeaes prestado obediência na forma do costu- 
me, segue a missa de pontifical celebrada até quasi 
ao fim conforme o rito ordinário . 

aluando o celebrante entoa a Gloria (que d^antes 
era n^esta missa e de Natal, cantado unic^ente pe- 
los bispos assistentes) dous acólitos correm o véu que 
até ali cobria o retábulo, os guardas nobres levan» 
tam as pontas das espadas, que traziam em funeral, 
e a um signal dado por meio de uma girandola, re- 
picam os sinos da cidade, e as peças de*artilheria 
do castello de Sant^ Angelo dão uma salva real. 

O celebrante ommittindo as palavras JÍçniu JDet, 
entoa logo depois da communhão nai espftçies a an- 
tífona AUeluiOf cantando em seguimento os músicos 
o salmo Laudale Dominum genies^ depois do qual o 
mesmo cardeal offician te entoa bemas«im.a antífona 
Vetpere aiâíem $abbatí^ a que segue o cântico, Mo- 
gnijtcai em musica de Lucas Maraniio \ e termina- 
das com estas orações inter tokmnia as vésperas, diz 
o diácono Iie Muia est^ o santo padre tendo deita- 
do a benção e concedido a indulgência na forma cos- 
tumada retira-se ao seu quarto, com o acompanha- 
mento do estj^lo. 

N^este mesmo dia celebra o bispo arménio a pri- 
meira missa de páscoa segundo o rito particular da 
sua igreja na basilica de S. João de Latrão, ad- 
ministra-se o baptii^mo aos jndeifs, , e. aos gentios 
adultos que entram no seio da Igreja jCatholica. 

Passarei agora a dar uma breve noticia da grande 
aolemnidade do. seguinte dia. 

(Contínua,) 

MaRAVEZ DlE RaZEKOB. 



' Estatística da popular lo dos 
■STADOS DA Europa. 

Daicu Miiadot 

1850 — Rússia 

1^49 -— Áustria 

1851 —Frangi. 

1851 — Grã-Bretanha 

1849 — Prússia 

1849 — Confederai^ Germânica*. 
1849 — Hespanha (continente) . • . 
1851 — Portugal 

1849 — Baviera 

1850 — Bélgica 

1850 — Hollanda 

1848 — Suécia e Noruega 

1849 — Dinamarca 

1851 — Suissa 

1850 — Duas Sicilias 

1853— Piemonte 

1849 — Estados Pontificios 

1849 — Toscana. 

1851 — Giecia 

1849 — Turquia. 



PRIRCIPAES 

Aumero de 

habitantes. 

. . 68.000:000 

. . 36.9t>a:lDi 

. . 35.781:628 

. . 27.619:866 

, . 16.331:187 

. • 10.7t2:89Í 

. . 13.715:000 

. . 3.8l4:77t 

. 4.o0i:874 

, . 4.426:203 

. 3.0o6:591 

. 4.i67:3da 

. 2.239:077 

. 2.392:740 

. 8.652:458 

. 4.437-584 

. 2.908:015 

. 1.699:938 

990:866 



•6igilizVd-byVb5a§1>è 



16 



o PANORAMA. 



121 




SMOftA HOaVAS OS 9AMÍBm 



No iVTUiTO de diffundir «'iostnicçao d« um modo 
ttpiforme em toda a França e preparar professores 
para todos os ramos do ensino, . a convenção fundou 
a escJla normal por decreto de 30 d^outubro de 1794. 
Os regulamentos relativos á organisaçao doeste novo 
instituto foram promulgados em 13 de janeiro de 1795 
e a 19 do mesmo mei teve logar asolemne abertura 
doa cursos : 1:500 alumnos enviados de toda a parte 
da França deviam frequentar ai^ulas como discípulos 
externos, para depois estabelecerem escolas normaes 
secundarias nas principaes cidades. O ensino, sujeito 
á superior direcção de dous membros do poder legià- 
lativoy era confiado a illustres professores, entre os 
quaes se distinguiam Legrange, Monge e Laplace 
nas cadeiras de matbematicHS, Hau^ na de physica^ 
BertboUet na de cbymica, Daubenton nas sciencias 
naturaes, Volney na bi»toria« La Harpe na littera- 
tura> Bernardin deSaint Tierre namorai. Sob a in- 
fluencia dWes homens insignes começou a escala siia 
existência. Nem o talento, nem o selo dos profcMO- 
res faltaram aos discípulos ; porém, mancebos que 
pela major parte não possuíam oa elementos de tão 
superiores estudos não podiam seguir com aprovei- 
tamento as lições de tão abalisados mestres. Por um 
lado, estas dadas perante um numeroso auditório, e 

V«L. 1II.--3.»Serib. 



publicadas semanalmente n^uma folha periódica, de- 
generaram muitas vezes em discursos brilhantes, mais 
próprios para fa;ier sobresaír o talento dos professores 
do que para amestrar os alumnos nos graves e seve- 
ros hábitos do ensino^ por consequência o resultado 
não correspondeu ás esperanças que se conceberam ; 
desanimaram talves muito depressa, e o certo é que 
a escola foi fechada em 29 d^abril de 1795, apenas 
três meses e alguns dias depois de abertos os cursos. 
Comtudo, a idéa que presidira a esta tentativa 
não podia perecer ^ todo o seu valor foi oomprehen- 
dido pelo vigoroso engenho de Napoleão. Logo de- 
pois da creação da universidade em 1808 estabeleceu 
por um decreto um ensaio de esc<51a normal para trè- 
sentos mancebos destinados ao magistério-, nao se 
chegou a preencher aquelle numero^ porém, a es- 
cola desde o começo deu provas da sua utilidade. 
\ maioria dos homens notáveis da França em nos- 
sos dias pertence áquella primeira promoção. Segui- 
ram-se os melhoramentos que seria longo enumerar^ 
e no tempo da restauração íiseram-se mudanças na 
urganisação interna da escola, submettida a uma dis- 
ciplina cada vez mais rigorosa. Licenciada em 1822 
por motivo de certa manifestação politica, foi de 
novo aberta em 1826^ porém, só verdadeiramente . p 

AaniL 22, 1854. O 



122 



O PANORAMA. 



restabelecida em 6 d'agosto de 1830 por Luix Phi- 
lippe. 

A cecola divide-se em duas lecçoes, litteraria e 
scientifica, em cada ama das quaes o curso dos es- 
tudos é de três annos. A primeira comprehende os 
«lumnos que se destinam ao ensino da pbilosophia, 
litteratura, historia e grammatica. Sendo bacharéis 
em bellas letras ao entrar na escola devem obter o 
grau de licenciados ims mesmas disciplinas no fim 
do primeiro anno, que é dedicado exclusivamente a 
preparar este exame. Os estudos do segundo anno 
abrangem a historia das litteraturas grega, latina e 
francesa y a historia da philosophia antiga e moder- 
na^i e um curso de historia geral ^ estes dous primei- 
ros annos são communs a todos osalumnos, qualquer 
que seja o ramo especial que pertendam adoptar^ 
mas o objecto do terceiro é completar os conheci- 
mentos de cada um nos estudos ou philosophicos, ou 
históricos, ou lítterarios conforme o ensino a que se 
destinam. 

A secção das sciencias comprehende oralumoos 
ue se preparam para o ensino das mathematicas, 
a physica^ da chymica e da historia natural/ Os 
diversos cursos scientifícos nao podem ser distribuí- 
dos de um modo tao favorável como os da secção 
litteraria. Os alumnos devem ter o grau de bacha- 
rel em sciencias mathematíc^s ao entrar na escola, 
e síío obrigados sub pena de exclusão a obterem no 
decurso dos dous primeiros annos os dous graus de 
licenciados em sciencias physicas e sciencias mathe- 
roaticas. Nao obstante o que acima ponderamos, o 
ensino scientifíco é tao solido e fructifero como o 
litterario. 

A escola normal superior, annexa a principio ao 
lyceu imperial, transportada depois para uma casa 
da rua dos Correios, mudada novamente para uns 
edifícios velhos, dependências do coliegio de Luiz 
XIV e local acanhado e insalubre, acha-se ha annos 
n^um sitio espaçoso e bello na rua deUlm por de- 
trás da Val-de-Grace. 



1 



A Semana Sakta em Roma. 

«« Un volume ne suífirait pat pour peiudre en 
détail les teules rérémonies de la Seinaiue Sain- 
te; on sait de quellemaj^nificeoceellefétaieut 
dans la capitale du monde chrétien. n 

Chaveavbriavd. Genie du Chriat. 

DoMiKGo DE Páscoa. 

Ao assomar a aurora, quando as aves com os seus 
gorgeios duo no ar aromatisado das flores de prima-' 
vera graças ao Crendor, os sinos de todas as cento e 
trinta igrejas d<^ Roma christa, e repetidas salvas do 
caslello de Sant' Angelo, que na Roma paga tinha 
o nome de J^íole Adriana^ aonde em diversos tem< 
pos estiveram fortificados, alem dos romanos já em 
decadência, os gregos, os godos, os alemães e os fran- 
cezes, annunciam a grande f^olemn idade da resurrei- 
çao do Homem Deus. Desde as oito horas da ma- 
nhS os dragões, e os carabineiros pontifícaes posta* 
dos para manter a ordem nas ruas, que desembocam 
n^aquelle forte e na praça de S. Pedro, despertam 
(como me notava a ^magi nação viva, poética e ro- 
mântica de Chateaubriand) pelos ramos de buxo e 
de oliveira, que trazem nos capacetes em memoria 
do immortal Triumphador da morte, os antigos sol- 
dados legionários romanos, que da outra banda do 
Tjbre faziam praça no tnfermonítum, ou via entre 



o monte PaJafáno e o Cbpttolmo, aos triumpbadores 
do muadO| cordadot de loaros e de victorias. Pelas 
nove horas a guarda nrbana e os guardas do capi- 
tólio guarnecem, pondo-se em alas, o vestíbulo da 
basílica de S. Pedro, na qual se fas a funcç2o, e o 
espaço, que entre a arcada de Constantino e a es- 
tatua colíossal do Príncipe dos Apóstolos, ha na bel- 
la e grandiosa nave principal doeste vasto e miste- 
rioso edificio, onde a architectora, a esculptura, a 
pintura, as artes de fabricar o mosaico e de fundir 
o bronze, a composiçio do estuque, o officio dedoa- 
rador, em fim todas as artes inspiradas pelo chrís- 
tianismo contribuíram para esta obra de mao mestra, 
como o sensível Aríosto lhe chamou nos seguintes 
versos: 

u Siede un tempio, il piu bello e meglío adorno 
Che vegga il sol, fra quanto gira intorno. n 

Pouco depois começam a chegar áquelle templo e 
ao palácio contíguo os cardeaes, a prelatura, o cor* 
po diplomático, e uma inumerável multidão de pes- 
soas de todas as classes, tanto nacionaes como estran- 
geiras, se é que, como com alto pensamento disse 
o já por mim tao citado Chateaubriand, alguém de- 
ve ser tido por estrangeiro em Athenas, Jerusalém, 
e Roma. Os cardeaes e prelatura^ dirigindo-se ksala 
ducaly tomam ali os ornamentos correspondentes á 
festividade, e, as differentes ordens, em que estSo di- 
vididos, seguindo depois os membros do sacro ^lle- 
gio até á camará dita /e<(o deparame%}U^ onde juntos 
com outras dignidades ecclesiasticas e seculares es- 
peram o santo padre, a quem dous cardeaes diáco- 
nos assistentes, depois de servida a lavanda pelocon- 
destavel Colonna, que nVsse dia é o príncipe do só- 
lio, revestem de amito, alva, cingulo, estola, plu- 
vial branco e formalio precioso^ espécie de brocha de 
ouro cravejada de brilhantes, que encaxa no alamar 
que aperta as duas bandas do pluvial. Posta depois 
a tiara, ou triregno, deita sua santidade por três ve- 
zes incenso no thuribulo, que de joelhos lhe apresen- 
ta o decano da assignatura, e pegando-lhe na cauda 
o príncipe do soIio, dirige*»e precedido dos circums- 
tantes á sala ducal^ onde toma assento na sedegeita^ 
ioria ou andor, de que já fallpí, em que vae levado 
por doze sedarii debaixo do pallio, nas varas do qual 
pegam oito referendários da assignatura, indo déca- 
da lado um capei Ião secreto com um flabello^ ou 
grande leque aberto, de plumas de pavão, ^sobre uma 
haste forrada de veludo carmesim, e doesta sala se 
pdem em marcha o pomposo acompanhamento pela 
seguinte ordem. Vuo diante de tudo osofficiaes me- 
nores da casa pontifícia seguidos dos procuradores 
geraes de todas as ordens religiosas, dos camareiros 
exira muros, dos capellaes ordinários, seis dos quaes 
levam quatro tiaras e duas mitras. Vêem depois os 
capellaes secretos, os advogados consistoriaes, e os 
camareiros secretos. Seguem os cantores pontificios, 
os abreviadore« dei Parco HJaggiore, os votantes da 
assignatura, os clérigos da camera apostólica, os au- 
ditores da rota,, e o mestre do sacro palácio, que é 
sempre um religioso dominico. Atras doestes vem 
dous capellaes secretos trazendo as mitras usuaes, o 
clérigo da camará, que leva o estoque, o votante 
da assignatura com o thuribulo e a naveta, e imme- 
diato a este i>ntre sele acólitos ceroferarios o audi- 
tor da rota mais moderno, com vestes de subdia- 
cono, levando alçada, e com o crucifixo virado pa- 
ra o pontífice, a cruz proc^sionai de três braços, in- 
do dos dous lados dous mestres ostiarios, denomina- 
dos de virga rtibea, ou castódios da crus. Seguem 

depois em dalmatica o auditor da Totãr^o^fktkAi^ 

^ Digitized by OUVJfQlC 



o PAlfOlUllIA. 



123 



faacr o ministério de rabdiacono latino entre o diá- 
cono e o subdiacono gtefgoi (que sempre são doesta 
nação) ; e apox elles os penitenciários ou confessores 
da baiilica de S. Pedro vestidos de planetas \ os ab- 
bades mitrados, os bispos, arcebispose patriarcbas, to- 
dos de mitra, á excepção dos prelados do Oriente, que 
segundo o rito privativo das suas igrejas, usam de um 
como diadema. Logo em seguida doestes prelados, pe- 
la maior parte decorados com o titulo de assistentes 
ao sólio pontificio, vao dous a dous os cardeaes diá- 
conos de dalmaticas, os pre<ibyteros de planetas, e os 
bispos, que são os prelados das seis igrejas suburbica- 
rias, depluvial, levando todos mitra. Seguem iinme- 
diatamente os conservadores e o governador de Roma, 
o priocipe assistente ao sólio pontificio, o vedor e o 
estribeiro m6r de sua santidade, o primeiro e segun- 
do mestre deceremonias-, o cardeal que ba de cantar 
o Evangelbo entre os dous cardeaes diáconos assis- 
' tentes, e o santo padre sentado na sede gestato- 
rta, e debaixo do pallío, entre us flabellos, co- 
mo fica dito : indo dos dous lados d^^aquella espécie 
de andor os cadetes e communs da guarda nobre en- 
tre alas de archeiros trajando os uniformes feitos pe- 
los desenhos de Buonarroti. Vão atras do papa o de- 
cano do tribunal da rota entre dous camareiros se- 
cretos e o archiatro pontifício, que servem os minis- 
térios Alais conjunctos com a pessoa do pontífice, fe- 
chando o préstito o auditor da camará, o thesourei- 
ro mòr^ o mordomo mdr, os protonotarios apostóli- 
cos participantes e honorários, o ajudante da chan- 
cellaria e o auditor delle coniradeiU, Entre os mui- 
tos prelados que no anno a que me reporto acom- 
panhavam Gregório XVI n^esta augusta ceremonia, 
iam o cardeaes Macchi eFranzoni mui conhecidos e 
estimados em Portugal, o cardeal Me^tofanti, poly- 
glota prodigioso tão admirado de todos, o cardeal 
Monico tãa interessante pelo seu longo cativeiro em 
Africa, e no qual a graça homérica estava unida ás 
graças do céu, e o cardeal Mai, a quem devemos 
além de outras muitas e mui importantes descober- 
tas de manuscriptos antigos algumas obras de Ci- 
cero. Vinham ali também dous prelados, um portu- 
guês, que apesar de pertencer a um partido contra- 
rio aò meu sempre respeitei pela sua profunda scieií- 
cia, e outro que s6 menciono por ter seis annos de- 
pois aceitado das mãos sujas dos carcereiros de Pio 
IX, e dos assassinos de Rossi um cargo na regên- 
cia da ephemera republica romana, desservrndo a 
tiara que o elevara, para servir o deslustroso diade- 
ma datyrannia de muitos. Ctuadrambem a este pou- 
co idóneo, e muito idoso ex-decano da Rota, a 
quem os Òarreiet vermelhot fizeram perder o rumo, 
e o capello^ dous textos frísantes, um de Vieira, que 
achou que haviam elevações, que não eram cresct- 
ftsen<ot, mas crecengas : e outro de Rivarol, que di- 
zia que na vida ha duai in/anciasj e uma prima- 
vera^ 

Pedindo perdão aos meus leitores doesta e de ou- 
tras digressões^ e tornando ao meu assumpto, direi 
que o melhor ponto para contemplar o apparatoso 
cortejo^ que acabo de descrever, é o patamar òr esca- 
das cie Constantino, pela qual se vé descer pela eica- 
da regia o soberano pontifico sobresaíndo n^uma es- 
pessura de mitras, qi;e tornam aquelle acompanha-; 
mento o mais magestoso, que pôde pintar-se na ima- 
ginação; e com que o papa entra pela porta princi- 
l>al da basílica, onde é recebido pelo cabido, ouvin- 
<io-se ao mesmo tempo os sons dos intrumentos das 
musicas militares, collocadas na parte inferior do pór- 
tico, e das vozes dos músicos dacapella, que cantam 
o verseto Tu es Petrus, 

Chegando sua santidade pelo cruzeiro á capella 



do Sacramento exposto, deixa tí$ed£gedaiar%a, eora 
ali algiTm tempo, passando depois ao altar da confis- 
são de S, Pedro (cuja primorosa banqueta e imagens 
dos dous primeiros apóstolos, foram feitas por Sen- 
venuto Cellini) torna a faser oração, e levantando- 
se, ao passo que as pessoas que o acompanharam to- 
mam os seus respectivos logares, vae sentar-se no thro- 
no de Tertiaj onde depois de receber a obediência do 
estylo, dá principio áquella hora canónica^ e em 
quanto ella ê cantada de canlochão sem acompanha- 
mento dVrgão pelos cantores da capella, diz o papa 
as orações preparatórias para a missa, e reveste-se 
para ella da maneira seguinte : 

Depois da lavanda ministrada pelo ultimo nobre 
do sólio, que no anno de que fallo, era o princtpe 
Ruspoli, acompanhado d^um auditor da rota, de dous 
njasseiros, chamados d^antes tervienUs armorum^ o 
cardeal diácono do evangelho despe o santo padre 
das vestes sagradas, de que até ali estava paramen- 
tado, e o reveste do sobrecinto, de que pende iim co- 
mo manipulo, da cruz peitoral, do fanone, ou murça 
de tecido de ouro, que vae passando sobre todos os 
ornamentos, da estola, da tunicella, da dalmatica, 
das chírotecas, ou luvas, da planeta, do pallium^ e 
finalmente da mitra ; pondo-lhe o cardeal decano o 
annel pontificio. Depois de deitar incenso no thnri- 
bulo, baixa o sommo pontífice do th rono, em que es- 
tava, e precedido dos thnriferarios, dos sete cerofe- 
rarios, da cruz, do subdiacono latino, que leva o Evan- 
gelho, do diácono e subdiacono gregos, do cardeal 
diácono do ovangelho, do cardeal decano, dos dous 
cardeas diáconos assistentes, dos dous auditores da 
rota, que pegam nasfimbrias da loba de sua santida- 
de, e do primeiro mestre deceremonias, encaminha- 
se o papa seguido dos patriarchas, arcebispos, bispos, 
e mais prelados assistentes, ao th rono maior, e vol- 
tando á mão direita, avança até á extremidade da 
quadratura cardinalícia, onde o esperam três car- 
deaes presbyteros mais modernos, a cada um dos 
quaes abraça por duas vezes*, e depois doeste rito an- 
tiquíssimo (a que od liturgistas dão varias interpre- 
tações místicas, que ommito por não estender mais 
esteja assas longo artigo) voltam os três purpurados aos 
seus logares, dirigindo-se o sum mo pontífice aosupe- 
daneo do altar, onde tem de celebrar. Chegando ali, 
e tendo deposto a mitra, começa fazendo o signalda 
cruz o Intróito e mais preces preparatórias, que nos 
primeiros séculos se faziam na sacristia, e que todo o 
clero presente ao mesmo tempo recita, dando o sub* 
diácono grego o manipulo a sua santidade logo depois 
das palavras Jndulgenliam et absoluiionem^ em quan- 
to o caro canta o bello Intróito Returrexit e o ver- 
sículo Domina, ditendo o Gloria Palri quando o pa- 
pa tem subido ao altar, que elle beija, assim como o 
livro, que o subdiacono latino lhe apresenta, passan- 
do depois a incensar o mesmo altar, e recebendo em 
seguida a thurificação do cardeal diácono do Evan- 
gelho beija este, assim como aos dous assistentes, na 
face esquerda e no peito. Finda esta ceremonia, sáe 
elle do altar para o throno fronteiro, e tirada a mi- 
tra lê o Intróito, e diz com os assistentes os kyriesj 
que no coro se cantam ao mesmo tempo, « apoz os 
quaes entoa o Gloria in ezcelrn, que es músicos se- 
guem, e sua santidade recita de pé, sentando-se lo- 
go depois, bem como todos os que tomam assento na 
sua presença. 

Tanto que os músicos acabam de cantar o hym* 
no angélico, levantam-se todos, e o santo padre tam- 
bém erguido e sem mitra dii : Pax vobisy a que o 
cdro responde : Et eum spirilu tuo, canta a oração rica 
tde eloquência: Deus, qui hodierna die, per Unige' 

Iniium iuum^ aiemitiKin nM$ adtdiiii devida. owrUy . ^ 

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124 



O PAKOIbOIA. 



reierdiU etc. no fim da qual se senta^ e torna a to- 
mar a mitra e o gremial, oa panno qne lhe cobre 
06 joelboa. Sobe entSo o aubdiaoono latino, e junto 
ao throno, em qae o papa ae revestiu^ canta em la- 
tim a epistola : PV-oires, exfnu^gaUveiíUãfermenktmj 
que o sobdiacono grego canta em seguimento no sen 
idioma^ e que o pontífice lê en^ voa baixa, depois 
do que vSo os dons ministros beijar oapÀ a sua san- 
tidade. Entoam immediatamente os músicos o gra- 
dual Hax dies e a sequencia Vietímae PoÊchaU^ que 
D santo padre igualmente lô de vagar, sendo aqueU 
la sequencia cantada por musica de Matheus Simo- 
nelli. Tomando então o cardeal diácono o livro do 
Evangelho que pouco antes coUocára lobre o altar, 
vae beijar a mâo direita ao papa, que finda esta ac- 
ção, deita incenso no tburibulo, e voltando depois 
d^isto o mesmo cardeal ao altar, ante o qual dii de 
joelhos : Munda cormetimj levanta-se ditas estas pa- 
lavras, e tomando o livro que ali poiera, levando á 
sua esquerda o subdiacono latino acompanhado dos 
sete ceroferarios^ e precedido do thuriferario dis : Ju- 
be^ Domne^ henedicere^ a que soa santidade respon- 
dendo, Dominus tii incorde tuo^ lança-lhe a benção. 
Levantando-se todos os ministros, e dirigindo-«e ao 
logar competente, canta ali o cardeal diácono em la- 
tim o Evangelho do dia, que o diácono grego semen- 
te assistido de cinco ceroferarios canta immediata- 
mente depois na sua lingua, tendo antes pedido a 
benção ao pontifico. Este canto da epistola, e do Evan- 
gelho nas duas línguas, para mostrar a unidade das 
igrejas Latina e oriental, e a supremacia da primei- 
ra, sendo um uso antiquíssimo e praticado d^antes, co- 
mo refere Mabillon em todos os conventos benedicti- 
nos, niarca também debaixo do ponto de vista litte- 
rario, a confraternidade d^aquelles dons idiomas, e 
quanto na antiga Roma e na parte da Itália meridio* 
nal, que tinha o nome de Grande Gfrecúi, era com- 
mura e bem aceita a linguagem da Grécia propriamen- 
te dita ; pedindo cu licença ao falso ou enganado selo de 
alguns catholicos que hoje, sem pedir vénia ao papa 
se ^éem declarado tão cruamente contra os clássicos 
d^aquellas línguas, para achar e diíer aqui que S» 
João Gbrysostomo, S. Ghregorio Magno, S. Ambró- 
sio, S. Tbomas d^Aquino, PrudeAcio, Santeuil e 
Coffino, despertaram a lyra grega e a latina nas pro- 
ducçoea que nos deram nas linguas de Homero e de 
Vírgilio. 

Nâo costumando haver sermão nas'funcç5es em 
que o papa officia, entoa elle logo depois de canta- 
do o Evangelho o credo^ e acabado elle diz sua san- 
tidade : Damnttt voòttcum, e lô em voz baixa o 
offertorio: ierra iremtdiy que os músicos da capei- 
la ao mesmo tempo cantam n^uma admirável musi- 
ca de Félix Anerio, e o moteto deVíctoria, queco* 
meça ; Q^uem vidUiú. Na capella real dos réis de 
Baviera, canta-se em vez doeste moteto o sétimo ra- 
mo do Salmo 23 : AtloUUe portasy príncipes^ vestrat, 
et elevaminiporUtoítemaleê: ei introibU Mexgloriaiy 
poesia onde as idéas vao mais longe que as expressões, 
e que a musa de Milton (que foi melhor poeta, que 
politico) imitou quanto lhe foi possível na sua deli- 
ciosa composição r Open yé everlasiing doort! sen- 
do aquellas palavras do profeta rei tão appropriadas 
á.circumstancia, como o é á letra a composição da 
musica a vozes feita por Orlando Lasso. 

Em quanto se canta o offertorium e o moteto, fat- 
se o que chamam aprovadas etpecieif tomando o car- 
deal diácono duas das três hóstias, que lhe sao apre- 
sentadas, e dando-as a engolir ao monsenhor sacristã, 
põem a« terceira na patena, assim como pratica com 
o vinho e a ajB;ua de que o mesmo prelado toma uma 
porção antes de preparar com estes dous líquidos o 



cálix. Foi esta precaução tomada quando os enve- 
nenamentos eram mui frequente» am Itália, eem 
outras partes da Europa. 

Feita esta prova, o pontífice, tirando oonnel que 
tomara estando no throno de Tertia^ e recebendo 
outro mais pequeno, desce do sqlio, e subindo ao al- 
tar, o beija no meio, e recebe <lo cardeal diácono a 
patena com a hóstia e o caUx, que ofiereoe do mo- 
do ordinário, seguindo-se em tu^o o mais até â ele- 
vação o que prescreve o ceremonial romano. 

Depois da consagração e adoração da sagrada hós- 
tia, faz a elevação em forma de cruz, no meio, á di> 
reita e á esquerda, e o mesmo faz com o cálix ; con- 
tinuando a missa pontifical do modo ordinário até 
ao Agnití Dei. Dito este e dado o osculo da paz, 
ajoelha reverentemente, e volta ao throno de mãoa 
postas e sem mitra. Então o diácono do Evangelho, 
que ficou junto do altar do lado da epistola, comoa 
olhos postos de modo a vêr o Sacramento e o pon- 
tifico, assim que este tem chegado ao sólio, faz ge- 
nuflexão, e pondo sobre a patena, que contém a hós- 
tia consagrada uma estrella de ouro, a que em gre- 
go se chama osienscot, com doze raios, em cada um 
dos quaes está gravado em caracteres semi-gothicos 
o nome de um Apostolo, e elevando a patena de f6r- 
ma a ser vista pelo povo, a entrega ao subdiacono 
que está de joelhos do lado do Evangelho, que a le- 
va ao papa, o qual ajoelhando adora o Sàcrannento 
e solevanta^ Ipgo o diácono pegando nocalíx, e ele- 
vando-o, o conduz ao pontífice, que o adora, como 
fez á hóstia, e tornando a por-se de pé fica eolloca- 
do entre aquelles dous ministros. Feito isto os dons 
bispos assistentes levam a candeia e o missal a sua 
santidade, que n^elle lô as duas orações antes da 
communhão; e tirando o primeiro mestre de oere- 
monias o asterisco de^sobre a hóstia, o papa toman- 
do-o com a mao esquerda, a divide em duas partes, 
e quando tem dito por três vezes, Dominey non 
fum digmu recebe uma d^ellas, dividindo a outra 
em duas para dar a com m unhão ao diácono e ao 
subdiacono latino. Logo depois o diácono cheem com 
o cálix, e o cardeal decano beijando a mão & san- 
to padre lhe entrega a/úitt/a aurea^ com a qual 
elle absorve uma parte do sangue. Q.aando o coro 
acaba de cantar o Agnus Deiy dá o papa a com mu- 
nbão ao diácono com uma parte da hóstia, e com a 
outra ao subdiacono, os quaes voltam ao altar, tra- 
zendo o primeiro o cálix com ãfiUula aurea^ e o 
segundo a patena, e ali consomeni o resto do san- 
gue. O pontífice e todos os assistentes dobram os 
joelhos quando o ministro leva o cálix para o altar, 
e o diácono voltando ao sólio canta o ConJUeor, • 
torna ao altar, onde toma a pjxide, que mostra ao 
povo, e depois entrega ao subdiacono, o qual a con- 
duz ao pontífice, que dito o 3£sereaiur e Indalget^ 
iiamy dá, como sempre que celebra, a sagrada Encha- 
ristia a todos os cardeaes diáconos, admittindo tam- 
bém n'*este dia á communhão o príncipe assistente 
ao sólio, e outras pessoas seculares, que tèem logar 
na capella pontificia. Feitas as purificações, vae o 
príncipe condestavel ao sólio dar a lavanda a sua san- 
tidade, que, ao entoarem os cantores o Commuimo 
torna ao altar, onc^e na forma preacripta pelo oere- 
moniíal acaba a missa. 

Concluída esta, o pontífice despe os ornamentos 
com que se preparou para celebral-a ; e, tomando o 
pluvial e a tiara, vae, apoz uma breve oração, sen- 
tar-se na sede gedatoria^ onde recebe os trinta Jur 
lios de ouro, que entrega ao cardeal diácono, que 
logo os dá ao caudatário pontificío, ofierecidos pelo 
cardeal arcipreste da basílica de S, Pedro, em nome 

do «bido, pro ^•••«Í5'^i«i^'ÇvS'õ?3§'fr" 



o PANORAMA. 



125 



lado^ eonforme um antigo fonnolario, oottama diiar 
ao lanto padre. 

Segao depois d^iíso o papa com o maimo eortejo 
até ao meio da basílica, onde prostrado no genuflexo- 
xio .Tenera as reliqnias da paixSo, que nm cónego 
eoLpSem na trilmaa chamada da Verónica, e logo de* 
pois doesta devoçSo vae sua santidade á Loggia on 
grande varanda sobre o pórtico da basílica de S. Pe- 
dro, onde dá a bençio papal, que por del^a^o soa 
eottnmam também, os bispos dar, n^este mesmo dia, 
em todas as cathedraes do Orbe catholico. 

Adiando-se os príncipes de sangue real e os mem- 
bros do coipo diplomático nas tribmias para elles pre- 
paradas sobre o terrado da colamnáta do lado do pa- 
lado do Vaticano, ondeCarbs V, Francisco I, Gns* 
tavo in, José II, Paulo I, Alexandre I, NapoleSo, 
Ghrifttína, e tantas outras cordas, e sceptros levan- 
tadoa ou caídos, onde oAriosto, o Tasso, Montaigne, 
Mabillon, Montesquíeu, Bartheleroj, Lalande, Cba- 
teaabriaad, Milton, Nelson, Byrou, Triatio da Cu- 
nba, Macedo, Vieira, Alexandre de GusmSo, e tan- 
tas outras pessoas eminentes em dignidade, saber, va- 
lor, e virtude, presenciaram e admiraram em diver- 
sos séculos esta devota emagestosa funcçio, a que as- 
sistem muitos milhares de pesmas postas ao longo dos 
muros Jateraes do pórtico, ou junto ao obelisco de 
Sesostris, nos entrecolnmnios do peristylo, e em to- 
das a« partes onde se pdde avistar o papa -, eís-aoui 
o aspecto geral que presente a paca de 6. Pearo 
n^este alegre dia : Os camponeses dos monteç de Sa- 
bina, e dos campos drcumvisinhos de Roma, estio 
empilhados no terrapleno da fachada e da escadaria 
que Gondoiem áquelle logar. A tropa, tendo ás musi- 
cas militares no ceptro, está formada no grande es- 
paço que ha entre aquelle terrapleno e o obelisco, 
junto ao qual estão apinhados os transtyberinos, cu- 
jas feições e proporções sao vislumbres dos antigos 
Tomanos, além dos habitantes de outros bairros po- 
bres, como Borgo, e Monti. Os accessos para a co- 
lumnata estio oocupados pelos fieis de todas as clas- 
ses^ o resto da praça e as ruas adjacentes por qui- 
nhentas ou seiscentas carruagens. Gtuando ao soar 
meio dia se presume que vae dar-se a benção, para 
logo todos os olhos se fixam na Loggia ainda vaiia, 
mas onde dentro em pouco tempo se vêem sucoessi- 
vamente chegar a crus processional, as tiaras e mi- 
tras que se coUocam na balaustrada, e os eardeaes, 
dous a dous, que apparecem e se retiram, ficando a 
tribuna novamente desoccupada. Maseis-que no fun- 
do da Loggia se avista e se vê chegar á balaustrada, 
sobre um andor, um venerando ancião de vestes sa- 
gradas e coroado. Bem depressa os carrilhões e sinos 
que até ali repicavam, cessam de tocar; e a artilha- 
ria que trovejava emmudece. Dobra entio aquella 
immensidade de gente reverentemente os joelhos, e o 
vigaiio de Christo na terra, elevando as mios, como 
para attiahir sobre ellas • as graças do céu^ abençoa 
por três veies, em nome do Todo Poderoso, aquel- 
la piedosa multidão. Im mediatamente o castello de 
Sant** Angelo salva com vinte e um tiros, e os sinos 
da Cidade Eterna tornam a dar signAes de alegria. 
Logo depois da Bençio papal um cardeal diácono 
pnbliea em latim, e outro em italiano, a indulgência 
plenária concedida n Wa oocasiao pelo ponti^ce, que 
descançando um pouco na ppnderaçio ou na vista 
doeste grande espectáculo, se conserva ainda por al- 
gum tempo aos olhos do povo. Levantando-se elle de- 
pois, e dando-lhes de novo a bençio, sem a acompa- 
nhar de palavras, sáe daXo^^^, evolve woLetío,de 
Paramenii com o mesmo numeroso e vistoso cortejo 
com que d^aquella camará saiu 



eu observe n^este logar, que o nome tio pio e tio 
poético de Benção Sokmne uM H orbi^ que eeml- 
oaente se dá em Portugal, em Fran^, na ItiSia, e 
até mesmo em Roma, a esta acção religiosa, é,.como 
outros muitos ditoa vulgares^ intaramente destitui» 
do de fundamento, poia que nenhuma tradição an- 
thentiea o justifica, nenhum litargista deanctorida- 
de o abona, e, finalmente, nem a formula da bençio 
eda indulgência o autorisa» nem (o que decide com- 
pletamente a questão) o ceremonial romano oindiea. 

Em todo ooaso, a impropriedade d^aquella expies- 
iio não fat que o papa não seja considerado, entre os 
catholieos, como o prsmeiirQ dn rei»^ «, o primeiro 
do9 ioeerdoiêt, como no seu Diccionario Philosophi- 
00 dis Voltaire, que certamente não pede ser sus- 
peito d^ultramontanismo \ . provando elle assim que 
a^ raça charlati do philosophismo usa da sua cons- 
ciência, como os que usam de luneta, se servem, do 
vidro, de quando em quando, e que nem sempre 
está de humor de díier heresias. 

Terminando este artigo, peço perdão aos leitores 
a quem elle desagradar por carecer da tinta ou som- 
bra de romance que hoje é moda dar a todoa oa es- 
criptos descriplivos ou históricos : mas eu penso, co- 
mo muita gente, que os romances de hoje, terão pe- 
la maior parte, a sorte dos romanos antigos, que con- 
quistaram o mundo, mas não o puderam guardar. 

MAnovss nx Rxixxds. 




OAHRO BS OAROA SQVnXBRABA. 

NxK sé em Portugal, mas em França os meios de 
transporte em carros são ainda os antigos, postoque 
entre nés muito mais grosseiros e pesados. Õ jornal 
d^onde tiramos a nossa estampa e que é datado de 
julho do anuo passado, dis o seguinte : 

M A carreta ou carro de duas rodas, em sua sim- 
plicidade inteiramente primitiva, é quasi o único 
vehiculo empregado nos transportes em o nosso paii; 
exceptuando alguns departamentos do norte e de 
leste não se conhece outro nos campos, e é restri- 
ctissimo o uso das carroças ou carros de quatro ro- 
das. 

tt Não se ha de attribuir a usança velha esta pre- 
ferencia ^ mas sim, á simplicidade de oonstrucção da 
carreta antiga, seu peso relativo á fiMsilidaae de 
manobrar, e o exigir menos esforço de tracção que 
os vehiculos de quatro rodas. Comtudo, a par d dei- 
tas vantagens tem um grave inconveniente. O car- 
ro de quatro rodas não exige do tiro senão esforços 
I de tracM^o propriamente ditos parallelamente á 



su- 
A bdelidaàe com que fix esta narração pede que [ perficie do caminho. Não é assim no outro carro : t 

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126 



O PAKORAIIEA. 



O cav«llo metticío nos varaee, e que em grande nu- 
mero de casos é o unioo motor do vehiculo, fórma 
com as duas rodas o terceiro ponto de apoio neces- 
sário á estabilidade do carro, resultando que a dea* 
locação do centro de gravidade da carga, quer para 
diante quer para traz do eixo transmitte uo cavai- 
lo uma acção vertical, dirigida de cima para bai- 
xo ou ao inverso, a qual lhe carrega nos rins pela 
pressão ou tende a levantai -o em virtude da silha 
mestra. 

u  figura dá a explicação d^^estes efleitos. 
u Estando o centro da gravidade da carga em C 
acima do eixo £ quando o caminho é horisontal, o 
carro está emequilibrio, e o cavallo dus varaes não 
sofifre outras impressões verticaes que não sejam as 
procedentes das pequenas desigualdades do caminho. 
Mas se a estrada desce e o carro se inclina para 
diante, a vertical partindo do centro de gravida- 
de vem passar adiante do eixo na posição figurada 
pela linha CC. Se ao contrario o caminho sobe e 
iuclinando-se o carro no mesmo sentido, a vertical 
passa fltrax do eixo na posição marcada pela linha 
GG'. D*ahi resbltam sobre o cavallo os esforços sue- 
ccssivos que marcamos. Suppondo a altura C E da 
carga acima do eixo igual al*^, 20, a distancia EA 
do eixo ao ponto do varal onde prendera as correias 
igual a 4 hietros, e o peso da carga a 4:000 kílo- 
orammas, as impressões verticaes transmittidas ao 
ponto A são, para um declive ou rampa de 5 cen- 
timetros de inclinação por metro, de 60 kilogram- 
mas, e angmentam perto de 12 kilogrammas, tanto 
n^um "sentido como no outro, por cada centimetro 
mais de inclinação. 

«Portanto, quando o caminho é subida, quando 
o cavallo precisa de toda a sua força e todo o seu 
peso para vencer a fricção e a acção da gravidade, é 
por assim dizer levantado e perde a sua adheren- 
cia com o solo. Ao inverso, quando o carro desce, 
quando o peso doeste arrasta o cavallo para diante 
e o obriga a resistir, acha-se sobrecarregado pelo ex- 
cesso do peso tesultaute da deslocação do centro de' 
gravidade da carga, e ainda por outros movimen- 
tos. 

u Todos têem visto este duplicado effeito que fa- 
tiga o animal que o soffre \ o cavallo em parte sus- 
penso faz esforços estéreis para subir uma rampa, e 
depois tendo de descer é opprimido pelo sobrecar- 
rega. 

u Um habitante d' Argentan observou attentamen- 
te este mal e imaginou o seguinte remédio. Consis- 
te o seu systema em fazer variar a posição do cen- 
- tro de gravidade da carga em relação ao eixo, se- 
gundo sobe ou desce o carro. Para o conseguir pro- 
poz dous meios. No primeiro, a distancia entre o 
cavallo e o centro de gravidade da carga fica a mes- 
ma e é o eixo que se faz avançar ou recuar, segun- 
do os casos, para que venha tomar a posição dos 
pontos g ou gf da figura acima estampada. Pelo se- 
gundo meio a distancia entre o cavallo e o eixo é 
fixa, e c a carga que se faz avançar ou recuar de 
maneira que, segundo fôr necessário, seja o ponto g 
ou g'y marcado na figura, que venha coincidir com 
o eixo. 

u N^estas duas disposições o mechanismo simples 
que produz o movimento do eixo ou da carga actua 
ao mesmo tempo sobre todo o systema dos raios da 
roda de modo que faz applicar os freios contra as 
rodas, quando o carro desce, com uma energia que 
augmcnta conforme a inclinação da rampa, n 



SOBRX o DXSCOBBIMSUTO da COKMfTVICAÇlO BN- 

TRE D0V8 MARES AO KORTB DO CONTIVBKTX AM V- 
BICANO. 

