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Full text of "O Panorama; semanario de litteratura e instrucção. v. 1-5, maio 6, 1937-dez. 1841; v. [6-8] (2. ser., v. 1-3), jan. 1842-dez. 1844; v. 9-13 (3. ser. v. 1-5), set. 5, 1846-dez. 1856; v. 14-15 (4. ser., v. 1-2), jan 1857-dez. 1858; v. 16-18 (5. ser., v. 1-3), [jan.?] 1866- [dez.?] 1868"

^^Ê^M2Í^^ 





m 







SEMANÁRIO 



VOL.IME IX 



PltlilFJRO nA TERCJCIRit f^ERIE. 




(PUBLICADO DE f> DE SETEMBRO DE 1846 A 2íi DE DEZEMBRO DE 18S2.) 



LISBOA 

TrpottftAPUiA UE A. J. 1'. Eoi'Es. — Ria Amiea N'.* 67. 



I«d9« 



IMDICC: AliPUABETICO 




DOS 
ARTIGOS CONTIDOS 

NO 

y&LVME NOXO — PRIMEIRO DA TERCEIRA SERIE. 



(0« a«leri«vor( (lenolam aw urraviirns. 



Áhíí75í22 
'IO 



Abelhas (as) e as colmeias . . 399 
Acto do lealdade portugueza. 232 
Aduarcs dos Mouros . . . • . 216 

Agiotaçoni d(! Lavv 190 

Agua doce 110 fundo do mar, 232 

— para dar nas obras follioa- 
das, antes de as passar ape- 
dra pomes S 

Álbum Italo-Portuguez. . . . 403 

Alguns alienados 29tí 

Algumas providencias repres- 
sivas nosEstados-Unidos. . 240 

Anão (o) e o Bobo * 181 

Annuncios dos partos emHaar- 

lem 208 

Antigos officiaes militares . . 40 
Antiguidades egypcias «... 341 
Aperfeiçoamento nos mate- 
riaes que se empregam pa- 
ra conservar os navios . . . 308 
Apontamentos de viagem — 

uma historia no Bussaco. . 363 
Architecto da Batalha * . . . 189 
Armadura no XIV século * . 268 

Arte antiga 81, 90 

Assassínio d'Henrique III de 
França pelo frade Jac<]ucs 

Clemente * 204 

Augnienlo gradual de calor 
nas entranhas da terra. . . 103 

Avarento (o) * Im 

Avinhão * j93 

Barcas japonczas * 60 

Barcelona (thcatro do Lyceu 

em) * 333 

Barcos de salvação * 369 

Hencvenulo Ceílini * 132 

Bonzcduras na Prússia .... 103 
Bernadottc, rei de Suécia 199, 211 

Bey (o) o o louco 376 

Bibliugraphia — sobre alçiimas 
obras do padre Francisco Jo- 
sé Freire 38 i. 

— sobre a publicação de clás- 
sicos porlugiiezcs 413 

— Traducção de Lucrécio pe- 
lo Dr. liima Leilão. . . . 360 

Bilbau (hospital civil) » . . . 377 
Itiographia do bispo resiijna- 
(ariodeCabo \ erde (.Spon- 

tamentos para a) 373 

Bocage (M. M. Barbos;! dn) « 100 
Bom (o) amigo é preferível ás 

riquezas • 383 

Bo^iptioro (o) * 121 



Bosque petrificado de l'or- 

tland 213 

Buchas de espingardas inin- 

flammaveis 48 

Cacilhas, vista do Tejo ». . . 137 
Campina (a) de Roma. . 62, 68 
Cão (o) do norte da Sibéria. 111 
Cardeal de Richelieu (o) 122, »129 
Caricatura hollandeza * . . . 277 
Carlos VI eos seus cortezãos. 113 
Cartas inéditas de Alexandre 

de Gusmão 271, 278 

— Inéditas de D. João de 

Castro 71, 77 

Carregação singular » . . . . 236 
Casa nobre de Gand em 1 300 * 81 
Castello de Heidelberg ». . . 124 
Castello de Santa Olaia, len- 
da do Século XII (frag- 
mento) 3, 10, 18 

Castello (o) de Bouchout 217, 227 
Cavallos (os) de Venoza . . . 208 
Ceremonias da cOrte bizanti- 
na 191 

Chailes (os)de Cachemira21 4, 226 
Chalons sobre o Saònc «... 249 
Cholera (a) grupo em mármo- 
re por Mr. Etex • 321 

Colochos (os) 286, 293 

Colomba. 138, 130, 163, 186, 

19 í, 203, 219, 226. 
Commoda (uma) do século 

XVI « 281 

Combustão espontânea do car- 
vão de pedra — meio de a 

atalhar 80 

Companhia do commercio das 

pelles lo> 

Congelações nas grutas. ... 216 

Coopor (Fenninore) » 307 

Conservação do leite 136 

Consolação para quem morre 

de morte violenta 297 

Convento de Nossa Senhora 

de Jesus • 17 

Convite de Richelieu (um). . 183 

Corridas .sobre o gelo 176 

Costumes da Lusacia ». . . . 221 

Critica (a) 236 

Cultura e semeuteira das ba- 
tatas 233 

Curso da língua italiana, pelo 
cavallieiro .\. Galleano Ua- 

vara 416 

Cyprestc gigante (o) 160 



Daniel O' Rourke ou o sonho 

de um beberrão 60 

David vencedor • 209 

Demónio (o) do Jogo ». . . . 297 
Derkeaub, seita argelina. . . 82 
Descida ao volcão de Kirauea. 237 

Descoberta 236 

Descobrimento' (o) da Ame- 
rica • 257 

Diana caçadora * 164 

Dobrar (o) dos sinos 283 

Duas palavras sobre Hospitaes. 310 

313, 323, 333, 3lO. 
Duello — Vid. (Proscripção 

do). 
Eleições em Inglaterra (as). . 301 
Elephante (o) de Sião «... 149 
Emigrado (o) rico e o emigra- 
do pobre 235 

Episodio da vida de Aleixo 

Orlof 33 

Ercillae Camões, julgados por 
A. dellumboldtcomo pin- 
tores da natureza 269 

Eremitério do Vesúvio (o) •. 133 
Eschola de gravura para me- 
ninas em Londres 192 

Essência de rosas 288 

Escolha das encadernações. — 

conservação dos livros ... 30 i 
Estatua de Mithra « 68 

— de Mozart • 241 

Expedições de três potencias 

ao polo austral .... 158, 165 
Extractos d'auclores portu- 

guezes : 

P. António Vieira. . . lO, 
200, 208, 328. 336,3 U, 
332, 360. 

Bocage 4í>. 280 

Euzebio de Mattos 232 

A. Herculano 320, 336 

Fabrico de espelhos 56 

Fausto da mesa dos rom.^nos. 263 
Feitor (11) de Cantão, novella 

73, 86. 91, 98, 106, 119. 

123, 131. 
Fest.i (a) de IVterhoff .... 112 

— do Corpo de Deus em ^"a- 
loucia • 53 

Gcnio (o) do bom • 253 

— dos liulaudetcs 115 

Gossior inorlo por Tcll «... 183 
Gomes Freire dWndr.nde». . 6 

13. 21. 30. 



DO VOLUME PRIMEIRO DA SERIE TERCEIRA. 



Gratificação (a) 288 

Grude de arroz, ou cimento 

do Japão 360 

Guadalajara » 337 

Guarda Escocez dos teia de 

França • 76 

Guernica « 348 

Habitantes das landes de lior- 

deus 22, 32, 36 

Fíadjeb (o) de Kordova . 26, 

33, 42, SI, 66. 
Havana — passeio publico . . 393 
Historia dos Telegraphos ». . 61 

74, 83. 
Honras (as) devem ser confe- 
ridas a quem as merecer. . 408 
Hospitaes — Vid. Duas pala- 
vras sobre — 
igreja da Bôa Nova — Vid. 

Villa de Terena. 
DhaCelebes — Macassar. 84, 96 

101. 
I iidios (os) de Surinam . »« 8o , 93 
fnflainmação da pólvora pelo 

choque , 128 

Iniluencia nociva da nogueira. 80 
Instituição da Ordem da Ro- 
sa »* 36 

Instrucção primaria em Ingla- 
terra 383, 394 

— popular 407 

— publica. — Illustração do 
exercito 262, 386 

liistrucções dadas ao coadjutor 
de liergamo núncio cm l'or- 
lugal no tempo de D. João 
IH.. 306, 314, 322, 33'f, 
342, 330, ,334. 
Instrumentos de musica — 
Trombetas ». . . 317 **«« 397 

Introducção 1 

Inundação na Itália « . . . . 303 

Isabel 11 * 113 

Jantar (o) d'ossos 120 

J<)l;os e festas anti;;as (frag- 
mento do unia liibloriu ver- 
dadeira) 37 

Jornada nas pruvincias da 

Suécia 43 

Juízo (o) final 232 

Jussieii (ISernardo) • 23.1 

Justiça (a) 211 

licitura (a) 319 

Lenda» biíjloricas — O ]3emu- 

niudo liago. 319, 327, 331, 373 
lii)Mgevi(l,ul<' dos saliios. . . . 224 
.Macliiiia infernal dirigida con- 
tra Saiiil-Muló 247 

MaeUrom (o) 206, 210 

Mahomel ou Wafoni.i. . 147, 

134, 166. 
Maneira deliiar ás vasilhas o 

cheiro do bol.ir 368 

Maria de Medíeis eseus vali- 
dos L'89 

IMasaiiiclld. — Vid 'riioniaz 

Aniiiello. 
Mediciw [,)») Kíilimikos. . . . 303 
Meio dl' afugenlar as liirniigas. 64 
— lie remediar as eolíeas dir 
ehuiiilHi dciH l<'eelòes em 
learcí a Jac([uai'(l 61 



Meiosque os homens têem jul- 
gado próprios para se livra- 
rem dos raios 193, 203 

Melhor (a) trapaça 208 

Mercês deíhonrosas 208 

Methodo para dissolver a gom- 

ma-laca:, sua applicação aos 

tecidos impermeáveis, . . . 

Miguel Contreiras (Fr.)» 337, 

— Paleologo 

Ministério de instrucção pu- 
blica no Cairo * 

!Modo de desenferrujar e con- 
servar as ferramentas dos 
marceneiros etc 

— de destruir as traças. . . . 

Mónaco » 

Monumento na Sé de Lis- 
boa (um) » 

Morlacos (um anno entre os). 

197. 
Muitos soes e muitas luas, . . 

Naiades (as) 

Nápoles e o Vezuvio *, 158, 

174, 181. 
Nobreza de Portugal em 1736. 
Ódio velho nãocança. . 234, 

2Í.2, 249, 258, 266, 274, 

284, 291, 298, 389, 399, 

403, 411. 
l'aço imperial de Pekin . . . 

— de Villa Viçosa » 

1'aizagem da Nova Caledó- 
nia * 

Pandanus (o) na Ilha do Prín- 
cipe * 

Panorama (o) 

Partida do infante D. Ma- 
noel 

Passeios de Lisboa e seu ter- 
mo em 1608 

Pastor peruviano » 

Pelourinho de Aljubarrota *. 
Pelolíqueiro (o) íiieonibustivcl 
Penas dos empregados venaes 
em Portugal ena China. . 
Perij. — Praça maior de Li- 
ma * 361 

IMiarol (o) de Bréhat », . . . 273 
Pia dollaplisino de S. Luiz» 213 

1'íeada da Vespa (da) 40 

Pímpinella como pasto (da), 263 
Pio IX (o Pontifico) «. . 49, 38 
Poetas da Arcádia — Pedro 
António Corroa Garção . . 330 
338, 317, 353. 

Punia (,i) do Caju * 89 

Ponl(! de Ceret * 223 

l'»reelana de SiHres * 380 

l'orlo (a cidade do) w 345 

Praia do Uota-Fugo * 9 

Precauções para niécliar os To- 
neis 88 

Presbitério dcBolleviile ». . 292 
Presença de espirito de um 

árabe 312 

Preservativos contra os la- 
drões 88 

Processo facílimo paru gravar 
em aço e<uu uma peniia. . 352 

l'iiiMitp(;rio do diullo 413 

Prova <iú bordão em IMan- 



248 
379 
294 

289 



240 
192 
260 

29 
189 

160 
280 



406 



176 
57 

105 

409 
311 

370 

142 

365 
169 
103 

104 



deuvre 108 

Provas judiciarias na Geór- 
gia. 112 

Províncias (as) vasoongadas »* 324 

333, 343. 
Pyroxylina, pólvora azotica, 

ou algodão-polvora, . 179, 

272, 280. 
Gluadro (um) das misérias da 

vida humana 110 

Gluem compra carece de cem 

olhos e quem vende basta- 

Ihe um 128 

Raça (uma) de homens ». . . 44 
Rainha (a) Nomahanna ... 16 
Reis de Inglaterra que foram 

auctores 190 

Relógio astronómico deStras- 

burgo 70 

Remédio para o morrão das 

searas 328 

— para destruir a traça. . . . 400 
Residência imperial em S. 

Christovão » 33 

Roberto Southey * 12 

Rocha (a) do Dragão — lenda 

rhenana 281 

Romances. 

Vid. Apontamentos de Via- 
gem. 
Castello de S. Olaia 

(fragmento) . 
Coíomba. 
Feitor de Cantão. 
Hadjeb de Kordova, 
Lendas históricas. 
Maelstrom. 
Ódio velho nãocança. 
Rocha do Dragão. 

Roussillon « 143 

Sacavém « 329 

Salva-vidas »»»« 373 

Santa Isabel — rainha de Por- 
tugal * 404, 410 

Santo Est^ líta (o) e o medico 
Sanclorío * 

— Ignacio de Loyola *. . . . 
S. Boaventura — quadro de 

Muríllo « 

— Vicente de Fora « 

— " de Paulo ». 141, 
Seitas religiosas nos Estados- 

Unidos 

Sequeira (Domingos Ant.") » 
Sementeiras (das) ralas ou bas- 
tas 



196 
389 



Silencio (poesia) 

Sobre o tialialho 

Soldado de cavallo prussiano * 
Sorte dos meninos nas minas 

de Inglaterra 39, 

Superstições dos Árabes antes 

de Mafoma 78, 

Taílí em 1842 

Templários (os) ». 109, 117, 
^ 127, 134, m, 131, 139. 
Theoiloroíl' Almeida (1'adre)» 
Tllerniopylas (íis) eml8il. . 
Tiiesoin-os dos antigos reis de 

Portugal ' 

Tholnaz Aiiiello (Musauíello) 

367, 381, 395. 



2 
143 

239 
153 

295 
319 
246 
301 

4S 

94 
277 



28 
120 

136 
339 



índice alphabetico 



Tomada de Alcácer. . . 170, 178 
Trabalhos geológicos (dos) . . 294 
Três enterros (os) de um con- 
quistador 2G1 

Tribu (a) dos Guarayos na 

America meridional . , 54, 63 

Trovão (o) — poesia 381 

Tumulo de Bartholomeu Jo- 

hannes * 41 

— do Richelieu * 23 

Turkestan (o) cbina » . . . . 248 

Tymbaleiro (o) » 284 



Usos mexicanos • 97 j 

Vae muito do vivo ao pintado. 271 I 
Vasco (D.) da Gama ♦. . . . 201 j 
Velocidade da luz 200 i 

— (da) do som * 228 i 

Vendedor de melancias (o) * 21 
Viagem ú lua fí6 

— ás minas do Peril. . 184, 187 

— á Palestina por Mr. Saul- 

cy 318, 327 

Viagens — Passeio á Norwe- 
ga. . 391, 397 



Vida (a) humana por Eich- 
thal * 313 

Vingança (a) do homem bran- 
co 223, 229 

^ isita (a) de mau agouro. . . 264 

Vista de Capri, do lado de 
Nápoles » 266 

— interior da prisão de Tole-: 
do • 401 

Villa de Terena — Igreja da 
Boa Nova • 177 

Viuvo (o) e o Medico .... 24 



FIM. 



o PANORAMA 



SEMANÁRIO DE LlTTEMTlll E I.\STRLCCÃO. 



-=s.€?í3í®e=- 



II%XKOJDUCÇlO. 



UANDo oPaiiorama, n« liin de seteaitnos, ; 

L^jr^v- 3 interrompeu a íiia [)Mlilica(,ão, a falta da! 
kK ^^ uiiica fullia verdadeirarneiite popular, que i 

S^SÁír possuianios, foi lastimada pelos amigos das : 
letras, e scnliila por tuilus os seus nume- j 
rusos leitores. O oHicio, que acceitára, e continuou j 
com traballio e constância, tinha realisadu o objecto j 
principal, que se propuzera. Na hora mesmo, em que I 
te retirava da imprensa, o gosto da leitura estava 1 
creado, e a saudade, com que geralmente o viram 1 
desapparecer, era a prova mais lisonjeira d'isso. 1 

t) resultado obtido em sete annos de duracjão cor- i 
tou-llie verde a palma, que pedira ao começar aohra. 
Km quanto a admiração repetia os nomes mais famo- 
sos da epocha, sepultados na obscuridade de áridas e 
assíduas fadigas, iriineiros da civilisação nacional, os 
escriptores votailos a este lavor humilde, nas entra- 
nhas da terra, que revolviam, encontraram de certo 
o ouro, e 09 diamantes, do que enfeita o seu diade- 
ma a moderna poesia das nações; mas tiveram o va- 
lor de resistir á tentação, e virando-lhe o rosto pas- 
saram adiunte. A sua empreza não era pôr a cupola, 
mas crescer com o alicerce d» edilicio. Ao tocar o ul- 
timo instante da sua carreira, estavam cimentadas 
todas as pedras da consfrncção. A outros mais felizes 
o cinzel <]iie tira do mármore as graças da arte gre- 
ga, ou levanta a estalu.i de Moiros no templo da 
inspiração cliristà ! 

t> jornal [)opular, creailo pelo modelo dos mais 
acreditados nos reinos aonde llíjreci: a cultura inlel- 
lectual, loi de certo o l'anoi'ama. Se o não dourou a 
gloria das follias sclentilicas, que estendem o sceptro 
•obre a lilteralura activa; se não caminhou, como 
ellas, na vanguarda da civilisação militante, é por- 
que em l'ortugal, aonde tudo principiava, o ruidu 
das grandes luctas, e o eblron<lo da» armas, apenas 
»e ouviam como echo de batalha hinginijiia em casal 
p(f(|Ui'no e solitário. I'',ra preciso ensina-lo primeiro 
a andar por aijuelle terreno, para depois o Introdu- 
zir, sem sobresalto, no ajuntamenio dos |iovos euro- 
peu» confundidos na hora <la fadiga. O erro dos que 
precederam « l'anuraina consistiu cm julgar, que a 
medicina das nações fortes não repugnava á débil 
compleição de uma terra, (lue mal se podia dizer en- 
trada na virilulade. 

A imprensa instructiva, <■ accessivcl a lod.is as lor- 
tiinas e a lodos os enirndimenlos, é um iiistrumenlo 
próprio para eslimiilar os progressos em um paiz. (.) 
r.iiiorama, distinguindo a iliflirençii (|ue ha enire 
as piiblic.icõei purami.Mile lillerarias, e o jornal dNís- 
(a espécie, eonsagroii-»e ao trabalho, não estéril, de 
esi:ri'ver para d grande numero. Não foi o seu fim 
• •iilão, nem é hoje ainda, fazi^r a liisloria iloesttiilo; 
cumpre-lhe só apresentar o seu resiillado, resumido 
iin bteve ipiadro e popnlanneiile. As altas questões 
•uciaes, as |inli'inicas de ipiahpier natureza, e o exa- 
me scieiíliliro das matérias irinleresve politiiui ou 
mali'ri.il, (|ne oeruiiain a', rnliimiiiis das grandes He 



vistas, ou dos periódicos scientilicos, não entram na 
sua csphera. O logar mais humilde, e a tarefa menos 
elevada, que acceitou, reduzem-no unicamente a pre- 
parar a estrada a estudos mais profundos. 

Sete annos foi este o pensamento do Panorama. 
Fez intimo e familiar o tracto da sciencia, facilitan- 
do a todos o prazer mais barato e innocente de quan- 
tos ha. i) agricultor, o homem publico, o artista e 
o commerciante, nas curtas horas de repouso de uma 
vida laboriosa, sempre o receberam como bemvindo. 
No continente e nas províncias do Archipelago da 
Madeira e dos Açores a acceitação, que o acolheu 
provou-lhe, que tinha seguido, sem se afifastar, a ve- 
reda, que marcara. 

A Inglaterra, a França, aAllenianha, e a Hespa- 
nba tão nossa visinha, e desgraçadamente tão pouco 
conhecida aqui, exercem com proveito o sacerdócio 
de instruir com leituras aprazíveis evariadas milhões 
d'homens, que furtam aos breves momentos de des- 
canço o tempo necessário para refrigerar o espirito. 
N'aquelles paizes já se queixam de que as folhas e 
impressos, crescendo como as aguas d\iina alluviãu, 
ameaçam invadir até os domínios da rigorosa sciencia. 
Entre nós, |>or infelicidade, a escacez sécca muita for- 
ça latente, que se perde á falta de cultura. O maior 
serviço que se pode prestar ao paiz é alimentar o fo- 
go sagrado da instrueção ; educar um povo dos mais 
aptos para aprender; fallar-lhe á alma e ao coração, 
leval-o pelos inslinctos nobres. (|ue adormecem, mas 
não morrcHi , dispertal-o da somiiolemia pela memo- 
ria das tradições passadas, e pela promessa do melho- 
ramento, que o porvir prometie á constância e ao 
trabalho, (-luem tomar sobre si esta obra acceitou 
uma grande missão, e pode contar <|ue se não ha de 
vèr só no meio da estrada. 

<J Panorama, quando se apresentou na imprensa, 
não leveoulii) fim, e agora irá prender de novo aon- 
de <pi('brou o laço que o unia a esl.i modesta mas 
fecunda tarefa. Accoinmodado ao gosto de todos, o 
successu, que o multiplicim por um numero d'exeni- 
plares, de que não ha notícia em Portugal, abona a 
sua im()arcialiilade. A religião e a pliilosophia, os 
sábios e os indoutos viram n'elle o amigo da civilisa- 
ção, e saiidarani-nn como auxiliar do progresso in- 
tcllectual. Osespiritos sérios o profundos, debaixoda 
ligeira forma ipie vestia, apreciaram a iniençào mo- 
ral , os preguiçosos c li;ves, a princi[)io, receberam-no 
coino recreio, depois acceitaram-no como lição amena. 

«Tornai de todas as classes e de tt)dos os partidos 
nenhuma porta se lhe fechou. Iloje a sua divisa e n 
mesma. O (jue nos ri'inos estrangeiros se alcança pe- 
lo amor da associação ja educada, polo progresso nas- 
cido e creiíilo em muitas giTações, pelo impulso dn 
aucloriílade, e pur hábitos lia tempo arraigados, 
creoii-se aqui espiuitaneo, (piasi pela diligencia indi- 
vidual, eamiiiluui tniiitii em poucos annos, alVagado 
pelo giMieroso instinclo do povo, e pelo sincero luu- 
vor dos doutos. Deveu tudo 110 povo i- a >i. 



o PANORAMA. 



o Panorama espera ser amado de todas ascathego- 
lias dequc ee compõe ;i sociedade, porque, como disse 
em um dos aniius na aliertura, a cada uma ha de ir 
l>uscar o que tiver de hom, honesto e proveitoso. 

Ao IJra/.ii deveu sempre amizade e estima. A do- 
íuuião poliliea não diminuiu o interesse, que a lín- 
gua e as crenças estreitaram entre o vasto império 
além do Atlântico e o velho Portugal. Irmãos pela 
inlellií;oncia. amiiços por antii;as ligações, e alliados 
pelo commiim desejo de plantar a eivilisajão, o r"- 
eiproco interesse, que os enlaça, revela-se na soUi- 
eitude com que si- amam, e se eomprehendem para 
«uxiliar a renovação social. Como sempre costumou, 
n Panorama nlliani para tudo o que pode ser agra- 
dável ou conveiiicnle ao Urasil, como para cousa 
sua, dividindo entrf: os diius irmãos- eom imparciali- 
dade o ()ue a cada um d^elles eal)e no glorioso testa- 
mento (la njonareliia que formaram. 

Esto jornal compor se-ha, como d^inles, d(ítndoo 
ipie se julgar <le préstimo em descubrimentos scienti- 
í"iC(]S, em aperfeiçoamentos di- industria, e nos inven- 
tos em artes, apar tias novidades notáveis. Sem ser 
rlgorosan\ente noliciador acompanhará o andamento 
do século en[ lodos os seus aspectos. — A gravura em 
madeira, introduzida por elle, e tão adiantada hoje, 
continuará í; adquirir maior perfeição ainda em mãos 

[)ortu"uezas. Na lin:ruai'eni ha lie observarse desve- 

• 
lo constante para que saia limpa de locuções estran- 
geiras, refoignantes á sua Índole vernácula, e igual- 
mente purificada dos requebros aniiíjuadas de pala- 
vras e plirases exóticas, ede períodos alatinados, que 
a desítiam. soando mal na dicção corrente e clara, 
que líies libras re(|u(rein. Kão (.squecerão ])or ullimo 



as noções de scic^cias naturaes, e as das sciencias 
inoraes, opportunamente disseminadas aqui e atém, 
atjm d'o vulgo dos leitores poder tomar d"ellas a n«- 
cessaria tintura. 

Seguiudo este sistema é que o Panorama arraigou 
a sua reputação, e proi.-iettcndo persistir nVUenada 
mais faz do que continuar na profissão litterariaem 
que sempre viveu. l'ara penetrar nas cidades e vil- 
las, alegrar a solidão dos campos, e chegar até os 
remotos cazaes das províncias, recTeando as longas 
horas do invernoso serão, não aprendeu nunca outro 
segredo. Para se tornar o hospede certo das diversas 
classes limitou-se a contar-lhes o que tinham sido seus 
pães ; a mostrarUies, além do estreito recanto em 
que existem, o vasto espectáculo do mundo, as gen- 
tes e os costumes difierentes, os povos longínquos, eos 
' lisos estranhos; e a represenlar-lhes os séculos distan- 
' te» e tão contrários iiocaracler, ora fugindo naCgura 
collossal de um homem notável, ora revendo as fei- 
! ções ii'um grande acontecimento, ou no drama de 
um facto interessante. O romance, a lenda, c achro- 
nicu retratarão com as cores da poesia nacional as 
maiores façanhas dos axós, de que descendemos. 
A isto se reduzem as promessas, e para tão honro- 
; sa tarefa convergirão os esforços do Panorama. O 
I benévolo acolhimento, que o distinguiu sempre, a 
I espera merecer novamente, sú lhe impõe de ni.iis 
I que na prinieira vez a responsabilidade de não des- 
dizer do passado, nem enganar o presente. Km bre\« 
o juízo publico dirá se o nome do jornal popular foi 
; invocado cm vão, ou se satisfez aos votos, que, tão li- 
j sonjeiramente para elle, o chamaram ao seu antigo 
[)oslo na imprensa. 




S. VICENTE DE FOBA. 



o PANORAMA. 



3 



A KbligiXo de nossos aTÓs foisincera como oscuro- \ dava ao monge a brevidade da vida, apontando-lhe 
busto curação nos tempos da lucta, em que o sangue ' para além do tumulo, — tal devia ser o monumento 
do rei se misturava com o do ultimo cavalleiro, tin- 1 de Aflonso Henriques. Um antiquíssimo quadro da 
irindo cada palmo de terra arrancado ao domínio ara- j Senhora dos Martvres, edificada no mesmo tempo. 

\jc. Vencidos, uniam ao peito a cruz da espada, pa- abona a conjectura. K que Lisboa ainda não era a 

ra morrer no kíto dVspinhos do martírio ; vencedo-j orgulhosa oídade que, rompendo duas vezes o cincto 
res, os cânticos, trasbordando pelas abobadas dos tem- de muralhas, cresceu pelo arrabalde, obrigando o Te. 



• A cathe- 



plos, iam exaltar o Senhor dos exércitos 
dral e o mosteiro, levantados nologar aonde a vícto- 
ria pousara sobre as armas chrístãs, ou no sitio aon- 
de os fortes dormiam o somno derradeiro, traduziam 
para o monumento a historia das monarchias, que te 
erguiam do sepulcliro, e guiadas pelo enthusiasmo 
começavam a caminhar para a nova epocha social. 

O dedo do conquistador que a construía, gravava 
na fronte dacathedral, d'e5se livro de pedra, a breve 
inscripção de uma batalha, e de novo partia aembria- 
gar-se no revolver das pelejas. A igreja, esposa alílíc- 
ta, arrastara no desterro os pulsos roxos dos grilhões, 
até, como a clirisal^da, romper o cárcere, e abraçar 
entre as rosas da esperança a primeira liberdade. <J 
templo ii'estesdias de combate era o hymno dochris- 
tianismo tríumphante. O sacerdole, depondo a cer- 
vilheira e a iança, muitas vezes architeclo, vestia de 
mármore as aspirações que a alma elevava aothrono 
do Eterno. N'esle período a arte da meia idade, fiel 
á inspiração, sentia profundamente, antes de lavrar 
a cinzel na pedra, o sacrário do seu culto. Áspera e 
incorrecta nos primeiros passos, respira, comtudo, o 
mais puro sentimento religioso. Obra demonges-mi- 
litares, ede soldados-mongcs não trahiu nunca a sua 
origem. Em toda ella vive oespirito dos séculos guer- 
reiros. 

S. Vicente de Lisboa, de que hoje damos a estam- 
pa, nasceu d'esta intima aliiança da idéa religiosa 
com o ardor militar, caracter distincto da artechris- 
tã em três séculos da nossa liistoria. 

Debruçado nas ameias de Santarém, rendida por 
lurpreza, Alfonso Henriques alargou os olhos para o 
horisonte, curado do sol nascente. Além estava Lis- 
boa, sonho de sete ânuos, ardente voto de toda a sua 
vida de soldado. Tomada Santarém, tinha á cinta as 
chaves, que podiam abrir as portas á conquista •, po- 
rém a sultana dos califas, reclinada á sombra dos 
frescos laranjaes, com o porto aberto ás armadas de 
Ceuta e a testa coroada de torres, não écaptivaque 
ceda no conflicto de uma só noite, Desde essa ma- 
drugada o tempo que decorreu não fez senão amadu- 
recer o plano. Deus marcou a ultima hora da filha 
dt) árabe, escrevendo no peito de D. Alfonso a im- 
mntavel residiição d<.' a engastar, como a mais rica 
jóia, no diadema da nascente nionarchia. 

Ninguém ignora de(|ue modo estreitada pelos ho- 
mens do norte, e pelos antigos lidadores de Portugal, 
Lisboa, estorcendo-se nas anciãs da lume, succumbiu 
mais a cilas do <|ue á lança dos seus inimigos. Dois 
monumentos perpetuaram o terror da queda em lodo 
o Islam , — a igreja dos Martyres e a de S. Vicente 
de fora ; a primeira, mais visinha da cídaile, no ee- 
niiterío dos ingleziís e Irancos :, a segunda, alem dos 
muros, no cemitério dos leulonicos, futura urna r\- 
neraríu i|e reis n prineipis. J''iii o respeito ehristão 
pelos ijui: tinham caído antes do dia da victoria <|nem 
eollouoii, nos dois recostos á direita eeííiuerda da brl- 
licosa Lisboa, essas povoações de iniutos, em testemu- 
nho de le n ai|U(dli- (po; na sua justiça mede a gran- 
deza (! a dicadiiiKÍa ilos niaiorcH iuiprrios. 

A prímítivii eonstruecão lei nutnralnirnle tão sim- 
ples como lis mãos (pie «levantaram. Ermida islrei- 
ta, em íiírma rotunda, reehando o telhado em eiipii' 
lu i paredes de barro vermelho sobre escuro ^ cellade 
píiiiteiicia, «onde o cilicio, pungindo n cariie, rccor- 



jo a recuar diante de palácios de mármore. Ainda 
não descera, como a Koma imperial, do cume dos 
montes a assentar-se em alcatifas de uma quasi eter- 
na primavera no regaço do pátrio rio. 

Correram os annos, e os séculos comelles. A coroa 
de AíVonso Henriques da cabeça de D. Fernando as- 
sentou no elmo de D. João I, e retemperada no san- 
gue mais nobre, no duelo entre o íilho de Aflonso \ 
e a fidalguia portijgueza, ornouse com as espheras de 
D. Manuel, e fundiu-se na dissolução dos últimos tem- 
pos de D. João III. Lisboa, que no principio seani- 
nhava aos pés do seu alcácer, alargouse para lodos 
os lados, tornando-se a Cleópatra dooccidente :, pros- 
titiiiii-se iiob braços do deleite, desfazendo na taça 
dos banquetes as pérolas de Ceilão, e cozendo era ou- 
ro a sua boa espada, sceptro da antiga monarchia. 
Lisboa, a namorada da briza (|ue ihe ondèa o véu 
d^escuma e tlores, Lisboa, que o velho oceano adorme- 
ce einlialando-a cora o bramido das suas vagas, abriu 
as portas ao estrangeiro, e viu as suas bandeiras su- 
jeitas aos leões de Castella, que afinal ousaram cra- 
var as garras nas quinas de D. Alfonso. 

Foi então que a sombria piedade de Filippe II se 
lembrou de erguer das ruínas a igreja deS. Vicente. 
Em logar da estreita casa aonde primeiro se murmu- 
rou a oração dos mortos pela pátria livre, levantou- 
se o pomposo ediCcio, construído no estylo romano, 
que tinha substituído já o gosto imaginoso dosarchi- 
teclos da liatallia, e a arte da renascença manuelina, 
não menos rica e phantastica. Os cónegos regrantes 
deS, Agostinho, que desde a fundação da monarchia 
allí tinham visto ílorecer emsauctidade muitos varões 
insignes, nos espaçosos claustros da nova fabrica con- 
tíiuiaram a cultivar as leltras e as virtudes, uuioo 
allivio dos tempos revoltos. A construcção moderna 
levou uns poucos de reinados para se concluir, e os 
copiosos documentos do archivo dos \ icfiiles abriga- 
ramse alli das repetidas convulsões por que atraves- 
sou o reino. Ultimamente passaram para a Torre do 
TiMiibo, aonde o investigador os poderá exaniinar, e 
restituir aqui e além algum dos factos da nossa his- 
toria, para a qual oxalá que se voltasse tanto talen- 
to consumido em menos úteis esforços. 



O Castello de Sant.v Olaia. 
Lenda do seeií/o XI. 
(Fragmento.) 
(■luANDo na Incta com Os árabes, alta noite, se ras- 
gava o véu d.is trevas, e faise.mdo pelo negrume do 
céu, resplandecia no cimo da» serras o logo dasalme- 
nar.is (1) ; quando na torre d\italaia, ao serpear do 
sulco luminoso, a sineta do vigia aionlava osechos^ 
«inanias vezes, <lcspertado pelo embale das armas, não 
sahisle do ri'pouso, antigo castello de Santa Olaia, 
com o alfange do infiel quasi sobre o peito f 

Então a trompa christã retumbava mais alto >pi* 
os anafis mouriscos, coroando se repenlinameote o 
adarvi' (-J) de cervillieir.is (It) brunidilS, d<' iiKilh.is lii 

(O Alnifiiiiiias eram .siitiiap.s qiie se failam com fogueiras 

nos lo^jaios altos, il.iiido rebate ile iiilmlKOs. 

(J) Ciirreilor l:u';;o, ipie circulava |K>r ilelra?. das ameias. 

(li) Armadura dcIViisIva da laheça « lados do rosto, q»« 
desvia como loallia a ativelnr-se no lioiubro. 



o PANORAMA 



lente». — Com o arco retezado, como os frecheiros es- 
preiliiin iinmoveis ás seleiras a lioste tios filhos <lo 
propliola, ijiK! desenrolada encoita abaixo se curva e 
se oorla para trepar a hideira aprumada 1 

tAuantas vezes não deixaste crescer em meia lua o 
exerciti) inusulmauo, e avi»inhar-se, lento, silencio- 
so, pela calada da noite «té em nó robusto te enla- 
çar as torr(.'s, cuidando estoural-as no possante aper- 
tar dos collos ? Era assim que folgavas com os dias 
perigosos. O raio dos cngenlios partia, a lan<;a dos 
fortes erguia-se, e, como a cholera de Deus, fulmina- 
vam o orgiiUio do agareno, desfeita a esperança de 
VPT tremular nas ameias o estandarte de Córdova. 

E hoje nefn unia pedra para lembrar que exististe ! 

Largo tempo a hera e os abrolhos se enrolaram pe- 
los fustes parliiios das coluninas, e do seio rolo das 
abobadas penderam em festões as plantas musgosas. 
As quadrellas gigantes rangeram ao golpe einbarado 
do alvião, e as pedras aqui e além tombadas na en- 
costa, ou espalhadas no valle, alvejaram de longe, se- 
melhantes ás ossadas dos Til.ães vencidos. 

Os séculos carcuniir.ini o cimento dos muro*, em 
pé desde que a águia de César, voando do 'l'ibre, 
pousou ás frescas margens do Mondego. Os homens, 
olhando com desprezo para o alcácer desmoronado, 
apressaram mais os estragos dos annos ; aténatradi- 
<;ão popular, p(jr costume tão fiel ú gloria, se lhe per- 
deu a lembrança. Nem então nem depois o alaúde 
mouro ou a liarpa cliristã recordaram ao\i.ijante os 
(Mjrcos e batalhas que o combateram, os festejos que 
o alegraram, os amores e pezares que alli choraram. 

Antes das scenas, que n'elle se vão passar, o cas- 
tello de S.inta Olaia, levantado do chão pelo primei- 
ro rei portuguez, cresceu novas forres e ameias em 
alicerce robusto, e no alfo da penha escalvada cam- 
peou ainda baslanles ânuos o pendão real, terror e 
castigo do árabe. 

A historia da repeiiliua destruição, recordada ao 
eistercieiíse por D. Marfim, já n'aqiielli^ epoclia era 
a lenda marjvilhosa da credulidade popular. O fe- 
mor, que incutia a narração d'esle successo trágico, 
apertava o coração dos fracos e até o dos animosos. 
W-iial dos cavalleiros de Allonso Henriques, sem a 
pallidez do susto, atravessaria, depois do pòr do sol, 
as ruinas do velho alcácer.' Assim mesmo bem pou- 
cos, a horas criticas, iriam arrostar as almas pena- 
das, as visões diabólicas, que o vexavam. 

Apenas se acabou de reedificar, os espectros — tão 
corleies furam 1 — c<ilcram aos vivos o passo novo, 
tomando só posse do <|ue se ficou cliamando a » torre 
nuildiel.i. !• Da primitiva construcção era auniiaaiii- 
da inteira econservada. As .abobadas subiam em fres 
espaçosos andares, rasgados de esguias frestas. Os lan- 
ços de ameias lodeavain-nos até fecharem noseirados 
aonde morriam as escadas espiracs, que se tori:iam pe- 
lo interior. Do nada se linliani esquecido os funda- 
dores para tornar iiiaccessivcl .los homens e ao tem- 
po o Seu ninlio d^igiiias, sobranceiro na coroa do mon- 
te aos cabeços pitlorescos dos liorisonles que o emol- 
duravam. 

Wue singulares historias não contava o [lovo sobre 
.iquella torre maWicta ! Eóra de horas, clizia-se, na 
ermida levuut.imse .as campas, os ossos desfeitos CTn 
po vestem passadas formas, p todos os a n nos. ve«pera 
de S. João á miáanoiíe, na sala velha, espiimaovi- 
nlio nas taça», langein.se harpas, e, nn clarão de mui- 
tas luzes, conviva-, mortos depois d"um século, \em 
assentar-se á mesa do baiupiefe infernal 

Entretanto, no anno de 1211, e na tarde em que 
estamos a i> torre mal.licta" perdeu os privilégios. 
Os espíritos s.ilanicos foram perturbados pela repen- 
tina enlr.ida ile hospedes mortaps no seu asvio. Nos 



eirados, no mais alto, appareceram dois cavalleiro 
e um monge de Cister, fallaram momentos apontan- 
do para o lado de Coimbra, e desceram logj á sala 
d'armas, aonde aqui e acolá se viam dependuradas 
grevas, cervilheiras, e arnezes de malha já sem bri- 
lho. • 

A conversação que iam continuando aiiirnou-se en- 
tre elles mal chegaram lá. Os homens darmas, que 
passeavam perto, com as ascumas ao hombro, ouri- 
rain distinclamente palavras inteiras, que vibradas 
no calor d'altercação retiniam longe. 

— u Não o digo (lor mim, reverendo nono; escre- 
veram-no nossos avós no Furo Velho de Castella — 
no livro da nobreza goda. Este, ao menos, é tão nos- 
so como é de seu iillio, e está na cabeça de seu oeto 
a corAa d'AfTonso Henriques . . . E mais compramos- 
lli'a nós; aqui, ás lançadas com os mouros ,' além, na 
fronteira, a golpes d^acha com o rei de Leão — pa- 
gou-a o corpo de meu pai, e o de todos os cavallei- 
ros, que lh'a cingimos. Custou cara esta coroa de Por- 
tugal ; e Deus sabe o que ainda custará! Mas apon- 
ta das lanças também firmámos nos pannos dos mu- 
ros os privilégios de ricos-homeii'. Não lhe toquem 
se não (pierem partir o briíço ao rei ' Não se façam 
esquecidos com elles, olhem que os lembram demais I » 

— «A ermida está armada?» perguntava no pro- 
fundo vão de uma fresta o outro cavalleiro a um ho- 
mem d^armas, cuberto da loriga de couro cr".í. 

— » (^oino vót dissestes.» 

— II A tumba .' " 

— 41 Aonde mandastes — no meio. •< 

— «E na casa por cima.'" 

— uTudo prompto. Só falta. . .» 

— " Não falta, ha de vir. Três repiques na sineta ; 
ao terceiro" — f.dlou-llie ao ouvido — uao terceiro, 
entendeste '. m 

— 11 Ficai descançado" — replicou o outro com ar 
firoz. 

— II liem -, volta agora. Espera ! . . . mas não, não ; 
eu pouco tardarei. " 

— «A justiça quem a nega? — dizi.i entretanto o 
monge depois de algum silencio ao primeiro cavallei- 
ro — nem elrei nem a sua cúria siibem aindu. . . 

— u Não querem, que é o peior de tudo. •• — Ata- 
lhou o cavalleiro que tinha falladn com o homem d"ar- 
nias. — "Contem isso a outros, não a .Marlim l'aes ! 
Ah, elles não sabem I A c.ibeça dos traidores os avi- 
sará do alto das nossas torres. Não »epni? (Ane lhes 
abra os olhos o fogo dos castellos. Não ouvem? Tam- 
bém não importa I Aecorda-los-hu o ctitellu, cahiiido 
no cepo cubiTfo de lucto. . . Os ricos-homcns de Por- 
tugal não são manadas de \illõa8 que se levem as va- 
ras. . . " 

— " Hein se vê que morreu Sancho I '. n replicou o 
frade amargamente. — uO leão velho esta na cov», 
por isso todos faliam. As garras do moço ainda não 
mettem medo; tempo virá I . . ." 

— "Que venha. .Amole as unhas o leão novo n.i 
armadura dos cavalleiros da sua casa. . ." 

— ..Cuidado! primeiro não as experimente elle 
na orgulhosa serpe de Laidiov»! ..." 

— "A urgiilhos.t serpe de ].ianhoso, padre, está 
muito alta para lhe chegar assim. .Meu pai deixou 
no armatem setas e azevnns para os solarengos, nina 
Linça e uma espada na sala d*armas. Não se entra 
lá senão quando o senhor ijiier, e porque elle qilpr. . . 
.Aquillo não são «s cubas que S. incho 1 nrrelwntoii 
ao saneio homem de Lourenço Fernandes. " 

— .€ D. Marfim, não vos fiei» Ha soberb.i I \ ondo 
adormecer os reis de Israel dilxiixnda purpura quem 
havia de dizer que o «ol seguinte allumiiiri.i o jeu 
caminho para o e.iptiveirof n 



o FAINORAIVIA. 



— tt Uma cova, sete palmos de terra benta, eque- 
brou-8e o captiveiro mais rigoroso ...» 

— " E o inferno ? " 

— u Não ha peior inferno, padre, qne a infâmia 1 
todas as aguas do mar não a lavam ; a morte, nem 
«siía a desvanece. O cnrpo coine-o a terra, os osius 
faiem-se em pó, e a infâmia dura eterna sobre a se- 
pultura I ... a quem a solirer callado, com a espada 
i)iiiela, ainda em cima :u-outum-lhe a cara com a 
liainha, e lião de rir-te d'<lie como d'nm pi>bre de 
Ctiristo. . . por Deus! Não se hão de rir de mim. 
Aqui licou um punhal, que é bastante para Martim 
l'ae« não servir crescarneo ao vulgo ..." 

— II Escuta. Já te não lembram o cuidado com que 
te criei, o amor com que te estremeci desde peque- 
no? Amou-te ninguém, ia a dizer — maisl ... tanto 
como eu ? " 

— li quando me esqueci ?" 

— Bem sei ; vê lá : — não me doera como minha 
própria a tua aíTronta ? " 

— it E fallais de perdão, reverendo noiíii I . . . " 

— i' E fallo, e peço-t^o etn nome de Deus, pela 
ahna dos (lareules a que mais qui/este, por !na ir- 
mã, o doce prazer do teu cor3<;ão ! . . . Eillio, acima 
da aflroiita ha outra cousa maior — a honra, a fede 
cavalleiro. Se fosse vivo teu pai. fallava te pela mi- 
nha bocca i dizia-le : Martim l'aes, é uma ac(;ão vil :, 
é o despique traiçoeiro da mulher fraca . . . depois de 
feita, o nome de ii Ribeira >' liça um nome deshonra- 
do, e teus avós deixaram-to limpo e puro I Como el- 
les corariam na sepultura, se podessem vêr, se podes- 
tem ouvir o mundo, apontar-te ao dedo, e dizer: 
.itJIlia Martim Paes, quem o diria, o filho d'aquel- 
le pai ! Como se não achou com valor de morrer com 
uma lani,'aila : de cavalleiro feZKC carrasco'." \ ôs 
que vergonha, que desprezo, D. Martim ! " 

— " Erade, não tentes a paciência do homem" — 
exclamou o mancebo, <|ue de uni lado para outro cor> 
ria a sala, accessas no rosto as rrtxas cores da raiva. 

— nNão me peças impossíveis," 

— "Equem t\js pede.' Não te estou dizendo que 
depois te ha de amargar? Eu mesmo, juro-te piílo 
cordeiro divino, que desce imuiaculado a estas mãos 
indignas, o mais pequeno dos villõcs que fosse, por 
todos os thesourosdo mundo nãoquereria viver n'esta 
terra, e Deus sabe se a amo I com a allroiita do no- 
me de Martim l'acs. " 

— "Frade, pede que te não ouça isto duas vezes. " 

— u Podes também matar-me a mim, filhodel'aio 
Moniz de Jierredo ', não te prenda». — Um anuo mais 
cedo? A viagem sempre se ha ile fazer por fim ! Mas 
iJha que te hão de chamar na caravillão e covarde, 
e tu ouvil-cs callado! tiue remédio! Não foi para 
isto que eu criei de menino o filho (ra({uelle pai! 

— .1 Erad<!, deixa-te lie vaid.ules mundanas, tiue 
falias alii de brios de cavalleiro, tu, (pie não levan- 
tavas iiiiiit haste doestas, jior ahi eniostadas aos lan- 
ceiro» ? " 

Nos olhos do niongií um iiisl.intc acccndtMi o orgu- 
lho o fogo de nina indignação severa. 

— ..Maiicí^bo, !■ cuspir iiris faces do liomini morto, 
ilue vilania, dizer a qui'm falleceu e se amortalhou : 
lOrgiiete. JCs um covarde ! 'l'«inpo h(uive i'm que 
•6 dois pulsos feriam mais rijo:, o (riii{uell(! rei que 
Deus levou, e o d(! Ijonrenço Vi<'gas, o espadeiro. — 
1'uraçào nenhum tiiihu (pie invejar ao outro. I'ira is- 
to ha muitos aniios, !■ verdnile — loucuras de velhos ! 
O <|oe sou:os nós ao pi;il'esteH ravalleiriis moços, (pic 
ajoelhiim diante <los inimigos, e os matam pelascos- 
tas? " 

E peganilo na niuis grossa lança o monge mciieou-a 
iigeiru como um \im«. Depois, retrahindo u corpo, 



sacudiu-a de arremesso contra um escudo d'aço, aon- 
de, gemendo som cavo, vibrou cravado o ferro maii 
de duas pollegadas. 

I — u Este braço, sequiiesse, D. Martim, ainda po- 
dia jogar duas lançadas . . . aos mouros : accrescentuii 

; serenamente. 

1 — " Por minha alma ! . . . valente golpe ; "acudiu 
o cavalleiro idoso. 

— «Não é nada já ; lembranças de velho que ain- 
da se quer fazer rapaz?" retrucou sorrindo com iro- 
nia. 

A côr do pejo subiu ás faces de D. .^lartim. A li- 
ção involuntariamente o obrigou a pòr os olhos tio 
chão. Seguiu-^íO longa pausa. Os lábios, brancos de 
raiva, do mancebo, repuxados o'um rir convulso, tre- 
miam como as urzes no monte bravo diante das ra- 
jadas do norte. E que lá dentro ia uma tempestade, 
que reluzia na vista, e no fogo das faces. 

O frade, poiísando-lhe a ;não no hombro, cortou- 
Ihe as reflexões em que estava abysmado, faltando em 
tom insinuante : 

— -.í ÍJra vamos, Martim Paes — é ser homem I . . . 
Ouve o meu conselho, deixa-te dVssa má tenção. 
Vai deitar-te aos pésd"elrei, pedirlhe justiça — ha- 
de fazer-l'a ; diz-me o coração que t'afará como ain- 
da se não viu em Portugal." 

— 11 Justiça dVlrei ! " — acudiu o mancebo com 
ira, e cerrando o punho; — «esperem por ella, que 
morrem de velhos ! E ce^a e coxa. A nossa anda me- 
lhor : — Sangue por vilta ! Pode-nos depoisquebrara 
espada pela empunhadiira, ou queimar-nos, como fe- 
ras, nos castellos — ficamos pagos! Não é assim D. 
Nuno 1 1' 

— «E o que sempre disse. Alli, a duas passadas, 
temos Castella. (lucm não couber aqui . . . aindaum 
caviíllo me pode levar lá. Estou velho i será a minha 
ultima corrida. " 

D. Martim apertou-llie a mão, exclamando : 

— " Até que ciu fim encontrei um homem, D. Nu- 
no ! " 

— «Um louco" murmurou o monge. 

O niiiiicebo, olhamlo liopois para as paredes nuas 
da sala, meditou Iristemenle alguns momentos. la- 
se-lhe carregando o semblante. — « Como estes muros 
estão negros, e ainda tintos <io sangue da orgulho- 
sa família do Douro. Alegra-fe, D. Ini^o. Antes de 
romper o sol dormirá o mais novo da sua raça ao la- 
do dos (|iie além descançam í — e apontando para a 
porta da ermida: — « CíLuaiido entrares por alli, Go- 
mes Lourenço, não te dirá o coração que esta noite 
será a ultima ?" 

— «Não blasphemes " — atalhou o frade com im- 
pério. — «Não auordcs á vingança os mortos que re- 
pousam. " 

— «Vingança de <|ue, e por quem .' " 

— « Ctiamaste ]tor Inigo Lopes, e não saiws (pie 
nas veias de Ciomes lioiirenço corre o sangue d Vdle .' 
N'estas pedras ha oscilo deC.iim. Cavalleiro de La- 
nhoso, estas ruinas contam uma historia, capai de fa- 
zer tremer o priqirio inr(;riio." 

— « Sabeis então .' . . . " 

— 1. As desgraça» ipic vieram d'uma só vingança? 
Si^i domais. Ocastello t^n (|ue estamos era de paren- 
tes vossos. () iillinio senhor foi o coiule Ordoiiho, des- 
iciidcnle trelrci Kainiro. Esse D. Inigo (pie acabas 
de convidar, era lio do mori> Ansur, viuvo aos de- 
zoito annos:, do uiiico filho doesse vem a raça detio- 
nics liOiírcnço . . . Desaliaslt! o inlerno: giiarde-te 
Deus (pie ello te levanli; a luva. " 

— «Vivo ou morto pódc vir (juando (|uir.er. Um 
anuo >: um dia com braçaes (< cotia, a peou a cavai- 
lo, juro delciider o que hoje faço, " 



6 



O PANORAMA. 



— II Jesus!" íxclainou o frade, mais branco que o 
pilar <ie pecira a que st; encostava. 

Ou fosíP acaso ou mvslpriu, o guante ferrado d'u- 
ma armadura negra desprendcuse e bateu nas lageas 
aos pés de D. Martiin. Ocavalleiro enfiou ^ mas eu- 
cubrindo ergueu do ilião a manopla. No canhão em 
lettras douradas lia-se o terrível nome de Inigo Lopes ! 

Um instante ficou contrafeito e pallido ; depois com 
apparencia traiiquilla, virando-se para o frade,, dis- 
se-lhe : 



— II Em quanto esperamos, f)or que no» não coii - 
taes a historia d"este castello.'" 

— " (Jxalá que aproveite! >■ 

— "Como este ódio nasceu velho 1 " murmurai» 
comsigo D. Martim. 

O monge assentou-se então :, D. Nuno á sua esquer- 
da, e D. Martim á direita ouviam em silencio. Pos- 
ta na linguagem de h<ije a historia dizia assim — 

(Continua.) 




Uma das mais interessantes biographias, até agora 
por escrever, é a de Gomes Freire de Andrade, sol- 
dado e escriptor distincto, tão celebre pelos seus fei- 
tos gloriosos, quão digno de lastima pelo seu fim de- 
sastroso, lia quasi trinta annos que o vento lhe dis- 
persou as cinias: hoje que o ódio dos partidos d"en- 
lão devi! de estar adormecido, é um acto de justiça 
perpetuar a memoria do guerreiro a quem até foi 
negada humilde sepultura na terra de seus avós. Es- 
te esbo(,'o biographico não lein por liin decifrar as 
causa» mysteriosas da cat.islrophe, mas a imparcial 
exposição de factos. l'óde-sc honrar o morto sem of- 
feiísa «tos vivo». 

Nasceu (lonies Ereire de Andrade em '2~ de ja- 
neiro de ITói), curte de \ ienna d".\ustria, onde 
•leu pai Ambrósio Freire de Andrade e Castro era 
embaixador de 1'ortugal. Desceiulia d'um» familia 
entroncada na antiquíssima casa dos condes da Tra- 
va, e na dos 1'creiras, Forjaies, e Holiadfllas. e con- 
tava entre os seus antcpnssadoj muito varões illus- 



tres, dos quaes bastará citar, peio que Iik!\ aos mai» 
modernos, Jncintho Freire de Andrade, penejvrista 
de D. João de Castro, e (iiiines Freire de .Andrade, 
que nas guerras da restauração, depoi> de sacudido o 
jugo hespanhol, obrou prodígios de valor, epatifiron 
os tumultos do Mar.inhão com prudência rara e ad- 
mirável politica, temporada pelos diclame>da huma- 
nidade. 

Três carreiras havia em Portugal p.ira nobres : a 
das armas, a da iiiagisiraturu, e a eccle»iasliea. (ío- 
mes Freire elegeu a das armas, sentou praça no re- 
gimento d'infaiiteria de Peniche, e e>n t7S2 foi prt>- 
movido a alferes. O mancebo brioso e valente, exci- 
tado pela memoria de seus maiores, almejav.i .1 ix- 
easião de provar o para «lue era. Em breie so ib> 
proporcionou. Carlos III. rci d'Hcsp;inh,"i. querendo 
tirar vingança da insolência dos argeliiu», restd«eii 
o bombardeamento do refugio d'estes piratas infe^tc>» á 
christandadc, a ijuem potencias poderos.is não ^c peja- 
vam de pagar infame tributo pela alta merci!'delhe»njo 



o PAJNORAMA. 



captivaram os seus súbditos o tempo que fosse do agra- | armada raal, ou porque a vida maritima lhe desa- 

do dosde^sd'Argel. Sob o mando supremo do teneu- i gradasse, quando desacumpaiibadadu» pe^igo^ da guer- 
le general da armada liespanhola, D. António Bar- | ra, ou porque servindo no exercito de terra belhean- 
celó, já experimentado em tats einprezas, sejunctou i tolliaase augniento mais rápido, voltou para^ o regi- 
no porto de Carlliagena uma armada composta de niento de Peniche, em 30 d'abril de 17SS, com o pos- 
vasos hcspanhoes, napolitanos e maltezas, fazendo ao i lo de sargento-múr 



todo cento e vinte e três embarcações, em queentra- 
vara sele naus de linha u nove fragatas, afora asnáiis 
Sancto António e Uom Successo, e as fragatas Golfi- 
nho e Tritão, com que 1'ortugal contribuiu. A nos- 
ia frota, em que Gomes Freire foi servindo como of- 
ticial de marinha, commandada pelo coroutl do mar 
Jiernardo Kamires Esquivei, largou do Tejo aos 11) 
de junho de 178Í-, e na tarde de 22 ancorou na ba- 
ilia de Cadiz. Na maiiliã seguinte, feudo niellido pra- 
clico a burdo, tornou a fazcr-se á vela. Na noite de 
23 cinbocou o Kstrcilo, passou por Gibialtar ás do- 
te horas, e seguiu o rumo de Carthagena. Acalma- 
ria que lhe sobreveio, e a inconstância e variedade 
do vento l!ie atrazaram a viagem até o principio de 
julho, de modo que, tendo já sabido a armada com- 
binada para Argel, a fiossa dirigiu a derrota para es- 
te porto, omle chegou no dia i'2 jielas seis bofas da 
tarde. Pv'tste dia dera U. António Barceló o primei- 
ineiro ataque, o qual durou de«de as oifo até ái dez 
horas e vinte iniiiulos da niatibã, ulcaiidu em parte 
da cidade um incêndio que não piulcram apagar até 
as quatro horas da tarde, e fazendo voar quatro lan- 
chas inimigas. O vento, empolando us mares, suspen- 
deu as hostilidades até o dia IS, e n'este meio tem- 
po repararam os argelinos as ruiiias do forte de 15a- 
Ijiísao, resultantes do alacjue do dia 1'2. No segundo 
fttaijiie r(>iii|jeram cllcs, ás seis horas e sete luiiuitos, 
II fugi) de sessenta e nove latiihaf, ([ue, adastadas meio 
tiro de canlião das suas fortificai ões, occwparam o es- 
jiaijo entre o forte di.' li.ibasan o o de Betei. Aslan- 
clias aililhadas da armada saliiram-llie ao encontro 
e sustentaram o logo sem interrupção, até que, con- 
sumidas as munierjes, se retiraram apoiadas pelo dos 
navios. O vento do levante, dissipando o fumo, dei- 
xou vir deimilidus os ineilões da bateria do iiscollui, 
A» i'iobarcai;õis portuguezas, favorecidas da aragem, 
com presteza se inetteram em linha a leste da esqua- 
dra, para reeha<;arem as lanchas argelinas, toda a vez 
que chegassem ao alcance da sua artillieria, acossan- 
do as nossas na retirada. Oito vezes se repetiram os 
ntaques, em que Gomes Freire deu decisivas provas 
de v.dor expundci-se a pi'ito descoberto á chuva de 
bailas disparadas pelas fortalezas, e embarcações luiu- 
ilas ili! Argel. No ipiarfo aceoin mel li mento haviam si- 
do niellidas a pique as faluas dos dois geiíeraes ini- 
migos ;, tão renhido foi elle. 

Ivslavani já destruídas a maior pai te das lanchas 
argelina», havia ardido a bateria do Escolho, e o fo- 
go reduzira a cinzas muitas casas da cidade;, e por 
iseo 1). António JJarceló convocou os geneiaese com- 
inanilantes dos navios a conselho no ília '2i de julho 
lie 17Sl para delibitrar se era conveniente continuar 
ns hosliliila<lei, apesar do risco iin mine nie de saltar um 
vento contrario, ijue pinia a i-squadra em giaiule aper- 
Ib-eiíliram iinaiiinie» que a empreza se devia dar 
iluiila, e a esquadra parllu da bahia de Ar- 
gel no dia 'J3, e no liia 27 entrou em Carlhagt'iia, 
líepois de ler dado uma boa lieão nos argelinos, con- 
tra os (|iiae» gastou sele mil e Iniit.is bombas e gra- 
nudac, e mais de doze mil bailas, nlém da metralha. 

A nossa esquadra saiu di> (-'artliagena a'.) tragoslo, 
niidoii a corso pm- hI:;iiiis diassobre a- cosias d' Afi i- 
ea para li'ste de Argel, ie|i»ssiiu o l'Atieito na noile 
de ;i(i, apurloii eni(.'adizno dia Beguinte, eiecullieu- 
ke a Ijisboa aos 1'J de seleiíibto. Gomes l'Veire, <iuu 
em S de iiiarei) de 17íi7 |iussára a tenente duniarda 



lo. 

liiil eiiliel 



Catharina II, imperatriz da Rússia, havia tentado 
sublevar varias províncias do império ottomano, e 
com especialidade a Grécia, em nome da indepen- 
dência e da liberdade, a que se mostrava aifeigoada 
nas cartas a Voltaire, mas que proscrevia nos seus 
estados. A' guerra que por este motivo accendèra pu- 
zera termo, em 1774, o tractadoassigiiado eniKust- 
cbouc-Kainardgy, depois de larga contenda termina- 
da com immensa vantagem dos russos, que haviam 
queimado a esquadra turca no porto deThechesme; e 
pur meio de novas acquisii;ões de portos de mar e da 
indepeiidcncia dos khans daCrimca, reconhecida iio 
mesmo traetado com o Ijin occulto de os sujeitar 
á Vontade do gabinete de S. l'etersburgo, ficavam 
abertas as portas a futuras invasões no território tur- 
co. A czarina, com osolhos sempre fitos em Constan- 
tinopola, pretendia encetar a conquista de todo o im- 
pério oltomauo, apoderando-se da Criméa. N'uma 
conferencia que teve cm 1780 com José II, impera- 
dor d'Allemanba, ajustaram que elle o ajudaria a 
assenhorear-se da Baviera, sob a condiij'ão de ser au- 
xiliada pelo imperador na guerra contra os turcos, 
ficando ella com o melhor quinhão dos seus despojos, 
e de restituirem ambos de commum accordo a inde- 
pendência ás republicas gregas. Reduzida esta con- 
veiieão a traetado no anuo seguinte, tractou Catha- 
rina de coiisuinmar a usurpação da Criméa. Dewlet 
Gherai, khan dos tártaros, era muito allecto á Bor- 
la : a ambiciosa e astuta Calharina, recorrendo a pei- 
tas, enredos, e violência, obrigou-o a fugir, e, invo- 
cada a independência dos tártaros, fez que elegessem 
para seu klian a Sabim Gherai, cuja servil obediên- 
cia ao governo russo excitou contra elle o desprezo e 
até a raiva dos seus súbditos, os quaes, morta a guai- 
da russiana, que o escoltava, elegeram Selim Gherai. 
Calharina appioveiloii logo o pretexto, invadiu a (Cri- 
méa, venceu os tártaros, restabeleceu Sahim, e extor- 
quiu á i'orta iini traetado addiccional ao de Kaiiiar- 
dgy com o recunljecíinenlo formal do khan seu patro- 
cinado. Sahim, despresivel aos olhos do seu povo pe- 
las distincçòes e honras que a Rússia lhe concedera, 
tornou-se-lhe cada vez mais iiisupporlavel. Acabavam 
08 russos de o ajadar a comprimir a revolta de Bat- 
ti-Glierai, um dos seus irmiios : suggeriam-lhe quo 
exigisse da i'orta a cessão deOczakol, iniportantissi- 
ma praça de guerra situada na Bessarabia, onde con- 
fluem os rios Bog e Dnieper, antes de desaguarem 
no Mar Negro, e por isso disputada, com grande mor- 
tandade, pelo» russos e turcos, desde i|ue os tártaros a 
perderam. O incauto Sahini-Gherai obedeceu, e pa- 
ra desaggravar-se d'uiii acto de crueldade cominet- 
tido contra um dos sens emissários pelo pachadailha 
de 'lamaii, abriu passagem pelos seus estados aos pro- 
tectores russos, que, depois de o violentarem ajur.ir 
hdelidade á czarina, eaceder-llle a soberania em tro- 
ca iriiina pensão de oitocentos mil rublos, que lhe 
não pagaram, o mandaram desterrado para Kaluga, 
e pur tini enlrei;araiii-no «ou turcos, pelos quaes foi 
decapitado em Uliodes, sem lhe vnlerini os esforço» 
do cônsul dl* França par.i o salvar. Trinta mil tárta- 
ros, suspeitos de eonspirareni para dar a liberdade .i 
sua pátria, ri'eeberain a morte por ordem de l*aulo 
l'oleinkili, sem commiseração para com » sexo ou 
Idade, As tropas de Calharina devastaram a Tarla- 
riii, u como e natural herdaram os verdugos os des- 
pojos dus Mij>pliciados. A c/aniia, proclamando que 



o PANORAMA. 



estes puvo*. não ineniB ingratos que os poUcm. ba- 
liam trabalha'lo por aluir o edifício erecto pelo» seus 
benéficos cuiòados para íclicila-los, declarou que, em 
virtude do ultimo tractado, reunia á Roíssia a penio- 
9ula da Criniéa. com a ilha de Taman, e todo oKu- 
ban, afim de pòr termo a tantoi de>asfrí». e como 
ju*ta iiidemnisação de perdas e despelas. 

A Porta ahaixou-!e a sancciouar taml^-ni estas 
usurpações: porém Calharina aspirava a iiaiia menoi 
que a erguer uiD throno sobre as ruinas do iiuperio 
turco. Na famosa jurnada que fizera á Tauride em 
1787, a instancias de Poleinkin, teve outtu encon- 
tro, emK.ersun. com o imperador José II, e. rasgan- 
do a mascara, fez com que por entre as nuvens de in- 
censo que a lisonja lhe queimava, se lesse esta ins- 
cripção. escripta em caracieres eregos sobre a porta 
oriental: Por a«vi se ma de passar i-aba ibter 
A ISVZASCIO. Então o çrão senhor, cançado de tra- 
gar o fel da afiVonta. detiarou zuerra á Kussia ; e a 
Bulgakow, seu en\ iado, encerruu-o nas Sefe-Torres. 
onde jazeu mui I.irco tempo. 

Catbarina esperava impaciente este rompimento. 
A um seu aceno partiu uma frota numerosa para o 
Mar Negro, duas esquadras respeitaveb occuparam 
Cronstadt, e os exércitos de terra sob o commandu 
supremo dePotemkin recomeçaram uma guerra mais 
feroz que nunca, auxiliados pur oitenta mil austría- 
cos. A Porta. desampHrada dos seus alliados, menos 
da Suécia, a mais fraca e a mais exposta de todas a: 
potencias, nem por isso de-esperou do triumpho. 

Promettia esta formidável lunta hasta me^se de lou- 
ros. Gomes Freire, desdenhando o ócio. oble\e licen- 
ça em 17 de Maio de 1788 para ir militar nos exér- 
citos da Rússia, sem perder o direito aus seus soldos 
durante a guc/ra contra os furcos, e em quantu iilli 
se demorasse. A gloria convidava-o a illustrar-se dian- 
le dos muros deOczakof: obedeceu ao chamamento. 

Continuava esta praça a zombar d'iim assedio p"r- 
linaz, posto a cercasse por terra o exercito de l*o- 
temkin, e por mar uma e-quadr.T ás ordens do con- 
tra almirante Paulo Jonnes, um d<is mais audazes ma- 
rítimos, tão bem descripto ii*um romance d' Alexandre 
Dumas, o qual corre trasladado era \ulcar com o ti- 
tulo de Ca^fuo /'ou/o. Ocapitãobaxa que ha\ia ten- 
tado fazer uma diversão, atacmdo uu seu ancoradou- 
ro a oquadra rus^a á frente de outra de oitenta e 
seisvellas, fora desbaratado por Paulo Jonnes. quelhe 
tomou duasnáut de linha, queimou-lheseis, incluin- 
do a capitania e a vice-capitania e aprisinnou-lhe 
quatro mil homens. O almirante turco tinha saído 
determinado a vencer ou a morrer, e por isso se des- 
pedira da espo«a como «e nunca mais hou\r«e de a 
lurnar a vêr, edera a liberdade a todos iis seus escra- 
v<is; mas alguaas das embarcações da sua enquadra 
começaram a fu;ir vilmente, depois de quatro horas 
de CDOibate, ape>ar de sobre elias fazer fogn u baxá, 
que se viu constrangida a refugiar-se com o resto de- 
Iwixii das baterias de Oczakof. 

Ii>tes e outros revezes não queirnrani o animo de 
Hadgi-Kniael. governador da praça, o qotl, a des- 
peito do mau resultado das sortida», e dos incêndios 
repelidoi que as bomKis e bailas ar^leiiles cansavam 
nas casai, não cessou de fulminar ossitiaiites purlre- 
seiítas e dez l«)ccas de fujo, até que, chegado o dia 
Io d outubro, em raião da perda d.«s ubras exterio- 
res, e do fogo mortífero das mais protiina* baterias, 
sú p(K|e troar a arlilhcria dos lialuartes interiores. 

U> frios incomportáveis do mez de der^mbro iam 
ctlando a desesperação nos coraçiTe» do* onpugnado- 
res. Não podendo antever quando leri.ini fim estes 
duri>s trabalhos d'unia guerra sem frurt», começaram 
a murmurar conlrj a inTT.lo onc o» cuiidí nin,i\a a 



'morrer gelados nas barracas, quando podiam nacon- 
I quista d'aquella fortaleza achar ampla retribuição da 
j aturada fadiga, por haver alli grandes riquezas de 
I alfaias, armas, prata, ouro, pérolas e dinheiro. O ve- 
nerai em chefe approveitou afavoravel disposiçãodas 
tropas ; fez reduplicar o fogo da artilheria na Doite 
de 16 para 17, e tendo conseguido desmontar a qae 
os cercado* tiubaro n«s redejites da trincheira, no 
bastião da fortaleza, e na cortina do flanco do lado 
esquerdo, e visto voar, coai medonho estampido, o 
armazém da pólvora do inimigo, que uma bumba in- 
' cendiara, ordenou o assalto geral no dia 17. As sete 
i horas da manhã, sob ama abobada de fogo e por ci- 
ma a'um pavimento degeloresvaladiço, quatorzemil 
homens, repartidos em seis cul um nas, investem a pra- 
' ça pur todus os lados ; rompem os machados as portas 
du forte de Hassan 13axá; correm rios de sangue; e 
' Gomes Freire, á frente do seu batalhão, atira seábre- 
. cha, eedos priíneirus que entram na praça, onde, aba- 
tido o estandarte do crescente, faz tremular as águias 
mo'CijVÍtas soltas ao vento da victoria. 

Oczakof, a tão cubicada praça de Cruoéa, Ocia- 

; kuf, ao pé de Cujos soberbos muros tinham vindocair 

' vinte mil russos, é tomada a ponta da bavoneta em 

menos de duas horas, sem lhe valer a resistência de- 

se-perada de doze mil musulmanos. a maior parte dos 

quaes acabaram com as armas na mão ou foram bar- 

iiaramente mortos a sangue frio nas casas e nas cbo- 

iças; e, se não ha exageração n'um dos maismoder- 

nos emais minuciosos bisluriadores da Rússia, a mor- 

tanda<ie dos soldados, homens do povo, mulheres -e 

crianç.<s subiu a v/ute e ciuou mil pesso.-is. 

,' Continua.) 

.AgCA PAKV dar >AS obras rOlBCADAS, ARTES DE 
AS 1-ASSAB A PtOKA-rOMBS. 

Toi>os os marceneiros c amadores d 'este género de 
trabalho sabem que o óleo, dado nas obras f^tlheadas, 

j escurece as vezes muito a madeira : o que se evita 
usando-seda a^uj seguinte. — Tome-se : Goniniaara- 

j bica em pó duas e meia onças . Cremor t.írl.iro uma 
onça ; Sal commum uma onça. ^- Desfaça-s> tudo em 
meia canada d'a;ua. — ^.Dá-se uma demãu d*esta asna 
com um trapo jior cima du folheado, deixa-seseccar, 
e depois passa-se a obra com esta »gua a peóra-po- 
mes, ou usa-se do óleo, sem o perijo d'elle entrar 
muito pela madeira. 

Subscreve-se para este Jorncd na Typoyrapkia 
oníle é impresso ; na luja da Viuva Henriques, 
Hua A>igiista n." 1 ; ena de Zeferino, fíua dns 
Capellisias n." 32 It. — A mesma Typographia 
se poderão dirigir, parle franco, ussadwres que 
residirem nas Prorincia<, remellendo em caute- 
la do segttro a imp'irlancia de sttis auignntu- 
ras, em quanto se niio annunciain os ntmus < 
moradas dos Corrc/pondeules nas lernu prinei- 
paes. Da mestna maneira serec^ a correspon- 
dência jiura:nen!e litleraria, que será restituida 
quani) não sejíi adaptada a itiiole da Jorna!. 

Preço da assignatura annuni ou 52 X."" IJíOO 

Dito por seme>lre ou 26 .N." <504O 

N." avulso OÍ030 

Ao fm do anno se publicara um iudice ai- 
pha''eiico. cvn o rosto i^ara o i"'u-ne. 



o PANORAMA. 




PBAIA DE BOTA-FOGO. 



A BAHIA ilu Mio (l<! Janeiro ó iiin cIiik m:\U riiriiio- 
to» poilíi» (|ue SC ciiiilieecin, (leveniio li ii,iliir( ia to- 
(!at lis sua» vantagiMis e prjiici|iiies allr.-iclivys ', a cii- 
Iraiia, l)iirra iiiiil estreita, dá-liie o caracter de iiiiin 
aiii[)li«siiiia liaeia. ca|iaí de leceljer com |n'rfi'ita se- 
(;<iraii(,'a iiilinilo niiiiiero deiiavíoa: iki seu maior 
('oiii|iriiiii'iil<> 1<'iá beih le;;ii(in, ípiasi na direii,'ão nor- 
ti'iiul :, II maior iar;;4ira coin|iiila-i-<i em rjualro leguaí. 
A» iiiar(;ciis recortadas em re<'oneavo» e jjoiítaes, a 
iiiullidão deiiliju, povoadas algumas, desertasoulrat, 
mas l(j(las aprazivcis á vÍ6la, variam o i|iiadro d'eslu 
vasliasiiiio recinto, realçado pulo aspecto da pop\dosa 
capital lirasiliensi; qiiu se estende do lado doeiciden- 
te, (içando liii' fronteira a nova cidade de Nillieroy, 
(jue avulta enlre o» amenos silios rpic a circiillidam. 
A entrada manifestu-se ao» na\ej;aiile» como iini cór- 
lo leito cm cosia alcantilada, mas snliretiido serve de 
imircu o cerro de {granito denominado l'ão de A*sn- 
tar, em rasão da sna lóriíia Ijciii dislincla. A Irarra 
diviílese em duas, di^ 1)0 liraeas de lar|,-o cada uma ; 
entre ella» aclia-se o forle da Lii^e, filo no illieu do 
iiiitsiiio mimo;, amUas são dcsemliaraçaihis de cacho- 
|)0» erecilcs. A' direita aforlaleza de Santa Cruz co- 
roa um promontório (pieacalia de circoiiiMrever a lia- 
hiii, liem defi iidida alem iPisso por outros pontoB 
forlilicailos, como V illa(.;allião, illu: das Colirns eon- 
tros iiiuilos. Na retin;uarila dns lialerias de S. Jo- 
«é e K. 'riicodosio esta a enseada a <pie eliamam lia- 
ília e praia de Itotafuí^o, linda perspectiva, paÍ7.a- 
Reiíl das mai»ai,'radiiveisc|uearormoscam as visinliail- 
VoL. I. — SiiTEMiiuu li!, lylO. 



cas da capital. Para se fa/er alguma ideia d cslabel- 
la posiijào veja se u precedente {gravura. 

A regularidade do» ventos facilita o o ini;rcs?o e a 
saída dos navios; á noite e pela iiianlià o terral traí 
para o mar os lialsamicos perfumes d,i costa, e pelas 
oníe horas, (juando o calor se torna intenso, a brisa 
do mar, chamada viração, veiii' refrescar suaiemeiite 
a temperatura. Os navios que chegam appro\eitani 
esla occasião mais favorável para a entrada. 

O panorama de Constanlinopola ou de Nápoles não 
se avantaja ao do llio de Janeiro; o viajante vêcoiii 
admiração desenvidveremstt successivameiíteo» varia- 
dos e cncaiitadorts oontoriins dVsla iinmensa hahia : 
e iiVsle ponto o Novo-Mumlo disputa a Europa a pri- 
mazia dosquadros naturans. A terra perinanenleiíien- 
le se enf;rinalda com a espleiidiíla vos;elaçào dojtro- 
piíos ; dilata se a cidade ao lon{;o da praia, cerca a 
liase di; ipiatro ou cinco eminências, e allea-se pela» 
encostas, em cima das ipiaes tem assento editu ios reli- 
gioMi» t) a cidadellrt, produzindo mui picloresco ctlei- 
lo ; nui aqueduclo ile duas ordens de arcadas li;.;a iluas 
d'aqurllas eollinas, e eonilui! a a;.;ua potável aos cha- 
farizes principaes, servindo «o mesmo lem|io deorna- 
nieiilo accessorio da paita;;eiii ; esla construcção data 
do meado d<i sciMilo passado. O horisonie e limitado 
por altas montanhas, curoadaii de aUaiilis e Hj;ulhas 
de tàii singular forma, ()ue fizeram dar a esla conli- 
llieira o nomo de strm Jos ori/õos, por semelharem, 
na sua remota disluncia, os tiiho» d'estes inslrumcii. 
tes- 



10 



o PANORA3IA. 



Parece que a circumstanciada noticia, dada por um 
antigo collaborador nosso, tão liahil como bem infor- 
mado, em três artigos impressos no volume de 1840 
i!o Panorama, nos dispensava da rápida descripção, 
<|iie inserimos agora ■, sendo porém esta escripta pos- 
teriormente pelo auctor de um livro sobre as reldções 
commerciaes entre a França e o Brazil, Mr. Horácio 
Say, qtiizemos confirmar com volo estranho as não 
encarecidas expressões da admiração que excita a vis- 
ta geral da bahia e porto, onde nossos antepassados 
lançaram com feliz escolha os fundamentos de uma 
grande metrópole. 

Do orçamento da receita para o anno de 183Í a 
1835 exlrahiuse a seguinte tabeliã, que mostra em 
números redondos a distribuição da população livre 
nas dezoito províncias do Brazil e as quotas com que 
cada uma d'ellas contribuía para a renda nacional. 





o vi 




1 




'i '<^ = 


Quotas. j Total. i 


Provincias. 


2 t ^ 




; 




1=1 


Réis. 


Réis. 1 


Norte. 








Pernambuco. . 


400:000 


1.490:000;^ 




Paraíba . . . . 


100:00tj 


137:000;?» 




Rio Grande do 








Norte 


30:000 


29:000;Si 




Ceará 


150:000 


122:000íi 




Maranhão . . . 


120:000 


585:000^ 




Pará 


110:000 


262:000;^ 


2.623 :000"^ 


CenUo. 




Goyazcs .... 


S0:00t 


29:000,<í 




Matto-Grosso . 


30:000 


37:000;^ 




Bahia 


400:000 


2.396:000;^S 




Sergipe 


50:000 


196:000,<í 




Alagoas .... 


100.000 


1.39.000;ÇÍ 




Piauhi 


70:000 


100:000,^ 


2.887:000^ 


Sul. 








Rio de Janeiro 


320:00e 


5.43a:000,,«Í 




Espirito Santo 


40:000 


79:000,i^ 




S. Paulo. . . . 


270:000 


2GI:00U;?Í 




S. Catharina . 


40:000 


57:000;Si 




Rio Grande do 








Sul 


160:000 


G00:000i^ 




Minas Geraes. 


(i00:000 


746:000;S 


7.178:000# 




3.040:000 




1 2.090 :000,S 


O Ca 


STBLLO SE SaKCTA OlÀlA. 




Lenda do teculo XI. 




Fragmento. 




(CoDiiDuado depag. 3.) 





CaSTELLO aVEIMADO. 

I 

l>om timúo le/as um máu christão. 


Como de um 


lIocvK, ha mu 


ito tempo, grandes guerras entre duas 


poderosas fami 


las das terras do Rloiidcgo, onconle- 


ceu matarem u 


m fidalgo moço, de sangue godo. Ma- 


taram-o .i fals 


a fó, uma véspera de S. João, não o 


deixando, sequ 


cr, despedir do único filho que tinha, 


ainda pequeno. 


Por ler ^ 


alído do rei, c 


muito queri- | 



do das damas, o enganaram com traição. Foi ura 
grande dezar para oj cavalleiros. As duas famílias 
nunca mais se puderam vêr, e entre ellas taes motioi 
se alevantaram que chegou elrei a ter cuidado. 

Assim entraram, sahiram annos; as rixas não aca- 
baram. O que vencia n'uma era na outra vencido; 
os moços faziam-se homens, i.im para velhos os ho- 
mens, e os ódios Sempre constantes 1 

Succedeu que o filho do cavalleiro morto vieste a 
namorar-se da neta do teu inimigo. Cumo foi nunca 
se soube ; só contam qiie nenhuma historia falia de 
amores tão vivos, nem de promessas tão bem guarda- 
das. No Cm de muitos mezes deram o sim o» paren- 
tes d'ella ; como logo o acceilou D. Moço Antures! 

A justou -se o noivado para outra véspera de S. Juão. 
N'es3a noite fiiíia qiiatorze aiinos que se enterrarão 
bom cavalleiro. Q.ue alegrias por Coimbra ! Uiiindu 
o amor o sangue inimigo, das raiies do ódio floria a 
doce paz. 

O homem põe e Deus dispõe! O cavalleiro morta 
tinha um irmão da mesma idade. Amigos como fo- 
ram aquelles dois não (orna nunca a haver. Inigo Lo- 
pes queria tanto a seu irmão, que não estimava maif 
a luz dos olhos. Nasceram gémeos dia de S. Pedro, 
por isso nos dous peitos escusado era procurar mai» 
que uma só alma. 

GLuando se espalhou a noticia do desastre do S. 
João quem não havia de chorar.' — D. Inigo, o ir- 
mão orphão. — Sele dias com sete noites levou-as de 
bruços na sepultura. Rompia a manhã do oitavo quan- 
do se levantou. Cinto e espada deixou-os ; ia a rezar, 
suspendeu-se. Ao entrar ainda fez o signal da crui ; 
mas ao sahir... Jesus! por que voltaria as costas ao 
altar? Os anjos o defendam I 

O que faria sete dias com sete noites D. Inigo, na 
capelia, só? Não o disse a nenhum vivente; se o sa- 
be alguém é a cova fria. Fallava-se que um monge 
vira tombar-se a pedra, crescer da sepultura um cor- 
po, e na mão do vivo tocar a mão do morto. Visões 
do medo! Corpo que vai á terra não torna. 

Somente com a aurora do oitavo dia uma roseira i» 
abrir de dentro da cova mesmo. Que frescas rosas, 
que ricos botões nos ramos ! Mvsterio I Se lhe pu- 
nham dedo, murchavam logo; uma tlur cortada, e o 
sangue cm fio a correr do pc. Sele rosas eram bran- 
cas c sete vermelhas, todas abertas áquella hora. Ha 
já também sele nuiles que debaixo da terra, com ou- 
tras tantas feridas, não descança, bradando vingança, 
o corpo do leal cavalleiro. 

Não se fallou mais cm D. Inigo. Um anno, depois 
outro, e sele com mais cinco correu peregrino os 
desertos qne D>'us pisara, comendo das ervasdo mon- 
te, bebendo da agua dos rios, e dormindo as incle- 
mências do eéu. 

xVida penitente a d^aquelle sancto !n palavras do 
mundo. Deu-, que U' no fundo doscorações, aíTtsIa- 
va os olhos d"elio. Cedo u velhice do espirito, não a 
do corpo, lhe cavou de ruga» a testa. Por cedo que 
viesse, primeiro lavrou ainda a semente do peccado. 
Com ser chri-tão nascido, nunca mais se encoraraen- 
dou á \ irgem, nem ajoelhou a Ccur. 

Uma vez, no fim do lonjo desterro, anoiteceu-lhe 
no deserto da "yVníoião. Subitamente brilharam as 
areias como chrislal ; n;.s pontas das rochas dançaram 
milhares de luzeiros phantasticos. FalU-lbe uma voi, 
elle responde, e por sangue vendeu a salvação, .aca- 
bava o pacto de se assign.nr, quando o chão, como es- 
pelho, lhe representou a fealdade do crime, pintada 
no rosto. Tirou os olho< com horror de >i , niasaima- 
gem pcrseguia-o por Ioda a parte, como a sombr» 
atrat do corpo. 

Na lolidão dobravam sinos iavisiveis ; três veies o 



o PANORAMA. 



11 



cantar do gallo acordou os cchos ^ e d'alli muito lon- 
ge risadas soltas nas profundezas do Mar Morto che- 
gavam aos ouvidos do renegado. A» cidades maldictas 
sacudiam alegremente a mortalha d^agua, festejando 
o rei das trevas. 

i) chão furtava-se debaixo dos passos. O temporal 
rebentava com as ondas na costa, com o raio no céu, 
cora os furacões na terra. Cedrosantigos, comoo Lí- 
bano, estalavam que nem vimes; as feras, tímidas co- 
mo crianças, acoutavamse aos povoados. Gluando tu- 
do supplicava, por que estaria íurdo o corai;ão do ré- 
probo ' 

Não passou um dia d'alii em diante em que não 
corresse atraz da perdição. ll;iiava a manhã ; ornai- 
díclo curvado na margem enchia um cântaro na ri- 
beira do Jordão. Kamos enfezados torciamse em ra- 
ro toldo sobre as ervas que a frescura mal amparava 
do sol abrazador. A duas passadas desfallecia um ve- 
lho prostrado da sede e de cançaço Uma gota, uma 
»ó, d'a(|uella agua era bastante para o salvar. 

D. Inigo negou-lh.i. Com o cântaro entornado dian- 
te dos olhos, que tragam sôfregos até a ultima lagrima 
d'agua escarnece da anciã doafílicto, dizendo; uVai 
pedir ao teu Deus outra nascente no deserto. " — Mas 
o Senhor não acudiu com prodígios ao seu servo, pa- 
ra que elle abraçado com a resignação expirasse ven- 
cendo o inferno. 

Desde essa hora nunca mais Inígo estancou a sede 
que lhe ardia nos lábios e no coração. Kios e fontes 
cu se furtavam para lhe enganar os beiços, ou mu- 
davam em lume a fresquidão mal os tocava. A gota 
d'agua negada no deserto, na balança do Senhor, pe- 
lou um século de peccados. 

Cumpridos quatorze annos voltou, nunca se soube 
como, á terrado nascimento. Contavam que um ca- 
vallo cijr da noite, olhos todos chammas,rião corren- 
do mas voando, o trouxera da Judéa a Portugal. A 
rauda varria o pó, era fogo o respirar, as crinas fu- 
giam soltas. Diante os montes suiniam-se ; os abys- 
nios fapavamse; e ao passar do galope infernal os 
carvalhos tremendo varriam o pó, arvores de séculos 
j^emiam como juncos, curvado o tronco. Correram, 
voaram I Debaixo da ferradura magica os mares coa- 
lhados eram diamantes. As faíscas, lambendo alava, 
ialtavam da bocca dos volcões a coroar o rei do fogo. 
Ao juiir d'alva o corsel leviínloii as mãos, refugiu, e 
parou. A luz apontava no topo da cruz d'uma ermi- 
da. A' medida qne aclarava o dia adelgaçou o cavai- 
lo, ao primeiro raio di- s(j1 desfiz se em fumo. 

I). Inigo ouviu tanger ao pé um sino; e conheceu 
o sitio; — u mesma igreja aonde seu irmão jazia se- 
pultado; o demónio não lhe mentiu. Au primeiro 
passo abriu-se o portal de si nicsnui ; deu segundo, e 
a capidla ílluinínuu-se ; diu li'rceiro, e seccarain as 
rosas vermelhas, (loríndo as branca» De dentro, em 
cântico suave, entoavam o.i/ict t/iaiis itctla.o Esta- 
va emlim applacada a vingança do morto. 

A fú a chamar I). Inigo, e elle sem a ouvir. A voz 
do céu a ofl'eruc(;r-lhe o perdão, e i-lle surdo á miso- 
ricordia ! 

N'aquelle instante, muito longe iralll, orava a Deus 
um suncto pelo maior peixNidor da terra. Arrebatado 
»m visão descubriu um homem <u»pindo, por escar- 
neo, na cruz de Christo, A porta da capella. O anjo 
da guarda, ajoelhado no cro/.eiro, banhava delagri- 
inaii ns viisles luminosas. Mas o desacato gelou-lhe o 
pranto, e cnliriíulo de repente o ronlo h\d>iu iiaara- 
gvm, até SI! perder nu» raios do sol nas( tii. 

— iiA tua clemenclii é in»(uidavel, Si^nlior ! excla- 
mou o justo. — u Haverá liunbem perdão c esperan- 
ça |)ara o qui; te renega.'" 

A viiuupaiiuu ; as portas da cruiidu fvvharaiii-iecoiii 



grande estrondo — e uma voz, semelhante á dotem' 

poral rugindo nas selvas, bradou ao longe: — uMe- 
■menlo, homo, yuia pitluit es ! . .» 

lí 

J\«o ha gosto sem jtezar. 

j\'aquelle tempo, em terras do Mondego, que rico- 
homem havia mais nobre e mais poderoso queD.Or- 
donho conde? Do alto do seu castello, até onde es- 
tendia a vista, vallcs e campos eram todos seus. Um 
aceno de lança, «; trinta cavalleiros partiam a bom 
galopar. Uma setta do arco, e centos d'homenbd'ar- 
inas em volta do seu pendão. 

Aquella raça vinha dos primeiros lidadores das .As- 
túrias; e foi sempre raça de ferro para os combates, 
insaciável na vingança. Mouro ou christão, cavallei- 
ro ou monge, se lhe desse uma vez o nome d'inimi- 
go, podia desde logo abrir a cova. 

A idade tudo gasta. Açor \elho não vòa ás águias. 
Quando deluixo da touca bordada, nocorrer do mur- 
zello, o vento lhe açoutava as madeixas brancas, D. 
Ordonho bem sentia que se o espirito não envelhece- 
ra, o corpo já não tinha nem a metade d'antiga for- 
ça. Os annos quebraram o conde, que andava sem- 
pre triste. Só a neta, Auzenda linda, sabia o segre- 
do de o espairecer. Aquella, mais que filha, encerra- 
va o seu único amor, duas vezes o sangue da sua alma. 

Na torre de menagem vigiavam os atalaias. Cru- 
zando de um para outro lado, não faziam senão esprei- 
tar se rompia de longe a lustrosa cavalgada que ee 
esperava en\ Santa Olaia. Escondeu-se o sol detraz 
do ultimo outeiro, o clarão da tarde desmaiou no to- 
po da cruz, apparcceu em fim a lua, sem nas campi- 
nas ao redor se avistar um só vivente. 

Era no castello véspera de noivado; Auzenda, a 
bella Auzenda, casava com D. Moço Ansures. Estava 
por horas o S. João, e cumpriam-sejiístamente qua- 
torze annos <]ue os monges negros rezaram em volta 
da tumba dVim cavalleiro assassinado. 

Pensativa ao seu balcão, por que estará Auzenda 
mirando a coroa do fronteiro monte ? Córdova e Gra- 
nada, entre mil, não contam uma pérola d'igual va- 
lia. A ilor do Mondego não tem par. Sorrilhe o céu 
nos lábios; c.diellos louros são laços d'oiro que o ven- 
to ondêa ; olhos azues, onde o amorsuspira languido, 
oh! quem pudera vence-los como d'elltís foi vencido 1 

O delgado cinto aperta no talhe csbillo roupas li- 
geiras, alvas lie neve; no rosto rosas que desmaiam em 
lírios, no bocca um riso sua\e, furtivo. Oveudetis- 
so bordado, ora solto folga á brtza, ora em pregas des- 
ce ao seio, palpitando. Eil-a sao com o luzir d*alva, 
ferindo os pés de IVaga em fraga pela Íngreme aspe- 
reza da serra. IJoninas e cecéns ticem-llu- a coroa svl- 
vestre, pelos hombros em anneis l\igen\ livres as ma- 
deixas. Ajoelhou-se á cruz solitária, mãos erguidas, 
olhos meigos. E n oração matutina, que na fragrân- 
cia d'aurora sobe, como perfume, ao throiio do Senhor. 
O vestido branco, deseidiando ns formas graciosas, 
visto de longe (liieluii na vaporosa madrugada como 
visão, (|ue voou do céu nos raios da primeira liu. 

Ella a chegar, um cavalleiro que sae do lado op- 
[losto. Trazia brancas nriiuis; no capello o açor do 
Douro, e na coita a cruz azul e branc.i. E D. Moço 
Ansinis. Aos (lés da cruz oraram juntos — olVerecen- 
ilo a Deus «quelle anior. Elle deu-lh>^ um aniicl de 
prata singilla, ella um laço cortado da» tranças d'ouro 

— ..Voltas.'.. 

— ..Dia de S. João.» 

— ..'rào tarde '. >» 

— t.Uuurcs luait vvJú.' uu véspera a meia uuulo.» 



12 



O PA1NORA31A 



«Oh! Juras .'n Voltearam as danças, corriam at taças, e pelas por- 

i. Se jurarei! — á meia noule, ou morto ou vivo. >' tas palenle% do alcácer, uns e depois outros, entra- 

Seijararam se. D('spediu o cavallo pelas -çiirjraiilas ! vani monges, donas, e cavalieiros. D. Ordonho poi- 
rlo Mionie até te perder detrazdo ulliinu outeiro. lil- se' de pé: — u A' paz das Hcspanhas 1 n jçritoucoma 
Ja ficou-o oliiando ate lliefuj;ir da \isla na distancia. 1 líira erguida. A longa acdamação dos convivas aco- 
J'or que tliorani os lindos olhos se elle lia de volta.' ' Iheu a saúde do guerreiro velho. 

(lueni sabe! Deullie o coração nnia pancada. } — u l'oí!-am como esta findaras rixasenire irmãos! " 

No balcão o aue tcisinará sósinlia Auzenda .' Serão j Ainda não pnnlia oxa^o na mesa quando um gri- 
receios de noiva, ou saudades de namorada.' | to llie escapou, 'iodos oiliaram attonitos. etodosfica- 

Ao cair da noule retiniu a sineta ir^talaia. Do- | rani com as taças suspensa?, imnioveis como estatuas, 
nas, cavalieiros e pagens approxiniavanise docastel-' IWo lo^ar vasio do pai de Moço Ansurcs derepen- 
lo ; é a suspirada coinitiia. As armas reluzentes, as', te apparecia um homem sentado. \ estia armas pre- 
plunias que o \cnlo (ieiíruça para orosto, os ricoí ta- I tas, antigas; viseira callada ; por cima cot ta nejra, 
l'ardo5 de nializ scinliliauí ai> fulgor dos fachos. O som ( e n'ella liordado o açor do llnuro. 
das tropas, o latir d^itrelladas matilhas, o relinchar i Descalçou o -ruanle direito, e tomando a primeirj 
dos cavallus fu';osi>s, « o voicar de cavalieiros e peões laça levanlou a lentamente: 
animavam o quadro mais bello. I — "D. Ordonho, conde Ordonho, disseste bem ^ 

Pela estatura de gigante o conde Ordonho sobre- i á par, do S. João! 
báe. lí o carvalho velho que abriga osarbustos ásom-| Não bebeu. Derramando todo o vinho nas toalhas 
bra. O seu brado vence o ruido da confusão geral.- i escorria sangue vivo. Aonde pousou o pratu da laça 



■ II l'agens, escudeiros, fazei honra 1 " 
A's lestas só um lioinem falia — com elle tudo fal- 



licou o signal de ferro em brazii. Alçou então a vi- 
seira. Ollios, feições e nuidos todos eram docavallei- 



ta. As frescas horas de junho deviam traze-lo aos pés j ro morto fazia quatorze annos aquella noite. As fa- 
(PAuzeiula — a escuridão cerrada, e elle nãoappare- j i-es, as barbas brancas como o sudário em que o en- 
ce ! Do lado de Coimbra não ha rebate de mouros, terrarani, lembravam qiie [lor cima lhe tinha passado 
as almenaias visiiihas dormem em silencio;, qual se- o frio da sepultura. 



rá o motivo d.i tardança de moço Ansurrs.' 

Aiiles irunir á sua a mão de Aiizenda o mancebo 
quiz justificar o teu perdão aos olhos da Ilespanha 
clirislã. — A alliatiça unia o sangue dos duas casas 
inimigas; mas alli[ierto (podia-o elle esquecer ?) não 
jaziam os ossos de seu pai inquietos jior vingança ! 
Aão ha nome mais feio que o nome de covarde, e 
talvez dissessem : u I\loço Ansures, o fraco 1 vendeu 
por uns olhos azues o sangue de seu pai. » Foi |)or is- 
so que não quiz deixar envergonhada a boa espada. 
Saiu occullainentc quinze diasanlcs doS. João. Gal- 
gou os montes, Iranspoz os rios, e nas ricas terras j 
d'An<!aluzia, na lide dos pelejadores de Leão Ires ve- ; 
7.e5 jilanlou a cruz dcCIíristo nusaniei.!S mouras. As- i 
sim ó que D. IMoço respondeu aos que fingiam cho- j 
rar jiela lança de teu tio. viandou logo adiante o liei I 
escudeiro ao conde Ordonho, e o seu pagem repeliu 
u Auzenda o juraincnlo feito na cruz do monte. 

— II A' meia noile, véspera de S. João, ou morto 
ou vivo ! » 

Na sala lie Sania Olaia resoaiii mil grilos d'ale- 
gria. (iiic luz que faiscain ai malhas polidas, quere- 
lle.\o que cega nos dourados c:ipellosI Cavalieiros 
moços faliam d'aniorcs. ajoelhi dos ás donze las ipie 
os esculam noestiado. Violasedoçaiuasacoiiipaiihain 
as eiuleixas novas do ubiino tro\aJi>r. .Mais longe, no 
turbilhão de cem cores, no laço de mil lórmas gentis, 
vollcam as danças, e o furtivo olhar de galantes pa- 
res pronulle dias paiecidos com este a mais de um 
solar deserto. 

Na vasta (juadra do festim, em quanto não chegam 
os convivas, geme o vento nos frizus chuçarias dusco- 
Inmiielus delgados. A lua, alia no céu, deita pelos 
vidros corados unia ;;olpliiida de luz mortal, que tre- 
ine na ponia dos ferros encostados ú sala. — De re- 
pente as tr<iin|ias quebram o silencio. O clarão dos 
fachos retleele, avisinhase, e alarga o circulo orlado 



Todos quizeram fugir, e ninguém se poude mover. 
O cavalleiro era Inigo Lopes, o irmão gémeo de D. 
Anaur. (Continua.) 




n.0BKCTO SOCTHSy. 



A IxoLATKmiA, entre ouhas \irlui!es pmpri.i» d.il 
grandes nações, «prescnta a de um orgulho legitimo 
de sombras, (|iie se estira no pavimento. Escanções | pelo ein;i-iiho dos poetas, ou inventores, que » lUus- 
cnclKUi taças, circulando-as em redor. Saúdes, dic- Iram Kol erloSoulhcy meric-u aos jeuseoiilerraneo» 
los, risadas trocam se, baralham se, c confundidas vão | a honra de um monninenlo, cuj.i estampa InjedAnios 
de um «o outro e.\lremo''da mesa. ! no Panorama. nin'_'"ein ignora que apreço acollnu a 

Knire os da sua raça 1). Ordonho é o mais confen- ! carreira de WallerSctt, econi que vener.içâo ainda 
lo. A' esquerda tem Auzènda ; á direita umescanho hoje m; pronuncia o nome la.vfi mais cilebre «-iilre 
vago espera Moço Ansures. Defronte, n'oulru tam- os insignes escriplorcs modernos — o nome de lord 
bem vasio, estaria o pai do noivo, se podesse deixar l?vroii. ao mesmo tempo famoso pelos infortúnios e 
u sepultura. Cobre-o um grande >cu de lucto. pela gloria. Iau uma terra que os sabe agasalhar, as 



o PANORAMA. 



13 



lettras cullivam-se, vivem, e ennobrecem a reputa- 
ção dos povos. Athenas eRoina, d» diias maiores glo- 
rias (ia aiilij;uidade, reinaram nos século» pela civi- 
lisa^-ão intellecliiai, ainda mais do que pelas luctas 
(juasi civis da primeira, ou pela amlji(,ão conquista- 
dora da sef^und.i. 

Roberto Sontliey escreveu diversos poemas, no que 
á força querem ainda hoje chamar uogoslo romanli- 
co. >' Joauna (V Are foi o primeiro, e 7'Aa/i(6a o se- 
gundo poema da sua pcnna. A' critica dos estran- 
};eiros não cabe apreciar as qualidades da sua me- 
trificação, nem os dotes do seu estalo. Esses pon- 
tos são do domínio exclusivo dos censores nacio- 
iiaes, familiarisa<lo8 com os segredos o as bellezas da 
língua natal. Mas pôde se assegurar qut; a satyrade 
lord l$vron, Ião celrbre ainda, aos bardos da Escó- 
cia, a respeilo dVlbí <ití certo foi mais que satura, e 
€!slá muito longe d<' satisfazer as condições da im- 
parcialidade lilteraria. O nobre poeta corrigiu depois 
o acerbo das primeiras iras, e mais de uma vez se 
Hrrcpondcu do impelo <lo cbolera (|ue o arrastou a es- 
folliar os louros de bomcns, que o tracto litterario fez 
depois seus iniimos amigos. 

iMas é doloroso que, em quanto a Inglaterra ins- 
creve em jaspe, como paginas do brazão bcreditario, 
n gloria dos mais illusires dos seus íillios, núsospor- 
tuguezes ainda não achassiinos nas ric.is pedreiras 
d'este -solo um só mármore para lavrar o nome dus 
engenhos escolhidos, a quem devemos tanto. Negá- 
mos até agora a Camões uma pedra, uma data, e 
lima saudade. Esse está vingado^ o mundo é o seu 
monumento \ — em toda a parle, aonde se entenderem 
os magoados cantos da sua Ijra, tem um padrão. Gas- 
támos fcm dòr em assara pintar de ocre e vermelhão 
a architectura dos templos gotliicoa, cotno vulgarmen- 
te se diz, e cisámos com avaraza algumas moedas, que 
tirariam de cima dVste reino a Te|>relR'nsão de in- 
grato que o envergoiilia ilesde séculos ! 

lia dias que se ajiagou o maior sábio dos nossos 
dias, o Sr. Silvestre 1'inlieiro; caiiçado de uma lon- 
ga existência de estudo o meditarão desceu ao tumu- 
lo, e n'elle esfiiou em iini o pensamento <[ue tanto 
«mon o berço natal, e que nem uma hora tiquer <!ei- 
xou de lhe consagrar as suas vigílias. Diante da cos- 
tumada iiidillereiíça, a amisade dosseusdiseípulos po- 
de ser que não consiga erguer o nioileslo monumento, 
que li'inlire o pensador — o publicista, diante doqual 
a Europa se inclinou i om resju-íto, e cujas lições 
(quem sabe!) o fnl.iro nos lançará, talvez, em rosto 
Mão ter subido approveítar. Ciue bello dia aquelle 
oin (|iie a protecção ao estiido, a veneração ao génio, 
<! o respeito á gliTÍa linidineole se naturalizarem em 
J'orlugal. N'e^se dia esta nação lormiu na realidade 
a ser o reino de !). iM.inuel e deí^nnõis 

Vossiim estas palavras ingénuas ser ouvidas — pos- 
sam estas breves linhas ac-ordiír no coração dos qua as 
lerem o allecto pelas nossas cousas e o iiinor pela ei- 
vilisação, (|U(! ha instantis de desespero moral, em 
que parece que estão mortos e si.'pultados para sem- 
pre. Desgraçado do povo que passa frio e irreverente 
pcdas memorias da sua antiga gloria — i; um cadáver 
de que fugiu a nobre alma que o animiiva — a na- 
ei<inaliibule. Não esperem d'elle nada — era pedir a 
lloma im|ierial a espada de itoma consular, a Tibé- 
rio as virtiidi's au^l(■ras do primeiro censor. 



(JOMUS í''iii'.iuif. nu Animivdi:. 

((ajiilinniniiid ilr \\[\'^. (i.) 

A IMPK iiATuiz premiou C(Mii mercrs honorificas e 
pecuniárias os generaej u oíficiacs que mul-> se dis- 



tinguiram na (ornada de Oczakof. Potemkin, afora 

um presente de cem mil rublos (8õ:.30O,^00O réis), 
alcançou a grão-croz da ordem deS. Jorge, para ob- 
ter a qoal, segundo se disse, havia aconselhado esta 
guerra cruenta, obra da emulação de potencias euro- 
peas, que levou iminensidade de victimas ao mata- 
douro. Durou a campanha cinco annos, e ireste pe- 
ríodo morreram o sultão Abdul-llamet e o impera- 
dor José 11^ aquelle, se a fama não mente, de mor- 
te violenta, porque se inclinava á paz. Selim III, 
exacerbado por uma serie de revezes, e pela perda 
da praça do Ismail, cuja numerosa guarnição foi pas- 
sada á espada, empenhou na desforra todas as forças 
do império turco, sem o demoverem de seu propósi- 
to a fome e a peste que assolavam Constantinopola, 
o temor de cair traspassado pelo punhal dos ulemas, 
que, por vezes, viu bem perto do peito, e o geste 
ameaçador com que um povo, pailído como um ca- 
dáver, faminto qual fera no deserto, exigia, ao cla- 
rão lúgubre do incêndio, que a paz viesseacabar-lhe 
os tormentos da fome. Exhaustos os thesouros, de- 
cretou (|ue todos os seus súbditos levassem a cunhar 
os moveis ile ouro e prata para serevn pagos os exér- 
citos, e, cuinopara sedesallrontar das\lerrolas, man- 
dou cortar as cabeças d'uni grão-vísif e de outro» 
grandes personagens, ou pela culpa de covardia e des- 
lealdade, ou pela de temerários. O visir Gazi-IIas- 
san-Ha\á, um dos mais fieis e destimidos servidores 
dal'orta, (|ue exercera os principaes cargos sob ornan- 
do de três sultões, poz termo á vidaenvenenando-se a 
si ou envenenado por outrem, logo depois de contra- 
hida entre a l'russia e a Turquia uma alliança, a 
que este velho venerando sempre se op[)uzera, bem 
como se havia oppostodebalde á continuação daguer- 
ra, que de dia para dia causava novos estragos. Com- 
ludo, resta beleci<la a paz entre a Rússia e a Suécia 
ao» 3 de agosto de ITDO, e entre a Áustria ea Tur- 
quia em 4 de agosto do anno seguinte, os gabinetes 
de Londres e de líerliii trabalharam eflicazmente 
paru coiigraçar a Turijuía com a Rússia, e vencidas 
algumas dillieuldades quanto a ficar a ultima com a 
praça edistrícto de Oczakof, renasceram a» esperan- 
ças d'uma [)roxinia [lacificação. Apressaram-na porém 
a declaração formal (|Ue fez a 1'olonia de que nunca 
entraria em liga ollensíva com a l'orta, a continua- 
ção dos incêndios que em quatro me/es tinham devo- 
rado trint.i e (luas mil casas, e uma nova conspiração 
contra S.dini, cerc.nlo pelos descontentes dentro da 
mesquita de Achmct, (ronde escapou acusto. Tudo 
isto obrí;;iiu o governo turco a annuncíar a paz, <|ue 
se concluiu cimi clleito em Jassv aos 1\) dedezembrn 
de 17"J1. 

Gomes Krciíe, (|ue, estando aind.i n i lluisía, fora 
promovido a tenente corcuiel du 1.'' l'lanu da C(jrte 
em 8 de outubro de 17U0, e a coronel do regimento 
du marquez dus Minas em IS dej, melro do anno im- 
medíato, voltou a l'ortugal em setembro do 17UJ, con- 
decorado com o habito da ordem de S. Jorge, com ()Ub 
a imperatriz (.'atliariíia o recompensara pela ncçãode 
Oczakof, alem di! lhe dar uma espad.i de honra e o 
posto dl- uoToiíid dos exi^rcitos moscovitas. 

.\ (-'onvençào Nacional, em sessão de 7 do marçu 
du l7'Jo, declarou guerrit ú lli-spanh.i em niuneda re- 
publica IV.ineeza, e votou (jueo exercito dos 1'vrínéus 
se compo/esse de cem mil homens. Carlos l\ , n'uiii 
manifesto di^ i\\ do mesmo ine<, rceapítulaudoos es- 
forços (]ne fi/,eiii pura salvar IjuÍz W I, einc|ueixas 
i|Ue tinha d.i re|Hiblii'a, levantou a luva ^ e 1'urtugal 
acudiu á sua vi>lnha e alliail.» com o cuntingontede 
seis regimentos de inianieria e um de arlillieriíi, (pie. 
com o título de exercítu auxiliar do ilespanha sob >■ 
cominando do leneiile general João Foibcs dctskil- 



14 



O PANORAMA. 



later, saiu do porto de Lisboa na tarde de 20 deic- 
tembro, em quiilorze iiavius de transporte, comboia- 
dos pelas iiáiib iMuduza, lioni Succcsso eS. Sebastião, 
e pela fragata Veiius. u N"este exercito, dizia a Ga- 
«eta de Lisboa II." 40, do 1 ." de outubro, « vâoconio 
voluntários o iiiarqiiez de Niza, João Gomes da Silva 
Telles, o dutjue de Northumbcrland, e opriiici(iede 
Moiitnioreiíc^' ; o conde deCbaloiis se elTcreceu i^tial- 
niente, mas licou detido por moléstia, e intenta ir 
por terra : o mesmo se propõe fazer Gom^s Freire 
de Andrade, o qual depois de se ter dutinijitido glo- 
riusaviíule no serviço da Rússia e l'tnssio, voltou 
«qui nas vésperas da partida do soiíredito exercito, a 
qne de\e unir-se para pôr-se atesta do regimento de 
que é coronel. » 

Ksla pequena porção de tropa sustentou em toda 
a cainpaiiba do llossillioa a honra do nome portu- 
guez, e lez-se credora das disli noções com que a so- 
l)erana a galardoou. A granada ou a [JCÇa <l"artilhe- 
ria bordada no braço direito do veterano (I) deviam 
encbel-o de ufania, recordando que fora elle um dos 
que primeiro se oppuzeram á fúria dos francezes. 

A priiiifira acção para cujo feliz resuliado os nos- 
sos muito concorreram foi a de Ceret, dada aos 26 
de iioveml)ro de 17'Jt). Ricardos, general emcliefedo 
exercito liespaiihol, já não tinha coinmunieaçõescom 
a Hespanba senão pela villa de Ceret, e para o privar 
d esta, Turreau, general em chefe do exercito fran- 
cez, apreseuta-se de súbito diante d.i villa, e inves- 
te-a com Ímpeto. O 2." regimento do Porto, l."de 
Olivença, e os Freire de Andrade e de Cascaes, mal 
acabavam de alli chegar : cançadosd'uma penosa mar- 
cha, e repassados da chuva, tomam parte noconllic- 
to. O incessante fogo daartilhcria republicana lança 
o terror entre os defensores da villa e ponto de Ce- 
ret; mas o conde da União faz retroceder os fugiti- 
vos, voa em soccorro da praça, desaloja o inimigo 
d'um reducto que tomara, persegue-o até os seus en- 
trincheiraincntos, á frente dos hespanhoes e dos por- 
tuguezes, toma-Uie Ires baterias á bavoneta calada, e 
recupera as antigas conimiiiiicações. Gomes Freire 
estava servindo de brigadeiro de dia, e oseudistinc- 
to valor foi elogiado nos oflicios e participações do 
general Forbes. 

Consecutivamente ganhou o exercito combinado as 
acções de \ iHalonga, e apoderou-se das praças de 
S. Telmo, l'ort-Vendre e Collioure. As portas da 
primeira abriu-as a traição <loseo <;overnador, depois 
de derrotadas as tropas de Ooppet, successor de Tur- 
reau, ede terem desamparado os entrincheiramentos 
de llan^uls-les-Aspres ; Í'ort- Vendre defendeu se, mal 
a sua guarnição, privada do soccorro do exercito, quei- 
mou as munições, encravou a artillieria, eretirou-se 
para Collioure. O general Cuesta, para a tomar, pro- 
curou incutir o maior terror. Ftz avançar demiitea 
.irlillicria contra esta praça, laiiçou-lhe algumas bom- 
bas e granadas, e intimou a guarnição para depor 
as armas, a querer salvar as vidas. () espectáculo pa- 
voioso de três batalhões descendo do forte deS. Tel- 
mo com archotes accesos para queimarem a cidade 
acabou de resolver a guiirniçào a render-se. ^o dia 
■2i de dezembro de 1793, depois de deienoxe horas 
de combate, licaraiu os alliados senhores de Colliou- 
re e dos seus fortes com 88 peças d'artilheria, d'um 
arsenal bem provido, e do melhor porto daco-ta. K 
tão deplorável foi o desbarato dos fraiiccií-s, qoe Fa- 
bre, commissariu da Convenção, não podendo recon- 



(1) Por (locroto de i 7 de dezembro de 1705 se lhes con- 
cedeu este «tisliiiclivo, sendo de ouro .i dos generaes, de 
prat.i .1 dos uniciaes, e de lã braQca * iloi «nicUei iDr*riu- 
rcs c soldadui. 



duzír os fugitivos á refrega, diligenciou e conseguiu 
morrer no campo da honra. Com esta acção geral 
terminou a campanha de 1793. 

A Doppet succedéra Dagobert, e por morte deste 
tomara o commando em chefe o general Dugom- 
mier, famoso pelas suas viclorias nos Alpes, e por ha- 
ver arrancado Toulon das garras dosinglezes. O con- 
de da União, general eui chefe, di^no de competir 
com elle, tinha reunido o grosso do exercito no cam- 
po de Boulú, dentro de linhas fortiticadas e guarne- 
cidas de artilheria, as quaes os francezes forçaram to- 
davia apesar d'uma desesperada resistência ; e como 
todas as estradas estivessem cortadas, foram muitos 
os mortos, e passaram de dois mil os prisioneiros. A 
retirada fcz-se com incrivel celeridade, por espaçode 
dez léguas, atravessando montanhas, pt-la beira de 
precipícios, e debaixo do fogo dos republicanos. 

Ao primeiro tiro de canhão, precursor do combate, 
pula o coração do homem mais intrépido : desperfa-se 
então com toda a força cin^tincto da vida. e o valor 
verdadeiro consiste em saber domal-o, conhecer o pe- 
rigo, e ir-lhe ao encontro : mas passado este breve 
instante da lucta entre o dever da honra e a natu- 
reza que repugna á própria destruição, o que pôde 
na peleja trocar tiro por tiro, cruzar ferro com ferro, 
logo perdeu, com raras excepções, o ap>ego á vida. 
N'este eslad<i de exaltação todos são destemido». Não 
assim o que, medindo os perigos, está condemnadoa 
pensar na conservação commum : n'esse requer-se 
uma abnegação quasi incompatível com as forças hu- 
manas. Gomes Freire linha esta qualidade. Gluando 
nas balas inimigas ou nas lascas despegadas das pe- 
nedias voavam mortes, quando os soldados caiam d» 
cançidos ou rolavam nos abysmos, era espectáculo 
magesloso vêl-o, impassível, cobrindo a retaguarda e 
velando na salvação de todos ; nem causava menoi 
maravilha, quando os mais dos soldados tinham lar- 
gado as próprias bagagens, ver um punhado de arti- 
lheiros portugiiezes levando cm braços as peças pelo» 
alcantis dos Pyrinéus. 

Depois da retirada do \P de maio de 1794 recu- 
peraram os francezes S. Telmo, l'ort- Vendre e Col- 
lioure, e a praça de Bellegarde, e em 20 de novem- 
bro deu-se a terrível batalha da Montanha Negra, 
disputada dois dias, com outro de intervallo, e em 
que morreram dois generaes em chefe : Dugommier 
no dia 18 de uma granada que lhe rebentou na ca- 
beça, estando, entre os seus dois filhos e outros ofíi- 
ciaes, a dirigir, docume de Montanha Negra, os mo- 
vimentos do exercito; e o conde da União no dia 20, 
no momento de montar a cnvallo na bateria de Rou- 
re para dar no iniiuiío a frente dos seus. Pelejou-»» 
todo o dia 18 até anoitecer, e grande parte do dia 
20 : ficaram mortos perto de dei mil homens, e pri- 
sioneiros oito mil, contando-se n'esle numero o 1. 
regimento do l'()rto. que, sendo atacado por tret for- 
tes columnas, não poude de modo algum resislir-lhe». 
l)'aqiii em diante cuntinuou a guerra com incerta 
fortuna, porque se o exercito alliado obtinha de 
quando em quando alguma vantagem, oshespanhoe» 
foram perdendo as suas melhores praças. K de Fi- 
gueiras rendeu-se covardemente cm 27 de novembro, 
e a de Rosas foi desamparada pela sua briosa guarni- 
ção na noite de 2 para 3 de janeiro de 1795, depoii 
de setenta dias de cerco apertadíssimo c mortífero, 
que immortalisou a perícia do general Perignon e a 
constância sublime do governador D. Domingo» Ii- 
(|uicrdo. F.ntretanto D. Jv»c de Urrutia, successor 
do conde da União, bateu os francezes em Baseara e 
em Calabuix, manteve a reputação d.is armas he»- 
paoholas no ataque do Fluvia e outros recontros, » 
por ultimo na tomada do posto de Puig-Ccrda • 



o PANORAMA. 



15 



■itio de Belver, em que muito se distinguiram oa 
portuguczes. 

£m virtude do tractado de paz entre a Hespanha 
e a Kraiiya, assignado aos 2'2 de jullio de 1795, se 
embarcaram as nossas tropas, cobertas dos elogios 
dos alliados, e tendo arribado a Málaga, só puderam 
entrar no Tejo nos dias 10 e 11 de setembro. O l'ri- 
cipe Regente foi \él as a bordo, e fez muitas mercês 
a militares Ião beneméritos. 

Gomes Kreire, por decreto de 17 de dezembro, su- 
biu a marechal de campo graduado, e por outro de 
20 do novembro de 1706 passou a eflectivo. Doisan- 
nos depois deu-se-lbe a commenda de Sancta Maria 
de Midõct, tendo já desde 1781 a das Herdades de 
Mendo Marcjucs, despojo ensanguentado do duque de 
Aveiro. 

Em 1801 foi nomeado quartel mestre general do 
exercito d'enlre IJouro e Minho, e em 180G publi- 
cou o seu liiisaio sobre o mclhodo de ovQainsar em 
Portugal o cjercito, com o Cmd'applicar o systema 
da urganisação mililar da Suis?a, combinando os car- 
gos dos dillerentes ramos de administração publica, 
por tal modo que a deluza do estado fosse incumbida 
a todos aquelles cidadãos próprios pela idade e pela 
constituição ph\".ica para o serviço de inilicia n^um 
determinado periudo, findo o qual, voltariam, como 
licenciados, a occupar-se em seus antigos misteres, 
renovando-se assim o exercito com pouca despeza, e 
liabilitando-se todos os mancebos para pegarem em 
armas sempre que a pátria reclamasse os seus braços. 

Os crentes em agouros não terão deixado de notar 
que a epigraphe dVste livro é o seguinte verso de 
Uoracio : 

Dulce ei decorum e». ~ro pátria rnorí. 



Seria vaticínio? 



(Coniinúa.) 



A COMPAKUIA DO CoiUMERCIO UAJ PeLLCS. (1). 

A CoMi-AMriiA ingleza da bahia de Iludson alarga a 
»ua dominação não són)cnle por Iodas as possessões 
britannicaa n'aquella baliia ; mas também pelo tão 
contestado teírilorio do Oregon, e até n uma parle 
da Califórnia : em relação ã America está qiiasi no 
mesmo caso da Companhia da índia a respeito da 
Ásia \ para a aristocracia financeira e mercantil da 
Grã-líretauha é um meio de estender o monopólio, 
e para ogoverno o instriiniento de adquirir território. 
A companhia da balii.i d'lludson dispõe irum ca- 
pital mui considerável, dividido cm acções ; e a maior 
jjarle dos accionista» é residente na America, e vi- 
giam pessoalmente os negócios da companhia. Os cu- 
bo» ou leitores tem o titulo de sócios, dirigem as lei- 
toria», o tem direito a um vencimcnlo eipiivaleiíle a 
um oitavo de acção, islo é, :25:000 fr. (I-.UOO^OOO 
réis);, aos agente» subalternos só pode con)p(>tir anie- 
tade «resta «juaiilia, o decimo sexto de uma acção, 
Annualinenie o» principaí!» agentes reúnem seemas- 
sendiléu geral em York (alio Canadá), onde «e exa- 
iiiinam o» relatório» dosagcMilessi^cundarios, seliqui 
dam a» coiila» da sua gi'reiicia, se discutem e resol- 
vem o» proji'cloH do operações paru o seguinte anuo, 
e «» novas orden» ipie «<! hão <le expedir uo» caçado- 
res de conlraclo; em «umma, é esta a direcção ge.ai 
para tractar do migmi^nto dt; fazendas para acompa- 
■ diia , vigiando iiiniliido, nos ilistrlilos <|ue perten- 
cem ú mesma privai ivamente, a conservação dos caa- 

(I) Extracto de uniu ohra mullo recente do iníijor (í. J. 
1'oussiu íocrca dus lislaiioí-Uuidus, u rcaiòcii adjacouies. 



teres. Todos estes relatórios são depois enviados á di- 
recção de Londres para um exame individual. 

Km virtude da sua organitação, oii faculdade cons- 
titutiva, a companhia exercita sobre todos os seussu- 
bordinados completo despolismo, direito absoluto de 
liberdade, vida e morte sobre toilos os que andam ao 
serviço dVlla, quer sub-agentes e empregados, quer 
contractados eetcravos, porque a escravidãoque exis- 
te nas tribus Índias é admittida igualmente em toda 
a circumscripção do dumiiiio da Companhia de No- 
roeste. 

Os cabos ou feitores tem direito de vida e morte 
sobre o individuo inferior que se não submelter aos 
regulainenlus da Companhia. Estipulam, alteram, 
ou suppriuiem á sua inteira disposição os salários doi 
agentes ou empregados; e lixam como querem o pre- 
ço de lodos os géneros ou objectos de consumo, bem 
como das pelles de castor vendidas pelos indígenas. 
D este modo realisam, tanto em compras como em 
vendas, lucros que não são inferiores a 300 porcento. 

Os contractados, em geral naturaes da Escócia ou 
do Canada, alistani-se ao serviço da companhia por 
cinco annos, pelo preço de 37o a 42o francosannuaes 
pouco mais ou menos (liO^UOO aUS.5(000 réis) : mai> 
recebem os caixeiros das postas. — Todo aquelle pes- 
soal é armado e submettido á mais severa disciplina 
como tro|)a regular: qualquer acto de insubordina- 
ção é immediatameute punido de morte. 

Cadaum caçador anda acompanhado de dois ou três 
escravos. O [ireço de um escravo indio é de dez até 
vinte cobertores; é mais subido sendo escrava. Se al- 
gum morre dentro do semestre immediato á compra, 
o vendedor é obrigado a restituir metade do preço. 
O engodo da retribuição pela venda de um indígena 
tem tal força entre os Índios que são frequentes os 
exemplos do pai vender os filhos. 

A companhia cobriu o território do Oregon de fei- 
torias e de postos militares, que servem de depósitos 
e de pontos de reunião para os seus agentes e para 
os Índios. Fundou a feitoria ou deposito central em 
Vaiicoiiivr, na margem septentrional e quasi a 36 
léguas da embocadura do Colômbia, aonde chega a 
navegação avela; eao sul do mesmo rio o forte Vino- 
qua, próximo á foz do (|ue tem este nome; invadiu 
parte da Califórnia, e occupa uma importante posi- 
ção na enseada de S. Francisco, que ó das maisbel- 
las de todo o litloral noroeste do Mar 1'acilico, e on- 
de podem entrar navios de todas as lotações. E se- 
nhora <le in.ii» de 500;0f)0 milhas quadradas, ealéin 
d^issu de Í2.o00;000 milhas para leste das montanhas 
ditas Ilocheuscs. Finalmente, como se não bastara o 
território do Oregon á ambição da Inglaterra, que 
a»[iira ao senhorio absoluto no Pacilico, embora ilis- 
piitado; e ])ara não ter que recear aconcurrencia da 
lliissia nos mercados da China, a companhia da ba- 
hia de Iludson tomou <le arrendamento em lt!o"J, por 
dez annos, lodosos estabelecimentos russianos na Ame- 
rica dol\'(irte, in<'(liaiite o redito aniiual delJOilLiOO 
mil fraiKiis ; coniludo esta convenção «'xcluiii oposto 
da ilha de SitUa, em a nova Arkangel, onde allut- 
sia tem um i'stabil('ciineiito mui vasto. — Como ul- 
timo indício demonstrador das intenções ila Iiiílater- 
ra i|uanlo a rsla parte da America, e deque osame- 
ricanos da l'nião se receiaram, appareceu o pl.mo 
daoccupação permanente do território do Oregim pe- 
la fundação de estalHlcciínentos agrícolas oindustríaes 
» par da creação de escholas piactieas. 

A companhia, para segurança do seu cominiTcio, 
dispõe dii uma pcípiena força naval, composta doqua- 
tni navios do alto mar, duasgoh-las destinadas .i cos- 
tear a Califórnia até os pontos russianoii, o um barco 
do vupur, todos armados uiiit;ucrra. Kuiiduu iiiaii im» 



16 



O PANORAMA. 



ilhas de Sandwich uma estação onde as suas embar- 
cações vão tomar refresco e provimentos, e ao mesmo 
tempo frfzer negocio. — N'esfas mesma» ilhas m nu- 
meroso; baleeiros americanos estabeleceram também, 
com o consentimento das auctoridades locaes, nma 
estação de arribada. K com efleilo estas illias niui 
importantes da Oceania são as únicas que appresen- 
tam todas as vantagens de porto de abastecimento, 
favorável aos interesses commerciacs que attralieni 
áquelles mares todas as nações niaritiroas. 

As ilhas de Sandwich estão reservadas para um 
brilhante futuro de jirosperidade comniercial, pe- 
la sua particular sitnação geographica na Oceania, 
equidistantes da America e da China, e são a linha 
obrigada do trajecto dos navios europeus que vão as 
Índias ou ás pescarias. Os habitantes indígenas cora- 
prehcnderam as vantagens de tão exceiiente situação, 
p. por isso tem procurado que a sua independência e 
neutralidade sijam reconhecidas, e m.andaram com- 
niissarios a AVa^hington, a Londres e 1'arís, para 
traclarem de seus interesses, como nação livre. 



A Rainba NoMAHA^■^*. 

Jixirahido das viagens do capitão }Usso Oilo de Kotz- 
bue — A new voyage round the world. — 

O CAPITÃO Kotzbue (filho do celebre escrijilor alie- 
mão, a quem o nosso (1) tlieatro deve algumas obras 
applaudidas, imitadas da lingua original pilos frau- 
cezes, c da franceza pelos nossos arranjadores no prin- 
cipio d'esle século efins do passado), tendo apporta- 
do em Woaboa, a mais formosa das ilhas de Sand- 
wich, depois de descrever o estado da illia — que já 
então revelava (1823 a 2tí) um certo progresso de ci- 
vilisação — e a falta do rei^ Tamahamaha, que mor- 
rera deixando herdeiras do reino e do mando as suas 
duas viuvas — couta do seguinte modo a visita que 
fez á segunda d^ellas, rainha Nomahanna : 

"A rainha Nomahanna, a outra viuva — diz elle 
r—é de uma corpulência enorme : parece ser o mais 
ardente apoio da propagação das sciencias na sua ter- 
ra. A lilteratura, isto é, o saber ler e escrever, de- 
clarou ellaser cousa indispensável para alcançar seja 
que ofliciu f(ir na sua corte, e envia os mais caducos 
a eschola. São tão moda as orações como a leitura, e 
a rainha vai duas vezes por dia á igreja n^uma espé- 
cie de carreta de quatro rodas, onde não cabe exac- 
tamente senão a sua volumosa pessoa. » 

"A residência da rainha fica juncto ao forte, abei- 
ra do mar. K unia linda casa de madeira, de dois 
andares, edificada noestvlo enrojieu, ciun j;iiellas 
rasgadas, e nma sacada aceiadameiíle pintada. Fomos 
lecebidos na escada jior Chinau, governadordo ^^'oa- 
tioa. l'odia apenas andar, pelo aperto dos s.ipalos:, e 
loino a sua veste vermelha não tivessesido feita para 
iiin bu^to Ião ciilossal, não alcançava abotoa-la. C!um- 
primcntou-ine repelindo a palavra ^archas^, rcon- 
«luziu-inc ao segundo andar, onde tudo apprescntava 
um agradável aspecto. Desde a base das escadas até 
a porta dos quartos da rainha todos os degraus esta- 
vam cobertos de crianças, de adultos, cate devclhos 
de ambos os sexos, que, superintendidos por sua ma- 
gestado, soletravam » abcedario ou escreviam cm 
pranchas delgadas. U próprio governador traiia um 

(1) Eolzbue foi o primeiro que introduziu oqueosfrance- 
lescbanuni dramc larmoijaut, peyas familiares, que iam 
buscar lodosos spu.seUVilos n uma sensibilidaile nuiilas ve- 
zes exaí,'geradacafri'ct.iila. Este penero de com posivões leve 
grande íok,i, e o poeta allenião iraeiou-as com unij supe- 
rior! 'ladeiucouiesiavol. 



livro n''uma das mãos e na outra um pequeno instru- 
mento de osso, que lhe servia para indicar e 6«guir 
as lettras. DVsles numerosos adeptos os mais adian- 
tados em idade estavam alli mais para dar exemplo 
do que para utilidade pessoal : porque, na máxima 
parle, estudavam, com grande adectação de applica- 
ção e diligencia, segurando o livro ás avessas." 

«A vista d 'estes estudantes, dosteusestranhos tra- 
jos, insufficientes e espedaçados, tinha-me feito per- 
der quasi toda a gravidade de que me havia provido 
para a minha apresentação, quando, abrindo-se as 
portas de par empar, fui introduiido como comman- 
dante da fragata russa. O quartoestava guarnecidoao 
uso da Kiirojia com mesas, cadeiras e espelhos. L m 
dos lados era occupado por um leito desmesuradamen- 
te largo, ornado de cortinas deseda : nomeio, sobre 
finas esteiras, estava estendida a rainha Nomahanna, 
deitada de bruços, lom a c.ibeça voltada para a por- 
ta, e o cotovello encostado a uma almofada deseda. 
Duas raparigas, ligeiramente vestidas e encruzadas 
no chão, aos lados da rainha, lhe enxotavam as mo»- 
case os insectos com uns ramos de|>ennas. Nomahan- 
na, que parecia não ter mais de htí aiinos, eia uma 
mulher de seis pés e duas pollegadas de altura, e de 
pouco mais de sete pés e seis pollegadas decircumfe- 
rencia ^ trajava um vestido de seda azul, á moda an- 
tiga \ os cabcllos, prelos de azeviche, tinha-os escru- 
pulosamente penteados e puxados para o alto da ca- 
beça, redonda como uma bolla : o nariz achatado, e 
os beiços grossos e salientes não afaziam fejuramen- 
tciuma formosura, mas no todo não tinha desagradá- 
vel apparencia. Ao ver-me pousou no chão o livro 
de psalnios que estava soletrando, e conseguiu assen- 
tar-se, auxiliada por todos os que a rodeavam ; daii- 
do-me então a mão com um gesto infinitamente ami- 
gável, e pronunciando muita vez a palavra ^laro- 
has^n, convidou-me a sentar-roe n''uma cadeira «o 
pé de si. >' 

Cl Disse-me que era christã. A razão que tinha ti- 
do para adoptar esta crença era haver-lh'a dado pe- 
la melhor de todas o mis>ionario Bengharo, que lia 
e escrevia perfeitamente bem. Depois, não via ella 
que os americanos e europeus, ío</o$ chi-islãos, leva- 
vam muito a palma aos seus compatriotas? Concluia 
d^isto por lanto que a sua religião devia ser mais 
razoável. " 

— u No fim de contas — accrescentava ella — se es- 
ta nova fé não convier ao nosso povo . . . está acaba- 
do .. . mudamo-la T « 

Na segunda visita, Kotzbue foi dar com a rainb.i 
a jantar. Estava lambem de bruços sobre esteiras 
liiias defronte d"uni grande espellio ; tinha diante 
de si um semicirculo de pratos de porcelana, que ci 
circumstantes Uie iam successivamente apprescnlando, 
e cujo conteúdo engolia voraimenie, em quanto uns 
rapazinhos lhe enxotavam os mosquitos com umas 
vassouras de pennas. 1£ inaccredilavel o que cila co- 
mia : era bastante para fartar si-is homens, seis rus- 
sos, diz ingenuamente o capitão. 

(rluando acalniu, aspirou duas ou trcs veies com 
evidente difliculdade, e exclamou : 

— II Comi bem I " 

Depois vollou-scdecostas, ajudada pelot queeram 
presentes, e acenou a um latajãocomo um Hercules, 
que parecia estar alli para algum lim. Olatagãodei- 
toií-se immedialamente a ella de pese mãos, e poi-sc 
a calca-la e recalca-la como se amassasse pão era pa- 
ra facilitar a digestão, diria aquella genle. 

Teodo gemido o seu pedaço com esta rude opera- 
ção, descançou alguns rftonu-nlos. Mandou depois que 
a tornassem a voltar, c começou novamente a comer 
como d'aotc>. 



:\ 



o PANORAMA, 



17 




CONVENTO z>£: :ac3SA SEJNHonA SE jrssus. 



o eciNv KKTn (li! N(ií'.a H<MiIiiira de Jcmis c' um t;i]i(i- 
i.iii ri'íailiiriii('iil() coiistriiiilo iid psI^Io inoiltTiio ; u 
iircliiliíclo Jo<i<|iiiiii (lu Ollv«ir>i ftií i|tií'in licii o iju- 
iii.iiiio <la failitidri, i! «lo si!U <'N|)a(j«si> adro. (.'iiiiio íi; 
fjódu viT lia <?sliiui[i.[, ijuR dV^lli' daiixi», é liiToradii 
de pilhiitrail do iirdciu jniiiia boliri; outras do ordoiii 
dórica; f a líiiijjcna ou IVoíilão a|iarl,isf tia usual lor- 
lua triaiu',ular. (,'olloi'ailo riu um logur iMiiiiifule, 
com u !Jll^o diautt* dcbciMido t-m rampa para o i>ul, 
o(U;ri;fc a ap|)art!ucia ilc flegaiite iiia^i hlailf, por que 
■ iilre muil4in si: rculca 

A luiidaç,'ãoil'<!hl« c:ma rfli;;iima úaiili(^a. Km K<8J 
vioriiiii d<! b. bimão d'Almada o» padr<;H que o po- 
vouraiii ; a ohra principiou rom liteiini <loHi'iiailo da 
cuinuru, o por proiiiiã» do iirteliiiipo I). .I(irj:;o dt> Al- 
llieidii ^ por «IcíimUi iiiiuoh ni- viu <d>ri^ada a luiHar 
riiiitra o udiu do» íriíili'» iiuuoriH, ipie M-llie oppiíxo- 
i'am, não poupando ihloiro» iirm ruriilos pura aata- 
lliUr ou impedir. O cdilirio levaiilou-ho imii um iiilio 
dtiiumiiiado o Valle ila Kspi-raur», aomlc IjuÍi Ho 
dii^uvt de i'i'druy.a i< Hua mullier (iuliaiu uii>a rruji- 
Voi,. 1. — ^íkiicmiiho 11», JS40. 



<la e iini cardai, de que fr/.eraiii dipuijâo ao< relifiio- 
sos i e estes muito depois, para alar!;arcm n edifício 
e a cerca, e para romperem a rua nova de Jesus, 
disde (1 larj^o da if^reja até a eal(;ada do Combro, 
com[iraram diversas propriedaile» e terras confi-jua» 
HO seu mosteiro, com auctorisa<;ão re^ia, concedida lio 
ah ara de Ui2;t. 

t:oiii o terremoto de 1753 desalíOii a maior p»rt« 
do edifício, e á pressa si: armaram liirracas na cere* 
para o» padres »e reeolherem no meio ilas riiinas da 
passada li»liita(,ào. l).'eorriilos ali;iiiiH aiiiios, o pro- 
vincial Kr. José debanda llosa Teixeira applicou » 
maior «elo á ree(liliea<;ão ; mandou colirir a aluibada 
do templo e ndoriiar a igreja; preparou o» dormitó- 
rios, e erip;iii ilesdo oalieerco todo o cunhal datroii- 
t.iria, e a escada principal. Ao dontofr. Manuel d. i 
Cenáculo, eleito em ITCiS, é devido o actual frontu- 
piíio , eno seu triínnio si- conipl<'taram muilasobn,» 
imperleila». A exeelleiile casa da livraria, do que nu 
altiiliui-m a» pintura» ilo teclo a ('yrillo Rluchiido, 
lui cinprvzuMtu. O pudrt Sarmento, traductor da Hi- 



18 



O PAJNORA31A. 



blia, e o padre Mayne, confessor de D. Pedro 3.", 
também acoreiceiítarain varids inelliorairioiitos, tanto 
ao corpo da igreja, como ás diversas oiticinas. E do 
padre Mayne a instituição do gabinete de historia 
natural, hoje reunido ao museu que veio da Ajuda ^ 
a dotação da cadeira de zoologia, ainda conservada 
pela Academia das Sciencias i o gabinete de meda- 
Ihas^ e a galeria de pintura. 

Neste edilkio existem algumas obras de inncga- 
vel merecimenlo, e á sombra das suas paredes flure- 
ceram os mais sábios e virtuosos varões, entre os fjuaes, 
pela cliaridaili' evangélica, sobresaíu o verdadeiro 
apostolo!). l'"r Caetano Brandão. Depois da extinc- 
ção das ordens religiosas estalieleceuse no Convento 
de Jesus a Academia Real das Sciencias, e tomou 
posse das preciosas collucçõis de que os frades tiravam 
gloria, e ainda boje, com motivo, as lembram como 
prova do seu amor ás lettras e ás artes. 



O Castello de Sanota Olaia. 
hcnda do século XI. 

Fragmentos. 
(Continuado de png. 3.) 

Ill 

Como do noivado saiu o cnici ro. 

Era meia noite em ponto. A sineta da ermida toca- 
va três dobres compassados. 

Ao primeiro, suspenso na c.irreira estacou o turbi- 
lhão das daiijas. Homens e damas, immovi'is, com 
os esbeltos grupos, ainda pareciam querer voar. 

Ao segundo, o somcalou-se nas violas e alaúdes. A 
ultima noia tremeu solitária nas prolundas arcarias. 
Eram mudas as chonias, e surdo fugia o sopro nas 
trompas. A cantiga dos jograes, sem elles saberem, 
levantou de rejjcnte o tremendo dica Íiíc, rctumb.m- 
do em longo ecbo. 

Errijavau! se os cabellos de terror. 

Ao terceiro dobre gemiMi o castello nos aliceries, 
como se ababis»!; C"m o furacão. Jogavam oseir.idos, 
as torres vaclllavam ; mas o encantamento desfe?,-se 
pelo condão de um saiictu eremita. Tudo isto levou 
um abrir e f<-cliar d'olhiis. 

E o cavalleiro iiegni .' A inua dubrava o sinoquan- 
ílo dusapp.ireceu. 

Que susto, que pavor não bouve ? L ny. a correr, 
outros gritando, e todos que não se entendiam! (iui- 
zeram fugir, aculher-se ao terreiro ; atrai dVdles fe- 
chavam as portas sem ninguém as mover ; diantecer- 
roH-se o portal sem ninguém llie locar, e » ranger 
nas cornnles alavam aslevadiças mãos inviíivels. 

Ai, noili:deS. João, noite aziaga '. Os lindos ollios, 
que por ti choraram, valiam reinos:, a alcachofra, ar- 
dendo ein esperaiiça, não arrebentou llòr ao orvalho 
lieiilu ^ e o teu palmito, negra sin.i ! não desfolhou 
cm ve7. de ros.is mais qller.lmo^ de cvprcste em leito 
de noivado. 

Nos paços do conde quem atinava se o poder dos 
inlernos eslava sobre elles.' O suor frio corria das la- 
ces aos eavalleiros^ o tremor do corpo tinia a espa- 
da contra a espora, A pouco e pouco raiou uma plu- 
ma de fogo na escuridão ; crescfii. alargou, e em nu- 
vens de fumo sobem das tones cardumes de eham- 
mas. Jesus! acudi-llie ! Todo o castello e^tá a arder. 

E as portas cerradas, e os eira<los altíssimos, e o 
fosso tão fundo ! 

A lua tornou a romper, espelhando o clarão no ro 



chedo talhado a pique um tiro de setta do alcácer. 
Rebentadas alli, a sombra do choupo antigo, ferviam 
as aguas nas fragas, despenhando em cachão na ri- 
beira, que lá em baixo, a muitas braças funda e ar- 
remessada, bramia entre penedos broncos. 

Aonde estará D. Ordonho, conde.' — aonde estaria 
senão aos pés d^Auzenda. Com ella desmaiada nos 
braços, aschammas aroutando-lhe o rosto, voou, não 
correu, de andar em andar até o terreiro. Olhou, 
viu tudo cerrado, as lavaredas crescendo, e pedra por 
pedra u castello que ia desabar. Os cavalieiros sem 
falia escondiam as envergonhadas lagrimas que a dór 
arranca ao coração. 

— i« Erusigis, escudeiro, a minha acha adamasca- 
da, clama o senhor de Sancta Olaia. Este pulso ainda 
pode com ella. Houve tempo que nem diamante o 
quebrantava. " 

— "Aqui, tudo aqui»^ grilou depois em grande 
brado. 

Outra vez palpitou a esmorecida esperança. 

Levantam as achas. Golpe de cem machados, vi- 
gor de tamanhos braços, anciã de desesperação mor- 
tal quebraram juiictos na mas>iça porta. Genieu o ro- 
ble no monte, feriu lume o ferro, e os gonzos nãoce- 
deram ! No castanho chaieado nem signal dos finos 
gumes! Os machados, partindo em rachas, lascaram 
até o cabo. 

Por cima do alarido ou\iram-se estalar risadas rou- 
cas. Deitou D. Ordonlio osollios áquella parte, eviu 
surgir na coroa das rochas o cavalleiro negro. Espu- 
mava a cascata aos pes docavallo. A direita brandia 
um tacho, e na esquerda a rédea mal continha o cor- 
sel, mãos no ar sobre o abvsino. 

— "Conde Ordonho, a fogueira do S. João falta- 
va á tua festa. Ahi a tens di"na d'um rei. ]*a<ro a^- 
sim as arrhas do noivado. » 

— " Cão nialdictu ! n 

— " Liembre te Ansur, morto faz hoje quatorze a;.- 
nos e um dia. O sangue da lua raça nem chega pa- 
ra vingar o sangue d'elle. Cumpra-se o voto delni- 
go Lopes. 

E como se o inferno o assoprasse, atea-se o fogo 
aonde não ardia, e mais lavra ainda nas outras par- 
tes. D. Ordonho ajoelhou. Nohombro reclina-se des- 
fallecido o bello corpo dAuzenda ; as faces d'alvura 
do lírio encostadas a tez queimada du velho ; as tran- 
ças folgando entre as madeixas brancas, e nos olhos 
languidos, meios fechados, qunsi expirando aducelui 
da vida. 

— " Casligai-nie, Senhor, dizia o conde i mas r«la 
innocente que lo^jre os verdes annos. Não fei crime 
para acabar tão ceiio, e de tal morte. ... ca a iin ca- 
lieça lio peecador a espada da justiça — pouco tenho 
já a viver •, e do mundo, ai 1 não levo mais que esta 
saudade ! «* 

E apertando ao coraç.~io a neta, duas a duas lhe 
saltavam !is lagrimas como punhos. O que n.ío daria 
o senhor de tantos eastrllos evassallns por alguns pal- 
mos de terra, por uma rcspir.ição a fresca liriza da 
noite, que refrigera o escravo nas pedras do» serros 
visinhos ! 

O conde ergueu se 1oí;o. Tinha lido nm instante 
de fraipieta. Alma de soldado verja, mas nãoqiieiírn. 

A maior diir calou-se diatile da sua dòr ; opranio 
deixou de manar diante it\iquelles ulhus enxulus ; e 
o muís animoso eslremt'c>-u. vendo, muda e»«, passar 
u Vln;;ança. Ei lo vai o velho fronteiro; nem capei- 
lo nem ariiez lhe cobre a fronte, ou veste o corpo. No 
rosto leva a morte e>cripla. A orbita ensniiguenlada 
reluz chninma tcrrivel — os lábios brancos, convulso», 
Isuflbcam o extremo suspiro Dei\ai-o ir, é o castigo 
Ide Deus-, — ineliiiai-vos, c o soneto amor de pail- 



o PANORAMA. 



19 



A águia real ferida não cedeu. Ainda sobe a ulti- ; 
ma vei com a flecha varando o peilo. Cine fogo na 
vista iinmovel, cjiie fria raiva no vôu lento ! oh '. guar- ! 
de-se o falcão — primeiro mcjrrerá que o rei dosares I 

Toldou-se o céu, a lua escondeuse, e nas alturas 
o vento bramiu profundo. Até ao longe nos plainos j 
e nos outeiros o clarão do incêndio tingia campinas i 
e casaes. No castello o fumo, ora fechando em corti- 
na espessa, ora rasgado dos furacões, rompendo em ' 
rolos, entre faíscas como espadas:, as aguas espada- 
nando nas tragas; o relâmpago liimbcndo a coroa dos 
montes; o trovão estourando em estampidos medo- 
nhos; qnc especlacnio de terror para todos, deadmi- 
ra^-ào sublime para tão poucos ! 

A aza da tempestade varria a face da terra ; quem 
V o vulto, encostado ao arco, no alto da torre albar- 
ran ? Tremem-lhe aos pés as lageas abrazadas, e não 
assiMite. Sobre a cabeça, cruzando os dardos, fogem ; 
amiúdam mil scentellias. e não as vê. Ao lado o fra- 
gor dos madeiros estalando, o gemer das paredes que 
abatem, e nãi) acorda. Pas^a, rugindo, o temporal 
pelos Cfdros e fstronca-os ; o raio fuzila, lascando a 
montanha; as torrentes são rios caudaes : — qual é 
o escudo do filho do homem que não vacilla ? 

A desesperação', (lue lhe importara ao desgraçado 
as ameaça» do céu ou as ruinas da terra? Nas mãos 
<|UPÍnia-lhe a taça do fel — no coração tem a peinr 
morte — a morte d^alnia. Chorem por elle os que po- 
dem chorar ainda — ha poucas dores como foia'|uel- 
1.1 dor. 

U. Ordoiiho, o conde, o senhor de sele castellos, a 
lança de vinte cavalleiros, o pendão das terras de 
Coimbra morreu cm vida. A torre de seus avós foi 
" ji"'o" aonde se enterrou com as suas armas o ulti- 
mo fillio de uma grande raça. 

Saiu-lhe emfim do peito um rugido semelhante ao 
furacão, abjsniando-se nas cavernas da terra. l'elas 
faces correu a livida cór da ira. Encurvou-se o arco, 
vibrou a corda, e a vista accesa mediu a distancia. 
Ai do que receber o tiro! A sefta escrava espera um 
aceno para se despedir livre, sibilando ao alvo. 

