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Full text of "O Panorama; semanario de litteratura e instrucção. v. 1-5, maio 6, 1937-dez. 1841; v. [6-8] (2. ser., v. 1-3), jan. 1842-dez. 1844; v. 9-13 (3. ser. v. 1-5), set. 5, 1846-dez. 1856; v. 14-15 (4. ser., v. 1-2), jan 1857-dez. 1858; v. 16-18 (5. ser., v. 1-3), [jan.?] 1866- [dez.?] 1868"

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JORNAL LITTERARIO E INSTRDCTIVO. 



VOLUME XIV 



PKIIIIEIKO OA QUARTA I^EKIE. 




fPl BLICADO DE JANEIRO A DEZKMKRO T»i; 18">7. 



umm 

TYPOGRAPHIA DE A. J. F. LOPES 
TRWIiSSA DA VICTORIA, 32. 



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o PANORAMA 



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SIlâMl» BSIilff ISif SSÃ 



^^mmnnT^sih 




Panouama enceta cora este 
numero o seu decimo quar- 
to volume. 

É certo que nenhum dos 
jornaes litterarios do paiz 
contou tão longa duração ; 
mas é egualmente certo, que 
o Panorama, sempre acre- 
ditado, não tem até hoje desmerecido do con- 
ceito era que foi tido desde que appareccn pela 
vez primeira. 

Os nossos esforços tendem a procurar-lhc a 
continuação d'esse conceito ; e para isso conta- 
mos cora a mesma coliaboração que até agora 
tem honrado as suas columnas. 

Não faremos promessas irrealisaveis, ou que 
não possamos cumprir. Diremos só que procu- 
raremos melhorar este semanário quanto puder- 
mos, e n'esse empenho nos ajudarão todos os 
■que tfm amor ás lettras, e tomam a peito a in- 
-Irucção publica. 



No próximo numero descreveremos o edifício 
do collegio dos nobres, em Moscow, cujo dese- 
nho apresentamos hoje. 



DESCRIPÇÃO E RECORDAÇÕES HISTÓRICAS 
DO PAÇO E QUINTA DE QUELUZ.- 

Desd'o começo de Julho de 1774 até fins de 
Junho de 1778 esteve silencioso e solitário o pa- 
ço de Queluz, tanto em razão da doença d'el- 
rei D. José, que o fez passar alternadamente os 
verões dos três primeiros annos na quinta do 
marquez de Pombal em Oeiras e no palácio da 
Ajuda, para destas moradas ir commodamente 
tomar os banhos do Estoril e das Alcaçarias, co- 
mo por outras causas que, depois da morte d'a- 
quelle monarcha em 215 de Fevereiro de 1777, 
decidiram a rainha sua filha e successora a fi- 
car no ultimo d'aquelles paços até ao estio do 
anno seguinte, em que, sobre accordo e ás cus- 
tas delia e d'el-rei seu esposo, se fez o quarto 
alto que jaz na rampa que conduz á praça, e no 
qual a mesma soberana morou sendo já viuva, 
(juarlo traçado por Matheus Vicente d'01iveirai 

(*) Conlinaação dos artigos que vem a 
3fi)í, S70. 39-3 dos Tolumes xi e xii, 3.* e ' 
V»L. I. — í.' SERIE. 



Ji:f' 



S9,7-,210. 
seria. 



e que, visto desse largo, não diz cora as oatras 
construcções que o cingem. 

Voltando regularmente a corte a este sitio, e 
tornando a festejarem-se ali com a antiga pom- 
pa e concorrência os dias de S. João, e S. Pe- 
dro, bem como os natalicios de algumas das pes- 
soas reaes, pede a razão e a curiosidade que eu 
mostre aqui o quadro fallante, com retratos no- 
vos e ditos trazidos a monte da minha memoria 
já enfraquecida, que, apoz uma tão grande mn- 
dança de scenas n'estas occasiões alegres, pre- 
.sentava a galeria reanimada onde já, a propó- 
sito das primeiras funcções que lá houveram, in- 
troduzi os meus leitores ; traçando eu estas li- 
nhas não só por divertir-me e entretel-os, roas 
afim de registrar na idéa do publico indulgen- 
te que ler este bosquejo da nossa corte na der- 
radeira parte do século passado muitas coisas 
hoje desconhecidas ou esquecidas de um mund© 
que acabou, para que ellas não fiquem, con>o 
tantas outras velhices, sepultadas n'uma obscu- 
ridade profunda : a pintura dos homens, que dá 
vida á narração dos acontecimentos, pode ser 
proveitosa aos que escreverem a nossa historia 
dos últimos tempos. 

Mas, por isso mesmo que a realidade potti- 
sada, titulo que um homem de génio, bem que 
um tanto affectado, que conversei, deu apropria- 
damente ás suas interessantes Memorias, ou, 
como também dizia e usava outro grande pin- 
tor litterario com quem tratei, este modo de 
narrar repondo as pessoas no theatro onde repre- 
sentaram , faz maior impressão , e deixa no 
pensamento mais altas raizes que as descripções 
em que os objectos não são tangíveis e palpáveis 
como nas que cito e que sigo, ha tanto mais mis- 
ter quem assim escreve, no paiz e não mui dis- 
tante da acção que descreve, a vida de uma an- 
tiga sociedade polida ter tento na penna, para, 
sem frustrar as esperanças dos que buscam a 
exacção nas descripções, a justiça na historia, e 
a verdade era tudo, não ser ecco de paixões con- 
trarias e quasi contemporâneas. Para conceituar 
devidamente os homens é força tiral-os do con- 
flicto dos partidos, e não attender ás censuras 
acerbas nem aos panegyricos hyperbolicos das 
facções, que degradariam o historiador á baixe- 
za do adulador ou do escrevinhador de folhetos 
satyricos ; e tal foi a razão porque puz mais va- 
gar nos pertos que nos longes d'esta pintura. 
JANEIRO, 3, 1887. 



o PANORAMA. 



Quando eu, antes de traçar estas linhas, re- 
cordava com pausada meditação o que na mi- 
nha mocidade ouvi a ijuem viu aquelles festins 
depois do, já por mim marcado, periodo activo 
p violento, fecundo, por vezes grande, e digno 
do buril de Salusíio, ate á cessação d'estes re- 
gosijos peia ceifa que a foice pavorosa da mor- 
te fez de alguns membros da família real (1) pou- 
cfl antes de romper o tufão de tempestades que 
revolvendo a Europa, deu volta ao juizo da rai- 
nha D. Maria i aíiguraram-se á minha imagi- 
nação os dias sereníssimos que o ceo repartiu, 
com uma grande colheita de paz (2), a Portu- 
gal nos breves annos do governo d'csta prince- 
za que sobejou a tantas dores, como o outono 
doce, alegre, e Irugilero que a natureza, reve- 
zando as estaçries, mette de permeio entre o es- 
tio ardente, brilhante c ereador, e o inverno tris- 
te, duro, estéril e desabrido. As phases da vida 
social tem muita analogia com as do mundo phy- 
sico, ditlereuçando-se porém, entre outros pon- 
tos, uuurs de outras em que, u'estas, os corpos 
uaturacs guardam sempre as suas leis, e, n'a- 
quellas, os homens aberram frequentemente dos 
seus princípios. 

De feito, bem (jue, nas mudanças e catastro- 
plies dos ministros, diga o prudente, como S. Lou- 
renço nas greliuis, assem-me do outro lado, a i[ue- 
da do marquez de Pombal, mais vencido pelos 
successos que pelos inimigos, e n'iilla suecessi- 
va e contrariamente remunerado com uma com- 
raenda, e punido com uni degredo ^3}, deu, co- 
mo cUe previra (í), a Lisboa um (jrande ale- 
grão, que, em muitos peitos, trasbordou por ci- 
ma do desafogo decente ; e n'esle elaterio 
de tantas almas c tantos corações contentes de 
ver atermar o despotismo que, por um quarto de 



na entrar Portugal na edade de oiro. O cómi- 
co, em todas as cortes e em todcs os tempos, 
está sempre ao pé do trágico: e o impeto do de- 
sejo que nos arrebata para luudaiiças cega-nos 
aos dictames luminosos da razão e ás mais cer- 
tas e claras evidencias. Também por esse tem- 
po o nonagenario Voltaire, lendo avessamente a 
sina de um rei nascido em cruel signo, e enthu- 
siasmando-se de um ministro (jue conhecia mais 
os livros que os homens, augurava flores e fruv- 
tos a um reinado ijue só jirotiuziu abrolhos e es- 
pinhos; a vida humana tem duas infâncias e uma 
só primavera. 

Para fallar justamente das personagens histó- 
ricas, e sobretudo das que, resumindo em si uma 
civilisação, lizeram muitos bens á custa de gran- 
des males, é mister olhal-as com uma admiração 
temperada com rigorismo. E tempo que a histo- 
ria, depois de fazer boa justiça, como eu penso 
que liz, ao archiministro d'el-rei D. José, pin- 
tando-o como uni homem de acção, mas de co- 
ração duro, que, tendo alma para conceber c for- 
ça para executar grandes empresas, se por ve- 
zes se equivocou em datas, nunca errou as ma- 
rés, caracterise com egual imparcialidade a ad- 
ministração frouxamente branda, c, na quasi to- 
talidade dos seus membros, com as mais rectas 
tençõrs, desacertada, que manejou os negócios 
logo depois da morte d'a(iuelle principc. Os go- 
vernantes melhor intencionados podem ser mal 
entendidos ; e, quando a este desar accresce o 
de não se entenderem uns com os outros, e de 
não haver (luem os acorde e concerte, essa Ba- 
bel de opiniões, tão fatal como a da confusão 
das liiiguas, faz (|ue a niachina politica pare, e 
que tudo lique suspenso, ou, por outros termos, 
abre a porta ao desgoverno, coisa muito peior 



século, comprimira todos os ânimos, e sacrihca- (lue um mau governo. 



ra muitas vietimas, tendo as (jue po.leram resis- 
tir aos tormentos sido então, por cumulo de mi- 
séria, soltas d'inv&Ua com alguns malfeitores (3), 
vaticinaram, como sempre suecede, os descon- 
tentadiços do tempo passado, e creu logo de le- 
u- a turba amiga da novidade, e a vaidade as- 
pirante e tresloucada que o novo poder, extin- 
guindo, e não variando, os abusos do antigo, fa- 



'(1) El-roi D. PcíirOMi morroii cm ITSfi. a inr.inla P_ Ma- 
ruiBna Viclnviu, e o infiinlo D. Gabrii'l seu eípotii, fiu 1T87, c 
o (iiincipe IJ. Jusú em 1788. 

(2) O tratado de paz de Piirtusal inm llos|].iiilia, conclui- 
ilo cm 11 de Março do 1781 por iiilervítição da rainlia mãe, que 
para esse fim passou a Madrid. . 

(.1) Vejam-se os decretos de i ic. Marco dcl777, e d» lli de 
Agosto de 1781. 

(1) Ao l)r. lluct, que com uma sangria salvou o marque?. 
deVoailial du um ataque apo|delii.'u, disse, lo^o que tornou a si 
Cite ministro: — de forte alegrão privastes hoje Lisboa. 