Por se referir a dous portagueies distínctot, posto 
que em diversas epochas e diversoa ramos, transcre- 
vemos a seguinte nota do sábio hespaiihol D. Ramon 
de la Sagra, publicada em um Jornal de Madrid, de 
2 de março ultimo. 

u Recentemente e por motivo das investigações pra- 
ticadas em pesquiza do capitão Franklin perdido nos 
mares polares^ os jornaes mencionaram a relação es- 
tampada em Londres da viagem do oi^iteo Mae- 
Clure em que se apresenta como um descobrimento 
novo a existência de uma passagem ou estreito, que 
une e communica o Oceano Atlântico com o Paetfi« 
CO. A relação do marítimo britapnico, a soa intre- 
pidez no meio dos perigos que passou entalado nos 
gelos, e as noticias dos singulares habitantes que en- 
controu n^aquellas longínquas e desconhecidas regiões, 
deviam excitar e com efieito excitaram o mais vivo 
interesse na imprensa europea. 

Este notável assumpto o foi também .de uma das 
conferencias que costumo ter quasi semanalmente com 
o sábio e erudito visconde de Santarém, residente 
em Paris ha annos para gloria da soa pátria eadian^ 
tamento da sciencia. Gtuando ao mui apreciável vis- 
conde de Santarém se toca em qualquer ponto de 
investigação histórica ou. geograpbica, carece-6e de 
tomar immedíatamente a penna ou o lápis para não 
perder a preciosa multidão de noticias, de datas, de 
nomes, que saem da sua bÒca com uma factlida4a e 
facúndia, como se lesse um livro especial sobre ama^ 
teria. Recordo-me tristemente de que outro tanto me 
succedia em AJÍadrid com o eruditíssimo e profundo 
D. Martin Fernandes de Navarrete, que morreu com 
a magoa de não ter conhecido pessoalmente oieu di» 
gno amigo e justo apreciador, visconde de Santa* 
rem . 

Voltando, pois, ao objecto d We artigo vou trans- 
crever o que me disse este sábio na conferencia a 
que me refiro, e o farei quasi litteralmente. uPare- 
ce-me (disse) que a exploração feita ultimamente pe- 
lo valente e intrépido capitão Mac-CIare para achar 
passagem entre o mar Atlântico e o mar Árctico, 
deve ser confrontada com as relações das expedições 
e tentativas feitas |>elos antigos marítimos, de que 
nos ficaram documentos authenticos. 

uFôra preciso comparar primeiro a moderna re- 
lação com a do navegante português Gaspar Corte 
Real, que emprehendeu achar a mesma passagem ao 
nor^e para ir ás índias. Dirigiu-se com eíTeito por 
aquelle lado em 1500^ e examinou primeiro o Ho 
S. Lourenço, costeando depois a terra qiie chamoa 
de Labrador até o cabo de Chidley, que julgou que 
formava a entrada do estreito, por onde devia acliar 
a passagem de um para outro mar, e é o estreito que 
recebeu depois o nome de Hudson. 

u Corte Real recolheu a Portugal a annunciar os 
seus descobrimentos, e prestes tornou a partir ^ porém 
n^esta grande viagem o baixel .em que navegava pe- 
receu ou desappareceu como o de Sir John Fran- 
klin \ Corte Real achon-se, pois, como este e como o 
próprio capitão Mac-Clure, encerrado entre os gelos 
d^aquellas altas latitudes. Um de seus irmãos par- 
tiu a procural-o-, mas desgraçadamente soffreu igual 
sorte.' 

ic Cumpre advertir que os dons irmãos tinham si* 
do precedidos n^aquelles mares por outros dous na- 
vegantes em 1464, Vasco Annes Corte Real e Ál- 
varo Martins Homem, que descobriram a terra do 
batalháu (Terra Nova).* 



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o PAJNORAMA. 



127 . 



uNSo tenho á .roSo agora o livro sununamente 
nrOyintitttlado II Nuovo Mundo^ etc, 1507, onde 
M acha a carta de Pascalino, embaixador da repo* 
blica de Venesa em Lisboa, datada de 29 de outu- 
bro de 1501 e dirigida ao «eu governo, na qual re- 
f<pre as particularidades da viagem de Gaspar de 
Gdrte Real e da ch^^da dos esquimaos conduzidos 
por este a Lisboa, e que foram appresentados a el- 
rei D. Manuel, etc. 

u o próprio facto da catastrophe de que foi vi* 
ctima o intrépido Corte Real em sua segunda via- 
gem^ assim eomo o irmão que ia procura]>o, podia 
provar que ambos tinham penetrado no mar polar, 
visto que mr. Mac-Clure dit: uque é inútil enviar 
floecorros a qualquer que fosse arrastado para o mar 
polar, porque nenhum navio que entre n^aquelle 
ab^mo pode sair. n Accrescen tarei que ua carta iné- 
dita de Joio Freire de 1456, as explorações sobre 
as costas orientaes da America do norte chegam até 
o cabo que elle chama Cabo Branco, sitnndo por T2 
graus de latitude boreal^ por consequência nos altos 
paralielos da bahia de Baffin. Este facto prova que 
não foi Hudson quem descobriu em 1710 o estreito 
que communica este mar com o Atlântico, como 
pertendem os modernos que não conheceram as car- 
tas antigas; 

«No mesmo século, anno de 1588, o navegante 
hespanhol {joureoço Ferrer Maldonado atravessou 
do mar Atlântico ao mar Paciâco pelo nordeste. A 
relação de Maldonado acha -se n^um manuscripto 
hfsspanbol conservado na bibliutheca ambrosiana de 
MilSo, e foi publicado por Amoretti em 1811 com 
as' antigas cartas que se acham no original. O que 
todavia ha roais notável sobre as viagens ao norte, 
é que no famoso' mappa-mundi de Fra-Mauro de 
Venesa de 1459 acha-se, sobre o mar Glacial, uma 
legenda, que dis: uque no seu tempo um navio ca- 
talão tinha passado ao norte da Rússia e da Sibé- 
ria. 

i< Resumindo as minhas recordações sobre as via- 
gens ás partes orientaes da America do norte, re- 
sulta que houve quatro expedições portuguezas a 
essas paragens nos primeiros annos do século 16.^ 
A exploração das costas, dos gnlphos, dos estreitos 
e dos mares até 72. graus de latitude boreal, acha- 
se confirmada pelas cartas antigas e pelos auctores 
da mesma epocha, como também pela nomenclatu- 
ra h^drographica portuguesa que se acha nas mes- 
mas cartas. As ditas quatro expedições foram : pri- 
meira de Gaspar Corte Real em 1500^ segunda a 
do mesmo em o seguinte anno^ terceira a do irmão 
d'este em sua busca \ quarta finalmente, outra en- 
viada por el-rei D. Manoel em procura dos doos 
irmãos Corte Real. Os capitães doesta levaram ins- 
trucções de explorar de novo todas as costas orien- 
taes até ás latitudes mais elevadas. 

mOs nomes impostos por Corte Real durante a 
sua primeira viagem era 1500 acham-se nas cartas 
desde 1508, isto é, sete annos depois de seus des- 
cobrimentos, até á carta de Ortelio em 1571, na 
qual se notam alguns. Finalmente, proponho-me a 
demonstrar tudo isto n^um extenso trabalho que me 
occupa ha tempos, n 

Taes foram em resumo as indicações do meu il- 
lustre amigo sobre a recente relação do capitão Mac- 
Clnre, as quaes me apresso a publicar como mui op- 
portunas no momento presente, e interessantes para 
OS homens estudiosos em geral, e particularmente 
para os que colligem dados para rectificar a tao equi- 
vocada e imperfeita historia dos descobrimentos ma>- 
ritimos em o Novo Mundo. 



O CONDE SOBERANO DE CaSTELLA, 
Fernão Goncalvi-s. 



SKCVLO X. 



IX, 



A RESOLUçXi». 

A DicTADURA moral do conde em toda a Hespanha 
christS era incontestável. Mas dVssa mesma aureo- 
la popular, que cercava o seu nome, nascia todo o 
perigo que estava immínente ao seu poder. Ama- 
vam-no os povos f Temiam-no, e detestavam-no os 
reis. Os próprios califas tratavam de melhorments 
com estes, que viam no cimo das dignidades huma- 
nas. Estes eram os seus pares, os seus affins^pela ti- 
milhança do cargo, os seus amigos por uma certa 
solidariedade de interesses de potencia a potencia. Os 
outros, mesmo aos olhos dos representantes do profeta 
eram vassallos, inferiores, intrusos, como quem diria 
revoltosos, nomes feios com que todas as autocracias 
estabelecidas usam desconceituar toda a tentativa, 
que se encaminha acombatel-as, ou destruil-as, por 
legitima e justificada que seja. Os imperantes de 
Córdova esbofeteavam indirectamente as rebelliões 
brotadas com frequência no seio do islam, com a mes- 
ma mao benévola que constantemente estenderam aos 
reis christaos, quando estes em apuros pelas revoltas 
dos senhores feudaes vinham humilhar-se aos inimi- 
gos da cruz. 

Doesta vez se o rei de Leão soUicitaVa submisso a 
alliança, ou antes a protecção do miramolím, este, 
pelo que o leitor ficou deprehendendo do dialogo 
dos walis de Saragoça e Córdova durante o banquete, 
procurava entender-iie com Ramiro. A víctima vo- 
tada por ambos era Fernão Gonçalves. N^este pa- 
cto de destruição forçosamente intervinha como cúm- 
plice o rei de Navarra. Tinha recusado a mao de 
sua filha ao chefe castelhano, e pretendera enlaçal-a 
com a do mortal inimigo dVste,- o conde Vela. O 
Vela era morto, e agora Abddallah, filho do califa, 
aspirava ao ihalamo d^aquelia princesa, entre a qual 
e Fernão Gonçalves havia promessas e penhores de 
consorcio. 

Ameaçado o seu poder por uma liga formidável 
de inimigos, ferido nas suas affeições ou antes no seu 
capricho, porque a ternura do homem padecia som* 
nolencias longas no político, cujo sentimento sem- 
pre vigtlante era a ambição, — duas circumstancias 
havia, se bem de differente alcance, que mortifica* 
vam especialmente o conde, e com maior intensida- 
de do que o nao opprimia a situação critica do seu 
estado. Uma era a perda do sinete, apesar de nSo 
receiar jád^ahi nenhuma outra praça rendida, pelas 
medidas de preeauçao tomadas para o evitar. A ou- 
tra era a omissão da ceremonia militar do arauto, 
que os miramolins de Córdova costumavam, quando 
se proclamava oalgazu, enviar aos príncipes christaos, 
para os intimar em nome do vigário do profeta a 
elles e ao seu povo, que renunciassem ao culto dos 
Ídolos e seguissem a lei de Allah, o deus verdadei- 
ro e o único, sob pena de abandonarem throno e 
pátria aos filhos de Isnaael. Mas a falta do arauta 
importava apenas uma descort^ia irritante para o 
amor próprio de um chefe soberano, em quanto a 
perda do anel se reputava entre- as gentes um coino 
de&a pareci mento do palladion do condado. Era um . 
apoio moral, q^aasi um- apoia divMjffeg^ ^"gia ^^çlc 



128 



O PANORABIA. 



defeosorei de Castella. A mesma crença supenticio- 
sãf com que oi romanos olhavam a salvação do im- 
pério dependente da conservação do escudo sagrado, 
preoccupava os castelhanos a respeito do sinete da 
provincia. 

Recolhendo o seu espirito na véspera de um acon- 
tecimento supremo, pesando a probabilidade de um 
movimento combinado das tropas leonezas e árabes 
contra Castella^ attt^ntando n^umas certas mostras 
de friesa ou de temor, que entraram a manifestar- 
se. em alguns senhores forasteiros que seguiam o seu 
pendão, calculando os contras e apVeciando pouco as 
vantagens de um plano de campanha estríctamente 
defensivo, Fernão Gonçalves cortou o n<5 cego das 
dificuldades que o cercavam com uma resolução ar- 
rojada. Saiu com a sua hoste de vinte mil de cavai- 
lo e des mil de pé ao encontro do califa. 

A poucas léguas de Lerma uma avançada da ca- 
vallaria castelhana encontrou a colnmna volante dos 
árabes, travándo-se entre ambas escaramuças de pe- 
quena monta. Appareceu depois o próprio Fernão 
Gonçalves á frente de numerosos esquadrões, e de 
um corpo de besteiros. A columna árabe debandou 
então completamente, fugindo a todo o galope. Con- 
seguiu ganhar uma boa dianteira ao inimigo, mas 
rebentando-lhe de improviso de um bosque espesso 
uma turma de cavalleiros aiaveses commandados por 
Inigo Lopes, foi detida por estes. £m poucos mi- 
nutos chegou Fernão Gonçalves, e os árabes entala- 
dos entre forças muito superiores em numero, expe^ 
rimentaram um desbarato completo. O conde perse- 
guiu os fugitivos distancia de duas léguas dos arrayaes 
do cali&, e ^ ahi parou um instante, ivtraoedendo 
depois. 

N^este intervallo oe besteiros castelhanos derra- 
mados pela planície, e muito á retaguarda do cor- 
po que acossava os inimigos, mettiam asaooo os ára- 
bes que encontravam Jasend^ no chão, mortos ou 
feridos, quando inesperadamente os surprehendeu 
uma pequena partida de cavalleiros mosselemanos. 
£ra Abdelmelek, o filho do califa, que destacando-se 
do seu corpo e tendo entregado ao seo segundo ooom» 
mando da columna fugitiva, tomara um grande des- 
vio para que o não sentisse o corpo principal dos 
castelhanos, e voltara ao sítio do combate com os 
aiaveses. O motivo que o obrigava a cometter este 
rasgo de temeridade, era o desapparecimento do seu 
secretario, ferido ou morto na re^ga, e o receio de 
que caíssem em poder dos cbrístãos papeis de grave 
importância, que aquelle confidente do principe tra* 
sia comsigo. 

A gente de Abdelmelek começou a sua busca pe- 
los corpos, que jaxiam sobre o campo, sem oppodção, 
Srqne os besteiros no primeiro sobresalto fugiram, 
as vendo estes que a força inimiga não passava de 
uma centena de homens, cobraram animo, formaram 
um macisBo e desfecharam um chuveiro de setas so» 
bre os cavalleiros. Houve mesmo alguns mais ousa- 
dos, que se adiantaram das fileiras* Vm doestes o 
Diogo besteiro buscava todas as traças de ferir o 
principe. Vendo que se lhe embotavam todos os vi- 
rotes na bem temperada armadura de Abdelmelek, 
tentou approximar-se d'elle. O principe dedignan- 
do-se de ensopar armas n^um peão, forneava a lan- 
ga «m ordem a afiístal-o. Mas o importuno peão 
porfiou tanto, chegando-se cada vesmais, que o che- 
fe árabe, já agastado, passou-lhe o braço esquerdo 
com a lança, e o Diogo arrebatando-a da mSo ao 
rdono, fugiu com.ella. A lança era uma peça de mui- 
to valor, tauxiada de ouro e cravejada de pedras 
preciosas* Os arabea quiseram ir logo na câa do fu- 
gitivo para a restituírem ao seu capitão. Este po- 



rém com o primor caracteristíoo -da sua raça, teve- 
lhes mão, disendo : u Deixae esse desgraçado ! que 
ao menos se escapar da ferida lhe fiquem meios pa- 
ra a curar. » 

O besteiro que não podia ouvir estas votes tio fa- 
voráveis para elle, corria como a seta despedida do 
arco, ate que por fim caiu sem accordo esvaído em 
sangue \ e um cavalleiro castelhano que ao aeaso n^es- 
se momento passou por elle, vendo a preciosidade 
da lança, tirou-lh^a e levou-a. 

Entretanto Abdelmelek havendo achado o seu 
secretario entre os feridos, recolhia os papeis que 
buscava, quando uma nuvem de pé que se levanta- 
va do lado de Lerma, avisando-o da approximação 
da cavallaría castelhana, o obrigou a confiaria á ex- 
trema velocidade do seu coroei. 

A ordem doesta narração força-nos a deixal-o, e 
a seguir por um pouco aquelle besteiro ferido e rou- 
bado do esplendido despojo da sua campanha, cuja 
índole o tinha desprendido das paixões, das virtu- 
des e do fanatismo da epocha, pondo-o superior ao 
seu tempo a torpesa do egoísmo junta com oinstin- 
cto da duvida, como a outros os elevou adma do 
século, em que viveram, a grandeia do génio e do 
coração. 

O Diogo que ao recobrar os sentidos se achou já 
na caserna de Burgos com um frade á cabeceira, 
exhortando<o a que cuidasse da sua alma, aprimora 
cousa em que elle fallou foi na ma lan^a. Vendo 
que ninguém lhe dava noticia d^ella, fez mesoioex-^ 
hausto de forças i/ma berraria tal, que ao cabo de 
alguns minutos todos os seus camaradas se conven- 
ceram de que a ferida não era de morte, e em pou- 
cas horas se descobriu quem tinha a lança. 

O cavalleiro,. que a roubara, não quis porém resti- 
tuil-a. Formaram-se então doaè parcialidades, uma 
que esposou os int e r esses do besteiro \ a outra os do 
seu espoliador. Houve pleito por causa da lança. O 
pleito foi debatido na instancia inferior, depois ap- 
pellado para o tribunal do conde, que o remetten 
para o vigário ^ e o vigário que era tão decidido 
n^ilma refíega com o montante nas mãos, hesitava 
entre os dous litigantes, isto é, entie a cavallaria e 
infantaria, como o casco* de um navio velho fluctsa 
entre duas correntes oppostas. Entretanto a parcia- 
lidade contraria ao besteiro espalhou a noticia da 
sua morte. Este boato divulgado em toda Burgos, 
serviu por um dia ou dous de pasto á conversação 
das mulheres do povo em todos os soaUieiros. 

— M Já lá vae o Diogo ?m perguntava para outra 
uma das visinhas da Vejarrua. 

— u Já. Já está onde nés havemos de estar tam- 
bém, n respondia a interrogada. 

— M Louvado seja Deus!» rematava a interro- 
gante. 

— tcNão digaes tal, visinha Margarida ! não di- 
gaes tal ! » interrompia a tia Josefa, que as escuta- 
va da sua porta, u o maldito morreu em peoeado, 
coroo um barbo com a isca no bucho ^ que bem lh*o 
diria a avé, quando elle, sendo rapas, ia todas as 
manhãs furtar cereijas ao cenado da comadre Eu- 
Isasia. » 

(ConUnúa.) 

AmTOVIO DB Os.1VBIBA M⻫«CA. 



— Os governos justos são sempre os mais fortes ^ 
alguns tratam de ser fortes sem lhes importar ser 

justos. 

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17 



o PAíNORAMA. 



129 




SUA IIAOS8TADE A SXVHORA O. M ABZA IZ. 



Vot. III. — 3.a Serie. 



Digitized bvLjOOQlC 
Abrii 29Í, 1854. O 



130 



O PANORAMA. 



Svot Ucriflue rerom, et ncnteni mortalU 
tangnot. 

Vl««IL. — KVBIO. 

Remou cuttodia militari , Uitior piblici 
MMirit eccabiú pergebat. 

Swr. IH CstA*. 

Armm samn teteadit. . . et in eo paraTit 
▼SM mortú. 

PtALM. TU, T. 14. 

A RAiMBA doi portuguezba ha cinco meies qae des- 
cança debaixo das abobadas do seujasigo real em S. 
Vicente de Fora ! 

A vida na florescência contava-lhe ainda largos os 
annos de ventura \ mas a morte, seguindo-a de perto, 
já lhe estendia as sombras sobre o rosto, quando nin- 
guém o suspeitava ! 

Logo que a triste nova se divulgou, traspassando 
de peiar e assombro a quantos alcançava^ todos se 
recusaram a acredital-a. Era a sublime incredulida- 
de do amor \ e para a vencer foi necessário que a 
«evidencia, arrastando o luto de um reino, viesse cho- 
rar a immensa dor ! 

Foi preciso que o som lúgubre do canhão, o do- 
bre pesado dos sinos^ e as armas em funeral, confir- 
massem a orphandade, cujo grito lacerava o coração, 
' em torno do leito aonde jaziam os restos d^Aqaella, 
que horas antes se chamava soberana e poderosa, e 
do alto do throno parecia superior á inevitável que- 
da das grandezas humanas ! 

A rainha voou aunir-se á grande alma deseupae, 
e foi abraçar-se pela ternura com o espirito gentil 
de sua irm2, como ella, e adiante d^ella^ arreba- 
tada nos annos mais doces. De tantas pompas retita 
apenas um nome e a memoria \ mas a verdade, em 
pe sobre o seu tumulo, de cada vez nos aviva a nó- 
doa da saudade ! 

O esplendor do sceptro apagou-se nas trevas da 
eternidade ; o ouro do diadema caiu ao ardor das 
tochas fúnebres \ a purpura desbotou-&e nas cores do 
sudário \ porém acima dos horrores da morte, e das 
ruinas do aniquilamento, sobrevivem as virtudes dos 
principes, e não ha lapide que esconda essas^ nem 
silencio que as occulte ! 

Depois do juizo de Deus, vem o juiso dos povos ! 
Depois do premio im mortal está a commemoraçSo 
da historia, está o epitaphio aberto pelo voto una- 
nime das opiniões oppostas ! 

E bello, é nobre triumphar assim pelo julgamen- 
to nacional, quando etlepuro de lisonja sáe de todos 
os lábios, e se escreve com as lagrimas 9as populações 
contristadas! Apesar de melancholico, é formoso o 
espectáculo dos súbditos, juntando o seu pranto ao 
pranto dos reis, com as frontes inclinadas diante de 
um sepulchro, lamentando, como própria, a perda 
do monarcba ! 

Como seriam consoladoras e suaves para o peito 
da rainha, senão fosse já frio e insensível, as pala- 
vras repetidas em volta do ataúde, tecendo o elogio 
insuspeito da posteridade ás magnânimas acções que 
lhe illustraram o sólio, e abençoando, como vozes de 
outra justiça mais alta^ no seu reinado de dezenove 
annus, experimentado de tantos revezes, as inclina- 
ções benéficas, e as demonstrações affectuosas \ 

Quando um povo inteiro está de joelhos, orando 
sobre uma sepultura, é quasi impio interromper as 
suas preces. Olhos arrasados de lagrimas não vêem 
claros oshorisoutes de qualquer quadro; e seria cedo 
de mais ainda para tudo o que nao fosse a eloquência 
do coração. 



3e 



Aplacados os impetoa, e acalmada a Tehemen- 
cia da commoçSo, livre o pincel, emaiB serena ain- 
talligencia, ha logmr então para o desenho menot in- 
completo do retrato, sem tanto petigo de confandir 
as linhas e as cores. 

Foi a rasio, porque nSo tentámos antes esta no- 
ticia tio desejada dos nossos leitores. 

A affeição, que a senhora D. Maria II coniagrava 
ao paii que governou, revelava-se em todot os seus 
actos e palavras. Os progressos adiantados nas artes 
e nas letras exaltavam-na de regosijo e de orgulho ^ 
e as publicações úteis e populares mereceram sem- 
pre do seu animo elevado e generoso activa protec- 
ção e fecundo impulso. Nio podia por tanto esque- 
cer-se este jornal de um dever, nem preterir aléns 
do^ espaço indispensável o cumprimento d^elle. Se 
até hoje demorou a commemoraçSo, foijMrque a ho- 
ra se lhe af&gurava pouco própria, e nas grandes ca- 
lamidades publicas, quando a alma das povoações se 
carrega de luto, quasi que equivale a uma offensa 
perturbar o silencio eloquente das suas maguas. 

Agora que as lagrimas menos vivas pelo tempo, 
ue as consome, converteram em branda melancholia 
e saudade a paixão mais forte, chegou o momento 
de expormos em resumido painel o bello volto da 
soberana, descrevendo sem falsos enfeites, ou men- 
tirosas exagerações, as grandes qualidades, e os do- 
tes preciosos, que illustraram a rainha, exaltando ao 
mesmo passo a mãe e a esposa. 

A historia ha de vir mais tarde. Austera e im- 
parcial, como a verdade, cuja luz transmitte, levan- 
,ta-se na posteridade entre o passado e o futuro, • 
estranha aos ódios e affectos das gerações, que cha- 
ma á vida, sabe ponderar o louvor e a censura, pi- 
sando sem resvalar a aresta dos precipícios ineviU- 
veis para os homens do presente. 

Procurámos ser exactos, despindo o coração de sen- 
timentos apaixonados; mas tão próximos daepocha, 
e interessados nas idéas e nos resultados que a do» 
minam, seria temeridade suppormos que o consegui- 
mos. Os mesmos successos, diversamAte considera- 
dos na actualidade que os presenciou, avaliam-se scí- 
gundo as escolas, as opiniões, e os indivíduos que os 
julgam; e só a ignoranciaousaria presumir de si que 
descobriu o meio termo, o ponto de equilíbrio, em 
que a verdade e a justiça se encontram, dando as 
mãos. 

Empenhando os maiores esforços para sermos re- 
ctos, e não escaldarmos por allusões impróprias, ou 
por phrases aggressivas, as feridas mal fechadas das 
desditosas discórdias de hontem, fizemos o que de- 
víamos, e o que todos tinham direito a exigir de 
um trabalho d'esta natureza. 

Mais era impossível. Como se havia de correr o 
véu, absolutamente, sobre acontecimentos políticos, 
que enchem o período dos altimos trinta annos, com- 
pondo a physionomía dos personagens e das cousas ? 
Delineando as feições capitães da vida e reinado da 
senhora D. Maria II conforme requeria o assumpto, 
não podíamos separal-os dos factos, em que pren- 
díam, nem tratando d^elles deixarmos de os cara- 
cterisar conforme o sentido que para nós encerram. 

Livre a cada um annuir^ ou combater ! 

As virtudes da soberana para os adversários mes- 
mo da sua dynastía, estão acima de tudo, puras e 
intactas ! Curvando-se perante o féretro real, como ca- 
valheiros e como portuguezes, sem mancha, antes cora 
lustre da própria divisa, estes deram testemunho da 
evidencia a Deus e á consciência. 

Na filha de D. Pedro, e neta dos nossos roonar- 
chas, senão podiam acatar mais do que uma prio- 
cu downgu. d. Bragan5|.,j.«^ipy,çjm.^ç5gjç. 



o PANORAMA. 



131 



pieadas, queothrono realça, mas nSo ensina. Adian- 
te d'isto podenam ir a historia, e as opiniões dinás- 
ticas^ mas não ha jus para querer que cheguem os 
que luctam em contrario campo. 



Na idade de trinta e quatro annos, em quefalleceu, 
a senhora D. Maria da Gloria tinha visto a fortuna 
maltractar-lhe a infanda, e cheia de rigor, provar- 
Ihe com o golpe suceessivo das adversidades a gran- 
deia e a conformidade do animo, fasendo-lhe verter 
as lagrimas daorphandade qoasi desde o berço, e ai 
da viuves logo na flor da juventude. 

Os trabalhos dos príncipes são a liçio dos povos ; 
e aquelles, que a Providencia visitou com amarga- 
ras repetidas, escolhendo-os para exemplo dos seus 
desígnios, ensinam melhor a confiança em Deus e na 
verdade com o testemunho de uma vida nobre e agi- 
tada do que muitas existências commuos, que os 
reveses nio sacudiram, e nenhuma provação enérgi- 
ca perturbou, ohegando ao termo dos seus dias, e 
adormecendo nothrono, ou na obscuridade, sem sa- 
berem mais do mundo e dos segredos moraes, do que 
poderam aprender na observado de uma carreira plá- 
cida, e tão distante das grandes tempestades como 
dos grandes júbilos, que illuminam a alma, se al- 
cançou venoel-as! 

Estava a corte portuguesa ainda refugiada no rei- 
- no do Brasil, aonde se acolhera desde os fins do an- 
no de 1807, salvando-se a liberdade do monarcha, 
e a futura esperança da independência, quando re- 
pellidas as tropas de Bonaparte, e resgatado o solo 
nacional, socegou o Ímpeto das armas^ e a aurora 
de uma longa pas raiou finalmente no horisonte. 
Napoleão, duas veses obrigado a render a espada 
aos exércitos colligados da Europa, e captivo em um 
rochedo no meio dos mares, recordava em Santa He- 
lena as illusSes da victoria, e as vaidades da ambi- 
ção. Os povos desopprimidos do peso das guerras de , 
qiiasi meio século ardiam em desejos de recuperarem 
o tempo estéril das discórdias nas empresas da civi- 
lisação. As artes e as sdencias^ meias soffocadas no 
eonflicto militar, agora mais livres alargavam o pas- 
so, e na impadencia de se aperfeiçoarem multipli- 
cavam a actividade, os descubrimentos, e as appli- 
cações. Na esphera politica os reis, desassombrados 
do receio incessante, que lhes incutia a vontade do 
conquistador, cuidavam de repararem os estragos da 
lacta, e de subjugarem pela unidade deprincipios o 
amor das novidades e os desejos de liberdade, que 
a oommunicação de idéas, mais ou menos, infiltrara 
nas gerações nascidas depois da revolu^o francesa. 
Descansando dos combates interiores e dos esfor- 
ços magnânimos, empenhados contra o estrangeiro, os 
povos estavam ainda como entorpecidos, porém ce- 
do começaram a inqoietar-se, e pela grande voi das 
multidões principiaram a exigir o cumprimento das 
promessas de reforma, firmadas na hora da angustia, 
en^ soberanos e vassallos. Lois XVIII reinava 
em França, Fernando VII em Hespanha, e uma 
regência, sob a tutela da Grã-Bretanha, regia em 
nome do benévolo João VI os destinos de Portugal.* 
A Ruasia e a Áustria, de mãos dadas, dirigiam a 
politica de reacção pelo ascendente da sua diploma- 
da ^ e o^ pavilhão inglês nos braços de gabinetes ul- 
tra-conservadores, não era como hoje o protector 
nato, claro ou encuberto, da emancipação e do pro- 
gresso. 

A faroilia real portuguesa, ausente e mal infor- 
mada, ignorava os qodxumes « o desgosto que la- 
vravam por todo o reino, e queria moderar da es 



caridão e da distancia os acontecimentos, que lhe 



escapavam. Andoso de desfructar tranquillidade, e 
de viver desafrontado de cuidados, D. João VI pro- 
longava a sua residenda na America, e parecia mais 
disposto a faser de Portugal a colónia, e da colo« 
nia a cabeça do iqiperio, do que a expor«§e outra 
ves aos mares, vindo n^itigar a saudade, e satisfaxer 
os votos dos seus súbditos. 

Debalde avisos prudentes lhe notavam o perigo, 
procurando despertal-o^ a sua bondade inerte não se 
decidia ao sacrificio dos commodos, que desffuctava. 
Tudo aceitaria, com tanto que o ddxassiem nas do- 
çuras dos seus retiros e passeios, e na convivência fa- 
miliar dos seus iisongeiros e confidentes. A educa- 
ção dos príncipes seus filhos não o preocupava \ uma 
ves que os tivesse longe do governo, e que por meios 
indirectos lograsse desviais» dos estudos e reflexões 
graves, da va-se por contente. Segaro de conseguirque 
não soubessem mais «do que elle, e de os entreter em 
caçadas e corridas, o velho monarcha Ye puta va-se ao 
abrigo de qualquer exigência ambidosa -, e certo do 
amor dos vassallos não pensava senão em se desen- 
fadar dos dissabores domésticos, que lhe entristeciam 
o coração. » 

Mas seu filho primoeenito, o senhor D. Pedro de Al- 
cantara, era dotado de caracter ousado e emprehen- 
dedor, de engenho prompto e felis, e ardia em im- 
paciência de figurar na soena do mundo em um pa- 
pel, de que lhe resultasse relevo e fama. 

Apesar dos ardis calculados para o apartarem dos 
livros e da lição, aproveitava a opport unidade, equa- 
si a furto instruia-se nas artes e sciencias, que im- 
porta mais a um rei conhecer desde a mocidade. 
Sincero e inimigo da dobles, o que sentia patentea- 
va-o, e a apathia e inveterados erros da corte de seu 
pai nem sabia* nem queria poupal-os nas reflexões, 
com que descubria a miúdo os rasgos de um talen- 
to observador, e de um jnixo claro e penetrante. 

A decoração caduca do paço, os costumes adula- 
dores de muitos dos que o povoavam, e a obstina- 
ção dos. ministros em proclamarem a immobilidade, 
como a grande base da conservado dos estados, 
mereciam-lbe reprovação, e não era próprio da sna 
Índole occultal^^a. Aquelles a quem assustava es- 
ta severa linguagem, e que previam n'elle o futu- 
ro demolidor da sua preponderância, naturalmente 
redobravam de planos e de machinações para o ar- 
redarem dos negócios, representando-o perante o fiscil 
ciúme do soberano como perigoso e menos experien- 
te. D^aqui nascia multiplicar-se o recato e o sigilio 
das decisões governativas, ebuscarem-se todos os mo- 
dos de impedir o príncipe de exercer a menor ih- 
floencia. 

Inspirado pela memoria de seus avós, e pungido 
pelos estímulos do sangue, D. Pedro, propox e su- 
plicou repetidas veses que lhe fosse permittido, co- 
mo herdeiro da coroa, vir collocar-se á testa dos sol- 
dados portugueses, e participar dos perigos e da glo- 
ria da guerra da independência. Suspirando por es- 
tudar os usos e iiíclinações do povo, que um dia ha- 
via de reger, e por estrear a sua carreira, aprendeu* 
do a guerra na eschola do primeiro capitão do mun- 
do, e dos adversários illustres que o combatiam, en- 
controu sempre a deddida repugnância de seu pae, 
e os pretextos espedosos dos conselheiros interessa- 
dos em o conservarem ocioso, e quasi obscuro, ao la- 
do de um throno, que já não tinha outro apoio ver- 
dadeiro senão o' amor dos súbditos, procedido do co- 
nhecimento das qualidades pessoaes do monarcha. 

N^esta posição contraria ao gosto e propensões do 
seu génio, e com estas difficuldades asofirer e a con- 
trastar todos os dias, chegou o principe ao anno de 
1817, e a 18 de maio apertou o laço conjugal com ^ 



132 



O PANORAMA. 



a archiduqaeta de Áustria D. Maria Leopoldina, 
senhora de raras virtodes, e de saudosa recordação, 
para quantos tiveram a ventara de a apreciar. Does- 
te felis consorcio o primeiro e desejado fracto foi 
a senhora D. Maria II, nascida uo palácio de S. 
ChristovSo, suburbano da cidade do Bio de Janeiro, 
em domingo de Kamos, 4 de abril de 1819, pelas 
dnco horas da tarde. 

Mas efa destino do senhor D. Pedro que a fortu- 
na nunca' deixasse de lhe provar o animo, mesmo 
nos instantes que lhe deviam de ser mais gratos. 
N^esta occasiSo os júbilos do amor paternal foram 
anu veados pelo luto de uma noticia infausta, chega- 
da pouco antes, e s6 divulgada dex dias depois por 
motivos de prudência para com o melindroso esta- 
do de sua esposa. A rainha de Hespauha, D. Maria 
Isabel, a mais amiga e presada de suas irmSs, falle- 
cera de parto na primavera da idade; e recebendo 
subitamente o golpe doloroso, o principe perdeu os 
sentidos, e chegou a excitar sérios cuidados. 

Coincidência singular ! Logo ao abrir os olhos no 
berço, a rainha viu -o molhado com as lagrimas de uma 
perda, cdja causa foi a mesma que trinta e três an- 
nos depois motiva a magua e orphandade do seu 
reino ! 

Com pequeno intervallo, esuccessi vãmente, segui- 
ram-se áquella triste nova outras de igual pesar. 
Os reis catholicos Carlos IV e D. Maria Luiia des- 
ceram ao tumulo, e pouco depois o infante de Hes- 
panha D. António. A corte portuguesa, no meio das 
galas natalícias, que a deviam regosijar, foi obriga- 
da a carregar-se de luto, era quanto por toda a par- 
te se toldava o horisonte politico, rebentando as re- 
voluções em differentes pontos da Europa. 

Com estes presagios entrou no mondo a senhora 
D. Maria II, conferindo -se-lhe desde logo, segundo 
o est jlo, o titulo de princesa da Beira ^ e conservan- 
do-o depois do nascimento do principe D. João, seu 
irmão, como se tinha praticado com a senhora D. 
Maria Thereza. 

No dia 3 de maio, em que a Igreja celebra a In- 
venção da Santa Cruz, d^onde veio o primitivo no- 
me ao império, em. que a recemnascida viu a lut, 
foi o seu baptismo solemnemente administrado pelo 
bispo do Rio e capellão m<5r D. José Caetano da 
Silva Coutinho, no antigo convento de religiosos 
carmelitas calçados, que então servia de capella dos 
reis. 

A princesa era levada pelo conde da Lousa D. Dio- 
go de Meneses, mordomo mdr da archiduquesa Leo- 
poldina, e acompanhada pela marquesa de S. Mi- 
guel D. Marianna Xavier Botelho, camareira mót 
e aia, e pela soa dama camarista D. Ignez da Cu- 
nha, depois marquesa de Torres Novas, sendo pa- 
drinho e madrinha el-rei D. João VI e a rainha 
D. Carlota Joaquina, e servindo de mordomo mdr 
de el-rei e gentil-homem da real camará o sr. An- 
tónio Telles da Silva, depois marques de Resende. 
, As insígnias (a veste cândida, d círio, e o massa- 
pão) foram confiadas aos marqueses de Lavradio e 
de Torres Novas, e ao visconde da Asseca. Na pia 
baptismal a princesa, por devoção particular e pro- 
messa de seu pae, recebeu os nomes de Maria da 
Gloria Joanna Carlota Leopoldina da Crus Fran- 
cisca Xavier de Paula Isidora Micbaella Gabriella 
Raphaella Gonsaga. O Te Deum cantado logo de- 
pois da ceremonia foi de composição do senhor D« 
Pedro de Bragança, regendo a musica o íamoso mes- 
tre Marcos António Portugal. 

£m testemunho da satisfação real publicaram-se 
muitos despachos. Fr. Patrido da Silva, bispo eleito 
de Castello Branco, foi nomeado arcebispo de Evo» 



ra^ Fr. Vicente da Soledade, monge benedictind, íbi 
creado arcebispo da Bahia \ o doutor Francisco Ale- 
xandre Lobo, escriptor dístincto, teve o Uspado de 
Viseu \ e o doutor Luís da Cunha d* Abreu e Mello 
o de Beja. O bispado de Castello Branco foi dado 
ao doutor José de Miranda Coutinho, e o de An- 
gra a Fr. Manuel Nicolau, religioso carmelita. Ao 
desembargador Manuel Telles da Silva fes-se mero6 do 
priorado mdr de Avis^ a Fernando Telles da Silva 
do condado de Tarouca , e a D* José de Castello 
Branco do titulo de conde de Pombeiro. O conde 
de Amarante, depois marques de Chaves, recebeu a 
graça de uma vida no mesmo titulo \ aos gentis-ho- 
mens da camará de el-rei conoedeu-se a mercê de 
se cobrirem nos actos de corte como os grandes do 
reino. 

Outros muitos favores e graças concorreram para 
o esplendor da galla. 

Q^uem diria então, vendo Junta e conforme a flor 
da nobreza, que dez annos mais tarde uma fatal di- 
vergência viria separal-a em campos Inimigos ? De 
toda a família real, que então brilhava acrescia em 
volta do throno, de todos os dignitários, que assis- 
tiam áquella festa, quantos existem ? 6tuantos dese- 
jariam volver á risonha aurora d^aquelles dias de 
esperança e de concórdia! Decorreram apenas trinta 
e três annos, e a morte, a ausência, ou as dissençdes, 
não deixaram senão três d Vlles, para acompanharem 
ainda a S. Vicente os restos mortaes da senhora 
D. Maria II, que tinham conduzido em tanta pom- 
pa e alegria a receber a agua baptismal ! 

Outra funcçao, próxima, a 27 de junho seguinte 
tornou a reunir a corte. Foi a ceremonia da apre- 
sentação da princesa por seus pães e avds na igreja 
de Nossa Senhora da Gloria em cumprimento' do vo- 
to do sr. D. Pedro. Um poema engenhoso de Fr. 
Francisco de São Carlos, denominado a u Assumpção n 
descreveu este religioso passo nos versos do sexto canto. 
Mal a princeza entrava no segundo anno de sua 
idade, quando o abalo dos acontecimentos de Por- 
tugal levou D. João VI a tomar a resolução de vol- 
tar do Rio de Janeiro para Lisboa, deixando no Bra- 
sil o Principe com o titulo de Regente das posses- 
sões portuguesas. O somno da inércia, que dormira 
a corte, fechando os ouvidos a todos o« conselhos e 
advertências, tinha sido necessário o estrondo da re- 
volução da metrópole para o despertar. 