De repente três vezes estoura o trovão, e três vezes 
o logo do céu ilbnnina os valles e os campos. Sôa o 
galope d'uni cavallo; e raspando as fragas do monte 
a lerradura d^aço retine ao longe. Armas brancas, 
capello sem viseira, no peilo o açor do Douro, na cot- 
ia a cruz azul? Será D. Moço Ansures ? A' claridade 
do relâmpago, á luz do facho do cavalleiro negro vi- 
ram o corsel enuovelar-se estacado na aresta do pre- 
cipício ; os pé» já descaem pelo declive aprumado. Ca- 
vallo e cavallifiro banhados cm suor, suspenso» por um 
lio, arquejam tremendo a sezão do perigo. 

O que D. Inigo lhe <liz, o que elle responde, nin- 
guém o ouve — o vento bramia, e f.diavam manso. 
l'ouco depois, com o ginete empinado meio corpo na 
voragem, D. Moço exclama : 

— i.Koge, mais as tua» vinganças; nnildicto o no- 
me que lo deram no baptismo. Renegado ! troca» pe- 
lo inferno o paiaizol . — Anlc» a morte que ter san- 
gue do teu sangue ! n 

O renegado não replica. Atira o f.icho ás aguas. 
Ja tinha a espada sobre D. Moço, já o golpe d(!scia, 
luzilauflo na» treva», e... asnoMou nnni setl.i ; expi- 
ra a bbisphemia na bocca do mahlicto : e o mancebo 
mal percebe rolar o lionwm au» pe» do ginete, torcer 
Os dedos no» raino» do clioupo, e resvalando o corpo, 
didmdo ii(js are», liatendo nas rocha», cnlerrar-se nos 
cachões da cascata, iPonib- espirra a gr.inile aliura 
esciMini e sangui-. 

Nu torre do alcácer ri'»oam no largo brados de triíim- 
pln>. Por inslanten. soltos ao temporal que os esfia- 
lha, (hicl am os cabelloí do conde Drdonho. A cslii- 



tura gigante avulta, cosida nas cbamraas, immovel, 
n-.agestosa. Depois, com grande fragor, abateuse a 
torre, as quadrellas voaram soltas, as traves accesas 
girando remoinham sobre si, e d'entre os estroços, 
como em leito Iranquillo, o velho guerreiro, sacudin- 
do o pendão no braço, parecia desafiar ainda cora os 
leões victoriosos. Honra ao que morre sem virar o 
rosto, amortalhado nas suas armas, envolto no seu 
pendão ! Ao cabo d'oitenla annos de pelejas o fron- 
teiro de Coimbra desceu armado a sepultar comsigo 
a raça orgulhosa de rio d'Ave. Do alcácer ficou soa 
torre que além vemos, e aquella ermida aonde jazo 
pó dos ossos de D. Ansnr. 

— "E D. Moço?» perguntou Martim Paes. nE 
Auzenda ? 

D. Moço, continuou o monge, véspera de S.João, 
como prometléra, corria já de noitecaminhode Sanc- 
ta Olaia. Ainda longe do alcácer deu-lhe nos olhos 
o resplendor do incêndio. Teve um presentiraento. 
Crava esporas no cavallo, despede a carreira por tor- 
rentes, p.)r cabeços, por fragas alcantiladas. A tem- 
pestade a rebentar, e o ginete sem se deter. Maisao 
perlo viu distinctamente o castello arder. Novo esti- 
mulo, e corrida mais veloz. Já, sem saber por onde, 
na escuridão sentiu o cavallo parar e tremer, o lu- 
zeiro d^um facho cegar-lhe a vista, c lá em baixo, mui- 
to lundo, quebrarem as aguas com grande motim. 

O que enlão succedeu já eu contei. 

.Mal expirou D. Inigo desbz se o encanto; e D. 
Moço procurou Auzenda. Quando chegava quizbei- 
jar-lbe as mão.» ; a bocca recuou <lcis dedos frios de 
neve. O seio já não arfava, os olhos não viam. Le- 
varam-na a ermida; piizeram-lhe a coroa de rosas \ir- 
ginaes, e a terra comeu de quinze annos aquella for- 
mosura, inveja das Hc-panhas. 

Uma hora só nunca mais deixou de travar a D. 
Moço a amargura da separação. A saudade matou- 
Ihe os prazeres. Arrumada a lança, encostada a espa- 
da, nunca mais os seus joelhos apertaram o fiel ca- 
vallo das batalhas. O que iria fazer agora aos com- 
bates? Se a gloria não tinha já a quem a dar; se a 
pátria... oh 1 talvez essa!... nem já por essa aque- 
cia o gelo d\iijuelle coração. Sombra do que fora, o 
que lazia o desterrado n'este valle de lagrimas ? Amor, 
ambição, esperança vira as morrer jiinclaniente com 
a flor dos seus annos na cruz em que penava. 

Conjo o carvalho, que as aguas minaram, debruça- 
va os ramos nós sobre o oceano da vida; e vendo fu- 
gir outras arvores com as ondas, e vendo as rosas pal- 
pitar arrebatadas na corrente — perguntava: Oh! 
(juando será lambem para mim a hora desejada ? 

Na anciã das veladas noite», ao amortecerda lâm- 
pada sentia a dõr mais vi\a recordar-lho o que per- 
dura, (iue espinho cruel é a memoria ! Sobre a ma- 
drugada (seria mvsterio?) o somno pous.iva-lhe de le- 
ve nas pálpebras molhadas de lagrimas. .Vcordavu so- 
bresallado, nem dormira instantes. O delirio dos sen- 
tidos inoslravalhe então ao pé do leito a imagem que 
traziii no coração — era cila; via a como nos diasd.i 
sua lielleza ; a mesma grinalda ile lU^res do campo 
sustenilo os cabello» louros; as inesoia» roupas alva» 
diseidiando formas clivinas. í>s olhos, brincaiulo-lhe 
o raio do vivo amor; o» lábio» a sorrir, abrindo co- 
mo rosas, fallavam, mas não se ouviam. No dedo o 
annel dos cponsae» — aquelle que, havia um anuo, 
ambos trocaram no cruzeiro ila serrii. a despedida. 
1). Moço, corri-ndo, <|in'ria estreitar ii visão ao pei- 
lo, e ao aperla-la apertava »ó o nr. N'estes tormen- 
tos eidczou, ijue não vivou, inejc» sobre iiioius, ate 
ijwe liou.» annos. contados líti noite 1'alul, morreu no 
pobre mosteiro «onde ^e retirara. 

Ao umorlalha.Jo, iicliaraiulhc u» mungos um laço 



20 



O PA1VORA3IA. 



He cal)ello sobre o coração, seguro nos Aedm liirlo». 
l'or iiiaii que fizessem não lh'o puderam tirar. Pelo 
niiarto tfiiiva, os que velivam ;mj lado da tuiiilNi ador- 
iiiffHraiu, o um (jue y.i\:i em ora<;ão eoiítou di-pois 
que vira appareccr uma dama, formosa como os an- 
jos, e ajoelliar-se cliorando sobre a cova ; de dfiitro 
»aír um liraço ■, e cila, com a mão apertada na do 
morto, cingir llie na testa a sua coroa de cecéns. Um 
guerreiro de armas negras, rodeando, sem o romper, 
o circulo luminoso que a cercava. Ires vezes tentou 
quebra-lo. e outras tantas, retirando o pé, vergarso- 
bre o joelho, arrastada a face no pó do templo. Era 
o noivado dos mortos entre Auzenda e D. MoçoAn- 
.sures, — e a sombra de Inigo Lopes, que ainda per- 
seguia implacável o sangue do conde Ordonho. 




VPl ^OXVVIENTO I^A SB SE I.I3BOA. 

l'Al>aÃ<> de diversas idades, a Sé d^ Lisboa, sem ca- 
ractcrlsar absolutamente neuluima. tem herdado de 
todas. Vê-se que a mão dos séculos llie deixou p;rava- 
do osello particular de cada um ; mas debalde se pro- 
curará encontrar no seu todo aquella perfeita revcla- 
<;rio que denuncia para logo aos oUios do observador 
o génio de uma epoclia. 

Todavia no interior do templo da Sé parece revoar, 
na solemnidade dos seus magcslosos destino», o espi- 
rito da religião. N'aquellas fei(;õe5 beterojjeneas ha 
o que quer que seja que infunde respeito — n'aquel- 
las relíquias augustas, legadas pelas gerações ás gera- 
ções, como que se cstamiiou o n>vstorio de uma cren- 
ça divina. 

Será porque n^essas paginas de m.Trmore, apesar de 
desordenadas, vive, se não uma historia completa, ao 
menos a memoria ile muito feitoglorioso .' — será por- 
que a V07. dos nossos maiores nos esteja alli fullali- 
do de cada pedra, posta pelo b.aço das eras succes- 
sivas ? 

INão sabemos. Sabemos só que otcmploé dos raros 
que ainda boje fazem impressão no espirito dos que o 
visitam. Assombra ainda o seu aspecto grave e seve- 



ro — reputamo-iios pcrqueno» aili porque nos achamos, 

não entre homens, mas entre sanctus ^ não entre as tur- 
i)as de hoje, mas entre as raÇdS desapparec-idas. 
Pois as lendas e a» tradições que la vivem airídal 

A poesia solemiie do pa»-ac;o escreveu também n'a- 
quellas paredes os seus dislicos mvsteriusus, a pardos 
emblemas svmbolicos da areliitcclura. 

li quantas tesmunb;is do que é ido avultam .-íili- 
da alli, despresaiias e ignoradas, no sanctn recinto'. 
Não terão ellas nina »!gni!Ícarão, não representarão 
uma iiiéa, não se iiivolverãu n^um pensamentucomo 
u um veti preservador? 

Infinitos objectos d'es!>es podíamos appresenlar : en- 
tre elles indicareinoa agora um só — a eaoeira de pe- 
dra, que se pude ver nu claustro das capellas chama- 
das alI'oiisiii,is, á direita do ailar niór, equehojeda- 
mos copiada na nossa estampa. 

Tem a data de lti:2!). A sua historia está reduzida 
somente a conjecturas. Corre que um rei í). AfTonso 
alli vinha assentar-se para dar sua audiência, c ad- 
ministrar justiça. Ha também quem pretenda que fo- 
ra mandada pór n'aquelle siliu por elrei D. AQun- 
so VI. 

A dala que se lhe lê oppõe-se evidentemente a se- 
gunda opinião, iim 1629 ainda D. Aflonso VI não 
eia nasciio. U mais próximo rei d"este nome é por 
tanto D. Allonso V. — Aflonso V porém viveu muito 
antes de llji29, e ainda «'este ponto a data vem ine- 
xoravelmente repellir a tradição: no século W nãc 
era já uso administrar justiça senão nos paços e tri- 
bunacs. 

Kesta por tanto, na nossa humilde opinião, uma 
só probalillidade. 

O costume de irem os reis, ou chefes do estado, ou- 
vir os povos nascatliedraes, ou as portas d"elU9, é ante- 
rior e, só por algum tempo, conteinporaneodamonar- 
chia. Quem nos aiQança que este pequeno monumen- 
to não seja obra dos primeiros soberanos.' A data 
que se intenta dar como prova da sua origem não pi>- 
ilera por\eiitura ler sido aili posta como indicadora 
do seu reparo ! 

U I ste, cremo-lo, o único modo de harmonisar as 
provas da historia com aijuella demonstriíção ; tanto 
mais quanto outras ruzôcs vem ainda reforçar esta 
opinião. 

A capella mór da Sé, como lodus sabem, eraanti- 
gniiiente rota para todos os lados. Não se tinham 
construido os claustros actiiaes, c o altar niór vinha 
por tanto a ficar erguido e »olit»rio no meio d'um.t 
ampla quaora. Combina por tantoestacircumstancia 
I com a tradição:, eéprovavel quejan'essa epnrha alli 
estivesse aquella cadeira. A sua posição a direita do al- 
tar, no centro d"um grande espaço, parece justificar 
I o uso patriarchal que lhe é atlribiiidu. 

.Memoria mvsleriosa à'outro tempo, talvei relí- 
quia veneranda da robusta adolescência de um povo, 
nas suas pr.ícticas iiniis respeila\eis — o antigo mo- 
I iiiimentinhu lá está ainda a segredar-nos ao ouvido o 
que quer que seja daquella grande viila dos antepas- 
sados, tão cheia, tão activa, vivida tanto asclaras... 

Tão diversa da nossa vida de hoje — recatada, dis- 
farçada ; gangrenada por dentro, (Milida por fura ,' uo 
intimo tempestuosa, uniforme nu exterior! 

Lu está : escapou a invasão do camartello devasta- 
dor. ISão se lembraram ainda d'aquella pedra pa- 
ra... para approvcila-la n'uma tarada de agua fur- 
tada, como aconteceu á lousa do conde Andeiro em 
S. Marliiibo; ou em supporle de carniça, comosuc- 
! cedeu ao templo de Diana em livora, converti<ioen» 
aç<ms;uc. por graça de um muito proveitoso eappro- 
veitado barbarismo. 

Lá está cora eíTcito. Valcu-lhe talvct a sua peque- 



o PANORAI>IA. 



21 



iiez para evitar a í^uiilia dos nivelladures, e o desti- 
no de iiiaÍ!> de iiiii seu iruiâo e coevo no recinto do 
templo. 

Pois (jue ! haviam de consr-iitir el!es uma pedra 
ctcura e leia — quer dizer, augusta e veneranda — a 
macular aquelle rcgalhido alvejar da cal e do gesso. 
Ijso sira, isso é que é formosura : que lhes vão lá dar 
cousa niais para ver-se e aJmirar-se do que um mu- 
ro l)ein liranci>' e bem liso 1 O aniarellejar liumido 
das arcadas, o aspicto mclancholico e grave das fron- 
tarias, aquelle respeitável e augusto testemunho dos 
aeculos, que parecem assenlarse nas cornijas vestidas 
de heras, como no seu throno natural, e vão acordar 
no fundo d'alnia tanta memoria, tanta impressão, 
tanta idéa — isso que importa? — Càue o ardente res- 
pirar d^unias e outras e outras gerações, que vie- 
ram ajoelhar ante aquelles monumentos e passaram 
e caíram, tenha colorido pouco a pouco essas pedras 
— vale isso porventura alguma cousa? ííão anligua- 
Ihas, são velhices, são ninharias. De rebvs minimií 
non cu7-al l'r(zlor. O nossu secnlo é essencialmente 
alindador e económico. IClegante e confortável, com 
uma das mãos estende caminhos de ferro e lavra ca- 
deiras á Voltaire, com a outra varre do solo os mo- 
numentos, que lá tinham deitado raizes, porque 

porque lhe impedia as vistas. \'arre-os ^ e se os não 
varre, caia-os, que é talvez peior ainda. 

Não ralhamos dos caminhos de ferro c cadeiras á 
\oltaire. Deus nos livre; mas não podemos deixar 
de bradar alto contra o vandalismo e a barbaridade. 

Tornando ao nosso monumentinho, pela terceira 
ve7, repetimos cora o alvoroço do descostume: 

Lá está. 

Se figurasse em logar mais a|)parente ter-lbe-iajá 
acontecido provavelmente como ás columnas do tem- 
plo, suas irmãs talvez, de mármore antigo n precio- 
so, e hoje c/«ya»iíf ccoii/oríauíVjntítíc cobertas d^lnla 
camada de estuque — ter-lhe-ia acontecido comoaos 
antigos capiteis, que a esculptura morta havia reca- 
mado laboriosamente de finos lavores, e que a mão 
dos restauradores esclarecidos e intelligentes, com o 
íiui seguramente de faxer começar uma nova era pa- 
ra as artes, escondeu, depois do terremoto, n'uma 
económica e agradável capa... de gesso civilisador? 

Muito e muito mais poderíamos aqui dizer. Tara- 
remos por em quanto com uma só observação. 

Tor que será que o século actual, desenvolvendo 
e«pantosainente na sua rápida acção todas as cousas 
que dizem respeito ao materialismo da vida, tende 

constani ente a annnllar a iniluencia de todos os 

objectos (jue podem favorecer as inspirações do espi- 
rito .' 

Uesolva rjuem qulzir o problema. 



GuiUEs Fhkhik hk Andradf. 

(Coulinuanifo de p.ig. l.t.) 

Caiu.os VI, ou o seu ministro e valido T>. Manuel 
(iodoi, iluque do A.lcuilia, agradeceu o auxilio prcs- 
tailo, havia pouco, na campaidia do llossilhon, fazen- 
do-sc iuslrunu-nlo da vingança de Kuonap.irtecontra 
l'ortui;iil, a qinil este guardara para occasião oppor- 
luna ilesibí o momento em <|ue, oppondoso uosseus 
intentos a rsqinidra ilo nuir(|ui'/, de Niza, já em Mal- 
ta, já diante lie Alexandria, lhe arrancou o despeito 
estas pidavras, consignadiis n'uiiui oriliun do dia ao 
exercito tio oriente : .iVirá tempo em ipie a nação 
portugueza pague com lagrimas de sangue aaflVimta 
feita á republica." Vendose Ibiíinaparle primi'iro con' 
sul, começou u lançar os alicerces do sjsleina conti- 



nental, e pouco depois do tractado de Luneville fez 
um pacto secreto coma Hespanha, e instigou-a a met- 
ter em Portugal um exercito cominandado pelo mes- 
mo Godoi, mais conhecido pelo titulo de principeda 
Paz, que a vaidade induzia a querer passar por babil 
general. E de feito, n"esta campanha de 1801, que 
achou Portugal desprevenido e privado dos soccorros 
d^Inglaterra, custou a obstar aos progressos do inimi- 
go com três pequenos exércitos, e só o marechal Go- 
mes Freire, conimandante do de Traz-os-Montes, se 
havia animado a fazer guerra offensiva enfreprenden- 
do a praça de Montc-Rei ; plano que falhou por es- 
tarem os hespanhots avisados, sem que estes, todavia, 
nem mesmo depois da retirada que o marechal havia 
feito para não ficar cortado, se aventurassem a poro 
peno território portuguez por aquella banda. A pou- 
ca probabilidade da defeza havia pois feito appellar 
para as negociações diplomáticas, em que se gastaram 
muitos milhões de cruzados até o annode 1807. Em 
1804, novas ameaças por parte da Hespanha exigi- 
ram novos sacrifícios; e assim continuou Carlos IV, 
sempre em genuflexão diante do primeiro cônsul ou 
do inijierador Napoleão, a inquietar o seu antigo al- 
liado. Por ultimo houve-se com a maior deslealda- 
de no tractado de Fontainebleau, pelo qual Napo- 
leão repartiu, como cousa muito sua, o reino de Por- 
tugal e os seus domínios, á excepção das províncias 
da Ueira, Trazos-Montes, e Estremadura portugue- 
za, que deviam íicar em sequestro até a paz geral, 
porque o imperador e o rei de Hespanha as/!i/</ai'am 
próprias para ser rcsliluiãas ú Casa tlc Braçjati^a, 
em troca das colónias conquistadas pelos inglezes aos 
hespanhoes e seus adiados. Por este tractado davam- 
se a Gudoi o Além-Tejo e o Algarve, com o titulo de 
príncipe dosAlgarves; ao rei da Etruria a Estrema- 
dura, iM ilibo, e a cidade do Porto, com o titulo de 
rei da Lusitânia septentrional, obrigando-se a ce- 
der a Napoleão o reino da Etruria; e ao reíd'IIes- 
panha o titulo sonoro e õco de imperador das duas 
Américas. Um exercito de vinte c oito mil francezes, 
reforçado por onze mil hespanhoes, havia de virapoiar 
a es|)oliação occupando Lisboa, ao mesmo tempo que 
duas divisões hi'spanbolas se apoderariam das provín- 
cias d'Eiilre-Douro-Miiiho, ,\lém-Tejo, e Algarve. 
Por conseguinte, um exercito de trinta mil homens, 
capitaneado por Junof, entrou em Portugal, auxilia- 
do pelas divisões dos generaes hespanlioesTaranco e 
Solano, e a marchas forçadas veio bater ás portas de 
Jjisboa na manhã de líO de novembro de 1S07, um 
dia depois da salda da faniilia real para o Brasil. Es- 
tava por esse tempo (imnes Freir»! {tenente general 
desde 1:2 de setembro) commandando uma divisàoao 
sul do Tejo, o no meio do geral dosalentoainda ten- 
tou ver se obstava á invasão, cujo primeiro resultado 
loi o dividir Juiiot o reino em trcs grandes ilistric- 
tos militares, reservando para si o governo da Estre- 
madura e lieira, e deixainlo a Solano o das provín- 
cias ao sul do Tejo, e a Taranco odo Porto, .Minho, 
e Traz os-IMontes. O marquez de Aloriia, e Gomes 
l'reire conservaram o cominando das tro|)as portugue- 
zas existentes nos districlos de .lunot e de Solano, e 
luram encarregados de as reformar, e de reduzir a 
seis os vinte e (piatro corpos do infanleria, o a tre» 
os dozi! d<! cavallaria de que então se compunha o 
exercito portuguej. Feita a reducção, marchou a íic- 
gião Portugueia nos priiU'i|ilos irabril de ISDS em 
direcção a Salamanca, levando por ciniimandanleein 
chele o iimr(|uez d'Alornii, e por seu iimiu diatoo te- 
iieiilo goneial (ionies Fndri'. Enlr<- os olTiciaes forniu 
fidalgos da primeira nobreza, e Inunens de alto me- 
rito, que chegaram a oecupar os priínipjteseargos na 
[latria ; al^Mins^ talvez, porque n.io puderam eximir- 



Ô9 



O PAiNORAMA. 



se; outros, <; licito crê-lo, deslumbrados pelo esplen- 
dor diií victiiriíis do cDiiíjuistador da Itália. 

A infidelidade de Carlos IV' já então estava puni- 
da. Fernando VH, seu filho, nsurpou-lhc a coroa em 
fevereiro d'tsse mesmo aiimi-, o rei deposto Imscou o 
patroeinio de Napoleão, e Fernando, afim de tornar 
este propicio á sua causa, pediu-lhe para casar uma 
pritioeza do seu sangue; porém Napoleão, como fino 
politico, attrahiu pai e fillio aterras de França, for- 
eou-osa cederem-llie todos os direitos ao reino, e man- 
dou Carlos desterrado para Compiej^ne, e Fernando 
para Velençay ; procedimento ijue irritou os patrio- 
tas liespaniioes, e llies inspirou ódio indomável aos 
francezes, aos qnaes prineijiiaram If.^o atraclarcomo 
iii;migos da sua liberdade e independência. Por esla 
razão, Gomes Freire, qua fieára alguns diasatrazado 
da Legião na manha para IJayonna, tomou em Lo- 
grono, por ordem do marechal liessieres, ocnmman- 
do lie uma forca portugiieza, áqual se reuniram tro- 
pas fr.<iieezas, fjue elle igualmente fuou commandan- 
(1(1 até o fim do primeiro cerco de Saragoça, levan- 
tado aos lo d'ago>to de 1808, porque os franeezes, 
apesar do entrarem a cidaclc, acharam uma resistên- 
cia sem e.\emplo nos tempos antigos e m.idernos. Aca- 
bado o cerco, vieram as tropas iTelle empregada": pa- 
ra o Oilpliinado, e Gomes Freire foi porUa^oniuia 
Taris, e cralii para Greuoble. 

Nova guerra entre a .'Vustria e a França propor- 
cionou a parle das tropas da Ijegião o asiignalarem- 
se muito, debaixo das ordens de (Judinot, na véspe- 
ra da bat.dha de Wagram, sustentando a pé firme 
uma posição que os franeezes, rareados j)ela metralha 
de duas baterias austríacas, haviam desamparadoem 
vergoiiiiosa debandada, cobrindo lhes a covardia o véu 
da noite, quasi a cerrar-se, engrossado pelos vapores 
do Danul)io. O» dois batalhões que diram este irre- 
fragavil documento do valor e disciplina combateram 
eom muito brio no dia da batalha, e mereceram que 
o próprio Napoleão, juiz o mais competente, dissesse 
ao conde da liça : "tíenhor conde, estou muitosalis- 
leitocom os portuguezes : sempre pelejaram com mui- 
ta galhardia n^esla guerra, e. decerto, nào ha na Eu- 
ropa melhores soldados do que elles. " 

Gomes Fieiresó em fevereiro de 1809 teve ordem 
de partir [lara a Allemaniia, onde permaneceu até 
maio com as tropas pertencentes á Legião, as quaes, 
n-stabeleeida a paz, acompanhou para os seus aloja- 
mentos na ]5aviera ; e tendo Napoleão decretado a 
reunião do cantão tie V'alais, também foi tomar pos- 
se delle com três batalhões portuguezes, mas esqui- 
vou-se do servir no exercito deMassena, empregado 
contra l'orlugal (mii ISIO. 

Alexandre, imperador da Uussia, que, ainda em 
1809, aceitara das mãos de Napoleão uma boa por- 
ção dos despojos da Áustria, colligou-se contra elle 
em 1812, e o compelliu a emprehender, a frentede 
quinhentos mi! homens, u fatal campanha da Rússia, 
em que a Ijcgião portugueza acrisolou o seu denodo, 
nomeadamente na tomada de Smolenko, c batalha 
de Moslcowa ou lioiodino, mas d'oude veio reduzida a 
setecentas e eincoenla praças, tendo levado de l'ortu- 
gal nove mil homens, con> que se incorporaram qua- 
lorze mil recrutas tiradas dos depósitos de prisionei- 
ros lu'>panhoes 1 

O tenente general Gomes l''reire havia iilo para a 
Hu^sii. com o estado maior de Napoleão, e ficou na 
Lilhuaiiia governando a província de Disiia até o 
tempo ila retirada, em que voltou para França. Caí- 
do •■ni terra o colosso, auto o qual os reis da Europa 
queimaram incenso de joelhos, para que o inipern- 
dor, hiimem do povo, ungido com osansuc davicto- 
riíi, lhes não arriincassc as coroas da cabeça, tractoi: 



I Gomes Freire de regressar a Portugal, e escreveu pa- 
ra este Dm uma carta a seu primo António de Sousa 
Falcão, a qual trasladamos por dar a conhecer o seu 
estylo, e revelar um presenlimento da sorte cruel 
que o esperava : 

Paris 2 de fevereiro de 181o 

"O teu sermão, bem longe de me adormecer, des- 
pertou-me ! o que a estas horas Já terás visto pela mi- 
nha carta de 20 dedezembro, n."8, em que te di^o 
que estou resolvido a voltar quanto antes a Lisboa, 
no caso que os senhores governadores queiram ter a 
bondade de auctorisar algum negociante para accei- 
tarme uma lettra de quatro mil cruzados, seguran- 
do se-lhe que será paga lojo que se me entresue o 
dinheiro, que se acha no erário, das rendas de mi- 
nha casa; e por tanto se for deferida a minha sup- 
plica. lá me tens por todo o mez de abril.»» 

u Achei muita graça ao teu sonho, e feí-metanla 
impressão que sonhei outro na mesma noite, que te 
vou contar, e em que acharás talvezaiguma analogia 
com o que tiveste. " 

I II Sonhei que me achava na China, aonde uma gran- 
de província tirdia sido invadida pelos inindgos; e 

' achando-se esta desprovida de tropas, o imperador 
chamou em seu soccorro os tártaros, seus alliados : 

' estes vieram proniptamente, e deitaram Wjth os lae» 
inimigos dos chins; e como o imperador tinha tido 

j pouco cuidado no seu exercito, deram lhe um cabo 

j iscolhido d"entre elles para lhe organisar e discipli- 
nar as suas tropas: o imperador a^radouse tanto 

1 d"esse tártaro, que, além de muitas honras e podere» 

I que lhe concedeu, fe-lo mandarim, e escreveu-lhe 
uma carta em que lhe di^se (juc ilbulrasse com os 
seus conselhos os oiilrcs mandarins e os anin\assc\ e 
por tanto po-lo acima d'elles, do que os mnndarins 
chins não gostaram; e, para lhes fazer perraea,lem- 
braram-se de mandar chamar á Pérsia um chim que 
alli militava, e que elles tinham em conta de t."io 
grande militar como era o tal tártaro: porem este, 
que era muito vivo. fiado nos seus poderes, que eram 
os mesmos que algum dia se concediam aos dictad»)- 
res rimianos, armou trempe ao pobre chim, pren- 
deu-o e polo em cooseilio de guerra ; e vendo os 
mandarins que o tártaro puxava pela su.i auctorid.s- 
de, calaram-se todos muito bem calados, e o pobre 
chim foi fusilado sem que ninguém punisse por el- 
le : e eu, acordado ao estrondo dos tiros, assentei de 
nunca me lembrarde jogar ascristas com generaestir- 
taros, massim de pendurar, logo que chegue a Lislwa, 
a minha espada na parede, para se deixar enferru- 
jar bem á sua vontade I . . . Que me diies ao sonho ' •< 
ti \'euha dinheiro, e brevemente lerei o gosto de 

' segurar-te que sou — Teu verdadeiro amigo e primo 

, fiel — Gomes. 

I Não em abril como promellia a cart.i, mas em ilG 
de maio de 181o apresentou-se no quartel general d.t 
corte e província da Estremadura, e por aviso de S 

' de junho foi declaraoo ínnocente, não obstante ter 

1 marchado com as trop.is porlugueins p.irn França; 
e mandaram-se-lhe «bunar os soldos a que tive«edi- 

' reilo. ((.oiiítniío.) 

I lIvniTVNTKS 0*s IjVNDEs llt HoRPKrs (1 \ 

MiiTos dos estrangeiros, «ibservadores superficiaes. 
' que apenas passam entre nos algumas semanas, assen- 

I (I) l.andrs quer dizer o cliarnecas j ou lanihem « uiíl- 
, lajíaes iiianinLus » « terr.is (ifaras e br.iMas. r Conserva- 
mos porém o nnme francei, porque o consiiieranios aqui 
• termo yeojírjpliico, como por exemplo diremos « »s Du- 
uas r e outros seuiellriules. 



o PANORAMA 



23 



taram julgar mal de tudo o que se diz e o que se faz 
para cá dos Pirinéus; esta maledicência svstematita 
(.' injusta produz unia alluvião di: liliellosinlainficon- 
fra nós e a najão visinlja. Nju precisamos (joréni de 
pagar embuste» com outros tnjljustps. ÍVos próprios 
tscriptores nacionaes de l'"raii(;a e de Inglaterra en- 
contramos quadros, ora de misérias, ora de crimes e 
dissolu<,'ões, que não tem parceiros em a nossa terra. 
Não é, por certo, em I*ortugal que existe em longo 
tracto de território gente de tão nii'squinlia condição 
p. minguados recursos, como aquepasiàmos a descre- 
ver, trasladando as (iroprias palavras de Mr. Victor 
Gaillard. — 

Não procurcnios dissimular que as Laiiilps, esse 
extenso deserto que, começando hs polias de Hordéus, 
vai rematar na foz do Adour, nuda tem de agrada 
veis, e mui [loiíco lisonjeiam « nosso amor [iro[iri() 
nacional. Ksta comarca é sem c*.»ni pararão a parte 
mais desagradável do liello reino de França, qualquer 
que seja o lado jior onde a contemplem. Áreas ar- 
dentes no verão, charcos e abismos no inverno, clima 
doentio em todas asestaçõns, temerosas solidões onde 
jiarece illimilado o horisonte ; eis-aqiii o aspecto das 
Ijaiides, sobretudo do lado maritinio Se uma tem- 
pestade, por exemplo, arroja alli um niiseio estran- 
{jeiro, poderá por ventura capacitar-se, depois de ha- 
ver galgado trahalhosamente os medões movediços do 
litloral, que po?, o pé em França, tão celebre por ler- 
lilidade do solo e pelos progtessos da civili-ação ? A' 
vista de uma praia medonha em siiuuiio grau, de 
planícies áridas, e de raros eagoientados habitantes, 
que vagueam n'aquelle terreno devastado, cuidará lo- 
go actiar-se á mercê de uma tribo selvagem, a mais 
extravagiiiile em trajos, maneiras e postura Embora:, 
II este solo ingrato, onde só crescem em pontos dis- 
persos os abrolhos e tojos e alguns pinhais, mais ve- 
getam do que vivem trinta vollos humanos porcada 
légua quadrada, iiittii aiiuíilc fruiicczci cdiiio vús e 
cu, com os (|uaes todavia, de nenhum modo <|uero 
participação em liabitos ou gostos. Longe de poderem 
articular, em sua barbaia algaravia, pens.inieiilns coui- 
niuns, muito é se acham palavras para ex|iriinirem 
algumas necessidades [ihysicas i acoslumaclos a ver 
«einpre os mesmos objcvlos, anão passar desensações 
unilormcs, copiam no sen caracter a monotonia sel- 
vagem do di^triclo que habitam. Ignorância profun- 
da, iiic!S(piiulia cubica, aliathia no maior auge, e um 
lalexce^sode indillereiíça que iiléembola osentimen- , 
to da penúria, fa?.ein esta gi'iile ineapa?. de energia, 
equasi que até de rellexãir. Habituados desde o ber- 
ço a maia absurda su|)ersliçào accilhtiii aviílaiiienle os 
contos e tradições de feiliceiroi e de almas em pena. 
Debalde recebem de seus curas as noçõi s religiosa», 
porqui.', prroccupados de terrores pueris, a» desligu- 
ram, ap|)lieando.as a ChcíMijuros e ridicuK:s exercícios 
de mal enlindida devoçãu. 

A raça /oík/cío, propri,iuii-iite ilida, vive no ter- 
ritório mais vlsinho do oeeauo, desde a lorre de Cor- 
douaii alé la Tesle, e d'alii ali' Kavoíiua. Ahi se de- 
ve estudar esta variedade andróide, que em cada uma 
das sua» leições ilá assUiU{ilo para observações etno- 
graphleaii e a triste» meditações. — O habitunle das 
liandes, baixo o miigro, lem còr macilenta, eabellus 
prelos e corredios, idlios b.iços, e a plij sioiíoinia tris- 
tonha , a» suas li'ições iinp.issi veis, que o riso anima 
poucas veies, tem certa ex|iressào inedilaliva, iinalo- 
ga á que se observa n'ulguus loaniacos. l'orem, ape- 
sar da consliluição fraca e eoiisuiniibi pelas febres na 
maior paili' do anuo, o h.ibilanle das liiindes desem- 
penha os mais pezaclos trabalhos, o arrosla todas as 
inteuipei leH almosphericiis. Aecresco a tudo isto que 
os seus giosseiros trajos comliiem liiiil com a liinpe- 



ratiira, porque o estafam no verão, sem o resguardar 
do frio no inverno^ o mesmo se observará quanto á 
sua pousada miserável e immunda, que o esquimau 
e o hottentote despresariam, e na qua! se amontoam 
ás vezes trinta a quarenta pessoas ; a peça principal 
é uma grande coslnha, cuja lareira occupa todas as 
noites um (aldtirão, onde a decana da familia mexe 
o escuUm, em que se encerra todo o jubilo dolaiidez : 
esta comida consiste n-umas papas de farinha de mi- 
lho. Em quanto se prepara, as mulheres fiam, e os 
homens entrelem-se invariavelmente acerca do lobis- 
hoinein que anda mais em voga, ou da returreição 
do feiticeiro que ultimamente se enterrou. Da cosi- 
nha passase para alcovas escuras e sem ar, onde to- 
dos de mistura se encovam, uns deitados nochãoso- 
bre vellos de carneiro, outrosem ruins enxergas, snp- 
pottando um calor capaz de coser ovos. 

De quantas povoam ai Laiides a classe dos pasto- 
res c a mais numerosa e lí!int'em a mais miserável, 
(iuasi sempre alfastado das habitações, cada pegurei- 
ro anda munido de nina saccola de farinha de milhn, 
de toucinho excessivamente rançoso, e de uma panei- 
la para lazer as papas em agua de Ião ruim qualida- 
de que a corrigem com um pouco de vinagre e sal. 
Muitas vezes correm semanas inteiras sem ver crea- 
lura huniana. Empoleirado nas compridas andas de 
pau, que o levantam á altura de seis pés, e com as 
quaes parece ter nascido, galga mattagaes, atravessa 
charcos, e liicla em velocidaih- com os cavallos bra- 
vios da charneca, por onde discorre fiando a lã de 
seus carneiros. De longe a longe, o encontro de outro 
pastor interrompe as suas longas horas de solidão, e 
lhe causa uma distracção; mas quanto é curta ! por- 
que os rebanhos junclos em breve esgotariam o sus- 
tento sulficienle iraquellas enfezadas pastagens. — 
Mais raras vezes ainda, um boieiro se aparta da es- 
trada para levar o gado a pascer no meio dos tojaes, 
c enião couta a nova apparição de uma alma do ou- 
tro mundo ijue fu2 anil.ir em bolandas a próxima al- 
deã ; e conversam depois na boa criação dos seus ga- 
dos, lioi» e carneiros eis toda a paixão da gente das 
Landes, que ii'elles deposita toila a alVeição de que 
é susciptivel, olhando com indilVerença para tudo o 
que lhes não diz respeito. Perguntai-llie pela mulher 
ou filha doente, responderá com lamurias pelo mal 
que deu no vitello ou nos carneiros. Dizei-llie : — «Já 
sei que vosso irmão tem iim grande catharro; mas 
penso que vai melhor." — Não vai, não, senhor (vos 
responderá) um dos bois Irasfulhou e não pôde comer ; 
u meu irmão está por isso muito ma^uado.)' 

A rouparia do pastor no inverno consta de vellos 
com a lã para dentro; com elbs cobre ocorpolodo, 
á excepção dos [les sempre descalços, e tia cabeça <]Ue 
abriga com um barreie pardo-, vesle por cima uma 
capa de burel branco com seu capuz anuilo, guarne 
eido de bandas encariiailas e de clinas soltas ; chamam- 
lhe caimtc ílt Carlos ilA/i/iio, e troei 111 no de verão 
por outro mais leve depellede cordeiro, e por igiiiies 
pelles largam os vellos ipie Irouxerain no tempo iVio ; 
o resto do veslii.irio é roupa branca iiue, ciiiiio e de 
sup|ior, nunca mais loi l.ivada. 

A \elhice do zagal das LanilfS é «nlecipad.i ; de 
maravilha alcança os sessciit» unnos. ("omludo, nii 
sua vida vegetativa lá encontra att laclivos na verda 
de inexplicáveis. Se e const rangiilo a pagar o tribiilo 
de sangue á pnlria, desespiriido sae de seu deserto : 
iliísde esse inomento couta os ineze» de serviço, e qual- 
quer «pie «eJH n melhoria i|in' expofiinenle, ri'spoiulo- 
ra sempre: — >• Eu em bem feliz ipiaudo me cliaiiia - 
vum desgraçado." — Nada o póile reler sol» iis baii- 
deiriis iihiii do priiso <bi lei, e bem ilepressa toma o 
caminho ibis suas ih.nnecas soliliirias, Alii iccobra a 



24 



O PAINORA3IA. 



liberdade e a melancholica ventura a «eu modo, que | 
prefere a quanto se chama civilisaijão. Ao cabo de | 
seis iiiczes está como te nunca fe auseiilúra ; tudoltie 
tem esquecido. í 

l)'este modo a soberania dos pântanos e mattos , 
das Landes pertence ao pastor ^ domina, do alto das 
suas andas de páu, sem rivaes nem ministros, e a 
sua autocracia não adia obstáculos nos \astos ermos 
de I3orn e Maremmes. Porém no cantão de Maran- [ 
sin, onde crescem e abundam os pinhaes, a impor- 
tância do pastor é secundaria, e cabe a supremacia 
ao ganha-pão que apanha a resina. Ifiquem é este.'... 
E um homem qne se ergue ao raiar d'alva, urma-se 
de um machado afiado, carrega com uma longa >ara 
talhada em degraus á feição de escada, e com um 
bornal que leva a comida, encaminha-se logo para as 
mattas de pinhal, onde consome a máxima parte da ', 
sua vida. Apruma a sua vara a par do tronco recto , 
de um pinheiro, por ella sobe a muita altura, sem 
mais apoio do que o entalho em qne estriba o pé es- 
querdo, e com a perna direita, abarcarulo a ar\ore, 
sugiga a vara e não a deixa vacillar. D'esle modo 
suspenso, com mão certeira dá os golpes da machada i 
e trará na superficie do tronco uni rego estreito, tal | 
que qualquer juraria que por alli passou a plaina. 
I)'esla incisão vertical, que vem dar ao pé da arvo- 
re, manará a resina, que esse mesmo homem ha de 
apanhar e transportar mais tarde ás fabricas onde é 
dislillada. 

Habituado desde muito moço a tão penoso traba- 
lho vive, como o pastor, apartado da sociedade ; e to- 
davia vive sem tédio, e não trocaria a sua condição 
por uma existência mais commoda. Devorando á pres- 
sa uma sardinha com um pedaço de pão de centeio, 
mata a sede com a agua que se empoça na malta ;e 
6Ó volta á choça solitária para tomar algumas horas 
de descanço. Assim continua por nove niezes do an- 
no, desde o principio de março até o principio de de- 
zembro ^ os três restantes passa-os em casa da sua fa- 
mília ou do proprietário da raatta. l'ara dar tréguas 
a esta vida desacompanhada, ao domingo larga do pi- 
nhal mui cedo e entia para a taberna ; é onde se es- 
quece de Iodas as fadigas i as ruidosas explosões da 
sua descommunal alegria cobrem apenas as vozes es- 
ganiçadas das mulheres e os berreiros dos rapazes, ijue 
»e apinham ao redor de mesas onde o vinho corre em 
bica. As libações succedem-se sem descançar, e quan- 
do a noite chega é completa a embriaguei ; então >ce- 
nas inauditas se divisam ao clarão vermelho e «fuma- 
do d'archotcs enresinados : a desordem vai em aug- 
inento alé que uns caem por baixo das mesa"-, outros 
forcejam por se rclirarem ás choupanas perÍL'osomen- 
te cambaleando. No dia immodiuto o apanhador de 
resina corre de tronco em trunco a rccollier o produc- 
to de seu anterior trabalho, e tão lestes e diligente 
como se o houvera refrescado a orgia da véspera. O 
seu trajo é sempre o mesmo, alé que encebadoe po- 
dre caiu aos farrapos ; consta de barrete ou chapéu de 
palha, vé^tia de pano grosso, calça de linho crii ou 
semelhante, c cinta encarnada : se clio\e, embuça-se 
«"um capote que tem só as cavas das mangas, e de 
nm talhe particular, privali\u do .Maransiii, e que 
ainda não tem desmentido desde a idade media. 

Antes de sair dos pinhacs, presentemente objecto 
de avultada e llureceiite industria, o .upitalista vai 
visitar um laboratório de resina-, porém o poeta eo 
pintor encaminham-se para o oceano. — Não é andar, 
V bordejar n'um chão que na mobilidade imila as on- 
dulações do mar: agora se desce ao fundo de um bar- 
ranco onde liu agua salobra e encharcada, logo mon- 
ta-se a sumniidade de uma vaga de arê.i saibrenta : 
acabam os pinhacs, c ai dunai ou roéduei i-omeçaiu. 



Decorridos alguns minutos divisam-se muitas malhai 
escuras que se movem lentamente nos ladosalvacen- 
tosd'aquelles cabeços collocados em amphilheatro ;sii ' 
os paisanos das dunas, puxando trabalhosamente, por 
ténue salário, as faxinas com que é necessarioc-obrir 
o pinisco, de que hão de sair »s robustos pinheiros, 
que d'ahi a cincoenia anuosdefendernoolerrenoeol- 
tivado da irrunção das aréas le\aiiladas pelos ventos 
d^oeste. Oulro^, mais ao longe, cccupam-se era forta- 
lecer 09 tapumes de caniços, que em distancia se to- 
mariam pelos traços divisórios de uma carta geogra- 
phica. Chegai-\us de perto, e aebar-vos-heisá entra- 
da de um labvrinlho, que em suas \ollas encerra in- 
numeraveis videiras com as \aras verdejantes carre- 
gadas da bella uva de qne se espreme o nomeado Bor- 
déus. E elle o único produclo notável de todas as Lan- 
des, e exige considerável co-trio de cultura : a boa 
qualidade dovinho compensa bem a falta naquanti- 
dade ; e admira como pôde adquirir tanta sevee vi- 
gor n'um terreno formado, como o de CaboBretão, 
pelos areaes acarretados pelo mar. 

(Ccnlinúc.) 



O V 



II vo E o .Medico. 



Um pobre operário de PIvmoutb, tendo a mulher 
muito doente, foi pedir a um medico de fama que a 
viesse traclar. O doulor, por ser o homem mal tra- 
jado, prometteu-lhe que iria, mas não fi>i. Peiorou 
a doente, e o marido voltou a casa do doulor a pe- 
dir-lhe com lagrimas a soccorresse. Ainda d"esta vez 
perdeu as passadas \ tornou terceira e disse-lhe ■ ». Dou- 
tor, minha mulher eslá ás portas da morte, e tem fé 
que só vós a podeis sal\ar. Eu, com ser um triste ope- 
rário, tenho algum dinheiro de reserva, porque soo 
forreta i promelto pagar-\os dez libras, quer a cureis, 
quer a mateis." O doutor enlerneceu-se, e medicou 
I a doente, que d"ahi a poucos dias estava na eterni- 
I dade. Passados os da corleiía, mandou o esculápio a 
I conta ao viuvo, e como elle não qnizcsse pagar-lhe, 
citou-o para comparecer no jurv. Concluída a alle- 
I gação por parte do auctor, o presidente perguntou ao 
1 réu se tudo aquillu era verdade. E certo e mais que 
; certo," disse este; "puréiii. se me derdes licença, fa- 
rei uma breve pergunta alli ao amigo doutor." Foi- 
Ihe concedida. — "Eu não vos promeiti dei libras, 
quer curásseis quer matásseis minha mulher ? — " Não 
ha duvida" respondeu o medico. — «.Basta. Ora res- 
ponda-me o senhor doulor: curou minha mulher.'" 

"Não, porque a moléstia i>ão tinha cura." — uEii- 

tão matou-a ?" — «Deus me defenda', que testimu- 
nho! 1 Morreu porque tinha de morrer." — «Logo, 
se confessais que não a curastes nem a matastes, cas- 
pite '. temos as contas sald.iòas. " O jurv . ciiigindo-se 
á lettra da promessa, ab^Ueu o operário, e uescu- 
lapio ficou sem a paga e pagou as custas. 



Subscrei<e-se para este jornal na Tiipographioende 
V impresso, e nas lojas Jc livros de / iufa Henriques, 
c Bordalo, rim /íugusia — Ziferino, ttio <í<.i$ Copií- 
lislas — e 'J'ori]Ualo, tua do Ouro. 

fendi-se nos locaes aonde se subsireve, e naslojas 
4c livros de Lemos, rua .-lugusia 11." 1-" — na rua 
direita da lisperanra 11. ° 1:2o — e na loja de livros ui. 
y. F. ela Silva, rua direita do Livramento n .'^ H ^ . 

Assignatur.i p<ir anuo — b^N.*" 1 S20O 

Dila por semestre — 26 N."* .5640 

N." avulso .«030 

A corrrspendeneia franca, <írre ser dirigida á Re- 
dacção do Fanorama, Lar^ode Coniador-mórny l\. 



o PANORAMA. 



25 




TUMULO D£ niCHELIEU. 



O ifliuiu do cardi.'al do lUchelicii, que ainda hoje 
iu conserva na Surtxinna, é reputado como o primor 
do cintel do fainoso mestre dV'ículplura Franc'i>co 
(iirardon, natural de Trojes, e nascido querem uii> 
que no anuo de lb:i8, asie^tirani outros que no de 
1G3U. Iluuve quem sustentasse (|ue os ricos desenhos 
do hello inaubolcu, que damos n'este n.", eram to- 
ilos do lápis de Lflirun :, mas Girardon, com uma al- 
ma nohre como linha, he estivesse em dívida para 
c-ofii elle, nàoahriria no inoiuimi-nto » /'V. O, iilftu- 
luti c jcí" — ni-in Lehruii era homem pura »e calar 
iliaiile de s>'iMt'lh.inle impostura, 

A eselioia de (iirarduii não sr pautava pelo molde 
da arte ^ree4> romana. O secidu «i as piopensões tio 
artista at1asta\aiii-n\i da iniitat^ão rigorosa. Na sua 
epocha olaiisto e o|;alanteio invadiam tudo, c passa- 
vam dos costumes periumados da corte para o inar- 
inoie, o bron?!', e o j^esso. l'ar» alcj^rar o» jardins, 
«onde ja espaireciam a-, poc liças visTiescle maileimiiselle 
de La Valliéri-. IjOU. \l V ordenava ;. o jaspe e á (leilra 
que imitassem a ligeireza e o {gracioso sorrir daslicl- 
leius mundanas. O (jranile rei não se arrehalava |)e- 
la romposlnra da estatua [;riga, prehria-lhe o hraco 
arredondado, <j i;estu inei^o, aquella posição toda pra- 
<;us, tjue allíii^a o deleite, e arranca do fundo d\dina 
um kU>piro laii'.;uÍdo. 

tliiando (.'orneillu na tfní^edia fuudia ui teu( per- 
Kiiiugen» ei>m a fori;a viril e ud paixões tevenit de 
Uoma, l'uj;ct pela escuiptura tirava da pedra ok hus- 
tuk de herue» a que n admiração >e inclinava, iinik 
que erum frios, grandioso» de muia paru captivur u 
Not. 1 — JkTíMituo ■-'(>, ItJi li. 



svmpathia. Nenhum d'elles cahia nas proporçôe!. ver- 
dadeiras, eamhosas excediam paraaltingir um ideal 
maior <|ue n realidade, e |ior isso mesmo mais gi- 
jjante do «juc terno. Uaciíie e Girardon peloconlra- 

I rio dí-sluinbravam pela singela bellena, que toca no 
coração: helleza humana, aliectuosa pela divina har- 
monia. <|ue a espiritualisa, menos elevada que a ou- 
tra, porém muilo mais natural e verdadeira. Asdua> 

j escholas levantavainse até a altura do génio creailor 
por di\eno caminho: a prini<'ira nas azas do pen«a- 
meiíto rigido e do clássico austero : a segunda pelo 
fogo ía^'rado do amor. CorneiUe e l'uget eram ro- 

j manos em França ; ll.iciíie e Girardon eram Irance- 

I zes em llunia ,' e d'esla ilivergcncia «••.*enci,d se resu- 
miria a dinérenija dos dois sistemas. Us primeiros <les- 

I liimhr.i^am, (dirigando a admir.t-los ; os srgundoi. '-■i- 
hendo o se:;redii ilo peito humano, prendiam o e^prl ■ 

' 1aLh>r pelas eommo^>ões ila alma. LI por issii que (ti- 

I rardon nunca foi IVomelhen, qu<' infundisie lla^ 
suas oliras o fogo do céu, possuindo como ninguein ■> 

I suhliinc inslinclo de indicar n seií-ihilidude das car- 
nes, (iuandoos didosapalp.iili os contornos Ião bran- 
dos e suaves das buas estatuas, quasi que recei.im \c- 
las estremecer de repente. 

Duas palavra» mai» sobre o artista. — Giroidoii 
seutiu desde o principio aquella vaga Irisleia, tignal 
lie uma vocação que hesita e procura o seu dettino. 
Levava horiís inteira» abvsmado a cí)iit<'inplar a n»- 
ture/a , — depoi» ilcceiídia-iu o ardor, a fibredu ins- 
piração, acalmando em etboçot interrompido», cinde 
senhos truncadui . a fronte cursada a revelação do 



26 



O PANORA31A. 



ideal, o peito comprimido pelo tamulto da duvida e 
da esperança em lucta lá dentro ; e no meio d'e5ta 
agonia, a historia do ine\itavel martjrio com que 
a cegueira das familias attribulou sempre, consfran- 
gendo-05, os primeiros ensaios do génio precoce. A 
isto se reduziu a mocidade do celebre escuiptor. 

A contar do dia cm que livremente lhe foi permit- 
tido consagrar-se ao culto das artes, a sua carreira 
foi grande pela gloria, mas pacifica e igual. Nem 
revezes, nem rivalidades, nem perseguições. Entre o 
amor ao berço natal e a devoção da escuiptura, atra- 
vessou por todas as tempestades do mundo até ador- 
mecer nos braços da nioite sem dòr nem afflicção. 
Foi um lindo dia de in\erno, que a noite apagou 
nas trevas ; dia raro, e minguado sobre tudo porque 
íobresaíu na estação sombria, illuminado de um sol 
vivo e creador. 

N'outro artigo esboçaremos o caracter do cardeal 
de Richelieu, a quem se levantou o soberbo mauso- 
léu da Sorbonna. Era justo começar pelo artista — o 
homem d"Eslado, posto que tão superior, pode mui- 
to bem admittir qne elle o preceda: — felizes ainda 
aquelles quo não vivem só do mármore em que se 
mandaram retratar, ou do poema em que insinua- 
ram allusões parciaes e lisonjeiras. Anda ainda na 
historia e no mundo muito Aflbuso d'Este sem car- 
deães llvoolilos. 



O Hadjeb de Kokdova. 

(972 a 992) 

I 

Os jardins (VAzahrai. 

MoBBEBA o famoso kaiifa El-Hakem, levando ao apo- 
geu da grandeza e prosperidade o império kordovei. 
As luctas immensas da raça árabe e da raça goda na 
l'eninsula tinham adormecido, ou pareciam adorme- 
cer. Os filhos de l'elavo encostavam, momeutanea- 
mente ao menos, ao canto do lar a pesada lança, qne 
tantos annos lhes hav ia levaJo a temperar nas aguas do 
Astura, a afiar nas rochas de Covadunga — e os her- 
deiros de Tarik deixavam dcscançar ao lado a rude 
cimitarra do Maghreh. 

.\ El-}iakem succedêra, no nome, seu filho Ilecham 
criança de dez annos, e. no mando, Mohammed-len- 
Abdiíllab, nomeado hadjcb, e tutor do moço príncipe. 

Mohammed dissipara o bando dos seus inimisosco- 
nio u vento do céu varre as nuvens da tormenta. Guer- 
reiro feliz, cortejuo prudente, dominador sem rival, 
o hadjeb via elevar-sc progressivamente oedificioi^as 
suas prosperidades sobre as ruinas dos seus adversá- 
rios. 

Não tinha o titulo, mas tinlia o poder de um so- 
berano. Não se assentava no throno, mas f.iiia mais 
— dominava omonarcba. Cercava o por Ioda aparte 
a pax e a ventura. No meio porém d'esta atmusphe» 
ra de felicidailes ouviase oquequt-r que fosse, como 
um rumor de tormenta no horisimte. . . 

O alcaçar de Arahrat, fundação do kilifa morto, 
erguia-se nointio da sombra c dosilencio con.oo vul- 
to immenso de um gigante a descar.çar estendido. 
Nenhum rumor de dentro vinha quebrar a cilada da 
noite ; earuidosa habiliiçãu do soberano knrduvei pa- 
recia ler adormecido com todos os seus moradores. 

Não dormiam todos porém. Cliieni penetrasse nns 
j.irdins do alcaçar, e percorresse em Ind.i asuaexten- 
»ão aquelles vastos niassiçns ebosqiledos. ouviria sus- 
pirar baixo ao pé d'uma fonte de mármore, oude se 
despenhava do alio uma veia d'agua cristalina. 



I Mas que suspirar aquelle 1 Q.uasi que se não podia 
bem distinguir se era afoute que se lastimava, se era 

i a voz humana que murmurava. 

I Só quem se approximasse veria uma alva figura de 

] mulher, immovel, de pé, encostada ao alto parapei- 

' to da bacia de pedra, como a estatua pendida na ur- 

! na d^um monumento. 

Era esta poética figura que soluçava — era ellaque 

! misturava os seus queixumes com o gemebundo tu- 

; surrar da agua. 

! Quem a levara alli áqoella hora a prantear dârei 

; ou a gemer saudades? 

I A noite corria escura e voluptuosa. As estrellas ver- 
tiam para a terra aquella tremula e indecisa clarida- 

1 de que augnienta os mvsterio» e faz abrir as tlores do 

i coração. O ar estava embalsamado de mil perfume* 

■ diversos. Os jasmins de Toledo, as rosas d' Africa, e 
j os loureiros da Grécia entrançavam-se na terra, e 
I misturavam no espaço as suas exhalações odoríferas : 
; era uma hora de amor emvstifa solidão, como a de- 

■ viam deinvocar osguerreiros kordoveies nos seus dias 
de pai c descanço. 

I A pouca distancia da fonte ia uma rua tapada de 
'. murtas, que se ia embrenhar no interior dos jardins . 
um lanço de muro dos pateos interiores vinha quasi 
morrer-lhe ao pé. 

Dois vultos de homem surgiram ao mesmo passo 
juncto da dolorida solitária. Um, trajado do escuro, 
silencioso, sombrio, acautelado, saía d"entre as mur- 
tas espreitando attentamente as trevas, parando a ca- 
da passo, e como querendo adivinhar o que não po- 
dia sentir — o outro, adiantí:ndo-se confiadamente, 
coberto d^um amplo manto alvacento, eddxando on- 
dear as prejas amplas em roda da nobre e mages- 
tosa figura. Tão altivo e ousado era o porte d't'«- 
te, como suspeilosos e prudentes eram os meneios do 
outro. 

Chegados a breve espaço da fonie, pararam am- 
I bos. O que se escondia, como er» i^atural. presentiu 
; primeiro oque se nãooccultava, e retrahindo-sed:an- 
te d"elle com dobradas precauções, oppressa a respi- 
ração, accesos osolhos, immergiu-se de novo na» som- 
bras do arvoredo, 

U vulto do manto branco adiantava-se noen'anto. 
Ou fosse que, esperando já alguém, a figura da fon- 
te não estranhasse o rumor daquelles passos que >e 
approximavam, ou fosse que, toda em) ebida na sua 
meditação, os n?o sentisse, é certo i)ue não pareceu 
dar pela vinda d'elle senão quando este lhe era ja 
i chegado ao pé. 

Voltou-ve então subitamente, como qu> m de«perta 
d'um longo lethargo, e exclaiuBu em ar-s de repre- 
hensiva : 

— .1 Aens I."i0. . . •» 

Evidenlemente a pessoa que viu não rr« a qiiees- 

■ perava, que as palavras sumiram-»e-llie nu^ lábios, e» 
tremendo toda como um vime, poude apenas balbu- 
ciar : 

— u Vós ! . . . «qci ' ■• 

. — >i.\qui — tornou uma vei sonora eehei.i — esu 
aqui. A formosa Gelobtra l)emsal>cque n'outra par- 
le. . ." 

— uN^outra parte seria uma fraqueta dar ouvido» 
I ao hadjeb de Kordova : aqui é um crime •• 

! — u Porque ? " 

— " 1'orque em quanto o poilerwii Mohammed des- 
, ce escondido a perseguir na* trevas quem não pi'>de 

ser sua, desespera-se talvez lá em cima quem elIe nà» 

deve esquecer. " 
; — «• Lemhr.is-m'o demais. •• 
I — ■•i.EIla é uma princeia, »enbor : eu lou ama e>- 

crava. 



o PANORAMA. 



27 



— uDize lima palavra: será ella a escrava, tu a i sobre elle, e se retrahe sem o amollecer, deixando o 
priíieeia." como o achara. 

— "li o que vós llie devcisf» | — .iGeloliira, Sabes que te amo I >• — prorompeu 

— iiNão lhe devo iiad.i.» ^ Mohaimiied com a voz alterada. 

— "E o que ella pôde?» I A virgem goda só respondeu com um grilo de ler- 

— uNão pôde iiada.'i | ror e angustia, que resoou no âmbito immenso dos 

— "Não é a mim que me pertence acoiuelharvos, jardins como um brado de agonia. Uma espécie de 
senhor i mas se a voz de uma escra\a pôde alguma ' rugido abafado respondeu-lhe ao longe, podendo to- 
cousa no vo%so coração, recordai-vos que Shobeia..." j inar-se por um ecbo. 

— "Nacillava no seu throno: foi este braço que a | Geloliira conhecia a implacável resolução que si- 
seguruu nV^Ue. Não era amor, era ambição o que a gniljcava aquella súbita confi^são do hadjeb. 
movia. Apertei a coroa na cabeça de seu íillio, con- , JNão siipplicou mais. Sabia perfeitamente que seria 
lervei-llie 05 seus títulos, e sacrificando os meusdias tudo inútil. 

e as minhas noites tomei n'estas mãos robustas as re- ' — 'Levanta-te, escrava" — continuou Moharomed, 
deas do império, que estava em riscos de se despe- i sufiucado pela violência do que lhe fervia lá dentro, 
nhar. Não lhe devo nada. Que me importam as suas Geluhira poz-se em pé de repente como se algum 
lagrimas? que me faz a sua cholera .' Não a temo tam- j occulto macliinismo a tivesse feito mover. O rosto dis- 
pcaico.» I putava pallidez com os mármores da fonte. Os olhos 

— "I£u sei, senhor, eu sei que o vosso poder éim- j dilatados, qtiasi resplandeciam nas sombras, a curva 
nunso, sei que as vossas iras são terríveis. Mas de 1 magestosa da fronte parecia rodeada d\ima aureola 
certo não haieis de emprega-las contra..." deslumbrante. A altiveza do seu porte rivalisava com 

— "Contra quem.'" — interrompeu em tom rude o do guerreiro. 

e desabrido o hadjeb. Mohammed contemplou-a de novo como assombra- 

— "Contra uma pobre mulher" — clamou a don- do, e, sem poder já conter-se, e.\clamou imperioso com 
lella caindo a seus pés n'uma violenta explosão de-la- a voz estrangulada pela anciedade : 

grimas! — i.Segue-me." 

O guerreiro kordovez filou os olhos ardentes n'a- ^ — "Morta sim ; viva não." 
quelld figura angelical, dobrada na terra, chorosa e , Bradou a virgem de .Amaja, e o lampejar d'u 



prostrada ante elle, e por um momento as linhas 
d"iiquelle rosto severo e tostado pareceram distcnder- 
se n'um impulso de compaixão. 

E que realmente nada se podia ver mais doloroso 
e gentil do que o gesto e a altitude e o todo deGa- 
luhira, de5espera<la e supplicante. 

(ieloliira reunia a graça á magestade •, sorria-lhe 
nu rosto a innucencia e a candura ; resplandeeia-lhe 
110 aspecto a energia e a nobreza. Nascida nas mon- 
tanhas, tinha no porte o que quer que Ibsse de força 
varonil, temperada pela graça e pelo melindre, que 
tão o poder do seu sexo. (Jra se erguia altiva como o 
roble <la8 serras, ora se curvava timidamenle como o 
lirio do valle : os olhos ncgroi e rasgados, semi-vela- 
dos por uma longa franja de sobrancelhas asselina- 
dus e recurvas, eram demasiadamente brilhantes pa- 
ra encarar a terra, só se abriam em todo o seu régio 
esplendor para conlemplar o céu '. 

Gclohlra, liiha do paií de Amava, fora fiMta pri- 
sioneira ii'uina correria, e conduzida a Kordova com 
outros sen» companheiros do llo^ll■rro. Em Kordova o 
extraordinário da sua formosura fe-la para logo ac- 
ceita de Shobeia, inài do moço prineipe líecham, 
n quem fora duita como ehcrava. Viu-a o impetuo- 
so ha<lji-b, e o mesmo fui ve-la que ficar para lo- 
go u arder por ella na mais violenta chamma que 
nunca devorou um coração. Longo tempo sutloeara 
M<ili«iilined o incêndio que lá deiit 10 lhe lavrava : fora 
" amor de Sliob<'ia que o levara áquellc ponto de po- 
der, receava ollendcla, e altrahir a sua cholera. A 
final, porém, seguro do seu dominio, e não |K)dend>i 
já conter o» ímpetos furiosos que o assaltavam, r^^ol- 
>eu pôr lerino aqui'lla hornnda ínei^rteza, e abrir-ae 
com a linda chrislã. 

Vigiaiidoii de nnile e liia \ ira-a de*< er nos jardins, 
e seguira 11 ediílendu ilinículto>ainenle no peito «ipul- 
la lunenle de (haininas (|Me ameaçava de trasbor- 
dar. 

Geloliira eoiilii'<'ia o hiidjeli, e era por isso que se 
lhe lançara aos pi'» ii'nqui'ile iinpuKo rnlranho de ter- 
ror e de pranto. 

i.) iiioMinentu de piediidi- (jiie parectVn apoderar se 
do guerreiro fui loiíio a luida ijiii' escunile por insluii- 
les u aspiro cabeço d'um rothvdu, mas i|n«iie quibra 



ferro como que lhe alluniíou as mãos de alabastro. 

— "Ti:'ha previsto já este momento" — accrescen- 
tou fclla, e alçou o punhal sobre o peito. 

O guerreiro porém foi mais prompto. Com um 
simples movimento d"aquelle braço robusto fez cair 
na terra o instrumento homicida, e travando irresís- 
tivelmenteda mão á virgem, clamou em toui depun- 
gente ironia : 

— « O teu braço, Gelohira, não está afleito a estes 
brincos. " 

— " Mas está o meu 1 " 

Trovejou n'este momento ao ouvido do hadjeb uma 
voz medonha, e um como raio furioso desceu scintil- 
lando ao peito do guerreiro que vacíllou. 

— «Também eu estava prevenido — respondeu el- 
le espumando — não se abre assim o aruez de 5Io- 
bammed. " 

E arremeçando-se como o tigre ao imprudente que 
o a>salla\a, coineçim entre ambos uma d aquellas lue- 
las silenciosas e desesperadas, que não acabam senão 
com a morte. 

Os dois vultos, do hadjeb e do descouliecido, tra- 
vados arca por arca, luctaram longo tempo, aperta- 
dos os peitos, entrançados os braços como dois athle- 
las 110 circo; depois vieram ambos a terra como dois 
carvalhos st;culares, que tlesal>assem al)^açado^, leri- 
dos ao mesmo tempo do machado do lenhador. . . 

E continuaram a biela como duas Ber|>cntes o»qu« 
se haviam acommellido como dois leões. 

No fim d'algum tempo um dos vultos fieon pro»- 
trado no chão, o outro ergueu-se dilacerado. Tinha 
uma tempestade norontu: o manto branco pendía-lhu 
espcdaçado. Maculnvamnu toiiolargas nódoas xerine- 
lhas. 

Kr.i o bailjib. 

Estendeu os olhos em rod.i. A vir:;eiii gudnjutin a 
poucos passos prostrada : suctumbjra ao hotror d'a- 
quelle espectáculo 

O guerreiro kordovez arrojouse parn ella rugindo 
de prazer, ergueu-a do chão manchando lhe asbr.nn- 
cas vestes no sangue que o cobria, e, Muiudo com el- 
la, dcíMpparcccu nas profundas arcada» do alcaçar. 

(( iiil(iiii«u). 



26 



O PANORAiMA. 




FAISRE THEOSCnO D'ACnXEl!lA. 



DiFFiriLMENTE reuiiirá Tortiisial tão i:;raiule numero 
(li! lioniens diítinctns por saher profundo e variado, 
fervorosos na constante applicarão atraliallios liltera- 
rios, como no memorando reinado d'elrei D. José: 
niuitosd^ellcs doutrinaram e enobreceram a pátria até 
o começo do presente século; do empenho e diligen- 
cias de quasi todos nasceu a restaurarão dos estudos, 
ecom cila a reforma da Universidade : porseu exem- 
plo e magistério deixaram bons discipidos e imitado- 
res. — E geralmente celebrada a memoria do bispo 
conde reformador, do matheniatico Monteiro da Ilo- 
<:hr, do eruditíssimo prelado Fr. Manuel do Cenácu- 
lo, do sábio padre Pereira de Figueiredo, e de ou- 
tros ; porém lia muitos nomes ignorados ou esqueci- 
dos, que são dignos de menção por notáveis eslurços, 
<]ue tinliam por movei o amor da sciencia escorado 
na vastidão de conhecimentos. As recordações de Ião 
'•■losos cullores da iiitelli^cncia ou ficaram quasi sot- 
tcrradas na» ruínas lios claustros em que lloreceram, 
ou jazem escondidas com o pó de livros que ninguém | 
sacode i e comtudo foi a esses homens devido o mo- i 
demo adiantamento ; kl saiu o progresso das aulas par- ; 
ticulares que criaram ou regeram, quando no ensino : 
publico campeava poderosa e fátua a pliilosopbia ai- ' 
cunhada de aristotélica, a par da sua companheira, 
não menos arguciosa, u theologia scotisla; então os 
estudos inferiores nãoeran\ por melhor melliodo trac- 
tados. O indicado (-enaculo di/. a esle proposilo ( iiLm. 
Htd. (los pioijrisso c rcstabcltcimtnlo Jas Ictlros): 
" duando os estudos geraes teem degeneração ou se 
reduiem áinlluencia do mero costume, fica reservada | 
aos particulares a excepção «pie lhes fai glorin pelas 
suas tentativas e exemploi emailiantar oparlidodas \ 
sciencias. " l'or isso bem merecem da posteridade os ' 
talentos sãos que .inimosos, a despeito de quaesquer 
considerações e in(liii'ncins pessoaesou daepocha, pro- 
pagaram a verdadeira doutrina, desempeçando o ca- 
minho para os vindouros; mormente porque ointen- 1 
taram n'um tempo ei» (jue (conforme escreveu o Sr. .; 
Trigoso) u não poucos preferiam á verdadeira honra, 
que dá a sabedoria, as honras e contemplações cxtcf 



nas, dependentes do vicioso systema litterario que ço- 
sava exclusivamente do favor publico; a maior parle 
não estimava o que não sabia, e o que não queria 
aprender; e se algum tinha a constância deafTrontar 
descobertamente os antigos prejulios, ficava exposto 
ao escurneo dos que presumiam desabios, eera desa- 
nioravelmente atacado no seu saber, na sua moral, e 
até na sua crença. " Todos sabem quantas tempesta- 
des se excitaram entre nós por occasião do Verdadei- 
ro melhíido de estudar de Verney, e das primeirai 
obras que publicou o padre António Pereira de Fi- 
gueiredo. — Na conta d'esse5 varões desconhecidos de- 
ve entrar o padre João Baptista, da Congresação do 
Oratório, de quem diz o abbade Barbosa : ualcançou 
a gloria singular de ser o primeiro que n^esta còrle 
dictasse a philosophia moderna, que totalmente se 
ignorava em Portugal": deixou impresso um curso 
em latim em doisvulumes de fulio, valioso para oseu 
tempo; e entre os seus discipulos sobresairam o bis- 
po Cenáculo, e o padre Theodoro d" Almeida, o qual 
(na Cart. o'J.'' das Phyúcn Malhem.) o nomeia in- 
rão d eterna saudade, aquém devo esse pouco que ui 
do co7ihccimento da natureza. 

Com aslições de seu mestre approveitou tanto o pa- 
dre Theodoro, que se habilitou para continua-la", 
aperfeiçoadas com as numerosas experiências e desco- 
brimentos que diariamente se faziam nos amplos do- 
minios das sciencias phvsicas. K lai foi o enthusias- 
mo de que se possuiu por semelhante estudo, que to- 
da a sua vida o professou, não só nas aulas, mas em 
lições particulares, dentro e fora do reino, consagran- 
do-lhe o tempo que lhe sobrava dasoccupações do seu 
estado, em que não foi menos assiduo, como o pro- 
vam o continuado exercício do ministério evangélico, 
e muitas obras ascéticas que deu á estampa. .\ phi- 
losophia experimental servia-lhe de recreio; folgav.-v 
ue trabalhar com as machinas na presença de alum- 
nos curiosos, (femonstrando practicamente as verda- 
des então conhecidas nas sciencias naluraes; e tanto 
se deixou levar dVste louvável impulso que, a benc- 
iicio dos que não possuíam princípios elementares, 
compoz os seis primeiros tomos da Ricrea^uo Philo- 
sophica, em dialogo, nos quaes procurou ser claro, e 
adoptou um metliodo fácil para as intellii^encias vul- 
gares. .D"aqui nasceu que esta obra, deficiente já no 
seu tempo, foi pouco estimada dos entendidos n.i*ma- 
teria, ceusurando-se-lhe algumas opiniões siiiguLires, 
por exemplo, a substituição da thcoria newtoniaria 
da luz; taxaramn"a tanibem, quanto a forma dialo- 
gislica, de pouco peso nas objecções do pliihisopho pc- 
ripatetico, que facilmente o peilagogode^trui.i, incu- 
tindo a opinião própria. Comiuilo é inneçavel que 
esle escriplo, com todos os seus dffeilos. concor- 
reu muito para excitar á leitura de obr.is mais cra- 
ves, e para dílloiuiir notavelmente o go^to peloestu- 
do das sciencias naturaes, então concciítr. idas nas aca- 
demias e fora do alcance dos curiosos. Foi um servi- 
ço do padre Almeida, que é hoje reconhecido; por 
esta razão o appresenlànios como facto principal da 
sua biographia littcraria. Dos quatro volumes que 
completam as Jttcieai^òcs nada diremos, senão quea 
apologia da Ileti:;ião, assumpto dos dois últimos, foi 
dictada por Loas intenções. Seguir.im-se-lhcí, como 
supplemento, os três volumes pseiidonvmos das Cnr- 
las l'hiisico-Mathcmaticas, dcstinad.is prinLJpalmente 
a tornar populares as noções de geometria c de nie- 
chanica. 

Se considerarmos a vida do padre Theodoro, indc- 
peiídenle do car.icter e funcções do sacerdócio, acha- 
remos que em grande parte a consiigrou ásuaappli- 
cação prcdilect.i, as sciencias naturaes. — Aos \inf« 
e quatro de idade tinha sido nomeado substituto dv 



o PANORAMA 



29 



uma cadeira de philo«ophia na sua Cooíçregação, e 
ao» vinte e nove já era mestre ^ mais tarde o vemos 
ensinar com applausos fura do reino a mesma disci- 
plina. 

GUiando os padres nerys estiveram ameaçados de 
nma proscripção quasi igual á dos jesuilas, a ponto 
de serem obrigados a celebrar osofficios divinos apor- , 
ta fechada, parece que mais especialmente se declara- j 
ra contra alguns a má vontade do poderoso ministro j 
d"elrei D. José:, e do numero d"'esses foi sem duvida i 
Theodoro d"Aln)eida, que se refugiou era França no 
m&í de setembro de 1768. De passagem contaremos 
uma anecdota desse tempo. — Buscando o marquez 
de Pombal motivos para proceder contra a Congre- 
gação, mandou, entre outras averiguações domicilia- 
rias nas casas d'ella, indagar o estado dii prisão pri- 
vada, suppondo que deveria have-la como em todas 
a» ordens religiosas. O ministro visitador pediu as 
chaves do cárcere ao prelado superior, mas este res- 
porideu-lhe : — a porta do cárcere é aquelia — apon- 
tando para a da ruH. Sabido é que os congregados 
penduravam a roupeta e largavam a clausura quando 
llies aprazia, sem que o prtiadu ou qualquer lh'oim- 
pcdisse. 

O padre Theodoro deu lições publicas, durante o 
seu desferro, primeiro em Jjiiyonua, começaudo-as 
pela geometria e álgebra ; e depois em Auch, onde 
fez um cursodegeometria, geographia e phvsica ; ad- 
quirindo tanta reputação que foi convidado para re- 
ger em Brest uma cadeira depbysica, offerecimento 
<|ue recusou, bem como rejeitara prebendas ecclesias- 
tieas e a reitoria de um coUegio de Bayonna, man- 
tendo sempre esperanças de tornará pátria, que nem 
perseguido lhe esquecí-ra. Toude, com elleito, voltar 
a Lisboa em março de 1778: e tendo-se acabado a 
reedificHção da Casa da invocação do Espirito Sancto 
ao Chiado, em outubro de 1792, para ahi se passou 
a foniar conta da cadeira de pliilo-ophia, que leccio- 
nou até o fim de sua vida, que leve o termo feliz do 
homem justo, sábio e laborioso, a 18 de abril de 1804, 
contaniio pouco mais de oitenta e dois annos, por ha- 
ver nascido, ii'esla capital, em 7 de janeiro de 17:22. 

Theodoro d'Almeida adquiriu os primeiros graus 
da instrucção na casa, já niencimiada, do Espirito 
Saneio, e distingiiiuse |jor boa educação, porte sisu- 
do, e applicação eschobiít ica, de maneira que muito 
novo mereceu ser admillido á corporação religiosa a 
que pertenciam seus mestres. Hucr fosse por vocação 
(iropria, quer por alheio conselho, em todo o caso foi 
acerto que o futuro justificou. E porque aquelia cor- 
poríição eeulesiastica, compreliendida na geral extinc- 
ç-ãodas ordens religiosas, pude também ser confundi- 
da ciiiii c.las na imaíiiiacão ila mocidadeque se cslá 
criando, não obstante os assigiial.iilos serviços que pres- 
tou a educação lilleruria da mocidade lisbonense, prin- 
cipaliiienle na lleal Casa das Necessidades, traslada- 
remos a sua mais exacta di-fmlção nas seguintes pou- 
cas palavra» <lo bispo de \'i/.i'U, um dos clássicos es- 
criplore» dos nossos dias. — u A Congregação do Ora- 
tório lio S. Eilippe Nery não é dVstas corporações 
ou institutos, em quo o encarecimento e estreiteza 
dos volos, o profundo da solidão, as austeridades da 
disciplina sirvam a mover o enthusiasino ou allrahi- 
lo. 10 uma gravi! associação de ecclisiaslieos, que tem 
por único vinculo o desejo unanime deiílciínçar a per- 
feição do seu islailo, que não iviliini di> mundo senão 
os embaraços á virtude e os riscos de a peidrr, (|oe 
nu modo regular ilu viila se liinilaiii á siiii|iiii'idade 
e friigiiliiladi' dochrislão, obrigado a ser em seus cos- 
tuincii doutrina e eMinploaos homens dostculo. Não 
!■ tolhiilo a c.ul.i iim i|ue «•.pire no seu [).irliciiiar á 
praclicu Ião ulta dos cuiiiclhus evangélicos, mas em 



commum restringem-se aos propósitos e funcções do 
sacerdócio e ao serviço da Igreja, de que nunca se 
pôde desunir o do Estado, pelos meios da rele;ião » 
da litteratnra. " {1>. Franc.Alex. Lobo — Elo^iode 
D. José Mtitia de Mello.) 

A ideia fundamental do instituto, qne abraçara, 
correspondeu a longa carreira de estudo constante e 
de acções religiosas do padre Theodoro; ainda que a 
maledicência quizesse increpa 1j de nimiamente bea- 
to ou de fingido, reluzem osaSectos de crença e pie- 
dade sinceras nos seus escriotos espiriíunes, que são 
muitos, como as MtãHnrOes sobre os ailribvios divi- 
no», as cartas, osopusculos; entre estes doi> intitula- 
dos 1.1 Ávida, e amorle alegre dophilosopjiochrisliip. ■:• 
D^isso mesmo dão tesi i m un ho contem porá neo os desin- 
teressados e dignos de credito. O padre Theodoro foi 
aí^siduo no púlpito até muito além dossetenla de ida- 
de, e publicou uma collecção de sermões, e o Pastor 
livangelico, deixando maniiscriptos dois \olumes de 
Pracíicas. Dos seus trabalhos scientificossão também 
documentos as Iiistituir^ões PAi/s/cos, publicadas em 
latim em 178o, e o seu Flanctaiio que, datando de 
179G, é por aiiclorid.ide competente reputado supe- 
rior ao do celebre Desaguliers. 

Cuidadoso da educação que promovia por conselhos 
oraes e por obras dadas á estampa, como a Gtogra- 
pliia breve para uso das educandas do recolhimento 
da Fisitaçuo, igualmente se desvelava pela cultura 
moral e religiosa do entendimento e do coração. Con- 
tribuiu efficazmente para a fundação do seminário 
dos orphãos, instituído pdo padre António Luiz de 
Carvalho, e para a do convento da ^"isitação, para 
onde vieram de Anecy as cinco primeiras fundado- 
ras, que foram recebidas com grande solemn idade a 26 
de janeiro de 178t. D'esta casa foi elle odirecicrao 
mesmo tempo espiritual e litterurio. 

Este homem, dotado de relevante merecimento, da- 
do toda a vida ás sciencias, também inienlou colher 
llòres nos campos amenos da litteralura, abalaiiçaii- 
do-se a tentativas poéticas ; e não se limitou a peque- 
nas composições, cominetteu a emprera de extensos 
poemas. Foi porém infeliz, porque se algum dote lhe 
laltava era por certo o dom da inspiração dos vales, 
o nem sequer possuia a arte da simples metrificação : 
não nos deixam mentirosos a Lisbua i/tsíi i/íi/u, e os 
ensaios do Veliz iitdtj)endtntf. primeiro em rinia, de- 
pors em verso solto. N'estaobra de>aiiiparou-o a final 
a inania poética i chegou a conclui-l.i em prosa, eas- 
sim conseguiu que por alguém fos^e lida : écomtudo 
uma ficção moral, onde no maravilhoso figuram as 
paixões personalisadas ; ó prolixa, fria eseiciínle, do 
que proveio chamarem-lhe os facetos — o felix imper- 
tinente. — Apesar d'isso, a novella do padre Theodo- 
ro obteve oito edições na traducção he>panl>ola, o que 
pode servir de allegação aos que ainda tiverem u pa- 
ciência de a ler. — A concepção douuclor era nobre 
e digna dos seus virtuosos senliinenlos, mas petcoii 
nas formas e na geral conlexlura il.iobr.i, por(|uellie 
faltava o gosto apurado, ijiiedeu u iminorlalidade nu 
auctor do Telemaco. 

l'oréiu, se os louros do Parnaso não vecejavnm pa- 
ra coroa do no^so pliilo>opho, merecido galardão lli« 
coul)e reci'beiulo-<) eiii seu grem.o com distincção al- 
gumas celebres corporações se ienliticas, priíicipalineii- 
le a Academia Ki'al das Sciencias de Lisboa, e a So- 
ciedade lleal de Loiídrei. S.dúos cslrangeiros o hon 
raram com sua correspundencia e elogios: enire oi 
patrícios ainda hoje são populares seu nomee memoria . 

O oovr.uNO absoluto em Portugal, diiin certo nobre, 
sustiMilase riii três II : Ignorniicia, Incoiifidcncia, <• 
ln'lui>ição. , 



30 



o PAIS ORAM A 



GoMb5 hlllilltK IIK A.NDIIAUE. 

(Conlinuado de pag. 21 .) 

I''.iiA "pral odcsconsolo dos portugiiezpspm 18(7, por 
causa da triíiiifereiícia da corte, para o Rio de Janei- 
ro. rt'onde níio voltavam despachados os requerimen- 
tos sem grande accrescinio de despeza e irreparável 
perda de tempo:, além de que, o fausto da corte, ab- 
sorvendo a maior parte dos rendimentos de l'ortuj;al, 
iiiuilo diminuídos pelos estragos d'nnia guerra diu- 
turna, converlcra em outros tantos bandos de men- 
liigós as classes, assas numerosas, dos que serviam o 
estado. A dos militares deplorava, alóra os inales 
communs a todos, a falta dos accessos, a que lhe fe- 
chava a porta crescido numero de oITiriaes inglezes, 
conservados nas fileiras do exercito depois da campa- 
nha peninsular; linalmente o general Cabanas, vin- 
do incógnito a Lisboa com a mira em promover uma 
nnoluçiio de accordo com os liberaes de Ilespanha, 
liíera lembrar a tiecessidade d'uma mudança politi- 
ca, encaminhada a substituir a regência do reino por 
um governo mais popular, e a privar o marechal ge- 
neral lord Beresford, marquez de Campo Maior, do 
inando absoluto que tinha nas tropas. Quizeramap- 
proveilar este ensejo alguns homens faltos de repre- 
sentaijão e dinheiro, e em nome d'um Conselho lie- 
ijeiíerador, formado na sua imagina<;ão, começaram 
a fazer proselvtos militares com preferencia, e a es- 
palhar pasquins e proclamações, impressas por alguns 
dos sócios contra o rei, e recheiadas de pretextos frí- 
volos, como eram o ter vendido l'ortugal ora á In- 
glaterra ora á Hespanha. Sobre tão fracos alicerces 
se propuzeram elles a erguer um propusnaculo d'on- 
de guerreassem a realeza de D. João Vi, aoqual ac- 
ciisavam de ingrato e queriam derribar do throno, 
exacerbados talvez pelo apoio que dava a lord líeres- 
ford, a qiiem votavam ódio figadal. l'ara accreditar 
este conselho frtbuli>so, que expedia ordens nos seus 
reinos e aos seus crercilos, careciam de citar um no- 
me respeitável, capaz de vencer a repugnância dos 
convocados mais prudentes ou mais timoratos, fazen- 
dollus conceber aesjirrança do bom e\itod'ui>ia em- 
preza tão perigosa. Esle nome foi o de G(unes Frei- 
re, o (]ual vinuis, pela carta inserta no artigo ante- 
cedente, resolvido a viver retirado dos negócios, e 
pareci' não se haver apartado d'esta salutar resolu- 
ção, pois fugia até de frequentar os lugares públicos. 

O leitor imparcial que meditar um pouco sobre it 
doutrina e linguagem das proclamações, sobre a ne- 
nhuma influencia dos conspiradores, solire asceremo- 
nias pueris, interrogatórios e juramentos que prece 
diam as admissões, ficará miio convencido de que 
(iomes Kreire não podia implicar-se na conspiração, 
<lo nu)d(> que se figurou, sem ter perdido ojiiizo. Na 
da mais próprio para matar o euthusiasnio do adep- 
to do que ver-se, ao tirarem-lhe a venda, n'\im con- 
venticulo de três pessoai insi;;niflcantes, sentadas no 
canto diurna easa ao pé d'unia mesa, sobre a qual 
ardia uma vella com a sua bandeirola de papel par- 
do para lhos asstunbrar as caras. l'or fatalidade, a 
esta conjuração, que seria ephemera se logo se pro- 
curasse alalh.i-la, deu-se Iodas as largas para que to- 
masse corpo, despertasse horror, o arrastasse af> ca- 
dafalso muita viclima, que ficara bem eastigad.i com 
penas incomparavelmente mais leves. As niorlesdes- 
necessarias d'aqucllcs mala\enturadiis confrangem os 
corações, mas a de Cioines Kreire, não convencido do 
crime de lesa niageslade, foi, cm rigor, mais um as- 
sassínio politico. 

Por indiscrição cVurn dos princlpaes conjurado» 
■se descobriu u consnir»ção muito a tempo de u aba- 



far. António Cabral Calheiroí, enconlrando-se n'um 
botequim com um ajudante d'ordens docommandan- 
te da o." brigada d'infanteria cm Trazos-Moutes, en- 
trou a ralhar do governo em voz alta, e convidou o 
ajudante, que o contradisse, a acompanha-lo a casa 
para lhe If-r uma proclamação. No fim da leitura 
pergunfou-lhe <|ue tal lhe parecia. "É quanto basti, 
respondeu o ajudante, para o enforcarem e a fodoí 
nós." O facto foi contado por este a outro ajudante 
do governador do Além Tejo, e chegou aos ouvidos 
de Beresford, que estava alerta com a vinda de Ca- 
banas, e deu ordem positiva por escripfo, em nome 
do rei, a estes dois militares, e a um bacharel da 
mesma terra de Cabral, para lhe irem relatando o 
andamento da conspiração, em que fez entrar o ba- 
charel e o official que primeiro a descobriu no bole- 
qnini. (Jbedeceram ambos, e posto que depois dead- 
1 mittidos muitas vezes se lhes marcasse dia para se- 
rem appresentados a Gomes Freire, nunca o viram 
Por isso o ajudante, envolvido por mandado do ma- 
rechal general no rol dos conjurados, não hesitou em 
declarar, n'uma carta publicada em Londres cmn 
anctorisação sua, i.que não tinha motivo al^um par.i 
presumir que elle fosse um dos conspiradores, senão 
o que tinha ouvido dizer a Cabral." Na verdade, as 
vãs promessas ile que elle lhe appareceria, e o extra- 
vagante aviso que por ultimo lhe fizeram para ir ás 
pedreiras de Alcântara com phosphoro e duas vellai 
de cera, para iruma caverna receber certos papeis 
da mão do tenente general, deviam te-lo capacitado 
de que ou abusavam da sua paciência, ou não o jul- 
gavam fiel, ou era impossível a apparição de Gomes 
Kreire. Excluída a idéa da zombaria e da descon- 
fiança, por isso que lhe haviam revelado o mais se- 
creto dos seus planos, estava provada a impossibili- 
dade. 

Lord Beresford remelteu em 22 de maiodel8íT 
aos governadores do reino as provas do que se tra- 
mava, e instou pela prisão dos implicados para evi- 
tar que o negocio transpirasse. 

Na tarde de "Jt para lio recebeu Gomes Freire car- 
tas anonymas participando lhe que á meia noiíe ha- 
via de ser preso, e pela bocca do padre Manuel d« 
Mesquita, I). abliade do mosteiro de Belém, ouviu 
igual aviso, sem que procuras«e evadir-sp. Aos con- 
selhos prudentes do amigo oppot protestos de inno- 
ccncia, e para melhor mostrar que de nada se recea- 
va, tendo passado parte da tarde em casa do conde 
de Kio Maior, onde disse o que eslava para lhe 
acontecer, não obstante isso, recolheu-se essa noit» 
muito mais cedo. 

Alta noite cercam-lhe a casa de soldados da pnli- 
eia, arrombani-llie a porta dama, e snccessivanienie 
todas as outras interiores até entrarem no ^abiiiHie 
onde estavi-., e o tenente coronel d"aquelle corpo, fa- 
zendo apontar as espingarda» ao peito do tenente <;e- 
neral, como te por ventura se tractasse da captur,t 
d'algiim famigerado facinoroso, hradou-lhe por de- 
Iraz dos soldados: uVossa excellencia está preso I-< 
Klle, sem dar sighal de su-to, e sem resistir, expro- 
bou lhe a villania da acção, e eslriínhou «er pre-o por 
official de patente inferior, contra as usanças milil.i- 
res. Adiantou-se então o .ijudintp do iniendenlc ge- 
ral da policia, e appresenl.mdo lhe a ordem o gene- 
ral se deu á prisãti. Depois de lhe apprthcnderem 
todos os papeis, n»etteram-n*o n'iiina sege de aluguel 
com o ajudanle ilo intendente, e, escoltado por uma 
força de cavallrtria. eondnrirr.m-n'o para a torre d» 
S. «Inltão unde chegou as seis horas da manhã. 

Duurava o sol .is grimpas da altiva Lisbo.i ; om»l- 
fadado preso olln^u s.iuiloso par.i a cidade, onde lhe 
ficava quanto tinha de mais charo ; carrcram-lhc ra- 



o PANORAMA. 



31 



pidoí pela mente os dias da passada gloria ; ao re- 
manso da vida, ao suave tracto dos amigo» disse-llies 
o adeus derradeiro, e transpnz o limiar du faial torre, 
i)iie devia ser a sua ultima habitarão n'este muudo. 

Dos outros accusados de tonspirareni mui poucos 
escaparam. Em quanto se prendiam, conservou-se a 
tropa em armas, com espingardas carregadas, mor- 
rões a ccesos, e todo o mais apparato bellico que é do 
estylo quando o inimigo está á \isla. Leresfurd vie- 
ra estabelecer o seu quartel general em Alcântara, 
no aquarlelamcnto de cavallaria n.° 1, e d''alli des- 
tacara patrulhas pelas praias. 

Apenas Gomes Freire entrou na torre foi lançado 
ii'uni calabouço. Aquelles comniodos indispensáveis, 
que não se negam aos maiores criminoso», não os te- 
ve elje. Dormiu sobre as lageashumidas da masmor- 
ra.. . 

Nomeou o governo sir Archibald Campbell para 
cornniandante da torre. Condoído do preso, a quem 
não davam de comer, sustentou-o á sua custa, até 
<jue, no íim de seis dias, a poder de soliicilações, 
chegou ordem para se dar ao tenente general Gomes 
í""reire a mesquinha pensão alimentaria de doze vin- 
téns diários, no casu dVlle não ter diiilieiro ou outro 
modo de se sustentar. Gomes Friire preferiu escrever 
a algunm de sua familia, afim de obter dinheiro. 

Uma cama que então llie concederam de pouco alli- 
vio lhe servia, por estar sempre repassada de humi- 
dade. 

O marechal Campbi'!! não era um carcereiro des- 
huuiano, era um homem de eharidade e militar iionra- 
do : u preso inspirou-lhe ao principio dó, depois inte- 
resse, e por ultimoamisade -, deu-líie pois Iodas as pro- 
vas d'uni coração beinfaz^jo, compaliveiscom o rigor 
das ordens superiores. 1'assadas algumas semanas co- 
briu-sc a cara do preso de pústulas que lhe causavam 
dores agudíssimas e tresvarios. A este tempo faziaiii- 
«1*1 lie interrogatório». 

O couimandante da torre requereu um inedico ^ 
foi lá o physico mor do exercito e certificou não ser 
do perigo, fe bem que muito dolorosa, esta doença, 
procedida de se não ler barbeado o preso havia mui- 
to teinpo. Sir Archibald Campbell mandou comprar 
naxalhas de seguranç/i, e pediu lÍLi'nça á intendência 
geral da policia para se fazer a barba ao desgraçado 
("omes J''reire, — fui-lhe negada-, instou mandando 
njiliresentar as navalhas, — nova rejiulsa ", pediu ter 
lendiílo, nào lh'o eoncedirain. 10 quasi a historiada 
amputação da perna gangrenada de ftlaroncelli, de- 
nicir.iila ali; vir ordem de Vieima. 

1 inh.i (ioines Freire peiliilo licença para eiivi.irn 
"Irci um riqiierimenlo |iila mão (hlord lleresford,o 
qual rispoiídeu a (.'ampliell, em data de :2t d(.' ju- 
nho, que o tenente general Gomes Freire podia cuin- 
niunicar-lhe o (|ue desejava, escrevendo na piesença 
dl) cominiinilaute da torre, e siMido os escriptos le\a- 
dos pelo marechal general á presença do» goveriiado- 
re» do reino. F iiccrescentava : "Fu não preciso dar- 
vos outras instrucçries senão que vijaes e olheis bem 
<|ue vo» pareie o estado da sua cabeça e do sen jui- 
r.o, porfpie pela informação que me deu o tuiientu co- 
ronel lladdock, quusi parece ijue esfá algumas vezes 
ftjra de si.n 

Gomes Freire remclteu-lhe um protesto om cuja 
appresenlaeão tio soberano punha a ultima esperiinea, 
e indagando o que era fidlocrelle, deilarou lord lie- 
'resford a Campbidl, em carta de 7 ib; »i'lembro, ipie 
transmlttira tudo ao presidente do govenni, sem dei- 
xar copias do p.ipel dirigido ao lei, nem tampouco 



que era eiidereçailo .-lo duque de Sussex . Ueinala- 



.1. 

va o marei hal general n sua caria, ilizi'udo : uSou 

niuilo cxplioito n'esle ponto, porque a pobre crealu- 



ra (poor fello-w) parece julgar que o conhecimento lic 
deslino que tiveram estes papeis lhe pôde ser útil pa- 
ra a sua defeza, para a qual nada que dependesse Oe 
mim haveria certamente de ser omniittido ou recusa- 
do. O <|ue os papeis diziam é, e será talvez para sem- 
pre, um mvsterio -, mas é notório que Gomes Freire 
respondeu a Campbell quando soube o deslino del- 
les ; líSendo assim, vossa excellencia veiá que eu se- 
rei enforcado como um cão nesta fortaleza.» 

O processo tenebroso da conspiração fi>i progredin- 
do; nem faltou quem culpasse Gomes Freire para 
salvar-se á sombra do seu nome illustre (1); fecha- 
ram-se os olhos aos depoimentos que o favoreciam, 
esquadrinhuu-se e deu-se vulto a quanto o carregava, 
trocaram-se datas, e conclusos os autos, sem que Go- 
mes Freire, o único que permaneceu no segredo, fos- 
se acariado com osaccusadores, subiram da intendên- 
cia para o governo, que os remetteu as tribunal do 
juizo da inconfidência, onde com incrível brevidada 
foi proferida a sentença de lo de outubro de 1817, 
cundemiiando-o a morte com mais onze viclimas, e a 
outras quatro em degredo. Dos depoimentos de Go- 
mes Freire, ein que a própria sentença nota muitas 
contradições, efleitos do tresvario e da difficuldade 
com que se explicava em portuguez, afiproveitaram- 
se os dictos iendentes a aggravar a culpa. p;ra se lhe 
impor as penas de garrote na torça, de llie cortarem 
a cabeça, de ser queimada com o corpo, de lançarem 
as cinzas ao venlo. A'cerca do protesto que ocondem- 
nadi> tanto desejava submetter ao rei, nenhuma re- 
flexão se fez, ; ou se desencamiidi.ira. ou não o(|uize- 
ram ver: á coarctada de que elle prelendia, caso hou- 
vesse uma súbita explosão, dirigi-la em ordem a con- 
servar o reino ao soberano, evitar a anarchia, e sal- 
var a pátria, nenhuma refutação convincente quize- 
ram traçar ii'uma sentença que deu oepilhelo de sa- 
oilcgas a certas expressões eseriptas contra lord 15e- 
resford, e fez menção, como d'uii) crime, daanalvse 
do regulamento do exercito 

Dias antes de sentenceados os réus, linha ido para 
a torre um desembargador a titulo de assistir ás per- 
guntas, e regular as communicaeões. Moirer arcabu- 
zado era o mais veliemente desejo de Gomes Freire : 
fez a barba, \estiu-se e calçou-se, esperançado em 
(jue, á semelhança do Ney, sem pe»tanejir, daria a 
voz de fogo, e cairia crivado d(! baila», (-toando po- 
rem soube <|ue, sobre embargos, llii; fòi a (omniotada 
a pena na de morrer enforcado; qtianilo o dispirani 
e lhe enfiaram a fatal alva, deu lhe nui desmaio. 'l'or- 
nado rmsi, ouviu ler a sciileuça com animo tranquil- 
lo , (piiz escrever aos seu» parentes e auii^ns, econio 
liro não consentissem, lecidheu su ao silencio paru 
morrer em paz com o muudo. Grato ás allenções de 
Campbell, manilou IIk; rogar pelo len<'iite coronel 
llaildock (|ue viej-se receber oadeus da despedida, e 
assim que lladdock \ollou com iiscortezes ilesenlpiis 
do coinmaiubinle, senlou-.e na cama em que estava 
<leÍlado, estendeu lhe a mão, appertou lh'a, e escu- 
touas com mostras de sati^l.içào. 

A intiiniilade <|ue parecia reinar enire os dois fet 
crer que elles se haviam feito signaes maçunieo«. 
A^H cinco horus du manhã de 18de oulubroja eslava 
u Iriq)!! em armas, e tudo dis|)oslo para a execução; 
porém mal saiu o (>ad<'cenle d.i poria do enlabouço, 
deitou a fugir o préstito dos ministros e ofliciaes «1» 

(I) Kui siiii mãi a coiiiless;i ile SclialKoclie, llllio do coli- 
de Wencesláii de .Selialuciclie, e da ccmmIcss;! ilo iiiesnio ti- 
tulo, lia casa dos ciuides di^ Alllien ; aiiduis il;is mais anti- 
gas o liliislres laiiidlas da liolieiniii. Nasceu no «mui ilu 
n;i7, o não em )7,'iU. |ie|iiiis ile im|uissii o 1." arliiíoai- 
caiieaiiius estes eschireciíiieiitos por iiilei veiiçiio ilii Sr. IV. 
h. V. de LciicaMrc, a ipiciii iiniiiu os ni^rudeceniuii. 



32 



O PAINOKAMA 



justiça, pretextando perigarem as suas vidas em ra- 
■/fio de estar Hatidock de intelligencia coiu o réu, e 
liaver manifestado altamente a sua indignarão ao ver 
■ |ue o obrigavam a caminhar descalço para o patíbu- 
lo • tormento ()iie Gomes Freire reputou o mais cruel 
de quantos tinha soílrido. 

A' vista dVsle pavor, real ou fingido, dis'e Gomes 
Freire, sorrindo amargamente : nPois tem mcdode 
mim no e'>tado em que me acho !" 

Em baldadas diligencias para ser rendido Iladdock 
do commando da guarda se consumiu n.ais de uma 
hora, prolongando-se o martyrio ao infeliz Gomes 
Freire. Desenganados, conduziram-no ao patíbulo fo- 
ra da fortaleza de S. Julião, e requereram, sem fruc- 
1o,' ao coronel de infanteria 19 que mandasse fazer 
meia volta á direita, para que Gomes Freire não fi- 
zesse algum signal que revoltasse os soldados. 

Dado o da execução, subiu Gomes Freire com desem- 
baraço e serenidade os degraus do patíbulo.... Dos 
olhos de Iladdock rebentavam as lagrimas: osacrífl 
cio eslava consnmmado. A^snove horas da manhã ti- 
nha voado para Deus a alma de um dos maiores gc- 
neraes portnguezes (1). 

lléu ter-lhe-ia approveitado o perdão do soberano, 
iiinoceiited(.fende-lo bia a sua justiça, se tivesíem que- 
rido consultar a vontade d'elrei D. João VI, sempre 
inclinado á clemência. 

No mesmo dia eram executadas no Campo de Sanc- 
ta Auna mais onze victímas, e as fogueiras, muito 
tempo depois, aiuda enchiam de terror Oí consterna- 
dos habitantes de Lisboa. Passados quasi três aniios 
resoavam em todo o Portugal os vivas ao svstema 
constitucional. Ignorando esta mudança voltava do 
IJrasil o marquez de Campo Maior, revestido de po- 
deres amplí^sinlos i mas o governo constitucional não 
o deixou desembarcar, e o vento contrario deteve-o 
no Tejo até 18 de outubro de 1820 ! Um anno de- 
pois, no mesmo dia, á roda d'um cenotaphío levan- 
tado na igreja de S. Domingos, assistia «juanto havia 
de bom em Lisboa ás exéquias das victimas de 1817, 
cuja memoria veio a ser rehabilitada por sentença de 
20 de maio de 18:>-2. 



Habitantes das Landes de Borpeus. 

(Continuado de pag. 22.) 

Of, cAMi'oi»KZES das dunas, por efTeito de antigas 
preoccupações, ainda entre os estrangeiros tem fama 
de pedirem cocn votos cobiçosos o naufrágio dos na- 
vios que pass.im á vista da costa das Landes, chama- 
da c<wn tanta raíão cos/a i/f /trio. Comtuiio ninguém 
In-je é mais humano e compassivo do que elles ^ e nma 
inlinidade de acções generosas altestam a sua cora- 
gem e desinteresse. (• naufragante é alli socc<irrido 
na suíi afilícção c traclado com mil cuídailnsi os ca- 
dáveres das victimas das tormentas, por desgraça so- 
bejamente numerosos, recebem religiosamente sepul- 
tura; os salvados são respeitados. 

Km quanto os homens guardam gado. ou colhem 
resina, ou fazem carros, as mulheres das Landes em- 
pregam-se no Irabalhi) caseiro, no amanho das ter- 
ras, e em preparar carvão. A' parte, verdadeiramen- 
te injusta c superior ás suas forças, do lavor cjuetem 
« seu cargo, accre^ce a creação dos sirgos ou bichos 
da seda, e das abelhas-, tarefas em que estas trist<s 

(1^ Jul;;anio-lo auctor d'um folheto com oiilulode .V*- 
moire raiioiiriit Ue In rtlraile de lorrnct coinbi'ire ispugno- 
it tt porlugiiiae da HovsíiIí:; ParC . . . t . . cUicier au 
uervice Je l'ortu3al. 



creaturas se occupam com tamanha actividade qn> 
antes de tempo se fazem velhas. Todas, saKo poucas 
excepções, nascem bonitas, e o são até os vinte ân- 
uos ; passado esle terrao realmente fatal, a olhos vis- 
tos se definham. 

Não acontece outro tanto ás mulheres das povoa- 
ções grandes; sobre tudo as da pequena cidade de 
Dax gozam da geral opinião de formosas e a<'radd- 
veis na conversação e no mudo. 

No districto de Born ha um costume tradicional, 
quanto a ajustes de casamentos, escrupulosamente ob- 
servado, em virtude doqual ao amante rejeitado cha- 
mam namurwlo dasnozes: referi-lo-hemos porsin"u- 
lar. — (Auando um paisano quer pedir uma raparij.i. 
vai acompaidiado de dois amigos á noite bater á por- 
ta da sua bella ; prevenidos da visita, os donos da ca- 
sa franqueam-lhe a entrada, e cada um tomalo^ar a 
mesa em que está posta acéa. Come-se bastante, 1m'- 
be-se-lbe melhor, palra-se muito, mas nem palavrn 
se diz sobre o objecto da visita. .Assim corre anoiti-. 
e, ao alvorecer, a donzella levanta-se e vai buscar .i 
sobremesa composta de dítierentes pratos; se n'uni 
d'elles traz nozes, o pertendente deixa o logar, cor- 
teja a toda a pressa, e abala com os seus dois ami- 
gos, testimunhas dVsta despedida svmbolica e for- 
mal. Poucas horas depois é publicc o caso, que im- 
põe a desastrada alcunha de namorado das tiozes ao 
noivo repudiado, até que s<^ lhe offereça outra sobre- 
mesa mais felizmente combinada. 

Arranjam-se os casamentos mais á cavalheira, e 
quasi á moda primitiva, n'aquella parte das Landes 
que pertence audcpariamciiiu doGironda. — Km dia 
festivo depois da missa, os parochianos apartam-se a 
um lado e as mulheres a outro, formando circulo de- 
fronte da igreja ; no meio está um pastor trepado 
n'uma pedra ad hoc, atraz do qual Ijca, repartida 
em bandos, a nuicidade de um e outro sexo. .\o ca- 
bo de dois ou três minutos u'espera e recolhimeui". 
o pastor levanta ambos os braços, e entoa em alli'S 
berros uma cantiga bem acceita, mas de tal incobe- 
rencia euphonica que é dífficil imagina-la. O canlo 
selvagem é signal de nma dança brutesca, pulando 
cada homem to-camente diante do seu par, niuil» 
atlento em imilar-lhe os movimentos, brevemente 
se declaram na gente moça xelleidade, matrjnio- 
níaes : um agarra a mão da sua querida a|>erlaiido- 
lh'a por algumas veie»; se a estas provocações poui-ii 
equivocas ella corresponde com um apertão de mão 
significativo, o noivo a empurra para fora do circu- 
lo ; e ambos que, até então, conservavam os olho< 
baixos, ja se contemplam, ditem mutuamente algu- 
mas palavras seguidas de quatro ou cinco cach»çõ<-, 
e torrem a procurar seus p.tis p;ira lhes declarar qun 
estão njusiados. Tracla-se dos arranjos sem demor.i, 
e é chamado o cura para marcar o dia dos desposo- 
rios a que hão de a»si>tir os moradores da patochia. 
.\ noiva apparecera com vestido de sergnilha lalh.i- 
do sem graça, e um toucado feito de muitos lenço», 
ou uma coifa de grandes franjas còr dep.ipouU, tr.i- 
zendo por cima como bonito enfeite, «m ch.ipeiriio 
guarnecido de tilas pretas com um ramo de gnopha- 
lio ou alecrim das arcas: em cada braçtv ha de tra- 
zer uma c>'sliuha para recolher o» presentes que, por 
uso imperioso, se devem oflerecer ao no»o par, pur.i 
quem, no fiin de contas, o facho do 1m meneu lanoa 
uma chiridade baça , porque a inÚ'ienci« que o.sn)or 
tem no paisano da» L.indes é, quando muito, analo- 
ja á que lenUm o castor e outros quadrúpedes am- 
phibios. ; LVniinua.) 

Este mundu é tomeJ ia pira quem »è. etrigedij pa- 
ra ouem jentr. Cks»K Iami. 



1^ 



o PANORA3IA. 



33 




RESIDÊNCIA IMPEBIAZ. EIS S. CHUISTOVAM. 



í) PALÁCIO do S. Clirislovani, liahitu.il resiileiícia de 
S. M. o iinpeiadur do Jirasil, antes do ser iiocupado 
pelo Kr. 1). João Vf e real faniilia, era uma casa 
particular e fazenda de recreio, a menos de le^ua da 
('ajpital, sol>re nina enuneiicia, em situarão <le tal mo- 
do amena o pictiiresca, ipií- se diainava a (juinla da 
lioa-Visla ; noirie solu-jamente jnstiljeado pelo aspec- 
to do bairro do i'"nj^enho-\'ellio e paiz adjacente, cu- 
ja descriptj-ão pode ler-se no vuliiuie en> qnr; licou sus- 
pensa a pul]|ica<;Sio do 1'jinorairia, o de 18ií, a pas;. 
liUtJ. Saiu então unia vista do edifjcio, mas Ião aca- 
nhada, » por isso ineunio pouco favorecida da impres- 
lãu, que ohriv^ou o distíncto collaborudor, (|Uo escre- 
veu a 8<!ri<! de artigos eitcel|(?ntes e notiiiosos sobre 
o llio de Janeiro, a dizer n^aquelle lof;ar : — nDan- 
du urna pef|uena estampa, sentimos (|ui.> não si''{aella 
(copia de outra do Sr. >Stuiz) em verdade- a mais |iro- 
pria para dar uma idea iniMios desfavorável e exacla 
dVsta habitueão ical.'i Afrora (|ue obtivemos Irau- 
luinptu muito mais desenvolvido e el<';;anli:, nãoln- 
sitámos em o publicar, a imilaeão ilo que si; praeti- 
cira na colleceão precedente', também a resp(dlo da 
capitai brasilicH, repelindo visla», comiudoassaz nie- 
Iboradas. Deixando porém a parle deseripliva, ja co- 
nbecida, passaremos a bistoriar um sijccesso brllico 
menos sabiilo. 

Adverso foi o lado ãs nrnias francesas Iodas as ve- 
ies <)ne intentaram eoiKpjislur e conservar o li lo de 
Janeiro. Mm lliliti, mandados pelos esfor(,ailo cavallei- 
ro de V illegaignon, foram rej)ellidi>s pela valentia e 
piiticia do governador Rlendo de Sá, com vicloria» 
VoL. I. — Oini/uito ;j, 1SÍ(). 



continuas até o anno de 1Ò57, não Uies valendoaal- 
lianea que travaram com os bárbaros naluraesda ter-' 
ra. Canta estes triumplios o padre Durão, no canto 
S." (1) do seu Caramurií. 

Corr(!iido o anno de 1710 bavia-te preparado cm 
IJrest com grande segretlo uma esquadra decinco na- 
vios de guerra e uma balandra, com loOO liomeni 
de deseudiarque de tropas escolhidas, e numero de 
voluntários, debaixo da segurani;a que dera 3Ir. du 
Clerc, cabo da empreza, de que, com a partida da 
frota do Brasil, u gente do Rio de Janeiro ia para 
Minas, e seria fácil gaidiar a cidade, li»vando bom- 
bas e os mais instrumenlosd'expugiiação ; lend)rou-se 
do bom successo que tivera outro cabo francei em 
Carthagena daslndias. ("hegou a «s(|iiadra as costas 
do llio de Janeiro a li iPagosto ile 1710, e ainda na- 
vegava quatorze léguas ao norte já tinha aviso dV-l- 
la o governador l''rancisco de iMoracs, (|uc vigilante 
re|)artiu mililarinenli; os postos eaugmentoua guar- 
nição das lortalcza». A' barra seavistar.iin os seis na- 
vios com bandeira ingleza : os tiros da fortaleza d<r 
Saneia Cruz os obrigaram u nninter-se ao largo, e lo- 
go iKi dia IH se ti/eram tio vela pnr.i o sul.Ogover- 
nador mandou guarnecer as praias ipiu se denomina- 
vam iX.i l'escaria e da i'fdra, avisando a Santos u a 
Ilha (irando para (pie eslivessein prevenidos: juncto 
a esta ultima ancoraram os contrários a -T, o alu 
permaneceram ale 31 csaqucaram algumas fiuend.is, 

(1) Vhiena edlvSo ele((aiiin, daila pelo Sr, Vurnh!i««'ii, 
dub doispucmai hruiiiicus rcuiwUui, dii p;ii{. JOJoiu eliauie. 



34 



O PANORAMA. 



que mui poucos moradores defenderam em quanto ti- 
veram munições, mortos assim mesmo seis francezes 
e feridos muitos. Mais algumas avarias fizeram pela 
costa, até que, a 10 de setembro, dois navio* com 
uma sumaca da liahia, que tinham apresado, haven- 
do sondado as aguas da praia da Lagoa, intentaram 
o desemiiarque a duas léguas da cidade;, havendo se 
reunido, porém, a gente destinada á defensão, foram 
rechaçados sé pelas ordenanças ; dois dettacainenlos 
enviados a reforça-las acharam já os inimigos retira- 
dos em virtude da opposição dos defensores e da as- 
pereza do sitio. No seguinte dia chegaram á barra de 
Guaraliba, que acharam desguarnecida, pela confian- 
ça que se punha na altura dos cerros e impetuosida- 
de dos mares ^ com efleilo nVsse districlo levaram a 
cabo o desembarque. Precavido o governador, escien- 
te de que não passava de mil e duzentos homens a 
força que se dirigia á cidade, com o fito de acolher 
de improviso, conhecedor do intractavel dos cami- 
nhos contentou-se em mandar pequenas partidas, 
com praclicos do terreno, a embaraçar-lhes o progres- 
so, e a matar-lhes a gente que podessem no> passos 
estreitos; ordenando junctamente ao tenente general 
engenheiro, José \ieira, que com um corpo mais 
grosso de tropa, reunindo as guarnições que o inimi- 
go deixava nas costas, lhe picasse a retaguarda, elhe 
cortasse a retirada. Continuaram os francezes a mar- 
cha, vencendo as difúculdades do transito, até che- 
garem ao engenho dos padres da Companhia, uma 
légua da cidade. Com esta certeza o governador, dei- 
xando nos quartéis a gente absolutamente precisa, 
passou com o resto no dia 17 ao campo de Nossa Se- 
nhora do Rosário, onde formou em batalha, e defen- 
dendo a parte que os inimigos procuravam para ac- 
commetter a cidade, plantou artilheria nos locaes con- 
venientes, entrincheirou ot mais fracos, desfazendo tu- 
do o que podia ser\ir aos atacantes para cobrir-se. 
Em a noite de 18 acamparam os francezes na roça 
dos padres da Companhia •, e antes que de bordo po- 
dessera receber reforço e as embarciíçõcs simultanea- 
mente se atrevessem com as fortalezas, o jovcrnader 
assentou de tomar a olfensiva investindo-õs com um 
corpo de mil homens ás ordens de seu irmão, ocoro- 
nel Gregório de Castro de .Moraes-, porém Mr. du 
Clerc achou mais prudente retirar-se, procurando ten- 
tar a aggressão por outro lado, e fazendo nma diver- 
são aos defensores. l'resumido este designio no cam- 
po portuguez, um forte destacamento de 300 homens, 
do regimento do coronel Crispim da Cunha, passou 
a occupar o caminho do outeiro de Nossa Senhora do 
Destetro, para entrar na cidade pelo sitio de Nossa 
Senhora da Ajuda ; e como os inimigos talvez ousas- 
sem atacar a fortaleza da l'raia-Vernielha, marchou 
a disputar-ihe o passo a força do commando do coro- 
nel Joãode l'aivaSouto-Maior. Oprinieiro encontro 
foi reidiido de parle a parle, continuando por largo 
tempo o logo, augmentado em nosso favor pelos tiros 
de urlilheria miuda do forte deS. Sebastião, sobran: 
ceiro ao logar do combate, e doqual era governador 
José Correia de Castro, que o fora da ilha deS. Tho- 
me, e que n'esta occasiãu se houve com animo e ca- 
pacidade. 

Os invasores, observando quão defcndidoseslavam j 
todos .Tquelles pontos, e experimentando já notável 
estrago, conheceram o arrojo da sua cmpreza, econ- 
ceberam a estranha resolução de entrarem a cidade, 
no presupposlo, aoque se julgou depois, decapitniar 
dentro d"alguma igreja par.i salvarem .-is vidas. Con- 
seguiram seu intento, apesar da resistência que lhe 
oppoz o tenente general \icira, que se achava com 
pouca gente do lado por onde elles romperam : for- 
maram-seemfim juncto ao convento do Carmo, eiiuo 



alcançando arrombar-lhe as portas, furam buscar a 
casa dos governadores, ja com perda de muita gente 
pelas riiase pela retaguarda. Defendeu-lbesa entradn, 
obstinadamente e com muitas mortes, uma compa- 
nhia de estudantes que na cidade se organisára. 

Assim que chegou á noticia do sovernador este ac- 
to desesperado, fiz marchar o coronel Gregório de 
Castro com o seu regimento, e por outro lado um 
troço ás ordens do sargento mor iVlartim Correia de 
Sá. A pproximando-se estes corpos da rua direita, onde 
ainda os estudantes detinham os inimizo;, atacaram 
estes tao vigorosamente que os forçaram a retirar-se. 
desamparando o corpo da guarda, em direitura a 
praia, onde, apesar de porfiosa lucta, s» apuderaram 
de um grande trapiche e de sei-) peças de urtilbería 
que, para proteger a babia. ahi estavam cuUocadas ; 
n esta refrega, pelejando valorosamente, morreu Ce 
duas bailas o coronel Gregório de Castro de Moraes, 
e foi ferido gravemente seu filho mais velho Francis- 
co Xa»ier. 

Lembrou ao governador lançar fo;o ao trapiche, 
mas susteve o a consideração de que poderia alear-se 
nas casas visiiihas, e porque alii se havia recolhido 
quantidade de creanç.is e mulheres; ordenou então 
que jogasse a artilheria da ilha das Cobras e de ou- 
tras baterias, tendo já tomado com algumas peças as 
boccas das ruas. O commandante da companhia de 
cavallaria, António Dutra da Silva, morreu lastimo- 
samente, á frente de uma carga, n"este conflicto. 

JMr. Du Clerc, achando-se instantemente apertado, 
quiz capitular : o governador concedeu só as vidas, 
se no mesmo momento se rendessem. .Assim o fizeram ; 
mas não tiveram igual fortuna os francezes do ultimo 
troço, que havia marchado pordiOerentes ruas, por- 
que quasi todos foram mortos: acharam-se os cadá- 
veres de trezentos, e depois appareceram muitos pe- 
los niattos e rios. Ficaram seiscentos prisioneiros, 
mais de metade feridos; entre elles officiaes de dis- 
tincção e alguns titulares. Dos nossos morreram cin- 
coenla, e houve feridos oilenta. Passando de mil os 
francezes que desembarcaram não escapou mais que 
■im negro fugitivo que lhes havia servido de guia, o 
qual levou a nova de sua má fortuna aos uaviusque 
eslavain na Ilha Grande. 

A vinte e um de setembro chegaram á barra dois 
navios e a balandra, que tinham caiihuneado a po- 
voação da ilha com pouco eflVito, recebendo sú algum 
damnu osconventos do Carmo eSancto António. Go- 
vernava e defendia a villa u capitão de infaiiteria 
João Gonçalves \ ieira; e apesar de ser aberta e não 
termais guarnição que asnrdenanças, despresou sem- 
pre as propostas para renJer-se, rechaçando os inimi- 
gos quando inientaram saltar em terra. As embar- 
cações que primeiro se approximaram da barra des- 
pediram inutilmente seis bombas, que bem se pode 
dizer serviram de festejar a nossa victoria. Mr. Du 
Clerc lhes fez saber, com perm»s«ão do governador, 
o estado em que se achava. I^go o participaram pa- 
ra os outros navios, que ainda de um ilhcu visinho 
procuravam oflender a villa da Ilha Grande com ti- 
ros e bombas. Reunida a esquadra lançou em terra 
o fato e Irem dos prisioneiros, restituiu os vinte e 
oito portugtieies que havia tomado na sumaca da 
Rabia, e assai escarmentada deu a vela para a Mar- 
tinica, possessão franceza no archipelago das Anti- 
lhas. 

Esta noticia Irouxe-a a Lisboa um patacho de avi- 
so. No dia 14 de fevereiroSS. Magestades c Alteias 
assistiram ao Te Dcum na capella real ; e foi com 
salvas e luminárias festejado este felii tuccesso. 



o PA>ORAMA. 



35 



o Hadjeb dk Kordova. 

(972 a 992) 

(ConiinuaUode pag. 26.) 

II 

O Moslaiabe. 

As vicTORiAS de Moliamed promettjam-lhe um lon- 
go dcscanço. Os succeisus dos jardins de Azbarat eram 
desconhecidos de todos. Siioleia ostentava extremos 
como sempre, e o liadjeh mais anibi<;ão do que nun- 
ca. Vjhinlio do tlirono, e súbdito unicamente no no- 
me, o sen [jodor não conhfcia limites. Curvavanise 
na sua presença as duas raças que disputavam o do- 
mínio das Hespanbasi tremiam d'elle vencedores e 
vencidos. — tí-uem ousaria pois erguer-se contra o 
irresistivel dominador de Kordova e do kalilado, se- 
nhor em Africa e na l'eninsula — quem? . . . 

Descia a tar<ie. As nuvens da tormenta acciímula- 
vani-se rápidas no borisonte afogueado e carregado 
de vapores. O sol tinha-se engolpliado havia pouco n'u- 
ina lagoa sanguinea. Ao cair das primeiras sombras 
um vento impetuoso curvou até o chão os sovereiros 
e azinheiras : estremeceu atlonita a selva inteira, e 
gemeram tristemente os seus echos mais profundos. 

N'uma clareira do bosque sobresaía um grupo si- 
lencioso d^homens: inclinavam uns o rosto para a 
terra em atlitude de conimiseração ; estendiam ou- 
tros os olhos ao largo n'um gesto instinctivo de pro- 
YOca<;ão e rancor. Cubria-os uma espécie de albornoz 
escuro, ondeando amplamente ao som do vento, e 
abrigava-lhes a calieça o l(in5,o capuz dos sarracenos- 
Ao primeiro aspecto seria dilíicultoso conhecer se per- 
tenciam aos antigos senhores do Andaluz, se aos no- 
vos conquistadores — tão equivoco era o seu traje. Se 
bem se atlenlasse, porém, dir-se-hia logo que os vul- 
tos reunidos na clareira sú podiam ser d'aquelles ha- 
bitantes do pai/ invadido, que, tendo guardadoo cul- 
to da bua religião, so haviam ccjmtudo sujeitado ao 
governo dos invasores. 

Era uma ra<;a inixta, digna de curiosidade e de 
interesse. Ciirislãos e godos pehi tradição, o contacto 
iuccssaniu com os inusulmanos dera-llies uni pouco 
da ph^sionomia particular di>s últimos. Tinham her- 
dado dos avós a» virtudes guerreiras, a tenacidade e 
a firmeza: tinham adquirido no trado com osintru- 
los os seus impetuo^ns moviíiieiilos e os seus briosci- 
viiisado». (,'ullivavam no lar da familia o legado pre- 
cioso lios antepassados : no C()mniercio da eivilisação 
apossavam-se d%'lles insensivclnientí! as idéas d'uma 
nação esplendida mente ca valle ira. Trabalhados si mui - 
laneainenie por estas dua» acções encontradas, a al- 
ma iPesles homens fiira ganhando pouco a pouco uma 
viiorgia e uma tempera <|U<: os devia necessariamen- 
te lurnar dislinclos dos outros eom quem viviam, A 
eivilisnção africana era pura elles mais elTuait, por- 
que cr» mais iinmediala : asmemorian da pátria de- 
viam de ser lauto mais sagrailas (piantu se conserva- 
ram nu familia com um deposito venerando. <>« re- 
bellados do Asiura tínliani começado uma era nova 
pura ni, surginilo armados do firro e da prevenção 
contra o inimigo: estes não-, ciuiheciani do passado 
o necessário para gnanlarein intactas as Iradiçúes de 
•cu» pais. Tinham-se civilisadu sem deixar de ser 
(,'odos. 

l'al eru esta raç:i, conbeeida nas Hespanhas pelo 
nome d(í M(jslarnbe. A sujeição havia a policio sem 
a ter abastardado. As suas paixões eram porliniaes 
e profunilas eiiino as inspirações do sangue que ha- 
viam lieribido, ardentes e dcvorudurai cuniu ut «tuia- 
ccD quu liaviam cunlruhidu. 



D'estes eram pois os homens reunidos na clareira 
da selva, abatidos nns, furiosos os outros. 

Que motivo, porém, dobrava para o chão aquel- 
les olhos e aquellas froutes? quem os reunira alli, a 
taes horas, em despeito das ameaças da natureza .' 

K o que nós saberemos se nos approximarmos du 
grupo, e o examinarmos cuidadosamente. 

Õs vultos que tentamos descrever formavam um 
circulo em roda do outro estendido no chão húmido. 
Envolvia-o um manto igual ao dos circumstantes. O 
rosto, pallido e cavado, contrastava singularmente 
eom o fulgor temeroso dos olhos, que pareciam dar- 
dejar chammas. ISarbas e cabellos negro?, hirsutos e 
desaiinliados, davamlhe uma apparencia selvática e 
tremenda. Por bai.xo do manto entreaberto appare- 
ciam-lhe sobre o peito, nos vestidos, algumas largas 
nódoas de sangue fresco e vermelho. 

— "As guardas do hadjeb perseguem-nos, irmãos, 
— dizia elle em voz sumida mas firme — deixai-me 
aqui morrer, e buscai salvar-vos." 

— 11 Morreremos lodos! " — exclamaram os circum- 
stantes brandindo as armas. 

— «A vingança de Mohamed nãodescança — con- 
tinuou o ferido, depois de breve pausa. — Não são 
porém estas perseguições que me aggravam o meu 
mal . . . são ...» 

Não poude continuar. Unia lembrança, terrivel 
sem duvida, veio sullbcar-lhe as palavras nos lábios. 
Apertou convulso a espada que lhe descançava ao la- 
do, vibraram-lhe dois raios nos olhos inllammados, 
e, alçando meio corpo n^um esforço sobrenatural, co- 
mo que pareceu procurar em torno de si algum ob- 
jecto horroroso. 

Assustava o seu aspecto. 

N'isto um dos <]uo o rodeavam, destacando-se do 
circulo, veio ajoelhar a seu lado. Saía-lhe de dentro 
do escuro capuz nina barba branca de neve: era a 
imagem dos antigos patriarchas. 

— " Ilermengardo, meu lilho — prorompeu elle — 
anima-te, vive, descança : has de ser vingado. Di- 
zem-t"o aqui teus irmãos : digo-t"o eu : has de ser 
vingado. " 

Um frémito sonoro d armas percorreu o circulo. 
Nenhuma resposta podia ser mais eloquentemente 
affirmativa. 

O ferido era o vulto dos jardins de Ailiaraf, que 
havia Itictado e succumbido aos golpes do hadjeb. O 
ancião era sen pai,- os circumstantes seus companhei- 
ros d'armas. 

Ilermengardo, mal ferido, tinha conseguido sair 
des jardins n'aquella noite falai. Luctára dois meies 
entre a morte e a vida. A íinal triuniphára a natu- 
reza e a idade. Convalescente ainda, saíra erguendo 
por Ioda a parte, entro seus irmãos, o grito de guer- 
ra contra o hadjeb. (ieloliira era sua noiva ^ e o in- 
feliz Ilermengardo nunca mais pudera ter alcançado 
noticias da virgem de Amaja. Minava o surdamen- 
te um ciúme implacável, as»altavHm-n'o ii cada pas- 
so eslraiihos terrores, e a alicia horrenda de vingan- 
ça, que parecia devora-lo, provinha toda de seus'ze- 
los furiu^os. \agava em torno do aleaçar do kalifn 
como um lobo em torno do reilil ; • dos que o viam 
espreitar avsiiii, cuiii Iniiianha lenacidade e Ião [m)U- 
co fruclo, a(|UclleB muro», diziam uns »ai dVlIel •• 
diziam outros oai do» seus inimigos ! " 

O hadjeb porém, po»lo julgar-»e deM-inlmrnçado 
d'um rival, não descançava. SoubiTa que entre us 
moslarabes, alguns maiui'bos, eoininandados por um 
micião venerando e por um cabo tirrivel, trama- 
vam contra o seu puder, e paru logo projectúru dis- 
persa-los. 

Kru d'e»ta (lerjeguição qiio fugia Honnenjjardo e 



30 



o PAN0RA3IA. 



»s conjurados. Tiiihani-»e-Ibe aberto as feridas rec^n- : outro divertimento senão folgsr na taberna ', comlu- 
tes o [.refundas; rra por isso que «lies ••.peravani alli i do os que habilam as margens do Adour aduptam 
a cada passo a liora da salvarão uu do combate no ' algumas >e7.Fs uutiu recreio, não oíjotanle expressa 
meio d'aquella teKa. | probibi^ão. Fazem corridas de louros, principalmen- 

Ao lenilirar-se de que ia talvez acabar miserável- j le no festejo dos oragos das fregueiias. Maseslas chã- 
mente, na incerteza e êem vingança, o infeliz man- ; niadas corridas não lêem semelbai.ça com as tardei 
icbo sentiu atravetsar-llie o coração uma dor aguda [de touros na península, li uma brincadeira ridícula, 
«í penetrante. I uma farça burlesca; porque a funcção faz-se na pra- 

— "Meu pai — exclamou elle voltando-se para o | ça ou rocio da aidéa, onde nem soinbra detourosap- 
.incião, e tomando lhe custosamente a mão — se eu I parece. .\ pleVie espectadora accomnioda-se pelas ja- 
inorrer aqui aos golpes dos nossos inimigos, jurai-me nellas e telhados, i-m cima de carros ou de quatro 



que buscareis salvar-vos 

— Eu, ficando tu!;: — respondeu attonito o an- 
cião. 

— 11 Jurai-m'o" — accrescentou Ilermeneaido. 

— " 1 ara que . v — redarguiu seu pai. 

— II Para ... — acudiu o mancebo — para saberdes 
o que é feito de Gelohira . . . e para me vingardes 
«egundo a minha offen^a.n 

— "A tua oITensa. Hermengardo — exclamou uma 
voz, que parecia vir do mais tapado do arvoredo — 
só pôde vingar-se d"um modo." 

O mostarabe tremeu todo da cabega até os pés: 
voltou rapidamente o rosto e viu . . . 

Viu surgir d'entre as arvores um vulto de mulher 



palanques mal armados; sáe a terreiro uma pobre 
vacca mansa, que apesar d'Í5so ^em segura por uma 
corda lançada ao pescoço ; capeam-na com lenços, e 
tanto atiçam o anim.il que a íiiial arremette com al- 
guns, c pára tudo em meia diuia de buléus não pe- 
rigosos c iralgumas calças rasgadas, em meio dus apu- 
pos dos circumstantes; os rapazes fazem sortes a um 
iiotilho tonto; e assim termina a famosa corrida de 
iouros. 

Em todo este retrato do habitante das Landes, na- 
da temoi dicto dos que moram nas cidades; porque 
não teem vislumbre de analogia com o ente meio 
selvagem que descrevemos segundo as suas principaea 



variedades. O morador das cidades n'esta província 
trajando de branco. Espantava o seu olhar. As faces 1 lé jornaes, frequenta botequins e theatros, questiona 
estavam pallidas como o vestido, os cabellos oudea- ^'n politica, tracta negocio», em summa écomoqoal- 
vam-lhe soltos, os pés, chagados pelas urzes do cami- quer outro dos oitenta e seis departamentos : entre 
Jiho, escorriam sangue. >ião andava, era uma som- seus antepassados contam-se generaes distinctos por 
bra a voar por entre os mysterios da selva. Arfava- valor e pericia, oradores d"ima5Ínação viva e origi- 
nal, e alguns talentos consumraados nas artes e nas 



Jhe o seio semi-nú em vagas tempestuosas: dosolhos 
corriamlhe dois rios. 

Atravessou^ gemendo, o espaço da dareira, e tan- 
to que chegou ao lado domancebo. caindo de joelhos 
defronte do ancião, alçou o punhal que trazia na 
mão, e, appresentando-o ao mancebo, exclamou ; 

— "Hermengardo, vinga a tua oflensa ! » 

Era a virgem de Ainaya ! 

^ (Contínua.) 

Haeitastks das Lakdes de BORDÍII-. 

(Contiouado de pag. 32.) 

O^ HABITASTE das Landes é bondoso e obsequiador, 
não obstante a insensibilidade que deve ncceisaria- 
menle resultar da sua idiosvncrasia ; ao mesmo tem- 
po e dócil, e respeitador das aucíoridades, pouco in- 
clinado ao roubo e á fraude; é pcrém constante que 
instantaneamente se arrebata e coinniette assassinios 
em certos acce«os de irritabilidade nervosa. Apezar 
d isso. é religioso, e nada ha tão afiectuoso como os 
lamentos e saudades que consagram á memoria dos 
mortos. — Se os filhos teem que deplorar a morte de 
sua mãi. durante todo o anno immediafo ao falleci- 
mento os utensílios de cosinha então tapados, e alou 



sciencias ; nomes que elle cila com justU vaidade, po- 
rém nomeando-os, nunca lhes esquecerá aconselharão 
viajante uma romaria á aldòa chamada Pouy, que 
fica a uma légua de Dax. Ahi ainda está de pé um 
carvalho mui velho, excavado pelo tempo e em par- 
tes quebrado, de colossaes dimensões, e cercado de 
unia estacada pintada de verde. Esta arvore vene- 
randa é chamada n'aquelles silios a arvore que cu- 
ra as maguas e dòrcs\ é um monumento consagrado 
.1 memoria de um h<imilde pastor de Pouy, que a 
vontade de Deus converteu em beroe de brandura e 
charidade. e que fui o homem mais reverenciado em 
França. O paisano do Maransin, qi;ando passa por 
diante da aivoíe que cuia as aúrcjajoelha em silen- 
cio, e não ha um só curioso viajante qne deixe de 
saudar com respeito o antigo carvalho de S. ^ icente 
de Paulo. 

Institcição da Ordem da Rosa. 

Quantas riquezas próprias alardca o vasto e fertilissi- 
mo império doBratil, quantos mimus derrama na sna 
nobre capital o coinmercio da Ásia e da Europa, es- 
tavam de ba muito prevenidos para uma festa ma- 
gnifica. O fundador do império esperava ancioso ver 
<,a na ordem inversa d"í;qnella em que a tiiiba a de- I apontar a barra as embarcações que lhe trariam uma 
luneta ; ed este modo a precisão da mais insijnitkan- I esposa na llõr dos annos, c ric.-» de virtudes e de b«l- 



fe mobília faz lembrar o respeito devido á fallecida 
e o luclo se renova a cada momento no coração d'a 
quelles a quem amara. —Se morre qualquer habitan- 



leia, e a filha querida em quem abdicara um throno, 
e por quem depois veio expor a vida nos combates. 
A esposa esperada era a neta dos reis da Baviera, 



te das Landes, toda agente do logar assiste ao enter- a filha do principc Eugénio lieauharnais. a Sr.'"* D. 
ro, e algumas mulheres com trajo lucluoso vão rcci- | Amélia Augusta Eugenia N.ipoleão. duqueta de Lea- 
tar orações s<Jbre a sepultura. Frequentemente seen- | chtenberg, recebida por procuração comS. M. Irape- 
contrani ranchos assim vestidos c de joelhov nas igre- 1 ''»' ° S""- D. Pedro I, em .Munich, aos Íd'açostode 
jas do Maransin ; e o crepe fúnebre que occulta o IS-Í). .Ajustara este consorcio o marquei de Uarhace- 

na, o qual. conforme as instrucções doimperadorseu 
amo, o solemnisou de um modo mui grato a Deus 
com actos de beneficência, comprando por quarenta 
mil cruzados um capital^ de cujos rendimentos saem 
todos os annos os dotes de quatro meninas pobres; 
O povo roiudo das Landes quasi que não conhece 1 duas escolhidas pela casa de Leuchtenbcrg, eduasli- 



semblante d"esfas pessoas, as tochas accesas a par d"el 
las, sobre tudo a attitude melancholica e o profundo 
recolhimento dVspirito, exaltam a imaginação, e 
prestam a essas reuniões certo caracter magestoso e 
solemne. 



o PANORA3IA. 



37 



radas á sorte. N'esta occasião, por ordem de S. M.a 
Imperatriz, se di^trihuirani de unia só vez em esmo- 
las sessenta mil cruzados. 

S. M. Imperial partiu a 4d'as;osto para Manlieim, 
com o tilulo de dui^cieza d« Sancta Cruz, na compa- 
nhia de seu irmão o príncipe Augusto. Em Porths- 
mouth se reuniu com a rainha a Sr.*^ D. Maria II. 

Aos 10 d'outubro de 1S:29 chegaram ao Kio de Ja- 
Jieiro as fragatas brasileiras Imperatriz c Isahel. O 
Imperador saiu imnifdiatamente n^im barco de va- 
por ao encontro da lillia e da esposa, e áquelles olhos 
radiantes, que liam nu intimo dos corações, assomaram 
duas lagrimas — lagrimas de prazer ineílavel. 

Rebocada por um barco de vapor entrou no porto 
a fragata Imperatriz ao som das salvas de cento e um 
tirot dos fortes e dos navios, adornados de bandeiras 



multicores^ lançou ferro e respondeu ás salvas. Á noi- 
te começaram as festas com a illuminação da cidade 
e das euibarcações. No dia seguinte ao meio dia de- 
sembarcou S. M. a Imperatriz no arsenal, e por bai- 
xo de soberbos arcos de triumpho, saudada pelos vi- 
vas do povo, que mal cobria o estrondo dos canhões. 
se dirigiu á capella do paço, onde recebeu a benção 
nupcial e assistiu a um Te Deiin\, cuja musica fòra 
composta pelo próprio Imperador. 

Teve logar no dia iininediato a entrada solemne 
na capital, e a apresentação de todas os grandes e 
fidalgos do império. S. M.a Imperatriz viu lançar 
ao mar uma corveta baptisada com o seu augusto 
nome, e o Imperador, afim de perpetuar a memoria 
d'uma alliança tão fausta, instituiu a Ordem da Ro- 
sa para prenliar serviços militares e civis. 





A insígnia da ordem é uma estrella branca de seis 
pontas com orlas c maçanetas de oiro, engrinaldada 
de rosas, soljrepujaiidoa a coroa imperial do Brasil. 

Tem no centro a cifra 1*. A. (l'edro e Amélia) 
em letlras de oiro, cercada de um largo circulo, tam- 
bém de oiro, com a iiiscripção: Amok k Fidelida- 
j)E. No reverso a data da fundação em campo de oi- 
ro, sobre um circulo azul com a legenda : Í'iíduo e 
Amki.ia. 

O imperador do Rrasil é o grão mestre doesta or- 
dem, o príncipe imperial é grão cruz e dignatario, e 
todos os princi()es de sangue são grão cruzes. 

'IVm oito grão cruzes illeclivos e oito honorários, 
ilezeseisi grandes dignalaiios, trinta dignalarios, enu- 
mero illiniitado de commendadures, olliciaesucaval- 
leiros, 

A grã cruz .inda inhcn-nte o Iractanieiiti) de ex- 
cellencia, assim <:omo ao dignatario, e ;'i commenila 
I) de senhoria. K necessário ler a patente de coronel 
l)ar« siT olfuial, c a du capitão para ser cavalleiro. 

Os grão cruzes tcazcni a insígnia a tiracollo da di- 
reita para a es(|u('rila : os di'^natarios em aspa, e os 
commendadcui'», &e. sobre o peito isiiuerdo. I'cla 
dillerenra na largura da iilii, <|iio r cAr de rosa orla- 
da de branco, lanibeni se dislinguein os graus. Os 
oito grão cruzes ellcctivos, nos dia» de; grande gala, 
usam de um eollar de oiro com rosas csmultuilus. 

A chapa que roprcsciitu u iJ." liguru preiíde-se no 
lado esquerdo da cbsucu. O» gruo cruzo» o grandes 



dignatarios Irazem-n^a com a coroa :, os digiiatarios. 
commendadores e ofíiciaes sem ella. 



Jogos k Festas antigas. 

Pracjmcntu de tima historia vtnhiãeira . 



Nos ciiuoNicÕEs velhos e pergaminhos, enterrados 
nas bibliotliecas de Ilespanlia o nas nossas também, 
está a parte mais curiosa <la historia da idade media 
na l'eiiinsMla. Ouem (juizcr saber mais doqiicdatas 
e nomes não tem remédio senão resignar-se a sole- 
trar em latim bárbaro a ingénua narração dos es- 
criptores monásticos, que não eram nem Ião rústicos 
nem tão iiriílos como decretou o orgulho ila passud.i, 
o ainda da presenti! epoeha. 

S(! a poesia pudesse incarnar iriim cadáver, tinli.i 
alimento ili' mais nos in-folios, honrados com o am- 
bicioso tilulo do líiilorids (\imi<li:tat. Mas a poesia 
é a vida, c por isso seria sacrilégio e delírio tent.ir 
abraça-la com a morte i e, aos iillios da sci6ncia e d.i 
philosophia, é nuirlo do passado tudo o que se n.u' 
anima pela ;dina, l'é, c crença dos homens ed. is iiis 
tíluíções, dos costumes e das ideas qne reinar.uu, 
it sua hora, ou modíiicadas ou decaídas, passaram l> 
thruiiu á urna ciucruriíi diij civilistieões t\ndas. 



38 



O PANORAMA. 



Colher 'O espirito do passado, para o infundir no* 
•(iiadros das grande» epuclias hibtoricas, é o seiçredo 
dut me'ilres que fundaram u nova religião lideraria, 
cliarnada romaulica impropriamenle •, porqiii; não é 
outra cousa mais do que a nossa rcnascciíça, a' ver- 
dadeira resiirrtiijão da arte cliristã, fillia das tradi- 
;,'õe» nacionaes, que embalaram nos l)ra<;os a socieda- 
de moderna. 

Nós. por mais que <iif;am, fomos, e havemos ain- 
da continuar a ter muito tempo, porttiyuizcscaslc- 
Ihanos pelu nossa origem cúmmum. K não deve doer 
ao orgulho pátrio. K o mesmo sangue, éa mesma al- 
ma em dois irmãos gémeos, mal-havidos, e apartados 
cedo um do outro pelo ciúme da respectiva naciona- 
lidade^ mas no fim de tudo irmãos, e bons irmãos. 
Physicamente não é possível reunirtm-se debaixo do 
mesmo tecto — ambos querem ser morgados — porém 
intellectualmenle devem viver em uma só commu- 
nbão, e orar em uma só igreja. A parte melhor — a 
mais feliz — da historia da família leram-na pelos 
mesmos pergaminhos, nascidos da mei^ma mãi, ador- 
mecidos no mesmo berço, e criados com o leite de 
crcnjas e costumes semelhantes. Depois d"is{o pôde 
lá deixar de haver allianja ainda que não haja^ustio.'' 

O quadro que se segue é a prova do que se diz n'es- 
te artigo. A epocha corresponde em 1'ortugal ao rei- 
nado de Aftonso Henriques. Os usos e costumes, ovi- 
ver e crer, que o lapIs do chronista retrata com tan- 
ta fidelidade era o mesmo em ambos os reinos. A phy- 
slonomia social apparecla tão confundida, tão seme- 
lhante nos dois povos, como incertas, vagas, e mal 
distlnctas as fronteiras que os separavam. 

O sábio Berganza, nos documentos de que illustrou 
as suas famosas "Antiguidades de Ilespanlia » , In- 
cluiu a clironica do imperador AíTonso Vil, conser- 
vada no archivo da cathedral de Toledo. Foi o livro 
d"ondc se tirou este painel de costumes de tão precio- 
sa raridade ,■ a descripção do chronista é dVsses cla- 
rões históricos, que alumiam até o fundo o modo 
de ser de um período inteiro quanto ás relações so- 
ciaes. O leitor ajuizará por si. 

II 

Guerra e casamento lia seie sectilos tia Hespanha. 

A vida de AiTonso VII foi uma continuada lucta 
com os árabes helhcosos das fronteiras, ou com os prín- 
cipes chrlstãos seus visinhos — a guerra nacional c re- 
ligiosa por um lado — a guerra civil pelo outro fize- 
ram da sua corte um verdadeiro acampamento mili- 
tar. O nionarcha castelhano, assim como onossoAf- 
fonso Ilenriques, é das figuras históricas que, alon- 
gando os olhos ao passado, nos parece vèr ainda de 
pé sobre o scpulchro tom a acha d'armas no braço 
esquerdo. 

lira um coração de leão-, uma vontade indomável 

— um esforço ct>go, tenaz, e Incessante. De um re- 
contro de mouros voará refrega com Portugal , d'a- 
hi tender a bandeira real, e despedir o galope dos 
esquadrões frementes sobre o Aragão i> a Catalunha ; 

— dormir no leito da terra dura: descançar d'uma 
batalha nos braços d'outra batalha; nunca despir as 
armas, nunca fechar osolhos — eis em resumo a exis- 
tência dos soberanos, que no começo disputaram a 
palmos o solo da i'enlnsula á conquista estrangeira, 
c á ambição natural. 

Depois lie uma vida d'eslas — quando ocoraçãofs- 
fria, c 08 br.iços se cruzam no peito para se não abri- 
rem mais, o somnu da morte deve ser bem piofundo 
e tranquillo '. 

Vejamos uin episodio do gigante ducllu. cm que 



se consumiu inteira a trabalhosa carreira de Aflba- 
so VII. 

u Acabadas outras !;uerras, o rei mandou diíer um 
dia aos condes de Castella : — enfreai os cavallos ; 
amanhã partimos a pedir contas ao rei Garcia na sua 
boa cidade de Pamplona. n 

li Dias depois os almogavares voavam na testados 
esquadrões de Castella, talando oscampo», tomando 
os gados, e accendendo a fogueira do arraial com at 
cepas das vinhas. " 

" Por toda a Castella soava o pregão da guerra — 
cm Leão e nasAstiirias o grito dos montanhezes suf- 
locava oclamor dosexercitos, quedesfilavam nos val- 
les, de lança erguida e bandeiras soltas. Todo o poder 
do reino abalava para Pamplona. >' 

u K o rei Garcia no seu alcaçar sentiu apertar-se- 

I lhe o coração no peito, porque bem via que de Naja- 

ra até as suas portas u inimigo não tinha mais do 

que dizer aos castellos : entregal-vos 1 — ás cidades : 

abri ! " 

li Ia em meio o mez de maio. De uma para outra 
hora D. AQonso podia chegar, ecomo haviam dere- 
slslir ? Nas planícies de Pamplona ouvia se o choro 
do povo, e descobria ao longe o fogo das cearas alheias 
como descia rápida das alturas acholera do castelha- 
no. )> 

II E o circulo estreltava-se, estreltava-se I . . quasi 
que já íuflocava o calor do incêndio na bella cidade. " 

"iintão D. Garcia não teve animo dever e«i ruí- 
nas os paços de seus pais e a terra do seu nascimen- 
to. Não chorava, mas no coração era uma dôr de 
cortar a alma. Fechou-se n'um aposento com us do 
seu conselho: — Vem ahl, disse elle, os de Castella 
tão numerosos como as areias do mar. A pat com 
Portugal foi para nos destruir com certeza. Se pele- 
jamos, a terra perdeu-se por cerco ou por batalha, 
Glue hei de eu fazer.'" 