(5) Um (l'estes, chamado Plácido, equo fura um liomcm 
muito turliulenlo, cduimetteu depois d'aquelU; periljo. um cri- 
me atroz que o levou á [orca ; «uiro por nome Toiilii», que ha- 
via sido alf;oz, deu uceasiãu a um dito do no>so jiuela Sicolau 
'rulciitino, oíjual, pcrjjuiitado por uma senhora arercado mo- 
ilo de vida daquellc sugcilo, rcspnndeu:=cu cuidn que elle ho- 
je vive de entortar por casa* paríieulares. 



As cortes, que, entre raios de grandeza, com 
muitas sombras e misérias, são, contrariamente 
ás liíeorias de Bernardin de Saint Pierre e de La- 
vater sobre a harmonia das opposições, as maio- 
res collecções de contrastes de caracti-r d'onde 
no theatro do mundo. a.-;sim como nos dramas, 
nascem de ordinário as peripécias, raramente te- 
rão presentado uma tão grande diversidade de 
génios e Índoles como a que se viu naqueila go- 
vernança mosaica, sem .signilicação, nem acção 
por não ter quem lhe imprimisse um pensamento 
c o movimento, cada uma de cujas partes com- 
ponentes estava, com a heterogeneidade das <lo 
cabos, em fronteira com a sua ciuilraria, e ti- 
nha no nosso mundo politico, e dentro do mes- 
mo gabinete um antípoda. A rainha D. Jtlaria i, 
mui bem dotada da natureza, c cultivada no bom 
ensino, mas encolhida por summa modéstia, e ja 
enredada em escruiiulos, trazia sempre a sua re- 
solução pendente do parecer alheio. E!-rei D. Pe- 
dro,' chamado por sua esposa ao con.sellio, pela 
mesma lina contemplação com (juc associara a el- 
liiíie d'elle a sua nas primeiras moedas d'oiro que 
imuuluu cunhar, não lendo as prendas c prendi- 
mentos d'espirilo d'aquella princeza, nem ov nu- 



o PANORAMA. 



» 



te e quatro modos de netjar d'el-rfi D. Juão'i\ (1 ) , 
ol)st;na afoito a todas as propostas e prctenrões 
a eito com a niesinissiiiut jihi^aso eu não vou pa- 
ra alii, por juiiíar (]iK' dizor a liulo iiiic não iTa 
<t'r justo. O. por anibicão c medo. dobre e lio- 
liradiro cardeal da Cunha, ultimamente meltido 
uo conselho destado c no despacho, para dizer, 
como dizia, a tudo que sim, pelo mar(|iiez de 
Pombal a quem virou as costas mal o viu cal- 
do as\lava-se então com silenciosa complacên- 
cia nas azas da protecção de um ministro inlhien- 
le com quem tinha parentesco, c ao (jual dan- 
les não ialhna também por susto; a invariabi- 
lidadc nos sentimentos é (|uasi uma planta exó- 
tica nas cortes, c as amisades dos cortezãos são. 
por via de regra, umas mentiras recijtrocas; não 
<* pori-m menos certo que Ita gente ipie não sa- 
be ser o que é, c em quem a pusiianimidade e 
o amor do nicho tem ás vezes ar dinconstancia, 
e até de perlidia. O mais grosso de maneiras que 
dengenho. e Ião audaz, loquaz e confuso como 
franco, frugal e isento arcebispo de Thessaloni- 
ca, confessor da rainha, e também ministro as- 
sistente ao despacho, entrando de ordinário dou- 
tiva c não doutamente nas discussões, embrulha- 
va por isso e pelas suas longas digressões, os ne- 
gócios a ponto de fazer ]ierder de vista os a.'^- 
sumptos. O astuto cortezão. mas não sagaz es- 
tadista. mar((uez d'Angeja, presidente do erário. 
levando as coisas por manha, só se oppunha aber- 
tamente a todas t quaesquer despezas por mais 
justas e necessárias que fossem ; pondo depois, 
por não malquistar-se com as parles, as costas 
e nas boccas dos collegas, os estorvos cpie tinham 
saido da sua. O, como já disse, lixo e lido vis- 
conde de Villa Nova da Cerveira (depois manjuez 
de Ponte de Lima), ministro dos negócios do rei- 
no, em (luem uma grande rectidão de desejos e 
desestima das próprias conveniências, e a mais 
subida elevação de sentimentos c generosidade 
d'alma, se viam a niiudo paralyticadas pela sua 
habitual distracção, e irresoluçâo no conselho e 
nas obras, dilatava iniinitamente o (íxpediente 
com interlocuções continuas, para obter esdare- 
cimeutos su[ierf!uos ou intílcis : assim como ha 
pennas que, correndo arrebatadamente, precipi- 
tam as resoluções, ha outras (jue, pornimio aparo 
ou a|)uramento, impedem que os negócios voem. 
Martinho de Mello, que cl-rei D. .loão v mette- 
ra á força na Patriarchal. e ([ue el-rei D. .losé. 
por uma excepção da regra, fez, mau grado ao 
.<cu guia, ministro da marinha, resuscitada por 
este antigo cónego, c do ultramar, que ainda 
aguarda um resuscitador, tendo, por esta habi- 
lidade e especialidade, passado para o novo go- 
verno, onde eslava mais solto de mãos e de íin- 
gua, era da laia de gente de bom senso, edicaz 
e enérgica, que frisa com os homens de génio; 
fazendo a sua rigidez de princípios e inílcxibi- 

(I) Gabando-ie e^te rei uni dia de similhanle prenJa dian- 
te d''uni corleíão, que, couio niuilos, iiio lesjiTa de supplicar. 
rcípondcu-llic este: = pois bein, se Tossa majjestade leai \inte 
«quatro modos de negar, eu tenho vinte ecinco modos depedir. 



lidade d'aninio que ellc embicasse em tudo c em 
todos. Emlim, o manso e molle Ayres de Sá, que 
o niar(|uez de Pombal, seu parente e patrono, 
passara da quieta e grata corte de Nápoles [)a- 
ra a então contra nós fragueira e rixosa còrle 
de -Madrid, quando ([uiz que a nossa legação ali 
fosse surda, e ((ue, por morte do languido D. Luiz 
da Cunha, (.-sobrinho do grão diplomata do mes- 
mo nome fez ministro dos negócios e^lrangeiros 
e da guerra, por crer ipie, n'esta repartição, on- 
de o omnipotente ministro fazia tudo, era bom 
que o chefe nominal fosse mudo, ficando esl« 
depois conservado, por aíiuelle .senão, que cm 
algumas occasiõcs c prenda, no mesmo posto, 
sem outras inspirações que as dos seus bons sen- 
timentos, /('r«c« elle assim, por me servir das 
suas próprias expressões, a vida vachorrentumcn- 
tf. para não vicer deprc.<;.<ia, sendo tido em con- 
ta de uma honesta c perfeita nullidade politica. 
Todas estas personagens 'salvo o cardeal, jwr 
não dar som de si mais rápida e vivamente ex- 
pressadas e esculpidas, por meio da physiono- 
mia e acção, numa decima (1), que então teve 
muita voga quando ainda se não tinha introdu- 
zido na sciencia ou liltcratura histórica o géne- 
ro de retratos políticos, poderiam, apesar de tu- 
do, fazer algum bem a Portugal se, dando dc,*^ 
de o principio de mão aos conselhos turbados das 
paixões, curas.^sem mais de reparar as injustiças 
e violências feitas pelo governo precedente, e de 
retocar e prefazer as reformas úteis que elle ope- 
rara em todos os ramos da administração publi- 
ca, (lue de fartar a sede de graças e de vingan- 
ças de ambicio.sos, todos occupados na expugna- 
ção dos empregos, e dos homens rancorosos, que. 
não contentes da elongação do planeta que lhes 
fora desfavorável, queriam ver logo totalmente 
eclip.sada uma celebridade em fama, que não .-e 
vence nem se perde em pouco tempo : mas os 
ódios das facções não reflectem ; o espirito de par- 
tido, que é o mais best<T de todos, doe-se mais 
do fulgor que do ardor dos contrários; e, final- 
mente, na balança dos ministros existentes, que 
governam como se enfronham no governo, pe- 
sam pouco as memorias dos ministros mortos ou 
caidos; vindo talvez daqui a gana que o bom 
Ayres de Sa tinha de viver, para escapar o mais 
tempo que lhe fosse possível á justiça prematu- 
ra dos .seus successores. Não tendo eu. por mi- 
nha parte, podido fugir a estas reflexões, dei- 
tando, porém, aqui um veo de prudência sobre 
muitos desconcertos, ou, para usar da phra- 
se mais moderada de um espirituoso escriptor, 
intonimodos da realidade , que deslustraram 

jlj Eis aqui a decima: 

O negocio fo propúc ; 

Duvida el-rei meu senhor ; 

Alrapaliia o confessor ; 

Angeja a pagar se oppoe ; 

íiada a rainha dispõe; 

M^rlinlio marra esturrado ; 

Avres não passa d'honrado ; ' 

E o lisconde, cm conclusão, 

Pede nova informação; 

Fie o negocio etnphíedo. 



o PâNORâMâ. 



aqueila era de luzes, elegância, e urbaoidade. 
passarei a pintar o espectáculo variado que na 
Boite d« 21 d'Agosto de 1779 em que se feste- 
java o decimo nono anniversario do nascimento 
do principe D. José, offerecia a beila e esplen- 
dida galeria de Queluz, procurando eu figurar 
os diversos grupos, sem os confundir, e pintar 
as personagens, hoje todas mortas, e por isso 
immoveis, que personificavam os costumes e o 
espirito d'aquella época com as suas feições e 
cores, que as pessoas vivas, e, como taes, move- 
diças, no meio de tantas vagas e ondas de mu- 
danças, ora a favor da ordem, ora assopradas 
furiosamente pelo amor da liberdade, não dei- 
xam bem copiar; e visto que a melhor pintura 
é a que retrata a forma e a falia, darei também 
uma idéa dos diálogos entre os differentes inter- 
locutores. 

No topo da Sala da.í Snenatas estava a fami- 
lia real, cujos delineamentos physicos e moraes 
já tirei, fallando, depois da recepção do corpo 
diplomático, com varias personagens diflferente- 
mente notáveis da corte. 