Nem o exemplo das commoçoes da Itália e da vi- 
sinha Hespanha^ nem as queixas, padecimentos, e 
desgosto dos súbditos, procedidas do peso intolerável 
da tutela ingleza, e da incapacidade e fraqueza dos 
governantes, apar dos primeiros symptomas de arden- 
te desejo de se mudar de existência, a podaram ti- 
rar da insensibilidade^ emqueseengolphava. Acon^ 
piração de lâl7, e a tragedia, que a desenlaçou pe- 
los horrores do campo de Santa Anna, fizeram der- 
ramar lagrimas ao velho monarcha sobre a sorte 
das victimas, (ás quaes enviava o perdão) mas não 
o abancaram ainda ás delicias da immobilidade. Veio 
finalmente o grande movimento de agosto eseptem- 
bro de 1820, e atraz d'elle os sucoessos de fevereiro, 
março, e abril do s^uinte ahno ; então el-rei, já des- 
íUudido, não ousou espaçar por mais tempo uma deci- 
são indispensável, e dispoz-se para a partida, que 
posta em execução alguns meses antes teria demon^ 
trado ^aior prudência. Assim mesmo, para se con- 
vencer, foi preciso que as vozes de liberdade, levan- 
tadas em Portugal, atravessassem o Atlântico, e qvat 
se lhes aggregasse o grito espontâneo, com que as 
saudou o applauso do Brasil ! 

D. Pedro, incapaz de dis&rce, e ipdinado aos pria- 
cipios novos por índole e lasão, escutou com prazer 
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o PAJfOIUMA. 



133 



a notícift do qqe tqcoederft no reÍDO, e n2o caidoa de 
moderar^ ou de esconder ot leus transportes. Filho 
respeitoso, e amigo leal de seu pae, aproveitou a oc- 
cafti2o para lhe patentear a verdade, rasgando o véu 
de enganos e lisonjas, oom que Ih^a tinham ooculta- 
do. Ouvido sobre o que mais convinha adoptar-se no 
apuro dascircumstancias, o seu voto foidaro a favor 
da obrigação de identificar o throno com os intères» | 
ses da naçio, salvando assim os direitos da coroa, e 
oonaervando intacta a devoç2o dos súbditos á casa 
real, que por tantos esforços haviam sustentado á cus- 
ta de sangue e de sacrificios generosos. Agradou o 
parecer ao pae, e o soberano da mesma forma se mos- 
trou disposto a attendel-o desde logo \ porém, inde- 
ciso e timido sempre, D. JoSa VI receando a res- 
ponsabilidade, procurou repartil-a, chamando o seu 
conselho. Este composto de alguns dos que mais tra- 
balhavam por. desviar o príncipe, proposerani que el- 
rei continuasse a residir no Rio de Janeiro, e que 
sua alteza, na qtialídade de regente, viesse a Portu- 
gal encarregar-se do governo, sujeitando, porém, a 
uma condição violenta e inexequível para elle a pro* 
va de confiança de seu pae. 

Aífirma-se que nada menos involvia esta clausula 
secreta do que o compromisso solemne, imposto a 
D. Pedro, de extinguir no reino a revoluçSo tríum- 
phante ! O duque de Bragança recusou immediata- 
mente, e em tal alternativa, conhecendo a firmeia do 
seu animo, os confidentes não acharam outro meio 
de o arredarem do lado do monarcha, e de contras- 
tarem a soa influencia^ senão a approvação da vinda 
de D. João VI para a Europa, ficando sua alteza go- 
vernando noBrazil. Assim se praticou, e o desditoso 
soberano volveu á pátria, aonde o esperavam repe- 
tidos sobresaltos e díssabK>res. 

flntretanto crescia a senhora D. Maria II junto 
de seu pae, entre os carinhos e desvelos maternaes, 
e na felis innocencía da sua tenra infância, assistia 
sem as poder ainda avaliar, ás desgraçadas perturba- 
ções, que mais ou menos activas nunca deixaram de 
inquietar o espirito do principe, depois acclamado 
imperador do frazil. 

Completava apenas o sétimo anno da sua idade, 
quando o senhor D. Pedro herdou o sceptro de Por- 
tugal, por occasião da morte de el-rei D. João VI. 
Recebendo a coroa, e deplorando com saudade a 
perda do virtuoso monarcha, o principe em teste- 
munho de respeito á memoria de seu pae entendeu 
que lhe cumpria satisfazer desde logo á promessa feita 
em 1823, quando a reacção trium phante ameaçou de 
perto o throno, derrubando o edificio vacillante das 
liberdades recentemente plantadas. 

O giro dos acontecimentos, e as alterações sub- 
•equentes, demoraram a promulgação do código po- 
litico afiançado em Villa Franca, e moldado pela car- 
ta de Luiz KVIII. A commissão escolhida para for- 
mular as bases chegara a dispor o projecto completo, 
cujo texto existe nos archivos do ministério compe- 
tente -y mas a morte, e antes toda a espécie de in- 
quietações impediram o velho soberano de se decidir. 
Além dMsso a sombra ameaçadora da Hespanha ab- 
solutista, e diversas insinuações não menos signifi- 
cativas, influiram poderosamente para alongar o pra- 
so, e depois para sepultar a promessa, e a obra prin- 
cipiada em virtude d^ella. 

Estava portanto tudo suspenso n^este sentido, quan- 
do o senhor D« Pedro chamado pelas leis da succes- 
são, como primogénito da casa de Bragança, tomou 
as rédeas do governo. O primeiro cuidado consis- 
tiu em assignalar o começo do mais curto dos reina- 
dos por grandes actos de desinteresse e de civica il- 
lustração. 



Ferido de amarguras, e mais cortado pelos des- 
gostos mortaes do que pek acção dos annos, D. João 
VI deseeu ao tumulo em 10 de março de 1826, dei- 
xando creado um conselho de regência, presidido por 
sua alteza real a senhora infiinta D. Isabel Maria. 
Emquanto o luto consternava o reino, e o pranto 
dos súbditos orvalhava o ataúde do monarcha, os 
partidos, que dividiam desgraçadamente o estado, 
voltavam os olhos para o Rio de Janeiro, • aguarda- 
vam com anciedade as primeiras palavras do senhor 
D. Pedro. 

Uns viam n^elle a esperança das novas idéas, e o 
reformador vigoroso, que desde a mocidade inculca- 
ra. Outros, querendo que a purpura modificasse o 
homem, e que o officio de reinar o tornasse diffe- ^ 
rente de inaole e de intenções, pediam em altas vo- 
zes o silencio, e até a oppressão dos adversários, re- 
Setindo em orna Basilica de Lisboa a famosa phrase 
é Salomão aos inimigos de David : noU paii iUos 
€ue ònoxUn! 

No meio das incertezas, e do con flicto doloroso en- 
tre irmãos, chegaram doBraúl as suspiradas noticias. 
Concedido á dôr da orphaddade o tempo, que exigia 
o coração, o sr. D. Pedro maoifesta-se desde logo o 
homem, que foi depois: No sólio abriu a carreira que 
devia fechar, como soldado heróico, nas linhas do Por- 
to, e nas fadigas da lucta. 

Em 26 de abril chegou a participação da morte 
de seu pae ; e já a 27 o principe assignava a mais 
generosa e ampla amnistia por opiniões politicas, 
abraçando de longe a todos os portuguezes no mes- 
mo pensamento de amor e de tolerância. Cabrindo 
sem excepção os filhos da pátria com o manto da sua 
magnanimidade* recolhe-se a meditar o segundo acto 
do seu governo, e apresenta-o igualmente grandioso 
e memorável. 

A 29 de abril allumía o sol o decreto deouth^rga 
da carta constitucional, bandeira da nova dynastia, 
pelo esoontaneo pacto pelo rei proposto aos súbditos. 
Finalmente a 2 de maio, com a mesma nobreza 
de sentimentos, com o mesmo ardente desejo da fe- 
licidade geral, publica a abdicação da corda de Por- 
tugal, cedendo-a em soa filha a senhora D. Maria 
da Gloria, e ajustando o casamento da princesa com 
o sr. D. Miguel de Bragança, seu irmão^ na idéade 
enlaçar por um consorcio ditoso a todos os membros 
da casa real, firmadas ao mesmo passo as instituições, 
com que brindava o berço do seu nascimento. 

EIstá já longe de nés a epocha, e a voi dos receios 
e dos júbilos, que a agitaram, e mal sòa já nos ouvi- 
dos da geração, que recolhe hoje os fructos das em- 
presas da anterior. O tempo gastou o que havia de 
mais acerbo nas paixões; os annos aplacaram o maior 
fel aos deploráveis rancores das guerras ; não seremos 
nés que iremos rasgar o piedoso véu, que envolve 
as cinzas de tantas victimas sacrificadas de parte a 
parte. Oxalá que fosse possível arrancar dos annaes 
contemporâneos a pagina da historia, que os deve en- 
lutar ! 

De um lado e outro, na eschola liberal e na op- 
posta, achamos virtudes que admirar, brilhantes ras- 
gos de brio antigo a aplaudir, e também, oom ma- 
goa, delírios e crimes, para nos entristecermos. Man- 
chados de sangue fraterno os louros civis dizem sem- 
pre dor ! Os triumphos pisando cadáveres de irmãos 
são sempre infecundos pelas maldioções da pátria ! ... 
Passemos ao longe de taes minas, e ajoelhando á 
cruz sepulcral, levantada nos campos de batalha, pro- 
curemos que um dia Portugal venha a leunir os os- 
sos dispersos de todos os seus filhos no mesmo tumu- 
lo, inscrevendo-lhe por único epitaphio o perdão e 
o esquecimento. j 

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134 



O PANQIUMA. 



Mal O diadema lhe ornava a fronte, a rainha per- 
deu «s carinhos de tua estremoea mSe, victima co- 
mo a imperatriz Maria Tberesa das consequências de 
um parto desastroso. D. Pedro aehava-se ausente da 
corte, na proyincia do Rio Grande do Sul no mo- 
mento em que o golpe repentino veio provar mais 
uma ves a sua firmeza. A^ magua de esposo acres- 
ciam os cuidados de pae. A educação de uma meni- 
na de oitoannos, orphã da ternura materna, e a sau- 
dade que as suas graças infantis deviam suscitar-lhe 
occuparam-no por muito tempo. Serviam-lhe de le- 
nitivo, comtudo as felizes disposiçdes, que descobria 
eiki sua filha. 

Dotada de muito talento, de prompta memoria, 
e de um coração delicado, a princesa começava a 
aproveitar a instrocção devida á sua altájerarchia e 
aos seus futuros destinos, quando o imperador acce- 
dendo As vehementes instancias das cinco grandes po- 
tencias, que declaravam a vinda da rainha á Êu- 
pa, como essencial para a garantia que promettiam 
aos seus direitos, resolveu envial-a, como lhe era pe- 
dido para a corte de Vianna d^ Áustria^ da qual, 
-verificado o consorcio cotn o senhor D. Miguel, de- 
veria passar para Portugal. Esta decisão toma.da em 
plena confiança, teria mudado a sorte das cousas se 
chegasse a consumar-se. Uma serie de circumstan- 
cias notáveis pela coincidência^ desmanchou todos os 
planos, evitando que a soberana constitucional caís- 
se nas ciladas dos políticos hostis á sua bandeira. 

A senhora D. Maria da Gloria partiu do Rio de 
Janeiro em 5 de julho de 1828, e em 2 de setem- 
bro tocava em Gibraltar, d^onde havia de seguir pa- 
ra Génova. Uma communicação recebida pelo mar- 
quez deBarbacena, conductor de sua magestade, ata- 
lhou, porém, a viajem no primeiro porto. 

Os motivos que dictarám a mudança honram o co- 
ração e a capacidade dos que tomaram parte nMla. 
Todas as artes da diplomacia se tinham empenhado 
em apressar a jornada da princesa, até obter a sua 
entrada em Vienna d^^r^LUStria. O segredo mais cau- 
teloso cobria os movimentos dos gabinetes, que nem 
um momento descançavam da vigilância* com que 
(seja-nos licita a phrase) pareciam contar cada um 
dos passos da herdeira de Portugal; e ainda hoje 
admira a espécie de revelação, que, illu minando as 
trevas em que se envolviam, veio a tempo indicar o 
iprecipicio ! Foi necessário para isso oppdr a dissimu- 
lação á astúcia ; e aceitar uma responsabilidade gra- 
ve, iiludindo tantos olhos penetrantes, e tantas pre- 
cauções insidiosas. 

Todos suppunham a rainha em Génova, e ella na- 
vegava já na direcção de Falmoutb, aonde chegou no 
dia 24 de setembro, trocando subitamente a derro- 
ta ! Foi a partecipação do ministro do Brazil em In- 
glaterra e Ausitria, de accordo com as suas instruc- 
ções secretas e preventivas o que salvou a causa cons- 
titucional do maior perigo, que a ameaçou n'*aquelles 
dias atribulados ; e ao conselheiro doestado extraor- 
dinario^ o sr. Ildefonso Leopoldo Bayard pertenceu 
a distincção de ser o portador escolhido para levar 
o aviso, ganhando horas até Gibraltar, e conseguin- 
do a preço de sacrificios informar a tempo o mar- 
ques de Barbacena. Viesse o mais leve inconvenien- 
te^ houvesse a menor falta de diligencia, e o navio 
proseguindo nà viagem, entregava a soberana, pe- 
nhor das nossas liberdades, aos desígnios da corte do 
norte, menos inclinada a protegel-as ! 

A' noticia de ter aportado a Falmouth a rainha 
de Portugal, é fácil de imaginar até que ponto fi- 
cariam transtornados os agentes do plano de a se- 
questrar ás esperanças da opinião, que fundava na 
sua pessoa a única probabilidade de successo. Ao 



principio quasi que nSo se acreditou o que «e estira 
presenciando-, e menos reservados os diplomatas não 
mediram as suas expressões de modo que occnkas- 
sem o desgosto de verem malogrados os verdadeiros 
fins. Pouco a pouco acalmou^se a irritação, e perdi- 
da a primeira tentativa curou-se de urdir segunda, 
e de remediar por ella os efieito» de uma resolução, 
cujas consequências logo previram de longe, porque 
a ella foi devido o êxito da lucta, que dous annos 
depois consummoa a gloria do imperador D. Pedro, 
restituindo o throno a sua filha. 

A senhora D. Maria II passou de Falmouth, cen- 
trou era Londres no dia 6 de outubro, e depois de 
curta demora na corte, estabeleceu a sua residência 
no agradável palácio de campo de Laleham, sendo 
recebida e estimada por George IV e pela familia 
real, com as attenções que pedia o seu titulo e que 
mereciam os seus infortúnios. O monarcha inglez, 

mais perfeito cavalheiro do seu reino, redobrou de 
respeitos tanto no paço de Windsor, como em to- 
dos os logares aonde s& encontrou com a neta do seu 
antigo alliado D. João VI ; e se a politica do con- 
selho britannico enganou então os desejos dos defen- 
sores dos direitos da princeza, as maneiras deiicadas 

do soberano sua visaram o^que havia de desagradá- 
vel n'este procedimento pouco em harmonia com as 
promessas anteriores. 

Da epocha do seu primeiro exilio qa Grã-Breta- 
nha é que data a amisade desde a infância, estreita- 
da entre a rainha Vieloria e a senhora D. Maria da 
Gloria. Antes dos viriculos de parentesco a aperta- 
rem pelo devido de sangue, já ella existia profun- 
da e viva em duas almas feitas para reciprocamen- 
te se presarem, e não podia nem augmentar, nem 
exceder-se. 

Por este tempo se abriram também em Londres as 
notáveis conferencias, destinadas a resolver a chama- 
da questão portugueza, e.se patenteou por parte do 
ministério inglez um pensamento mais do que tíbio 
a favor da causa da senhora D. Maria II. Sem a de- 
samparar absolutamente, este não escondia o intento 
de iuutilisar as propostas decisivas dos negociadores 
propostos pelo lado da rainha, e multiplicava pretex- 
tos e difficuldades. Postas as cousas nVste ponto, en- 
tendida claramente a mais do que irresoluçSo do ga- 
binete britannico, os agentes da princesa á vista das 
suas instrucções julgaram indispensável desligarem- 
se das negociações, e aproveitando a próxima parti- 
da da imperatriz a senhora D. Maria Amélia, acon- 
selharam a rainha para que regressasse ao Rio de 
Janeiro em companhia doesta segunda mãe, como se 
verificou em 31 de agosto de 1828. Por esta manei- 
ra evitaram-se maiores complicações; e não se po- 
dendo conseguir outras vantagens quanto ao presente, 
deixou-se pelo menos o futuro salvo, e a esperança in- 
tacta para os que não tinham outro conforto nas 
amarguras do desterro, e nos trabalhos de uma qua- 
dra calamitosa. 

Durante a sua breve residência em Londres, sen- 
do apresentado lord Wellington á filha de D. Pe- 
dro, e recebidos os liíionjeiros cumprimentos do ve- 
lho general, a rainha, voltando-se para elle, profe- 
riu em resposta algumas palavras que produziram 
grande sensação no animo de quantos presenceavam 
a scena, que a tenra idade, e elevado espirito de uma 
soberana sem throno tornavam tocante e cheia de 
commoção. u Espero disse a joven princeza, que a 
, vossa influencia me defenderá do mesmo modo que 

1 a vossa espada concorreu para a sustentação dos di- 
reitos de meu avô ! <« O duque inclinou-se. A lição 
feria-o em uma corda sensivel. Por condescendência^ 
ou antes por intimidade com os ioimii 



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i^^^ii- 



o PANORAMA. 



135 



heinlf efUvft au&iliando em Portagal os qae ajada- 
Tam a oonienrar o poder que a detpojara da ooròa. 
O general que tantas diatincções alcançara da grata 
henevolenoia de D. Joio VI, desemparara a defeia 
doi direitoB desua neta, e cavalheiro emlMiinbava a 
etpada, e combatia a occnltas contra a causa de uma 
dama sem protector na Europa ! 

(Conimúa.) 

L. A. RsBKixô DA Silva. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

MbKOBI AS DA TILLA DS ArHAYOLOS. 

XXI. 

PatHtggm dat JeneiUuy que vieram fundar 
o eollegio de Évora. 

Pomars a passagem por Arrayolos dos jesuítas, que 
de Coimbra vieram afundar ocollegiodeEvora, tem 
algumas notáveis circumstancias, porei aqui a rela- 
ção do facto conforme a acbò em uma memoria ms. 
contemporânea (1). 

uNo principio de outubro de 1551 partiram does- 
te (sic) coUegio de Coif/ibra oito irmãos e um de Lis* 
boa, que são nove (2), a dar principio a um eolle- 
gio, que o cardeal infante se moveu a fazer em Évora. 

« O caminho, que havemos trazido, depois que d^es • 
sa casa partimos, ha sido mui grande por graça do 
Senhor. Porque com todo o trabalho d^elle sempre 
tínhamos duas horas ordinárias de meditação, nos- 
sos exames cada dia, e missa antes que partíssemos, 
sem o mais exercido interior e exterior, que pelo 
caminho trazíamos, que todo era ferventíssimos de- 
sejos em nosso Senhor de padecer: paratittimi ad 
adversa sutUnenda kilari aique alacrx vuttu, animo 
€Bquis$imo,pro oBquiaimo Jem, Commongavam os ir- 
mãos em alguns lugares com muita ideficaçSo de to- 
dos os que 06 viSo, principalmente em aVilta de Ar- 
rayoios, que be do Duque, donde mais que em ne- 
nhuma outra parte vi a gente edificada. Aqui nos 
fomos apousentar ao Hospital \ e aconteceo que na- 
quella noite mesma dormio alli o Duque, quehiaá 
corte; e sabendo como estávamos no Hospital nos 
mandou chamar, e n^s outros havíamos acabado de 



(1) É a carta, que mandaram a Coimbra os Ir- 
mãos, que foram dar principio ao Collegio de Évo- 
ra, e está a fi. 212 do 1.^ tomo das Carias que os 
Padres e Irmãos dá Companhia e outras pestocu es- 
creverão de âíverscu partes de Europa^ que dão no- 
ticia de seu bom principio efelice successo» Ms. na bi- 
Uiot. publ. eborense. Cod. CVIU — 2-1. 

(2 ) O padre Balthazar Telles na Chronica da. Com- 
panhia de Jesu. Tom. 1.^, pag. 516, diz que par- 
tiram no 1 ,° de outubro, e que eram 1 1 era nume- 
ro. E o padre António Franco na Resumo da Évo- 
ra lUustrada do padre Manuel Fialho, liv. 3.^ cap. 
í/^ (ms. na bibl. publ. ebor.) os refere por seus no- 
mes, e sao os seguintes : o padre Belchior Carnei- 
ro, para reitor, o padre João Caviilonio, o padre 
Manuel Fernandes, que eram sacerdotes. Para con- 
discípulos do sr. D. António na theologia os ir- 
mãos Pedro da Fonseca, Miguel de Barros, AlTonso 
Barreto, e Marçal Vaz. Além doestes três irmãos 
coadjutores, cujos nomes não encontrou. E funda« 
do era outras noticias accrescenta o padre António de 
Q.oadros. 



nos preparar para commnogar aquelle dia, que ain- 
da que o passado .o havíamos feito por ser Domin- 
go, o fazíamos também aquelle dia, por ser o dia, 
em que haviamos de entrar em Évora \ e não con- 
tente com nos chamar se veio a nds ao Hospital, que 
saiamos já por outra porta a dizer missa. Entoncet 
nos chamaram muy depressa de sua parte, o .qual 
nos recebeo muito humanamente, perguntou o nu^ 
mero dos Irmãos, e alegrou-se muito em crecev a 
Companhia tanto, doendo-se muito de nós ou tf os de 
nos ver entre aquelles pobres : mandou logo aos seus 
que de seu mesmo alforje nos dessem d^almorçar *, 
dissemos como iamos tomar outro almorço, que nos 
era mais necessário, e falíamos algumas praticas so- 
bre a coipmunhão : mandou que depois que viésse- 
mos de commungar nos tivessem aparelhado d^al- 
morçar. Dalli partimos, que não havia mais de três 
legoas a Évora, donde chegamos aquelle dia, e achá- 
mos o Cardeal, que três vezes se havia partido pê- 
ra Lisboa, e tornado do caminho com indispoâções. 
Também achamos o Padre Manuel João, que havia 
uma hora era chegado ao Hospital, com cuja vinda 
nos aiegraraos muito, e com sua humilde simplici- 
dade nos edificamos muito (3). Achamos logo o có- 
nego, a quem vínhamos remettidos, que nos recebeo 
mui bem, e nos apousentou em huma boacaza, que 
foi mosteiro de Freiras de São João, que se chama 
São João com huma Capella donde já dissemos mis- 
sa, até se fazer o Collegio *, deram-nos também to- 
do oneces<iarioperacaza. Achamos o Padre Fr. Luiz 
de Granada, que muito com nòs outros se alegrou. 
He mui devoto de nossa Companhia, epodem-noter 
por um professo delia, por que como soube que o 
Cardeal nos dava Collegio, se foi a elle, e Ibe bei- 
jou a mão pola mercê, como se a fizera a elle. Os 
Irmãos não começarão tão cedo a theologia, porque 
o Snr. D. António (este he hum filho do Infante 
D. Luiz, que estudava ahi em Coimbra, e agora es- 
tuda aqui em Évora em companhia dos Irmãos) es- 
tá enfermo de terçãs, e por isso entretanto &e lerá 
philosophia duas iicções cada dia. Diz o Padre ^a^ 
nuel Simão que pudera durar hora e meia cadalic- 
ção. Como somos poucos temos partido o tempo des- 
ta maneira : das 5 ás 6 horas meditação *, das 6 ate 
7 missa ^ das 8 ás 9 e meia licção *, comemos ás 1 1 
com fazer primeiro um quarto de exame de consciên- 
cia ; e assy sempre ficam duas horas e meia de es-^ 
tudo polia manhã. Depois de comer de huma ás duas 
repetem a licção *, das 3 ás 4 è meia lêem ^ e depois 
estudam até ás 8. Das 8 ás 9 fazem seus exames e 
meditação^ das 9 ás 10 ceam. Esta he a ordem que 
tem. O Padre Belchior Carneiro se dá todo. ás con- 
fissões, tomando pêra si duas horas de meditação ca- 
da dia. Fica por dizer com quanto amor pps rece- 
beo o Cardeal, que certo foi muito. Beijamos-lbe to* 
dos a mão, e mostrou-nus muita benignidade ^ per- 
guntou-nos como nos haviam agazalhado*, dissemos- 
Ihe que como filhos ^ e depois de passar muitas cou- 
sas com nds outros, nos mandou repousar. Foi o pa- 
dre Carneiro depois dar obediência ao Vigário, o 
qual a teve em muito, e o recebeo muito bem, quei- 
xando-se dos frades isentos, que se não queriam ha- 
ver bem com o ordinário. Não ha hy mais que di- 
zer, por haver pouco que chegamos. De todo o que 
succeder avisaremos sempre. Nosso Senhor nos dee 
sua graça, n 

J. H. DA CVNBA RiVABA. 



(3) Segundo se vè da Nota antecedente este é o 
padre João Caviilonio, e'sem duvida o que veio de 

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136 



o PANORAUA. 



ESBOCSTOI DA VIDA HXLITAR. 

V. 

FenúUdade. 

Partb I. 

A socixDADK é interessada na punição dos crimeB, 
todavia ella põe limites rasoaveis á sua justa vin- 
gança \ a marcha nos progressos do espirito humano 
tendb a coarctar o abuso da força material, e a dir 
rigir pelo contrario a acçaò da lei moral na reforma 
dos costumes: o homem em todaà as epochas sem- 
pre se julgou com direito a uma regeneração intel* 
lectual, fazendo consistir na realisaçao doesta riso- 
nha esperança os seus mais bellos tituloa de gloria. 
Ah ! quantas theorias se têem propagado, e quan- 
tas censuras feito á sociedade, contestando«lhe esse 
direito de punir ! Na verdade, passando em revista 
tantos códigos criminaes^ achámos muitos d Vllespbra 
de inaudita crueza e profunda barbaridade, contra 
os quaes o espirito do homem naturalmente se tem 
rebellado, julgandq-os attentativos dos sagrados fo- 
ros da liberdade. £ verdade que estamos bem lon- 
ge d& poder acreditar no maumo grau de perfeição 
catoniana do nosso século, assim como de todos os 
seus actos *^ ha circumstancias em que a razão é ar* 
rastada contra o seu querer soberano, comtudo um 
futuro mais lisonjeiro deverá trazer o desejado apu- 
ramento na acção administrativa e judiciaria ; pois 
com quanto a justiça seja um attributo affecto á 
natureza do homem, e como tal sujeita ao erro e a 
condições falliveis, nâo deixa por isso de se prestar 
á lei do progresso e do aperfeiçoamento ; melhorar 
e nâo vingar, deve ser o principal fim das leis pe- 
naes-, a justiça deve prevenir o eflèito do mal, ex« 
tirpando este na sua origem — Nemo ptntdempunUj 
dizia Platão, guia peccaium esf, aed ne peoceiur. 
Senec. de Ira, liv. 1.^, cap. 16. 

6tuerer operar rápidas mudanças, que altamente 
reclamam, para serem bem comprehendidas das mas- 
sas, o estudo e a sancção doi annos, é pretender um 
resultado inadniis&ivel*^ é desconhecer a natureza 
da razão e da própria justiça. Cuntenteroo-nos de 
aperfeiçoar successivamente a obra de cada dia, e 
mui felizes nos julgaremos, se tivermos preenchido 
nobremente a tarefa que intentamos. Â jurispru» 
dencia. criminal pede na actualidade uma marcha 
mais igual e uniforme ^ com effeito, se na ordem ci- 
vil os collaboradores das leis repressivas devem assaz 
compreheuder a verdadeira missão da justiça, e ob- 
servar na sua applicaçSo a roais rigorosa apreciação 
dos delictos, no estado militar ainda com maior ra- 
zão se recommenda este grande preceito, por isso 
mesmo ^ue nos códigos militares existe reconhecida, 
senão repugnante, desproporção entre as penas e os 
delictos. Todo o castigo (diz Montesquieu) cuja ne- 
cessidade não é absoluta, isto é, que não guarda a 
desejada harmonia com a acção commettida, vem a 
ber uma tjrrannia. Os antigos conheciam este gran- 
de principio, que a efficacia do castigo consiste me- 
nos na severidade que na sua exa4;tidão. Veja-se 
Cie. de Offic, liv. 3.^, cap. 6. 

Se o dogma da obediência iuteij*ament« passiva e 
absoluta é antisocial e retrogrado, o código penal 
que corresponde em tudo a esta prescripção devp 
ser inhumano. Com efieito nos códigos militares em 
geral vemos a pena de morte infligida muitas vezes 
por faltas taes, que sendo p^das na balança da 
verdadeira imputação juridica não lhes pode corres- 
ponder tanta severidade no seu julgamento. Os cas- 
tigos corporaes, taes como o pranchada^ a chibata- 
da , o acoute, a grilheta^ o$ trabalhos for^ado$y a 



cruel exUieneia doi condemnadot a trabaikar na* 
minatj etc, e também os anathemas de òrfamia ; 
são os meios que geral e falsamente se têem imagi- 
nado para fazer inocular o patriotismo nos cidadãos 
sujeitos ao serviço das armas, para inspirar o amor 
do dever, da ordem e dos sentimentos elevados áqaeU 
les que infelizmente não receberam os benefieios da 
educação primaria, nem os elementos ou disposi- 
ções moraes para a boa disciplina e rasoavel obe- 
diência. 6lue meios estes tio oppostos aos fins ! 

Ora a injustiça das penas, isto é, o seu extremo ri- 
gor, faz com que sobretudo os homens de guerra, 
habituados ao desprezo da morte e ás privações de 
todo o género, alimenta ndo-se (como diz o nosso 
vate) 

Não c''o$ manjares novos^ e exgtiinios ; 

mas sim, e muitas vezes, 

Engolindo o corrupio maniknenio. 
Temperado c''um árduo soffirimento^ 

possam affrontar as mesmas penas com veidadeiro 
animo e corasem. 

Se pois a justiça pede, que as penas sejam pro- 
porcionadas aos crimes, reclama também a humani- 
dade, 'que ellas nuo sejam atrozes, e que entre as 
que o não são, se devam preferir sempre as mais bran- 
das, quando por ellas se consiga o mesmo fim. As 
penas (diz Fastoret, de$ Loix penales^ p. 4, 1. 11) 
são brandas na índia, e ali os crimes são raros \ no 
Japão ao contrario o:t supplicios são horrorosos, e os 
japonezes são sempre ferozes. 

A pena do fuzilamento deve ser banida dos códi- 
gos militares. Na verdade como queremos nósfuer 
arreigar o sentimento de humanidade no coração do 
soldado, se elJe próprio é encarregado da cruel mis- 
são de fuzilar os seus camaradas ? Não é ama tradi- 
ção barbara, que tem todos os caracteres de cruel- 
dade e até de insânia f Os algozes são homens sacri- 
ficados a uma tarefa, gue se julga necessária^ posto 
que horrível, para a salvação da sociedade ,• ao me- 
nos estes homens já vivem habituados a similhante 
mister, para o qual os habilitou o próprio crime : 
porém o soldado, a quem v<5s ordenaes uma execu- 
ção mortífera ou o officio de algoz dos seus camara- 
das, deve necessariamente experimentar funesto aba- 
lo e profunda ddr, além do péssimo exemplo que se 
lhes dá de crueza e perversidade. Um código penais 
assim manchado com similhante traço no estado da 
civil isação actual, deve ser considerado como um dos 
últimos monumentos de barbaridade. Porventura 
não pode ser mantida a disciplina senão macerando 
as costas do soldado, e á custa da própria vida ? Po- 
derá merecer o sacrificio de sangue humano umag- 
gravo ou um insulto, filho talvez da desesperação do 
soldado ou das exigências monstruosas do mundo f 
Não queremos que haja na profissão das armas uma 
justiça distincta f somente nasfomisUas snaiã ou me- 
nos promplas) da justiça ordinária, ou um mundo á 
parte, isto é, excêntrico do mundo civil, ou um es- 
tado n^outro estado. Não formemos o soldado estra- 
nho aos deveres de cidadão, nem iudifferente á pra- 
tica dos hábitos de urbanidade e de decência. Não 
queremos a força armada convertida em novas guar- 
das pretorianas, que se colloquera superiores ás jus- 
tiças divina e humana^ queremos sim um exercito 
sem mancha, uma auctoridade militar solida, mas 
salutar, para a qual concorram verdadeiramente es- 
posadaSf a o\'d€m, a honra e a justiça. 



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ÍCdò^ê- 



18 



o PAKORAMA. 



137 




QUADRO DE VSDRO SUBLKTRAS. 



Este pintor naseeu em Utét no anno de 1669 e ga- 
nhou no seu tempo grande reputação, qusnaote per- 
petuou. Nos seus painéis se reconhecem qualidades 
eminentes^ desenho fácil, exposição brilhante, e ò 
bem acabado dos toques de preferencia a contrastes \ 
mas escusado é procurar n^essas pinturas o que cha- 
mamos estylo, isto é a liga do sentimento e do gosto. 
Começou a estudar na cidadn de Tolosa com An- 

Vot. 111— 3>S«»i». 



tonio RivaU, mestre mais elegante do que severo, 
cuja escola seguiu sempre, não obstante ter depois vi- 
vido muitos aunos em Roma e ser admirador enthu- 
siasta das obras sublimes de Miguel Ângelo, Raphael 
e Júlio Romano : tanta é noa pintores a infljuencía 
da aprendicagem que éraro isentarem-ae d Vila com- 
pletamente, e até alguns ha que lhe ficam sujeitos 
ainda mesmo reprovando-a . T 



138 



O PANORAMA. 



Em 1724 Pedro Subleyras veio a Paris contando, 
com a ufania de mancebo e de mais a mais gascSo^ 
concorrer a todos os prémios e ganhal-os ^ convidava 
á sua casa de trabalho os artistas para lhes mostrar 
desenhos de tectos, e esboços de composições mui vaS' 
tas ; nada lhe servia de embaraço, ou lhe causava 
duvida. Comtudo cremos que esta confiança teve 
mais de um desengano e que logo achou em Paris, 
nos professores e curiosos amestrados na escola de Pous- 
sin, juizes pouco favoráveis á sua maneira de pintar. 
No entanto em 1726 alcançou o premio grande^ o 
museu do Louvre possue o seu quadro então laurea- 
do, que p conhecido pela denominação de terpente 
de bronze : é uma composição com certa friesa de es- 
tylo, posto que theatral e desempenhada com faci- 
lidade e talento. 

Subleyras partiu depois para Roma, e ahi o acha- 
mos em 1745 casado com Maria Felice Tibaldi, se- 
nhora nobre e muito instruida; membro da acade- 
mia dos árcades, a que também sua mulher perten- 
cia, valido do cardeal Valenti Gronzaga, procurado 
pela nobreza romana^ e tendo feito para a igreja de 
S. Pedro o quadro do delíquio do imperador Valen- 
te, era geralmente estimado. 

Poucas noticias ha da sua vida, além do que fica 
referido; expatriado voluntariamente viveu por mui- 
tos annos em Roma, onde falléceu ; e tendo deixado 
poucos discipulos ninguém sè deu ao incommodo de 
ordenar a historia de suas obras, e comtudo mere- 
cem algumas d^ellas bastante apreço. Uma carta do 
senhor de Sironcourt, encarregado de negócios do 
governo francez^ que residiu por muito tempo em 
Roma, e que foi escripta do Cairo a 10 de agosto 
de 1748 a mr. de Rouillé, ministro da marinha, 
faz grandes elogios a Pedro Soubleyras tanto por seu 
caracter e qualidades moraes como pelo mérito ar- 
tístico. 

O quadro que reproduzimos na gravura está no 
museu do Louvre, e representa S. Bento resusci- 
tando uma creança. O retrato do pintor vae a pa- 
ginas 140. 



Os 



IMPKRIOS^ BYSAMTIHO E OTTOMAUO. 



VII. 



Primeira giterra entre a Rússia e a Turquia : ani- 
quilamento da esquadra oiiomana no golpho de 
Jjepanto. 

A' ENERGIA e actividade de Solimão o granJe suc- 
cedeu a molleza e relaxação de seu filho Selim II. 
Dado a quantos prazeres e excessos embotam o es- 
pirito e amoUecem o corpo^ este príncipe reduziu 
completamente a sua existência ao viver eíTeminado 
do serralho. O amor da gloria que fizera obrar tan- 
tos prodígios aos seus antepassados, e ao qual a Tur- 
quia era devedora de toda a sua grandeza e opulên- 
cia, nunca lhe abraçou o peito. Nem uma só vez 
se collocou á frente He seus exércitos, costumados até 
ali a serem conduzidos á victoria 'pelos seus sobera- 
nos. Os negócios públicos corriam á mercê de seus 
ministros. Ainda quando não existira já no coração 
do império turco o gérmen da sua decadência, aquel- 
le procedimento do chefe do estado, e nas circums- 
taucias especiaes em que se achava a Turquia, de- 
vendo ás armas todo o seu engrandecimentp, e ten- 
do excitado contra si na Europa e Ásia, tanto com 
suas conquistas como com as repetidas humilhações 
por que fazia passar os mais paizes, o terror de uns, 
e o ódio de outros'^ em taes circumstancias, repito., < 



aquelle proceder era uma causa ■uílficiente nlo tó 
para marcar o começo da decadência de um impé- 
rio, mas para lhe imprimir accelerado impulso. 

Entretanto o esforço de um súbdito veio neuti^- 
lisar de algum modo os tristes effeitos que as faltas 
do soberano deviam produzir. A par d^essas aoqui- 
siçoes de território, que alargaram tanto at frontei- 
ras da Turquia \ juntamente com essa reforma le- 
gislativa, que deu ao império uma organisaçSo roais 
homogénea e mais forte, SolimSo I legou a sen fi- 
lho um ministro illustrado e cheio de dedicação na 
pessoa do gra-vizir Muhamed-LokoUi. Depositário 
dos pensamentos d^aquelle esclarecido príncipe, este 
alto funccionario continuou durante o reinado de 
Selim II com o mesmo systema de politica anterior- 
mente seguido. 

A conquista de Chypre, que os venezianos pos- 
suíam havia um século, e a da Arábia Feliz, onde 
um aventureiro audacioso assumira o titulo de cali- 
fa, dispondo-se para vir a ser um temível rival do 
poder ottomano, foram os principaes feitos militares 
do governo do sultão Selim II. Mas a outra empre- 
sa se metteu hombros, que apesar de não ser corda* 
da de feliz resultado, faz muito mais honra ao seu 
ministro. Consistia no projecto de juncção do no 
Don com o Volga, por meio de um canal de trinta 
legoas de extensão. Doesta arte se commonicava o 
mar d^Azof com o mar Caspio, e se abria ao com- 
mercio uma via fácil desde o fiai tico ate ao Gan- 
ges, ligando com estreitos laços o oriente e o occi- 
dente. E verdade que com este plano tinha em vis- 
ta o grâ-vizir abrir passagem ás esquadras ottoma- 
nas para auxiliarem o exercito na conquista da Pér- 
sia. Porém se se attender ao empenho, que este mi- 
nistro mostrou durante o seu longo ministério em 
fazer tratados com mercíaes com diversos paizes, de- 
vemos crer que n^esta empreza também entraram 
da sua parte miras em vantagens commerciaes. 

Para se realisar, porém, este projecto era mister as- 
senhorearem-se da cidade de Astrakan, situada na 
iòz do Volga, e junto ao logar onde o canal devia 
terminar. Preparou-se a expedição, cujo commando 
foi confiado a Kacim-pacha, ao qual cabem as hon- 
ras da concepção do plano. Astrakan foi sitiada e 
assaltada com todo o vigor ^ mas os russos, novos se- 
nhores d''este território, opposeram aos musulraanos 
tal resistência que os obrigaram a levantar o cerco 
e a desistir completamente da empresa. 

Foi esta a primeira guerra entre a Turquia e a 
Rússia \ de pouca monta se se pesarem os prejuízos,* 
que a primeira doestas potencias soífreu -, mas de 
grande importância se se attender ás immensas van- 
tagens a que teve de renunciar por não poder levar 
a cabo a projectada obra, e de muito lAaior alcance 
ainda pelos effeitos moraes, que produziu tanto no 
exercito como em toda a nação musu Imana. O mau 
successo das armas ottoma^as junto aos muros de 
Astrakan suscitou e (ez arraigar no povo turco um 
antigo prejuízo religioso, que o leya n reputar os 
paizes do nortccolno interdtctos aos sectários de Ma* 
foma. Nascia este prejuiso de que, não tendo a nou- 
te n^aquelles climas mais de quatro horas, os mu- 
sulmanos que habitassem n^elle seriam obrigados ou 
a interromper o somno para fazer a oração da nou- 
te, duas horas depois do sol poente, e a da manhã, 
ao romper d^alva, ou a transgredir os preceitos do 
alcorão. 