" GLuem lh"o diria ? fallavam todos, e ninguém acer- 
tava. " 

II N 'este meio tempo sobreveio o conde Affonsode 
Toloza. \ estia esclavina de romeiro, e no chapén 
trazia asconchas de Sanctiago. .Asbarbas, queeram 
brancas de neve, davam lhe pela cintura. O reieot 
cavalleiros sentiram grande alegria, porque não tinha 
Castella melhor conselho que o seu, nem braço mais 
rijo na peleja. " 

»E tiveram ratão de se alegrar. O conde foi escu- 
tado — e dias depois estava concluída a pai entre o 
rei de Castella e o rei Garcia. » 

"O rei de Castella tinha uma filha —•» mais que- 
rida do seu amor. O conde .^flbnsofallou-lhe assim : 
— D. Garcia é moço e solteiro: dai-lhe, senhor, a 
infante para cavar — eo inimigo far >e-ha lealami^. 
Assim sedecidíu; e agora vereis as festas que te apre- 
goaram em toda a Ilespanha. •> 

II O noivado fez-se em Leão no mei de julho. Veio 
o Imperador, e vieram os condes, us príncipes, e os 
duques, com os cavalleiros d.i sua rasa e os homens 
da sua mercê \ a todos se tinham mandado próprio* 
a avisa-los que estivessem allí ii\iquelle dia, áquella 
hora, com armas lutldas e esquadrões vistosos. Das 
Astúrias, e de Castella chegaram á competência : qual 
mais rico nos trajos, qual mais soberbo na comitiva. 
Plumas ondeando, pendões quarteadis de cjrcs ; o sol 
falseando no polido dos arn»jcs, nos lavores de ouro 
c prata; os falcões no punho das damas; as matilhas 
pela trclla dos montciros — trombetas, anafis, e do- 
çainas — tudo istoscvía eouvia, e mal K pôde con- 
tar, na corte de Leão. •' 

II Chegou o imperador com a impcratrii Berengera 
sua mulher, cercado de condes c cavalleiros; doou- 
tro lado entrou U. Garcia, o noivo, vestido de pre- 



o PANORAMA 



39 



cioaas galas, cavallos com redpas d*ouro, testeiras de 
prata, e pedraria nas armas, (.'iitre fidalgos e senho- 
res — que nenhum tinha inveja na riqueza ao mais 
galhardo de Castella. " 

«A infante D. Sancha entrou em Jjeão pela porta de 
Toro, e com ella D. Urraca, a bella esposada de D. 
Garcia. Os cavalleiros e barões que a rodeavam, as 
damas e virgens que a acumpanliavani, os clérigos e 
monges que a seguiam, eram tantos que não tinham 
conto. Ijpvantou-se o thalamo nupcial nos paços reaes 
de S. l'elaio — em volta dVlle a infante U. Sancha 
mandou collocar os choros de bailarinse mulheres, que 
teciam danças e cantavam li^ninos ao som de órgãos, 
citharas, e psallerios. O imperador, entretanto, com 
U.Garcia ao lado tinha-»e assentado cm um Ihrono 
levantado no terreiro que se alargava diiinte do por- 
tal dos paços. Em redor, em escanliiis baixos, assis- 
tiam aos festejos, segundo suas dignidaiies, os bispos, 
abbades, duques, e condes." 

«A um signal principiaram os jo^os á antiga mo- 
da de ]lesp.tnha. Abriranise pelo òiiforilio ou torneio 
das cannas. (rJLuadrillias de cavalleiros terçavam na 
arena hastes di-lgadas, que na veloz corrida despediam 
iin» contra os outros, colhendo no ar o golpe, ou evi- 
tando-o de um s^lto com pasinosa galhardia. Veio de- 
pois o tiro do tablado. O alvo estava posto no meio 
do circo, e ao uso pátrio os jusl.i dores deviam acertar 
partindo a todo o galope. A destreza do cavalleiroe 
o meneio doscorseisdistinguiamse pelo maior nume- 
ro <le sortes felizes. Corrida esta scena, viram-se ma- 
tilhas de cães açulados investir com os mais ferozes 
touros de Andaluzia — desaliar-llie a ira, enraivecer- 
Ihe o sangue, e quando escarvavam o chão, atroando 
o campo de mugidos, e revolvendo os olhos afof^uea- 
dos nas orbitas raiadas de sangue, saírem-lhe os ca- 
valleiros ao encontro a esperar o Ímpeto, e a prostra- 
los de um golpe de \enaV>ulo. Os pcqjulares também 
tinham o seu quinhão na alegria geral. Um tropel 
de cegos foi introduzido nu praça ; e apoz elles o ri- 
dículo contendor i|iie lhes estava destinado. — Era es- 
te o mais alentado porco dos montados de Castella. 
Os cegos, animados pela esperança de se banquetea- 
rem coní a victíma, premio prometlido.i destreza do 
muis venturoso, corriam de um para outro lado; es- 
te, apanhando a p.iuluila do visiidio; aqnelle afoci- 
ohaiulo o chão, rola aos pés do terceiro; oquartose- 
gue malhando sem dcscançar no raslo do pobre que 
tenta atracar pela cauda o inin-.ígo, em (juanio em 
rodeios e iugidas o porco ora se furta a um, ora es- 
capa ao malho liiriosodooulro. Osesp<cla<lores riam, 
batiam as palmas, e tripudiavam de prazer no meio 
dos liruleseos episódios lio entremez." 

"No dia seguinte os esposos foram abençoados, e 
despedidos com ricos presentes." 

Assim s(í feslejiiva um noiva<lo real no seiído XII. 
tiuem não achará originalidade em divertimentos ru- 
des e ásperos eofno os homens eas instituições da epo- 
cliu ? Cegos atordoundose ás pancadas! cavalleirose 
villõesmihtunidos a applaudir o jogo das escondidas, 
de que é protagonista H escoria dos animaes — o por- 
co! ■— (J li;ito da noiva cercado de palhaços, bailari- 
no», e menestrcíis! dois reis um toil.i a piimpiídoseii 
! estado presidindo á farça, e t.dvez ilcM;endodo thro- 
lio a disputar um lanço uo tablado, ou a tirar nma 
•orte no liafordio! — (pie espeiM.ieulo novo e variado 
ln"io olVcreciin, de ipie naturaes cores n."io retratam a 

I «ida <Pai|uellis s dos f — E um (piadro para di'«a- 

liar a viMa di: VVidliír Scott, propor<ionando lhe 

MS mais chistosas «cenas, tluem visse o bello painel 
do torneio ile Anliourgbi /uche, no Ivanlioe, ilirá 
«caso qu<', tirada d'esla deseripç'ão do (thrOnistji, a 
•cenu íicuria menos piclurescu nus costumes, uu mais 

I 



fraca nos caracteres e pbysionomias? Esta acção por 
si só colloca-nos na verdadeira idade media, e desen- 
gana a muitos da diflerença que vai de contrafazer 
as epochas a estudar-lhes a Índole, e desenhar-lhes os 
usos e a existência. 



Da sorte dos meninos nas mimas 

DE InGLATERKA. 

ÍSa parte occidental da Inglaterra ha camadas im- 
mensas e profundas de carvão de pedra, tão ricas, 
que os geólogos lêem chegado a asseverar não basta- 
rem para o consumir vinte séculos de exploração. 
r<5de-se dizer que a Inglaterra tira das suas minas 
de carvão os elementos do poder industrial e mer- 
cantil. O consumo domestico absorve poranno deze- 
sete milhões de toneladas; as forjas produzem an- 
nuabnente oitocentas mil toneladas de ferro, gastan- 
do quatro milhões de toneladas de carvão; as fundi- 
ções de cobre empregam quinhentas mil toneladas 
de carvão em derreterem cento e oitenta e cinco mil 
toneladas de metal; as fabricas de algodão oitocentas 
mil; as de là, seda e linho seiscentas mil ; finalmen- 
te, se a estas parcellas se accrescentar o contingente 
das outras industrias, e dasexportações, queem 1837 
eram de um milhão e cem mil toneladas, a quanti- 
dade de carião que produz a Inglaterra orça por vin- 
te e seis milhões de toneladas, o que, avaliando-sea 
tonelada por 1 .JSOOO réis, preço médio, repntsenta a 
somnia annual de quarenta e um mil e seiscentos 
contos de réis. 

Mas cumpre confessar que a extracção do carvão 
de pedra, assim como é uma das maiores fontes da 
riqueza da Inglaterra, tem exercido funesta influen- 
cia não só na saúde, porém na moral das pessoas cu- 
jos braços emprega. 

A população das minas está dividida em quatro 
calhegorias. Na mais alta acham-se os overmcn, eos 
dejiulitiovcrvien, encarregados da policia da explo- 
ração ; vigiam os trabalhos, e a segurança da mina. 
Seguem se-lhes logo os mineiros que extrahem o car- 
vão de pedra [huwers) Os mais dVlles são homens 
feitos; descem para o trabalho ás duas horas da ma- 
nhã, e recebem as ordens dos íUptitiíS ofírmen ,• lar- 
gani-n^o ás djias horas da tardi?. O jornal que se lhes 
paga nos gr.indes districtos d'estas ndnas anda por 
1G;SOOO réis cada mez. 

Nem apoz estes os fttUtcrs, que são rapazese ás ve- 
zes creanças. liaixam á mina ás quatro horasdu ma- 
nhã, e são os que, de duas em duas horas, levam em 
carrinhos para as grandes galerias o carvão cxtrahido 
pelos mineiro», iúiipnrram por defraz os carros, car- 
regados com p('rto do oito quintaescada iim, dobran- 
do-se muito, allm <le empregarem inaii>r força, enfio 
partirem a cabeça no teclo dos corredores, que é ra- 
ro passarem de cinco palmos dealtura. O puilernão 
sáe da mina senão duas horas depois do hfwcr : o8e\i 
jornal regula de quatro até seis mil c oitenta réis por 
mez. 

O carvão acarretado pelo piillcr ])assa para o poço 
|)rineipal em wagons puxados por liesfas, servindo- 
Ihes dl' ciMuliietores uns rapazitos de iliue atéquinzu 
annos, a ipie chamam iliiveis. D^ahi o tiram por inu- 
ihin.is d.- vapor, ou por engenhos ou rodas em <|ue 
trab.ilham cavallos o iité mulheres. No lini do dia, 
que é de iloze horas, tem o driver andado oito ou 
nove léguas nas galerias. 

A ultima e mais interessante classe ile operários ti 
a dos pe(|Ui'ninus, de cuja vigiliincia depende a «egu- 
rançii da mina, |ioÍn lêem a seu cargo o fechar as por- 
tas l^trojiy) das galerias, de mudo que kC cunservtí a 



40 



O PANORAMA. 



ventilação indispensável para impedir a formação de 
gazes, u por conseguinte explosões porigosissimas. 

Ao pequeno irappcr acorda-o a inãí ás duas lioras 
da manhã ; levaiila-se c bota a correr para a mina, 
levando comsigo para o sustento de todo o dia um 
pedaço de pão, e unia guta de cafú dentro d'uma 
garrafa de estanho. Mal chega ao fundo do poço to- 
ma para o corredor estreito e baixo em <)ue faz sen- 
tinella ; metfe-sc dentro d'um nielio excavado por 
detraz da porta, que deve abrir apenas sinta rodar o 
carro d'algum jntllcy, e fechar assim que elle passe; 
o alli se conserva duas horas seguidas, súsiidio, sem 
luz, desperto. Sú lá de quando cm quando vem adel- 
gaçar-lhe as trevas a luz mortiça c tremula da alani- 
pada que os carros dos putlers trazem na dianteira : 
triste d'elle se, aborrecido, se deixa vencer do som- 
iio, que a mão pesada do depuiy-uverman quQ anda 
de ronda virá prestes lembrar-ltie o dever de velar 
pela vida de todos. A's quatro horas, a palavra lilier- 
dade I liberdade 1 parte do ponlo principal, e ii'um 
instante é repetida nos mais reinofos recantos da 
mina:, porém o irappcr ainda se não vê livre: não 
larga o pusto em quanto não passa o ultimo /)ní/c»- ; 
depois d'isso é que sobe para a choupana de seus 
pais, onde engolido o jantar, que não enjoa de gor- 
do, se vai logo deitar. 

Não tem o trapper grande traballio, mas aiinnio- 
bilidade e solidão a que eslas infelizes creancas estão 
condcmnadas lhes tolhem o desenvolvimeuto do cor- 
po e da inlelligencia. A pobreza ou a cubica dos pais 
as encerra nas minas, ás vezes, de quatro a cinco an- 
IIOS, mas, comniummente, em tendo seis para sete. 

O trabalho em que se empregam mais meninos de 
ambos os sexos é o ãoi jndlcrs. lia minas cm que 
empurram os carros por cima de carris ■, porém na 
maior parte puxam os piiticrs por clles como bestas 
de carga. Nas galerias mais baixas, o putlcr, atado 
ao carro por uma corrente de ferro, que lhe passa 
por entre as pernas e vem prender n'uni cinturão de 
coiro, arrasta, engatinhando, o instrumento do seu 
martírio. Um velho mineiro, quando ointerroíraram 
acerca d'este modo deconducção, muito seguido, ar- 
rancou do seio d'alma a seguinte exclamação: "Se- 
nhor, não posso senão repetir o que diíeiii as mais: 
é uma barbaridade!" (C(»iii:iú(i .) 



Da PICADá. DA VESPA. 



Se a vespa, quando morde alguém, é logo enxotada, 
parte-se-lhc o ferrão e iica na feiida ; se pelo con- 
trario a deixam ir embora, desencra\a-o pouco a pou- 
co cm zigzag. 

No primeiro caso a pesso.i mordida está exposta ás 
dores e perigosquo podem resultar d"uma feriíla com 
um corpo estranho e irritante dentro; no se;;undo 
não ha q\ie temer senão oselleilos d'uma picada sim- 
ples, salvo se o insecto inoculou algum veneno. 

(.'uinpre pois a quem fór picado yur alguma vespa 
conservar presença d\'spirilo, e dar ao animal lodo o 
tempo necessário [)ara tirar o ferrão sem oquehrar. A 
primeira cousa que se deve fazer cm todos os casos 
depois da picada é examinar se o ferrão se conserva 
na ferida, c se assim fòr, extraiam-no logo com uma 
pinça. Atalham-se depois «s inllammações consecuti- 
vas, banhando a uiiudo ologar teridocon» agua mui- 
to fria ou nevada, que tenha dissolviíla uma grande 
porção de wl lominum. Se, apesar d'esle curativo 
timples e ordinariamente eflicai, continuar a dòr e 
progrediram a inchação e inllaiiimações ; se houver 
razão para crer que o ferrão íicou na ferida ; ^e, so- 
bretudo, a picada fòr na mão ou lui cara. c preciso 
invocar sem demora os succorros da arte, porque a 



ferida pode ler maus resultados. O doutor Cbaume- 
ton narra o seguinte facto: — n Certo manceVjo. não 
tendo reparado n'uma vespa que estava no fundo 
d'um copo cheio de vinho doce, cnguliu o insecto, 
que o picou na garganta. Oefieilo fui promptu e ter- 
rível ; inllammou-tie-lhe a garganta no logar da pi- 
cada, e toiheu-se-lhe de tal modo a respiração que o 
mancebo morreu suOueadn, nem que nenhuma das 
pessoas que o rodeavam lhe podes-em valer. Salva- 
vam-no sem duvida se logo depois de picadu o obri- 
gassem a engolir, com intervallos curiós, uma forte 
solução de sal commum nevada, alé lhe passar a dòr 
de garganta. Este traclamentu, pelo menos, dava 
tempo a chamar um medico ou cirurgião. '- 

II Um agrónomo inglez, accrescenta o doutor CLau- 
meton, teve a satisfação de salvar a vida a um dos 
seus amigos, picado noesophago pur uma vespa, que 
não tinha visto n'um copo deccrveja. í'e-loenguiir, 
por muitas vezes, sal commum desfeito nainruosagua 
possível, de mudo (j'ie formava uma espécie de papas. 
Ossymplomas ameaçadores, manifestados no instante 
da picada, abraiidaram quasi de repente, e cederam 
como por encanto. . . Já o ilbistre Dioscoridos, que 
\ivia antes da era christã, recommendaia a solução 
de sal ou a agua domar,* e desde e^tes tempos remo- 
tos até os nossos dias a efúcacia d'um romediu tão 
simples e económico não tein tido contras; cu mes- 
mo tenho por muitas vezes sido testimuuha do seu 
bom effeilo. " 

Algumas vezes a dôr é agudissima e custosa de ce- 
der. O doutor l'icarui, medico italiano, tendo-o pi- 
cado uma vespa nas costas da mão, deram-lhe dures 
insupporlaveis, que nenhum dos remédios usados em 
taes casos puude mitigar. Já tinha a mão muito in- 
chada quando lhe lembrou recorrer ao uso do unguen- 
to napolitano. Não é para aqui tractar da applicação 
d'este remédio, porque pede a prudência que s<» um 
facultativo o receite, basta que se diga que o allivio 
foi proniplo e grande, e que se deve applicar o n>e- 
dicamento por espaço de seis ou oito horas e até mais. 
A cura do doutor l'icardi foi breve e radical. 

Este curati\o não isenta de ter virada para cima 
a parte mordida, e ao ar fresco quanto seja pu:sivel. 



Do EsTVlO. 

Como hão de ser as palavras? Como as estreitas. At 
eslrellas são muito distinelas e muito claras. E nem 
por isso temais que pareça o esl vlo baixo: as estrel- 
las são muito distinelas, e muito claras, e altis»inias. 
O estvlo púJe ser muito claro e muito alto: tão cla- 
ro que o eiilendam os que não sabem, c tão alto que 
I tenham muito que entender n'ellc os que sabem. O 
I rústico acha documento» nas estrcllas para a sUa la- 
I voura, e o mareunle pura a sua navegação, e o nia- 
I ihcmatico para as suas oliservações e jwra os seus jui- 
] zos. De maneira que o rústico, e o mareante, que 
I não sal)eiii liT nem escrever, entendem a» estrellas ; 
I c o matheuiatico, que tem lido quantos escreveram, 
não alcança o entender quanto irdlas ha. 

Este desventurado eslvhi que hoje se usa, os que 
o querem honrar chamam-lhe cullu ; <» que o con- 
demnam chamainlhc escuro; mas ainda lUc faiem 
muita honra. O estvlo culio não c escuro, é negro e 
negro boçal, e muito i-crrado. 

ViKuiA — Scrm. T. 1 .", po<í. 3'.- 

Co'a matéria convém casar o estvlo: 
Lcvante-se a exprtsjào se é grande a iJca, 
Se a idéa e negra a locução ne;r«gc, 
E lenue sendo se attenue a |)hrí«c. 

l?oiAyK — íiií. ao laóic J. A. úc Mazcc^' 



6 



o PANORAMA. 



41 




TUMULO DE BAIVTHOLOni^U JOHANIES, 



Na sé inetrupulitana lisbonense, nu eiifríir da porta 
principal, lia uma capella antes tie clie^ar á porta 
travessa <io norte, fecliada com seu canci-Uo; e den- 
tro, taniliern do lado es(|uerdo, está nietlido n'iim 
vão de ano o tumulo cuja lace apparontc se mostra 
na gravura (|ue precede. Km volta da campa tem aber- 
ta uma inscripção; e do cjue se pode decifrar na 
parte maniirsta infere-se que diz o seguinte ; — Bar- 
tliolumeu Juhanes cidadão que foi de I^iishoa a quem 
Ileus perdoe passou trinta dias de novembro (uti 
iLtfníbrof }. — Alguns caracteres acliam-se indistin- 
«los. A eilalua jacente está de roupas lalares com 
nUia espada larga, ou montante, sohre si ; os trcs 
otcudos insculpidos no cofre teein por armas llôrcs 
ili- liz francczas, divididas por uma lista lancjada obli- 
quainiMite, ou banda. — Seierim de Karia, no Disc. 
'i" das Not. de l'ortuf|;. , mencionando familiasque 
nus escudos tra/.iam as Ihíres de liz, aponta algumas 
raiõe», c em dois exemplos que traz, das casa» de 
l-arias e Mirundas, marca u oripein Iranceza. — 
\ eeni-se no tnmtdu (|Ui' copiáuM)s. lin documen- 
to i|Uí vamos citar prova (|uequem para si o fez eri- 
gir tinlui liens em Flandres eKranr.i. Sem indagar- 
mos o sen grau de nolireza derivada (Peste idtimo rei- 
no, liiisla ipie pi'!a razão de uns as adoptarem as po- 
disM-iii esciillier outros. K mio temos visto lautas car- 
ruagens que, [iila concorrência ile appulli<los encon- 
trado», nos appresentaram por alii liriizõc< mestiços 1 
A i>scul|)lnra do tumulo, piírecid.i. por exemplo. 
.. <líis(]nee\isti-m «mu ( tdivcilas, indií-axa aniignula 
rlc remota, e pari eia «nlirior áepoclia de 1), JoSo 1 
pela circnmsl/incia ilos caliellos cri'S('i<liis cli cabeen e 

Vol.. I - OUTIUIIO 10, 1«iO. 



I barbas, que se observam na estatua deitada ; porque 
é sabido (jue no tempo de João vencedor de João de 
Caslella usaram os nossas cabello tosquiado, para se 
dillerençaríMii dos cailelhanos, d'onde veio o chama- 
rem-iMis vltumorros os adversários ; e n"esla confornii- 
díide e bom uso nacional apparecem nos monuinentus 
d^então as elTigies, como no tumulo do sabedor João 
das llegras, muilo bem trosquiadas. 

No real arcbivo, dicto a Torre do Tombo, arca 
sancta, onde se leni salvado incólumes preciosos do- 
cumentos no meio de naufrágios, existem na cbance- 
laria lie 1). Diniz dois aforainentus (a f. "6 etc. do 
L."2.", e f. ol V. doL." {."jcm queapparece o no- 
me de Jiartliolomeii Jolianes ; mas não é isto motivo 
bastante para se dizer que fossem feitos a uma ou a 
duas diversas pessoas, e que alguma (Pellas fosse a 
de que se Iracta. — Não ha porém duvida de que 
d'esse tempo é o jazigo acima estampado, e que per- 
tence a individuo iPaquelle nome, o qual «levia ter 
sido lioinem de muita ri<|ueza c de valia, como piídw 
ajuiiar-se pelas suas dis|>osi<;ões testamentárias, de 
(|Me s<')iiii?iitn mencionaremos as notáveis; pelas cau- 
telas queu\ilgumas se observam limpossivel que não 
losse coinmerciante, pelo menos em seus princípios, 
coiiheceilor, como parece, das tralicani ias <lo niuiidu, 
que ja então se praclicavani como v provável que se 
larão até á consumm.içào dos séculos. Talveí perten- 
ceu « alguma corpor.ieão como, por exemplo, o gré- 
mio dos mercad<ires; porquanto nu ii u testamento 
falia moitas vezes em eciinpanln'iros, e llies conoede 
entirrarem-se na capelbi i|Ue lunda . — l"'slf documen- 
to, dal, ido de 'JS dr novembro de I J'2t (I ;ló'J). elinr.i- 



42 



O PANORAMA. 



do pelo tabellião Domingos Martins, na cidade de 
liisLioa, nas casas que chamam da Torre da Eslevay- 
iilia, nas quaes morava o honrado barão (varão) 
liariholnineu Jo/iano^ cidadão de L.ishoa, . . , o qual 
jazia t7n iva cama com iodo o seu sizo ele. Declara- | 
se que para rcmiriunio de seus pcccados este funda ! 
uma capcila e lioí^pital. 

Ao diante se Ic a seguinte disposição: — Mando 
deitar e sottcrrar o meu corpo na ii^reja calhedral de | 
Lisljoa na capella que eu alii mando fazer no logar j 
que me alii o cabido assignou á qual igreja deixo \ 
com o meu cnrpo duzentas livras. Os legados prin- , 
cipaes são: A" igreja de S. Mamede de Lisljoa loO ' 
livras. Para resgate de caplivos 2000 livras. 1000 | 
livras para vestir pobres (jiic não vendessem osvesli- 
dos. Para casar orpliãs donzellas, que sejam de boa 
nomeada e boa vida, o taes que mereçam casamento, 
loUO livras. liiO livras para fazer iinia ponte no rio 
de Pontevel que c no caminho puLlieo que vai paia 
Santarém enlre Aveyras e o Cartaxo: e n'esta dis- 
posição ha uma plirase que denota profissão mercan- 
til do doador — ali cusoyidar a venda. — 300 livras 
para a obra do mosteiro da Trindade de Lisboa com 
a condição dos frades não receberem senão empedra 
e cal. 10 livras para criar um engeitado no hospital 
dos meninos ; as quaes mando que os meus testamen- 
teiros paguem a uma ama, de tjuiza que ocomenda- 
dor do dito Inrjo não seja tcúdo de asrcceber. Para os 
gafos (leprosos) de Lisboa 10 livras, com as mesmas pre- 
cauções. A todas as emparedadas da villa da Azam- 
buja 30 livras. 

Funda um hospital para doze pobres. Inslifue a 
capella para jazigo na sé:, determina que seja da in- 
vocação de S. Eartholomeu, cm que canicmcadadia 
para sempre 1 G capellães ,• a saber, doze cappellães 
por Tninlia alma, c os deis dos oídros capcUães can- 
iem por meu scniter elrei I). Diniz, c os oídros pela 
rainha I). Isabel sua 7nulher (não podia adivinhar 
que seria canonisada) c outro j^ch infante D. yjjfon- 
so seu fillio e pelos filhos iVessc irfanic : esjunctaqiie 
sob tal condirão que o senhor rei cm stta vida, e de- 
pois o senhor infante na sua, e assim por diante os 
seus filhos c nelos lidimos aletvi c façam alçar força 
de qualquer pessoa ou pessoas que queiram usurpar 
a capella que iiislitue, ou os bensd'elia ou do hospi- 
tal que taml)cm funda. 

Dotou a capella com bens que subissem arfíiícrc- 
ecs 7)iii Heras; e mandou que senão lhe dessem logar 
na sé fosse feita na freguezia de S. Mamede. Para 
capellães manda preferir portnguezes. 

ISomeia iestanienteiros Gonçalo Domingues, saca- 
ilor das dividas de twsso senhor clrei meu compadre, 
p l'ero Esteves, sobrinho de João Dias, reposteiro 
d'elrei, e\priniindo-se dVsta forma u e os metto de 
posse de todos os meus bens moveis e de raiz, cm 
qualquer espécie, maneira c cousa que possa ser, 
achados também em Portugal romo em França e 
em Flandres. 1' E ailiaiitc diz : uE peço por mercèa 
meu stnlior elrei, (|ue sempre manteve a mim e os 
meus lieus, e n\e defendeu em minha vida sua mer- 
co, por algum serviço (se lli^o eu fiz) depois do meu 
passamento defenda os meus testamenteiros. " 

Uma copia d'esfe tumulo, desenho em contorno 
foito á penna, com as de outros dois igualmente 
existentes na sé, foi appresentada na exposição da 
Academia das Piellas-Artes em ISlO. E bem mere- 
cia commemoração esta antigualha, que os cscriplo- 
res deixaram no esquecimento, quando, pela cpocha 
a que pertence, como spccinieii archeologico de mo- 
numentos d'c5ta espécie, merecia particular uttcnção. 



O IIadjeb de Kordova. 

(972 a 992) 

(Coniiauado de pag. 33.) 

in. 

Gclohira. 

A TEMPESTADE rugia em toda a sua força. ^ iera to- 
talmente a escuridão e a noite. A única luz, queal- 
lumiava esta sccna, era a de um álamo gigante a 
arder d'alto a baixo, incendiado pelo raio. Este fa- 
cho tremendo fulgii lugubremenle nomeio da selva, 
como a tocha funerária d'aquelle templo imiiiensu, 
cujas naves e culumnas eram os renques profundo» 
do» cedros e carvalhos. 

A estranha apparição da virgem fez recuar os guer- 
reiros. O circulo retrahiu-se e alargou-se. Uernien- 
gardo, firmado sobre o punho, voltou-se para con- 
templar a sua noiva, e cravou os olhos n'ella com 
uma anci i que apenas pude comprehender-se. Gelo- 
liira, por única resposta, fitou os «eus nos doniosta- 
rabe cum desesperada resolução. O que aniLos sp dis- 
seram n'aquclle longo e profundo olhar souberam-n"o 
só elles c Deus. Devia de ser horrendo, porem : de 
certo que o mancebo leu alli a certeza das suas hor- 
rorosas suspeitas, porque, erguendo-se do repente eiu 
pé, por um esforço que já nada tiiiba de humano, 
alçando-se firme — elle que havia momentos lual po- 
dia arquejar estendido — com o peito aberto a gote- 
jar sangue vivo, exclamou brandindo furioso com uma 
das mãos a sua larga espada, e com a outra apon- 
tando para a virgem, prostrada ainda a seus pi-s- 

— Vedes esta, irm.los? era vossa irmã também ; 
era a jmmaculada recompensa que Deus me linhn 
destinado ; era o anjo vtslido de purez;i a quero eu 
tinha erguido aras no coraç.lo ; era a companheira que 
havia de cingir-me asarn:as ápartidn, c à volta lini- 
par-nie o pó e o suor da fronte ; minha consolação e 
meu auxilio, meu desvelo e meu enlevo; era, era 
esta meus irmãos. E sabeis hoje o que é .' quereis sa- 
ber cm que m^u tornaram .' N'um opprobrio. n"uma 
vergonha, n'unia infâmia, n''uma atVronta ! Tocarani- 
Ihe, os Ímpios ! mancharam-n'a, os vis ! . . . " 

Gclohira caiu com a face melindrosa iiocliãoala|;j 
do elimuio, diante do guerreiro : Herniengardo viu-a 
n''aquella postura c continuou : 

— i. (iuebraram-me tudo n^alma, elles! O amor 
cem que eu contava, aventura que esperava, a glo- 
ria a que aspirava, tudo I Essa fronte, essas faces, 
esses lábios que ou Tcceiava macular com o s<'> miu 
balito, nem ousarei beija-lo» sequer; estão poli uidos '. 
Não posso nunca mais cbegar-me a cila ; e f.Va era 
omcucul'o: adorava-a ! Vt;de-a, meus irmãos. Ma- 
tarum-na ; mataram-nie ! G.ue me resta pois no mun- 
do .' " 

— II A vingança ! " 

Bradou o ancião, surgindo também de pé ao l.ido 
do ni:>nccbo, transportado como elle, temeroso e furi- 
bundo como elle. 

Parecia, um, oarchanjoextcrminador ; assemelha- 
va-sc o ouiro ao :ipustolo das dcslruiçues. 

— .1 \ incança ! " 

Exclamaram taml>cm os guerreiros inattaralH>s. 
apertando de novo o circulo. 

(iclohira soluçava contra a terra! 

— •! Sim, meus irmãos, vingança I — proseguiu ller- 
mengardo. — \"inguemo-nos , vingai-me I . . . (Que- 
reis vós faicr-me um juramento.'» 

— u (Queremos — bradaram a um tempo os seus 
companheiros — qucremo-lú nós todos!- 



o PANORAMA. 



43 



— u Jurai pois — continuou elle — de vigiar, de 
seguir incessaiifemcnte o hadjeb Mohamed, a cada 
hora, acada passo, nomeio dos seus guardas, dosseus 
iílcaçares, das suas phalanges, dos seus exércitos, até 
íicar remida a injuria d'esta, a minha injuria, a 
injuria de nós todos, irmãos! Eu serei o primeiro, 
eu darei o exemplo de força e de constância, eu o 
espiarei de noite e de dia, eu lhe trarei o punhal 
continuameute suspenso no coração. E omeulogar; 
não quero que ningem m'o usurpe. Mas se eu cair 
antes de vingado, se o poderoso esmagar o pequeno, 
jurai-me, juriíi-me todos que mo substituirá outrode 
entre vós, igualmente implacável, igualmente vigi- 
lante na obra da vingança, eoutro apoz elle, eoutro 
depois d''osse, e outro, e outro em iim, sem parar, 
sem se repousar em quanto esse homem, esse tlagel- 
lo, esse IjadjeI) não tiver expirado aos seus golpes, e 
não só elle, mas os seus sectários maldictos, os que 
lhe dão famaidio poder, os que o ajudam a erguer o 
ediGciu das SU..S prosperidades. Se uma geração não 
bastar para derril)ar ocollosso das TIespanhas, jurai- 
ine que legareis a vossos fdhos esta missão, que a pro- 
pagareis piir tilda a parte, que a contareis a quanto 
ii'estas terras tiver um nome godo. Edilllcil e peri- 
goso, «'■ tremendo o que vos peço; aquelle homem 
guarda-o Deus como um signal da sua ira •, ha de 
cair muito d'entre nós; mas o dia ha de raiar a fi- 
nal; a cholera do céu não dura sempre! Jurais-me 
pois de o cumprir como digo, sem fraquejar nma vez, 
bem descanç.ir uni momento?» 

— u Juramos, juramos ! » 

Clamaram cm redor os guerreiros, tremendo de 
indignação, de impaciência, e de enthusiasmo. 

— Jurai-ni^u por vossas mães, por vossas filhas e 
esposas ! n 

— "Juramos ! >■> 

— » Jurai-m'u pelo sangue de vossos irmãos derra- 
mado; pela honra do vossas famílias maculada. " 

— « Juramos, juramos ! " 

— "Jiirai-m'o pela memoria dos avós quedormcm 
o seu ultimo somiio nos leitos de pedra profanados 
pelo pé dos Ímpios; jurai-in'o pelo nome dos ante- 
passaílos qu<! erguem um canto dos seus sudários de 
mármore para no-lo virem troar uos ouvidos, nomeio 
d'esla vergonha. 

— «Juramos, juramos! » 

— uJurai-m'o líiialmente por esta. . . >' 

— "Jurai-o por este sangue! >' 

InterroiMpeii a virgem de Amaya, alçando o rosto 
formosissimu, todo maculado, todo lastimado, lodo 
golpeado do» tojos o abrolhos, o. erguendo sobre o 
peito o ferro que i'inpuiihava. A Jjueri.cia goda que- 
ria Baiicliliiar o jiirainenlo doa seus irmãos e viiiga- 
<lores, ú semelhança da matrona romana. 

Ilerinengardo viu-lliu o gesto o não se moveu. A 
dilr, n desespcrueão e a vergonha tinhani-u'u torna- 
do feroz. 

I'"oi o niiciào que lho desviou o golpe. A velhice 
ítnlii! muitas veies eiitcniler nndhor ua fraquejas, c 
avuliur II iniioeeneiíi. 

ICni um evipeelaeulo horrendo afjuelle. O bosque a 
dobrar-se inteiro iilé a turra, a ciirvar-se humilde 
para deixar passar a tormeiíla, todo cheio de frémi- 
tos pungentes, tle gemidos doloroso», e desilvosagu- 
dus— todo cortado de brados de agonia, de uivos e 
rugidos — c iilli, no centro, aquelli^s roslos toslados, 
uquelle» tilhos seiMilelhantes <i furibamlus; iu|iiell(' 
velho uugusio, eiiuiu presidindo á saturnal da viii- 
guiiça ; H(|uel|(! hoineiu com o peito nbirlo, a toda- 
via bobraniu'iro e ile pé; o finalmente a(|uella mu- 
lher ajoelhada no meio de todos, iijoelhaiia no chão 
lodoso, brainus o» vestidos como o rosto, todo man- 



chado o rosto como os vestidos, os cabellos soltos ao 
vento da tempestade, o olhar desvairado, meigo e 
selvático a um tempo, enérgico e supplicante, lluc- 
tuante entre o céu e a terra, curvo para esta pela 
vergonha, atraindo para aquelle pela coiiícientia . . . 
era horrendo e sublime! 

Os homens d'hoje não comprehendem de certo a 
energia primitiva das paixões virgens. A civilisa- 
ção nivelou tudo ; incommodavam-n"a estas ingénuas 
asperezas; afleiavam-n'a estas escabrosidades natu- 
ra es : passou-lhe por cima a plaina omnipotente, e 
deixou tudo liso . . . á superfície ! Lá por dentro . . . 
Deus sabe o que vai lá por dentro! No nossoestado 
actual, estas scenas, tão fora do commum, segun- 
do por ahi dizem — do nosso commum, direi eu — 
hão de parecer tllectivanietite um desvario d'ioia- 
ginação ('scaldada. Ueixa-lo. CLuera está costumada 
ao piso igual, commodamente fastidioso e nausea- 
bundo das nossas modernas banquetas d'asphalto, por 
força que estranha as fragosidades piclurescas d''um 
trilho alpestre e inculto. E natural. 

(^ue imporia lá ? 

Se o mundo tivi^i-se sido sempre como agora ! 

Um toldo de nuvens còr de chumbo, franjadas de 
horrendos claruci, cobria a almosphera d"um \éu mor- 
tuário. O raio estalava em roda. Era uma tempesta- 
de na natureza, semelhante á que sacudia aquelles 
corações. 

A arvoro inílammada, ardendo a poucos passos, 
projectava cm cheio na branca figurado Gelohira os 
seus rellexos vermelhos. l'oder-se-liia dizer que a co- 
bria uma purpura transparente, ou ([ue a cingia uma 
sanguínea mortalha. A sua altitude era ao mesmo 
tempo resignada e altiva. A desesperação conlrahia- 
Ihe os lábios esbranquiçados, como se lh'os houvera 
tornado de mármore algum impuro contacto; mas a 
chainma d'um saneio e fervoroso enthusiasmo aecen- 
dia-llie um resplendor na fronte: ainda era bella as- 
sim ; ora talvez mais bella do que nunca ! 

ih guerreiros abaixaram os olhos para a nobre 
filha das montanhas, primeiramente para lhe admi- 
rarem talvez a altitude de ins])irada ; depois para. . . 
O ancião voltou a cabeça limpando uma lagrima 
silenciosa : mais de um rosto fero e indomável o 
imitou envcrgonhiulo. 

Só Hermengardo não chorou. Olhou muito tempo 
ííto, fito para (íelohira, s(ím dizerem palavra um 
nem outro. O (|ue pensava lá conisigo não n"o soube 
ninguém. A final, sem dar omiiiinio signal de com 
miseraeão ou dó, estendeu a mão á infeliz ecun uni 
gesto soberano. 

(iclohira retirou a sua. 

tJlharam-se di! novo e em novo silenein. 

— "Tens razão ! — disse o mostarabeem voj baixa , 
depois continuou em voz alta ; — Jjcvanla-te d'ahi, 
mulher ...» 

E fomaiulo a sua espada pela ponta olVercceu-lh".! 
pelas cruzes p.ira ella se ampar.ir e hivaiitarse. 

(íelohira ergueu-se e appresentou-lhe lambem ca 
lada o seu punhal. O guerreiro re|ielliu-o vivamen 
te, e prosegniu : 

— "Mulher, tu não tens culpa! Recaia a vergo- 
nha o a infâmia na cabeça dos crimiuoios. Olhai 
bem para ella, meus irmãos; olhai, iiieii pai. . . Era 
a iiiiiiha noiva : ha de .ser minha miillier !...'• 

Instas palavras feriram eoino o raio os cireumslau 
l(!s. Ninguém a» esperava. O ancião curvou a cabe- 
ça; (ieloliira cravou resoUilamente os iilhos no cini, 
i|iie o raii) aliria a cada instante; oin murmúrio ile 
np|irovação pi^rcorreu o eiriiilo dos guerreiros. .Acha 
vaiii lodos sublimo o que fazia aijuellu homem ! 

l'oii o régio inudo eoni que elle di/ia ii<|iiillol 



44 



O PANORAMA. 



— II Ua de, lia de eê-lo — continuou elle, lançan- 
do os olhos em redor — aqui o juro também. Ha de 
íê-lo ... se eu viver . . . quando já não existir um 
homem que me possa dizer — «essa, ante» de ser tua, 
foi . . . I' 

Não poude acabar. SuiTocou-se, tremeu, vacillou. . . 

— uGeluhira — accrescentou o triste ii'um penoso 
esforço — esta mão . . . lia de tocar a tua . . . sobre o 
cadáver do liadjeb '. >■ 

O sangue não Uit gottjava sónienle , corria-llie ja 
cm fio das feridas rasgadas de novo. lira o mais que 
podia fazer um homem. 

Caiu . 

Ninguém disse palavra. Asscntarani-se todos em 
roda para soccorre-lo. Gelohira e o ancião estavam 
a seu lado. Orava cada qual lá no seu iiiteriíir! 

N'isto apagou-se o tronco incendiado. Tinha ar- 
dido até á raiz. O silencio e as trevas ficaram pro- 
fundas. 

Gelohira rasgou os véus que lho cobriam o seio, 
para unir e conchegar as feridas do mancebo. Q-ue 
lhe importava a ella que a alagiisseui as torrentes do 
céu, ou que a chagassem as urzes dos caminhos? 

Os rumores temerosos da tenipesladocontinuavam. 

Ao pé ouvia-se unicamente, por entre aquellessons 
medonhos, o resfolegar oppresso do ferido-, ao longe 
sentia-se um tropear pressuroso de ginetes. 

Eram os cavalleiros do hadjeb, que perseguíamos 
fugitivos ! 

Uma kaça D'no»iENS. 

Kntiie as principaes variedades do género humano, 
sempre se notou como assaz distincla, por caracteres 
especiaes, a raça negra ; porém esta mesma é divi- 
dida pelos modernos oljservadores em duas castas dif- 
ferentes, cada unia de t^ po fanibcm especial. Cha- 
mam raça propriíimeiite negra aos elhiopes eaoscaf- 
fres ; os primeiros habitam o pait dos jalofos, o be- 
negal, Serra Leoa, e finaliiienie toda a costa orien- 
tal da mesma região, desde o rio do Kspirito Sancto 
até o estreito de Hab-el-Mandel, e dislinguem-se dos 
outros por maior habilidade, e caracter mais activo 
e bellicoso, posto que traiçoeiro. — Deiiomina-se raça 
morena ou lusca tanto a dos hottentoles como a dos 
papuas, posto que unia seja continental e outra in- 
sular, em regiões diversas. Us iKitlentotes habitam o 
território circnmvisinho ao cabo da lioa Esperança. 
H os outros povoam na Oceania a N< va lioUanda e 
» Nova Guiné (1), assim appclluhida pila prelidão 
dos naturaes. Conservam porém entre si a maior pa- 
recença, salvas algiimasdiliereneas de Índole, porque 
o» hottentoles são em geral brandos e pacilicos, ain- 
da que proverbialmente aborrecidos por fealdade e 
desaceio. .Ambos os povos constituem a mça acima 
dieta, que dillere dos negroselhiopes eciilVies purl>r 
uma espécie de focinho, parque nem e próprio cha- 
ni.ir-llie tromba nem cara; e esse ainda inais prolon- 
gado que od"estoutros, roatoquasi triangular que re- 
mata em ponta, o angulo faci.il de 7a graus pouco 
mais ou menos, pelle de eôr tirante a pard.T-escura, 
narii tclaloiente esborrachado e muito largo, beiços 
mais grossas que os dos negros legitimo^, eabellos 
ijuc semelham iiovellus <le l.~i, as faces muito salien- 
tes, £ a. testa de tal modo achatada que apenas se 
descobre. Todos são de induie summnmente estúpi- 
da, quasi incapaz de coiicepção; comtudu os papuas 



são mais espertos e dextros, i^uaps porém na pr«!- 
guiça e em medo, pelejando, não ol>stanlc Í4so. com 
encarniçamento se uma vei se deliberam. Ninguém 
os iguala em simplicidade de espirito \ teem de seu 
natural bom coração; deixam-se opprimir por bran- 
dura de car.icter ; porém não se pode fazer delle* 
bons escravos, pois preferem a morte a todo otraba- 
Ihu custoso e aturado. Tão apatbicos são para todos 
os cuidados da vida domestica quanto dados a lodn^ 
os appetites sensuaes, como a dança, a gula, a em- 
briaguez. Parece que são inteiramente corpo, ape- 
nas teem alguma leve noção do ente Supremo ; uiu 
podem chegar a conceber idéa alguma Oeque se lhes 
não appresente aos sentidos oobjecto: emtim passam 
vida totalmente animal. Parece que esta raça se en- 
contra tão somente no hemispherio austral, compon- 
do as duas espécies ou famílias principaes que temoi 
indicado. — O tronco ou linha holtentote estende-se 
por toda a extremidade do sul dAfrica desde o Ca- 
bo Negro até o de Boa Esprrança. e d'ahi quasi até 
o Muuomotapa. Ha uma tribu mui bravia e boçal, 
que os colonos do Cabo chamam dos boihmans, eque 
moram em cavernas e matlas ; fazendo correrias d"ira- 
proviso, vivem de rapina, e de raizes agrestes, acdara 
niís, e são tão ariscos como osanimaes do sertão. Os 
outros huttentotes v ivem lambem sem leis nem regra 
fixa-, porém como são mansos e socegados não faiem 
mal ; e nos arredores do Cabo leni-se de algum mo- 
do sujeitado algumas famílias a um pequeno grau de 
civilisação. E um povo excessivamente feio. e para 
que se aprecie isto devidamente, damos um speci- 
men do que elles reputam formosura feminil, com 
todos os atavios e arrebiques que usam para adornar 
a cabeça. 



U) Foi descoberta por D. Jorge ile Menezes. in(top.i- 
ra as ilhas de Moluco, sogiindo iinrra Dioito do foiito na 
Década i.* 




Kcnresenta uma raparig.-j de vinte annos: tem um 
rololo de marfim afr.iv<'«ado nacarlilngem dunarii. 
duas argolas de cobre pi-ndentea Has orilh.iS. e presa 
á carapinha a um lado, como aodesdeni. uma rosei» 
de plumas misturadas com pontas de porro-cspinho. 
Aoore>cPiile-se a i^fo uma c.ip.-i sórdida, uma tane» 
ou avental guarnecido profus.imente de conlas e avi- 



o PANORAMA. 



45 



Inrios, e o restante do corpo iiú, besuntado de cebo 
de carneiro de mistura com ferrugem, nos braços e 
peruas luanilliHS de metal ;, e ttr-se-ha )d(''a com- 
pleta da gentileza bolteiitote. 

Comem os bandullids dosauimaes sem os lavarem, 
deitam o leite em odres de pelles imrnundasi nenhu- 
ma porcaria os enoja ^ são a quinta essência dos stl- 
vagens brutos e Çujos. A sua maior delicia é estira- 
rem-se indolentemente pela areia de cachimbo na 
bocca, porque o fumar é a sua maior paixão; quem 
lhe dá tabaco, tem d'elle5 esse pouco que podem ou 
sabem fazer. A sua linguagem é uma espécie de ca- 
carejo de voz c|ue em nenhum idioma se pode expri- 
mir; toda a sua religião consiste no culto ridículo 
que prestam a alguns objectos, pedras, arvore», etc, 
que cada um escolhe a seu talautc pura especial ve- 
neração. 

JoltNADA NAS I"KOVINCIAS UA SuEClA. 

i) Sii. X. IMarmier, dotado das raras qualidades de 
observador inlelligeute, visitou e examinou irestes 
últimos aunos as regiões do norli; da Lutopa, e con- 
signou o resultado das suas investigações n"algun» 
volumes, que letm recebido do publico litterario o 
acolhimento distincto que merecem. De uma das 
suas ultimas obras tirámos o seguinte extracto. — 

Aosiyde maioontravanios n"uma carruagem corm 
o conde de Guldeiistope, que S. M. o rei da Suécia 
se dignou nomear para acompanhar a nossa expedi- 
ção, e servir-nos de guia nas provinci;is do reino. A 
iiora da nossa partida ajunctaram-se o ministro aus- 
triaiio e outros muitos amigos pura nsvislireni á des- 
pedida. K assas agradável aos {|ue [lartimos para lon- 
ga e arriscada viagem reci'ber ii'essa occasião as de- 
monstrações da alTeição das pessoas que estimámos : 
«' nina sancção solemne do tracto passado, e uma pro- 
messa para o futuro. l'orc'm se o tempo (pie passou 
lembra pebis didicias que se gosaram, amcdronla-nos 
o futuro coberto deveu iinpenilravel : ijuem sabe se 
tornaremos a vêr aquc-lles a quem tão tordealniinie 
apertamos a mão, e de quem ouvimos com gratidão 
protestos de sincero adecto ! A vida de viajante éa 
niiii» fiel imagem da vida humana. Larga-sc a bar- 
raca que se levantara iTum sitio escolhido, o quem 
sabe se lá voltaremoH? Diz-se adeus por alguns dias 
nu pessoas (jue pre/ámos, e esse adeus pode ser eter- 
no ; caminha-se com impaciência para um ponto 
remoto, o este objecto de vivos desejos talvez que 
iiãii possa all:ançar-^e. Deus é quem mede (^limita os 
t;raus dos nossos esforços ; a consolação do bomiMii, 
ii'esta incerleza, é aireverse nobreincnle, <■ perseve- 
rar na idea que concebera, e que pretende pôr em 
practica. 

Saindo de StocUolmo, passámos pelo edifício da 
A<a(li'mia, ir o nosso derraileim adeus foi encainiidia- 
ilo a residi iiciii do Sr. ]lcr/.i'lio, sábio qui?, por su- 
bliini' plirane (^alVavel recepção, capti\a a um tempo 
i> alma e o coração, deixanilo na reminiscência de 
<|Ui'in o tracta inextinguível leinbranra. 

Ainda bem não liuliaino^ saído d\iquidla espaçosa 
e bonita rua ila Uainliii quevue dar aporta do nor- 
te, conlrisloii-iKis avista diipaiz glacial, onde a na- 
tureza parecia siidocada. Não era ojisjieclo gravedo 
inverno envolto na capa de neve ipnrbiillia aos raios 
do sol, dos lagos lap.idos de caraiiiello, das maltas di; 
abetos parecidos a |>^rainidi!S dechristal, menos era 
ti |>iiiiiavera amável que noselimas do norte remoça 
e aviventa por alguns dias os [irados, aguas o selvas, 
I- que dos poetas seandinavos é bem recebida, « fes- 
tejada cm suas sirophes eiithiisiiislicas. Por tuda a 
parte não viumos mins que a lerra núa e sccea j na- 



da de ramagem, nem ílôres ; a raros espaços divisa- 

vam-se algumas casas de madeira, onde o pisco, aman- 
sado pela fome, vem procurar ávido algum bago de 
trigo, caído das mãos <io casaleiro. Estas vivendas 
campestres quasi Iodas são pelo mesmo molde . cons- 
tam de um corpo quadrado, feito de barrotes assen- 
tes uns em cima dos outros, calafetados com barro e 
musgo, firmps nos quatro ângulos por via (feiítalhos, 
onde encaixam fortemente uma peça na outra ; de 
ordinário pintadas de encarnado em todas as lacei, 
e cobertas de tecto de madeira, no qual espalham 
uma camada de terra que, no verão se alcatifa de 
verdura e flores. A' direita e á esquerda ha outros 
dois corpos, de construcção egualniente simples, que 
servem de celleiro e de estrcliaria ; em Irente teeni 
um grande pateo; etudo é fechado com cerca de pa- 
rede ou de cancellas de pinho. Eis-aqui o que cha- 
mam jai ti, antiga palavra isíaiideza, que significa lit- 
teralmente moiada, e nas sagas (cantigas velhas) se 
acha muitas vezes applicada a cidades populosas. 

Estas casas, em certos districtos, situadas a muitas 
léguas de distancia umas das outras, compreheiídem 
oiticinas completas de construcção de carros, demo- 
veis, utensílios e ferragens, porque é mister que se 
suppram a si mesmas durante grande parte do an- 
no ; muitas ha onde se acharão em actividade todos 
os oflicios fabris das nossas aldeias. A necessidade 
cria a industria ; e o camponez do norte aprende, na 
sua solidão, a ser tudo quanto lhe é preciso para sa- 
tisfazer ao seu arranjo e da sua família ; é, por isso. 
çapateiro, alfaiate, colxoeiro, e até .irchitecto ; ne- 
nhum camponez do sul da Europa é comparável a 
este, recolhido na sua propriedade, que ahi vive só 
por muitos dias e mezes, cultivando as terras e tra- 
ctaiido do tjado. Apenas algumas vezes aos domingos 
vae com a (amilia á igreja, e la topa com amigos velhos 
e parentes com quem passa o dia. Outras vezes vao 
a cidade que lhe fica mais próxima para feirar no 
mercado. De inverno é (|ue elle emprebende com- 
mumniente as suas excursões, porque então não u 
obriga, como de verão, o trabalho agrário; corre ve- 
lozmente, em seu leve Iraió, pelos rios e lagos co- 
bertos de gelo, e pelas planícies recamadas de neve. 
E muito para vêr-se uma doestas habitações rústicas 
quando chega asolemnidade do Natal, a maior festa 
da Suécia. Então, parentes eamigos costumam reu- 
nir-se, quaUpier que seja a distancia que os separa. 
Muitos dias de antemão a dona da casa tem prepa- 
rado a cerveja, especialmente destinada para essa oc- 
casião, e amassado os bidos ile cevada e de trigo ; 
tem mais que mostrar asna habilidade no tempero 
dos leilões (pie, por uso tradicional devem vir a me- 
za n"esse dia. liimpa-se a casa com lodo odesvelo, « 
os Irastes apparecein no apuro do aceio : enfeila-se 
tudo ciuii ramos verdes e llõrei artitudaes. Chega <• 
dia da reunião, desde o alvor ista aberta a cancel- 
la do ijíiid: a festa é completa. 

A vida S(ditaria, a necessidaile de praticar a um 
tempo muitos oITicios para satisfazer as precisões do- 
mesliias, prestam a estes caiiiponezes um caracter 
dihlinclo de altivez e independência: muito civis pa- 
ra com o estrangeiro atteiicioso, eiierespani-sií prom- 
(itamente contra (piem os menospreza. Não ha muitos 
ânuos (pie uni iiiglez, indo de iMalmo paruStockol- 
ino, injuriou nin cam|ionuz (pnt lhe sorvia do posti- 
lhão, e o ameaçou de pancadas ; este saccoii tranquil- 
lamenle da algibeira uma correia, ngarrim vigorosa- 
mente ambau iis mãos do turbiiliuito \ iajante, umnr- 
rouliras com segurança sobre o peito, e depois, som 
di/er |ialavra, voltou a tiumir oseii assento, e si^guill 
a jornada. Chegado á primeira estação da posta con- 
tou o qiio 8u linha passado, o oinglel coutiiiuou so- 



40 



O PAKORA3IA. 



girado como um animal bravio. A cada mudaopos- 
tilbão tirava escrupulosamente da mala a importân- 
cia do aluguel da jornada que acabava de fazer, pe- 
dia outros cavallos, e assim andaram até (iothem- 
burgo, onde o inglez quiz fazer alto, muito enjoado 
(3'este modo de peregrinar, e provavelmente bem 
emendado. Eu mesmo experimentei algumas vezes 
quanto era imprudente irritar o amor próprio dos 
camponezes suecos. Certo dia, achava-me a algumas 
milhas de Gelfe, mui desejoso de chegar cedo a esta 
cidade, ondeesperava acharcartas de Krança. O pos- 
tilhão não se appressava á medida da minha impa- 
ciência, eu quiz fustigar os cavallos : ao cabo de al- 
gumas palavras ásperas de parte a parte, elleapeou- 
se, poz-se em acrão de tirar as bestas, e deixar-me 
só com a minha caleça no meio da estrada. I''oi-me 
precibO accommodar-me, e esperar para ver a bonita 
cidade de Gelfe á hora que o meu cunductor lá me 
quizesse levar. 

Não se viaja na Suécia como em França e Alle- 
inanha. Não ha mais que duas diligencias, uma que 
vai em sete dias de Helsingfors a Stockolmo, outra 
que faz três vezes por semana a jornada da capital a 
Upsal. Fora d'eblas duas estradas privilegiadas, é 
mister cada um ter a sua carruagem, ou alugar de 
posta em posta o bonJhárra, caleça pequena, desco- 
berta e nada commoda. A distancias de cinco a seis 
léguas, c á beira do caminho, lia uma casa feita de 
vigas, como já disse, qile serve junclameute de esta- 
ção e de estalagem : o dono 6 obrigado a ter prump- 
tos na estrebaria três ou quatro cavallos disponiveis, 
mais ou menos conforme a importância do log:\r, e 
além d'estes um certo numero de reserva, que pelos 
habitantes do município lhe são fornecidos, se assim 
é preciso, por escala. Se os cavallos do homem da 
posta já estão a caminho, quando se chega ao logar 
da muda, é necessário expedir um rapaz á procura 
dos cavallos de reserva, que ás vezes pastam a duas 
ou três léguas d'alli : imagine-se que paciência é pre- 
ciso ter com tal sjstema, por pouca pressa que haja 
de chegar ao termo da jornada. Ha, é verdade, ura 
meio de abbrcviar estas demoras; isto é, mandar 
adiante um mensageiro, queencommende <is cavallos 
para hora certa', mas note-se que os cavallos não es- 
peram na estação mais de duas horas além d^aquella 
que se fixou \ depois d'este prazo o homem da posta 
pode manda-los outra vez para o campo, e o viajan- 
te, que teve no seu transito alguma demora inespe- 
rada, ha de pagar o recado, e uma indemnisação pe- 
las duas horas que (« cavallos alli estiveram para- 
dos, e, em cima de tudo isto, ha de esperar que tor- 
nem a ir buscar-lhe os mesmos cavallos. Porém a ta- 
xa da posta é tão módica, que em verdade não se pei- 
de exigir portal preço ser» iço mais activo, c ao men- 
sageiro dá-se uma bagatella •, é um rapaz ou ás vezes 
niua rapariga, que parte com toda u gravidade levan- 
do unia fatia de pão n^algiLelra, para cantinhar as 
suas oito ou dez léguas, quer ã thnva, quer á neve, 
de dia ou de noite; c que, se na estação lho retri- 
buem com meia dúzia de soldos, se inclina até o 
chão, e agradece do intimo d'ulma. Bem se vê c|ue 
<i serviço da» postas não é, como em França, rendo- 
so e invejável ; e uma espécie decontribuição de que 
nenhum caníponez pode isentar-se, e fácil será com- 
prehender que não se põe muita pressa e zelo em 
praetica-lo. — Não devo passjir em silencio que na 
Suécia os campunczes tomam parle directa na logis- 
liição <lo estado; lia rústico, »|Ue se vos appresenta 
tom sua calça de brim grosso e cru, c \ estia aiul, 
conduziíidu os cavallos que vos hão de transportar 
até a outra estação visinhn, que pôde muito bem ser 
um honrado membro da ditla, um ropreícntantc da 



classe doacamponezes, eleito unanimemente pormui- 
tos concelhos; e que algumas vezes com seus discurso', 
dictados pelo conhecimento practico das cousas, e pe- 
la recta razão natural, vence as mais elegantes falias 
dos deputados pela nobreza e pelo clero. 

O povo sueco, com o orgulho hereditário, conser- 
vou tatnbem as virtudes de seus antepassados : é va- 
lente e leal, cumpridor da sua palavra, hospitaleiro, 
e de austera probidade. Vivi mais de dois annos r;i 
Suécia ; atravessei, só com o postilhão, llorestas d." 
duzentas léguas, passei noites em casas remotíssimas 
de povoado, e nunca fui victima da menor falsidad». 
(riue differença da Rússia, onde mal entrava n'uma 
hospedaria, o dono da casa vinha logoreccmmendar- 
me que fechasse armário e commoda com volta do- 
brada, e que não saísse do quarto sem deixar cadea- 
do na fechadura, declarando que, mismo com todas 
estas precauções, não estava inteiramente seguro de 
não ser roubado ! 

Outra caracterisfica do povo sueco é o sentimento 
poético, innato, e que se revela a todo o momento 
nas suas festas e ajunctamentos, e até ás vezes nas 
practicas quotidianas. Não ha uma só familia em 
Suécia que não conserve, como preciosa herança, cau- 
tos populares, tradições misteriosas, que patenteam 
imaginação pura, e uma certa adoração dasbellezas. 
harmonias, e phenomenos da natureza. E a tradição 
dos génios que, á noite ao luar dançam nas campi- 
nas, dos que cantam á tlôr d"agua. dos que fazem vi- 
brar as chordas melodiosas de suas harpas argêntea» 
nas cataractas e fontes; de uns que deitam sorte fu 
nesta sobre homens e animaes, ou de outros que fol- 
gam de estar juncto aos lares caseiros, e protegem a 
casa onde buscam abrigo na estação invernosa. 

Todos os camponezes da Suécia sabem pelo menos 
ler, e quasi todos escrever: o ministro não admitti- 
ria ao sacramento da chrisma os que não podessetn 
dar prova d'estes conhecimentos elementares ; e uma 
razão imperiosa a que todos se sujeitam. Nas habita- 
ções solitárias, onde não pude haver professor ctun 
eschola, os pais são os mestres dos filhos ; e o pastor 
de tempo a tempo, vem ccrlificar-se se elles cura 
prem o seu dever, auxilia-los com eshortações e con- 
selhos, c averiguar os progressos dos discípulos. Não 
creio que haja casa de lavrador, por mais pobre que 
seja, onde se não achem alguns livros, ao menos uraa 
Bíblia, o psalterio, e ás vezes obras d"historia. prin- 
cipalmente u dopaiz, tão heróica chella, e que é re- 
lida nos longos serões de cada inverno E fácil de 
conceber a inlluencia que semelhantes leituras devem 
ler no animo de um povo intelligeiite por natureza: 
a Bíblia lhe dá elevação d'espirito; e as chronicas 
nacionaes mantém o nobre sentimento de p.itriofi»- 
mo. Qttanlos homens ha cm França, tjut ntmsff/uer 
ptln nome conhecem os homens mais illtutris. oijíitvs 
mais ijloriosos lie nossos annacs. ao passo que na Sué- 
cia taltez não haja um rústico que ignore a vida 
grandiosa de Gustavo Vasa, as emprezas de (íustavo 
.-Vdolpho, e a coragem aventureira de Carlos 1;2 " 
Ainda mais : — não é raro encontrar nos c,impt« tr.i 
balhadores que, ouvindo pronunciar o nome do vii 
cedor de Narva, tiram o barrete por impulso ii.- 
tinctivo; tão fundas raízes temem seu cur«çãnor<'- 
peito á gloria militar, que foi a primeira |;loria >■•.■ 
sua nação. — 

A.NTIGOS omclAES MIlIT*BC^ 

o Mail. 

Desde o principio da monarchia se encontr-i lif 
qucnlemente citado, como importante no; excrciti 



o PAJNORAMA. 






o cargu de adaíl. Cliainavam-lhe zaga, e ainda em 
1700 davam os venezianos esteiiome ao mesire de ce- 
renionias que precede a todos. O foral de Tliomar, 
(ielUb^, iallaniio das correrias da fronteira, diz : u Da 
presa de fossado não sede ao zaga mais que duas par- 
tes, licando aos moradores do conceliio as outras duas. " 
O officio do adail era na realidade delicado e es- 
pinhoso. D. Aflonso o Sábio, na lei das Sete Parti- 
das, descreve com miudeza as suas obrigações, e in- 
siste nas qualidades que os deviam rccommendar. Era 
o zaga ou adail quenj governava os almocadens e os 
alniogavares. (iuando pela calada da noite as caval- 
j;adas se torciam pelas queliradas da montanha para 
amanhecer sobre a coroa eminente do caslello roquei- 
ro, um homem havia, em cujas mãos se pesava a sor- 
tecommum. Lá ia na test.i dos almogavares, que ora 
cornam á direita, ora exploravam á esquerda, ba- 
tendo as encostas ebalseiras. Seelle se enganasse, se 
trocasse os caminhos, um golpe d'ininiigos podia res- 
ponder á surpresa pela surpresa. Se fosse mal infor- 
mado dos movimentos dos árabes, em quanto silen- 
cioso» te mettiam pela fronteira moura, podiam ou- 
vir (ie longo e pelas costas o grito d'Allah ! mistu- 
rar-se com os gemidos dos filhos e das esposas, o ver 
o foa'!) do incêndio ateado nas casas c herdades d'on- 
de tinham partido. E que diante do adail chrislão 
estava sempre o adail dos árabes, velando nas trevas. 
Na lealdade dos udaís repousava a segurança dos for- 
tes — se o coração lhe desmaiava, ou a vista tremia 
diante do perigo-, se a setla, voando do pinhal, lhe 
varasse o peito, quem diria: — uaquella estrada leva 
á mina ; «'esta está a salvação ? " 

De origem sarracena, como o indica o próprio no- 
me, o adail, nas guerras de recontros e emboscadas, 
de surpresas e correrias, continuadas quasi sem tré- 
gua da fronleira moura pari! o concelho chrislão, era, 
jMir assim dizer, o homem do destino. Em quanto 
tudo dormia ve-lo-hieis, disfarçado no albornoz mou- 
risco, montado no lÍ!;<iro andaluz ccmi sella e estri- 
bos á airicana, só, mudo, e firme, atravessar as vei- 
f^aa onde susurra a aragem nocturna, ocorrer, e cor- 
rer, aqui transpondo a ribeira que se arremessa do 
alto, alli, furfande-se nas trevas ao encontro dos al- 
mogavarcí árabes, cujo galopim sAa na solidão :, mais 
longe, susiendo a rédea e repi iinindo o respir.ir junc- 
to do tronco tio roble, em (|uanto a roída do mouro 
segue lenta e pausada. Vo-lo-hieis solTrcndoa tormen- 
ta giiianilo-se pelo clarão dos relâmpagos, padecendo 
«frio V. a fome, estudar atalhos, medir veredas, com- 
binar a marcha occulla por gargantas de serros bra- 
vio», por cima das agulhas dos mais temerosos despe- 
nhadeiros. E dias depois, á mcania hora, com o mes- 
mo recato, voltar ao caslello de Coimbra ou deTlio- 
inar, edizer aoalcaide: — u O mouro dorme sem re- 
ceio : quereis acorda-lo? O caminho é perigoso mas 
breve i amaidiã, se Deus no» ajudar, Jjeiria será d'el- 
rei, e a cruz de Chrislo vencerá mais uma vez as luas 
do pro|)hcta. >' — E vencia (piasi sempre! 

Eis nipil o quo era o adail. Um instante de des- 
cuido — um relancear da vista menos pcni^trante — 
uma traição fácil — c o» cavalliMros esforçados, quasi 
lios braços da vietoria, caíam ucni remédio diante da 
lunça do surraceno. 

Com o nomií ile adail ajipareeo já este officio no 
tempo dei). João i, edin-ou aléau dei). Joãolll, 
A» chronica» da guerra d' A bica, <> mais bello e ca- 
valleiroso episodio ila nossa liialoria, em muitos lo- 
cares encarecem a importância do cargo, e piíiUiiil o 
caracter ilo alguns que o exerceram. 

Vejamos ngora de (|iu! maneira nos exércitos se fa- 
zia um adail. A nolicii das cereinonias é tirada di^ 
um livro lio século XIII, eachu-sc tunibcni quasi pe- 



lo mesmo tbeor na segunda Partida de Aflonso o 
Sábio. 

Era costume antigo ser o adail levantado pelomo- 
narcha, ou pelo rico homem que d"elle tinha ienen- 
ciii da terra. Cbamavam-se doze adaís dos mais ex- 
perimentados, e tomava-se-lhes juramento por Deus, 
pelo rei, e pelas cruzes da espada, de só dizerem a 
verdade cm consciência. Se não houvesse numero suf- 
ficienle de adaís, convidavam-se tantos soldados ve- 
lhos e sabedores, quantos fossem necessários para com- 
pletar a numero dos doze. 

E então em presença de todos era perguntado o 
pretendente sobre os quatro pontos seguintes: nCo- 
nheces u terra, os atalhos, as veredas, para guiar as 
correrias, e as defenderes dos assaltos e surpresas .* Por 
tal sitio, se te mandarem, aondecorre a fonte? aon- 
de se corta a lenha para a fogueira do arraial ? Em 
que logares porias asatalaias docampo? aonde farias 
o assento d'plle ? por onde enviarás osesculcas ealmo- 
gavares ? n 

" Como proverias ao sustento do cavalleiros e peões ? 
Glue vianda podem levar, e para quantos dias.''> 

li Es esforçado de coração? Irás de noite vèr o ata- 
lho, espreitar no meio do mouro que dorme, cruzar 
por entre os atalaias ealmogavares que escutam? Se 
te pozerem a lança no gorgel trahirás o segredo de 
uma entrada? Se te encerrarem n^uma masmorra sem 
luz, com agua pelos peitos, venderás a segurança de 
teus irmãos? Se te atarem ao pescoço o nó da corda, 
bradarás mercê descobrindo a cidade ? " 

"Es leal? por peita de ouro, ou decavallo, de vac- 
ca, ou de mulher entregarás ocastello ao infiel, a es- 
pada ao cavalleiro, e a cavalgada ao alcaide delNIa- 
foma ? " 

Depois de ouvida a resposta, se o testimunho dos 
antigos lhe era favorável, juravam sobre sua alma 
"Seja este feito adail», e honravam-no do modo se- 
guinte, t) que o devialevantar dava lhe vestido, es- 
pada, cavallo, c armas de fuste e de ferro ao uso da 
terra. Um rico homem cingia-lhe a adaga, mas sem 
a peseoçada de prancha, que só competia aos caval- 
leiros. Depois de cingida a espada punha-se no chão 
um escudo chato, com as costas para fora, e alli se 
eollocava de pé o novo adail. t) rei ou osenhorque 
o investia no cargo desembainhava-lhe a espada, e 
dava-lira nua pela ponta, para ello a ter direita co- 
mo esto(|ue. Osduze, (jue juraram por ello, crguiam- 
n'o então no escudo á maior altura dos braços i pri- 
meiro voltado ao oriente, e ello com a espada fazia 
uma cruz no ar, dizendo; " Em nome de Deus, d'el- 
rci, edesta terra desafio a lodos os inimigos da fé!» 
Depois iam-iro voltando ás outras trcs partes do mun- 
do, e elle sempre repetindo o mesmo. Apenasdescia 
do escudo embainhava a espada, e o rei ou o rico 
homem punlui-lhc na mão um signal, dizendo: "Em 
noiíKí do rei concedu-le de hoje rm diante o officio 
de adail \ poderás ter cavallo u armas ^ nssenfar-leá 
mesa dos cavalleiros ; e quem Ie olVonder será cas- 
tigado por honra dV'lrci, como eo tivesses foro de 
('.ivalleiro ! " Depois de feito adail, e honrado as- 
sim podia governar os homens do concelho, o os eu- 
v.illeiros, dando vozes de commando, e punir de va- 
ras os almogavarcs opções, sogundo merecessem, mas 
dl- lórimi (|ue os não tolhesse de algum membro. 

Eiii siibsi'(|tienlea artigos se descreverão outras co- 
remonias militares da meia idade, próprias paru se 
conliCL-erani os uustumus dus séculos antip;o9. 



t) siídiíuno é a alma das grandes nmprctas. Um un- 
ligii escrevia na cinza u minuta dos seus projectos 
supruvii, c dcsuppurcciu o luciiut ve^tigiu. 



4f< 



O PAIVORA3IA. 



Da sobte dos SIBSISOS KAS M 15AS 

DE laaLATZIÍfíA. 



(Continuado de pag. 39.) 



I tovello, havia muito tempo, segundo parecia. Q.aaD- 
I do esle desgraçado pequeno foi á presença dosmagis- 
I trados não podia ter-ie eoi pé nem estar sentado; 
I não hou\e remédio senão deital-o no chão sobre uma 
' espécie de berço. Provou-se na de%assa que lhe ti- 
A HEaiiEN-i altura das camadas de carvão em mui- ; nham quebrado o braço com uma barra de ferro, e 
tos logares, e por conseguinte a pouca elevação das ! que nunca Ih^o encanaram, antes por espaço de mui- 
Calerias, é cauéa d'e5te abuso. Uma comiiiissão de tas semanas o forçaram a trabalhar com o braço par- 
inquerilo verificou que em muitas minas teem as tido. Provou-se mais, por confissão do mestre, que 
galerias dois e meio até três palmos e meio d^alfu- este cortumava dar-lhe com um pedaço de páu, que 
ra, e que em certos logares não passam de dois pai- tinha na ponta um prego de muitas pollegadas de 
mus. No Dcrbvsliire. om que a maior parte das comprimento. O raj)az pasmava fumes, como atlesta- 
camadas não excedem a der, palmos de espessura, tem- , va a sua extrema magreta i o mestre empregava-o 
>e empregado rapares em todos os trabalhos da lavra em puxar carros, e, depois de o inutilisar para o 
das minas : os mais velhos exlrahem o ca r>ão deita- ' trabalho, mandou-o de presente á mãe. que era uma 
«los de costas, iiasposluras mais penosa». Outro tan- pobre viuva." 

to acontece om Halifax, onde as camadas não toem A condição das mulheres eraparigas ainda é mais 
em muitos logares mais do que dois palmos e meio deplorável. As rapariguínhas são empreitadas nos 
(termo médio), e n'oulras ainda menos de dois pai- mc-nios trabalhos que os rapazes: assim como elles. 
mos. Na parte oriental d.i Escócia começam os me- empurram ou puxam carros; mas sujeitam-n as. e 
iiinos aextr;;liir o carvão aosdoze aniios deidade, e ás mulheres também, a tarefas oue os operários do 
no principado de Galles aos sete. De mais a mais, outro sexo em nenhuma edade acceitam. Km muitas 
ii"algumas dVstasminas é muito imperfeita a \enti- minas da Escócia, que não teem machinas para tra- 
lação, e olhe-ie tão pouco para oe«gotameiito, que os zer o carvão á superfície da terra, as mulheres eme- 
inineiros trabalham todo o dia com os pés no lodoe ninas o carregam ás costas em cestos por toscas esca- 
atc dentro d'agua. Accrescente-se a isto. que nos darias ouescadasde mão. Andam tão nuas, que não 
logares mais doentios é que empregam meninos de seatreviam avir á presença dos coinmissarios encar- 
mais tenros annos, preferindo as rapariguínhas. trepados pelo governo do inquérito. A decrepidez al- 

A maior parte dos mineiros de ambos ossexosem- cança toda esta gente com espantosa velocidade. <J 
pregados nas minas de carvão pertencem a famílias , mineiro aos quarenta ou cincoenta annos eita inça- 
dos próprios mineiro», ou a gente pobre que mora pai de trabalhar, parecendo tão quebrado de for- 
nas visinhanças. Estes, com o fructo do seu traba- ! ças que nem um vellio de oitenta annos. Os homens 
lho, ajudam a viver seus pães, e sempre d'al)i Ihesre- I de setenta annos que se contam entre os operário» das 
sulta proveito , mas ha districlosem que certo nume- i minas são menos de metade dos que pertencem á 
ro d'estas desgraçadas creaturas consomem, sem lucro 1 classe dos lavradores; e nos seus costumes parece que 
algum, a flor da mocidade namaisdura escravidão. !a dureza dos trabalhos imprime um caracter rude e 



Tal é a sorte de muitos orphãos de queas parochias, 
a cujo cargo os poz a indigência, se livram entre- 
gando-os para aprendizes aos mestres mineiros, que, 
c»mo nos trabalhos das minas não ha que aprender, 
Ih-s \ão ficando comas ferias até elles chegarem á 
edade de vinte e um annos, occurrendo apenas ás 
módicas despezas de vestuário e sustento. Fora dif- 
ticil imaginar o que os malaventurados padecem 



Lm d"estes apreijdir.es narrava 
a historia da sua negra vida 



brutal, que chega muitas veies a ser feroi. 

Os effeitos do trabalho excessivo e prematuro dos 
meninos, em classe alguma são mais nocivos ao phy- 
sico eao moral do que na que vive da lavra das mi- 
nas de carvão de pedra. Os factos esta\am paten- 
tes, e a Inglaterra não podia demorar a repressão 
dos abu!o« e crueldades apontadas nos relatórios dos 
commissarios, e por isso uma lei votada em 1642 pro- 



iios seguintes lermos I hibiu o trabalho das mulheres nas minas ; determinou 



ao commissario que o ' que os meninos d"alli em deaute entrassem para el- 
iiiqiiirira : u Não sei a edade que tenho ; morreram- I las aos dei annos, e saíssem aos quinze, não podendo 
me pae e mãe, ha quanto tempo não posso diielo. j trabalhar mais do que três dias por semana ; e sujei- 
O meu mestre tinha-se obrigado adar-me de comer ! tou asexplorações subterrâneas eai todo oreino-uni- 
e de vestir; duva-me uns farrapos comprados aos do á vigilância do» inspectores das manufacturas. 
trapeiros, e a comida nãochegava para matar-me a 'criados por uma lei de lSo3. 
í«me. Lar^uei-o pori|ue me maltratava ; bateu-me . 



BmrUAS os esvingahda im.ml «mmav eis. 

As DESGRAÇAS que acontecem muitas veies por ca.- 
uma bucha sobre matérias combustíveis, fiíeram com 



duas veies com uma picareta." ^Ao ouvir isto, dii 
o conm.íssario, mamiei despir o rapar, e lhe >í no 
peito uma larga cicatriz de ferida feita con> instru- 
mentocortante ; tinha também pelo corpo todo mais 
de \inle feridas, qne recebera aempurrar os carros pe- 
las galerias baixas.) li O meu mestre t sp.incava-me que Mr. liassaigne applicasse o phospato de ammo 
tantas veies, e dava-me tão máu tractamento, que '. nia á fabricação de buchas ininfl«mm.T\eís. O nie- 
re-iil\í deixal-o, a vêr se melhorava de condição. 1 thotlo pelo qual transforma o papel de que se falem 
Muito tempo dormi dentro de pt>ços abandonados, as buchas em papel inintlamniavel, e simples: cot: 
tiu nas cabanas que estão ú beira dos poços expio- j siste em dissolver uma parte de ph>»phato de amm • 
fados, sem comer mais do que os ioti's das vellas nia crislalisado em dei partes d'agna doJ^io, e em 
de cebo que os operários |)or alli deixavam. " conservar mergulhado o papel n"este liquido tre» ou 

Oseguinte facto, escolhido d'entre outro» muitos, ' quatro minuto». Tira-se depois, aperta-»e na» mãos. e 
piiila mui bem a brutalidade e fereia dos mineiros. , fai-se seccar ao sol, nu em estufa. O p-ip^l. n"esta 
i'Le\aram um rapai ao doutor Milner, medico em [operação, ganha mai» uma vigésima parte do seu pe. 
Ri>c!.dale, no Iiancabhire. Exaniinaiiil.) o. achou-lhe to, porque absorve certa quantidade de phosphato de 
no corpo vinte eseis ferid.is ; o lombo e a parte p<i5- leal. que o não deixa arder. Das experiências feitas 
lerior docorpoera umachaja, na c.ibeç.i, despotoa- ^ com estas buchas n'uma espincard.i de caça resulta, 
da decabelln». \iam-<p'lh<' O" «ignaes dx muita» feri- que ellas. ao «.tirem da «rmã. caem no chão »eni 
d.is gra\eí, tinha uni hrcço partido nor baixo doco- se incndiTrem. 



o PANORAMA. 



49'. 




o pontífice fio IX. 



C-luANUi» a voz Hos sino», fçííinondo om lliiiiia, .iiiiuin- 
ciou ú Itália a <jr|iliaii(l.iil(' <ia cidailc dos ccsaros t' 
ii du iiiiirido Hirislão, |iiMii^lriiit ciii todos us uiiiinos 
a mais prol'iiii<la iindanrliolia. O cortejo fuiioijre do 
papa, ipic ia di'SiMii(;i'ii' ao lado de (Jrc;;()rio \'1I edo 
lilliocrii<'io II], al^.lVl'^sallllo peio meio «las iiiultiducs, 
avivou a iiifinoria das ililTn iildadcs (juc (inlia do su- 
jeitar o siictcssor a (pii'm roulwsst- ri'<'clK'r as chaves 
do Apostolo. Todos sciiliaiu (|1|ií oiii tacs circunislan- 
fius o lioinciii d(slina<lo a oi'i'upar a radciía de S. 
1'edro podia perder ou salvar a it;riju eiuii uma pa- 
lavra. 

No domiu;;ii de juulio, ipie preei^deu o eonelave, o 
céu i.-slavu col)erl(P, easnuviMis, dcsenrolaudo-si! soui- 
briuN, pareciam pesar siihre o cora(;ão da Ilalia. Ao 
vutrurciii os cardeae» para a eh.deão relienloii o tcui- 
porul, t! o» rouiani>s, ainda superslieiosos, tiraram do 
acuso os mais Irisles agouros, (,'iueoenta eardeaesiauí 
fucerrar-se para elej^er o calx-iju da if^reja, e o voto, 
»^U(; llie devia firmar a tiara na fronte, por (oti^h ti- 
iilm lie reunir duas leri;aH partes e mais mu ilos ns- 
nutuiitcs. Os cardeacH nio(;os, tjuasi estruulios UIW «01 
VoL. 1. — OuTUUitu 17, IU46, 



outros, iieí^avam-se a aceeitar direcção ou conselho. 
Apontavani-se nouies dilVerentes. re\olviam-sc aml)i- 
(;òes incpiietas; a diplomacia hutava ás portas do sa- 
cro colle^io, <lividido em IVaceòes, e entretanto as 
conjecturas de lora aniniavam-se ou esmoreciam íe- 
u,ui»lo se li;j;uravam nudlior ou peior as prol>,ibiLida- 
des <los diversos concorrentes. 

Numa a incerle/.a foi maior, nunca o interre2,uo 
anuMçou de Ião proloni:;ada ai;onia os ijraudes inte- 
resses penileutes da eleição do sunimo pontifica;. K 
por isso (pie, no cíuicurso apiíduulo para assistir áso- 
ieiune abertura do conclave, a tristeza carregava .!■• 
sombras o rosto de todos. Vozes sullocadas repetiam 
(pie a i^roja s(! conservaria lari^o temiio viu\a. Vi\* 
lallavam da tempestade qiu" ia estalar no sacro ool- 
lej^io ; outros, escutando ao loni;e, já presentiam as 
passadas darebellião accesa em toda a Itália. \tv viíc. 
em ipiando o galope dos cavidlos soava a distancia, «^ 
calavani-S(! as conversa(;('>es em lodos os sítios. O cit- 
valleiro, passando rápido, deixava atra« de si loiígi» 
e ciudVaniçido silencio. — Krani oscorreios (l'.\ustriu ; 
crum oa avisos das cortes de Ituli.i \ crum cmtim os 



50 



O PANORAMA. 



mensageiros das legações romanas, que se cruzavam 
na estrada, e chegando a Roma vinham augmentar 
a perplexidade da crise. 

A Europa, vista pela superficie, parecia espectado- 
ra pacilica do grande drama representado nas visi- 
nhanças do OLuirinal. A guerra não troava — o laço 
da concórdia unia a França á Inglaterra, e a insur- 
reição como que adormecera. Mas um dia depois, se 
o papa eleito trahisse as esperanças do maior nume- 
ro, quem ignora (usando de uma imagem tirada do 
antigo Lacio) que oTitão encadeado, exacerbadas as 
dores, se havia de virar de lado, sacudindo com a 
possante espádua ovolcão da Sicília? A Itália, reven- 
do a desgraça actual no espelho de um passado glo- 
rioso, allumiada pelo sol que infundiu o raio d^amor 
na alma de Rafael, e acccndeu a faisca de Prome- 
theu no peito de Miguel Angelo, não esqueceu ainda, 
que também a representam encostada ás fasccs con- 
sulares ou á lança de Attila. O céu meigo e as es- 
trellas d'ouro, que ouviram suspirar o Tasso, os jar- 
dins e .as rosas, entre as quaes sorriram os amores do 
Ariosto, também virara arder as çarças, d'onde o 
Dante se levantou, trazendo na mão, sacerdote epro- 
pheta, a divina ctimeilin, tábua do ferro escripta com 
sangue pelo dedo da discórdia civil. 

A Itália é terna e suave, mas é perigosa, sobretu- 
do nos instantes de cholera. Já se viu rainha, ha de 
custar-lhe a ser escrava. Quando as mus;is desterra- 
das da Grécia, tomando pela mão a lilicrdade d'A- 
thenas, vieram naturalisar-se nos campos do Tibre, 
acharam pais, irmãs, e família no solo fecundo aon- 
de César caiu, e Virgílio cantou. A Itália, costuma- 
da a ser a primeira nas idéas e no gosto, não podia 
mais tempo resignar-se a vêr caminhar tixlos os po- 
Tos, e ella permanecer atada á columna •, não queria 
ouvir exclamar acivilis.ição "adiante ! ••> e como cap- 
tiva ficar pisada pelas rodas do carro que cm melho- 
res dias dirigira ! A intensidade dos seus infortúnios 
podia te-ia quebrantado, mas o enthusiasmo não 
morre senão com a nacionalidade ^ eosa, viva na al- 
ma e no coração de todos, reina dos Alpes ao Aveu- 
tino. 

Por isso o silencio que, juncto ao leito de morte 
de um papa, gelou a voz e o chOro da Roma, e 
das legações, c aquella multidão apinhada ao limiar 
do sacro collegio não indicavam aos olhos dos reflec- 
tidos senão a pausa que precede ura instante as gran- 
des batalhas. Se ao cair o muro erguido á pressa á 
entrada do conclave, saísse coroado um papa que lhe 
cortasse as derradeiras illusões, quem sabe se, levan- 
tando o terrível brado de Mário, iriam ao capitólio 
desprender a espada de Marcello, arremessando a 
bainha para lon^e ? 

Era isto o que sonliani reis e povos, uns distíncta. 
inilros confusamente. Tixlo* avaliaxani que se estava 
nas vésperas do acontecimento mais imp\.>rtante des- 
te quarto do século. A cruz de Christo, nas mãos de 
iim apostolo ptidia ser bandeira de esperança e civi- 
lização, jiodia salvar .1 igreja ea sm-icdade — nos bra- 
ços de um fanático con\ertia-so no cepo aomle o al- 
•o« tont.irí,a deca]>itar o progresso, conseguindo só 
cortar o pulso a si. Da varanda. d\)ndc o cardeal ha- 
w,-» de nnnunciar o novo papa, podia partir ajKiz ou 
a guerra — a es|K-rança ou a discórdia! 

\ reforma era necessária, estava m.tdura no pcn- 
«lunento c nos factos — devi.v operar-so de cima para 
baixo, ou romper armada do seio das lucta5 civis. .A 
aitiiação dos Esf.ados ]M>ntíficias não se exaggcra, di- 
wkhIo ()ne era deplfirai-el . O poder absoluto, sem o 
frei» d;is conveniências dvivisticas deixava as rédeas 
(io governo soltas .aos caprichos das potencias ou das 
iodividuos. Us abusos, incarnando em fúrmas cadu- 



cas, corroiam o corpo social, sem nenhum dos vene- 
raveis anciãos, que subiam á cadeira de S. Pedro, ter 
tempo nem esforço para os cortar de um golpe. A 
anarchia administrativa, confundindo todas as no- 
ções, invadindo os direitos, c ameaçando os interes- 
ses geraes e particulares. Legislação incerta emovd; 
justiça coniiada ao arbítrio^ processos entregues í 
preponderância local ; a fazenda sem fiscalísação ; as 
economias feitas pelos que lucravam nos desperdícios; 
um sistema inquisitoríal comproraettendo a religião 
na cubica das cousas mundanas — eis em reaumo aa 
maiores feridas de que se padecia. 

Juncto das abundantes culturas devidas ao brajo 
laborioso de alguns lav radores estendiam-se baldios e 
desertos arruinados pelos vícios da má admiuistração. 
Cidades activas e esclarecidas gemiam sob a vara fis- 
cal com que a tvrannia de agentes irresponsaveii fe- 
ria a industria. £ sobre toda a Itália a íniluencia de 
uma grande potencia, eslendeudo-se n^umas parte» 
benévola e económica, n'outras severa cquasi inexo- 
rável. 

N^estc estado de decadência a que chegara, a igre- 
ja tinha de escolher o seu logar no século e na ciw- 
lis;ição. F"ilha do amor edo sacrificio podia levantar- 
se, como Christo, do sepulchro, e larg.indo o sudário 
apixl recído vestir a túnica do Mestre, e fazer do Evan- 
gelho o verbo da nova sociedade. O seu reino, que é 
do futuro, perde-se na hora em que o esquecer pelo 
passado. Levando alta c victoriosa a cruz, opera-se a 
reforma mansa e suave ;, abatendo-a, para tirar a es- 
pada, conipra-se apreço de lagrimas esangue. Entre 
os dois caminhos era cliegado o momento de marcar 
a preferencia. 

Homa e a Itália tinham razão. O novo papa ia 
receber as chaves de S. Pedro n^uma epoclta dlflicil, 
i rodeada de escolhos. As qualidades que o deviam re- 
( vestir, para desempenhar a sua grande nii>são, foram 
sempre raras, e espinhosas de practicar. Intelligencia 
elevada para abraçar as necessidades do estado tem- 
poral; vista extensa para medir os verdadeiros pas- 
sos <lo progresso humano; força e prudência para con- 
ceder a paz oque cila deví.i podir", áesperança oque 
se lhe podia prometter. Carecia de animo para não 
desfallecer entre os excessos inveterados e o delírio 
faccioso ; de coração robusto, que não quebrassem 
ameaças, nem esmorejessem suspeitas ; finalmente re- 
quería-se n''elle a virtude risonha do Apostolo, a hu- 
mildade do Precursor, e a firmeza d'ura Innocencio 
III. Todos conheciam isto, todos o diziam, mas ho- 
mem tal aonde o havia, ca existir quem lhe abriria 
caminho t 

E entretanto as horas a succcder-se, os obstáculos 
a cruscer, u a ctmfusão talvn que .assentada a mesa. 
do escrutínio, acccinJvudo as maíure:í dissidências nu 
sacro collegio. 

Passaram vinte e qnatro horas n*esía ag<inia. Dv 
rep/uto caiu a famosa muralha, e o carde.d Hiark» 
Sforza, camarlengo. com voa sonora qnc rt"s<niii em 
toda a praça, pronum-i.indo o - hahemut fonti/icetn-' , 
V proclamando papa o cardeal Mastei, cuDi o nome 
de lho 1\, mudou em jubilo as mais sioistra ap- 
pruhensòes I 

As long.os accl.ima<H>es de Homa, correspondendo á 
eleição, indic.anim que a ign>j.a !;.uihara uma grande 
vicloria, constituindo a tiara em penhor das suspi- 
radas reformas. 

iiue m;igía tinh.a o nome dr um sacrrdot» para, 
apenas lançatlo das varandas ao povo, o faier chorar 
d"al«»:;ria, c abraçar nas ruas os dooonhecidi» comn 
irmãos, á semelhança da aatiga Roma depois de du- 
vidosa lutalha .' 

K que^ o paps eleito sigoilicaTa a ide';» gener iiif 



o PANORAMA. 



51 



da em toda a Itaiia. A iRieja arvorava a cruz de i 
Christo como symbolo d'esp<Taiiça para o futuro. A 
rnli^çião, sorrindo consoladora ao prcsonte, promettia 
guiar os lionieiis por entre os espinhos de uma civili- 
sação trabalhosa, abrarada com a fé, e inspirada pe- 
lo amor. (Cunlinúa.) 

O IIadjeb o£ Kordova. 

(972 a 992) 

(Coolinuado de pag. 4i.) 

IV 

Calal-al-noior . 

A» thombetas sarracenas soavam por todos os an<;u- 
los do Andaluz. Os cavallciros berebéres e as hostes 
»larabes passavam o mar, eviniiam reunir-se com os 
«quadrOes kordovezes. Os kadis, os wasires e al- 
kuids proclamavam por toda a parf e a gazwat, ou guer- 
ra sancta, contra os christãos. D'um a outro extre- 
mo das Ilospanhas não se ouvia senão o zunir das 
forjas apparelhando as armas, cortado do grilo de 
guerra chamando aos combates. As planícies arripia- 
vam-se de lanças t.ão bastas como as espigas no pra- 
do ; as fragas tremiam com o peso dos escpiadrões ■, e 
no topo das serras o estandarti; dos cabos lluetuava, 
•obranceiro ás selvas da encosta, desenrolando nos 
ares as suas brilhantes insígnias e as suas cores es- 
plendidas. 

Deslumbrava o aspecto dos campos então. O solo 
dcsapp.irecia debaixo dos pés das multidões. Todos os 
dias riíbentavam dos caminhos cohortes sobre colior- 
tes, todos os dias rolavam das montanhas torrentes 
dehomens, impellindo-se, aperlando-se, agglomeran- 
do-se nos plainos immensos, como os rios que descem 
c desernlxiccam no oceano. 

A linal chegou uma legião, mais numerosa, mais 
rica, mais formosa e esplendida do fjuo todas as ou- 
tras legiões, eno meio dV-Ila um cavalleiro, mais fe- 
ro, mais altivo e magnifico do <|uc nenhum d'a(]U(íl- 
lia cavallciros. Á sua chegada Iodas as signas e ban- 
deiras se abateram nos nKJutes como os cedros dobra- 
dos pela mão da lornKíula — todas as laiicjas e cimi- 
tarras se prostraram nas planícies conm as cearas aca- 
madas pi'lo vento. Por onil(; aípiclle capitão jiassava 
liomiMis e armas caíam .i seus pés beijando a terra, 
« elle, com afronto erguida, atravessava por entre as 
Úleira.s, curvas na sua preseu<;a, dignando-se apenas 
de olhar para os milhares e milhares di- guerreiros 
alli HMinidos. 

O .issiunbroso cabo, galgandii .lo pjncaro mais iillo, 
deu osignal dap.irliija. Ao simples .iciMio do seu bra- 
ço dobr.irani-se ;t um Icmpo as lendas e pavilhões — 
abalaram-se simidlane.is as hostes variadas. Tresdias 
com Ires noites levaram os desliladeims a sorver a 
turba iníiiiila. Ao raiar do <|iiarto bradou lá (h- ci- 
ma o capitão da montanha áijuellas lilás incommen- 
luruveÍH : 

— ..Tara Caslella. " 

K deltanilo o gimlc a galope nos fragM<'dos da en- 
ulMtii foi, com as idtinias phal.ingi's, ininiergir-3(! nas 
liçarganlas iiroliuidas <los (mimímIios. 

A(|uelli' hoiiieni era (Mohanied, o hadjeb :, JMoha- 
med, o |iiilcntc :, íM<iliauied,o víctorioso : — el-Mansur, 
UMiio oliuliam leito chamar vinliMinnos d(> viclorias ! 
Kra — era elle (pn; S(! abalava com todo o poder 
do Andaluz. edoMaghreb a invadir o território eliris- 
tão, Huceessivamiuili! mulil.ido, (junsi retrahido nos 
•cus primeiros liuiiles, c agora umeaçadu ilu ultinui 
ruinu. Eru oLle ! 



A mão de Deus parecia Laver-se interposto sobre 
o ímpio contra o punhal dos vingadores. Vinte anno8 
tinha estado sus|K'nso o ferro dos mostarabes jura- 
mentados no peito do infiel — vinte vezes se lhe ap- 
proximára a morte no gume afiado — outras tantas 
um dedo invisível aflastára a pontj. homicida, e o* 
inimigos do hadjeb haviam caído fulminados a seus 
pés para nunca mais se levantarem. 

Os al-kaids das fronteiras eos condes chrístãos ha- 
viam-se successívamente erguido contra o hadjeb, ex- 
citados por uma íniluencía desconhecida e misterio- 
sa. Apoz um viera outro; das fileiras destrocadas 
d'um capitão infeliz surgia um novo calio de guerra; 
sarraceno ou goilo, penínsidar ou berebere, ao guer- 
reiro prostrado succedêra um novo guerreiro, concita- 
do pela mão occulta que não dava um momento de 
repouso ao ministro kordovez — e todos, e cadaum, 
igualmente infatigável, igualmente pertinaz, arre- 
mettía com o mesmo cego esforço, caía com a mes- 
ma intrépida consl.incía. 

Aquella immensa lucta, depois do breve descanço 
de umas tréguas, súbita e misteriosamente quebradas, 
era realmente admirável. Da parte do hadjeb sem- 
pre o mesmo irresistível ímpeto, e o mesmo glorioso 
resultado: da parte dos seus c-ontrarios sempre o mes- 
mo animo indomável, e a mesma invencível tenaci- 
dade. Onde IMohamed se apresentava era certa avic- 
toria; os seus inimigos porém pareciam renascer da» 
próprias cinzas, e moltiplicar-se com os revezes. 

Nos acasos das batalhas, na confusão dos campos, 
no rumor das festas e no retiro (h)s paços a vida do 
terrível capitão estivera muita vez pendente d um 
fio. Mas a mão de D<'us, como dissemos, estendera 
sobre elle uma dobra do manto da sua justiça, e, co- 
brindo-o, prcservanilo-o, conser\ára para IlagcUo e 
c.isligo das llespanhas chrístãs, dos seus príncipes cul- 
pados, e dos seus cabos ambiciosos, o tremendo el- 
Mansur ! 

N ígíavam por elh- os olhos da cholcra divina 1 

Os chrístãos ])orém não dormiam. l)espertava-os a 
notícia dos formidáveis aprestos. Os guerreiros àr 
Leão, d(! Gallíza e de Caslella marchavam unidos; 
ao seu encontro vinham os de Navarra : á frente d'a- 
quelles os condes Menendo Gonçalves e Sancho Gar- 
cez, em nome do moço rei .AflonsoV de Le.ío ; a tes- 
ta doestes Sancho, o (piadrímano, chamado assim pe- 
lo seu esforço o actividade incomparáveis. 

Nos campos de Lorca foi que pela primeira vci se 
abraçaram sincera e cordíalmcnt<; eslcs liomens, ir- 
mãos pela crença, o separados |)elos odíos ruins d.i» 
paixões e ambições politicas. Os condes (pie tanta vci 
liavíani mutuamente aberto os eapellos e lascado as 
achas nos recontros, estendiam a'i;(>ra a mão uns aos 
outros — e, (Xpieera mais, estendíam-n'a docoraç.lo. 
Muitos d'elles — qiiasí todos (*) — haviam inílítado 
debaixo das bandeiras do hadji-b, excitados pelo ran- 
cor que lá por dentro os remordia, ])ar.i melhor se 
olVenderem e dcspedaiarem n-ií|irocanuMite ; e agora 
esticíta\ani-se no abrai;o IVateriio, reconciliados con- 
tra o antigo senhor qin' os [irolegèra ao modo leo- 
nino. 



(») N'!lo nilniiro o <]iie nVste lopnr se nlTiriiin. As itisseo- 
«ilcs |iiililii'iii>, c ás H'i!rii luinlH'in iiikIímis ile |mrlioiiliii' into- 
ri-ssi^ Ifviivaiii lie(|iii'iili'ini-iiti' os |>iiiii'l|>es ciiiihlcs l•llM^ll^u^ 
iiíío nó II ussiiciur-Kií cum im iloiiiiiimlniis iiii f;iicirii ipir fii- 
zliuil 1'iim ii.s sciiH irmilos ilr fé v iiaMlinciilu, seiíilo luiiilicni 
a g('i\iii'iii H» mias nnliMis, ca IjivtiTciii n gm-rra por .siia cuii- 
In. Silo l'ir(|ii('iit('s este'» cM^iniilos, solirilmlo dn siriilii \ nt«i 
ao »i'i'ul(i \ll. Sirvii di' prova, eiilii- miiiins, o iiifi'li« rriímil» 
de Hcniindii II, eiii (Hle, por oiiusii ifislaa iiiorliririH disíciv 
8<V'H, 11 Horle do ri'ilio Irollc» l'»li'Vr loilll llii.H ilosv iu8 sflvali- 

cui dus Anturiua, cuuio iio coiiii'i;o du ri'í;i'iiuriii;ilu. 



52 



O PANORAMA. 



âuem fizera porém aquellc milagre ? quem congra- 
çára aqiielles tremendos ódios civis tão difficeis sem- 
pro de conciliar c sempre tão cruei? o tenazes? 

Maravilhavam-se todos; mas nãono-sahia ninguém. 
Altribuiam-n^o alguns á eminência do perigo com- 
mum. Os experimentados e prudentes não se enga- 
navam. Sabiam que esse perigo appareceria muitas 
vezes sem dar este resultado — conheciam sobre tudo 
em d<'masia a implaeabilidade cegoismo das paixões 
politicas, para lhe poderem julgar tamanha etão sú- 
bita virtude. 

Outra era de certo a origem e razão do acontcci- 
cimenlo que espantava e regosijava as Hespanhas 
christãs, porque, havia longo tempo, n^eslalucta con- 
tinua, sanguinolenta, temerosa, das duas crenças ri- 
vacís era esta a j)rimeira vez que a raça goda peleja- 
va unida. 

Q.uanto á suprema influencia que fizera o que ain- 
da se não liavia feito nas Hespanhas, repetimo-lo, 
ninguém sabia de quem era ella. 

(.'orriam porém estranhas conjecturas acerca d'um 
lavalleiro, moço ainda, de uns quarenta a cincoenta 
annos quando muito, apesar das cans que lhe alveja- 
vam numerosas, do qual se contavam maravilhas de 
valor, de actividade e constância n'esta longa e por- 
fiada hicta de vinte annos. Pelejara, diziam, em to- 
das as batalhas contra o hadjeb, apparecêra em to- 
das as cidades que se haviam rebellado, percorrera 
todos os condados que se haviam armado. Contavam 
mais que um anno inteiro andara atravessando as 
Hííspanhas de Leão a Navarra e de Navarra a Gal- 
liza, por (!ntre nuvens de corredores berebcres, que 
o perseguiam sem fructo, levando e trazendo mensa- 
gens, predispondo os ânimos, salvando as difliculda- 
dos, e pregando por toJa aparte com palavras admi- 
ravelmente enérgicas e eloquentes a necessidade da 
completa liança e união da raça goda. 

'J"odos estos dictos porém não passavam de simples 
vozes. O qu(! d'elle unicamente se sal)ia ao certo era 
que cluígára das fronteiras do paiz de Afranc, trazen- 
do do meio-dia, um troço de cavalleiros escolhidos, 
hoste temerosa, que passava pela Uiir do exercito 
cnristão. Kra também fura de duvida que as suas pa- 
lavras gozavam de um grande credito entre os cabos 
godos, ilaros lhe tinham ouvido a voz : nenhum lhe 
tinha ainda visto o rosto. O my,sterioso capitão en- 
tra\ a a toda a hora na tenda real de Sancho, o qua- 
drimano, e nos pavilhões dos condes deGalliza eC'as- 
tella ; mas ninguém lograra ainda examinar-lhe de 
perto as feições. Era um ihema inexgotavcl para to- 
dos no exercito. Deus salx; que de boatos se espalha- 
vam a seu respeito. 

No entanto os campos de Lorca, imitando os de 
Kordova, ouriçavam-se, como elles, de signas e bal- 
sues tremulantes, de lanças e espadas fulgentes. Da 
base até a coroa dos montes suliiam como serpes enor- 
mes as fdas tortuosas dos serranus do.Vstura. As pon- 
tas d aço das maças de roble scinliiiavam aosol, pen- 
dentes no lado dos guerreiros navarros, e dos descen- 
dentes dos fr.inkiis, ao passo que os seus brilhantes 
rellexos, rcfraiigendo-se no ferro da secure goda, se- 
gura na siílla dos cavalleiros de Leão, como que JH)- 
voavam ile rápidas estrellas as planícies. Sc as hostes 
musulmanas desenvolviam mais arte e perícia, se 
brilhavam inaís pelo esiilendor das armas e pelo va- 
riado das cõr(>s ; em compensação os capellos de ma- 
lha, as grosseiras dalmaticas e as caniizas de ferro 
dos eliristãos não cobriam corações menos ardentes e 
impetuosos. 

O exercito godo esperava a pé firme o tremendo 
hadjeb: ia pel<jar-se a sorte futura das duas raçiis 
que disputavam liavia scculus o dominio das Hespanhas. 



A final, um dia, ao despontar da aurora, appar«- 
ceram as margens do Douro c as alturas cobertas de 
corredores africanos : era a vanguarda do hadjeb. 

As hatalh:is christãs aguardavam-no já formadas e 
ajjcrcebidas. Prevenira-os o infatigável desconhecido. 

O» dois exércitos pararam em frente um do outro, 
medindo-sc uma hora inteira, até romper osol, como 
dois lucladores que se contemplam na arena. 

Depois, dois homens, um na planície outro na mon- 
tanha, á testa cada qual das turbas impacientes, es- 
tenderam simultaneamente o braço direito contra os 
adversários fronteiros, e clamaram unisonos com a 
voz sonora e fn.-mente : 

— u Avante ! j' 

E no mesmo ponto os dois mares procellosos. rom- 
pendo os diques, trasbordaram em duas ondas mons- 
truosas na planície, até se embaterem e se confundi- 
rem e tumultuarem n'uma vaga immensa que fez va- 
cillar os rochedos na sua base, saindo subitamente do 
seiod\'lla, horrendas, confusas, infernaes, mil Ímpias 
blasphemias e mil gritos de agonia. Não se via. não se 
percebia, não se distinguia nada n''aquella mole infi- 
nita a revolver-se furiosa no meio d'uma nuvem es- 
pessa de|)OCÍra. Atravez do horrendo véu trovejava o 
combate como asurda explosão d'um terramoto, lam- 
pejavam os ferros como outros tantos raios a atraves- 
sar os ares carregados. 

No pináculo d"uina serra o hadjeb vigiava o com- 
bate, despedindo d'alli uns sobre outros os seus es- 
quadrões de berebcres a apertar os christãos na pla- 
nície. O terrível el-Mansur ardia lá por dentro, m.-is 
continha-o a prudência. Não queria empenhar-se na 
peleja senão para decidi-la como costumava. O logar 
(jue occupava, comum pequeno troço dos seus melho- 
res guerreiros, designam-o as historias árabes pelo 
nome de Calat-al-nosor, isto é ; o pincaro dos abu- 
tres : julgava-se seguro alli. 

Jlohanied, anojado já de ver a firmeza e a contu- 
mácia desesperada dos seus competidores, mandara 
avançar os últimos esquadrões, e desembainhava já ii 
irresistível cimitarra, para resolver a contenda, quan- 
do uma hoste de cavalleiros. pequena como a sua. 
SC arrojou com assombroso iinjjeto pela encosta aci- 
ma íio seu encontro. 

O hadjeb rugia de prazer: ia cmfim pelejar: es- 
tava certo de si. Os seus cavalleiros. imperturbáveis, 
não se moveram; esperavam tranquUlos o inimigo: 
el-Mansur sorria de orgulho. 

Os guerreiros contrários approximavan>-se no en- 
tanto, impetuosos como o vento do deserto. Eram os 
de Afranc. Apesar do impulso que triuiam. deix.-»- 
ra-os longo espaço afraz o seu mvsferioso cabo. Se- 
guia-o unicamente de perto uma figura melindrosa 
de pagem, estranlio contraste no meio d^aquelles col- 
lossos furibundos. 

Ao hadj<'b não lhe soffreu o animo esperar assim 
a pé lirme t.ão desesperado inimi^: yikiu ao seu en- 
contro. 

Toparam-se no alto, cm cheio, os dois feroies con- 
tendores : nenhum d"elles vacillou. As duas hostes, 
que se precipitavam tainlx-m ao enciinlro uma d.i 
outra, pararam attonilas. olharam-se e rt>cuaram : a 
horrenda |>orlia omtinuou entre os dois como os com- 
bates dos herocs d"M(imero. Não tinha nome a fúria 
i-om que os dois calnis se atacavam, se precipitavam, 
e se ret rabiam p.ira s«> tornarem a atacar. .\ cimi- 
tarra dl) hadjeb caiu de5[HHlaçada pela s«>eur<' do de*- 
I conhecido, a arma do guerreiro de .\franc \ixni jwra 
o ladi) cortada eercca pelo resto da folha de Moha- 
med. \o fim d"unia hora o ginete andalui do cabo 
kordovei caiu, alierto jxda testeira, ao j>é do negro 
corsel do desconhecido, atravessado pelos peitos. Mas 



o PANORAMA. 



53 



os cavalleiros já estavam a pé e continuavam o com- 
bate, igualmente incansáveis, igualmente furiosos, 
igualmente encarniçados ao lado dos dois nobres e 
fieis animaes, que gemiam e agonisavam tristemen- 
te voltando os oUios lagrimosos para seus donos. 

O elmo d'um e o capollo d'outro saltaram parti- 
dos por dois revezes assombrosos : o peito, os braços, 
a cabeça de ambos estavam cobertos de feridas-, o 
«angue corria-lhe em fio nos fraguedos do solo \ e os 
dois combatiam como se n'aquelle momento se hou- 
Tcsseni accomraettido. . . 

Desceu o sol, veio o crepúsculo, seguiu-se-lhc a 
noite, e os dois a combaterem ainda. . . 

A final o Iiadjeb caiu ; — el-Mansur o glorioso, el- 
Mansur o potente, el-Mansur o invencível — caiu na 
montanha sem poder valer aos seus, que fugiam na 
planície — caiu com os olhos voltados para elles, aos 
pés do gu<'rrciro desconhecido. 

Um longo gemido saiu então dVntre as fileiras 
dos berebena. N'um Ímpeto espontâneo arrojaram- 
se contra o vencedor ao passo que a lioste do Afranc 
também pela sua parte voava com gritos de alvoroço 
a soccorrer o seu cabo. 

Mas este, indífferente a tudo, não via amigos nem 
inimigos. Passou-lhe pelo rosto um como relâmpago 
de barbara al<!gría, e, ciirvando-se para o hadjeb 
prostrado, estrugíu-lli<.' ao ouvido com uma inflexão 
que arrancou o liad jeb aos l)ra(;os da niorle : 

— " lii'mbras-te dos jardins de Azahrat ?" 

Molianied abriu os ollius e liloii-os no desconheci- 
do. Aqiiclles dois lionicns, que assim tinliain comba- 
tido por V(;ntura em mais de uma occasião, era a pri- 
meira vez que se encaravam. O hadjeb nãopoudesup- 
portar o aspecto do seu vencedor, ap('rtou o punhal 
que não largara, o fechou de novo os oUios. 

N'isto chegavam as duas liostes encontradas, eem- 
batiam-se no escuro da noite. 

A batalha recomeçou mais brava do que nunca em 
torno do hadjeb. 

Mas os sarracenos já não eomlialiaiii para vencer: 
era somente para alcançar niorle hmirada. 

listava em terra o collosso das Ilcspauhasl 

(CvHcliiii -sc-ha.) 



Festa de Conrus Curisti km ^'AI.ENCIA. 

A pnocissjo dVste dia solcmne er.i anlcs das ulti- 
mas revoluções famosa na llcspaiilia. INa ca[)ítal de 
Valência celebrava se tio modo seguinte. — Dias an- 
tes lançava-se um bando convidando os habilantos a 
concorrerem á riiiicçào ea lraz<'rein vcllas de cera de 
rai'ia libra. Na hora prclixa as coimniiíiidades reli- 
giosas e o clero das [larochias entravam no choro da 
ké entoando o I'mt<ji , lintjtia ; <• em seguida piiiiha- 
íe a caminho ,i procissão, indo á freiíle as diversas 
corporações de offKMos, como entre nós se usava, com 
as bandi'iras de seus |)adro<'iros, e higo apoz, [lor ordem 
d'anligiiitlade, os ecciesiaslico». ISi^islo não ha novi- 
dade: |iorém o clero da sé dístiiigiiia-se d<? todos pe- 
lo acompaiihamenlo rle ligurasallegorieas. Três águias 
enormes traziam rolulos nos bicos, onde, em lettras 
de ouro, KC lia clividída esta Jihrase u In principin 
erat reihimt; Hl vi:rl>iiui tritl iipinl Dtinn ; et Dius 
eral lerlum: alraj! seguiam-s<' lri's homens, um com 
mascara ih; leão, oiilro de boi, e oufro sem mascara, 

que jiinclamenl in as águias vinham alli para ihv 

notar os (pialro KvangelislaH : logo ii|ipareriaiii mais 
três, <(uii harpa, \ i<ihi e cithara, em nieniiiria (lo rei 
David dianie <laarea daalliança. Vinte eseis v<'lhos, 
vestidos de branco, traziam tochas di' (';raii(li- volume, 
e precediam oito leviUis, lanibiím trajados de roíiiias 



largas brancas, parecidas ás antigas dalmaticas, em- 
punhando varinhas com que tocavam na cabeça dos 
espectadores, a quem, ao passar a procissão, esquecia 
decobrirem-se. Immediatamente app.irecía oSanctis- 
simo, e a custodia, de altura fora do commura, era 
magnifica obra de ourives no estjflo gothico. 




Por todo o comprimento do préstito, de distancia 
em distancia, iam repartidos, em bandos numerosos. 



gigantes e anões, extravagantes, monstruosos, o 



de 
variegados vestuários. Carros triíimphantes, aque em 
Valência chamam rocas, cheios di' liguras allegori- 
cas, eram tira<los por machos ajaezados ricamente, e 
junclo dVlles havia rodas infatigáveis de danças, que 
muito faziam Iciiilirar certas festas pagãs, principal- 
mente as de Ceres <í I$accho, por isso que os carros 
eram enfeitados com espigas ecom festões de pâmpa- 
nos. O mais nota\el era seni[U(' o (pie deniuiiinavam 
la roca de la i'i<(issii)i(i, (pie transportava sobre ele- 
vado throno a imagem da Sancta \ irgein, precedida 
no jilano inferior pela figura symbolica da religião, 
como se V(^ representado em o nosso desenho. 



Episodio da vida d'Aleixo Ouloi'. 

A iMi-EiiATiiiz Isaliel leve Ires lillias do seu consor- 
cio elandestlno com o grão governador Aleixo (ire- 
griovitcli Kazoiunovski, a mais moça das (piaes foi 
crcada na Kiissia com o nome de priíiceza Tarraka- 
nolV. <-liiaiido Catharina II começou a en>pregar, em 
concurrencia com os enredos, a violência contra a IVi- 
loiíia, o priíicipe Carlos Uadzxvil, por palriolismo, por 
vingan(;a, ou por a(iibl<;ão talvez, roubou esta meni- 
na, subornando as pi^ssoas encarregadas de a guarda- 
rem, ea levou eonlsigo |iara a Il.ilia, onde por mui- 
to leiii|io viveu do prodiicto de diamaiiles, (pie elle 
salv.ira da destrui(;à(i de sua casa; mas, esgotado es- 
le recurso, a precisão o obrigou a voltar á 1'olouia. 
t) agasalho inesperado (pie achou na corte de S. IV 
tersbiirgo, então emiieiihada i-iii oppo-lo a uma lac- 
<;ão coiilruria, por la o foi detendo. Se iiào coiumel- 



54 



O PANORAMA. 



♦«■ a baiseza de consentir na entrega da infeliz filha 
de Isabel aCatharina, caiu na de prometter que nun- 
ca mais íaria caso d'ella, c de a desamparar no re- 
gaço da naiseria. 

Aleixo Orlof, assassino de Paulo III, era homen> 
de menos escrúpulos. Vira de bem lonçe o incêndio 
das embarc2çc;jes turcas em Thchesmé, victoria insi- 
gne aos olhos de Catharina, que lh'a attribuia toda, 
ronbando-a aGreig eElphinston , desmaiara durante 
o conflicto ; despertara do dormitar para insolente 
cingir na fronte louros immerecidos \ era por tanto 
o esforçado campeão digno de ir buscar a victima 
para a sacrificar aos sustos da sua soberana. Um cer- 
to Ribbas, que depois chegou a ser vice almirante 
na Rússia, lhe descobriu o retiro onde a princeza vi- 
via, cm Roma, na companhia de uma só criada, pa- 
decendo privações. Alt-ixo foi procura-la, fallou-lhe 
no ódio que todos os russos tinham á imperatriz, na 
hydra das conspirações a que ella não podia cortar 
as cabeças sem que as multiplicasse; engodou-a com 
a esperança de subir a um throno que asseverou per- 
tencer-lhe por direito de sangue \ e reforçando com 
as seducções do amor as da ambição, por ventura in- 
sufficieutes para deslumbrar uma menina habituada 
á obscuridade da mediania, simulou um amor impla- 
cável, como não era capaz de ter a ninguém; porque 
os homens-srralhas adornados com aspcnnas do pavão, 
que desfaçadamente roubam osfructos do trabalho ou 
daintelligencia alheia, — submissas quando precisam, 
altivos, ingratos, e talvez inimigos quando já não es- 
peram; estes homens, que convertem quanto os cerca 
em instrumentos com que se lavram o pedestal da sua 
própria elevação, eque lançam para longe de si ape- 
nas seg;istam oucsfjlam n'este lavor ingrato; amam 
é verdade, e amam com excesso: amam-se a si. Para 
si desejara e querem tudo — para os mais o resto. 

Captivado o coração da princeza. viu Orlof apla- 
nadas as barreiras que poderiam empecer os seus in- 
tentos. A princeza consentiu em desjxisa-lo, e uns 
perversos, disfarçados em padres, fingiram todas as 
oereroonias do rito grego; crendo ser mulher de Or- 
lof não hesitou cm segui-lo para Liorne, e ahi o snp- 
posto marido, para lhe occultar a iufame cilada, lhe 
prodigalisou adulaç<jes, festas c honras as mais pró- 
prias para a cegar. 

£stava fundeada no porto de Liorne uma esqua- 
dra russa ás ordens do almirante Greiç; souberam 
iDspirar á princeza o desejo de a ir vér, c levaram- 
n*a a bordo ao sair d'um banquete. Os vivas d'um 
povo immcnso, as vozes de toda a casta de instru- 
mentos retumbavam na praia, e davam á visita a 
apparcncia [>omposa e risonha d'ura dia de gala. O 
escaler que a transportava, elegante e empavesado, 
prendia os olhos dos espectadores, pela riqiiez.i e pri- 
mor dos ornatos: içaram-n'a commodamente n'uma 
cadeira de espaldas mui sumptuosa, para bordo da 
náu almirante, onde entrou comoesposa de Orlof, ou 
antes qual soberana que deve em breve reconquistar 
um império opulento, herdado de seus pais. Apenas 
porém pisou o convei, desappareceu o prestigio, os 
^•eepcitos e attenções cessaram de repente, tractaram- 
n'a como escrava, carregaram-n'a de ferros, eno dia 
seguinte a nau fez-sc de vela para a Hussia. 

O cônsul inglcx e o almirante Greig favoreceram 
<^a trama infame, que deixou toda a cidade de 
liiorne horrorisada e fremendo de indignação. Leo- 
poldo, grão duque da Toscana, queixou-se altamen- 
te d'esta violação de tv»do o direito hum.ano, com- 
mcttida no seu território ; mas a inipuílcncia de Or- 
lof arrostou as queixas do grão duque c a indign.-iç.ão 
publica. 

.\ victima, que então contava apenas dctcs.^is an- 



no9, foi encerrada em S. Petersborgo, em estreita 
prisão, aonde pereceu seis annos depois, no mez de 
dezembro de 1777, em consequência d'uma inundaçãn 
do Neva, ou ila;cllada. segundo dizem alguns, peUw 
seus Ímpios carcereiros. 

Aleixo Orlof causou espanto e escândalo na Itália 
pelo seu luxo desmedido, pelo seu brutal orgulho, e 
pela sua má educação ; mas cm Liorne lançou a tur- 
ra até onde podia ser. Tinha-lhe dado ordem a im- 
peratriz para mandar fazer por um hábil pintor da 
eschola italiana um quadro de sua sonhada >'ictoria 
de Thchesmé. O pintor disse-lhe que nunca tinha 
tido occasião de ver ir pelos ares um navio : " Não 
esteja n''isso a duvidai respondeu-lhe Orlof; e dcu- 
Ihe este espectáculo a risco de incendiar o porto. 



A TRIEU DOS KBABASOS HA AmXRICA 

Mebioioxal. 

O Sr. Alcides d'Orbieny tem adquirido celebridade 
pelos seus importantes trabalhos sobre a America 
Meridional ; intrépido e irifati»avel naturalista-via- 
jante, percorreu por oito annos consecuti\os as costas 
do Brasil, a republica do Uruguav, a repulJica Ai^ 
gentina desde as fronteiras do Parasruav até a Pata- 
gonia, as republicas do Cliili, do Perij. de Boliria. 
Sem mencionarmos outros escriptos. citaremos o se« 
livro O homem americano, estudo ethno^raphico de 
grande valia, a tímligia ila /Jmerica ^IniJionaL, 
que lhe mereceu nota\el elogio votado pela academia 
das sciencias de Paris ; e por fim a sua obra princi- 
pal, com que tanto lucraram as sciencias e a ;eogr»- 
phia, a / iagem n"aquella região, recem-pu blicada 
em 7 vol. de 4.^ com atlas. — A. esta pertence o 
fragmento que trasladámos, sobre uma tribu selva- 
gem quasi desconhecida. — 

Aos 19 de dezembro de 1831 deixei a ultima das 
missões dos chiquitos para passar ao território dos 
guaravos, q»e me disseram que ficava a 4tí ou 50 
léguas ao nor-norde*le. A minha comitiva, constan- 
te de meus ajudantes a cavalJo c de 60 Índios chi- 
quitos a pé, que levavam ás costas a bagagem, tre- 
pou em filas as l.ideiras Íngremes das alturas limi- 
trophes dos chiquitos, em meio de paizes semeado* 
de vallíís selvosos c de cabeços coberto» da sombra 
das ele?antes palmeiras bocayas, e onde uma infini- 
dade de figueiras p.irasitas, com as raixes enredadai 
parece que procuram por toda a parte esconder aa 
fracas esoahadas. Da cumiada da ultima cordilheira 
appresentou-se-nie á vista o mais bello contraste; ao 
nascente coUinas amontoadas em ampiíitheafro. aa 
contrario, para o piHjnte a superticie azul e illiraitap 
da d(^ mares, no horisonte as extcnsissimas floresta» 
que se dilatara por niai» de 80 leíruas até os cxti^ 
mos pégiVs da curdiiheira de Santa Cruz. — Costeai 
a falda d'es$as eminências por entre paii deshabita- 
do mas WIlissimo, exposto frequentemente aos farta* 
aguaceiras da estação, e alvo das ferroadas dos 
quitos, e privado de todo o descanço ; porém á 
dida que caminhava, a natureza se mostrava com 
mais variciiadc : a pequenas pianicies vijoaaa, «it- 
cumscript.is por mattas cerradas, succediam çropoa 
de coqueiros de varias cast.ts. que contrastavam eoM 
os oíitrvis vegelaes : havia biisques fechados, e com a 
extens.~io de algumas léguas, de palmeiras rtincA. de 
tronco recto, coroado na altura de nove braças pela 
copa «-siiessa de foUias semelhantes a laminas d'espa- 
da ; por outra parte alteav.i-se a graciosa palmeira 
real de folh.%gem cm fiírraa de Icqoc. .\ masestanie éa 
todo. a riqueza década objecto, tudo me inspirara: a 
vida. a aitimação da campina revestiam este paiaal 



o PANORAMA. 



55 



de um entanto irresistível, mormente para um na- 
turalista. Nuvens de borboletas de azas matizadas le- 
Tantavain-se adiante de nós ^ as folhas e troncos de 
plantas e arvores enchiain-se de milheiros d'iuseetos 
que, nos rellexos metallicos, rivalisani ou com o bu- 
liçoso passarinho mosca, ou com as aves brilliantes 
que, com suas melodias, aviventam a solidão d'aquel- 
iu terra virgem. 

Ijogo no primeiro dia me adiantei dos Índios; e 
ao terc(;iro, depois do marcha forçada, contava che- 
gar ainda com dia aos guarayos, mas enganei-me. 
Não pude resistir á vontade de caçar bandos de ma- 
cacos e cotias, sobre tudo um corpulento veado. Os 
meus Índios não tinham outro mantimento senão 
maçaroca assada: quiz que se approveitassem da mi- 
nha caça, o que fez perder f<'mpo, ficando atrai!;ido o 
guia, occupado em desniancliar o Veado, com a pre- 
caução de pendurar os quarlos nas arvores por causa 
do dente do jaguar, em quanto não chegava a comi- 
tiva. 

J'oT muito tempo segui a galope os inumeráveis 
rod<!Íos de um trilho apenas traçado ora na matta 
ora na campina; nias [jcla tarde os cavallos faliga- 
dos adrouxaram. 'l"ornoii-se extrema a obscuridade; 
nada se podia distinguir, e os ramos d'arvores, que 
eu de dia evitava bem, de continuo me batiam na 
cara : o meu cavallo, sem eu dar por isso, enterrou- 
«e na espessura da ndva, onde fui asperamente mor- 
dido por formigas ruivas, que teem um ferrão como 
as vespas. Não tendo podido alcançar-me o guia, de- 
pois da morte do veado, comecei a suppor-me extra- 
viado : a[)e<'i-nie, acc('ndi luz, e por fim entrei de no- 
vo no trilho. li preciso ler passado por crises iguais, 
para dar valor ao prazer que causam os primeiros 
raios da claridade que succedeni á escuridão; reani- 
mam a coragem do viajante, que então se resigna 
com a situação até alli insopportavel. J'elas onze ho- 
ras ouvi gritar; era o guia (jue nos alc:inçava, e vi- 
nha resgatar-nos da inquii'tação, aniiuncíaiido que 
apenas distávamos duas léguas das primeiras habita- 
ções dos Índios. Ksta nova deu-me alento, e deter- 
minei-m(! a progredir : o guia acccndeu uma vella e 
poz-se á Irente do rancho. 

Pela uma hora da manhã topámos as cabanas dos 
guara^os. lineaniinhei-me para a do maioral, onde 
logo ine veio fallar um homiím coberto di! uma lon- 
ga túnica, cujo tecido era de enlr(K'as(^o d'arvores. 
Ignorava i!U completamente a que raça pertencia es- 
ta tribu ; e por isso não pequena foi a minha admi- 
ração ouvindo a saudação dos hniis dias em guarani, 
dialecto de <pi<! eu tiidia aprendiílo uma porção de 
(Kilavras nas fronteiras do l'araguay : res|)oiidi na 
mesma linguagem, e o cabeça guará vo não ficou me- 
nOH afbnirado, e logo um consagrou <>or<lial amisade; 
.leompaiiliiiu-me jku' Ioda a parlei durante os quaren- 
ta dias <puí iiu: denuwei entre esta gente hospitalei- 
ra. 1'aieontrava eu com vivo |)razer, ni> seu <>stadii 
priuiilivo, os restos de uma das antigas emigrações 
lios gu.iranís ou citaíb.is, os coiupiisladores mais in- 
trépidos da Aiui'iir.i nwíiiliiuial, ijue l(v;irain assuas 
victxjrias de.sdí! as margens do rio da l'rata jt(; as 
Antilhas. 

JVIo território dos guar.iyos corre o rio de 8. Mi- 
guiíl ; as eart.is geograpliic.is dão o curso d'este rio 
pasa o rio (juapaix ou Hío (irandn, e d'ahi para o 
IVlamore : se assim fosse, enibarcauilo-me nVdle iria 
liar á missão de lioreto de iVloxos, (pi.iudo o meu in- 
t«nilx) era encaminhar-me para a piird? oriental d'i'S- 
tn província. lnt4Uroguei os guaraj-os, e irelle» sou- 
lie <pie, em viiz de voltar pura oes-neiroeste, o rio S. 
-Mi)»nel se dirige a nor-uoroeste, pansando perl») da 
missão de Carnum de Mox.o.s, Sem íuber então su cl- 



le ia ajunctar-se mais abaixo ao rio Branco ou botíA 

Itonamas, afluentes communs do Guaporé. tomei e 
resolução de .seguir este caminho, aíim de elucidar 
esta questão importante em geographia. Porém o 
meu plano não era de fácil execução : a ir por terra 
oppunham-se a estação das chuvas, já muito adian- 
tada, e a inundação dos campos, independente do* 
estorvos inherentes á abertura de um caminho novo : 
por outra parte, ascanoas dos gnaravos, feitas de um 
só tronco e.xcavado a fogo, podiam levar só doas peí- 
soas, e não tinha logar para as bagagens. Vali-me 
das amigáveis disposições do caudilho guarayo, e ob- 
tive d'elle expedir dois índios a Cármen com uma 
carta em que pedi ao administrador me enviasse ca- 
noas e remeiros d^aquella missão para me transpor- 
tar a IMoxos. 

Os guarayos, dispersos por um território de ciii- 
coenta léguas dVxtensão, habitam os bosques som- 
brios que separam as províncias de Chiquilos e Mo- 
xos, não distante das margens do rio S. Miguel, pe- 
los 17" de latit. sul e os (io'^ de long. occidenfal át 
Paris. Em numero de mil, rep-irtem-se, fora algu- 
mas famílias espalliadas no centro da llortsta, em 
três aldeias, '1'rindade, Ascenção o Sancta Cruz, on- 
de alguns religiosos trabalharam pelos chamar ao 
christí;inismo. Uepois de as ter visitado, estacionei- 
me em Trindade, onde não havia missionário, aíim 
de estar menos constrangido no meu oftício de obser- 
vador. Todos os dias o cacique, velho de aspecto pa- 
triarchal, vinha otl'erecer-me o seu préstimo. Se cu 
lhe p(?dia alguma cou,sa, voltava d'alií a pouco com 
suas mulheres, que traziam excellentes fructas, legu- 
mes ou aves caseiras : recebia também visitas de to- 
dos os Índios, que me brindjivam com géneros daí 
suas terras, ou com objectos d'historia natural. Pa- 
g.ava eu tudo em agulhas grossas, facas, tesouras, c 
outras bagatellas, porque o dinheiro, conui em Chi- 
(piitos e Moxos, não era conhecido dos iiabitantes. 
Por exemplo, um bom frango valia três agulhas de 
coser, e o mais em proi)orção, sem tpie toilaxia m» 
fixassem preço ou fizessem a mais leve observação a 
respeito do <|ue eu olferccia ; dava-nie seus conselhos 
o meu amigo, o maioral que encontrara em As- 
cenção. 

Altos, bem feitos, providos de longa barba, facto 
excepcional nos americanos, os guurayos são de as- 
pecto arrogante, mas teem feições regidares e expres- 
são pacifica: oseu caracter corresponde pcrteitauien- 
te a extiMÍoridade ; mostram o tvpo da franipieza. 
hosiiitalid.ide, e denutis virtudes. São bons p;iis e 
bons maridos, e graV('s |)or habito julg:im-se, na sua 
isenção e liln^rdade no meio da abundância, os mais. 
felizes dos humanos. Os velhos, verd.ideiros patriar- 
chas e oráculos das famílias, ach.im nos tillios respei- 
to e submissão. As suas cabiiruis, oitavadas e seme- 
Ihnntes ás dos antigos caraíl);is das Antilhas, são es- 
Jjíçosus e eol)ertas de folluis ele palmeira. — O gua- 
rayo pnssa Ioda a su.i iidancia ao pe da nu"ie, que 
lhe prodigalisu o mais teino desvelo. Chi'gando aos 
oito ou d<-/. annos aitmipaidiíi seu pai aos campos ea 
caça, oxercitando-se a atirar á trecha, e no fabrico 
d.i» urmas : deixa (Uilão a com]>:niliia ihis mulheres, 
1» só frequenta a sociedade do.s r;tpai!ea d.t sua nlade 
« dos liiiinens. .'Vhsiiu que reunu á forca a destriv-ui 
suflicieiíte para nu-near o arco, isto é, paru supprir- 
se, traita <le eh>ger companluiira : frita a escollui »«•- 
goeeia com os irmãoN da donr.ella, <pie são iks tpir 
teem o direito oxelusivo de dispor da nuu) d<> sutis 
irmãs; ascondiçõrs consistem i\'uni certo numero de 
machados, de facas, ou de outros instrunu-ntos, ou 
n um certo Ir.iballio, ctuuo por exemplo .t «ouslruc- 
çãu du uma caba, oanotcamcutu do uuia terra. CVri- 



56 



O PANORAMA, 



cedida a noiva, o pretendente, despido e pintado de 
encarnado e preto desde a cabeça até os p«ís, armado 
da sua maça, passeia por alguns dias em redor da ca- 
bana da noiva ; findos estes, os pais d'ella preparam 
a bebida de milho fermentado, e o casamento é cele- 
brado no meio de ajunctamento numeroso, a que são 
convidados todos os parentes e amigos — O par vive 
algumas vezes com os pais, mas de ordinário edificam 
casa própria juncto aos seus. Quanto mais um gua- 
ra^o augmenta de familia, tanto maior consideração 
adquire \ e c por isso que, sem despresar a primeira 
mulher, que é sempre a mais estimada, toma succes- 
sivamcnte outras muitas na carreira da sua existên- 
cia. Os filhos de todas parecem ser de uma só mãi. 
Ião unidos vivem : não ha desavenças ou altercações 
da parte do marido, que respeita as suas mulheres, 
não obstante considerar-se muito superior. Sendo ca- 
Ijeça de numerosa familia, o scuaravo é um oráculo, 
passa tranquillaniente os seus dias, sem cuidados nem 
[>enas, pelo que chega, quasi sempre, a extrema ve- 
lhice, isento de enfermidades e da perda dos sentidos. 
No centro da abundância provê com pouquíssimo tra- 
balho ás precisões da familia. A cultura dos campos 
é feita em commum com os parentes e amigos ; as 
mulheres fazem de antemão a cerveja de milho; con- 
vidam-se aquelles, eao nascer o dia vão alegremente 
para o campo •, todos os convidados trabalham com 
infatigável ardor durante duas terças partes do dia, 
em quanto que o proprietário está deitado na maca, 
ou, quando muito, dirige os trabalhadores. ^ oltam 
junctos á cabana, onde começara danças serias eliba- 
oões por alguns dias, mas tudo se passa sem rix;is 
nem contendas. Assim cada cabeça do casal reúne 
huccessivamente seus amigos, quer para derribar ar- 
vores e arrotear, quer para semear-, e todas estasope- 
raoões dão logar a outras tantas festas. 

(Continua.) 

Viagens á. lia. 

Km linda noite serena, quando só o disco da lua ful- 
ge no firmamento, a qual de nós não tem transpotar- 
do a imaginação a este astro silencioso ; qual de nós 
não perguntou jamais a si mesmo se o fielsatellile da 
terra não é povoado, como cila, de criaturas intelli- 
gentes ; se não será possível travar relações com os 
nossos visinhos mais próximos naimmensidade do es- 
paço celeste ? O génio do homem ha feito tantas des- 
cobertas imprevistas, tem ousado tanto, e tem tant;is 
vezes triumphado pela audácia, que uma viagem de 
sessenta e duas mil e quarenta e seis léguas, não é cousa 
<|ue o aterre. Vencer esta distancia equivale a andar 
dez vezes ároda do mundo, e muitos na\egantes teem 
andado mais na sua vida. Examinemos comtudo as 
probabilidades a favor ou contra esta \iagem. e em- 
Inira destruamos alguns sonhos lisonjeiros ou incor- 
ramos na accusação de coarctar o pixler do homem, 
niostremos-lhc que esse poder, sem limites no cam- 
po da intelligencia, embaça nos obstáculos materiacs. 
o não alcança altea-lo da estreita habitação <|ue lhe 
foi marcada. 1'oude sim o homem, á força de enge- 
nho e tempo, supputar a distancia das cslrellas fixas, 
<• calcular a reapparição dos cometiis ■, mas é-lhe ve- 
ilado sair do pequeno planeta que o transporta {>elo 
('.•(paço. Imagine-se um acrostato cortando os ares com 
vento favorável que o impellisse sempre para a lua, 
<!om a velix."idade de vinte e três palmos por segun- 
do ; gastaria na viagem dois annos e cento e cin- 
coenta e seis dias. E se preferis a vcUx?idade do va- 
|X>r, lançae mão d'um hK-omotor que ande det léguas 
por hora e caminhe sem parar, chegareis lá cm du- 
'^cntos e sessenta e seis dias. 



Dirão que o tempo nada faz ao caso. Sou d'essa opi- 
nião; não se podiam dar por mais bem empregados 
dois annos devida do que n 'esta ida e volta; mas en- 
xergo outros estorvos muito mais assustadores. Sup- 
ponho que a machina de vapor está prompta, que é 
bem segura, que viajou pelo ar desde Paris ate ¥e- 
kim ; tudo está prestes para a viagem lunar ; é 
partir. Mas em direitura aonde? — Boa pergunta! 
me direis vós : — Em direitura á lua. que brilha no 
firmamento. — Sem duvida; mas a lua jvra á roda 
da terra, e o aeronauta, seguindo sempre a direcção 
primitiva, jamais a encontrará. Aocresce a isto que 
também a terra gyra á roda do sol com uma veloci- 
dade de quatrocentas e vinte e seis léguas, levando 
apoz si a lua, e que em quanto a terra acaba em um 
anno a sua revolução em torno do sol, g^ra alua do- 
ze vezes á roda da terra. A estrada por onde ella cor- 
re, desenhada n'uma carta, assemelha-se a um cordel 
enroscado em doze ou treze voltas, e forma uma cur- 
va muito complicada, \odecurso de muitos milhares 
d'annos, talvez nunca se encontre a lua no logar que 
occupava no espaço no momento da partida do aero- 
nauta. 

Mas ainda aqui não está tudo ; ninguém pôde ir 
á lua sem csquivar-se á acção da gravidade exerci- 
da pelo globo terrestre, o qual, desde que existe, 
nunca deixou cair para fora do seu dominio a menor 
parcella de matéria ponderosa. Em virtude doesta 
acção é que os aerostatos se levantam da face da ter- 
ra, sem que possam todavia tocar as raias da nossa 
atmosphcra, quanto mais transcende-las. Dêmos por 
vencida mais esta difficuldade ; admittamos que. pe- 
lo acaso mais estupendo, o aeronauta, em vez de se 
perder n.i immensidade, chega á esphera d*attracção 
da lua. Desde que lá entrar, a força d'attracção tan- 
to mais poderosa quanto elle mais se approxim.ir do 
astro, com a velocidade da queda o fará em mil pe- 
daços na superfície da lua. 

De propósito não particularisamos as impossibili- 
dades piívsicas da nossa organisação. Todos as conhe- 
cem, todos ascit.im; são incontestáveis. O limite da 
atmosphera não pode passar de sete Icíguas. e já na 
altura de pouco mais d'uma légua é o ar tão rarefei- 
to que chega quasi a não se poder respirar. Suppo- 
nhamos igualmente que este obstáculo se remove, e 
que o viajante leva comsigo uma provisão de ar para 
dois annos, como os que descem ao mar debaixo de 
certos sinos merçulhaaores levam para alguns minu- 
tos ; figuremo-lo chegado felizmente ao termo da sua 
viagem, poderá elle viver na superficie da lua f Não 
é de presumir, porque tudo prova que este astro não 
tem atmosphera, e não pôde por conseguinte ter agua ; 
segue-se d"aqui que a nenhum ente, cuja organisação 
plysica for semelhante á dos animaes terrestres, c da- 
do viver na superficie da lua. 



Fabrico dos espsluos. 



Mk. Tourasse achou o meio de livrar os fabricantís 

d"espclhos das emanações mcrcuriacs, sul>stituindo a 
amalgama de estanho, vulgarmente chamada aço de 
esf)clho, por uma solução de nitrato de prata, a que 
junctaahiHil, carbonato d'ammonia, ammonia. eoleo 
essencial de cássia. Derrama o litguido assim prepa- 
rado sobre o vidri», accrcsccntando-lhe. no momento 
da op»>ração, óleo essencial de cravo da índia. Passa- 
das duas hor.is a com]Kisição cribre o vidrvi d'uma ca- 
mada do prata amais pura. Comeste aperfeiç-oamcn- 
to, que por ora gosa de um privilegio, nào saem o» 
espelhos por maior preço. 



o PANORAMA. 



57 




PAÇO DE VII.I.A-VIÇaSA. 



/iLl-A-V iroHA, (lislMiitc iJo Iji^liD.i vinti! c oilo léguas, 
.'Iil\;is quatro [lara o poiMilc, i; cIMOvora oito para 

ri a ICC II ti', foi calicça de comarca e ouvidoria, i|m-, 
?;;uiidii a fçcu^rapliia de I{cc;o, coiiiprclicndia doup 
illas com (jiiar.Mila t* sele IVcguczias, dez mil foi;os, 

trinta p duas mil aliiias(l): «fra defensável por •(i'ii> 
luros antigos, e por um peipieno castello. licamli) o 
rosso da povoai^ão para aparte do poente : a priíiiei- 
a forliriraciío rejrolar foi olira di' D. Diniz, nu,'iiicii- 

ada depois pi'lii inclil Jiidestavcd Nuno Alvares 

Vreira. 

Poucos nomes liaverá tilo adei|uailoa aos lo;;ares, co- 
ió o d esta villa ,• por ipiaiilo vii;oso, a[>rasivel, fer- 
il, saudável, fresco de aijuas e arvoredos é todo o 
alie cm (pie tiMii assento. K geralmente liem edifi- 
ada, com al;;iiiis edilícios iiolires, illustrando-a os 
iiços mui amplos ouile tiveram sua côrti" sumptuosa 
s sereníssimos iloipii'S de ltra'.;ani;a, já príncipes so- 
eraniis «nies df!cio;;irem a coríVi de l'ortU'.,Ml. ("oii 
ulti- se n este respeito o artijço de arclieolo;;ia portii- 
juoia u pn<r. ,1:t8 do vid. do Panorama di! IStl. — 
pamos o desenho d» froiitaria do palaiio, tal ipial 
|»tava antes das modernas reparações. Adjacenli' lhe 
[CU H celehre tapada, com tre» h-^iias de circuito, oii- 
e é tanta n caça iniiida, e a de veados e (oitriis ani- 
laes monteies, ipie (na expressrio do historiador da 
?a«a Uragantina), aimla sendo o sitio fértil por na- 
Jire/.a, ns siislenta por marivilhii. 

(1) No niiip|i,i lia |jo|]ulai.;iio lio reino cm 1I1'J0, foiíiiailo 

jiclo Sr. Kraimiii coiilia-sc a c(Uiiarca de VlIU-Vivosa 

tom !)0 frexuczias, ÍIIOO Iokos, « .IIIH» .ilmas. 
VoL. 1.— (Jiniiiiio 'ii, 1H4G. 



A insif;ne collecjiada e real capell.i de Nossa Se- 
nhora da Conceição i; tida pela mais antiga d'IIes. 
panlia com esta invocação. O Sr. I). João I^ , em 
<drti's dos trcs estados no aiino ile l()í'2. tiunoiíe ju- 
rou a Senhora soU aqnelle tit iilo por l*adroeira do rei- 
no, o \\\'o fei Irilmtario em ciucoenia cruzados ileou- 
ro cada aiino, .ipplicados para a dicla ij^rcja de \ il- 
la-\ içosa. — t) Sr. 1). João VI, por decreto de tí de 
feiereiro de 1S18, instituiu a ordem de Nossa Se- 
nhora da Conciução di; \ illa- Viçosa, com i;rão cruz.es 
clleotivos, que são todas as pessoas rcaes ile ume ou- 
tro sexo, doze gr.ãi) crnues honorários, qiiareiíta coili- 
iiiendadores, o cem cavalleiros : foram d.ulos os esta- 
liilos peloidvará de 10 ileselemliro de ISID. ( ) Dcãu 
da capella era sempre hispo 

Na irrupção dos arahcs padeceu esta povoação, qiio 
é de aiiliqiiissima data, o c.iptiveiro !;eral da Hespa- 
iiha, até que l<ii ciunpiistaila |ior elrei 1). .'MTonsoIl 
pelos aiino^ de l'JI7. < "oiii .is continuas ■;uerras pos- 
teriores chegou a total mina;, poriam O. .\lVonsolll" 
a reedificou logo, i-oiicedcndo-lhe foral com mnitiw 
privih-gios. I'',iii 1 no foi erecta em niari)ue/.ido por 
elrii I). Allcuiso V a f.ivor dei). Kernando, filho se- 
giiiido do iiui[iie lie Itriigauça. 'I\'ve a gloria de sep 
o lierço do senhor rei 1). JoãoIV, n restiuirador, quo 
era o oitavo na serie dos diiqiiesd.t mesma real casa. 

I'',m Kiti,') II mari|uez de Caracena, que veio snhs- 
titnir 1) •loão iTAustria no mando do evenito cas- 
li lhano contra aprovincia do Alcmlejo, intentou por 
primeira oper.ição tomar Villa \ içosa, eru entãoo 
nosso gaiicrul o inarquer. de Marialva, que acudiu 



58 



O PAISORA31A 



com todas at preven<;õe9 de que era capai a fortifica- 
ção da terra, achando-ae lyue só ocadcito ednva suf 
ficieiíle paia ilifendcr-sc, como escreve o uoiuie da Eri- 
ceira, e luu tUhil THíplaculo que não ic podia cmisi- 
firrar, ijuc a dtfema permanecesse niuiíos íii<is. A 9 
de junlu) a vanguarda iiiiiuiga eslava em Bwrba, que 
fica a meia le;;ua de distancia. O governador Chris- 
tovam de Brito, e os mestres de c;.inpo Manuel Lo- 
bato e Francisco de Moraes, guarneceram os postos, 
que entenileram dever guardar, entre elles os que 
pareceram necessários na VilU-Vellia para dilatari-m 
o mais tempo possível o provimento da agua ', e as- 
sim repelliram a primeira investida feita atrevida- 
mente por a()uella força da vanguarda, que no acco- 
iiieltimeiíto perdeu trezentos homenii. Omarquez de 
Caracena alojou-se no paço; porem a artillieria do 
oastello o ol)rigou a despejar: no dia seguinte man- 
dou assaltar (.elo lado da porta da Senhora dos He 
médios, mas foi rebatido; em seguida tracfnu do si- 
tio formal da praça, jogando do outeiro da forca a 
primeira bateria. Em 11 de junho começaram os 
aproches ou trincheiras, e as levaram tão perto do 
convento da Esperança e da camará, que chegariam 
com os três ramaes á estrada coberta, se o talor dos 
sitiados IWo não embaraçara : a 13 e 14 adianlaram- 
se muito ostrabalhos; eámeia noite ordenou o mar- 
quei um furioso assalto á estrada coberta ; treí veres 
foi repetido; era nin exercito conlr.i um ponto mal 
fortilicado, e defendido por diminuta guarnição , e 
frcs ve/es foram rechaçados osexpugnadores com per- 
da considerável. O governaiior e os dois mestres de 
campo, assignajaiido se no conflicto, receberam feri- 
das, e não se retiraram até o fwn da contenda ; po- 
rem, sendo mais graves as do primeiro e de Manuel 
liobato, recollieram-se ao castello, e ficou Francisco 
de Moraes assistindo á estrada coberta. A lo de ju- 
nho mandou o marquei de Caracena accommetter 
novamente, e depois de porfiosa luct.i por muitas ho- 
ras em dciis tremendos assaltos, ficaram os inimigos 
de pos-e de dois alujamentos n'um angulo da estrada 
■ oberta, e os sitiados n"uma corlaciura que haviam 
fdbricadi. 

Inteiraiio d'este apuro o marcjuei de Marialva re- 
solveu soccorrer Villa-Viçosa a todo o risco com to- 
das as tropas do keu cominando, porque, apesar do 
não ser praça de grande importância, se o inimigo 
a occopasse, estando situada a duas léguas do Estre- 
moz, ficaria dVsta sorte arbitro das estradas d'Elvas 
eCampo-Maior, eaehi;ria com modos alojamentos nas 
\illas próximas, logares dos mais abundantes da pro- 
víncia , n'este presupposto tez marchar o nosso exer- 
cito; e o marquez de Caracena, resolvendo desbara- 
ta-lo na marcha, levantou do sitio da villa, deixan- 
do nos entrincheiramentos um corpo de mil e oito- 
«;enlos inf.intes. O resultado do encontro foi a celebre 
batalha de Mentes Claros, uma das mais notáveis que 
ganhámos na guerra pela independeneia. 

íío entanto os 'itiados não ficaram ociosoi ; faten- 
do uma sortiria todos os que se achavam capazes de 
pegar em armas, apesar de pertiníz resistência to- 
maram as trincheiras com morte da maior parle dos 
que as occiípavam, assenhorearam si- da artilheria 
grossa, e coroaram lom esta acção todas as que valo- 
rosameute tiuliuin practicado na defesa da praça. 



O PoiiTiricz Vio I\. 

(Continuado de pag. 49). 



EsTB homem, para quem as esperanças do mundo 
christão «orriem todas, e só com o seu nome docnina 



a Ttalla, nasceu na Siiiigaglia, perto d'Ancor.a, e t 
da antiga casa doscondes de MastaiFerreli. Foi pe- 
lo ofCcio da guerra que principiou a carreira, q';< 
havia de completar a máxima honra do pontificad' 
No tempi) de Pio VII serviu como guarda nobre, e 
distinguido pela estimação do Papa, despindo a cou- 
raça, trocou um dia a alegre turbulência das armas 
pela austeridade do estado sacerdotal. 

De certo eslava bem longe de suppôr, quando fa- 
zia o sacrifício de todas as illusões mundanas, que a 
humildade daquella roupeta se mudaria brevemente 
na purpura, e que a fronte se ergueria coroada de 
tiara de (jregorio Vil. Q.uem sabei A vida de sol- 
I dado, pouco apertada de escrúpulos, livre como océu 
I que é o tecto dos arraiaes, e desafogada de preconcei- 
I tos monásticos, preparou talvez afortuna deMastai- 
j Ferreti, desenvolvendo qualidades latentes, que ou- 
tra educação p<jde ser que annulasse. A oli-ervação 
j continua, e a vista penetrante de um caracter con- 
cenlrailo, como o seu, descendo ás entranhas dos er- 
ros é de crer que de golpe abraçassem as causas e i 
cura dVlles. No silencioso estudo do homem reflexi- 
vo, ao pas«u que os vicios lhe appareciam descarna- 
dos, a razão apontava o remédio, eopen-amento er.>- 
vava indelével o principio das reformas. \ escnlha 
do conclave, e o voto unanime com que a Itália a 
confirmou, .ifliançam bem que nem taes ideias eram 
um segredo, nem o propósito de as realisar deixa. : 
de ser uma resulução inabalável. 