A rainha D. Maria i trocava algumas palavras 
insignificantes, e por forma, com seus boníssi- 
mos, mas um pouco cansativos tios os senhores 
D. António e D. José, filhos naturaes d'el-rei 
D. João V, e legitimados por el-rei D. José, vul- 
garmente chamados ainda depois de velhos, os 
meninos de Palhavã, pelo sitio suburbano de Lis- 
boa que habitaram desde a sua infância, e aos 
«juaes o instruído memorião e amuado cortezão 
conde de S. Lourenço, que punha alcunhas mes- 
mo aos que já tinham outras (1) chamava S. Chris- 
pim e S. Chrispiniano pelo martyrio que aquel- 
les dois irmãos inseparáveis tinham, por um re- 
sentimento ministerial, soffrido no Bussaco até 
aos primeiros dias do novo reinado. El-rei D. Pe- 
dro fallava ainda mais sobre posse com o, em tu- 
do grosso, cardeal patriarcha Silva, feitura mal 
feita do ministro caido, mimoseada pelo epigram- 
mista D. Gastão da Camará com o frisante ap- 
{)€llido de animal mitrado, e de quem o bobo 
arlequim Estacio dizia que, se sabia theologia, 
a elle o devia, por lh'a ter feito aprender n'um 
livro castelhano, visto não ser aquelle prelado 
ar^zado ao latim. Em contrario d'estas praticas 
forçadas, conversava mui grata e affavelmente 
a rainha mãe com o tão intelligente e experien- 
te como alegre, franco, e generoso José de Sea- 
bra da Silva, (cuja agradável • instructiva com- 
panhia eu, ao sair da puerícia, frequentei) re- 
eemchegado do presidio das Pedras Negras, on- 
de pagara a pena de uma importante revelação 
qae fiaera áquella princeza (2), « merocera a 

(1) Este camarista InoffcnsÍTo (l'«l-rel D. P»dro, em quem 
o marquez de Pombal te yinpou da oppuficio que ás cegas lhe 
fazia aquelle principt, perguntando um dia a Nicolau Tolenli- 
uo d'Almeida, alDicto com dores de dentes, »e queria faier uso 
do scjjredo de um jísuita que fOra ecu compaubeiro de earcerc, 
roplicoí vivamente o sempre chisloio poeta, •=- se a um cm que 
elle esteve preso deienovc annot, uilo senhor. 

(4) A verdadeira causa deita desgraça, atlribuida por al- 
gumas pessoas a um abuto de poder, loi oconhecimenlo que le- 
ve u laarqncz de Pombal da rcveUiçao, qiie Josí' de Seabra, por 



graça, que d'ali a cinco annos lhe fez a sobera- 
na, de o reintegrar no posto de ministro da co- 
roa. O principe D. José, em quem, apar da gen- 
tileza, e de um, talvez nimio, brio juvenil (1). 
brilhavam os talentos da natureza desinvolvidos 
pela educação forte, viril, e sã, que Hie dava o 
exímio bispo de Beja, D. Fr. Manuel do Cená- 
culo, discorria sobre a guerra do Sul com o mar- 
quez de Lavradio, homem de grande ser e res- 
peito, e modelo consummado de urbanidade de- 
licada, que com energia e sagacidade tinha por 
longo tempo, e era circunstancias criticas, vice- 
reinado no Brazil, onde deixou honrosas memo- 
rias, e que dentro em poucos mezes foi nomea- 
do mordomo-mór da princeza D. Maria Francis- 
ca Benedicta. Esta formosa e amável princeza. 
e sua não bella, nem tão agradável, mas egual- 
raente boa irmã a infanta D. Marianna, que eram 
a personificação do pensamento religioso appli- 
cado a obras de caridade, tratavam da fundação 
de um estabelecimento pio com monsenhor Mas- 
carenhas, prelado mui douto, que passou a sua 
vida repartida entre leltras e virtudes, e o pa- 
dre Theodoro d' Almeida, congregado da casa do 
E.spirito Santo, e homem de virtude também es- 
clarecida e indubitada, e que a uma grande agu- 
deza, e viveza d'imaginação, e a um génio sua- 
ve e alegre juntava uma copia de conhecimen- 
tos era sciencias physico-mathematicas, que di- 
vulgou em Portugal com a mesma fortuna e pelo 
mesmo methodo do celebre abLade NoUet ; me- 
recendo pelo seu amor do próxima, o titulo de 
génio da beneficência. 

O infante D. João, que contava apenas doze 
annos, mostrava aos seus dois amigos d'infan- 
cia Francisco da Cunha e D. Vasco da Camará 
um lindo presente que o embaixador de Fran- 
ça acabava de offertar-lhe da parte de Luiz xv. 
que havia sido seu padrinho de baptismo : e a 
linda infanta D. Marianna Victoria que, com a 
doçura do seu génio, mas não podendo suster 
o riso, narrava á também macia e serena D. 
Maria Joanna de Lima, sua dama camarista, o 
caso tragi-comico e recente do gordo viador D. 
Christovão de Vilhena, e do seu não menos obe- 
so collega D. Tristão da Cunha, que só puxados 
por cordas, poderam sair de uma sege em que 
ficaram enleiados ; d'onde o primeiro veiu a di- 
zer na linguagem burlesca em que fallava : eum 
Tristanis nada. 

N'um grupo de senhoras e homens de ctirte, 
onde já não figurava a discreta e diamantina 
duqueza d'Abrantes, ali supprida pela achacosa 
marqueza de Villa Flor, camareira-mór e aia 
dos príncipes, viam-se também a velha e quasi 
morta marqueza D. Maria Caelana da Cunha. 

via da açafata D. Isabel da (iama, Giera á rainha mSf, áo pro- 
jecto, assim mallogrado, que o marque/, formara, e queria exe- 
cutar de extorquir por surpreza a renuncia dos direitos suce e<- 
sorios da princeza, depoie rainha D. Maria, em favor do sau 
primogénito. 

(1) Ksto principe, que tinha muita alma, foi na sua «dada 
ardente, seduzido pela philantropia romanesca do imperador Jo- 
sé II, que na Àllemanha meridional arremedava o puctu, phRv- 
sopho, maeiru tgiierrvlro Frederica ii. 



o PANORAMA. 



iIIÍ'>''!^|I''^II''I!j':''Tí''''T:í|;m:''''í 




o PANORAMA. 



camareira-mór da rainha mãe ; a viva c desen- 
lasliada dona de honor D. l?nez Breyner, qne, 
para lograr a boa visla da galeria, dizia ao pra- 
senleiro mcstre-sala, qne estava adiante d'ella : 
oh! senhor 1). Anião, ja (pie é d' Almada, passe 
para a onlra banda; D. Mariamia Arriaga, do- 
na da camará mui valida da rainha D. Maria i, 
e pessoa de muito diseerninieuto, e de manei- 
ras polidas, em cuja pousada se juntavam mui- 
tas celebridades poéticas, e, <á moda franceza, 
SC laziíim jogos d'espirito ; a bella c boa aça- 
fata, também valida, D. Bernarda Caupers ; o 
corpulento e vesgo senhor D. João, mordomo-mór 
das duas rainhas, que perguntava ao conde de 
Uezende, capitão da guarda real dos archeiros, 
como iam as coisas, aO que o sabido fazedor de 
equívocos respondia, com um sorriso irónico: 
tslú vae como vossa alteza vè : ao que o sempre 
jovial conde da Ponte, mordomo-mór d'el-rei, 
accrescenlava : ou está parado como aqiielles 
reloífios sem corda, apontando para os quatro 
.Micretarios d'estado, entretidos na contemplação 
de um morcego que andava esvoaçando na sa- 
la , e ao ([uaí o Estacio , e a lambem caturra 
preta anã J). Rosa, com duas grandes canas na 
mão, c não pequeno risco dos lustres e dos qua- 
si tão altos toucados d'esse tempo, davam caça. 

N'uma roda de camaristas e viadores, novos 
e velhos, onde já não avultava oautorisado mar- 
quez d' Alvito, aio do príncipe, vendo-se ainda 
ali a doce e tina expressão da sympathica phy- 
sionomia do nuirquez de Marialva, entre seus 
Ires iilhos os condes de Cantanhede, dos Arcos, 
e dAtalaia, estavam bem assim o ingénuo mar- 
quez de Penalva, cultor das musas, eomarquez 
de Fronteira, que não perdia occasião de dar- 
dejar contra quem estava no poder. 

No meio do salão estava o corpo diplomáti- 
co , no qual tinham havido algumas alterações 
depois do ultimo ajuntamento n'aquelle local. 
Ao estimável cardeal Gonti, homem de cabeça, 
(■ sem pós no cabcllo, tinha suceedido, como 
núncio, o limitado e muito apolvilhado monse- 
nhor Mutti, verdadeira caricatura, que, entre es- 
trondosos espirros exclamava : ai diavolo sia falta 
íjuesla ilinminazzione, cada vez que o lossego- 
so Agostinho José Gomes abria uma porta para 
o jardim, alim de ver se se conservavam acesas 
as luminárias. O nuirquez de Bombelles, novo 
enihaiiador de França , que se assimilhava na 
ligura, na estatura, e nos gestos aquelle prela- 
do, machucava com toda a força as delicadas 
mãos de monsenhor Salema, antigo ministro em 
['rança ; homem brando e que era um tombo de 
a ueciiotas galantes dos salõeídomotejadore egoís- 
ta conde de Maurepas, e da marqueza de Pompa- 
dour. O orgulhoso, e, ainda quando parecia que- 
rer ser civil, descorlez conde Fernan Nunes, que, 
depois da conclusão da paz de ]'ortugal com llc.'-- 
(lanlia, occu])ava o posto d'embaixador de Car- 
los III, desculpava-se com o ducjue de Lafões, 
rlu'gad(( de fresco do seu grato desterro nas cor- 
tes principaes da Europa, de lhe não haver pa- 



gado ainda a sua visita por não ter podido des- 
cobrir a sua morada, ao (juc o du(|iie com a sua 
delicada ironia, respondia : eii mesmo não sei bem 
onde moro, mas é la para diante da Samarita- 
na, e perto do cmbrechado de um santo e de uma 
celha que vende melões. O príncipe BalTadalli. 
ministro de Nápoles, e também recentemente 
chegado a Lisboa, onde brilhava mais pelas suas 
aguas marinhas (jue pelo fogo do seu engenho, 
lallava com o bom c serviçal D. Miguel de Por- 
tugal. Finalmente, o conde Fontana, ministro, 
lambem novo de Sardenha, homem mettidocom- 
sigo, conversava com o elegante e chanceiro 
epicurista Aguillar. 