Este prejuízo, influindo sobremaneira no malogro 
d^aquella tentativa, animou excessivamente as tro- 
pas russianas, e tirou ao governo turco a vontade 
de entrar em nova campanha com aquelia nação. 
E tanto assim, que enviando o ciar João, o terrível, 

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o FA390JEUÍMA, 



139 



uma embaixada a Constantinbpola, logo depois do 
assalto de Astrakan, para evitar que este successo 
YÍesse cortar ou esfriar as rekçdeft de aroisade entre 
os dous paizei, o sultão recebeu o embaixador com 
o maior agrado, e aquellas relações continuaram co- 
mo se a Rússia se n&o tivesse opposlo á execução de 
um planO| que o governo ottomano tinha tanto a 
peito. 

Pouco tempo depois doeste acontecimento soffreu 
a Turquia um grande revei no golpho de Lepanto. 
A sua esquadra composta de tresentas velas, em que 
entravam muitas náns, foi destroçada completamen- 
te pelas esquadrai allíadas de Hespanha, do papa e 
da republica de Veneza, na força de mais deduien- 
tas embarcações, commandadas pelo celpbreD. João 
d** Áustria, filho natural do imperador Carlos V (7 
de outubro de 1571). 

N^esta acção memorável perderam os ottomanos 
o seu almirante e trinta mil homens, que ficaram 
sepultados nas aguas dq golpho c^ Lepanto, dusentos 
e vinte e quatro navios, entre grandes e pequenos, 
uns incendiados, outro tomados, e muitos despeda- 
çados na costa contra os rochedos, e quasi quatro- 
centos canhões, mais de três mil prisioneiros, bah- 
deiras de purpura, e quinze mil escravos christãos, 
que obtiveram a liberdade, foram os trophéus do 
vencedor. De tao formidável esquadra apenas esca- 
param quarenta galeras. 

Foi este o maior triumpho que os christãos ti- 
nham conseguido até ali contra a Turquia. A no- 
ticia de um tal desastre causou em Constantinopola 
a mais profunda sensação. Selim II deixou-se pos' 
suir de tão grande terror, que segundo dizem os 
próprios historiadores ottomanos se recusara por mais 
de dous dias a tomar alimento algum. £ na verda- 
de, doesta catastrophe deviam seguir se terríveis con- 
sequências para o império turco, se os alliados sou- 
bessem aproveita r-se melhor de tão assignalada vi- 
ctoria, e se Veneza não rompesse no anno seguinte 
a alliança, fazendo pazes com o sultão. A conclusão 
de um tratado de paz por mediação da França en- 
tre Filippe II de Hespanha, o papa Pio V, a re- 
publica de Veneza e a Turquia acabou de dissipar 
todos os receios, que o combate de Lepanto suscita- 
ra em Constantinopola. 

Entretanto o gru*vizir Sokoli desenvolveu n'esta 
conjunctura tal energia e actividade, e os recursos 
do império eram tão grandes, que um anno depois 
d^aquella gravíssima perda fez-se de vela a esquadra 
turca, constando de dusentos e cincoenta navios de 
differentes lotes. E por esta occasião aquelle minis- 
tro, vendo que o embaixador veneziano se admira- 
va da brevidade com que a Turquia reorganisara a 
sua esquadra, exclamou cheio de orgulho : u A ri- 
queza e poder do império são taes que se fora pre- 
ciso, far-se-iam de prata as ancoras, de seda os ca- 
bos, e de setim as velas. »* 

Selim II morreu a 2 de dezembro de 1574, ten- 
do reinado apenas oito annos. (Continua.) 

I. DB VlLHXf A BaSBOSA. 



Gallipoli b os Dardavbllos. 

Esta cidade e o ponto de reunião das tropas ingle- 
sas e francesas expedicionárias em auxilio da Tur- 
quia, e por isso o seu nome apparece agora muitas 
vezes nos jornaes políticos. Actualmente é uma das 
povoações mais importantes do Hellesponto, constan- 
do de 16 a 18:000 habitantes entre turcos e gregos, 
arménios e judeus. Tem assento em rochas, parte 



das quaes minadas pelas aguas do mar e tem doas 
portos mui frequentados por navios de pequeno lote. 
Os monumentos turcos de Gallipoli reduzem*se a 
mesquitas e pontes, algumas d''estas construidaa ao 
modo arábico, sustentadas em columnas de mármo- 
re com inscripçõés em lingua turca. São muitas as 
ruinas da antiguidade assim dentro como fdra da 
cidade ^ a maior parte das casas conservam na sua 
construcção, da mjesma maneira, que em Lampsaki 
alguns fragmentos deantigualhas. Mr. Castellan des^ 
creveu minuciosamente e debuxou com bastante es- 
mero os restos, mui bem conservados, de uma forta- 
leza e mais alguns edificios. Nas outras construogões , 
reconhece-se simultaneamente a arcbitectiira grega 
e romana e a dos bárbaros. 

Nos arredores não se vé mais que uma plaflura 
árida, coberta de rochedos e pedras soltas ; a espa- 
ços crescem a custo algumas arvores n^um barro 
amarellento. €tuão diferentes são as cercanias de 
Gallipoli das de Lampsaki (1)! Mas, se o pais da 
parte da Europa é menos agradável, em compensa- 
ção o ar é mais puro e mais sadio o clima ^ as febres 
e outras enfermidades não fazem tantos estragos co* 
mo em a margem opposta. 

As suas memorias históricas résumem-se no se- 
guinte. A sua situação é tão vantajosa que todos os 
príncipes que pertenderam apossar-se da Tbracia co- 
meçaram assenhoreando-se de Gallipoli, a qual toi le* 
vantada das ruínas pelo imperador Calígula. Os po- 
vos das Galhas atravessaram o Hellesponto n^esta 
paragem, quando foram assolar a Asía Menor-, na 
epocha da terceira cruzada o imperador Frederico 
Barba-roxa passou o estreito de Gallipoli, ou canal 
dos Dardanellos, com o seu exercito. No século 14.^ 
aventureiros catalães, tendo-se rebellado contra o 
imperador grego que os tomara ao seu serviço, fo- 
ram estabelecer-se n^esta cidade * o almirante geno- 
vês Dória acabou de expulsal-os d^ahi, depois de um 
assalto geral, e n^essa occasião se fiseram notáveis 
as mulheres pelo valor com que se defenderam \ an- 
tes d 'este successo tinham os revoltosos talado todos 
os districtos circumvisínhos, fazendo tremer Bysan- 
cio, e vencidos em vários recontros os turcos e os 
gregos. 

Porém, o mais notável que oíTerece a historia de 
Gallipoli é o ter sido a porta por onde se precipitou 
sobre a Europa a invasão musulmana--, estimaríamos 
poder accrescentar que será a porta por onde pene- 
tre a civilisação. Durante o reinado do segundo so- 
berano da casa de Osman, entraram os turcos pela 
primeira vez na Europa e conquistaram Gallipoli, 
que por algum tempo conservaram. Q.uando Amu- 
rath II saiu de Magnesia, marchando contra o exer- 
cito de Ladislau e Huniales, passou com suas tropas 
o estreito para esta banda. O primeiro arsenal dos 
ottomanos estabeleceu-se em Gallipoli e foi onde Ma- 
homet II reuniu a sua frota, que devia apoiar o seu 
exercito no cerco posto a Constantinopola. Em fren- 
te doesta cidade, na Asía Menor, era a antiga Ilion, 
campos em que foi situada a famosa Tróia, e onde 
O' viajante se recorda dos heroes cantados por Ho- 
mero. 

A terra da Europa forma aqui uma península que 
por conter a cidade tem o nome doesta ^ antigamen- 
te chama va-se o Chersoneso da Tbracia. GaHípoli é 
cabeça de um livah (2) na Romelia, e dista d^An- 

(1) Lampiaki ou Lepceh esta na Turquia asiática a 
9 kilometrot (obra de légua e meia) de GaUipoU sobre 
os Dardanellos ;. a sua região era a antiga Troade. 

(2) lÃvak ou Sandjaat chamam os turcos ás snbdi- 
▼iides áospachalatos ou eyaleU^ províncias governadas por 
um bacbá. Cada í 



U^ah « resido V^^We^^^Jf^O^V^ 



140 



O PANORAMA. 



drlt)opolil40 kilofiietros para o buI. Estelivab, que 
96 estende do Canal dot D^rdanelloa ao longo do mar 
'de Marmara tem de oumprimento 460 kilometros c 
de largura 150 e conta de populaç&o 600:000 ha- 
bitantes'^ corresponde á parte meridional da antiga 
Thracia e a Macedónia oriental. Na cidade ha fa- 
bricas de excellentes marroquins^ e fas*8e oommer- 
oio de lãs e algodões. 

Diremos duas palavras acerca do estreito. — O no- 
me de Dardanellps tiveram primeiramente em com- 
mum as duas cidades de Bovalli-Kalessie e Nagara- 
Burun (asVintigas Sestos eAbydos, que a fabula de 
Leandro e Hero fes celebres)^ ambas nas duas op- 
pòêtas Ijeiras do estreito que separa a Turquia eu- 
Topea da Asia^ e 56 n segunda está na antiga Dar- 
dania, duende veio o nome moderno do canal, d^an- 
tes chamado o Heilesponto. Ambas se denominam 
agora AnUgo* Dardanelios para distincçSo dos No- 
voi Dardanelios, que são outras duas cidades sitas 
no mesmo estreito, Kilidb-Bahr e Soltanié-Kales- 
sie, que se chamam também Castello da Europa e 
Castello da Ásia. Estas quatro cidades são mui forti- 
ficadas e tornam quasi impossivel a passagem dos 
Dardanelios á viva força \ guarnecem a costa euro- 
pea 336 bocas de fogo e a asiática 488. Todavia os 
ingleses, com mandados pelo almirante Duckworth« 
forçaram a passagem em 1807 ^ verdade é que as 
fortificações estavam muito arruinadas. A largura 
do canal varia de 2 a 9 kilometros. 

Gtuando em 1833 os russos vieram emsoccorrodo 
sultão ameaçado peio pachá e acamparam em Un- 
kiar-Skelessi, celebrou-se o tratado, que tem este 
nome, aos 8 de julho do dito anno, estipulando ai- 
liança defiensiva e offensiva por oito annos entre a 
Rússia e a Turquia. Uma clausula secreta do trata- 
do fechava eventualmente os Dardanelios ás poten- 
cias europeas, deixando este estreito, bem coroo o 
Bosphoro (Canal de Constantinopola), aberto somen- 
te á Rússia. As representações das potencias lesadas 
obstaram a que se renovasse aquella clausula quando 
expirou o tratado. 




'8«TA MA««kTAnB A Sbvbora d. Mabia il. (1) 



Simt 
taaigiuit. 



laenaut reraa, et 



V im« ti. . — £■ BID . 



Remota cwitjndia militarí , iotior pvUici 
aaaori« «xoiiImís pergehat. 



Arrom suma leteodit. . 
wa mortiA. 

Pt 



Svmv. iB Cjbíab. 
€t ia eo paravit 
«. VU9 ▼. 14. 



VBDRO 8VB&STaA8 



Na sua jornada de Falmonth para Londres ]é que 
a rainha visitou a opulenta habitação de Guilherme 
Beckford, na abbadia de Fonthill. O proprietário 
era aquelle espirituoso inglês, que duas veies veio a 
Portugal no reinado de D. Maria I, e na regência 
do príncipe D. João, traçando, em cartas elegantes, 
o retrato engenhoso dos costumes da cdrte em uma 
epocha nossa bastante ignorada por este aspecto, ape- 
sar da muita proximidade. 

Beckford vivia ainda em 1828, mas o inverno 
dos annos pesando cora os seus rigores, e agravando- 
se pelas moléstias senis, inclinava já para o tumulo 
a cabeça do curioso observador. 

Não lhe permittindo o seu estado receber pessoal- 
mente, como desejava, a neta de D. João VI, do 
soberano ao qual devera estima e favores especíaes, 
o sumptuoso escriptor não se esqueceu de quanto po- 
dia tornar cordial e verdadeiramente real o acolhi- 
mento, que ofiereceu. 

Entre Inumeráveis preciosidades colligidas nas via- 
jens a custa de largas despesas, a rainha notou re- 
petidas e vivas memorias de Portugal. O gosto e as 
inclinações de Beckford, particularmente afieiçoado 
á nossa pátria^ tinham-nas accumulado ali, quando 
depois de alguns annos de existência entre n6s quis 
aliviar as agudas saudades da ausência, e não pou- 
pando ouro, nem esforços, fez tudo para se rodear de 
recordações poderosas que lhe avivassem a imagens 
de um pais, que preferiria ao seu para fechar os 
olhos, se lhe fosse permittido ! 

A abbadia de Fonthill junta aà f<5rmas da mo- 
derna architectura ao grandioso sublime do estalo 
monástico. Situada no condado de Salisbury, e fun- 
dada no tempo de Guilherme o conquistador, pas- 
sou das mãos de diversas famílias para as de WiU 
liam Beckford, pae do viajante, homem distincto pe- 
lo espírito e pelo vigor de caracter ; este foi aquelle 
mesmo lord maire de Londres, ao qual a cidade re- 
conhecida levantou a estatua nos seus paços, segu- 
rando na mão alçada a copia da memorável adver- 
tência dirigida a Georges III no anno de 1770 ! 

O magistrado de Londres possuia avultadas ri- 
quezas na Jamaica, e seu filho, succedendo«lhe, dis- 
punha de cem mil libras esterlinas de rendimento. 
A raagua da perda de uma esposa querida, ladjr 
Margarida Gordon, filha do conde de Abayne, de- 
cidiu Guilherme Beckford a viajar, e trouxe-o a 
Portugal. Em 1787 retirou-se para visitar os mo- 
numentos deHespanha, e em 1794, voltando a Lis- 
boa, verificou a sua excursão a Alcobaça e á Bata- 
lha^ de que nos íei uma animada pintura nas ulti- 
mas cartas, edificando depois a deliciosa residência 
de Mon ser rate em Cintra. 

Desgostos sérios, que experimentou, e certa emu- 
lação causada pelos seus cabedaes de príncipe, re- 
solveram- no a desistir do propósito que manifestara 
de se estabelecer em Portugal \ retirou-se pois, e 
concluído um passeio rápido por Itália e França, 

(1) Conli«u.do d« W^^gí^f èd by V^OOg IC 



o FAJICMlAlLk. 



141 



reeoUiett«ie á pateia» fisaado en FonthiU a tua mo* 
nda. 

EfU babiUgio Já enriqnacída pak liberalidade do 
aUennan wa pae, ainda le figvioo modeita a Gui- 
lherme Beeklbrd. Amin, apenas detoançoa daapri- 
OMÍna friligat da Joroadai den-te pceMa a rísoar e 
eonttruir omagnifiaopalaQioy aonde determinava fin- 
dar oe dias. 

A senhora D. Maria da Gloria teve occasiXo de 
penorrer detidamenie o soberbo edifido, e de exa- 
minar de perto o &iisto e a opulência de um parti- 
edbur, rivallsando em pernes e generosidade de ani- 
mo com os loberanos reinantes de alguns Estados. 
O parque de FonthiU abraça a circumferenda de se- 
te milhas, e foi disposto de modo que se p6dem an- 
dar por dle vinte sem nunca voltar aos mesmos si- 
ties, ou tornar a vèr as mesmas alamedas copadas de 
arvores e plantadas de arbustos e flores curiosas, des- 
de a mais humilde phinta dos Alpes até â mais rara 
producçio dos trópicos. Os cysnes, os paVões, e as 
aves que ornavam os differentes logares pertenciam 
ás mais apuradas raças. 

A abbadia domina de uma eminência quanto a 
rodeia, e as obras executadas até á morte de Beckford 
custaram quatrocentas mil libras, calculando-se em 
outro tanto o que seria indispensável para a acabar, 
seguindo o desenho, e sustentando o luxo do primei- 
ro proprietário. 

áíUando erguia a torre de dusentos e setenta e 
seis pás de alto, d^onde se alcançam largos horison- 
tes e immensa área de terrenos povoados de castel- 
los, de antigos monumentos, e de florestas, ofogope* 
gou casualmente na parte superior, que ardeu toda. 
O espectáculo cheio do terror emagestadedascham- 
mas, oordando de línguas de fogo aquella arrojada 
mole, deslumbrava os olhos \ Beckford contemplou-o 
como observador estranho á perda, e como senão fos- 
se necessária uma grande fortuna para reparar os 
estragos ! Emprehendedor e activo, ainda as cinsas 
nio tinham arrefecido, e já crescia outra vex a se- 
gunda oonstruoçao mais rica, mais altiva, e mais es* 
belta do que a primeira ! Para seguir as obras com 
assombrosa diligencia mandou apenar os operários 
das circumvisinhanças e todos os transportes, de mo- 
do que houve ferias nos amanhos ruraes» - Os pró- 
prios oonoertòs executados na capella de Windsor-' 
Castle ficaram suspensos ^ quatrocentos e sessenta tra- 
balhadores, noute edia, não levantaram a mSo de ci- 
ma da torre de FonthiU. 

Os officiaes revesavam-se aos quartos, e nas mais 
largas e tenebrosas noutes de inverno, os viajantes 
pasmavam, descobrindo delongo, como em soena ma- 
gica, as figuras phantasticas de tantos homens pen- 
durados das muralhas, e allumíando-se ao clarão dos 
fachos. O proprietário assistia de um alto empregan- 
do a vista nos bellos effeitos do quadro ^ e no meio 
da eterna melanchoUa, que Ihemaguava o rosto, cor- 
ria-lhe ás veaes um sorriso de contentamento, obser- 
vando aquella multidão, que parecia girar nos ares, 
no meio dos bellos aecidentes de lus, cujos reflexos 
iam brincar ao longe nas massas de verdura do par- 
que, e nos relevos e esculpturas das outras partes 
do edificio. 

A rainha de Portugal veio encontrar em FonthiU 
todas as maravilhas, que o gosto unido á sumptuo- 
sidade podia inventar. £m um espirito elevado a 
sensação devia ser profunda e indelével. Os pri- 
mores das artes éknparelbavam tom a magnificência 
d^aquelle palaeio, d^aquelles jardins, d^aquellas tor* 
res, que pareciam formadas em sonho^ ou creadas 
pelo prodigioso condão da lâmpada de Aladino. Os 
painéis dos melhoNS mesftfes daa escolas de pintura \ 



rDolattas de raridade e ^mas preciosas*, moveis 
ouro maciço ; obras de ébano e tartaruga varia- 
das ao lavor, e exqaisitas pelo desenho ou pelo pse- 
ço, taças de sardónica, deagatha, dechristal de ro- 
cha, e de cakedonia oriental realçavam entre outros 
muitos objectos de valor, ou de trabalho singular. 
Os olhos entretidos não cessavam de se admirarem, 
de sala para sala, porque achavam ali exposto quan- 
to as artes ousam imaginar, e quanto o fasto pôde 
oolligir. 

Ctuando Beckford falleoeu a abbadia de Fonthill 
foi posta á venda, e concorreram, como compradores, 
o duque de Wellington, o conde de Grosvenor, e o 
marques deHertford. Este ultimo não podendo con- 
ter-se, exclamou : m s6 o rei deve habitar em um 
palácio, aonde tudo é extraordinário e arrebatador. 
Gtualquer particular não saberia viver aqui » O rei 
com tudo não comprou a abbadia. Foi mr. Farqu- 
har que a possuiu, pela enorme quantia de tresen- 
tas e quarenta mil libras ! 

Pedimos vénia pela digressão, esperando que nos 
seja relevada. Beckford, o fundador da casa deMon- 
serrate, cujas ruínas pittorescas ainda lembram o seu 
nome e os seus caprichos sumptuosos, não podia ci- 
tar-se de corrida, nem a hospitaUdade ofierecida á 
rainha dos portugueses, na hora do infortúnio^ me» 
recia uma noticia indifferente, ou leviana. 

Estes episódios se interrompem a narração com 
ligeira pausa, talves não sejam inúteis para a ame- 
oisar. AquiUo que alegrou a nossa infância, ou que 
feriu a nossa imaginação em idade tenra, tem uma 
frescura e saudade, que depois nos annos graves con- 
solam* do corte dos desenganos, e refrigeram do quei- 
mo dos pesares. O que sucoede a cada passo a to- 
dos nós na jornada da vida, acontece com a existên- 
cia dos povos, e com os quadros que a resumem. 

Bem acres dores e bem amargas tristesas teremos 
que debuxar, depois, em tratando do agitado reinado 
da senhora D. Maria II, para não nos demorarmos 
alguns instantes junto doestas recordaçOíes da primei- 
ra epocha, festejando-as. 

Voltando em companhia da imperatris, segunda 
mãe, á terra do seu berço, mas servida por criados 
portugueses, (era sua dama a sr.^ D.Leonor da Ga- 
mara, depois marquesa de Ponte Delgada, e seu gentil 
homem da camará D. Thomas ftlascarenhas) a rai- 
nha conservou vivas e arreigadas sempre as provas 
de dedicação, recebidas dos súbditos exilados, durante 
a sua estada na Europa ^ e em quanto amadurecia 
a oocasião de se tentar maior empresa as diligencias 
incessantes, de seu pae, e os afiectuosos cuidados da 
augusta esposa, escolhida para companhia dos seus 
trabalhos, aproveitaram o curto espaço de residência 
no Brasil, oontinuando4be aapplicação cortada pelas 
vicissitudes poUticas, que já referimos. Nem o tem- 
po, nem os meios de ensino sobejavam para a edu- 
cação se esmerar, segundo a medida dos desejos que 
a dirigiam^ mas o talento natural, e a assiduidade da 
princesa suppriram muito do que faltava, tornando 
fecundas as horas, e rápidos os progressos. Gtuando 
rebentou o movimento, que restituiu á Europa o 
duque de Bragança, já a senhora D. Maria da Glo- 
ria possuía em grande perfeição o conhecimento das 
Unguas francesa e ingleu, fidlando-as, e escrevendo- 
as correctamente. 

Foi em 7 deabrU de 183^1, que na capital do Bra- 
sil occorreram os suocessos, que decidiram o impera- 
por a abdicar a coroa em seu filho, ainda menino,, 
regressando á Europa com a rainha de Portugal, % 
a imperatris sua esposa. A necessidade mais podero- 
sa do que tí affecto, que as unia pelo sangue e i»elo 
sentimento do infiirtunio commum.. < ' 



■^ê^ .q««u->gle 



142 



O PAIVORJJIA. 



augustas personagens a. sopararem-se no momento de 
emprehenderem a longa e penosa travessia, que de* 
via trascl-as á Europa. Faltavam commodos abordo 
de cada um dos vasos estrangeiros de que podiam dis- 
por, para fazerem juntas a viajem. O imperador e a 
imperatriz embarcaram, portanto, em uma fragata 
inglesa*^ e a rainha em uma charrua franceza, seguin- 
do diverso caminho. A fragata navegou em direitu- 
ra a Cherboorg^ a charrua accoasada por ventos con- 
trários veio a Brest^ d^onde a senhora D. Maria II 
passou por terra a unir-se á sua anciosa família, que 
permaneceu até principies de agosto em Cherbonrg, 
saindo para se estabelecer na real quinta de Meu* 
don depois da digressão do senhor D.' Pedro a Lon- 
dres. 

Luiz Filippe, recentemente elevado ao throno, não 
sd poz á disposição do duqtie de Bragança esta agra- 
dável residência campestre, como empenhou todas 
as delicadezas e maneiras para lhe adoçar o amargor 
do revez. De Meudon (na qual habitaram até meia- 
do de novembro) recolheu a familía imperial a Pa- 
ris, para um palácio situado no mesmo ponto da rua 
de Courcelles, aonde estava a casa de Robespierre, 
hoje propriedade da rainha de Hespanha D. Maria 
Christina. A.hi nasceu no 1.^ de dezembro de 1831 
a princesa D. Maria Amélia, que na flor dos annos 
mais viçosos Deus chamou á sua gloria, como um an- 
jo que não devia demorar-se longe da sua verdadeira 
pátria; d^ali partiu o duque de Bragança para a ilha 
Terceira logo no principio do seguinte anno ; e ali 
também entre receios e esperanças se cultivou oeipi- 
rito da senhora D. Maria II, debaixo da direcção, e 
á sombra dos exoellentes exemplos de sua segunda 
mãe, que soube converter em proveito da suainstruc- 
ção uma capital como Paris, que é a cabeça intelle- 
ctual da Europa. 

N*este intuito sua magestade imperial incumbiu 
da continuação da educação religiosa da rainha o 
abbade Dupanloup, então parocho da freguezia de 
S. Roque, e hoje bispo de Orleans, homem exem- 
plar de costumes, e singular em letras ; e o primei- 
ro cuidado do virtuoso pastor consistiu em dispor a 
sua educanda para dignamente receber o Sacramen- 
to da Confirmação, ' administrado pelo arcebispo de 
Paris. O professor dehistoria e de geographia era mr. 
CoUard, m^tre que fora do duque deBordeaux. Do 
ensino de principio» de mathematica encarregou-se 
o major de engenharia Caetano Vaz Parreiras. Fi- 
nalmente para o estudo das linguas vivas e das ar* 
tf^ liberaes de musica, desenho, e dança, chamaram* 
se os professores, que ensinavam os príncipes da fa^ 
milia real de França, com a qual a senhora D. Ma* 
ria da Gloria convivia, participando da óptima edu- 
cação que o rei Luiz Filippe se aprimorou sempre 
em dar a todos os seus filhos. 

O aproveitamento correspondeu aos desejos e des* 
velos empregados. A rainha, modesta e tímida an- 
te o tracto publico, ornava as graças do seu sexo com 
as prendas, que o realçam mais ; e justamente grata 
á memoria de seu pae, e aos carinhos da imperatriz, 
quando fui esposa e mãe, fez reviver na educação dos 
nossos príncipes as bellas tradicções, que lhe recorda- 
va a sua. 

No centro doesta existência consagrada ás appli- 
cações ínhtruclivas, e aos deveres de familia, cor- 
riam senão tranquillos de todo, ao menos socegados 
de revezes os seus dias,, quando uma occorrencia, 
que podia ser fatal, veio patentear a fortaleza do 
seu animo, superior â debilidade do sexo, e di?na 
das qualidades, que tantas vezes attestaram a seguri- 
dade de caracter de seu pae. Em uma das manhãs 
de abril de 1832, pouco depois de •« retirar da ja- 



nella do seu quarto, qnc «laitava para o jardin, oa* 
viu-se um tiro próximo, e logo abala, entrando pelo 
logav d^onde a priaoeia acabava de sair, foi cravar- 
se na parede fronteira, mesmo ao lado do sea leito. 
E fácil de imaginar o enleio e o pavor dos que ve- 
lavam pela eontervaçio de tão preciosa vida. Comno- 
veram-se com o suooesso, e algnnv taaisapreheosivòft 
chegaram até a vêr n^elle um crime premeditado e 
susceptível de se renovar. 

Somente a senhora D. Maria da Gloria não seal* 
terou, nem deu importância ao facto, procurando 
aquietar o sosto de todos, e sastentando inteira a tran-^ 
quillidade do seu espirito. As diligencias da policia 
franceza, e as inquirições judiciaes immediatamèiite 
ordenadas por mr. Persil, procurador da corda pe- 
rante a relação de Paris, demonstraram depois que 
o terror natural em um desastre imminente, não ti- 
nha base, que o justiQcasse acerca de futuras tenta- 
tivas. Não existira conspiração nem projecto regici- 
da. Um visinho sujeito a accessos de demência mo- 
tivara innocentemente o aballo pela inveterada insis- 
tência de disparar tiros cegos no seu quintal. 

Comtudo, se a mão da Providencia não desviasse 
a rainha do perigo, uma baila expellida ao acaso vi- 
ria sepultar em luto a sorte da grande causa, que 
mesmo áquella hora se agitava entre os dous campos, 
que dividiam o reino, pelejando denodadamente ! 

Outros riscos mais geraes e mais perennes cerca- 
vam a princeza a esse tempo. A cholera-morbus in- 
vadira Paris em 22 de março de Í832, e s6 nos su- 
búrbios da capital tinha ferido mais de vinte mil vi- 
ctimas, das noventa e cinco mil que immolon em to- 
da a França ; e como se não bastassem as maguas c 
as lagrimas de tão extensa calamidade, veio a sedi- 
ção politica dos dias 5 e 6 de junho ensanguentar 
um bairro de Paris, repetindo as soenas de outras 
epochas dolorosas. Em volta de si a esposa e a íQba 
de D. Pedro não descobriam no horisonte senão 
ameaças e tempestades. Por um lado o açoute da 
peste, ardendo por toda a parte, e dizimando sem ' 
piedade a todas as classes^ por outro, o desassocego 
e o temor, que faziam nascer a incerteza do sucoes- 
so da expedição do senhor D. Pedro; e para rema- 
te de tantas tribulações diversas, o espectáculo da 
guerra civil desgrenhando as fúrias nas ruas de oma 
cidade, a cada momento atravessada pelo cortejo fú- 
nebre dos que a ira do ílagello ia ceifando impla- 
cável! 

Rompia então em França a batalha entre a mo- 
narchia constitucional e a republica. A queda da ca- 
sa primogénita dos Bourbons não satisfizera senão me- 
tade das exigências das opiniões exaltadas; o thro- 
no era o alvo do seu ódio, e a coroa o pretexto da 
sua hostilidade. Carlos X ou Luiz Filippe represen- 
tavam para ellas o principio monarcbico, e a esse 
é que apontavam os seus golpes \ Colhidas de sobre- 
ssalto pelos acontecimentos, não tinham acceitado a áy* 
nastia de julho, senão como praso de trégua, em quan- 
to melhor se preparavam para o lance decisivo. 

A revolta dejunho revelou a intenção, descobrin- 
do ao mesmo passo a minoria que hasteava então o 
estandarte republicano. Constrangidos a ceder dian-* 
te da firmeza das tropas, e a entrincheirarem-ee íA* 
nal em uma casa religiosa (Cloitre Saint-Mery) os 
sublevados tiveram de depor as armas, reconhecen- 
do- que a tentativa fora antecipada, e era repellida 
pelos desenganos da nação. Foram dias aquelles que 
não esquecem aos soberanos, nem aos 'povos. Qioan- 
tas vezes Luiz Filippe, já no exUio, recordaria, de- 
pois, os confliotos civis, em que o rei com sens filhos 
ao lado, e á frente da guarda nacional, marchava 
contra as barricadas, Bj|{«gg«gtr^ estaíapido das 



a TASSOBAMA, 



143 



deicargas, e oselamores dòi combatentes, otivía soar, 
gratas ao eoraçSo e risonhas de popularidade, as sau- 
dações <la multidão formando votos pelo êxito das suas 
armas! 6tue distancia do enthusiasmo pela ordem 
em 1832 á apathia e ao desconforto de 1848 ! Em de- 
loito annos de poder como tinham mudado comple- 
tamente as ideas, os homens, e as cousas ! 

A rainha e a imperatris ao primeiro rebate da 
rebellilo atraTe^saram a praça, aonde se consumou o 
sacrificio de Luii XVI, e dirigirani-se ao paço, de- 
sejando acompanhar a família reel, que temia a ca- 
da instante receber a cruel nova da morte de três 
príncipes, escripta com o sangue do seu valor, fim 
quanto as horas se arrastavam lentas pela angustia, 
as duas princesas nada poupavam para minorarem as 
aprehensões, e alentarem o espirito da esposa e das 
filhas, que na pallides e no tremor denunciavam os 
cuidados, sabendo por experiência como dos degraus 
do throno em França é fácil escorregar para o cada- 
falso, ou cair debaixo do punhal de um sicário! As 
ensanguentadas memorias da revolução de 1793, re- 
voando em volta d^ellas, exacerbavam -lhes as penas, 
agravando os receios. 

Destinada a governar em um pais, que o seu rei- 
nado devia introdocir no trabalhoso noviciado das 
instituições representativas, parece que a Providen- 
cia quíz de propósito proporcionar á senhora D. Ma- 
ria II as lições graves, collocando-a no ponto mais 
propicio para observar com fructo as vicessitudes do 
mundo em um anno tao fértil de acções notáveis. 

O engenho da rainha suppria a idade ^ e as prova- 
ções de uma carreira tão agitada no primeiro vi- 
ço ^a mocidade tinham-na habituado a reflectir, 
colhendo proveito de quanto occorria, quer fosse pros- 
pero, quer ensinasse a vaidade das grandezas huma- 
nas. A insurreição da Vendée, e o resultado infeliz 
do commettimento audaz de uma princeza desdito- 
sa, illudida pelo amor materno, deviam-lhe causar pro- 
funda sensação. O cerco e a tomada de Anvers de* 
fendida com mal succedida valentia, desmembrando 
pela espada o que a politica Hgára vinte ânuos an- 
tes, uccupava a atenção, e podia reputar-se de fausto 
agouro para a cavalleirosa empresa, que o imperador 
commandava eoi pessoa. Próximos doestes, outros fa- 
ctos de vulto nao menor, revelavam a inquietação 
dos ânimos, e as incertezas do futuro, atrahindo a 
curíosidade, e absorvendo a penetração dos estadistas. 

No Egypto Mohamed-Ali eançado da vassallagem 
nominal, e suppoodo favorável a oceasião, erguia a 
cabeça, e declarando -se em rebellião aberta contra 
Mahamoud II, expunha a paz da Europa pelo con- 
flicto imminente das duas maiores potencias. A festa 
tomultuaria de Hamback descortinava os designios 
da revolução, traçando Jámetter o pé na Alemanha ; 
e quasi ao mesmo tempo descobria se a grande cons- 
piração urdida para acoender geral conflagração na 
Itália subjugada, mas impaciente. Aos movimentos 
de vários pontos da America junta vam-se aconteci- 
mentos trágicos, obra dos delirios do fanatismo poli- 
tico, preponderante n^esta epocha, bem gravada na 
memoria dos que dirigiam as rédeas do governo, e 
eram forçados a luctarem com os maus instinetos, ado- 
ptando providencias rigorosas, para acautelarem maio- 
res desgraças. 

Por ultimo, para que o deaconcerto das idéas e a 
obseocação de certas doutrinas não ficassem duvida- 
sas, appnreceu a farça dos sansioiooianos, cujo proces- 
so divertiu a França em uma quadra pouco fecunda 
de incidentes cómicos. 

Nas suas conversações Csmiliares a rainha ajoisava 
dos homens e dos factos, e frequentes vezes deffinia 
com pensamentos agudos as seitas e ossuccessoi, que 



passavam quotidianamente pela scèna d^aquelle pe* 
riodo. 

Ouvindo repetir um dia a engraçada e sabida phra- 
se de Rivarol sobre a revolução, a princeza aecres- 
centou sorriodo-se : u para mini creio que as revolu- 
ções ainda se pintam -em menos palavras. São as subi- 
das de uns por cima das ruínas dos outros ! «^ 

6tuando aplacada a sedição de junho, os sectários 
de Saint-Simon eram levados aos tribonaes, ministran- 
do um episodio jocoso no sombrio drama da guerra 
civil, a rainha não poude conter-se que não excla- 
masse : wé justo ! depois da tragedia temos a comedia, 
unico' género em que taes homens são toleráveis, por- 
que ao menos fazem rir e nao chorar ! » 

No centro de todos estes acontecimentos, e quan- 
do ainda se ignorava a direcção tomada pela expe- 
dição do duque de Bragança, chegou a Paris a no- 
ticia da Sua entrada no Porto. Ia principiar, portan- 
to, a moderna illiada, que teceu ao senhor D. Pe- 
dro uma corda mais preciosa do que as duas que ti- 
nha abdicado. No dia 9 de julho a bandeira azul e 
branca tremulava já nos baluartes da cidade, fadada 
para cídadella da liberdade, e para tbeatro de fa- 
çanhas que as antigas não desmaiam, nem excedem. 

Como se reuniram os soldados e os navios neces- 
sários para 'a em preza ? Como se alcançaram os re- 
cursos precisos para alimentar a guerra? A^ custada 
rasgos heróicos e de sacrificios, um punhado de guer- 
reiros superior aos horrores da fome edapestCiías es- 
treitezas de um cerco, como conseguiu manter-se den- 
tro de trincheiras rotas, e triumphar da fortuna, do 
numero, e de todos os flagellos conjurados? 'aluan- 
do a historia um dia, em desapaixonado exame, ex- 
plicar os milagres de constância e de esforço, que il- 
lustram a carreira dos soldados e do general, a pos- 
teridade ha de pasmar da desproporção das JForças e 
do esplendor do êxito, comparando á indigência dos 
meios o arrojo do commettimento. 

£jstão já longe esses dias, tristes de recordar pe- 
lo sangue que os macula, mas que viram de parte 
a parte prodígios verdadeiros. Apertadas em mãos 
briosas cruzaram-se nos campos da batalha espadas, 
que em melhores tempos tinham honrado unidas o 
antigo brazão portuguez nas gloriosas lides da inde- 
pendência. O dissentimento dynastico, emais do que 
elle ainda, a opposição de princípios, estremaram 
aquelles que no mesmo berço deveram abraçar-se com 
mutuo extremo. A escola que arvorava as cores da 
liberdade, suplantada antes de se firmar, perdia ao 
mesmo tempo no código, penhor da sua crença, a pá- 
tria e as consolações, que tanto presa o corado, eque 
tornam leve o peso á vida. Um poder de facto, 
auxiliado por todos os interesses e simpathias, que 
tomaram raiz da conservação do antigo estado, do- 
minava absoluto, c excitado pelas manifestações im- 
prudentes, e pelo sobresallo de suspeitas continuas^ 
punha a sua confiança na repressão inclemente, ima- 
ginando que o rigor escravisa as idéas, e desvia o 
desenvolvimento, ou o curso irresistível dVllas, Os 
successos desde o começo deviam tel-o advertido \ po- 
rém a paixão civil, conselheira sempre fatal, obse- 
cando os entendimentos, exacerbou os erros, e s6 lo- 
grou accelerar os efiêitos d^elles. . O senhor D. Miguel 
de Bragança, engeitando a mãade sua sobrinha, e rom- 
pendo o laço de legalidade e de amor, que daria a paz 
aa reino, sentou*se no tbrono portuguez, e dado este 
passo, a torrente sem parar • arrastoo-o sempre at4 
acabar por um desterro na terra do estrangeiro l 

Na ilha Terceira foi o baluarte e refugio dos 
que não inclinaram a cabeça ao facto triumphante, 
preferindo a consciência aos prémios e mercês. Não 
reconhecendo o governo de Lisl^^jí^^ndo jurad^Q[^ 



144 



O PANORAMA. 



tobre oppoatas bandeiras, foi uma gloria para elles 
guarnecerem aquellea penhascos, aonde levantaram os 
▼ivoB padrões da sua lealdade. O batalhão de caçadores 
n.^ 5 serviu de núcleo á legiSo liberal, e iuvencivel 
sempre nunca dobrou o joelho diante da força, nem 
prestou ouvidos a nenhuma proposta : separados de 
todos, limitados aos seos escassos meios, e 'votados 
á ruína pelos inimigos, e á indiflferença pelos estra- 
nhos, os defensores da Terceira arroistaram destemi- 
dos com o infortúnio, e mereceram a victoria que 
lhes coroou o denodo. Pouco a poaco ççgroasaram as 
suas fileiras, com achegada de outros, como elles de- 
cididos a morrer. Para participarem do perigo e da 
honra, estes últimos tinham de atravessar os mares 
cr usados pelas balas dos navios de Lisboa, e de seguir 
por baixo dus tiros dos bloqueios ingleses. A final o 
combate de 11 de agosto de 1829 na villa da Praia 
desenganou os contrários da inutilidade das suas em* 
prezas, concedendo alguma trégua ás fadigas dosexi* 
lados. 

A regência nomeada do Brasil pelo imperador 
havia saído muito antes de Londres, e por entre ris- 
cos e ameaças, illudindo a vigilância dos inimigos, 
fdra tomar conta da causa da rainha, hasteando em 
mão segura o estandarte, que depois saudaram nas li- 
nhas do Porto e de Lisboa, em Almoster e na As- 
seiceira, outros tantos dias de triumpho ! 

Partindo da Gra-Bretanha na companhia da im- 
peratcic, a rainha já poude referir a seu augusto pae 
a grande acção das tropas oonstitucionaes, unindo ás 
dMle a satisfação e a memoria dos relevantes feitos, 
que ornavam o nome do conde de Villa Flor eseus 
irmãos d^armas nas gentiletas doesta campanha, pre- 
sagio dos futuros louros. 

