(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "O Panorama; semanario de litteratura e instrucção. v. 1-5, maio 6, 1937-dez. 1841; v. [6-8] (2. ser., v. 1-3), jan. 1842-dez. 1844; v. 9-13 (3. ser. v. 1-5), set. 5, 1846-dez. 1856; v. 14-15 (4. ser., v. 1-2), jan 1857-dez. 1858; v. 16-18 (5. ser., v. 1-3), [jan.?] 1866- [dez.?] 1868"

tkpt 


«5^sí*^ 


<«^^ 


^4^^^^^ 


M'»,£r*\ ^ Ji^^ 3 r^,jJ : 


1 


K 


^ 






1 


^ 


£ 




^^^^ 


IK» 


^^^: 


^^á 




^^^^S 


^w 


^^^?2r^ 


r^^^" 






^ 


^S 


^ 


^^^ 


^^^^P 


m 


^8 


1^ 


^^^ 




S 


Í4^^ 


i^ 


^Pí 





vi^^íi^ 





«0.Í 





h«^ 







i^/? 



o PANORAMA. 



JORNAL LITTERARIO E INSTRUCTIVO 



^ocíeiíaíie iiJropagaííora íiog CTonDccímcntosí Síteííí. 



Vol. 2.'' — Serie 2/ 




PUBLICADO DE JANEIRO A DEZEMBRO DE 1843- 



LISBOA. 

NA TYPOGRAPHIA DA SOCIEDADE. 



Largo do Pelourinho N." 24. 



PROTECTORA STTA MAGSSTADB FIDELÍSSIMA 



^K^^ 



C; .A lUiiJrf Jl 



^ji.-* 



3 






MEZA DA ASSEBIBLEA GERAI.. 
PrcsíWmí<.= Excellenlissimo Sr. CONDE DO FARROBO. 
Vice-presidente = \\h\HThúmn Sr. J. ÍM. DA COSTA SILVEIRA DA MOTTA. 
•5tírí-ióí=/<)=Illuslris5Ímo Sr. BARTHOLO.MICU DOS 5IARTVRES DIAS E SOUSA. 
■''-•"'; r /•Vce-.'5'f67-í/ano = Illu.stiissirno Sr. AUGUSTO XAVIER DA SILVA. 

O O C 1 > (l DIRECTORES. 

O I « 1 *- " Anloiiio Mari.i Gonieji. s=!M. A- Vi.iiui Pedra. = Jorge César de Figaniére. 

DIRECTORES SUFPXENTES. 

Barlliíilumeu Loiírenro Napoleão ."\Iarlelli. =J. .M. ila C. Silveira ila Mot|a. = José Joaquim Lopes. 

COJ&HESPOIlfDENTES DA SOCIEDADE. 

Iteino,... Aerantks Os lllm.os Sr." José Aiiolinario da Silva. 

'• Amíkante. — — Blanuel Jo.-é Goni,aIves Pereira. 

•> Aljueida. — — Juão Anlunio da Silva Marques. 

„ AvEiuo { ^ 5 Caniliilo Xavier de Carvalho. 

í 1 Luiz Maria dos Sanlo.s. 

» Bríg.íni; V — — .4nloiiio iaíc Ribeiro Franco. 

" Bra(í 1. — — Luiz do Amaral Ferreira. 

" Bai;ci;li,i).s — — Anlonio Joaquim de .Miranda Villas-boa». 

" Ch.íves _ — Francisco Ignacio de Cid Mello e Caslro. 

•■ Coimbra — — I. M. S. Paula. 

n Covilhã — — José Manuel Pereira de Carvalho. 

» Caminha — — Anlonio Rodrigues- d'01iveira. 

» Castellu-íi iiA>cu — — Jo;iquiiii Bernardo de Sousa Gomes. 

n Estremoz — — José Francisco Agnélo de Sousa Gajo. 

» Elvas — — José Nic(.dau de Sousa. 

t EvoRA — — José Joaquim Ramos. 

FiGCEiKv I _ _ < Ricardo Din.z Homem. 

í I J0.I0 da Siha Soare.5 de Menezes. 

!;.,„„ ' — — I Manuel Monleiro d' Azevedo Penteado. 

■■ r ARO I < t - II] I 

l J João Pedro La mini. 

» Guimarães ) F.ancisco José da Cosia Guimarães. 

" Lacíos Francisco Xavier Baplisla. 

» Lameoo Francisco Corièa da Silva Menezes. 

>• MoN(,'Ão — Theolonio José Bi.lilho. 

■• M1HANUEI.1.A — ■ José Anlonio de Caslro Moraes. 

\ I J.isé Mailins da Costa Portugal. 

» Porto [ < Joaquim Torcalo Alvares Ribeiro. 

l / Francisco Ignaciu Pereira Rubiào 

» Peniche ' — Manuel AiiUnio Monleiro. 

» PoRTALECRE — Jusé ftlaria de Pina e Carvalho. 

» Penapiel — Simão Rodrigues Ferreira. 

» Sakkuikmal — Paulo R< meiro da I'"ouseca. 

» Setúbal Rego & Irmãos. 

n Santarém — António Gonçah es d' Almeida Uino- 

n S- TiiiACd DE cACl■;.^í P.® José Caetano da Fonseca. 

>* Tavira João de Paula <'(»rrêa. 

o TuRREs-.\i)VAs — Cândido Joaquim .Xavier Cordeiro, 

,r \ t Manuel Feri eira Quiques. 

» V IZKU \ — ) _ , „ , ' 

í 1 Dionizio de Sousa Loureiro. 

n ViLLA DO coKDE — José Fernandes Thiiiié da Silva. 

>> ViLLA-REAi — Anlonio Ludovico Guimarães. 

" Valeni.a — José Maria d'.-\ndrade. 

Ilhas Faial — Francisco da Ciuz da Silva Reis. 

,, / 1 António Pedro d'Azevedo. 

n M VOEIRA I- I ,, , , . ,, , 

I — \ Alexandre l.lltz da Cunha. 

c, j â Giiillieime Aniíiisto Htutze. 

» S. Mii;UEL ( — — \ _ , , 

í \ Sebiisliao I udury. 

» Terceira ' — — ' Pedro Giinçalves Franco. 

Brazil ... B viit \ ■ — ' Joaquim .Anlonio Nogueira. 

»» ('e \rá . — Manuel .Antoni'» da Rocha Júnior. 

II MiRAMiÁo. — — João Gual liei lo da Costa. 

II Parã — — Francisco Gaudêncio da (^osla &. C.* 

» Pbrnamhiio — — Francisco Seveiiano Ucbello. 

Uf , Sousa Si C.^ 

10 DK JAHEM10 > Jr-eiii 

\ < L. & II. Laemniert. 

11 PoRTo-ALccRi. — — * Anlonio M.iria do Amaral Ribeiro. 

" Cin«i)E iio Rio-iaiAM>E 110 ML .... — — Jlaiuiid Jo-é Barreiros. 

Françii. . . Pu. is — — L P. Aillaiid. 

/níl/aí( rrn. 1,1'Miiiis — — Fosler irm.ios. 

» Livr:iíi*onL — — Anlonio Julião da Costa. 

" Bristul — — António Barão de Mascaienh»». 



54 



O PATSORAMA. 

JORNAL LllTERAUlO E INSTRUCTIVO 



.« 



PLBI.ICADO- 



gpilíi âí)j:^^^BÍIi íp:iíi):piii},iú)^^ií aíiíâ ;sriJjí])>^te31íi">í)i} i6Íl^^lJ> 



AOS L3I--'OK3S ^^^S- 



TTi>TiTjmTsi'5í4í?rri:jr;Tr; 




F.ir.nRAU os periódicos, accomodando- 
se aos usos sociaes , a entrada do an- 
no , como a celebra o povo com boas 
festas e folgares. Convém que a litte- 
ratura mostre , cm tudo , um reflexo 
de nacionalidade, e que esta, mais 
que as outras , a que chamam popular , não o sen- 
do em norae somente , fira uma corda ora de ale- 
gria ora de tristeza , segundo a Índole das mais no- 
táveis commemorarões annuacs. 

\esla congratularão de etiqueta ao anno bom vem 
disfarçada outra , cazeira e mais sincera , com que 
cada periódico a si próprio se festeja , e o cuidado 
com que atlento a prolongar a carreira dos seus 
dias, esquadrinha cuidadosamente, para fugi-los 
ou expulsa-los, os achaques peculiares da sua es- 
pécie. Concordam todos quantos tem versado este 
ponto em que o segredo ou o remédio inteiramente 
se cifra no agradar aos leitores , dos quaes quasi o 
mesmo dizem que diz Victor Hugo , no prologo de 
Ruy Blas, dos espectadores; e da escriptura o que 
o auctor franccz , do espectáculo. Como elle assen- 
tam dividir os leitores em três classes- — o povo — 
as senhoras — e os pensadores: — o povo que pede 
sensações ao escriptor : as senhoras que exigem del- 
le , e só lhe agradecem os lances dramáticos , o as 
grandes emoções: e os últimos, acaso os menos 
contentadiços, que á fina força querem idéas e pen- 
samentos , c que com outra iguaria se não bãode 
dar por satisfeitos. E a tantos paladares , ás vezes 
bera estragados , tem de lisongear o amargurado 
Jornal I Esforço terrível, de que ao cabo de 52 se- 
manas, que conta o anno, nem sempre sahem inteiros 
os veteranos da arte , e os mais experimentados. 

E todavia a todos estes obstáculos vão superando 
os nossos jornacs litterarios : os velhos não cedem 
o campo , c novos combatentes vem afiluindo a el- 
le. Que significa esta concorrência? Que sincoenta 
mil espectadores estão animando esta lucta , que 
sincoenta mil espíritos procuram o alimento da in- 
telligencia, e que sincoenta mil cabeças estão ex- 
perimentando o influxo saudável da epocha , e ac- 
cumulando para o futuro cabedaes que não bãode 
ser desuteis ao paiz. O povo lè. Faltará aos escrí- 
ptores — e ao maior numero falta , infelizmente — 
philosophia c intenção : mas isso mesmo, que se es- 
tampa e publica sem propósito moral, aproveita pe- 
la maior parte ora ao povo que lá o converte ao teu 
fim , ora aos escríptores de verdadeiro talento e vo- 
cação , que se desenganam a ergucr-se do silencio 
em que dormem, para apontar o caminho aos que 
vão errados. 

Não desalentemos pois , porque o passo dos me- 
lhoramentos tem sido sempre assim : remisso e gra- 
dual. A escripta veio primeiro dar luz, cor, for- 
ma , vida , expansão ao pensamento humano. Esta 
descoberta , tão admirável e juntamente tão inno- 
cente , teve detractores — os encomiastas do tempo 
Janeiro 7—1843. 



que então podia chamar-se passado. Gabavam esses 
o methodo , antigo , de aprender de cor scni o au- 
xilio dos caracteres ou signaes da voz, e allribuiam 
a esta novidade perigosa — a escripta — a decadên- 
cia dos costumes, e o ruim espirito da mocidade'. 
jMuito depois , no século 7.° , veio outra invenção 
também muito necessária, a da penna. Seguiu-se- 
Ihe , no meado do século l-í.° , a descoberta do pa- 
pel de trapos, e quasi no meado do século l'à.° , a 
da imprensa : e a imprensa ainda foi mais prague- 
jada do que a escripta , porque os frades , a quem 
vinha demillir do oliicio de copistas, accusaram de 
magia aos inventores desta arte, tão simples no pro- 
cesso como prodigiosa nos resultados. Foi esta a 
sorte dos grandes inventos e verdades mais benéfi- 
cas que quasi não houve uma só, que contra si não 
armasse um conluio de interesses e prejuízos : fo- 
ram utopias, quando proclamados á face de uma 
geração que os não comprehendia , muitos princí- 
pios hoje triviacs ; e serão, talvez dentro era pou- 
cos annos , axiomas do sizo commum , alguns dos 
que agora se reputam utopias. Hoje , por merco da 
imprensa, acabou o tempo em que Platão dava 100 
minas [304 moedas] por uma copia de três tratados 
de Pythagoras, e Aristóteles três talentos [5Í8 moe- 
das] por outra copia das obras de Speusippo : os 
livros , postos pela sua barateza ao alcance de to- 
das as fortunas , deixaram de ser monopólio da ri- 
queza. Introduziu-se nas sciencias o principio da 
divisão do trabalho , e de cada ramo dos conheci- 
mentos humanos se encarregaram diíTerentfes culto- 
res. Subdividiram-se os próprios ramos em ramús- 
culos sem fim , e, a um tempo quasi, se estendeu 
e simplificou a cultura. Abolidos os feudos e os 
morgados na republica das lettras , dos vastos ter- 
renos da sciencia uma boa parle se retalharam em 
courellas. Dos numerosos emprezarios da producção 
litteraria muitos se votaram ao trabalho de forne- 
cer mercadorias mais appropriadas á multidão. E 
hoje , na maior parte da Europa , não é á falta de 
escriptos que as gerações se definham , como ou- 
tr' ora , de inedia moral. Dezoito mil escriptores 
estão com a penna na mão em AUemanha. Mil e 
quinhentos volumes sahem , não contando pequenos 
impressos e folhas periódicas , todos os annos dos 
prelos de Inglaterra. Para cima de cem mil famí- 
lias, desde a mais humilde até á mais elevada ca- 
thegoria do trabalho, desde o trapeiro até o auctor, 
vivem hoje em França dos lucros commcrcíaes da 
imprensa: o que é o menos, porque o mais é — 
que por ministério da imprensa franceza estão re- 
cebendo educação muitos milhões de homens na- 
quelle paiz , e era todo o mundo. 

Com tamanha actí\ idade a abundância de livros 
é tal que já houve quem calculasse poder-se api- 
nhoar um montão , que chegasse á lua , dos im- 
pressos desde Guttemberg até agora ; e tanta a im- 
possibilidade de dar-lhes sabida que alguém se lem- 

2." Serie — VoL.. 11. 



o PANORAMA. 



brou já ou de por de parte os inuleis , lancando-os 
ao esquecimento , ou de invocar contra clles o au- 
xilio do algum novo Ornar. Em nossa casa não ha , 
por ora, que recear do diluvio que inunda as alheias. 
Aqui é o eslio lillcrario mais aturado do que con- 
viera ; o rio que se quizcra caudal , regalo c po- 
bre ainda : nem ha temor de que se abram sobre 
nós as cataractas do céu. Scintillarões da sciencia 
vão apparecendo neste nosso horisontc : obras sub- 
stanciaes e duradouras, accumulação de longo tra- 
balho e pensar , são mais que escacissimas. Elabo- 
ram-se, comtudo , c preparam-se os materiaes para 
••lias : ha muita forra latente. Lè-sc e ama-se a lei- 
tura. Mas louva-so o bom e o mau sem discrime ; 
c corre impunemente a moeda falsa com a genuína, 
.sem haver alma caritativa que tome sobre si o en- 
cargo de contraste. 

Quem virá que funde a critica de que não ha a 
mais leve sombra entre nós? Que diga, sem rebu- 
ço , ao péssimo que o é ; — ao raáu que lhe fal- 
ta alguma cousa para chegar a medíocre; — ao 
.sofrível que forceje por attingir as raias do bom ; 
— ao que está verde que dè o tempo devido ao 
crescimento e á cultura ; — ao bom que c digno de 
lon\or; mas que ainda mais o seria, se alcançasse 



o ser perfeito ; — e que ao perfeito renda então 
francas homenagens , e não regateie coroas e ova- 
ções? È falta, muito para sentir, a da critica. 
Criem-na os óptimos , que os inferiores escutarão , 
c os Ínfimos da communidadc liltcraría acceitarc- 
mos com acatamento conselhos c correcções. 

Sem embargo desta falta, a ([uadra promctte mui- 
to. Cuida-se a linguagem e o estylo mais do que 
até agora. Buscam-se , consultam-se , estudam-sc , 
c rcimprimcra-se os clássicos: citam-os, elogiam- 
os , c vai sendo quasi moda [Deus queira que che- 
gue a ser mania] escrever era portuguez. Muitos , 
na verdade , ainda barbarisam ; mas contra esses 
são os escriptores escrupulosos uma espécie de an- 
tídoto , porque ha na memoria e na consciência do 
povo uma luz que lhe ensina a distinguir o trajo 
portuguez , próprio da língua , dos vestidos alheios 
c mal ajustados com que a desfiguram ; c no ouvi- 
do e sentimento do homem mais rude um princi- 
pio de harmonia que lhe ensina a difTerençar os es- 
tylos como os tons, e a dar preferencia, quasi sem- 
pre , aos melhores. 

Esta luz nos guiará , até que appareça a da cri- 
tica. 

Á. d' O. Marreca. 



AnsE.NAL DO e\í;ri;ito. 



Arsenal do Exercito portuguez , em Lisboa , á 
Ijeira do Tejo , na parle mais oriental da cidade , 
não 6 um edificio que dentro de ura só recinto com- 
prehenda todas as oílicinas do fabrico de armas , c 
equipamentos , do trem de artilheria e de outros 
objectos militares. Damos o prospecto da entrada 
liaquella parle do Arsenal , sita á margem do rio ; 
ehamam-lbe vulgarmente a Fundição, para a distin- 
guir do estabelecimento de construcçõcs marítimas 
"om seus respcclivos armazéns c arrecadações , a 
(|ue o vulgo tem exclusivamente consignado o nome 
de Arsenal, e que occupa o assento do antigo paço 
<ie nossos reis. Porem a verdadeira Ftiiidicuo , dita 
<le cima', onde se fundem as peças d'artilheria , é 

1 luitigua ao palácio destinado para residência do 
inspector, em terreno muito mais elevado , c com 
serventias Íngremes , fronteiro ao templo incomple- 
to do St." Engracia , no campo de St.' Clara ; c no 
extremo deste campo ao nascente , quasi ao pé do 
palácio do Ex.""" Sr. Conde de Lavradio, estão col- 
locadas as ferrarias, e o deposilo.dos reparos e pc- 
ireehos concernentes á arma de artilheria ; é csla 
uma parte inlegranto do Arsenal , como também o 
é a mais distancia o laboratório de fogos de artifi- 
cio , a St." Apollonia , e ímmediatamente soljran- 
eeiro ao Tejo. Vè-sc que é um corpo com os mem- 
bros dispersos ; o que sem duvida foi devido ás díf- 
lerentes opochas da ediíicação de cada uma das par- 
tes avulsas , que o compõem , e que nasceram da 
necessidade de occorrcr provídentemente ao forne- 
cimento do exercito , depois que cslc começou a 
ser permanente c regular : não se quizeram perder 
os trabalhos já feitos, e como o terreno adjacente 
não dava largas , erearam-se pelas visinhanças os 
estabelecimentos complementares. — O descidio que 
remata a este breve artigo mostra a fachada da Fioi- 
dirãn tli: hai.ro , e que olha para o poente , tendo 
guarnecida a avenida pelo lado da terra cflm o a|>- 
paralo bellico do numerosas peças de arliiheria : as 
••oliiuuias da entrada são da ordem corlnthia ; tro- 
pliéus militares a coroam , tudo de bem lavrada 



cantaria : o risco c d' um archilecto Mr. Larre, que 
provavelmente o seria de todo o edificio , construí- 
do em 1760 pelas ordens do esclarecido ministro 
marquez de Pombal : interiormente, ao rcz do chão 
ha a entrada para os vastos armazéns, que consti- 
tuem o primeiro deposito, segundo o regulamento 
vigente do 1." de julho de 183í : o pavimento des- 
tes é inferior ao nível da rua comprohendida entre 
a parede externa do edificio c a cortina lateral ao 
Tejo ; eram escassíssimos de claridade porque re- 
matavam no elevado socalco que sustenta os pateos 
interiores e muitas oíTicinas , que tem serventia pe- 
la calçada que costeia o edificio da parte da terra , 
em altura muito superior á entrada geral visinha 
ao rio e por consequência aos mesmos armazéns : 
quando alli foi inspector, o Sr. Coronel X. J. da 
S. Leão fez desapparecer este grande defeito, abrin- 
do-se uma espécie de saguão , resguardado conve- 
nientemente pelo socalco c por um forte paredão 
que forma as costas dos armazéns, e lhes dá toda 
a segurança , facilitando-lhes luz c ventilação. 

No lado do norte da fachada estão a secretaria , 
contadoria , archivo e outras secções civis da ins- 
pecção geral do .\rsenal , oecupando o andar supe- 
rior c correspondente ao outro lanço do sul : este 
membro que completa a frente ao sul é uma belli- 
sima e espaçosa sala sobre os armazéns já mencio- 
nados contendo o armamento da cavallaria ; o topo 
é da banda do rio ; e ahi collocaram o retrato em 
corpo inteiro da Nossa .\ugusla Rainha , A Senhora 
D. SL\ni.v li. , devido ao pincel do hábil professor 
da Academia de Eellas-Arles , o Sr. Joaquim lía- 
phael ; as pinturas, que alormoseam este salão ma- 
gnifico, hera como o tecto da entrada , são ordina- 
riamente attribui<las aos nomeados artistas Pedro 
Alexandrino de (Carvalho c Cyrillo Wolkmar Jía- 
chado ; mas este ultimo no seu livro intitulado « 
Collecção de Menuiri»s relativas ás vidas dos pin- 
tores , escuiptores , archilerlos &c. » iliz expressa- 
mente o seguinte [a pag. 1-23] = Hrnno .losé do 
\ alie Competiu com Pedro Alexan- 



o PANORAMA. 



drino, e alé aos annos de 1762 davam-lhc a prefe- 
rencia , porque no teclo da escada da Fundirão , o 
Pedro e o Berardo (•) fizeram nos quatro lados as 
quatro partes do mundo , c clle fez o grande qua- 
dro do meio. Continuou depois com a casa das pis- 
tolas , aonde coloriu outros painéis allegoricos. » 
Lemos na mesma obra a pag. 19o que — «Felicia- 
no Narciso, que pintava optimamente architecluras 
e ornatos , desenhou e dirigiu [depois do terremo- 
to] os ornamentos no grande tecto da casa das pis- 
tolas na Fundirão, os quaes foram executados por 
elle mesmo , por António Caetano da Silva , Antó- 
nio dos Santos Jíjaquim , e por outros : José Carva- 
Ilio Rosa pintou as flores. — Quando pintou o grande 
tecto na Fundição estava já muito convulso, o que 
não obstante distingue-se o seu toque de ouro de 
todos os mais pela limpeza , elegância , e perfeição 
cora que c feito.» Taes são as breves noticias que 
podemos achar dos artistas que desempenharam tra- 
balhos mais acaliados nas obras dos edifícios do Ar- 
senal do Exercito : temos porem , na esculptura , 
de mencionar devidamente ainda mais dois. 

Da sala de que acabamos de fallar se passa suc- 
cessivamente para outras que, igualmente com gran- 
des janellas rasgadas para a rua, formam o lanço pa- 
rallelo ao rio até o portão , cm frente do cães que 
serve para receber ou expedir os objectos que en- 
tram ou saheni do estabelecimento , transportados 
por agua. Estas quatro salas tem cm seus bem dis- 
postos cabides , collocadas com elegância , ordem e 
aceio , as armas brancas e de fogo , geralmente de 
serviço na infantaria : e assim como na primeira a 
distancias regulares se acham bacamartes , nestas 
se encontram esmerilhões , c outras bocas de fogo 
de longo alcance , mas sem uso na guerra : muitas 
armas, como espadas, terçados, &c. estão ordena- 
das de espaço a espaço á maneira de vistosos tro- 
pheus bellicos : diversas figuras , postas em syme- 
tria , nomeadamente no principal salão , symboli- 
sam as armaduras da idade media. As estatuas al- 
legoricas de Marte e Vulcano , e outras , e os bus- 
tos dos nossos maiores guerreiros na índia , foram 
feitas por Francisco António, bom esculptor em ma- 
deira e metaes , que fallcceu no fim do scculo pas- 
sado , e a quem succedcu como esculptor da Fun- 
dição João José de Aguiar, que lambem depois tra- 
balhou em mármore, e fez alem disso a esculptu- 
ra em bronze das banquetas que no Arsenal se fun- 
diram para a Basílica de Mafra. Bem desejávamos 
poder ampliar mais estas noticias; mas circumscre- 
vendo-nos por agora ;ís que adquirimos, esperaremos 
que se nos appresentem outras mais copiosas, prin- 
cipalmente relativas ás obras feitas no Arsenal , e 
aos seus artistas beneméritos em quaesquer epochas; 
todas as que se nos offerecerem publicaremos gos- 
tosos como sempre fazemos a tudo quanto é de cre- 
dito e proveito nacional. 

João Baptista de Castro , apesar de ser contem- 
porâneo da edificação do Arsenal , apenas consagra 
a esta Repartição mui poucas linhas , [no M. de 
Port. Part. i.' pag. 37S da ed. de 4.°] que nada 
adiantam , salvo o mencionar os nomes de três of- 
ficiaes militares , que por então governaram o es- 
labeleeimcuto , sendo um delles francez, cuja acti- 
vidade este A. muito elogia , bem como o zelo dos 

(•) Berardo Pereira Pegado, pintou os painéis de St.° 
Eslevrio d'Airania ; com elle aprendeu Pedro Alexandrino; 
e diz o pintor Taborda na Memoria, que junlou ás suas Re- 
gras de Pintura, que consisle a maior gloria de Berardo 
em ler deitado aquelle discípulo. 



que lhe succederam. — Parece-nos opporluno men- 
cionar aqui um iiensamenlo que se não rcalisou. 
Jacome Rattoii, nas suas Itrcordaçõcs pag. 130, diz 
que organisára um projecto para uma nova fabrica 
de armas , e ao mesmo teniiio de obras grossas] e 
finas , de ferro , aço , e cobre , e que o appresentá- 
ra ao Jlinistro d'Estado, visconde de Balsemão. 
Consistia o plano de Ratton na formação de uma 
companhia d'accionislas, com o capital de 300 con- 
tos de réis, a qual erigiria os necessários edificios 
em um local junto á bacia e porto de S. Martinho, 
para haver facil transporte por mar, quer das ma- 
nufacturas para Lisboa , quer do car\ão de pedra 
de Buarcos, que devia ser o combustivel emprega- 
do para as maquinas movidas a vapor, ainda que 
houvesse outros motores por agua corrente : o dito 
local proporcionava igualmente a conducção pouco 
dispendiosa das lenhas e madeiras do pinhal doi- 
rei , que fossem necessárias. A eomitanhia , soba 
protecção do Governo, devia ser administrada uni- 
camente por uma Direcção composta de accionistas 
e eleita pela Assemblea Geral destes. Porem este 
alvitre foi regeitado, «talvez [diz o citado J. Ratton | 
porque nclle entrava o mosteiro d'.\Icobaça , como 
um dos principaes accionistas, visto que era de 
grande proveito aos coutos do dito mosteiro, tanto 
em consumo de géneros, como em augmento de po- 
pulação. » 

Entendamos porem que o Arsenal do Exercito não 
só é uma fábrica , a qual pôde produzir grandes 
vantagens, quando fornecida de matérias primas, 
mas também é uma escbola dos olficios mechani- 
cos , muitos dos quaes se podem intitular artes, 
como por exemplo o de «abridor em metaes» o do 
fabricante de instrumentos bellicos, e d'instrumcn- 
tos mathemalicos , &c. Convém que este núcleo, 
quaesquer que sejam os apuros da fazenda publica, 
subsista no melhor estado possivel , para a todo o 
tempo se lho dar desenvohimento e maior amplitu- 
de ,. ao que persuadem mui ponderosas rasões de 
conveniência económica e politica , que não é do 
nosso instituto referir , porem mui claras para toda 
a gente sensata. Assim o entendeu a benemérita 
commissão , que , de ordem regia , redigiu o proje- 
cto de reforma c regulamento provisório do Arse- 
nal mandado observar por Decreto do 1.° de juliio 
de 183 i: compoz-se a commissão dos Snr.'* P. Jo- 
sé da Cunha, J. da Cruz Xavier, D. C. Barbosa 
Torres : sabemos o grande esmero com que o Sr. 
Xavier, Secretario Geral da Repartição, se empe- 
nhou por levar á pratica mais perfeita as providen- 
tes disposições do novo Regulamento; e também sa- 
bemos quanto os Srs. Inspectores se tem dedicado a 
mante-lo em vigor , bem como á conservação , cré- 
ditos e lustre do Arsenal , a que tem presidido ; 
assim o Sr. Coronel Leão , que entrou a administrar 
em 1833 , como os seus dignos successores os Srs. 
Barão de Monte Pedral e Barão d'Ovar, aos quaes 
o estabelecimento é devedor de grandes melhora- 
mentos. Sejam provas as obras, já solidas e dura- 
douras , já perfeitas e trabalhadas com esmero , se- 
gundo sua diversa natureza, que nestes últimos tem- 
pos tem sabido do Arsenal ; onde sempre mereceu 
louvor por sua dexteridade uma grande maioria de 
mestres e ofíiciaes de varias officinas. Citaremos por 
conchisão os recentíssimos aperfeiçoamentos intro- 
duzidos nos fechos fulminantes das armas de fogo 
portáteis, e o invento do martello de percussão pa- 
ra as peças de artilheria, de que deu recentissima- 
niente noticia oITicial a folha do Governo, e falia- 



.^ 



o PANORAMA. 



t.. 



ram com o devido elogio muilos oulros periódicos, 
que nos dispensam de trnlar aqui matéria mui cs- 
tranlia á uussa profissão. — Tarabera nos absteraos 
de fallar na famosa peça d'artillicria dita, o tiro 



de Diu , e no molde da Estatua Equestre , porque 
já largamente o fizemos nos volumes da precedente 
serie, a que o leitor curioso poderá recorrer pro- 
curando pelos Índices os respectivos artigos. 




o PANORAMA. 



Epitomé da vida de Lciz de CahOes. 

Tantos historiadores dislinctos . Ião eruditos bio- 
ftraphos escreveram a vida , feitos e infortiinios do 
poeta mais illtistrc de que se ufaua Portugal , que | 
parecerá temeridade querermos nós tratar esta ma- , 
leria. Por certo que não nos abalançariamos a fa- 
/.c-lo , se porventura uma iniica consideração nos 
não incitasse. lísla considerarão é que nem todus 
os nossos leitores podem com facilidade consultar 
Ferreira , Faria c Sousa , Corrêa , Uibeiro , Seve- 
rini de Faria, Santos, Mariz, o morgado de Malhcus, 



nem mesmo o erudito Sr. bispo de Vizeu na mu 
Memoria Histórica c Critica , que anda impressa 
nas obras da Academia Ueal das Sciencias ; e ou- 
tros preferem resumos, que melhor se compadecem 
com as publicações litlcrarias do género do Pan<i- 
rama, a obras difusas com quanto cheias de saber, 
c repletas de vastos conhecimentos litterarios. Pa- 
ra esta qualidade de leitores escrevemos pois, r 
por isso esperamos dos mais rígidos censores a nn'- 
recida desculiia , se escrevermos mal sobre assum- 
pto tratado bem c magistralmente por penna« m.ii^ 
hábeis. 




Aqucllc respeito c veneração que é devido ú me- 
moria de uni grande homem , exige que seus con- 
cidadãos religiosamente lh'o tributem por duplica- 
do motivo. — 1.° Como testemunho de gratidão pa- 
ra com o n(dirc esteio da grandeza nacional. — 2.° 
Como dever que tem por ol>jeclo transmiltir á pos- 
teridade modellos dignos d'imitação. Altos e mui 
nobres exemplos nos oflereccm os séculos moder- 
nos, que apesar das inculpações que cscriptorcs coe- 
vos e ânimos prevenidos lhes tem feito, nem por is- 
so deixam de se avantajar sobre os séculos antigo?. 
Se é portanto gratidão, que não menos dever, con- 
servar iiniolados para os \indouros os nomes illus- 
Ircs dos varões excelsos que honraram a sua pá- 
tria, quem melhor o merecerá entre os grandes en- 
genhos de Portugal que Luiz de Camões ; esse que 
por seu transcendente mérito , e pela ingratidão c 
desamparo em que morreu no seio da terra , que 
boje , porem tarde , se ufana de lhe haver dado o 
ser .' 



I.uiz de Camões , nasceu em Lisboa no anno de 
loáí , segundo a melhor opinião, inda ([iie Se\r- 
rini de Faria e Garcez Ferreira sustentem que fór.i 
no anno de 1517. Simão Vaz de Camões, e Aiuia 
de Sá de Macedo foram os progenitores do grande 
porta. Os ascendentes de Luiz de Camões eram im- 
bres , e a sua familia originaria do Galiza. O Milar 
desta era o caslello de Camões , junto ao cabo de 
Finisterra , donde deriva o seu appellido. 

Aasco Pires de Camões foi o [irimeiro clcsía Iíi- 
milia que jiassou a Portugal cm 1370, onde seguir, 
o p,ir;ii!o do Sr. D. Fernando contra eirei D. Hen- 
rique de Caslella. A julgar pela grandeza da do;i- 
ção que o soberano portugucz lhe fez , e os cargos 
quo lhe confiou, devia ser a acquisição deste fidal- 
go considerada de muita imjiortancia , o a sua pes- 
soa lida em grande valia. Casou era Portuga! roni 
a filha de Gonçalo Tenreiro, capitão mór das arrnn- 
das , de quem teve , Gonçalo A'az de Camões , .íoã;) 
i Vaz de Camões, e Constança Pires de Camões. 



o PANORAMA. 



Do primogenilo descendem varias familias , mui 
illuslres do reino. Da aliiança que fez o segundo 
com Ignez Gomes da Silva , procedeu António Vaz 
de Camões , o qual casou com Guiomar Vaz da Ga- 
ma, de quem teve Simão Vaz de Camões, que, co- 
mo dissemos , foi o progenitor do nosso immortal 
jioeta. 

Seus pais consta não eram abastados, porque pro- 
>inham de um ramo segundo; e é notório que no 
nosso Portugal filhos segundos são geralmente pou- 
co avantajados ; no emianto apesar dos poucos bens 
da fortuna , grande cuidado tiveram em cultivar os 
raros talentos de seu filho. P. M. 

(Coniinuar-sc-ha.) 



Bem querer e mal fazer. 

[Memorias insulanas]. 

= 1531 = 

I. 

A moura , o galan c uma discreta. 

Socega-le e respira, 

Formosa tjue semblante 

E' esse cheio de ira ! 
Onve-me um pouco, escula-me um instante, 

Pôde ser , se me ouvires , 
Que em vez de raiva , só de amor suspires. 

= Jodo Xavier de jMaílos- = 
Ode 2.» = vol. 2.° 



oDiGo-TE, minha irraaã, que são boas horas de nos 
acolhermos a nossos aposentamentos. — A noiíte vai 
de corrida. A agulha já foge das mãos dessa mou- 
ra escrava , que ahi está pcrdidinha de somno ; e a 
mim mesma começa a torvar-se-me a cabeça. Adeus 
até amanhaã. 

"Assim me despedes, Isabel? São poucas as ve- 
zes que venho a vcr-te depois que tomei estado , e 
«•stas mesmas já a ti te parecem longas, quando de 
companhia estamos. IVão é isso de tão boas e tão 
unidas irmaãs que nós éramos I 

«Da minha amisade , Águeda, não creio eu que 
possas já agora duvidar. Bem te quizera sempre 
«•omigo e ao pé de mim. ftlas este repasto d'alma , 
com que na tua conversação me deleito , não pódc 
durar sempre ; amanhaã o renovaremos ; por em 
quanto o corpo lambem pede o seu descanço. Con- 
to que serás minha por estes dias. 

«Não to aílianço , que asinha mo tornarei a mi- 
nha morada, mal que meu senhor, e esposo, fòr 
de volta da Capitania. Não te quero accresccntar 
enfadamentos. . . . 

Dizendo , liidia-se erguido , dobrando c anafando 
«uidadosamentc a obra de lavor cm que trabalha- 
va , c ao pronunciar as ultimas palavras , com voz 
um tanto despeitosa , põ-la sobre um cscabcUo que 
alli ficava á mão, fazendo semblante de sahir. 

"Que c isso, minha irmaã , nem as boas noites 
me dás? Não te vás, não, assim agastada. Tem 
mão nesse teu génio assomado c vem abraçar-mc. 
Já niugucm tenho na terra se não tu para me que- 
rer e amar bem do coração ; ninguém , nem pai , 
nora mãi , nem marido. Águeda , acaso te offendi 
tu? — pcrdoa-m'o se o fiz. Queres tu por tão pou- 
co fazer quebra nesta nossa tão boa e tão sauta 
iimisade? 

Aliraçaram-se antes de se separarem c o fira das 



despedidas foi assim mais amigável e menos seve- 
ro que o principio. Eram arrufos e susceptibilida- 
des de irmaãs c amigas, sempre fáceis de se des- 
fazerem , mormente quando n'uma era tamanho o 
desamparo de alheios alTcctos e n'outra tão vivo o 
sentimento. 

D. Isabel e D. Águeda de Abreu eram filhas de 
João Fernandes de Abreu , senhor da Lombada do 
Arco na mui fértil c formosa ilha da Aladeira. D. 
Águeda casada com Miccr Eslevam Esmeraldo, ri- 
co fidalgo genovez , vivia ha muito em seus coutos 
c herdades , visitando de longe em longe a irmaã 
a quem muito, e muito d'alma , presava. D. Isa- 
bel , viuva de João Rodrigues de Noronha , que 
servira clrei como bom vassallo, já capitão mór do 
mar na índia , já depois capitão d'Ormuz, conser- 
vava-se em sua morada quasi sempre em solidão , 
visitada de seus parentes raras vezes , e mais raras 
sahindo a visita-los ; respeitada de todos e por to- 
dos bem havida. Era cila sobremodo formosa c tão 
formosa como discreta e tão discreta como rica , e 
era moça e era linda , mas com sè-lo tanto , e de 
tantos requestada , nem por isso se tentou em vol- 
tar á vida de festas e saraus que a chamava, e aon- 
de brilharia — dizia-lh'o o seu espelho de Veneza 

— a primeira entre as melhores, e a melhor entre 
as de mais nome. A'iu-se pois uma mulher , preza 
por quanto o mundo pode prender, fugir delle, 
enccrrar-se com suas saudades e guardar lealdade 

— caso, cm verdade , de homérica estranheza ! — 
a seu marido morto ; ao passo que outras, de quem 
já o mundo se vai despedindo, não a guardam nem 
aos esposos vivos.- — Senão houvera o mal como 
se avaliaria o bem? 

A Lombada do Arco , terra de que tinha o se- 
nhorio, e aonde ordinariamente vivia, era uma no- 
bre c mui va^ta herdade , abundante e copiosa de 
todas as cousas precisas , e bem provida de quanto 
o mais apurado desejo podia appeteccr. As casas 
cm que a illustre Rica-dona (1) fazia seu domici- 
lio eram amplas c magnificas no interior , fortes e 
bem torreadas no exterior ; estando , para o que 
desse e viesse , abastecidas de numerosos domésti- 
cos , homens de armas, com grande copia delias, 
e escudeiros , como convinha ao estado c lustre de 
tão fidalga senhora , o á segurança de tão grande 
habitação , assim posta ao desamparo no meio dos 
campos e longe da cidade. 

Era alta noite. O serão e a palestra das duas ir- 
maãs que ha muito se não viam — bem que somen- 
te perfumados daquella bcmdila simplcza de nossos 
pais, bem que mui longe dos adubos e sainèles 
dos saraus , bem que unicamente empregado no 
trabalho [que dcllc se não dcsprcsavara as mais 
fidalgas mãos] c em colloqnios aflectuosos — ti- 
nham-se prolongado fora do costumado. Já as ayas, 
donas ou donzellas , com licença de sua ama , se 
haviam recolhido aos seus quartos, deixando as 
obras de costura. Já a moura valida de D. Isabel 
e que ao pé da sua camcra dormia, cabeceara mi;i 
sollVi\ cimente , quando D. Isabel se resolvera a sc- 
parar-se da irmaã , mais por lhe desejar o preciso 
repouso do que para a si própria o dar. Ficando 
só aiqiroximou-se da moura que dormia ou parecia 
dormir sobre o seu trabalho e sacudindo-a a accor- 



(1) O tiliilo de Rico-linmem, dado aos fidalgos senlio- 
res de largos patrimónios, snlisisliu nlé os Icnipos dVIrei D. 
Manuel — suas mullieres eram cliamadas ricas-donas. Morto 
J). IManuel cm IMX ntxo julgamos commelter grave ana- 
cluoiiismo conservando este Ululo 10 annos depois. 



o PANORAMA. 



dou rccoramondando-lhc o dcscanro na camilha que 
para cila alli eslava feita. Despertou a escrava es- 
tonteada c confusa apparelhando-se indecisamente 
para obedecer ao mandado de sua senhora. Disse- 
ra-se ao vè-la que nunca tamanho somno pesara cm 
pálpebras femininas. Sahiu D. Isabel da camcra cm 
que SC achava , para o seu interior aposento , logo 
alli próximo, desacompanhada, que a somnolenta 
moura não parecia cm estado de poder prestar ser- 
viços, e nem cila os exigia de suas ayas, mormen- 
te áquellas horas tão adiantadas. Sahindo cerrou 
para si a porta para onde entrara e deixou só a 
moura que ficara de pé do mesmo modo que a se- 
nhora a deixara c como se ainda assim dormira. 
.\penas porem D. Isabel do todo desappareccu , er- 
gueu cila a cabeça com gesto seguro, c abrindo os 
olhos vivos , brilhantes e africanos , sacudiu de si 
toda aquella cxpressiio pesada , lenta c desleixada 
que pouco antes se lhe notava. Ficou imraovel co- 
mo estava , nem um só exterior movimento revelou 
a súbita mudança que fizera , por modo que se al- 
guém alli estivesse junto delia, custar-lhe-ia, ven- 
do-a , a accreditar o que seus próprios olhos lhe 
dissessem , lai era a iramobilidade e silencio cm 
que a manhosa se conservava. E coratudo todo o 
seu ser mudara. Não era já o rosto parado, os olhos 
abatidos , e o gesto incerto de quem succumbe ao 
somno : eram faces animadas, olhos e gesto expres- 
sivos c intelligentes , como ao primeiro exame se 
julgaria que os nunca cila poderia ter. Levava as 
vistas ora para a parle aonde D. Isabel se sumira , 
ora para uma janella que lhe ficava fronteira. Pa- 
recia aguardar alguma cousa com grande ancie- 
dade. A camera em que isto se passava era mui 
aceiada , porem mui singela. Um largo estrado pa- 
ra as ayas , alguns cscabellos soltos c espalhados 
sem alinho , cocedras e alfombras {2) para pousar 
os pés, c a um canto a camilha da moura, com seu 
cabeçal c almadraques mui alvos , sem que por to- 
da ella houvesse mais ornamentos nem alfrezes (S). 
— Uma porta que dizia para um corredor commu- 
nicando com o resto da casa , outra que levava ao 
aposento de D. Isabel , isto é , ao seu quarlo de 
dormir e ao seu oratório , que era contiguo , e de- 
fronte deste uma jauella única , dando para um 
largo pomar , todo resceudente debaixo daquclle 
amoroso céu da Madeira , morno e suave , c quasi 
sempre céu de primavera. — Portas e janellas po- 
rem estavam cuidadosamente cerradas ; ouvia-se 
apeuas lá fora o manso rumorejar da folhagem , e 
algum desses sons perdidos c confusos , único si- 
gnal qu3 sobresahc no adormecimento geral da na- 
tureza. Passár<a-se um bom espaço e ainda a mou- 
ra permanecia immovel , mas alerta e com ar in- 
dagador. Por fim foi-se passo a passo encaminhan- 
do surrateiramente para a porta do aposento de D. 
Isabel , e depois de ler alli applicado o ouvido , 
contente ao que parecia daquelle exame, dirigiu- 
se para a janclla, mas tão levemente, que nem quem 
na mesma camera estivesse a prcsenliría. Chegada 
que fui , parou cosida cora a umbreira de pedra e 
ficou perfeitamente queda , á maneira d'uma esta- 
tua. Era coratudo fácil de conhecer-se a aturada 
applicação com que empregava o sentido auditivo, 
tendo as mãos cruzadas sobre o peito , e o collo 
estendido do mesmo modo que a formosa Floripes 
vendo da torre do almirante Balão caminhar para 
o suplicio o seu Ião querido Gui de Borgonha , co- 

(2) Alcalilas. 

(3) Mobília. 



mo no-lo pinta o critico José Agostinho de Mace- 
do , naquelle seu bom livro das =:/'a/t'nrfas.= Uma 
sombra movendo-sc c atravessando assim a camera 
de um para outro lado não faria menos rumor do 
que a moura fez no ir cumprindo a obra misterio- 
sa de que toda parecia occupada. Passaram-sc ain- 
da instantes , c pouco depois sentiu-se um iiequenn 
assovio curto e intermittentc que ouvidos pouco apu- 
rados não saberiam ao certo distinguir desses quei- 
xumes longínquos das florestas edan(julc. Xão acon- 
teceu porem assim com a moura. Tirou mui acau- 
teladamente as grossas trancas da janella , com si- 
lencio tamanho , c tal presteza que nem que toda 
a rida a tivesse passado em estudar a arte de des- 
trancar janellas. Passada esta primeira operação res- 
tava só correr o fecho : fè-lo assim e a larga porta 
da janella desandou nos seus gonzos, gemendo agu- 
damente c dando súbita passagem á brisa nocturna 
que fez oscillar c encurvar a breve chamma d' um 
candéu , única luz que á moura ficara. Ao inespe- 
rado rumor comprimiu ella a respiração , cessando 
lodo o movimento, e escutando anelada em quanto 
o coração lhe pulava lá no peito. Nada se seguiu. 
Com passo lento , apenas trahido por um ligeiro 
ranger do pavimento, foi direita á camilha tirou de- 
baixo do cabeçal uma escada de corda , com seus 
ganchos e com iguaes cautelas voltou á janella , 
firmou uma das extremidades no parapeito e pcn- 
dendo-se para fora atirou com a escada a baixo. 

Em menos de um credo viu-sc successivamentc 
appareccr a cabeça , os hombros e por fira todo o 
corpo de ura homem , que enlrou com o mesmo si- 
lencio com que tudo se acabara. Era clle moco c 
bem disposto , c trajava gibão singelo apertado por 
um cinto de couro debruado com um pequeno cir- 
culo mui luzidio de peltrc (4) , c umas calças gol- 
peadas , tudo de panno grisisco (5) ordinário. lS"ão 
dizia porem esta apparenle c peã modéstia de ves- 
tuário , nem com o seu ar decidido , que bera se 
podia chamar insolente , nem com o penteado c 
desvelado dos cabellos perfumados , nem com as 
largas botas ornadas de formosas esporas á gineta 
lustrosas e sonoras , nem com o arrogante pluma- 
cho que lhe ondeava no chapéu , nem sobretudo 
com o longo e rico punhal que trazia no cinto, cu- 
jo cabo , mui primorosamente lavrado , tinha es- 
culpida uma torre de prata , em campo verde, com 
ameias e coruchéu , rematando cm cruz de ouro , 
c dois lobos rompendo contra a torre : ora estas 
eram as armas d'uraa nobre familia (C) , a primei- 
ra então entre as da ilha. 

Apenas saltou no pavimento tirou o desconheci- 
do , assim inconsequente no seu modo de trajar , 
uma bolça , que parecia bem recheada de esphe- 
ras (~ j de ouro c , enlregaudo-a desleixadamente á 
moura , caminhou cora ar deliljcrado para a porta 
do aposento de D. Isabel. Quanto á escrava , que 
cm toda esta sceua , rapidamente passada , não dis- 
sera palavra, tomando a bolsa e pesando-a nas mãos 



(4) Lalãj. 

(5) Panno escuro ou de còr leonada ; naliiralmciile do 
gris dos francezes , dos quaes lahez nos vinha o t;il panno. 

(6) Estas são com eíTeiío as armas dos Camarás, con- 
cedidas p"r D. AlTonso 5.° em Santarém em 1540 a .Tuài> 
Gonçalves Zarco, descobridor da illia da Jladeira, com o 
appellido de Camará de Lobos , em memoria de uma ia|)a 
ou jrula á feição de camará , mui trilhada dos lubos , e pri- 
meiro loiar que aquelle capilão visitou quando sahiu eni 
terra. — Nobil. &c. 

(7) Moeda mandada cunhar por eirei D. Manuel qee 
tinha d'um lado uma esphera e do outro a leira uMra" 



8 



O PANORAMA. 



foi aninhar-se na sua camilha como se de nada sou- 
bera c nada vira. 

Já o atrevido intruso se dispunha a franquear a 
porta quando esta descerrando-se deixou ver a di- 
gna e severa figura de D. Isabel , que tendo passa- 
do o tempo no seu oratório, e presentindo rumor, 
se encaminhava a ver o que se passava. D. Isabel 
ora uma dama de corarão varonil , e animo intré- 
pido ; parou e medindo o indiscreto hospede com 
as vistas, pareceu antes admirada que assustada ; 
não foi assim porem com elle ; apesar do despejo 
fjuc mostrara , ficou mcãmcntc abalado. 

«Porventura, meu primo ■ — disse D. Isabel cor- 
rendo toda a camera cora os olhos , e dando visos 
de conhecer já o modo porque se eíTecluára a es- 
tranha ascenção do desconhecido — porventura con- 
vém a nm cavallciro leal fazer visitas a estas horas 
da nuulc, quando de dia é recebido; entrar pela 
janella, quando a porta está franca?» 

A serenidade e placidez com que esta pergunta 
fui feita, e o tom e ar senhoril de quem afazia, co- 
mo que um pouco desconcertaram o nosso pimpão , 
(jue linha talvez feito conta com uma scena mais 
de romance. — E nisto dava elle ares do certos lei- 
íorcs que eu d'aqui estou ouvindo a chamarem-mc 
somsaborão e o que mais quizcreni , por lhes não 
aproveitar aqui tão boa occasião para gritos, des- 
maios , pragas , blasphemias , punhaes , coroando 
ludo depois .... com uma boa ressurreição , muito 
Irisante c muito a tempo. Mas que quereis? Prefe- 
ri antes fazer passar as cousas mais simples e chaã- 
mcnte , isto é , como realmente aconteceram. Já 
lambem no meu bom tempo vos fiz a vontade, já 
cri isso cousa inimitável , porem que hade ser? 
esta pobre humanidade é tão frágil I Agora ... ago- 
ra digo como dizia o elegante e dolorido Bernar- 
dim Kibeiro que, entre nós, era poeta a valer. . . . 

. . . Na crença e na esperança. 
Em ambas ha hi cuidado , 
Em ambas ha hi mudança. 

Postoquc pouco á sua vontade com a recepção 
que lhe faziam , da qual palpavelmente se via que 
não era temido, procurou comtudo o incógnito con- 
servar boa feição, balbuciando Ires ou quatro tri- 
vialidades que não acertou em acabar, até que por 
fim pôde formular esta resposta, que elle provavel- 
mente julgou mui cabal , e que vós julgareis como 
quizcrdcs. 

« Prima e senhora minha , se , para o que per- 
tendo do vós eu vos buscasse de dia , talvez nem 
de uonte podesse voltar, a menos que o não flzessse 
em som de guerra. . . . 

Aqui tomou elle um gesto soberbo em quanto 
que cila sorria encolhendo os hombros. Continuou : 

«E isso não o desejo eu. Se pela porta vos pro- 
curasse arriscava-mc um tanto a sahir pela janella 
mesmo apesar de todas as diligencias desta ou de 
outra mais honrosa arma para a minha mão.» — 
!'onsou a mão no punho do ferro e olhou para o lo- 
gar nú da espada. — «Assim que, preferi entrar 
polu janella para sahir pela porta , buscar-vos de 
noute para vos apparccer de dia. 

« E SC vós , primo , arriscardes tanto ou mais 
neste do que arriscaríeis no primeiro desses dois 
casos? 

Tambcra já era visível que o bom do primo ti- 
nha já reassumido toda a sua deliberação , momen- 
tos interrompida. 



«Não arriscarei não, prima e senhora minha — 
tornou elle com ar acatado mas resoluto — que vós 
estais aqui em meu poder, e eu acabei comigo 
cumprir hoje o que de vós pertendo. Dormem to- 
dos , só nós velámos. . . enlendeis-me. 

D. Isabel d'iim volver d'olhos calculou a somma 
de probabilidades a favor da opinião do primo, que 
parecia homem afferrado ás suas , e vendo-se só , 
no meio do silencio e da noute, sem meios de cha- 
mar soccorro , e á mercê inteira de um indi\iduo 
deliberado , tendo só junto de si a pérfida escrava 
que fazia semblante de dormir, achou que a sua 
situação era precária a não poder sc-Io mais , mas 
como discreta que era tomou a sua decisão e disse 
rigidamente ao primo : 

«Que perlcndeis pois do mim? 

«Que me trateis a mim, formosa prima, — res- 
pondeu elle — com menos asperidade do que a to- 
dos tendes tratado. Somos iguaes nos bens e na fi- 
dalguia , somos parentes ... e cu amo-vos. . . Oh I 
não vos irriteis. — Se me ouvirdes talvez troqueis 
vossa fera condição . . . consenti em dar-me a vossa 
mão. Os nossos senhorios são visinhos , torna-los- 
licmos o mais vasto morgado de toda a ilha. . . . E 
já agora que outra cousa podeis vós fazer I . . . . O 
homem que entrou no vosso aposento pela janella 
como amante, só deve de sahir pela porta como es- 
poso. 

«Ou como salteador. 

«E quem ousará em toda a ilha affirmar que An- 
tónio Gonçalves da Camará entrou em casa de D. 
Isabel d'Abreu como salteador. Com que testemu- 
nhas o provareis? Nem com dizc-lo ficareis menos 
dcsh ourada , prima e senhora. » 

«Dcshonrada ! 

D. Isabel meditou algum tempo, e depois sem 
perturbar-se respondeu : 

« E não podereis vós , para cumprirdes vosso in- 
tento , deixar de me deshonrar aos olhos de lodos? 
Ide-vos por onde viestes. Que ninguém vos pres- 
sinta. Voltai em poucos dias para me levardes co- 
mo esposa , que nisso consinto e havido depois o 
rescripto de Roma serei vossa mulher.» 

António da Camará , presumido e namorado , es- 
teve para allí morrer de gosto. Beijou a mão de D. 
Isabel , e esgotou todo o repertório de suas fine- 
zas , que ella supportou com admirável paciência. 
Um momento de deliberação , linha no seu concei- 
to, conquistado a inconquistavcl prima, e sem real- 
mente compromette-la tinha elle vencido o que sem 
o escândalo julgara invencível. 

Uma hora depois todos os accusadores signacs 
de invasão nocturna tinham desapparecido com tan- 
to silencio como o com que se haviam apromptado. 
Na principal sala de sua morada D. Isabel dava 
esta ordem a um escudeiro. 

« Que todos os homens d'armas , escudeiros , e 
serventes da Lombada do Arco , estejam promptos 
ao primeiro alvor da manhaã. Que as armas se ap- 
parelhcm e que se faça boa guarda , e aprestos pa- 
ra qualquer defensão. 

« Receia acaso , vossa mercê ? . . . » 

«Obedecer c calar I » 

A moura desappareceu também. 

S. Leal Júnior. 
[Continuar-te-ha . ] 



A cnRiosiDADE se apascenta de noticias ; c o mundo 
é um thcalro de novidades. 



•• 



5.J 



o PANORAaiA. 



"^m^ 



mm »"''■ 



III 



ÍF 






illKlií 



«ffiipípi 



«?í^ 




1 ff'^ 




Janeiro 14 — 1843. 



ii." bEIUE — >oi il. 



10 



o PANORAMA. 



Para cabal intelligencia deste cartão do insigne Ra- 
phael referiremos primeiro a scena evangélica, que 
representa , segundo o texto Sagrado , c servindo- 
nos da Iraducção da Vulgata pelo P." Pereira. = 

— «E veio Jesus para as partes de Cesárea de 
Filippe : e fez a seus discípulos esta pergunta , di- 
zendo : Quem dizem os homens que c o Filho do 
Homem? — E elles responderam : Uns dizem que 
João Baptista , mas outros que Elias , c outros que 
Jeremias, ou algum dos prophetas. — Dissc-lhcs 
Jesus: E vós quem dizeis que sou Eu? — Respon- 
dendo Simão Pedro disse : Tu és o Christo (1) , Fi- 
lho de Deus vivo. — E respondendo Jesus, lhe dis- 
se; Bemaventurado és Simão lilho de João: porque 
não foi a carne e sangue quem to revelou , mas 
sim meu Pai , que está nos Céus. — Também te di- 
go que tu és Pedro (2) , e sobre esta pedra edifi- 
carei a minha Igreja , e as portas do inferno nao 
prevalecerão contra ella. — E Eu te daiei as cha- 
ves do Reino dos Céus. E tudo o que ligares sobre 
a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que 
desatares sobre a terra será desatado também nos 
Céus." — 

Fácil é dccomprehender que a acção e exposição 
deste assumpto , não obstante o sublime e solemne 
das palavras , não tem a variedade de circumstan- 
cias requeridas para a composição de um painel 
cm grande : porem o talento inventivo de Raphael 
achou meio de o apprescntar variado , próprio c 
completo. — O Redemptor está figurado, como era 
de rasão, a conveniente distancia e na postura de 
raageslosa singeleza : com uma das mãos aponta o 
rebanho de ovelhas, que o artista trouxe ao quailro 
alludiudo ás memoráveis palavras, que o Salvador 
dirigiu ao mesmo apostolo cm outra occasião : apas- 
centa as minhas ovelhas ; cora a outra mão entrega 
as chaves ao fiel Simão Pedro , que de joelhos as 
recebe com summa reverencia. Os outros apóstolos 
formam ura grupo bastante unido , como o seu nu- 
mero exigia : um delles, que tem a mão esten<iida, 
mostra-se penetrado de todo o mystcrio daquellas 
palavras , e contempla Pedro como vigário do Di- 
vino Mestre, ao passo que o discípulo querido, João, 
de mãos postas parece chegar-se a Christo , expri- 
mindo no rosto sincero o alYeeto que o anima. Cada 
cabeça deste grupo tom sua phisionomia peculiar, 
com a expressão adequada : porem o semblante do 
Salvador é verdadeiramente sublime e formoso, an- 
nunciando todas as circumstancias que tinham de 
.Tcompanhar a sua divina missão na terra, o desam- 
paro em que Israel o havia de por , o amargo cáli- 
ce que devia esgotar , e o triuinpho final sobre a 
morte e o peccado : pelo que Uaphacl trajou Jcsu 
Christo por modo diverso do que ordinariamente fi- 
guram a sua imagem sacrosanta , e lhe poz cm os 
pés e mãos os signaes da futura crucifixão. — Todo 
o cartão foi delineado com tanla naturalidade que 
não será fácil imaginar o como poderia succeder o 
acontecimento , que indica , de outro modo que não 
fosse o que alli está representado. — O transumplo, 
que apprcscntàmos, serve para revelar o pensamen- 
to do cximio artista : bem pôde conheccr-se que o 
acabamento de suas obras só nos originacs se ava- 
liará , e quando muito nas copias cxtrahidas por 
mãos de pintores dislinctos. 

(1) O nome Christo quer ilizcr o ungido de Dcm- 
(í) O prinripe dos Apóstolos leve por primeiro nome 
Simão, que Jesus llie miulou para Crphas , ijite qiirr dizir 
Ptílro [Evanj. seg. S. JoSo cap. 1.° j^ 42] , e é palavra 
«yriaca , eqiiivalciUe de rocha ou pedra- 



O BOBO. 

1128. 

I. 

Inlroducfão. 

A MORTE de ACfonso 6.° de Leão e Castella produ- 
ziu nos estados christãos da Ilespanha aconteci- 
mentos ainda mais graves do que os previstos por 
elle, no momento cm que ia trocar a cola c a cer- 
vilheira de guerra pela mortalha pacifica do sepul- 
chro, que o recebeu no mosteiro de S. Facundo ou 
Sahagun. O génio inquieto dos barões leonezes , 
gallegos e castelhanos, facilmente achou pretextos, 
para dar largas ás suas ambições e vinganças , na 
violenta situação politica, em que o príncipe mori- 
bundo collocára o paiz. Costumado a considerar o 
valor brilhante, a audácia desmesurada, o phrenesi 
das batalhas e conquistas, como o primeiro dote de 
qualquer monarcha , e achando-sc orphão do único 
filho que o céu lhe concedera — o infante D. San- 
cho morto cm annos viçosos no infeliz conDicto d'U- 
cles — Affonso alongava os olhos pelas províncias 
do império , buscando ura homem cujo braço fos- 
se assaz firme para fazer reluzir o seu montante ao 
sol dos combates, e cuja fronte fosse assaz robusta 
para não vergar sob o peso do seu diadema de fer- 
ro. Era mister escolher um marido para D. Urraca 
sua filha mais velha , viuva do conde de Galliza 
Raymundo ; porque a ella pertencia o Ihrono por 
um costume introduzido a despeito das leis golhi- 
cas , que davam aos grandes c homens livres o di- 
reito d'eleger os reis. Entre os ricos-homens mais 
illuslres dos seus vastos estados nenhum achou o 
velho digno de tão altos destinos. .\lTonso rei d'A- 
ragão tinha , porem , todos os predicados que o al- 
tivo monarcha entendia serem necessários ao pri- 
meiro dos defensores da cruz , e foi a este que no 
seu leito de agonia desejou que D. Urraca desse a 
mão d'esposa , apenas succcdesse no throno. Assim 
esperava por nm lado que a severidade e energia 
do novo príncipe contivesse as perturbações intesti- 
nas, e que o seu esforço não deixasse folgar os ára- 
bes com a noticia da morte daqucllcque por tantos 
annos lhes fora flagello e destruição. Os aconteci- 
mentos posteriores provaram , todavia , que Affon- 
so C.° inleiramente se enganara (•). 

A historia do governo de D. Urraca , se tal no- 
me se pódc applicar ao período do seu predomínio, 
não é mais que um tecido de luctas intestinas, de 
vinganças atrozes e covardes, de roubos, de revol- 
tas e de violências. A dissolução da rainha, a fero- 
cidade tenaz do marido , o orgulho c cubica dos 
barões, convertiam tudo n'um cabos; e a guerra 
civil , ao passo que deixava vigorar <i império dos 
mussulmanos, demorava a decisiva vieloría da raça 
goda , entre a qual os ódios dos bandos destruía os 
germens de nacionalidade que tanto trabalhara por 
fazer prosperar o allumiado Afionso C." 

Disse os germens de nacionalidade ; porque de 
feito apenas então o eram na Ilespanha esses milha- 
res de vínculos moraes que unem os homens do 
mesmo paiz , dos mesmos costumes , e da mesma 
linguagem , c a que hoje se chama uma sociedade 
política, ou um povo. A elevação do rei aragonez ao 
tlirono castelliano não suscitou a má vontade dos 
barões por elle ser nm p ríncipe estrangeiro , ma s 

(«) Esla relai;rio parece-me conciliar os tesleoiuulios , 
alé certo ponto encontrados, do arcelji,>iio D. llodrigo e da 
llisloria Compostellana acerca deste successo. 



o PANORAMA. 



fl 



porque aos estrangeiros, isto é, aos anligos vassal- 
los do novo rei , se entregavam com prcicrencia os 
caslclios , as honras , os prestamos c lodo o género 
de poderio. A resistência era individual, porque os 
interesses eram singulares. O conde, o rico-liomcm 
da Estremadura, de Galliza , de Castelia ou de 
Portugal, referia a si e as suas ambições, esperan- 
ças, ou temores, os successos politicos, e alTcrindo 
tudo exclusivamente por esse typo , procedia em 
conformidade com ellc. E como seria de outro mo- 
do? A idéa de nação e de pátria não existia ainda. 
Correi aschronicas, as historias e os diplomas, não 
achareis uma só palavra que designasse a idéa de 
hespanhoes , uma palavra de signilicação complexa 
que distinguisse a rara goda da sarracena. Acha- 
reis o asturo, o gallecio , o portugallcnse , o cas- 
tellão; isto é o homem do districto : mais, achareis 
o[compijstcllano, o toledauo, o barcellonez ; isto é o 
homem domunicipio; mas o nome dehespanhol, ou 
outro qualquer equivalente, esse não o encontrareis. 
E porque falta a expressão? É porque a entidade 
não existia : não existia politicamente. Havia-a , 
mas era sob outro aspecto , cm outra relação ; na 
da unidade religiosa. Essa sim, que apparece clara 
e distincta. A sociedade christaã era una , e preen- 
chia até certo ponto o vácuo da sociedade civil. 
Quando era necessário achar o signal , com que se 
representasse um filho da Peninsula não árabe, um 
só havia que exprimisse precisa e exclusivamente 
a idéa genérica dessa grande farailia : Cliristiunuf!. 
O epithcto que designava a crença , indicava a so- 
ciedade ; e assim cada cathedral , cada parochia , 
cada acisterio, cada logar de culto era um anel da 
cadèa única, posto que robusta, que pelo lado mo- 
ral ligava os individues iguaes em condição ou ge- 
rarchia. Fora daqui apenas se daVam duas espécies 
de relações fortes e caractcrisadas : uma espontâ- 
nea, outra nascida decircumstancias alheias á von- 
tade do individuo. Eram as primeiras as que se 
denominavam conjurações ou irmandades — as ver- 
dadeiras associações niunicipaes desse tempo ; as 
segundas as que resultavam da situação di\ersa das 
pessoas — as do colono e do senhor ; as do homem 
de trabalho e do homem de guerra. Entre o barão 
e o barão, o alcaide e o alcaide , o prcstamciro e 
o prcstamciro, os laços sociaeseram, porem, tão té- 
nues, que se desfaziam cm pó ao primeiro sopro das 
paixões violentas, que tão facilmente se despertavam 
nos rudes corações daquelles tempos. 

Dessa frouxidão dos laços sociacs nasceu a nação 
portugueza. — Pela morte dWffonso 6.°, seu genro 
Henrique partiu os laços que o prendiam ao resto 
da Uespanha otcidenlal e christaã. Esta separação, 
que não foi mais que uma obra d'ambição c de or- 
gulho , e um resultado da viciosa organisação da 
Uespanha no duodécimo século, veio por milagres 
do esforço e da prudência humana a constituir a 
nação mais forte c audaz da Europa nos fins do de- 
cimo quinto. Mas os seus primeiros dias foram tem- 
pestuosos : e no modo porque esta planta dcbil e 
tenra pôde escapar ás repetidas procellas, que acer- 
cavam nos primeiros dias da sua vegetação, desco- 
brem os olhos mais incrédulos a mão da Providen- 
cia. Quaes seriam hnjc as relações do Oriente e do 
Novo Mundo com o Occidente, se Portugal tivesse 
perecido no berço? Quem ousará dizer : ícm Por- 
tugal a civilisação do gencro-humano seria hoje 
qual c? 

O conde Henrique pouco sobreviveu ao sogro — 
apenas três annos : mas durante esses três annos lo- 



dos aquelles actos seus , cuja memoria chegou ató 
nós, representam um pensamento único — o alimen- 
tar o incêndio das discórdias civis que devoravam 
Hespanha goda. Nas luctas de D. Urraca, dos par- 
tidários de seu filho Aflbnso Raimundez , c do rei 
d' Aragão, qual foi o bando do conde? Todos suc- 
cessivamente, porque nenhum era o seu. O ícucon- 
sistia cm constituir um estado independente nos 
territórios que governava. E no meio dos tumultos 
e guerras era que ardia o império, elle teria visto 
coroadas de bom succcsso as suas diligencias , se a 
morte não viesse atalhar-lhe os desígnios junto dos 
muros d'.\storga. 

5Ias a sua viuva , a bastarda de AfTonso 6.°, era 
digna do ambicioso e ousado borgonhcz. .\ leóa de- 
fendeu o antro , onde já não se ouvia o rugido de 
seu fero senhor , com a mesma energia c esforço , 
de que clle lhe dera tão repetidos exemplos. Du- 
rante quinze annos luctou por conservar intacta a 
independência da terra que lhe chamava rainha , e 
quando seu filho lhe tirou das mãos a herança pa- 
terna , só havia um anno que a altiva dona dobra- 
ra, até certo ponto, acerviz afortuna dojovenheroe 
AfFonso Raimundez. Mas esta pedra preciosa, arran- 
cada á força da coroa Iconeza, nunca mais devia tor- 
nar a engasiar-se nclla. 

Todavia se a sede do poder que devorava o mo- 
ço .\nbnso Henriquez não existisse : se os ódios e 
a cubica de muitos ricos homens , e provavelmen- 
te d'alguns membros do cloro , não houveram lan- 
çado entre a mãe e o filho o facho da guerra , o 
amor teria talvez mudado os futuros destinos deste 
angulo da peninsula hispânica. 

Fernando Peres de Trava , filho do conde Pedro 
Frojiaz, aio do infante AfTonso Raimundez , ganhou 
o coração da infanta , e brevemente se viu cônsul 
e senhor das duas provindas que cousliluiam os do- 
mínios de D. Thereza — Portugal e Coimbra. No 
meio dos deleites do amor e dos furores da guerra, 
as duas grandes paixões dessas eras , ella parecia 
deslembrada de que o terrível neto de Roberto de 
Borgonha deixara no mundo um successor do seu 
gcnio. e cega pela affeição entregara ao amante o que 
recebera do esposo , deixando talvez perpetuamente 
sujeito ao estranho o seu despresado filho. 

Como duas hienas furiosas, D. Urraca e D.The- 
resa tinham combatido largos annos ri frente dos 
seus cavalleiros , e a sorte das armas favorável a 
principio á infanta , favorecera por fira as da rai- 
nha. Vencida successivamente em vários recontros, 
e vendo-se por fim cercada no castcllo de Lanhoso, 
D. Thercsa soube ainda salvar-se , suscitando os 
mal amortecidos ódios entre sua irmaã e o malva- 
do Diogo Gelmirez , arcebispo de Compostella , cu- 
jos cavalleiros e peões eram o principal nervo do 
exercito inimigo. Se esquecera nos braços de D. 
Fernando o antigo amor do conde borgonhez , ao 
menos não esquecera a sua tortuosa politica. 

Deverá , porem , a historia attribuir eschisiva- 
mcnte áquella mulher enérgica e ambiciosa a glo- 
ria , se é gloria, desses tenebrosos enredos? Não é 
crivei que D. Fernando de Trava , filho do maior 
inimigo occulto de D. Urraca , e alcaide de muitos 
castellos do próprio Gelmirez , fosse alheio a tal 
successo. Mas quem pôde alevantar iiiteiraraenlc o 
sudário de um passado de sete séculos, e dizer aos 
que o escutam : vede-o qual elle era? 

Seja como fór , é certo que a affeição mutua de 
D. Thereza e de D. Fernando parece ler sido dura- 
doura. Em todas as crises do seu tempestuoso go- 



12 



O PANORAMA. 



verno ella o achou sempre ao lado. A decisiva \i- 
ctoria do moço AíTodso Ilenriquez quebrou aquelle 
tracto intimo de tantos annos ; mas porventura só a 
morte, que não fardou a dar repouso á infanta, ex- 
tinguiu essa constante amisadc. 

Se na batalha do campo de S.Mamede, junto de 
Guimarães, D. Thcreza e o conde houveram trium- 
phado do moço Aflbnso Ilenriquez, outra provavel- 
mente fora a sorte do nosso paiz. D. Fernando de 
Trava era um dos mais illustres ricos-horaens de 
ílalliza : a sua bandeira fluctuava cm muitos cas- 
lellos daquolla vasta c guerreira provincia. Se aos 
grandes scnliorios que herdara de seu pai e aos que 
linha em presl.imo de Diogo Gclmirez ajuntara o 
dominio dos dois condados de Portugal e Coimbra . 
ellc fora sem conlradicção o mais poderoso barão de 
toda a Ilespanha goda. No meio das revoltas c re- 
sistências que o celebre Affonso Rairaundez , cha- 
mado o imperador, encontrou na fidalguia da dila- 
cerada monarchia de sua mãe D. Urraca , não se- 
ria por certo o conde o menos ousado na desobe- 
diência , nem o mais fácil de subjugar. A guerra 
entre aquelle príncipe e o seu poderoso vassallo 
traria forçosamente ou a sugeição aCastclla dos es- 
tados do conde Henrique de Borgonha , ou o ser 
hoje a Galliza uma das províncias de Portugal, e 
alem delia talvez mais algumas outras dessa gigan- 
te Ilespanha, que por tantas vezes tem tentado de- 
Torar-nos. Mas a existência da monarchia portu- 
gueza estava decretada na mente de Deus. Este 
paiz, cujos destinos eram o conquistar para ochris- 
tianismo e para a civilisação três partes do mundo, 
devia ter em recompensa unicamente a gloria : e a 
gloria delle é tanto maior quanto, encerrado na es- 
treiteza de breves limites, o seu nome, que retum- 
bou por todo o globo , pertence a um povo sumido 
no meio dos grandes impérios da terra. 

Pobres , fracos , humilhados , depois dos tão for- 
mosos dias de poderio e renome , que nos resta se- 
não o passado? Lá temos os thesouros dos nossos af- 
fectos e contentamentos, em quanto no presente só 
achámos vácuo e tristeza. Esqueçamo-nos pois del- 
ia , c vivamos de vida melhor , a de nossos avós. 
O trato dos que foram grandes e fortes restaurará 
talvez o sentimento moral, moribundo nos corações 
da geração que ora passa. Sejam as memorias da 
pátria, que tivemos, o anjo de Deus que nosrcvoque 
a energia social c aos santos allectos da nacionali- 
dade. Que todos aqucllcs a quem o engenho e o 
estudo habilitara para os graves e profundos traba- 
lhos da historia se dediquem a ella. No meio de 
uma nação perdida , mas rica de tradições , o mis- 
ter de recordar o passado c uma espécie de magis- 
tratura moral , c uma espécie de sacerdócio. líxer- 
citcm-no os que podem e sabem ; porque não o fa- 
zer é um crime. 

E a arte? Que a arte em todas as suas formas 
externas represente este nobre pensamento : — que 
o drama , o poema , o romance sejam sempre um 
eccho das eras poéticas da nossa terra. Que o po- 
vo encontre em tudo e por toda a parte o grande e 
venerando ^ulto de seus anle]iassados. Ser-lhe-ha 
amarga a comparação. Mas como ao iimoecnlinho 
infante da Jerusalém Libertada , homens da arte , 
aspergi de suave licor a borda da taça onde está o 
remédio que pôde salva-lo. 

No meio do tumultuar das facções, entre os gri- 
tos de ódio e vingança, entre as injurias c pragas 
das cóleras humanas , sobre o soído doloroso do 
chorar c gemer do desalento, não vos lerem ás ve- 



zes os ouvidos umas toadas harmoniosas e suaves , 
que vem consoladoras partir o ruido selvagem des- 
ta geração dissídula , que se agita sobre o abysmo 
do seu nada? È o cântico d'amor ed'espcrança que 
alevanta a juventude : c ella que por cima das nos- 
sas misérias saúda as velhas glorias da sua terra 
natal ; ella innocentc c pura , que não alcança de 
todos os nossos pensamentos, interesses, e ambi- 
ções senão ura — a liberdade — aquelle talvez jus- 
tamente , que exprimimos sem o comprehender. 
Nós os homens feitos , homens do sccpticismo e da 
cubica , esperámos que as paginas que nos compe- 
tem nos annaes do paiz sejam brilhantes e lembra- 
das ! — É á geração que se alevanta que isso per- 
tence. O que nos cabe a nós não queremos, não 

ousámos dizc-lo Oxalá ella possa esquecer- 

nos , cobrindo-nos os restos com uma campa lisa e 
sem nome. Será essa a melhor prova de que nos 
perdoou o havermos sido indignos do que foi e do 
que será, o havermos sido uma lacuna tenebrosa 
no livro tão illustre e poético da linhagem portu- 
ga eza. 

Em quanto , porem , não chegam esses dias em 
que o puro e nobre engenho dos que então hãode 
ser homens celebre exclusivamente as solemnida- 
des da arte no altar do amor pátrio ; no meio des- 
ta Palmyra moral , destas vastas ruinas da nacio- 
nalidade , amontoadas pelos furores das dissenções 
civis, pela morte do sentir e crer porluguez , ale- 
vantemos uma das muitas pedras lombadas dos tem- 
plos e dos palácios , para que os obreiros robustos 
que não tardam a surgir digam quando a virem : 
(cns mãos que te pozerani ahi eram débeis, mas o 
coração que as guiava antevia já algum raio da luz 
que nos allumia. » 

Contarvos-hemos , pois , uma historia do tempo 
antigo , áspera o mal limada como elle ; uma his- 
toria da infância da monarchia. Tenebrosa e má foi 
essa infância ; porem não tanto tenebrosa c má co- 
mo a sua velhice. Se quereis principiar a ouvi-la, 
lede o seguinte capitulo. ^ nerculano. 

[Continua no N." ímmediato.] 



Bem querer e mal fazer. 

(Memorias insulauas.) 

= 1531 = 
II 

O homem propõe e Deus dispõe. 

Tari!l.=A1i ! senhor ! 
TiRiD. = Que é isso? 
TxREL.^Qiie liade ser? esta rapa- 
i\fii por nuiilas vezes pro- 
mclleu c.Tsar comigo e ago- 
■. . " • ra não quer. 

' CoBBioi..=Apelloeu porniira. Sempre 

> . fiz zomliaria ilelle. 

Comidia anliija- 

Mal raiara a manhaã , branqueando os cimos das 
serras visinhas , já na Lombada do Arco se crusa- 
vam por todos os lados os escudeiros c homens de 
armas dei). Isabel d'Abreu. — Nos ângulos tor- 
reados da casa vigiavam as atalayas entretendo as 
horas frescas da alvorada a estender os olhos pela 
encosta abaixo c lá ao longe jielos campos, dclci- 
íaudo-sc com o suave espectáculo da natureza a es- 



o PANORAMA. 



perguioar-se somnolenla por aquelles ameníssimos 
valles como quem mal sahia do somno nocturno. 

O súbito armamento e a atíitude defensiva que 
D. Isabel tomara preoccuparam todos os ânimos. 

«Que será isto? Nem que cm Africa estivéramos 
nos apparelhariamos tão fervorosos. 

<iO que vos seguro é que nem era Africa, c mais 
alli é a guerra já costume, vi eu nunca dama de 
animo tão valente como nossa ama, que Deus guar- 
de. Sc ouvísseis a firmeza com que ella ordenou 
liontcm todas as cousas de defcnsiio. O que houve 
não o sei eu ; mas , Fernara , aquelle escudeirote 
pimpão — bem sabeis? — que primeiro foi chama- 
do, afiirma que dera com a fidalga, que Deus guar- 
do , toda turvada c carrancuda c que se lhe divi- 
savam no rosto signaes de quem chorara. 

«Que seria? 

«E tão tarde , tão fora d'horas ! 

IVisto estavam os escudeiros juntos n'um pateo 
interior , buscando assim a interpretação do que 
elles não alcançavam , acudindo um com um com- 
mento , outro com um parecer , outro emfim com 
uma sentença magistral , a única no seu conceito 
admissível e provável , quando Fcrnam , o próprio 
de quem se trat.ira , sobreveio para reforçar , re- 
provar ou decidir as opiniões. — Era elle ainda 
moço , robusto , presumido , com cara avinagrada 
e gesto de arremetter , tirando um pouco para D. 
Quixote e outro pouco para Sancho Pança , o escu- 
deiro de ímmortal memoria ; e dotado , para coroa 
de tudo o mais , de punho ligeiro e língua veloz , 
servíndo-se não poucas vezes daquelle para corro- 
borar os argumentos desta , o que lhe dava entre 
os companheiros uma força e superioridade de dia- 
léctica verdadeiramente respeitável. Era emfim um 
desses tarcllos e mctlídiços — como ha tantos pelo 
inundo — que pertcndeni fallar de tudo, e em tu- 
do ter sempre rasão. Tal como acabamos de pinta- 
lo ; mal chegara , examinada a questão , o que , en- 
tre nós, não era diflieíl ; visto que em toda a casa 
não se fallava de outra cousa , começou logo sua 
doutoral prelenga por este theor. 

« Ide-vos , ide-vos , pobres moços , que estais ahi 
a fazer conjecturas vaãs. Se quereis saber o que 
vai perguntaí-m'o a mim , que tenho novas cer- 
tas. Não , que também não deixo escapar nada pe- 
la malha. 

Apínharam-se todos em roda do oráculo. 

« .\posto eu que nem pela testa vos passa quem 
deve de ser a primeira sabedora de lodo o enredo, 
e talvez lambem causa delle? 

«Não, não.» — Clamaram todos com impaciên- 
cia. 

«Pois dirvo-lo-heí eu. É a moura, aquella escra- 
va mui valida de nossa ama. 

Desta vez a cousa pareceu tão pouco provável 
que um expressivo e geral encolhimento d'hombros, 
acolheu , cm vez do desejado e habitual aplauso , 
a grande descoberta do novísta. — Era claro como 
o dia que nenhum dos circumstantes lhe acredita- 
va a mínima palavra. O Ferrabraz chamou era seu 
soccorro a maior terribilidade de que pode reves- 
tir o rosto já de si pouco meigo ; mas foi em vão : 
tornava-se límpido , a não poder sc-lo mais , que 
por esta occasião o credito vulgarmente concedido 
ás suas rasões fugia a bom fugir. E comtudo era 
porventura a primeira vez que acertava. — .\ssím 
se julga com frequência ahi por esse mundo! 

«A moura, a moura I — Que a moura seja rasão 
para andarmos por aqui a madrugar. . , Ora I 



«Sim , sim , moiremo-nos (1) nós pela moura. . . 
Bem dito, senhor Fernando. 

E estas c outras quejandas zombarias romperam 
o antigo respeito guardado ao escudeiro que arro- 
ga liava os olhos c trincava os beiços de pura cho- 
iera. Nunca tamanho desacato fora commettido con- 
tra a veneranda pessoa do Sr. Fornam, liem dese- 
jara elle em forma de auctorisada citação assentar 
quatro punhadas tczas pelos honrados narizes dos 
dignos ouvintes, mas os bracellões eganles (2) que 
lampejavam ao redor , quantiosos como eram , não 
agouravam grande divertimento para o aggressor : 
leve portanto de conter-se reservando , já se sabe , 
para melhor occasião o direito de desforra, conten- 
lando-se por esta vez em traduzir a grande ira, que 
lá dentro Ihcfervia, n'um extenso vocabulário d'in- 
jurias, fervorosa e apressadamente vomitadas, con- 
tra os descommedídos , que fizeram por compensa- 
ção grande prova de paciência aturando a intermi- 
nável loquella do escudeiro com edificante submis- 
são. 

«Santo nome de Deus ! — Más maleitas que nos 
colham '. — Nossa Senhora do Funchal I que venham 
estes franchíuotes sem siso , estas raãs de charco 
lodeiro, estes parvos que não sabem dilTerençar um 
gentil (3) de D. Fernando d'um cotrim (4) de I). 
.\nbnso 5.° insultar um homem sisudo que tem vis- 
to como são as cousas e os homens '. Com setecen- 
toi demónios; — Bera Irufaes (5) vós outros para 
quem tão néscio c. — 5[erecieis que vos ensinasse 
agora a bem viver , para que outra vez não viés- 
seis desmentir quem sabe mais que vós e que mui- 
to favor vos faz cm vos querer abrir os olhos. Se 
eu disse que a moura era havida n'isto é porque 
tenho fundamento para dízè-lo. Mas nada. . . É dei- 
tar pérolas a porcos Fícai-vos , ahi , ficai-vos 

com essas vossas necedades , e desatinadas suppo- 
síções , ficaí-vos que vos não quero já dizer nada. 

E fez semblante de retirar-se. 

O escudeiro fallava de consciência — e bem o sa- 
be o leitor amigo. — Ou fosse pela lógica das ra- 
sões, ou pela verbosidade do orador, ou emfim pe- 
la volubilidade das palavras epor uma trovoada de 
persuasivos perdigotos que distribuía liberalmente 
por todas as caras dos attentos espectadores, o cer- 
to c que estes pareceram convencerem-se de que 
tinham andado mal e — crescendo sobre isto o cos- 
tume de ouvi-lo e crc-lo , apesar do bom numero 
de patranhas com que diariamente os regallava — 
todos instaram com o bom do homem para que fi- 
casse e fatiasse. Ora elle que não queria outra cou- 
sa , nem se achava nunca tão bem como quando ti- 
nha publico para ouvi-lo e novas para contar , ven- 
do alem disso as dóceis disposições dos ouvintes 
resolveu-se a continuar. 

«Já que tanto apertais, digo-vos, meus chocarreí- 
rotcs , que só sabeis truanices e jogralidadcs fora 
de ponto , que a moura hontem mesmo desappare- 
ccu sem que se possa alcançar para aonde. Mas o 
hortellão indo ha pouco áquelle pomar de pece- 
gueiros que fica logo por baixo das jancllas dos 
aposentos de nossa ama e senhora , deu com umas 
pegadas de homem. — Foi elle mesmo que mo con- 

(1; i: Mouremo-nos ; " como se disseranios ti cancenio- 
nos , fatigiiemo-nos. ^r — Expressão proTcrbial daquelles tein- 
jioâ i<Moiiranilo-me Je Iraballios. " Bernardim Ribeiro. 

(2) Armadura defensiva dos braços. 

(3) Moeda de ouro meúda, mandada cunhar por aquel- 
le rei Era de 4 espécies. 

(4) Outra moeda de ouro. 
(s) Escarneceis. 



ií 



o PANORABIA. 



tou muito em segredo e cu só vo-lo digo aqui a 
vós em confidencia — as quaes pegadas estavam as- 
signadas na terra fresca , desde o muro que diz lá 
para os campos alé ;is ditas janellas, parecendo umas 
que iam, outras quc.vinhani. O liortellão que não c 
ahi nenhum toTito observou serem feitas não por pé 
de villão, mas pelo de quem traria pellotc de pan- 
no de engrez (6) , e calças talliadas ao viez , que 
até em risco subtil — vi-o eU' — denunciava no chão 
a passagem das esporas. 

« E que tem isso cora a moura ? 

A incredulidade parecia de novo apossar-se dos 
escudeiros com a prolixidade e miudeza das des- 
cripeõcs do Sr. Fernam que se ia afastando prodi- 
giosamente do ponto questionado. 

«Tem muito [acudiu clle pressentindo a presen- 
ça do inimigo, e sallando ao assumpto pouco mais 
ou menos como o venerando Jonathan Oldcnbuck 
de Sfonlíbarns saltaria n'uma lenda ou dcscripção]. 
Tem muito , que a par das pegadas machas dis- 
tinguem-sc outras curtas e pequenas , ao que pare- 
cem de mulher , só com a dillerença que estas não 
vão e vêem, vão só. Ora a moura [dòr de levadi- 
gas consuma todos os infiéis] dorme justamente na 
camará que deita para o pomar — não me escapou 
isso, quando ao aposento da fidalga fui certo dia re- 
ceber uma sua ordem — é portanto claro que anda 
por aqui embrulhada grande cm que a moura tem 
parte. 

Bom juizo tinha o primeiro que se lembrou de 
dizer vox populi ro.r diaboli , porque o olfalo deste 
é tal que rasteja polo faro o mais encoberto acon- 
tecimento, não lhe ficando de todo escondido, nem 
que sobre clle se cerrem as trevas do segredo me- 
lhor guardado, nem que lhe passem por cima as ho- 
ras mais repousadas e misteriosas. Esta consequên- 
cia lerá já tirado o leitor inlelligente , vendo os 
succcssos , que só eu e elle julgávamos saber, já 
tão finamente adivinhados pelo indagador escudeiro. 

Sabidos estes novos e importantes documentos 
ia proceder-sc no respeitável conciliábulo ao me- 
lhor do arrasoado , isto é ás analyses , corollarios , 
e deducções , quando um brado da mais elevada 
atalaya , partindo do araciado cimo d'uma das tor- 
rinhas , veio saltear os echos dormentes do pateo o 
suspender a caudal torrente dos principiados argu- 
mentos. O grito de alarma , repetido de boca em 
boca , fez cm momentos reunir no pateo principal , 
posto cm frente da casa , lodos os que tinham ar- 
mas. 

Seguindo as iusirocróes, que lhes haviam sidoda- 
das, bradara a atalaya apenas vira no campo maior 
cavalgada picar direita ás casas da Lombada. E 
ainda que nisto cumpria seu cargo, com rasão jul- 
garia pouco necessário o appclido (7) visto que a 
companhia avistada figurava trazer as mais pacifi- 
cas inli^nções. Compun!ia-se ella de modesto nume- 
ro do cavalleiros , escudeiros, pagens, mui atavia- 
dos c garridos, cavalgando soberbos ginetes cober- 
tos de jaezes custosos que era um não se cançar de 
admira-los. Viidia na frente de todos um cavallei- 
ro, que aos demais parecia levar vantagem, não me- 
nos na elegância , e ritiueza do traje qno no airo- 
so do porte , gentileza o garbo da figura , formosa 
cm pcrioição ; logo cm seguida um pagem , mais 
que os outros adereçado ealfenado, lhe trazia asna 
bandeira , caminhando apoz quantos na cavalgada 
tram. Nascia o sol o aos mais suaves dos seus pri- 

(0) CfTlo paiino cine vinha de Inglaterra. 
(7; Cliamaiiienlu. 



' meiros raios brilhava aquella vistosa comitiva , to- 
da luzente de ouro e prata , toda arraiada de co- 
res vivas, toda enfeitada de estofos e finos pannos, 
de sedas e penachos ondeantes. Ora quem tanto se 
atavia , certo é que se não dispõe a tentar hostili- 
dades. Todavia a conclusão , por mais que a todos 
parecesse rigorosamente lógica, não embaraçou que 
os servidores da Lombada do Arco se ajuntassem 
no logar mencionado, perdidos de conjecturas mais 
ou menos próximas da verdade, mas todos dispos- 
tos a bem cumprirem seu mister de obedientes 
servos. 

Em quanto a cavalgada trotava pelo encosta , as 
portas d'uma sala no Ínfimo pavimento que andava 
ao live! do pateo se abriram , dando passagem á 
varonil D. Isabel d'Abreu , que appareceu , reves- 
tida do seu ar fidalgo e senhoril , mas sem mostras 
nem de tristeza , nem de temor, nem de incerteza. 
Fitaram-se nella lodos os olhos , curiosos pela con- 
fidencial revelação do escudeiro Fernam , que nin- 
guém já deixava de saber .... muito cm segredo. 
Nada se podia deduzir do seu porte. Era ousado e 
modesto, era sereno c altivo. O próprio Fernam foi 
obrigado a confessar que por esta vez a sua mesma 
agudíssima penetração lhe falhava. Seguiam a no- 
bre viuva suas donas e donzellas , todas ellas , pe- 
lo menos , tão curiosas e impacientes como os ho- 
mens d'armas e escudeiros , e ao lado caminhava 
sua irmaã D. Águeda com quem , diziam as ayas 
mais madrugadoras, ainda antes de amanhecer se 
encerrara longo espaço. Chegando ao meio do pa- 
teo ergueu os olhos para seus servidores , c vendo- 
os tão numerosos , tão feros c tão bera apparelha- 
dos , como que sorriu satisfeita. 

«(Honrados servidores da Lombada do Arco [dis- 
se ella com voz toda impregnada da aflectuosa bon- 
dade do seu coração] , quereis vós boje servir de 
amparo e defensão a uma pobre viuva indefcza e 
desamparada, qne só vos tem avós por seu abrigo? 
Quereis por meu respeito expor as vidas , susten- 
tando meu dito c resolução, e affrontando orgulhos 
de soberbos ? . . . 

«Que venham, que venham [respondeu a chus- 
ma , bradando] mostrar-liies-hcmos que a bésia , a 
lança c a espada vai também nas mãos dos defen- 
sores de vossos coutos como nas dos mais ufanos e 
mais fidalgos. . . Que venham! Viva D. Isabel d'A- 
breu , nossa ama e senhora 1 

Pouco é preciso para excitar o cnthusiasmo da 
multidão. jVpesar de sua rudeza e vicios ha no po- 
vo reunido iim certo sentimento de generosidade 
que talvez provém da consciência da sua força. Es- 
te sentimento , portanto , desperto á vista de uma 
dama formosa , moça , cheia de bondade , branda 
no seu dominar , meiga posloqne animosa , scnsi- 
vel , c por fira mulher , necessariamente devia de 
acccndcr o ardor daquellcs homens, tanto mais 
quanto se ella appresentava desvalida c supplicau- 
te , crescendo sobre as outras rasões a vaidade de 
ser o appoio c defensão de quem tão lidalga era c 
tão persuasivamente implorava. Tuilo isto coidiecia 
D. Isabel e com tudo contara quando se decidira a 
vir ao meio dos seus; consequência fácil de tirar 
examinando o olhar de intidligcneia que para a ir- 
maã vohèra, no momento cm que o clauiiu- da tur- 
ba tanto a seu gosto a interronqicu. 

Nisto estavam quando novo grito (Fuma alalaya 
annunciou que a cavalgada parava jnnto d'alli. De 
feito, visinho tropear de ginetes provou o annun- 
cio. «Abri as portas, meus Icaes servidores [dis- 



o PANORAMA. 



15 



50 D. Isabel] Quem comvosco se acha não deve de 
arrecciar. 

Soberbos foram alguns escudeiros cumprir a or- 
dem de sua] ama , e as portas patentes de par em 
par deram entrada aos de fiJra. — O espectáculo en- 
tão foi estranho. — D. Isabel, só, no meio de seus 
servidores , firmes c cobertos d'armas , a luzirem 
aos primeiros raios da raanbaã , como polido muro 
do aço , trajando singelas roupas de viuva em di- 
gna e magestosa attilude : — António Gonçalves da 
Camará — já de certo os nossos leitores terão adivi- 
nhado que elle era o gentil chefe da cavalgada — 
alinhado e ataviado como namorado que era, me- 
neando graciosamente seu formoso ginete fouveiro , 
seguido de sua bandeira , c acompanhado dos me- 
lhores de sua casa e senhorios. — Era para ver . . . 

Pasmou o alvoroçado galan vendo o guerreiro ap- 
parelho com que ora recebido , e não sabendo ain- 
da o que pensasse quiz ao menos mostrar o como 
era cortez e sabido cavalleiro. Apenas transposera 
as porias descavalgou promptamente, e atirando com 
gracioso desleixo as rédeas do ginete ao braço do 
seu pagem, adianlou-se para D. Isabel , surprehen- 
dido 6 como que um pouco perturbado. 

« Que me quereis , galhardo primo ? [perguntou 
esta com modo soberano e despedido] Que vos traz 
a minha morada Ião de manhaã ainda , e tão bem 
acompanhado ? 

Sabidos os acontecimentos da noutc esta pergun- 
ta, com tal modo e cm tal logar e posição, era era 
boa verdade pouco recreativa e animadora : por is- 
so o António da Camr.ra dando mostras de hesita- 
ção respondeu balbuciando. 

«Mas eu . . . formosa prima . . . cuidava. . . . De- 
pois . . . sabeis. . . . Em certeza. . . . 

«Fallai, primo, fallai ; ou dareis aso a crèr-se 
que vos assusta a minha presença. 

António da Camará ergueu a fronte com aliiveza, 
c relampeando-lhe os olhos acudiu com brios de 
cavalleiro. 

«Assustar-me eu , senhora ! . . . Já que assim o 
quereis, fallarci , e mal de quem não attender ao 
meu dito. . . O a que eu venho aqui bem o sabeis, 
senhora prima. Venho exigir de vós o cumprimen- 
to de uma promessa. . . . 

«Arrancada á falsa fé [interrompeu D. Isabel 
com ar e voz de rainha, imperiosa e altiva, olhan- 
do fidalgamenle em redor — sublime neste momen- 
to]. Arrancada de noute por traição de uma moura 
ingrata. . . . 

Aqui os dois escudeiros íjue ficavam aos lados do 
nosso amigo Fornam saltaram para a banda ambos 
ao mesmo tempo pondo doridamente am:\p na ilhar- 
ga. — Eram causa deste inesperado movimento duas 
rijas e triumphantes cotoveladas , applicadas como 
victoriosa advertência pelo bom do homem que 
não se descuidou de firmar estes dois padrões da 
sua gloriosa descoberta cora mais alguma valentia 
do que honestamente devera, lembrado ainda talvez 
das malignas risadas dos coUegas. — No cmtanto 
T>. Isabel continuava com vehemencia. 

"Por traição de uma moura ingrata e de um ca- 
valleiro desleal , mais mouro do que a moura, que 
á maneira de salteador se introduziu pelas trevas , 
escondida e furtivamente, no seio das famílias, amea- 
çando uma mulher indefcza , ameaçando-a com a 
dcshonra e a infâmia publicas. . . . Escutai-rae até 
ao fim , meu pri.mo , que não é de cortez interrom- 
per uma dama. . . E vós cavalleiros e escudeiros . . . 
vós leaes servidores de minha casa , e vós , estra- 



nhos , escutai-me também. . . Aquella promessa as- 
sim extorquida , assim por mim feita , como único 
meio de salvar a reputação, devo eu cumpri-la ? . . . 
Não, António Gonçalves da Camará, não é com ac- 
ções de villão que se conquistam puros affeclos. . . 
Ide-vos , que vos denuncio diante destes honrados 
servos , pelo vil que hontem penetrastes aleivosa- 
mente como traidor e indigno nos meus aposentos , 
aonde só vos fiz promessa de seguir-vos hoje como 
vossa mulher para evitar o propósito infame a que 
vínheis deliberado. . . . Ide-vos e envergunhai-vos , 

senhor , ide-vos cm paz ou senão oUiai para 

mim. Estou no meio dos meus servos fieis, que bem 
como eu ainda não perderam lembranças de seu 
amo. 

Tremulo de ira por se ver assim burlado, e fais- 
cando-lhe os olhos, levou António da Camará a mão 
ao punho da espada era quanto nas abaladas filei» 
ras dos de D. Isabel mais de uma besta se encur- 
vava e mais de um ferro sabia da bainha. Atten- 
tando porem em si e vcndo-se trajado de sedas , os 
da Lombada do Arco cobertos de ferro , diminuta 
a sua comitiva e a de D. Isabel numerosa e ap- 
parelhada ; tenteando o lado e achando a espada 
de enfeite em vez da do combale ; olhando para os 
seus e notando-os indecisos em quanto os contrá- 
rios pareciam delorminados c impacientes , como 
quem só aguardava o minimo sigual de sua ama, 
cujo só respeito os continha , acabou comsigo em 
disfarçar a cholera que o roía. — Sem dizer pala- 
vra , que rn'o não consentia seu despeito , caval- 
gou com os seus , e fazendo uma vénia , um tanto 
irónica , partiu afrmcnndo com anciã raivosa as es- 
poras nos ílbaes do pobre ginete, que tudo presen- 
ceára cora exemplar indílTerença o que , afinal, 
como diz o nosso inimitável Toleutino «... foi só 
quem perdeu no tal jnguinho. 

Silenciosa também voltou D. Isabel, com sua ir- 
maã e suas ayas, a recolhcr-se, c ainda bem de to- 
do não era ida já o amigo Fernam , que arreben- 
tava por fallar , arrebanhando em volta de si os 
companheiros lhes gritava como se levasse era gos- 
to particular o ensurdece-los a todos , esfolando ao 
mesmo passo as mãos á força de esfrega-las em si- 
gnal de suprema satisfação : . - 

«Então , então que vos dizia cu? 

.5. Leal Júnior. 
[Continuar-sc-ha.] 



g^O objecto destes capítulos, que alguém te- 
ria por novella, é fielmente extraindo d'um manus- 
crípto do Dr. Gaspar Fructuoso , intitulado «Sau- 
dades da Terra» — feito em 1579 e dividido era 
51 cap. , ura dos quaes [cap. 3G] , o de que nos 
aproveitamos, tem por titulo «Do que fez António 
Gonçalves da Caraara , filho da camareira mór da 
rainha D. Catbariua , na ilha da Madeira e do que 
mais lhe aconteceu casando nella e fora delia.» — • 
Deste Dr. Gaspar Fructuoso dá a biographia Cor- 
deiro a pag. 40 do cap. 2." do 2." livro da sua 
«Historia Insulana.» Não c portanto um romance, 
mas uma historia que narrámos. O facto é ou con- 
temporâneo ou quasi contemporâneo do auctor que 
o conta ; podemos por consequência crè-lo em boa 
fé sem faltarmos ás regras da mais escrupulosa her- 
raeneulica — No demais cumprc-nos alfiançnr que 
rigorosamente copiamos e conservamos toda a ac- 
ção , situações, caracteres, oposição. Unicamen- 
te ami)lificâmos c accommodàmos algumas parti- 
cularidades, fazendo aqui , ou acolá ligcirissim.as 



16 



O PANORAMA. 



alterações na superfície do assumplo som que do 
inlimo era nada bulíssemos. — Da primitiva simplici- 
dade c porventura rudeza do manuscripto , lambem 
uma ou outra vez tentaremos dar uns longes , mas 
J}Uscando sempre contribuir com o nosso mingua- 
do contingente de forças , para fazer realçar o tal 
ou qual drama que ha ahi, por meio d'ura colorido 
vivo, de um estylo animado, c de um dialogo con- 
veniente. Temos para nós que é esta a melhor ma- 
neira , c já agora talícz a única neste século , de 
ensinar a historia , não que assim leve menos tra- 
Lalho , tempo c vigilias a quem escreve , mas por- 
que , ao mesmo passo que deleita , instruo mais a 
quem lê. Por este acontecimento , que tentamos 
aqui romancear , verá o leitor como o espirito in- 
dependente da nobreza , apesar dos golpes dados 
por D. João 2.°, se conservava ainda incarnado nos 
costumes , no existir e no pensar. É ura docuraen- 
lo desse poder da antiga fidalguia, que cm despre- 
zo de lodos os códigos entregava aos gumes da es- 
pada as decisões que devera de depositar nas mãos 
dos Juizes c interpretadores da lei. É ura monu- 
mento do modo de viver daquclles tempos , dos 
quaes , máu grado a todas as pcsquizas de fieis in- 
dagadores , ainda tão pouco sabemos. Este padrão 
e este documento julgamos de o fazer conhecido. 
— Será mais uma phrase accrcscentada a essas pou- 
cas paginas — que nem por serem poucas são de 
jncnos monta e galhardia — da nossa verdadeira 
historia. — Desta maneira é que as folhas pequenas 
se tornarão livro grande. Desta maneira se irá er- 
guendo ura Pantheon para os nossos maiores , um 
íemplo para a arte, c uma aula para a boa lição. 
Assim melhores mãos que as minhas tomem a si o 
dar impulso forte á cmpreza. 



Epitome da vida de Luiz de Camões. 

(Continuação.) 

Li'iz de Camões foi de tenra idade , passada a sua 
primeira educação , continuar os seus estudos na 
universidade, que elrei D. João .3.° tinlia trans- 
ferido de Lisboa para Coimbra , convidando para 
nella serem professores alguns dos nacionaes c es- 
trangeiros mais famosos, entre os quaes cumpre no- 
mear o celebre Gcorge Buchanan , que os enredos 
fradcscos obrigaram depois a fugir de Portugal. 

Dos progressos que fez Camões naquella univer- 
sidade se pôde julgar pelas suas obras compostas 
na idade juvenil , taes como elegias c sonetos que 
passaram á posteridade , e que posto com menos 
renome do que os seus Lusiadas, nem por isso sem 
grande conceito c apreço dos vindouros ; não assim 
(los coevos, emeujonumero contaremos o nosso Fer- 
reira, que posto fira condiscípulo, na universidade, 
de Luiz de Camões , nem por aquelles primeiros 
ensejos se lhe mostrara afeiçoado. íí provável que 
!''erreira e outros contemporâneos dislinclos não 
prevessem então o extraordinário talento que o jo- 
ven poeta mostrou depois , ou que talvez preveni- 
dos pelo estylo moderno, que Camões adoptara sem 
eomludo despresar o antigo , não lhe fizessem nes- 
se tempo a justiça que elle merecia. Seja como filr, 
não encontrámos cm partem alguma apontamentos 
que nos levem a crer quií o nosso Vate grangeas- 
se a amisade dos bons engenhos seus eondiscipu- 
los , .sabemos só que .aos i8 ou 20 annos de idade 
acabou os seus estudos , e voltou á còrtc onde re- 



sidiam seus pais , e onde segundo os costumes da- 
quclles tempos os nobres vinham mostrar-se para 
aperfeiçoar a sua educação, e passar d'alli ás es- 
cholas militares da Africa c da Ásia. 

Dotado de raro engenho , de presença agradável , 
de ardente imaginação , e de coração sensivel , 
viu-se procurado e estimado por todos aquelles que 
cultivavam as lettras , e admittido na corte e na 
mais alia sociedade. Foi alli que viu D. Catharina 
de Atavde (•) , que se devemos crer a descripção 
encantadora do poeta , era um composto de graças 
e de belleza. Esta senhora era dama do paço, e a 
julgar pelo seu appellido. parenta do primeiro con- 
de da Castanheira , D. António de Atayde , podero- 
so valido de D. João 3.° Estes amores, que inspi- 
raram a Camões grande numero de suas poesias , 
em que sobresahe a Écloga XV , foram a primei- 
ra causa dos seus infortúnios. A falta de bens da 
fortuna , que não a de nascimento em que elle era 
igual a D. Catharina , fez com que a familia desta 
senhora não só procurasse impedir esta união , que 
tinha por pouco vantajosa , mas sobre elle chamas- 
se o rigor das leis , mui severas nesse tempo contra 
qualquer que se atrevesse a ter amores no paço. 

O valimento dos parentes de D. Catharina piidc 
conseguir que fosse Camões desterrado da corte 
para o Uibalejo, retiro em que para allivio de suas 
magoas, se entregou todo ao estudo c á poesia. 
Grande parte de suas rimas, a Elegia 3.", c pro- 
vavelmente as suas comedias , foram compostas 
nesse degredo , e segundo Manuel de Faria 'então 
foi também concebido o plano do seu poema. 

Assim na flor da idade viu Luiz de Camões cor- 
tadas as mais charas esperanças de sua futura car- 
reira , c na villa de Santarém continuou por algum 
tempo tranq'iillo , entregue todo á paixão que no 
peito alimentava. Azedado pelo não merecido in- 
fortúnio , vendo-se no principio da sua vida victi- 
ma de injustas preoccupações , voltou-se todo para 
a carreira gloriosa das armas , e das cniprezas ar- 
riscadas , com que desde seus verdes annos fora 
embalado. Viclima de um amor, que mais se ha- 
via radicado pelo degredo soffrido , resolveu deixar 
a pátria logo que o seu degredo acabasse. 

De volta a Lisboa tomou o serviço militar, e quiz 
participar da gloria , que os portuguczcs então ad- 
quiriram em todas as partes do mundo. Passou lo- 
go a Ceuta que nesse tempo governava D. Pedro de 
Menezes, e alli militou com muito denodo achan- 
do-sc cm diversos recontros , e particularmente em 
um combate naval perto do estreito de Gibraltar , 
aonde junto de seu pai , que commandava uma das 
naus, recebeu dos mouros um tiro que o privou do 
olho direito. Voltou a Lisboa com esta honrosa ci- 
catriz , mas nem por cila , nem por os seus servi- 
ços teve a menor recompensa. 

/'. M. 
[Continua]. 

Nos VELHOS a ambição de poder c dominação é in- 
comparavelmente mais atroz e vii)lenta que nos mo- 
ços ; estes podem esperar, aquelles não querem 
perder tempo. — Marquez de Bhricá. 

(.) O liccnciíulo Jorio Pinto Ril)eiro iliz <|m' a pcsso.T 
por qiipra Cnniòca se perdera (i'aiiiori>9 fora O. Catliarina 
d' Almada, prima do poeta. Faria e Sousa assevera ler si- 
do D. Catliarina de Alayile, e a esta opinião se encosta o 
donlo Sr. Iiispo de Vizen'. A dama preferida era sem a me- 
nor duvida Catliarina , (|ne Camões cliama Aalcrcia , ana- 
grama daquelle nome, no soneto 1A.\. 



56 



o PANORAMA. 



17 




III" I 'III' 




li' 



Sf 

|''i 



|i!li'>|l1lili'{|ll|||l!líri!|iíl« 




r 



r. 








• «1 



POUTLGAL. 
XX. 

Avi;iR(i. 

I. 

A CIDADE irAveiro, que ainda no mciado do se- 

rnlo passado era villa . conlada entre as mais no- 

Ja.neiuo 21 — 1SÍ3. 



Iires e populosas do reino , passou no reinadn di» 
Sr. D. José á cathegnria que Icm hoje , sendo ele- 
vada a sé episcopal , desmembrando-se esta v.o^n 
diocese da antiga de Coimbra , e reconhecendo prir 
metropolitana a igreja bracharense. Tem o tilul;; de 
nolre e notável , e na antiga legislação e sjsti.ma 
•2." Serie — \vl.. 11. 



18 



O PANORA3IA. 



politico gozava de voto nas cortes dos Ires estados, 
!• dc muitos e singulares privilégios , qne ultima- 
mente tinham sido confirmados em 1641 pelo Sr. 
rei D. João 4.° Por occasião do exterrainio da fa- 
mília dos duques d'Aveiro , sob pretexto d'assassi- 
iiio intentado contra a pessoa d'clrei D.José, subiu 
a tanto o rancor que até foi mudado o nome a esta 
cidade , que dera o titulo áquclla casa infeliz , e o 
mudaram para Nova- lira ganra ; alterarão que brc- 
Yí- durou , nem deixou lembrança no povo , anni- 
({uilada logo no subsequente reinado. 

Aveiro está situada em mediana elevação ao lou- 
i?') das margens do Vouga , quasi toda na direcção 
de norte a sul , c cercada de uma campina fértil , 
povoada de quintas c hortejos , c abundante em 
aguas nativas. Pôde considerar-se dividida cm cin- 
to partes, uma das quaes ó a mais antiga, com- 
prehendida no recinto amuralhado , obra do infan- 
te D. Pedro, filho dc D. João 1.°; as outras qua- 
tro tem a disposição de suburldos , ou arrabaldes: 
ao norte vão-se levantando as ruas pelo bairro-novo 
até a ermida da Sr."" d' Alegria : c para o sul na 
parle mais alta da cidade estende-se a formosa ala- 
meda , entre a porta dita de Vagos e o convento de 
.St.° António, bcllo passeio donde scdesfrucla agra- 
dável vista do rio e do campo adjacente: contribuo 
para a frescura do sitio uma fonte , das cinco que 
SC numeram na povoação , alem de muitos raanan- 
ciaes na visinhanca , de que os moradores seapro- 
Tcilam para regas, e para usos domésticos, entran- 
do a nascente da Ribeira, copiosa c sadia, que por 
um aqueducto c conduzida ao chafariz da praça, de 
(juatro bicas, e tão visinho da ria que muito facili- 
ta as aguadas aos mareantes. 

O [jorto é formado por um esteiro fundo ou ria , 
pelo qual ascende a maré a misturar-sc com as 
aguas da foz da Vouga, que por aqui vem, engros- 
sado com varias ribeiras, pagar seu tributo ao ocea- 
no ; a espécie de pequeno golpho em frente da ci- 
dade é retalhado em ilhotas ou lesirias , parte cul- 
tivadas , c parto aproveitadas cm marinhas. A bar- 
ra é mui susceptivcl dc entulhar-se c de variar de 
posição como a da foz do Douro, em rasão dos l)an- 
cos d'arèa movediços : delia e da capacidade de 
bcu porto nasceu, c ainda agora depende, a prospe- 
ridade de Aveiro , que jcá pelo commcrcio , navega- 
ção e pescarias, cm outros tempos se foz assaz opu- 
lenta, c conseguiu grande importância no reino , 
pois que em lii.-JO contava doze mil almas, c pos- 
suia mais dc 150 navios mercantes , expedindo an- 
uiialmente 60 á pesca do bacalhau no grande ban- 
co da Terra-Nova (-) , c cem carregados dc sal de 
suas marinhas [hoje mui estragadas c perdidas] pa- 
ra as províncias do Norte c para a Galiza. — Tão 
florccenlc estado succcssívamente decahiu desde 
1575 até o fim do século 17.° á medida que o por- 
to se entulhava ; porem no principio do presente 
século o mal chegou ao seu auge : o movimento con- 
tinuo das arèas ao longo da costa removera a barra 
[lara o sul até perlo de Mira , isto c , mais dc 15 
niíliias da sua primitiva situação. Os ferieis cam- 
pos d'Avciro, que outr'ora produziram, segundo 
<ii/.ein, trinla mil moios de trigo, c as grandes ma- 
rinlias (]uc rendiam , igualmente por anuo, dczo- 
.seis mil moios de sal , solTrcram as fataes conse- 
quências daquella alteração : alem de qne o terre- 
no , dantes espaçoso c fértil, se converteu em ala- 



gadiço , produclor de miasmas , que despovoaram 
a cidade c arredores, fazendo o clima insalubre cm 
summo grau. — Era ministro d'cstado cm 1801 o 
conde de Linhares, c procurou-sc remediar o mal : 
dois engenheiros , o brigadeiro Oudinot e o tencnta 
coronel, Luiz Gomes de Carvalho (::) foram encar- 
regados de apromplar o plano ; e com efleito sob as 
suas ordens tiveram começo os trabalhos em 1802. 
Partindo Oudinot para a Madeira Ceou a inspecção 
commetida a Gomes de Carvalho , e concluiu-se a 
obra a 3 d'abril de 1808, montando a despeza to- 
tal a cem contos do réis. Formou-se o porto d'A- 
vciro pela construcção de um dique de 1:210 bra- 
ças d'cxtensão por uma largura media de 72 pal- 
mos , elevando-se cm todo o comprimento muitos 
palmos acima das mais fortes mares d'inverno. Por 
meio desta repreza ou dique , que atravessava in- 
teiramente o Vouga , conseguia-so que as próprias 
aguas do rio servissem de desimpedir a barra, e 
levar comsigo as dunas ou baixos d'areias, que lhe 
obstruiam a foz cm comraunicação com o mar. Es- 
ta grande obra hydraulica requeria vigiada, e con- 
servada por ulteriores trabalhos. 



(•) Viil. o oxlensc) arligo , ijiie sol)ri! u Teira-Nuva e n 
pc»ca do l)acalli,'ni escrevemos a jiai,'. 10 o seg. do vol. 3.° 
da pnuaira Sciie. 



Aviso CO.NTBA SALTEADOBES. 

Se ha no mundo paciência c equanimidade herói- 
ca , tem-no sido sem a minima contradicção , por 
mais de cinco ou seis annos , a da imprensa portu- 
gueza , espoliada traiçoeiramente por alguns beduí- 
nos c traficantes lillcrarios, que assentaram as suas 
tendas de aduar , não nos desertos da Africa , mas 
na capital de um robusto e ílorescentc império. Co- 
mo succede quasi sempre cãs grandes virtudes , a 
nossa tom , porventura , sido attribuida a motivos 
menos honrosos — ao desleixo ou á fraqueza; porque 
cm logar de com o solTrimcnto movermos esses mi- 
seráveis a envergonharom-se do seu torpíssimo pro- 
codtr, só temos visto em resultado levarem as suas 
rapinas ao ultimo ápice do descaramento alárabe. 
É preciso, pois , que saibam que a paciência hu- 
mana tom , como tudo , iim termo. 

Algum ou alguns livreiros francczes estabelecidos 
no Urasil tomaram para honesto modo de vida roubar 
quanto a imprensa de Portugal produz. Seja bom ou 
sejaraáu, não ha livro, folheio, artigo de jornal po- 
pular, que não seja reproduzido pela imprensa fran- 
ccza da America. È como o sacco de qualquer cida- 
de da Europa dado pelos soldados do Buonaparte : 
vai tudo. Da allura da sua enorme sciencia e civi- 
lisação gallicana aquclla boa gente olha com sobe- 
rano desprezo para o publico brasileiro: oeste po- 
vo rude c ignorante — dizem cllcs na profundeza 
dos seus pensamentos — lê sem entender, e esque- 
cc-sc do que lem lido ; lancemos nas columnas dos 
nossos jornaes-ccchos , dos nossos livros-alheios , 
quanto em Portugal s« pensar e escrever. Que iui- 
porta que os brasileiros o hajam lido em primeira 
mão? É um negocio de tempo. Quando cá sair a 
lume já o terão esquecido, e nós ganharemos di- 
nheiro. D 

Tanto éesta opinião insolente e ingrata a que pre- 
side a tão baixn latrocinio, qne nesses jornaos com- 

(::) Deste saljio eDçeiilieiro ha uma memoria solire a 
l)arra do Douro, com a planla, em o 0." tom. das da.4.cad. 
dai Scieuc. 



o PANORAÍHA. 



19 



postos unicnmcnte de farrapos , mal cirzidos , dos 
iornacs populares portuguczrs , nunca so encontra- 
rá a indicarão , nem o norac do pobre espoliado. 
•Estas indicarucs c estes nomes revelariam claro co- 
mo o dia que osadellos litterarios nãoteem de seu 
para trazerem á praça nem a mais somenos mcrca- 
âuria. 

Ha nm fado antigo que pesa sobre este mesqui- 
nho Portugal , e que , segundo cremos , a experiên- 
cia de muitos séculos converteu n'uni desses rifões, 
que representam c resumem a sabedoria do povo. 
-Tudo quanto é rapinavcl e rapinado tem entre nós 
tima denominação caractcristica : cbama-se-lhc rou- 
pa de francezcs; porque os successos da nossa his- 
toria nos hão bera d nossa custa provado que no 
meio daquella nação, aliás generosa e honesta, ha 
muitos homens promptos sempre a lançar mão de 
tudo o que podem tirar sem resistência c conver- 
Ic-lo cm substancia própria. Os saltos dos norman- 
dos e lotharingios nas costas do Jlinho e da Beira 
durante o sccbIo 12.° : as depredações deDuguesclin 
c dos seus homens d'armas , a soldo dos reis de 
Caslella , no lini do 14.° ; as piratarias dos armado- 
res da Bretanha e Normandia que no 16." infestavam 
os nossos mares da Europa c da Africa; o sacco do 
Rio de Janeiro nos primeiros annos do 18.°; a inva- 
são do principio do 19.°, em que ficaram as igrejas 
de Portugal sem um lampadário , sem uma custo- 
dia . sem um vaso sagrado ; todos estes factos san- 
ctilicaram o rifão , e levaram até a ultima eviden- 
cia que sobre nós pesava o fatal destino , symboli- 
sado na phrase popular. 

Quando , porem , parecia que já neste pobre c 
humilhado paiz não haveria que roubar, acha o gé- 
nio inventor de algum ou d'alguns francezcs, que 
nem o frueto do pouco ou muito estudo , do muito 
ou pouco talento — propriedade sagrada entre todas 
as propriedades — se nos de\ia deixar. Depois de 
nos devorarem as mais remotas e menos legitimas 
riquezas de qualquer povo , as colónias c conquis- 
tas, cspoliaram-nos dos bens mais domésticos, mais 
queridos, mais respeitáveis — os instrumentos do 
nosso culto; c como estas eram as ultimas raias do 
mundo material, ultrapassando-as , vieram ainda 
Jjuscar-nos as tão teuues faculdades da intelligencia. 

Masse, relativamente a Portugal, este proceder é 
o de salteadores covardes, relativamente ao Brasil 
é , alem disso , insultuoso c calumniador. Não se- 
ria o engenho brazileiro capaz de produzir obras 
d'arte ou de sciencia? Ahi estão as publicações 
americanas — verdadeiramente americanas — que 
respondam por nós. O jornal do Instituto Históri- 
co , o da Sociedade auxiliadora da Industria , o fa- 
zem cabalmente. Estas publicações e muitas outras, 
periódicas e não periódicas, dão testemunho de que 
também no grande império da America meridional 
ha sciencia grande e profunda , ha lettras , ha en- 
genho. Se os especuladores da imprensa pertendcm 
cmpregar-se no commercio das lettras , convoquem 
os filhos do Brasil , que podem e sabem , tão bem 
como os de Portugal , preencher honrosamente o 
ministério de escriptores , e recompensem o seu 
trabalho , como se pratica por toda a parte ; como 
se pratica entre nós. Então o seu commercio será 
honestamente proveitoso para clles, útil para as let- 
tras brasileiras, e glorioso para o Brasil, cm vez 
de ser uma calumnia affrontosa contra a nação quo 
os acolheu, c um roubo insolente contra as cmpre- 
zas typographicas da Europa, c eonlra os interesses 



dos homens da sciencia c da arte , nascidos alem 
do Atlântico. 

Queremos nós com isto negar a qualquer editor 
de uma publicação periódica a faculdade de trans- 
crever um ou outro artigo das publicações análo- 
gas , feitas cm Portugal , um ou outro trecho dos 
livros porluguezes? Não por certo : tal pcrtenção 
seria absurda lia cousas que pela matéria ou pela 
forma podem interessar os leitores do Brasil , e 
nesse caso, posloquc os livros e periódicos de Por- 
tugal não sejam raros no Novo-Mundo , será um 
serviço feito á illustração nacional o dar a tal es- 
cripto a maior publicidade possível : — sè-lo-hia até 
á gloria de seu auctor. Slas nisto ha discernimento 
e escolha; não ha o que se pratica hoje; não se 
misturam estupidamente diamantes com velórios , 
ouro com leutcjoulas: cita-se o titulo da publica- 
cação , 00 o nome do auctor que se copia. Simi- 
Ihante procedimento ó o dos homens honestos , o 
contrario ou c inclassificável , ou pertenrc-lhe in- 
contestavelmente a qualificação que acima lhe de- 
mos. 

Que esse individuo, ou indivíduos, que se di- 
zem membros de uma nação illustre, aprendam do 
próprio paiz onde vivem , c de cuja hospitalidade 
abusam, a respeitar a propriedade alheia. Quandn 
os editores dos jornaes brasileiros mais graves e 
profundos, julgara dever dar nas columnas dellcs 
logar a composições portuguezas, jamais se esque- 
cem dos deveres do homem probo , e escrupulosa- 
mente indicam as fontes a que recorreram. Os que 
talvez no seu orgulho acreditaram ter levado ao 
Brasil a diffusão das luzes encerrada nos seus cai- 
xões de typo , podem ahi receber lições — se aca- 
so a sua comprehensão tanto alcança — de verda- 
deira illustração , e o que mais é , de verdadeira 
honestidade. 

Appelamos para o bom juizo dos brasileiros, pa- 
ra a opinião publica , para aquelles que por mai^ 
de ura titulo são nossos irmãos — os litteratos d<i 
império. Trata-se não só de nós , não só dos inte- 
resses de Portugal ; trata-se igualmente do Brasil . 
da sua gloria, do futuro dos seus escriptores. — 
A questão da propriedade litteraria choje uma gra- 
víssima questão da velha Europa : a immoralídade 
internacional neste objecto capitalissimo é um doj 
cancros que a devoram. Não consintam os brasilei- 
ros que este ou aquellc estrangeiro possa iunocular 
livremente n'um povo virgem um virus que cor- 
roa as nossas sociedades decadentes. Em Portugal 
isto só produz damnos individuaes : no Brasil pro- 
duzirá um damno commum. Nós podemos dizer- 
Ihe: Rcs rcstra agilur. 

Agora que os cirzidorcs d'alheios farrapos trans- 
crevam como seu este artigo. 

Á. Iltrcuhtno. 



O BOBO. 

1128- 

II 

Dom Uihas. 

O castello de Guimarães , qual ahi existi.i nos 
princípios do século 12.°, difl'crençava-se entre os 
outros, que cobriam quasi todas as eminências «las 
honras e prestamos de Portugal e da Calliza , por 
sua fortaleza, vastidão, e elegância. A maior par- 



20 



O PANORAMA. 



te dos edifícios desta espécie eram apenas então 
iitn ;iggrcgado de grossas vigas , travadas entre si , 
e formando uma serie de torres irregulares , cujas 
jiaredcs, muitas vezes feitas de cantaria sem cimen- 
to , mal resistiam aos golpes dos ariclcs e aos ti- 
ros das calapultas , ao passo que os madeiros que 
ligavam esses fracos muros, c llics davam certo as- 
pecto do forlilicarão duradoura, tinham o grave in- 
convcnienle de poderem facilmcnle inccndiar-sc. 
Assim não havia caslcllo , onde entre as armas e 
baslimeníos de guerra não occupasscm um dos mais 
importantes logares as amplas cubas de vinagre , 
liquido que a experiência linha mostrado ser o 
mais próprio para apagar o alcatrão incendido, que 
como instrumenlo de ruina usavam nos sítios dos 
logares aforlalczados. Quando o gato ou a vinea , 
espécie de barraca ambulante , coberta de couros 
crus, SC approximava, pesada e lenta como um es- 
pectro , aos muros de qualquer castello , em quan- 
to os cavalleiros mais possantes arcavam com pe- 
dras enormes ,- levando-as aos vãos das ameias, pa- 
ra dahi as deixarem cahir sobre o tecto da macbi- 
na , os peões conduziam para o lanço de muralha 
ou torre, a que esta se dirigia , uma quantidade 
daquclle liquido salvador capaz d'abafar as cham- 
raas , involtas em rolos de fumo fétido, que não 
tardariam a lamber as traves angulares do guerrei- 
ro edificio. Muitas vezes essas precauções eram 
inúteis, principalmente conlra os sarracenos. Entre 
estes uma civilisação immensa tinha moderado o 
fanatismo, quebrado os brios selvagens, diminuído 
a robustez phjsica dos homens d'armas : a sua mes- 
tria, porem, da arte da guerra suppria estas faltas e 
equilibrava nos combates o soldado musslim com 
o guerreiro christão mais robusto, mais fanático e 
por isso mais impeluoso do ([ue elle. Era principal- 
nicnlo nos assédios, quer dofcndcndo-sc , quer ac- 
commetlendo, que os árabes conheciam todo o pre- 
ço da própria superioridade intellectual. As suas 
machinas de guerra , mais perfeitas que as dos na- 
zarenos , não só pela melhor combinação das forças 
mechanieas , com.o pela maior variedade de enge- 
nhos c invenções , davam-lhes notáveis vantagens 
sobre a grosseira táctica dos seus adversários. Sem 
o soccorro da vínea os árabes sabiam incendiar de 
longe os castellos com os scorpiões arrojados pelas 
nianganellas de fogo. De enxofre, salitre e naphta 
compunham ellcs um mixlo terrível , com que des- 
pediam dos engenhos globos de ferro cheios do 
mesmo composto , que serpeando c sussurrando nos 
aros iam estourar, c verter dentro dos muros asse- 
diados uma espécie de lava inextinguível e infer- 
nal , contra cuja violência eram baldadas qiiasi 
sempre todas as prevenções , e não menos baldadas 
a valentia e a força dos mais duros cavalleiros e 
homens d'armas. 

-Mas o castello do Guimarães podia , do tczo so- 
bro ([ue estava assentado, olhar cora tranquillo des- 
dém para os formidáveis c variados engenhos mili- 
tares de chrislãos e do sarracenos. X melhor f)rta- 
leza daOalliza, o Castro Honesto, que o mui pode- 
roso e venerando senhor Diogo Gclmirez , primei- 
ro arcebispo de Compostella , reformara de novo , 
com lodo o esmero de quem sabia ser aquelle Cas- 
tro como a chave da extensa iloina e Senhorio Com- 
postellano , era, por trinta léguas em roda, o úni- 
co talvez que ousaria disputar primazias com o de 
Guimarães. Como a daquelU; , a cárcova deste era 
larga e profunda ; as suas barreiras amplas c de- 
fendidas por boasbarbacans ; as suas muralhas, tor- 



readas com curtos inlervallos , altas , amciadas e 
desmarcadamente grossas , do que dava testemunho 
o espaçoso dos adarvcs que corriam por cima del- 
ias. O circuito, que tão temerosas fortificações abran- 
giam, encerrava uma nobre alcáçova, que, também 
coberta d'ameias, campeava sobranceira aos lanços 
de muros entre torre e torre , c ainda assoberbava 
estas, á excepção da alvarran ou de menagem, que 
macissa e quadrangular, com os seus esguios mira- 
douros bojando nos dois ângulos exteriores , e er- 
guida Sobre o escuro portal da entrada , parecia 
um gigante cm pé e com os punhos cerrados sobre 
os quadris , ameaçando o burgo rasteiro e humil- 
do , que lá embaixo no sopé da encosta se encolhia 
e apoquentava , como villão que era , diante de ta- 
manho senhor. 

Mas não vedes ahi ao longe , por entre a casaria 
da povoação e a verdura das almoínhas , que , en- 
tresachadas com os edifícios burguezes, serveia co- 
mo de vasto tapeio , onde assentara os pannos de 
muros alvos , e os telhados vermelhos e aprumados 
das casas modestas dos peões? — Não vedes, digo, 
a alpendrada de uma igreja , a portaria de um a- 
cístcrío , a grimpa d'ura campanário? É o mostei- 
ro de D. Mumadona : é um claustro de monges ne- 
gros : é a origem desse burgo , do castello roquei- 
ro e dos seus paços reacs. Havia duzentos annos 
que neste valle viviam apenas alguns servos , que 
cultivavam a villa ou herdade de Vimaranes. Mas 
o mosteiro edificou-se, e a povoação nasceu. O ame- 
no e aprazível do sitio attrahiu os poderosos ; o 
conde lienriquc quiz ahi habitar algum tempo , e 
sobre as ruínas de um fraco e pequeno castello , a 
que 03 monges se acolhiam ante o assolador tufão 
das correrias dos mouros, se alevantou aquella ma- 
china. O trato e frequência da corte enriqueceu 09 
burguezes : muitos Francos , vindos era companhia 
do conde , ahi se tinham estabelecido , e os homens 
de ma , ou moradores do burgo, conslituíram-se 
em sociedade civil. Então surgiu o município : e 
essas casas, apparcntemente humildes, encerravam 
já uma porção do fermento da resistência anti-lhco- 
cratica e anti-feudal , que espalhado gradualmente 
polo paiz , devia em Ires séculos pòr manietados 
aos pés dos reis a aristocracia e a Iheocracia. Os 
imperantes supremos , enfarados já na caça , que 
abasteceria de futuro as mesas dos banquetes trium- 
phaes dos seus successores , atrelavam presto delia 
os lebréus : punham o concelho ao i)ó do castello , 
do mosteiro, e da cathedral. Guimarães breve ob- 
teve do conde um foral — uma carta de município, 
tudo pro bono pacis , como reza o respectivo docu- 
mento. 

É nesta alcáçova , cingida das suas fortificações 
lustrosas , ^irgens , elegantes , e todavia formidá- 
veis, onde a nossa historia começa. Habitavam en- 
tão nella a mui virtuosa dona, e honrada rainha, D. 
Thcreza , infanta dos pnrtuguezes , c o mui nobre 
e excellenlc senhor Fernando Pcrez , condo de Tra- 
va , cônsul da terra pnriugalenso c da colímhrien- 
se , alcaídc-mór na Gallíza do castello de Pharo, 
e cm Portugal dos de Santa Ovaía c do Some. Era 
elle a primeira personagem da corte de Guimarães 
depois de D. Thcreza , a fonnosmima infanta , pa- 
ra nos servirmos do epíthclo que em seus diplo- 
mas lhe dava o conde D. Heiírique , o qual devia 
saber perfeitamente se esta denominação lhe qua- 
drava. Apesar de entrada em annos, não cremos 
que na epooha a que se refere a nossa narrativa , 
esto cpithelo seja inteiramente anachrouico , por- 



o PAIVORA3IA. 



21 



que nem a bastarda (i'Anbnso 6.° era ainda idosa, 
nem devemos imaginar que a aíToirão de Fernando 
Pcrez fosse crua e simplesmente um calculo am- 
bicioso. 

Esla alTeição , porem , ardente e mutua , como 
pelo menos parecia ser, sobremaneira affiava, tem- 
pos liavia , as línguas dos maldizentes. Pouco a 
pouco muitas graves matronas, em quem a idade 
fizera seu ofBcio de mestra da virtude , se tinham 
alongado da corte para suas honras e solares. Com 
mais alguma resignação as donzellas offereciam a 
Deus o próprio solTrimento era presenciar este es- 
cândalo. Demais, a vida cortezã era tão risonha de 
saraus , de torneios , de banquetes , de festas ! — 
alogravam-na tanto a chusma de carallciros man- 
cebos , muitos dos quacs tinham pela primeira vez 
vestido as armas na guerra do anno antecedente 
contra orei de Leão! — Alem disso, que igreja 
iiavia ahi, a não ser a sé de líraga, onde as solem- 
nidades religiosas fossem celebradas cora mais pom- 
pa que no mosteiro de D. Mnma , Ião devotamente 
assentado I;i embaixo no burgo? Que cathcdral ou 
acisterio tinha órgão mais harmonioso que este? On- 
de se podiam encontrar clérigos ou monges, que 
em mais aíHnadas vozes entoassem inn gloria in 
r.rcclsis , ou um cxsurgc dominef Culto, amor, sa- 
raus, tríplice encanto da idade media, como vos 
resistiriam estes corações innocentes? As donzel- 
las , bem que lhes custasse , continuavam portanto 
a cercar a sua bella infanta , que muito amavam. 
As velhas, essas pouco importava que tivessem de- 
sapparecido. 

Tacs rasões , c varias outras , davam as damas a 
seus naturaes senhores , para continuarem a viver 
a vida folgada do paço ; aos pais a devoção : aos 
maridos o acatamento a mui generosa rainha , de 
quem elles eram presíameiros e alcaides : aos ir- 
mãos , sempre indulgentes, a paixão pelas danças 
e torneios , cujo engodo elles melhor ainda sabiam 
avaliar. Debaixo , porem , destes urgentes motivos 
outro havia não menos poderoso, e em que nenhuma 
reparava , ou que , se reparava , não se atreveria a 
mencionar. Este motivo era uma bruxaria , um fei- 
tiço inexplicável , uma fascinação irresistível , que 
cm todos aquelles espíritos um único homem pro- 
duzia. Cousa incrível, por certo, mas verdadei- 
ra como apropria verdade.' — Palavra de roman- 
cista I 

E não era lá nenhum grande homem ; era um 
vulto de pouco mais de quatro pés d'altura ; feio 
como um judeu; barrigudo como um cónego de 
Toledo ; immundo como a consciência do celebre 
arcebispo Gelmirez , e insolente como um villão de 
behetria. Chamava-se de seu nome Dora Bibas. Oljla- 
to do mosteiro de D. Muma, quando chegou á ida- 
de , que se diz da rasão , por ser a das grandes 
loucuras , achou que não era feito para elle o re- 
manso da vida monástica. Atirou ás malvas o ha- 
bito , a que desde o berço o tinham conderanado : 
c ao cruzar a porta do acisterio , escarrou alli em 
peso o latira com que os monges começavam a em- 
peçonhenlar-lhe o espirito. Depois sacudindo o pó 
das suas çapatas , vollou-se para o mui reverendo 
porteiro . e por um esforço sublime de abnegação 
atiron-lhe á cara com toda a sciencía hebraica , 
que tinha alcançado naquella santa casa , gritando- 
Ihe com uma visagem d'escarneo — racca marana- 
Iha, raccamaranalha — e desapparecendo após isso, 
como a zevra perseguida desapparecia naquelles tem- 
pos aos olhos dos raonteiros nas florestas do Gerez. 



Não referiremos aqui a historia da solta mocida- 
de do nosso oblato. Por mczes a sua vida foi uma 
destas vidas como era commummenle naquella epo- 
cha , c o é ainda hoje , a do homem do povo que , 
a não ser nos claustros, tentava cravar os dentes no 
pomo vedado ao pobre — a mui illustre e aristo- 
crática mandriíce ; — uma vida inexplicável c mi- 
lagrosa, uma vida, na qual ao dia folgado de fartu- 
ra c beberronia impensadas seguiam muitos de 
perfeita abstinência. A miséria , porem , lhe crcou 
uma industria : Dom Bibas começou a sentir em si 
as inspirações de Irovista c os garbos de folião : 
pouco a pouco a sua presença tornou-se tão dese- 
jada nas tabernas do burgo , como as cubas de boa 
cerveja , então bebida trivial , ou antes tão agradá- 
vel como os effluvios do vinho , que naquella cpo- 
cha ainda escaceava algum tanto nas taças dos peões. 
A fama de Dom Bibas tinha subido a altura in- 
commensuravcl , quando o conde Henrique assen- 
tou sua corte em Guimarães. Felizmente para o an- 
tigo oblato, o bufão que o príncipe francez trouxe- 
ra de Borgonha, lançado entre estranhos, que mal 
entendiam seus motejos , conhecera que era uma 
palavra sem sentido neste mundo, e houve por bem 
morrer , declarando a seu nobre senhor , era des- 
cargo de consciência , que buscasse , entre os ho- 
mens do condado , alguém que exercesse este im- 
portante cargo ; porque sorte igual á sua esperava 
qualquer bobo civilisado da cívilisada Borgonha , 
no meio destes selvagens estúpidos do Occídenle, 
Na cúria dos barões , ricos-homens , e prelados , 
que então se achavam na corte , propoz o conde o 
negocio. Havia votos que tal bobo se não procuras- 
se. Fundavam-se os que seguiam esta opinião era 
que nem nas leis civis de Portugal , Coimbra e 
Galliza — o livro dos juizes , — nem nos degredos 
do padre-santo, nem nos costumes tradiciouaes dos 
filhos dos bem-nascidos, ou fidalgos de Portugal , 
havia vestígios ou memoria deste oflicio palatino. 
Venceu, porem, o progresso: os bispos e uma gran- 
de parte dos senhores , que eram francezes , defen- 
deram as instituições pátrias , e a alegre truanice 
daquella nação triumphou emfim da triste gravida- 
de portugueza na corte de D. Henrique , bem co- 
mo o breviário gallo-romano triumphára poucos an- 
nos antes do breviário gotbico perante D. AiTon- 
so 6." 

Foi então que Dom Bibas se viu elevado , sem 
protecções nem empenhos , a uma situação , a que 
nos seus mais ambiciosos e agradáveis sonhos de 
felicidade nunca tinha imaginado tiepar. O próprio 
mérito e gloria lhe puzcrara nas mãos a palheta do 
seu antecessor, a gorra asini-auricular, o gibão de 
mil cores , e o saio orlado de guizos. De um para 
outro dia o homem illustre pôde olhar senhoril , e 
estemicr a mão protectora para aquelles mesmos 
que na véspera o apupavam. Diga-so , porem, a 
verdade em honra de Dom Bibas : até o tempo em 
que succederam os acontecimentos extraordinários 
que começamos a narrar , elle foi sempre genero- 
so , nem nos consta abusasse jamais do sou vali- 
mento e da sua importância politica cm damno dos 
pequenos e humildes. 

O leitor que não conhecesse por dentro e por fo- 
ra , como se usa dizer , a vida da idade media , ri- 
ria da pequice cora que attribuimõs valor politico 
ao bobo do conde de Portugal. Pois o caso não ó 
de rir. Xos tempos feudaes o cargo de Iruão cor- 
respondia até certo ponto ao dos censores da repu- 
blica romana. Naquella epocha muitas paixões, so- 



22 



O PANORAMA. 



bre as qtiacs a civilisação estampou o ferrete d'i- 
gnobeis , ainda mo eram liypocritas, porque a hy- 
pocrisia foi o magnifico resultado que a civilisarão 
tirou de sua sentença. Os ódios e as vinganças eram 
lealmente ferozes, a dissolução sincera, a lyrannia 
sem niyslerio. No século dezeseis Filippe 2.° ente- 
nenava seu filiio nas trevas de um calabouço : no 
principio dodecimo-terceiro, D. Sancho 1.° de Por- 
tugal arrancando os olhos aos clérigos de Coimbra, 
que recusavam celebrar os oflicios divinos nas igre- 
jas interditas, chamava para testemunhas daquclle 
feito todos os parentes das viclinias. Filippe era um 
parricida, polidamente covarde : D. Sancho um sel- 
vagem atrozmente vingativo. Entre os dois prínci- 
pes ha quatro séculos nas distancias do tempo, c 
o infinito nas distancias moraes. 

N'uma sociedade em que as torpezas humanas 
assim appareciam som véu , o julga-las era fácil. 
O- difTicuItoso era o condcmna-las. Na extensa esca- 
la do privilegio , quando um feito ignóbil ou cri- 
minoso SC praticava, a sua acção recahia , por via 
de regra, sobre aquelles que se achavam collocados 
nos degraus inferiores ao perpetrador do attcntado. 
O syslema das jerarchias mal consentia os gemi- 
dos : como seria portanto possível a condcmnação? 
As leis civis na verdade procuravam annular, ou 
pelo menos modificar esta situação absurda ; mas 
era a sociedade que devorava as instituições, que 
não a comprchendiam a ella , nem cila comprehen- 
dia. Porque de reinado para reinado, quasi de an- 
uo para anno , vemos renovar essas leis , que ten- 
diam a substituir pela igualdade da justiça a des- 
igualdade das situações? — É porque semelhante 
Jcgislação era Icttra morta , protesto inútil d'algu- 
jTias almas formosas e puras , que pretendiam fosse 
presente o que só podia ser futuro. 