No lim da sala estavam muitos militares e 
magistrados conspícuos, e não poucas nobreza); 
scientilicas e lillerarias, para as quaes o prin- 
cipe D. José tinha uma decidida inclinação, al- 
phabetíDdo. como el-rei 1). João ii, os nomes 
d'ellas e de todas as outras pessoas eminentes, 
para, cm tenqjo competente, as poder aprovei- 
tar a bem da pátria ; que assim se ensaiava 
aquelle herdeiro presunq)tivo do throno para d 
governo ! AvultaTam entre estas differentes ca- 
pacidades, muitas das quaes dentro em pouco 
mezes formaram a illustre corporação ijue pro- 
vocou, animou, e dirigiu entre nós o moviraei^ 
to intellectual, o áspero e teimoso conde di 
Azambuja, successor do não menos rígido Ma- 
klean no go\erno das armas da corte e pn- 
vincia da Estremadura, e ([ue, recebendo pale 
de um grande incciídio que abrasara o (luaiel 
do regimento de cavallaria de Mcklemborg- 
perguntava em voz grossa, e enfurecido a D. iu- 
tonio d'Almeida Beja, ^^que fora portador diste 
aviso) se se tinham salvado muitos cavallo, ao 
que o capitão respondia : não, senhor, fram 
todos para o inferno. Os marechaes de canq) Bar- 
tholomeu da Costa, homem tah-ntoso, c d tem- 
pera velha, e Luiz Yalleré, summament amá- 
vel e perito, discorriam sobre planos tedenles 
ao grande incremento (jue, graças a amos, en- 
tão tiveram em Portugal as fundições dirtilhe- 
ria, e a arma (jue por cxcellencia se clima en- 
genharia ; ao passo ijue o coronel LuiCla\icr, 
ajudante d'ordens do marcjuez d'.Vn;'ja , era 
o objecto de ditos mui engraçados pia scena 
joco-seria d'este olEcial com um leig torto tão 
bem pintada em quatro decimas por ?eolau To- 
lentino. O (|uasi cego e longe\o chi-eellermor 
do reino António Freire d'Andrade''>iieerraho- 
dcs, a quem o marquez de Fríuitea chamava 
o século ambulante , um dos muitc homens li- 
dos c jucundos de que se perdeu semente, e 
(|ue, terulo sido ministro em lloa. onde fez 
certame de bons ditos com Benoito xiv, e em 
Inglaterra, onde foi mui estima' de Jorge i, 
sendo, sem ([ue se soubesse o píjue. preso na 
torre de Bolem, abraçava a Cnçalo José da 
Silveira Prelo, magistrado instido. de enten- 
dimento repousado . mui pralD "os negócios, 
de são conselho, e que pas.sa> Ii"r ser o men- 
tor de dois minisiros, dizeudi^iK" ao ouvido: r 



o PANORAMA. 



grande canseira, amigo, .ter desasnador de pár- 
eos e teimosos. Junto (i'elles, o gnno e sisiulo 
procurador (i;i coroa João I'creira Uauios. e seu 
nào menos illiístre irmão I). Francisco de Le- 
mos, que acabava de loniar posse do bispado de 
Coimbra, faliavam amigavelmente com o desem- 
bari^ador do paço António Ilcnritiucs da Silvei- 
ra. anti,u'o e mui dislinclo lente da l Diversida- 
de, mas (|ue. pela sua llijura mesquinha, e pe- 
la coroinha (jue' tinha de minorista, foi muitas 
vezes tomado por um sach.rista. N'um firupo de 
ecclesiasticos via-se.o padre António Pereira de 
Figueiredo, delensor acérrimo das liberdades 
gallicanas, e das doutrinas pistnienscs. do que 
algumas pessoas procuravam vãnieule rcmovel-o, 
lallando em assumptos litlorarios com os seus 
antigos collegas o erudito e perseguido António 
Verney, seu irmão Diogo Yerncy, homem de 
critica ajustada, que, possuindo a sciencia. o 
gosto, e ocslyio, concorreu com o seu Verda- 
deiro Metliodo de Estudar para o acordamento 
litterario de Portugal, e jiara debelhir o fatal 
(jongorismo : os eximios philologos António Al- 
ves, António das Neves, José d'Azcvedo, e Fran- 
cisco José Freire, mais conhecido peloanagram- 
ma de Cândido Luzitano e que tanto cooperou 
para a restauração da boa poesia ; e João Faus- 
tino, e\cellente astrónomo, e que foi a primei- 
ra pessoa que fez subir machinas aerostaticas 
n'esta corte. Não longe d'csta fieira de grandes 
sábios fr. Francisco de Sá, serventuário do car- 
go de esmoiei-mor, c que por morle do seu ge- 
ral, em ([uinta-feira santa, mandou dobrar os 
sinos sem badalos, estava, ao que parecia, con- 
versando mui attentamente com D. de S., que, 
u'unui falia que acabava de lazer n'um tribu- 
nal disse que : quando Christo creou o mundo 
/»o: cada coisa em separado para que os homens 
ott não confundissem ; estando também ali co- 
mo interlocutor L. M. de M., o qual, n'uma 
memoria que publicou, refere que: o,v hospitaes 
antes de os haver, eram governados pelos bispos. 
Na sala inimediata 'forrada de seda, e não 
guarnecida de espelhos, como eu por engano 
di.sse,) estavam logo a entrada os nossos bons 
poetas Diniz, Gonzaga, José Basilio da Gama, 
Durão, João Xavier de Mattos, Nicolau Tolen- 
tino, José Anastácio da Cunha, Paulino Cabral. 
Caldas Barbosa, Mathias .Vzedn, Theotonio Go- 
mes de Carvalho, Curvo Semedo, e os dois Ma- 
Ihões, todos os quaes já mencionei e j)intei, fal- 
tando em voz baixa, com muito louvor, de um 
poema heroe-comico intitulado — o Reino da Es- 
tupidez — , e attribuido ao doutor Francisco de 
Mello Franco, ainda estudante, em (lue o autor 
mettia a ridículo as ninharias retrogradas do 
novo reformador e reitor da Universidade de 
Coimbra. Noutro rancho de poetas, via-se Fran- 
cisco Manuel do Nascimento, filho da escola de 
Garção e Diniz, e imbuido no gosto da sabia 
antiguidade, bem que seguisse livremente um 
trilho novo, e que foi o ([ue enire nós mais fi- 
namente entendeu e executou o artificio d"es- 



t\lo a que se deu O nome de harmonia imi- 
tativa : ])oniingos Maximiano Torres, cujas éclo- 
gas rivalisaiu com as de Gesner , não sendo 
as suas cançoMctas, que deixam n'alma um ce- 
co de harmonia, inferiores ás de .Metastasio : 
fr. Joaiiuim Forjaz , engenho livre , que , a 
uma eloquência impetuosa e rica de [jcnsa- 
mentos, e a uma voz insinuante c vigorosa, 
como a dos antigos oradores da Grécia e úc IUh 
ma, juntava a linguagem de unui musa solta e 
independente ; não sendo menos admirável pela 
naturalidade e graça dos seus conceitos, que pe- 
la viveza riquissima dos alTeclos, e pela facili- 
dade da versificação c doçura da rima : monse- 
niior Corrêa de Sá, depois bispo do Porto, cu- 
jas saboridas poesias, (juasi sempre inspiradas pe- 
la jocosa Tiialia, mostravam que o culto das mu- 
sas não é inconciliável com as acções próprias 
de ura pastor em tudo exemplarissimo : fr. Jo- 
sé do Coração de Jesus, não menos sublime 
poeta, em quem brilhavam, como Voltaire disso 
do cardeal Quirini, as três Graça.s de Homero 
e a Graça Divina, soltava mansamente alguns 
soluços pelo injusto degredo do lioraciano An- 
tónio Ribeiro dos Santos, seu mui íie! e ter- 
níssimo amigo: Domingos Monteiro de Albu- 
querque e .\maral, magistrado inteiro, não me- 
nos notável pelos seus conhecimentos jurídi- 
cos, ([ue como poeta, c cujas producções, re- 
passadas de uma meiga ternura, eu que tantas 
vezes lh'as ouvi recitar n'um tom de voz que as 
tornava mais melodiosas e expressivas, folheio 
com o mesmo prazer melancólico com que se des- 
folham as ultimas rosas do verão, e se trilham 
nos bosques as folhas caldas e descoradas no outo- 
no. Junto destas celebridades poéticas estavam 
o padre Braz, que vinha de dar em verso as sua.s 
— Novidades — , que ficaram passando em pro- 
vérbio, e o alto c narigudo prior da Nazareth, 
autor também burlesco do — Palito Métrico — 
ouvindo repelir ao doutor Matta uns versos com- 
postos pelo engraçadamente picante Lobo, pin- 
tando a tormenta (|ue correu, vindo de Salva- 
terra para Lisboa, o doutor Estevão .Manuel Ra- 
poso, versos, (]ue cu sabia e esqueci , e nos 
quaes vinha uma invocação dVste medico da 
camará a Neptuno que acabava assim : 

Lembra-te da minha esposa, 
E vè que tem raposinhos. 

Emtím, na sala hoje chamada do Alenlemim 
peia clarabóia que ali se mandou fazer no tem- 
po da invasão franccza" estavam o moço, e já com 
grandes créditos de scientilico , Luiz António 
Furtado de Mendonça, depois visconde e conde 
de Barbacena, doutor cm leis c em philoso- 
pbia, e primeiro secretario da Academia Real 
das Sciencias de Lisboa, discursando, com o ta- 
lentoso, cncyclopedico, e algum tanto descon- 
fiado José Corrêa da Serra , que lhe succe- 
deu n'aquelle cargo, c com .Vlexandre .\nto- 
nio das Neves , douto c jovial demonstrador 



% 



o FâNOBAMá. 



de historia natural e physica experimeatal, e 
o sábio natiirailí-ta Yandelli, sobre a nova no- 
menclatura barbaro-inintelligivel com que os 
francezes tinham, por me servir da phrase de 
um homem de génio, abarrotado a sua lingua- 
gem scientifica nos livros de medicina, chymi- 
ca, e historia natural : e, chegando-se a estes 
quatro homens um, então mui influente, que 
lhes fallou na conveniência de se fazer uma 
plantação de chá na serra da Arrábida : eu, por 
mim. respondeu Alexandre António das Neves, 
alludindo á falta de cuidado em promover a cul- 
tura do trigo, digo que, antes do chá, devem vir 
a^ fatias. N*uni circulo de frades, formadojun- 
to ao corredor ([ue cummunica com a capella, 
viam-se fr. José da Rocha, dominico fino e que 
tinha predomínio no arcebispo de Thessalonica; 
o bom conversador e estimável nery padre Bo- 
nifácio Ferreira , confessor da senhora infan- 
ta D. Marianna ; o cruzio D. Thomaz da Vir- 
sem, professor de philosophia no collegio de 
Mafra ; o menos agudo grillo fr. José da Con- 
solação a quem, materialmente fallando, cha- 
mavam cabeça de santo Athanazio ; o manso e 
instruído capucho fr. Sebastião de Santo Antó- 
nio ; o grande cometa loyo António Pinto, de- 
pois cónego de Braga e atacado de um grande 
fastio ; fr. António Forjaz, graciano, que não ti- 
nha as graças oratórias e poéticas de seu confra- 
de e irmão fr. Joaquim ; fr. José de Moraes, 
bernardo de muito tino ; o douto benedictino fr. 
José de Santa Escholastica ; e fr. Alexandre Fa- 
lhares, franciscano bem fallante apesar de lhe 
tardar a falia, ouviam, com riso amarello, um 
soneto de Paulino Cabral satyrisando as corpo- 
rações a que aquelles religiosos pertenciam, e 
que o singelíssimo ex-jesuita, e pouco feliz hy- 
draalico, Estevão Cabral lhes repetia. (1) 