Mas o impulso decisivo tinha«o a Providencia reser* 
vado para timbre do senhor D. Pedro. Despedindo- 
se das praias americanas, aonde deixava adulta a li- 
berdade á sombra do solío de seu filho, o impera- 
dor concebeu o arriscado projecto de restituir a co- 
roa de seus av()s á senhora D. Maria da Gloria, des* 
presando, por indignas do seu animoso coração, as 
difiiculdades, que deviam esmorecer a qualquer ou- 
tro. A magnitude da empresa serviu sd de o confir- 
mar na idéa de a tentar. Um acontecimento singu- 
lar pela coincidência exaltou-lhe ainda mais, se é 
possível, a vontade, e aoceodeu-lhe o enthusiasmo. 
Nas aguas do Faial, de. volta do Rio de Janeiro, o 
príncipe soube que os defensores da Terceira, em- 
barcados em botes frágeis, e aíTrontando as vagas 
tempestuosas do Archipelago, acabavam de alçar a 
bandeira constitucional em todas aqnellas ilhas. 

Estava pois lançada a luva. Os exemplos nobres, 
poderosos sempre em almas próprias para os apre- 
ciarem, fasiam dobrada força no espirito do senhor 
D. Pedro. Descendente de D. João IV, o dador da 
carta aprendera na historia da sua casa a confiar em 
Deus, e na sua espada^ julgando tuda facilj quan- 
do a cabeça, que medita, e a mão, que executa, não 
radliam, nem recuam. 

Apenas chegado á Europa toma o nome (que de- 
via illustrar por nobres feitos) de duque de Bragan- 
ça ^ e á testa dos homens fieis á causa da rainha, es- 
creve aos soberanos de todas as potencias (1) na 



qualidade de pae e tutor, dedarando-lhes que irá 
reivindicar a preço de todos os sacríficios o throno 
para sua filha, e a pátria e as instituições, que ou- 
thorgára, para seus súbditos ! 

Nada o suspende ou desalenta ! Nem os aprestos 
militares de longa mão dispostos para o repelUr, 
nem as falsas opiniões incutidas para lhe alienar o 
povo, nem. os trabalhos e as contingências de uma 
guerra desigual e cortada de angustias. De rosto fir- 
me encara com a sort^, e á força de perseverança • 
'de arrojo obriga-a a favorecei to. 

Os primeiros embaraços cedem logo diante da sua 
resqlujf*ão. A palavra do príncipe levanta os subsí- 
dios indispensáveis nas praças mercantis. As nações 
applaudem a audácia do commettimento ; e a pe- 
quena legião dos portugueses apressa com os seus 
votos a hora de tornar a beijar a terra do seu ber- 
ço, e o jaiigo de seus pães ! 

fConiinúa,) 

L. A. Rkbsllo da Silva. 



(1) Na véspera da saída de Paris, no dia 24 de 
janeiro, escreveu o imperador a todos osmonarchas, 
participando4hes a firme resolução, em que estava, 
de manter as suas abdicações, e ao mesmo passo 
apontando-lhes os motivos, que o decidiam a coad- 
juvar uma empresa, cujo intuito era faser triumphar 
o principio conservador, proclamado por todos os 
gabinetes, como base daravel da ordem • da esta- 



— É felii quem qoer só o qae pode e fas §6 o 
que deve. 

M. Carvalho — Aphorismos. 



bilidade das nações. Dirigindo«ee particolarmente 
ao Summo Pontífice, e ponderando os inconvenienies 
de continuarem as condescendências da Santa Sé pa- 
ra com o poder, que dominava em Portugal, o du- 
que de Bragança usou de uma linguagem dignados 
seus antepassados, e própria pela energia respeitosa 
da grande questão, que se agitava. Eis entre outras 
algumas das suas expressões : 

«< A certeza, que tenho, de que Voesa Santidade, 
em todos os tempos, fes a devida justiça aos mens 
sentimentos, não s6 de piedade christã, mas de par- 
ticular devoção e aflecto á Santa Sé Apostólica, faria 
pelo menos supérflua a repetição dás sinceras pro- 
testações, que faço, tanto em meu nome, como de 
sua magestade fidelíssima, minha augusta filha e po- 
pila, do nosso ardente desejo e firme esperança qne 
temos de persistir, com o favor divino, até ao ulti- 
mo sopro da nossa vida n ''estes religiosos fien ti men- 
tos^ se eu me não visse n^este momento forçosamen- 
te obrigado a manifestar a viva dôr, que me cansa 
o procedimento usado por vossa santidade a benefi- 
cio do usurpador da curôa cie minha augusta filha, 
a senhora D. Maria II, em quem somente renunciei 
e depositei os imprescriptivcis direitos, que tinha á 
coroa de Portugal, como filho primogénito, e legi- 
timo representante da dynastia de Bragança. 

uEu exprimo. Santíssimo Padre, as minhas quei- 
xas comaquelle amor, que sente um filho obediente 
da Igreja, faltando com o pae commum dos fieis. 
Doe-me particularmente a escolha, que vossa santi- 
dade fes (para aceitar e receber as credenciaes do 
agente do usurpador) do momento em que voltaii do 
eu á Europa, a toda ella se fes notória a minha 
tenção firme e inabalável de empregar todos os meios, 
que a Providencia tem posto por ora á minha dis- 
posição, e todos os que para o diante me conceder, 
para derrubar a pérfida usurpação do aceptro por- 
tuguês, recuperar a minha augusta filha o throno 
de seu pae e avds, e muito especialroeftte, como na- 
tural conseqViencia doeste glorioso fim, para acabar 
de uma ves com a horrenda camioeria e espoliação 
injusta, que se está fatendo ha quatro annos, do 
mais puro sangue, e da melhor substancia dos seus* 



19 



O PAKORAMA. 



145 




OAWOA VA ^ATA PUQZV90 AO TUBJLbJLO. 



A FmftssifTS estampa é copiada de am desenho de 
Freemaii^ e o facto que repreventa lé-se no seguinte 
trecho da ftagem á Coehinehina, indo pelas ilhas 
da Madeira, Tenerife, Cabo yerde, o Brasil e a 
ilha de Java, por John Barrow, traducçio de Mal- 
te-Brud. 

M Não me lembra ter viUo em parte alguma do 
inundo tamanha quantidade de tubarões colno na 
ooeta d'Angeria, povoação da Java, onde andam 
<son ti nuamente á caça de preyas, attraídos pelos re- 
botalhos de carnes que o rio acarreta e sSo deitados 
á praias. 

«cN^niu dia, estando n^eata enteada arremeoei de 
borde do navio Jniiosíâo uma fisga sobre nm d^a- 
quelles auimaes vorazes, e pouco faltou que me vis- 
«e arrastado para o mar. O tubarão sentindo o fer- 
ro embebido uas queixadas mergulhou muito avan- 
te, e puxando coro toda a força a linha, que se ti- 
nha embaraçado na borda do navio, levou de um 
repellão grande parte da balaustrada. Na rapidez 
com que a corda correu deu uma volta ao redor do 
nieti braço, mas quando eu mais perigava, o ani- 
mal tornando á flor d*agua afrouxou porção bastan- 
te para eu sditar o braço e salvar-me. Confesso que 
eatava aterrado ^ roas ainda parecia roais amedron- 

Vvi. III. — 3.«SBais. 



tado do que eu um pobre javanês, que aproximara 
da popa >do navio a sua canoa carregada de fructas 
e hortaliças ^ o seu frágil barquinho corria grande 
perigo de virar-se pelas rebenadas da cauda e furio- 
sos movimentos do tubarão ; os esforços què empre- 
gava para afasta r-se do animal harpoado, o terror 
estampado em seu semblante, offereciam ura espe- 
ctáculo na verdade dramático, de que o nosso dese- 
nhador fes rapidamente um esboço. O barquinho 
escapou ao perigo, e o peixe aferrado de novo foi 
içado ao convei \ achou-se-lhe no estômago uma ca- 
beça de búfalo, grancU numero de ossos e alguns 
fragmentos de conchas de tartarugas ^ tinha de com- 
primento mais de quinze palmos, n 

A familia dos squalos abrange muitas espécies, e 
á frente de todas collocam os naturalistas o tubarão, 
o mais formidável e feros dos monstros marinhos. 
Tem a boca enorme armada de seis ordens de den- 
tes triangulares, serreados na borda, e muito bran- 
^cos, e que elle pela força dos músculos inclina para 
traz ou endireita como quer. Com a boca aberta, 
os olhos n^uma direcção obliqua, agitando, como a 
juba do leão, as suas largas e fortes barbatanas, au- 
presenta a expressão -de extrema ferocidade-, nada 
com uma rapidez que faz gelar de terror as »uas^i-AQ|p 

Maio 13 , 1854. Q 



146 



O PAJVORAflfA. 



ctimas^ as barbatanas e a cauda sSo dotadas de gran- 
de vigor muscular. 

Os tubarões téem a forma dos caçoes seus congé- 
neres, e ba-os tamanhos que medem para mais de 
vinte pés de comprimento e oito de diâmetro *, fre- 
quentam o mar alto e tanto se encontram nos ma- 
res do Norte como em o Mediterrâneo ; seguem os 
navios para aproveitar tudo quanto d^eíles se deita 
f6ra, porque a sua voracidade é extrema ^ e se por 
desastre ou imprudência algum homem cae ao mar 
grandissimo é o risco de ser presa do insaciável tu- 
barão, que o traga com presteza quasiincrivel, epara 
devorar a victima volta-se e atira-se de lado \ so na 
mui veloz occasião doeste movimento é que um bom 
nadador p6de escapar-lhe alando-o dè bordo por um 
cabo. Como são mui gulotões, esta qualidade facilita 
apanhal-os, e os marinheiros se vingam n^elles fa- 
lendo-lbes tratos : o peixe nao presta para comer 
tendo as íibras seccas e duras, mas dos figados se 
extráe porção de azeite e a pelle é excellente lixa 
grossa. Na ilha.de Malta e em outras paragens 
acham*se dentes petrificados, que se denominam 
glossopetras, e que sê diz serem de tubarão; não 
consta que tenham préstimo algum além de uma 
curiosidade para adorno de museus e gabinetes de 
historia natural. 

Terminaremos este artigo com um conto mui sin- 
gular, que reputamos um carapetao, roas que nem 
por isso deixa de andar enxertado n^uma obra mui 
auetorisada e de grande valor scientifíco (1). Refe- 
rimol-o em razão da sua extravagante originalidade. 
M£m 1758 casualmente caiu ao mar um marinhei- 
ro de um navio que navegava no Mediterrâneo, e 
logo ali appareceu um tubarão enorme, prompto a 
devoral-o, e o enguliu inteiro. Apenas o animal ti- 
nha o marujo no ventre, o capitão do navio man- 
dou disparar um tiro de peça e a pontaria foi tão 
certa que a impulso da bala o monstro vomitou no 
mesmo instante o homem ainda vivo. O tubarão foi 
depois pescado, acabando de roatal-o \ tinha vinte 
pés de comprimento e grossura proporcional, e pe- 
zava três mil duzentas e oitenta e quatro libras; o 
capitão deixou-o ao marujo que se poz a correr ter- 
ras mostrando-o por dinheiro. »♦ 



O CONDE SOBERANO DE CASTELLA, 
FebnÃo Gonçalves. 

SÉCULO X. 

Dt. 

A PROlfVSSA DO WALI. 

Como o tempo, este s^rande alchymista, decompõem 
e transforma opiniões, homens, systemas de politica, 
interesses das nacionalidades! Onze séculos ha que na 
peninsula hispânica acampavam dons povos armados, 
um arvorando o crescente, o outro hasteando a cruz. 
Um forte pelo numero, pela riqueza, pela civilisaçao, 
forte pelo fanatismo. O outro fraco em tudo mais, 
mas robusto pela idéa. Desertaram por vezes soldados 
e chefes de cada um doestes campos para ocampocon- 



(1) Lé-«e esta rara anecdota na tradacçao alemi do 
tjstcsna de Lianeo pelo professor Mollcr, 3.* parta* 



trario, mas as bandeiras arvoradas nos doas arrayaes 
não se confundiram nunca. Pelejaram por espaço de 
muitos séculos os vencidos com os conquistadora. San- 
gue de christãòs e de infiéis correu em ondas pelas 
vastas planícies, espadanou pelos montes e desfiladei- 
ros daHespanha. Tomaram-se, retomaram-se castel- 
los e praças. Celebraram-êe armistícios, concertaram- 
se pases, conduiram-se tratados de amisade entre oi 
chefes das doas potencias belligerantes. Monarchas 
descendentes dos godos foram supplicantes varrer com 
os arminhos as escadas do alcaçar de Córdova. Nu- 
merosas populações christSs viveram, misturaram-se, 
confundiram-se, menos na religião, com os seus ad- 
versários, e quasi árabes se tomaram ou mosarabet. 
Houve dias em que pareceu extincta a ultima sauda- 
de da pátria no coração \la posteridade de Pelayo. 
Mas vinha sempre protestar a este abraço parricida 
uma voz, uma lança, um grito de alarma bradado por 
algum sentineUa não adormecido. Então rememora- 
da da injuria, do nome antigo, da herança de gloria, 
que lhe haviam legado seus pães, a raça dos godos 
renovava a luta. Luta pertinaz e immensa, em que 
o islamismo cedeu a final, perecendo ou embarcan- 
do os últimos descendentes dos guerreiros, que 7 sé- 
culos antes tinham aportado áquellas praias com a 
bandeira da meia lua. 

A Europa christã bateu as palmas a este desfe- 
cho de um longo combate, que para ella se travara 
não entre dous povos, duas raças, duas civilisações, 
mas entre evangelho e koran, entre dous cultos em 
que o do evangelho fdra vencedor. 

Rivalidades, que se apagaram, ódios que nao lem- 
bram já á Europa, nem ao islamismo, resentimen- 
tos, que a lima surda de muitos séculos gastou epul- 
verisou l Hontem Abdul Medjid, o sultão, hospedava 
a liberdade foragida da Hungria e da Polónia, hoje 
o vigário do profeta manda reedificar oSantoSepol- 
chro! 

£ que a civilisaçao p<5de mais que os cultos. To- 
mando na mão o crescente e o evangelho, cruzando 
o gallo, o saxonio, e o turco, posta-se no Bosphoro, no 
Mar Negro e no Báltico, acampa nas margens do Da- 
núbio. Assim se aperfeiçoa o espirito das gerações, 
espera a pé firme a barbaria, que do alto doKrem- 
lim proclama aos hypocritas cosacos do Dou, ás hor- 
das innumeraveis do seu império, que em nome du 
Crucificado exterminem a Europa policiada. 

Sem desça valgarem, como os deixámos, olhando-sa 
um ao outro pelas vistas dos elmos, e postos frente a 
frente os dous guerreiros como dous enigmas vivos, 
que se iam decifrar reciprocamente, Fernão Gonçal- 
ves ergueu de improviso a viseira. No rosto lhe 
apontavam curiosidade, esperança^ mesmo uns to- 
ques de receio. 

— u Cavalleiro nazareno l ^ disse-lho o walí era 
continenti u beijo-vos as mãos por vossa franqueza, 
se bem que não precisava ver- vos de venda erguida 
para aaber que estou na presença do poderoso emir 
de Castella (o wali inclinou respeitosamente acabe* 
ça). Gtuisera eu, de bom grado, corresponder á vos- 
sa cortezía, descobrindq-vos o meu rosto, e meu no- 
me : mas, pelas 5 columnas do islam o juro ! —não 
posso. Desculpae-me. Rasoes imperiosas. . . n 

— uNão pretendo sabel-as, nobre cavalleiro ; usae 
como vos aprouver, n , 

— u Desculpaes-me ? w 

— « Certamen te. n 

O wali tornou a inclinar-se, e proseguiu logo ; 

— u O sublime califa de Córdova envia-vos este au- 
nei, que é vosso, n 

E no acto de o entregar ao conde, o mensageiro 
levou o annel ao coração, aos lábios, e á ca' 



Digitizedby VjOO 



beca. 



o PANORAMA. 



147 



Ao receber o anne], exclamou o conde: u Magna- 
oimo príncipe, que forças os teas inimigos a admi- 
Tar-te ! »♦ 

— ^u Acaso vos esqueeea, senhqr » observou-lhe o 
mensageiro com ama ligeira inflexão iroaica na voz 
« acaso vos e&queceu, que o commendador dos cren- 
tes se apoderou das praças de Aranda do Douro e 
Osma, auxiliado por vosso sinete ? n 

— u Como poderia n lhe tornou o conde u como 
poderia jamais varrer-se-me da memoria a. perda de 
duas das melhores jóias do meu senhorio ! Sao feri- 
das, que me vertem sangue na alma: ao tempo com- 
pete curalras. . . Mas não serei eu indiscreto se vos 
perguntar aonde mira a vossa frecha ? n 

— u A nenhum alvo, senhor. Apenas julguei a pro* 
posito advertir-vos, 'que o califa vos não restituirá 
os dous thesouros, como vos restituiu a chave, com 
que foram abertos. » 

— i(É seu direito. Não me queixo que use d'el< 
le. Perdoae-me, comtndo, que seja importuno, per- 
gnntando-vos se me será permittido offerecer ao men- 
sageiro de tao boas novas aiviçarás, que sejam di- 
gnas de nds ? » 

— u Alviçaras, senhor! « respondeu o wali u Por 
Allah que as maiores, a que eu podia aspirar, era 
a honra, que alcancei, de portador doestas novas, n 

O conde agradeceu com uma leve inclinação de 
cabeça, e accrescentoo : 

— M Mas ser-me-ha lícito saber quem sois f. » 

— uUm homem» respondeu-lbe o mensageiro. 
N^este ponto do dialogo os eccos repercutidos da 

banda de Lerma atra vez do horisonte transparente 
trouxeram aos ouvidos dos dous interlocutores as no- 
tas, ainda que frouxas pela distancia, da musica guer- 
reira dos árabes, e transportaram o som perdido das 
acciamações do acampamento ', porque se bem me* 
diassem algumas léguas entre o sitio da conferencia 
e os arrayaes inimigos, o e&trondo de cem mil voses 
podia sem difficuldade favorecido pelo vento vadear 
o espaço intermédio. Haveria no campo árabe algum 
regosijo extraordinário? Os sons parecia que de ora 
em quando se vinham aproximando. Se realmente 
era a hoste do califa, que se movia, se effeito acústi- 
co exagerado pelas aprehensões do conde, não podia 
estesabel-o. Conjecturava, suspeitava, hesitava, che- 
gava a temer, media com desconfiança e receio oca- 
valleir o desconhecido. Cobrou em fim a sua habitual 
presença de espirito, e disse : 

— M Um homem ! . . . Nao tenho direito a inter- 
rogar-vos ; mas á pouco explicita resposta a vossa, 
heis de convir, n 

— M Convenho : e com tudo é a mais explicita, que 
me é dado oíTerecer-vos, porque n^esta hora nãopo* 
deria o meu nome ser-vos revelado sem risco, sem 
indiscrição, pelo menos. » 

/ — tcSatanaz que fosseis. . . pela mão e a luva po- 
deis fallar sem receio. <i 

— M Receio ! . . . E posso eu tel-o do emir nazare- 
no, se o peito me pulsa por vós com o tremor de 
amigo ! Até aqui p<$de ir a minha franqueza ; mais 
longe não. Cubra esta mascara de ferro o meu no- 
me, e uma parte do meu segredo. Tempo virá — e 
mui breve, espero eu — em que de alfange na mão, 
e com a viseira erguida possa satisfazer a vossa cu- 
riosidade, e os meus bons desejos. r9 

— «Agradeço- vos a declaração, e respeito o vos- 
so segredo, senhor cavalleiro anonymo. Mas tenho 
um soberbo ginete de Barbaria, e um dos mais bem 
temperados montantes de Toledo, que me prazeria 
pór ao vosso serviço. » 

O árabe curvou-se, agradecendo ^ e disse : u E eu 
tenho uma boa espada deCordova, e obraçodpwa- 



li de ... de um wali do emirado ; eno meu carcas 
tenho cinco setas, e por cada uma que enviar ás mi- 
nhas tendas mil guerreiros montarão prestes em seui 
corcéis; tudo isto tenho para vos ajudar em lua pro- 
picia. Ainda espero que convivam cotn as castelha- 
nas as tendas de Hedjaz. Mas até lá, filho de Cas- 
tella, cubramo-nos com o manto da paciência, e guar- 
demos no cofre recôndito da alma nossos pensamen- 
tos, n 

Até tocar na sella com o penacho do elmo se cur- 
vou o conde ao wali ; reverencia adequada a um di- 
gnitário de tão alta esfera na jerarchia árabe. Ató- 
nito da inesperada abertura de personagem tão im- 
portante, disposto a aproveital-a, convencido mes- 
mo da necessidade de a sagrar com as solemnidades 
de um empenho formal, ao conde pareceu declarar* 
se oom o árabe, atrahindo-o ao seu intento pôr um 
lanço igualmente cortez que delicado. 

— « Vejo, nobre wali» lhe disse elle uque o céu 
me sorri, porque inopinadamente me fa^vorece com 
um bem^ poderoso aliiado. Não serei eu tão indis- 
creto que pretenda indagar os termos ou a exten- 
são do auxilio, que acabaes de prometter-me. Mas 
desejaria corresponder-vos, penhorando-me ao vos- , 
80 serviço por um pacto solem ne. Dizei-me o penhor, 
que quereis, n 

Tomando primeiramente uma postura meditati- 
va, que apenas durou instantes, o wali respondeu 
com o accento do uma resolução inabalável : 

— « A vossa espada por vosso penhor, e a minha 
pelo meu. Sois contente, filho de Castella?» 

Trocaram então as espadas ; cingi ram-nas •, cingi- 
das, crusaram-nas , e ficou assim sellada estaallian- 
ça marcial sem testemunhas, sem escríptura, sem ser 
conhecido do outro um doscontrahentes, e por úni- 
cos fiadores do estranho pacto a religião da consciên- 
cia, a honra das armas, e a palavra dos dous caval- 
leiros, que se despediram um do outro, o wali bei- 
jando o hombro direito do conde; e o conde ohom- 
bro esquerdo do wali. 

Ao sair da conferencia mysteriosa foi o chefe ára- 
be saudado dos jubilosos Alalis da sua escolta. Apre- 
hensivapor elle, na impotência de defendei- o ou vin- 
gal-o, festejou-o salvo de perigo, ecom elle na fren- 
te desfechou a todo o galope em demanda do cam- 
po de Lerma. 

— w Tão generoso como indiscreto, ah ! conde, 
que fizeste tu ? . . . » Isto em silencio lho diziam ao 
conde, isto lhe arguiam os olhos trbtes, e os gestos re- 
prenensores de Gonçalo Dias. Era uma exprobação 
muda a Fernão Gonçalves pela soltura de Othoniel. O 
conde respondia, encolhendo os hombros tristemente. 

Do fio doesta narrativa terádedqzido o leitor que 
critica era a situação do conde de Castella. Vamos 
a pesar as vantagens (que também as tii^ha ella) e 
as desvantagens d''essa situação. 

Fernão Gonçalves contava inteiramente com a 
devoção do conde Diogo MunÕz e do conde Gomes. 
Ambos eram também condes de Castella. Elles e ou- 
tros tinham esse titulo, que a diversos talvez fo- 
ra dado pelo rei de Leão para suscitar rivaes on 
inimigos a Fernão Gronçalves. Mas o renome doeste, 
o seu poder real, e qualidades pessoaes eram uma 
esphera deattracção, que absorvia as influencias does- 
tes potentados quando amigos, e as annuUava quan- 
do adversários. A sua predominância sobre os com- 
petidores, que lhe oppunham a herança ou a nomea- 
ção, testeficam-na a historia e as legendas. Ambas 
lhe attribuem também o titulo de conde de Alava, ti- 
tulo conquistado por esse ascendente politico, militar e 
popular, que o fez soberano de Castella. Em Alava ap- 
pareceu contemporâneo o conde Inigo Lopes ', mas 



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Vjoogíe 



148 



O PANORAMA. 



depois de expulim desw provincia por Fernlo Cronçal- 
Tes ot condes VeUs, Inigo fioou addicto eiujeitoao 
celebre chefe callelhaDo, que. com raiio podemos 
chamar o senhor supremo de Castella e Alava, con- 
siderando como seus rassallos, feudatarios inferiores, 
011 como satellites doeste grande planeta os oatros, 
qoe se intitulavam condes de cada uma d^aqnellas 
provindas. Taes eram as forcas próprias, os recnrtos 
natnraes de que dispunha FernSo Gonçalves. 

Além d'elles tratia ao serviço do seu pendão al- 
guns senhores do Aragão, da Gallisa e de Portugal 
acompanhados de cavalleiros e homens de armas das 
suas nações, assoldadados uns, outros aventureiros de 
gloria que queriam ganhar, alguns rebeldes aos seus 
suieranos, alguns anhelantes por um desforço de offen* 
sas particulares, ou criminosos nas suas terras, que vi- 
nham buscar acolheita nas bandeiras de um grande 
poder, alguns também appetecendo a guerra pela 
guerra, como se appetece um passatempo, como se 
arma uma caçada, uma partida de jogo^ ou uma 
empresa de rapto. Mas lodos elles forasteiros, ou 
quasí todos,' eram mais ou menos actuados de um 
impulso de patriotismo, e de um impulso de pilha- 
gem \ dous incentivos, que parecendo brigar um com 
outro em vivo combate, ao contrario casavam-se mui- 
to bem n^aquellas eras remotas, havendo ainda hoje 
exemplos de fazerem consorcio abendiçoado, como 
acontece viverem em santa pas no coraçio de al- 
gumas bellas devotas o amor divino com o amor 
humano. 

A conJuraçSo de Carrion de los Condes era uma 
útil diversSo aos meios de ataque, qoe Ramiro po- 
dia empregar contra o conde de Castella. As cie- 
deociaes interceptadas ao primeiro iam proclaman- 
do a apostasia dVUe ao som de trombeta e tambor, 
onde quer que chegava a influencia dos conjurados. 
Mas estas traças caminhavam com pé tardo ao seu 
fim. Distancias, disseminação de povoações, receios 
de uma surpresa dos soldados do rei fasiam vagarcva 
a demolição ou auctor idade moral de Ramiro, la 
escapando a cadéa dominical do suserano homem por 
homem, lança por lança, malha por malha ^ não era 
castro a castro, castello a castello, vill» por villa. 
As monarchias de então, mui outras, e muito mais 
fracas que as do nosso tempo, não careciam comtu- 
do de uma certa centralisação onde era mister ata- 
cal-as. Foi o expediente a 4]ue mais tarde recorre- 
ram o conde supremo, e os seus alliados de Carrion, 
segundo veremos na successão doeste drams. 

(Continua,) 



AnTOHIO DB OjLIVsfRA MaRRCCA. 



dos lançamentos novos e os bagos salteados áo$ ca- 
cMnhos no seu desenvolvimento. 

Uns individuos (pirai) do feitio do c6çus das oli- 
veiras, maamaito pequenos e de unia actividade in- 
^itivel, que §6 se consegue vel-os com o microscó- 
pio depois de asphixiados e qoe fiísem iguaes estragos. 
Um oatro individuo (pirai), mais volumoso e do 
feitio do percevejo com as costas duras, e que tem 
um risco n*ellas em todo o seu comprimento e dous 
transversaes, os quaes quando adultos cobrem-se to- 
dos de cabellos ou pellos fortes, tendo apparencia de 
ouriço : fia estragos similhantes aos ant^edentes. 

Um outro individuo de cór amarellada e com mui- 
ta similhança da abelha, e, que causa também os 
mesmos estragos. 

Todos estes individues na sua passagem e repas- 
sagem deixam um tecido ou teia, que com as lar- 
vas das lagartas e os casulos, em que os outros ver- 
mes depositam sua seguinte geração, chegam a ob- 
struir completamente a videira, augmentando a des- 
organisação doesta pela subtracção dos socos de que 
se nutrem as ditas larvas. 

Sendo^e de opinião que o Oidium Tucheri é o mal , 
secundário, e so devido á teagèm, larvas e casulos 
que cobrem a videira e á sua desorganisação, resul- 
tando doestas causas a podridão sem cuja existência 
não tinha o Oidium Tucheri aonde germinar, por 
isso que similhantes plantas ou individualidades tó 
em podridão existem \ opinião que, sem venial ten- 
ção de offender alheias opiniões, com franqueza se es- 
creve \ segue-se irremissivelmente que a videira ata- 
cada no fim de dous annos está hydropica, porque os 
saes que devia exhalar, a falta do ar qoe devia aspi- 
rar e a perda dos socos subtraídos pelas larvas, a de- 
sorganisou completamente e conhece-se este estado, a 
que se segue a morte, pela exhalação dos tronoM de 
um humor cinsento com cheiro fétido. 

Muitos e variados meios foram empregados coroo 
remédio, mas os positivamente remédios e ao qies- 
mo tempo mais verificáveis e baratos, (talves etn 
parte lucrativos pelo poupameuto que vem a produ- 
zir na duração da madeira e cannas) são os seguin- 
tes: 

Remédios, 



RSFLXXÕBS RELATIVAS Á VIDSIRA, SVAS 
K MBI09 DB AS CURAR. 



OOBNÇAS 



D B todos os individuos do reino ou classe vegetal, 
a videira é o que tem uma transpiração maii abun- 
dante, operando-se essencialmente de noute. 

Tudo que lhe obstrua os poros, promove-lhe a 
desorganisação, porque é impossível a tudo e qual- 
quer individuo ter saúde nao aspirando e respiran- 
do desembaraçadamente. 

Tudo que á videira se fiíer com o nome de re- 
médio que lhe obstrua os poros, em ves de ser re- 
médio agrava -lhe o mal. 

Q^uatro individualidades visiveis atacam simulta- 
neamente ao presente a videira e são : 

A borboleta preta, de cujos ovos nascem as lagar- 
tas pretas (muito pequenas), que roem as cascas 



Nos metes de deiembro e janeiro, quando as in- 
dividualidades noviças estão inertes, podar curto, 
ou cortar a maior parte dos lançamentos atacados 
no anno antecedente. 

Lavar com uma escova curva com os cabellos na 
parte interna, e com agua pura todo o tronco e bra- 
ços da videira, sendo possivel, ou pelo menos o tron- 
co, para lhe arrancar todas as ditas larvas e casulos^ 
com as quaes vão as matriíes do Oidium Tucheri. 
Devem-se pdr esteiras ou pannof no chão duran- 
te esta operação, para tudo que se cortar edf*8pren- 
der ser queimado em forno, porque assim aniqui- 
la va-se talvez completamente o mal, se possivel fos- 
se praticar-se simultaneamente em toda a parte. 

Toda a madeira e cannas que se empregar nas 
parreiras ou vinhas (devendo as cannas ser cortadas 
nos nés para não ficarem vasios, que sirvam de mo- 
rada aos vermes) devem ser pintadas com alcatrão 
dogaz, místurando-se-lhe a quarta parte de óleo de 
carrapato ou de oliveira, depois de ambos fervidos. 
No fim do inverno e principio da primavera, ma- 
tar as borboletas, fazendo fogueiras de palha ou fe- 
no bem seoco, em noutes escuras, nas vinhas ou par- 
reiras do lado opposto ao vento oue dominar, para 
aniquilar o maior numero possivel dMlas, que atraí- 
das pelo fogo, e compellidas para elle pelo vento, mor- 
rem queimadas. 



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o PAICORAMA. 



14» 



Dn OAÇft i» lagartas pretas que nascem dos ovos 
das referidas borboletas, que muitas veset antes de 
se principiar a trabalhar encontram-se em montes 
janto doe troncos debaixo da terra. 

No princípio da primavera quando se desiQnvol- 
vem 08 ditos vermes asphixial-os, o que se consegue 
cóm a exhalaçSo do dito alcatrio do gai misturado e 
ferrido com o aseite, como fica dito, sendo bom re- 
noval-o dando-o nos troncos das sepas ou parreiras ; 
mas o que se empregar nos troncos deve o asei te ter 
de oliveira, dando nos ditos troncos traços transver- 
•aes desunidos em direoçSo contraria para nSo íaser 
annel que embarace a circulaçSo da seiva. 

O asphiziamento dos vermes com a exhalaçáo do 
alcatrSo do gax e axeite de oliveira é talvei, pelo 
adiantamento da vegetação, o remédio que sem per- 
da de tempo se deve fazer para salvar a maior por- 
çSo possível de uvas. 

Os cachos já atacados, e que vem a apodrecer, sal« 
vam-se conseguindo-se que amadureçam e se tomem 
perfeitos os bagos nlo destruídos, lavando-os com agua 
pura e com um pincel grande ou mediano, tralm- 
Ibo este que nas vinhas e latadas p6de ser feito por 
mulheres e creanças, e que nSo produs de lucro me- 
nos do que três veies a despesa que com tal lavagem 
se venha a faser. 

As parreiras doentes, bem como as sepas ha um ou 
mais annos, e que dão d^isso o sígnal, lançando hu- 
mor fétido, devem ser quanto antes sangradas, dan- 
do-lhes um golpe perpendicular nos troncos fundo de 
polegada, e comprido de dous palmos para mais, e 
passados 15 on 20 dias cobrir este golpe com o al- 
catrão do gas fervido com azeite de oliveira, adíelo- 
nando-lhe um pouco de gesso em pó. 

Tudo isto feito depois dos vermes desenvolvidos è 
verificados os estragos ^exceptuando a lavagem dos 
cachos ou uvas), de naaa serve, antes auementa o 
prejuízo, pela perda da despesa feita fJra de tempo. 

No mes de março do anno passado de J853, um 
cultivador do lugar de S. Pedro de Penna-Ferrim 
de Cintra fez a descoberta do alcatrão do gaz ser 
remédio para as videiras e outras arvores, essencial- 
mente por seu ardma desenvolvido pelo sol asphi- 
xiar os vermes e afugentar os insectos. 

A madeira e cannas assim alcatroadas, duram mui- 
tos annos, e nVsse poupamento fica não só iodem- 
nisada a despeZa, mas até ha lucro. 

O petróleo, ou oleo mineral, vulg(S alcatrão do gaz, 
tem a virtude de petreficar e carbonisar emprega n- 
do-se sd, e para evitar esse mal allia-se-lhe o azei- 
te, ou alguma matéria oleosa ou gordurenta. 

As fupaigaçoes com enxofre, ou lançar-se o p6 da 
flor de enxofre, tem por fim asphixiar os vermes, e 
afastar os insectos, o que se consegue com mais per- 
manência com as exhalações do alcatrão do gas e 
azeite, sendo isto mais barato e efficaz, e sem o in- 
conveniente da obstrução dos poros da videira, o que 
o pò da flord^enxofre, vae parcialmente causar, sen- 
do impossível conseguir-se completo resultado bene* 
fico, sem a desobstrução da videira. 

Uma outra vantagem de valor incalculável secon« 
^ue em respirar as exhalações do dito alcatrão do 
gaz, qual a de se vigorarem os músculos e nejrvos, 
do que é prova irrecusável a saúde e vigor que n^el- 
les gosam todas as pessoas que se empregam na com- 
panhia do gaz, e todos os que trabalham em forjas 
com o carvão minera], antes de se Iheextrahir o gas 
e o oleo. 

O dito cultivador do lugar de S. Pedro de Pen-v 
na Ferrim de Cintra', é quem fez a descoberta do 
alcatrão do gas ser remédio, como fica referido, em 
março de 1853, o que é sabido por muitas pessoas 



respeitáveis de Lisboa, e por isso se o remédio das 
videiras é esse, a elle e só a elle pertencem os pré- 
mios prometidos. 



Lisboa 5 de maio 1854. 



S. P. 




HAaOAAIDA riHOH. 

Na litteratnra inglesa, hoje em certo modo familiar 
nossa pelas traducçoes de Walter Scott (1), ha fre- 
quentes allusdes & Margaret Finch. £sta mulher per- 
tencia á casta mysteriosa e vagabunda que em Fran- 
ça denominam bohenaios, em Itália singari, em In'- 
glaterra gípsles, e na península ciganos. 

Nasceu em Sutton no condado deKent em 1631. 
Na longa vida de oitenta annos percorreu as ilhas 
britan nicas lendo sinas. Os ciganos do reino de Li- 
glaterra elegeram-na sua rainha. Chegando a extre- 
ma velhice fixou residência na cavidade de um ro- 
chedo em Nor-wood ^ e ahi passava dias e noutes as- 
sentada, fumando, e satisfazendo a natural precisão 
com pouquíssimo alimento. A sua indigência era vo- 
luntária ^ seria rica sequizesse, porquanto a fama de 
advinha, o título de rainha dos ciganos, a singula- 
ridade do seu viver, attrahiam muitos em numero 
extraordinário a visital-a, e quasí todos dispostos a 
presenteal-a ; porém nuo tinha ambição. Com a bar- 
ba fincada nos joelhos e assentada como esteve por 
largo tempo fínou-se em 1740 na idade de 109 an- 
nos ; os músculos e nervos estavam tão hirtos que ain- 
da que quisesse já não podia mover-se da postnra 
que tomara. Fizeram-lhe exéquias, e não faltou ora- 
ção fúnebre, a que assistiu muito povo. 



Novo 



BXTUMB. 



Limalha de ferro reduzida a pó impalpável 500 
grammas, cabeças dealbo pisadas 60 grammas, vi* 
nagre muito forte em qualidade sufficiente para fa- 
zer massa meío-liquida : tapa-se com este mixto os 
interstícios das pedras e não deixarão passar a agua. 



(1 ) Fallando de tradacqdes dot livros de Walter Scott 
referimo-nos ás do sr. Ramalho, feitas com litteraria con- 
sciência, tomadas do original inglês, e trasladadas em pa- 
ra liugnagem portnjpieza. Vejam-te as versões do Qidn- 
Hmo Aurwtmt, do (^ieiio de Kétúbv^rih^ da ábmade 
G^itHn, do /f^owr&sf e oaUas. ^.^^.^^^ ^^ 



v!^oogle 



150 



O PANORAMA. 



SvA Maosstadb a SxNBoiíA D. Mabia II. (1) 



Sant lacrimae rerum, et mentem mortalia 
tangimt. 

Viftoií..— BiTBin. 

Bemota custodia militari, tutior publici 
aworis exciíbiis pergcbat. 

SVBT. Ill CSSAB. 



Arcum suam tetendit. . . et in eo paraTÍt 
va&a roorti&. 

PlALM. Til, ▼. 14. 

Nasckd o dia 25 de janeiro de 1832, e o duque 
de Bragança, soltando-se dos braços da mais querida 
das esposas, vem renovar, perante sua filha a herói- 
ca promessa de lhe restituir a coroa, ou de perecer 
no empenho. A princeza Amélia, nascida de dous 
meses, dormia com a serenidade da innocencia, quan- 
do a vibta do pae estremoso lhe contemplou o an- 
gélico semblante, e lhe gravou as feições na sauda- 
de da alma. Um osculo ao de leve na face, uma la- 
grima furtiva, que o aqueceu, um abraça, o ultimo, 
o mais entranhavel á esposa, e^ á filha, que ia de- 
fender, foi o que permittiu aos afiectos mais arreba- 
tados da existência. Depois a fortaleza prevalecen- 
do apagou dos olhos as nódoas da ternura, e arran- 
cando-se aos transes da despedida voou de Paris a 
Nantes, e d^ali ao porto de Belille, aonde o espera- 
va quadro digno do seu peito generoso. 

Os emigrados dispersos por França, Itália, Ale- 
man)ia, e Bélgica, mal lhes sda a noticia da parti- 
da do duque de Bragança para conduzir a Portugal 
os defensores da causa liberal, acodem de toda a 
parte, e mostrando os signaes da honrosa pobreza, 
oiTerecem unanimes o braço e o sangue, como uuico 
auxilio que podiam prestar á empresa, que se vae 
tentar. Para ali chegarem dos retiros, em que ar* 
rastavam na indigência os dias desditosos, os mais 
d^elles, vendendo roupas e vestidos, tinham feito a 
jornada a pé, e muitos descalços, equasi nua! Eram 
officiacs distinctos com as gloriosas cicatrizes da guer- 
ra peninsular marcadas no peito; eram magistrados 
illustres e veneráveis, orgulho da toga e das letras; 
eram ecclesiasticos, proprietários, e lavradores, que 
preferindo a escacez e o desterro á fraqueza e, ao 
perjúrio, aguardavam ás beirai da terra estranha á 
hora de quebrarem o captiveiro, volvendo a espai- 
recer os olhos pelo brando céu e campos da pátria 
desejada. 

O imperador commovido, e apertando-os nos braços, 
pHgava com as gratas expressões aquellas amarguras 
de tantos mezcs ; e aceitando-lhes os serviços no va- 
lor que tinham pela acrisolada dedicação, expede as 
ordens para bcrem reunidos aos corpos da expedição. 

Já a bordo da fragata Amélia, antes de desfral- 
dar as velas, e dar começo á lucta, patenteia uma 
vez ainda a magnanimidade dos sentimentos, e a ele- 
vação do espirito, publicando um manifesto memo- 
ra\tl, monumento , perpetuo dos direitos da rainha, 
e padrau eterno da justiça da sua causa (2j. Os 



soberanos recebendo-tf leram at^ ao fondo nas in- 
tenções de um grande coração, e viram qae a ver^ 
dade estava noe lábios de quem falia va assim. Ne- 
nhum ousou oppôr-se ao pae que pelejava pela co- 
roa de sua filha ; nenhum se atreveu a contrariar o 
mais nobre e talvez o mais temerário dos prajeotiM| 
que o século ainda presenceára. 