Mas no meio do silencio tremendo de padecer in- 
crivel e de solTrimcnto forçado , um homem havia 
que, leve como a própria cabeça, livro como apro- 
pria lingua , podia descer e subir a Íngreme e lon- 
ga escada do privilegio, soltar em todos os degraus 
delia uma voz de reprchcnsão, punir todos os cri- 
mes cora uma injuria amarga , e patentear deshon- 
ras de poderosos, vingando assim, muitas vezes sem o 
.saber, males c opiiressões de humildes. Este homem 
era o truão. O truão foi uma entidade raysteriosa 
lia idade media. líojc a sua significação social é des- 
prezível e impalpável ; mas então era um espelho 
que reflectia, cruelmente sincero, as feições he- 
diondas d(! sociedade rachytica e incompleta. O bo- 
bo , que habitava nos paços dos reis c dos barões , 
desempenhava um tcrrivel ministério. Era ao mes- 
mo tempo juiz c algoz ; mas julgando , sem proces- 
so , no seu foro intimo , c pregando , não o corpo , 
mas o espirito do criminoso no potro immaterial do 
vilipendio. 

Ei elle ria — ria contínuo ! Era rir diabólico o do 
bobo : [)orque nunca deixava de ir pulsar dolorosa- 
mente as libras d'algum coração. Os seus dictos sa- 
lyricos, ao passo que suscitavam a hilaridade dos 
cortesãos, faziam senipr(í un)avíctíma. Como o cy- 
«lope da Odissea , na sala d'armas ou do banque- 
te ; nos balcões da praça do tavolado , ou das tau- 
romachías ; pela noite Itrilhante c ardente dos sa- 
raus ; e até junto aos aliares , ao reboar o templo 
com as harmonias dos cânticos e psalmos , com as 
vibrações dos sons do órgão, no meio da atmosphe- 
ra engrossada pelos rolos do fumo alvacento do in- 
censo , em toda a parte c a todas as horas , o bu- 
fão tomava ao acaso o temor que infundia o prín- 



cipe, o barão, ou o illuslre cavalleiro , e o res- 
peito que se devia a dona veneranda ou a dama 
formosa , c tocando-os com a ponta da sua palheta, 
on fazendo-os voltear nos tintinabulos do seu adu- 
f e , convertia esse temor e respeito n'uma cousa 
truanesca c ridícula. Depois involvendo o caracter 
do nobre c grave personagem, atassalhado c cuspi- 
do , n'um epígramma sangrento, ou n'uma allusão 
insolente atirava-o aos pés da turba dos cortesãos. 
No meio , porem , das risadas estrepitosas , ou do 
rir abafado , lançando de passagem um olhar bri- 
lhante e vago ao gesto confrangido e pallído da vi- 
ctiraa, c, como o tigre, recrudescendo com o cheiro 
da carniça , o bobo cravava de salto as garras na- 
quelle aquém ódio profundo ou inveja solapada fa- 
zia saborear com mais entranhavel deleite a vergo- 
nha c abatimento do seu inimigo. Então a pallidej 
deste pouco a pouco deslisava n'um sorriso, e ia 
tingir as faces do cortesão que havia instantes se 
recreava folgado na vingança satisfeita. — Se era 
em banquete ou sarau , onde o fumo do vinho e a 
ebriedade que nasce do contado de muitos homens 
juntos , das danças , do perpassar das mulheres vo- 
luptuariamente adornadas, do cheiro das Dores, das 
torrentes de luz que em milhões de raios aquece o 
ambiente — a loucura fictícia do truão parecia dila- 
lar-sc , agitar-sc , convírter-se n'um turbilhão in- 
fernal. Os motejos e as insolências volteavam sobre 
as cabeças cora incrível rapidez ; as mãos que iam 
unir-se para approvar estrondosamente o fel da in- 
juria vertido sobre uma fronte odiada, ficavam mui- 
tas vezes immovcis, contrahidas, convulsas, porque 
entre cilas linha passado a seta de um epigramma 
azeirado, e havia batido no coração ou na consciên- 
cia de quem imaginava só applaudir a alheia an- 
gustia. E por cima daquelle estrépito de palmas, 
de gritos , de rugidos d'indignação , de gargalha- 
das , que gelavam frequentemente nos lábios dos 
que as iam soltar, ouvia-se uma voz esganiçada que 
bradava e ria , um tinir argentino de guizos , um 
som baço de adufe ; viam-se brilhar dois olhos re- 
luzentes e desvairados n'um rosto disforme , onde 
se pintava o escarneo , o desprezo, a cólera, o des- 
façamento , confundidos c indistinclos. Era o bobo 
que nesse momento imperava despótico , lyrannico, 
inexora\el, convertendo por horas a frágil palheta 
em sceplro de ferro , c erguendo-se altivo sobre a 
sua miserável existência como sobre um throno de 
rei — mais porventura que throno ; porque nesses 
momentos elle podia dizer: o os reis lambem tão 
meus servos ! b 

Tal era o aspecto grandioso c poético d,iquella 
entidade social exclusivamente própria dos tempos 
feudaes, padrão levantado á memoria da liberdade 
e igualdade, c ás tradições da ci\il(*ação antiga, 
no meio dos séculos dajerarchia, c da gradação in- 
finita entre homens e homens. Quando , porem , 
chamámos miserável á existência do truão — a esta 
existência que descrevêramos tão folgada e risonha, 
tão cheia de orgulho, d'esplendor de predomínio — 
era que nesse instante ella nos apparecèra sob ou- 
tro aspecto , contrario ao primeiro , c todavia não 
menos real. Passadas estas horas de convivência on 
de deleite, que eram como uns oásis na vida triste, 
dura, trabalhosa, c arriscada da mcia-idade, o be- 
co perdia o seu valor momentâneo, c voltava á obs- 
curidade — não á obscuridade de um homem — 
mas á de um animal domestico. Então os desprezos, 
as ignominias , os maus tratos daquelles que cm 
publico haviam sido alvo dos ditos agudos do cho- 



o PANORAMA. 



23 



carreiro cahiam sobre a sua caberá bumilliada cer- 
rados como granizo, sem piedade, sem resistência, 
sem limite : • — era um rei descnlhronisado ; era o 
typo c o resumo das mais profundas misérias hu- 
manas. Sc naquelles olhos então assomassem lagry- 
uias . essas lagrymas seriam ridiculas , e cumpria- 
llie traga-las em silencio: se um gemido se lhe alc- 
vaiitassc da alma, fura necessário recalca-lo ; porque 
llie responderia uma risada: se a vergonha lhe tin- 
gisse as faces, deveria esconder o rosto; porque es- 
sa vermelhidão seria bafejada pelolialito de um di- 
cto de torpeza: se uma grande cólera lhe carregas- 
se o gesto, toruar-Ihe-hiam como remédio um inso- 
lente escarneo. Assim no largo tyrociuio de um dií- 
ii' ultoso mister, o seu primeiro e capital estudo 
era varrer da alma todos os affeclos , todos os sen- 
li;uenlos nobres , todos os vcstigios da dignidade 
moral ; csquecer-sc de que havia no mundo justi- 
ça , pudor , brio , virtude ; csquecer-sc de que o 
primeiro homem entrara no paraiso animado pelo 
«ipro do Senlior , para só se lembrar que sahíia 
(iille, já precito, por uma inspiração de Satanaz. 

Tudo isso — dirá o leitor — c muito bom; porem 
não explica o prestigio, a espécie de fascinação que 
1). Bibas exercitava no espirito das damas c don- 
zellas da viuva do conde Henrique , a bclla infan- 
I- de Portugal. Lá vamos. O nosso D. Bibas com 
• seus cinco palmos d'altura era um homem ex- 
triiirdinario , e a truanice essencialmente franceza 
tn;!ia por arle delle feito em Portugal um verdadei- 
ro progresso; estava visivelmente melhorada no ter- 
reno alheio, como os alperchcs, dcquercsa cm seus 
e ;!ilarcs o adail dos poetas portuguczes. O novo bu- 
fão do conde Henrique ao começar os graves estu- 
dos e as difTicuUosas experiências de que carecia 
pr.ra preencher dignamente o seu cargo , teve a fe- 
liz inspiração de associar algumas doutrinas caval- 
leirosas- com os mais prosaicos elementos da cho- 
cirricc fidalga. Na torrente dos desvarios , quando 
mais violento derramava era roda de si a lava ar- 
ileiíto dos dictos insultuosos c cruéis , nunca dos 
' ' ios lhe sahiu palavra que fosse despedaçar a al- 

: de uma dama. D. 15ibas debaixo da cruz da sua 
espada de lenho sentia bater ura coração portugucz 
■ — -portugucz da boa raça dos godos. Supponde o 
!ii.TÍs humilde dos homens; supponde a mais nobre, 
a mais poderosa mulher : que esse homem a salpi- 
que do lodo da injuria, e será tão infame e covar- 
dia como o poderoso entre os poderosos, que insul- 
t.isse a donzclla innocente c desvalida. E porque"? 
P :que um tal feito sae fora das raias da humani- 
(! ide : não o praticam homens: não o julgam as 
1 IS : julga-o a consciência , como um impossível 
nnral , como um acto bestial e monstruoso. Para 
arjuolle que usa de similhante feridade, nunca lu- 
ziu , nunca luzirá no mundo um raio de poesia? E 

i.iahi alguém — mais — ha ahi algum politico, 

SI qual ao menos não sorrisse uma vez esta filha do 
e 11? Dom Bibas não pensava isto; mas sentia-o, li- 
i;!i:i-o no sangue das veias. D'aqui a sua influencia; 
().iqui o gasalhado, o carinho, o amor com que do- 
nas c donzellas tratavam o pobre truão. Quando 
contra esle individuo, fraco, c ao mesmo tempo 
terror c ílagello dos fortes , se alevantava alguma 
grande cólera , alguma vingança implacável , elic 
tinha um asylo seguro onde iam quebrar era vão 
1 jdas as tempestades : era o bastidor , á roda do 
qual as nobres damas daquelles tempos matavam 
as horas tediosas do dia , bordando na reforçada 
tela com Dos de mil cores historias de guerras , ou 



folguedos de paz. Alli D. Bibas agachado, cnnovc- 
lado , sumido , desafiava o seu furioso aggrcssor , 
que muitas vezes sahia mal-fcrido daquclle comba- 
te desigual , cm que o bobo se eubria das armas 
mais temidas de um nobre cavallciro — a protecção 
das formosas. 

Tal era o personagem que em grande parle at- 
trahia os corações feminis para a corte da bella in- 
fanta. Era um planeta obscuro á roda do qual gra- 
vitavam soes : era o centro de systema astronómico 
um pouco diverso do nosso. Mas Copérnico ainda 
não linha nascido para endireitar amachina do uni- 
verso. Cremos , portanto , não haver commeltidi) 
um anachronismo demasiado grosso. Todavia dei- 
xámos aos chronologos a averiguação do ponto, que 
não deixa de valer a pena. 

E o mais é que este capitulo jú vai largo, e ain- 
da propriamente não começámos a narrativa. Fa-lo- 
liemos no immcdiato. Entretanto não se persuada o 
leitor que tem adiantado pouco. Fica sabendo algu- 
ma cousa do systema militar do século 12.°, fazen- 
do idéa clara do que era um bobo feudal , conhe- 
cendo o illuslre Dom Bibas , e , sobretudo , acha-sc 
aporta do caslello de Guimarães, aonde forçosa- 
mente tínhamos de o conduzir, para presenciar os 
successos ahi passados no verão do anno de 11-28, 
os quacs constituem o âmago e substancia desta ad- 
mirável c mui verídica historia. 

À. Herculano. 
[Continua]. 

EDUCAÇ.lO. 

Da rXIUDADE das imagens nas ESCnOLAS. 

Nos PAizrs cm que esíão mais aperfeiçoados os nic- 
Ibodos do ensino publico , nas escholas primarias 
principalmente, se costumam collocar imagens em 
vuKo ou cm pintura qnc representam aos olhos, c 
olíerecera á comprehcnsão dos meninos, passagens e 
successos de boa doutrina c moralidade , que im- 
primam cm seus corações o amor do bem , c criem em 
seu peito a nobre emulação das acçijcs virtuosas. Os 
instituidores e regedores destas escholas tem com- 
prehcndido muito santamente a utilidade pratica do 
preceito de Horácio que rccommendava se falias- 
se mais pelos olhos do que pelos ouvidos aos ho- 
mens carecedores d'instrucção. Se esta linguagem 
da vista c conveniente mesmo para instruir os adul- 
tos , muito mais aproveitará nas primeiras idades 
ordinariamente Ião distrahidas, quanto cubiçosas 
d'espcctaeu!os. 

Segundo estes princípios de reconhecida eviden- 
cia os inspectores das escholas primarias da AUe- 
manha e da França n'alguns departamentos tem or- 
denado que nas aulas c nos salões de estudo das 
classes fossem coUocadas certas imagens , cuja re- 
presentação melhor servisse á inslrucção moral dos 
meninos. Com elfoito , quanto mais tenra fòr a ida- 
de dos educandos tanto mais serão estes estranhos 
ás tristes realidades da vida , e ávidos pelo contra- 
rio das imagens que lhes representem os prodígios 
da Historia Sagrada, as obras de caridade c de mi- 
sericórdia , as acções kjuvaveis de toda a espécie, 
os monumentos de lodo o género. Cora sua memo- 
ria nova c viçosa, cora sua imaginação fina e viva, 
com sua curiosidade e innocente ambição , compre- 
hendem elles logo o objecto representado, decoram 
a sua historia , c vão repetir no seio de suas famí- 
lias estas narrações , o as scenas que estão coslu- 



m 



o PANORAMA. 



•» 



mados a ver c contemplar diariamente nas escho- 
las. Utilidade grande se tem tirado desta engenho- 
sa instituirão nas salas d'as}lo da infância onde de 
ha tempos se acha em vantajosa pratica, como fica 
ohservado a pag. 212 do vol. 2." da primeira serie 
deste Jornal : igual proveito resultaria para os re- 
colhimentos de meninas , nas reuniões mesmo mais 
particulares em que pessoas pias e caridosas eostii- 
mam ás vezes juntar para educação primaria e gra- 
tuita os meninos da sua visinhanra? 

Assim que , muilo conveniente seria estabelecer 
por primeira condição do ensino primário, que nas 
aulas estivessem collucados alguns bustos ou pen- 
durados painéis representando as sccnas da crea- 
ção , alguns acontecimentos caraclerisíicos da vida 
do Redemptor, e de sua missão divina ; as acções 
jnais meritórias c abalisadas dos prophetas, dos pa- 
Iriarchas , e dos santos da antiga c nova lei ; c os 
serviços , virtudes e patriotismo dos bons sobera- 
nos , e dos súbditos que honraram o seu paiz e se 
consagraram ao bem da humanidade. Conformemen- 
te a esta tenção figurariam muilo discreta e util- 
mente nas escholas alguns painéis que representas- 
sem : — a crcação do mundo; — a primeira falia 
d'Adão e Eva que os reduziu em castigo de sua 
desobediência , assim como a seus descendentes , á 
condição de pobres morlaes ; — Noé salvado com 
seus filhos e netos do diluvio universal cm premio 
de sua fé e da sua justiça; — Moysés despedaçan- 
do as taboas da lei , deixando abandonados a uma 
torpe idolatria os israelitas em punirão de sua re- 
beldia; — Daniel impassível, c confiado, na cova dos 
]eões , desarmados de sua fereza cm respeito ao 
embaixador de Deus ; — o Salvador do mundo nas- 
cendo u'um pobre e desabrido presépio para ensi- 
nar aos homens a suportar a humiliação e os traba- 
lhos da vida humana; — os pastores e os reis ren- 
dendo homenagem ao Senhor dos céus c da terra , 
postoque nascido c envolto nas mantilhas da indi- 
gência ; — a fugida para o Egyplo ; — a bondade e 
omnipotência de sua missão , ensinando na monta- 
nha , ressuscitando o filho da viuva de Naim; — 
Christo expirando no calvário entre dois facinoro- 
sos , levado ao suplicio pela mais negra ingratidão 
a tantas obras de sua beneficente caridade; — S. 
Pedro pregando a doutrina do divino Jlestre c con- 
vertendo 3:000 judeus; — S. Paulo no meio dos 
sábios no areópago d'Alhenas indicando qual era o 
Deus desconhecido á philosophia pagaã — S. Carlos 
l$orromeu vestido de sacco, e cingido de corda pa- 
ra aplacar o fiagello da peste , c administrando a 
Eucharistia aos empestados de Slilão ; — S. Fran- 
cisco Xavier ensinando o evangelho aos infiéis á 
sombra dos palmares do Indostão; — o I'.° António 
Vieira cathcquisando e civilisando os Índios do l!ra- 
sil ; — S. João de Deus consagrando sua vida ao 
serviço dos bospilaes; — a rairdia Santa Isabel le- 
vando no seu regaço o pão que cila mesma ia dis- 
tribuir aos pobres; — o grande rei D. Aflonso Hen- 
riques prostrado no campo d'Ourique diante do rei 
do céu, do vencedor das batalhas; — D. João 1." 
caminhando a pé até Ouimarães cumprindo o voto 
feito á Senhora da Oliveira ; — o condestavol repar- 
tindo seus grandes bens por seus parentes c amigos 
para consagrar-se a uma profissão mais austera de 
virtude. — Emfira o lacto c bom gosto lios inspecto- 
res das escholas , e asylos , escolherá deste nume- 
ro, e de outros factos que não faltam , os que mais 
adequados pareeam a um tão louvável lim. 

J. C. \. e C. 



AnECDOTA I.\GLEZi. 

O nariz, ou a lei rigorosamente cnteníliila á letlra. 

QfEM residiu na Allemanha , e seguiu attenlaraente 
o estudo da jurisprudência nesse paiz , conhece a 
sinceridade com que o sábio allemão pesquiza o es- 
pirito e profunda o sentido das leis e para peneirar 
seus princípios verdadeiros sobe a origem delias. 
Em ínglalerra acha-se inteiramente o contrario: a 
leltra da lei é tudo ; perante o texto positivo nada 
são as insj)iraçõcs da equidade natural: o que está 
escriplo como lei é justo, meramente porque é lei ; 
e o caracter jjositivo da nação britannica descobre- 
se na obs;;rvancia da sua legislação da mesma ma- 
neira que em os ncgocius correnles da sua indus- 
tria e commercio. — Nos livros se tem diio muito 
acerca do cxaggerado respeito dos inglezes á lettra 
da lei, c se tem citado por vezes singulares exem- 
plos : o mais curioso em nosso entender é o que 
refere Muralt. — Ura homem linha decepado o na- 
riz a outro ; por este maleficio foi citado para o 
tribunal competente , e accusado do crime de mu- 
tilarão. O advogado do réu , que bem sabia que o 
facto eslava provado , procurou nos diccionarios de 
chirurgia o verdadeiro sentido da palavra mutila- 
ção , e viu que era a amputação ou destruirão de 
um membro do corpo ; procurando em seguida a 
palavra memlro achou que não poderia dar-se este 
nome senão áquella parte do corpo que se corapo- 
zessc de músculos, nervos, veias, e outras muitas 
cousas, metade das quaes o bom do letrado não di- 
visava no nariz. Portanto fez consistir toda a dc- 
feza do seu constituinte em provar que o nariz , 
sendo destituído de certas parles essenciaes, que 
formam os outros membros do corpo, não devia 
chamar-se nem rcputar-se membro . e que por isso 
o corte do nariz não constiluia miitUarão á face da 
lei, e que em conclusão o seu cliente, não obstan- 
te ser repreheusivel a acção que pralicára , devia 
ser absolvido , como incompetentemente accusado 
do crime de mutilação. O jury adoptou este pare- 
cer, c o (lesnarigador ficou quite do delicio e no 
andar da rua. Mas ainda isto não é o mais interes- 
sante da historia : lembrou ao ministério que a sol- 
tura do réu , pelas consequências prováveis , amea- 
çava a existência de todos os narizes em Inglater- 
ra ; pelo que levou ao parlamento uma proposta 
para determinar o genuino sentido da lei; uma so- 
lemnc deliberação da assemblca legislativa decla- 
rou que o nariz era membro , c que os tribunacs e 
cidadãos assim o /içassem entendendo e houvessem por 
certo daquella data cm diante. 



\Ão ha no mundo alegria sem sobresallo ; não ba 
concórdia sem dissensão ; não ba descanço sem tra- 
balho ; não ha riqueza sem miséria ; não ba digni- 
dade sem perigo ; finalmente não ba gosto sem des- 
gosto. — Heitor Pinto. 

QinM são os ricos neste mundo? Os que lêem mui- 
to? Não; porque quem tem muito, deseja mais, c 
quem deseja mais , falta-llíc o que deseja , e essa 
falta o faz pobre. — Vieira. 

O CAMINHO da verdade é único e simples: c o da 
falsidade vario c inlinilo. — ■Amador Arrues. 

A iiinANinvoE faz parecer os homens cxleriormenlc 
como ellcs devera ser interiormente. — La Vnnjere. 



57 



o PANORAMA. 



2S 




JUNCO OV NATIO CHINA SZ GVESBA 



O Remate da desavença entre a China e a Inglater- ] 
ra , ou para melhor dizer entre o imperador chim, 
mandarins e seus apaniguados, e as forças que pa- 
ra os constranger enviou o governo britannico, não 
podia ser duvidoso para quem tivesse alguns co- 
nhecimentos geographicos e históricos : pessoas hou- 
ve, despidas de prevenções, que logo o anteveram : 
a victoria devia caber aos inglezes. De toda a gen- 
te, quem menos o podia duvidar era a nação portu- 
p:uoza, que não deve deslembrar-se das façanhas de 
sons maiores nas regiões da Ásia : pertencendo tal- 
vez mais avantajada gloria a elles que aos moder- 
nos que lá tem peleijado ; e explicaremos o nosso 
dito. — Se a China é o theatro da guerra; os chins 
não estão mais adiantados na manobra militar , e 
na construcção das armas de fogo , do que no tem- 
po em que imploraram o nosso auxilio para lhes 
alimparmos de piratas as costas marítimas , servi- 
ço a que devemos a concessão para o estabeleci- 
mento era Macau : porem os europeus tem feito nas 
armas, e na strategia, notáveis progressos, que ma- 
nifestam assombrosa superioridade, e por consequên- 
cia asseguram prósperos os resultados. — Se a índia 
é o campo dos combates, hoje não ha lá turcos e ru- 
mes tão experimentados e peritos naarte bellica, co- 
mo acharam os nossos antepassados que os iam re- 
bater e expulsar. — Portanto concluimos que á na- 

Janeiro 28—1843. 



cão portugucza não põe espanto o desfecho da luta 
entre chins c inglezes ; a qual apesar delra\ada em 
tão remotos climas tem por suas consequências com- 
mcrciaes enlevado a attenção dos políticos e econo- 
mistas da Europa. 

Lancemos os olhos para a figura de um navio de 
guerra chim , examinemos a construcção do casco , 
consideremos na acção de suas velas geralmente fa- 
bricadas de esteira , na imperfeição dos aparelhos , 
na covardia e falta de patriotismo dos mareantes e 
defensores , na orgulhosa ignorância dos que os ca- 
pitaneara, c ficaremos convencidos de que com ele- 
mentos taes não podia o império cdesíiai depositar 
grande confiança em sua armada ; c os factos de- 
monstraram que, na hora do accommcttimento, vão 
era o apparato de anticipado triurapho , cobrindo- 
se , como usam , de infinitas bandeiras e Uamulas 
multicores. Pelo que respeita ao exercito era terra, 
á excepção de poucas tropas tártaras de legitima 
casta . é tudo um bando sem verdadeira organisa- 
ção militar c pouco interessado na defeza dos pró- 
prios lares, ou daquelles de seus compatrícios. — 
As gazetas tem relatado a tomada de praças impor- 
tantes do império c o desbarato das tropas chinas 
pela divisão expedicionária britannica ; e no prin- 
cipio da campanha deu-se uma batalha naval , que 
os mesmos papeis políticos igualmente narraram pc- 
2." Serie — VoL., II. 



.^••>^ 



2ÍÈí 



O PANORAMA. 



A lo miúdo. Elliot commandava somente duas fraga- 
tas a 3 de novembro de 1839, quando o accommet- 
teram trinta embarcações chinas com mais de qua- 
tro mil homens a bordo : não durou meia hora a 
acção , e seis navios chins foram mettidos a pique , 
o outros ficaram desarvorados , fugindo o restante 
da frota celestial com grande precipitação o em ab- 
soluta desordem. 



Beu queber e mal fazeb. 

(Memorias insulaua^.) 



= Í331 = 
III 

È teima ! 

Quem porfia mata caça. 
Rifão do povo. 

«Não sei que máu presenliraento mo assalta o co- 
ração, presada irmnã. Cuido que esta minha con- 
descendência me será de infeliz succcdimcnlo. 

«E porque o cuidas, irmaã? Acaso tens que re- 
ceiar? Não, não deves faltar já agora que promet- 
testc c que anciosamcnle es esperada. 

«Bem sabes tu, Águeda, como eu quiz evitar 
este empenho. . . Não sei . . . como que advinho al- 
gum desastre. 

«Desastre ! — ^que desastre? Não é a lua vida pa- 
ra vivè-la assim reclusa. Do mais tens fugido ao 
mundo. . . 

«Não, de mais, minha irmaã, mormente ha dois 
annos para cá. Que se terá dito de mira? como te- 
rão interpretado o meu procedimento? 

«Como de quem c tão honesta c animosa dama. 
Todos culparam o excesso e máu passo de An- 
tónio da Gamara ; e elle mesmo justificou o que 
delle se dizia , c fez justiça a si mesmo , partindo 
|)ara o reino. Por lá anda clle já a estas horas bem 
esquecido seguramente de sua loucura e temeri- 
dade. 

«Todavia fallou-se, e fui eu assumpto de pales- 
tras e serões , nera sempre mui caridosos. . . 

«Bagatcllas já passadas. Vamos, minha irmaã , 
os nossos parentes e amigos sem duvida se impa- 
cientara , e — vès? — até o teu escudeiro, Fernam, 
lá está fora a menear-se como um possesso , fallan- 
do com os demais, que o ouvem de boca aberta. 
São seguramente conjecturas que faz sobre a nossa 
demora. Vem , minha irmaã , é mister distrahir-le : 
vera. 

Dois annos eram passados , como o leitor já terá 
▼ isto. António da Camará , ou fosse convicção de 
erro, ou considerações de animo repousado, ou cm- 
lim arrependimento c pejo , tinha deixado a ilha e 
partido para Lisboa, aonde corria fama que se con- 
servava ainda. O dialogo das duas irmaãs versava 
pois sobre o irem ao baptisado de um parente que 
vivia na Calheta. Recusava-sc D. Isabel como qucra 
tão costumada estava ao seu bom retiro. Instava D. 
Águeda , como quem tão louvável desejo tinha de 
a ver alegre e folgada. D. Isabel cedeu por fim aos 
rogos lia irmaã, e com ella se desceu, ataviada cm 
som (lo fpsta , ao pateo , de que já falíamos , aonde 
a esperava um luzido cortejo de parentes o servos 
seus. 

Lá estava lambem o nosso antigo conhecido Fer- 
nam, que não faltava por estas occasiões solcmnes. 



analisando , comraentando e provando o sabido e 
por saber , tudo mui conOdencialmcnte ... a quan- 
tos encontrava. 

Era nas primeiras horas de um dia mui formoso. 
— Cavalgaram as duas damas em mullas cobertas 
de gualdrapas de grande custo, e seguidas por seus 
parentes , e por poucos mas escolhidos escudeiros , 
deram a andar por aquelles campos amenos. 

Na passagem das terras da Lombada do Xtco pa- 
ra a Calheta era força passar pelas da Lombada da 
serra d'agua, herdade e vivenda de António da Ca- 
mará. De preferencia tomara D. Isabel outro cami- 
nho que á vista da morada do homem , cujo no- 
me lhe recordava a penosa impressão d'uma scena 
que nunca ella esquecera ; mas não havia meio de 
faze-lo. Cumpria passar junto da Lombada da serra 
d'agua , ou renunciar a fazer sua visita. 

Chegara a luzida companhia a um viso (1) ou 
portella, d'onde se descobria grande porção de ter- 
reno. — A esquerda , no declive do serro que iam 
descer , ficavam sobre um pequeno combro as ca- 
sas da Lombada da serra d'agua , meias encrava- 
das em densas e espessas maltas que se estendiam 
lá para longe , e como encostadas a outro cabeço 
mais alto , mui abundante era fontes e cascatas na- 
turacs, donde á herdade viera o nome. Ao ver 
aquella morada , d'onde nenhum rumor sahia , mu- 
da e abandonada , triste e como saudosa de seu se- 
nhor , que lá pelo reino se andava á maneira de 
desterrado, sentiu D. Isabel comprimir-se-lhe o co- 
ração. Apesar de tão virtuosa e varonil , era mu- 
lher , c que mulher ha ahi que não chegue a per- 
doar erros d'amor, e, ao cabo, a corapadecer-sc 
de quem por taes erros padece? Tinham passado as 
casas silenciosas , alvejando mclancholicamentc en- 
tre a maciísa verdura, e eram enlrados n'uma fun- 
da rodeira (2), guarnecida d'um lado por uns bar- 
rancos cheios do balseiras e silvados, e do outro 
pelas matlas de que acima falíamos. Lá pelo meio 
desla rodeira um homem estava parado. Tinha a 
fronte descoberta , ondcando-lhe os cabellos negros 
e luzidios era roda das faces gentis , mas queima- 
das. Batia-lhe o sol de chapa sem que elle pare- 
cesse presentir-lhe o ardor. Tinha os dentes cer- 
rados com força , alvejando-lhe a travcz dos lábios 
semi-ahertos , as feições contrahidas , e o peito an- 
elado como por algum grande temor ou esperança. 
I)issera-se que a face da sua vida ia mudar, tama- 
nha era e tão visivel a sua agitação. Vestia desali- 
nhadamente , e as peças mais notáveis no todo do 
seu trajar eram uma boa couraça de Milão , e uma 
forte espada pendente ao lado , segura por ura cin- 
to de couro guarnecido de chaparia do ferro , ao 
qual estava lambera presa uma comprida adaga de 
punho singelo mas valente. \ primeira vista nin- 
guém julgaria acompanhada a estranha personagem 
que descrevemos , mas quem melhor reparasse no 
continuo mecher e remecher da folhagem da mal- 
ta , c sobretudo no súbito a|)pnrrcimenlo de algu- 
mas cabeças espreitando por entre as arvores , e 
guarnecidas de luzentes morriões , para logo con» 
«'luiría que andava por alli sorprcsa , ou ardil tra- 
mado por muitos. 

Entretidos cm sua conversa , e muito mais por 
causa d' um desvio, não deram os nossos caminhan» 
tes pelo ameaçador aspecto do homem que lá esta- 
va no caminho, se não quando próximos delle che- 
garam. Um grito geral de espanto , se não do tc- 



(1) Cume, lo^Mr emiiienlo. 

(2) Carril , cammlio para carro. 



o PANORAMA. 



S7 



mor , sabiu então de todas as bocas ao dar por 
eJle. 

Era António Gonçalves da Camará. 

Com olhos irosos mediu por algum tempo as duas 
irraaãs e a sua commiliva que , parados c espanta- 
dos lodos , tinha ante si , saboreando o prazer de 
os ver assim embaraçados com sua [irescnça. Pas- 
sado o primeiro instante d'assombro os cavalleiros , 
parentes de D. Isabel , ainda que quasi desarma- 
dos , tomaram a dianteira e arrancaram para Antó- 
nio da Camará, que nem um passo se arredou. Fo- 
ra desigual o partido para este , se ao mesmo tem- 
po . grande copia de homens armados de lodo o 
ponto , sahindo da malta e cnfílcirando-se atraz do 
' 1 senhor da Lombada da serra d'agua , não o toruas- 
' ) sem assim para os de D. Isabel. 

Orgulhoso e arrogante adiantou-se então António 
da Camará, e pondo-se immovel com os braços cru- 
zados diante de D. Isabel , que nem neste extremo 
sentira soçobrar-lhe o animo , bradou com voz aba- 
hida de raiva e de amor : 

aParecia-vos avós, senhora prima , que nunca 
mais nos veriaraos? Pensáreis ler-me burlado e zom- 
bado a vosso sabor, sem que mais nossos rostos e 
vistas se encontrassem? Olhai bem para mim. — 
Quem c agora aqui o mais poderoso. Não, minha 
prima, não se dirá de António da Camará que uma 
mulher o venceu cm animo e astúcia. Dois annos 
são já andados. — Julgáreis que Ião pouco era mis- 
ter para abafar o amor e a raiva que me faziam 
guerra no coração? Não, senhora. Nestes dois an- 
nos não houve dia em que eu não dissesse : «silen- 
cio , meus ofTcndidos brios , silencio , meus ultra- 
jados affeclos , silencio , minha alma tão ardente , 
vossa hora hadc chegar-vos lambem ; » e a cada 
momento que passava eu sentia o sangue fervcr-me 
cada vez mais impaciente , que o fim , o Ião dese- 
jado termo, que eu próprio assignára aos meus pro- 
jectos, se ia passo a passo aproximando. Ei-lo che- 
gado a final. Tive noutes , sem somno , pensando 
no publico ultrage que de vós recebi , tive dias e 
mezes de amargura e desespero, lembrando-me que 
não éreis um homem a quem podesse ir pedir con- 
tas da minha injuria , lavando com o seu sangue a 
nódoa da minha face. 

r Nódoa só vo-la fará o que ides sem duvida pra- 
ticar. 

"Escutai-mo, senhora prima, que lambem me 
chegou a minha vez de pedir-vos que me escuteis. 
live momentos de fraqueza, em que julguei a mor- 
te o caminho nnico para sahir de tão apurado tran- 
ce , mas por fim a mim mesmo me venci , c acabei 
comigo cm vingar-me , pelo modo com que hoje o 
farei. Crestes que nunca voltaria. — Voltei, sem 
que o suspeitásseis.' — Eis-me aqui, e assim como 
de vossa casa sahi á força, sem armas para me dcf- 
fender , assim entrareis vós para a minha sem es- 
cudeiros para vos guardarem. Então éreis vós a for- 
te, a bem defendida, e cu o trajado de festa e sem 
defeza. — Hoje, senhora prima — bem o vedes — c 
de todo o ponto o contrario, sois vós a indefeza e 
ea o poderoso. 

Dizendo , com uma das mãos levou da fiel espa- 
da , c com a outra travou das rédeas da mulla em 
que D. Isabel cavalgava , arremettendo com os es- 
cudeiros e cavalleiros desta , que apesar de muito 
menos cm numero e faltos de armas suíTicientcs , 
já se achavam dispostos a perder as vidas cm defe- 
za da illustre viuva. Seguiam a António da Cama- 
rá todos os seus bem armados e comentes pela des- 



forra que iam ler. — De uma c outra parte havia 
emulações excitadas, raivas e ódios accordados , o 
resultado devia portanto ser sanguento c terrivcl , 
mormente para os de D. Isabel, se a varonil senho- 
ra , com um gesto imperioso c significativo , não 0- 
zcsse abrir passagem ao seu inesperado conductor , 
que atravessou por entre clles estupefactos, com 
gesto ameaçador , arrogante c decidido , seguido 
pelos da sua facção a sussurrarem pragas mal dis- 
farçadas. O numero e as armas destes não menos 
que o mandado de D. Isabel influiu na prompta 
obediência dos seus servos e amigos. 

Verdade, verdade, cm lodos os tempos a morte 
foi negra. 

E era o que pensava o verboso escudeiro , Fcr- 
nam ; cm quanto António da Camará tomava ufano 
o caminho de suas casas , com a preciosa prca ; P. 
Águeda se lastimava ; e os demais se esbravejavam. 
Com o modo encolhido c envergonhado de um ho- 
mem , que julgando-se um Ajax , acha por fim qu<» 
não passa d'ura Tersithes , Fernam murmurou Ui 
comsigo : 

o Por esta não esperava eu 1 » 

[Continuar-se-ha.] 



Obsebvações gbâmhaticaes. 

Uma das muitas vantagens das polygraphias, do gé- 
nero do Panorama , c de servir de armazém , cm 
que cada um possa depositar as idcas que lhe oc- 
corrcrcm , e cuja publicação , parecendo-lhe poder 
ser útil, seria impraticável por outro modo ; já por 
serem idéas destacadas, já porque sendo em peque- 
no numero não podem formar um corpo de doutrina. 

Isto ó o que nos acontece com as idéas soltas que 
desejariamos communicar ao publico , para serem 
por elle julgadas, e, no caso de o merecerem, ela- 
boradas pelos mestres da arte ; a fim de servirem 
algum dia a formar a tão desejada grammatica pbi- 
losophica da lingua porlugueza. 

Já no K.°53 do Panorama oncrccemos aos nossos 
compatriotas as três regras que nos parecem suíR- 
cientes para se conseguir entre nós uma orthogra- 
phia uniforme e fundada cmprincipios deboarasão. 

Não quizemos dizer , que aquellas regras possam 
servir a todo o mundo : pois que nem todos sabem 
se tal ou tal palavra é geralmente cscripla de uni 
modo uniforme por todos os andores distinctos; 
nem todos sabem applicar-lhc a regra da analogia ; 
e menos ainda marcar qual seja a sua etymologia. 

A nossa mente é , que se os homens doutos ado- 
ptarem estas trcs regras e as seguirem , na mesma 
ordem em que as propomos , dentro em mui pouco 
tempo se estabelecerá entre elles uma orthograpbia 
uniforme, e á sua imitação entre as pessoas que não 
tendo assaz conhecimentos para fazer um uso acer- 
tado daqucUas , nem de outras nenhumas regras , 
só lhes cumpre seguir o exemplo dos primeiros. 

Hoje daremos algumas definições que ou faliam 
nas grammaticas, ou são tão inexactas que só podem 
ser\ir para corromper as noções elementares (ia 
SC iene ia. 

As línguas constam dephrascs, estas depala\ras, 
as palavras de syllabas, e as syllabas de sons a que 
correspondem na escripta certas lettras. 



28 



O PANORAMA. 



Seria bom que a cada som correspondesse uma 
só lellra , e que a cada Itttra não correspondesse 
senão um único som. 

'São aconlcce porem assim em nenhuma das lín- 
guas que conhecemos. 

Alem disso ha muitos mais sons do que letíras ; 
c, mesmo nas mais pequenas nações, a pronuncia 
de cada palavra varia quasi tanto como nellas ha 
não só de províncias ou decommarcas, mas de 
bairros e de classes de cidadãos em uma mesma 
cidade. 

Os sons de que se compõe a falia humana distin- 
gucm-se pelos órgãos da voz que concorrem para a 
sua formação. 

São estes órgãos — a garganta , o paladar , as 
gengives ou niaxillas , os dentes , os beiços ou la- 
I)ios, e, combinanjo-se com cada ura delles, a lín- 
gua. 

O complexo de todos estes órgãos parcíaes cons- 
tilue o urgão geral da falia. 

Aos sons que provém do órgão geral , sem um 
concurso especial de nenhum dos órgãos parcíaes , 
da-se-lhes o epitheto de vugaes. 

Aquelles, em cuja producção se faz sentir a acção 
especial d'algura dos órgãos particulares, da-se-lhcs 
o epitheto de consoantes. 

Aos sons vogacs correspondem as Icllras vogacs 
a , e , i , o , u , y , oM ô. 

Quando, ao emittir um som vogal comprimimos 
as fossas nasacs, de modo que o arexpellido só pas- 
se pela boca c não pelo nariz , da-sc-lhes o epithe- 
to de nasaes , taes são , am , an , ã , em , cn , im , 
in , om , on , õ , um , un , yra , yn. 

Aos sons consoantes correspondem as Icltras con- 
soantes — 

g, c, k, q guturacs; porque o primeiro órgão 
parcial , a garganta , concorre especialmente para 
a sua producção. 

Í Palatinas 
dar. 

ou rr'} MaxiUares : órgão especial as 

J gengives. 
Labiacs : órgão especial os lábios. 
Labio-dcnlaes : órgãos especiaes os lábios 
e os dentes. 

O som vogal pôde ser mais ou menos agudo, mais 
ou menos mudo. 

Dá-se pois a nome ie áiphtJiongo ao som composto 
de dois sons vogaes , um agudo e o outro mudo , 
taes são : — ae , aí , ao , au , ay 



Ih 


,n 


li 




eh 


. j 


, X 




z , 


s . 


c, 


ou 


n , 


1, 


r , 


rh 


d , 


t 






1>. 


m 


, b 


— 


f. 


v- 


-L 


ab( 



órgão especial o pala- 



ei, 


eo, 


eu 


- ey 


lU 








oe. 


01 , 


(•) 


oy 


Ul , 

ãe , 


uy 

ãi , 


ão 


, am 


eim 


, em , 


em 


oe , 


Ol. 







Os diphthongos distingucm-sc em perfeitos e im- 
perfeitos. 

São perfeitos aquelles cm que o som vogal agudo 
se destaca fortemente do outro som vogal mudo : 
exemplos : suliiu , riu , rio , andarão. 

São imperfeitos aquelles em que o primeiro som 
é quasi Ião mudo como o segundo : exemplos : du~ 
bio , alrio , andaram. 

Podem, alem disto, ser os sons compostos de dois 
ou mais sons consoantes cora um som vogal simples 
ou diphthongo , taes como — 

(•) liste mesmo som cxprime-sc muitas Twes aisim; fi. 



bda 


, bde & cl .... dr, 11 , gl , mn 


bl 


cn fr, gn 


br 


cr gr 




et 


Pl 


SC ti 


pn 


Ir 


pr 





Chama-sc syllaha a todo o som vogal só , bem 
como o que é seguido , precedido , ou seguido e 
precedido de sons consoantes , simples ou compos- 
tos. N'uma palavra composta de mais de um som 
vogal simples ou diphthongo, ha tantas syllabas , 
quantas são as suas vogaes, e cada syllaha consta 
da sua vogal , da consoante simples ou composta 
que a precede ; e também da que se lhe segue , s» 
não houver depois outra vogal ; porque, havendo-a, 
pertence-lhe a consoante que a precede. 

Silvestre Pinheiro Ferreira. 




FSDRO HVNES. 

A EFFiGiE de varão tão insigne nas sciencías, como 
foi o famoso mestre de dois homens merecidamente 
celebres , o infante D. Luiz filho de D. Manuel , e 
o vice-rei da índia D. João de Castro, requeria la- 
ta informação de sua biograpiíia e profundos escrí- 
ptos , por isso que a notoriedade de seu nome em 
toda a Europa é um brasão porluguez , apregoado 
poios sábios mais distinctos , d'entre os quaes , por 
via d'exemplo , citaremos só dois : — Montucla, 
Histoire des Mathcm. tom. 1." part. 3." liv. 3.°; 
Bailly , Histoire de VÁstronom. mod. lom. 1.° pag. 
368 e 370. — Escacas são porem as particularida- 
des sabidas de sua vida publiia e domestica ; e por 
outro lado , para tratar fimdaiuenlalraente do méri- 
to de cada uma de suas obras , do valor que tem 
cm relação á epocha do escriptor, e da influencia 
que tiveram no futuro desenvolvimento c progresso 
dasciencia, era mister tecer uma dissertação, alheia 
do intuito do nosso jornal , superior ao cabedal de 
nossos conhecimentos, e porventura inútil e enfa- 
donha para o máximo numero de leitores. — Alejn 



o PANORAMA. 



29 



de que, quanto aos homens de racdiocre instrucção 
convém saber tocante ao illuslrc portugucz , Pedro 
iSiincs , fica expendido cm dois artigos, assim mes- 
mo nada breves , a pag. 17i e 178 do vol. 5.° da 
Serie 1.' deste nosso semanário. Bemquizemos en- 
tão acompanhar a noticia com o retrato de Nunes , 
mas não podendo have-losatislizcmo-nos com a men- 
ção das obras , c os apontamentos mais certos da 
vida (iaquelle que temos por titulo reconhecido da 
cloria da pátria. Agora, possuidores do transum- 
pto, que na precedente gravura reproduzimos, tam- 
bém nos limitámos a commeniorar novamente o no- 
me do grande malhematico portugucz. A quem mais 
desvcladaniente pesquizar o âmago de substancial 
doutrina, que este raro engenho derramou por seus 
livros, forçoso 6 folhea-los e medita-los ; os que tão 
somente quizercm conhecer as matérias de que cl- 
les tratam, e qual é a sua transcendência e impor- 
tância , consultem um escripto de outro portugucz, 
[^nosso contemporâneo e também porsciencia afama- 
do] : Ensaio histórico sobre a origem c progressos das 
Matliematicas cm Portugal , dado á luz em Paris por 
Francisco de Borja Garção Stocklcr , que morreu 
barão daVilla da Praia. Este sábio diz ahi , a pag. 
29 , que Pedro Nunes é o «... gcometra maior que 
as Hcspanhas tem produzido , e incontestavelmente 
iim dos maiores que no século 1G.° íloreceram na 
Europa. 

Concluiremos com um extracto do mesmo Ensaio, 
porque o cremos de summa importância. — «É nes- 
ta obra também [falia do tratado dos crepúsculos] 
que o nosso geometra deu pela primeira vez a idca 
de uma elegantíssima divisão ou graduação do as- 
trolábio, por meio da qual se podem avaliar as al- 
turas e distancias dos astros até minutos e segun- 
dos , ainda que no limbo do instrumento se não 
achem marcados mais que os graus; divisão que 
udraitte uma simplificação assaz obvia ecom a qual 
ainda se usa nas alidadas de todos os instrumentos 
astronómicos, que servem para medir distancias an- 
gulares. Se o auctor desta simplificação foi o mes- 
mo Pedro Nunes ou Pedro Vcruier , que pela pri- 
meira vez a publicou por escripto em Í631, é ques- 
tão que admitte argumentos por uma e outra par- 
te : o que porem de nenhuma sorte se pôde contes- 
tar é que até ha bem poucos annos não havia um 
só livro de astronomia, nem um só instrumento as- 
tronómico, em que esta divisão tivesse outro nome 
senão o de Aonius , derivado do appellido Nunes 
do nosso geometra ; e que ainda quando Vernier 
fosse sem duvida o inventor da simplificação men- 
cionada , não havia rasão bastante para alguns as- 
trónomos modernos pertenderem mudar-lhe o nome 
de Xnnius em o de Verdier; quando a primeira 
idéa de avaliar as partes menores das marcadas na 
graduação dos instrumentos é indubitavelmente de- 
vida a Pedro Nunes , e mil vezes mais engenhosa 
do que a segunda, que daquella se deriva cora ex- 
trema facilidade. 



USOS E COSTl^ES DE POVOS. 

Recentes observações n'cm domingo em Londres. 

Um observador perspicaz , e de agudo engenho , ao 
mesmo tempo escriptor facil c ameno , contou ao 
publico , ha dois annos , as anecdotas , que da lin- 
guagem franceza trasladámos agora. 
Tiuha eu ás oito horas ouvido aiissa , segundo o 



meu rito, e cumprido csle dever religioso assen- 
tei boamente que podia , como nos dias anteriores 
e não obstante ser domingo , proseguir nos hábitos 
a que estou costumado todas as manhaãs. Encami- 
nhei-me ao botequim , dito Vercy , para almoçar ; 
pasmei de achar a porta ainda fechada, bati ; abriu- 
se uma grctinlia desconfiadamente e com mysteri<i 
e perguntaram.- — -Que quer 41 senhor?. . — Essa é 
boa '. (Juero almoçar. . . — Não pódc ser , senhor ; 
c exactamente a hora do sermão. — Será para a vos- 
sa pessoa; mas eu que já ouvi missa estou liber- 
to, e creio que posso almoçar. . . — Será onde vos 
aprouver menos nesta casa: dai-me licença de cer- 
rar a porta , porque se a vissem assim mal aberta 
leria de pagar uma enorme multa. — E a porta l'e- 
chou-se. 

Ora faça-se idéa da tolerância anglicana saben- 
do-se que quando o pastor protestante prega o seu 
sermão, todos os catholicos, judeus, scismaticos , 
e musulmanos , estão obrigados , para almoçarem , 
a esperar pacientemente que se acabe a pregação , 
com a qual nada tcem , nem lhes importa. 

Passeava eu pela rua , via todas as portas abso- 
lutamente fechadas, edificava-me a observância una- 
nime da solemnidade do domingo : acertou de pas- 
sar um radical do meu conhecimento , e dissc-me. 
— Não ouviu o pregão daquella mulher que vai 
passando?. — Ouço, mas não a entendo. — E uma 
vendedeira que apregoa peixe : creio que sabeis 
que ao domingo e á hora do sermão ninguém abri- 
rá a poria para comprar. — Então porque perde o 
tempo em apregoar? — Eu explico; é porque nós 
radicacs lhe pagámos para apregoar. Guardar o do- 
mingo é cousa muito dos nossos costumes, mas ac- 
crescentaram-lhe uma coacção legal , que nós e to- 
dos os homens de bom juízo julgamos adversa á li- 
berdade constitucional. Afim de podermos levar es- 
ta questão ao parlamento, expedimos pelas ruas al- 
guns bufariíihciros c vendedeiras ambulantes , á 
espera que a policia os agarre como infractores das 
posturas e observancias domingueiras : se isto acon- 
tecer, os apprehendidos devem protestar , e fazer 
ura requerimento que a opposição hade sustentar 
vigorosamente. Porem o ministério , que suspeita a 
trapaça e quer evitar o ir a questão ás camarás , 
deixa apregoar como vedes c faz-se mouco. Mas 
corra o tempo , que se continuar a ler os ouvidos 
tapados hade chegar ao rego ; seguiremos pela pis- 
ta os pares eeclesiasticos , e eu , que vos estou fal- 
lando, sou capaz de mandar, um destes domingos, 
commelter á compra um salmão, ou um rodovalho, 
ao muitíssimo reverendo arcebispo de Cantuária ; 
toma-!o-ha , e veremos se tamanho escândalo [uo- 
voca ou não provoca a desejada discussão. 

Finalmente, ás duas horas da tarde , Deus lou- 
vado , estavam acabados todos os sermões na am- 
plíssima cidade de Londres, c pude com effeito al- 
moçar sem oITender ao céu, nem á igreja anglica- 
na. À sabida do botequim fui passear a Rcgcnt- 
Park. Por ambos os lados da lameda principal, es- 
tavam a espaços armadas algumas mesas , e do al- 
to de cada uma delias um individuo arengava ao 
troço de gente, grupada ao redor, sem que a maio- 
ria dos passeanles fizesse caso disso. — Que estão 
vendendo aquelles homens? — disse para o meu 
companheiro. — Aquelles homens nada vendem ; são 
pregadores religiosos determinados a converter os 
Ímpios , e que os não deixara , nem sequer no pas- 
seio.» Approximando-me , reconheci a verdade da 
resposta do meu amigo, e o que me pareceu mais 



3?) 



O PANORAMA. 



notável foi a polemica que ás vezes se ateava entre 
o discursador o seus ouvintes. Não gostei disto, e 
relirci-me. 



Idéas históricas sonnE cadeias (•). 

« O QVF. faz maior honra a alguns estados da fe- 
derarão americana é a reforma do código criminal, 
a conversão das cadeias cm oílicinas de trabalho , 
e a dos criminosos cm operários úteis, que são sus- 
ceptíveis de tornar a entrar no seio da sociedade 
depois de ter satisfeito ás condições exigidas. É o 
estado da Pcmilvania quem deu o exemplo ; o da 
3S[oi'a-Yorck o seguiu, e em ultimo logar os da Yir- 
ginia e do Massachmsct . Dezcscte annos d'cxpcricn- 
cia , depois do estabelecimento da cadeia de VHa- 
ãelfia , c pouco mais ou menos doze annos quanto 
á de Nova-Yorck , tem sido coroados com os mais 
felizes resultados. 

o A legislatura da Pensilvânia aboliu a pena de 
morte para todo o crime, excepto para o assassínio 
no primeiro grau. A de Nova-Yorck comprchendeu 
nesta excepção osfalsarios, c os falsificadores de 
moedas. O objecto do castigo é a emenda do cri- 
minoso procurando por todos os meios próprios Ira- 
3e-lo ao pesar , ao esquecimento dos seus antigos 
hábitos, e a fazer pelo trabalho uma reparação com- 
pleta á sociedade. Para este effeito se tem imagi- 
nado diversos meios , cuja influencia sobre o moral 
c sobre o physico é sufTicientementc conhecida pe- 
los physiologislas , e pelos observadores do ho- 
mem. 

«Estes meios são — 1." a reclusão solitária n'um 
quarto, um regimen dietético particular , e o si- 
lencio ; — 2." Depois de um certo tempo a admis- 
são dos criminosos aos trabalhos cujas officinas es- 
tão distribuídas por classes : — 3." A applicação 
felizmente calculada de certas máximas para fazer 
.sentir ao homem a sua dignidade, e a necessidade 
do trabalho que importa a cada um : — 4.° A con- 
tabilidade para o rendimento deste trabalho: — 5." 
A extrema regularidade nos cuidados que se refe- 
rem ao aceio geral e pessoal : — 6.° A ordem da 
comida, a do retiro e a dodescanço: — 7.° O exer- 
cício religioso. 

«Far-se-ia diíficnltosamenle uma idéa da ordem 
admirável que reina nestes logares , que se reputa- 
riam antes conventos erigidos era manufacturas do 
que em cadeias. Tudo se acha disposto de tal mo- 
do que ha alli a maior segurança, c se previne a 
evasão dos condemnados. Todas as oílicinas estão 
n'uma actividade constante. Elias são compostas de 
tecelões , de alfaiates , de çapatoiros , de marcenei- 
ros , de torneiros, de relojoeiros, de fabricantes do 
pregos, de culeleiros , de serradores de mármore, 
c de muitos outros ollicios. 

«Quem poderia imaginar que se conseguiu fazer 
observar entre os trabalhadores um silencio absolu- 
to? Nunca gritam , nem cantam, e nem podem res- 
ponder ás perguntas dos estranhos. Não lhes ó con- 
cedido chamar uns aos outros, excepto por causa 
dos instrumentos de que tom precisão. Eu fiz a cx- 
liericiicia disto na fabrica dos pregos, que é a mais 
considerável c a mais productora , na presença de 
um guarda que me accompanhava. Netdium operá- 
rio respondeu ás minhas jicrguntas. Alguns destes 
condemnados tem confessado , que (luercriam antes 
soffrcr a morte do que serem obrig ados a este si- 

(•) Concluído <le pag. 423 do n." 53 desta 8.* Serie-. 



lencio e ao trabalho. O que recusasse estar por is- 
to , ou o que perturbasse a ordem estabelecida, se- 
ria mandado para ura quarto solitário e submeltido 
a um regimen severo, que de ordinário consiste em 
farinha de maiz fervida com raelasso e agua ; per- 
deria alera disso a sua parte do rendimento dos tra- 
balhos, e se lhe levariara era couta as despczas fei- 
tas durante a sua suspensão. 

«As mulheres não tem communicação alguma com 
os homens, e o seu regimen é um pouco differente. 
Asseiilou-se não dever prohibir-lhes o fallar : ellas 
se occupam em cozer, em lavar, em preparar o 
cânhamo, o linho, o algodão, em cardar, em 
fiar , &c. 

«O rendimento dos trabalhos dos condemnados 6 
destinado para pagar as despezas da captura c do 
processo, os objectos roubados, a multa cm pro- 
veito do estado, o sustento , o vestido , as ferra- 
mentas , os ordenados dos empregados e a conser- 
vação da casa. O cofre do estado adianta as despe- 
zas , e muilas vezes o governo local perdoa a mul- 
ta. Ha condemnados , cujo trabalho ó de tal sorte 
productor que podem ainda mandar dinheiro ás 
suas familias. Na occasião dos descontos se lhes 
faz conhecer o excedente liquido do producto da 
venda dos objectos mainifacturados , depois de de- 
duzidas as supraditas despezas. 

«Agora perguntarão como c que, tratantes, «ce- 
lerados cobertos de crimes , tem podido converter- 
sc cm alguns annos? Ate que ponto se pôde contar 
com as suas promessas para consentir em restituir- 
Ihcs a liberdade? Quaes são os seus abonadores 
para com a sociedade? Depois do conhecimento 
m lis ou menos profundo do coração humano , não 
ha uma quasi certeza de que clles recahirão nos 
mesmos vicios? Os fundadores tem previsto todas 
as ohjecçõ:s , e a experiência , mais forte que os 
raciocínios, já tem respondido cm favor do novo 
syslema. 

«Resulta das listas comparativas, formadas de- 
pois das ultimas mudanças feitas no código crimi- 
nal , que os crimes tem diminuído pouco mais ou 
menos pela ametade , e que um pequeníssimo nu- 
mero de criminosos tem sido condemnados em con- 
sequência de reincidência. D 

Tal é o maravilhoso systeraa que aquelles gover- 
nos tem adoptado , c que outros observadores co- 
mo La Rocliofoncaxdd-Liancourl , c Roberto J. 2'urn- 
butl tem ampla c inleressantemente descripto e con- 
firmado. Sua utilidade está demonstrada pela ex- 
periência . e os governos que a desprezarem co- 
l)rcni-se do opprobrio mais abominável e odioso. A 
leitura superficial do que levamos dito talvez exci- 
te a reflexão de que similhantes casas devem antes 
ser apetecidas do que temidas. Biissol na sua via- 
gem á America diz que os presos em Filadélfia pas- 
sam tão bera , que não tem desejo nem lembrança 
de sahir. Porem alem de que isto é desmenlido por 
outros observadores , quem não vè que o pão da 
prisão c sempre pão de dor , que aquelle regimen 
(■humano, mas não pôde ser cobiçado , e ullima- 
menlc que o sentimento da perda da liberdade, é 
indelével, o que nada o pode iiidemnisar? Demais 
a severidade da disciplina tem feito que alguns pre- 
sos tenham antes querido a morte do que similhan- 
tc clausura. 

São frívolas c absolutamente inattendiveis as ob- 
jecções com que se tem pertcndido mostrar que as 
cadeias da Pensilvânia não podem servir do model- 
lo ás da Europa , porque nesta não ha , scginido 



o PANORAIMA. 



31 



diiem , as circumstancias favoráveis que ha cm 
aquella , c são : ' — a raridade da miséria , o que se 
funda na distribuição mais igual das propriedades 
tcrritoriacs ; a mesma raridade dos delictos , e sua 
pouca variedade ; a systcmalica constância , a infa- 
tigável paciência dos quíihns ; c ultimamente a bon- 
dade e alTabilidade dos carcereiros. Porem quem 
não vè que estas qualidades são os fructos das suas 
leis c instituições , e que em qualquer parte que 
se applicarem hãode produzir elTeitos similhantes? 
Na Europa os abusos , e os erros vão cedendo o 
campo á rasão e á justiça , e prcpara-se uma epo- 
cha em que estas hãode aqui representar as scenas 
mais sublimes e gloriosas para a espécie humana. 
A França, que em mais de uma cousa se tem collo- 
cado á frente da civilisação , abriu também na Eu- 
ropa o exemplo da nova reforma das cadeias. A de 
Rouen , como as demais , centro da corrupção pliy- 
sica c moral , foi era 1806 transformada em oITici- 
na de trabalho : alli se fia o algodão , e os presos 
recebem lições de lèr , escrever, contar e de mo- 
ral religiosa. Naquelle logar reinam a ordem , o 
aceio, e a moralidade. \ cadeia de Mclun e outras 
são dirigidas pelos mesmos principies. Portugal , 
quando reformou suas velhas e cançadas institui- 
ções , lambem tratou de melhorar as suas cadeias , 
c uma commissão zelosa do bem publico adoptou 
algumas medidas em beneficio de taes estabeleci- 
mentos. Mas o que fez não basta , que muito lhe 
resta a fazer ainda , e a aproveitar de tão dignos 
e poderosos exemplos. 

P. M. 

Epitome da vida de Liiz DE Camões. 

(Continua do de pag. i6.J 

Impellido então o nosso poeta pelo desejo de não 
expor a maior dosar a reputação da sua amada ; 
cançado de contratempos e injustiças, por se ver 
órfão de pai , que commandando uma náu naufra- 
gara junto a Gòa , e sobretudo desgostoso das inju- 
rias da corte, resolveu passar á índia. Não deixou 
porem o ninho pátrio sem viva saudade, exclaman- 
do as palavras de Scipião. — Ingrata pátria , non 
pofsidcbis ossa mea. — Taes haviam sido os desgos- 
tos que nclla soffrèra que lhe arrancaram esta amar- 
ga apostrophe ! 

Não encontrámos nos biographos particularidades 
algumas acerca dos amores do nosso poeta, nem sa- 
bemos os motivos porque rompeu tão doces laços e 
te expoz ás cruéis penas de uma longa ou eterna 
separação. Vè-se porem pelos seus cscriptos que a 
sua determinação era não voltar mais á pátria , on- 
de tão cruéis dissabores havia experimentado. 

Alistou-se pois de novo , e em loo3 embarcou 
na nau , que coramandava Fernão Alvares Cabral , 
uma das quatro que compunham a esquadra que 
este fidalgo levara debaixo de suas ordens para a 
índia. Um furioso temporal que sobreveio durante 
a viagem fez separar a esquadra e retardar três das 
naus que a compunham, chegando somente á índia 
nesse anno, depois de haver soíTrido muito pela tor- 
menta , a náu S. Bento em que ia Luiz de Camões. 

Era então governador dos Estados da índia D. 
AfTonso de Noronha, que por essas epochas apromp- 
tava uma expedição contra o rei de Chembé, on da 
Pimenta , na costa de Slalabar. O nosso heroc, am- 
bicioso de gloria, assentou praça de voluntário nes- 
sa expedição militar, e nella com seus companhei- 
ros d'arma3 ganhou novos louros , sendo o rei de 



Chembé completamente derrotado , c constrangido 
a pedir pazes que se lhe concederam. 

A insalubridade do clima fez grande estrago noi 
nossos valorosos portuguezes , que mui dizimados 
voltaram a Gúa, sendo Camões do numero dos que 
escaparam ás febres daquelle clima devastador. De 
volta cora a expedição pouco dcscanço teve , por- 
quanto havendo perdido o seu melhor amigo, D. An- 
tónio de Noronha , morto ás mãos dos mouros cm. 
Tetuão , assim como seu tio o governador D. Pedro 
de Menezes, no combate junto a Ceuta, se angmen- 
tarara seus dissabores, e o levaram a tomar de nc- 
vo o serviço logo que se lhe offerecesse occasião 
opportuna. Não tardou esta, porquanto no anno de 
laoo succedendo D. Pedro Mascaranhas a D. Affon- 
so de Noronha , deu commissão a Manuel de "\"as- 
concelios de ir com uma armada cruzar na boca 
do Mar-lloxo, para esperar e combater as naus dos 
mouros. Oífereceu-se Luiz de Camões para ir nes- 
ta expedição, mas a esquadra depois de pairar de- 
balde defronte do cabo Guardafú até se lhe passar 
a monção, foi invernar em Ormuz no golfo pérsico. 
Alli passou o nosso poeta o inverno, que para clle. 
não foi perdido em ócio vil , dando sua imaginação 
fecunda vivo colorido a tudo quanto via e ouvia , e 
inflammando-se cada vez mais seu peito em ardente 
patriotismo sobre os altos feitos portuguezes de que- 
a índia era então o thealro. 

Voltando no anno seguinte a Gòa achou fallccido 
o vice-rei D. Pedro Mascaranhas, e snbstituido o 
seu logar por Francisco Barreto , homem altivo , 
fofo c prepotente (Ij. A corrupção dos costumes, 
a sede de ouro, e a ambição eram as feições ca- 
racterislicas do governo arbitrário de Barreto , que. 
á similhança dos déspotas odcava os liltc ratos , o 
despresava o saber. Luiz de Camões indignado con- 
tra os vicios predominantes, exhalou sua virtuosa 
indignação escrevendo aquella satyra que intitulou 
— Disparates da índia — na qual com branda criti- 
ca censurava a corrupção geral , sem comtudo par- 
ticularisar os corruptores. Seu corarão honrado, 
nobre , e desinteressado , mal podia deixar de sen- 
tir profundamente o quanto iaraos descendo , na- 
quella parle do mundo , de nossos antigos brios 
e costumes , e inda menos deixar de rcprehender 
com justa severidade a degeneração a que caminhá- 
vamos. 

A nobre ousadia de Camões desagradou a Barre- 
to, que irritado de ver censurados os vicios de que 
elle participava , tomou por pretexto certa satyra 
ridicula que então circulava em Goa , e encabe- 
çando-a em Luiz de Camões , que accusava de fal- 
tar ao respeito devido á auctoridade , abusou do 
poder de que lhe cumpria ter sido severo guarda , 
e desterrou o illustre vate para as ilhas Molucas. 

Aggravou-se a sorte do nosso malfadado heroe 
com mais este golpe fatal , mas nem por isso seu 
magnânimo coração succnmbiu co meio do não me- 
recido infortúnio, nem por ofTendids quiz desaggra- 
var-se do prepotente governador que assim o mal- 
tratara. 

Três oumais annos discorreu por Malaca , pelas 
Molucas , e por Macau , cumprindo a pena deste 



(l) Alguns escriplores e hiograi-ihus perleiídeni , ijiie 
Francisco Barreio era homem de grandes qualidades, lilje- 
ral , bom soldado , bom governador no loc.ante aos negócios 
da guerra, e muiio benemérito na índia e Africa do rei e 
da pátria. Accrescenlam porem que era noi pouco vão , e 
prompto a se resolver por mexericos. (Veja-se Diogo di> 
Goito, e a Memoria do Sr. bispo, F- A.- Lobo, que em oii- 
fro logar citámos). 



X» 



32 



O PANORAaiA. 



degredo , mas conservando sempre a lembrança de 
suas desventuras , que não menos aviva saudade 
daquella que conslaulcmente amara. Por essa cpo- 
clia acabou o vice-reinado do governador Barreto , 
[que seja dito em seu abono falleceu pobre] (2) e 
chegou a Goa D. Constantino de Bragança , succe- 
dcndo em 1558 no governo das índias. Este acon- 
tecimento deu logar a Luiz de Camões de reclamar 
justiça , e o novo viso-rci , com quem havia antigos 
laços de amisade, lhe levantou a pena, e o nomeou 
provedor dos defuntos e ausentes cm Macau , com 
« fim de o empregar e de melhorar a sua condição. 
É tradição constante que passava muitas horas a tra- 
lialliar no seu Poema , c ainda hoje em Macau , na 
quinta do conselheiro Manuel Pereira , se mostra 
uma gruta denominada de Camões , onde o nosso 
poeta ia trabalhar na sua composição, procurando 
iiaquclle sitio ameno e impenetrável aos raios do 
sol , cntregar-se todo ao laborioso estudo que tanto 
amava (3). AUi foi passando o melhor tempo da sua 
vida , ao abrigo das precisões , a que podia satisfa- 
zer com os emolumentos do seu cargo , quando se 
lhe suscitaram desejos de voltar aGòa ; de D. Cons- 
tantino pôde oljter a necessária licença , e breve 
tratou de se embarcar com o mais crescido cabedal 
de que se viu senhor no decurso de sua vida. 

Mas a sorte inimiga , que ainda não estava can- 
çada de persegui-lo, tomou por cmpreza frustrar as 
mais bem concertadas esperanças de Luiz do Ca- 
mões , e tornar em pezares as mais vivas alegrias ; 
não quiz que ellc fosse, diz o erudito Sr. Bispo de 
Vizcu , no tocante a teres e proveitos , mais ventu- 
roso do que em amores. O navio, cm que se havia 
embarcado , padeceu triste naufrágio na foz do rio 
Mccon , na costa de Camboja. Nesse naufrágio per- 
deu elle tudo quanto possuia , podendo apenas so- 
hre uma taboa salvar com a vida o seu mais pre- 
cioso thesouro , o manuscripto do seu poema , que 
por fortuna e gloria nacional chegou á posteridade. 
Desse naufrágio nos diz Barbosa Machado, fallando 
de Camões — «que se salvara em uma taboa com o 
« seu divino poema , imitando a Júlio César , que 
o no porto de Alexandria entrara levando em uma 
« mão a espada , e em a outra os seus commenta- 
« rios. » 

Em 1561 chegou a Goa, com esta única riqueza 
que tanto serviu para sua e nossa fama, c grato se 
amostrou para com o governador , a quem devera 
o bcm-cstar e Iranquillidado de que gozara duran- 
te o tempo do seu excellente governo , que em tu- 
do , conforme os historiadores , fora o opposto do 
de seu ruim predecessor. Não continuou porem por 
muito tempo a momentânea tranquillidade que des- 
fructára Luiz de Camões , porquanto D. Constanti- 
no foi chamado á corte deixando o governo a seu 
succcssor o conde de Redondo , que posto amigo e 
favorecedor do poola não pôde impedir que inimi- 
gos ciosos do seu mérito, homens malévolos, o ac- 
cusassem de malversações na administração da pro- 
vedoria de Macau. Foi posto cm juizo c encarcera- 
do , e quando estava para sahir innocenlc e puro 
da accusação , as portas da prisão se lhe fecharam 



(2) Fr. Manuel dos Santos diz , que F. Barreto dera a 
aluía a Deus , em uma casa do palha, sem se acliar em seu 
escriplorio , nem cm seu poder , um cruzado para as suas 
exéquias ! Foi morrer sem gloria nos inhospitos sertões da 
Africa, junto iís ribeiras do rioCnama, e em tamanho apar- 
to , que até teve escasso logar para ser sepultado em uma 
pol)re c solitária ermida das visinliauças. 

(3) Vid. nma estampa deste retiro, da maneira que ho- 
je é coníervado a pag. 39 do 1." vol. da Serie primeira. 



por embargo que lhe poz um cidadão de Gõa, cha- 
mado Miguel Rodrigues Coutinho, que se disse seu 
credor pela somma de dusentos cruzados. Por essa 
occasião valeu-se do vice-rei , e com dignidade lhe 
pediu o desembargasse , o que este fez com grande 
nobreza d'alma. 

Livre da prisão continuou na índia embarcando- 
se nos verões para ser\ir nas armadas, c entregan- 
do-se nos invernos ao estudo e ás suas composições. 
No serviço militar distinguiu-se não menos do que 
nas lettras , c assim ficou em Goa por algum tem- 
po até que aconteceu morrer o conde de Redondo , 
succedendo-lhe D. .\ntão de Noronha no governo da 
índia. Segundo pudemos colligir das diversas noti- 
cias biographicas que temos diante de nós , o nos- 
so malaventurado vate soffreu por esse tempo o gol- 
pe mais sensível que sua alma elevada podia expe- 
rimentar. D. Catharina de Attayde falleceu na pá- 
tria , deixando Luiz de Camões entregue á mais 
pungente dor, pois nesta tão duradoura affeição pu- L 
nha ellc suas ultimas e mais charas esperanças. 11 

líavia por essa epocha acabado o seu Poema, e 
cheio de desgostos sem ter cousa que o prendesse 
aos Estados da índia , onde experimentara os vai- 
véns da caprichosa fortuna, resolveu passar ao rei- 
no, a fim de buscar socego c independência , e of- 
ferecer á pátria a sua composição que tanta honra 
lhe devia dar um dia , e que tão mal recompensa- 
da fora então. Cheio deste projecto andava buscan- 
do os meios que lhe faltavam para effeiluar a via- 
gem , quando a sua má estrella lhe deparou a Pe- 
dro Barreto, governador nomeado para Sofala , o 
qual lhe propoz o acompanhasse fazendo-lhe mil 
promessas enganadoras (í). Pedro Barreio era da- 
quelles homens sórdidos , que de tudo sabem tirar 
partido , e na ofTerta apparentemente generosa que 
havia feito a Camões levava a mira em o tornar to- 
talmente seu dependente , c cm medrar á sombra 
da fama litteraria que o nosso poeta já então mere- 
cia. A Moçambique aportaram Camões c o indigno 
Pedro Barreto , e alli ficou o primeiro naquella in- 
hospita terra por algum tempo sem amigos , nem 
protectores , reduzido á maior miséria sem poder 
proseguir em sua viagem, porque a isso obstava seu 
iniquo credor. 

[Continuar-se-ha.] 



Prudencía é o temor rasoavel das consequências , 
que as nossas acções podem ter. — Compara-se o 
homem do grandes talentos , mas falto desta virtu- 
de , ao Polyphemo da fabula , que robusto mas ce- 
go não pôde , por falta de vista , fazer uso da sua 
força. , 

Somos escravos das leis [dizia ura jurisconsulto ro- 
mano] para podermos ser livres. 

Sejímos bons, e depois seremos felizes : não quei- 
ramos o premio antes da victoria , nem o salário 
antes do trabalho. — Rousseau. 

(4) Este facto que alguns escriplores não acreditam , o 
oa subsequentes a respeito de Pedro Barreto , é narrado por 
muitos outros dignos de credito, entre estes Pedio Mariz , e 
o Morgado d eMattlieus, tão eicellente litlerato como atila- 
do critico. 



ERRATA . 

N.° 5G, pag. 20, liu. 48 — presto— perto. 



.38 



o FANORASIA. 



33 




PORTUGAL. e meia tle Chaves , e entre esta villa e o seu ai ra- 

>^-r j balde da língdalena tem uma famosa e Ijeiíi edifi- 

cada [luiite , que levantaram us romanos.- — O rio 
O Iajiega e Amarante. corta obliquamente a serra do Marão, levando i'o- 

j pia d'aguns comparável ao Lima; de Cbavcs cami- 
>"asce o rio Tâmega era Galiza, na serra do S. Ma- i nha para sudoeste por entre as Iragosidades daqutl- 
lucde, de um manancial chamado Taraicelas, c bai- j las ásperas montanhas, das quaes recebe muitos e 
asando para o estreito valle de Laça , prosegue por 1 abundantes ribeiros , como são o Beça e o Basto, 
outro mais largo e fértil, o de Monterrey. através- \ Ainda que corre em leito apertado emrasão da ele- 
a tronteira dos dois reinos pcainsulares a légua j vação de suas margens, tem entre ellas deliciosos 



Feveueiko 4 — 1843. 



2.' Seiue — VoL.. 1!. 



u 



o PANORAMA. 



valles , que produzem muito vinho verde , mi- 
lho , centeio , linho , e legumes , c nas quebradas 
irroximas ha soutos, que dão fartura de castanhas. 
As aguas do Tâmega criam peixe miúdo de pouca 
monta , mas a cilas sobem, provenientes do Douro, 
os sáveis , lampreas e mugens , que fornecera em 
certas estações saborosa pescaria. Tem íaetier-se 
nu Douro no sitio a que chamam Entre-ambos-os- 
rios , duas léguas abaixo da villa cujo prospecto 
oíTerece a precedente estampa. 

Amarante , terra de mui remota fundarão , occu- 
pa a margem direita do rio, que acabámos de des- 
crever, sobre o qual tem uma ponte faliricada com 
muita solidez , c da cabeça desta começa a villa , 
(jue se pôde dizer constar de uma rua geral , tor- 
tuosa, c de plano inclinado, a que vem dar algu- 
mas travessas; correndo denascente a poente, com 
a igreja de S. Pedro ao meio da subida , c pouco 
acima a casa da municipalidade : no mais alto tem 
seu assento a casa da Misericórdia. Ao norte ha a 
rua deGuimarãcs, estrada para essa villa : ao poen- 
te, também costa acima , segue a rua doPorlo, 
estrada para esta cidade. Possuía muitos edificios 
nobres, a maior parte dos quaes foram incendiados 
pelos francczes na invasão de 1809 ; e na sua pro- 
ximidade, para lodos os lados ainda era superior o 
2mmero de notáveis c deleitosas quintas, pertencen- 
tes a famílias mui conhecidas, assim da còrtc, co- 
mo das províncias. Amarante é uma posição mili- 
tar importantíssima , ao norte do reino , e por esta 
circumstancía tem sido thoatro de repetidos c por- 
fiados combates , cujas consequências im.mcdiatas 
são sempre a devastação das propriedadej, quer ur- 
banas, quer rústicas. — Apesar da situação emi- 
nente em que se acha , como por outra parte é so- 
branceira ao frondoso Viille do Tâmega , não dei- 
xa de ser aprazível residência, e agradáveis os seus 
contornos. Dista de Guimarães sínco léguas a sues- 
te ; e porque também apen.is fica a uma Icgua da 
serra do Marão , é muito provável que , por es'a 
-situação topographica na estrada principal do Por- 
to para Traz-os-montes , sendo encontrada pouco 
antes daquclla escarpada serrania , lhe pozesse a 
antiguidade o nome ú'Atitcmoranam, que se corrom- 
peria depois em Amarante. No campo das conjectu- 
ras , sobre etymolngías quasi sempre incertas, te- 
mos esta por mui crível , não obstante a derivarem 
os nossos antigos geographos do nome de um cau- 
dilho romano , Amarantus Senccionis , cuja sepultu- 
ra se uchára no hospital de S. Marcos da cidade 
lio IJraga. Também os mesmos auctores escreveram 
que fora originariamente povoada pelos turdetanos da 
Lusitânia , 3G0 annos an'es de Jcsn Chrísto ; que 
os romanos a reformaram e augmcntaram ; que os 
bárbaros enxames das tribus do septcntrião, desliui- 
dores do império dos Césares, a devastaram tão com- 
pletamente que delia não havia vestígio em 12o0. 
i'or estes annos £. Gonçaio , dito de Amarante pa- 
ra distinrçãi) de outro St.° o augustiníano .S. Gon- 
çalo de Lagos , á volta da viagem aos santos loga- 
re.s, veio habitar uma capeijínha que ou achou de- 
.saraparada , ou erigiu desde os fundamentos , sita 
n'iim outeiro, que campeava .sobre o Tâmega : á 
sua caridade e amor do bem publico é fama que 
foi devida a primeira ponte que se lançou sobre o 
rio nesta paragem : aqui falleceu o servo de Deus , 
p a concorrência dos fieis a visitar o seu sepulchro 
deu origem á crcação do i)ovo hoje conhecido pelo 
nome de villa de Amarante. Tem esta uma uníca 
freguczia , da invocação de S. Gonçalo , erecta no 



templo do convento dominicano , mandado levantar 
por eireí D. João 3.° e seus succcssorcs : era esta 
casa religiosa uma das melhores que no reino pos- 
suía a ordem de S. Domingos, com dois claustros 
espaçosos , chafariz d'agua perenne , grande dor- 
mitório lateral ao rio, e dilatada cerca. 

Amarante , antes das recentes divisões judiciaria 
e administrativa , tinha juiz de fora , e um termo , 
o mais diminuto de todo o reino, e por maneira tal 
que somente na rua. que serve de transito aos que 
frequentam as estradas do Porto e Minho para Traz- 
os-montes e Beira , havia três jurísdicçõcs civis , 
três ccclcsiasticas , três foraes , e três pelourinhos. 
K actualmente cabeça de comarca, a qual se com- 
põe dos concelhos, de Amarante calculado em 4:199 
fogos, c de St." Cruz de riba-Tamega com 3:598 
ditos. 

Illustra-se esta villa por ter dado o nascimento a 
João Pinto llíbeiro , pessoa mui principal da famo- 
sa c feliz restauração de 1G40 , que deu a estes 
reinos monarcha legitimo e natural , aeclamando o 
Sr. D. João 4." , e collocando no throno a dynastía 
bragautina. Foi também berço do poeta jovial c sa- 
tjTÍco , Paulino Cabral de Vasconccllos , mais co- 
nhecido por abbade de Jazente. — António de Sou- 
sa de SIacedo descendeu de uma família de Ama- 
rante, mas, postoque o P.' Luiz Cardoso o faça na- 
tural desta villa, veio ao mundo na cidade do Por- 
to , como fica relatado na breve biographia de tão 
insigne varão , a pag. 343 do antecedente volume. 



O DIVIDO. 

O LOCAR do órgão da audição tanto no homem , co- 
mo nos outros animaes , é na cabeça. — A única 
parte visível deste órgão é o pavilhão, ao qual vul- 
garmente chamam orelha , e que apresenta na sua 
forma condições muito favoráveis para modificar 
os sons; segundo parece todas as partes, de que se 
compõem estes órgãos , offereccm estas condições , 
umas em maior numero c outras cm menor. O [)a- 
vilhão em muitos animaes é uma verdadeira corne- 
ta acústica , como por exemplo no cavallo , c sus- 
ceptível de se mover em diflercnles sentidos. — O 
pavilhão concentra as ondas sonoras no canal audi- 
tivo, oqual inlroduzindo-se na cabeça, até um certo 
ponto, é terminado obliquamente pelo tympano que é 
uma membrana delgada, movei c elástica, que ser- 
ve para fechar uma cavidade óssea chamada a cai- 
xa do tympano ; a caixa do tympano tem uin orifi- 
cio que está em communicação com a boca por 
meio de um canal chamado a trompa d'Eustachío ; 
c serve esta communicação para que renovando-se 
o ar , a pressão atmosphcríca seja sempre a mes- 
ma. X caixa do tympano ainda tem outras duas 
aberturas, uma em cima chamada a jancUa oval . 
outra mais em baixo chamada a janella redonda ; 
n'cst('S dois orificios ha músculos, a qnc está presa 
a cadèa dos ossos suspensa no interior da caixa : 
esta cadèa c composta de quatro ossos, chamados , 
— o marlello — a bigorna — o Icniíoular, e o es- 
tribo ; tem estes nomes , em consequência da se- 
melhança que apprescnta a sua forma com a des- 
tes objectos — julga-sc geralmente que esta cadéa 
serve para modificar as sensações muito violen- 
tas que o órgão podcsse sentir : basta distende-la 
muito c á membrana do tympano , para produzir 
este cffeito — ha pessoas que perlcndem ter esta fa- 
culdade a ponto de se fazerem surdas quando que- 



o PANORAJ^IA. 



36 



rcm. — O pavilhão — o canal auditivo — a mem- 
brana do lympano — a caixa ossoa , a cadra dos os- 
sos e a Irompa de Euslachio formara o que se cha- 
ma ouvido externo. O ouvido iiílcruo é composto 
de um canal ósseo em spiral , chamado o caracol , 
preso por uma das suas extremidades á membrana 
<la jauclla redonda , e a outra extremidade abre- 
se em uma cavidade , chamada o vestihulo , esta 
cavidade está dctraz da janella oval. O veslibulo 
lomraunica com trcs canacs semi-circulares de na- 
tureza óssea , cheios de uma matéria parda de que 
se não conhece o uso. — Os últimos ramos do ner- 
vo acústico merjíulham em um liquido transpnrcn- 
rente que enche as spiras do caracol. 

Parece que as vibrações sonoras concentrando-sc 
no pavilhão ferem a membrana do tympano, repro- 
duzindo-se na cavidade óssea, como na caixa d'um 
tamfcor. 

O modo por que a sensação do som se transmilte 
ao nervo acústico ó um segredo da natureza que não 
sabemos que se haja ainda descoberto. 

Sabe-se que a membrana do tympano pôde rom- 
per-se, ou perfurar-se. sem que a audição deixe de 
ler lograr, tanto que ha pessoas que fumam e deixam 
sahir pelo ouvido o fumo que aspiram , sem que 
sejam atacados de surdez ; c comtudo é mister que 
'> fumo, introduzido pela trompa de Eustachio na 
membrana do tympano , saia por uma fenda feita 
nessa membrana. — A perfuração do tympano é até 
uma operação cirúrgica , praticada com vantagem 
para a cura de alguns casos de surdez. — Os ires 
primeiros ossos da cadèa de que falíamos lambem 
I'arccem desnecessários a audição; pois julga-se 
que não c alterada pela queda de nenhum delles ; 
confessámos que não seguimos rigorosamente esta 
opinião porque nos parece mais phisiologico suppor 
que deve resultar alguma alteração no ouvir , pela 
falta d'um ou d'oulro destes três ossos , e esta opi- 
nino pode ainda fundar-se no facto , em que geral- 
mente se Concorda , de que a queda do estribo , 
que é o quarto osso, causa a surdez. 

Os esforços dos phisiologistas tem sido baldados 
para explicar o inechanismo da audição — -o órgão 
do ouvido 6 destinado a recolher os sons , e trans- 
i:iiltir as sensações ao nervo acústico; eis as pou- 
cas palavras era que se podem resumir muitos dos 
livros, que acerca deste assumpto estão escriptos. 
O sentido do ouvir appresenta, entre outras, uma 
circumstancia digna de attenção , e é o seu desen- 
volvimento antecipado nos feios ; pois este sentido 
começa a exercer-sc logo depois da nascença. Do 
mesmo modo que os outros sentidos, ou talvez mais 
do que elles , é susceptivel de educação. 

Os selvagens ouvem melhor do que os povos ci- 
vilisados ; tem-se visto selvagens , nas ílorestas da 
America do sul , encostarem o ouvido á terra , c 
perceber o numero c a direcção dos seus inimi- 
gos , estando estes a grande distancia. O órgão do 
ouvido é sujeito a muitas doenças, que occasionam 
a surdez, esta quando é completa traz comsigo gra- 
víssimos inconvenientes ; e sendo era idade avança- 
da altcra-se a voz de modo que se chega a faliar 
muito baixo ou confusamente. 

A perda do ouvir será ou não recompensada de 
algum modo pelo aperfeiçoamento de outro sentido ? 
— Eis uma questão em que por ora não podemos 
em consciência apprcsentar o nosso parecer. — As 
questões que parecem menos interessantes são ss 
que muitas vezes custam mais a resolver. 

iS. /. Jlibeiro do Sá. 



O CEGO PEREGBINO. 

Jtimancc. (•) 
I 

— «A porta, menina, abri 
A um triste peregrino , 
Cego , cançado , c com fome , 
Que perileu de noite o tino : 

Que por bando de malvados 
Foi na estrada investido , 
De seu haver eslnilhado , 
De agudo ferro ferido. 

Prestes , ó linda menina , 
Ao desvalido accudi ; 
Soccorrei-o , senão morre ; 
A porta , menina , abri.» — 

— «Não dei causa a luas queixas, 
De teu damno não me importa : 
Como és desconhecido , 

Não te abro a minha porta : 
Acordai , ó minha mãe , 
Deixai já tanto dormir: ' 
Não ouvis lá fora o cego 
Com seu estranho pedir?» — 

— «Sc ellc pede, ó minha filha, 
Da-lhe pão e gasalhado ; 

Não negues comida , e lume 

A um pobre desgraçado, » — 
A donzella a porta abre , 

Bem que seja a seu pezar ; 

Pressuroso o peregrino 

Cruza alem do limiar ; 
São nobres seus ademanes , 

É garboso o seu pizar ; 

Ninguém pobre lhe chamara 

Se não visse o seu trajar: 
Veste grosseiro burel , 

De sandalhas vem calçado , ~ 

Por cordão de rijo esparto 

O corpo traz apertado. 
Cobre chapéu c cabeça ' . 

Té aos olhos o capuz , 

Porque o rosto se cão veja 

A claridade da luz. 

— «Aguarda ahi , peregrino. 
Que o pão e vinho te dou , 
Faxa que o sangue le vede 
Com presteza apromptar vou. » — 

— «Não vás, formosa donzella. 
Tamanha fadiga ter , 

Fome e sede já não tenho , 
Nem sinto o sangue correr. » — 

— « Se não tens fome , nem sede , 
E o sangue já te parou , 

O teu caminho prosegue , 
Que a descançar eu me vou.» — 
■ — <!Não darei com o caminho, 
Que não sei e que é ruim ; 
E depois que sou comtigo 
Tc mesmo não sei de mim. 



(•) João (le Barros dá este nome ás troTas po|)ularei 
antigas, jierínadido talvez de que provém das r-?nas ou cob- 
soanles : romance deriva da língua ro!n.''ã on dos írovadoret 
provençaes. — -Fiinda-se a nossa lireve coniiíosição .ias aoll- 
gas trovas do céi/o , que principiara . 



Abri essa poria , 
Feclial o postigo , 
Botai cí um len(;o , 
Que eu yeniio ferido , 



&C. 



3G 



O PANORAMA. 



Bondosa , linda donzella , 
flnioi o triste ccguinho , 
Air iVira da clareira , 
J'eIo direito caminho.» — 

— n Es|)r'ares sob este colmo 
A nianliaã melhor seria ; 
Nado o sol , de boamente 

A estrada te ensinaria.» — 

— itPéga na roca . ó filha , 
E na estriga de linho , 
Sabe o cego seus infresses , 
Vai cnsinar-lhe o caminho.»- 

A donzella inexperiente 



Tal dilo não agradou ; 

Mas (lurqiic o disse a velha 

Obedeceu e calloií. 
Em quanto o fuso procura , 

Os dois conversam a mão, 

De antigo conhecimento 

Indícios seguros dão. 
Deste colloquio breve 

A donzella nada ouviu ; 

louocenle e sem suspeitas 

Tomou a roca e sabiu. 

./. M. cVÂ. F. 
i Coinlnir-sc-ha.) 




coi.oai30 cows'íirJ3s os ss.i:sumz-çcsos. 



Cmristovío (^olon , ou Colombo [como de ordinário 
i'5cre\emos] ceava um dia de sociedade com vários 
pedantes : estes , que invejavam a gloria de tão in- 
signe homem , quizeram provar-lhc que nada fora 
facil Como o descobrimento do Novo-Mundo. Co- 
lombo não respondeu , deixou proscguir a conver- 
sação , e quando achou op|i(irtuno ensejo perguntou 
sorriíuio-sc se algum dos circumstantes sabia a ma- 
neira de suster aprumado um ovo em cima da nic- 
za , posto sobre uma das extremidades e sem cama 
ou encosto. Todos entraram a i>òr de banda pratos 
e guardanapos , (; tomando ovos lidavam de balde 
para os manter a pino , amparando-os com os dc- 
<Ios a ver so descobriam modo de que se tivessem 
direitiis e sem tombar; por fim cansados de infru- 
ctuos.is diligencias protestaram que tal não podia 
couseguir-se. — «Agora o veremos.» — disse gra- 
vemente o illuslre navegante ; e batendo na racza 



com uma extremidade do ovo, que tinha na mão. 
amolgou-a e fez que ficasse direito. — «Isso faz 
qualquer»: exclamaram a uma voz os concurren- 
tes : porem Colombo limitou-se a noiar-lhe que es- 
ta exclamação é a que se faz sempre depois dos 
grandes descobrimenids e das árduas emprezas , 
quando as diliiculdades apparecem dissipadas pela 
força (lo talento. 

Esta anccdota , que refere um historiador italia- 
no , é popular eui llespauha , e ainda ninguém lhe 
negou anthenticidade. — (iuilherme Hogarlh , cele- 
bre |)intor do século passado, elegeu este assum- 
pto para um painel de que c copia a gravura aci- 
ma. Este ensaio , quer considci'ado como composi- 
ção , quer como estudo do contraste das pbisiono- 
niias, pôde dar alguma idéa do engenho de seu au- 
ctor. Nada dislrabe do objecto principal ; a postu- 
ra de cada uma personagem . os gestos , a expres- 



o TANORAaiA. 



37 



são das fciríios , o movimento dn rorpn , tudo se 
dirige a Cliristovão Coloiiilio. í". impossível deter a 
vistu em qualquer dos convidados, sem de eertn 
modo nos vermos obrigados a lita-la inleiramonte 
no centro da acção , até descnnear com interesse 
na figura do protagonista : a phisionomia deste vc- 
sc revestida de toda a dignidade que o génio do 
pintor podia imprimir-lhe ; deixa entrever na sere- 
nidade do rosto a intenção de mostrar que a ima- 
ginação do Colombo não se deteve neste episodio 
mais que um passageiro instante , para em seguida 
se encaminhar a outras idéas mais sublimes , ou a 
roais gloriosas recordações. l*or uma combinação 
feliz o interesse momentâneo vislumbra nas caras 
dos assistentes . e posloquc de variadas expressões 
são estes aceidentes de physionomia adequados ás 
circunistancias , e vigoram o pensamento geral. — 
Na esquerda divisa-se um velho calvo , de froule 
encrespada e cerrando os beiços por despeito ; tra- 
tou de suster o ovo , mas sem chamar a attenção 
dos outros, como se deixa ver pela postura dos bra- 
ços cruzados ; tem íitado a attenção no rosto de Co- 
lombo ,■ para quem olha desdenhoso , o que 6 bem 
de observar notando-se que está recostado e de ca- 
beça alia disfarçando sentimentos d'invcja. É lam- 
bem por isso que o navegante de preferencia se 
dirige a ellc e se compraz em pór-lhe silencio. — 
No lado fronteiro ha um mancebo occupado na so- 
lução mechanica do problema : lodo o corpo incli- 
na para o ovo quebrado por Colombo , e não pare- 
ce mui persuadido da moralidade da parábola ; in- 
culca que está para al)rir a boca e proferir : — 
«.Não senhor, não foi isso o que se propòz.» — Dos 
dois homens, entre os quaes está sentado Colombo, 
um de idade madura e cabeça descoberta ri ás 
gargalhadas , e sem malicia , da subtileza com que 
Colombo aprumou o ovo ; mas já não é o mesmo o 
riso tão expressivo do velho de óculos e barreie 
que parece captivado da perspicácia de Colombo, 
p nada participar do ódio do que lhe visinha. Quan- 
to á quinta personagem que dá punhadas cm si , 
entregaudo-se a ura rir sem acabar , pôde suppor- 
se que applica toda a sua attenção á scena muda, 
que se passa entre Colombo e o primeiro velho , e 
que diz lá comsigo : — «por todos os santos e san- 
tas! que o basbaque ficou burlado e não sabe que 
resposta dó.» — 






i:oBO. 




1128- 




IH - 





Sarau. 



O a?pk!:to do burgo de Guimarães indicaria tudo , 
menos um desses raros pcriodos de paz e repouso ; 
de festas e pompas civis e religiosas , que , seme- 
lhantes aos raios do sol por entre nuvens húmidas 
de noroeste , alegravam a terra , sorrindo a espaços 
no meio das tempestades politicas que varriam, na- 
quella epocha , o solo ensanguentado da Península. 
Como se houvera alargado um braço até então pen- 
dente , o castello roqueiro tinha estendido do an- 
gulo esquerdo da torre do miradouro uma compri- 
da couraça de vigas c entulho que vinha morrer 
em um cubcllo na orla exterior do burgo. Depois, 
da extremidade daquella muralha inclinada, do ou- 
teiro para o valle, corria a ura e outro lado do ba- 



luarte nma tranqueira de pouca altura , donde fa- 
cilmente besteiros e frecheiros poderiam despejar 
a salvo seu armazém em quacsqucr inimigos que 
eouimetlessem a povoação. O cubcllo era como o 
punho cerrado do disforme braço que sabia da tor- 
re alvarran , c a tranqueira como uma faixa com a 
qual o desmesurado gigante de pedra parecia ten- 
tar unir a si o burgo apinhado lá embaixo. Alem 
disto, o mosteiro de D. Mumadona , iiostnque ve- 
lho c fraco, também parecia animado dVspirito 
guerreiro; porque as ameias que coroavam o ter- 
rado do campanário , pouco antes lombadas em 
grande parte c cnbertas de hervas c musgo, esta- 
vam limpas e galeailns de novo nos seus logares , 
ao passo que por rnlre ellas se divisava uma gros- 
sa manganella assentada no meio do eirado cm dis- 
posição de arrojar pedras para a campanha, que se 
dilatava diante do formidável engenho. 

Todavia estas evidentes caulcllas e precauções 
militares desdiziam bastanteraente do que se passa- 
va no castello. Era pela volta das dez horas d'uma 
noite calmosa de junho. A lua-cheia batia de cha- 
pa nas muralhas esbranquiçadas , as sombras das 
torres macissas listravam d'alto a baixo as paredes 
dos paços inleriorcs de faixas negras sobre a palli- 
da silbaria de mármore , tornando-a semelhante ao 
dorso da zcvra selvagem. Contrastavam , porem , a 
melancholia e silencio deste espectáculo nocturno 
as torrentes de luz avermelhada jorrando por en- 
tre os maincis que sustinham ao meio das altas 
e esguias janellas as bandeiras c laçarias de pedra. 
Estes maincis c bandeiras, formando flores e ara- 
bescos , recortavam de mil modos aquclles vãos af- 
fogueados e brilhantes , rotos a travcz das listas 
alvacentas c negras , de que a lua arraiava a fron- 
te do soberbo edificio. Na penumbra do extenso pa- 
teo que corria entre as muralhas e a frontaria do pa- 
ço , branquejavam os saios dos cavalleriços («) que 
tinham de rédea as mnllas de corpo dos senhores, 
e ricos-homeus ; scintillavam os freios de ferro pu- 
lido e as sellas á mourisca, tauxiadas de ouro o 
praia ; ouvia-se o palear dos animaes e o sussurro 
dos servos conversando c rindo cm tom sumido. 
Mas era lá cm cima, nas salas esplendidas, que se 
viam passar rápidos como sombras os vultos de da- 
mas e cavallciros arrebatados no turbilhão das dan- 
ças ; lá soavam as melodias dascitulas, das harpas, 
das doçáiuas, por entre as quaes rompiam os sons 
vividos das eharamellas, o estrépito das trombetas, 
o rebombo dos tímpanos ; e quando aqucllas toadas 
afrouxavam e morriam cm sussurrar confuso, reti- 
nia uma voz áspera c aguda que vibrava no meio 
daquelle ruído de festa. Então í"azia-se um profun- 
do silencio, que não tardava a ser partido por gri- 
tos e risadas estrondosas, que reslrugiam pelas abo- 
badas , cruzavam-se e confundíam-se repercutidas 
em borborinho infernal. Via-se claramente que a 
embriaguez da alegria havia chegado ao extremo 
auge do delírio , e que dahi avante não podia se- 

(•) Os cavnlltriços eram os servos que Iralavam ilos gi- 
neles e cavalgaduras dus nobres. Di/.eraus oqueeram porque 
delles não se faz menijào alguma no Elucidário, e levissima 
em Durante verbo: CnhnVarius. Vò-se, porem, em que con- 
sistia e<te cargo servil il'uni inslrumenlo d'iujenuidade de 
1033 [Cullec.de var. privileg. T. 5.° Doe. 3.°] Fique di- 
to por uma vez que todus os nomes que eoípregamos, sce- 
nas que descrevemos , costumes que pintamos, são riirorosa- 
mente tiistoricos. Fácil mis fora sumir este romance em tini 
pelajo decilações; mas falece-nos a fnria da erudição. Enão 
seria ella ridícula uo humilde Listoriadur d'uni humilissimo 
truào ? ,. . . 



3« 



O PANORAMA. 



não decrescer. O tcdio c o cançaco não tardaria a 
separar aquella rntnpanliia lustrosa , que parecia 
esquecer nos braços do deleite que tudo ao redor 
delia, no caslcllo e no burgo, annunciava as triste- 
zas dú guerra c os riscos dos combates. 

De feito , já nos rcaes aposentos da bcUa infanta 
de Portugal muitos dos ricos-homcns c infanções , 
.'.pinhadõs aos cinco e seis, aqui eacol.í, ou encos- 
tados aos balcões da sala d'armas, começavam a 
lallar com viva agilação dos successos do tempo. 
As donzellas iam ;;sscntar-se nas almadraqucxas en- 
fileiradas junto da parede no topo da sala , onde se 
erguia , cousa de um pó acima do pavimento , o 
■vaslo estrado da infanta. Esta, na sua cadeira d'cs- 
paidas, escutava l''crnão Perez, que firmando a mão 
no braço da cadeira , c curvado para ella por de- 
traz do espaldar , com aspecto carregado , parecia 
dirigir-lhe de quando em quando palavras breves 
c vchementes , a que D. Thereza , que não sahíra 
do seu logar desde o começar do sarau , respondia 
muitas vezes com nionosyllabos, ou com nm volver 
d'olhos em que se pintava a angustia , desmentin- 
do o sorriso forçado que , frouxo c passageiro , lhe 
adejava nos lábios. 

Junto ao topo do estrado, do lado esquerdo da 
infanta, ura joven cavalleiro em pé fallava também 
em voz baixa com uma formosa donzclla, que, recli- 
nada na ultima almadraquexa , respondia entre ri- 
sadas aos ditos do outro interlocutor. E todavia no 
gesto do cavalleiro, na vivacidade das suas expres- 
sões , no seu olhar ardente se revelava que as res- 
postas alegres da donzella desdiziam das palavras 
apaixonadas do mancebo , cujo aspecto se entriste- 
cia visivelmente com aquella alegria intempestiva 
e cruel. 

Ao pé de uma das columnas de pedra , que su- 
bindo ao tecto SC dividiam como os Inuicos de nm 
plátano cm aríezões de castanho , os quacs morren- 
do nos vértices das ogivas cm bocctes dourados 
pareciam sustentar o renque de lampadários gigan- 
tes pendentes da escura profundeza daquellas vol- 
tas ; — ao pé d'uma destas columnas, no lado op- 
posto da sala, trcs personagens fallavam lambem ha- 
via largo tempo , sem fazerem caso do tanger dos 
menestréis , do doudejar das danças , do sussurrar 
confuso que redemoinhava era volta delles. Era a 
sua conversação de género diverso das duas que já 
descrevemos. Aqui os trcs indivíduos pareciam to- 
mar todos vivo interesse no objecto de que se oc- 
cupavam , ainda que de modo dilícrcnte. Um del- 
les , alto , magro , trigueiro e calvo , porem não de 
velhice, porque era homem de quarenta annos, tra- 
java um saio negro, comprido, e apertado pela cin- 
tura com uma larga faixa da mesma cór, vestuário 
próprio do clero daquelle tempo : o outro , ancião 
venerável, tinha vestida uma cogulla monástica . 
igualmente negra , .segundo a usança dos monges 
bentos ; o terceiro (inalmcnte , o mais moço dos 
tíes, era um cavalleiro que mostrava ter pouco mais 
de trinta annos, membrudo, alvo, cabellos anncladns 
e louros — um verdadeiro nobre da raça germânica 
dos visigodos. O clérigo calvo , com os olhos quasi 
sempre fitos no chão , só os punha de relance na- 
qucllc dos dois que fallava; mas este olhar incer- 
to e sorrateiro bastava para descobrir nelle uma In- 
dilfercnça hypocrila e uma curiosidade real. No 
voslo do velho pintava-se profunila attcnção , prin- 
cipalmente .i'; palavras do mancebo, as quacs enér- 
gicas , vehciiientcs , o rápidas , davam testemunho 
das vivus coniinoçõcs que agitavam a sua alma. 



Dos três grupos em qne no meio de tantos ou- 
tros fizemos principalmente reparar o leitor , já 
elle conhece as personagens do primeiro — a vinvi 
do conde Henrique , e Fernando Perez de Trava. 
Para clareza desta importante historia necessário é 
que lhe digamos quem eram os que compunham os 
outros dois , e lhe expliquemos os porquês da si- 
tuação respectiva de cada um desses indivíduos. 

Entre as donzellas da infanta-rainha uma havia 
em que ella , mais que em nenhuma outra , tinha 
posto as suas alTeições e complacências ; e cora ra- 
são : — crcára-a de pequenina. Dulce era filha de 
D. Gomes Nunez de Bravacs, rico-homem , que 
morrera na rota deVatalandi combatendo como es- 
forçado a par do conde borgonhez. Expirando o no- 
bre cavalleiro cncommendou sua lilha orphã á pro- 
tecção do conde. Este não se esqueceu da supplica 
do guerreiro moribundo; trouxe-a para seus paços, 
e entregou-a a sua mulher. Nos tenros annos, Dul- 
ce promcttia ser formosa, e, o que não era de me- 
nos valor , de um caracter nobre e enérgico e ao 
mesmo tempo meigo e bondoso. Pouco a pouco D. 
Thereza lhe ganhou amor de raãi. Até os vinte an- 
nos , que já Dulce contava, este amor não afrou- 
xara , nem no meio dos graves cuidados que cer- 
caram a infanta nos primeiros tempos da sua viu- 
vez . nem com a louca alleição do conde Fernão 
Perez. As esperanças que a donzella dera se ha- 
viam inteiramente realisado. Dulce era um anjo de 
bondade e de formosura. 

Mas este anjo innoccnte . rodeado de carinhos 
das mais nobres damas, das adorações dos mais il- 
Instres cavalleiros da corte, parecia ter cerrado in- 
teiramente o coração ao amor. Verdade c que en- 
tre os mancebos , sempre attentos a indagar as in- 
clinações das donzellas , tinham existido suspeitas 
de que esta indifferença e frieza era mais simulada 
que verdadeira. Elles haviam observado que os 
olhos de Dulce costumavam litar-sc com desusada 
complacência n'um donzel , que bem como ella fo- 
ra crendo na corte. Era este Egas Moniz Coelho , 
primo do ancião Egas Moniz , senhor de Cresconhc 
c Rezende, caio do moço infante Alliniso Ilenriquez. 
Pouco-diflerentes em idades, scinelliantes era génio 
e caracter, c educados juntos, desde tenros annos, 
pelo respeitável senhor da Honra de Cresconhc, os 
dois mancebos haviam contrahido aniisade intima. 
Na mesma noite c na só de Zamora tinham velado 
as armas. Como prova da sua independência poli- 
tica , D. AfTonso tomara do altar a armadura o a 
si ir.oprio se fizera cavalleiro. Das mãos dellc re- 
cebeu depois o mesmo grau , alvo da ambição de 
toilds os mancebos nobres, o seu amigo da infância ; 
e o infante eEgas, até ahi irniãns pela alfeição mu- 
tua, ficaram liesde então mais unidos ainda jicla fra- 
ternidade das armas. 

.\s suspeitas dos moços cavalleiros tinham nasci- 
do pouco depois da vinda de D. AlTonso e de Egas 
para a corte de Guimarães. Mas semelhantes sus- 
peitas breve se desvaneceram. Inesperadamente Egas 
Moniz partiu para as guerras d'ultramar, ou, co- 
mo hoje se diz, para a cruzada. Ninguém atinou 
com o motivo desta súbita resolução. Todavia , se 
os amores com Dulce existiam realmente , era es- 
sa jiaixão quem o afastava delia. Nascido com es- 
pirito ardente , trovador e guerreiro , Egas preci- 
sava de obter gloria, porque as almas poéticas da- 
quelle tempo não coraprehendiam o amor sem re- 
nome , nem talvez sem esto o encontrariam no seio 
dc nobre donzella , digna de sua alfeição. A terra 



o PAj\ORA]>1A. 



39 



santa er.i naqiiclla cpocha o campo mais foi-til para 
os coifadorps de gloria : as rcpiitarOcs ailquiriíias 
na Palestina reliirabavam por toilo o orbe cliristão. 
Era o amor (jucni arrastava Eu'as para essa vida do 
riscos, privarões c combates? Quem poderia dizc- 
lo '.' Ninguém sequer o pensou. 
■ O que é certo é que depois da sua partida, Dul- 
ce pareceu mais triste que de costume. Porem , se 
eram saudades, ou essa alma enérgica soube escon- 
der seu marlyrio e devorar no silencio c na solidão 
da alta noite as suas lagrymas , ou as saudades se 
extinguiram no meio da vida risonha e distrahida 
da corte. O moro trovador tinha esquecido a todos : 

— pôde ser quo também a cila. 

Entretanto uma nuvem dccavallciros a cercaram 
de adorações. Debalde I Só um esperava accender 
alguma faisca de amir neste coração gelado. Era 
Garcia Bermudez , cavalleiro aragoncz , valido do 
conde de Trava, c uma dasmelhorcs lanças d'Hcs- 
panha . que com clle viera a Portugal. Dotado de 
generoso animo , mas sobradamcnte altivo , c con- 
fiado no próprio mérito , Garcia Bermudez amava 
a donzella querida de D. Thereza , e esperava ser 
correspondido; porem no coração de Dulce achara 
um aflecto quf lá não quizera encontrar: — amor 
sim ; mas amor d'irniã. Era ellc quem no meio das 
festas obtinha todas as preferencias da filha adopti- 
va da infanta : a sua conversação a qun mais lhe 
apprazia. Comtudo, quando nomeio do ruido c ale- 
gria dos sar.íus, ou cavalgando no ginete possante 
e correndo ao lado do palafrem de Dulce pelas flo- 
restas .e çarçaes, nas montarias e caçadas, ellc bus- 
cava ensejo para ])roferir essas pala\ras vchemcntes 
que escutadas sem cólera coroam esperanças de mui- 
tos dias, e repellidas entenebrecem o futuro, e de- 
voram lima existência, Dulce esquivava sempre com 
um gracejo esse instante decisivo, e oaragonezapar- 
'Tndo-se delia amaldiçoava a hora cm que a amara, 
;ra dahi a pouco imaginar novo ensejo cm que po- 
uesse resolver per uma vez o seu incerto destino. 

Dulce era a donzella , assentada na extrema al- 
madraquexa do estrado ; Garcia Bermudez , o ca- 
valleiro com quem ella faliava e ria : e o que en- 
tre os dois se passava , uma repetirão dessas scc- 
nas em que tantas vezes a destreza da mulher que 
não ama sabe triumphar cruelmente da mais terrí- 
vel entre as mais terríveis paixões , o amor do ho- 
mem , recalcado no coração pela indiffcrença da- 
quclla a quem no abysrao do seu orgulho disse ; 

— tu serás minha I 

Dos três personagens que, cm pé no outro extre- 
mo do vasto aposento, pareciam alheios a tudo quan- 
to passava em volta dellcs , embebidos em disputa 
\ioIenta, ura era o celebre Gonçalo Mcndcz da 
'laia , ao qual , em verdes annos , extremadas gcn- 
liezas d'armas tinham feito dar o appellido de Li- 
dador, de que por toda a sua larga vida elle se 
havia de mostrar constantemente digno. Era o ou- 
tro o capellão de D. Thereza, o muito honrado Mar- 
lim Eicha , filho do mui exccllcnte walid de La- 
mego . Eicha , que submettido pelo conde Henri- 
que abraçara o christíanismo (::}. Seu filho, Mar- 
tim Eicha , seguira o exemplo paterno , e como em 
todas as opiniões deste mundo os renegados são os 
mais fervorosos na sua nova crença , achara elle 



(::) Esle .«uccesso, que refere Brandão sem o reprovar, 
labora em taes dilTiculilades que seria inadmissível eui histo- 
ria ; mas pôde, cremos uiís , sem offensa das pias orellias 
dos críticos , ter cabida na gravíssima biograpLia do nosso 
Dom Bibas. 



era consciência (jnc para se mundificar das torpe- 
zas do islamismo de\ia abraçar a pura vida do sa- 
cerdócio. Cónego da sé de Lamego , restaurada por 
remando o Magno , e que nesta epocha se achava 
unida á de Coimbra , o bom do tornadir^» não po- 
derá na santi<lade do seu ministério riscar do es- 
pirito a lembrança profaníssima de que nascera fi- 
lho de um walid. ^"oavam-lhe os pensamentos al- 
tivos para os paços reaes , como á gata da fabula 
fugiam as unhas para o murganho depois de trans- 
formada em mulher. Finalmente os seus desejos 
cumpríram-se. A Lella infanta de Portugal cha- 
j mou-o á corte , apenas delia sahiu desgostoso o ar- 
j cebispo de Braga, cujo caracter austero mal-sofTria 
os amores de Fernão Percz c de D. Ihereza. Mar- 
tira Eicha era o homem talhado para o caso. O 
seu Evangelho fora, por assim dizer, escripto n'um 
palimpsesto do Koran , e as doutrinas do propheta, 
relativas á metade mais formosa do genero-huma- 
no , rc>crdeciam-lhe ás vezes atravez da severida- 
de das sacras paginas e confundiam-se a seus olhos 
com ellas. Por esta causa , vinha o cónego Martim 
Eicha a ser o capellão mais a ponto naqucllas in- 
trincadas circumstancias , em que os princípios de 
theologia moral andavam cm tanta harmonia com 
os costumes , como neste bemdito século decimo- 
nono as sãs doutrinas políticas andam conformes 
com a realidade dos factos. 

Era, finalmente, a terceira pessoa daquella trinda- 
de argunicntadora e disputante , o abbade do mos- 
teiro de D. Slumadona . velho folgazão mas hones- 
to , que na nieza dos banquetes despejava uma la- 
ça de vinho , c ainda um cangirão de cerveja , ou 
varria uma palangana de dobrada — iguaria mimo- 
sa desse tempo — com o mesmo fervor e devoto re- 
colhimento com que na solidão da sua cella resava 
as horas canónicas , ou gargantcava no coro psal- 
mos e antiphonas com os seus frades. Apesar dos 
beueficios que o acísterio de Guimarães recebera 
da infanta ; apesar do gasalhado que encontrava 
no paço , o bom do velho torcia sem rebuço o na- 
riz á tão intima privança do conde Fernão Perei: 
com a rainha. Não porque desse ouvidos aos mal- 
dizentes . que ainda nas mais puras acções vertem 
a peçonha de seus estômagos damnados , mas por- 
que não podia negar o credito ao que seus olhos 
viam, e a experiência e rasão lhe ensinavam. En- 
xergava ao longe o crescer da tempestade que amea- 
çava assolar a terra de Portugal : vira nascer , en- 
grossar , c rebentar como um volcão o ódio entra- 
nhavel , accumulado por annos , entre o senhor de 
Trava e o moço AlTonso Henriquez : vira dividir-se 
a fidalguia em dois bandos; c quando o infante , 
dois mczcs antes da epocha da nossa historia , de- 
sapparcccra dos paços de Guimarães , seguido de 
vários ricos-homcns e cavalleiros da sua parciali- 
dade , o bom do abbade conhecera que nma terri- 
bílissima lucta se ia travar entre a mãi e o filho , 
lucta desnaturai e monstruosa, cujo desfeixo , fos- 
se qual fosse , não podia deixar de gerar muitos 
crimes. A precipitação com que se fortificara o bur- 
go , e as noticias vagas de que o infante se appro- 
simava de Guimarães con: uraa hosle numerosa, e 
acompanliado do arcebispo de Braga e dos seus ho- 
mens d'armas, lhe punham ante os olhos , conii> 
immíncntes e inevitáveis . as scenas tremendas que 
de longo tempo previra. O estado dos negócios pú- 
blicos era o objecto de nccesa prática dos três ; ou 
por nos servirmos de uma franoezia da moda — el- 
les faziam política. 



40 



O PAIVORAMA. 



Era tambcm o perigo que os ameaçava a am- 
bos ; era a nuvem procellosa que viam Já no iinri- 
soote da sua vida , alé ahi tão povoada de delei- 
tes , tão rica de esplendor e de predomínio , o 
pensamento que turbava a fronte do nobre Fer- 
não Perez , e fazia gotejar pelas faces da bella in- 
fanta as bTgrymas , que em vão ella tentava conter. 
Com olhos enxutos e animo de ferro , a Clha de 
Affonso 6.° tinha vivido, durante dezeseis annos . 
quasi sempre nos campos de batalha , nos arraiaes 
jiuito aos caslellús cercados, ou encerrada nestes 
defendendo-os. Com olhos enxutos e animo de ferro 
tinha visto varias vezes as rotas dos seus homens 
darraas, liriba fugido com elles : assistira a mui- 
tas scenas de carnificina ; ouvira muitas vezes, pe- 
la alta noite na tenda de guerra , gemidos de mo- 
ribundos , e o uivo do lobo descendo das brenhas 
guiado pelo cheiro do sangue: havia apenas um 
anno que se vira constrangida a curvar a cerviz .-í 
fortuna de seu sobrinho , o imperador Affonso ilai- 
mundez , mas nunca sentira coar-lhe pelas veias o 
terror ou o desalento : a sua alma era a de guer- 
reiro , escondida debaixo das formas delicadas e 
suaves de mulher. Criam-no todos : cria-o ella. Mas 
o prestigio passou. A dura prova a que a pozcra 
uma paixão desgraçada revelava emfim a fraqueza 
feminil. Até então no jogo dos combates apenas ar- 
riscara o vasto senhorio de Portugal ; mas no que 
se lhe offerccia agora expunha o amante , expunha 
todo o futuro , toda a esperança e todos os conten- 
tamentos. Por isso as lagrymas da bella infanta cor- 
riam. Quem sabe se também entre eslas alguma 
era por seu filho ? 

O sarau daquella noite fora para ella um longo 
raarlyrio. O espectáculo do rir c folgar , o translu- 
zir da alegria em tantos gestos, faziam-lhc mais car- 
regada a negra nuvem da sua tristeza : era um tra- 
to doloroso , cruel, dilatado; era como o preludio 
medonho de um cântico infernal ; mas cumpria sof- 
fre-lo resignadamente. Dos cavalleiros portuguezes, 
que seguiam ainda a corte , muitos ânimos titubea- 
vam indecisos entre o balsão do infante e o pen- 
dão da rainha de Portugal ; e a hesitação ou o te- 
mor seria o signal para essa fidalguia brilhante pas- 
sar ao campo contrario. Fernão Perez contava com 
os cavalleiros gallcgos, asturianos c aragonezes, de 
que pouco a pouco se rodeara : mas seria isto bas- 
tante para o salvar c salvar a infanta? Eis o que 
era mais que duvidoso. Com a astúcia de fingido 
desafogo e destemor elle tentava enganar os que 
vacillavam, c fazer-lhes crer , dançando na borda 
do abysmo , que fácil llic seria galga-lo. 

Mas o senhor de Trava não se lembrava nos seus 
cálculos políticos d'uma circumstancia que devia 
infiuir no resultado final dellcs. O grande pensa- 
menU) do conde llenri(|ue ; o pensamento que o 
audaz borgonhez acariciara por tantos annos , e a 
que votara a existência — a inde[icndencia do con- 
dado de Portugal — não morrera com elle: germi- 
nou , alimentou-sc , e cresceu nas guerras com os 
leonezes — ■ guerras atú certo ponto civis , em que 
D. Thereza pruseguíra cora tenacidade implacável. 
As mais províncias da llespanha gradualmcnie fo- 
ram parecendo aos olhos dos cavalleiros portugue- 
zes uma terra estrangeira , estranhos os filhos del- 
ias. Um sentimento de nacionalidade surgiu nos co- 
rações , vago e confuso , mas enérgico. E no meio 
dos seus graves cuidados e das suas previsões pro- 
fundas , o conde de Trava se esquecera de (|ue vi- 
ra pela primeira vez o sul sob o céu da Galliza. 



Se D. Thereza triumphassc , elle — o estrangei- 
ro — seria o senhor da nobre e livre terra de Por- 
tugal. D. AlTonso Henriquez, porem, nascera áqueni 
do Minho. Assim, muitos daquellesquc o ambicioso 
filho de Pedro Froylaz suppunha indecisos na vés- 
pera da grande lucta , eram já seus inimigos. 

É o que o leitor melhor avaliará por si próprio 
se quizer escutar a conversação travada entre Gon- 
çalo .Mendez da Maia , o santo abbade do mosteiro 
de D. Mumadona , e o mui reverendo capellão da 
rainha. .Não será grande o incommodo : basta-lhe 
lançar os olhos para o capitulo seguinte. 

(À. Hcraihino. 



BOTÂNICA. 



EojinTCio , or simaoi'.ma. 

(Lin. Bomhax Prntandrum.) 

A AKVORE bombycio , ou sumaoúma merece atlcn- 
ção pela sua figura differenle da das ontras arvo- 
res. É uma das mais grossas, e maiores que nas- 
cem nas .Vnlilhas. O tronco em cima e em baixo 
é mnilo parecido com o das outras arvores, porem 
no meio tem uma tal inchação , que dobra a gros- 
sura das duas extremidades, mas o que é mais sin- 
gular são as suas raizes , que, sendo mui grossas 
descrevem scmi-arcos , sahindo fora da terra seis 
até oito pés ao redor do tronco; aponta destas rai- 
zes se estende depois muito pnr todo o terreno vi- 
sinho. O lenho desta planta é tão brando e macio 
que alguns lhe chamam arvore queijo ; a natureza 
porem a armou de tantos grossos espinhos, que não 
fica impune quem se atreve a olTende-la. Alem 
disto cresce rapidissimamente , e dá uma soberba 
folhagem digitada , e llòres bellissimas , ás quaes 
surccdera fruclos oblongos , quasi como pepinos , 
pontudos para a base , mais grossos para o cume . 
e que se abrem em cinco partes, quanilo estão ma- 
duros. Dentro destes fruetos acham-se sementes 
que são pardas, do tamanho de pequenas ervilhas, 
e cobertas de um pèlio , ou espécie de algodão fi- 
níssimo , mas que é mui curto para se poder fiar. 
Fslo porem não obsta a que o colham para encher 
almofadas, e colchões: mas é preciso lodo o cui- 
dado que lhe não chegue fogo , porque a menor 
faísca bastaria para o incendiar, e cora tal rapidez, 
que não daria tempo para se apagar esto ligeiro 
incêndio, que pôde tornar-se mais considerável: é 
por isso que os índios se servem delle em logar de 
isca. Dizem que os iuglezes fazem com elle cha- 
péus finos. — Neste género entram as piunriras do 
Brasil. 

Mriú de excluir os pnrfjullina e niitrns insectos ífov 
firãds rereaes. — Embeber n'agua ou toldos on len- 
çoes de linho, espreme-los e estende-los depois as- 
sim molhados sobre o grão eiui'lleira<lo : duas ho- 
ras apenas passadas , se encontrarão os insectos pe- 
gados aos lençoes c toldos: é preciso então ir en- 
redando ou envolvendo os pannos com cuidado c 
destreza para os não deixar escapar; e seguidamen- 
te mergulhar tudo n'agua para afogar os insectos. 



Escuta mil vezes, c não falles mais que uma. 

A VIDA sem sciencia c uma espécie de morte. — So- 
cratcs. 



59 



o PANORAMA. 



41 




03 PEREGRIUTOS DE S. THIAGO. 



As PRiNxiPAES peregrinações ou romarias da Chris- 
tandade , que na idade média foram mui frequen- 
tes , são qnalro : — Jerusalém na Palestina , Uoma 
e Loreto na Itália , S. Thiago em Corapostella na 
Galiza. Entre todas a principal e a mais arriscada, 
havida sempre por mais meritória , foi a visita aos 
santos logares , thealro das scenas da Redcmprão. 
Já no 4.° século da era christaã concorriam os pe- 
regrinos á terra santa ; porem a hostilidade que 
dos húngaros e d'outros experimentavam no cami- 
nho desviou por muito tempo os romeiros , que 
trocaram aquella jornada pela de Roma , e a de S. 
Thiago, que se levavam a cabo com poucos perigos 
e incommodos. 

Na idade média subiu de ponto o enthusiasmo 
religioso c o fervor dos romeiros que em grandíssi- 
mo numero iam ver c venerar o St.° Sepulchro , 
então em poder dos mussulmanos , cuja insaciável 
cobiça , de mistura com o rancor . nascido da dif- 
ferença de crenças e de porfiosas batalhas , impu- 
nha aos peregrinos christãos toda a qualidade de 
vexações , maltratando-os corporalmente e cora in- 
jurias, faltando-lhes com o preciso, e extorquindo- 
Ihes dinheiro por mil diversas maneiras. Tão odio- 
so tratamento , nos fins do século undécimo , iu- 
ílammou o zelo de Pedro ílermita a tal auge que 
aconselhando e pregando a primeira cruzada , le- 
vantou toda a Europa contra os infiéis da Palesti- 
na : é esta a origem certa das guerras ditas sagra- 
das , que a ambição continuou, e que, em meio de 
scenas de barbaridade, brotaram germens de futu- 
ra civilisação, porque é incontestável que com as 
cruzadas nos vieram muitos fructos do Oriente, 
muitos elementos d'industria, commodidades e há- 
bitos , anteriormente desconhecidos. — Antes des- 

Fevereiro 1 1 — 1843. 



sas luclas sanguinolentas , a jornada ordinária dos 
]ieregrinos era de grandíssima volta e de riscos in- 
finitos , partindo de Constantinopola para Jerusa- 
lém , atravessando regiões da Ásia , povoadas de 
turcos e scismaticos. — Era quanto os cruzados oc* 
cuparam a Palestina , foi , sem comparação , mais 
fácil a visita aos santos logares, porque se reduzia 
á viagem do Mediterrâneo ; como ao presente acon- 
tece, tendo cessado os ódios encarniçados das guer- 
ras por causa de crença religiosa. — Outro cami- 
nho houve , que era cruzar o deserto arenoso e ge- 
ralmente estéril, que jaz entre o Egypto e a Palesti- 
na : calculava-se a jornada de 12 a 15 dias, do Cai- 
ro até JaíTa, a antiga Joppe (•) : é pelo commum 
abandonado pela falta d'aguas, expondo-se os pas- 
sageiros por qualquer incidente aos horrores da se- 
de n'um clima abrazador. 

Deixando porem essas longas c trabalhosas pere- 
grinações , expliquemos a nossa estampa. Repre- 
senta ella dois romeiros de S. Thiago , que por vo- 
to fazem a jornada ; levam o bordão de peregrino 
c a cabacinha pendente , com sua csclavina vesti- 
da , como era de uso para tacs actos; a bolça de 
couro, e a fita a tiracollo. A esclavina era uma es- 
pécie de opa , aberta por diante , com sua murça 
entapizada de conchas , do género das pmteolas , e 
a que se costuma chamar vieiras. 

Sem entrarmos nas elucidações d'historia cccle- 
siastica , que tendem a provar a vinda do a[)ostolo 
ásHespanhas, eque os eruditos encontrarão na E.r- 
pcditio Hispânica do Iheatino D. Manuel Caetano de 
Sousa, diremos que o sepulchro de S. Thiago em Com- 

^•") Achar-se-ba a visla do bazar de JalTa e uma noti- 
cia desta cidade e euas TÍsinbanças a pag. 17'i do 5." vol. 
da 1.* Serie. ■ , 

2." Serie. — Vol. 11. 



i-2 



O PANORAMA. 



poslclla foi a mais freqiienlada romaria ila nossa 
puiiinsula , onde não só concorriam hcspatihoes e 
portuguczcs, porem os devotos de muitos reinos da 
F.iiropa , notando-se na obra de Kynicr o grande 
numero dos que \inham annualmenle de Inglaterra 
satisfazer este acto, que julgavam indispensável á 
salvarão de suas almas. — 

lia para os romeiros um grandioso hospital cm 
('ompostclla , e quando a festividade do Si." Apos- 
tolo cahe ao domingo é notável ainda a afluência 
de pessoas, porque cm tal dia goza a sé daquella 
cidade do privilegio de um jubileu, como o do an- 
no santo cm Roma , que os lieis ganham de 25 era 
23 annos. Da mesma maneira que na capital do or- 
be catholico o summo pontífice abre por suas mãos, 
em solemne procissão , a porta que chamara ■porta 
xanta do jubileu ; assim nas primeiras vésperas da 
C.ircumcisão do Senhor , festividade que como to- 
dos sabem começa o anno novo , abre o arcebispo 
de Santiago com solemnidade e grande concurso a 
porta da sé , denominada igualmente poria íaiiírt , 
na fachada do oriente ; e torna a fecha-la no dia 
ultimo do anno. 



gpljHa^H^ig^^ 



><» 



Observações gbaumíticaes. 

.! Á dissemos ser ura grave defeito, coramum a to- 
das as linguas que nos são conhecidas , o não le- 
rem uma lettra para cada som , e um só e uuieo 
som para cada lettra. 

Este defeito é mais ou menos frc([ucnlc nas dif- 
ferentrs linguas modernas, porque das antigas (jue 
havemos apprendido , nada consta de certo. Alem 
disso ha algumas cujas grammaticas tem estabele- 
cido um certo numero de regras , pelas quaes se 
pôde conhecer os casos cm que a cada lettra se de- 
ve dar os seus diflercntes valores. Mas ha outras 
linguas cm que os homens, que sobre ellas tem cs- 
criplo, pouco ou nada curaram a este respeito, lis- 
te ultimo é o caso da lingua portugueza. 

Cada uma das nossas vogaes tem de dois até qua- 
tro sons diversos , c não só nos faltam regras para 
sabermos quando cada um destes sons deve ler lo- 
gar , mas nem mesmo o uso admilliu que se expri- 
missem por meio d'acccntos, como se pratica n'ou- 
Iras nações, estas diversidades , salvo n'um peque- 
Jio numero de casos. 

A negligencia dos nossos escriptores chegou mes- 
mo ao ponto de excluírem o acceulo grave nesses 
[loucos casos em que, límítando-se ao agudo, se 
appresentam debaixo deste signal, como se tivessem 
o mesmo som, Ictlras de sons diversos como modelo 
o tt(l('to. Não seria assim se , adoptada a orthogra- 
phia franceza , nesta parle, se escrevesse: modelo 
c adi-lo. 

A mesma falta de regras se observa a respeito do 
accento circumílexo , (]ue ora se ommiite , ora se 
substitue escre\cndo ou cm vez de ò , sem se dar 
rasão , nem se estabelecer uma marcha uniforme 
no uso de nenhum destes caracteres. 

Duas rasõcs se costuma ilar em('a\or da suppres- 
são dosaccentos : uma é , que obsta a bclleza c sim- 
plicidade dos escriplos. A outra éque. pronuncian- 
do-se <lilTcrentementc nas diversas províncias c até 
lios dinVrentes bairros d'uma mesma cidade e nas 
dillerenles classes da sociedade , esta diversidade 
produziria na cscrípta uma tediosa disparidade. 



Quanto á primeira destas rasões , bastaria fazer 
observar que os acccnlos cm nada seoppõcm á cal- 
ligraphia, nem nosescriptos francczes, nem nos gre- 
gos , onde elles são tão numerosos. 

Quanto á segunda objecção , dizemos que , bem 
pelo contrario, o modo de fixar a boa pronuncia, e 
de dchellar os provincialismos, seria a adopção dos 
accentos : porque cada um notando comoaccentuam 
os escriptores mais cultos, e que todos devem re- 
conhecer como clássicos , vir-se-hia por fim a esta- 
belecer uma só accentuação como a única admissí- 
vel e verdadeiramente nacional. Isto é oquc accon- 
teceu em França. 

Nem se diga que os inglezcs , apesar do grande 
numero de sons que cabe a cada lettra , pensaram, 
como nós, que convinha não sobrecarregar a cscrí- 
pta cora accentos. Os grammalicos inglezes tem re- 
duzido a um pequeno numero de regras , umas or- 
dinárias, outras extraordinárias, com algumas pou- 
cas excepções, toda a theoria das vogaes, <'nlretan- 
to que nós outros ignorámos , ou , pelo menos , eu 
ainda não encontrei quem soubesse indicar as re- 
gras, que por um lado o instíncto, por outro o ou- 
vido , costumam observar na pronuncia geralmente 
adoptada nas classes cultas. É tralialho que ainda 
está por fazer e que valeria a pena de se empre- 
hcuder. 

Silvestre Pinlidro Ferreira. 



Anecdotas de dois genekaes russos. 

\o ANXO de 171(), quando Pedro 1." se achava em 
Copenhague, conferenciando com o rei de Dinamar- 
ca si>bre o seu projectado desembarque na provin- 
da de Sclioncn na Suécia, formava parte do seu sé- 
quito o tenente-gcncral , Bohn , filho de iiin clérigo 
lutlierano. O pai do tenente-general tinha morrido 
em muita pobreza, e ninguém sabia se o filho exis- 
tia , nem aonde se achava. 

Depois de muito tempo chegou ao conhecimento 
da mãi de Bohn que este se achava em Copenha- 
gue , e que era general ao serviço da Uussia. A 
alegria que leve, e o desejo de tornar a ver seu fi- 
lho , levaram-na a conceber o projecto de se diri- 
gir áquella capital. Apenas alli chegada foi ter á 
casa aonde lhe indicaram morava o general, e sen- 
do informada por um criado deste que não estava 
cm casa , exclamou cheia de pezar : — Dizei pois a 
vosso amo que aqui veio sua mãi, a qual nada 
mais deseja que vc-lo e abraça-lo, c que voltará 
amanhaã. » 

A pobre senhora julgou que obteria por este mo- 
do o que tanto desejava , porem a prosperidade ti- 
nha endurecido o coração de seu filho. A soberba 
suffocou os sentimentos da natureza , e o general 
moslrou-se grandemente oITendido quando ouviu o 
recado. T— «Minha mãi morreu ha ânuos, disse elle ; 
é sem duvida alguma mulher pol)re , ou alguma 
louca, que se serve de similliantc prele.xlo , para 
conimover a minha caridade. 

Fácil será imaginar com (juc sobrcsalto a mãi 
! octogenária repetiu a sua visita na manhaã seguin- 
te: mas ah I em vez de conseguir estreitar nos bra- 
ços maternos o querido filho, recebeu por mão de 
um ajudante de campo dez ducados, e a intimação 
de não tornar a molestar o general. Cheia d'iiidi- 
gnação pegou no dinheiro, e atirando com ellc aos 
pés do ajudante, disse: — ((Senhor, não \\m a es- 
ta casa pedir esmola, vim para abraçar meu filho; 



o PANORAMA. 



43 



se elle repudia sua mãi , cila lambem de hoje por 
diante o desconhece como filho.» — As lagrimas 
cmbargaram-lhc a voz c não a deixaram prosoguir. 

Eslc acontecimento não tardou ninilo que se não 
divulgasse jjor toda a cidade , c breve chegou nos 
ouvidos da imperatriz, lluhn não podia achar censo- 
ra mais rígida do que Catharina 1.°, que nunca 
perdia occasião de aliudir ao seu obscuro nasci- 
mento , raostrando-se sempre grata para com o seu 
bemfeitor. 

Mandou chamar a viuva , c tendo verificado que 
cila era na realidade mãi do insensível general, or- 
denou que Hohn viesse á sua presença : então re- 
prehcndendo-o severamente , ordenou-lhe que desse 
a sua mãi cm quanto fusse viva duzentos rublos de 
renda annual. liohn recebeu o condigno castigo pe- 
la dureza de seu coração , não só na publica re- 
prehensão que a imperatriz Ibe dera, c(uno lambem 
no desprezo geral que desde então soffreu. 

Em q\ianto Bohn assim procedia para com sua 
virtuosa mãi, antcpunham-se-lbe na corte como con- 
traste os nobres actos do general Baiier , que não 
se envergonhava de ser filho de pais de baixa con- 
dição. Esta parte histórica da vida do distincto ge- 
neral é como segue — 

No anno de 1712 , quando o exercito russo oc- 
cupava o líolslein , sob o coramando do general 
MenzikotT, Bauer commandava a cavallaria. Xin- 
guem sabia de quem era filho este general , e até 
se ignorava o logar do seu nascimento. Acliava-se 
então acampado junto a Ilusum. Um dia convidou 
a jantar todos os officiaes da sua divisão , e varias 
pessoas dislinctas. Quando os convidados se acha- 
ram reunidos , mandou chamar um moleiro e sua 
mulher , que viviam naqucllas visinhanças. Seme- 
lhante couvite , por parte de um general, causou 
algum susto aos dois esposos, porem Bauer fez quan- 
to pôde para os tranquillisar, edisse-lhe que o con- 
vite, que lhes enviara, tinha por objecto o obter al- 
gumas informações locaes dopaiz. Ao janlarsentou 
ambos a seu lado , e fez ao moleiro varias pergun- 
tas acerca da sua familia. 

Isto produziu o desejado eíTeito no animo do mo- 
leiro , e soltou-lhe a lingua. Principiou por contar 
a sua vida ao general , e narrou que lhe pertence- 
ra o moinho por morte de seu pai , por ser elle o 
íilho mais velho : accrescentou, que tinha mais dois 
irmãos, um mercador, e outro também moleiro. — 
«Então, perguntou o general, sois Ires irmãos? — 
Éramos quatro , replicou o moleiro , mas o quarto 
assentou praça de soldado , e nunca mais dclle ti- 
vemos novas, o que nos induz a crer que foi morto 
era algum combate. 

«1'ois vive ainda, bradou Bauer, Icvantando-sc 
c abraçando o moleiro e sua mulher : sou eu esse 
irmão que julgáveis fallecido I » — É fácil suppòr 
qual seria o pasmo dos convidados ao ouvir estas 
palavras : lodos se apinharam era redor de Bauer , 
que então accrescentou: — «Tinheis curiosidade 
de saber aonde eu nascera , e quem eram meus 
pais ; agora . senhores e camaradas , deveis estar 
satisfeitos, ^(eu pai foi um moleiro honrado ; este 
o logar do meu nasciraento ; e eis-aqui meu irmão, 
que eu lenho a honra de vos appresentar. » — O ge- 
neral ao proferir estas palavras abraça de novo o 
moleiro e a cunhada , e delles se despede até ao 
dia seguinte. 

No dia immcdiato mandou apromptar um sum- 
ptuoso janlar no moinho aonde nascera ; encheu de 
presentes e beneficies os seus Ires irmãos , e man- 



dou , poucos dias depois, o único filho do moleiro, 
seu sobrinho , para Herlin , aonde foi educado , c 
alli cm seguimento teve o jovcn Bauer a honra de 
perpetuar o nome illustre de seu preclaro lio. 



A ÇIEDA »0 IMPÉRIO GnEGO. 

nTiMU eu á vista e no pensamento [escreve o gran- 
de poeta das Meditações era suas Notas de viajan- 
lej Ioda a scena em que se passaram , de muitos 
séculos até boje, um sem numero de dramas ou 
sinistros ou gloriosos , que todos se me prcsenla- 
vam com seus pcrsonnagcns e os rastos que deixa- 
ram sanguíneos ou de gloria. Figurava-se-me ver 
sahir dos recessos do Cáucaso as dibras levadas do 
instinclo de peregrinação, dado por Deus ás nações 
conquistadoras como o dera ás abelhas que desam- 
param a toca d'um tronco para fundar enxames no- 
vos : via a soberba imagem patriarchal d'Ottonião 
em meio de suas lendas e rebanhos, espalhando a 
sua gente pela Asia-Menor em progresso successi- 
vo , e ao acabar nos braços de seus filhos , já seus 
logartcnentes , dizendo a Orchão. — «Morro sem 
magua , pois te deixo por successor , vai propagar 
a lei , o pensamento de Deus , que de Meca \eio 
demandar-nos ao Cáucaso; sè caridoso e clemente 
como elle , porque assim chamara os príncipes so- 
bre o seu povo a benção de Deus. Não abandones 
meu corpo a esta terra , que para nós é apenas es- 
trada , dcposila-o em Conslanlinopola , no sitio que 
eu te indicar no leito da morte.» — Dahi a alguns 
annos , Orchão , filho d'Ottomão , acampava junto 
a Scutari , nos mesmos outeiros, que matizam ago- 
ra negrumes de bastos cyprestes : o imperador gre- 
go, Cantacuzeno, vencido da necessidade, lhe dava 
sua filha , a linda Theodora , para quinta esposa do 
thálamo polygamo : a juvenil princeza atravessava 
ao som de musicas aquelle braço de mar, onde es- 
tou vendo fluctuar os navios russianos ; ia como vi- 
clima immolar-se inutilmente para prolongar-se por 
breves dias a vida do império. Dentro em pouco os 
filhos d'Orchão approximam-se da praia , seguidos 
d'alguns valentes , cm uma noite construem três 
jangadas , sustidas em bexigas de boi cheias d'ar , 
e nellas passam o estreito ajudados das trevas ; as 
scntinellas gregas dormem ; um mancebo rústico, 
que ao alvorecer sahia para o trabalho, encontra os 
ottomanos desgarrados , cnsina-lhc s a boca do sub- 
terrâneo que vai dar ao interior do caslello ; e «les- 
te modo os turcos tem ura pé e uma fortaleza na 
Europa. — 

Tinham desde então decorrido quatro reinados . 
e Mahomet 2.° respondia aos embaixadores gregos : 
— «nada emprehendo contra vós; o império ilc 
Conslanlinopola tem por limites as muralhas da ci- 
dade. » — Mas, ainda assim limitada, não deixa 
esta dorrair o sultão, que manda acordar o seu \i- 
sir, c lhe diz: — «Quero Conslanlinopola; cora es- 
ta idéa não posso conciliar o somno ; Deus me cii- 
Irega o império.» — No auge de brutal impaciên- 
cia , arrcmeça-se acavallo ás ondas . que ameaçam 
traga-lo. — «Vamos [dizia aos soldados no «lia do 
ultimo assalto] só reservo para mira a eidade ; ri- 
quezas e tudo o mais é vosso. Terá o governo da 
minha maior província o que primeiro escalar .i 
praça.» — Toda a noile aterra e as aguas foram 
allumiadas por innumeraveís fogueiras c lumes, que 
substituíam a claridade diurna : tamanho era o fer- 
vor dos ottomanos ao aguardar o dia era que devia 
cafair-lhes nas mãos a preza. 



u 



o PANORAMA. 



Durante este breve espaço , sob a cúpula escura 
de St/ Sophia , o esforçado e infeliz Constanlino 
veio , na sua extrema noite , orar cora lagrimas ao 
deus do império: — ao despontar da aurora, sabia 
elle acavallo , acompanhado dos clamores e gemi- 
dos de sua famiiia , para ir morrer como heroe (») 
na brecha da sua capital: — passou-se isto aos 29 
de maio de 1453.» — Corramos denso véu sobre os 
horrores desse dia. 

Tríplice muralha formou cm remotas eras três 
recintos, que fechavam e defendiam a cidade by- 
zanlina ; todas eram furtes e torreadas: ainda se 



conhecem n'uma planta , tirada por um florentino , 
emli22. marcadas cento e oitenta torres, asquaes, 
na maioria, se derrocaram , ou tem sido apeadas e 
desfeitas pelos turcos para a erecção de edifícios 
seus ou públicos ou particulares; assim vai acon- 
tecendo á que era nossa gravura appresentâmos , e 
que assim mesmo ainda ha poucos annos conserva- 
va a grande porção que escapou do incêndio e as- 
solação n'um motim geral dos janizaros , por ucca- 
sião das dissensões entre Selim cMustaphá; — con- 
i flagrações e ruinas, que até o presente século eram 
em Constantinopola frequentes. 




A TOB^as: QUEIMADA £M C0KrSTANTIN070I.A. 



O liono. , Logo veremos porque. 