.Mas qual loi o motivo porque, mudando devo 
ção, .Maslai-Ferreli encostou a espada juncto d.i ■- 
pada de seus avós, e sepultou nobreza, esperanças. • 
os mais doces enganos d'uin curaçã<i tenro, iiatrist-- 
severidade da vida cleri-al.' Que olistaculo ignora ! 
se lhe ergueu diante, ou que ferida lhe cortaram i 
alma, para «He, desesperando do mundo, ir ra»-af 
os joelhos nos espinhos d.i penitenci.i .' Q.uasi sempre 
é pelo desalento que se fecham para qualquer atpjir 
tas do secult» — como f(»i este acolher se ao ptjrto ;,-. 
tes desentir sobre a cabeça aamargosa onda das I • 
mentas do mundo.' Foi toque doceu, ou fi>i dOrd".j 
fccio illudido.' Esse mvslerio, se oéf dorme ci>m <1 
le, sumido no seio do coração. 

Logo nos exercícios escholares ecclesiaslicos revelou 
talentos elevados eprefundos; c mal os acabava quan- 
do já era enviado ao Chili para missionar. A rapa- 
cidade e o zelo apostólico, que demonstrou entre pe- 
rigos e difticuldades graves, confirmaram o concei! 
que geraram as suas virtudes, e justificou sempr- ^ 
sua psphera superior. Os acontecimentos políticos d"a- 
quclla terra, al>reviando-lhe a missão, restítuíram- 
no a Koma, aonde, cm recompensa dos pideciínent'.- 
eserviços, ^io^II orevestiu da purpura decardeal 
Foi rápida, porem não excitou ciúmes, a cxalt . 
ção de Mastai-Ferreti. Certos homens, depressa q... 
sedislinguani, nunca espanta a sua grandeza. Aoons- 
; ciência publica, concorde em que lhes pertence u:n 
I logar eminente, acompanhaos com louvores até «i- 
liirem o ultimo degrau. O que o maior numero al- 
canç.i por empenhos, obtém esses raros p. la m;tis ri- 
gorosa jiisliç.^. O novo cardeal, duladi" de "jenernM • 
sentimentos e de engenho cultivado, ja provara r ■ 
ta>el aptidão; pouco tardou que, preenchendo fn: 
ções não menos espinhosa», deinonslrasve sersuaei. - 
tural a estrada que leva as primeiras dignidades. 

li bispado dlniola, cm que o apresentou o papa. 
depois de servir ni> de Spoleto, foi o ihcatro aonde J 
larga e pr>>l'icuamenle poderam .if^parecer «s grande»! 
qualidades, que o ilbistravam. Foi .ihi que ocara..'terl 
frio e prudente, .i lirmeta de vontade, e a reclidã 
djs decisões lhe grangcaram onome, que o tornou lã"! 
querido da Itália. .\ administraçãu descuidada d<i^ 



o PANORAMA. 



59 



1 „ ,;nhA (leixdo lavrar abusos Mastai-Ferreli estremeceu, e inclinando a cabeça 

Li,po, se., antecessor- fnb. d K^ ^^ ^^^^ ^,.^.,,,^^,,^ MIulade. m.u 

euc.os q>-^ •"- 7i j TLle desde í,o Deus, e e„, <jue ,no,nento ! . Só .s.as pa b.vra. retra. 
, [L "s 1 n<õe. de M.,stai.Ferreti ■, fam um grande homen.. Aquelle que, da n.:uor al- 
contaram com as •>»" "^J'^ ^ ^1,^ ,„ra da grandeza humana, senão cega com oesplen- 

„,a. o, mezes ^^f -" ; ;.;„^',;. ",^.,,„.,,„,.,; pa.i- dor da tiara, o sente vergar „s hombros deba.xo da 
naodava ^'S"--''= -l-- '' ^^;' '';.; ^^„^, ,i,,. O, impa- peso da, funeções que Voe incumbem, deu a n.a.or 
v„ dos male» que su^puavam ^ ^ ., ^V^ ^ P^^^^^ ^^ ^ _^ ^^^,^_^ ^ i,„portancia da 'ua missão e 

• ^»„t rpvn'viam-«e; ot ^ensaio? tu..... j , - ,_„.„„, ,1^ (ornada a que se vai melter, verda- 

r o -iíXes íevan.avam a-i-^-^Xt oiro' ,p^olo Írguendo ^ cru. de Christo no me.a 
«Jo» « ".. - , _ .. ,,„ ,„„„„tP o simulado rep»u j jjj, j^, ^o scepticismo, e da confusão do se- 

,.;.1„. NVs.e dia a igreja I'"'"!--';'"-.^'»""^ ^J^^ 
como arca da lat.,ra allianra. - Das rumas do mun- 
do velho, do mesmo modo que na era dos césares, 
sairi oe.iilioio da civilisaí,no moderna ; —guiada pe- 
,, .„,,i,.i,o do evangelho ha de encontrar a colu.nna 



..rd^:í^:-e;^n.^o;mu,ado...^ 

so. fugiu a inacção, e o_ novo ';^"'_F^,;;,;'\..„i,„,„., Ja 



so. fugiu a maci-au, - ^ ■■■ ,,„„plelo da 

v.-P-n>r^^'l-^;;^t:' :-X-•-•-'^"S- 
r,.organlsa.;ao des-jada S ■ - , H„„„.„a, e a 

binete, levou •-> /^ j' ^^, i^^^e „,,duras queas podiam 
„.^r.ar aye^^ '^...icamente .. M-u systema, j -'j;;;-'-;;;:: í,;;;-;,;^,„o deserto, em que a.rans- 
'' Z se sem s orv"^^., abençoado pelo ^"o «.pe- M qu^^ 1 ,^I,;_.„^.,, ,„„^,,, „ „deres huma- 
Tvo e O auX, objecto da mais Mva ""';><;"'' v' I ". , ;.i''ados por terem perdido a fe e esquecido a 
: ccer a -. diJcJ nos bra,os da pa. e do conten- -J^^^,;.^, /..<,edade ^,ova tornou o"tra vez . 
1 „, I 1 ._......,... n..,., nHo terrível, ameaçador ecoroa 



; rs;,bias e maduras queas podiam 

rom-ertar as reformas sal.iase ma i 

icatrisar. Estudado practicamente 

ex 
po 

♦^■ír;;--t.nb.aoseu..c,er^ 

..orno .lissemos, o arcebispado d S^ ^ ^^^^ ,^^^ 
romanos, accendeu o laU.o "■' _^ j ___^ ^^_^_,,, 



adorar o seu D.us, não terrível, ameaçador e coroa- 
do de raio, como no Sinai, mas brando ^ "'h-'^"' '" 
do piedade «esperança, como ajoelhou "" l'"^'" ,^ f";. 
deceu no Calvário. l>o,sa o sangue de tantos n^ t> 
res, descendo s.obrea cab-ga dos netos de nossos f.llus- 
d-.r lhe, a felicidade porque lanio suspiramos, eque 
: iVnu sempn.. fms.rando o preeo delagnmas por 



— u [\a vernaue, ..."■- '■•■• . , 

licia importante. E os papeis aonde '•."'••'«" 
Lulii-losaqui, respendeuocommissario „ 

.,K„tão espero que m'os entregueis -." 
.Ma, devo remei te-lo. par. !tom 



solemne |uiu,o..!-= que se pu-...- -^ „„trp id- 

diversas .essoa, tinhan. ji ^'t'- "7""" i. F^rre 
las o famoso ma.hema.ico Orioh, <>,-'"';'/;^7;'j'^ 
innão do cardeal, e outros mais, poren. -"= ;''^'° '^'' 



_.. Ma, devo reme.te-lo. para '^<""»; ; ; " _^^^ „ eonciliaçHo nr.opoude verifuar-se tao J'M'---;^ P ' 
_.. Dai n,\.s. Fu é que se, o que se deve la/,e . , J .„„ „,e nu.veram, e pela clássica 

O o n nissario não insistiu, e entregou-U. os p - , o ^ - u ^^^^^J^^^.^ ^„„^,.,,,. Kntre tanto ., l'.u.- 

«uadido de que o arcebispo os ia enviar —■"■■'"-, ^|'i,.^ ,dei,o, ''i^'-^— .'"^'^';,P;;;;:; ^ 

-rZ ;;;;:":;... n.i na reaUdade grande quamb, medidas «upp^miu .,s^ c.nrn.^^ 

. íu'|:v:n,ar-s,:, qu-brar o l^";;;;;, 3;;: ^^'''^^ r'd:^:uLncia puMiJ eu> cada semam. para .m- 



„ viu levantar.se, quM,rar o lacr.., edcq,>u^ J^^ 

-e..^.-^M '"-'lí:,:,;;;':;;:!^;:;;^:: 

p^lj^s!. a estas tamil l lag, ima, c a magna de 

*"i,^;;:';:.i,; fae„. ,.i premiad ou,, -.•;;';-„;^- 

j,„rio .\VI soub,. d.slin.M,,.- o ,„.-l:,do que entendia, 
M meio da, eo,ninov>es pobtoas, qu 
governo do, pov.., se dirl-e pelo amor 
'"'r"n:;an.e prae, iea d,, vn I odes religios.s, e o 

dei o ;. eharidlh. para cou, as classe, ."''■--- 
naram-nopopular.n. Imola. <)s-l..O|neer.,o^^ 

rndo como svuibolo d'esperança e salvaço. Sup.mr 
nu u u da,^.rincipae, ravõ„H da sua ele.çao fosso o 

r. nar.iculareonhi.ei ,o da Uomagna, e a cer 

a d , -a inlluencia moral sol,r.. a^u-H- "'..ao aon- 



ne o verdadeir 
(• se funda na 



.ii<>(ltil\s c*uporioiui »'3 *-" . , 

r ,s nueiuliavam nas provindas •, estabeleceu um 
d 'd'auLncia publica eu> cada semana para -- 
,;, „ ,.,dos-annunciou e -'-í-'." P"';^'' ,^7 
e,„Korrencia para empreras de caminho, de r 
n,.oois .l'estas não se demoraram as outras mais ur 
„ente», que demandava o estado temporal. 

' ,) rontiíice começou as '•■f"^'""V"",''7"'No diã 
,„„nias na sua casa e na, despega, doestado ISodia 
odejulhosaiudoUuirinal, ? --P-'-;' ^^ ; 
gons prelado, dirigiu-se á igv.-,a <'- ^"l^^^;? '^^ ^ 
(Mcmente \lV<u,e não havia eKemph. de se v.r um 
I , : :minhan.lo a pe. (iuando regressou, rom e- 
Ln, grandes acclamaçòes de p,.vo, '-•';-••,;: 

,;ão d .guinte s.òe, : - ( ouu, se e ■ Ir 

.,„ pnqeeto d'amnis.ia por cousas H""'"; /'^ 
,„J, j hão .le reend...lçar os credores doestado, h. 

,.„viria dar baixa ás. ,■opa,^es.r,u.ge,rrs-^P 



'ir: i:;nuen;.i;i mora. sobre - dl:^ "'f 'i;':- Ti^' d oUbli .^la bd d'. Mi-, <.- •"•-'•;- 

'l a elb.rvescencia poH.ba se não podia -'; -' „ M ^^ : .., ...dencead:,, politi.o,, --i^':-';';' ^ 1^, 

-o pel lluxo de um g nu- pa.ernal, | ^^_.,., ,^ .. ^., ....dos. A r.-^ -T- < ^l;; 

amargou «o cora(;ao do papa, ma, 1. \t 



Itiio p 

demasiado nvenlunir. 

Xeleieão do novo papa desmentiu lodos ..sprogno 

tico,, a' Providencia qni« mostrar e -''; f 'l^'' ^ 

osseu, decretos, e isoudavel, osseus n<. , erio,. N n 

cu, «reuniu sacro eoUegu. '---»-""'."■,;;;;' 

houve eleição ni.ii, breve e menos '■''-"•''''■•*; ^. ,„,,„ de proscriplo, 

do .e leu no escrutínio o voto que o bi.iu i-ontiiiu, l l 



""""•íí""' "" """^ ■ - ' . n.rlido estacionário, 

nara amortecer a opposiçao do parli.l.i . su 

■ „.á vontade da grande po. la. T'V''.|r. d. 

,... ^ an.nis.ia da a Uberdade » •:""*•''•;;,. . 
,..„,.„ individuo,, eresll.ue a pa.v.a um grand. nu 



60 



O PANORAMA. 



o povo, meia hora depois d^affixada a lista dos | como nunca vi nenhuma, deix^-se cairão pede mim 

amnistiados, correu massiço e cerrado ao palácio, fdic-ndo uma bulha que Odrecin um trovão Eh lá ' 

enchendo os ares com as repetidas acclamai,ões de Daniel! me disse ella, tncarando-me muito- como 
" fiva u papa\ /'ira Pio IX\ " Aorchestra, que ás \ vai isso.' — Muito mal por em quanto, lhe respondi 
dez da noute locava na funcjão da igreja da Magda- , eu apar»iilliado por ou\ir esta ave seVa^em Wlar 
lena, toi levada no íropel das multid.je, ale o Uui- j cm bom irlaiidez; quem me dera pilhar-me no meu 

rinal, e manifestou com unia serenata os sentimentos "•-■l ' ''- • ■ — ... 

da cidade. Roma illuminou-se .muitas noites a tio ^ e 
em toda a Itália crescem e amiuaJii-se as rumarias 
a visitar a casa onde nasceu o cardeal .Mastai-Fer- 
reti. 

E' assim que se annuncia o reinado do pontífice. 
.\ igreja encontrou a desejada coliimna e tão necessá- 
ria para suster as contrariedades dos tempos ásperos. 
A barca deS. IVdro, exposta ás luctas de um sécu- 
lo atribulado pela du\ida, e devorado pela interior 
agitação, concedeu Deus o piloto, cujo braço lirme 
fMMfríít^A .. « 1 -. ; . 1 — I 



egendo o leme, nomeio do e>pumar das to^n.entas' o n,eu''auxmo 'irão^Xri'''"^ "^^^ 
desviará do naufraíri,,. ft„.i ,pr/. .. I.„r.„ ,l„ |.; . i. : "° "-"^ '^" «^ esta ilb 



a desviará do naufrágio. Q.uíiI será o logar de J'io 
IX na historia e na civilisação moderna .' Ao tempo 
cabe decidir. Mas a primeira hora descobriu a luz 
de uma intellii;piicia, que promelte resplandecer so- 
bre a igreja, solire os povos, e sobre os reis da terra, 
como resplandeceu nas trevas dos subterrâneos sobre 
os primeiros eliristãos, e sobre o cenáculo dos após- 
tolos, o fogo da fortaleza que, insjiirando os, os levou 
pela mão da esperança aos pés da cruz ás mais re- 
motas e barbaras regiões. 



casal . 1 ergunta-me |«jr que casualidade vim dar no 
meio da noite a esta ilha deserta, e eu conto-lho co- 

cair n'a::ua TouVrr' ^"''" '^'^ •""' "«« «l«i"i 

que nã^rc"ousa " re',er "" 7"" ' '"'"*^' ^'"''- 
mem dia da íestaTx ^^^"^ ''"''•""-har-se um ho- 

boa alma, e l!^ nÍ ÍpXfjs ?"' "'"" '"""-^ 
nhos, quero expor a vid.n^ V" V" ""' ""^"' fi'^'' 

n.inhas costas, re/,lel?:i o ''"V" '"^'^ =*« 

do que eu helu..: C^^^^^^^'^ ^^P^-^ -"- 
centou, encolhendo «« n ?v P^'-"»' accreí- 

. "..u'auxmo t. P ,'"" ^:^^'" «í" peito, seo. 



so-ihe muito que :xt'.r'::::í°'^^"-''°'- 

lucuiiias que eu sou lorna ' Xí^ . • 
P"S dois homens'com espin 'a das' ' o ° ." ""' '■""" 
chumbada para ler o goslo de iV r " '" """^ 

Daniel Q-Holkke of o sonho d'i.m iíbbeukÂo. I Cc" inuma w',^r'''''V'"'''"' '" ""'""" d" "osso vai! 
,., ,,.,,,,.. . do sen dobo. ''"^•^''■'' "■'"»'■■' ^""'o, bem no meio 

JN c.MA aldeia d:i Irlanda vivia antigamente um po- 
bre camponez crédulo e simples, mas pessoa muito ca- 
paz, sem outro defeito mais que uma inclinação for 
tesita aos folguedos da taberna, e uni amor lirme á 
cerveja e ao vviskv, duas bebidas (jue elle confundia 
nos seus desejos quotidianos, e que muitas vezes lhe 

r-.u..l..-U 1 :.: .l„l :):. .1 i ■ . . 



do sen globo. 



Deu 



-Assentar me na lua ! que lembrança • \- IK 

us : como ouer.,i« „... „.^..- """'^■"•S» - > alba -me 



j - -í 1-1 — .K.3 "='■'=' '"e I ueus : como O iieriíis ,... ""i» . >dioa-me 

perturbavani a cabeça já debilitada pela idade. Um sem cair.' «jueeu possa assenUr-me na lua. 

dia voltou d\ima viagem comprida o moço senhor da Ora essa ' I -i I 

terra; grande rumor »ai pela aldeia, grande festa no a esta fouce com as^n- '"'",." "■""'"i'^" i agarr.vle 
castell., I f)l„.,„ n.,„;«l „.-.., r. 11,.. . „ii.. .;_ _..- . I . "^ •■"'" *'=' "'aos ambas, que ella le suste 

— Nada : nada ! 

^« bato com':ima das ;L::rr,:x::p-- 

— lor quem sois! compadecei. vo, f». V i-j 
mim ! I"»uecei-vo5, tende do de 

— Leva de lamurias. Q.uer»« „ 
Wa^;meumii.slanle,esenU::;.':,Vi::.''"^'"^'^- 

oMo.n»,. ...^ |i»ei sobre ogh.bo escorrecadiço, 



■ -> r 5 Q.«..vj^ n;oia iiu a esi 

castello ! O bom Daniel não falha; ellc sim, que tem tara. 
a seu amo tanta amizade, logo vai que deixasse de 
Ih a provar bebendo muitos e bons tragos. Ao anoi- 
tecer cada qual dos convidailos foi se chcando para 
o seu casal. Daniel, que ainda tem que ajustar con- 
tas com iim respeitável frasco de aguardente, licou 
sosiiilio. Levanlou-se a final, disse adeus a este dia 
de felicidade, eencaminluiu sc^ paraovalle, onde sua 
mulher o espera na choupana; ora pelo caminho suc- 
cederam-lhe casos estupendos, que hão de amd.t ser 
repetidos nor muito tempo nos serões da Irlanda. Mas 
deixemos ao bom Daniel contar o conto das suas pe- 
regrinações e agonias. 

" lame por ahi fora, diz elle, com o sentido nas 
bojudas garrafas que o nosso generoso patrão nos ti- 
nha mandado dar, esenlindo soque o tempo passas 



que aperte, entre os dois joelhos "^ ^'■■0"'Ç-»i.So, 
.- firma.a com as nJ:22CZT°'""'r''"^ 
tinha tomado esta horrível „,, "' ^^"'^ 

airuia. olh.nH.. .......' P'"'""' 1"^ a maldicla 



. ^' pusiura 

agula, olhando para minicnm-.-.) 
, _. „„ _.,„. ......j,„ passas I SC — .A .ura adeus , " "'"^ "'^í^esc-.rneo, medis- 
se lao depressa vai senão quando chego á beira d'um Na primavera p-^s^.da r" í ^"""^ Q-Roorke. 
no q.ie tinha de atravessar, e estaco. A n,„f„ „..,.... I 1 . : " P"'"»''-' roubaMe- 



no que tinha de atravessar, e estaco. A noite estava 
hnda, o céu carregado de estrellas. Lembra-me, que 
este dia é um dos dias da festa de Nossa Senhora, 
olho para o céu, benzo-me, e ao mesmo tempo escor- 

rega-me um pé, e vou parar dentro d'.igu,i Ah! 

pobre peccador, disse eu de num para'mim. estas 
perdido. — Ainda assim, faço das fraquezas forças, 
começo a nadar d"uma banda para a outra, e por fim' 
deito a unha á praia d*uina ilhota deserta. Que se- 
rá de mim.' Entro a correr a ilha, espantado da so- 
ledade, tremendo de frio, sem saber onde me agasa- 
lhasse, quando de repente vejo uma sombra muito 
grande, que me tapa a claridade da lua. Duas azas de m,n. „ ) 

d'um tamanho enorme saccud.am o ar, , uma IgX | it;":;;^!:^':;: 



quena v.ngar-me, e estou salif^ir" !?• "'*"' "'"*'"' 
...eu Oanielzinho ;' estas coiut;' T'" ^'''^'^ 
da e sentado a tJu commodo ' ''-"-"""en- 

...^-'u^h:;::^" pr ''"""•''- -í- - -'- 



-a Sra..deia d-alma, a 57; „hre "T ' 'l""*'"'"' " 
medo «'.uvens «chorar ca tremer do 

■ ou : ts tu, n,,p, a>r 



inenoj. 



o PANORAMA. 



61 



liMe elle; porque in.lagre vieste ca fer ? Contei-Ihe , sejo de cornmQi,icar-,e com elles Ibe inspirara 3 ideia 
oda> a» UM>,ha, dev^ra^a» desde o infante em que i do telegrapho de talniii.bas fal comoexinte hoje. Oa- 
le escorregou o peno no. Ouviu-me calado, epare- \ tro» biograpl.os as.everani que foi em 1791 que elie 
.a apieda lo de mim o meu conto. Ai '. quanto me j o imaginou para ,e corresponder com amigos, e qu« 
iiganava . ,, , I '■aíndo bem das primeiras teulativas tractou de aper- 
— liom, bom, dis.eme elle quando eu acabei; é | feijoar o seu descobrimenlo •, e que quando obteve de- 
ma astima que te Casses n uma aguia vingativa ;, terminadamente o resultado, estando a lin-ua-cm da 
iiinda teiií que viajar, porque não podes ficar aqui. j signaes e o in. ir, .«.»..»" ♦- 1-»— -..?_. f j;. 



— Tomara cu ir-me embora:, mas como.' 

Com isso nada tenho; o que quero, o que exijo 
que te vá». 

— Estais gracejando. E para me apurar a pacien- 
a quefullais em dt-spedir-me. Se tendes algum sen- 
menlo de humanidade dar-me-heis agasalho na vos- 

vivenda, e em eu tendo occasião vou-me, á lé de 
laiider. ! 

— Nada, nada, nHo estamos para te dar agasalho 
r um dia, nem por uma hora. Na gente da lua não 

l! mossa o teu palavreado. Has de partir, e já. 

— Sim ! pois não vou .' bradei eu no tom de deses- 
|ra(,ão. 

— Al, ! tu re-.pingas! diz o feroz cidadão da lua, 
I içando inir uns olhos de fogo; veremos. 

Dizendo islo retirou se, e com um machado que foi 
Iscar deu uma pancada tão forte na fouce que me 
S tentava, que me b.ildeei com a cabeja para baixo. 

— DVsta feila, disse eu comigo, lá me leva a bro- 
\'lcus, (.asai da minha alma, minha boa Judllh, 

■ 1^ queridos filbos. 

ido afazer o acto de coiitriíjão, ás revira-voltas 

■ sp.K^o, caio no meio d'um bando de patas bra- 

\ cabeíjMda colnmiia conhecia-iiie, porque vinha 

's viTÕes fazer o ninho nos arredores (bi minha 

Oh! és tu, Dan.' gritou ella ; que exlrava- 

' l'inbraii<,'a foi essa de viajares assiiii ? — Coii- 

'11" Indo, e ella teve dó demim.— (Jlha ca, me 

I 'lia, pendurate iruma dasmiiilias pern.is, que 

'" 'Iwi. Obedeci, agarrcinie auina ilas suas per- 

' ' Ml as m.Tos ambas, e a p.ita charitativa levou- 

' ' 'oio um bezouro pendurado na ponta ti'iimcor- 

'i'- iiionlanha em inontanlia, ile várzea ein var- 

• '' a beirainar. — Aonde vamos nós? lhe di^se 
III terror; eujá não dislingiio a minha bella Ir- 
' ' Estou flor isso, respondeu a pata, se nós 
" ' p-ira a Arabi.i. E foi seguindo viagem. 

iw.i iiMiito tempo (jiie andávamos por cima do 

■'<"•, quando de repente, oh felicidade! enxergo 

iiibarcaeão, arrasada em panno, que me pare- 

•gar p.ira a minha quirida terra Deixa- 

I- Hl flobn.' esle navio, dissi; eu á pata niiscíricor- 
" íioueo, me respondeu ella, não vês que te 

r .IS a morrer afogado ! — Não, rogo te que me 
Bilenhas ! Dizendoestas palavras larguei Iheaper- 
. '■■'! no meio das ondas, (iuamlo ia aerguer-me 
ledi, e a estender os bra(;os para me salvar a na- 
, e,,rdo, eou<,o uma voz a berrar : — (luetii nuii- 
H..IS de emendar, bêbado sem vergonha! Antes 

• estirares nu chão como um bruto escolhesses ao 
■fi um silio mais limpo. — Era miiih.i mulher u 
fcr comigo com esta delicadeza, e a despejar- me 
flrpo um balde d\.gua para me lavar da lama em 
• mha chafurdado. 



dos 



I ser segundo a »ua concepcjão, dirigiu-se á assembit'a 
j legislativa, no seguinte anno, enviando-lhe a machi- 
I na, qne denominou Megrapho, de duas palavras .-re- 
gas que dizem escreuer, /unye. O que então se passou 
relataremos no devido logar. Chappe morreu em 180S. 
Em razão da originalidade aqui estampamos o seu 
monumento sepulchral, erecto 'no cen.iterio do padre 
la Chaise, e coroado pelo símbolo da sua inveiifão. 




IIlSTOniA no» TICLK0IIA1'|10«. 

>l« riiappe, inventor do» lelegraphos, nasceu 

00. De idade de 20 a s já (inlia publicado 

■Ui memoria, „d,re a pbysiea, qne lhe fran.niea- 
enlrada na soeieda.le phllo.nalica em I7'.I2 
«equ.'e«ludand..noseminariod'Angers, eseu» 
I II um collegio situado acerta distancia, o de- 



Divulgado « descobrimento de Chappe. cftou-se um 
sem numero de ancloridades para lhe disputarem .1 
honra do invento, e pnblicou-se uma multidão de (o- 
ll.etos, pela maior parte em alhunão, ,,ne serviram 
"nicam.nle para provar a niili.ladr .• a novidade do 
melbodo qne elle achara. l'or certo .pie a idéa de 
communicar noticias a grandes distancias era conhe- 
cida <■ practuada muito ante» de Chappe; comtudo, 
compete lhe a construc.;ão de uir. instrumenio com- 
inodo .pie serv.- para transmillir sulViciente numero 
. .! signaen, e o u>o .r,.st es é tão simpl.^s qne, auxilia- 
<los pela arithmelica binaria, pod-iii passar Iodas as 
novav, to.las as palavra» e phrasesque se qui/er. I)e- 
Ip.iis .le Chapp,. não cessou de ser empr.-gado o tele- 
grapho e aperfenoado-, mas ante, «rdle os ensaio, 
haviam sido mfrueluos..,. T.i.bivia .: conveniente hi,- 
tori.ir esta, tentativas, e examinar a serie do pro- 
gresso,, m.'.li«nte o, .,u«e, „ h..mem a fmal r.-ali,ou 
um .le^c.brim.nto tã.. imporlanl,-, .,uer em laião do, 
r.'Sulla.lo, ja c.msegui.l,,,, ,,,„.r ,r,„|,„.|l,., ,|,„, „i„j^ 
<• licito .■sp.rar. Ao .|i.m|„ ,.„„eluir.Mn..s ccmi o mo- 
derníssimo achado <I,>H t.d.'grapho, .lertrico,. 

(ir.isseira, cmo t.,da, .iii mmi principi,., a artete- 
legruphlcu melhoiou se pra.lualmenlc. Tr.', periodo. 



62 



O PAIVORA.MA. 



se podem assi^nalar na stm Iiistoria ; o primeiro, quan- 
do SC empregavam sii;iiaes antecipadamente ajusta- 
dos, cnja apparirão annuiiciiiva uni acontecinienio 
previsli., mas (jiif era nece.sario fixara no secundo 
perjotio usaram-so signaes alpiíahelicos :, e no tercei- 
ro, por fim, os aignaes não representam leiras, po- 
,A~ r«c ^..„ ,.„^ „.„„„^,„„ ,)., ;,rithmetica bi- 



naria, como dissemos, em pequena quantidade, pres- 
tam-se a todas as comltinarões da linguagem. 

Km tempos mui remotos os signaes eram brados, 
lume, ou fumoi é na Ásia que se acham os mais an- 
tigos vestigios doeste» : com eITeilo c fácil de perce- 
ber que, nas vastas regiõas d'esla parte do mundo, o 
homem, tão desejoso de commnnicarão com os seus 
similiiantes, procurasse meio de abreviar as distan- 
cias, e imaginasse esía casta de escripta, para assim 
dizer, aérea. Oscliinas serv<'ni-s(! lia muitodesignaes 
telegrapliicns. Tamerlão fazia uso de alguns nas suas 
gnerrHs ; quando assaltava qualquer pra(;a mandava 
ariorar uma bandeira branca, que annunciava a sua 
chegada e queria dizer: Jtcnjcix^os \ 'íaintrlão será 
elerncnic \ se não lhe obedeciam, içava bandeira verme- 
lha, que significava, que o f/oLcriiíjfZor seria moilo; e 
nas ultimas a bandeira preta declarava aos infeliies 
haViilaiites que tudo seria àcslrríijo. Em epocha ain- 
da mais antiga os monarch.is da 1'ersia, segundo Dio- 
doro (liv. 19.") tinhain estabelecido por todo ii im- 
pério linhas da sentinellas que traniiiiittiam uns aos 
outros, por meio da voz, as novidades ou as ordens 
do príncipe. Na expedição dos persas á Grécia collo- 
COU-se uma linha similhante desde .\fhenas até Su- 
sa, e as noticias chegavam á residência do poderoso 
iiionarcha dentro de quarenta e oito horas (vejam se 
Heródoto e Cornelio IVcpotel. 

Da Ásia se espalhou pela Europa a arte da com- 
municação por signaes. O primeiro exemplo «.'O caso 
das vellas brancas e pretas de Tlieseu, inrlicios gros- 
seiros e incompletos. Eschvlo, na tragedia de Aga- 
meninon, nos dá esclarecimento'» manifestos de uma 
communicação entre a Ensopa e a Ásia por imia li- 
nha de signaes por fogo. Um vigia, que por espaço 
de dez aniios observava, se a fogueira estava accesa 
sobre o monte Ida, e que repetida em outros muitos 
logare» devia servir de aviso a Clvtemnestra da to- 
mada de Tróia, brada: "Graças aos numes, o sigiial 
feliz rompe n escuriíl.ide. Salve, f^clio da noite, pre- 
cursor de um formoso dia. " ( Ivlenincslra depois an- 
liuncia aochoro avicloria dos gregos; eeslelhe per 
gunta quem lhe dera a noticia, u l''oí ^ olcann (res- 
ponde ella) por seus fogos accesos no monte Ida ; de 
facho em facho a tiamina mensageira voou alcaqui.'- 
Kefere em seguimento que os postos estavam colloca 
dos n'aqiiella montanha, no pr<imoiilorio iPIíerines, 
na ilha de Lemiios, na serr.i d'Alliiis, em Macisfo, 
em Messapc ás margens do Euripo, no monte Cvlhe- 
ron, no» de Egiplaiieta. cm .^rachiie. o finalmente 
em Argos. — Pouco provável é que se fizesse uma si- 
milhante linha de signaes no XIII seeulo aiiles da 
nessa era :, mas é certo, que desde o \' seeulo essa 
communicação ••iilre a Europa e a Asi.i e»tav.i esta- 
lielecida i é t.imbeni provável, que o desejo de haver 
noticias dos movimentos inlliiares ilos persas decidis- 
.se os gregos a servir.se (r.-iqnelles fogiis : Arislopha- 
nc», nosecido seguinte, faliu do facho de licmnos, na 
comedia de Lvsistralo. 



.■\ i v viiiN * i)i; UoMA. 

Detois de ter deveiíio os últimos encontros doCimi- 
no, seguindo a antiga via oassiana. chega-se m llac- 
cano, Ingar mesquinho, edificado n'uma collina ari- 



I 



da: d'alli vê-8e avultar no horúonte á direita umm 
corda immensa, rematada por uma cruz scintillante : 
e'j) zimbório de S. Pedro. Asondulações dosolo por 
cinco léguas de extensão escondem ainda aos olho» a 
cidade eterna; porem a cúpula da cathedral do orbe 
catholico surge do meio da campina, onde parece, 
coUocada como um sijnal de soberania esquecido no 

deserto. — Odeserfo — esfranha-«e esta palavra, ap- 
plicada á Campai/na di Roma, o agro romano, para 
onde convergiam outrora as leis, artes, industrias e 
crenças da Africa eda Ásia para se fundirem n'umi 
grande unidade, e as»im transformadas se espalha- 
rem pelo mundo. Embora, a campina de Koma tem 
todo o aspecto de um vasto deserto. A sua superfície 
comprehende, alem do território ou termo particular 
de Roma fagcr romanus dos antigos), o Laciu, . 
bina e a Maremma ; tem quani vinte léguas de 
prido por nove a dez de largo : o mar Thvrrei. i .. 
costeia pela parte do poente desde Montalto : t s 
cidade de Terracina, onde findam os estado* ri 
nos. Ao norte, la Fiora, ribeiro que separa a 
remma toscana da romana, e as montanhas deC: 
no demarcam a campina : os busques espessos d •■ 
ultimas, que, pelo terror supersticioso que in»; 
vam, susliverain tanto tempo os romanos já sen: 
do Lacio, desappareceram ; pelo menos vêem se a 
nas aljuns restos no declive meridional: nãoobsl 
te a aridez, as encostas macias dVsta cordilheira vi 
canica e os topos ondulosos dão lhe nm aspecto oi 
destituído de altractivo. Mais para alem. no an 
formado pelo norte e levante, descobre se o mon' 
Soracte, hoje Saneio Oreste : levaiila.se completa» 
menie desacompanhado^ como se um abalo o tiverm 
despegado da corda dos montes Sabinos, que corre a 
leste, e o arrojara violentamente ao loiíje para apta» 
nicie; a sua cumieira recortada eas formas abrup 
debuxam se claramente, e por ângulos salientes, 
azul do eeu, ao mesmo tempo que o jog>i da lui 
suas ladeiras amassadas n asseiiielliain a opila de 
fle.xos variáveis. Detraj d'elle, encerrando a cam 
Ilha ao nascente, alteam-se as serranias d« S.ibina 
calcareas como o Soracte, m.sis do rpie clle ^ão d( 
pidas e escarnadas ; piredõcs enormes di- rochas pei 
dentes do» seus declivs, osdcpenhailciros queoss 
cam, os.pinearos agudo», bem separaiios uns dos 
Iros, prestam a essas montanh.is certo caracter 
niage^fade selvagem: lodaxi.i na raiz d'elbis p 
deiii-se eminências vestidas dearvorcrín ■• ciillivíd 
sobre as qnacs estão assentes a fresca Tivoli, Gi' 
e Miinlieelli, que, por seus t»>lhados chntoseedi; 
muito juuclos, cujos alinhamentos rectos se coiilu.i- 
deiii, lie loiíufe dão visos de templos vastos, er< . '>> 
no meio de florestas «agradas. .Ao sul fica o p 
Albano, de formas brand.is que descem foaven- 
p:ir:i a rampiíia ; ora col>ert» de mnllns, ora de • 
gis. cercado com o alvo cinto de ciddde». Fra- 
Mariano, Castello •• .Mbano, c de outras pnvo.-i 
aqiieile iiuuite contrasta sincnlarmente com n i 
reia bravia d. is montanhas Sabinas: com os ah 
mais «:;udoi dos Lepiíios. que a muita distaiici 
reoe que fogem para o reino de Najioles, termi- 
Albano oarco decirculo, que abraça oojro romoiwi. 



e que tem o mar por tangente. 

E portanto a campina de Koma lodo o espaço 
prehenilido dentro d'e>fes limites : o Tibre 
de norílcste aoe-te, descJevendi> uma curva quej 
bra.para o sul. Esle rio desce do .Apennii"> e 
jise á planície pelo valle que separa o Ciniino ' 
inoiíles S.ibinos-, a areia e lodo que acarreta n«f 
curso impetuoso f.izem-lhe as asnas turvas e »mi 
lentas: as-im que deixa a visinhança das montar 
por onde abre passagem airavct de liosqnes e ml 



»>■ 

•dl 



o PANORAMA. 



63 



das 



i veíetação quasi inteiramente desapparece tias suas 
margens:, ora corre »i)lilario entre ribanceiras nuas, 
jra, rebaixando se oterreno, sederraina em iharcos 
pelos campos: próximo á (oz reparle-se em dois bra- 
dos, abi forma a ilba sacra, e vai suniir-se no mar, 
'ujos limites annualmcnie ím recuar com a alluvião 
le seus entulbos. 

A uniformidade do grande deserto, por entre o 
qual se escoa comi) uma cobra amarelbi, so é in- 
terrompida pelos numerosos altil)aixos do terreno; 
Mnteniplando se estas ondulações do solo, poderá 
pensar-se, Cjiie esta campina não é mais <)Ue o an- 
tigo leito de um golpbo, onde o mar retraliindo- 
se deixou em descoberto as eleva^'ões dos sens baii 



do paíi, que não parece cabeça de uma nação, eque 
a sua existência é absorvente (1). {('ondnúa.) 



A TRIlíl; DOS GlAUAVOS NA AmERIC4 

Meriuional. 

(ContJBuado de pag. oi ) 

SENDOa cultura o primeiro recurso dos giiaraN os, poii 
que a caça si) a tomam por passatempo, ajiinctam-!he 
muitas das suas ceremonias religiosas. A sua crença é 
simples como os seus castumes. O Taiitoi igrão pai), 
deus benéfico, aquém reverenceiam sem o temerem, 
:os d^areia, os sulcos <las suas correntes, as profun- [ viveu entre ellcs, ensinou llics a agricnltnra. e pro- 
iidades dos seus abvsmos. Longas fileiras daque- ' metfeulhes protecção, ao despedirse eloallo de uma 
dnctos a partir da falda das serras, atravessam ou- .arvore sagrada lie llòres purpúreas, subindo aoorien- 
sadamente esta superfície terrestre de ondas imn\o- ■ te para o céu. Invocam, este deus na epocba das se- 
veis e vem rematar na cidade parecendo q\iea pren- : nienteiras, ou quando desejam que abundante chuva 
riem aoclião. AiitigamiMile Uoma contava dez aque- i vivifique aterra sullocada com os ardores de um sol 
dueto», alguns dos quaes tinham doze, e deteseis le- j abrazador. Uma singela cabana, de forma octogona, 
íTuas de extensão : hoje só possue três: osoutros sele ' no meio da floresta, é o templo onde imploram Ta- 
em ruínas ainda mostram os seus fragmentos, mas jnui : homens inteiramente nús assentamse á roda, 
as suas fileiras estão quebradas; eaovér tantas «tão ^ tendo cada um na mão um troço de bambu. O mais 
nia"esto»as arcadas poderiam rejiufar »e arcos trium- ancião, com os olhos fitos na terra, bate o compasso 
pliaes de um povo de lieroes. f.ni raros sitios despon- com obambii, eiitoatwlo um hymno que todos oscir- 
ta uma pequi-na matia de pinheiros ou de eypres- conistantes repetem, batendo também o chão com os 
les i e de ordinário marca a [)aragem onde jaz ai- troços decana-, a bulha «Festcs, juncta as vozes varo- 



guma eidaiie de antigas eras, ou alguma sumptuosa 
h;<bitação romana, cujos resíduos estão sotterrailos. 
Alí;uns ccnnli, casaos, sem verdura que oseirciiinde, 
dcsliabitados uma parti! do .inno, inoslrani a iiiler- 



nis, a postura grave dos cantores, me admiraram quan- 
do fui festimiinha desta cereinonía; pediam a natu- 
reza, em estalo figurado emui poético, que se reves- 
tisse do seu mais grandioso adorno, ásflúrcs que de- 
vallos os seus tectos solitários. K depois segiwm-se j sabrochassem, ás aves que se cobrissem da sua mais 
túmulos, restos de templos, de circus, de torres feu- I brilhante plumagem e renovassem os seus alegres caii- 
laes, lie pontes ameiadas, e tudo em minas, desa- lares, ás arvores que se enfeitassem com a verdura 

ouça da primavera, afim de se lhes unirem para at- 



handi), coberto de trepadeir:is que se enroscam ntc o 
topo, eque com os radicnlosiis festões Iluetuanies oc 



o, equi! 
eupam os remates desmoron.idos dos edifii.ios : e não 
lia ruido de homens, movimenlii algum de gente do 
impo, salvo na estacão das sementeiriís ou das co- 

leias : ha iiii- 
com 
<) mV) circular parece evocarem as sombiiis (Faquel- 
les silios devastados; ha manadas de bois de pontas 
desmesuradas, bandos de cavallos bravos que passam 
rapidamenle na planura, búfalo» sumidos entre os 



ip. 
Iheilas, porque não lia higares nem alUeias : 
lhanos e águias, que pairam sobre as ruínas 
) circular parece evocarem 



trahir a atlenção de Tamoi, que nunca invocanajil 
debalde. — Crêem que por sua morto são por inter- 
venção deTainoi arrebatados ao céu, para o lado do 
oriente, do vértice da arvore saiicta ,• eque na outra 
vida gosam de quanto possuiam n''esta :, por isso en- 
terram os corpos ataviados de pinturas e eom a ca- 
beça voltada ao nascente. — Hão pouca liberdade ás 
mulheres, que em pequenas nunca largam as mães, 
e che;;ando á idade núbil as subinettem -J. jejuns ri- 
gorosos, e as incisões que lhes fazem no meio dopei- 



paues, d'oiide alçam a cabeça negra c disforme, sir- J to demonstram que passaram da infância para a ida- 
'fianilo trabalhosamente os poucos bateis ()ue sobem o j de, em que tomam o seu grau na sociedade. Nunca 
Tlbre : v(''em-si- também f;raiides rebanhos com seus ;,s mulheres apparecem sós: ou os paia ou os irmão* 



pastores, que ao decair da tarde procuram abrigo em 
cavernas ou em túmulos antigos, cujas entradas figu- 
ram de loM^e malhas escuras ; todo o terreno é de 
'tinetura uniforme, requeimada, como m; por alli pas- 
'sasse o fogo. Tal é o aspecto geral iTista lainpíiia | ri 
'romana, que jiilo síleiíiío, solidão, destroços e ciV, 
podeiia tomar se pelo valle deJosaphat <leum muu- 
ilo antími extineto. — 10 bidh) jiara o contemplativo, 
para o artista ou o poeta : — aquille caracter de as- 
solação, a seviriilade dos contornos, a ausência de 
particularidades prosaicas e ant í|)icturescas da vida e 
lavor agrícola ;, todas aqiiellas ciriii insta mi as eom que 
Ml asam as recordaçiiis heróicas d a anligiiidailn põem 
o ispirilo em disposiçài) sulemne. Mas ipi iiidii se abate 
o vòi) desde a altura da arte ou d<> philosophia, e se 
iiivfstiga íi causa iPeste aspecto ermo, cessam as iiis 
pii.iç-ões poéticas, e as substituem penosas ri-llexões : 
' idia d» eivilisação e das <'oniniodiiladi'S concerla- 
se iiouco com n davaslação de um pai/,. Observando 
Itoinh CHI iindit da soledade, sem população rural, 
«em eiil\i|ra permanente do titrrílurío, sem movi- 
mento coiiimcrcial nus suas visinhanças, cnuiprcheu- 
lie se logo que tsla cidudo não está libada ao reslo 



as acompanham ; o seu trajo é mui simples; trazem 
apenas um pedaço do tecido que colire das cadeiras 
até os joelhos ; a cõr ebellas fiírmas lhes dão aappa- 
rencia das nossas (estatuas delironze; iiosdia* Icstivos 
scam o corpo com estreitas f.ichas pretas. 
O caracter mais saliente dos goaravos e ii sua es- 
crupulosa probidade, jamais se quereriam apossar de 
cousa, que lhes não pertencesse : venceram sempre na« 
provas a que subinetli a sua delicade/a ; ileixava de 
propósito um lenço de cõr no mallo, ou machados fo- 
ra da minha residência; sempre estes objectos me l'j- 
ram tornados liclmcnte. Tal e o esboço do retrato do» 
anlÍMis descendentes ilos c.iraibas, que eram homens 
ferozes e anthrii|)ophagos, lonira os quaes não acha- 
vam expressões assai enérgicas o» esi riptores ilos pri- 
meiros séculos da con<|uistu. — .\ par de tantas vir- 
luile» admira n repugnância dosguara_>os asprescrip- 
ções da religião catholica. l'iii venerando iiiissíon.i- 
rio, o padre liiieuevH, o iii.iisestimavcl religioso IrttU- 



(1) ICsle i|u.idro foi tríçidoeni IHii por Mr. .St<h.islieu 
Alliín. lia l)eiu lun.lailas esperaiiçis hoje ile que iSo ilesí- 
iiiiinidOra situai,-'» piin;i'es(.n.iiueiilo incltioie. 



6 



L 



O PArVOaAMA. 



ciscano que eu conheci na America, hespanhol dena- 
<;io, homem tão instruído qiianiu modesto, nada tem 
obtido ha nove annos^ não porque os indígena» op- 
punhani resistência aos seu» desígnios, ou tenham 
aversão ao homem piedoso, a quem, pelo contrario, 
reverenceiam ; mas os que recebiam o baptismo vi- 
nham pouco á igreja, e não largavam os seus antigos 
costumes. O padre disse-me, que as maiores difficul- 
dades que tinha a vencer eram fazer largar aos ho- 
mens o habito da polygamia, e alcançar que as mu- 
lheres se cobrissem um tanto mais. 

O padre Lacueva \ivia em Sancta Cruz, uma lé- 
gua adastado de mim:, habitava uma choça humilde; 
a sua Igreja era uma cabana coberta de folhas de pal- 
ma, onde, n'um altar feito de barro amassado, eque 
aos domingos revestia com um simples estofo d'alg()- 
dãii. costumava celebrar missa. l'ara avisar os iieo- 
phvto», o respeitável ancião só tinha um almofariz 
velho de metal em que balia com uma pedra. Per- 
teiicia a unia casa rica naHespanha, e tinha estuda- 
do as nialhematicas ; piirém a voração o impellíu a 
pregar o Evangelho-, melteu-se rranciscauo, edentro 
em pouco, por virtudes e saber, mereceu o cargo de 
preleito demissões, (jue poderia equivaler ao de pre- 
lado superior. l'assou-se á America, eahi fugindo da 
vida quieta dos conventos consagrou-se á conversão 
dos iiidios, rrpellinuo todas as honras que pretendiam 
coiiterir-lhe : viveu vinte annos com os selvagens vu- 
rucares, ca final, cançado de não os reduzir áfc, Uei- 
xou-os para habitar com os guarayos, entre osquaes 
começava tambein a deseuganar-se de que terminaria 
a sua nobre e ignorada carreira sem lograr vantajo- 
sos resultados. Mal enroupado, subsistindo das esmo- 
las das senhoras devotas deSancla Cruz delaSierra. 
sustentava se de arroz cosido, iguaria que por suas 
mãos preparava, vivendo solitário, e apartado das re- 
lações do mundo. V ivamente me cominoveu a perse- 
verança doeste religioso, de idade então de setenta 
aiinos, e puz todos os meios de merecer a amisade 
com que voluntariamente me honrou. 

A 2o de janeiro alguns maioraes indígenas de Cár- 
men de Moxos me trouxeram uma carta doadminis- 
trador d'esta missão, pondo ao meu dispor quatro 
grandes pirogas (canoas). Trcs <li.is depois «'u niedes- 
pcdia d'aquella boa gente de Jiiaravos, e confessi», 
que não me esquecera o abulo, que me causou o mo- 
mento da separação: o padre Ijacueva e todos os ín- 
dios me acompanharam alé abeira do rio com todas 
as mostras de amizade intima. Tudo »e embarcara, 
e os remeiros só esperavam a ordem para sulcar a 
corrente: deitei o ultimo olhar para a praia, e \i o 
sanctu varão, de olhos lagrimosos, que de cima da 
Tliíanccira medeitaxa a bençam, e Itidos os í;u;tra\t». 
com seu caudilho á lesta, me diziam adeus nos ler- 
mos mais signilicalivos e atlecluo^os. 

O primeiro meandro do rio sinuoso me separou 
Q esta scena terna, eenlregup atis mens pensamentos 
procurei dislraliir-me cimlemplaiido lodos os objecto» 
que 1110 rodeavam. Oito dias consecutivos naveguei o 
no ^. .Miguel, admirando a variedatle da natureza 
no estado bravia, e inarciíiidu com a bússola até «s 
menores voltas do rio. Quem penetra por um puiz, 
para assim dizer, virgem, experimenta prazeres real- 
mente desconhecidos do viajante que nunca saiu dos 
legares habitados. Osanimaes do mattu, ignaros dos 
perigos que lhe» provem da frequência dos homens, 
liao mostram receio; e eu tive occisião de \èr com 
gosto que os bando» de macaca» se movi.im mais pa- 
ra me observarem do que para foíirein. 

Chegando a Cármen de ftloxos eu havia Iraçjido 
um longo trilho n^uin csp.içu que nos m.ippas se acha- 
va em vasio, c reconhecera que o rio S. Miguel, cm 



vez de ser nm affluenfe do Mármore, ia pissar, com 
o nome de rio Itonama, pela mi«são da Magdalena, 
vindo a ser affluente doGuaporé ou Itenés ; junctára 
portanto ás minhas precedentes investigações este no- 
vo resultado geographieo, estudando uma porção do 
continente americano, muito interessante, eque per- 
manecia desconhecida. — 



Méis df. remediar as cólicas de chcmbo dos tc-I 

CELÕES EM TEARES a' jACaCABD. 

Ha nos teares á Jacquard umas cordinhas cm qae pren- 
dem uns cordéis, em cujas pontas estão pendurados 
cylindros de chumbo, de perto de sete a oito poUe- 
gadas de comprimento. O numero d'estes chumbos 
anda por 1000 até SOOOO, conforme a largura das fa- 
zendas, ^upponhamos uma casa de teares, de 150 pal- 
mos, com 100 000 dVstes pesos de chumbo aroçar-se 
uns pelos outros sem ce«sar, e faremos uma idéa do 
pó venenoso que resiilla da fricção. Este pó não ■• • 
faz que dê nos operários a chamada cólica saturnin . 
mas pôde causar, e causa com effeilo, moléstias de 
bofe nos indivíduos comdemnados a respirar esle ir 
viciado, principalmente quando, no tempo dos calo- 
res, o ar externo não basla para renovar e de den- 
tro. Se por desgraçi, como em França, molham os 
chumbos em vinagre com agua, tanto peior, porque, 
depois de seccos, o pó que os cobre se converte em 
acetato de chumbo, e augnicntaiido em quantidade 
au;inenta o perigo. 

.Mr. í)almencsche observou, que as moléstias eram 
menos frequentes nos operários empregados em tecer 
fazendas muito largas, como chalés de ^ e d" ^. por- 
que, trabalhandti mais deva;;ar, ó muito menor a fric- 
ção dos chiimb<is e a quantidade de pó que se levan- 
ta. Também observa que o termo médio dos operá- 
rios inferinos era um dos doze; e que quanto mais 
pequenas são as oflicinas menos são as p<'»soas ataca- 
das das cólicas de chumbo. 

ttuanfo aos meios de remediar o« enellos nncifOS 
de mecliaiiÍMno do tear a Jacquard, Mr. D.ilmenesche 
adoptou a proposta do corníí^ d-» saúde de Ijeão, de 
pór em hv.;ar dos chumbos cvlindros de vidro òoo, 
que se ••ncham de chumbo derretido para lhes dar o 
peso ncce»5arÍ9 : esta substituição cpreferivl aos c_v- 
, lindros de ferro, que fazem muita bulha; inas aind* 
não i<;uala a do estanho. 

Todavia, coinooestanho cu«»a muito caro. pode->" 
us.ir do chumbo, seguindo esta iudicaç.u' do mesf 
Mr. D.tlmeiíesclie : meller os pesos metaliicos der.' 
d"umii caixa de páu, prpporcion:ida á largura dote.ir, 
e(juc alira, por meio de dobr:<diç:is. da baiid:i vol!.- 
d.i para o tecelão, para que elle pii»»,-» concerta'- 
<-bunibos, etc. ; cobrir a tampa da caixa com u.tia r 
de de metal, de malha estreita. p.-»ra que. p.-««»ai 
pila malha o cordel em que se penduram o» chun 
bos, fique opó dentro da caixa, e ii.io se esptlhe I i - 
' to pelo ar. Este meio niechanico (nidc ser m.idific.i- 
I do; m:is o que se deve em todo o caso reconimeiídar 
; ê um bom «vsteina de ventilação, que r«novf o ar 
I viciado das ufficinas. 



Meio de afcgístar as formiga». "5 

Mr Henrique Koerster, cura d'Anheim (grã'>-<luc»- 
do deBaden) achou este meio no sal ordinário esten- 
jdido por cima do formigueiro, e regado depois, s< o 
tempo estiver secco. 



o PANORAMA. 



65 




BARCAS JA1'()NEZAS. 



O J A l'ÃO. 
1 

A MTDAt^Ão (Io iiiificrio (loJapiio (.orroipoiKli; na la- 
titude ás rfgiões do nosso liC'iiiis|>liori()<iij<í jaZLiii eiw 
trc as províncias nieridionaes da Franra faparlede 
miesli! do império d<í Marrocos : a longitude é cem 
^ráu» a leste de S. l'etersl)urf;o, desorte i|ue nocen- 
íro lio Japão nasce o sol sele horas mais cedodoijije 
na capital da Itussia. 

O Japiio é mil arehipelago, de (pie lí cal)e(;a a illia 
(iu Niplion, (pie tem no seu maior comprimento tre- 
zentas le);uas de 8iidoest(! a noroeste, c na maior lar- 
;i;ura i|uasi seskcnta, de vinte ao i;ráu. São oito as 
ilhas priíicipaes, e ha iim grande niimoro de outras 
de menor importância, ('om|>ondo todas o mesmo es- 
tado, cercadas do oceano oriental, defronte da Co- 
réa, da ('hiiia e da Tartaria, e separadas do conti- 
iioilte por um extenso lira(;o de mar, chamado o Mar 
(In Japão, tomando na partia oiiiIim! mais apertadou 
nume de eslreilo da (,'iir('a , entre esta peniiísiila ea 
eoula meridional dií Niplion ha trinta <; cinco lé- 
guas , a maior largura (• de dii/eiitas. 

♦ 'omparando a sitiia(;ão geographiia do» domiiiios 
japonizes com a dos estados ipje de ram sol) o mes- 
mo grau de latituili; no humisplurio (icciíleiital, es- 
perar-se-hia acluir ;;raiiile seuielliaiiija decliina •, mus 
não é assim. A dillerença <pie (íxiste a este respeito 
«Mitre as duas porcncs ciirrelatinis do gloho i; Ião ad- 
mirável (pie iiierece particular explicação. I'oreXclll- 
Voi,. J. — (Ji iitiio Jl, ISiO. 



pio, a cidade de iMasImai, na ilha do mesmo nome, 

: ao norte de Nipliou, está cm i2 de latitude no mes- 

nio parallelo de liionie na Itália, do Kilbaii na llea- 

panha, e de Toulon em Kran(;a ; n'estas três cidades 

os lialiitantes sií conhecem a neve' nos altosdas iiK^n- 

I lanhas:, e cm Mastmai os higos e pântanos estão íjela- 

dos todo o inverno, osvalles, e planícies estão desde 

iiovemhro ati; ahril coliertos d(í nevo, (]ue não cáe 

iiieiios allululalltl'lllentt^ que em S. l'ctersl)urgo ; at 

fortes geadas alli são na verdadi! [xiiico ordiíi.irias, 

comtiido viuse ás vezes o therinometro de Ke.iiimur 

descer ,1 \'ó gráiis abaixo de zero. No verão os paize» 

da Kiiropa situados debaixo do mesmo parallelo em 

I que eslá iMastmai sotVrein calores fortes eeontiniios ; 

I poriMii n\iquella ilha caem aguaceiro» rijos, pelo 

j menos duas vezes na semana, escurece a atiiiosphera 

no extremo do liorisonti-, reinam ventos impetuosos. 

e permanecein os nevoeiros. — • lím Jedo, capital de 

I Niphuii e do império, nos .'!(> de latitude, neva por 

' muitas vezes em as noites do inverno ; se rellectir- 

I mus qiiir Jedo, c tão distante do polo como a cidade 

iti! Málaga na llcspanh.i, (haveremos concluir ijiio o 

clima do hemispbcrio oriental e mais rigoroso (pit* u 

Ido heiíiisplierio opposto. -— Ksta enorine dillereni,"n 

procede d.is localidades. O Japão esta lan(;aiio no 

I oceano oriíMilal, iustanitiite chamado o mardasbru- 

liijis (Ml ceirai;òi«. Não é raro aturarem os nevoeiro» 

no verão três ou (piatro dias 11 tio ^ e piuicas lioras 

p.issaiii no (lia sem iii|uclles ou scin chuva. O iiiúii 

tempo lai o ar IVio (■ húmido, <■ os raio» do sol não 

Icem .1 iiHsma actividade ipiedesiMivolvem ii'uiu c('ii 



^& 



o PANORAMA. 



inais sereno; accresce que a parte septentrional das 
lre'> ilhai iiiaioroí é de serrania? elevadas, <|iie per- 
dem iKi meio das tiuvens os seus alcantis: o \eiito 
uue parte das montanhas vem repassado de frio gla- 
cial. Finalmente os japonezes ficam separados da 
Ásia, fjue foi o seu ber<;o, por um brajo de mar; 
teeni defronte o paiz dos mantcliú» ea Tartaria ; to- 
da essa região é cortada de serras, de pântanos ex- 
tensíssimos, e de incultos desertos, d'onde se deri- 
vam, mesmo no estio, ventos excessivamente frios. 
Taes são ns causas prodnctoras de uma dilVerenja 
considerável de clima entre as regiões orientaes do 
mundo antigo e o nosso hemisphero Occidental no 
mesmo parallelo. 

O povo japoTiez tem uma nacionalidade distincta 
dos outros asiáticos, posto que a muitos res[)eitos pa- 
reça approximar-se dos chinas até na ph^sionomia : 
tem usos, costumes, e praticas peculiares; — e uma 
cidade do seu archipelago appresenta muita varieda- 
de em comparação com as de seus visinhos. As ca- 
sas, á excepção dos alicerces, não são de alvenaria, 
construem-nas de madeira e de um só andar, os ta- 
biques que separam os quartos são moveis, de forma 
que se pôde fazer de toda a casa uma só camará, co- 
mo em algumas partes da Hespanha antiga. O uso 
das chaminés é ignorado; e fazem a cosinha em fo- 
«■ões também á semelhança dos brnseros dos hespa- 
iihoes : os pobres teem lareiras de tijolos. A mobília 
e quasi nenhuma ; cobrem o solho com esteiras mui 
finas, conservadas com toda a limpeza, porque em 
tudo são muito aceados ; para receber as visitas es- 
tendem por cima alcatifas ou mantas, segundo suas 
posses. — Armas de varia espécie, vasos de porcela- 
na, e alguns objectos curiosos adornam as casas inte- 
riores : as paredes são guarnecidas de papel dourado 
ou de cores, forro a que os ricos accrescentam mol- 
duras e outros ornatos de madeira lavrada com gos- 
to, e envernizada ou dourada. — Os edificiossão ex- 
teriormente de extrema simplicidade ; a diíTerença 
entre a morada do abastado e a do pobre consiste 
em ter a casa das pessoas illustres um pateo espaço- 
so, fechado com altas estacadas ou muros de taipa, 
de sorte que apenas se descobrem os telhados. Além 
d^isso, os nobres e opulentos possuem jardins vastos 
contio^uos ás casas, e muito se applicam a aformosea- 
los, para o que não se poupam a gastos. No interior 
das habitações observa-se aceio minucioso. Nota-se 
porém a nimia estreiteza das ruas. 

Os japonezes barbeamse e rapam o alto da cabe- 
ça, deixando porém o cabello da nuca e umas gue- 
delhas sobte as fontes, amarrando-as para traz com 
uma íjta : é simples o riçado, mas ainda assim re- 
quer seus desvelos ; é preciso conserva-los '■om certa 
pomada que faz os cabellos lustrosos e os em pasta ;e 
para que o nionete se arranje com a devida perfei- 
ção, é mister que arremede um pedaço de pau en- 
vernizado c quadrangidar, um tanto cavado pela par- 
te superior e dos lados. Os seus cabelleireiros são 
mui destros, mas consomem muito tempo n"esla ope- 
raç.no. 

O trajo commum é um chambre sem gola, e de 
mangas largas que chegam só aos cotiivellos: a parte 
inferior da manga arregaça se e faz uma espécie de 
saco, que serve de algibeira, como usavam os fran- 
ciscanos. Ou por fausto ou para resguardar do frio. 
vestem cinco ou seis d'essas túnicas, umas por cima 
d^outras, e sujeitam-n"a> com nm cinto em duas vol- 
tas á roda do corpo. Todos, ainda os de menos pos- 
ses, trajam vestidos de seda, sobre tudo nos dias fes- 
tivos: o povo miúdo usa conimumente de tecidos 
d^algodão; fato de brim é de indigentes, ou dos ope- 
rários durante o trabalho. 



O japonez, se estando em casa sente calma, despe 
o vestido de cima e prende-o á cinta : se ainda acba 
muito calor, desembaraça-se do segundo, e assim por 
diante até ficar com um só. Se arrefece, vai enfian- 
do successivamente as suas túnicas. As mulheres por 
moda e luxo ainda se servem de maior quantidade^ 
chegam a trazer vinte, porém de seda muito leve e 
subtil, quasi semelhante a gaze : usam cintos como 
os homens, porém de muito maior largura, deixan- 
do soltas e fluctuantes as pontas. 

Ha outra casta de opa, do mesmo talhe da prece- 
dente, mas muito mais ampla, que se trai sobre as 
outras, e sem cinto. Paliando propriamente é o ves- 
tuário de ceremonia ,' é indispensável para visitasde 
gravidade ; e com o outro sáe-se a passeio, a negó- 
cios, ou a procurar um amigo. Os nobres mandam 
bordar sobre o peito e nas mangas os seusbrazões.—— 
O terceiro traste para vestir é nm fraque largo, que 
se usa quando faz frio, e que se larga ao entrar em 
qualquer casa. 

Os japonezes não usam pantalonas ou calças, á ex- 
cepção dos militares, e de quem vai de jornada ; po- 
rém 03 empregados do estado as trazem no exercido 
de seus cargos, nos dias solemnes, e quando vãofal- 
lar a superiores. 



O Hadjeb de Kobdova. 

(972 a 992) 

(CoDclasão.) 

V 
f-P'alcorari '. 

O RECONTRO das duas hostes separou o terrível guer- 
reiro do seu contrario, o el-Mansur. D'uma e outra 
parte era a llòr dos dois exércitos: pelejou-se mais 
bravamente do que nunca. O desconhecido, sem fa- 
zer caso das feridas, que lhe sangravam por todo o 
corpo, travou da massa ponteaguda d*uni cavalleíro 
morto, e, a pé, de cabeça descoberta, como estava, 
foi-se ao mais basto das fileiras sarracenas, dand» 
fim a uma vida em cadaum dos seus golpes formi- 
dáveis, lira incrível a energia d'aquelle homem .'Não 
parecia mortal : podia julgar-se um d'aquelles semi- 
deuses fabulados, que as divindades do Olympo gre- 
go protegiam. 

A guarda do hadjeb não fugiu como as hostes da 
campina: acabou de pelejar quandoo ultimo homcn> 
caiu. 

Mohamed, porém, não appareceu no campo. Duas 
horas inteiras levou o desconhecido n examinar os 
r;.daveres um por um ; e era realmente um espectá- 
culo assondiroso vèr aquelle homem curvado sobre os 
mortos e moribundos, a apalp.ir-lhes o rosto, a ten- 
tear-lhes as feridas, a contarlh"as, tremendo .incio- 
so, e a espreita-los e a revolve-los, como se alli, 
' n"um d"ellcç, tivera occulta a própria vida. 

IVpois de ler corrido todos ergueu-se, rugindo 
contra os seus pelo haverem sep-^vrado do hadjeb. Já 
poucos d'elles restavam tnmbem. .\ cimit.-vrra dos 
bereberes não havia ficado ociosa : os guerreiros d* 
!M.ighred tinham caído vingados. 

t> desconhecido não contou os combatentes que i> 
cercavam. Cavalgou n'um ginete perdido, largou-n 
pela enct><.ta abaixo, e. sem desviar o rosto, sem ver 
se o seguiam os da sua hoste, foi direito a pl.inície, 
perguntando rapidamente, a quantos encontrava, no- 
ticias do hadjeb. 

Eis-aqui o que elle soube : 



o PANORAMA. 



«9 



Logo DO começo do recontro da montanha alguns 
dos principaes africanos tinham levado Mohanied pa- 
ra longe do combate. Os guerreiros de Navarra, dis- 
persos na planície, viram fugir um tro(;o de cavallei- 
ros levando nos braços um dos seus mal-ferido, c;;ini- 
iiho de Medina-C(jL-li. 

O guerreiro não perguntou mais : picou direito so- 
bre Medina-Cdíli. 

Acompanhavam-n'o os que tinham ficíido vivos da 
refrega em Cai;it-al-nosor. 

Sancho, o quadrimano, perseguia no entanto os 
restos fugitivos das liosles de Mohamed. 

O terrivel eal)o dos de Afraiic m."io paruii em ]Me- 
dina-Ca^li. O badjeli estava em Walcorari com uma 
parte dos seus. 

K inútil di/cr se o temeroso desconhecido voari.i 
im não sobre o castello. 

Seguiain-n\i sempre (>s seus. 

Tanto que chegou, o mesmo foi dar vista das mu- 
ralhas que principiar o ataque. Os de dentro resis- 
tiram como quem defende as vidas,' os de lora pre- 
cipitaram-se como quem se esquece d^ellas. ICrain 
poucos e cança<los', mas o exemplo do seu calio mul- 
tiplicára-os : combalia á frente, elle. Os golpes da 
sua massa eram como as pancadas deumariete. Cho- 
viam sobre elle os arremesses , mas o broquel il.i pro- 
Ircção divina parecia estar sobre a fronte mia d'ai)uelle 
homem:, e elle continuava a marlellar na purtacha- 
peada do castello ccuno se o seu braço não foise huma- 
no. A porta vergou, lascou e cedeu. 

Os de dentro, passados de medo, reviiUiam se. 

O desconhecido não fez ciso: voou de (|iiadi.i em 
•{oadra até dar com um leito ensanguentado, onde 
jazia um m<iribunilu. 

lOra o hadjcb. 

O estranho pagem, que vimos acompanhando o 
desconhecido desde o principio do cimíbate, era o só 
que o seguia. 

Ao vêr o corpo estendido nas roupas sanguent.;s, 
o peito do guerreiro pareceu dilatar se : respirou á 
\o.'itade. Cruí^ou os braços, manchando a cami/a de 
ferro sobre o peito retalhado, e approximousi! len 
lamente conn) saboreando o espiíctaculo do infeliz, al- 
li firosirado, O pagem, do outro iadu, approximou- 
se como elle, parandolhe jonclos á cabeceira. 

Um archote de resina, prega<lo n'um espigão de 
f<;rro (|ue saia da muralha, prujcciava sobr<! i;sle gru- 
po uma Un vacill.uiti; e avirniclhada, <|ueo tornava 
ainda mais terriíel (í phantastico. O venio da imite 
••ngolfava-se e gemia nos corr(íilorcs. Lá fora nos pa- 
lcos ouvia-se um embate soporo d'armas : eram os 
cavalliuros do ,\franc a despojarem os prisioneiros. 

O gu('rreiro descfuihecido, porém, não ouvia, não 
sentia nada ^ Ioda a sua vida. Ioda a sua alma pare- 
cia residir alli, n\'i<|uelh' leilii e n\i<|ui'll>' corpo. 

Peinieu se para o moribundo, r, br.idando-llii' co- 
mo Ihc! bradara no píncaro ihis abulrrs, riqii'1 lu-llie 
ao ouvido : 

— II llecordaw-li' dos jardins de A/ahrat ^' 
Molnnned dctscerrou as pálpebras, cm ipi(! já car- 
regava o <ied(i da morte, i^ voltou a cabeça inachi- 
oalincntii d'nm ao outro lado. A vista do pagem |)a- 
receu fa/i-r-lhe uma im|uessào proíiiiMl.i. O desconlic- 
i'iilo no enlanlo snrría. 

— " l'agi) li' cmrini a minha divida — clamou clh' 
conm jdirindo os di(|uc8 ú Iorr<'nle qui" lá diuitro Hw 
refervia — pago-lii omlim a minha divida, Rloha- 
nn'd. l'otenle donunador das Ilrspanhas, que é feito 
da tua força, (uide está ella i" Invencível liadjeb, on- 
de tens essa In.unenda cimitarra, que vinte annos 
vibrasle <'iinlra os du ('bilslu.' \{\h! l'ai^le a final: 
ii tua hora clieL;nu te. \ iiile .iiinos lambem Ic segui 



eu para alcançar a desaffronta, sem nunca desesperar 
d'ella. Alcancei-a. Sabes quem é esse pagem que 
ahi vês a teu lado? Conheces-lo? Foi outr'ora a mais 
formos.i, a mais nobre, a mais pura das virgens go- 
das, hcije. . . quem tal ha de dizer ? . . . nem eu íei -. 
é uma sombra. . . é o teu remorso, é o teu castigo, 
ií, é o leu remorso vivo, a minha viva injuria. Vin- 
te annos m'a tom ell.i trazido fresca e viva ao lado 
— n^aqnelles ollnis apagados, n'aquellas faces inco- 
radas, n'aquelles beiços sem còr, n'aquellas rugas pro- 
fundas. . . í> - i-ib 

O pagion era efledivamenle a virgem de Amaya,' 
e era também uma sombra como o dissera Hermen- 
gardo, a quem todos lerão já recoidiecído na pessoa 
do guerrreiro <io Afr:iTio: nunca tão escura sombra 
se seguira a Ião viva bi/.. Sulcavam lhe o rosto lon- 
gas cicatrizes, ganhas juncto do guerreiro. 

O rno-ítarabe continuou: 

1 Vinte annos, repito, me ardeu cá dentro a 

indignação, a cada hora, a cada iti^taute, accendcn- 
do-me a xergonha nasfacescada \et que me lembra- 
va do que tu me fizeras a esta mulher, límbranque- 
ceu-iiie a cabeça o receio de morrer sem vingar-me. 
lioiívado «ejjís, Senhor, liu cheguei a duvidar da 
vossa Justiça ; mas vós sois melhor do que os homens. 
Cincoenta éramos nós — ouves, Mohamed ? — ein- 
coenta éramos nós, que nos juramentamos para cum- 
prir esta vingança. Do todos fujoei eu só ; os mais 
caíram um depois do outro, debaixo do ferro dos 
teus. Caíam un.s, mas não se cançavam os outros \ 
eu miMio-, lio que nenhum. 1'rolegeunie Deus como 
(iirecia proteger te ; eu fui o só que fiquei de tantos. 
Vè lá se elle é justo! Fui eu que ergui contra ti os 
condes ehristãos e os .il-kaides do Andaluz^ fui eu 
que uni e concordei os príncipes godos, fui eu que 
vinte annos successivos provei couitigo o meu braço 
cm todas as batalhas, até o tornar mais robusto do 
que o teu j fui eu que sobre asplialanges prostrada» 
liz surgir novas |)lialanges ; sou eu finalmente quele 
tenho agora aqui <lcb:iixu do joelho, como tu me ti- 
veste ha vinte aiiuov. Keeordas-te dos jardins de Aza- 
hrat, rccord.is te ? Sabes o que eu prommetti a esta 
mulher.' l'rometti restitui-la pura ás llespanhas, pu- 
ra, purificada como meu nume, livre da macula com 
que tu a maculaste. '1 

O peito de llcrmengardo arquejava, a sua respi- 
ração era profunda e sibilante:, as palavras rebenta- 
vainlhtt dos lábios precipitadas e pressuros:is. Golfa- 
valhc o sangue do peito. 

(iiiantoa (íelohira, parecia insensível a tudo. Tinha 
morto o coração como a formosura. 

O hadjeb inurmiM:ivu limas palavr;is siimíd.is e in- 
disliiulas, (jue ningiiiMii poderia saber se er.iin libis- 
phemías de desesperado, se rogiis de arrependido : não 
linliii mais que um sopro de NÍda. 

O mostarabe contemplou longo tempo, inanimado 
e exangue, o corpo tra(|iii'lli- homem, que tora por 
vinie .innos o açoute dos godos e o terror da christan- 
dade. Depois, arranciiido com a inãn esipierda o pu- 
nhal que trazi.ino cinto, estendeu a diriúta ao siippos- 
lo piigeni por cima do qiiasí cadáver. 

— .. (ielohira — disve elle, já com esforço, tr>niu 
li ,1 voz e vacíllanti' o corpo — (ielohira, .Kini tens 
esta mão:, iicceila-a : e oeoinprimento da ininlia prt> 
lliess.l. " 

l'',slas ulliiiias pnhivras foram proniincíadns em yo> 
terrível : dizendo as iie.ibár.i o desgraçado eriívaiido- 
lhe no coriíção eslaiKMilo o ferro que j.i llie tremi.i n.l 
mão I 

Aqiielle assassínio inútil seria iini:i piedade «e fos- 
se feito p.ira aeubiir os holrtl^llso^ toi ntunto-C nOr *|ne' 
cslav.i paiisando u limljeb ; in.is na ilitetleliíi cviii que 



68 



O PANORAMA. 



Herinen!;ardo o commctfêra era uraa atrociáade '. 

(ielohira precipitou se sobre a outra mão que lhe 
estendia o mostarabe, com um grito era que parecia 
fu"-ir-lhe a alma ébria de reconhecimento. Curvado 
um para o outro os dois noivos e terríveis esposos, 
recebiam no rosto, por confirmação do horrendo con- 
sorcio, o sangue que espadanava da nova e derradeira 
ferida do ei-Mansur. 

Mas a vida de Ilermeiígarda estava também por 
iim fui. £ra já miraculoso como aquelle homem po- 
dia susfer-se de pé, depois de tantas horas de fadigas 
inauditas, con» o corpo todo retalhado de feridas pro- 
fundas : resistir mais fora impossível. 

Mal a victíma tinha cerrado os olhos, o vingador 
caiu a seu lado. 

Kra para nunca mais se levantar! 

Gelohira encarou este espectáculo a olhos enxutos. 
O que se passou n'aquella alma não n'o soube ninguém . 
Foi-se ao mostarabe, e com o punhal ainda ensan- 
guentado cortou-lhe um anel dos cabellos esbranqui- 
çados . 

Um mez depois, nos despenhadeiros das montaehas 
de Amava foi achada um corpo de mulher por tal 
forma desfigurado que nunca foi reconhecido. Fecha- 
da no punho e chegada ao coração achou-se-lhe uma 
pequena madeixa de cabellos. Espantaram-se todos : 
«ram cans de um velho ! 




na mithologia grega, e por fim na dos romanos, que 
adoptavam, como é sabido, as divindades dos poso» 
que conquistavam. Foi durante a guerra doi pira- 
tas, anno de Roma 687, que o numen Mitbra come- 
çou a ser venerado na Itália : aão romanas todas i% 
estatuas que d'elle permanecem. De ordinário é re- 
presentado na figura de um mancebo bem apessoado, 
coberta a cabeça com o barrete phrvgio, e com um 
joelho firme sobre um touro derribado, enterrando a 
faca na cerviz do ar.imal. — São muito mais raros os 
simulacros iguaes aos da nossa estampa; e aos attri- 
butos de que são revestidos dá-se aseguinte explica- 
ção. — A cabeça com as feições leoninas allude ao po- 
der que |o sol manifesta no signo de Leo ; as azas 
indicara o movimento eterno e rápido d'e»se astro; 
o corisco esculpido no peito recorda o fogo, as cha- 
ves de dois feitios que tem seguras denotam as que 
serviam, na crença dos persas, para abrir as sete por- 
tas por onde passam as almas humanas ; a serpente 
que o enlaça significa a prudência unida á força: o 
grifo e o caduceu de Mercúrio postos ao lado são ac- 
crescentamentos que lhe addiccionaram os romanos. 
— Oflercciam a este nume, em virtude dos seus sym- 
bolos de creador, as primícias dos fructos : na deca- 
dência do império romano ainda tinha sectários. 



ESTA Tl V ny. MiriiK v . 

E.M nni.i das salas da bililiotheca do \ aticniio está 
collocada a est;itua que a precedente gravura repro- 
duz : é um Ídolo copiado da nijthologia oriental. — 
Segundo a religião dos antigos persas o de'is Mithr.i 
era symliulo do sol, do fogo e do amor: a f.il>u!;i o 
faz nascer de uma pedra como .'i f.iisca sáe da peder- 
neira percutida com o fuzil. Alguns o ciuifundíram 
com Osíris. 

Parece que o culto de Alithra passou da 1'ersia á 
Cappadocia, onde no tempo do geographo Strabo ti- 
nha avultado numero de adoradores. Entrou depois 



A CAMPIHA DE RojIA. 

(Cootiauado de pag. 62.) 

Q.i/At será a causa a que devemos attribuir a despo- 
voação da campina de Roma? — Escriptores de su- 
bido merecimento, como Lícolai, Sísmondi, Muller, 
de Tornou, nas suas dísquísições sobre o agro roma- 
no, tractaram felizmente esta questão importante cm 
relação á historia eá economia politica, e todos acha- 
ram a caus:i na própria grandeza da fortuna ro- 
mana. Assim que Roma se fez senhora das pro- 
ducções do orbe, desprezou as do seu torrão próprio : 
— as riquezas acarretaram o desgosto do tracto agrí- 
cola. -Nos primeiros séculos da era romana, as famí- 
lias patrícias cultivavam pessoalmente o seu quinhão 
de terras, e essa porção era n'esse tempo mínima: a 
principio foi só de dnas /ujera (geiras romanas) ; pa- 
ra o diante, annoiíGS, lixou-se em sete geiras, proxi- 
mamente 11,33 braças portuguezas quadradas, o pa- 
trimónio de cada família: em oti'2. o senado pcrmit- 
tíu a cada membro de família aquella porção ; d^aht 
a vinte e seisannos concederam-se quinhentas geiras 
a cada família ; e em breve deixaram de regular .i 
extensão da propriedade, pelo que, apouco c pouco, 
algumas casas patrícias acharam-se, por compras, ou 
substituições, ou heranças, senhoras de toJa a cam- 
pina : abandonaram então ás mãos de »eus escravos 
esses vastos terrenos, e para tornan-m mais facíl o 
amanho os reduziram a pestos. a quintas sumptuo- 
sas, a lagos c viveiros: — a agricultura propriamen- 
te dieta dcsappareceu. Então a« povoarães que não 
haviam sido absorvidas pela cidade de Roma, que 
tinham vivido dos fructos dos territórios circumvísi- 
nhos, decresceram cm numiro de habitantes, e a 
final desvanoceram-se, cuiram em ruínas. Já no co- 
mero da era chrístã, os campos do Lacio. cm qup 
haviam residido naçiles, tínham-se convertido n'um 
ermo inculto. Plínio o naturalista assignala. no se- 
gundo século, os IntifiirtiUa (grandes prtipriedades) 
como causa primeira da ruína da Itália ; o o que cl- 
le diiía da península em geral, applícava-se mais 
particularmente á campina romana, porque n'elU a 
despovoação deixava em pleno poder o inimigo tre- 
mendo, que bavia cotnbatido a'outro tempo cgm fc- 



o PANORAMA. 



69 



licidade — a insalubridade da atniosphera, Asseve- 
Tou-se repetidas vezes que a terrível mal ária era 
gerada da» exhalaçõcs deletérias próprias do terre- 
no, em muita parte volcanico. Posto que amiudadas 
analises feitas por cliimicos mestres, entre outros o 
celebre Davy em 182i, iiuiica demonstrassem que o 
ar da campina fosse naturalmente viciado, comtudo 
reinam febres mortiferas no agro de Roma. (iue se- 
jam a causa original doeste flagello os elementos cons- 
titutivos do solo volcanico, não poderá lalveí contes- 
tar-se ; mas o certo é (e a antitça populajãodo Lacio 
tão numerosa bem o prova) que a ciillura e a iiabi- 
tação d'homeii3 o tinham superado de algum modo : 
— se fora perciso , poderia invocarse o testimunho 
de Tito Livio. 

Só quando as grandes propriíídades tiiibaii) sub- 
vertido a cultura parcellar, e a populafjão lialillaute 
dos campos fora absorvida pela capital do inundo , 
apparecem nos escriptos de Strabo c Cieero noiicins 
das febre» que raream parte do agro de Roma, ({'an- 
tes tão fecundo em gente : — á medida que se alar- 
gou o deíerlo, dilatou-se a praga e augraeiítou d^in- 
tensidade. Nem eram próprias para restabelecer a 
povoa(;ão e a agricultura as circiimstanciai da queda 
do império, as desor<lens subsequentes- , e a barbárie 
da idade media. l'or isso S. i'eJro Damião, no un- 
deciaii) século , dizia de Roma que abundava cm 
fruclos de morte. 

O estado ermo e de baldio em que se achava a 
campina sempre foi Ião considerado causa da misé- 
ria e de falta de gente, ipie os poulifices alternati- 
vamente cuidaram do pAr termo a situação por tal 
insdo triste. Em 1407, (liegorio VII ^ mais tarde 
Sixto IV, Júlio II, Clemente VII, Pio V, perten- 
deram obrigar os senhorios feudaes, que tinham suc- 
cedido ás famílias patrícia» de Roma na posse dos 
bens rústicos, a amanhar as suas terras, ou j)elo me- 
nos a confia-las a cullivarlores, mediante aforamentos 
que identificariam o lavrador com a projiriedade por 
um contracto perpftluo e transmissível. Sixto IV até 
chegou a permittír ao primeiro cjccupante semear a 
terça parte de qualquer terreno inculto, e colher a 
seara sem renda para o propriílarío ; porém seos poií- 
tiCces tiveram boa vontade, fallava-llies poder para 
isso-, as sua» determinações não produziram resulta- 
do. Sixto V, com toda a sua energia, não pôde ven- 
cer a obstinada resislencía dos senhorios. Km tempo 
de Alexandre VII (1720) pralicaram-se alguns me- 
lhoramento» na lavra da campina, mas depois d^elie 
tudo caiu no estado antigo. Entretanto pelos fin» do 
«eculo passado. Pio G." renovou com fervor os projec- 
tos de arroteação, emprehendeu a obra admirável do 
esgotamento das lagoas Pontinas, e em poucos annos 
recuperou para a cultura nuii avultada poreãodeum 
terreno grandemente feeuuilo. Infelizmente, ao seu 
nuccessor, J'io VII, faltaram recursos pecuniários pa- 
ra eontinuar o eiixuganuNitodos pântanos; comtudo 
eneau\inhou a sua solliciludií para a campina propria- 
mente dieta, eempriígou de novo os jno/it próprio pa- 
ra obrigar os proprietário» á lavra das turras: tam- 
bém imaginou o plano de colonisar i> <leserto, fazen- 
do cultivar (irimuiro o» arreiiores d(r Roma o de ou- 
tro» locais habitadvs, de tal férma que a cultura, di- 
latando-se cada vez mais, irradiando de eeiilros dif- 
ferente», acabaria porcobrir tudoo território. Porém 
este projecto não foi posto i.in prai;liea, ou porcausa 
da» inquiiítações da ipocha, ou porque, segumlooaij- 
tigo e ex.ulo [M-overbio romano — em Roma todos 
inaiul.im e ningucun oiiedece. — 

O agro, isto é, a comarca de lloma avalia-so em 
ÍÍ0!)()1H( hectares desuperfieie (o hectare corresponde 
a 4l3ií brtijiis «juadradiv») ; 177 proprieturios, en- 



trando 64 corporações religiosas ou de beneficência» 
partilham entre si inalienavelmente toda aquella ex- 
tensão ; inhabílitados de amanharem as propriedade» 
á sua custa, arrendam-n'as a caseiros, que, substi- 
tuindo temporariamente os donos (porque não exis- 
tem aforamentos senão em as montanhas), não pro- 
curam o melhoramento duradouro dos terrenos, mas 
sim tirar o ganho mais pingue e mais fácil de apu- 
rar. Note-se que o solo da campina produz excellen- 
tes pastos : a brandura do clima permitte a pasta- 
gem durante o inverno, ao passo que a temperatura 
mais Iresea das montanhas e das mattas do littoral 
no verão facilita aos gados retiro e sustento, que es- 
capa aos raios abrasadores do sol : a carência de mu- 
nicípios ruraes, a vastidão das propriedades cftere- 
cem aos rebanhos dilatados espaços para vaguearem 
livremente. Em tão favoráveis circumstanciasacrea- 
ção do gado requer mui diminuto pessoal de pastore* 
e guardas; é por tanto fácil conhecer que esta in- 
dustria deve appresentar grandes vantagens ; ellas é 
que decidiram a transformação da campina em pas- 
cigos desde os laliftuutia de Rotna até os nossos dias ; 
e é provável que assim continuem em quanto as pro- 
priedades não forem repartidas, porque a agricultu- 
ra está longe de appresentar quanto aos lucros os 
mesmos satisfactorios resultados. 

A talta de çente de trabalho constransre o cultor a 
chacnar, na estação da» semeaduras e nas das colhei- 
las , jornaleiros da Sabina, do reino de Nápoles, e 
das Marcas; os preços dos jornaes sobem a uma taxa 
mui alta ; as longas jornadas, o perigo imminente 
que allVontam os trabalhadores por causa do clima 
doentio no verão, justificam a alta dossalarios. São 
por tanto consideráveis as despezas de costeio; ac- 
crescentando-llie o preço das sementes, os gastos de 
transporto ii'um dístricto sem vias navegáveis, che- 
gar-se-ba a um total muito subido, que appresenta 
lucros miiiimos nus annos fecundos, e perdas reae» 
no» annos (estéreis. Em geral, a terra pouco cultiva- 
da pelas dietas razões de carestia é mal amanhada, e 
por isso não dá para pa^ar o emprego de capital que 
exige a lavoura: de ordinário não rende mais de oi- 
to a nove, ainda (lue n'algumas folhas de terra bem 
situadas c bem tractadas por pequenos proprietários 
dá ás vezes dezoito sementijs. 

Por este modo, as despezas quasi que fornam im- 
possível .1 cultura ; d.i falta d'esta procede a da po- 
voação ; e a carência d'ambas deixa largas á índuen- 
cia maligna do ar doentio. Tal é o circulo vicioso de 
([ue era mister sair. O papa Leão XII, de illustrado 
espírito, que, se tivera mais saúde e um pouco me- 
nos de génio capriclioso, poderia fazer grandes cou- 
sas, formou o desígnio de melhorar a campina roma- 
na, para o que mandou «uganisar planos de lavras 
de terras, o dv. canalisaeão do Tibre e alluentes. A 
sua vontade, ás vezrs violenta, constrangeria !\ obc- 
decercuii os grandes proprietários, rebeldes scmpro 
(juaiulo se trácia de melhoramentos; porém falleceu 
iiu^speiadanicute imu ukuo cresle» projectos e de ou- 
tros que reanimariam os estados pontifícios. Porém 
as suas disposiçòi!» foram coiihecid.is fóru dos domí- 
nio» da saneia sé, e sem duvida liznram ellas nascer 
outro projecto. Em 18l!"J appareceil uma socií-ilade 
d.' capiliilisla» franceze», inglezes e hnllaiidezes para 
arriMidar toda a campina de Roma. Propiinliam pa- 
gar uma renda aniiual ao governo, a (|ual este fixaria, 
e além d'isso dar uma grossa quaiilia. O contractode- 
vi'ria durar cincoenta annos. Cada proprirlariodevia 
receber, no dia do arrendamento, a renda que lhe 
produziam as suas terras. A sociedade coulrahia «s 
obrigiições de cultivar a campina, de esgotar a» U- 
gOus Pontinus c as de Macarcsc c Dslii», focos de 



70 



O PANORAMA. 



enfermidadeB, e de fazer navegáveis o Tibre e o Te- O capitulo soberano de Strasburgo queria ter uro 
verone em todo o seu curso, o que facilitaria ás mon- relógio digno da cathedral magnifica, em que devia, 
tanhas de Sabina a extracção de seus productos, que lembrando aos fieis a hora das oraçue;, recordar-lhes 
se vendem com prejuízo ou se perdem por falta do ^ os factos mais importantes da fradi'jão christã e o» 
meios de transporte. Deveriam edificar se nos Ioga- principios fundamentaes da moral evangélica. Para 
res mais sadios, de distancia a distancia, aldeias com o conseguir não se forrava a despezas ; e por toda a 
suas igrejas e escholas, e em algumas também alber- ^ Europa gyravam cartas convidando para emprehen- 
irarias. Estradas e caminhos vicinaes cortariam a | der esta obra admirável os mechanicos mais distinc- 
campina em todas as direcções. As aguas mineraese ' tos, os astrónomos mais sábios. Houve um homem que 
sulpliureas, que abundam n'esta comarca, se appro- i respondeu ao convite i veio offerecer o seu préstimo ^ 
veitariam para banhos thermaes. (iranjas-modelos, i foi acceito, metteu mãos á obra, e em 1532 estava o 
«■oUocadas nas roais adequadas situações, serviriam ; relógio acabado. 

para natura lisar certos productos coloniaes, como o Foi convocado o capitulo para assistir aos primei- 
anil, a canna do assucar, que em circumstanciasana- , ros movimentos da maravilhosa machina. Nada lhe 
logas teein dado bons resultados. Finalmente, seriam faltava: alguns instantes antes de dar as horas, unk 



leitos todos estes trabalhos pelos habitantes da cornar 
ca, os serranos da Sabina e os camponezes das Mar- 
ca» \ tomando se todas as precauções indicadas pela 
experiência, taes como, agasalho para os operários 
ate a construcção das aldeias, e abrigos provisórios 
longe dos centros d'infecção, o impulso dados aos tra- 
balhos pela agglomeração d^homens , e a suspensão 
d^quelles durante as seis semanas mais perniciosas 
do verão. Estas providencias hygienicas sem duvida 
impediriam que a insalubridade se tornasse infensa, 
ou fizesse paralysar a colonisação, O governo ponti- 
fício conservava, bem entendido, plena auctoridade 
na comarca por todo o tempo do contracto :, e a final, 
«íxpirado o prazo dos cincoenfa annos do arrendamen- 
to, as propriedades voltavam a seus donos, porém me- 
Jhoradas e com o cêntuplo do valor. — Por viad'e5ta 
empreza intelligentc era restituída á cultura vasta 
porção de terreno:, e os recursos do solo, assim appro- 
veitados, geravam a abundância e o commercioi a 
receita do estado augmenlava pelo rendimento cres- 
cente dos impostos ; este augmento punha termo ao 
estado precário de Roma, que vive das províncias :, a 
população miserável que superabundasse na capital, 
no interior das montanhas, ou nas planícies mui po- 
voadas da iMarca, poderia esperar obter conimodi 
dades pelo seu trabalho. N^uina palavra, a civilísa- 
ção iria penetrar n'uin território, que em relação a 
outros se acha no atrazo de alguns séculos. Foi isto 
exactamente o que fez abortar o projecto. O pontí- 
fice Pio VIII desejava o bem, mas não se achava 
munido de força bastante (lara fazer adoptar a pro- 
posta t|ue tinha acolhido com boa vontade; parece 
que foi reputada perigosa para o staiu quo político 
<ia Itália central -, e as doenças e a .solidão ficaram 
soberanas da cainpínn de Roma. 



Relógio astronómico de Sthasburod. 



gallo empoleirado na grimpa d'uma torre advertia 
os fieis batendo as azas, e com a voi estrondosa, que 
estivessem alerta e em guarda contra as suggestões 
do demónio, a que o príncipe dos apóstolos não sou- 
bera resistir. Vinha depois a morte dar tantas pan- 
cadas n'uma campainha quantas eram as horaa ^ em 
seguida um numero de apóstolos, igual ao das horas, 
passava, inclinando se, por diante de Christo, que 
lhes impunha as mãos. Finalmente o carro du sol, 
discorrendo por um mostrador, indicava os mezes e 
as estações', e os ponteiros marcavam as dífferentes 
horas do dia, os dias da semana, os do mez, a idjde 
do mundo, o anno de J. Christo ikc. Era mais di> 
que os coni-gos. haviam esperado. 

Retiraram-se para deliberar sobre a recompensa 
que o artista havia de receber. Mas apenas se affas- 
taram deliu assaltou-os o susto : o homem que lhes 
fizera o relógio podia, amestrado pela experiência 
que acabava de adquirir , fazer outro relógio ainda 
mais portentoso para alguma outra cidade, e priva- 
los a elles da gloria de possuírem uma singular ma- 
ravilha. Um só meio havia de esquivar este dissal>ur ^ 
foi proposto, adoptado, e posto em pracliea no mes- 
mo instante, e um horrível sacrilégio privuu da vis- 
ta o infclíi artista. Infurinaram-n*o depois da caus.i 
d"este trartamento bárbaro. >• Insensatos ! exclamou 
elle, que fizestes? O relógio está por acabar, e pára 
se lhe cu não pozer a peça que lhe f.dta, e deques<> 
eu sei o liigar . >' Deram-se pressa em condutilopar.i 
juncto d'aquella obra prima ; porém assim que lá 
chegou, agarrando nVima roda de que dependia Ioda 
o mechanismo, quebrou-a , c deixou parados para 
sempre os movimentos engenhosos que haxiamdelhe 
dar renome, e a cidade de Strasburgo. Nunca inai« 
se poude achar um homem tão hábil que fizesse an- 
dar de novo este relógio. 

Tal é a lenda da primeira machina astronómica 
de Strasburgo. Quem a quizer tomar a serio tem ou- 
tras qo.isi semelhantes de mais dois relógio»; o pri- 
meiro é o de Nurcmberg, concertadn em I H6 pelo 
cekbre astrónomo Regiomontanus (João Muller), a 
quem a tradição atlribue a feitura de dois autóma- 
tos maravilhosos; uma mosca de ferro, que voava .V 
roda da mesa c di)s convivas, c \olla\aá mãodoseii 



Em 1321), segundo Baillv, foi construído o primeiro 
relógio astronómico cuja data se conhece ao certo, t) 
auctor dVUe chainava-se Ricardo ANalingfort, abba- 
de de S." Alban na Inglaterra, e a sua obra, desti- 
nada a ornar uma das principaes igrejas de Londres, 
••ra, conforme a expressão d'um contemporâneo, liiii 1 dono ; e uma águia do mesmo metal, que saiu, voan- 
DÚlaijre da aric, (jut: jttiitta icriíi iyiiaí Jia Kuropa. do, ao encontro do imperador Ottão II, eoacompa- 
Ainda bem não tinham eointudo passado \intoe qua- ' nhou até as portas ila cidade. O outro relógio é o 
tro annos, um artista italiano repetiu o milagre em ido laão, construído em 1j9S por Nicolau Lippius 
Pádua. de Rasilea, e coiicert.ido cn> ItiGO por Guilherme 

Eis aqui o que se sabe <restes dois relógios ; pou- > Nourríson. hábil relojoeiro Ivonei. 
CO é, mas é mais do que se piíde dizer do primeiro 
relógio astronómico de Strasburgo. Uma data, uma 
tradição vaga, uma lenda l.islimosa. em que não en- 



tram iiiuie,, são os únicos elementosda historia dV'S- 
ta obra prima, que todavia gozava no XIV scculo 
iTuma celebridade talvez maior ainda do que as pre- 
cedentes. 



Em I JòO tentaram cnccrtar o relógio de Slraj- 
burgo, ou autos fazer outro novo, a conslrucçãodo 
qual ha\iam de presidir os malhemalico» maíscele- 
bres. .\ morte de alguns d'elles veio interromper o 
trabalho, e deixou a obra incompleta. Finalmente 
confiaram-na em lotíO a Conrado Rauchfuss, sábio 
professor de mathcmalica na universidade de Strat- 



o PANORAMA. 



71 



burgo, que analysando e traduzindo o seu nome em 
grego "ostava de que lhe chamassem Dasypodiu» (pt- 
cabelludo). Conrado junclou-se com o seu amigo Da- 
Yid Wolkcnstein, astrónomo liamburguez, e encarre- 
gou da coiistrucijão das dilTerentes partei do mocha- 
nismo os irmãos Habrecht de SchalToose, e do ornato 
Tobias Stimmer de Strasburgo: al;J;nlna^ pinturas e 
pequenas estatuas devidas ar. talento d'este artista, 
ornam ainda hoje o relógio, que foi acabado aos 2S 
de Junho de lo74. ULuatro annos depois saiu á I117. 
uma deseripção d\'lle n^jnia ol)ra em latim, cuji» ti- 
tulo se pôde traduzir d'este modo: Dt^crijirrioilo re- 
lógio astronnmko Strnsbitrguense , construido pelo 
cuidado de Ctnirado Dasypodius, e cvUncndo no cimo 
da cathcdrat. Hliash. 1578 in i." 

A obra de Oapysodius fui restaurada em KiCiOpor 
Miguel Habrecht, e em 17o:i pur JacquesStraubliar. 
Cessou de trabalhar em 17S'J. 

Aos 24 de junho de 1838 foi começado por IMr. 
Schwilgué, hábil artista strasburgue?., o relógio ac- 
tual, que se concluiu em "2 de outubro de iSÍ'2. 

Um motor central, que é, por si só, um relógio 
muitissimo exacto, serve para indicar iTiim mostra- 
dor, collocado por fora da igreja, as horas e as suas 
subdivisões, e o» dias da semana com os signaes lios 
planetas que llies correspondem. Estas indica(;ões são 
repetidas para a parte de dentro em duís mostrado- 
res: o primeiro, mais pequeno, mostra as horas; o 
outro, que não tem menos de 4ò palmos decircum- 
ferencia, é exclusivamente consagrado ao kalendario, 
e mostra os mezes, os dias, a letra dominical, o no- 
me do sancto ou sanefa que se festeja, &.c. 

Dois génios com azas estão sentados cadaum do 
seu lado do mostrador pequeno. A cada quarto de 
hora, o que está da banda direita bate na campai- 
nha uma pancada, immediatamente repetida, por 
cima de todos os mostradores, por um autómato que 
representa uma das quatro idades da vida. A Infân- 
cia dá o primeiro quarto, a Adolescência o segundo, 
a Virilidade o terceiro, a Velhice o quarto. A Morte, 
que se vê sobre um pedestal a par da Velhice que 
se dispõe a tocar o ultimo quarto, tem .1 seu cargo 
dar as horas-, e de cada vez que o faz, osegundodos 
dois génios de que falíamos volta uma ampulheta, 
cuja exacção appresentou mais difliculdadcs a Mr. 
Schwilgué do que os problemas mais complicados. 

Ao meio dia, ás badalailas das horas, succede uma 
procissão de doze apóstolos, que inclinaiulo-se, cada- 
um d"elles do seu modo particular, vem saudar o 
Christo, que de cima d'nni pedestal estende sobre 
clles as mãos como para os ab(!n(;oar. Ao mesmo 
tempo o gallo, empoleirado na torre que se vê á es- 
i|urrda, sacode as azas, e canta por três veies. 

Uns carros em que vem lindas figurinhas, c que 
saem alternativamente d'um grupo de nuvens que 
está por baixo do mostrailor das horas, indicam os 
dias d:i semana, representados, o domingo por A pol- 
lo, u seguiulafeira por Diana, a tcrea-feira por Mar- 
te. O retrato que «o vê no sopé da tcjrreda es(|uer(la 
é o de Co|)ernieo ; homenagem d'um dos admirado- 
res d'esfe astrónomo, (|up todavia não ponde obter 
que o syslemu de seu mestre fosse pn Icrido ao de 
l'lol<m)eu. 

Kste relógio foi in;'Ugur,ido aos .'M de dezembro 
de 1N4'J, ás seis horan da noite. Mr. Schu ilgué ti- 
nha-o adiantailo (> horas para que os movimento» 
lio Ualendiirio, do computo eivlesiaslico, iVc. , ipie 
ri'gularnii'nte di'viMn ler logar todos os annos ameia 
noite <le III de ilezenibro se fizess<'m na presença dos 
espiícladores ((uivididos para a cerenioiiia. As cinco 
horas e meia, estando já a calhedriil i-Inia de gente, 
chegou o bispo com toda a cicresia, e proferiu a for- 



mula da benção. E logo, ao darem as badaladas das 
seis horas, pozeram-se em movimento as machinag 
de todos os mostradores, e com maravilhosa exacti- 
dão cada festa movei veio tomar o logar que havia 
de occupar no anno de 1843, 



C.VKT.VS I:«ED1TAS DE D. Jo.ío DE ClSTBO. 

Pela seguinte, não incluída na copiosa coUeccão de 
d«)cumeiitos com que o douto cardeal Saraiva, patriar- 
clia de Lisboa, enriqueceu a edição feita em 183o da 
vida d'este vice rei por Jacintho Freire de Andrade, 
daremos começo á publicaçãod'al2uma das cartas iné- 
ditas mais interessantes do grande D. Joãu de Cas- 
tro. N'esta descreve elle a victoria de Diu com que 
vingou a morte do filho. .Mterou-«e a ortboiTaphia 
do urginal para biciiitar a leitura. 

Carta do Viiorti I). João de Castro aos f^ereadores. 
Juizes da cidade de Goa. 

1347. lo de Noi\-mbro. 

(iuAiiTA feria que foram vinte seis dias do metd*ou- 
tubro parti da fortaleza de Baçaini, caminho de Diu, e 
l'ui surgi na ilha das \ actas. O nutneroda minha ar- 
mada eram sessenta fustas, doze naus e galeões onde po- 
diam ir mil e quinhentos soldados ; e porque me era ne- 
cessário ir tomar a ilha dos IVIortos para ahi fazer acua- 
da e para ahi recolher todos os navios, que no atra- 
vessar do golphão de necessidade se haviam de apar- 
tar de mim como aconteceu, determinei de approvei- 
tar o tempo, que nesta ilha havia de estar, com fa- 
zer guerra pela costa de Cambaia i pelo que logo da 
ilha das Vaccas mandei D. Manuel de Lima com 
vinte fustas por capitão mor á enseada pêra queimar 
e assoUar toda a costa do mar. O qual por seus me- 
recimentos lhe deu Nosso Senhor tal ventura, que en» 
breve tempo abrazou dezesete léguas de costa, sem 
lhe ficar cidade, villa nem logar, que não fosse quei- 
mada até os cimentos; nos quaes toda a gente foi 
mettida á espada sem perdoar a nenhuma cousa vi- 
va, e depois d'isto assi fazer se inetteu pola terra 
adentro, queimando-lhe as sementeiras, pondo fogo 
a todas as eiras, de madeira que receberam grandís- 
sima perda nos rios e portos d'onde entrou, nos quaes 
queimou vinte iiáus grandes e cento e vinte cotias; 
que levavam niantimeiílo ao arraial dos mouros. 

Isto assim feito veio ter comig(> á ilha dos Mortos, 
onde o estava esperando por me não parecer ra/.ui ha- 
ver de entrar em tão duvidosa batalha sem um tal 
cavalleiro, e chegando cnni grande alvoroço de todo» 
os capitais iUlalgos e lascarins parti e fui surgir a vis- 
ta da fortaleza de Diu, e ao outro dia ti/, duas batalhas 
de minha armada : os navios de remo onde eu ia na 
dianteira e as naus e galeões um pouco ntraz. Com 
esta ordem eaniinhei e vim surgir de fora da barra 
de Diu, onde d'armada (|ue cá estava e o baluarte 
do mar fui mui bem recebido com muitas festas e 
grandes alegrias, e me salvaram com toda aartilhe- 
ria e eu depois a elles, e tanto que surgi niaiuleiao 
eapitão que tirasse as portas da fortaleza fora e o 
fizesse a saber aos mouros. K poniuo o logar mais 
ciuiveniente da minha desembarcação estava escuroe 
em muitas opiniões, iior cansa de- todalas parles onde 
podia deseinlianar estarem cercadas ile muros baluar- 
tes, com (Ultras muitas Iraiuiueiras e defensas, ile tan- 
tas maneiras ipie ijiiasi exeeili.iin a iuiliistria huma- 
na, quiz. ccnn minha pi'ssoa ver e>te segredo com Lnu- 
reiíçu I'ires, capitão iiiór d'arin.ida do reino, etí.ir- 



72 



O PANORAMA. 



cia de Sá, e Manoel de Sousa, Francuco da Cunha ' 

«Diogo Álvares Telles, contras pessoas sufficientes, e 
com elles fui vero baluarte de Diogo Lopes, Bem 
embargo que nos defendessem u vista com muita arti- 
Iheria :, mas no fim o houve de fazer, como ii?, muito á 
minha vontade, c com parecer de todos assentei de niío 
desembarcar por alli, poios grandes inconvenientes que 
para isso havia, mas queiosse á fortaleza equed'ahi 
saísse dar combate :, e como isto. tivesse assentado lan- 
cei fama na minha armada e dentro na fortaleza que 
havia de desembarcar pola banda do baluarte de Dio- 
go Ijopes, e pêra fazer isto crer aos mouros mandei 
ao outro dia trcs caravelas que os fossem combater, 
das (|uaes eram capitães IíUÍí d'Almeida, António 
Leme e Francisco Fernandes, a que chamam mori- 
cale : os quaes ante manhã combateram este baluar- 
te com tanto esforço, que foi muito para louvar, e 
vrendo os mouros que esta obra era a fim de desem- 
barcar por esta parte, trouxeram logo a maior parte 
da artilheria do campo e a assentaram sobre a desem- 
biircajão, fortihcando-se com muita induitria, trazen- 
do para ahi grão numero de soldados. F.m quanto se 
esta ol)ra fazia mandei mui secretamente desembar- 
car toda a gente na fortaleza, e apartei cincoenfa fus- 
tas desemmasloadas como que eu havia de ir ao ou- 
tro dia desembarcar n'ellas polo logar que as caravelas 
combatiam. EnVstas fustas não levavam outra gen- 
te senão marinheiros, puz muitas trombetas eataba- 
les e charamelas, pêra quando ouvissem a diversidade 
dos instrumentos déíse fé de minha (armada) para ir 
dentro. 

E por Nicolau Gonçalves ser homem muito esper- 
to e cavalleiro muito practico nas cousas do mar, o 
1Í7. capitão mor d'esta fostalha , e concertei com elle 
que ao tempo que lhe lançasse sete foguetes da forta- 
leza remettesse á praia e disparasse toda aartilheria 
das fustas, e que fazendo que queria desembarcar, se 
detivese ali;un) espaço, porque dVsta maneira primeiro 
que os mouros reconhecessem o ardil teria tempo de 
passar as suas muralhas e dar lhe batalha. Isto assim 
concertado me desembarquei duas ou f res horas da noi- 
te, o ordenei de toda a gente duas batalhas s. s. o 
capitão D. João Mascarenhas com toda a gente da 
fortaleza fosse uma na dianteira, e eu com a gente 
d^armada na outra. E em sendo a manhã clara saí- 
mos ióra da fortaleza cou) nossos esquadrões cerra- 
dos, e os mouros nos resistiram á saída muito forte- 
mente, tirando muita artilhcria que estava assenta- 
da na entrada da ponte, e disparando cm nós toda 
a sua arcabuzaria, com a <|ual nos mataram muita 
gente que poz logo grande espanto aos nossos, mas po- 
ilendo mais a fúria portugueza que as armas dos ini- 
migos, houveram de passara diante, posto que por ci- 
ma de mortos: D. João Mascarenhas, capitão da for- 
taleza, com seu es(]uadrão chegou por uma banda ao 
pé das muralhas , com seu grande esforço edos fidalgos 
e lascarins <)ne comsigo levava as liouvodesubir, scm 
embargo iPellas serem valiMitrmente defendidas com 
grande numero de Irechas, espingardas, bombas de fo- 
go e paiicdhis de pólvora, e outros muitos e grandes ar- 
tifícios de guerra ■, e passando além começou a pelejar. 
Eu cheguei por outra parte com minha batalha .lo pe 
das murallias, e as subi pi)sto que com grande dam- 
no e perigo dos (|Ue comigo iam ; passando a outra 
banda comecei a batalha. *• numero dos mouros se- 
riam vinte mil homens m. rumes, abexins, arábios, 
robustos-, porque a outra gente era infinita que se 
não podia contar. E os mouros posto que receassem 
pelejaram valentemente por espaço de duas horas j 
mas Nosso Senhor, que era por nós, lembrandn-sc 
que pelejávamos por sua fé e defensão de sua chris- 
tandado, apttíuxc u tua misericórdia de nos Udr iu- 



teira victoria. Com a qual os arrancámos do campo 
e fomos apoz elles até a cidade e n*ella os entrámos 
por força d^armas, e por mais resistência que nos 
fizeram lh'a ganhámos toda, pondo-os cm fugida^ e 
seguimos apoz elles o alcance espaço de meia legua : 
e creio que se fora pola vontade dos fidalgos e lasca- 
rins que não pararam menos do Madabá. Mas ven- 
do eu minha gente cansada e o grande numero de 
mouros, os fui recolher e trazer pêra a cidade. Fal- 
tarmos particularmente em cada capitão, fidalgos, e 
lascarins, seria nunca acabar polas muitas cavallarias 
e sortes, que todos fizeram n'e5ta batalha ■, morreriam 
homens português obra de trinta, em que entraram 
a maior parte fidalgos e muito honrados, e ficaram 
feridos duzentos e cincoenta. E dos mouros morre- 
riam passante de três mil, e com elles o Rumecão 
capitão geral d'elrei de Cambaia , e outros notáveis 
homens, e foi captivo Juzarquão, capitão geral do» 
abexins, que é um dos principaes senhores do reino 
de Cambaia. E Mojatecão fugiu a unha de cavallo. 
Tomei mais a bandeira real d'elrei de Cambaia e 
quarenta peças d'artilheria, s. basiliscos, lionês, es- 
peras, salvages, e alguns tiros de campo, e assim Io- 
das as munições de seu arraial. NVsta batalha me 
ajudou muito Lourenço Pire^, capitão mór da arma- 
da do reino, pondo-se diante de mim a todalas af- 
frontas, como se esperava de tão nobre e principal 
fidalgo c Ião experimentado em batalhas de mou- 
ros : o capitão D. João Mascarenhas fez lanlo e pe- 
lejou tanto, que se não pôde louvar seu esforço eca- 
vallaria tão famosa. Tal victoria como esta que me 
Nosso Senhor deu, digna de ser celebrada em quanto 
durar a memoria dos liomens, eu vos posso afúrinar 
que se não podéra alcançar sem graça e ajuda divi- 
na, que endereça minhas cousas de maneira, que por 
ter confiança em Deus, que fora da opinião e espe- 
rança dese poder acabar tamanho feito me deu ven- 
cimento e inteira vingança da morte de meu filho. 

Por Simão Alvares cidadão d'essa cidade vos man- 
do a bandeira real d'elrei de Cambaia, para que lo- 
dos laçaes uma soiemne procissão e \adcs a Nossa 
Senhora da Luz, iia qual levareis a bandeira alevan- 
lada c estendida para que o* mouros egentios vejam 
as mescês e victorias que nos Nosso Senhor dá, por 
sermos christãos u pelejarmos cm defensão de sua 
sancta fé cafliolic.i. 

Dos casados e moradores fui mui ajudado assim no 
mar como na terra, os quaes se mostraram n"csta ba- 
talha grandes, e notáveis cavalleiros : todos roeteem 
tão bem ajudado e serviilo a elrei nosso senhor que 
são merecedores de mui grandes prémios. 

Havida esta victoria mandei que lodosos mestiços 
que se n'ella acharam fossem assentados cm soUu e 
mantimenlo, por honra d"csle grande feito como por 
me parecer que n'isto comprazia a lodos os cidadãos, 
e po\o d"essa mui nobre e sempre leal cidade de 
Goa. A Simão .alvares vos encommcndu muito pêra 
que de todos seja mui honrado e bem recebido, por- 
que a sua vinda a esta fortaleia foi muita parte de- 
pois de Ueus ás vidas de muitos fidalgos c lascarins 
os quaes elle curou como grande phvsico que é, dan- 
do geralmente Iodas las suai mezinhas de graç.i, fa- 
zendo outras muitas boas obr.-.s d'csfoi^o, de manei- 
ra que com verdade se |)óde dizer por elle doutor e 
cavalleiro. 

As novas de mim são ficar em boa disposição, Nos- 
so Senhor seja louvado, e cm trabalho de fazer esta 
fortaleza de novo, pêra que me faliam muitas cou- 
sas;, mas se me Dous ajudar os montes se (ornarão 
valles, e os barrancos estradas chãs. 

Encommcndo-me scllhorc^ em vossas nicrcèí. De 
Diu a lo de i.u\cmbro de JblT. 



I 



10 



o PANORAMA. 



73 




S. IIOAVE.NI LRA aVADKO DK MCRIILO. 



KtTF. quadro <• re[mliiili> nina il.ii ohrai |>^illla^ ilci 
feciiiiilo pintor tiispaiiliiil Murilli) : rt- (iresfiita S. l!i)rt- 
ventiira na occatião ••m 'lU'", scgiimln as lifmlas, re- , 
siisoildii depois de liaver siiJo enterrado, f veio aca- 
bar ot sem íivroi de lomnientarioi i^ue deixara in- 
«ompletoa. — O harãu Tavlor, u (|(iein a França lir- j 
ve pranile numero de (ireeiosidaili^t arlisliiMS, Irou.ie 
de Seviliia a 1'aríi esta liella pinlnia. I 

Kfitevain Miirillo fui natural deSivillia e naseeu no 
I," de janeiro de 1018: -icii» pai» eram pid)re» ; mas 
teve a fortuna de <{ue mu dos seui pnrenleit era ar- 
tiatn, «Inau dei Cntilln, o ijunl Itie deu as priíiiei- 
rai iieôei du arte, lmoi (jne medrou o tiileulo do 
«liinino lie sorte (|ue (louro depois mereceu ser a<lniil- j 
lido discípulo do r.iinoso V'>'lasi|ni'7., (|ue Ciijura áfri'nj 
te da eiilioU lo-sp.inliola. ■ — Munllo loi extreuiauieu- i 
tu applieado, auianle il,i vida tranijiilila e duineslica , | 
por forma <|iie a in/iior parle da sua \ida passou em j 
Sevillia, sua pátria, luzindo o mais posiivel ile fre- , 
(juentar Madrid e a i òrte, p.ir.i mole o cliaiiiava a 
nonieaila dos seus taleolos. Ki.i um jj;ran Ir pintor sem 
ver a Itália, e pintou inlinitii ; as suas euiiipusi(^'õi-s 
revelam a liraitdura do seu caracter; al;;uiiias são do 
«libido merecimento. Na si- ile Sevillin liík um i|ua- 
VuL. I. — NoVEMíiio 7. 18t(j. 



dro seu, rpie representa o r.vl.ue de um salicto, que 
é a tida de maiores diiiieii>õcs e uma <las mais aca- 
badas oliras <jue saiu das suas mãos: o dnqiiede \\'e!- 
lin);lon, i|iiereiido adquiri-lo pa'a a jj.ileria de Lon- 
dres, idrereceii por elíe tantas uncas de ouro da moe- 
da bespanliola quantas fosscni necessária» para cobrir 
a superfície do quadro, o qiio devia montar a uma 
quantia por extremo avultada: assim mesmo u cabi- 
do sevilbaiio rejeitou di;;namente u pruposla da ven- 
da. Muiillo fundou uma academia de piuliira na sua 
cidade iiatalici:i, onde morreu (renferiiiidade no an- 
uo lie lljtiO. 

S. Uoaventura foi natural da Toscana, e iiasren em 
1221 ;, entrando na ordem francisc.ina chegou a aer 
geral. l'ur sua iiiiiita piedade, disliiictus estudos, r 
servi(,'OS á ifjreja, (ircjçorio \ em l"J7o o iitiiiieou bis> 
po de Albano, e u fel carde. d. O seu transito foi em 
I27i em liVão de Krança. Sixto 1\' o canonisou em 
I '»iSÍ ; Sixto V o proclamou donlor d.i i'.;reja. K co- 
iiliecido pela antonomásia de doutor serapliico. As 
suas obras iniportanlen são os Commentarios í Sa- 
grada i'"scriplura, e o Mestre das Seiílenjai. 



74 



O PANORAMA. 



" " HiSTUIlIA DOS TElECRAI'HOS. 

(Continuado de pag. Cl.) 

S(5 NA epoclia dePliilippe pai de 1'pri.eu (século III), 
começou a fazer proj^ressos entre ot gre^DS a arte te- 
lpera|iliica, porque aijuelle príncipe serviu-se niuito 
lie >>i"iiai"i nas suas í^iierras. Pol^bio ela no seu livro 
9." muitas iiiforina(;ões a este respeito, e nota cum 
razão que é fácil prevenir al;;uein de uni aconteci- 
mento esperado por meio de sifjnaes con\encionadoH. 
l'orén), annunciar a reall8a(;ã<> de successos llll[lle^i^- 
tos, de uma rebellião repentina, não pôde lazer se 
sem croar processos próprios para indicar as circums- 
tancias que menos se podem conjecturar. Eneas, auc- 
tor de pscriptos sobre a arte militar, econtemporanco 
de Alexandre, tinha alvitrado o estabelecimento de 
postos a certos intervallos: t>s cstacÍDuniids deviam 
ostar munidos cada uin com dois vasos iilenticameiíle 
semelhantes em l.tri;ura (4 i pés) e em profundidade 
(pé emeio), clieios d'agua e com torneira: sobre um 
pau, que atravessava um pedaço de cortiça boiante 
«'agua, escrevia-so a novidade que se queria commu- 
nicar. Dispostos estes vasos por esta maneira, a pri- 
meira vigia levanta um pharol (»), a immediata le- 
vanta outro semelhantemente; assim advertidas de 
<)ue estão alerta, as duas vigias abaixam os pharoes 
c abrem as torneiras; a cortiça desce á medida que 
o nivel d'agua se abaixa, o páu pregado na cortiça 
abaixa-se também \ e quando a phrase que se quer an- 
nunciar, e que está escripta no páu, tem chegado ao 
nivel do vaso, para mostrar que está completa, a pri 
meira vigia alça de novo o pharol, do mesmo modo 
a segunda, e fecham-se as torneiras; assim por dian- 
te em toda a linha. — Este melhodo era engenhoso; 
mas era preciso que tudo o(|ue podesse acontecer fos- 
se inscriplo no bordão indicador: ora, muitas vezes 
não poderia isto ser, e a novidade sairia incompleta. 
J'ara obviar a este inconveniente iinaginou-se pouco 
depois um novo processo: — tomaram-se as vinte e 
quatro híttras do alphabeto, divididas em cinco co- 
lumnas. Por este melhodo o que dá o signal iça dois 
pharoes:, a vigia immediata levanta dois também pa 
ra mostrar oue está prompta : então a prinicira vigia 
levanta o numero de pharoes estipulado á esquerda 
para indicar a columna a que pertence a lettra que 
vai designar, e outros tantos á direita para indicar 
«•ssa letra •, por este sistema um pharol á esquerda e 
dois á direita indicam a letra M. Este methodo é 
um tanto mais demorado, porém mais seguro. 

Entre os romanos foi a telegraphia empregada mui- 
to mais tarde. Devia ser 1'ol^bio, commensal deSci- 
))ião o magno, quem a vulgarisou em Rom.' : comtu- 
(lo parece (|uo César (liv. á." de 15ell. Gall.) f(\ra o 
primeiro do povo conquistador que se serviu de si- 
gnaes de fogo par.i conhecer dos movimentos dos ini- 
migos:, e pelo emprego d'estes meios se poderá talvez 
ex|)licar a rapidez e certeza das suas operações mili- 
tares. Os gallos também tinham noticia de alguns si- 
gnaes', por isso, cpiando os carnuttis tom:iram Or- 
Icans, esp,ilhou-se a novidade por todas as Ciallias 
<> porijue (diz o próprio César liv. ".") quando acon- 
tect! alguma cousa importante e de interesse, os gal- 
los ailvertcmse reciprocamente por clamores que traus- 

(1) Phaml vem da palavra Krega pharos, que exprime 
tanto a torre onde se acceiiili.ini fachos, como esles mesmos, 
«Ul grandes laiilernas e lampeõcs para si^naes ; e tanta era 
a praclica d'csles entre os gregos antigos, ipie no sen liello 
idioma adiamos muitas palavras para os exprimir eosloga- 
res e modos onde e como eram feitos. Alem dVssas. sijmho- 
la si^nilicava os signaes Iransmilti Jos pelo som, e tyntcmiia 
os signaes invisíveis. 



mittem atravez dos campos, e que tão repetidos de 
perto em perto^ de sorte que o »ucce«»o de Oriéans, 
passado ao nascer do sol, soube se na Alvernia antes 
das nove da tarde, não obstante a distancia deuitea- 
fa léguas." — Em epocha posterior cw romanos abri- 
ram em todo o império admiráveis estradas, e dedit- 
tancia a distancia erigiram torres, eoi que postaram 
sentinellas para passarem ostigiiaes: ainda se divi- 
sam em Uzcs, Belle-Garde, Aries, Nimes, Besançun, 
etc , torres quedeviuin ter servido para aquella» par- 
ticipações telegraphícas : a columna Trajana appre- 
senfa nos seus portentosos baixos relevos uma torri- 
nha, de uma fresta da qual sae um facho; o que no» 
dá a entender a maneira por que eram feitos aqueU 
les signaes. 

Taes são as informações de mais vulto que n'esta 
matéria nos fornece a antiguidade. Na idade media, 
es«e inetliodo rápido de communicações foi usaiio em 
Constaiitínopola, onde geralmente se conservaram o» 
conhecinKMitos antigos durante aquelle longo período. 
Para terem aví«o da chegada do» árabes, os impera- 
dores grejos haviam estabelecido uma linha de si- 
gnaes de Tarso a Ijy-aucío. — Os árabes da» H^spa- 
nhas, e também os hesp;inhoes, serviram se igualmen- 
te do fogo, de bandeiras, e de tiros, á maneira de si- 
gnaes. l'or fim, no século XV, um monge chamado 
Trithemio publicou um sy^fema de telegraphia (f/e- 
noyiaphia iiithimiana) para fazer chegar as noticiai 
a qualquer distancia : porém, excepto algumas noções 
incompletas, nTio é conhecido o meio proposto p>r Tri- 
themio. Apesar de todos osejforços não ponde a anti- 
guidade conseguir un) sistema teiegraphico completo. 
No século XVII, um francez, Amonlons, membro 
da Academia das Scieucias, approveilando os traba- 
lhos dOs antigos, e os descobrimentoi dos moderno* 
em óptica, propoz um methodo novo de communica- 
ções. Com effeito, para escrever de longe é precito 
que se vuja de muito longe; e os progres-os moder- 
nos são devidos á applicação dos telescópios á tele- 
graphia ; o que permittiu poderem ser diminuídos 
os postos para os signaes. Restava aiiida vencer uma 
difliculdade : — deveriam empregar se os signaes al- 
ph.ibeticos para compor as palavras e phrase».' . . \ 
esse melhodo demorado e dífiicil substituiu se outro 
inteiramente novo; recorreu-se aos números. Redu- 
zidos dVsta forma os signaes a pequena quantidade, 
practicados por machinas mui simplices, e vistos pe- 
lo telescópio, constituiu se a telegraphia moderna. 

Seria difticil de comprehender porque ratão ,i ideia 
de Amonlons, posto que imperfeita, não foi logo en- 
saiada para se aperfeiçoar, como fei Chappe, se por- 
ventura não l"sse cousa sabida que os povos não se 
servem senão c.is objectos de que carecem. O» gover- 
nos europeus dos séculos XVII e XVIII não experi- 
mentavam a necessidade das communtcações iinl.in- 
taneas; e o pensamento de Amontons foi jalijido e 
admirado, mas cu no pura curiosidade. Coube á re- 
volução francez, 1, que incutiu no mundo tão prodijioso 
movimento, eqwe prin-lamoti a forte alliunça dos po- 
vos, o pòr em exercício ivs primeiros 'elejraphos. — 
Tinha ("happe (como ja díssemo») appresentado á .As- 
semble.i legislativa asna niachina ; no nono se:;uinte. 
\ d'abril de 1793 (\id. Monitor pa;. 4|7\ Romme, 
por parte das duas commi-sõe» reunidas da inslruc<;.io 
publica eda guerra, leu o relatório sobro nqurlle "ies- 
cobrimento. «.Em todos ostemnos (disse) foi reconhe- 
cida a necessidade de um meio ra()ído e sejuro de 
correspondência a largas distancias. Sobretudo nas 
guerras, quer por mar quer por terra. íinp<vrta dar a 
saber instantaneamente os numerosos acontecimentos 
) successivos. transmillir ordens, annunciar <» soccor- 
' ros u uma praça ou a um corpo quo .itacassem etc. 



o PANORAMA. 



75 



A historia conserva memorias de muitos roethodos 
concebidos nVsta intenção-, porém a maior parte fo- 
ram abandonados por incompletos e de practica dif- 
ficultosa" Passando depois á appreciação do systema 
de Chappe disse o orador- . . "que ofterecia um meio 
engenhoso de escrever no ar, desenvolvendo caracte- 
res pouco numerosos, simplices como a linlia recta de 
que »e compõem, entr.; si mui distinctos, de execu- 
ção veloi, e sensivel a grandes distancias. " O relator 
observa mais que, não tendo conhecimento do valor 
dos Mçnaes os agentes intermediários, não podem ser 
violados os segredo». — A convenção votou a quantia 
de seis mil francos para se estaljeLcer uma linha de 
correspondência dVxten^âo tal que p.Tmittltse obter 
resultados concludentes. — Em l'li de julho de 17y.} 
(Monitor pa','. 894) Lakanal, em nome da comtnis- 
aão, deu c<Mila das experiências f.Mtas s.-};iiiido o nie- 
thodo lacliigrapliico propoito pelo cidadão ('liappe. 
INo rel-itiirio descreve o niavhinÍMiio com individua- 
ção ; declara que tiveram li.i;ar as experiências a 12 
de julho n'uma linha d^- nove léguas; que o segredo 
das participações não era sabido do» hoinens dos pos- 
tos; e que a traiisinis-ão ile um aviso de Paris a Va- 
lenciennes (•) poderia eflcciuar-se <in treze iiiiiuitos 
« 40 scçíindiis :, que o preço necessário ()ara ciillocar 
uma linha tele_s;raidiica entre as duas cida<ifs st-ria 
àt 58000 francos. A a-senilil-a appriiviMi e dccretcui 
unanimeiíiente a proposta da cuiiiinissão, isto é, «es- 
tabelecimento dasobreilita linba, e concedeu a('hap- 
pe o titulo de en!;enbeiro telegraphico, com n veiici- 
iiieiilo de tenente dVineiilieiros. A Convenção se 
apressara a lançar mão iPeste meio extraordinário de 
commuiiicação : os seus ininiigos, que não estavam 
preparados, a ca<la instante se (hrviain acli.ir emba- 
raçados; porque a actividade inlaligavel d'esta as- 
lemblea apparecia mu toda a parte, tinha modo de 
«aber tudo e de fazer constar tudo com a rapidez da 
«ua voz enérgica. — Algum tempo depois da adopção 
da proposta, o presidente, na abertura da sessão, par- 
ticipiMi á assemblea que o telegrapbo anunciara a 
tomada lie Conde. A Convenção resolveu que o exer- 
cito <io norte era benemérito da [latria, eque aridade 
de Conde ficasse d'abi avante com o nome de Norle- 
Ijivre. l*assados alguns iniiiulos o presidente di'cla- 
roíi que o decreto havia chegado a Conde, que se im- 
primia, e que o exercito applaudia a resolução ita 
Mssemblea ; esta, comprebendendo todos os vantajosos 
resultados que se podiam colher da invenção telei;r:i- 
pbica, decretou a formação d.' muitas linli.is para li- 
par as fronteiras, e toilas as parles da Kraiiça, a l'a- 
rís, «fim depor este modo presidir aos exércitos qua- 
si pessoalmente, econcentrar a acção peculiar dos de- 
partamentos no centro s;eral do estailo, em virtuile 
da presteza da» comniiinicações. Napoleão, nas suas 
immeiísas campanhas, também tirou grandlssinin pro- 
veito do telegrapho, sobretudo na de ISlIIJ , a respei- 
to do que se podem consultar os escriptos do general 
Jomini. Tinha feito estabeleier uma linha de IMu- 
tiich «Strasburgo; eipiando os anstriacos, jul'.;aoilo-o 
antrelido com o meditado desi-nibari|;;e na Iii'.;laler- 
r«, avançaram «obre o Kbeno, sem esperar os seus 
alliadiis russianos, Napoleão, informado diis primei- 
ros movimentos, partiu pela posta, aiompaiiliado lo- 
go de uma parle das suas tropas, m-guindo-o a outra 
a marchas forçadas, e por meio de manobras ailmira- 
veis, tiMiiando pe|,i ret.ii;uarda os aostri.icos em Ulm, 
constrangeu 4()()0{> bnmeiís enierrailos irui^a praça 
furte u deptV as armas sem disparar um tiro. 

{('onliuiift.) 
(1) Anilha Ciipilai du liainauí Trance/., a :>,> léguas traiic. 
distante de ParU, no departainentu do Nurle. 



O Feitor de CautIo. 

Novella. 

O isiMENso império da China, que comprehende 
G88000 léguas quadradas (isto é a terça parte da 
Ásia) e 3o0 milhões d'haV)itantes, por um só ponto 
está aberto ao commercio da Europa, e mesmo assim 
com reslricções que ate o novo tractado, a que a In- 
glaterra oobrigou, pouco poude modificar. Ainda ho- 
je é o Tigre o único rio do celeste império aberto á 
navegação dos èaiíinios europeus; mas uma frota, que 
está sempre na foz, vigia os navios que por elle aci- 
ma vão ter a Cantão. Compoem-se de juncos de guer- 
ra cujos mastros, curtos e massiços, todos carregado* 
de bandeirolas de cores, teem nos topes o pavilhão 
amarelU) com o dragão imperial (•) listes navios que 
não passam <le grandes chalupas mal constriiidas, re- 
beldes á manobra, por terem as popas elevadas cou- 
sa detrinia palmos acima d'asua, raras vezes «e aven- 
turam a sair ao mar. Toda a sua artilheria consiste 
n'algumas peças pintadas de vermelho, assentadas no 
meio da tolda. 

Além d"isto ha pelas <liias margens do rio fortes 
ouriçados de mastareos, no .-illo dns qoaes tluclnaiit 
baluleiras de todas as cores. 0.uaodo alguma embar- 
cação quer subir pelo rio sem licença deitam-se fogue- 
tes em todos estes fortes para dar aviso, pendoram-se 
lanternas nas canbon»ira«, e os artilheiros chins co- 
meçam um fogo lento, ilesigual, e (piasi sempre inútil. 

A'entrad.i doTi^re se acha a ilha de Ijin-tin, on- 
de os navios ín^lezes trazem o opío, cuja ioiroducçãi» 
é prohibida em tola a Cliina com pena de morte. 
Abi o vem buscar as peejoenas barcas de contraban- 
diiitas, armadas de quarenta remos, que o espalhan» 
ilepois por toda a parte, De seis em seis mezes uir> 
mandarim imperial desce pelo rio, n'um junco eiiver- 
nisado edijurailo, que se conhece de longe pelos doi% 
parasóes que traz na tolda, para verificar se as leis se 
cumprem; porém, como os negociantes inglezes costu- 
mam compra-lo, manda sempre aniuinciar em segredo 
a sua vinda, e d'este modo quando che;;a a Tiin-tia 
nunca encontra navios, nem contrabandistas, nem 
ópio. 

Mais acima, no Tigre, ha um porto chamado mam- 
pnn onde os navios snríem para c«rrei;arem de chá, 
algodão, seda. assuc;'r, ver"i.l'i";.>, eoibenilha, cam- 
pbora, porcelana, alini«t-.(r e l.irtarog.i. Dl vide-se aqui 
o rio em dois braços, cujas margens estão cheias de 
baro.is velhas encalhadas, com seus toldos feitos de 
bambus entrançados, as quaes servem <le cabanas. 

(Isdois braços doTi;;re reunem-se em Cantão, <|ue 
é uma cidade de perlo detresentas mil almas, defen- 
diila por muralhas de cinco léguas de circuito, edifi- 
cada em parte á beira do rio sobre estacas, e que se 
compõem na realiilade de Ires cidades dislinctas: a 
primeira assentada ao longo do Tigre comprehende 
mais tle iiul c/inmpnus, que si»rvem ao mesmt> temp*» 
de barcas de pas-ai;>'m e de liabitações ; a segunda ci- 
<l.ide abrange as feitorias europeas e americanas; fi- 
nalinenle a terceira, separada dVsla por muralbas, 
e por uma p<»rta por <u»de aos europeus não e [>ermil- 
lido pass.ir. forma a verdadeira cidade clilnn. 

Ao pe d\'sla mesiiiA porta, mas tbi lailo em t|ue 
mora a gente da Koropa, é que escolhemos o lognr 
da nossa scena para a inlriulucçãi» ti*esta historia. 

Diiis homens seguidos di- criados, «pie lhes vinb.iiix 
fazendo sombra com amplos parasóes, se encaminha- 
vam para h banda do rio, da vagar e conversando. 



(I I I) :iiiKireMu é cor exclusiva do imporadur c da sua 
família. 



76 



O PANORAIVIA. 



o vestuário do mais idoso era uma sotaina de seda 
lavradii, tal<;as largas de tafetá, e barrete acolchoado 
debaixo do <|iial saia ui" luiigo ralnclio eiitrançiao 
que lhe checava ás curvas das perna». Aiiula quan- 
do a sua li;2 ciV de limão, a pequetiez dos olhoí, o 
pintado das sobrancelhas, e a barbinha curta e bicu- 
da, di'ixassom a mais pequena duvida a respeito da 
sua raça os sij^naes de avareia, de velhacaria, e de 
pusillanimidade, espalhados por todo elle, bastariam 
para dar a conhecer que era chim. Ao seu compa- 
nheiro, pelo contrario, que vestia de nankini. p.a«:'i 
europea, lia-selhe no roíto o deseml)ara(;o, Iraiiqni;- 
la, e audácia, filhas do habito de mandar e da natu- 
ral valentia. Ambos conversavam em voz baixa e i.a 
lingua china. 

— 1< Torno a repelir, Ymi-hi, di?.ia o europeu, q<ie 
acompaidiia americana não piJde sofirer taes ladroei- 
ras:, osdireitos que Ihechuna o vosso hou-pou (1), em 
dois annos, dão com ella em terra. Acha pouco mel- 
ter a bordo dos nossos navios c;uardas d^alfandCjTa 
que furtam até as cordas i e no invenl.irio da car^a 
triplica o numero das varas da» peças de panno, re- 
pete a contagem das caixas de ferragens, e vale-se 
de quantas manhas pode para augmenlar os direitos. 
Ainda ha pouco, verbi gralia, não poz a alcunha de 
espelhos a uns vidros lisos de líoheinia, e de agalhas 
a pederneiras dVspingarda ? E muito abusar. You- 
hi, sabei que isto não dura." 

O china fpz um gesto de afflicção. 

— "Ah '. que posso eu faier ? disse elle ; o hou-pou 
é um homem avarento; a companhia fez mal em lhe 
apresentar a mão meia aberta quando era preciso 
abri-la toda." 

— uPelo céu! bradou o feitor americano, não te- 
mos nós feito bastanln sacrifícios? não tem recebido 
o vosso director da alfandega em pannos, em aço, em 
vinhos de França, em obras de ourives, para cima de 
cinco mil doUars? Não podemos dar mais, c a vós, 
You-hi, compete desenganar o hou-pou.» 

You-hi quiz escusar se. 

— "Por força, replicou o americano com firmeza. 
O imperador, quando concedeu o privilegio exclusi- 
vo do commercio estrangeiro aos doze negociantes que 
formam is^o a que chamais JC>ny-han, quiz que el- 
les servissem de medianeiros obrigados e de procura- 
dores dos harharos. Q-uando chega algum navio nos- 
so sois vós que lhe forneceis os mantimentos, que pa- 
gais os direitos da carga, que tirais o cliop da saí- 
da (á). N^iima palavra, sois os nossos mandatários, 
tendes obrigação de sollicifar que nos façam jnst ça. 

— "Mas por que meio se hu de alcançar, uiister 
KnVndon ? disse You-hi, com vozes magoadas. Não 
sabeis que os desgr.-içados httiiislai (3) são o malhadei- 
ro onde vem bater todos os pontapés, que não se atre- 
vem a dar em \ósoulros por si-r<les estrangeiros .' Met- 
tidos entre os nu«siis superiores e os europeus, como 
o ferro entro o nurtello e a bigorna, aparamos toda 
a pancadaria sem lhe podermos fugir com o corpo." 

— "I'ela iniidia alma! Isso compete vos, Yon hi, 
repliiiui Kílendon ; sois tão experto no nes^ocio que 
liáveis lio achar remédio para amansar o hou loií. A 
companhia, que vos enriquece, tem jus a que H o re- 
tribuais com uma protecção real-, traetai de lh'adar, 
quando não vae a cousa por mal, e deitam-se i.o Ti- 
gre alii uns doze guardas da alfandega," 

— "diic dizfis ! exclamou o china, cxiyo^ olhinhos 
exprimiam terror ; mister lidendon diz o que não 
«ente ?" 



(1) Director das alfandegas. 

(2) Licença. 

(3) Membros do Kong-han. 



— uPelo contrario, estou persuadido que era uDlk 
lição útil e capai de fater os empregados roais im- 
parciaes." 

— "K eu, mister Eflfendon, interrompeu o china 
sobresaltado ; já vos não lembra que por ser haniila 
respondo por tudo que fizerem as vossas tripulações' 
Sejiiegam o pagamento d'iim direito pago-o eu; »e 
fazem alguma desordem o mandarim mette-me na ca- 
deia ; se afogarem os guardas a mim é que me cortam 
a cabeça !" 

— Bem sei, retorquiu o americano, sorrindo sem 
mostrar abalo; r por isso assentei que vos devia avi- 
sar antes de irás do cabo. Ide ter com o director da 
alfandega, fazei o ajuste ; ijbri a mão, como ditieis 
ba pouco, e deixai cair na bocca d'aquelle tubarão 
um pouco do ouro que tendes ganho com a compa- 
nhia. K preciso saber fazer um sacrifício a tempo." 

You-hi suspirou, sem dizer palatra; conhecia o gé- 
nio inilexivel de EfTendon. Seguiu-se uma grande 
pausa, durante a qual chegaram ambos á frontaria 
do palácio do hou-pou, fácil de differençar pelas ca- 
beças de dragão, que lhe ornavam a portada, por ci- 
ma das qiiaes estavam pendurados grilhões e chicotes, 
symbolos do direito de julgír. 

— "Estais á porta, disse KfTendon ao china, apon- 
tando para o palácio; advogai bem a vossa causa : ha- 
veis de vence-la SC quizerdes : com a vontade abalam- 
se montanhas." 

— "Sim, é o vosso estribilho; porém nói temos 
um provérbio que diz que o rnaii hábil lettrado não 
pôde obrigar a aranha a fiar seda ! Todavia eu hei 
de me empenhar, e sabereis a resposta do hou-pou es- 
ta tarde vindo jantar á minha casa de verão... pen- 
so que recebestes o meu convite." 

— "Em papel vermelho, escriptn com tincta d» 
ouro! Lá vou sem falta." 

O china fez-lhe com a mão um signal de despedi- 
da, e separaram-se. 

EITendon costumava cumprir o que dizia, e You- 
hi julgava-o capaz de pór em practica, ao menos em 
parte, a aineaç.i <jue lhe Ijzera, sem lhe importarem 
as consequências nem os trabalhos em que podia met- 
ter o hanista ou meltcr-se a si. Havia quasi dei an- 
nos que elle dirigia a feitoria da sua companhia, e 
sabia por experiência que o meio mais seguro de ob- 
ter justiça era faze-la por suas próprias mãos, e que 
da violência resultavAm menores perigos que do lon- 
go soflVimento. Não se podendo resolver aentranhar- 
se, como os chins, no labvrintho de trapaças e men- 
tiras em que elles gvram tanto por inclinação como 
por interesse, tinha-se costumado a caminhar direito 
pelo meio de liid.K as suas alicantinas, exigindo re- 
par.ição de cada offens.i. e toinando-a por suas mãos 
quando lli"a negavam, lista espécie de inteireza rígi- 
da c audaz tinha feito por fim que o Kotig-hang lhe 
cobrasse medo, assim como os empregados imperiaes, 
auctnrisados para commetterem injustiças e latrocí- 
nios, mas não para provocarem um rompimento com- 
pleto. [rori(ifnio) 

GlAHDA ESCUCEZ DOS REIS DC FbA>'^«. 

Caiilos ^ II, que reinou em França desde H'2'2 a 
IIGI, c que pelas vicissitudes das armas esteve mui- 
tas vezes a ponto de perder a liberdade e a coroa, foi 
o primeiro que fez organisar uma companhia de guar- 
das escocezes par» a pessoa do rei, quer na pai quer 
na guerra, em conimemoração dos lerviçiis que rece- 
bera, em sua varia fortuna, das tropas d'aquella na- 
ção : denominou-a dos besteiros do rei, porque eram 
nrjnados de arcos e frechas. — Luii XI engrossou con- 
sideravelmente esta companhia, e lhe concedeu pri- 



o PANORA3IA. 



77 



vilegios honrosos c boa paga, não se poupando aos 
meios de grangear a affeição d\iquellrs »a!entes es- 
trangeiros, (jue no ililatado peri.ido da durai-lo d es- 
ta guarda sempre na verdade se dislingiiiraàu [i)rde- 
senipenlio exacto das suas (ibrigações e escrujiulosa 
fidelidade. Luiz XI, astuto, ciupI e di-.íiniulaHo, tú 
nos etcocezcs piiniia inteira confiança, e coviuinava 
dizer <|ue a companliia escoi-eía tinha nas suas inãos 
a sorte da França, porque elle llie havia coiiCiado a 
tua real pessoa. — N%sla companhia lez AVí.iter Scott 
entrar o lieroe de unia das suas nielljores rovcUas — 
GLuintino Ourward — e iihi sh acli.im enire.achadas 
com os Incidentes da n.irração niuit.is parlicubirida- 
des que pintam tiem a inihile e ^er^iço do corim es- 
cocez, como [>od«' ver sf na traducijão fi>it i do origi- 
nal iniílez pelo Sr Ramalho, publicada en í vol. 
em 1838, e impressa na anti^-a tvpnijraphia do nos- 
so jornal. 

Esta guarda continuou nos suhs. quentes reinados, 
porém çradualmenle se foi compondo de fraricezes a 
dalar do reinado de Henrique 4."; de fornia r;ue em 
tempo de Luiz XIV a compaidiia só era escoteia de 
nome:, officiaes e simples praças eram todos france- 
Zes. lintão a companhia constava de cem cavalheiros 
ou guardas, dos cjuaes só vint<! e cinco recebiam sol- 
do; formava na frente das nutras três coin|anhias da 
guarda; na igreja postavase no choro; reciO.ia as 
chaves da casa real ; e no préstito fúnebre dos ino- 
liarclias competia-lhe levar o corpo do rei defunclo 
para o jazigo de S. nyoni»io. Km siiinma, gozava 
na corte de muitos privilégios, que seria longo enu- 
inerar. — A estampa representa um guarda escocez, 
cm tempo de Luiz W, com o firdamento dos dias 
tolemnes, que na primitiva crearão do corpo, no rei- 
nado tio Luiz X.I, e ainda muito tempo depois, ora 
inteiramente diflerente, trajando os guardas á sua 
moda nacional, e trazendo sem|>re por distinctivo a 
gorra escoceta. 




uuAitnA uscot:r.r noh iiicis iis iiianca. 



Cartas inéditas de D. JoÃo de Castro. 

Carla do fisorei D. João de Castro aot vereadores, 
juizes, povo de Chaul. 

Bem creio que a todos vos será notório quanta justi- 
ça tenho feito a christãos, mouros e gentio», (Jcpois 
que sou n'e»ta terra; e assim quão inleirainente te- 
nho guardado as pazes e cumprido os contractos que 
05 governadores passados fizeram com os reis e gran- 
des senhores da índia, em nome d'elrei de Portugal 
meu senhor, e quantas amizades todos tem achado em 
mim, deixando navegar suas naus segurainenie pêra 
todalas parles, e trazendo armados n'esta costa contra 
corsário», que molestavam ris seus mares e portos, e 
roubavam o^ mercadores, que de um logar para outro 
trasfi'gavam em proveito de suai republicas. Dos quaes 
benefícios mais que todos gozavam os guiarates e seu 
rei. Ora estando eu seguro e descançado na amisade 
antiga dos guzarates, por estas e outras muitas boas 
obras, e assim mesmo o seu capitão Coje Çofar, pô- 
las muitas umisades que cada dia de mim recebia, 
agora como todos sabeis quebrantando a fé e contrac- 
tos de pazes, que com elrei nosso senhor tinham fei- 
to, jurado, e promettido. como desleaes e fementido» 
vieram a pôr cerco sobre a forlaleia de Diu. 

E posto que eu tenha muita experiência da lealda- 
de mui antiga dos portuguezes, e grande confiança 
em suas forças e valentia, e no viio e natural amor 
que todos geralmente teein a seu rei ; e que a forta- 
leza de Diu esteja tão forte, assim por sitio natura! 
e industria dos homens, e que dentro esteja tal capi- 
tão, fidalgos, e lascariíis, que seguramente possa es- 
tar <lpscançado, com ajuda de Nosso Senhor, de po- 
der acontecer desastre; todavia como pae que sou de 
todos, e desejoso sobre todalas cousas de suas vidas, 
honras, e proveitos, dão-me grande cuidado os seu» 
trabalhos, em quanto eu pessoalmente os não posso 
ir soccorrer, e vingar, das traições dos guzarates Por 
tanto determinei de vos fazer a saber meu propósito, 
e aperceber pêra a empreza que ora quero tomar de 
Cambaia. 

Eu tenho mandado recolher talacas, fustas, e ca- 
tures, que se acharem ein toda a costa da índia, «fa- 
ço huma armada, n'esta cidade de Goa, de cem fus- 
tas e caturcs, na qual irá por capitão inór D. Alvuro 
meu filho. 

E eu (jueroinu ir assentar no logar de Baçaini, 
com trezentos decavallo, pêra ir por terra, e elle por 
mar irmos destruindo essa costa ; e espero cm Nosso 
Senhor de ainottrar as armas dos portugueics ao pró- 
prio rei de Cambaia, pêra se acabar de certificar 
qnamanha diflirençi a ile nós aos mogores e patanes, 
rumes, e toda a outra nação do universo; e dar es- 
cala Iranca assim aos do mar como aos de terra. E 
porcpie eu não saberia entr.ir em semelhantes einpre- 
zas sem vossa ajoda e conselho, vos peço a todos em 
geral e a cada um em especial iiinili) por mercê, <|ue 
queirais estar prestes com vossas armas e cavallos, 
peru com minha peisoa em comp.iidii.i do vosso capi- 
tão passardes a Baçaim, e seriles presi^nte» a esta guer- 
ra, a qual assim por cila ser justa, e feitii por tae» 
tavalleiro», li'nho por certo alcançarmos grandts e 
glorioso» triumphos, e verdadeiramiuite quB tixlalu» 
vezes que me lembra como levo a esta gui'rrii tanto no- 
bre eavalleiro de (loa, acoitumados sempre a vencer, 
e como os lascarins derramndos pela índia se vein lo- 
dos para mim, com grande e notável alvoroço de tri- 
lharem tt passearem as terras de Ciimbaia, e como 
Ivo» hei lie achar, oli ridail.'ios ile Chaul, aomeuUilo 
co\u vossas armas i.i'eiiU'S, e ct)rações graiule» e for- 
tes, que ussim entro a fmcr esta gucria como a mui- 



78 



O PANORAMA. 



to certa e averiguada victoria, ouso de vos pedir isto 
com fuo pequenas palavras, porque sei que pêra as 
cousas semelhantes, e de tanto 5crvií;o d'elrei nosso 
senhor, nunci houvestes mister esporas; e sendo es- 
tas obras tão de vossas próprias naturezas, e exer- 
citando-as em tempo de governadores da vossa mui 
nobre cidade pouco amigos e favoráveis, que se po- 
derá etperar agora que militais debaixo de minha 
disciplina, que sempre vos fui tanto amigo e compa- 
nheiro, assim no tempo que n'estas partes se serviu 
elri'i nosso senhor de mim de soldado, como agora que 
por sua grande e real cleniencia, e muita virtude, 
me entregou a governani^a d"estab partes da índia, e 
me fei capitão geral de toda ella. 