A 10 de fevereiro a pequena esquadra levanta 
ferroj e encaminha-se para os Açores, açoutada pe- 
las irás de um temporal, que ameaça a cada instan- 
te sepultar com ella as ultimas esperanças de Por- 
tugal. Inalterável nos perigos, e corando 96 de mi- 
norar os padecimentos alheios, o doque de Bragan- 
ça avista no dia 21 a ilha de S. Miguel, e logo a 
22 salta em Ponta Delgada, entre regosijos e aecla- 
mações. A 28 está na Terceira, aonde o governo lhe 
entrega a regência, que i6 acceita constrangido ; e 
zombando das fadigas, como zombou depois das vi- 
gilias e de toda a espécie de privações, nega o des- 
cahço ao corpo, occupando-se na laboriosa tarefa da 
formação do exercito, que ha de commandar, e ap- 
plicando o tempo, que lhe sobra das cousas milita- 
res, ao exame das reformas, dictadas com os seus 
ministros para desenvolvimento pratico das máxi- 
mas da Carta. 

Tudo se amolda e accelera segundo os desijos do 
príncipe. £m menos de noventa dias fex-se a obra 
de muitos mezes^ e ao romper da manb2 de 22 de 
junho, designada para o embarque das tropas, a au- 
rora abrindo no horisonte já o encontra no meio 
dos seus generaes com as forças em ordem de mar- 
cha ! 

Antes de pdr o pé no convez dos navios a legião 
constitucional dobra o joelho diante do Senhor dos 
6xercitos, assistindo no meio do campo ao sacrifí- 



(1) Continuado de pasj. 144. 

{"2) O manifesto publicado em Belille tem a 
data de 2 de fevereiro de 1832, precedeu seis dias 
a partida da esquadra, e foi assignado a bordo da 
fragata Rainha de Portugal. 

Suppomos que nao parecerá inoportuno transcre* 
ver-se aqui a parte d^elle que explica o pensamen- 



to do acto, que outhorgou as liberdades consignadas 
no código de 1826. 

a Os meus deveres e os meus sentimentos a pn$ 
do pais, que me deu o nascimento, e da nobre na- 
ção portuguesa, que me havia jurado fidelidade, in- 
duziram -me a seguir o exemplo de meu avô o se- 
nhor D. João IV. Aproveitando o corto espaço do 
meu reinado para restituir, como elle fisera, á nação 
portuguesa a posse de seus antigos f<5ros e privilé- 
gios^ cumprindo d^essa maneira também as promes- 
sas de meu augusto pae de saudosa memoria, annuo- 
ciadas na sua proclamação de 31 de maio de 1823, 
e na carta de lei de 4 de junho de 1824. — Com 
este fim promulguei a carta constitucional de 29 de 
abril de 1826, na qual se acha virtualmente reva- 
lidada a antiga forma de governo e constituição do 
estado ^ e para que esta carta fosse realmente uma 
confirmação e um seguimento da lei fundamental 
da monarchia, garanti em primeiro logar a protec- 
ção mais solem ne, e o mais profundo respeito á sa- 
crosanta religião de nossos pães *, confirmei a lei da 
successao com as clausulas das cortes de Lamego*, 
fixei as epochas para a convocação das cortes, como 
outr^ora já se havia praticado nos reinados doe se- 
nhores D. Afibnso V e D. João III \ reconheci os 
dous .princípios fundamentaes do antigo governo por- 
tuguês, isto é, que as leis só em cortes se fariam, • 
que as imposições e administração da fazenda publi- 
ca só n^ellas seriam discutidas, e jamais fSra dVl- 
las; e finalmente determinei, que se juntassem em 
uma s<!> camará os dous braços do clero e da nobre- 
za, compostos dos grandes do feino, ecclesiasticos t 
seculares^ por ter mostrado a experiência os incon- 
venientes que resultavam da separada deliberação 
doestes dous braços^^tized by V^GOglC 



o PAMÓRAMA. 



151 



cio da mítta ; e aos raios do sol nascente o minis- 
tra de JesBS Christo^ invocando o Deos vivo, fonte 
de toda a justiça, abençoa as armas e as bandeiras \ 
em presença da rrandesa da scena, e da sublimida- 
de do espectáculo, as lagrimas rebentam até dos 
olhoa qae nunca .as conheceram, e oa mais endure* 
cidoa sentem sobre si um poder secreto, e uma com- 
moçio invencível. Nas fileiras resòam espontâneos 
gritoa de enthusiasmo, anouneiando o ardor que as 
devora ; e ás vozes dos soldados impacientes raístu- 
ram-ae as aodamaçdes do povo saudando o regente, 
e agourando* aos que partem a gloria que os successos 
Ihea preparam. A 27 larga a armada dos Açores; e 
8 8 ae Julho os defensores da rainha pizam as arêas 
doMindello, retirando sem combate a divisão inimi- 
ga que os vigiava. O dia 9 esclarece a entrada do 
imperador no Porto no meio do jubilo dos habitantes. 

£Í8 as novas que pondo termo ás incertezas che- 
gmm de repente, serenando em Paris as inquietações 
da esposa e da filha ancíosas para lançarem afinal 
ama oôr menos sombria sobre as horas melancólicas 
do seu exilio. Mas doestes suceesbos aos acontecimen- 
tos, que seguraram o e^ito da em preza, mediou ain- 
da largo período cheio de sobresaltos e tribulações. 
Antes de se voltar para elle, e de coroar de pleno 
triumpho as suas armas, a fortuna vendeu caros os 
sorrisos ao imperador. Q.uantas alternativas não tro- 
cou, oppondo á victoria de hoje aescacez dehontem, 
e aa estreitezas do dia immediato ! GLuantas esperanças, 
apontando por um instante, se nao converteram na 
sombria aprebensao dorevez, que parecia inevitável ! 

Apertados era um circulo de bayonetas, cerradas 
ascommunicações de terra, e fechadas de todo as por- 
tas do mar, debaixo do temporal desfeito dos inver- 
nos, e do cruzar incessante de bombas e granadas, os 
defensores do Porto, em repetidas occasiôes, olharam 
triatemente para as baterias quast mudas, por falta 
de munições, ereceiaram, suspirando, que o braço de- 
bilitado com o peso dos trabalhos, e pelos rigores da 
penúria, nSo lhes enganasse a coragem e a vontade ! 

Logo em 23 de agosto de 1832, um mez depois da 
súa entrada na cidade, a legi2o da Terceira travou 
com as tropas do governo de Lisboa um combate de- 
cisivo. Cinco mil soldados da rainha derrotaram em 
Ponte Ferreira quinze mil contrários \ mas esta acção, 
que dava a medida do valor do exercito capitaneado 
pelo senhor D. Pedro, mostrava ao mesmo tempo a 
resistência, que devia esperar-se da parle dos inimigos. 
A lucta desenhou-se nas suas verdadeiras proporções 
desde esse dia^ e acampado sobre a relva, como sim- 
ples guerreiro, o príncipe vendo longe nos seus cui- 
dados gastou a nonte em meditar sobre a construo- 
ção dos reductos, com que premuniu o Porto, e sobre 
a organisação qos corpos, com que soube guarnecei os. 

Traçando a primeira e a segunda linha de trin- 
cheiras, o duque de Bragança, virando-se para os que 
o rodeavam^ accrescentou com o tom de quem pro- 
fere uma phrase indífierente : (< a terceira é i>a 
praça nova. Se perdermos as outras, iremos morrer 
ali.,99 O dia 8 de setembro depressa veio provar a 
prudência e a sabedoria das disposições adoptadas 
pelo senhor D. Pedro. Carregando em força sobre as 
fortificações do lado do norte, os contrários abriram 
em vivo fogo a epocha do memorável cerco, que o 
valor, firmeza, e prodigiosa actividade do duque de 
Bragança, e dos seus briosos companheiros, mantive- 
ram de peito robusto, fallecendo-lhes de fi5ra todo ò 
auxilio humano, e apurando-lhes dentro a paciência 
e a constância os flagellos mais cruéis, a peste, a fo* 
me, e algumas vezes também as c»nvulsões fataes da 
discórdia interna J 

Não é para aqui, nem que fosse cabia no estrei- 



to quadro doeste painel, descrever miudamente todas 
as phases da guerra da restauração de 1832' a 1834. 
Estamos muito próximos ainda dos factos para cor- 
rer livre e desapaixonadamente o pincel. Cumpre- 
noa dar summaria idéa do principio e do desenvol- 
vimento da empresa ^ e mal acabada e omissa como 
hade sair ao fugir da penna. Julgamos que supprirá 
o fim, que nos proposemos. 

Para a historia é cedo por ora, e embora houves« 
se chegado a hora, a uma commemoração d ^^sta na- 
tureza nio é que pertencia usurpar- lhe o buril severo. 
Deixaremos por tanto encostados aos parapeitos das 
trincheiras os defensores do Porto, e voltaudo atras 
iremos a França para tornarmos a vér de novo as prin- 
cezas, que separadas de metade da sua alma, conta- 
vam pelas maguas as pesadas horas da ausência, e 
as da incerteza, mais pungente se é possível. 

A senhora D. Maria II, cujo destino foi desde a 
tenra infância experimentar as mais instructivas al- 
ternativas da vida, tinha aprendido na escola do in- 
fortúnio a conter os ímpetos ádôr, disfarçando o lu- 
to do coração sobapparencias quasi tranquillas. Con- 
templada nos momentos, em que padeceu mais, o ex- 
terior sereno, que ostentava, a ninguém diria que as 
lagrimas em torrentes procuravam o silencio e a so- 
lidão para vingarem a sensibilidade exaltada, e ana- 
tureza^ do esforço que as constrangia. Um dos exem- 
plos notáveis doeste raro poder da alma sobre si mes- 
ma, que ficou entalhado na memoria de quantos ob- 
servaram a scena, foi dado por occasião da despedi- 
da do imperador, quando ao sair de Paris para Be- 
lille, apertou nos braços esposa e filha, ignorando se 
Deus concederia ao seu extremo a ventura de as tor- 
nar a vêr, assim unidas ao peito, e roais felizes de- 
baixo dos tectos amigos de seus aviSs. 

No dia 25 de janeiro de 1832 o duque de Bragan- 
ça passou a despedír-se da rainha na qualidade de 
general português, vestindo pela primeira vez a far- 
da do seu posto, e jurando que a restituiria aothro- 
no, ou ficaria sepultado nas ruínas de Portugal. O es- 
pectáculo de um pae de joelhos diante de sua filha 
de treze annos, da soberana desvalida e despojada 
da coroa, prestando-lhe a homenagem de fidelidade 
dos últimos cavalleiros votados á sua divisa, commo- 
veu o peito de quaiftos assistiam ao doloroso lance, * 
e arrasou de pranto os olhos menos affeitos a derra- 
mal-o. Um incidente bastante sensível veio augmeh- 
tar ainda o interesse ao quadro. Retirando se por en<* 
tre duas alas de súbditos dedicados, o senhor D. Pe- 
dro demorou-se alguns instantes junto de dous velhos 
carregados de annos, de respeito, e de serviços a cinco 
gerações de reis, e abraçou n^elles estreitamente, e 
com filial carinho, a antiga lealdade da monarchia, 
que representavam em um apartamento, que para 
ambos havia de ser eterno. 

Eram os marqueses de Lavradio e do Funchal* 
As palavras de amor e de esperança, que a voz tre- 
mula dos dous anciãos depositou no seio do príncipe, 
encomendando a Deus a sorte da expedição, a glo- 
ria do chefei; e o sceptro da rainha na infância, a to- 
dos penetraram de religiosa com moção, e houve um 
momento de pausa, em que a mudez geral disse o 
que os lábios não podiam articular. Enternecido e 
inclinando a fronte á benção dos velhos conselheirot 
e amigos de seu pae, o duque de Bragança arran* 
oou-se ao golpe dVsta vista, e cercado doe que de- 
viam acompanhal-o, apressou-se em deixtfr o recinto 
com o receio de que, cedendo ao impulso dos próprios 
sentimentos, enfraquecesse da sua costumada firmeza. 
Se a pena era forte nos estranhos, e se os traços 
doeste conflicto affectuoso se gravavam no animo dos 
estranhos, qual seria o estado da princesa, por todos 

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152 



O PANORAMA. 



08 motivos a primeira a sentil-o, e a doer-se f 1 O 
semblante comtado não dea signal do intenso pesar, 
que a suífocava. Os olhos fitos, e seccos nio denun* 
eiararo a angastia secreta ; e o peito apertado de an- 
ciã, nem por um soluço trahiu os padecimentos Ín- 
timos. Acompanhando a seu pae, que a deixava por 
tanto tempo, indo expor-se aos maiores riscos na 
sustentação de seus direitos, e não sabendo se torna- 
ria a abcaçal-o, a senhora D. Maria da Gloria, digna 
do herqe pela constância, sopeando a afflicção, não 
descobriu o mais leve indicio de fraqueia. De- 
pois de só comsigo, e com os da sua intimidade, ao 
contemplar á roeza o logar vago aonde ficava o im* 
perador, é que rebentaram as lagrimas com violên- 
cia, e que em muitos dias de tristeza a ouviram re- 
petir os suspiros, e as maguas pela falta inconsolá- 
vel. Em quanto podia exacerbar os transes da des- 
pedida, agravando a dór ao pae e á extremosa mãe, 
que lhe representava na ternura a imperatriz, quis 
e conseguiu que o rosto obedecesse, e que o pranto, 
correndo occultamente, só caísse dentro do -coração ! 

Dotada de tanto poder sobre si mesma, e assim 
capaz de sujeitar os impulsos da alma ao rigor das 
obrigações, e á necessidade dascircumstancias, a rai- 
nha escondia as inquietações e os sobrd^altos pró- 
prios, procurando suavisal-os aos que a cercavam, 
durante o periodo mais duvidoso da empreza do se- 
nhor D. Pedro. Igual na magnanimidade, no es- 
forço, e no amor viril, a imperatriz resignada com a 
vontade de Deus, e crente na justiça dos seus decretos, 
sustentava idêntica serenidade e fortaleza perante as 
boas e más novas, que se alternaram nos meses de 
austera provação, em que a guerra ardia furiosa em 
volta do Porto, redobrando-se os perigos, «e accumu- 
lando-se os sacrifícios sobre a cabeça de seu esposo, 
a cada hora ameaçada de um desastre, que viesse 
cortar as esperanças, que unicamente estribavam no 
sen valor então os quasi desalentados defensores da 
causa liberal. 

Finalmente a Providencia condoen-se do soffri- 
mento nobremente supportado das duas princesas, e 
uma noticia fausta e decisiva illuminou-lhes subita- 
mente o horisonte, esfolhando por cima de seus dias 
as primeiras rosas que tão cedo haviam de trocar 
pelos goivos e cy prestes de um tumulo! Os sncces- 
sos tinham-se precipitado favoráveis como no come- 
ço' parecia que se precipitavam adversos. As tem- 
pestades, que cerravam o Porto aos socoorros de mu- 
nições e mantimentos acalmaram-se, e de numerosos 
navios desembarca ao abrigo das noutes toda a es*- 
pecíe de auxilios. A generosa offerta de um mone- 
tário portuguez fornece as sommas necessárias para 
lioertar a pequena esquadra das exigências, que a 
prendiam ociosa; e logo no 1.^ de junho, cinco va- 
pores expedidos de Inglaterra vencem a barra, tra- 
zendo abundância de provimentos e copia de sol- 
dados. ^ 

Pouco antes os mais ousados esmoreciam e des- 
confiavam vendo-se quasi abandonados ; agora a ven- 
tura como que vinha entrando pelos mesmos extre- 
mos por onde se cuidava que fugira toda a fortuna. 
Sem a penosa e critica posição, que tinha atraves- 
sado inabalável, a gloria do duque de Bragança, e 
de seus irmãos d^armas, não seria tão alta e inve- 
jável. O timbre da moderna Illiada, oomqueimmor- 
talisou o nome, sem os trabalhos e os revezes pa- 
decidos heroicamente, não podia eleval-o ate aonde 
se ergueu. O senhor D. Pedro a si, e aos seus guer- 
reiros é que deve os prodigios que lhe esclarecem a 
fama. Longe de succumbir a tantas contrariedades, 
buscou e achou o remédio no mesmo excesso d^ellas. 
É a phrase da íamosa nota do marquei do Funchal 



ao governo britannioo resumindo todo o quadro, e 
dando a chave do êxito, com que se consummoa a 
lucta. 

6tuando a fortuna principia a proteger, não ha 
giro que não aproveite na sua roda instável. Asdif- 
fieuldades aplanam -se; o impossivel recua; e os fei- 
tos prósperos nascem uns dos outros zombando da 
previsão, do numero, e das distancias. A expedição 
do sul, commandada pelo duque da Terceira, é 
manifesta prova do que dizemos. Dous mil e qui- 
nhentos homens saindo do Porto no dia 2i dje ju- 
nho, e desembarcando no dia 24 nas pUas do Al- 
garve, destroçam o inimigo e não deixam de avan- 
çar com os olhos na capital, como se adiante não 
houvesse a largura do Tejo, e a maior desproporção 
nas forças e nas armas para lhes tolher o passo. 

Antes doeste commettimento ousado, que faz des- 
maiar a própria audácia, duas grandes facções de 
Suerra tinham levantado as esperanças dos amigos 
a liberdade no reino e na Europa. A 5 de julho, 
e quasi á mesma hora em que o marochal fiour- 
mont, humilhados os louros de Argel, retirava da 
frente dás trincheiras do Porto depois de perdido o 
ataque, o almirante Napier no Cabo de 8. Vicente 
tomava a esquadra de Lisboa, alçando no tope dos 
mastros das doas naus — Rainha e D. João VI — 
o estandarte azul e branco. 

Dezoito dias depois, a divisão do Algarve, eocon* 
de de Villa For, derrotam perto de Almada as tro- 
pas que intentavam detel-os, e hasteam no caatallo. 
em presença da capital impaciente a desejada ban-. 
deira da rainha. Lisboa acorda resgatada tendo ador- 
mecido ainda no. poder da guarnição realista. A 25. 
a noticia chega á cidade cercada na occasião em que 
se começava a repousar da immensa fadiga de um dia 
de gloria, em que vinte mil soldados, comBourmont* 
á testa, porquatro vezes assaltaram as trincheiras em- 
penhando os maiores esforços, e por quatro veies ffe« 
pellidos tiveram de recolher por fim desbaratados. 

A 26 o senhoi^ D. Pedro falia aos corpos do exer- 
cito, lembra-lhes as proezas anteriores, e despede-se 
observando que mais do que o Porto carece agora a 
capital de o vér dentro dos seus muros.* O vencedor 
de Bourmont, do glorioso triumphador de Argel, o 
marques hoje duque de Saldanha, recebe o com- 
mando da guarnição, e prepara-se para o assignalar 
por segundas victorias. 

No dia 28 de julho a manhã rompe serena, e o 
sol levanta-se esplendido. De repente descobre-se al^m 
do cabo da Roca o pavilhão real fluctnando sobre o 
mastro do navio, que transporta o imperador. Os ha- 
bitantes, avisados como por encanto, acodem ás praias, 
povoam os montes sobranceiros ao Tejo, e o rio coa- 
lha -se de botes e escaleres. > A impaciência quer ir 
adiante do possível, quer acelerar com os seus votos a 
navegação. A^ hora e meia depois do meio dia fun- 
deia a embarcação defronte da cidade, e no meio das 
salvas de artilheria, e das acclamações ardentes, das 
multidões apinhadas, o duque de Bragança salta em 
terra, e com o peito cheio de religiosa piedade, vAa 
ao templo do Senhor dos exércitos, exlepõe aos pés do 
seu throno o tributo da humildade cbristã. 

(Contiwía.) 

L. A. RXBSLLO DA SriTA. 



— * A felicidade tem uma escada gradual ; se o ho- 
mem, do ponto em que se acha coUocado, olhar para 
cima julgar-se-ha desgraçado ; sé olhar só para bai- 
xo, jttlgar-se-ha feliz. 

Bi, Carvalho-^ A pRoRisMos. 



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20 



o PJyiOIUMA. 



153 




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Voi. in. — 3.^ Serie. 



MAIO.^(JbyíSOOglf 



154 



O FAIfORAMA. 



Embocadura do Bobphoiio. 

EsTAWDo convencidos da justiça da causa do impé- 
rio ottomano na gloriosa lucta contra as obstinadas 
tentativas do autocrata \ causa em que se acba empe- 
nhada a Europa iUustrada, e que tanto prende agora 
a attençâo publica, achamos que serão bem recebidas 
dos nossos leitores todas as noticias que possamos for- 
necer-lhe d^aquella região, que hoje oíferece no seu 
vasto território o grande tbeatro de uma guerra por- 
fiosa, ou de variados e consideráveis movimentos es- 
tratégicos, e por isso appresentamos n^este numero a 
vista da embocadura do Èospboro no Mar Negro \ pa- 
ragem hoje assas frequentada, e não menos conside- 
rável em razão das novas obras de defesa, como pon- 
to de alta importância para a segurança de Constan- 
tinopola. 

Antes^ porém, de passarmos ádescripção, cumpre- 
nos faser ardentes votos para que o desenlace does- 
ta tão valiosa causa, em que a justiça está a braços 
com o fanatismo e com a usurpação, seja favorável 
á Porta e contra os projectos do autocrata. Certamen- 
te a influencia e acção das grandes potencias civilí- 
sadas, que hoje escudam á custa dos maiores sacrifí- 
cios os direitos do sultão, devem abrir para a Tur- 
' quia ura magestoso futuro nas suas instituições poli- 
ticas : veremos erigido em Consta n ti nopola um novo 
baluarte da liberdade, como padrão indelével cimen- 
tado nas verdadeiras garantias dos povos livres e es- 
clarecidos \ seiído-nos também permittido acreditar 
e até aguardar com fé, além doesta transformação, 
outra ainda mais extraordinária e maravilhosa nas 
idéas religiosas^ isto é, vêr o signal da redempção 
arvorado sobre o crescente, se a politica da s&nta sé 
souber tirar partido doeste ensejo^ s6 esta conquista 
fará eternisar nos atiiiaes do christianismo o pontifi- 
cado de Pio IX. 

Os viajantes da antiguidade, como os dos tempos 
modernos, nunca deixaram de tecer os maiores elo-^ 
gtos, celebrando as encantadoras bellezas do Bosphoro. 
E^te estreito une o Mar de M armara ao Mar Ne- 
gro, e tem cerca de oito legoas de comprimento, não 
passando a soa. largura em alguns pontos de oito- 
centos metros, isto é, perto de meia legoa ; este vo- 
cábulo inteiramente grego, significa irajeetus bovis 
ou tnare anguslum^, quer dizer braço de mar assas 
estreito que um boi possa atravessar a nado. Foi 
n^este estreito que Dário rei dos persas passou com 
as soas tropks á Europa para fazer a guerra aos scy- 
thas. O aspecto doBosphoro é encantador^ quem en- 
trar n^este estreito, vindo do Mar de Marmara, verá 
elevar-se á sua esquerda sobre numerosas e verde- 
jantes collinas em forma triangular a Nea-Roma^ 
que foi substituída pelo nome de Konstaniinou-Po' 
li$ de^ Constantino, primeiro imperador christão, que 
a fez edificar em 326 no logar da antiga Bysancio ^ 
ou a rainha das cidades* como lhe chama um via- 
jante moderno ; a Siambul dos naturaes coroada de 
ricos aposentos e mesquitas, a cujos pés vem cons- 
tantemente humilha r-se as argênteas ondas do Bos- 
phoro. Ao aproximar-se sentirá um bulício confuso, 
mas adoçado pela distancia, que provém já do mo- 
vimento da multidão no interior da cidade, já do 
movimento marítimo das grandes chalupas que trans- 
portam tropas dos navios para terra, ou das que 
atravessam para o mesmo fim o estreito conduzin- 
do-as da Ásia, já do trabalhar dos remadores nos 
elegantes escaleres do capitão bachá, ou nas ligeiras 
barcas que levam os officiaes do serralho, os minis- 
tros e os seus Hatas, e os artistas, muitos dVUcs ar- 
ménios que são chamados para diversos trabalhos \ 
tudo atráe a attenção do viajante, até que fica to- 



talmente surprehendido pela magnificência d^aqoel- 
le porto, que parece inspirar orna deliciosa poesia 
em acção pela novidade das scenas picturescas, que 
de todos os lados se desabroxam aos seus olhot. 

EIste porto é tido por um dos mais bellos e mais 
seguros do mundo ^ e pela sua posição parece ser des- 
tinado para dar vida a uma cidade, que deveria ser 
a capital de maior império; domina em três mares, 
o que lhe dá reconhecida supremacia \ e é por esta 
circumstancia de grave importância geographica c 
politica que o csar para ali aponta a sua espada im- 
pellindo os povos da sua communhão religiosa. Avul- 
ta entre as diversas decorações da natureza e da arte 
o magestoso palácio do sultão, notável pelas suas por- 
tas resplandecentes e altos cjrprestes no meio dosquaet 
se descortinam aos olhos do viajante os soberbos • 
alindados aposentos do serralho, povoado irregular- 
mente de pavilhões, oíTerecendo assim um aspecto 
romântico ; os ricos bazares, o caravanserá dos ban- 
queiros, as fontes^ os banhos, e em seguimento ao 
serralho uma serie não interrompida de palácios, de 
casas, de jardins dos principaes validos, ministros ou 
officiaes do sultão, prestam oerto ar de sumptuosida- 
de e de jubilo a esta eidade histórica, olhada doBos- 
phoro ; o serralho está edificado em ^lm dos angulas, 
d^onde se gosa o panorama da deliciosa costa da 
Ásia Menor, vista que não tem igual. 

O viajante, seguindo o estreito, encontrará na mes- 
ma margem Pêra, arrabalde de Constantinopola ; as 
suas casas quasi apinhadas acbam-se edificadas oom 
magnifica profusão sobre um amphitheatro de colli- 
nas, sobranceiro á nova Roma, a jóia invejada do 
ambicioso czar ; ali costumam residir os embaixa- 
dores europeus, e é o centro da diplomacia. A* 
sua direita verá Gaiata com os muros em ruínas, 
que recordam bellicosa memoria, contrastando-lhe 
na ribeira opposta as habitações pintadas d Vssa gran- 
de capital, que se agrupam sobre as sete collinas de 
variado aspecto, e onde se elevam agigantados cy- 
prestes que sombreara as casas. Em summa por to- 
da a parte se debuxam no céu graciosos mirantes 
dorainando a soberba e immensa fabrica ou edificio 
de Santa Sophia, e de outra mesquita mais elegan- 
te ainda, denominada de Solimanié, celebre pela hon- 
ra de possuir a barba do propheta. 

Progredindo encontrará Scutari mirando-se nas 
suas aguas transparentes, e deixando vêr n^ellas de- 
senhados os graciosos contornos dos seus mirantes es- 
guios e pyramidaes, que furtivamente se escondem 
nas sombras dos bosques funerários. Do alto d^uma 
collina próxima a esta povoação gosa -se o mais di- 
latado e maravilhoso horisonte que abraça, n^um só 
quadro, Constantinopola, Gaiata, Pêra, os mares 
continuados doBosphoro e daPropontide ou de Mar- 
mara, e as regiões que elles banham sobre ambas as 
margens. 

Cursando avante o Bosphoro, o viajante observa- 
rá que as ondas vem mansamente quebrar-se aos pés 
das habitações, e depois ganhando forças acommet- 
ter enfurecidas os muros do aquartelamento de Tropp- 
Hannè, até se communicarem com as do Mar Ne- 
gro. A vista que apresenta a nossa estampa é toma- 
da de um ponto elevado do lado de Gaiata, cujos 
muros arruinados lá se divisam na encosta que vae 
reclina r-se sobre o Bosphoro. 

O general Andreossy, na bella descripção que fez 
de Constantinopola e dos seus subúrbios, consagrou 
algumas paginas á pintura das encantadoras mai^ns 
doeste estreito; todavia convidamos o leitor para 
que com preferencia léa A Viagem no Oriente, de 
Lamartine, onde encontrará a descripção doestes lo- 
gares, não só com verdade, mas com elegância e in- 

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o PANORAMA. 



155 



tarem qm p^dem captivar o viajante que navegar 
pelo Botphoro. 

J. C. DA Silva. 



Sua MAOBtTADB A SsxBoiíA D. Mama II. (1) 



Snnt lacrimae rerum,' et mentem mortalia 
tanpmt. 

Viaeií.. — EiTBiD. 

Remota custodia miliUri, tatior-publid 
excnfaíii pergebat. 



SUBT. IH CmsAR. 

, Arcum toam teteadit. . , et in eo paravit 

vas^ mortis. 

PSALM. vil, ▼. 14. 

Como o Porto, Lisboa, oobre-ae logo de fortifica- 
4^. Organisam-se corpos de novo para as guarne- 
cerem ^ e eat quanto o general Saldanha derrota os 
contrários na noemoravel ac$2o de 18 de agosto, o 
dia 5. de setembro castiga diante das linhas, ainda 
incompletas da capital, o valor infelii dos inimigos. 

Mas no meio do jubilo, fadigas, e cuidados da ace- 
sa Ittda, Que sustenta, o senhor D. Pedro tem o co- 
ração em Paris junto da esposa e da filha ', e apenas 
as coasas se lhe propor9Íonam propicias trata de as 
chanoMr para o seu lado. A 7 de setembro as duas prin- 
oetas saem de lá passando por Inglaterra, aonde 
desembarcam, e logo no dia 14 a senhora D. Maria 
II entra no paço de Windsor, e é recebida por 
Guilherme IV rodeado de toda a familia real e 
de uma numerosa corte. Achava-se também presen- 
te o marques do Funchal, como nosso embaixador. 
Próximo a cerrar os olhos para sempre, o velho mi- 
nbtro português ainda poude inscrever este dia en- 
tre os ditosos da sua larga e honrada carreira. 

A 17 largaram de Portsmouth os vapores condu- 
sindo as augustas viajantes e a sua comitiva, acom- 
panhadas por um navio da marinha britani^ca, en* 
viado por el-rei ; e na manhã de 22 embocavam o 
Tejo, tendo corrido eminente perigo de naufrágio 
pouco antes de dobrarem o cabo da Roca. O mar es- 
tava plácido, mas a imprudência do oommandante, 
nettendo o barco por entre nevoeiro espesso, cosido 
com a costa^ ia urdindo uma catastrophe aonde me- 
nos devia temerse. Meia hora depois do meio dia o 
duque de Bragança, ao cabo de uma separação de 
anno e meio, bem fecunda de amarguras, apertava 
nos seus braços o que mais prosava no mundo ^ e vi- 
rando-se para a rainha com certa melancolia excla- 
mava : u Já posso morrer tranquillo agora ! » 

A estas palavras um véo de tristesa cobriu o ros- 
to das doas princesas. Dos olhos, qoe o amor torna 
penetrantes, nada se esconde ; e a alteração que de- 
notava a esse tempo o semblante do senhor D. Pe- 
dro, effeito dos excessivos trabalhos, não escapou á 
anciedade de uma extremosa esposa, e da terna 
filha que tinham impressa na memoria a robustos do 
príncipe no momento de se despedir para tomar a 
direcção da empresa ! O que havia de fatal nasphra- 
ses do imperador, e a maguada sensação produzida 
por ellas desvaneceram-se no meio do regosijo arre- 
batndo d ^aquelles momentos. Outras idéas, e o ímpe- 
to dos affectos, aíTogentaram por então os maus pre- 
»agi«- 

(1) Continuado de pag. 15«. 



Qruem diria qoe passado um anno e no mesmo 
mes, aqnella cab«ça tão magestosa descairia sobre o 
peito, fria da vida e do ardor, que a animavam ! ? 
Qruem ousaria prever a morte próxima, quando a 
idade, a gloria, e a satisfação dos vastos projectos pa- 
reciam prometter-lhe uma existência larga para.vér 
abençoada na ventura doe netos a sua obra, de que 
não chegou a gozar-ae, sendo-lhe medidos pelos de- 
senganos os curtos dias, que respirou depois da guerra ! 
A 23 foi o desembarque da rainha e da impera- 
triz, e por entre festivos applausos se encaminharam 
as duas princesas á antiga cathedral, para darem a 
Deus as graças pela feliz chegada. Pouco depois o du- 
que de Bragança já percorria com a senhora D. Ma- 
ria II as linhas de Lisboa, da frente das quaes logo 
traçou desalojar o inimigo acampado. Esta proeza, re- 
novando os feitos d^armas do Porto, coroou de glo- 
ria os dias 11 e 12 de outubro^ e emquanto os con- 
trários 6e retiravam em boa ordem bobre as quasi 
inaccessiveis posições de Santarém, o senhor D. Pe- 
dro ao lado de sua esppsa e de sua filha, junto do 
leito dos valentes de ambos os exércitos, consolava 
nos hospitaes de sangue as suas dores, não distin- 
guindo para os cuidados caridosos os adversários dos 
amigos. 

Mais sete mezes se prolongou ainda a locta, mas 
pelejada a distancia das duas capitães. £m differen- 
tes pontos ao mesmo tempo se repetiram os comba- 
tes. No Algarve assombra ^tudo o arrojo do visconde 
de Sá da Bandeira. O intrépido Na píer á testa das 
suas tripulações investe e escala as muralhas de Ca- 
minha, de Vianna do Minho, e até emmudece os 
canhões nas baterias de Valença. Em Almoster o 
marechal Saldanha derrota uma forte divisão, que 
nada menos presumia na véspera do que proeeguir 
sem revez na marcha triumphante para a capital. Na 
Asseiceira o oonde de Villa Flor chega a tempo e . 
descarrega um golpe decisivo sobre as tropas ao ver- 
sas. Accumulados tantos desastres contra ellas, as for* 
ças oppostas desanimam com motivo, e desocupan- 
do Santarém passam ao sol, e dirigem-se aos muros 
de Évora. 

Finalmente em maio de 1834 a lucta civil termi- 
na pela convenção de Évora Monte, e o senhor D. 
Pedro, servindo-nos da expressão de um grande pin- 
tor litterario, Cbateaubriand, colhe novos louros pe- 
lo triumpho alcançado da própria victoria ! 

Não o entendeu logo assim a irritação partidária 
ainda cega de fumo das batalhas, mas a justiça e a 
rasSo quando se encontraram no momentâneo relam» 
pago dos conflictos ? 

Vinte annos decorridos, e a placidez que permit- 
tem á intelligencia e ao espirito, são de sobra ago- 
ra para avaliarmos a sabedoria de um acto, que le- 
vantava no meio dos furores da guerra o altar da fu- 
tura reconciliação. Vencidos e vencedores eram ir- 
mãos e portugueses^ e estendendo entre os dous cam- 
pos, e sobre as armas, o sceptro de ouro da concór- 
dia, o imperador começava pela clemência o reinado 
de sua filha. 

Cerrar as portas da pátria a numerosos súbditos, 
castigando coro desterros, e como crimes, o que mui- 
tos haviam praticado por desinteressada opinião, fd« 
ra mais do que erro, fdra crueldade. A politica além 
d^isso não fallava com menos aoctoridade do que a 
generosidade e a moral. Espaçar uma hora além do 
necessário os horrores da lucta civil, e continual-Oi 
para obter o completo extermínio de um dos exér- 
citos combatentes, mancharia de eternas nódoas a 
epocha de renovação, que se quiz inaugurar ! Dei- 
xar aos menos felizes a terrível arma da desespera- j 
ção, era demência, e equivalia a lançar um desafioQ [^ 



156 



O PANORAMA. 



audaR contra a fortuna, com at costas Toltadas por 
ingratidio para a Providencia. 

Una ealns victis ntiUam iperare salotem ! 

€tttcin arriscaria o Estado por intolerância aospe> 
rigos, que aponta a máxima entalhada no bdlover- 
so de Virgílio ? Qroem, soltos sobre a pátria os í!a* 
gellos de uma carnificina sem tregna nem perdSo, 
coro 08 braços tintos de sangue, e o ooraçio negro 
de remorsos, ousaria erguer ainda a fronte maca- 
lada? 

O duque de Bragança optou pela pas, e segunda 
▼es salvou a liberdade. 

A data do acto magnânimo, que impôs silencio pa« 
ra sempre ás vindictas e ás iras, é a roais gloriosa de 
quantas ornam o seu monumento, aonde a posteri- 
dade entrelaçará a tríplice coroa de legislador, de 
príncipe, e de guerreiro. 

Acabadas as facções militares, o senhor D. Pedro 
ainda não sooega. N^aquella grande alma não coube 
nunca a menor inércia. 

Em Julho apresenta a rainha e a imperatriz ao Por- 
to, e fax conhecidos de ambas os leaes habitantes, que 
sustentaram a sua bandeira apesar dos rigores da for- 
tuna, e debaixo do açoute das adversidades mais 
severas, que podiam affligir a constância humana. 
No meio d^aquella população briosa, tão sua por to- 
dos os vincules de amor e admiração, o imperador 
patenteia o peito sem reserva, deixando lêr no fun- 
do d^elle os sentimentos de estima e gratidão, que 
dedicava aos moradores" do mais firme baluarte da 
sua causa. 

São dignas de se conservarem as expressões con- 
cisas com que em 27 de julho de 1834 saúda os an- 
tigos companheiros dos seus trabalhos : u Eu me fe- 
licito a mim mesmo por me vér no theatro da mi- 
nha gloria, no meio dos meus amigos portuenses, 
d Vquelles a quem devo pelos auxilios, que me pres- 
taram durante o memorável sitio, o nome que ad- 
quiri, e que honrado deixarei a meus filhos, n Foi 
a despedida final ! Dous mexes depois o duque de 
Bragança dormia em S. Vicente ; e em fevereiro de 
1835 o barão de Campanhã, em nome da Augusta 
Viuva, conduzia de Lisboa em uma urna cerrada o 
coração do principe^ por ultima vontade sua man- 
dado depositar na cidade, berço de muralhas da li- 
berdade, e exemplo da fidelidade portuguesa ! 

De volta do Porto á capital a 18 de agosto o se* 
nhor D. Pedro abre o parlamento, e faltando ao se- 
nado do paiz dá-lhe contas da sua administração com 
a serenidade dos corações sinceros. Nomeado re- 
gente na menoridade dia rainha entrega >se-lhe o de- 
posito do poder sem a. mais leve restricção ^ e a 80 
presta juramento em presença de sua filha. Em 11 
de setembro as cortes dispensam no artigo 90 da 
carta, permittitido que a soberana podesse casar com 
príncipe estrangeiro da escolha de seu pae \ e o du' 
que de Bragança designa o princtpe Augusto de 
Leuchtemberg, irmão da imperatriz, legando-lhe a 
sua gloriosa espada. 

A morte adianta-se então. Q«uando o regente pro- 
feriu a formula do juramento no paço da Ajuda as* 
sustou aoppressao, que oanciava. A extremosa ami- 
sade dos súbditos tremeu pelos seus dias. A molés- 
tia irremediável já lhe inclinava a fronte á vistçi de 
todos. Estavam escríptas todas as letras do seu des- 
tino ! 

O Deus dos exércitos não lhe queria conceder 
mais gloria. O throno constitucional achava^e res« 
gatado-, a primeira legislatura funccionava em ple- 
no exercicio dos princípios da carta. Nada bavia a 



aereseentar k obra promattida ao seu nome. O p«> 
riodo da provaçlo e de fandaçio tinha aoabado \ ta- 
guia-se a epocha laboriosa da experíancia das insll* 
toiçSaSf e essa devia pagar ás illosSes e aos emaioa 
o tribato ooslamado. Nenhuma naçio entra na in« 
fisneia da am systema sem se enganar freonenta- 
mente, umas veses correndo adiante sampmaenek, 
outras volvendo atras de mais, e por íim á custa da 
pádedmentas tomando á estrada do melo, e assen- 
tando por ella os passos regrados, que §6 firma ode- 
sengano. 

O duque de Bragança, homem de aoç8o e de re- 
forma, fechou o circulo da existeneia na mesma ho» 
ra, em que expirava o grande eyclo que dominou de 
toda a altura do seu génio. 

O que restava pertencia ao tempo, e a uma po- 
litica de perpetuas e soccessivas transições. A ^- 
ria da senhora D. María II consiste em ter enten- 
dido esta necessidade do seu reinado. Levado mui- 
to depressa para a nossa saudade, nSo pôde diser- 
se que o imperador desaparecesse cedo para a sua 
gloria. Vultos como odMle, quando se lhes acaba o 
grande papel na epopeia do mundo, são devorados 
de impaciências sublimes, como %s de NapoleSo e 
de Carlos V, e representando nas anciedades inti- 
mas o Prometheu antigo cançam«ae logo da vida 
inerte e descorada, se primeiro o espirito, «fiando 
o corpo, os não arrasta ao tumulo antes da idade 
própria, martyres de fadigas excessivas, que sentem 
só depois do deslumbramento da empresa ! 