11-S. ^ - Convidámos o leitor para escutar a conversação 

IV. travada entre Gonçalo Mendez, o abbnde benedicti- 

Iteceios c esperanças. ' no, e o mui reverendo cónego de Lamego, Maitim lii- 

cha. Pode ouvi-los agora. Embebidos no seu grave 
l)u.>» Bibas não e ra bobo; era o diabo. disputar, todos três se esqueceram complctamenle 

/.s >,,. , . \ 7. ~, ; ; T do logar onde estavam , e do sarau , que depois do 

(•) Morreu combatemlo ; nem elle hnlia a culpa do de- , , . , ., , , , ,, 

liloravel eíla.lo em «lue achara o império, i:' noiavel que ''«"'''"J"'- ^'>i'lo e alegre ao redor delles , esmore- 

um Consliiiitiiio fundasse o império hyzanlino , que se ex- | '"'''' J'' *-' esfriava em paroxismo liiial. A noite cor- 

lin-uiu em puder de oulru do mesmo nome. rèra scni que de tal dessem tino. — Sobre o tumul- 



o rANORA3IA. 



45 



tnar dos passos , sobre o ruido do fallar confuso , 
sobre as toadas dos instrumentos , quo affrnu^am , 
ouve-se primeiro o vosear retiimliante do Lidador: 
depois as palavras flautadas, escandidas, niellinua- 
mente hypocritas do capellão da infanta, e por ul- 
timo as falias brandas , tardas , e suaves do bcne- 
dictino. Ksta gradarfio corresponde ao progresso de 
silencio que principia a predominar na sala : é a 
medida do tédio que leva de vencida o deleite na- 
quclle ajuntamento lustroso. 

i ....«Eis-abi — dizia o Lidador voltando-se para 
Marlim Eicha — o que eu havia previsto: eis-ahi 
o resultado final do desenfreado orgulho do senhor 
de Trava , e dessa desgraçada affeirão da rainha. 
Depois do folgar pacifico em jogos de lavolado c 
isaráus offcrecem-nos uma festa de sangue.» 

«Mas quem sabe se essas novas são verdadeiras? 
I — interrompeu o abbadc , que parecia olhar duvi- 
doso para o honrado cónego de Lamego. 

«Sei-o eu'. — replicou este cora gesto de sobre- 
jcenho e de auctoridade. — Ouvi-as do escudeiro que 
[as trouxe e — accresccntou com sorriso de rayste- 
rio — disse-mo quem tão bem corao elle o sabia, e 
jácerca disso me perguntava: — Pois que faremos, 
D. Eicha? — È lastima: — é na verdade lastima! 
;N'ão me sofTre o animo ver assim um moço ambi- 
cioso e louco desacatar com armas rebeldes sua 
mãi , sua senhora. Largo campo á cubica de honra 
le domínios , se perlende ganhar nome e poder , se 
lhe abre em terras d'infieis. Se tem sede de san- 
gue , derrame o sangue dos maldílos ismaelitas , 
moabilas e agarenos. Os campos do sul ahi estão 
'patentes á ambiçiio dos ousados. Que vão devastar 
ias searas dos mouros, derribar as suas povoações e 
icastellos, incendiar-lhes as mesquitas, onde diaria- 
racnte se repelem as blasphemias, torpezas, e im- 
mundicies do abominável alcorão. Deus hade puni- 
o : o castigo c infallivel , mas para isso a espada 
christã encontrar-sc-ha no ar cora a espada christã, 
e a lança roraper.í a cervilheira assignalada cora a 
cruz de Jcsu-Christo. » 

O honrado cónego invectivava assim, todas as ve- 
zes que lhe cabia a talho , contra os sectários de 
jMafamedc, porque os conhecia de perto. 

«Mas — acudiu o abbade — se o infante (raz es- 
se numero de cavalleiros e besteiros: se o mui po- 
ieroso arcebispo de Braga o favorece tão claramen- 
• se os burguczes da sé do Porto, e os de Coim- 
. r I começam a agitar-se , como dei.xara a rainha 
'.!• vir a concórdia com seu filho?» 

' E impossivel- — • interrompeu Martim Eicha. — 

1^'le pertende que o illustre conde de Trava Iheen- 

Irigue os feudos e prestamos que tem da munifi- 

fiicia real , e que saia destes paços. >'ão contente 

•1 isso , pertende lambem que sua mãi lhe ceda 

ipremo poder: invoca o exemplo de .Vffonso Rai- 

,niiindez , e o direito de succeder a seu pai , sem 

lie lembrar que jamais Henrique de Borgonha cin- 

íi a coroa de conde, se não houvera sido o es- 

de uma filha de Affonso o grande. Que herdou 

Jc feito o infante de seu pai? Cm nome glorioso; 

Tiais nada. Portugal não é herança dos duques de 

Borgonha , mas dos filhos dos reis da Ilespanha , e 

D. Thereza é filha do ultimo delles. n 

O Lidador sentiu subir-lhe ás faces o rubor da 
■nlera ao ouvir estas palavras. «É falso — excla- 
3inu elie — que a alguém devesse o conde de Por- 
ugal 05 senhorios que deixou a AfTonso Ilenriquez 
— a Affonso Henriqucz, di-lo-hei sem receio I — 
50 orei Iconez lhe disse: — vai e hasteia o leu pen- 



dão de conde nas fronteiras do occidcnle , era que 
aos seus ouvidos tinham chegado os gemidos dos 
cavalleiros do conde Uaimundo de (ialliza , passa- 
dos á espada pelos sarracenos junto de Lisboa. Nun- 
ca depois disso, acaudelados por elle, voltaram cos- 
tas aos infiéis os guerreiros da cruz. Portugal era 
até ahi um paiz devastado : era quasi um deserto , 
por onde corriam á rédea solta os almogavares mou- 
riscos : hoje os campos estão cultivados , os castel- 
los seguros, os burgos e cidades renascem das suas 
ruinas. Respeitai as cinzas do nobre conde : res- 
peitai-as ao menos diante de mim , que delle rece- 
lii as armas de cavalleiro, c que ainda combati en- 
tre os seus homens d'armas. Não sei se vos lem- 
brais disso? ! » 

O Lidador talvez alludia á conquista de Lamego. 
Era acaso uma injuria que elle dirigia ao filho do 
vvalid , e não uma pergunta. O certo é que Slartim 
Eicha Ciou os olhos no tecto , o depois volveu-os 
lentamente pnra o chão , como quem offerecia a 
Deus a affronta e se resignava nella. Gonçalo Men- 
dez proseguiu : 

«Chamais ao infante rebelde contra sua mãi. Não, 
vos digo eu ! — mil vezes não ! Por largo tempo o 
mancebo generoso viveu nestes paços esquecido , 
despresado , como um infimo homem d'armas. O 
seu nome escripto nas cartas e doações , acima do 
nome do conde de Trava , era unicamente o que 
ainda recordava de quem elle era filho. Escarneo 
cruel na verdade ; porque esse que ahi se chamava 
infante de Portugal era obrigado a curvar a cabe- 
ça diante do senhor estranho. É a esse que elle 
vem arrancar o poder, porque o poder est.i cm suat 
mãos. Credes que approvo o feito? Não por certo. 
.\nlc os barões e ricos-homens — na cúria — deve- 
ra requerer seu direito. Mas pcrdeu-o acaso por- 
que , esgotado o soffrimcnlo com o excesso da op- 
pressão , respondeu á violência com o brado de 
guerra ? Os senhores e infanções portuguezes não o 
cròem. Se o cressem não o teriam escutado : não o 
seguiriam aquelles ([ue ora o seguem.» 

O bom do capellão não se deu por vencido, c 
com inflexivel tenacidade replicou : 

<<\ rainha D. Thereza domina em Portugal: o 
conde de Trava é um conde , um rico-homcra , um 
alcaide ; mais nada. Os barões porluguczes jura- 
ram-lhe lealdade a ella , e é contra ella que se re- 
bellam. Dizei-me vós , senhor cavalleiro , de quem 
tendes vossas honras, feudos e prestamos? — De 
quem , como vós , os tem e-lles? 

«A rainha é a viuva do conde Henrique. Não 
queirais obrigar-me a dizer-vos o que acerca dei- 
la tumultua nesta alma. Basta que responda á vos- 
sa pergunla. As honras que possuo herdei-as do 
meus avós : os prestamos ganhei-os ;i lança c á es- 
pada : foi preço de sangue o que dei por elles. Feu- 
do e lealdade? Ricos-homens de Portugal guardam- 
no a quem lhes guarda seus foros. Tem estes sido 
guardados? Sabemo-lo nós: sabe-o Deus. Elle será 
o nosso juiz. n 

«O juizo de Deus — tornou Martim Eicha com 
mal disfarçada raiva — proferc-se em repto e com- 
bate , segundo foro dos hem-nascidos d'Hespanha. 
Porque não ides com os accostados que pelejam de- 
baixo de vosso pendão, e vivem de vossa caldeira, 
ajuntar-vos com o infante? .\flirmn-vos que entre 
elle e a filha d'Afronso de Leão ha repto , e have- 
rá combate. Tereis ahi o juiro de Deus.» 

«Porque eu, — atalhou o Lidador cravando nelle 
os olhos indignados — homem alTeilo á viJa de ha- 



46 



O PANORAMA. 



talhas, trabalharei alé o fim, para que irmãos não 

derramem sangue d'irmãos em lucta de mãi e de 
liiho ; — porque eu o homem que, ao abrir os olhos 
no mundo , a primeira luz que vi foi o reflexo bri- 
lhante de armas pulidas , e que espero , ao cerra- 
los para sempre , vè-las reluzir no volver derra- 
deiro delles , tomei a meu cargo o vosso mister , o 
mister dos clérigos e letrados da corte, dos homens 
de paz , dos prudentes , que saudacs o dia em que 
lanças chrislãs topem em escudos dechristãos; que 
sorrides á imagem desse dia em que esperais ver 
satisfeitos ódios e vinganças mesquinhas. Tentarei 
frustrar o atroz pensamento dos raáus , e se o meu 
tentar sahir vão , ao menos a consciência hade fi- 
ear-me tranquilla. » 

O capellão , que sabia qual era o caracter vio- 
lento de Gonçalo Mendez da Maia , julgou acertado 
não lhe responder : o abbade, porem, que se havia 
conservado cm silencio durante a disputa , tomou 
nesse ponto a mão. 

«Quanto a mim — disse ellc — não me perdoe o 
senhor na hora extrema do passamento , se mentem 
minhas palavras. Sempre c cm toda a parto clamei 
pela paz, c ainda hoje clamo por ella. Também cu 
como vós quizera que o infante na cúria dos barões 
requeresse direito; mas como vós também quizera 
que não Ih'o negasse a rainha, postoque que o de- 
mande armado. A tal façanha o incitou o orgulho 
do conde de Trava , e o generoso e nobre sangue 
que corre nas veias do nobre mancebo. Com a mão 
sobre o coração , vos juro que me borrorisa esta 
guerra desnaturai. Mas como evita-la? Como ousa- 
reis vós tenta-lo ; vós , talvez o único rico-homem 
da corte de Guimarães , que ousa ser francamente 
inimigo do conde de Trava.» 

"Tenía-lo-hei — replicou o Lidador — como leal 
cavalleiro. Antes que as novas da vinda de D. Af- 
fonso , para accommctíer sua mãi e seu mortal ini- 
migo , houvessem corrido de boca em boca ; antes 
que os mais intinios conselheiros do nobre Fernão 
Perez — dizendo isto , Gonçalo Mendez olhava pa- 
ra Martini Eicha — nos podessera asseverar que o 
.sangue se havia de verter , já cu o sabia : sabia-o 
porque esses vallos alevantados á pressa em volta 
do burgo ; essa couraça que os prende ao castello : 
os engenhos postos a ponto nos eirados c torres , 
me diziam sobejamente que nos ameaçava guerra. 
<iucrra de sarracenos.' IVão vem tão .longe suas ar- 
rancadas. Guerra do imperador? Não quebrámos 
até hoje nosso preito com ellc. \ causa do temor 
existia, pois, em Portugal. O infante não ha Ires 
mezes que sabiu daqui , c já muitos castellos o 
receberam por senhor. Vi, soube, c callei. Mas a 
cúria dos barões e rico.s-homcns da corte está con- 
vocada para se ajuntar amanhã. Lá, no meio dos 
que servem e temem , eu que não temo nem sirvo, 
fallarci bem alto. Mostrarei á rainha que se perde ; 
que D. AfTonso tem por si lilhos-d'algo , bispos, 
liurguezcs , c villões de bchelrias. Direi ao conde : 
— - nobre conde de Galliza , é necess<irio ceder ao 
infante de Portugal. — Então , se não fir escu- 
tado 

«Então?... interrompeu Martim Eicha. 

"Então acceitarei vossos consellins. No campo do 
infante ainda cabem dez lí-ndas para mais cem ho- 
mens d'armas , besteiros (; funiiilmlarios : ainda lá 
se pôde soltar mais um pendão ao vento assolador 
das batalhas. n 

O abbade ia de novo fallar, pensando talvez crt- 
mo abrandaria a cólera que se accumulava no ges- 



to carregado do Lidador. Mas uma risada que rcs* 
Irugiu por cima das cabeças dos três lh'as fez invo- 
luntariamente erguer. A fronte de Gonçalo Mendez 
desenrugou-se repentinamente. Quasi ao mesmo tem- 
po ellc e o abbade soltaram uma gargalhada. Só 
Marlira Eicha não ria. 

Tinha rasão sobeja. 

No calor da disputa nenhum dos três reparara 
era D. Bibas que se acercara da columna junto da 
qual conversavam. Oboboapplicára por algum tem- 
po o ouvido ás palavras violentas do Lidador ; mas 
o borburiuho dos passos c do fallar contínuo , dos 
sons retumbantes dos instrumentos naquclla immen- ' 
sidão da sala, o não deixavam perceber senão algu- i 
mas vozes soltas que muito lhe excitavam a curio- 
sidade. Piodeando o feixe de columnellos, que se- 
gundo o gosto árabe unidos só pela base e pelo ci- ' 
mo formavam a columna oupilaslra em que vinham 
repousar os artesões do tecto, trepara manso e man- 
so lirmando-se nos lavores da pedra , e se assenta- 
ra sobre as grandes folhas de Iodam enlresachadas ' 
de liguras extravagantes de centauros, harpias, de- 
mónios , c gorgonas , em que o architecto mostrara 
ceder ás influencias da arle normanda , que come- 
çava a expulsar a architectura sarracena dos ediíi- 
cios da Ilespanha. Visto naquclla altura , assentado 
no capitel , com os braços lançados sobre os pesco- 
ços de duas figuras horrendas , era que se assegu- 
rava, D. Bibas pareceria também uma crcação des- 
vairada da mente do esculptor , se fitando os olhos 
brilhantes no reverendo cónego , e fazendo-lhe uma 
visagem truancsca, não começasse a cantarolar com 
um acompanhamento de risadas estrondosas : 



Quem me dera o meu infante 
Nestes seus paços reaes 

D'ora avante '. 

Tra-lirá , 

Ah , ah , ah I 

Ovençaes 

Do gallego 
Só hi vejo a cada instante ! 

Arrenego , 

Dom Garcia , 
Desses teus aragonezes , 
E também dos portuguezes 
Que te fazem companhia 1 

Capellão, 

Cauzarrão , 

Hão , hão , hão I 

ira-lirá , 

Ah , ah , ah '. 
Vou fazer de um mouro ao fdho 
l'm famoso arremedilho , 

Mui de ver , 
Em que a li te heide mellcr , 

Meu rapado , 

Descarado , ' .,:;; ■ ^' 

A comer . > , . 

i L'm presunto ■ . ' ;:; ;: .•. 

Com seu unto , 
Apesar de São Mafoma , 
K do velho iá de Koiaa , 

Que te toma 

l'or um santo , 

O que és tanto 
Quanto o demo que te l(í\e 

(^omo deve! 

Tra-lirá , 
Ah, ah , ah ! 



o PAINORAMA. 



17 



D. Bibas fez uma segunda visascm ao reverendo 
Martini líicha , rodeou o capitel , e desceu rapida- 
mente por entre os columncllos. l)'alii a pouco a 
sua voz esganiçada ouvia-se no oulro extremo da 
sala d'armas. 

O inesperado da jogralidade do bufão tinha fcilo 
desatar a rir o i.idador e o abbadc. Não assim o 
honrado cónego de Lamego, a quem as allusõcs in- 
solentes espalhadas naquella trova salyrica haviam 
mortificado ao vivo. A cólera fugira da alma do ca- 
valleiro ; mas fora reconceutrar-sc na do sacerdote. 
Nunca D. Bibas ousara tanlo : o fogo da revolta la- 
crava já no espirito de ura vil bobo I O bom do ca- 
pellão agarrou-se a este pensamento para cerrar os 
ouvidos á voz da consciência que lhe dizia terem 
batido no ah o os motejos cruéis do chocarreiro. 
Assim , com meneios entre hypocritas e altivos, af- 
fastou-se dos dois sem os saudar , e desapparcceu 
no meio da turba doscavalleiros, jurando pela pclle 
a D. Bibas, e promettendo relatar ao conde de Tra- 
Ta, nessa mesma noita sepodesse, todas ascircuas- 
tancias daquella conversação. 

A hora, porem, a que o sarau devia acabar soou. 
A bella infanta estremeceu ao ouvi-la bater na cam- 
pa da torre ahsrran. — Sentiu alargar-se a mão de 
ferro que lhe apertava o coração ; a intima agonia 
que a politica do conde lhe obrigava a velar sob o 
aspecto mentido do contentamento , poderia a final 
diíatar-se na soledade em torrentes de lagrimas. 
Encostada ao braço de Fernão Percz , c seguida 
das suas donzellas , D. Thereza atravessou os apo- 
sentos immediatos e recolheu-sc a sua camará. Os 
ricos-homens e filhos-dalgo começaram a sahir , e 
pouco a pouco a sala ficou deserta. Apenas um ca- 
valleiro, com os braços cruzados e encostado a uma 
das columnas immediatas ao estrado das donzellas , 
nmovel , e com os olhos cravados na colgadura 
,ia porta por onde D. Thereza sabira , parecia en- 
tregue a profunda meditação. Uma voz veio tira-lo 
daquelle torpor : era a de Dom Bibas , que repo- 
treado na cadeira da rainha , olhava para elle fito , 
e lhe psalmeava cm tom soturno, pela solfa do can- 
to gregoriano , bastas injurias : 

Fora , parvo aragonez , 

Dom buirão. 

Tlão , tlão . tlão ! 

Vai tratar de teus amores 

No Aragão. 

Tlão , tlão , tlão I 

As donzellas portuguczas 

Lindas são. 

Tlão . tlão , tlão '. 

E por isso haver quer uma 

Dora buirão. 

Tlão, tlão, tlão! . -, , 

A Dulce 

Ê bella , 

Donzella ; 
Mas flor d'aleli 
Não é para ti. ,., . „• ,, 

Kirieleison . 

Iiirirteison. 
Itfqniem cetemam dona ris 
Et lux luceat eis. 

Ocavalleiropoz-seaouvi-lo, sorrindo, masaquel- 
les derradeiros fragmentos das preces pelos extin- 
ctos , entoados lugubremente, e reboando uo apo- 
sento sonoro assemelhavam-se-lhe aos ecchos das 



orações por finado repercutidos por abobada de igre- 
ja em Irinlario cerrado. Sentiu correr-llie os mem- 
bros um calafrio — não de temor, porque não o co- 
idiccia o seu coração — mas de terror — desse re- 
ligioso terror que na crédula idade-media ás vezes, 
e por mil motivos vãos, vergava os ânimos mais es- 
forçados. Era singular o efleito que nclle produzia 
a voz roufenha de D. Ilibas ; mas é certo que essa 
voz despertava na sua alma lembranças do morte e 
uma indizível tristeza. Revoou-lhe então lá dentro 
o pensamento de que no cantar do truão havia o que 
quer que fosse fatídico, e no seu olhar brilhante o 
que quer que fosse diabólico. Sentia b;ilerera-llic eoni 
força as artérias frontaes, e sussurrar-lhe nos ouvi- 
dos um zimíbiilo intolerável. Esqueccu-se de quem 
era o homem que assim se assentara na cadeira real, 
para dalli lhe repartir as ultimas injurias que na- 
quella noite distribuíra com mão larga. A imagina- 
ção lhe transformou o gesto jovial do bobo no aspe- 
cto tétrico d'um enliçador, e o seu cantarolar ridí- 
culo nos acccnlos sinistros de uma vellia stryga. 
Esta espécie de delírio era que havia cabido Garcia 
Bermudez — era elle ocavnlleiro — o obrigou a sa- 
hir precipitadamente da vasta e já mal allumiada 
sala , e a descer ao pateo interior , sem olhar para 
traz , sem encarar o bobo , cujo canto soturno fin- 
dou n'uma destas gargalhadas, que não parecem 
vir da alma , c que contristam , porque , naquelle 
que as solta , revelam alienação mental. 

Garcia Bermudez parou : o pateo estava deserto : 
um cavalleríço estirado a um canto dormia profun- 
damente, com as rédeas da mulla possante enfiadas 
no braço. O frescor da noite, e a serenidade do céu 
scintillante d'estrellas , acalmaram o animo agita- 
do do cavallciro ; mas o pulso batia-ihe violento c 
febril. O extravagante pesadello dhomem acorda- 
do , que tivera , não procedera do bobo ; procede- 
ra do lance doloroso por que pouco antes passara. 
No meio do sarau , na ebriedade da festa , elle ou- 
sara finalmente o que até ahi não havia ousado. 
Tudo quanto unia paixão sincera tinha vcheraente , 
enérgico , tempestuoso , tudo dissera a Dulce : esse 
amor , que com tanta arte ella soubera conter nos 
limites de mysterio, deixara de o ser. !\las aquella 
alma , que parecia tão meiga , tão branda , tão 
fácil a todos os contentamentos, a lodos os affc- 
ctos , achou-a elle indomável c esquiva a tanto 
amor. Esta repulsa esmagara o coração de Garcia 
Bermudez , e a sua imaginação delirou. O raio 
fulminara o cedro : que muito era que elle balou- 
çasse pendido? 

O cavalleríço despertou gemendo, a um rijo pon- 
tapé do cavalleiro : este montou de salto na mulla 
cravando-lhe os acicates no ventre ; galgou pelo por- 
tal da torre alvarran. e , correndo ao longo da cou- 
raça , sem saber como , achou-se á porta da sua 
pousada , no bairro coutado c honrado do burgo. 
No. meio de desesperação profunda, uma luz tenu(! 
lhe bruxuleava na alma. Dulce promettèra explí- 
car-lhe o motivo porque rcfusava tanto amor. Es- 
ta revelação seria feita no dia immediato. A hora 
aprazada fora a do por do sol ; o logar , a galihV 
contigua á sala d'armas , que dava sobre os adar- 
ves do norte , e que a esse tempo devia estar er- 
ma. Era uma noite e um dia eternos, que tinha 
de vi\er entretanto; mas a esperança mais débil 
arrosta com a eternidade, e bem qae frouxaraentf! 
o cavalleiro esperava ainda , postoque não ousasse 
dize-lo a si mesmo, e talvez nem sequer o cresse. 

D'ahí a pouco tudo parecia dormir uo castello e 



48 



O PANORAMA. 



no burgo. Não era assim: neste velava Garcia Ber- 
mudez ; naquelle o conde Fernando de Trava , a 
bella infanta e Dulce, líram quatro agonias , tre- 
mendas todas, mas todat ellas dilTerentes. 

A variedade é o que mais ama na vida o cora- 
ção humano. A providencia não se esqueceu de con- 
ceder-lhc cm grau infinito a variedade na dòr. 

(A. Ucrculano.) 



S3C1TC1CIA S.-J?vAL. 
Estrume feito d'ossos. 

IVão canraremos de repetir que assim como uma 
confiança cega em todos os preceitos e methodos 
estrangeiros pôde occasionar , e cffectivamente tem 
occasionado , perda de gastos e de tempo , enga- 
nando os fáceis imitadores, assim também uma des- 
confiança absoluta nesta matéria se torna inimiga 
do melhoramento que se tem approvado j,í entre 
nutras nações , as quaes devemos imitar no que fòr 
rasoavel e praticável. Com effcilo , o amor do ga- 
nho , e os conhecimentos chimicos tem levado , ha 
SO annos a esta parte, a ura auge quasi incrivel , 
a agricultura n'alguns paizes ; c como a industria , 
c o commercio tiram daquella o seu alimento prin- 
cipal , não ha tentativa , por mais estranha e repu- 
gnante que pareça á primeira visía, que os homens 
não tenham feilo para augmenlar o rendimento agrá- 
rio , e diminuir a despeza do grangeio. Ora nós es- 
tamos persuadidos que nem mesmo os processos e 
descobrimentos úteis devem ser indistinctamente 
abraçados. Algum ha hi consignado nos escriptos 
do tempo , praticado por uma nação, modelo na 
cubica do útil , que nenhum porluguez refiectido e 
brioso se abalançarei a por em pratica , apesar de 
parecer , pelo furor do seu proseguimcnto , ser do 
numero dos proveitosos. Eslá elle mencionado na 
excellente obra deMrs. deGrandmont c C. de Las- 
leyrie , intitulada Jornal dos Conhecimentos usuaes 
c práticos, do anno de 183-2, apag. 14, n'uma nota, 
onde se lè :=0s jornaes do tempo vem cheios dos 
clamores que tem excitado as escavações feitas ha 
alguns annos pelos inglezes nos campos de batalha 
da Allemanha , para cxtrahir e recolher os ossos 
dos mortos. Todos os logares , onde cm resultado 
d'acontecimentos desastrosos , de batalhas mortife- 
ras , tem os povos deixado seus despojos mortaes , 
vão sendo objecto d'uma barbara mineração: asos- 
sadas dos valentes tem sido procuradas , violado o 
seu nobre jazigo e em resultado destas profana- 
ções , extrahidas , despedaçadas , pisadas , e leva- 
das em barricas para irem fecundar as terras in- 
glezas. Cora eficito , nem a repugnância natural a 
uma tal especulação , nem o respeito devido ao 
repouso dos finados , nem a deferência que recla- 
ma o sacrificio do valor em todas as almas bem 
nascidas , nem a indignação geral poderam até 
agora suspender os especuladores insulares de seu 
novo e abominável trafico ; antes tem elles . ape- 
sar da indignação universal , ])crseverado tranquil- 
lamentc no seu propusilo. A moral humana desta 
vez , como n'outras muitas , não prevaleceu contra 
a cubica. Ao ver o progresso e andamento desta 
minerarão , sem que nem a longura do caminho , 
nem o gasto do Iranspnrlc , nem as despezas occa- 
sionadas pelas excavações, tenha resfriado o ardor 
da cmpreza , devemos concluir que o lucro destes 
novos emprezarios de pompas íuncbrcs lem compen- 



sado largamente o dispêndio que fazem. Á vista 
disto , e ainda que similhante exercício industrial 
não mereça achar imitadores nas outras nações, 
comtudo servirá este exemplo para prevenir e dou- 
trinar nossos agricultores afim de não desprezarem 
os ossos dos animaes mortos, que poderem apro- 
veitar, como muitas vezes acontece, principalmente 
na visinhança das villas e cidades , e n'oulros lo- 
gares , cm que estiverem abandonados. = 

Carvão aulmat. 

.\ssim traduzimos le noir animalise, nova descober- 
ta d'eslrumes compostos, mencionada no mesmo ci- 
tado jornal a pag. 279. Nós assentamos que não se- 
ria totalmente perdida a noticia que em extracto 
vamos dar deste novo invento , que ao menos ser- 
virá de dar a conhecer aos nossos agricultores a im- 
portância dos estrumes, que fazem hoje o objecto da 
applicação dMiomens instruídos nas outras nações , 
persuadidos que não ha objecto mais ulil enecessa- 
rio na tarefa do lavrador. O ponto essencial cora 
efleito c o de multiplicar quanto possível fi'ir a quan- 
tidade dos estrumes , lançando mão de todos os re- 
cursos que para isso contribuam. Eis o caso : ■ — • 

Três sábios agricultores franrezes reflectindo que 
nem todos os lavradores tem gados , e os de mais 
meios adequados para obter estrumes proporciona- 
dos a suas lavouras ; que os estrumes vegetaes são 
demorados ainda para aquelles que tem a maté- 
ria primeira ; que os outros de matérias animaes , 
em verdade os mais enérgicos , não deixarão com- 
tudo de ter seus inconvenientes , sendo um delles , 
entre outros , o d'attrahircm os insectos , vermes , 
e ralos devoradores; á força de tentativas conse- 
guiram formar uma preparação que , não tendo es- 
tes incor .enicnles, reúne as vantagens de fácil trans- 
porte, e d'uma forte virtude ferlilisnnlc. O melhor 
methodo d'empregar o tal composto é misturando-o 
com outros estrumes, ou substancias apodreridas , 
de que elles se formam. O nome dado ao dito in- 
vento , ?iO!> animalise, indica que 6 feito de subs- 
tancias animaes, queimadas e reduzidas a pó de 
carvão ; mas tudo o mais está ainda secreto , e na 
propriedade exclusiva de Jlrs. Salmon , Payen , e 
Lupé de Paris , que vendem o producto de sua in- 
venção , e dizem elles que i>or um preço muito 
commodo. Este pó carbonisado parece estar sendo 
muito usado na Bretanha, nos departamentos do 
oeste da França , e nos 7 que avisiuliam a cidade 
de Nantes. Para os trigos , cevadas , centeio e avca 
lançam-o na terra aos punhados como quando se 
semèa , a la rolée , já seja ao mesmo tempo que a 
semente , já depois delia , porem antes de lhe mct- 
ter a grade. Usam-no nas plantações e nas borlas, 
lançando um pequeno punhailo do tal estrume na 
cova de cada jilanta , ou ao pé delia no rego, se 
assim são dispostas. O referente desta nova desco- 
berta termina o artigo dizendo, que o carvão ani- 
mal não só produz abundantes colheitas , mas tor- 
na melhores os terrenos n'uma progressão gradual 
a ponto de dobrar c triplicar o valor delles. 

J. da C. N. C. 



A riLTin* da rasão pelo estudo, exame e reflexão, 
pôde conduzir-nos a um grau de saher que nos po- 
nha cm contradicção com as opiniões vulgares : — 
neste caso, devemos ser prudentes, evitando dis- 
putas , e esperando do tempo a madureza das ver- 
dades. 



60 



o PANOÍIA3IA. 



49 





o ARCO DAS AGUAS LIVRES ÂS AMOREIRAS. 



PORTUGAL. 
XXII. 

O Aqcedccto Dis Aguas Litbes. 

;.M 1588 SC tomaram as primeiras disposições para 
dprovisionar de aguas a cidade de Lisboa', que de 
anno para anno crescia em população ; lambem ha 
quem affirme que jd no tempo do afortunado D. Ma- 
nuel se fizeram tentativas encaminhadas ao mesmo 
essencial objecto, procurando-se as nascentes, don- 
de hoje se deriva o principal provimento da nossa 
capital. Naquelle tempestuoso e infeliz reinado de 
D. Sebasti.io abortou o desifrnio : muito mais tarde 
a magnificência de D. João o.° e os copiosos recur- 
sos da monarchia levaram a cabo amagestosa obra, 
qne é por cerlo a mais notável de quantas Lisboa 
encerra no próprio recinto c nas visinhanças. È fa- 
brica destinada á commum utilidade; eaiemd'este 
grande preço reúne todas as condições de sumptuo- 
sa, por tal arte que não duvidou dizer delia o aca- 
démico, P.° Estevão Cabral, as seguintes expressõeí. 
FíVEREIRO 18 — 1843. 



— «Uma das obras de maior magnificência, que no 
seu género se admiram talvez em todo o mundo , c 
a obra chamada das aguas livres na nossa Lisboa. 
É certo ao menos que no género de aqucductos ex- 
cede ella os mais famosos, quaes são os de Génova, 
de Spolelo , de Cascrta , de Roma , excepto que na 
quantidade de fluido as aguas livres comparadas com 
alguns dclles são pobreza comparada com riqueza, 
pois os romanos e o de Caserta trazem rios cheios , 
e este nosso apenas traz um pequeno regato; mas a 
hellcza e a magnificência são sem controvérsia ne- 
nhuma aqui maiores.)) — Desde que o sábio padre 
escreveu , já lá vai meio século ; tem crescido o 
baslecimento das aguas com os muitos mananciacs 
descobertos e encanados para o aqueducto geral ; 
ha oito annos tem continuados trabalhos engrossa- 
do as antigas e inexhauriveis fontes, para cada ve/. 
mais a grandeza da construcção corresponder ás in- 
tenções que a suggeriram e ás necessidades de uma 
das principaes cidades da Europa. — Igualmente, 
as queixas que o citado A. e o outro académico , 
V«Qdel!i , appresentaram , relativamente á falta de 

2,' Serie. — Vol. II. 



30 



O PANORAMA. 



conclusão e aprovcilamcnlo do vastissimo deposito , 
'<u [liscina das Amoreiras , cessaram , porque logo 
nos primeiros niezcs da restauração efTectuada pelo 
Sr. D.Pedro 4.", de Saudosissima Memoria, se com- 
pletou esse deposito providencial , com a notável 
circumstancia de se formar a cascata por onde as 
aguas se quebram e precipitam , gozando o bencfi- 
oio do ar e da luz com a certeza de entrarem no 
amplíssimo tanque mais depuradas. Os antigos, nos 
'■eus grandiosos aqueductos, armavam também inler- 
niprck^s e quedas cm tanques similhantcs, para que 
a agua depozessc tudo o que fosse heterogéneo , c 
«•liamavam-Ihe piscina limaria, porque tal obra scr- 
'ia para clarificar a agua, deixado o lodo: alem 
desta considerarão do illustre povo romano, dam-se 
nutras, que a moderna physica aconselha, para que 
estas artificiaes cascatas se fabriquem e conservem. 
Nem se creia que o P.° Cabral , por sentimentos 
de nacional , exaggerou a sumptuosidade do monu- 
mento , consagrado jielo rei magnânimo ao bem do 
]iovo ; nos escriptorcs estranhos acharemos confirma- 
do o seu juizo. Balbiquasi que se exprime nos mes- 
mos termos, e accrcscenta [a pag. 174 do Ensaio] 
(jue é uma das obras mais mai/ni/icas da íiiodn-na Eu- 
ropa , e que púãc ser comparada ás maiores que des- 
ta espécie frz a antiguidade. Os mais , que a viram 
(• descreveram, faliam idêntica linguagem : nasMc- 
morias da R.Acad. das Sciencias deParís, anno de 
•1772, Parte 2.", vem delineado o arco grande, co- 
mo cousa singular. 

Km pouco mais de vinte annos se construiu tão 
estupendo monumento, pelo risco do engenheiro mi- 
litar, Jíanuel da Maia. Tal é a solidez da construc- 
rão que o devastador terremoto de 17o5 lhe não fez 
dannio ; não deram de si os pilares, as paredes não 
.liiriram ; apenas três dos dczeseis torreões, que ser- 
vem de ventiladores, soffreram algum estrago. Co- 
meça o aqueduclo quasi a três léguas da cidade na 
ribeira de Carcnque ; numeram-se cm toda a sua 
exlensão 127 arcos de forte e excellcutc cantaria ; 
a altura interior do encanamento é do treze pés : 
quando emsitios eminentes prosegue sotlerrado tem 
a espaços convenientes uns torreões quadrados cora 
.sua janella em cada face , resguardadas por grades 
de ferro e redes d'ararae ; e ao atravessar os valies 
caminha sobre cleganle arcaria , sem era seu cur- 
.s'i desdizer do nivellamento próprio.- — -lia torreões 
<iu ventiladores na parte 7nais grandiosa da obra , 
a ponte-aqucducto sobre a ribeira d'AIcantara ; pa- 
ra aqui se chama a admirarão denaturaes e estran- 
geiros : bella e dilatada ó a perspectiva que de tão 
desmesurada altura se avista. Por 3ij arcos , que 
unem duas oppostas eminências, sobre uma quebra- 
da de espantosa profundidade e na extensão de 400 
loesas (♦) segue o abastecimento d'aguas para a ci- 
dade nova, a maior e melhor parte da populosa rai- 
nha do Tejo. Os arcos , como é bem de presumir , 
variam gradualmente, para qualquer dos extremos, 
na dimensão perpendicular e na largura desde a 
volta até a base : o maior , por justa antonomásia 
denominado Arco grande , tem de altura 315 pal- 
mos craveiros, e de largura loO. Parallclos ã nies- 
i!ia sumiiluosa poute-aqneducto correm , dos lados 
don.iscente epoente, dois passeios dequasi oilo pal- 
mos de largo rom seus [)arapcitos, donde paraqu.il- 
qiicr destas frentes se desfrurla a pai/agem do nos- 
so l)ello clima meridional conforme a variedade das 

(•) ]")ào-llH' (i.s cscrijítores estraniieiros ^:464 jtes in?le- 
7.'"í . que segiinilo as laliellas do Sr. Barreiros produzem 
341 Ji; braças porlugiiezas. 



estações, notando-se o espectáculo das quintas , ca- 
sas de campo, e terras de semeadura, em vasto hori- 
sonle. 

Entra o aqucducto na cidade pela parte do no- 
roeste , onde chamam as Amoreiras por causa de 
nm plantio arruado destas arvores , com fonte pu- 
blica no centro, e que fora disposto para servir á 
Fabrica das Sedas erecta por conta do Estado no 
sitio do Ilato : neste logar , ao occidenle , sobre a 
rua que é a sabida e estrada geral desta parte de 
Lisboa , está um arco , á maneira dos triumphaes , 
a um tempo esbelto e magestoso , de soberba can- 
taria, e pertencente á ordem d'archilcctura chama- 
da dórica ; no apainelado do friso da cimalha , pa- 
ra a banda , que em respeito á situação diremos 
[ainda que vagamente] do norte , lè-se uma elegan- 
te inscripção latina , disposta segundo o gosto do 
estilo lapidar , na qual se commcmora o pacifico 
reinado de D. João 5.° , as dilficuldades e o feliz 
resultado da eropreza do aqueduclo , com os encó- 
mios costumados das qualidades do monarcha ; tem 
a data de 1738 , e marca o espaço de vinte e um 
annos , que levou a obra : no apainelado opposto , 
que lhe é correspondente e olha para a cidade , ha 
outra inscripção similhante na mesma lingua , que 
menciona a extensão de nove mil passos do aqucdu- 
cto, e que este fura fabricado are publico, com o di- 
nheiro publico , porque se fez a custa da nação , 
contribuindo essencialmente o imposto denominado 
real d'arjua. Deixamos de traslada-las, era rasão do 
grande espaço que occui)ariam. — E este o monu- 
mento commemorativo , que os leitores vêem repre- 
sentado na gravura anteposta a este artigo. 

Logo contíguo , e immediatamcníc ao sahir do 
passeio das Amoreiras para o sul , ha o grande de- 
posito ou piscina , de que acima nos lembrámos ; 
na forma externa é uma torre quadrangular, com- 
posta inteiramente da bclia pedra de cantaria em 
que o nosso reino abunda tanto , encerrando um 
tanque , construído segundo os rigorosos preceitos 
da arte , completo era 1834 , limpo e bem vedado , 
com os couductos necessários, quebrando-se as aguas 
nas irregulares saliências da cascata , e que forma 
ura espectáculo agradável a vista , ao passo que o 
ouvido se entretém com o sussurro que reboa pelas 
amplas abobadas , que fecham o recinto. Os fortís- 
simos miiros deste tanque marmóreo tem de espes- 
sura 2o palmos, e serve esta grossura, entre a bor- 
da do mesmo c o muro externo, de espaçosa varan- 
da , que oiTerece folgado passeio a muitos concor- 
rentes. i>or três dos lados, ficando no quarlo a que- 
da das aguas , á banda do poente ; nos lados exte- 
riores rasgaram-se amplas janellas : por um lanço 
d'escada estreita e torcida sobe-se ao eirado que 
remata a forre , lageado , c geral sobre a immensa 
abobada , e donde se avista um liudissimo panora- 
ma da cidade , que talvez não Icn^a rival , — senão 
o que se descortina da eminência do castello — ou 
o prospecto que do zimbório do convento da Es- 
trella se desfrucla. — O comprimento do tanque [se- 
gundo a memoria do P." Cabral] é de 12o palmos, 
a largura de 107 , c a altura de 37; do fundo er- 
guem-so quatro pilastras de dez palmos quadrados, 
que suslenlam as abobadas superiores. iCsle grande 
edificio é o que o vulgo eoidiece pelo nome de «i«i 
d'(ifjua do llato , ou das Amoreiras. 

A zelosa Sociedade Pharmareiílira Lusitana, sem- 
pre atlcnla a indagações e trabalhos de publica uti- 
lidade, fez a asialjsc cbimica da agua das Aguas Li- 
vres , que estampou em o u." 3." do seu Jornal. 



o PANORA3IA. 



SI 



>, o Bobo. ^ .i, .• - • 

', r.- 1128. 

--:.:-■ V. - ,':, ,■:,-, -'1 

■ \ A Madrugada. 

O CÉU oriental começava a dourar-se com os pri- 
meiros raios de sol ijiie surgiam na vermelhidão da 
madrugada. Allumiando com serena c ainda frouxa 
claridade o burgo assentado na baixa , iam relle- 
ctir-se trémulos no orvalho pendurado nas folhinhas 
da relva pelasveigas circumvisinhas ; e batendo de 
soslaio nas muralhas c torres do easlcllo tingiam 
as pedras alvas e lisas de còr pallida. Era um al- 
vorecer de mauhaã de estio no Minho, tão suave, 
tão poético e pinturesco , que talvez por isso ahi 
collocarara os antigos pagãos o Lethes, esse rio cu- 
jas aguas faziam esquecer as penas c os deleites da 
vida. Esta virtude , porem , do clima , este deleite 
que se encontra no aspecto daqucUas lindas paiza- 
gens, no murmurar dos arroios percnnes, nas som- 
bras dos arvoredos frondenles. e na risonha verdu- 
ra dos prados , não linha podido fazer esquecer ao 
ronde de Trava os riscos da sua situação. Atormen- 
tado pelos receios do desfeixo da lucta em que lhe 
era forçoso entrar , tinha-sc revolvido tuJa a noite 
no seu leito , sem poder dormir . ora arrepcnden- 
do-se de haver tratado tão duramente o moço Af- 
fonso Hcnriquez , ora fervendo-lhe n'alma desejos 
do vingança atroz contra o mancebo e contra osba- 
rúes de Portugal , que successivamente se declara- 
vam pelo bando do infante. A idéa de se ver cer- 
cado em Guimarães poraquelle mesmo aquém me- 
zes antes fazia esgotar até as fezes o cálix da hu- 
miliação , accendia-lhc o orgulho e a cólera a pon- 
to indizível. Então punha-se a calcular as probabi- 
lidades de uma batalha campal. Tinha comsigo mil 
lanças entre cavalleiros deGalliza ed'Aragão: mui- 
tos ricos-homens de Portugal pareciam oonserva- 
rem-se fieis , não a elle , mas a D. Thcreza ; e os 
borgonhezes , companheiros do conde Ilenrique , 
educados nas idéas da absoluta lealdade feudal , e 
investidos pela maior parle emtenencias de terras, 
e era alcaidarias de caslellos , davam-lhc toda a 
certeza de que não abandonariam aquella de quem 
tinham seus feudos. Com estes elementos diversos 
elle podia ir em arrancada contra a hoste de D. Af- 
fonso , superior talvez em pionagcm e besteiros , 
mas assaz inferior a sua em homens d'armas. Se , 
porem , os barões portuguezes que ainda se não ha- j 
viam declarado contra a rainha , a abandonassem , 
a victoria não seria tão fácil d"obler : e posto que 
o conde tentasse minguar o valor e pericia dos ca- 
valleiros d'aquem Minho para se esforçar a si pró- 
prio, a lembrança de que um tal acontecimento se- 



deixava bem divisar , mas que alguns dos esculcas 
apostavam seríiarcia Bermudez, o intimo amigo do 
conde ; o único homem que sabia moderar o seu 
caracter violento e altivo , c que parecia senhor de 
todos os segredos daqucUa alma dissimulada e am- 
biciosa. Fosse quem fosse o cavallciro, o conde ro- 
deou com elle osvallos, e passando perto outra vez 
do eastello , os dois se embrenliarani n'uma selva 
profunda , que se estendia a pouca distancia desti; 
para a parle do norle. 

O cavallciro era de feito o valido de Fernão 
Perez. A amisadc dos dois se travara e crescera na 
Palestina, (iarcia salvara o conde cm certo recon- 
tro, no qual o lilho de Pedro Froylaz, a pé e cober- 
to de feridas, mal se defendia já, com um Iroro de 
espada partida , da multidão dos sarracenos que o 
cercavam. Desde então, companheiros de perigos e 
deleites, nunca mais se haviam separado. Era uma 
destas fraternidades d'armas de que os tempos bár- 
baros nos oITereccm tantos exemplos , porque ainda 
então cxislia a individualidade do homem de guer- 
ra, hoje completamente anuulada pelo valor ficticio 
a que chaniànios disciplina. 

Ao passar pelo burgo, o conde avistara o cavallci- 
ro, de cujos olhos lambem fugira nessa noite o som- 
no , posto que por bem diverso motivo. Pela pri- 
meira vez Fernão Perez de Trava desejou escon- 
der ao seu amigo os pensamentos que lhe vaguea- 
vam no espirito. Todos elles se resolviam n'um sen- 
timento único — o temor. Envergonhava-se de si 
mesmo , e não ousava confessar a fraqueza do seu 
coração áquelle cujas faces nunca vira demudadas 
nomeio dos maiores riscos. Procurando dar ao sem- 
blante carregado uma expressão d'alcgria , bradou 
de longe ao cavalleiro , que embebido em scismar 
profundo nem sequer sentira o tropear do ginete : 

'( Jladrugador, sois Garcia Bermudcz. Já vejo que 
ainda vos lembram as alvoradas d'ullramar.)> 

Garcia soflVeou a mula de corpo em que ia mon- 
tado, e volveu para traz os olhos. No seu gesto es- 
tava impressa a mais profunda mclancholia. 

O conde esporeou o ginete até emparelhar com 
o cavalleiro, e estendeu a mão para elle. Garcia Ber- 
mudez apertou-a na sua , e Fernão Perez sentiu 
que esta estava tremula e febril. 

«Á fe que mal te foi a noite passada : a tua mão 
é ardente : tens no rosto pintado o padecimento. » 

« Verdade é, nobre coude — respondeu tristemen- 
te o cavalleiro — 'duasnoiíes similhanles áque pas- 
sei , e estes cabellos estarão brancos , e este braço 
vergará como o de um velho ao sopesar a lança.» 

«Mas porque assim padecendo te diriges para a 
campina , húmida com o rocio da noite , quaiidn 
talvez podesscs repousar agora no somno da madru- 
gada ? » 

«É porque busco o ar e a luz do céu como um 
refrigério : é porque sinto cá dentro um fogo que 
ria possível era, entre todas asque o assaltavam, a j me devora, e preciso de respirar livre na solidão. <> 
mais importuna e a que principalmente não o dei- O conde viu duas lagrimas bailarem sob as |)al- 
xára repousar durante as curtas huras do uma noi- | pcbras do cavalleiro. Parou espantado. Era inau- 
te de junho, a qual para elle fiira uma das mais \ dito , monstruoso, impossível o que via. Nunca a. 



longas da sua vida 

.\ssim apenas a luz duvidosa da aurora raiava no 
oriente , já a ponte levadiça do eastello de Guima- 
rães descia á voz impaciente de Fernão Perez, 
montado uo seu ginete andaluz. Os atalaias viram- 
no sumir entre a casaria do burgo , e d'ahí a pou- 
co tornar a apparecer alem dos vallos alevantados 
á roda da povoação, .\companhava-o já outro caval- 
leiro, cujas feições a escaca luz da madrugada não 



dor de feridas , a sèdc nos desertos , a fome nos 
caslellos sitiados, eaté a morte de amigos querido.s 
no campo de batalha, lhas haviam arrancado. Oc- 
correu-lhe então um pensamento súbito , porque 
Fernão Perez era hábil em conhecer os affectos hu- 
manos. Parou , e cravando a vista de lince no ros- 
to de Garcia liermudcz , disse-lhe no tom firme e 
positivo de quem descobrira um segredo : — 
«Garcia , tu és infeliz pelo amor I » 



o PANORAMA. 



o caTalIeiro corou levemente , e com a toi afib- 
jçada respondeu : — 
' É verdade I » 

O conde sabia que cllc amava Dulce : toda a cor- 
te o sabia. Fernão Pcrez folgava com aidca de pren- 
der por laços mais fortes que os da amisade aquel- 
le esforçado homem de guerra á fortuna de D.Thc- 
reza e á sua. Dulce seria disso um penhor, e a af- 
feição particular que cila mostrava ao cavalleiro per- 
suadira o conde e a infanta de que os seus intentos 
e desejos seriam l)revemcntc cumpridos. A tristeza 
de (íarcia , a que não achava outra rasão possivel , 
depois de um sarau a que tinham assistido tantos 
cavalleiros mancebos e genlis-horaens , lhe fez crer 
que entre os dois amantes se alevantára alguma 
destas procellas , cora que o suão mirrador do ciú- 
me costuma entenebrecer ás vezes o céu risonho 
desta quadra da vida — tão bclla e tão passageira. 
A resposta de Garcia o confirmou nesta idéa. 

«Dulce trahiu-te , pois?» proseguiu o conde sem 
(irar dellc os olhos. 

"Não: — replicou o cavalleiro — porque nunca 
fui amado por ella '. » 

Estas palavras erara uma fria e morta expressão, 
eomo para representar as paixões violentas o c sem- 
pre a linguagem dos homens : e todavia no accento 
com que haviam sido proferidas rcvelava-se bem o 
martyrio atroz do orgulho offendido c do amor des- 
prezado , que ralava o coração de Garcia. 

" Nunca ! '? — interrompeu Fernão Perez. — Cria eu 
•o contrario : — tinha talvez rasão para o crer. Se, 
porem, não é Dulce a dama dos teus alTectos , ou- 
sarei eu perguntar a Garcia Bermudez o nome da 
sua amada e a causa do seu padecer?» 

No tom destas palavras havia o quer que era de 
ironia e motejo. 

«Conde de Trava — replicou o cavalleiro — só 
disse que jamais fui amado por Dulce : não que eu 
não a amava. Nunca o encobri a ninguém , e vós 
sabeis que muitos segredos meus , que todos igno- 
ram , nunca de vós os escondi.» 

O modo sentido edo amarga reprehcnsão com que 
Garcia respondera , fizeram conhecer a Fernão Pe- 
rez que a ferida aberta naquelle coração era dolo- 
rosa e profunda. Então, estendendo de novo para 
elle o braço , disse-lhe sorrindo : 

«Vamos: fallemos serio, e perdoa o meu gracejar. 
Se amas Dulce , ella será tua. Cóleras de amantes 
passam como a nuvem varrida do norte ; — e que não 
fosse assim, seria eu o tufão que a alTugentasse. Sa- 
hcs que Dulce é a filha adoptiva da rainha. Será 
tua esposa a um aceno do conde de Trava ; e não 
é o conde de Trava o teu mais verdadeiro amigo? 
Oh , abre-me o teu coração ! » 

E apertava entre as suas a mão do cavalleiro. 
Garcia IJormudez alevantou p.ira elle os olhos hú- 
midos c tristes. Por algum tempo ficou era silencio, 
e por fira exclamou : 

«Não sabes o mal que me fizeste; não sabes o 
bem que ora me fazes! Suflocava-me o peso da mi- 
nha agonia: deixa-la, emfim , dilalar-se I » 

l'.nlão, seguindo por meio da selva, narrou ao con- 
de Indo o que se passara na véspera, e a larga his- 
toria do seu desditoso amor , que o mundo cria re- 
tribuído e feliz. Aquella narração eloquente, como 
a paixão Ih'a ensinava, chegou a commover o ani- 
mo de Fernão Perez, que, distrahido a principio, 
escutara pacientemente essa larga confidencia, com 
o único intuito de tornar mais Íntimos pela grati- 
dão os laços (jue prendiam á sua surte uru homem, 



de cujo esforço tanto carecia na difficultosa sittia- 
cão era que se achava. — Apenas Garcia cessara 
de fallar, o conde bradou — e desta vez as suas pa- 
lavras vinham da alma : 

«Cavalleiro, Dulce será tua mulher: juro-o pe- 
las cinzas de meu pai ! » 

Era o mais grave juramento de Fernão Perez. 
Poucas vezes o ou\íra Garcia Bermudez jurar pe- 
las cinzas de Pedro Froylaz. 

«Dulce — proseguiu o conde — c orphaã e nobre; 
por foro de Portugal á sua mãe adoptiva , senhora 
dos prestamos de que cila é herdeira , pertence es- 
colher aquclle que hade desposa-la. Tu serás o es- 
colhido , e se-lo-hás talvez hoje mesmo. AfErma-to 
o conde de Trava ?» 

O cavalleiro ficou por largo espaço pensativo. Rc- 
ncxões encontradas tumultuavam no seu espirito. 
Nestas eras civilisadas em que a idéa do amor é 
mais pura nos corações que o coraprehendem , ne- 
tdiura animo generoso deixaria de recusar com hor- 
ror esse meio violento de satisfazer seus desejos. 
Naquclles rudes tempos , porem , a generosidade e 
a delicadeza dos alTectos moracs era mais um ins- 
tincto confuso que uma doutrina definida , gravada 
na alma pela educação e pelas crenças sociaes. Era 
por isso que Garcia hesitava entre o intimo aconse- 
lhar de uma nobre consciência, e o cego desejo de 
paixão ardente. A tenuissima esperança que ainda 
lhe restava fez triumphar , em fim , a sua natural 
generosidade : 

«Não — disse elle — não quero dever á obediên- 
cia , o que só quizera merecer pelo amor.» 

♦ Que importa? — interrompeu Fernão Perez. — 
Deixa , Garcia , aos trovadores essas alTeições , que 
se pagam de submissão c suspiros. Juramento feito 
pelas cinzas de meu pai , nunca deixei de cumpri- 
lo. Poderia agora faze-!o?» 

O cavalleiro pareceu meditar um momento : de- 
pois accrescentou : 

«Bera o sei; mas promette-me uma só cousa.» 
«Qual ('•? — atalhou vivamente o conde.» 
«Que não será hoje que o cumpras.» 
«Oh, quanto a isso — respondeu Fernão Perez sor- 
rindo — não o jurei eu. Nem poderia jura-lo. O con- 
selho dos barões, que vai daqui a pouco ajuntar-se 
nos paços de Guimarães deve ser demorado e tem- 
pestuoso. Conheces o que lá hade tralar-se ; e que 
não conto com todos os rieos-horaens de Portugal , 
como conto comtigo. Teremos brava batalha.» 

" Em quanto este braço poder menear uma acha 
d'armas ; em quanto nestas veias houver uma gota 
de sangue , aquella ferirá sem piedade os teus ini- 
migos, este será derramado para te defender a ti.» 
O conde cahíra naturalmente na realidade da vi- 
da , e voltara ao habitual egoismo de que por mo- 
mentos Garcia Bermudez o fizera sahir. Quando o 
avistara , ao atravessar o burgo , tinha-lhe occorri- 
do consultar o cavalleiro , cuja mestria de gucrr.i 
elle conhecia, sobre o systema que devia seguir ao 
começar a lucta com AlTonso Henriquez, lucta que 
bem conhecia ser inevitável. Aproveitando o ponto 
cm que tocava quasi imprevistamente, foi, sem re- 
velar nunca os receios que o assaltavam , condu- 
zindo a conversação de modo, que, depois de have- 
rem rodeado o bosque , ao entrarem no castello, os 
dois haviam calculado e disposto todas as traças que 
julgavam opportunas para chegarem uatiuella guer- 
ra iminiuente a um desenlace feliz para a bella in- 
fanta de Portugal , e por consequenria para o am- 
bicioso filho de Pedro Froylaz. — [Contínua.] 



o PANORAaiA. 



53 




o HOTTENTOTE. 

DK3CRKTEM0S O Celebre Cabo de Boa-Esperança no 
volume primeiro da 1 .' Serie ; no 2." a pag. 2G4, e 
no 3.° a pap. 18 , referimos os costumes e índole 
das Tarias nações decaffres, que cstanceiam pela 
costa oriental d'Africa , nomeadamente nas vastas 
possessões portuguezas : a pag. 380 do vol. 1.° da 
presente Serie demos noticia dos colonos do sertão 
do Cabo ; resta portanto fajlar dos hotlentotes , po- 
Toaç.io indígena dessa ponta de Africa a que impo- 
zemos nome , e que , apesar de hórridas tormen- 
tas , para os nossos descobridores foi de feliz pre- 
»agio abrindo-lhe a rola da índia. — A raça hotten- 
tote , de continuo acossada pelos colonisadores , ha 
muito que buscava refugio nos áridos desertos ser- 
tanejos : as vexações dos hoUandezcs e dos que lhes 
succcderam não só a tinha reduzido em numero , 
mas pri\ando-a pouco a pouco do direito de apas- 
centar seus gados a sujeitara a um jugo mui pare- 
cido á escravidão : a final os inglezes a emancipa- 
ram era jiinho de 182S ; e os hottentotes do Cabo, 
ao lodo trinta mil individuos , foram admiltidos a 
gozar os mesmos privilégios e direitos que a popu- 
lação branca da colónia. 

Os hottentotes tem os ossos das faces mui promi- 
nentes , c ao contrario o queixo pontagudo em de- 
masia : o nariz extremamente chato c as ventas mui 
abertas: a boca rasgada guarnecida de miúdos den- 
tes alvíssimos; não tem feios olhos ; e proporcio- 
nalmente áquella forma de rosto as feições são re- 
gulares ; é engraçado e ágil o seu modo de andar : 
as mulheres são liem afiguradas , e tem mãos e pés 
pequenos e bem feitos , como não era d'esperar em 
gente rmlo. 

Esla casta africana é dotada de bastante presen- 
ça d'espirito , e de animo reflexivo e reservado ; 
desve!a-se no paslío de seus gados, porque é es- 



sencialmente pastoril , nom tem idéa dns rudimen- 
tos d'agrieultura : não srmí'a nem planta; nem se- 
quer sabe fabricar manteiga c queijo , fazendo ns» 
do leite no primeiro estado liquido. — São porem 
05 hottentotes destros na caça , cicrcicio em que 
muito os auxilia a vista perspicaz : como caçadores 
d'elephantes não só desenvolvem habilidade mas 
também ousadia. 

O vestuário desta gente consta principalmente de 
uma capa de pelles de carneiro ou de feras , cosi- 
das com tiras das tripas dos mesmos animnes : a 
capa serve de cobertor ,á noile e de vestido de dia, 
trazendo-a aberta se faz calma , e conchegada a» 
corpo SC ha frio ; quando está velha aproveila-se 
para cobertura da cabana ; se o dono morreu, nella 
o amortalham : afora ella não tem o hottentote mai.s 
fato que uma espécie de avental ou tanga , penden- 
te da cintura. Os que mantém tracto com os em-o- 
peus adoptaram algumas commodidades no trajar, 
e usam chapéu, pantalonas, e andam calçados, co- 
mo se vê na gravura , imagem de ura hottentote 
emancipado. 



Bem ocerer b mal fàzbr. 

(Memoriai insul;maB.) 

= 1531 = 
IT. 

Bem qxisrer '. 



' ,. E não só foy espelho ile 

perfeições & graças, ilolada de 
gentis parles ; mas vivendo le- 
ve alffus lanços de rara vlrlu- 
' " de, &dÍL'nns de fazermos d'el- 

les particular memoria. 
, Mo/inrch. Liisilani!,Tom.3-° 
■ ' i. 0. , Cap. 20, parj. 98. 

Se uma grande resolução tem o poder , quasi sem- 
pre , de abalar por tal modo , que nem tempo dei- 
xa para a reflexão , é de ordinário incentivo para 
fortes e vigorosas acções. — .V.ssim pelo menos acon- 
teceu com os sorprehendidos companheiros da illus- 
tre viuva apoz o atrevido rapto de .\ntonio da Ca- 
mará. 

D. .Águeda lutando com sua grande indignação , 
e sua diír ainda maior , não sabia , no principio . 
que partido tomasse , mas lireve recobrada da pri- 
meira e tão esmagadora impressão , cora animo va- 
ronil , que de família tinha , pensou em que a vin- 
gança e a justiça seguissem de perto a oITensa e o 
erro , se não crime. Por sua ordem alguns da co- 
mitiva partiram a todo o correr de seus bons gine- 
tes para a cidade do Funchal dar parte ás justiças, 
postas alli por eirei , do que era acontecido , e pc- 
dir-lhcs em nome das oíleudidas prompto desaggra- 
vo á sua affronta. 

Despira a habitação de .\ntonio da Camará o in- 
voltorio silencioso com que se disfarçara. Como que 
a varinha de condão de alguma boa fada , renovan- 
do os sonhos queridos da nossa infância — tão sau- 
dosos sonhos ; — tinha tocado a nossa morada : atra- 
vez das janellas c gelosias abertas divisavam-se ca- 
marás e salas custosamente adereçadas ; entornaia 
festivas harmonias , sorria por todos os lados a h;:- 
bilação alegre nomeio de suas veigas e cerrados ar- 
voredos, 1 ; .1 • . 



íii 



o PANORAMA. 



De feito era uma fada, a mais poderosa de quan- 
tas fadas passeiam pelo mundo formosissimo das ima- 
ginações , qiic Indo aquillo fizera — o amor. 

No meio de uma camará aonde todos os primores 
da riqueza pareciam tcr-sc dado palavra, c em que 
o ouro e as perfeições da arte disputavam primazias, 
solire os vistosos matizes das alfombras e tapetes , 
e debaixo dos tectos brilliaiiles sobresaliia uma fi- 
gura nobre que pela còr negra de seusveslidos sin- 
gularmente contrastava com o risonho aspecto de 
quanto a cercava : era D. Isabel. Eslava ella assen- 
tada sem mostras de abatimento ; altiva e orgulho- 
sa a fronte, mas baixos c modestos os olhos. A pou- 
cos passos António da Camará de pé c cora os bra- 
ços cruzados contemplava com ávido silencio aquel- 
la formosa e digna mulher, Ião digna e tão formo- 
sa, que o audaz cavallciro, timido agora, como que 
receiava aproximar-se-lhc ou quebrar a solcmne mu- 
dez que alli reinava. Apesar de tão calados , havia 
comtudo enire os pensamentos de ambos um vivo e 
enérgico dialogo. 

Largo espaço permaneceram assim : ella semque- 
rer confiar aos lábios o que n'alma sentia ; clle sem 
ousar interrompe-la. Mas o incêndio que lá dentro 
lhe lavrava era mister rebentar , que por mui vivo 
já não havia contè-lo. Bem certo c que para o amor 
não ha dilliculdades. — DiíTiculdade e grande era na 
espinhosa posição em que se achava o excessivo 
lamante , pouco segura a consciência e aguilhoada a 
vontade , o encetar conversa , que se por um lado 
podia tornar-se desejada , por outro tinha seu que 
de assustadora. Todavia a acção eslava feita ; era 
necessário portanto sahir do enleio. — -Por fim os de- 
sejos do amor venceram as rcprehensõcs do dever. 
"Km lai cabimento cahi , formosa prima» — dis- 
se .António da Camará com voz sumida e incerta — 
«([uc nem já uma palavra, nem uma, vos mereço ! » 
«.Melhor vos cabe avós sabe-lo do que a mim» — 
respondeu a nobre dama com mui fera e soberba fi- 
dalguia de animo , de modo que o galan de novo 
guardou silencio , mas desta vez mais triste do que 
altivo. 

Fallando com António da Camará, erguera D. Isa- 
bel para elle os olhos cheios de pura indignação, que 
ainda da violência qne lhe fora feita lhe ficara, líai- 
xára-os de novo , calando-sc. .Aias depois , quando 
apoz longa mudez os ergueu desleixada, comoqucm 
desperta de pondemso meditar , deu com o extre- 
moso amante que ao lado lhe ajoelhara cm silencio 
complelo. 

"Que fazeis, senhor.'» — perguntou D. Isabel com 
gesto já mais brando, que não havia resistir a lai 
excesso de amor. 

António da Camará quiz responder : faltou-lbe , 
porem, a voz, cduas lagrimas amargas lhe escorre- 
garam pelas faces. .4quella alma orgulhosa e firme 
em suas vontades cedia á priiiuíira e única fraque- 
za de toda a sua valente e vigorosa vida. 

"Vedes, senhora?» — disse elle ao cabo, valcn- 
tlo a dominar a (-ommoção que o assaltara — «vedes 
'1 que heis feito de mim .' Que fui eu e que sou ho- 
je? dizei-o .... Apenas me dobrava a elrei : nunca 
tremi , niuica me abaixei a pedir nem a rogar vil- 
mente , nunca uma lagrima pueril me envergonhou 
esle rosto . . . nunca ! . . . E agora ? . . . Dobrei-mc a 
Imscar-vos nas sombras da noite como se precisasse 
iiccultar um crime; abaixci-me perante vós e os vos- 
sos insultos , minha prima . . . lenho pedido , lenho 
rogado . . . e peço e rogo de joelhos como o faria a 
Deus . . . Gaslei aniios de vida a pensar eni vossos 



aggravos e a procurar — dizia cu — desforrar-me 
d'elles ... Ah ! que a mira mesmo me enganava . . . 
Não , não era uma desforra que buscava — bem o 
o sinto aqui — não era . . . Era a vossa vista, senho- 
ra , era uma esperança mal sonhada que eu no co- 
ração embalava , no mais fundo do coração , com 
amor e desvellos de pai. . . . e choro aqui, formosa 
prima , agora que a vejo quasi perdida e murcha 
essa esperança que eu creei sempre tão verde . . . e 
choro .... Que fui eu, e que sou hoje? dizei-o . . . 

Aqui o fogoso amante parou fazendo soleranc pau- 
sa. Ergueu-se lentamente, e apoz momentos de con- 
sideração continuou com voz de severo sentir, que 
ao seu aspecto um lanto leviano nunca ninguém lhe 
suspeitara. 

«Restos venerandos de meus honrados avós, não 
me envergonheis da minha fraqueza. Quebrai, se é 
possível , com as cabeças despidas as vossas loisas 
de pedra , callai as reprehensões do tumulo , surgi 
e vinde com os olhos que d'antes tinhcis, vinde ad- 
mirar esta por quem me esqueci da herança que me 
legastes, porquem regeilei gloria ébrios, por quem 
me fiz tão fraco e tão covarde .... Olhai , senhora, 
a que me vós reduzistes ... O bom nome , a boa 
fama, as boas c leaes acções, tudo por vosso respei- 
to desprezei , tudo se me varreu da lembrança só 
por este amor que amo tanlo . . . Eis-me reduzido a 
mendigar alTectos , e a lastimar fróxas magnas , en 
que poderá zombar d'umas e dominar os outros .... 
Cahi em erros por vós , formosa prima , cahi , não 
vo-lo nego . . . mas Uido o que fiz e o que faço não 
vos movem antes ao perdão que á vingança? Talvez 
por leviandade o tomásseis. . . ah! não. — Foi pu- 
ro c ardente amor — tão puro c tão ardente que nem 
eu sei se podéra sè-lo mais ... Ai ! llór da minha 
vida, tão murcha edesfolhada, quem te fará já ago- 
ra reviver?... Bem o podieis vós, minha prima.... 
Oh ! tende dó de mim , que alTronto sem desmaiar 
as lanças e os pelouros da guerra, c que desmaio e 
desfaleço perante vós que inda mór guerra me fa- 
zeis . . . Mas que é isto? supplicando amor eu que 
em troca só lucro desdéns? A que exlremo de bai- 
xeza me desci ! . . . 

E o incansável galan media a sala a passos des- 
compassados , com verdadeiro desespero. A própria 
incohereneia de suas palavras ; seus gestos violen- 
tos , e sobretudo a energia com que fallava , iam 
pouco a pouco movendo a gentil viuva a mais bran- 
dos sentimentos do que alé alli mostrara. Apesar 
de um tanlo leviano na apparencia , o que talvez 
lhe vinha da proniptidão com que tomara suas re- 
soluções, era conhecido por um caracter forte e vi- 
goroso. Ninguém melhor do que elle sabia prose- 
guir elevar acabo uma decisão tomada, e era, por- 
ventura, esta força de vontade que assim lhe arrei- 
gava no coração tão infeliz amor. Primava entre to- 
dos na ilha , que era elle fidalgo entre os de me- 
lhor nome , o valente entre os de maior fama. Go- 
sava de credito e consideração geraes , e tinha as 
qualidades de um bom cavallciro, as quaes nem 
por seus des\arios de todo se haviam escondido aos 
(dhos de D. Isabel, (^om isto, e com tão grande af- 
fecto n'alnia, com aquella paixão desregrada que 
o levara a commetter esses mesmos desatinos, que 
se por um lado eram olVensas , por outro eram pro- 
vas enérgicas, quem resistiria ao arrebaíamenlo do 
seu fallar, aos transportes do seu sentir? 

Entre compassiva o agravada luctava a illuslre 
viuva comsigo , sem acabar em conceder o deseja- 
do perdão, que seria sem duvida seguido de senti- 



o PANORAIUA. 



55 



menlos mai? ternos ainda : pondcr.mdo de ura lado 
o extremo do homem que alli via tão martyrisado ; 
e do outro a memoria do defunto , e os fatiares do 
luundo, cousas qiic pouco a jiouco iriam — deveras 
o cremos — perdendo ora seu espirito a intensida- 
de ; quando rumor alto que soou lá fora , e que á 
maneira de um ccho se espalhou pelo interior , a 
interrompeu nas suas cogitações , era bem raá hora 
liara o infeliz António da Camará , que lá comsigo 
revolvia os mais violentos projectos. Augmentava o 
ruido fora c dentro , e augmentava com ellc a an- 
ciã intima de D. Isabel , que já estava habituada 
aos excessos do cavalleiro, e que alli se via desam- 
parada em seu poder. Submisso fora elle até en- 
tão , mas quem poderia embaraçar tão fogoso cara- 
cter? Xão era bem passado um credo quando um 
pagem bateu apressado á porta da camará. 

a Que perlendeis?» perguntou o cavalleiro com 
modo impaciente , indo ellc mesmo abrir. 

«O ouvidor da capitania acerca-se de vossa mo- 
rada com toda a sua gente , alcaides . meirinhos e 
juizes de todas as villas e logares , trazendo obra 
de 150 homens em sua guarda e auxilio. — Acom- 
panham-nos lambem os servos c homens d'armas 
da Lombada do Arco , fazendo ao lodo irm temero- 
so esquadrão. 

.\ntonio da Camará ouviu tudo com perfeito so- 
cego , e como que um raio de alegria lhe translu- 
ziu no semblante : 

«Não tendes mais que dizer-me? 

«Tenho que pedir as ordens que V. Síercè for 
servido ordenar-me. 

«Ide, dizei que aferrolhem as portas — se o não 
estão já — ao ouvidor : que apparelhem as armas c 
se aprestem para a defeza até á ultima. 

O pagem obedeceu. 

«Ainda bem» bradou elle com grande força ape- 
nas se viu só cora D. Isabel «ainda liem I — Pode- 
rei mostrar-lhes que sou o mesmo homem que era. 
Darei emfim pasto a esta anciã que rae rala. Terei 
armas para quebrar e sangue para verter.» Assomou 
a uma janella donde se descobria o campo por en- 
tre o arvoredo e continuou: «Vinde, vinde, Sr. 
ouvidor , nem todos os vossos esbirros villões pode- 
rão valer contra o braço desesperado de um caval- 
leiro. Aqui . senhora prima , não é já um partido 
desigual. Ha braços e armas de um c outro lado. 
Vou ter homens na frente e uma espada no punho. 

«Vollai-a antes contra mim. 

«Não. — Deus dirá contra quem... 

«Que tentais fazer .' 

«Ser homem. Vinde, senhora, vinde comigo. 

« .\rredai-vos, que vos seguirei. — Aonde me con- 
duzis? 

« A ura sitio em que podereis ver tudo o que vai 
passar-se. 

Nada mais disse.— D. Isabel seguiu-n quasi ma- 
cliinalmenle até chegarem a um alto eirado no ci- 
mo das casas, donde se descobriam todos os recan- 
tos da habitação c todos ^s campos visinhos. Nos 
pateos da casa , e nas salas e camarás, ha pouco 
tão festivas , não se viam senão armas e soldados. 
No campo a hoste do ouvidor , remoinhando como 
um bando de abelhas no seu colmeal, parecia dis- 
piir-se ao assalto. I.á viu ella os seus leaes servido- 
res . de todos os mais activos; via sua irmaã c al- 
guns parentes ; mas viu lambem que os de dentro 
não cediam em força aos de fora , que os animava 
o espirito de seu amo e capitão. Viu erafim que o 
resultado , não podendo deixar de ser fatal para os 



dois partidos, reunia coratudo maior numero de 
probabilidades contra os seus defensores, .\ntonio 
da Camará esta>a a seu lado, calado, apontando- 
Ihe significativamente o espectáculo que aos olhos 
se lhe oíTerecia , c deixando um quasi impercepti- 
vel , mas tremendo . sorriso llorir-lhe nos lábios. 
Passou-sc bre\e pausa. — D. Isabel pondo os olhos 
nelle com senhoril maneira c singular presença de 
espirito, (juc nunca a abandonara , rompeu nestas 
palavras. 

«A quem julgais vós, gentil primo, que uma da- 
ma honesta possa conceder um puro affecto : ao 
que lh'o tentar conquistar com espectáculos san- 
guentos e espantosos de parentes , amigos . e quasi 
irmãos degollando-se á porfia , ou ao que fór capaz 
de \ima nobre e generosa acção , poupando muitas 
vidas e muitas almas? . . . respondei. . . . 

Apoz um momento de hesitação o cavalleiro tra- 
vou da mão de sua prima, que desta vez o deixou, 
e sem dizer palavra desceu á maior sala das casas. 
Chegado alli conduziu-a ao logar principal , c vol- 
tando-sc para um escudeiro disse : 

«Fazei abrir as portas ao Sr. ouvidor. Que ellc 
e suas justiças se sirvam de entrar. 

Pouco depois o ouvidor e todos os seus entraram. 
.Si7i'a Leal — Júnior. 
[Concluir-se-ha.J 



EpITOMF. da VIDi DE LllZ DE CaMÕES. 

{Continuado de pag. 32^. 

.\ssira foi por algum tempo vivendo na ultima in- 
digência a cargo de algumas almas bemfazejas, até 
que a Moçambique aportou a nau Santa Fé trazen- 
do a seu bordo vários fidalgos , e amigos do nosso 
vate. Quiz Luiz de Camões aproveitar a occasião e 
iivrar-se de tal captiveiro , embarcando-se na nán ; 
mas o sórdido governador o embargou por duzentos 
cruzados , pretextando ser a importância das des- 
pezas que com elle havia feito iia>iagem desde Gi"ia 
a Jloçarabique, e sem duvida á sua partida teria con- 
seguido obstar , se por ventura Heitor da Silveira . 
António Cabral, Luiz da Veiga , Duarte de Abreu. 
António Ferrão . Diogo do Couto , e outros cujos 
nomes ignorámos , e que mereceriam ser eternisa- 
dos , não se cotizassem para pagar a divida e de- 
sembarga-lo. Por este til preço , diz Faria , foi ven- 
dida a pessoa de Camões , e a honra de Barreto .' 

Livre das garras do desalmado go\ernador em- 
barcou-se alfim na sobredita nau com os seus ami- 
gos, trazendo em si os Lusíadas, c chegou a Lis- 
boa , depois de dezeseis annos de ausência, de tra- 
balhos , e de relevantes serviços í-^. Dois succcf- 
sos aconteceram porem , que deviam penetrar de 
profunda dõr o coração do poeta , e foram com.i 
corredores ou tristes presagios dos desgostos que o 
es[)era\am. .\quellc seu grande amigo e valedor . 
Heitor da Silveira, fallcceu no mar e quasi á \ista 
dos penedos da serra de Cintra ; e a cidade do Lis- 
boa veio achar abrazada na força da peste horro- 
rosa , que no anno de lo70 a assolava , e que se- 
gundo os melhores cômputos levou perio de seten- 
ta mil almas ' 

Reinava elrei D. Sebastião , ou antes era seu nu- 

(«> Drz a Memoria Histórica e Crilicn acerca Je Ca- 
mões, fallando da náii Sanla Fé: — "Pude aflirniar-se ([Me 
u nunca surrou as au-uas de Porlngal um vaso com carrcga- 
u cão mais rica de fama e gloria para a gente lusilaca. ^' 



i« 



o PANORAMA. 



me reinavam privados, validos e enrcdadorcs, que 
abusando da inexperiência daquelle jovcn monar- 
cha , c da educação fanática que elle rcceljòra , o 
tornaram em seguimento , por um louco amor de 
falsa gloria , victiraa infeliz , causando a sua per- 
dição c a nossa ruina! Com o pretexto da peste fa- 
ziam os validos discorrer elrei pelas províncias , e 
em seu nome , c em sua ausência iam governando 
o reino a seu sabor. 

\estc estado do cousas difficil devia ser a Ca- 
mões o conseguir fallar a elrei, c iuda mais dif- 
ficil agradar a seus ministros c privados , quando 
lhes appresentava em seu |)ocma offerta que encer- 
rava conselhos tão verdadeiros quanto eram ousa- 
dos. Por isso dois annos decorreram primeiro que 
Luiz de Camões pudesse dar á luz os Lusíadas , e 
só era 1372 é que na cidade de Lisboa appareceu 
a primeira edição , dedicada a elrei D. Sebastião , 
(]ue apesar de entregue todo á sua malfadada em- 
preza africana , acolheu todavia benigno a offerta ; 
mas nem por tal pagou generoso ao oflercnte , pois 
consta lhe mandara dar apenas a mesquinha pensão 
de quinze mil réis , com o ónus de residência na 
corte , c encargo de tirar lodos os seis mezes novo 
alvará para a cobrança delia. 

Em quanto os ministros c validos d'elrci , entre 
osquaes se contavam, como principaes personagens, 
seu confessor, o 1'.^ Luiz Gonçalves da Camará, e o 
irmão deste, Martim Gonçalves da Camará, levavam 
este joven monarcha a remunerar por modo tão im- 
próprio (lezeseis annos de bons serviços militares , 
e uma carreira preclara de eminente mérito littcra- 
rio , o publico acolhia a obra com o maior applau- 
so , e ^ingava seu auctor da injustiça dos cortezãos. 
IVem deve admirar que Camões não achasse favor 
e amparo em uma corte onde os sycofantas ha- 
viam podido por suas vis injurias indispor o incau- 
to e inexperiente príncipe contra sua excellente avó, 
que acabaram com desgostos ; e afastar do seu lado 
seu digno aio, D. Aleixo de Menezes, para o pri- 
varem de maduros conselhos. 

.V curte anilava por esses tempos de tal modo 
embevecida na louca e temerária expedição d'Afri- 
ea , que custava sommas immensas , c o povo em 
estado tal de descontentamento, pelos vexames que 
por essa causa soffria , que o nosso poeta viu-se no 
ultimo estado de desamparo como o attcslam as me- 
morias que delle nos restam. E a tão subido ponto 
chegou a sua miséria, pela culpável indilTerença de 
seus compatriotas, que um jáo (::) [por nome An- 
tónio] que elle havia trazido da Índia, corria de 
noite as ruas de !,isl)oa pedindo esmola para sus- 
tentar seu nobre e honrado amo. ,4ssim melhor ava- 
liava esle intiio, mais humano e mais grato do que 
os nacionaes, o mérito relevante de homem tão ra- 
ro c grande quanto infeliz era '. 

Foi por esse tempo , segundo relata o já citado 
illustre c douto editor da melhor e mais nitida edi- 

(::) Jáo, liabilanli; de Java, e iiío Jào António, como 
alguns escriptores modernos erradanienle disseram , tomando 
láo por JoSo ou Juam. O Sr. J. B. de A. Garrett, diu'no 
orD.inienla da nossii moderna li!(er;il»ra , em uma de suas 
melhores producçòes, o [loema Camões, fallandu do bom 
júo . assim se expressa : 

" — Gemido, que ouve perlo , 

O interrompeu. Era o seu jáo , que alHicto 

U escutava. Uo liumildc c pobre escravo 

i) roíar.rio liei se retalhaT», 

D.- (iuri.lu asiim (jueiíar. 

Canto X- p»;. 198. 



I cão que lemos dos Lusíadas (»«), que ura fídalgo 
chamado Uni Dias da Camará , com um egoísmo e 
insensível importunidnde, que move indignação, veio 
ao pobre quarto de Camões, para fazer-lhe queixas 
de que tendo-lhe promeltído uma tradueção dos 
Psalmos penitencíacs, não acabava de a fazer, sen- 
do tão grande poeta : ao que esle respondeu com 
brandura e paciência extraordinárias: — u Quan- 
« do cu fiz aquelles cantos , era mancebo , farto , 
i( namorado e querido de muitos amigos e damas, 
« o que me dava calor [loctico : agora não tenho es- 
(( pirilo , nem contentamento ))ara nada : ahi e.stá o 
« meu jáo que me pede duas moedas de cobre pa- 
« ra carvão, e cu não as tenho para lh'as dar.» — 
Pode fazer-se a comparação entre o jáo , António , 
c o fidalgo. Rui Dias da Camará, c decidir-se qual 
dos dois era mais nobre? 

Nestes últimos annos de sua atenuada vida , a 
sua habitação foi mui humilde quarto de umas ca- 
sas próximas á igreja de St.' Anna , na rua que 
conduzia ao convento dos jesuítas. Dallí ia passar , 
por única diversão, as tardes ao convento de S. Do- 
mingos , onde ouvia lições de theologia moral , e 
praticava com alguns doutos religiosos de sua fami- 
liaridade. 

O ultimo golpe que o coração patriótico de Ca- 
mões devia receber , foi o resultado fatal da expe- 
dição d'Africa. A alma elevada do grande poeta 
succumbiu sob o pczo da dor quando fora informa- 
do da noticia desastrosa. Cercado por todos os hor- 
rores da miséria e do desamparo, e não podendo 
aquella alma , abatida pelo infortúnio , resistir á 
viva impressão da catastrophe succedida em 4 d'A- 
gosto de 1578 , sohreveio-lhe grave enfermidade. 

Conservaram os seus biographos M. S. de Faria, 
e Larbosa .Machado dois fragmcnlos|de cartas cscri- 
ptas no ultimo termo da sua vida. Do primeiro vè- 
se o extremo de miséria a que chegou ; e do segun- 
do co!he-se quanto amava a sua pátria, com aquel- 
la paixão que o animava sempre , c que conservou 
até a sepultura. 

K Quctii jamais ouviu dizer [escrevia na primeira 
carta] que cin tão pequeno theatro como o de um po- 
bre leito , qui:csse a fortuna representar tão grandes 
desventuras ? E cu , como se cilas não bastassem , me 
ponho ainda da sua parte ; porque procurar resisUr 
a tantos males pareceria desaverfjonhamcnto. » 

Na segunda carta dizia : — a Emfim acabarei a ri- 
da , c ve7\io todos que fui tão af}'eií:oado á minha pá- 
tria , que não somente me contentei de morrer nella . 
mas de morrer cum ella . » 

Este mesmo sentimento , o primeiro c o ultimo 
do seu coração , tinha elle já expressado antes , c 
de um modo tal , que não ha na antiguidade amor 
da |)atria , por mais exaltado , que lhe leve a pal- 
ma. Jazia Camões no seu pobre leito de misérias, 
ferido da ingratidão da sua pátria , e do dcsleiío c 
abandono em que seus compatriotas a deixavam , 
quando um sujeito seu coulieeido veio dar-lhe a 
triste nova da malaventurada jornada de Alcaeer- 
quivir, da lamentosa morte d'elrei D. Sebaíitião , c 
do lim funesto (|ue ameaçava a pátria: ao ouvir es- 
tas palavras o moribundo Luiz de Camões , levan- 
tando a cabeça exclamou com pungente dõr : =ao 
menos morro com ella! [Concluir-se-ha.] 

(••) A qne cliama com rasfio o Sr. Bispo tie Viíeu o 
m.iis dijno moniimenlo que podianios alevaidar a memoriai 
de Camòe.H. Kssa gloria coube ao nobre morgado de Mii- 
tbeus, cuja enipreza hade viver na posteridade, como hàw- 
df viver aj ubrat Uo grande poeta. 



61 



o PANORAMA. 



57 



f ''í ;í'.«'.'-¥s- 




TBEATRO SE S. CABZ.OS. 



PORTUGAL. 



xxni. 



O Theatbo de S. CinLoé. 

O THEATEo de S. Carlos , nesla capital , é por suas 
dimensões , conveniente fábrica , e óptimas decora- 
ções , notado como principal entre ns de segunda 
ordem que na Europa se numeram, destinados a es- 
sas representações , que pela musica e canto, e pe- 
lo apparato scenico enlevam os sentidos e conquis- 
tara os applausos dos appreciadores das artes agra- 
dáveis, cujo amor e cultura tanto manifestara o apu- 
rado gosto e civilisação dum povo. As vozes mais 
peregrinas, habilissimos professores de orchcstra . 
pintores abalisados na perspectiva theatral . tem 
conjunctamcnie desde a crearão desta casa propor- 
cionado ao publico lisbonense o gozo de todos os 
delicados encantos da opera italiana. — Reinando 
D. Josél." ouviu a corte a famosa Zamperini e can- 
tores celebres ; mas faltava o edifício appropriado 
á opera , e a illusão magica do perfeito scenario : 
— a dellciencia acabou nos fins do passado século , 
porque uma companhia de opulentos negociantes le- 
vantou o magnifico theatro , que frequentámos ago- 
ra , assentado quasi no foco da concorrência da ca- 
pital, entre o largo do Loreto c o sitio do paço an- 
tigo da Soberana Farailia de Bragança felizmente 
reinante. A companhia compoz-se , como dissemos, 
de poderosos capitalistas, á frente dosquaes se con- 
tavam o barão de Quintella , Anselmo José da Cruz 
Sobral , Bandeira . Machado e outros : deu o risco 
Fevereiro 23 — 1843. 



o archilecto José da Costa e Silva (•) ; e dentro do 
breve espaço de seis mczes se levou a cabo obra 
tão vasta e solida debaixo da inspecção de Sebastião 
Anl(ínio da CruzSoIíral (::) : foi a abertura a 29 de 
abril de 1793 para festejar o nascimento da Snr." 
D. Maria Thcreza , tia de S. M. F. , e então her- 
deira presnmptiva do throno : para esta primeira 
representação foi preciso armar-se um tecto provi- 
sório. 

O edificio appresenta Ires pavimentos na frente , 
que deita para uma praça quadrada, e de sulíicien- 
tc capacidade para o transito das pessoas e carrua- 
gens ; no primeiro é o salão da entrada , que tem 
obra de 90 palmos de comprimento por CO de lar- 
go , e dá serventia á platéa , corredores das frisu- 
ras e escadaria dos outros andares ou ordens de 
camarotes: as três portas do frontispício , que o 
são também do salão, ficam protegidas por um cor- 
po saliente, que forma uma passagem coberta, sus- 
tentada sobre três arcos cm frente das portas e dois 
lateraes , e defendida com sua gradaria de ferro , 

(.) José lia Costa e Silva, archilecto muito instruído, 
foi natural da villa de Povos, estudou em Lisboa encenlia- 
ria e desenlio , e em Bolonlia e Roma a arcliileclura ; via- 
jou por Ioda allalia: recoltiido á palria rogeu a cadei- 
ra daquclla mui nolire arte; foi arcliUecto das oliras reaes , 
e conjimclamenle com Fatiri dirigiu os primeiros trabalhos 
do paço d'Ajuda, para o qual aral>o? deram riscos. Fez 
também [alem do Ihealro de S. Carlos] os desenhos para o 
Palácio e Hospício de Runa: e para o Erário novo, que 
não teve effeilo. Foi académico de mérito da Academia ro- 
mana de S. Lucas. Falleceu de 72 ânuos, no Rio de Ja- 
neiro, em 1819- 

(;:) Vid. Mem. de Cyrillo a pag. 237. 

2,' Serie. — Vol. II. 



58 



O PANORAMA. 



que ha pouco tempo foi cullocada, masque se abre 
como cancellos , em noites de espectáculo. O pavi- 
, mento (lo salão c do cantos de mármore dispostos 
em xadrez branco c azulado : o tecto tem uma so- 
berba pintura do hábil Cyrillo AVolkmar Machado , 
representando o «precipicio de Phaetonte : — a um 
lado está a casa da venda dos bilhetes, e no oppos- 
to a em que se guardam os chapéus de chuva e 
licngalas, e ahi ao pé um botequim : por cima des- 
tas casas, que não tem a altura do salão, ha outras 
duas. com janellas para afrontaria; uma delias tem 
servido de bilhar. — 

O segundo pavimento consta de outro salão , que 
foi destinado para os concertos de musica , c por 
três janellas rasgadas dá communieação para a va- 
randa espaçosa , guarnecida de balaustrada e supe- 
rior ao corpo saliente da entrada : aformoseam este 
corpo central quatro columnas da ordem dórica , 
que sustentam uma cornija geral : sobre as janel- 
las ha três apainelados , cojno se fossem destinados 
a baixos-rclevos , o do meio encerra uma inscri- 
pção latina , que era summa diz que — os cidadãos 
lisbonenses por seu amor c lealdade á Augusta ca- 
sa reinante dedicaram este monumento em 17í)3 co- 
mo testemunho de alegria, pelo liador a herança 
da coroa c continuação da regia prole , que acaba- 
vam de receber por oceasião do feliz parto da Snr." 
I>. Carlota, princeza do Brasil. — Os apainelados 
]atcracs comprehendcm duas eornucopias com o ca- 
duceu de Mercúrio , symholo do commercio. A sa- 
la é adornada com pinturas e relevos , c dois core- 
los, um em cada extremidade, guarnecidos de brin- 
cados ornatos. Contíguos acham-se dois gabinetes com 
janellas de peitos para o largo ; tem servido de bo- 
tequim com entrada distincta do salão.- — 

Altéa-se o terceiro pavimento tão somente sobre 
o corpo do centro: remata em segunda timalha co- 
roada por dois grandes vasos de mármore nos ex- 
tremos , e ao meio pelo escudo das Armas pnrtu- 
guczas : aqui c a casa de pintura de vistas e deco- 
rações scenicas. 

A sala do espectáculo é de forma clliptica : por 
tal arte disposta a platéa cm conveniente declive c 
em relação ao tablado , que o centro é um perfeito 
ponto óptico, e os espectadores gozam cabalmente, 
e de qualquer lado , todas as vislas ; coutétii cinco 
ordens de camarotes , por banda , em numero de 
doze cada uma ; ao todo 120 : a magnifica tribuna 
de Suas Magestades , em correspondência á boca 
do tablado , occupa a altura da ordem nobre e da 
terceira c quarta ordens de camarotes : por cima 
licara as varandas. A platéa adraitte 6Í0 pessoas. 
O arco do proscénio repousa sobro columnada da 
ordem compósita cm cujos vãos estão assentes duas 
estatuas allegoricas. Sobre o arco ha o relógio de 
mostrador transparente e que é allumiado durante 
a rci)resentação. llhimiua largamente a vasta sala 
um lustre rico c de acabado gosto e que em seus 
eristaes reflecte a claridade de cem lumes: ha mais 
(juatro pequenos lustres junto da Heal tribuna. — 

O salão do 'J.° i)avimenlo é mui capaz para bailes 
e banquetes públicos : neile deram os negociantes in- 
.«lezes ao celebre Canning (•») um jantar grandioso 
[a que assistiram alguns dos meml)r<is da KegenciaJ 
nas vcsperas de se retirar de Portugal aquelie mi- 
nistro , que viera por embaixador cm outubro de 
ISl '(.. — Reproduziremos algumas i>hrases njemo- 
rat idas da fa lia que aesla oceasião recitou Canning, 

(••) Vide a IjiographJa ile Jorge Caiiiong a pag. i;9 do 
•t " v<il 1." Serie. , . 



anles de levantar a saudc a Suas Ex."', os governa- 
dores do reino. Fallando da invasão franccza em Por- 
tugal , c da maneira porque a alliança anglo-lusa 
combateu a colossal fortuna de Napoleão , disse no 
meio do seu discurso: — «Portugal não teria podi- 
« do rcstaurar-se sem o auxilio da Inglaterra ; é is- 
« so uma verdade ; mas lambera o é que Portugal 
n foi para a Inglaterra o principal instrumento, que 
« ella empregou , para etleituar a maior enipreza 
« em que a Graã-Bretanha jamais se empenhou '. 

V Nós trouxemos a Portugal conselhos , exercito, 
« disciplina , e valor britannico ; mas nós achámos 
« em Portugal vontade sincera c prompta , braços 
« activos , um governo cheio de confiança , um po- 
« vo valoroso e suífrcdor, dócil em instruir-se, leal 
i< em nos seguir , paciente no meio das privações , 
«ca quem a desgraça não foi capaz de abater , c 
(! desanimar , nera a prosperidade pôde ensoberbe- 
ce cer , c embriagar. 

« O braço da Inglaterra foi a alavanca , que aba- 
« lou violentamente o poder de.Buonaparte ; Portu- 
« gal foi o ponto de apoio em que aquella alavanca 
«se moveu. Inglaterra assoprou, e nutriu o fogo 
« sagrado ; mas Portugal linha já erigido o altar , 
« era que esse fogo se accendeu , e cujas lavaredas 
« subiram, e se propagaram a tal ponto, que o seu 
« clarão foi allumiar o mundo inteiro ! » 



^ í. 



Íí^tó2?áí> 



Meditação. 

JÁ tinha fugido do nosso hemispherio abrilhante luz 
do monarcha dos astros , despedindo-sc de muitos , 
a quem nunca mais prodigalizaria seus raios : suc- 
cedéra-lhe a magestosa uoile , trazendo por gala 
o ( ernleo e matizado manto, no qual as estrellas 
scinlillavam como outros tantos diamantes : o céu 
estava sereno , e esta serenidade causaria no phi- 
losopho , que o contemplasse , uma terna sauda- 
de do que ainda não gozámos , um vchemente dese- 
jo de ver c gozar o que para os h(miens foi crca- 
do ; o crepúsculo havia pouco mostrara, ainda cheia 
de luz , a estrada por onde o brilhante luzeiro ca- 
minhando deixava apoz si uma incircumscripta cla- 
ridade ; agora tudo eram trevas, e se alguma luz 
se divisava , era só no firmamento. Passávamos en- 
tão por esse mosteiro de virgens, que a i)iedade 
de l». Manuel edificou em os dias de sua gloria na 
formosa terra, cujas praias banha o salifcro e abun- 
dante Sado ; I). Manuel , homem na verdade gran- 
de, que juntou sentimentos de bom monarcha aos de 
príncipe verdadeiramente orthodoxo , ainda que de 
todo não fosse isento do espirito supersticioso da sua 
epocha : os maiores génios são ás vezes levados das 
idéas dos séculos em que vivem. Pelas rasgadas ja- 
nellas se divisava aquella magestosa claridade, que 
as luzes fazem de noite no temido do Senhor, e pre- 
sumimos com rasão estarem as religiosas orando so- 
lemnementc ; e não nos enganámos, porque aproxi- 
mando-nos , ouvimos logo o canto melodioso e me- 
lancbolico da psalmodia , que impera mais no cora- 
ção do homem do que quantas harmonias possam 
produzir as mais soberbas orchestras : rccordámo- 
nos logo do canio das catacumbas, onde os fieis reu- 
nidos e(dchrav;im seus oiiicios , apesar dos edictos 
mais severos , onde o incenso subia ao mesmo tem- 
po em (ine as orações iam bater as bases do thro- 



o PANORAMA. 



59 



no do Todo-Podernso , c onde os sacerdotes gemen- 
do , mais com lagrimas do que com vozes , oravam 
pelo poTo. Oh ! E quando foi mais augusto c ma- 
gcstoso o c\ilto da religião do Crucificado?'. Estas 
foram as recordações que lizciiios ao entrar na igre- 
ja do mosteiro , era cujas abobadas resoavam , não 
as vozes mercenárias, que movidas só pelo interes- 
se não ferem as cnpolas do santuário para irem 
acompanhar as orações dos anjos, mas sim as inno- 
centcs vozes de consagradas virgens , que ofTcrece- 
ram ao Altissimo na Uòr de tenra idade seus puros 
corações. 

Vasio estava o templo ; apenas se viam umas cin- 
co ou seis pessoas , que alli tinham sido attraliidas 
só pela devoção , e isto não contribuía pouco para 
a raageslade do logar, livre daquolle tumulto e per- 
turbação . que hoje caractcrisa os grandes ajunta- 
mentos religiosos. 

Protegidos por este silencio percebiam nosíos ouvi- 
dos as vozes das religiosas , que eram outros tantos 
cchos que repetiam o que o rei propheta cantara no 
fervor de suas devoções : que os monarchas, sem se 
des|iircm dos deveres de sua magestade. devem ser 
os primeiros nos exemplos de piedade. Porem o nos- 
so eníhusiasmo cresceu quando ouvimos os psalmos 
de louvor, em que aquellc santo rei cheio de um 
estro divino convida todas as creaturas a louvarem 
o Senhor: foi então que sentimos a mais esperanço- 
sa c terna sensação, e Icmhrando-nos o que o mes- 
mo propheta diz cm um de seus psalmos , dissemos 
em nossos corações : quão formosos são os vossos 
tabernáculos, ó Senhor Deus das virtudes! A minha 
alma se enche de santos desejos nos átrios do Senhor. 
— Em companhia de amigo sincero notámos quanto 
simpathisava a archilectura do templo com a sim- 
plicidade da acção : não se viam alli nem ricas al- 
faias, nem muitos sacerdotes, nem multidão de lu- 
zes ; mas tudo decente , tudo modesto e respirando 
devoção. Quanto ao templo , está longe de igualar o 
de Belém ; mas em sua architcctura mostra que D. 
ilanuel nomeio de suas grandezas, dictadas por um 
génio vasto, também soube amar a simplicidade , e 
que nesta mesma nunca faltava aos signaes caracte- 
rísticos de sua epocha grandiosa. As coluranas do 
templo talhadas degranito, formadas de Ires roscas, 
unidas entre si, e formando um só corpo, foram pa- 
ra nós naquella occasião o mais íiel emblema das 
três virtudes — fé, esperança, e caridade — asquaes 
sustentam o magestoso edifício da religião christaã. 
Em um dos lados da capella-mór víamos esculpido 
o brilhante escudo de gloriosas recordações , e si- 
milhante vista não podia deixar de causar em pei- 
tos portuguezes saudade dos tempos cm que as san- 
tas quinas defendiam religião e liberdade nacio- 
nal , tremulando nas quatro partes do globo. Os 
quadros do grão Vasco , recordando a vida do Sal- 
vador , e que se acham nas paredes do templo , pa- 
rece que nesta occasião se tornaram mais enérgi- 
cos e expressivos; tanta é a força da religiã.o , que 
pôde ser designada como o maior e o mais profí- 
cuo dos estímulos para o progresso das bellas-ar- 
tcs. No meio de tantas considerações, que á simi- 
Ihança das ondas do oceano succediam umas ás ou- 
tras , uma sobre todas se ergueu , e fez maior im- 
pressão : a utilidade da religião foi o que mais nos 
occupou. Porventura , dissemos nós, gozaríamos es- 
tas relíquias, se não fosse a religião de nossos país? 
E o que seriam hoje os povos , se estes monumen- 
tos não tivessem abrandado seus antigos c bárbaros 
costumes? O vós, que erapuuhaes os sceptros e cin- 



gis diademas , ó vós , que cercaes os monarchas c 

sois seus conselheiros , se quereis ronservar-vos , 
conservai illesa a religião do paiz cm que vos a- 
chaes , que nisto tereis o mais firme apoio. Ella , 
|)clo império que tem , doma todas as paixões <ios 
homens , a quem faz depor as armas ante seus ai- ' 
tares: c se porventura alguém momentaneamente fe- 
char os ouvidos ás snas vozes, mais tarde, ou mais 
cedo lhe hade conceder acaliado tríunipho. — Sim , 
a religião é a mais firme base do estado social , e 
ella só, despida das prevenções que um falso zrlo su- 
geriu, pódc elevar os povos ao grau de civílisação, 
que os faz grandes : cila é , por assim dizer , o 
centro d'onde partem todos esses mananciacs , que 
podem fazer feliz uma nação. Honrados cidadãos , 
ministros integorrimus , zelosos militares , pais de 
família inoralisados , esposas fieis , amigos verda- 
deiros , taes são os frnctos que brotam da arvore 
sempre virente da religião verdadeira ; boa fé no 
commcrcio , valor no exercito, amor á vida frugal, 
augmcnto da agricultura , desterro da ociosidade , 
destruição da ignorância , perfeição nas bellas-ar- 
tes , eis os dons preciosos que a religião offercce 
por mimo aos paizcs que a cultivam. 

Taes foram as idéas que por então nos occorreram, 
e tendo sabido reOcxíonámos [attendendo ás inspi- 
rações que dentro do templo sobre nós desceram] 
quanto são persuasivas , quanto são agradáveis ao 
espirito as bellezas do santuário '. 

C. M. P. Salgado. 



O TIGRE. 

CoNFixDEV muitos os leopardos , onças c pantheras 
com os tigres , dando a isso causa o uso vulgar de 
chamarem pcllcs de tigre a Iodas as manchadas 
com pintas diversas : são porem animaes distínclos 
ainda que do mesmo género , e mui communs na 
Africa e cm todas as partes mcrídionaes da Ásia ; 
e a espécie do tigre está limitada aos climas mais 
ardentes da índia oriental , encontrando-se no Ma- 
labar , em Sião e em Bengala. 

È o tigre o segundo entre os animaes carnicei- 
ros , posloque nenhum o iguale cm malignidade c 
fereza : longe da magestade e propensões generosas 
do leão , que de ordinário só acomette avexado da 
fome ou quando provocado , o tigre mostra-se sem- 
pre vilmente feroz e sequioso de sangue, ainda es- 
tando saciado de carne e sobre um montão de vi- 
ctimas ; seu furor não conhece tréguas nem limi- 
tes ; assola o paiz que habita ; não teme as armas 
do homem : degola e destroça rebanhos inteiros , e 
com a mesma sanha despedaça a primeira c a ulti- 
ma presa ; como se anhelára topar resistência vigo- 
rosa investe com elephantes e rhinocerólcs , c ás 
vezes cora o leão. — Na forma do corpo revela a 
ferocidade do ínstincto : — se o porte nobre do leão. 
a espessa juba que lhe ondca no collo , o olhar ou- 
sado e passo grave, annnnciam arrogância e mages- 
tosa intrepidez : o tigre manifesta no corpo esguio. 
rasteiros pés, cabeça mia, olhos ferozes, e língua 
sanguínea sempre fora das fauces, os caracteres de 
sua villania e perversidade insaciável. Por fortuna 
esta espécie cruelissima c rara bastante , e menos 
espalhada que o leão , ao qual excede em volume 
de corpo. 

Os logares onde o tigre de ordinário devora as 
préas , são as beiras de rios e lagos para mitigar 



60 



O PANORAMA. 



nas aguas o ardor que ihe excita a sobejidão de 
>angui; das muitas victimas. 

As matizadas peilcs dos tigres são de grande va- 
lor , principalmente na China , onde os mandarins 
militares usara forrar com ellas os assentos dos pa- 
lanquins cm que saliem a publico : e com cITeito 
pela belleza e disposição das listras e pelo tama- 
nho são dignas de apreço para ricos xairéis de ur- 
cos e ginetes. 



O P.* Manuel Godinho , c^m seu engraçado es- 
tilo anecdolico, refere a defeza de um porco raontez 
contra um tigre c como aquelle a final foi prcado. 
Vcja-se a Ihtação do nui-o ramiiihn que fez por terra 
(' mar , rindo da índia a Portugal o sobredito A. ; 
a pag. 177 da 2.' edição, publicada no anno passa- 
do por esta Sociedade Propagadora dos Conhecimen- 
tos Iteis. i 




O TIG&E 



O Bobo. 
112S. 
YI. 

Como d' um homemzinho te faz um homemzarrão. 

O CONDE de Trava acertara nas suas previsões : o 
ajuntamento da cúria fora longo e tempestuoso. Os 
parciacs da rainha , isto é , aquelles cujo poder e 
ambição se estribava na influencia do conde , pa- 
tentearam ahi , com toda a energia e affecto , a sua 
inabalável li(b'li(ia(le ;i filha d'AITi)nso 6.°, á qual 
elles não pnili.ini quebrar seu preito sem se cubri- 
rem d'o[iprolirio : por outra parte , aquelles que ti- 
uham já poslo a mira em alcançarem do moço in- 
fante as alcaidurias , os meirinhados , as Icncncias , 
c os cargos da còrle, accesos no santo amor da jus- 
tiça, pugnavam para que a elle se entregasse a he- 
rança paterna. Era a lucta da coitxcicncia d'uns con- 
tra a cousciciicia dos outros , combate desgraçada- 
mente trivial em todas as cpochas de <lisscnsões ci- 
tís , e de que só é culpada a providencia por as- 
sim collocar os b.uidos sob o jugo de persuasões 
ojjposlas , c cslrcita-los entre o desejo da salvação 



das snas almas, e a cruel necessidade de serem 
inimigos e perseguidores de conipatricios c irmãos, 
com grande e interior mágoa sua , como nós e o 
leitor perfeitamente sabemos costuma acontecer cm 
taes casos 1 

I)os ricos-homcns, cavalleiros, e clérigos, porlu- 
guezes por nascimento, que ainda não seguiam aber- 
tamente o pendão de AfTonso Ilcnriquez , alguns 
neste momento decisivo mostraram a sua resolu- 
ção lirme de confiar na fortuna de D. Thcreza ; mas 
a maior parle voltava-se para o sol que nascia , tu- 
do por amor da boa terra de Portugal. Entre os 
primeiros, nasviolentas altercações da cúria, se ha- 
viam distinguido os dois infançõcs , Ayres Mendez 
c Pedro Paez : entre os segundos o Lidador , que 
cumpriu o que promcltèra a Marlim Eiclia. Fernão 
Perez viu muitas vezes vacillanles as suas esperan- 
ças, porque os nobres compaidieiros do conde Hen- 
rique, vivendo havia tanto tempo na llespanha, co- 
meçavam a confundir nos seus instinclos políticos 
a idóa das instituições francas com a indole das 
tradições sociaes visigodas, que sempre pre|)ondera- 
ram na Peninsula. A rainha oxpozera as perlenções 
de seu lilho perante os barões: Ycrciuudo Perez, 



o PA]\ORA3IA. 



61 



irmão do conde de Trava , genro da rainha , c se- 
nhor de Vizcu , que viera assistir áqiiella espécie 
de parlamento, tomando a mão . in\ectivára furioso 
contra o iiiraiilc . seu cunhado, e não jioupára fo- 
ros e ameaças contra os parciaes dclle. A cólera do 
Lidador não precisava de tanto para ser excitada , 
e palavras i^'ualmente violentas sahirani da sua bo- 
ta em resposta ás de Vercmudo Percz. Accnsou o 
conde de vexames de todo o género , c ameaçou 
também aquelles que o ameaçavam. l'ouco e pouco 
o tumulto , começado pelos dois , dilatou-sc c cres- 
ceu. As injurias voaram de parte a parte , os fer- 
ros polidos dospunhaes iirincipiaram a reluzir meio- 
arrancados dos cintos , e a sala do conselho ia con- 
verter-se u'um campo de batalha , quando dois ho- 
mens — talvez os únicos — que pelo seu caracter 
publico, c ainda mais pela su.i condição moral o 
podiam alcançar, atalharam as scenas de sangue de 
que os paços de Guimarães estavam a ponto de se- 
rem thealro. (Juasi ao mesmo tempo dois sacerdo- 
tes se alevautaram a pedir tréguas era nome de 
Deus. Era D. Tcllo , arcediago de Coimbra , um 
dclles ; o Outro , Fr. Hilariáo , o bom velho abba- 
de do mosteiro de D.5Iuma, que já o leitor conhe- 
ce. Àquelle dissera muitas vezes D. Thereza que 
assaz grato lhe seria vè-Io bispo da sua sé , a qual 
então se achava orphã de pastor; a este, a predi- 
lecção que sempre mostrara ao seu mosteiro e a 
elle em especial o moço príncipe , fazia crer com 
bom fundamento que não eram vãs de todo varias 
palavras que uma vez lhe ouvira soltar acerca não 
sabemos de que doação , ao santo acisterio de Gui- 
marães , de certa villa ou herdado , com cincoenta 
homens de creação , e seus montes e pastos , fon- 
tes e lagoas , êxitos o regressos. Não os moviam na 
Tcrdade estas circumstancias , que apontámos ca- 
sualmente, a serem, D. Tello inclinado a favorecer 
a justiça da bella infanta , e Fr. Hilarião a justiça 
de .\flbnso Ilenriquez. Pregoava-os o mundo por 
virtuosos : nós ajuntámos o nosso brado ao do mun- 
do. Mas é indubitável que ambos elles estavam per- 
suadidos de que o outro seguia nraa causa má , e 
aOigiam-se profundamente de verem assim a virtu- 
de desvairada e perdida no meio do campo con- 
trario. 

.liguem que subitamente entrasse no logar era 
que se ajuntara aqucUa espécie de parlamento , e 
visse os dois sacerdotes , pallidos c trémulos , pro- 
ferirem palavras de rasão e de paz no meio do tu- 
multuar e vozear dos ricos-homens e infanções, cu- 
jos olhos chamejavam de cólera , cujas mãos con- 
frangidas apertavam os punhos dos bulhões que re- 
luziam já meio-arrancados , attribuiría forçosamen- 
te a sua linguagem melliflua e cheia de uncção ao 
temor de serem victimas indefensas dos brutaes ho- 
mens de guerra , se porventura o sangue começasse 
a correr, visto que nem a cogulla do benedictino , 
nem a garnacha do arcediago, eram apertadas com 
o cinto de couro recamado , que cingia os briaes 
dos cavalleiros , e com que elles apertavam ao pei- 
to , da esquerda a espada , e da direita o punhal. 
Enganar-se-hia , comtudo — quanto a nós — quera 
a taes motivos attrihuisse as palavras dos dois ho- 
mens de Deus. Ainda cremos na virtude dos cul- 
tores da politica : sabemos por experiência que a 
maior parte das vezes as suas expressões são sin- 
gelas , e nascem de crenças mui fundas ; sabemos 
também que as suas opiniões são em geral desinte- 
ressadas , e que jamais é o medo que os incita a 
pregarem a concórdia e a paz. E se isto c assim 



nestes tempos de perversão moral , cora bom lun- 
damento allirmamos que eram puras c generosas as 
intenções daquelles dois ministros do Senhor, n'um 
século em que as doutrinas do christianismo esta- 
vam vivas, o a caridade era fervorosa e sincera. 

K certo , porem , que apesar das diligencias que 
fazia cada um delles para aquietar o furor da res- 
pectiva parcialidade, por muito tempo o alarido 
dos cavalleiros , ([ue se doestavam com bastas e 
grosseiras injurias , cobriu as débeis vozes dos va- 
rões apostólicos. Finalmente foram ouvidos. A re- 
putação de santidade de que ambos gozavam — no 
seu bando já se entende, — porque em epochas de 
ódios civis as reputações facilmente tocam o extre- 
mo da profundeza , mas na extensão ficara sempre 
em metade ; — essa reputação, dizemos, mais ain- 
da que a força das suas ponderações, lizeram pouco 
a pouco asserenar a tempestade. Os ricos-homens, 
infanções , e cavalleiros vieram emfim a uma con- 
clusão rasoavel ; islo é, sahiram d'alli cada vez 
mais aíTcrrados ás suas opiniões , e sem cnncluircm 
nada. 

Um resultado importante produzira, todavia, aquel- 
la assembléa : as mascaras haviam cabido de todas 
as faces : todas as equações politicas estavam resol- 
vidas. Cada rico-homem sabia em qual das hostes 
havia de hastear seu pendão, e cada simples caval- 
leiro a que pendão se havia de unir. A sorte de 
Portugal ficava escripta nas pontas das lanças c nas 
puas das maças d'armas. A cúria ia traçar a der- 
radeira sentença á luz do céu — no campo de ba- 
talha. 

Como se fosse alheio aos acontecimentos daquel- 
le dia, o dissimulado e manhoso Fernão Perez sahí- 
ra da cúria dos barões com o sorriso nos lábios e 
a raiva no coração. iMcára sabendo que o poder da 
rainha, ou antes o seu, qnasi exclusivamente se es- 
tribava no braço dos cavalleiros estranhos, e que a 
fidalguia dos dois condados de Portugal e Coimbra, 
que ainda não erguera o estandarte da revolta, não 
tardaria a seguir o exemplo dos que já se haviam 
declarado pelo infante, .\ttribuia á influencia de 
Gonçalo Meudez da Maia este successo , e o seu 
ódio contra elle linha subido de ponto. O Lidador 
foi, portanto, aquelle aquém neste dia mostrou mais 
prazenteiro rosío. 

l'm banquete esplendido havia de terminar a con- 
vocação da cúria ou cortes. Os graves cuidados, que 
durante a manhã tinham occupado os corlczãos , e 
ricos-homens vindos áquella assembléa, deviam dis- 
sipar-se no meio das delicadas iguarias e das taças 
de vinho escumante. ISa mesma sala d'armas, on- 
de na véspera resssoára o tripudiar do sarau , ia 
restrugir naquella noite o folgar do banquete, mais 
ruidoso ainda , porque nesse dia havia chegado a 
Guimarães grande numero de fidalgos de Galliza , 
que em Portugal tinham prestamos e alcaidarias 
da bella infanta , ou antes de conde de Trava. Os 
vastos aposentos do paço brilhavam com toda a pom- 
pa de um dia de festa na idade media. .\s calças 
de muitas cores , as plumas das toucas dos senho- 
res, os ricos briaes e cotas, onde já a armari.i, que 
as guerras d'ultramar começavam a converter cm 
moda , estreara as suas divisas e bordaduras phan- 
tasticas, davam um aspecto de alegria áquelle con- 
curso , que debalde se buscaria nas reuniões mo- 
dernas, monótonas e tristes em trajos, como em qua- 
si tudo. Pelos eirados c miradouros, pelos adarves 
e torres do castello , pelas frestas e balcões do pa- 
lácio viam-se olhar , gesticular , correr , sumir-se , 



62 



O PANORAMA. 



apparecer de novo centenares de cavalleiros. As es- 
cadas, os pateos, refcrvinm de escudeiros c pagens, 
que subiam, desciam, apinhavam-se e dividiam-se 
em agitação contínua. E o ruido e confusão não se 
limitavam ao castello : as ruas e quclhns tortnosas 
do burgo sussurravam com o perpassar dos homens 
d'armas, dos besteiros , c da pionagem , que se- 
guiam para Ioda a parle os ricos-homens e infan- 
çõcs , cm maior ou menor numero, segundo a gra- 
duarão e poder de cada um delies. Kra este um 
distinctivo de nobreza , que raras vezes o fidalgo 
daquellas eras esquecia, c muito menos quando era, 
como então se dizia , chamado a cas d'elrci. Assim 
nestas assembléas politicas , donde nasceram as an- 
tigas cortes , mais frequentes do quo geralmente se 
crê , a povoação destinada para cilas nficrecia um 
espectáculo de desordem e motim impossível de des- 
crever ; por tal arlc que se inimigos houvessem to- 
mado de assalto a cidade ou villa , onde tacs sce- 
jias se passavam , a alarida não seria maior, nem a 
confusão mais completa ; e a única dilTercnça seria 
quo neste ultimo caso o sangue jorraria em tanta 
quantidade, como naquelle jorrava o vinho , cos 
gritos de dòr e angustia substituiriam os brados e 
risadas convulsas da embriaguez. 

No meio deste borborinho, por toda a parte atroa- 
dor, mas infernal nas salas principacs do paço, era 
notável o cuidado cora que o conde de Trava pro- 
<Mirava não perder de vista o Lidador. Se a alguém 
fosse possível reparar nisso . fácil lhe fora adivi- 
nhar os motivos de similhante procedimento, depois 
do que se passara na cúria, e atlenlo o caracter dis- 
simulado, mas cauteloso, do conde. Era um ini- 
migo que devia causar-lhe sérios receios , e apesar 
das diligencias, que fazia para os encobrir sob ura 
gesto festivo , lá se divisava no seu olhar inquieto 
o susto e a colora que lhe ralavam o coração. 

Assim vigiando os passos'de Gonçalo Mendez, Fer- 
não Perez o linha seguido de sala cm sala , procu- 
rando escutar o que elle dizia nos diversos grupos 
de cavalleiros a que se ajuntava. Mais de uma ho- 
ra havia que o conselho se apartara, o ainda o con- 
de não tinha deixado um instante de o vêr e ouvir, 
quando um escudeiro do Lidador , rompendo pela 
lurba dos fidalgos , se chegou ao seu amo , c lhe 
disse em voz baisa : 

«Senhor, um peão, que alTirma ser chegado ha 
pouco da Tcrra-santa, pertende fallar-vos e ao mui 
reverendo Fr. Hilarião. Diz que vos traz mensa- 
gens de amigos vossos , que ora andam em deman- 
da do santo sepulchro. Um homem de sua reveren- 
cia o busca por toda a parte , e eu vim entretanto 
avisar-vos. » 

«Um peão vindo da Palestina com mensagem a 
mim? replicou o Lidador em voz alia. A fé que me 
parece estranho caso ' Não disse quem o manda- 
va ? 11 

« .\ão , meu nobre senhor: — respondeu o escu- 
deiro — uem eu me esqueci de lh'o perguntar: a 
sua resposta uuica foi que a vós — e só a vós o di- 
ria.» 

u Bem ! — Talvez assim lh'o ordenassem. » 

l'roferindo estas palavras , o Lidador sahiu , en- 
carniidiaiidu-5C para as largas escadas que davam 
para n grande; patco do caslello em frente dos pa- 
ços. 

O coiule de Trava percebera, postoí|ue impcrfei- 
lameule . este dialogo. Lm pensamento do descon- 
fiança liie |)assou pelo espirito , c o seu primeiro 
impulso foi continuar a seguir Gonçalo IMcndcz. Mas 



esta insistência era já demasiada, e podia excitar as 
suspeitas do cavalleiro. Hesitava ainda entre o ir e 
o ficar, quando viu perto de si Tructezindo seu so- 
brinho e seu pagem, filho deVcremudo, e que mui- 
to lhe queria. Deus ou odemonio era quem alli lh'o 
enviava. Ima idéa lhe occorrêra subitamente ao ver 
o mancebo. 

«Ouve cá, Tructezindo — disse elle ao gentil pa- 
gem , accnando-lhe com a mão e sorrindo. 

«Que ordenais, raeu senhor e meu lio? — per- 
guntou Tructezindo, chegando ao conde e cravando 
nelle os olhos, em que se pintava toda a malícia 
possível n'um rapaz da sua idade. 

Fernão Perez affagou-o pondo-lhe a mão sobre a 
cabeça , d'onde se lhe esparziam em ondas sobre 
os hombros os louros e anelados cabellos. 

« Apraz-te , raeu sobrinho , o ver esta grão peça 
de cavalleiros, que muitas vezes se acharam já em 
lides de mouros , e que outras tantas teem ganha- 
do o preço de justas e torneios , e sido proclama- 
dos vencedores por formosas damas, ao som decym- 
balos e trombetas , nos jogos da argolinha e do ta- 
vnlado? Que me deras tu por ser um delies, e cin- 
gires uma espada c adaga?» 

"Dera, meu bom tio — respondeu o pagem — dez 
ou vinte annos de vida para se accrescentarcm á 
vossa, e não vos daria nada. Bem podíeis vós, se 
quízesseis , armar-rae já cavalleiro , como me pro- 
raettcstes para daqui a um anno. Tenho dezesete e 
os dezoito vem tão tarde ! » 

«Por minha alma que respondeste avisado! — 
replicou o conde. — Não quizera eu annos da lua 
vida para ajuntar aos meus, que d'ora avante me 
vem aborridos e trabalhados. Brevemente eu te ar- 
marei cavalleiro :■ — • talvez em poucos dias ao som 
do tinir de golpes em fera arrancada. Basta que a 
paga de minha mercê seja cumprires adicadamente 
o feito de que vou enearregar-te. » 

« Efa-lo-heí de bom grado : — tornou Tructezindo.- 
— Mandai, meu tio, que eu vos obedecerei.» 

n Um peão , vindo de longes terras , buscava ha 
um momento Gonçalo Mendez da Maia e o abbade 
de D. Muma, O cavalleiro e o monge devem ora 
estar com esse mensageiro lá embaixo. Acerca-te 
delies por meio do tropel que flnctua apinhado por 
toda a parle, e procura saber quem é, o que quer, 
donde veio. Escuta lambem , se poderes , suas pa- 
lavras. » 

«E depois?» — perguntou o gentil pagem. 

«Vem prestes dizer-me o que lá se ha passado.» 

Ligeiro como um gamo , Tructezindo desappare- 
ceu. O conde , chegando d'ahi a pouco a um dos 
balcões da immensa sala d'armas, viu ainda o Li- 
dador e o abbade que encamiidiando-sc para uma 
viella, que corria entre os |)aços e o lanço occiden- 
lal da muralha , pareciam atlentos ás palavras de 
um homem , cujo rosto elle não pôde bem divisar, 
porque o levava meio escondido no capuz de um 
aMq)lo zorame de laã parda e grosseira , que quasi 
ale (IS pés o cubria. Perto porem dos Ires viu Tru- 
tezindo , que fingia retouçar com os outros pagens, 
ora Iravaudo-se a braços com elles , ora fugindo 
com gratulcs apupos e risadas , mas girando sem- 
pre , como a borboleta ao redor da fogueira , em 
\(dla de (ionçalo Mendez , do desconhecido e do 
abbade. 

Satisfeito da habilidade com que o seu pagem 
parecia desempenhar a coramissão que lhe dera , 
Fernão Perez voltou-se para dentro sorrindo de con- 
tentamento. Achou-se então face a face com Garcia 



o PANOllAflIA. 



63 



BcrmiiiJcz , tilo triste no aspecto como ncssn ma- 
nhaã o encontrara. Alem disso, iiorcm,.no carran- 
cudo do gesto dava mostras de que ideas mui gra- 
ves o preoccupavam. No seu ar o conde percebeu 
que occorrèra algum acontecimento extraordinário. 

II Preciso de fallar-vos á puridade : — disse Gar- 
cia Bermudez procurando niio ser ouvido dos cor- 
tesãos que perpassavam. 

II Vinde comigo» — respondeu o conde de Trava 
no mesmo tom , e travundo-Ilie do braço. 

À. esquerda da sala d'armas uma pequena porta 
dava passagem para extenso e escuro corredor, em 
rujo topo havia outra porta fechada : o conde tirou 
uma chave , abriu-a , e cerrando-a njioz si , os dois 
cavalleiros se acharam em uma espécie de jarJim- 
sinho pênsil, assentado solire uma alta arcaria, que 
ligava uma das torres do castello com os paços da 
bella infanta. As camarás desta, c os aposentos ha- 
bitados pelas suas damas edonzellas, cercavam por 
dois lados este pequeno terrado cuberlo de flores e 
arbustos viçosos. Um desses engenhos árabes , que 
ainda hoje cobrem o solo da Peninsula e fertilisam 
as nossas veigas e pomares , ministrava constante- 
mente áquelle ameno horto, de um poço profundís- 
simo talhado no rochedo em que repousavam os fun- 
damentos do castello, agua chrislalina, que ao ca- 
hir n'um tanque de mármore sussurrava branda- 
mente. Junto delle um salgueiro copado formava 
uma espécie de caramanchão sobre um banco de 
pedra. Foi para aquelle sitio que o conde conduziu 
Garcia Bermudez, dizendo-lhe: — «Aqui podes se- 
guro fallar. » 

«Acaba de chegar um dos esculcas , que andam 
disfarçados em besteiros da behetria do Gonlingem 
no arraial do infante:- — -disse ocavalleiro — dá re- 
bate de que a hoste rebelde caminha para estes si- 
tios. O velho Egas Moniz de riba de Douro veio a 
cila com cem lanças. São já perto de mil homens 
d 'armas os q>ie D. Affonso capitania. Segundo se 
diz, elle pertcnde dar-vos batalha, c conta com al- 
guns dos senhores da corte que espera tomem sua 
voz : o mui reverendo Marlira Kicha , a quem in- 
cumbistes juntamente comigo de introduzir alTorra- 
damente o mensageiro ao postigo d'ábrego , foi dar 
conta destas novas á mui cxcellente rainhí , em 
quanto eu vos buscava.» 

II Que esse louco mancebo venha, e achará meus 
pendões tendidos no campo. Ahi receberá o preço 
de sua ousadia insensata. Mas cngana-se contando 
com os falsos que nos cercam. Conheço-os , caos 
leacs ! Eu deceparei o collo da serpente .... Gon- 
çalo Mendez ! — Gonçalo Mcndez I • — -cm hora azia- 
ga vieste á corte : em hora aziaga te demoraste '. 
(iarcia Bermudez , a infanta de Portugal , a filha 
dos reis de Leão, acaba de escolher-te para seu al- 
feres : a ti pertence o governo de todos os seus ho- 
mens d'armas. Ao acabar do banquete devem estar 
levantadas as pontes das barbacans , c?tas guarne- 
cidas de vigias , e em cada lanço uma roída e so- 
brerolda. A ninguém é permiltido sahir do recin- 
to do burgo: — nem a mim próprio. Alfcres-mór 
de Portugal, — são estes os mandados da rainha D. 
Thereza : vós fareis que sejam cumpridos á risca I » 

Ao proferir estas palavras, todas as paixões cruéis, 
tençoeiras , furiosas , que ferviam comprimidas no 
coração do conde , se lhe pintavam no demudado i 
das faces , no tremulo dos lábios brancos, nas ru- 
gas profundas da fronte carregada. Depois de um 
momento de silencio , sahindo arrebatadamente do 
caramanchão, |)roseguiu : — - -• 



«Se tendes mais que dizer , dizei-o. .No momen- 
to do perigo nunca hesitei, 'lereis uma resolução 
pnunpta. » 

«Só , que obedecerei pontualmente ao que orde- 
na minha senhora e rainha: — respondeu o novo al- 
ienas. 

Neste momento um vulto appareceu no limiar da 
porta entre-aherta por onde os dois haviam entrado. 
Era o bufão , que olhava fito para o sol que se pu- 
nha , fazendo-lhe visagcns , e cantarolando sem re- 
parar nos cavalleiros : 

«Tu vais-tc : mas voltas. 

« E elles ir-se-hão , 

« E não voltarão? ■ 

«Froilaz ou Kroilão ; 

«Fernando de 'Irava, - 

«E o seu valentão , . 

«Dom Buirão , 

"D'.\ragão , 

«Que de Dulce , 

«Bella Dulce, 

« Quer a mão .... 

"Diabo ! . . . 

Engolfado na sua tro\a D. Bibas, a quem algum 
génio avesso iniiicllíra a escoar-se pelo corredor es- 
curo e a entrar no jardim, voltara de repente a ca- 
ra e dera ao pé de si com os dois cavalleiros , que 
o escutavam. 

«Que dizias tu de Dulce, bufão? — perguntou o 
conde com gesto severo , e lançando de relance os 
olhos para Garcia Bermudez. 

O bobo leu no aspecto de Fernão Pcrez , que se 
achava n'um daquelles trances arriscados , em que 
as suas injurias em vez d'applausos só lhe acarreta- 
vam maus tratos. Todavia o dito estava dito. Poz-se 
a mirar os balegões dos cavalleiros: eram de pellc 
de gamo , e de sola delgada , revirados na ponta 
em compridos bicos, segundo a moda do tempo. 
Fez rapidamente o seguinte dilemma : ou a extre- 
ma ousadia me salva, ou o que já disse me perde. 
Em todo o caso , preso por mil , preso por mil e 
quinhentas. Avante! — E fazendo uma profunda cor- 
tczia , respondeu : 

«Dizia esta humilde creatura que vós, mui nobre 
D.Garcia, sois parvo cm perseguir com vossos ridí- 
culos amores a minha boa Dulce , e que vós , se- 
nhor conde de Galliza , nos faríeis especial mer- 
cê em irdes visitar as corujas do vosso castello de 
Pharo ...... 

« D. Bibas ! » — interrompeu o conde. O bobo con- 
tinuou : 

«Deixando, com os vossos gallegos brulaes, ecom 
os vossos aragonezes estúpidos , os nobres paços de 
Guimarães aquelle que os herdou de seu pai, o tio 
Henrique, antigo truão de minha corte ...» 

«D. Bibas! — atalhou de novo o conde, cuja có- 
lera tiniia chegado ao seu auge. sorrindo ferozmen- 
te — os que te enviaram para me dizeres o que el- 
les guardam nos corações covardes , esqueceram-sc 
de vestír-te um saio de malha bem estofado ! . . ;» 

Neste momento abriu-se uma das portas dos apo- 
sentos da bella infanta, e o capellão Martim Eicha, 
acompanhado de dois donzcis, de D. Thereza, diri- 
giu-se para o conde : 

« Senhor de Trava — disse o reverendo cónego — 
a rainha quer immedialamente fallar-vos.» 

«Eu ia pedir isso mesmo — respondeu o conde. — 
JJas antes de partir quero mostrar a traidores, na 



64 



O PANORAMA. 



|>uuição de seu mensageiro , que lambera sal)erei 
puni-los. Donzcis , arrastai este miserável daqui , e 
♦■nlregai-o ao villico do castcllo, que o mande açoi- 
tar pelo mais robusio dos meus cavalleriros , até 
que o sangue lhe brote das costas , como da lingua 
vilissima lhe brotam insolências alheias. » 

(J pobre D. liibas tinha errado completamente o 
dilemma, por não mcller nelle os tagantcs ou tiras 
de couro críi com que se castigavam os homens de 
creaçiio, c que clle nunca provara. Posto que já com 
Toz tremula, tentou ainda uma bufoneria, e atirando 
ao chão aquelle seu vulto de [lipa poz-sc a gritar : 

« Não , que cu não vou ! » 

« Donzeis, obedecei! — bradou o condo, encami- 
nhando-se para os aposentos da infanta. 

D. Bibas desenganou-se então de que o caso era 
serio. Dando largas ao temor, arrastou-se apoz Fer- 
não Perez, exclamando com todos os signaes de vi- 
va ainicção : 

" Piedade , senhor conde ' — Proraetto ...» 

O conde desapparccèra. 

«Levai-o , donzeis! — disse o novo alfercs-mór. 

«Também vós, Garcia Bermudez? Não! não! 
\'ós salvar-me-beis destes ...» 

íiarcia sahira pela porta fatal do corredor escu- 
ro , que fora a perdição do bobo. Só ficara alli o 
cónego de Lamego , que parecia observar como os 
donzeis executavam as ordens do conde. 

Estes , do feito , tinham posto mãos violentas no 
roliço vulto do respeitável D. liibas , e travando- 
Ihe cada qual de seu braço se assimilbavam a dois 
mastins , pouco dispostos a largar a prèa. O bufão 
cora voz truncada de soluços accorrcu-se então a 
ténue e ultima esperança que lhe restava. 

«Assassinos malditos, deixai-me ! — gritou clle 
dando um empuxão aos dois mancebos que levou 
apoz si. E agarrando-se á garnacba de Martim Ei- 
cha com toda a anciã do susto e da desesperação , 
começou uma ladainha de supplicas : 

« Boiíissimo o reverendissimo senhor capellão- 
mór, que vossa virtuosa reverencia valha a ura mi- 
serável jogral, que a terra d'ante vossos pés beija ! 
É dos caridosos e de grande coração perdoar aos 
que os offenderam. Eu tenho peccado contra vós. 
Peccavi! Estou contrito. Conhilus sum ! Pedi por 
mim, santissimo e venerabilissimo padre. Ninguém 
m'incitou para dizer o que disse. Foi o diabo que 
me tentou. Abrnniiitio ! Podeis assevera-lo a meu 
jllustre senhor , o nobre conde de Trava ! . . » 

«Filho — respdudeu Martim Eicha , fazendo um 
ademan entre hypocrita e d'escarneo — o castigo é 
muitas vezes caminho para o arrependimento. Ue- 
signa-le , meu filho. Sc nisso não houvera vanglo- 
ria , dir-te-hia que no solTrimento d'injurias podias 
apprender de mim a ser resignado.» 

Proferindo estas palavras , SIartim Eicha alcan- 
çara soltar o vestido das mãos do bobo , e com um 
sorriso de vingança satisfeita seguira os vestígios 
do conde. 

D. Bibas perdeu a derradeira esperança. 

Então o excesso du terror e da desesperação pro- 
duziu n'aquelle espirito , onde por annos se desen- 
volvera e alimenlára constante irritação, uma des- 
tas revoluçctes mora<ís cm que, no meio de tormen- 
tosa crise , o homem se transmuda em outro ho- 
mem. Ergueu-sc , e com gesto desvairado bradou: 

« Está bom ! Ninguém se compadece de mim ! 
Serei açuutado como ura vil servo judeu ! O bobo 
receberá essa alTroiitosa pena ; mas elle se conver- 
terá n'um demónio ...» 



Neste ponto Martim Eicha, que crusava o limiar 
da porta, voltou os olhos e fitando-os no bufão deu 
uma risada. 1). Bibas proseguiu , cerrando os pu- 
nhos , e mordendo-os : 

«Bis, vil renegado?! — Eis, alcaiotc pacciro?! 
Um dia virá cm que chores! .... Va)nos, escra- 
vos ! — X risca as ordens do conde covarde ! » 

Dizendo isto o bolio , com passo firme e no meio 
dos dois donzeis, que nunca o haviam largado, a- 
travessou o corredor escuro. D'ahi a pouco , era 
um paleo interior , ouviam-sc-lhe os grilos doloro- 
sos por entre o som dos açoutes, e apupos e garga- 
lhadas de pagens , sergentes , e cavalleriços. 

• (Coníiiiuar-se-ha). 

(A. lltrculanoj. 



íSoíanica. 

■ - TinARA D.A TERRA. 

[Liii. Lycopcrdon tuber.] 

A TiBARA não tem raizes , e nasce debaixo da ter- 
ra ; é trigueira , redonda , solida , áspera ao tacto . 
e cheirosa. As sementes estão escondidas em cellu- 
las nomeio da substancia polposa. Nospaizcs quen- 
tes, e nos terrenos sêccos , e areentos é que com- 
mummenle se acha esta espécie de tortulho , sem- 
pre escondida debaixo da terra. «Como os porcos 
são muito ávidos , e gulosos desta jjlanta , diz Bo- 
raare , quando a acham foçando a terra , dão logo 
a conhecer a sua boa fbrt\uia pelos seus grunhidos 
de contentamento. Esta indiscrição adverte o guar- 
da , que sempre os espreita e corre logo , afasta-os 
ás pauladas , c reserva este achado para as mezas , 
aonde se ajuntam paladares mais delicados. Tam- 
bém se podem reconhecer os sitios , cm que ha Ili- 
baras debaixo da terra, quando olhando borisontal- 
mente sobre a superficie , se vêem voltejar voando 
por cima de ura terreno leve , fendido , e grelado , 
enxames de pequenas moscas produzidas pelos bi- 
xos que sahi:'am das túbaras, e que lá tinham sido 
depositados por outras moscas similhantcs, no es- 
tado de ovos. Em setembro , ou outubro é que se 
colhem as túbaras.» Elias são um guizado delica- 
do, mas pouco sadio, e quente. — Em vários sitios 
doAlemtejo se encontram com frequência estes sin- 
gulares fructos , que não revelam pela vegetação á 
superficie da terra a sua existência. 

Sargaço do mar , ou rotilhão. 
[Lin. Fticus vcsiculosus.J 

Este género c numeroso em espécies , que são as 
verdadeiras algas , que nascem no fundo do mar. 
Os sargaços são de substancia ou membranosa , ou 
gelatinosa , ou carnuda , ou coreacea , ou cartila- 
ginosa : a maior parle são ramificados cm forma de 
arbusto levantado; alguns se arrojam pelo chão , 
ou estão deitados em lórma de lamina , ou de be- 
xiga ; sobre as folhas do maior numero se elevam 
tubérculos cm forma de bexigas fechadas, maiores 
ou menores , mais ou menos redondas. Suppõe-sc 
que estas bexigas estão sempre cheias de ar, e que 
sustentam em pé a planta, ou a fazem boiar. .l(/((n- 
sun presume que estas vesículas são as llores fê- 
meas. Estas plantas na agua , ou logo que sahera 
delia , tem a còr de azeitona , mas fazcm-se pretas 
quando scccara. Das suas cinzas tira-se soda ; os la- 
vradores hábeis formam cora ellas excellcnles es- 
trumes. 



62 



o PANORAaiA. 



65 




MODO SE CAaaEGAa o CAMEEX.LO ABABE. 



O cAMELLo é uma dadiva de grão preço , que Deus 
liberalisou ao homem nos climas orientaes , onde 
faz serviços mais vantajosos que outro qualquer ani- 
mal domestico : de tempo immcraorial o amansa- 
ram , como consta dos livros santos. Manso e sagaz 
como o elephante , dócil e meneavel como o cavai- 
lo , mais forte que o boi , c mais seguro no passo 
que as outras bestas , constitue não poucas vezes 
toda a riqueza de uma familia árabe : dá leite em 
abundância como a vacca e de boa qualidade : a 
carne quando novo é tenra como a de vilella : tem 
pello ou laã superior ás melhores de carneiro ou 
cabra : e afora tudo isto é dotado da extraordiná- 
ria propriedade de jejuar uma semana inteira sem 
ao menos beber , caminhando por desertos e char- 
necas com sete ou oito quintacs de carga e um ho- 
mem sobre o costado. Os ermos estéreis da Arábia, 
os tisnados areaes da Africa seriam totalmente im- 
praticáveis , e muitos paizcs do oriente privados de 
comraunicação , se o Creador não houvera provi- 
denciado dando-lhe fartura de caraellos e dromedá- 
rios, de tão maravilhosa estruclura, adaptada a es- 
sas regiões : não é o piso d'areia solta para animaes 
de casco c unha: por isso o pé do caraello c reves- 
tido de uma pelle grossa, callosa e flexivel, que lhe 
facilita andar desembaraçado pelos areiaes movedi- 
ços e do mesmo modo por trilhos escabrosos. — Pa- 
eiente ajoelha ao mandado de seu dono , e levanta 
contente a carga que hade conduzir durante cem a 
duzentas léguas sem neccsiíidad« de látego ou aci- 
Marco 4—1843. 



cate ; e quando a fadiga lhe desalenta o passo, bas- 
ta uma cantarola alegre do árabe que o guia para 
reanima-lo ate o termo da jornada , e ahi torna a 
dobrar os joelhos para que o alliviem do peso que 
trouxera ; recebe por único alimento um troço de 
torta de cevada , e quando este escacêa sem elle 
passa e sem beber oito até dez dias. — Afora os 
quatro estômagos que tem todos os ruminantes , o 
eamelio possue um ventriculo espaçoso , que lhe 
serve de cisterna para guardar a agua que ha mis- 
ter no trajecto pelos desertos; e quando precisa de 
alguma humidade para macerar o diminuto alimen- 
to , que lhe ministram , contrahe os músculos que 
rodeiam esse deposito d'agua , e despeja no estô- 
mago da digestão a quantidade necessária : tem vi- 
da dilatada e pouco sujeita a enfermidades. Aquel- 
la agua , assim reservada , não se corrompe com o 
calor vital , nem se mistura com algum dos suecos 
do corpo do animal , conservando-se pura , doce , 
e salubre. Nesla disposição orgânica , bem como 
em todos os phenoraenos naturaes, admirará o con- 
templador os profundissimos desígnios da providente 
Omnipotência de Deus, que assim regrou todas as 
cousas adequadamente aos fins para que as creára 
e aos logares em que as collocou. 

Ha duas espécies de camcllos : — uma que tcni 
só uma gibba ou corcova , como o que na gravura 
antecedente está figurado , e esse i o verdadeiro 
camello árabe , a que vulgarmente chamara drome- 
dário ■ — «ulra tem duas gibbas no lombo, e lhe 

2.° Serib. — Voi.. 11. 



66 



O PANORA3IA. 



l:o 



clianinra camollo Ijaclriano. Os asiáticos c africanos 
appcllidam geralmente dromedários a toilos os ca- 
ir.cllos destinados para montar , sem distincrão de 
espécie mas só da maneira de os crear. Pódc fa- 
zer-sc a seguinte compararão : os de carga empre- 
gados nas caravanas servem como os nossos cavai- 
los pesados de liro , e os dromedarics como os ca- 
vallos de posta ou de caca. Um correio ou drome- 
dário faz por dia mais caminho que o camello de 
cnrga : as jornadas das caravanas regulam a seis 
léguas, e as de um postilhão são de (juinzc a vin- 
te ; sem embargo ha alguns camcllos d'cxlraordi- 
naria ligeireza. Ura mancebo de Susa andava na- 
morado de uma dama caprichosa , que ora muito 
a[)aixonada de laranjas ; pediu cila ao ani.inte que 
lhe trouxesse algumas de Marrocos , distante dnlli 
io léguas, c onde se criam as melhores de Africa ; 
o galau montou o seu camello ao despontar a auro- 
ra , foi em busca das fruclas cobiçadas , e por noi- 
te teve a satisfação de presentear com cilas a linda 
moura . 