N'um grande grupo em que se distinguiam 
Joaíjuim Ignacio da Cruz, thesoureiro mor do 
erário, homem talhado para merecidamente oo- 
nipar maiores empregos, seu irmão Anselmo 
José da Cruz, alma grande em corpo peque- 
no, os lentes Paschoal José de Mello Freire, 
contra cujo compendio de direito pátrio se ti- 
nha levantado um grande partido, e Manuel 
Paes de Aragão, ou Dragão Trigoso, como lhe 
chamavam os estudantes para pintar o seu sem- 
blante que não devia nada á formosura e a sua 
CKcessiva severidade ; e José Ricalde Pereira de 
Castro, a (]uem o moço conde de Tarouca per- 
guntou como anda? ao (jue elle sempre de bom 
humor, respondeu : para diante ; tornou-lhe o 
conde : pois não é pouca luihilidade, em qitem 
figurou tanto no antecedente reinado, ir tam- 
liein neste avante, quando mttros que estavam 
nas mesmas circunstancias tem desandado oupei'- 

(1) l'ar;i comprovar a singclM» do padre Estovão Cabral bas- 
tara riizrr que, (juvindo ellc cuiilar a senhora I), Marianna Vi- 
«Iciria n'oni sercnim i]ue liouve no paço da Ajuda, virou->o pa- 
ia I). LutiiiiGiovini, dizendo em yoi alta, o em ar de quem fa- 
lia nm cumprimenlo :=.a rainlia eania mal, mus «desafina- 
da, =o que exeilou o riso d'esla prjnccía c do Ioda a compa- 
«liia. 



dido trilho. Viam-se também na meema sa- 
la, entre outros artistas, o velho Francisco 
Vieira, melhor pintor que poeta, e condeco- 
rado com o habito de S. Thiago que trazia 
dentro de uma concha, queixando-se ao gordo 
e jocoso leigo marianno fr. Bernardo, denomi- 
nado bispo de Saragoça, e mui estimado do ar- 
cebispo inquisidor geral, de que o santo ofBcio 
não deixasse passar um trecho da vida, que el- 
le compozera em verso e queria imprimir, de 
sua adorada e fallecida esposa ; achando-sc 
também ali Pedro Alexandrino de Carvalho , 
que pintara os retabolos dos tros altares da ca- 
pella de Queluz ; Parodi, que fizera os retratos 
mui parecidos de um grande numero de pessoas 
da corte, e Luciano José dos Santos, João de 
Sousa de Carvalho, e António Leal Moreira, ex- 
cellentes compositores de musica. 

A um signal dado por Pedro José da Silva 
Botelho, director dos theatros reaes, abriram-se 
as portas para o corredor em que está a escada 
que conduzia ao antigo theatro no mesmo local 
onde se construiu o quarto alto de que fallei, c 
que habitou a rainha D. Maria i depois de viu- 
va ; indo toda a corte assistir á representação 
do drama intitulíido — La Galatéa — compos- 
to por Mctastasio, posto em musica por António 
da Silva, e executado sob a direcção de João 
Cordeiro, pelos excellentes cantores recem-che- 
gados d'Italia José Orti, Luiz Torriani, José 
Romanini, e Violani que cantou primorosamente 
a bella ária da scena final — Ah! taci Alcide 
amato — , depois da qual houve uma dança da 
composição de Alberti, chamado il Tedeschino; 
terminando a funcção por um vistosíssimo fogo 
de artificio. 

M.IROl'^^ DE BcZEfiDC 



EClNOmiA RURAL. 

Em 08 periódicos agrícolas, publicado» em 
Buda (Hungria), inseriu-se um artigo assignado 
por Jatschka, em que este recommenda que se 
faça a poda das cepas no outono, cm v* de ser 
feita na primavera. 

Em um vinhedo das cercanias da dita cida- 
de (diz o artigo) fcz-se o respectivo ensaio, po- 
dando-se metade das cepas no outono, c a ©a- 
tra metade na próxima primavera. 

Aflirma o referido Jatschka que as primeiras 
rebentaram muitos dias antes das segundas ; 
resultando ainda o beneficio d'uma baixa nos 
jornaes, que são mais modieosi no outono do que 
na primavera. 



Ao artigo, que inserimos do sr. maripiez de 
Rezenife, pertence uma gravura que representa 
o palácio de Queluz, a qual não ])odemos pu- 
blicar neste nvimero, o que faremos «o inime- 
dialo. 



o PAfie&AMA. 



«t 




i:y|rl:iL;iÍl 



C' 



dilÉtíiiiiiiiJiiiijjíili 



TOL. !. í.' SERI6. 



a?n!!fiO. 1", 1-SS7. 



IO 



o PANORAMA. 



o COLLEGIO DOS NOBRES EM MOSCOW. 

Do alto (la torre th; Ivan-Vclilvi no Kremlin 
a vista tle Moscow, dilatada eomo a de Uonia 
pela- riirostas e faldas de muitas collinas, apre- 
senta um aspeeto (pie a imaginarão engrande- 
fe. Os tectos das casas não são de telhas, de 
lousa, de colmo, ou de taboas, nem de outra 
(pialíjuer matéria empregada nos demais paizes; 
são todos de chapas de lerro e pintados ou de 
vernu'llio escuro ou de verde carregado; e este 
contraste de duas cures fortes misturadas con- 
fusamente é salpicado em todas as direcções e 
|)or assim dizer esmaltado de zimbórios, coru- 
(rhôos, e campanários de innumcraveis ogrejas. 

Nem a grande Córdova dos árabes, segundo 
i,jlTez mentiam os seus geographos, (jue conti- 
uha duzentas mil casas e com ellas seiscentas 
inesíiuitas, cincoenta bospitaes, oitocentas esco- 
las publicas, e nove(;entos banhos, tinha com- 
para(;ão com Moscow, na (piautidade de edili- 
cios destinados ao culto. 

Em eras antigas dizia-se proverbialmente que 
Moscow possuía cjuarenta vezes (juarenta cgre- 
jas : os incêndios, e as difiereníes occasiõcs em 
i|ue foi tomada de assalto, juntamente com a 
ac(;ão destruidora do tempo, aniquilaram boa 
por(;ão ; mas, ainda lhe restam muitas c algu- 
mas reconstruídas, porque esta cidade é consi- 
derada santa pelos scismaticos gregos como os 
catbolicos reputam Roma. Cumpre notar que a 
maioria d'essas egrejas, que ainda agora se con- 
tam em numero de novecentas, são apenas ca- 
pellás de diíVereníes formas, constvuidas no es- 
Jvlo e gosto byzantinn e asiático, e somente me- 
rece especial menção a vasta e magnifica egreja 
de S. Basilio, de arcbitec^ura gotbica. 

Enire os edifícios modernos considera-se nm 
lios mais elegantes o que foi palácio da família 
1'ashkon', cedido á corita pelos .seus proprietá- 
rios, (! (jue os soberanos converteram no gyni- 
nasío oueollegío dos nobres, para educação dos 
mancebos das classes bíerarchicas do império. 
É a obra que no gosto moderno tem a priniazia 
de mais perfeita na antiga capital da Rússia, 
cdiuo a representa na fachada exterior a estam- 
pa ([ue rein'oíhizíinos no passailo iiininM-o. 



viN(i\\c\ POR víxc.am:\. 



N \ um; ir, ^. 

Era em iiina das frias e chuvosas tardes de 
.laneiro do anno de lOSO. !N'uma casa cerca a 
Porta (lo Áreo da (jruça (pouco antes conheci- 
da pela Poria tiarua da Péla, at(! que cmlOoT 
abi, n'um grande oratório, se coUocou a ima- 
gem de .Ad-ssu Scnlioru da Graça) mesmo no 
iransito para o co!l"gio ile Santo .Vntão, aclia- 



vam-se reunidas, junto a um brasido, quatro 
pessoas que compunham toda a familia de Al- 
donsa l'eres, viuva de um honrado mercador. 
<|ue juntara sua fortuna no trato das índias. 

.\ldonsa Peres liava a sua teia, occupaçãoem 
(|ue nem um único dia deixava de pijr mão, a- 
fora os santilicados ; pois n'cste caso incorreria 
de certo nas censuras do seu confessor, c aquel- 
la boa dona, temente a Deus como era, nem 
por lodo o cabedal (jiie possuía (e na cidades? 
dizia que não era pouco) (|neria levar aos pés 
do paílre mestre Gaspar a confissão de similbau- 
te peccado num dia consagrado ao Senhor. 

Beatriz, sua filha, donzeila de dezesete ân- 
uos, e uníca herdeira da fortuna de seus pães. 
lia em voz alta um livro de devoção (jue o pa- 
dre mestre, havia três dias, lhe dera para eii- 
Iretenímenlo do espírito e purificação da alma. 

Sandia, criada antiga, e tão antiga que já o 
fÒTà dá mãe de Aldonsa — e vira nascer esta e 
viera com ella para sua casa — sendo por isso 
tratada por Beatriz com as attenções de avó — 
passa\a vagiirosamente por entre os rugosos de- 
dos as coutas de um grosso rosário, que fijra 
benzido em Roma, e' mandado com outros pelo 
geral da ordem da Companhia de .lesus aos pa- 
dres do collegio de Santo Antão, para presente 
de consoadas aiiiielias que se dísliiiguissem por 
actos de virtude, e amor á ordem. 

Maríanna, moça (|uasi da edade de Beatriz, 
recolhida n'aquel!a habitação desde que aos se- 
le annos ficara orphã, remendava um gibão de 
baeta amarella, com que a velha Sancha se cos- 
liinuna abafar. 

Tal o quadro ijue r(ípentínamenle havia ferir 
os olhos de quem entrasse em casa de Aldonsa 
Peres, no momento em ijue princij)iámos a des- 
crever as personagens da nossa historia. 

Mas se acaso o espectador se demorasse nm 
pouco mais, conheceria logo ([ue algumas d'el- 
las nem todos os sentidos tinham empregados na 
sua occupação. A viuva parava um pouco com 
o liado, para fazer n^pelír á lilba uma phrase 
mal percebida; e Sancha, cruzada no chão, dei- 
\ava jiender a cabeça com a somnolencia [)ro- 
pria da sua a\an(;ada edade, e mais duas ou 
três contas lhe escorrega\am |)elos dedos, alem 
ilaquella que devia passar. Por í.sso a obra das 
duas velhas não avançava — a da primeira peia 
freíjuencia das interrupções — a da segunda, 
poi-íliie ao estremunhar, olhava para a mão em 
([lie linha o rosário, e conhecia (pie não ia tão 
avançada no mnsleriíi, c fazia recuar não s()as 
contas fugitivas, mas, por cautela, mais duas 
011 três, para (lue chegado o offerecimeiíln, não 
liie faltasse um Padre Xo.^so ou uma \ve-}fa- 
ria. antes sohcjasseni. 

Datiiii julgará o leitor (\m as únicas absor- 
vidas na tarefa eram a ([iie lia, ca (jue remen- 
dava ! . . . . De certo ipie não. As cdades eram 
curtas de mais para uma e outra se entreterem 
assim ; e por isso não deve admirar-se, dizendo- 
lln,' que Beatriz erguia a miúdo a vista de so- 



o PANORAMA. 



ff 



bro o Iínto para a dirijíir á poria como ijuorn j X'esso momento um reianipafço ^luii vivo, que 
esperava ali;iu'iii ; «' Mariaiiiia, Irocando com pareceu incendiar a casa, neguido iniiiuvliala- 



cila olhares de iiiteliiiiciicia, dei\a\a a aiiiillia 
lueliida 110 reuieiuid, uru ]iara elieiíar a jiuieila i 
a ver se a a^iia. <iiie caia dn eco. ja eucliia o 
alitiiidar que liniui posto lora da poria, ora pa- ! 
ra perguntar a Saucha. se aciuellas rajadas de 
wiito. que se repetiam iiicessanleiíieiite, seriam ^ 
indicio de trovoada. 