Pesava occoltamente sobre o imperador a mesma 
sentença, que prendeu os passos do legislador dos 
hebreus nos cumes do monte Nebo. Foí-lhe dado 
conduzir o seu povo dos penhascos da Terceira, • 
das praias do exilio até ás abençoadas campinas da 
patría *, mas satisfeito o voto, e oonduido o feito 
illustre, a sua missão estava finda, e a hora do des- 
canço bateu logo. 

Vidisti eam ooeulis tuis, et non transibis ad illam ! 



Os olhos deviam vér a liberdade, obra de soas 
mãos, mas gosar-se d^ella, e das doçuras de uma vi- 
da tranquilla, unindo á gloria agitada das armas a 
gloria pacifica do lar domestico, era muita ventura 
para um só homem. Deus negou-lh^a ! 

A morte duvidou onse meses, tendo já armado o 
arco, segundo a phrase do psalmista. 

Um resfriamento em novembro de 1833, na paa- 
sagem do Tejo para Almada, foi a cansa que deter- 
minou a enfermidade. A actividade em que não 
abrandava, apesar de tão molesto, agravou ossympt«>> 
mas. Com alternativas de falsas melhoras o mal nun- 
ca deixou de progredir ; e em maio seguinte tinha 
assumido um aspecto ameaçador. 

A viagem ao Porto, apar de outras fiidigas exa» 
cerbadas por desgostos, precipitaram-no ; e a jorna- 
da á villa das Caldas, tentada menos para allivlo, 
do que por delicadesa, (desejando aehar-se ausente 
no momento em que as cortes votavam a lei da re- 
gência) acabou de levar o perigo ao maior auge. 
Regressando a Lisboa, os actos políticos a que o 
obrigava a confiança da nação, e o esforço scmra si 
mesmo para os desempenhar, peioraram o seu esta- 
do. O imperador mudou então a habitação do pa- 
lácio da Ajuda para o de Qruelus, aonde nascera e 
aonde tinha de moner, e vendo baldadas as appli* 
cações da sciencia, sujeito e conforme com a vonta- 
de do Altiisimo, preparou-se para deixar o mundo 
com a mesma grandesa de espirito com que noa 
dias de batalha, e nos campos crundos pela metra- 
lha, atravessara por entfj^jf^^fijioos, exposta oomo 



o PAN ORAIUA. 



157 



• toldado mais obicaro, tnnqmUo oomo m u balai 
o dareMem mpaitar ! 

A «•perança fugiu de todo do lea lado. Stf&tia a 
vida i«tínv-M| e aa loiíibrat da morte crescerem a 
• oada instante. M^eise extremo o princípe qaii en- 
eerrar eom o sea fim religioso o que tinba historia- 
do nos beUos rasgos de orna gloriosa carreira. 

No dia 16 de setembro dictoa o seu testamento, 
e uma carta aoe^ioso designado para snafiOUba. A 16 
resolveu e assignoo em conselho de ministros as dis- 
posisdes urgentes, pedidas pelos negócios públicos. 
A 17 monio-se devota e exemplarmente pelo auxi- 
lio dos sacramentos com as graças dispensadas na Igre- 
ja aoa seus fieis afim de triumpharem no conflicto do 
ultimo combate ^ e a 18 escreveu ás cortes partici- 
pando-lhes que nSo podia continuar na regência do 
reino, e rogando que provessem para o governo não 
padecer interrup^. 

Poucas horas depois a senhora D. Maria 11 decla- 
rada maior era '^Kitm^^^fi a reger o estado sem tute« 
la. Informado doesta decisSo, apesar da oppressSo de 
tio angustiosos momentos, o príncipe abraça a rainha, 
consola as suas magnas filiaes, e superando a dôr 
a que resiste, cnmopae ecomo antieomonarcha, in- 
cute-lhe no tenro peito os mais saudáveis conselhos, 
que a liora, o amor, e a lolemnidade da occasiSo 
infundem entre prantos na sua lembrança. 

A imperatríi, esposa querida e extremosa, assistia 
ailendosa e heróica a todos os lances doesta scena de 
oommoçdaa pungentes. Sustentada pela ternura obser- 
vava tudo, e junto do leito de morte multiplicava 
os socoorros e as consolações, sem atraiçoar o mar- 
tvrio intimo senio na pallides do rosto. O duque de 
Bragpmça v<dta<-se para ella, e com palavras de cari* 
nho procura suavisar-lhe o golpe da supplica, que 
vae fisser. O soldado da liberdade deseja que o seu 
ooraçSo fique depositado na cidade do Porto, thea- 
tro dos seus trabalhos, em memoria do muito que 
presou os heróicos habitantes. Ainda mal enxutas 
as lagrimas do próximo apartamento, avivadas peias 
aoas pbrases, vira-se para a rainha, e recommenda-lhe 
a ekaaencia como primeira virtude do sceptro, e a 
gratidio como dever máximo dos soberanos. Depois 
lança-lhe a bençio, e á princesa Amélia, enviando-a 
saudoso aos outros filhos separados d^elle pelas soli- 
dões immensas do Oceano l 

A sui^ mio já tremula com o frio do tumulo assi- 
gna asancçio ao decreto descortês, declarando maior 
a senhora D* Maria da Gloria. N 'este momento em 
que o novo reinado principia* segurando entre as 
soas a dextra da rainha, encommenda-lhe que faça 
ditoso o povo, obedecendo sempre á lei, ainda antes 
do qoe os súbditos. Banhada em pranto, com a voz 
cortada de suspiros e o coração retalhado, a prince- 
sa assim o jura, e o osculo terno do pae imprime 
na sua fronte a fidelidade da promessa. Pouco de- 
pois á saída do primeiro conselho, a que preside, a 
senhora D. Maria II vem ajoelhar-se ao Udo do im- 
perador, e offerece-lhe as insígnias da Torre Espa- 
da* Peú primeira ves pendeu sobre o peito do se- 
nhor D. Pedro a honrosa condecoraçio, com que es- 
maltava o de tantos de seus companheiros d^armas, 
em testemunho de valor, lealdade, e mérito. Tinha 
reservado á filha a finem de lhe lançar a elle o co- 
lar da ordem no primeiro dia do seu governo. 

S^uiram-se as despedidas ao exercito na pessoa 
do mais antigo dos seus marechaes. O duque da Ter- 
ceira recebe o derradeiro abraço do general para os 
oamaradas, beija-lheamio, eretira-sesoffiócado. Um 
soldado do 5.^ de caçadores, Manuel Pereira,. ouvin« 
do a despedida do seu coronel, esentindo-se nos seus 
bra^, desblecci e aò responde com. as lagrimas* De- 



satado entiode todas as obrigações e cuidados, o prín- 
cipe occujpa-se inteiramente do seu fim, ecom o cru- 
cifixo unido ao peito, e a esperança elevada ao céu, 
entrega a Deus um dos maiores espirites, que viu o 
nosso século. 

Os seus funeraes foram dignos do grande nome que 
l^rou, e do pais sobre qoe reinara. A noute de 27 
de setembro presenciou um espectáculo, que &S de- 
senove annbs e dons meses depois devia tornar a re- 
petir-se 1 Milhares de pessoas com tochas accesas, sem 
precedência nem oeremonial, segundo convinha ao 
caracter do acompanhamento, cuja magestade era a 
manifestação popular, abrindo alas ante o coche até 
ao jásigo de S. Vicente, formaram a guarda de hon- 
ra do ^nterro, qoe o senhor D. Pedro ordenara epi 
seu testamento que fosse s6 de general e despido de 
pompas ou recordações de rei. A artilheria trovejou 
o derradeiro vakj as portas do sepulchro fecharam- 
se para sempre, e a saudade inconsolável da filha e 
da esposa, uma nos braços da outra, velaram em 
pranto as horas longas e cruéis da viuves e da or- 
phandade ! 

Compriu-se logo Doeste transe o que parece ter si- 
do o destino fadado á senhora D. Maria II. Na ida- 
de de- quinze annos, tendo já supportado tantos ti- 
gores, e viva ainda no coração a nódoa indelével da 
perda de soa virtuosa mãe, a rainha apenas se as- 
senta no throno, acha de menos o braço robusto que 
s devia amparar nos primeiros passos, e pondo a co- 
roa na cabeça sente-se logo trespassar dos agudos es- 
pinhos de uma amargura immensa ! Q<uem diria as 
anciãs e saudades d^aquelles dias de luto, em que a 
filha orphâ, olhando para o passado o via todo de ne- 
gro, como a noute do sepulchro, e contemplando o 
futuro, tremia e hesitava diante da estrada que ia 
pisar l N 'esses momentos de profunda prostração, 
quantas veses não invejaria ao mais humilde dos súb- 
ditos a liberdade das lagrimas e o recolhimento da ddr f 
Como lhe pesariam os deveres do poder, e os cuida- 
dos do governo, juntos aos tormentos da alma, e aos 
receios naturaes de uma grandesa, cuja responsa- 
bilidade aterra os animosos, e tanto assustaria a sua 
inexperiência 7 Mas Deus, que mede os sacrificios pe- 
las forças d^aquelles que' quer provar, tinha-a dota- 
do de espirito viril e constante, capas de não se cur- 
var aos reveses, e superior também ás prosperidades. 

A senhora D. Maria da Gloria, fiel aos desejos do 
imperador, entendeu que a prova de maior respeito 
que podia consagrar-lbe era a realisação dos projectos 
que viera interromper a morte, e que o senhor D. 
Pedro deixara adiantados. N^este propósito mandou 
proseguir na começada negociação do seu casamen- 
to com o priocipe Augusto, duque de Leuchtenberg ^ 
e o conselheiro Bayard, então official maior da se» 
cretaria de estado dos negócios estrangeiros, incum- 
bido dVsta honrosa missão, tendo-a desempenhado, 
voltou a Lisboa em 25 de novembro, com a procu- 
ração do noivo ao duque da Terceira para o consor- 
cio se effectuar. Celebrou-se a ceremonia no 1.^ de 
desembro de 1834, anniversario de um dia fausto 
para a independência nacional e para a casa de Bra- 
gança \ e a 25 de janeiro de 1835 entrava a fos do 
Tejo o príncipe Augusto, acompanhado demarques 
de Ficalho e do visconde de Sá de Bandeira, anti- 
gos ajudantes de campo do duque de Brsgança. No 
dia seguinte (a 26) recebia com sua esposa as bên- 
çãos nupciaes, depois de assignalar a chegada á pá- 
tria adoptiva por um grande rasgo de beneficência 
em favor das viuvas dos defensores da causa da rai- 
nha. A alegria de enlace tão esperançoso confortou 
um pouco os súbditos na magna pela falta recente do 
imperador. As nobres quaUdad^j^^^e^ j^4^çy(3g[e 



15S 



O PANORAMA. 



jerarchia do príticipe, e o lastre do distincto sangue 
dos Beauharnais que lhe corria nas veias, depressa 
lhe grangearam a sympathia dos portugueses ^ e a 
escolha de D. Pedro foi applaudida como mais um 
beneficio do seu zelo d(vico, enchendo de regoujo 
a todos os amigos da liberdade e da dynastia funda- 
da n^ella. 

Mas a desgraça ainda nSo se tinha cançado de fe- 
rir o reino, e as infelizes princesas de tão poucos 
dias alliviadas do maior peso de uma aguda pena. 
As melhores esperanças aeccaram em flor. O prínci- 
pe Augusto ao cabo de sessenta e três dias foi rou- 
bado á ternura de sua esposa e de sua irmã, expi- 
rando a 28 de março de 1835, sem mais tempo do 
que o necessário para deixar a boa memoria das 
suas virtudes. No rápido giro de cinco mezes a se- 
nhora D. Maria da Gloria, e sua augusta mãe ado- 
ptiva, ajoelhadas sobre duas sepulturas, sentiram no 
coração o golpe das mais penetrantes dores. Logo na 
viçosa juventude a orphandade e a viuvez choraram 
nos olhos da rainha, como desoito annos depois ha- 
viam de gemer nos soluços de seus filhos e esposo, 
pelo maguado lance de uma perda nSo esperada ! 

Para os que nasceram no throno, a vos do dever 
fas calar a dos gemidos, e o lucto ha de encerra r-se 
no seio mudo e resignado, occultando até os vesti* 
gios das amarguras inconsoláveis. A senhora D. Ma- 
ria II, viuva com dous meses de casada, perante as 
supplicas da nação, e ouvida a rasão de estado teve 
de acceder á proposta de novo matrimonio, e desi- 
gnou-se para seu esposo o prineipe Fernando de Sa- 
xonia Coburgo Gotha. No 1.^ de janeiro de 1836, 
representado o noivo em sua procuração pelo mare- 
chal duque da Terceira, celebraram-se os desposo- 
rios. O prineipe hó aportou ás nossas praias em 8 de 
abril, acompanhado do conde de Lavradio, negocia- 
dor do casamento, e no dia im mediato recebeu com 
a rainha as bênçãos matrimoniaes no magestoso tem- 
plo da cathedral de Lisboa, livro de pedra de mais 
de quatro séculos, e testemunha de tantos aconteci- 
mentos, que successiva^mente foram buscar ali com 
diversa fortuna a'approvação e o favor divino. Does- 
te ditoso enlace viu a luz um anno depois, a 16 de 
setembro de 1837, como o primeiro e desejado fru- 
eto, o senhor D. Pedro V que actualmente reina 
em menoridade sob a regência de el-rei seu augus- 
to pae. 

Os successos que enchem o período de desenove 
annos, que se coptam de reinado á senhora D. Ma- 
ria II, pertencem ao quadro da historia politica 
propriam(>nte dita, e como taes é-nos defeso me- 
moral-os. Os homens da geração que occupa a scena 
dos factos, e participa das paixões e interesses que 
os dominam, não podem eraprehender a pintura 
imparcial das convulsões civis, e do desenvolvi- 
mento social das instituições \ repugna ser agente e 
juis de si próprio ao mesmo passo. Depois o pensa- 
mento doeste jornal não o admitte^ e embora o sof- 
fresse não o consentia o respeito devido á gravidade 
do assumpto. 

Longe de n^ a árida discussão, querequeimando 
o espirito, tem esterilisado os fecundos dias de uma 
epocha que surgia desatando-se em sorrisos e espe- 
ranças ! 

Os horisontcs que se precisam alcançar para sair 
perfeito o desenho das epochas sempre são baixos e 
nebulosos na actualidade. As eminências d^onde se 
contempla com segura vista o espectáculo do pas- 
sado estão a maior distancia do presente, e não se 
vô bem d^ellas antes de illumínadas pela claridade 
serena do futuro. 

Se esboçámos ao de leve os acontecimentos geraes 



e militares que precederam a restaaiagão do govev- 
no representativo em 1834:^ se á epopeia gnernira 
dos dous exércitos juntámos o painel de alguns dos 
movimentos anteriores, foi porque em ambas as des- 
cri pções o perigo se affiguroa menor, estando o tfae»- 
tro da lucta já desviado do nosso tempo, « eonoe- 
dendo*se por isso maiores liberdades á peana desa- 
fogada da pressão desagradável dos preooooeitos e 
suspeitas. 

Além d^isto a imperiosa necessidade de ligar a 
narração coegia-nos a atravessarmos, mesmo cons> 
trangidos, por esse terreno sempre Aberto de preci- 
pidios. O que resta a expor acha-se n^outro caso. 
Devendo celebrar as qualidades da soberana falJeci- 
da não se carece de entrar na arena em que travam 
quotidianos combates as opiniões politicas. 

NVste regímen a esphera do monarcba está mui- 
to acima. Assiste de alto ao jogo das forças contra- 
rias, e s6 intervém para moderar os conflictos, quan- 
do algum desequilíbrio, ou o demasiado ardor amea- 
ça as bases da estabilidade. O responsável pelos, actos 
não é elle, são os conselheiros que em seu nome go.- 
vernam com o voto das maiorias do senado- O prín- 
cipe, por uma disposição cheia de phiiosophia) se le* 
vanta o sceptro, é unicamente para perdoar e re- 
compensar. Imagem de Deus representa na terra a 
misericórdia e os beneficios I 

Assim, correndo um véu sobre os factos da vida 
publica, sobram espaço e modo para sem prejotse 
da similhança, e s6 com o risco da fraquesa da es- 
cripta, completarmos o que resta a dizer da primei- 
ra rainha constitucional. Os aspectos por que mais 
importa caracterisar-lhe a phisionomia nem de lon- 
ge prendem com o bulício e confusão das disputas 
do ÍÓTO e dos comícios. Destes farão chronica em 
epocha adequada os que se julgarem com os hom- 
bros assas robustos para supportarem tão grande peso 
sem fadiga. 

O verdadeiro monumento da senhora D. Maria 
da Gloria está no coração das populações que ainda 
choram a sua perda. Não se orna de mármores de 
fausto, mas resalta da bella e viva imagem quedeis 
xou na serie dos nossos reis pela constância de um 
grande animo, e pela magnanimidade de uma gene- 
rosa alma. Os seustropheus erguem-nos a^ acções dá 
existência, cheia de modéstia e dedioação por todos 
os deveres de esposa, de mãe, e de soberana. Os epi- 
taphios não lisonjeiros gravou-os para ]i<«ão de prín- 
cipes o luto dos súbditos no recolhimento da ma- 
gna, e o pranto do povo inclinado aos pés do seu 
tumulo. Não haverá de certo muitos monarchas dos 
quaes a historia narre exéquias simílhantes ! 

Não á elevação da jerarchia, e á dignidade dd 
sceptro, mas só ao merecimento próprio deveu os 
dotes, que lhe esmaltam a memoria. Filha do im- 
perador D. Pedro, não só no sangue, mas nos al- 
tos espíritos, tinha herdado de seu pae a ríjesa de 
caracter, e a perseverança na virtude-, dominando a 
fortuna pelo valor de a encarar, obrigou-a a ceder 
muitas vezes, e de adversa a tornar-se propicia, fim 
um sexo todo delicadeza e graças, a rainha unia ás 
prendas, que o realçam, a constância viril, relevo de 
poucas existências femininas, sobre tudo nas emi- 
nências do poder e do nascimento, em que a ventu- 
ra é fácil de deslumbrar, e aonde os revezes batem 
mais fortes do que nas posições rasteiras e obscuras. 
Na idade de trinta e quatro annos, acabados de 
completar, com um reinado tão agitado como a 
epocha, perseguida e experimentada desde a infiin- 
cia por toda a espécie de contratempos e de peri- 
gos, os primeiros nunca a sobresáltaram , e os segun- 
dos cncontraram-lhe[j|ei|ffp|g ^ mesmo rosto. Supe- 



o PANORAMA. 



159 



rava-õs péla voa igoaldade de anhno, fructo das li- 
ções do infoftttniio. 

- Temperava o golpe das provaçdes e desgostos com 
a resignaçSo ehrista, sujeita aos decretos de Deus, e 
eonfiada na saa jastiça. Conhecia qae os espinhos 
do mando ferem mesmo por cima da porpiira real, 
e penetrando nio escolhem entre o ooraçSo'do sobe- 
rano e o dos Tasmllos. Por isso as tribulações doexi- 
No, as magnas da orphandade e da' viu vez, e as in- 
certezas das mais duvidosas luctas nunca a fizeram 
Mudar de aspecto. Ostentava tanta serenidade como 
se estivesse a deddir-se uma cousa índiíTerente pa- 
ra ella nas pelejas e negociações. Em segredo, sim, 
quando nem as lagrimas, nem os cuidados podiam 
quebrantar a resoluto doa outros, desaffogava-se era 
liberdade, pagando ás aíTeiçÔes o tributo de uma fi- 
na e exaltada sensibilidade. 

O rosto mais severo do que risonho, que mostrava 
em publico, lançava sobre as suas maneiras falsa côr 
de altivez*, porém apenas »e desvanecia a exces- 
siva modéstia, e o receio de si própria, o véu de ti- 
midez ra«gava-se, e as graciosas qualidades brilhavam 
sem amais leve nódoa de frieza. Não era entSodíffi- 
coltoso lér no fundo da sua alma a bondade ise ra- 
pta de arrogâncias; e o calor amável de uma con- 
versação espirituosa fazia sobresahir cheios de agra- 
do os dotes da edueaçSo, desenvolvidos pelo engenho 
mais felii. 

Nos actos de caridade, a rainha prosava o segre- 
do, folgando de esconder a mSo, coro que soccorria. Nos 
lances de piedade todo o seu empenho foi igualmen- 
te disfarçar-se, e não ser apercebida. A sua aversão 
aos espectáculos de ostentação, e ás beneficências es- 
trepitosas, fasia-a buscar os caminhos mais cobertos, 
indicados no Evangelho para chegar sem ser vista ao 
fim que tinha em mente. Os inferiores recorrendo a 
ella sempre alcançaram o premio, ou a protecção que 
imploravam. Os criados da sua casa, chorando como 
filhos, bem mostraram a extensão da perda, que la- 
mentavam. 

Encerrando a sua carreira mortal a senhora D. 
Maria II legou á extremosa família, ajoelhada jun- 
to dos seus restos, a maior consolação que p6áe ter- 
so em dores supremas. A voz do povo, cora a verda- 
de insuspeita, que a caracterisa, quando falia tran- 
qoilla de paixdès, fbi unanime em attestar que as 
tentações do throno nunca macularam a pureza de 
uma vida, que repartida por tantos aflTectos e deve- 
res, satisfez a todos e não faltou a nenhum. O interior 
do paço, que nenhum véu escondia, podia tomar-se 
em todo o tempo qoe viveu, como o da rainha Filippa, 
mulher de D. João I, por escola e modelo de prin- 
cipesr Descançando da4 fadigas, ás vezes tão amar- 
guradas do governo, sempre carinhosa e vigilante, a 
senhora D. Maria da Gloria, ali empregava os seus 
cuidados em affeiçoar o tenro animo dos filhos ao de- 
sempeoho*das altas obrigações do seu estado. Desafe- 
ctada e verdadeira, a virtude brilhava nos principios 
que lhes incutia, para um dia crescendo em annos e 
em prendas honrarem os av<$s, de que descendem, e 
serem o mi»lhor ornamento, e o mais formoso bruzão 
do throno. 

O successor da coroa nas risonhas promessas, com 
que nos acena a soa juventude, é a obra desvelada 
do seu ei tremo de mãe e de soberana. Inspirado des- 
de o berço pelos preceitos de seus pães, allumiado 
desde a puericia pela educação, que incessante se es- 
merou em o tornar digno do sólio, e do século em 
que abre o seu reinado, o primogénito da casa de Bra- 
gança recebeu osceptro depois dos nebulosos dias de 
agitação, achando vencidas as niaiores dífílcoldades 
internas, e acalmadas talvez por fdra as grandes tem- 



pestades, com que os últimos vinte annos assolaram 
a Europa. 

Preparando-o pelo coração e pela intelligencia pa- 
ra merecer ologarmais elevado, a rainha legou n'el- 
le á pátria um vivo testemunho do seu amor, e ás 
instituições o mais valioso penhor de duração. Se a 
fidelidade da mãe as deixou adultas, confiemos da 
capacidade e da nobre Índole do filho que o seu re- 
gimen as saberá tornar fecundas e reparadoras. 

(Continua,) 

L. A. Rebsllo da Silva. 



VIAGEM AO MINHO. 

CAPITULO VI. 

O Porto ao domingo, — A devoção^ — Prcfmão de 
fé do auctar. — MvXheret bonitas, — Olhos pretos 
das padeiras de Avintes^ e olhos azues das padei^ 
ras de Valongo, — Ora porque não haviam, de 
ser pretos os olhos verdes da menina dos rouxi- 
noesf — Simia Janota Botíquinenses. — Os Fu- 
nambulos. — 8, Lazaro. 

TsM-SB calumniado muito oJanota^ sobre tudon^es- 
tes últimos tempos. Ignorantes e sábios, uns por fal- 
ta de conhecimentos, outros por malevolencia téem 
concorrido todos para a falsa opinião que férma d^es» 
te curioso individuo a maior parte da gente. Sup- 
põem-se-lhe vicios que elle nunca teve, e atribuem- 
se-lhe virtudes impossíveis. Não sou naturalista, mas 
graças a Deus ! tenho bastante raciocínio para ti- 
rar d^essas apreciações apaixonadas tudo quanto ha 
de verdadeiro n^ellas, e deixar o que a experiência 
me tem demonstrado ser calumnioso. 

Deveras me pesa não ter o cabedal necessário pa- 
ra rehabilitar a largos traços a reputação áo Janota'^ 
mas, para provar a minha boa vontade e a sinceri- 
dade das minhas intenções, declaro que tenho á vis- 
ta todos os estudos que se tèem feito sobre oassum- ^ 
pto, e que serei imparcial na minha apreciação. 

O Janota foi classificado a primeira vez com bas- 
tante propriedade pelo distincto sábio Chenu, na 
sua obra sobre os qnadrumanos. Simia Janota Bo* 
tiquinenses é a classificação. Effectivamente o Jano- 
ta é um accessorio de todos os cafés e botequins. Lon- 
ge doestes sitios o pobre animal sente-se deslocado \ 
divaga cabisbaixo e soturno por sitios desconheci- 
dos para elle, murmura sons estranhos evaedenou- 
te conversar com os vampiros ás portas dos cemité- 
rios. Apenas, porém, fareja os ares pátrios do Chia- 
do, o Janota readquire o seu modo pertencioso> 
empertigado e cessa de ulullar lugubremente. O seu 
corpo felpudo começa a indireitar-se, as pernas lis- 
tradas descrevem curvas irreprehensiveis *^ e princi- 
piam as libações de sueco fermentado do zimbro f/u- 
niperus communis)^ de que se alimenta. 

Em todas as epochas da sua existência, mesmo 
nos momentos de maior satisfação é insípido e sem 
sabor, porém imita soffrivelmente todos os gestos do 
homem. Tenta-se muito com as cores vivas e deá- 
harrooniosas, por isso namora com desvanecimento 
as riscas do seu próprio corpo. É difficil de domes- 
ticar, e conserva quasi sempre a maior parte dos 
seus hábitos primitivos. Naturalmente vaidoso, ape- 
sar dos poucos créditos de intelligencia de quegOsa, 
faz diligencia por mostrar entendimento. 

Ha entre os* pretos mandingas uma tradicção cu- 
riosa a respeito do Janota. O Janota^ dizem elles^ j 

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160 



O PANORAMA. 



• gttnttt, mas não faUa para que o nSo obriguem a 
trabalhar. NSo sei até que ponto será veidadeira 
esta opiniSo dos mandingas, mas o £scto é que o 
Jofwta falia, poucas veies, e n^essas é insuportável 



tolíssimo. Poi^m as maiores e mais graves accusasSes 
que se lhe têem feito sao devidas á paixão domi- 
nante que elle tem por todos os bonitos que vem 
de França ; roas esta impntaçSo é injusta, porque a 
origem do mal está na organisaçSo bugiado Janoia. 
O Sknia Janota BoHquinemes é oriundo do Chia- 
do aonde apparecem aos bandos. No Porto enoon- 
tram-se já bastantes em todas as immediaçoes da 
Praça Nova, mas pouco arrebanhados. Pareceram- 
me comtudo mais fáceis de domesticar. Jáouviemit- 
tir a opinião de que a raça é uma sò, e que os do 
Porto são restos de uma grande emigraçSo que hou- 
ve de Lisboa, ha muitos séculos. Q.uando eu saía da 
igreja, em contemplação para os olhos adoráveis das 
minhas padeiras, encontrei um Janota dos de mais. 
fina raça que tenho visto. Fiz todos os esforços pa- 
ra v6r se o domesticava, mas era indomável. Con- 
fesso que tive tentações de mandar faier uma gran- 
de montaria, para vêr se o apanhava vivo ou mor- 
to. Ainda no ultimo caso seria de um immenso va- 
lor para enriquecer um gabinete de historia natu- 
ral. 

O Porto ao domingo é a terra mais própria que 
ha para moer a paciência humana. Felismente ou 
infeliimente para mim as relíquias dispersas de uma 
companhia de funambulos tinham-se reunido e an- 
nunciádo um espectáculo surprehendente. Depois do 
jantar, que foi ás duas horas, para nao ir de encon- 
tro aos hábitos da terra, fix a minha entrada no cir- 
co para assistir ás habUédadeê dos saltimbancos- Oh ! 
picaresco, e nunca assaz louvado- Scarron, que te fal- 
taram estes para figurar nas ridicuUis aventaras de 
teus immortaes romances ! Gtuatro figuras estupen* 
das, com as caras abismadas em alvaiade e verme 
Ihão, andavam aos saltos fazendo visagens ao povo, 
que ria e applaudia com grande satisfação! GLue 
bom povo ! Q.ue santo povo ! Disse eu comigo. £ 
queixam-se d^elle! Bárbaros! Dêem-lhe d^isto, se 
querem alcançar triumphos. O povo á o mesmo em 
toda a parte ; com bem pouco se contenta e qnasi 
sempre está descontente ! Porque será ? Leitor, se 
4s pbilosopho, faz tuas considerações, que ahi tedei- 
xo roateria.paia um volume^ se o não és continua 
a lêr para diante, e nao temettas a politico. Éuma 
doença a politica, que te podia tomar hydrophobo. 
Deus afaste sempre essa peste para bem longe da 
minha porta ! 

Fugi dçs palhaços e fui direito ao Jardim de S.. 
Lazaro. E um pequeno parallelogramo cercado de 
grades de ferro, dentro do qual vegetam algumas ar- 
vores e flores vulgares. Sem ser grande é comtudo 
o melhor passeio da cidade, e tem presidido o bom 
gosto aos milhoramentos que se estão ali fazendo to- 
dos os dias. Não succede o mesmo com o passeio das 
Fontainhas, tio aprasivel, sobre tudo no outono, 
pela sua situação na encosta de um monte que fica 
sobranceiro ao Douro. Nem flores, nem outros cui- 
dados tem merecido este passeio sombreado por al- 
guns alamos que vão caindo de velhos! Ali me fui 
•n sentar algumas vezes sobre um banco de pedra 
nas formosíssimas tardes de setembro, e ali passava 
horas esquecidas todo entregue ás saudades do pas- 
sado e aos cuidados do futuro. O sol ia desappare- 
cendo no horisonte, e os seus últimos raios batendo 
em cheio nos vidros quebrados do convento da Ser- 
ra do Pilar, que fica do outro lado do rio, illumi- 
navam parte do theatro onde se tinha representado 
nma grande scena d'essa illiada de 1832. Esses vi- 



dros estão ainda qaehnuios pdas balai, lOo foram 
renovados, talvei de proponto, para memoria dos 
feitos que ahi se praticaram ! O meu espirito enibe- 
bia-se todo n^essas recordações da miniia iniancia \ 



e quando as sombras do erepuseiilo começavam a ea- 
conder-me o convento da Sem por entre aa névoas 
que todas as nontes se levantam das agnas do Dou- 
ro, pareda-me vér passar os noaeroeos penonagens 
do drama que ali se representou ha mais de vinte 
annos ! Tinha presentes na minha memoria todos oi 
individues e todas as cousas que elks fiwram. Q«e 
batalhas se pel^ajram ! Qiue actos heróicos se prati- 
caram de parte a parte! 6toe fraqueias lambem!... 
Q*ue de sangue derramado ! que de martjres ! Oh ! 
quanto custa a um pais a substituição de umsjrstcma, 
o triumpho de nma idéa nova ! Com quantas lagri- 
mas e com quanto sangue se rega o euninho por 
onde passam os primeiros elementos da dvilisaçio 
moderna ! . . . 

GLuando nascia a loa, pareoia-me vér ainda atra- 
vez do nevoeiro as primeiras sentinellas da Serrado 
Pilar encostiadas aos canos das espingarda» ! £ Já lá 
vão tantos annos ! Parte dos principaes actores d^es- 
sas scenas desappareceram Já. A gera^^o nova quasi 
que se ergueu do berço para ijoelhar sobre um cam- 
po de batalha Junto aos cadáveres de sena pães ! 

Gtuando ás oito horas o navio do r^pstio dava 
um tiro de peça ao toque de recolher, aootds^va eu 
doestas melancholicas reflexões ; mas, ainda sob a 
impressão do sonho, parecia-me que erun as bate- 
rias da Serra que principiavam o focç ! 

. (Qmtímia.) 

F. GoMss d^Amobim. 



Gravdbs cALonss. . 



A TXMPBBATvnA mais elevada que o homem pode 
súpportar durante um certo tempo, vaiia conforme 
os temperamentos, entre 40 a 45 graus. £ai tenu- 
peratura menos elevada dao-se acddenles funestos, 
como prova a experiência; em taes condições resol- 
ta a morte em conseouencia de fortes oongestõm ce- 
rebraes. A sobriedade tanto na comida como em 
bebida, é o mais certo preservativo contra o perigo 
dos intensos calores prolongados. 

Mencionaremos as epoehas de excasiivos calores no 
século actual. 

O anno de 1811 foi quentíssimo e os vinhos saí- 
ram deliciosos. 

£m 1818 o demasiado calor obrigou « Mámt os 
theatros durante um mes em França e n^oatros paí- 
ses. O majrtmiim do calor chegon a 35 mos. 

£m Lisboa no anno de 1819, nomeadamente no 
dia 14 de Julho sentiu-se um calor extremo* Porém, 
ainda foi maior em Julho de 1824 nos dias 17 eSO. 
O thermometro, dentro de casa á sombra e na ci- 
dade baixa marcou de 84 a 88 grãos de Fahrenheit 
em diversas horas: no dia 19 ao meio dia mostrou 
90 graus sob as mesmas condições, ás 4 horas esta- 
va em 92 e ás 5 ^ enr 94 -, o -suão abafava, e com 
poucas variações para menos se conservou assim na 
maior parte do dia 20, em que começoa a soprar 
um vento refrigerante. 

Em Julho de 1830, sobre tudo nos dias 27 a 39, 
e em 5 e 6 de junho de 1832 houve fortes calores, 
mareando os thermometros n^algumas localidades 35 
e 36 graus centígrados. Sentiram-se igualmente ex- 
cessivos no verão de 1835. £m junho de 1850 hou- 
ve alguns dias mui calorosos. 



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21 



o PANORAMA. 



161 




O CmAWAmiM BX UAlMTmUAQiàOín. 



mPkla graça de Deus (escrevia um antigo chronii- 
ta) esta cidade deRuSo tem a honra de po»iuir mui- 
to boas e formosas fontes em cada bairro para com- 
modidadè dos habitantes, n 

O cuidado que seempre«;ou na erecção doestes mo- 
numentos de utilidade publica naturalmente levou a 
ornamenfal-os de um modo adequado e conforme o 
^Oêio dos moradores e da epocha. Entre todos, sen- 
do ainda hoje interessantes os denominados da C('uz 

VoL. III. — 3.«Sbris. 



de IVtlra, do Báculo, e do palácio Lisicux, é notá- 
vel o chafarii de Saint-Macloud, adjacente á igreja 
da mesma invocação. E uma ol>ra do tempo da renas- 
cença, que nao »eiido de grande vulto fas-se recom- 
meudavel pela eleganciii, pela singeleza da composi- 
ção, tf pelas engraçadas esculpt ura», trabalho de João 
Goujon As lindas figuras denieiiino« uão sào as úni- 
cas obras do mesmo esculplor que adornam a bella 
igreja de Suint Macloud. Os baixoi relevos daspoi^iQlp 

Maio 27, 1834. O 



162 



O PANORAMA. 



tas do poente e do norte, representando oiraruiloda 
Virgem e o baplitmo de ChrislOj procedem do mes- 
mo ciniel tão puro e gracioso. 

Perto da fonte está a entrada da casa dos ossos, 
chamada de Saint-Macload, que em Ruão é o mes- 
mo que a catacumba dosinnocentes em Paris. Lan- 
glois descobriu nas columnas doeste edifício antigo 
fragmentos desgraçadamente informes de uma dan- 
ça macabra^ cujos personnagens diversos, menos mal 
conservados, appresentam os vestígios de uma arte 
singela e grosseira que contrastam mui singularmen- 
te com os ornatos da renascença no templo e na fon- 
te contigua. «Existe uma doação feita em 1228 por 
Godofredo deCaprevilIe de uns bens que lhe perten- 
ciam,»^ — una parochia de Saint-Macloud da parte 
de f5ra da cidade, » — : a igreja não passava então 
de uma ermida. Pelo fim do século 15.^ se tratou 
de erigir o templo actual e em 1511 levantou-se a 
plataforma que sustenta a torre dos sinos. 



Sua Maoestadb a Ssnbora D. Mabia II. (1) 



Sunt lacrims rernm, et mentem mortalia 
Uugunt. 

Virou.. — Bhbid. - 



Kcmota custodia ' militari , tutior publici 
amoris excubiu pergebat. 

\ 

SVUT. IH CjBSAR. 



Arcum suum tetendit. . . ot in eo paravit 
vasa mortis. 

PSALM. VII, V. .14. 

/ 

Na vida domestica a senhora D. Maria II èó ofiere- 
ce exemplos e líçôcs de eterna saudade. ^ 

Todas as horas, que podia desoccu par do exame dos 
negócios, applicava-as a amenizar a existência do espo- 
so, e a enriquecer o engenho dos príncipes. Aspr^- 
das próprias do seu sexo, e a instrucçào superior a elle 
que tinha bebido no estrangeiro, habilitaram -na pa- 
ra seguir attentamente os progressos de seus filhos, 
comparando o aproveitamento com os esforços, e des- 
pertando n^elles pela emulação a honrosa ambição do 
•saber. 

Usando de disciplina amorosa e severa ao mesmo 
passo, reprehendia a mais pequena falta, estranhava 
a mais leve om missão, e sopeava o excesso das qua- 
lidades, perigo quabi certo nas or^anisaçôes genero- 
sas e infantis. Dos mil segredos que a ternura ma- 
ternal estuda para guiar a innoeeneia, amaciando- 
Ihe o enfado dos rudimentos, nenhum se esqueceu 
de empregar, e de todos conseguiu óptimo fructo. 
A prudência, que nas almas viris acompanha sempre 
o grande affecto, nem por um momento se desarma- 
va da necessária vigilância, espreitando para ocohi- 
bir o menor gérmen de desleixo, oii de orgulho, e 
pondo em -pratica tudo o que pudesse ornar a intel- 
ligeucia, e ao mesmo tempo quanto concorresse para 
o aperfeiçoamento religioso. 

Instruídos no começo por um estrangeiro cuidadoso 
elido nas scieucias, o conselheiro Dietz, os Príncipes, 
• especialmente o herdeiro da corda, apenas este se 
ausentou depois de 1846, foram confiados á direcção 
de um português de costumes austeros e talentos pro- 



(1) Continaado de pag. 159. 



vados, o sr. Abrea«e Lima, visconde da Carreira, 
diplomata de abonados créditos. Mestres escolhidos 
com sum mo escrúpulo, e indigitados pela aptidão par- 
ticular, entre os quaes se conta o tr. Viale, sócio da 
academia real das sciencias, e empregado distincto 
da bibliotheca nacional, ajudando os desejos dos au- 
gustos pães, e aproveitando as feliies disposições dos 
alumnos, adiantaram rapidamente os seus progres- 
sos nas diversas pxovincias do saber, obtendo que a 
lição excedesse a idade, e que o calor natural dos an- 
nos'não derramasse a seiva esterilmente por ociosas 
distracções cheias de precipícios, e raras veies isem- 
ptas de futuros desgraçados. 

A rainha longe de se enfraquecer em mimos era 
a primeira a recommendar a gravidade do ensino \ 
e prescrutando a vocação de cada um media por el- 
la constantemente os conselhos e diligencias. Nem 
um só dos rasgos, que desenham a Índole, e logo da 
infância pintam os homens, escapava á penetração 
da sua vista ; e a reflexão a que os sujeitava, ser- 
via-lhe para decidir o que importava conter, ou es- 
timular, segundo as propensões e o caracter. 

Dia e noute, a qualquer hora que fosse, no recato 
do estudo, ou no bulício das recreações, e quando 
mais longe os suppunham, achavam sobre si o affa- 
go, o rigor, ou o castigo. As nobres aspirações dignas 
do sangue real, e os actos de talento e de bondade 
tinham certo e prompto o premio \ mas os defeitos 
contrários também contavam logo com a censura e 
o desagrado. Nenhuma das liberdades que prejudi- 
cam a bem regrada educação era permittida aos 
príncipes. As vaidades e lisonjas que alteram ot 
costumes, degenerando a Índole, e acostumando in- 
sensivelmente os poderosos a julgarem-se superiores 
aos vínculos mora es, foram sempre condemnadas e 
rcpellidas. Tanto o herdeiro da coroa, como os in- 
fantes aprenderam a amar-se e a >respeitar-se como 
irmãos ^ e a verem a verdadeira nobreza acima do 
nascimento nas luzes do espirito^ e nas qualidades 
do coração. 

Creados para florescerem n^uma epocha ciosa das 
garantias politicas, e ardente na sede de imagina- 
das igualdades, cuidou-se em os apropriar aos hábi- 
tos d^ella, insinuando-lhes as maneiras abertas, os 
ditos a propósito, que ministra a instrucção liberal, 
e sobretudo incutindo-lhes aquelle toque de apra- 
sivel cortezia, esmalte da jerarchia e precioso dom 
de grangear proinptas e numerosas sympathias. 