Quanto ao modo de adestrar os camellos para se 
baixarem a receber carga e crguereni-se com cila , 
3Ir. Brue allirma que ao camello recem-uascido os 
mouros atam logo os pés por baixo da barriga, lan- 
çam-lhe um pano sobre o lombo e o carregam com 
pedras para assim acostumar-se : pelo quo respeita 
ao peso com que podem os camellos, concordara os 
viajantes que é de seis a oito quiiitaes. 

O alimento destes animacs é como dissemos pouT 
CO dispendioso : uma torta de farinha de cevada , 
um punhado de dátiles [tâmaras] ou de favas basta 
para manter ura camello lodo o dia ; alem de que 
lios campos costumam pastar carças e abrolhos; não 
havendo matto que rejeitem. Teem dois dentes in- 
cisivos mui fortes na queixada superior , c entre os 
seis molares da mesma ha um de forma torcida que 
pôde considerar-sc como preza ou cnlmilho ; ua quei- 
xada inferior teem outros dois dentes incisivos o os 
molares pontagudos e encurvados : deste modo s,"io 
armados de um rijo apparulho para cortar , despe- 
daçar e mastigar qualquer substancia vegetal por 
furte que seja , ao mesmo tempo que ó appropriado 
para pascer a relva c comer os talos mais delicados 
das plania.s , porque tendo o beiço superior racha- 
do podem agarrar como se fosse com tenazes os re- 
bentões das arvores e leva-los á boca com a maior 
facilidade : — n'uma palavra , tanto ao camello se 
dá de achar feno macio, como .silvas e carças, tudo 
come bem , e de tudo fica satisfeito. 



.Bem ookher e mal fazer. 

(Meinoiias insuL-iuas. } 

= 1331 = 

[Concluxão. ] 
Mal fazer.' 



. ir,:-. 



■ " ■• .1 NSo .«e i;.Tuhain Inila.t 

•■í •-,'. A's barbas eiicliijhis. 

' ■-■■,:■ :. ' ■ ... . ;, ■, iJi'/""- 

Eba peia volta da meia noite. Dormia quasitudo 
nau casas de Micer Kstevam Jísmeraldo , o marido 
de I). Águeda , que lá pelo reino se andava , e so- 
mente as atalayas vigiavam ."uidadosas , que muito 
se arreceiavam do que poderia acontecer, e tinham 
Uc vellar por uma luzida companhia. A habitação 



do genovez dera por uma noute gasalhado ao ouvi- 
dor e justiças da capitania, cora suas guardas e of- 
ficiaes, e á illustre viuva com seus servos c escu- 
deiros. 

Fora o caso que D. Isabel , apesar de mui cora- 
raovida pelos excessos de seu primo , querendo so- 
bretudo salvar sua fama , c desejando guardar-se 
fiel a seu marido defunto , apenas vira o ouvidor , 
a ellc e a sua irmaã se entregara, dizendo que da- 
qiiella habitação a levassem ; e assim foi feito sem 
que António da Camará o impedisse ; tanto o furor 
de se ver desta arte de novo zombado o deixara 
petrificado. — Aquella sua moderarão porem não 
era mais que uma pausa de tormenta , que devia 
renovar-se mais furiosa. 

Bera quizcra D. Isabel ir pernoitar na capitania, 
que SI) alli se julgava segura; mas por não cami- 
nharem de noute, arriscaudo-se assim a serem mais 
facilmente sorprehendidos polo int^itigavel e furioso 
cavalleiro , força lhes foi ficarem nas casas de sua 
irraaã , também como as outras apparelhadas para 
qualquer inesperado attaque. 

Era pelas horas que dissemos , e as atalayas vi- 
giavam bem alerta. Repousavam todos nas casas, e 
a natureza , placidamente dormida , apenas se sen- 
tia resfolgar nos suspirosos rumores da noite. Subi- 
tamente sussurro longiquo , mas que se approxima- 
va gradualmente, feriu a attenrão das atalayas. Em 
pouco, todos os que vestiam armas, se achavam 
prestes ; e era tempo , que ás portas lhes batia já 
António da Camará , com fora companhia de seus 
servidores e amigos , com muita c mui guerreira 
gente da Ribeira-brava , Ponta do .Sol e Calheta , 
entrando nisto bom numero de fidalgos c cavallei- 
ros , bem vistos era guerras , trazendo todos copia 
de mantimentos, e dois falcões pedreiros; como que 
se destinava a tomar exemplar vingança , derriban*- 
do e arrasando quanto lhes fizesse obstáculo. 

Tlcsperl.ira com todos a perseguida senhora , que 
nem por perseguida era menos amada , o em quan- 
to sua irmaã maldizia o causador de tantas inquie- 
tações e ta:. tos males , rnmo os que de certo iam 
haver , encaminhava-se ella ao logar mais elevado 
das casas para que podesse presenciar, o porventu- 
ra remediar, o que nem todos os lamentos ou pra- 
gas remediariam. ISão a movia ódio contra seu pri- 
mo , que já cila lhe avaliara a alma grande, e a si 
mesma se achava culpada, pagando sua generosida- 
de com tanta ingratidão , movia-a o desejo de evi- 
tar sangue e ruina. 

Quando ella chegou ao alto já o combate princi- 
piara. Retiniam as armas insoHVidas. Praguejavam 
horrendamente os combatentes , vozeavam e amea- 
çavam. Era uma vista do inferno. No meio da gri- 
ta medonha o do tremendo revolver , arremerar c 
faiscar das armas, troavam os dois falcões vomitando 
chanimas e fumo , e levando o estrago ás abaladas 
paredes da casa. I). Isabel prostrou-sc de joelhos 
na presença desta scena espantosa. Elrvou-se men- 
talmente a Deus, e arguiu-so a si mesma do que 
via e ouvia. Tremeu pela primeira vez e ficou, su- 
blime naquclle momento , assim collocada acima 
das destruições , que já não valia a evitar , orando 
como anjo de paz no seio dos furores da tempesta- 
de. No mais ardente da peleja viu-se um cavalleirn 
tomar uma hacha antiga das mãos de um peão, en- 
caminhar-se á porta principal e amiudar os gol|)os . 
apesar dos pelouros c garruchas que sidirc elle cho- 
viam; com braço tão valente (|ue a porta em breve, 
estalando e saltando de seus gonzos , abriu franca 



o PANORAMA. 



67 



entrada. Nada parou na frenlc do temerário peleja- 
dor. A espada substituíra a liaclia , e por onde a 
espada passava abria-se diante dollc amplo cami- 
nho, r-hamar-lhe-hicis voluntariamente um como an- 
jo exterminador. Correu assim todas as casas e por 
fim dcsappareceu á maior parle das vistas. 

Entrevíra D. Isabel o aconlorido , mas tão rápi- 
do se passara que ainda ella orava , e ainda cogi- 
tava em quem fosse o arrojado combatente, quando 
esle lhe appareceu ao lado com a espada ensan- 
guentada na mão. todo o asperlo, os olhos e a fron- 
te indammados de guerreiro ardor. Não era o no- 
cturno e insensato galan ; não era o amante , ora 
quebrantado . ora furioso : era vietorioso campeão 
em lide perigosa ; era a melhor ílúr dos cavallciros 
insulanos; era um hnmcui , quasi um heroe; era 
António da Camará. Ao ver a linda viuva prostra- 
da , cora os olhos húmidos c o coração nos lábios, 
debaixo daquellc puro e recamado céu , cm tão 
pias e mclancholicas horas, aovc-la superior ao crú 
espertacnlo que lhe ellc viera dar, sentiu cahir-lhe 
todo o furor, esqueceu tudo e só viu que felicida- 
de haveria no mundo para quem possuísse tão en- 
cantadora crealura de Deus. — Tomou a espada ven- 
cedora foi depò-la aos pés da nobre viuva , e com 
branda e resignada voz , q\ie ninguém esperaria de 
tão rude guerreiro, assim lhe faltou, um tanto quei- 
xoso. 

«Ei-la, senhora — esta que a todos fez dobrar , 
ei-laque só perante vós se dobra. Anciava porachar- 
vos . . . Corri tudo . . . achci-vos em fim. Assim pa- 
gais . formosa prima , quanto por vosso respeito se 
faz. Dizei-mc lambem agora , D. Isabel , quem jul- 
gais vós que possa melhor merecer de Deus c dos 
homens, dos que dormem para sempre nas suas ar- 
maduras de ferro, ou dos que vellam nos caminhos 
da vida ; quem, a que por eégo caprixo ccrcéa tan- 
tas existências , ou a que apenas com uma palavra 
sua dá paz e socego a quem socego e paz só por 
ella arrisca e barateia — dizei-o? Vedes, senhora, 
alé aijui não passou de estrondo e roncarias de lon- 
ge ; o verdadeiro combate vai agora principiar. — 
Alli nesse terreiro se disputará a entrada. Aèdes , 
lá começam a involver-se. Embatem-se como ondas 
fervendo , topam-se , malham , derrubam , cabem , 



tempo ainda 
. atalhai-os . . 



n Ala- 
tomai 



likisphemam . . . É tempo, 
Ihai-os . . . Deus do céu . 
era troca a rainha vida. 

«A vossa vida . . .? ' > - 

«A minha mão .... 

«Enganais-me como até aqui? . . . 

«Não , não . . . este momento é decisivo e solem- 
nc . . . Por minha mãi e meu pai . . . pelas cinzas 
de meu marido . . . por esta hora e pelo céu .... 

« Basta .... 

■< Ide Jtcu Deus guiai-o I . . . » 

- António da Cnmara tinha já desapparecido. 

Minguem se lhe oppoz . que todos estavam em- 
penhados em renhido coiifliclo disputando a entra- 
da. Chegado ao meio dos combatentes a sua presen- 
ça dissipou tudo com gesto auctorisado . abriu ca- 
minho por entre uns e outros. . . . Seguia-o anciosa 
com as vistas D. Isabel lá do seu terrado. O que 
elle disse não ouviu cila, mas derramou n alma em 
sinceras graças quando viu o combate cessar eabra- 
çarcra-se todos em boa amisade. — Nunca tamanho 
pesar a opprimíra ! 



Alguns mezcs depois o nosso antigo conhecido, o 



incorrigível Fernão, cclel)rava, reunido com seus ca- 
maradas, o feliz consorcio de sua ama a muito no- 
bre c poderosa senhora D. Isabel de Abreu, com 
o muito alto e muito honrado cavallciro , António 
(ionçalves da Camará. 

« A saúde de nosso amo novo. — dizia clle empinan- 
do um venerando cangirão que de mão em mão cor- 
ria — « E de quem [accrescentava com certo sor- 
riso de vaidadej e de quem sempre disse que nis- 
to viriam a parar todos aquelles dares e tomares.» 
(' Bofe — continuou depois de breve pausa, passan- 
rlo para diante o cangirão e levando a mão á face 
aonde lhe licára duradoura memoria de um bom 
jilvaz, que um escudeiro da Lombada daserrad'A- 
gua lhe pregara no altaque daS casas do genovcz — 
bofe que sempre me lembrarei daquella certa noi- 
te ., . 

«Esse não tínheis vós previsto, Sr. Fernão.» — 
Observou d'alli maliciosamente ura dos companhei- 
ros. 

«Se não previ isso , posso ainda prever que ten- 
des todos os merecimentos , Sr. chocarreiro , para 
serdes pendurado d'um sovereiro , exactamente co- 
mo o cacho pende da parreira.» 

Uma gargalhada geral respondeu ao violento sar- 
casmo do escudeiro , que ficou roxo do vinho c de 
cholera , e que apesar do tudo se conservou sem- 
pre , sem emenda , dando novas e calculando pro- 
babilidades. 

A cada qual sua sinal 

[Silva Leal — Júnior. J 



O ARCO DE Lara. 



Na estrada que vai de Barcelona a Tarragona , a 
três léguas de distancia desta ultima, acha-se o ar- 
co de Bara, fragmento dos muitos monumenios que 
a dominação romana erigiu naquclla parle d'Hes- 
panlia , sendo talvez a comarca tarragonense onde 
o povo rei ostentou mais a sua magniliccncia e po- 
der , não só por ler encontrado fidelidade e af- 
feição nos habitantes, como porque foi essa a prin- 
cipal porta de sua entrada nas Hespanlias. e o and 
central da vasta cadeia que imia Koma com a nos- 
sa península. 

Não obstante a muila deteriorarão que no arco 
de Bara causaram os ultrajes do tempo e dos ho- 
mens, pôde affirmar-se que é digno de altenção , 
por sua formosura, simplicidade e boas proporções : 
— tão pouco tem sido o cuidado em o conservar 
que a parte , que diz para o nascente e costa ma- 
rítima , está quasi inteiramente arruinada , dcsap- 
pareceu toda nma columna e do mesmo modo gran- 
de porção da imposta em todo o arco : a inscripção 
já em tempo do celebre antiquário D. António An- 
gustin eslava tão apagada que mal se podia ler ; os 
capiteis das coluninas quasi que se não distinguia 
a que ordem pertenciam. 

A obra é toda de cantaria ; tem em cada frente 
sobre o sou socco quatro columnas da ordem co- 
rinthia , duas a cada lado do arco : na cornija lia- 
se uma inscripção que [segundo a interpreta o P.'' 
Flores, no tom. 23.° da Esp. saqroda] dizia — ter 
sido cmisaçirado por tcstammlo de Lncin JJcinio Sii- 
ra , filho de Lúcio da tribu Scrqia. Este Sura foi 
Ires vezes cônsul em lempo de Trajano durante os 
annos 102, 104, 107; pelo que o monumento con- 
ta obra de dezesetc séculos d'existencia. Nada se 
tem alcançado ao certo sobre o motivo da sua crcc- 



C8 



O PANORAMA. 



rão, não passando de conjecturas mal fundadas quan- 
lo a sirnilhante respeito se tem dito; igualmente é 
ignorada a etvraologia do nome de Bara. 




AKCO SE BARA. 



Os maus, como os bons, tem sempre por fira o seu 
maior bera : mas os primeiros esperam consegui-lo 
mais brevemente com damno dos outros ; os segun- 
dos cora segurança e sem risco, zelando e promo- 
vendo o bera de todos. 



ITBSHOIsO©!^. 




UMA GRANDE VIRTUDE. 

OiTANDo a intclligencia e a perseverança; estes dois 
inslrunienliis das maiores o mais formosas obras hu- 
manas, meneados pelo individuo que em grau emi- 
nente os possiie , produzem o famoso capitão , o le- 
gislador illustre , ou o grande homem da arte ou 
da sciencia , e quando esse individuo depois de 
preencher a sua missão singular na terra vai repou- 
sar das lidas humanas no logar onde só ha paz e 
dcscanço — as soledades do sepulchro ; a historia 
rcgistn-lhe o nome nas suas paginas brilhantes , e 
os ânimos generosos que licam apoz elle no dester- 
ro da vida, e que vão continuando o sempre pro- 
gressivo e sempre incompleto edilUio do idéas e fa- 
ctos', chamado civilisacão , saúdam este nome, cc- 
Icbram-no, repetem-no, depõem ante clic todos cs- 



' ses pobres tributos de gloria , qne o presente paga 
pontualraenlc ao passado para o haver do futuro. 
O homem dislincto , no termo da sua carreira , le- 
gando á terra o pó que recebeu da terra para se 
encorporar no immenso vulto do universo , e a al- 
ma á eternidade para que a abrigue no seio da in- 
telligencia suprema , sabe que deixa uma palavra , 
um eccho era meio da sociedade e da vida , e que 
este perpetuo soar de um nome é repercutido peren- 
nc pelo agradecimento , pela admiração , e até pela 
saudade dos seus naturaes , e ás vezes do gencro- 
humano. E esta é a sua recompensa completa : foi 
esse fnrao da gloria a sua causa final : n'esse pen- 
samento , phantastico , c por isso contínuo e dura- 
douro , está a explicação do seu padecer e sofTrer , 
c hictar e perseverar nos designios e obras da vida 
inteira. Elle poz na balança do alvedrio d'um lado 
a reputação, do outro tudo o que custa a gloria , e 
achou que esta era de mór valia. Porventura o cal- 
culo foi errado , ou foi em si mesmo um erro. Que 
importa? — O que o fez julga-se recompensado, 
morrendo na esperança da imraortalidade. 

A imprensa é hoje entre os meios de cumprir 
essa espécie de contracto do individuo com a so- 
ciedade , e da geração que passa cora as que hão- 
de vir, o principal , ou antes quasi o único. Esten- 
dendo a sua magistratura sobre todas as formas de 
existir em que se revela o homem extraordinário, 
e mais robusta que a pyraraide de Chéops , sempre 
em pé no meio dos outros monumentos que os sécu- 
los derribam ou consomem, a imprensa pôde dizer: 
— só eu sei o segredo de perpetuar a gloria. 

Todavia , como as moles de pedra dos Pharaós 
esse foco dos raios mais brilhantes e puros da in- 
telligencia, não transmitte passivamente a mensa- 
gem dirigida á posteridade. Éella — a imprensa — 
quem julga , e quem formula o julgamento ; ella , 
rainha do mundo , porque o é das opiniões. Dis- 
tribuidora do renome , muitas vezes o rcfusa ao 
qup mais a teve em mira , e conccde-o áquelle que 
actuando energicamente na sociedade ou nos enten- 
dimentos — nos factos ou nas idéas, parecia menos- 
cabar os vii.douros , e viver só para o presente. 

E porque? Porque nos seus juizos a imprensa af- 
fere os homens que foram , por dois lypos capitães 
e exclusivos — o génio, ou a virtude: sem isto, a 
severa dominadora das gentes não tem coroas para 
lançar sobre os túmulos; mas só, para os cobrir, 
o amplo e espesso manto do esquecimento , quando 
não ata a elles a triste celebridade das maldições e 
injurias. 

Mas sendo a virtude ou o génio , isto é a força 
moral ou a intellectual, a regra para avaliar os ho- 
mens , a imprensa , se comraunimcnte não é injusta 
nas suas decisões derradeiras, é ncllas incontesta- 
velmente incompleta. 

Incompleta, |iorque não regista senão as lembran- 
ças daquelles que viveram para o mundo ; ([uc im- 
|)rimiram na sociedade a sua energia individual , 
e que ainda nas vaidades da existência recolheram 
])arte do premio que lhes assegurava o futuro. 

Com tudo ha uma virtude modesta , traiiquilla , 
e silenciosa, filha do christianismo e sódelle — que 
passa na terra desconhecida das turbas ; que não 
deixa vestígios nas tradições humanas, e a que a 
imprensa devia tirar da obscuridade a que ella mes- 
ma se rondemna ; porque é a mais enérgica, amais 
pura , a m.iis sublime de todas as que exclusiva- 
menle pertencem ao homem do Evangelho, ao ho- 
mem dos tempos modernos. 



o PANORAMA. 



Cf) 



Esla virludp (• a da ABNEGAÇÃO. 

Scri nos nossos dias, c no scpiikliro de um com- 
palricio nosso, sobre cujos reslos ainda está revol- 
ta a terra que os cobriu , onde iremos li\iscar um 
dos mais formosos cxempbis desse esforço mural , 
quasi incrivcl, que sacrifica ri bnnestidade e ;i cons- 
ciência todas as ambições e esperanças , sem pro- 
curar sequer que a posteridade diga — aquellc foi 
um homem liom-sto. — E ainda mal para nus que 
nesta escolha cumprimos também um dever de gra- 
tidão , e de sincera amizade. 

Falíamos do Sr. Luiz Duprat , um dos ornamen- 
tos do foro portuguez , fallecido pouco ha, cora ge- 
ral sentimento dos seus numerosos amigos, e que 
nenhum sorriso d'odio acompanhou amurada do vil- 
timo repouso, porque a bondade do seu curarão lhe 
conciliava o atfecto de todos os homens probos , e 
a severidade do seu procedimento obrigava os maus 
á veneração , e constrangia-os ao silencio. 

Hoje que , infelizmente , no vigor da idade , elle 
trocou o desterro das provas pela pátria das recom- 
pensas , é até certo ponto um lenitivo para a nossa 
magoa o ter de recordar a sua memoria para nos 
servir de argumento ao que intentámos provar — 
que a abnegação recusando a gloria , é a virtude 
mais digna de ser olTcrecida como modelo e exem- 
plo aos olhos da posteridade. Por dois modos é pa- 
ra nós uma obrigação o faze-lo. 

O Panorama deve em grande parte a sua existên- 
cia ao Sr. Duprat ; porque foi elle um dos funda- 
dores mais iniluentes e activos da Sociedade que 
dirige a publicação deste jornal. Com a profunda 
intelligencia e com o amor do bem publico que o 
adornavam, conhecera aquelle cidadão virtuoso o 
proveito que a illustração e moralidade podia tirar 
de similhante empreza. Esperava delia resultasse 
beneficio aos seus naturaes ; e com a tenacidade no 
bem , que era a qualidade mais eminente do seu 
caracter , trabalhou incansável para ver rcalisado 
um pensamento que não o fora seu, mas a que elle 
de coração íe associara. O resultado coroou suas di- 
ligencias, e a sociedade mostrou-se-lhe grata. Até 
o fim dos seus dias o Sr. Duprat foi o vice-presi- 
dente escolhido constantemente por ella. 

Seremos nós, portanto, agradecidos também ; mas 
se-lo-hemus , sem mérito da nossa parte. Obrigados 
a buscar na vida de um homem a demonstração da 
idéa de moralidade e justiça que nos occorrèra — 
a de recommendar a mais modesta e mais bella das 
virtudes á estimação e respeito dos homens , nenhum 
typo encontrámos que melhor satisfizesse todas as 
cundições do nosso pensamento , que melhor resu- 
misse tudo o que ha grandioso na abnegação , do 
que as phases principaes da vida do Sr. Duprat. 

E será esta uma biographia composta de datas , 
e dos successos communs de existência ordinária? 
Não , porque em alvo diflercnte pozémos nós a mi- 
ra. Reconheccmo-nos incompetentes e inhabeis pa- 
ra alevantar as balisas da estrada que seguiu aquel- 
lc que hoje é cadáver. Não são os factos da sua vi- 
da , mas a significação moral e intima dellcs que 
precisamos de avaliar: é isto o que importa ao nos- 
so intento; é talvez ahi que se ha-de buscar o titu- 
lo da sua gloria — da gloria como a deve entender 
a civilisaçãu e este século, que estampa a ignomi- 
nia na fronte dos Domingos de Gusmão e dus Gre- 
gorius sétimos, e saúda os nomes dos Fenclons, dos 
Carlos Borromeus e dos Caetanos Brandões, sem cu- 
rar como pensaram dellcs os homens que os viram 
morrer. 



Kascido nesta classe que .is circumslancias da 
presente epocha fizeram a mais forte de todas — a 
classe media; dotado de alta energia c de robus- 
tíssima intelligencia, o Sr. Duprat se destinara em 
verdes annus á vida do comraercio. A educação que 
recebera própria para este género de vida, fui, po- 
rem, a causa de a aliandonar. No lirasil, aonde pas- 
sara mui moço , o ministro de Dinamarca , Bor- 
go de Primo, o fer como seu secretario particular, 
por haver encontrado nelle , alem de lodos os do- 
tes moraes c intellcctuaes , necessários para o bom 
desempenho daquelle mister , o que era raro e de 
estimar nos seus poucos annus , um conhecimento 
profundo das duas línguas franceza e ingleza , que 
o Sr. Duprat fallava no extremo da perfeição. Se 
os serviços feitos por elle naquella Legação foram 
valiosos; se a sua aptidão para ter parle em maté- 
rias diplomáticas se demonstrou , e se finalmente a 
sua probidade sahiu illesa de uma situação arris- 
cada como é a de secretario particular de um em- 
baixador , cousas são que basta um facto para as 
fazer sentir. Não só o ministro , que servira , tra- 
balhou com afimco para fazer entrar o Sr. Duprat , 
de quem se tornara intimo amigo , na carreira da 
diplomacia portugueza , mas lambem o nosso go- 
verno entendeu que devia porventura ir alem dos 
desejos de Borgo de Primo ; nomcando-o logo se- 
cretario da Legação dos Estados-Unidos , para a 
qual , por sua importância , fora escolhido o Sr. 
Silvestre Pinheiro , sugeito , cuja reputação come- 
çava a ser já na pátria o que dentro de alguns an- 
nos tinha de ser na Europa — uma reputação gi- 
gante. 

Aias então chegara para Portugal uma nova era : 
era que só os vindouros , talvez , podem desassom- 
bradamente julgar. A velha monarchia absoluta de 
D. João 2." tinha cumprido os seus destinos so- 
ciacs : devia ceder o lugar á monarchia mixta que 
tinha e tem a preencher uma grave missão de pro- 
gresso. Em 1820 as idéas, que havia muito iam de- 
vorando as entranhas da sociedade antiga , revela- 
ram-se n'um facto : este facto representava o futu- 
ro : era o primeiro pensamento de uma serie im- 
mensa de illaçues ; e estas illações resumiam todos 
os desejos e esperanças dos homens , que amavam 
de coração o seu paiz natal. Se uma lógica má não 
aproveitou como cumpria um postulado verdadeiro 
e fecundo , questão é que não vem ao nosso inten- 
to , e que viesse , nem este logar nem a natureza 
deste jornal nos consentira o tracla-la. 

Aquelle acontecimento estrondoso encontrou o Sr. 
Duprat nessa tão curta e passageira epocha da vida 
em que o entendimento dos homens de superior es- 
fera já tem adquirido os hábitos do grave e profun- 
do cogitar, ao mesmo tempo que ainda o seu co- 
ração conserva as crenças vivas , as paixões arden- 
tes e as illusões risonhas da primeira juventude. E 
a epocha das grandes ousadias, du enthusiasmo , 
das exaggeraçues , de tudo quanto ha poético , su- 
blime e terrivcl nas almas fortes c generosas. Lan- 
çai uma destas almas de fogo no meio de geração 
que se agite em volta de algum desses insondáveis 
pensamentos de transição, que de séculos a sécu- 
los renovam a Índole e o aspecto das grandes famí- 
lias humanas chamadas nações, e dar-vns-heraos os 
desvarios , os erros falaes , as intolerâncias violen- 
tas , se quizerdes ; mas lambem as virtudes mais 
desinteressadas , mais nobres , mais bellas , as con- 
cepções mais enérgicas, mais úteis, mais prolíficas. 
Aquelle que se gaba de haver passado alravcz des- 



70 



O PANORAMA. 



sas convulsões espantosas dos povos , os annos que 
decorrem dos dezoito aos vinte e cinco, alheio ás lu- 
ctas das idóas, e espectador indifferentc de um due- 
lo , que sempre é de morte , entre o passado e o 
futuro: — esse tal lastimai-o ! Mal sabe o desgra- 
çado que se gloria de ter desmentido a grandeza 
moral c intellectiial do ser humano ; que se gloria 
da estupidez e da mediocridade. Os seus destinos 
(oram nascer, vegetar, c morrer: , foram os desti- 
nos da pura animalidade. 

O Sr. Duprat abraçou as doutrinas que preexis- 
tiam á rcvoluçrio , mas que ella convertera em fa- 
rto material, cabraçou-as com sinceridade e amor : 
Tnediu-as pelos seus resultados naturaes. Era um 
proceder grande e honesto , tanto como o fora se 
houvera seguido as contrarias com a mesma pureza 
d'intenções , cora o mesmo fervor de crença. Nas 
opiniões politicas só é deshonrosa a indilferenca : 
porque é vil e covarde ; só é abominável o calcu- 
lar o proveito que se pôde tirar das desgraças pu- 
blicas , porque ahi ha um egoísmo atroz. A vida , 
porem , inteira do Sr. Duprat provou que elle não 
compreheiídèra jamais o que é ser egoista e co- 
varde. 

Ninguém ignora que os acontecimentos de 1820 
c os que se lhes seguiram foram o preludio doloro- 
so de mais de vinte annos de dissensões intestinas. 
Nellas temos sido todos sacrificadores ou victimas : 
quasi todos uma e outra cousa. Podéramos nós, 
emfim , perdoar uns aos outros sobre as cinzas dos 
niartyres com que mutuamente havemos enriqueci- 
do o larario de todos os bandos políticos! Essas 
dissensões , logo no começo tempestuosas . arroja- 
ram para a Europa o Sr. Duprat , que na edade do 
22 annos aportou á terra que lhe dera o berço — a 
Lisboa — onde nascera em ISOl. 

O futuro devia antolhar-se-lhe então brilhante 
em Portugal — Portugal dizemos, porque o Brasil 
deixava de ser uma província nossa. Os talentos — 
o vigor da edade — uma carreira de honras e es- 
plendor começada na primeira juventude e cm car- 
go por onde muitos a acabam na derradeira velhi- 
ce — protegido ciricazmente no paço por um valido 
do monarcha , e conhecido no mundo politico , on- 
de se preparava a grande lide dos princípios , co- 
ino um dos caracteres mais enérgicos , e severos , 
Iodos os sonhos daquclla aurora esplendida de vida 
publica deviam ser dourados para o Sr. Duprat. 
No seu coração ardente tumultuavam forçosamente 
a ambição e a sede da gloria , ao passo que , por 
fcrto , a consciência liic dizia que as suas esperan- 
ças eram legitimas , c a rasão que eram fundadas. 
Em qualquer dos dois campos do oppostas doutri- 
nas elle podia buscar uma situação distincta, c por 
esta em breves annos chegar á opulência c ao po- 
der : n'um delles , ainda tão moço , seria recebido 
como veterano experimentado ; os padecimentos c 
riscos a que se evpozera pelas." opiniões progressi- 
vas davam-lhe esse direito : no outro , talvez menos 
rico de capacidades , a sua acccssão seria de gran- 
de vulto, iíis o lisongeiro aspecto que se lhe offe- 
recia para satisfazer as paixões mais cegas e vio- 
lentas do coração humano , c muito mais violentas 
c cegas naquelle que sabe o que pôde e vale. 

l"oi neste momento que o Sr. Duprat — o mance- 
bo de \inte c dois annos — resolveu votar-se ao es- 
tudo, não para obter pelas lettras , com tempo e 
com custo, a gloria e a preeminência publica, que 
São fáceis se lhe ofTercciam na vida politica, mas pa- 
ra seguir modestamente a carreira comparativamen- 



te obscura de um simples cidadão ; para ser modcl- 
lo do bom pae de famílias , do homem social como 
o Christíanismo c a civilisação o requerem. Dir-se- 
hia que prevendo a dissolução de costumes , que 
as proccllas civis haviam de gerar , previra tam- 
bém que dentro de vinte annos seria maior e mais 
rara a grandeza moral da probidade singela, que a 
da energia politica , ou a do engenho extraordiná- 
rio e da vastidão da sciencia. Aquella alma pura 
abnegou de paixões e esperanças ; porque viu que 
a abnegação era a primeira virtude nesta cpocha 
essencialmente alTeiçoada por egoísmo hediondo, 
por orgnlho insensato, e por desmedida cubica. 

Mudanças ha destas que, bem longe de serem ma- 
ravilhosas , não revelam naquellcs em que se ope- 
ram senão o desalento ante as dilficuldades da am- 
bição. Refogem essas almas do aspecto do futuro ; 
porque as aterra o preço de trabalhos , perigos , e 
agonias porque se costuma comprar a celebridade. 
Semelhantes espíritos ou se enganavam acerca dos 
seus destinos , ou sentiram que as suas forças não 
eram eguaes a estes. Das circumstancías , porem , 
que notámos na juventude do Sr. Duprat, e do que 
elle foi depois na sociedade civil , se vè , que as 
causas do novo theor de vida qnc seguiu , foram 
alheias — contrarias até — a todas as considerações 
externas ; c unicamente nascidas das nobres inspi- 
rações da própria consciência. 

Só a consciência ; só este senso intimo e myste- 
rioso , que nos caracteres robustos c como um raio 
de luz divina , porque sem violência impera abso- 
luto , e sem raciocínios subjuga o entendimento ; 
que trahe mil vezes o criminoso, e outras tantas 
salva de si mesmo o homem honesto ; só este ver- 
bo interior . que deu á phílosophía um Sócrates , e 
ao Cbristí.mismo milhões de martyres, pôde produ- 
zir a verdadeira abnegação ; porque esta não exis- 
te onde não ha lucta entre o que se crê ou um de- 
ver ou uma acção sublime , e os grandes interesses 
materiaes ou as paixões mais indomáveis e ar- 
dentes. 

Essa revolução completa , não tanto nos hábitos 
exteriores , como nas crenças , nas esperanças , nos 
desejos ; esse abandonar, não tanto a realidade, co- 
mo o que vale mais do que ella , a ventura c glo- 
ria sonhada no porvir , postoque voluntário , é um 
combate semelhante ao de .lacob e do anjo, entre 
um pensamento de Deus e os affectos do mundo. 
Vertcm-se ahi sangue e lagrymas ; porque os verte 
o coração onde se pelejou essa terrível batalha. 
Quando porem o espirito do Senhor tríumpha . não 
tarda a descer do céu o bálsamo das consolações. 

Esta victoria de uma idéa pura e santa custou 
por certo ao Sr. Duprat o que ellas custam na sua 
edade , n nas suas circumstancias. Mas não foi só 
isso. Olhando cm roda de si, buscou uma prolissão 
accommodada para viver em decente mediania , c 
em que podesse vir a ser útil a si, aos seus, e á 
sociedade. Qual mais formosa que a de advogado? 
.\hi havia o salvar iimocenles ;' o remir de miséria 
muitas famílias; o prestar ao fraco a força da in- 
telligencia c da sciencia contra o poderoso; o am- 
parar a viuva . o orphão , e o desvalido : o levar o 
lirado severo da justiça aos ouvidos da iuiqtiidade. 
Era a profissão mais adequada .í rectidão das suas 
intenções, ás tendências do seu espirito, malsoflri- 
do contra todo o género de corrupções e lyrannias. 
Escolhcu-a pois. Passados dez ou doze annos o Sr. 
Duprat era ura dos mais dístinctos advogados da 
corte. 



o PANORAMA. 



71 



Costumam os homens celebrar a memoria do fa- 
moso capitão , que principianilo a sua carreira por 
simples soldado, c arriscando a \ida era com bata- 
lhas, se habituou a alTrontar a morte, e assim che- 
gou a empunhar o bastão domando, clalvez o sce- 
ptro de rei. Como se islo não bastara, a historia 
iransmittc-lhe o nome á i)osteridade para exemplo 
de vontade robusta , c de esforço indomável. L to- 
davia que fez ellc? CoUigiu cem vezes em vinte 
annos toda a energia , toda a intclligencia que pos- 
suía ; em vinte annos cem vezes subjugou os terro- 
res do sepulchro , para no fim cingir uma coroa, e 
escrever o seu nome para a perpetuidade nos an- 
naes do geuero-humano. Depois repousou. Alguma 
■vez , á porta de seus paços esplendidos , mendigo 
coberto do cicatrizes e de farrapos viria aqueccr-se 
aos raios do sol, que o pai celeste envia ao podero- 
so e ao humilde. Quem sabe se era veterano obs- 
curo que verlòra o seu sangue nas cem batalhas do 
homem illustre? Quem sabe se entre um c outro 
havia tão somente o que chamámos fortuna , c que 
a pliilosophia o o christianisrao chamara providen- 
cia de Deus? Tahez esse nome , que não morrerá , 
significasse apenas o cumprimento de um decreto 
de cima. E todavia a sua herança, alem do sepul- 
chro , é a immortalidadel 

Não assim a abnegação. 

Vede o nosso mancebo. A mediania converteu-se 
em alvo de todos os seus intentos. Lá não ha co- 
roas nem gloria : no termo da vida não se enxerga 
sobre o féretro, mais que lagrimas de poucos e leaes 
amigos, c daquelles que a gratidão alli convoca. 
Para ella a campa nãotemeccho; porque, em pou- 
cos annos , os que choram o extincto terão passado 
também. Depois a herança deslc na terra será ape- 
nas uma — o silencio profundo do esquecimento. 

iías no leito da morte ha o esperar do christão : 
alem do sepulchro as recompensas de Deus. 

É o premio da abnegação. Sem o chrislianismo 
a mais formosa das virtudes fora monstruosidade 
impossível. É preciso cvér na philosophia do Evan- 
gelho para comprehender como a inlelligencia emi- 
nente recusa as grandezas , o orgulho , e o pobre 
renome humano, para se abraçar com ella. 

E as mais das vezes a cruz é pesada : — coberta 
d'espinhos , longa c íngreme a senda que leva ao 
Gólgotha. 

Onerosa foi aquella , rude e dilatada esta para o 
Sr. Duprat. Xa profissão que escolhera cumpria-lbe 
começar pelos chamados rudimentos das leltras. 
Essa mente altiva , habituada ao meditar ; essa ra- 
são que se ali.mentava de graves cogitações sobre a 
sociedade , e sobre si próprio , vergou-se a estudar 
as palavras de uma lingua morta , e passou pelas 
forcas caudinas das puerilidades dos rhetoricos. 
Aquelle que na voz da consciência tinha a prova 
da immortalidade do espirito, pacientemente ouviu 
o bom de ura professor provar-lha com raciocínios ; 
e o homem da abnegação decorou sem sorrir as re- 
gras d'Heineccio para ser virtuoso. A'encidas estas 
dilliculdades , que talvez para o génio siso mais ár- 
duas que para a mediocridade , o .Sr. Duprat en- 
cetou e concluiu o seu curso jurídico. 

Entretanto os ódios políticos , accumulados por 
largos dias , tinham rebentado como prccelias en- 
contradas sobre a terra da pátria. Desde as sauda- 
des do desterro até o estorcer no patíbulo : desde 
os amplos fratricídios das pelejas civis, onde os ais 
e queixumes dos feridos e moribundos soavam n*u- 
ma só linguagem , até a punhalada traiçoeira de 



vingança implacável ; desde as epidemias morlife- 
ras até os trances insoIVriveís da fome, Deus derra- 
mou sobre nossas cabeças, durante seis annos, to- 
das as dores c agonias contidas nos thesouros da 
sua cólera. Quando, erafirn, respirámos um dia ; ou, 
mais exactamente , quando o partido que primeiro 
começara a padecer pode asscnlar-sc, vencedor mu- 
tilado , junto ao cadáver de seu adversário , a re- 
pousar sobre um montão de minas — a sociedade 
antiga desapparecèra debaixo destas , e os elemen- 
tos não só do força mas d'existencia da velha mo- 
narchia, como a definira o século 16.°, haviam pe- 
recido. No logar delia estavam apenas o pensamen- 
to da sociedade moderna , os gladiadores arquejan- 
do na arena , e o paíz devastado. Era uma epocha 
a ponto para despertar todas as ambições — mais 
que nenhumas, as nobres e generosas. Derribadas as 
tradições hierarchicas, o poder era uma conquista ; 
o gcnio e a energia as armas para o dispular. Hus- 
ca-lo nessas circumstancias, e com intenções puras, 
fora grande e forte ; porque as magistraturas poli- 
ticas debaixo das condições d'honcstidade não se- 
riam um legado precioso para a cubica , mas ura 
variado marlyrio para o amor da pátria. 

Concebida assim , a ambição , depois de termi- 
nada a guerra civil em Í834 , podia ser uma vir- 
tude havendo, como então havia no Sr. Duprat, a 
consciência da superioridade intellectual , de pro- 
fundo saber adquirido por largos estudos, e de uma 
severidade de princípios moraes longamente prosa- 
da. Por certo, grandes combates interiores teve el- 
le de vencer contra si mesmo naquella epocha de 
esperanças : mas o pensamento, que o guiara c sal- 
vara no meio dos cataclysmos políticos , a sua tão 
querida e buscada mediania — esse viver exclusivo 
para os santos affectos de família , para ser amado 
pelos beneficios feitos sem ruido, e acatado pela 
integridade e pureza dos costumes públicos c do- 
mésticos — começava a realisar-se ; c ainda mais 
uma vez a abnegação triumpbou. O homem eloquen- 
te , cogitador , e illustrado , sabendo que as portas 
do parlamento se lhe abril iam de par empar quan- 
do o quizesse ; sabendo qne desde esse ponto o ca- 
minho do poder lhe era fácil ; esqueceu-se disso 
tudo para cumprir os destinos que, por assim di- 
zer , elle para si próprio creára. 

Oito annos exercitou o Sr. Duprat o mister d'a- 
dvogado : oito annos viveu em Lisboa no meio dos 
seus concidadãos , que o conheceram c julgaram. 
A immensa energia da sua alma não bastou uma vi- 
da laboriosíssima repartida nas occupações do fo;"o, 
na actividade com que se dedicava ao estabeleci- 
mento de associações úteis, nas fadigas a que não 
sabia esquivar-se onde quer que havia a derramar 
beneficios , a enxugar lagrimas , a confortar desa- 
lentos , a consolar amarguras. Essa energia não 
achando ainda em tudo islo o necessário alimento , 
devorou-lhe rapidamente a existência , que organi- 
sação robusta lhe promettia bem larga. Este homem 
tão austero comsigo como indulgente com os outros, 
e que nascera para padecer e soffrer ; para luctar 
tenazmente com as paixões e com a dór , cumpriu, 
até o fim a sua missão provideiKÍal , sem ter goza- 
do de tudo o que na vida é suave e aprazi\cl se- 
não os sentimentos atíectuosos de csfioso e de pae , 
e as santas alegrias que traz apoz si a certeza de 
haver muitas vezes sacrificado o repouso, a paz in- 
tima , e a fortuna , ao proteger c salvar desgraça- 
dos , ao cumprir rigorosamente os deveres civis, e 
ao favorecer todas as tentativas de verdadeiro e so;- 



72 



O PANORAMA. 



lido progresso. Deus coroou o seu obscuro e inti- 
mo m.Trtjrio , a sua abnegação sublime , com uma 
afiliei iva eiiferniiiladc, que aos olhos dos outros pa- 
recia incomportável , c que aos seus apenas signifi- 
cava mais alguns dias de prova e de resignarão. 

E elle K?\pirou Iranquillo. Deixava na terra seu 
Telho pae, uma esposa, c seis fdhinhos. dos quaes 
era único arrimo. Como pois lho eslava socegado , 
não o coração, onde tinha a sua sede a morte, mas 
o espirito? Era que nessa hora suprema sentia que 
ou tudo quanto clle creu , tudo quanto dezoito sé- 
culos tem crido, era escarneo e mentira, ou a pro- 
videncia não podia esquecer tanta orphandade. Es- 
perou em Deus. porque era ura justo: confiem tam- 
bém nelle os que choram. Vinte annos de honesti- 
dade deram ao moribundo o direito de dizer ao 
Eterno: — «Sètu, oh Senhor, o pae dos pobres 
abandonados ! » 

Que os brilhantes escriptores da historia cele- 
brem os nomes dos que agitaram o mundo ; dos 
que se assentaram victoriosos no campo dos homi- 
cidios Icgaes e collcctivos, chamados combates, ou 
transmudaram a face das sociedades, chegando aos 
cdificios vacillantcs das instituições seculares o fa- 
cho das revoluções. Nós escriptores do povo , hu- 
mildes como elle , apenas fizemos aqui lembrada a 
nossos irmãos uma virtude exclusivamente popu- 
lar, e que os poderosos não podem comprehender , 
porque seria a negativa da sua existência. Esta vir- 
tude é a abnegação. No meio dos que ora vive- 
mos , o mais sublime exemplo delia foi a vida do 
Sr. Duprat. Dizemo-lo do fundo da nossa consciên- 
cia. Se nos enganamos, erga-se uma só voz que o 
negue! — Nem entre os seus inimigos — se os ti- 
nha — haverá por certo quem se alevante para nos 
dizer : — Mentistes. 

Fora difficultoso o prova-lo. 

* 

Em quanto durou o período penoso da doença 
acudia multidão de pessoas de differcntes classes 
da sociedade , soilícita a inquirir noticias do enfer- 
mo : Ião espontâneo testemunho de milhares de con- 
cidadãos , em que não havia distincção debando 
ou de jerarchia , é manifestação absoluta da valia 
do homem, por cuja vida todos se interessavam. — 
Nas crises da moléstia , e desde o seu principio , e 
no seu progresso até o golpe fatal , dois hábeis fa- 
cultativos assistiram ao Sr. Duprat com os soccor- 
ros da sciencia e com desvelado zelo; o seu parti- 
cular amigo , o Sr. Dr. Bernardino António Gomes 
foi lãtr-assiduo , quanto em casos taes pódc sè-lo o 
homem , o medico , o amigo : o Sr. Barrai prostou- 
se com o mesmo cuidado e efficacia- 



NOVOS INVENTOS. 

Brulote a vapor. 



A fiCRRRA parece ter decahido da moda : os costu- 
mes lhe são avessos. E entretanto nunca a imagi- 
nação dos homens, c o espirito d'invenção tão uni- 
versalmente espalhado se tem occupado com tanto 
aOuco e com tão vastos resultados nas raaohinas de 
guerra , como nesta nossa cpocha. O luxo das ar- 
tes , o progresso das sciencias naluraes nada quer 
écixar por tentar : a arte e a sciencia de matar gen- 
te não tem ficado retrograda. Fortuna será para o 



género humano se estes novos inventos ficarem ser- 
vindo sómetite para ostentação scientifica, consigna- 
da na imprensa , e exposta nos museus. 

Entre as temerosas machinas de guerra , que ha 
pouco mais de um anno se estavam preparando em 
Woulwich na Inglaterra , nenhuma se considerava 
tão terrivel como a do brulote a vapor, sem exce- 
ptuar mesmo o outro chamado infernal que cuspia 
um esguicho de fogo mais longe do que as bombas 
hydraulicas de maior força atiram ura rcpucho de 
agu?. Estes brulotes consistem em dois fusos ou 
grossas bainhas cónicas formadas de aduelas for- 
tissimas ou tábuas apertadas com arcos de ferro co- 
mo se faz aos lonneis. Estas duas azas cónicas se 
prendem aos lados d'uma comprida prancha de pi- 
nho longa de 80 a 90 pés. Sobre esta espécie de 
jangada se estabelece um destes velhos barcos de 
vapor, da força de 6 a 15 cavallos , que se encon- 
tram [nos portos d'lnglalcrra principalmente] pelo 
valor da ferragem que ainda contéra : na extremi- 
dade da proa um canhão paixhans carregado até á 
boca termina o apparelho. 

Esta raachina é destinada a ser despedida com 
toda a celeridade de que fór capaz, durante a noi- 
te, contra o flanco dos navios inimigos. A ponta ou 
aguilhão de ferro do pranchão se encrava no costa- 
do do navio, e a força do choque incendia o canhão 
que abre uma larga brecha ao lume d'agua , põe o 
fogo á embarcação e a melte irremediavelmente a 
pique n'um raomento. 

O que ha de particular nestas machinas éque se 
por acaso não aferram o objecto perlcndido , conti- 
nuam sua marcha era linha recta em quanto lhe 
dura o combustivel ; e é fácil retorna-las a 1 ou 2 
léguas de distancia por meio dos barcos a vapor : 
apanhadas , e reforçadas com novo carvão , se lan- 
çam de novo. 

Assim que , um cento destes brulotes que não 
custariam talvez mais de 8 on 10 mil francos cada 
ura, pôde dar cabo de 100 navios de guerra. O 
inventor baptisou-a com o nome de dardo do mar 
[javelot de mer] , porem os marítimos se obstinam 
a chamar-lhes lançadeiras do mar [navettes de mer] 
porque são lançadas e tornadas a lançar até que se 
abalroem com os navios adversos. 

= A guerra marítima, diz o jornalista , donde 
extrahiraos o artigo, vai mudar inteiramente de fa- 
ce ; o vapor só operará tudo ahi , bem depressa ; e 
o combate terá logar entre machinas. A potencia , 
que tiver maior numero destas c mais engenhosas , 
estará segura da preeminência no mar e na terra , 
na paz e na guerra. = 

J. da C. X. C. 



Montanhas submarinas. — Alguns gcographos , n» 
começo do presente século , suppozcram que por 
debaixo do mar se dilatara cordilheiras de montes, 
que não manifestam os extremos rumes aciraa do 
nivel das ondas , excepto em desmesuradas alturas, 
que constituem ilhas escarpadas ; cia parte desta 
hypothese concordam com os raais antigos escripto- 
res. A America e a Africa [dizia o celebre liuachej 
estão ligadas por uma serie de terras muito e mui- 
to superiores ás profundezas do abysmo marítimo : 
as ilhas dos Açores , que encontrámos no Atlantici) 
são pontos culminantes desta cadeia de serras sub- 
marinas.» — Se a idéa deste A. não fór absoluta- 
mente verdadeira, tem pelo menos grande probabi- 
lidade n'uma infinidade de casos e localidades. 



63 



o PANORA3IA. 



73 




ZUBTSATO DE VAN DYCK. 



SiBiDO é que foi Rubens o fundador da grande es- 
chola de pintura , dila ílamcnga ; — Yan Dyck foi 
o seu melhor discípulo , e por isso o segundo na 
ordem dos que illustraram essa eschola. Watelet , 
escriplor entendido na matéria , diz : — « Se não 
põem Van Dyck. como pintor d'historia, na mesma 
catiiegoria que Rubens, confessam que excedera es- 
te na delicadeza dos toques e das cores , e que no 
mais algumas vezes o igualara : se não teve o mes- 
mo calor d'imaginação, a mesma abundância de ta- 
lento , empregou por outro lado traços mais mimo- 
sos , melhor caracter de desenho , mais verdade no 
colorido. Pela reunião destes bellos dotes que pos- 
suía , talvez que viesse a ser superior ao mestre se 
não tivesse sido dislrahido do género histórico, que 
pintava com summo gosto. Como retratista tem ine- 
gavelmente o primeiro logar depois do Ticiano , e 
mesmo este não lhe leva a palma senão pelo que 
respeita ás cabeças , porque o flamengo vence-o na 
elegância dos accessorios , e os reproduzia com a 
maior verdade conservando a sua maneira franca ; 
arcusava o caracter de tudo o que queria represen- 
tar sem caliir todavia naquelle modo frio e falto de 
graça que muitos julgam próprio do género de re- 
tratos , como se todos os géneros de pintura não 
tivessem igualmente por lim a expressão das appa- 
rencias da natureza : sempre as suas attitudes são 
simples, e agradam sempre porque são naturaes : 
nas cabeças puz tanta expressão de verdade como 
perícia d'arte. » — X fecundidade do pincel de Vaa 
Makco 11—1843. 



Dyck assombra , como a de Rubens , e mais ainda 
como a de Raphael, porque Rubens falleccu velho. 
Verdade é que para o fim de seus dias , quando 
em Inglaterra se via cercado de muitas obras , ti- 
nha adoptado certa maneira cxpeditiva : não foram 
porem esses painéis acabados á pressa que lhe ad- 
quiriram subida reputação ; o grande numero de 
quadros da melhor cpocha da sua vida provam que 
bem sabia ligar a facilidade de maneira cora o aca- 
bado e perfeição conveniente. 

António Van Dyck nasceu era .Antuérpia em 1399 : 
pela afleição ás artes e aproveitamento no estudo dis- 
tÍBguiu-se logo entre seus condiscípulos , merecen- 
do a estima e elogios do mestre, lin dia que Ru- 
bens sahíra da officína a espraiar e refrescar a ima- 
ginação , como elle dizia , Van Dyck e seus compa- 
nheiros entraram no gabinete do mestre para exa- 
minarem um «descimento da cruz» que andava pin- 
tando , approxímando-se porem demasiado do qua- 
dro , e tropeçando um cahiu , e desfigurou o braço 
á Jladsalena . e a barba á Virgem , a que Rubens 
acabava de dar o ultimo retoque ; temerosos das 
consequências que a sua imprudência occasionaría, 
estavam insensatos sem saberem tomar resolução , 
quando um dclles mais arrojado bradou: «É mis- 
ter que sem perda de tempo remediemos este ruim 
acaso : temos ainda três horas , tome o mais habil 
a palheta e tente reparar o que se desfigurou : por 
meu voto elegeria Van Dyck:» — todos applaudi- 
ram a escolha, excepto o preferido: mas instado dos 
2.' Serie. — Vol. II. 



74 



O PANORAMA. 



companheiros, c receoso do enfado do mestre, pòz- 
sc ,í obra , c a desempenhou rom lai mestria que 
Jiuhens, ao examinar na seguinte manhaã o que 
]iinl;ira no dia anterior, disse era presença dos dis- 
cípulos que medrosos o estavam olhando " — pare- 
cc-mt' esse braço e essa cabeça o melhor que hon- 
lem acabei.» — Este quadro do descimento, dos 
mais formosos de Rubens , existe agora na igreja 
(ie X. S/ d'Antuerpia. 

Cubicou Van Dyck conhecer o famoso Hals , c a 
esse intento fez expressamente uma viagem allaar- 
lera : vaãs foram as suas diligencias para o achar 
cm casa , e afinal resolveu-sc a deixar-lhe recado 
de que uma pessoa o esperava para retratar-se : — 
quando se viu na presença de Hals , dissc-lhe que 
era um estrangeiro , e que desejava lhe tirasse o 
retrato, porem que para essa tarefa sú podia dispor 
do tempo de duas horas : Hals tomou o primeiro 
pedaço de tela que lhe ficou ;i mão , e depois de 
haver pintado breve espaço pediu ao supposto es- 
trangeiro se erguesse para observar o que estava 
feito: — o modelo dçu-se por mui satisfeito da co- 
pia , e travando conversações indiffercutes . trouxe 
a campo o assumpto da pintura , de que disse ler 
algumas luzes , c que se lho permittisse mostraria 
o pouco de que era capaz ; e tomando lambem ou- 
tro panno, rogou a Hals que occupasse o logar que 
olle havia deixado : assim foi feito por mutua con- 
descendência ; mas que assombro foi o de Hals quan- 
do ao levantar-se viu o retrato! — "o senhor por 
certo é Van Dyck 1 — foram as suas primeiras vozes, 
abraçando o collega com transportes de admiração 
e afTecto. Desde então os dois artistas mantiveram 
reciproca e sincera araisadc. 

Aan Dyck visitou , para instruccão própria , Ro- 
ma , Florença , Génova e Nápoles , c também via- 
jiin pela Sicilia : de volta ;í pátria deu-se , já então 
bastante conhecido , ao exercício de sua arte ; e 
por esse tempo aconteceu com elle uma anecdo- 
ta , que devemos referir. O cabido de Courtray en- 
commendon-lhe ura painel para a bòcca do retá- 
bulo do allar-niór da coUegiada : o artista ])inlou 
nm Christo crucificado , e escolheu a situarão em 
que os algozes, acabando de pregar no madeiro a 
Ticlima sagrada, arvoram a Cruz para a fixar no 
solo : concluida a obra veio appresenta-la ao cahi- 
ilo , os cónegos concorreram a vè-la e declararam 
unanimes que a pintura era detestável e o pintor 
ura ridículo borrador. A custo pode conseguir que 
assentassem o quadro em seu logar c lhe satisfizes- 
sem o preço. Todavia algumas pessoas curiosas, in- 
folligentes da Arte , passaram por Courtray , viram 
e louvaram com admiração o painel , deitaram boa 
fama deile por outras terras de Flandres, e os bons 
ç competentes juizes , e professores , que o vieram 
contemplar , declararam que esta crucifixão era o 
melhor quadro do auctor. Os cónegos , pasmados 
então de sua crassa ignorância , Icmbraram-se de 
encommendar mais dois painéis a Van Dyck , que 
lhos fez a justiça que mereciam, e se desforrou do 
uístilto que recebera , não acccítando a obra. 

Viajou novamente este artista, deixando nas prin- 
cipaes cortes vestígios do seu talento , príncípal- 
nienle como retratista, porque nãó lendo rival nes- 
tií género era pelos príncipes e jjoderosos procura- 
<}o • assim adquiriu riqueza bastante, apesar da 
profusão de seus gastos; onde principalmente au- 
gmeiílou os seus lucros foi na Inglaterra , sendo 
chamado a Londres por Carlos 1." que lhe prodi- 
galisou distincções c favores : nesta corte tratava- 



' sr como rico e cavalheiro , e desposou-se com a fi- 
lha de lord Ruthwen , d'uma casa mui illustre da 
Escócia; todo o dote da senhora consistia porem 
em alta jerarchia e extremada bellcza. 

Van Dyck era pródigo e ostentador : sabia ser 
cortesão , como entre outras se mostra da seguinte 
anecdota. — Retratando a esposa de Carlos 1.° de- 
tinba-se nimiamente a conlemplar-lhe as mãos que 
eram mui formosas , no que attenlando a rainha 
perguntou-lhc porque se esmerava mais em copiar 
as mãos do que o rosto: — respondeu o artista: — 
«porque espero, senhora, que essas mãos me dcem 
recompensa digna de (|uem tão lindas as possue.u 
■ — Fallcceu cm Londres, de ^2 annos , em l(iíl. 



A Perda d'Arzilla. 



[1349.] 

Era noite : do céu limpo e seieno 
Milhões d'estrellas tremulas pendiam , 
Quaes as nocturnas lâmpadas d'um templo ; 
E as ribas ermas sussurrar se ouviam. 
D*allerosa galé o negro vulto 
Corta ao largo — bem largo — o mar do Algarve 
E lá nas serras d'Alrica fronteiras 
Branqueja a espaços o albornoz do alarve. 
Como tocheíros , com brandões accesos , 

De um féretro ao redor , 
Cuja vermelha luz o horror da morte 

Só faz sentir melhor : 
Taes as nocturnas almcnáras fulgem 

Nas torres d'atalaia , 
Pelos outeiros , que circumdam muros 

De povoação na praia. 



Arzilla , a guerreira , 
Hi jaz na afllicção , 
Que a rendeu aos mouros 
Elrei Dom João. 

Tomar-te-ha Deus contas , 
Rei fraco e jirasmado , 
De tão grande vilta , 
De teu grão peccado. 

Maldíz-lc nos mares 
Valente fronteiro , 
Que ua sé de Ceuta 
Se armou cavalleiío; 

Que dez aduares 

Em Tanger queimou, 
E em muros d'Alcacer 
Dez elches matou ; 

Que era hoje d'.\rzilla 
Temido adail , 
E a quem tu mandaste 
Fugir como vil. 

* 

Vcde-o lá na gavia 

Da negra galé , 

De braços cruzados , 

Imraovel , em pé. 
E a náu que arfa e voa 

Na fremente via , 

Ferindo na esteira 

Fugaz ardentía. 
E d'Afríca as praias, 

Que a ré vão fugindo: 



o PANORAMA. 



Vò 



E as vagas que rolam 
Distantes imitindo. 
Em roda , o silencio — 
Xo céu , noite escura : 
E o peito (lo triste 
Confrange ;i amargura. 



Do veterano as faces 
O salso pranto rega ; 
Nos africanos montes 
Saudoso os olhos prega. 

Sento no seio as anciãs 
D'incomportavel dòr ; 
E ás vezes range os dentes 
Em trances de furor. 

Um cântico á su'alma 
A indignação inspira : 
Vae sussurra-lo ao longe 
Aura que branda espira. 



O canto do Àdail. 

Ouando. ao longe, nos campos d'Ar2Ílla, 
-Vlvejava do mouro o albornoz , 
E corria , e corria veloz 
O ginete de Bellaraarim : 

Quando o esculca , sabido da villa 
Da raanbã ao primeiro fulgor , 
Não podendo a atalaia transpor . 
Vinha ás portas bater de Çaíim : 

Quando era Tanger , a forte , se ouvia 
De armaduras continuo tinir, 
E nos ares se via luzir 
O montante , a acha d'armas , e o criz ; 

Quando era Ceuta vencida se erguia 
Soljre o alcácer pendão portugucz , 
Contra o qual na mesquita de Fez 
A gaziia pregava o caciz : 

Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa , 
Que em vergéis se reclina gentil, 
Pela noite fragrante d"abril 
Centre os robles sorria ao luar; 

Porque , rico de presa formosa , 
Já voltou nobre alcaide christão , 
E inda ao longe de incêndio o clarão 
Tinge o céu sobre um triste aduar : 

Nossa estrella era então esplendcnte ; 
Nosso nome era um som de terror ; 
Nossos pães conduzia o Senhor, 
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb. 

Portugal , oh leão do occidenle , 
Tu rugias á beira do mar , 
E o teu grito cá vinha troar 
Temeroso no ardente Almagreb ; 

Era o tempo dos crentes e ousados : 
Era o tempo da gloria da cruz I 
Ora contam-se as páreas d'Ormuz; 
Tem só nome Cochim , Calecut. ' ■ 

E esses muros dWrzilla , regados 
Com o sangue de ra.irtyres mil , 
Ermos hoje tu deixas, rei vil , 
Porque o Estreito passou Rais Dragut '. 

Oh valentes da Índia , do oceano , 
Roncadores de feros no mar , 
Cuja espada , porem , faiscar 
Não sabe inda do mouro no arnez , 



Mostrar vinde o valor sobre-humano 
.Neste clima de sol mirrador '. 
Aqui fama se compra com dòr: 
Fácil gloria esquecei uma vez. 

As galés do arrais mouro são fortes ; 
Sua chusma berbers de Takrur ; 
Como o vosso rei indio , IJadur , 
Não ha-de elle acabar á traição. 

L'ma festa de sangue c de mortes 
Do occidenle nas vagas tereis; 
Elmos rijos aqui achareis , 
Não o craneo d'inermc sultão! 

Mercadores! — deixai vosso cravo, 
A canella , a pimenta , o marfi ; 
Os vestidos de seda despi ; 
Ponde em vez de collar um gorjal. 

Vella e remo soltai no mar bravo ; 
Vinde junto de nós combater ; 
Nós que Arzilla deixámos perder , 
Porque elrei . . . . c um rei desleal. 

Para nós os castellos d'avante : 
Para nós a arrombada , e bailéu : 
Para nós pelejar ante o céu , 
Que nos campos d'Arzilla nos viu : 

Para nós o machado e montante : — 
Para vós a bombarda e arcabuz : — 
Para nós , ao cahir , ver a luz , 
Ver a mão que estes peitos feriu : 

Para nós o tombar derradeiro 
Sobre o férreo esporão das galés : — 
O pelouro , de sob o convez , 
Cá de longe enviar .... para vós ! — 

O sudário do morto fronteiro 
Alva escuma da proa será : 
E em seus lábios — Árzdla\ — ouvirá 
Quem ouvir sua ultima voz. 



* 



E elles — os fortes d',4sia — não vieram 
Do cavalleiro d'Africa ao chamar : 
E a náu d'elrei ao infamado Tejo 

Veio aportar : 
E o adaíl dcpoz as armas , rotas , 

Não no espaldar ; 
Que nunca o bom fronteiro viram mouros 

Costas voltar. 



E tomando o bordão de peregrino , 
Foi-se á Batalha , que é mosteiro pobre 

De dominicos , 
Frades mui santos , que os judeus queimavam , 

Porque eram ricos ; 
No meio desses túmulos que encerram 
Os despojos mortaes dos reis que foram , 

Féretro antigo 
O adaíl procurou: — de ura rei soldado 

Era o jazigo. 
Quando o viu , ajoelhou nos degraus dcllc , 
E palavras , que as lagrimas cortavam , 

Lhe dirigiu : 
Maldição para alguém pedia ao morto; „ - 

Mas nada ouviu ! , ; 

Então , lívido o rosto , os lábios brancos , 
X fronte lhe pendeu sobre o ataúde 

Do rei extincto : 
Expirara ao dizer — -pcrdcu-se Arzilla! — • 

A .\tronso Quinto. 

(A. Herculano.) 



o PANORAMA. 




IGBEJA SO C£MITZKIO AO NO&TE SE IiOMDKES. 




AVENIDA EGYFCIA. 



«No KERVOR da agitarão da vida iremos parar á 
pousada dos mortos, u =Tal foi o pensamento que 
nos occorreu ao seguir a ruidosa estrada de Cam- 
dcii , olhando para os marcos que indicavam o tri- 
lho do Cemitério ao norte de Londres. — Ha urna 
distracção para <iuom fitr pelo ramo inferior do ca- 
minho , suliurhano da metrópole , em que se des- 
fructam algumas paizagens amenas, c que em bre- 
ve esparii guia ao mesmo recinto melancholico, dan- 
do a entrada para o declive meridional da eminên- 
cia , em (jue a igreja está situada , e dispostos os 
inoniiiiicnlos em relação ao assetito do templo. — 
Chamamos a este logar melancholico pelas recorda- 
ções que suscita , pelas saudades que renova , pe- 
las feridas <i'alma que de novo faz sangrar : tería- 
mos sob esta consideração o direito de lhe darmos 
a denominação Ue triste c digno de aborrecimento : 



mas a arte humana , que esluda niuilo jiara disfar- 
çar magnas cabalar sentimentos, emhcllezou, quan- 
to podia, este conimum jazigo de graiule parte dos 
moradores da opulenta e muito povoada Londres. 
— Pompas e applausos e monumentos fúnebres se 
não poupam de ordinário; isto é, vaidades de vi- 
vos , consolações do orgulho , que não aproveitam 
aos mortos ; e só a familiares caprichos , a ostenta- 
ções publicas satisfazem. — Não se diga, porem, 
que promulgando ião severa moralidade , quere- 
mos , ou como cynicos entregar os despojos mor- 
laes as prezas das feras, ou adoptar o meio, conta- 
gioso para os vivos , de sepultar nos recintos aco- 
bertados dentro das cidades , quer sejam templos , 
quer logares a esse fim espccialmenle sagrados: — 
trazemos sij á lembrança o ponco apreço das hon- 
ras fúnebres , como quem se persuade que não ha- 



o PANORAMA. 



77 



verá epitaphio que salve da maliliorão da posleri- 
(iadc o homem que uão andou reclainenlc nos ca- 
minhos da vida social : assim como não ha sarco- 
phago que escouda o reproho ao seu eterno e faial 
destino. 

A primeira vinheta mostra a igreja , da commu- 
nlião prolcslantc, no cemitério ao norte de Londres: 
■■1 secunda é iransuniplo do que chamam — a aveni- 
ili e^ypcia — porque com seus oheliscos , entrada 
de prolongada volta d'ahobada , arcliilcctiira maci- 
ça c pezada , indica o cslylo de construir que os 
egypcios tiveram : at(! os informes monumentos da 
apparição da arte tem sido imitados om miniatura 
pela insaciável vontade de cousas singulares, de 
que SC acha possuida a geração moderna. 



O Bobo. 
1 128. 
VII. 

O homem do zorame. 



Os TRES personagens que o conde de Trava vira en- 
caminharem-se para a corredoura contigua aos mu- 
ros do castello , c cujos passos e conversação man- 
dara observar ])elo pagem , iam demasiado preoc- 
cupados para haverem de reparar nos jogos c brin- 
cos de Truetezindo e dos seus companheiros ; e 
tanto mais que na viella perpassavam também ás 
vezes os ovençaes , uchõcs , e sergentes occupa- 
dos nos preparativos do banquete , tornando assim 
menos notável a pessoa do pagem , cujas feições , 
até, já não seria fácil divisar na estreita passagem, 
a certa distancia, e á luz duvidosa do longo crepús- 
culo , que no verão vem apoz o sol posto , e que 
era a hora a que esta scena se passava. 

Kssa claridade do fira da tardo seria comtudo 
ainda bastante forte para o Lidador e Fr. Hilarião 
conhecerem o mensageiro que os buscava , senão 
fora o grande capuz dozoramc, onde tinha como su- 
mido o rosto . do qual apenas eram bem visiveis 
dous olhos brilhantes e uma espessa barba loura. 
Quasi ao mesmo tempo os dous haviam chegado ao 
pé do desconhecido, e lhe tinham perguntado d'on- 
de vinha e quem o mandava, k res|!Osta do peão 
foi tirar um pequeno rolo de pergaminho , atado 
com fio negro , de uma bolça de couro que trazia 
pendente do cinto , e pò-lo nas mãos de Gonçalo 
Mendcz. 

O Lidador recebeu a carta e perguntou de novo : 

«Mas quem te mandou , peão?» 
( «Ura cavalleiro portuguez — respomleu o desco- 
nhecido — que encontrei mui malferido na alberga- 
ria dos hospilalarios era Gaza. O triste c cativo qua- 
si que se morria.» 

Estas palavras excitaram quasi ao mesmo tempo 
curiosidade c receios no espirito de Gonçalo Men- 
dez ; e quebrando rapidamente o fio negro entregou 
a carta a Fr. Hilarião , dizendo-lht : 

«Como a vós vem também a mensagem, lereis 
esses riscos pretos que ahi estão. — Por minha boa 
espada! — cousa é que nunca entendi.» 

Não era raridade : quasi toda a Qdalguia d'então 
se podia gabar de outro tanto. 

Fr. Hilarião desenrolou o pequeno pergaminho e 
começou a lèr. Entretanto o Lidador filou os olhos 
no peão, cuja voz lhe parecia ter jú muilas vezes 
ouvido. . .,_.. . , .. , .,,.,,, 



«Pobre mancebo! — exclamou o ahbadc , tremu- 
lo , e empallidecendo. » 

«Ouem? — interrompeu Gonçalo Mendcz voltaii- 
do-so para clle sobresaltado. 

«Fm cavalleiro — re|ilicou Fr. Hilarião ■ — que 
amei como filho : c que o desejo de oITerccer á da- 
ma que requestava um nome glorioso, levou á Pa- 
lestina. Só talvez eu soube a causa de sua partida, 
de que muitas vezes tentei dissuadi-lo ; porque pre- 
via o que succedcu. Oh que em quanio o pobre tro- 
vador assim morria por Dulce, ella folgava em seus 
novos amores com Garcia líermudez. — Mulheres, 
mulheres ! » 

«Egas Moniz, ó, pois. morto? — interrompeu tris- 
temente o Lidador, que das palavras do abbade co- 
nhecera de quem era a carta. — Mensageiro, ([ue 
dizes tu? Sabes certo (]ue clle é finado?» 

Fm gemido inV(duntario do peão , que recuara 
ouvindo as palavras do abbade , fora a causa desta 
pergunta. 

«Digo-vos, senhor — tornou o peão com voz al- 
fogada — que ora é ellc morto.» 

Mas o cavalleiro não reparou na sua perturba- 
ção : o monge começava a ler alio o pergaminho 
que tinha nas mãos. A magoa do Lidador era pro- 
funda ; porque a sua alTeição por Egas fora cons- 
tante e sincera. Póz-se a escuta-lo. e, bem como ao 
velho ÍT. Hilarião, as lagryraas lhe rolavam pelas 
faces. 

« Escrevo-tc , Gonçalo Mendez — lia o abbade- — 
nas vésperas talvez de morrer. Deus porventura não 
quer que meus olhos tornem a ver o logar onde 
nasci. Novas são aqui vindas de que Fernão Perez 
de Trava tem reduzido á condição de vassallo o no- 
bre filho de meu senhor, o conde Henrique. Criei- 
me cora o infante : sei que elle não o sofIVerá largo 
tempo , nera os ricos horaens de Portugal o soffrc- 
rão lambem. A minha espada pertence áquelle de 
quem a recebi em Zamora : resolvi-me por isso a 
atravessar os mares. Um recontro com os infiéis me 
cortou, porem, os passos. Tu, Lidador, accorrerás 
ao infante mellior que o seu Egas, que o seu irmão 
d'armas. Cem lanças entre acostados e homens de 
tuas honras , podes por em seu campo : eu a custo 
lhe levaria cincoenla. E, alem disso, não vale a lua 
espada dez vezes mais que a minha? Se a guerra 
for começada sei certo quc^já estarás com D. Aflbn- 
so. Um pobre romeiro portuguez me jurou sobre a 
cruz dar-tfr esta carta onde quer que te encontras- 
se. — Faze-lhe mercê por minha alma.» 

Durante a leitura do pergaminho, humedecido 
pelas lagrymas do velho, o desconhecido havia pro- 
curado conter as paixões que lhe agitavam o espi- 
rito. Gonçalo Mendcz ficara cm silencio , apertando 
cora a mão a fronte. O homera do zorame dirigiu- 
se então ao abbade : 

nOuairto a vós, venerável monge, o nobre ca- 
valleiro me ordenou vos buscasse cm vosso mostei- 
ro ; que vos peilisse ura triutario cerrado de vossos 
frades , e que vos lembrásseis dello era vossas ora- 
ções. Agora que mandais de mim?» 

«Vaes partir? — perguntou o Lidador, com um 
tom em que parecia revelar-se a desconfiança.» 

Já — tornou o romeiro. — É noite ; e não sei ain- 
da se é longe se perto o termo da minha jornada.» 

E de feito havia anoitecido : os paços começavam 
a illuminar-se , e os candelabros e tochas vertiam 
atravcz das frestas e balcões dos aposentos reaes 
uma luz brilhante , cujos raios baliam de chapa no 
vulto rebuçado do mensageiro. O cavalleiro c o 



78 



O PA1VORA3IA. 



monge olhavam íilos paracllc. Depois Gonçalo Mcn- 
dcz disse algumas palavras ao ouvido de Fr. Uila- 
rião , e prosegiiiu o seu interrogatório: 

«Para onde, pois, te diriges? — disse ellc ao 
descíinliecido , hesitando , e como quem já a custo 
continha na alma bem diversos pensamentos. 

<< l'ara onde Egas Moniz — respondeu cora vehe- 
inencia o homem do zorame — cria qnc eu vos en- 
<'ontrassc , meu senhor cavalleiro : para o campo 
de D. .\fronso. Peão como sou, irei pelejar por elle, 
que c meu senhdr natural. Que osricos-hnmens fol- 
guem entretanto nos paços onde estranhos gover- 
nam , onde D. Thereza se esquece do que o infan- 
te (• fillio de D. Henrique.» 

Jyitão Gonçalo Mendez fazendo recuar o capuz 
que cobria a cabeça do supposlo mensageiro, olhou 
para clle alguns instantes. Á luz nocturna que o 
allumiava reconhcceu-o então. As suas vivas sus- 
peitas se haviam realisado. 

"Egas! Egas! — exclamou, apertando-o ao peito 
— pensavas que o som da tua voz podia nunca cs- 
quecer-me? — Como ousaste assim entrar era Gui- 
marães ; — tu, sobrinho do senhor de Cresconhc ; 

tu , um dos da linhagem de liiba de Douro? — 

Para que esta carta cruel que veio arrancar lagry- 
mas ao bom Fr. Hilarião, que te ama como um fi- 
lho? Cria-te ainda na Syria. ■> 

«De lá cheguei ha poucos dias — respondeu o 
mancebo , lançando um dos braços á roda do pes- 
coço <lo velho monge que tentava lambem abraça- 
lo chorando, mas de contentamento. — As primei- 
ras novas de que o infante e os infanções de Portu- 
gal tentavam sacudir o jugo do conde de Trava di- 
rigi-me ao arraial de D. Alfonso que se encaminha- 
va para aqui. Lá o teu nome ca affronlado cora o 
titulo de desleal pelos teus inimigos. Estavas em 
Guimarães : as apparencias condemnavam-te , e o 
meu coração padecia. Vim poisdizcr-tc — Lidador, 
é tempo de combater ! Oueria . porem , saber pri- 
meiro se as rainhas palavras tinham na tua alma a 
mesma força que d'antes : queria saber se a tua 
amisade havia expirado como o amor de Dulce , 
que eu já sabia se esquecera de mim : foi para is- 
so esta carta. Sei agora ao certo que ainda te pos- 
so dar o suave nome de amigo ; sei emfim que a 
amisade dura mais que o amor. Vós — accrcscen- 
lou elle voltando-sc para o monge — perdoaes-me 
por certo a magoa que vos causei ! i> 

«Oh, meu filho, meu filho! replicou Fr- Hila- 
rião : para que vieste expòr-tc á vingança de Fer- 
não Perez , que mortalmente odèa a linhagem de 
Kiba de Douro? Podias tu duvidar da lealdade do 
mais generoso e valente dos ricos-homens de Por- 
tugal ?...!> 

«Xão : mas era necessário que pndcsse dizer aos 
que de desleal o accusam : — vús mentis, e sobre 
isso porei meu corpo ; c mentis [)orque de sua bo- 
ca ouvi eu que na hora do combate o seu pendão 
se hasteará Junto da signa do infante. Não direi 
nisso a verdade, meu bom o leal cavalleiro?» 

«Egas — respondeu o Lidador: — que te impor- 
tam a li ou a mim os ditos de alguns sandeus? 
<Juando ellcs ousarem vir a Guimarães dizer o que 
ainda hoje (ionçalo Mendez disse na cúria ao con- 
de de Trava , Ic-los-hei então por mais esforçados 
e niais leaes do que elle. Até o lím pri)Curei evitar 
esta guerra atroz d'irmãos. Perdi a derradeira e.s- 
perança. Agora volta ao arraial ; e piules allirmar a 
Allbnso Henrique/, que dentro de dons dias outenta 
homens ({'armas c sessenta bx'steiros da terra da 



Maia estarão no seu arraial. Dizc-lhe mais, qne o 
traidor Gonçalo Mendez espera com vinte cavallei- 
ros que elle chegue para se unir a seus pendões, 
não de noite como salteador covarde, mas á luz do 
do meio-dia , era que peze ao conde de Trava.» 

A indignação do rico-homem rompera como tor- 
rente ; o monge , porem , confrangia-sc , Icmhran- 
do-se do perigo a que se expozera o imprudente 
Egas .Moniz. Assim, inlerrompendo-o, disse ao man- 
cebo : 

oÉ necessário que parlas já. No meio do ruido c 
confusão do banquete; entre a multidão de genlo 
que vaguca ainda pelo castello e pelo burgo , nin- 
guém te conhecerá. Mas qualquer imprudência pô- 
de perder-te : qualquer imprudência ! . . . Reptara 
bem Egas. Estes paços encerram para ti a morte. • 

Erara o amor e o ciúme do moço trovador que 
o bom do monge mais receava. Sabia quanto clle 
amava Dulce : conhecia a violência das suas pai- 
xões , e que a do ciúme devia ser terrivel naquel- 
Ic coração. Porventura o motivo da sua vinda a 
Guimarães não fora só o que dizia. Estas idéas , 
que de golpe tinham occorrido a Fr. Hilarião, lhe 
faziam desejar cora tanto affinco a partida breve do 
cavalleiro. 

«Não sei porque a rainha vida periga dentro des- 
tes muros — replicou Egas Moniz. Ha mui jioucos 
dias que cheguei a Portugal; e o conde de Trava 
não sabe se o meu balsão Quclua no arraial do in- 
fante. . . » 

«Esqueceste depressa na Terra santa — interrom- 
peu o monge — que quando ha ura cadáver d'as- 
sassinado entre farailia e familia , a vingança , se- 
gundo o brutal foro d'Hespanha , que os santos câ- 
nones ainda não poderara destruir , dura de pães a 
filhos; convoca, sob pena de deshonra , todos os 
parentes do morto c do assassino a lides atrozes e 
a ódios implacáveis. A linhagem de Riba de Dou- 
ro segue toda os pendões do infante. O conde folga- 
ria com que a de Trava c Trastamara fosse chama- 
da a defender os dclle pela voz imperiosa do que 
ricos-homciis e infanções crêem brio e dever. Lem- 
bra-te , meu filho , da linhagem a que pertences , 
de que o conde é homem feroz , e que tu serias 
uma victima illustre para pretexto de perpetua guer- 
ra de homizio entre Portugal e Galliza.» 

O mancebo ficou por algum terapo pensativo r. 
murmurou: — «cumprir-se-ha meu destino! De- 
pois voltando-se para o abbade disse-lhe : — «Ficai 
tranquillo, bom Fr. Hilarião , esta mesma noite sa- 
birei de Guimarães. » 

"E breve! — acudiu o Lidador. — O esforço não 
excluo a prudência. Se todavia alguém tentar em- 
bargar-te os passos não te esqueças de que Gonçalo 
Mendes está aqui, e que tcra comsigo vinte escu- 
deiros valentes. » 

Neste instante as trombetas tocavam pelos eirados 
do paço e pelos adarves do castello , c ouviam-se 
romper da banda da sala d'armas os sons ásperos 
o vibrantes das charamelas. 

« fi o signal de que começa o banquete — notou 
o abbade , a quem similhanles sons eram suaves , 
ainda nas maiores angustias. — íí necessário appre- 
sentarmo-nos a tempo , para não causarmos suspei- 
tas. )) 

Egas apertou a mão do Lidador, abraçou o mon- 
ge, o puxando o capuz do zoranie para diante, se- 
guiu ao longo da viella . em quanto os dois retro- 
cediam e se encarainhavam para a escada principal 
do palácio, com passos lentos c conversando em voz 



o rAINOKA31A. 



79 



baixa. .Vnles de; chesrarem acima viram passar por 
cllcs um pagL-ni ;;algamio os degraus qualro a qua- 
Iro , c riiuiii cnmo um perdido. 

<i Estes rapazes são doidos!» — disse o monge 
para o seu companheiro de modo que o pagem o 
ouvisse. 

Este olhou para traz, litou os olhos era Fr. Hila- 
rião com !íra\idade cómica , e deu uma gargalha- 
da , continuando a galgar a escadaria. 

Era Tructcsindo. 

fÇontimtar-se-ha). 
(Â. Herculano;. 



PORTLGAL. . 
XXIV. 

COJIO V VU.1.\ DF. S\>T.\nKJI IIOIVE V.ÍRIOS NOMES (•). 

MtiTO remotos, e escuros são os tempos a que hou- 
>cramos de recorrer , se tomássemos por empreza 
escrever acerca da fundação desta anliquissima vil- 
!a : e SC os tempos, por apartados, nos dariam gran- 
de , e por ventura baldado trabalho , cm rastrear a 
verdadeira era , não nos dariam menor as incerte- 
zas das historias , e das memorias, que nos ricarara 
dos diversos povos , e gentes , que ou por vários 
casos , ou por atrahidos da riqueza , fertilidade , e 
doçuras deste nosso pai/., dclle se fizeram senhores, 
c por ellc fizeram e sotTreram durissimas guerras, 
c continuados sustos. O que se pode ter por sem 
dúvida é que os fertilissimos campos de Santarém , 
e a natureza defensável daquelle Idgar convidariam 
desde logo os primeiros habitadores deste paiz a 
ficarem alli de assento, e a edificarem a vjlla na- 
quelle mesmo ponto , que a natureza formara como 
atalaia . e defensão dos riquíssimos e alegres valles 
que o cercam. Não nos embaraçaremos aqui com a 
natureza , origem c costumes desse primeiro povo , 
que lançou os fundamentos desta Ião formosa e tão 
histórica villa ; pois que tratando somente do seu 
nome , ou nomes , força é que sobresaltemos todas 
essas verdadeiras ou fabulosas historias, c que ape- 
nas apontemos ossnccessos que se casam com o nos- 
so ponto ; nem entenderemos na fe que nos elles 
merecem. O primeiro nome , do que havemos me- 
moria , que os antigos lusitanos dessem a esta nos- 
sa villa , foi Scalabis . e lambem scalabicastrum . 
ambos procedidos da mesma origem, e prendendo 
no mesmo succcsso , o qual , segundo as historias , 
passou quasi doze séculos antes da era vulgar por 
esta forma. Levando os lusitanos daquelle tempo 
grande enfado na duração do seu governo republi- 
cano [senão era que amestrados pela experiência 
queriam ser governados por outra melhor forma] 
elegeram rei ura natural , chamado Gorgoris , de 
cujos espíritos e boas partes esperavam grandes me- 
lhoramentos para o paiz , e mormente para a agri- 
cultura , em que era homem entendido , e de gran- 
de reputação por haver introduzido , ou animado a 
creação das abelhas , e o uso do mel e da cera : se 
outras doçuras , ou outras luzes trouxe a este povo 
o novo rei, não o sabemos nós : o mais que nos diz 
a historia , e o que vem ao nosso caso é que uma 
sua filha dera á luz uni menino , que por certo não 
fora desejado . nem esperado por elrci , seu avô ; c 
que por isso , e pelo mais , que dabi podéra arrc- 

(•) A'id. a noticia de Santarém coui uma estampa a 
pag. 172 e sei;, do vol. 3." da 1." Serie. 



cear por si , e pelo reino , o mandara cllc malar, c 
lançar ao Tejo , julgando que com a morte deste 
innoceiíle ficaria mais segura , ou menos oITendida 
sua coroa : porem l)a!dado foi este bárbaro empe- 
nho : que os decretos da Providencia estão muito 
fora dos compassos da prudência e da ardileza hu- 
mana. C)Tcjo, que em maravilhas não devia de ser 
Inferior nem ao Nilo , nem ao Tibrc , senão que 
aos mais famosos do mundo linha de ser igual ou 
superior; o Tejo toma brandamente cm seus braços 
o menino , e como que o vai acalentando até o en- 
costar em mimosa cama de rosas e de mangcrona 
na margem próxima áquelle sitio aonde está a villa 
de Santarém , e ;'onde foi salvo e creado , dando 
depois, do seu próprio nome — que foi Abi d ix : e do 
successo — noineá villa 5c(j/aW.v, ou Escalabis, como 
se dissera esra Abidis , isto é logar aonde .Vhidis foi 
alimentado. Não occultaremos a circumstancia, que 
nos referem as historias, /leque foi uma corça quem 
primeiro acudiu ao menino e lhe serviu de ama : 
nesta parte não tem o nosso Abidis (juo invejar a 
Cyro , ou a líomulo. 

O segundo nome que teve esta villa foi Jidium 
Prwsidium cm obsequio de ,lulio César, quando já 
quasi toda a Lusitânia estava feita colónia romana , 
e se dava por grande honra este titulo ás suas me- 
lhores cidades e villas : nem se julgue que foi só á 
força d'arraas que Roma alcançou tanto favor dos 
lusitanos; que bem cara lhe custou a confiança qiio 
nellas punha , vendo muitas vezes rolos e vencidos 
seus exércitos por este povo ; e não podendo levar 
d'elle o melhor senão por feias traições» ou por 
grandes promessas e muita brandura. Este ultimo 
partido seguiu Júlio César, e logrou com privilé- 
gios, honras, isempçõcs e liberalidades, o que não 
podéra alcançar com o esforço de seus exércitos ; 
viu abrandar-se o orgulho lusitano , e pacificar-se 
esta rica província. Foi então celebrado seu nome 
por muitas partes. Beja tomou o nome de Par Jú- 
lia , Évora o de Liberalitas Jiiliu. Merlola o de Jú- 
lia Mirlili^, Lisboa o de Feliatas Júlia cOm as hon- 
ras de município de cidadãos romanos para os seus 
moradores , c Santarém trocou o nome de Scalabis 
j por o de Julium Pra-sidium como levámos dito. Mas 
i nem a grandeza das honras , nem a lembrança dos 
i beneficios , que de Júlio César receberam os lusl- 
! tanos , poderam apagar em corações tão avessos ao 
j domínio estranho o que delle conservavam e lem- 
I bravam esses nomes : acabaram , e quasi que estão 
] esquecidos ! 

' [Coticluir-se-Iia.j 



A ELEV.^ÇiO DO HOMEM SEM MEEITO. 

C.vDA homem tem o seu talento que deve cultivar , 
o seu destino que deve seguir, a sua mota que não 

i deve ultrapassar. Sc cultiva um talento que a na- 

: tureza lhe não deu . se segue um destino que ella 

I lhe não marcou , se ultrapassa a mela qne ella lhe 
poz , perde o tempo . o trabalho , a consideração 

I que d'ouíra sorte alcançaria; e torna-se um objecto 

' de desprezo e de riso. 

Todo o que pertender , como o atrevido Ícaro, 
sahir fora da sua esphera natural , e alar-se a uma 
região que lhe não pertence , valendo-se unicamen- 

; te das azas de sua vaidade , tão perigosas e frágeis 
como as de cera que ícaro levava em sua temerá- 
ria ascensão, conte que hadc >oltar para o ponto 

I d"onde sahiu , e será muito feliz se não destroncar 



8t) 



O PANORAMA. 



as pernas no seu retrocesso. Os repetidos naufrágios 
(lestas raachinas aerostaticas deverão escarmentar os 
l>resumidos ; mas a filáucia c incorrigivel , c zom- 
ba de todas as lições da experiência. 

Gire cada um dentro do seu círculo, que do con- 
trário tirará desagradáveis resultados. Dispa-se de 
invejas e d'arabições , e i'ão passará pela serasabo- 
ria da gralha du fábula, que, namorada da formo- 
sura das pennas dos pavões , c querendo fazer li- 
jíura no meio destas aves , voltou espicaçada e co- 
berta de vergonha para a sua grei. O mundo cora- 
põe-se de tudo , tem pavões, e tem gralhas: ser 
gralha não é villeza , mas querer ser pavão é lou- 
cura. Cada ente tem o seu destino, e a sua impor- 
tância : se os pavões se gloriam da sua bella i)lu- 
luagem , as gralhas podem gloriar-se de ler ensina- 
do os caracteres das lettras aos homens , como dis- 
se Lucano nos seus versos. Ninguém se vá metter 
onde não cabe , nem queira representar no theatro 
da sociedade papel para que não tem arte : se nas- 
ceu para o ridículo, não aspire ao serio; se tem 
alma i)ara o pathelico , deixe o terrível; se sahiu 
azado para lacaio , não vista a purpura , nem era- 
])unhe o sceptro. Esta doctrina está Ioda cifrada no 
canou de lógica : — 

ISlIdl aggrcdilor , imita Minerva. 

Não se abalance a nada algum mortal 
Contra seu génio , c instincto natural. 

Os que se deslembrara deste saudável aviso , tão 
documentado pelas lições da experiência , de ordi- 
nário são victimas do seu orgulho e da sua vaida- 
de , e merecem que se diga delles o mesmo que o 
nosso Miguel do Couto Guerreiro diz , na sua Arte 
{loetica , dos que se mettera a poetas sem vèa : — 

Elks tem para versos tanto sueco 
Como para solfista tem o cuco. 

O publico , da sua parte , põe-se a rir de todos 
os que menoscabam esta máxima salutar , e que 
procurara uma importância que a natureza lhes não 
deu , como Iodas as aves se riem das vaidosas per- 
tenções do cantor de maio : — 

Houve grande galhofa , tudo ria '*' 

Uos louvores que o cuco pertendia. 

Nem as artes , nem as sciencias , nem as ropu- 
lilicas hão mister dos serviços de homens , que não 
nasceram para exercer as primeiras , para cultivar 
as segundas, para administrar as ultimas. Jlas dei- 
xando tudo o mais , consideremos só — A elevação 
do houíera sem mérito. — 

Se os horaíus tivessem menos orgulho , vaidade 
c ambição , c mais alguma tintura de modéstia , e 
mesmo de um amor próprio mais delicado , as re- 
publicas seriam mais bem servidas, e não veríamos 
tanta gente elevada , que, para interesse seu e do 
publico, nunca deveria passar da esteira cm que a 
natureza oscollocára, marcando-lhes expressamente 
o seu destino pelo talento cpela habilidade que lhes 
dera. 

O nosso século appresenta , nesta matéria , uma 
carreira tão pouco delicada, que desalia a indigna- 
ção c o riso dos homens sisudos e cordatos. Vemos 
que hoje cada um se constituo juiz de seu mcrito 
pessoal , e que o não julga devidamente considera- 
do e premiado, em quanto ha uma vantagem a con- 
seguir , uma honra a lucrar, um interesse a haver, 
um degrau a íubir na escala da jcraichia social. 



Os antigos esperavam que os chamassem para os 
cargos; os modernos procuram-nos. Os antigos, ain- 
da depois de chamados, hesitavam muitas vezes, 
meditavam comsigo , ajudavam-sc do conselho dos 
amigos, olhavam para o peso do emprego e para a 
capacidade dos bombros , cnlendiam-se com o céu, 
e não eram poucos os que acaba\am i)or agradecer 
a mercê, sem se poderem resolver a acceita-la. — 
Agora qualquer homem, que não tem muitas vezes 
outra importância senão a que elle mesmo dá a 
si, julga-se asado para tudo , e trabalha para se 
coUocar onde a ambição e a vaidade próprias lhe 
dizem que é o seu logar. 

As circumstancias dos tempos fazem muitas vezes 
reputações que nunca existiram, nem existiriam pa- 
ra todo o sempre, a não ser o poder magico e crea- 
dor das mesmas circumstancias. Vale hoje um ho- 
mem, d'uma ui)nucadissima mediania, pofque vende, 
a quem quer que o tire tia sua obscura e devida 
posição , a sua omnimoda cooperação. Alguém que 
precisa destes manequins, com quanto conheça a sua 
nullidade , considera-os , ajuda-os , facilila-lhes a 
elevação, e vai rindo ás escondidas dos misera\eis, 
e fazendo os seus arranjos. Os nossos homens , cujo 
relevante mérito está cifrado no seu orgulho e no 
seu descommedido atrevimento, lulam a bochecha , 
alteam o sobroliio , regulam melbodicamcnle o mo- 
vimento dos olhos , concertara os ademanes , mesu- 
ram o passo , compassam as falias , e reputam-se 
umas notabilidades , que ainda merecerão uma es- 
tatua , ou ao menos um epiíaphio honroso que os 
distinga lá nocampo da igualdade. (Juem os .ijudou 
vai bem : tira o seu interesse , tem os seus escra- 
vos , e , emfim , lá sabe o seu jogo. A republica , 
porem , e aquclles que os sofírem é que não vão da 
mesma sorte.-. — a republica porque é mal servida, 
e os que os soílrem porque são victimas da sua ina- 
ptidão. 

Elles que se levantaram do logar onde a nature- 
za os collocára [que bem sabe o que faz ! ] dão por 
paus e por pedras, e, segundo o citado Guerreiro : — 

Por isso de seus loucos desvarios 
Tiram só paleadas c assovios. 

Os que estão de fora vendo a representação co- 
meçam de rir a panno cheio, como as aves se riam 
do pardal de que já falíamos, e vão dizendo uns 
para os outros, fazendo uma engraçada parodia dos 
versos de Guerreiro : — 

Elles tem para empregos tanto suceo 
Como para soljista tem o cuco. 

(O Moralista.) 



fígsques petrificados. — \a margem Occidental do 
Missouri , [>'orte-.4.merica] algumas milhas acima 
do sua juncção com o Vellow-stone [o pedra-ama- 
rella] , as lombas das serras , que estão superiores 
ao nível do rio obra deSitoesas, mostram um 
pbenomeno credor de mui especial observação ; por- 
quanto a superfície inteira desse terreno se desco- 
bre semeada de troncos , raízes , e ramos de arvo- 
res , mas tudo convertido em substancia de pedra : 
— quem as vè, capacita-se que algumas arvores fo- 
ram arrancadas pelas raízes, outras partidas acima 
do pé. — Dois olhcíaes das tropas dos Kstados-l ni- 
dos [vulgo America ingleza] mediram um dos tron- 
cos maiores e acharara-lhe \inte e dois palmos de 
circumferencia. . , 



64 



o PANORA3IA. 



81 




TAJl^í^CA DS. I.OUÇA, XM MIBAGAYA. 



PORTUGAL XXV 



Porto. 



Por vezes lemos fallado da nobre e rica cidade do 
Porto [a segunda deste reiao a lodos os respeitos] 
com a consideração que merece , e com a largueza 
que comportam os limites do nosso Jornal e a som- 
ma de noticias que havemos adquirido. Começámos 
pelo bosquejo do caracter geral de seus habitantes 
no 3.° artigo sobre o Minho, quo inserimos a pag. 
147 do vol. 2." da Serie antecedente , tratámos es- 
pecialmente do Douro a pag. 177 do vol. 3.°, e das 
particularidades concernentes á cidade a pag. 281 
desse vol., 1(51 do i.°, c 233 do 5." — Xa presen- 
te Serie 2.', por occasião de eslampar-mos o cons- 
pecto da igreja de Cedofeita , discorremos sobre a 
muita antiguidade dessa collegiada ; agora colligi- 
remos as encontradas opiniões de dois cscriptores , 
ambos nacionaes e ecclesiasticos , acerca da epocha 
da fundação da freguezia de S.Pedro deMiragaya : 
— e se pelo que loca ao edifício , representado na 
gravura com que este numero abre , nnda podemos 
dizer , quer da casa , quer do estabelecimento [que 
vem a ser a fabrica de louça de Miragaya] é por- 
que , ou por negligencia e ommissuo , ou por mal 
fundados receios , não nos foram ministradas as in- 
formações que soUiciíámos de pessoa apta a forne- 
cè-las. Sabemos só que desta manufactura está sa- 
hindo boa louça. 

Miragaya é um bairro assaz povoado , ao sul 

da cidade, e fronteiro a A'illa-N'ova de Gaya , cir- 

cumstancia de que tirou o nome ; está em relação 

ao Porto, guardadas as devidas proporções, como o 

M.\Rr,o 18— 184o. 



dibíricto d'.\lcanlara para com Lisboa : tem um lar- 
go , guarnecido de arvores , assim como de um pa- 
rapeito á beira do rio , e de boa casaria com vista 
para o Douro : as grandes cheias salvam aquella 
guarda e vão na parte opposla inundar o pavimento 
das logeas : por tempo ameno é este largo um pas- 
seio agradável. — Alem de outras , a principal in- 
dustria do bairro consiste em muitas ferrarias. 

Pelo que respeita á igreja parochial í edificio raui 
apoucado e mesquinho, erecto ou reparado, no lo- 
cal de outro mais velho, mas cuja remotissima an- 
tiguiilade é contestável , pela boa critica , como se 
verá do segundo cxcerplo , que poremos aqui. — 
O arcebispo D. Rodrigo da Cunha , exprirae-se a 
este respeito, no Calai, dos bispos do Porto, 2.' 
part. cap. 43.°, da maneira seguinte — 

— «O padre fr. Miguel dos .\njos . chronisla da 
Ordem dos Eremitas de St.° Agostinho , em certos 
papeis que nos mandou , tocantes ás cousas deste 
bispado [em que nós o consultámos como pessoa tão 
douta nas antiguidades e como natura! desta cidade] 
nos escreve que a cidade do Porto esteve [segundo 
tradição] primeiro na paragem em que está agora 
Miragaya, o dahi a mudaram os suevos para o mon- 
te da sé e paços do bispo : pelo que lhe parecia que 
a igreja de S.Pedro de .Miragaya fora edificada por 
S. Basilco , primeiro bispo do Porto, e dedicada a 
S. Pedro , que ainda então vivia , e viveu alguns 
annos depois , qucrendo-lhe S. Basileo , com esta 
honra [lagar a saúde que lhe dera á poria do tem- 
plo em Jerusalém, como em sua vida deixámos re- 
ferido (lo Juliano , arcipreste de Toledo : que o te- 
ve por aquelle coxo, que o santo apostolo sarou in- 
do em coDipanhia de S. Joãu , á porta especiosa do 
templo : opinião que o padre fr. Luiz de todo abra- 
ça , e nós agora , cora auctoridade de tal escriptor, 

2.° Serue. — YoL. 11. 



8-2 



O PANORAMA. 



temos por mais provável. E já pôde ser que este foi 
o primeiro templo que o glorioso apostolo S. Pedro 
teve dedicado a seu nome » — 

O padre Agostinho Rebello da Costa impugnando 
o que acima fica transcripto , diz por este modo , a 
pag. 103 e segg. da Descripç. do Porto , cap. 3.° 
— «Porem devendo eu fallar com aqueila circums- 
pecção digna de uma matéria tão grave , digo que 
não posso concordar cora esta opinião, hera que abo- 
nada por tão doutos o respeitáveis escriptores : — 
primo; porque já mostrei no cap. 1." que esta ci- 
dade fora fundada pelos suevos, sem que até aquel- 
le tempo houvcíse nella povoação alguma mais que 
o pequeno logar de Gaya , que íica da parto me-i- 
dional do Douro, e que forma cora Villa-Nova um 
grande hairro da cidade ; e se até aqucUe tempo 
não havia povoação alguma , como podiam haver 
bispos que a governassem? — Secundo; porque é iii- 
crivcl que em vida dos apóstolos houvesse quem 

consagrasse templos á sua memoria tcrliú : em 

nenhum Concilio, ou geral ou provincial, nem ain- 
da era escriptura ou documento algum authentico 
apparece nome de bispo que fosse desta cidade até 
o tempo do bispo Constâncio: os nomes dcArisber- 
fo , Thimotheo, c Viator , que fazem único liispo 
da igreja de JUeincdo no districto deste bispado, 
são igualmente excluídos pelas rasõcs expostas, qiie 
se mostrariam mais energicamente e cm toda a sua 
extensão se eu houvesse de tratar este ponto funda- 
mentalmente. — Não deixarei comtudo de escrever 
ura particular fundamento , que junto aos referidos 
me confirma na opinião de que foi Constâncio o pri- 
meiro bispo do Porto. Sabc-se perfeitamente que 
fundando elrei Theodomiro a igreja de Cedofeita 
pelos aunos de 339 fora sagrada a mesma igreja no 
anno seguinte de 360 por Lucrécio , bispo de Bra- 
ga. Ora se havia no Porto bispo que podesse cele- 
brar este acto, para que foram buscar o bracharen- 
se?. . Se eslava então vago o de Porto, porque ra- 
r.ão não consta esta vacatura dos aulhcnticos e an- 
liquissimos documentos , guardados no arcliivo da 
mesma CoUegiada ? Porque rasão não consta da ins- 
cripção lapidar, que está sobre a porta principal, 
c que é um compendio de tudo o que alli se obrou? 
Porque rasão não consta da copiosa attcstação, que 
enviou ao St.° P." João 2:í.° o bispo do Porto D. 
Fernando P.amires no anno de 1318, que refere 
cora admirável exacção toda a historia da sua ori- 
gem? Mas como hade constar, se na mesma attes- 
lação se declara que adita igreja fora edificada pri- 
meiro que a cathedral? Sendo pois esta posterior 
áquella , como seria possível que tivesse bispo para 
a sagrar, naquelle aimo de 360? — O que se sabe 
com certeza é que esta igreja de S. Pedro de Mi- 
ragaya já estava edificada no anno dcli33, cmque 
foi nella depositado o corpo de S. Pantaleão , mar- 
tyr , padroeiro da cidade " — 

A igreja de Mirugaya goza a permissão pontificia 
de Lauspereime em todas as quintas feiras do anno ; 
e possue uma imagem de Jesus Crucificado , tida 
de longos tempos era grande veneração dos fieis. 



AkCHEOLOGIA 1'OUri'GL'EZA. 

V[. 

Viaijcm a Portugal dos cavalleiros Tron c Lippomani. 

(1380.) 
QukNoo o anno passado offereccmos aos leitores do 



Panorama vários extractos da viagem do cardeal 
Alexandrino (1) tendentes a fazer conhecer, melhor 
do que se conhecem, as nossas antigas cousas, pro- 
meítemos ahi extrahir algumas passagens de outro 
livro inédito, que nos pareciam dar no alvo em que 
tínhamos posto mira. Este livro é uma narração da 
viagem dos dois embaixadores mandados pela re- 
publica de Veneza cumprimentar Philippe 2.° pela 
conquista de Portugal. A epocha da viagem é quasi 
a mesma da que já extractámos ; mas o auctor ano- 
nyrao desta toca outros pontos mui diversos dos que 
em grande parte haviam dado matéria ás observa- 
ções do antecedente escriptor. No presente manus- 
cripto , a relação do caminho que os embaixadores 
fizeram pelas províncias nadr, contém que não se 
ache em obras [)o:tuguezas impressas. Na descri- 
pção, porem, particular de Lisboa, apontam-se tan- 
tas parlicularidaúes sobre os usos , hábitos e grau 
de civilisação do paiz, c tantas noticias económicas 
ignoradas, por certo , dos leitores , que julgámos 
conveniente lançar aqui a memoria dessas cousas, 
que porventura importam mais á historia do que 
commummente se cuida. 

Na descripção geral de Lisboa e particular das 
igrejas, paços rcaes , Iiospital , &c. nada ha notá- 
vel nesta viagera , senão os muitos erros acerca de 
quasi tudo o que é histórico , em que o auctor só 
parece ter consultado pessoas menos instruídas em 
taes matérias. Nessas descripções o bom do vene- 
ziano , auctor do livro , segue o estylo eommura no 
seu terapo : as igrejas são grandes, aceadas , ricas ; 
os paços vastos, sumptuosos, nobres ; e com isto se 
contenta. Não assim no que vamos extractar , co- 
meçando pela noticia da fonte dos cavallos d'aramc, 
já tão celebre no tempo de D. Fernando. 

« Para o lado da porta que chamam da Cruz , ha 
outra fonte , ou antes lago , que denominam dos ca- 
vallos ; porque da boca d'alguns cavallos de metal 
sa ; tanta agua, que forma uma corrente a modo de 
ribeiro. >> , ... 



(c Posto que Lisboa seja tamanha e tão nobre po- 
voação , não tem palácio algum de liurguez , ou de 
fidalgo , que mereça consideração quanto á raate- 
ri,> : e quanto á architectura apenas são edifícios 
muito grandes. Ornam-os, porem, de tal modo que 
na verdade ficam magníficos. Costumara forrar os 
aposentos de rasos (2) , de damascos , e de finíssi- 
mos razes no inverno , e no verão de couros doura- ^ 
dos mui ricos, que se fabricam naquella cidade. ji 

As ruas, bem que largas, são muito ínconimodas, '' 
por subidas e descidas contínuas a que obriga a 
desigualdade do terreno Por isso usam os mo- 
radores andar a cavallo , do que procede vcrera-se 
naquella cidade bellissimos ginetes , que os portu- 
guezcs compram por todo o dinheiro, atlendendo a 
grande estimação cm que os tcera. Não usara de 
coches , e quatro ou seis que ahi havia eram de 
castelhanos que seguiam a corte. Quanto as ruas 
em geral são más e incómmodas para andar assim 
a pé como era coche , tanto é fácil , deleitosa , c 
bella a Uua-nova pelo seu comprimento c largueza, 
mas sobre tudo por ser ornada de uma infinidade 
de lojas, cheias de diversas mercadorias para o uso 
de nobre c real povoação. — Entre cilas ha quatro 
ou seis que vendem objectos trazidos da índia , co- 
mo |)orcellanas fi nissimas de vários feitios, conchas, 

(1 1 Viii. a |iat'- 5;H c 3-15 ilu Vul. l.", preseiitu ticrie. 

Çi) lias o , [luuuos de lan sem felpa. 



.■ ■. r. i 



\H/:\r. 



o PANORAMA. 



»3 



cocos lavrados de diversos modos , caixinhas guar- 
necidas de raadroperola , c oiilias ohras similhan- 
tes , que d'aiitcs se compravam i)or moderado |ire- 
ço , mas que ullitnariienle eram caríssimas |)or Ires 
respeitos: o da peste que havia assolado a cidade; 
o do sacco dado pelos castelhanos quando entraram 
em Lisboa , bem que eiroi houvesse ordenado ao 
duque d'Alva tal não consentisse aos soldados ; c 
ultimamente pela rasão de não terem vindo arma- 
das da índia durante dois annos. .\a mesma llua- 
nova ha muitas lojas de livros, com infinito numero 
dellcs cm portugucz , castelhano , latim e italiano. 
Todos são mui caros ; e por isso os estudantes , por 
serem pobres , costumara mais aluga-los [como ahi 
dizem] a tanto por dia, do que compra-los. Não de- 
ve esquecer aqui , que na praça chamada do Pe- 
lourinho velho estão de continuo assentados mui- 
tos homens com mesas ante si (3) , os quaes se po- 
dem chamar notários ou copistas sem caracter de 
oiliciaes públicos , e que neste exercício ganham a 
sua subsistência. Sabida que c a idéa de qualquer 
freguez que se chega a elics , immediatamente re- 
digem o que SC pertende , de modo que ora com- 
põem cartas d'araore5 , de que se faz grande gasto , 
ora elogios, orações, versos, sermões, epicedios , 
requerimentos , ou outro qualquer papel , cm esly- 
lo chão ou pomposo. Junto da Rua-nova ha muitas 
outras mas, cada uma das quaes tom suas lojas de 
uma só espécie de mercadorias. Ka dos ourives do 
ouro havia muitas mal abastecidas de pedras pre- 
ciosas, de pc-olas, d'ambar, e d'almiscar, em con- 
sequência da tardança da frota. \ prata em Lisboa 
é lavrada com delicadeza e variedade , por ser cos- 
tume, assim entre nobres como entre plebeus, usa- 
rem de pratos e bacias de prata. Ha igualmente 
ahi lojas cheias de doces e frutas seccas , c cober- 
tas, primorosamente preparadas, de que se faz gran- 
de trafico, mandando-as para diversas partes do mun- 
do. Vende-se também , em uma única rua , grande 
quantidade de telas de Ioda a sorte , portuguczas , 
flamengas c italianas: das. primeiras são na verdade 
bellas algumas que chamam casiquino [ ? ] mui finas 
c alvas, e alguns lenços á mourisca, que são bara- 
tos e lindos. IVoutra parte , em certa viclla , tra- 
balham delicadamente ao torno, cm que fazem guar- 
da-soes de barba de baleia , obra acabada , e cocos 
lavrados a modo de taças , com embutidos de ma- 
deira do Brasil. Vasos de estanho , c mais objectos 
deste metal se fabricam abundantemente n'outra 
rua , e se carregam para a índia , onde dão grande 
lucro. 

O comraercio da praça de Lisboa é muito consi- 
derável pela correspondência que tem ordinariamen- 
te com todas as outras da Europa e do Novo-Mun- 
do , de modo que as permutações são importantís- 
simas , e os negociantes possuem grossos cabedaes ; 
porque só nas especiarias e drogas, que vem a Lis- 
boa , depois que expirou pelos annos de 1304 o 
commercio da Syria , c d'Alexandria , ganham rios 
de dinheiro, que perdem os nossos venezianos, pois 
eram elles quem fazendo trazer estas preciosas mer- 
cadorias pelo Mar-riixo a Beyruth e a Alexandria , 
d'alli as transportavam a Veneza nas galh''S d'alto 
bordo. Bem como costumam partir deSe>ilha todos 
os annos armadas para irem ás índias occidentaes 
pertencentes á coroa de Caslclla , assim costumava 

(3) Desla velha usança de Lisboa faz já menção D. de 
Góes na descripçSo de Lisboa, escripla em latira na primei- 
ra metade da século 1G.° — de que aisum dia daremos os 
extractos mais curiosos. 



clrei D. Sebastião mandar ordinariamente uma fro- 
ta de Lisboa ás índias orientaes. No anuo om que 
este rei morreu, partiu no mez de março para Ma- 
laca , segundo me contaram , uma náu del:''(()0 to- 
neladas , c um mez depois mais cinco do mesmo 
porte para (ióa. Lra este o numero de vasos que ia 
aniuialmente, e aquella a monção da partida. Kssas 
naus levavam carga delrei e dos particulares. Por 
couta destes ia vinho , azeite , pannos linos de va- 
rias cores , d'lnglaterra , Flandres c Castella , bar- 
retes finos c ordinários de Toledo , escarlatas de Ve- 
neza c de Valência , rasos de Florença , sarjas de 
lan de Flandres, marlotas de Constantinopola, acol- 
choados e calças de seda de Nápoles , Vídludos de 
Génova , damascos de Lucca , taffetás e calças de 
seda de Toledo , sarjas de seda e luvas de Valên- 
cia. Por conta d'elrci carregavam-se coráes cm bru- 
to e lapidados , azougue , cinabrio , arame , espe- 
lhos c diversos vidros de Veneza , mercadorias que 
ninguém podia enviar sem expressa licença delle. 
O que , porem , principalmente se exportava era 
uma grandíssima porção de prata cm reales caste- 
lhanos, negocio em que se ganhavam 30 por cento ; 
e aflirmaram-me que os contractadores das especia- 
rias , e vários outros negociantes mandaram nas 
cinco ultimas naus para Góa um milhão e trezentos 
mil ducados. Este tracto havia crescido a tal pon- 
to que era de maior lucro a ida que a volta 

A carga para Lisboa consistia principalmente em 
pimenta a- granel , que devia subir , por contracto , 
pelo menos a trinta mil quinlacs, c que se dividia, 
metade para elrei , que não entrava neste negocio 
com somma alguma, e a outra metade para os con- 
tractadores que tinham o exclusivo da pimenta : o 
quinhão de elrei compravara-na ordinariamente os 
mesmos contractadores a 32 ducados o quintal. Aos 
particulares era licito mercadejar em qualquer ou- 
tra especiaria pagando os direitos 

Do reino de Soffala vinham todos os annos a Lis- 
boa 170 barras d'ouro, e uma barra vale para ci- 
ma de 300 ducados : lambem de Soffala e de toda 

a Guiné vinha grande quantidade de marfim , 

Traziam-se igualmente a Lisboa sedas da China , 
pannos finíssimos e ordinários de algodão do Bra- 
sil , bellos tapetes da Pérsia , ébano , aguila , pau 
brasil , dixes e louça transparente de porcellana , 
bórax , camphora , laca , alocs-hepatico , tamarin- 
dos , cera, almíscar, âmbar, algalia , beijoim , 
pérolas , rubins , diamantes e mais pedras precio- 
sas em abundância, e outras varias mercadorias que 
iam do Egypto para Alexandria, as quaes, todavia, 
não eram a milessima parte das que vinham a Lis- 
boa nas sobreditas frotas 

Os homens da cidade de Lisboa e de lodo o Por- 
tugal são de mediana estatura , mais baixos que al- 
tos, magros, de cór ferrenha, cabcllos e barba pre- 
los , olhos negríssimos , e mui similhantcs no exte- 
rior aos gregos. O seu trajo, antes da morte do car- 
deal rei , era mui mesquinho , em consequência da 
pragmática , que não consentia usassem vestidos de 
seda ; pelo que trajavam um saio de baeta prcla , 
calções de panno escoccz, borzeguins de marroquim, 
chapéu de feltro e capa comprida da mesma bacia. 
Com a chegada d'elrei catholico allcraram o seu 
antigo trajo , porque , posto que conservaram a ca- 
pa de baeta , começaram a usar do gilião de raso , 
bragas e calções de velludo e meias de seda , cou- 
sa que nunca tinham calçado, bem como cscarpins, 
dos quaes não era possível achar um só par antes 
da entrada d'clrci .. porque lodos, sem excepção , 



Si 



o PANORAMA. 



calçavam borzpguins. São os portuguczcs mais am- 
biciosos de louvores que outra qualquer nação do 
raundo , adirmando que as suas façanhas são mila- 
grosas. Celebram Lisboa com tal copia de palavras, 
que a fazem igual ás principaes cidades do mundo, 
e por isso costumam dizer : — Quem não vè Lisboa, 
não vè cousa bòa. = A gente miúda gosta que Ibe 
dêem o tratamento de srnlior , manba esta commum 
a toda a Hespanba. Vivem parcamente , porque a 
plebe pela maior parte é pobre , o os cavalleiros 
que se teera cm conta dóricos fundam a opinião da 
sua riqueza em possuírem uma ou duas aldèas, com 
trinta ou quarenta visinhos cada uma , no meio de 
campinas estéreis com vinte ou trinta folhas culti- 



vadas , e tudo o mais inculto, áspero, c coberto de 
pedras , cora alguns cazebrcs mesquinhos , e mal 
concertados, como eu o experimentei durante mui- 
tas semanas daquella viagem. 

Poucas pessoas se dão ahi .is Icltras ; mas appli- 
cam-se muitos ao commercio, género de vida abor- 
recida dos nobres , que nem podem ouvir fallar cm 
tal, tendo por gente villissima os mercadores. Exer- 
citam-se apparentemente nas armas , c algum tanto 
em cavalgar . conlentando-se com ter leves princí- 
pios destas duas profissões , sem quererem suppor- 
tar mui diuturno ensino. 

f Continuar-se-ha) . 
(A. Herculano). 




O FHAISAO AUGOS OU SE JONO. 



De PlTASis , na Ásia menor , foi transportado á Eu- 
ropa , em tempo do poderio romano , o faisão com- 
mum , reduzido ao captiveiro da domestieidade , e 
criado para satisfação da vista , c fausto dos ban- 
quetes, cm moradas d'opulcntos. No matiz elegan- 
te, no mimoso e fulgente das pennas, ha poucas aves 
que o excedam : com certeza se affirma que traja 
vistosa plumagem, a um tempo rica e linda, e dis- 
posta com symmetria admirável. — Sobro tudo na 
Ásia ha singulares cbellissimas espécies defaisões: 
CS chins promovem com desvelo a multiprieação dos 
que chamam dourados , c dos prateados , em rasão 
dos reflexos metallicos das pennas : — a mais sa- 
liente desta família é a que os naturalistas appelli- 
daram faisão de Juno, ou de placas coloridas nas 
azas; habita algumas regiões meridionaes da Ásia , 
mas particularmente a Samatra ; corresponde em 
tamanho ao corpo do pavão , tem a cabeça e pes- 
coço qiiasi despidos de pennas , c as do centro da 
cauda medem de quatro a ciuco palmos de compri- 
mento , de cor caslanho-cscnra com pintas bran- 
cas cercadas de anéis d'um negro brilhante; a cor 
geral é parda com linhas arruivadas , c na parte 
inferior do corpo parda com mistura de ruivo ; as 
guias secundarias das azas , Ires ou quatro vezes 



mais desenvolvidas que as primeiras , são do meio 
para as pontas adornadas de olhos, ou placas, es- 
paçados regularmente ; e as da parte inferior agra- 
davelmente malhadas de salpicos pretos sobre fun- 
do roxo claro c pintas brancas nos extremos; tem 
os pés de mui vivo encarnado. É ave montesinha, 
procura solidões , e raro baixa ás planícies , foge 
ás residências dos homens, e quando apanhada, in- 
soffrida da prisão, morre em pouco Icmpo cora sau- 
dades da liberdade das selvas e montes recônditos 
em que nascera. — Pozeram-lhe também o nome de 
argos e de ave de Juno, alludindo ao conto mytho- 
logico do pastor do multíplices olhos, que a esposa 
ciumenta do Jupiler dóra por guarda á sua rival , 
a mísera lo nipthamorphoseada cm vacca : isto cm 
rasão da grande quantidade de placas , como os 
olhos da cauda do pavão , que aformoseam as azas 
daquella espécie. — 

— Na cxcellente e bem tratada quinta da Sere- 
níssima Senhora Infanta D. Isabel SIaría , a Bem- 
fica , vimos poucos annos ha faisões mui bonitos, 
da espécie da Asia-Mcnor. 



A soEEiíBA não perdoa , a humildade não se vinga. 



o PA^oRAaIA. 



85 



EpITOHI: BA VIDA DE Li IZ DE CaHÕBC. 

(Conclusão.] 

A FATAL no\a (i.i perda do monarcha em Africa , 
com a qual a palria se abismava : — outra perda 
individual que o nosso grande poeta quasi ao mes- 
mo tempo experimentara, privando-o a parca do seu 
liei e exemplar jaó , sem ter quem o tratasse no seu 
leito de dór , foram causas sobejas jiara abbreviar 
I os dias do Vale portuguez : trasladaram-nu ao hos- 
pital onde se curavam então os pobres , e poucos 
dias depois alli fallcceo no anuo de 1379, cm tal 
esquecimento . que até se ignora o mez e dia em 
que findou sua amargurada Milà I 

Assim acabou este grande homem cuja vida foi ura 
tecido de desventuras, c é de per si a mais amarga 
censura de quantas se possam fazer aos portugue- 
zes seus coevos I Pobre, ignorado, cheio de misé- 
ria , morreu em um hospital de pobreza , o immor- 
lal Luiz de Camões, sem ter ura lençol sequer para 
mortalha , como nos diz o carmelita Frey Joseph 
Índio, em uma uota, que de seu próprio punho es- 
crevera no precioso manuscripto que conservava lord 
Holland , e hoje tem seu filbo herdeiro do titulo. 
Da casa de Vimioso foi mandado o lençol cm que o 
araortalharara , e com que o sepultaram na igreja 
de St.° Anna , logo á entrada da porta , e do lado 
esquerdo, sem que lhe pozcssem campa, letreiro, 
ou signal que distinguisse a sepultura , que encer- 
rou seus despojos mortaes. 

Passados dezeseis annos , D. Gonçalo Coutinho 
lhe mandou cubrir o logar da sepultura , que com 
muito trabalho pôde achar-sc , cora uraa pedra ra- 
aa, na qual tinha mandado esculpir o seguinte epi- 
taOo : 

Aqui jaz Luiz de Camões 

Principe 

Dos poetas do seu tempo : 

Viveu pobre e miseravelmente ; 

E assi morreu. 

Anno de M. D. LXXIX. 

Esta campa lhe mandou pôr Dom Gonçalo 

Coutinho na qual se não euterrara 

pessoa alguma. 

Eis o único monumento que existia em Portugal, 
consagrado á memoria do misso grande poeta ; di- 
zemos que existia , porque hoje nem vestígios del- 
le se deparam na igreja de St.' Anna, a qual ha- 
Tendo sido reedificada , por occasião do terremoto 
de 17oo , a ninguém lembrou a sepultura de Ca- 
mões , apezar da campa que a memorava. Não nos 
resta pois de Luiz de Camões outro monumento na- 
cional jlém das suas obras , sobejas para o eterni- 
zar, e que mais duradouro será sem duvida do que 
qualquer outro , que a vaidade dos horaeus como 
tardio feudo de admiração lhe alevantaria. 

Conservaram-nos ao menos os seus contemporâ- 
neos o seu retrato , e sobre esse foi copiado o que 
mui elegantemente adorna a rica edição dos Lusía- 
das publicadas cm Paris pelo já por nós menciona- 
do morgado de Matheus , litterato distincto , que á 
memoria de tão preclaro compatriota pagou tão no- 
bre quão digno tributo. 

Luiz de Camões , segundo diz S. de Faria , era 
de meia estatura, cheio de rosto, algum tanto car- 
regado da fronte ; nariz comprido , levantado no 
meio e grosso na exlreraidade ; cabello louro qunsi 
açafroado ; genlil e engraçado na apparencia, quan- 



do era moco, c antes de perder o olho direito. Era 
no traio agradável e alegre , até o lompo em qur, 
a ad\ersidade pezando sobre elle o fez na ultima 
idade melanchcdico. A ternura , e sensibilidade do 
seu coração vèem-se nos seus versos , e na paixão 
delicada que o peito lhe ralara , e que conservou 
constante por D. Catharina de Ataíde. O amor da 
sua palria predominava sobre todos os outros senli- 
mentos ; o seu valor, desinteresse, nobreza e he- 
roicidade , eram iguaes a quantos os tempos <la ca- 
vai la ria podem oíTereccr-nos. Mas a sua constância 
e fortaleza na extrema adversidade, sem que se pos- 
sa mostrar delle uma expressão de adulação ou de 
baixeza, nem que se repita uma só de fraqueza ar- 
rancada pelos padecimentos , o farão sempre distin- 
guir cnlre os homens maiores de todos os tempos , 
por esta virtude Ião rara , e que só pertence a um 
caracter eminentemente superior ás distincções, co- 
mo as desventuras. 

A antonomásia de Grande que a posteridade por- 
tugueza lhe outorgou, c que somente se lera dado a 
alguns soberanos distiuctos , parecerá sem duvida 
estranha ás pessoas pouco versadas em nossas cou- 
sas , e ignaras do apreço que fazemos deste princi- 
pe da poesia nacional ; todavia essa tal ou qual es- 
tranheza cessará , se o cidadão cosmopolita consi- 
derar que o sobrenome de Grande cabe a Luiz de 
Camões, não só por seu mérito relevante, mas lam- 
bem como compensação das injustiças que soflreu 
ás mãos de seus contemporâneos. 

Não nos pertence , a nós meros compiladores do 
epitome da sua vida , entrar no resumo analytico 
das bellezas do seu poema, nem tão pouco lemos a 
estulta vaidade de nos julgarmos competentes para 
similhante empreza ; mas ser-nos-ha licito antes de 
concluirmos esta tarefa dizer que para avaliar por 
seu justo valor o mérito da obra , cumpre que Ca- 
mões , bem a similhança do poeta que foi o pai da 
poesia grega , seja visto e julgado segundo o espi- 
rito da nação a que pertence, e o século em que vi- 
veu. Camões foi para os portuguezes o mesmo qus 
Homero fora para os gregos , o primeiro e ao mes- 
mo tempo o mais nacional dos seus poetas : nenhum 
outro apoz delle soube combinar os interesses na- 
cionaes do seu paiz cora a vastidão do espirito 
poético que se encontra nos Lusíadas. Para julgar 
da sua obra devemos recordar-nos que Camões es- 
creveu em uma epocha em que o estilo correcto , 
formado sobre os antigos e modernos auctores ita- 
lianos , acabava de apparecer na lilteratura portu- 
gueza , e ainda não se havia arraigado. Sob cir- 
cumstaacias taes, Camões esboçando o plano da sua 
epopea, ficou como segregado do século em que vi- 
veu : foi original no estilo que adoptou. Camões foi 
o primeiro poeta moderno que conseguiu merecer 
gera! aceitação, compondo um poema heróico, sober- 
bo pelo estilo. E nem esqueça que a primeira edição 
do seu poema appareceu em 1572, em quanto a Je- 
rusalém do Tasso foi publicada em líJSO, um anno 
depois da morte de Camões. Outros modelos não ti- 
nha em que aprendesse , se exceptuarmos Trissino, 
Bojardo , e Ariosto. Do primeiro pouco podia co- 
lher , e ainda que do segundo e terceiro podesse 
aprender muito, nada por certo com relação a fogo 
poético e estilo próprio de um poema heróico na- 
cional. 

Camões foi original em toda a sua composição: 
cheio de patriotismo e de heroisrao , o seu poema 
respira uma nacionalidade que não pôde ser exce- 
dida. Camões, bem como o Ariosto, c complelametilo 



86 



O PANORAMA. 



o homem do seu século e do seu paiz ; como ura 
dos primeiros poelas foi elle julgado pelos sábios 
seus coevos ; que indifferentc não é o julgado do 
Jmmorl.ll Tasso. A posteridade lhe lera feito não 
menor justiia, c posto alguns zoilos hajam com des- 
douro próprio procurado menoscabar o mérito re- 
levante do Vate que tanto renome deu á sua pátria, 
sobram milhares de homens de lettras de todas as 
nações , que a sua memoria tem vingado da inju- 
riosa c não merecida critica. Falta somente que a 
nação portugueza pague o feudo expiatório de gra- 
tidão que os nossos antepassados do século 16." lhe 
denegaram , erigindo ;í memoria do immortal can- 
tor de nossos feitos sublimados condigno monu- 
mento , que atteste aos vindouros o apreço , que os 
portuguezes fazem do príncipe dos seus poetas , o 
Gbande , Liiz DE Camões. 

P. M. 

PORTUGAL. 

XXIV.- :-i, ,r;.^ 

Como a villa de Santarém houve vários nomes. 

(Conclusão.) 

Foi pelos fins do selimo século da era vulgar que 
«m successo maravilhoso e de grande assombro deu 
o nome de Santarém a esta nossa villa. Força-nos a 
estreiteza d'um artigo, que já foi crescido', a ca- 
larmos tantos feitos gloriosos . tantas e tão grandes 
recordações, que neste só nome se cifram como era 
famoso compendio da historia portugueza : diremos 
somente o donde elle veio ; cm que de muitos seja 
íabido. Vivia por aquelles sitios , aonde hoje é a 
Tilla de Thomar , um cavalleiro mui illustre cha- 
mado Ermigio , casado com uma nobre dama por 
nome Eugenia : eram senhores de grande estado e 
de muitas terras , c segundo as leis da nobreza da- 
quellcs tempos apontados como os maiores valedo- 
res daquelles contornos : quiz o céu coroar-lhes tan- 
ta dita, de que gosavam em mutuo amor, dando- 
Ihcs delia o mais abençoado e querido fructo, uma 
lilha mui formosa. — Ircuc foi o nome que lhe elles 
deram com o baptismo. Cresceu a menina , e se 
avantajou tanto em virtudes , c em belleza , que 
em outra cousa não se faltava com maiores gabos c 
louvores. Era donzella formosa, nobre, e rica; cer- 
to eslava que seria sua mão disputada por importu- 
nos pertendentes : mas a outro estado a chamavam 
seu espirito c sua inclinação ; votara já no seu co- 
ração a Deus a pureza de sua alma , sua, virginda- 
de. — Não seria sem muitas lagrimas que seus pais 
eonsentiiam cm que se ella fosse na companhia de 
suas lias, que eram religiosas de grande fama de 
santidade , para com mestras tão provadas se insti- 
tuir em todas as |)crfeições. Lá se vai Irene fugin- 
do ao mundo , e dando costas ás suas grandezas , e 
.1 esses todos encantos , com que tantas almas se 
tnrcdam e se caplivam , cncerrar-sc em um pobre 
mosteiro junto ao rio Nabão. Por esse retiro, por 
essa pol)reza, pela estreiteza d'essa pobre cclla tro- 
cara cila de b(mi grado muitos mundos, se os hou- 
vera ; por um só dia de i)rática com as santas mon- 
jas ; por um serão de hymnos celestes entro as vir- 
gens que a rodeain ; por uma só hora de enleio nas 
contcmiilaçães divinas ; por uni só momento da ora- 
ção matutina, com que seus lábios mais puros que 
■*) ar da madrugada louvara o Creador ; por esse só 



momento dera ella séculos de vida muito regalada. 
Foge ella o mundo , quanto o mundo e suas maio- 
res grandezas a perseguem : vai traz ella a fama de 
sua belleza e de suas estremadas virtudes. — Bri- 
taldo se enamora desta donzella tão apaixonadamen- 
te , que já é certo o morrer d'amores , ou do nojo 
que leva em não ser correspondido; era mancebo 
poderoso, e ajudado do grande valimento dos seus, 
a quem era grandíssimo cuidado o vè-lo assim aca- 
bar c finar-se de magua ; tudo move , tenta todos 
os meios, e só consegue desenganos. Também o de- 
sengano c ás vezes remédio : com clle não guare- 
cia de todo o mancebo ; mas não crescia o mal : e 
nessas tréguas folgava o coração de Irene como li- 
vre d'importunos requerimentos : porem essa alma 
pura era destinada a grandes combates. — A coroa 
de virgem tinha de ser laureada com o sangue do 
martyrio. Remigio , monge-sacerdote , seu próprio 
confessor ... é o lerrivel instrumento que o inferno 
escolhe ... baldadas vê o monstro suas diabólicas 
astúcias : já não ha traças que imaginar , nem ci- 
ladas que encobrir ; só em vingar-se põe agora to- 
do o seu cuidado. Vingança , e vingança do infer- 
no 1 a infâmia antes da morte ! Não é veneno , que 
possa logo mata-la , que elle confeiçòa ; mais terrí- 
vel é ainda o eíTeito d'essa droga infernal ! A vir- 
gem a toma no pão e na agua do jejum ; e logo 
ancicdade mortal lhe aperta o innocente coração ; o 
casto rubor , que embellezava suas faces , agora é 
pallidez do sepulchro ; incham-lhe as entranhas , e 
estala o cilicio, que já não pôde abarcar-lhe a cin- 
tura ... Folga o monstro com o efTeito ; espalha as 
mais negras blasfémias contra a donzella ; Crraa-se 
nas apparencias , e accende o ódio e a vingança no 
animo sentido de Britaldo. Compram-se algozes , e 
a innocente e casta virgem soffre o martyrio , e seu 
corpo é lançado ao rio e levado pelas correntes até 
defronte da villa Scalabis : misterioso sepulchro o 
ene rra. Correm de toda a parte a admira-lo os po- 
vos aonde chega a noticia do portento : na grande- 
za da obra, na admiração do lavor, na immobilida- 
de 'da pedra , que resiste a todas as forças huma- 
nas , na incorrupção do corpo , nos prodígios , nas 
maravilhas, era tudo se reconhece a obra de Deus: 
Irene é proclamada santa , virgem e martyr , e in- 
vocada a sua protecção com grande, fructo. Lá se 
vão já caminho de Roma o louco amante, e os des- 
temidos algozes chorando em penitente romaria , e 
confessando por esse mundo suas culpas e seu cri- 
me. O Tejo recobre com suas aguas o sagrado de- 
posito que recebera das mãos dos anjos ; c a villa 
de Scalabis toma o nome de Santa Irene , e o con- 
serva quasi inteiro vai já por doze séculos como il- 
lustre epitapbio da santa virgem e marlyr Irene. 



o imperador Nicolau : a musica c thcatros de Moscou- . 

Faz dois annos qne um observador , que percorreu 
o norte da Europa , consignou á imprensa os seus 
curiosos apontamentos. Tendo a fortuna de ser hos- 
pedado , na antiga capital russiana , sob o tecto do 
autocrala , conta algumas anccdotas da corte; quan- 
do alii reside ; entre ellas achámos nolaveis as (|U(! 
em seguida cxirahimos. 

— A. mesa do imperador é preparada com deli- 
cadeza c gosto , sobresahindo mais em elegância 



o PANORA3IA. 



87 



que Pm profusão ... O cosinhciro r francez. A so- 
briedade dl) czar «'; excessiva , porque não só se li- 
inita a pouco, quando está repousado, mas lambem 
indo de jornada liasta-lhe para alimento diário uma 
aza de franjt.âo e uma parva ilc. pão. Os almoços 
são ministrados nos quartos destinados a cada pes- 
soa : todas as manliaãs vinha um creado saber se 
ou tinha alguém que me fizesse companhia , c se- 
ixundo a resposta trazia o almoço. 

As camarás , para assim dizer , tem só três pa- 
redes , porquanto a outra , onde fenece o forro ou 
armação, é quasi toda tomada por uma poèle (1) 
immensa de louça , que só uma vez ao dia c forne- 
cida de combustível e que mantém pcrennc uma 
temperatura mui quente : a sensação do frio ó tão 
desconhecida, tão impossivel n'um quarto desfar- 
te aquecido , que se escusam na cama cobertores ; 
posto que cu a não sentisse, parecia-rac mal achar- 
me no mcz de novembro apenas com um lençol cm 
cima da pelle : cubri-mc uma vez com o capote ; e 
o creado , que tinham nomeado para me servir , 
perguntou-me se tinha frio , respondi-lhe que fazia 
isto por costume antigo. "Está bem, requererei pa- 
ra o senhor um cobertor de laS» : e no dia seguin- 
te o intendente ou mordomo , depois de ter dado 
busca a toda a guarda-roupa do palácio , veio pes- 
soalmente annunciar-me que, sendo caso imprevis- 
to, não havendo quem se tivesse queixado de frio . 
não fora possivel achar uma coberta de laã cm toda 
aquella residência de sua magestade imperial ; of- 
ferecia-se-me para comprar cobertor, recusei como 
é bem de crer. 

O palácio em que mora o czar no Kremlin não 
é o que costumava habitar seu irmão Alexandre ; 
que delle se não removeu nem um movei, respei- 
tando o successor a que fora escolhida pousada do 
defunto. — O imperador reinante costuma alojar- 
se no palácio archíepiscopal , que por ser benzido 
quando residência do prelado conservou a condição 
de logar sagrado. 

Certo dia , o czar Nicolau ouviu fallar de umas 
cantarinas ambulantes, a que chamam zinganas (2), 
que os senhores moscovitas convidam para diversão 
de suas serenatas ; quiz também ouvi-las , e dcs- 
lembrando-se de que essa gente mesquinha era ex- 
comungada pelo clero grcgo-russo , mandou que en- 
trassem no palácio hentn : alegre foi o serão com as 
cantorias das recem-chegadas, e sua magestade pa- 
gou-lhes generosamente. Tudo se passou ás mil ma- 
ravilhas , mas no dia imraediato appreseutou-sc o 
governador de Moscow no gabinete do imperador. 
— Que novidade ha lá por fora, principc Gallitzin? 
... — «O que ha de novo , senhor, c o immenso 
cscandak) que traz amotinada toda a nossa clere- 
zia." — (lE então que succedeu? . . » — «Uma pro- 
fanação ... as zinganas malditas, excommungadas, 
foram admittidas a um logar santificado ; e o arce- 
bispo está furioso.» — «E quem se atreveu a pro- 
fanar a igreja?. .<> — «Não foi a igreja, senhor, foi 
o palácio do arcebispo , igualmente bento , que 
cilas com sua presença mancharam ; e o culpado é 
vossa magestade.» — «Capacito-rae que tens razão; 
nem pela ideia me passou que estava em terra san- 
ta. E o arcebispo está fora de accórdo? . .» — «Será 
contenda difficil de accomodar. » — «Que terei de 
fazer para reparar o meu descuido? . . Dar-se-ha 
caso que o arcebispo por esta occasião níida esi- 



(1) Falta-nos o equiv.ilenle deste leiíno, porque falta- 
va o traste, que i mui diverso do que chamimos foção. 
(S) Provavelmenle ti ganas , do italiano zingare. 



ja?..» — «Creio que sollicita o aformoscamcnlo 
d'uma igreja, accrescentar-sc-lhe uma capclla , ou 
cousa deste jaez ; não sei bem o que . . .» — Pois , 
depressa , venham os riscos : enfeite-se a igreja , 
faça-se a capclla , e o mais (iiie pede o prelado . 
com tanto que se esqueça das raparigas excommun- 
gadas. Para a outra vez irei ouvi-las fora de minha 
casa . . . que na verdade cilas cantam bem! » 

Jlas não se julgue que esta musica semi-bravía , 
postoquc pela novidade agradável, é o único diver- 
timento deste género que desfructam os habitantes 
de Moscow : a cidade tem dois theatros ; o primei- 
ro, o maior em capacidade que ha na Euro|>a, sem 
exceptuar S. Carlos de Nápoles , reproduz em tra- 
ducções russianas os dramas principaes da scena 
franccza : ahi tem tido representações — Roberto dn 
Diabo , c com decorações esplendidas, vestuário ri- 
co , mas cantores detestáveis. O imperador não ti- 
nha noticia desta opera , e apesar da mediocridade 
do desempenho delia , conheceu-lhc logo o mérito , 
e por consequência pediu a partitura, e applicou-se 
a estudar o bello trio do ultimo acto , que lhe fi- 
zera grande impressão. 

Para que se ajuize do quanto o imperador Nico- 
lau preza as artes agradáveis , em que é bom en- 
tendedor, relataremos outra anecdota, que teve lo- 
gar na córle de S. Petcrsburgo , e que ao mesmo 
tempo indica os singulares usos daquelle paiz. 

Sahiu n'um dia o czar, acompanhado de seu ir- 
mão, o grão duque Miguel, e sem guarda d'hon- 
ra , como é seu costume , a gosar a i)crspectiva 
grandiosa de Niewsky : pelo passeio á esquerda se- 
guia placidamente seu caminho \'ernet, actor fran- 
cez, que tinha representado excellcntemenlc na vés- 
pera em um drama novo. O czar parou e chaniou-o 
pelo nome próprio : — Senhor ! — respondeu o actor. 
— «Quero cumprimentar-vos pelo o|ilimo desempe- 
nho d'hontem. — «O voto de vossa magestade é pa- 
ra mim de grandíssimo apreço.» — «Desejarei tornar 
a ver-vos desempenhar a mesma parte : fiquei sura- 
mamente satisfeito , e ao eiicontrar-vos não pude 
resistir ao prazer de manifestar a minha approva- 
ção. — O imperador proseguiu seu passeio, e Ver- 
nct permaneceu alguns minutos parado , regozijan- 
do-se do elogio , que recebera ; e antes que sahisse 
do êxtase , uma transição súbita lho recordou a vi- 
cissitude das cousas humanas, sentiu que pela gola 
da casaca o seguravam, e era a mão pesada de um 
commissario de policia — «Alto aqui!» — Que é o 
que me quereis?» — Estais preso., é prohibido 
chegar ao pé da pessoa do nosso imperador quando 
elle anda a passeio.» — «Mas sua magestade c que 
veio ter comigo. . .» — Boa historia é essa ! Estes 
meus amigos francezes medem tudo pela mesma bi- 
tola, e crêem que podem fazer quanto lhe vem á ca- 
beça . . . Tratar de scguir-me , e nada de resistên- 
cia.» — E Verrret foi levado á força para a casa da 
guarda, onde o retiveram vinte e quatro horas, não 
obstante as suas instantes reclamações. — Dahi a 
poucos dias o actor repetiu na sceua o níesrao pa- 
pel, e o imperador applaudiu-o bondosamente. Fin- 
do o espectáculo , sahiu do camarulc o czar , e ao 
entrar nos corredores viu um homem cozido com a 
parede, e que evidentemente esperava que elle pas- 
sasse ; sois vós, Vernet? nova prova destes do vos- 
so talento.» — Agradeço a vossa magestade tanta 
indulgência , mas rogo que por sua nimia bondado 
a não manifeste em qualquer occasião que me pos- 
sa encontrar.» — Porque dizeis isso?» — Porque <> 
benévolo acolhimento de vossa magestade , ha bens 



88 



O PAINORAMA. 



poucos dias, rendeu-nie vinie e quatro horas de re- 
clusão á ordem de um comraissario de policia, que 
SC julga tom direito de impedir que alí;uem falle 
ao seu imperador. — É possivcl que assim seja? . . . 
Isso é demais . . . saberei como isso foi . . » — No dia 
seguinte , ainda Vcriiet estava meio vestido , já vi- 
nha visita-lo o commissario de policia agarrador , 
supplieando-lhe com todas as veras que lhe descul- 
passe o engano, porcjue se achava suspenso do car- 
go em quanto não obtivesse perdão da parte oflen- 
dida. Vernct absolveu o homem, por escri[ito , co- 
mo é de suppor. 



NOVOS INVENTOS. 

SdBSTITCIÇÃO ás rodas dos barcos i VAPOR 
PKLO CILISDRO. 