Era ja a sexta vez «iiie lai períiunla inter- 



rompia a liealiíica somiioleiíeiii da \e!lia 
qual acabava de responder, resmungando. — que 
se confiasse tMU Deus, pois não ha\ia tal peri- 
,uo — quando repentinamente o clarão de um 
relainpafio esclareceu a casa. e dahi a seis se- 
gundos uni lro\ão se deixou sentir ; indicio cer- 
to, pelo tempo que mediou entre o raio eolro- 
\ão, de t|ue a troxoada se adiava a seiscentas 



mente de um espantoso tro\ão — indicio de. ((ue 
a trovoada paira\a sobre aiiiielie logar — c o 
cheiro Iituri\el de enxoíre. ilerani a percelier 
(jue a matéria igiiea cairá mui perto d ali. 

Não de\emos adinirar-nos que ellas, fracas 
mulheres, se aterrassem tauto com esle pheno- 
meiío eléctrico, ([uaiido xcmos inuilos homens 
possiiidiís do mesmo terror sii|)ersti(ioso. l lua 



ij ninem cheia de matéria eleclrica. jiosla cmai- 
ção, encontra oulra que o não esla, ou esta me- 
nos carregada. Foriiiam-se iminedialaniente duas 
correntes, uma eílluente, outra alHiiente (|ue se 
ciicíuitraiii. se chocam, e acendem Iodas as uia- 
lerias inllanuiiaveis. e ([ue se abrem pas^agru;. 
.Sua iiii[ieliiosidade, junla a acção da chaiiuiia. 
produz 110 ar que as cerca uma agitação rapi- 



toezas d'a(iuclle local. Porém as boas mulheres j da. l)'a(iui provém a explosão. Um fragor que 

todas as nuvens visinhas e todos os eccos repe- 
tem, faz-se então ou\ir. Levanta-se um veiilo 
impetuoso (jiie dura pouco, c os vapores re- 
uneiu-se, e caem em golas sobre a terra. 

Porem não damos atjui jirelecções de phvsi- 
ca, e pnisigamos cm o nosso couto. 

As mulheres licaram como jietrilicadas, sem 

poderem soltar uma palavra. Marianna larg(jii 

10 oratório e acende o cirio da iil-| das mãos a campainha de S. Jeronymo (jiie ki- 

1 santa.. . . (Jlha ; Iraz lambem a | lou pelo snhrado dando um som agudo; elairi- 



que não eram melhores mathematicas de que o 
acabamos de \ev na avo Sancha, logo ao re- 
lâmpago sdltaram uni eslremecedor AiJe.su>;.' 
([iw e a chrislã imocaçãn em todos os momeií- 
los de agonia, e ao lro\ão cairain ajoelhadas 
repetindo a Maíjui ficai. 

\o lerminal-a. disse Aldoiisu Peres para a 
criada : 

— Corre 
tinia seniai 



caldeirinha da agua benla, que o padre mestre i bem a caldeirinlia de agua benta, que toda s« 
Gaspar nos enxiou sabbado de Alleluia, eopal-, e.\tra\asou. 
milo santo que hii benzido no domingo de Ha 



mos : 

A moça crgiieu-se toda tremula, e bem a 
medo se dirigia a cumprir as ordens da ama, 
pois os relâmpagos e trovões succediam-se en- 
curtando rapidameule o intervallo. ([uando San- 
cha lhe bradou : 

— Não te esqueças de \ir langendo a cam- 
painha do senhor S. .ieronxmo. 



E a poria da rua abriu-se como a impulsos 
da rajada do vculo 1 

Não o foi. Era o eITeito natural da entrada 
de um homem. 

Ao \el-o, Beatriz correu para elle, com uni 
sorriso lios lábios, e alegria nos olhos. 

— Senhora da Piedade! Como vens, j>ritiio ! 
.V agua escorre por todos os lados! Estás uuiis 
remolliado que uniu sopa bem embebida ! 

E a douzella loi íijudaudo-llic adespirocom- 



• Beatriz, continuou Aldonsa Peres voltan- 
do-se para a lilha, lè-nos as orações de Santa i prido ferragonho ([ue cobria o mancebo desde h 
Barbara. ! cabeça até aos pés. 

A lilha le\anlou-se leiílameule. e com osolhos i Era ver a alegria com (lue ella acolhia aquel- 
ergiiidiis para o ceo. coiiki (|ueiii jiniciirava nCl- le homem, cuja entrada hha tão brusca, ca 
le um lenitivo á alma que esta afflicia. foi bus- chegada era o termo de um turbilhão de pcn- 
car a uma arca o pedido li\ riuho, i; <'oni bas- i samenlos, de uma inlinidade de preces que a 
tante fé principiou a sua leitura. ! donzella dirigira do intimo do coração, sem que 

os lábios o signilicassem, n'aquclla meia hora 



Terminadas as orações disse Beatriz : 

— Madre minha, rezemos um Padre .Yovvo 
por aquelles que andain a estas horas fora de 
suas casas. 

— E uma Áce-Aíaria pelos (juc se acham so- 
J)r(' as ondas do mar, que assim fazia eu quan- 
do teu padre, que Deus tenha sua alma no ceo. 
andava no trato das Índias. 

— E iimVi/íí/íu Piílri. accrescentou Sancha, 
em louvor de Deus, que se digna livrar os in- 
fleis também deste perigo. 

Acabavam as mulheres suas devoções, quan- 
do .Marianna volvia com o ramo e a caldeiri- 
nha de agua benla na mão csíiuerda e agitava 
ua direita a campainha de S. Jeronymo. 



decorrida desde que princqnamos a nossa nar- 
ração. 

— Não ou\isle aqnelle medonho trovão? Não 
viste aqiiclle terrivel raio, que necessariamente 
havia <air aiiui mui cerca ! . . . Porque le não 
acolheste a alguuui pousada apenas principiou a 
chu\ii?. . . Para (lue le cxpozesle assim a este 
desabrido temporal?.. . Tudo por nossa causa, 
Simão ! . . . Tudo por nós, madre minha ! . . . . 
Olhe como elle vem Ião frio I... Esta gelado!... 
Chega-tc aqui para o brazeiro. . . Anda, Sinua» 
Uodrigues. . . anda. . . que nos hasdc dar assim 
desgosto. . . 

£ Beatriz coiiliniiaria por longas horas suas 



IS 



o FÂNORÂfflÂ. 



amargas rej)rehensões, nas quaes tomava de 
certo maior parte o coração do que os lábios, 
se acaso Aldoiisa Peres não a interrompesse, di- 
zendo : 

— Simão, desembaraça-le d'essa louquinha, 
e chega-te a mim para que te abençoe. 

O reccm-chegado tinha abraçado sua prima, 
e impresso, ás furtivas, um osculo n'aquella cas- 
ta Ironte, quando resoaram as palavras de sua 
tia. Dirigi u-se para ella, com o ar iiumilde e res- 
peitoso de quem sempre a reconiiecera como se- 
gunda mãe, e ajoelhando beijara-lhe a mão. 

— Senta-te, tilho, disse a boa velha. Não ur- 
gia tanto o negocio ([ue viesses por este mau 
tempo. 

— Louvado Deus, para lhe trazer uma feliz 
nova, não haveria tempestade que me detives- 
se. O mercador saldou sua conta, e não con- 
tando a ganância d'ellc, ainda temos tudo isto. 

E metiendo a mão nos bolsos, d'clles saccou 
uma boa porção de cruzados que entregou a sua 
tia. 

Foi n'csta occasião que a avó Sancha, reco- 
brada do susto que lhe incutira o raio, pareceu 
acordar ao tinir d'aquelle metal. Olhou estupe- 
íacta para Simão, e com a tontice da cdade lhe 
perguntou : 

— Pois o raio não o feriu ! 

— Tão são e escorreito como me vedes, avó- 
sinha ! Não digo que não tivesse um deslum- 
bramento ao penetrar na casa, vendo o raio cair 
alii na cerca do collcgio de Santo Antão ; po- 
rém havia em mim uma fé e uma esperança de 
que d'este limiar a deutro eucontrar-me-hia a 
porto e salvamento. 

Estas palavras foram ditas fitando os olhos 
uos de sua prima. 

— Era porque nós, atalhou Marianna, orá- 
vamos por vós, sr Sinulo. 

— Bem o creio. 

E novamente olhou para Beatriz. 

— E deveis crcl-o, accrescentoÈi sua tia. Ahi 
«stá entornada sobre esse sobrado toda a agua 
benta (|ue havia em rasa. Diz o padre mestra 
Gaspar que a agua benta purilica, e não deixa 
penetrar o demónio onde ella existe. 

— ^Por isso Deus nos mandou o nosso anjo, 
accrescputou sua prima. 

— «Sejas lou\a(la, gloriosa Senhora, e por 
lodos amada e glorilicada, assim na terra co- 
mo no ceo » — resmungou a velha Sancha, of- 
ferecendo o .seu rosário, cujo ultimo Gloria Pa- 
tri dos Mystcriox Glorioaoti acabava de repe- 
lir. 

— Então o raio caiu na cerca do collegio, sr. 



Simão? 



perg 



untou Mariauna. 



— Como o estou dizendo. Levantava a aldra- 
ba da porta, (juando uma chamma brilhante e 
viva, rasgaiulo o ceo, pareceu prendal-o á ter- 
ra n'uuui lita de fogo, tão ondulante ((ue me 
fez doer os olhos. Tive unicamente tempo de 
pestanejar, e quando os reabri, o ceo estava 
neg^io e cerrado como um pego, o vento sopra- 



va com espantosa violência, c o cheiro de e«- 
xofre era de suflocar. 

— <( Mas livrae-nos sempre de todos os peri- 
gos, o Virgem gloriosa e bemdita » — repetiu 
Sancha em voz alta, pois neste momento esta- 
va acabando a Ladainha de Nosxa Senhora. 

— É preciso, SIarianna, i]ue amanhã bem ce- 
do se mande saber do padre mestre. Com que 
susto não estará aquella alminha deDeuseain- 
do-lhe o raio mesmo no collegio. 

— Porém, madre minha, interrompeu Bea- 
triz, que vontade de comer não terá Simão, 
que desde as dez da manhã anda conendo seca 
e meça por nossa causa ! . . . . Se me dá lioen- 
ça ? . . . 

E a donzella fitou os olhos no chão. 

— Sim... Sim. O pão está na arca, e no bu- 
fete esta guardada a vianda. . . Vae, Simão, 
vae, que bem precisas refazer-le. . . Como es- 
quecida sou do que primeiro me devia lembrar I 
Se o padre Gaspar soubera que a troco d'este 
dinheiro me deslembrei de cumprir a primeira 
obra de misericórdia !... e de mais a mais sen- 
do parente meu !... 