Eu fico tão confiado em me todos ajudardes a fa- 
zer esta guerra aos giizarates, que me parece ver-vos 
já correr os seus campos, e entrardes suas cidades, e 
saqueardes suas terras, de maneira que pêra todos 
seja esempro, pêra que não ousem outra ve?. de ten- 
tar estas e outras semelhantes novidades. Nosso Se- 
nhor vos tenha a todos na sua guarda, e nos ajunte 
e conserve n'este propósito. Escripta em Goa a 3 de 
maio de t5í6. 

Resposta doi vereadores de Chaul a D. João de Cas- 
tro, tisorci da índia. 

5 Notório éachristãos, mouros e gentios, que a maior 
mercê que nos Deus eelrei nossosenhor fez, foi avin- 
da de V. S. a estas partes; e bem su pôde crer que 
n'elle anteveio iiiQuencia divina em S. A., porque 
de quão arriscada e djmnificada estava ao tempo de 
sua chegada, está agora no estado que deve; e isto 
pelo muito cuidado e vigilância que elle tem, prin- 
cipalmente no auto militar, em que claramente mos- 
tra sua tenção ser segurar no-.sas pessoas, e fainilia, 
e o estado de S. A. E posto que este beneficio fosse 
rommum a todos os q-ie habitam n'estas partes da 
índia, nós fomos os que em particular participámos 
mais d'ene, polas muitas aventajadas mercês e hnn- 
Tas, que temos recebidt> de \^. S. Polo (|ue nunca de- 
sejamos outra cousa senão oITerecer-se alguma, por 
que a experiência manifestasse nossas vontades, com 
obras que mereçam tal beneficio, presup[>oudo «em- 
pre que nossas palavras até o presente haveria por 
•verdade nua, que (não) é duvidosa. 

GLuí/ Nos-o Senhor chegar nos a tempo, que por 
uma sua carta dada pelo capitão em camará, soube- 
mos d'e5ta jornada, que quer fa/cr contra estes gu7a 
rates e inimigos desagradecidos, dignos de sentirem 
a ira de V. S. ; os qiiaes assim devem ser punidos 
como escravos que tomam as armas contra seussenho 
res, pois sendo a elhs notório quanto tod' a outr.i 
<iai;"ro de todas as três partidas, de animo mais viril 
<jueelles, no» tem aquelle acatamento, e ten\or, que 
se nos deve ; e como a vencidos e privados de forças 
lhes demo» paies e socego, mnis movidos de clemên- 
cia que por outra necessidade, quizi'ram intentar es- 
ta inalicia e rotura, não attenlando que por elles se 
podia dizer que as cousas ?anclas se derauí aos cães, e 
as pedras preciosas a porcos. 

l*elo que lida a carta, vendo a tenção e propósito 
<Ie V. S. querer-se ser\ir de nós n'este tempo, e 
dar-nos tamanha honra, que é a m:iior mercê que 
nunca recebemos, pelo desejo que já tinhamos e iui 
menso amor interior, por isso sem mais silencio f.il- 
larão as hoccis ofTerecon lo-nos to. los ao capitão, que 
tão bem iiola encommendou. V. S. nos tem aqui 
prestes com nossas pessoas, armas, cavallo», na^ios, e 
f.ijeiída, por todo o tempo que qui:er, e qnanio pê- 
ra isso não supprirem as farendas, nossas mulheres 
nos oITerecein as jóias, como fiieram as romanas di- 



gna» de grande louvor e memoria, no Capitólio; por. 
que assim como Deus favoreceu e ajudou aos reis do Is- 
rael, e aos Machabeus que velavam, ea nós, manifes- 
tando suas maravilhosas obras nas muitas victorias, que 
até aqui nos deu a tão poucos, se não fieis ainda que 
peccadores contra tantos inimigos de sua sancta fé, que 
muito melhoro fará agora comnosco, levando estas duas 
cousas por nós, justa guerra, e grande esforço e magna- 
nimidade de V. S. na guia. No qual temos por mui 
certo que fallecendo-nos as forjas cobremos outras novas, 
vendo seu constante animo e propósito ser convertido em 
serviço de Deus ; e prazerá a elle que não menus será 
temido n'esta passagem do que foi Annibal quando 
passoti os Alpes, e por isto ser assim como e mesmo 
Annibal dizia em sua oração: asprincipaes armas se- 
ja conceliermos ira contra estes inimigos, que nos que- 
rem desprezar, e teremos a victoria por mui certa. 
De maneira com que a congregação dos fieis em sua 
companhia, e esta nossa igreja militante venha al- 
cançar a friumphante, c aquelle summo bem, e os 
inimigos se não atrevam a outras taes malicias. Pêra 
isto tu<io ratificar e concluir em poucas palavras, tor- 
namos a dizer que estamos muito prestes, como leae» 
portuguezes, com os pés nas estribeiras, como se o 
já víssemos ir e muito alvoroçados, {)«ra os seguirmos 
com as nossas pessoas, as quaes tivemos sempre e te- 
mos a seu serviço, por respeito de lua pessoa, á qual 
nunca recusaremos pormos as nossas, e as fazendas e 
filhos, pela muita obrigação em que somos a V. S. 
a que Nosso Senhor augmefite os dias da vida e es- 
tado por muitos annos. Amen. Escripta em camará 
dVsta cidade de Chaul a 2á dias de maio. Francis- 
co da Veiga escrivão a fez. .\nno de 15^6. 



SuPKHSTtÇÕES DOS AMAKES ÁISTES DE MaFOM*. 

AiNOA agitava o Oriente a queda do império roma- 
no e do polvlheismo, quando Mafoma n'elle veio 
fundar um novo império e uma religião nova. Se 
p.ira firmar o direito dos homens a fama se devesse 
ter em conta o ponto d'onde partiram, as difficulda- 
des das emprezas e dus successos mais prodigiosos, 
nenhum homem tattez se poderia comparar com .Vla- 
f<inia. Fora das circumstanciHS f.svoraveis que muitas 
veies |ire|iaram ou trazem os acontecimentos; so p<)r 
só n*uma epocha de pleno socego na terra natal, em 
(|ue os aniimis não app-eseiitavam svmptoinas d"in- 
uovaçã<i, .M.ifoma, ou Mohamed, como lhe chamam 
os árabes, ousa de repente formar e levar ao cabo 
um projecto cujo pensamento ba«tár.i para amedron» 
far o mais atrevido novador ; projecto que consisti» 
em lançar por terra as iiistiluiçues exi«tenteí, refor- 
mar os costumes nacionaes, destruir tud.i, arrastar 
tudo apoi si, e appareeer a final aos olhos do» «eus 
compatrícios feito proplieta, legislador, e rei. 

Viviam o« árabes na m.iis ridícula superstição, e 
n'uma absoluta corrupção de costumes; comtudo er* 
crime capital atacar lhes o culto, c censurarlhes at 
leis e os u»os, mesmo na parte mais insignificante. 
Nenhum rtMi de taes crimes escapava d» severidade 
d. IS penas, e nem os intrenidiis apóstolos do chrulia- 
nismo ousavam f.izer neophs tt>s na Meca; o que pro- 
v.\ que n*esta epoch i não era fácil mudar a» ideas 
religiosas. Mas quando uma iiitelligencia superior 
rralis.i um vasto plano, logo o vulgo, que raras veies 
mede os perigos das empreias. e se limita a avalia- 
los pehi resultado, jviliX' esse plano fácil de lesar & 
elTeilo. Nada era mais diffieil do que introduiir en- 
tão mudanças na .\rabia. Parecia reservado par» 
Mafoma vencer to los os obstáculos, lançar por terr« 
os Ídolos, desarraigar as joper5tiç<"e5, promulgar no- 



o PANORAMA. 



79 



\as lei», prescrever novos costumes, e crear, para as- 
«iin <iÍ7.er, uma iiafjão nova. Cliejoil ao mais a que 
podia cliegar, porque dentro da iua própria pátria 
con>e"uiu ser reconliecido e acatado como se fôrii na 
verdade enviado do Kterno. 

Mai» para o diante «".bojaremos a vida de Mafo- 
ma, e anaiysarcmos o Koran : por em quanto resu- 
miremos a» fabulas que os orientaes recitam acerca 
das personaf^ens anteriores ao propl)eta. Parte d'es- 
ta» latiulas se acham noTalmud e nus livros dos rab 
binos. Dir-se-liia que á cxcepi^.Tío do que us musulma- 
lioí tiraram da Bíblia, se enipenhar.iin em reprodu- 
íir as circumstancias mais extravagantes e allieias da 
razão. 

O» mnsulmano» reconhecem, como nús, anjos bons 
e anjos niáus. Knlrií os bons distinguem os quatro 
archanjos, Gabriel, Miguel, Azrael. o Azrafel, aos 
quaes chamam os ap/noximados, por estarem sempre 
estes anjos ao [lé <!o ihrono de Deus, promptos para 
cumprir as suas ordens: (jabriel tem a sou cargo le- 
var as mensagens celestes i Miguel preside ao» ele- 
mentos e ecii particular á chuva ; Azrael recebe aí 
blmas dos homens, e por isso lhe chajnani o anjo da 
morte-, linalmente Azrafel é o guarda da trombeta 
celeste, e quem a ha de tocar no fim do mundo. Os 
miisulmanos [irezam Gabriel mais que os outros, por- 
que dizem que este archanjo era amigo intimo da 
sua na(;ão, e foi escolhido pelo Eterno para annun- 
ciar a Mafoma a sua missão prophotica. Por isso o 
nome de Gabriel se acha repelido nos monumentos ^ 
ora designando I) pilo numi! de Pavão do jardim do 
Paraizu, em razão de Gabriel brilhar com luz pró- 
pria entre os entes angélicos bem como o pavão bri- 
lha entre a» ave»; ora dando lhe os titulus de Vitl 
DepoiUaiio, e d'iO</;ntío SiDiclo, por ser o confiden- 
te da» vontade» de Deus, e ter- lhe cabido a preroga- 
tiva de communicar a Mafoma todos os preceito» do 
islamismo. Mafoma diz no Koran: u Ciucm é ini- 
migo de (iabriel seja confundido!" Para o archanjo 
Miguel olham us musulmanos com alguma descon- 
fiaiKja ^ na sua opinião, o arclianjo Miguel amava o» 
judeus, e se Deus lhe desse ouvidos nunca u islamis- 
mo ílorecêra sobre a rerra. Dos anjos maus, o de 
mai» nomeada é Iblis, (jue se poz ú frente dos anjos 
rebelde», e, ícgundo o Koran, foi precipitado do 
céu mai» elles, á pedrada com pedras em braza : é o 
Diabo dos chrislãos, e oSalanaz <lci» judeu». Em nie- 
liioria da sua trágica aventura, não lhe chamam os 
árabes senão o yljiednjado. 

Depois do» anjos, aihnilliram os inusulmanos uma 
raça intermédia, que é a dos gi'nios. Os génios, se- 
gundo o Koran, avisiniiamsi! aos anjos em terem 
(ido tirados como ellis da substancia do fogo, c avi- 
BÍnham-íe á natureza do homi'ni em beberiam u co- 
merem como elle :, uns eram machos e outros fêmea». 
Distinguem-se muitas espécie» de génios: são a» fa- 
das e os ilemonio» di> Oriente. Como, na opinião 
dos árabes, a terra ou cousa semelhante existia un- 
te» de Adão, suppozeram <|Ue a habitaram gi-nios 
por muitos inilliares d'aniias, e rjue só depois de res 
coidiecida a inipossibilidade de o» conservar nu vir- 
tude, é (|ue Deu» tomou a re»olueão de creur o ho- 
mem, (iuasi Ioda a r.iea de génio» foi então extinc- 
ta : o peijoeno nuiniu» do» qui^ escaparam ao desas- 
tre loi di^gradailo paru certo» logare» dintantes ila 
terra. Ile/.a-»(! d'elle« outra vez na epoclia em que 
viíalomão o» iMinsIr.ingeu a trabalhar no» imIíIÍ<'Ío» que 
o tornaram celebre. Em tempo» mai» recentes abra 
<;arain algun» génio» ,i religião de Mafcuna. 

O» mijssulin.ino» rhegam-si! mai» ás nossas ereniM» 

lio (pie diz Ic Ailãoe ICva. Ar<Te»eentam i| lie Adão, 

di'poi» lie pec>'ar, foi lançailo pilo anjo do Senhor na 



ilha de CeylSo, no sitio onde está a montanha cha- 
mada ainda nos nossos dias Pico d''Adão, e que E\a 
foi desferrada para as costas do mar Vermelho, e lo- 
gar onde depois ie ediQcou Meca. Os dois esposos vi- 
veram a^sim separados mai» de dois século» ; a final 
o Eterno, compadecido das suas lagrima», os reuniu 
nas visinhanijas de ?ileca. Ainda alli se mostram ho- 
je os vestígios da sua morada. Depois de terem dado 
o ser ao género humano veio o anjo da morte apre- 
senlar-lhes d.i parte de Deus uma taja que lhes poz 
termo á vida. Dizem os histcjriadorts arabt-s que es- 
ta faya serviu successivamunte a todos os prophetas ^ 
d'aqui se derivou sem duvida a expressão tão com- 
mum entre os orientaes, beber na ia<^a da morle, ou 
simplesmente provar a morle, isto ó, morrer, (.'on- 
sideram Adão como propheta, R estão capacilado» de 
que elle tinha na fronte um raio de luz muilo pare- 
cido com o que os pintores põem na cahcja de Moy- 
sé». Accrescentam que Deus lhe mandara dez livros 
de revelações, com o auxilio dos quaes deviam os 
seus descendentes seguir a estrada recta ; mas estes 
livros não iins chegaram. 

O raio pri>|ihelico passou d' Adão a Sefh, de Selh 
a Enodi, d'Eiioch a Noé, e de Noé a «eu filho Sem, 
Os inusulmanos citam depois d'elle os dois propheta* 
Iloiid e Saleb, de que a Bíblia não falia. A Iloud 
vleterininou oSeidlor que fosse pregar a fé a algumas 
Iribus d"arabes nómades, povo» notáveis pela sua es- 
tatura desmarcada ; os mais pequenos tinham sessen- 
ta cuvados, e com dilTiculdade achavam arvores com 
a altura necessária para servirem d"esfeios as suas 
barracas. Como padeciam desde muito tempo um» 
seccura horrível, aj)pareceu lhes Iloud diiendo-lln-s : 
"Oh, meus irmãos ! adorai o Deus verdadeiro, o Deus 
único, eelle fará descer a chuva do céu sobre os vos- 
sos campos rcqueimados. » Não quizeram os Ímpios 
ouvir estas palavras:, accusaram n'o de louco, eamea- 
çaram-n^o com a morte. O Senlu-r irritado suscitou 
contra elles um vento espantoso ipie os exterminou, 
sem poupar senão o pequeno numero dos que linhaui 
dado credito a llouil. Narra este succe^so o Koran. 

Saleh foi incumbido da reconducção de certos po- 
vos chamados temuditas, os quaes, segundo a opíniãu 
commuin, h.ibitavam um valle fértil da Arábia Pe- 
fre.i, ao meio dia do mar Morto. C"ercados por to. loi 
Os lado» de scrr.'iS empinadas, o» temuditas, das suas 
habitações excavadas na penedia, se jactavam de »f- 
frontar a vingança divin.i. Saleh veio proeural os d:i 
parle <le Deus; ii Oli ! meu» irmãos! fizeí peniten- 
cia, lhes disse elle, adorai o Deus veriladeiro ! " His- 
ponileram os leniuditas que por bem nenhum terreno 
largariam o culto de seus p;iis. Para os «'Uivcncer feK 
Saleh sair, [>or>'Ui debalde, do seio tPuui ochedo uma 
camélia milagrosa prestes a |)arir ; os ímpios cada ve£ 
mais se endureceram. Imputaram a SaK-h artes m.i- 
gícas, e Nialaram a camélia com a sua cria. Eutão 
enviou Deu» cvnira elle» um anjo, <|Ue os < ilheu de 
salto uma manhã diuitro das suas civernas, e os ma- 
tou a todos. Os mtisulmanoj conservam profunda re- 
cordação da im|>íedade dos temuditas <■ da vingançit 
que Deus tirou d^elles. Mostram ainila as moradn* 
|)olliiidas pela presença d'e»tes homens criminosos : 
até crei'm ouvir nas círcumvisinhanças ou grilos piin- 
genle» da camelhi, e quanilo passam [)or este -itío ar- 
redam-S(! do rochedo f.ilal. A cria da cninelli ficou 
sendo eiilre elles o svmbiilo das maiores ealamidailes ", 
ipinudo o» ameaça algum desantre, iliicin : .. E o gri- 
li> lio camelinho de S.deli. " 

Assim passaram os tempo» anlerlores a /MiralLÍo. 
Ciuii este patríariha, a que os inusulmanos chamam 
Ibrahim, começa, par:i a^sim diíer, um.t nova ira. 
Ilipulam iTo o amigo predilcito de Deu» e o pwi do» 



80 



O PANORAMA. 



crentes-, algumas tribus árabes se ufanam cie o ter 
por avó, e não ha no Oriente nome maia venerado. 
A vida de Abrahão, salvo o que tiraram da Í5ibli;i, 
segundo o Koran, não c mais do que uma teia de fa- 
bulas. As mais singulares são estas : 

Abrahão era filho d^Azar, oflicial de Nembrod rei 
de Babylonia. Tendo Nembrod visto de noite um as- 
tro erguer-se no horisonte e desmaiar com seu brilho 
as outras estrellas, cobrou medo e consultou o« adivi- 
nhos ; todos lhe responderam que este prodiçio un- 
nunciava o nascimento d'um menino extraordinário, 
que domaria os príncipes maií potentes. Assombrado 
Nembrod, mandou apartar os liomens das mulheres; 
mas ignorava a prenhez da companheira de Azar, a 
qual se retirou da corte, e em breve deu á luz Abra- 
hão. Tudo foi inaudito n'este meuino ; o próprio 
Deus proveu na sua sustentarão: ministrava-ltie um 
dos seus dedos leite delicioso, e outro ministrava-Uie 
Diel. Ao cabo de quinze mezes estava tão forte como 
um moço dr quiiiz; annos. Desde logo se poz a ca- 
minho para Babilónia, deliberado a perfazer as gran- 
des cousas a que era chamado. Todavia ainda não ti- 
nha muitas luzes da verdadeira religião. Como o gé- 
nero humano estava en'ão avassallado pela idolatria 
e culto dos astros, e o próprio Nembrod se inculcava 
por Deus, Abrahão não poude vér sem pasmo os glo- 
bos magestosos que rodam sobre as notsas cabeças. 
A accreditarmos o Koran, quando Ibrahim viu lu- 
eir no horisonte a estrella Vénus, quii adora-la ; mas 
reconheceu o seu erro quando ella desa|iparecea : vol- 
veu então os olhos á lua, e fez o mesmo ao sol. Ven- 
do que todos estes astros momentaneamente appare- 
ciam na scena do mundo, caminhou con\ passo íirme 
pela estrada de Deus. Só o estorvava o que ouvira 
contar de Nembrod e do seu poderio', tmla grande- 
za desluinbrou-o a principio', porém como Nembrod 
era medonho de feio, compreliemleu que D-us não 
hivia de mostrar se com uma cara tão deforme, e 
não hesitou mais em tributar homenagem á verdade. 

Abrahão pregou na cidade de Bal)ylonia ; poucas 
pessoas o creram; Nembrod foi o mais rel)'dde ás 
iuas exhortaçíjes, c como Abrahão recusou adora lo, 
o mandou laiiçMr n'uMia fornalha ardente. Felizmen- 
te, accrescenta Mafoma no ÍVorau , veio Deus em 
soccorro do seu servo, e o fogo fez se frio; alguns 
auctores asseveram que a fornalha se converteu em 
jardim de rosas, (iuanto a Nembrod, crêem os mu- 
sulmanos que mesmo n"este mundo foi castigada a 
sua desmedida impiedade : Deus, para lhe confundir 
a soberba, permittiu ejue um mosquito pequeno lhe 
entrasse no cérebro. Nemlirol morri-u atormei\t,ido, 
batendo com a caberá pelas pareiies do seu palácio, 
e o seu nome ainda serve no Oriente para designar 
os tyrannos e os (lagellos da espécie huntana. 

Abrahão saiu todavia de líabvloiiia para visitar a 
Syria e a Palestina. Os mosulmauos citam muitas 
'particnlariíiades em que os nossos livros sagr.idos não 
faliam. 1'or exemplo, qu.indo Sara e Agar deram 
cadauma d'ellas um filho a Abrahão, e não puderam 
continuar a viver em paz, este patriarcha pegou em 
Agar e seu filho Ismael, e os levou para o logar on- 
de se acha agora a Meca, terra então erma e mani- 
nha. Não achando alli Abrahão nina fonte para lhe 
matar a sede, ia a continuar na sua peregrinação, 
<)uando um anjo fei brotar com <i pé uma fonte d a- 
gua viva ; é o pooo que se acha agora ao pé da Caa- 
ba, chamado o poço do Zeintcrn. Abrahão eiiificou n 
Caaba , foi o pedreiro, e Ismael o servente. Mostra- 
se a pedra en qup o povo suppõe que ellr pnnha os 
pés. Kegulou as ceremonias <la pere^ri nação, e desde 
então ficou sendo a Caaba o ponto de reunião de to- 
do» os po\os da Arsbia. Kis as próprias p.ilavras de 



Mafoina acerca d'este patriarcha : «Abrabão não er* 
judeu iiein christão; era orthodoxo e musulmano. n 
T«l 6 o artifício empregado pelo propheta para faxer 
accreditar que a sna religião não era nova, e que te 
differia da seguida n"aquc)Ie tempo, era porque os 
Ímpios a tinham corrompido. [Cmitinúa ) 



CoMBDStSo ESP0.1TA5E.V DO CARVÃO DE l-EDRA. 

Meio ue a atalhar. 

Ha pouco temiio ardeu no Tejo uma embarcação 
grande, que servia de deposito de carvão de pedra 
para os paquetes inglezes, e muito custou a tira-la 
il^entre os mais navios que podia incendiar caindo 
sobre ellc» com a força da corrente. Terse-hia pou- 
pado esta desgraça e a perd.i da galera S. Domingo» 
Kneas, empre'.;andose o seguinte melhodo, achado 
pelo capitão Carpenler. 

E precii 1 ter muitos canudos de ferro batido, 
cheios do buracos na extremidade que fica para a 
parte d-? haixo. Ksles canudos enlerram-se no carvão 
quasi até o fundo <lo barco, separados algumas pol- 
le^adas da borda do navio, onde se atam bem, A par- 
te superior dos cxnudos deve subir até a coberta do 
barco, e estarão dispostos de modo que facilitem a 
ventilação, sem que deixem entrar a hiimidade no 
carvão. Cumpre ao mesmo tempo ler tudo prompto 
para fazer entrar uma grande porção d'agua nos 
barcos de c.ir^ão, com qtie vão a pique no caso d*ín- 
cendio. A agua produz então dois effeito» ; apaga o 
fogo no lo'.;.ir do periío, e, entr/iudo pelos canudos, 
impede toda a ventilação, e concorre para extinguir 
o incêndio. 

E evidente que a causa das combustões espontâ- 
neas é a acjumulação dos ^aies, provenientes da hu- 
midade do carvão; nVsle estado o calor ou a fric- 
ção produzem o fogo. Para o evitar c preciso deixar 
circular livremente o ar atniospherico por entre o 
carvão. 



Influencia kociva da NontElRA. 

\ GKNTK do campo nunca ileixa de avisar os sens co- 
nhecidos que a vem vèr de que não de»em parar de- 
baixo das nogueiras. Muitas pessoas dignas de fé se 
queixam de ter sentido dòret de cabeça, deliquios, e 
náuseas, por se terem demorado á sombra das noguei- 
ras ; inooinmo losque lhes passaram tanto que se affas- 
taram dV-Uas. Até ha queuí conte as mortes d'»líu- 
mus pessoas que «ilormeceram ao pé d estas arvore.-. 
Mr. d'lIumbrHs Kirmu», julgando que e»t;,8 asserções 
obrigavam a um exame, fei .-xperiencia» endiometri- 
c«s a diflerentes horas do dia, em tempo cdmoso, 
com o céu sereno, e em lerapo de chuva, para inda- 

, irar se o ar era menos puro a sombr.i das nogueiras 

I do que á sombr» das outra» arvores, e no meio do» 
campos. Não ll<e achou dillVrenç.i scnsivel , e pensa 

I que os maus eiTeitos apontados >ó podem ser attribui- 
dos ao cheiro soporiGcn que exhala a nogueira. Pro- 
curou além di-so certificar se »e a xisinh.snça da na- 

' "-ueira fiiiui mal ás pl.mtas. e cffecliNainente conhe- 
ceu que os cereaes em pirlicular, estando ao pé da 
nogueira, sofTriam uma perda proporcional á copa d.\ 
arvore. 



4 



ClfKM ama .? cio is. teme a infâmia, c não resiste 
ao vicio, nssenielin -e «o que, tcmend ' a humid ide, 
se aloja no meio d'uin piu'. 



11 



o PANORAMA. 



81 



/ 




CASA NOJÍIUi DE GAx\D EM IjOO. 



^ViiTlGA Ciipital de lodii a Flaiules, a cidado d<! Gand 
hoje- sóiniMileócabei;;! liu província denominada Flan- 
dca Oriental 110 moderno reino da IJi.^ioa : i; sede 
de arccliispado, e está nituada na jiincrãodo Escalda 
cuni o I^i/., cjiio coui oiilrcis doisconlliicntcs itli^Mu toda 
a povoação, rcpaitindo-a cm vinte i! seis purijões cer- 
cadas d'a<;iia, ipic m' coiiiinnnicaiii por Ircsenia') pon- 
tes dl! madeira lançadas solire os canacs, Tejn cida 
delia nianilada edilicar por Carlos V,- uma excellcii 
te catlicdral, onde ha um |>iiI)>ilo de niariiiore bran- 
co de primoroso lavor: tn./.i: praças publicas, sendo 
a» principacs mui es|)açosas ; cacs mHf;nií'icos ; (t em 
ra<ão d\'«las oliras e da licll>.'Za de i;raude (|naiitida- 
de de sins edifícios conl.ihe entre as mais formosas 
do» l'ai/.es liaixos, passando pela maior de todas re- 
Ialivam<'nte ásu|ierlicie ipie uccupa ; porém não cor- 
reitpriii<l<! a tanwinlia (extensão o numero dos luiliilaji- 
tes, fpie se avalia em poucl) mais ile S0;()0(). Já em 
tempo do inipiTador Carlos V, (|iie nasciui n"elia, ira 
vasta e populosa, e diziasi^ ipic> I ouiava mais campo 
que a <(^rle d(! Erança n'ista epodui. A cidadella é 
daH inelliores da Europji ;, e são tamliem noiíiveia » 
UUHJI da camará, o pa<,'o da universidade, i; a casa ile 
correcção com capacidade |)ara mais iK; 700 presos 
uccupadosem Iralialhos ulidsás numulacluras. De ou- 
tros estalielecimenlos importiiuli's meneiíuiarcmos só 
a academia de Itellas Aries. A sua situação i! muito 
adc(pnida ao cominercio ^ exporia prin> ipalnienle ren- 
das tpie seinpri! foram .issaí estimada», o tecidos de 
toda a caslii, liavendo nas suas immeilia(;ões, n'uni 
iraiude (jualro le;iuaH proximameiíli?, alijumas peiítiu 
VoL. I. — Nu\ HMllIU) 1 1, 1810, 



nas cidades industriaes, entre outras Lokeren, de 
10:000 almas, clicia de fabricas de estofos d^algodão. 

Gand aU.ineou grandes privilégios e espociaes isen- 
ções dos condes soberanos de Elaudes e seus succes- 
sores, regcudo-se por maj,'ibtrados próprios. A paz fa- 
uujsa, denominad.i de G.intl, tev(! lojjar ein 1367. 
Luiz XI \ dl! Eranea a tomou em lli7S, porém res- 
lituiua :'i Ifcspanba pelo traclado de Nimegue. O 
du(|ue de !M.irlboroui;b a oecupou em 1700 e 170S, 
1! os francezes em 17ío e em I7;(2. Foi eneorporada 
na Er.uiça<!ni 171)2 apouco depois caiu em poder das 
tropas colligailas, mas o» francez.es de novo se asse- 
nluirearam (Pclla no anno seguinte, 17'JJ. Seri;i lon- 
go seguira bisloria moderna da eiiiade nas vicissitu- 
des das campanhas pela independência eiiropeaedas 
guerras intestinas até a separai,'ão definitiva do rei- 
no da Itelgiea. 

Damos em estampa o exterior ile uma casa nobre 
perteuconiu a um magistrado opulento da cidade no 
século XV para o XVI, e não faremos obsorvaijues 
sobre o esl^lo da architeclura, poripie um nosso dis- 
liiicto collaborador se propõe traetar dos earaeterc» 
capitães d,i arle da idade media. 



\ u n: ANTIGA. 

A-i iiKi.ns calliedraes, e os soiuptuosos nu)sloiros, 
ipii' a pieibole, «braçada com as mlinias orrii<;as du> 
séculos guerreiros, levantava parii monumentu das 
viclorias, ou recordação ilo iuarlvrio,o ^xc eram so- 



82 



O PANORAaiA 



não cânticos escripfos nos lavores da pedra pela mes- 
ma mão qiic pouco antes brandia a espada on enris- 
tava a laiii'a? F:llia do sentimento e do enthusiasmo, 
partindo do coração, e inspirada por ellc, a arfe reli- 
giosa da meia idade, sem desprezar os conselhos da 
razão elcva-^e, e eleva a alma pela magestade e de- 
voção das suas manifestações. Soldado ou monge, 
quem quer que desbastava esses robles de mármore, 
que os sujeitava ás caprichosas phantasias da verda- 
deira poesia, tinha no peito um coração capaz de cho- 
rar, de sentir, e de crer. Todas as obras dVsse tem- 
po de fé viva orelevam. Ainda mais-,todas ellas tra 
duzem o pensamento christão, ardente e forte, nos 
membros içigantcs da cathedral, que vestem ornatos, 
e embellczam figuras. Osjmbolo reina em todo o es- 
plendor. Não ha acaso, não ha iniliUerença na esco- 
lha, harmonia, o proporções do ediliciíi. Tudo está su- 
ieito a regras; tudo explica o mysterio, que só po- 
dem solettrar os olhos dos iniciados. São paginas do 
mesmo livro, que se não interpolam sem truncar a 
leitura e destruirá unidade. 

N'este artigo damos noticia de alguns pontos mais 
importantes da n/mboUca, que as conjecturas e inda- 
gações dos estudiosos conseguiram decifrar \ em ou- 
tros subsequi-ntes tractaremos da formação das socie- 
dades de " Artistas livres", e dos signaes de que se 
serviam, dos quaes muitos se encontram gravados nas 
pedras das igrejas portuguezas. São pontos dignos de 
ser examinadoscom cuidado, e próprios para esclare- 
cer a historia das artes entre nós. O que vai seguir 
é resumido dos largos tractados escriptos por diversos 
auctores alemães e francezes. 

lia quem pergunte ainda hoje se os templos da meia 
idade nasceram unicamente da rigorosa formula geo- 
métrica, ou se encerram na caprichosa bulleza o se- 
gredo de symbolos, em parte esquecidos. A resposta 
iiílirmaliva parece sustentada nas possíveis provas. 
De certo 05 arcbitectos d'aquella epocha levaram ho- 
ras inteiras a solettrar pela descripção bíblica a mis- 
teriosa harmonia do templo de Salomão. Adivinhar 
a sin-nilicação religiosa d'aquillasublin)c epopeia, em 
que se resumiu a lei antiga, foi o objecto de longas 
vio-ilias para os sábios do tempo. Um escriptor do sé- 
culo VIII, líeda, na sua obra i< Uc Templo Salomo- 
JUS "em diversas passagens se occupa dos segredos mys- 
ticos d'elle,e aventura opiniões não pouco arrojadas. 
D'ahi nasceu talvez o sentido figurado que se dá á 
composição das cathedraes dos séculos XII e XIII. 
51 A porta do templo do Senhor, diíii Keda, signifi- 
ca, que ninguém chegará ao seio do Padre senão por 
aquella entrada. Hu siui o caminho, escreveu elle. " 
A signilieação svmbolica do portal pedia que se lhe 
cravasse a historia de Jesus ('hristo referida ás pro- 
phecias do Testamento antigo. Nas outras partes guar- 
dava-se a inesma regra, como se vai vêr. 

lixiciior. Os poriacs. 

Nos monumentos da meia idade o que logo dá nos 
olhos sobro tudo é o portal ea fachada do occidenle. 
As três portas d'e:ilrada, e no meio dVUas o pottal 
do centro, symliolos da nossa recepção na vida phvsi- 
ca e espiritual, são traduzidos de modo simples e cla- 
ro nas series de liguras entrelaçadas nas volla'> do re- 
mate dos porlaes, que de ordinário nunca excedem a 
três. Na primeira volta exterior está a historia da 
criação do mundooado Testamento antigo; na vol- 
ta central iavravam-se /)íjs.'ios tirados do Evangelho e 
da l'aixão ; a terceira, a mais cavada de todas, con- 
tinha (|uasi sempre allusões á vida futura, cxpre-sas 
em scenasdo Apoealypse. Por baixo eaolado dastrcs 
arcadas coUucavam as estatuas, gigantes na altura, 



dos patriarchas, prophetas, e evangelistas, rodeadas 
de um sem numero d'anjo5, uns com harpas, lyras, 
e trompas; outros incensando com tliuribulos, como 
para celebrar as maravilhas de Deus. 

Ua arcada principal crescia magestoso o tympano 
ou frontão agudo, symbolo da Trindade; no vértice 
Deus Padre assentado em throno excelso, mandando 
á terra o Espirito Sancto com seu Filho predilecto. 
Em outros era Jesus coroando a Virgem rainha dos 
céus. Acima do frontão da porta rasgava-se o óculo 
ou espelho da igreja, de lavores arrendados, ornado 
de ricas vidraças coradas. A figura circular, sem prin- 
cipio nem tim, doesta janella immensa era a imagem 
da providencia divina, de si mesma infinita, e da 
luz, alma e calor de toda a*creação. Nos óculos dos 
séculos XII e XIII as pinturas das vidraças repre- 
sentam o sol, a lua, as estrellas, e tudo o que se re- 
fere aos eíTeitos admiráveis da luz. Na cathedral d'A- 
iniens o espelho principal representa a terra e o ar, 
o do septentrião representa as aguas, e o do meio 
dia representa o fogo, compondo junctos o quadro dos 
quatro elementos. As portas lateraes ao lado do por- 
tal, e nas igrejas do século XII as que se abrem de 
uma e outra parte do choro, viradas ao levante, si- 
gnificavam a entrada pira acommunhão christã, as- 
sim como as quejse rasgavam para norte e sul, e as 
coUateraes ao meio dia e septentrião indicavam a 
conversão dos povos da terra, habitantes de todos os 
reinos e climas. 

Tones e campanários. 

De ambos os lados da porta da cathedral subiam 
ao céu duas torres descommunaes. A da esquerda era 
o symbolo da jerarchia ecclesiastica ; a da direita si- 
gnificava o estado civil e temporal. A união dos dois 
poderes nos monumentos do culto era natural nos sé- 
culos em que o sacerdote, como padre, ajoelhava á 
hóstia nos altares, e ao mesmo tempo enlaçava o el- 
mo de soldado, e exercia os direitos de senhor. Oque 
ha de notável consiste, nas igrejas aonde estão aca- 
badas as duas torres, ema da esquerda ser mais ele- 
vada que a outra; e nas cathedraes em que só uma 
se completou, em quasi sempre a da esquerda se er- 
guer severa e magestosa, em Strasburgo, Anvers, To- 
ledo e Bordéus. 

Apenas nas igrejas metropolitanas, nascoUegiadas, 
nas parochias, e raras veres nas conventuaes se notam 
as duas torres subindo iguacs em altura. Em geral 
dividiam-n"as em quatro andares. O primeiro, par- 
tindo da base, representava symbolicamenfe o cura, 
grau primórdio da jerarchia ecclesiastica. O segundo 
reprosenfava o deão. O terceiro eraobispo, eoquar- 
ta referiase ao arcebispo ; quando havia cinco oquin- 
to marcava o primai. O coruchéu indicava os_\ml>o- 
lo da auctoridade papal. Na jerarchia civil o primei- 
ro andar representa o maire.. ou o official do muni- 
cípio. O segundo é o conde. O terceiro o duque. O 
quarto o rei, e o coruchéu o imperador. 

.\ pesar de n.ío merecerem excessiv.-» fé taes conjec- 
turas, pelo menos aventuradas, convém entretanto ad- 
vertir que a uniformidade de todas as forres de ca- 
thedraes, e o numero sempre certo e igual dos anda- 
res provam que n'esf« construcção havia uma inten- 
ção qne se ligava a fins c ideias regulares e univer- 
saes. (Cunfífiód.) 

Os PBnKAlIS, SKIT.< AROFLISA. 

Entrk 05 marabutos da Argélia ha uma seita liga- 
da por vincules dVissociação análogos aos da fraiic- 
maçonaria, e os seus membros appeUidam-se der- 



o PANORAMA. 



83 



kauts. O seu propósito é luctar contra todo o poder 
temporal, que, segundo elles, só se serve da força 
para opprimir a gente musulmana, e destruir os seus 
primitivos costumes, privaiidoos de se governarem 
conforme os preceitos do alcorão. — Os derkauis são 
de todas as tribus, e reconhecem-se mutuamente por 
meio de signaes em geral e de outros particulares. 
Não cortam os cabellos ; só vestem farrapos, e ne- 
nhum árabe rico se appresenta em suas assembléas 
com albornoz novo sem o esburacar e fazer em fran- 
galhos. Os mais fanáticos vesfem-se de esteiras, de 
pedaços de tapetes, e de trapos de iiarracas velhas. 
Porém, como por necessidade muitos dos árabes ião 
teem outros trajos, os derkauis reconhecem-se de 
mais a mais pelas inflexões da voz, e por aspirações 
'|tje cortam as palavras com um rytlnoo como em ca- 
dencia musica : completam o reoonhi'cim('Mto levan- 
do a mão direita ao coração, e pronunciando, com 
certo accento d'inspirados, o nome de .J//tiA (Deus). 
I)'elles uns são pobrissimoí, e vivem á guisa de ere- 
mitas e mendicantes, outros são ricos, e pertencem 
ás casas principaes de suas terras. A despeito do 
mvsterio (]iie esconde os seus regulamentos, alcan- 
<,ou-se conliecimento do modo da admissão dos neo- 
phytos, o da eleição dos cabeças da ordem. — Gtuem 
quer ser derkaiii embrulha-se em an<lrajos, e vai 
descalço aonde se congregam os membros da seita. 
.Se obtém a permissão de assistir a um ajunclamen- 
• ii, reza certas orações, passa pelas provas que são do 
estylo. e os mestre» proclaniam a afliliação. 

A eleição dos directores e cabeças principaes o por 
concurso, e hão de ser escolhidos da cathegoria dos 
laleis, (doutores). Aquelle que nas discussões religio- 
sas e politicas alcançou por vezes o miiior numero de 
snflragios, o que t(!in divulgado a melhor obra reli- 
■iiisa ou especialmente relativa á seit.i, odVrece se 
r.indidato ao logar vago d(! maioral: a umacommis 
slojdos superiores, que o devem admittir no seu gre 
mio ou rejeitar, é enearregíido o inquérito do proce- 
der e acções do pretendente, e sobre o relatório does- 
ta ha lie votar a assembléa geral convocaila. Ospar- 
liJarios do candidato ordenam se juncto <lV>lle, e se 
formam maioria fica eleito. Os maioraes nomeiam 
íi'cntre si o mestre supremo, que deve presidir ás as- 
sembléas, e que as convoca ou dissolve com assenti- 
mento da maioria. 

Oh derkauis ajunclam-se nas montanhas mais af- 
fa-,tadas do povoado: a serra de Uenseris é o centro 
lia sociedade. Alli discutem as suas (piesiões theolo- 
gicas, <• pelas pregações chamam os liids da sua seita 
ii. rigorosa observância das leis do propheta, edo mis- 
tura com a integridade' do alcorão pregam também a 
independência da nacionalidade árabe. 

(Auando os derkauis se reúnem, vivem em com- 
munidade, alinientando-se de uniiíspiípas de farinha 
Jr cevada, que trazíMU dentro de folies de pelle de 
cahru curtidos. Se lhes falta o provimento, expedem 
alguns do ajunctamenlo, (pie vão de aduar em aduar 
soccorrer-se á cari<lade ilos árabes, <! que trazem, co- 
mo os frades da saeeolu, ;i colheita <lo pcídilorio. 

Ksta seita é numerosa \ mas não <■ possível cifrar 
u quantidade ilos prosidy tos :, ramiliea-se extensa- 
mente entre as tribus independentes, sobre tudo nos 
kiih^lus <! nos de Tafiiii ■, (• são inimigos acérrimos 
«los francezes-, quasi todii a lamilia de Ab-el-Kader 
llie pertence. 

lllSTOHI/. nos TttKUnAI'llOS. 

(ronllnuailuUe pa^. Cl.) 

O TBl,Kuu\eii() <l(! ('happe, ainda bem não eslava di- 
vulgado, apenai se apreciaram os ti'us ininiunsus re- 



sultados, foi por toda a parte adoptado ; esfudaram- 
n^o depois para o aperfeiçoarem i porém ainda ha que 
fazer muitos melhoramentos : com eITeito, a noite, os 
nevoeiros, a chuva, interrompem as noticias. Tentou- 
se remediar, mas sem exilo, estes inconvenientes, 
adaptando lanternas ásdiversas peças que constituem 
o telegrapho. — Este modo de transmissão já é mui- 
to lento ^ o espirito humano caminha tão veloz que 
a rapidez telegraphica actual já não satisfaz. A ins- 
tantaneidade, apesar das distancias, é só quem pode 
sacia-lo ; e para corresponder a esta ardente activi- 
dade, os- ph^sicos ensaiaram ha alguns annos o em- 
prego da eleeíriciíiade para obter certos signaes. 

Em 1747 alguns sábios inglezes, entre os quaesse 
cita Cavendish, quizeram servirse da electricidade 
para estabelecer conimunicações telegraphicas ; com 
o auxilio de descargas de baterias eléctricas obtive- 
ram communicar-se na distancia de duas milhas. Em 
17'J0, Keveroni S.' C^ r propoz um telegrapho eléc- 
trico para unnunciar o resultado da extracção da lo- 
teria, afim de prevenir as trapaçarias de alguns in- 
tiividuos especuladores; d'ahi a seis annos o doutor 
Francisco Salva leu na Academia de Barcelona uma 
mi nioria solire a applicação da electricidade á fele- 
graphia ; [)orém todos estes primeiros esforços ficaram 
infruefuosos. Recentemente a creação dos caminhos 
do ferro é que ministrou meios de estabelecer as li- 
nhas telegraphicas electric;is. 

IjÔ-so no Morainíj 1'ud (1839) oseguinte: — «Ha 
dois mezes o telegrapho electromagnético do cami- 
nho de ferro Grand-Occidenlal está continuamente 
em exercício cada vez que os trens fazem o transito 
entre Dro^ton, ílewell, e Padington. Estando aca- 
bada a linha o telegrapho servirá dfsde Padington 
até Bristol : por elle se transmittirá qualquer noticia 
a Bristol e se receberá a resposta dentro de vinte mi- 
nutos. Os negociantes poderão approveit.irse lias van- 
tagens d'esle modo expedito de conimunieaeão, devi- 
do á sciencia dos inventores, !MM. Cook e Weat- 
sonne. Dois rapazes surdos-mudossão os encarregado» 
da transmissão dos siijnaes, tendo sido exercitados al- 
i;um tempo ha n'este trabalho. Rir. Cook inventou 
um mi'clianÍsmo muito simples que indica ao rapaz, 
incapaz de ouvir o som da campainha em razão da 
surdez, <|ne ha de transmittir pelo tele;;rapho tal ou 
tal noticia. Nunca se ainolgam ou quebram os fios 
(pie servem para a fr;insniissão. Pareceque seria mui 
dillicil acertar exactanuMitc! com o logar onde acon- 
teceria a ruptura n'uma extensão de 117 milhas, es- 
tando os lios todos encerrados n'um tubo da capaci- 
dade de uma pollegada de diâmetro : todavia Mr. 
Cook achou meio de verificar precisamente o ponto 
em que possa ter logar a solução de continuidade ; a 
sua nnichina está encerrada n\ima peça de madeira 
compacta de oito pollegadas quadradas." 

Em iMunich ensaiou-se um telegrapho eléctrico pa- 
ra communicações no interior da cida<le. l'o>to que 
seja de recentíssima data este grande melhoramento 
da arte lelegraphiea, eomtudo já se lem experimen- 
tado ern grande escala, e quando chegar á sua per- 
feição dará pasmosos resultados. 

O telegrapho lem estado commuuunente ao servi- 
ço dos g4ivernos,- eomtmio a seiencia e o (ommcrcio 
ganham muito tenilo-o especialmente á sun disposi- 
eào. I''m IS!17o governo sueco estabeleceu nma linha 
lelegraphiea dií Storkolmo a Furnsnnil , e furam auc- 
lorisados os partieiíhires a se aproveitarem d\'lhi pa- 
ru a» suas eiii)i'ciaes parliiipações, niediante o paga- 
mento de uma cpianii.i piir cail» aviso. 

l'an a H(X'hUi l''.tt>iunuiva, impressa <'m Tjishou no 
eoiriuile anno (17 d'abril) lese OM'guinte. — ..O le- 
legrapiío elcetricti, quo deve cstabelecer-so em toda» 



84 



O PANORA3IA* 



linha entre Francfort e Castel, está prompfo até 
Haltersheim. Diz-se <jue o governo tenciona permit- 
tir o uso do telegraplio á praça dos negociantes para 
obter proniptamente, no interesse do commercio, com- 
iniinieaçõe» e noticias mercantis de Mogiincia. " 

Esta eunia das consequências mai^ directas da trle- 
graphia. quer óptica, quer eléctrica Aniiuliar a dista-- 
cia por moio do pensa mento, como os caminhos de ferro 
e o vapor a ahhreviam quanto aos corpos-, approximar 
mais estreitamente os indivíduos e as tiaíjões :, prepa- 
rar a unidade da confederaçãoeuropea, dando Iheos 
necessários tneios de coininiinicação ; taes siío os re- 
sultados da invenção do teli-grapbo, dos seus desen- 
volvimentos, edas Suas indispensáveis applicações. 
Voltaremos a este assumpto assim que tivermos col- 
ligido os últimos factos mais interessantes. 



A ILUA CeLEBES (») ACASSAR. 

o SEGUINTE fragmento foi extrahido do memoria' 
diário de Mr. Desgrai;, secretario do almirante d'Ur- 
ville, na viagem á roda do mundo, eflectuada nas 
corvetas L^ j4drolah e Ija ZcUc por este illustre of- 
ficial marinheiro, que com sua mulher e filho pere- 
ceu victima do desastre no caminho de ferro de l'a- 
rís a Versailles, emSdemaio de lSt2. — Descreve- 
se a arribada das corvetas á enseada ds Macassar na 
grande ilha Celebes. 

Aos áO de maio de 1S39 entrámos o estreito de 
Salayer. Por esta parte é mui jucundo o aspecto das 
praias da Celebes:, descobrc-se um terreno chão, e 
pouco variado no primeiro plano, e pela terra den- 
tro altas serras involtas em sombras azuladas, fingi- 
das pela distancia e pela transparência da atmosphe- 
ra. A' beiramar as aldeias malaias, os estabelecimen- 
tos protegidos pela bandeira hollandeza, a cidade de 
líonthain, <]ue faz lembrar o máu acolhimento feito 
ao capitão ^Vallis, ora se mostram, ora se escondem 
á medida que o navio passa singrando avante. 

Vista da enseada a cidade de Macassar appresenta 
uma longa fileira de construcções diversas, que se de- 
senvolvem na extensão approxiuiativa de duas mi- 
lhas, porém com pouca largura: tem seu assento nas 
bordas de uma vasta e bella planície, que assim fica 
occulta a quem a observa do mar : á direita do es- 
pectador, isto é ao norte, as paredes brancas das ca- 
sas hoUandezas estão sobranceiras a uma linha de ha- 
bitaeõi's miseráveis, térreas, e feitas de baml)ijs del- 
gados, juncto á praia. F,m frente do molhe dilala-se 
uma veiga vecejante, e o forte Rotterdani-ostenta as 
suas muralhas elevadas, pardas e massiças, guarneci- 
das de canhoneiras: mais para a direita descortinam- 
se varias obras de alvenaria, que parecem pertencen- 
tes a nm bairro europeu \ e no composío do painel a 
vegclacão lustrosa estremeia com a cagaria a rama- 
gem \ir.'nte, e embelleza a ribeira serena e aprazí- 
vel, junclo á qual apenas se enruga a superficie do 
mar. E nnia scena toda de socego ; a povoação pare- 
ce que dorme; a chegada de algum na\io não altra- 
lie niultilões á margem da enseada. Ião somente se 
aggregam alguns riinchos para examinar a inauohr.i 
do adventício colhendo as velas. 

A tropa pernianeiilc em div rsos pontos da Pele- 
bes segura á Hollanda a prepí)nderancía sohi-r.ma 



(«) Esla {jr.iniie íllia deninra enire n de Itnmeo e o.ir- 
chlpejago d:is Mnlueas naOceania nu quínia |i;n'le ilo mun- 
do. Os llos.so.s ii.ive).;:idi)rcs a (leseohriruni imn i'Ulras do< 
incs luos mares pelnsannos de IMá : alii InaJamnsfeiloria 
perto Ja ciJade |)rinci|i;il M.neassar, mnsos liollamlezes nos 
expelliiamna ei>nclia(la noss.i ilecadcncia nianlima, resul- 
tado da usurpação dos Philippes. 



n'um território vasto que não pode ocoupar nem des- 
fruutar inteiramente, e ao mesmo tempo refreia as 
depredações dos indígenas, que melide são pescado- 
res, e a outra metade piratas afamados n^aquellas pa- 
ragens por audazes accornmettimentos contra os va- 
sos de commercio europeus. Os buugais, que habitam 
o litloral, teem a reputação de melh'jres marinheiros 
entre todos os malaios:, aventuram-se asatr muitoao 
alto em seus paráus, ou para pescar, ou para bascu- 
Ihar os mares, e frequentemente as suas viagens le- 
vam por fim esta dobrada especulação : se ao pescar 
encontram um navio de pouca força, ou em calmaria 
ou pouco veleiro, dão lhe abordagem, e de ordinário 
degollam a gente para não haver noticia do atten- 
tado. 

O bairro europeu, Haarctigcn, tem a forma de am 
parallologramo, e é fechado por um muro alto, onde 
se abrem largas portas guardadas por destacamentos 
da milícia ; consta de seis ou sete ruas principaes, 
ípie te curtam em ângulos rectos, bordadas por am- 
bos os lados de grandes e bellas casas de pedraecal, 
branquejando e luzindo com aquelle admirável aceio 
c)ue se encontra em todas as cidades hollandezas : se- 
gando a practica geral das colónias das índias, não 
passam de um andar as casas, mas as frentes são pa- 
ra notar com seus peristylns ornados de columnas bo- 
judas, produzindo agradável effeito : circula o ar fres- 
co em grandes repartímentos, resguardados do calor 
dl) dia, porém abertos á mais leve viração: á tardi- 
nha o peri»tvlo é de preferencia o logar das compa- 
nh as, e guarnece-se de cadeira» e de mcas, em que 
abundam bebidas mais estimulantes do que para re- 
frescar, Comtudo, a parte mais formosa d*este bairro 
transpõe a barreira dos muros : ha n"ella a morada 
do governador, o hospital, e o eudracht ou casa da 
iocicílade tia harmonia, espécie de assembléa perma- 
nente, que se acha em todos os estabelecimentos liol- 
landezes, um como casino, logar obrigatório de reu- 
nião, que constilue o núcleo da boa sociedade da ter- 
ra, e que se abre com affabilídade e cortezia aos ra- 
ros estrangeiros que visitam aquelles territórios. 

Visto o pagode china, meia hora é b.istante para 
correr o bairro de Haardígen, povoado por hollan- 
dezes e chinas:, estes ullímos, preciosos pela indus- 
tria, fazem tudo. mercadejam em tudo, seguem apoi 
a mais pequena probabilidade de lucro por toda a 
parte ; são de real utilidade nos estabelecimentos eo- 
loniaes, e formam a maioria dos habitantes do bair- 
ro, que chegarão a oito mil almas. As moradas dos 
naturaes, arrimadas á praia, levantadas sobre esta- 
caria, e ás veze< nos cães. estão um tanto espalhadas 
por todas as banda», mas acham-se especialmente 
.nnontoadas diante da ciilade hollandei», e em rela- 
ção a si mesmas e á ribeira e<lão dispostas grndual- 
niente, formando um verdadeiro bat.^r atulhado de 
vendas e de mercad.ires, com uma portH que, fecha- 
• 'a á noite, interrompe a communicação e\terior. 
Casas de índigrnas taniliem .«e alar;sm para o norte 
em meio da e»pes*ura de arvoreilo frondoso, produc- 
ç.To c.iracieristica da vejelaç.To intertropical, 

A maior parle do trafico de Macassar está concen- 
trada na comnrida rua moro.inlil que chamamos ba- 
zar, «mde chinas, malaios e europeus teem su.is lojas 
ou armazéns. O maior numero compõe-se dos que 
vendem armas, como crizes, lanç.is, facis de feitios 
dilTiíreiítes, e arreios para cavallo-, «kc, — A cada 
n.isM) se fopi com um d"esfe» homens. gr.'<\ementc 
a^sentado juncto á grade de can.is onde alardeia a 
-ua fazenda á espera do fregtiei. nunca fslh.indo em 
pedir o dobro do valor do objecto que lhe apreçam. 
M.icass.ir tem grande fama de f.ibricar os punhaes 
chamados crites e os ferros de lanças : os primeiros 



I 



o PANORAMA. 



85 



são de dois feitios, a saber, rectos ou com uma leve 
inflexão, ou colubriíios •, estes são mais procurados 
lia Java, e aquelles os preferidos na Celebes. A fo- 
lha d'estas armas é forjada de modo que descobre o 
numero de chapas de ferro de que se compõem, e se- 
gundo a quantidade doestas e o trabalho que deman- 
dam é mais ou menos sul)ido o custo: os cabos e bai- 
nhas também influem no valor i punhos de marfim la- 
vrados ou dourados, e bainhas ou estojos de páu, ama- 
Tello ou vermelho, bctn polido, dobram ás vezes o 
preço a ponto de chegarem a 24;^000 reis. Os pu- 
nhos são recurvados , de modelo uniforme , pouco 
adherentes ao ferro ^ servem para encostar a palma 
da mão, e o index e o pollegar de um c outro lado 
dirigem o golpe. — O ferro das lanças não excede 
seis a dez pollegadas, é chato e de dois gumes : seu 
preço também dilTere na razão do esmero no fabrico, 
porém sobre tudo na proporção da riqueza do cabo, 
que é de cobre ou de prata lavrada, e haos também 
de ouro : a haste é de lenho duro de certa palmeira, 
e no comprimento varí-i de nove a doze palmos ^ por 
elegância teein uma cauda de cavallo (n'alguinas 
tincta de encarnado) enrolada com artificio no conto 
da lança: os cavalleiros macassares trazem esta arma 
com a ponta para baixo, mettida u'um estojo de páu 
prezo ao estribo, a cauda Uuctua então no ar e faz 
bonita vista. 

A par d'estas armas vê-se grande quantidade de 
podôas, de que os indígenas se servem para todos os 
trabalhos. Porém, não obstante a fama, os instru- 
mentos de ferro de Macassar teem mui fraca tempe- 
ra ■, as facas de mesa inferiores fazem sem custo boc- 
cas no corte mais vistoso. — A variedade de objectos 
patentes nas outras tendas é grande, mas o seu valor 
em geral miniino : ha tal que toda a sua fazenda são 
alguns robles de cana d^assucar', muitas não teem a 
importância de 100 francos (IGj^OOO réis) ■, e com- 
tudo todos estos vendeiros vivem bem, graças ao bai- 
xo preço dos géneros, e á fartura de arroz e de pei- 
xe, bases do seu alimento. As lojas mais ricas são 
inquestionavelmente as dos chinas que emprestam 
sobre penhores; ahi se acham os mais curiosos tras- 
tes e as armas melhor fabricadas; são numerosas, 
porque esta industria (se tal nome lhe cabe) é exer- 
citada por todos os traficantes chinas, que absorvem 
d'e»se modo os haveres dos malaios, propensos em 
geral á ociosidade: não somente emprestam sobre 
inoveis, mas também sobre toda a casta de fazendas, 
e até succeile frequentemente comprarem ile anteci- 
pação a parl(! dos ganhos dos pescadiir(!s e dos culti- 
Tfldorcs de arroz. [Conlinúa.) 



O INUIOS DE SulllN.\M. 

O iNnio é por sua iinlole timorato, (bsconfiado c ar- 
diloso. Obrigado desde a invasão dos euriqieusu púr- 
se em lautela e ;i manter-s(r na tbfiuisiva contra os 
hospi'di's, (jue não cessavam de o in<|uii'lar hostiliuen- 
to, e (pie ao isento iniligena das selvas traziam ou es- 
cravidão (Ml morte, teve do oppc\r ii astmia á força, 
nalgumas vezes a desesperação á violeiuia. Mas(|uan- 
do não é conslrangido p,)r cin-uinstauciiis externas a 
snír do seu primitivo caraetcr, inaiiircsta a sua bran- 
dura <í boa fé ; é na realidade o filho da natiireíu. 
Não piíile iiegar-si! ipn! em razãoda t\'raiiiiia dos seus 
«ppressores perdeu um tanto da sua original siiigide- 
ía : os europeus tiveram a culpa, liabiluaiiiio-o a no- 
vas efaitieias preeisõrw. Hastava-lhe em seus mattos 
o necessário, e a fartura do seu território o provia 
abundantemente^ mas agora o supérfluo (renlAo Uir 



desconhecia, sem os quaes tinha passado, e que lhes 
ensinaram a appreeiar para sua desgraça. Aos ví- 
cios das suas tribos os selvagens ajunctaram os das na- 
ções civilisadas. Estes dois elementos diversos de des- 
truição moral concorreram tanto como a oppressão 
para bastardear a sua Índole ori<;inaria, franca ece- 
nerosa. D'este modo os Índios, Ião numerosos e for- 
midáveis' em outro tempo, desapparecerão Gradual- 
mente, acabando pela mistura completa com os colo- 
nos. Esta fusão será demorada, mas parece infallivel 
porque é impellida pela natureza dos factos, isto é, por- 
que pertence á industria, ao commereio, á civilisa- 
ção. — Os Índios ou raça dos Caraíbas, que habitam 
Surinam e seus contornos, são em geral bem feitos e 
proporcionados, sadios, robustos, sem deformidades 
corporaes, e a não ser por accidenie extraordinário 
e raro encontrar alíum corcovado ou coxo. A tez é 
morena tirando a c(ir de cobre- todavia saem bran- 
cos á nascença, mas a alvura desapparece em poucos 
dias, e ficam da ciir natural da sua casta. Entre as 
diversas tribus nota-se geralmente grande conformi- 
dade de feições. A sua maneira de vestir é mui sim- 
ples, ou, para melhor dizer, quasi nenhum vestuário 
trazem. Gluando lhes faliam da nudez com apparen- 
cias de lli'a censurarem, dizem que vieram nús ao 
mundo, e que é bnicura contrariar a vontade da na- 
tureza, 8 cobrir o que ella deixara patente. Faz isto 
lembrar a resposta de um maior.il índio, prisioneiro 
dos,, hespanhoes, (|ue o tinh.im vestido á europea ^ 
quando o general lhe fez as primeiras perguntas in- 
qoirindo-o sobre a sua j^^rarcliia, disse-lhe : — iiTíra- 
me estes trajos para que cu me conheça." 




As inulhereH sà.i ilr or liii.ino ilc mais baix.t rsla- 



é hoje indispensável para trocar puc objcxtos que I tura do <pie os homens, mus de bo« ligur», sobre tu- 



86 



O PANORAMA. 



<]o as raparigas, que peccam talvez por corpo muito 
reforçado: feein seiíiblante redondo, porém acliatado, 
os duiites alvos por extremo, bocca pequena e oltios 
pretos, os cabellos são d'esta côr e caudalosos, eo^ 
levantam em (lírma de trança, prcndendo-os para traz 
com um broche : ás vezes os tosquiam ao modo das 
chinas, e rentes na testada. Trazem nas orelhas pin 
gentes de prata •, atravessam o beiço iiifeUor, ou a 
cartilagem do nariz com alfinetes ou arc;olas de me- 
tal, e cingem o pescoço de collares de vidri IhosoiMle 
coral, junctando-lhes dentes de animaes, e as casadas 
os dos inimigos vencidos por seus maridos : nos bra- 
ços, acima dos cotovelos, usam ás vezes faxas de al- 
godão como braceletes. São galanteadoras, e gostam 
de que lhes chamem bonitas, mas pena é que para 
assim o parecerem pintem cara e corpo com tincta 
de urucií, collando em cima da untura vermelha far- 
ripas de algodão branco ou plumas de aves diversas. 
A maior parlo só usam da tanga para se cobrirem, 
porém as de algumas tribos visinhas á colónia hol- 
íandeza e nas margens do Amazonas servem-se além 
d^ibso de um pedaço de algodão ti neto de genipapo, 
ajustado como se vê no desenho. 



O Feitoií de Camão. 



Novella. 

(Coniinuado de pag. 7o.) 

Vindo a pensar pelo caminho no resultado provável 
da tentativa de You-hi, chegou o feitor americano a 
sua casa, distincta pela bandeira eslrellada que s» 
protegia. Atravessou o primeiro corpo do edifício, e 
ia a entrar n'um pateo interior, no topo do qual es- 
tava o pavilhão em (pie morava, quando lhe foz er- 
guer a cabeça um sonido de voz sonora porém mal 
articulada, semelhante ao dos surdos mudos. No pri- 
meiro andar, por detraz d'um guardasol meio le- 
Yantado, estava a sorrir para elle uma menina ves- 
tida como se fosse para um baile. 

EITendon soltou uma exclamação dVspanto, ace- 
nou-lhe muito depressa para que se retirasse, olhou 
á roda de si aterrado, e subiu n^uin pulo a escada. 

A menina surda veio aiirir-lhe u porta. 

— iiMaria, enlouqueceste ? exclamou, fechando a 
porta por dentro. A janelia n'este trajo ! desgraçada 
lilha ! Queres a nossa perdição?" 

Maria, sem perceber as palavras, percebeu o enfa- 
do de seu ]).ii, porque se lhe lançou logo nos braços, 
tão arrependida. Ião luimilile, tão meiga, q.ieoseni- 
blante do feitor asserenou de siibito, mesmo sem elle 
querer. 

Ainda accreseentou cm tom de mais despeito do 
que na reíilidade sentia : 

Tinha-l'o prohibido, Marias porque me des- 
obedeceste ht 

A resposta da muda foram redobradas meiguices. 
Effeiidon (iniz resistir mais um momento, mas ce- 
dendo por liiii á(iuellc assalto <le caricias, murmu- 
rou : 

.Coitada! esquecia-me que não tem outro di- 
vertimento.;' 

Jí apertou-a ao peito. 

A pobre menina, vendo-se perdoada, soltou um 
grito de alegria ; olhou depois para si cheia de com- 
placência, deu três passos para Ira», enlcsou-se,e 
ficou muito direita diante d'Eflendon com a gravi- 
dade ingénua d'ufna creança que quer que lhe ad- 
mirem as galas, listas eram com elleito singulares 
na riqueza e elegância. O vestido, de crespão bran- 



co guarnecido d'uma grinalda de jasmins de cheiro, 
posto que artificiaes, apertava-o na cintura um cor- 
dão de seda torcida com prata:, uma espécie delur- 
bant^í de setim lavrado, enrolado nos cabellos, pen- 
dia de ambos os lados acompanhando o rosto , e final- 
mente tinha calçados uns borzeguins franjados de pé- 
rolas. A belleza de -Maria enfeitiçava com este trajo 
esplendido. Eífendon não poude reprimir uma de- 
monstração de maravilha. Disséreis que era uma fa- 
da do (oriente em todo o seu fulgor. 

Contemploua um momento fascinado por aquelle 
garbo desluiiibraiile ; depois fazendo uma espécie de 
esforço, trouxe-a pela mão para um sophá de bam- 
bus artificiosamente entrançado, fè-la sentar, e tra- 
vou um dialogo por signaes, quasi tão rápidos para 
quem está nu habito de os faier como a conversaçã» 
fallada. 

Lançou-lhe primeiramente em rosto a imprudên- 
cia de apparecer á janelia assim vestida. 

A surda e muda abaixou os olhos corando. 

— ijgnoravas que não podem os estrangeiros tra- 
zer mulheres das suas terras? Se sabem que estás co- 
migo expulsam-nie e pagão a companhia." 

Maria fez um jignal de pavor. 

— iiílelhor fora não te trazer comigo ; mas não 
tive animo para me separar de minha lilha, dos 
meus únicos amores. Fizeram-me acceilar a direcção 
doesta feitoria para te deixar rica ; quii conciliar a 
afleição e o interesse, fiz-te passar por meu filho...» 

— ti li ainda até hoje ninguém desconfiou de meu 
disfarce, disse Maria inferrompendo-o com a sua lin- 
guagem muda. 

— «Porque nunca o larg;'iras, replicou EfTendou ; 
porque te dei mais liberdade para arredar toda a 
suspeita i porque assim mesmo transfigurada conser- 
vaste o nome de ílaria, que aliás me escapara mil 
vezes e nos trahira. Masque será de nós se te virem 
em traios mulheris? Muito mal fiz eu em te mandar 
buscar esses atavios! Manias de pai ; quiz ver-te qual 
devias ser e qual serás um dia I... Mas estes vesti- 
dos só eu, a furto, os podia \êr em ti, Maria." 

— iiPerdoai, meu pai, disse cila; serei mais acau- 
telada d'aqui em diante,- mas que temos que receiar 
em nossa casa ?" 

— "Não te lembras que estamos cercados d'es- 
pias i que não se move uma palha sem que o saibam 
os niandarius chinas?... Despe-le, Maria, despe-lc 
immediatamente, se não queres que tenhamos algum 
desgosto." 

A menina surda fez signal de que ia vestir o fato 
de homem, abraçou o pai com ternura, e siiu. 

O feitiir ficou no mesmo logar, com os braços cru- 
zados, engolfado em tristes pensamentos. 

Era in:iis que certo o que elle acabaxa de diíer á 
filha. .V menor imprudência podia revelar este se- 
gredo, e roubarlhe infallivelmente a fortuna eo Sú- 
cego. Sabia por experiência com que lelo e rigor 
executavam os chinas a< leis cuiilra os estrangeiros, 
quando o podiam fazer sem perigo; nem devi.i con- 
fiar, em tal caso, no apoio da cumpanliia. que aos 
seus agentes mandava respeitar escrupulosamente ai 
ordens do imperador, toda a vei que a não lesassem 
nos interesses. 

Como dissera a Mnria, vi\ia sempre entresusios; 
estava dentro da sua própria casa á mercê do gover- 
no china ; os creados que o serviam hão os encolhia 
elle, designava-lh'os o cmiiprailor (♦) a quem devia 
saldar todos os meies a importância dos roís do» co. 
mestiveis sem questionar sobre asparcell.is. Não obs. 

(•) Nome.1-0 o mnnd.irim ou vice-rci de Cautão pjn 
prover de maiulnienlos os esirangeiros. 



1 



o PANORAMA. 



87 



tante ter aprendido a língua da terra, obrigavamn^o 
a sustentar e pagar a um lingu.i. N'uina [jalavra es- 
tava em tudo sujeito a uma espécie de tutella rapa- 
ce, minuciosa e infatigável, que o conservava em 
perpetua inquietação. 

A campainha d'um relógio, dando quatro horns. 
veio arranca lo do seu devanear. Ilecordandose de 
que devia ir jantar com You-hi, mandou apromptar 
o seu palanquim, e poz-se a caminho para a casa de 
campo áohanista. 

Esta casa, situada da outra banda do Tigre, fica- 
va no meio d^um j.irdim, celebrado em Cantão pela 
sua vastidão c lindeza; porque apesar deYouOii nãu 
se forrar com pessoa alguma no tracto do comsnercio, 
nem por isso era mesquinlio. Lidava para saccar di- 
nheiro por lodos os modos aos bárbaros estrangeiros, 
mas gastava-o com o luxo da familia, e em alormo- 
sear o seu retiro. 

Effendon apeou-se do palanquim ao péd'uma por- 
ta pequena, onde encontrou um creado china que lhe 
deu entrada no jardim. 

Tinha o hanista. como dissemos, esgotado aqui to- 
dos os recursos da arte china- Ruasinhas areiadas, 
cruzando. se c. voltando atraz de quando em quando; 
fileiras d'espessuras d'arvores com seus claros; can- 
teiros irregulares; grutas artiíiciacs cavadas em ro- 
chedos alii enxertados ; pontesenvernizadas, por bai- 
xo das quaes não se enxergava nem um regato ; kios- 
ques ornados de vidros e de vasos cheios de agua. em 
que boiavam lirios, revelavam a cada passo o go.to 
extravagante e a predilecção dos chinas pelas rarida- 
des monstruosas e pueris. Viam-seá(|uem, accommo- 
dadas dentro de taças de pedra, mattas de carvalhos, 
faias, ou olmeiros, que fizera anões a cultura; além 
arvores verdes, arremedando no feitio aves eelephan- 
tes ; e mais ao longe feras de porcelana com hervas a 
aairemllies das orelhas. No meio porém (Peste dt?s- 
concerto sistemático, zombando do porfiado empenlio 
da arte desassizada, alardeava a niitureza, simples e 
variada, a sua opulência ; cresciam eui toda a parte 
a oliveira de cheir >, a figueira, o alues, a amor(!Íra, 
a bananeira, e os frangimpaneiros recendentes. Moi- 
tas de yu-lan (1), engastadas em amaranlhos verme- 
lhos ou kelmias cambiantes, matizavam o verde das ' 
folhas, a gardénia, as roseiras da China, e os chu- 
lan (lí) delineavam os mil toreicollos das veredas. 
Finalmente, por um pomarzinho de laranjeiras, jam- 
beiros e figueiras, cercados de ananazcs fragrantes, se 
entrava para casa de You-hi- 

Ksta, como todas as dos chins, não tinha senão iini 
plano térreo para as visitas, e um primeiro andar 
exclusivamente reservado para as mulheres o filhos 
de Vou-hi, que a ninguém appareciam. 

í) hnnisla estava esperando os hospedes na primei- 
ra casa ou sala de visitas, ijue contém o altar domes- 
tico onde BC queimam os perfumes. Kia-lhe « sem- 
blanle. 

— "Hcm vindo sija niisti-r Klléndon á ininh.i po- 
bre choupana! disse ell<! assim (]ue viii o feitor. CÍie- 
puiii agora de casa do hoii-pou, e esjicíro que cPaqui 
em di,int<^ a companhia não tirá razão de (pieixa." 

— i.rl isso cusloii-te muito caro, Vouhi?" per- 
guntou l')n'eniloii rindo. 

— i. J'ão earo <|ue, se eu fosse a hiiibiar-me, não 
me faria proveito o melhor jantar. N'(nitru occasião 
filiaremos.'! 

— "I'ela iniiilia alma! se o hou-pou visse a lua 
casa de verão pi^dia-te dobrado. Timis uma morada 
«limia lio siibi-raiio ilii império do nieio (H)." 

(I 1 lispecie lie iii:i){|1(jIiiis. 

(í) Arbusto cujas liillias iní.sluram com tis do chi, 

('<) Nume que dúo 6 Cliiiigt os seus naluruvs. 



— "Mister Effendon vê tudo cora os olhos da in- 
dulgência, respondeu You-hi, n'umtom de modéstia 
vaidosa ; ainda não poude fazer idéa da casa ; se a 
quer vêr...jj 

EiTendon respondeu que sim, e o hanista o levou 
a todos os quartos do pavimento baixo, explicando- 
Ihe o seu destino. 

Os moveis d'estes quartos eram só camapés e nie- 
zas de pé de gallo ; mas dos tectos pendiam lanter- 
nas de chavelho, gaze, ou papel, e as paredes, en- 
vernizadas com primor, serviam de ornatos alguns 
quadros e sentenças nioraes. 

O feitor atravessou com bastante pressa as primei- 
ras salas, mas deteve-se quando chegou á livraria. 

— "Tu aqui não achas os trezentos mil volumes 
da bibliotheea imperial de Pekin, advertiu "^ou-hi 
sorrindo-se ,■ mas, além dos livros sagrados, tenho ahí 
um cento de manuscriptos em meialingua (I), e o 
dobro dos volumes impressos escolhidos das obras dos 
quatro armazéns (á). O negocio, infelizmente, toma- 
me quasi o tempo todo. E ha tanta cousa para ler! 
Nenhum povo tem escrípto tanto como o nosso! ne- 
nhum povo pode gabar-se de ter, como nós, uma lín- 
gua sagrada, que é só para os livros e não se pode 
lallar, a qual contém oitenta mil caracteres, que, 
em vez de representarem sons ou palavras como os 
vossos, exprimem idéas ! Mas vamo nos chegando pa- 
ra a casa do jantar ; deve estar prompto, e os con- 
vidados já hão de ter vindo." 

Effendon já lá os encontrou. Os mais d''clleserain 
lettrados amigos do hauisla, que os foi fazendo sen- 
tar a umas mezas pequenas, cobertas de panno escar- 
late ricamente bordado, e postas em triangulo. Ti- 
nha cadaum diante de si um prato de prata, uma 
faca, duas varinhas curtas de marfim para comer, 
uma colher muito grossa de porcelana, e dois pires 
um cheio de soya (3), e outro contendo, á maneira 
de acipipe, peixe salgado, e couro do Japão curtido 
em salmoura. 

Começaram os creados a trazer para a meza as 
viandas; serviram primeiro uma sopa de ninhos de 
salangana ( f) em palanganas de porcelana ; depois 
vieram fricassés de rãs, costeletas du cão, barbatanas 
do tubarão, as hololhtirias ou bichos do mar, grossos, 
negros, com seis pollegadas de comprimento, e ar- 
mados d'um corno agudo em cada aniiel ; e iPalii o» 
ovos, as carnes, as hortaliças, tudo temperado com 
óleo de ricino, e adubado com lagartas salgadas, e 
molho de bichos de conta, lliiando os convidados 
queriam biber, os creados, que estavam de pé por 
detraz das cadeiras, lhes deitavam, contorme o gosto 
de cadaum, chá em cliavenas de porcelana, ou ca/n- 
chou em taças de metal. 

Tiraram depois os pratos, e trouxeram na segun- 
da coberta massas, saladas irolhos de bambus, e gar- 
rafas com uma certa agua fedorenta. 

Veio a final o dessér, composto de conservas e fruc- 
tas deliciosas. 

Os lettrados, (|Uo o jantar aquecera, começaram a 
desafiar se para um (Pestes certames poéticos em que 
o vencido é condemnado a beber o numero de la绫 
decn;)i <7/i>u marcado pelo seu adversário. .Mandou 
\onhi buscar paus de tincta, o fiincel, e p.ifiel, e 
saíu-«e cailaum i mu o seu improxiso. 

O primeiro lettlado, que da janella via o campo 
illuminudu pelu sol quasi nu uccusu, i>screveu : 

(1) Ohrns iiijii esljlo é um meiu terinu entro u (|os li- 
vros e a líiiKUaKeiii ipie se falia, 
(-i) CiilliT^iioiroIn^iscliiii^is eni ISO-OOO volumes. 
(;)) I.iqiiiilo lirailii (1'iiiiia fava, 
(-1) lliruiulu escutcnia ou auduiíulia sahntfan*. 



88 



O PANORAaiA. 



"Os dias que passaram, carrancudos e chuvosos, 
avivam o lustre dos campos cultivados pelas mãos 
dos homens. 

"Os passares, semelhantes a ruViis e ameth^stas, 
voam por entre as folhas «lo arvoredo. 

iiAl"uma9 borholetas adejam ainda sobre as cristas 
dos pecegueiros sacudidos [)elo vento. 

iià relva parece esmaltada como um tapete borda- 
do por mão hábil. 

tilSanquete delicioso! risonho aspecto! suaves aro- 
mas ! 

"E doce o viver entre amigos, quando o céu res- 
plandece como um docel <Je seda." 

Depois de liilos e apphiudidos estes versos, mostrou 
os seus o segundo letlrado. 

uTraiisjilaiita o lavrador o arroz ainda mui tenro 
para terreno de no\o roteado. 

"Vê em breve no campo vi<;oso e coberto d"agua 
a imagem d'um lindo céu azulado. 

"O nosso coração é o campo \ loução eriço quando 
as paixões são puras e regradas. 

"O único nieii) de chegar a este grau de perfeição 
é não presumir muito de si " 

Estes versos pareceram ainda melhores que os pri- 
meiros, mas o terceiro letlrado, que, como ElVendon 
soubera pelo jantar adiante, era viuvo de poucos 
dias, leu o improviso seguinte: 

"O famoso Ou, n'um transporte de ciúme, mata 
a mulher: brutalidade. 

"O iiiustre Sium quasi que morre de pena por llie 
morrer a sua :. asneira; 

jiO philosopho Tchouang diverte-se com a mali- 
nada dos picheis e das taças ; abraça o partido da 
liberdade e passa vida folgasã. 

E o meu mestre. !\Iorreu-me minha mulher, pe- 
guemos no leque para lhe seccar muito depressa o 
jazigo.» 

Foram recebidos estes versos com grandes garga- 
lhadas e applaiisosi unanimcnionte se lhes adjudicou 
o premio, e ca<laum dos outros <lois ieltrados foisen- 
tenceado a bebpr dez chávenas de vinho quente 

Cumprida a sentença, Yuu hi, que queria tractar 
os seus convidados com toila a magnilicencia china, 
levou-us a uma varanda que dava para o pateo prin- 
cipal, illuminado por lanternas de papel de cores, 
liogo, a um signal dado. rompeu um fogo de vistas 
em tudo o nateo, figurando alternati"amente arvo- 
res de cliainrna carrei;adas de IVuctos de todas as co- 
res, canteiros esmaltados do ilòres, e cobras mui com- 
pridas que saltavam até a cinialhu da casa. 

Acabado o fogo de vistas vieram pelotiqueiros de 
maravilhosa destreza, e por fim unscomediantes, que 
representaram uma das peças mais celebres do seu 
repertório improvisado. Como porém lhes faltassem 
o espaço e as vistas, tinham o cuidado de annunciar 
cada mutação, dizendo : 

— Agora o thentru representa um bosque, ou um 
palácio, ou um cárcere (»). 

Guando algum actor tinha de ir vi.ijar, nem por 
isso saía da seena. Montava a eavallo n'uma benga- 
la, dava três voltas á roda d» Iheatro, parava, e di- 
ziu : — Ciieguei ao firmo da minha jornaila. — E 
continuava u representar como se na \erdade tivesse 
feito a tal jornada. 

Eflendiin gostava d"esla qualidade de espectaculcs 



(») Na» fjraniies cidades dn Cliina clieg.i a baver seis 
iheal rosem caila rua. Oses|icclailoresseiiinm-secm bancos, 
e leeui dianlf de si innas |i<'i|iieiias mesas, niide luuianiclitl, 
com \\m» In/, para os (|iii' luiuani. As ri'|iresenla\'ões sORUeni- 
se desde pela in.iiili& ale a noile. Os papeis das niullieres são 
feitos por bomeiís. 



apesar de os ter visto muita vez. Ficou até acabar a 
peça, e quando saiu de casa do hanista já a noite ia 
muito adiantada. 

[Continua.) 



Precauções p.vra mÉchar os toseis. 

Todos sabem como e para que fim se faz esta opera- 
ção, muito fácil quando o tonel se despeja por uma 
só vez, e no mesmo dia em que se lhe dá a mecha. 
Mas quando se mécham toneis despejados por veies, 
ou passada mais de uma semana, acontece que o ar 
de fora entra no tonel, decompõe as borras e os restos 
de vinho, produz absorpção do oxigénio, e enche a va- 
silha de gaz acido carbónico: não porque os restos do 
vinho tenham azedado, como se diz, mas porque o 
gaz carbónico é impróprio para a combustão, a me- 
cha apaga-se. Para vencer este obstáculo enxagua-se 
a vasilha, e deixa-se a escorrer por doze ou vinte e 
quatro horas, cora o batoque destapado e\jradopara 
o chão. O gaz carbónico, por ser muito pesado, vai 
saindo e cedendo o seu logar ao ar atmoçpherico. O 
espaço de vinte e quatro horas é pouco ; é preciso ás 
vezes deixar passar três dias antes de dar a mecha, 
principalmente se as vasilhas tiveram vinho generoso. 
Convém enxofra-las todos os annos; com muito mais 
razão as que lião de ficar vasias. 



Preservativos contra os ladroe*. 

Um advogado, que depois foi deputado ás cortes na 
França no tempo da restauração, quando era moço 
foi chamado para defender rx cfficio três homens ae- 
cusados de roubo; e de <al modo se buuve que conse- 
guiu Salva-los. 

Passado algum tempo, quando já senão lembrava 
de tal, viu em casa os seus três cliente';, osquaeslhe 
declararam que, por não terem dinheiro comque lhe 
provassem o seu agradecimento, queriam dar-lheum 
bom conselho; purque ouro é o que ouro vale. 

"Senhor doutor, se quer afugentar os ladrões da 
sua casa <le campo, duse em tom peiaroso o orador 
da quadrilha, lenha um cãosinho e uma lamparina, 
e esteja rlescançarii) que nenhum ladrão, que nãofòr 
de portas a dentro, se atreve a pòr-lhe os pesem ca- 
sa. Um quarto que tem lut de noite lança o ladrão 
na Incerteza; a regra em tal caso é não irlá.Cluan- 
to aos cãesinlios, mel tem mais medo aos ladroes do 
que os cães grandes, porque ladram sem p.iusi, e por- 
que se mettem por baixo dos trastes, e não se podem 
agarrar. (1 cão jrande afira-se ao homem, e pôde ser 
morto na lucta. Demais, o caniarrão do pateo fai-se 
mais depressa á mão com um pedaço de carne ou al- 
gum osso, do que o cãosito costumado a comer liem, 
e a receber a r.íçãodasniãosd'«lguma pe»soadc casa," 

O advogado fic"ou muito obrigado aos seus pobres 
clientes, que, para o obsequiarem, trahiam o segre- 
do da honrada. aniigM, e niimrrosa corporação dos la- 
drões. Ensinou a receita «os muilus amigos que ti- 
nha ; usou dVlla toda a sua \iila, e deii-se bem, as- 
sim como os amigos que a adoptaram, i-iuaiido che- 
gou a ser ma!;istrado teve muitas occasiões de verifi- 
car a eflicacia do remédio que lhe haviam ensinado 
na sua mocidade. 



NiMA escrevais po~<nido de eholf ra. Lm dicto fere 
ás \c7es mais do que um punhal : como ferirão os bi- 
cos d^umn pciinn .' 



12 



O PANORAMA. 



89 




A PONT.V 

A 1'KoviNtiA lio llio de Janeiro é uma iliis iikiÍs im- 
purtuiitcH do diUliid» iiii|ierio Liasíiiunse, não lauto 
pur cuiiipreliuiidcr a capiUil, bella, ^opulo^a, e };raii- 
deinenlc cuiiiiiiercial, coiiui pula sua vaatajusa^iiua- 
{;ão ri-lativaiiiuulu ás uutras parte» do l'^«tado, o pe- 
los heuH proprioii cabijndaiitc» recurtos. ilaz euU^* ^1 
e 24" de latitude meridional, e enlre 43 (i4iS de lon- 
gitude uecidental pelo nieiidiano de l'arii. Teu) por 
limite!) du parte dii norte, a C(init'ç;ar da eosta muri- 
tinia, o rio (.'aliapuana («) i|ue a separa da pruvin- 
cia do Kspirilo Santo, o rio l'araliiba c seus ai- 
tluenteíi^ e a si^rra da iManli(|ueira, uulro:i tantos 
pontoa ijue lanibeia a separam da província de Mi- 
iiat-Ueraea :, da parte d<r oesle u sudoeste confronta 
com a província de S. l'aulo desde a dieta serra tia 
Mantiijucira até a ponta <le Cairii<,'U, que finece no 
Oceano, da banda do sul ^ do li-sle é cercada de mar 
por e>pa(,'o de uman cento e vinte le);uai, contandu- 
se trinta e cinco entre a costa e a pro\ incia de.Mi- 
nas-UiTnP!!. 

Avaliane a siiperlUie da província ilo llio de Ja- 
neiro em sela mil e dcuenlas b-i:nas nuadradiis: em 
e montnuni, exceptuando o terreno ijuedeuu»- 
ru atr.ii do Cabo de: S. 'Tlionn', e «jul- na esla(;àoda» 
cliuvas e alagado d<i» afluas reprizadas pilui inedõe» 
dv areias ijue as ondas anuniltiam, e desra2eni iitves 
te», iiendo poiíiu mistiT <|ne os liabitunli!« a* nniia 

(•) Anula no anuo de IHKi iiileM.ivatnas margens d'es- 
te rio <is iinluis liotocuilds, ipie ileuius nn c"<(;iui|ki mi t .* st>- 
rie d'csl« Jurnal j porciu jll em lK;2Use polliiarain niaísp 
£e luniaiunitriíciareis. 

\'0L, l. I\o\t»IUKO il, 1810. 



DO Caju. 

(Fellas cortem vailas para o eícoomento'! ftffs lago:»! 
d'estas torras brejosas l>a grandíssima copin de aves' 
palustre* de mui diversas cores e de lodos os t ^n-ui-' 
nlltis. Ni» estação chuvosa o viandante vf'-seatalliado, 
o»rt pclti violência da corr«tito dos rios, ora pf la« aguaS' 
eiielnirfadaj na estrada, e lein dnsesinir jornada em 
canil»», levando arreatadas ns cavaleaduras, sis i''eze» 
a nado. I'udera e\iliirse ef.to s;ravo iueon-ycnientese' 
as auetorid.iiles lofaes, por via de derrama entra os 

I povos^ ou por outro meio habilitadas, <-nrassem de 
abrir valias, e eurninhos allos nos lugares alas;adii,o«, 
com pontes nos sitios em que precisa» fossem, Irac-' 
tanilo posteriormente da reparação econservíiçilo das 

, estradas ^ assim alo.inc;ar-se-liia não só (;rande benefi- 
cio para o transito como para a aiiricnlltira pela ac- 
•|UÍsi(,'ão de óptimos terrenos, e lambem paru a saú- 
de diis babitantes, (|ue pailecem nuiilo cuii) as lebres 
periódicas. 

Deixando as la^iVis visinluis aiv mar, é Ioda a pro- 
víncia bcin cortada de a<;oas , ao norte a rega o l'a- 
ralillja, para o (piai coMÍloein os rios Crande, líosa- 
ralii, l'a(jue(|iierH, 1'iabanlia, e l'iralii, lodos parjt 
além de» montes e serra dos Or;»fios ; ao sul d\'slii 
serra u da dos .Vymorés teem seci eiirso os rios iM«ca- 
lui, lie S. João, ÍNIaeabé, iMaeacn, I'.;oiii;ú, e (iuaiulil, 

j (]ue somiem dilleriMiti-s rumo«, sem lidlar em oulrns 

j muitos, imiios lopiosos, ipie toda\ia servem dentei» 
vias lie C(unniiinieat,'ão para o Ir.insporte dos i;eiieri'« 
do sei tão. 

lis portos da cid.ide de l'abo l''rio, do Uio deju- 
nciro, ed'An|jru doj lieis são os «pie toem capwcidu- 



90 



O PANORAMA. 



de para grandes vasos de guerra^ nos outros da mias- 
ma costa só entram barcos, e são os princip.ies Arma- 
ção, Barra deS. João, Guaríitil)a, iMacaliée Parati. 
A maior parte das illias das bahias e próximas á cos- 
ia são povoadas e cultivadas. 

Q,uanto á [larte mineralógica, é bem escaco o ou- 
ro iiVsta província, [)orém ha minas de ferro c de 
ciixolVe ainda por lavrar, e por toda a parte pedrei- 
ras de granito', varias espécies de barros que te em- 
pregam na feitura de louea ordinária, tijolos e te- 
lhas ^ ii'algumas serras acha se também o kaotin de 
que os chinas fabricam a sua meliior porcelana. Mal- 
tas vastíssimas ministram cxcellcntes madeiras de car- 
pintaria, a saber, cedro, caiiella, merindiba e caixe- 
ta ; o jacarandá, vinliatico, arariba e outras sern-m 
para moveis pela belleza da cír e facilidade cora que 
tomam polimento: fa2em-.se canoas do lodosos tama- 
nhos com o páu d'oleu, arvore que cresce extraordi- 
nariamente. A ipecacuanha e a jalapa brotam espon- 
tâneas na orla das maltas abundantes de lenhos, que 
vertem gompias e baLsanios mui prestadios e procura- 
dos. O páu-^>rasil ou ibirapitanga é inferior ao das 
províncias do norte. Nas terras incultas visinhas ao 
mar acham-se três espécies de aroeira, que servem 
hos pescadores para tingir as redes, que assim se tor- 
nam mais duradouras. 

A província do llio de Janeiro é entre todas as do 
Drasil a melhor cultivada. O3 plantios de café são 
inuitos e grandes, e de boa qualidade o seu produe- 
to, encontrando-se por toda a parte, bem como os ba- 
iianaes e palmares, laranjaesc mangueiraes, eoutras 
arvores que, trazidas das índias orientaes, se aclima- 
taram, como aconteceu aos pecegueiros e marmelei- 
ros da Europa. Das arvores fructiferas indígenas umas 
requerem terreno forte, como asjabulicabeirus, gru- 
niixameiras ,• outras, como os cajueiros, se dão mui- 
to bem nos arneiros \ algumas em toda a parte me- 
dram sem precisão de amanho, como os ararazei- 
ros e goyabeii.li. Antes da chegada do Sr, D. João 
VI ao Brasil não se cultivavam nas hortas senão fei- 
jões, couves e nabos ; porém a afiluencia dos estran- 
geiros introduziu o uso de todas as hortaliças de que 
os ir.ercados se acham bem próvidos. Nas matlasdas 
parles da província que se acham povoadas críam-se 
cabritos niontenes, pacas e outra caça; nas do sertão 
vagueam onças, jagtiaios, galos bravos, gambás ou 
ssrihoés, tatus, e outros aliimaes próprios d.i Ameri- 
ca. l>or toda a parte tem multiplicado prodigiosa- 
mente o gado vaccum, cavallar e muar, originário 
du Kuropa. 

Segu.ndo o arrolainenio de 18-'f0a população da pro- 
vjncia era de 430000 habitantes, contando 2á ÍSÕO 
escravos de ambos os sexos; o total será (iOOOOO, 
ajunclando-se-lhos 170000 almas da povoação da ci- 
dade e arrabaldes, distribuída du soguintc maneira : 
— brasileiros por nascimento ou adopção 6OO0O, es- 
trangeiros dl! diversas nações 2Ò000, escravos de to- 
da a còr e sexo -SoOOO. 

No anno de IS 'ti exportou a praça do Uío de Ja- 
neiro 10:i8 3()t> sacoas de café de cinco arrobas, lOilio 
caixas de assucar, \~ i ti Í8 couros. — Noaniiolinan- 
eeiro de )t>42a 1S'(3 saíram 4804813 arrobas de 
café da colheita da província, e 10:29 732 arrobas 
vindas das províncias de S. l'aulo o iMínas-Geraes, 
que fazem a totalidade de 1 ItiG ilOi) saceas decafé de 
cinco arrobas. Sigundo o^ documentos ofliciaes publi- 
cados em 18i3 ha na cídadedo Uiu de Janeiro 4 734 
casas de commercio de dilVerontes géneros; 7 Iwlgas, 
95 inglezas, 328 fraucezas, o o restante pertencentes 
a portuguezes, que especialmente se occupam do com- 
luercio de ferragens, quinquclherias, mercearia, e ven- 
dem juiictamente por miúdo aguardente, vinho, siei> 



te, manteiga, especiarias, conservas, carne secca e 
outros comestíveis. 

Tirámos o presente artigo de uni.i bem redigida 
obra recem-publicada em Paris (18io], compilada so- 
bre 03 manuscríptos de Mr. Míllíet lie St. Adolpbe 
pelo Sr. Dr. Ijopes de Moura : o auctor originário 
residiu no Brasil vinte e seis annos, percorrendo-o 
em variadas direcções. 

A nossa estampa representa um sitiodas visinhan- 
ças do llio de Janeiro — a ponta do Cajií. Este pon- 
tal arenuso, e sobremaneira saliente na bakíaNítbe- 
róhi, fica a uma légua ao noroeste da cidade. Ahise 
vê um palácio imperial, notável pela simplicidade da 
archilcctura e pelos soberbos jardins plantados em 
chão árido. I)'este local se espraia a vista pelabahía 
e montes circumdantes, e por muitas casas de recreio, 
vivendas agradáveis na boa estaçiin por causa da vi- 
ração do mar, que refresca a intensidade do calor 
diurno, e da viração ou briía da tarde, que de ordi- 
nário reina todas as noites. 



AnTE ANTIGA. 

(Continuado de pag. 81.) 

Entuanoo no interior das igrejas é que se observa 
na disposição particular, e em todo o plano d'ellas, 
o symbolo a revclar-se em toda a sua magestade. Os 
archiíeclos da meia idade imitavam a estructura das 
primeiras basílicas, sem se deterem com a sua ori- 
gem pagã. No século XIII, sobre tudo, exprimem 
com individuação e clareza a historia e o fim do 
christianísmo. 

A figura em cruz de todos os monumentos religio- 
sos é para recordar a morte do fundador da nova re- 
ligião, que escreveu com o sangue do martyri •, DO 
coração dos povos, a sua doutrina sublime. A entra- 
da principal dos fieis na igreja fazia-se pelo grande 
portal, pelo /it- </a cr»;. Nãosígníficará isto, que pe- 
ias trabalhosas missões, pelo «elo incansável, se der- 
ramou o Evangelho entre as nações? A nave repre- 
senta a congregação dos fieis. A intersecção do choro 
e da nave, aonde se ersiie o altar mor. é o logar 
sanctissimo, em que o sacrificio se consumma. Ksfe 
logar sagrado, aonde se deposita o que os christão» 
adoram mais reverentemente, coros o um» cupola, 
imagem do empvrco : umas vezes redonda, outra» 
cortada em pannos. Debaixo á.i cupola está o púlpi- 
to, d\)nde o sacerdote falia « palavra de Deus, c ex- 
plica a lei moral. No da direita liam se ot Evange- 
lhos, no da esquerda commrniavam-se as Epistolas. 

O choro situado para o levante, no sitio mais emi- 
nente da igreja, é o symbolo da sanctidade e da loi 
do ENpirilo Sancto. Primitivamente só trcs jnnellas 
se rascavam para o allumiar. Alii, nns cadeiras eí- 
culpidas, assistiam ao5 oflicios os icclesiaslicos, con- 
servadores das cousas sagradas, e os magistrados, re- 
presentantes do estado cítíI. Tndo isto significava a. 
união da vontade calholíca, uma c universal, e a 
fortaleza do christi:inísmo. 

As capellas collnteracs d.is naves, e as que se 
abriam em volta do choro resplandeciam umn como 
auréola sobre a cabeça de Christo, representando o 
ciilto dos niartvres da fé. e o das communidades e 
povos. As naves eram o logar de reunião assígnado 
a todas as gentes da terra. Kstas divcrs.is partes, no 
todo, significavam a igreja niililantc. 

Por dcluii:(u d'ella cavavani-se tenebrosos subttr- 

raneos -, existia uma segunda igreja abobadada ; etsa 

compunha o symbolo da igreja aftlicta. Nas gallerias 

superiores, nas tribunas do choro, e algumas veies 



o PAiNORAMA. 



§« 



CIO capcilas feitas Mos campanários celebrava-se o cul- 
to do« anjos. Era o symbolo tia igreja triumpbante. 

Ornamenia^ão. 

As (Iguras que se enlaçavam pliantasticas nas vol- 
tas dos arcos, nos capiteis dus roluinnellos, e rio ar- 
queamentn das portas, esja iiiiiuineravel serie dpgri- 
pbus, arabescos e arcliaiijos, não er.im formas inven- 
tadas ao acaso pelo capricho do artista. Ijigavam-se 
ao pensamento da epucba, e á idéa de quem deli- 
neada os admiráveis bymnos de pedra, chamados ca- 
thedraes. Kin umas eram a traJncjão do mysterio 
em allusões palpáveis j n'outras exprimiam a resis- 
tência popular á violência civil, ou ao predomínio 
sacerdotal, lim muitas os terrores da eternidade, e o 
desespero moral vestiam as suas apprehenjõysde cor- 
pos horríveis, truncados, e medonhos, como os criava 
a imapina(,'ão atribulada das na^'ues. Olivrode már- 
more dava a forn)ula — a sociedade, para a qual se 
abria, possuía o segredo de a resolver. 

As parochías, quasi nullas no século XII, apgiare- 
cem rudes e singelas como os habilantes ruraes.que 
o tino chamava á oraçfio. No século XIII a reacção 
começa ; as ordens niendic iiites crescem, e levando 
erguida a cru?, da penitencia, e trazendo sempre vi- 
va em si a imagem da primitiva pobreia e humilda- 
de do apostolado, disputam aos opulentos benediclí- 
iios e bernardos o império, de qu<! já principiavam a 
abusar, li, no tempo da epopéada Idade media que 
O archileclo e o esculplor lavram lambem a sua epo- 
péa na face das cathedraes; o cinzel responde ao tro- 
vador. Cada andar de mármore encerra um canto-, 
cada figura repete um verso. Nos porlaes lavrados, 
que reíguarduni o sanctuarlo, os que passam, ao le- 
vantar u4 olhos, encontram um episodio adiniravtl, 
e param para o estud.ir. A poesia mund.ina rima 
cm canções d'anior as bellezas d.i gaia-sciencia, os 
soláus, as chácaras, as cantigas populares, que se di- 
zem ao pé da lareira na inginua melopéa do povo. 
O» niunumenlos escrevem com o escopro a epopéa 
religiosa, a creação, o verbo dVspirraiiça, n alliança 
antiga, renovada pelo saiig'ie do Justo nas raizesdo 
Golgotha. São os prophelas, são os martyres, ca vir- 
tude triíimphante, dobrando o vicio escravo aos pés 
do arrependinicnlu e da fé. 

O século XII cie e sente:, mas é uma crença aus- 
tera — é um sentir áspero. ^ iu KarI o (irande e 
Frederico Karbaròxa, heroes gigantes e autocratas, 
como os reis de Judá, resplandecerem com severa e 
lerri\tl magi.'slade. Deus era para clles oanIigoJe 
hovah. assentado n\im llirono ilo nu\cns, fulgindo 
lhe na fronte a corda de fogo dos relâmpagos, fulmi- 
nando pela voi dos Iroviles os oriínesde uma geração 
de poderosos oppres>ores e corrompidos. — l'or i^.«o 
em toda a parle, nos poemas e n;if escnlptiiras, pre- 
domina n copia das passagens do Testamento velho. 
Depoiíi siiavisaram-se eslas id(-as lugolires. (^hrislo, 
pela sua natureza, prometlia rccoiieiliar os homens 
com <i céu. A misericórdia estendeu o braço para 
consolar ns diires, com que a duvida e o temor pun- 
giam o peito dos criMiles. A Virgem, ineiga eterna 
como o amor, era a luz da esperança, cpie illumina- 
va MS Ireia» de um futuro carregado, (iuaiulo o sé- 
culo XIII rompia com a tremenda ameaça do fim 
do miiiKlo, mÍ Klla, a INMi do Kilho de Deus, incx- 
gotnvcl na bondade e na doçura, podia obstar ao 
castigo, e deler a espada da justiça. 

Então as artes esqueceram as figuras ineilonlins 
apenas humanas, que o cérebro desregrado do artis- 
ta evocava da imaginação delirante; figuras ile d(\r e 
pcscspcração. As iiléas purificam se pela promessa do ' 



Evangelho, e a victoria da esperança grava-se na 
architectura, reproduz-se nas bellas e animadas esta- 
tuas dos sanctos e confessores, como nas calhedraes 
de Paris e Strasburgo, e penetra pelos olhos e pelo 
coração no aperfeiçoamento moral dos povos. 

D'esta revolução nas crenças proveio a reacção nas 
artes. Os sumptuosos e magníficos portaes de Reims 
e de Amiens nasceram d'ella. A variedade, a rique- 
' za, e o numero dos ornatos extasiam. ^ isfos de per- 
to, percebe se que no seio do infinito, no meio da 
cpulencia de milhares de formas, a ordem anima 
desde o mais simples até o mais complicado orna- 
mento. São palavras, são phrascs, «ão versos abertos 
em mármore. Da sé de Lisboa á Batalha, e da Ba- 
talha a ISelein que disl.mcia moral n.^io vai, que re- 
volução no gosto, que progressiva tran5formação nas 
idéas ? 

lia nos monurhentos religiosos, que o passado nos 
legou, a hiitoria de civilisações extinetas. Os inno- 
vadores de camarlello, os cmplastrndores de gesso e 
vermelhão, não sabem que esses relc\os partidos, es-' 
sas columnas Ijrulolmente assarapinta-biç de cal, es- 
ses capiteis variado», e os filetes bordados de figura?, 
enriquecidos ile mil tarjas, de que fazem marcos e 
calçadas, contém uuii parte dos pergaminhosda nos- 
sa antiga nacionalidade. Fanáticos de uma cousa 
que não percebem, invocam o progresso, cuspindo 
nas cinzas de >evis avós. .\s artes, os b.omens, e a ci- 
vilisiição devem perdoar aos pobres de espirito, por- 
que na sua ignorância não entenderam o que fize- 
ram. Mas quem nos re5tiliiir.i o que nos roubaram 
no seu entbusiasmo municipal os Gracchns da picare- 
ta, CS .atilas das sés e dos mosteiros? Pó nos resta 
conservar o que nos deixaram, e defende-lo das es- 
tações e dos vândalos. O mais perdeu-se irremedia- 
velmente. 



O Fkitok de Cant.vo. 

.\nrc!!a. 

(Continuado de pag. 86.) 

M.\RiA, depois de vestir o fito ordinário, viora ter 
com seu pai a sala ondo odeixára; e eomonãooen- 
conlrasse, affigurou-s>-lhe que ainda estava .Tgastado 
e saíra para não a vèr. 

Arrazaramse-lhe os olhos de lagt-imas só de o ima- 
ginar. Maria amava d'alma a seu p:ii, estremecia-o, 
tinha-lhe nin alVocto implacável, como á única cria- 
tura com quem podia commuiiicar pensamentos. Apar- 
tada dos mais homens por causa da s>ia enfermid ide, 
p.ira ella o inundo cifravuse em seu pai, em quem 
coiicentr.ira toda a amizade qneuina menina reparte 
com a mãi, irmãs ou compaidieira» ; não podia pois 
supportar o mais levo enfido d'l''Hendon ; uma re- 
prelicnsão sua, por niois branda que fosse^ cauíava- 
Ihe uma espécie de desesperação. 

Mas se ao principio a afiligíra a ausência do fei- 
tor, em breve lhe despertou sorioi cuidado» a tardan- 
ça depois da hora <lo costume; pori]ue, comoo feitor 
se osqueo^ra de lhe dar parle do convite deYoii-hi, 
parecia a demora inex()lu'avel. Chegou a hora lia 
ceia, o Kflendoti semapparecer ! Mnria mandou pro- 
cura-lo aos dilVerenlcs escriploriosoiide elle tinha ne- 
gócios ; em parle iilguina o virilo ! 

A imuginação da infeliz ineninn, já nbn1ndn, co- 
meçou a desvairar. Muilo conlribnia pura lh'a exal- 
tar n impossibilidade de c;'inmunicar os seiu receios, 
de os discutir, e de os ouvir emitrnrir.r. Desceu mui- 
tas vetes ao porlo, e caminhava á l(^;l procurando avi- 



92 



O PANORAIVU. 



da com os olhos por enfre as turbas o seu idolu, co- 
mo se esperasse encontra-lo a cada volta. Sobreveio 
a noite e seu pai tem chegar. 

Recolheu-se a casa e sentou Se a uma janella so- 
branceira á rua. Alli, delirnjada, com o coraç.loan- 
<'usliado e a cabeça a abrazar-se lhe, se afanava por 
distinguir do borborinlio a Ião conhecida voz pater- 
na. Kntroii finalmente nm criado (]ue fora liuscar no- 
ticias, e deu-lhe a entender que tinha visto ir <i pa- 
lanquim do feitor [)ara os arralialdei chinas, onde es- 
tava a casa de Yoa-hi. 

Com esta noticia recresceram os sustos de Maria. 
O exemplo recente d^um inglcz que tinlia sido apanha- 
do n'um d'esses bairros escusos, e maltracladu pelos mo- 
radores chinas, que não o largaram sem receberem 
avultada sonima de dinlieiro, [irovava, com eff.;ito, 
que taos excuríões não eram livres de perigo. lim 
quanto luctava entre temores sem se deliberar, alon- 
gou 05 olhos machinahnente para a margem opposla 
do Ti''re, e deu um grito. Cresciam longas labare- 
das por cima das casas do arraVjaide, espalhando uo 
liorisonte um clarão aziago '. 

A muda não pensou em mais nada senão cm que 
tinha lá seu pai, exposto, além dos perigos já sabi- 
dos, aos do incêndio! Este receio acabou de a desa- 
tinar. Correu fora de si ao cães, voou ás barcas de 
passagem, niaso povo pejava os embarcadouros, apon- 
tando para as chammas a medrar na outra banda, e 
bradando soccorro. Depois <ie haver tentado cm vão 
abrir caminho até os campans, lembrou-se Maria 
d'outro sitio, mais para baixo e menos frequentado, 
onde estanceavam barcas. Livra-se do apertão c par- 
te ás carreiras pela ribeira abaixo. 

E a noite escura, e o vento a sibilar lúgubre, eo 
Tigre a bramir ao longe. Na passagem só e->ta\ a atra- 
cada uma /oicAa sem lanterna. IMaria divisou na proa 
dois barqueiros tártaros mal encarados. Conversavam 
em voz baixa. Uuins agouros! IMaria não repara-, 
lança-se na barca, e desata a corda que a prendia á 
praia, soltando o grito agudo com que ajudava a ex- 
pressão dos gestos. Os tártaros ergueram-se, c cimio 
que se interrogaram. iVlaria vendo-os irresobitos, pu- 
xou depressa pela bolsa, tirou d'ella uma moeda de 
curo, e lhes indicou a outra banda. (Js olhos dos bar- 
queiros faiscaram ao vêr ouro-, correram ambos aos 
remos, e o batel fez-se ao largo. 

A menina muda, de impaciente, tinha ido para a 
proa, e agujaxa a vista para distinguir, nas trevas 
da noite, a outra margem do rio. E a barca tão va- 
garosa, tão vagarosa! Até, por três vezes, lhe pare- 
ceu parada, como se os couductores hesitassem em ir 
Avante, e ao voltar-se os viu a conversar com grande 
interesse em voz sumida. Chegara emfiui a meio-rio ;, 
a outra banda começava a avultar no escuro, c cila. 
para assim dizer, já a alVerrava com os olhos, quando 
;i cingiram dois braços vigorosos I Voltou-se dando 
uni grito-, mas quasi no mesmo instante sentiu feri- 
rem-lhe o peito, e caiu sem sentidos. 

Eflendon, como fica dicto, lá pelo meiodanoiteé 
que veio para casa, e só quando, no outro dia, per- 
guntou pc'la filha é que deu pela sua falta. Como os 
criados não a tinham visto sair nenbuma informação 
puderam dar. O feitor esi)uadriiibou tudos os recan- 
tos, correu a casa dos seus amig>>s, interrogou os 
\isiiilios, e espalhou a criadagem por toda a cidade 
de Cantão. As primeiras pesqnijas foram inúteis ; 
mas, porto da noite, trouxeram-lhe uns barqueiro» 
tuna cravata com manchas de sangue achada no 
Tigre. 

Éffendon na cravata reconheceu a firma de Maria ! 
Esfe lúgubre indicio fulminou o malatcnturado pai ! 
Nem já podia duvidar , morrêrK-lhe a filha, c n>or- 



rêra-Ilie assassinada ! . . . Mas aonde ? por quem ? com 
que motivo? Enredava-selheamente em supposições 
impossíveis. Eram baldadas as tregu,.-. "^.ue, para as- 
sim dizer, dava á desesperação afim de imquirir re- 
miniscência; não podia acertar com ■> rumo, e do 
meio da cerração um só verdade surgia, innegavel 
e terrível: assassinaram tua filha. ElVeiidon repetia 
estas palavras como um louco, ou como um homem 
que trabalha por despertar de sonho horrendo. Por 
mais provas que desse a si mesmo da certeza da per- 
da da filha, se o entendimento as admitt ia u coração 
rejeitava-as. IVesta lucta perpetua de um com o ou- 
tro, se elle ouvia fallar r.a cacada, se sentia abrir al- 
guma porta com mais pressa, vultava-ce , tobresalta- 
do, com a esperança de ver Maria ' 

l'a5saram se dias e dias, e ella sem appareeer. O 
feitor, por fim, foi obrigado a crer. . . a crer que já 
não era pai 1 Esta certeza matou-lliea energia. Rom- 
peu de súbito todas as suas relações, abandonou a di- 
recção da feitoria aos agentes ii:ferioreí, e escreveu 
á companhia para o mandar substituir. 

tiuizeram vêr os auiigoa se o confortavam, ma» 
sem fructo, que ao feitor até aborrecia e-cuta-los. Dei- 
tado n'uma marquuza diante do retrato de Maria 
passava dias inteiras, immovel, olhando sem vêr, e 
ouvindo sem responder. A*quella actividade enérgi- 
ca e curiosa d'outrora succedèra o torpor daindiffe- 
rença. Disséreis que a filha, ao desapparecer, Ibe le- 
vara comsigo força e vontade; triste abatimento das 
almas mais fortes, quando as preenche um só aCfecto 
e a desgraça o corta pela raii. 

Um dia que Eflendon tinha ido, como quem vai 
de rastos, ajustar umas contas com o kong-hang, o 
que só elle podia fazer, ao passar pela porta defeta 
da cidade china, obrigou-oa parar uma longa cáfila 
de camellos, que vinham carregados de sal e de car- 
vão. Acabava o ultimo de entrar pela porta, e o fei- 
tor, immovel qual estatua, ficara a olhsr material- 
mente para as carroças de vela, equilibradas n uma 
só roda, para as liteiras levadas a braços, e para os 
grandes carros empurrados por um só homem, que 
transportam os viajantes com assoas bagagens, quan- 
do deu com os olhos n^uma sumptuosa carroça de 
quatro rodas, com a caixa enverniiada, puxada por 
cavallos ricamente ajaezados. Dirigia-a um cocheiro 
natural da Coréa, como indicavam a largura da >ua 
túnica, o ch.npéu cónico de bambií entrançado, e as 
botas d"algodão acolchoado. Sobre as almofadas de 
verniz preto avultava o bastão de mandarim em re- 
levo dourado, coroado d\ima grinalda de jasmins de 
prata. 

A carroagem, que parara por achar a rua empa- 
chada, tornou a rodar. Ao passar defronte de Eflen- 
don . . . Buliram Je repente as cortinas de seda e soou 
um grito ! . . 

O feitor, que ia a partir, voltou-»e attonilo. Reco- 
nhecera aqiiella \oi que se não confundia com ou- 
tra I . N'esle mometilo corrcram-»e rapidamente as 
cortinas agitadas, ouviu-se outro grito, eumrostode 
mulher se inclinou para fora ! . . . Era Maria. 

O americano estendeu os braços e qui» lançar se a 
ella 1 . . . mas a carroagem passara a porta china, e 
oí cavallos, achando-»e em campo largo, metleram 
de trote. Eflendon, fiira de si. a seguiu noi brados; 
alcançava-a scosguardas chinas da porta lhe n?o im- 
pedissem a passagem. 

— ..Ê minha filha, vil gente, é minha filha ! n ex- 
clamou o feitor forcejando por soltar-sc. 

— .Para as feitorias, para as feitorias, cão ! n re- 
plicaram os soldados empurrando-o. 

— a Não, disse EiTendon ali uci nado, largai-ine 1 . . . 
minha filha . . . quero segui-la ! " 



o PANORAMA. 



93 



— u K um doido , » repetiram algumas vezes. 

— uE deitai» no Tigre.» 

— 11 Agarrem-n'o bem." 

Tinham comefleito agarrado o feitor, que deu um 
tirro de raiva, e fez o supremo esforço ao vêr a car- 
roai'em próxima aeiimir-se navoltad"uma rua. Mas 
o official manfchdu que commaridava o poíto aciba- 
va de clief;ar com um rcfi)r<j'0 de soldados, que se dei- 
taram a elle, lançaram- ii'o por terra, e depois de o 
terem atado de pi;s e mãos com as cordas dos seus 
arcos, o puzeram ás costas d'um burro e o lrou.\eram 
para as feitorias no meio dos insultos e apupos da 
gentalba. (Continua.) 



Oj índios de Suhinam. 



CoNTiNUANDoa narração dos costumes dos índios de 
Surinam ou C-ayonna liollandezu (vide a pag. 85), 
tractari-mos de sexo masculino. — Os Índios são ge- 
ralmente de caracter bondoso, e tudo se alcança d'cS- 
les por via de brandura e af.igos, e principalmente 
pela dadiva de bebidas espirituosas:, porém na em- 
briaguez são tão formidáveis como na cholera, o tão 
cruéis nas demasias da gula como na vingança. Teem 
as feições do rosto assaz agradáveis, o que se observa 
principalmente na gente moça, mas divisa-se-llies 
certo fundamento de melancholia, que provém da 
bruteza e do excesso das bebidas, a que se entregam 
com furor quasi incrÍTel. — Teem a testa chata e re- 
cuada, olhos pretos e de ordinário pequenos, dentes 
mui bellos, que conservam até muito avançada ida- 
de ■, nunca são atacados de escorbuto e outras enler- 
midades da bocca, tão commun» na Kuropa : os ca- 
belloB feem-n'os pretos como azeviche, e só se fazem 
brancos na extrema velhice: serapintam a cara com 
listas negras e encarnadas, as primeiras ieitas com 
çumo de genipapo c as segundas com urucú : a sua 
c<1r estimada, como entre todos os demíis povos sel- 
vagens, é o vermellio, c dVdIa tingem cabellos, pes- 
coço, espáduas, e ás vezes outras partes do corpo : a 
quem os TÔ de certa distancia parece que estão cri- 
vados de golpes ^ e alguns riscam também metade 
das perna», o que faz o elTeito de borzeguiiis (•) : a 
natureza lhes concedeu pouca barba, e assim que es- 
sa pouca desponta é arrancada com pinças feitas de 
cascas de marisco. — Assim como as mulheres furam 
ai ventas e o beiço inferior, os homens fazem o 
mesmo ás orelhas, trazendo n^ellas um como alfinete 
de certo metal, que parece prata ou platina, )i (|ue 
elles affirmam haver em abundância nas suas terras ; 
comtudo os mais d^elles trazem bocados ilu páu ou 
08SUS de inimigos. Uns cobrem-se com chapéus teci- 
dos de pennas de aves diversas, ou simfdesmentecom 
pennas de varias cAre», outros põem barreie, alguns 
cingem H cabeça com uma tira de pelle de onça, e 
os mais dV-lles andam de cabi-ça Ioda descoberta. Ao 
redor da cilura amarram uma corda ou faxa de 
cAr escura, as mais ilas vezes vermelha , que \\m 
serve pura pendurar uma fa<'a sem bainha. l'assain 
por entre pernas outra faxa de algodão azul ou en- 
carnado, da largura di! meia vnra, e docomprimm- 
to lie ipiatro a cinco: as duas pontas ou cahem sol- 
tas posterior ou anteriormente, ou as arregaçam sd- 
bre a» pernas ou sobre os hombros ^ haos que tra- 
tem uma espi-cie de dalmalica ou capa, de <luas a 

(») ICstii piíituri dos gelvaKcns 6 crnvrjaila ii.i pelle, co- 
mo fazem os supeisllciosus da ICuropa, <pie se ferram ouni 
signos salaniues, c oulrusi signatis sjnibulicos cyiiua bruxe- 
dos e fcilivos. 



três varas em quadro, que enrodilham á cinta uh 
traçam por cima do hombro. 




Nada ha tão cómico para quem não está habitua- 
do como vêr um caudilho, ou capitão indio, vir ao 
forte europeu, ou a ((uaiquer.iuclorijale da colónia, 
com seu casacão vermelho agaloiuio, sem camiza nem 
calções, de cha|)éu reilondo tanilicni agaloado, e em- 
punhando um bastão como usan\ os tambores mores: 
toda a tribu o segue a certa distancia, e as mulheres 
e rapazes cerram a marcha. Coninuiuiente é um ve- 
lho, e sempre o mais liabjl guerreiro da cabiida ^ faz 
()ue lhe obedeçam ao primeiro aceno, e os seus mais 
leves dictos são tidos como oráculos por lodosos seus. 

Teem por armas arcos feitos il>! páu rijo, de ordi- 
nário de cinco a seis pés di- comprido ^ e h-aos me- 
nores : os rapazes os teem do junco para se exercita- 
rem : as frechas são de Ire^ a Ires e meio pés, c tam- 
beni são de junco ou de páu de palmeira ■, a seis pol- 
legad.is da extreniiilade as eul'.'it«m de pennas dc- 
papagaid ; as pontiis são de lerro ou de espinhas, ar- 
liliciosamenle tr.dialliadiis : outr.is frechas lhe servem 
para varar o peixe quando o descobrem a dois ou 
Ires pés do fundura iTagu.! : us de que usam contra 
os inimigos são hcrvadas ciim o sueco da arvore man- 
cenilbeira. Também se armauí de lanças ou dardos, 
(|Uo arremec\ini com grande dislret» ; farem r iralia- 
lanas com juncos de nove a dez pé<, ca> frechas que 
dispar.in» são pequena», mui delgadas, e involla» cuk 
algodão, jogamn"as a cen\ e mais passo» ko tom o 
impulso do siqiro, o com força bastante para matar 
animaes pei|uenos, pássaros ou quadrupeile». Teen» 
varias castas di- miisias de lenho duro e prelo, algum 
com veios ou juspcado ; uma» boleadas c do cumpri- 



^4 



O PANORAMA. 



mento de dois a três pés, outras chatas, <|iiasi da 
forma de catana, e na ponta ornadas de plumas : 
também as faliricam quadradas, e pouco mais ou 
menos do dois palnms. — Todas estas armas, bem 
como as fundas e as facas de matlo, tornam-se mui- 
to sanguinárias nas suas niiios, sobre tudo em mo- 
mento- do cholera ou quando acirrados na guerra. 
Deade a chegada dos europeus é que conhecem o uso 
da esp iigarda, do macliado e acha d'armas e da es- 
psda: atiram com a primeira á moda dos negros, 
ufoian lo a coronha no quadril direito. 

Uma aldeia india é, [)i'lo comnium, habitada por 
vinte a trinta pessoas entre homens e mulheres, sob 
as ordens de um caudilho \ coiistrucn\ as suas casas, 
ou ramadas, do modo mais económico, compondo as 
de alguns troncos bifurcados e mettidos no chão : o 
tecto é de serrafos de lenho de palmeira, recamados 
de follias de bambu e de bananeira, tão Ijem concer- 
tadas que não as penetra a agua : não teem [)ortas 
nem frestas, e o tamanho é pioporcional ao numero 
de indiviílnns que ha de occupa-las JOm geral, os ín- 
dios não teem residências fixos: ora habitam 05 bos- 
ques, ora á beira das calhetas ou dos rios-, umas ve- 
zes se retiram para as soas roças, outras vezes aba- 
lam para as praias maritimas. Quando intentam 
mudar de morada, escolhem o logar, e o aplanam 
para construir a choça. Feito isto, preparam em re- 
dor o chão para a cultura da mandioca, domilbo, e 
da bananeira; porém nunca para mais do que lhe e 
absolutamente indispensável ao gasto. 

A caça e a pesca são as occupações habitiiaes dos 
Índios,- as mulheres são obrigadas a segui-los n'estes 
exercícios, carrei^adas das necessárias provisões i e 
além d'isso cumprelhes ir buscar a cai^a que os ma- 
ridos derribam, e carrega-la paia a cabana. \i um 
dia (diz Mr. litnoit) uma india moça e interessante 
que voltava da caça com seu marido; este não trazia 
mais que o arco e frechas, e aquella caminhava apoz 
elleaccurvada ao pez-o de um grande molho de ba- 
nanas, de uma creança de mama, de nma cabaça 
cheia de chica (bebida fermentada) e ao mesmo tem- 
po pendia-lhe de um braço um cabaz cheio de caça. 

Quando os Índios vão á pesca empregam as suas 
pirogas ou canoas, de nove a dez pés de comprimen- 
to e de quatro de largura, inteiriças porque são fei- 
tas de um só tronco de arvore excavado : as grandes 
ou de guerra compoem-se ordinariamente de nove 
aprnchas, junclas mui artificiosamente com cordoa- 
lha : algumas teem viuie a trinta pés de compri- 
mento, V as velas quadradas-, servem também para 
as excursões pelo mar, ou á vila ou a remos : irelhis 
conservam sempre lume prompto, que as mulheres 
vigiam para não .se apagar. — 1'". do ordinário em 
terra mesmo, sobre tudo nos bosques, as mulheres 
hão de ter sempre fogueira, por duas razões ; ame- 
drontar e fazer fuíir as feras, e dissipar as nuvens 
<le mosquitos e outros insectos, nimiamente incom- 
moilos n^estas paragens. 

Em Surinam, da mesma maneira que entre todas 
as tribus selvagens, as formalidailese ceremonias que 
precedem e acompanham os ca>ainenlos são de uma 
singeleza primitiva. Qiiaiulo o indio pretende tomar 
mulher principia por presentear a sua noiva com n 
«.-nllieita ilas suas caças e pescas, ou al.irdeia em sua 
presenç.i os trophcus guerreiros, se teve occasião de 
eonquistar os despojos ou o craneo de um inimigo. 
Se a rapariga acccila as dailivas, é |)rova de que 
consente em toma-lo por senhor e marido : equando 
o seu noivo se recolhe das suas occupações, traz-lheá 
cabana o mimoso molho de pei.xe ; e depois volla 
para sua casa. lim breve se fixa o dia das núpcias; 
e 110 entanto parentes e amigos ajunctam provimen- 



to de comidag e bebidas para o fesliuisolemne. Che 
gado II dia, o mancebo procura a rapariga na caba. 
na da família, e diz lhe u eu te escuiht pur mulher. n 
liastam estas simples palavras ; «lia o segue logo: 
celebra-se o banquete, primeiro para os homens, por- 
que só depois são admittidas as mulheres, uso de tal 
sorte rigoroso, que nem mesmo a receu)-casada co- 
me n''e9sa occasião com (ieu marido. D'ahi purdian- 
te começa a vida áspera e ttabalhoia da ilidia cuin 
seu senhor. 

ScPBlISTKjÕES DOS .\KA11ES .\!<TES DE .^IAKO.Mâ. 

(Continuado de pag. 78.) 

Isaac e Ismael herdaram o raio prnphelico ; mas pa- 
ra os musulmanos tem a primazia Ismael, porque o 
consideram pai da tribu de Mafoma, e único filho le- 
gitimo. Contam d'Ismael o que a Biblia dizd'Isaac. 
Tractam pouco por miúdo de Jacob; mas Jusepb, ou 
Jossoiif como pronunciam os musulmanos, gosa de 
grande nomeada no Oriente. Mafoma cunsagrou-lhe 
um capitulo inteiro do Koran, e o que d"elle di( é 
tão fora do natural, que mesmo alguns dos seus dis- 
cípulos o tem por embuste. 

Sabese que Jo:eph fui vendido a um e:v plano 
por nome 1'utiphar. Crêem os oriciitaes que l'uli- 
pliar era primeiro ministro de l'haraó ; affirmam 
que Josepli era formosíssimo, e que nenhuma mulher 
o podia vêr sem que o amasse. Mal o avistou a de 
1'utiphar ÍJcou louca de amor. Estava Josepliapoo- 
to de cederlhe quando u sombra de seu pai o recon- 
duziu á estrada do dever. Soou esta aventura, accres- 
eenta o Koran, na capital do Egvplo, e todas as 
damas se indignaram contra a fraqueza da compa- 
nheira de Puliphar, levando lhe muito a mal a bai- 
xeza de dar o coração a um escravo. A mulher da 
rico egjptano, querendo vingar-ic, convidou algu- 
mas d'ellas para virem comer romãs a sua casa. Es 
tando todas á mesa fez apparccer de repente Juseph, 
cuja belleza cegou as damas a tal ponto que, semat- 
tentarem 110 que faziam, cortaram os dedos cm vex 
de corlanni as romãs. Este caso, escreve ílr. Rei- 
naud, aclia-se re|)resenladú n'um bellissimn manus- 
cripto persa da bihliotheca real, o qual tracta da his- 
toria dos patriarchas e dos propheta». 

Decorreram muitos annos depois da morte de Jo- 
scph sem apparccer nenhum personagem celebre. 
Moisés ou Mus.sa, segundo a orlhographia oriental, 
foi quem Deus elegeu para fazer lembrados os gran- 
des nomes de Noé cd'Abrahão. Mafoma cita muitas 
vezes .Movsés no Koran -, como elle se achou n'uma 
situação quasi semelhante á d'cste patriarcha, cooio 
também se viu obrigado asair da pátria, e esta emi- 
gração lhe estendeu o poder, agradava-lhe pôr em 
scena o legislador dos hebreus, e auclurisar-se comos 
seus exemplos. Na opinião dos orientaes sabia alcbi- 
mia e loiios os segredos da natureza ; obrou a maior 
parte dos milagres com a mão, que elles figuram tão 
alva como a neve, Ião brilhante como as eslrellasdo 
firmaineiito. E por isso quando querem f.iUar d'uni 
homem poderoso pelo dom da pala\ra,d um medico 
que fai curas maravilhosas, dizem que tem a mão 
branca de Moisés. 

David ou D.ioud, como lhe cliainam os povos do 
Oriente, não c menos illustre para oi musulmanos 
do que |>ara nós ; por ter composto o< psalmus o pu- 
zcram a par de Movscs, Jesus, e Mafoma. Livrosd"ou- 
Iros qu.usqiier não 05 julgam inspiratloe. Os aralics 
luzem uma idéa Ião cabiil da voz de David, que Ih» 
atlribuem o condão de deleitar o« pnss.-iros, amollecer 
o ferro, e aplanar montanhas, quando celebrava o« 



I 



I 



o PANORAMA. 



05 



louvorns de Deus toda a natureza vinha a acompa- 
iiliar-llie os cânticos. l'aru provar a conjpuiicrSo com 
que IJavid cliorou o seu erro, escrmem otniusulma- 
nos que, durante os quarenta dias da penitencia, as 
plantas e as iiervas cresciam coím a abundância das 
suas lagrimas. Além d^isno, querendo exallar-llie a 
modéstia e lhaneza, faljularani quf elle escrupulisava 
de gozar o fasto real ; e que não sú fazia timbre de 
vestir uma túnica simples de lã branca nos dias so- 
lemnes, como a» dos proplietas, mas, a exemplo d'el- 
les trabalhava pelo officio de armeiro e fabricante de 
totas de malha, c do seu produelo se mantinha. Cum- 
pre saber que osorientaes, testemunhas diárias dos 
abusos do despotismo, inclinam pouco a respeitar aS 
grandezas mundanas: o .ifamado Areiíg-iíeb, que 
reinou na índia ha mais (run\ século, comia e ves 
tia do que lhe rendiam as co[)ias que tirava do Koran. 
Succodeu a David no throno e na luz propliotica 
seu filho Salomão, a quem os orientaes chamam So- 
linião. Não lia casta de maravilhas qiiR lhe não at- 
tribuani, e o snu nome ficuu sendo o emblema de 
quaulí) ha grande soljre aterra. Dizem osaralies que 
Salomão havia sujeitado ao seu poder não só os ho- 
mens e os nnimaes, mas os j;eiiiose os elementos. ICra 
pio por natureza, e assíduo no orar. Certo dia em 
que eslava a ensinar os seus cavallos, chegada a ho- 
ra da reza, largou tudo para cumprir esledever. En- 
tretanto fugirainlhe os cavallos i [)nrcm Dmis lhe 
resarciu a perda mandando aos ventos o levassem on- 
de desejava. CAiiando tinha de fazer alguma viai^oni 
sentava »(; ii'uma alcatifa, e a aragem brandamente 
o transportava ás regiões mais longínquas. Doeste 
modo, pelo que dizem os árabes, salvou Salomão 03 
deserto» da Arábia, zombou das correi. tes mais im- 
petuosas, discorreu todas as ilhas do occeano indico, 
e obrigou o universo a recoiihecer a lei do Klerno. 
AccrcAcenlam os orientaes que quando Salomão jul- 
gava, assistiam ás suas sentemjas dois mil patriar- 
clias c pruphetas, sentados n^outros tantos thronos de 
ouro á direita \ e dois mil sábios e doutores da lei, 
sentados em tlironos de prata á esquerda. As aves do 
céu vinham fazer sombra ao riquíssimo sólio de Sa- 
lomão, que sabiu a língua dos passarcjs, dos insectos, 
e de quanto respira. Mafoma iiãu desdenhou inserir 
n» Koran a» praticas de Salomão com uma formiga. 
Tinha ensinado uma poupa a levar-llie as ordens a 
todas as |iartea do mundo, e por ella é que soube a 
existência da raính.i de Sabá :, o lambem era senhor 
d^um escudo que o defendia do» <'ncanlos e dos en- 
caiitador<!S, o <|ual «íseiulo, reveslíihxiecaraclrr mys- 
tico, composto de sete pi-lli:s iliUerenlcs, e cercado de 
sele círculos, fi^ra fabricado sob influxo celente. Salo- 
mão possui. I igualmente uma espada chainmejante e 
uma (ouraria imponelravi'1. 

O Ihesoiiro mais precioso de Salomão era o nnnel 
<jUe trazia no dedo, com (|Ue lia :io presentii e no fu- 
turo, e com <jUC sujeitara a maior parle dos génios a 
lhe obedecerem. Tão Nubníissos eram os génios á von- 
tade de Siilomãu <|ue bastava mandar para seringo 
servido. Por este meio fácil, segundo os ori('nlaes, 
erigiu o filho de David o templo de Jeriisaleni, o pa- 
lácio da rainha di; Sabá, e os outros inoniimenlos (pie 
lhe illuslrarani o nomir. K^liindo um dia nu banho 
caiu infelizini.-nle o nniiid em poder d'um gi'nío pér- 
fido, que o laii(;oii no mar. Kste génio levou o alre- 
vimenlo a ponto di! se intitular Salomão, (í o verda- 
deiro Sahunão viu-s<.' obrigado ,1 vagar quarenta dias 
pfílos Ni!u» estados, fiúlo alvo dos mais grosseiro» 111- 
aullos. Uni |iuixe trouxe por fim o aniiel milagroso 
n Salomão, «jiie prosegiiiii na (estrada dossiuis Irium- 
pho». Osorientausultribiiiam n Salomão grande scieií- 
cin magieii, o etta opinitlu romonta ans tcinpoi dii 



maior antiguidade. Lê-se nohisloriador Josepho que 
desde o tempo do rei Ezechias, isto é três séculos de- 
pois de Sali;mão, j,í circulavam cnm o seu nome mui- 
tos livros de magia e sortilégios :, Kzechias mandou-cs 
queimar, mas escaparam muitas copias, e a supersti- 
ção fui crescendo de dia para dia. Mafoma assegura 
110 capitulo segundo do Koran que faes livros não os 
escrevera Salomão, mas demónios lifleralos. Quando 
S.domão exhalou o suspiro derradeiro fizeram os^e- 
nios mil tentativas, baldadas todas ellas, para se apo- 
derarem do aunei. Os musiilmanos estão persuadidos 
de que Salomão se acha enterrado n"uina ilha do mar 
do Sul, e que, senão f()ra uma serpente com azas que 
lhe guarda o tumulo, já os génios so teriam apossado 
do talism.in. Taes são as difierentes causas que con- 
correram para prop.igar o nome de Salomão pe!r> 
Oriente. ]juuvararii-lhe a sabedoria e conhecimentos 
raros ; chamaraiiillie o ministro de Deus, e o seu 
nome serviu para desig-!ar os grandes monarclias. 
l)'aqui vem essa turba de Salomões que figuram iia 
historia, ou antes na mylhologia oriental. Al"uiis auc- 
tores ehegiram a contar sessenta, o foram buscar o 
(jrintipio da serio ilos Salomões a tempos anteriores 
a Adão. <|uando os génios habitavam a terra. A maior 
parte iresles aiictores representaram todos os Salo- 
mões como principcs igualmente ilutados de sabedo- 
ria e poder, e altribiiiram-lbes o escudo mystico, a 
espaila chainmejante e o annel maravilhoso. 

Um personagem singular nas tradições do Oriento 
é Klieder, <|ne alguns escriptores confundem com o 
proplicta IClias, empregando indiflerelitemeiíte esíps 
dois nomes. Os orientaes derivam o nome de Khe- 
der d'oma palavra que significa eslar verde. Com 
elTidlo elles teein lá para si que este personagem não 
morreu, porque bebera as aguas d'uma fonte situada 
na extrema do OriíMite nas regiões chamatlas os i'aí- 
zts icncbrosos, as quaes aguas teem a virtinlo de per- 
petuar a vida. Os que distinguem Kheder d'l'"lia» 
concordam em lhes dar a mesma duração e emprego. 
Ambos, dizem elles, andam agora acorrer mundo, e 
velam na segurança dos viajantes :, su;>poem que Khe- 
der serviu de guia aos israelitas quandoatravpssaram 
os areaes do deserto. Portanto Kheder e Elias, a an- 
daram sem descanço, trazem á memoria o Judeii-er- 
rante. Alguns orientaes lhes attribuirain <ui> especial 
a guarda das cartas missivas e dos correios-, os seus 
nomes acham-se ás vezes nos sobrescriplos das cartas, 
para com inliis certeza cilas chegarem aoseu destino. 

tJs musiilmanos leein gr.inde di'Voção com o pro- 
fiheta Z.icliarias, e com seu filho Yahia,ai|uem nós 
chamamos S João Maptisla. No Koran o próprio 
Deus dirige ,1 palavra ao precursor do .Messias : Oh 
Yahia, |>ega all'outameiil<' no livro, lhe disse o Eter- 
no! i« Nós lhe eonciMlemos a sabedoria desde a meni- 
nice, einilinuou o .'Mtissimo .- repartimos com elle a 
nossa charidade e misericórdia, e tez provaiiça de 
piedade. Ilespi-ita muito seu pai e mãi, e é limpo 
de soberba e iniquid.ule : a salvação seja com elle iu> 
dia do seu n.isciíiwnto, no da sua morte, e 110 dia 
em (|iie resuscitar 1 " Os orientaes ciuirordam com o 
l''.v;ingelho na íiistcriíladi- da vida de S. .loão llap- 
tista, <■ na morte cruel que lhe fei ilar uma mulher 
por lhe elli- cjuerer reprimira devassiilão. Aecrcscen- 
tani <pie, por iiieinoria de crime tão eiuirnie, nunca 
ei'Ssou de ciurer o sangr.e deS. João Haptista. Esti» 
morte, dizem elles, foi a causa primaria da minado 
templo de tlerusalem e da ilispersào dos judeus pelrt 
superlieii' da tirra. Ainila hoje vão os iniisulmano^ 
peregrinar a Daniiiseo, onde presumem (pit* estãi> os 
ilespojos mortaes de S. .laào Haptista, porcjiie o seu 
lim trágico recorda aos orientaes todas as cillamSdu- 
dcs que ufllii^nm n espécie huiiiaiiti. 



96 



O PANORAMA. 



Mas O nome de Jesus, ou Yssa, como lhe chamam 
es rousulmanos occupa entre elles logar mais subli- 
me. Lê se no Koran <jiie Jesus nascera sem pai, e 
íòra creado só por virtude da palavra de Deus:, por 
isso os orientaes lhe chamaram o Vcrho Divino, ou 
simplesmente o \'erbo. l'oetn-n'o a par de Adão por 
terem sido ambos creados d^um modo particular. Os 
niusulmaiios reconhecem todos os milagres referidos 
no Evangelho-, admitlem a faculdade que tinha o 
Salvador de rcsuscilar 03 mortos, fazer que ouvissem 
os surdos, dar vida aos enfermos, e fazer que andas- 
sem os coxos. Até citam milagres em que a Biblia 
não falia. Dizem qiic Jesus só esteve três horas no 
herço, que fallcu ainda involto nas fachas, e que ani- 
mava com o seu sopro pássaros de barro. O Kotan 
cxprime-sc assim : " Dé.tios a Jesus, lilho de Maria, 
o poder dos milagres, e a.-,5Í:timo-roe forlalecemo-l'o 
com o Espirito Saneio. Alguns dos prodígios que os 
livros sanclos não mencionam tirouos SIafoma dos 
falsos evangelhos que, no seu tempo, geravam pela 
Arábia. Os orientaes estão convencidos de que o Sal- 
vador fazia a maior parte dos milagres com o seu so 
pro i e na verdade, lêuios no Evangelho que elle lez 
ouvir uni surdo sn|irando-llie n^unia orelha. Todos os 
escriptores do oriente alludem frequentes vezes ao so- 
pro do Messias. Em geral, nada é mais louvável do 
que o respeito que os musulmanos lêem a Jesus. Ma- 
toma, no Koran, faz assim fallar o Eterno : uOli Je- 
sus ! eu e.xallarei os que se te unirem, e humilharei 
os que te não reconhecerem ! n Desgraçadamenie ne- 
garam os árabes a divindade de Jesus Chrisío ; lêem- 
se estas palavras no Koran: u São infiéis os que dizem 
que o Messias é Deus. " Mafuma, na opinião d'el- 
_les, occup.i logar mais alto^ chegou a dizer um dos 
seus auctores que o patriarcha Abrahão não passara 
«]e ser um ollicial do exercito do propTieta, e o Mes- 
sias o mestre de ceremonias da sua corte. Negam 
igualmente a paixão e niorle de Jesus Christo. Diz- 
se no Koran, cap. 4."; uCreein os judeus ter dado a 
itiorle ao Messias, enviado de Deus i não o fueram 
tnorrer a elle, mas a algum outro com elle parecido. " 
^ opinião dos orientaes é que Jesus ha de voltar no 
fim dos séculos-, as religiões eliristã e musulmana re- 
duzir-se-lião a uma só, e depois d"Í5SO acabarse-ha 
o mundo,, p,, ,| 

Por uma consequência natural da veneração que 
os musulmanos teem a Nosso Senhor, professam admi- 
rarão profunda á Virgem, a quem chamam Mariam ; 
teem a convicção de que a ^'irgenl Slaria e o Mc- 
iiino Jesus foram isentos das manchas do pcccadoori- 
ginal. II Não lia homem nenhum, disse Mafoma, que 
ao nascer não traga em si os signues das garras de 
Salanaz; por ikso, quando nascemos, desatamos em 
cliuro i Maria e seu íilho foram os únicos dispensados 
d'esta prova." P^ínalmente os orientaes ropcitani os 
doze a[)Ostolos e fodososquccontribuiram para a pro- 
pagação do christianismo. Todavia, são algum tanto 
desafleiçoados a S. Paulo; eaflirmam quese oschris- 
tãos, em vez de considerarem o Messias como simples 
propheta, lhe atlrihuiram a divindade, tem S. Pau- 
lo Ioda a culpa d'isto. Depois de Jesus Christo os 
«)rientdes não reconhecem nenhum propheta até Ma- 
foma. 

Taes são, segundo os musulmanos, os principaes 
personagens que abriram a estrada ao seu propheta. 
Muitos d'elles existiram realmente ; mas os orientaes 
«."onverteram-nos em Iieroes de romance, afogandoa 
Verdade em miudezas bem ridículas e disparatadas, 

Seguiremos este trabalho de .Mr. de Courteua^-, 
dando conta, para o diante, da vida de Mufonia, c 
do Koran. 



A ILHA CeLESES — MaCASSAR. 

(Continuado de pag. 8i.) 
A VEiuA, para além do bazar, c do arrabalde que o 
continua ao cabo da cidade, é um continuação de 
bonitos jardins antes de chegar á campina. Vè-se 
depois o terreno plano sombreado por arvores formo- 
sas, e que se prolonga a perder de vista : á» vezes ha 
lagos próximos a pequeninos bosques deliciosos, por 
entre os quaes volteia a estrada : os arrozaes mos- 
tram por muitas partes as ondas das basleas tremu- 
las ao sopro da briza do largo, ao passo que nos bal- 
dios vagueam soltas manadas de búfalos e de cavai- 
los. Casas malaias em quantidade, embutidas no ar- 
voredo, com teniie cerca de estacada, e bellos jar- 
dins, tanto mais bastas apparecem quanto menos dis- 
tam da cidade, chegando a encostarein-se a esta da 
banda do bazar. 

A parada, amplo terreiro que medeia entre a ci- 
dade e o forte, na extremidade é guarnecida de ala- 
medas, que vão rematar na morada do governador 
da colónia, a quem intitulam u residente -, « e em 
contraposição, á beira-niar, vê-se o estaleiro, onde 
são cunstruidos os paráus destinados á navegação da 
ilha : não ha cousa que dê melhor idéa da arca de 
Noé do que estas casas fluctuanles, governadas por 
dois lemes postos de cada lado da popa, e com fortes 
mastros, imitando um triangulocoroadode velasqua- 
dradas feitas dV^teira. Estes barcos são tardos no an- 
damento, demorados nas viagem, e denotam a bonan- 
ça d\-iquelles mares : são destinados especialmente á 
pesca, que vão fazer á costa do norte da Austrália, 
ao estreito de Torres, e tan.liem a apanhar pérolas, 
e ninhos de salangana (») : — estes objectos consti- 
tuem grande parle do commercio de exportação de 
Macassar, e expcdem-se para os mercados da China. 
O ganho da pesca do peixe iripmig, que vai para 
fora, é muito lucrativo na Celebes: os negociantes 
hollandezes entram activamente n^esla especulação; 
só um dVIles equipava annualmente para esla pes- 
caria uma dúzia dos taes paráus. 

A população hollandeza conta poucos brancos ; 
compõe se em grande parte de homens decôr, mes- 
tiços oriundos das allianças dos europeus com as ma- 
laias, porém nunca de malaios com brancas: édifli- 
cuitoso ao estrangeiro fixar o numero dos europeus, 
mas talvez não passe de 500 pessoas -, igualmente o é 
orçar, durante o pouco tempo de uma arribada, 3 
população china, que de mais d'issoé fluctuante, va- 
riando, em certas temporadas do anno, conforme a» 
entradas e saídas de navios que transportam os via- 
jantes. Vimos alli chinas que tinham habitado alter- 
nativamente em Manilha, em Singapura, eem 11a- 
tavia. Esta gente que, no grandearchipclagoasiali- 
co, faz as vezes dos judeus levantiscos, deixa a pátria 
pelo engodo do lucro, ou aguilhoada pela penúria. 
Acodem a qualquer parte em que se fundar uma co- 
lónia ; apossam-se do commercio 11 retalho, enrique- 
cem pouco a pouco, e as tnais das veies voltam a 
suas terras quando teem junclo cabedal, posto que 
alguns se cstalieleçam de assentada onde teem feito 
seu trafico. Ágeis, engenhosos, perseverantes, dão-se 
a toda a casta de especulações; de tudo sabem tirar 
proveito; e se fazem c«rpiiiteiros de carros, quinca- 
Iheiro*, alfaiates, çapaleiros, \.c. , com a mesma fa- 
cilidade. Porém ao mesmo tempo conservam escrú- 
pulos. imenle os ct)stumps, h:\bitos, trajos, e crença d« 
m.Ti pátria: nunca se perde a sua nacionalidade; 
vangloriam se dVlla, e isso impede que se confun- 
dam com os povos malaios, especulando com a negli- 
gencia e preguiça dVstes. (Ci.iiftiiiio.') 

(«) (Aue se comem e passam porsiagulariguatiana Ásia. 



15 



O PANORA^IA. 



97 




usos MEXICANOS. 



A 1'iioviNCiA <1(! Oaxaca sempre fui a mais rica do 
México, não pelas minas, mas pelas produceõts (lo 
terrono, que valem muito mais. Só ai exportaeões 
da cochoiiillia, secundo a ejtadistica de (Carlos .^[a■ 
ria Uustamante, calculada de 1757 a 1820, prolu- 
iiiram, aiiiio ordinário, 1:12!) UOU piastras, ijuanlia 
enorme, <jue pila maior parle passou ás mãos dos 
Índios cultivadores docaclo codioniltieiro. listes, cu- 
jas precisões são liem pouco dispendiosas, nãosaheií- 
du que ru<,'ani rle tanto diiduiro, f> enterram n\imu 
c n\iutra parte, nu campo ou doliaixo das penhas 
dos outeiros. D'este modo a «vare/a restituo a terra 
o que lhe roubara. Sú os proprietários conhecem os 
escondrijos, e a nin'^iiem osdescohrcm ; morrem sem 
dizer nada aos tillios, nem estes se dão ao cuidado de 
indai;ar isso. Se por iienso algum índio acha um 
iracpiplles thesouros, fica amedrontado, torna a ta- 
par eserupulosauiente o deposito sem focar n'um cei- 
til, persuadido de que morreria n'esso anuo te fizes- 
se u mínimo latroeinio aos manes de quem enterrou 
seu dinheiro. — 'l'od.ivi.i ha índios ricos (jue, sem 
alteraren» na mais leve eovisa os seus cosi umes o mo- 
do de viver, siurilieam ao luxo e á vaidade, o };«»- 
tam avultadas (pianilas no traclamento de suas ca- 
sas. ilanti'i ás ve/.es á mesa de muitos d'esses natu- 
raes mexicanos, oníle vi liaixella de prata i; outros 
moveis preciosos: tiidiam íjenerosos viidnis do Mala- 
j;a, de \eri'Z, e lamlieiu de Hordéus, com ipie reija- 
lavam á larica osseus hosjedes :, o as coherlas eram 
atulhadas de i);uarias na maior aliuudancia c mui 
heiíl preparadas ao^^osto da terra. l'orém niincu ol- 
VoL I. NuVKMlIKO :iK, 18íti. 



les comiam coninosoo europeus; recolliiam-se com a 
família á cosinha, e alli, assentados n''uma csteiraj 
tonuiN.im a sua l'ru|^al retei(;ão e bebiam agu:i pura. 
Bella li(;ãu de temperança dada pelo homem semi- 
civilisado aos tilhos das nações policiadas. 