O Mi.MSTBO da marinha em França encarregou ain- 
da ha pouco o conde d'Oysonville c Mr. Aleinerel , 
engenheiros constructores , d'examinar as vantagens 
da substituição dos cilindros [hélice] a's rodas late- 
racs. Com eireito todos os homens (Farte são uni- 
formes em reconhecer os graves inconvenientes des- 
tas machinas, que requerem uma certa dimensão nos 
vasos , fundo chato , e por isso mesmo pouco pró- 
prias para vela , e exigindo inutilmente uma força 
jnaior para vencer a resistência da agua que ellas mes- 
mas elevara. Os cilindros pelo contrario colocados na 
culatra [no fundo da popa] do navio não levantam a 
agua, antes a atacam c afastam obliquamente. Alem 
disto permittem calafetar e crenar a embarcação , 
e prepara-la cm fim de modo que sustente a vela e 
se firme sobre ornar: o choque é muito menos con- 
siderável, o balanço mais brando, e o gasto do com- 
bustível ineuor. 

Os inglczesconslniiram logo um destes barcos em 
Dover , da força do 80 cavallos, ao qual chamaram 
Archimcdes. O cilindro foi ideado e construído por 
um francez, BIr. Sauvagc, antigo constructor de na- 
vios. A velocidade desta embarcação, que anda de 
Dover ))ara Calais, é maior que a de todos os outros 
Larcos a vapor que ahi navegam com rodas, não obs- 
tante que a força motriz d'aquella seja menos consi- 
derável. 

Os americanos inglezes usam também já desta no- 
va construcção ; e se as experiências repetidas con- 
lirmarem as esperanças de sua preferencia, é fora de 
duvida que os barcos com o cilindro serão exclusi- 
vamente encarregados das navegações trans-atlanti- 
cas , nas quaes a economia do combustível é condi- 
rão essencial. 

Da natureza dos tebbexos. 

Cada terreno tem suas propriedades naluraes, mais 
iju menos aptas para as dilfcrentes espécies de cul- 
tura , c para certos e determinados vegetaes : in- 
vertida esta ordem a cidheita será ou nenhuma, ou 
fraca, ou nimiamentedispendiosa : ocorrcctivo des- 
te absurdo está no perfeito coidiecimento das terras. 
Os naturalistas c geólogos coutam quatro espécies de 
terras primitivas : 

1.'' Silex , ou terra arenosa. 

2.° Cal, ou terra calcarea. 

3.' Argila , ou terra grcdosa. 

i.' Magne^ia , ou terra talcosa. 



Mas os solos puros raramente existem na nature- 
za : sua mistura , em proporções variadas , 6 que 
forma os solos ou terrenos compostos, cuja denomi- 
nação resulta da parte ou ingrediente predominante. 

Esta denominação mesmo não é fixa e homogé- 
nea ; cada província lhe dá o nome usado e conhe- 
cido praticamente dos cultivadores, os quaes mais 
ordinariamente distinguem os terrenos por sua pro- 
priedade mais ou menos productíva , mais ou me- 
nos apparcnte : assim dizem terras furtes, terras fra- 
cas , terras húmidas , terras seccas , ^'c. 

A divisão, porem, que nos parece mais clara, 
e adaptada á sua composição primitiva é a seguinte. 

1.° Terreno (/reíioío, mais ou menos firme e lodoso. 

2.° Terreno calcareo , composto d'arèa's e saibro. 

3.° Terreno barrento, de barro gredoso, barro cal- 
careo, arenoso, saibroso, e ferrenho. 

4.° Terreno pahoír*; , mais ou menos turfáceo. 

'ó.° Terreno d'arnciro ou charneca. 

A natureza das terras já hoje é conhecida exacta 
e scientificamente porraeio da analyse chimica, que 
decnmpoudo-as aprecia e determina suas partes cons- 
titutivas. Porem o modo mais fácil para os cultiva- 
dores em gerai é observar as plantas que ahi nas- 
cem e crescem espontaneamente. Se estas prospe- 
ram , se fiorecem e chegam a um estado forte e vi- 
çoso , conhcce-se por ahi que é terreno próprio e 
adaptado para os vegetaes do mesmo género. Siga- 
mos porem a classificação commum e vulgar para 
sermos entendidos de todos. 

Terras fortes chamam-se aquellas que são gros- 
sas, substanciaes e unctuosas, que se podem amas- 
sar entre os dedos: destas as pardas-escuras são as 
melhores. Differem estas das terras chamadas gros- 
sas , que participam mais da natureza d'argila ou 
terra barrenta, e da terra grcdosa que serve somen- 
te para fazer louça. No numero das terras fortes se 
podem comprehender algumas pedregosas que são 
bastante férteis, c destas algumas todas negras que 
são diíliceis d'amanhar. 

IWra ligeira ou fraca éaquella cujos torrões não 
fazem corpo nemadherencia ; c toda desunida : des- 
tas as negras são melhores que as outras. 

Terra húmida, c ordinariamente boa em si mes- 
ma, porem a agua demasiada a prejudica, e por 
tanto não é productíva sem que primeiro seja san- 
grada por meio de valas ou sargetas. 

Terras arecntas e sêccas são de duas espécies , 
uma esbranquiçada que só serve para bosque , ou- 
tra amarelada ou parda . que pôde produzir. 

Os defeitos geraes que teem as terras são ou le- 
rem demasiada humidade, que as faz pesadas e frias, 
ou muita seccura que as torna ligeiras , pulveru- 
lentas, e por isso ardentes. Estes defeitos se devem 
emendar cora os meios contrários : estes meios são 
os estrumes e a caldeação ou mistura de terras que 
tornem suas propriedades mais em harmonia com a 
fertilidade. Isto a que chamámos caldeação c o qne 
os francezes denominam amendemeni . Neste artigo 
não nos propomos tratar dos estrumes cm geral, que 
isso fica reservado para outro logar ; aqui só os apon- 
támos como um dos correctivos dos raáus terrenos. 
.4ssíra que , para corrigir as terras sèccas e quen- 
tes são preferíveis os estrumes que as refrescam , 
quaes são os dos bois , dos porcos , as lamas e lo- 
dos gordurentos ; para os terrenos húmidos os es- 
trumes quentes e ligeiros como são os de gado ca- 
brum e ovelhum , os de pombos, bestas cavallares, 
e os mames. < Continua.) 

J. da, C. iV. C. 



65 



o PANORA3IA. 



89 




A PHEExcELLExciA dc Raphacl sobre todos os mestres 
da eschola romana , som exceptuar Miguel Angelo, 
deriva da penetrante intelligcncia com que aquelle 
grande artista concebia e dispunha grandes compo- 
sições, appresentando combinações magestosas e sig- 
nificativas , provas de fertilidade e viveza de enge- 
nho ; ao passo que não sacrificava as mais elevadas 
condições da arte ás que são reputadas meramente 
accessorias e superficiaes : será disto bello exemplo 
o cartão que intitulam S. Paulo prcfjando em Athe- 
nas. Achando-se neste foco da civilisação grega o 
insigne apostolo das nações, foi desafiado pelos phi- 

iVLvKço 2a— 184a. 



losophos para fazer publica declaração de suas dou- 
trinas á celebre cúria do Areópago : acceilando o 
convite entrou no templo do gentilismo e subindo a 
um logar dos mais notáveis , fallou assim aos cir- 
cumstantcs: «Varões athenienses , cm tudo vos ve- 
jo como mui supersticiosos : porque passando e ven- 
do os vossos simulacros , achei também uma ara 
cora esta inscripção : Ao Deus não-conhccido. Aquel- 
le , pois , que vós-outros adoraes sem o conhecer , 
esse vus annuncio eu." 

O effeito , que no auditório produziu aquelle so- 
lemne exórdio, foital qual crad'esperar da promul- 
2," Serie. — Voi,. II. 



90 



O PANORAMA. 



jarão de doutrina Ião nova como imporlante. As 
pessoas que rodeam o apostolo não hãode conside- 
rar-se como uma assemblea promíscua de indiví- 
duos , sendo fóra de duvida que o intento do pin- 
tor foi personificar em cada figura uma classe ou sei- 
ta da philosophia grega, o que facilmente pódc dis- 
tinguir-sc na attitudc c semblante de cada indivi- 
duo. A uma parte nota-se o cynico embebido em 
cogilarões , buscando argumentos e dúvidas para 
oppor ; de outra, o estóico apoiado no báculo expri- 
me na insolência do semblante a incredulidade obs- 
tinada : no entanto que os discípulos de Platão, sem 
prestarem inteira fú aos myslerios expostos pelo apos- 
tolo . dão mostras de comprazimento na formosura 
c sublimidade d'uma doutrina , a muitos respeitos 
parecida com a sua ; pelo que escutam com alten- 
ção. A outro lado se deixa vèr um grupo dedispu- 
tadores . sofistas , e impugnadores de toda e qual- 
quer religião, embrenhados cm discussão vehcmen- 
te , mais por ostentar subtileza que por dilucidar a 
verdade. Ao fundo do painel , a considerável dis- 
tancia , divisam-se dois rabbinos ou doutores he- 
breus , que tendo ouvido o discurso dão costas ao 
missionário evangélico em demonstrarão de despre- 
zo ao annuncio das profecias. — Á primeira vista , 
lançada sobre o desenho, o espectador vê logo a 
principal personagem , S. Paulo , a quem o artista 
revestiu de todas as circumstancias convenientes á 
dignidade da pessoa , e alta valia da missão. Re- 
presentou-o em pé , immedíato ao primeiro plano , 
em logar eminente e a bastante distancia do audi- 
tório : na acção parece divisar-se-lhc a um tempo 
a serenidade e a energia , é simples e mageslosa , 
c comtudo inQammalla de cnthusiasmo divino : ao 
vè-lo não podemos deixar deformar idéa de que lhe 
está manando da boca a torrente de eloquência ir- 
resistível. O effeito immediato do seu discurso, e o 
triumpho eventual da sua doutrina, sufficientcmen- 
te estão patenteados na conversão de Damaris e de 
Dionísio o areopagita , as duas primeiras pessoas no 
quadro , e que demonstram no olhar e nos gestos 
de affecto a sua convicção sincera , a renunciação á 
idolatria , e a resolução de abraçarem a fé de Jesu 
Christo. 

Os edificios , sem embargo da inconsistência no 
estilo d'architcctura em que alguém faz reparo, são 
formosos objectos no seu tanto ; são templos das di- 
vindades pagãs, cujo culto o apostolo está condem- 
nando ; pelo que tem connexão immediata com o as- 
sumpto do cartão. Alem de que , assim por elles 
como pelas estatuas próximas, quereria o pintor ca- 
racterisar a cidade de Atheuas , crcadora do bom 
gosto nas artes, e empório de fausto e riquezas. — 
Em summa no todo do painel sobresahe a rara ha- 
bilidade c perspicácia de Ilapbael na invenção e 
disposição dos assumptos. 



O Bono. 

VIU. 

Rcconriliação. 



Ape>í8 Fr. Hilarião e o Lidador voltaram costas 
para se dirigirem á sala do banquete , na qual se 
achavam reunidos já quasi todos os rícos-homens c 
inf.inçõcs viiulos á solemnidade daquelle dia, o ca- 
vaiiciro cruzado se encaminhou apressadamente ao 



longo da corrcdoura onde fallára com elles. Aquel- 
la passagem estreita ia por todo o circuito do cas- 
lello , acompanhando o edifício irregular dos paços 
c suas accommodações o olBcinas. De espaço a es- 
paço alargava-se n'uns terreirinhos onde se viam 
amontoados instrumentos e arrcmeços de guerra. 
Para esta espécie de pateo desciam escadas de pe- 
dra que davam communicação aos adarves , ou an- 
daimos da grossa muralha exterior , c ao lado de 
cada um delles bojavam para dentro as torres ma- 
cissas e quadrangulares que defendiam as qoadrel- 
las do muro. Nesse ponto a senda , geralmente es- 
treita e soturna , se tornava ainda mais apertada , 
e ás vezes mais tenebrosa, porque algumas das tor- 
res se ligavam ao palácio por largos passadiços lan- 
çados por cima delia. 

Egas Jloniz passou successivamente três dos ter- 
reirinhos , até que a final parou debaixo do escuro 
arco de pedra, que se abria na extremidade do ter- 
ceiro. Este , differente dos outros , em vez de topar 
nas lizas e altas paredes dos paços , entestava com 
uma casaria baixa, rota por sete ouoito portaes sin- 
gellos que davam para o terreiro. O tecto daquelle 
corpo saliente era um espaçoso terrado que o passa- 
diço ligava com o primeiro andar da torre. Sobre 
esse terrado, quanto a escuridão o permittia, viam- 
sc negrejar os topos dos arbustos e as pontas esguias 
dos caramanchões de verdura , e sentia-se o cheiro 
balsâmico das flores , que se dilatava na aragem 
quasi impcrceplivel de uma noite de estio. O ca- 
valleiro achava-se junto ao jardim onde se passa- 
ra , pouco havia , a scena que tão fataes resultados 
tivera para o honrado e jovial D. Bibas. 

Tudo por aquelle lado do palácio parecia tran- 
quillo, e o reflexo da luz escaca que allumiava os 
aposentos contíguos ao piso do jardim, rompendo a 
cuslo as vivas cores das vidraças, vinha morrer nas 
trevas a pouca distancia delias. O cavalleiro ao 
atravessar o terreirinho parara um momento e cra- 
vara os olhos naquella ténue claridade. Um suspiro 
mal contido lhe sussurrou nos lábios. Depois, como 
arrastado por um pensamento irresistível, continuou 
a caminhar rápido para o escuro vão junto da tor- 
re, e involto nozorame cozeu-se com a parede, co- 
mo quem receava ser allí visto. 

Não tardou que do lado da corredoura , opposto 
áquelie poronde o cavalleiro viera, se approximasse 
um vulto trazendo ura cavallo de rédea. Este vulto 
víuha também coberto de uma espécie de zorarae , 
porem alvacento como albornoz mourisco. Deu um 
silvo agudo, a cujo soidoEgas pareceu reconhece-lo, 
porque sahindo-lhe ao encontro , perguntou em voz 
baixa e em árabe : — És tu , Abul-Hassan ? 

<iÉ o vosso servo : — respondeu o vulto na mes- 
ma lingua , parando e sofreando o cavallo. 

n Paliaste com teu irmão? A que horas se erguem 
as pontes das barbacans? — perguntou de novo oca- 
\alleiro. « 

«Apenas acabar o banquete — tornou o mouro: — 
os vigias receberam ordem para não deixarem sahir 
ninguém do burgo passado esse momento.» 

"O meu saio de malha — proseguiu Egas — a cer- 
vilhcira c a espada?» 

Sem dizer palavra Abul-Hassan tirou as três pe- 
ças de sob o albornoz , o cavalleiro vestiu á pressa 
o saio , poz na cabeça a cervílheira , allivelou-a so- 
bre os horabros áquella espécie de camisa de ferro 
que vestira , cingiu sobre esta a espada , c atiran- 
do o zorarae para cima do cavallo disse ao mou- 
ro : aDeixa-te ahi ficar : se vier alguém que te não 



o PA1VORA3IA. 



91 



conheça e pergunte qiicra és c o que fazes nesle si- 
tio — responde que és um cavnileriço do senhor de 
Trava, que te ordenou esperasses aqui com um cor- 
redor folgado. Depois de assim responderes ninguém 
ousará perguntar-te mais nada.» 

Proferidas estas palavras, ligas desappareceu n'u- 
nia escada de caracol aberta no fundo da torre , e 
que dizia para o primeiro pavimento delia : chega- 
do ao alto tirou do seio uma chave , e abriu uma 
porta , não a que dava para a quadra principal da 
torre, mas outra lateral e pequena. Cruzou o pas- 
sadiço, e n'ura momento achou-se no jardim pênsil. 

N'aqucllc logar e hora , as paixões tumultuosas 
que lhe agitavam o espirito o obrigaram a reUe- 
ctir alguns momentos, e a procurar restabelecer no 
seu coração a possivcl tranquillidade. Que perten- 
dia? A que vinha alli como um salteador nocturno? 
Elle mesmo não o sabia ao certo. Era apenas uma 
vaga esperança de ainda ver Dulce , de lhe expro- 
bar a sua leviandade , de lhe dizer tudo quanto o 
ciúme e a desesperação lhe ensinassem. Desde que 
a fama dos amores da donzella com Garcia Bcrmu- 
dez chegara aos seus ouvidos, não houvera para el- 
le repousar um instante. Buscando qualquer pretex- 
to plausível para se dirigir a Guimarães , logo que 
chegara ao arraial do infante se ofTerecèra para in- 
dagar da própria boca de Gonçalo Mendez qual se- 
ria a sua resolução Dnal na lueta que se ia travar. 
Vestindo os trajos de villão — o arbim e o zorame 
de burel — entrara no burgo ao romper d'alva , e 
dirigindo-se á mouraria perguntara por Abul-IIassan. 
Entre os mouros que , ao tirar a grossa cadeia de 
ferro lançada de noite á entrada do seu bairro, sa- 
biam de golpe para os trabalhos ruraes, divisou 
brevemente aquclle que buscava. Deu-se-lhe a co- 
nhecer, e antes que a alegria que o mouro mostrou 
ao vè-lo se revelasse por signaes, que gerassem des- 
confianças , pediu-lhe o guiasse á sua pousada. .\hi 
entregando-lhe uma bolça de couro com alguns al- 
morabitinos disse-lhe : — 

uFar-me-has tu, Abul-Hassan , ainda uma vez o 
serviço que tantas te devi antes de partir para ul- 
tramar?" 

«Posto que o ódio contra os meus irmãos — res- 
pondeu sorrindo o árabe — vos levasse tão longe 
para lhes derramar o sangue, como se vos não bas- 
tasse o dos musslins da Hespanha , nem por isso 
vos perdi a affeição, porque sei por experiência que 
ao menos não serieis cruel para com os vencidos co- 
mo são quasi todos os guerreiros christãos. O ser- 
viço de que me fallaes , sem que m'o dissésseis já 
eu o advinhei. A chave da poria secreta da torre 
do miradouro ainda está em meu poder; porque 
ainda me não tiraram o cargo do jardim da rainha. 
Á hora da quinta oração podeis vir busca-la aqui. » 

aXão é isso só — interrompeu ocavalleiro — é ne- 
cessário que ainda hoje vás ao Soveral que se esten- 
de junto ao vau do Avicella. Ahi estará um escu- 
deiro com omcucavallo de batalha c as minhas ar- 
mas: mostrando-lhc este anel elle te entregará tu- 
do. Conduze-me aqui o ginete e as armas ao cahir 
do dia. Depois esperar-me-has junto ao passadiço da 
torre para o jardim. O anel, esse guarda-lo-has pa- 
ra ti. » 

Abul-Hassan ia propor algumas difficuldades : as 
ultimas palavras de Egas Moniz as haviam aplana- 
do. O anel era assaz rico. 

"Na confusão que hoje vai em palácio, ninguém 
reparará na minha falta. Assim poderei obcdecer- 
vos. n v, .. .■ . ....... ,, ■ .■ - 



«Ainda mais — proscguiu o cavalleiro. — Quando 
alravessei a barbacan vi signaes de que as pontes 
levadiças se costumara erguer de noite. Preciso de 
saber ate quando se poderá sahir do burgo c por 
onde. Tu o indagarás com certeza. Se desempenha- 
res bem tudo o que te ordeno , recolherás depois 
mais larga recom[ionsa. » 

No rosto do mouro ria o contentamento. 

<i Meu irmão, o tornadiço , ainda <■ um dos mes- 
tres dos trons e engenhos. Estão a seu cargo os que 
de novo se assentaram no cuhello do topo da cou- 
raça. Elle deve sabe-lo ; chadc por certo dizcr-mo. » 

Bem'. — tornou Egas. — Agora vai executar oque 
te mandei, e entretanto eu ficarei aqui. Mas volta ao 
sol posto ; porque me será necessário a essas horas 
deixar a tua guarida.» 

D'ahi a pouco o mouro atravessava a barbacan 
por meio da comitiva de ricos-homens que come- 
çavam a entrar no burgo para assistirem á convoca- 
ção solemne da cúria. 

Havia largos annos que Abul-Hassan estava in- 
cumbido do jardim pênsil. Naquelle século os dif- 
ferentes misteres, para os quaes se requeria ouscien- 
cia ou industria, eram quasi exclusivamente exer- 
citados por mouros e judeus. Na agricultura , po- 
rem , a raça árabe era a única entre a qual se en- 
contravam homens profundamente versados em to- 
dos os ramos dcUa. .iVbul-Hassan , captivo em uma 
arrancada, obtivera pela sua sciencia agronómica não 
só um tratamento menos duro do que era usual en- 
tre os christãos para com os servos, mas até por fim 
a liberdade , e com a liberdade um cargo que se 
casava com a sua educação c hábitos — o de jardi- 
neiro do horto pênsil. O toque principal do caracter 
de Abul-Hassan era a avareza: á força de ouro Egas 
alcançara delle muitas vezes , antes de partir para 
a Tcrra-santa, o ter entrada naquelle logar vedado, 
onde podia ver Dulce , quando ou as noites festivas, 
ou os cuidados do governo retinham D. Thercza lon- 
ge de sua filha adoptiva. A experiência que tinha 
do poder do ouro na alma de Abul-Hassan fez com 
que entrando em Guimarães o buscasse , para com 
o soccorro delle poder levar a cabo o principal in- 
tento que alli o trouxera. 

Taes haviam sido os meios de que usara o caval- 
leiro para se approximar de Dulce. Por este modo 
era que elle se achava alli. 

A recordação dessa epocha em que naquelle mes- 
mo sitio passara horas deliciosas aos pés da sua 
amante , que então innocente e pura era para elle 
como o anjo de Deus, que inspirava ao cavalleiro es- 
forço c generosidade , e ao trovador os seus mais 
poéticos e harmoniosos cantares • ; — essa recorda- 
ção, dizemos, devorava agora como um pensamento 
infernal o coração do pobre mancebo. Os riscos que 
naquelle tempo dourado correra para ouvir promes- 
sas e juramentos d'amor, palavras d'esperança e de 
felicidade , ia-os correr de novo para receber tal- 
vez o ultimo desengano. Que Ih' importava? Sem ao 
menos ver uma vez Dulce é que elle não podia mor- 
rer. Morrer — que, trahido , lhe seria a consolação 
derradeira ! 

Egas se havia dirigido ao mesmo logar onde pou- 
cas horas antes o conde de Trava ouvira da boca 
de Garcia Bormudez as desagradáveis novas da ap- 
proxiniação do infante. O rcUexo do tanque em que 
as estrellas se espelhavam guiara o ca\alleiro para 



(•) Cantares i o Donie que oauclor ou auclores doCan- 
ciynf^iro chamado do CalIe;'io dos Nobres dào a cada um 
doí poemettos ou cantijas de que elle se compOe. 



92 



O PANORAMA, 



aquellc sitio. Pelas ruas tortuosas que piravam por 
meio dos arbustos, e por entre os canteiros das 11o- 
res , Egas checara junto ao poial escondido no ca- 
ramanchão fechado. Em vez de se acalmar a agita- 
rão que lhe despedaçava o coraçiio, eslc haleu com 
mais violência ao entrar alli. Tudo estava como 
d'antes , o céu , a noite , o jardim : só um amor de 
mulher mudara : mas esse amor fora paraelle o uni- 
verso, e o que via em redor de si não era mais que 
uma imagem mentirosa da realidade, lançada sobre 
o tumulo do passado, sobre as ruinas da sua inti- 
ma existência. \as recordações de outrora havia 
para cile indizível saudade, mas saudade árida e 
atroz , sem consolação nem lagrynias. 

-Vssentado no poial, com afronte entre os punhos, 
o pobre trovador engolfado em pensamentos tene- 
brosos , parecia esquecido dos próprios intentos, do 
tempo que fugia, e dosriscosque ocercavam, quan- 
do nomeio do silencio profundo que reinava no jar- 
dim um ténue ruido veio desperta-lo da iramobili- 
dadc externa em que o lançara o intenso viver da 
sua alma. 

Este ruido o fez erguer a cabeça e lançar os olhos 
para o lado donde partia aquelle som duvidoso: 
defronte dclle — e bem perto — uma porta rodava 
lentamente sobre os gonzos; era a do corredor que 
dava para a salad'armas. Egaspoz-se em pé, e apal- 
pou o punho da espada. Lembrava-se perfeitamente 
de uma noite — fazia nesta três annos — em que as- 
sim a vira abrir, e passar nm cavalleiro, cujo vulto 
similhava o do conde de Trava. Esta noite lhe fica- 
ra gravada indelevelmente na memoria , porque fo- 
ra aquella em que vira Dulce pela ultima vez, par- 
tindo para o oriente. A dois passos delles se appro- 
ximára o vulto encaminhando-se lento para os apo- 
sentos reaes. Egas recordava-se bera desse instante 
de receio e delicias, em que na mão de Dulce uni- 
da aos seus lábios sentira palpitar o amor e o susto ; 
em que elle vira cruzar-lhe o delírio celeste da fe- 
licidade á imagem de um assassínio. Agora esta ínia- 
gem , então negra e maldícla, como que lho sorria, 
porque não se misturava comídéas de ventura , mas 
com as agonias da desesperação. Daquclla vez um 
suor frio lhe manara da fronte ao arrancar o punhal 
do cinto : desta o seu espirito quasi folgava ao ima- 
ginar que alguaut se encaminhava para alli da sala 
d'armas, e que elle tinha uma espada. TalvezDul- 
ce aqui mesmo jur.íra a outro o amor que lhe men- 
tira a elle ! Talvez o seu rival a buscava . . . ! Re- 
fugiu deste pensamento ; porque era um pensamen- 
to que parecia csraagar-lhe o coração. 

Em quanto tudo isto indistiucto , travado, dolo- 
roso, fugia pela sua alma com mais rapidez do que 
nós o exprimimos, a porta cm que o cavalleiro ti- 
nha os olhos (lios, atravez da ramagem do caraman- 
chão , acabou de rodar nos gonzos , c um vulto sa- 
hiu para o jardim. A figura e o trajo eram de mu- 
lher. O seu andar vagaroso e incerto , o arquejar 
comprimido, o volver contíiuio do rosto, como quem 
observava se era seguida , davam claros signaes da 
viva inquietação que a agitava. Trazia vestido sin- 
gelamente um epitogio escuro, e os cabcllos invol- 
los em redctenuissíma de ouro. Á escaca claridade, 
qued(!rraraava longínquo fulgir das estrcllas, aquel- 
le vulto de mulher sirailhava-sc a um anjo perdido 
nas trevas do mundo e da noite , tanto as suas filr- 
mas eram suaves c ao mesmo tempo severas, os seus 
meneios nobres e modestos. O cavalleiro olhou mais 
attentamente .... Era Dulce I Um grito de amor , 
dcculcra, de prazer, d'iadiguação, conglobados em 



gemido infernal, esteve a ponto de lhe fugir por en- 
tre os dentes cerrados : mas uma vontade de ferro 
conteve aquelle primeiro impulso. Dulce havia pa- 
rado. 

E parara bem perto d'elle '. — Egas aspirava o 
perfume de seus cabellos, cria onvir-lhe o cicio do 
respirar , o ranger das roupas negras , e nos olhos 
o brilho de uma lagryma. Escutou. \ donzella al- 
çou a fronte para o céu e murmurou : — 

o Desventurado ! — desventurado ! » 

O trovador descobriu nestas palavras a angustia 
do remorso : era por certo o remorso quem arran- 
cara esta expressão de piedade áqucUa que o trahí- 
ra. Quem havia ahi , senão elle, que fosse desven- 
turado? 

<'Toda a afTeição de uma írmaã eu guardarei para 
ti — proseguiu Dulce. — Ileíde cumprir essa pro- 
messa que fiz perante o Senhor que me ouve ! SIas 
o meu amor c já de outrem : — como o repartirei 
comtigo?» 

A donzella parecia delirar : tinha os braços esten- 
didos e as mãos unidas como implorando a piedade 
de algum ente só para ella visível. 

Nesta postura, á luz duvidosa da noite, em silen- 
cio profundo , e no meio de atmosphera recendente 
e tépida agitada por leve aragem d'estío , a fasci- 
nação do amor era irresistível. 

Aquella espécie de delírio em que Dulce cahíra 
trocou-se repentinamente em impensada realidade. 
Um leve rugir de folhas sèccas a despertou do seu 
devaneio. No mesmo momento um cavalleiro cober- 
to do saio e cervílheira de malha eslava a seus pés , 
e segurando-lhe tremulo uma das mãos lha cubria 
de beijos ardentes. 

Todo o ciúme , toda a procella , accumulada por 
dias d'intenso martyrio no corarão de Egas, desap- 
parecèra. 

«Meu Deus ! » — quiz bradar Dulce , atterrada. 
Os l.tbios não poderam todavia repeti-lo. 

Mas instinctívamenle recuara. 

O encanto que havia subjugado por um instante 
o mancebo quebrou-se então: a sua alma reconquis- 
tou o esforço da desesperação , que tão de súbito o 
abandon.ára. 

Ergueu-sc, e recuou lambem ; mas em pé, e cru- 
zando os braços, olhou para apupilla deD.Thereza 
como o juiz para um réu. 

«Faz agora três annos e um dia — disse elle cora 
voz lenta e na apparencia tranquilla — que neste 
mesmo logar te jurei estar hoje aqui a teus pés 1 
Meus juramentos cumpriram-se. Dulce, lembras-te 
dos teus ?» 

«Meu Deus 1 Egas! tu aqui? — Oh! — que mal 
te fiz cu, para me matares com o inesperado da tua 
vin3a ? murmurou Dulce desfalecendo, e vindo ca- 
hir nos braços do trovador. 

-Mas estes braços não se uniram para a estreitar 
contra o peito! <J cavalleiro afastou-a de si branda- 
mente , e proseguiu : — 

« Nào é minha a culpa se um raio cabido do céu 
vem partir a cadeia dos teus dias risonhos tecida 
pela traição. Meus juramentos cumpriram-se. Dul- 
ce que fizeste dos teus?» 

O caracter de Dulce era um mixto inexplicável 
de candura e de energia , em que a fraqueza pró- 
pria do seu sexo era muitas vezes subjugada pelo 
sangue nobre e generoso que lhe girava nas veias 
— o sangue dos Bravaes. A alegria súbita de ver 
Egas poderia ser-lhe fatal , se as palavras gélidas 
que elle lhe dirigia não houTessem temperado o de- 



o PANORA3IA. 



«j;3; 



lirio do primeiro iuslnntc. Kcssas palavras conlicceii 
a (lonzolla (]Me o ciiinie era quem asdiclava. O sen- 
timento da injustiça com que o cavalleiro repellia 
a sua ternura a fez recobrar a consciência da situa- 
ção em que se achava. Durante alguns momentos 
um silencio profundo reinou entre os dois amantes, 
que olhavam filos um para o outro. Dulce, por lira, 
tirando do seio um pequeno punhal, deu dois passos 
para diante, e arrojando para longe a bainha lo- 
inou-o pelo ferro , e oflereeendo-o a Egas dissc-lhc 
cora voz a princípio lirmc , mas que brevemente as 
lagrymas cortavam : — 

«Quando ha três annos , Egas, o nobre trovador 
partiu para ultramar , a sua amante na hora cruel 
da despedida pediu-lbe uma lembrança, que bera di- 
zia com os seus tristes prescntimentos. Esta memo- 
ria foi o punhal toledano que ello trazia comsigo. 
Dulce era uma pobre orphan: podiam constrange-la 
a ser infiel ; — e então curapria-lhe morrer: foi pa- 
ra morrer que ella o pediu Egas! — prose- 

guiu a donzella — os meus juramentos guardei-os 
até hoje : — juro-o por Deus que nos ouve ! Mas se 
me crês culpada, ou que cu possa vir a sè-lo, vin- 
ga-te da traição , ou cmbarga-me o traliir-te. » 

E estendia o punhal para o cavalleiro. 
. «Sabes que eu não poderia assassinar-te ! — re- 
plicou Egas. — Xcra para te assassinar vim aqui. 

O meu intento era outro Qual ? . . . Nem eu 

mesmo o sei ... Trouxe-mc raáu grado meu a lou- 
cura da desesperação. Oh , sim ! . . . agora me re- 
cordo .... vinha para te dizer : — Dulce , fizeste 
bem em trocar o foragido , o homem que só pos- 
sua a pouca terra que lhe deixaram seus pais; que 
não ganhou ainda nos enredos cortesãos um úni- 
co prestamo , pelo cavalleiro estranho que pode e 
vale tudo com o senhor destes paços prostituídos . . . 
vinha dizer-te que cumpri a promessa de estar ou- 
tra vez n teus pés dentro de trcs annos. Estive a 

teus pés ! — Agora nunca mais perturbarei 

tua dita. Escusas de perjurar ao céu para negar o 
perjúrio ...» 

Dulce deixou cahir o punhal , e estendendo para 
o cavalleiro as mãos confrangidas c tremulas de af- 
ílicção — interrompeu : 

i< A minha dita cifra-se em tornar a ver-te ; era 
ouvir ainda de tua boca palavras de ternura : estas 
converteram-se em injurias e escarneo. Calumnia- 
ram-me, e tu acreditaste acalumnia Não de- 
vias faze-lo. Perdòo-te ; mas escuta-rje I » 

«Escuta-metu ainda mais alguraas palavras — re- 
plicou o mancebo : — são as derradeiras que me 
ouvirás ! Tu foste a única imagem que eu via em 
quanto combati, e padeci, e soflfri alem mar: para 
ti sonhava eu sonhos de gloria : por ti fiz resoar as 
rainhas endeisas melancholicas debaixo dos cedros 
do Líbano , e com lagrymas de saudade refrigerei 
estes lábios queimados pelo sol ardente do deserto. 
O teu nome invoquei-o em mais de cera recontros , 
e ao invoca-lo augraentavam-se-me na alma o esfor- 
ço e a constância. Tu eras a senhora dos raeus pen- 
samentos , a divindade do meu coração. — Voltei a 
Portugal onde esperava achar a recompensa de tan- 
to amor. Qual foi ella? O meu futuro inteiro cahiu- 
me hoje aos pés desfeito era cinza ; porque este fu- 
turo estava nas raãos de Dulce , e Dulce que eu 
cria anjo , era apenas raulher ! » 

«Mata-rae antes com esse ferro que jaz a teus 
pés — exclamou a donzella com voz débil e travada 
de choro — ; mas não me faças expirar nos tormentos 
intoleráveis de coar pelo coração uma a uma as ago 



nias que para elle manam das luas palavras. T«ra 
piedade de mim , Egas . c onve-me ' — que se me 
ouvires has-de arrepender-te, o dizer: — Dulce, tii 
és innocenU' ! ... Os que te accusaram mentirani- 
me ! . . . Oh '. escula-me por piedade ' » 

E o tom daquellas expressões , c a postura sup- 
plicante da formosa orphan abrandariam o instinclo 
de um tigre : o cavalleiro vacillou : 

«Houvera cu, desgraçada , de dizcr-te essas pa-- 
lavras; houvera de acharno horisnnte da minha vi- 
da uma bela de luz e esperança ! Mas a boca de 
homem (]ue nunca menliu me confirmou sem oqiie- 
rer o que a fama confirma\a. >i — E dc|)ois de olhar 
para ella fito alguns momentos, proseguiu : — Não 
amas tu um desses aventureiros que opprimem a 
boa terra de Portugal? — não vais ser em breve es- 
posa : » 

«Não acabes essa idéa Icrrivel — atalhou Dulce 
com anciã , que tocava quasi as melas do phrenesi. 
— Esposa? ! Só tua ou do tumulo. — Nem o mun- 
do , nem Deus teriam força para mo constranger a 
tanto. As apparencias enganam, Egas ! Saberás a ver- 
dade : — só a verdade — e sè tu o. meu juiz.» 

O acccnto com que a donzella proferira eslas pa- 
lavras pareciam tanto vir da alma, que a persuasão 
da infidelidade de Dulce, que tudo conspirara para 
arraigar no animo do cavalleiro, começava a trocar- 
se em hcsilação porventura mais dolorosa que a cer- 
teza dessa infidelidade em que até ahi estivera. 

«Crés tu — replicou clle — que o peregrino ex- 
pirando no meio das anciãs de sede devoradora re- 
cusasse a laça d'agua christnilina? — que o suppli- 
ciado , no meio dos tratos d'algozes, não quizessc 
ouvir a palavra basta! da boca do juiz? — que o 
conderanadoregcitasse o céu pelo inferno? . . .Oxalá 
que os últimos oito dias que tenho passado , c que 
devoraram annos e annos de meu viver , não hou- 
vessem sido mais que um pesadelo maldito. Anjo 
que vi despenhado, podessc eu adorar-tc ainda co- 
mo a ura anjo de luz? Se neste mundo ha para Egas 
futuro e para ti innoccnciu , salva-me de mim mes- 
mo. » 

Então Dulce aportando com ura movimento con- 
vulso a mão do cavalleiro a encostou entre as suas 
ao peito , como se esperasse que no pular do cora- 
ção elle podesse conhecer que sabia de lá pura e 
sincera a narração que lhe ia fazer. 

Esta narração era a historia do amor de Garcia 
Bermudez, amor a que ella respondera sempre com 
a dissimulação como o leitor já sabe. Dulce nem 
disfarçou a espécie de affeição innoccnte que con- 
sagrava ao aragonez , e que dera origem ás suspei- 
tas que tão de leve o ciúme d' Egas accrcditára , 
nem os desejos do conde e da infanta de a verem 
unida áquelle nobre c esforçado cavalleiro. Não lhe 
esqueceram os acontecimentos do nllimo sarau , e 
a repulsa positiva que se vira finalmente constran- 
gida a dar. Conhecendo o caracter altivo e ao mes- 
mo terapo generoso de Garcia , entendera dever-lhe 
explicar a causa daquella repulsa, e fiar delle os se- 
gredos mais Íntimos do seu coração , dando-lhe as- 
sim uraa prova de estima era logar de amor. « Era 
esta derradeira consolação — concluía Dulce — que 
eu acabava de dar áquelle desventurado , quando 
tu vieste cego pelo ciurae despedaçar o coração da 
tua amante , que te sacrificava o horaem que por 
certo amaria , se para ella houvesse neste mundo 
amor, pensamento, esperança, que não fosse Egas, 
que não fosse áquelle que vai pedir-me perdão da* 
suas suspeitas , que Ião tristes me tornaram os ins- 



u 



o PANORA]»IA. 



tantes que deviam ser os mais deliciosos da minha 
vida. » 

As mãos do cavalleiro apertavam já com amor as 
de Dulce ; por isso, em quanto fallára, no roslo da 
donzclla as lagrymas se haviam desvanecido pouco 
a pouco no deslisar de um sorriso. 

«Dulce, Dulce! — exclamou o cavalleiro. — Oh! 
repelc-me que só amas o leu Egas 1 Jura-me que é 
verdade tudo isso ! » 

«Farei mais — atalhou a donzella n'um extasi de 
alegria. — Arranca-mc destes paços se ha para isso 
algum meio. Abandonarei aquella que me criou co- 
mo filha querida, e seguir-te-hei a ti, que não podes 
abusar do meu amor, porque és um leal cavalleiro. 
•Seguir-te-hei por toda a parte ; no esplendor ou na 
miséria ; na terra da infância ou nas solidões do des- 
terro ; na liberdade ou em ferros. Junto ao altar o 
nosso amor será santificado pela benção de Deus , 
e eu serei tua , lua só , tua para sempre ! » 

E Dulce cahiu nos braços do guerreiro trovador, 
qne desta vez a estreitou contra o peito , e lhe im- 
primiu na fronte um beijo ardente e puro como os 
pensamentos d'aml)os. Naquelle instante os seus co- 
rações trasbordavam de celeste e inefável ventura : 
— não cabiam neilcs as grosseiras sensações terre- 
nas. 

«Tens rasão ! — disse o cavalleiro — de cima me 
▼eio a inspiração de buscar-te antes de morrer , 
porque tu me restitucs a vida. Sim, irás comigo. 
Amanhaã ao cahir das trevas eu serei aqui. Todos 
os meios de fuga estarão preparados ; no arraial do 
infante, que não vem longe, acharemos brevemente 
abrigo , e ahi seremos unidos pelo venerável arce- 
bispo d e Braga. » 

«Mas nomeio de tantos homens d'arraas , dos 
atalaias e vigias que guardam pontes , barbacans c 
muralhas, não correrás grande risco?» 

«Oh I não o receies- — interrompeu o cavalleiro — 
o ouro e , se for preciso , o ferro nos abrirão cami- 
nho até o váu do Madroa. Espera r-me-hão no bos- 
que os meus homens d'armas. Para transpor a bar- 
bacan talvez nos baste vestir as esclavinas de ro- 
meiros. Ninguém haverá tão impio que nos pergun- 
te : — peregrinos do santo sepulchro , para onde c 
que vós ides ? O romeiro é livre como a ave do céu : 
respcitara-no o besteiro e o homem d'arraas : da-lhc 
abrigo o villão sob o seu colmo , o abbade no seu 
mosteiro , o nobre no seu castello. Quando ouvires 
cantar lá embaixo junto á torre aquella trova que 
eu fiz no despcdir-nic de ti : — 

Vai-se o vulto do meu corpo; 
Mas eu não ; 

Que a teus pés cá fica morto 
O coração : 

.Serei vn que virei arrancar-le destes odiosos paços: 
c então serás minha , minha para sempre ! » 

«IMas se te descobrirem ? . . . Oh que é uma idéa 
lerrivcl » 

Neste momento uni silvo a^udo soou dacorrcdou- 
ra contigua ao jardim. 

" K .\bul-llass:iii (pie me faz signal — disse o ca- 
valleiro estremeci-ndo. — Devo deixar-te, minha Dul- 
í:v. » 

<' Já I '.' — iniirTiniri)U a donzella. — 

"Sim — replicou ligas — para poder sahir ainda 
boje defiuiinarães. Sem ibso a tua partida fiira ama- 
nhaã iiiipossivel. » 

Um véu de melancholia cobriu o coração do Dul- 
ce, 'l-error inexplicável se apossara delia , como se 



houvera de ser aquella a ultima vez qae visse o 

cavalleiro. 

«Parle pois: — disse com voz dcbil — mas ama- 
me sempre muito ! » 

Egas então cahindo a seus pés, e pegando-lhe na 
mão com uma alegria que tocava quasi as raias da 
loucura , cobriu-lha de beijos. 

«Oh, amar-te ! ? — 'dizia elle. — Mil vezes mais 
que a vida ; cem vezes mais que a honra de caval- 
leiro I Àmanhaã I — ámanhaã ! . . . — e para sem- 
pre ! » 

Eerguendo-se rapidamente, desappareceu no pas- 
sadiço escuro, que dava sabida para a corredoura. 

Dulce parecia petrificada olhando para o sitio por 
onde Egas sahira, como quem tentava ainda desco- 
brir a sua imagem, escutar a sua voz, no meio das 
trevas da noite e do silencio profundo que a rodeava. 

Não ouviu, porem, mais que o tropear de um ca- 
vallo que partia ao galope, nem viu mais que a luz 
reflexa da sala do banquete que batendo pelo inte- 
rior das muralhas do castello tingia um grande lan- 
ço da cerca com a claridade baça e variegada, que 
jorrava pelas vidraças de mil cores do festivo apo- 
sento. 

Dulce ajoelhou, ealevantando asmãosjuntas para 
o céu, onde scintillavam myriadas de estrcllas, que 
mal podia distinguir atravez das próprias lagrymas, 
exclamou com um gesto de intima agonia: 

«Meu Deus, meu Deus! — Porque me desfalece 
a esperança? ! v 

Era o coração que lhe predizia algum successo 
tcrrivel? — Quem sabe? 

( Continuar-se-ha) . 
(A. Herculano). 



Ahor. 

Todos o sentem , e parecem comprehende-lo , mas 
ninguém soube ainda dizer o que seja amor. Fata- 
lidade estranha ! não sabemos da origem e nature- 
za d'ura sentimento commum e universal. Mas que 
muito se lambem o homem não sabe como vive , 
como pensa e sente ! 

Não queremos defini-lo que lambem não sabemos : 
bera poderam ser tantas as formulas que o definis- 
sem, quantos os innumeravcis individues que o sen- 
tem . e que buscam exprimi-lo ; e ainda mal o não 
conseguíramos. Pôde o género humano )iinlar-se de 
uma pincelada , ou resumir-se a natureza inteira 
n'um quadro? Pôde a mão do Omnipotente , que 
abrange o infinito; a do homem nunca. 

Vejamos ao menos se sabemos como e onde exis- 
te. .Mas o modo e a matéria nos fogem da analyse : 
um é tão multiforme , é tão extensa a outra que 
nos escapam do pensamento, c quanto mais os bus- 
cámos cada vez mais e mais se somem e se afun- 
dam na imraensidade , pélago sem praias onde dcs- 
nortado naufraga o misero baixel da inlelligencia 
humana. 

Mas lu , oh homem , que viajas na terra , e que 
nella tão pouco te demoras , pára , siispcnde-tc , e 
rcllecte : pergunta a li mesmo oque seja amor. Tu- 
do quanto vês com os olhos , e alcanças com o en- 
tendimento , não é senão efieitos de amor. Contem- 
pla , que o verás claramente estampado nas leis in- 
finitas e immutaveis, que a voz da Sapiência Eter- 
na assignaloii ás obras da sua Omnipotência lá des- 
de a primeira manhaã do mundo. Ki-lo, e reconhc- 
ce-o : ainda que o não queiras , é na harmonia pa- 



o PANORAMA. 



9S» 



tente deste mundo mesquinho, em que habitas, que 
o podes achar. Estende os olhos, e alonga o pensa- 
mento pelas sccnas raagestosas , que se desdobram 
ante os teus olhos desde a purpura da aurora alé 
os crepúsculos do occaso : rouba alguns instantes 
também ao sorano, c pasma das maravilhas subli- 
mes que nas trevas da noite se manifestam na cú- 
pula do lirmamonlo , porque cilas se bem que tre- 
vas alumiara maravilhas. 

E é possível que depois disto ainda o não aches, 
nem o comprchcndas'.' llepara : esta harmonia sua- 
víssima, que reina em Indo o que é e que foi crca- 
do , dimana da vontade Suprema , e c amor : amor 
é esta melodia dulcíssima dos mundos entre si , c 
das parles componentes d'um mesmo mundo até a' 
mais diminuta escala , melodia da qual pôde a al- 
ma iVuir c fartar-se , mas que o corarão nunca sa- 
berá sosinho cabalmente avaliar, nem lábios huma- 
nos articula-la : amor é uma melodia etherea de 
sons, que disferem harpas celestes e desconhecidas, 
mas nas quaes nada ha frágil , terrestre e sensual : 
amor é virtude, é essência de Deus, é finalmente 
Deus. 

Mas trema o miserável mortal, que no sonho dos 
seus delírios pensar que pôde reger ou infringir a 
seu belprazer as leis desta harmonia eterna : então 
elle , que nem sabe explicar a natureza de um áto- 
mo de Descartes, nem a de um dos mundos de New- 
ton , nem como vive e se move o insecto , sentirá 
mirrar-se o seu braço como palha de feno , e mais 
veloz que o fuzilar do raio ; e verá os seus pensa- 
mentos confundidos e anniquílados como turbilhões 
de pô varridos das azas do vento. 

Amor foi fogo, que a Omnipotência Divina accen- 
deu somente d'uma vez, ao qual alimenta e minis- 
tra matéria do seu nutrímento na criarão dos seres 
até á consumação dos séculos. Aqui embaixo ainda 
se acha submettido ás fórmulas , e tem resaibo das 
partículas terrestres que engendram a matéria : lá 
cmcima será ether puríssimo , subtil e volátil , quo 
subirá sem parar, como nuvem de aromas, até cír- 
cumdar o throno do Altíssimo. Amor na terra não 
se cria mais , nem se invoca , nem se promove : a 
Providencia o rege , assim como derrama a luz no 
dia e despeja as torrentes no oceano. 

Se o homem na febre das paixões o evocasse , 
commetlcra sacrilégio : poderá acha-lo talvez , mas 
um amor bastardo , filho da intemperança , da ím- 
moralídade c da corrupção. Tão passageiro trium- 
pho lhe custara amarguras sempiternas ; porquanto 
desesperou da Providencia, não poderá fugir da ira ', 
de Deus, que cahirá cm cima d'elle c da sua des- , 
cendencía. 

Parece que mais sensatas andaram as gerações 
primitivas, e as da lei cscripta no Sinai. A mytho- 
logía era um culto indirecto a Deus , centro de to- ] 
dos os cultos, e quem somente os pôde receber: 
erraram nos meios, mas não no fim : Deus c o juiz, 1 
e não o homem. 

Elias viam com eITeito a creação animada ; co- 
nheceram que era inerte a matéria e a povoaram de 
divindades. Júpiter e Juno figuraram o consorcio 
mysterioso dos ares: Neptuno e Eólo levantavam as 
vagas deste mar, que viam mover-se : Vulcano ali- 
mentava a potencia do fogo : e Vénus sahia das on- 
das do mar , descarga e reservatório commum da 
electricidade. Os rios e fontes tinham Naiades, nos 
montes habitavam Orcades , nos bosques Dryades , 
Napeas e Satyros , e em cada logar um génio. Sem 
estes tão débeis simulacros devida mal podiam con- 



ceber a matéria cm acção e movimento , c ao me- 
nos buscavam explicar assim a forra das leis phy- 
sicas , com que a vontade do Creador a rege. 

Jlas uma casta de philosophia moderna se alc- 
vantou , e substituiu a mythologia da antiguidade 
com um termo concreto , vazio c cmphalico , se o 
não é também impio , ode — natureza — , e seia 
explica-lo, porque nem sabe , e nem pôde , julga 
haver cortado o nôgordio. Nôs, filhos da lei daGra- 
ça , fechámos os olhos c tapámos os ouvidos, para 
não vèr c ouvir; cegos c surdos parece que prefe- 
rimos atirar comnosco ás trevas crassas do [laganis- 
mo onde possamos a salvo fartar-nos , e aturdidos 
e incrédulos como que ainda hoje pedimos milagres 
ao céu , e titubeando na fé bradamos com as turbas 
de Israel : Siveri: es fUius homiuis descende de cruer, 
et salva te ipsum. 

Em tempos raythologicos, quando o entendimento 
se escorava cm suas forças únicas , podéra talvez 
perdoar-se o fazer de amor um prazer sensual , da 
lei da fruição a sua única lei , e da força da sua 
intensidade e duração o seu primeiro iiistinclo c 
necessidade. Era então filho espúrio das sensações , 
e mal podéra refrea-las : sempre os prazeres no ho- 
mem propenderam a estcnder-se e a reproduzir-se, 
illimitados como a eternidade , para onde o vemos 
gravitar accelerado como para um centro commum. 

E todavia as sociedades dessas eras o encadea- 
ram em laços matrimoniaes , que fossem penhores 
de ordem e de estabilidade. Êm tempos patriarchaes 
Rachel voltando da fonte sentiu arder o fogo d'a- 
raor no peito virginal , e tingir-lhe um rubor lam- 
bem as faces, mas puro, inuocente e casto era es- 
se amor , como o de um anjo ou cherubim. Lavra- 
ram paixões, eapoz ellas crimes : algumas almas for- 
tes entraram em combate e escaparam do naufrá- 
gio. Sócrates embrulhado no manto, e estendido 
no leito da morte, bebendo cicuta, defendia a im- 
morlalidadc , provava a existência de Deus , e com 
a palavra c exemplo ensinava sublimes virtudes. 

Mas estava guardado para o Christianismo, e era 
elle quem somente podia fazer as legitimas boda» 
do amor com a religião , e ensinar-lhe a reprimir- 
se , santificando-o no fim pelo qual Deus ateou es- 
ta chamma celeste. Já não é hoje o amor brutal 
das synagogas , dos idolos de Baal , de Vénus era 
Grécia e em Koma, dos pagodes de Brama, dos fe- 
tiches de Tupá , nem o das mesquitas do filho de 
Agar. Estremeceram nos pedestaes , c cahirara em 
terra os bezerros do ouro israelila. .\mor recuperou 
um Cm celeste como o eram a sua origem e natu- 
reza. Foi o Christianismo quem o fez tornar a con- 
verter-se n'um pensamento , ou n'um sentimento 
puro e incflavel , e não em gozo ou sensação mate- 
rial como d'antes. O Divino Mestre dos apóstolos 
foi quem o ensinou na terra , e isto bastará a con- 
firmar a verdade da doutrina do Messias. Emrau- 
deçam puis os abalizados philosophos, que não sou- 
beram elles resolver o máximo problema da Crea- 
ção. 

E deste amor chrisíão que aprende a esposa a 
guardar fé e castidade ao esposo , a mãi ternura 
ao filho , o amigo lealdade ao amigo , e todos com- 
paixão ao próximo , c gratidão , respeito c culto a 
Deus : é d'elle emfim que manam as correntes cau- 
daes das virtudes, que Jesus Christo ensinou e pra- 
ticou na terra. 

Mas do amor pagão rebenta um fogo brutal e ce- 
go , que se atéa e lavra sem poupar idade, sexo ou 
condição : d'elle nasce toda a casta de crimes o 



96 



O PANORAMA. 



maldades , porquanto não ha laços que não quebre, 
nem barreiras que não rompa alé saciar-se, e gerar 
de si a morte, ultimo dos males humanos, e ponte 
Icvadira da vida para a clornidade. 

Mas este sentimento, que em linguagem de chris- 
lãos se chamava cm outro tempo charidade , se de- 
nomina hoje amor em sentido mythologico e sen- 
sual , c jiliilantrnjna em accepção politica e social. 
Llazonàmos bem alto de mythologicos ou políticos : 
cnvergonhàmo-nos de parecer christãos. 

Tiburcio António Craveiro. 



A COBIÇA DE DINHEIRO. 



O CLÁSSICO escriptor , Fr. António Fèo , exprirae-se 
íiccrca deste vicio pelos seguintes termos em odisc. 
;5.", que tem por epigraphe In tclonio , do tratado 
primeiro da festa do Evangelista e Apostolo S. Ma- 
thcus. — 

icTelonio é um furtar com titulo de divida, uma 
tyrannia confiada , sem haver quem lhe vá a mão 
intitulado com justiça, porque quem hade ir <á mão 
.10 furto auctorisado e coroado com a obrigação?. . 
O ladrão furta ás escondidas onde o não vejam, se 
o comprelicndem corre-se , o publicano muitas ve- 
zes rouba ás claras e confiadamente : o dinheiro em 
quanto é a matéria da cobiça facilita todos os pec- 
cados , é inimigo a cuja obediência estão todas as 
crueldades prestes, e então faz maior damno, quan- 
do delle mais se possue ; se pondes nelle os olhos 
enfeitiça, faz com que ou quebreis palavra ou vos 
faltem com ella , não tem amor , nem lei com al- 
guém , tanto lhe dá estar aqui como alli , na mão 
deste oudaquellc, c causador de discórdias , in- 
quietador da paz, roubador da innocencia , ensina 
a furtar, fazer enganos, persuade rapinas, é cabe- 
ça de bando. O que tudo se viu bem no que acon- 
teceu a .loseph com seus irmãos , porque entrando 
cm geração tão santa a cobiça, de tal maneira cor- 
rompeu a irmandade , desterrou piedade , que ven- 
deram a Joscph a egypeios . um irmão a bárbaros , 
nm innocentc a culpados ; atTrontaram a liberdade , 
entregando-a á servidão , e em dando dentro em si 
entrada á avareza , de tal maneira deu o ar por el- 
Ics que a brandura de homens se converteu em 
crueldade de feras , nem lhes ficou logar para ad- 
vcrtiveiu na oflensa que a Deus faziam , no desgos- 
to (jue ao pai davam, na irmandade que emJoseph 
violavam. (Jue não fará o dinheiro, quando até um 
bezerro, por de ouro, se fez adorarcomoDeus? .... » 

K na cohimna immediala, continuando a matéria 
accrescenta. — 

— I maior milagre foi converter Christo a S. 

Malbcus que sarar ao pnralytico , porque se este 
tinha .1 doença no corpo , o publicano era enfermo 
na alma por meio da alTeição das riquezas: e diver- 
tir um avarento do desejo de ganhar é valentia que 
só iJeus a pôde fazer. Correm parelha fazer de um 
morto ^ivo, e de um cobiçoso desprezador c libe- 
rai; porque aquillo que no corpo faz a vida, obra 
na alma o desprezo nascido da charidade.» — 



0.< liiíjos rio âmbar . 

ha dois grandes lagos: o primeiro terá vinte léguas 
de comprido, e de largura n'algum ' ' 



.ateraes ao mar lialtico 
irá vinte léguas 
as partes duas 



de comprido, e de largura n algumas partes duas 
léguas e n'outras cinco, chama-se Frisch-haff; o 
segundo tem vinte c duas léguas por cinco até seis 
<ie largura gcralmcBle, e o deaominam Curicb-halT. 



Kslreitas faxas de terra os separam do mar, com o 
qual só communicam pelo estreito de Gast , cuja 
entrada cm diversos tempos tem variado de posição. 
São alfamados os dois }latT pela rasão do âmbar ou 
suceino, que fiuctúa era grande quantidade nas suas 
aguas. Esta substancia odorífera , <• de origem até 
agora ignorada, posto que é por alguns reputada de 
natureza mineral , e por outros a resina fóssil de 
alguma arvore de espécie que se perdeu nas gran- 
des revoluções do globo ; naturalistas ha que pen- 
sam ser esta uma matéria produzida por certa casta 
de formigas grandes, e impellida áquellas paragens 
e sobre as praias pelos ventos do noroeste e do nor- 
te. Nos lagos supracitados se colhia quasi especial- 
mente, em outras eras, a maior quantidade dam- 
bar, mas hoje minera-se e extrahe-se em muito 
maior porção nos outeiros próximos ao lago , o que 
induz a suspeitar a origem mineral da substancia. 
]Vo mesmo estado se arranca da terra na Polónia e 
nas fronteiras da Litbuania. 



JHcmorauííum. 

25 DE Mabço. 

n . . . no anno de 1646 , neste dia , em que en- 
tão cahiu o Domingo de Ramos, celebrando-se cm 
Lisboa Cortes dos Três Estados do Reino, nos quacs 
se representa o corpo inteiro da nação, jurou o Sr. 
rei D. João 4.°, e com S. M. os Três Estados , de- 
fenderem, com dispêndio da própria vida [se neces- 
sário fosse] a Conceição Immaculada da Mãi de 
Deus , impondo pena de desnaturalisação a toda a 
pessoa que tivesse a sentença menos pia ; e elegeu 
a mesma Senhora , neste glorioso mysterio , Prote- 
ctora e Defensora de Portugal, e lhe fez a monar- 
ci.ia tributaria, e a si e a seus successores em cin- 
coenta cruzados de ouro cada anno, applicados pa- 
ra a igreja parochial de Villa-Viçosa, a qual se af- 
firma ser a primeira que se edificou em Hespanha 
com o titulo da Conceição. » Fr. Francisco de St." 
Mar. — An. Hist. tom. 1.°, pag. 3S3. 

António de Sousa de Macedo occupa o extenso 
cap. 15.° da 2.' part. de sua erudita obra = Eva 
e Ave êçc. , em tratar historicamente da Conceição 
Immaculada ; e referindo o mesmo que o escriptor 
mais moderno, que acima citámos, accrescenta : — 
Tratou-se logo de que a insigne Universidade de 
Coimbra e todos seus cathedraticos e professores fi- 
zessem o mesmo juramento e com ordem do 

dito Sr. rei , como [irotcctor, que é da Universida- 
de , se fez o juramento em sabbado 28 do julho do 
mesmo anno , sendo reitor Manuel de Saldanha , 
que morreu eleito bispo de Coimbra.» — Passa lo- 
go a transcrever a inscripção commemorativa des- 
sa deliberação do rei e das cortes, para ser inscul- 
]»ida sobre as portas das cidades e fortalezas . o 
que ainda em muitas se conserva , como temos vis- 
to ; foi composta em lingua latina pelo próprio mi- 
nistro , Sousa de Macedo. 

Em 1717 expediu elrei D. João li." cartas regias 
aos prelados niilrados do reino para que em suas 
dioceses se celebrasse a festividade annual em ob- 
sequio da Conceição de Maria. — O Sr. D. João 6.° 
instituiu , por Dec. de 6 de fev.° de 1818, a Or- 
dem de N.'' S." da Conceição de Villa-Viçosa , Pa- 
droeira do Reino; deram-se-lhe os Estatutos por 
AIv. de 10 de setembro de 1819. 



m 



o PANORAMA. 



97 




A ESTijiPA, que precedo, ó allcgorica ; designa Mi- 
guel Angelo alisorlo em suas concepções sublimes , 
e rodeam-no os allribulos de sua gloria . estatuas , 
palhetas , esboços : ao longe avista-sc o magostoso 
zimbório de S. Pedro, sua obra mais estupenda. 

Miguel Angelo Buonarotti foi um daquellcs raros 
engenhos, favorecidos de todos os naluraes dotes 
no subido grau em que parece que a divindade se 
compraz, de séculos a séculos, em juntar n'unia só 
pessoa muitas excellencias , que repartidas , cada 
uma de per si , bastariam para ganhar celebridade 
a diflerentes talentos. Dilficil é assignalar se foi cl- 
le mais insigne na estatuária , se na architectura ; 
um escriptor eloquente lhe chama o pai da pintura 
ipica ; foi distincto na poesia , mui sabedor littera- 
lo , e leve óptimas qualidades moraes. Era portan- 
to impossível que o Panorama , no decurso de qna- 
si seis annos , mantivesse silencio a respeito de ho- 
mem tão celebre: por isso no2.''vol. [annodel838] 
tratando de suas obras principaes dêmos de\ ida con- 
ta . ainda que breve , de seu transcendente mereci- 
mento , a pag. 82 , e a pag. 298 in fine : vcja-sc 
mais a pag. 391 do l.°vol. da presente Serie 2.'' 

Ao sahir da meninice , aquellc que havia de ser 
tão exiraio artista manifestou logo habilidade pro- 
digiosa; c postoque ao orgulho de sua familia, des- 
cendente dos illustres condes de Canossa , era into- 
Abhii. 1— 18 '(^3. 



leravel a idéa de educar para o exercício das artes 
liberaes o joven Miguel , consentiram a final em o 
sulimetter á direcção dos irmãos Ghirlandaio , en- 
tão afamados pintores de Florença , e que tiveram 
a sinceridade de confessar que o discípulo ao cabo 
de dois annos sobrcexcedia seus mestres : cIlcctiNa- 
mcnte Miguel Angelo, de quinze annos de idade, 
já não tinha professores, nem obras porque apren- 
desse, donde veio entregar-se aos impulsos do seu 
génio, a cuja peculiar circumstancia se deverá tal- 
vez a originalidade , que constitue o caracter de 
suas obras. 

Lourenço de Medicis , cognominado o magnifico , 
concebeu a idéa de crear em sua corte uma cscho- 
la de escuiptores, e em o numero dos que para es- 
se intento escolheu entrou Jliguel Angelo, que em 
período mui curto se fez sobremaneira notável na 
estatuária , arte que acima de todas mais estimou : 
fallecendo porem o protector, dissolveu-se a Acade- 
mia, e Buonarotti por tempos permaneceu sem obras 
em que occupar-se , frouxos como então estavam o 
amor e gosto pelas Bellas-Arles ; até que o prior da 
casa religiosa da invocação do Espirilo-Santo lhe deu 
habitação no convento, encommendando-lhe nm cru- 
cifixo, e facilitando-lhe dos hospítaes cadáveres hu- 
manos para que estudasse a anatomia , quasi igno- 
rada naquelle século ; por este meio o mancebo ar- 
2.' Sbrie. — Voi.. 11. 



98 



O PANORAMA. 



lista adquiriu o gramlc conhecimento cm myologia , 
iliie lhe deu nome entre os niaisdistinctos desenha- 
dores. 

O p.ipa Júlio 2." chamou-o a Roma e lhe encar- 
rcsou a csculptura do monumento que para si des- 
tinava , c as pinturas da capolla sixtina : obras até 
hoje consideradas como prodígios da arte. — Pos- 
teriormente empregado pelos puntilices Leão 10.°, 
Adriano G.° e Clemente 7.° fez os famosos quadros 
do .Iiiizo final , da Conversão de S. l'aulo , da Cru- 
cifixão de S. Pedro e as soberbas estatuas de Moy- 
sés , do David , e outras , que tem sido geralmente 
admiradas. — Por morte de Bramante foi escolhido 
para continuar a fabrica da colossal basílica de S. 
Pedro (•) corrigindo a planta primitiva, e reduzin- 
do a ordem a confus<ão occasionada pela variedade 
de riscos que se haviam adoptado. — O seu estilo 
archilectonico distinguia-sc pela grandeza c ousadia 
das concepções: e nos seus ornamentos brilha cer- 
ta pureza , filha tão caraclcrislica da sua imagina- 
ção. 

Assim passou a vida , sobresahindo eru quanto 
rnif)rehendia e compunha , aíé que sentindo avisi- 
nhar-lhe o termo delia, na avançado idade de 90 
antios. chamou a seu sobrinho Leonardo, a quem 
dictou seu testamento , limitado ás seguintes pala- 
vras. — II Deixo a minha alma a Deus, o meu cor- 
po á terra , e os meus bens a meus mais próximos 
parentes.» — Pouco depois deu o espirito ao Crea- 
ílor , aos 10 de fevereiro de 1364. 



ASCSEOLOtilA S>0RTi;6DEZA. 

■ TK. i 
Viagem de Tron c Lippomani. 

(1380.) 
(Continuação de pag. 82. J 

As mulheres portuguezas são singulares na formo- 
.sura e proporcionadas no corpo ; a cor natural dos 
.seus cabellos é a preta , mas algumas tingem-nos 
de côr loura : o seu gesto ó delicado, os lincamen- 
los graciosos , os olhos negros e scintillantes, o que 
lhes accrescenla a lielleza : e podemos allirmar com 
verdade que era toda a viagem da peninsula as mu- 
lheres que nos pareceram mais formosas foram as 
de Lisboa ; posto que as caslclhauas, e outras hes- 
panholas arrebiquem o rosto de branco c encarna- 
do , para tornarem a pellc , que é algum tanto, ou 
antes muilo trigueira , mais alva e rosada , persua- 
didas de que todas as trigueiras são feias. O trajo 
feminino cm Lisboa é o commum de toda a Hespa- 
níia ; isto é , o manto grande de lan ou de seda , 
segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem o 
rosto e o corpo inteiro , e vão aonde querem , tão 
di.sfarçadas, que nem os próprios maridos as conhe- 
cem, vantagem esta que lhes da maior liberdade do 
que convém a mulheres bem nascidas e bem niori- 
geradas. As damas nobres costumam ser acompanba- 
<ias, pela cidade, dccreados bem vestidos, que lhes 
precedem com passos lentos o socegados . e de do- 
nas que as seguem com grandíssima gravidade, não 
tendo por signal de boa reputarão o serem acompa- 
nhadas de donzellas. 

O povo miúdo vive pobremente , sendo a sua co- 
mida diária sardinhas cosidas, salpicadas, (^) que se 

(.) Viil. a noticia a paj. 297 e segí- ilo vol. S° 
(í) ^■'itlmeslriilc — dialecto veneziano talvez. 



vendem com grande abundância por toda a cidade. 
Raras vezes compram carne , porque o alimento 
mais barato é esta casta de peixe , que se pesca em 
notável cópia fora da barra , como se pesca muito 
outro de Iodas as qualidades e muito grande ; mas 
cm geral menos gostoso do que o das aguas de Ve- 
neza , e tão caro , que faz espanto aos estrangeiros 
e custa muito aos naturaes , que passam mal pelo 
preço excessivo de tudo o que serve para o susten- 
to. Comem os pobres uma espécie de pão nada bom, 
que todavia é barato , feito de trigo do paiz , todo 
cheio de terra, porque não costumam joeira-lo, mas 
nianda-Io moer nos seus moinhos de vento, tão sujo 
como o levantam da eira. O pão bom e alvo faz-se 
de trigo de fora , que trazem de França , Flandres 
e Allcmanba os navios destas nações quando vem a 
Lisboa buscar sal e especiarias. Este , na verdade , 
também não é joeirado , mas as mulheres pobres o 
escolhem grão a grão , assentadas á porta da rua 
com paciência fieugmatica mais própria d'allemaãs 
que de portuguezas. Estas mulheres tem licença pa- 
ra fabricar o pão c vende-lo pela cidade onde e co- 
mo lhes apraz , o que sempre é por alto preço. O 
trigo vale a i280 réis o alqueire. Nutre-se também 
a gente pobre de fructa, que abunda muito e é ba- 
ratíssima. 

O vinho commum é pouco bom , por não dizer 
máu ; porque não sabem , ou não querem ter o in- 
coramodo de o fazer bom. Vale geralmente a 24 rs. 
a canada. Os vinhos finos são excessivamente caros : 
os Silrs. Embaixadores tiveram de pagar o branco 
para o consumo ordinário da sua mesa a 60 escu- 
dos a pipa 

Quanto ás vitualhas não é em Lisboa que se hão- 
dc buscar cousas muito exquisitas. Até a vitella é 
rara ; porque não costumam matar estes animaes , 
guardando-os para crescerem e servirem nos traba- 
lhos do campo ou de abastecimento da cidade, sen- 
do , alem dis.so , ahi a comida ordinária o capado , 
que é e«cellente. 

No tempo de elrei D. Sebastião as rendas reaes 
consistiam nos direitos das alfandegas de Lisboa e 
de todo o reino, assim sèccas como molhadas. D'u- 
mas Cousas pagava-se o quinto, d'outras a decima ; 
e do peixe, em muitas parles, mais de metade. Ha- 
^ia também rendas em cereaes, vinho, e outros gé- 
neros ; as rendas dos mestrados a que pertenciam as 
ilhas de S. Thomc, Terceiras, Cabo-verde , Madei- 
ra . e Príncipe : as da Mina que pertenciam á Or- 
dem de Christo. As especiarias e outras fazendas 
que vinham annualmente da Índia e do Rrasíl pro- 
duziam 'ambem um avultado rendimento. Apesar, 
porem, d'cste ser tamanho nada vinha a entrar no Ihe- 
souro ; porque tudo se dispendia em armadas cmais 
cousas necessárias para a conservação daquclles es- 
tados , e afora isso se distribuía em salários d'oiri- 
ciacs e ministros da justiça no continente ; cm mer- 
cês vitalícias , que chamam tenças , aos benemeri- 
liis da coroa, aos fidalgos, e mais pessoas, que ser- 
viam assim no reino como na Africa e índia : em 
juros perpétuos, que os reis vendiam, eslaliclecidos 
nos direitos reaes; cm despesas com a gente c pe- 
trechos necessários para a defensão das praças d'A- 
frica : em cinco gallés constantemente armadas . c 
110 armar dos navios redondos , que todos os annos 
sabiam juntos , assim para comboiar as frotas que 
iam e vinham dos portos com que Portugal coramer- 
ciava, como para mandar ao Brasil, a (iuiné, á Mi- 
na , a S. Thomé ; c finalmente em moradias , gas- 



o PANORAMA. 



O!» 



los da côrle e casa real, paga de creados, esmolas, 
presentes , emhaixadas, dotes ás lillias dos croados, 
e conservação das fortalezas de Lisboa c do reino. 



As noticias do viajante relativamente a Portugal 
Ycrsam desde este ponto sobre a organisação judi- 
cial e administrativa, acerca da qual nada so accres- 
centa que não se ache na nossa antiga legislarão. 
Conclue o narrador com uma historia suecinta do 
reinado de D.Sebastião e das causas do desastre de 
Alcacer-quivir , da acclamação de l'hili|)pe -2." cm 
Thomar &c. — Alistemo-nos de exlractar essa parte 
relativa á historia politica , não porque seja pouco 
interessante e curiosa ; mas porque é demasiado ex- 
tensa. 

(Â. Herculano.) 



Antigcidade da poi.vob* na Peninsula. 

Qgando no segundo volume da primeira serie deste 
jornal publicámos dois extensos artigos sobre a mi- 
licia da idade média concluimos o nosso traliallio 
pondo em grande dúvida , ou antes negando o co- 
nhecimento e uso da pólvora nasHespanhas em tem- 
pos remotos , e recusando o testemunho de Duarte 
Nunes do Leão que menciona esse uso era epocha 
muito anterior ao meado do século 14." em que se 
crê teve origem este celebre invento , que mudou 
inteiramente o systema militar da Europa. 

Hoje, porem, daremos aqui algumas noticias con- 
trarias á opinião que naquellcs artigos seguimos , e 
que nos parecem curiosas para a historia dessa com- 
posição assoladora , que tão lerrivel papel tem feito 
nos successos dos tempos modernos. 

Duarte Nunes foi buscar ao capitulo 10.° da chro- 
nica de D. Sancho 1.°, de Ruy de Pina , a noticia 
que nos dá da existência da pólvora e bombardas 
no fim do século 12." Ahi a chronica narrando o 
■cerco de Silves diz que elrei mandou atirar a uma 
torre com grandes tiros e grossos de pólvora. ^ em is- 
to em surama a ser o mesmo que diz Nunes do Leão. 

É hoje mais que provável que a relação da toma- 
da de Silves que Ruy de Pina nos dá tão particula- 
risada , e tão diíTercnte da brevidade com que cos- 
tuma referir successos tanto ou mais importantes , 
foi tirada de alguma memoria contemporânea , ou 
pelo menos da chronica geral do reino de Fernão 
Lopes , que costumava procurar essas mesmas fon- 
tes , e cujos trabalhos relativos aos primeiros rei- 
nados não chegaram até nós talvez por inveja e mal- 
dade de Ruy de Pina. — Seja como fòr, é certo que 
a relação , que lemos neste chronisla concorda em 
muitas circumstaacias com a narração feita por um 
dos cruzados que assistira áquella conquista , nar- 
rarão publicada ha dois annos pelo Sr. Gazzera nas 
Memorias da Academia de Turim. 

No que, porem, ochronista portuguez parece ter 
.■íido menos fiel a essa mesma memoria ou documen- 
to do que se serviu, é exactamente neste ponto dos 
tiros de pólvora; porque na narração do cruzado se 
diz que a torre fora balida por umas machinas pe- 
quenas d'clrei , e uma grande dos estrangeiros. Se 
as machinas dos portuguezes arrcmeçasscm tiros de 
pólvora, como é crivei que o narrador allemuo dei- 
xasse de mencionar uma circnmstancia tão notável, 
e para elle inteiramente nova ? È por tanto de crer 
que Uuy de Pina quiz enfeitar a relação do succes- 
so com esta particularidade; que por isso o seu tes- 
temunho não reforça o de Duarte Nunes, e que se 



não houvera outras provas positivas da existência 
da [lolvora nos tempos primitivos da nossa monar- 
chia , ficaria subsistindo o que dissemos no nosse 
anterior artigo acerca deste objecto. 

-algumas pessoas acharam estranho qnc no segun- 
do capitulo do llobo se descrevesse cutrc os instru- 
mentos e tiros projirios para combater os logares 
fortilicados no século 12.°, uma espécie de bombas 
ou granadas arrojadas por um niixto simiibantc á 
pólvora. Todavia não commettemos ncnliuni ana- 
clironismo : nessa parte , como em tudo o que ahi 
descrevemos, procurámos conservar escrupulosamen- 
te a verdade histórica. Para o provar publicámos 
hoje este artigo , que servirá ao mesmo tempo de 
correcção ao que se disse tratando da milícia da 
idade média. 

Se dermos credito aos chins a pólvora é uma in- 
venção sua ; mas são mui débeis as provas que ap- 
presenlam para sustentar esta pretcnção. Entretanto 
Hyde na HUtoria do. Xadrez mostra por diversas pas- 
sagens de cscriptores gregos c latinos que os indios 
dcfendcndo-se da invasão de .\lexandre Magno, em- 
pregavam o fogo como meio de arremcçar tiros dos 
logares fortificados ; c nesta mesma obra se mencio- 
na a longa tradição de se haverem fundido canhões 
no Pcgú em cpochas mui remotas. Porventura da 
ludia tiraram os árabes o conhecimento da pólvora, 
e de lá provavelmente o obteve também a China. 
A civilisação da índia parece ser a mais antiga das 
velhas civilisações da Ásia , e é indisputável que 
ao trato com os povos do Indostão deveram os ára- 
bes grande parte da sua. Quanto a estes nenhuma 
duvida se pôde oppòr aos testemunhos que nos res- 
tam de que elles faziam uso na guerra , senão exa- 
ctamente do mixto a que damos o nome de pólvora, 
ao menos d'outro em que a naphta substituía o car- 
vão , mas em que entravam como naquella o enxo- 
fre e o salitre , e que produzia pouco mais ou me- 
nos um effeito idêntico. 

Na dissertação que o erudito arabista Casiri pu- 
blicou em o segundo volume da Biblíotheca Arabí- 
co-Hispanica , sobre a antiguidade e uso da pólvo- 
ra e artilliaría entre os árabes, depois defallar bre- 
vemente do fogo grcgucz mencionado pelo impera- 
dor Leão na sua Tactira , e de citar o que sobre a 
origem da pólvora se lè era Ducange na palavra — 
Bombarda — proseguc assim: 

«Alas os monumentos arábicos noticiam a sua 
muito mais remota existência entre os persas e afri- 
canos. Parece por isso verisimil que o conhecimen- 
to e uso da pólvora passasse dos árabes para os hcs- 
panhoes e destes para os francezes , que depois fa- 
bricaram a <iita pólvora , e acharam o methodo de 
a granular. K isto o que claramente indicam os có- 
dices aral)ic(js da bibliotheca do Escurial , c entre 
outros o que se intitula — Noiiria c mclliodo rríjio — 
composto por Schehab Aldin Alabas Ahmad Ben 
Fadhl , auctor que fiorescia em )2íí) , e que nessa 
obra descreve as varias espécies d'arlilharia usada 
pelos árabes do seu tempo: — Serpèam — dizcllc — 
e sussurram os scorpiões ligados em volta , accosos 
com salitre, e por isso estourando lampejam i- in- 
cendeiam. Era cousa de vèr o engeidio sacudido 
estender pelo ar uma como nuvem , fazendo nm es- 
tampido terrivel similhante ao do trovão, e vomi- 
tando fogo para todos os lados , despedaçar , incen- 
diar , c reduzir tudo a cinzas. 

Vè-se das palavras do escnptor que elle falia de 
globos de ferro expcilidos pela violência do fogo ar- 
tificial ; porquanto emprega sempre os vocábulos 



iOO 



o PANORAMA. 



-Vrt/),'(ía c Ilariirl , malcii;is de que naquello Icmpo 
SC f;iltrir,iv,i a polvor.i. Os [nTsas , os lurcos , e os 
árabes «lavam aijlig.iincnlc o iioinc tle llarnrl ai) sa- 
litro , c liojo dão a mesma denominarão á pólvora : 
qnanio ;i Naphta c esla um s^cnero de hitiime mis- 
liirado de enxofre. 

O illiistre escriplor granadino Aba Alidallá Ehn 
AlKlialhili na sna Historia Hispânica [artn. 13)2— 23] 
lalLi latnbem destes glubos de ferro arrojados com 
o impnlso da naphia . nos sesi"'iles lermos : — Elle 
[o rei de(;ranada Ahulvaiid] movendo o arraial foi 
cercar Baeza cnni grande numero do tropas, onde fez 
desfechar com estrépito conlra o forte rastello aquol- 
le grande ongenlio da naphta e do globo, cbegan- 
do-se-llie o lume. — Ksle testemunho é confnmado 
liela chronica de Affoiíso 11.° Na obra de llassan 
Bon Omar intitulada Aura do vrnlo oriental , escri- 
pta na mesma epoclia da Historia Hisiianira igiial- 
menlc se (az menção da pólvora como cousa conhe- 
cida geralmente naquelle tempo pelos mouros. 

De lodos os exemplos do uso da pólvora entre os 
rnabcs o mais antigo é o que lembra lilmacino no 
livro 1.° da Historia Saracniira onde refere, que 
tiacgiraTl [anno 690] llagiageo lendo cercado Mcc- 
ca destruíra os tectos da Caba, c os reduzira a cin- 
zas com manganellas e morteiros [mavqanis et mor- 
taritsj sacudidos por meio de naphta c de fogo. 

Estos testemunhos dos escriptores árabes são re- 
forçados por uma passagem da chronica latina do 
imperador Aflbnso Raymundez [Liv. 2. cap. 41] ao 
Tucsmo tempo que servem para explica-la. Diz o 
cbronista que os mouros cercando Toledo pozeram 
<"m volta da cidade muitas lialistas , e machinas , o 
arremessos de fogo, e Ivons [tormenta] para arro- 
jar pedras o lanças, o escorpiões para despedir se- 
tas, o fundas, e aríetes, e vincas. — Aqui por ex- 
clusão de partes, visto que o auctor enumera todos 
os géneros de machinas de tiro , se conhece que os 
trons [tormenta] não eram senão as manganellas de 
logo que tão triviaes parecem ter sido entre os mus- 
sulmanos da Hesp.-mba. 

A opinião de Casiri de que a invenção da pólvo- 
ra não sendo verdarleiramente eiirnpe.i , provavel- 
■meiíte passou dos árabes para os hespanhoes e des- 
tes para as outras nações francas . não deixa de ser 
fundada. Como <■ crivei que havendo tão estreitas 
relações entre os mouros e os chrislãos da Peninsu- 
la , estes ignorassem por muito tempo o modo de 
empregar um tão poderoso agente de destruição ; 
elles cuja vida era uma serie raro interrompida 
de batalhas, assédios e defezas de castellos? Fre- 
quentes Vezes os principes sectários de uma das 
crenças se ligavam com os da seita contraria para 
guerrearem os próprios correligionários , e não era 
raro ver marchar unidos na mesma hoslo ou arran- 
cada os pendões da cruz e os estandartes moslemi- 
cos. Neste intimo trato militar era qiiasi inipossi- 
vel que os engenhos, invenções de guerra, e armas 
pouco a pouco se não tornassem commnns. A gran- 
de mudança das cervilheiras o saios de malha para 
as armaduras de soliias , elmos, grevas, emlini de 
arnez liso foi uma imitação doscavalleiros do orien- 
te. Hasta examinar com altenção os monumentos 
cidligidos por Monlfaucon para nos convencermos 
disso. Porque não succederia o mesmo á pólvora ? 
Não [lodcria o monge .Schwartz, a quem se attribue 
a invenção delia, conhecer os livros dos árabes em 
que se tratasse da sua confecção cuso? O documen- 
to que cila Ducange a respeito da epocha em que a 
pólvora primeiro apparccc cm França [133S1 é no- 



tável porque se trata alii delia e das bombardas, 
não como de uma cousa <'xtraor(linaria , mas como 
de um |)etrecho de guerra trivialissimo ; e de feito 
este invento terrível era já rouinuini |)or toda a Ku- 
ropa no meado do decímo-quaito século. 

Fma passagem de Pelrarcha no livro intitulado 
Rrmcdio de varia fortnna [escri[)to aiUes de 134i 
como o mostra Muralorí no Tom. 2." das ÁHliijuida- 
des italianas] vem rohorar esla nossa opinião , mos- 
trando que os tiros para os quaes servia a pólvora, 
eram entre as nações francas os mesmos qne des- 
crevem os escriptores árabes. Diz ahi Pelrarcha o 
seguinte; [I^. 1. Dial. 9!>J. ... os globos de metal, 
que, introduzidas nelles as chamnias , são arremes- 
sados com horrível ruido .... Era esta peste' rara 
ainda não ha muitos aunos, do modo que se olhava 

para ella com espanto ; agora , [loreni ó tão 

coinraum, como outra qualquer espécie de armas.» 
— Eis aqui [jois- trivialissima já a artilharia dos ára- 
bes antes do 13Í.Í, podciido-so deduzir das palavras 
do Pelrarcha que , posto que menos fiequenle , já 
era conhecida nos lins do século 13." E não será 
digno de reparo, que esta terrível invenção servis- 
se entre os christãos do mesmo modo quo entre os 
árabes , para arrojar uma espécie de bombas ou 
granadas? Não c mais natural suppôr que os fran- 
cos imitaram os mnssnlnianos , do que imaginar 
que uns e outros fizeram o mesmo invento e logo 
lhe deram uma applicação idêntica? É obvio que 
sim. 

Em ultimo logar notaremos que á palavra /'oírora 
se pode talvez achar melhor elymologia no arábico 
Àl-harud doque no latim Puleis. >erdade é que nós 
c os castelhanos tomámos quasi sempre os nomes 
latinos na sua forma do ablativo : mas não deve es- 
quecer que já tínhamos na Península os vocábulos 
Polvo e Pó, correspondentes a Pulvis , tirados ou 
immediatamente do latim , ou mediatamente d'al- 
gum dos dialectos da lingua romana. Os francezes, 
os italianos, os anglo-normandos deram á pólvora a 
mesma denominação de pó — poiídrc, polverc, powdcr. 
Só nós os hespanhoes — meios árabes no sangue, nos 
costumes, e ainda na linguagem, distinguimos aquel- 
le niixto [Al-barud] pela denominação especial de 
Polvm-a. ... ... 

• ^ (A. Herculano). ■ 



FaSCINADORES de cobras ISA I.^DIA. 

Ha diversas passagens na Biblia que alUideni cla- 
ramente á opinião , que desde tempo immemorial 
prevalece nas Índias Orientaes , de que as serpen- 
tes são SMSccpliveis do mansidão, perdendo median- 
te encantamentos toda a sua malignidade. No psal- 
mo o<S compara David os niahados dizendo : — O 
furor delles é similhanle ao da serpe ; como o do 
aspid surdo e qne tapa suas orelhas. Que não ou- 
virá a voz ri'encantadores , nem do feiticeiro que 
fascina destramente. — .\o cap. S." do Jeremias es- 
tá escriplo : — Porque eis-ahi que vos enviarei ser- 
pentes basiliscos para osquaesiião ha encantamento. 
Todos os que pela índia viajam podem prestar 
tostemiHiho do poder extraordinário que os peloti- 
queiros e charlatães do Indostão exercitam sobre as 
cidiras , a ponto de as fazerem dançar sobre o cír- 
culo qne com a cauda descrevem, e mover a cabe- 
ça em variadas inllcxõcs seguindo as toadas do pi- 
fano o adufe tocados nessas ocrasiões. Em Chander- 
nagor, capital dos estabelecimentos francezes no 



o PANORA3IA. 



101 



território benwllm , um indio mosirava quatro co- 
bras , que tonam seis |iaimos tlc comprido c mara- 
vilhosauiciile Piisinaitas : — dcfiois de um preludio 
de musica , a ccrlo som as cobras saliiram das ca- 
nastras redondas em que estavam uma a uma , e 
principiaram a raover-sc alçada amelade do corpo , 
ergucndo-so e baixando-se pela contracção da par- 
le inferior, umas vezes dando voltas na casa , ou- 
tras chegando-sc ao dono , c cnleando-o , e logo re- 
trahiudo-sc, continuando dest'arte em varias evo- 
luções, até que, a outra toada dos instrumentos, de 
amedrontar ao que parecia , cada uma se recolheu 
a seu canistrel , enroscando-se . e ficando quedas. 
Não solTre duvida que foram estes reptis aniuieslra- 
dos a poder de pratica, c que os indios que vi\cm 
de similhantes exliibicoes são dotados de nimia pa- 
ciência e mui siuiíular sagacidade , maior ainda 
que a dos salioianos que discorrem alheias terras, 
mostrando marmotas e ursos adestrados em danças. 
— A primeira opeiação daquellcs peloliqueiros sa- 
bido esta que é appossarcm-se dos animaes que in- 



tentam domesticar ; com cfTeilo , assim que desco- 
brem a loca , onde sabem que ha cobra . começam, 
de cavar até appareccr parle do rabo do reptil, e 
asarrando-lhe rijamente com a mão esquerda o sa- 
cam para fiira , correndo com a direita velozmente 
o cor[io ate lho subjugarem a cabeça enlre os de- 
dos : immediataincnle com pinças lhe arrancam os 
dois cidmilbos ou prezas venenosas, c íica o ani- 
mal incapaz de fazer mais damno que o de uma 
mordedura ordinária, porquanto os mais dentes são 
mui curtos e desprovidos do fulliculo de pcçonlia. 
— Levadas as cobras para casa, principia a tarefa 
do ensino, dandu-lbes de comer á mão. A caça das 
cobras, ditas de capèllo, é um tanto perigosa, por- 
que se a cabeça escapa da mão direita é inevitável 
a mordedura ; por isso o indio vai munido de ferro 
em braza para cauterisar inimiMlialamenle a ferida 
e impedir o elieito fatal. Quanto ao quebranto can- 
sado nos reptis pela musica , oiiiniões ha encontra- 
das, e que parece não terem toda a saacção da ver- 
dade. 




FASCIItIADOR£S Dt^ cOBaAS. 



Da calde.vçío das Tcr.RAS. 



a naturrz.i, ou antes fal q-ual o deitaram as revolu- 
ções do globo. Qnasi nunca vereis os camnonezes 
trocando no seu campo terra por terra, quando mes- 
mo ahi a tem de dincrcntes espécies e ([ualidades , 
Esta maneira simples e natural de melhorar os ter- 1 ou seja ita snperficie , ou na camada inf<'rior. D'a- 
renos c qnasi absobitanicnSc despresada entre nós: ; qui se segue que n'umas partes preiiomina a areia, 
quasi que existe nm respeito su|iersticioso em dei- ' aqnal, sendo nimiamente permeável á agua e á luz. 
xar perpetuame nte o terreno tal qual o apresentou I se secca e arde no estio, matando a planta : n'on- 
!,•) Ccniinuado di- pag. 88. ~~ 1 Iras é nra barro forte c compacto, que, ou pclasec- 



Í02 



O PANORA3IA. 



cnra da atmosphera se desseca como pedra, e for- 
ma grelas, ou com as chuvas se ensopa de maneira 
íjiie se não presta á vegetarão. Entretanto nada se- 
ria mais fácil do que emendar e corrigir uma pe- 
la outra , applicando-lhe os ingredientes contrários. 
O tempo que se empregar neste importaniissimo ser- 
viço pode ser lambem aqucllc que sobeja sempre 
para intercalar entre os maiores tráfegos da cultu- 
ra ; e esta manobra pódc tanto ser leila por braros 
fortes, como por mulheres e rapazes de 8 ou 10 an- 
nos para cima. 

A regra única para esta operação é procurar e 
achar terras que vos convém misturar cum as vos- 
sas, eque faltam no vosso campo. Raras vezes acon- 
tecerá que dentro mesmo de vossa propriedade, fa- 
zendo diligencia ccxcavações, não encontreis osma- 
leriaes desejados. 

Eis os principacs terrenos defeituosos , e os cor- 
rectivos para os melhorar. 

1.° Terrenos ari/ilosos, barrentos, fortes e tenazes : 
eracndam-se estes misturando-Ihes terra calearca , 
saibro, oxt arein fina, mame, caliça, ou entulho. Sc 
por acaso faltassem todos estes ingredientes, se po- 
deriam snpprir com uma composição de estrume dos 
menos ardentes com cal e areia, juntando-lhes toda 
a casta de vegetaes , e rápido de charneca , ou de 
terra inculta. 

'^■° Os terrenos calcarcos d'especie densa e gros- 
s» podem raelhorar-se pela terra saibmsa , c se fo- 
rem de qualidade mais ligeira , pela argila c pelos 
mames argilosos. 

3.° Terrenos arenosos se melhorara pela terra cal- 
carea , e pelo barro , e em geral pelas terras com- 
partas , fortes, 

i." Terreno cascalheiro , pedregoso, se mistura 
convenientemente com os marnts , argila , e o cat- 
t-areo bem dividido. 

5.° Os terrenos turbr<sos ou palustres se melhoram 
dessecando-os , ao menos na superfície , e depois 
misturando-lhes saibro , areia fina commum , calea- 
reo , e terras grosseiras, mame calcareo , saibro ou 
areia marinha , e cal ; segundo a necessidade de se 
procurar e obter estas diirerenlcs substancias. 

Independentemente do correctivo da caldeação c 
mistura das terras sempre fica um principio predo- 
minante em cada um dos terrenos , isto c , sempre 
(ica sendo forte ou fraco , quente ou frio , secco ou 
húmido , porque isso depende de causas naluraes , 
da formação do solo , da exposição e do clima lo- 
cal : sempre portanto precisa o cultivador adaptar 
á qualidade do terreno assim o género de cultura , 
«orno as espécies de sementes c de plantas que mais 
lhe convier. 

.\ssim , por exemplo , as terras fortes e substan- 
ciaes são próprias para as sementeiras do trigo : — 
as terras brandas eleves para os jardins ; — as ter- 
ras medias, que nem são tão fortes que produzam 
trigo, nem tão fracas, que não tenham alguma sub- 
stancia , são próprias para o milho grosso , a que 
chamámos milhão; — as terras mais fracas podem 
dnr centeio , cevada , e aveia ; — o chamado milho 
iniudo ou alvo cança muito as terras, mas pódc d.ir- 
se nos terrenos sond)rios e húmidos ; — o painço da- 
se nns terras pedregosas , e não precisa d'agua ; — 
ò vinha quer terra forte, mas argilosa; da-se mui- 
to bem nos terrenos calcarcos c pedregosos, nas en- 
costas, e em boa exposição ao sol ; não quer humi- 
dade ; — o cânhamo exige boa terra, precisa chuva 
ou rega , por isso mesmo que é sementeira do ve- 
rão ; — o linho commum e ordinário lambera ama 



terra boa, bem preparada e limpa, mais gross» que 
delgada; precisa calor, enão humidade; — o arroz 
quer terra húmida, que se inunde ; — as favas re- 
querem terra bem estrumada , e , como este cxcel- 
lenlc legume não fatiga a terra , admitle depois no 
mesmo terreno sementeira de trigo, ou outro cereal ; 
— ervilhas querem terra gorda e grossa, um pouco 
secca e bem estrumada ; cançam muito a terra ; — 
lentilhas querem terra mediana, e seraeam-se jun- 
tamente com o estrume;' — tremoçosdão-se em qual- 
quer terreno; quasi não precisam cultura, pois nera 
ao menos se sacham; enterrados na florescência são 
excellente estrume para as vinhas; — os nabos, ce- 
nouras, rábanos, couve nabo &c. semeam-se nas 
terras que produziram cevada , e melhor depois de 
queimado o restolho ; dão-se por consequência nas 
terras capazes de produzir aquelle cereal ; enão fa- 
tigam o terreno; — em geral todas as plantas de raí- 
zes bulbosas, tuberosas e carnudas, como são as ce- 
bolas , batatas, o nabo turncpo , as betarrabas &c. 
convém aos terrenos siliciosos ou saibrosos , porque 
estes por sua contextura porosa , e pela pouca ad- 
herencia de suas partes offerecem menos resistência 
ao desenvolvimento da raiz, esão elles mesmes mais 
permeáveis pela humidade , e penetrados pelo ca- 
lor, o que tudo ajuda ao aperfeiçoamento da planta. 
De tudo o que ate aqui deixámos expendido se po- 
dem tirar as conclusões seguintes : — l.^que em ge- 
ral os melhores terrenos são aquelles que contém a 
maior somma de substancias alimentarias para as 
plantas. É por isto que as terras calcareas que teem 
uma grande attracção para o acido carbónico, com- 
binação chymica a mais favorável á agricultura, são 
férteis. 2.' que os terrenos mais estimados são aquel- 
les que contém uma maior quantidade de sedimen- 
to e partículas animacs e vegetaes era decomposi- 
ção, porque ossaes ahi concentrados estimulam for- 
temente a vegetação. 3." que não ha terreno tão máu 
que não possa produzir alguma cousa , emendados 
seus defeitos naturaes pela mistura de seus contrá- 
rios , e pelos estrumes adaptados, i.' que antes de 
emprehender qualquer género de cultura se deve 
d'antcmão considerar a natureza e qualidade domi- 
nante do terreno , sua exposição , e localidade , a 
lim de proporcionar-lhe a sementeira ou plantação 
conveniente, 

(J. da C. N. C.) 



O» SETE DORMENTES. 



IIa um grande numero dephrases e expressões vul- 
gares, em que se faz allusão aos sete dormentes; e 
ha também um grande numero de pessoas que igno- 
ram a historia destas celebres personagens , e por 
consequência o valor exacto da phrase de que se ser- 
vem , o que nós aqui poremos em breves palavras. 
Entre as lendas fabulosas do que estão cheias as 
antigas chronicas ecclesiasticas , martyrologios , e 
sancloracs, uma das mais notáveis é a dos sete dor- 
mentes, os quaes acordaram notemiio do imperador 
'Ilieoilosio , o moço , c da invasão dos vândalos na 
Africa. (Juando se levantou a perseguição feita aos 
christãos pelo imperador Decio , sete mancebos no- 
bres, naturaes d'Ephcso, esconderam-se dos tyran- 
nos n'uma espaçosa caverna aberta em certa mon- 
tanha próxima daquclla cidade. Soube disto Dccio 
c ordenou que entulhassem a entrada da gruía com 
grandes pedras. .Vpenas , porem, esta ordem cruel 
se executou os sete mancebos cahiram cm sorano 



o PANORAJIA. 



103 



profundo , que se prolongou milaRrosanipnle , sem 
lhes consuniir as vidas, por um período de 1S7 ân- 
uos. Passado todo este tempo os escravos de um 
certo Adocio, que herdara odominio daquolla mon- 
tanha , precisaram de remover as pedras que tapa- 
vam a lioca da gruta para conslruircm vários edifí- 
cios ruraes. A luz <io sol peneirou na caverna e os 
sete dormentes acordaram. Como, depois de have- 
rem dormido por alç;nmas horas, a fome os aperta- 
va, resolveram que um dellcs chamado Jamblico 
voltasse disfarçado a cidade de modo que não fos- 
se conhecido dos esbirros de Decio , c comprasse 
pão para os outros. O mancebo — que tal pelo me- 
nos se cria cUe — ao sahir da caverna mal piule re- 
conhecer o aspecto do seu paiz nalal. que tão fa- 
miliar lhe era ; e mais espantado licou vendo ao en- 
trar em Epheso uma cruz triumphalmente erguida 
sobre a porta principal da cidade. Dirigiu-se a um 
padeiro , este ficou cheio d"assombro ao ver-Ihe o 
trajo singular e ao ouvir-lhc a linguagem antiqua- 
da . assombro que angmentou quando Jamblico lhe 
deu para pagar o pão uma medalha com a elligie 
denecio, como se fosse moeda corrente do império. 
Jamblico tornou-se então suspeito de ter achado al- 
gum thesouro enterrado, e por isso foi levado á pre- 
sença do juiz. Pelos interrogatórios e depoimentos 
descobriu-se finalmente cora admiração geral o mo- 
do porque Jamblico e os seus companheiros tinham 
escapado havia quasi duzentos annos á fúria do ty- 
ranno Decio. O bispo d'Epheso, o clero, os magis- 
trados , o povo , e até o imperador Theodosio , fo- 
ram visitar a caverna dos sete dormentes , que de- 
pois de relatarem a sua historia expiraram ímme- 
di.itamente. 

Mahomet provavelmente ouviu contar esta lenda, 
que devia ser vulgar na Syria já no sexto século , 
e assim introduziu-a no Roran como uma revelarão 
divina. — A historia é portanto conhecida não só en- 
tre os chrislãos da Europa , mas também entre as 
nações da Africa e da Ásia que seguem a religião 
mahometana. — A. H. 



PBEBO MoMZ , ou o AMOR Di PÁTRIA. 

QcE cousa haverá no mundo , que não tenha mere- 
cido louvores e censuras , ganhado patronos e de- 
tractores , sido objecto d'estima para uns, d'indif- 
ferença para outros , e até de desprezo para mui- 
tos. S'ão admira, pois, que o amor da pátria tenha 
corrido a mesma sorte , e que , na razão de todas 
as cousas do mundo , exaltado por uns , haja sido 
■ menoscabado por outros. Vai dependente das pai- 
xões dos homens , como o trajar do capricho dos 
gostos. Quem não sabe , que os vicios tem figurado 
na galeria das virtudes , e que estas tem soffrido o 
insulto de as collocarem no estrado dos vicios? Não 
é muito vulgar chamar-se fraqueza á humildade , e 
grandeza d'alma á ambição, e á vingança? As pai- 
xões são os planetas lerriveis que influem na moral 
e nas opiniões dos homens, como Marte, e Saturno 
em todas as cousas sublunares. 

Os homens tera-se dividido sobre o objecto do 
amor da pátria ; c estou que ha demasia no cnthu- 
siasmo com que uns o deffendem , c na frialdade 
com que outros o tratam. Estas demasias provam a 
existência d'um meio termo, que é aquellc que o 
homem circumspecto deve seguir. Os campiõcs diu- 
rna e d'outra parcialidade me conformam no meu 
alvitre. Os patronos do amor da pátria não deixara 



de achar cordatas algumas reflexões de seus adver- 
sários ; e estes de contemporisarem com outras de 
seus rivaes. Querer impugna-lo absolutamente , é 
loucura e impolitica ; é querer guerrear um senti- 
mento inspirado pela natureza , c reclamado pelo 
interesse de sociedade. No caso d'excesso , antes 
quizera partilhar o enthusiasmo de seus defensores, 
que a frialdade de seus adversários. 

lia muitos homens que acoimam de ridículo o 
aflccto que cada um consagra ao logar cm que nas- 
ceu. Dizem: — que idolalra-lo , é uma ninharia — 
que amar o berço é próprio de crianças — (]ue os 
grandes génios não tem pátria — que ninguém <■ 
profeta na sua — que a pátria dá a vida , mas difll- 
cultosamcnte as honras — que o homem não se faz 
grande c conhecido senão girando, como o astro do 
dia — Um escriplor celebre ri-se de que o divino 
Homero pintasse aL'lysses entre os regalos dePhea- 
cia suspirando por ver o fumo que se levantava so- 
bre os montes da sua Ithaca ; e reputa uma das fa- 
bulas menos verosímil, que este hcroe preferisse os 
riscos da sua pátria á immortalidadc cheia de pra- 
zeres , que lhe offcrecia a nimpha Calipso , debaixo 
de condições de viver com ella na ilha de Ogygia. 
Este escríptor celebre é Feyjú , que no seu discur- 
so — Amor da Pátria , e Paixão Nacional — levanta 
a voz com energia contra os patronos do amor da 
pátria. 

Algumas cousas ha neste discurso , que não se 
conformam com a boa razão. Este critico severo at- 
Iribue todas as acções heróicas obradas a favor da 
pátria , e inspiradas pelo amor delia , á ambição , 
e a outras paixões, com pequenas excepções. Refu- 
tando com tanta força os princípios dos scepticos 
em outro discurso , Feyjó parece sccptico a res- 
peito dos sentimentos do nosso coração, duvida das 
boas intenções de quasi todos os patriotas. Mas di- 
zer o que pode ser , não é dizer o que é : porque 
uma paixão pode enfraquecer o mérito d'uma ac- 
ção heróica d'um homem, não se segue que ener- 
ve a de todas em todos. Este scepticismo seria an- 
ti-social , e de outras muitas funestas consequên- 
cias. Temos muitos meios para o vencermos , e pa- 
ra nos decidirmos com segurança , avaliando o me- 
recimento das acções dos homens : o caracter de 
cada um , as suas opiniões e princípios , o seu mo- 
do constante d'obrar são outros tantos recursos que 
temos para entrarmos no sacrário de seus pensa- 
mentos. 

Se lhe dizem, que os scythas fugiam das delicias 
de Roma para as asperezas do seu solo ; que os la- 
ponios , por mais commodidades que se lhe offere- 
cessem em Aiena, suspiravam pelo seu pobre e rí- 
gido paiz : que um selvagem do Canadá , trazido a 
Paris, viveu alli sempre triste , c nielancholico : 
Feyjó responde , que estes homens vivem con» 
maior conveniência na Scylhia , na Laponia , c ni> 
Canadá . que em Roma , em Viena , e em Paris ; 
que acham maior prazer nos seus alimentos gros- 
seiros, que nas nossas ígnarias delicadas ; que lhes 
aprazem mais os gelos da sua terra natal , que a 
temperatura das nossas ; que preferem a liberdade 
de mudar de sítio em todas as estações á prisão de 
nossos domicílios. Custa a crer que assim discorra 
um homem de tanto mérito ; e que se sirva de si- 
milhantc sofisma para depreciar o amor da patri.i 
confirmado por aquelles factos. Todo o amor leni 
um motivo, não é um sentimento abstracto ; c o d.i 
pátria está na mesma rasão. Todas essas eommodi- 
dades , e conveniências que o severo critico refere. 



lOi 



O PANORAMA. 



c que formara os laços de amor da pátria, como as 
simpathias cnlrc os homens as prisões de amisade 
àc. íí natural ao homem amar o logar onde nasceu, 
porque lhe é natural amar todas essas conveniências. 
Masdiga.Chateaubriand 0(iue cu sinto, enão pos- 
so explicar. Nósduvidàinos ( vrja-se oiicmodoVItris- 
liaiii.imo, lie. 5.° §. ii), qne sem amor da pátria 
possa haver nma única verdadeira virtude, uni só 
verdadeiro talento. Esta paixão faz procli.nios na guer- 
ra ; e nas leltras formou Homero e Virgilio. O poe- 
ta cego pinta com prclerencia os costumes daloriia, 
onde viu a luz; e o cysne de Mantua se entretém 
com as recordações do seu paiz natal. — A não ser 
o amor da pátria , continua Chatcaul)riand , os ho- 
mens se precipitariam nas zonas temperadas , dei- 
xando o resto do globo deserto. Pode pensar-se, que 
calamidades resultariam de tal reunião do género 
iiumano cm um só ponto da terra? Para evitar esta 
desgraça , a Vrnvidimcia [digauio-lo assim] prcniliu 
os pá de cada homem, com uma atlracçuo 'nicrncird 
ao (crradctjo cm que cada um nasceu. Os gelos da 
Islândia , e as torradas areias d'Africa nunca estão 
sem habitadores. 

Não foi sem desígnio particular, que esc<dhi es- 
ta matéria para discorrer. Tenho posto estes prin- 
cipies para agora dizer, que uma das cousas que 
íiiui me desoricnia , é , ouvir dizer a qualquer lio- 
niera : — «Eu sou cidadão do mundo! « — O homem 
que se diz cidadão do mundo, mostra que não tem 
laços nenhuns que o prendam , nem de parentes , 
nem de amigos , nem da pátria ; que tanto lhe vai 
em viver em Portugal , como em Marrocos , ou en- 
tre os Patagões ; que lhe é indiíTerenle passar a vi- 
da entre christãos , ou entre turcos. O homem qtie 
se diz cidadão do mundo , mostra , pelo seu desa- 
mor a tudo, que o devera temer; porque a facili- 
dade que tem de fugir ao império das leis, fugin- 
do , e passando d'um para outro |)aiz , o habilita 
para todos os crimes. E um homem que , perten- 
cendo a todas as terras , não pertence a nenhuma ; 
é vagabundo por princípios ; é um niiscro que não 
tem coração , e que merece ser exterminado de to- 
das as socieda<les. Como se formariam ellas, e co- 
mo subsistiriam se todos os homens tivessem estes 
princípios , e fossem indifterentes para com a sua 
pátria? 

JViga Feyjó , e os que o seguem , o que quize- 
rem. Que não deve o mundo e a sociedade a este 
instincto da natureza , como lhe chama Chateau- 
l)riand ? Que não lhe devemos nós os portuguezes? 
De que principio procederam tantas acções heróicas 
dos nossos nos dias de nossa gloria? Òs jiriucipios 
que nos fizeram grandes ei-losaqui: — Amor de re- 
ligião , e amor de pátria I — 

Deixando outros muitos portuguezes beneméritos 
da pátria pelo amor que lhe consagraram , appre- 
sento Phebo Moniz. Pareceu-me muito própria para 
o nosso tempo uma resposta deste illustre varão. 
Vendo , nas cortes que juntou o cardeal rei , que 
este se mostrava inclinado ao partido de Castclla , 
tanlo se afliigiu publicamente, e se enculerisou con- 
tra a parcialidade philippiíia , que deu mostras do 
seu desagrado. líutãu o cardeal lhe disse melancho- 
lico : — Vhebo Moui: , vós estais muito ai/astado ! — 
O illustre Moniz lhe tornou coin toda a liberdade, 
e firmeza d'uni peito luso : — .Sn» , senhor , porque 
nos querem fazer castelhanos .' — 

Phebo Moniz não era cidadão do mundo. Nesse 
caso , faria o que fazem todos os que professam 
não ler pátria , seguiria o partido de queiu roais 



lhe desse. Tinha nascido portuguez , não entendia 
que podesse ser castelhano. Estou que longe de Por- 
tugal, ainda que em delicias e representações, sus- 
piraria por ver a corrente do seu amado Tejo , co- 
mo llvsses suspirava por ver o fumo da sua pobre 
Itbaca. Digno é ellc de ser apprcseiitado como mo- 
delo aos homens que entre nós representam , c que 
devera |)roinover a nossa felicidade e a nossa inde- 
pendência : e seguii,do-o nós seremos felizes e sem- 



pre portuguezes. 



(O Moralista.) 



' ■ Os ESQIELETOS DOS CARAÍBAS. 

No archipelago entre as duas Américas ha um gru- 
po de ilhas, que se denominam ilhas Caraíbas, alem 
do nome usual de Antilhas, que se estende desde 
Tabago ao sul até ás ilhas Virgens ao norte : esto 
grupo foi reconhecido por Christovão Colombo na 
sua segunda viagem , quando tocou era Guadelupe 
e cm Antigoa. O centro de cada uma destas ilhas 
é occupado por um monte, que em geral canipèa 
sobre todas as outras eminências : em algumas o 
centro é volcauico : o mar quasi por todos os lados 
offerece grande profundidade, ainda a pequena dis- 
tancia das praias. — Os francezes possuem neste ar- 
chipelago a (iuadelupe, a Martinica, Santa Lúcia. 
Tabago, e algumas outras pequenas. A Guadelupe 
é a mais importante, tanto pela extensão, como pe- 
lo território, que appresenta agradável diversidade 
de collinas e bahias , c do fazendas ruraes ; c mes- 
mo em relação ao commercio , porquanto exporta 
mais de loO^^GOO quintacs d'assucar, iOjíjOOO di- 
tos de café . e muitos outros géneros era menor 
quantidade; a somnia de todas estas producções ex- 
portadas sobe a seis milhões de cruzados annual- 
niente. 

Quando >ír. Ernouf, oliicial general, foi ha pou- 
cos aunos nomeado para o governo da Guadelupe , 
e que entrou no exercício delle , entre vários pon- 
tos da ilha , que visitou , foi a costa de Mole, onde 
encontrou cadáveres dos Caraíbas [primitivos habi- 
tantes, raça que os invasores europeus tem destruí- 
do] involvidos nas grandes massas de madreporns 
petrificados . fez com que se empregasse assíduo 
trabalho para se descobrirem alguns destes esque- 
letos notáveis , que destinava para o museu de his- 
toria natural de Paris. Este trabalho , diz o citado 
oliicial, olíereceu grandes didiculdades : i.° porque 
as ossadas dos caraíbas estão encravadas n'um ban- 
co de madreporas , extremamente duro ; c que se 
não podem cxtrahir a não se empregar escopro que 
as vá cortando era torno : 2.° porque o mar a cadií. 
reiluxo cobre o sitio era que se acham. Estes res- 
tos humanos mostram grande estatura ; a massa , 
que se deve extrahir cora elles lem perto de oito 
pés de comprimento sobre dois e meio de largura ; 
pesará perto de três mil arráteis. — As opiniões são 
diversas sobre a sua origem : uns dizem , que na- 
quelle logar se dera um grande combate entre os 
naluraes da ilha, e os de outra visinha : outros per- 
Icndem , que fora uma llotilha de canoas, que nau- 
fragara alli, onde o mar quebra com violência as 
suas ondas, quando o vento rijo o agita : <iulros ciii- 
liiii presumem , que ira(iuelle logar havia um ee- 
niitcrio dos naturaes do paiz , e que talvez eiu 
tempos posteriores fosse alagado pelo mar. 



Os maus tem a imprudência de se accusarem reci- 
procaraentc. para cautela e apercebimento dos bons. 



r>7 



o PANORAMA. 



105 




MORTE S£ RUBENS. 



CoMPREHENDEitÃo OS iiossos Icilorcs perfeilamenlc es- 
te desenho se recorrerem ao capitulo S.° das scenas 
históricas, impressas em o nosso 4.°vol. da 1." se- 
rie com o titulo — o Pintor Ruhcns ; — ahi se des- 
crevem os últimos momentos deste grande artista 
flamengo , e o como o seu illustre discípulo , Antó- 
nio Van-Dyck (■) apenas chegado a Antuérpia se 
acccierou a dar a eterna despedida ao mestre vene- 
rado, entrando ainda com os vestidos de caminhan- 
te no quarto do moribundo , e beijando-lhe a mão 
quasi gélida , ajoelhado ao pó do leito , com trans- 
portes de allicção e viva saudade. Este lance pathe- 
tico e solemne mostra a gravura, e ocioso seria ago- 
ra repetir a narração: lambem pouco temos que ac- 
crescentar relativo á vida de Rubens, no sobredito 
4.° volume largamente delineada , já nos esboços 
históricos, já em as notas a pag. '269 e immediata : 
todavia não ommittiremos as seguintes curiosas par- 
ticularidades. 

Por occasião do sitio da cidadella de Antuérpia , 
temendo os habitantes o bombardeamento, em 1833, 
deram-se pressa a cubrir e resguardar com madei- 
ras e couramas os preciosos quadros de Rubens e 
Van-Dyck , para que assim estivessem mais preser- 
vados de qualquer deterioração. 

Rube ns tinha accumulado grande quantidade de 
(t) Yid. o retrato e noticia a pag. 73 deste toI. 



Vid. o retrato e noticia a pas 

AiiRiL 8— 18;3. 



riquezas , que não sú o agradecimento e favor dos 
príncipes , a quem servira , lhe haviam proporcio- 
nado , como também os preços exorbitantes porque 
eram reputadas as suas pinturas. A casa de sua re- 
sidência era um palácio sumptuosamente adornado, 
e digno d'um potentado ; ahi com frequência rece- 
bia visitas tanto dos estrangeiros distinctos que vi- 
nham a .\ntuerpia, como dos governadores dos Pai- 
zcs-Baixos , que o tratavam familiarmente , e dos 
príncipes a quem acontecia passar por Flandres , e 
que pagavam a pezo d'ouro o gosto de serem retra- 
tados por tão nomeado mestre. 

Certo dia appressntou-se-lhe á porta um sujeito, 
que disse ser inglez e viajante, que desejava conhe- 
cer o cavalheiro Rubens , para com elle tratar as- 
sumptos de importância ; admittido á presença do 
dono da casa, oITercceu-lhe com muito mysterio re- 
velar-lhe o segredo da pedra philosophal . ajuntan- 
do que por ser alchimista de poucos recursos nãu 
possuía os necessários para adquirir os ingredientes 
indispensáveis para obter o ultimo c grande resul- 
tado. Então Rubens, tomando-o pela mão , encn- 
minhou-o ao quarto em que trabalhava . c lhe dis- 
se : — «.\migo, já vindes muito tarde, faz vinte an- 
nos que eu descobri esse mesmo segredo. » — « Co- 
mo assim '. [exclamou o outro espantado] Se nunca 
ouvi dizer que estudásseis chimica ; e apezar de 
2.' Serie. — Vor. II. 



106 



O PANORAMA. 



meus conhecimentos lenho ni gaslo mais de quaren- 
ta ânuos para descobrir o grande achado?..» — 
'< Vede aqui toda a minha alchimia .. — tornou Ru- 
bens , mostrar.do-lhc a palheta e pincéis — "Com 
rsles achei ha vinte annos o segredo de converter 
ora ouro os barros c cinzas.» 



O Bobo. 

1128. 

IX. 

O Desafio. 

O BVNoiETE que i)oz termo ao memora-, el dia do 
íijunlamcnto solcinno dos barões e senhores de Por- 
tugal prolongou-sc até alta noite. D. Thcreza tinha 
ahi apparccido rodeada de todo o esplendor real. 
J\'um estrado sobranceiro ao pavimento da sala , c 
debaixo de docel , formado das telas mais ricas sa- 
bidas dos teares do Jacne de Valência , a bella iu- 
fnnla viera presidir ao banquete dos sens ricos-ho- 
niens. Assentada era uma cadeira , á qual o espal- 
dar prijnorosamente lavrado de bestiães e arabes- 
cos , e os braços e suppcdaneo dourados davam o 
aspecto de um throno , a rainha de Portugal , da 
mesa que tiniia ante si , e em que particularmen- 
te ora servida, enviava ora a nm ora a outro caval- 
leiro, noiavcl por sua linhagem, influencia, ou le- 
nome, alguma das iguarias mais delicadas, que ra- 
pidamente faziam succeder umas ;ís outras os peri- 
tos cosinheiros do paço de Guimarães , quasi todos 
mouros, ou servos ou libertos. Estas provas do dis- 
tincção eram stmpre acompanhadas de graciosas men- 
sagens, que lisongeavam o amor próprio dos nobres 
senhores. Escusado talvez fora dizer que similhante 
dislincção a mereciam só aquelles que no conselho, 
pelo seu voto ou opiniões se haviam mostrado lirmcs 
na causa da mãi contra o filho. Para aquelles que, 
como Gonçalo Mendoz, se tinham mostrado parciaes 
lio infante, apenas lançava a rainha um olhar rápido, 
cm que se misturava a cólera c ao mesmo tempo o 
desprcso , como se previsse já a hora do triumpho, 
c por consequência do castigo. D.Thereza, que des- 
de a partida de seu íilho se mostrara triste, abati- 
da , c irrcsoluta , parecia nesta noite reassumir to- 
da a sna antiga energia. No seu rosto, banhado de 
uma alegria algum tanto forçada , conhecia-se-lhc o 
desejo de que lhe cressem o animo tranquillo ao 
approximar da procella. Dir-se-hia até que intenta- 
va fazer sobresahir a sua formosura , que os annos, 
os cuidados do governo, c os trabalhos das longas 
guerras que susientára eonlra 1). Urraca , e depois 
contra o imperador , tinham assaz desbotado , mas 
qnc ainda faziam realçar os ricos trajos que na- 
qiiellc dia vestira. Eram estes um epitogio de gri- 
zisco orlado de pclles mosqueadas, c apertado com 
ura cordão entrançado de prata e seda de varias co- 
res , uma coifa ou rede adornada de pedras precio- 
sas que lhe retinha as longas tranças, nm collar de 
(uiro, o qual lhe cabia sobre a camiza de ranzal al- 
víssimo, qne cm [iregas miúdas lhe vinha fechar na 
garganta, c um amplo manto de ciclatom vermelho, 
que pendente dos hond)ros lhe rojava pelo chão. 
Com este vestuário , c no porte e meneios altivos , 
a rainha trazia de certo modo á lembrança a nobre 
o mageslosa ligura de seu pai, o grande Alibnso (i.' 
A causa desla rc[)eiilina muiiança eslava nas no- 
vas que haviam chegado poucas horas anles. A au- 
dácia do infante, a licença desenfreada com que os 



seus homens d'armas assolavam as villas e honras 
do infantatico, isto é do que constituía propriamen- 
te o apanágio de D.Thereza, as violências que pra- 
ticavam contra os villões e homens de creação des- 
ses mesmos testamentos, ou herdades, o furor com 
que derribavam os seus castros ou logarcs fortifica- 
dos , c sobre tudo a intenção com que, segundo af- 
firmavam os espias , o moço príncipe se acercava 
dos muros de Guimarães, e que eram nada menos 
do qnc lançar em jirisão perpetua Fernão Peres e 
a própria mãi , tinham finalmente sufTocado no co- 
ração desta a voz do amor materno. Quando o con- 
de de Trava ohcílcccndo ás ordens qne lho trans- 
inittíra o capellão-mór se apprcsentou perante ella , 
os olhos de D. Thcreza faiscavam de cólera e de 
indignação. Debalde Fernão Peres lhe ponderou os 
inconvenientes de arriscar a sua fortuna , e o que 
mais era , a liberdade ou a vida cm uma batalha 
campal : a violência do caracter varonil da rainha 
que triumphára , ao menos momentaneamente , do 
mais profundo affcclo, o amor maternal , não podia 
ceder ás considerações da prudência. Declarou que 
a sua resolução inabalável era ir ao encontro dos 
rebeldes com os cavalleiros, besteiros, c peões, pe- 
la maior parte estrangeiros, (1) que de contínuo 
chegavam a Guimarães attrahidos pelos grossos cen- 
sos , ou soldos que lhes oITerecia o conde. Os ins- 
tinctos guerreiros de D.Thereza, que os annos e os 
revezes haviam amortecido , despertavam de novo 
vigorosos na hora em que era necessário encarar fa- 
ce a face os perigos que até este raomenlo ainda 
pareciam remotos. 

Assim esta noite passava bem differcnte daquella 
em que no meio de alegre sarau só a bella infanta, 
mau grado seu, se mostrara triste e aborrecida. Aqui 
eram os cavalleiros que pareciam inquietos e des- 
conversáveis : os dois bandos bem sabiam qne não 
tardava o dia em que se encontrassem novamente , 
não na mesa do banquete, mas no campo das lides, 
onde o escorrer do sangue nos ferros substituiria o 
escumar do vinho nas laças de prata. Para clles es- 
ta festa Iirilhante correspondia á ceia do algoz e do 
sentenciado debaixo das abobadas de um cárcere na 
véspera do supplicio. Qual era o saião? — qual a 
victima? Eis o que ninguém sabia. 

Mas talvez nenhum geslo dava mostras , não de 
raelancholia , mas de inquietação, como o do con- 
de de Trava. De instante a instante elle volvia os 
olhos para o portal da sala d'armas, como se espe- 
rassealgucm ; e de feito nm logar á sua esquerda 
ficara vazio na esplendida mesa ao começar do ban- 
quele. Era o do novo alferes-mór. Este, desde qne 
se apartara do conde, ninguém mais o tinha visto. 

Síuito havia já que era noite , c as taças, que os 
escanções , correndo por detraz das longas fileiras 
de cavalleiros com os picheis nas mãos, enchiam de 
novo apenas eram esgotadas, começavam a fazer seu 
oflicio : as frontes iam-se pouco apouco desenrugan- 
do c soltando-se as liuguas. Nos banquetes daquel- 
la idade rude e feroz ás vezes o sangue corria como 
pospasto, c quasi sempre a conclusão do festim era 
uma orgia infernal , om que o convívio se tornava 
em scena hedionda de embriaguez. Não era raro em 
similhantcs occasiõcsvòr os paços dos nobres, c ain- 
da dos reis , convertidos n'uma cousa hedionda c 

(1) A (l<'nomina(;iio (1'estraiigeiros dada aos sidclailoj da 
rainha p dorniiile de Trava parece na verdade inipri)|iria , 
sendd elleí pela maior parle ^'allpgos, lennezes &c. Todavia 
a liiiloria dos ijodos os desi;'iia já pelo nome de aUfiiiyenne. 
Vejase o que dissemos nos uUimos paragrapUos do cap. 3.° 



o PANORA3IA. 



107 



davidosa entre a taberna e o prostíbulo, era que os 
filhos dos bcm-nascidos mostravam qiio a distancia 
moral , que cllcs suppunham separa-los da mais vil 
gentalha, na roalidade não existia. Se, porem, os 
longos tí sanguinolentos homizios enlrc linhagem e 
linhagem se originavam facilmente das festas mais 
pacíficas, em meio das taças cheias pela mão de cor- 
dial hospitalidade , muito mais de recear era algu- 
ma rixa funesta entre homens que guardavam no co- 
ração, uns contra os outros, os mais profundos ódios 
humanos, os ódios dos bandos civis. 

Estas considerações que haviam occorrido ao con- 
de ao perceber a conversação , no princípio langui- 
da, ir-se tornando viva evchemcnte ; considerações 
em que não reparara a tempo , atlento ao systcma 
que adoptara de esconder os seus receios , e o pe- 
rigo da sua situação, com asapparencias detranquil- 
lidade, eram agora para clle motivo de scrios te- 
mores. A tardança , porem , do alfcres-mór , o in- 
quietava ainda mais. A rainha não devia dar o si- 
gnal para acabar o festim sem que elle soubesse com 
certeza se tudo estava disposto para impedir a sabi- 
da de Guimarães áquelles que atentassem. As mas- 
morras do castello deviam povoar-se nessa noite de 
todos os ricos-homens da corte com quem o infante 
Contava ; mas a segurança deste golpe , que iria 
transtornar as esperanças do moço principe, depen- 
dia inteiramente da rigorosa execução daquillo que 
tinha ordenado a Garcia Bermudez. 

Este entrou em fim na sala , mas em vez 'de se 
dirigir ao logar que parecia baver-lhe sido guarda- 
do, rodeando a multidão de pagens enfileirados em 
pé atraz de seus senhores , e passando por entre o 
tropel dos sergentes , escanções , uchões , e outros 
ovençaes, que attendiam ao serviço do esplendido 
banquete, buscou approximar-se do conde, mas de 
modo tal , e collocando-se em sitio onde delle fosse 
visto, sem que os cavalleiros, nos quaes as amplas 
libações do pospasto começavam a produzir ruidosa 
alegria, o podessem observar : — d'alli esperou que 
Fernão Peres se apercebesse da sua chegada. 

Como elle viera, não da sala d'armas, porem da 
galleria contigua , que coramunicava exteriormente 
com ambos os aposentos seguindo todos os ângulos 
c sinuosidades daquella face do edificio, correu al- 
gum tempo antes que o conde reparasse no caval- 
leiro ; tanto mais que a sua attenção era dislrabida 
pelo que se passava no topo da mesa fronteiro a 
elle. 

Era ahi que o Lidador se vira obrigado a ir as- 
sentar-se quando voltara com Fr.Ililarião de faltar 
ao homem do zorame : os outros legares estavam já 
povoados de cavalleiros, e por um acaso bem desa- 
gradável elle se achara ao lado de Vereraudo Peres, 
de quem no conselho recebera injurias que retri- 
buirá com. mão larga. Assim durante muito tempo 
conservou-se em silencio ; mas o respeitável exem- 
plo de Fr. Hilarião, que vivia n'uma horrorosa in- 
certeza sobre as verdadeiras dimensões da cmÍJia, (2) 
incerteza que se convertia cm confusão completa an- 
te as copas de prata d' um jantar opíparo, o haviam 
incitado a imitar o santo monge : e quando o ban- 
quete começou a approximar-se do seu termo, Gon- 
çalo llendes, com aquella philosophia e equanimi- 
dade, que inspira ás vezes o çumo da vide, parecia 

(2) A êmina é uma certa medida pela qual se devia re- 
gular a ração de vintio que focava diariamente a cada mon- 
ge segundo a reirra de S. Bento. Sobre a capacidade desta 
medida haure grandissimas questões que, como é desuppOr, 
nunca os benedictinos poderam bem resolrer. 



arrostar alegremente com o olhar malévolo da rai- 
nha e com as demonstrações de favor que dava aos 
senhores seus jiarciaes, lavores que antes eram uma 
injuria para áquelles que se mostravam favoráveis 
ás pertenijões do infante, que uma recompensa da 
lidelidadc a ella. O licor de Uaccho , como diria 
um poeta da Anadia , fizera , porem , mais do que 
isso; fizera soltar a língua do Lidador, e, sem sa- 
ber coujo, elle se achou involvido n'unia disputa com 
Veremudo Peres, a qual chamara a attenção não só 
dos cavalleiros que se achavam mais próximos, mas 
até do conde de Trava e de D. Thcreza. 

Foi por tal motivo que ninguém reparou na cti- 
trada do alferes-mór. O gesto carregado deste ex- 
primia uma tristeza profunda , c o seu olhar incer- 
to dava indícios de que lhe revoavam na alma gra- 
ves cuidados. Quaes estes eram sabe-os já o leitor. 
Garcia líermudez antes de correr as torres , adar- 
ves , c barbacans , e de ler disposto tudo para que 
nenhum dos cavalleiros que deviam assistir ao l)an- 
quete podesso afastar-se do castello e do burgo , 
viera ler com Dulce no logar aprazado. A declara- 
ção que cila lhe fizera de que amava Egas Moniz 
tinham apagado no seu coração o ultimo raio de luz. 
Esse momento fora terrível , mas ao menos o seu 
amor desprezado podia converter-se em ódio , c a 
sua desesperação em sede de vingança. Entre elle 
e Dulce não estava a indifiercnça, estava outro amor 

— um rival, um cavalleiro da linhagem de Kiha-de 
Douro I As suas paixões convcrtiam-se todas n'uraa 
só — o ódio; e por esta como que lhe resfolgava o 
espirito. Era esperança tenebrosa e sanguinolenta a 
que lhe sorria , mas , em fim , era uma esperança I 

Fernão Perez tentava escutar o que se dizia na 
outra extremidade da mesa , quando sentiu puxa- 
rem-lhe pela orla do brial. Volloii-se : era Trucle- 
sindo. O esperto pagem tinha notado quão frequen- 
tes vezes seu lio lançara os olhos inquietos para a 
porta : isto lhe provara que esperava alguém , e a 
falta do alferes-mór, que esse alguém era elle. At- 
lento então a ver se o descobria no meio dos ser- 
gentes que entravam e sabiam da sala vira-o che- 
gar. O modo porque se postara atraz dos escudeiros 
confirmou-lhe as suspeitas. Hesitou algum tempo , 
mas finalmente resolveu-se a sahir da fileira dos pa- 
gens e a chcgar-se ao conde : 

«Meu senhor e lio — disse o rapaz em voz baixa 

— vede Garcia Bermudez que despreza o seu logar 
do cavalleiro: — e accrescenlou — Não o faria eu, 
SC como clle calçasse acicates dourados.» 

«Por essa nova que me deste os mereces, meu so- 
brinho — respondeu Fernão Peres no mesmo tora. — 
Te-los-has mais cedo do que o esperas, se bem de- 
sempenhares o que te vou ordenar.)) 

Fitara os olhos no alferes-mór : o sígndl que este 
lhe fez desopprimiu o coração do conde. 

«Tructesindo — disse clle ao pagem — approxima- 
te da rainha o mais que poderes, edizc a qualquer 
dos seus donzcis de modo que cila te ouça : e tein- 
p(i de acabar o festim.» 

D'ahi a pouco, o mordomo da cuiia descendo do 
estrado, onde estava em pé a pouca distancia do 
D.lbereza , acercou-se do topo da mesa dos caval- 
leiros , e parando junto de Fernão Peres : 

«Senhor conde de Portugal e Coimlira — disse — 
nobres ricos-bomens destes senhorios , infauções de 
alem Douro e áquem Minho, cavalleiros, prestamci- 
ros c alcaides , a mui excclleiíle rainha dos porli:- 
guezes vos roga espereis o romper da alvorada para 
voltardes a vossos castellos e solares. Os chefes de 



108 



O PANORAMA. 



linhagem , (.3) que possuem paços ou bairros conta- 
dos e honrados no liurgo de (iuimarãcs não recusa- 
rão guarida por uma noite aos de seu sangue : os ou- 
tros serão albergados neste mesmo caslello. São as 
ordens que receiti de minha graciosissima senhora." 

INingucm respondeu ; porque D. Tbercza ergucu- 
sc immcdiataniente, e fazendo uma levecortezia aos 
ravnileiros que se tinham posto cm pé , sahiu do 
aposento. 

Este acontíícimcnto previniu talvez algum caso 
funesto entre o Lidador e Veremudo Peres. A sua 
disputa politica tinha chegado a tal ponto, que de- 
balde havia tentado por-llie termo o mui pacífico ab- 
hade bcnedictino. A confusão, porem, que produziu 
na sala tanto a ofierta da rainha como a sua repen- 
tina partida separou os dois contendores , a quem 
a cólera ia brevemente fazer esquecer o logar onde 
se achavam. 

Os senhores c cavalleiros apenas a rainha partira 
se haviam espalhado pela sala do banquete e pela 
.sala d'arnias. O sino de recoliíer ainda tardaria a 
soar na torre alvarran do castello , c a maior parte 
delles sahíu pouco a pouco do paço e desappareceu 
pelas ruas torcidas do burgo , onde nas pousadas 
dos de sua ou de alheia linhagem foram no meio 
do jogo e da embriaguez concluir o festim subita- 
mente interrompido. Eram os costumes do tempo. 

O conde de Trava ficara. Quando viu quasi ermo 
o aposento , dirigiu-se para (jarcia Bcrmudez , que 
entregue a distracção meiancholica se encostara A 
balaustrada que dividia em parte o estrado da rai- 
nha do resto da sala. Chegando junto delle , o con- 
de pondo-lhc a mão sobre o hombro , perguntou cm 
voz baixa : 

n Estão de feito tomadas todas as portas do bur- 
go? Não poderá sahir cavalleiro algum?» 

«(Nenhum — respondeu o alfercs-mór. — Os roídas 
e sobreroldas giram nas quadrellas das barbacans : 
vinte besteiros de pé, Lançados entre estas e as bar- 
reiras e junto das pontes levadiças do cárcova , vi- 
giara exteriormente : ura troço de corredores almo- 
gavares corre no campo em volta do castello e do 
burgo. Ardiloso e valente precisa do ser o que ten- 
tar cvadir-se. » 

'c Excellente ! — replicou o conde sorrindo com a 
idéa de reter em logar seguro uma parte dos seus 
inimigos. — Agora ^ — ^proseguiu el!e — dize-mc ain- 
da: o nobre allcrcs-mór, que cm quanto nós folgáva- 
mos nas delicias de um banquete , velava por nós 
lá fora como leal cavalleiro , não viu luzir no céu , 
por entre as trevas da noite, a sua cstrella feliz?» 

«A minha estrella é maldita : — respondeu o ca- 
valleiro com aspecto carregado. — Não ha para mim 
Inzir no céu a esperança! Felicidade? Nãcf c no 
mundo que cu a hei-de encontrar ! » 

"Quem sabe? — tornou o conde, em cujas faces 
fiassára fugitivo sorriso — e voUando-su paraTructc- 
sindo que se conservava a alguma distancia com os 
olhos no chão, continuou : Vem cá , meu gentil pa- 
gem — hoje será uma noite aziaga para traidores — 
porípie será a da justiça , mas de justiça recta e 
imparcial: a recompensa corresponderá aos méritos. 
Repete o que de relance me disseste ao começar do 
banquete: busquemos achar o lio desta tèa infernal. » 

Então o pagem narrou o que percebera da con- 
versação entre (lonçalo Mendez , o homem do zora- 
me e o abbade do mosteiro de D.Muma. Asuanar- 



(3) jV principal pessoa de (]iial(|iier )iar(>nlplla. E' pro- 
vavelmente esta a uiiica siguilicacào forliigm-za da palavra 
c/l f ff. 



ração era incompleta , mas ouvira o nome de Egas 
Moniz, e que este viera do campo do infante. Quem 
duvidaria já de que existisse uma vasta conjuração 
dentro do próprio recinto deGuimarães. Que outros 
motivos Irariam alli um dos mais illustrcs cavallei- 
ros da linhagem do implacável , e manhoso aio de 
Affonso Henriques? Estas rellexões occorriam de 
tropel ao conde escutando a narração do seu pagem. 

Quando este chegou a proferir o nome de Egas , 
um grilo fugiu dos lábios do alferes-mór. Fernão 
Peres alçando os olhos encontrou os delle, que pa- 
reciam faiscar. Era a cólera , o ciúme , a sede da 
vingança? Era talvez tudo. O conde interpretou es- 
te grito e este olhar pelos próprios pensamentos. 

«Tens rasão , Garcia — disse elle. — Indignas-le 
de vèr que homens cheios debeneficios e honras pe- 
la rainha de I*ortugal , venham nos seus paços del- 
ia urdir o trama de seus pérfidos desígnios. Mas es- 
tão em meu poder, e nada há hi que os salve. Pos- 
sa eu encontrar ainda em Guimarães o audaz caval- 
leiro que ousou entrar na caverna do tigre I — O al- 
goz c o cepo sellarão com sangue a fiel amisade dos 
infames. Egas, não te esconderá teu disfarce! — 
Gonçalo Sícndez , não te valerá nem a espada nem 
oorgulho dcrico-homem ! — Monge hypocrita, não te 
salvará tua mortalha de homem vivo : Uoma o que 
pede é ouro, quando defende o seu rebanho de gar- 
nachas e cogullas , e a tua cabeça não a cedera eu 
agora a troco de mil áureos mouriscos.» 

Assim a profunda indignação, que o conde acre- 
ditara ler no gesto do alferes-mór, sabia corao uma 
torrente do seu próprio coração. 

Depois reflectiu um momento — e reassumiu ou- 
tra vez o seu aspecto habitual de serenidade. Não 
fora para vibrar vans palavras de ameaças que se 
approxiniára de Garcia Bcrmudez. Apoz breve pau- 
sa p;oseguiu gravemente , c em voz assaz alta para 
ser ouvido no outroextremo, onde ainda restava ura 
pequeno grupo de cavalleiros : 

«Senhor alferes-mór, esperai aqui as ordens da 
nossa mui excellente rainha, que tem de communi- 
car-vos importantes negócios. Eu voltarei a chamar- 
vos , quando assim lhe approuver. » 

Proferidas estas palavras sahiu da sala , o enca- 
minhou-sc para os aposentos interiores pela mesma 
porta por onde a rainha sahíra. 

Apenas Fernão Peres desappareceu , Garcia Ber- 
mudez travou do braço de Truclcsindo , c era tom 
solemnc disse-lhe : 

«Pela rainha fé juro que o pagem Tructesindo 
ámaidiaã cingirá sobre o brial a espada de cavallei- 
ro, se cumprir o que lhe vou dizer, e se jurar tam- 
bém guardar sobre isso perpetuo silencio. 

«Juro , juro! — interrompeu o donzel. Dizei de- 
pressa o que pcrtendeis. Seja o que fòr , e venham 
as esporas douradas.» 

Era a idéa fixa do diabólico ])agcm. 

Garcia liermudcz arrancou violentamente uma bol- 
ça de couro dourado que, segundo a moda do tem- 
po , lhe |)endia do cinto : abriu-a ; tirou de dentro 
tnn pequeno pergaminho , e entregando ao donzel 
uma e outra cousa continuou : 

«Aai, e busca encontrar o incógnito que hontcm 
fallava a sós com (ionçalo Mendez c Fr. Hiiarião. 
Affirmas que lhe viste o rosto : o seu nome já o sa- 
bes. Faze vigiar o mosteiro e a pousada do senhor 
da Maia : nãp poupes nem diligencias nem almora- 
bitinos, que essa bolça vai bem recheada. Sc o des- 
cobrires entrega-lhe este pergaminho : que o mos- 
tre aos vigias e roídas , o cllcs o deixarão -sahir da 



o PAIVORAMA. 



109 



cerca do burgo, o que sem isso lhe fora impossível. 
Em recompensa disto , dizc-lhe que Garcia Uermu- 
dez exige que ámanhaã , duas lioras antes do sol 
posto , esteja com suas armas e a cavallo no souto 
que se dilata alem do vau do Mádroa ; e que se não 
o fizer é desleal e covarde, u 

i< .\ cousa é dilíioultosa : — replicou o malicioso 
doiizel. — E se hoje não o descobrir? 

«Demónio! — respondeu o alferes-mór batendo o 
pé no chão de impaciência. — Trocura-o toda a noi- 
te, toda a raanhaã , todo o dia '. K preciso que o 
encontres, se queres a nobre dignidade do cavallci- 
ro. Entendes? Sem isso, em quanto Garcia Bermu- 
dez fòr alferes-múr, couta que não a obterás.» 

Não havia remédio : Tructezindo agarrou na bol- 
sa e no pergaminlio. Depois atlravessou vagarosa- 
mente a sala, levantando a touca pelo lado dctraz 
com o Índex c coçando o toutiço. Elle tinha rasão : 
a cmpreza era dillicultosa. 

Garcia Bermudez cahiu então no seu habitual scis- 
mar. «Ao menos, — pensava o cavalleiro — nunca 
cila dirá que a minha vingança foi vil e desleal.» 

D'ahi a pouco uma voz que soava da porta dos 
aposentos interiores veio desperla-lo dos seus deva- 
neios. Era o conde que com aspecto risonho dizia : 

«A mui excellenlc rainha ordena venha immedia- 
lamente perante cila o nobre alferes da hoste dePor- 

'^ ■ (Conthniar-sc-ha). 

(A. HcrculamiJ. 




D. FBANCISCA FOSSOZ.O. 



*' Obra de v^PÇO laria a Socieda- 
de IVopaijadora dos Conhecimentos utcis 
se assim como já bo seu Panorama pu- 
blicou o retiato de M.ine de Stael, para 
ahi trasladasse i"ualmeiite o da nossa por- 
ta-;ueza sua traauctora. " 

O .S>. ^. F. d,: Castilho, em a Xu- 
Ucia Uttcrítria , qite pref^cde n rrr- 
iâo lias Cfjiirfriaqôes subre a Plurii~ 
Hdade dos Mtmdos , a pag, CXl'I, 



O CONVITE . que pela imprensa nos fez tão distincto 
litterato, importava uma obrigação, que tinha de mais 
a mais a circumstancia de ser de mui agradável de- 
sempenho. Sollicitos procurámos um retrato da fal- 
lecida poetisa , D. Francisca Possollo , diligencian- 
do que a etTigie fosse inteiramente parecida ; e 



eis-ahi que lemos a satisfação de appresentar a có- 
pia , Ião perfeita quanto é possível ao buril cxecu- 
ta-Ia , gravando em madeira. 