— (' Derramae sobre miui. Deus meu, vossu 
grande misericórdia » — atalhou a avo nas sua- 
supplicas pedindo perdão a Deus. 

Beatriz e Simão não esporaram se lhe repe- 
tis.^e a ordem. A j)rimcira, lançando meigamen- 
te o braço por cima do liombro de seu primo : 

— Vem, Simão, lhe disse. Já basta detealá- 
digares hoje por nossa causa. Em soando a* 
Trindades iras a rua dos Mercadores fechar a 
nossa loja, e depois te recolheras a casa da tia. 
Até então és nosso, para dar tempo a passar a 
chuva. Amanhã. . . 

iNào se ouviu o resto, (pie, assim fallando, 
ambos linliam entrado na casa de jantar. 

— Ide, meus filhos, disse Aldoiisa Peres, re- 
vendo-se naquelles dois pedaços da sua alma. 
porque uma era lilha das suas entranhas, e o 
outro seu alilhado de baptismo, e de todos os 
seus sobrinhos o mais ([uerido : ide, e que No.s- 
sa Senhora da* Virtudes vos laça dignos um 
du outro. 

E lhes resou nas cosias um Credo em cruz, 
eomo presagio de prosperas venturas, e para 
Deus os livrar das tentações do demónio. 

No entanto, Marianna. mais trauíiuilla, con- 
tinuava a remendar ogibãn da avo Sinuha, sem 
lhe importar j;i com o alguidar, que eslava tra.>^- 
bordando dagua. 

Sancha, que acabara as suas orações, estava 
novamente immergida u'a(iuella siuniioloncia. 
que de tempos a tempos intcrríuiqiia para mas- 
tigar as primeiras palavras da oração domini- 
cal. 

E a trovoada- ia correndo para Ião longe, que 
já os ouvidos a custo apercebiam o ribombo dos 
trovões. 



Continua. 



o PANORAMA. 



14 



DILUVIO DE LUZ. 



"Vosavi. o( renuislis : cxiendi maouin 
unam. et non fait qui aspicorol 

nDc>pexi»lis omne oonjiliiim meum, cl 
increpationes raeas neglexislis.» 

PnavKR— I, íi-SS. 

«E que diluvio de mnitas ajjua? é oslc? 
£ a multidão de aCQicçAes.cangusIiaf. que 
naquella hora como um diluvio afopam o 
coração dos que je (ruardarara para ella. . . 
naquelle tropel, e tumulto de cuidados, de 
aflectos,de dores, de penas, de temores, de 
irrcsoluções. de afsombros, e naquelle ver- 
dadeiramente diluvio de anciaj, e angus- 
tias mortaes, opprimidu. e afogado o ho- 
mem destro, e (ura de si mesmo, nenhum 
haverá que lenha forcas, ou tino para na- 
dar á Arca da salvação e nenhum que te 
po»^a chegar a Deus, ainda que quizesse.» 
YiEiii — Sermões, vi pabte, g 31!. 



1 



1'oiico mais de qualro mil e duzento-s annos ha, 
, ic se deu na terra um estranho espectáculo. Nu- 
vem espessa involveii e toucou uma altíssima 
montanha, e (igura extraordinária surgiu do meio 

'■lia, com semblante entre magoado e triste. 
Hicoando em todo o mundo, sua voz, acompa- 
nhada duma orciíestra solemne de raios e tro- 
vões, declamou assim: 

«Terra! As tuas iniquidades chamaram sobre 

o açoite do ceo I 

' Eu suspiro e gemo coni amargura do meu 
(r-^pirito. Como o mar grande é o meu de.sfalle- 
i mento ! 

■ A ingratidão derramou-se em todos os cora- 

'■s. O rancor de Salanaz não respeitou o ho- 
uif m leitura do Eterno ! 

«Possessos levantaram a espada sobre os que 
loram sempre presentes aos olhos de Deus. E cas- 
ligaraui-nos. E o sacerdote e o propheta foram 
mortos no santuário^ E as solemnidades ermas. 
E a lei suprema rota e calcada aos pt>i pelos en- 
demoninhados ! 

-Vassallos possuem o mundo e se tem enri- 
quecido n'elle. O Terdadeiro po\o de Deus men- 
diga o pão, morre sequioso de justiça. 

"Boas e más doutrinas cresceram a par. IToje 
não ha quem extreme a boa da ma semente I 

aDa má, digo eu, o que um dia se dirá dum 
templo da terra : não ficará aqui pedra sobre pe- 
dra, que não seja derribada! 

"Os primeiros de hoje serão dentro em pouco 
os iritimos e os servos : as mas hervas cortadas 
pela raiz ; a eira limpa : o trigo recolhido no ce- 
leiro ; mas as palhas queimadas em fogo que ja- 
mais se apagará. 

'(Filhos das trevas! O Senhor vae levantar-se 
contra vós, pela multidão de vossos crimes ! 

Essa mancha caligisosa. que poderá delil-a? 
O mármore, de que a cegueira e a baixeza vos 
lizerani estatuas, já presente destruição e sua de 
vergonha ! 

"Tocastes o termo da maldade. Também vos 
chegara o cálix. Sereis deile embriagados e se- 
reis despidos ! 



« Recebereis o pago como merecem a obra< 
de Tossas mãos ! 

«O Senhor vos perseguira no seu luror. e ta- 
ra po debaixo dos ceos ! 

«Não pôde a razão por si so trazer a concer- 
to os membros desconjuntados. ílade o castigo e a 
destruição ser escarmento e vindima dos maus I 

"O tempo está próximo. Filhos das trevas, .<!« 
sois justos como Noé. aparciJuie uma arca e sal- 
vae-vos do cataclismo, que ja assoma no hori- 
sonte. e vos inclina a fronte para o nada! 

"Depois vira o diit do liiumpho. e o reinado 
da justiça ! » 

II 

Parte do annuncio sobrehumano cumpriu-se. 
Pouco depois só o disco luminoso do raio corta- 
va a escuridão pavorosa. A todos faltam as for- 
ças. A vista causada em vão corre cm torno. Fe- 
chada em estreito horisonle só acha ceo bronzea- 
do que ameaça morte, serras d"espuma, escar- 
ceos ([ue sobem do abysmo, e borrifam tudo com 
o rocio salgado. Nem vento amigo, que abran- 
de as torrentes de chuva incessante ! Para casti- 
go da raça humana abrem-se as cataratas do ceo. 
rompem-se as matrizes do grande abysmo ! Ao 
abrir das nuvens e desentranhar das aguas, rís- 
pido fragor retumba nos ares ! Escurecidos sol 
e lua, pareciam cair do lirmamento as estrellas. 
e linar-se toda a edade corrupta. 

O successo é solemne. O premio ou o castigo 
pendem sobre todas as cabeças : feito será da< 
que não tiveram o refugio da consciência. A ul- 
tima hora aproxíma-se. 

Assim passam os primeiros dias dalHicção. Os 
precursores do cataclismo e da confusão derara- 
se. Muitos vieram falsamente em nome do Se- 
nhor. Ouviram-se guerras e rumores de guer- 
ras. Nações e reinos se levantaram entre si. La- 
vraram pestes, fomes, e terremotos. Pela verda- 
de havia attribulados e mortos ; aborrecidos, es- 
candalisados, e entregues por traição. A iniqui- 
dade multiplicara-se: a caridade resfriara. So a 
liberdade, a innata tendência civilisadora do.« 
povos, não podia perecer ali. porque ijuasi neiu 
era conhecida. Fora sempre perseguida e acuti- 
lada, como Pedro acutílou Malco. porque era o 
que levava a luz. o único que então luzia, de 
quantos invadiam o Horto. 

A inundação cresce como phantasma gigante! 
A trombeta fatal a todos assigna o tíírmo da exi»- 
tcncia. Repercute na densa escuridade que ce- 
ga, nas nuvens que de si escorrem mares, nas 
névoas que embriagam. 

Sombras fecham o firmamento. Sol e estrellas 
estão encobertos para sempre. Passageiro relâm- 
pago lampeja nesta scena de terrores. Os raios 
são fanaes, que rasgando os ares alumiam e.sle 
espectáculo de tremenda destruição. 

Quanto havia nos plainos tudo desappareceu 
já. Tufões negros derrancam quanto ha nas nioB- 
tanhas ; levam tudo aos ares em medonho rodo- 
pio, brincam com moles immensas, como agita» 



14 



o PANORAMA. 



ti baralham no espaço as Tolhas seccas do estio, 
L- cm \orli(e rápido mandam liiilo ao abysmo. 

O mar lomiR' seus diquos. As fontes conver- 
tcm-sc em torrentes. São mares os rios; trasbor- 
ilam furibundos, cspraiam-se pelos campos, tu- 
do derribam e arrebatam. Plantas, gados, gen- 
tes, habitações, que é feito delles? Terra e mar 
jii tudo se confunde. Tudo e mar. O mar já não 
tem praias. Poucos já restam. Que foi feito de 
pacs c irmãos? Também dentro cm pouco lhes 
«liegará a hora da contusão e do naufrágio. Tu- 
ilo vae perecer n'esse lago infindo. 

Soberbas torres de mármore tremem, e rotas 
<■ aluidas caem nas ondas. Campos, (jue e de 
>os? Trabalham remos onde ate aqui puxavam 
a ciiarrua. Bóiam embarcações desniantelladas 
sol)rc campos de messes, e aldèas subvertidas. 
Bos(|ues e edilicios tudo lá jaz. Até rochas es- 
carpadas combatidas das vagas se despenham no 
|)elago. Ja torreões de espuma cobrem as serras. 
Aii ondas Ircmem nos mais fragosos picos. Vagas 
medonhas alumiadas pelos raios sobem ate ao cu- 
me das cordilheiras. Cada uma rola comsigo mi- 
lhões de cadáveres. Os fugitivos, que vão de praia 
em ]iraia sem descanso, são airopellados pelos 
mortos. Ouando os infelizes crêem ter con(iuis- 
lado um refugio, as ondas galgam mais ligeiras 
do ([ue elles e lh'o disputam. 

Gritos d'aniicção e brados lastimosos eccoam 
nos ares. São das victimas. Na maior agitação 
e agonia trepam em vão por nuintes alcantila- 
dos, .lá não ha refugio. A onda (|ue alaga os pes 
p a tumba que conduz ao eterno jazigo. 

Uetumbam insólitos lamentos. Que horror! .\ 
rocha, recamada de gente espavorida, vacilla eiu 
seus fundamentos, despega-se e desapparece. 

O lilho, que buscava salvar o jiae moribun- 
do, lá escorrega. Absorve-o a torrente caudal. 
A pobre mãe ja não pode subir a escarpa do ro- 
chedo, e vai! angmentar por sua vez o numero 
das ^icliluas. Os tilhinhos, a quem poucos mo- 
uientos já resla de ^ida, soltam medonhos gemi- 
dos. Transidos d<' terror ainda estendem os brn- 
cinhos nus. Mas o eco feilo bronze, lorrado de 
utivens desapiedadas não os ouve, abandona-os. 
ensurdeceu aos clamores dos innocentinhos. Nem 
barca nem oiteiro pod(! .salval-os. 