Afora aciuellas despezas de fausto, ha outras cir- 
cumstancias que concorrem para diminuir, de tem- 
[los a esta parte, a copia de thesouros escondidos; 
tallo dús gastos que em cad.i um:i aldeia fasem osaí- 
cíjA/ts e oi mordomos fabriqueíros das igrejas ijuando 
são eleitos : n\"stas festanças banqueteam todos OS 
moradores do seu logar, pag.im á própria custa a 
lesta <ri;;reja, a musica, o fogo de vistas, t-Slc. iXc, 
e enfeitam ai imagens dos sanctoj com aderecei, ha- 

I bitos e mantos novos, conunummcnte de niuitopreço 

i e esplendidos 

l'osto que o valor da exportação dn cochonilha te- 
nha l)ai\ado metade o mais, a província de Oaxaca 
sempre continua rica ; apenas n capital e mui po- 
bre : os índios tiram algum lucro do amanho dos 
eaclo» próprios d^i<|uella droga \ porém os negocian- 
tes nrriiinam-so, e o eonimereio vai de dia para dia 
de mal a peior. Huando os rebidlados entraram em 
1812 na cidade de Oaxaci, os eseriptorios dos hej- 
paidioes e creoidos tr.isbordavam ile ouro e prata; 
arrebalnram-se essas riquizas ás carradas; mas ja lá 

I vai o tempo de tamanha prosperiíhule, e si! tem df 
voltar n."io será tão cedo; te lo ha no entanto Oaxa- 

j ca para chegar «o fundo do abvsmo para onde a mi- 
séria a impelli-. 

I O trajo das mulheres iiatur«es da terra tem suu 



98 



O PANORAMA. 



especialidade ', é um enrollado, nome hespanliol, de 
um corte de paiiiio, posto á roda do corpo desde a 
cinta até os joelhos, tecido de lã preta raiada de ver- 
melho ; e um hucpil, pedaço de panno, com abertura 
110 meio para passar a cabeça, que cobre as- costas e 
o peito, e é de estofo d'algodão branco tramado com 
fio de còr : usam também uma espécie de meiocha 
le, com que cobrem a nuca e os hombros, e alem 
d'isso trazem, como lambem os homens, um letjço 
encarnado, de seda ou de algodão, amarrado na ca- 
beça, e sandalhas nos pés enfeitadas de lavores. Com 
o nariz de bico de papagaio, queixo revirado, e còr 
de cobre, raras d\'5tas mulheres são bonitas; nota- 
se-lhes conitudo na physionomia um toque de astú- 
cia, pouquíssimo vulgar nas outras Índias. 

A còr geral dos naturaes é cobreada ; n'alguns 
cantões do México tira para encarniçada, en'outros 
para azul escura. lia muitos indivíduos que teem na 
pelle nódoas de diversas cores ; porém esta particula- 
ridade não é natural; deriva de uma lepra que vicia 
a massa do sangue; incurável para os que atrouxe- 
íam do ventre materno, e nos quaes se tornou orgâ- 
nica, communica-se pelo contacto. O numero dVstes 
enfermos, que os hespanhoes chamam /j/níos, é muito 
grande em Teliuantepec, nas costas de Tabasco e na 
de Acapulco: habitam de involta com os outros Ín- 
dios, sem que estes tenham pensado em os affastar 
da sua communidade e evitar um commercio fatal. 
Demais, apesar dos incommodos inherentes á sua 
doença, aquelles gafos vivem tanto como os sãos, e 
podem dedicar-se aos mesmos trabalhos. E' uma en- 
fermidade análoga á dos albinos ou pretos brancos. 

Tehuantepec, de que acabo de fallar, é unia cidade 
de 14 000 almas, creoulos e Índios, situada a 70 lé- 
guas de Oaxaca. Cortez, nas suas cartas a Carlos o.", 
e todos os geographos antigos a designam como porto 
de mar; mas pelo retrahimento gradual das aguas 
do oceano Pacificn ja?. ao presente a mais de quatro 
Ic^uas da praia. A industria principal dos habitan- 
tes consiste na cultura da planta do anil e na prepa- 
ração da droga d'csta formosa tincta ; este trafico 
excede alli ao da cochonilha. As colheitas que, ha 
trinta annos, davam proximamente 3o 000 librasde 
anil, anno ordinário, ainda hoje regulam pelo mes- 
mo, e até ás vezes excedem aquelle algarismo. O 
anil mais fino é feito da flor da planta, e só em 
Guatemala se fabricam alguns quiiitaes d'elle. 

O murice, concha que dá a còr purpurina, tão fa- 
mosa na antiguidade que esgotou os bancos dVstc 
niarisco nas praias de Chypre, acha-se em toda a 
costa Occidental desde (íuayaquil até .\capulco : co- 
Ihe-se principalmente nas lagoas de Teluiintepec, 
onde existe em grande quantidade. As mulheres tra- 
zem tiras de panno, ou maços d^algodão liado, repar- 
tido em negaíhos, o á proporção que arrancam o ma- 
risco da pedra espremem com os dedos o animal sobre 
o panno que pretendem tingir; extraheni assim um 
liquido esbranquiçado que seccando se fiz escarlate, 
lista còr é indilovel, e até adquire lustro depois de 
lavada a niiudo; nem todos os tecidos a tomam bem, 
assenta melhor na l,"i c algodão do que na soda. As 
mulheres de 'rehuantepec, de Chihuitan e dos arre- 
dores fazem grande estimação d"ella para as guarni 
ções das saias ; e pagam muito caro este enfeite, se 
não vão pessoalmente tingir os seus vestidos. 

As habitantes cie Teliuantepec usam de um ves- 
tuário espCLUal, que sem cíuitradicção é dos mais ele- 
gantes da America, sem exceptuar o trajo das scno- 
ritas de Lima, o qual me parece mais extravagante 
<jue original, mais ridiculo que engraçado, apesar de 
todo o artificio que põem em pratica para o nfor- 
mosearem. — As mulheres de Tehuantepec vestem 



uma saia de cassa ou de gaze, guarmcida de grandes 
folhos, e mesmo de franja de ouro, pieza acima dos 
quadris por uma banda de seda : depois assenta o 
huepil de mangas curtas, cerrado siure os rins, e 
ageitado em ondas fluctuantes sobre ca peitos; é de 
cassa bordada ou de tecido liso e de còr ; mas tra- 
zem outro, sempre de cassa branca, sobre a cabeça, 
de sorte que a guarnição que circula o pescoço serve 
como de moldura ao rosto, e as duas mangas pen- 
dem para diante até a cintura, e para traz até o 
meio das costas; o complexo d'este vestuário, perfei- 
tamente próprio para realçar os attractivos de uma 
senhora juvenil, conserva ás mil maravilhas as for- 
mas corpóreas, e ao mesmo tempo é rico e gracioso. 
A primeira vez que eu ^i damas de 'l'ehuantepec 
com este trajo pareceram-me extremamente agradá- 
veis : além d^isso, no olhar c nos modos teem um 
mimo que muito bem casa com a graça dos seus 
adornos. — O viajante que chega áquella cidade em 
dia festivo, e que vê as jovens ataviadas com tanta 
elegância, pasma attrahido do espectáculo, como fica- 
ria achando formosa e fresca verdura no meio dos 
áridos areiaes da Lybia ; acaba de discorrer por um 
território onde os habitantes, raros, são de fealdade e 
sordidez repugnantes, e o contraste lhe causa todo o 
prazer de uma inesperada e bella mutação descena. 



O Feitor de Cast.ío. 

JNoueí/a. 

(Continuado de pagina 91.) 

N.\ mesma noite do dia da prisão de ^^'alter Effen- 
doii encerrou-se este com You-hi no quarto mais re- 
tirado da casa do feitor americano. Ohanista, senta- 
do n^uma cadeira de bambu, parecia assustado, e 
olhava amiúdo para a porta como quem receiava ser 
apanhado n^esta conferencia. EíTendon passeava in- 
quieto com uns papeis na mão. Saíra solto havia pou- 
cas horas, e mandara logo chamar o negociante chi- 
na, a quem havia revelado tudo. 

Grande foi a admiração de \ou-hi quando soube 
do disfarce de Maria, que elle sempre cuidara ser 
fillio do feitor; mas quando Eflendon chegou a con- 
tarlhe o inaudito encontro que tivera de manhã, o 
pasmo se lhe converteu em incredulidade. Comtudo 
o americano sustentou o que afirmara. Eram de Ma- 
ria aquelles dois gritos que ainda o faziam estreme- 
cer: eram de Maria as feições que tinha entrev isto. 
Não estava morta a sua filha, mas em puder d'um 
roubador que elle queria descobrir a todo o custo. 
Acabava por tanto de fazer um requerimento ao go- 
vernador ou vice rei de Cantão, expondo concisamen* 
te os factos, e pedindo que procurassem e lhe resti- 
tuíssem Maria. 

— >. Se não proraeltes algum premio, advertiu \ ou- 
hi, o governador não da um passo. " 

— .iTcnsraião, disse o feitor ; vou accrescentir que 
pagarei pelas buscas quanto elle exigir. . . " 

— II Não escrevas isso, atalhou o hanista ; pediam» 
te quanto tens. OtVereoe uma quantia redonda. . . 
Mil liangs talvez (1). " 

— 14 ^'á ! Disse Eflendon, correndo para uma mesi, 
afim de «ddicionar a promessa á sun petição. Mas co- 
mo bei do fazer entregar este requerimento cm mão 
própria ao vice rei .' •■ 

— "Não Isns senão um meio, disse ^ou-hi, e ain- 
da que é contrario ás leis. . . " 

(.11 Mil liangs andam |Kir um coDto e ceuto e quarenta 
e tantos mil réis. 



o PANORAMA. 



9^ 



— Tem razão, interrompeu o americano, levan- 
tando-se i corro á porta chineza. 

— u Mas peço te encarecidatneiile, replicou Yoiilii 
abaixando a voz, que não digas que fui eu que te 
dei este conselho. Se desconfiassem que no» entende- 
mos, ficava eu perdido.» 

Effendou socegou o haiiista promettcndollie a maior 
discrição, e apartou-se d'elie para ir n'um pulo ás 
feitorias afim de reunir os seus amigos. 

E bem o precisava para que scirtisse elTL-ilo o meio 
porque elle queria que o requerimento fosse entregue. 
Tendo mostrado a experiência que as petições entre- 
gues por estrangeiros aos mandarins nunca cliegavain 
ás mãos do vice rei, alguns pretendentes mais desle 
midos haviam inventado um methodo, estranho (lo- 
rém certo, de as fazer chegar ao seu destino. Juncta- 
vam para este fim umas trinia ou qiiart^nta pessoas, 
dispersavam á paulada a guarda da porta, e entra- 
vam fie roíid.ío na ci<!ade china, com grande alarido, 
furando os lampiões de papel dos logistas. Estes, as 
saltados de terror pânico, deitavam logo a fugir i os 
guardas das ruas fechavam as barreiras, e os clccit- 
riucs (I) corriam em busca d'um mandarim que vi- 
nha ínformar-se da causa da súbita irrupção. Então 
os requerentes abaixavam os bordões, ap[>rcsentavam 
a petição, e retiravam se com a certeza de que o vi- 
ce rei, inteirado do motim, havia de querer vêr o 
requerimento que o causara. 

O resultado da empreza d'I'',lTendou excedeu as suas 
esperanças, porque, no auge do tumulto, acertou de 
passar por alli a liteira do vice rei. ElVendon entre- 
gou-lhe o requerimento. 

Passaram ilois dias sem chegar a resposta, e Eílen- 
don já se estava preparando para repelir a supplica 
fazendo outra invasão, quando llie entregaram um p.i- 
pel fechado com sinete do mandarim de primeira or- 
dem. Ahriu, ;i tremer, o leu o seguinte : 

«Eu, Kiug-fo, munido cio diploma i\e Isinsse (2), 
condecorado succcssivamenie com os dois botões azues, 
e com obolão de coral, e hojoeom o botão de pedras 
preciosas (.3), e recoiinnendado novo vozes no regis- 
tro dos /;/íií/-;íoií {^) '^ governador da provinc-ia de 
Cantão em nomo do lilho do céu, o grande e sobera- 
no iiriperador. 

«Ao chefe bárbaro da fi'itoria americana. 

11 Lemos o memorial que tu nos dirigiste, suppli- 
cando, e ao lô lo reconhecemos a verdade do prolo- 
quio do sábio, quando disse que os corações dos ho- 

(t) Ha nas ruas, de certa em certa distancia, portas ou 
cancellos, «uanlndos porsoMadiis, as (|uaes se fecham as- 
sim qin' prinei|iia alfíum lunnillo. I)c! ilezem dez casas ha um 
rfffCKriV/n, (|iie (' um ('lied' de Caniilia, resp(}nsavcl|jclaina- 
niílciição (lo snceKo em parle ila rua. O serviço dosdecu- 
riOos corre, piu' escala, todos os cidiiilãos. 

(1) lia II» diiiia dois «raus litlerarios : o hinJinQio- 
meni rccomineinlado) o o de laiiissa (duiilor adiantado em 
grau.) 

(i) Todo.i 08 empregados do governo china, aquo os chi- 
nas chamam í«tí«/i eus europeus jiiandariíis, esiàodiviíli- 

dose ove ordens ou elasstis.suhdividida <':ida uma d'ellas 

em principal e secundaria. A divisa da I.'' classe, a que ape- 
nas porleineni mui raros personaKcns rios maiseniinenles 
do império, é um lioirio de pedras preciosas qin- trazem im 
K<*)rro ; a ila2.'' classe nm lioiào vernn-llio ou Je coial, do 
feilln (l'uma Ih^r ; a da 3." nm liotão de peilra azul Icrrele ; a 
da •!." aaul i'laro ; a da ."$.•' de ei isial liiauco ele. 

(4) O p<í(y-;)(ii( i' o liiimnal ou ministério (la guerra. Os 
Kovernadores das províncias mIo (^x-oltnio picsideutes 
(Peste ministério. Os mandarins militares são repiiiados In- 
l'erio^(^s aos mandarins civis da un^^nia classe, recelieni pe- 
(|Uciios soldos e estão sujeitos á iiispecvâo d'a(Hi(dlcs. Os 
chinas presanití nremeiaiu mais o laienlo llllcrarioe o de 
bem governar do que o do destruir. 



mens eram tão vários como os terrenosdoceleste im. 
perio. Porque, do mesmo niodo que vemos rochedo» 
eslereis, e terras nocivas que não produzem senão 
plantas envenenadas, ha corações d'onde não pcide 
sair cousa boa ^ taes são os dos bárbaros estrangeiros. 

II Tu desobedeceste ás ordens do soberano impera- 
dor, e agora queixas-tede te roubarem tua filha, que 
em tua casa conservavas escondida \ pori-m sabe que 
o homem prudente não crê na palavra do quebrauta- 
dor das leis. 

" E quanto ás mil liangs em que falias, é nossa 
vontade contentarmo-nos com ellas por esta vez, pos- 
to sija muleta insuffieiente para a falta que commet- 
leste em não te sujeitares á vontade do filho dociíu. 

II Seja isto unia lei a teus olhos " 

Não tentaremos exprimir a dtjre indignação d'Ef- 
femlon quando acabou de ler esta carta repassada d'o- 
dio aos estrangeiros, d'injustiça, de hvpocrisia, e ue 
cubica. No primeiro Ímpeto leinbrou-se de juiictar as 
companhas de todos os navios americanos que esta- 
vam no rio, arma-las, e ir á sua frente pedir justiça 
ao vice rei. A rellexão abriu lhe osolhos; fazia unia 
loucura. Correu a casa deYou hi, mostrou lhe a res- 
posta qne acabava de receber, e pediu-lhe conselho, 
O lianista deu lhe de parecer que requeresse de novo ^ 
e elle próprio, enternecido pelas supplicas do feitor 
e pela olVerl.i de quinhentas liangs, prometteu dar 
p.nsos n'este negocio. Mas a segunda tentativa não 
foi mais bem succedida que a primeira. Oe nada va- 
leu a Ellendon o afioio dos agentes das outras feito- 
rias, nem a inlluenciu do IcuiKj-han : o[ vice rei sus- 
tentou o despacho. 

Esta inflexibilidade lançou o desgraçado pai na de- 
nieiuia da desesperação. 

Em quanto julgou a filha morta sollreu o golpe se 
não resignado ao menos sem reluctar, como se solVre 
uiii desastre irremediável. Semelli.inte a esses solda- 
dos a (|uein o jugo d.H derrota quebr.i subitamente os 
brios, haviase abraçado com uma iifllicção muda e 
queda :, mas este vergar ao desalento, porque a espe- 
rança o desamparara, desappareceu mal tornou a raiar 
a esperança. Ao quebranto succedeu uma espécie de 
alegria IVliril i)Ue as repulsas do vice rei trocaram 
em raiva. Absorto na sua d('ir, e azedado ao \rrque 
nada podia, Ellendon tomava mil resoluções que lo- 
go abandonava, formava mil planos impossíveis, e a 
todos pedia conselhos inúteis ou soccorros que lhe não 
poiliam dar. 

Comiudo, You-hi tinha continuado a tirar infor- 
mações em segredo, sem poder achar rastos de Ma- 
ria. Einalmente nm dia chegou a casa do feitor mui- 
to esbalorido, e com carii alegre. 

— «i Ergue nm altar nos teus génios domésticos, 
exclamou elle-, tragote novas de tua filha ! " 

EUcndoii den um grito. 

— 4. ( Míde está ella .' " perguntou in.iravilhadu. 

— u Em l'eking. n 

— » (iue dizes tu ? Maria. . . » 

— >t l<evarani-n'a de Cantão ha pertod'um niex. » 

— >> Ma» como ! (-Inem .' i'or ondi- soubeste .'...>» 

— .. l)i\agar, devagar, disse o china sentando-se 
<• enxugando a testa. Três |ierguntas rr<iuerem tre» 
respostas, i» 

— 11 Mas i;slá» certo, bem certo, <jue é ella.'» re- 
plicou KlVcndoii, quasi sem |ioder respirar. 

— 11 Se e (|ue tu não te enganaste ()uando a viíto 
na carroagem enverni/adu » 

— 11 Não me enganei. Mas (jueni i' o dono dacur- 
roagem .' » 

— 11 E o (jiie eu lenho andado a indagar ha tros 
semanas, » lhe lornun » china. 

— 11 E soubestc-o por fim f , . . » 



400 



o PANORAMA. 



— iiSube muitas cousas; mas, pelos céus azulados 
que invoca o nosso soberano imperador, se queres que 
t'as diga has de ouvir me. >i 

— u Falia ! falia I » disse o feitor sutfocado de im- 
paciência c alegria. 

— 11 Tu sabes, conlinuou You-hi, que temos em l'e- 
kiug um tribunal de censores encarregados de adver- 
tir o filho do sol quando erra, e de discorrer as pro- 
víncias para examinarem de que modo governam os 
mandarins o reino do meio. " 

— " Sei. " 

— II Pois ha um mez que um d'e8tes censores se 
achava em Cantão. Era d'elle a carroagem em que 
viste tua filha. . . » 

— .i Jlas como se acha Maria em seu poder .' 

— II Ah! é a ponta por onde eu devia ter piinci- 
piado a historia 1 retrucou You-hi ; e se tu não me 
tivesses cortado o lio ao discurso. . .» 

— "A final, que aconteceu?" 

— n Aconteceu, mister Elfendon, que na noite em 
que desappareceu tua filha foi com cfleito apunhalada 
por assassinos, e depois lançada ao Tigre, como pro- 
vava o lenço do pescoço que te trouxeram." 

— 11 Ed'ahi ' " interrompeu ElVcndun arquejando. 

— II E d^ahi a corrente levou a pelo pé d'um dos 
nossos barcos do (lôres (1) d'onde foi vista. 

— E salvaram-n'a .' 

— Moribunda, seguiiJo parecia. Valeu-lheachar- 
se alli o censor Fo-hu. Quiz que a transportassem pa- 
ra sua casa, onde se curou, pois que a viste pouco 
tempo depois. » 

— u E tu descobriste estas particularidades.. ." 

— No barco de flores, onde tudo isto aconteceu. « 
EfTendpn saltou aos braços de \ou-hi. 

— Es o meu salvador, You-hi ! exclamou elle fo- 
ra de si ; dever-te-hei minha filha. Mas como a hei 
de exigir de quem a agasalhou?" 

O negociante cliiu.i abanou a cabeça. 

— iiFohu ha Ue pôr muita difficuldadeemfd res- 
tituir, disse elle, porque lhe morreram todos os seus 
filhose tem uma avareza insaciável. Ha de casar tua 
filha com algum mandarim da corte, mediante gran- 
de somma. 

— II Ciue dizes? Pedirei justiça ao imperador." 

— «E como lhe has de fazer entregar a tua sup- 
plica ? » 

— a Tens razão, disse EfTendon ancioso •, se os man- 
darins servem de medianeiros interceptam-n"a i mas 
eu não po-.so fia-la de mãos seguras.' . , . Tu mesmo 
You-hi, negar-te-hias a leva-la a Peking, se eu te 
promeltesse. . . " 

1 Não proinettas nada, acudiu logo o mercador :, 

melter-me eu n'e6te negocio era deifar-me a perder." 

— 11 (lue me dizes ? " 

— Já le esqueceu que nos é vedado ter relações 
com estrangeiros, fora as do nosso commercio ? Não 
podia encarrogar-me da tua reclamação sem mostrar 
que violara a lei imposta aos homens da dinastia de 
Han. " 

— 11 Não importa! eu acharei alguém." 

— Ningurm, Ellondon, ninguém. 

— «Mas que hei de eu então fazer?" exclamou o 
americano desesperado. 

You-hi encolheu os hombros. 

— 11 Contcntar-te com saber que tuu filhu esl.'t sal- 
va. . . >' 

— 11 Nunca ! bradou EiTcndon. Uisse muitas vezes 
que a vontade podia abalar montanhas i chegou o mo- 



mento de o provar. A despeito de to los os obstácu- 
los hei de vêr Maria ou encontrar a morte. 

{Continua.) 




M. .M. B. DU 150CAGE. 



O i'i!iNcirio do presente século viu apagar-se um 
brilhante meteoro que fulgurou entre oj astros da poe- 
sia portugucza : no curto espaço da sua apparição der- 
ramou maior copia de luz que outros em dilatado gy- 
ro. Uma vida de trinta e noveannos, decorridos en- 
tre 176G e 180o, assignalou-se por grande numero 
de composições nos vários géneros da poesia lyrica, 
recebidas avidamente do publico, e applaudidascom 
tanto enthusiasmo que requintava em frenesi. Ne- 
nhum dos nossos vates foi mais popular, nenhum en- 
grinaldou a frente com m.iis vecojante e farta corOa 
de louros, do que Manuel Maria líarbosa du Bocage. 
.\ natureza o dot.ira de imaginação viva e de extre- 
ma sensibilidade, que transparecem na maioria dos 



^l ) Barcos ornados de Oores, onde ha Ioda a qualtd.idc 
de divenimenios. Alli se reunem os chinas a noiío, como nós 
nas assembléas philarmouicas, 



seus versos, filhos d*aqnel!a facilidade e vchemencia 
de estylo, que derivam da inspiração intima : nssci'- 
ra poeta, como cllc próprio dii : 



Das faixas infantis despido apenas 
Sentia o sacro fogo arder na mente. 



I 



Assim como ha pintores que, ape$.ir de incorrec- 
ções no desenho, caplivum pelas graças do colorido, 
l^ocage encanta e arrebata pela vivet.i das expressões, 
e pela harmonia do melro. Seja-nos licito diíer que 
crooH uma linguagem sua enérgica c ao mesmo tem- 
po flexivel n todos os assumptos, distinela não tanto 
pela abundância como pela e«cp|h.t das palavras ; a 
collocação d"cst.T?, raras veies de muitas syllabas, aju- 
dando a cadencia do rythmo, a propriedade dos epi- 
thclos, explicam a complacência coot que declainâ- 



o PANORAMA. 



Í0\ 



mos 05 versos d'este poeta i a dicção nas composições 
eróticas corre íluente, é maviosa ^ nas satíricas ú for- 
te, pungente e até acerba ^ porém sempre correcta e 
harmónica a versificação. — Bocage sobrPsaíu princi- 
palmente nos apologos, idílios, caiiçoneta?, sonetos e 
outros epigramnias, e também com muito primor no 
género eiegiaco. Como improvisador, iipuliiim tive- 
mos de tanta nomeada, nem mais prompto e fecun- 
do ; causava assonil>ro aos que oouviampela aflluen- 
cia e variedade das rimas, e pela presteza dos impro- 
visos, que uns a outros se succediam sobre o mesmo 
assumpto como um torrente copiosa : muitas doestas 
composições instantâneas, que os curiosos seus con- 

Houve tempo fatal em que arte infensa, 
Guerra aos mais bcUos sitios declarando, 
Enchendo os valles, arrazando os montes, 
Formou do chão gentil planicie ingrata. 
Hoje, rural tyraniio, outro artificio 
Q.uer, por contrario abuso, erguer montanhas, 
Valles quer profundar. Longe us excessos, 
lionge as lidas e ardis ; tudo ó lialdado 
Contra iutractaveis repugnantes serros-, 
E> sobre terra igual montinho humilde 
Cuida ser picturesco e move a riso. 

em quadro estreito 

Não vás aprisionar montanhas, bosques, 
Nem lagos, nem ribeiras. E costume 
iíombar dVsses jardins, parodia absurda 
Dos rasgos que a atrevida natureza 
No seu grande espectáculo derrama ^ 
Jardins em que a arte rude e inverosímil 
Um paiz todo n^uma geira encerra. 

Enumerar as composições do nosso vate fora ocioso 
trabalho, por quanto geralmente siio conhecidas, ainda 
dos indoutos, a ponto que ha muita gente que não sa- 
be de mais de dois poetas, Camões e Bocage ; e na ver- 
dade, depois do grande épico nacional, nenhum é mais 
popular e estimado em a nossa terra. 

Bocage nasceu em Setúbal, pátria do auclor do yí/- 
fonto AJricanOf aos 17 de Setembro de 1700. Teve 
por pai o bacharelem Uireitu, José Lui?. Soares Bar- 
bosa, muito dado á poesia, qu<! versejava com bom 
gosto, e que serviu com distincção alguns lugares da 
magistratura. Sua mãi fui 1). Marianna Joaquina 
Xavier du JSocage, íilha de Gil Tlluduisdu Bocage, 
natural de Cherburgo, que serviu no exercito portu- 
guez com a patente de coronel, e era sobrinho lic 
M.°" du Bocage, auctorada Columbiada ^ d'(sto poe- 
ma emprehendeu o nosso vate afraducção, cocome 
ço du seu tralialhu anela na cullecção das suasrinjas. 

A. educação litteraria de iJocage não foi Ião regu- 
lar e seguida como podia esperar se da epochadosco 
nascimento; com alguma» lii,'ui'H ila grainnialioa lati- 
na, que llie ensinou um padre iicspanliol, o professor 
1). João de Medina, e com as noções ilu idioma frau- 
ccz, que aprendeu na casa paterna, subiu a altura 
do seu génio á elevação a ijue não allingem quasi 
todos os <|Ue ri'cr'lieni a pausad.i e s^sl<nialica ins 
trucção das aula». Deveu luilo ao [iroprio engenho, ;i 
natural perspicácia ; «prendeu sem mestre o it.ilia- 
iio, e o soubi! como prova a tracbicção primorosa ilo 
drama de Mi;t,ista»io — Atilio Uegolo. — Não sabe- 
mos dizer «I! elle entendia lilleralinente us textos 
qu(! punha em vulgar, parece que adivinhava por 
inslinito us pi^nsanientos o a» i<li-as ; e se em maté- 
ria <le bom gosto (|ui/erem averiguar n »uii escolha, 
basla biu<|ar o» olhos para oa fragmentos i|Ue trasla- 
dou de auctores selectos. — Não era por certo esln 
natural tendência u mais propriu paru fuicr de um 



temporaneos guardaram, farão desesperar os que mar- 
tellam versos no silencio do gabinete. 

Foi Iraductor elegantissimo, e tão conciso quanto 
o permittiam a fidelidade ao texto e as leis do metro. 
Sendo fácil citar muitos exemplos que mostram a sua 
perícia nVste género, apontaremos um só que por 
acaso temos á mão. E um pequeno trecho contra o 
detestável gosto dos jardins ridículos, ou antes paisa- 
gens de presépio e verdadeiros brincos de criança, 
ainda muito em voga no presente século. Pomos em 
frente o texto francez do poeta didáctico por excel- 
lencia, Jacques Delille, para realç.ir o merecimento 
da versão. 

II fiit un femps funeste ou tourmentant la terre, 
Aux sites les plus beaux Tart déclarait la guerre. 
Et comblant les vallons, et rasant les coteaux, 
D"un sol heureux formait d'iiisipides plateaux. 
Par un contraire abus, Part, t^ran des campagnes, 
Aujourd°hui vent créer des vallons, des montagnes^ 
Evitei cea excès : vos soins infructueux 
Vainement comliattraient un terrain montueux, 
Et daiis un sol égal un humhle monticule 
Veul étre píttoresque, et n'cst que ridicule. 

N'alle2 pas resserrer dans des cadres étroits 
Des rivières, des lacs, des montagnes, des bois. 
On rit de ces jardins, absurde parodie 
Des traits cjue jette en grand l.i naturo hardie ^ 
Oíi Part, invraisemblable .i-la-fois et grossier. 
Enferme en un arpent un pays tout entier. 

engenho precoce um auctor original; massenosper- 
mittirem a phrase u originalidade de expressões" 
ninguém superior a Bocage na basta chusma dos 
nossos versificadores ; porque poetas! '. ! llarissimos ! 
Mas Bocage tinha a alma d'um poeta , e ella ahi 
está viva em versos que não saem do Parnaso lusita- 
no, que não se riscarão da memoria dos amantes da 
poesia. Edemais, é Bocage tão portuguez na lingua- 
gem, (lue o numcrom lilianno, como o appellidou 
Kilinto Elysio, ha de a par d"este conservar o seu 
busto no Capitólio das musas portuguezas, posto que 
para o conquistar seguisse cada um d'elles diversa 
vereda. (Contimta.) 

A ILHA CcLEItES I\I.»C.\S3AB. 

(Continuado de pag. 90.) 

E sAiiiuo que unia lei severíssima defende a salda 
das nndheres do ciltsle fin/itíi') : penas nuii atrozes e 
horríveis tractos a tornam de tal sorte formidável, 
ijue nem sequer intentam iid'ringí-la ; por isso os 
chinas (]ue se expatriam para as colónias hoUande- 
zas não teem mais remédio senão desposarem-se con\ 
mnlhires malaias ; coinpram-n'as couu> escravas, o 
inenlcam-llies as practicas e usos da mãi pátria, em 
ijue são (rdncados os f\llios ; os quues, posto que to- 
iiliam saíilo á luz mui arredados da China, são tão 
allerrados á» ideas o religião em vigor n'aquclleim- 
|ieiio como se n'elle himvessen» nascido; aonicadif- 
lerene.i appnrente ó a cilr da pidle um pomo mais 
escura. l'or isso <• de notar que o t_v|u> china, tão ca- 
racterístico, acha-se assignabulo nos troncos d'esta 
casta : embora mestiços, «luando mesmo ii geração, 
|)or muitas allianças successivas, se cruza com san- 
gue estrangeiro, rcconhece-su sempre a phjsiouomi.H 
original. 



\02 



O PANORAMA. 



A physionomia dos malaios é a mesma em toda a 
parte-, só differe em graus miniraos. Aqui se acham 
também os bellos cabellos pretos, os olhos contrahi- 
dos, as maçãs do rosto largas mas salientes, o rosto 
achatado, o nariz pequeno, a bocca mui rasgada, os 
beiros grossos, constantemente semi-abeitos e corados 
ptlo jumo do betele (1), deixando vêr uma deforme 
enfiada de dentes denegridos. Os bougiiís teem, de- 
mais que as outras raças, uma certa dureza no sem- 
blante, mas não se diATerençam quanto a feições. O 
corpo é geralmente bem conformado, mais ágil do 
que robusto, gracioso posto que de altura meã, cheio 
de carnes, o que parece bem á vista, mas denota 
mais a nutrição do que a força muscular. O trajo 
dos bouguís é uniforme, consta de ceroulas curtas, 
de um lenço que cinge a cabeça, e do sarong, espé- 
cie de sacco sem fundo que trazem a tiracoUo, eem 
que se embrulham pela tarde, quando a fresquidão 
da noite succede aos ardores do dia. Gluasi todos 
trazem o cris á esquerda prezo a um cinturão i ás ve- 
zes deixam cair a ponta da tal faxa a tiracollo sobre 
o punho u'aquella arma, e cruzam as mãos seguran- 
do-a com donaire: c-lhes natural esta postura em si- 
tuação de repouso : é bastante engraçada e pictures 
ca, como em geral todas as suas altitudes do corpo, 
livre de toda a sujeição. — As mulheres trajam á 
moda de todas as malaias, isto é, uma saia de mui- 
to pouca roda, e uma camisola que tapa c tronco do 
corpo; algumas ha que desprezam esta camisola, e 
trazem simplesmente o saiong seguro com uma so 
volta acima ou abaixo do seio. Exclusivamente con- 
sagradas ao amanho caseiro, não apparecem a miú- 
do em publico: a phvsionomia das mulheres de Ma- 
cassar é em geral repugnante a olhos europeus : o 
metal da voz, também dus homens, tem um tanto 
de snave, encanta e attrahe a attenção,- se porém 
olhardes para a bocca d'onde sáe a melodia, cessa lo- 
go o prestigio. Um facto extraordinário entre um 
povo que professa o mahometanismo, é a facilidade 
dos costumes das mulheres a respeito dos estrangeiros. 

O território hollandez de Macassarestá encravado 
nos dominios do s\iltão de Goá, que reside juncto ao 
rio do mesmo nome, a três léguas da cidade i a sua 
morada nada olVereoe digno lie menção, a sua corte 
é uma aldeia malaia, como todas as mais; e comtu- 
do é supremo cabeça de uma população de cem mil 
pessoas, que tantos são ca súbditos que lhe calculam. 
Posto que independente, é um alliado fiel dogover- 
no (l'lIollanda, e tem dado muitas pro\as de de- 
voção aos interesses d'esta potencia. As suas tropas 
sobem a dez mil homens, todos de cavallo ; alguns 
trazem cotas de malha, elmos, e escudos; todos se 
servem de lanças, e pouquíssimos de armas de fogo. 
Abundam os cavallos na ilha, e, por sua boa quali- 
dade, são apreciados cm todo o archipelago; a mar- 
ca é pequena, mas são fogosos, e ainda nas longas 
jornadas sustentam a celeridade do passo. j 

Os naturaes de Macassar, propensos a uma indo- ' 
lencia ipie é [iroverbial, parece terem ganho pouco 
no tracto da civilisação mais avantajada, ou só te- 
rem adquirido os vicios d"esta. Oi chinas os presen- 
tearam com as cartas de Jogar e o ópio, e os euro- 
peus com o vinho. São desesperados jogadores; em 
toda a parte se entregam os mslaios a esta paixão, 
mas em nenhuma tanto como em Macassar : não 
usam só do baralho, mas tair.bem dos dados. No ba- 
zar ha barracas miseráveis, onde uma íurba ávida se 
apinha, até fora de horas, de redor de um jogo de 
três dados. 1'ara formar idén d''esta scena enojosa, 

(1) Herva que de continuo mascam os povo» 
d'esfa5 regiões. 



era mister observar os rostos hediondos da plebe, 
ainda mais desfeados pela expreisão da anciã e do 
temor da perda, allumiadus pela claridade vacillan- 
le de duas lanternas estropeadas: julgar-se-ba o ob- 
servador transportado á região infernal, tão atrozes 
são as physionumias d'aquelles homens, anciosos, ar- 
quejantes, e de vez em quando levando a mão aos 
punhaes, que nunca desamparam. 

A embriaguez du ópio c do vinho concorre para a 
bruteza da classe intima ; de raro comtudosuccedem 
sccnas de assassínios por uso immoderado do ópio, co- 
mo na Java acontece ; ou porque baja mais efljcat po- 
licia, ou porque seja menos vulgar o abuso d'aqaella 
droga. — E practica habitual do povo tomar a comi- 
da á entrada da noite ,- e com effeito é hora bera et- 
colhida n'uma clima tão cálido; até as nove boras 
gyram entre a multidão oi vendedores de bolos de ar- 
roz amassados, de ovos cosidos, e de bananas fritas, 
oflerecendo os comestíveis por vil preço. A barateia 
é tal, que uma dúzia de galinhas custa uma pezo du- 
ro hespanhol, e pelo mesmo preço se alcançam até 
dúzia e meia de patos; e assim mesmo dizia um em- 
pregado da administração hollandeza que havia três 
annos que tinha triplicado o custo dos provimentos 
de bocca. 

A ilha Celebes é farta de caça, e também possue 
animaes corpulentos ; mas não ha que temer os es- 
tragos das feras, porque não existem os tigres que 
em tanta quantidade apparecem em Borneo, e na 
Java e Sumatra : porém ha crocodilos como praga, 
que por toda a banda saem ás praias regulando se á 
soalheira ; para obter um d'elles basta dar algum di- 
nheiro aos indígenas : alguns são monstruosos de ta- 
manho, ha-os de trinta palmos de comprimento des- 
de a ponta da cauda. — Contaram-n'us a respeito 
d'elles o seguinte caso. 

Os crocodilos frequentam a ribeira quasi até o 
pé da cidade, e por vezes atrevem-se a chegar de 
noite muito próximo dobaiar. N 'estas corridas noc- 
turnas um pilhou a geito um menino china desgar- 
rado, e tragou o de um sorvo. O pai do rapai advi- 
nhou logo o roubador, e, não duvidando que estives- 
se perto, iscou um forte anzol ou arpéuci>m um cão 
vivo, cujos gritos, ao que dizem, attrahem aquelles 
vorazes amphibios ; assim capturou o inimigo. Vio- 
se então em toda a sua latitude o caracter china. O 
pai, lodo embebido na vingança, amarrou segura- 
mente u preza á praia, e por três dias contínuos não 
a largou um instante; com infatigável perseverança 
recreavase em alancear o animal captivo nas partes 
vulneráveis porém menos perigosas; atormcntou-o 
com tal refinação de crueldade, que a linal aborrecia 
á gente da terra, porque tudo acudia a vêr o espec- 
táculo. Quando o monstro acabou de lodo, abriu-o, 
extrahiu a ossada do filho com minucioso cuidado, 
enterrou-a, e, nodiaseguínte, continuou serenamen- 
te a carreira habitual das suas occupações mercantis. 

Ha veados em grande quantidade nns visinhanças 
de .^Iacassar, e caçam-n'os d''ufn modo que merece 
descrípto. — A caçada é feita a cavallo; ocavalleiro 
arma-si> de um bambu de nove a doie palmos de 
cumprido, que le\a n'uma ponta um ferro de lança, 
e na outra extremidade un) laço corredio de couro. 
O caçador persegue o veado nas vastas planícies in- 
teriores até lhe poder lançar ao pescoço o laço, des- 
embaraça e revira a lança, e o primor da desirna 
é matar de um jacto. Não c isenta He perigo a caça 
quando succede atacar o «eado oseu antagonista, ou 
arrasta-lo na carreira para sítio onde n.^o podem se- 
guir os cavallos. l'ara este exercício c preciso ser 
bom cavalleiro. e o faiem com um.ts sellas muito ra- 
sos, e sem estribos; o que parece impossível, posto 



o PANORAMA. 



Á05 



que repetidas vezes no-lo affirmaram, é cjue a cor- 
reia que prende o veado é amarrada ao freio e uão 
á sella ; o iiomem de per si só não poderia resistir 
aos esforços do animal perseguido, e parece queoca- 
vallo, puxado d'aquelle modo, oppõe resistência que 
embaraça a fuga da victima e llieaccelera a morte. 

Outra maneira de apanljar os veados, original 
também, porém menos arriscada, consiste em guar- 
necer de anzoes os cacbos dos fructos de uma arvore 
especial da illia mas alli muito comnuim, e de que 
são muito gulosos aquelles animaes, que, erguendo- 
86 sobre os jarretes para os abocarem, íicam prezos 
pelo anzol : semelhantes ciladas lhes armam á beira 
dos rios, onde costumam beber. Não concluiremos 
sem fallar do famigerado óleo de Macassar : com ef- 
feito existe, e scrvemse d'elli; os indígenas, princi- 
palmente as mulheris-, vende-se por baixo preço, 
uma rupia quatro frasquinhos :, mas não tem a trans- 
parência, nem o perfume do que vendem os nossos 
cabelleireiros : é ruivo, espesso, e deita um cheiro for- 
tedecarvão de pedra que nada tem de agradável. Kx- 
tralie se das amêndoas que produz uma arvore alta e 
de folhas digitadas, que parecem de nogueira : pi- 
zam-n'us em gral, e, depois de enxuta a massa, ob- 
tem-se o óleo por meio da fervura em agua •, depois 
o misturam com vários ingredientes que o tornam 
completo. Aarvore chama-se íiat/ó em liugua malaia. 

Em resumo, Macassar appresenta ao estrangeiro o 
aspecto de uma colónia, mais importante pela sua si- 
tuação do que pelas suas producções. Actualmente o 
seu commercio todo consiste no que dá o terreno, 
arroz, gados, e a pescaria que se exporta. A im- 
portação esti reduzida a objectos miúdos de consu- 
mo, chitas, ópio, e algumas fazendas de uso dos eu- 
ropeus. Se uma administração mais activa tomasse a 
direcção d'esta colónia, vêr-se-hia indubitavelmente, 
dentro de poucos annos, cessar a pirataria de infes- 
tar os mares circumdantes, adiantar-se a cultura 
i)'um chão fecundo, desenvolver-se a industria e o 
commercio, transformando a ilha inteira, e tornan- 
do-a a mais llurecente possessão hollandeza das ín- 
dias, assim como é, quanto á extensão, a mais im- 
portante. 

O l'ELOTiaVKIIlO INCOMllUSTIVEL. 

Em 180!) appareceu cm l'arís, e depois na Inglater- 
ra, Itália e na Allemanha, um hespanbol por nome 
Ijionettu, que, pela sua insensibilidade, não só fez 
pasmar o povo, mas também os physicos e os chy- 
micMS. lirincava com o fogo sem se queimar, c pe- 
gava impun(>meiite n'uma barra de ferro em braza e 
cm chumbo derretido, bebia azeite a ferver, &c. 

Gluando Lionetto esteve em Nápoles, chamou a 
attenção do professor Semenlini, qui: se ap|ilicou a 
estuda-lo. Viu, 1." <|ue o homem incombustível pu- 
pila uma chapa de ferro em braza em cinui do» ca- 
bellos, e ipie logo se levantava um va|>or espesso e 
denso-, iJ." batia com outro lerro em braza no calca- 
iiliur e no bico do pé, e levanlava-se irisle um va- 
por espesso e Ião picante <|ue inciimmudava o ollaclo 
e a visla :,.'}." feirava os dentes n'um firrii (|Uiisi em 
braza sem sn <|ueimar; 4." brbi» quasi a l(M(;a parle 
d'uma colher de uzeil(í a ferver; 'o." mergulíiava ra- 
pidamenlí- m punias dos ileilos em chumbo derri-ti- 
do, e punha iim piunu) cie einnnbo sobre a língua, e 
depois um ferro em braza. Sementiní observou qn<! 
a lingua ile liíoiiello eslava eobcria de uma eamaila 
cinzeiíla. I'',ile chymíeo, desejoso de descobrir o se- 
gredo dl! liionello, tentou diversas experiências em 
8Í incarno, e conheceu : 

t." (lue por meio das fricções com ucidos, espe- 



cialmente com o acido sulphurico diluido se tornava 
a pelle insensível ao calor do ferro em braza. 

2." Uma Éolução de pedra hume evaporada ale 
ficar esponjosa, e empregada em fricções, fazia ain- 
da melhor effeito. Sementini, depois de haver esfre- 
gado com sabão duro as partes do corpo tornadas in- 
combustíveis ou antes insensíveis, e de as ter depois 
lavado, reconheceu, pondo-lhe em cima uma chapa 
de ferro em braza, que a insensibilidade auo-mentá- 
ra. Decidiu-se então a esfregar de novo com sabão as 
mesmas partes, e não só o ferro em braza lhe não 
causou dòr, mas nem os eabellos se lhe queimaram. 
3." Satisfeito com estas pesquizas, esfregou a lín- 
gua com sabão duro, e lhe ficou insensível á acção 
do ferro em braza. 

i.° Pondo sobre a /íngua um emboço composto 
de sabão e d'uma solução saturada de pedra bume, 
a ferver, o ferro em braza não lhe causou sensação 
alguma. 

vi." O azeite a ferver espalhado pela língua assim 
preparada não a queimou; ouvia-se um assobio pa- 
recido com o do ferro quando se apaga n'dgua-, o 
azeite ficava morno, e podia por conseguinte seren- 
gulido sem perigo. ' 

Estes resultados, obtidos porSementini, tendem a 
explicar as experiências de Lionef to. Éevidenleque 
elle preparava a língua e a pelle por meios análogos. 
Quanto á experiência dos eabellos, é certo que antes 
dl! lhe passar por cima o ferro em braza os lavava 
com uma solução análoga á da pedra home, ou com 
acido sulphurico. Quanto ao azeite a ferver que en- 
gulia, é este phenomeno menos pasmoso para quem 
observar que, quando elle procurava demonstrar a 
alia temperatura do azeite, lhe deitava dentro chum- 
bo, que, derreleiído-se, absorvia por conseguinte par- 
te do calórico do azeite, do qu.il derramava depois 
com ligeireza a quarta parte d'uma colher sobre a 
língua, onde esfriava a ponto de poder ser engolido 
sem lhe fazer mal. A falta de acção do chumbo sobre 
a língua assim forrada, resulta também do prompto 
resfriamenlo. E'comtudo provável que, em vez de 
chumbo, Lionetto empregasse alguma liga fusível, 
tal como a de Darcet. 

Não levaremos mais adiante este exame; muitos 
pbvsicos repetiram com bom resultado estas expe- 
riências. Parece, diz Mr. Julíon de l''ontenelle no 
fim d'isle artigo, que o hespanbol Lionetto, quando 
asemprehendeu, teve seu susto de vir algum dia parar 
á inquisição. 

AUOMENTO CnAllCAl DE C,\LOn NAS EKTRANII AS 
DA TEUllA. 

CoNCLiíE-SE das observações de Rir. Arago, repeti- 
das em diversos paízes, que o calor da terra cresce 
na razão da profundidade, o segue no seu aii^mento 
uma marcha regul.ir e conslanie. Por cada quinze 
braças de proliindídade marca o ihermomelro mais 
um grau; e isto quer .te meça a temperatura dasnii- 
nas mais profundas, quer se exiimíne, como fez aijuel- 
h-distíncto pb.ysiro, a da» fontes situadas em profun- 
didades conhecidas. 



Uenzkuitkas na Hussia. 

1'', uuANDu na Hussia, sobre tu.lo eni Moscow e ou- 
tra» cidades interiores, a inIlueiK-ia do clero. Aí ce- 
reinonias religiosa» do rílo grego, <|uo éo <la unção, 
Icem certo cunho de singularidade, e n despeito de 
eerlii apparencia do parentesco eoin o rilo romano, 
não deixu de maravilhar o» calholioos. O Sr. Mur- 



104 



O PANORAMA. 



tnier nas « Cartas sobre a Rússia " diz : — « Não ha 
povo fjue receba mais bênçãos sacerdotaesque o povo 
russiano : tenin'a9 para si e os seus alliados, para as 
casas que habita e as terras que cultiva, para as sea- 
ras e os gados, para tudo o que faz e tudo o que em- 
preiíende. Todos os annos, a 6 d'agosto, estão as igre- 
jas cheias de peras e maçãs para os padres as betiie- 
rem i antes d'e5se dia nenhum verdadeiro fiel ousa- 
ria comer um pomo. Apenas finda a ceremonia reli- 
giosa, toda a gente se arremeça ás celtas rociadas de 
agua benta : todos saem de algibeiras e mãos cheias, 
saboreando e devorando os fructos consagrados. Nao 
c a sensualidade grosseira que anima aquella multi- 
dão, não é liojnenagem que tribute á divindade pa- 
gã, Pomoiia •, é um sentimento de piedade e fé de 
que está possuida. A (i de janeiro bcnzem-se os rios 
e ribeiros: o padre encaminha se para as margens 
com grande pompa, manda fazer um furo no gelo, e 
por ahi mergulha três vezes uma cruz, rezando certas 
orações: logo as mulheres acodem com vasos e baldes 
para tomar d'aquella agua abençoada, os homens a 
disputam entre si e bebem-n'aa grandes tragos : re- 
cresce o tropel, dão-sc encontrões, e arrebatam uns 
aos outros os copos e frascos.- é uma balbúrdia por al- 
gumas horas, uma lucta entre a força e a destreza, 
entre a audácia e a astúcia. Um artificial chafariz 
de vinho a correr n'uma de nossas praças publicas, 
cm dia de festa nacional, não causaria mais rumor. 
— Esta mesma igreja, que abençoa tantas cousas, 
também tem suas horas demaldicção. lia um dia do 
anno, em o qual, na cathedral do S. Petersburgo c 
em meio de numerosa assembléa, o cantor da seque 
tem voz mais retumbante pronuncia alternadamente 
o nome dos hereges mais celebres, e os nomes dos fio- 
mens que lêem causado sedicções e desordens no im- 
pério riissiano : por exemplo, de Boris GonodofT que 
usurpou o throno dos czares, de Mazzeppa, intrépido 
caudilho dos cossacos, de Pngatscheff quese inculcou 
por Pedro III etc. , e a cada nome fulmina cjm o 
brado nnnthema, que estruge as abobadas do templo. 
N'esso dia a igreja está toda brilhante de lumes e 
inundada de intenso, como era festa solemne, e o me- 
tropolitano no altar, revestido como em ceremonias 
augustas. Um coro de meninos repete em tom senti- 
do e melodioso a palavra nnnlhema " 



Penas dos empregados venaes bm Portugal 
E NA China. 

A NOSSA Ordenação no liv. o." tif. LXXI, ha mui- 
to tempo em di'suso, prohibe aos desembargadores, 
julgadores, ofiíeiaes de justiça e fazenda , e aos da 
governança das cidades, villas e logares o receberem 
dadivas ou presentes de pessoa alguma, ainda que 
com clles não traga requerimento de despacho, sob 
pena de perderem os oflicios e pagarem vinte por 
um do que receberem ; e reputando mais criminosa 
a acção de dar que a de receber, manda que quem 
der perca toda a sua fazenda, qualquer ofticio ou 
cargo que tiver, e o mantimento que receberd'elrei, 
e seja degradado cinco annos para Africa. 

"12 trazendo feitos perante os dictos julgadores e 
desembargadores o mais officiaes acima dictos, ou 
requerendo desembargo ou despacho, e recebendo 
qualquer cous.t d'a(iuelle que assim trouxer ou re- 
querer, ou de outros que lli'o der por elle, sendo ca- 
daum de todos os sobredictos officiaes, ofllcial que 
tenha ofllcio de juigar, perca para a nossa casa todos 
os seus bens e o offitio que de nós tiver. K se a pei- 
ta passar de cruzado ou sua valia, ali-m das sobre- 
dictus penas será degradado para todo o sempre pa- 



ra o Brasil. E sendo de cruzado, e d'aht para bai- 
xo, será degradado cinco annos para Africa. E sen- 
do a peita da valia de dois marcos de prata, ou 
d'ahi para cima, além do perdimento da fazenda, 
morrerá morte natural.» 

" E sendo o que recebeu a peita official que não 
tenha officio de julgar, e a receber trazendo perante 
elle, ou requerendo qualquer despacho, além de per- 
der o officio pagará trinta por um do que receber, 
ametade para quem o accusar, e a outra para nossa 
camará. 11 

IVo império celeste os que se atrevem a conculcat 
os mais Siigrados deveres, vendendo as vidas, honra, 
e fazenda de seus concidadãos, são punidos por uraa 
escala de muletas, bastonadas e degredo. 

«Se o empregado civil, ou militar, no exercicio 
do seu emprego, commetter delicto que mereça pena 
corporal, diz o Sr. José Ignacio ile Andrade nas suas 
inestimáveis Carias cia índia e China, será commu- 
tada em diminuição nos graus da sua ordem, em 
muleta ou degredo, segundo o numero das bastona- 
das correspondentes ao delicto. Dez bastonadas equi- 
valem ao salário de um mez \ vinte ao de dois me- 
zes ; trinta ao de três ; quarenta ao de seis ; cincoen- 
ta ao de nove ; sessenta ao salário de um anno ; se- 
tenta á degradação de uma ordem ; oitenta á de 
duas ; noventa á de três ; cem á de quatro ordens e 
perdimento do emprego. Além das penas menciona- 
das teem degredos relativos ao numero das bastona- 
das, segundo a espeie e o grau do delicio, por um 
mez, dois, três, etc. ; até por toda a vida, como ve- 
rás na tabeliã seguinte." 

II (iualquer funccionario publico, que receber pre- 
sentes ou ajustar recebe-loi, para fazer um acto legal 
ou illegal, será punido era virtude da lei applicada 
a tacs crimes. 

Tabeliã das punirões quando o aclo é legal. 

Valor em onças de prata. Bastonadas. Degredos. 

1 60 

2 a 12 70 

20 80 

30 90 

•iO 100 

50 tiO . . . . 1 anno 

60 70 .... 1 ; n 

70 80 .... 2 

80 90 .... 2 i " 

90 100 .... 3 

100 100 . por toda a vida. 

" Sendo o acto illegal a pena é maior. " 
'■Ha outra lei singular que inllije pena de morte 
a qualquer individuo que requerer títulos honrosos 
ao imperador, não sendo ja distincto por serviços 
prestados á nação. " 

Já que falíamos nas Cartas do Sr. José Ignacio de 
Andrade, cumpre-nos declarar que são um thesouro 
de noticias das cousas da (Niina : absorvem toda a 
atlenção do leitor, recreando e instruindo ^ revindi- 
cara a honra do nome porluguet, e desmentem as 
calumnias profwgadas por escriptores estrangeiros in- 
vejosos da nossa gloria. O auclur não se fat menos 
digno de elogios pela sua vasta erudição, apurado 
gosto, e recto juiio, do que pelo amor da pátria que 
vivifica toda esta producção litlenria. Desejamos 
que a nova edição que se prrfwra das Cartas do Sr. 
-Vndrade vulgarise a sua leitura quanto cila» o mere- 
cem , visto que a primeira, feita com e»mero que 
honra a tvpographia portugucia, só chegou como do- 
nativo aos amigos do seu desinteressado auctor. 



14 



O PA.NOllAMA. 



105 



1^ --"^Sm^MA 










:^^^í: 









■^h:â 



f 



if' 







PAISAGEM DA NOVA-CALEDONIA. 



Ah u.has Wallis são Je toda a Polyuesia as únicas 
onde o christianismo derrubou complelainente a ido- 
latria. A conversão dos inili^'i'ii is iTcsla [jcqucua 
parle do mundo uiaiitimo tviu :ipcnas quatro annos 
de data. Ciemos que será inlercssaute a narração das 
fa<li|,'as que leve de supportar o padre Dataillou dis- 
dc o anuo de 1^37, eui que pela primeira ver poz 
pé n'cslas ilhas, alé o dia em que luram coroados 
de exilo feliz os seus esforços, f^ogo ao principio foi 
pelos naluraes reputado como tuji dos aventureiros 
vagabunitos que o:i navios da |)csca da baleia deixam 
ás ienes n'aquellas praias : sem praticarem conlra 
clle acto algum do violência, eomludo oarrcdavam 
do si, eliamando-liie nomes grosseiros. U religioso 
ministro, resignado com sua sorte, supportava com 
tranqnillidaile heróica os sens iiaileeimenlos, eonlian- 
do meramenle no auxilio da l'roYÍdoiKÍa, celebrando 
missa ora no meio de espessuras im|icnelraveis, ora 
cercado de alguns ociosos allrahidos (!(• maligna cu- 
riosidade : |iromplamenle se fauiili.nisou com as ex- 
pressões prineipaes da linguagem nativa das ilhas, c 
soube distinguir bem as imprecações, a (|ue somente 
r('sp<jndia com um (dliar em i|ue se cleliuxava a sere- 
niilaile da sua alma, v. a cmnpaixão (|ue lhe inspira- 
vam a(|uelh!S miserareis idolatra.s. Kstc olhar c a 
brantiura do seu caracter caplivaram, tendo decorri- 
do alguns rue/.es. oilo ou dei naturaes da pequena 
ilha de NnliUlea, onde reside o maior.il (festa gen- 
te, o qual, sendo então muito moço, declaruu-so pro- 
tector do |iadrc, e exhurtuu a sua triliu a ouvi-lo. 
J'assaram-se dois annos, eo pequenino rebanho, cres- 
cendo em numero, mostrara, perante as perseguições 
dos seus patrícios pagãos, uma C(Mislanci,i v resigna- 
ção verdadeiran;ente riuislãs. (ieilo dia, .ilgiimas 
YoL. 1. — Dl^iímuiu) 1, 18ÍG. 



íribus idolatras saquearam os campos d'inliamcs dos 
catholicos ; esles, privados de alimentos, congrega- 
ram-sc á voz do mancebo, seu principal, para se vin- 
garem : mas o padre Halaillon, acalmando-lhes o fu- 
ror, concebeu a iiléa de encaminhar esta eircumstan- 
cia á gloria da religião, intentando por uma cruzada 
pacilica a conversão simultânea de lodosos irjulanos 
pagãos. Fez uma bandeira com a imagem da Sanc- 
tissima Virgem ; e os christãos, alistados sob este 
pendão sagrado, marcharam ao mando do missioná- 
rio para trazer á fé seus irmãos transviados. Saido» 
de Nuliutea tomaram terra na ilha princii)al do gru- 
po das Wallis ou por outro nome l'\éj. O sacerdo- 
te arengou á tropa e recommendou-lhe humanidade ; 
ao mesmo lempo o mancebo govornanlc. I.uiigahala, 
procurava chamar ascu partido os liabilanies da al- 
deia onde havia desembarcado, e a força cncami- 
nhon-se por terra denlro, entoando cânticos : pouco 
a pouco se aiigmenlou, e a (inal contava em suas 
lilciras a parle imporlanlo da população, excepto a 
genteda aldeia, aclualmente dieta de S. João IJap- 
lista, onde residia l.ufrliHi, rei do arclii|ielago, de 
i(uem sobre tudo os calholicos tinham razão de quei- 
xa : esta tribu, estreitada por loila aparte pelas íri- 
bus convertidas que lhe inlerceplavam os viveres, 
foi-se bandeando gradualmenle e reunindo ao eslan- 
daite ehristão. O triumpho não podia ser mais com- 
pleto ; porém o (|ue é para admirar, o mancebo maio- 
ral, a cuja iniluencia se de»e em grande parle n con- 
versão d'aquelles gentios, é o único que não ó ehris- 
tão. Este homem, de inlelligencia miiilo superior á 
de seus cinn[)atricios, parece haver considerado a mis- 
são uma favorável circnmslancia para elevar-se e ga- 
nhar ascendência sobre o |iovo. abal.indo o [loder di< 



106 



O PANORAMA. 



Laveloa seu tio : é animoso, perspicaz e cheio de au- 
dácia, o seu modo de dizer c vivo e seductor : pare- 
ce ser o aferro á polygamia o motivo que o desvia 
de converler-se á fé christã. j 

Tivemos (diz o ofiicial de marinha escriplor d'esta i 
narração) a opporlunidade de assistir á sagração do i 
padre Balaillon , que por bulia pontiGcia , de que \ 
foi portador monsenhor Amalha, passageiro do nosso 
navio, recebeu o titulo de bispo de Enos. A gente ^ 
das povoações afluiu a S. José , centro da missão , | 
trazendo ofTcrtas de inhames, porcos, peixes, e fruc- 
tas : todos vinham trajados com seus vestidos de fes- 
ta ; as raparigas entoavam hymnos, e as creanças 
corriam de uma banda e oulra dando grilos de con- \ 
tentamento : quando passávamos pelos seus ranchos, ! 
era a quem mais nos apertaria a mão com ar riso- | 
nbo, e nos offereceria casa para descançar, ou nos | 
iria buscar o refresco das fructas da terra. ! 

Á chegada dos missionários calholicos, oshabilan-' 
tes das Wallis tinham feito bem fracos progressos 
nas artes da industria, e acbavam-se bastante atra- 
zados dos seus visinhos do archipelago de Louga-La- 
bou, que lhes fica ao sul : porém actualmente já os 
igualam, cm consequência das boas disposições que 
desde aquella epocha manifestaram para receberem 
o beneOcro dos conhecimentos úteis. A maioria já 
sabe ler e escrever, e alguns tecm noções gcracs da 
arithmetica e da geometria ; tudo aos faz prcíumir 
que chegando ao seu alcance as nossas artes se des- 
pirão do resto de apatbia que ainda os ataca. São de 
boa apparencia e excellente conslituiçr.o phy=ica, seu : 
caracter é affavel e generoso, presam os estrangeiros, 
e principalmente gostam do génio jovial dos fran- 
cezes. 

A população de todo o archipelago é quando mui- 
to de 2300 a 3000 habitantes ; o solo é produclivo 
e favorável a todo o gensro de cultura ; o clima sa- 
dio convém a todos os temperamentos, e se não fo- 
ram os excessos do kouva, bebida fermentada, que 
altera o sangue, os naturaes d'eslas ilhas bera depres- 
sa se fariam notáveis entre os demais ua Polynesia, 
sobretudo agora que mudaram de costumis. 

A '20 de novembro de 1845 ferrámos panno na an- 
gra de Balnde, que é o porto que fica mais ao norte 
em a Xova Caledónia, na Occania : apenas ancora- 
dos nos rodearam umis canoas muito mal -ifciçoadas 
eom velas de esteira c remos apenas desbastados ; a 
presença dos que n'cllas vinham nos di.sgoz pouco fa- 
voravelmente acerca dos naturaes d'aquena região ; 
os corpos frágeis c estilicos, cobertos de uma capa de 
cebo preto, a estúpida admiração, que se manifestava 
por sons gulturacs incomprehensivcis, nos compiLi\a- 
ram a verdade da asserção dos vi.ijantes j.clo que to- 
ca á raridade das communicaçõcs de navms com esta 
ilha. Pareciam receosos e desconfiados, e os nossos 
menores mo\imcnlos os atemorisavam ; com dilTicul- 
dade consentiram em subir á coberta, e aoi olhavam 
com pasmo misturado de estupefacção ; tudo os en- 
leava ; u som da sineta, o toque do tambor, as canti- 
gas dos marinheiros eram para ellcs um objecto de 
admiração, que ás vezes denotavam por singulares es- 
talos dados com a lingua. 

Os caledonios de casta pura são em geral da cor 
do chocolate ; dizemos deca<'ia piiva porque em mui- 
tos pontos do littoral são mcstiçuo (.jci os das ilhas 
Loyalty, oiuic a raça é de cór avermelhada. São al- 
tos, descarn.idos, mal proporcionados, e á primeira 
Tista mui dc.-.:iirosos ; tem nariz esborrachado, bocca 
rasgada com os beiços grossos ; m.is os olhos pretos 
são ás vezes expressivos : os lóbulos das .rolhas, fura- 
dos de grandes buracos, pendem quasi até os hom- 



bros pelo costume de trazerem iiolles objectos volu- 
mosos. As suas armas ordinárias .«ão fundas, zagaias 
que arremeçam com destreza a grinde distancia, e 
massas mais notáveis pelo pezo que p'--la elegância. 

Os caledonios nos pareceram inofr-^nsivos e hospita- 
leiros ; a sua extrema indolência que os desvia das 
mais simplices recreações é provavelmente a causa de 
dizerem os viajantes que era uma gente sem uso de 
razão. Examinando-os seriamente nos convencemos 
de que junctavam a um vulgar entendimento algu- 
mas boas qualidades. Nos primeiros dias noS incliná- 
mos a crer que a pouca actividade no acolhimento 
procedia da carência da virtude hospitaleira tão com- 
mum nos povos selvagens ; mas em breve reconhece- 
mos que o sen proceder nascia de temor e não de má 
vontade. 

Os indígenas da Nova-Caledonia sustentam-se qaa- 
si exclusivameut-e de vegetaes que cultivam, como o 
inhame, o tooco &c. , e de raízes mucilaginosas que 
crescem espontâneas nos mattos. As habitações seme- 
lham cortiços d'abelhas, e outras arremedam as arri- 
banas e telheiros : damos amostra d'ambas na prece- 
dente estampa. .As primeiras servem de refugio du- 
rante a noite, e são perfeitamente fechadas com uma 
entrada única ; as segundas, patentes por um dos la- 
dos, são os logares para os ajunctameatos diurnos. 

N'esta ilha encontram-se formosas planícies e ex- 
tensos bosques, que em tempo breve offereceriam va- 
liosos productos á exportação : e pôde segurar-se que 
n'ella por certo medrariam todas as plantas exóticas 
da zona tórrida, e grande parte das que se cultivam 
nas zonas temperadas. 



O Feitob de Castão. 

Novella. 

(Continuado de pag. 98.) 

Dias depois d"esla conversação estava deshabitada a 
casa d'EfTendon, • outro agente dirigia a feitoria 
americana. O feitor antigo desapparecèra sem que 
ninguém adivinhasse o que era feito d'elle. .Alguns 
presumiam que embarrara ás escondidas para a .Ame- 
rica ; mas a opinião geral era que, desanimado de 
todo, puzera termo ao seu penar matando-se pelas 
próprias mãos. 

Ora, em quanto na feitoria discutiam esta ques- 
tão, EiTendon. embrulhado n'um vestido talar de 
daba (1), apertado por um cincto do qual pendiam 
uma faca, um leque, c uma caixa de perfumes, cem 
umas tandalbas de palha de arroz, e com um chapéu 
afunilado de perto de dezoito pollegadas de abas, ia 
já caminho da cidade de Peking. 

A razão principal por que escolherão trajo de ho- 
mem de negocio da Corça, que acabamos de descre- 
. ver, foi para que ninguém, pelos seus modos e pro- 
nuncia, reparasse n'elle, e visse que era estrangeiro ; 
; mas a poucos passos se desenganou de que bem po- 
I dia ter dispensado esta cautela, porque aos chinas 
j não lhes passava pela imaginação uma «mpreza tão 
I t«meraria. Costumados, além d'isso, ás variedades 
de dialectos e physionomias das raças que povoam o 
immenso território do império celeste, não descon- 
fiavam d'elle. O que no princípio, «os próprios olhos 
d'Effendon pareceu loucura, que só o amor de pai 
' podia desculpar, agora já lhe parecia quasi uma via- 
gem ordinária. 

I ■ 

(I) Fazend» Je algodão de que soves lem ns Cores. 



o PA NORA Al A. 



107 



Desejando comtudo não encontrar ninguém que o 
conhecesse, resolvera ir a Peking embarcado. Por 
mal de peccados, este modo de viajar era ainda me- 
nos seguro que vagaroso ; porque apesar de terem os 
chinas aberto no seu território trezentos e cincoenta 
canaes por onde, quasi exclusivamente, se transpor- 
iam os viajantes e as mercadorias, os seus engenhei- 
ros ainda não inventaram as comportas, de sorte que 
quando as barcas chegam a alguma portagem enca- 
lhani-n'as, içaai-n'as por uma rampa, com a ajuda 
d'uma machina que está no ali • d'ella, e depois ar- 
reiam-n'as por outra rampa. Como esta manobra, 
bastantes vezes repelida, muito retardava a viagem, 
pudera o feitor fazer miiidas observações no paizqiie 
atravessava, se a impaciência o não tornasse indiile- 
rente n quanto tinha diante dos olhos. 

E todavia o espetaciilo era Ião rico quanto curio- 
so c variado. Milhares de barcas se cruzavam uo ca- 
nal, carregadas de passageiros sentados em esteiras , 
os quaes, para lhes não parecer a viagem tão longa, 
jogavam as cartas, os dados ou o Isoi-moi (1) ; trigo, 
canas d'assucar, cearas de arroz ou algodoeiros rcves- 
liam ambas as margens ; e pelas estradas vinham 
cardumes de camponezes, de cujas cinctas pendiam a 
bolsa do tabaco, a pederneira e o fuzil, ou de mu- 
lheres que traziam as sua» creancinhas cm saccos pre- 
zos aos hombros. Também passaram por defronte 
d'alguns lagos cobertos de jangadas de pescadores que 
faziam mergulhar os kii-tzes (2), aos quaes depois ti- 
ravam a preza. 

Quando EITendon chegou a Naiil<ing, achou um 
grande ajunclamento de gente ordinária, entretida 
em vèr uma briga dj gafanhotos (3), quedava occa- 
sião <i muitas aposlas. 

O arraes da barca tomou n'esta cidade outro pas- 
sageiro que, assim como Elfendon, ia para Pel^ing. 
Era o íílh» de um pobre surrador que, em voz de 
seguir a profissão de seu pai, quiz correr a carreira 
das IcUras. É sabido que na China todos os empre- 
gos, lanlo na ordem civil como na militar, são da- 
dos por concurso, sem se attcndcr á classe a que per- 
tence o candidato. Os aspirantes que não ficam bem 
no exame abrem commumciitc escholas nas cidades ou 
tillas, c assim facilitam á gente moça os meios de se 
apprescntarem na arena quando llics loca a sua vez. 
Com um (restes mestres linha o filho do surrador 
aprendido o que se exigia para o exame da ultima 
classe. (Juanlo ao dinheiro preciso para este exame, 
o surrador lh'o alcanrou vendcndu como escravo uui 
dos seus irmãos, espécie de idiota aquém nunca ti- 
nha podido ensinar o seu ollicio ; porque a lei china, 
semelhante ;i lei romana, dá ao pai a plena proprie- 
dade de seus (ilbos , c permitte-lhe que disponha 
d'cllcs como de cousas. Com este auxilio conseguiu 
Tchao (assim su chamava o moço china) entrar para 
a corporação dos lettrados ; poréni ainda não linha 
podido obter o logar para que este titulo o habilitava. 

Tchao era um mancebo activo, fallador, serviçal, 
e que não cessava de andar ao faro para abocar 
qualquer posla. 

l'ou<as horas depois de embarcado já tinha toda a 
intimidaile com KlVeiidon, ao (jiial contara a historia 
da sua \iila. 

— ".Vtó agora ainda nada me deram ; porém, co- 
mo diz o saijio, o homem é um céu pc(|ucno c uma 
terra pequena, sujeitos a mil allcrniitivas ; dò ou o 



primeiro passo, que o resto do caminho anda-se sem 
ajuda. Tu és meu amigo, Kang-bo (era o nome que 
EffcBdon adoptara); posso communicar-le o meu de- 
sígnio. Tu sabes que o que está debaixo do céu (1) 
se acha repartido em dezenove províncias, cadaama 
das quaes tem muitas fou (departamentos) ; que ca- 
da fou se divide em lacheous (districtos), e estes em 
lians (canl<5es). Como letlrado estou apto para adaii- 
nislrar um d'estes. Se der provas de capacidade será 
o meu noiuí recommendado no livro do li-pou (2), e 
adianlar-cie-hei rapidamente. Posso em poucos an- 
nos subir do degrau em degrau as nove classes, e 
obter o botão de pedras preciosas. Consiga eu com- 
prar a algum governa<lor velho o direito <!e o sub- 
stituir, que o mais é fácil. O peior é que preciso de 
uma grande somma para fazer esta compra, e para 
a ganíiar é que vou a Peking, onde ha mais meios 
de enriquecer. » 

— «E em que fazes tenção de te empregar?» 

— «Em tildo que possa render-me liangs ; topo 
tudo com tanto que as pilhe.» 

A medida que so approximavam a Peking crescia 
no canal o numero das barcas, e faziam mais demo- 
rada a viagem. Elles avistavam de distancia a dis- 
tancia grandes cidades quadradas cingidas de forti- 
ficações, ás quaes sobrelevavam arcos triumphaes, 
tas (3), e altas torres dos mosteiros de bonzos. X 
pouca distancia d'es'as cidades havia cemitérios com 
túmulos de diflerentes formas, ornados de pyiami- 
des, de estatuas do homens, e de figuras de animaes, 
e a maior parte d'elles cercados de ihuyas e cypres- 
tes. Quando passou pela frente d'estes campos de 
repouso foi Eirendou testimunha do muitas ccremo- 
uias fúnebres que os chinas celebram com grande 
pompa, por(iue a veneração aos mortos, c o respeito 
aos pais, são as únicas virtudes religiosas que lhes 
ensinam. N'estas coremonias vão os bonzos adiante 
do féretro, levado por cousa de vinte homens debai- 
xo d'um docci. Vem atraz d'elle uma liteira doura- 
da, á roda da qual queimam aromas, e dentro da 
liteira uma tabeliã com os nomes e titulos do finado, 
taes quaes hão de sor gravados no tumulo. Scguem- 
se meninos cobertos com um gorro particular, e com 
uns balanilraus de paniio grosso por cima iii< seus 
vestidos. Em chegando o corpo ao logar em que ha 
de ser enterrado, depositam-iro n'uma co\a profun- 
da, cobrem-n'o de terra misturada com cal, e depoi.'» 
de haverem cravado em volta da sepultura bugias 
perfumadas e bandeirolas de cores, começam a quei- 
mar cm honra do dcfuncto, cavallos, vestidos ou bo- 
necos de papel. Tudo acaba com um banquete com- 
posto de iguarias postas com antecipação sobre a se- 
pultura, e coiicluido isto voltam os parentes para 
sua casa, levando a tabeliã em que falíamos, a quai 
ahi guardam ao pé do altar consagrado aos génios 
domésticos, o incensam duas vezes cada anno. 

A algumas ti (í) de Peking os embaraços da na- 
vegação cresceram lauto, que ws dois viajantes prefe- 
riram saltar cm terra e andarem o resto do caminho 
a pé pela estrada calçada do grai\ito (Jho vai ter á 
capital do impviio cclest' 



(I) Jo|,M (|iii! SC jii(ía ciiiii os iltíUos. 
(i) H<|](H:ie lie coi vo-inai'iiilio. 

(.'ij ICáles coiiiliales silo mui CDiuimuis na China, assim 
como 09 lios ((lilos, codoriiizes, e de gallos. 



(l) Nume que os chinas d&o ao seu império. Tliiau-Hia, 
(I (|iii! esl.'! debaixo do ci'u, o mundo, correspondo ao orAi» 
dos riMiiaiios. 

[•2] lia sois (riliniiaos <iii ooiisollios siii)eiiiiros em 1't'kiiig, 
u ipio sào vordaiioiros miiiisteiios. O lipoii corrospoiulo ao 
nosso minisloiio ilii roíiio. 

(.1) Oliiinnm^so las coitos oihlicios <lo cinco im seis «mia- 
res, com oiiiios laiilos lolliailu» saiilos, ipio vonios em lod»s 
as iiiiiliuas lia llliiiia. Ignora so para ipie .sorvem. 

(i) Modula da (.1011:1. Dez lis l'a/.em unia hvua. 



108 



O PANOP.AMA 



Novo obstáculo lhes alrazou a entrada na cidade ; 
era dia de revista, e as tropas tomavam todas as pas- 
sag'!ns. EITendon ainda tentou passar por entre os 
batalhões ; mas trabalharam os hamhús dos homens 
da policia encarregados de conter o povo, e fizeram 
n'o tornar atraz. Não teve remédio senão moer a pa- 
ciência á espera que a revista acabasse. Tchao, que 
não deixava escapar pela /r.allia qualquer occasiío de 
fallar e ostentar o seu sahsr, approveitou a demora 
para explicar ao seu compmliriro da Coréa o sysle- 
ma militar dos chinas. Dissc-lhe que o filho do céu 
linha' as suas ordens mais de um milhão de solda- 
dos, assim chinas como mongoes e raantchous. Estes 
soldados, que se casavam, e cujos filhos vinham tam- 
bém a ser soldados, estavam divididospelas duas mil 
cidades fortificadas do império, onde recebiam do es- 
tado um soUlo e certa porção de terra que fabricavam 
por sua conta. No armamento tiniiam muita varie- 
dade : havia cavalleiros que pelejavam com azorra- 
gues armados de pontas de ferro ; outros corpos esta- 
vam armados de espingardas- de murrão, outros de 
lanças e dardos ; porém a maioria do exercito com- 
punha-se de soldados semelhantes áquclles a que se 
estava passando revista. Ora, o uniforme d'cstcs con- 
sistia em duas túnicas, n'«ma cota de malha de gan- 
ga chapeada de metal, n'iim capacete de ferro sobre- 
pujado d'uma borla de crinas pintadas, n'um sabre, 
arco, aljava, e n'uma pequena caixa om que guarda- 
vam as cordas e dardos de reserva. 

Tchao mostrou a EITendon alguns batalhões esco- 
lhidos chamados tigres da guerra, por ser o seu far- 
damento de "uma só peça, justo, mosqueado, e co- 
roado por um capuz de orelhas que lhes dava algu- 
mas parecenças com esta fera. .\s suas armas eram 
a cimitarra c ura escudo de bambu. 

Quando acabaram de desfilar as tropas puderam 
cmfim os dois viajantes seguir o seu caminho, enão 
tardou que avistnssom as muralhas de Peking, de 
quarenta c cinco palmos de altura, cercadas de um 
fosso, e defendidas de distancia cm distancia por 
grandes torres. 

Ao entrar na capital da China sentiu EITendon 
pular-lhc o coração. Chegara ao termo da sua via- 
gem ; respirava o mesmo arque sua filha respirava. 
Por maiores que fossem as dilTiculdades que ain la 
linha de vencer, este primeiro triumpho lhe prova- 
va quanto pude a coragem. Começou a esperança a 
entrar-lhe no coração, ecom uma espécie de alvoroço 
se entranhou iiíis ruas da grande metrópole da China. 

Estas ruas alinhadas, com vinte e sele braças de 
largura, tão compridas que custava a vèr-sc-lhes o 
lim, estavam obstruídas por tanta multidão de povo. 
que assim que n'ellas se entrava era forçoso encur- 
tar o passo. Havia n'ellas enxames de \cndedores 
volantes de comestiveis, de bofarinhciros que tinham 
a sua fazenda sobre as duas conchas d'uma espécie 
de balança, cujo braço descançava sobro os seus hom- 
bros, de Icireiros, de sapateiros que andavam d'uma 
Landa para a outra com as suas laboletas portáteis, 
de barbeiros que chamavam os freguczcs ao som de 
uma Icnazinha de aço, ou que os barbeavam com um 
instrumento triangular, lhes pinlavara as sobrance- 
lhas, c lhes escovavam os liombros. T)'air.bos os lados 
havia casas de madeira pintada com enfeites, nos 
vértices, de boUas envernizadas, c em lodos os pri- 
meiros andai. s varandas cobei las ; as lojas occupa- 
vaui-n'as todas os homens de negocio, que chamavam 
os compradorc; tangendo gonijs que atroavam. Lf- 
fcndon observou que cada bairro tinha o seu com- 
luercio especial, e cada loja seu mastro ornado de 
bandeirolas, por baixo das quacs umas tabolctas ne- 



gras ou vermelhas assoalhavam i-.n leltras de ouro os 
nomes dos negociantes, suas gen'-ilogias, suas virtu- 
des e as de suas mercadorias. Y,-.\ certos sítios se 
viam paysangs {0) de páu com suas escuipturas, e 
com Ires portas, erigidos á memorii de grandes soc- 
cessos, columnas cm que se liam ir.jcrípçõcs em hon- 
ra de homens celebres, finalmente corpos de guarda 
fortificados e ornados de estandartes. 

Apesar das turbas que pejaTam as ruas, viam-se 
diante de quasí todas as portas mancebos diverlíndo- 
se ao jogo do volante, que a maior parte d"elles reen- 
viavam com summa destreza com a cabeça, com os 
cotovellos ou com os joelhos. TcUao, que já linha 
vindo a Pekíng, gozara do pasmo a que o seu com- 
panheiro não pndia resistir. 

— " Isto ainda não é nada, disse elle com aquella 
vaidosa complacência com que enumeramos as ma- 
ravilhas da terra que já conhecemos ao forasteiro 
que n'ella entra pela primeira vez ; quizera que vís- 
seis a morada do imperador, que contém o immenso 
palácio cercado d'agua, no qual se entra por uma 
ponte de jaspe do feilio d'um dragão: mais o tem- 
plo do céu, cuja sala principal, sustentada por oi- 
tenta e duas coluranas pintadas de ouro e azul, re- 
presenta a abobada celeste ; õs templos consagrados 
a Fou-hi e a Confulzec ; finalmente a grande im- 
prensa imperial, a bibliotheca, o tribunal para os 
médicos, a casa dos expostos, c a da inoculação e da 
vaccina. Pekíng é um mundo que, para ser bem co- 
nhecido, leva toda a vida d'um homem ; porque as 
duas cidades, china e mantchou. de que se compõe. 
com[)rehcndem perlo de dois milhões de habitantes.» 

-No meio dVsía falia o moço lellrado se havia en- 
caminhado para uma hospedaria onde já linha esta- 
do, c Effendon o seguiu. .\hi começou a rcfiectir que 
a actividade de Tchao, capaz de revolver tudo, e o 
conhecimento que elle linha de Pekíng, Ibe podiam 
ser úteis na indagação a que ia dar começo. Por con- 
seguinte, n'essa mesma noite, revclou-lhe o fim da 
sua viagem, e perguntou-lhe se, medianfe uma re- 
compensa, quereria auxilia-lo n'csta tarefa. 

O moço lellrado acccitou muito depressa, segundo 
o seu louvável costume, c logo no dia seguinte saiu 
a campo depois de ter recebido as instrucções do 
feitor. (Continua.) 



PliOV.l no DORD.VO EM M*>'DErTBE. 

Slbsistia ainda no século passado cm Mandcuvre. 
ao pé de Jlontbelliard (.Vlsacia) uma prova judicia- 
ria bem extravagante. Quando se fazia algum roubo 
na villa intimavam todos os habitantes para se junc- 
tarem na praça da igreja, no domingo seguinte de- 
pois de vésperas. Tm dos mrjírr.í mandava que o la- 
drão restituísse o roubo, c por espaço de seis mezes 
se abstivesse do contacto da gente honrada. Se o cul- 
pado teimava em não se dar a conhecer appellavam 
para a prova do bordão. Cadaum dos dois maires, 
conj o braço levantado, segurava n'unia das pontas 
d'um páu, por baixo do qual mandavam passar as 
pessoas presentes. Tal era o terror supersticioso ins- 
pirado por esta cercmonia que não havia exemplo de 
réu que se sujeitasse a ella. Ficava só e ora assim 
descoberto. Se acaso se atrevesse a passar por baixo 
do bordão, e a lodo o lempo díscobrisscm ser elle o 
criminoso, nunca mais ninguém coramuuicav.i com 
elle, c era banido da sociedade dos seus compatrícios. 



Aicos de liiuiuplio. 



o PAXORAMA. 



109 




CAVALLEIRO TEMPLÁRIO ARMADO 
EM GLERRA. 

Havendo de tractar da celebre ordem dos templários 
nenhum arligo poderiamos redigir mais imporlante 
do que o nntavcl fragmciilo que ciicelnmos nn presen- 
te N.", cxtraliiilo da llisloria de França, ohra com- 
pleta, ha poucos annos publicada pelo Sr. Michclet, 
mui distincto eiilru ns liisloriadorcs nossos contempo- 
râneos. — 

Os |)apas por acto próprio haviam preparado o seu 
captivciro de Avinliãn, nomeando, por espaço de um 
século, grande numero de cardcaes Irancezcs em con- 
sequência de aversão ao Império. I)'cste modo os reis 
de França acharam-se dominantes das eleições ponti- 
fícias. — Em lliO/J l''ilippe o formoso vai a um bos- 
que de Saintonge, próximo a S. João d'Angely : o 
gascão IJerlrand de (iolt, arcebispo de Uordéus, alli 
o esperava. I'actuou-se então um .ijuste diabólico ; o 
monarclia promettcu a Rcrlrnnd di; (Iolt fazè-lo pa- 
pa ; Bertrand promettcu quanto o rei quiz, pòr-sc á 
sua discrição em Aviídião, condemnsr o pontificado 
na pessoa de Honifacio VIII ; quanto á ullima coii- 
diçiio era tal que l'"ilij(po exigiu que o arcebis|)o se 
sujeitasse a cila sem a saber. lira nada menos que a 
suppressão da ordem dos templários, a poidiçã > de 
quinze mil cavalleiíos tluistãos. Rullrão jurou, c foi 
papa sob o nome de Clemenle V. 

O (|uct era enlão o 'IVinjilo? — I'.ui Paris o circui- 
to do Templo abrangia todo o grande bairro, triste 
c mal povoado, ([uí^ conservou esle nome: era a ter- 
ça parle de ['aiís (Pessa cpoiba. \ sombra do 7Vm- 
plo, e debaixo da sua poderMSa prolí'cção vivia uma 
chusma de serventes, familiares, alliliaibis, e lambem 
de gente criminosa, por quanlo as casas da ordi'iii go- 
zavam o direito de asylo : o próprio hilippe o formo- 
so d'elle se a[)proveitára quando IVira perseguido pelo 
povo aiiiolinado. Ainda permanecia, no tempo da re- 
volução, um monumento d'esla inj;ralidão, o massi- 
ço torreão das (|ualro torrinhas, eonslruido em l:i2:i : 
serviu de prisão a Luiz XVI. — Olemplode Paris 
era o centro da ordem, o seu Ihesouio : ahi se con- 
gregavam os eapilulos geraes : d'esla casa dependiam 
todas as provincias di ordem, a saber, l'orlugal, Cas- 



tella e Leão, Aragão, Malhorca, Alíemanha, Itália, 
Apúlia e Sicilia, Inglaterra e Irlanda. Em o norte 
da Europa a ordem tcutonica havia saído do Templo, 
como nas Hespanhas outras ordens militares se for- 
maram dos seus despojos. A immensa maioria dos 
templários era de francezes, particularmente os grão- 
mcslres. 

O Templo, como todas as ordens militares, deriva- 
va de Cister. O reformador eislerciense, S. Dernar- 
do, com a penna com que commentava o Cântico dos 
Cânticos lavrou para os cavallciros a sua regra enlfau- 
siastíca c austera. Esta regra era a expatriaeão e a 
guerra sancta até a morte. O^ templários deviam ac- 
ccilar combate sempre, ainda que fosse de um contra 
três, nunca pedir quartel, não dar resgate, nem mes- 
mo um pedaço de parede, uma pollcgada de chão. 
Não tinham que esperar descanço : não lhes era per- 
mitiido passar a ordens menos austeras. ,,Ide felizes, 
ide tranquillos (lhes diz S.Bernardo); repe.lli com 
intrépido coração os inimigos da Cruz de Christo, 
bem certos de que nem a vida nem a morte vos po- 
derão pòr fora do amor de Deus que esta em Jesus. 
Em qualquer perigo repeli a phrasc: — vivos cumor- 
tos, somos do Sc;ihor. — Gloriosos os vencedores, bem- 
aveiilurados os m.irlyres." Eis aqui o áspero bosque- 
jo que clie nos ofterece do aspecto do um templário. — 
« Cabellos tosquiados, peilo erriçado, sujo de pó, ne- 
gro como ferro, crestado do rigor do tempo e do sol. . . 
Gostam dos cavallos fogosos e ligeiros, mas não ade- 
reçados, mosqueados, acubcrtados. O que pasma n'cs- 
Ic tropel, n'csta torrente que corre para a Terra 
Sancta ó que não vedes senão scelerados c Ímpios. 
Christo de um inimigo fez um campeão, do perse- 
guidor Saulo fez um S. Paulo." — Depois n'um elo- 
quente itinerário guia os guerreiros penitentes de Be- 
thlem ao Calvário, de Nazareth ao Saneio Sepulchro. 

O soldado tem a gloria, o monge a Iranqnillidade : 
o templário abjurava uma e outra cousa ; reunia po- 
rém o que ha de mais duro n'essas duas vidas, os pe- 
rigos o as abstinências. A imporlante Ijda da idade 
media foi a guerra sancta, as cruzadas ; o ideal das 
cruzadas parecia realisado na ordem do Templo. Era 
a cruzada convertida era fixa c permanenle, a nobre 
imagem da cruzada ispirittial, da guerra mystica que 
o chrislão sustenta até a morte contra o inimigo in- 
terior. 

Associados aos de S. João do Hospital na defensão 
dos logares sanclos, os cavallciros templários dilTeriam 
d'aquelles por ser a guerra mais particularmente o 
objecto de seu instituto : uns c outros prestavam os 
mais relevantes serviços. Que felicidade não era pa- 
ra o peregrino que viajava pela estrada puherulenla 
de Jaila a Jerusalém, c que imaginava caírem sobre 
elle a todo o momento os salteadores árabes, encon- 
trar um ca\alleiro, reconhecer a valedora cruz verme- 
lha na ca|)a branca da urdem do Tumpio ? Nas bata- 
lhas as duas ordens forneciiim por turno a vanguar- 
da e a relaguarila : no centro colloeavam-se es cruza- 
dos recem-ehegados e pouco afeitos ás guerras da .Vsia : 
us cavallciros os llaiiqucavam, c protegiam (diz alti- 
vamente um d'ellrs) como a.i mãcsaseti.t fillnK:. Es- 
tes passageiros auxiliares deurdinario retribuíam mal 
lanlo ulTecIu ; mai.s embaraçavam do que serviam us 
cavallciros. Arrogantes c fervorosos á chegada, findos 
em (pie se faria logo a seu favor um milagre, não fal- 
tavam a quebrar tréguas, nrraslavain os cavallriros 
a riscos inúteis, procuravam ser combalidos, o despe- 
diain-so deixandolhcs o pezo da guerra, queivando- 
se tle iiãu serem bem soccorridos. t>i templários for- 
uia\am a vanguarda em Mansourah, quando aquello 
uianccbu louco, conde d'Arlois, apesar do consclha 



110 



o PANORAMA. 



d'cUes, se obstinou a perseguir os inimigos arremel- 
tendo á cidade ; seguiram-n'o por brio os cavalleiros 
e foram todos mortos. 

Com razão se juigára que nunca seria de mais o que 
se Ozessc a favor de uma ordem de tanta dedicação 
e utilidade. Coiicederam-se-llie grandiosos privilé- 
gios : a principio não podiam ser julgados senão pelo 
papa : mas perante um juiz tão supremo e Ião remo- 
to ningHcm os requeria ; pelo que passaram os pró- 
prios templários a ser juizes nas causas d'ellei : e tam- 
bém podiam ser lestimunhas nas mesmas, tamanha 
era a fé na sua lealdade ; Era-lhcs defczo p.igar tri- 
buto a potencia alguma, e conceder qualquer de suas 
commendas por sollicitação de poderosos ou de mo- 
narchas. .Não podiam pagar nem direitos, nem feu- 
do, nem portagem. 

Qualquer desejara naturalmente participar de tão 
altos privilégios. O próprio ínnoccncio III quiz ser 
alliliado á ordem ; c Filippc debalde sollicitou o mes- 
mo. — Jlas quando mesmo a ordem não tivesse Ião 
grandes e magníficos privilégios, nem por isso deixa- 
ria de se lhe appresentar immenso numero de pes- 
soas. O Templo tinha para as imaginações um attrac- 
tivo de mystcrio e de terror vago : as recepções cele- 
bravam-sc nas igrejas da or<lem, de noite e á porta 
fechada: os membros inferiores eram excluidos d'el- 
las ; dizia-se que se o rei de França em pessoa lá pe- 
netrasse por certo que não sairia. O formulário da 
admissão era tomado de ritos dramáticos e singula- 
res, dos myslerios de que a igreja antiga não receou 
cercar as cousas sagradas. Primeiro o adepto era ap- 
presentado como peccador, máu christão, renegado. 
Negava a exemplo de S. Pedro; e a abjuração ex- 
priraia-se por um acto, cuspia na cruz ; a ordem en- 
carregava-sc de rehabilitar este renegado, e de o ele- 
var tanto mais quanto mais profunda era a sua que- 
da. Da mesma maneira na festa dos Inucos o homem 
offcrccia o preito da sua imbecilidade, da sua infâ- 
mia á igreja que o devia regenerar. Estas comedias 
ao divino, tie dia para dia menos compreheudidas, 
eram cada \ez mais perigosas, mais capazes de escan- 
dalisar uma epocha prosaica, que só via a lettra e 
perdia o sentido do symbolo. 

IVeste caso tinham outro perigo. O orgulho do 
Templo deixava n'cstas fMmulas um equivoco impio: 
o adepto podia capacilar-se de que além do christia- 
nismo vulgar a ordem ia revclar-lhc uma religião 
mais sublime, abrir-lhc um sanctuario por dctraz do 
sanctuario. Este nome do Templo não era sagrado só 
para os christãos : se para estes designava osancto 
sepulchro, aos judeus emulsumanns lembrava o tem- 
plo de SalosMão. A idca do Templo, mais elevada c 
mais geral do que mesmo a da Igreja, estará de al- 
gum modo sobranceira a qualquer religião. A Igreja 
tinha data e o Templo não a tinha ; contemporâneo 
de todas as idades era como um symbolo da perpe- 
tuidade religiosa. Ainda depois da ruina dos templá- 
rios o Templo subsiste, pelo monos como tradição, 
nas insinuações de grande numero de sociedades se- 
cretas, até os rosa-cruzes, até os franc-maçons (1). 

A Igreja é a casa do Cliristo, o Templo a do Es- 
pirito. Os gnósticos tomavam para sua grande festa 
não o Natal, ou a Pasclioa, mas o Pentecostes, dia 
em que baixou o Espirito. .Vté que ponto subsistiram 

(I) ii' possível que os templários que escaparam se coii- 
vertesseiH nas socieUailes secretas. Na Escócia desupparecam 
todos, ;i excepção de dois. Ora, teni-se observ.ido qneosmais 
secretos mysieríos da Iranc-niavoíieria se reputai» emanados 
da Escócia, e i|up os graus superiores são chamados escoce- 
res. Vide Orouvelle e os escriptores a quem seguiu, Muaier^ 
Moldenbawer, Nicolai, etc. 



estas seitas relhas na idade media ? . . . Foram a el- 
lasaffiliados os templários? . . . Taes questões, a des- 
peito das engenhosas conjecturas dos modernos, per- 
manecerão sempre obscuras pela insuDBcienEia dos mo- 
numentos. 

Estas doutrinas internas do Templo parece que a 
um tempo se querem manifestar e esconder. Julga-se 
que SC reconhecem nos emblemas estranhos esculpi- 
dos na portada de algumas igrejas, ou no ultimo cy- 
clo épico da idade media, nos ; oemas em que a ca- 
vallatia purificada não é mais que uma odyssea, uma 
imagem heróica e pia em demanda do sancto graal. 
como chamavam ao vaso que recolheu o sangue do 
Salvador. A simples vista d'este vaso prolonga a vi- 
da quinhentos annos : si) as creanças se podem chegar 
a clle sem morrer. A roda do templo que o encerra 
velam as armas os lemplislas on cavalleiros do Graal. 

Esta cavallaria mais que ecclesiastica, este ideal 
grave e sobejamente puro, que foi o remata da ida- 
de media e o seu extremo sonho, achava-se, por sua 
mesma elevação, estranho a toda a realidade, inac- 
cessivel a toda a practica : o templisla ficou nos poe- 
mas, figura nebulosa e scmi-divina ; o templário en- 
tranhou-se na brutalidade. fContinúa.) 



Um qcadro de miserus da vida iiimana. 

Vem um negociante da praça, ou logrador ou logra- 
do, jantar esplendidamente (depeis se farão os rateio; 
aos credores^, e determina ir n'aqaella tarde para a 
sua quinta ; o ar e-tá sereno, o sol claro e tépido, a 
estação risonha ; ahi estão as seges, os boleeiros lêem 
o porte c o cnapenado da Assembléa ; a família em- 
barca, o troto começa, a voz gorgeta sóa repetidas 
vezes desde a envernizada caixa até as orelhas do 
desavergonhado carrasco dos cstiticos cavallinhos ; 
mas alli a Sete-Rios, no meio da triumphal carrei- 
ra, outro demónio peior que o boleeiro da .■V.ssem- 
bléa, ou do Pilha-gatos, um carreiro, se atravessa 
diante com um carro de feno, que vem para consu- 
mo da cidade, c que \cm bem emparelhado em altu- 
ra com os próprios arcos das Aguas Livres, metle-se a 
sege, lá vão as senhoras com a sege lombada, amar- 
rotam-se as plumas, rasgam-se os filós, pcrde-se um 
indispensável, e era de França. . . primeira des 
graça. 

EmCm chega aquelle potentado ao seu palácio 
campestre. Um horisonte enganador lhe promette o 
mais agradável e salutar passeio. Vai passear em li- 
berdade, diz elle, e consiste esta em andar de jaque- 
ta ; porém os caminhos estão perdidos, os combros 
com as invernadas são immcusos, as pedras soltas 
são ás carradas, volla-se u discreto para fazer uma 
rcQcxão em Botânica a uma das seuboras da parti- 
da, dá uma formidável topada, c o pé, que lhe vai 
estalando dentro da envernizada bota , sotTre uma 
dór, que lhe faz acabar o discurso antes de o princi- 
piar. E isto não presta ? Continua o passeio a coxear, 
mas é preciso passar uma levada de agua, que vai im- 
petuosa, e para a passar apenas ha no meio das aguas 
umas pedras redondas ou agudas, postas em grandes 
distancias. As senhoras tremem, guincham, e fa- 
zem infernars caretas sobre esta perigosa ponte. Ei- 
lende o negociante a mão. mas na ultima pedra es- 
correga um pé á senhora, e dá comsigo n,i levada. 
Nova desgraça : porém o sol c o vento reparam em 
poucos instantes este funesto accidentc ; esquece esta 
primeira tribulação e tudo vai bem : mas de repen- 
te cobrc-sc o cóa de nuvens espessas, esconde-se o 
sol, c começam de se ouvir ao longe os ccbos dos tro- 



PANORAMA. 



fíí 



voes ; eis-aqui o nosso homem, tjue se linha adianta- 
do no passeio, a correr para casa ; mas o vento cres- 
ce em remoinhos, levanta nuvens de poeira, que de 
tal sorte lhe enche os olhos, que não pódc dar um 
passo ; caem golas d'8gua como castanhas, que lhe 
alagam o chapéu mais a jaqueta, e que são annun- 
cios de novas desgraças. O temporal cresce, os relâm- 
pagos são tão bastos que o deslumbram, e com um 
estrepitoso trovão, rasgando-se uma nuvem perpen- 
dicular, cáe em cima d'elle um diluvio d'agua que 
o submerge; foge, mas é preciso subir um outeiro 
que não é de granito primitivo, como dizem os natu- 
ralistas, é de barro, e tanta agua tem embebido, que 
atasca até o joelho ; o homem mais rccúa que adian- 
ta, e puxando um pé com força, lica-lhe lá uma bo- 
ta ; mas á força de trabalho lira a bota, calça a Lo- 
ta, e a chuva a cântaros em cima dVUc. E noite fe- 
chada, e ellc ainda está a meio caminho da casa; 
perdc-se no caminho, e querendo ir para Bemfica 
vai para o Calhariz. S,ic da porta crum palheiro um 
cão esfomeado, e tanto lhe ladra, e lanto o perse- 
gue, que o homem, curvando-se para acliar uma pe- 
dra com que lhe atire, escorrega, e dá uma formidá- 
vel cambalhota no meio d'um lameiro, onde conti- 
nua a chafurdar um quarto de hora. 

Depois de muitas fadigas, chega emlim a casa mo- 
lhado, enlameado, e morto de fome; mas os criados 
c as criadas, que pilharam os senhores fora, cuidan- 
do em divertir-se, descuidaram-se de fechar as janel- 
las da sala e da alcova, e está tudo um lago de agua 
que não ha onde pôr os pés: uns patos destinados 
para a ceia apanharam agua, e ahalarani, de sorte 
que não apparccem, nem apparecerão mais. Parece 
que tudo se reunira para o contrariar, c para lhe 
Consumir a paciencia.- 

Isto ainda é pouco : a casa campestre do senhor 
fica mui próxima á igreja ; ha um enterro de luxo 
aquclla noite, c o estouvado do sachristão deixou ir 
os rapazes para a torre, que se fazem a olho com os 
sinos, desafinadissimos, e um d'cllc3 quebrado. Isto 
é pouco. Tinham feito debaixo das jancllas um mon- 
te de estrume da altura do monte Cáucaso ; o vento 
que sopra, a chuva que caiu, fazendo fermentar 
aquelle thesouro do deus StercuUnu, como lhe cha- 
maram os romanos, o faz lambem exhalar um perfu- 
me que empesta as casas Iodas ; e um forno de lou- 
ça vidrada, que está na visinhança, as enche de um 
fumo tão espesso, que se nãu pódc respirar : da par- 
te de cima está uma eira de milho, c osladruesdos 
saloios a Iraballiar incessantemente com os compas- 
.sados manguacs. O estrondo c os assobios de um 
moinho de vento no próximo outeiro, não cessam 
nem de noiti; nem de dia, Uma ra(iosa, talvez que 
de dois pés, veio n'essa mesma noite :io (]uintal, e 
desiiovo(ju as capoeiras de tudo o que eslava esperan- 
do o momento da morte no dia dos aiinos da senho- 
ra ; e uns poucos de rapazes, sallando o muro da 
quinta, varejaram, verdes c maduros, os peecgos lo- 
dos, que se guardavam para a mesma funcção. 

Fatigado o nosso homem de tantas contrariedades, 
rcíolve-se a tornar para Lisboa ; mas lombando-se o 
carro de matto, caiu na calçada de S. Sebastião um 
caixote com ura apparclho de .Saxoiiia, que serua 
na partida das quiiitas-feiras, (jue a senhora dava ; 
tudo so fez em pedaços, quebrou-se um pé de um 
piano do lírhard, e esmigalhou-se de todo a guitar- 
ra das lições da menina. 

Com estes ineommodos fhega a casa, e saindo lU) 
outro (lia a d(!scontar uma íettra, virando alraz a 
cabeça na rua do Lamliaz, um homem que vinha na 
mesma dirceeã lhe deu tamanha marrada, que se 



I ouviu no adro de St." Catharina : caiu no chão, « 

I trazendo-lhe de uma casa um púcaro de agua, tod* 

lh'a entornaram por cima. Ao virar da Cruz-de-paa 

um cumprimenteiro seu conhecido lhe quer ceder o 

j logar da parede, o homem toma outra direcção, eo 

j outro a toma ao mesmo tempo, de sorte que* ambos 

por meia hora balanceiam ao mesmo tempo ora á 

direita ora á esquerda sem ninguém se decidir. 

Vem como arribado á rua larga do Lorete, ama 
rebanada de vento lhe leva o chapéu pela rua do 
Alecrim abaixo ; corre, e no instante cm que lhe ia 
a pegar, oulra rebanada de vento lh'o leva até o 
cães do Sodré ; uma nuvem de rapazes lhe dá uma 
apupada. 

Recolhe-se o homem a casa, janta, e quer dormir 
a sesta a ver se o fio das desgraças se rompe ou se 
interrompe algum instante, mas dois cegos, um com 
uma sanfona, outro com uma rabeca, e um rapaz 
com um pandeiro, se põem a tocar e a cantar mes- 
mo ao pé da janella do quarto debaixo, onde o ho- 
mem tem o escriplorio, c onde queria soccgar no seu 
camapé; e uns bárbaros que' moram no segundo an- 
dar, a darem mais dinheiro aos cegos para se não 
calarem. 

Quer o homem dar um passeio de tarde para vèr 
se, em ar livre, se lhe desempoeira a cabeça, e ape- 
nas sáe de casa encontra o seu lettrado, equerendo 
dar-lhe novas instrucções sobre um pleito que traz 
pendente em matérias de câmbios, linguagem mais 
inintelligivel que a dos cálculos, ura maldicto carro 
de fanico, carregado com vergas da ferro da Suécia, 
começa de fazer tal motinada atraz dos dois interlo- 
cutores que vão passando, que não entende palavra 
um ao outro, c o perlinacissimo carro tão obstinado 
em os seguir, que por fim se apartaram deixando as 
instrucções por fazer. 

J. A. DK M.iCEDo. — O Desapprovador, n.» 3, 

O CÃO DO NORTE DA SiBERU. 

Na expedição ao norte da Sibéria, feita por ordem 
do governo russiano, c dirigida por Mr. Wrangell, 
hoje almirante, teve este ciliciai de attender a lon- 
gos c dilliceis preparativos para a sua primeira ex- 
cursão no mar tilacial, apenas chegou a Kolima, que 
devia ser o centro das suas operações por espaço de 
trcs annos. Era mister assegurar a subsistência' dos 
membros da expedição por todo o tempo d'esla pri- 
meira entreprcza : cincoenla uarlas ou carrinhos tre- 
nós, puxados por seiscentos cães, eram necessários pa- 
ra conduzir viajantes, guias c abastecimentos, e só « 
sustento dessa legião canina era de per si gra<e. X 
actividade do commandantc e de seus amigos superou 
as dilliculdados ; provcu-sc de sulliciente peixe secco, 
dos trenós e dos seisienlos cães. 

O cão, fiel e ulil companheiro do homem nas di- 
versas regiões, entre os povos remotos sei)tenlrionaes 
suppre O cavallo ; équem accarreta seu dono por ci- 
ma da neve gelada c entre serras lluctuantos que 
atulham o littornl, e é quem o conduz á caça e á 
pesca, e a qualquer parlo onde o chamam as neces- 
sidades materiaes da existência. Conlenlaso com 
um pouco de peixe secco, e mesmo nem tem preci- 
são de satisfazer inteiramente o appotite («ara correr 
a perda de fôlego até o ponlo que lhe manam. — O 
cão cio iHii l' •!.' Sibéria parece-se singularmente com 
o lobo ; o loeinho loiígoe (loniagudo, as orelhas sem- 
pre lezas, o rabo lel|)U(lo, o pello iiii mor parle do tem- 
po basto como o dos cães da 'IVrra-Nova, dão-lIuMini 
aspecto scl>agoiii, o, forçoso é diío-lo, pouco ciipa/ e do 
in!i|iirar alToutoza ao viajante que nãu sabo distin- 
gui-lo ; uivu mais do que ladrit, mais outra semc- 



ua 



o PANORAMA. 



Ihança com o lobo. Fica exposto constanlenenle ao 
ar; é para rcsgaardar-sc das ferroadas dos mosquitos 
no verão sabe ca\ar locas na terra, ou enlão iDer^'u- 
Ihar-se na íigua, e assim passa tranquillo o dia todo : 
de inverno, para prcservar-s(; do frio, agacha-se cm a 
neve, ennoveiado e só com a ponta do focinlio des- 
coberta, lendo a precaução de cobri-la com a cauda 
espessa para a livrar da geada. A sua criação é tão 
mal tractada como a dos filhos dos sibcrios. O cão 
mais astuto e melhor ensinado põe-so na frente do 
tiro, porque d'ellc dependem a celeridade, o bom 
caminho, e não poucas vezes a segurança do viajan- 
te. Porém occasiõcs ha em que o instinclo vence a 
criação: se os cães topam com vesligios de animaes 
bravios partem na direcção que lhes indica o olfacto, 
puxando com assombrosa velocidade o trenó e seu 
dono; nada os poderia cm tal caso trazer ao bom ca- 
minho, sobre tudo se os estimulou a fome; comludo 
o instinclo superior do que vai na dianteira, que 
mostra entender o erro dos companheiros, c uivando 
enlão com toda a força, tomando o lado opposto á 
direcção que os outros seguem, como se descobrira 
alguma preia digna da sua avidez, lhes troca assim 
as voltas e consegue leva-los para o caminho recto. 
Também ás vezes é cllc quem conhece, no meio dos 
redemoinhos de neve que a tempestade levanta, o 
abrigo que erguera no deserlo mão provida para o 
viajante desgarrado. Tamanho é o apreço que os na- 
luraes fazem d'csla raça de cães, que, reinando uma 
epizoolia em que morreram milhares, a mulher de 
um sibcrio, para salvar dois únicos cachorros que 
lhe restavam de seus numerosos tiros, alimentou-os 
com o próprio leite ; fazendo os coUaços de um filhi- 
nho que a esse tempo desmamava. 

A FESTA DE PeTERHOFF. 

O Sr. marqucz de Custine teve a fortuna de se achar 
em S. 1'clersburgo na opocha d'csla brilhante func- 
ção, dia festivo assim para a córlc como lambem pa- 
ra o povo, c cm que por \ontade do imperador Io- 
das as jerarchias c classes se misturara e tomam par- 
le nos regosijos públicos dcnlro dos doniinios particu- 
lares do soberano, 1'elerholT é um caslello situado nos 
subúrbios da capital, e a tapada magnifica que o cer- 
ca c logar onde se ajunclam os curiosos, quer no- 
bres e militares, quer burguczcs e paizanos. — O ci- 
tado auclor descreve assim a illuminação da noite 
d'esse dia : 

« Dizem que no anniversario da imperatriz seis mil 
carruagens, trinta mil peões, e innumcravel quanti- 
dade de barcos saem de 1'etorsburgo para formar abar- 
racamcntos ao redor de PelcrholT. Parle da guarda 
imperial e o corpo dos cadetes tomam igualmente 
acampamento em torno da residência do autocrala ; 
e toda a gente, officiaes, sohiados, mercadores, ser- 
vos, amos c senhores \aguoam peias maltas, onde du- 
zentos c cincocnta mil lampeõcs expulsam assombras 
da noite. Dizem lambem que dcnlro em Irinta e cin- 
co minutos todos os lanipeões lio parque se accendem 
cmpregando-se mil c oiloccnlos homens: a parte da 
illuminação que faz frente ao caslello acccnde-sc em 
cinco minutos ; entre outras porções abrange um ca- 
nal que correspondo ã principal varanda do palácio c 
SC embrenha cm liiilia recta a grande distancia por 
enlre o parque, caminho ilo mar. Esta perspectiva c 
de cifcilo magico; a esteira d'agua do canal é de tal 
modo bordada de lumes e reflecte Ião viva claridade 
que se poderia lomar por fogo. () Ariosto ó que le- 
ria imaginação assaz cs|)lendida para descrever tan- 
tas maravilhas na linguagem das fadas : reinam bom 



gosto c phantasia no uso que alli fazem de Ião pro- 
digiosa massa de luz. Deram a diversos grupos de 
lampeões, engenhosamenlcdispostos, fórmasorigiaacs, 
são fliJrcs da grandeza de arvores, soes, vasos, parrei- 
ras de pâmpanos imitando as pérgolas italianas (IJ, 
obeliscos, columnas, muralhas á mourisca ; emGm, 
um mundo phantaslico vos passa diante dosolhossemL 
repousardes a vista, porque as maravilhas succedcm- 
se umas a outras com incrível rapiílez. Dislrahem-vos 
de uma forlificação de fogo as roupagens e rendas que 
fingem pedrarias finas ; tudo brilha, tudo arde ; é l 
ciiamraa e o diamante : teme-sc que o magnifico es- 
pectáculo remate u'um monte de cinzas como um in- 
cêndio. Porém sempre o mais admirável, observado 
do palácio, é o grande canal que semelha a lava im- 
movel n'um bosque abrazado. Na extremidade do ca- 
nal altca-sc sobre uma enorme pyramide de fogos ar- 
tificiaes de cores (que tem, pelo meu calculo, 70 pés) 
a firma da imperatriz, brilhando com alvura rclozea- 
te em cima de todos os lumes vermelhos, verdes e 
azues que a cercam ; dir-se-hia uma pluma de bri- 
lhantes rodeada de finas pedras de varias cores. To- 
do se mostra cm tão vasta escala que du\idareis do 
que se vos palcntea. — Na festa cm si ha lambem 
um não sei que prodigioso : fullo dos episódios a que 
dá logar. Durante duas oji trcs njites toda a multi- 
dão, que mencionei, acampa cm circuito da povoa- 
ção, e espalha-sc a muito grande distsp.cia do caslel- 
lo. Jluilas senhoras dormem nas carroagens, ecscam- 
ponezes nas suas carreias : lodos os variados trens, 
meltidos aos centos em cercados de tábuas, formam 
arraiaes mui curiosos de ver, c que são dignos do pin- 
cel apurado de algum artista engenhoso, u 



Prtov.vs JUDici.VRi.vs >A Geurgica. 

.V LEI admittia n'este paiz, hoje sujeito ao império 
da Rússia, três qualidades dislinctas de provas para 
se descobrir a verdade : o ferro era braza, a agua a 
ferver , c o duelo. 

Prova de ferro em hraza. Punha-se uma folha de 
p.ipel cm cima da mão do accusado, e sobre o papel 
o ferro em braza; se depois do ler dado Ires passos, 
c de se ter tirado o ferro, a mão não apparcccsse 
queimada, dcclaravam-n'o inoucente. D'esta prova 
só se fazia uso em caso de traii>ão, roubo de igreja, 
o adultério. 

1'roca (laijua a ferrer. Deilava-sc dentro dum 
vaso cheio d'agua c posto ao lume, a cruzinha que 
de ordinário os georgianos trazem ao peito ; assim 
que a agua começava a ferver tiravam a vasilha do 
lume, c o accusado devia, em nome de Deus, tirar a 
cruz ; depois d'isto mettiain-Ihc a mão n"um saqui- 
nho muito bera atado, e lacrado ; se ao terceiro dia 

! a mão não tivesse signal de queimadura davam por 
innoccnte o accusado. 

I'rora pelo duelo. — O dcnuncianle c o accusado 
encommendavam-se a Deus por espaço de quaronU 

j dias. Acabado o tempo ilas rezas pcnduravam-lhcs ao 
pescoço c nas lanças liras de | apel em que estavam 
escripias breves orações. Depois d'drmados entravam 

i na liça la''eados dos padrinhos muniilos dVscudos e 
chicotes. O combale a que o rei assistia continuava 
alo um d'elles vir do cavallo abaixo. Então os pj(- 
drinhos o traziam á presença do rei, como convenci- 

i do da culpa, para fazer dcllc o que lhe approuvessc. 

I -Vs armas do vencido ficavam pertencendo ao vence- 
dor, e o seu cavallo aos padrinhos do ultimo. 



(I) Parreiras sustidas por culurauas ou pilastras. 



13 



O PANORAMA. 



lis 




S. M. CATHOLICA, D. ISABEL II. 



Os CASAMENTOS das augustas fílhas de Fernando VII 
deram largo thema, antes de verificados, á imprensa 
politica; e ainda tccm continuado a fornecer texto pa- 
ra muitas columnas a narração das solemnidadcs e fes- 
tejos que se llies seguiram. Algans jornaes francezos 
lembraram-se (ie publicar por osta occasião as noticias 
dos precedentes enlaces matrinjoniacs entre as casas 
soberanas de llespaiiha e Franca. Uesiiniiremos a rc- 
laçiio do ultimo, porque mostra a diplomacia e etique- 
ta do século passado n'cstcs negócios. — 

Luiz XV, que em 'i(i d'agosto de 173!) concedeu a 
mão do sua lillia , Maria l.uiza Isabel de França, 
ao príncipe das Astúrias, lierdeiro presumplivo da 
coroa d'IIespanha, resolveu-se, pelo liin de 1741, a 
estreitar por novo matriuionio os laços que; uniam as 
duas reaes fauiilias. <^)m elíeilo, foi o bispo de Krn- 
nes enviado oHicialmente i còrle de Madrid eoin o 
caracter de embaixador extraordinário e a commis- 
são de pedir para o delpliim de França a mão da 
prinecza .Maria Ibereza Antónia. A (i ile dei^enibro 
eliegou a Madrid, e a H o mordomo de seuiana de 

Voi. 1. — Dexuuuuo 12, 1810. 



Filippe V o conduziu com grande pompa a palácio 
n'uma carroagem da corte. Abriam o préstito trinta 
e seis lacaios com librés, vestidos com elegância c ri- 
queza, em duas linlias c precedidos de dois suissos a 
cavallo ; seguiam-se seis moços da camará, e o mor- 
domo ia .1 sua frente, de faida escarlate bordada de 
ouro. Vinbam depois o escudeiro do bispo, também 
de farda escarlate agaloada em todas as costuras, 
acompanbado de seis formosos pagens, vestidos de y%- 
ludo carmezim, e a carroagem que trazia o embaixa- 
dor e o mordomo de semana ; dois palafreneiro» tom 
a libré da casa real marchavam conduzindo os cavai- 
los de eslado ; seguiam quatro carroagens do embai- 
xador tiradas cada uma por seis mulas ricamente ajae- 
zadas : as duas primeiras iam vasias, na terceira ia 
o esmoler do bispo de Kennes com mais quatro sacer- 
doles, e occupavam a quarta quatro gcntisliomeus ves- 
tidos de casacas de veludo pardo : a carroagem do 
uiordoin(i, tirada a i|iiatro, e guiada por um cocheiro 
e um postilhão cerrava i> préstito. 

A comitiva, depois de haver «travessado a cidade, 
entrou no paço do Kcliro pelo pateo das cosinhas, « 



11 i 



o PANORAMA. 



alli foi recebida por uma companhia das guardas hes- 
panholas c oulra de guardas valonas, formadas em 
alas: desfilou depois no pateo principal afim de que 
SS. MM. podessem vè-la das janeilas. O embaixador 
e mordumu se apearam, atravessaram os corredores 
onde estavam postados os alabardeiros, e subiram á 
regia habitação pela escada principal. — O duque 
Bousuonvillc, capitão das guardas de serviço, á fren- 
te da ollicialidade do corpo saiu a receber o embaixa- 
dor, o qual se adiantou entre alas das guardas até 
a casa que comuninica com a sala de audiência, on- 
de o esperava o secretaiio de gabinete. El-rei entrou 
na sala pouco tempo depois, e se collocou no extre- 
mo mais immediato ao seu aposento, e ainda que ti- 
nha ao lado uma cadeira se conservou de pé e se co- 
briu, assim como todos os grandes (i'Ilespanha que 
estavam em fileira ao longo da parede : mais além, 
em seguida, estavam os mordomos de semana, e de- 
fronte ao lado direito OS gentishomens da camará que 
não tinham litulos de grandeza ; tendo-se deixado um 
espaço entre o rei e ellet para os embaixadores e mi- 
nistros estrangeiros. O resto da sala estava occupado 
por grande numero de pessoas de todas as classes, po- 
rém bem trajadas. O secretario de gabinete disse era 
alta voz que o embaixador extraordinário de S. M. 
Christiauissima esperava licença para entrar ; el-rei 
mandou que fosse introduzido á sua presença ; o bis- 
po, que se revestira de roquete e pozera a mitra, en- 
trou imuiediatamente, seguido do seu secretario, pe- 
la porta que fazia frente ao logar onde se achava o 
rei, e depois de haver feito as três reverencias do cs- 
tylo fallou a S. M. em latim: concluído o discurso, 
declarou o objecto da sua missão : o rei levou a mão 
ao chapéu e o embaixador se retirou tendo feito as 
cortezias do costume. 

A saida da audiência real dirigiu-se o bispo aos 
aposentos da rainha ; esta achava-sc á missa com as 
princezas suas filhas. O embaixador, tendo esperado 
um puULii, teve aviso de que a rainha, havendo-se 
concluído o oflicio divino, o receberia, c foi introduzi- 
do á sua presença por um mordomo, que repetiu em 
voz alia o nome e dignidade do bispo. A sala appre- 
sentava o seguinte aspecto: a rainha debaixo do do- 
ccl, duas infantes a seus lados, as damas do seu ser- 
viço por detraz ou na mesma linha das infantas, as 
damas de honor e os grandes do reino em frente, e 
ao lado destes os embaixadores e ministros estrangei- 
ros. O bispo de Reúnes, depois de fazer três profun- 
das reverencias á rainha c duas ,ís infantas, pronun- 
ciou a sua arenga, mas em francez, c poz nas mãos 
da camareira mór as cartas dirigidas á rainha e ás 
infantas, depois do que se retirou descoberto como 
tinha fallado, porquanto a corte de Hcspanha j;i ha- 
via adoptado o uso da franceza, de fallar :is scnhorau 
de qualcpier jerarchia com a cabeça descoberta. O em- 
baixador teve de appresentar-sc lambem ao príncipe 
das Astúrias ; porém do quarto d'esto já se havia des- 
terrado parte da etiqueta, porque a prínceza das .\s- 
turias, l.uiza Isabel, filha de Luiz \V, linlia mani- 
festado a sua predilecção pelos usos da corte de Fran- 
ça. Seui embargo d'isso, apparecendo n'cssa occasião 
o infante cardeal, tiveram de gitardar-se as ceremo- 
nias hespauholas, de que o mesmo infante era rigido 
obscrvíidor. 

No dia 13 ás sele horas da noite verificoH-se a cc- 
remonia da assignatura do contracto na sala da au- 
diência do rei. Estará esta sala magnificamente ador- 
nada e illuminada. No extremo mais visinho do apo- 
sento d'elrei estavam as cadeiras para este c a rainha, 
e á esquerda d'esla havia outras seis collocadâs em fi- 
leira para o priacipe c priuccza das Astúrias, o in- 



fante cardeal e as infantas lliria Thereza e Maria 
Antónia. Um poueo antes da cl:ej;ada de SS. MM. 
sairam da sala os que por seus eM:prego3 não tinham 
direito de assistir á ccremonia, e fi aram somente oí 
principaes empregados da casa real, os grandes d'Hes- 
panha, e os gentishomens da cauiara collocados em 
duas fileiras á direita e á esquerda, os mordomos de 
semana, olliciaes da guarda de Corpo, e alguns da 
guarda d'infanteria, os dois secretários de estado, o 
inquisidor geral, o presidente do conselho de Castel- 
la, alguns bispos, e a final os confessores d« rei e da 
rainha. Os ministros estrangeiros tinham logar por 
detraz das cadeiras de SS. MM. Quando todas as pes- 
soas da f^milia real tomaram assento, cada um dos 
assistentes se collocou no posto que haria occupado 
nas eeremonias anteriores, e os grandes d'Hespanha 
de todas as classes ficaram defronte do rei e da rai- 
nha : o embaixador de França assentou-se n'uma ca- 
deira de respaldo ao lado esquerdo do monarcha. O 
marqucz de Ussart, secretario d'estado e notário mór, 
fez preparar uma mesa coberta com uma alcatifa, a 
quiil com dois castiçaes massiços de prata mandou 
pôr diante do rei. O mordomo mór deu uma panca- 
da de bastão no pavimento, e o sobrediclo secretario 
d'eslado, de pé e de cabeça descoberta, começou a 
ler em voz alta o contracto de matrimonio. Concluída 
a leitura, que durou Ires quartos de hora, o rei e a 
rainha assignaram. A rainha mandou á infanta Maria 
Thereza que se chegasse e assignasse na sua presença. 
Depois foi collocada a mesa diante de cada pessoa da 
família real, e todos foram assignando por seu turno. 
Do contracto se fizeram dois exemplares, um para H«s- 
panha em hcspanhol, outro para França em francez. 
Deiiois assignou o bispo de Kennes como procurador 
do rei e do delphim de França. O marquez de Villa- 
rias, o almirante de Castella e o inquisidor geral ha- 
viam assignado antes da ceremonia como commissa- 
rios. Os officiacs mores da casa, os capitães das Ires 
companhias das guardas de Corpo, um considerável 
numero de grandes e gentishomens da camará, os dois 
secretários de estado, alguns bispos c os dois confesso- 
res, posto que designailos como testimunhas. não assig- 
naram. 

.\o dia 18 á noite o palriarcha das Índias celebrou 
o matrimonio religioso. O príncipe das .\sturias, em 
virtude de auctorisação expressa de Luiz XV, repre- 
sentou a pessoa do delphim. À ceremonia foi mui sin- 
gela, e só fi>ram presentes a real familía, alguns gran- 
des d'Hespanha e seus primogénitos, e algumas da- 
mas do paço. 

A 20, depois de um grande banquete, celebrado 
em |)ublioo segundo o costume, a delphina rereben a 
benção de seus pais o rei ca rainha de Hespanha, 
dcspediuse de seus irmãos, c deu beijanião aos con- 
currentes. Depois, acompanhada somente do prinri- 
|ic e prinreza das Astúrias, c seguida de toda a em- 
baixada franceza, saiu de Madrid : a uma légua d'es- 
ta corte subiu com uma só dama de honor á carroa- 
gem que para esse eiTeito lhe linha enviado o rei de 
França. O conde de Montijo, encarregado de condu- 
zir a princeza até onde a esperavam o conde I.anra- 
giiais e os commissiouados francezes, tooion ent.ío o 
mando da escolta, c lodos se pozeram a caminho pa- 
ra a fronteira de França. Chegados a Fiicnlcrrabia, 
onde csperaTam já a delphina havia muitos dias os 
criados de sua casa e os oOiciaci da cseolla franceta, 
recebeu ella da parle do rei seu sogro, e por mão da 
cavalheiro La Fare, seu cstribeiro o retraio do del- 
phim c vários presentes da etiqueta O conde de Lau- 
raciiiais por parle da França c o de Montijo pela de 
Uespanha, assistidos dos respectivos secret.irio5, rega 



o PANORAMA. 



115 



laram em breve todas as formalidades da entrega da 
princeza. VcriQcou-se esta entrega na celebre ilha dos 
Faisães, situada no meio do rio Bidassoa, sobre o qual 
se lançou uma solida ponte de madeira. Depois na mes- 
Oia ilha se levantou um pavilhão composto de dois apo- 
sentos separados por uma grande sala, servindo esta, 
de certo modo, de fronteira ;ís duas nações, cujos re- 
presentantes rivalisaram cm gosto e magnificência pa- 
ra adornar os seus respectivos departamentos. Do lado 
dos francezes chegava-se ao pavilhão por uma rua de 
arvores magnifica, chamada rua de Franca, formada 
de 130 pinheiros assentados alli no dia antecedente, e 
adornada com grinaldas de louro, murta e flores, com 
divisas galantes em papeis de côr. 

No dia í'i a delphina apeouse da carroagera ;í en- 
trada da ponte da parte liespanhola, e passou a pé dan- 
do-lhe a mão o conde de Montijo, seguida dos liespa- 
nhoes que a tinham acompanhado na jornada. Logo 
que chegou ao pavilhão descanrou um momento debai- 
xo de um docel com as armas de Hcspanha, e depois 
entrou no dcparlamcnlo da sua nação sem mais deten- 
ça que atravfssa-lo, e por ultimo passou á grande sa- 
la, onde se verificou a entrega de sua pessoa aos caval- 
leiros francezes, os quaes assignaramde \ic o Icrmo de 
recebimento. Terminadas estas formalidades, a prin- 
ceza comprimcnteu o condede .Montijo, deu-Ihe a mão 
a beijar assim como aos mais hespanlioes e os despe- 
diu. Depois, datiiio-lhe a mão o conde de Lauraguais. 
passou ao departamento fr.incez, onde recebeu as feli- 
citações c homenagens dos genlishoracns e o juramen- 
to dos criados de sua casa. A duqueza de Brancas, sua 
dama de honor, e a marqueza de Uubempré, sua ca- 
mareira, lhe appreserilaram o guarda-roupa que lhe 
enviava o rei de França ; a princeza mudou logo de 
vestidos, entrou para a carruagem, e deu ordem de 
marcha para Paris. 

As particularidades das festas que se fizeram cm 
honra d'esla princeza nas cidades por onde passou, c 
sobre tudo em Paris, não serviriam senão de tornar 
mais triste a recordação de seu fim prematuro, pois 
que morreu sobre parto a -26 de julho de 17Í-7, ain- 
da não decorridos dois annos de casada : sou filho não 
lho sobreviveu. O delpliim casou depois com a prin- 
ceza de Saxonia, Maria Joselina, e teve d'clla Ires fi- 
lhos c duas filhas, que foram, o desditoso Luiz XVI, 
Luiz XVIII, Carlos X, c as princazas Clotilde c Isabel 
de França. 

Génio dos riNLANDEaE.s. 

A rsTRAn* de Abo a Ilelsiugfors é conservada cuida- 
dosamente em bom estado, mas c silenciosa e deser- 
ta : no espaço de sessenta léguas não existe uma ci- 
dade, uma aldeia. Km todo o tempo que gastei a 
percorre-lo creio que não encontrei seis viajantes : o 
seu aspecto, em summa, asseiaelha-se ao (|ue já eu 
linha observado em muitos pontos da Suécia : ora se 
passa por meio d<; um l)us<|ue de abetos c de bétulas, 
ora se trepa um outeiro semeado de penedos, ora se 
desce a uma planura de areal por onde corre mansa- 
mente um ribeiro. A poucas milhas de Biesherg vi 
uma cataracta e uma ferraria. i'ouco mais ao longe 
dc3cortina-se algum lago cercado |)or uma ourela de 
arvoredo ou por muralhas de idcliedos granitosos Os 
mais formosos lagos da Finlândia aeliam-su nat pro- 
víncias de Savolax e Careliii, (pie pela IVeseura dos 
vallcs c as verdes laileiías das eiuineiu:ias (razem á 
lembrança o paiz variailo e picluresco da l>al<'earlia. 
— Westc solo pedregoso e areento. eubrrlo a(|ui de 
musgo, c acolá erriçado de malto, nnde i|urr ([ue ha 
uma cuurellu do terreno aruvel c cullivudu cuiii in- 



telligencia e perseverança. Os finlandezes são muito 
bons agrónomos; nem o trabalho da lavoura, nem a 
intemperança das estações, nem a natureza rispida 
que illude os seus esforços, os amedrontam : tem le- 
vado a relha do arado além do circulo polar, e colhi- 
do cevada nos confins da Laponia ; onde houver um 
campo lavradio assentarão uma vivenda. De ordiná- 
rio nãe é mais do que uma barraca mesquinha e de 
madeira, de alguns pés d'alto, sóallumiada por uma 
clarabóia, c mais parecendo um pombal do que hu- 
mana habitação ; sem embargo, é bastante para ani- 
nhar uma familia inteira ; d'ella saem homens robus- 
tos, acostumados a todas as privações, rijos para to- 
da a casta de fadigas, e mulheres que ostentam o ty- 
po augusto da belleza sob os trajos da penúria. Dia 
virá cm que a ninhada, mantida a batatas e leite aze- 
do, largará o seu pouso ; assoldadam-se rapazes e ra- 
p.irigas, e de seus salários levantam um piedoso dizi- 
mo para seus pais já velhos, que com o auxilio d'es- 
tc soccorro filial acabam com certa commodidade a 
vida começada cm lidas e fraguas. 

Os paisanos finlandezes estão capacitados de extra- 
vagantes superstições. Esta gente simples e ignorant* 
crê na existência de uma turba de espíritos mais ou 
menos malfazejos que influem poderosamente nos des- 
tinos dos homens. .\"algiins districtos imaginam que 
os mortos podem, lá em certas epochas, visitar as suas 
casas, e como os vivos não lêem a menor cubica de 
os tornar a ver, por isso Icmbraram-se de usar de um 
expediente singular. Põem o caixão dodefuncto, quan- 
do o levam ao cemitério, que é sempre longe, em cima 
do carro que no andar dá mais solavancos, e gniam- 
n'os pelos carris e azinhagas mais ásperas e intracta- 
vcis, afim de que o corpo vá bem balouçado e sacu- 
dido ; isto (dizem tllesj para que os defunctos lá na 
cova se lentbrem de tão ruim caminhada e lhes fuja a 
tentação de voltar ao sitio d'onde foram transportados. 



Carlos VI e os seus cortezãos. 

E.M 1.'580 caiu a França nas desgraças de uma meno- 
ridade : Carlos VI se achou de posse do throno na 
idade de doze annos. A regência pertencia ao duque 
d'Anjou, que ambicioso e avarento queria dinheiro 
e [loderio ; o duque de Berry era cxcluidu dos negó- 
cios ; a lulella estava confiada aos duques de Borgo- 
nha c de Bourbon, igualmente tios do rei menor: es- 
tes dois, invejosos c turbulentos, não contentes ila par- 
le de auctoridade que lhes tocava, (lueriani coarctar 
a do regente; e todos elles, desprezando os interesses 
do povo, não curavam senão ilc segurar os seus pró- 
prios. Os arredores de Paris foram desa|iiedajamen- 
te devastados pelos partidários que estes sediciosos por 
alli juiu:laram, na intenção de crearem um regime a 
cujo abrigo o sen despotismo e rai)inas ficassem im- 
punes : — foram tamaulias as desordens que se esta- 
beleceram árbitros obrigados a intervir n'ellas. De- 
cidiu-se (ine a coroação teria logar a % de novembro 
seguinte ; que a regência cessaria então, que o rei go- 
vernaria em seu nome, assistido comludo de um con- 
selho de (jue seus tios firiam parte. O diniue d'An- 
jiiu, certo da lran(|uilla posso do poder, ao nieuos por 
alguns niezes, ijuiz aproveita-los ; nada iguala o des- 
caramento de sa(iuear a que se entregou ; apossou-»e 
até das jóias e baixella da coroa, e não se eiwergo- 
nhou lie ameaçar de morte o confidente do defuncto 
Carlos V, se lhe não descobrisse o lugar em que es- 
lava o thesouro de dezesete milhões (jue aqurlle MO- 
nanha culligira : o temor do supplicio quebr.intou IX 
fidelidade, c loi satisfeita a avareza do rcfc'ente. 



liG 



O PANORAMA. 



Sendo grave o peso dos impostos, e constando que 
o rei fallecido recommcndára na soa hora derradeira 
que fossem supprimidos todos os que se havi»m lan- 
çado depois de rilippe o formoso ; como a corte não 
tinha pressa de cumprir a ultima vontade de Carlos 
V, o povo amotinou-se, e o conselho viu-se na preci- 
são de convocar os Eslados-geracs ; mas esta asscm- 
bléa foi frouxa e dividida entre si ; e tanto o conhe- 
ceu o regente, que renovou, apenas dissohida, todos 
os tributos cuja abolição cila havia sanccionadu. Foi 
este acto o signal de um levantamento em Paris e 
muitas cidades. Não dcscrevcrcmes scenas de exces- [ 
SOS, dclirios c horrores : a França eslava tão desgra- 
çada quanto, alguns annos antes, havia sido podero- 
sa. A expedição a favor do conde de Flandres, perse- i 
guido pelos súbditos rebellados, veiu dar motivo a no- 
vas calamidades, e peior aconteceu com outra, ar- 
mada pela ambição do duque de Anjou : — foi um i 
projecto de conquista na Itália. 

Traclava-se do reino de Nápoles onde reinava a 
posteridade de Carlos d'AnJ9u. A rainha Joanna, na 
sua varia fortuna, achande-se sem descendência havia 
escolhido por herdeiro Carlos Durazzo, descendente ' 
como ella do irmão de S. Luiz. Estava então no seu | 
auge o grande scisma pontificio : Urbano VI em Ro- 
ma, Clemente VII em Avinhão se excommungavam 
reciprocamente. O primeiro depoz Joanna, porque se 
declarara a pró do seu competidor, c foi tão immo- 
ral que ordenou ao próprio Durazzo se armasse con- 
tra a sua bemfeitora ; Durazzo foi tão vil que obede- 
ceu ús vontades do papa. Então a rainha napolitana 
retractou a sua doação, e nomeou para successor o 
duque d'Anjou, irmão de Carlos V de França, a 
quem a esperança de uma coroa conduziu á Itália. O 
papa Clemente VII devia naturalmente proteger o 
duque de Anjou; auctorisou-o para levantar dizimos 
e excommungou a Durazzo e aos que o seguiam. O 
duque passou os .\lpes com um exercito de srisenta 
mil homt iis ; não duvidava do triumpho ; mas já o 
seu rival se tinha assenhoreado de Nápoles e metti- 
do cm prisão a rainha Joanna, a quem mandou es- 
trangular á chegada do exercito franccz, assim como 
ella em outro tempo fizera estrangular o seu primei- 
ro marido. O duque procurava o inimigo para o com- 
bater ; Durazro que conhecia as suas vantagens não 
as quiz arriscar n'uma batalha ; limitou-se a inquie- 
tar o contrario, que por deserções se ia enfraquecen- 
do. Os thesouros de duque esgotavam-se ; sua mulher 
lhe transniiltiu novos recursos pecuniários, e encar- 
regou um confidente de os ir receber a Veneza, mas 
o valido apossou-sc do dinheiro e o dissipou. O du- 
que de .\njou, desesperado, devasta os territórios que 
atravessa ; arremeçase furioso a uma partida d« ini- 
migos que encontra, recebe uma ferida no conflicto, 
enferma por algum tempo c morre. Os fragmentos 
dispersos do seu exercito se recolheram para onlrisle- 
cer a França cora o espectáculo do seu desbarate. 

Pouco tempo depois d'aquella malograda eipedi- 
cãe, Carlos VI tomou por mulher Isabel de Ba\icra, 
que por seu caracter ambicioso, e alma dcshumana, 
lanto mal foz a França. O conselho ilos príncipes go- 
vernava sempre, apesar da maioridade do rei, que 
contava dczcseis annos. Novas sedições na flandres, 
sustentadas por tropas inglezas, assustaram o duque 
de líorgcinha. O conselho assentou de mandar á In- 
glaterra uma armada formidável , afim de castigar 
por uma vez a insolência da nação rival. O miserá- 
vel estado da fazenda publica, continuadamente sa- 
queada desde a morte de Carlos V, era um piuieroso 
obstáculo ao cumprimento d'eslc desígnio. Dobraram- 
se todos os impostos, e alem d'isso estabclcceu-sc um 



empréstimo forçado para acudir as enormes detpezas 
que exigia aquelle armamento. A oppressão era tal 
que o povo não ousou murmurar ; a própria nobreza 
foi sujeita á derrama geral ; e o clero, oulr'ora tão 
cioso das suas immunidades e arrogante, já não pos- 
suindo mais que a sombra d'ellas, obteve por privi- 
legio único o dar a titulo de donativo a collecta que 

governo lhe podia extorquir á viva força. 

Foi no porto de FEcIusl que se ajunctaram todo* 
os navios para esta formidável empreza. Uma frota 
de trezentas velas, que devia levar o rei, os prínci- 
pes c um exercito de cem mil homens, se reuniu com 
brevidade. Na Bretanha embarcou o madeirameato, 
para assim dizer, de uma cidade inteira, que serviria 
de alojamento c de trincheiras ás tropas depois do 
desembarque. A Inglaterra, assombrada d'este im- 
menso apparato, moveu-se em pezo ; ali o clero cor- 
reu ds armas : parecia inevitável uma invasão terrí- 
vel ; e todavia os colossaes projectos da França fica- 
ram em nada. O duque de Berry devia trazer tropas da 
Guyanna ; porém os inglezes oíTereceram-lhe dinheiro 
e deu causa a falhar a expedição com delongas coati- 
nuadas. A. esquadra que transportava a famosa cidade 
de madeira, conduzida da Bretanha a Eclusc pelo con- 
destavcl Clisson, foi accommettida de horrorosa tor- 
menta que dispersou os navios, um dos quaes á dis- 
crição das vagas foi dar ás praias d'Inglaterra, como 
para informar aquella nação de que os elementos cons- 
piravam para desconcertar os desígnios da sua adver- 
saria. Uma parte do exercito que estava para o desem- 
barque foi ás ordens do duque de Borgonha guerrear os 
flamengos; ea Inglaterra ficou desaffrontada de sus- 
tos. 

Mas o rei não abandonara inteiramente o seu pla- 
no da invasão. Equiparam-sc em segredo nos portos 
de Treguier e de Ilarfleur navios e soldados : o con- 
destavel passou á Brstanha para tomar o commando 
da armada. O duque da Bretanha, cioso dos amores 
que suspeitava entre sua mulher e Clisson, com ma- 
nha attrahiu este a Vannes, fe-lo agarrar e metter 
D'um calaboiíçi); fnra a sua Itnção mata-lo, mas o 
criado de confiança, a quem dera ordem de o preci- 
pitar durante a noite no mar que banha as muralhas 
do torreão, horrorisou-se á idéa d'este crime, e não 
teve forças para consumma-lo. O duque, arrependen- 
do-se, renunciou os seus projectos de vingança : mas 
não saltou o prisioneiro senão pelo preço de muitas 
praças fortes c de una considíravel quantia. Clisson, 
furioso, appresentou-se em Paris a pedir justiça ao 
rei. O duque foi chamado, c pretendeu justificar-se ; 
o rei exigiu a restituição das cidades e do preço do 
resgate, e reconciliou os dois inimigos. Pela segunda 
vez se renunciou a expedição contra Inglaterra. 

Fatigado do jugo de seus lios, o rei d«clarou que 
queria reinar independente ; escolheu ministros, re- 
tirou do governo do Langucdoc o duque de Berry, 
mandou queimar vivo Bctizac, confidente d°este prín- 
cipe e agente de todas as dilapidações, constituiu per- 
manente o parlamento, e excluiu d°elle os abbades e 
priores como Philippe o longanimo já linha desvia- 
do os bispos ; depois dou funcções esplendidas e tor- 
neios, cm que o duque dOrleaus, seu irmão, c mes- 
mo clle tomavam parte. A cõrlo mudara totalmente 
de aspecto ; a rainha e a formosa Valenlina de Mi- 

1 Ião, sua cunhada, ostentavam o brilho da mocidade 
juncto á bellcza : mas a prodigalidade do monarcha 

. contrastava com a penúria do povo. .Não se cuidava 
'senão de divertimentos, qu.indo a tentativa de assas- 
sínio na pessoa do oondestavel Clisssn por m.indado 
j do duque de Bretanha veiu consternar os ânimos : « 
perpelrador era Pedro de Craon, o infame que rou- 



o PANORAMA. 



117 



bara o espolio do duque d'Anjou na Ilalia ; «vadiu- 
se para a Bretanha. O rei exigiu que Monlfort ]h'o 
entregasse; poréta o duque recusou. Então Carlos VI 
resolveu fazer guerra á Bretanha, para vingar o con- 
deslavel, que convalescido das feridas continuava a 
gozar do favor da corte : os tios do rei, ciosos da as- 
eendencia que grangcára Clisson, procuraram oppôr- 
se áquelle projecto ; mas Carlos VI, impetuoso e ab- 
soluto, quiz leva-lo a cabo. Poz-se á testa de ura exer- 
cito, e atravessava o bosque de Mans quando ura ho- 
mem vestido de branco, postado verosimilmente pe- 
los príncipes, mas que a imaginação fraca e exaltada 
do rei tomou jior espectro, saltou d'entre a malta 
cortada, o agarrando-lhe no freio do cavallo bradou: 
« /Iclrocede, ó rei; estás at'-aiçoado ! » O infeliz nio- 
narclia ficou mudo de assombro ; comludo a marcha 
progrediu ; de repente o casual embale de uma lan- 
ça n'um capacete o transporta de furor e de espanto 



a um tempo ; e declara-se violentamente n'esse mo- 
mento a demência que tinha de durar toda a sua vi- 
i da. Com trabalho o seguram e conduzem a Paris ; os 
I duques de Berry e de Borgonha apossam-se da auc- 
j toridade ; Clisson, a quem detestavam e queriam dei- 
I lar a perder, viu-se obrigado a fugir; e foi despoja- 
do da dignidade de condestavel. O rei, recobrado o 
juízo ao lim de seis mezes, apenas teve tempo para 
approvar tudo quanto se fizera durante a sua aliena- 
ção : um accidcnte, succedido n'um baile, lhe moti- 
vou novo accesso ; desesperaram de o curar : recahi- 
das frequentes o determinaram a nomear um conse- 
lho de regência, á tesia do qual collocou seu irmão : 
aqui tem principio a sanguinolenta rivalidade das ca- 
sas de Borgonha e de Orleans, fonte de tantas dis- 
córdias que não particularisamos por não ser nosso 
intento n.irrar os acontecimentos de uma época intei- 
ra da historia da Franca. 




Por este tempo appareceram pela primeira vez as 
cartas de jogar, que foram inventadas (ignora-se dc- 
rinitívamente por quem) para entreter os lúcidos in- 
tervallos que a loucura deixava ao rei Carlos VI. — 
Depois se propagou com furor pela França entre a 
nobreza, e d'ahi pela Europa e enlre o povo o uso 
de jogar as cartas, converlendo-se cm causa motora 
da ruina de muitas famílias e da perda de muitas vi- 
das c reputações o que fiira iraaginailo para instru- 
mento de distracção. — As primeiras cartas eram pin- 
tadas á mão, e por isso custava o baralho muito ca- 
ro ; muito posteriormente se lembraram de as gravar 
c ílluminar, • então desceu muílo o preço, (! a gen- 
te Yulgar poude nervír-sc d'ellas. 



Os Trmpi.arios. 

(Conllnuidodcpas. 10!) ) 

Eu não quereria associar-me aos perseguidores il'esta 
illustre ordem. O inimigo dos Icmplarios sem querer 
os purificou : os trados, mcdiatile os «pues lhes ex- 
tor(|uiu vergonhosas confissões, parecem urna presiimp- 
rão de innoeencia. Move nos o animo a não acreditar 
desgraçados (|ue se aeeusam no niarlyrio do potro .-se 
tiveram maculas, iuclinamo-nos a não as divisar, apa- 
gadas como foram pela chamnia das fogueiras. — .Sub- 
sistem, cwmtudo, grav<^s testiuiunhos, obtidos fora da 
polé c dos tractos. Até as arguições que não foram 
comprovadas não sãu menos verosímeis para <|uem co- 
nhece a natureza humana, para (|ucm considera so- 



riancnte a situação da ordem nos seus últimos tempos. 
Era natural que se introduzisse a relaxação entre 
cenobitas guerreiros, filhos segundos da nobreza, que 
corriam *m busca de aventuras longe da christanda- 
de, muitas vezes longe da vista de seus capitães, en- 
tre os perigos de uma guerra de morlc c as tentações 
de um clima ardente, de uma região de escravos, da 
luxuriosa Syria. O orgulho e o brio os sustentaram 
cm quanto houve esperanças a pró da Terra Sancta. 
.Vgradcçamos lhes terem resistido por tão dilatado tem- 
po, quando em cada wnia cruzada a sua expectação 
ficava tão tristeniítile abatida, quando toda a predic- 
ção menlia, e os milagres promeltidos se dilTeriam 
scm|)re : não ha\ia semana i\ne o sino de rebate de 
Jerusalém não annuniiasse a apparição de árabes na 
planicic assolada : tocava sempre aos templários, aos 
hospitalarios, montar a cavallo, sair dos muros. A 
final perderam Jerusalém, e depois S. João d'.Vcrc : 
soldados aliaiidojiados, sentinellas penlidas, dexe por 
>enlura admir.ir (|ue na tarde d'aquella batalha de 

dois séculos se lhes prostrassem os braços? — f". 

grave a queda depois dos esforços vehemonles : a al- 
ma que tanto acima se elevara no heroísmo e sancti- 

(lade bem pesada cáe por terra Enferma e cheí* 

de azedume cngolphase no mal com uma sedo aspér- 
rima, como para vingar-so de luver crido. Tal pare- 
ce ter siilo a queda do Templo. (Juanto havia do sane- 
lo na ordem se luriiou em preeado o mancha. l>cpui& 
de SC ter oneaminliado do homem para Deus, vultuu 
lie Deus para a bruteza. As piedosas ágapes, as fra- 
ternidades heróicas encobriram paixões torpes do co- 



118 



O PANORAMA. 



libalarios : occultavam a infâmia alolando-se mais 
n'ella : o or;,'iilho lambem entrava n'islo ; esse povo 
eterno, sem família nem geração carnal, recrutado pe- 
la eleição e o espirito, ostentava desprezo á mulher, 
crendo-se sufficicnte a si mesmo, e não amando nin- 
guém á excepção de si mesmo. Como passavam sem 
mulheres, passavam sem sacerdotes, peccando e absol- 
yendo-se uns aos outros. E passaram lambem sem 
Deus. Ensaiaram superstições oricntaes, a magia sar- 
racena. A principio symbolica, a abjuração veiu a ser 
real; renegaram de Deus que não lhe dava a victo- 
ria ; tractaram-n'o como um alliado infiel que os Ira- 
hia, ultrajaram-n'o, cuspiram na cruz. Parece que a sua 
verdadeira divindade veiu a ser a sua própria ordem : 
adoraram o Templo, e os templários seus cabeças co- 
mo templos vivos ; symbolisaram por meio das mais 
immundas e repugnantes cercmonias a devoção ce- 
ga, o completo abandono da vontade. A ordem, con- 
centrando-so assim, caiu n'uma feroz idolatria de si 
mesma, num egoísmo satânico. O que ha de summa- 
mente diabólico no diabo c o adorar-se. 