A rainha q>iiz que o amor de seus filhos ás insti- 
tuições assentasse no conhecimento da sua philoso- 
phiêi, e para isso dispoz-lhes o animo e a intelligen- 
cia afim de figurarem com lustre na scena constitu- 
cional. Netos e descendentes de grandes monarchas, 
tratou de os confirmar na devoção á pátria, apre- 
sentando-lhes desde a meninice, como incentivo, o 
glorioso espectáculo dos arrojados commetti mentos 
dos portuguezes na Africa, na Ásia, e na America, 
e o quadro das proezas de tantos varões illustres 
por armas, e virtudes nos séculos de esplendor, eatc 
nos períodos em que principia a declinação. A his- 
toria de todas as nações, e a critica das causas do seu 
engrandecimento e decadência, completaram o ensi-' 
no por este aspecto com a indispensável solidez. 

Na instrucção moral os mesmos extremos, e idênti- 
co êxito ! Religião sem fanatismo, gravidade sem af* 
fectação, e caridade sem fausto. Os exemplos mais 
persuasivos sobravam junto dos príncipes para secon- 
ser varem no caminho do justo. Abrigada do conta- 
cto da corrupção e do sceptcismo vicioso, a innoeen- 
eia da alma, (flor tão susceptível de se perder) nem 
nos livros, nem nos discursas, nem nas acções, sus- 
peitou, ou viu nunca o mal senão 



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'bf^^^ty^gir 



o PANORASfA. 



163 



horror dos seus effeitot, e no ódio da soa origem. O 
resultado destes eaidados incansáveis amadurecia já 
nos mais velhos de seas filhos, quando a morte in* 
terrompeu a soUicitude da senhora D. Maria da Glo- 
ria. No estudo das sciencias naturaes, das línguas^ e 
das artes e disciplinas roais necessárias, tanto o se- 
nhor D. Pedro V^ como o senhor infante D. Luiz^ 
tinham adiantado bastantes progressos para a rainha, : 
satisfeito o orgulho materno^, se reputar mais do que 
recompensada dos seus desvelos. 

A senhora D. Maria II, entre seus filhos, mos- \ 
trava-se igual na ternura e na vigilância. A per- \ 
feição de sen esposo no desenho e na gravura, e 
os primores de gosto com que o seu buril se enrí- ! 
quecia de obras delicadas, entretinham as horas dos ' 
seroes, faiendo-as correr breves como instantes. Na ! 
carinhosa intimidade que depois aggrava as penas á 1 
viuves, cercados da mimosa descendência do seu amor, ' 
el-rei esboçando om quadro, ou abrindo uma lamina, ; 
recordação de alguma scena, ou de alguma vista das ' 
encantadas paisagens da sua estimada Pena, e a rai- | 
nha cccupada nos lavores próprios do sexo, revendo 
no semblante o praser e a serenidade, formavam o 
retrato da mais acabada felicidade moral, podendo 
metter inveja ao inquieto e sombrio desconsolo de 
muitos interiores domésticos, nunca unidos, e sem* 
pre desditosos. 

A applicaçSo de todos os pensamentos e faculda- 
des a obrigações !»agradas, esta fidelidade á mais bran- 
da e elevada missão da alma, é que teceram á rai- 
nha a preciosa coroa de saudade, com que a venera 
a justiça popular. Verdadeira imagem da materni- 
dade extremosa, a virtude de que deu constantes pro- 
^ vas, observando^a nat!jralmente, galardoou-lhe os es- 
forços cora a admiração dos súbditos, com a roagua 
inconsolável do esposo, e com o mérito e a gratidão 
dos filhos. 

A senhora D. Maria II, como D- JoSo I^ deixou 
após si um nome de boa memoria, e uma descendên- 
cia formada pelos votoH do seu coração. A^ similhan- 
ça de D. JoSo IV, recebendo a coroa e firmando-a 
na cabeça pelo decidido auxilio dos vassallos, nunca 
olvidou que a liberdade fdra uma condição reciproca e 
expressa n^este pacto de heroísmo. Na adversidade 
tinha aprendido a compaixão pelos desgraçados, e a 
humanidade do tracto com os infelizes. 

Segundo notámos a sua infância poderia repotar- 
se uma continuada provação. Apenas entrada em uso 
de razão, atravessa os mares, e salva quasi por mila- 
gre das ciladas diplomáticas, ^epete a trabalhosa na- 
' vegação para volver ao refugio da corte de seu pae. 

Na infância em que os extremos maternos são tão 
meigos, chora as primeiras lágrimas sobre as cinzas 
da princesa, que lhe deu o ser. Mal começa a gozar- 
se da vida experimenta o desterro e a hospitalidade 
do estrangeiro ; as ddres e os receios da ausência e 
da locta do imperador pela sua causa \ elogo depois 
as penas incuráveis da perda do pae mais querido, e 
do esposo escolhido por elle. 

Os favores e as asperezas da fortuna alternam-se 
na balança do seu destino. Hoje deplora os rigores 
da sorte, e amanhã quasi sem transição sentirá a 
alegria delirante de tornar a ter pátria, familia, sce- 
ptro, e os júbilos de mãe e de esposa. Em trinta e 
quatro annos tudo viu e tildo supportou. No meio 
das crises arriscadas, e entre os cuidados tantas ve- 
zes exacerbados, quantos dias não chegou a lembrar- 
Ihe com saudade o tempo em que separada de seu 
pae, em idade frágil, descobria com os olhos arrasa- 
dos de lagrimas aquelle cabo toucado de procellas, 
que fez á gloria dos nossos navegadores, e a opulên- 
cia de três monarchas ? Gtuantas horas de melancho- 



lia a não obrigariam no sólio a suspirar pelo descon- 
fortado e solitário tecto do estrangeiro? 

aluando finalmente parecia vinda a occasião de se 
confiar no futuro e de repousar, é que Deus a ar- 
ranca dos braços que lhe tornavam ^uave o peso da 
existência ! Gtue destino singular a acompanha do 
berço até a sepultura, não cessando de lhe multipli- 
car os combates^ e não menos singular que fortaleza a 
sua para nunca desanimar, ou se eançar de os ven- 
cer ! 

Piedosa, a rainha acudia sempre a consolar. Nun* 
ca as prosperidades a ofiuscaram, nem os desastres a 
succumbiram. Contemplava os dias de bonança quasi 
do mesmo modo que olhava para os horisontes tem- 
pestuosos. Em 1848 o terremoto das monarchias não 
lhe quebrantou a constância. Erguendo contra os re- 
vezes o forte escudo da consciência esperou sem des- 
alento, que a Providencia dispozesse, não mostran- 
do fraqueza, nem ostentando vangloria. 

O cadafalso politico não maculou os annos do seu 
governo. O sangue dos súbditos não lhe manchou os 
arminhos reaes. Levou-os para o tumulo, cândidos 
e puros, como os recebeu a primeira vez na flor da 
innocencia. A sua clemência mitigou a adversidade 
dos tempos, e applicou ás feridas civis o possível le* 
nitivo. Estreitando em laço commum a realeza com 
a liberdade, converteu em protectores naturaes dos 
súbditos, e eni esteios da monarchia nova, os dous 
princípios rivaes e inimigos, que por tão longo espa- 
ço toem ensanguentado toda a Europa. 

O deposito das instituições confiado ás suas mãos 
pelo imperador na hora suprema, foi por ella fiel- 
mente guardado *, e ligada pelas promessas feitas so- 
bre o leito de morte de seu augusto pae, soube man- 
ter e continuar a obra de que elle tinha sido o le* 
gislador e a espada. 

As palavras proferidas nos últimos momentos do 
grande homem, tocadas da ternura e do interesse 
que dedicava ás prosperidades da nação e da dyna^ 
tia, entalharara-se religiosamente no peito da sua 
herdeira ^ e dittfS quasi na presença de Deus, e de 
certo sendo Deus presente, serviram de conselho e 
d^guia a todos os actos do seu reinado. 

^rphã, e entregue a si e á lealdade do pais, sem 
outro amparo, affrontóu os tempos e os perigos^ • 
por entre o agitado periodo de um governo, curto 
para a nossa ventura, mas em proporção com a or- 
dem natural do mundo, conseguiu navegar sem nau- 
frágio, e metter no porto a salvo de ruina aquelle 
milagroso baixel da Terceira por D. Pedro conduzi- 
do á victoria do Mindello até íjisboa. 

Q^ue epochas eque lances a superar! As discórdias 
da guerra mal extincta^ os ódios envenenados; as 
paixões e as suspeitas sobre as armas , as idéas exal- 
tadas e os desejos impacientes, perturbando o giro 
pacifico dos negócios; e o sedimento infeccionado das 
luctas prolongadas corrompendo, ou degenerando os 
mais nobres instinctos e as almas menos inclinadas 
aoè precipícios ! 

Eis o quadro do que se lhe ofierecia para conter e 
subjugar; eis o desenho dos inimigos com que teve de 
combater desde o começo ; nao seria emgreza para 
desanimar o animo de um general illustre, ou de um 
politico eminente? A senhora D. Maria II recobron- 
se do encontro das difficuldades, timbrando em lhes 
não ceder. , 

Aliviava o lucto de seu pae, e enchugava as la- 
grimas da primeira viuvez no afiTectuoso carinho do 
segundo esposo, quando ouve bramir assedicções em 
volta de si, e logo atraz soam gritos de rebellião e 
gritos de dõr por todos os ângulos do pais. O doce 
penhor do seu enlace já tremia nas entranhas, jq^ailwT/> 



164 



O PANORAMA. 



ào tndo fazia receiar que as salvas natalícias fcissein 
as descargas de uma batalha, mesmo ás portas da ca- 
pital ! 

A Providencia, porém, compadecida fortificoo-a pa- 
ra os trabalhos que a esperavam, concedeu-lhe a fir- 
me ea e a prudência, e completou-as pela bondade, 
títuem melhor, e mais do que a rainha attestou 
esta virtude, nao s6 perdoando, mas indo adiante do 
perdão pelo esquecimento? Q^uem mais veies, emais 
opportunamente usou da bella prerogativa do sobe- 
rano nas mouarchias livres, abrindo as portas da pá- 
tria aos desterrados, correndo a miúdo um véu espesso 
sobre o passado, e como extremosa mãe Juntando em 
roda do sólio aos que tinham nascido irmãos e filhos 
na grande família que regia? Benéfica por inclina- 
ção, e generosa de animo, nunca deixou perder aoc- 
casiâode apagar dissidências^ e de unir em uma von- 
tade s<S o« esforços dos súbditos. Repetidos teste- 
munhos o affirmam. Nâo houve lucta ou oonfiicto 
em que não manifestasse o seu desvelo a favor dos 
vencidos, espontaneamente. Gtuando cerrou os olhos 
nem um único cidadão proscripto gemia em exilio 
forçado longe de Portugal. Q^uatro annos antes ti- 
nham sido revogados os últimos rigores da lei pe- 
lo ultimo acto de clemência da senhora D. Maria da 
Gloria. ' 

A sua piedade era profunda e convencida, mas 
isempta de preconceitos. Nao se padecem as alterna- 
tivas da fortuna sem levantar os olhos e a alma pa- 
ra Aquelle, que Já e tira os impérios aòs reis, er- 
guendo a humildade, e confundindo a soberba. Exem- 
plo da sua justiça a senhora D. Maria II reconhe- 
cia a mao de Deus nos prodígios que lhe restituíram 
a terra de seus avds, nos rasgos sublimes que sujei- 
taram o impossível, e na própria constância de que 
fora dotado o seu espirito. Nascidas desinceras^cren- 
ças, e nao de uma vulgar ostentação, as suas devoções 
fugiam do estrépito para o recolhimento e o silencio. 
Por dolorosa, que a magoasse, a cruz de tantos cui- 
dados nunca a vergou, ou esmoreceu. -Os sentimen- 
tos catholicos, bebidos desde a infância no estudo e 
apropriação das máximas de uma austera educação 
religiosa, eram o seu conforto e a sua luz, no mo- 
mento de attender aos deveres espinhosos de esp^, 
de roae, e de rainha. A moral em acção e a virtude 
risonha, fructos doesta preciosa semente lançada no 
seu coração, nunca se desmentiram, nem afirouxaram. 
Praticando as verdades evangélicas nas obrigações da 
vida \ adorando a Deus na pureza dos costumes, no 
amor conjugal^ na creação vigilante echristã dos fi- 
lhos, e no ^mor zeloso dos súbditos, mereceu a sau- 
dade dos .que abençoam o seu nome, e até o respei- 
to dos que defendem a contraria cansa. 

As nações nao se enganam, quando julgara placi- 
damente os monarchas, e a portugueza entre pran- 
tos e tristezas disse quanto um povo p<5de dizer no 
sepulchro do seu rei. 

A viagem da senhora D. Maria II ás provincias 
do norte deu a medida do que devia esperar-se da 
publica affeíçâo. A^ entrada da^ villas e cidades, e 
á beira das estradas as 'populações saudando-a com 
vozes de i^ntiga lealdade nao se saciavam de a ad- 
mirar no meio da esperançosa família, que a rodea- 
.va. As bênçãos dos anciãos, os extremos das donzel- 
las, e o applauso de todas as classes, formaram-lhe 
nm triumpho permanente. A alma da rainha toca- 
da desimpathia, e grata ao enthusiasmo, acolheu os 
súbditos com brandura, e no meio d^elles apé e sem 
guardas, como uma mãe entre seus filhos, subia aos 
templos para orar a Deus, ou visitava os monumentos 
para recordar os prodígios da fundação, e a gloria 
dos incrementos do velho Portugal, 



Foram dias aquelles dos que lembram na veiU- 
ee ! Foram instantes dos qoe resaroem seenloa para 
o soberano, provando qae sobre a tem ainda roaCn 
alguma cousa para nos apontar o oén ! 

Como se previsse Já d^ali, que todas as pompas 
depressa cairiam nas trevas do sepolcfaro, a senhora 
D. Maria da Gloria tornava o sceptro tSo ligeiro 
e a corda tSo familiar, que era o idolo das multi- 
dões, não se cançando de lhes abrir &cil aoeesso. Af» 
favel com dignidade, estimando em uns ajemdun, 
e nto abatendo em ontros a humildade, tinha sem- 
pre nos lábios uma palavra lisonjeira, e nas mSos 
nm beneficio prompto para satis&ser os poderosos, e 
animar os desvalidos. Assim percorreu as villas • 
cidades dos seus estados, deixando em todas teste- 
munhos da magnanimidade do ooraçio. Depois de 
ella passar levantaram-se ao Altíssimo as oraçSss 
da pobreta consolada no fundo das suas choupanas e 
aonde os dons dos príncipes fizeram raiar momen- 
tos de pat e regosijo. A senhora D. Maria da Gloria 
recolhendo-se conhecia melhor o seu povo, e por ex- 
periência própria este formava lambem exacta idéa 
da sua rainha. Os vínculos de affecto e de obediên- 
cia tinham-se apertado tacitamente ; • a tradicçio 
monarchica, sentimento de sete séculos, aedamando 
na filha de D. Pedro a neta dos antígos reis, pro- 
mettia-lhe aquella dedicação que fez heroes em Al- 
jubarrota e Montes Claros os guerreiros do Mestre 
de Avis e de D. João IV. 

O fim de ordinário é o escolho dos fortes. O mes- 
mo Christo diante do calíx da amargura tremeu na 
carne ! 

(Contínua.) 

L. A. RsBBLLO Da Silva. 




CARRO MtAOVSTIOO BOS CBIMAS. 



Os c^REos magnéticos chinas ou bússolas terrestres 
foram inventados, segundo a Eneyekpedia jfpone- 
sa, pelos chinas mais de dei séculos antes da era 
christi. A figura automática tinha o braço sempre 
apontando para o sul. A tradicçio dís o seguinte : 
Mil e cem annos antes da nossa era alguns habitan- 
tes de Yéoò-tchang, reino marítimo do^ sul, vieran 



o PAUORAMA. 



165 



ftàSes. preto» e am deste. d« efeoliante : o ministro 
Tchéoa-kottiig» em retribuiçSo, Ihet fei presente de 
«ineo carros leves qoe indicavam o sol para largas 
viagens. Na dianteira doestes carros havia ama fi- 

Sinnha qM» foise qual fosse o lado para onde se 
rigissem eiteSf voltava-se sempre para o sul iodi- 
oando-o com a mio* 

. £ste invento nSo era de pouca utilidade para os 
viajantes qoe tinham de percorrer vastos espaços 
deabaUtadoi, onde as veredas, quando as havia, se 
erusavam em oppostas direogdes: foi attribuido a 
Hoang-tiy e fundava-se no conhecimento das pro- 
priedades da agulha magnética. Parece que também 
nos paneios e nas cidades se usava doestes carros, 
havendo*os de diversos tamanhos e preços. Nos fu- 
neiaes de Tching-^ang apparecen um grande car- 
ro de pedras preciosas^ puxado por um carrinho ma- 
gnético. 



ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA. 

MsMOaiAS Da VILLA DK AnmATOlOS. 

xxn. 

MaUa de Frtiot. 

EvTmB os terrenos baldios ou logradouros dos mo- 
radores de Arraiolos o principal era a Matta, cha- 
mada de Preiof, lita na freguesia de Santa Anna 
do Campo. É tradicçSo muito em voga na terra que 
esta matta fora legado deixado ao povo por pessoa 
particular para bastecimento de lenhas e pastagem 
dos gados. NSo nos inclinamos a esta tradicção, e 
assentamos que este baldio teve a mesma origem dos 
outros pertencentes ás demais villas é cidades, isto 
éj que foi terra desfructada sempre em oommum des- 
de o principio da povoaçio, sem que fosse em al- 
gum tempo anterior possuída por pessoa particu- 
kr (1). 

Por varias veies se tem movido duvidas sobre por- 
ções da mesma matta, que os visinhos pretendiam 
incorporar em suas propriedades*, mas a camará aco- 
dia e obstava a estas usurpações (2). 



(1) NSo nos fat peso a favor datradicçSo ovél-a 
asseverada vagamente na vereação de 16 de março 
de 170i^ e na de 16 de novembro de 1710, etc. 
mencionadas no texto. Muito menos ainda a me- 
moria que a camará mandou á academia real da 
historia portuguesa em 1722 quandoaccrescentaque 
a Matta fora deixada ao povo por certa mulher, ir- 
mi de João Garces, o fundador do convento dos 
Lóios ^ . porquanto esta asserçSo é evidentemente 
ialsa. Para o provar bastará uma breve combinação 
de datas. A primeira pedra do convento dos Lóios 
foi lançada em 1527, vivendo JoSo Garces, e n^es- 
te mesmo tempo deviam viver seus irmSos, ou a 
serom fallecidos, conservar-se d^elles mui fresca me- 
moria. Como é pois que no anno antecedente (1526) 
em questSo suscitada sobre a posse de uma porção 
da Blatta de Fretos com os Begoinos (eremitas de 
S. Paulo) do convento de Santa Margarida junto 
de Évora, não produsiu a camará outro documento 
a seu favor além da posse immemorial? (Doe. no 
cartório da camará.) 

(2) No cartório da camará, no masso, que con- 
tém documentos sobre a Matta de Fretos, conser- 
vam<se vários sobre questões doesta natoresa. 



Da mesma maneira foi origem de graves contro- 
vérsias o modo de aproveitar a mesma matta, pre- 
tendendo uns que convinha cnltival-a, e outros de- 
fendendo que mais valia aproveitar-lhe sd os pro- 
ductoi espontâneos, que são lenhas e pastos. 

Este ultimo systema era seguido nos fins do sé- 
culo 17.^, quando contra elle requereram os procu- 
radores dos mesteres em camará de 30 de maio de 
1693, uoue a Matta de Fretos se repartisse em coo- 
relias pelos moradores para se cultivar, visto qoe 
criava muitos lobos e javalis, etc. (3) » Estas raidet 
foram attendidas, e nosannos seguintes se repartiram 
as coorellas (4). 

Com a questão da cultura se travou outra sobre 
a propriedade da matta. Pretendeu-se discernir se 
a matta era propriedade do concelho ou do povo. 
GtuestSo que em ra^ão da nossa antiga organisa^ 
municipal, não era tão ociosa, como porventura ho- 
je parecerá. Porquanto a ser do povo deveriam as 
coorellas para a cultura ser distribuidas pelos mora- 
dores grátis ^ e a ser do concelho podia e devia (se- 
gundo alguns) exigir-se um certo preço por cada 
courella, mormente porque pagando-se a el-rei a 
terça parte das rendas do concelho, defraudar-se-ía 
esta terça se as oourellas se distribuíssem grátis. 

Vejamos o qoe se passou em camará a este res- 
peito, a Aos 16 dias do mes de Março de 1701 ân- 
uos em vereação pareceram os procuradores do povo, 
e os mais companheiros abaixo assinados, e por el- 
les foi dito que attendendo ao bem commum, foi 
resolvido em Camará o anno passado que se semeas- 
se a Matta de Fretos, e se repartiu huma folha, que 
está semeada, e sem embargo que viesse ordem de 
Sua Magestade, que impedia esta resolução, elles a 
embargaram com o fundamento que a Matta e uti- 
lidade delia era sua, por ser deixada ao povo por ^ 
pessoa particular \ e aggravando do Doutor Juiz de 
fora de lhe não tomar conhecimento dos embargos, 
tiveram provimento na ouvidoria, em o qual se or- 
denou ao Juis de fora que se conservasse o povo na 
posw da Matta, e que sem embargo da ordem se 
cumprisse a resolução da Camará, e se fosse semean- 
do ; e correndo letigio foram recebidos os embargos 
d^povo, e se vai continuando com a causa, a que 
tem dado prova, e se semeou a folha, que se repar- 
tio pêra este anno ^ e que por ser tempo de se dar 
folha pêra o anno seguinte, e o povo ter adquirido 
direito pelo desagravo da ouvidoria, e se ir semean- 
do a Matta, e assim o tinham já requerido ao Dou- 
tor Juis de fora que se repartisse nova folha \ reque- 
riam a elles senhores vereadores a que os acompa- 
nhassem, e resolvessem a partir outra folha, não co- 
mo terra particular do povo, porque de outra sorte 
protestavam de lhe não prejudicar disposição em 
contrario ; e requereram se lhe mandasse estender 
por termo este requerimento, e este protesto, de que 
fiz este termo, que elles assinaram. £ visto pelos 
vereadores o dito requerimento disposeram que se 
repartisse nova folha, de que fis este termo^ que to- 
dos assinaram, etc. (5) uAos 23 do mes de Junho 
de 1701 annos em verea^o foi proposto pelo Doutor 
Juis de fora aos officiaes da Camará que a Matta 
de Fretos estava tombada ao Concelho, e se tinha 
dado á cultura graciosamente ao povo estreboindo- 
se por coirellas^ e que estando nestes termos se lhe 
havia de impor alguma pensão pêra o Concelho pe- 
los ditos officiaes respeitando ao lucro, qoe se tira 

rS) Livro das vereações de 1688 a 1694, fl. 174. 

(4) Livros das vereações. 

(5) Livro das vereações de 1700 a 1704, fl. 44vi , 

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166 



O PANOBAMA. 



da dita Matta, e a terça que a respeito do dito ul- 
cro poderia ter ElRey : c pelos ditos officíaes foi di- 
to que seus antecessores estavam notificados por or- 
dem da Janta do Estado de Bragança a que se não 
intrometessem na dita Matta, por andar correndo 
pleito coro os procuradores do povo sobre ser ou nao 
a dita Malta do Concelho, ou do povo, e que com 
os mesmos officíaes da Camará corre causa \ por cu- 
jas ratões se nâo intromettiam com a dita Matta, 
em quanto Sua Magestade nao mandasse o contra- 
rio, nem fizeram repartição alguma da dita Matta 
no anno passado, nem no presente, respeitando a 
ordem da Sereníssima Caza de Bragança, nem se 
meiteram cum a dita Matta (1)^ e por esta causa 
nao consentiam na proposta do Doutor Juiz de fora, 
por lhe não competir cousa alguma da dita Matta, 
etc. (2) » Em camará de 3 de novembro do mesmo 
anno de 1701 requereram os mestere», (procurado- 
res do povo) que era utíl se vendessem os pastos da 
Matta de Fretos para as necessidades do concelho e 
povo, porque não se vendendo eram comidos pelos 
gados dos particulares; e pelo syndico da camará foi 
requerido o mesmo ; n que os ofíiciaes da camará 
responderam que lhes parecia justo o seu requeri* 
mento ^ mas^que estavam inhíbidos por uma carta 
da junta do estailo de Bragança para poderem con- 
sentir n'*elle, especialmente pertencendo a Matta ao 
povo^ e que assim podiam requerer á junta a licen- 
ça para n venda, c em quanto a alcançassem po- 
diam requerer na audiência da correição o que lhes 
parecesse para se nâo comerem as pastagens pelos 
gados dos particulares (3). \ resolução da junta do 
estado de Bragança foi a provisão de 16 de março 
'de 170o, que ordena se não cultive mais a Matta 
de Fretos, e que fique para pastagens, como d'an- 
tes (4). Mas é certo que esta resolução não foi cum- 
prida, por quanto em vereação de 16 de novembro 
de 1710 perante o ouvidor u requereram os Miste- 
res que attenta a desigualdade da repartição da 
Matta de Pretos, e devendo todos os moradores en- 
trar igualmente, pois a dita Matta foi legado, que 
se deixou aos moradores deste povo para seu uso, 
que se revogassem as posturas, que estavam feitas 
sobre a dita Matta, e se fizessem outras de novo. E 
o ouvidor e mais Camará mandaram que se repar- 
fi^ise a dita Matta em sete folhas, e cada uma des- 
tas em courellas de dez alqueires^ as qúaes seriam 
repartidas pelos officiaes da Camará de* graça aos 
moradores desta villa, Ilha e Valbom, etc. (5) 

N^esle sentido foram feitas as novas posturas so- 
bre a Matta em vereação de 28 de janeiro de 1711 
com as.sÍ!ilencia do ouvidor, da camará^ nobreza e 
povo (6) : e assim continuou a cultura da Matta nas 
sete folhas, sem embargo da provisão da junta da 
casa de Bragança, appresentada pelo ouvidor em 

(1) Islo é contradictorio com a vereação de 16 
de janeiro de 1700, na qual com accordão da no- 
breza e povo se mandou repartir em courellas a Mat- 
ta de Fretos para se semear (liv. das vereações de 
1694 a 1700, íl. 185 v.)- com a vereação de 21 
de agosto do mesmo anno, em que mandaram pren» 
der a Manuel Lopes, procurador que foi do povo o 
anno passado, por ter dado na Matta de Fretos cou- 
rellas a quem lhe pareceu (liv. das vereações de 1700 
a 1704. fl. 17 v.) ^ e com a vereação de 16 demar- 
co de 1701, citada no texto. 

(2) Livro das vereações de 1700 a 1704, fi. 58 v. 

(3) Ijivro idem, 11. 67. 

(4) Livro do registo de 1700 e 1721, fl. 84 v. 
[ò] Livro das vereações de 1710 a 1717, fl. 21. 
[6) Livro idem, de fl. 26 a fl. 31. 



vereação de 16 de novembro de 1718^ a qual orde- 
nava se nao caltivasae mais a Matta de Fretos, e 
ficasse no uso, que era antigamente para o povo (7); 
e sem embargo igualmente do parecer da nobreta e 
povo, dado em vereação de 24 de julho de 1742 
4( que é convenientisgimo que a dita Matta de Fre- 
tos se não reparta em courellas, nem se fabrique; 
mas que se conserve infructífera, como se usava del- 
ia nos annos antecedentes, sem que se dê á cultura, 
nem se fabrique, para qae s6 se possa usar dos pas- 
tos e lenha, como sempre delia usaram (8). » 
' O que ultimamente era admittido sem controvér- 
sia era ser a Matta terreno dé que o povo era pro- 
prietário, e a camará administradora (9) -, dVode 
veio que as courellas se distribuiam gratnitamente 
aos moradores,, salvo em alguma occasião de urgên- 
cia, como quando em vereação de 19 de fevereiro de 
1777 com accordão da nobreza e povo se determi- 
nou que se vendessem metade das pastagens da Mat- 
ta de Fretos, e as courellas, que se distribuiam ao 
povo, para o fim de desempenhar o concelho^ fican- 
do a administração doesta renda a cargo de uma 
cummissão composta do juiz de fora, do vereador 
mais velho, de um dos procuradores do povo, e por 
parte do mesmo povo também do doutor Pedro Ale- 
xandre Corrêa, com thesoureíro separado do da ca- 
mará, com seu lívro de receita edespeza, etc. e com 
condição que desempenhado o concelho, cessava lo- 
go a dita renda (10). Dos pastos da Matta, também 
antigamente comidos grátis, era nos tempos moder- 
nos vendida (metade) por provisão da junta de Bra- 
gança de 2 de setembro de 1782 a beneficio das cal- 
çadas da villa (11). 

Ultimamente entendeu a camará que convinha 
mais aforar a Matta *, e assim o fez dando de foro a 
parte d^ella denominada o Maiiuo a João José de 
Almeida Cardoso do Valle Mexia por preço de 
38;^000 réis em cada anno, e se lavrou escriptura 
em 13 de janeiro de 1836, sendo confirmado este 
aforamento pelo conselho do districto em 4 de ju- 
lho de 1839. A Matta propriamente dita, dividida 
em duas courellas foi aforada a Manuel Mexia Lo- 
bo Corte Real em 13 de dezembro de 1835 por 
33j^600 réis em cada anno^ e foi confirmado o afo- 
ramento pelo conselho do districto em 13 de agos- 
to de 1839. 

J. H. DA CVMHA RiVABA. 



VIAGEM AO MINHO. 

CAPITUIXI VII. 

O tkealro de Santa Catharina e o theairo do SaH" 
ire, — JEéSpUndores e decadência do melodrama. — 
Eu e Alphonte Karr, — Actor et de outro tempo 
e como honraram a arte. — O Porto é a terra que 
tem maior numero de mulher e$ bellas, 

Chboou, emfim, a suspirada noute em que devia ter 
logar o espectáculo beneficente^ no theatro de Sanim 

(7) Livro das vereações de 1717 a 1723, fl. 37. 
Não se declara aqui a data doesta provisão, e p6de 
ser que seja a mesma de 16 de março de 1705, atras 
mencionada no texto. 

(8) Livro das vereações de 1742 a 1743, fl.36. 

(9) Vereação de 10 de novembro de 1804, (Uv. 
competente, fl. 81 v.) 

(10) Livro das vereações de 1774 a 1784, fl. 44. 

(11) Livro do registo de 1775 a 1787, fl. 171, < 
liv. das vereações de 1801 a i8Q8, fl 81 



1801 a 1808, fl 81 V 
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o PANORAMA. 



167 



Catharina. Eadecído«me sempre pelMprimeiraft im- 
pressões que sinto, á vista das cousas, ou das pessoas, 
• raras veses me tenfao enganado. 

Q.uando cheguei ao theatro achava-me com dispo- 
sições favoráveis para acceitar bem tudo quanto visse 
e ouvisse. 

Elntrei na platea. A impressão triumphou do 
meu bom humor. Achei o theatro péssimo. A sala, 
de forma quadrilonga, estava fracamente alumiada 
por um lustre de mau gosto. As pinturas feitas a tin- 
tas grosseiras, e representando vulgaridades, mais pa- 
recem borrões do que outra cousa. O palco está le- 
vantado de modo que, para se v^r todo o corpo do 
actor, fica o espectador empoleirado e entalado n^um 
banco diabólico, e com os pés íluctuando no espaço 
dous palmos acima do niveí do terreno. A constru- 
ção interior do theatro é soffrivel porque de todos os 
lados se vé bem, e se ouvem distinctamente os acto- 
res. Òs camarotes sSo similhantes aos do nosso thea- 
tro do Salitre. 6tuanto ao resto se pleiteassem qua- 
lidades e bellesas, o Salitre alcançaria um triumpho 
glorioso, se o seu rival portuense não vestisse cami- 
sa lavada. 

Na regularidade das representações não ha diffe- 
rença ^ iio theatro de Santa Catharina' representam 
quando querem ; no do Salitre quando podem. Mas 
pelo que respeita aos actores a questão muda intei- 
ramente. Os do Porto são mediocres, os do Salitre 
eram sublimes. £ quando digo sublimes, desejo que 
o leitor tome a expressão na conta em que a deve 
ter como sincera e desapaixonada que é. Não fallo 
agora desse Salitre dos nossos dias, desse theatro im- 
pertinente, bulhento, borrascoso e degenerado de 
suas antigas grandezas \ não fallo desse theatro espú- 
rio que se esqueceu das suas tradições gloriosas, apa- 
gando as memorias d^um passado illustre entre as 
suas Tuinas de papelão! Fallo d^aquelle Salitre d^ou- 
tras eras, d^aquelle theatro cujos triumphos espan- 
taram ahumanidade! Gtuando artistas com pulmões 
de ferro e tacões de bronze, trovejando maldições, 
vomitavam ondas de sangue sobre as taboas miste- 
riosas d^aqnelle palco tenebroso! Oh tempo! tem- 
po ! O melodrama, que se arrasta hoje como uma 
cobra pelas cavernas mais recônditas de algum thea- 
tro de curiosos, passeava então á luz de mil cotos de 
sebo as suas galas opulentas, em toda a pompa da 
sua magnificência ! Os bandos de conspiradores, su- 
midos em longos capotes luctuosos, atravessavam mysr 
teríosamente a scena, quando o amante atraiçoado, 
berrando como um touro, varava os bastidores e as 
bambolínas com um espadão de seis covados. O ty- 
rano, com cara de lobo cerval, apparecía vergando 
sob o pezo das armas, e produzia uma sensação fre- 
nética, vertiginosa e universal ! O malvado, depois 
de vêr triumphar a virtude d^um modo impossível, 
soltava dous rugidos pavorosos com voz cavernosa e 
rouca, engulia um caneco de veneno, e cravava um 
facão no estômago ! Então é que era o bonito ! As 
paredes do theatro chegavam a rachar com as explo- 
sões do enthusiasmo. As palmas eram como osechos 
furibundos da tempestade ^ os bravos, verdadeiros fu- 
racões, produziam mais estrépito que cem peças d^ar- 
tilheria. Morria-se de prazer! As mulheres desmaia- 
vam nos camarotes, as creanças auxiliavam a mani- 
festação geral com gritos de terror, e os pães de fa- 
mília, de boca escancarada, cabellos erguidos e olhos 
pasmados, roxos pela compressão eléctrica d*uma sa- 
tisfação gigantesca fasiám tremer o chão debaixo dos 
seus pÀ. Oh saudoso melodrama, porque passaram 
tão depressa os teus esplendores ? Tu eras o refugio 
da virtude! Se o vicio a dominava em toda aparte 
restavas-lhe tu, como abrigo certo, aonde ella latia 



prodígios de heroísmo ! E hoje f . . . Malvados os que 
te arrastaram a uma decadência tão espantosa^ com 
o miserável pretexto de que eras uma fo^ja de pu- 
nhaes e um alambique de venenos! Não chores, po- ^ 
bre melodrama, não chores, que ainda tens amigos 
fieis que não te desamparam. E esses mesmos que 
te condemnam bem poucas vezes deixam de te sacri- 
ficar nos seus escriptos. 

£u adoro-te com o teu cortejo de paixões vulcâ- 
nicas, com as tuas adagas epunhaes, com as tuas es- 
padas e pistolas, com os teus venenos e os teus sub- 
terrâneos, com as tuas abobadas do ferro em braza, 
com as tuas paredes húmidas e as tuas luzes morti- 
ças, com as tuas portas falsas e os teus alçapões mis- 
teriosos, com os teus ouropéis, com. as tuas cadeiras 
e as tuas grades, com os teussepulchros, com òsteus 
cemitérios e as tuas chácaras lastimosas^ adoro-te, 
melodrama, ainda que te veja de forca levantada no 
meio do theatro^ ou de espada na mão, a chacinar 
gente como um selvagem, a escorrer sangue humano 
como os tigres e os leões dos circos da Roma de Nero. 

Eu e Alphonse Karr somos os dous homens que 
eu conheço mais independentes d Vste século. 6Loan- 
do as grandes intelligencias de todos os paizes se 
pronunciaram contra o género melodramático, Al- 
phonse Karr, o espirito fino da França, o moralis- 
ta profundo, o romancista caprichoso, respondeu ao 
pronunciamento escrevendo um melodrama. Gtuan* 
do em Portugal se profere a pena de morte contra 
as representações do melodrama, eu que não tenho 
talentos para responder como Alphonse Karr, ve- 
nho á luz da imprensa fazer a minha profissão de 
fé melodramática. 

O melodrama de Alphonse Karr está escripto se- 
gundo todas as regras da arte. Os pu nhaes, o vene- 
no, os assassinatos e os túmulos encontram-se em 
quasi todas as scenas. Apparecem e desappareoem 
os personagens sem s^ saber porque, nem para que ^ 
dizem tudo quanto lhes parece com grande despro- 
pósito e sem vir a propósito, e fazem tudo quanto 
manda o auctor. E como eu entendo o melodrama. 
Alphonse Karr é um escriptor de bastante senso 
commum *, eu desejava poder mostrar-lhe a minha 
sympathía, fazendo representar o seu melodrama nOs 
theatros de Lisboa. Mas, com que gente? Aonde es- 
tão os artistas com pulmões tão fortes que não es- 
tropiem a idéa do escriptor com as suas vozes de 
falsetes f Oh ! que já não exista aquelle famoso An- 
tónio Joaquim, sapateiro e actor, que fez as delicias 
e o terror de nossos pães 1 Aquillo é que era ho- 
mem^ e sobre tudo aquillo é que era voz! Umanou- 
te representava-se uma peça de selvagens^ António 
Joaquim era um rei gentio, que apparecia magni- 
ficamente coberto de pennas, com uns calções á 
Luiz XIV, e um manto á romana \ Sobre tudo isto 
um monstruoso capacete de plumas. Antes da hora 
de começaf o espectáculo, António Joaquim apesar 
de vestido de rei gentio, saiu segundo costumava 
todas as noutes, e foi ao botequim visinho mostrar 
os seus magníficos adornos, e beber duas ou três phi- 
lípinas. Acabou de tocar a orchestra e António Joa- 
quim sem apparecer. Foram ao botequim e surpre- 
henderam sua magestade gentia investindo com o 
quinto copo. Saiu a correr e entrou em scena per^ 
turbado por tal modo, que em ves de se assentar no 
seu throno tomou logar no primeiro degrau. wMais 
acima ! m gritaram da platea. El-rei que era um 
homem ferocíssimo ficou ainda mais desconcertado, 
e notando o sitio aonde estava; subiu outro degrau. 
u Mais acima ! » tornam a repetir da platea. Antó- 
nio Joaquim montou outro degrau^ já muito azeda 
cm o. .Tbo. do p«blico. »^^,|íl7Íj(5«!5gle 



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O FAIHmAMJL. 



m mesma voi implacável nas aoas exigências. O rei 
gentio perdeu a cabeça, e trepou para cima do thro- 
DO. Fatalidade! as plumas do capacete incendiaram- 
se em uma das luses do bastidor. £l-rei que tinha 
que vir declamar á boca da scena, sentindo fogo na 
cabeça atira-se pelos degraus do throno, embaraça- 
se na capa romana, dá dous saltos e enfia de cabe- 
ça para baixo pelo buraco do ponto. O eharivari 
horrivel que fazia o publico não ba penna que o pos- 
sa descrever ! 

O movimento restituiu o sangue, frio a António 
Joaquim, que entrou de novo em scena pela porta 
do fundo» O publico recebeu-o com gargalhadas, 
mas o actor que se conhecia^ estava certo do seu 
triumpho. Começou a declamar . . . declamar ! Era 
uma trovoada. Os bravos principiaram também lo- 
go. António Joaquim devia apunhalar uma mulher, 
n^esse ponto é que elle esperava os espectadores. 
Empunhou a victima pelos cabellos, arrancou um 
punhal de três palmos e espetou-lh^o debaixo d^um 
oraço. A victima caiu e António Joaquim começou 
a dar-lhe punhaladas do estômago até ao pescoço. 
Choraram todos de enthusiasmo. O artista é cober- 
to de applausos e sáe triumphante. No outro acto 
passava-se a scena em um cárcere tenebroso, como 
de rigoroso estylo nos melodramas de saudosa me- 
moria \ estavam ali dous amantes, que tentando fu- 
gir da prisão deviam segundo a peça ser surpre- 
hendidos pelo.carcereiro. Este, porém, em vei da vi- 
gilância que devia ter, adormeceu e os amantes fu- 
giram á sua vontade contra a intenção e opinião do 
auctor. Dos bastidores aguilhoavam o carcereiro ooni 
duas varas immensas, porém o homem dormia sem 
cuidados. GLue se havia de fazer? O publico princi- 
piou a insurgtr-se. O.actor acordou, e nao vendo os 
prisioneiros entendeu que devia fugir também, at- 
tendendo ao comprometimento em que se achava. 
O povo applaudiu a sua resolnçAo e pa