Se não fossemos precedidos pelo Sr. Castilho , a 
singela hiographia que tecêssemos teria ao menos o 
sabor da novidade , e a valia de uma recordação c 
homenagem litteraría ; mas como é possivel, depois 
de escriptor tão culto e ameno tratar o mesmo as- 
sumpto?. . A sua lembrauça nos recordou uma di- 
vida , que se por um lado, apesar de dilliculdades, 
podia solver-se , por outro nos collocava em grande 
apuro. Bem quizeramos em seguida ao retrato es- 
tampar a noticia litteraria , de que extrahimos a 
epigraphe , mas a impresíão cm livro separado, e 
a nimia extensão no-lo vedam. Apunlaremos pois 
aos nossos leitores o livro da pluralidade dos miin- 
ftoí (1) vertido em vulgar ; e para contentar os pri- 
meiros impulsos da curiosidade nos cingiremos a 
succinta narração , necessária simplesmente para 
que conheçam a auctora os muitos que se tem re- 
creado com a leitura de seus escriplos. 

D. Francisca de Paula Possolo da Costa nasceu 
em Lisboa aos 4 de outubro de íT83 de farailia 
pertencente á feliz mediania social , mas dislincla 
por suas qualidades moraes. Foram seus pais Ni- 
colau Possolo e D. Maria do Carmo Corrêa de Ma- 
galhães. De ânuos tenros manifestou a sua inclina- 
ção poética ; viçosa lhe llorecia a imaginação ao sa- 
bir da infância, e comludo apenas Cervantes, Ca- 
mões . e poucos mais , eram os auctores , que co- 
nhecia : alem das diversões caseiras, a musica e o 
estudo da lingua franceza foram os seus entreteni- 
mentos. — A serie de annos. passada' no lar domes- 
tico , é de ordinário infértil de acontecimentos me- 
morandos ; e se do varão , a quem abençoada Pro- 
videncia concedeu tal sorte , nada ha que se conte 
á posteridade , quaesquer que sejam as suas virtu- 
des , e talentos, que haverá que dizer de uma de- 
licada senhora , educada no regaço materno, pos- 
suidora dos dotes qualificadores do seu sexo, e cre- 
dores de respeito e estimação universal , n.as que 
alem desses dotes só lera para titulo de gloria os 
escriptos que a cultura do espirito e a vivacidade 
do engenho produziram em suas huras dedescauço, 
ou de melancholia? 

Um casamento, segundo a própria inclinação, fe- 
liz na constância delle , e n que a morte do cônju- 
ge poz funesto remate, é o maior incidente da car- 
reira vital da nossa Francilia , como a Sur.^ Posso- 
lo , ao estilo arcadico , se appellidava em seus ver- 
sos (2). A 10 de abril de 1S13 ligou-a o santo vin- 
culo do matrimonio a João Baptista Angelo da Cos- 
ta , benemérito oiricial de marinha ; por dezeseis 
annos durou o acertado consorcio, no exercício de 
amizade c ternura reciprocas . dos devores casei- 
ros , e de actos de particular beneficcncia, em quo 
os dois esposos foram , quanto podiam sè-lo , estre- 
mados ; até que a morte delle os scparnu pela, pri- 
meira vez, como se lè no epitaphio do mausoléu ile 
mármore, que encerra os despojos mortaes d'am- 
bos, erecto no cemitério occidenta! de Lisboa. Com- 
prehendeu o mesmo tumulo os que tão unidos ha- 
viam vivido [removidos seus corpos dos templos em 
que se achavam depositados] por disposição testa- 

(1) jV liem conbeciíla nlira i!e Fontenelle. Saliiii essa 
Iraciíioçrio em Lisboa em lí!41. iiin vol. lie o." precediJu 
(lo discurso Ijiocrapliico que temos cilaiiii. 

(2) PubliCDU um vol. inlilulaJo FrnnciUa, PasUira do 
Tiji). eque dislrlbuiu gratuitameale eulre as pcssuas de sua 
intimidade. 



110 



o PANORAMA. 



menlaria da Snr.^ Possolo , que terminou sua viu- 
vez, sempre magoada e saudosa, aos 19 de junho 
de 1838. 

Para ofTerecer-mos o caracter distincto desta ama- 
iel escriptòra , contemporânea nossa , reproduzire- 
mos os delineamentos de hábil pintor , com quem 
manteve ella constantes relações littcrarias , e que 
muitos annos havia fora admiltido á sua estima e 
sincera amisade (3). 

«Foram suavidade e modéstia as principaes fei- 
«ções de sua alma ; partes que rara vez se casam 
«com aquelToutras de ingenho vivo e promplo , c 
«de um saber maior que o vulgar : nem se arroga- 
<< va mais do que lhe competia em matéria de lou- 
« Torcs, nem ainda tudo o que lhe competia , o ac- 
«iceitava: perante homens, se contentava de pare- 
<icer mulher; entre mulheres, forcejava por se lhes 
«igualar, encolhendo, e dissimulando cora muita 
«industria a sua própria altura. A todos ouvia com 
'caltenção e docilidade, como que de todos appren- 
«dcra; comsigo discutia, e amadurecia os seus con- 
«ceitos; em tempo e logar próprio, c sendo reque- 
«rida, expunha-os com simplicidade; deffendia-os 
«sem pertinácia; sem cólera os deixava refutar; 
«refutados, os depunha, mostrando no renuncia-los, 
«e confessar-se vencida, um género novo de victo- 
" ria , mais engraçado, e honroso , que o mesmo 
«triumpho. Havia a poesia pelo melhor de todos os 
«males, pela mais efficaz distracção de trabalhos, 
«e consolação de amarguras, e pela mais innocenle 
•1 e fructifera das ociosidades : infância de adultos 
«se lhe pude chamar, e com rasão ; que, se ha se- 
« raphira de fogo, que possa deCTender a invasores 
«e profanações o paraiso da alma, esse é a poesia, 
«quando em paixão se chega a converter. Do afTe- 
«cto, que no corarão lhe abundava, repartia com 
"todos, e com tudo: debuxava em si as penas alheias 
■1 para lhes acudir ; imaginava depois as alegrias , 
«dos que havia consolado, para por ellas , e delias 
«compor as suas; de míngua de fantasia nasce o 
«mais das vezes a falta de caridade. 

«De virtudes, nenhuma se pôde particularisar , 
«em que excedesse, a não ser esta, de uma uni- 
« versai e perenne benevolência; todas as outras , 
«as tinha com igualdade, inteiras, e sem quebra. 
«Baldado seria o procurar pelo muito que escreveu 
«o minimo vestígio, quer de orgulho, quer de ódio; 
«nem menos desse ódio, que sendo de todos o mais 
« vil, passa uo mundo por galantaria, e como tal se 
«usa, oqual se disfarça com a máscara d'esperteza 
«gracejadora ou de ingenho faceto para empolgar, e 
«atassalhar, como por festa, aos que aborrece; ora 
«aos maus, porque não são bons, ora aos bons, por- 
«quc não são melhores, ora aos óptimos, porque 
o não são péssimos. .\uni:a a sua alva penna cstillou 
«fél de satjrn ; e com tudo em uma epistola a uma 
«sua amiga fdcveu de ser desafogo, e foi único] se 
«vè, que a inveja não a poupou, e que. desde que 
«entrou ao poético estádio, mais de uma vez lhe 
«vieram quebrar os espíritos , c desconsola-la , os 
«motejos, e grosseiros apodos daquellcs que , ou 
■■não crèm no talento, ou pelo menos não dão ás 
«mulheres licença, para que o tenham ; ou teudo-o, 
«para o mostrarem.» 

A Snr.' D. Francisca Possolo deixou impressas as 
seguintes obras , em testemunho de sua applicação 
<■ talentos : — A traducção annotada da cxcellcnte 
obra de M.°" de Stael , Corinna ou a líalia ; outra 

(3) O Sr. Caslilho , <le quem tomámos a passagem que 
Iraiiscrcvenios. ViO. cilada Xolic. pag. 109 a llS. 



da Carta do Conde de las Casas a Luciano fíuona- 
parte ; uma novella em dois tomos que tem o mé- 
rito de ser composição original , intitulada Henri- 
queta d'Orlcans; e a collecção de versos que já 
mencionámos. Sahiu posthuma a versão do livro de 
Fontenelle : e ficaram inéditas duas comedias, outra 
novella , e numerosas poesias. — Os seus versos são 
harmoniosos , no gosto a que chamam clássico , e 
pela maior parte respiram branda melancholia ; as 
suas traducções se não brilham pelo vigor e cópia 
da dicção , são claras , fluentes e desempeçadas de 
crassos e tediosos gallicismos. Bem mereceu a nos- 
sa escriptòra as Dores , que em tributo á sua me- 
moria , a lilteratura , que cultivou c amou , e a 
amisade que soube prezar e manter, saudosas lhe 
despargiram sobre a campa. 



Roteiro da viagem , qce D. Joio de Castro fez 

A l'BI3IEIRA VEZ , QCE FOI Á InWA , 
NO iN>0 DE 1538. 

Dos RoTEiBos, escriptos por D. João de Castro, es- 
caca e incompleta noticia nos deixou seu historia- 
dor. Jacinto Freire, á qual nada, ou quasi nada 
accrescentou o bibliographo Barbosa. As indagações 
modernas tecm esclarecido mais este assumpto. As- 
sim que , são três os Roteiros , que hoje se conhe- 
cem indubitavelmente como obra daquellc illustrc 
capitão , e não menos insigne sábio , e escriptor. — 
O de Góa a Suez , por outro nome o do Mar-ròxo 
[viagem de lo'tO e 1541], cujo original foi desco- 
berto na bibliotheca do museu britannico de Londres 
em 1828 , e publicado era Paris no anno de 1833 
pelo Sr. doutor Nunes de Carvalho. O detiòa a Diu 
[viagem de 1538 e 1539] , cuja publicação está já 
annanciada pelos Snrs. Kopkc e Pinto Roby. O ori- 
ginal deste Roteiro , possuído por pessoa particular 
na província do Minho, passou recentemente ao po- 
der do Sr. Kcpke. Sabemos que pertencera no sé- 
culo passado ao arcebispo Cenáculo , sendo ainda 
religioso da Terceira Ordem da Penitencia. J\ o Diá- 
rio autographo deste prelado , que se conserva na 
bibliotheca pública eborense , se lè , com referen- 
cia ao mez de janeiro de 1767 : — «Este mez de 
«janeiro foi fecundo em livros de estimação, por- 
« que nelle alcancei o manuscripto original de D. João 
(I de Castro , Roteiro de Goa a Diu , ^'c » — E mais 
adiante, em data de julho do mesmo anno: — «No 
«princípio deste mez de julho começaram a vir en- 

«tre os livros communs alguns especiaes , e 

«por este modo, se o segundo semestre deste anno 
«fòr tão fecundo como o primeiro, ajuntarei muito 
«bons cartapacios : pois desde 2 de janeiro de ()7, 
«entre os communs, me vieram á mão, de livros par- 
«tículares, os seguintes: Roteiro de D.João deCas- 
«tro, da sua lettra, foi. ras. &.C. — » De como este 
códice sahisse da mão de tão apaixonado collector 
destas raridades, não achámos ainda memoria entre 
os seus papeis. — Ultimamente o de Lisboa a Goa 
[em 1538], qUe não deixará de sahir brevemente 
a publico; e cujo original, porem, não foi até ago- 
ra achado. O mais antigo exemplar , que dcllc se 
conhece , é a, cópia , que pertenceu ao collogío dos 
jesuítas d'Evora. Esta cópia traz em dois logares a 
declaração de ter sido doada áquclle cnllegio por 
elrei D. Henrique, dízendo-se n'uin dclles:=Foi 
dom d'elrci D.Henrique, de gloriosa memoria, seu 
fundador = , c no outro : = d'elrcí D. Henrique, 
dado ao collegio do Espirito-Santo d' Évora , sendo 



o PANORA3IA. 



111 



ainda cardeal. = A leltra de uma o outra declara- 
ção parece ser já do século de seiscentos. Foi tam- 
bém possuído depois pelo arrel)ispo Cenáculo , que 
o deixou na sua rica liibliollieca eborense , aonde 
lioje se conserva. Assim pertenceu j.í este livro a 
dois respeitáveis prelados da igreja eborense, e por 
cada um delles foi doado como estimável prenda ao 
estabelecimento lilterario . que fundou na sua rae- 
Iropoie. Por estes respeitos , e por ser obra desco- 
nhecida do publico, merece aqui memoria mais ex- 
tensa. 

O tiíulo da obra ó o que deixámos transcriplo no 
alto deste artigo. Tem o códice 103 folhas de papel 
ordinário ; é escripto com boa lettra , que deve ser 
um pouco posterior ao meado do século de quinhen- 
tos ; opinião esta , a que somos levados por força 
das declarações da doação . acima mencionadas ; 
pois SC houvéramos de decidir a idade da Ictlra pe- 
la sua só inspecção , não duvidáramos affirmar que 
era escripta , entrado já o século de seiscentos. — 
Andaria aqui alguma ])ia fraude dos filhos de Santo 
Ignacio, substituindo esteapographo com seus acha- 
ques, que não tem poucos, ao verdadeiro, e talvez 
autographo , doado pelo cardeal? Não descobrimos 
rasão para tanto, nem poderá porventura ser a mes- 
ma que se deu era Alcobaça na supposta Biblia de 
elrci D. Aflbnso. — Fique esta questão por decidir 
por mais práticos paleographos , e eruditos diplo- 
máticos, que nos n.io parece de todo inútil, ao me- 
nos em quanto não appareeer o original , e o nosso 
códice gozar das honras de decano. É ornado cora 
algumas carias , que representam as umo^ícaí , ou 
conhecenras das terras. Depois de conhecida a obra 
lhe accrcscentou o auclor em notas marginaes algu- 
mas das observações , que fez na segunda vez que 
foi á Índia, no anno de 1545. Tem um Prologo [que 
melhor disséramos Dedicatória] dirigido a elrei D. 
João 3.°, mui judicioso e erudito , como obra de 
tal auctor. É o seguinte^-.]. 

Prologo. — Por me parecer que Vossa Alteza re- 
ceberia era serviço dar-lhe eu couta miudamente 
da navegação , que fez esta sua grande e poderosa 
armada, me quiz dispor a escrever estes commenta- 
rios , ou para fallar mais próprio, este Roteiro, o 
qual . posto que o estylo delle seja bárbaro e gros- 
seiro , c a matéria , de que trata , mais que todas 
estéril e sècca, dado que proveitosa , posso aílirraar 
a Vossa Alteza que me custou grande trabalho , e 
que o tempo , que nelle gastei . não foi outro , sal- 
vo furtado daqiielle que é obrigatório ao somno o 
repouso da carne : porque d'outra maneira não ou- 
sara eu de consumir nisto, nem cm outra cousa al- 
guma , o tempo deste cargo em capitania , de que 
me Vossa Alteza fez raercè : mas sem embargo que 
o interesse desta escriptura foi alumiar esta carrei- 
ra aos simplices, e dar-lhe aviso c regras para que 
mais seguramente a possam passar. 

Verdadeiramente , senhor , que muitas vezes me 
envergonho comigo quando cuido na grandeza de 
seu estado, e no baixo serviço que lhe appresenio 
com esta obra , a qual não digo eu ser capaz de se 
pôr em suas altas e reaes mãos, mas em outras al- 
gumas de marinheiros rústicos , como não somente 
carece, e c falta de feitos heróicos, c é falta de ma- 
iorias nobres cillustres, mas ainda de vocábulos 
conhecidos, e termos usados enlre cortesãos, c gen- 
te polida, porque jamais se faz festa d'oulra cousa, 
que do nomes , de ventos , e de fortunas e mudan- 
ças do mar , de alterações do ar, de apparencias 

(•) Nie coaservânioí a orlhogra](hia antiga. 



do céu , de caminhos e rodeios que faz a uáu , de 
aves marinhas e pouco nobres ; c isto ainda com or- 
dem assaz comprida c embaraçada. E pois os que 
escreveram da imagem do mundo, e historia de cos- 
niographia, tratando de gentes, terras, mares, mon- 
tes, rios, promontórios e cidades, espantados de se 
verem entrar em matéria tão árdua e dilticultosa . 
chamam muitas vezes as musas cm seu favor, e não 
acabam de se desculpar , dizendo não haver nesta 
matéria eloquência nem graça alguma : com quanta 
mais rasão posso eu tomar todas estas salvas, maior- 
mentc sendo notório que não escrevo este livro pa- 
ra se lèr ás damas e a galantes , e se aproveitarem 
delle nas cortes e paços reaes; raas os de Leça e 
Matlosinhos. 

Ora, considerando eu como Vossa .4lteza seja Ião 
grande, que nenhum serviço se lhe pode fazer, que 
seja proporcionado a sua grandeza, tomei atrevimen- 
to para lhe queimar este alecrim edefumadouros de 
villa , por ser bem certo que os não receberá era 
menos valia c preço que o muito estimado incenso 
de Arábia : e também não sei como se me foi me- 
tendo em cabeça que Vossa .\líeza no tempo passa- 
do favoreceu algumas obras pequenas, que sahirara 
de minha mão , |)elo qual não somente se contenta- 
ram os homens de lhe comerem a carne , e rocrera 
os ossos , mas ainda de lhe tirarem os tutanos. 

E por tanto ser-me-ha necessário , ó bemaventu- 
rado rei , que , ou Vossa Alteza não queira ouvir 
juizos contra osta obra de pessoas, que sem nenhum 
respeito reprehendem o que não entendem . e con- 
dcmnam o que cm verdade não sabem , o que sem 
nenhuma duvida em presença das partes não fariam: 
ou me dè licença para lha dedicar; porque então 
quem haverá no mimdo tão ousado, que sabendo ser 
Vossa .\lteza o defensor, não fique espantado. Eque 
freio pude haver, se este não. contra os maldizen- 
tes e roedores , os quaes haverão por premio incor- 
rerem na infâmia daquelles que combatem com os 
mortos, com tanto que com seus sophismas e malí- 
cias possam aniquilar meu trabalho e escurecer mi- 
nha empreza. Porque como neste Roteiro vão escri- 
plas muitas cousas , que parecem estranhas e im- 
possíveis, as quaes escrevi medrosamente, não por- 
que delias não fosse mui cerlílicado , mas por re- 
ceio que tive de sahír da opinião commum , vendo 
de uma parte que escrevendo-as poria espanto nos 
que as lessem, e d'oulra (jue dissimulando-as ca- 
hiria eni culpa e negligencia : terão ousadia para 
me responderem, emais sabendo quão mal se guar- 
da justiça aos absenfes. 

Já me contentaria de ser julgado por juizes sus- 
peitos , com tanto que fossem ofiiciaes desta arte e 
ollicío domar; mas receio que aconteça nisto o que 
ordinariamente vemos por experiência, que na scien- 
cia de que os homens menos sabem , e na arte em 
que são menos exercitados, naquellas querem pra- 
ticar mais soltos, e mostrarem que são sullicientcs 
mestres. 

Apelles não somente solTrcu que umçapateiro li;e 
taxasse um não sei que . que faltava a um çapalo . 
que logo emendou; raas tomando o rapateiro a Mr 
a pintura . soberbo do juízo que tinha feito , que- 
rendo re[irelicnder falta na [lerna da imagem, sahiu 
Apelles a elle, dizendo-lhe , não eon>em a çapntoi- 
ro julgar de outra cousa que não são çapatos. Este 
mesmo .\pelk'S teve ousadia de dizer ao grande .\lr- 
xandre . que vinha muitas vezes folgar á sua oDici- 
na , onde trabalhava, [querendo aporfiar com elle 
em cousas da pintura! qxic se calasse , que os me- 



112 



O PANORAMA. 



fl 



niiios que estavam moendo as tintas se ririam delle. 
E por(|iie neste tempo mais azinha se aeiíaruo mui- 
tos Apelies , no primor c artificio da arte , que um 
só na liberdade e franqueza de fallar e responder: 
que devo cu fazer , senão pedir soccorro a Vossa 
Alteza , e Vossa Alteza que menos pôde fazer que 
tocar-me com uma sombra c mostra de seu favor. 

Quem ha no mundo, que possa fazer uma sobeja 
benevolência, sencão elle? Pedi-la cu é muito, mas 
dá-la Vossa Alteza é pouco, mormente Iodas as vc- 
7es que lhe lembrar como tem conquistado as duas 
Mauritanias ; como os seus estandartes despregados, 
c por caminhos públicos, se foram assentar no cu- 
me do monte atlântico; como os ardentes mares das 
duas Ethiopias são lavrados e subjugados das suas 
armadas ; como as praias do oriente estão submetli- 
das e sujeitas a seu império ; como os moradores dos 
famosos rios, Euphratcs, Indo e Ganges lhe são obe- 
dientes o tributários ; como Taprobana , que os an- 
tigos criam ser outro mundo novo, reconheifu seu 
alto nome, e lhe paga páreas. Quem nesta niachina 
e redondeza , onde o immenso Deus deu o império 
aos mortaes, gozou de tão gloriosos triumphos? Lo- 
go rasão será que derribado a seus pés me atreva a 
lhe otTcrecer esta obra , da maneira que ura lavra- 
dor appresentou ao grande rei Artaxcrxes um vaso 
de agua clara , por não ter outra cousa cora que o 
servir e lhe mostrar gazalhado. Porque na verdade 
parece cousa formosa e justa , e somente digna de 
grandes e poderosos príncipes, que aos dons c ser- 
viços, que lhe fazem, seja posto o preço segundo a 
possibilidade e animo daquelle que os apprcscnta , 
e não pela valia e reputarão cm que são tidos do 
mundo. (Conduir-sc-ha.) 

J.U. daC. Rkura. 



SaOlTOlCIA ECI^!:SS^:IC!A• 
Pr.EDiCADos d'im Friteiiio. 

De lodos os methodos de conservação das frutas , 
o mais provado e o mais simples consiste em colo- 
ca-las n'um quarto , ou sótão destinado a este lim , 
com as seguintes condições : — que o quarto ou só- 
tão seja situado, se poder ser, voltado ao norte, 
guarnecido em volta com prateleiras ou estantes de 
madeira, dispostas com a separação conveniente de 
fi a S polegadas , c defendidas na borda exterior 
com gradiídias ou defcza de taboas de ferro quanto 
baste para defender da queda as frutas ahi depos- 
tas. Convém que o quarto seja vedado e defendido 
com boas portas c janellas, de modo que não pene- 
tre muito o ar , o qual alteraria a temperatura , e 
produziria bolor e podridão. Convirá igualmente 
que ahi não penetre a luz , c que as frutas estejam 
em cama macia de palha, ou feno muito sècco, que 
se deve mudar quando humedecer , até para ir ti- 
rando os pòmos ou frutas (jue começarem a detc- 
riorav-se , para não contaminar as outras. 

■ ., . CiiUiciiii das frutas. 

Deve cscolhcr-se tempo enxuto, que não seja nem 
demasiado sècco, nem húmido , o haver cuidado 
cm examinar não somente as espécies, mas lambem 
a exposição , a fim de não colher senão os frutos 
que tem chegado ao grau sulliciente de maturação 
em todas as suas partes. Deverão ser despegados da 
arvore ou á mão , ou com um muito simples e fá- 
cil instrunieuto bem conhecido , cuciUc-fruit , para 



com aquellcs a que se não pôde chegar. Todo o ca- 
so consiste em evitar a macerarão ou picadura dos 
frutos , que occasionaria a decomposição ou altera- 
ção. Devem ser depostos e conduzidos ao fruteiro 
com melindre , c arranjados segundo suas espécies 
nas prateleiras d'antemão preparadas, lendo a pre- 
caução de passa-las por um panuo de laã a fira de 
enxuga-las da sua humidade natural. Todos os po- 
mos ou frutos que a(iprescntarem qualquer princi- 
pio d'alteração ou defeito essencial devem ser re- 
gcitados. Dispostos assim , e ficando os mais ma- 
duros nas prateleiras inferiores, convém cobri-los 
com folhas de papel pardo , ou com tiras de Dane- 
la, que defendendo os frutos das moscas e da poei- 
ra , tem a propriedade de absorverem a humidade 
que elles largam. Isão se deve entrar frequente- 
mente no fruteiro , nem deixar penetrar corrente 
d'ar : convirá entretanto visita-lo de tempos a tem- 
pos para a extracção dos pomos locados. 

Supplcmcnlo aos fruteiros. 

Quando não ha posses ou commodidade para cons- 
truir um fruteiro regular, ou quando a abundância 
é tal que este não basta , podem guardar-se c con- 
scrvar-se os frutos em talhas ou cm toneis pela ma- 
neira seguinte : nu fim da talha ou barrica , que 
melhor será se fòr nova e bem enxuta , se lança 
uma camada de farelo bem sècco e o mais limpo 
de farinha que ser possa ; sobre esta camada se ar- 
ranja a primeira ordem da fruta que se quer guar- 
dar , tendo o cuidado de colocar o pedúnculo das 
maçaãs para baixo, e o das peras para cima ; sobre 
estas se põe outra camada de farelo que as cubra ; 
e assim ir alternando umas c outras até que se en- 
cha a vasilha. Depois se tampão com boa cobertu- 
ra c SC depositam era logar enxuto. 



Os adoradores de Xaca.- — Estes formam uma das 
Ires principaes seitas do Japão. Vivem era com- 
mum como frades; levantam-se ao bater a meia 
noule para cantarem dilíerenles hymnos ; reunem-se 
todas as tardes para escutar o discurso, que o seu 
superior lhes faz sobre algum objecto demorai, fin- 
do o qual lhes distribuo vários pontos doutrinaes 
para meditarem. Algumas vezes lhes representa um 
homem nos últimos momentos da sua vida , e lhes 
refere as exi>robrações com que, segundo a crença, 
o corpo e a alma nestes derradeiros instantes reci- 
procamente se debcllão. — A meditação dura uma 
hora ; quando esta acaba , cada um dá conta ao 
superior dos pensamentos que o seu espirito conce- 
beu , e das deliberações que tomara. 



Estadística relif/iosii na, Áustria. — Segundo uma 
csladistica recente da Áustria c dos paizes que del- 
ia dependem , comprehendidos os estados que pos- 
suo na Itália, numeram-sc neste império 2o:500:()00 
catholicos, 3:500:000 que seguem a igreja grega, 
2:i)00:()00 da igreja não-unitaria, l:-2(;0:000 luthe- 
ranos , á::ií-0:000 da igreja protestante reformada, 
ío:000 socinianos , e (i00:0O(l judeus. — O numero 
de casas religiosas de homens ascende a 7fit> com 
10:854 pessoas, sendo 27 ordens religiosas. Os con- 
frades das Mercês possuem 3í casas com 542 pen- 
sionistas , os bencdictinos 37 casas com 1:0!(3 pen- 
sionistas , e os capuchos 98 casas com 1298 pen- 
sionistas. Ha 137 conventos contendo 3:6Gl rau- 
llieres. , ' ■ 



•11 



68 



o PANORA3IA. 



ii;j 




o MONUM£SiTO S£ QUI:NTA F£IB.A SANTA EM SEVII.HA. 



ScMPTcosAS e graves são geralmente na Península 
as solemnidades religiosas, sobre tudo as mui au- 
gustas conj q,ie a Igreja catholica celebra a Sema- 
na, santa por excellencia. Era a nobre e antiga Se- 
vilha se fazem com excessiva pompa; mas o que 
nessa cidade , e por esse tempo , mais captiva a at- 
tenrão dos estrangeiros é o deposito , erecto na sé , 
c destinado unicamente para encerrar o Senhor em 
Quinta feira Jlaior ; cbaraam-lhe vulgarmente «o mo- 
numento» e é famoso cm toda a Hespanha , corres- 
pondendo á magnificência e grandioso apparato cura 
que o cabido celebrava as cerenionias desta sema- 
na- — Levanta-se debaixo de uma das abobadas do 
cruzeiro entre o espaço, dito cbarola , c a porta 
grande , sobre o local da sepultura de litterato D. 
Fernando Cólon. Delineou esta obra magnifica o 
mestre António Florcnlim , e dando-lhe principio 
em 1547 a concluiu em 1534: constava então de 
três corpos, rematando com a cruz : as estatuas fo- 
ram lavradas pelos mclhofcs esculptores que nessa 
Abril lo— 18i3. 



epocha tinham nome: depois lhe accrescentaram <? 
quarto corpo ; e tem sido restaurado por vezes no 
tocante a ornatos. É construído de madeira c estu- 
ques , formando um composto de bella architectura 
com quatro frentes livres. O primeiro corpo contem 
16 coluranas dóricas, grupadas ás quatro e apprc- 
scntando duas em cada frente , sustentando o euta- 
blamento geral : tem dentro outro menor , constan- 
do de coluninas pequenas que recebem uma cúpula 
á maneira de baldaqulno ; ahi se colloca a famosa 
custodia de Juan d'Arfe, cora uma urna de ouro, 
que encerra a Sograda Forma ; sobe-se a clle por 
um lauro de degraus. O segundo corpo é da ordem 
jónica , com 8 columnas , e no centro quatro e pos- 
ta no meio a imagem do Salvador : sobre oito pe- 
dcstaes , onde se lêem inscrlpções latinas , levan- 
tam-se as estatuas, de obra de li palmos, que fi- 
guram .ibrahão , Melchlsedech , .Moysés e Aarão , 
e as allegoricas da Vida eterna . da Natureza hu- 
mana , da Lei antiga , e da Lei da Graça : nos in- 
2.' Sekie. — YoL. 11. 



11 i 



o PANORAiMA. 



! 



Icrvallús dos pedcstacs corre a balaustrada. A Icr- 
rcira' divisão só tem 8 columnas corintliias ; collo- 
cadõ no centro o Seniior preso á columna : r cireura- 
dadi) pelas íis;uras de S. Pedro , Salomão , a raiiilia 
Sabii , o sacerdote do conselho , o sayão da bofeta- 
da, o soldado que jogou a túnica inconsutil, Abra- 
l>ão c Isaac. Coroam este terceiro corpo pyramidcs 
com globos dourados. — A quarta divisão, o sup- 
plcmento moderno , na verdade apoucado , ó da or- 
dem compósita ; nem guarda proporções com os de- 
mais, nem com o lodo da obra; tem a forma cir- 
cular, e sobre a cúpula, que sustentam pilastras , 
está arvorado o Santo Crucifixo. — A altura total 
do mimumenlo é de 120 pés castelh. ,•) o o seu diâ- 
metro na base é de 80. • — Em tempos antigos illu- 
iiiinava-sc com grande esplendor e profusão , para 
o (]ue , segundo o testemunho dó um escriptor do 
sccnlo !(!." , se gastavam só em velas e tochas três 
mil libras de cera , alem de I2S lam|)adas de pra- 
ta que estavam accesas. 



Cbristianismo — Philosopuía . 

A EXISTÊNCIA de uma doutrina moral contém neces- 
sariamente cm si a existência de muitos factos : as 
acções dos homens são as substituições das fórmu- 
las, por assim dizer, algébricas, chamadas ou cren- 
ças religiosas ou theorias de ollicios e deveres. To- 
da a importância de qualquer sciencia de applica- 
ção deriva-se não tanto delia como dos seus resul- 
tados práticos , e é por elles que devemos avalia-la. 
A sciencia dos actos humanos pertence a esta ca- 
thegoria. 

Ouando a moral se firma uas revelações buscadas 
no céu (lenomina-se religião : quando nas inspira- 
ções espontâneas da consciência denomina-se lei na- 
tural ; quando no estudo das relações sociaes , e 
nas consequências lógicas do grande princípio hu- 
mano chamado sociabilidade , deuomina-se philo- 
sophia. Estas ires espécies de normas d'acções cou- 
duzem forçosamente a resultados diflcrcntes, porque 
as íuas condições são- diversas. 

Philosophia — consciência — religião: três fontes 
do bem obrar; do tudo quanto ha grande, bello, c 
generoso no desterro da vida. Qual delias é mais 
pura c caudal? 

A religião: porque a religião não lluclua nos seus 
preceitos, acceita o homem como um typo de misé- 
ria e da grandeza , como corpo e como espirito , c 
exige de nós a moralidade em nomo de uma causa 
linal- — a vida das recompensas. 

Ligados com especulações ontológicas , com dou- 
trinas mctaphysicas , vacillantes , contestáveis , e 
perpetuamente contestadas , os princípios moraes 
das escholas philosophicas tem seguido de perto , 
arrastados por ellas, todos os desvarios dessas dou- 
trinas até o nosso tempo. ;. Quem nos diz que as de 
hoje lião serão regcitadas como erros, ou , mais ri- 
gorosamente , quem nos diz onde está a rasão , c a 
verdade no meio do combale, que ainda dura entre 
as diversas parcialidades, nesta proviíicia do mundo 
iijlellecinal ? Quem nos diz que a nossa sciencia não 
será matéria de riso jiara a geração que ha-dc suc- 
ceder-nos? I 

A historia da philosophia (■ a historia de um edi- 
fício começado ha milhares d'annos, em que um sé- 
culo revolve os fundamentos que outro lançou , pa- 
ra lançjr os seus, os quaes igualmente são rcvolvi- 

(•) 152 palmus iiortugT: o iliiimclro 101 -*. ditos. 



dos pelo scculo seguinte , cujos trabalhos condem- 
iiará o que vier apoz elle. 

Desde a moral de Platão deduzida do amor da 
formosura divina ; desde a moral de Epicuro , mo- 
ral negativa, que põe o profundo despreso da huma- 
nidade como pedra angular do proceder humano : 
desde as escholas da Grécia até o materialismo gros- 
seiro dos eneyclopedistas , que máxima, que regra 
de acções deixou de ler altares, deixou de ser con- 
demnada ? .Nenhuma. 

Constância, perpetuidade, só a teem os preceitos 
iminulaveis das crenças religiosas. 

Substitui, porem, o individuo á eschola : substi- 
tui a inspiração da consciência aos raciocínios do 
entendimento, mais incompleto , mais vacillante e 
mais estéril será ainda o sentimento moral. 

De que dependem os aflectos do coração? Da ín- 
dole c engenho do homem , da sua educação , há- 
bitos , propensões, e até da sua physíologia. Mais: 
a doença ou a saúde , a felicidade ou o infortúnio , 
fazem variar o seu modo de sentir em relação aos 
seus similhantes. Os instiiictos da consciência só 
podem por isso produzir a anarchia moral , a con- 
tradicção dos actos humanos. 

A virtude sem fé não tem verbo que a explique ; 
é uma linguagem escripta com caracteres hierogly- 
phicos , que se vêem sem se compreheuderem , e 
em que os eruditos só encontram matéria de discus- 
são e de conjecturas. 

Estas considerações rápidas e abstractas tornam-se 
mais evidentes, applícando-as ás doutrinas especiaes, 
e a um aspecto único destas. Deixemos de parte a 
fonte moral da consciência, que ora derrama o mel, 
ora o absinthio ; ora verte o bálsamo das consola- 
ções , ora é árida como o rochedo tostado de serra- 
nia núa e erma , o que será sempre na terra um 
acas), ou um mysterio. Chamemos á prova a phi- 
losophia do nosso tempo c a religião do nosso paiz: 
estabeleçamos a comparação entre cilas no mais gra- 
ve c importante dos seus resultados — a beneficcn- 
cia. 

D"onde viemos nós os que ora vivemos? — qual 
é a nossa filiação intelleclual e moral? A geração 
presente veio de uma geração argumentadora e in- 
crédula ; a nossa epocha veio de uma epocha em 
que o orgulho dos homens chamou a crença divina 
de dezoito séculos ao tribunal humano de uma dia- 
léctica implacável: nascemos no meio das blasphe- 
mias e alaridos dos inimigos do Evangelho : assisti- 
mos ainda aos últimos dias do julgamento : ainda 
ouvimos coudemnar a doutrina de Jesus porque era 
indigna da grandeza de Deus , e porque não era 
athcistica ; porque era severa , e porque era indul- 
gente ; porque era copiada de crenças antigas , se- 
guidas largos annos por milhares d'homens , e por- 
que era impossível segui-la ; porque era perturba- 
dora dos estados, e porque era umelcmenlo de ser- 
vidão. Aflerido pelas oiiiniões mais oppostas , c no 
fim regcitado por contrario a todas ellas , vimos o 
cbristianismo expulso do templo da philosophia , e 
a cruz dcsterraila como iim symbolo inútil. As es- 
cholas dos sophistas que não podiam couvir entre si 
110 mínimo ponto de doutrina, concordaram todavia 
n'um "csullndo : foi este, que a religião, clara, de- 
finida , acceita pelas mais profundas e vastas intel- 
lígeiícias que o mundo proiluzíra em perto de dois 
mil annos , origem de innumeraveis acções nobres , 
formosas e sublimes , causa principal e quasí úni- 
ca de todo o progresso das sociedades modernas , 
era absurdo c mentira , era um mal intolerável , ç 



o PA]\ORA3IA. 



llli 



que no rahos monstruoso , canibianle , incerto das 
doutrinas contradiclorias dos sopliislas, que nem 
um só bem haviam trazido á terra, nem encluif;ado 
uma lagrymn , nem gerado uma consolarão , nem 
inspirado um só feito generoso e forte, eslava a ver- 
dade , a evidencia , a felicidade , e o fundamento 
seguro do crer e do obrar humano. 

Era demasiado demente e ridícula esta pcrlenção 
dos sophistas. para que a epocha actual lhe não vol- 
tasse as costas com ledio edesprèso. Mas a cruz ja- 
zia por terra, coberta de lodo espadanado contra el- 
la por insensatos : o seu antigo prestigio estava des- 
truido , e os homens passaram muito tempo por ci- 
la, sem que houvesse uma intelligcncia robusta que 
ousasse ajoelhar na encrusilhada , e abraçar-so com 
o symliolo da redcmpção. Os primeiros que o tenta- 
ram tinham por certo grande coração ; porque ocou- 
trastar o escarneo das turbas é a mais subida pro- 
va de esforço. A energia destas almas leve a sua re- 
compensa — a consciência de haverem contribuído 
poderosamente para a restauração moral da socie- 
dade — e se o christianismo não Iriumphou ainda 
completamenlc das preoccupações vergonhosas do 
século passado , não se carece de grande perspicá- 
cia para antever que não tarda o dia em que a Eu- 
pa seja outra vez verdadeiramente christaã. 

O espiritualismo c hoje sem contradicção o aspe- 
cto caraclerislico da philosophia , como o da escho- 
Ja, ou antes cscholas dos encyclopedistas fora o ma- 
terialismo : estes dois systemas , ambos cllcs orgu- 
lhosos por diverso modo , e por diverso modo in- 
completos, ahi estão frente a frente, ahi luctam de- 
sesperados , até que um seja esmagado pelo outio , 
sorte que , segundo parece , está reservada ao mais 
velho — o da pura animalidade dos encyclopedistas. 

Todos os homens , cujo espirito c mais ou menos 
cultivado, seguem ou por inllucncia da auctoridade 
alheia , ou por meditação própria, uma dessas dou- 
trinas : ambas ellas actuam portanto no caracter mo- 
ral das classes elevadas : quanto ás inferiores cus- 
ta-nos a dizer que um sensualismo brutal predomi- 
na nos seus hábitos e instinctos; que o materialis- 
mo, pouco a pouco expulso do meio daquellcs, que 
primeiro recebem as inspirações de uma civilisacão 
progressiva, vai aninhar-se nas tabernas, nos prosti- 
IjuIos , e o que muito é de sentir nas choupanas col- 
madas. Em mais d'uma , quando a desventura se 
assenta ao pobre lar do camponez , este , que d'au- 
tes se abrigava na resignação, no orar, no derra- 
mar lagrymas aos pés da cruz , procura agora o es- 
quecimento na embriaguez , o remédio da miséria 
no roubo , e até a salvação no suicídio. A incredu- 
lidade , ameaçada de desterro nas regiões onde por 
mais de cíncoenta annos imperara como rainha, faz- 
se fabril e bucólica : senhoril c disputadora ninda 
ha pouco, torna-se rude, bestial, e grosseira. Quan- 
tas vezes temos ouvido sahir de humilde alvergne 
os sons terríveis de profundo descrer 1 — quantas 
vezes temos respirado o bafo mortal da blasphemia 
sahido de habitações , onde a única excepção ás ex- 
tremas misérias da existência fora a esperança 1 A 
causa deste aíilictivo espectáculo buscai-a na histo- 
ria dos desvarios dos últimos oitenta annos : os ho- 
mens que podiam remediar tanto mal ; aquellcs que 
na significação mais extensa da palavra , presidem 
aos destinos populares , são filhos intellectuaes , são 
discípulos da Encyclopedia. Todos os meios mais 
santos , mais suaves , e productivos da felicidade 
publica — os religiosos, teem sido condemnados no 
lespirito superficial desses bomen» como perigosos e 



ineíTicazes , e o christianismo, o grande cívilisador 
dos tempos modernos — considerado como um ins- 
trumento quebrado e inútil. Assim o povo abando- 
nado a si mesmo , quasi sem culto, c sem pastores, 
vai perdendo diariamente a sua riqueza moral , a 
herança de crença e doutrina que lhe haviam lega- 
do seus pais. A religião, cujo primeiro alvor come- 
ça de novo a despontar no oriente do nosso íntimo 
viver , tão descorado c triste , apenas se entreve no 
liorisonte das alturas espiritualistas ; são . porem , 
(jrofundas as trevas uos valles e nas planícies ras- 
teiras , onde pousam as névoas mephytícas de um 
sensualismo hediondo. 

Tal é o estado moral da sociedade : duas philoso- 
phias contrárias, que pelejam mais um desses com- 
bates travados entre ellas diariamente desde milha- 
res d'annos : as almas nobres lidando cm silencio 
para despertarem do somno estúpido do sccplicismo ; 
e o povo dançando tristemente feroz sobre asruinas 
do altar e da cruz. Vejamos como esses trcs elemen- 
tos — as duas doutrinas rivaes, e a bruta indilTcrença 
da ignorância se traduzem na vida : procuremos o seu 
valor na applicação — n'um facto — e comparemos 
este com o facto análogo como o produzia d'antes , 
como o produzira ainda hoje , se fosse dominadora 
entre os homens, a moral divina do Calvário. Aca- 
reemos o amor dos homens em Deus — a charidade 
— com o amor dos homens pelas doutrinas das es- 
cholas, não das que ensinam a dureza de coração e 
o egoísmo, mas das mesmas que ensinam essa com- 
paixão e humanidade, a que se chama pbilantropia. 

Vede aquelle edilicio : as janellas estão abertas: 
os espelhos das paredes , os feixos dourados dos 
umhraes e portas , os adereços de pedras preciosas 
que adornam as mulheres , custosamente trajadas , 
refrangem multiplicados os raios de luz derramados 
dos lustres esplcndcntes : ouvcm-se lá dentro as toa- 
das harmoniosas dos instrumentos, e vozes humanas 
que modulam cantos voluptuarios : vè-se d'ahi a 
pouco o turbilhão das danças passar cercado de um 
ambiente de perfumes, que derramam as essências e 
as Qores variegadas : os mais delicados manjares . 
as bebidas mais deliciosas gyrara no meio daquella 
turba que se agita como possuída de loucura fe- 
bril : o deleite pinta-se cm todos os rostos , porque 
a um tempo ahi o aspiram lodos os sentidos; — as- 
pira-o , até , a imaginação , porque muitas vezes la 
desabrocha a primeira esperança da corrupção e do 
adultério ; lá , nessa atmosphcra impregnada de se- 
ducções , de sensualidades , de delírio , as paixões 
mais ignóbeis refervem e trasbordam despeadas' , 
porque a poesia de que ahi se reveste a vida mate- 
rial e externa láz esquecer ainda as almas mais ge- 
nerosas e fortes os contentamentos da vida intima ; 
lá , emfim , a própria virtude troca seus brios em 
languidez , e deíxa-sc morrer, como o viajante que 
debaixo da sombra atraiçoada da mancenilha sente 
coar-lhe a morte nas veias , e mal cuida que esse 
adormecer suave que o consola seja um somno per- 
petuo. 

Esta sala esplendida é uma eschola de perdição, 
instituída iior homens corruptos no meio da socie- 
dade que locou a meta da decadência e do desca- 
ro ? É Koma serva que se alevanta do seu pó e re- 
nova entre nós os serões vertiginosos de Trimal- 
cião? Nada disso. Sc quereis a explicação deste es- 
pectáculo , o programraa deste ardente festim , eii- 
trac em est 'outro edilicio, onde a custo vedes atra- 
vez dos baços vidros de breve janella frouxo luzir 
de lâmpada , semelhante a eslrella longinqu.i , vis- 



116 



O PANORAMA. 



ta alravez de ar chuvoso por fenda rasgada em céu 
negro. È ura convcntinho onde ha annos callaram 
as orações monásticas. Entrac. O dormitório está 
em silencio ; a lâmpada , cujo bruxulear enxergas- 
tes de longe , pende do tecto no cruzar dos corre- 
dores : esses quartos ou cellas estão povoados de 
infelizes, que recuando ante o aspecto da fome vie- 
ram acolhcr-se á morada destinada para aciuelle 
que não adiou quinhão no banquete da vida. Este 
logar melanchnlico e pobre é um asylo de mendi- 
cidade ; aqucUoulro, alegre e esplendido, uma sa- 
la de baile. A ebriedade do festim nocturno produ- 
zirá um bem ; alimentará estes velhos e inválidos ; 
foi essa a condição do deleite: as paixões — talvez 
os vicios — fazem-se humanas, e civilisam-se. É 
um progresso real ; e este progresso — sejamos jus- 
tos — deve-se á illustração e á philanlropia. Elias 
leera sabido fazer que propensões e alTectos cul- 
))ados e menos nobres combatam contra outros ain- 
da mais vergonhosos c destruidores ; e desses com- 
bates tem sabido babilmcnle tirar vantagens pa- 
ra o bom e honesto. Assim na grande inimoralida- 
de das loterias existe pela cubica uma contribuição 
espontânea para a infância abandonada ; assim n 
avareza mata , nas caixas económicas , o jogo , a 
embriaguez , a gula : assim a grande piostituição 
dos theatros chega a ser digna de perdão quando o 
preço d'indecencias vai fazer subsistir os institu- 
tos de educação infantil. Agradeçamos tudo isto á 
orgulhosa intclligencia humana : são estes os mais 
brilhantes resultados do seu progredir, e, sincera- 
mente o dizemos, se mais não tem feito, éque nun- 
ca ella poderá ir mais longe do que a espalhar be- 
neficios matcriaes. D'ahi avante só a religião acha 
senda para caminhar. A generalisação é o caracter 
das doutrinas da eschola. Estas quando ensinam o 
beneficio, attendem a uma abstracção — ao homem, 
não aos indivíduos. O amor ]iiedoso dos nossos si- 
milhautcs chama-sc por isso philanlropia ; o chris- 
tianismo chamava-lhe caridade. A caridade vinha 
«lo coração; a philanlropia nasce do entendimento. 
Hoje os corações eslão mortos porque a crença pas- 
sou : vive a intelligcncia porque a excita e cultiva 
uma civilisação vigorosa. 

O christianismo entendia de bem diverso modo o 
amor da humanidade , porque entre este amor e o 
genero-humano estava a idéa de Deus. A caridade 
era alTectuosa , modesta e espiritual , em quanto a 
philanlropia é dura, ostentosa e grosseira. Entre 
um coulro systema de bemfazcr ha a distancia que 
vai da philosupiíia do céu á philosu(ihia terrena. O 
christianismo sabia que no homem havia espirito c 
corpo. O christão sabia doer-se de um e d ' outro : 
a sua caridade não era materialista. 

Oue vale a vossa virtude , filha da civilisação , 
comparada á que se estribava na fé? Que lucrou o 
mundo emtrcjcar a humildade sublime dosque bus- 
cavam por Ioda a parte amarguras da alma para 
consolar, dores phjsicas para mitigar, pela sober- 
ba fastosa daquellcs para quem é preciso velar a 
lioa obra com a máscara atlractiva das paixões ou 
do deleite? A vossa beneficência esquece completa- 
mente ávida interior; cera a esta(|ue a beneficên- 
cia religiosa dedicava os seus mais ricos thesouros, 
a sua mais alTectuosa compaixão. Vós, que se vos 
dá das agonias do espirito? 

JNcssa morada, triste, pobre, silenciosa, e esque- 
cida, reverso negro doípiadro brilhante de um bai- 
le; nessa mesma habitação do mendigo, que é to- 
davia uma das justituiçues mais formosas v puras 



dos nossos dias, iremos buscar um exemplo. Vereis 
que a philantropia não suppre a caridade , ou para 
melhor dizer que a civilisação não suppre o chri-s- 
lianisrao. 

Sobre uma das duras enxergas , infileiradas pe- 
las paredes desses aposentos desadornados , dorme 
um velho cego , cujo rosto vos encobre a escacez 
da luz qucallumia o dormitório. Interrompem-lhe a 
espaços o respirar sereno esses gemidos, que ainda 
em sonhos a dor moral sabe arrancar das profunde- 
zas do coração , sem que os lábios se descerrem. 
Que importa isso á philanlropia ? Ella deu-lhe pão 
e uma enxerga. Que importa as chagas avenenadas 
que lhe lavram lá dentro? — Deu-se-lhe um tecto 
que o resguarde das injurias do tempo. É o que 
basta : o cancro inlerior não se vè. 

E todavia se indagardes, a historia do cego men- 
digo achareis que havia ahi alguma infelicidade 
mais profunda c tremenda , a que fcJra necessário 
applicar , não os soccorros materiaes , mas o bálsa- 
mo das consolações. Era um homem honesto , a 
quem a cegueira fez pobre. Duas filhas o alimenta- 
vam do produclo do seu trabalho : faltou-lhes este 
um dia — uma semana — um mez — ; e a miséria da 
familia desventurada chegou a extremidade horrí- 
vel. Enlão a devassidão veio em nome da fome ba- 
ter á porta das que até aquelle momento haviam si- 
do puras, e ellas a seguiram ao proslibnlo. .\s duas 
arvores frondosas nascidas da raiz do cedro carco- 
mido, e que lhe encobriam a decrepidez cora a sua 
verdura, foram cerceadas, e o sol ardente acabou 
de mirrar o cedro moribundo. Aquclla alma dera 
em terra nos trances de dilatado morrer. A philan- 
tropia passou por lá — e encontrando-o no charco 
da rua, afastou-o com o pé para o receptáculo caia- 
do deste género de misérias , e depois foi bailar 
nos suas salas douradas, para que o velho mendigo 
tivesse um bocado de pão negro |)ara temperar com 
lagrymas , e um pedaço de saial grosseiro para se 
cobrir. Era só disto ; — era principalmente disto 
que elle carecia? 

Não, mil vezes não! — Mas a civilisação fez o 
que pode. Seria loucura exigir impossíveis da phi- 
lanlropia. 

O que, porem, fora para ella impraticável, fa-lo- 
hia sem custo a caridade do christianismo. 

A beneficência , inspirada pela religião , não tem 
essa triste faculdade de generalisar que para a be- 
neficência philanlropica se converteu n'um princí- 
pio. Os seus preceitos são universacs e rigorosos ein 
si , mas na applicação tornam-se individuaos e va- 
riados. A caridade cluislã teria cruzado talvez o 
limiar daquella familia mesquinha, antes que a de- 
vassidão houvesse chegado lá , guiada pela mão da 
fome : teria sido para ella a provideucia. Mas quan- 
do houvesse vindo tarde para impedir o mal , con- 
tcnlar-se-hia de atirar ao infeliz e abandonado cego 
ura pedaço de pão negro? Oh por certo que não! 
Teria escutado os gemidos daquella alma atribula- 
da : teria fallado ao desditoso de Deus e da espe- 
rança : teria chorado com elle. Faria mais: procu- 
raria arrancar á devassidão as suas viclimas : al- 
cança-lo-hia talvez , e reconstruiria pelo arrependi- 
mento a felicidade de uma familia ; por(iue só o 
mundo, que se crc mais perfeito (]ue o céu , é ine- 
xorável para com aquelle que uma vez errou : a fé, 
essa tem perdão c esquecimenlo para o que se con- 
verteu. Fora tudo isto o que fizera a beneficência 
christã, c não arrojar o coração despedaçado do ve- 
lho para um thoatro Uu juiscrias , onde muitas vc- 



o PANORAMA. 



117 



2CS se misturam com ellas a cólera , os tícíos e a 
desesperação. 

O defeito capital de bcneCcencia, que não se es- 
triba no christiauismo , c o esquecimento completo 
dos alTectos humanos : é por isso que despedaça in- 
rtiflerente os santos afTectos de família , para disse- 
minar os indivíduos na realidade da vida pelos re- 
parliraenlos e casas dos quadros estatísticos da mi- 
séria publica. A paternidade, o amor filial c ma- 
terno, as saudades do lar domestico, isso não com- 
prebende ella : para tudo e para lodos tem asylos 
e soccorros , nieuos para a mais importante entida- 
de moral , para a sociedade que é origem de todas 
as outras, para a família. 

A beneficência (fhoje conhece apenas a sede, a 
fome , a nudez : a nossa beneficência c essencial- 
mente incompleta . porque é materialista. 

Condemnàmos nós a sua existência? Sem duvida 
não ! Abençoámos , ao contrario , os homens que 
supprem, como um pensamento mundano pude sup- 
prir, o sublime pensamento chrislão. Mas seja-nos 
Jicilo deplorar que o orgulho da sabedoria terrena 
acreditasse que em si linha recursos que lortiassem 
inútil a eterna c insondável sabedoria do evange- 
lho : seja-nos licito saudar a aurora desse dia que 
já rompe no horisoule , em que a cruz triumphaule 
se hasteará de novo sobre o mundo , para abrigar e 
consolar oulra vez com a sua sombra divina todo o 
género de desventuras. 

(A. Herculano.) 



EiTBACTO DO CAP. 1.° DO St.' EvANGELHO , 

SEGUNDO S. João (1). 

«João (2) delle testificou e clamou dizendo: Este 
era aquelle de quem eu dizia ; o que vem apoz mim 
é antes de mim , porque era primeiro que eu. 

E de sua plenidão recebemos todos lambem gra- 
ça por graça. 

Porque a lei foi daiia por Moysés ; a graça , e a 
Terdade foi feita por Jesu-Chrísto. 

A Deus nunca ninguém o viu : o Unigénito Filho, 
que está no regaço do Pae , elle no-lo declarou. 

E este é o testemunho de João, quando os judeus 
mandaram alguns sacerdotes e levitas de Jerusalém, 
que lhe perguntassem : Tu quem és? 

E confessou e não negou ; c confessou : Eu não 
iou o Christo. 

E pierguntaram-lhe : Quem pois? És tu Elias? e 
disse: Não sou. — És tu propheta ? c respondeu : 
>'ão. 

I)isseram-lhe pois: Quem és? Para quedemos 
resposta aos que nos enviaram : que dizes de ti 
Bjesmo? 

Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto; 
endereçai o caminho do Senhor ; como disse o pro- 
pheta Isaías. 

E os enviados eram dos phariseus. 

E perguntaram-lhe e disseram-lhe : Porque pois 
baptisas , se tu não és o Christo , nem Elias , nem 
propheta ? 

João lhes respondeu , dizendo : Eu bapliso com 
agua : mas em meio de vósoutros está a quem vós- 
outros Dão conheceis. 

Este é aquclie que vem apoz mim . o qual já foi 



antes de mim, do qual cn não sou digno de lhe de- 
satar a correa da al|)arca. 

Estas cousas aconteceram em Belhabara , da ou- 
tra banda do Jordão, onde João estava baptisando. 

O seguinte dia, viu João a Jesus vir a ellc , e 
disse : 




(1) Seiuimns aqui a versão de João Ferreira d'Almei- 
da , mais anliía e muilo menos conhecida que as dosPP.^s 
Pereira e Sarmento. 

(2) O Baptist» faltando do R«d«niptor. 



Vedes aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecca- 
do do mundo. 

Este c aquelle , do qual eu disse : Apoz mim 
vem um Varão , que já foi antes de mim ; porque 
já era primeiro que eu. — Et reliqna. 



A Meditação no Pkomo>'tobio. :• 

[Fragmentos de um Urro inédito.) 

I. 

EitA por uma destas noites vagarosas do inverno , 
em que o brilho de um céu sem lua é vivo e tre- 
mulo ; em que o gemer da selva é profundo e tris- 
te ; em que a soledade das praias c ribas fragosas é 
absoluta e tétrica. 

Era a hora em que o homem está recolhido nas 
suas mesquinhas moradas; em que pelos cemitérios 
o orvalho se pendura do topo das cruzes, e sósinho 
goteja das bordas das campas : porque a saudade 
da viuva c do orpham , a desesperação da amante, 
o coração despedaçado do amigo tinham tido pavor 
das larvas da imaginação , e das iniluencias morbi- 
ficas do rocio nocturno' Para se consolarem, os in- 
felizes dormiam tranquíllos em seus leitos macios I ... 
em quanto os vermes do sepulchro roiam o cadáver 
do exlincto , amarrado á sua cama de mármore pe- 
lo grilhão da morte chumbado nos seios da pedra. 
Hypocritas dos affectos humanos , o somno enchu- 
gou-vos as lagrymas ! 

E depois , as lousas eram já tão frias '. Debaixo 
de um torrão húmido o sudário do cadáver tinha 
apodrecido com ellc. 

Haverá paz no tumulo? Deus o sabe. Para o que 
ahi repousa sei eu que ha na terra o esquecimento '. 

Os mares pareciam naquella horarccordar-se aiu- 



118 



O PANORAMA. 



dá do rugido harmonioso do estio, e a vaga arquea- 
va-se, rolava, e esprcguirando-se pela praia, reOe- 
Ctia a espaços nas golfadas d'escuma a luz indeci- 
sa dos céus '. 

E o auimal que ri c chora , o rei da creacão , a 
imagem da divindade, onde é que se esconderá? 

Tremia de frio em aposento cerrado , c sentia 
confrangido a brisa fresca do norte , que passava 
nas trevas , c sibilava contente nas çarças rasteiras 
dos maninhos desertos. 

Sem dúvida o homem é forte, e a mais excellen- 
te obra da creacão 1 Gloria ao rei da natureza, que 
tiritando geme. 

Orgulho humano, qual és tu mais? — feroz, bes- 
tial ou ridículo? 



Era, pois, n'uma destas noites em 

que a terra, envolta no seu manto d'cscuridade, se 
povoa de terrores incertos ; em que o sussurro do 
pinhal c como um coro de finados , o despenho da 
torrente como um ameaçar d'assassinos , o grito da 
ave nocturna como uma blasphemia do que não crè 
cm Deus. 

Nessa noite fria e húmida , arrastado por agonia 
íntima , vagava eu ás horas mortas pelos alcantis 
escalvados das ribas do mar , e enxergava ao longe 
o vulto negro das aguas balouçando-se no abysmo 
que o Senhor lhes deu para perpetua morada. 

Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. 
F,n amo o sopro do vento , como o rugido do mar : 

Porque o vento e o oceano são as duas únicas 
expressões sublimes do verbo de Deus , cscriptas na 
face da terra quando ainda ella se chamava o cabos. 

Depois éque surgiu o homem c a podridão , a ar- 
vore c o vérmo , a bonina e o cmmurchecer. 

E o vento e o mar viram nascer o geuero-huma- 
no , crescer a selva , florescer a primavera ; — c 
passaram , e sorrirani-se. 

K depois viram as gerações reclinadas nos cam- 
pos do scpulchro ; as arvores derribadas no fundo 
dos valles sèccas e carcomidas ; as llòres pendidas 
c murchas pelos raios do sol do estio ; — c passa- 
ram , e sorriram-se. 

Que tinham elles, de feilo , com essas existên- 
cias mais passageiras c incertas , que as corrente- 
zas de um , e as ondas buliçosas do outro? 

in. . . 

o mundo actua! nunca poderá entender plenamen- 
te o alfecío , que vibraudo-me dolorosamente as li- 
bras do coração me arrastava para as solidões ma- 
rinhas do promontório , quando os outros homens 
nos povoados se apinhavam á roda do lar acceso , 
c lallavam das suas magoas infantis , o dos seus 
contentamentos de um instante. 

E que me imporia a mim isso? Virão algum dia 
homens que coniprehendam a minha alma, e as pa- 
lavras que ahi lhes ficam cscriptas. 

Arraslava-nie para o ermo um sentimento ínti- 
mo : o sentimento de haver acordado . vivo ainda , 
deste sonho febril chamado vida , e de que hoje 
ninguém acorda senão depois de morrer. 

Sabeis pois o que é c-Stc despertar de poeta? 

K o ter entrado na existência com um coração 
que trasborda d'amor sincero e puro ])or tudoquan- 
tii o rodèa, e ajuntarem-se os homens, e lançarem-lhe 
dentro do seu vaso d'innocencia lodo , fd', t peço- 
nha , e dejiois rirem-se d'elle: 



K o ter dado ás palavras virtude, amor pátrio, 

e gloria uma significação profunda ; e depois de ha- 
ver buscado por annos a realidade delias neste mun- 
do , só encontrar ahi — hypocrisia , cgoismo , e in- 
fâmia ; 

E o perceber á custa de amarguras que o existir 
é padecer, o pensar descrer, o experimentar des- 
cnganar-sc , e a esperança nas cousas da terra nma 
cruel mentira de vãos desejos, um fumo ténue, que 
ondea em horisonte áquem do qual está assentada 
a sepultura. 

Este é o acordar do poeta. Depois disso, nosabys- 
mos da sua alma só ha para mandar aos lábios nm 
sorriso de despreso em resposta ás palavras menti- 
das dos que o cercam, ou uma voz de maldição 
desabridamente sincera para julgar as acções dos 
homens. 

É então que para elle ha unicamente uma vida 
real — a íntima ; unicamente uma linguagem intel- 
ligivel — a do bramido domar e do rugido das ven- 
tanias ; unicamente uma convivência não travada de 
perlidia — a da solidão. 

-■ n. ■' 

Tal era eu quando me assentei sobre as fragas: 
e a rainha alma via passar diante de si esta geração 
vaidosa e má , que se crè grande c forte , porque 
sem horror derrama cm luctas civis o sangue de 
seus irmãos. 

E o meu espirito se atirava para as trevas do pas- 
sado. 

E o sopro rijo do norte me alíagava a fronte re- 
qucimada pela amargura , c a memoria me conso- 
lava das dissoluções presentes com a aspiração sua- 
ve do formoso e enérgico viver d'outrora. 

F, o meu meditar era profundo como o céu que 
se arquca immovel sobre nossas cabeças ; como o 
oceano , que , firmando-se em pé no seu leito in- 
sondável , braceja pelas bahias e enseadas, tentan- 
do esmigalhar e desfazer os continentes. 

E cu pude enifim chorar. 



Que fora a vida se nella não houvera lagrymas? 

O Senhor estende o seu braço pesado de maldi- 
ções sobre um povo criminoso : o pai que perdoara 
mil vezes couverte-se em juiz terrível ; mas ainda 
assim a Piedade não deixa de orar junto aos degraus 
do seu throno. 

Porque sua irman é a Esperança , e a esperança 
nunca morre nos céus. De la ella desce ao seio dos 
maus antes que sejam precitos : 

E os desgraçados na sua miséria conservam sem- 
pre olhos que saibam chorar. 

A dór mais tremenda do espirito quebrantam-na 
e cntorpecem-na as lagrymas. 

O Sempiterno as creou quando nossa primeira 
mãi nos converteu em réprobos : ellas servem , por- 
ventura , ainda de algum refrigério lá nas trevas 
exteriores , onde ha o ranger dos dentes. 

Meu Deus, meu Deus! — líemdito seja o leu no- 
UK- porque nos deste o chorar. 

VI. :, 

O disco esplendido do astro do dia começa a sur- 
gir do meio dos mares, balouçando-se tremulo so- 
bre o collear das ondas. 

Eu não te amo, oh sol, que alagando com os 
turbilhões dos teus raios esta terra condemnada, te 



o PANORAMA. 



119 



assemelhas ao homem cruel que vai dar uma risa- 
da junt() ao leito do moribundo. 

K porque te havia de amar se tu és o inimigo dos 
sonhos da imagiuaeão ; se tu nos chamas á realida- 
de , c a realidade é Ião triste? 

Pela escuridão da noite , nos legares ermos, c ;is 
horas mortas do alto silencio . a phanlasia humana 
é mais ardente e robusta. 

É então que elladá movimento evida aos penhas- 
cos , voz c entendimento ás selvas , que se mcneam 
e gemem á mercê da brisa nocturna. 

É então que ella collige as snas recordações ; une, 
parte, transmuda as imagens das existências que viu 
passar ante si ; o estampa nas sombras que a rodeani 
um universo transitório, mas para ella real. 

E é bello esse mnndo de phantasmas aéreos, (lor 
entre cujos lábios descorados não transpira nem per- 
júrio nem dobrez , e a cujos olhos sem brilho não 
assoma o rellexo de ânimos prostituídos. 

Ahi ha o repouso , a paz , e a esperança , que 
desappareceram da terra ; porque o mundo das vi- 
sões cria-o a mente pura do poeta : ella dá ser e 
vulto ao que já é só ideal ; c o passado deixando 
cahir o seu immenso sudário , ergue-se em pé , e 
pondo-se ante o que medita, lhe brada — «aqui es- 
tou eu 1 1) 

E este o compara cora o presente , e rccíia d' in- 
voluntário terror : 

Porque o cadáver que se aíevanta do pó é formo- 
so e santo: e o presente, que vive. e passa, e sor- 
ri , é horrendo e maldito. 

E o poeta atira-se chorando ao seio do cadáver , 
e diz-lhe — «escondc-me tu '. » 

V. lá que esta alma . árida como a urze da char- 
neca no estio, sente, quando ahi se abriga , refres- 
ca-la um como orvalho do céu. 

A ti , oh promontório escalvado , cuja fronte nua 
varre a procella , c que te penduras sobre o abys- 
mo mysterioso das vagas ; a ti é que eu hei-de amar 

^«"^P^^'- (Ã. Herculano.) 



RorEiso DE D. Joio de Casteo em 1338. 

(Conclusão). 

Do Prologo SC vè claramente que os fallados 0>»í- 
mentnrios de D. João de Castro não são obra dif- 
ferente dos seus Roteiros : e se corrige um logar 
de Jacinto Freire fL." 1.° n.° 16] , quando aflirma 
que D. João passou a primeira vez á índia roni 
praça de soldado , sendo pejo contrario aqui mui 
bem expresso que ia por capitão de uma náu ; o 
que já estava advertido e emendado nas notas, com 
que ura sábio académico , c preciarissimo prelado 
enriqueceu a obra de Jacinto Freire na edição pu- 
blicada pela Academia em lí^.3b. 

O r.oteiro começa assim : — « sabbado seis dias 
«do mez d'abril de ío3S nos fizemos á\e!Ia de i5cl- 
« Icm ; o vento era de lodo calma, mas ajudando-nos 
«a maré', e alguns baleis, que nos ião rebocando, 
«fomos surgir entre S. Gião e Santa Catharina. » — 
E acaba cora estas palavras: — «Quarta feira onze 
«de setembro até horas de véspera foi o venio cal- 
«ma, e dahi começou a viração muito bonança, e 
«logo nos fizemos á vclla ; duas horas da noite sur- 
agimos na barra de Goa , mais por a bondade de 
«Nosso Senhor, que por nossos merecimentos, arte, 
«e saber; onde se acabou a nossa viagem, e este 
« livro. — Laus l)co. » 

O quanto D. João de Castro sabia temperar a na- 



tural scccura da narração de observações astronó- 
micas , e das dcscripções cosmographicas com a 
amenidade de uma escolhida erudição , já será pa- 
tente aos que tiverem lido o Koleiro do Mar roxo ; 
c receberá nova conlirmação do que acerca dos dons 
archipelagos , das Canárias , e Cabo Verde , cscre- 
\cu neste nosso Roteiro, e aqui pomos, por nos 
parecer que não será leitura ingrata. 

Descripçrw das ilhas das Canárias. 
Chamámos Canárias a umas ilhas postas no mar 
atlântico , em a altura de 26 graus até 28 graus : 
correm-se as quatro delias mais chegadas a terra 
lesnordeste c oessudoeste , c as três mais ao mar 
jazem em triangulo. A mais próxima a terra apar- 
tar-sc-ha do cabo de S. Vicenle , em outro tempo 
chamado Sacro promontório , obra de 160 léguas , 
e esta se chama hoje Lançarote , e a mais do mar 
dista do mesmo promontório por espaço de 2-40 lé- 
guas , e por ilha do Ferro hoje este dia dos ma- 
rcantes e peregrinos é conhecida. A estas ilhas an- 
tigamente chamaram bemaventuradas, e morada dos 
deuses , como parece em Ptolomeu , Plinio , Pom- 
ponio Mclla , e outros gravíssimos auctorcs , mas 
todos clles escreveram mui confusamente o sitio , 
confrontação , e altura delias. Esta foi a terra mais 
Occidental, que chegou á noticia dos antigos, e 
por ella lançou Ptolomeu o meridiano , a que cha- 
ma cero , do que me parece que nasceu o engano 
de alguns pilotos cuidarem que na paragem destas 
ilhas não variam as agulhas cousa alguma. E pos- 
toque seja cousa commum a todos serem estas ilhas 
das Canárias as bemaventuradas , o meu parecer é 
que Ptolomeu sentiu oulra cousa , e chamou bem- 
aventuradas ás seis ilhas do Cabo ^'erde , que es- 
tão mais orientaes de todas. A rasão disto c que 
pôz seis ilhas bemaventuradas , que é o numero 
destas , que viu , e na levação do polo guardou 
muito a conformidade e semelhança, porque a mais 
septenlrional de todas, a que chama Aprosyto, 
põe em altura de 16 graus, na qual altura está a 
ilha do Sal , e á mais austral das bemaventuradas 
põe em dez graus, e chama-lhe Pinctuaria , que 
per rasão da altura parece ser a ilha do Fogo, pos- 
toque as alturas variem Ires graus; c assi mesmo 
põe Ptolomeu estas ilhas bemaventuradas debaixo 
de um meridiano , como jazem parte destas seis 
ilhas do Cabo \erdc. E se esta não foi a tenção 
de Ptolomeu , as suas taboas nesta parte vão de lo- 
do o ponto fora de rasão , porque as Canárias , e 
as ilhas, que elle chama fortunadas, se bem olhar- 
mos o silio , altura, rota, e longura , de umas e 
outras, veremos claro não poderem as bemaventu- 
radas ser as que agora chamámos Canárias : e po- 
rem de todas as outras escripturas dos cosmogra- 
phos se pude facilmente tirar serem as Canárias as 
ilhas bemaventuradas , e somente Ptolomeu se em- 
baraçar no conhecimento delias. Estas ilhas das Ca- 
nárias foram descobertas e conquistadas no tempo 

d'elrei D. Fernando o quinto de Casteila 

È cousa muito para notar que sendo es- 
tas ilhas tão visinhas, os moradores de uma não ti- 
nham conhecimento dos que viviam na outra. Os 
canárcos viviam sem casas; mas em covas e chou- 
panas passavam sua vida : adoravam um só deus ; 
tinham linguagem, que elles só entendiam : por ar- 
mas usavam uns paus agudos; é gente bellicosa e 
solfredora de muito trabalho ; correm c saltam pe- 
las montanhas e logares ásperos como a outra gen- 
te o pôde fazer por terra chã ; e assi trepara por as 
rochas , como cabras. Estas ilhas , postoque cada 



120 



O PANORAMA. 



nnia dollas tenha nome próprio, todas em geral 
são chamadas as Canárias , por rasão de em uma 
delias nascerem grandes e poderosos cães, como se 
parece em 1'Iinio , livro (>." de sua Cosmographia : 
a terra destas ilhas é mui abastada de toda a sorte 
de mantimentos e gados, os ares mui sãos, e gran- 
demente temperados. 

Bcscripçuo das ilhas do Cabo Verde. 

O Cabo Verde , ao que posso comprehcndcr , c o 
promontório, a que Plínio e I'omponio chamam Hes- 
perionccras. Estas ilhas são as insulas Gorgonas , 
morada dasMcduseas, e o mar, que lava estas 
terras , o golíão hesperio. A causa de isto assi ha- 
ver de ser , são as palavras de Plinio [livro 6.° 
cap. 31], que dizem desta maneira = deste pro- 
montório se começa a fronlaria das terras a virar 
.lo occidentc e mar atlântico , e direito delle estão 
as ilhas Gorgonas , espaço de duas jornadas navc- 
gando = que quer dizer , duas singradiiras. E por 
quanto as seis ilhas do Cabo Aerde, que estão mais 
orientaes das outras , distam do mesmo Cabo por 
70. .80 léguas, qne são duas singraduras de vento 
galerno, a que Plinio chama jornadas , parece qne 
fica claro o Cabo Verde ser o promontório Ilespe- 
rionceras , e as ilhas , que se lhe oppucm , a sa- 
ber , que se chamam do Cabo A^erde , insulas Gor- 
gonas , morada das Meduseas. E faz muito a este 
propósito sabermos que das Canárias, ou ilhas bem- 
avcnturadas , para o sul não ha outras ilhas senão 
estas, para que digamos que possam ser as Gorgo- 
nas; nem outro promontório mais illustre , que es- 
te do Cabo A'erde, e que con: tanta rasão possa ser 
o llesperionceras. Porem se houvermos de conje- 
cturar estas conferencias polias taobas de Ptolomeu 
[taboa 3.^ da Africa] , olhando á altura , c longura 
do promontório llesperionceras , parccer-nos-ha ha- 
ve-lo então de ser a ponta da serra Leoa , com tan- 
to que as ilhas do Cabo Verde , ou Gorgonas , se- 
jam as fortunadas , o que não é rasão , porque em 
tal caso as nossas alturas e longuras se conformam 
com as de Ptolomeu , as quaes alturas e longuras 
ficam mui differentes, fazendo das Canárias as ilhas 
bemaventuradas, como é justo, e opinião commum, 
Assi que nesta parte não devemos estar por Ptolo- 
meu, nem é honesto poder-sc cuidar que estas ilhas 
do Cabo Aerdc sejam as fortunadas, como quer que 
a esterilidade delias, e destemperança do ar sejam 
de todo o ponto contrarias ao que se escreve da 
fertilidade e suavíssimos ventos e ares das fortuna- 
das , as quaes qualidades se acham nas Canárias. 
Destas ilhas do Cabo Verde 370 léguas a loeste 
passa o meridiano , que determina a conquista e 
navegação de tudo o universo entre os reis de Por- 
tugal e Castella , a saber , 180 graus deste meri- 
diano para o oriente é dos reis de Portugal , c ou- 
tros 180 para a parle do occidente dos reis de Cas- 
tella. Esta quantia de graus ccaminho, que perten- 
ce a Portugal , até o dia de hoje não são acabados 
de navegar , porque as armas dos portuguezcs so- 
mente são mostradas aos povos da China e Aloluco, 
ficando-lhe ainda muitos caminhos para fazer pelo 
oriente dentro , até chegarem ao lim e termo dos 
180 graus , que per direito lhes pertence. 

Os curiosos de contrastes e myslerios não deixa- 
rão de observar a sorte singular destes Roteiros , 
cm irem sahindo á luz na ordem inversa da sua 
composição. 

Que é feito do 2." Roteiro da cost» da índia , de 



que D. João de Castro falia repetidas vezes no de 
Goa a Diu , que c o 1.° daquella costa? 

J. H. da (Junha Rivara. 



Curso elementar d' Ãgrieullura, de Mr. Raspai I , tra- 
duzido e annotado pelo Sr. Dr. A. J. de Fifjueiredo 
e Silva. — Tratado o.° e ultimo. Economia rural. 
Logo que se annimciou a vulgarisação desta obra , 
que versa sobre tão ponderosa doutrina , como são 
os preceitos geraes porque se governa a Agricultu- 
ra , tratámos de a inculcar aos nossos leitores. Vi- 
de Panorama, N.° 1(17 [de 1840]. Dos primeiros 
tratados , a começar pelo da Lavoura , dêmos espe- 
cial noticia : e tivemos o prazer de ver posto em 
corrente e linipa linguagem portugueza um livro 
que em França mereceu notáveis elogios. E incori- 
tcslavelmente um dos méritos do nosso Iraductor o 
cuidado que lhe mereceu a língua, que com a maior 
semrasão desprezam muitos, que para ahi trasladara 
obras puramente lillerarias , com tanto menor des- 
culpa quanto é sem compararão mais fácil a sua 
tarefa , não tendo que atlender a terminologia par- 
ticular , nem á concisão c perspicuidade d'cstilo, 
que em obras didácticas são requeridas sem prejuí- 
zo da indispensável clareza. 

De todos os tratados, este da Economia rural é 
o de mais gera! applicação, quasi que não precisa 
do estudo de inducções e comparações : até para 
facilitar mais o seu uso, ajuntou-lhe o traductor 
notas profícuas , contendo , entre outros objectos , o 
methodo simples para o lavrador formar suas con- 
tas , a reducção de nossos pczos e medidas ás uni- 
dades do moderno systema francez ; no corpo da 
obra , onde convinha , tinha feito as reducções á 
nossa moeda. — .\brangc o tratado — 1.° o q\ie diz 
respeito ás habitações agrícolas , e aos apriscos e 
dccommodações dos animacs domésticos; — 2.° o 
que é concernente aos capitães para grangeio de 
uma fazenda, e á sua contabilidade; — 3." quanto 
convém saber-se acerca da creação dos gados em 
geral e em especial , e melhoramentos das raças , 
sem desprezar algumas noções veterinárias. — \.° 
trata do mel, dos laclicinios , das farinhas, e das 
bebidas fermentadas : em snmma afora muitas cou- 
sas úteis , remata com excellentes corollarios d'e- 
conoinia publica e rural, que aos interessados mui- 
to cumpre estudar. 

Intenta o mesmo Sr. Dr. Figueiredo em seguida 
a este curso publicar os^.Vnnaes d'.^grirnllura=r 
por quadernos mensaes, para que este ramo impor- 
tanlissimo tenha seu particular representante em a 
imprensa portugueza, como já os teem outras scien- 
cias , por exemplo — as medicas: — louvável é seu 
empenho , e por isso damos em substancia o seu 
programma. — Terá pois por lim — «Instruir os la- 
vradores porluguezes acerca do estado actual e su- 
bsequentes progressos da Agricultura nos paizes mais 
adiantados; bem como sobre o que nas outras artes 
e sciencias lhe disser immedialo respeito. — Regis- 
tar quaesquer descobertas , observações e ensaios 
feitos no nosso paiz ; para o que se acceita e se 
agradece a collaboracão de todas as pessoas compe- 
tentes. — .\dvogar os interesses da classe agrícola , 
propondo, discutindo e vulgarisando (]uaesquor al- 
vitres , que possam concorrer para o augmento de 
sua prosperidade. — Publicar as noticias, que che- 
garem ao conhecimento da redacção , bem como to- 
dos os actos do poder executivo , projectos de cor- 
tes &c., que d'algnm modo vão iuUuir na sorte do 
lavrador porluguez. « 



69 



o PANORAaiA. 



121 



■1 







o CA3TELI.O SE SANTIAGO SE CACEPI. 



A MLLA de Santiago de Cacem , na província do 
Aiemléjo , c iiispado de Béja , eslá situada na en- 
costa oriental d'um outeiro em cujo cume campeara 
as ruinas d'um antigo castelio. Pela posição eleva- 
da em que está, e pela solidez e rijeza de seus nia- 
leriaes . mostra ter sido o dominador do paiz cir- 
cumvisinho. A sua cerca ou muralha era rodeada 
de dez torres, de que só existem nove, porque uma 
foi derrubada era 1822 quando se edificou a fronta- 
ria da igreja situada em um dos ângulos do sul. 
Destas nove torres, cinco são redondas e quatro 
quadradas , sendo a collocação destas ultimas — 
duas nas frentes de sul e norte , e duas nos ângu- 
los do poente. Tem no centro seu alcarar fortifica- 
do, sua cisterna espaçosa, c sua torre de menagem 
[de que apenas metade está em pé]. O desenho pre- 
cedente mostra o lado oriental : devia appresentar 
quatro torres; porem a igreja occupa , como disse- 
mos, o logar da primeira da esquerda. — A sua ori- 
gem perde-se nas sombras dos séculos. Se foi fun- 
dação dos fenícios , dos romanos , dos godos ou dos 
árabes, quem o sabe? — A historia nada diz a este 
respeito, e apenas os monumentos e a tradição ele- 
vara sua débil voz. 

A pouco mais d'uma milha ao nascente deste cas- 
telio, sobre outra eminência, junto á ermida de 
S. Braz , se vêem os restos d'outro forte de diver- 
sa construcção , e ao parecer mais antigo. Sendo 
prior desta matriz Bonifácio Gomes de Carvalho , 
mandou cm 1800 , por ordem do Ex."" bispo de 
Beja , D. Fr. Manuel do Cenáculo , fazer ahi exca- 
vações: o resultado foi achar-se uma escada de pe- 
dra , que Gnalisava em uma casa cuja abobada es- 
tava cabida. — Xcsta mesma escavação se acharam 
cinco pedras de mármore contendo inscripções ro- 
manas , funerárias, que se lêem perfeitamente, al- 
guns penates , e uma figura da divindade protecto- 
ra dos jardins; o que o Ex.""" Cenáculo levou: e 
um pedaço de pedra era que se viara distinctamen- 

te as lellra3 = /'or/a Cicit Esta pedra dcsappa- 

receu : é provável que esteja sepultada em algum 

Abuij. 22— 1843. 



cabouco , ou que o marrão a reduzisse a estilhas. 
— Na parede do adro do hospital está encravada 
uma pedra quadrada, cm cuja inscripção, já gasta, 
se lè ainda ^^ Esculápio Deo.= Estes e outros mo- 
numentos confirmam ser esta villa a Mirobriga dos 
antigos, occupada depois pelos romanos; e d'aqui 
se pôde coilígir que o castelio de S. Braz [nome 
que lhe dão por estar junto á ermida] era fundação 
deste grande povo, visto os monumentos que ahi se 
acharam e se estão achando (Ij. 

A fundação de Mirubriga é attribuida aos cyprios, 
no domínio dos celtas , se acreditarmos Manuel de 
Faria e Sousa. Eis suas palavras: — «Junto á la 
«villa deCacen fundo esta gente [cyprios] la ciudad 
« de Mirobriga : verdadcro lestimonio son de su as- 
ei siento sus vestígios. Resulto el nombre de Ias oOi- 
«cinas de fundir metal con artificio estremado, pro- 
«prio dcstos fundadores, que por ello se llamavan 
«Mirones. La primera mítad deste nombre junta ai 
«otro de Briga [que es fortaleza, y comun á casi to- 
adas las de Espana] hizo cl de .Mirobriga, qui tam- 
« bien fué celebre por las excelentes obras , desta 
«calídad, vistas en ella : y conocida por el culto 
«que seguia de Vulcano , Dios de lales fabricas, 
«cuya imagen bien esculpida fué hallada cn sus 
n ruinas. u 

Por estas palavras se vò qual foi a sua origem. 
Os romanos occupando-a depois, ahi deixaram ves- 
tígios bem evidentes de seu domínio. 

Mas quem fundou o castelio de que primeiro fal- 
íamos? Será obra dos fundadores de Mirobriga? se- 
rá fundação dos romanos? Não o sabemos. — Só po- 



( 1 ) No anuo de 1 841 snccecieii que andando um trabalha- 
dor apanhando pedra junio das ditas ruinas, descobriu um 
tumule de cinco palmos em quadro . ferhado com abobada 
d'alvenaria : dentro continha muitos ossos qua^i desfeitos , 
um vasu , á maneira de garrafa, de vidro; um copo; um 
anel lie prata em cuja pedra se via esculpida uma Osura 
acavallo ; uma esj-ecie de chuço ; e uma moeda de bronze , 
em que ainda se di>liuiuiam as letlras — S. C Achou mais 
em diversos sities jraude quantidade de telha etijollos: sen- 
do estes de 2 palmos de cumpr. e 1 "^ de larjç. 

2." Seiue. — VoL. II. 



122 



O PANORAMA. 



' 



dêmos saber alguma cousa a seu respeito do rei- 
nado de D. Diniz por diante. — Ouramos primeiro 
António Coelho Gasco , nas suas antiguidades de 
Coimbra — c. 26. 

«Foi a esclarecida princeza D. Balara filha do 
infante Lascaro, que era filho de Theodoro Lascaro, 
filho do imperador da Grécia , Cario João Bataço 
(ou Valace] , e da nobre imperatriz Ilerenc , sua 
primeira mulher. Depois da morte do imperador 
succcdeu em seu império Theodoro Lascaro seu fi- 
lho , c por seu fallecimento deixou seus filhos em 
guarda do t\ ranno Paleologo , que barbaramente os 
mandou matar, e usurpou aquelle império; por es- 
ta causa , esta nobre infonta se intitulava filha do 
imperador dos gregos ; veio a Aragão reinando el- 
rei D. Pedro, trouxe comsigo duas filhas que leve, 
sendo casada com o conde de Viulemillia, e deixou 
um filho era Génova , chamado João Lascaro , que 
foi conde de Vinlemillia. As filhas se chamavam D. 
Violante , D. Beatriz da Grécia , e D. Balaça , que 
•'• a de que escrevemos. D. Violante casou com D. 
Pedro , ueto de clrei D. Jaime , de que houve suc- 
cessão ; c D. Balara veio a este reino de Portiigal 
por aia da rainha Santa Isabel , e foi com a rainha 
D. Constança por sua camareira-mór a Castella , 
quando celebrou as bodas em Alcaaiz com D. Fer- 
nando o 4.°, rei de Castella (2) , e ficou por tutora 
<ios infantes D. Pedro c D. João , por o mandar a 
rainha D. Constança, que falleceu em Sahagum (3). 
Depois a infanta D. Balaça (4) , fazendo á sua cus- 
ta uma poderosa armada , e com muitos soldados 
navegou para Sines , onde junto delia ha^ia uma 
fortalecida villa , que naquelles dias era habitada 
de mouros. Junlaram-se com ella muitos cavallci- 
Tos calhnlicos dos logares circumvisinhos , cavallei- 
rosamente a tomou á força d'armas em um domin- 
go , cujo combate foi animosamente combalido , e 
houve finezas de cavallaria ; e por esta bellicosa 
princeza a ganhar dia do apostolo Santiago , e ma- 
tar a Casse , rei mouro delia , lhe chamaram a es- 
to logar dabi adiante — Santiago de Cacem.» 

No livro das Visitas da dita villa a fl'. io9 se 
acha a seguinte memoria feita pelo ditoEx."" bispo 
de Beja. — Depois de ter faltado de umas relíquias 
achadas nas ruinas da velha matriz , continua di- 
zendo : — 

<i Povoação antiga c decorada com fidalguia e no- 
breza , donde derivara , e com as quaes combinam 
famílias nobilíssimas do reino: villa de assento le- 
vantado, sadio , e rico das melhores producções da 
terra: villa de muita religião em todas as idades, 
c o que se me oflerece cm idéa geral ; contrahindo 
a oração para o assumpto particular , foi esta villa 
distinguida pela infanta da Grécia D. Balaça. — 
Neste logar cumpre dizer desta insigne matrona , 
cuja ascendência ó como proponho. — Irene cu in- 
fanta Lascara , era filha de Iheodoro Lascaro, filho 
de João IJataço, e seu successor no império da Gré- 
cia, por haver casado João lialaço, príncipe do me- 
lhor daquelle império , com Irene , filha do outro 
Theodoro Lascaro, o 1.° Esta Irene, filha de Theo- 
doro Lascaro, o 2.°, casou em Génova com o conde 
de Vinlemillia, depois que Miguel Paleologo, tutor, 
lyrannicamenle arrancou os olhos ao pupilo João , 
b'gilimo herdeiro , e casou a Irene Lascara cora o 
tlito Vinlemillia. Esta Irene Lascara teve de Vinte- 
millia Ires filhas , Violante , Beatriz da Grécia , e 

(3) Gar. liv. l."!. dcl. com. cap. 27. 
(.1) S.irit. 1. p. liv. 5. in fin. 

(4) Res. lib. 4 il« aut. Lus, - - 



D. Balaça ; e com ellas veio para Aragão , no tem- 
po delrei D. Pedro, pai da nossa rainha Santa Isa- 
bel. — Balaça veio a Portugal dama da rainha San- 
ta, e casou cora D. Martim Aniies dos de Sevorosa. 

((Havendo Balaça creado em Portugal D. Cons- 
tança , filha d'elrei D. Diniz , sendo sua aia, pas- 
sou com ella a Caslella por sua camareira-mór ; e 
a esta mesma Balaça deu elrei D. Fernando a crear 
seu filho Affonso undécimo. — Accrescenlara os his- 
toriadores castelhanos e jxirtuguezes , que I). Cons- 
tança , filha dos reis de Portugal , e mulher d'elrci 
D. Fernando de Caslella , morrera de paixão , por 
lhe tirarem a educação de seu filho, que depois foi 
rei D. Affonso , e do poder de D. Balaça , que o 
creava , sendo entregue a seu avô , c aos infantes 
D. Pedro c D. João. — Os desgostos de Balara na 
tutoria d'clrci D.Atfonso, a fizeram vir a Portugal; 
e está enterrada na sé antiga de Coimbra, e os pa- 
peis a ella pertencentes se guardam no cartório da 
mesma só , e pôde bem ser que alguns em Alcoba- 
ça , porque o chronisla-mór do reino , Fr. Francis- 
co Brandão, no que imprimiu, promello dizer mui- 
tas mais cousas de Balaça, que por sua morte fica- 
ram reservadas. 

<(A combinação de Balaça com esta villa de San- 
tiago , aponta Brandão ; porque o mestre daquella 
Ordem , D. Diogo Moniz , fez com Balaça a troca 
pela villa dePunoias e Santiago de Cacem, da com- 
menda e rendas do logar de Villalar, que D. Bala- 
ça tinha cm llespanha , feita a cscriptura em 1.302 
nnnos. O moli\o das doações declara elrei D. Fer- 
nando nas pala\ras que copiou Brandão : = j'»!" la 
bnena crianza que ella fizo cm la dicha llcina D. Cons- 
íaH3a.= Balaça, estando senhora do terreno de San- 
tiago de Cacem , cuidou em ennobrccc-lo. 

((A igreja prometia ser obra sua, pelo menos em 
rer Jificação ; pois que a reclusão das lasquinhas do 
Santo-Lenho, segundo as maneiras da igreja grega, 
em relicário de [irata , depositado cm columna de 
mármore, que sustenlava a mesa ou altar, assim o 
desengana. — Estas lasquinhas seriam tiradas da 
grande relíquia do Santo-Lenho que a racsraa Bala- 
ça deu á igreja ['ój. Era fácil cousa ikc. éíc. [con- 
tinua fallando da roliquKij , e mais abaixo diz: 

((Comtudo o nome de Cassem do sitio próximo a 
Santiago, é árabe, do tempo era que nellc dominou 
aíiuella nação. — Revendo eu as bibliolhecas d'Her- 
belol e Casiri , c outros escriplos com a geographia 
nubiense , sim acho homens doutos , e imperantes 
em outros paizes com o nome de Cassem; comtudo 
não encontrei algum nestes sítios , havendo-me per- 
suadido que a povoação Santiago deve este nome ao 
esforço e serviços daquella Ordem. 

Continua fallando das relíquias, e mais abaixo diz : 

(iPara ser abonada esta resolução do culto, apon- 
to abaixo as doutrinas c auclores que podem ser 
consultados. — Começando pelas espécies históricas 
acerca da vida c acções de Balara , veja-se Surila 
Anuaes de Aragão I^. 3. c. 75. L. ii. c. 105. Mo- 
narchia Lusitana L. 18. c. 38. 

"Esta memoria offercço ikc. «kc. 

(1 B('ja em 12 de Março de 1799. — Fr. Manuel 
bispo tic Itcja. » 

Copiámos quasi inteira esta memoria , porqnc é 
por ella, e |)elos monumentos mencionados, que se 
pôde saber alguma cousa a respeito da dita villa. 



(5) lista relíquia , descoberta nos entulhos (l'ym aliar 
arruinada ifireja , i niuilo venerada pelos haljilanle.s des- 
villa , e a cila usam recorrer pur ijcca£iu(^ de cstereiií e 



da 

la V 

aturadas sêccos. 



o PANORA3IA. 



122 



Agora em quanto aos castellos ; qual dclles senho- 
reava o inoiiro Cassem, é cousa Ião diflicil d'ave- 
riguar como a sua origem. Talvez para o futuro al- 
guma anlifiiialba venha resolver este problema , e 
dar mais liu Js conjecturas que a este respeito se 
formam. 

A. de M. c S. 



Hsíosi c costumes singiiUircsf. 

Abobigenks da COLLMniA (*). 

QcANDO os habitantes do velho mundo descobriram 
o novo, encontraram nas regiões, que hoje conhece- 
mos debaixo do nome de Columbia , duas socieda- 
des de indígenas, perfeitamente distinctas. Compu- 
nha-se a primeira d"iiidividuos selvagens, feros, an- 
thropophagos , habitadores das vastas planícies de 
Caracas, Cumana , d'Apure e dn Orenoco. Viviam 
esses desgraçados povos do fructos agrestes, da pes- 
ca e da caça. Na estação das cheias se aglomeravam 
nas ramadas das arvores , onde momentaneamente 
estabeleciam moradia , a imitação dos macacos. A 
dilliculdade de correspondência os dividia em uma 
quantidade innumcravcl do pequenas nações , difle- 
rindo entro si era costumes e linguagem. 

Os homens que formavam o que poderíamos cha- 
mar segundo grupo , viviam em um estado adianta- 
do, comparável ao dos antigos egypcios. Habitavam 
as partes montanhosas. Foi uma das ires grandes 
nações civilisadas que os europeus acharam , espa- 
lhadas pelo solo americano, a dos muyzcas ou moz- 
cas. 

Os muyzcas residiam na província de Cundina- 
marca. As chapadas de Bogotá eram o centro do seu 
poder. Só as tradições fabulosas deste povo basta- 
riam para indicar uma sociedade cuja organisação 
remonta á mais alta antiguidade. Já seus avoengos 
existiam , dizem elles, e a lua ainda não era com- 
panheira da terra. \'essa epocha os habitantes das 
chapadas de Bogotá viviam como barbaras. Anda- 
ram nús, ignoravam a arte da agricultura, afimen- 
tavam-se de comidas grosseiras, c achavani-sc, n'u- 
ma palavra, no estado o mais abjecto e deplorável. 
De repente , um ancião apparecc no meio d'clles; 
vinha das planícies situadas a leste da cordilheira 
de Chingosa. Trazia barbas crescidas e vestidos , 
o que os fez suiipòr que pertenceria a raça diííe- 
rente. Esse homem tinha três nomes, mas o de ISn- 
chica prevalesceu entre os mui/zcas. Foi quem lhes 
ensinou a cultivar a terra , a lavrar , a semear , e 
a tirar da colheita todo o partido que a industria 
de um povo agrícola irella pude achar. Feito isso 
ensinou-lhes também a arte de se vestirem segundo 
a differente temperatura das estações ; a de edifica- 
rem moradas solidas, a dcreunirem-se para viverem 
cm sociedade, soccorrerem-se , e ajudarcm-se re- 
ciprocamente. Tantos benefícios lhe haviam angaria- 
do a veneração publica , e nada se opporia a que 
elle gozasse d'uma inteira felicidade , se não fosse 
a malícia de Umjlkaca sua consorte. Esta malvada 
mulher dedicou-se aos mais abomináveis sortilégios 
para fazer sahir o rio Fanzha do seu leito. Então 
toda a planície de Bogotá foi destruída pelas aguas, 
a maior parte dos homens eanimaes pereceram nes- 
se diluvio , c o resto refugiou-se para o cume dos 

(*) Viil. a reípeilo da Calumhia o que dissemos tratan- 
do deBolivar, vol. S." pag. 348 e 355. 



mais altos montes. ISochira , indignado , expelliu-a 
para longe da terra , o que quer dizer que a man- 
dou matar. A tradição accrescenta que ella se me- 
lamorphoseou em lua , gyrando incessantemente a 
roda da terra para expiar seu crime, tíncliica que- 
brou os rochedos que fechavam o valle do lado de 
Canoas, c de Tequendama , para facilitar o escoa- 
mento das aguas; reuniu os homens dispersos, en- 
sinou-lhes o culto do sol , e morre\i cheio (l'annos 
c de gloria. 

Faremos aqui observar , que esse ultimo acto do 
poder de Bochica explica, no pensamento dos muyz- 
cas , o phenomeno da celebre cascata deJequenda- 
ma , onde se precipitam as aguas de uma altura de 
mais de oitenta braças. 

Esse culto do sol e da lua entre os aborigines 
destas regiões é também atlestado por monumentos 
de grande interesse para a historia. Taes são os ro- 
chedos de granito das solidões do Orenoco, em Cay- 
cara. Urbana, perto do Rio-Branco, e doCassiquiá- 
re. A^èem-se ahi esculpturas de alta antiguidade, 
que representam, quasi á maneira dos egypcios, as 
imagens do sol e da lua, assim como serpentes, cro- 
codilos , tigres , e diversos instrumentos ou uteusi- 
lios caseiros , &c. 

Outros monumentos depõem também a favor da 
antiga civilisação dos povos achados no solo da Co- 
lumbia. Vc-se, por exemplo, nos arredores deCuen- 
ca , no departamento do Assuay [hoje republica do 
Equador] os magníficos vestígios da antiga calçada 
construída pelos Incas , ou soberanos do Perii , c a 
fortaleza de Oinar ou Ingapilca. É um muro do mui 
grossas pedras de cantaria lavrada , que forma um 
oval, cujo eixo maior tem mais de IbO palmos de 
comprimento. No centro acham-se as minas de uma 
pequena casa, cuja idade iguala á da fortaleza. Es- 
Ic monumento está situado cm uma assentada sobre 
um pequeno morro. — Os arredores de Lalacnnga , 
sobre a vertente do Cotopaxi , são igualmente cele- 
bres pelos restos de dois monumentos pcruvianos : 
o Panecillo e a Casa do inca. O Pauecillo ou Pão 
d'Assucar, c ura tumulo cónico, que devia ter ser- 
vido de sepultura a alguma grande personagem. A 
casa do Inca é um vasto edificio quadrado onde 
ainda se vêem quatro grandes portas exteriores, oi- 
to caraeras , dezoito nichos distribuídos syraetrica- 
mcntc , e alguns cylindros próprios para pendurar 
armas. 

O governo dos muyzcas era \ima mouarchia abso- 
luta. A aucloridadc do seu chefe supremo, ozaque, 
não era moderada senão pela do supremo ponlilice. 
O primeiro residia em Iroca , o segundo cm Ttmja. 
Havia em Samngoso um templo do sol ou de Bochi- 
ca , que os devotos iam visitar em peregrinação , c 
onde se celebrava , lodos os quinze annos , um sa- 
crificio humano. A victiraa era um menino tirado á 
força da casa paterna era uma aldèa do paiz conhe- 
cido hoje pelo nome de .S'. Juan de los Itatios. Era 
o guesa ou o vagabundo , isto é a creatura sem asi- 
lo ; e entretanto criavam-o com grande cuidado ate 
á idade de 15 annos. Este período de la annos for- 
ma a indicção chamada dos muyzcas. 

Então o guesa era conduzido em procissão pelo 
suna, nome dado ao caminho que Bochica havia se- 
guido na epocha em que vivia entre os homens , e 
chegava assim á cohimna que servia para medir as 
sombras equinociaes. Osxéques, ou sacerdotes mas- 
carados á maneira dos egypcios, figuravam o sol, 
a lua , os symbolos do bem e do mal , os grandes 
reptis , as aguas , e as montanhas. Chegando á ex- 



121 



O PANORAMA. 



treraidade do suna , a victima era amarrada a uma 
pequena coliimna , e morta a frechadas. Os xeques 
recolhiam-llic o sangue em vasos sagrados, c arran- 
cavam-lhe o coração para o oflcrcccr ao sol. 

Este povo lambem é celebre pelo uso dos hiero- 
glyphos , e pelo seu calendário lunar, gravado so- 
bre uma pedra que foi descoberta pelo fim do 16.° 
século. Sabe-sc alem d'isso que havia trcs espécies 
d'annos, e por conseguinte Ires calendários. O pri- 
meiro anno era ccclesiastico, e conipunha-sc de 37 
luas : o segundo era civil, e conlava-se por áOluas ; 
o terceiro era o anno rural de 12 a 13 luas. Entre 
os muyzcas as luas se dividiam cm semanas de três 
dias. 

Depois do descobrimento do novo mundo, diversas 
nações deste continente se appressaram a enviar pa- 
ra l;í colónias. Os inglezes c francezes povoaram 
as costas , os castelhanos foram aos Andes , e até 
ousaram subir a montanha. Viram na Cundinamar- 
ca , sobre a planície de Bogotá, c cm Quito, os 
vestígios de uma antiga civilisação, c trataram com 
esses povos illustrados , que se lhes submetteram, 
para formar um império llorcscente. Os primeiros 
não haviam encontrado senão tribus ferozes c hordas 
selvagens que fugiam diante dos reccm-chegados, e 
recusavam a civilisação que se lhes offerccia. 




MOYSES. 

O M-Gisunon do poTo hebreu, Moysés , era um is- 
raelita da tribu de Levi , filho de Amram e Joche- 
bcd (1) ; nasceu no Egypto no anno de 1571 antes 
de Chrislo , conforme a vulgar cbronologia. Sua 
mãi para o esquivar ao infanticida edicto de Pha- 
rao , o expoz, <:ontando apenas trez mezes, cm uma 
cestinha ou berço de vimes sobre as aguas do Ni- 
lo (2). Ahi o encontrou' uma lilha de 1'haraó quan- 
do tomava o banho, e compadecida o salvou e man- 
dou criar , dando-sc a circunislancia de ter o me- 
nino por ama sua própria mãi , pelo que nunca se 
pôde di zer se p, Trado do povo escolhido. Foi cduca- 

(1) Êxodo. cnp. 3.°— 1.°— ; eap. 6." — 19. 

(2) Ex. cai), a." 



do na corte , onde aprendeu toda a sabedoria dos 
egypcios (3). Na idade de varão concebeu a idéa 
de resgatar do capliveiro o povo seu consanguíneo, 
e presenciando o niáu tratamento que um egypcio 
dava a um israelita, matou aquelle , e o enterrou 
na areia : querendo porem no dia immediato conci- 
liar dois hebreus mal avindos , em vez de acceita- 
ção achou repulsa, e lançaram-lhe cm rosto a mor- 
te do egypcio : não recebido do seu povo , e teme- 
roso da vingança dos estranhos, fugiu para o paiz 
dos inadianilas na Arábia Pétrea , onde pastoreou 
rebanhos , e tomou por mulher a filha de Jethro , 
sacerdote daquelle paiz. — Guiando os gados de 
seu sogro nos descampados do Sinai, appareceu-lhe 
Deus no monte Horeb , em meio da çarça incom- 
busla , ordenando-lhe que voltasse ao Egypto , e se 
collocasse á testa da gente de Israel , servindo-lhe 
de conductor para a promettida terra de Chanaan. 
Era Moysés tardo no fallar , e por isso lhe deu o 
Senhor por companheiro o irmão delle Aarão , que 
se explicava bem. Acceitou Moysés a missão por 
obediência, e pelo flagello das dez pragas constran- 
geu o Pharaó , que então reinava , a consentir na 
partida dos israelitas ; e quando aquelle príncipe 
enfurecido os perseguiu na retirada abriu as aguas 
do mar-vermelho , que depois da livre passagem 
franqueada ao povo dilecto se reuniram afogando 
os perseguidores. — Acampados nas raizes do Si- 
nai , o Senhor lhe promulgou a lei : por quatro de- 
cennios continuou a guia-los na dilatada peregrina- 
ção, pelos patriarchas annunciada ; e lendo nomea- 
do a Josué por seu successor, falleceu de 120 an- 
nos no monte Pisagh , do lado oriental do Jordão , 
de cuja summidade lhe foi permittido avistar a Ter- 
ra da promissão; ficou seu corpo no paiz deMoab, 
e o logar exacto da sua sepultura permaneceu des- 
conhecido : como selo no Deuteronomio, ultimo ca- 
pitulo ; e lambem na epistola catholica do apostolo 
S. Judas, onde o v. 9.° é o seguinte : — Porem Mi- 
chael o archanjo , quando contendia cora o diabo , 
e tratava do corpo de Moysés , não ousou a contra 
elle pronunciar juizo de maldicção ; porem só dis- 
se : o Senhor te redargua. 

OPentateuco, isto é os cinco primeiros livros bí- 
blicos, foi escripto por Moysés, menos o Si." cap. 
do Deuteronomio , em que se trata da morte do 
mesmo legislador : dcduz-se isto de xim grande nu- 
mero de passagens dos mesmos livros; alem de que 
a harmonia que entre elles se nota suppfiera o mes- 
mo escriptor. As noticias , que encerram cm maté- 
rias históricas e geographicas , especialmente rela- 
tivas ao Egypto e Arábia, e sobre historia natural , 
artes , e scieucia militar , conformam com todas as 
noções que pudemos formar do estado das cousas 
nesse periodo remoto, descriplas como era de es- 
perar de ura homem que fora educado na corte 
cgypcia, e que depois se empenhara cm dirigir uma 
nação inteira por meio de desertos no es()aço de 
quarenta annos. A linguagem é a mais antiga he- 
braica que se conhece: oeslilo dos cânticos annun- 
cia a sublimidade característica da primeira poesia 
de um povo. A disposição da matéria oITerece in- 
terrupções ou saltos , ora narrações , ora leis e re- 
gulamentos ; c assim havia acontecer a quem esCTe- 



(3) I.ií-se nos Jclos ilos .i/wsl- — cpp- 7." do v. 20 em 
diante — No qii:il tempo nasceu Moysés, e er,i mui formo- 
so, e foi criado três nie/.es em ca>a de seu pai. — E sendo 
engeilado, a filha de Pliaraó o tom' n e o criou para si por 
seu fillio. — E foi M(ijs(!s instruiilo em toda a sabedoria do» 
Egjpcios; e era poderoso era dilos c feitos. 



o PANORAMA. 



12S 



"vessc na sitnarão de Moyscs : a selecção dos malc- 
riaes parece foila na inlcnrão de recordar Indo o 
que era immcdiataraente conncxo com a legislação, 
alvo principal de Moysés ; e vè-sc que as leis são 
repelidas, algumas, mais de uma vez, e outras mo- 
dificadas no decurso da obra, oque manifesta a in- 
terpolação dos períodos, em que foram lançadas por 
• ícripto: ludo indica que o legislador e o historia- 
' r eram a mesma pessoa. 

O Pcnlatei!co traz entre nós seu nome de origem 
i;rcga , porque significa cinco volumes. Era a i)arte 
do Velho Testamento , única reconhecida pelos sa- 
maritanos , oppostos por nacionacs preconceitos c 
usos aos judeus propriamente ditos. Os samaritanos 
o conservaram , ao que elles diziam , intacto das 
corrupções das copias hehreas : o caso c que nos 
dois textos ha respectivamente diflerenças notáveis. 
O Pentateuco samaritano só foi liem conhecido na 
Europa, depois que o arcebispo Tshcr ePietro delia 
Valle obtiveram genuínas copias eitrahidas no orien- 
te : acha-se na Bíblia Polyglotta de .Aloríno , donde 
passou para a de Walton. Deu-o também á \u? ví 
Dr. Blayney em caracteres hebreus cm Oxford, an- 
no de 1790. O original é cm samaritano , isto é a 
mais antiga cscriptura hebraica. 



O Bodo. 

11Í28. 

X. 

Generosidade. 

AroMPAXHA.vDO O conde de Trava, Garcia Bermudez 
altravessou a serie dos aposentos que precediam o 
quarto da rainha , até uma pequena sala immcdia- 
ta á antecâmara real. Apenas os dois cavalleiros 
chegaram alli , um donzel que estava era pé junto 
da porta fronteira á da entrada , afastando um rico 
panno que mascarava esta , e curvando-se respeito- 
samente, proferiu algumas palavras que os dois não 
perceberam. Pouco tardou que D. Thereza appare- 
cesse : trajava ainda o vestuário esplendido com que 
assistira ao banquete, e a viveza desacostumada que 
conservava no olhar, fazia crer que a irritação do 
seu espirito, despertada pelas ultimas novas recebi- 
das do arraial do infante , não havia inteiramente 
cessado. O numeroso séquito das suas donas e don- 
zellas não a acompanhava , e com tremor involun- 
tário Garcia notou que Dulce era quem unicamente 
a seguia. 

.\penas entrou , a rainha encaminhou-se para os 
dois , que successivamente lhe beijaram a mão ain- 
da formosa. Depois , dirigindo-se a Garcia Bermu- 
dez , mas volvendo rapidamente os olhos de quando 
em quando para o conde , lho disse : — 

«Cavallciro, leal é o teu coração; o teu braço 
esforçado , tua condição nobre e altiva : por isso te 
escolhi para alferes da minha hoste. Houve ura tem- 
po em que a filha d'Afi'onso de Leão mal soffrèra 
que outra voz differente da sua surgisse no meio 
do silencio dos cavalleiros de Portugal attentos ao 
brado de accommetter. Esse tempo já lá vai ! — Ho- 
je não sou mais que pobre viuva a quem filho in- 
grato quer privar da herança que recebi dos reis 
de quem descendo. Â ti e ao nobre conde de Portu- 
gal c Coimbra pertence o salvar-mc. Elle será o teu 
primeiro homem d'armas, e como elle todos os que 
ainda não desmentiram o preito que me devem , te 
obedecerão. Assim começo cu a provar-te quanto 



preso ura dos mais illustres cavalleiros d'Hcspanha.» 

K rainha fez uma pausa. O alferes-m('ir aprovei- 
tou aquella interrupção — e respondeu visivelmente 
perturbado : — 

«De mais, senhora, me tendes provado a vossa 
talvez infundada estima : maior do que a realidade 
me tendes feito acreditar o esforço do meu braço. 
Encontrando por vós uma honrada morte no campo 
de batalha eu só poderei mostrar que era pela leal- 
dade , se não digno de tantas honras, ao menos di- 
gno da vossa confiança.» 

«Não faltemos de morte' atalhou D. Thereza. 
Taes pensamentos são de mau agouro nas vésperas 
de combater. A tua vida me é cara , e brevemente 
ella te não pertencerá toda a ti. A mais grata re- 
compensa da tua lealdade, alfcres-mór de Portugal, 
vais té-la. » 

D. Thereza tomou então pela mão a filha de D. 
Goraez Nunez , e fazendo-a adiantar alguns passos , 
proscguiu : — 

«Esta c a recompensa !» 

O conde que preparara aquella scena, dava todos 
os signaes de contentamento aovêr o espanto de Gar- 
cia Bermudez, que recuara ao ouvir similhantes pa- 
lavras. Fernão Peres obtivera com grande difDcul- 
dade que D. Thereza assim constrangesse Dulce a 
dar a mão d'esposa a um homem que não amava. 
Não lhe escondera elle que isto era uma violência ; 
e sem o desgraçado predomínio que tinha no cora- 
ção da rainha as suas diligencias sahiriara baldadas. 
Por isso com sobeja rasão exultava. 

['ma pallidez mortal cobrira o rosto de Dulce ao 
ouvir as palavras da sua mãi adoptiva , que lança- 
ra para ella o olhar que o algoz noviço volve para 
a sua victima antes de desfechar o golpe. A rainha 
sentiu-lhe palpitar o terror na mão que tinha aper- 
tada na sua. 

«Oh senhora! — murmurou adonzella alevantau- 
do os olhos para a rainha, com uma iuDexão de voz 
tão meiga , tão tímida , e tão dolorosa , que a bella 
infanta sentiu apertar-se-lhe o coração. 

« Vamos , formosa Dulce , — interrompeu Fernão 
Peres , que lèu no gesto de D. Thereza o vacillar 
da sua alma — sè comnosco sincera. São mal cabi- 
das aqui palavras fingidas de desamor. — Certo que 
tu suspiravas pelo momento em que podesses cha- 
mar teu um dos mais gentis e esforçados cavallei- 
ros d'Hespanha. Esse momento chegou » 

"Mas, ... senhor conde!» — ■interrompeu balbu- 
ciando o alfcres-mór. 

«Basta, Garcia Bermudez — proseguiu o conde, 
carregando o sobrolho. — És meu amigo, e a mui cx- 
cellente rainha offerece-te para mulher a sua filha 
adoptiva , a herdeira do nome dos Bravaes. Xão é 
digna de ti? Não és tu digno delia ? Esta união prcn- 
der-te-ha mais , se é possível , á terra que tomaste 
por pátria — e eu assim t'o ordeno. Sei que era es- 
se o pensamento contínuo do teu espírito , o alvo a 
que tendiam todos os affcctos do teu coração'?» 

O leitor conhece já o caracter de Dulce : o pri- 
meiro instante de uma situação arriscada era para 
ella o da fraqueza mulheril — mas era só um ins- 
tante. Jfcdiu o abysmo que se lhe abria debaixo 
dos pés... Um dia mais, e estava salva! — Era ne- 
cessário resistir: era necessário colligir todas as 
forças da sua alma. Trémula, mas com energia, ata- 
lhou Fernão Peres: — 

«Xão , senhor de Trava ! Aquella que foi segun- 
da mãi de Dulce ; aquella que sempre se lhe mos- 
trou generosa e indulgente ; a rainha de Portuga! , 



126 



O PANORAMA. 



tem direito a dispor da sua mão ; tem direito a re- 
calcar-me no fundo d'alma todos os aflectos , a fa- 
zer-me devorar em silencio as minhas lagrymas. Se 
não podesse dobrar-lhc a vontade , se elía fosse in- 
flexível, obedeccr-lhc-hia ou morreria talvez! — 

Mas vós , senhor conde , qual c vosso titulo para 
constranger minha vontade? Fostes vós que honras- 
tes o solar dos Bravaes? recebeu D. Gomez Nunez 
algum préstamo de vossa mão? Que vale que vós 
digaes : — ordcno-o — se eu, nobre, e livre, se eu, 
neta dos godos, vos responder; — não será? 

A rainha olhava altonita para Dulce , cuja palli- 
dez c voz trémula desmentia a resolução das suas 
palavras. O furor do conde , cujo animo os aconte- 
cimentos d'essc dia tinham sobejamente irritado, 
ouvindo aqucllas expressões , que tocavam as raias 
do despreso, rebentou subitamente. Esqueceu-se do 
fingido respeito que em toda a parte mostrava pela 
rainha , e principalmente na sua presença , para só 
xe lembrar de que realmente elle era o verdadeiro 
senhor nos paços de Guimarães, desde que D. Thc- 
reza lhe entregara corpo e alma. 

«Quem c que ousa aqui dizer — não será — ao 
conde de Portugal e Coimbra? — bradou elle com 
iim rugido feroz que fez tremer a donzella. — Quem 
ousa nestes paços resistir á minha vontade ? — E 
depois de uma breve pausa, proseguiu, dando uma 
risada : — Ah, sois vós nobre herdeira dos Bravaes ! 
— vós a que não tendes nenhum préstamo de mi- 
nhas mãos! Sois vós a que recusais obedecer-me ? 

Depois de outra vez ficar alguns momentos callado, 
continuou em tom de mofa : — Podeis , senhora po- 
derosa , ordenar que soem as trombetas e timbales 
nos vossos castcllos e honras , que os vossos alcai- 
des juntem os cavalleiros, os vossos villicos os bes- 
teiros, archeiros e fundibularios ; que os vossos al- 
feres desenrolem os baisões dos Bravaes, para mar- 
charem contra o misero conde de Portugal em lide 
d'homizio ! Não , senhor de Trava ! ? — Sim , vos 
digo eu , donzella ! Sim , que é forca assim seja ! 
Dizei-me só por muita mercê : é o pudor virginal 
quem vos obriga a regeitardcs a mão de tão gentil 
tavalleiro?» 

Fernão Peres cruzou os braços, e cravou na don- 
zella o seu olhar de girifalte. Dulce atterrada com 
as palavras e gestos daquelle homem orgulhoso , ti- 
nha cabido de joelhos aos pés da rainha, e apertan- 
do-lhe com as mãos convulsas a barra do epitogio , 
exclamou: — oh, salvai-me , salvai-mc I » 

Dolorosa era a situação de D. Thereza. Amava 
sinceramente Dulce ; mas entre ella e o conde ba- 
Tia laços que não podia , que não quizera quebrar. 
Aquellas expressões insolentes de Fernão Peres , a 
audácia com que elle substituía a própria vontade 
á sua , tinham uma significação terrivcl ; dcspcrta- 
Tam-lhe recordações e remorsos ! O primeiro im- 
pulso do seu espirito altivo foi a indignação ; mas 
a vergonha , talvez o temor , lhe embargou o mani- 
festa-la. Abaixou o rosto , e duas lagrymas lhe es- 
corregaram |)clas faces. 

O alferes-mór , piireni , a fez sahir daquelle esta- 
do violento. 

«Não — disse elle approximaudo-se de Dulce : 
não serás minha victima ! — Garcia Berraudez nun- 
ca se esquecerá do dever de cavallciro. Seria aca- 
so a minha vida mais risonha possuindo-lc, quando 

o leu c<iraçã() me rcgeita ? — Sè livre! — Becu- 

so a posse de Dulce , rainha de Portugal ' » 

A pobredonzella largou os vestidos de D. Thereza, 
e pegando na mão do cavallciro beijou-a soluçando! 



«Eu te amarei como um irmão! — exclamou el- 
la.— Eu te adorarei como um Deus. Oh ! tu sabes 
que só assim... » 

«Silencio! .. interrompeu nobremente o cavallci- 
ro; porque percebeu que Dulce na agitação em que 
se achava ia trahir-se a si própria , e revelar o seu 
segredo. 

O conde continuava a contemplar esta scena com 
os braços cruzados e com um riso cruel nos lábios. 
Dirigindo-se então á rainha proseguiu no mesmo 
tom de ironia amarga: — 

" Bera SC vê , senhora , que o vosso alferes-mór 
foi armado cavalleiro pelo Cid Ruy Dias. Guarda 
puras as tradições daquelle espelho brilhante de to- 
das as cavallarias. Mas eu , fraco mortal , que não 
ponho tão alto a mira, penso mais tranquillamente ! 
Garcia Bermudcz I — Dulce ! — ■ escutai o que vos 
digo: são as minhas derradeiras palavras. Ámanhaã 
a estas horas o alferes-mór de Portugal terá uma es- 
posa, e esta esposa será a nobre e rica herdeira dos 
Bravaes. 

E voltando-se para D. Thereza ajoelhou , beijou- 
Ihe a mão , e disse : — 

n Espero que a mui excellente rainha no momen- 
to cm que vai rccolher-se á sua camará, permittirá 
que o mais leal dos seus vassallos se retire também 
para não perturbar os colloquios de dois amantes 
na véspera do seu noivado.» 

A inflexão que o conde dera a estas ultimas phra- 
ses tinha o que quer que era atroz e diabólico. D. 
Thereza estremeceu como sacudida por uma corren- 
te eléctrica , e atravessando vagarosamente a sala 
dcsappareceu. 

Fernão Peres encaminhando-sc para o lado oppos- 
to , ouviu Garcia Bermudcz repetir com voz lirme ; 

« Não ; tu nunca serás minha ! >> 

t) conde voltou a cabeça sem parar , encolheu os 
homhros , c sahiu. 

Dulce , que licára na postura em que se achava 
com a mão do alferes-mór entre as suas , e a fron- 
te pendida sobre ella, alevantou então os olhos, c 
fitou-os no cavalleiro : o rosto deste era solemne e 
triste : 

«Estás satisfeita, Dulce?» — perguntou o arago- 
nez. 

«Tu és bom c generoso , Garcia ! — tu és bom c 
generoso! murmurou a filha de Gomez Nunez. — 
Poderá cu otYerecer-te um coração ainda virgem ! 
Oh , de quanto amor eu cercaria os teus dias ! » 

«Basta! — interrompeu o cavallciro perturbado. 
— -Que te importa , anjo do céu , se ao passares na 
terra os raios da lua luz devoraram uma existência? 

Que importa?! Oh que nesta idade de 

vida c de esperanças custa muito a morrer !» 

O alferes-mór levou as mãos ao rosto. Era por- 
ventura uma lagryma — e o mancebo cnvergonha- 
va-se dessa lagryma neste doloroso momento ; por- 
que não era só doloroso , mas lambem grave e so- 
lenme. 

«Oh Garcia, Garcia! — replicou Dulce. — Qual 
gratidão poderá exceder a nossa para comligo?! 
Tu me salvaste e o salvaste a elle. Egas, ser-te-ha 
amigo, irmão, servo » 

«Que nome sahiu da tua boca?! — bradou o ara- 
gonez com olhos subitamente accesos de furor. — 
Irmão! amigo! Amaldiçoada a hora em que entre 
nós se dissessem essas inferuaes palavras ! Cuidas tu 
que o amar-te, a ponto de renegar da miidia alma, 
da minha perpetua felicidade , é não o detestar a 
elle?.... Aqui apertando com força o braço de Dul- 



o PANORAaiA. 



127 



ce c fazcndo-a erguer , conliiniou cora toz presa. 
Olha , Dulce , — amanhaã ... Mas não ! ... Sc a sua 
Tida for assaz lar^a para te possuir ... c essa vida 
provará talvez que ellc é \\m covarde .... dizc-lhc 
que se algum dia duas hostes estiverem freulc a 
frente cm lide ou arrancada , c cu for cm uma , e 
elle n'outra , que fuja do sitio onde vir esvoaçar o 
lialsão de Garcia Bermudcz .... Que fuja '. — porque 
ha ahi uma espada que tem sèdc do .seu sangue ; 
porque ha ahi lábios que Ih'o beijcriam ; porque 
bate ahi impetuoso o coração de um seu inimigo 
mortal ! — K dizc-lhc mais ... que este inimigo sou 
eu I — dize-lhe que não ha sobre a terra um logar 
onde caibam clle , cu , e o meu ódio 1 » 

Proferindo estas palavras , o gesto do cavalleiro 
estava demudado. .\fTastou de si a donzella com 
violência, c dirigiu-se rapidamente á poria dos apo- 
sentos exteriores. 

Um gemido de profunda agonia bateu ainda nos 
seus ouvidos ao atravessar a sala immediala ; c o 
desgraçado fugiu, .\^rasta^a-o a desesperação. 

Aquclle gemido partira do seio de Dulce , que 
dera em terra como se fora morta. 

(Continuar-se-ha) . 
(A. Herculano J. 



Go>TALo Hehmigcez. 



Kio basta o movimento, nem a rapidez das acções. 
Não basta a importância dos acontecimentos , nem 
o brilho e a transcendência dos factos para fazer 
desapparecer do quadro de uraa epocha histórica a 
monotonia , que repellc por vezes a attenção , can- 
çaudo o espirito e afrouxando o interesse no leitor. 
Proezas da mesma espécie , façanhas do mesmo gé- 
nero , sentimentos sempre os mesmos, c produzindo 
casos só diversos nos Jogares e nos tempos , dão a 
similhantes quadros uma tinta uniforme, que osdes- 
tiluc da graça , e , por assim dizer , da vida , pró- 
prias para alimentar a imaginação. Se isto é verda- 
de em relação á historia de todas as epochas , mais 
o 6 ainda na historia dos povos semibarbaros , do- 
minados por um sentimento único, empenhados u'um 
esforço sempre o mesmo, e appresentando, por con- 
sequência, a cada passo, caracteres similhantes, cs- 
timuios idênticos, eresullados sensivelmente unifor- 
mes. O espirito , na presença de taes quadros , ad- 
mira por vezes o complexo das imagens , attingc 
n'um momento a vastidão dos resultados , mas des- 
cendo aos proraenores , e achando em todos clles 
uma physionomia commum , não tarda em experi- 
mentar tédio neste exame , e anhella por cuconírar 
uma fórraa, uma gradação de còr diversa que o rea- 
nime, .^contcce-lhe aquillo mesmo que ao viajante 
nas planicies. Bclla , e por vezes sublime , c a im- 
pressão primeira ! A vastidão , a regularidade im- 
põem um momento pela sua grandeza ; mas bem de- 
pressa a vista fatigada perscruta, com uma espécie 
de impaciência, aborda illimitada dohorisonte, em 
busca de um cume, de uma protuberância, de uma 
saliência angulosa, que corte, que interrompa a sua 
acabrunhadora uniformidade. Ivo momento env que 
este objecto distincto apparece . a attenção lixa-se 
sobre elle : a imaginação presta-lhe atavios, que as 
mais das vezes clle não possue, e reagindo sobre os 
órgãos, faz vèr gracioso e bello, nestas circumstan- 
cias, o mesmo objecto que em outras parecera vul- 
gar , e sobre o qual a nisla houvera passado inat- 
tenta. 



liaras batalhas, amiudados c quasi contínuos coín- 
batcs entre chrislãos c mouros r assédios, surprczas, 
tomadas c retomadas de torres e de caslellos : atre- 
vimentos c arrojos de audácia , de tenacidade e de 
perseverança , nma e muitas vezes repetidos , nas 
terras montanhosas de entre Minho e Douro, de en- 
tre Douro e Tejo , ou nas planicies elevadas de en- 
tre Tejo c (luadiana , formam em geral o quadro , 
sobremaneira interessante , pelos seus resultados , 
I)cla sua importância intrinseca, mas até certo ponto 
monótono , da vida c feitos do fundador da nionar- 
chia porlugueza. Alguns factos, porem, destacados 
da tinta commum, ornados d'um colorido c de ata- 
vios d'outra espécie , c mais análogos a outras ida- 
des , surgem , como adornos vivificantes deste qua- 
dro , c sobre clles é por certo grato á imaginação 
fixar-se , e licito á penna chamar por um momento 
a attenção dos leitores. 

Um homem, menos rude que os seus companhei- 
ros, por isso mesmo que ao valor c ás forças de um 
Mendes da Maia, ao génio destemido de ura Giral- 
do , e de tantos varões fortes daquella idade , unia 
o fogo do cerarão , a amenidade de espirito , que , 
em epochas mais civilisadas , tanto prenderam as 
musas á nossa terra ; Gonçalo Hermiguez , a quem 
seu braço ganhara o appellido de Terror dos mou- 
ros , brilhava na corte , ou antes nos arraiaes d'Af- 
fonso Henriquez. Precioso seria se á mão deslructo-^ 
ra do tempo houvessem escapado esses primeiros 
gorgeios do canto nacional , esse accento , essa me- 
lodia, por certo então novíssima para os nossos echos, 
e talvez mais familiar ainda , naquella epocha , aos 
agarenos , já então degenerados , do que a seus ru- 
des vencedores. Achar-se-hiam alli , sem duvida , 
modelos da dicção a mais polida daquelles tempos : 
costumes e imagens que , por assim dizer , nos fa- 
riam assistir ao viver c sentir usual daquellas eras. 
Tudo , porem , consumiu o tempo : tudo se perdeu 
na névoa inseparável daquellas idades rudes, e de 
toda a poesia d'Hermiguez só nos resta a parte emi- 
nentemente poética da sua historia. Não a procura- 
remos appreseníar alterada , não lhe ajuntaremos 
atavios estranhos , dcixar-lhe-heraos as suas cores , 
a sua simplicidade |>roprias, porque o contrário se- 
ria, cm quanto a nós, retocar com pincel grosseiro 
o quadro original, perlendendo abrilhantar com tin- 
ta pretenciosa a singella e antiga luz do painel pri-> 
meiro. 

Em um dos curtos inlcrvallos, que a guerra con- 
cedia raras vezes ao fundador da monarchia, inter- 
vallos mais depressa empregados em preparar os 
meios de levar avante novas emprczas da que em 
descançar de fadigas já passadas , o filho de Her- 
migo Gonçalves [que encontrara a morte na batalha 
de Ourique] desejoso de accrescentar o nome que 
entre os seus já possuia, passou-se com alguns con- 
terrâneos ao sul do Tejo , cora o projecto de arran- 
car aos mouros, e de entregar a seu rei e senhor, 
algum desses castellos , núcleo c refugio do poder 
dos contrários. Consta-nos que a sua attenção se fi- 
xara sobre o castello de Almada, sobranceiro ao 
Tejo , logar demasiado conhecido para que delle 
juntemos uma descripção prolixa. A força com que 
os sarracenos occupavam a praça não permittia a 
Hermiguez, c á pouca gente de seu mando, leva-la 
á força descoberta, o que resolveu o soldado a ten- 
tar apoderar-se delia por ciladií. Talvez ao desejo 
de mais illuslrar seu nome, accrescesse na alma de 
Hermiguez o intuito, não menos natural, de vingar 
a cada instante, no sangue dos infiéis, o sangue da 



128 



O PANORAJ>IA. 



pai veitido na grande batalha. É mais (]iio provável 
que n'ii[ua alma enérgica, sensível e ardcnle qual 
a de Hermiguez, mais de uma paixão, mais de um 
sentimento obrassem a um tempo , c o determinas- 
sem a saliir das sendas vulgares. 

Seja como for, o soldado, conhecedor dos usos e 
costumes dos seus contrários, soube a[)roveita-los 
no intuito meramente militar , que o conduzia ante 
Almada ; mal cuidando que, na occasião em que só 
buscava um laurel para a coroa de soldado , enla- 
çaria nella o myrto do amor, e accrescentaria mais 
uma corda á lyra suave, desgraçadamente perdida, 
mas cujos sons ouviam com deleite os seus rudes 
companheiros. 

Costumavam os mouros , na epocha do estio , e 
particularmente no dia de junho em que a igreja 
celebra a festa do líaptista , pôr de parte os traba- 
lhos, c fadigas ordinárias da vida ; c joviaes, ao mo- 
do do seu tempo -e costumes, sahir ao campo e en- 
tregar-se á folgança de seus usos. Alli gozavam, ou 
dispersos ou reunidos, segundo o [ledia a inclinação 
de cada um . a viração fresca das primeiras horas 
do dia, tão grata no estio aos habitantes dos climas 
meridionaes , esse ar matutino das praias do Tejo , 
mais depressa morno do que frio , e que , soprando 
da parte do oceano , precede a hora em que o nor- 
te rijo e fresco vem deslisar as aguas do rio formo- 
so, na parte onde se confundem com as dos mares, 
entre as alturas fronteiras de Lisboa e Almada. 

A segurança, a paz, a tranquillidade e gozo, a 
alegria e a dissipação que, quacsqucr que sejam os 
costumes e iudole dos povos , quaesquer que sejam 
as formas que lhes dè o progresso da civilisação , 
são sempre acompanhadas do desleixo , do abando- 
no e carência de outros cuidados , entretinham os 
mouros de um e de outro sexo , contemplando , ca- 
da um a seu geito , as límpidas aguas do rio , em 
que se redectiam a margem escarpada , as cristas 
distantes das montanhas do norte , e os cumes me- 
ridionaes da serrania da Arrábida , descendo pouco 
a pouco ao mar, até perdcr-se nas ondas no ca- 
bo extremo entre a foz do Tejo e a embocadura do 
Sado. 

De repente turva a alegria o grito tão conhecido 
da guerra. Brilham de súbito as espadas de Hermi- 
guez e dos companheiros. Velhos , homens , man- 
cebos , matronas e donzellas precipitam-se para as 
portas do castello. Buscam refngio no interior das 
muralhas. O filho robusto ampara na fuga o pai já 
provecto e pezado : a mãi carinhosa corre, apertan- 
do contra o peito o fructo novel de suas entranhas , 
em quanto arraslra outro , quasi pendente da mão 
que treme, .\quella clama pelo esposo que perdera: 
aquelle pela amante que lhe escapara. A privação 
das armas torna impraticável a resistência. Hermi- 
guez carrega sobre os fugitivos , irapclliudo-os ante 
si , mais com os clamores do que com os golpes ; 
porque repugnara a peito tão generoso empregar for- 
ça contra a fraqueza; nem lhe deslembra a lei fun- 
damental de cavalleiros, que anathematiz.lra com a 
infâmia a espada que manchara sangue feminil. 

O tropel fugitivo procura debalde recolher-sc aos 
muros. O temor c o susto calam o scntimeulo, tor- 
nando egoista a turba escapada, recham-sc as por- 
tas da fortaleza , negando toda a esperança de re- 
fugio aos que de fora (içaram. Cessa desde então o 
clamor dos vencedores. l'ra silencio profundo , si- 
lencio como o de morte, exprime o desalento e pa- 
ralysia dos vencidos. Kntregam-sc sem resistência 
ao captiveiro , e vão ser conduzidos peio cbristão 



triumphantc ao monarcha que o aguarda nos muros 
de Santarém. 

1'orcm um cavalleiro armado apparece de súbito 
no meio da turba. Ninguém viu donde sahira , nin- 
guém sabe a intenção que o guia. Chamejam fogo 
os seus olhos, rellecte o sol o gume polido do seu 
alfange. Apparecer , vibrar a espada como um re- 
lâmpago , arrancar aos vencedores a mais formosa 
das captivas , monta-la nas ancas do ginete coberto 
de espuma , fexar esporas e partir como o raio , é 
mais breve de executar que de dizer-se. Mas um 
trovão responde a outro trovão : mas um corisco se- 
gue a outro corisco : Hermiguez voa sobre o mou- 
ro : chocara-se os cavallos : cruzam-se as espadas , 
e o campeão da cruz recolhe , no mesmo instante , 
a victoria e a preza (*j. 

Assim cahiu , ou antes , assim teio aos amantes 
braços de Hermiguez a suave, a formosíssima Oria- 
na. Os rendimentos do cavalleiro , a magia suave 
da expressão do poeta , o influxo divino , trajando , 
nesta circumstancia rara , em vez das asperiuadcs , 
com que por vezes se manifesta, todas as galas, to- 
da fragrância e primor das flores terrenas, obraram 
na alma sensível da gentil agarena. As cândidas ves- 
tes baptismacs , graciosamente unidas com a alvura 
do véu das virgens, com a cândida assucena da mo- 
déstia pudibunda , acompanharam ao altar de hy- 
menco a tríplice captiva. Foi ella as delicias do 
scnsivcl Hermiguez , foi cila o objecto predilecto 
do seu canto. Aos echos das montanhas portuguczas 
ensinou o primeiro cantor o suave nome de Oriana, 
e quando , depois que a morte lh'a arrancara , se 
separou do mundo , votando-se ã piedade e ao reti- 
ro , por vezes lhe ouviram as frescas aguas do Na- 
bão , em que merencório fixava os olhos arrazados 
de pranto [que expressivo é o pranto da saudade 
nos olhos do soldado I ] ouviram-lhc, digo, as aguas 
e as margens da corrente esse nome tão caro da sua 
metade , da sua inspiração , da sua musa , cortar- 
Ihc de quíindo em quando os últimos acccntos de 
cysne moribundo, que votara á devoção, á peniten- 
cia, e não menos á saudade I 

Fernando Luiz Mousinho de Albuquerque. 



O penhasco que halancéa. — Junto a Castres no 
departamento franccz dito do Tarn existe um enor- 
me volume de pedra , que terá 360 pés cúbicos c 
o peso de COO quintaes; é de forma irregular, po- 
rem mais sirailhante á de ura ovo aprumado sobre 
uma das extremidades; está postado á borda d'um 
grandíssimo rochedo na ladeira de uma eminência. 
Por mui avultada que pareça mole tamanha, saiba- 
se que basta simplesmente a força de um homcnj 
para lhe incutir certo movimento vibratório ; e re- 
cebendo o primeiro balanço , o repete sensivelmen- 
te por seis ou sete vezes. Ousaram presumir alguns 
que este penhasco, ao qual de algum modo pode- 
mos chamar oscillatorio, foi assim posto em equilí- 
brio sobre o que lhe serve de base por trabalho c 
industria humana ; c accrescenlaram que seria al- 
guma das celebradas pedras druidicas, symbolo da 
antiga religião das Gallias em tempos bárbaros. 
Não é o único , que assim balancèa ; outros se tem 
descoberto com a mesma e grandemente nutave! 
circumstancia ; é porem de todos c sem compara- 
ção o mais volumoso. 



(•) Temos em metro, no estilo <le xác.ira , este f.acto 
roíuanceajo por outra i)eiina. ViJ. o n." 44 desta S.* Serie. 



70 



o PANORAMA. 



129 




AS MANUCOSIAXAS OU AVES DO PARAÍSO. 



A míTORU das bellissimas manucoriiatas , mais ge- 
ralmente denominadas = ares rfo Paraiso^= (oi por 
muito tempo, desde que na Europa as conheceram, 
um contexto de fabulas e absurdos. Disse-se que a 
fêmea fazia a postura voando ; que não tinha per- 
nas, pendurando-se pelos dois compridos filamentos 
da cauda nos ramos d'arvores onde dormia; que se 
alimentava puramente do orvalho celeste ; e só vi- 
nha á terra ao cahir morta. Não admira que com 

Abril 29—1843. 



taes e tão estupendos allributos lhe dessem por ac- 
crescimo a prerogaliva d'aninharem noParaiso ter- 
real, único logar donde sabiam, segundo os crédu- 
los affirmavam. Todas estas ficções estão hoje des- 
vanecidas; regeiladas a princípio pela rasão, c con- 
cludentemente combatidas depois pela observação 
dos factos. São estas lindas aves naturaes da Xova 
Guiné e das. ilhas Molucas , onde os habitantes as 
colhem com as maiores precauções , para não des- 

2.' Serie. — Voi. U. 



130 



O PANORAMA. 



lustrarem a mimosa e variada plumagem , que é a 
causal da grande estimarão que teem cm algumas 
regiões , servindo as pennas para enfeites de senho- 
ras. 

As variedades das manucodiatas podem ser coor- 
denadas cm duas principacs espécies : uma do ta- 
manho d'um pomho naapparcncia, postoque o cor- 
po não seja maior que o de um tordo ; outra do vo- 
lume de uma cotovia. Os naturalistas que acompa- 
nharam a expedirão franccza de 1817 descreveram 
exactamente as propriedades destas aves : viram 
muitas delias na ilha de Vaigion em a Nova-Guiné 
e observaram que pertencem ao numero dos ani- 
maes omnívoros ; porem que o alimento mais prin- 
cipal delias consiste em fructas e insectos ; que se 
aprazem de viver no recôndito e basto das Hores- 
tas ; que cm tempo bonançoso pousam nas altas pon- 
tas das arvores ; que voam mui rápidas c sempre 
contra o vento, porque de outro modo suas boni- 
tas pennas lhes cahiriam para a cabeça e lhes im- 
pediriam o vòo ; que ao presentirem temporal mu- 
dam de paragem e se recolhem a logar mais segu- 
ro ; que apesar da corpulência diminuta são atre- 
vidas , dispostas a resistir ás aves de prca que in- 
tentem persegui-las; finalmente, que não ha exem- 
plo de que alguma se tenha domesticado ; e que é 
imperleitissima a noticia acerca de seus ninhos, 
ovos, incubação, &c. 

Não nos espraiaremos mais sobre o assumpto, por- 
que acompanhámos a estampa da manucodiala apo- 
da ou maior , a pag. 100 do vol. 2.°, de uma des- 
cripção das cores brilhantes que a enfeitam , c de 
algumas noticias concernentes aos hábitos communs 
ás espécies congéneres. 

Explicaremos a numeração apposta á estampa pre- 
sente : n.° 1 é a Paradisea apoda , que tem o nome 
vulgar de esmeralda: n.° 2 a paradisea áurea, cha- 
mada de seis fios ou topes, emrasão de seis pennas 
compridas que traz na cabeça: n.° 3 a incompará- 
vel, descripta pelo celebre Le Vaillant : 4.° a ne- 
iulosa, descripta pelo mesmo observador: 5.° aque 
denominam manucodiata. soberba , que tem certa ar- 
rogância de pavão guardadas as proporções quanto á 
grandeza. 



De Jebsey a Gra.wille. 

(Fragmento.) 

I. 

Seria pela volla do meio dia quando saltámos no 
chasse-marée que devia conduzir-nos de Jersey a 
Saint-Maló atravessando aquella estreita porção do 
canal que nos separa de França. Sentimentos en- 
contrados eram nesse momento os meus. O sol res- 
plandecia brilhante , e o ar estava puro e sereno : 
era um dia d'outono tão bello como o que mais o 
fosse era Portugal. De um lado alteava-se a ilha 
com os seus outeiros e valles, solo anfractuoso si- 
milhante ao nosso, e a povoação com os seus edi- 
fícios cobertos de telha , que nos faziam esquecer 
aquelles horríveis tectos iiiglczes de lousa negra , 
espécie de tabuletas do Spleen , penduradas pelos 
bretões sobro as suas cidades , e em que parece 
lèr-se a iuscripeão de Dante : . , , 

Per me si va nclla citlá dolente. 

Do outro lado estendia-sc o- mar, chão c espelhado, 
que nos separava da França; desse paiz que para 



a mocidade das nações occidentaes da Europa é co- 
mo uma segunda pátria : porque lá está o centro 
das idéas que hoje agitam os espíritos, em socialis- 
mo e em litteratura; lá vivem os escriptores que 
melhor conhecemos , que até amámos como se fo- 
ram nossos ; desse paiz, a cujos hábitos, tradições, 
successos, e glorias, nos teem associado os seus li- 
vros, sem o seutirmos, sem talvez o querermos. Ao 
approximarmo-nos da França o coração não bate vio- 
lento, nem se derramam lagrymas, como ao avistar 
a terra em que nascemos ; mas o animo desafToga- 
se , e abre-se á esperança : vamos tratar homens , 
que nunca vimos , mas com quem de largo tempo 
vivemos pelas intimas relações dos alTectos e da in- 
telligencia. 