Dir-se-ha : eis ahi conjecturas. — Porém cilas deri- 
vam mui naturalmente do grande numero de confis- 
sões alcançadas sem o recurso dos tractos, particular- 
mente em Inglaterra. — Demais: que tal fosse o ca- 
racter geral da ordem, que os estatutos se tornassem 
expressamente infames e ímpios, estou bem longe de 
o allirmar. Cousas taes não se escrevem : a corrupção 
entra n'uma ordem por connívencía mutua c tacita ; 
as formas subsistem, mudando de sentido, e perverti- 
das por má interpretação que ninguém reconhece em 
publico. — Porém, mesmo quando essas torpezas, es- 
sas impiedadcs tivessem sido uuiversaes ua ordem, 
não teriam bastado para acarretar a sua destruição : 
o clero as teria vendado e abafado como outras mui- 
tas depravações ecclesíasticas. A causa da .jina do 
Templo foi o ser mui rico e mui poderoso: — houve 
outra causa íntima, eu a direi logo. 

Á medí'la que o fervor das guerras religiosas dimi- 
nuía na Europa, á medida que era menor a concor- 
rência ás cruzadas, da\a-se mais ao Templo, para se 
isentarem d'aquellas ; os aíTiliados da ordem eram in- 
nameraveis ; bastava pagar dois ou ires dinheiros por 
anno. Muitas [lessoas oITereciam todos os seus bens e 
a si mesmas ; dois condes da Provença se entregaram 
assim • o rei do Aragão legou o seu reino, mas o rei- 
no não consentiu. — Pude julgar-se do numero pro- 
digioso das possessões dos templários pelo das terras, 
casacs c fortalezas arruinadas, que em nossas cidades 
e campos ainda conservam o nome do Templo. Pos 



sas o soldão, permittido o culto mahometano, avisa- 
do os infleis da chegada de Frederico II. Nas suas 
furiosas rivalidades contra os bospitalarios até chega- 
ram a arremeçar frechas ao Sant» Sepulchro. Af- 
firmava-se que haviam merto um cabo musulmano 
que se queria fazer christão para não lhes pagar mais 
tributo. 

A casa real de França, particularmente, assentara 
ter razão de queixa dos templários : tinham morto 
em Alhenas Roberto de Brienne ; tinham recusado 
contribuir para o resgate de S. Luiz; e por ultimo 
SC haviam declarado a pró da casa d'Aragão contra 
a de Anjou. 

Entretanto, a Terra Sancta fdra definitivamente 
perdida em 1191 e a cruzada concluída. Os cavallei- 
ros vinham a ser inúteis, formidáveis, odiosos í elles 
traziam para o centro d'este reino exhansto (a Fran- 
ça), e para debaixo dos olhos de un rei famélico, um 
monstruoso Ihesouro de cento e cíncoenta mil Qorins 
douro, e em prata a carga de dez muares. Que fa- 
riam elles, em plena paz, de tanto poderio e rique- 
za? Não lhes sobreviria a tentação de crearem para 
si um estada soberano em o Occidente, como os ca- 
valleiros icutonicos fizeram na Prússia, os da ordem 
do Hoipítal nas ilhas do Mediterrâneo, cos jesuítas 
no Paraguay ? Se elles se houvessem reunido aos bos- 
pitalarios, nenhum rei do mundo lhes poderia resis- 
tir. Não havia estado onde não tivessem fortalezas ; 
pertenciam a todas as famílias nobres. Não eram, na 
verdade, ao todo mais de quinze mil cavalleiros ; po- 
rém eram homens exercitados nas armas no meio de 
um povo que o não estava depois que tinham cessado 
as guerras dos senhores. Eram exccUcnles cavallei- 
ros, rivaes dos mamelucos, tão intcUigentes e ágeis 
quanto era pesada e inerte a vagarosa cavallaria feu- 
dal. Por toda a parte sa viam cavalgar nos seus admi- 
ravei» ginetes árabes, e seguido cada um do seu es- 
cudeiro, do pagem, e de um servente d'armas, sem 
conlar os escravos prelos. Não podiam variar os ves- 
tidos, mas tinham preciosas armas oricntaes, de aço 
de fina tempera, soberbamente adamascadas. — Co- 
nheciiim bem as suas forças: os templários d'lnglater- 
ra linham-se atrevido a dizer ao rei Henrique II!: 
«Sereis rei em quanto fordes justo» — e este diclo 
na bocca d'ellcs era uma ameaça. 

Tudo isto fazia scismar Filípi e o formoso. Os tem- 
plários haviam recusado admitli-lo na ordem. Tinbam- 
n'o rejeitado, e linham-n'o servido ; duplicada bumi- 
liação. Elle lhes devia dinheiro : — o Templo era uma 
espécie de banco, como o tinham sido muitas vezes 



suiam, pelo quo dizem, mais do nove mil domicílios ' os templos da antiguidade. Quando em 130S achou 



na christandado : só n'uma província de llcspanha 
o reino de Valença , tinham de/.osetc praças fcrtes. 
Compraram |)or dinheiro de contado o reino de Cliy- 
pre, que não poderani, é verdade, conservar. Com 
taes privilégios, taes riquezas, laes domínios, era bem 
dilTicil ter luimiblade. lUcardo, o coração de leão, 
dizia á hora da morte : k Deixo a minha avareza aos 
monges de Cister, a minha incontinência aos monges 
pardos, c a minha soberba aos templários. » 

Á falta de musuluiauos, esta milícia turbulenta c 
indomável guerreava os chrislãos : fizeram guerra ao 
rei de Cliyprc eao príncipe do .Vnliocliia ; desenlhro- 
nisaram o rei de Jerusalém, Ilonriquc II, c o duque 
da Croácia ; devastaram a Thracia e a Grécia. Todos 
os cruzados que voltavam djv Syria não fallavam se- 
não das traições dos templários e do seu trado com 
os infiéis. Estavam em notória correspondência com 



entre elles asylo contra o povo levantado, leve sem 
duvida occasião de admirar os Ihesouros da ordem, 
sendo os cavalleiros tão presumpçosos de si e tão ar- 
rogantes que nada lhe occultariam. — X tentação ert 
forte para o rei. .\ vicloria de Mons o deitara a per- 
der : constrangido a entregar a Guyanna, lambem o 
fora a largar a Flandres Qamenga. .\ sua mingua pe- 
cuniária era extrema, e não obstante isso foi-lhe mis- 
ter supprimír um tributo contra o qual se amotina- 
ra a -Normandia ; o povo andava já tão agitado que 
foram prohibidos todos os ajunclamcnlos de mais de 
cinco pessoas. O rei não podia sair d'csla situação 
desesperada senão por algum grande confisco : ora, 
tendo sido expulsos os judeus, o golpe havia de d«s- 
fechar-se ou contra o clero ou contra os nol)rf5. ou 
sobro uma ordem que pertencia a uns e outros, ma» 
que por isso mesmo, não pertencendo exclusivamen- 



os aisassinos da Syria, e o povo observava com terror \ te nem áquelle nem a estes, por ninguém seria defen- 
a analogia de seus vestuários com o dos seguidores i dida. Longe do serem apadrinhados os templários, aa- 
do velho da montanha. Tinham acolhido cm suas ca- i tcs foram acommeltidos pelos seus naluraes proieclo- 



PANORAMA. 



119 



res : os frades os perseguiram, os fidalgos principaes 
da França prestaram adhcsão por eseripto ao processo. 
Filippe o formoso tinha sido educado por um do- 
minico; e dominico era o seu confessor: — por longo 
tempo esta ordem de frades tinha sido amiga dos tem- 
plários, a ponto de se obrigarem aquelles a sollieitar 
dos moribundos que confessassem algum legado para 
o Templo ; mas gradualmente as duas ordens vieram 
a ser rivaes. Os dominicanos tinham uma ordem mi- 
litar própria, os cavalieri gaudenti , que não teve 
grande impulso. A esta rivalidade accidcntal deve ac- 
crescenlar-sc uma causa mais grare de rancor. Os 
templários eram nobres ; os dominicos, mendicantes, 
eram em grande parte mechanicos, posto que na sua 
ordem terceira contassem seculares illustres c até mo- 
narchas. Nas ordens mendicantes, como nos juriscon- 
sultos conseliíeiros de Filippe o formoso, havia uma 
dúse.>commum de má rontade, um fermento de ódio 
BÍvellador, contra os nobres, os guerreiros, os caval- 
leiros. Os legistas deviam aborrecer os templários co- 
mo cenobitas; os dominicanos, por outro lado, os de- 
testavam como guerreiros, como cenobitas mundanos, 
que reuniam os proveitos da sanctidade e o orgulho 
da vida militar. A ordem de S. Domingos, inquisi- 
torial, podia julgar-ge obrigada em consciência a dei- 
tar a perder, nas pessoas de seus rivaes, descrentes 
perigosos p»r duas maneiras, pela importação das su- 
perstições sarracenas e pelo seu tracto com os mysticos 
do occidente que não queriam adorar senão o Espirito. 
O golpe não foi im[)revisto, como se tem dicto : os 
templários tiveram tempo de o ver impendente ; mas 
a soberba os perdeu ; sempre julgaram que ninguém 
se atreveria. — O rei, com effeilo, hesitava: primei- 
ro tinha tentado meios indirectos ; por exemplo, pe- 
dira ser admitlido na ordem ; se o tivesse consegui- 
do, provavelmente se faria grão mestre, como practi- 
coil Fernando o catliulico com as ordens militares de 
Ilespanha : teria applicado a seu uso a fazenda do 
Templo, e a ordem se teria conservado. 

(Continua.) 

O FEITOB DE CaNTXo. 

ífovella. 
(Continuado de pag. 106.) 

TciiAO e EfTcndon empregaram muitos dias cm tirar 
TIS informações de que o feitor caFceia ; mas a final 
o moço lettrado, que tomara conhecimento com os 
criados do censor Fo-hu, vuiu muito ufano dar parle 
a lilTendon que o velho mandarim tinha com eifeito 
cm sua casa uma menina muda, que trouxera cum- 
sigo de Cantão na ultima viagem, e que fazia passar 
por sua fílha. 

Estas particularidades tiravam toda a duvida; mas, 
ainda assim, o americano paru ter provas evidentes 
ejcrevcu um bilheltí que Tchao se encarregou de fa- 
zer que fuss» entregue a Maria. \'oltou na mesma tar- 
de com algumas linhas, escriptas á pressa, eui que 
Maria implorava o soccorro paterno. ■. 

A vista d'cstc eseripto causou no feitor unia im- 
pressão inexprimivi'1. Apesar do todos os indicios es- 
tivera até então duvidoso da vida da lilha. Sem ani- 
mo para S(j||ar-Hc dos braços da esperança, sem l'c ro- 
busta para cr(T qtie ainda era pai, temia eonlunilir o 
desejo com a realiilade ; masagora linha a jirova <liaii- 
te dos olhos, via, palpava os caracteres (luoMtiria tra- 
çara ; cobria-os de beijos e lagrimas. 

— « Leva-me a casa d'esse homem, disse elle a 
Tchao. depois de reler por duas ou três vezes a car- 
ta. Quero que liojc mesmo mo entregue minha filha. » 



— « Keceio que t'a negue u , ponderou o lettrado. 
— « Porque ? « 

— « Porque está a chegar o momento em que as 
filhas e sobrinhas dos principaes mandarins vão á pre- 
sença do imperador que desposa as mais formosas (1). 
Se tua filha for escolhida medrará Fo-hu em riqueza 
e poderio. » 

— « Ah I corramos, exclamou EfTendon ; eu o obri- 
garei a reconhecer os meus direitos. » 

Mas quando chegou a casa do censor vedaram-Ihe 
a entrada, e o mais que poude obter foi deixar ficar 
uma carta em que reclamava sua filha. D'ahi a uma 
hora vciu buscar a resposta, porém os servos de Fo- 
hu o enxotaram como um mentiroso, declarando que, 
se tivesse o atrevimento de alli tornar, tinham ordem 
de o entregar á pslicia. 

EfTendon não se expoz a uma resistência iuutil ; sem 
perda de tempo fez que lhe ensinassem a morada do 
juiz, e foi de corrida levar-lhe a sua queixa. 

Pela magia de ricos presentes não sofTreu o negocio 
demoras, e logo no dia seguinte foi citado o censor pa- 
ra comparecer. O feitor esperou ao princi|iio escorar- 
se no teslimunho de Tchao; mas este, assim que teve 
noticia lio jílcito, safoií-se pelo sim pelo não, e por 
mais diligencias que EITendon fez para o achar não 
lhe poude pòr a vista em cima. Appresentou-se por 
tanto sósinho perante o juiz, e achuu-se na presença 
do raptor cie .Maria. 

Era um velhito de barbas brancas que respirava 
avareza e falsidade ; tinha na mão um bastão de ma- 
deira preciosa cercado de lettras douradas, e vinha 
com o trajo do seu cargo, composto d'um vestido ta- 
lar de seda ornado de dois gryphos, botas de bico re- 
virado, e chapéu de feltro vioicte, cam uma pedra pre- 
ciosa por cima, dislinctivo da sua dignidade. 

Effendon, sendo interrogado pelo juiz, repetiu a sua 
historia tal qual a tinha estudadj, narrou miiuiamea- 
te como soubera que sua lilha estava em casa do cen- 
sor (sem comtudo fallar do bilhete que ella lhe man- 
dara), e em conclusão peiiiu lh'a rcslituissem. 

Fo-hu tomou a palavra quando lhe coube e come- 
çou o seu discurso como assombrado pela audácia d'um 
desconhecido que se atrevia aolTendcr um cios [irimci- 
ros dignitários do império celeste. Declarou que o re- 
querimento devia de ser marcado com o signal sie 
(falso, ealumnioso), e foz que alli viessem muitos es- 
cravos, os quaes, depois de tocarem o chão com as les- 
tas, asseveraram que a menina que morava em casa 
de seu senhor era com eITeito sua sobrinha, lilha d'um 
irmão que elle tinha tido cm Cantão, e que acabava 
de fallecer. 

Mas estes depoimentos não descoroçoaram EiTcndon: 
sustentou com tal intrepidez quanto alliruiara, que o 
juiz pasmava; e requereu que anuída fosse trazida 
ao tribunal e decidisse a contestação. 

— c( Se é sobrinha de Fo-hu, disse elle, não me po- 
de conhecer ; e posto que não possa fallar pro\ará com 
gestos que vè cm miai um estranho ; se, polo contra- 
rio, a \ irdes lançar nos iiious braços e arredar de si 
este hoinein. não podereis duvidar da vonlado da mi- 
nha reolainação. 

Fo-hu com esta proposta enfiou. Coiilraricui-a com 
o pretexto do que era uma indoooiíoia obrigar a ap- 
parccer em publico uma mullior de f.imilia nobre. 

— «Venha com um vc'u, replicou F.lVoíicIcui ; mas 
voiilia, poniuo sc'i ell.i pcxie decidir por um de luis. i> 

O juiz dofcriíi, o dou ordem a dois olliciaos do jus- 



(I) Acn inipernciorcs da C.liíim alio cnHocdccIas por loi oenlo • 
viiito u unia iiiuIIicmo:! ; a siilior 1 iiiciioratrit, ;l raiiilia!', 9 
iciulliuro» clu i' unloiii, i7 tia 3.', o SI ila i." 



120 



O PANORAMA 



tiça para que fossem a casa do censor e trouxessena 
»ua sobrinha. Fo-hu mostrou a final annuir de bom 
grado, e deu-lhes para guia um seu escravo, a quem 
fez em toz muito baixa algumas recommendações. 
Effendon, que estava entretido a fallar com o juiz, 
não deu por isso. 

Depois de longo esperar voltaram os homens man- 
dados a casa do censor. O escraro e Fo-hu fóllaram-se 
com os olh«s. 

— « Achastes quem procuráveis ? » perguntou o juiz. 

— « Está á porta do tiu tribunal » responderam os 
officiaes. 

— « Entre ! entre 1 » exclamou Effendon, sem po- 
der reprimir a sua commoção. 

Mas Fo-hu fez signa! para se deterem. 

— B Antes que esta experiência le esclareça, tenho 
que te fazer um requerimento. » 

— « Falia. » 

— « Se esta menina me reconhecer per seu lio, es- 
te homem é um calumniador. » 

— a >"ão ha duvida. » 

— « Requeiro pois, n'e5te caso, que se lhe dè um 
castige exemplar, para provar a todos, como diz o poe- 
ta, que a acção má traz tio certo o castigo como o bo- 
tão do pecegueiro produz a sua flor. » 

— «É justo, respondeu o juiz, e será cumprido o 
teu desejo ; vejamos antes o que faz essa menina. » 

Os officiaes de justiça foram abrir a porta, e fize- 
ram-n'a avisinhar. 

Effendon ia a correr para ella ; mas estacou de re- 
pente, fazendo um gesto de espanto. A estatura aca- 
nhada, o andar mal Qrme, as mãos com as unhas com- 
pridas, não eram nem at mãos, nem o andar, nem a 
estatura de sua filha ! 

— <c Maria '. » exclamou elle a tremer, com os bra- 
ços estendidos. 

Então a menina o encarou como assustada, e pas- 
sando-lhe veloz pelo lado foi lançar-se nos braços de 
Fo-hu, á maneira de quem queria amparar-se com elle. 

— « Vcs ? disse o censor, cantando a victoria, nãe 
le conhece. » 

— « É impossível '. bradou Effendon sem crer o que 
eslava vendo. .Maria '. Maria ! » 

E arremeçando-se á rapariga, arrancou-lhe o Teu 
que lhe cobria o rosto ! Mas recuou de súbito dan- 
do um ai sentido : aquelle rosto jamais o vira. 

Seguiu-se um momento de desordem que interrom- 
peu a sessão. .4. rapança, atemorisada e confundida, 
tinha tapado a cara com as mãos ; Fo-hu instava pelo 
castigo do insolente embusteiro, e o juiz gritava aos 
esbirros que o prendessem. Effendon não se tirara do 
seu logir, immovel, mudo, esmagado debaixs do pe- 
zo de cruel desengano. Comtudo, quando sentiu que 
o agarravam, levantou a cabeça e recobrou parte da 
sua presença de espirito. Quiz suscitar duvidas sobre 
o dolo com que o censor procedera ; pediu que se lhe 
fizessem novas buscas em casa; mas o juiz o atalhou 
declarando que a sua má fé estava demonstrada. 

— « E como prometti um castigo exemplar, accres- 
cenlou cUe, eu te condemno, a li Kang-ho, a andar 
carregado com o Icha grande por dois annos, que pas- 
sarás nas prisões do estado, .\ssim se execute. » 

(Continua.) 



As TIIERU«PVL1S KU 1841. 



O Pisso das Thcrmopylas, desfiladeiro tão celebre na 
historia da Grécia amiga por um assignalado feito de 
valor c nobre devoção citica, acha-sc dcscripta na obra 
de Mr. Bucbon pela maneira seguinte : 



« Approximo-me, e torneio deliciosos valles, que 
ora sobem por declives em relevo nos lados eppostos 
de duas montanhas, ora se eslreitan um pouco e- se- 
guem as ondulações da serrania, ofierecendo aos olhog 
uma fileira de outeiros vtcejantes, que, como as on- 
das do mar, se confundem contíguos uns aos outros. 
A olaia espalha com profusão as suas Oores da tincta 
do lilaz, e a verdura se esmalta de anemanes de to- 
das as cores: prosigo á sombra de arvores as mais 
formosas ; e o que eu esperava era achar uma gargan- 
ta bem estreita e bem pedregosa, impendente a al- 
gum charco profundo. A labrusca por cima da mi- 
nha cabeça forma impenetráveis parreiras e me furta 
á vista os troncos do arvoredo extremamente nodo- 
sos; tudo é viçoso, e tudo florido, e centos de roaxi- 
noes se desafiam em lucla d'harmonia debaixo d'a- 
quellas copas amenas e frondentei. — Inquiro se na 
verdade vou caminho das Thermopylas. — Estais n'el- 
las — me respondem ; e olho os montes que se prelon- 
gam para apertar o desfiladeiro ; e os brejos á flor do 
chão estavam mascarados com os juncaes que os co- 
briam. Chegado mesmo ao sitio onde a subida se acha 
mais entalada, cnlre a serra e um pântano que se es- 
tende até a beira da calça<ja, investiguei esta monta- 
nha tão formosa de verdura para ver se era intransi- 
tável ; o fade é que n'este passo, onde Leonidas pe- 
lejou á frente dos seus trezentos espartanos, denoda- 
da vanguarda dos cinco mil gregos, formados em es- 
calões no valle immediato e em poste mui forte, não 
ha outro meio de seguir avante senão passar pelo es- 
treito caminho alto entre o charco e a montanha : pos- 
te que viçosos e bellos estes cerros não podem absolu- 
tamente ser atra>essados senão por esta parle. 

t fácil ainda reconhecer o local marcado por He- 
ródoto onde combateram e soccumbiram Leonidas e 
os trezentos espartanos. N'esle ponto a serra, posto 
que sempre verde, suspende-se abrupta, e vem fene- 
cer, sem diminuir o declive, justamente ao pé da es- 
trada, e pelo outro lado é rodeada por um paul que 
se prolonga ale o mar e alravez do qual é impossí- 
vel penetrar, .\lguns passos mais para além vèem-se 
os restos de uma muralha de fortificação, com que o 
imperador Justiniano, á falta de peitos valentes, pre- 
tendera fechara passagem. 

L'm pouco mais avante brotam muitos mananciaes 
abundantes de aguas Ihermaes, que se derramam no 
pântano e formão: uma crusta salina e branca de lon- 
ga extensão. Perfeitamente se comprehendecomo n'ts- 
te desfiladeiro trezentos homens decididos a morrer, 
e servindo de vanguarda a cinco mil valorosos, pos- 
tados entre a montanha e o charco, poderam tolber 
o passo a numerosos exércitos. » 



O JAMAB d'0SS0S. 



Cbrto clérigo, amigo de bons beccados e de applicar 
o sancto preceito do jejum aos seus servos, tinha por 
cestume quando se ret:alava com alguma gallinba, per- 
diz, ou cousa que o valha, chuthar-llie muito bem os 
ossinhos, e da-los depois ao triste moço, dizendo-lhe 
muito ufano : « Vai jantar. » — i. Jantar o que? lhe 
disse um dia o transparente moço, se V. S.* ja roeu 
05 ossos duas vezes. » — n Essa é boa '. lhe toruoa o 
clérigo. Pois eu posso roer os ossos duas vetes, e v«- 
cè, só biltre, não os pode roer uma? • 



A Empkeh d fite Jornal Iti» remettido regularmente 
aos Sti. A$signantrs das Províncias todos o> números 
publieadoí.epede ai'S qut, por qualquer moliw, dei- 
xattem de ot receber, hajam de faitr at tu(U declara- 
fòe$, que promptamtnie serão allendidas. 



16 



o PANORAMA. 



I2i 







o BOSPHORO. 



Damos á vola para a nitrada do Bosphoro costeando 
a> iimralhas de Constantiiiopola «luc o iiiur vem ba- 
nhar ; passa<la meia hora de navogaoão por entre a 
multidão eh- navios ancorados cheti;àiTios aos muros do 
serralho ijiie continuam os da cidade, e íbrniani na 
extremidade do monte em <pie assenta Stanihul o an- 
gulo que sitpara o mar de Marmara do canal do Bos- 
phoro, e <]o Corno áureo ou í;rande enseada interior 
rte Constantinopola : aili é (pie Deus e o homem, a 
natureza e a arte collocaram ou crearani de concerto 
o lanço de visla mais estupendo que podem olhos hu- 
manos C(Uit(Mnplar na terra ^ dei um u;rilo involuntá- 
rio, G esípieci |iara sempre o ^olpho de Nápoles e to- 
dos os seus cMcaiilcis •, Comparar alf;iima <'ousa litpiel- 
Ic coniposlo mauniljco e;j;raciosi) é injuriar acreacão. 
O» paredões (pie siistenlam os terrados circulares 
dos imiiiensds jardins do serralho grande, licavam a 
nlguiis p.issds de liús para a nossa es(pierda, separa- 
dos do mar pur um eslreito passeio de lagiMis (|ue as 
ondas lavam de continuo, e ond(! acorrente perpetua 
do lloNpliiiro lorma peipienas vagassiisurranles e azues 
como as aguas do Ithodano em (ienclira. ICsle» terra- 
dos (pie se alleain por declives impercepl ivi?is af(' os 
iHlliicios (III sullTio, cujas douradas cúpulas »e desco- 
iirem atravcz dds cimos gigantes dos plátanos e c\- 
prestes, são tanilicm plnnliidds das mcMiias arvores, 
enornii'S, di> trducos hdliriinceirds nus munis, com o» 
rumos ipie Irasliiuiliim dos jardins e |i('iidcni para o 
mar como esteiras di rdlliagini, daii<lo somlira ás lan- 
etnis ; os remeiros de tcmpiw a Icnipos paravam de- 
liaixo (Pesti< alirigo : de distancia u distancia cstcn 
Voi. 1. — DuziiMBiio lU, lUiC. 



grii|)os d'arvoredo são interrompidos por palácios, pa- 
vilhões, mirantes, portas lavradas e douradas (|ue 
abrem para o mar, ou baterias de pe(,as de Idrnias 
singulares e antigas. As janellas engradadas d'estes 
palacioli marítimos, quo são porí^ões dd serralho, dão 
])ara o canal, e V(*-se atravcz das gelosias brilhar os 
lustres e as douraduras dos tectos das camarás; tam- 
bém a cada passo elegantes fontes mouriscas, inscrus- 
tadas nas paredes do serralho, jirecipitam as aguas 
desde a altura dos jardins e murmuram em conchas 
de mármore para saciar os passageiros ; alguns solda- 
dos turcos estão deitados juiiclo d\'stas fontes, e cães 
vadios vagueiam pela extensão do cães: alguns estão 
deitados em canhoneiras [)ara enormes calibres. A 
proporção (pn- o escaler seguia ao longo das muralhas, 
o horisonie se dilatava diante de nós, a costa d Asiji 
se avisiiihava, e a entrada do Hosphoro conic(;ava a 
deliiiear-se á vista entre colliiias de verde escuro e 
outras fronteiras ipie pareciam pintadas de todos os 
matizes do arco (deste; alli tornámos a dcscan(;ar. 
A costa aprasivel da .\sia, distante de niis obra de 
uma milha, dcbu\ava-se á direita, toda retalhada de 
amplas e all.is eminências, ipie são coroadas ile ne- 
gras si'l\as decopas ponteagiidas, eas beiras doscam- 
pos franjadas de arvores, salpicadas ilecas.is encarna- 
das, eas bordas dos barrancos a prumo alcalilailas de 
verdura ede svcdiiuiros, cujos ramos beijam a agua. 
Mais ao longe mais avulta\aiii as collinas edcpois se 
ridiaixavam em ribeiras viçosas e formavam um es- 
paiHiso pniinontorio (pie servia como de base a iiiiiii 
grande ciilade ; era Sculari com os .seus va.stos qiiar- 






o PAiNORAMA. 



teis caiados, semoUiaiitcs a um caslello real, as suas 
mesquitas ccTcadas de coruchéus refulgentes, os seus 
cães e ansras guarnecidos de casaria, de bazares, de 
lanchas, ásoinl)ra das parreiras ou dos plátanos ^ era 
a nielaiicholica e prolongada niatta de ciprestes (|ue 
cami)cia sobre a povoação, e por entre os seus ramos 
alvejavam com lúgubre clariíladc os innumeraveis iiio- 
nunientos dos cemitérios turcos: para lá do pontal 
de Sculari, terminado por um ilhéu <|ue tem uma 
capella turca, a que chamam «o tumulo da donzel- 
la, » o bosphoro, como um rio encanado, soaliria-se e 
mostrava escoar-se entre montanhas fuscas que irma- 
navam em ambas as margens pelos lados dos roche- 
dos, os ângulos salientes e reintrantes, os algari-s e 
as maltas i na falda das quaes se divisava a perder 
de vista a serie não quebrada de aldeias, de frotas 
ancoradas ou avela, de portinhos sombreados d'arvo- 
res, do casas espalhadas, de vastos palácios, com seus 
jardins de rosas ;i beira-inar. 

Pequeno impulso dos remos nos levou avante, ao 
ponto exacto do Corno áureo onde se goza, ao mes- 
mo tempo, da vista do Bosphoro, do mar de Mar- 
mara, e emtini do conspecto iuteiro de porto, ou pa- 
ra melhor dizer, do mar interior de Constantinopo- 
la; alli nos esquecemos do Marinara, da costa d Ásia 
e do Bosphoro, para contemplar d^um só relance 
d'olhos a caldeira do Corno aurco e as sete cidades 
penduradas nos sete outeiros de Conslantinopola, 
convergindo todas para o braço de mar formado pela 
cidade única, incomparável, cunjnnctauionte cidade, 
campo, mar, porto, ribeira de rios, jardins, monla- 
nhas arborisadas, valles fundos, oceano de casas, for- 
migueiro de baixeis e de ruas, lagos serenos, o soli- 
dões feiticeiras ^ vista que nenhum pincel pode re- 
produzir senão por miúdo, e onde, a cada pancada 
de remo, os olhos, a alma se encaminham a um as- 
pecto, a uma impressão oppostas. 

Damos á vela para as alturas do Gaiata e de Pe- 
ia \ o serralho se arredava de nós, e avultava alTas- 
tando-se á medida que a vista abrangia mais o vasto 
recinto de suas muralhas, a multidão das rampas, 
das arvores, dos mirantes e palácios : só á sua parle 
tinha com que servir de sede a uma populosa cida- 
de. O porto mais e mais se abria perante nós •, cir- 
cula como um canal entre as curvas das encostas das 
monianhas, e mais se patenteia quanto mais progre- 
dimos. Este em nada se parece com um porto, can- 
tes um largo rio como o Tamisa, cingido por ambos 
os lados de outeiros carregados de cidades, e col)erto 
sobre uma e outra praia de uma interminável frota 
de embarcações aos monies e de ferro no fundo ao 
longo da casaria. Passávamos por meio d'es5a innu- 
meravel multidão de navios, ancorados uns, outros 
já de vela singrando para o Bosphoro, para o Mar 
Aeçro, ou para o de Marmarai navios de todas as 
formas, de todos os lotes, de todas as bandeiras, des- 
de a barca árabe com a proa alterosa e saída como o 
be*jue das galeras antigas, até o baixel de três pon- 
tes com suas paredes em que fulgura o bronze. iSu- 
vens lie lanchas turcas, guiadas por um ou tiois re- 
jueiros, com suas largas mangas de seda; barquinhas 
que servem de transportes uas ruas marítimas dV-sla 
cidade amphibia, gyravam entre a(|uell;i3 grandes 
massas, cruzando-se, abalroando-se sem si>çobrar, co- 
mo as turbas se acotovelam na praça publica; e ban- 
dos de gaivotas, seinelhanUs a lindos jiombos bran- 
cos, á chegada dos barcos se erguiam do mar, indo 
pousar mais além para os balouçarem as ondas. Não 
intentarei enumerar os vasos, os navios, os brigues, 
as embarcações e botes que dormem ou vogam n;us 
aguas do porto de Coustaiitinopola, desde a foi do 
!Bo«i>lioro c o pontal do serralho até o arrabalde 



d'Eyoub e os deliciosos Talles da? aguas doces : n 
Tamisa em Londres nada tem que se lhe coroparp. 
Basta dizer que, independente da armada turca e 
dos vasos de guerra europeus, sobre fi?rro no meiu 
do canal, as duas margens do Corno aurco estão co- 
Ijertas a dois e a três navios de fundo, e na extensão 
(|Udsi uma légua de cadauma das margens. Não ti- 
vemos mais tempo do que divisar estas prolongadas 
fileiras de proas apontadas ao mar, e a vista se no< 
perdeu no cabo do golpho, que se estreitava entra- 
nhando-se na terra, por entre uma verdadeira selva 
de mastros. 



O Cardeal se Rjchei.ikb. 



As SITUAÇÕES é que fazem os homens grandes. A 
Providencia parece crear o engenho, que os ha de 
resoKer, pela medida dos acontecimentos. A revolu- 
ção franceza é o exemplo d'esta verdade, exemplo 
próximo e sublime, que di>pcnsa de recorrer á cru- 
zada asiática de .\lexandre, ou aos últimos instantes 
da republica de Koma, consuromada pela gloria do 
primeiro César. Na hora em que a França arrasou 
pelos fundamentos as instituições da nionarchia ve- 
lha, a voz de Mirabeau, subjugando o estrondo das 
ruiuius, um momento recebeu a força qnc destroe os 
impérios, ttuando chegou a occasião de semear nos 
sidcos ensanguentados dos antigas reinos da Kuropa 
o gérmen da nova doutrina, Deus coroou do tríplice 
diadema a fronte de Bonaparte, e do carro tríum- 
phal enviou-o, Messias da revolução moderna, pro- 
pagar pela victoria a religião politica vencedora nas 
Uailias O poder constituiu-se, a ordem restituiu aos 
seus eixos o Estado vaciUante, e as palavras absolu- 
tas do «Homem dos Destinos:' jxir instantes usurpa- 
ram a omnipotência. Depois, terminada a sua obra, 
o gigante sentiu-se deslalíecer, firmou os pés nas ge- 
leiras da Uiissia c as geleiras derreteram-?e ao in- 
cêndio de ^loscow — quiz apertar u.i muralha de 
aço dos seus batalhões a cabeça do leopardo do 
Norte, e as muralhas deslizeram-sc sem vigor; e cj- 
le, de pé na rocha baidiada das aguas amargosas, 
Alexandre, César e .\nnibal, tudo no só Napoleão, 
cruzando os braços no peito, assistiu vivo aos fune- 
raes do seu império. 

Diis glorias passadas restou-lhc a]>enas o nome pa- 
ra encher os séculos, e a espada para depor ao lado 
da de Karl o Griuide, de que foi irmã. .\ águia, 
nunca mais voou ! 

Hichelieu, no seu século, foi a intclligoncia desi- 
gnada para completar a idé.i de que elle devia vi- 
ver, o principio d*oude havia de tirar a força, a uni- 
dade, e o poder. 

Essa idéa e esse principio era a unidade monar- 
cliica, de <|ue Richclicu fui incançavel o architecto, 
c o inexoraTel conlintiador, do svsteuia esboçado 
(H-la mão cruel de Luix \I. 

A emprez.i era gr.tnde, c a obra levou-lhe a vid.\ 
inteira; mas, quando o amortalharam na sua pur- 
pura, a Europ;i estava preparada para o Iraclado de 
XNcstphalia, e a Eraiiça para o reinado de Luíi 
XIV. JMinciro ous,idu, desc»>u ás entranhas do in»- 
|x»rio de Carlos N', e mais d'nma vez, piíssando .1 
mão [K-la testa cavada de uma velhice pre<"Oco, es- 
I tremeceu de sentir as raiies da casa d^.Vustria tanto 
dentro do coração dos maiores Estados. Emtiiii, a 
força de perseverança, de rigor, c de s^ij.icidade veio 
o dia, em que, erguemlo-se da vigilia de n\uitos an- 
nos, poude apoutar do leito da morte para a Frau- 



o PANORAMA. 



l2o 



ca e para a Europa com ori;ulho. !N"etse dia, tam- 
ijem o espirito fíitigado soparou-se para sempre das 
dores da carne. 

No reino de Luiz XIII o braro resoluto do minis- 
tro apunhalara a aristocracia dos príncipes íeudaes, 
como a revolução em I7!il) decepou a nobreza puri- 
tana e cortezã. A realeza, aonde s<; infundiu a sua 
alma dominadora e implacável, cresceu e vigorou, 
occupando o espaço que <le um lado enciíia o leuda- 
lismo, e do outro devorava a seita protestante cons- 
tituída em facção politica. De um golpe robusto o 
Sansão do poder real curvou diante da monarcliia 
absoluta a sociedade, ([Ue lia pouco ainda oscdiava 
retalhada de interesses oppostos, sacudida por forças 
contrarias A lloilanda e lienebra assopravam as faís- 
cas da reforma para fazer d'ella o facho de um fede- 
ralismo republicano ein França. O goveiNio hespa- 
nhol tentava accendir de novo as cinzas ainda quen- 
tes da li^a contra Henrique IV. Kiclielieu, jiela 
tempera e originalidade do seu geaio, pondo um pé 
na frente á iniluencia do ICsciirial, c domando com 
o outro ii audácia dos cal\ inistas, traçou, e levantou 
o edifício da monarchia franc<!Za acima das fogueiras 
da inquisição e do cadafalso puritano, que já se ar- 
mava em VVhite-liall. 

Armand-Jiião Duplesis de Iliclieliou nasceu em 
15f!5 (ruma fainilia pobre iiias iilustre do Poitou. A 
carreira que escolheu tinha sido a das armas, vindo 
ii scuir o estado ecclesiastico, para evitar <)ue o bis- 
pado de íjuçon, que andava na sua casa, não passas- 
se a estranhos. AlVonso, seu irmão, tinha-se despoja- 
do d'esta dignidade para se retirar á solidão d'um 
claustro. Alguns estudos th(!ologicos prepararam pa- 
ra o sacerdócio u o episcopado um mancebo bem nas- 
cido, que se conformava ás idéas do tempo seguran- 
do um benííficio lucrativo n'uma casa pobre e lidal- 
jra. Antes dos vinte e <'inco ânuos João Diiiilessis foi 
provido em lioma no bispado vago. JJizia-se i|ue ellc 
soubera illiidir l'aulo V acerca da sua verdadeira 
idade, e «jue o |)i)iiliriee, longe de se agastar, lou- 
vando a(|uella destreza e talento lhe prophelisára a 
sua futura eh.-vaçào. 

A priini'ira epoclia da sua vida consuiiiiu-a em se 
aperfeiçoar na sciencia llurojogica que fcsjjirain todas 
as suas obr;is, rigorosas nas formas didácticas, e seve- 
ras na argumentação lógica. Os aiirios (pie vivou no 
seu bi-qiado foram (un pregados em polemicas com os 
calvinislas, ou consagrados á eloquência do púlpito, 
em que sobresaíu a ponto (Paltraliir a altenção da 
côrle. Maria di: iMeclicis ouvio-o eom prazer, e n;- 
commeiídoii-o ao iiuireclial d^Ancie, então no auge 
da inlliieneia ('do poiler. Em I (i()4 conseguiu ser 
eleito depu(ado aos Kstailos (ieraes por Koiitenay e 
JVior), e n^estr- caiaeler ailvogou com ardor a causa 
da rainha, inlluindo baslanie na r(.'dacção dos eipi- 
lulos do clero. 

Depois de encerrar os Estados, M.iria ih; INIedicis 
não se esipieeeu d<! premiar os serviços do bispo <le 
liUçon, conferi ndo-lhe o c.irgo de cismoler mór da 
ruinlia reinanie Anua d'Auslria. O marechal d'An- 
cre favoreeeií-o com igual extremo, apesar do que, 
ou ]ior enredos, ou pelo achar nuMios dócil do (pie 
desejava, para o lim começava a tiada-lo com algum 
desapego. CoMcini, rodcailo de iiiimigos poderosos, 
det<^rminou-s<' a feri-los iki (uração, prendendo o 
príncipe di' < 'onde, cabeça das f.ieiiies do paço. Esli' 
içolpe auilaz pi'ii\o<'ou um (uninllo popular, no meio 
do qual os iiinolinados saquearam o si'ii palácio. E o 

|>usso do goveri xigia um syslema mais eii<!rgic;o, 

e homens no conselho dc^ reeonheeida aplidão e pro- 
vada lealdaili'. A regente indicou lliiliiliiii pura se- 
vruturio dV-nludu coDJuiicluiuenle com u murquci ve- 



lho de \illero_v. Associado a crcaturas subalternas 
do marechal d'Ancre, c dirigido por elle, o bispo de 
Ijuçon, sem n'o estimar, obedecia-lhe, resignando-se 
no gabinete ao secundário papel d'instrumento quasí 
passivo. 

A sua ambição entretanto não dormia ; mas com 
a ordinária lucidez viu bem que o momento de se 
oHeiecer em todo o vigor do seu génio não era o da 
lenta mas inevitável agonia d'uma regência débil, 
entregue aos caprichos d'uma mulher fraca, e perdi- 
da peia cubica e incapacidade d'um italiano aventu- 
reiro. Richeiieu esperava a sua hora, com aquella 
rara presciência dos acontecimentos, que ainda não 
faltou a nenhum homem verdadeiramente grande. 

Nos últimos mezes, mesmo, da vida de Concini 
houve mais d'uma dissidência seria entre elle e o 
novo secretario d^^slado. O bispo de Luçon via emi- 
nente a catastrophe, e por destras commiinicações 
com os principas salvava a sua fortuna do naufrágio. 
Uma noite o manjuez d'Ancre era assassinado por 
Luines segundo expressa ordem do rei, e no dia se- 
guinte Kichelicu, thamado ao Ijouvre, da bocca de 
Ijuíz XIII ouvia a formal deirlaiação de que nunca 
o confundira com os falsos conselheiros de sua mãi. 
A situação appresentava-se arriscada para elle. De 
um lado os vencedores chamavaiu-n'o para continuar 
no ministério:, do outro a queda de Maria de Medí- 
eis, profunda e lastimosa, iuipunha-lhe deveres res- 
trictos. Renegar o nome da rainha era uma infâmia 
ipie o maculava para sempreJ Ab^smar-se com ella, 
era um acto que o perdia no presente, e parecia du- 
vidoso que o exaltasse no futuro. O bispo de Luçon 
tomou entre as duas alternativas o termo médio, 
conciliando as conveniências com os seus interesses. 
Sem faltar á antiga regente, sustentou no meio das 
vicissitudes o apoio de Luines e o bom conceito do 
rei, por um modo do certo hábil, mas pouco digno 
do menor elogio. 

Leonor Galligai, marqueza d'Ancre, c amiga da 
regente, expiou no cadafalso, não crimes «pie a des- 
hoiirassem, mas um talento e um espirito superior 
dignos de melhor epocha ; e quasi no mcsino dia, ao 
passo que os piincipes rebeldes faziam a sua entrada 
triuniphal no Louvre, saía d'elle para IMois Maria 
d(! Medíeis, acompariiiada de poucos criados lieis, 
que a seguiam no desterro. O bispo de Luçon toi 
um \ mas .sempre cauteloso, antes de partir obteve 
liec^nça do rei ; temia <|iie na ausência o accusasseni 
de obedecer aos impulsos do seu coração, em vez do 
o julgarem o \igilaiilc observador das acções da in- 
feliz princeza ; miiiislerlo que aeccítou, o, repetimos, 
a ninguém podia excilar inveja. De 151ois, dirigindo 
em tudo a rainha mãi, Kiclielieu entretinha com 
liuines regular correspondência, instruindo-o ile to- 
dos os passos dV-lla, e garantindo o seu proceder. 
Apesar dV-sles serviços, a devoção verdadeira ou Im- 
gída qui? era obrigado a ostentar para com Maria de 
Medicis, esliiniilou a desconfiança dos vogaes do con- 
selho, e sem difllculiiade arrancarauj ao nuMi.irchii 
uma ordem ipie o deporl.iva para Avinhão. A ex-re- 
giMile olhou esta proxa de desagrado conn> mais uma 
p<'rseguição, redobrando na inteira e absoluta fé com 
<pie se illudia ácerea da le.ildade do bispo Duplessis. 

Esb' deslerro cPAvinlLui foi a causa d.i sua ra|>ida 
e pasmosa eh'va(;ão. 

Maria de iMedicis I ranspoz 01 muros de lUois, pro- 
legi<la pel.i esiuiidão dir noil<" invernosa, «' foi reixs- 
bida no seu governo pelo dinpie d'l''.spernon, lia\ iii 
leinpos desrouli-nli' <la ciirl<' ('h.iiiKiudo em redvir 
d, ts suas bandeiras os ambiciosos, brcMiniMile se achou 
a lesta de um exercito sullicicnle paru assusl.ir Lui- 
nc» e o!t «eu» purciucs. As desuveni,-as que já ardiHiil 



124 



O PANORAMA. 



enfrp elle p 09 príncipes, o a tliscorflia acccsa entre 
os Sí-iis melhores amigos, aiiiçmentavani o periço, e 
expiíiiliam a realeza a um dezar provável. O valido 
tentou sair da difliculdade, |)romovendo a reconcilia- 
ção da rainlia mãi com Luiz XIII, e leinbrou-se de 
Richolieu para guiar esta delicada negociação. O 
bispo de Luwn aeceitou, e partiu sem demora para 
o Angouleme, aonde então se achava Maria de Me- 
dicis. 

Apenas chegado apoderoii-se da vontade da prin- 
ceza, e facilmente lhe suggeriu a idéa de se reconci- 
liar com seu filho ^ mas os desejos da rainha eram 
imp(]tentes diante da tenacidade dos nolires empe- 
nhados no seu partido. Como elles se recusavam a 
qualquer transacção, mais d^um anno decorreu sem 
vencer um só dos ohstaculos levantados contra a al- 
liança. jMaria de Medicis queria reassumir o poder; 
e Luiz XIII, suspeitoso e ciumento, adivinhara em 
sua mãi a ambieão violenta, que havia de ser o mar- 
tírio de ambos. 

Luines, para se vingar da ex-regente, soltou o 
príncipe de Conde, prezo á ordem d'ella. Foi o sig- 
nal da guerra civil. Kntretanto Vrastou um encontro 
ás portas d'Angcrs para a tempestade asserenar, e 
se concluir um pacto, em que só lucraram, como 
acontece, os chefes das duas facções. Luines fez-se 
condestarel, e llichclieu tirou da loteria o barrete 
de cardeal. Seguiu-se a campanha do Languedoc 
contra os calvinistas. Luiz XIII appareceu em pes- 
soa, e distinguiu-se mais de uma vez como soldado. 
Comludo, depois de leves suecessos, a fortuna virou- 
Ihe o rosto ; em Montalbão, e era Monheur, peque- 
na praça, o exercito real padeceu grandes revezes, e 
ulcerado de desgostos, Luines, seu general, não re- 
sistiu muito a este golpe, e dentro em poucos dias 
desceu á sepultura. 

A França, á niorle do valido, desfallecia esgota- 
da pelas luctas e dissenções. Todos clamavam por 
um governo forte, que trouxesse a paz, a segurança 



e a ordem ao seio d'este cahos, aonde todas os inte- 
resses transtornados se viam agoiiisar. 

A nomeação de Hichelieu veio satisfazer o brado 
geral. O livro .í." das suas "Memorias" expõe as 
duvidas que elle oflereceu ao rei antes d'acceitar. 
Proposto pela rainha mãi, e recebido sem desagrado 
pelo monarcha, o cardeal já seguro da sua elevação 
divertia-se em representar uma scena de hipocrisia. 

Era a muleta de Xisto V. No dia immediato ao 
da sua entrada, as enfermidade» allegadas tinham 
desapparecido, e o ministro, com a pasta nas mãos, 
fallava como senhor absoluto. De repente, este ho- 
mem humilde no tempo do marechal d'.\ncrc, 8U- 
geito no governo de Luines, erguia a cabeça, e no 
orgulho do poder arrogou-se a presidência do conse- 
lho, que ninguém ousou disputar-lhe, e estendia o 
braço armado aos partidos inimigos. E que a tua 
occasião tinha emfim chegado. Tudo era fraco para 
luetar com elle. No horisonte não havia já um só 
astro que podesse eclipsar o brilho da sua estrella, 
levantada e radiosa sobre as glorias antigas da mo- 
narchia. 



O CASTELLO DE HeIOELBEKG. 

Heideiberg, cidade d'.\llenianha, antiga capital do 
Baixo-Palatin.ido, está situada na falda de uma ser- 
ra, á beira do Neeker. O castello do mesmo nome, 
eque llie liea sobranceiro, é famoso na historia; mui- 
tas vezes arruinado contras tantas reconstruidoacha- 
va-se no esplendor da sua magnificência, quando no 
anno de 17()4 o incendiou novamente um raio. edes- 
de então tem permanecido abandonado inteiramen- 
te. — Ainda ha pouco alli existia um tonel enorme, 
que pôde conter 528 barris. Em tempos da prosperi- 
dade do castello, este colosso do seu género estava, 
pelo que dizem, cheio sempre do melhor vinho do 
Rheno. Damos o desenho d'este monumento extrava- 




gante, curioso sobre tudo pela antiguidade o pelo» 
ornatos de que está carregado. Porém, (>or descom- 
passadas que sejam as suas dimensões, não pode cqui- 
parar-se ás descommunaes vasilhas que existem em 
Londres na imniensa f.ibrica de cerveja de Uarclay, 
Pcrkins e C." — 1< Achando-me n'esta fabrica (escre- 
via um observador francez) n'uni pavimento onde es- 
tavam assentes, n'unia enfiada de armazéns, 99 to- 



neis, alguns dos quaes tem a eap.icidadp de JlK)000 
a (500 000 botelhas, lembrou-me o celebro tonel de 
Heidelberg, que tinha visto anno» antes: 6 o único 
olijeelo (|ue se conservou soflrivelmente do delicioso 
castello dos condes ]>alatinos, c rect-be fielmente visi- 
ta de todos os viajantes que vão admirar aijucUas 
minas, talvez as mais bellas de tixlas as ruin.l^ feu- 
daes. (iue diflercnça hoje entre o >elho castello de 



o PANORAMA. 



125 



Heidflberg com a sua vasilha, e o colossal estabeleci- 
mento do fabricante ingloz com o seu batalhão de to- 
neis, n 

«O castello antigo dcsmorona-se ; as magnificas 
enculpturas gothicas se deterioram cada vez mais : de- 
balde um desenhador fraiicez, f|uecom zelo digno dos 
maiores elogios se constituo desde tempo indefinido 
o guarda e o cicerune d'afjuelle formoso monumento, 
soUicíta do governo de Baden, aquém o castello per- 
tence, algumas providencias conservadoras. Cadaum 
anno ha novos estragos pelo gelo na primavera, e pe- 
las trovoadas no outono; virá dia em que o velho 
castello será uma informe massa, de que talvez se ven- 
derão em almoeila as cantarias, não ficando mais que 
os desenlios, IVilizmente numerosos, de JMr. Carlos de 
Graiml)('rt. A sala dos cavalleiros está sem tecto : as 
abobadas que sustentam o soberbo eirado, d'onde se 
alarga a vista pelo curso do Necker, e pelas bonitas 
eminências que o bordam:, essas abobadas abaladas 
pelos barris di? pólvora de Louvois desaliarão qualquer 
dia. No (Mitretanto o estabelecimento do fabrican- 
te de cerveja seaugmenlará, ora com mais um arma- 
íem, ora com unia nova niachina de vapor: e se 
acontecer algum sinistro, como o incêndio que re- 
centemente devorou um corpo do edificio, o danino 
será logo reparado; em vez da construcção que ar- 
deu surgirá outra mais esplendida, em que o ferro 
empregado com profusão impedirá no futuro os es- 
tragos do fogo . » 

«As estatuas dos eleitores palatinos estão derruba- 
das de seus nichos: nenhum dos filhos dos seus vas- 
sallos se dará ao trabullio de us pòr de pé. O antigo 
tonel está vasio ha mais de século e meio : os curio- 
sos podem dckcer ao fundo e medir-lhe o bojo. Uma 
vez única Mr. Graiuibert viu jorrar d'elle o vinho, 
«! foi cm 1813, cm honra do imparador Alexandre e 
dos seus alliados os íoberanos da Auslria e l'russia ; 
mas não passou isto de uma pia fraude, o velho to- 
nel não estava cheio, o vinho que corria provinha 
de uma mesijuiidia pipa que na precedente noite se 
introduzira. Os 'jy toneis de Barclay, l'erkins e C.'' 
estão sempre atestados de cerveja que fermenta len- 
tamente ; a bel)idii ipie despejam todos os dias, e que 
ít: derrama pela Inglaterra e índias occidentaes, era 
suffieieiílíí para encher o tonel do príncipe Casimiro 
(aSOOOO lilrcjs ou 14 747 alnindes)..» 

II O myst(-rio d'estes contrastes é que o volumoso 
tonel feiíd.il não se enchia senão do producto dos di- 
reitos seidioriaes, ao passo que os toneis da fabrica 
atestam-se pelo livre concurso de trezentos homens, 
que lêem a C(írleza do receber quotidianamente o 
fructo do seu trabalho. 



O Fkitou uk Cantão. 

Novetla, 

(Coiilinuadci ilr pii;;. ll'J.) 

í)s NOSSOS leitores já roídicnrii o sMpplieio do (cha 
ou canga. O instiuniunio de tortura a (jue S(! dá es- 
te nouuí I' um niailriro composto de duas pi^i,'as, com 
um i'li,iufni no meio por ondi' sií i'nlia o pesco(jo do 
eondemiiado ; depois uueni-se as duas pecas, e o juiz 
lhe põe o si'U sello com a senteuea para impedir (|ue 
lu ubram. (I Uliít fornia assim uuui especii- de eollci- 
ra, (pu! varia em pezo ih^sde sessenta al<' duzentas li- 
bras, <• segue por toda a parli." o infeliz pailec<'nte. 
Um carcereiro, arnuido d uni azorrague, o passeia 
uiiiim todos OH dias pelas ruas, exposto ás .ipupaUus 
du guntulha, e a uoile o rccondui paia a |uiaáu. 



ElTendon, que acabava de soffrer um d'estes pas- 
seios, tinha chegado mais o seu guarda á extremida- 
de dos arrabaldes da cidade ao pé d'um dos canaes 
que a abastecem de viveres vindos de todos os lega- 
res do campo. AUi, exhausto de forças pelo muito 
que padecera, agachou-se e perdeu os sentidos. O 
carcereiro quiz debalde obriga-lo a levantar-se ás 
chicotadas; Etfendoa não se movia. 

— " Tinha-te em conta de mais valente, resmun- 
gou o homem do chicote, olhando para elle. Que 
hei de eu agora fazer com este trambolho sem movi- 
mento ? " 

Olhou á roda de si em busca d'alguem que o aju- 
dasse a erguer o feitor, porém o sitio era ermo, e a 
noite, que principiava a escurecer, não deixava vêr 
senão a mui curta distancia. O carcereiro revestiu- 
se de paciência, e sentou-se ao pé do prezo. 

N'este momento sentiu-se rumor de remos e abi- 
coii uma lancha. 

Saíram d'ella dois homens, de camizas brancas, 
calças largas, japonas abotoadas pelo lado, e chapéus 
de palha pontagudos, trajo que indicava serem bar- 
queiros. Traziam uma carga que pousaram alli perto. 

O carcereiro, que levantara a cabeça, viu que era 
o cadáver d'um homem afogado. 

— II Pelos gcníos d'agua ! exclamou elle com um 
sorriso grosseiro, pescastes um peixe grosso." 

— II U.ue nos não faz ricos » retrucou um dos bar- 
queiros. 

— " Não achastes nada ao morto ? 5> 

— "Nada mais que esta caixinha com um vidro 
de remédios e uns papeis. » 

— "li verdade que pelo fato mostra ser medico." 

— "Que não cura mais ninguém, n 

— "Pois aqui está um doente que bem precisão 
tinha d'elle ; eu não sei como hei de leva-lo para a 
cadeia. » 

Os barqueiros voltaram as caras e viram então a 
Edendoii. 

Ah! tu teus rato na ratoeira?" disseram el- 

les chega ndo-se. 

— "K um rico negociante de Cantão " respondeu 
o guarda com unia especii! de orgulho. 

— "Bico! re|»liram os barqueiros. Ponjue não 
comprou ([Ueiii ficasse jior elle ? " 

Kllendon, aquém afrestpiidão da noife tinha rea- 
nimado, estremeceu ao ouvir dizer isto. 

— "Pode com efleito imtro homem ílcar em meu 
logar.'" perguntou elle pasmado. 

— "Conforme o [lartido que lho fizeres" replicou 
o carcereiro. 

— " Mas onde hei de acliar quem se sujeite ..." 

— "Não falta por alii quem até deixe que lhe cor- 
tem o gasiuite para obsequiar uni condemnado" ob- 
servou o baripieiro. 

liiizirain os olhos do feitor; fez um esforço, c le- 
vaiilando-se apesar do pezo do tcha que o ilerrcava ; 

— "lAual de viís quer solVrcr esta pena? pergun- 
tou elle. l''aço-o rico para toda a sua vida. " 

— "Poripianlo tempo lias di' tu andar ouu oíc/iii 
grande ás costas.'" piTguntaraiii os barqueiros. 

— " Por dois annos." 
Aliaiiaraiii a cabi>ça. 

— ..Não ha hoiiiem que liie resista. Mais vai mor- 
rer eiii cima d'um ciqxi. " 

— ..Salvo se houver quem ))eriiiitta, lá de vei em 
(jiiando, ao priv.o largar o si-u coll.ir " ponderou o 
gu.irda piscando um olho. 

— • i. Kntão como, se a chave do /cAa pára nas mào'. 
dos juizes .' " 

— .. IMde haver (piem tenha outra." 

— >. E o sello ,' " 



126 



O PANORAMA. 



— «Tira-sn sem se quebrar." 

— " Pódfs tu realmente fazer o que dizes ? n excla- 
muu ElVendon. 

— " l'or um taci!" (l) 

O feitor procurou dinheiro nos seus vestidos, e ati- 
rou com asomma pedida aos pés do guarda, que met- 
teu logo mãos á obra. D'ahi a um instante estava 
aberta a canga. 

KITendon, assim que se sentiu solto, deu um grito 
de alegria, e levantou-se d'um pulo. 

— li Devagar, gritou o carcereiro agarrando-o por 
um braço-, mostrei-te o que sal)ia fazer i agora é pre- 
ciso qu(! tornes a metter o pescoço n'este collar. « 

— « N.lo ! exclamou o feitor, que achei quem me 
substitua. » 

— « (iucm ? >> 

— " Este cadáver. » 

— tt ftue dizes ?>i 

— "Digo que lhe enfies pelo pescoço o teu tcha 
grande. Entrei hoje para a cadeia, ainda ninguém 
ine conhece, ninguém dará pela troca. Veste o mor- 
to com o meu fato, declara que succumbi, e ninguém 
desconfiará da mudança. » 

— «Não caio n'essa, disse o guarda, podem des- 
cobrir ...» 

— « Cem tacis se consentes. » 

— " Cem taeis ! » 

— «E outro tanto a estes dois amigos para se ca- 
larem, n 

— "Valeu !" exclamaram alegres os barqueiros. 
O guarda ainda quiz púr-llic suas duvidas ; porém 

elles tanto o apertaram para que não deixasse ir pe- 
la agua a baixo esta occasiiío única de ficarem ricos, 
que elle por fim chegou-se ao rego. Effendon entre- 
gou-llie a quantia ajustada em bilhetes sobre o hmt- 
pou, e sem perda de tempo tractaram da troca dos 
vestidos. O leitor vestiu a túnica do afogado, pegou 
na caixinha que os barqueiros lhe deram, e eseapu- 
liu-se, eustando-lhe ainda a crer no seu milagroso li- 
vramento. 

Seguiu por algum tempo o arr.ibalde andando o 
mais de pressa (|ne podia; mas, chegando á iKirta da 
cidade mantcliou, faltarani-lhe as forças eviu-se obri- 
gado a senlar-sc ao pé do lampião que alumia a en- 
trada. 

Depois d'alguns instantes de doscanço lembrou-se 
da caixinha que trazia, eabriu-a. Como lhe haviam 
diclo os barqueiros, não continha senão un» frasqui- 
nho de bronze ciiidadosanientc fechado c alguns pa- 
peis. Os que Ertendou passou primeiro pelos olhos 
eram rcceilas de dilVerentcs venenos com a indicação 
dos seus elleilos-, ouldmo, porém, era uma carta di- 
rigida ao medico Wang-ti, na qual lhe faziam ins- 
tancias para que viesse aPeking paia o graiule pio- 
jeclo ()ne llie tinha sido coniuinnicado. 

Estava Eflotulon a reler esta carta, e procurava 
adiviíiliar que projecto seria este, quando, levantan- 
do os olhos, viu dois homens que estavam alguns pas- 
sos distantes d'elle com lanternas, e (|ue parc>ciam 
«xamina-lo. Ellendon, tcmcndo-se da curiosidade 
doesta gente, lêvantou-se para seguir avante o sou 
caminho, e tornou a metter, á pressa, os papeis den- 
tro da caixa, mas um dos homens das lanternas, que 
chegara mais perto, viu o nome ([ue u'ella estava 
gravado. 

— "E elle," disso em voz baixa, fazendo um si- 
gnal ao seu comjianheiro para que se approximasse. 

— " (^luem és tu, e que me queres .'^i perguntou 
Klfendon perturbado. 

— "Não te chamas VVang-tif» rosnou o china. 



(n O tael valia dei Xoílita em ISSO. 



— uôue te importa ?n 

— "Tu és medico. n 

— "Serei. " 

— u Chegaste de Pao ? » 

— " Porque ? >■> 

— " Fo-hu mandou-nos ao teu encontro, n 

— " Fo-hu ! " repetiu EfTendon estremecendo. 

— " \ em I está á tua espora." 

O feitor hesitou. N 'este meio tempo chegaram uma 
cadeirinha ; os dois chinas travaram d"elle, e depoLs 
de o terem sentado deram o signal aos moços que 
partiram a passo largo. 

EfTendon <|U)Z ao principio saltar para fora, mas 
co.Tlevc-o a lembrança de sua filha. De o tomarem 
pelo medico rmultaria estar perto de Maria, e tal- 
vez achar nieios de avêr! . . . Resolveu tirar partido 
d'este succc-sso inesperado, representando o mais tem- 
po quepodesse o pajiel d'aquelle cujos despojos trazia. 

Deixemos pois leva-lo para casa de Fo-hu, e omit- 
tlndo a conversação que teve com o censor, eque du- 
rou parte da noite, transportemo-nos na manhã se- 
guinte á habilaçrio imperial do jardim redondo, dis- 
tante a algumas ii de Pcking (I). (Conlinúa.) 



Os Templários. 

(Continuado de pa». 117.) 

Depois da perda da Terra Sancta, e mesmo anterior- 
mente, havia-se dado a entender aos templários que 
era urgente a sua reunião com os cavalleiros do hos- 
pital : reunido a uma ordem mais dócil o Templo of- 
fereceri.! pouca resistência aos reis. Mas os templá- 
rios não quizeram estar por isso. O grão mestre, Jac- 
ques Moiay, cavalleiro pobre da Borgonha, mas ve- 
lho e valente soldado, que acabava de cobrir-se de 
honra no Oriente pelos últimos combates que oschris- 
tãos alli sustentaram, respondeu — "que 6. Luiz ti- 
nha, em verdade, proposto n"outro tempo a juncção 
das duas ordens, porém que o rei d'Hespanha não a 
tinha consentido; (|ue para os templários se reunirem 
aos cavalleiros de S. João era necessário que se aba- 
tessem muito-, que a ordem dos templários tora uiais 
exclusivamente creada para aguerra.n — Terminava 
por estas palavras altivas: — "acha-se muita gente 
que mais quereria tirar aos religiosos sua fazenda do 
que accrescentar-lh'a . . . Não olfetantc, so se liíer es- 
ta união das duas ordens, ficará uma religião tão for- 
te e tão poderosíi que muito bem poderá detendcr 
seus direitos contra toda c qualquer pessoa n^este mun- 
do. " 

Em quanto os templários rcsisti.im tão orgulhosa- 
nu-nfe a qualquer conccs-são, iam ganhando vulto os 
ruins boatos contra elles, que pur sua culpa para is- 
so concorriam. Dizia um ca>alli iro a Kaoul de Pres- 
les, homem dos mais sisudos c< seu temjK» — uque 
no capitulo geral da ordem havia uma cousa tão se- 
creta, que se alguém, por sua de^gr.^ça, a visse, fos- 
se emlwra o rei de França, nenhum temor de tor- 
mentos im|K>diria os do capitulo de o matan-m, logo 
que pi)dessem." — Lm templário, rcceni-admiltido, 
tinha protestado contra a formula da admissão peran- 
te uma auctoridade de Paris; outro se havia confes- 
s.-ido a um franciscano, que lhe deu ix>r penitencia 
jejuar ttxlas as se\t;is feiras, um anno n fio, e sem 
trazer cauiiza; outro, emfim, quecra da kis* do ptm- 



(l) Pekinc ou Pc-kin;: niSo i o nota» especial d'um» ci- 
(l.iili- ; silTnific.i rirtf rfo norlt-. e exprimindo * 9Íltiai;3o rel»- 
li\« daci)rte. |iú<le ser dado «ciiloile mui ilirern dcquclU • 
qiic os europeus eiclusii-amejile o >pplicar«iD. 



o PANORAMA. 



127 



tificc — «lhe tinha ingenuamente confessado todo oj 
mal que conhecôra na ordem, em presença de um I 
cardeal, seu primo, tjuc escreveu no mesmo instante 
este depoimento.!' — Kaziam-se circular ao mesmo [ 
tempo outros sinistros rumores acerca das prisões hor- 
riveis, onde os cabeças sepultavam os membros da or- 
dem recalcitrantes. Um dos cavalleiros declarou — j 
«que um de seus tios havia entrado na ordem são e 
contente, com cães ctilcões^ ao cabo de três dias es- 
tava morto. , 

O povo acolhia avidamente estes boatos : achava 
os templários sobejamente ricos, e pouco generosos. 
Posto «pie o<;rão mestre, nosseus interrogatórios, ga- 
}>c a niuniiiceneia da ordem, uma das arguições con- 
tra esta opulenta corporação éque — « as esmolas não 
se faziím como cumpria." — 

As cousas estavam maduras : o rei chamou a Pa- 
ris o grão mestre e os cabeças ; afagou-os, enclieu-os 
de favores, adormcceu-os : vieram cair na rede, como 
os protestantes na tnaiançn de H. BarUidlumcu. O 
rei acabava de acerescentar-lhes os privilégios \ e ro- 
gara ao grão mestre que fosse padrinho de um liliio 
seu. — A 12 de outubro, Jacques Moiay, nomeado 
expressamente com outros personagens, havia assisti- 
do ao enterro da cunhada del''ilippe. No dia 13 Jac- 
ques foi prezo com os cento e quarenta templários que 
se achavam em Paris; no mesmo dia foram também 
prezos sessenta em Beaucaire, e um grande numero 
de outros por toila a França. Esla\a seguro o assen- 
timento do povo e da unixcrsidade : no mesmo dia 
da prisão foram osburguezcs chamados por parochias 
e confrarias ao jardim do rei, na jiarlo de Paris do- 
noininada especialmente a ciJade, e ahi pregaram 
alguns fr.ides. Póilc jiilgar-se d.i violência doestas pre- 
gações populares pela da carta regia que correu toda 
a França. — "Cousa acerba, cousa deplorável, cousa 
liorrivel ao pensar-s<!, terrível de dizer-se ! Cousa de 
exeeravcl atrocidaile, de abominável infâmia ! Todo 
o animo dotado d(^ razão se condoe c eonlundo-se no 
seu dú, vendo que a natureza se allieia fora dos limi- 
tes naturaes, que se deslendíra do seu principio, que 
desconhece a sua dignidade, que jirodiga de si uies- 
nia se assemelha aos brutos deaprox idos de sizo ; que 
digo/. . . qu(! transcende a bruteza dos próprios bru- 
tos! . . . )i — Julgue-se por isto do terror e sobresullo 
com que (ai carta foi recebida por toda a alma ehris- 
lã : era como o toipie da trombeta do juizo llnal. — 
Seguia-se a indicação summaria das aeifusações, actos 
de renegados, de traição contra a christandade a pró 
dos inlii'is, iniciação torpe, e outros muitos horrores! 
Tudo isto fora denunciailo por templários : dois ca- 
valleiros, um gascão, outro italiano, prezos por mal- 
feitorias, haviam r<;velado, segundo se dizia, lodos os 
segredos da orilem ! Oque mais exaltava a imagina- 
ção eram os dicto» extravagantes que se divulgavam 
ii respíúto dl.' qual fosse o Ídolo que os templários 
udor.ivam : variavam os pareceres : diziam lUis que 
<!ra uma cai>ei;a barbuda, outros (jue uuja eaix-ça de 
Ires faiM:s :, linha, accrescenlavam alguns, olhoscliam- 
m<'janl<s. Havia (jueni dissirsse que era um craneo 
d'liomeni :, outros «ubstiluiam-lhe um gato. 

Fossem <|uai's fossem os lioatos, Filip|ie o formoso 
não perilrra tempo. No mesmo dia da prisão pessoal- 
m<;nte veio ao'1'i'mplo tomar assento com seu thesou- 
l'o e sellos e um exercito' de genie forense para au- 
tuar, inventariar. Ksta bella preza o eiiriípiícèra di; 
um jaclii. 

Oassondiro do pa|ia foi extremo ijuando soube (pie 
o rei não fazia cabedal iPelli' na perseguição de uma 
ordem (piesc) poília ser julgada pelasajii'ta sé: nelio- 

li:ra llie fc/, i.'squi r a sua ordinária abjecção, a sua 

jirccaria e depeudenle situação nu meio do» estudos 



do monarcha : suspendeu os poderes dos juizes ordi- 
nários, arcebispos e bispos, e mesmo dos inquisido- 
res. — A resposta do rei é violenta : escreve ao papa 
— "que Deus detesta os tibios ; que os vagares são 
uma espécie de eonnivencia com os crimes dos accu- 
sados ; que era melhor que o papa excitasse os bis- 
pos. Seria uma grave injuria aos prelados tirar-lhes 
o poder que lhes vem de Deus. ISão mereceram esse 
ultraje ; não o supportarão ; o rei não poderia tolera- 
lo sem violar oseu juramento. Saneio padre, quem ú 
o sacrílego que ousa aconselhar-\os que menoscabeis 
aquelles que Jesus Christo envia, ou, para melhor 
dizer, o próprio Christo? ... Se os inquisidores são 
suspensos, a causa nunca se concluirá ... O rei não 
lançou mão dV-lla como aceusador, mas como cam- 
peão da Fé e defensor da Igreja, do que deve dar 
contas a Deus." — (l) 

Filippe deixou o papa capacitar-se de que lhe en- 
tregava nas mãos os prezos, e que se encarregava 
d(? conservar os bens para os applicar ao serviço dii 
Terra Sancta. Oseu intento era alcançar que o pon- 
tífice restituísse aos bispos e inquisidores os poderes 
de que os suspendera. Mandou-lhe Setcnia e dois tem- 
plários para J'oiliers, e fez partir de l'arís os prinei- 
paes da ordem-, ordenou porém que passassem além 
de Chinon. O papa accoinmodou-sc ; c obte\e os de- 
poimentos dos de Poitíers : ao mesmo tempo levan- 
tou a suspensão dos juizes ordinários, só reservando 
para si o julgamento dos cabeças da ordem. — Este 
vagaroso processo não podia satisfazer o r<ú. Se o ne- 
gocio assim fosse guiado com pouco' estrondo, e per- 
doado como no confessionário, não havia meio de iicar 
com os bens. Por isso, em quanto o papa imaginava 
ter tudo na sua mão, o rei mandava autuar em Pa- 
ris pelo. seu confessor, inquisidor geral de França. Ob- 
tiveram-se logo cento e quarenta coiilissões pelos trac- 
tos, em (|ue se empregaram ferro e fogo : uma vez 
divulgadas estas conlissões não podia o papa aecom- 
inodar o negocio. Ksle mandou a Chinon dois car- 
deaes i)ergunlar aos cabeças e ao grão mestre se tudo 
aquillo era verdade:, oscardeaes os persuadiram a di- 
zer que sim, e elles se resignaram a ceder : o papa, 
com eHcito, os reconciliou e os reeommcuduu ao rei ; 
julgava tc-los salvado. 

Phili]ipe não fazia caso e continuava seu caminho. 
No principio de 1 ÍOII fez prender iH)r via de seu pri- 
mo, o rei de Nápoles, todos os templários da Proven- 
ça. Pela pasclioa junetaram-se em Tours os estados 
do reino. O rei fez que por estes lhe fosse dirigido 
um discurso singularmente violento contra o clero. 
— 11 1) povo do reino de Fran(;a dirige ao monarchii 
instiintcs suppilcas . . . Gue se lembre (|ue o principȒ 
dos lillios «r Israel, Moisés, amigo de Deus, a ipiem 
o Senhor faUava face a face, vendo a aiiostasja dos 
adorailores do bezerro d'ouro, disse: Tonu? cadaum ii 
espada e mate o seu próximo )i:irente ... F não foi 
para isso pedir o consentimenio ile Aarão, couslitui- 
do suiunio sacerdote por orilem ile Deus . . . Por t]UO 
razão, pois, o rei clirislianis>inio não proceilería da 
mesma maneira, mesmo contra todo o clero, se o cle- 
ro errasse assim, ou apoiasse os que erram .'...» 

Susti'ntaudo este discurso, vinli- e seis priiiciiR'S *• 
lithilgos se constituíram aciusadores e ilerani procu- 
ração paru se proceder contra os li-mplarios per.inte 
o papa eo rei. — x.Xrmado orei com estas íuIIutcu- 
cias (diz Diipuy), toi a 1'oiliei's, .iconip.inliado di> 
gente, que vinham u»er acpn-Ues proiur.idiui's (pu- clle 
retivera junctu á sua pessoa par.i loui.ir p.ircccr «i- 

(I) l)ii|iny (ilr i/iiein a/!o oí oiihos rxirattes) min Imi 
csla ruiiii ii.i iiili-f<ni : pioviivrliiiiMilo iii\o lui rciutlliilii mi 
j)uulíUcu, uiut i-ii|iiiibiiila culiu u pvru. 



128 



O PANORAMA. 



hre astlifficiilflados que ])or ventura sobreviessem. » — 
Ao chegar, beijou huiiiildemente o pé ao papa ; mas 
este viu que nada obteria. Filippe não dava ouvidos 
a coinposi(;ão alguma ; era-lhe preciso haver-se seve- 
ramente com os individues para lhes poder licar com 
a fazenda. O papa, desatinado, queria sair da cida- 
de e evadir-se ao seu t^ranno ; e mesmo quem sabe 
se até iugiria da Fran(;a ? . . . Mas não era homem 
que partisse sem o seu dinheiro ; e quando se appre- 
scntou ás portas com as cavalgaduras e bagagens não 
poude passar ^ viu que estava prisioneiro do rei, nem 
mais nem menos como os templários : por muitas ve- 
xes intentou a fuga, porém sempre inutilmente. Por 
tanto Clemente deixou-se ficar e deu mostras de re- 
signado. No primeiro de agosto de 1308 expediu uma 
bulia dirigida aos arcebispos e bispos : este documen- 
to é singularmente breve e compendioso contra o uso 
da corte romana: vê-se claramente que opapa escre- 
ve contrafeito eque lhe impellem a mão. Alguns bis- 
pos (segundo esta bulia) tinham escripto que não sa- 
biam como deveriam ser tractados os accusados que 
se obstinassem a negar ou que retractassem as suas 
confissões." — Estas cousas — diz o papa — não fica- 
ram indecisas pelo direito escripto, (lo qual sabemos 
que muitos d'entre vós tem pleno conhecimento : não 
e nossa intenção ao presente estabelecer para esta cau- 
sa novo direito, e queremos que procedais coutorme 
ao que o direito requer. 

Havia n'isto um perigoso equivoco. Jura scripta 
entender-se-hia o direito romano, ou o canónico, ou 
o regimento dos inquisidores?. . . O perigo era tan- 
to mais efleetivo que o rei não largava mão dos ca- 
valleiros prezos para ei\trega-los ao papa, como a es- 
te dera esperanças i na conferencia ainda o entreteve 
promettendo-lhe os bens para o consolar do não obter 
os indivíduos:, e esses bens deveriam ser entregues 
áquelles que o papa designasse : era ataca-lo pelo seu 
fraco, e Clemente andava muito preoccupado a respei- 
to do destino dos mesmos bens. 

O papa tinha restituído (em 5 de julho de 1.303) 
aos juizes ordinários, arcebispos e bispos os poderes 
momentaneamente suspensos ; ainda no 1 ." de agos- 
to escrevia que podia scguir-so o direito conimum, e 
no dia 12 commettia a causa a uma commissão. Os 
commissarios deviam instaurar o processo na provin- 
da de Sens, em Paris, bispado sullraganeo de Sens. 
Kram nomeados outros commissarios para fazerem 
outro tanto nas demais partes da Europa: o julga- 
Diento devia ser pronunciado d\dii adoisannos n^um 
concilio geral, fora <la Krança, em Vienne no delphi- 
nado, território do império. 

A commissão, composta pela maior parti; de bis- 
])0s, era presidida por Gilles de Aiscelin, arcebispo 
de Narbona, homem brando etimido, de muitas let- 
tras mas de pouco animo; tanto o rei como o papa 
julgavam te-lo pela sua parte: o papa julgou que 
mais seguramente apaziguava o descontentamento de 
Filippe ajuntando á commiss.ão o confessor do mo- 
narclia, acjuelle dominicano e inipiisidor geral de 
França, que havia conieçado o processo com tanta 
violência e audácia. — O rei nada reclamou : carecia 
do papa. A morte do imperador Alberto d\\uslria, 
no I ."' do maio de l.iOít, ollerecia á casa de França 
uma perspectiva sublime. O irmão de Filippe, Car- 
los di; N alois, cujo de^-tino era pretender tudo e fa- 
Ihar-ihe tudo, appresentou-M- candidato ao império; 
se elh' lograsse o intento, o ])apa vinlia a ser mais 
que nunca criado e vassallo da casa de França. Cle- 
mente escreveu ostensivamente a favor de Carlos, mas 
em segredo contra elle. — l)'então i>or diante já não 
havia segurança para o papa nos dominios do rei. 
Conseguiu sair de Poiticrs, e foi metter-sc em Avi- 



nhão em março de 1309 : linha dado palavra de não 
sair de França, e d'este modo não vioia\a, illudia 
sua promessa. Avinhão era enão era de França. Era 
uma fronteira, uma posição mixta, uma espécie de 
as^lo, como o foi Genebra para Cahino, Ferney pa- 
ra Voltaire. Avinhão dependia de muitos e de nin- 
guém : era território do império, um antigo municí- 
pio, uma republica sob a protecção de dois reis. O 
rei de Nápoles, como conde da Provença, o rei de 
França, como conde deTolosa, tinha cada um meta- 
de do senhorio de Avinhão ; míis o papa ia ser alli 
mais rei do que elles, trazendo a sua residência mui- 
to dinheiro áquella pequena cidade. 

Clemente julgava-se livre, mas arrastava os seu» 
grilhões : o rei o tinha sempre seguro pelo processo 
de Bonifácio. Apenas de assento em Avinhão, sabe 
que o rei Filippe manda conduzir á sua presença pe- 
los Alpes um exercito de testimunhas, a cuja frente 
marchava aquelle capitão italiano, Kaynaldo de Su- 
pino, que fora na prisão de Bonifácio \I1I o braço 
direito de Nogaret. A três léguas de Avinhão as tes- 
timunhas caíram n'uma emboscada que lhes estava 
preparada: Uaynaldo salvou-se cm Nimes a muito 
custo, e fez pelas justiças do rei lavrar auto d'csta 
cilada. — Opapa escreveu mui depressa ao pai do 
rei para rogar-lhe apaziguasse Filippe o formoso : e 
escrev(!u ao próprio rei, a 23 d agosto de 1309 — 
"que se as testimunhas foram retardadas em seu ca- 
minho, não era a culpa d'elle, mas sim dos ministros 
do rei, que deviam ter prevenido a segurança d'a- 
quellas. " — O rei havia denunciado ao papa certas 
cartas injuriosas: opapa responde queellas são, mes- 
mo vista aorthographia, indignas da corte de Koma ; 
mandou-as queimar ; e quanto a perseguir os aucto- 
res d'ellas disse que — .i uma experiência rc-cente pro- 
vou que estes procedimentos accelerados contra per- 
sonagens importantes teem triste e perigoso resulta- 
do, n — Esta carta do papa era uma tímida e humil- 
de protestação de independência, uma resistência sup- 
plicanle : a allusão aos templários, com que conclue, 
indicava bem a esperança que o jjontilice punha nos 
embaraços que a Filippe o formoso devia suscitar 
aquelle processo. (Conlinua.) 



InFLAMMAçXo da pólvora pelo CHOaCE. 

OíKio icm duvida é causa de muitas desgraças, prin- 
cipalmente quando se lida com matérias intlamma- 
veis. Antes das experiências feitas por Mr. .\uber, 
coronel d'artilheria, na presença da commiiMo con- 
sultira das pólvoras, fugia-se de empregar o ferro na 
coustrucção das machinas, utensílios, e edilicios d.-is 
fabricas da pólvora, por ser sujeito a faiscar com o 
choque •, mas o latão era tido como um di» met,ie5 
livres dVste perigo. Mr. .\ul)er provou tixiavia que 
a pólvora se íntlamraa : t.*^ no choque do ferro com 
ferro; 2.*^ do ferro com latão; 3." do latão com la- 
tão; 4." do ferro com mármore; e 5." do chumbo 
com cliumbo ou com pau, quando o choque prvivem 
de baila de chumlxi despiilída por arma do fogo. 
Não se conseguiu incvndiar a jxilvora jwr meio da 
pancada de martcllo solire cIuiiiiIn.). 



QfKtl compra carece de crm olhos, equem vende has- 
ia-lhc um, éum dictado italiano. Uuando um alqui- 
le vos ((uer impingir um cavallo, lusfra-o e onfeifa-o 
para lho esoonder as mataduras ; quando um liomem 
\os ipier enganar cobre o rosto oom uma mascara. Ex- 
perimentai o cavallo cachareis um sendeiro; dosmat- 
earaí o homem e achareis um malvado. Méht. 



17 



o PANORAMA. 



129 




o CABDEAI, DE HICHEXIEU. 



O CaUDKAI, 1)H UlCIIIil.lKtl. 

II 

No REGIMEN anlif^o, cm (jin' ii aiictoridade real era 
u único poder do lísiailo, era lu.-ccssario que o mi- 
nistro, <iu<! 80ul)e suslcnlar-se e governar de7.oito au- 
nou comi) verdadeiro »ol)erano, eonseí;uÍ!ise duas cou- 
sas i;;iialhienle espinhosas e árduas : evitar a sorte 
do niareclial d'Anere, eoiilcndo a noliii'za pido temor 
do ininiedialo easl i(;o ■, caplivar a viiiilade e o alVecto 
dl- Ijiiiz XIII, li;;aii(lc> á sua eousíírvaeão a seguran- 
ea do prineipi-, e a existência da njonarcliia. 

Kstu loi a politica do cardeal cm Iodas as epocluts 
c no nwio das maior<'s dilTiculdadcs, 

Luiz. XIII, o mais (M|>riclioso e mudável dos ho- 
mens, Iraldu sempri' as amiza(h'S a «pie pari'cia mais 
leal. O seu atlcclo não poupou a sua mài as iMin;;en- 
te» dores do ch^slerro na terra estrani;eira, nem sid- 
vou o mo(;o e destemido ('in<|-MarH do cailalaiso. 
Com um amor ^ehuhi e <'adaverico, con>o a sua ul- 
niu, tinha coulrahlihi iiicljnaeòc» ciim as inuis fur- 

VOL. 1. DlSZKMUUU XOj lUlO. 



nuisas e meigas donzelhis, e não sentindo o menor 
vácuo no cora(;ão rompeu-as sem vioKmcia. Este era 
o senhor a ipiem Kichelieu consagrara a sua vida, e 
que até o uilinio suspiro não viu no governo senão 
pelos seus olhos, não ohrou senão ])eh) seu bra(;o, co- 
mo se o robusto espirito do seu ministro se houvesse 
infundido no corpo frágil tio succossor de Henrique 
IV. Como homiMU huiz al)orrccia Duplessis. Como 
rei cs(tuiiou-o contra toilos os golpes — uma lei fatal 
e misteriosa uniu a sua carreira a tio auila/. sacerdo- 
te, e <pu', ao repousar emlim ile tantas fadigas, fe- 
chando os oliios estendeu a mão fria do seio da eter- 
nidaile i> arrastou atrar. de si para a urna cineraria 
í\i' S. Diniít o suspeitoso e melaiicholico numarcha da 
l''rauça. 

O segredo d'esta situa<;ào eipiivoca i' conlradiclc- 
ria estava nas cousas, ena Índole do priucipe. As rc- 
l)i'lli(jes <pu' lhe sacudiram o Iii-r<;o, ascs[ierani;as ipie 
a sua deliil saúde auiuuiva na lamilia real, o despre- 
zo popular com ipie a nai;ão <i Iraclava, nem os igno- 
rava, nem lhe escpieciam nunca. A sela lra/.ia-a sem- 
pre cruvuda no pcilii. (.• inleli/. não accrcdita\a na 



130 



O PANORAMA. 



aflieição da mãi, no amor da mulher, na fidelidade 
do irmão, c na amizade dos grandes e dos povos. 
Sentia-se só, rodeado de inimigos, exposto a vêr a 
coroa voar-lhe da cabeea ao furacão das discórdias 
civis. Fraco buscou o apoio do forte. Tiniido encos- 
tou-se á energia e audácia de outrem. Ciumento e 
desconfiado só se entregou a um homem, que poz a 
cabeça sobre a pasta de ministro, certo de que a es- 
iiada dos vassalíos poderosos a liavia de cortar apenas 
a victoria lhe sorrisse. Luiz XIII e Riclielieu eram 
essenciaes por tanto um ao outro. O príncipe signi- 
ficava a realeza ; o cardeal o verbo, a força activa 
d'esse grande principio. Em nome da unidade mo- 
narchica a paz renasceu, e a decadência tornou-se 
grandeza dentro e fora do bello reino da França. 

Os meios por que se elevou ao apogeu da influen- 
cia foram qiiasi sempre immoraes, ou subterrâneos. 
Principiou piíla ingratidão secca e despegada, e aca- 
bou pelas tlifses do culello e patíbulo, em que a ca- 
beça de Clialais c Cinq-Mars, e depois o nobre san- 
gue dos !Moiitniorencv lavraram o documento de um 
triumpho iinpio, mas solido. A primeira victima foi 
Maria de Medicis, a protectora da sua mocidade, 
aquella a quem devia o ter subido os degraus mais 
difíiceis do poder. Perseguições violentas forçaram a 
ex-regente a expatriar-se, e a conslituir-se cúmplice 
de todas as tentativas dirigidas contra seu lilho. Ri- 
chelieu, pelo contrario firmando com isto o seu cre- 
dito no animo do rei, fez-se indispensável, porque 
representava a gloria, c o vigor da resistência mo- 
narcliica nacional combatendo braço a braço com os 
enredos e traições do estrangeiro. 

Pelos principies de 162ó, poucos mezes depois da 
entrada de Riclielieu no ministério rebentou uma 
nova rebellião protestante. Desde esse dia fortificou- 
se no seu espirito o profundo convencimento de que 
não havia governo possível, em quanto aquella seita 
armada e audaz estivesse revestida de prerogativas 
anarchicas, e protegida por exércitos aguerridos. O 
cardeal temporisou. Ainda não chegara a occasião 
de ferir o golpe decisivo. A guerra da Itália corria 
então duvidosa \ a Inglaterra vacillava na sua alliaii- 
ça; ea casa d^Auslria não poupava esforços jiara 
hostilisar a França. I'or meio de negociações hábeis 
o ministro illudiíi a corte de I'"ilippe IV pcrsuadin- 
do-a de que ia pactuar com os calvinistas para soc- 
correr depois a Itália com todas as tropas. Os pro- 
testantes, da sua parte, suppozeram que ellc accom- 
modando sem demora a lucta além dos Alpes os vi- 
ria esmagar com toda a segurança. Kste engano dos 
dois lados fez mais dócil oduque d'01ivares, e muito 
modestos os sublevados da llochella. K por tractados 
sinuilt.meos Riclielieu concluiu a paz coni osllugiiiio- 
tes por causa do pacto com allespanha, ecom aile»- 
panlia por cansa da transacção com os llugunotes. Fo- 
ram duas evoluções tão destras como bem succcdidas. 

Seguiram-se dois annos de socego profundo. O car- 
deal enipregou-os em cimentar os alicerces do seu 
poder com uma actividade, e uma presciência raras. 
A marinha de guerra, a industria e o commercio 
receberam d'elle serio impulso, e tloreceram em pou- 
cos tempos. A reforma dos impostos, objecto das suas 
craves meditarões, teria sido consummada com idéas 
progressivas para a cpocha, se a morte o nao cha- 
masse tão cedo. Consulados em todos os portos dVs- 
fala no Levante, e uma legação em Moscow, estal>e- 
leciam-se a par das negociações militares de Hasilly 
iiiiii costas do império de Marrocos. Creava-se uma 
T<mipaiihia para colonisar o Canadá, outra para ex- 
plorar S. Domingos, e a coroa animava os armado- 
res, que eni[irehendiam as arriscadas viagens da ín- 
dia. No interior emprezas paru seccar os pântanos, 



arrotear os baldios afazer navegáveis os rios. attesta- 
vam a boa \ontade do ministro, e o incremento gra- 
dual da classe media, a quem elle no seu pensamen- 
to politico desejava coUocar diante do poder tvran- 
nico dos senhores das terras, dando-lhe a influencia 
da riqueza para os abalar e abater. 

O sangue dos Montmoreney, aristocrático por cx- 
cellencia foi derramado sem piedade pelo cardeal, 
que nunca recuou diante da violência dos meios com 
tanto que obtivesse a utilidade dos fins. A auctori- 
dade real era escarnecida e desac;itada pelos nobres, 
que se vangloriavam de estar superiores a todas as 
leis e ordens. Riclielieu publicou um decreto contra 
os duelios. O conde Francisco de Montmorencv zom- 
bou d'cUe, e exclamando, que os escribas podiam en- 
cher de garatujas quantas resmas quizcssem de papel, 
desembainhou a espada e na praça mais publica de 
Paris atacou o marquez de Benorou com a elegância 
de um cavalheiro, e o valor trantjuiUo de um solda- 
do. O cadafalso ergueu-se silenciosamente no terrei- 
ro da Greve, e o algoz decepando uma das mais no- 
bres cabeças da Franca resolveu a questão, inopinad.i 
e cruelmente, por este desfecho sanguento. 

Tractava-se de decapitar, ou os duelios, ou os de- 
cretos régios, como dizia Richelieu. Pela sua firme- 
za os duelios é que sucumbiram. Desde então o ter- 
ror da aucloridade monarehica fundou-se por toda a 
vida do implacável ministro. A sociedade, que ha 
pouco se agitava no calios da anarchia, organisou-sc 
como por si mesma. O poder respeitado pela unida- 
de dos planos, pela grandeza dos fins, e pela terrível 
magestade diis suas vinganças, acbou-se com a força 
e o necessário prestigio de tentar os vastos projecU», 
para os quaes se encaminhavam de longe todos os 
passos do grande ministro. 

A llochella, defendida por tropas consideráveis e 
governada pela ambiciosa mãi do duque de Rohan, 
era o baluarte da seita protestante, e do partido po- 
deroso representado n"ella. A Inglaterra, ao crito le- 
vantado pelos Hugunotes respondeu enviando Buckin- 
gham, valido do rei, com uma forte armada em seu 
soccorro. A incapacidade do duque frustrou a sua 
tentativa sobre a ilha de Ré \ o cardeal acudiu-lhc 
com pasmosa promptidão. ^las este successo acciden- 
tal não destruía o immenso perigo da sublevação — 
aggravado ainda pela má vontade, ou pela antipa- 
thia das potencias visinhas. A Hollanda vacillava 
por escrúpulo de seita. A Grã-Bretanha protegia os 
calvinistas com o apoio da intervenção arm.ida. A 
Áustria preparava-se a tomar Verdun •, e Veneza 
parecia esperar o momento de s;itisfazer antigos 
ódios. Finalmente a llespanha affectava uma neu- 
tralidade fiJsa, aonde s? descobria secunda tenção. 
No inferior os princi|>es parentes, o irmão do rei, e 
o conde de Soissons, trainavaiu de concerto para se- 
pultar nas ruinas d'esta guerra o ptxJer de Richelieu. 

O cardeal a\aliava todos estes ol»tiiculos, capaxes 
de atterrar um espirito robusto. Mas a sahação c o 
futuro da França estavam irreme<iiavejmenle [>epdi- 
dos se a Rocliella ficasse de {)é e victoriosa. Minis- 
tro, general, intendente de transportes e engenheiro, 
Richelieu accumulou todos os empregos, exerceu to- 
dos os cargos para adiantar as ojwraçOes naxacs c 
militares. Duas vezes a esquadra ingleza app.ireceu 
1 .1 \ ista da cidade bloqueada e duas vexes se retirou 
diante de exércitos e niariídia, quasi que improvisa- 
1 tios de repente. A F.uropa, susjiensa um anuo. assi»- 
: tiu diante d'aqucllas muralhas como esjxvladora á 
gra\e questão que se discutia alli. Por lim \cnceu a 
I fortuna da França, e a roale.».a entraiulo (wla brecha 
da Roílu-Ua tomou nVsse dia ven.ladeira jiossc do 
I seu reino. 



o panorama: 



13i 



Depois d'este grande resultado, Luiz XIII á testa 
de trinta mil homens ia soccorrer a praça de Cazal 
na Itália, e conquistar pelas armas uma paz glorio- 
sa. Riclielieii commandava todo o exercito. Esta 
campanha heróica e brilhante correspondeu em tudo 
ao plano do minÍ!>tro, e ao concluir-se como elle pro- 
jectara a sua principal missão tinha acabado. As 
luctas interiores, <}ue ainda sustentou, e as guerras 
<iue depois dirigiu, foram consequências doeste deci- 
iivo e assign alado successo. 

Pouco tardou que esta cabeça tão odiada não ar- 
refecesse, e que as mãos cruzando-se no peito deixas- 
sem escapar o sceptro de ferro. O cardeal de Kiche- 
lieu, como uni obreiro diligente, tinha sido enviado 
(• despedido á sua hora pelo senhor dos reis e dos 
imperioíi. A França, (jue elle erguera da decadência, 
(pjc lizera temida e admirada, respirou ao vêr esca- 
par dos seus dedos d'aço as rédeas do governo. Mas 
alguns annos, bem poucos, bastaram para a obrigar 
ao tributo de respeito devido ao grande homem que 
cm vida tanto eatuniniaram. Sobre aquelle tumulo, 
e antes dos seus ossos se carcuniireni, a consciência 
dos próprios contemporâneos veio antecipar-lhe o vo- 
to da posteridade. 



O Feitor de Caxtão. 



Novella. 

(Conlinuado de pa». 125.) 

YuEN-MiNG-YCF.N (l), oudc O fillio do céu costuma 
))ass.ir os mais formosos dias do anno, é menos uma 
vivenda própria para o verão que uma cidade de pa- 
hicios, ])ois conterá um cento d'elles com columnas 
d<- ci'dro, e as madeiras douradas, e as telhas pinta- 
das de mil cores. Separam-n'os uns dos outros jardins 
e pateos magnificos que o<cu|)am um espaço de perto 
de cem mil geiras, eem que ha lagos artiliciaes atra- 
vessados por pontes de porcelana, collinas com torres 
anieadas no cimo, e rochedos cobertos de tantos mi- 
rantes, pavilhões, e kiosques, que o som exquisito 
<|ue vibram as suas campainhas de vidro quando o 
vento as agila, ouve-se em toda a parte. 

Ora n'este dia recebia o soberano imperador os 
grandes do império no quarto particular em que es- 
lava o seu throno, e que s(! chama a nioicula do ccti 
sereno, Kslavam á porta da sala vinte edois lidalgos 
moços com parasoes amarellos, outros com soes ou 
meias-lu.is de ouro, e muitos com bastões ornados de 
borlas variegada», band(!Íras com dragões, e outros 
com machados, alabardas ou massas douradas. De- 
fronto da poria da entrada se viam enlileiradas vin- 
te pedras moldurando laminas de cobre em que se 
neliava gravado o eeremonial a que se devia cingir 
(juem fosse íi presença do imperador. 

l\o topo da sala, sobre um estrado alto, erguia-se 
o throno, para oipud se subia por uma escada de ala- 
bastro primorosamente lavrada. O throno, lodo cosi- 
do em pechas preciosas, re|)ousava em dois dragões 
de ouro massi(;o. 

Acabava o imperador de se sentar. Trazia vestida 
uma lunica de/.i'l>i'liua, cobrindo uma compriíla saia 
de si'(hi amai'<'lla com o dragão di' cinco garras bor- 
iliido (h" rica pedraria, ena c.d)ei;a uma gorra de pel- 
le d(! rapoza, i|ui' na parte de cima liulia uma péro- 
la de grandiza di's('ommunal. l(o(h'avam-n^o os prín- 
cipes de sangue emiiili>s govi'rnadori's de províncias, 
pelos cpiaes auuhuva ili' ilislrilmir chá cm pequemis 



taças de madeira. Elle porém, com os olhos pasma- 
dos e o rosto carregado, bebia pequenos golos d^e- 
mulsão de favas (l), n'um vaso de ouro que um es- 
canção lhe appresentára de joelhos. 

Com ser ainda moco, tinha as faces pisadas e o 
corpo alquebrado como se velhice prematura ou se- 
creto padecimento lhe seccasse a seiva da vida. Saiu 
comtudo da espécie de distracção em que tinha caí- 
do, ao ouvir o pregão do arauto, que dizia : 

— "Ide, e apresentai-vos diante do throno." 
Haviam com effeito entrado os principaes manda- 
rins da corte, e começavam a prostrar-se diante do 
estrado ; eis-que, arredando-se de repente a turba dos 
cortezãos, passou pelo meio d'ella o censor Fo-hu, 
dando a mão aEITendon vestido de novo e com mui- 
ta magnificência. 

Ajoiílharam ambos ante o throno, é tocaram com 
a fronte o pó da terra ; mas o imperador, sobresalta- 
do de alegria ao vêr o censor e o seu companheiro, 
fez um signal e ambos foram conduzidos' para cima 
do estrado e juncto d'elle. 

— " É este o medico que me inculcaste ? » pergun- 
tou depressa a Fo-hu. 

— " Eelle, filho do céu ! « respondeu o mandarim. 

— " Afiianças-me a sua sciencia?" 

— «A província d''Ordos, de que meu irm.MO foi 
por ti nomeado governador, está cheia de milagres 
d'este homem. n 

O imperador voltou-sc para o fingido medico. 

— "Etu, lhe disse elle, esperas reslituir-me a saú- 
de e as forças ? » 

— "Espero, respondeu Effendon, com tanto que 
tenhas confiança no teu escravo. " 

— "Glue devo fazer? lhe tornou o doente com a 
sujeiçjio projjria de quem vive atormentado ; estou 
pronipto para tudo, obedecer-te-hei em tudo:, apaga- 
me este fogo que me queima as entranhas, e far-te- 
hei mais rico que todos os mandarins do império do 
meio. Mas falia sem demora, que não acalmam es- 
tas dores. » 

— "Antes de applicar-te o lenitivo, respon<leu Ef- 
fendon, releva que o teu escra< o te interrogue sem 
testimunhas. " 

A um signal do imperador todos os cortezãos que 
estavam juncto d'elle desceram do estrado. 

(iuando chegaram a distancia d'onde não podiam 
ouvir, o feitor se inclinou para o imperador, e abai- 
xando a voz disse-lhe ; 

— "Enganam-tc, grande príncipe; enviou-me o 
céu para te salvar ! Mas não uie interrompas, accres- 
centou quando viu que o imperador se agitava; não 
te perturbes, não soltes um grilo, não faças um so 
gesto que possa inspirar suspeitas, que elles teem os 
olhos filos em nós. " 

— "Mas que sabes tu?» perguntou o príncipe in- 
quieto. 

— "Sei que querem matar-te," 

— " A mim ? " 

— " l'arte dos mandarins da tua corte conspira pa- 
ra exaltar ao Ihrono o teu suc<'cssor ; e d'.iqui pri>- 
vém a pcnla repentina da lua s.iude." 

— "Ah! razão tiidia «-u para me su|>pòr envene- 
nado I " exclamou o imperador. 

j — "Sim, continuou Kllendon, mas as tuas suspei- 
i tas enelieram-n'os ilc Icrror, e tcn<lo noticia de ipio 
o meiliii) W aiig-li sabia o segredo ile venenos mais 
snbli>, (|iii'não diM\a\am vestígios, elevavam oiloen- 
ti- á >('pullura coni tão peipicna agonia qne parecia 
<-nlrado cm convalescença, foram li'r com elle. . . •• 



(I) O jiuiliiil rciloiKlii u le^lllllluk■ccllll.•. 



(1~) Prepnrnçito fuiln com iis scuiciitci do cyliio ou codí- 
(;ii lia liului. 



132 



O PANORAMA. 



— « Chamar.im-te pois para me dares o golpe mor- 
tal! exclamou o imperador, a quem esta revelação 
inesperada causara a ura tempo assombro, dòr, e in- 
dignação. — li não sabes os nomes doestes infames?» 

— "Fo-hu foi só fjuem mo fallou :, prometti-lhe a 
elle dar-te lioje mesmo o remédio que devia coroar 
a sua obra. » 

Por um momento esteve o imperador mudo, cogi- 
tando o que faria. Eis senão quando animou-se-lhe 
de súbito o semblante, relampejou-lhe nos olhos a 
victoria, e um vislumbre de alegria lhe subiu ás fa- 
ces. Olhando para Ertendon disse-lhe: 

— "Tens ahi esse remédio?» 

O feitor mostrou-lhe o frasquinho de bronze conti- 
do na caixa do medico. 

— "Enche este vaso, " disse o imperador, esten- 
dendo a taça em que bebera a emulsão de favas. 

Elfendon obedeceu. Então o principe fez um signal, 
e tendo-se chegado todos os mandarins proseguiu em 
voz alta : 

— "O céu protege o filho da dynastia de Han, e 
um grande beneficio acaba de baixar sobre elic. » 

— "Glue aconteceu?" perguntaram todos a uma 
voz. 

— " Olhai para este homem o adorai-o como um 
deus tutelar; porque pela sua scienoia descobriu uma 
bebida que não só abranda qualquer enfermidade, 
porem restaura as forças vitaes do mesmo modo que 
o verão faz brotar as arvores. » 

Voltaram-se para EíTiíndon todos os olhos, e pro- 
longado snsurro de espanto saiu da turba doscortezãos. 

— "Podia reservar só para mim esta bebida: mas 
esta escripto que o soberano deve ser qual o orvallio 
bemfazejo para osseus súbditos. Gluero porlanto «pie 
os meus fieis servos participem do thesouro da vida.» 

E pegando na taça accrescentou : 

— " Clieguem-se pois todos aquelles que, como eu, 
quizerem beber n'esta taça a vida, o vigor, e a mo- 
cidade. » 

Estas palavras excitaram grande rumor. Todos os 
que ignoravam a trama chegaram, a qual primeiro, 
ao estrado; mas os cúmplices deixaram-se ficar eoiiia- 
vain desconfiados uns para os outros. O imperador 
contou-os com os olhos : eram os mais nobres officiaes 
do império ! Chamou-as pt^los seus nomes. 

— Por que motivo cedem os mais nobres a prece- 
dência? perguntou elle, levantando a taça de ouro. 
\em cá, vem cá, Fo-hu ! quero começar por ti . . ." 

O censor, pallido e tremulo, deu alguns passos pa- 
ra othrono; mas de repente ])arou, estendeu as mãos, 
c caiu de joellios, exclamando cpie o medico era um 
embusteiro. Os seus cúmplices iniitaram-n^o. Então 
• o imperador ergueu-se temeroso e bradou com voz 
terrivel : 

— »' O céu imprimiu o si'.;nal iao na vossa fronte. 
A mim, (jue sou o pai ea niãi do meu povo, tinheis- 
mc envohido n'uma rede de enganos em que fostes 
colhidos. iJemdietos sejam os céus azulados ! Solda- 
dos ! prendei estes en\ enena(K)res, e arranque-lhes a 
tortura a confissão dos seus crimes. » 

A este chamamento acudiram os guardas das por- 
tas da sala e levaram prezos Fo-hu c os seus compa- 
nheiros.- 

O terror e o espanto reinavam no resto da cilrte, 
e houve um breve momento de confusão em que as 
leis doceremonial for.im transgredidas. Os mais leaes 
servos do imperador tinham cercailo o throno e inda- 
gavam e ouviam horrorisados as |)articularidades da 
conspiração. Socegado o tumulto, durante oqual fica- 
ra ElVendon es([ueeido, todos os olhos se viraram pa- 
ra elle. O imperador fez-lhe signal para que se lhe 
approximasse : 



— "Tu, que me salvaste, chega-te, lhe dl&se elle 
com affabilidade; chega-te, fiel Wang-ti! e sejam 
quaes forem os teus desejos, manifesta-os e terão cum- 
pridos. 

O feitor ajoelhou. 

— "Seja o primeiro o perdão de te haver engana- 
do ; porque não sou medico, nem me chamo \N ang- 
ti. Vês na tua presença, filho do céu, ura bárbaro 
estrangeiro, que affroutou todos os perigos para te 
vir pedir justiça. » 

Contou então miúda e fielmente a sua historia que 
todos escutavam maravilhados. Gluando acabou fez- 
lhe signal o imperador para que se erguesse, e olhan- 
do para elle com bondade disse-lhe: 

— "O sábio desculpa o tigre, que para salvar os 
filhos rasga as entranhas ao caçador; por amor de tua 
filha violaste as leis do que tilá debaixo do céu ; re- 
levo-te este crime. Tamlxira está escripto que o so- 
berano imperador deve ser ura manancial de delicias 
para todos que a elle se chegara. Eia pois, levanta-te 
e cobra esperança, porque se tua filha for viva ser- 
te-ha restituída, n •• 

A promessa foi cumprida, e um mez depois nave- 
gava Effendon cora Maria para a America. A filha, 
sabendo avaliar a grandeza do sacrifício, ainda ama- 
va mais a seu pai depois que elle, para a libertar, 
aplanara tantas barreiras, e quasi que vencera im- 
possíveis. E quando fullavam diante d"ella era em- 
preziís difficeis em cujo êxito o vulgo não crê, e que 
Eífendon repelia, segundo o seu costume : 

— " Com a vontade abalam-se montanhas, n 

A muda nunca deixava de accrescentar um gesto 
para significar : 

— «E transportam-se com o amor." 



Benevescto Ckliixi (I). 



Benevencto Cellini, auctor da estatua de Perseu de 
que hoje damos um desenho muito exacto, é um ho- 
mem em que se resume, por sua vida c obras, todo 
o século X\ I considerado em relação ás bellas artes. 
Tendo diegado á idade de cincoenta e nove annos 
começou a escrever a sua vida, que na verdade e 
abundante de aventuras e de obnís primas. Seu pai 
chamava-se André Cellini : nasceu em Florença, ci- 
dade edificada á imitação da formosa cidade de Ro- 
ma. — O primeiro objecto que deu mais na vista ao 
jovpn Benevenuto foi uma salamandra no fogo. — 
Logo que chegou a idade de poder tocar flauL-i, seu 
pai o applicou a este instrumento e lhe ensinou mu- 
sica : fez rápidos progressos ; porém pateuteando-se o 
seu engenho, cdeixanilo a musica pelo cinzel, entrou 
de aprendiz no lalwratorio de um mestre iPeílatua- 
ria famoso n'aquelle tempo, lluando tixlo se empre- 
gava em escuipturas e artefactos d"ourives, e n"aquel- 
las admiráveis tentati\as do gosto eda arte italiana, 
o eondestavel de Bourbon caiu d'improviso sobre a 
cidade de Ilonia, a que ]>oi cerco: a cid.idc resistiu 
como poude ; e o mancebo artista não foi dos últimos 
a correr ás armas; metteu-se no castello de S. Ange- 
lo onde estava o {>apa, e foi tão valente c afortunado 
que matou de ura tiro de jHMj-a o principe de Oran- 
ge, e de uma arcsvbuiada o eondestavel de Bourbon, 
vendido aos hespanh<.>es, e traidor para cora scu rei, 
que morreu como o cavalleiro Bayard não mcn-cen- 
do tal honra. — .\cal>ada a guerra, o artista, aquém 
o Ikuu successo fizera ambicioso, foi jH-dir ao papa 
Paulo III a recompensa que assentava ser devida a 



(1) Eile artigo é dcriílo :i penna do hábil efcriptor een- 
Senhuso critico, o Sr. Júlio Jaaia. 



o PANORAMA. 



133 



seus serviíjos, mas o pontífice, em vez de o agraciar, 
o mandou metter n'uraa prisão d'e5tado : Celliiii era 
accusado falsamiMite de ter dado descaminho ás jóias 
da coroa pontifícia que llieliaviam sido confiadas du- 
rante o sítio. Da prisão em rjue o sepultaram Cellí- 
ni conseguiu escapar duas vezes atravcz das maiores 
difficuldades e excessivos perigos; duas vezes tornou 
a ser appreliendido, e estava aponto de padecer mor- 
te, (juandu Francisco I, que ouvira nomea-lo como o 
artista mais Iiabii da epoclia, sollicilou do papa que 
Ih^o enviasse: os desejos do rei de Franca eram ti- 
dos como ordens, e Benevenuto foi solto. Ei-Io nova- 
mente lançado em mil aventuras de toda a casta : 
que vida ! festas, duellos, amores, tralialhos, trium- 
phos, jugo desenfreado, miséria, humilhação, tormen- 
tos de todo o género; ora rico, ora pobre; hoje fidal- 
go, ámanliã arti.'ita. Assim chegou á corte de Fran- 
ça, e b(!ni é de siijjpor como o não maravilharia o es- 
plendor iFcísta cidade: rec('l)(ni-o orei com toda a es- 
pécie de honrarias; deu-lhc plena posse de um palá- 
cio, o Ncsle pequeno, onde elle assentou os seus la- 
boratórios. l'or esse tempo o rei andava todo preoc- 
cupadoconi Fontainebleau ; esta localidade era o\er- 
sailles de PVancisco I ; ahi reinava como soberana a 
formosa duqueza d'iítanipes; era a rainha d'aquelles 
jardins, d'aquelle palácio. Cellini descuidou-se de 
Ule fazer corte: a dutjueza era inclinada ao 1'rimati- 
ce, equiz deitar a perd<!r o artista romano; para is- 
so imaginou uma astúcia que a final redundou em 
vergonha sua. 

Cellini acabava de dar o ultimo toque a uma avul- 
tada (?sfatua de Júpiter para Fontainebleau ; a du- 
queza para desacreditar esta obra a mandou pôr en- 
tre as mais bellas estatuas anligas que vieram da Itá- 
lia, afim de que o Jiipiler ficasse abatido em vista 
da comparação com acjucllas obras excellentes : ainda 
fez mais, a duqueza aguardou o decair do dia e pro- 
puz a Francisco 1 e a toda a corte irem vêr á gale- 
na a nova obra de Cellini. Outro que não fosse este 
esculptor se aterraria (juanfo ao elleito que causaria 
a estatua : ena v(?rdade i^tn: esperanças teria de que 
ella gaidiasse a par dos ])ri mores da arte antiga da 
Itália?. . . Mas o nosso artista não era lionníni que 
ge desalentasse. A duqueza ficou bastante espantada 
quando, ao entrar na galeria, achou tão admiravel- 
mente alliimiada a estatua de «Júpiter <ju(! era esla 
a qu(! supplantava as outras: a(|uelle vulto scdncfor 
par(?cia animado. O rei, bi;ni como a ciirtc, não |)0- 
deram reprimir a sua admiração; o Iriumpho do 
Artista foi complico. — Ao mesmo tempo que Celli- 
ni se occupava (Fessas obras em ponto grande, e do- 
tava a França com nnja arte que lhe era descoidicci- 
da, lidava land)i'iii fervorosamentu com artefactos de 
ourives: nas sua» mãos o ouro e a prata centuplica- 
ram no valor : fazia vasos tão bellos, de tal modo ro- 
deados do figuras e tão ricos do ornatos, (|uc eram, 
j/l n'e9SR tempo, de ini'stimavel valor; hoje os me- 
nores trabalhos seus d'est(! género estão acima de to- 
do o preço : fez annei» de prata cpu; são avaliados 
em nniis (h) ijue os mais ricos guarnecidos de pedras 
Jinas. Não ha muitos annos (pn'iim ciiriíiso inglcz que 
viajava na Itália |)agon por 1100 Inizcs (.;;/i(iO ,^000) 
unni taça singela e peipiena ile prata cinzelada piln 
insigne lavranle llorentino. Cidade e còrti- davani-sc 
prt!ssa em obter alguma das obras d'elle. Tudo o que 
era formoso e perleilo, tudo o qui' era artístico, es- 
culpturas, painéis, gravuras, architeclura, era a pai- 
xão d ai|ui'lli> scciílii, chamado iiim ra/ão o sccnlo de 
Francisco I. 

'l"o(lavia, não obslanli^ o triumpho do seu .lupiter, 
C(dlini viu-se obrigado aceder á má voutailc da dn- 
rpiiv.a iri'llampcs, por outra parte a sua iningiiun-ão 



] errante e animo inquieto pouco se accommodavam a 
] permanecer muito tempo no mesmo logar ; precisava 
de aventuras a todo o custo, duvidas e desafios, pe- 
núria e vida vagabunda : a existência socegada, a 
gloria de cidadão, a família, não se coadunavam com 
o genío fervente d'este artista, celebre até a este res- 
peito. Deixou por tanto Paris, disse adeus ao paço 
real, ás suas obras começadas, aos seus próprios ini- 
migos, de que linha tanta pena, por isso mesmo que 
o inquietavam, como de tudo o mais; e tornou-se a 
Itália, sua pátria, seu primeiro amor; mas ahi o es- 
peravam a mesma gloria, a mesma inspiração para 
obras excellentes, e iguaes pezares. Nas memorias de 
sua vida qu<? escreveu com bastante estro, muito ta- 
lento e viveza d'estylo, e que são clássicas em italia- 
no, Cellini descreve maravilhosamente o como con- 
seguiu fundir a sua estatua de Perseu, como esta 
operação lhe ia saindo mal, e por momentos julgou 
que a sua obra magistral estava perdida, e os seus 
inimigos triumphavam com este desastre. A final, 
fora de si, sem ter outra esperança senão no céu, 
prostrou-se de joellios e dirigiu a Deus a deprecação 
mais fervorosa que em sua vida jamais fizera. Finda 
a prece ergueu-se, correu á estatua . . . milagrosa 
cousa ! . . . estava perfeitamente fundida, e a sua 
grande obra completada ! 




As memorias de Benevenuto Cellini são principal- 
menti' procuradas ]iorqui! nos pocm ao facto de toda 
a partií tcchnica das bellas artes : não se ap])rescnlii 
alli SI) ci>mo artista, maslandicm como operário ; en- 
tra ao mesmo ti'nipo nas |iarticnlaridadcs da suu vi- 
da e nas miudezas da sua protissão. — l)<'pois de ha- 
ver feito o INírseu de bronze, <'scidpin um C/irislo de 
mármore jiara o palácio 1'itli, <pie não ha outro igual : 
(í depois, como por passatempo, grav:i\a brazòes pa- 
ra mrilaliias e moctlas, r cra\'ava ptnlras tinas, 

(liiaiido Cellini, firlo de gloria i- de dinheiro, en- 
fastiado como anmt<'i'i' a lodos os lionuMis de engenho 
eminente, fatigado di' triiim|)hos c de trabalhos, sen- 
tiu <hegar-s<! u velhice, 1iz-m' misanlhro[>o, mctteu-M- 



134 



O PANORAMA. 



frade, corrigiu as suas memorias, e fallcceu a 25 de 
fevereiro de 1570 na idade de setenta annos. 



Os Templários. 

(Continuado de pa^. 126.) 

A coMMissÃo pontificia, reunida a 7 d'agosto de 
1309 na camará do bispado de l^aris, tinha sido em- 
baraçada por muito tempo: o rei tinha tanta vonta- 
de de vêr os templários justificados como o papa de 
condemnar o seu rival Bonifácio : as testimunhiis que 
depunham contra Bonifácio eram maltractadas em 
Avinhão, as tesliniunha^ favoráveis á causa dos 
templários eram atormentadas em Paru. Os bispos 
não obedeciam á commissão pontificia, e não lhe re- ' 
mettiam os templários. Todos os dias a commissão j 
:issistia á missa, depois abria a sessão, e ura nieiri- ] 
nho á porta da sala bradava : "Se alguém quer de- 
fender a ordem da milicia do Templo, appresente- 
sen mas ninguém apparecia : a commissão voltava 
no dia seguinte, sempre inutilmente. 

A final, lendo o papa instaurado, por buUa de 13 
de setembro de 1309, o processo contra Bonifácio, 
pcrmittiu o rei, era novembro, que o grão mestre do 
Templo fosse levado á presença dos commissarios : o 
cavalleiro ancião mostrou a principio muita firmeza : 
disse que a ordem era privilegiada no foro da sancta 
sé e que lhe parecia cousa assombrosa que a igreja 
romana quizesse proceder subitamente á destruição 
d'ella, quando tinha diferido a deposição do impe- 
rador Frederico II por espaço de trinta e dois an- 
nos : disse também que estava prompto a defender a 
ordem, como em suas forças coubesse, e que se teria 
em conta de um desprezível se não defendesse a cor- 
poração de que recebera tanta honra e vantagens, 
porém que temia não ter sufficiente prudência e re- 
flexão ; que se achava prisioneiro do rei e do papa \ 
que não tinha quatro dinheiros para gastar na defe- 
za, nem outro conselheiro mais que um irmão ser- 
vente ; demais que a verdade se manifestaria não só 
pelo testimunho dos templários, mas pelo dos reis, 
príncipes, prelados, duques, condes e barões, em to- 
das as partes do mundo. — Declarando-se o grão mes- 
tre doesta maneira patrono da ordem, ia dar grande 
vigor á defeza, e por em risco o projecto do rei : os 
commissarios o induziram a deliberar com madureza, 
e mandaram que lesse o seu depoimento na presença 
dos cardeaes-, mas o depoimento não emanava d^elle 
directamente ; por vergonha ou qualquer outro mo- 
tivo encarregou o irmão servente de fallar por elle 
ante os cardeaes : porém quando appareceu na pre- 
sença da commissão, e os escrivães ecclesiasticos lhe 
leram em alta voz aquelles miseráveis depoimentos, 
o ancião cavalleiro não poude ouvir com presença 
d'espirito semelhantes cousas dietas na sua . cara ; 
persi^nou-se e disse que se os senhores commissarios 
do pontífice fossem outras pessoas alguma cousa teria 
a dizer-lhes : os commissarios responderam que não 
era do seu caracter levantar a luva de um des.-ifio. 
— nNão era esse o meu sentido (disse o grão mes- 
tre) : aprouvesse a Deus que em casos taes se obser- 1 
vasse contra os perversos a practica dos sarracenos; 
cortam-lhcs a cabeça ou cerram-n'os ao meio. " Esta . 
replica fez sair os commissarios da sua ordinária 
brandura: resjwndcram com frieza e actiinonia: — | 
i- aquelles que a igreja acha heréticos, julga-os como 
heréticos, erelaxa osohctinados ao braço secular." — 

Um dos principaes agentes de Kilippe o formoso, i 
Plasian, assistiu á audiência sem ser convocado: 
Jacques Molav. atemorisado {>ela impressão que as ' 



suas palavTas haviam feito n^aqnelles padres, assentou 
que era mi'lbur confiar-se num cavalleiro; pediu 
permissão de conferenciar com Plasian ; este o indu- 
ziu, com simulação de amigo, a que se não deitasse 
a perder, e o resolveu a pedir uma dilação até a 
sexta feira seguinte : os bispos lh'a facultaram, e 
mais longa lhe concederiam de boa vontade. 

Na sexta feira Janjues Molav tornou a compare- 
cer, mas de todo mudado : sem duvida Plasian o ti- 
nha tentado na prisão. Q.uando lhe perguntaram de 
novo se queria defender a ordem, respondeu humil- 
demente que elle não era mais que am pobre caval- 
leiro sem lettras ; que ouvira lêr uma bulia apostó- 
lica em que o papa reservava para si o juljamento 
dos cabeças da ordem ; e que por asrora nada mais 
requereria. Inquiriram-n^o expressamente se queria 
defender a ordem : respondeu que não, e só rogava 
aos commissarios que escrevessem ao papa para que 
mandasse que elle fosse á sua presença o mais breve 
[XKsivel ; e accrescentou com a ingenuidade da im- 
paciência e do temor: — "eu sou mortal. t>3 mais 
também ; não temos de nosso senão o momento pre- 
sente. )' — 

O grão mestre abandonando assim a defeza, tira- 
va-lhe a força e unidade que d'elle podia receber. 
Pediu somente dizer três palavras a favor da ordem ; 
primeiro, que não havia i^eja onde o culto divino 
se celebrasse mais dignamente que nas dos templá- 
rios ; segundo, que não havia reliuião que fizesse 
mais esmolas que a do Templo, que três vezes por 
semana se distribuíam a quem se appresentava ; e 
por ultimo, que não havia (que elle o soubesse} casta 
alguma de pessoas que tivessem derramado roais san- 
gue pela fé christã do que os templários, nem que os 
infiéis tanto teraesseni •, que em >Iansourah o conde 
de Artois os puzera na vanguarda, e que se lhes ti- 
vesse dado credito..." então ouviu-se uma voi: 
asem fé tudo isso de nada vale para a salvação. r> — 
O chanceller Nogaret tomou também a palavra : — 
"Ouvi dizer que nas chronicas, que estão em S. Di- 
niz, se achava escripto que no tempo do soldão de 
Babylonia o grão mestre d'então e outros magnates 
da ordem tinham rendido homenagem a Saladino ; 
e que este mesmo, sabendo de um grande revez dos 
templários, dissera publicamente que isto lhes acon- 
tecera em castigo de um vicio infame, e da preva- 
ricação contra a sua lei.n — O grão mestre respon- 
deu que nunca tal ouvira ; que apenas sabia que o 
o grão mestre d'essc tempo havia mantido as tré- 
guas, porque de outra sorte não teria podido conser- 
var tal ou tal castello. Jacques Molav concluiu pe- 
dindo humildemente aos commissarios e a Nogaret 
que lhe permittis>em ouvir missa e ter a sua capella 
e capellães : assim lh"o prometterara, louvando a sua 
devoção. 

Por este modo se formavam simultaneamente os 
dois processos, do Templo o de Bonifácio N III ; e 
appresentavam o extraordinário espectáculo de uma 
guerra entre o rei c o papa. Elsfe, constrangido polo 
rei a perseguir Bonifácio, estava vingado pelas de- 
clarações dos templários contra a barbaridade com 
que os officiaes de justiça haviam encaminhado os 
primeiros proctxlimcntos : o rei de>honrava o ponti- 
ficado, c o pap;i deshonrava a realeza : mas o rei ti- 
nha da sua parte a força ; impedia os bispi» de re- 
mettcrem aos commissarios os templários pretos, <» 
ao mesmo tempo imjx-llia para Axinbão nuvens de 
tcstimunhas que se .ijuncfavam por sua conta na 
Itália. O papa, de aljum modo assediado por estas, 
\ia-se condemnado a ouvir os mais esp.into5os depoi- 
mentos contra a honra do sólio pontifício. 

O processo do Templo começara com grande es- 



o PANORAMA, 



135 



trondo, apesar da deserção do grão mestre. A 28 de 
marco de 1310 os coiiimissarios niandarain trazer ao 
jardim do paço episcopal os cavalleiros <jue dcciara- 
vain querer dcreiíder a ordem \ a sala não tiidia ca- 
pacidade para recolher todos i eram quinhentos e 
quarenta e seis. Lêram-liies era latim os artigos da 
accusação ; queriam depois lèr-lh'os também em 
iraneez; mas ellcs clamaram que era bastante tê-los 
ouvido em latim, e que não desejavam que seme- 
lhantes torpezas fossem trasladadas no idioma vulgar. 
Como eram tão numerosos, disse-se-liies que, para 
evitar tumulto, delegassem em procuradores, e d^en- 
tre si nomeassem alguns que iallassem por todos. 
tJluereriam todos elles ialiar, tanta era a coragem 
que haviam recobrado. Delegaram, comtudo, em 
dois, um cavalleiro, frei Ha^naldo do 1'ruin, e um 
«aeerdote, Fr. Pedro de Bolonha, procurador da or- 
dem juncto ao tribunal ponliíicio: ajunctaram-se- 
Ihes mais alguns por auxiliares. 

Os comniissarios fizeram depois tomar, por todos 
os edifícios que serviam de cárceres aos templários, 
os depoimentos dos que pretendessem defender a or- 
dem : foi unia luz espantosa que entrou nas prisões 
de I'"ilip[)e o formoso. Jl'ahi saíram extraordinários 
(damores ; uns arrogantes e ásperos-, outros piedosos 
<; exaltados ^ alguns ingenuanienle dolorosos. Uni 
dos cavalleiros disse tão somente: — ueu não posso 
pleitear sósinho contra o rei de Franca o contra o 
papa." — Alguns limitaram todo o seu depoimento 
a uma simples deprecação á Saneia Virgem — u Ma- 
ria, estrella do mar, guiai-nos ao porto da salva- 
ção." — l'orém o papel mais curioso é um protesto, 
ein linguagem vulgar, no qual, depois de haverem 
sustentado a innoccncia da ordem, os cavalleiros dão 
a conhecer a sua humilhante miséria, o mesquinho 
calculo da» suas despezas. Singulares jiartieularida- 
des, e que appresentam cruel contraste com o orgu- 
lho e riqueza tão celebres il'esta ordem ! Os desgra- 
çados, do miserável subsidio de doze dinheiros por 
dia, eram obrigados a pagar a passagem no rio para 
irem comparecer nos interrogatórios, e ainda em ci- 
ma tinham de dar dinheiro ao homem que lhes abria 
e fechava os grilhões. 

Afinal, os defensores apprescnlaram um memorial, 
aulhenlico em nomo da ordem. N'esta jirotestacão, 
singiilaniiente vigorosa e ousada, declaram não pode- 
rem defend(!r-se sem o grão mestre, nem ])or outra 
forma que não seja perantií uni conc-ilio geral. Sus- 
tentam — iii|ue a religião do Templo é saneia, pura, 
o iinmaeulada perante Chrislo cí o l'adre. O institu- 
to regular, aoliservaii<'ia salutar, ahi cístiveram sem- 
pre e estão ainda cm vigor. Todos os irmãos não teem 
mais que unia |)r(iíissão de fé, que cm todo o univer- 
so tem sido, e é scitiprc observada por imlos., desde u 
fundação até o dia presente. K ipicm diz ou erè ou- 
tra cousa erra iiilciranuMitc, pccea niortaliiienle. " — 
Kra uma aflirmaliva bastante audaz su^lcntar (|ue 
i<idi)s tiiiliani ])criiiaiieci(lo lieis ás regras do institu- 
to primitivo^ ijue nenhuma <li>viação, nenhuma cor- 
rupção houvera, (liiando ojusio pecca sete vezes por 
dia, aijiiclla onlcm soliciba ai:liava-se pura esemjiec- 
cndo. Tamanho orgulho fazia eslremeeer. Não fica- 
ram n islo. 1'eiliam «pie os irniàos apóstatas fossem 
postos a liom recado até (pie se mostrasse se ti- 
nham dado Icslinainlio verdadeiro; (pieriaiii também 
que iii'iiliuiii secular assistisse aos interrogatórios. 
Minguem, com clleilo, duvi<la ipie a presença de um 
l'lasian, de um Nogarel, intimidaria os iieeiísiidos e 
o8 juizes. Aivibam dizendo ijue — i>ii eommissão poií- 
tilicia não piídc proscgiiir^ porcpu', emlim, nós esta- 
mos, e sempre t(.'mim estado em poder (rac|iiclles iiiu^ 
kuggerem cousas falsas uo senhor rei. Uuotidiana- 



mente, por si ou por outros, de viva voz, por cartas 
ou mensagens, nos avisam que não retractemos as fal- 
sas declarações que forain extorquidas pelo temor :, 
aliás seremos queimados. " 

Passados alguns dias, saíram com outro protesto, 
porem ainda mais forte, menos apologético do que 
ameaçador eaccusador. — .í Este processo (dizem) foi 
inesperado, iniquo, injusto; não é mais que uma vio- 
lência atroz, um erro intolerável. >ias prisões e trac- 
tos muitos e muitos teem morrido ; outros teem pelo 
mesmo motivo ficado enfermos para toda ávida; ou- 
tros foram constrangidos a mentir contra si e contra 
a ordem. Estas violências e estes tormentos lhes ti- 
raram totalmente o seu livre alvedrio, isto é, quan- 
to o homem tem de bom : quem perde o livre arbí- 
trio perde todo o bom, sciencia, memoria e entendi- 
mento . . . l'ara os impellir á mentira, ao testimu- 
nho falso, mostravam-lhes cartas com o sello real pen- 
dente, e que lhes asseguravam a conservação da vida 
e da liberdade ; prometliam-lhes prover cuidadosa- 
mente em (jue tivessem bons rendimentos em quan- 
to vivessem ; e por outro lado lhes afijrmavam que 
a ordem seria irremediavelmente condemnada." — 

1'or muito habituados que então estivessem á vio- 
lência dos processos inqnisitoriaes, á immoralidade 
dos meios commummente empregados para fazerem 
fallar os aceusados, era impossível que semelhantes 
palavras não sublevassem o coração : porém mais ex- 
pressivo que todas as palavras era o lastimoso aspecto 
dos prezijs, suas faces pallidas e encovadas, os vestí- 
gios horríveis dos tormentos .. . um d'elles, Hum- 
berto Dupuy, a decima quarta testimunha, foi posto 
a tractos três vezes, e este^e retido trinta e seis se- 
manas, a pão e agua, no fundo de uma torre ínfic- 
cionada : o cavalleiro, Bernardo Dugué, a quem 
metteram os pés n'um brazeiro, mostrava os dois os- 
sos que lhe haviam caído dos calcanhares. 

Eram bem cruéis espectáculos : até os juízes, le- 
gistas como eram, e cobertos com o secco habito de 
padres, se commoviam e lastimavam ; quanto mais o 
povo que diariamente via aquelles infelizes passar 
nas barcas para se transportarem á cidade, ao paço 
episcopal, onde a commissão celebrava as sessões! 
Augmentava a indignação contra os accusadores, con- 
tra os templários apóstatas. N'um dia, quatro d'es- 
tes comparecem perante a commissão, conservando 
ainda as barbas, porém trazendo as capas no braço ; 
arremeçam-n'as aos pés dos bisjios, e declaram que 
renunciam o habito do Templo: os juizes os olharam 
com desprezo, e lhes disseram que lá fora fizessem o 
(juo bem lhes jiarecesse. 

O processo tomava um andamento peri<;oso para 
os que o haviam começado com lamanha ])recipita- 
ção e violência : os accusadores decaíam a pouco o 
pouco jiara a situação di; aceusados-, de dia pára dia, 
os depoimentos ircstes revehivam as barbaridades, as 
torpezas ilo |irimciro processo, cuja intenção se tor- 
nava visível; tinham piistii a tormcnios um cavallei- 
ro ]iara o obrigarem a dizer aipianto nuuilava o thc- 
soiiro tnizido da Terr;i Saneia. l'or veiiliira um thc- 
sonro era crime, e olijeclo d'accusação .' . . . 

Kellcetindo-se no grandi' numero de afliliados que 
os templários tinham no povo, nas relações ipie o» 
cavalleiros tinham com u nobreza, da ipial eram to- 
ilos oriundos, não pôde duvídar-se que o rei se as- 
sustara de ter levado tanto avante este negocio: a 
intenção era vergonhosa, os meios atroies; tudo es- 
tava desinaseunido. l'or ventur;i não estava u poiítu 
de Icvantar-so o povo, inipiii-t.ido na su:i crença iles- 
ilc a tragedia de Jtonilacio \ III .' . . . tluando hou- 
\c omolim por causa da niocibi, o Templo tiverii 
força bastante paru protcjjcr Filii>pe o formoso ; c 



136 



O PANORAMA. 



agora ? . . . Todos os amigos do Templo estavam con- 
tra elle. . . 

O que mais aggravava o perigo é que nas outras 
regiões da Europa os concilios foram em geral favo- 
ráveis aos templários; foram declarados innocentes a 
17 de junlio de 1310 em Ravenna, no 1." dejulho 
em Moguncia, a 21 de outubro em Salamanca. Des- 
de o começo do anno que se podiam prever estas de- 
cisões \ e seguir-se-hia a perigosa reacção em 1'arís. 
Era necessário preveni-la, recorrer á audácia : era 
necessário deitar mão ao processo, precipita-lo, aba- 
fa-lo. 

No mez de fevereiro de 1310 o rei se havia con- 
certado com o papa ; e declarara reportar-se a este 
quanto ao julgamento de Bonifácio i e em troco exi- 
giu, em abril, que fosse nomeado arcebispo de Sens 
o mancebo Marigni, irmão do famoso Euguerrando 
de Marigni, verdadeiro rei de França no tempo de 
Eilippe o formoso: a 10 de maio o arcebispo recem- 
nomeado convoca um concilio provincial, onde faz 
comparecer os templários. Temos dois tribunaes que 
julgam ao mesmo tempo os mesmos accusados em 
virtude de duas bulias do papa: a commissão allega- 
va a bulia que Ibe commettia o julgamento ; o con- 
cilio referia-se á bulia precedente que restituíra aos 
juizes ordinários as suas attribuições a principio sus- 
pensas. — Não subsiste acta dVste concilio ; nada 
mais do que o nome dos que n'elle tiveram assento, 
e o numero dos que mandou queimar. 

A 10 de maio, um domingo, appresentaram-se os 
defensores da ordem perante os conimissarios do pa- 
pa para reclamarem contra o concilio : o presidente, 
o arcebispo de Narbona, respondeu que nem a elle, 
nem aos seus collegas competia conhecer de tal re- 
clamação ; que não deviam intrometter-se nMsso, 
pois que não era do seu tribunal que se appellava :, 
que se elles queriam fallar em defeza d.i ordem, de 
boamente os ouviriam. — Os pobres cavallciros sup- 
plicaram que, pelo menos, os conduzissem ante o 
concilio para ahi levarem sua reclamação, conceden- 
do-lhe ãoís notários que a reduzissem a forma au- 
thentica. Na sua appellação, que em seguida leram, 
coUocavara-se sob a protecção do papa nos termos 
mais patheticos. — As infelizes victinuis parece que 
já sentiam as chammas, e abraçavam-se com o altar, 
que não podia protege-los. (Cvnlinua.) 



Thesoduos dos antigos keis de Poktugal. 

Os nEis antigos de Portugal, segundo refere Fernão 
Lopes, faziam todo o possível por encurtar as despe- 
zas suas e do reino, afim do junctarem thesouros :, 
porque sendo o povo rico diziam elles que o rei era 
rico, e o rei que thesouro tiidia sempre estava pres- 
tes para defender o seu reino, e fazer guerra quando 
lhe cumprisse, sem aggravo e damno do seu povo. 
Todos os annos os vedores da fazenda lhes davam 
contas de todas as despezas feitas, e das sobras dos 
rendimentos e diriMtos, tanto em dinlieiro como em 
géneros. DVilas sobras se mandava comprar certa 
porção d(' moedas de prata e ouro, (jue eram arreca- 
dadas no castello de Lisboa, li'uma torre diamada 
albarrã, muito forte, que ficava por cima da porta 
do mesmo castello, c de que tinham as chaves o 
guardião do convento de S. Francisco, o prior do de 
S. Domingos, e um beneficiado da sé. Este ouro e 
prata os compravam certos camhaihics d'elrei nas 
cidades e villas do reino, c por este trabalho perce- 
biam um tanlo por cada peça de ouro que compra- 
vam. No cast<'llo de Santarém também havia uma 
torre onde accumuluram tanlo dinheiro, que foi pre- 



ciso pôr-lhe espeques para não abater ; no Porto e 
Coimbra havia igualmente thesouros reaes. 

Elrei D. Pedro I achou que, pagas as despezas or- 
dinárias, podia todos os annos metter na torre al- 
barrã até quinze mil dobras, e só na torre do cas- 
tello de Lisfxja deixou a seu filho D. Fernando oito- 
centas mil peças de ouro, e quatrocentos mil marcos 
de prata, além de outras cousas de grande valor que 
alli estavam. Rendiam então os direitos reaes oito- 
centas mil libras ou duzentas mil dobras, e a alfan- 
dega de Lisboa, uns annos por outros, trinta e cinco 
mil até quarenta mil dobras, afora algumas dizi- 
mas ; e só em um anno se exportaram doze mil to- 
neis de vinho, sem fallar nos que levaram depois os 
navios na segunda carregação de março. E ás vezes 
estavam diante da cidade, entre portuguezas e es- 
trangeiras, quatrocentas a quinhentas embarcações 
de carga ; e no rio de Sacavém e ponta do Montijo 
em cadaum logar sessenta a setenta navios carregan- 
do de sal e de vinhos. Com estes rendimentos, ajuda- 
dos de severa economia, poude elrei D. Pedro 1 dei- 
xar muito rico o seu successor sem lançar novos tri- 
butos sobre o povo. 

De outra maneira se houve para enthesourar elrei 
D. Pedro de Castella, a que se pode dar o epithelo 
de Nero da Hespanha pela qualidade e quantidade 
das mortes que mandou fazer. Estando um dia a jo- 
gar os dados com alguns dos seus cavalleiros queixou- 
se de que todo o seu thesouro andaria por vinte mil 
moedas entre prata e dobras. D. Samuel Levi, seu 
thesoureiro mór, a quem elle depois também man- 
dou tirar a vida, deu-se por injuriado d'esfe dicto, 
porque se podia inferir dV'lle que não cuidava na 
arrecadação da fazenda, a qual na verdade estava 
conimettida a recadadores que tinham abusado dos 
seus cargos valendo-se ])ara isso dos motins que nos 
últimos sete annos houvera no reino de Castella ; e 
afiançou-lhe que se lhe desse dois castellos dentro em 
pouco o faria senhor de grande thesouro. Deu-lhe 
elrei o alcaçar de Torguillio o o de Fila, cm que 
Samuel poz homens de sua confiança. Mandou o the- 
soureiro que todos os que arrecadavam ou tinham 
arrecadado rondas d'elrei desde o começo do seu rei- 
nado viessem dar contas, e chamou ao mesmo tempo 
todas aquellas pessoas a quem elles de\essem ter pa- 
go alguma quantia secundo as ordens d'elrei, para 
que debaixo de juramento declarassem o que haviam 
recebido, e com quanto lhes ficaram os p;igadores 
por lhes não retardarem os pagamentos. Cadaum de- 
clarava que não recel)êra mais do que tanto, e que 
o resto fora para a peita, por se lhe dar a entender 
que sem ella não obtinha pagamento. Se o recada- 
dor não mostrava ter pago tudo, mandava D. S;i- 
nuiel que metade de quanto assim le\ára fosse para 
o tliesouro do rei, e a outra metaile piíra o les;ido. 
1. E todolos que taes livramentos liouverom. dli o 
nosso ingénuo chronisfa, eram mui contentes de di- 
zer a verdade, por cobrar o que tinham perdido: e 
elle junctou por esta guiza antes d'um anno n'aquel- 
les castellos tam grande thesouro que era estranha 
cousa de vèr. » 



Conservação do leite. 

Ha um melhodo inventado jwr Mr. Appcrl para 
conservar o leito, o (jual, pola sua simplicidade, me- 
recia ser mais conhecido. Kiilui-se a encher do loile 
fresco uma garrafa l>em rolhada, c tc-Pa moríulha- 
da, cousa de um quarto de hora, em agua a ferver. 
Asseguram que o loitc se conserva jHir muitos annos 
cm óptimo estado doi>ois doesta preparação. 



18 



o PANORAMA. 



137 




CACILHAS; VISTA DO T£JO 



LtsBOA é al);i.steci(la ile todos os geiínros, precisos pa- 
ra as i)rinci|)ui'S noccssidaiJos f também para o rega- 
lo <!Commoilos cia subsisteiieia da sua grande popida- 
<;ão, não só pelo Icrtil território adjacente, ijue liea 
ao norte do Tejo, como pelo da margem fronteira, 
abundante em Irnetos do toda a casta, vinhos cxcel- 
lentcs, lenlias, caças e outros muitos objectos que con- 
correm ao consumo iinmenso da capital. A otilia-han- 
da, como usualmente, nomeámos a parte ao sul do 
Tejo mais directamente ojiposta á cidade, é uma das 
vastíssimas «piintas de Lishioa, iim dos seus recreati- 
vos passeios domingueiros, <pie ollerece a variedade 
do transito pelo rio, e das excursões terra d(!ntro pelo 
meio de fazi^ndas deleitosas ou pela crista das alturas 
d'oiidn B(! destructam extensas e mui picturescas vis- 
tas, já de pai/., já da cidade. Campeia sobre esta mar- 
gem, atalaia da capital por este lado, a mui antiga 
villa d(! Almada, cujo porto é ope(|ueno jogar de Ca- 
cilhas. ICxtravagaules etimologias leeui alguns mar- 
cado á(pu'lle nome-, o Cíirlo é ijue deriva de origem 
radicaimenle arábica: ai miiiUn signilRa » niiiiu : 
tal nouie proveio das minas d^oiiro <|ue iPesla banda 
se expl(M'avam lUtsde tempos muito remotos, (mire 
uutrus a da Adlea, lavrada já no ecuneeo da nionar- 
clliu. Os árabes, grandes jirescrutadores das rii|uezas 
mineralógicas, llu-deram esla denominação, <pu' com 
mais icrieza procede d'a(piellas palavras do (pie da 
causa (pie lhe assigna Kbu l'Mrisi, (pie escreveu pelos 
annos de I Ui I ai iri.l, o (piai, lallando do eastello de 
Almada, (pie sigiiilica caúrilo ilu iiiiiid, diz (pie as- 
ilini se chama por causa do ouro (pie para alli acar- 
reta o mar (piaiido anda l>ravo. I)\'sla asserção do 
g(M)grapho árabe ornais (pie piiihi inlerirse (Mpien'!!- 
(purlla praia se aili.iv^im pallielas dViiiro, como nas 
VoL. 1, — Jankiiio ;í, 11I.17. 



areias do Zêzere e do Alva, justificando de algum 
modo a fama de aurífero, de (pie já em tempo dos 
romanos gozava o Tejo: a verdadeira razão ex|)lica-a 
o sábio naturalista Josí; Bonifácio de .Andrada e Sil- 
va, na Memoria sobre a nova mina (Fouro da outra 
banda do Tejo- — ".. . postí^riores emais miúdas ob- 
s(?rvaç-(~)es me tem ('onvencido que este ouro não vem 
de f(íra, mas S(> acha mais ou menos disseminado nas 
formaçiles alluviaes d'a(pielle terreno, o (piai foi for- 
mado das ruinas e detritos de montes e vieiros auri- 
f(!ros, ou distantes ou visinhos, cpio as antigas iuun- 
daçcles do oceano ou de s;raiides laiíos e rios internos 
causaram em diversos tempos. K provável (pie i)elo 
andar dos séculos as chuvas, peiuítraiido as camadas, 
desmoronando as iiarreiras ealirindo canaesinhos, la- 
vassem as lerras e ajunctass('m o ouro, eo fossem de- 
pondo nos baixos e sítios mais azados da costa, onde 
as ondas lavam e apuram as suas parlicnlas dissemi- 
nadas, (-liierendo verilicar esta suspeita ipie tive lo- 
go que pela primeira vez examinei o local e a natu- 
reza da formação, mandei nu mez de abril passado 
(11)15) trabalhar de novo em alguns silios Já lavr;'.- 
dos no eslio aniecedente. Desde l(> de abril até (■ do 
corrente mez de maio, o ouro (pie lemos recolhido 
(Paípiella mina foi todo tirado das aniigas citas, (pie 
o mar de novo enclic^ra revolvendo e lavando repeti- 
das vezes as areias e as lerras desmortuiadas da-. I. li- 
das (1.1 liarreira. Verd.ide (• (pie a camada aiirilera 
cpie SC formou de novo não leni por ora mai> do (pie 
uni palmo de grossura \ e o [lalino cubico so rende 
um grão (Poiíro ', todavia, em Ires semanas em ipie 
se não poude abrir em sitio virgem calas mais ren- 
dosas, pela falia de agua e ouiros embara(;os locai"» 
(pie já cslào vencido», deu esta scgund.i colheil.i 116 



138 



O PANORAMA. 



oitavas, ou 6 marcos e4 onças deexcellente ouro em 
pó o amalgamado. — Assim, se por um lado as ondas 
do mar ombravecido sobre a immensa praia di^sabri- 
gada contrariam muitas vezes nossos trabalhos miiie- 
raes, por outro »' o oceano ao mesmo tempo um va- 
lentissiino e excellente operário, que ajiineta edepo- 
sita as fagulhas sem conto do ouro derramado, e as 
lava e apura sobre as rampa» da praia, que lhe ser- 
vem enfão de o])timo bolincte ou lavadouro de con- 
centra(;ão, quando aelia base firme, ijual é o salão ou 
greda já descri|)ta. » — Todo o contexto d'esta Me- 
moria é d(! muita curiosidade e iiislrucrão. 

Ocastello de Almada é, como vimos, do tempo do 
dominio sarraceiu) •, contam porém os nossos historia- 
dores que a villa foi povoada por cavalleiros iniçiezes 
que vieram a este reino na armada do norte de Gui- 
lherme da Longa-Espada, e auxiliaram eomseuseom- 
panheiros o nosso primeiro rei na c(mquista de Lis- 
l)0a. No tomo 3." da Monaichia Litúlana vê-se ap- 
proveifada esta circuinstaneia para crear uma falsa 
etjniologia do nome da villa. Teve seu primeiro fo- 
ral d'elrei D. Sancho I, que d^ella fez doação aos ca- 
valleiros da ordem de Santiago, pehis annos de l l!i7 : 
elrci D. Diniz a incorporou na coroa, dando em tro- 
ca áquella ordem as villas de Almodovar e Ourique 
cin Alemtejo, com os castellos de Marachique e Al- 
jezur. E do notar que, no regimen absoluto, era a 
única villa que a coroa tinha no Ribatejo, pelo que 
ainda nomeado do século passado constituiu eom seu 
termo comarca de per si, separada das que então 
eram confinantes, Azeitão e Setúbal (l). Segundo se 
lê na Geographia de Kego, tom. 1.° pag. 176 ■, jkjs- 
toriormente o provedor e ouvidor de Setúbal era con- 
junctamcnfe corregedor d'Alniada, não entrando es- 
ta villa na provedoria, que abrangia vinte villas: a 
correição d' Almada comprehendia também as de Azei- 
tão, Lavradio, Moita, Çamora Corrêa, S. Thiago de 
Cacem, Cezimbra e Torrão. Oextincto logar de juiz 
de fora foi ereado em 18ii6. 

Na mui levantada eminência, fora da villa, d on- 
de se avista um magestosfi ampliith('atro de edifícios 
da capital, tendo na raiz o Tejo aninuulo pelo nujvi- 
mcnto marítimo, está assentado o convento da invo- 
cação de S. 1'aulo, que foi da ordem dominicana, 
fundaç.ão do muito lettrailo padre Fr. Francisco Fo- 
reiro, confessor dos reis D. Jo.ão III e U. Sebastião. 
A distancia de uma légua da villa ficava também o 
convento de religiosos de S. l'aulo eremita, com o 
titulo d(! Nossa Senhora da liosa, e o mencionámos 
porque diz o padre Carvalho em sua Corographia que 
na cerca ha uma fonte de aguas salutiferas para cu- 
rar a lepra, e assim o cita o doutor Fonseca Henri- 
<pies no AquiUgio Medicinal. Ksfe ultimo auclor tam- 
bém refere que a fonte do Alfeite, chamada a IJiqui- 
nha, é excellente para os achaques ài: pedra c areias 
da bexiga, e que por isso era de varias pessoas de fo- 
ra procurada : já o mesmo se lia na Descripção de 
Purtiignl de Nunes do Lião. A bem conhecida Fon- 
te da Pipa, á beira do Tejo, é notável pela copia d^a- 
gua, pcrenne em todos os tempos, fornecendo provi- 
mento fácil d(!agu.adas aos numerosos navios que de- 
mandam o porto de Lislíoa. 

Foi n.ilural (PAlmada o nosso escriptor Diogo de 
Paiva d',\ndradc sobrinho, distincto em poesia lati- 
na, obras moraes, e critica histórica. 

OtTereeemos uma vista da ]>equenina abra ou ca- 
lheta do log.ir de Cacilhas, tomada do barco de vapor 
ipie |)ara alli faz constante carreira diária. Seja-nos 
permillida, poresta oocasi.ão, uma breve observação ;, 
— toda:i as gravuras que temos estampado nVsta se- 



gunda epoeha do Panorama são do buril do Sr. Bap- 
tista Coelho sobre desenhos do Sr. Bordalo Pinheiro, 
aosquaes o publico já tem feito em seus elogios a me- 
recida justiça pelos bera acabados trabalhos que iUus- 
traram muitas paginas das primeiras series do jor- 
nal : repetimos, todas estas gravuras são devidas áqnel- 
les senhores, posto que muitas sejam copias de desenho* 
de jornaes, e outras obras estranseiras — nenhuma 
procede de cliché vindo de fora, e os origioaes em 
madeira podem vêr-se na typographia onde imprimi- 
mos. Porém a que vai na frente d'este numero éobra 
de uin jovcn, assaz digno de louvor pela sua appli- 
cação ; revela porém certa falta de estalo de gravar 
e de certa animação, se nos é licito cxprimir-nos as- 
sim, que á primeira vista não apparece nas outras, 
para asquaes pôde esta servir de termo de compara- 
ção : também n'este ramo ha eschola, c eschola mo- 
derna com seu estvio,- mimo e perfeição particulares; 
ojoven artista dá esperanças de que poderá bem apro- 
veitar-se d'ella. 



COLOMBA. 



Romance da Curseya. 



(I) Dicc. (lo p.idrc Canloso verbo .\\mni\n. 



Ma |>er far la lo ri^ndetli, 
Puvcra, orfaiia. zitella, 
Seoza cugini carnali ! — 
Sta si|;iira, vasta aoche eita. 

Lament. funei. de Xialo. 



Nos princípios d'outubro de 181», o coronel irlan- 
dez sir Thoinaz Nevil apeava-se á porta da hospeda- 
ria Beauveau em Marselha, recolheiído-se algum tan- 
to desgostoso da sua clássica peregrinação á Itália. 
Acompanhava-o miss Lidia, lilha única, devorada da 
romântica ambição dese distinguir pela mais pura e 
requintada originalidade de opinião ede critica. Tiv 
dos ajoelhavam ás maravilhas do jardim de N irgilio; 
ella, para se singulariíar, adoptando adivisa doanii- 
go velho Horácio, o rtií admirai i, passou a>m um sor- 
riso sceptico, ou frio, pelos maiores monumentos, ou 
pelas mais gabadas paizíigens. O quadro da Tranifi- 
guração condemnado por medíocre, e as erupções do 
Nesuvio assemelhadas aos crassos fogaréus das chami- 
nés de Birmingham pintavam o dissabor com que a 
bella viajante voltava da romaria ao Capitólio e ao 
Campo sancto. u.\ Itália, coitada! dizia miss Lidia. 
tinha o insanável defeito de ser desmaiada, uc lhe 
faltar a còr local . . .n (Aue horror ! 

A formosa lad y saíra de lAindres ci>m a lirme ten- 
ç.ão de descobrir além dos .\lpes antiguidades nov.as, 
para Asna chegada alegrar os seus doutos compatrio- 
f.^ís. Aquelles dedos atilados, mimosos, ciir de rosa, 
]K>r força queriam tirar das cinr.is dosst>culos «ni ob- 
jecto raro e admirável. \ ãos desejos ! Antes d'ella. 
n.as suas excursuc-s scientilicos, os sábios tinham atti 
pelado o pó das urnas cinerarias. Debalde procurou 
os thcsouros desconhet-idos da p;itria de Ces.ir:, a in- 
gratíi fortuna, voltando-lhe as costas, nem um des- 
presivel púcaro de barro das olarias etruscas lhe con- 
invlcu para se comwlar de tant.i f.idiga inútil- Real- 
mente era atri«. Indigu.ula d'estes reveles a liella Li- 
dia revoltou-sc contra a Itália c p;issou jiara a opiKv 
sição. 

Mas o peior de tndo foi vir desfeita na própria 
hospedaria a única illus.ío da sua viagem. Lm deli- 
cado eslxicefo da porta pelagici ou evdope de Segni, 
tirado iK)r ella, ctraxido com todo o cuidado na per- 



o PANORAMA. 



139 



suasão de <]Ue escapara ao olho voraz dos pintores, 
a[)]iarccL-lli(,' de nqienle no álbum de ludy Francis 
FeuwicU, L-nlre uui soneto coxo e uma flor sccca ; 11- 
luniiuada, para maior opprobiio, a maldicta porta 
cyclope, ooiu a mais barbara prodigalidade de ròxo- 
terra ! . . . Miss Lídia deu o seu esboceto de presen- 
te á criada grave, e jurou ódio eterno á Itália e a 
todos os portaes pelágicos. 

Com este ódio eonimuiigava sinceramente o coro- 
nel, (jue depois da morte da esposa via só pelos olhos 
<1(! miss Jiidia. A Itália tinha desgostado sua filha, 
e este gravíssimo crime, na sua opinião, tornava-a 
uma terra aborrecida. Dasestatuas efjuadros não di- 
zia nada o bom do irlaudezi não eram do seu arado:, 
ma» da caça sabia iallar, e por este lado o paiz esta- 
va uma desgraça. Dez léguas á torreira do sol nos 
cam|)Os de Uoma para matar só duas magras perdi- 
zes ! 

No dia seguinte ao da sua chegada a Marselha 
convidou para jantar o capitão EUis, seu antigo aju- 
ilante. Ellis tinha ido passar seis semanas á Córsega, 
e contou amissLidia com a verdadeira cur lovul uma 
historia de salieadores, magnifica por desdizer de 
«juautas ella ouvira da estrada de Koma a Napoies. A 
sobremesa os dois militares, entretidos com as mo- 
destas i;arral'as de liordéus, conversaram de caça, e 
o coronel, como amador, enthusiasmou-sesaljendo que 
a Córsega era o paraizo dos caçadores, ])ela .ibundan- 
cia e variedade das peças. Ao chá o capilão tornou 
a arrebatar Lid ia com a historia dasvendettas trans- 
versais, e acabou de a endoudecer pela Córsega des- 
crevendo o agreste e selvagem de uma terra, sem 
igual pela natureza, caracter dos habitantes, e costu- 
mes primitivos da sociedade. Finalm(!nte depirz-lhe 
aos pés iiia eiliUte, punhal pouco notável pelalorma, 
i/ias curioso pela origem. O capitão Jillis tinha com- 
prado esta raridade a um salteador, e podia assegu- 
rar <|ue varara o peito de (juatro homens. Abella la- 
dy j)assou-o no cinto, pô-lo sobre o toucador, e antes 
de se licitar examinou-o umas poucas de vezes. Oco- 
ron<-l siadiava, eiitrelanio, que disparando sobre um 
javali monstruoso voltava com três cargas de perdizes 
o veados. 

Ao almoço o pai ea filha estavam s<js. u EUis dis- 
sc--me que ha excellenie car-a na Córsega — se fosse 
mais |)rrto queria ir lá passar uns quinze dias. » 

— i. E por que não ? respondeu ella. Em quanto 
caçar, eu desenho. Sabe (jue estimava bem ter o gos- 
to d(í ciq)iar no meu allnim a gruía aonde EUis no» 
disse que IJuoiiaparle costumava aprender as lições 
quando era criança?»' 

\'r\n primeira vez approvava sua fdha sem diseufc- 
)>ão um prciji'eto iPelle. O coronel, inliTiuruuíute li- 
sonjeado, opp<iz algumas diividasconjtudo [)ara a con- 
lirmar mais na primi.ira resolução:, encarecendo as 
diliicuhhuUíH de viajar uma seidiora poi; aquella ilha 
tão pouco hospitaleira. Ella, pelo contrario, tudo via 
íiicii e risonho, N'aquellu instante linha animo para ir 
nté áAhia Menor de romaria. ]\eidnima ingleza via- 
jara ain<la na Córsega, e a formosa la<ly exaltava-»e 
figur:indn-se a admiração de todo o Sainl-Janies^s- 
l*lace quando ella mostrasse u seu álbum, tt Minha 
querlila, qu<: pintura é essa tão bonita ? INão pusse a 
folha, deixe vi^r ! n — "Isto não é na<la ; é só o esbo- 
ço do famoso salteador corso, (|uir nos serviu dt» guia 
quando lá tomos." — uAIi! enlào esleve na Córse- 
ga .'..." 

Não liavi.i ainda carreira de barcos de v:ipor da 
Fr;inça para a ( 'orsega ; e o coronel tanto buscou até 
H»!' desenbriíi um hiale com duas c:imaras soUriveis. 
O meshe einbari'ou os viveres, jur:inilo pela sua ul- 
m:i, ipie linha abordo \iiu marinheiro capaz de fazer 



um timbale de rouxinoes digno de o comer o sultão 
dos turcos. Deu certos o vento e o mar, e o inglez 
para obsequiar sua filha estipulou que não queria 
mais passageiros, e determinava costear a ilha de 
lúrma que avista abraçasse as picturescas montanhas. 
Assim arranjadas as cousas, os viajantes esjjeravani 
com impaciência pelo dia da partida. 

Luziu a final o dia da partida. Embarcaram de 
manhã, porque o hiate havia de dar á vela sobre a 
tarde. O coronel andava passeando c<jm sua filha no 
convez quando o mestre veio pedir-llie licença para 
receber a lx>rdo um parente seu, bisneto de um pri- 
mo arredado. — .1 Bello rapaz, disse o capitão Mattei, 
é ollicial de caçadores, e hoje estava brigadeiro se 
aquelle que foi para a ilha não deixasse de ser im- 
perador. " 

— 11 Como é militar . , . " respondeu o coronel,' e 
ia já conceder a licença accrescentando «pode vir 
c-ouinosco, " se miss Lidia não interrompesse em in- 
glez : 

— "Um official d'infantcria . . . vai enjoar talvci, 
e ahi fica perdido todo o divertimento da nossa tra- 
vessia ! 

O mestre do hiate, ainda que entendesse raal o in- 
glez, sempre percebeu que a senhora recusava ; enão 
era precLso tanto para elle entoar a ladainha das vir- 
tudes civis e militares do seu parente. Jurou que era 
pessoa muito de bem, de uma antiga familia de ca- 
hos cie ijuerra ; affirmando que o coronel podia estar 
certo de que não o incomraodaria ; havia d'aboleta- 
lo em sitio oiule nem sequer lhe pozessem os olhos cm 
cima. " 

O coronel e sua filha admiraram-s<! muito de que 
na Córsega existisse de direito hereditário o posto de 
cabo de guerra, que ambos traduziam ))or cabo d es- 
(juadra ; mas como setractava d'um ollicial subalter- 
no, perderam a repugnância de o adniittir; a quali- 
dade não lhe dava largas a intrometter-se no seu 
tracto, e por isso estavam dispensados de conviver. 

— «O seu parente cnjAa?" perguntou miss Nevil. 

— 41 Enjoar elle! Aquillo é de cal e areia." 

— "Então deixe-o vir." 

— " l*óde vir," repetiu o coronel continuando o 
seu passeio com a lentidão solemne de um veterano. 

As cinco horas da tarde, ao subir á tolda para vêr 
largar oliiale já acharam de pé, á entrada da cama- 
rá do capitão, um mancebo esbi^lto e elegante. \ es- 
tia a sobrecasaca militar alK)toada ate acima i a côr 
era moreiui, e olhos pretos, brilhantes, bem r:isgados 
.•ininiavam-se de alegria natural, aimhi (jue um tan- 
to irónica. Apenas o coronel se ap|)roxiinou, ojoxeii 
militar, cortejando-o, agradeceu-lhe com polidez o 
obsequio de (jue lhe estava credor. 

— uNão vai nada, meu rapaz; o ipie estimei foi 
ser-lhe útil ! " re|)licou o antigo ollicial. 

— "O tal inglez é sem cerenionia, meu amigo," 
disse o mancrebo em italiano |)ara o mestre. Este poz 
o dedo no olho esquerdo, e franziu os cantos da boc- 
ea. Glueria dizer n'esla admirável mimica, que o in- 
glez percebia o italiano, e tinha a cabeça um pouco 
<lesconcert;ida. Entretanto o coronel convers:indo com 
a filha iu>lava, ipie os soldados francezes tinham gar- 
bo', ])or isso é Ião fácil lazer d'elles bons olficiaes. 
Concluiu sorvendo o.seu rap'-. Depois \oltaiido-»e pii- 
rii o objecto das suas observações pergnntou-Hie em 
francei : 

— "Em t|ue regimento .serviu .' •• 
Comprimindo um sorriso irónico e IoimuiIo no co- 

tovell(i ao bisneto do seu (piarlo primo, o mancebo 
respondeu, ipie noseptimoile inl.mtiTia ligeira. 

— .. Ah! eate\e então em V^ atrrloo f IMuito moço 
havia de ser. 11 



140 



O PANORAMA. 



— «Foi a minha primeira campanha." 

— "Pois olhe rjiie valeu [)or duas." 

O seu interlocutor mordeu os beiços sem replicar. 

— "Meu pai, disse em inglez miss Lídia, pergun- 
te-lhe se os corsos admiram muito Uuonaparle. " 

Antes do coronel traduzir a pergunta, o mancebo 
respondia em bom in;;l(z : 

— "Minha senhora, sabe que é muito raro ser 
quahjuer propheta na sua t(!rra. Os compatriotas de 
Napoleão teem por elle menos enthusiasmo que os 
francezes. Mas eu, apesar da rixa antiga das nossas 
familias, é que o estimo e admiro como ao maior ca- 
pitão do nosso tempo. " 

— u Vem com licença de seis raezes ? >» atalhou lo- 
go o in!;lez. 

— "Não, coronel. Volto á pátria tão liçeiro de ba- 
gagem como desoldo, assim reza uma cantiga corsa. « 
E suspirou pondo a vista no céu. 

O coronel melteu a mão no bolso; pegou em meia 
peça, e preludiando por uma vagarosa pitada, em ar 
de riso exclamou : "Sabe que mais? também a mim 
me desligaram. Tome lá, cabo fraucez, é para com- 
prar tabaco ..." 

O mancebo endireitou-se de um repellão ao sentir 
nos dedos o ouro. í>s olhos fuzilaram i ia rebentar to- 
da a sua indignação ; mas de repente outra idéa, apla- 
cando os Ímpetos da cholera, mostrou-lhe esta scena 
por um lado tão cómico que, apertando as ilhargas, 
desatou ás risadas. 

O coronel com a meia peoa na mão estava diante 
d'elle extático o boqui-aberlo. 

— " O coronel ha de perdoar, advertiu emfim o 
mancebo, quando o riso passou, se me atrevo a re- 
commendar-lhe duas cousas-, a primeira é que não 
ofteroça dinheiro a um corso : dos meus compatriotas 
conheço oa algum capaz de Ih^o atirar á cara ; a se- 
gunda que não honre ninguém de títulos que não são 
seus. Vejo que teimou em me chamar cabo d^esqua- 
dra, e eu servi no exercito como tenente de linha. 
A diíferença é verdade que não 6 grande; porém o 
amor que tenho á banda ..." 

— "Tenente! exclamou sirThomaz Nevil ; tenen- 
te! mas o mestre disse-me que o senhor era cabo d'es- 
quadra, como seu pai, seu av6, eloda a sua familia; 
não posso entender ..." 

O tenente tornou a recair nas suas estrondosas ri- 
sadas, econi tanta vontade ria, qued'esta vez os dois 
marinheiros romperam era coro. Oinglez, espantado, 
lazia caretas amargosas vendo este accesso de hilari- 
dade. 

— " Gk,ueira perdoar, coronel, se me rio assim d'uni 
i.-quivoco verdadeiramente singular — só agora o per- 
cebi. A minha íamilia ufanava-se decontur uma lon- 
ga serie do cahas entre os seus p.issados, mas são ca- 
bos sem divisas no braço. No aiino de 1 100 revolta- 
ram-se muitas communas contra a tyrannia dos se- 
nhores montaidiezi^, e escolheram capitães a ipie se 
deu o nome de cahos. E uma honra na Córsega des- 
cender d'esses antigos tribunos. " 

— "Desculpe, exclamou o coronel ■, queira perdoar 
o meu engano. Bem vê quo não tinha a menor ten- 
ção de o ofli;ndi>r. " 

E cslendia-lhe a m.ão. 

— "Eu é (pie peçx) desculpa; mereci este equivo- 
co por meu orgulho de rapaz, respondeu o moco ofli- 
cial rindo e apertando a mão do inglez. O meu ami- 
go Mattei não me soube appresentar, já vejo; c não 
ha remédio sen.ão faze-lo eu. Sou Orso delia Rcbia, 
tenente desligado do exercito francez ; cse estes caos 
d(! boa raça não mentem, o coronel deve for o vicio 
da caça : já d'a<|ui me oITeroço para lhe ensinar to- 
dos os passos das nossas montanhas ... se me não es- 



queceram já, também, a mim , " accrescentou suspi- 
rando. 

SirThomaz convidou-o para cear, repetindo as suas 
desculpas. Miss Lidia não se oppoz, notando no seu 
hospede um certo ar aristocrático. Só o que lhe des- 
agradava n'elle eram maneiras rasgadas de mais, e 
uma alegria imprópria do melancbolico t^-po dos he- 
roes de romance. 

A mesa o coronel, tocando o copo de vinho da Ma- 
deira no vidro do do seu commen^al, exclamou : — 
"Tenente delia Rebia, vi em Hespanha muitos cfim- 
pafriotas seus . . . que excellente infanteria d'atira- 
dores ! ", 

— "E verdade, lá ficaram bastantes n replicou o 
mancelx) com tristeza. 

— "Nunca me esíiueceu o valor d'um batalhão 
corso na batalha de \ ictoria ; esteve estendido em 
atiradores nos jardins todo o dia ; quando tocou a 
retirar cuidámos que, apanhando-o na planície, che- 
gava emfim a nossa vez . . . qual desforra I Forma- 
ram quadrado, e fosse lá ô diabo rompe-lo. No meio 
d'elles andava um official montado n'ura cavallo pre- 
to ; firme no angulo do quadrado a fumar com tanto 
socego como se estivtísse tomando café n'um bote- 
quim. Deitei-lhe um, depois outro, três esquadrões; 
e nada. Os meus dragões fizeram dois meia volta, e 
a maldicta musica dos corsos a assoprar, âuando le- 
vantou o fumo, vi no mesmo angulo o official do ca- 
vallo preto chupando no eterno cigarro. Desesperei, 
e puz-mc á frente da ultima carga. A pólvora tinha- 
se-lhe acabado, m.as os soldados, sobre seis fihis, apon- 
tavam-nos as baionetas. Era um muro de ferro. Gri- 
tei, amaldiçoei, e choguei as esporas ao cavallo para 
puxar os dragões ; tudo debalde. Então o official ti- 
rou o cigarro da boeca, e mostrou-mc com o dedo a 
um dos seus, dizendo: Al capello bianco. Eu trazia 
penacho branco. Não ouvi mais nada. Zuz ! veio 
uma baila, e varou-me o peito. Glue l)afalhão aquelle, 
decimo oitavo de ligeiros corsos, Sr. delia Rebia ! - 

— "Era firme, era; respondeu Orso, ao qual os 
olhos brilharam com viveza. Sustentou a retirada e 
salvou a águia. Mas quasi a metade lá dorme hoje 
nos campos de ^ ictoria. " 

— "Por acasj saberá o nome do coraraandante ? « 
— " Pois não sei ! . . . era meu pai . . . Ganhou 

n'esse dia as dragonos de coronel. " 

— "Seu pai! . . . com mil demónios, juro-lhe que 
não se pode ser mais valente. Ainda agora o conhe- 
cia, se o visse . . . ?? 

— " As suas campanhas estão acabadas" retrucou 
Orso fazendi>-se pallido. 

— " Morreu em NNaterloo ? ••• 

— "Não, coronel, escapou de lá para ir . . . expi- 
rar á Córsega . . . haxorá dois aimos . . . Ji-sus I que 
lindo mar. Ha dez annos que n.ão via o Mixlitcrra- 
neo. Não lhe parece mais bello do que o tíceano. mi- 
nha senhora .' " 

— "E muito azul . . . e domais as ond.is não tetuu 
magestade. " 

— " Como gosta do sitios alpestres, já lhe assegu- 
ro que ha de gostar muito da Córsega." 

Miss Lidia despodiu-sc do seu pai, cumprimentou 
Orso com uma cortozia solemne o rofirou-s*-. Os dois 
I ficaram conversando de caçadas e do guerras. Soube- 
I ram que em \N atcrliKi estavam fronte a fronte. A 
I harmonia ainda se augmontou mais entro cUos. Cri- 
I licaram Napoleão, \N oUington o líluchor. traçaram 
i o plano d'uma caç.nda de javalis, o tendo ach.ido o 
j fundo ás corpolontas garrafas, separaram-*o mutua- 
I monte satisfeitos d\iquella amiiado. encetada de '.iiu 
mo<.lo tão ridículo. 



o PANORAMA. 



141 




ESTATUA Di: S. VICENTE DE PAUIiO. 



A PUECEDKNTK p;ravur;i <! um transuinpto da esta- 
tua de S. Vi(,-i'iito (l<' l'iiiil(), foita por Mr. Rangi 
para a igreja da lMap;(la!í'na oui l'aris. Alilíreviarc- 
iiios aqui a r<!la(;ão da viila dc! mu varão saneio, bra- 
são ('■> clirisliatiisnio c da iiunianidadí;. 

Guillicriiio l'aulo <• sua mullicr I!i rlrauda habila- 
vauí n'uiu logarcjo da fr<'L;iii.'ZÍa de l'ouy (1), diocese 
de Acqs, para a ])arte do» JVreiíuéus : lodos os seus 
heiís constavam de umas l)arraeas, <? tli; algumas 
eouridas (|ii(? ellcs uiírsmos cullivavain. Tiveram seis 
fdhos, d(jis d'elles rapazes : o terceiro na ordem do 
iiascinuMito foi Vicí.-ute de l'aulo, ((iio nasceu a 24 
«Paliril dl! 1.57(i. Até a idade de doze annos, Vicen- 
1;e aeom[>anliou o tral>aliio da raniilia guardando o 
gado: d'essa idade o mandou seu pai (estudar com os 
Iraneiscanos de Acijs, e as lelizes disposiç^õcs que mos- 
trou deram azo a ipie altendessem por elle. ]^ara o 
diante um magistrado di> l'<iMy llur eonliou a (educa- 
ção de seus lillios:, c o encargo de prec(.'ptor não ar- 
redou o maji<'el>o da applicação ao esluilo. Tendo 
aprendido dr- seus mestres (piauto lhe podiam ensi- 
nar, loi prí)curar instru<(;ão maior á universidade de 
Saragoç^a, e depois a Tolosa onde <'ur»ou sete annos 
<1(! Iheologia e ali'aneou o grau de hadiarel, que en- 
tão não era iacilmente <<Miec!di(lo. l'ara ol)ler o ca- 
(Míllo d(! doutor (!ra tn-C{'ssario expli<'ar pulilieamente 
as sagradas leltras ou o mestre das senliMiças ; não 
está ÍKím averiguado seVicenli; teve maior grau que 
o de liacíliarel •, mas, emlim, a pijuea and>i(;ào (pie a 
este respeito mostraria nada prova contra o s(!u sa- 
lier, «pie par(;ee ler sido solido e surii(i(nt(uuent(! di- 
latado. 

Aos art (i(! setendiro de ICdd reeelieu as idtimas 
ordens:, e a idéa de dizer a missa nova Uw causou 
um lenior (pie pareci.i .espanto:, não se aeluui com 
animo de ('eii'l>rar em pulilieo uni aehi que liiilia por 



(1) Vlil. 



arli^i) «ulire iiH l.iiiiclrs iii linc |iiil;. .')(). 



tão serio: a tradição refere que buscou ura sitio apar- 
tado e solitário, onde celebrou a primeira vez, seni 
mais testimunhas que um sacerdote para lhe assistir 
e ura sacristão para ajudar, n^uma ermida da ^ ir- 
gem, no cimo d'um monte entre maltas. 

Passado algum tempo Vicente de Paulo passou-se 
a Marselha para receber uma quantia que lhe de- 
viam. Chegada a occasião de voltar a Tolosa por ter- 
ra como intentava, um lidalgo do Languedoc, com 
quem morava, o resolveu a tomar a via niaritima 
para Narbonna : era no mez de julho, boa a estação, 
e contavam chegar n'essa mesma tarde:, mas não 
aconUiceU' assim. Vicente de Paulo deixou uma rela- 
ção dos accidentes verdadeiramente românticos d'es- 
ta viagem, em uma carta que foi achada cincoenta 
annos depois, e que elle tivera tenção de supprimir. 

"Embarquei-me (diz) para Narbonna, afira de ir 
mais depressa e poupar, ou, mais exactamente, para 
não chegar lá e perder tudo. O vento era tão favo- 
rável quanto bastava para nos levar a Narbonna no 
mesmo dia (cincoenta léguas de caminho) se Deus 
não tivesse permittido que três bergautins turcos que 
costeavam o golpho de L\ ão para apanhar as barcas 
que vinham de Beaucaire, onde se fazia uma feira 
que se reputa das mais excellentes da christandade, 
portassem sobre nós e nos atacassem tão vivamente 
que, mortos dois ou três e feridos todos os mais o 
lambem eu de uma frechada que me servirá de re- 
pertório toda a vida, tivéssemos de nos render áquel- 
les traidores. Os primeiros Ímpetos da sua raiva fo- 
ram cortar o nosso piloto em mil boccados, por terem 
perdido um dos seus principaes afora quatro ou cin- 
co forçados que os nossos lhes malarani : feito isto 
nos acorrentaram, e depois de nos terem curado tos- 
camenlcy proseguiram na sua derrota, eommellendo 
mil roubos, dando todavia liberdade aos (pie se ren- 
diam sem coml)ate, mas depois de os lerem rouba- 
do. A linal, carregados de fazendas, ao cabo de sete 
ou oito dias tomaram o rumo de 15(!rberia, covil e 
espelunca de ladr<ies sem auctoridade do grão turco •, 
chegados alli, nos expozeram á venda, com um auto 
da nossa captura, qui- diziam feita a bordo de um 
navio hespanhol ■, porque, se não fira esta mentira, 
seriamos libertados jielo cônsul (pie o rei tem n'aquel- 
le logar para tornar livre o commercio dos francezes : 
o seu proceder para a nossa venda foi, depois de nos 
terem despojado, dar a cadaiim um par de ceroulas, 
uma fardeta de linho com iim barrete, e passear-llos 
pela cidade de Tunes, ond(! vieram de propósito pa- 
ra nos vender. Tendo-nos feito dar cinco ou seis vol- 
tas por Ioda a cidaih; em redondo, de corrente ao 
pescoço, nos reconduziram á barca para que os mer- 
cadores podessem vir alli presenciar (jual comia bem 
e (piai não, e para lhes mostrar (pie os nossos feri- 
nneiitos não eram mortaes. Acabado isto, nos torna- 
ram a levar á praça onde os mercadores nos vieram 
examinar inleiramente como se faz para a compra 
de uni cavallo ou de um boi, fazendo-nos abrir a Ihh'- 
ea ]>ara verem os dentes, apalpando as costellas, son- 
dando as feridas, fazendo-nos caminhar a passo, tro- 
tar (! correr, e depois hevantar pezos e luelar para 
conhecer a força de eadauin ; (! outras mil castas di' 
brutalidades. Ku fui vendido a um pescador, (pie 
foi obrigado a dcsfazer-sc logo de mim, por(pie nada 
me «! tão contrario como o mar; passou-me ii um 
velho, iiK^dico espagirico, solierano manipulador dc 
ipiiiilas essências, liomem muito hiiinaiio e Iracl.iM^I, 
o ipiat, segundo elle próprio me dis^e, linha Iraba 
Ihado o espaço de ciiicoeula annos em pesquiza da 
pildra pbilosoplial : esliniava-nie miiilo, e gosta\a de 
me ciinvi'i's;ir sobre a alchíniia, e ilrpois sobre a sua 
lei, a qual miiilo diligenciava alliaiiir-me, proinel- 



142 



O PANORAMA. 



fondo-me bastantes riquezas e toda a sua sciencia. 
Deus mo inspirou sempre uma confiança de livra- 
mento pelas assiduas ora(-ões f|iie lhe eu fazia, e á 
Virgem Maria, só pela intercessão da fjual eu creio 
ter sido lilwrtado. Estive, pois, com atjuelle velho 
desde setembro de 1601 até agosto de IfiOU, em que 
foi eml)art;ado e levado ao grão sultão para traba- 
lhar com elle^ mas debalde, porque morreu de pena 
MO caminho. Heixou-me a um sou s<jbrinho, verda- 
deiro aiitroporaorphita, que me vendeu logo depois 
tia morto de seu tio, [x)rque ouviu dizer o como M. 
de Breves, embaixador do rei na Tur<juia, vinha 
com válidas e expressas cartas do grão turco para 
restaurar todos os escravos christãos; um arrenegado 
de Nice na Sabóia, inimigo natural, me comprou e 
levou para o seu temar, que assim se chama a pro- 
priedade que qualquer tem como rendeiro do grão 
senhor i porque alli o povo nada possue, tudo é do 
sultão. O tomar d'aquelle era na serra, onde o paiz 
é extremamente cálido e deserto. Uma das três mu- 
lheres d'eHe era grega christã, mas scismatica ; ou- 
tra era turca que serviu de instrumento á iminonsa 
misericoriiia de Deus para tirar seu marido da apos- 
tasia e torna-lo ao grémio da igreja, e a mira re- 
mir-me da escravidão. Como era curiosa de saljer o 
nosso modo de viver, vinha todos os dias aos campos 
onde eu cavava, e n'um dia me ordenou que can- 
tasse os louvores do meu Deus. A lembrança do — 
"Como cantaremos nós elii terra estranha?.. .»:> — 
dos liliios de Israel captivos em Uab^lonia, me fez 
começar com as lagrimas nos olhos pelo psalnjo Su- 
per Rumina liahyíonis, depois a Salve rainha, de- 
pois outras muitas cousas; no que cila tomava tanto 
recreio que era maravilha ; não deixou de dizer a 
seu marido á tarde que não tivera razão em abando- 
nar a sua religião, que ella julgava extremamente 
boa, segundo uma informação que lhe eu dera do 
nosso Deus, eos louvores que eu cantara na presença 
d^ella •, no que dizia ter experimentado uma satisfa- 
ção tal que o paraizo de seus pais, o que ella espera- 
va, não julgava tão glorioso, nem acompanhado de 
tanta alegria, como o contentamento que linha sen- 
tido em ([uanto eu louvara o meu Deus; concluindo 
que n'isto havia algum prodiuiio. Ksta mulher, co- 
mo outro Caipiía, ou como a burra de Balaam, tan- 
to fez com o sim discorrer que seu marido no seguin- 
te dia me disse que só dependia de uma opportuni- 
dade o escapar-nos para Kranç-a ; mas que elle daria 
tal volta que dentro em bem pouco tempo bemdiria- 
mos a Deus. Ksto Ikíiu jvjuco teuipo duro^i dez uie- 
zes que me elle entreteve n^esta esperança, no termo 
dos quacs uos escapámos com um pequeno batel, e 
nos passámos a Aguas-mortas aos 2!l de junho e logo 
depois a Avinhão, onde o senhor vice legado recebeu 
publicamente o renegado com as lagrimas uos oibos 
e suspiros do coração. « 

\'ioenl:o de P.iuío foi levado a Roma pt'!o vice le- 
gado, e d^alii voltou incumbido, pelos enilvjiixadores 
de Denrique IV, de uma importante commi^!^ão pa- 
ra este principo. Alojou-se com uni juiz d^um pe- 
queno logar chamado Sore, situado nas Landes o no 
districto do parlamento de Bordéus : N icente era do 
mesmo cantão, e por economia haviam tomado um 
quarto, despeza ao meio. O juiz de Sore, erguendo- 
.se um dia de mailrugaila, foi á cidade tractar de aJ- 
gitns negiwios, e esqueci»u-se de fechar um armariu, 
onde mettêra o sou dinheiro: Vicente, que se acha- 
\a um tanto incomniodado do saúdo, ficou de cama 
ai;iiard«nd<> (x>r um ronicdio que deviam trazor-lhe. 
Chegando o olticial do boticário, e procurando um 
C(qK> no armário que via aborto, .vhou o dinheiro e [ 
o tomou, mostrando á saída appareucia de trauquil- 



lidaue. A quantia era de 400 escudos: o juiz, á vol- 
ta, espantou-se de não achar o seu pecúlio: pediu-o 
masoado, e depois cora grande clioler.i, a \ icente 
de Paulo, que respondeu que nem o tomara, oem 
vira tomar. Foi bastante para redobrar o fogo do 
juiz, que rebentou sem attenções ; as raiuzuadaa cir- , 

cumstancias de V icente de Paulo, o seu silencio e I 
até a sua paciência, lhe serviram de provas : expul- * 

sou-o da sua companhia, e deu ás suas suspeitas, ou 
antes á sua convicção, a maior publicidade. Por seis 
annos carregou sobre ^ icente o pezo dVsta accusa- 
ção ; a final o verdadeiro ladrão foi descoberto em 
Bordéus e confessou o delicto : admirou-se então a 
paciência e resignação do sacerdote-, e quanto maior 
fora a injustiça para com elle, tanto mais convidava 
a que o respeitassem e amassem. — Em 1610 Mar- 
garida de ^ aloJs o tomou por seu capellão ordiná- 
rio: o palácio d'esta princeia não ora um logar de 
edificação, \ iceute conheceu que alli a sua fe vacil- 
lava ; parece que o terror que experimentou des- 
cobrindo o que se passaxa na sua alma foi exacta- 
mente o que o decidiu áquelle grande impulso de 
charidade ao qual deve o viver eternamente na me- 
moria dos homens. N'uni dia que se achava todo oc- 
cupado da violência da sua pena e da maneira de 
lho obstar para sempre, tomou a Arme e inviolável 
reíolução de consagrar toda a sua vida a bom dos 
pobres. Assim que formou este generoso di-i^nio, o 
seu coração gozou serena c perfeita liberdade. E 
pouco depois rocolbeu-se ao domicilio de Pedro do 
Berulo, fundador da congregação do Oratório. Em 
seguida foi successivamente cura da parochia de Cli- 
chy •, preceptor dos três filhos de Manuel Gondi, con- 
de dejoigny ; ecura deChàtillon. N'esta ultima pa- j 
rochia é que fundou a confraria da Charidade, que ' 
foi o modelo de todas as que depois se estabeleceram 
em França. Diremos a razão da origem doeste insti- 
tuto. ( Cunctuir-te-ha.J 



Passeios i>i: Lisboa e sed termo em 1603. 

Os seguintes extractos s.ão pa-sajons litteralmentc 
trasladadas dos Diálogos de Luiz Mondes de \ ascon- 
cellos. 

"Cobre Lisboa os outeiros evalles, que já dissemos, 
com as fabricas das casas e templos, dando com isto 
grande comniod idade dealegre vista aos mais dos seus 
moradores; ]x>rque, das mais das cas.-is. estando edi- 
ficadas nas ladeiras e cumes dos montes, se vô gran- 
de parte da cidade, e do seu rio. e de outras juncta- 
monte com algumas hortas; jwrquo está de tal sorte 
assentada esta cidade que, saindo d''ella alguns lira- i 
cos nobremente povoiídos, abraçam entre siamonissi- 
nios vallos, plantados de hortas, que tixlo oanno .-ile- 
gram a vista, variando cm diversos tem{tc» a \crdr 
hortaliç.i com que os pr.icfieos ;igricultoros cobrem a 
sua terra. E.issini damaiorparto d;iscas;is se\è uma 
grande machin.i de unidos edilicios. ou juncto com 
isft> o iiuir ou as venlos hortas ; o se estas \ istas sâ« 
alogrk^s, jul^ue-o quem o goKi. E as casais que cstSo 
chegadas ao mar, do ohmIu cjue d^ellas se vecm di»- 
tinctamente as grandes o pe<)uon.isemlí;irc.ições, umas 
.•«ncorad.is e outr-.is n.ivejando, que coliseu, que ciic» 
o que theatro com novi»* espectacuK» se lho ptide c^'m- 
par.ir? . . . Pois não só tom esta varia vista, mas es- 
tondendo-a mais sobre .is esp;iç\isas aguas do rio, <■»- 
f,"io-se vendo da outra parte resplandecer entre osbo- 
risiintes da manhã e raios do sol á t.irde as branras 
casas das quii)t.-is o loirares n'olla editicadi». E não 
só^ozam d'osfa aloçre o f»rmos,i vista aquolles a quem 
coube porsortc viver em casas d'onde atculiam. nu^ 



o PANORAMA. 



143 



tixloc os homens que vem a esta cidade podem goiar 
d'elU. indo passear aos outeiros de Nossa Senhora da 
Orara, di) Carmo, doCastello, deSancta Catharina, 
e dasCha<;as . . . Eáquelles que se recrearem de pas- 
sear em grandes e espa^-osus praças tem a do Rocio , 
que senão sabe, em outra cidade, deoutra tamanha, 
cercaila de nobres casas c grandes templos, e o Ter- 
reiro do Paço, que tenho por muior, medindo desde 
os Paços até os Contici, o qual tendo pela parle da 
terra estas illustres e reaes fabricas dos l'ai;os e Con- 
tos, tem pela do mar ordinariamente tantos navios 
postos com as proas em terra, e outros ancorados, que 
os mastros e antenas parecem um grande bosque de 
espessas arvores. Pois o passeio deS. Roque até des- 
cobrir a Boa-Vista não pode ser cousa mais agradá- 
vel, vendo, depois que s(> sáe dos Moinhos de Vento, 
de uma parte o valle da Annunciada cheio de hor- 
tas e illustres casas até Andaluzes, e da outra a Boa- 
V iíta e todo o seu mar até fora da barra : e os pas- 
seios dos caminhos de Belém e de Enxobregas, para 
íjuem os quizer mais largos, que cidade tem outros 
inais alegres nem com melhores lins, acabando um 
no sumptuosíssimo e. real mosteiro de Belém, digno 
enterro dos nossos reis, e o outro na devota e saucta 
casa da Madre de Deus v no religioso convento deS. 
Francisco. K o passeio do mar não é inferior a ne- 
nhum dos referidos ; porque olhando para a terra se 
vê, não sem admiração, a grande cidade que se le- 
vanta sobre as ladeiras que olham para aquella par- 
te, e para o mar innumeravel quantidade de navios 
e barcos fazendo outra grandíssima cidade naval, li 
para que tudo seja sempre ledo, depois cpie o sol a[j- 
parece S(jbre o nosso horisonte, até que (como lingeni 
os po<!tas) melte o seu carro nas aguas do Oceano, não 
deixa de espalhar os seus raios por cima de tixla a ci- 
dade, como que a faz muito mais aJogre e deleitosa 
á vista. " 

" O pescado d'este rio edo mar d'esta costa de Lis- 
boa é tand) e tão bom que, como cousa tão manifes- 
ta, não ha que dizer senão encoramendar a quem o 
quizer sal)er que passeie a Ribeira onde se vende . . . 
mas j)or(|ue não se creia que uso, como os poetas, de 
encarecimentos, uma sóc(^usa direi que mostrará cla- 
rissimaniente que são n'isto muito cúrias as minhas 
palavras, e n'ella tanilicm vereis a grandeza d'este 
p)Vo. E obrigada a camará d'esta cidadt a dar ces- 
tos aos p<'scadores que chegam á Rilxúra para lavar 
o pescado que trazem, o os pescadores em recompen- 
sa dão, sem obrigação que a isso tenham, o peseado 
que <jueri'm a quem lhes dá estes cestos : encommcn- 
<la a caniura isto a certos homens, os quaes dão os 
cestos aos pescadores e recolhem o peixe que elles li- 
vremente liics (Ião, do qual o terço é <hi camará, e 
nsoutras duas partes, dos homens que teem isto aseu 
cargo. A cannira importa o terço UdO.^oiio réis em 
que o traz arrendado, e com o ipie fica vivem onw^ 
homens, ipie tantos são os (jue dão estes ciístos. n 

»(>(pie chama mo» Ti-rmo de Lisboa terá |h-Io mais 
comprido, ipii- c- de Tornas até (.'intra eCascacs, dez 
léguas, e pelo mais largo rinio. Este circuito de fer- 
ra e Ião povoado, como ja disw, sendo m.h estradas 
principae» <|u.isi unia «■oiitiiiiiada ciilade. K assim pa- 
rece que, ijiraiiilo fiira inuilo fértil, não |Mnle-riii al- 
cançar a mais cjui- Misteiitar a muita gfiite ipu! n'es- 
le liiiilti- li.iliila ; e não só faz isto, mas é Ião grande 
a quantidade de cargas que entra rada dia em Lis- 
boa, só d'i'ste espaço, de toda a sorte di? mantimen- 
tos (jiie nrio é jMisKivel dizer iiuniiTo certo^ porque 
•endo quatro lis estrailas priiieipaei por onde vem, 
«pie são Kiixoliregas, Airoioi, Andaluz <■ Abaulara, 
eadanma d\-ll.is, priíi('i|>aliiieiile as Ires ultimas, a 
qualquer hora do dia (|ue (lor ellas se cuminhe, su vô 



aestrada continuamente acompanhada dascargasque 
entram e das cavalgaduras que &áem descarregadas ; 
e já vi tão espessas as que entravam e as que saiam 
que comparava a estrada á das formigas, da eira pa- 
ra o formigueiro, edo formigueiro para a eira, umas 
carregadas e outras vazias ; e não trazem um só man- 
timento, mas todos os que usámos para sustento e pa- 
ra regalo, trazendo trigo, cevada, \inho, azeite, hor- 
taliças, fructas de toiJas as sortes e de todos os tem- 
pos, leite, nata e manteiga todo o anno, cabritos, 
coelhos e perdizes ; e como um perenne rio está isto 
continuadamente correndo, e todjLS estas cousas vem 
com tanta abundância que não só se vendem nas pra- 
ças, mas as mais dVUas pelas portas, o que não ha 
em nenhuma outra cidade das que se tem por abun- 
dantes \ e se esta cidade não fora mais provida qu« 
todas, sabendo os que as vendem que de necessidade 
as haviam de ir a comprar á praça, não tomaram o 
trabalho de as trazer pelas portas, etoniando-o é cou- 
sa clara que a muita abundância os desconfia da ven- 
da i e tem razão, para o que só direi o exemplo da 
fructa de CoUares, pequeno logar d'este districto, a 
qual é tanta que rende a siza d'ella um conto de réis, 
que são de principal vinte e cinco mil cruzados, cou- 
sa que parece incrivel • e considerando a este respei- 
to as outras, bem se vê a abundância que de todas 
haverá, e pelo conseguinte que d'ella procede a dili- 
gencia da venda. E quem vir só o que ha de Saca- 
vém até Friellas ao longo do rio, conhecerá que em 
tudo o que disse da fertilidade do Termo de Lisboa 
fico curto ; pois. em só uma parte, tão pequeno dis- 
tricto tem cousas tão esplendidas e que melhor pro- 
vem a fertilidade ^ porque aqui se vê um deleitoso e 
útil rio navegável em lodo este espaço, que regando 
de uma parte ferieis vallcs, da outra faz copiosas raa- 
riiilias i e pela terra da parte de Sacavém ha taiitos 
logares, quintas, vinhas, pomares, e outras muitas 
férteis e deleitosas propriedades que excedem não só 
a capacidade dVsle pe<|ueno districto, mas á de ou- 
tro muito maior •, e considerando isto, vejo que não 
tem tanta o tempo nem a minha lingua que possa 
explicar a largueza com que Deus beneficiou a todo 
o Termo d'esla cidade de Lisboa, pelo que o deixo. 

Mas também saindo fora d'elle <jue cousa ha que 
se Compare com os logares de seus campos, que do 
mesmo modo são povoados e ferieis, e tanto que de 
Sacavém até a Castanheira, que sãoquatro léguas, se 
veeni doze logares, postos no caminho ou juncto d"el- 
le, e alguns grandes e lustrosos, e todos tão abunilan- 
ti?s de tudo í|uo do mesmo inodo ])roveem pelo rio a 
cidade detodus as cousas necessárias, tão copiosamen- 
te, que entram todos os dias n'ella, só das embarca- 
ções do rio, assim d'estes logares como dos mais que 
juncto aelle estão assentados, S(Mn contar asque M'm 
dl' fora da barra, a roda de cento e cincoeiíla carre- 
gadas de mantimentos, s«'ndo e»te um manifesto si- 
gna! da grandeza ii'esla cidade:, |)orque oque trazem 
estas barcas e tudo o mais que cada dia entra n'ella 
se gasta, tie sorl<; qu<! é necessário haver esta conti- 
nuação para ser bein pro\ida. Pois que diremos tios 
leililissiinos campos qui'rega oT<jo, creados por par- 
ticular l'rovidiMieia ile Deus para a grandeza dVsl.i 
eidiíile, pois fora im|)ossi\el sem elles susli-ntar >e . . . 
Diz Diodiiro Siciilo que loila a abundância da Índia, 
ijue ogramle, procede da inuiulaçào dos rios. Do mes- 
mo modo i'sles lerlili^simos campos, recebendo em si 
a agua das ciulieiite.s do Tejo, se l',izom tão fecundos 
i|Ue em selo seniuiias se semeia e colhe, produxiiido 
Ião copiosamente (pn- eu sim colher mu lavrador ile 
um moio í\i) trigo cineoenta. « 

•• ( > logar onde se vendem as cousas necessárias a \ id.i 
(de que Aristutvles fiu muito cuiío) eiitú na uiuis com- 



144 



O PANORAMA. 



moda parte que pode ser ; porque (diz elle) que deve 
estar em parte accommodada para com facilidade vi- 
rem a ella as cousas do mar e da terra : e assim ve- 
mos n'esta cidade — aRil)eira que é a praça onde se 
vendem todas as cousas do comer — a Rua Nova e 
Telourinho Velho, onde se acham as de veslir e fa- 
7£m as almoedas — assentadas de modo que da terra 
edo mar se vem a ellas cora grandíssima facilidade; 
porque os que vem do mar ahi desembarcara, cos da 
terra, sem subir nem descer nenhuma hideira, por 
caminho chão suavemente chegam a estas partes, e 
não falta a estes logares a conimod idade que Vitru- 
vio n'clles considera ; porque diz elle que as cidades 
marítimas devem ter a praça juncto ao porto; — e 
assim estão a Ribeira, Rua Nova e Pelourinlio \ e- 
Iho — ese forem dentro da terra, e apartadas domar, 
que a praça se porá no meio d'ellas, para que os mo- 
radores com igual commodidade se possam prover d'el- 
la ; — a qual não falta a estas praças deJ^isboa, por- 
que como ella é quasi em dobro mais comprida do 
que larga, ficando estas praças no meio do compri- 
mento estão cora pouca differença em igual distancia 
dos extremos, ij — . 



Os Templários. 

(Continuado de paj. 134.) 

Todo o auxilio que lhes proporcionou o papa, com 
c[uem contavam e a quem invocavara como a Deus, 
foi uma tiiuida e frouxa consulta, cm que intentou 
interpretar a palavra relapío, no caso que se quizes- 
se applicar este nome áquellcs que se tivessem re- 
tractado de suas confissões. — "Parece, de algum 
modo, contrario á razão julgar tacs homens como re- 
lapsos. Em cousas semelhantes duvidosas é necessário 
restringir e moderar as penas." — Os commissarios 
pontifícios não se atreveram a fazer que prevalecesse 
<?sta consulta : responderam, no domingo pela tarde, 
«pie sentiam grande compaixão para com os defenso- 
res da ordem e os outros irmãos ; mas que o negocio 
de que tractavain o arcebispo de Sens e seus suffra- 
ganeos não era o que incumbia a elles commissarios ■, 
que í'llfcs não sabiam o que se passava n'aquellc con- 
cilio; que se a commissão estava auctorisada pela 
sancta sé, também o arcebispo de Sens o estava ; que 
ella não tinha poder sobre aquelle ; que não viam a 
primeira fista de que fazer objecção ao dicto arce- 
bispo ; que comtudo pensariam. — Em quanto os 
commissarios pensavam no caso, tiveram noticia de 
que eincoenta e quatro templários iam ser queima- 
<Íos : fúrá sufficiente um <lia para esclarecer o arce- 
bispo de Sens e os seus sutlragancos Sigamos passo 

a passo a narração dos notários da commissão ponti- 
fícia na sua terrível simplicidade. 

«Na segunda feira 12, durante o interrogatório 
de Fr. João Bertaud, cheirou ao conhecimento dos 
oommissanos (pie eincoenta e quatro templários iam 
ser queimados. Encarregaram o prioste de 1'oitiers e 
i> arcediago de Orléans de dizerem ao arcebis[K> de 
Sens e a seus suffraganeos que deliberassem com ma- 
dureza c deferissem a sentença, visto que os freires 
mortos na prisão tinham affirin.ado, segundo se di- 
zia, sobre a sua salvação, «jue eram accusados sendo 
iiuiocentes : que se a execução tivesse logar, iin|x'<li- 
ria os commissarios de fazerem o seu officio, estando 
os accusados por tal modo horrorisados que pareciam 
])erdiili)s (lo juizo. Além d'isso. um dos mesmos eoin- 
iiiissarios incumbiu-os de signilicar ao arcebispo que 
Fr. Rajuialdo de Pruin, Pedro de Boulogne, Gui- 



lherme de Chamboonet e Eeltrão de Sartiges, caval* 
leiros, tinham interposto certa appellação perante oS 
commissarios. " 

O caso era de grave questão de competência de 
jurisdicção. Se o concilio e arcebispo de Sens reco- 
nliecessem a validade de uma appellação dirigida á 
commissão papal confessavam a superioridade d'este 
tribunal ; e as iinmunidades da igreja gallicana fica- 
vam lesadas. I'or outra parte, instavam sem duvida 
as ordens do rei ; O mancebo Marigni, creado arce- 
bispo expressamente, não tinha tempo para dispu- 
tar : retirou-se para não receber os enviados da com- 
missão ; depois alguém (ignora-se quem) poz duvida 
que elles fallassem em nome da commissão; Marigni 
duvidou também, e seguiu avante. 

Os templários conduzidos no domingo ao concilio 
foram julgados na segunda feira; os que confessaram 
postos em lilwrdade ; os que sempre negaram encar- 
cerados j)or toda a vida ; os que retractaram as con- 
fissões declarados relapsos : estes últimos, em numero 
de eincoenta e quatro, foram no mesmo dia exaucto- 
rados pelo bisjx) de Paris e entregues ao braço secu- 
lar : na terça feira foram queimados diante da porta 
de St." Antão. Estes desgraçados tinham variado 
nas prisões; mas não variaram oaschammas, protes- 
taram até as ultimas a sua innocencia. A turba as- 
sistente estava muda e como estúpida de assombro. 

Quem accreditaria que a commissão poutificia te- 
ria animo para reunir-se no dia seguinte, continuar 
o inútil processo, e interrogar uns cm quanto quei- 
mavam outros.' . . . — .iN"a terça feira, 13 de maio, 
foi trazido perante os commissarios Fr. Avmerico de 
Villars-le-duc, de barba rapada e lein capa nem ha- 
bito do Templo, de idade, ao que dizia, de eincoen- 
ta annos, tendo servido na ordem oito annos como 
irmão servente e vinte como cavalleiro : os senhores 
commissarios lhe explicaram os artigos sobre que de- 
via ser interrogado. Mas a dieta testimunha, palli- 
da e toda espantada, depondo debaixo do juramento 
d'alma c dizendo que de súbito morresse elle se men- 
tisse, e fosse, na presença mesmo da commissão, em 
corpo e alma subvertido no inferno, ferindo o peito 
com os punhos, prostrando-se de joelhos e erguendo 
as mãos para o altar, declarou que todos os erros im- 
putados á ordem eram de inteira falsidade, posto 
que elle tivesse confessado alguns no meio dos trac- 
tos a que o expozoram Guilherme de Marcillac e 
Hugo de Celles, cavalleiros do rei. Accrescentava 
que tendo visto levar em carroças, para serem quei- 
mados, eincoenta e quatro freires da ordem, que não 
tinham querido confessar os dictos erros; e tendo ou- 
vido dizer que com ctVeito foram queimados, elle que 
receava, se o mesmo lhe acontecesse, não ter Kistan- 
te força e paciência, estava prompfo a confessar eju- 
rar por temor, perante os commissarios ou qn.iesquer 
outros, todos os erros assacados á ordem, e a dizer 
até, se assim quizessem, <jue tinlia morto ^oao Se- 
nhor Jetus Cfiriilo. . . Supplicava, e conjurava os dic- 
tos commissarios, e nós notários presentes, que não 
revelássemos ás justiças do rei o (|ue acabava de di- 
zer, temendo, se o soulx^ssem, ser entregue ,io mes- 
mo supplicio dos eincoenta e <piatro cavalleiros. Os 
coinmissarios vendo o perigo que ameaçava os decla- 
raiites, se elles continuassem a ouvi-los durante .nquel- 
le tempo de terror, e levados também de outros mo- 
tivos, restilveram sobre«star na causa ]x'r agora, t- 

A commissão p.inx-e que se commovcra com est.-v 
scena terrível : J>osto (pie enfraquecida p<-la deserção 
do seu presidente, o aret^bispo de Narlx>nna. e do 
bispo de Baveux, (]ue já não v inham .hs sessões, in- 
tentou salvar, se ainda fosse tcm^Ki. os três princi- 
paes defensores. { Coniinúa.) 



19 



O PANORAiMA. 



U5 




ROIISSILLON. 



O ANTico condarlo do Roussillon era apenas uma 
parte da exlensãi) de território que de[)ois teve esse 
nome, c hoje ineorporada na Kraiira Oirnia o depar- 
tamento dos Pyrennéds. Esta rej^ifio cliiimava-se em 
lempos remotos reijio sardunum, verosimilmente por 
causa de uma eolonia que os romanos para alii leva- 
ram da Sardenlia. A cidade de itiisciíio, eolonia ro- 
mana, foi a que deu nome á eomarea de que era ea- 
pital, e foi n'ella ([ue os reis celtas teclosiii^os. no an- 
uo íi'M> de Itoma, te ajuiii^laram para delilierar nos 
meios ilc impeilir a Annilial atravessar os doininios 
d'ellcs, por temor de que attenlasse contra suas liber- 
dades. I'resume-se, porém, que esta cidade lòra des- 
truída ou pelo n>enos assolada pelos vândalos ao en- 
trarem na llespaniia. .M não é mencionada Uuscinu 
na historia ila expedição do ri;i Vamlia contra o du- 
(|ue Paulo, escripla no reinado d'a(|uelle prineipc 
por Juliano, bispo de '1'oleilo, posto ((ue n'ella se falle 
de EIneede todas as forl.ílczas da rejíião o mesmo si- 
lencio se observa no jul;<a mento publicado então con- 
tra os rchelladus, e que é uma ridaiao alihri'viada da 
«xpe<lição : linda esta, ao voltara llespaiiha. Vamba 
<lemorou-se dois <lias em lílue, que, sem duvida devia 
ter a cidaile mais imporlanle : <!onstaiiliiio dcra-lhe 
o nome ile Helena em honra da iinperatri/ sua mãi ; 
não é pois para admirar (|ue ella iosse a capital do 
Uoussillon depois da ruina di' Kuscino, de quo já 
não ha memoria no doniinio dos visi^^odos. 

O eastello do Koussillon está eililicado no assento 
da antiga Kuscino a uma lef;ua de l>crpinhão. Vin- 
da se encontram em excavações niedalbas romanas, 
c alicerces d(^ edilicios (|ue mostram ler sido exten- 
sos ; em )7(>Sse desciilerraram uunierosiis columnas, 
capit(MS, cornijas e vaiios socos d<^ mariuore. Da 
cidade não restam mais vesti^ios (|ue uma turre du- 
VoL. I. - Janeiko !t, 1847. 



lave) por antiguidade, fragmentos de banhos pnhlv 
COS, e alguns pedaços de muralha : a torre é rcdondí 
e em posição admirável, apparecc de longe denegri- 
da pelos séculos. .Muitos pardieiros, obra de seis ou 
sele casas coiistruiilas ao pé da torre, uma ermida ve- 
lha que serve de venda, c quanto enfeita a antiga 
colónia romana, cessas mesmas habitações arruina- 
das não são mais do que restos do castro levantado 
sobre os destroços da cidade. — Taléem Ioda a par- 
te a acção do tempo e o andamento dos séculos ! 



BlOliRAPHIA DK S. VlCKNTE DB PaUI.O. 

(Conlinuado de ])ag. IH.) 

N'i'M dia de festa, estando \icenle de Paulo para 
fazer uma exhortação aos lieis, .M."" de la Chassai- 
gne o delcve por um instante e lhe rogou que en- 
comrncndasse ã cliaridade dos seus compaiocliianos 
uma familia exiremanieute pobre, da (|ual tinham 
caído enfermos i|uasi todos os lillios e criados n'nm ca- 
sal a meia légua do C.liàlillon. Conformou-se ello 
com o pedido, e demonstrou com bastante energi.i 
aos seus ouvintes a necessidade de soccorrer os pobres, 
sobre tudo quando a doença se ajiincta á indigência 
e não eslãu no caso de scalliviarem por seus recur- 
sos, como succudia aos que alli lecommeudavu : foi 
tão persuasivo que, depois da precação, muitos dos 
que a ouviram foram visitar a(|uclla lamilia pobre, 
e nenhum com as mãos vasias ; li'\.ir.im-llie alimen- 
tos com profusão, \ iceiíle, leslimunlia desle /elo. 
não o achou bem eiilendido. - l'lis ai)iii (disse) um 
grande acto do cliaridadc, purem não c bciu regula- 



ih 



o PANORAMA. 



1^ I 



do. Aquelles pobres terão muito provimento ao mes- 1 
mo tempo, porém parte se estragar.-» ep'>r'1'»rT, o rt"- 
pois recairjo na primeira mingua. Esta reflexão mo- 
veuVicenlc lic Paulo a examinar os meios pelos quaes ' 
se poderiam soccorrer com regularidade as famílias \ 
que SC achassem cm igual precisão. Confcrencic)u cum 
algumas pessoas ricas e caridosas, e por fim organi- 
sou a confraria. Vinte e quatro pessoas do sexo femi- 
nino, de Chàtillon, foram as primeiras nomeadas pa- 
ra assistir aos enfermos, sob a direcção de uma re- 
gente que d'entre si escolheram. È notável n regula- 
mento escripto por Vicente de Paulo : citámos o ar- i 
tigo 10.°, como exemplo da singeleza c bondade que 
por todo clle respiram. — « Para queumaassociarão, 
que muitas vezes não é composta senão de pessoas i 
obrigadas a viver do trabalho de suas mãos, não fa- t 
ca prejuízo ao governo da casa das que forem dignas 
de ser admittidas, as irraãs da confraria assistirão 
por seu turno aos doentes por um dia somente. Pre - 1 
pararão o alimento dos enfermos e lh'o servirão por j 
suas próprias mãos ; procederão para com cHescomo | 
a mãi cheia de ternura para com o próprio filho; e [ 
procurarão distrahi-los e alegra-los se parecerem ' 
muito succumbidos da moléstia. » — Os bons créditos 1 
e resultados da confraria foram rápidos, e começaram ] 
logo a imita-la eui todas as cidades circumvisinlias, 
e depois cm toda a Lorena, na Sabóia e na Itália. 
A familia do conde de Joigny. da qual Vicente fora 
preceptor, não podia costumar-se a viver separada 
do seu mestre; resolveu-o a recolhcr-seaoseu grémio, 
conservando porém a liberdade de fazer missões. Ao 
mesmo tempo visitava clle os hospitaes e as prisões. 
Em 1618 viu em Paris os calabouços dos torçados das 
galés, e commoveu-o por tal forma o horroroso esta- 
do de desaceio, e padecimentos docorpoe alma, em 
que se achavam, que rtsolveu occiípar-se do allivio 
d'esta classe de miseráveis. Alugou uma casa no ar- 
rabalde de Sancto Honorato, fè-la preparar com ex- 
trema diligencia, e conseguiu transportar para alli 
lodos os forçados que estavam dispersos pordifferen- 
tes prisões de Paris. O conde de Joigny, que era o 
general das galés, lhe concedeu a faculdade de dispor 
daquellcs infelizes á sua vontade. Vicente de Paulo 
«hegou a obler grande auctoridade na consciência 
d'elles, e attrahiu grandemente para e.s-ta sua obra a 
opinião publica. Luiz \I1I, sobre proposta docoD- 
de, nomeou-o capellão geral das galés de França. 
Seria por I()22 que Vicente, comiiadecido da deses- 
peração que exprimia um condemnado com aidéa da 
miséria em que a sua ausência sepultaria a sua fa- 
milia, restituíra a esse homem a liberdade ficando 
no seu logar com o consentimento doolllcial de ser- 
viço ; mas este facto tem sido mui contestado. 

Em 1623 estabeleceu em Al.icon duas confrarias i 
da Charidade, uma de homens, outra de mulheres. 
Dois annos depois recolheu-se ao collcgio denomina- 
do dcs llons-Enfaiis, que fora fundado em 12i8, c 
que pelo novo regulamento fora cspecialuicnte desti- 
nado a mandar para toda a parte missionários — 
«para instruir o povo dos cam(ios, e exercitar no sa- 
grado ministério aquelles a quem a salvação d'esse 
mesmo povo devia ser confiada de futuro. » — Vicen- 
te eslava angustiado por causa da ignorância e cor- 1 
rupçãodc grande parte do rlero. — .c llevemos ^dizia 
elle) fazer algum esforço para acudir a esta urgcnle 
necessidade da Igreja, que se deteriora cm muitas 
parles pela má vida dos sacerdotes ; porque são cllcs ' 
que a arruinam c que a perdem ; c a inda mal que « ' 
muita verdade que a depravação d« estado ecdosias- | 
tico é a causa principal de se desamparar a Igreja \ 
de Deus. » — D'eslc modo a sua actividade e zelo in- i 



fatigáveis subiam ás origens d-j damno moral e do 
physiro. 

Instituiu cm 1623 a congregação das irmãs da 
Charidade. É quasi o mesmo projecto que o das con- 
frarias da Charidade; mas a expi;ri''ncia tinha mos- 
trado que a dedicação dassenhor^ts ricas e nobres não 
podia manter-se por muito tempo, e ser tão assídua 
que fosse siifiicientc para os cuidados que exigiam o» 
doentes: julgou-se que a melhor resolução era ter 
serventes que se occupassem unicamente no tracta- 
mento dos pobres enfermos. Vicente associou-se a 
este plano, e o poz brevemente em practica. As pri- 
meiras irmãs da Charidade rcuniram-se em 1633 sob 
a direcção de uma pessoa de grande virtude, M.<^lle 
Legras. A regra que Vicente formou para esta con- 
gregação, que mais tarde se devia estender por toJa a 
França, respira prudência « sabedoria : estabeleceu 
a dilTerença que deve existir sempre entre as irmãs 
da Charidade e as religiosas, recommendando ás pri- 
meiras seguirem uma vida tão perfeita como se fos- 
sem claustraes ; e accrescenta a este respeito : — 
«Elias não teemurdinariamente pormosteirosscoãoat 
casas dos doentes, por cclla um quarto de aluguer, 
por capella a igreja da sua parochía, por claustro as 
enfermarias dos hospitaes, por clausura a obediên- 
cia, por grade o temor de Deus, c por véu uma saneia 
e exacta modéstia. » — 

\ compaixão de Vicente pelos engeitados era ha- 
via muito tempo vigilante ; porém as circumslancias 
favoráveis para acudira mais esta miséria não se lhe 
oITcreceram senão correndo o anno de 1618. Antes 
d'esta epocha os recem-nascidos, que se achavam ex- 
postos ás portas das igrejas nu nas praças publicas, 
eram levados pelos commissarios do Chãtelét para 
casa de uma viuva na rua St. Landry. que com duas 
criadas se encarregava de cuidar d'elle5. Como o nu- 
mero das creanças era grande e as esmolas medíocres, 
a viuva, por falta de suilícicnte rendimento, não po- 
dia nem conservar amas bastantes, nem alimentaros 
desmamados ; e assim a miir parte dos meninos mor- 
riam de itebilidade, on ernm dados a quem os q«e- 
ria, e até vendidos por vil preço, ás vezes por vinte 
soldos. •— Vicente rogou a algumas senhoras nobres 
que fossem áquella casa, e vissem se poderia evitar- 
se ou [lelo menos diminuir-se tão grande mal. .asse- 
nhoras horrorisaram-se do espectáculo que appre- 
scnlava aquella multidão ilecreanças privadas de tu- 
do ; não podendo tomar á sua conta todos ellcs, qui- 
zeram eucarregar-se de salvar a vida de alguns ; ti- 
raram doze á sorte, e, para os arcommodar, aluga- 
ram era I63S, uma casa jiinclo á porta de S. Victor. 
Ensaiaram primeiro crea-los a leite de cabra ou de 
vacca ; mas depois deram-lhes amas. t^omludocsca- 
ceavani recursos para ampliar este beneficio quanto 
era para desejar. Em 16 U). \'icenle convocou uma 
assembléa geral.e persuadiu ás senhoras, que se acha- 
ram presentes, encarregarem se de maior numere de 
ineninos. Para esta tdira alcançou de .\nuad'.Vuslria 
edo rei doze mil libras de rendimento, porem as des- 
pezas eram cada vez mais pczadas. Algumas vezes es- 
tiveram a ponto de desanimar. Foi para reanimara 
confiança e para fazer loniar um partido delinilivo 
que Vicente reuniu, em 1618. uova assembléa geral, 
recitando um discurso em quo se acham «ítss pala- 
vras : — n Einfim, senhoras, a charidade vos friadcp- 
tar estas creaturinhas como filhos vossos, lendessido 
mães (Felles segundo a graça depois que os abandona- 
ram suas mães segundo a natureza : vede se também 
os quereis abandonar. Cessai agora de ser mães para 
serdes osjuizesdos mesmos: asuavida ou mort* es- 
tão nas vossas mãos : eu vou recolher os Totos e suf- 



o PANORAMA. 



447 



íragios ; é lempo de pronunciar a sua sentença e de 
saber se já não quereis ter misericórdia (l'elles. Vi- 
verão se continuardes a tracta-ios com charitalivo 
desvelo, ao contrario morrerão, perecerão infalli- 
velmente se os abandonardes : a experiência não vos 
permitteduvida. » — A asscmblca só respondeu com 
lagrimas. Decidiu-se que, custasse o que custasse, se 
continuaria o que fora tão Ijcm começado : as crean- 
ras tiveram primeiramente por hospício o hospi- 
tal de Uicótre ; mas era alli o ar muito agudo, e 
traniportaram-n'as depois para o arrabalde de S. 
Lazaro, para o arrabalde de S. Antão, eparajuncto 
de Nòlrc-Dàme. 

A vi'1a de S. Vicente de Paulo foi tão abundante 
e tão fecunda de inspirações charitativas que seria 
impossivel indicar todos os titulos por que elle me- 
rece a gratidão e a admiração da posteridade. Não 
fallaremos dos soccorros quecolligiu embeneDcio da 
Lorena, quando esta provincia foi assolada pelos 
suecos em 16.39, a favor da Picardia e da Champa- 
gne nos alborotos da discórdia cognominada da Fron- 
de, a pró dos pobres sacerdotes irlandezcs eescocezes 
duranlca revolução ingieza. Passaremos em silencio 
os seus csferços para desarreigar o costume dos desa- 
fios, p os seus conselhos, muitas vetes aspt-ros, á co- 
roa para evitar as funestas dissensões do reino. — 
Era mister declarar também a parte que tomou nas 
missões destinadas a confíjrtar, allumiar e civilisar 
povos desgraçados, o zelo com que animou os padres 
que por convite de Innocencio X enviou a Madagás- 
car, (jista a comprehcnder o como um homem só, 
sem outra força mais que a sua palavra, poude pres- 
tar ;i lium.iniiiade tantos e tão dilTerentcs scr\iços, c 
dilTuiidi-los em tanta latitude .durante a sua vida e 
•lepois da sua morte. A charidade fez lodos esses mi- 
lagres. O nome deS. Vicente d' Paulo é do peque- 
no numero d'aquellesque as nações modernas podem 
f^vanlajosamenlc equi()arar a quantas memorias illus- 
treso bellas a antiguidade nos legou para honra-las. 
As glorias mais estrondosas do paganismo perdem o 
brilho em presença d'aquella virtude tão sincera, tão 
liura, tão engenhosa. 

liis-aqui o retraio que os historiadores nos dei.va- 
ram cie tão sancto varão. — Era de estatura media- 
na, tinlia a cabeça gratuleeum tanto calva, tcsla es- 
paços.'), olhos vivos, olhar meigo, porte grave, e gran- 
de aflahilidade de maneiras : nos seu- modos egcsto 
reinava aquella singeleza que annuncia a serenidade 
e rectidão docoraçno. Seu temperamento era bilioso 
c sanguíneo, e rebu.st.i a eonipiciçãu :o captiveiroem 
Tunes verosimilmente a alterou, (lorque depois de 
restituído á Trança foi sempre mais sensível do que 
poderia suppor-se ás impressões atiuospherioas, e por 
consequência mui sujeito a ataques de lebre — Kra 
dotado de espirito \aslo. cireumspeclo, e díllicil de 
colher de iniproíiso : quando se applíia\a seriamen- 
te a um negocio, descortinava Iodas as circumstan- 
cias K'raiiil(s (■ pe(|uruas, e untcv ia ds íucon\ei)ienles 
c resulladcis. Ouamiii nao poilia ilcclaiar logo o seu 
[larecer, dílleria para da-lo até(|ue houvesse pezado 
as raziies pró e contra : mas, se por um ludo não era 
apressaclii iids nej^oiios, por outro nãii se a^solnh^av.^ 
com o numero d'etles, n>'iii com asdillículdades que 
appresenlavaoi ; piiiseguíaos com um \ígor(r8nimo 
su|)erior u todos os obstáculos, e applieava se a isto 
com sagacidade bem ordenada elumiiiosa ; supporta- 
va o pezo (Telles, as ludígiis c os \agares eoiii uma 
serenidade c paz d'espirito duque só as almas gran- 
<les são e.ipazes. (,)iiaiido se olVerecia Iraclar de al- 
gum assumpto iuifiurlaute, escuilava eoni muita at- 
tenção i|iietM r.ill,i\a, sem iiuih.i iiit('iTi>ui|ii'r ; se al- 



guém lhe cortava o fio do discurso, parava logo, e 
q«ando acabava o interlocutor, tomava o seguimento^ 
da oração com admirável presença d'espirilo. Posto 
que houvesse inventado bastante, ou, para melhor 
dizer, tivesse feito applicação da charidade sob mai- 
las formas novas, eslava longe de innovações em to- 
do o gen«ro ; dizia que — '< o espírito humano é ágil 
e buliçoso ; que os talentos mais agudos e mais illus- 
trados não são sempre os melhores não sendo refrea- 
dos ; e que mais seguramente caminham os que »» 
não affaslam da senda por onde pastou amaioria dos 
sábios. » — 

Crer-se-hia que em outra cousa não cuidava senão 
nos pobres ; nada o aflligia tanto como vèr-se em cir- 
cumslancias de não os poder confortar: a vista e até 
só o nome dos infelizes lhe causava uma compuncção 
que se manifestava na exterioridade : pronunciava 
em tom repassado de ternura aquellas palavras das 
ladainhas : Jesus, pai dos pobres » ; e apesar de ser 
tão senhor de si, logo que lhe annoncíaram qualquer 
grande necessidade de alguma família ou de algum 
particular, divisavam-se-lhe no rosto todos ossignaes 
de um houiem penetrado de alTlícção. 

Boísnel, em uma carta a Clemente XI, explica-se 
a respeito de S. Vicente de Paulo da maneira se- 
guinte: — «Tivemos a fortuna de o conhecer logo 
em nossos tenros annos. Assuas piedosas practicas e 
prudentes conselhos não contribuíram pouco para 
nos inspirar o gosto da verdadeira e solida piedade 
e o amor á disciplina ecclesiastica. Na idade avan- 
çada em que nos achámos não podemos recordar-nos 
d'isto sem alegria extrema . . . Nunca faltava que ca- 
da um de nós o não ouvisse com insaciável avidez, e 
não sentisse em seu coração que Vicente era um d'esses 
homens de quem o Apostolo diz : — Se algum fallar, 
pareça que falia Deus pela sua bocca. — n 

Vicente de Paulo passou á eterna vida a :27 de se- 
tembro de l(it'0 : a noticia dVste acontecimento es- 
palhou geral consternação na França. Foi recitada a 
sua oração fúnebre por Henrique, bispo de Puy, n.i 
igreja de St. (iermain-rAuxerrois. O breve da sua 
beatificação é datado de 13 dagosto de 1729. 



Mauomet ou M.tFCM.t. 

(Vide pag. 9tí.) 

A vini de Mahomet, Mafuma ou Mafamcde, como 
lhe chamaram os nossos escriptores antigos, é um as- 
sumpto grave e digno de attenção. 

Pertenci 1 .Maloma á tribu dos coraichilas, a mais 
antiga da Arábia, e os seus antepassados descemiiím 
de Ismael lilho <le Abrahãii(l). Ksta\a n'este tem- 
po sujeita a .Vrabia a estranho jugo ; os imperadores 
de Constantinopola, os reis da l'ersia c da .Vbyssi- 
nia nccu(iavaiu militarmente a maior parle das pro- 
víncias da península. Só .Meca e as terras sertanejas 
haviam conserva<lo a sua independência, sem que 
lhes alterasse a tranquillídade senão a turbulência 
iiiherente aos costumes dos povos nómades. .\lém 
d'ísso, .Meca era citada eciuio a primeira cid.idi- da 
Arábia ; a memoria d'Abrahão e de Ismael, a rau- 
tageni de encerrar nos seu muros a Caaba ou casa 

(I) Nasceu i'iii Meca na srguinlauiclaili'. In decimo Oi- 
Klso século, (|iel(i anuo ile .^(i;l ilc J.C, ) Cunsdllao o excel- 
lenle Iraliiilliode Mr. Itt-iniiud, assim enniu a Viilndf Mn- 
Imiiut |iiir liagnier ; a (|ue Savaij |io/ na IVenie ila kiia iru- 
ducvãoiKi Kiiian ; o a oliia de .Mi . (irassi, |iiililli'ada com 
II mui > lie t':irla lurca, Cli'. 



• f 
^48 



O PANORAMA. 



quadrada, a tornavam um como sanctuario para os 
árabes. Mas a dom iua<;ão de tantos povos dirersos 
eiercí-ra poderosa influencia nos ânimos. As provín- 
cias sujeitas aos romanos e abissyiiios quasi que não 
eram |>i)voadas senão dcclirislãos e judeus, a religiiio 
dos sabeusedos magos dominava nas províncias per- 
sas, as outras seguiam o culto dos ídolos. 

Os habitantes de Meca, principalmente, se tinham 
dado a Iodas as practicas do paganism.). Viam-se den- 
tro da Caaba as estatuas de Ahrah.^o e Ismael com 
sete flechas na mrio, por meio lias quaes (is idolatras 
suppunham adivinhar o futuro. Da parle de fora es- 
tavam dispostas trezentas e sessenta estatuas, cada- 
«ma das quaes presidia a um dos dias do anno. Umas 
representavam anjos, outras planetas e estrellas ; to- 
das ellas tinham o seu culto especial, os seus adora- 
dores, as suas olTerendas, Invocavam-n'as para que 
fizessem descer a chuva do céu e amadurecer as mes- 
ses ; algumas, segundo diziam, davam thcsouros e fa- 
voreciam o nascimento dos meninos, como o Plutoc 
a Lucina dos antigos. Cada tribu, cada família, po- 
dia escolher a divindadequelheconvinha; chegavam 
a sacrificar victimas humanas a estes dsuses de p.íu, 
de pedra, de cristal e de bronze. 

Mafoma nasceu na idolatria ; os seus aM')S, por 
muitasgerações, níio tinham seguido outro culto. Ce- 
do perdeu seu pai.\bdala esuamãi Amina, dosquaes 
herdou unicamente cinco camellos c uma escrava 
cthíope. Mas seu avó, que era um magistrado vene- 
rando na Meca, tomou conta na sua educação ; e por 
morte freste parente, seu tio .\bou-Tlialed o recebeu 
cm casa. Contava apenas Mahomet treze annos quan- 
do emprebendeu com seu tio a primeira viagem á Sy- 
rta. Usavam entiio os de .Meca, ainda os mais illus- 
tres, dar-se ao commercío ; elles transportavam para 
Damasco os aromas e perfumes da índia e da Ará- 
bia, recebendo em troca trigo, e os pannos e produc- 
tos do Occidente. Todavia a pobreza de Mafoma op- 
punha-se á sua elevação ; Cadígia, rica viuvado Me- 
ca, tomou a seu cargo remover este obstáculo, con- 
fiando a direcção do sen commercío ao moço Maho- 
met, com quem depois casou. Ihabarí, na sua cbro- 
nica árabe, celebrou a niagnincencía das vodas e o 
esplendor dos novos esposos. Cadígia estava a com- 
pletar então os quarenta annos, em (juanlo que Ma- 
liomet ainda não tinha vinte e cinco. 

Mahonicl, desde o momento em que se viu senhor 
d'uma fortuna immensa, premeditou, conforme tudo 
induz a crer, a revolução que em breve haviadeef- 
feiluar. As viajens linham-lhe esclarecido o entendi- 
mento, e profunda impressão lhe devera lazer o culto 
dos judeus c dos chrístãos. So elles, com elTeito, rc- 
pclliam a idolatria ; só ellos reconheciam ura Deus 
único, a quem tributavam adoração. .Miiiiouiel, que 
tinha feito lhe lessem os livros do Velho c Novo Tcs- 
tanunto, deu muitas demonstrações de respeito aos 
christaos e aos judeus ; não contente com admittiros 
livros sanctos como base da sua religião, adoptou ao 
princí[)io muitas das suas reremonías. A historia na- 
da diz acerca d'esla primeira parte da sua c.irreíra ; 
sabe-se comtudo que se retirava todos osaniius para 
uma caverna visiiiha a Meca para meditar solirc as 
cousas celestes. Disse-se que Mabometnão sabia li'r 
nem ecrcvcr, o que é pouco provável. Talvez qiicel- 
le quizesse inculcar uma ignotancia completa para 
prova de que as suas pregações futuras não podiam 
ser filhas do raciocínio do um homem privado de to- 
da a inslrucção, equc as suas palavras só deviam ser 
consíderailas como inspirações do .Vllíssimo. 

Divulgou-sc a final a sua falsa niísião. l'm dia que 
I, W*Vi* encerrado na caverna, apparcccu-lhc, scgun- 



j do clle mesmo contou, o anjo C ibríel, e moslrando- 
Ihe as insliucçõcs qae irazia dus céus, saudou-o com 
I o titulo de apostolo do Eterno. .Mahomet voltou lo- 
go para casa e deu parte dasua avintura aCadi^ia, 
a qual, sem hesitar, lhe deu credito. Este exemplo 
I foi seguido por Ali, filho de Abou-ihaleb, e lambem 
por Abou- Bekr, que succedeu a Mafoma. A nova re- 
ligião contou em breve no numero dos seus discipa- 
los Osman e outros personagens celebres. Todos ellftt 
tiveram o nome de musutmanos, d'uma palavra ára- 
be que significa « enlregar-sc nas mãos de Deus » 
Firmava-os Mahomet na sua crença, e fortalecia-lhes 
o zelo por meio de revelações, que dizia receber do 
céu de tempos a tempos. Ao cabo de três annos de 
occultas diligencias resolveu Mahomet apparccerao 
dia claro ; convidou para um banqueteos seus tiose 
outros parentes que tinham até alli persistido no cul- 
to dos Ídolos, e expozaos convidados os vicios da id«- 
latría ; provou-Uie que debalde esp-rariam bens de 
imagens informes que não viam nem ouviam : <• Ha 
ahi entre vós alguém que queira ser meu visir e meu 
inimediato, exclamou elle, como Aarão o foi antiga- 
mente de .Miiysés"? » Ao ouvir estas palavras o joven 
Ali, que apenas tinha doze annos, respondeu : « Sim, 
apostolo de Deus, serei teu visir, leu immediato. » 

Fazia progressos a nova religião. Entre 03 prose- 
lylos notava-se Ilamza, tio de Mafoma, e Ornar que 
depois foi kalifa. O primeiro, com um génio fogoso 
e irritável, foi attrahido pelas perseguições que co- 
meçavam a suscitar contra sen sobrinho ; aa segundo 
tucoii-lhe o coração a leitura d'uma passagem do 
Koran. A medida que o poder do innovador crescia, 
mais se irritaram os seus inimigos : e já as duas par- 
cialidades se não encontravam sem travar brigas. 
Mahomet resolveu dissimular, e esteve algum tempo 
escondido, limitado ao tracto dos seus amigos. No 
tempo das ceremonias da peregrinação, quando em 
Meca SC reuniam todas as Iribus da .\rabia, appro- 
veitou-se d'este immeuso concurso do povo para in- 
sinuar a sua doutrina aos estrangeiros : lomava-os 
de parte, e rccitando-lhes alguns capítulos do Ko- 
ran, dizia-lhes : " Eu sou o apostolo de Deus : o livro 
que vos anuncio prova a verdade da minha missão. 
O senhor vos manda que rejeiteis o que é indigno 
d'ella, e que o sirvaes a clle só ; quer também que 
creaes em mim e que me obedeçaes. •> 

Chegaram entretanto a .Meca alguns idolatras de 
.Medina, idolatras e judeus da tribu de Levi occu- 
pavam ao mesmo tempo esta cidade. .\"uma guerra 
que se acccndèra entre as duas nações tinham osju- 
deus sido vencidos e reduzidos a caplivciro : ora, no 
excesso dos seus males, exclamavam algumas vezes : 
<i Sc o Messias viesse, iriamos ler com clle, e nos 11- 
' berlariamos da tyrannia destes. >'0s idol.ilrasdcMe- 
I dina, quando chegaram a Meca, tendo ouvido fal- 
' lar d'um novo prophela, disseram uns aos outros ; 
! « Quem sabe se olle será o prophrla de que nos fal- 
iam os judeus? \'amos ler com elle, e chamemo-lo 
i ao nosso partido. <• .\ppresenlaram-se pois a Maho- 
j met, que lhes pregou a unidade de Deus, e subita- 
mente se pozeram ;i sua obediência. Tal era o ardor 
' do zelo d'estes neophylos. que quando chegaram a 
-Medina propagaram o novo culto, (irande numero 
de habitantes se converteram ás suas pregações, c 
dentro em pouco quasi que não havia casa em .Medi- 
na que não tivesse alguns musulmanos. 
I EslH vicioria inspirou desmedida confiança a Ma- 
! Iiomcl. .\tê então linha contindo que lhe faltava o 
I poder de faier milagres ; em vão lhe disseram um 
dia os seus adversários : » Tu sempre nos estás a ci- 
tar os exemplos de .Vbrahão, de ileyscs, cdeJcsut ; 



o PANORAMA. 



Á49 



porque não fazes lu milagres, como elles fizeram, pa- 
ra que passamos «rér em li ? » E depois aponlan^o 
para um cômoro de lerra vermelha que está nas \\- 
sinhanras de Meca, accrescentaram : « Eis alli eslá 
um cômoro de lerra, muda-o em ouro, e nos dare- 
mos por vencidos. » Mahomet conlentava-se com res- 
ponder-! hes que ainda que houvessem Abra hão, Moy- 
sés, e Jesus feito milagres, nem por isso tinham os 
homens melliorado ; que, alem d'isso, quando o Eter- 
no se decidia a derogar as leis que eslabelèra, não 
deixava de punir com rigor os que recusavam crer 
nos signacs do seu poder, c que elle não queria cha- 
mar esta (.fesgraça sobre a sua infeliz pátria. 

( Continua. ) 



O iii.i;i'iiANTE UE Sião. 



Os POVOS de Sião e do Pegú consideram os elcphan- 
tes brancos como os mais excellentes da espécie, quan- 



[ do na realidade não são mais do que albinos, aberra- 
' çccs da casta como os pretos branf-os : -xiuplh alvu'.! 
deslavada da pelle, que entre aquella gente lhes dá 
tanta honra, é o symptoma de uma frouxidão nasci- 
' da de enfermidade, espalhada em toda a sua eeono- 
' mia animal. Os homens, e certos mamães, princi- 
palmente os ratos e coelhos, algumas aves, como os 
corvos, gralhas e melros, e outros muitos animaes, 
apprescntam esta alteração, ou temporária ou vita- 
lícia. 

Todavia, não ésóa raridade dos elephantes bran- 
cos que lhes attrahiu a veneração dos siamezes e pe- 
gús ; idéas symbolicas e tradições fabulosas explicam 
9 culto d'estcs gentios. — A còr branca em todos os 
' tempos e em todas as religiões foi symbolo da sabe- 
i dória e da pureza. — A gravura curiosa, de que es- 
I tampámos um fnc simile, foi aberta conforme um de- 
senhodo padre Couplet, jesuita, procuradordas mis- 
sões da China : na mesma se \v impresso na parle 
inferi<ir um Icltreiro que diz assim : — « Xé-Kiam, 




principe dos bonzos, é o xaca dos japõcs. Cnnta-se 
que sua mãi, lendo visto um elepliantc branco, an- 
dou gravida dezcnove annos e moiTLUi do parto : seu 
filho ass<MitMU que devia rclirar-se do inundo para 
fazer penitencia ; estuilou com ([uatro mestres, c en- 
sinou [)or (luarenta e nove annos : entrou na China 
sessenta e Ires annos depois do nascimento deC.liris- 
lo. ') — 

No diário da embaixada a Sião refere o padre 
Choisy (jue viu no meio do segundo pateo do palá- 
cio real um elep!iant<: branco, que custara a vida a 
muitos mil homens nas guerras do l'egú. — " íi as- 
saz corpulento, mui velho, lodo riigoso, e com os 
olhos franzidos, listão sempre ao pé d'elle quatro 
inaiKlarins (-om ventarolas para o refrescarem, com 
cspanejadores [lara afugentar as moscas, e umbellas 
para o resgiiarílarem do s<d (]U.in(|ii [lassciíi. /''. servido 
cm baixella de ouro : a agua que lhe dao esl.i pr(nia- 
menle depositada seis mezes. na persuasão de(|U('a 
mais antiga em casa é a mais sadia. Di/cin, mas tião 
o vi, (\uv ha um eleplianle bramo pccpKiiii, destina- 
do para succedcr ao velho (|u.luiIii esle morier. h 

N'oulra passagem couta o |ia<lre niislernios seguin- 
tes as causas e conse(|uencias ilas guerras do l'egii.- 
II Tendo sabido o rei do Pegú (|ue o rei de Sião ti- 
nha sete elephantes brancos, mandou-llie pedir um ; 
recu8arain-lh'o redondamente; tornou a repetir u pe- 
dido ameaçando vir dcinanda-lo á testa do doismi- 



ihões do eombalenles : zombaram das suas ameaças. 
Veiu com effeito, assediou por muito tempo a cida- 
de de Sião, levou-a á viva força; porém não entrou 
no palácio do rei, e mandando levaiil;ir dois tablados 
iguaes diante da porta, um para si, outro [lara o rei 
de Sião, ahi com grande cereinonia renovou as suas 
exigências, que n'aquellc caso eram ordens. Pediu 
primeiramente seis elephantes brancos, que lhe foram 
entregues : disse depois com muito alTeclo para o rei 
de Sião que amava inlinito a seu lilho segundo, e 
lhe rogava quizcsse commette-lo a seu «uidado para 
o educar : d'estem()do, com muita cÍNÍlidadc, lomon 
quanto qiiiz, e recolheu-scao Pegú com riquezas im- 
iiiensas e grandíssimo numero de escravos. Não to- 
cou nos pagodes, porque a relisião de ambos os rei- 
nos é a mesma : apenas um ilos seus siddados, entran- 
do n'um pugode re;il, eorlou a mão a uma estatua 
d'ouro ; depois lhe pozer:im outra, e eu vi o signal 
■ilo golpe. II 

A veneração dos siamezes aos elephantes brancos 
não parece ser hoje menor que no seculn WTI ; (ri- 
biilnni lhes ainda as mesmas honras. — «Cadaum 
d'eMii's elepÍMiiles (ili/. um \ iajanie moderiuií tem es- 
treitaria separada, e dez guardas por ci ladus. As pre- 
zas dos machos são guarnecidas de caiiipainh:is d'ou- 
ro, uma rede de lio d'ouro lhes cobre o alto d:i ca- 
beça, e tem segura nn lombo uma almofadinha de 
veludo bordado: lêem otitulodc reis dos cleplianles. 



J|50 



O PANORAMA. 



e dilTcreiu;:iHi-n'os [lor subrcnomcs liradys da sua bel- 
leza tcjaii)'.iiali\a, lia estatura, ou de certas qualida- 
des de instinclo. » — 

i\a primeira serie d'este jornal acham-se, acerca 
Uos tíleplianles, noticias mui curiosas extrahidas dos 
nossos escriíitores antigos. 



COLOHOA. 

Romance da Córsega. 

Sla per far Ia to rendelta, 
Poderá, orfana, ziteila, 
Senza cugini cartulil — 
Sla siguru, \astaanchcclla. 
Lamcnt. fiineb. de Xiolo. 

II 

QcE linda noite, c qne brando luar a fugir pelo dor- 
so das ondas, era quanto a briza ligeira assopra nas 
velas do bialc 1 

.Miss Lidia nTio linha vonladedc dormir. Mal sup- 
poz todos lieilailos, enrolou umclialeem \olta do pes- 
coço, e acordando a sua aia, subiu á tolda, Xinguem 
lá eslava, á exccprão do marinheiro do leme, entre- 
tido a cantar uma espécie de xacara cm tom áspe- 
ro e monótono. Os versos fallavam de assassinos, de 
\inganras, c de uma viclima ; porém tudo vago e 
conliíso. Alguns que lhe ficaram de memoria, tradu- 
zid(js do dialelico corso, pouco mais ou menos diriam 
« seguinte : 

« No seio das batalhas, sereno como o céu do estio, 
sem baler o corarão, nem desmaiarem as faces, af- 
fríuila o estourar da metralha e o embater do ferro 
contra o peilo. Libauso, como uma crcança para os 
que amava, foi tcrrivel como o temporal dos mares 
para os inimigos. Os covardes assaíSÍaaram-n'o pelas 
costas ; que de rosto não ousavam 1 ... Lá está pen- 
dente do seu leito a camiza tincla de sangue e a cruz 
honrosa dos fortes, . . éa hcranra fegada a seu filho, 
ausente em longes terras; por duas bailas que lhe 
romperam o peito, outras duas o hão de vingar. Sec- 
ca seja a mão que atirou — sem luz o olho que apon- 
tava — e o coração que meditou o crime, oh ! tam- 
bém esse ha de morrer. » 

De repente o marujo calou-se. MissXevil pcrgun- 
lava-Ihe por quenãoproseguia ; cjuando clle, abanan- 
do a cabeça, llie mostrou uma ligura immuvel alguns 
passos atraz. lira Orso, o tenente corso. 

— « Por que não nos canta o mais? « insistiu cila. 

— « Deus me livre de dar okirabécco a ninguém,» 
respondeu o tritão em voz baixa. 

— « Dar o que? ... o ? » 

O marinheiro sem replicar assobiou uma ária sel- 
vagem. 

— n Tenho a satisfação, minha senhora, de a sur- 
prehcnder admirando o nosso .Mediterrâneo, disse Or- 
so adianland«-se ; espero que me ha de confessar que 
o bello luar «reste céu não se vè senão aqui. » 

— « Sim ? c eu que nem reparava n'clle '. . . . Es- 
tava-me entretendo a estudar o corso, liste marinhei- 
ro, no meio de uma xacara trágica, interrompc-sc 
justamente no mais interessante o . . . » 

O marujo puxou com força o chalé de Miss Ne- 
vil, como para a advertir de que a sua xacara não 
podia ser cantada diante do tenente Orso. 

— «O que é que tu cantavas. Paolo France?Era 
uma ballata? um rorero.' Esta senhora entende, c de- 
sejava muito ouvir o fim. " 

— « Não me lembra mais. Orso Anton'.» — E en- 
toou logo um cântico á Virgem. 



.Miss Lidia jurou que bavta de descobrir ced« ou 

tarde a chave d'estc enigma : ma* a íiia, que nascera 

I em Florença e não sabia o corso, era pelo menos tão 

I curiosa como sua ama ; virando-se para Orso, per- 

! guntou-lhe : 

— "O que significa a palavra rimbéeeo ? » 

— « Kinibécco '. redarguiu Orso ; é a maior inju- 
ria que se pode dizer a um corso — é deiur-lh» em 
rosto não se ter vingado. Quem fallou de kiiBbécco 
aqui ? » 

— « Ouv imo-lo hontem em Marselha ao mestre do 
hiate,» atalhou immedialame-íle .Miss .\cvil. 

— « E a quem alludia? >> insistiu Orsp com viva- 
cidade. 

— a A ninguém ; a n.ida. .\h '. era a antiga histo- 
ria de Vanina d'Ornano. " 

A conversação parou aqui. lliss Lidia retirou-se 
passados instantes, c Orso pouco depois. )Ins apenas 
elle desccia, a curiosa aia subia ile novo e fazia um 
interrogatório formal ao maruja do leme; eo resul- 
tado veiu cochicha-lo auouvidu desna amaassim que 
o apurou. E.-a o caso: — que a ballata parou porque 
fora feita á morte do coronel delia Rebia. paide Or- 
so, assassinado ia já em dois aniios. O marinheiro 
accrcscentúra mais que o mancebo vinha vingar-se 
de tVcs pessoas accusadas ptlas suspeitas de terem 
commettido o crime. — « .\a Córsega não ha justiça, 
perorou o marujo, c vai mais uma boa espingarda do 
que seisbéeas. Qiiando alguém tem um inimigo deve 
escolher de Ires SS um — sc/tiupella, stiletlo, tirada — 
clavina, punhal, ou fuga. » 

Estes csclarecimenlos mudaram inteira mente o ani- 
mo de miss ,\evil acerca do tenente delia Rebia. A 
franqueza e indiifercnça, que no principio a desgos- 
tavam d'ellc. agora attrihuia-as a romanesca ingleza 
á dissimulaçã* profutida de uma alma cneigica, que 
pôde e sabe domar os mais íntimos sentimentos. Or- 
so alli^urou-se-lhe desde esie momento semelhante a 
Fiesqui, cobrindo com apparentedeleixo vastos pro- 
jectos. S<i então notou que os olhos do mancebo eram 
vivos e rasgados ; os dentes d'alvura do marfim ; eo 
talhe csbeli.o, realçando ludo pela polidez ilo trado. 
[As conversações, cm que depoiso empenhou de pro- 
I posito, acabaram de a convencer ainda mais da exac- 
I lidão da sua hyp<jthcse ; decidindo sem appellarão 
I que os inanes do coronel delia Rebii pouco tempo 

mais bradariam debalde por viagnnça. 
I No fim de ires dias de navegarão descnrolou-se 
I diante da vista dos viajantes o admirável panorama 
do gfilpho dWjaccio, cora razão comparado á formo- 
sa bahia de Nápoles. .\o instante, mesmo, em que 
o hiate entrava iio porto, uma (|ueimada, envolven- 
do em fumoa/)i(n/a di Giralo. recordava o Vcsu\io. 
' .\qui c além nos topes d.is montanhas em redor da 
' cidade destacavam do azul do réu caías brancas e 
, humildes, meias vestidas do niassiços de verdura. 
São as capellas fúnebres, os carneiros das famílias. 
N'esta paiiagem ns objectos rcvestcm-se lodos de 
I uma belleza grave c triste. 

.V vida dos viajantes na Córsega era monótona c 
melancólica. M.iis de uma vez se arrependevi Lidia 
do seu projecto ; porém já não tinha remédio. De 
manhã, cm qu.iiilo cila desenhava ou escrevia, oco- 
riuu'1 parli.l para a caç.i com o tenente Orso. Janta- 
vam ás seis horas, e depois a bclla lady cantava ao 
piano, sir Thomaz .Vov il resona\a, c o manc«bi> fica- 
I va longas horas a conversar com sna filh.i. 

Uma dVssas manhãs, ponco antes de voltarem os 

caçadores, miss Nevíl. que S3t'ra a pjsseisr á beír.i- 

I mar com a sua aia, já se retirava, qnando viu uma 

mulher aind.i moça, vestida de preto, e monlaoa 



o PANORAMA. 



451 



n'um cavallo pequeno, mas robusto. A formosura 
jngeuua do seu roslo ; o gracioso véu de seda escura 
chamado mezzaro, e as tranças de um louro cendra- 
do enroscadas em forma de turbante no alto da ca- 
beça provocaram a attenção de Lidia, que leu no 
semblante da estrangeira a inquietação e a tristeza 
luctando com o orgulho. 

Miss Neril teve bastante tempo para a examinar; 
porque depois de fazer algumas perguntas na rua 
com muita viveza, a donzella tocou a vara no cavai- 
lo e metteu a trote até lhe colher as rédeas á porta 
da hospedaria do coronel ; e trocando poucas pala- 
vras com o estalajadeiro, saltou da sella, e foiassen- 
tar-se n'um poial de pedra ao lado da entrada prin- 
cipal. D'ahi a breves instantes sir Thomaz e Orso 
appareceram, e um homem velho lhe segredou um 
momento ao ouvido, apontando com o dedo para 
delia llcbia. Ella ergueu-se de repente, adiantou-se 
uns passos, e estacando subitamente parou immovcl e 
irresoluta.Orsocontemplava-a com interesse e pasmo. 

— « È Orso delia Rebia com quem fallo? per- 
guntou commovida. Um aceno de cabeça respondeu- 
Ihc que não se enganava. 

— « E cu sou Colomba. » 

— « Colomba ! » bradou Orso. Edeilou-se-lhenos 
braços, c beijou-a ternamente na face, com grande 
assombro do coronel e de sua filha. 

— <i Meu irmão, perdoa o ter vindo sem tua or- 
dem — ditseram-me amigos meus que estavas aqui, 
e era tanta a impaciência de te vêr. . . » 

Orso tornou a beija-la, e virando-se para sirTho- 
maz : 

— « É minha irmã — que eu não conhecia se não 
se nomeasse — Colomba, apresento-te o coronel sir 
Thomaz Ncvil. Coronel, desculpe-me : hoje não pos- 
so ter a honra de jantar na sua companhia. » 

— B Qual ! Não consinto. Minha filha terá o maior 
prazer com a companhia d'csta senhora. » 

Fizcram-se na sala os cumprimentos do estylo, e 
Colomba, depois de ir ao toucador de I.idia cuidar 
da vestido, entrando no aposento delevc-se a admi- 
rar as espingardas do coronel encostadas a um vão. 

— « Boas armas — disse ella. — São tuas, meu ir- 
mão? I) 

— « São as espingardas inglczas do coronel — tão 
perfeitas como certas. » 

— « Muito bom era teres tu uma assim. » 

— « E tem — acudiu o coronel — d'cstas trcsuma 
é d'elle. » 

Orso agradeceu, c sir Thomaz, dando-as a escolher 
a Colomba, não ficou pouco adtiiir.ido de vrr.i don- 
zella indicar a menos orn;id,i, e mais certa das es- 
pinganl.is. 

O tenenlí! soiiiii, <■ l.idiíi, \olt.iinli)-sc para Orso, 
dissc-lhe ao oii\iilo — • « I!mi gueireiro iiTio ocolhia 
melhor. » 

— <i Na Corsego, seiíhiirn, é preriso que icidossc 
familiarizem com asarnias. Niiisucm pôde dizer que 
não precisará <lo as empregar. » 

Miss Nevil altrihoiíi ao pensamento de vingança 
estas palatras, e resp(iii(ii'ii só: 

— :" t nina terra, cnlãn, omle a \iii;,'aiiçaíí uma 
nccessidadi- ? n 

— u ,Não, senhora, aliillioii Ciildiiilia com fiiriioza 
— é uma lerni. oiiil(! o cuviíide ipie nau soiiliesse 
vingar o sanií"" innoceiíte deir^iiiiailo, lallana no 
mais sagiailo dever - r lei ia ^U•. se chcoiider da face 

dos llOllK^IIS. » 

K olhava eoiii anlor paia .seu irmão. Orso, arran- 
cando iiiii siispiíi) pioliiiulo encostou o nisloaos |iu- 
nlios e caiu n'uiiia sumliria meditação. 



Era evidente. Uma tragedia ia succeder á chega- 
da de delia Rebia á sua pátria. 

í.idia suspirou lamuem. . .Porque? 

Bem fácil de adivinhar seria para quem lesse nos 
olhos azues e transparentes — o segredo que nem a si 
mesma ella ainda ousava confessar. 



Os Templabios. 

(Continuado de pag. 144.) 

«Na segunda feira, 18 de maio, os commissarios 
' pontificius encarregaram o prioste da igreja de Poi- 
tiers e o arcediago de Oricans de procurarem da sua 
parte o venerável padre em Deus, arcebispo deSens, 
e seus suflraganeos, para reclamarem os defensores 
da ordem, Pedro de Boulogne, GuilhermedeCham- 
bonnet, e Beltrão de Sartiges, de modo que podessem 
ser conduzidos, debaixo de segura guarda, todas as 
vezes que elles commissarios o requeressem, para a 
defeza da ordem.» — E tiveram o cuidado de accres- 
cenlar : « que não queriam de modo algum causar 
impedimento ao arcebispo de Sens e ao concilio, mas 
somente desencarregar a sua consciência. » 

«Pela tarde, a commissão reuniu-se na igreja de 
Saneia Genoveva, na capella de S. Eloy, e recebe- 
ram os cónegos que vinham da parte do arcebispo : 
este respondia que havia dois annos que se instaura- 
ra processo contra os cavalleiros acima nomeadas co- 
mo membros particulares da ordem ; quequeria ter- 
mina-lo segundo a forma do mandato apostólico ; 
que, quanto ao mais, não intentava de modo algum 
perturbar os commissarios em seu officio.»— Horro- 
rosa derisão ! — 

« Tendo-se retirado os enviados do arcebispo de 
Sens, conduziram perante os commissarios a Ray- 
naldo de Pruin, Charabonnct, e Sartiges, os quaes 
annunciaram que tinham separado d'elles Pedro de 
Boulogne, sem que soubessem o porque ; accrescen- 
tando que elles eram homens simples e sem expe- 
riência, além d'isso estupefactos e perturbados, de 
sorte que nada podiam dispor e dictar para defeza 
da ordem, sem conselho do dicto Pedro. Por isso 
tupplicavam aos dictos coraiiiissarios que o mandas- 
sem comparecer c ouvir, e saber para que fora reti- 
rado d'clles seus companheiros, e se queria persistir 
na defeza ou abandona-la. Os commissarios ordena- 
ram ao priDSlc de Poiliers e a João de Teinville 
que no outro dia trouxessem á sua presença o dicto 
freire. » 

Não corista que no dia se;,Miiiilc eoniiinreeesse Pe- 
dro de Itoulogiie ; piirerii iiiii.i iMiillid;iM de lempia- 
rios vieiaiii declarar (|iic aliaii(li>iia>am a delez,!. No 
.salibado, a coininissãi) (iesaiiiparada [lor mais uni dos 
seus membros, addiou-se para 3 ile novembro próxi- 
mo. — Nesta epocha, anula menos numerosos eram 
os coinmisaarios ; estavam reduzidos a Ires : o arce- 
bispo de Narbonna liiilia deixado Paris por servi{o 
(lo rei ; o bispo de Bayeiix achava se jiinclo ao papa 
ílii parle (lo rei ; <i arcediago de .Magiieloiio eslava 
doeiíle ; o bisju) de l.im(if.;es pnzera se a caminho pa- 
ra assistir á comiiiiss/io, miixo rei lhe iiidiidiitii ilizer 
que iTa preciso proriifíar o caso até o pinxiiiin parla- 
iiientii. Os meinliriis presentes iiiaiulai.im eomtodu 
peif^iinlnr á poMa lia .sala se liavi.i alguma coiisa a 
di/.ei' .1 piii da ordem do Tcinplo: - - niii^Miein appa- 
rcutíu. 

A M' de dezembro us commissarios proseguirnm 
nos interrogatórios, o tornaram u rcclaiuur os dui& 



Í52 



O PANORAMA. 



principacs defensores da ordem ; mas o cabeça de 

todos, Pedro de Boulognc, linha desapparecido; eo 
seu collega, Kaynaldo de Pruin, não podia já res- 
ponder, segundo diziam, tendo sido exauetorado pe- 
lo arcebispo de Sens : vinte c seis cavalleiros, quejá 
tinham prestado juramento como tcslimunhas, foram 
retidos pelas justiças do rei, e não podcram compa- 
recer. 

É cousa admirável que no meio de todas estas vio- 
lências e n'um tal perigo se achasse certo numero de 
cavalleiros para sustentar a innocencia da ordem ; 
mas foi rara esta coragem : a pluralidade estava sub- 
jugada pela impressão de profundo terror. 

A perdição dos templários era por toda a parte 
accelerada com encarniçamento nos concílios provin- 
ciaes da França ; acabavam de ser queimados mais 
nove cavalleiros em Senlis : os interrogatórios fize- 
ram-se debaixo do terror das execuções : o processo 
estava suffocado nas chammas. . . Acommissão pon- 
tifícia continuou as suas sessões até 11 de junho de 
1311 : o rcsuUa<lo dos seus trabalhos está consignado 
n'um registo, que termina por estas palavras. — 
)) Por accrescimo de precaução depositámos o dicto 
processo, redigido pelos notariosemacta aulhenlica, 
no thesouro de .\. Sr.° de Paris, para não ser exhi- 
bido a ninguém senão por lettras especiaes de vossa 
sanctidade. » — 

Em todos os estados da christandade foi supprimi- 
da a ordem, como inútil ou perigosa : os reis lhe to- 
maram as propriedades, ou as deram a outras or- 
dens ; mas os indi\iduos foram poupados; o Iracta- 
mento mais severo que soffreram foi serem prczos em 
mosteiros, muitas vezes nos seus próprios conventos: 
foi a única pena a que na Inglaterra condemnaram 
os cabeças da ordem que se obstinaram a negar. 

Os templários foram condemnados na Lombardia 
e Toscana, e absolvidos em Uavena e Bolonha. Os 
templários d'Allemanha justiíicaram-se á maneira 
dos juizes-francos daWestphalia ; appresentaram-se 
com armas perante os arcebispos de Moguncia e de 
Treves, aíTirmaram a sua innocencia, voltaram as 
costas ao tribunal, e retiraram-se pacificamente. Em 
Caslella julgaram-n'os innocentes : no Aragão onde 
tinham praças fortes metlcram-se n'ellas e resisti- 
ram, principalmente na suacelebre fortaleza de .Mon- 
çon : o rei d'Aragão ganhou estas praças ; c nem por 
isso foram pcior tractados. Em Portugal deram fun- 
damento ;i ordem de Christo. IS'ão era por cerlo na 
Mespanha, á frente dos mouros, na terra clássica da 
cruzada, que pensariam em proscre\er os antigos de- 
fensores da christandade. O procedimcntodos outros 
príncipes para com os templários era uma salyra 
contri Filippc o formoso. O papa censurou esta 
brandura; exprobrou aos reis dWnglaler^-a, deCas- 
lella, do Aragão, ede Portugal o não lerem empre- 
gado os tractos ; Filippe o fizera duro, quer ceilen- 
do-lhe parle dos despojos, quer abandonando-lhe o 
julgamento de Uonifacio : o rei de França se decidi- 
ra a ceder algum lanlo nesle ullimo ponto ; porque 
tudo eslava agitado ao redor de si : os estados a <jue 
eslenilia a sua inlluencia parecia estarem dispostos a 
cvadir-se-lhe. Os barões ingle/.es queriam dcrribaro 
governo dos validos de Eduardo -2.°, que osabaléra 
para com a França. Os gibelinos da llalia acclaraa- 
vam o novo imperailor, Henrique de Luxemburgo, 
para deporem o neto de Carlos d.Vnjou, o rei Ko- 
berlo, grande letlrado c miserável rei. que so era 
hábil na astrologia. A casa de França arriscava-se a 
perder o seu ascendente sobre a christandade. O im- 
pério, que haviam reputado morto, ameaçava tornar 
i vida. Dominado por csles receios, Filippe permil- 



tiu a Clemente declarar qae Bonifácio não era he- 
rético (1), assegurando todavia qne orei linha obra- 
do sem malignidade, e que antes, como outro Sem, 
teria coberto o opprobrio, a nudez paterna. . .Noga- 
ret lambem é absolvido com condição de que ha de 
ir á cruzada (se houver cruzada} e servir toda a vida 
na Terra Saneia ; no entanto fará lai e tal romaria. 
O continuador de Nangis accrescenla maliciosamen- 
te outra cendição, e vem a ser, que Nogarel deixará 
por seu herdeiro o papa. — D'e5le modo houve com- 
promissos : o rei cedeu a respeito de Bonifácio, e o 
papa abandonou-Ihe os lenjplarios ; entregava os vi- 
vos para salvar um morto ; porém este morto «ra 
nada menos que o pontificado. — Feitos estes con- 
certos familiarmente, restava faze-los approvar pela 
igreja. 

() concilio de Vienna abriu-se a 16 deouluhrode 
1312, concilio ecuménico, em que tomaram assento 
mais de trezentos bispes; porem foi ainda mais so- 
lemne pela gravidade das matérias do que pelo nume- 
ro dos assistentes. Primeiro devia tractar-se da re- 
dempção dos sanctos logares ; todo o concilio faltava 
n'isso, cadauni príncipe tomava a cruz, c lodos fica- 
vam em casa : não passava de um meio de li rar di- 
nheiro. O concilio tinha que regular dois grandes 
negócios ; o de Bonifácio e o do Templo. Logo em 
novembro se apresentaram aos prelados nove caval- 
leiros olTerccendu-se animosamente a defender a or- 
dem, e declarando que mil e quinhentos ou dois mil 
dos seus estavam em Lyão ou nas montanhas visi- 
nhas, promplosa sustenta-los. Eipantado com esta 
derlaração, cu antes com o interesse que inspiravaa 
dedicação dos nove, o papa os mandou prender. D'ahí 
por diante não ousou reunir o concilio ; teve os bis- 
pos inactivos lodo o inverno, n'aquella cidade es- 
trangeira, longe das suas terras e dos seus negócios, 
esperando sem duvida vencè-los pelo tédio, e convcr- 
sando-os um por um. O negocio dos templários foi 
' de novo começado na primavera : o rei apossou-se de 
Lyão, que era oasylo d"clles. Os burguezeso tinham 
chamado contra o s. u arcebispo ; aquella cidade im- 
perial estava desamparada pelo império, e fazia mui- 
ta conta ao rei, não só como o vincuU do Saone e 
do Rhodano, e a ponta da França para leste, e c»- 
mo cabeça da estrada para os .\lpes e a Provença ; 
mas sobro tudo como asylo de descontentes, e ninho 
dos heréticos. Filippe ahi convocou uma assembiéx 
dos principacs da terra: depois vciu assistir ao con- 
cilio com seus filhos, os seus magnates, e um grande 
séquito de genlc armada: e tomou assento, um ,iou- 
co mais baixo, ao lado do pap.i. Os bispos se mos- 
traram pouco dóceis, obstinaado-se em querer ouvir 
a defeza dos tem.larios. Os prelados dllalia, menos 
um só, os de llespanha, dWllemanha e da Dina- 
marca, os dlnglitcrra. Escócia e Irlanda, e ale os 
francezes, súbditos de F'ilippe (,i excepção dos arce- 
bispos de Rheims. Sens, e Uuão; declararam que 
não podiam condemnar sem audiência. Foi forçoso, 
por tanto, que depois de haver ajunctado oconcilio. 
o papa se dispensasse d'clle : convocou alguns prela- 
dos de mais conli.inça, alguns cardeaes; c n°e$le con- 
sistório aboliu a ordem por auctoridade pontificia. 
Foi promulgada dopois a abolição na presença do rei 
e do concilio ; e nenhuma reclamação appareceu. 

[Concluir-te-ha.) 

(I) Esta tímida e iiu'oni|ile(a reparafão não parece .«uf- 
fieieiíle ao escriplorVill.iiii; e acorescema, sem duvida pira 
loriiar o assunipln in.iis dranialioo e mais verftonhoso para os 
francetes, que <li>is cavalleiros calalies lançaram a luva e.<e 
olfereceram para defender em coiuliale a innocencia de 
Donifacio. 



20 



o PANORAMA. 



15J 




DorairuGOS antonio de sequeira. 



Domingos António ue Shhueiha, 



I 



A riNTuiit niiiKM llorcciMi iiiiiiliioni l'orlii'i:;il. N^uinii 
ou n\)iilr;i epocli.i iii.iis mimosa lin'aiil:ir,im-3o pro- 
Ifclorcís intollif;ciilcs, e ('st(Mi(l(.'rum u iiião a atjçuin 
laliMitii (jiio o.sriilciiiluu — mas <;ra osplcMidor inomeií- 
laiioo — (li'|K)is rccaliia-Hu do novo na trislc o invete- 
rada mediocridade, de<|u<? sempre adoeceu entre nós 
íi liella arli! de llapliacd. 

O niaMUHcri|ilo de Francisco de lliilhiuda, na sua 
prosa eliã massenlida, nas aniarfçuradas rellexões ipu' 
!«iila, eomo ^i'miilos de pi'ilo e:iii(;;id<> de si- eoni|>rÍ- 
inir, uceiísa d''isl<i a eidpiida iiidilVerenea de ri>is tpu; 
não estimam a art<; ou a não conliecem — de nobres 
tpie só linj;i'm preza-la por vaidade — de ricos, ima- 
ginando pa<;;ar com avarenlo salário o cpie a polida 
(lalia recompensaria <'om liiiuras e lar<;os lliesouros. 
N'iima (erra assim, n^im eslado d%'sles nriolia, não 
podem nascer nem 'l'ici;inos, nem l'aulos llulx^ns. 

Etpie para vencer adilr da indilTeren^'a, paru des- 
VuL. 1. — Jankiiio 1(1, 1U47. 



prezar o esquecimento e virar as cosias á ij;noraMt ■ 
prol,ec(j'ão (jue eslraí;a em m;z de eslinudar, o artista 
lia de consumir mais danietadi? daslor<;as «pie neees- 
sita consur\ar inteiras |)ara se formar — padecer si- 
lencioso as inai;uas da miséria o as incertezas »la olvs- 
curidade :, s(uitir-se maior do (pie mil <jue o |iizam e 
cseanieeeni — e apesar irisso ter constância para não 
deslalleeer, para bradar: — ..Mais um, niiiis (resaii- 
nos de provanea, poripie no lim d'ellcs está o meu 
dia e a minha viní;an(;a ! '< 

l'ara odizer <> para ocumprir, Deus lhe lia de con- 
ceder desde o lii^rço a voca(;ão, niãi do jjenio, com .•» 
fortaleza tie vontade tpie, por cima dos i>spiuhos da 
carri'ira solitária, caminha sem desalento :, ipie nos 
lances da extriuna fadi;j;a, como ('hristo, cáe d<'l>aixo 
da cruz, eri;ue-se iMisan^uentado, e não Ireiíie do s,i- 
uriliiMo, (^ nào duvida uma hora de si e do liituro. 

(■luaiitos morriram ja il\'sta hu'la horrivid, annil- 
iliçoaiido na agonia ai-spi>iani;a <pii' oseui;anou, o la- 
leiílo ipie os fez inleiizes, <• a art<' ile ipie toram ol»- 
curos marl^res no meio do nmii<lo, <pie nem scipier 
se voltou paru vôr apai;ar ii\iipiellc frio ciirai,ào o 



164 



O PA-\ORAMA. 



ultimo raio de luz, que n'outro céu melhor seria um 
astro ! 

Francisco de Hollanda chorou sobre o sepulchro, 
onde a indifferença enterrava a pintura, pouco tem- 
po antes de se ouvir na terra o grito com que a gran- 
de alma de Camões se despedia da pátria, que lhe 
pagava em afílicções a sua gloria. Singular di^lino '. 
— que uniu a queixa ao exemplo — e quando uma 
arte morre faz expirar com ella o primeiro e o ulti- 
mo sacerdote da poesia, sua irmã ! Mas foram vin- 
gadas ambas ; — os plainos d' Alcácer, também no se- 
pulchro vasio do moço rei cavalleiro, sepultaram a na- 
ção, a coroa e as glorias do reino de D. Manuel. — 
Fizeram um deserto, quebraram todos os brios da na- 
cionalidade, e por fim consummaram a sua obra pe- 
la usurpação estrangeira — os traidores! 

E assim succedeu sempre á pintura e á poesia — 
uma definhou, a outra foi-se enfezando. Hospedas, 
ignoradas e pobres, nenhum dos poderosos da terra 
lhes faz bem senão por capricho, ou por acaso, até 
D. João ^ . 

Aquelle D. João V foi mais rei do que muitos a i 
quem elogios comprados incensaram, mas não nobi- 
litaram. Dizem d'elle que costava de compor as ac- 
ções e o caracter á Luiz XIV; — a verdade é que as 
suas aventuras freiraticas — os seus amores romanes- 
cos, e os disfarces e surprezas das suas viagens noc- 
turnas — cora que divertia a soníbria majestade da 
etiqueta das audiências — o tornaram estimado e po- 
pular — e também é verdade que todos alies acaba- 
vam sempre "pelo rei saber ser rei.r' 
A respeito das artes soube menos mal. 
£ não soube só para as engomadas academias, que, 
apesar de terem sido muito apupadas, deixaram, tra- 
balhos como hoje não escrevem os seus críticos. — Era 
rico, era munificente, e tinha verdadeira paixão pe- 
las bellas artes. O " Salomão portuguez n como os seus 
poetas lhe chamavam, fundou em Roma uma acade- 
mia de pintura, e mandou instruir la os mancebos 
em quem se divisavam indícios de sincera vocação. 

D. João V, sem viver n'este século de tioradores 
por vapor", tinha juizo claro, e gosto. Aprendera 
d'intuição, ou d'exemplo.' Pouco imporia ; que para 
ter artistas é necessário, antes de lhes fazer visitas re- 
gias e de os condecorar, dar-lhcs recursos c educa- 
ção — cria-los ao ptí dos modelos immortaes. Oh ! se 
nós hoje voltássemos áquella cegueira anti-progressi\ a ! 
Sua neta a Sr.** D. Maria 1 também quiz ter pin- 
tores, e fundou para isso cm 1781 a uaula regia de 
desenho e figura •• — e á custa do " renl btilsinho >• en- 
viou á sua academia de Roma, a completar os estu- 
dos e aperfeiçoar o gosto, os alumnos mais distinctos 
d'ella. 

Ora, se não houvesse D. João V e a sua acade- 
mia de Roma •, se não houvesse a Sr.** D. Maria I 
com a sua aula de pintura; ese faltasse o " rra/ hol- 
sinho " com as suas peças de 7 S .iOO réis. Portugal te- 
ria tudo, menos Domingos António de Sequeira. Ed'a- 
hi talvez haja quem diga : — i. Pois não era mais útil 
empregar o dinheiro, que .njudou a croar um grande 
artista, em repuxos municipaos ?•' O artista morro 
e o repuxo fica; pi'ide empedr.ir o bordo de algum 
poço artesiano «lepois de velho. E por que nãoí £ 
uma lógica como qualquer outra. 

Domingos António de Sequeira, que nasceu em 1768, 
desde a infância tinha manifestado decidida inclina- 
ção para o des«>iiho ; e nos cinco annos que frequen- 
tou a aula de pintura os prémios cos successos, rtid- 
çando-o, mostraram bem que Portugal n'elle ia encon- 
trar o talento mais distlncto em um ramo. no qual 
tão poucos brilharam. Apenas acalxni oourst» foi cm- 
]>regado em estudar com o engenhoso e extravagante 



Francisco de Setúbal. ^ arios pannos, usados n'e3Se 
tempo para forrar as paredes dos palácios, saíram do 
pincel de Secjueira, e desde lozo fizeram presentir 
qual seria o seu estylo em trabalhos mais elevados. 
No anno de 1788, protectores illustrados alcançaram- 
Ihe da rainha uma pensão do i^bobinho real -^ ; aju- 
dado d'ella é que Setjueira pòdc emprehender a via- 
gem de Roma e matricular-se na academia alli crea- 
da, sendo dirigido em composição e desenho por Pi- 
cola, em pintura por Cavalluci ; porém o seu verda- 
deiro e grande mestre foi a rica e admirável collec- 
ção de primores d'arte, da cidade de Leão X — esse 
tliesouro que ainda hoje a consola do perdido impé- 
rio e da eclipsada gloria militar. 

Se<jueira, como Bocage, tinha a ardente imagina- 
ção e a espontaneidade de creaçuo artística, que se 
traduzia em obras acabadas, ou em improviioi rápi- 
dos e fugiti\us. Nas suas mãos o lápis servia de ri- 
val ápasmosa facilidade eá abundância do traductor 
d'Ovidio e de Dellile. Um rolo de papel afumadoá 
luz, ou simplesmente apenna bastavam ao pintor pa- 
ra caprichosamente entreter a sociedade mais esco- 
lhida nos longos serões d'inverno. Doestes csbocetos 
ainda se conservam muitos, e todos elles provam até 
que ponto, n'um trabalho descuidado e phantastico, 
sabia unir a graça á correcção. 

Em Roma as obras de Sequeira foram numerosas. 
Entre ellaslouva-se pelaidéa edesempcnho a pintura 
do tecto da casa de jantar na vtlha quinta C"mtUi, 
representando ocarro dWpoUo, rodeado derefal.ulos 
lateraes, em que se via toda a fabula de Narciso. 
Na Academia de S. Lucas tambcni existem dois 
quadros seus — o do milajre dos cinco pãtt e dou 
peixei — e o da degolla^uo de S. João B.ipliila. Foi 
a estes últimos que deveu o primeiro premio da clas- 
se de pintura d'aquella academia, e o diploma de 
seu professor e sócio de mérito. Depois de percorrer 
parte da Itália, examinando, comparando, e copian- 
do as maravilhas de todos os séculos, regressou Se- 
queira á pátria no anno de 1796. Ahi o esperavam 
os desgostos e os desenganos, que infelizmente nun- 
ca deixam d''acoiher o merecimento superior n'esta 
terra. (Continua.) 



A substancia d'esta noticia sobre Sequeira é tira- 
da do artigo biographico publicado pelo Sr. Silva 
Leal em o segundo numero do jornal das Bellas .Ar- 
tes de Lisboa ; e das reilexOos disseminadas no livro 
do Sr. conde de Rackivnski, intitulado /is artes em 
Portugal. Se mais alguma se podia adiantar, a falta 
de espaço nos não consentiu averigua-la. 



Mahomet oc Mafojia. 

(Continuado dr pa;. 147.) 

Mas quando Mahomct viu que tinha nm partido 
formidável em Mfdina. n.ão rec»'iou p<ir-«e a j»ar dos 
patriarch;is antigos e dos anfÍ!r<"is proplietas ; e até 
quiz f;uer um milagre mais estupendo do qne todos 
os que se atlribuiam aos perstMiagens a que elle cha- 
mava seus predeccs5»>res, e cora este intento narroa 
a su.T viagem nocturna ao setim» céu. Se Abraltfo 
n-coliêra frequentes vi>it.is dos anjos, se MoT«es pas- 
sara quarenta dias sobre o monte Sin:ii em culloquios 
cx>m o Senhor, se Jesus alcançara de Deus f.ivopes 
ainda mais assignalados, elle. Mafoma, apparecém 
na presença do Eterno. Eis-aqui como narrou a sua 
prodigiosa ascensão. 

.. Estava deitado, dix elle, entre as coUinas de Sa- 



o PANORAxMA. 



155 



la e Merva, quando Gabriel, chegando-se a mim, se 
deu pressa em aeordar-me. Trazia Alborak, jumenta 
de pello cinzento prateado, que tem cabeça de mu- 
lher, cauda de pa\ão, eque anda tão veloz que abar- 
ca tanto terreno quanto a vista mais aguda pode al- 
cançar. Brilhavani-lhe os olhos como estrellas. Abriu 
as suas duas azas de águia. Cheguei-me a ella. 1'ozr- 
se a espinotear : «íEstá quieta, lhe disse Gabriel, e 
obedece a Mahoniet.» A jumenta respondeu: "O 
propheta Mahomet não me cavalgará sem que tu ha- 
jas alcançado d^eile que me dè entrada no paraizo 
no dia da rcsurreição. » Prometti-lh'o (l). Então 
deixou-se montar, e^de repente nos achamos as jor- 
tas de Jerusalém. A entrada do templo encontrei 
Abralião, Moysés o Jesus; orei com elles, e acabada 
a oração, desceu subitamente do céu uma escada de 
luz, e corremos com a rapidez do relâmpago a im- 
inensa extensão dos ares. 

iiHuando ciiegámos ao primeiro paraizo, o anjo 
bateu á porta: "(Auem está ahi?" perguntaram, 
u Gabriel." "Quem é o teu companheiro ?" "Ma- 
homet. " « Recebeu a missão ? » " Recebeu-a. " " Bcm- 
vindo seja. r>- A estas palavras, a porta, maior que a 
terra, gyrou nos quicios, e entrámos. Este primeiro 
céu é de prata pura ; da sua abobada niagestosa es- 
tão pendentes as estrellas por grossas cadeias de ou- 
ro. A cadauma doestas estrellas está um anjo de sen- 
tinella para evitar <jue os demónios assaltem o ceu. 
Veio abraçar-me uiTi velho chamando-me o maior de 
seus filhos. Era Adão. Não tive tempo de lhe lallar : 
pri'iideu-me a altenção a turba de anjos de todas as 
iornias e cores. Do meio dVstes anjos se levanta um 
gallo d''unia alvura mais brilhante que a da neve, e 
de grandeza tão mjriíica que roça com a cabeça no 
segundo céu, distante do primeiro quinhentos annos 
de caminho. Muito me confundira tudo isto se Ga- 
briel me não dissera que estes anjos estão alli, sob iis 
lormas de aniniaes, alim de intercederem para com 
Deus por todas as creaturas da mesma forma, que 
vivem na terra ; que este grande gallo é o anjo dos 
gallos, e (pie a sua obrigação principal é recrear o 
Eterno todas as manhãs com seus cantos e h^ninos. 

" Deixámos o gallo e_ os anjos-animaes para subir- 
mos ao segundo céu. E composto d'uma espécie de 
ferro duro e jiolido. Achei alli Noé, que mo recebeu 
nos braços. Jesus e João se chegaram depois, e me 
cliamaram o maior dos homens. Subimos então ao 
lerci:iro céu, mais distante do segundo do que este 
dista do primeiro. E preciso, pelo menos, ser pro- 
piícta para supportar o brillio deslumbrante d'este 
léu, inteiramente formado de |)edras preciosas. En- 
Ue os entes immortacrs <|Ue o habitam distingui um 
anjo de altura incomparável; governava cem mil 
anjos, cada (|ual, de per si, mais forte que cem mil 
bataliiões ile guerreiros prestes a pelejar. Este gran- 
de anjo ehama-se o coniidenie de Deus ; tão ])rodi- 
giosa é a sua estatura que do seu olho direito ao 
olho esquerdo vão setenta mil dias de caminho. Es- 
t.iva adiante doeste anjo um imnieiiso liofete sobre o 
<pial nTio parava du «.'serever. Gabriel me disse que o 
conliilent(^ de Deus era ao mesmo tempo o anjo da 
morte, emprigado viu escrever os nomes dos que lião 
ili.' nascer, em calcular os dias dos vivos, e em risca- 



(1) Sri;unilu iilviiliii iiii('tiiri'H innsiiliiiMiKis, u Juiiwnln Al- 
))i)ralk iiinni nu |mrai/.t>, nit ruii)|taiiliiu ilo i'i\i> ilus ncIc Dur- 
1111'nti'H, liTiila cii'11'iilnl, ilii ciiriiiirn ipie fui siiitIIIcikIu pur 
AltritliTto, tia Imrni d'^ llalnatii, du raim-lln cm (|iii' Miiloiiui 
fu:,'m ili' MiMM para MimIiiiu, iln liiirru iin ipic Nosso SiMilior 
í^iilrnu cm .IcniHulcnt, tlti cavnlln ilc S. Jttrn'' c do lairrtt do 
|ir<ipliclu I<!Hdras, l<!»la rttsii íU- bicftus ucciípu um tojfiir tliij- 
íiikUí no ccu ilc Maluiiia. 



los do livro á medida que chegam ao termo marcado 
pelos seus cálculos. 

"Urgia o tempo; attingimos oquarto céu. Enoch, 
que alli se achava, ficou mui ledo de me vêr. Este 
céu é de prata fina, transparente como vidro; po- 
voam-n'o anjos dVlevada estatura ; um d^elles. mui- 
to mais baixo que o anjo da morte, tem conitudo 
quinhentos dias de altura. O emprego d'este anjo é 
muito triste, ponjue tão somente se occupa em cho- 
rar os peccados dos homens, e predizer os males que 
elles a si se preparam. Por estas lamentações n.ão me 
agradarem não estive para as ouvir por muito tem- 
po. Traiisportámo-nos logo ao quinto céu. Aarão 
veio receber-uos e appresentar-me a Moysés, que se 
recommendou ás minhas orações. O quinto céu é de 
ouro puro; os anjos que o habitam não riem muito, 
e com razão, porque são os depositários d:is vingan- 
ças divinas e dos fogos devoradores da cholera celes- 
te. Também teem a seu cargo vigiar os supplicios 
dos peccadores endurecidos, e preparar tormentos 
horríveis para os árabes que recusarem adorar um 
só Deus. Este espectáculo doloroso me f<« apressar a 
jornada, e eu subi ao sexto céu com o meu guia. 
Alli encontrei outra vez Moysés, que se poz a cho- 
rar, porque, dizia elle, que eu havia de conduzir ao 
paraizo mais árabes do que judeus elle tinha condu- 
zido. 

« Em quanto estava a consolar !Moysés, senti-me 
arrebatar não sei como, e cheguei n'um vòo mais 
rápido que o pensamento ao sétimo e ultimo ceu. 
Não posso dar uma idéa da riqueza d'òste formoso 
paraizo; contentem-se com saber que é formado de 
luz divina. O primeiro dos seus habitadores ([ue me 
deu na vista excede a terra em extensão; tem se- 
tenta mil cabeças, cada cabeça tem setenta mil lx)C- 
cas, cada bocca setenta mil linguas, que tallam de 
continuo e todas ao mesmo tempo, setenta mil idii>- 
inas dilíerentes em (|ue celebram os louvores de Deus. 
Depois de ter considerado este ente celeste, fui arre- 
batado de súbito por um sopro divino, e achei-me 
sentado ao pé do limoeiro immortal, arvore niages- 
tosa plantada á direita do throno invisível de Deus, 
d'este throno ante o qual aniem sem cessar quatorze 
cirios que teem de altura setenta annos de caminho ; 
os ramos do limoeiro, mais extensos do que a distan- 
cia que vai do sol á terra, dão sombra a uma multi- 
dão d(! anjos muito mais numerosos que os grãos de 
areia ile todos os desertos, de todos os mares, de to- 
dos os rios e de todos os ribeiros. Sobre os ramos do 
limoeiro pousam aves immortaes, empregadas em 
considerar as passagens sublimes do Koran. As iV>- 
Ihas d'esta arvore assemelham-se a orelhas de olc- 
phante; os seus fruclos são mais doces que o li'itc ; 
um só d'elles bastará para sustentar um dia todas as 
creaturas de todos os mundos, (.'ada semente encerra 
uma das houris, virgens divinas reservadas ]>iira os 
prazeres eternos dos musulmanos. Jla quatro espécies 
de houris : umas são brancas, outras còr de rosa, ou- 
tras amarellas, e outras verdes) ; são os seus olhos tão 
lindos, cpie se uma houris volvesse os olhos aterra em 
a ijoite mais tenebrosa, dar-lhe-hia tanta luz como o 
sol em todo o seu esplendor ; entregar-se-hão ás ca- 
ricias dos lieis sem deixarem de ser virgens, tluatro 
rios saem do pé do limoeiro, dois para o paruiío, e 
dois para a terra; os dois ultinn>s são o Ai/o eo 
liiiplirules, <le <|Ue ninguém aMt^■^ de mini iHinheeí- 
ra a nascente. 

i. (ial)riel dei\ou-me a<|ul, por<|iie llie não era |H'r- 
mittido passar adi.inle. Kapliail Itcou em seu logar, 
e le\(iu-me á casa ill\ina ila oração, ondi? si- junc- 
tani cada ília, em romaria, setenta mil anjos da pri- 
meira classe; os i|ue la \àii um.i vci não tornam a 



156 



O PANORAxMA. 



ir. Esta casa, formada ile jacinthos ecercada dclanri- 
padas (jiie ardem etcTiiamerito, assemflha-se ao tem- 
plo de Meca ; e se caísse perpendicularmente do sé- 
timo céu sobre a terra, como poderá succeder algum 
dia, pousaria sobre a Caaba. E cousa estranha, mas 
certa. 

«Apenas puz o pé na casa da adoração um anjo 
me appresentou três taças; a primeira estava cheia 
de vinliu, a segunda de leite, e a terceira de mel 
Ebcollii aquella em que estava o leite. Logo, uma 
voz forte como dez trovões fez relximbar estas pala- 
vras : i' Oh Mahomet ! bem fizeste cm pegar na taça 
em que está o leite ; se houvesses bebiiío o vinho, 
ficava atua naç-ão pervertida e desgraçada. " Mas 
um novo espectáculo me veio turbar a vista. Fez-me 
o anjo atravessar, tão depressa quanto a imaginação 
pode conceber, dois mares de luz, e um terceiro ne- 
gro como a noite : achei-me então na presença de 
Deus. Apoderava-se o terror de todos os meus senti- 
dos, quando uma voz mais estrondosa que a das va- 
gas agitadas, me bradou: u Proseguc, oh Mahomet! 
chega-te ao throno glorioso!" Obedeci, e li estas 
palavras n'uni dos lados do throno: "Não ha outro 
Deus senão Deus, e Mahomet é o seu propheta. " 
Ao mesmo tempo poz Deus a mão direita no meu 
peito e a mão esquerda no meu hombro ; senti um 
frio agudo correr-me por todo o corpo e gelar-nic 
ate a medula dos ossos. A este estado de padecimen- 
to seguiram-se dentro em pouco doçuras inexprimí- 
veis e desconhecidas dos filhos dos homens, doçuras 
que me embriagaram a alma. Apoz e.^tes transportes 
tive com Deus uma conversação familiar <)ue durou 
muito tempo. Dictou-me Deus os preceitos que acha- 
reis no Koran. e depois ordenou-me que vos exhor- 
tasse a sustentar com as armas e o sangue a sancta 
religião. 

"Quando o Eterno acabou de fallar fui ter com 
Gabriel. Abriu os seus cento e quarenta pares de 
azas, e descemos os sete céus, onde muitas vezes nos 
demoraram os coiiciTtos dos espíritos celestes, que 
cantavam os nossos louvores. Mas Deus me tinha 
determinado que fizesse orar cincoeuta vezes por dia. 
Q.uando cheguei ao céu de iMoysés communiquei-lhe 
a ordem que recebera. "Torna ao Senhor, disse-me 
o eonduetor dos hebreus ; pede-llie que mitigue o pre- 
ceito : o teu povo nunca poderá cumpri-lo." Subi 
ate o Altíssimo e pedi-lhe cjue diminuisse o numero 
das rezas. Ficou reduzido a quarenta. O saliío Mov- 
ses me rogou fizesse novas instancias, c, depois de 
reiteradas viagens, ficou determinado que as orações 
fossem cinco. Cheguei a Jerusalém, e a escada de 
luz tornou a descer da abobada celeste. Alborak me 
esperava. Ainda era noite. Levou-me até onde me 
tomara, agitando somente duas vezes as suas grandes 
azas. Então disse eu a Gabriel: "Muito temo que o 
meu povo não queira acreditar a narraç.ão d"esta 
viagem." "Tranquillisa-te, me respondeu o anjo. o 
liei Abou-l!(kr e o valente e sancto Ali sustentarão 
a verdade d'estes prodígios." (Continua.) 



O KitEMiTKiiio DO Vesúvio. 

O Vesovio está situado entre o mar c os Apenni- 
nos, a duas c meia léguas de Nápoles pouco mais ou 
menos, e separado d'esta cidade |K'la curvatura do 
golplio de que dista obra de uma légua na costa orien- 
tal, ficando sobranceiro á Torre dei (ireco, e a l'or- 
tici: n'e3ta ultima tem a corte na[K)litana um bollo 
palácio para residência no verão. Esta montanha 
volcanica, de fúnna |>vramidid, tem agora umas CUU 



toeza» de elevação acima do nível do mar; são tan- 
tas as variações por que tem passado na sua altura 
e na forma da cratera, que é difficil dar uma exacta 
idéa d'ella ■, o viajante conta o que viu, ma» não pô- 
de prognosticar o que verão os que depois d^elle vie- 
rem ; d'aquí as encontradas relações que se lêem, 
posto que muitas escríptas no mesmo século. Amiu- 
dadas teem sido as sua» erupções-, ao catalogo e cir- 
cumstancías d^ellas, e á sua posição na Europa, de- 
ve este volcão unicamente a sua celebridade- 

O Vesúvio está apartado da grande cordilheira 
dos .\pennínos, e é mister distingui-lo do monte da 
Somma, com que muitos o confundem, dando-lhe es- 
te nome, e do monte Ottaiano, and>os os quaes se 
levantam a seus lados sobre raízes ou bases cummuns, 
sendo muito de crer que também elles furam cm 
tempo remoto volcões. Olhando-se do largo do paço 
ou do molhe de Na[)oles, dir-soha que oSomma está 
contíguo ao Vesúvio e com elle forma uma só mon- 
tanha de cume bícipite ; ptpr detrar de ambos escon- 
de-se á vista o pico de Ottaiano- 

A bacia que se dilata nas faldas do \esuvio ap- 
presenta o mais amplo e ma'.;nílico painel: — um 
circulo de aprazíveis collínas ordenadas em amphí- 
theatro, rebaixando-se insensivelmente para o lado 
do mar; e no seu decli\e uma cidade afagada sem- 
pre pelos raios os mais brandos, mais transparentes 
e puros do formoso sol dMt.ilia; pouco mais alto, á 
direita, avultando nos ares, o casfello Santelmo, as- 
sente por cima da cidade para a defender ou, o que 
mais parece, para aformosea-la, surge do meio da 
verdura que cm todas as estações cinge a eminên- 
cia ; — mais em baixo, o golpho onde se reflecte ia 
villa reale ; e o palácio da rainha Joanna, de mvste- 
riosos subterrâneos, em cujos destroços se engolpham 
e mugem as ondas Por outra parte a\ ísta-se o sup- 
posto tumulo de Virgílio, e a gruta ou perforação 
do 1'ausílíppo (l), beneficio que a tradição popular 
remotíssima attríbue á arte magica do insigne poe- 
ta, convertido ein feitii-eiro; porque o povo cn.thu- 
siasta descobrira ii'aquelle grande génio um não sei 
que extraordinário e sobrehumano. Os sítios delicio- 
sos que os seus versos viilgarisaram, avistam-se mais 
ao longe, Cumas, os Cam|)os EUsios. o antro da Si- 
bvHa. — A esquerda o Selwto. e Hcrculanum, se- 
pultada debaixo do chão, Porlici, Stabbia arruinada. 
Pompeia em parte restituída á claridade do dia (2) : 
— na extremidade do caU> o convento dos Camaldu- 
lenses, e no horisonte Sorrento. illustrada por um 
grande poeta desditoso (3). — Aquella cidade que 
|)rimeíro enumerámos é Nápoles, cujas cercanias se 
denominam terra afortunada. Cnmpagitn Felice ; e 
essa iiaizagem immens;t é assoberbada pelo mais pic- 
turesco dos montes, o A esuvio, cujas harmonias e li- 
nhas esquivas não se acham dignamente representa- 
das pelo pincel, |Kín|ue uma natureia tão ideal e 
tão magica não pôde pintar-so. 

Perguntam os habitantes do restante da Europa 
de que procede o soccgo do napolitano, ameaçado de 



(O .\ estrada qiic comniunica Nápoles com Poiíixolo 
pnssa atravei do pequeno monto Pan5ilip|)0, cuja perforação 
já existiu em lein|>o de Nero. I^noia-se |>or que mios foi ei- 
caiadu. 

(i) Hcrcul.iniiin, di-seolwrla cm 171.1, nunca potli-râ iln- 
oiilulli.ir-se á superticie do solo por causa da n«:i-*sid»de ile 
poupar os edifícios de 1'ortici, dctiaivo dos (piars «-stá silua- 
da : quando, inuilas lens. <e acalwm »s c»ca>»ç<V-» n'um 
lojar. é preciso tMiliipi-l» cmi l'rra cpie se cilralii- de altu- 
ma valia proxiiua. Uuaiito a Ponipi-ia. como ja« dclaixo de 
?inlias. nliiHiis dos s.iis princi|nc» olificio» e ru.i» cflâo já 
dl- todo desentulhadas. 

l^.i) O auclor da Ucrusalemme libcrata. 



o PANORAMA. 



157 



continuo pelo Vesúvio \ este enigma dccifra-o quem 
pisa o bello território de Nápoles, quem tem respi- 
rado o ar puro d'aquella suave atmosphera. Debalde 
cidades inteiras, ainda no século passado como na an- 
tiguidade, foram si-pultadas pelos incêndios do vol- 
cão^ as suas terríveis dcvastaç;ões debalde adquiri- 
ram na historia fatal celebridade: tranquillisado pe- 
lo habito, ou seduzido por vistas encantadoras, o na- 
politano dorme socegadaniente ao pé da voragem ; 
edilica os cminos e deliciosas casas de recreio no cs- 
pati-o coniprebi-ndido entre a falda e o vértice da 
montanha ignivoma, palácios talvez ephemeros, que 
insultam com suas grimpas esbeltas as torrentes de 
lava que os circumdam, e cujo inevitável destino e 
desappareccrem ou cedo ou tarde n;is ondas d'aquel- 
la inundai^ão temerosa. 

Contaremos brevemente a ascensão de um viajan- 
te verídico, não ha muitos annos. — 

No principio de janeiro de 1330 partimos de Na- 
poUrs ás sete horas e meia da manliã para ir visitar 
o Vesúvio, volcão que os napolitanos no seu est^ lo 
poctico chamam ta tnnntagna, como antonomásia; 
posto que pelo vulto lhe não caiba, mas sim pelos 
eOeitos. Fomos em caleças (l) a Késina, aldeola á 
líeiramar pegada com Herculanuni, a mais perto do 
Vesúvio, que já a tem alagado quatro vezes. Apenas 
apeados no pequeno largo onde se acham os ciccrnni, 
e os jumentos que transportam os viajantes, virao- j 
nos cercados da turba. Kra a quem nos agarraria, a 
quem mais alto gritaria para nos olferecerem seu i 
préstimo ou ascavalgaduras. Dir-se-hia que era uma ' 
i>eíli(;ão. Impacientados mandámos ao demo homens 
e burros; e como o ultimo dos Iloracios fugimos pa- 
ra dispersar os nossos inimigos. Partimos sósinhos : 
a alguma distancia de Késina é que adoptámos um ! 
guia que luimuu cm nos seguir. As nove horas co- I 



meçamos a subida. Ainda bem não tínhamos passa- 
do as ultimas casas de Resina, já pisávamos as lavas 
que com a côr denegrida entristecem a vista. Pre- 
cursoras das fadigas que nos aguardam, as pedras 
volcanicas, as escorias nos rasgam os pés. Começa a 
natureza uu>rta, o elemento de destruição, que de 
súbito transforma um paia fecundo e ameno na soli- 
dão da morte. Tudo mostra um não sei que espan- 
toso e sinistro. Todavia a vista descança de tempo a 
tempo n'algumas porções de terreno <jue ainda não 
foram invadidas, ou que, tornadas á agricultura pe- 
la successão das eras, se recamam de arvores e vi- 
nhas, e parecem os oásis d'aquelle deserto. Aqui é 
que se dá o tão afamado vinho laci ijiiia Vlirisli. A 
cinza do volcão fortalece a cepa, e indcmnisa assim 
de algum modo dos damiios que por vezes causa. — 
Além de que (quem o acreditará.') nenhuma região 
do globo possuo no mesmo espaço de território tanta 
população como a que cerca o Vesúvio . é rodeado 
de vivendas e quintas, propriedade de homens que 
se deslembram do perigo, procurando tirar proveito 
da fertilidade do torrão, e que, terminada a erup- 
ção, tornam a levantar a casa no mesmo sitio, d on- 
de a experiência funesta, mas inútil, os deveria en- 
sinar a fugir. 

Proseguimos . . . em breve tudo se vê coberto de 
lavas; dislinguem-se as das diversas erupções pela 
diflerença de côr. O nosso guia indica-nos a de 1822 
que occupa immensa superfície. O caminho dirige- 
se quaii em linha recta para o lado do cone da mon- 
tanlia que ollia ao norte, até chegar ao piano deite 
(jetitstre. Esta chan, outr'ora coberta de arbustos de 
pcrenne viço, de moitas e de giestas, não e agora 
senão um terreiro escalvado, onde não se vê mais 
que as superfícies espumosas de vastas torrentes de 
lava que se cruzaram umas com as outras. 







•.-'V/w^.i.''^'^^^ 



As on/.i- horas menos um (|Uarlu ehcgánu)5 ao ere- 
mitério de S. í^al\adol■, silo n'um piM|ueno plaino 



li) I)u uiumnii inuilo que lu goiululus fl;;urum eiitrc an 
< liriuKilliiilrs ili- Viiii/ii, o ciílcuziíio púili; loiílar-si- iimu Ohs 
kiiiKiil.iiiilmli'H (ir* Niipulrs. S<; iiilu \ tstfii (ilu tiiilro viujaii- 
Iff) o l>iiiiilii iloiiiliii ili' Ciiilus Vriinl, iiiiai;iri:ii nina fs|ic- 
••ii! (li! lilliiuy i'iii Ilirnia ili' cniirlia, ilr a)i|iMri una lAii li'vc c 
Iraífil <|"'' (larTn ili^vja iHiuiitar iMU llll^allMa aci |>rjiiirii'» 
cuiliatc. t'!iila (:am\a roíluiitc <: lutln finlutiirraila tlt* duiira- 
•lo» que Ihr prcxlaiii ciTla i'li';;aiii'ia ; o );aii/,iaiii> qiif a |iii.\a 
If-ii» uncii» ludiis ciniailu» ili.' |iri7'uii aiiiarcUus u na cube^'a 



na cxiremidaile o<cideMlal do culmu dei Limlnuii.. 
Até agora a sua elevada situação o tem ])ri's(Tvado 
um pciMutclit) ilr jiluiiias i uu \rr u cuUu i-i>lilii'o tio cavalli- 
iiliu lilu lii'iii jiiii^iilu á ('uli-(;a, Ciiiumniiii'iil>' tuiliiilailu com 
a uiai.s cstricta iiarciuiDiiia, jnlj;»ri'is qiif o .sru tlcliratUi lii-« 
ujjiila para rllr i' suliijaiiirnli' ptxailo. l'.irli', r im si» «r- 
ilcir (livura u i>pai;<i; cusla a \i>la a .-r^ni-lii pilas larjii» U- 
piis ilr la\a.s ili- ipif Napulrs v ('al>,'ailii. t) ronilmior, lr<'- 
pailii ahaz ila ria;;il iiiai'liiiia, nm> imia ila.i iiiAus sri!Ur« uu 
rrili «s piir i-liim ila caliiijii ili'S que i-nmlu» f ouui il oulia 
a^'ila uiu ciiiiipriil» aruulu. A caivu Uo lultsíiiiu apcliu* rvii- 
lúii (Jmus puiuuni. 



1Õ8 



O PANORAMA. 



«las lavas, que sempre se teem dividido ao pé do ro- 
chedo volcanico sobre que dcscança. O eremitério, 
•jiie data de 1631, contt^m uma capella e