Éramos seis portuguezes a bordo do chasse-marée, 
alem de dois marinheiros fraiicezes e um grumete , 
entidades análogas aos nossos antigos desembarga- 
dores , cada uma das quaes cumulava seis ou sete 
cargos daquclla vacillante c pequena republica, car- 
gos disparatados , que todavia as três personagens 
desempenhavam perfeitamente, destruindo assim em 
parte a analogia radical, que tinham com esses ma- 
gistrados de pedante e pesada memoria , que não 
desempenhavam bem nenhum. Um cão e três ingle- 
zes completavam a collecção dos animaes inclusos 
entre as quatro taboas da frágil embarcação. 

O chasse-marée é um transporte inarilimo, que na 
minha profunda ignorância das cousas navacs me 
parece similhaute ao hiale portuguez , ao menos na 
inimundicie, e na carência absoluta de tudo o que 
seja commodidade. Nisto , entre parenlhesis , não 
sou eu ignorante ; porque tenho experimentado uns 
e outros , e posso asseverar que seria mui difficul- 
toso de resolver qual dos dois géneros de navios 
t';m parentesco mais próximo com as rudes e aca- 
nhadas galés, em que ha sele séculos Guilherme o 
conquistador transportou da Normandia para Ingla- 
terra os .■'scendentes da actual aristocracia britan- 
nica. 

Commoda ou incommoda, era necessário aprovei- 
tar aquella detestável jangada para passarmos a Fran- 
ça , e isto por duas rasões urgenlissimas : a primei- 
ra porque nenhuma outra embarcação havia no por- 
to de Saint-IIélier com destino immediato para a 
costa fronteira : a segunda porque o preço da pas- 
sagem era apenas uma libra esterlina , e uma libra 
esterlina era o fôlego maior que podia sahir da bo- 
ca das nossas bolsas , cuja phtysica pulmonar ia já 
no ultimo período. Tendo-nos portanto ajustado com 
o marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e 
mettído a bordo os nossos bahus , que pelo leve c 
desempedido podiam servir-nos de botes de salva- 
ção era caso de naufrágio , sahimos da caldeira de 
Saint-Hélíer com uma brisa forte da terra que bre- 
vemente nos arremessou para o largo. Era muito 
depois do meio dia. Algumas nuvens brancas do 
lado do poente recortavam as suas franjas irregula- 
res sobre o chão do céu , que a luz do sol tornava 
de um azul desbotado. Uaras c diaphanas, aquellas 
nuvcmsinhas l)alouçavnni-se no ar , ao que parecia 
mais vohiptuariamenle do que nós, que sentíamos 
arfar, |)inchando (l'entrc as vagas crespas, o nosso 
[lequeno baixel. Pouco apouco aquelles vapores ac- 
iiimulados, cujos contornos occidentaes barravam 
orlas de ouro, engrossaram, tomando f('irnias deter- 
minadas. Depois correndo gradualmente mais rápi- 
das, c interpondo-se entre os raios do s(d ja inclina- 
dos e o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o 
dorso similhaute á pcUe mosqueada do tigre. Este 



o PANORAMA. 



131 



jojTO da luz dava ao mar um aspecto verdadeiro, e 
accorde com a sua natureza. Que é elle, de feito, 
senão a mais terrivel das bestas-fcras? 

E o vento refrescava d'instantc a instante , e os 
mastros do cliasse-marée principiavam a sollar de 
quando era quando um gemido doloroso, curvando- 
sc para as vellas quadrangulares retesadas diante 
delle. 

O grumete ia ao leme : o marinheiro , que re- 
presentava e resumia a companha, de bruços e com 
os joelhos sob o ventre, no ademan de nm galo que 
se apresta a saltar sobre o murganho iramovcl de 
terror , parecia examinar os novellos de nuvens te- 
nebrosas que se rolavam no horisonte e cresciam 
para nós como uma visualidade de camara-obscura. 
A barlavento o arraes ou capitão [capitaine lhe cha- 
mávamos nós pelo menos] que representava e resu- 
mia a oiricialidade do navio , com o corpo torcido , 
e encostado á amurada , firmando a barba nos bra- 
ços cruzados em cima da borda , também parecia 
esquadrinhar o céu e o mar. Dir-se-hia que o en- 
capellar das ondas se regulava e media pelas rugas 
que successivamente augmentavara em numero e 
profundesa na fronte tostada do antigo marujo. Im 
susto vago e inexplicável como que pairava no 
meio de nós. Era que a postura e gesto daquelles 
dois homens tinham um não sei que sinistro e mys- 
lerioso , similhante ao bofar morno do vento que 
precede e anuuncia a procella. 

Nós os passageiros . assentados n'uma espécie de 
canapé mal affeiçoado, que circumdava a coberta á 
proa , tínhamos insensivelmente cabido nm comple- 
to silencio : ou para fallar com mais exacção , nós 
os porluguezes éramos os que nos havíamos cala- 
do ; porque nem o cão, nem os três inglezes tinham 
proferido , aquelle um só ladro , estes um só gras- 
nido , desde o momento em que saltaram a bordo , 
na abra de Saint-Hélicr. O único ruído que sussur- 
rava era o ranger do baixel , e o sibilo do vento 
embatendo em nós, e abysmando-se nos nossos ou- 
vidos , o que nos fazia escutar um som similhante 
ao do pinhal que se estorce e verga ao redemoínha- 
rem-lhe por entre as ramas os mil braços da tem- 
pestade nocturna. 

Os três inglezes eram um velho de cabeça intei- 
ramente branca e rosto inteiramenle vermelho : a 
primeira, certidão, cujos caracteres desbotara o tem- 
po, de que a agua do baptismo passara por alli ha- 
via muitos annos , o segundo de que também não 
havia poucos que elle , levado de um santo respei- 
to pela matéria do principal sacramento, abjurara 
de coração o tocar-lhe com os lábios , contentando- 
se de humedece-los com os trcs líquidos fundamen- 
taes de todos os contentamentos possíveis dos netos 
dos kimhris e saxonios — o rhum, o vinho e a cer- 
veja. Dos dois, um mostrava ser inglez de cincoen- 
ta annos , outro de quarenta : o primeiro , magro , 
da altura de cinco para seis pés craveiros , faces 
encovadas, nariz meridional ou antes judaico , islo 
é proeminente e adunco , tez , não tanto morena , 
como macilenta : o segundo , typo saxonico , islo é 
rosto largo , e achatado , olhos azues , guedelhas 
louras, boca profundamente vincada nas extremida- 
des do beiço inferior, de aspecto aborrido e orgu- 
lhoso como se todo o fumo de carvão de pedra brí- 
tannico o cercasse com a sua aureola de gloria na- 
cional. De resto uão havia que duvídar-lhes da pá- 
tria : indicava-a o cheiro dos seus vestidos , suave- 
mente impregnados do fortúm sebaceo de carneiro, e 
aromatisados com os effluvios nauseantes da infusão 



do chá preto, os quacs constituem a formula odorífera 
da sociedade politici chamada os trrs reinos unidos. 
Pois também ha cheiros nacionaes? — dirá o lei- 
tor. Oue dÚNÍda I — Cada nação tem a sua crença , 
a sua língua , e o seu cheiro. O credo inglez é re- 
presentado não sei ao certo por quantos centenares 
de seitas, que se mandam reciprocamente para o 
inferno , desde a igreja anglicana , em que os bis- 
pos e arcebispos — poetas, amphyiriõcs, millionarios 
e políticos — bradam anathema contra as vaidades, 
luxo, e cubica de Koma , até os methodistas que 
vão para os seus templos caçar as inspirações de ci- 
ma , inspirações que muitas vezes são papadas por 
velha fanática e tonta , e ouvidas pelos seus irmãos 
com uma compunção que daria vinte comedias a 
Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse pelo Might 
Empire do vapor e da cerveja. Isto quanto ao cre- 
do inglez : quanlo ao cheiro o que fica dito : quan- 
to á língua o que logo direi. 

A brisa, que ao sahir deJersey era em popa, ro- 
dou successivamente para noroeste , e antes do pôr 
do sol soprava já violenta do lado do oeste. Nós se- 
guíamos pouco mais ou menos o rumo do sul , e a 
mudança do vento posto que ameaçadora , tinha si- 
do momentaneamente uma vantagem de commodi- 
dade : o chasse-marée corria á bolina , e por isso 
o seu arfar se tornara mais suave. No horisonte , 
quasi pela popa , divisávamos ainda o promontório 
deNoirmont, e pela nossa esquerda proloogavam-se 
quasi imperceptíveis as costas de França, como uma 
linha negra lançada ao travez dos mares. O silen- 
cio que reinava a bordo dava certa melancholia so- 
lemne ao quadro do céu nublado , das vagas revol- 
tas , e da terra que parecia quasi desvanecer-se na 
orla das solidões do oceano. 

O inglez veliio , que ia justamente assentado á 
minha direita, a pouco mais de meia milha de 
S.iint-Hélier começou a empallídecer. O ar mari- 
nho p inimigo figadal do fastio , e por isso lería- 
mos apenas navegado duas horas, quando começá- 
mos a experimentar, nós osportuguezes pelo menos, 
a immutabilidade inflexível desse axioma dietético. 
Tirámos algumas das nossas provisões , e pozemo- 
nos a despachar os requerimentos do estômago. Of- 
fereci ao velho que tomasse parte naquella refei- 
ção ; mas elle recusou , declarando-se sea-sick [en- 
joado] ; todavia para não perder , como verdadeiro 
inglez , os pn')s da minha boa vontade , entendeu 
que podia trocar uma obra de misericórdia por ou- 
tra , e deixando-se escorregar do banco ao convez , 
fincou-me sobre os joelhos a cabeça enlontecida e 
cerrou os olhos. Uecommendei então a Deus os meus 
pobres ossos cruraes , ameaçados de chegarem a 
França em estado de para nada prestarem , visto 
ser a cabeça do velho uma verdadeira cabeça in- 
gleza : dura , pesada , e macissa , como o governo 
da Companhia na Ásia. 

Porque não repellía eu a familiaridade ominosa 
do bom do inglez ; de um homem cuja nação , co- 
mo portuguez , tenho a obrigação moral de desa- 
mar'.' Era porque em conlrario havia duas conside- 
rações igualmente moraes. Uma cabeça branca é 
sempre respeitável, ainda que assente sobre o tron- 
co ermo de coração de um filho da Graã-Brctanha. 
Alem disso o cesto de verga em que iam as nossas 
provisões estava alli como um espectro que me em- 
bargava sacudir a fronte do ancião para o travesseiro 
macio do convez gordurento. O porquê desta acção 
simpathica do cesto sobre o meu espirito di-lo-hei em 
breves palavras ; é uma historia como qualquer outra. 



132 



O PANORAMA. 



Miss Parker de Plymouth era uma donzella de 
sessenta annos — excellenle crcatura que nos hos- 
pedou por dous mezcs naquella cidade , raedianle 
a baeatclla de Ires shcllings semanaes por cabeça. 
A Inglaterra , como todos sabem , é o paiz da fran- 
ca e sincera hospitalidade. Éramos ahi nove porlu- 
guezes , em seis camas e três aposentos , o que da- 
va certo ar pythagorico e mysterioso á familia, que, 
dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo 
ás outras ninhadas d'eraigrados que ainda viviam 
em Plymouth. iVinguem tinha uma patroa como nós, 
e os seus luãginys eram a pérola das albergarias de 
Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos 
preparar a comida ; mas poucos dias podemos re- 
sistir aos abomináveis temperos do paiz. íi precisa 
uma raça d'estomagos que ainda fosse anlropo|ilia- 
ga no meado do quinto século da era chrislaã para 
luctar vantajosamente com a cosinha d'Inglalcrra , 
e estes estômagos só os inglczes os possuem , se- 
gundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os 
nossos cederam a tão dura prova , e vimo-nos obri- 
gados a dispensar Aliss Parker do mister de nos en- 
venenar. Quanto ao mais éramos verdadeiramente 
seus filhos cm espirito ; em espirito , digo , porque , 
alóra muitas rellexões pias que se dignava fazer- 
nos , a nós pobres idolatras do catholicismo , obri- 
gava-nos a respeitar o domingo no pleno rigor da 
igreja anglicana ; isto é a morrer de tédio e triste- 
za prohibindo em sua casa todo o género de diver- 
timento , ainda o mais innoceote, desde pela ma- 
Bhaã até sol posto, momento em que naquelle aben- 
çoado paiz Deus cede ao diabo o resto do dia do- 
minical , e em que a devassidão e a embriaguez, 
tripudiando nos prostíbulos c tabernas, se ving.im 
das dez ou doze horas de sermões impertinentes dos 
clcrfiymcn , e de psalmos dcsallinados pelas vozes 
roufenhas e prosaicas da turbamulta , debaixo das 
abobad.is santas , poéticas , e venerandas das anti- 
gas igrejas catholicas , repartidas hdje em camaro- 
tes de tlieatro pela pureza aristocrática e beata do 
protestantismo inglez. 

Miss Paiker foi o único fôlego vivo da (iraã-Bre- 
tanba , a quem na minha curta passagem por In- 
glaterra devi um beneficio: quando partimos para 
Jersey deu-nos um cabazinho em que levássemos a 
nossa matalotagcm , e derramou algumas lagrymas 
ao despedir-se de nós. Aquelle cabazinho era o que 
eslava ante mim , e me sustinha cm cima dos joe- 
lhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas 
do canal da Slancha , eu soldava assim as minhas 
contas com a Inglaterra. 

O vento continuava a rodar para sudoeste, e os 
nossos dous marinheiros colheram parte do pan- 
no e mudaram algum tanto de rumo: depois torna- 
ram a asscnlar-se na mesma postura em que esta- 
vam , e tudo voltou ao anterior silencio, que só 
era interrompido pelo marulho das ondas espalman- 
do-se no costado do chassc-marée. 

Mas um llagicio, mais abominável ainda que os 
condimentos ferozes do cosinha ingleza, veio cortar 
atrozmente esle silencio triste, que representava 
no meio de nós a previsão de imniinente procella. 

O inglez alto, de gesto esguio, c nariz hebrai- 
sante , se assentara ao pé do outro inglez aflciçoado 
pelo lypo saxonio. no topo esquerdo da banqueta 
corrida á popa. IJuas ou três vezes desde que le\;i- 
mos ferro elle dirigiu ao companheiro uma rosna- 
dura , a que este respondeu com o estirado monos- 
sylaho IVs. A quarta vez, aquella resposta lacóni- 
ca foi proferida com certa nielopéa Uc rcsiguação , 



que cortava os fios da alma ) e acompanhada d'um 
volver d'olhos azues , cm que se pintava uma sup- 
plica de piedade. Mas o inglez aguçado carregou o 
sobrolho , e mettendo a mão no seio póz-se a pro- 
curar o que quer que era na algibeira interior de 
uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. 
Eu observava esta scena ; sabia o que pôde o splecn, 
e o receio de algum anglicidio , me passou pela 
mente , ao contemplar o aspecto torvo de um , e o 
gesto confrangido e timido de outro. O vento sibi- 
lava violento , as aguas começavam a tingir-se de 
negro , e o céu estava completamente toldado : era 
meio poema britannico. Um tiro de pistola , e um 
cadáver baldeando no mar completariam uma cpo- 
pca. Nas feições do inglez esgrouviado parecia-me 
ler duas palavras — Spleen — e Poeta ; c por isso 
os meus temores não eram tão infundados , como , 
no primeiro momento , talvez os tenha julgado o 
leitor. 

E o mais é que eu acertara farejando emMr.Gra- 
ham Sénior [eram os dous inglezes irmãos , segun- 
do depois soubemos] um fazedor das regrinhas, que 
na lingiia ingleza correspondem ao que nas linguas 
do ineio-dia c e se chama versos. O honrado Mr. 
(iraham não procurava na algibeira o âmago e su- 
bstancia da idealidade e poesia britannica — a pis- 
tola suicida. Não I — Era cousa mais atrozmente as- 
sassina — era um caderno grosso de letra micros- 
cópica em que provavelmente se continham as suas 
inspirações inéditas! Estava explicada a longa ta- 
citurnidade dos dous. O perverso meditava aquelle 
fratricídio inlclleclual desde a partida de Saint-Hé- 
lier, e os quatro grunhidos abafados que lhe ouví- 
ramos tinham sido quatro tentativas para predispor 
a viclima. De feito quando elle sacou o alentado 
canhenho, Mr. Ciraham Júnior parecia inteiramente 
resignado. 

Aquelle alanazador das orelhas do próximo co- 
meçou a sua leitura pela primeira pagina. Era um 
algoz de Cunseiencia , e j,í se podia prever que li- 
nha a boa tenção de alormentar-nos cm quanto du- 
rasse o dia , que felizmente se inclinava a seu ter- 
mo. Como me foi possível percebi aos trinta ou qua- 
renta versos que era um poeta da eschola de Pope, 
ou , como quem o dissesse enlre nós , um poeta da 
Arcádia. Cá teria fallado em Jovc, Marte, e Neptu- 
no , nas St usas , nos Zagaes , nas Niraphas , na tu- 
ba de Calliope , ou na sanfona não sei de que Deu- 
sa : lá, nas inspirações de Mr. Graham , eram as 
paixões, os vicios, os alTectos personalisados quem 
fazia o serviço dos seus poemas : aqui a Esperança, 
alli o Desalento: ora a Temperança , logo a Desen- 
voltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lem- 
brar do Olympo , do Pindo , e da Castalia , dos 
nossos árcades, e de algum modo me consolava das 
misérias domesticas, ao ver que a poesia cadavéri- 
ca das formas e convenções não vivia unicamente 
entre nós, mas ainda ousava no canal da Mancha 
misturar as suas semsaborías académicas com o bra- 
mido terrível do vento , e com o ferver cslrepiloso 
das vagas, que entoavam acordes a sublime invo- 
cação da procella. 

O poeta esguio declamava as suas regrinhas len- 
tamente e cora todos os requebros da melopea in- 
gleza , género de canto semelhante ao gemer rabu- 
gento de uma creança na primeira dentição. O po- 
bre diabo, postoque provavelmente accredilasse que 
nenhum de nós o entendia , pensava por certo , que 
nova espécie de Orpheu bastavam os sons das suas 
palavras harmoniosas para iios arrcLularcm e exta- 



o PANORAMA. 



133 



siarcm a nós selvagens da Europa , como com tan- 
ta grara e verdade denominam os escrevinhadores 
de John Buli os haliitantes da Península '. 1'eiisava 
assim, de certo; porque de quando em quando vol- 
via para nós os olhos com a(]uclle sorriso de com- 
placência estúpida que é peculiar na cara de um 
inglc/. vaidoso , e conlenle de si. 

Um dos exemplos mais lamentáveis da cegueira 
do cspirito-humano , é a persuasão em que os es- 
criplores d'Inglaterra estão de que possuem uma 
língua lilteraria fallada , isto é que os sons quasi 
inarliculados do seu chilrear e grunhir correspon- 
dem sufíicientemcnte aos grupos de caracteres al- 
phabeticos de que se elles servem para representa- 
rem os próprios pensamentos. Todavia a língua cs- 
cripta d'lngla(erra nada tem que ver com a lingua- 
gem em que a nação se exprime : são dous typos 
<liversissiraos que dão forma sensível ao pensamen- 
to. Abri um li\ro cscriplo cm qualquer outro idio- 
ma da Europa, e fazei ler por cllc um estrangeiro 
completamente ignorante desse idioma ; c o natural 
■do respectivo paiz, aquelle que o fallou desde a in- 
fância entenderá tudo ou quasi tudo, sn escutar es- 
sa leitura. Fazei a mesma experiência com um li- 
vro inglez ; o natural d'lnglaterra não entenderá 
provavelmente uma única palavra, t que na reali- 
dade neste povo, em tudo singular, os signaes cha- 
mados letras não tem um valor constante e deter- 
minado , e por isso não podem corresponder rigoro- 
samente a um som. 

.\ Inglaterra ha visto nascer no seu grémio gran- 
des poetas. Shakespeare e Byron ba.-.tariam para 
lhe dar uma celebridade immensa. Mas a sua poe- 
sia reside toda no pensamento , na essência da ar- 
te. — As formas externas são rudes , barbaras, ou 
lluctuantes. Shakespeare e Byron foram dous selva- 
gens , um porque estava alem da civilisarão . outro 
porque estava áquem delia : mas foram talvez as 
duas almas mais sublimemente poéticas da Europa. 
Porque pois não souberam elles ajuntar a melodia 
material ás harmonias intimas das suas idéas? Foi 
porque não podiam converter em palavras humanas 
o intolerável grasnido dos seus compatriotas. 

lima cousa que sempre me acontece em ouvindo 
lallar um inglez é o notar as mysteriosas analogias 
que ha constantemente entre a língua de qualquer 
povo e os seus hábitos de moralidade. Considerai 
por exemplo a litigua allcmaã : é um idioma per- 
feitamente accentuado : os vocábulos escriptos cor- 
respondem rigorosamente aos fa liados : não ha ahi 
luxo inútil de letras : todas se proferem ; todas re- 
presentam um som ou uma articulação. Os caracte- 
res do alphabelo germânico nunca serviram para 
enganar o estrangeiro. Não achais nisto umi ex- 
pressão do animo leal , franco e singelo daquelle 
povo? X Deutsche Trcue, a fc germânica, não se re- 
flecte como em um espelho na língua desse paiz? 
Agora escutai ura inglez : dous terços de cada pa- 
lavra, como a representam os signaes alphabelicos, 
não se proferem : devora-os o leitor : são uma ar- 
madilha para obrigar os lábios peregrinos a darem 
syllabadas: o inglez pronuncia com os dentes cer- 
rados como se temesse que essas palavras-ouriços 
lhe fizessem, ao perpassarem, os lábios em sangue. 
Não achais nisto uni typo de cubica e avareza? — 
Um pensamento enganoso? — o algodão tecido á sor- 
relfa com a laã ? Não descubris lá o pensamento do 
tractado de Methuen , ou do desembarque de Qui- 
beron. Não se revela no coaxar das raãs de Words- 



worlh c dos poetas dos lameiros o lintúh /n(c- 
rest ? 

Tacs eram as reflexões cm que eu estava embe- 
bido em quanto o poeta mastaréu accreditava ter- 
nos enleiados a todos com as ni('llilluas toadas do 
seu poético lavor. A noite entretanto tombando de 
castello em castello de nuvens , lançava sobre o 
dorso do mar revolto o seu manto d'escuridade. O 
sectário de 1'ope cedeu então ás trevas : fechou o 
ranhenho , c resguardou-o outra vez dos olhos pro- 
fanos debaixo da meia fabrica de Leeds , que fora 
absorvida na mole immensa dos seus quatro casa- 
cões. 

Mr. Graham .lunior , apenas seu respeitável ir- 
mão cessou de ler, volveu para elle o rosto melan- 
cholico , c murmurou depois de ura suspiro : 
Aije ! — y'eiy goud '. 

Com os três Yes precedentes, fazia a conta de 
seis palavras , ou grasnos , que despendera naquel- 
le dia Slr. (jraham Júnior. 

Dous inglezes ridículos são incontestavelmente as 
duas cousas mais ridículas deste mundo. 

1, •■ ,. (Conctuir-se-haJ. 

; I (A. Uerculanu.J 



saoiTcicii!. ?c 



•^-^T •rriT'^ 



dà. 



Considerações sobre o Curso d' Economia 1'vlitica. pu- 
blicado em París^ em 1842 pelo Sr. Miguel Cheva- 
lier. 

I. 

X PKOviNCiv das sciencias sociaes vai-se alargando 
de dia a dia, e d'ellas ura ramo muito importante 

— a Economia Politica — vai crescendo e avultando 
á proporção do progresso material das nações. As 
(]ue vão atrazadas , e ainda vagarosas na carreira 
da riqueza , que são as que não lera empregado se- 
não em mui limitada escala os poderosos instrumen- 
tos da producção e da industria moderna , pedem á 
Economia Politica lhes ensine o melhor methodo de 
aproveitar esses instrumentos. As outras que lendo 
pela applicação mais extensa delles chegado a uma 
altura considerável de prosperidade relativa , se 
achara de repente atacadas no próprio âmago da 
sua existência , inquietas com o mal occulto que as 
devora inquirem , profundamente sollicítas , a ori- 
gem d'elle , indo buscar aos princípios económicos 

— o único LSidipo capaz de decifrar o enigma da 
sua situação — a chave d'esse mesmo enigma. l'ns 

— os que são pobres — para enriquecer , pergun- 
tam como hãode obter ou empregar as machinas , 
os capitães, as instituições de credito, e o commer- 
cio, o qual não cor.íistindo, em ultima analyse, se- 
não no mudar os productos de um logar para outro, 
vem quasi a resolver-se nas vias de communicação 
maritímas e terrestres. Outros paizes , já completa- 
mente armados d'estas forças e instrumentos , que- 
rem saber donde nasce a consumpçâo que os defi- 
nha, o desequilíbrio que experimentam na sua eco- 
nomia, o tremor que abala o seu edificio social, as- 
sentado, segundojulgavara, em alicerces tão sólidos. 
Todos se chegam, supplicantes , ao altar da scien- 
cia , e a sciencia adquire d'aqui duplicada impor- 
tância. Tentam-se ensaios: tirani-se iuforraaçõcs e 
inquéritos índustriaes : cscrevem-sc livros. E nesta 
hora Inglaterra, pátria dos bancos, das machinas, 
dos capitães , do commcrcio , dos caiiaes e das es- 



134 



O PANORA3IA. 



tradas, geme e revolve-se na agonia de uma crise, 
causada por um solTriraenlo que resume todos os 
soffrimenlos da industria — a estagnarão dos produ- 
ctos : e rcsiimc-os todos, porque é sempre acompa- 
nhado de parilisia nos instrumentos da producrão e 
no trahalho dos productores , de qualquer classe 
que sejnm. Outros paizes , e nós n'csse numero, 
solTrera de outras causas — da falta ou insuílicien- 
cia , nu frouxidão ou desacertado emprego dos ins- 
trumentos produclivos, directos e indirectos. Quan- 
do pois sahe da estampa uma obra destinada a re- 
mediar este duplicado mal , o nosso que ó conheci- 
do, e o alheio ainda escondido nas sombras do mys- 
terio ou da duvida , e a obra vem recommendada 
com o nome de um escriptor lãoabalisado comoMi- 
chcl Chevalier, seria indesculpável deixar de lan- 
çar-lhe os olhos , e de confrontar cora as idéas do 
auclor o estado económico do nosso paiz. 

Tratando do methodo seguido pelos dois econo- 
mistas , Ricardo e Malthus , na exposição das suas 
doutrinas , diz o coronel Torrens , talvez com bom 
fundamento , que o primeiro generalisa muito e o 
segundo mui pouco ; que nas mãos de um tem a 
sciencia uma simplicidade que não é natural, e que 
se torna um verdadeiro cahos nas mãos do outro. 
Tendo por exacta , ate certo ponto , esta observa- 
ção , longe estamos de imputar a Michcl Chevalier 
o defeito notado a Malthus : desejáramos comtudo 
que elle entrasse com o seu facho na escuridade , 
que ainda hoje o é, das questões sobre a origem da 
riqueza e rigorosa delinição do valor, eque ahi der- 
ramasse a claridade da sua intclligencia , visto que 
sobre essas questões e acaso alguma outra , ainda 
não está dita a ultima palavra, nem apprescntada , 
mesmo depois da obra de Rossi , solução que satis- 
faça , a nosso entender pelo menos. Bem pôde ser 
que o auclor obediente ao artigo — preceito — da 
sua philosophia social que em economia e no mais 
subordina e submelte as theorias abstractas ás tra- 
dições, ás tendências, aos instinctos e aos votos das 
sociedades e dos indivíduos, intente na ulterior pu- 
blicação do seu curso , examinar aquclles e ou- 
tros pontos duvidosos, separados não, unidos com 
alguma questão prática de interesse material e pal- 
pável. E se esse foi o seu intento , lique retractado 
o nosso reparo , o qual , «linda assim , não significa 
senão uma homenagem aos talentos do auctor , e 
um excesso, se quizerem , de zelo nosso c de amor 
que votámos á sciencia. 

O auctor começa, e bem, tombando c demarcan- 
do as províncias alheias á Economia l'(ditica ; e di- 
zendo a esta : alli está o princípio da família ; aco- 
lá o da propriedade , cuja origem se confunde com 
a dos séculos; além o principio da igualdade legal 
que classifica os homens segundo os talentos e os 
serviços de cada um ; mais adiante o da ordem, que 
quer dizer que o progresso material , successivo e 
contínuo como hade ser , se deve realisar sem vio- 
lência ; e por elle o pensamento religioso da frater- 
nidade universal. Estes princípios elementares e 
eternos respcítaí-os : nem discuti-los vos é permit- 
lido. Agora o vosso domínio ei-lo aqui — os interes- 
ses materiaes. 

Vasto e importante domínio I Esses interesses são, 
na opinião do auctor , apoio indispensável e condi- 
ção essencial da liberdade; c porque o são? Por- 
que a liberdade consiste, segundo elle , no assegu- 
rar a cada um os meios de desenvolver as suas fa- 
culdades, c de as exercer, depois, do modo mais 



vantajoso a si e aos seus similhantes. E como o ho- 
mem que tem fome não é livre , porque não pódc 
dispor das suas faculdades , nem desenvolve-las , 
nem exerce-las ; moralmente , embrutece-se ; in- 
telleclualmcnte , cahe em torpor ; fisicamente , fal- 
lece-lbe até a força bruta. — É mister que a indus- 
tria, que os interesses materiaes venham tira-lo d'es- 
se estado, e levantar-lhe esse interdicto. Elles com- 
tudo não bastam á liberdade , personagem do mun- 
do moral : mais alguma cousa é preciso a esta : as- 
sim o entende o auctor , e nós , também , o enten- 
demos. 

Continuando sempre o fio do sen pensamento , o 
escriptor mostra com a historia na mão como aos 
interesses materiaes se prendem os destinos da ci- 
vilisação inteira ; como a liberdade e a industria 
são solidarias ; como os progressos da primeira se 
ligão aos da segunda ; e como se engrandece o al- 
vediio, a liberdade do homem , estendendo as con- 
quistas da humanidade sobre o mundo material. O 
auctor quer chegar e chega ao facto da producção 
e do seu augmento, á cultura do trigo — passo im- 
portante do selvanismo primitivo para a policia das 
sociedades modernas ; — á descoberta e applicação 
do ferro — adiantamento mais considerável ainda ; — 
ao desenvolvimento da potencia productiva ; á in- 
venção dos instrumentos da industria , órgãos sup- 
plementares que o homem acrescenta aos seus ór- 
gãos naturaes. Olhando então para as sociedades an- 
tigas, vè-as miseráveis ; e porque? porque a sua pro- 
ducção e os seus instrumentos productivos eram mes- 
quinhos. Contemplando as sociedades modernas, cn- | 
contra-as cm muito maior auge de prosperidade com- i 
parativa ; e porque? porque o seu poder productivo 
é extraordinário em relação ao das outras — de seus i 
antepassados. I 

Assim conclue o auctor que o verdadeiro remé- 
dio aos males que se sentem na economia das na- i 
ções, é o augmento da producção: — produzir mui- 
to ; produzir mais ; produzir melhor ; produzir com 
mais brevidade : o que só com as machinas , com i 
os instrumentos aperfeiçoados se ha-de conseguir. ; 
.Alas esses, observa o auctor, não se adquirem se- I 
não com a economia, resto sobejo dos productos do | 
trabalho anterior. Sobre a economia, que é — seja- | 
nos licito assim qualificá-la — a primeira forma, o \ 
estado primitivo (los capitães, é demasiadamente omis- 
so : e não o devia ser n'este ponto gravíssimo da 
sciencia, o qual, apesar de se ter escripto bastante j 
acerca d'elle. não reputámos inteiramente explorado. ' 
Sem embargo d'esta falta nota que o governo fran- 
cez poupa todos os annos, vai em 7 ou 8, cem mi- 
lhões de francos para melhoramento das vias de 
communicação, e que para o mesmo fim poupara os 
departamentos e as communas (>0 milhões de fran- 
cos cm cada anno. E nota também o peso excessi- 
vo cora que grava a Europa a enormidade dos seus 
exércitos, e as sommas que, segumdo-sc outro sys- 
tema, ecouomisadas n'este ramo se podciiam appli- 
car a uso mais productivo. De ambas estas consi- 
derações podemos nós , creio cu , tirar no que nos 
são appropriaveis , algum ensino c proveito. 

No empcidio de augmentar a producção, neste 
que o auctor reputa o grande c serio negocio do nos- 
so tempo, prosegue. buscando, alem das machinas, 
outros meios mais geraes de o conseguir , e esses 
divide-os em trcs : vias de communicação, institui- 
ções de credito — e educação professional. — E um 
pensar systemaíico, naaccepção mais plausível d'cs- 



o PANORAMA. 



13S 



ta palavra, fi um espirito superior que havendo des- 
coberto, nomeio de suas meditarues, uma i d ('a fun- 
damental, delia seapodera, enão alarga emqiian- 
to a não tem considerado por todas as suas laces , 
cm quanto não vè estendidos as raizcs e os ramos 
d'essa idéa até onde o comporta o objecto onde a 
emprega. Convencido de que as classes mais nume- 
rosas da sociedade se lia\iam de regenerar e felici- 
tar á sombra do trabalho e da industria compoz a 
sua obra — Dos interesses materiaes na França — c 
n"essa obra tratou cspecialmcnlc dns vias de com- 
municaião, qnc era a primeira parle do seu pensa- 
mento ; promellcndo expor em publicações succes- 
sivas a sua doutrina sobre instituições de credito e 
educação professional , cora que julgava completar 
esse mesmo pensamento. Agora vai , da cadeira do 
magistério, p(ír o remate á promessa que havia fei- 
to. N'este primeiro anno do seu curso reconsiderou, 
c magistralmente, desde a 10. "" até á 15." lição que 
é a ultima , o assumpto das estradas , rios , e ca- 
naes , e nos seguintes ha-de examinar, como a pri- 
meira, as outras duas questões , e com ellas fechar 
o seu círculo económico. 

Tratando da balança do commercio e da theoria 
da moeda metallica em duas lições cheias de notí- 
cias interessantes e observações engenhosas, refere 
o auctor uma indagação curiosa que ha-dc , se lõr 
coroada de successos, causar uma grande revolução 
no syslema monetário. Um membro doinstilulo, M. 
Becquerel, trabalha ha muitos annos para achar 
meio de applicar a pilha galvânica ao tratamento 
dos mineraes de ouro c prata : se o chegar a con- 
seguir [e al!irma-se que está a ponto d'isso] empre- 
gado esse agente processo, que ha-de ser rauilomais 
expedito que o azougue, na exploração dasinexbau- 
riveis minas do México, renovar-se-ha em nossos 
dias a abundância, e a depreciação ao mesmo tem- 
po , do dinheiro que se presenciou ha obra de três 
séculos, e os estados que maiores soramas possuí- 
rem experimentarão uma perda considerável. Isto 
receia o auctor : nós accrcscentâmos que não só o 
numerário, também as jóias e peças de ouro e pra- 
ta hão-de soffrer baixa sensível no seu valor , se o 
problema que occupa a attenção do cbimico fran- 
cez se resolver. Na presença de um tal receio os 
próprios partidários da balança do commercio, c 
ainda os mais tenazes, abjurarão a sua errónea cren- 
ça , e desejarão afastada , não atrahida ; escondida 
para sempre no seio da terra , não lançada na cir- 
culação commercial ; essa massa prodigiosa de me- 
lacs preciosos qnc ameaça lançar u'ella o preconi- 
sado substituto do mercúrio. 

Depois das vias de communicação este assumpto 
da moeda metallica é o mais bem desenvolvido pe- 
lo auctor. Mas o primeiro é o seu predilecto, o the- 
ma dos seus estudos especiacs. Dá-Ihe uma prefe- 
rencia decidida : chama primordial á industria dos 
transportes , porque todas as outras dependem d'el- 
la ; e se tão atrasada ou tão susceptível de melho- 
ramento e progresso a suppõe ainda em França, que 
diria se lançasse os olhos sobre a de Portugal? 

(Continuar-se-ha.) 
A. d' O. Marreca. 






AITTI^ITIDAS: 

Medalhas achadas em Fcrmcdo : para melhor averi- 
guação do que chamam — cidade rcsuscitada. 

JoKTo a Fermedo estão apparecendo vestígios de an- 



tiga povoação. Mas qual fosse olla c em que tempo 
ó o que resta avcrigi--r. Mais de um edilicio roma- 
no tem o nosso Portugal ; c se o castello da Feir.i 
SC presume ser um delles , se ainda existem nas 
nossas províncias do norte algumas lapides millia- 
rias, nenhuma dilliculdade ha para conjecturarmos 
que esses edifícios soterrados , que agora vão appa- 
recendo sejam romanos e de remota antiguidade. 
Felizmente o abbadc de Homariz encontrou naqucl- 
les mesmos sitios uma quantidade de medalhas ro- 
manas , que existem hoje no real Archivo da Torre 
do lombo, as quaes ainda que poucas, talvez mui- 
to e muito interessem para o nosso assumpto. N.t 
verdade, .se essas medalhas , cujo uso iirimitivo foi 
o de moedas, existiam em poder de seus últimos 
possuidores com o mesmo uso primitivo , e não co- 
mo um deposito de curiosidade , como hoje as tem 
os nossos medalheiros, dão toda a rasão plausível a 
accreditar que esses edilicios , sens companheiros 
de fortuna , tem a mesma antiguidade que as mes- 
mas medalhas. 

Vejamos por tanto quaes são estas medalhas pre- 
cursoras de um achado tão precioso para os ama- 
dores de antiguidades [sendo a daquelles edificios 
que se vão descobrindo, como presumimos, supe- 
rior ádas duas cidades, que as lavas do Vesúvio ou- 
trora submergiram]. Porem dêmos primeiro uma no- 
ção geral aos índoutos da classificação que os liu- 
misTualicos fazem das moedas ou medalhas romanas. 
Di\idcm elles as mesmas moedas ou medalhas em 
consulares e imperiaes. Ordenam as segundas chro- 
nologicamente com referencia ao governo de cada 
imperador: em quanto ás consulares , porem , não 
tendo ellas caracter algum certo que dislinguam os 
consulados as classificam pelas famílias dos magis- 
trados , que tinham a inspecção da moeda. 

Dada esta noção passemos a fallar das medalha* 
em questão. São todas consulares, e todas ou qua- 
si todas denarios ; e confrontadas com a magnifica 
obra = Thesaurus Morellianus = se vè pertencerem 
ás seguintes famílias: — 

1 á família vElia — 1 á /Emília — 1 áAtilia — 1 
a'Ca;cilia — 2 áCalpurnia — 1 á Claudia — 1 á Clou- 
lia ou Clwlia — 3 á Cornélia — 1 á Cossutia — 2 á 
Crepusia — 1 á Cupienna — 1 á Egnalia — 2 á Fa- 
bia — 1 á Fannia — 1 á Farruleia — 2 á Flaminia 
3 á Fúria — 1 á Herennia — 1 á Junia — 1 á Lu- 
cretia — lá Lutatia — 1 á Manilia — 2 á Maniia — 
2 á Mareia — 1 á Maria — 2 á Minutia — 1 á Ncr- 
bana — 2 á Porcia — 1 á Uubria — 1 á Rutilia — 
— 1 á Satriena — 1 á Saufeia — 1 á Sentia — 4 á 
Sergia — lá Thoria — 2 á Titia — lá Tituria — 1 
á Valeria — 1 áVargunteia — 7 ãVibia — 1 á Vol- 
teia. — Sonima 63 ; 8 incertas; 1 do mesmo tama- 
nho, propriamente hispânica com caracteres desco- 
nhecidos. Total das medalhas remettidas ao Arcbi- 
vo 72. 

Se pois estas medalhas ficaram enterradas no mes- 
mo tempo que os edificios, e se ellas então tinham 
o uso de moeda corrente , está bem provado que a 
desgraça commum desses objectos foi pelo menos 
nos últimos tempos da republica romana , isto é , 
há já decorridos li> séculos completos. 

,.. _ ,^ M. J. U. 

Vantajosa separação das duas ameeicas. 

Em sessão de 26 de dezembro de 1842 annunciou 
o Sr. barão de Humboldt á Academia de Sciencias 
encorporada no Instituto de França que os trabalhos 



136 



O PANORAMA. 



preparatórios para o córlc do isthmo de Panamá 
proggridem rapidamente. Empreza c esta mais gi- 
gante que a do cgypcio Scsostris que iutentára cor- 
tar u istliino de Suez ; e por um canal al)erto nessa 
lingua de terra , que prende a Africa á Ásia, sepa- 
rar os dois continentes. 

A coHimissão, auclorisada pelo governo da ísova- 
dranada [lara construir um canal entre o oceano pa- 
cífico e o golpho do México, terminou o reconheci- 
mento dos terrenos , e obteve um resultado tão fe- 
liz como inesperado. O encadeamento das cordilhei- 
ras não se prolonga , como se cria , atravez do is- 
thmo, e ao contrario reconhcceu-se a existência de 
um valle mui adequado á tentativa ; a disposição 
uatural das aguas é igualmente mui vantajosa. Jun- 
tar-sc-hão ao canal três rios fáceis de encaminhar; 
aquelle lerá 49 milhas hispânicas d'extensão, 135 
pés castelhanos de largo ao nivel d"agua , e 55 no 
fundo, tendo de profundidade 20 pés; por onde po- 
derão navegar embarcações de mil a l.iOd tonela- 
das. Das plantas e orçamentos do ingenheiro fran- 
cez. Morei, resulta que o cosleamento total, incluí- 
da a compra de dois barcos movidos por vapor, não 
excederá a 56 milhões de reales. 

Se vier a realisar-so tão grande projecto causará, 
como outrora a passagem á índia pelo Cabo delioa- 
Esperança , revolução completa no commercio ma- 
rítimo , fazendo que se abandone a navegação pelo 
r.abo de Horn , e encurtando três mil léguas marí- 
timas as viagens que procederem do mar do Sul ; e 
o estabelecimenlo que osfrancezes ha pouco fizeram 
nas ilhas Marquezas chegará a ser de alta impor- 
tância , c Colónia mui llorenle. 

O isthmo de Panamá propriamente dito é a mais 
oriental e a mais estreita porção da grande facha de 
terra pela qual estão unidas as duas Américas ; nie- 
dindo-se pela curva que descreve achar-se-ha que 
tem de extensão de leste a oeste perto de 500 mi- 
lhas náuticas inglezas [150 léguas portug. de 18 ao 
grau] ; porem a sua largura varia de 30 a 100 mi- 
lhas [9 a 30 das ditas léguas]. 

1'ostoque a largura do isthmo , comparativamente 
pequena, fosse descoberta cedo, e patentes as gran- 
des vantagens que podia oflerecer de prompla e fá- 
cil communicação entre o Atlântico e o Pacifico , 
por tresentos annos depois do descobrimento perma- 
neceram desconhecidos os caracteres natnraes deste 
terreno ; até que o inglez LIoyd em o nosso século 
o visitou e examinou no sitio mais oriental e es- 
treito ; e mostrou que bem longe de agreste e ári- 
do , como alguns suppunham , é feraz e cultivável ; 
só de arvores , de úteis madeiras , reconheceu 90 ; 
e algumas delias dão fructos bons para comer. O 
isthmo constituo um departamento da republica da 
Nova-Granada , dividido em 2 províncias: mas tal- 
vez que mais de um terço do território ainda este- 
ja occupado pelas tribus aborígenes, 



6ibli0ôvaj)ljia. 

f — Compendiei dn Geometria prarlira applicada ás 
operações de Desenho. Lisboa 1839. — // — No- 
ções theoricas de Architectura civil . Ibi. Idem. — 
IH — FAemrntos de Perspectiva Thcorica c. Pra- 
fílica. Ih. 18Í2. 

KsT\8 trcs obras publicadas succcssívamcnte pelo 
.Sur. J. da C. .Sequeira, Professor e Secretario da 



.\cademia de Bellas-Artes , e por elle destinadas 
principalmente , segundo se colhe das suas mesmas 
palavras, para ouso dos discípulos da .-Vcademia 
das líellas-Artes de Lísbua , são um grande e im- 
portante serviço feito pelo Sur. Sequeira ao seu 
paíz. íi por isso que, attcntos sempre a tornar ge- 
ralmente conhecido tudo aquillo de que pode resul- 
tar utilidade ou gloria para esta pobre terra de Por- 
tugal , julgámos dever nosso dar noticia destes es- 
críptos que preenchem, não um só, mas ambos 
aquelles fins. 

A arte é una : as suas formulas são varias. Quan- 
do ella toma a linguagem humana por expressão , 
precisa d'acceitar as condições positivas da lingua 
que o artista escolheu para traduzir os seus pensa- 
mentos; se a utilidade dos preceitos arbitrários das 
doutrinas litterarias é mais que duvidosa , a da 
grammalica é incontestável : assim nas formas plás- 
ticas da arte, em que a matéria e a extensão cons- 
tituem o domínio do artista , e portanto é seu mis- 
ter fallar aos olhos , elle forçosamente ha-de accei- 
tar as condições absolutas dos corpos e da visuali- 
dade. É o conhecimento indispensável dessas con- 
dições que o Snr. Sequeira qniz facilitar aos discí- 
pulos da Academia, e aquelles artistas que porven- 
tura as ignorarem. Cultor especial da Architectura 
dedicou, porem, a esta arte um trabalho particular, 
compilado em resumo do que melhor havia sobre a 
matéria , e que o digno Professor completou com a 
traducção do Tractado sobre as cinco ordens, com- 
posto pelo celebre Vignola. 

O Sfir. Sequeira entendeu perfeitamente o que 
acima dissemos sobre as condições absolutas das 
artes plásticas ; entendeu uma grande verdade, que 
alguns artistas parecem menoscabar — a necessida- 
de de se instruírem nos princípios scíentiDcos, que 
sem estudo nunca o maior e mais alto engenho po- 
derá supprír. Crccm elles que os artistas da edade 
media eram homens de menos génio, de mais li- 
mitada inspiração , que os dos tempos posteriores 
ao renascimento? Não o eram por certo: porventu- 
ra a sua fé na arte foi mais viva e pura que a dos 
modernos ; porque a arte se estribava então na cren- 
ça religiosa. Porque, pois, são geralmente as suas 
obras inferiores ás que appareccram depois? Por- 
que elles eram incomparavelmente mais ignorantes 
das condições physicas do mundo, das leis que pre- 
sidem ao modo de ser dos corpos. D'aqui nasce a 
precisão do estudo positivo, sem o qual nenhum ar- 
tista, sejam quaes forem os seus dotes intellcctuaes, 
chegará a ser verdadeiramente grande. 

O que nas publicações do Snr. Sequeira contri- 
buc notavelmente para a gloria das artes portugue- 
zas é a execução das numerosas estampas , que 
acompanham os Elementos de Perspectiva e as No- 
ções d'iArchilectura , desenhadas pelo illustre pro- 
fessor , e gravadas pelos Shrs. Almeida , Monteiro . 
Santos , e Uibciro. Estas (/raruras são , como obser- 
vou já outro jornal, d'uma clareza, exacção, e até 
elegância , que nada teem para invejar ás estran- 
geiras neste género , obtendo assim o Snr. Sequei- 
ra o que nem sempre cm semelhantes trabalhos se 
alcança — excelleutes interpretes dos seus excellen- 
tes desenhos. 

(A. Herculano.] 



Dkspreza os hypocritas. ou da-lhes o que anhelam, 
verás logo desenrugadas as carrancas do seu embu.s- 
le, que quasL sempre inclina á avareza e ambição. 



71 



o PATSORA^IA. 



137 



. - t,- ■ 




»Au£.£S. 



Nobre e grandemente nacional foi o pensamento da 
erecção de uni monumento á memoria do infante 
D.Henrique, no próprio logar que elle havia esco- 
lhido para estabelecer a famosa eschola de mathe- 
maticas e navegarão, donde sahiram os nossos pri- 
meiros navegadores , e que por consequência foi a 
origem dos pasmosos descobrimentos que devassa- 
ram á Europa os mares , portos e preciosidades do 
Oriente. — Sagres, que o infante fundou á volta de 
Ceuta , c onde residiu por muito tempo e veio a 
findar seus dias , hoje sitio quasi ermo , reduzido a 
uma praça marítima de diminuta guarnição , é um 
nome tradicional e histórico , que percorre o mun- 
do por beneficio da impressão : mas os olhos dos 
que a visitaram até ISiO não descobriram uma pe- 
dra , nma inscripção , que lhes avivasse a recorda- 
ção, exarando a gloria do illustre D. Henrique. Es- 
ta oodoa de negligente esquecimento , de que para 
com tantos varões beneméritos da pátria somos cul- 
pados , foi apagada no anno apontado , assentandq- 
se o monumento , com as inscripções que diremos 
adiante , a pag. 1 íO. 

A ponta , ou promontório de Sagres , na costa do 
Algarve , obra de uma légua a leste do Cabo de S. 
Vicente (1) , forma uma península de 450 braças 
d'extensão, desde o meio da garganta do islhrao ou 
lingueta que a prende á terra até a ponta que mais 
entra pelo mar e na direcção de nordeste a sudoes- 
te , com 200 braças na maior largura , que é quasi 
ao meio desta superficie (2). O solo é um rochedo 
escalvado , que apenas em algumas fendas entupi- 
das d'areóla mantém a enfezada vegetação de mat- 
to rasteiro , que não cresce mais de ura palmo aci- 
ma do chão : parece que esta assentado em aboba- 
da feita pela natureza e o correr dos annos, o que 
se confirma pelas concavidades na raiz banhada pe- 
las ondas, e mais ainda pelas aberturas do nivcl su- 
perior , que são outros tantos respiradouros , por 



(1) Vid. estampa e nolícia a paf. 117 do vol- antece- 
dente. 

(4) Exiractátnos esla informação do relatório circums- 
taDciado qiie o Sr. Ix)ureDçc Germack Possollo appreseDtou 
ao Governo. 

M.UO 6—1843. 



onde resfolga impetuosamente o vento , e jorra o 
mar a grande altura espalhando a larga distancia a 
salsugcm , que esterilisa os campos contíguos ao 
promontório. 

X fortificação desta paragem [com toda a proba- 
bilidade] deveu sua origem ao infante D. Henrique ; 
em tempo de Filippe 3.°, pelos annos de i(i31 , a 
repararam ; e foi reformada muito posteriormente , 
em 1793 : por isso é de crer que , tomando nós de 
um a/6ií»i antigo o desenho , que copiámos , algu- 
mas differenças possam notar-se : quanto ás casas 
ou paços onde morou o infante e tivera as escholas, 
não se encontram vestígios certos , apesar das pou- 
cas tradições locaes que se conservaram ; nem as 
conjecturas podem tomar bases seguras, porque fo- 
ram destruídos os documentos e livros da camará 
de Sagres , quando o seu mui limitado concelho foi 
annexado ao de Villa do Bispo. A fortificação exis- 
tente quadra o termo próprio de tenalha . sem fos- 
so, nem estrada coberta, servindo-lhe d'esplanada 
o terreno com a sua inclinação natural para o lado 
da campanha, que é plana e se descobre na distan- 
cia de mais de duas léguas; e quasi até o alcance 
da artilheria , principiando da raiz da muralha , é 
incapaz de admittir os trabalhos de apro.rcs , por 
ser rocha da mesma natureza da península, com al- 
gumas pequenas ondulações. Dos extremos dos meios 
baluartes corre a muralha pelas extremidades da 
rocha , fechando assim de ambos os lados os ba- 
luartes , e nestes raraaes de muralha estão forma- 
das duas baterias para guardar as bahias. Contigua 
á cortina e quasi no meio delia para o interior da 
praça , existe uma torre quadrangular , de 50 pal- 
mos d'altura , com 12, 14, o 1!S de espessura no 
pé das muralhas que a compõem. A entrada prin- 
cipal da praça , no exterior ao moio da cortina por 
um corredor que atravessa o seu reparo , é conti- 
nuada por baixo da abobada da torre , onde forma 
uma porta para o interior da praça, junto da qual 
e encostada á torre está a entrada para o corpo da 
guarda. O alto da torre ou a sua plataforma c guar- 
necida de parapeitos , formando um pentágono re- 
gular com o vértice para a campanha , com canho- 

2.' Serie. — Voi,. II. 



138 



O PANORAMA. 



neiras rasgadas, ficando a cavalleiro da recinto ma- 
gistral, iv esta torre o único edifício existente , que 
indica mais remota antiguidade , e por ser o mais 
nobre da praça foi escolhido pelo hábil otficial, en- 
carregado da coUocação do monumenlo, oSúr. ?os- 
sollo , que o fez assentar na parede por cima da 
porta. — Quanto aos quartéis , feitos em 1793 sao 
edifícios acconimodados ao intento , mas pequenos , 
nem tem cousa que mereça especial menção. IVo ex- 
tremo da peninsula ha duas pequenas baterias , a 
leste e a oeste, que entre si distam cento e trinta e 
cinco braças. 



SaOlTOlCIii PSLITICA- 

Considerações sobre o Curso d' Economia Poliiica, pu- 
blicado em Paris cm 1842 pelo Sr. Miguel Clieva- 
licr. 

II. 

£ FACTO verdadeiramente singular na historia das 
nações este da nossa , que tendo nós descoberto e 
dobrado o cabo de Boa-Esperança , doando assim á 
custa de muito sangue e cabedal nosso aos povos 
de ambos os hcmispherios uma estrada magnifica , 
muito mais facil e barata que a antiga para o car- 
reto dos seus productos, despresassemos as commu- 
nicações do nosso solo natal ao ponto que todos ve- 
mos ! Bastava que das riquezas, que grangearam no 
commercio das colónias, consagrassem os nossos an- 
tepassados uma parceila cenlesimal ;ís estradas c ao 
aperfeiçoanienlo dos nossos rios para que hoje fos- 
semos o que não somos por nus faltar este titulo de 
civilisação — uma nação curopea. Não o fizeram. 
Absolve-los do seu descuido , emendando-os , era o 
que nos cumpria. Mas não só absolvidos, justifica- 
dos estão por nosso desleixo. 

E comtudo não ha nada mais fatal do que este 
desleixo á prosjieridade do reino. As más eslr.idns 
ou a falta delias podem dobrar e até quadruplicar 
o preço dos géneros , sem que o produclor utilise 
esse excesso que é prejudicial ao consumidor — o 
preço do trabalho, sem que o trabalhador utilise es- 
se excesso, que ó cm damno do proprietário — e o 
lireco do transporte , sem que ninguém utilise es- 
se excesso, que é todo em detrimento do produclor 
c do consumidor juntamente. É uma perda gera! 
para toda a sociedade. 

Esta perda é incalculável no estado , para deplo- 
rar , das nossas estradas, e navegação interna. Ha 
porções consideráveis de terreno que carecera abso- 
lutamente de caminhos transitáveis ; ha rios e cor- 
rentes que não prestam nenhum serviço <á conduc- 
ção , porque não tem sido aproveitados , canalisa- 
dos, ou, emfim, meltidos no grémio dos instrumen- 
tos productivos por meio de obras convenientes. O 
principal damno que resulta deste abandono, é a 
impossibilidade ou a carestia do carreto: o outro, 
lambem assaz grave, é causado á saudc publica e à 
cultura : á saúde publica pela estagnação das aguas 
c deposito que fazem de resíduos animacs e vege- 
taes expostos ao ardor do sol ; donde nascem inter- 
mitlontcs no nosso Kiba-Téjo, em Silves e suas im- 
niediações no Algarve, e em outras partes do reino: 
;í cultura pela inundação, e repreza das aguas cm 
terras aráveis , causada da sinuosidiídc e direcção 
irregular das correntes. Quem esmar , não digo já 
calcular , por um lado os terrenos que assim são 
perdidos para a lavoura , e por outro os indivíduos I 



que a morte dizima , ou a doença inutilisa tempo- 
rariamente por esto motivo , ha-de affligir-se . c la- 
mentar o descuido com que tem sido entre nós tra- 
tado este ramo do serviço publico. 

Mas não olhemos esta face do objecto , o nem 
mesmo o ciamno negativo que está sofTrendo a cul- 
tura cm algumas partes do nosso solo por falta de 
irrigações : contemplemos somente o transporte. O 
transporte onde elle é possível — que cm muitas lo- 
calidades não é — está-nos custando, pelo menos, 
duas vezes mais do que devia custar-nos , se as 
nossas communicações , terrestres e Duviacs , csli- 
vesscm em lermos , não quero que de perfeição , de 
mediania. E digo de mediania, porque tomáramos 
nós alcança-la em nossos dias. Suppondo — c sim- 
[)lcs supposição , raas não pecca por excesso — que 
actualmente íe dispenda no transporte de homens c 
mercadorias dois terços sobre o esforço que devia 
ser-nos necessário n'um estado regular de commu- 
nicações internas , é evidente que esse accrescimo 
de esforço que podia ser empregado n'outros traba- 
lhos industriaes , fica absorvido nos d> carreto. Se 
estimarmos em 5000 rs. a renda anuual de cada 
portuguez da Europa , distribuída por uma popula- 
ção de 3:300:000 habitantes, a totalidade d'essa 
renda será ICo mil contos. E se calcularmos o cus- 
to dos transportes no vigésimo d'ella , a totalidade 
d'esse custo serão 8:230 contos , cujos dois terços , 
que é o que perdemos, por supposição , [não exag- 
gerada] annualmenle no carreto , montam á somma 
enorme de 7500 coutos I Eis-aqui o que desperdi- 
çámos annualmeulc, só nntocantc adcspeza dctrans- 
portes , por não allendermos á viação das estradas 
e rios. Desperdiçámos uma quantia que excede ao 
triplo do juro anuii.il da divida estrangeira , a dois 
terços da nossa reccila , c é igual á subsistência de 
75000 pessoas, orçada cm 100000 rs. annuaes por 
cada uma. 

Sem melhoramento n'este ramo não podemos dar 
um passo em nenhum outro : e a nossa agricultura, 
em que lemos obtido muitas vantagens desde as me- 
didas económicas da restauração, ha-de parar no seu 
adiantamento e até retroceder em chegando a certo 
ponto , se lhe não facilitarem a locomoção ; porque 
não basta tè-la desassombrado dosobslaculos moraes 
que se oppiuiham á sua circulação , é indispensável 
libcrla-la de outros, que são os fisicos , oficrccidos 
pelas distancias, e a natureza do terreno. 

Um dos iiiciinvenienlcs que appresenta esta con- 
dição, verdadeiramente africana , das nossas com- 
municações, a que bem pouca, se alguma, atlenção 
seda, consiste na impossibilidade em([ue nos põem 
de orçar o quantijm de impostos que, sem risco da 
sua \ilali(ladc, podem supportar as nossas forças 
productivas. Os cálculos que se fazem, comparando 
a prrn I!a pecuniária de tributos que em Portugal 
foca a cada individuo cora a quota análoga em ou- 
tros paizes , para se concluir que os nossos contri- 
buintes estão mais aliviados que os de algumas na- 
ções, são completamente defectivos ; porque ainda 
que oito vinténs sejam ígnaes a um franco, na rela- 
ção mondaria , esta mesma quantia tem diirercntc 
valor permutável segundo os diUcrentes paizes, c o 
imposto de um franco pago na Bélgica não equiva- 
le a um imposto de oito vinténs pago em Portugal. 
Mas , sobre tudo , a importância das coiilrihniçõcs 
que uma nação pôde [lagar não se regnl.i peio que 
|)ag,im ou podem pagar as outras : regula-sc pela 
facilidade, maior ou menor, da producção nacional 
de cada povo. O povo onde a producção c facíl pó- 



o PANORA^IA. 



139 



de ser mais tributado do que outro onde c dillieil ; 
e as dilliculdadcs que ella cncoiilra são outros tan- 
tos impostos , negativos para o estado que os não 
recebe , onerosos para os particulares que os sup- | 
portam em pura perda. Ora d'estes um dos mais 
pesados que a nós nos gravam, cque ninguém nict- 
te em conta , é a falta de comnuiiiicaçõcs. Tributo 
d'esta cs(>ecic, tão avultado como o que nos oppri- 
me , não opprimc a nenhum paiz da Europa , exce- 
ptuando a Rússia. Por isso aflirmci eu que o esta- 
do dos nossos caminhos e na\egnção interna nos 
conslilnia na impossibilidade do avaliar ale onde 
podia subir, sem damno das fatuldndes producti- 
vas do reino , o algarismo dos nossos tributos. 

Uma das maiores vantagens dasconducçõcs fáceis e 
expeditas é a l)arateza dos géneros; e abaratezados 
géneros, sobre tudo d'alguns dos de mais geral consu- 
mo, é um dos indicios mais infalliveis da prosperida- 
de de ura paiz. Esta barateza proiiorciona melhor aos 
cidadãos, quando consomem , a satisfação das suas 
necessidades , e até assegura mais aos que produ- 
zem a extracção dos seus productos. Aos producto- 
res , certamente , conviria mais a elevação dos pre- 
ços , se a fortuna do grande numero que consome 
podessc com estes : mas não podendo , o resultado 
dos preços altos será sempre uma diminuição pro- 
porcional na extracção das mercadorias , que nin- 
guém ha-de allirmar seja favorável aos interesses 
dos que as produzem. Não é dos géneros raros em 
rasão de monopólio natural, nem de alguns artigos 
agricoias, indispensáveis, mas de produccão, limi- 
tada pela natureza das cousas, que trato, que os pri- 
meiros não podem chegar ás classes mais numerosas 
da sociedade, e por isso mesmo ou o seu preço ha- 
de forçosamente ser subido, ou o seu fabrico aban- 
donado ; e a depreciação extrema dos segundos não 
pôde ser argumento da fortuna nacional : fallo dos 
procurados por essas classes , e necessários á sua 
subsistência : e reduzo a questão á ultima simplici- 
dade dizendo : que a prosperidade não pôde conce- 
ber-se sem a abundância , e que a abundância não 
pôde casar-se permanentemente com os allus preços 
dos productos cm muitos casos , c da produccão em 
todos. Que se por outro lado se considerar, que ha 
productos no nosso paiz, os quaes não podem sahir 
do berço onde nascem , ou passar alem de um raio 
mui limitado de consumo , por carestia ou impossi- 
hilidade de transporte, q\iem se atreverá a duvidar 
de que este mal está reclamando remédio, e prom- 
pto? 

Províncias e pontos ha no reino mais distantes de 
outros pontos do reino do que de alguns paizes da 
Europa ; mais distantes , pelas léguas não , pelos 
maus caminhos. Esta casta de distancia obrigava 
Lisboa a importar trigo de Odcssa : e ainda hoje a 
obrigaria , como ha bem poucos annos , se o au- 
gmcnlo dos cereaes no Riba-téjo e n"outras partes 
a não bastecesse d'elles. A experiência de lodos os 
dias , e o simples instincto estão ensinando que as 
fabricas e as terras de lavoura quanto mais próxi- 
mas ás grandes povoações c cidades , tanto mais 
augmentam em lucro e em valor : e que tanto mais 
diminuem em ambos, quanto mais se aflastara d'es- 
tes grandes focos de consumo. Figuremos um trian- 
gulo : os productos estejam no vértice : os consu- 
midores na base : os dois lados sejam as estra- 
das terrestres ou Duviaes, por onde se hão-de con- 
duzir os productos ao centro do consumo. Quanto 
mais próximos estes se acharem da base , melhor 



consumidores. Mas se não poderem nascer senão 
no vértice , quanto mais facil e rápido fòr o mo- 
vimento com que desçam para a base , tanto me- 
lhor. Sc o género se achar distante do consumidor 
dez léguas que se possam vencer era 5 horas , es- 
tará na realidade mais próximo do que achando-se 
na distancia somente de oito léguas, as quaes com- 
tudo , pela inferioridade dos caminhos , apenas pos- 
sam vencer-se em (> horas. Assim é que Odessa es- 
tá mais perto de Lisboa do que o Alenitejo, pela 
economia Trapidez c barateza] dos transportes, não 
pela medida linear das distancias. 

Andai para diante — prourrssn , progresso! nos 
clamam de toda a parle. — Também o queremos ; 
mas como andar para diante, se nós não lemos es- 
tradas! E como as escusaremos se ellas significam 
tudo isto — na ordem económica , barateza, abun- 
dância e eommercio — na ordem civil , segurança — 
na ordem politica , nacionalidade — na ordem mo- 
ral , civilisação? Era quanto as mercadorias , os ho- 
mens , as idéas , os costumes , e as alTeições nacio- 
naes não circularem facilmente por lodos os angules 
do reino , eommercio interno , segurança , naciona- 
lidade, civilisação serão vozes para nós, vozes vsns 
sem significado real que lhes corresponda : Lisboa 
e Porto serão cidades porlnguezas de Europa : mas 
as nossas aldèas sertanejas serão terras calaras de 
Africa. É preciso estabelecer estas correntes eléctri- 
cas que communiquem o mesmo movimento aos 
membros desatados e dispersos d'este corpo , e que 
amanheça para nós o dia da vida activa e social da 
nossa epocha. Olhai para todas ou quasi todas as 
nossas povoações raariliraas , vereis demonstrada a 
poderosa iniluencia da facilidade dos transportes 
sobre o incremento da riqueza na vantagem, que em 
eommercio e prosperidade levam ás do interior es- 
sas mesmas povoações, ou situadas á beira-mar, ou 
banhadas de grandes rios navegáveis , ou visinhas 
das suas margens. Estas são, não outras, as verda- 
deiras palhetas de ouro que rola o Tejo : e o maior 
cabedal quo os nossos rios encerram em sua urna 
opulenta é a potencia locomotiva. 

(Continua.) 
A. d' O. Marreca. 



Manani-iacs sulphureos em summo grau. — Na pro- 
vinda russiana de Orenburgo , nas margens do 
Sourgout [como os francezcs escrevera] brotam den- 
tro do limite de seis a sete léguas mais de uma dú- 
zia de fontes , cujas aguas são por tal modo impre- 
gnadas de enxofre que depositam um sedimento , 
que os povos visinhos ajuntara c vendem como se 
fora aqiiellc mineral puro ; e é esta colheita obje- 
cto lucrativo : apesar do rigor da temperatura nun- 
ca gelam , nem quando as aguas daqiielles arredo- 
res estão coalhadas pela intensidade do frio. — Ha 
outra nascente com a mesma propriedade e igual- 
mente pcrenne . que está distante uma légua da al- 
deã de íchtulkina ; chamam-lhe tanque de enxofre , 
e as suas aguas claras deixam ver no fundo o leito 
sulpliureo com toda a natural cor de aniarello es- 
verdeado ; ha porem a notável circumstancia de 
que n"um raio de meia légua o circuito da nascen- 
te exhala um fétido insupportavel. O ribeiro que 
deriva desse Ianque leva umas aguas turvas e bran- 
cacentas : os aldeãos rnssianos , que por alli mo- 
ram perto , para as designarem como á vista se ap- 



presenlam pouco mais ou menos , pozcram-Ihe o 
será a condição tanto dos productores , como dos | nome de «Ribeiro de leite.» 



■TH' 



ilÒ 



O PANORAMA. 




I.ado esquerdo. 

AETERN. SACRrM. 
BOC. LOCO. &.C, 



Lado direito. 

monum. consagrado 
á eternidade. &c. 



MONUMENTO AO ZNFANT£ D. HEXAIQU£ NA PRAÇA OE SACHES. 



Consiste esta memoria n'uma lapida de mármore, 
que faz um corpo de 10 "^ palmos de altura , c 5M 
ditos de largura , cmlnitida na parede sobre a por- 
ta interior da entrada principal da fortaleza de Sa- 
gres : é o mesmo corpo dividido em dois planos, 
contendo o superior , em meio relevo , o escudo de 
armas do Infante, cora uma esphera armillar á di- 
reita , e da parto esquerda um navio á vela ; o pla- 
no inferior consta do duas almofadas, na do lado 
esquerdo ha esculpida uuia inscriprão lalina, e na 
do direilu lè-sc a versão em portuguez ; somente a 
qual damos aqui aos leitores. Na estampa acima 
vè-se o contorno geral c a disposição da memoria , 
c indicados os logares dos respectivos letreiros. Da 
collocação lavrou auto aos 24 de julho de 1840 o 
secretario da camará municipal da visinha villa do 
Hispo, e o assiguaram o governador da praça, o ca- 
pcllão, osodiciaes da guarnição, os membros da ca- 
mará, e ocapilão de mar e guerra L. G. Possollo, 
que os convidara para este acto, a que presidiu. 

Inscriprão rin porliif/ucz. 

monum. consagrado á eternidade, o grande 

infante d. henri(|uc (illio de clrci de portugal 

d. João I., tendo cnq)rehendidu descobrir as regiões, 



ale então desconhecidas , de africa Occidental , 
e abrir assim caminho para se chegar por meio 
da circumnavegação africana até as partes mais 
remotas do oriente, fundou nestes lugares á sua 
cusla o palácio da sua habitação , a famosa 

escola de cosmografia , o observatório 

astronómico , c as ollicinas de conslrucrão 

naval , conservando , promovendo e augmentando 

tudo isto até ao termo da sua vida com 

admirável esforço c constância , e com 

grandíssima utilidade do reino, das letras, 

da religião, e de lodo o género humano, falleceo 

este grande príncipe depois de ter chegado 

com. suas navegações alé o 8.° gr. de latitude 

septentr. , c de ter descoberto c povoado de 

gente porlugueza muitas ilhas do atlântico 

aos XIII. dias do novembro de 14tíO. d. maria II. 

rainha de portugal e dos algarves mandou 

levantar este monumenlo á memoria do 

illustre príncipe seu cdusauguineo aos 379 

aunos depois do seu fallecimento , sendo 

minislro dos negócios da mariídia e 

ultramar o visconde de s.i da bandeira. (•) 

183!). 



(•) Viisulámos fiara mais fácil leiuii 



o PANORAMA. 



141 



O Bono. 

iV2S. 

XI. 

O subterrâneo. 

Depois de acabado o banquclc quando os cavallci- 
ros comoravam a derramar-SL- pelas salas esplendi- 
damente adornadas dos paços ile Guimarães , c a 
descer aos patcos onde os cavalleriços os esperavam 
( i)m os cavallos , dellos c dos seus acostados c pa- 
sens ; Vr. Hilarião receoso de um novo encontro de 
Gonçalo Mcndcz com Veremudo Percz , o (jual teria 
provavelmente consequências que naquella melin- 
drosa conjuncção era necessário evitar, com tal ar- 
te soul)c reter o violento rico-homcm na sala d'ar- 
mas, que ao descer ao terreiro interior, este começa- 
va a estar deserto, porque mais de uma hora tinha 
passado. .Vhi mesmo ainda o ahbadc procurava, pa- 
rando, demorar a sabida do cavalleiro com inter- 
mináveis reflexões e perguntas sobre os receios e 
esperanças que agitavam todos os ânimos. No meio, 
porem, da manhosa conversarão do velho monge um 
caso inesperado veio inlerrompe-Ia. 

O vasto pateo que precedia o palácio estava ape- 
nas alumiado pela luz aftastada de uma almcnara 
collocada no eirado da agigantada torre alvarran , 
c pelo ténue reflexo de dois fogaréus que ardiam aos 
lados da ponte levadiça. A claridade dos dois fachos, 
atravessando por baixo du portal soturno , ia bater 
somente no átrio da escadaria que dava communi- 
cação para a sala d'armas. De um e d'outro lado 
do terreiro as trevas pareciam profundas aos que 
seguiam da escada ao portal por aquella espécie de 
estrada de luz, mas por isso mesmo estes eram per- 
feitamente vistos por quem quer que estivesse de 
uma ou da outra parte. 

Xo momento em que parou, Gonçalo Mendez viu 
ao pé de si um individuo , que elle suppunha já 
bem longe de Guimarães. 

«Como assim, Odorio Fromarigucz? ' — Ha mais 
de uma hora que devíeis ter partido para a terra 
da Maia. — Os annos , meu amo, teem-vos tornado 
os pés tardos. » 

A pessoa aquém o Lidador dirigia estas palavras 
era um velho , pequeno de corpo, magro, olhos co- 
mo duas ervilhacas , e tez simillnnte a um perga- 
minho de sete séculos amarrotado. Trazia vestido 
um lorigão negro , e na cabeça um camalho , que , 
eubrindo-lhe o pescoço até os hombros , c circura- 
dando-lhe o rosto como a toalha d'uma freira, ape- 
nas lhe deixava este visivel. Aquelle trajo militar 
era o de um simples homem d'armas , ou acostado 
de rico-homem ; porque o arnez de solhas c o elmo 
ou capello de ferro brunido , ainda eram armadura 
demasiado custosa para os que , pelo monos , não 
pertenciam ;i classe dos simples cavalleiros. 

A resposta do velho ás palavras de Gonçalo Men- 
dez , nas quaes, posto que proferidas em tom sub- 
misso, transluzia o despeito, foi pôr o dedo na bo- 
ca, fazer-lhe signal que o seguisse, e encarainlinr-se 
para um dos recantos do pateo , onde a escuridade 
parecia mais profunda. 

Odorio Fromarigucz era ovillico dosolar da Maia. 
O villico do século 1-2.°, quer o fosse do rei , con- 
de, ou senhor supremo, quer de um vassallo pode- 
roso , correspondia não só ao moderno administra- 
dor ou mordomo de rico fidalgo , mas lambera re- 
presentava a auctoridade administrativa e ainda , 
em certos casos , a judicial , dentro dos limites da 
honra, préstamo , ou senhorio respectivo. Era elle 



quem por via de regra fazia calardo , e muitas ve- 
zes capitaneava na guerra os peões , besteiros , fre- 
cheiros e fundeiros, e na ausência do senhor fazia 
as suas vezes cm todos os logares , salvo nos cas- 
tellos on castrou, onde ao alcaide ou tenente toca- 
vam em grande parte as attribuiçõcs do villico. 
Conforíne a promessa que fizera ao homem do zo- 
rame, Gonçalo Alendez ao subir para a sala do ban- 
quete encontrando ahi entre os seus acostados Odo- 
rio Fromarigucz , que nessa occasião se achava na 
corte , lhe ordenara partisse immediatamcnte a to- 
do o correr do cavallo para aterra da Maia, e con- 
vocando oitenta acobertados e sessenta peões os ti- 
vesse a ponto com caldeira e pendão, para cumprir 
as ordens que brevemente lhe havia de communi- 
car. Ucceando que o villico comraettesse alguma 
imprudência , nada mais lhe fizera saber, resolvido 
a enviar no dia seguinte um cavalleiro que devia 
acompanhar aquella mesnada , ou força , como ho- 
je diríamos , até o arraial do infante. 

Tanto o Lidador como o abbade baviam seguido 
o villico para o sitio , que elle parecia buscar com 
toda a precaução. Chegados a um canto escuro en- 
tre a sacada interior de uma torre e a escada que 
subia para o adarve da quadrella contigua , o villi- 
co parou , voltaudo-se para os dois. 

iil'orque não partiste? — perguntou o cafalleiro. 
— Que mysteríos são estes?» 

«Não pude: — respondeu o velho. — Os vigias, 
roídas , e sobre-roldas tem as mais estreitas ordens 
para não deixarem passar alem das barbacans do 
burgo ninguém ; seja quem fór: o prop-^io runde de 
Trava não é exceptuado. Entre os homens d'armas 
correra varias noticias. Se accreditarmos o que se 
diz....» Aqui o villico hesitou e eallou-se. 

«Que é o que se diz? — acodiu o Lidador depois 
de alguns momentos , impaciente com o silencio de 
Odorio Fromarigucz. 

«Que — proseguiu o velho ainda hesitando — ha 
conjurados contra a rainha dentro de Guimarães; 
e ousara pronunciar o nome de ura dos mais illus- 
tres e leaes rícos-homens de Portugal como o do 
cabeça e movedor da conjuração." — 

«E cujo é esse nome? — insistiu com voz firme 
o Lidador. 

«È .. — tornou o villico em tom quasi imperce- 
ptível : — é o vosso ! » 

«Oh, entendo, entendo! Murmurou com uma 
cólera reconcentrada Gonçalo Mendez. Medem-mc 
por si os miseráveis ! Porem , não ! Elles bem sa- 
bem que lealmente cu diria á rainha : — Senhora , 
não será para estrangeiros meu preito : que o devo 
a vosso filho. — liem sabem que á luz do meio-dia 
eu movera os meus pendões para a hoste deAffonso 
Henriquez. Conspiradores covardes são elles ; por- 
que querem colher ás mãos indefensos os que te- 
mem encontrar nas lides. Esqueccis-vos , meus no- 
bres senhores, que tenho comigo vinte acostados, 
e que vinte acostados meus são sobejos para , máu 
grado vosso , romper larga sabida por essas tão vi- 
giadas barreiras? — Villico — proseguiu elle vol- 
tando-se para Odorio F^romariguez — vai-te ao meu 
bairro: previne já os nossos cavalleiros que vistam 
ímmediatameníe as armas; e que juntos na minha 
pousada vigiem das ameias as ruas em roda , por- 
que nos ameaça uma negra traição : eu breve serei 
com elles. 

O tom com que o esforçado rico-homem proferira 
estas palavras não admittia observações : o villic>) 
obedeceu. 



142 



O PANORAflIA. 



Apenas ellc parlíra , Gonçalo Mendes dirigiu-se 
a Fr. HilariSo. 

«Abbadc rio Mosteiro de D.AÍuma, vós me acom- 
panhareis. A vossa ainisadc para comigo pôde ser- 
vos fatal : o ronde de Trava não ó homem que res- 
peite a santidade do sacerdócio ; c a vida , ou pelo 
menos a litierdadc , vos correria griio risco , se nas 
prevenç("ies desta noite se esconde , como suspeito , 
um pensamento atroz. » 

«Deixai o obscuro monge , — respondeu o frade 
— e salvai o illuslre guerreiro. Que importa a li- 
berdade ou a vida de quem como eu j;i demais 
tarda ao sepulchro? A morte, posto que mo aterre, 
achar-mc-ha resignado. JJas o que mais temo é o 
vosso próprio esforço. Com vinte homens d'armas 
que podeis fazer cm Guimarães , onde Fernão Pe- 
rez conta mais de mil lanças dos seus parciaes?» 

«Ao romper d'alva — replicou ocavallciro — por 
meio desses vigias c roídas a minha acha d'armas 
abrirá franca passagem aus vinte cavallciros do so- 
lar da Maia. Os que então se opposerem á sua sa- 
bida — proseguiu com um sorriso amargo — não te- 
rão , juro-vo-lo cu, largo alento para dizer ao con- 
de dcTrava: — (ionçalo Mcndcz, ei-lo que vai jun- 
tar-se com os seus á hoste do infante de Portugal. 
Ao menos terei ao partir sellado para sem[irc alguns 
lábios desses que ousaram proferir o meu nome de 
involia com o titulo de desleal.» 

«A ousadia — tornou o abbade — vos faz parecer 
fácil tão dilhcultosa empreza : mas o perigo é im- 
menso. Se no primeiro impelo não poderdes salvar 
as barreiras, estais perdido; c esta tentativa deses- 
perada dará cor de verdade ás accusações dos nos- 
sos inimigos. » 

« IJ necessário sahir desta situação violenta — in- 
terrompeu o Lidador. — Sei o que significa tão re- 
pentino converter do burgo de Guimarães cm vasta 
prisão de homens livres. Quando ahi se arrisque a 
vida, que importa? Estes pulsos não foram feitos 
para os ferros do scidior de Irava...» 

«Mas se houvesse um meio — replicou Fr. Hila- 
rião — mais seguro de vos pordes cm salvo cora os 
cavallciros de vossa honra...» 

«Há !» — disse uma voz que parecia soar do chão 
junto aos pés do monge. Gonçalo Mendcz recuou mct- 
tendo mão á espada ; c ambos procuraram no meio 
da escuridão descobrir donde partira aquella palavra. 

«Quem é que nos escuta? — bradou ocavallciro. 

«Eu!» — disse a mesma voz, acompanhando es- 
ta palavra com uma grande risada. 

«í:; a voz e o rir de D. líibasl — exclamou o ab- 
Lade ainda sobrcsallado. — Agora me recordo de 
que fica [lara eslc lado a sua humilde pousada.» 

O monge, o cavalleiro , c todos os habitantes dos 
paços de Guimarães haviam-se completa e profun- 
damente esquecido do Iruão — como porventura te- 
rá acontecido a mais de um dos nossos leitores. 

Neste momento a luz de uma lanterna de furta- 
fogo deu de chapa nos vultos do Lidador e de Fr. 
Hilarião. Atenue claridade que nos próprios corpos 
se refrangia, elles viram um braço, que segurava a 
lanterna no vão de unia porta baixa meia-cerrada , 
que mais parecia o adito da pocilga de um mastim 
que de habitação de homens. Ao meio do vão escu- 
ro luziam dois olhos, e alvejavam os dentes de boca 
escancarada por um rir que devia ser feroz. 

«Que fazes aqui, Iriião? — perguntou o cavallei- 
ro colérico. 

«Escutava: — tornou Iranquillanicnle o bobo es- 
tendendo a cabeça [lara os dois. 



"Foi desgraça tua! — porque me é necessário o 
leu silencio : — murmurou o Lidador , largando a 
espada na bainha, travando do braço de D.Bibas, 
e levando a mão ao punhal que linha no cinto. 
. O bobo não deu o menor signal de susto , e ven- 
do esle movimento do cavalleiro , que porventura 
só pertendia alerra-Io ; — com umtora d'amargo es- 
carnco replicou ao ouvir aquellas palavras ameaça- 
doras : — 

i\ão gasteis comigo, nobre senhor, a nnica moe- 
da com que vós outros os poderosos comprais não 
só o silencio, mas tudoaquillo de que careceis para 
satisfazer paixões brulacs. Se eu quizesse delatar o 
que vos ouvi , não fora tão louco que vos fallasse. 

«Respondo por D. Bibas — acudiu o abbade. — 
Nào é elle capaz de trahir-nos. Quiz exercitar seu 
mister, e bera sabeis que seu mister é gracejar.» 

<' Fr. Hilarião 1 — interrompeu o bobo ; — entre a 
vida que foi , e a que é e ha-dc ser , ha para mim 
um abysmo. Cavaram-no os estrangeiros ^ mas eu 
os despenharei ahi ! E depois D. Bibas , o folião , o 
bobo assentar-se-ha na borda deile para lhes ale- 
grar a queda ; para rir e zombar. Á pergunta que 
fizestes se haveria modo de sahir de Guimarães es- 
te nobre cavalleiro — que intenta manchar seu rico 
bulhão no sangue vil de um jogral, — e os homens 
d'armas da .Maia, respondi eu que havia. Juro que 
não menti. Tenho para isso meio fácil. Podeis apro- 
veitar-vos delle , se é que o beneficio de um bufão 
não deshonra um rico-homem d'illustre linhagem.» 

«D. Bibas ! — replicou o abbade, fitando nelle 
os olhos como quem buscava ler na sua alma : — 
é impossível que queiras escarnecer de um nobre 
cavalleiro que nunca te maltratou e d'uni pobre ve- 
lho que sempre achaste indulgente, em quanto os 
outros monges te repelliam como a um réprobo, des- 
de o dia em que despiste o nosso santo habito para 
te atirares aos deleites do mundo e, di-lo-hci , á 
devassidão da vida de um jogral. É impossível, re- 
pito , que as tuas palavras sejam apenas uma cruel 
zombaria. Mas como hei-de accredítar-le? Que au- 
xilio nos podes prestar , tu humilhado e fraco ? 

Bem sei que sou fraco ! Oh bem o sei ! — inter- 
rompeu o bobo com um acccnto cm que se mistu- 
rava a desesperação e a dôr. Essa terrível verilade 
está escripta cora sangue no meu corpo pelas mãos 
dos cavalleríços de Fernão Perez ; e com fogo nos 
seios da minha alma pelo dedo da amargura .... 
Sou fraco! .. porque não embraço um escudo, nem 
meneio uma acha d'armas '. Sou um homem condem- 
nado ao mais atroz dos tormentos ; a chamar o riso 
aos lábios c a alegria ao gesto quando o coração es- 
tá em noite. Sou fraco... ; porem não sou vil ! Mais 
fraca ó a víbora.... c lambem o homem que é for- 
te , a calca e passa avante: — mas pisada, ella al- 
ça o collo , vibra a língua farpada... e passado um 
dia, por cima do cadáver do forte — do homem, — 
o ente fraco — a víbora — pôde arrastar-se , rolar, 
sem que elle alevanle o pé para a esmagar de no- 
vo ! ..» 

O cavalleiro e o monge , cujos olhos se haviam 
afleilo á luz escaca da lanterna do bobo , estavam 
pasmados ouvindo aquellas palavras, c vendo aquel- 
le gesto trnanesco , em que se pinlavam o ódio, a 
raiva , a desesperação. Atlonitos , cuslava-lhes a 
crer o que presenciavam , ignorando o que se pas- 
sara no jardim pênsil. O Lidador largara o braço 
de 1). Bibas; e a muito custo podcram <is dois per- 
ceber dos seus discursos truncados o motivo do fu- 
ror do chocarrciro. 



o PANORAMA. 



143 



«Fico Iranquillol — disse por fim Gonralo Men- 
dez. — A injuria cruel que recehcslc , e essa sede 
de vingança são os teus fiadores. Agora afTaslemo- 
nos d'aqui — accrescentou cUc dirigindo-se ao ab- 
bade. — Não devo demorar-mc por raais tempo. 
Cumpre ler tudo disposto para sahirmos ao romper 
d'alva. .\ \irgem c Santiago sejam comnosco. 

la a aPfastar-se. D. Bibas, porem, o reteve, se- 
gurando-lhe com força a orla do saio. 

«Não sabireis sem me ouvirdes 1 — exclamou o 
bufão. — Quando os sisudos traçam, como vós, im- 
possíveis, importa que os loucos tenbam juizo por 
elles. Os vossos inteutos são vãos ; porque antes da 
madrugada vinte homens d'armas da terra da Maia 
terão sido arrastados aos calabouços desse castello , 
c talvez a cabeça de ilUislre rico-homem tenba ro- 
lado aos pés do algoz. Certo cavalleiro, que ha pou- 
co trajava um zoramc , deve , se cahir uas mãos do 
conde de Trava , acompanhar o nobre senhor nesse 
trance que o aguarda. O cavalleiro do zorame cl\a- 
raa-sc Egas Moniz , c o rico-homem chama-se Gon- 
çalo Mendcz da Maia.» 

O abbade íicára estupefacto ouvindo as palavras 
do bobo : porem no animo do Lidador , o perigo 
iminente que este lhe annunciava só despertou raais 
violenta indignação misturada de curiosidade. Como 
soubera D. Bibas da vinda de Egas Moniz? Corao 
advinhára ellc os intentos do conde de Trava? Qual 
era esse meio que se gabava de ter para os salvar? 
Havia nisto tudo um enigma , cuja explicação era 
necessário encontrar. O chocarreiro porem lhe ras- 
gou o véu do mysterio. 

Apenas , lacerado dos açoutes , e manando san- 
gue das costas , escapara das mãos dos cavalleriços 
e pagens, 1). Bibas fora esconder na espécie de co- 
vil , em que vivia , a sua dor; c vergonha. Era um 
pesadello, um delírio aquillo por que passara : era 
monstruoso e incrível! — Posto ás varas como um 
servo , elle homem livre ; elle tão mimoso de seu 
bom senhor D. Henrique ! As lagrvmas correram 
abundantes por essas faces habituadas de longos an- 
nos unicamente ás contracções das visagens trua- 
ncscas. .\s Ingrymas , porem , nem o consolaram , 
nem bastavam á sua desesperação. Depois de se ro- 
lar pelo chão mordendo os punhos cerrados, o bufão 
assentou-se a um canto, como o lobo cerval colhido 
no fojo, cansado de lidar em vão por salvar-se. To- 
do o fel que o rir forçado de tanto tempo lhe fize- 
ra por assim dizer absorver e calcar no coração , 
achou emfim \ira resfolgadnuro no ódio implacável 
que a dolorosa e terrível alTronta recebida lhe ge- 
rara lá dentro. O pensamento da vingança alcança- 
ra o que não haviam obtido as lagrvmas: — D. Bi- 
bas sentia agora que ainda havia para elle consola- 
rão e esperança. 

íías como vingar-se? Ignorava-o. Juraria comtu- 
do que Belzebulh lhe dizia ao ouvido : — Pensa 
bem ; que has-de atinar com o caminho que bus- 
cas. Quem deixou de achar meios neste mundo pa- 
ra satisfazer paixões más? 

Slacbinalmenle D. Bibas despira as roupas varie- 
gadas de folião , e vestindo um simples trajo d'es- 
cudeiro galgara as escadas do paço. Na confusão 
que reinava na salla do banquete ninguém o conhe- 
ceu. Girando de uma para outra [larle elle cogitava 
no modo por que poderia obedecer ao pensamento 
irresistível que o agitava. A esperança de que a 
festa terminasse segundo o costume por completa 
embriaguez em que o sangue corresse , e que tal- 
vez no meio da desordem alcançasse approiimar-se 



do conde , lhe sorriu um momento. Então pensava 
lá comsigo como uma boa punhalada pagaria a di- 
vida do truão ao nobre senhor! Mas arriscava-sc a 
errar o golpe, e elle precisava da vida alé obter 
completa vingança. Também pela cabeça desvaira- 
da do chocarreiro passou a idéa de envenenar a ta- 
ça ou copo por onde Fernão Perez havia de beber. 
.Mas fora impossivel sequer o tenta-lo sem ser dcs- 
cubcrto. Fluctuando assim a sua imaginação desre- 
grada de pensamento em pcnsarflento , D. Bibas se 
conservara na sala do banquete alé o fim : vira en- 
trar Garcia Bcrmudez ; e os signaes de accordo que 
houvera entre ellc e o conde. Ao relirar-se a rai- 
nha , o bobo se aproveitara do tumulto dos caval- 
Iciros que sabiam, para renovar uma das suas usuaes 
haliilidados , com o intento de observar alé o fim o 
que se passava. Os sergenlcs e pagens appreSfavam- 
se a lançar mão dos restos do banquete , e por en- 
tre elles D. Bibas pode sumir-sc debaixo dos ricos 
pannos, que, segundo o costume do tempo, cobriam, 
alé rojar pelo chão, aquella v;.sta mesa. Alli, ora 
escutando , ora coando pela memoria um a um os 
açoutes que recebera e as chufas e apupos dos ca- 
valleriços e servos, elle despertava na própria phan- 
lasia um tropel de vinganças imaginarias , a qual 
delias mais absurda e inexequível. O louco por ar- 
te desde que deixara de rir tocava quasi us raias 
da verdadeira loucura. 

Daquelle escondrijo o bobo ouvira perfeitamente 
o que se passara entre o conde de Trava, o alferes- 
mór c o filho de Veremudo Perez. As revelações 
deste , as ameaças do conde , c a commissão mys- 
leriosa de que Garcia Bermudez encarregara o pa- 
gem, nada escapou a D. Bibas. Para os seus inten- 
tos esta conversação fora um raio de luz. Fernão 
Perez rcceava-se de uma traição de senhores e ca- 
valleiros illustres , e era elle villão humilde, ellc 
jogral, elle verme desprezível que o mui nobre con- 
de crera esmagar n'um momento de cólera , quem 
podia entregar Guimarães ao infante, c despedaçar 
nas mãos do ambicioso e altivo barão não to o po- 
der mas a vida. D. Bibas esteve a ponto de soltar 
ura rugido de coníenlamento ao occorrer-lhe essa 
idéa , e um clarão de damnada esperança allumiou 
as trevas da sua alma. 

Desde a morte de D. Henrique, o seu bobo que- 
rido cahíra da grande altura do valimento ao nível 
dos animaes domésticos ; o seu fado fora o dos pri- 
vados de príncipe que desceu ao tumulo ; e , como 
succcde a estes frequentemenle , se não o expulsa- 
ram do importante cargo que exercitava , foi quo 
ninguém havia ahi que o substituísse. Lançatam- 
no , porem, para aquelle aposento baixo, triste e 
húmido, cm que D. Bibas desde enlão habitava, 
consolando-se do desprezo com essas horas de glo- 
ria e triumpho em que imperava, rei das festas no- 
cturnas . nos saraus esplendidos e nos banquetes 
sumptuosos, a que elle dava vida e còr com as suas 
agudezas e chascos. 

Nesta espécie de caverna . para onde fora dester- 
rado o bom do truão , curlíra muitas hora? de té- 
dio : a solidão para qualquer alma sem affectos é 
um tormento real. e a alma de D. Bibas era por 
esse lado uma verdadeira Thebaída. Certo dia em 
que deitado no seu almadraque tinha os olhos filos 
' n'uraa rcsiea de sol que dava de chapa na parede 
fronteira , pareceu-lhe divisar nesta os vestígios de 
uma poria eníaipada. A curiosid.Tde o incitou a fa- 
zer mais altenta averiguação. ,\ão se enganara. A 
força de tempo e diligencias pôde abrir suffiGÍent(; 



lU 



o PANORAMA. 



passagem para o escoiidrijo que achara. Era este 
ura daqiielles caiiiiiihos siilílcrraneos , coiiiuiuns em 
quasi ti ;lo.s os caslellos da cdade media , [lur onde 
nas ulliiiias cstrcilezas os defensores dos logares 
forlific.idos alcançavam sahar-se qnando a resistên- 
cia se tornava inipossivel. Este caminiio, qne pare- 
cia pertencer á íundaçãu primitiva do castcllu de 
D. Munia , fora provavelmente condemnado como 
inútil qpiando o genro de AlTonso 6.° lançara em 
roda dos seus paços soberbos uma cinta de muros 
e torres inexpugnáveis. 

Nunca D. Bibas revelara o descobrimento casual 
que fizera. Este homem , que nada possnia , quizc- 
ra ao menos possuir um segredo. E na presente oc- 
casião aqnella innocente avareza lhe punha nas mãos 
um rico thesouro — o cumprimento dos seus vin- 
gativos desejos. A entrada do subterrâneo era lon- 
ge , c o bobo atravessando-a algumas vezes tivera 
o cuidado de tornar ainda mais cerradas as balsas, 
carças e troncos que a encobriam. A idéa que lhe 
occorrèra ao ouvir a conversação do conde e do al- 
feres-mór fora a de fazer servir este caminho des- 
conhecido ao ódio que o devorava. O infante diri- 
gia-se a Guimarães, e na primeira noite elle lhe 
podia dar nas mãos aquelle in^encivel castello. As- 
sim apenas vira deserta a sala do banquete , sahíra 
e viera fechar-se na sua pocilga , para cogitar no 
modo de executar seus intentos. Deitado nu roto e 
immundo almadraque estava embebido em refle- 
-xões , quando ouviu fallar o cavalleiro e o monge. 
Pôz-se a escuta-los, e do seu dialogo conheceu os 
receios que os agitavam, receios que elle sabia se- 
rem bem fundados. Deus ou o demónio lhe trouxe- 
ra alli os instrumentos da vingança. Dando sabida 
ao Lidador e aos seus cavalleiros ; o esforçado se- 
nhor da Maia ficaria sabendo o meio de saltear es- 
te vasto e solido castello, que aliás parecia incon- 
quistavel. 

Tal foi em substancia a narração de D. Bibas , 
que fechando a porta conduzira o monge e o rico- 
horaera ao lado do aposento onde elle abrira entra- 
da para o subterrâneo. — «Por aqui — dizia o bo- 
bo com um rir diabólico — c o caminho da salva- 
ção para vós, e para mim o de ver realisado o que 
será d'ora avante o único pensamento da minha 
vida. » 

O Lidador ficou por algum tempo em silencio , c 
por fim exclamou : 

«Mas quem ha-dc salvar os meus bons e leaes 
íavalleiros , que me aguardam? 

«Eu: — acudiu o bobo. — As portas do castello 
ficam abertas, porque os vigias e roídas correm pe- 
las barbaeans. Sabi vós outros , e esperae-os á bo- 
ca do subterrâneo. Dentro de poucas horas todos 
estarão comvosco. iíasta qne me deis um signal com 
que eu possa fazer que elles me obedeçam.» 

O Lidador pareceu assentir á proposição de D. 
íibas ; porque tirando da escarcella uma taboasi- 
nha cuberla de cera , com um anel que tinha no 
dedo estampou nella o seu sello de camafeu, c cn- 
tregando-a ao bobo , lhe disse : 

«Vai — appresenta isto ao meu villico — e serás 
obedecido cm tudo. » 

"Falta ainda uma cousa! — continuou D. líibas. 
Revercndc) abbade , vesti esse trajo de escudeiro 
que .alli vedes, c dcixai-me vossa coguUa. Não sei 
o que me diz o coração. . . Talvez me seja necessá- 
ria. Será esta a primeira recompensa do serviço 
que ora vos faço.» 

Fr. Ililarião hesitou ; mas o terror das ameaças 



que o Iruão ouvira ao conde só lhe dava logar a 
uma idéa — a de saliir do Guimarães sem risco. 
Depois de cincocnta annos de vida monástica , pela 
primeira vez o monge trocava por trajos profanos o 
seu santo habito. 

D. Bibas entregou a lanterna de furta fogo aos 
dons amigos, que se internaram no subterrâneo. 
Tanto que desappareceram , elle abriu ás apalpa- 
dellas a porta exterior da sua pocilga , e cosendo- 
se com oníuro do paleo, atravessou a ponte levadi- 
ça e encaminbou-se para o bairro do senhor da Maia. 

(A. ilerculano). 



O manná purynlivo. — Wellsled , que peregrinou 
a Arábia e outras regiões d'oriente ha poucos an- 
nos, diz que a notável substancia, dita manná, pur- 
gante dos mais brandos e muito usual , é colhida 
de varias plantas em vários paizes d'.Asia. lia sitios 
na 1'ersia onde altribuem sua origem á secreção de 
certos insectos, e apanham-a n'uns arbustos, que 
nomoam gavan, de dois a três palmos d'aUo, e pa- 
recidos com a giesteira. — No território de Luris- 
tan , Mesopotâmia , viu que o tiravam de umas ar- 
vores da ordem das amentilhosas , espécie de car- 
valho anão; c que para o obter faziam assim: es- 
tendiam á noite lençóes debaixo das ramas, e an- 
tcmanhaã o recolhiam na forma de gotas cristalinas 
de orvalho , quaes nas madrugadas observámos nas 
plantas do nosso continente. — A propósito citare- 
mos o infatigável Burckbardt que examinou em Er- 
zerum , Pérsia, uma substancia que similbava o 
manná em gosto e consistência , e o produzia certa 
arvore que dava galhas, e os habitantes a usavam 
por alimento. — Talvez porem que sejam estas ma- 
trrias ditrcrentcs do manná da Sicilia c Calábria, 
empregado nas boticas, e que só temos aqui pro- 
vindo da Itália ; os botânicos o tem por gomma ve- 
getal , ex^udação da arvore , parenta do freixo , o 
que so chama fraxinus ornus , ou rotundifolia ; a 
qual escorre naturalmente das folhas , no estio e 
por tempo sereno, do meio dia até anoitecer, na 
forma de um licor claro, que depois se condensa. 



Castigos ejctravagantcs. — No reinado do impera- 
dor dooccidente, Otton o grande, que decorreu en- 
tre os annos 936 e 973, filho mais velho de Henri- 
que o passaritiheiro [assim chamado, porque, quan- 
do os deputados foram annunciar-lhe a sua eleição 
á coroa, foi encontrado a caçar pássaros] iníligiara-se 
penas sobremaneira singulares , segundo a diversi- 
dade d'estados. O harnescar era a punição da alta 
nobreza ; consistia em levar um cão aos hombros na 
distancia d'uma ouduas léguas. .V nobreza mais in- 
ferior era condemnada a carregar uma sella de ca- 
vallo : o clérigo um grande missal : e os burguezes 
uma charrua ou arado. . . 



É nMA máxima hoje assaz bem reconhecida , que a 
agricultura, sendo animada, é o verdadeiro funda- 
mento da povoação e força dos impérios ; o solido 
esteio cm que se sustem as manufacturas , as artes 
c commercio ; a fonte , de que emana a sua firme 
prosperidade ; o thesouro e verdadeiras minas de 
qualquer estado; ounicomcio d'euriquecer de con- 
líntui tanto o súbdito como o soberano; e cmfira o 
melhor regresso para poder pagar as dividas publi- 
cas c não coDtrabir outras. — liroiero, 



72 



o PANORAMA. 



14a 




te!i.i;ij:jiiiiMHii!iiiiiyiiiiiiiiiiiiiiiyiiiiii!jyiji^ 



PȐvixciA DE S. Peduo du Rio-Gka>de do Sol. 

I. 

Das províncias em que o vasto império do Brazil se 
reparte , a do Rio-Grande do Sul , denominada ho- 
je de S. Pedro , é a que em geral menus conhece- 
mos ; porque o trato e negocio mais frequente e di- 
recto , que mantemos com esse estado coirmão, an- 
da d'ordinario encarreirado para as províncias mais 
ao norte , que por numero avultado de portuguezes 
são annualmente visitadas, fi comtudo assaz irapor- 
lÍAio 13—1843. 



tanle esta porção extensa do território hrazilciro pe- 
la situação e fertilidade, e nada menos o é pelo mo- 
vimento commercial de Porlo-Alegre, q"C ésua ca- 
beça. — Estampando o aspecto desta cidade (1) to- 
mado do fundeadouro , inverteremos a ordem mais 
natural da descripção que intentámos . começando 
agora por darmos breve idéa da capital, e concluin- 
do no próximo numero com a noticia da província. 



(1) Reduziíi-se <-s(a vista ile uma que ocoinpaiilia a per- 
feila planta de Porlo-Alejre , que nos foi rerjpllida pelo 
Doss) correiponOente alli . A- M. do Amaral Rilieiro. 

2.° Serie. — Yoi.. li. 



146 



O PANORAMA. 



Porlo-Alcgre não foi sempre a capital deUio-Gran- 
dc do Sul ; iiaverá 40 aniios, pouco mais ou menos, 
que lhe foi dndo este titulo que anlcriorinente per- 
tencia á villa do Hio-Gnindc. É cidade formosa, edi- 
ficada em lóriíia d'ampliitlieatro n'um isllimo mon- 
tanhoso, á lieira oriental da lagoa de Viam.io (2) 
quasi defrontei da foz do rioGuaiha oujaruí. Opaiz 
que a circumda, a bella vista que oITcrece, n,To des- 
mentem o acertado nome , que lhe impuzeram , do 
Porto-Alegrc : eis como a descreve um viajante que 
publicou a sua relação em 1835 (3). «Cinco rios, 
Tindo alli pagar o tributo de suas aguas fecundas, 
e junlando-se para formarem o Rio Grande do Sul , 
appresentani na frente da cidade uma caldeira vas- 
ta, semeada de grão numero de ilhas mui selvosas, 
povoadas de habitações campestres. Da banda de lá 
da cidade, ou da eminência, a distancia de légua, 
uma fieira de morros , d'aitura de noventa braças 
pouco mais nu menos, vai descrevendo um meio cír- 
culo , encaminhada ao sul e orlando desigualmente 
e rio por oito a nove léguas. — Entre a cadeia de 
alturas e a povoação dilata-se uma baixa, nivelada, 
e cora três a quatro léguas de circuito, encravada 
pelos montes ao sul, pelos cabeços de nascente e 
norte , e da parte de poente pelo Rio-Grande , que 
soberbo do cabedal de suas aguas corre magestosa- 
mente para sul atravez de rochedos de conglome- 
rações , e vai formar, na sua corrente, a Lagoa dos 
Patos. 

Para fallar exacto, a situação de Porto-Alegre fi- 
ca entre duas bahias , separadas pela colima em 
que tem seu assento : uma , septentrional , ancora- 
douro e porto ; outra , merid:onal , que as aguas 
em parte deixaram , e que ao presente já constilue 
uma espécie de cidade baixa, enfeitada de jardins, 
veigas, casas de forjas &c. Vè-se que seria laciili- 
mo ilhar Porto-Alegre, cortando a eminência a les- 
te, e abrindo o canal de juncção com o ribeiro que 
serpèa na planicie. 

Quereis desfructar ura spectaculo sccnico?. .. 
Chegai ao mais alto da coUina , na praça princi- 
pal, e vereis por ahi abaixo, para o norte [que co- 
mo sabeis é o sul do hcmispherio austral] a cidade 
que se estende cm pendor ou ladeira , a enseada 
cheia de navios, as ilhas e o curso tortuoso dos 
sinco rios, qne se dilatam exactamente como os de- 
dos de mão aberta afastados uns dos outros; depois 
as casas de recreio que guarnecem semi-circular- 
mente a praia, cuberta de sombras, da bahia ; os 
valles forrados de maltas, que se prolongara em li- 
nhas parallelas aos outeiros do nordeste ; a várzea, 
posterior á povoação, com suas hortas, pomares de 
laranja, bananeiras, coqueiros, cochonilheiras , era 
cercas de tapumes de mimosas amarellas , verme- 
lhas , violetes, ou brancas, quasi sempre carrega- 
das de llores ; c alera disto , para lá dessa campi- 
na repousará aprazivelmente a vista nas lindas chá- 
caras , quintas ou fazendas, bem preparadas, e pi- 
cturescamente postas no declive dos cabeços. 

Suppondo que escolhestes para gozar este painel 
delicioso um desses dias tão eommuns naquella zo- 
\u\ , por horas de sesta e tempo bonança , occasião 
(jue transmitle á caldeiía das aguas e ao rio a ap- 

(2) IC" o extremo seplei.trional lía Lagoa ilos Paios ; 
Irazeiíi-llie o riuiiu- Ji'slas |ialanas : I ! a mão, pi-rque cin- 
co rins alli vem parar, como os cinco ilcilos disliiictos e 
afastados ila inào Iiiimana Item aherla. 

(.)) Via;;cin a IJiienos-Ai res , &.c. impressa no Havre, 
ciluda pelo Sr. í' . Ueuis a paj. 161 do seu livro sobre o 
Brasil. 



parencia de ura espelho immenso ; lereis iim admi- 
rável panorama. Tudo que virdes se dobrará refle- 
ctindo-se; as ilhas cora seus gados, as rasas e os 
contíguos plantios da zona tórrida , as embarcações 
á vela , c unia infinidade de elegantes barcas sera- 
piulidas de diversas cores, que sulcam os sinco 
coniluenles. Finalmente, encaminhando a vista pa- 
ra o norte, descnbrireis [não sendo myope] , lá no 
horisonte , a (Quinze léguas distante a cordilheira 
da Serra Grande encuberta em parle pela cerração 
de vapores. 

Nem só agradáveis vistas se gozam era Porto-Ale- 
gre ; lambera se desfructa boa sande : não ha cli- 
ma mais adequado aos temperamentos europeus : 
nada dos calores ardentes do Rio de Janeiro; nem 
das polvaderas e nniles frias de Buenos-Ayres : o ar 
é temperado, balsâmico, puro e salubre; por isso 
os facultativos não grangeiam aqui fortuna , e as 
boticas convertem-se em lojas de perfumes.» 



E301TC1CIA FCLI^ISA. 

Considerações snbtc o Curso d' Economia Politica, pu- 
blicado cm Paris cm 1842 pelo Sr. Miguel Chcva- 
lier. 

III. 

Supérfluas não estimamos quaesqner observações 
sobre a importância das vias de communicação , 
nós que quasi de lodo as carecemos, quando em 
paizes muito melhorados n'este ramo ainda hoje se 
eslão esirevcndo obras com o fim especial de de- 
moi;sIrar as vantagens das estradas de Ioda a casta 
de terra eagua. Pelo contrário, julgámos que o pri- 
meiro passo para oblc-lasé illustrar os entendimentos, 
e irazc-los a uma convicção unanime sobre a neces- 
sidade que temos d'ellas. íi mister que esta convic- 
ção penetri a todos, não só aos que votam c aos 
que administram e dispendem os tributos, aos que 
os pagam principalmente : porque quando os con- 
tribuintes tiverem uma só opinião sobre este ponto, 
está conseguido o mais dilficil ; o grande impulso 
está dado. 

Limito-me á questão da necessidade e deixo as 
outras — a dos fundos, e do modo de os haver — 
c a do plano de communicações mais apropriado tan- 
to á configuração do solo , e hydrographia do paiz , 
como aos seus recursos. Mas não devo omittir que 
me parece oiTerecer muitas vantagens o meio de 
conslrucção de estradas que fòr menos demorado , 
sem por isso prejudicar á perfeição d'ellas; para 
que esta geração possa começar a gozar do benefi- 
cio, c gozando-o resignar-se de melhor vontade aos 
sacrilicios que elle impõe. 

De pouco, comtudo, serviriam os transportes fá- 
ceis, se os productos a transportar fossem escaços 
pelas dilliiculdades da producção. E uma das maio- 
res (lifliculdades que entre nós entorpece a produc- 
ção é a taxa demasiado alta do juro dos capitães ou 
avanços qne o lavrador precisa tomar de emprésti- 
mo para a cultura de suas terras. O rédito qne el- 
le paga d'esles avanços comparado com a renda lí- 
quida <|ue percebe da sua propriedade rural mostra 
uma desproporção assustadora ; porque em quanto 
pede enqnestailo desde 12 até 24 por rento e mais, 
só lira da terra um lucro , livre de despezas , de 
S^j e 4 por cento. Calculando os avanços em cinco 
mil contos, c o juro d'elles a 18 por cento, vem 
este juro a importar em 900 contos. Se em vez de 



o PAINORAMA. 



147 



18 fosse a C por cento , importaria em 300 contos , 
c a dilTorcnça entre 300 c '.lOO que são 600 contos, 
seria o que anuualnicnlc se havia de poupar em 
proveito da agricultura. Ou este excesso de 000 
Coutos nos gastos da producção agricola se conside- 
re lesivo ao agricultor, empol)recendo-o, e obrigan- 
do-o a abandonar a cultura das terras ou inipossi- 
biiitando-o de as melhorar; ou ao consumidor ra- 
reando os cereaes e lodos os outros pruductos do 
solo em consequência do abandono de uma porção 
d'elle ou da incúria do cultivador; ou a outras in- 
dustrias , causando em delrinienlo d'ellas uma ele- 
vação exorbitante e artilicial na taxa do juro ; cm 
qualquer das sutiposições é um grande mal que con- 
vém remediar. E aiuda que esta elevação da taxa 
do juro possa nascer, em grande parle, de uma má 
administração de justiça, e de umniáu systema hy- 
pothecario, m.iu por oITereccr pouca segurança de 
reembolço aos que emprestam ; no caso especial de 
que trato , procede ella , principalmente, de um 
monopólio de ea|)itaes, o qual monopólio só pôde 
cessar , aproveilando-se , como convém , o elemen- 
to do credito. O credito , comtudo , na hyputhese 
que figurámos não será empregado em crear valo- 
res de pura convenção , emprego contra o qual se 
levantam maiores objecções e que inspira alguns 
receios : o seu serviço ha-de consistir em tornar 
valores preexistentes disponíveis para a producção 
de valores futuros. Os valores preexistentes não nos 
faltam a nós, porque lemos terras de semeadura, 
cellciros cheios e abundantes para a semente , ani- 
maes para a lavoura, comestiveis de toda a espécie, 
e armazéns de fazenda para o vestuário , e com as 
matérias primas e os instrumentos necessários á 
agricultura e os comestíveis e vestuário precisos 
aos trabalhadores , temos os trabalhadores indispen- 
sáveis ao fabrico rural. O que falta pois para que 
se possam pór em acção todos estes meios , sem cu- 
jo concurso se não consegue a lavoura das terras? 
Falta ao proprietário ou ao rendeiro que o repre- 
senta o instrumento das trocas que é a moeda ou o 
seu substituto , porque sem esse instrumento não 
podem circular todos aqiielles objectos, e não po- 
dem circular e servir ã agricultura , porque não 
podem trocar-se uns pelos outros. Não é , portanto , 
necessário, para sahir d'este embaraço, crear va- 
lores meramente con\encionaes ou fictícios, basta 
crear uma moeda que tenha fundamento e hypolhe- 
ca no valor da terra e até numa ^asoavel reserva 
metallica, e que representando, d'cste modo, um 
valor real , possa permutar-se por todos os outros 
valores , productos , serviços , ou instrumentos de 
que carece o lavrador até realisar a producção 
agrícola. Aquella moeda será emittida por estabe- 
lecimento de credito : o estabelecimento adianta- 
rá d'ella ao lavrador, por um juro mui módico, 
as quantias de que este carecer : e o lavrador obte- 
rá com a mesma moeda , p<iis representa um valor 
incontestável , todos os serviços e objectos de que 
precisar para o amanho da sua propriedade. E co- 
mo o credito não é cousa que se crie e se adquira 
á vontade , seria para desejar que a instituição, fa- 
vorável á agricultura , fundada e organisada d'esta 
maneira, se prendesse a alguma outra instituição, 
também de credito, já estabelecida e arreigada, ou, 
pelo menos, a alguma companhia que já o tivesse; 
pela rasão , mui obvia e simples que os capitães , á 
similhança das povoações , e das tropas , e das for- 
ças de toda a espécie, valem mais, muito mais, 
condensados que disseminados. ,. -,,u . 



Tma tnneda papel assim fundada , oITereceria to- 
da a segurança que presta odinheiro, pela circums- 
tancia de exprimir valores determinados e reconhe- 
cidos : inteiramente dilferente do papel itiocda que 
sendo , não numerário verdadeiro com a forma de 
papel como a moeda de que acabo de fallar ; mas 
papel , sem valor real , com a máscara de numerá- 
rio , se estriba c aiictorisa unicamente na vontade 
do imperante ou na lei ; lei de que o mercado zom- 
ba porque obedece a outras , c se regula por ou- 
tros principiíis. 

Ue se não ter applicado o instrumento do credi- 
to aos avanços ou empréstimos de que a nossa agri- 
cultura precisa resulta, como acabámos de vêr, estar 
a producção nacional privada de um beneficio , ou 
antes sugeila a um encargo equivalente pelo menos 
a 600 contos annuacs. (Juanlos tem lido a obra do 
marqucz de AudilTrct sobre as rendas publicas de 
Trança sabem que a propriedade de r/iiz está alli 
gravada em dividas que montam a mais de 11 bil- 
lióes e 233 milhões de francos , que é uma somma 
superior a cinco annos e meio da renda liquida dos 
proprietários ruraes ,' se avaliarmos esta em 2 bil- 
liões de francos por anno segundo o calculo de Du- 
pin em 1831. Não sei se sobre os nossos campos 
pesa ura ónus proporcional áquelle ; mas posso af- 
firmar sem escrúpulo, creio eu, que a industria 
agrícola está mais aperfeiçoada em França do que 
em Portugal. Se apesar de robusta, lá tem um can- 
cro para devorar-lhe as forças, a nossa que ainda 
é débil como ha-de supporlar parasitas tão dani- 
nhos como são os usurários? É mister expulsar es- 
tes e outros inimigos que ainda a perseguem e anão 
deixam medrar, policia-la , e dota-la com os aper- 
feiçoamentos modernos. Duvidaes da ellicacia des- 
tes aperfeiçoamentos? Consultai o seguinte quadro 
comparativo dos productos da agricultura ingleza o 
franceza era 1833. 



Designação. 




A (r lã- Bretanha so- 
bre 13 milhões d' he- 
ctares c cnm oní/.rí- 
/io de 0,209010 rra- 
balhadores, produz : 



A Franca sobre 40 
milltões d'hectarcs, 
e enm oainilio de 
22 a 24 milhões de 
trabalh. , produz: 



Hcct. o6,000J000 

170',i>000 

1,2.10^^000 

10,200jiOOO 



133,000^000 

40^000 

800^000 

3.200^000 



Este mappa que foi appresentado á consideração 
dos agricultores francezes, ofTereçu agora á dos nos- 
sos para que vejara n'este exemplo que é possível 
com menor extensão de terreno e menor numero de 
braços obter maiorquanlidade relativa de productos 
ruraes. É phenomcno que se explica pela superiori- 
dade das vias de commuuicação, das machinas,das 
instituições de credito que proporcionam avanços ba- 
ratos ao agricultor, c pela excelleiícia dos mètho- 
dos — em Inglaterra. E em França o phenomcno op- 
posto, que essa oflcrece, de muito mcnur |Moducção 
rural, ou comparativa ou absoluta , com mais vasta 
extensão de terras de lavoura e muito maior nume- 
ro de trabalhadores efToctivos , explica-se , ao con- 
trario, pela inferioridade que lá manifestain os mes- 
mos instrumentos productivos , que deixo enumera- 
dos , quando se confrontara com os <ie Inglaterra. 

(Continua.) 
A. d' O. Marreca. 



1Í8 



o PANORAMA. 



l;í,.j.i-.i' .' .Moral r.NlTEnsAL. i'\ '•',•' /,i 

.SV o limnerii fosse dotado da presciência do futuro , 

seria etle mais feliz nu mais infeliz do ijuc 

o c actualmente? 

Esta queslão íoi venlilada ultimamente com muita 
erudição , e desenvolvida cora muita sagacidade e 
eloquência por um grande numero de jovens ora- 
dores e por um dos mais antigos e distinclos pro- 
fessores desta còrle , na illustre Academia Lisbo- 
nense das Sciencias e das Lettras. Fechada a dis- 
cusíão , eis-aqui , como o presidente resumiu os de- 
ijales alim de appresentar , debaixo d'ura ponto de 
■vista claro e desembaraçado de todo o equivoco, o 
estado da questão , que ia por a votos. 
* 

Senhores: Quando, enunciada uraathése, pessoas 
dotadas de saber e de boa fé se pronunciam deci- 
iliilamenle em sentidos inteiramente oppostos ; é for- 
çoso concluir ou que a queslão foi mal posta ou que 
os contendores tomam as expressões , de que cons- 
ta a thése , em sentidos absolutamente diversos uns 
dos outros. As vezes a divergência das opiniões de- 
riva d'ambas estas causas. 

Fazendo applicação deste principio de dialéctica 
ii queslão que tão erudita e eloquentemente tenho 
ouvido debater neste recinto , direi : que a diver- 
gência d'opiniões, manifestada pelos illustres ora- 
dores , me parece provir , principalmente , de que 
a queslão , com eITeito não foi bem posta. Eis-aqui 
como eu entendo que ella deveria ser concebida : 
Seria o homem mais feliz ou irais infeliz se previssc 
os futuros? 

Como é que os homens prevêem os futuros? Me- 
diante a analogia das cousas que lhes indica a con- 
formidade dos effeitos. Se a analogia c perfeita e 
constante , a jirevisão c acompanhada de certeza : 
isto verifica-se raras vezes. Se as analogias são fra- 
cas e as observações variáveis , a previsão é duvi- 
dosa ou mais ou menos provável ; mas não certa : 
isto é o que acontece á maior parte das previsões 
humanas. Mas as mais das vezes nada podemos pre- 
ver , nem presumir. Estas são todas as phases de 
presciência humana. Portanto perguntar: se o ho- 
mem seria mais feliz ou mais infeliz se previsse to- 
dos os futuros, vai o mesmo que perguntar: se o 
homem seria mais feliz ou mais infeliz, se não fos- 
se homem ; porque o ente que conhecesse todos os 
futuros, seria d'uma natureza inteiramente diversa 
daquella que só pôde conhecer alguns poucos com 
certeza ; mais alguns com duvida ; não lhe sendo 
dado, em quanto fòr o que é , conhecer todos os 
futuros. 

Ora como ninguém discutiria seriamente a ques- 
tão : Se o homem seria mais feliz se não fosse ho- 
mem ; também se não podo discutir seriamente a 
questão proposta do modo como ella foi enunciada. 

Para cila ser uma questão seria e susceptível de 
se tratar com utilidade pratica , deveria ser conce- 
bida nestes termos : Era igualdade de circumstan- 
cias , qual é mais feliz cio homem que prevê um 
maior numero d'acontecimentos futuros, ou aquelle 
que só prevê um pcíiucno numero? Depois de as- 
sim posta a questão, debaixo do seu verdadeiro 
ponto de vista , segue-se ponderar até que ponlo a 
sim[des previ^-ão dos acontecimentos futuros entra , 
como elcuienlo de felicidade do homem ; pois éevi- 
denle que esta depende de muitas outras condi- 
ções ; sendo certo que a desgraça prevista pelo lio- 



mem de bem o alTecta mui differentemente do que 
jior aquelle que não acha na sua consciência cor- 
rompida e aviltada, nem resignação, nem coragem. 
Alem disso , os futuros podem ser mais ou menos 
prováveis, mais ou menos fáceis de prevenir, quan- 
do elles são contingentes : c nesses casos também a 
previsão , por si só , não basta para fazer o homem 
que delia é dotado, nem feliz, nem desgraçado. Se 
é [irudente, essa previsão lhe proporcitmará os meios 
de evitar ou de minorar as funestas consequências 
com que o futuro o ameaça. Se lhe falta a prudên- 
cia , essa previsão augmcniará a sua infelicidade. 

Assim o conhecimento do futuro , sendo todas as 
outras circumstancias iguaes , nada influe sobre a 
felicidade humana. Se suppozermos dois homens 
igualmente circumspectos , e probos , mas um mais 
hnbil do que o outro em prever o futuro , esta pre- 
visão contribuirá a diminuir-lhe a somma de ma- 
les , sem por isso o fazer mais feliz : porque o ou- 
tro achará na sua consciência motivos para viver 
satisfeito cora a sorte que lhe houver deparado a 
Providencia. 

Dos perversos é que se pódc dizer que a previ- 
são do futuro os tornará mais desgraçados; porque 
lhes oflerecerá mais meios de seguirem os impulsos 
da sua perversidade , tornando-os mais dissolutos 
ou desesperados. 

Não é sem grande satisfação que no decurso des- 
te interessante debate , observei , que todos os il- 
lustres oradores concordaram em que a felicidade 
do homem consiste no gozo de pureza da alma e de 
saúde do corpo ou , como se exprimia o philosopho 
romano: Mens sana incorpore sano: duas condi- 
ções que se podem realisar no mesmo grau era pes- 
soas dotadas do talento da previsão dos futuros em 
graus muito diversos. N'uns essa previsão pôde tor- 
nar mais diUicil a conservação da pureza da alma 
e da saudc do corpo; n'outros torna-la-ha mais fá- 
cil ; mas como aquellas duas condições da felicida- 
de são resultados d'uma boa constituição physica e 
moral, recebida da natureza, c da educação (obra 
da arte humana exercida sobre o homem desde a 
sua nascença] ; já se vè que o seu adimplemento 
precede a esta previsão dos futuros , cujo grau de 
perspicácia não gera , nem inllue d'um modo inva- 
riável sobre aquellas condições. 

Portanto a thése ventilada não só foi mal posla , 
porque tomou a palavra presciência n'ura sentido 
que , a verificar-se , o homem não seria homem ; 
mas lambem porque encerra a palavra felicidade, 
cuja existência é independente do maior ou menor 
grau de previdência do futuro, quanto ii sua exis- 
tência : c só a sua conservação é que n'uns seria 
mais dillicil , n'outros mais fácil ; porem não já em 
rasão do grau da previdência de que cada um é 
dotado , mas do grán de energia moral e de força 
physica com que cada um é conslituido pela natu- 
reza e aperfeiçoado pela arte da educação. 

Donde resulta : que devemos fazer uma segunda 
modificação á thése , enunciando-a deste modo : A 
previdência do futuro contribiic a augmcniar ou a 
diminuir o numero de males a que é sujeita a es- 
pécie humana ? 

Assim appresenlada a questão, fica muito mais 
obvia a resposta ; porque logo occorre cpu' , segun- 
do cada um fòr dotado de mais ou menos jiruden- 
cia , de mais ou menos energia de caracter , nuiior 
será o parlido que elle tirará dessa previsão. I.ogo 
occorre : que o homem frouxo ou co\arde, o homem 
dominado pelas suas paixões , não pódc deixar de 



o PA?SORAaiA. 



149 



aterrar-se cora .i certeza dos males inevitáveis, que 
o esperam cm (Ictcrminatla epocha ; liem como com 
os que , sendo contingentes por sua natureza ou 
porque dependem da vontade de nutrem , o trarão 
cm continuo sobresalto , e o reduzirão á horrivcl 
qualidade do misantliropo. Pelo contrario o homem 
prudente c avisado, tomando conselho das circums- 
lancias, procurará e conseguirá muitas vezes ate- 
nuar os males que não pôde evitar , e mesmo se 
forrará a muitos que não teria declinado se os não 
tivesse previsto. Virtuoso c confiado na sabedoria 
do Creador , esperará com animo lirme c resignado 
os males que prevc não estar na sua mão o evitar : 
c. longe de considera-los como um verdadeiro mal, 
rcllectirá : que , se o"homcm vulgar os appelida 
males , porque lhe causara incoraniodo , o philoso- 
pho, emais ainda ochristão, não vêem nesses acon- 
lecimcntus senão um decreto emanado da infinita 
sabedoria , da infinita bondade de um Deus , que 
não pôde querer nem ordenar senão o que é bora e 
acertado, o que é mais conforme aos fins imper- 
scrutáveis , mas infallivcimcntc uleis e justos da 
crcação. 

Com efTcito, diz o philosopho, recorramos ao úni- 
co meio de chegar ao descobrimento da verdade , 
isto é á definição : e examinemos o que se entende 
por mal. 

Todas as vezes que , refleclindí> nós sobre o en- 
cadeamento d'uraa serie de causas e cffeitos, obser- 
vámos quo algum acontecimento superveniente des- 
arranja esse systcma , dizemos que esse aconteci- 
mento foi um mal para aqnellc systcma ; mas uma 
segunda rcQexão nos faz descobrir que sem o des- 
arranjo daquclle systcma [isto é sem o que é máu 
para elle] não poderiam funccionar muitos outros: 
o que seria maior mal. Certo: as doenças que, a 
final , causam a morte dos entes organisados , são 
males para esses entes ; mas na ordem da crcação 
devem-se chamar, c são na opinião de todos verda- 
deiros bens. Quando se diz, e diz-se com verdade, 
que não ha males sem compensação, quer-se dizer : 
que a experiência mostra, não acontecer jamais cou- 
sa que, sendo má, debaixo de certo ponto de vista, 
não seja um bem considerada a outros respeitos. 

Se o mundo é um todo maravilhosamente ordena- 
do como não ha ninguém que o desconheça ; e essa 
admirável ordem resulta do complexo dos aconteci- 
mentos que nelle se passam ; isto 6 , tanto dos que 
nós chamámos bens porque nos causam prazer , co- 
mo dos que chamámos males porque nos incommo- 
dam ; segue-se que relativamente ao grande fim da 
ereação, esses que nós appellidàmos males, são ver- 
dadeiros bens. 

Voltando pois á questão que tem feito objecto das 
nossas discussões, a saber: se a presciência dos fu- 
turos fazia o homem mais feliz ou mais desgraçado 
concluiremos que não se Irata de saber o que o ho- 
mem seria se prevesse todos os acontecimentos fu- 
turos ; porque para poder prevè-los seria preciso que 
o homem fosse constiluido d'oulro modo; isto é: 
que o homem não fosse homem ; e então já vedes 
que a questão se reduzia a perguntar : se o homem 
seria mais feliz se não fosse homem : e propor tal 
questão seria uma inépcia. 

Mas se, reduzindo-a aos seus verdadeiros termos, 
perguntarmos : se é mais conducente para a felici- 
dade do homem conhecer elle os futuros, que hu- 
manamente se podem conhecer: occorre logo que 
dessa previsão umas vezes hade resuUnr maior bem, 
outras vezes menor , segundo o uso que a pessoa 



souber fazer delia : c logo. o ser feliz ou desgraça- 
do, depois da presciência daquelles futuros aconte- 
cimentos , não provém dessa presciência, mas das 
qualidades moraes do individuo cm que ella se ve- 
rifica. 

Klucidada assim a nossa questão porei iirimoirn- 
nientc a votos: se ella é susccpti\cl de ser decidi- 
da pela votação cathcgorica de sim ou não. E se se 
vencer que o é , procedcr-sc-ha á votação sobre a 
Ihcsc , tal como cila foi [irimciramcnte concebida. 
Silvestre Pinheiro l'crreii-a. 



DlSClBSO ■ ' ' 

Em que Alexandre de Gusmão mostra o.i interesses 
f/ue resultam a S. M. F. e a seus rassallos da e.Te- 
cueão do tractado de limites da colónia do Sacra- 
mento , ajustado com S. M. CaUwlica {•]. 

Pdblicar trabalhos alheios, quasi mortos por escon- 
didos , é de certo mais por desejos de ser útil do 
que por ambição de adquirir honra ou gloria. O 
Sr. J. M. T. de C. çollecionou c publicou no Por- 
to era 18Í1 , vários escriptos políticos e litterarios 
do celebre americano, Alexandre de Gusmão, con- 
selheiro de capa e espada do conselho ultramarino, 
cconfidcnte e secretario privado dVlrei D. João5.°: 
— é serviço para agradecer-se. Também desejoso 
de ser útil de algum modo á nossa historia politi- 
ca , e á nossa litteralura , julgo dever publicar um 
manuscripto do mesmo auctor , que não achei na 
collecção do Sr. J. M. T. de C. , nem nas Jlemo- 
rias da Academia llcal de Historia Portugueza, nem 
na Bibliotheea de Barljoza ilachado , nem cmfim 
nos diflerentcs jornaes litterarios, onde se hão publi- 
cado differenles escriptos de A. de Gusmão. 

A 10 de janeiro de 17S0 ajuslou-se entre a cor- 
te de Lisboa e a de Madrid um tratado de limites, 
relativo á colónia do Sacramento , situada na mar- 
gem septentrional do rio da Prata : — foi este tra- 
tado vivamente impugnado , logo depois da morte 
do Sr. D. João o.°, em um papel escripto pelo bri- 
gadeiro. António Pedro de Vasconccllos , que linha 
sido governador da colónia. A resposta que Alexan- 
dre de Gusmão deu a este escripto ó curiosa e ins- 
tructiva , pelas idéas politicas e económicas, que o 
auctor expende , e pela vastíssima scicncia topo- 
graphica que nella se acha: — está publicada na 
collecção do Sr. J. M. T. de C. 

O manuscripto , de que hoje trato , é acerca da ' 
mesma negociação; — foi escripto quando A. de 
Gusmão, cm consequência da demora da execução 
do tratado , começou a sentir vivos receios , que se 
lhe não desse cfltilo : — c um complemento do pri- 
meiro manuscripto; que deverá ser inserido cm uma 
segunda edição da Collecção do Porto , e que no 
entanto parece acertado tirar á luz publica. 

* J. P. 

O estado cm que o rei defunclo , nosso .\iigus- 
tissimo Alonnrclia de eterna memoria , havia deixa- 
do a ncgiiriação, que na còrtc de Madrid se mane- 
java sobre a colónia do Sacramento , situada na 
margem septentrional do rio da ]'rata , nos tinha 
cheio de esperanças de ver fiualisada por um meio 
amigável a antiga controvérsia das duas cortes de 
Portugal c Castella, a respeito dos limites da Amc- 



(•) Refere se ii A. em piírle ilo sen ilisciirso á Provín- 
cia de S. Pe.lro , cuja capital é Purlo-Alegre ; viJ. gravu- 
ra anteposta a esle n.* ' 



150 



O PANORA3IA. 



TÍca : porem havendo-se demorado a execnrão des- 
te plano, entramos a dar algum assenso ao que ou- 
Tinios, de que as representações feitas ao nosso mi- 
nistro [cm que se mostra que as vantagens ofíereci- 
das nos paizes commutados não recompensam de 
algum modo os interesses com que nos contribue 
aqiiella prara] tem causado movimentos contrários 
ao que se havia regulado : — somos obrigados a en- 
trar nesta pequena dissertação sem espirito de par- 
cialidade , antes bem desejosos de que se nos dêem 
melhores rasões , do que as que nos illustram , pa- 
ra abraçarmos dilTerentes sentimentos dos que se- 
guimos. 

A guerra passada, a que pòz termo o tratado de- 
finitivo , concluido no congresso de Aqiiisgran no 
mez de outubro de 1748, mostrou á Hcspanha as 
grandes sommas de prata , que se extrahiam dos 
seus domínios pela colónia do Sacramento , e quan- 
to inúteis eram as providencias dos seus governado- 
res a remover o contraliando. Da mesma sorte leni 
sido reconhecidas inlVuctuosas todas as diligencias 
a fim de impedir a inlroducção nos seus portos e 
povoações dos géneros que transportânios para o Bra- 
sil ; cujas informações , longe de chegarem diminu- 
tas , são referidas com toda a afTeclação imaginá- 
vel, pelos ofliciaes a quem toca evitar os ditos con- 
trabandos, na intenção de que se lhes não imputem 
ommissões. 

A mesma còrle de Madrid fez publico os desca- 
minhos da prata de suas minas pelo canal da coló- 
nia , tendo em Lisboa emissários para tomar noticia 
dos hespaidioes , que iam nas nossas frotas, e par- 
tecipar-lhes os cabedaes que levavam, o que se na- 
quellc tempo pareceu meio de segurar os importan- 
tes direitos que dclles lhe toca, algum dia desco- 
brirá que para esta averiguação concorreu outro oI>- 
jecto ! 

Nada prova mais quanto somos capazes de enga- 
nar-nos nas nossas coMsas, como entender que Hcs- 
panha dorme tão descuidada dos seus interesses , 
que podendo fcchar-nos a porta do rio da Prata , 
permitte nelle o trafico que com os seus vassallos 
entretemos. Ninguém ignora quanto os príncipes são 
zelosos de que dos seus reinos se não extraiam as 
riquezas que nelles ha , ou entram ; sacrificando-se 
por e^ita conservação, em muitas occasiões, [quando 
se illudem outros recursos] aos males de uma guer- 
ra. 

Acaba de apparecer a em que a mesma Hcspa- 
nha entrou com Inglaterra no anno de 173'J , não 
tenilo mais causa que impedir o comniercio clan- 
destino : — nada contra[iesaram o rompiniento as con- 
siderações de que os bons successos das armas são 
contingentes, e os daninos indofinivcis , maiormen- 
tc com um tal contrario , que motiva terror á Eu- 
ropa : — nenhuma inclinação fizeram á balança pa- 
ra a mover á dissimulação. 

Neste supposto , que podemos esperar se ofiereça 
tão natural , como uma infracção entre portuguczes 
e caslellianos , aos quacs sempre será vantajosa to- 
da a acção obrada no rio da Prata , por serem se- 
nhores de seus portos e das campanhas de uma c 
outra parte? Na deleza , que fizemos ha quinze an- 
nos na colónia , se nos pòz á vista esta superiorida- 
de. I^^stavamos nella empenhados com todo o nosso 
poder , c apenas mostramos uma (lasmosa constân- 
cia em sollrcr trabalhos, ao passo que os hcspa- 
nhoes , sendo recolhidas as suas naus nas muitas 
enseadas (la(|u('lles rios, desfructavam as commodi- 
d^ades do seu paiz, sendo testemunhas da nossa mi- 



séria e consternação, e de que ainda se não extin- 
guiram as cicatrizes. 

Tudo corria de nossa parte a um êxito lamentá- 
vel ; — já a esquadra que foi mandada cm soccorro 
da mesma colónia , em que estava toda a nossa re- 
putação , havia sido obrigada , por falta de amarra- 
ções , a abandonar aquellas costas , e o que então 
eram forças, principiaram a ser exforços. Finalmen- 
te [por dizer de uma vez o que occorre] teríamos 
tocado o ponto da ultima miséria a não estar no 
Rio de Janeiro o ardente espirito do general Go- 
mes Freire de Andrade , a quem se não poderá ne- 
gar toda a gloria , que adquiriram nesta occasião 
as nossas armas. 

A vista disto, em que parece não pode haver 
contestação , será conforme ás máximas de algum 
politico votar contra a cessão [e é aggravo, pôr em 
questão a equidade do convencionado por uns reis 
de quem a posteridade não ouvirá fallar sem admi- 
ração] de um domínio que por deposito tem a Hes- 
panba nas nossas mãos, com o título d'einphytcu- 
lico para o haver todas as vezes que quizer?! Ao 
zelo de algumas pessoas que chegaram a proferir, 
que a corte de Londres, tendo opportunídade , pro- 
curaria arvorar sua bandeira naquella paite donde 
retirávamos a nossa [nad<i se tem poupado que pos- 
sa servir a incntir-nos as idcas de que este é um 
phenomeno sem exemplo] , se responde , que se os 
inglezes interessassem cm possuir alguma feitoria 
no rio da Prata se teriam lançado sobre Maldona- 
do ou Monte-Video , cujos portos [que não são me- 
nos commodos para o contrabando] tem mais capa- 
cidade que o da colónia , aonde não ha o necessá- 
rio fundo para a ancoragem dos navios grandes , e 
para as suas esquadras que forem montar o cabo 
de llorn. Mas esta nação sabe [e qualquer outra 
na liuropa] que não é o mesmo conservar nas An- 
tilhas Jamaica , Barbada , Coraçau e Martinica , 
que uma colónia no quinto clima do continente da 
America Meridional '. 

Com isto estava também satisfeito o panto, e eva- 
dido o receio de introduzirem suas manufacturas 
nas nossas conquistas ; porem como esta matéria é 
tão delicada , que ainda assim se não vencerão âni- 
mos capazes de vagas impressões , deler-nos-hemos 
sobre algumas reflexões, que rodavam sobre o mes- 
mo ponto ; porque também se nos faz temer que os 
hespanhoes conduzam os seus géneros ao centro das 
nossas minas: piojccto espantoso, c que em qual- 
quer medíocre discurso passará por allucinação. 
Quem não soubesse os dilatadíssimos sertões de 
([uasi SOO léguas, que se entrepoem ; as asperida- 
des do caminho por onde se havia de fazer o tran- 
sito por causa de umas elevadas serranias, facil- 
mente daria assenso a quanto se nos propõe para 
acautelar o defraude do nosso ouro : — porem os 
que estão verdadeiramente informados destas insu- 
jicraveis diliícnldades , de necessidade se bãode rir 
de similbantes proposições : maiormente consideran- 
<lo-se os módicos preços por que correm entre nós 
[ainda nos mais remotos jogares] toda a qualidade 
de mercadorias transportadas nas nossas frotas , po- 
dendo os que do rio da Prata intentarem este trafi- 
co conduzi-las ás vastíssimas províncias de Chercas, 
Potosi , Chili , c ao resto do Peru , aonde as repu- 
tariam com avanços de duzentos por cento mais do 
que lhe produziriam nas nossas povoações. 

Se achamos lucro em vender os nossos efTeitos 
aos hesfiaidioes , que as vem buscar á colónia, ain- 
da maior que leva-los ás nossas mesmas minas, que 



o PANORAMA. 



151 



interesse tirariam os estrangeiros que procurassem 
eslc trato com ellns? Sem pnom<'rar os coiiimissos 
a que se cvpiioliam os Ir^ms^Mcssores das leis para 
esle lim cslahclccidas , qiic despczas não fa/iam? 

Quem oii\e dizer que de lodos aqoellos pxcogita- 
dos incon\(Miicnles nos põe a cobiTto a dila colónia 
comprchcnde , que ella é o sagrado palladiura , em 
que csla posla a sorte do nosso destino; que no rio 
da Prata não ha mais purlo que o seu , para o que 
esporam oiilras potencias o praso de que o largue- 
mos , para nellc se fuuilarem , c que é algum ba- 
luarte ou haircira, que impede o passo ás nossas 
terras; porem os que tem in^lrucção mediana dos 
primeiros elementos de geographia , alcançam que 
o mesmo clTeito faria o forte de S. Filippc cm Ca- 
dix a um exercito, que qiiizcsse por Portugal pe- 
netrar o seio de flcspanha , ou os Dardancllos nu 
estreito de Gallipolli , e o golpho de Pairas no 1-e- 
panto contra uma irrupção pela Ungria no império 
ottomano , do que as muralhas daquella praça aos 
que achassem commodidade em commcrciar com- 
nosco pelo caminho de Curilaba. Pelo que toca a 
transferirmos com ella o direito que temos a uma 
grande extensão de paiz , que nos pertence , e de 
que estão de posse os hespanhoes [ainda que não 
entramos na discussão desta matéria , porque esta- 
mos certos , que por mais volumes que se publi- 
cassem a este respeito seriamos respondidos de ou- 
tros tantos da parte dos nossos limitrophcs , nem 
esta empreza é igual ;is nossas forças, pois para ou- 
tros engenhos de mais profundos pensamentos está 
reservada , contenlai>do-nos de mostrar aos que es- 
tão mais abaixo dos nossos alcances, que segundo 
a consistência presente do nosso reino, por todos os 
princípios nos é muito conveniente a cessãoj per- 
guntámos que poder tomos para o cobrar? A que 
guerras se não exporá a monarchia , e que tempos 
se não gastarão nesta guerra? 

Quando só a defeza da colónia nos custou snmmas 
consideráveis, e de que em muitos annos nos não re- 
sarcimos '. ou se os bollandezes, que nos despojaram 
das melhores províncias da índia , tivessem a bon- 
dade de nos deixar um pequeno terreno na ilha de 
Java , e comliido temos bom direito a todas aqucl- 
las conquistas '. O equivalente que se nos dá é mui- 
to mais im()ortante do que conhecemos. As dilata- 
díssimas campanhas que se comprehendem dentro 
da demarcação, que nos fica, são capazes de susten- 
tar muitas mil pessoas: na creação das vacarias , 
bestas muares e cavallares , se farão opulentos os 
que tomarem este modo de vida, navegando os seus 
couros e carnes para os portos do Brasil, e os mais 
animaes leriam uma grande sabida para o serviço 
das povoações aonde teem delles necessidade. Não 
seria menor o negocio, que se entreteria com os 
hespanhoes de Buenos-Ayres , Santa Fé , Paraguay , 
aos quacs sempre faria conta o ir buscar os nossos 
géneros para os provimentos de suas casas , e para 
os irem vender a outras províncias. 

Fazem-nos porem cargo de que pelo Rio Grande 
nos não chegariam em forma que fizesse conveniência 
o repula-los pelo mesmo que na colónia , podemos 
responder que nas perdas que temos experimentado 
de navios desde o anno de 1740, em que se tem 
diminuído uma grande parte da importância na- 
quelle ramo do novo commercio pelo rio da Prata , 
ha bem donde compensar 6 ou 8 por ccnio , que 
mais importarão de custo os transportes pelo mes- 
mo Río-Grande, em cuja navegação não havemos 
experimentado prejuízo considerável. 



O excessivo numero de mulas e machos , que 
aqucUes paizcs produzem , onde de ordinário valem 
;! (Ui i pesos , e o grande numero de rios navegá- 
veis, que descarregam suas aguas na lagoa IVIerim, 
facilitaria muilo as conducçôcs, principalmente sen- 
do lodo o mais caminho por campanhas rasas e 
abundantes de ribeiros e casas , c(un que se faz Ji 
jornada commodamcnle , devendo-sc advertir , que 
não se atigmentaría mais caminho, que o de fiO lé- 
guas que ha de diirercnça da colónia a ("astilhas, 
as quaes ruariam na metade fazendo-se transito por 
Monle-^'ideo. 

A ponderação dos que dizem , que com a (roca 
não'e\ilàmos que os hespanhoes nos venham iiiquie- 
lar nas nossas colónias se satisfaz allirmando-se, (]ue 
não só nos seguramos melhor das suas hostilidades, 
c incursões dos índios , tendo unidas as nossas for- 
ças , tanto para conservar o que está adqiiiiido no 
Kiú grande de S. Pedro , d'onde leremos com que 
encher os nossos armazéns e manter sutllcienles tro- 
pas, mas lambem podemos intentar desde alli algu- 
mas conquistas nos vísinhos, quando nos dêem mo- 
tivo para a justa represália. Que vantagens não ti- 
raremos da Capitania de Malto-grossoscndo-noscom- 
mum a navegação dos rios que desaguão no das 
Amazonas! por onde se tem aberto comnionícação 
entre o Maranhão e a dita capitania , á qual neces- 
sariamente se opporão os hespanhoes por estarem 
senhores das suas margens , não tendo eITeilo o re- 
ferido tratado ! Que utilidades se não sacariam do 
commercio por aquella parte, podendo-se livremen- 
te alfirmar chegariam as fazendas por Santa Cruz de 
la Sierra a Potozi e a todas as mais cidades que 
lhe ficam visínbas , menos cento por cento do que 
lhe podem entrar dos dois portos de Buenos-Ayres 
eLíma, de cujas costas somente se podem fornecer, 
pela distancia de mais de 600 léguas que delles 
dista : alem de segurarmos aquelles rios descober- 
tos , pois os hespanhoes lêem feito publicar cm vá- 
rios impressos, que o Cuyabá está dentro dos seus 
domínios I 

Deus queira que o diffcrir-se a execução do tra- 
tado dos limites não seja causa de que a corte de 
Madrid , informando-se com o tempo do muilo que 
a nosso favor se acha feita a transacção e permuta- 
ção , admitia ideas menos conciliosas das que nos 
lem mostrado, e que valcndo-sc de outros recursos 
reclame o ajustado , deixando-nos depois de uma 
tão laboriosa negociação sem uma nem outra cousa. 
^ Disse. = 






Os AKTiGOS germanos denegavam os direitos de che- 
fe de família áquelles que não provassem haver 
plantado em suas herdades certo numero d'ar\<)res. 
Os gaulczes deram ás llorestas a maior consideração 
que podiam conferir-lhes , consagrando-as aos bcus 
(leuscs : os romanos lambem divinisaram os bosques 
quando os dedicaram ao culto d'algumas de suas 
divindades ; d'ahi veio o lucus snccr , que a cada 
passo encontrámos nos escriplores latinos ; costume 
que passou á Lusitânia , e do que ainda lemos ves- 
tígios nos logares chamados = logo de Deus= que 
ó a versão lilteral de lucus Dei. A utilidade c van- 
tagens das arvores , dos bosques e llorestas foram 



152 



O PANORAMA. 



assim proclamadas , c asseguradas pela sabedoria 
dos legisladores antigos por meio do cunho religio- 
so que mais poderusamcnlc inlluc na imaginarão 
dos homens. 

Nossos soberanos , apenas dcscaneados da fadiga 
das armas pela total expulsão dos mouros do solo 
portugucz , se não esqueceram daquella tareia be- 
néfica, tão proveitosa nos usos domésticos e sociaes 
quanto preciosa (lara a salubridade dos ares. Elrci 
D. Diniz , o mais sábio e providcnle monarcba do 
seu tempo, saliiu clle mesmo de IJsboa, sua córle, 
com a rainha St." Isabel, sua mulher, c foi estabe- 
lecer-se nas charnecas Ínvias c eáfaras entre Leiria 
e o Oceano, fazendo arrotear e plantar esse famo- 
so c gigante pinhal da Marinha Grande , que ain- 
da hoje , apesar de grandes desastres , c um dos 
maiores thesouros do estado. O logar chamado Mu)i~ 
te real , ahi visinho , de que clrei fez presente á 
rainha por essa mesma occasião, está ainda hoje at- 
testando com o seu nome a residência que alli fize- 
ram os dois Ínclitos soberanos. EIrei D. Pedro 1.° 
fez igualmente romiier c ])ovoar d'arvores e searas 
uma parle da charneca entre Óbidos e Alouguia ; e 
no meio delia, para animar esses trabalhos, levan- 
tou paços e eastcllo, cujos muros ainda se avistam 
direitos no logar chamado Serra d'clrci. 

A solicitude dos legisladores, e a sancção penal 
seguiu mais tarde aquelles bons exemplos. João Pe- 
dro Ribeiro na sua Dissertação 22, no tom. S.° del- 
ias, apontou um alvará d'elrei D. Manuel , datado 
em 13 de dezembro de 1499, relevando por aquella 
vez das penas em que haviam incorrido os moradores 
do reino por não terem plantado arvores: boa prova 
de que antecedentemente havia legislação precepti- 
va a tal respeito. O auctor do Elucidário na palavra 
«outeiro, refcrindo-se a documentos que encontrou 
no archivo da camará de Coimbra nos deu a conhe- 
cer que já desde o tempo d'elreiD. Afl'onso5.°, por 
alvará régio de 146i , se inhibiu debaixo de seve- 
ra punição que alguém fizesse queimadas junto ao 
Mondego a fim de imo prejudicar us matlas e arvo- 
redos nas encostas e vertentes ao mesmo rio. EIrei 
D. Manuel renovou a prohibieão em 1504 ; e o al- 
vará novíssimo de 28 de março de 1791 para o en- 
canamento do Mondego não foi omraisso nesta pro- 
videncia, antes prescreveu expressamente a conser- 
vação dos antigos , e plantação de novos arvoredos, 
os quaes hoje alegram os viajantes que por terra ou 
agua atravessam aquelles deliciosos cincciraes des- 
de Coimbra até Montemor velho. 

Tudo altesta o cuidado e sabedoria passadas, o 
nosso desleixo e barbaridade actual neste rclevan- 
tissimo olijecto ! Se nos não dermos pressa cm acu- 
dir ao pendor e licenciosiilade presente, brevemen- 
te liciírá o reino convertido em escalvada serrania e 
estéreis abrasados plainos. D'um lado o furor com 
que para plantar bacellos se arrancam olivaes, mal- 
tas , pinhaes e mais arvoredos, c do outro a devas- 
tação progressiva e ascendente dos sobreíraes, azi- 
nhos e carvalhos p.ira os reduzir a carvão, tem fei- 
lo já desapparccer immonsas florestas. E se ao me- 
nos estas contínuas subtracções fossem substituídas 
por o plantio de outros arvoredos, alguma compen- 
sação haveria ; porem não acontece assim : á exce- 
pção de Lisboa e Porto, e poucas mais terras gran- 
des onde sevècm, e se goza já, com grande gosto c 
eouimodidade , da sombra e oxigénio das arvores 
novamente plantadas, tudo o mais existe em deplo- 
rável abandono ; e nem os particulares em suas her- 
dades, nem os concelhos c municipalidades, apesar 



do dever de seus regimentos, se lembram de pôr 
uma só arvore , cobrindo e abrigando da acção do 
sol as fontes jmblicas, os rocios, as sabidas da po- 
voação, ou ainda mesmo os pântanos insalubres que 
todos os annos dizimam a população contagiada. Nós 
damos rebate com este artigo aquelles aquém cum- 
pre precaver e remediar tão graves absurdos : c in- 
dispensável fazer executar as leis antigas , e esta- 
belecer uma norma regular c systematica d'alguma 
legislação fioreslal. Uma liberdade illimílada neste 
objecto é insustentável ; o capricho e a inexperiên- 
cia d'alguns, a incúria e perguiça de outros recla- 
mam a acção da auctoridade. Todas as nações o 
tem reconhecido , sigamos seus passos com discri- 
ção , e envergonhemu-nos de sermos menos indus- 
triosos que nossos passados. 

Não nos pertence dar a norma dos preceitos le- 
gislativos para pór um dique á permissão indellini- 
da e arbitraria dos pro[irietarios a respeito do cor- 
te e arrancamento das maltas e florestas , nem pa- 
ra tornar ellectivas e sjndicadas as obrigações dos 
membros do município a quem incumbe essa im- 
portante tarefa. Persuadimo-nos porem quedeis pon- 
tos principaes são de tão evidente e clara regulação 
que podemos abalançar-nos a os fixar aqui : 1.° pro- 
hibir absolutamente o corte e arrancamento das ar- 
vores , maltas e florestas nas collinas , encostas e 
areaes. 2.° defender de cortar ou arrancar em mais 
d'um decimo annualraenle as que estiverem plan- 
tadas em valles ou planícies ; menos que não pre- 
ceda inspecção e accordo do conselho do dislricto , 
que poderá permillir em casos graves e excepcio- 
naes exceder aquella quota , substiluindo-a devida- 
mente. Istoquanto á ingerência prohibiliva daacção 
legislativa : quanto ás exhorlações e preceitos in- 
dustriacs e domésticos, diremos no artigo seguinte. 
Nós não ignorámos o axioma tão encarecido dos eco- 
nomistas modernos , de que o auxilio ás artes e á 
industria consiste na liberdade que se lhes deixa , 
e na benevolência e favor que se lhes distribue. 
Assim o cremos lambem ; mas accrescenlàmos que 
favor e protecção é lambem livra-las da irreflexão , 
da inexperiência , do desleixo e da insensata phan- 
tasia. 

(J. da C. N. C.) 



Exemplos di cobiça de sabbr. 

Sócrates appreudeu a tocar instrumentos sendo ve- 
lho. 

Catão na idade de oitenta annos apprendeu a lín- 
gua grega. 

Plutarco achava-se avançado em annos quando 
quiz apprender o latim. 

João Gcllida , de Valência , tiidia quarenta annos 
quando se entregou ao estudo das líellas-letlras. 

Henrique Spelman lornou-se a applicar ao estudo 
das sciencias, e com grande aproveitamento, conta- 
va então cincoenta aunos de idade. 

Fairfax, depois de ler commandado como gene- 
ral as Iropas do parlamento inglez , quiz receber o 
grau de doutor na universidade de Oxford. 

Colbert , quasi sexagenário , recomeçou os estu- 
dos de direito e do latim. 

LeTellier, sendo chanccller de França, |)edia lhe 
repetissem lições de lógica, para fazer perguntas a 
seus netos. 

Voltaire dizia , pouco antes da sua morto . que 
lodos 05 dias apprundia. 



<•■«■» 

éó 



o PANORAMA. 



153 




Piure o feroz leàn . dura monarcha . 
Que funda no lerror seu sceptro e tbrono- 



Mas li nolire e mainaninio mil vtzes , 
K' symíjolo d'heroes . deixa n vencido , 
F. jó no que resiste cmpreja a sanha. 

P.' MicEno. Mediluc- Cant. °. 



Nvo obstante ser animal rarniceiro, c para assim 
'iizer-mos um enorme gato , a cuja Iribu pertence , 
I- reputado o leão o rei dos aniraaes. Esta supre- 
Maio 20— is '(.3. 



macia dala dos tempos . cm cjue a forra , o animo . 
c a faculdade de disseminar assombro e espanto, 
eram consideradas as qualidades mais excelleníes 
no individuo; e similhante persuasão tradicional- 
mente transmitlida, de mistura com fabulas enxer- 
tadas ás vezes em factos, mantiveram o titulo áquel- 
le raammifero carnívoro, classe em que por seus 
hábitos o arrumaram os naturalistas. Se a prcferer- 
cia, coroo devera ser, fora dada d brandura sent 
fraqueza, e ao instincto que dá visos de raciocínio, 
3 soberaiua das selvas fiíra de duvida pcrtcncêri 
2.' Serie. — Voi.. 11. 



154 



O PANORAMA. 



»o clcphantc , que até leni physicamcnte a seu fa- 
vor a desmedida corpulência : pelo lado da utilida- 
de para o homem, ingrato seria este se lh'a dispu- 
tasse. Mas nem sequer em cathegorias de hrutos 
animaes leva a palma o que mais a merece. Toda- 
via , SC meramente attcndermos aos carnívoros , de 
direito será d'entre elles o leão o imperante, pela 
robustez e porte , c porque é sóbrio , ás vezes ge- 
neroso , c n'alguns casos tem provado affeição , c 
conhecimento de benefícios. Veja-se o que em o n.° 
61 da serie presente dissemos, comparando-o ao 
tigre sanguinoso. 

1' originário dos tisnados desertos d'Africa e da 
Ásia ; os africanos são maiores. Ha-os de nove a 
doze palmos de comprido ; mas a sua mais com- 
jnum estatura não passa de metade desia medida : 
é vividouro, alguns tem chegado a 70 annos , ape- 
sar de muitos de capliveiro. r^ão é só forte ; tam- 
])era muito ágil. Tem a espaçosa cabeça adornada 
de uma juba , ou clina basta , de que a leoa c des- 
provida ; scintillam-llic ferozmente os olhos , que 
nas trevas reluzem como de gato ou raposo ; tem a 
lingua armada de bicos aspérrimos : o pello da par- 
te posterior do corpo é curto e sedcúdo ; termina 
a cauda em borla : a côr é de ordinário fouvcira : 
medonha c a sua voz e quando ruge embrenhado 
em serras parece ouvir-sc o echo de trovoada re- 
jnota. Exceptuados o clcphantc, o rhinoceroto , o 
tigre, c o cavallo marinho, nenhum animal prova 
com clle valentias. — A Icôa é menor uma quarta 
parte em todas as dimensões ; postoqiio mais fraca 
excede o macho em ferocidade quando no covil é 
assaltada, ou llie perseguem os filhos ; anda pre- 
nhe cinco mezes, c pare cm sítios intratáveis, usan- 
do da astúcia de varrer o chão com a cauda para 
apagar as pegadas : se qualquer perigo instante so- 
brevem , logo muda de cova. Pela prole combate 
desesperadamente até a morte , donde veio a phra- 
se proverbial de leoa embravecida. Ficaremos aqui 
porque assaz tratámos desta casta de feras a pag. 
í>7 e 13o desta publicação. 



Dií Jersev a Gi;anviile. 



H, 



(Conlinuado de paij. 133. J 

O TKMPoiiAi, que se preparara diiraníe a tarde des- 
fechou em cinia de nós com o cerrar da noite. O 
vento saltara inteiramente ao sul, de modo que nos 
licava ponteiro. As vagas accumulavam-se ení*ser- 
ras, que alçando-se e topando cm cheio, se enlaça- 
vam e confundiam como dois lucladorcs furiosos. 
Depois a mais possante, sumindo debaixo de si o 
grande vulto da sua contrária, erguia o topo esguio, 
<|ue vacillava um instante, c cahia desfeito em cata- 
dupas do escuma nos valles profinidos cavados mo- 
ineutaneamcnte em volta delia. O embate daquellcs 
vagalhõesgigantes, empe sobre oabysnio dasaguas, 
estrcitando-se e despedaçando-se como as hyenas e 
tigres n'um circo romano , visto ao lusco-fusco sob 
um céu achatado c cinzento , era uma sublime pe- 
leja I Todos os espectáculos da terra — dos homens 
ou da natureza — que são, ou que valem, com|)a- 
rados com a cólera da procella que passa no ocea- 
no'.' Menos que farça esttipida de tilcres compara- 
da com o Ilamlet ou com o Otbelo representados 
jior Dclterton ou porGarrick. O mysterio dos mares 



é de todas as obras da creação aquella em que mais 
profundamente o Senhor estampou o seu verbo ; a 
inscripção indelével c incontestável, que narrará per- 
petuamente ao género humano o seu infinito poder. 

O chasse-marée se havia posto ácapa. O vento não 
consentia já que surdíssemos avante , e o arraes , 
depois de uma breve conferencia á proa com o seu 
companheiro , veio declarar-nos que seria impossí- 
vel seguir o rumo deSaint-Maló ; — que era neces- 
sário pôr a proa nas costas da Normandia , e dirí- 
girmo-nos aGranville ; — e finalmente, que só aqui 
poderíamos tocar em terra namanhaã seguinte. Re- 
cebemos esta desagradável nova cora mais heróica 
resignação, se c possível, que a de Mr. Graham jú- 
nior ao levar a sova poética das inspirações frater- 
nas. E que não nos resignássemos ! A immulabili- 
dade do nosso destino proclamavam-na os silvos do 
vento , c o que mais era , a declaração do arraes. 
Um ca[)itão de qualquer baixel é o absolutismo in- 
carnado : as suas decisões equivalem a fatalidade 
moslemíca. Em muitos sermões políticos , que é a 
espécie mais importíneníe do género litterario — 
sermão — tenho lido comparações fulminantes con- 
tra os tyrannos , buscadas no despotismo asiático. 
Se eu canísse na miséria de fazer eloquência polí- 
tica, não ia tão longe busca-las. — Saltava no pri- 
meiro hiate, chasse-marée, ou Sloop, e travando do 
arraes dizia ao mundo : — ecce homo; — eis-aquí a 
flor, a maravilha, o ideal de todos os despotismos 
possíveis. Os que andam incommodandoAttila, Kou- 
lilsan, ou Timur , para aíTerir por elles os tyranuè- 
tes quasí-ridiculos da Europa moderna , são dísser- 
tadores d'agua-doce , que [para me servir d'uma 
phrase do auctor de Micer llarold] nunca poseram 
a mão sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e 
arraes são synonimos : — digam o que quizerem os 
extirpadores implacáveis das synonimias. 

Maitre Jean Legris , era um verdadeiro arraes 
normando : duro , carrancudo , e inexorável como 
os piratas do século 12.° seus antepasssados, de que 
Ião pavorosas memorias restam nas costas de Portu- 
gal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa , mas com 
respeilo, porque não havia replicar. O chasse-marée 
obedecia ao leme , o leme ao marinheiro , o mari- 
nheiro ao capitão, e o capitão pactuando com o 
vento, resolvera empalmar-nos Saint-Maló e a Bre- 
tanha, para nos dar cm troco Granville e a Norman- 
dia. Por isso antes de nos communícar as suas in- 
tenções , mestre João tinha dado a popa á tempes- 
tade e tomado o rumo de leste. Contava d'antcmão 
com a obediência , que não lhe podíamos refusar. 

Emfim anoitecera : a única luz que víamos nas 
campinas do céu e das aguas era aquella espécie 
de branquejar phantastíco e transitório da escuma , 
que é para o luar o que um retrato de morte-cór 
para um vulto original — n}enos que frouxíssima 
claridade e mais que o crepúsculo esbranquiçado c 
indeciso de um corpo alvo e que mal se divisa no 
meio das trevas. O chasse-marée galgando por cima 
das ontlas , no meio do reflexo delias, devia pare- 
cer, visto de longe, um baixel myslerioso e infer- 
nal perseguido por espectros que surgiam successi- 
vamente dos abysmos , e em roda dellc dançavam 
danças maldictas , iiivoltos em seus alvos sudários. 

iiem importavam a Mr. Graham, o fratricida psy- 
chologico, aquellas solernnes tristezas de uma noite 
procellosa ! Tirou uni frasquinho de aguardente que 
trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e alevan- 
lou-se dirígindo-sc á escotilha da espécie de camará 
que nos ficava debaixo do tombadíllio. Era um pi- 



o PANORAMA. 



lliB 



nhciro ! Quando o vi em pé receei que o sul o par- 
tisse ; mas iiciu sequer rangeu. Se me não men- 
te ura calculo rápido , Air. (iraliam era , ao menos 
physicamonte , um poeta da Torra de oitenta cavai- 
los, medida hritannica : era um poeta de alta pres- 
são : era um poeta ivarrantcd , para me exprimir 
como os lacónicos letreiros de todas as peças de fa- 
zendas inglezas falsificadas. Mr. (irnhani júnior se- 
guiu Mr. Graham sénior, non pas.silnis arguis, como 
mais curlo que era. Ouvimos lá cmliaixo ainda dois 
ou três regougos : depois tudo cahiu de novo em 
silencio. 

O velho que se me encostara sobre osjoellios ape- 
nas viu os seus dois compatriotas buscarem acolhei- 
la para a noite, ergueu-sc , e cambaleando chegou 
á Íngreme escada que conduzia á estreita camará. 
Poz um pé no primeiro degrau; poz o outro no se- 
gundo ; tornou a pòr aquclle no ar , c disse com o 
corpo no fundo — pan I 

Era o som d'um casl; de cerveja cahindo de vin- 
te pés d'altura. Ouviu-sc-lhc um grito routo e mais 
dois grunhidos dos seus respeitáveis patrícios. Ti- 
nha arrebentado o saxonio , ou espalmado o poeta? 
Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes le- 
vados pelo primeiro impulso de humanidade. Os 
primeiros impulsos nestes cases não prestam nem 
para Deus , nem para o diabo , porque são estupi- 
damente involuntários. Seja isto dito , cora paz do 
leitor , como desculpa da nossa caridade e como 
descargo do consciência nacional. 

Para clareza desta importante narrarão é de sa- 
ber que apenas Viráramos de rumo o marinheiro 
substituíra o grumete no governo do leme , como 
ministro responsável de mestre João , e o grumete 
fora assentar-so á proa no logar que deixara o seu 
successor , exactamente como um ministro diraitti- 
do que vai tomar assento nos bancos da opposição. 
D'alli olhava para o tombadilho , fazendo a segun- 
da com um assobiar monótono ao bramido do vento. 

Chegámos dois ou três á escotilha onde soara o 

baque do velho. Íamos a descer, a risco de nos 

despenharmos também , quando a cabeça de Mr. 

Graham sénior começou a surgir como uma visão 

de Manfredo : 

« 

What dost tlíoii see? — 



I see a dusk and airful figure risc. 

A luz da bilacola , que envia\a um raio frouxo 
ao rosto do grumete , o poeta acenou-lhc que se 
approximasse , sem se dignar sequer de olhar para 
nós humildes creaturas , que havíamos parado em 
roda de Sua Grandeza. 

O rapaz chcgou-se a Sfr. Graham. 

'tíirandyl [«) — rosnou este com o aspecto teme- 
rosamente carrancudo e imperativo de ura Nelson 
dando a ordem de accommettcr na batalha de Tra- 
falgar. — 'Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco 
de aguardente virado de boca para baixo. O rapaz 
poz-se de novo a assobiar. 

iVós então ousámos perguntar a Sua Extensão se 
porventura succedéra algum fracasso aos seus com- 
patrícios. Elle lançou-nos um olhar obliquo , e em 
voz mais alta bradou ao grumete : 

« Rhum ! » 

«Não ha : — respondeu o rapaz entre dois asso- 
bios. » 

« Brirtg rhum , boy ! — insistiu o cantor da Tcm- 
perança , já colérico, e fazendo-se des entendido. » 

i,«) Aguardente- 



(ViiVn d'anglais , não percebes? .... exclamou o 
grumete na sua lingua nativa , cora um gesto de 
impaciência ; — e accrescentou voltando-se para nós : 
— Que diz este diabo? 

(iQue lhe ponhas para alli cachaça: — ia eu a di- 
zer , paraphraseando em Irancez os Ires monosylla- 
lios brilannicos , quando fui interrompido por um 
mugido , súbito , incisivo , retumbante , que sobre- 
levou o rugir da tempestade. Soltára-o Air. Graham, 
que, cerrando os punhos com todos os aílcmanes de 
ura professor de sòcco, crescia já para o pobre gru- 
mete , o qual avaliara erradamente a linguistica do 
poeta. Elle percebera ás mil maravilhas as duas 
person?lidades de cão e diabo, que ousara dirigir- 
Ihe o imberbe e enfarruscado normando. 

Felizmente para este uma onda, galgando exacta- 
mente nesse momento a popa, veio lavar o tombadi- 
lho , c um forte balanço, fazendo perder o equilí- 
brio ao filho da Grau-Breianha, o estendeu ao com- 
prido na agua que passava em demanda da proa , 
(•oní grave perigo do precioso manuscriplo do casa- 
cão. Estirado sobre a tilhá do chasse-marée , e Go- 
leando e bufando para se alevantar , JMr. Graham 
representava sotTrivelmentc o papel de um congro 
tirado naquellc instante do mar. Quando elle , em- 
fim , pôde concluir o plagiato que fizera ao tombo 
do seu velho compatriota , o grumete se havia já 
retirado ao anterior posto, sobre osescovens, e con- 
tinuava o seu acompanhamento de assobio ao estre- 
pitar do vento. 

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o 
abalo da queda e a frescura da agua lhe modifica- 
ram poderosamente o órgão da combatividade : — 
porque sem dizer palavra desceu outra vez para a 
limitada camará da frágil embarcação. 

Este incidente, que passara com grande rapidez, 
podia ter dado motivo a uma seria desavença entre 
o arraes e o poeta , porque mestre João moslra- 
va-se demasiado cioso da própria auctoridade para 
consentir que ura dos seus súbditos fosse punido por 
haver recusado uma cousa que talvez não houvess<' 
realmente a bordo , c por ter dito duas verdades 
duras a um conterrâneo dos nevoeiros e dos beefs- 
teaks. Mas porque não se exprimiu Mr. Graham de 
modo que o grumete o entendesse? Como imaginou 
elle que o pobre rapaz podesso perceber os seus 
três monosyllabicos grunhidos? E que o orgulho e 
o patriotismo britamiico andam aninhados em tudo. 
O que nos outros paizes se olha como um primor 
d'cducação , em Inglaterra é uma indecencia. Lm 
inglcz parece cnvergonhar-se de saber algum idio- 
ma estranho , e muito mais o francez , que nos pai- 
zes continentaes não épermittido ignorar aqualquei- 
individuo medianamente instruído. 

A lingua franccza , pela sua simplicidade, regu- 
lar sintaxe , determinada prosódia , e mais circum- 
stancias que a tornam faeil para os estrangeiros , 
tem obtido uma certa universalidade, que a vai 
convertendo, por assim dizer, em lingua geral, prin- 
cipalmente na Europa. Este predomínio da língua 
franccza deve ter talvez n'um remoto futuro graves 
consequências politicas. E por essa rasão , que aos 
inglezes doe excessivamente tal predomínio. Primei- 
ra nação do mundo como potencia material ; repre- 
sentando nos tempos modernos uma imagem da an- 
tiga Uoma , a Inglaterra solTro de m.iu-grado o ser 
inlcllcctualmente inferior á Alemanha e á França. 
A iniluencia moral que pelos seus livros esta ulti- 
ma exercita na Europa , nomeadamente nos paizes 
occidenlaes , tende a augmentar ahi a sua influen- 



i:íg 



O PANORAMA. 



tia social , na r.isão direcla do progresso de civili- 
sarão desses pai/cs. A França actua pelas idéas , 
em quanto a Inglaterra o faz pelas esíiiiadras : mas 
a acção das idéas cria a siinilhança de crenças , 
de cuslnmcs, c de alTectos , em quanto o temor das 
esquadras , o apparato do poder , as insolências do 
(orle contra o fraco só geram ódios fundos , que se 
vão legando de pães a lillios ; que se vão accumu- 
lando no thesouro corumum das gerações que vera 
surgindo. Estes ódios são um incêndio que lavra , 
lí que pôde alnazar a Inglaterra num desses dias 
aziagos, que anianhcceni para as nações como para 
as famílias. Uma crise basta para perder o Reino- 
t.nido , e esta crise é fácil n'um corpo moral cuja 
phisioiogia é monstruosa e autinomica. AGran-Bre- 
taniia deve saber que os ccchos do continente repe- 
tem de contínuo a grande voz dopuvo, que em mais 
de um paiz murmura aquelle terrível verso do poe- 
ta italiano : 

Siam'serii , si : — tua servi oíjnor fretitenti ! 

Xinguem como os inglezes tem o instincto da vi- 
lia politica. N'uns este instincto é ajudado pelo ra- 
ciociíiio, n'outros pelo orgulho nacional. A Ingla- 
terra desejara tirar á França as iulluencias intelle- 
ctnaes : para isto fora necessário generalisar a pró- 
pria lingua. Abi é que bate o impossível. Eulrelan- 
lu o ínglez vai fallando íuglez na terra e nos mares, 
quer o entendam , quer não, e só em casos deses- 
perados recorre a algum idioma estranho , não sem 
o torcer , estafar e mutilar , com toda a barbarida- 
de de um verdadeiro Kimhri. K uma teima i>erpe- 
lua entre a Europa e a Gran-Bretanha : 

«O mundo a porfiar que os bretões grunhem ; 
I' K os bretões a teimar que o mundo mente. 

Aquelle caso de JIr. Graham fora mais um capi- 
tulo desta polemica eterna. 

Nós os portnguczes pensámos enlão em buscar 
uma guarida para passarmos a noite , porque al- 
gumas pingas grossas de chuva nos anunciavam um 
aguaceiro ímminenlc. i)irigimo-nos a mestre João, 
que nos declarou calliegoricamente ser impossível 
dar-nos entrada na toca miserável a que elle tivera a 
ousadia de pòr o nome de camará ; e isto [lela rasão 
composta de que os três inglezes a occupavain in- 
teiramente, c não podiam serd"alli expulsos, tendo 
pago trinta shellins por cabeça, em quanto nós pa- 
gáramos só vinte. O argumento era de uma solidez 
irreprehensivcl. I'edimos-lhe todavia humildemente 
nosdeclarasse emque sitio nos poderíamos resguar- 
dar da agua do mar c do céu ; porque se houvés- 
semos pertondido passar a nado dcJorsey para Fran- 
ça escusáramos ter-lhe pago a malaventurada capi- 
tação d'uma libra esterlina, que nos fazia descer na 
<íscala social dez shelfings ou dez furos abaixo dos 
trcs inglezes. 

Us selvagens teeni mais que os homens civílisa- 
dos a eloquência do gesto , e o bom do normando , 
forçoso é coníessa-Io, dava todos os indícios de ver- 
dadeiro botocudo. Tomando a postura sublime de 
um sccliocniij , o rei do mar, dos antigos sagas da 
Islândia, c com um — lá! — que jiodia fazer ainda 
nuii decente papel ao lado do — quil mountl — de 
Corneille; o arraes , espécie de Cuonaparte junto 
ás l'yramidcs , nos apontava para a escotilha d'a- 
vante — a escotilha da boca do iiorão — e parecia 
dizer-nos no seu gesto mu<lo : — Ahí quarenta dores 
rhcumaticas vos esperam I — Melhor era isso, com- 
ludo , que amanhecer inteiriçados sobre a lolda ; e 



assim, dando-no! por avisados , arremellemos eona 
o abjsniO. 

Escada não a havia ; e as trevas interiores não 
eram menos densas que as trevas exteriores, de que 
resa a Uiblia , onde ha o choro e o ranger de den- 
tes. A altura, porem, não devia ser grande. Como 
os cavalleíros do Palmeirim d' Inglaterra cada um 
de nós se cncommendou ádarna dos seus pensamen- 
tos, e do modo que pôde desceu aquella espécie de 
botf/ia dantcsca. 

O chasse-raaréc destinado a transportar gado de 
França para as ilhas do (".anal , ia cm lastro , e o 
lastro crad'areia. Se não fossem os terríveis balan- 
ços da embarcação , a pocilga em que nos acháva- 
mos podia passar ao tacto , único sentido de utili- 
dade uaqnella situação, por uma praia deserta. De- 
pois de ajuilparmos por largo tempo em volta de nós 
achámos por lim uma vella, e alguns cabos, lança- 
dos para unia extremidade do areal fluctuaute. Ao 
menos linliamos um leito , se não mais macio , ao 
menos mais enxuto que esse com que já contávamos. 
Fma pouca d'areia húmida por pavimento, algumas 
braças de lona por leito, e por agasalho c cobertu- 
ra a tolda d'ura miserável barco eram, com as tre- 
vas que nos rodeavam nesse momento, toda a nossa 
consolação e abrigo. 

Sc este capitulo de um pobre livro de recorda- 
ções, tão humildes e obscuras como seuauctor, pas- 
sar ante os olhos do major C. í») elle ha-de por 
certo !embrar-se de que essa noite foi uma das Lera 
dolorosas e tristes da sua larga vida de solTrimento 
c abr;egação — da sua vida de honesto c valente 
soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com 
os trabalhos e estroitczas do desterro, c posto que 
o seu animo de ferro lhe não consentisse o soltar 
um só queixume , o incêndio lavrava lá dentro , e 
a dòr que não podia subjugar-lhe o espirito, ás ve- 
zes se lhe revelava no gesto confrangido. O seu es- 
tado gerava em nós, que sinceramente o amávamos, 
sérios receios. Mas como o padecer se não (raduzia 
em gemidos , no meio da escuridão , e entretidos 
com a sccna ridícula do poeta da temperança o da 
aguardente , havíamo-nos persuadido de que esse 
padecimento diminuíra consideravelmente. 

Deitados em cima da vella convertida em colchão, 
os meus companheiros breve adormeceram. Quando 
a consciência está Iranquilla a mocidade encontra 
facilmente o repouso ainda no mais duro leito. Só 
cu velei ; porque lhes levava nina vantagerri • — ■ tal- 
vez antes desvantagem — uma imaginação mais ar- 
dente. O major G. também parecia dormir. 

Achava-me finalmente só! 

Havia muito que para mim não existia ávida ín- 
tima senão no silencio da noite. O dia. esse passa- 
va-o como embriagado na agitação tumultuosa de 
peregrino , vendo fugir por ante os olhos , na terra 
e nos mares, os quadros e as scenas de nma natu- 
reza e de uma .sociedade diversas daquellas que me 
tinham cercado na infância e na primeira juventu- 
de. Era de noite que a imagem da pátria , lerribi- 
lissima de saudades , se me assentava como um pc- 
sadello sobre o coração , e mo expremia delle bem 
amargas lagrymas ! Aos vinte ânuos a nossa alma 
viçosa e virgem tem alTcctos para derramar com 
mão larga por tudo o que nasceu c cresceu junto 
de nós; por todos aquelles que nos ensinaram a 
balbuciar as primeiras palavras, c nos guiaram os 
|irimeíros passos no caminho da vida. Para achar 
deleite cm vaguear fora do nosso ninho paterno é 

(, •) Ãctimlmcnle (1843) brigadcíra C. S^ 



o FAINOllAMA. 



157 



pieciso haver passado a idade das csperanras ; é 
pieciso ler já calcado aos pés. iiileiíaincnlc siiirado, 
u pomo das illusões, c assistir ao drdma da cxisleií- 
cia , não como aclur possuido do seu papel , mas 
como espectador iiidiírcrciile, que sabe ser esse dra- 
ma um embuste algumas vezes attraclivo, mas scm- 
sabor as mais delias; — r jireciso ser liomem ; c eu 
não linha então vinte ainios. Por isso oslc errar en- 
tre estranhos teria para mim demasiado tédio e tris- 
teza , quando se lhe não ajuntassem outras magu.is 
e privações de muitos géneros. 

O desterro é uma das mais profundas misérias 
humanas : mas a pobreza no desterrado é o lormen- 
lo mais intolerável do espirito , porque é um com- 
poslo monstruoso de saudade , di: humilharão , de 
abanilono, de desesperança, que vos lembra cada 
dia, cada hora, cada instante, a vossa situação des- 
graçada ; que vos recorda sem cessar que sois uma 
espécie deAshavero, de judeu errante, que a mal- 
dição de Deus guia , em meio do despreso dos ho- 
mens, dos vitupérios, dos trabalhos, por uma pcri- 
grinação sem termo, c sem horisonte. Tendes de 
experimentar a alTronta c callar , os maus tralos e 
soffrer , a fome , e a nudez e não ousar pedir uiua 
esmola , porque o pobre estrangeiro é ura ente mé- 
dio entre o homem e o animal , a saa linguagem 
inintelligivel e ridícula , a sua dòr e sentimento 
quasi um impossível , o nome do seu paiz a fabula 
c cscarneo das gentes , sobre tudo se este paiz é 
fraco, limilado e obscuro. Então vem o comparar tu- 
do isto com oscommodos e gasaihado do lar domes- 
tico , cora o amor c amisade que >os cercavam de 
suavidade o viver de outro tempo , e a comparação 
vos converte em fel e lagrymas o sangue mais puro 
das veias. Tombastes de pedra cm pedra no fundo 
de um abysnio : lá acharam os vossos membros pi- 
sados c feridos ura leito de çarças; e d'ahi medis 
de continuo a altura da queda, porque vos luz lá em 
cima o céu da pátria, e a saudade vos conta palmo 
a palmo a distancia que vai do despenhado a essa 
imagem querida. 

Que todos aquclles que nunca sahíram de sob o 
tecto da sua infância ; que nunca buscaram de bal- 
de o sol esplendido do occidente para o saudar na 
manhaã de primavera; que nos remansos do seu 
rio nalal não imaginara o eunove)ar-se e bramir das 
vagas do oceano ; que nunca viram o céu chato do 
norte pesar sobre a campina , estendida como um 
radavcr , e cuberta do seu sudário de neve ; que 
esses alguma vez se recordem c compadeçam do 
pobre foragido , a quem as intolerâncias insensatas 
c ferinas de paixões politicas arremessaram para es- 
tranhas regiões. Seja qual for a vossa crença , a 
vossa parcialidade , doei-vos delle porque as dou- 
trinas podem ser erros; mas não são crimes. E de- 
mais quem vos diz que essa opinião, que vos parece 
verdadeira , e sauta , vos não parecerá cora o tem- 
po absurda e má, se de sincero coração a seguis? 

Engolfado nestas idéas , postoque bem ilesperlo , 
conservava-me callado no meio dos meus compa- 
nheiros , que dormiam placidamente ao murmurar 
da agua no costado do chasse-marée , que rompia 
pelas vagas agitadas. De vez em quando os mastros 
rangiam cora os turbilhões de vento, e senlia-se um 
golpe soturno e cmbaçado sobre a tolda. Era algu- 
ma onda que salvava por cima do baixel , como a 
que viera acalmar a cólera do esgrouviadoMr. Gra- 
ham. Depois ouvia-so a voz do arraes, que proferia 
algumas palavras ininlelligivcis : depois outra vez 
só o silvar da procclla. ,. . , 



O major C. revolvia-se entretanto perlo de mim , 
ao (]ue parecia gramlemenle inquieto. A persuasão 
talvez de que ninguém o escutava , c a intensidade 
da dòr lhe arrancaram , enilim , um gemido. A sua 
energia moral succumbíra. O veterano, depois de 
largo combate de muitas horas, declarou-se vencido. 

Fallei-lhe em voz bai.\a : na tristeza da uoilc o 
padecimento physico parece achar consolo no som da 
voz humana. Era o único soccorro que na situação 
em que nos achávamos lhe podia ministrar. 

A nossa cimversação durou por algum lempõ : 
nesta conversação havia para mira o refrigério do 
espirito , porque nos recordávamos da pátria ; elle 
buscava assim um allivio para dous géneros de an- 
gustias, as do espirito e as do corpo. Era mais in- 
feliz do que eu '. 

1'or este modo passou graude parte da noite. V 
tempestade crescia progressivamente , c o balanço 
do chasse-marée era já intolerável. Começámos cn- 
tíio a ouvir por cima das cabeças os passos apres- 
sados dos marinheiros , c um som estranho como 
de mar quebrando ao longe em agra penedia. Este 
som, semelhante ao disparar de artilharia por sota- 
vento , approximava-sc gradualmente. 

D'ahi a pouco percebemos correr rapidaVnentc a 
amarra pelos escouvens. Era incrível que tivésse- 
mos chegado tão depressa ao termo da nossa via- 
gem. As seguintes palavras de mestre João , prece- 
didas de uma praga, r.ão nos deram vagar do fazer 
sobre isso largas conjecturas : 

<c Vcjitre-Saint-Gris ... a amarra . . . vamos a pi- 
que I » (•) 

Foi o que podemos perceber. E era sobejo. 

O major C. ficou immovel. Quanto a mim o pri- 
meiro pensamento que me scintillou no espirito foi 
o de despertar os nossos companheiros. Mas porque 
não haviam de morrer tranquillos? Deixei-os. 

O brado do arraes fOra seguido de um momento 
de tremendo silencio : depois senti que o chasse- 
marée fazia um singular movimento, como galgando 
pelo dorso de enorme vaga ; apoz isto pareccu-me 
que subiíametite parara , c ouvi de novo fallar )ia 
tolda. Era a voz de lír. Grahara , o poeta agourei- 
ro e esguio. 

Este momento de incerteza foi horrível. Então 
conheci bem a verdade de uma phrase de ililtou 
«a r.tcundão visivcl ; » Nas trevas profundíssimas cm 
que estava via o reluzir do mar ao redor da vela 
branca em que jazíamos; e os olhos da rainha ima- 
ginação enxergavam atravez da agua os rochedos 
de sorvedouros submarinhos, onde os nossos cadá- 
veres deviam dcutro em pouco achar uma sepultura 
desconhecida. 

Não sei o como , mas a verdade é que no ni!.;o 
do terror de morte affiiciiva e demorada , me veio 
á cabeça uma idéa ridiculamente consoladora, foi 
esta a imagem de Jír. Grabam sumindu-se nas goel- 
las de um tubarão com a sua fabrica inteira de 
versos , e a meia fabrica de Lecds , que trazia dis- 
tribuída pelos seus quatro casacões incommcusn- 
raveis. 

Passou um minuto : passaram dous : passou ter- 
ceiro ; e a nossa vela enxuta , e o baixel perfeita- 
, mente tranquillo. A morte , se tinha de vir, era 
I tão lenta e derreada como a melopia da dcclama- 
, cão ingleza. 

j Porventura havíamos encalhado n'algura banco 
d'arcia , porque o chassc-raaréc evidentemente não 
abrira ; aliás o mar devia ter-nos já sorvido. 
I (.) Teilual. '■ 



158 



O PANORAMA. 



Lembrei-mc de subir á tolda. Mas como? O Jo- 
gar em que nos achávamos rcpresenlava uma ver- 
dadeira masmorra de castello-fcudal : o cscotilhão 
por onde descêramos era mais alto que um homem ; 
alem disso o estrado da boca linha sido ahi collo- 
cado como a campa sobre um tumulo , c em cima 
do estrado sentiramos lançar uma lona breada pa- 
ra impedir a invasão das ondas que galgavam pelo 
tombadilho. 

Esperei pois que amanhecesse , e que então ob- 
tivéssemos a luz, c a liberdade, da munificência de 
Micer Jean l.egris. Entretanto o major parecia mais 
tranquillo : a quietarão do chasse-marée , e a som- 
nolencia da anle-manhaã eram apparenteraentc a 
causa disto. 

A alvorada assomou enifiui no oriente : alevan- 
tou-se o estrado , e a luz branda do romper do dia 
>eio allumiar o nosso calabouço marinho cora uma 
claridade frouxa e suave. Não esperara debalde 
em mestre João : o seekucnig concedia-nos o favor 
de aspirarmos um ambiente puro e livre. 

Sulii á tolda. O sol surgia como ura grande or- 
be vermelho íluctuando sobre as ondas levemente 
crespas. No sudoesie uma nuvem negra e ampla 
parecia firmar-se cm pé no horisonte , prolongando 
os cimos dentados pelas alturas do céu : era a pro- 
cella que fugia varrida pelo nordeste. A superlicic 
enrugada do oceano tiuha não sei que, similbante a 
iim gesto humano que sorri. Eu contemplava uma 
dessas raras alvoradas do navegante , cm que no 
aspecto do mar se lè o nome de Deus, e no sussur- 
rar da brisa se escuta o hymno da creação. 

Onde estávamos nós? No recife do um ilhéu, vi- 
sinho das costas de Normandia , cujo nome se me 
varreu da memoria. A caldeira cm que nos achá- 
vamos teria Ires vezes o comprimento do chasse- 
marée e ainda menor largura. Olhei para a entra- 
da, e os cabellos se rac eriçaram ao vè-la. Custava 
a perceber como o nosso baixel a atravessara sem 
se fazer om pedaços ; era um labyrintho de roche- 
dos agudos quasi indelineavcl. 

Mestre João Legris , não sei por qual rasão náu- 
tica, pcrtcndòra fundear junto aos penedos que de- 
lendem a boca daquclla abra , alé (jue chegasse a 
nianhaã. .\o lançar ancora a amarra se partira ro- 
çando pelas rochas. Este successo desastrado arran- 
cara da boca do arraes a enérgica exclamarão, que 
Ião tcrrivel fora ferir-me os ouvidos no meio das 
minhas dolorosas cogitações. Felizmente uma vaga 
monstruosa erguendo o chasse-marée sobre o dorso 
o arrojou por entre os parcois , — talvez por cima 
dellcs — c nos salvou da morte, que aliás seria ine- 
vitável. 

A sabida do recife deu mais trabalho aos nossos 
marinheiros do que lhe dera a entrada. O sol ia já 
mui alto quando abrimos todas as vellas ao vento. 
Ksle era de feição ; e dentro em poucas horas apor- 
támos a Granville. 

(Ã. Herculano.) 



'kMM^^smít, 



Para sermos entendidos de toda a espécie de leito- 
res cumpre antes de entrar cm matéria dar aqui 
algumas noções cm frase corrente c purtugucza, af- 



fastando-nos quanto possível for da nomenclatura 
clássica e scientifica. 

Todos os vegetaes considerados no ponto de vis- 
ta florestal se podem arranjar em trcs classes: plan- 
tas d'hervagem oulunas, plantas áematto, e plan- 
tas d'arvore(ío. Nós tratámos, principalmente, aqui 
da 3.° classe. 

Arvoredo dizemos nós dos vegetaes, cujos troncos 
robustos são consideráveis em dureza e tamanho. 
Estes vegetaes dividem-se em arvores e arbustos. 

Florestas chamámos ás arvores e arbustos silves- 
tres e bravios, ou sejam de folha ordinária espal- 
mada, ou de folha ponteaguda e estreita, a que cha- 
mam agulha. Arvores são asquctem umtroucosim- 
ples ou tigc alta , mais ou menos ramosa , d'ondo 
brotam olhos, botões c lançamentos. Arbustos, pro- 
priamente taes, não tem tronco ou tige simples, co- 
mo as arvores , porem muitas vergonleas ou varas 
sabidas d'uma só raiz: sua grandeza e grossura ra- 
ras vezes chega á das arvores pequenas. Duram mais 
que o matto , e morrem mais cedo que as arvores. 

Ordinariamente chama-se alamedas ás filas d'ar- 
vores silvestres, simples ou dobradas, dispostas em 
linha, e que os fraucezes denominam atlee ; e mattos 
os arvoredos compostos d'arvores , arbustos , e de 
malto mesmo, que foi originariamente o que lhe deu 
o nome. Nós conservaremos esta nomenclatura vul- 
gar c nacional , com significação perceptível de lo- 
dos. 

Os proveitos e utilidades das maltas e arvoredos 
são muitos e diversos , e bem se conhecem pelos 
seus contrários. A diminuição das mattas e arvore- 
dos lira a humidade necessária ao terreno , c torna 
o solo árido enú. Diminuídos os orvalhos e chuvei- 
ros , diminuem lambem as nascentes das fontes c 
dos rios : o soão abrazador c o sècco nordeste do 
estio varre sem defeza os campos e os esterilisa. 
A ;;lectricidade felizmente entretida , e derramada 
pelos díffercntcs conduclores das arvores , se con- 
densa , e faz de tempos a tempos saltos e explosões 
ou funestas ou ruinosas nos locaes escalvados. As 
febres malignas c intermittenles , que dizimam lo- 
dos os aimos a população de lugares pantanosos, pro- 
cedera da falta de bosques e arvoredos , os quacs 
absorvendo o carbónico, e expellindo o oxigénio, pu- 
rificam o ar. Do entretenimento das maltas c arvo- 
redos cm logares que não servem á cultura resul- 
ta , alem daqucllas vantagens de salubridade, — a 
caça , que augmenta os productos do consumo ; — 
os estrumes pelos depósitos das folhas , da limpesa 
dos ramos , e das ervas e mattos , que ahi se criam 
espontaneamente; — a filtração das aguas e enxur- 
radas que passando atravez dos arvoredos c balsas 
nas encostas e assomadas , trazem eomsigo partícu- 
las nutrientes que fecundam os vallcs c os campos 
cullivaveis. As vantagens politicas não são menores 
do que as naturaes e ruraes. O estado adquirirá no- 
vas riquezas no plantio dos bosques e arvoredos , 
que, jiassados sete annos, começam a produzir ren- 
dimento útil , crescendo sempre na proporção pro- 
gressiva dos tempos. Os arsenaes c estaleiros terão 
sortimeulo de madeiras ; — as fabricas c laboração 
das minas , a navegarão interior e outros estabele- 
cimentos lerão madeiras de coustrucção c lenhas 
para combustível. Um dos nossos mais doutos na- 
turalistas (•) disse : = «Sc os canaes de rega c na- 
«vcgação aviventam o commercio e lavoura , não 
«pôde have-los sem rios; não pôde haver rios sem 

t») O Dr. João Buuifacio d' Andrade n'niua de suas me- 
morias académicas. 



o PANORAMA. 



ISÍT 



«fontes ; não ha fontes sem chuvas c orvalhos; não 
«ha cluivas c orvalhos sem aivorciios.»=^0 mesmo 
naturalista ealcnUui em 3(t libras dngua a liumida- 
(Ic que (listilla uma arvore de dez annos , c concluo 
que um chão desabrigado de 3'á pés quadrados per- 
de diariamente ;tO onças d'agua. De que utilidade, 
de que necessidade não é então cobrir d'arv(iredos 
essas campinas ardentes do Alemtéjo e da Kstrema- 
dura , e os arcaes c charnecas que avisinham nossa 
costa ! ■ - . 

Da sementeira e plantio das arvores silvestres. 

Seis requisitos c preciso ter cm vista na semen- 
teira silvestre. — i." as espécies d'arvores; 2.° a 
bondade da semente ; 3." a quantidade da mesma ; 
4.° a escolha e preparação do terreno ; o.° o tempo 
o sasão própria; (i." a semeadura. 

Quanto ao 1." — A escolha das arvores e arbustos 
deve ser adaptada ás circumstancias da localidade 
e do paiz ; devem preferir-se as mais utcis e de 
maior interesse ao consumo. 

Quanto ao 2.° — A bondade da semente depende 
de estar bem formada, saã e haver chegado ao grau 
de perfeita maturação ; deve ser apanhada sêcca , e 
bem guardada em sitio enxuto , quando se não lan- 
ça logo á terra. 

Quanto ao 3.° — A quantidade da semente deve ser 
proporcionada á força e bondade do terreno, e á na- 
tureza das arvores ou arbustos ; porque alguns exi- 
gem estar bastos para se apoiarem uus aos outros , 
e outros raros e compassados. 

Quanto ao 4.° — Da escolha c preparação do ter- 
reno depende sobremaneira o bom exilo da semen- 
íeira ; aliás é caminhar ás cegas. Se o terreno ó solto 
e leve basta um lavor comaraveça ; se é mais forte 
e compacto , porem livre de pedras, de raigotas ou 
raizes , deve ser lavrado fundo ao arado ; mas se 
pelo contrario é empeçado , forçoso será surriba-lo. 

Quanto no S." — O tempo próprio da sementeira é 
quando as sementes formadas c amadurecidas caem 
per si mesmas, porque então grelam promptamente. 
Isto porem não pôde ter logar senão nas pequenas 
sementeiras : em todo o caso convém que a semen- 
te seja nova. 

Quanto ao 6." — A semente não deve ficar enter- 
rada muito funda , nem tão alta que se seque ou 
esterilise na superfície. Cumpre nesta parle imitar 
a natureza , que ordinariamente a faz germinar e 
brotar coberta apenas de apodrecida folhagem. .\os 
sitios porem descobertos, desabrigados, c maiormcn- 
te sendo as sementes aladas ou nicmbranaceas, que 
as leva o vento, ou leves e miúdas, cumpre cubri- 
las de terra ou areia de meia polegada d'espessura. 

Isto pelo que pertence aos princípios geraes, que 
regulam sempre : as regras e jireccitos particulares, 
relativos a cada um dos seis indicados requisitos , 
expenderemos em artigos especiaes. 

J. da C. X. C. 



Delrei d. João 2.° e do cahdeal d'Alpedrinha. 

Eji historia assim como na conversarão . e no de- 
mais tracto da vida social ha certas phrases que fa- 
zem fortuna ; agradam e seduzem pela graça e es- 
pirito conceituoso cora que são arranjadas ; e o vul- 
gar, naturalmente leviano ou indolente, se compraz 
em repeti-las , e sem indagar nem examinar suas 
provas, atira-as como axiomas, explica por ellas os 
acontecimentos a que as mesmas se referem ; e com 



este modo de proceder e d'ajuizar se vai muitas 
vezes transtornando e desfigurando a verdade histó- 
rica. Poderíamos apontar muitos exemplos deslc 
máu resultado ; por agora alteiulam os leitores ao 
seguinte : 

È niuilo conhecida na historia de nossos reis aquel- 
!a conversa que se diz tiveram nas praias da Jun- 
queira ou de lielem o príncipe I). João [depois rei 
2.° deste nome] com o duque de Bragança, D. Fer- 
nando , e o arcebispo de Lislioa , D. Jorge da Cos- 
ta , mais nomeado com o titulo de cardeal d'Alpe- 
drinha. Foi o caso, que havendo elrci I). AfTonso 
5.° colhido na corte de França o desengano de que 
nenhum soberano pôde confiar demasiado no auxi- 
lio dos estranhos para o arranjo c melhoramento de 
seus negócios ; obrigado pela força e politica ma- 
chiavelica de Luiz 11.° a voltar ao reino e á coroa, 
de cujos pungentes espinhos havia resolvido fugir ; 
chegando na frota franccza , que o conduzia , á en- 
seada de Cascacs , mandou adiante um mensageiro 
prevenir o príncipe seu filho daquclla estranha no- 
vidade. Este , que nada menos esperava do que a 
volta de seu pai , que pur sua ordem , c de suas 
instancias havia tomado o sceplro por formal abdi- 
cação daquelle, ficou confuso e embaraçado, e per- 
guntou aos dois : = como 6 que hei-de receber meu 
pai , que está chegando ? = O cardeal , mais preca- 
tado e astuto , calou , postoqne nisso mesmo se de- 
clarava assaz ; mas o duque , vivo e prompto , res- 
pondeu = como recebè-lo , principe? Como vosso 
pai e como vosso rei. = Seguidamcnte o principe 
sem contestar pegou d'uns seixinhos daquelles que 
costuma haver nas praias , e começou a joga-los 
disfarçando o negocio , e alirando-os pela lona d'a- 
gua os fazia ir saltando e fazendo pulos. O cardeal, 
percebendo com isto que o conselho fura recebido 
de má mente , disse para o duque , mansinho : = 
aqnella pedra me não hade dar na cabeça ; =e pas- 
sados dias, aforrado largou o reino e se foi a Ro- 
ma, donde não voltou mais. Aii aqui c a relação 
commum e popular , que pouco imporia seja falsa 
ou verdadeira em si mesma. O caso porem é que 
delia se lira uma illação injusta e depressora do 
grande caracter do soberano a quem a historia cha- 
mou principe perfeito. Tem passado . como cousa 
sem replica , que deste fraquíssimo principio, des- 
te supposto conselho, que aliás faria muita honra 
aos seus auctores, que de nenhuma serie era obri- 
gatório , e que devia merecer louvor e estimação , 
mesmo d'um homem tão atilado e tão bom aprecia- 
dor das acções briosas ; desle successo , diremos , 
deduzem a má vontade que D. João 2.° mostrou 
sempre ao cardeal , e que mais tarde levara o du- 
que ao cadafalso em Évora , postoque acompanhada 
ou mascarada com a resistência ás correições da 
coroa em suas terras. Ora isto não é assim : a des- 
graça destas duas personagens teve principies mais 
altos , e é Fernão Lopes , o mais antigo , o mais si- 
sudo, c o mais verídico de nossos chronistas. quem 
os indica ; e foram estes : quando o malaventurado 
rei de Castella , Henrique 4.°, se lembrou de pro- 
ver á successão da coroa , ofTereceu a Portugal o 
seguinte convénio : casar o próprio rei D. AiTonSD 
5." com a infanta D. Isabel sua jrmaã , jurada já 
naquella corte princeza hábil para succeder ; e o 
principe D. João com sua iilha única e herdeira , a 
princeza II. Joanna , chamada depois a exeellente 
senhora. Desle modo fica>a a successão da dynaslia 
portugueza á coroa de Castella segura pelos dois 
lados. A princeza Isabel e seu partido ficariam li- 



160 



O PANORAMA. 



songeados de a verem rainha de tantas coroas, c as- 
scfturada a preponderância e valimento dos grandes 
d'Hespanlia , que por seus particulares inlcrcsses 
lançavam somliras ignominiosas sobre a legitimida- 
de (la lillia do rei ; e esta, sctido casada com o her- 
deiro nuico o legitimo de Portugal, empunliaria o 
sceplro i)em depressa, salvos assim os princípios 
das leis de successão em ambas as coroas ; cessa- 
vam os escândalos , e se punha um freio ás ambi- 
ções , parcialidades e maledicências. Esta alliança , 
estas disposições aggradavam muito ao príncipe, co- 
mo é natural ; mas achou poderosos contradiclores 
no cardeal e no duque que a desapprovavam , ex- 
])ondo ao bondoso c indeciso Aflonso o.° que seria 
isto metter-se c ao reino em camisa de onze varas ; 
que seria empenhar n'uma guerra terrível sem ap- 
]iarencia de bom snccesso , porque nem a princcza 
Isabel era de molde n renunciar ao throno d'Kes- 
jianba que lhe promellia seu grande c formidável 
partido , ncni os grandes d'Hcspanha , feros e or- 
gulhosos , sofTreriam jamais soberano estrangeiro , 
lanto mais quanto Fernando, rei de Aragão, que- 
ria o b'>lo para si , c atiçava os dissidentes. D. Af- 
fonso resignou-se ; e todos sabem qual foi o de- 
plorável resultado da sua politica : c D. João 2." , 
que era a alma da política contrária , sempre de- 
pois lançou na cara dos dois as conseq^uencias do 
ruim conselho. Isto quanto á má vontade , porque 
quanto á jnsliça , boas rasões lho não faltaram. 

J. da C. N. C. 



' . ■ Bútãnkã. ' 

SoijRE a cAPiiinciCÃo dos figos (>). 

A cAPr.iFicAçÃf) é conhecida , e praticada no Algar- 
ve talvez ha muitos séculos , e desde o nosso anti- 
go commcrcio com os carthaginezes ; pois qnc este 
modo de fertilisação artificial c antiquíssimo n'.\- 
frica, Grécia, e em todo o Levante. Delia faz men- 
ção Aristóteles c seu discípulo Theophraslo , Plínio 
e muitos outros auctorcs antigos, gregos c romanos: 
entre os modernos Tonrnefort, Pontedera, Línneo e 
Bernard de Marselha são os que mais se occnparam 
de a indagar ; isso não obstante , ainda restam al- 
gumas observações que fazer , para perfeitamente a 
í Iluminar na sua cansa e effeitos. 

Consislia antigamente, 1.° cm plantar figueiras 
bravas defronte dos figueiraes cultivados da banda 
donde o vento soprava mais ordinariamente nos fins 
da primavera , para que ccrlos mosquitos , que en- 
tão costumam sahir dos figos bravos, fossem mais 
farilmenle pela direcção do vento conduzidos aos fi- 
gos das figueiras domesticas, ncllas entrassem, c os 
impedissem de cahir, accelerando ao mesmo tempo 
a sua túmida e doce madureza : os gregos chama- 
vam a esta casta de figueira brava crinos , os roma- 
nos raprilicus . e os porluguezes lhe dão o nome do 
itaforr.ira ou fif/urira de tocar. 2.° Consistia era pen- 
durar ramos ou enfiadas de figos bravos nas figuei- 
ras domesticas para o mencionado fim. Esta segun- 
da prática está ainda boje em uso nos mesmos pai- 
zcs , cm que antigamente se usava , e lhe chamam 
raprificação. No Algarve enfiam era tiras de folhas 

(•) Estas notas, escriplas pelo nosso insigne naturalista, 
FelÍ!(d"Avellar Rrotero. foram impressas na Irailucção, pou- 
co conhecida , ila obra do Blanchard , pulo beneUciad» M. 
.1. da Costa , tom 2." 



de palmeiras os figos da figueira de locar , e pen- 
durara cslas enfiadas nos ramos de algumas figuei- 
ras domesticas, ou de certas variedades serodeas , 
cujos figos, ainda que de boa casta , cahem coratu- 
do sem amadurecer, se não são capriticados. 

O insecto, que contribue para a capríficação , foi 
antigamente conhecido dos gregos , com o nome ds 
psni , c os cntomologicos modernos lhe chamam r;/- 
nips })scHcs : é do comprimento de um grão de sal- 
sa com pouca dilfereuça, e todo negro ; as suas an- 
tennas são quasi do comprimento do seu corpo, e 
compostas de doze nós ou articulações ; tem quatro 
azas membranosas sem malhas, c as de cima maio- 
res : o individuo feminino tem de mais disso na 
extremidade do ventre um ferrão escondido entre 
duas laminas. Este insecto, ou mosquito, dizem que 
gosta mais dos figos bravos do que dos mansos ou 
domésticos: nellcs põem seus ovos, e as suas lar.vas 
nclles se criam até delles sabírem transformadas cm 
mosquitos ; pois não é destes figos podres que se 
gerara, como os antigos philosoplios gregos e roma- 
mos pensavam , porque a podridão destroe , desor- 
ganisa , e não pódc gerar ente algum orgânico , os 
qnacs todos nascem de ovos , ou germes formados 
pelos pais da sua espécie, segundo as luzes da pbí- 
losophia moderna. Quando os mosquitos não acham 
figos bravos, introduzem-se nos mansos ou domés- 
ticos, que acham logo visiuhos , e mesmo na falia 
de uns e outros , dizem que se introduzem nas se- 
mentes tenrinhas dos fiosculos da cangarinha (sco- 
h/niiif; Itispatiiciis) e de algumas outras plantas. Ao 
Archipélago estes insectos dão-se nasbaforeiras, que 
produzem três castas ou camadas de figos successi- 
vamenle no mesmo anno ; em maio, agosto, c fim 
de setembro ; não são bons para comer, mas só pa- 
ra caprificar, porque cm todos se dão mosquitos; 
os da camada de maio comtuiio , chamados ornos . 
são os que empregam os gregos |)ara a capríficação 
em junho e julho : os fiosculos em todos elles pro- 
vavelmente são raonoicos ; nos da camada de setem- 
bro os ovos dos insectos ficam depositados até a pri- 
mavera do anno seguinte, em que as suas larvas sa- 
bem dos ovos, nutrem-se das milharás do figo, e 
transformados sahem a iulroduzir-se cm outros figos. 
Em todos os figos das figueiras bravas até agora 
observados em Portugal se te;n achado sempre fios- 
culos dos dois sexos , e mesmo entre elles alguns 
hermaphroditos ; as baforeíras do Algarve são aná- 
logas ás que dão os figos lampos. 

Os mosquitos , que sabem dos figos bravos pen- 
durados nas figueiras mansas , tem immcdiatamente 
cópula entre si; depois disto as fêmeas cuidam lo- 
go de pôr e aninhar os seus ovos de tal maneira , 
que a sua prole ache no próprio ninho o seu conve- 
niente alimento, sem mais trabalho algum materno; 
romi)em pouco a pouco o olho dos figos verdes do- 
mésticos , penetram no seu interior, picam as mi- 
lharás com o seu ferrão, e em cada um destes grãos- 
inlios põem um ovo : neste ovo , com o calor com- 
petente, descnvolve-se uma larva, ou lagarlinlia mí- 
nima, cnjo corpo é composto de doze anncis, bran- 
co e sem pés; nulre-sc do miolo das milharás, sem 
comtudo evacuar excremento algum , até se trans- 
formar em nympba e perfeito mosquito ; rompe en- 
tão a casca da milhará, c sabe delia c do figo, vóa, 
e cuida em propagar a sua prole especílica do mes- 
mo modo que seus pais lhe deram a sua existência 
indi\idual. Um mcz basta para que as larvas che- 
guem á sua ultima metaraorphose. 

l Continuar-$e-ha ) . 



74 



o PANORAJIA. 



161 







UMA VISTA DO FAIAI.. 



Se os nossos leitores quizercm consultar os índices 
dos primeiros volumes deste semanário , por elles 
irão buscar muitas noticias do importante archipe- 
lago dos Açores, jóia engastada na coroa porlugueza. 
De obra estrangeira tomámos a precedente estampa. 
em que a imperfeiçiio do desenho c gravura , mos- 
tra ao longe mal designada a ilha do Pico , que é 
para assim dizer o jardim ou a quinta do Faial. — 
O Sr. Júlio de Lastcyrie diz assim : — «A ilha do 
Faial forma uma vasta meia lua, no recesso da qual 
está posta a cidade d'Horta : as ruas parallelas ao 
mar sobem successivamente com as latadas de ro- 
meiras e outras arvores pelo declive de uma escar- 
pada eminência. Casas e flores fazem um composto 
engraçado , donde á vontade se pôde admirar o es- 
plendor do painel , que ante os olhos se estende. 
Em face está a ilha do Pico , e a sua extremidade 
peneira na bahia do Faial , que sombrèa com seu 
magcstoso cume. Na falda da montanha, visinha ao 
mar , crescem as larangeiras e as plantas dos tró- 
picos ; á proporção que o terreno altèa distinguem- 
se as oliveiras , e as cepas da vinha ; mais alem as 
arvores do septenlrião da Europa , e em lodo o ci- 
mo as neves perpetuas. A esquerda prolonga-se a 
ponta de S. Jorge , e se entreve o canal estreito e 
comprido , que separa esta terceira ilha da outra 
do Pico : por entre estas terras tão próximas desdo- 
bram-se , sob esplendida atmosphera , as vagas tu- 
multuosas do oceano atlântico. Activa navegação dá 
vida a esta enseada magnifica. Sendo o Faial o pon- 
to dos Açores onde os navios podem sem perigo dei- 
tar ferro, acodem estes alli em grande quantidade : 
os baleeiros americanos vem renovar aparelhos e 
fornecer-se de mantimenlos : embarcações do Mara- 
nhão , que o vento obriga a tio larga Tolta para 
Maio 27—1843. 



irem ao Rio de Janeiro , arribam á cidade de Hor- 
ta ; e outras inglezas carregam-se do vinho do Pi- 
co , que ajudado de alguma aguardente semelha o 
da Madeira. O movimento commcrcial influe nos 
costumes e hábitos dos moradores, e dá á popula- 
ção d'IIorta uma physionomia europea , que não sr; 
encontra tão distincla em qualquer outra terra dos 
Açores. » — 

«Para ir do Faial á Terceira dobra-sc a ponta oe- 
cidental da bahia d'Horta , cntrando-se pelo canal, 
que ao occidente é apertado pela ilha de S. Jorge . 
e a leste pela do Pico passagem perigosa de na- 
vegar , onde o mar quebra com igual violência nas 
duas margens : as correntes são arrebatadas , e os 
navios que a tempestade tomar de súbito nesta pa- 
ragem , varrida pelo vento , não tem refugio, a que 
se acolham. — A pouco e pouco a ilha do Pico , de 
figura oval , afasta-se de S. Jorge ; em curto espa- 
ço transpõe-se a extremidade desta : descobre-se 
então a Graciosa, pequena e rotunda, que sahe das 
aguas como um açafate de flores; e na frente ve- 
mos a Terceira com suas penedias escalvadas , e 
montanhas nevoentas. » 

riz-se que o nome de Faial proviera das muitas 
faias , que os descobridores lhe encontraram : ven- 
tilar questões d'etjmologias , sobre desnecessária 
ociosidade, é cousa fora da moda. Chania-se aspira, 
c não' ha vozes que desmintam nomes que o povo 
diz, que os livros geographicos consagram, porque 
não podem deixar defazè-Io. Esta ilha tem de com- 
primento cinco léguas , e de largura quatro ; pode 
quasi chamar-se redonda : orça-se em vinte e qua- 
tro mil habitantes a sua população . divididos pela 
capital, [que foi elevada á calhegoria de cidade por 
D.Pedro deBrasanca, de Saudosíssima Memoria] c 
2.' Serie. — VoL. II. 



162 



O PANORAMA. 



por nove aldeãs c outras povoações de pouca mon- 
ta. O vinho que produz c de inferior qualidade ; o 
que embarca provem-lhc do Pico ; dá ccreacs para 
Consumo pro|)rio e da ilha visinha ; produz Iialalas 
c inhames ; mas o género de cultura , que lhe ó 
mais vantajoso é a laranja, de que exporta uns ân- 
uos por outros carregação para doze e qualorze na- 
vios : assim mesmo nutre bastante gado. A indus- 
tria limita-se ao fabrico de manteiga, pannos de li- 
aho , c loiça ordinária de barro. 



O DIELLO DAS DAMAS. 
1." 



O vAiLE dc Carriedo é dos sitios mais românticos 
da vertente septentrional das Astúrias : parece que 
nelle se reuniram todas as naturaes bellczas para 
simullaneamentc realisarera o ideal do poeta e do 
pintor." Vegetação vigorosa e aromática , florestas 
virgens , ordenadas sobre amphithealro de rochas 
variegadas ; espumosas torrentes , que desde o ci- 
jno das montanhas se precipitam como artificiaes 
cascatas ; jardins que a natureza criou espontâneos, 
|)cnsís c fora do alcance da mão dos homens ; ca- 
minhos de fantasiosas formas , que remedara esca- 
das assestadas para as nuvens , frequentadas só pe- 
la corça selvática, ou pelo contrabandista que con- 
jeguiu ser o seu intrépido companheiro : nada falta 
áqiicUa paizagcm, verdadeiramente meridional, pa- 
ra fazer um dos quadros mais grandiosos que i)o- 
dcm imaginar-sc. — J\o centro deste espectáculo 
admirável dão os olhos com a villa da Vega , gra- 
ciosamente collocada no meio do painel que a cir- 
cumda , ostentando ainda hoje sob aquellc ameno 
clima as amêas do castello , cnnobrecido pelos que 
em o século 1(5.° o habitaram. 

IVuma serena tarde do mez de fevereiro de 1302, 
divisava-se um cavalleiro que a passo raiudo subia 
pela escarpada ladeira , que findava no relvoso ro- 
cio , sobre o qual o campanário de uma ermida 
campeava : era esta consagrada a Nossa S." de la 
A'ega , padroeira de muita veneração ; c a sua fes- 
tividade annual tinha nesse dia concluido , como 
aimunciavara os repiques dos sinos , e os magotes 
de gente rústica , que se recolhiam ás pousadas , 
cantando seguidilhas ao divino. O homem que su- 
l)ia o serro era D. Félix de Vega , senhor e dona- 
tário do solar e casaes dessa villa, que com seu 
appellido era honrada : morador naquelle torrão des- 
de que nascera , no sitio que para assim dizermos 
seu pai fundara , tinha crescido , e prosperado , e 
vivido , sem conhecer um instante de desgraça ou 
melancholia ; e a donzella asturiana , que puzera 
remate á ventura delle , porventura que não teria 
jias llesp.ndias rival na belleza , como na graça , e 
ternura d'esp()sa. Havia porem quinze dias que pe- 
la vez jirimeira , depois de sinco annos dc matri- 
monio , a formosa Francisca Fernandez se achava 
ausente dc seu nobre esposo. 

No momento em que D. Félix chegava á coroa 
do cabeço altrahiraui-lhe a attenção os clamores 
que sabiam da ermida , c viu um troço dc campo- 
nios encolerisados , c no meio delles agitada e li- 
vrando-so uma mulher bastante moça com uma crean- 
ça nos braços. 

« Fora , fora a cigana . . . não está aberta a igre- 
ja para lacs cxcommungados» — bradava a chusma 
empuxando a mísera para fora da capella. 



«Não sou cigana , nem excommungada , meus ir- 
mãos , . . .» — contestava a rapariga com ademanes 
de supplicante. — «Se o é meu marido, nem por 
isso deixo de ser hespanhola c calholica , como vós 
sois ; e não podeis empeecr-me que venha requerer 
para meu fdho o baptismo , que merece tanto como 
vc')s merecestes. . . » — 

«Não ha baptismo para os malditos. .. » — Re- 
plicavam sem caridade os fanáticos. «Vai para a 
cova dos feiticeiros ; Satanaz que te benza o fi- 
lho. » — 

A desventurada mãi tinha de ceder á força, c 
retrocedia já banhando com lagrimas a crcança , 
que via réproba; neste passo, um sacerdote ancião, 
como pelas muitas caãs demonstrava , apparcceu 
revestido de sobrepelliz no batente da porta, cha- 
mado alli pelo alarido dos rústicos: a mãi expulsa 
correu a elle aniznada d'esperança. D. Félix, sus- 
tido por este incidente que complicava a scena, re- 
primiu o seu primeiro impulso , que o levava a 
aquietar o tumulto ; e chegou-se ao logar da alga- 
zarra para melhor indagar a causa e presenciar o 
desenlace. Um minuto de attenção pôz o ecclesias- 
tico pastor ao corrente do qne se passava, e conhe- 
cendo sua obrigação melhor que o tropel de amoti- 
nados, rcprehcndeu-os de sua dureza para com a in- 
feliz mulher. Restabelecido o silencio , pôde inter- 
rogar a mãi , que para seu filho re(|ueria baptismo. 
«Quem es?. . E donde vens, minha filha?. . .» 
— lhe perguntou com voz meiga. 

«Sou Joanna Valdês, mulher d'um cigano, que 
vaguea nesta comarca : meu marido não c calhuli- 
co ; mus eu não deixei dc sè-lo , e venho otTerecer 
a Deus este fructo que dei á luz quinze dias ha.» 
«Ainda que christaã não fosses, teu filho linha 
jus a sè-Io , já que assim o pedes ; porque as fon- 
tes sacrosantas do baptismo estão patentes a todas 
as humanas creaturas.» — 

Em seguida , tendo admoestado de novo os cam- 
ponezes , expiíz-lhes que o meio de expiarem seu 
erro e cegueira era abençoarem elles próprios o 
menino , que acabavam de amaldiçoar. 

«Escolhei do meio de vós [proscguiu] padrinho 
6 madrinha. . . » — 

Apenas o ministro do Evangelho pronunciara es- 
tas palavras , teve de interromper com dòr o seu 
discurso conciliador , vendo que os aldeãos , reco- 
brando deshumanos sentimentos, lhe davam as cos- 
tas, todos a um tempo, ao retirarem-se murmuran- 
do outras pragas contra a presupposla cigana. 

«Que é isto? [bradou indignado o sacerdote] to- 
dos abalam ? . . . Nem um ficará para envergonhar 
os mais?. . . Não haverá uma mulher, uma mãi, 
qne se apiade de sua irmaã em Jesus-Christo?)) — 
E no instante em qne este caritativo chamamento 
era pronunciado, som proiluzir o elTcito de que uma 
só cabeça para aiiuella banda se voltasse, chegava 
uma senhora pela parte opposta a essa por onde vie- 
ra I). Félix : presto descavalgou ante o pastor , di- 
zendo : — Serei eu a madrinha desse menino. 

— <' E eu o [ladrinho. )) — acudiu D. Félix imitan- 
do a desconhecida. 

Fora de duvida que teve muita parte a humani- 
dade no rápido impulso da vontade do Sr. de la Ve- 
ga, que apenas por nnnutos foi prevenido pela pro- 
posição de sua futura comadre : porem outro senti- 
mento mui humano também o fizera approximar á 
lórmosadama, pois que vira entre as pregas da man- 
tilha elegante brilharem dois pretos olhos, como es- 
trcllas veladas por nurcm rara. 



o rANORA3IA. 



163 



Entraram loiío na capella ; soaram os sinos , e o 
mcninn Fclix Paulo ^"aldcs foi dcviJa c solemnc- 
mente ba|)lisado , inscripto seu nome no registo pa- 
rochial de N/ Sr/ de la V(>!;a , a par dos do nobre 
fidalgo D. 1'elix , e da senliora Paula de los .Mon- 
tes. Nada mais pódealcanrar o nosso cavalheiro na- 
quella occasião a respeito de sua linda equasimys- 
leriosa comadre, e se quiz obter permissão de visi- 
ta-la teve de usar do seguinte estratagema. — Ao 
descer pressurosamente da eminência, acompanhan- 
do a senhora e a cigana , encontrou os magotes do 
povo que se recolhia, o lembrando-se de por á pró- 
Ta o rigorismo dellcs , convidou-os para no dia se- 
guinte assistirem ao banquete pelo baptismo do no- 
vo afilhado : tão gololões como lanaticos, sem repa- 
ro de se contradizerem, acccitarara promptos o gra- 
to offerccimento ; e depois de por entre dentes sol- 
tar ura cpitheto que caractei-isava a turba , D. Fé- 
lix passou a convidar a juvenil madrinha , que não 
pôde recusar-se a uma festa, dada em obsequio delia. 

Separaram-se, nolificando-se a reunião para o dia 
iraraedialo no easlello de la Vega , e D. Félix veio 
á sua pousada. — Ainle c quatro horas depois teve 
logar o banquete; a linda madrinha fora obsequia- 
da com honras quasi reaes no castello de la Vega , 
e I). Félix fizera dois descobrimentos que consigna- 
remos neste logar : — o primeiro, concernente ámar- 
queza de la Puebla de los Montes, da qual soubera 
quanto cubiçíira saber : era uma senhora da princi- 
pal nobreza do Madrid, e viuva : o segundo desco- 
brimento dizia immediatamente respeito ao próprio 
B. Félix ; advertira que se achava perdido de amo- 
res por I). Paula. 



Longe dos olhos, longe do coração; diz o adagio. 
Tanto mais conhecera este axioma a bella Francisca 
Fernandez , quanto os zelos haviam tomado assento 
em seu coração desde o momento em que de seu 
esposo se apartara. Sabendo que D. Félix tão fraco 
era d'anectos quanto fácil de apaixonar-se , emprc- 
hendêra com bastante custo uma jornada indispen- 
sável para negócios de familia : e ao mesmo tempo 
que fazia todo o possível por abbreviar sua ausên- 
cia , fingia prolonga-la para dar a seu marido ou o 
prazer, ou a licção de uma sorpreza. ISo mesmo dia 
em que emprehcndeu voltar a Vega, escreveu a D. 
Félix que sn ao cabo d'um mez poderia ter o gos- 
to da sua vista. Porem ao chegar ao castello foi el- 
la a sorprehendida em vez daquelle que pertendia 
tomar de sobresalto. — D. Félix no dia antecedente 
partira sem dizer para onde, nem quando tornaria, 
e sem abraçar seus filhos que entregara a mãos mer- 
cenárias: não contara com a hospeda, e fácil c ima- 
giuar-se que suspeitas entrariam no animo de D. 
Francisca : perguntando a quantos encontrava com 
a sagacidade própria do ciúme exaltado, não tardou 
que soubesse a aventura da capella, eeste fio a con- 
duziu á morada da cigana. Interrogada esta, inno- 
«entemente relatou a historia de seus accidentaes 
bemfeitorcs; e que por vezes a visitaram, distri- 
buindo-Ihc dádivas até que a marqueza annunciára 
sua partida para a corte. — «E comeffeito partiu.... 
perguntou a esposa de D. Félix sobrcsaltada. » — 
"Antes d'hontcra : respondeu a mulher : e sem per- 
ceber o efTeito de sua declaração ajuntou — «O Sr. 
Vle la Vega veio de tarde fazer-me a mesma per- 
gunta ; creio que lambem partiria , porque não tor- 
íiei a vê-lo. — Não inquiriu Francisca mais noticias ; 



comprehendcu o enigma ; fez esmola á cigana ; e 
sem resfolgar oamirdiando direita ao castello , bra- 
dou .i entrada a seus criados: — Já, cavallos apa- 
relhados, cavallos promptos ; carruagem a caminho, 
quero sahir já ; que seum pai noaccesso de paixão 
desordenada pôde csquecer-se de seus filhos, a mãi 
também só pôde esqucce-los no desesperado auge 
do ciúme. 

. ■ ,•• . . 3.' ■• ■ 

Á entrada de uma rua estreita de Madrid , con- 
tigua á porta de Guadalajara, uma lanterna pendu- 
rada defr(]ntc do nicho de S.Fernando despedia va- 
cillante luz e soturna: ao clarão débil e intercaden- 
tc via-se ura cavalheiro , de estatura baixa , com 
sombreiro carregado sobre os olhos , mascarado , e 
de esi)ada á cinta; passeava lentamente, parando a 
intervallos, para advertir se era observado. Tão so- 
cegada c silenciosa estava aquella rua , como agi- 
tadas as demais da tumultuosa capital : o embuçado 
já começava a inquictar-se porque só trevas descu- 
bria e tudo era mudo ; eis que outro cavalheiro , 
mascarado também, de figura e aspecto cm tudo si- 
railhantes , approxima-se deliberadamente , e met- 
tendo mão aos copos da espada , diz com voz temie 
mas resoluta. 

«Que fazeis aqui, senhor?» 

«Faço o que não tenho tenção de explicar.» — 
replicou o passeante com mais soberba que firmeza. 

<t Sc não tendes tenção de o declarar, necessito 
eu sabè-lo. » E o tom da voz era já ameaçador. 

O primeiro fez um movimento d'espanto , acom- 
panhado de gestos d'indignação, c indiciava reunir 
todo o seu valor para pedir ao inesperado interlo- 
cutor que se retirasse.» — «Era o mesmo que iape- 
dir-vos , cavalheiro , [replicou o segundo] necessito 
de aqui estar só, onde espero outra pessoa.» — 

— «Também cu espero; e se o não levais a iiial 
aguardaremos ambos.» — 

— «Digo-vos que não pôde ser... Segui vosso ca- 
minho por vontade ; que senão o fareis por força.» 

Esta ameaça proferida insultuosamente fez sem 
duvida subir ao rosto do primeiro passeante todo o 
calor do sangue hispano que lhe corria nas veias ; 
porquanto sem consultar se as próprias forças Ihi! 
permittiriam arrostar com o provocador, metteu tre- 
mulo de raiva mão a espada : o outro o imitou lo- 
go , como desejoso de levar as cousas ao peor ex- 
tremo ; c ambos se acharam em guarda , frente u 
frente, cubiçosos de vingança, como doisrivaes que 
sem conhecer-se presumem que o são , e reccau) , 
não obstante , desfechar o primeiro golpe , quacs 
meninos que se espantam do sangue derramado. As- 
sim os dois reciprocamente se esforçavam porcncu- 
brir a turvação de espirito sob as apparcncias da 
cólera. Novo e pungente insulto da parte do provo- 
cador poz termo á indecisão : alçaram-se os braços, 
e os ferros se cruzaram. — Apenas durou um minu- 
to oduello; ao cabo delle o primeiro cavalheiro me- 
diu o chão , soltando ura grito , que fez estremecer 
o outro : accudiu o vencedor a eertificar-se de (jue 
o seu adversário tão somente n'uma das mãos fora 
ferido , e inclinando-se lhe disse ao ouvido : — 

— «Marqueza de la Puebla de los Jlontcs, have- 
mos desempenhado o nosso papel tão bem ou me- 
lhor que homens. Lembrai-vos que vos feriu na mão 
aquella a quem feristes no coração.» — 

Neste relance apparcceu nova personagem na rua 
de S. Fernando: Francisca, que reconheceu D. Fé- 
lix, correu a ellc, Irarou-lbe do braço, e mostrou- 



164 



O PANORAMA. 



lhe a marqucza dcsiDaiada , que ^>or ordem sua era 
)(;vadu por dois creados. 

■ — uUnia hora mais tarde, a mataria, disse a cio- 
sa hespaulioia) — Vós, scnhur, ainda |)odcis ser di- 
j;no do mira : vinde pcdir-iiie perdão , e ver nossos 
lilhos. » 

Ahalido pelo sobrcsallo e conliisão . D. Félix se 
deixou guiar por sua consorte, como o menino por 
sua mãi. .\arn)u-lhe elfa o como soubera da sua 
partida da ^'e.í;a em seguimento da niarqueza ; co- 
mo os descubrira e espiara cm Madrid nas funcrões 
do carnaval , e os colhera na primeira entrevista , 
designada para a rua de S. Fernando ; c a liual co- 
mo havia consummado sua vingança , prevenindo a 
deshonra. — L>. F'el!X , mais leviano do que culpá- 
vel , mereceu iuimediatamentc o seu perdão. Pas- 
sados nove raezes depois desta reconciliação intei- 
ramente hespanhola nasceu I). Lope de Vega Car- 
piu , o primeiro poeta dramático do seu século. 

Este homem insigne comprazia-se em repetir ás 
vezes que por pouco cbtivcra o não ser fillio de sua 
iiiãi ; e accrcsccntava qne o lilho da cigana de Car- 
riedo era o celchre Félix Paulo Valdês : o melhor 
interprete de suas obras, e primeiro trágico d'J!es- 
panha. 

Quanto á marqucza de la Puchla de los Montes , 
aproveitando a seu raodo a terrível licção de Fran- 
cisca, rccoHicu-se a um mosteiro de freiras em Ma- 
drid, onde chegou á dignidade d'abhadeça ; c ainda 
ha poucos annos nelle mostravam o seu retrato, lacil 
de reconhecer pela funda cicatriz. na mão direita. 




MAFOMA. 



PoK certo que não seria desprovido de natural ta- 
lento e sobeja andacia , apesar da falta d'educação 
de sua mocidade , nm lumiem que crcou , e impoz 
a muitos milhiics dlionicns, uma religião nova. Te- 
nacidade na pro.Hcução <las enqjrezas , actividade 
c- [icrspicacia . fi.ram sem duvida os dotes do falso 
pr<ipheta , Maíoira , roinn lhe chamámos . ou Abul 
Kasem Ibn .Mídaljab Muhan;nicd, como c o seu ver- 
dadeiro nume. Nasceu este individuo extraordinário 



em Meca ; segundo alguns, aos 10 de novembro de 
o70 , c conforme outras ancíoridades . aos 21 d'a- 
bril de iui. Foi filho único, e seu pai pertencia á 
familia llasbem , ramo mui distincto da nobre tri- 
bu de ICo-.cish , que presumia descender directa- 
mente de Ismael, reputado progenitor da casta ará- 
bica ; e que tinha adquirido dclerminado predomí- 
nio sobre as tribus circuravisinhas. tanto pela opu- 
lência que lhe facilitava o grosso cummercio que 
faziam , como porque eram os guardiões hereditá- 
rios do culto arábico. Osanctorcsraahomctanos não 
deixaram de inventar prodígios annunciadores do 
nascimento de Maforaa , assim como fabulados mi- 
lagres que em vida lhe altribuiram ; o que de boa- 
mente largámos á credulidade de seus cnlhusiasma- 
dos sectários. 

Logo na meninice Jíaloma licou orphão de pai c 
mãi , e o tomou para si seu idoso avô , principal 
ministro da Kaaba , a quem succedeu no cargo , c 
tutoria da crcança , Abu Taleb , lio desta. Mafoma 
fez com seu lio algumas jornadas ás grandes feiras 
da Syria, e correu vários passos da vida de contra- 
bandista , em que a sua astúcia se desenvolveu : 
aos vinte annos entrou n'uma expedirão contra as 
tribus predatórias que roubavam as caravanas de 
Meca : aos 24 casou cora uma rica viuva desta ci- 
cade , alliança que o melteu de posse de muita có- 
pia de cabedaes. Nas viagens á Syria cultivara seu 
talento ; porem do tudo o que maior impressão lhe 
fez foi observar a adoração que assim os christãos 
como os judeus tributam a Deus uno e indivisível , 
ao passo que os seus patrícios d'Arahia tinham as 
paredes da Kaaba cobertas de idolos : traçou desde 
então mudar a lei do jiovo em qne nascera. Tendo 
ou\ido com admiração muitas passagens da santa 
ISililia , dotado de viva imaginação , fez uma niis- 
cellanea das verdades e factos da Historia sagrada 
com os delírios de sua cabeça, e as tradições, con- 
tos, e visões orienlacs, que abundavam no seu paiz 
natal ; c assim compilou o disparatado livro , dito 
Al-Koran , onde todavia se encontram preceitos de 
saã moral, e em meio de absurdos algumas allego- 
rias engenhosas. Querem auctores que neste traba- 
lho fosse ajudado por nm monge grego , fugido de 
Constantinopola por seguir a heresia de Nestorio. 
Verdade c que muitos dizem que não sabia lèr , 
nem escrever; mas querem outros que lingia esta 
ignorância para melhor representar o papel de ins- 
pirado , e que o tal monge era o seu amanuense. 
Seja como fór , por audácia , enthusiasmo visioná- 
rio, força de riquezas, c auxilio do poderosa paren- 
tela, fez-se conquistador, legislador, e porlim ou- 
sou inciilcar-se prophcta e em iado de Deus, tiran- 
do até partido da moléstia de c|)ile|isia, de que era 
por vezes assaltado, capacitando os crédulos que 
os accidentes eram cxtascs em que recebia revela- 
ções divinas por mensagem do anjo S. Gabriel. Pe- 
lo terror das armas propagou depois a religião mixta 
que fundara ; no que etlicazmente foi auxiliado por 
seu sogro, c seus parentes; distingnindo-se Ali e 
Ornar, cabeças das duas prineipaes seitas, em que 
se subdivide boje o islamismo , seguindo os persas 
o rito do primeiro, e os turcos as práticas altrilnii- 
das ao segundo. 

Não obstante tamanhos recursos , experimentou 
Mafoma ao principio contrariedades , c até perse- 
guições ; da sua fugida de Mera (hégira] fizeram 
os árabes uma nova era . donde computam o tem- 
po. Porem se o embusteiro sahiu de Meca expulso, 
entrou eui Medina triuropbanlc , c desde então da- 



o FANORAÍIA. 



16S 



iam as suns façnnhns friicrrcir.is : tal influencia ob- 
lovo , que l)a.vlar;i dizer que daiido-liio a mania de 
Msilar a Kaalia , pouco tempo antes da sua moitc , 
" acompanharam nesta pcrciirinação mais de cem 
mil pessoas. Era homem de costumes devassos , a 
que dava falsas cores cxcogilando pretextos para 
enganar acerca de suas más qualidades a nniUidão, 
que o acreditava : com os des[)ojos de rápidas e ex- 
traordinárias conquistas enriqueceu os seus prose- 
lyios. Morreu cercado das honras de seu bárbaro 
povo aos 8 de junho de (iáá , dizem que cm resul- 
tado de veneno que uma judia para vingar a mor- 
te de seu irtiião lhe ministrara , prepaiando-lhe 
umas costeletas do carneiro. 

Dos ritos , festas , vários pontos de crença , o iia- 
liitos dos scqua/es de Mafoma , temos escriplo em 
diversos n."" deste Jornal. 



Cunsideracões sobre o Curso d' Economia Politica, pu- 
blicado em Parit em 1842 pelo Sr. Miguel Cheva- 
lier. 

IV. 

Torno a atar o fio das minhas ideas , roslringindo- 
nie ás instiluirõe?; de credito , e digo que não só á 
agricultura , a outros ramos da economia nacional 
devem estender o seu inlluxo. Insistindo n'esta ge- 
neralisação do principio do credito , o meu fito c 
não deixar immoveis nem ini[)roduclivos nenhuns 
dos capitães que existem no reino , grandes ou pe- 
quenos , e não só os capitães que estão em forma 
de moeda , que são os menores, todos os outros de 
differente espécie que são os mais consideráveis , e 
iinportantes pelo seu valor total : porque tomando-os 
eomo unidade , o dinheiro capilalisado equivale a 
uma fracção decimal muito afastada d'essa unidade. 

Partindo d'este pensamento, e applicando-o, pri- 
meiro, aos capitães pecuniários , acho seria de pro- 
Treito incalculável que essas mesmas somraas, assaz 
avultadas, que os negociantes e pessoas ricas, c 
também as estações, e estabelecimentos particulares 
costumam ter de reserva cm seus cofres sem dar- 
Ihe destino [iroductivo , se depositassem n'um ban- 
co o qual segurando o deposito de todo o risco e 
accidcnte se encarregasse de fazer quaesquer paga- 
mentos auctorisados á ordem escripta dos deponen- 
tes até á importância das quantias depositadas ; e 
em uma palavra , servisse de seu caixeiro , rece- 
besse e pagasse por conta d'elles sem exigir cora- 
missão. Para indemnisar o banco tanto do seu tra- 
balho como dos riscos e perdas a que se aventura- 
ria , serviria aquella parte das quantias depositadas 
que os deponentes não reclamassem, a qual poderia 
ser empregada em descontar leiras, ou cm qualquer 
outra operação mercantil em proveito e sob a res- 
ponsabilidade do mesmo banco. 

K verdade que o banco de Lisboa está usando 
esla prática lUilissima , mas com muito menos be- 
neficio geral do que deveria ser; t)orque nem a 
maior parte das reservas dos particulares , nem dos 
cofres perlencentes a eslabelecimentos públicos ou 
outros . lá eslão concentrados , como foca para de- 
sejar. Talvez não fosse desacertado que para outros 
pontos commerciaes do reino , onde a níTluencia 
do numerário desempregado pedisse este expedien- 
te . depulasseni cada um dos dois bancos de Lisboa 
c Porto caixas Cliaes , no ÍQlui'.o de recolher e tor- 



nar fecundas as reservas mctallicas que por hi an- 
dassem dispersas: c senão agora, de futuro, pelo 
menos , não se deve , me parece , abrir mão d'esle 
alvitre. A. creação , para este fira, de outros esta- 
belecimentos, alem dos que lemos, não aconselho, 
nãc só porque o giro das transacções do paiz é li- 
mitado como cllc ; mas, principalmculc , porque o 
credito, base essencial das instituições de que me. 
estou occupando , não se conquista de assalto , ins- 
pira-se com o decurso do tempo , cora a permanên- 
cia, com o bom desempenho e o bom succcsso r cir- 
cuiiistancias que só se reúnem em estabelecimentos 
fundados de longos annos. 

b'csle expediente que acabo de suggerir que não 
é senão a inulação do que se pratica em Inglaterra 
com tanta utilidade, c o desenvolvimento da nossa 
prática própria , resultaria , alem de outras vanta- 
gens que não enumero , esta que a|)prcsento isolada 
para melhor sobresahir ; c vem a ser — lançar na 
circulação commcrcial capitães que o não eram, por- 
que estavam inactivos , c contribuir por cllcs jwcíi o 
profiresso da riqueza publica e particular. 

Como estas reservas de negociantes , pessoas ri- 
cas , e estabelecimentos públicos e particulares ha 
otitras reservas oti antes parcellas pecuniárias tenuís- 
simas e impotentes na isolação em que se acham , 
mas que cliaínadas a uni ou mais centros , e mclti- 
das no movimento productivo, constituiriam, por 
serem muitas era numero , um capital de grande 
importaucia. São as economias que formam as clas- 
ses pobres , os operários e trabaliiadores de ambos 
os sexos que espalhadas por tantos milhares de mãos 
não podem convertcr-se cm instrumento de (iroduc- 
eão para seus donos, nem prestar á industria do 
paiz os avanços de que eila carece a cada momento. 
E essas economias poderiam concen'rar-se e utili- 
sar-se pela fundação de caixas cconoiuicas. Do mo- 
do de orgauisar as ultimas nada accresccnlarei a 
um trabalho meu que, ha alguns annos, foi publi- 
cado, e só direi que de todos os paizes da Europa, 
com excepção talvez da Rússia, onde ignoro se exis- 
tem estabelecimentos d'esta natureza , Portugal é o 
único que ainda os não possue. E não os possiic 
porque liic faltem elementos para isso, ou porque 
seja complicado e dillicil de coniprchender o me- 
chanismo dos mesmos estabelecimentos: pelo con- 
trario sobram-lhe os elementos , e cousa mais fácil 
do que o mcchanismo das caixas não é possível ha- 
ver. Bastava boa vontade n'uma dúzia de indivíduos 
ricos , inUueutes e respeitáveis das duas cidades 
priucipaes do reino , ou ainda mesmo n'um ou dois 
chefes de estabelecimentos iiidustriaes, para as cai- 
xas se fundarem em Lisboa e Porto. Fundadas nes- 
tes dois pontos, lavraria bem depressa n'outros o 
exemplo , mesmo sem intervenção e auxilio de lei 
que seria conveniente, mas não é indispensável, e 
então cederia Portugal do privilegio que ainda con- 
serva, sem que lho inveje , supponho eu , nenhuma 
nação , de estar mais atrazado n'csta matéria do 
que a Jioruega , a Hespardia e o Brazil. 

Cora a adopção do systema dos depósitos avulta- 
dos no banco, e dos depósitos diminutos nas caixas 
económicas, poucas reservas ou valores pecuniários 
das classes abastadas, ou das que o não são, ficariam 
por capitalisar. 

Restara, paralyticos como já adverti, alem dos 

pecuniários, outros valores, de dilTcrente es|)ecie, e 

I de muito maior monta , aos quacs deveria também 

i imprrmir-se o movimento da rotação commcrcial. 

i O modo de o conseguir vou explicas com o excin- 



166 



O PANORAMA. 



pio de Inglaterra apontado no Diccionario do Com- 
mercio, artigo =DocLs=, donde o tirei. Em In- 
glaterra logo que entra nos armazéns d'estcs por- 
tos íiclicios [não lhe chamo tercenas, porque comeste 
Tocabulo daria unia idca imperfeita doqueellcs são] 
uma carregação completa , ou uma porção de mer- 
cadorias, assucar, chá, café, algodão, bebidas espi- 
rituosas &c. , a administração entrega ao deponente 
um certificado (warrantj em que attesta a nature- 
za, a qualidade, c aquanlidade ou o peso das mer- 
cadorias c a sua procedência. O proprietário d'este 
titulo pôde negocia-lo por endosse , troca-lo a di- 
nheiro , consigna-lo cm penhor de um empréstimo , 
c com cHe emprehender quaesquer operações com- 
Dierciaes, sem ter que pagar direitos de alfandegas 
nem despezas do transporte , e sem se aventurar a 
Tendas precipitadas , a baixas e aos accidentes va- 
riadíssimos dos preços , e um valor que sem este 
recurso do credito seria morto e improduclivo por 
algum tempo , com elle circula desde logo com a 
rapidez de uma letra de cambio em beneQcio de 
seu dono, e do commercio nacional. 

O expediente que acabo de referir poderia , até 
certo ponto , ser praticado em Portugal , e amplia- 
do talvez a muitos casos cm que os géneros c mer- 
cadorias se acham , por alguma circumstancia , se- 
questrados da circulação. E meio , engenhoso cer- 
tamente , de as mobilisar. Mas se é util este me- 
Ihodo de mobilisar as mercadorias, porque não será 
[dir-me-hão] igualmente proveitoso algum outro aná- 
logo de mobilisar os bens de raiz? Emthcse, não ha 
duvida, se alíigura de vantagem incalculável repre- 
sentar estes bens por um papel que girasse com a 
mesma presteza que as letras de cambio ou as notas 
de banco: ditTerentes projectos, mais ou menos es- 
peciosos , tem apparecido com este pensamento e 
intuito : nem agora me deterei eu a reproduzi-los. 
1'óde ser que da sua execução pendam os brilhan- 
tes destinos que estão reservados , ou promettidos , 
ás sociedades futuras. Síasque outros tentem a aven- 
turosa experiência : nós devemos ficar de observa- 
ção , á espera do resultado, para nos guiarmos por 
elle. Promova-se a circulação da propriedade rural 
ou dos seus productos , abrindo estradas, e canaos. 
r>epresente-se o mobilise-se aquclla parte da mes- 
ma propriedade, com que se hão-de pagar os avan- 
ços feitos á cultura , por uma moeda papel como 
propozemos. Mas não ensaiemos uma mobilisação 
completa c absoluta , com receio , como exprimiu 
I>egerando, de que a escrava ha pouco emancipada 
das cadèas feudaes — a terra — não vá, como o li- 
berto licencioso , embriagar-sc nas orgias da agio- 
tagem , ou perecer nu abysmo das lotcrias ! 

Similhanle á que se usa com as mercadorias na 
Inglaterra , ha entre nos uma mobilisação , que 
é a dos ordenados vencidos dos empregados ])ubli- 
Gos , c se realisa por muio de um titulo que se 
lhes entrega c elles podem negociar. 5!as em ri- 
gor não são ordenados que assim se mobilisani : o 
<(ue de leito , postoqiie indíreclamentc , se mette 
em giro é aquella parte da propriedade rústica e 
urbana , e do trabalho donde sabem os impostos , 
com os quaes se hão-do pagar os vencimentos do 
servidor do estado. Esta mobilisação, parcial c in- 
directa , é util ao credor , sem ser damnosa á ri- 
(|ueza publica. Outra ha porem , cujos resultados 
desastrosos nos devem precaver contra a latitude 
demasiada e o abuso deste recurso: — a mobilisa- 
ção do trabalho, dos capitães, da propriedade de 
íiossos filhos c netos operada por empréstimos rui- 



nosos. Mobilisa-se assim , na verdade , completa- 
mente, e representa-se com papeis de credito a for- 
tuna antecipada das gerações futuras : mas alienam- 
se, vendem-se, sujeitam-se a uma escravatura hor- 
rorosa , por este meio iniquo, quando é desordena- 
do , essas gerações. Este exemplo c um aviso per- 
manente contra os perigos de abraçarmos, sem dis- 
crição , tão arriscado recurso. 

(Continunr-sf-ha) . 
'1.: • ' A. d'0. Marreca. 



&útãn\cã. 

SOBBE a CAPRIFICAÇÂO DOS FIGOS. 

fConclusãn.) 

Os FIGOS caprificados engrossam c amadurecem den- 
tro de poucas semanas ; os cultivadores tem cuida- 
do de os colher logo , de os seccar ao sol e depois 
no forno , não só para os fazer durar, mas também 
para lhes matar os germes dos insectos nos ovos , 
que sem isso não deixariam de dar bichos no inte- 
rior dos figos : maduros , e comidos no seu estado 
fresco não deixam de ser agradáveis , mas com o 
calor do forno perdem muito da sua delicadeza e 
bom gosto ; por isso, e pela sua constrangida ama- 
duração geralmente são menos estimados do que os 
figos não caprificados e somente passados ao sol. 

A causa porque os figos caprificados não cahem 
e amadurecera mais depressa , tem sido variamente 
explicada. Segundo a theoria dos antigos philoso- 
phos , que Plínio nos transmittiu , dependia da di- 
minuição dos suecos lácteos do figo verde , que o 
insecto chupava , auxiliada pelo ar fertilisante , e 
luL do sol , que entravam pelo olho do figo aberto 
pelo insecto : clles pensavam que os ditos suecos 
eram demasiados , que faziam o pé do figo muito 
tenro , que pesavam demasiadamente sobre elle , e 
o faziam frágil e cahidiço ; mas que sendo o figo , 
pelo assim dizer, desmammado na sua infância mui- 
to cedo, enrijava no seu pé mais cedo e não cabia: 
accrcscenlavam , que a força deseccativa da poeira 
das estradas , c do vento norte , como também a 
magreza dos terrenos, faziam o mesmo que os inse- 
ctos , e que por isso as figueiras plantadas em laes 
situações não precisavam de ser caprificadas. Esta 
theoria foi seguida por muitos botânicos até estes 
últimos séculos, c ainda por J. Uauhino na sua eru- 
ditíssima Historia dosvegetaes; mas ella parece in- 
compatível com a ordem phvsica da vegetação ; por- 
que a diminuição dos suecos alimentares deve fazer 
emmagreccr e não engrossar , c a força deseccativa 
deve fazer cahir os fructos em vez de os suster : 
pelo contrário , o que faz acudir mais suecos aos 
figos, e nelles estabelecer uma fermentação saccha- 
rina , como fazem as picadas dos insectos , parece 
antes ser a principal c;iMsa dos figos não cahirem , 
de engrossarem , c de am:iilureccrem mais depres- 
sa. Quando os figos, tanto bravos como domésticos, 
são muito numerosos, de modo que a arvore mater- 
na lhes não pódc subministrar a porção sullieiente 
de suecos , que clles exigem para se nutrirem , fi- 
cam pequenos , enfezados , e muitos delles cahem 
pecos; isto mesmo succede ás vezes, ainda não sen- 
do muito numerosos, se sobrevent tempos muito sec- 
cos ; ou quando a arvore se acha doente e as suas 
folhas enferrujadas ou atacadas domorilhão; emlim 



o PANORAMA. 



u: 



quando as folhas siio duras , velhas e caducas , que 
já não podem absorver da alniosphcra fluidos, nem 
bem elabora-los para nutrir os ligos , os quaes en- 
tão cahem ou apodrecem , como seralmeate succe- 
dc aos do outono. 

O grainie e célebre Liuneo rellectindo que os len- 
rinhos germes dos fructos , que por causa das chu- 
▼as , geadas c outros contrários incidentes, ou por 
falta de pollen dasantheras dcflosculos masculinos, 
não são fecundados, ordinariamente cabiam, pensa- 
va que o mesmo succedia a alguns figos domésti- 
cos , persuadido de que estes constavam somente 
de llosculos femininos , cujos germes dos pistillos 
não eram fecvnidados por lhes não poder de fora en- 
trar pollen algum , o seu olho ou orifício achando- 
sc na florescência nimiamente fechado : pelo con- 
trário , pensava que elles não cabiam quando eram 
caprilicados , isto é , quando nos ditos pislillos os 
mosquitos espargiam o pollen das antberas dosDos- 
culos dos figos bravos que apegado a si traziam , 
fiosculos que elle julgava serem todos masculinos. 
.Cajtacitado de que isto assim era na realidade cha- 
mava ao mosquito , conductor do pollen , o cupido 
da caprificarão, eallcgava este facto como uma pro- 
va mais de haver sexos e geração nos vcgelaes , no 
que foi seguido por toda a sua eschola. Aias boje 
alguns botânicos pensam que este facto , bem longe 
de ser convincente, é muito duvidoso, e mesmo fal- 
so, como se pôde reconhecer pelas rasões seguintes. 
O figo bravo [em qualquer estado que se consi- 
dere, quando delle sabe o insecto] deve sempre sup- 
por-se ser composto de sementes férteis, quer o in- 
secto nelle se tivesse criado até á sua transformarão 
e sabida , quer nelle de fresco tivesse entrado para 
picar as tcnrinhas sementes, e depois disso logi> sa- 
hir carregado de pollen para ir picar outras em ou- 
tros figos ; por conseguinte em ambos estes casos o 
figo bravo não c puramente masculino ; no primei- 
ro caso o insecto criou-se nas sementes , no segun- 
do picou-as, e sahio com pollen capaz de fecundar, 
isto indica um figo perfeitamente monoico , e faz 
crer que igualmente o fosse o do primeiro caso. 

Quanto ás variedades de figos domésticos, que se 
caprificam , não lia prova alguma certa que nellas 
hajam iudividuos puramente femininos ; antes é pro- 
vável que lodos são monoicos , isto c , que os seus 
figos contem fiosculos masculinos e femininos; to- 
dos os que até agora se tem observado em Portugal 
assim são ; ora sendo neste paiz , e outros de tem- 
peratura similhante , o pollen dos outros figos mo- 
noicos suliicieiíle , e de perfeita qualidade para po- 
der fecundar os llosculos femininos, porque não se- 
rá assim o pollen dos fiosculos dos figos caprilica- 
dos , ficando superDuo o que uelles introduzem os 
insectos? Ha toda a probabilidade que assim succe- 
da ; e se isso não obstante , cahem quando não são 
caprificados , a causa deve attribuir-se á falta sufiTi- 
ciente de suecos, como por ella succede a muitos 
outros fructos posto que bem fecundados ; falia que 
é prevenida com as picadas dos insectos, que fazem 
acudir uma allluencia de seiva sulíiciente para bem 
nutri-los e suste-los. Com eiTeito , as picadas com 
que os mosquitos estragam os vasos do orilicio do 
figo e do germe do pistillo, devem na verdade occa- 
sionar uma grande estravasação dos suecos, que en- 
tão em grande parte devem refluir para a polpa do 
figo , e faze-lo engrossar ; o ovo, e larva do insecto 
dentro das sementes são um estimulo continuado , 
que faz entreter a afluência seivosa , como observá- 
mos suçceder na formação de toda a sorte de i;a- 



Ihas , ou bugalhos ; o ar , luz , c calrtr introduzido 
pelo olho do figo contribuem ao principio para que. 
se não cicatrizem as feridas, paraoccasionar inUam- 
mação, e por fim para se estabelecer uma certa fer- 
mentação saccharina , com que os fructos se ado- 
çam , e SC aecelera a madureza do figo , da mesma 
sorte que succede ás peras, maeaãs c outros fructos 
picados pelos insectos , e succede aos mesmos figos 
ainda verdes, quando ferimos e alargámos o seu 
olho com um alfinete, palito, ou palha. 

Do que fica exposto se deduz, que não ó a fecun- 
dação dos flosculos dos ligos, quaesquer que sejam, 
feita por meio do pollen dasantheras, nem é o con- 
terem clles sementes com miolo, a verdadeira cau- 
sa porque deixam de cabir e vingam bem, mas sim 
a afluência dos suecos necessários para a sua devi- 
da vegetação, quer estes sejam com abundância na- 
turalmente subministrados, quer artificialmente, aju- 
dando-se, ou constrangendo-sc a natureza a subini- 
nistra-los, quando ella quer ser mesquinha. Em In- 
glaterra, IloUanda, Alemanha, cem todos os paizes 
frios do norte da Europa, aonde o pollen dasanthe- 
ras dos figos monoicos se não pôde bem aperfeiçoar, 
as sementes são estéreis e chochas, mas os figos me- 
dram o vingam muito bem , porque a natureza alii 
lhes dá os suecos necessários para o seu pleno cres- 
cimento c madureza ; vemos suçceder isso mesmo a 
muitos fructos bastardos , isto é , a muitos receptá- 
culos , pericarpos , cálices , e outras partes acces- 
sivas dos órgãos sexuacs, e das sementes, os quaes 
pelos suecos competentes , e forças vitaes podem 
crescer e vingar bem , sem conterem em si semen- 
tes férteis, e ás vezes mesmo nem vestígios delias, 
como as bananas, alguns morangos, algumas laran- 
jas, peras, uvas, e muitos outros fructos denomina- 
dos sem pevides. 



•, .: DaPOTASSA.. ,, ■ ,. ,.r ',( 

A poTASSA é um sal alkali fixo , que se extrahe das 
cinzas das madcirasqueimadas. Fabrica-se em abun- 
dância na Suécia , l'olonia , Dinamarca , &c. e em 
todas as florestas de Allemanha. 

A boa potassa oblcm-se deixando queimar as ma- 
deiras ao ar livre , afim de que a sua parte gurda 
e oleosa se dissipe ; separnm-se então das cinzas 
tanto quanto é possível os carvões que vão mistura- 
dos ; e a agua fria que serviu a lavar estas cinzas , 
estando suliicienlemente carregada deste sal , filtra- 
se e cvapora-se até a seccura ; e logo que o sal es- 
tiver bem secco , aquece-se em uni forno, onde se 
tem algum tempo neste estado , sem lhe pcrmittir 
que entre em fusão. Esta calcinação lepete-se taulo 
quanto é necessário , o que fornece por este meio 
um sal alkali fixo, livre de todo o phlogistico. 

Na fabricação do salitre , a polassa é preferível 
ás cinzas ordinárias de que vulgarmente se servem, 
por diversas rasões. 1.^ As cinzas, sendo a maior 
parte o refugo das outras artes, contém muito pou- 
co ou nenhum alkali fixo. 2.^ A cinza occupa um 
terço da capacidade das covas na qual se faz a le- 
xivia ; a quantidade de terra salilrosa é tanto me- 
nor , e delia resulta uma diminuição proporciona- 
da na quantidade de salitre que se oblem ; jior ou- 
tra parte , a cinza , que é um corpo jioroso , releni 
em pura perda uma dissolução de salitre proporcio- 
nada á quantidade de agua que esta cinza é susce- 
ptível de absorver. 3.^ As cinzas, commummente 
impregnadas de muitas partículas gordurentas, c 



168 



O PANORAMA. 



estraclivas de matérias que só podem prejudicar á 
qualidade du salilrc, cmpatam-no e impedem-no de 
bem se rrislalisar. 

È pois necessário para a fabricarão do salitre , 
não por no fundo das covas senão uma mui pequena 
porção de cinza para servir de filtro , e suíiitituir 
cresto por uma addicão de polassa ; isto, é que de- 
pois de liaver enchido as covas de terra, põe-se em 
cinza na abertura destinada a levar a agua a quan- 
tidade de potassa que se quer empregar, depois do 
que se faz a Icxivia da maneira coslumnda , c en- 
tão a agua dissolve a potassa , a qual , fillrando-sc 
atravcz da terra , encontra o nitro na base terrosa , 
e decorapondo-o Iranslorma-o cm salitre ; em pon- 
to , que, se a quantidade do potassa fui bem pro- 
porciunada , a Icxivia que correr não tem agua 
amargosa. 

Só as terras novas é que se tratam por meio da 
potassa , porque sendo lavadas successivamente por 
trcs dillercntes aguas , nenhuma potassa restará so- 
bre a terra que por ella foi tratada. 

G. ....» 



MeTHODO de dar a cor BRONZEAOi AOS CANOS 
DE ESPI.\C,AIiDA. 

Os ingredienips que entram para a composição que 
hade produzir esta còr são os seguintes: 

Acido nilrico ^ onça. 

Espirito de nitro doce ... J^ onça. 

Espirito de vinho 1 onça. 

Vitriolo azul 2 ditas. 

Tintura de aço ou ferro .. 1 dita. 

Tendo antecipadamente dissolvido o vitriolo era 
uma sullicieule quantidade d'agua , de sorte que a 
totalidade da mistura faça 2S quartilhos, mistu- 
ram-se os outros ingredientes , c teremos a compo- 
sição com a qual.devemos operar para se obter a 
eôr bronzeada, e a applicaremos do modo seguinte. 

Primeiramente limpar-se-ha o cano da espingar- 
da muito bem , de qualquer cousa oleosa ou suja , 
c pondo-lhe na boca uma cavilha, ou rolha do páu, 
de modo que o vento fique bem tapado, se lhe da- 
rá a sobredita composição com uma esponja limpa , 
havendo cuidado em a distribuir cora igualdade pe- 
lo comprimento do cano, depois do qual se deixará 
exposto ao ar por espaço de -li horas, passadas as 
quaes se esfregará hera o dilo cano cora uma esco- 
ra áspera , e com ura trapo , para que a superficie 
llquc livre do oxido. 

Este processo será repetido segunda , c terceira 
Tez [sendo necessário] e assim ficará o cano com 
uma perfeita còr abronzeada , e depois de bem es- 
fregado cora a escova , e liem lirapo , metle-sc era 
agua a ferver , na qual previam;-'nle se terá lançado 
uma pequena quantidade de matéria alkalina , afim 
de destruir a acção do acidn sobre o cano, e a im- 
pregnação da agua polo acido neulralisado. Quando 
o cano da espingarda se tira d'agi!a , e está intei- 
ramente enxuto , aliza-se com um brunidor de páu, 
feito de madeira bem rija, e dá-se ao cano um grau 
de calor quasi igual ao da agua a ferver, para ficar 
prompto a receber o verniz composto dos seguintes 
ingredientes : 

Espirito de vinho 2Z quartilhos. 

Sangue de drago 3 oitavas. 

Laca de conxa moida.. 1 onça. 

Dado oTcruiz, c quando estiver inteiramente sue- 



co, esfrcga-sc com o brunidor para lhe dar poli- 
mento e lustro fixo. 

O uso desta composição nos canos das espingar- 
das dá a vantagem de os conservar por mais tem- 
po , livres da ferrugem , e dos damnos e trabalho 
resultante da assídua limpeza, etorna-os menos ca- 
ptivos e de mais duração : hoje é quasi geral o uso 
que delle se faz na Europa , e até se pódc applicar 
ás peças de arlilheria de pequeno calibre. 

Modo de restituir e conservar a sobredita cír. 

Quando o cano da espingarda está muito roçado 
em consequência do uso que delle se tem feito, dá- 
se-lhe um pouco de acido vitriolico , e praíica-sc o 
que deixámos dito no processo para a primeira còr 
bronzeada , tendo precisamente tido o cuidado de 
enfraquecer a acção do acido por meio dagua fer- 
vendo. 

Aos canos bronzeados que tiverem continuo us<i 
pôde conservar-se constantemente a mesma còr, pon- 
do-lhe vinagre que se deixará na sua superficie por 
espaço de ura dia , e lavando-o depois muito bem 
com agua a ferver. 

Este processo sendo repetido mensalmente con- 
serva a còr de que temos fallado , por espaço de 
muitos annos. 

. (r-, ***^* 

Pais barhnros. — Kolff na viagem doDourga diz : 
— «Alguns naluraes da >ova-Guiné {•) dignos de 
credito me aliirmaram que se ura papua da costa 
cubica alguns dos géneros levados pelos negocian- 
tes estrangeiros , e não tera outros da terra que dè 
era troca , não hesita em pegar de um ou dois de 
seus filhos e permuta-los pela fazenda que deseja : 
e se acaso os íilhos não estão alli á mão no acto do 
ajuste, pede os rapazes emprestados a qualquer vi- 
sinuo , promettendo dar-lhe outras tantas cabeças 
logo que os seus lhe appareçam ; e este empréstimo 
nunca é recusado. Parecia-me isto quasi iucrivel : 
porem os naturacs, já policiados, e merecedores de 
fé, unanimes confirmam o facto : c eu conheci pais, 
que venderam seus filhos, quando acharam que lhes 
era mui pesado sustenta-los , sem lhes importar se 
os tornariam mais a vèr , nem o que seria feito 
delles.» 

Um individuo que se prezava de ser fidalgo, porem 
mal procedido , lançava em rosto a Iphicrates a vi- 
leza de ser filho de um çapateiro. O general Athe- 
niense sem se estomagar olhando com desprezo pa- 
ra o devasso nobre lhe respondeu: — Amigo, a mi- 
nha geração principia cm mim , mas atua acaba 
em ti. 

Tendo noticia elrei D. João •2°. que corto eorrípc- 
dor da corte era pouco limpo de mãos , e mui re- 
misso para as partes, lhe disse um dia, em que em 
audiência este lho ia beijar a mão: — Corregedor, 
olhai por vós, c da maneira que viveis, porque me 
dizem que tendes as portas cerradas e as mãos aber- 
tas 1 

A resistência enfraquece, a resignação fortalece. 



(«) Graiule ilh;i n lesle ila-f Mohicas ; cliamuii Itie aniai 
Alvaru Saavcdr.n (]uaii(lii a ilescobriíi , pela preliilSo du còr 
c carapijilia revulla dos liabílanies; lamlieni é dita un ter- 
ra dijs papilas. " Hnr |í'nip s se creu que era pejada h No- 
va-Hollanda : tcpara-«í porem g eslreilo de Turre*. 



75 



o PANORAMA. 



169 




CASCATAS DO CJaYDB. 



É DOS sitios mais formosos da Escócia o valle por 
onde corre o Clyde : niiiilas sceií.is póz o graíide 
pintor de costumes e paizes , Walter Scott , toma- 
das deste districto, em suas novellas nacioaaes; ac- 
cresceutando aos allraclivos próprios da localidade 
recordações de suas interessantes, bem escolhidas, 
e sempre bem retratadas personagens. Alem disto 
Giasgow com seu porto tão frequentado , assentada 
nessas margens , e Paislcy , que não demora longe , 
dão ao rio alta importância, commercialniente con- 
siderado. — Xasce elle nas empinadas montanhas 
da provincia de Larnak , onde tem igualmente ori- 
gem outros, o Tweed e o Annan: os três vão de- 
sembocar a mares dillerentes. Muitas superstições 
andara arraigadas no povo cscocez , relativas a es- 
tas paragens , querendo até explicar sobrenatural- 
mente obras d'arlc, cujos auetores são conhecidos : 
mas nem similhantes contos , por vulgares , nem as 
descripções, por desconhecidas, interessam o ieitor 
portuguez. Daremos o que mais convém saber. — 
O Glengouar é ura dos afluentes do Clyde; acha- 
ram-se palhetas d'ouro em suas areias, mas a apa- 
nha não pagava o trabalho, nem se descobriu pro- 
veito em minerar os arredores. Bom é que também 
a frigida Caledónia possa gabar-se de um rio que 
merece as duas vozes esdrúxulas — aurífero e in- 
fructiferii. Nas visinhanças de outro ribeiro afluen- 
te ha cousa mais importante, as minas de chumbo, 
pertencentes ao conde de Ilopetown , exploradas 
por uma companhia , que paga ao proprietário o 

Ji.\Ho 3—1843. 



sexto dos reditos, e produzem annualmente mais 
de tresentos mil quintaes de metal. 

Próximas á cidade de Lanark «stão as catadupas 
ou quedas da corrente do Clyde; até alli o rio vai 
niiinando tão sereno , que não dá indícios de haver 
depressão no seu aheo ; mas logo era Bonningtori 
Linn faz um salto perpendicular de obra de 40 pal- 
mos, e dahi proscgue arrebatado : meia milha mais 
adiante é Corra Linn , a mais formosa cascata do 
Clyde , appresentada na gravura supra-estampada : 
reparle-se cm duas , cahindo impetuosas de 80 pcs 
d'altura ecomsolerane estampido cm fundos pegos, 
cobertos de borbotões d'espuma: rodeam-na silves- 
tres arvoredos ; e descortinam-se na próxima emi- 
nência os residuos melancholicos de um castello 
dos SommerviUe, familia notável nos annaes da Es- 
cócia. 

O Bobo. 

112S. 

XII. 

' Á mensagem. 

Algiks instantes mais que o trovador se houvera 
demorado no jardim pênsil , lhe tornariam impossí- 
vel o sabir de Guimarães. Abul-Hassan linha lido 
a prevenção de communiear ao mestre dos enge- 
nhos , — a seu irmão, o tornadiço , como elle lhe 
chamava na ausência , — o logar onde o devia en- 
2." Serie. — Yol. II. 



170 



O PANORAMA. 



i'ontrar no caso deoccorrer algum succcsso inespera- 
do. Oarabc-christão ouvira a ordem do alferes-mór 
para se dobrarem as vigias e roídas, lançar-se uma 
quadrilha ao campo, c prohihir-se a sabida do bur- 
go a todos , apenas se fizesse o signal de acabar o 
banquete. Então o tornadiço correra ao arco escuro 
(lo jardim pênsil, e relatara tudo isto aAbul-Iíassan. 
O silvo do árabe , que tão cedo soara para Dulce , 
procedera desta causa, e por isso o cavalleiro tivera 
de atravessar , correndo á rcdea solta , o recinto do 
castello e do burgo. Passando a carcova das barrei- 
ras, ainda vira dobrar o numero dos atalaias noctur- 
nos , c sentira o tropear dos cavallos rodeando os 
andaimos das barbacans. Para se não tornar suspei- 
toso, depois de sahir junto ao cubello da couraça, 
caminhara lentamente cm volta da povoação , e fa- 
zendo um largo rodeio viera outra vez meller-se no 
caminho , que levava á margem do Avicella , onde 
o esperava o seu pagem. 

Ainda ellc galgava no valente ginete uma senda 
;igra e tortuosa na selva contigua aováu doMadroa, 
quando sentiu a pouca distancia , do lado opposto 
do rio, um estrupido de cavallos, os quaes pareciam 
caminhar por entre os choupos e salgueiros que po- 
voavam tanto uma como outra margem. Pelo ruido 
que faziam facilmente se conhecia que era uma nu- 
merosa cavalgada. Fatiavam era voz alta , e pare- 
ciam seguir um caminho contrário ao seu , appro- 
ximando-sc do váu , em quanto o cavalleiro se af- 
fastava dclle. Talvez o perseguiam. Este pensamen- 
to, que lhe oceorreu, o fez parar subitamente. Ape- 
sar de conhecer que mal poderia resistir áquelle 
tropel d'homens d'armas , não receiava um comba- 
te nocturno , mas era-lhe necessário evitar toda a 
<5emora em voltar ao arraial do infante , a fim de 
poder cumprir o que promeltêra a Dulce. Assim 
descavalgando do ginete, e levando-o de redca man- 
so e manso, approximou-se da ribeira junto daqual 
o arvoredo e matlo eram mais frondosos e bastos , 
aílastando-se da senda por onde forçosamente os al- 
mogávares, haviam de passar no caso de transpo- 
rem o váu. 

No momento em que o trovador guerreiro chegou 
a uma balsa, na qual era quasi impossível ser des- 
cuberto , á luz scintillante das estrellas as armas 
dos que vinham ladeando o rio reluziram na mar- 
gem fronteira. Pareciam altercar entre si , e como 
.1 corrente era estreita, Egas que se conservava cal- 
iado e quedo , pôde facilmente escuta-los. 

Aqueiie tropel de homens d'armas era uma qua- 
drilha , ou piquete , como hoje diríamos , que Gar- 
cia Bcrmudcz enviara para rodear exteriormente as 
barreiras e obstar á fuga dos que podesscm esqui- 
var-se á vigilância dos atalaias e roídas. A disputa 
que o trovador ouvira linha-se alevantado entre o 
coudel dos besteiros de cavallo, c um cavalleiro 
seguido de dez lanças , o qual acaudelava toda a 
quadrilha. 

«A-la-fó, dom coudel — bradava o cavalleiro — 
que não deveis passar o váu. Já vo-lo disse : a or- 
dem do alferes-mór ó que rodeemos o burgo c o 
castello a dois tiros de besta das barreiras. Segui- 
me , cnde , se vos praz. » 

«Não praz , por Santiago ! — replicava o coudel. 
icnho andado cm mais de vinte arrancadas , tanto 
cm hoste como cm cavalgada : tenho sabido trinta 
vezos de castros e burgos, era appelido contra mou- 
ros e leonezes : nunca vi lançar osculcas para vigia- 
rem sagas do mosnada ou barbacans de castello. 
Que Satanaz? I — O infante não vem , creio eu , de 



Guimarães , mas para lá se encaminha : ao menos 
assim no-lo dizem. E não havemos de atalaiar bos- 
ques e pacigos alem Madroa?» 

«Fu , fu , perro e villão que és ! — murmurou 
o cavalleiro. — Vedes vós — proseguiu elle fatian- 
do com os seus homens d'armas — como vai ancha 
c crescida a ousadia de peões? Culpa tem quem fia 
delles cavallo , saio , e cervilheira como a uma no- 
bre lança. Ai, meu mano — accrescentou dirigin- 
do-se de novo ao coudel — digo-vos eu, que não 
passareis o váu.» 

«Somos homens de rua : — retrucou o coudel en- 
colerisado — burguezes por nossa carta de privile- 
gio e bom foro : e a nenhum de nós pôde ser dito 
fu , f u , perro e villão («) sem villa e aífronta de 
vinte soldos depena. Aqui está Pedro Amarello , 
mestre armeiro ; Ruderico Spassandiz , mestre fer- 
reiro ; Sandamiro Eiriz , mercador , e eu Gavino 
Paez que valho por qualquer delles. Tende tento , 
senhor xavalleiro , com vossas falias , que podeis 
ámanhaã ouvi-las mais pesadas da boca dos alvazis. » 

«Estaes bravo , dom coudel ! — acodiu o caval- 
leiro , que porventura não achara inteiramente in- 
fundada a advertência do besteiro. — Foi por chan- 
ça que o disse. Deus me livre de doestar tão hon- 
rados burguezes ! Mas dir-vos-hei agora porque não 
passaremos a váu. Sabeis o que vai de novo? 

A esta pergunta ninguém respondeu : mas homens 
d'armas e besteiros pararam , apinhando-se á roda 
do que fallava. 

«Vai, que entre os ricos-homens da corte ha quem 
pense em fazer deslealdade á nossa mui cxccllente 
rainha, e o nobre conde de Portugal e Coimbra quer 
talvez colhe-los ás mãos. » 

«Mas porque credes vós isso?' — interrompeu o 
coudel. 

«Porque o alferes-mór me jurou que cu expunha 
a cabeça se alguém passasse por nós viudo do bur- 
go , que não fosse logo tomado , ou se me affastasse 
alem das barreiras um tiro de balista. Que signifi- 
cam similhantes disposições, senão o intento de co- 
lher ás mãos os dcslcaes?» 

«Isso agora é outro fallar ; — rosnou o coudel — 
em tal caso é claro » 

A quadrilha havia seguido de novo sua roída , e 
o trovador só pode perceber mais essas poucas pa- 
lavras truncadas. 

Encostado a uma arvore com a rcdea do ginete 
no braço , o cavalleiro ficou embebido em cogita- 
ções. Um acaso lhe dera a conhecer a impossibili- 
dade de pôr por obra os seus intentos , se ainda na 
seguinte noite durassem as precauções de que ou- 
vira fallar. Mas donde haviam nascido as suspeitas 
que despertaram a tal ponto os receios do conde de 
Trava? Te-lo-hiam reconhecido atravez do seu dis- 
farce? Fora acaso ouvida a conversação que tivera 
com o Lidador? Pcrdia-se n'um mar de conjectu- 
ras , e successivamonle imaginava e desfazia rai! 
alvitres para salvar Dulce , para cumprir sua pro- 
messa e xcT coroado seu amor , mas no meio da agi- 
tação cm que o lançara a nova que escutara, bara- 
Ihavam-se-lhe cada vez mais os pensamentos tumul- 
tuosos. Lemhrou-se de voltar a Guimarães, mas nem 
já , provavelmente , a entrada era fácil , nem clle 

(•) Fu,/u.' — era um dos doestos daquelle lempo, con- 
tra o qual alguns foraes põem muletas pesadas. Ignorámos 
em que consistia o aflrontoso destas duas syllabas , salvo se 
era uma abbreviação de outra injuria de que resam também 
os foraes, e que a decência nos i\r»o permilíe transcrever 
aqui. 



o PANORA3IA. 



171 



podia deixar de se dirigir ao arraial do infanle a 
dar couta da missão de que se encarregara. Assim, 
posto que vivameutc inquieto , cavalgou de novo , e 
breve se achou túra da extensa selva que naquella 
epocha se estendia ao norte de Guimarães. 

Em quanto neste famoso castcllo e no seu burgo 
se passavam os acontecimentos cuja narrarão pro- 
curámos fazer ao leitor nos antecedentes capítulos , 
o fogo da revolta estendia-sc largamente por quasi 
todos os districtos do condado de Portugal. O cam- 
po de Affonso llenriquez augmentava diariamente 
com as bandeiras das behetrias e concelhos, com os 
homens d'armas dos coutos e honras dos mais illus- 
tres ricos-homens, e com muitos alcaides dccastcl- 
los do próprio infantalico ou regalcngo de D. The- 
resa. Assim, ao passo que o conde Fernão Peres cha- 
mava os cavalleiros de Galliza e das outras provín- 
cias d'Hespanha para se defender, a guerra ia mu- 
dando o seu caracter de lucta civil em lucta de in- 
dependência, e fazendo que o espirito de individua- 
lidade nacional se desinvolvesse e fortificasse. 

A pouco mais de ires léguas de Guimarães Egas 
encontrou os esculcas e almogávares de D. Affonso. 
O arraial alvejava sobre os visos de uma serra com 
os arreboes da manhaã , e as armas polidas scínlíl- 
laram em breve aos primeiros raios do sol oriental. 
O cavalleíro tendo-se dado a conhecer , atravessou 
por entre as tendas , e chegou ao pavilhão do moço 
príncipe , que já se achava em conselho com o ar- 
cebispo de Braga e com outros prelados e barões. 
Ahi deu conta do que podéra alcançar das disposi- 
ções tomadas pelo conde de Trava para a defcza , 
do grande numero de lanças estrangeiras juntas em 
Guimarães , e das fortiCcações , accrescentadas ás 
já tão formidáveis do castello, e alevantadas de no- 
vo em roda do burgo. — «Mas essas torres e enge- 
nhos — dizia elle — não creio tenhamos de as com- 
bater; porque se diz que Fernão Perez pertende vir 
comnosco a lide em campo ; e a avultada somma de 
cavalleiros que se acham em Guimarães, e o peque- 
no numero de peões e besteiros são disso evidente 
signal. » 

« E Gonçalo Mendez da Maia ? — interrompeu o ve- 
lho aio Egas Moniz. — Porque se conserva um dos 
mais esforçados e poderosos Clhos-d'algo do Portu- 
gal entre os inimigos do infante? — Viste-o? — Al- 
cançaste acaso saber quaes eram seus intentos?» — 

n Os seus intentos foram o impedir a guerra entre 
homens da mesma fé e da mesma linhagem : hoje 
a sua lança será a primeira que se enriste nessas 
lides que Deus quiz fossem inevitáveis. » 

Estas palavras proferia-as um cavalleíro queaffas- 
lára o reposteiro da entrada da tenda , e cruzando 
os braços ahi ficara parado. 

Era o senhor da Maia. 

O sohresalto foi geral. O trovador correu para el- 
le, e depois de o abraçar, tomando-o pela mão o fez 
approximar do infante. 

«Eis-aqui — disse — um dos vossos maisleaes ri- 
cos-homens. No momento do perigo elle não podia 
faltar-vos. » 

«.\o menos não foi por culpa do filho de Pedro 
Froylaz — interrompeu o Lidador sorrindo. — Se por 
inesperado meio a Virgem me não salvara , a estas 
horas a minha morada seria a masmorra do castel- 
lo de Guimarães , c a minha esperança de liberda- 
de a tumba que dentro em pouco me lavaria o ca- 
dáver asotlerrar nagalílé do mosteiro de D. Muma.» 

O súbito apparecimento de Gonçalo Mendez , e 
ainda mais as suas palavras , até certo ponto inin- 



tclligíveis, excitaram vivamente a curiosidade do 
infante e dos seus prelados c cavalleiros. O nobre 
barão satisfez essa curiosidade , narrando não só o 
que su passara no ajuntamento da cúria , mas tudo 
o que depois succedéra, e como o bobo o salvara e 
a Fr. Hilarião. « O pobre D. Bibas — concluía cUe — 
cumpriu á risca o que prometleu. O villico da hon- 
ra tí solar da Maia e os vinte cavalleiros meus acos- 
tados vieram succcssivamente ajunlar-sc comnosco 
á sabida do subterrâneo. O bobo lhes deu passa- 
gem pouco a pouco, e até vi com espanto que o ul- 
timo me conduzia a destro o meu cavallo de bata- 
lha. Deixando os homens d'armas acompanhando o 
virtuoso monge, adianlcí-me á rédea solta em bus- 
ca do arraial de meu senhor o infante, para lhe di- 
zer ; «Guimarães será vosso logo que vos approu- 
ver ! )> Sabia que vos encamiub.aveis por esta par- 
te , posto que mais longe vos suppunhn. «Agora — 
accresceutou voltando-se para o arcebispo — ■reve- 
rendíssimo padre, por mercê mandai um de vossos 
palafrens ou mulas de corpo , em que possa caval- 
gar o mui honrado abbade do mosteiro de D. Mu- 
ma , que , velho e trôpego , mal vencera até aqui 
a pé , os montes e valles, algares e serranias.» 

« Não terá de vir tão longe : — respondeu o se- 
nhor de Crcsconhe — com o favor de Deus , espero • 
que nós todos vamos bem depressa encontra-lo. » 

O bom do aio era de opinião que sem tardança 
se accommettesse Guimarães , c a preponderância 
de que gozava no conselho fazia-lhc tomar muitas 
vezes o seu parecer singular por uma resolução com- 
mum e definitiva. 

«Por essas palavras — replicou o Lidador — vejo 
que a vossa intenção é fazer encurvar brevemente 
ao redor das altas muralhas de Guimarães as bes- 
tas e arcos , e as manganellas arrojarem contra os 
eirados de suas torres as pedras e as setas de fogo. 
se, o que não creio, o lobo cerval de Galliza deixar 
que o cerquem no covil em que veio aninhar-se nes- 
te nosso Portugal. Mas se quizerdes ouvir-mc — » 

« Sabemos , sabemos o que nos ides dizer — ata- 
lhou o arcebispo de Braga D. Paio, que , emulo do 
velho Egas Moniz de Riba-de-Douro, não perdia oc- 
casião de mostrar a sua influencia , c a capacidade 
politica e militar de que era dotado. — Com cem 
homens d'armas e no silencio da noite abrir-nos- 
heis, sem combate, senão as barreiras e portas do 
real castello, ao menos o caminho delle.» 

Alludindo á passagem subterrânea por onde o Li- 
dador se tinha salvado, o guerreiro prelado pronun- 
ciara com emphase particular a palavra caminho. 

«Perdoai-me, reverendíssimo padre, (*) outro era 
o meu pensamento. Na escala arvorada aos muros , 
sob a vínea ou gato rolando para elles , nas trevas 
nocturnas salteando d'improviso pelo subterrâneo os 
cavalleiros do conde de Trava, ou finalmente em re- 
contro de lide campal, estou prestos para combater 
a todo o trance. Mas é em nome da paz que ainda 
fallarei uma vez....» 

O infante, que até então estivera callado, ouvin- 
do os seus optimates , poz-se em pé, e com as faces 
abrazadas , apertou o punho da espada , e bradou ; 

« A paz 1 ? — Oh , isso nunca ! » 

« A paz — insistiu o Lidador com firmeza — como 
eu a pedi mil vezes na cúria de vossa mãi. Que o 
conde vos ceda a herança de meu senhor D. Henri- 
que ; que D. Theresa ceda a seu nobre filho o se- 



(•) Pattr reverendissime é c tratamenlodado aos bispif 
e arcebispos na Historia compostellana e nas mais memoriai 
daquelle tempo. . 



172 



O PANORAMA. 



nhorio desta (erra de cavalleiros !... Qae um mensa- 
geiro vá em nome do infante e dos filhos-d'alf;o de 
Portugal propor estas condifões, antes de as otrere- 
cermos nas pontas das lanças. Ainda uma vez o re- 
queiro , era que pese aos (fue ousarem accusar-me 
de desleal, porque guardo o esforço para o momen- 
to das obras , e dcspréso o que se revela cm feros 
e ameaças antes do conilialer. » 

O rico-homem olhou cm roda com nr altivo. Al- 
guns dos barões do conselho cravaram a vista no 
chão. 

« Mas lerabrai-vos — atalhou Affonso Henriqiiez, — 
de que a memoria de muitos nnnos de opprobrio , 
só pôde derisca-la o sangue correndo abundante em 
campo de lide. » 

«E vós, senhor, não vos esqueçais de que tam- 
bém nessa primeira batalha o sangue que ha-de cor- 
rer será dos vassallos e dos peões , cujo principo 
sois, — o sangue de christãos, e não de agarenos e 
ismaelitas.» 

O infante ficou por algum tempo mudo: depois 
fitou os olhos no seu velho aio , que lhe fez um le- 
ve signal de assenso. 

«Seja, pois, como pertendeis , — disse elle por 
íim — ainda que tenho por certo será uma bem inu- 
lil mensagem. Ao menus meu primo clrei de Leão, 
que tão contrario se nos mostra , saberá que procu- 
rei evitar a guerra.» 

«E quem ha-de ser o mensageiro? — perguntou o 
arcebispo de Uraga D. 1'aio, que no gesto carran- 
cudo dava signaes de estar mais longe do espirito 
do evangelho que o duro c impetuoso Gonçalo Men- 
dez. 

A narração que fizera o Lidador convertera cm 
certeza as desconfianças que o trovador concebe- 
ra de alguém o haver conhecido na corte, apesar 
de seu disfarce. O coração palpitava-lhc ao lein- 
brar-se da promessa que fizera a Dulce, e de que, 
amda quando lhe restasse esperança de poder vol- 
tar a Guimarães sem cahir nas mãos do feroz conde 
de Trava, nenhuma podia ter de salvar a sua aman- 
te: a proposição do Lidador lhe reanimou, porem, 
as quasi mortas esperanças. Adiantando-se , pois , 
disse : 

«Se ao illuslre infante approuvcr, serei eu quem 
vá a Guimarães com essa mensagem. Pouparei ao