Já para as a\es, (|ue es^oaçam anciadas, nãa 
ha terra em que descansem o \i)o. Etbauslas de 
forças caem iiagiia e ali acabam. Que íarão ja 
agora os poucos homens (pie ainda restam, quan- 
do a águia succumbe? Lobo e ovelhas ahi an- 
dam juntos. Por sobn' os mares bóiam leões e 
l\grcs. Toda a huiiiiiniilade jierece. Toda a ter- 
ra \ae jazer alagada para alogar a ma sem(;nle, 
que só por no\a c melhor sementeira pode o mun- 
do regencrar-se ! 

Tudo pereceu ! Não ha em ioda a natureza 
sigilai de \ida! So a grande arca de madeira 
que guarda as rcli(|uias das espécies, bóia agi- 
tada por sobre o cataclismo! 

Continua. Jost uh Tobkes. 



O ESCRAVO BRANCO. 

Quem nunca saiu da terra 
(Jnde lhe coube nascer. 
Não sabe o (jue são saudades 
Que a alma pode conter! 
Da nossa pátria a lembrança, 
Vte a fe em Deus cansa, 
Quando nos morre a esp'rança 
l>c lornal-a ainda a ver. 

Eu nasci longe d'aqui, 
K do meu soío natal 
Trou\eram-me as ambições 
\ este imjierio real : 
Império ijue no passado. 
Do mesmo rei governado 
Foi um irmão extremado. 
Dos reinos de Portugal. 

Dizem la por entre os meus 
Que quem quer muito ganhar. 
Parta ás terras do Brazil 
Hicas fortunas bu.scar ; 
K este dizer tão mentido. 
Me faz hoje estar vendido 
Ri\al do negro abatido 
Sem me poder resgatar I 

FiU era pobre, mas Vwiv 
Vnia na minha aldeia, 
linha afagos de familia 
Que longe por mim pranteia. 
.\gora tenho a saudade. 
Dos gosos (la liberdade 
Que Iroipiei numa vaidade 
.Vos lucros da terra alheia. 

Eu tinha no meu casal 
Santo dever a cumprir 
Do trabalho do meu braço 
Tinha irmãos a nutrir : 
Tinha a mãe pobre, mirrada. 
Que lá anda abandonada, 
De porta em porta arrumada 
Com seus filhos a pedir. 

E (|iiem |iu(lera contar 
Em horas de alllicção 
Maldições (pie tem o lilho 
Nascidas do coração ! ! 
Quando a mãe ao caminhante 
Estende a mão vacilhiute 
K por esmola constaiile. 
Tem desdém, em \ez de pão! 

Nasci humilde, (juiz muito 
Toruou-se etii nada o meu pomo : 
.\ sina ([ue Deus me deu 
Quiz mudal-a : fui um louco ! 
Querendo Ihesouros buscar, 
So a(|ui \ im euconlrar 
Dos gemidos que soltar 
l'm ecco íugindo rouco. 



i 



o PANORAMA. 



.AS 



Se do pobre escravo liranro 
Ás terra* de Porlugal 
Levasse vozes o %ento 
E o veuto fosse leal, 
La diria cm tom sentido 
(Jue o branco ja c Nondido. 
Aonde outrora era tido 
Como um irmão sem ri\al. 

Mas peito cala estas magoas. 
Giiarda-as bem no coração I 
Estranhos se as ouvissem 
Davam-lhe em paga irrisão. 
K o pobre escravo merecia. 
Que a liberdade perdia 
Quando a mente concebia 
líegaios de corlczno. 

>Las a esp' rança inda \i\r, 
E juro á fé de christtão 
Nos braços de minha niije 
Ser livre sem ambição. 
Qu" eu sinto n'alma gravada. 
Lssa verdade sagrada 
Que tanto a crnz é pesada 
Maior é a redempção. 

<"< de Novembro de lívJG. 

A. íl. Vkmí V nos SwTos 



r.STLDOS SOBRE A iUSTOlUA SVtilUDA. 

PAiniVRCUiS. 

O nome dado aos autepa.>saíios do Sahador do 
lundo, considerado no ponto de vista das suas 
i--lações com a humanidade, foi o de juiliiarrlui. 
Significa pae, ou chefe da família. 

Devem distingnir-se Ires classes de fiatriur- 
iliiis. Os ({ue existiram antes do diluvio; os que 
V i\eram depois do diluvio ate á vocação de Abra- 
bão; e os que se seguiram desde essa época até 
si servidão do Egypto. 

Os doze filhos de Jacob, nue jjcrlenceni á ter- 
«eira época, são os que manam dislinvtamenle 
as doze tribus do povo de Jsrael, porque cada 
»im delles foi o chefe das respectivas tribus. 

Não será prodígio o considerar-.«e a longa vi- 
da de cada um d'estes patriarchas? .V<sim era ne- 
cessário, para que Moyscs escre\esse o que exis- 
li'd na memoria dos homens, especialmente num 
tempo em que a traducção mutua era a nnica 
bistoria que se transmittia de pães a fdhos. 

Vejamos uns poucos de e\emj>los. 

Adão. pelos cálculos da Esí-riptura Sagrada, 
viveu cincoenta e seis annos com Lamcch. 

Lamcch, viveu <]uinhentos e noventa e cinco 
annos em companhia de Nòc. 

Noé viveu quatrocentos c (juarenla e oito an- 
nos com Sem. 



Sem viveu cento e cincoenta annos com Abra- 
hão. 

Abrahão viveu setenta c cinco annos com Isaac. 

L^^aac viveu trinta e três annos na coni])anhia 
de Levi, (jue foi o avò da mãe de Moyscs, a qual 
se chamava Jurahed. 

Note-se mais. que Deus empregou unicamen- 
te dez patriorilias. ou chefes de tamilia antes do 
diluvio para a transmissão das grandes verdades 
da religião ; que depois d'esta desgraçada épo- 
ca se não serviu ile maior numero de instrumen- 
tos, ponitie dez 1'oram tanibiMu os pntrinirlias. 

Vivendo séculos em companhia uns dos on- 
tros, fatiando e entretcndo-se reciprocamente dos 
prodígios a que tinham assistido, não é para ad- 
mirar que estes ])rimeiros historiadores do mun- 
do nos transmillissem pura a verdade, no meio 
da depravação que corrompeu a espécie humana. 

.\lem d'este grande lini (|ue o Eterno marcou 
á longa vida dos primitivos patriarchas, deve- 
mos considerar a necessidade de se povoar a ter- 
ra, formando assim a sociedade humana. 

.\lé os nomes destes patriarchas eram uma 
espécie de simples monumentos. Denotavam o 
que o seu nascimento tinha de singular, ou e 
fa\or especial que recebiam de Deus, ou algura 
suecesso memorável do seu tempo. 

Yenhanios aos exemplos. 

Adão, signiíica o bonu-m terrestre. 

'Era. a mãe dos viventes. 

Plialeg, a divisão. Foi no seu tempo (juc os 
lilh.os de Noé se dispersaram. 

.ihrahão, o pae de uma grande geração. 
""Assim fica demonstrado, que estes nomes, cu- 
ja significação se explicava de pães a lillios. eram 
um monumento mais valioso do que esses que as 
posteriores edadc» le-iautaram amontoando pe- 
dras. 

Até este cuidado de assim transmittir á pcs- 
teridade os grandes feitos, e esta providencia d« 
futuro, faz honrada e disíincta a memoria dos 
troncos primitivos da raça humana. 

DD.lVIO. 

Procure-se o mais insignificante povo da ter- 
ra, investigue-se o mais policiado, ou o mais bár- 
baro, e ti'el!e se encontrará a tradição do dihi- 
rio unirersal. 

No Oriente foi celebre sempre a arca, na qual 
se salvaram os restos do género humano, c tam- 
bém os logares onde ella parou depois d'esta ter- 
rível caiastrophe. 

Pergunia-se, porém, apesar do testemunho de 
todos os povos, que dimensões não eram preci- 
sas a este grande navio salvador da espécie hu- 
mana, para conter, não só milhões de animaes, 
mas egualmeute os necessários alimentos para 
II m anuo. 

E\aminando-sc os livros santos, n'elles se en- 
contra a medida d'esta arca. A sua capacidade 
era de cento e cincoenta mil toezas. Reparc-se 
hoje na capacidade dos maiores navios de guer- 



lli 



o PANORAMA. 



r«, ralcule-se a sua arlilheria e munições; a sua 
("(luifiagem; a tropa ; as provisões necessárias pa- 
ra toda essa gente, e diga-se depois se entra na 
ordem do impossivel haver na arca, com aqiiel- 
las dimensões, o sustento necessário para oito pes- 
soas, com os pares de animaes que Deus deter- 
miinou fossem nella guardados. 

Devemos lembrar-nos eguaimente que as cs- 
jiecies yirimitivas dos animaes não eram tao nu- 
merosas como o são hoje. Alguns autores as com- 
putam eiu oitenta e sete. 

 razão pode ajudar-nos no calculo d'esta8 es- 
pécies. Não sabemos hoje que a.s raças se apu- 
ram e multiplicam pelo cruzamento? Por exem- 
plo na espécie canina, quantas raças ha' hoje, 
((ue não existiam ha vinte annos? Olhemos pa- 
ra um viveiro, e examinemos depois de que as 
vcrgonteas se fizeram arvores íructifcras a im- 
mensa variedade que saiu da mesma semente ! 
Quantas flores diflerentes não saem da semente 
lie uma única flor? 

A natureza, uniforme nas suas funcções, va- 
ria sempre nos seus detalhes. Nos animaes a cx- 
jjeriencia, o estudo e a sciencia tem convencido 
a espécie humana dos mesmos resultados, que os 
Iructos e as flores nos tem apresentado. 

Lancemos os olhos para as variedades que se 
BOtam mesmo na espécie humana. Que encon- 
tramos n'ella? Brancos, pretos, mulatos, fulos, 
acobreados, etc. Uns de estatura agigantada, ou- 
tros anões. Alguns extremamente gordos, vários 
excessivamente magros. 

E comtudo elles não são de origem differente, 
nem ha diversas espécies de homens. O cahello 
mais liso ou mais crespo, mais fino ou mai.s gros- 
so, olhos mais claros ou mais escuros, tez mais 
j)allida ou mais colorida, não passam de ser sim- 
ples accidenles da forma externa. As partes in- 
leriias, a construcção essencial do physico são 
sempre as mesmas. Aquellas (as externas) podem 
depender do tempo, do clima, e de outras cau- 
sas que nos são desconhecidas; estas, são as que 
vcrdadeirauuMite constituem o género. 

l'n)va-.sc mesmo ijue estas variedades não são 
mais do (jue (dfeilos passageiros considerando-se 
<iue ha povos, (\nc. tendo sido primitivamenti^ ne- 
gros, pela sua transplantação para outros paizes, 
on incorjjoração em diversas nações tem tomado 
dilíerente côr; isto e, tem licado tão brancos co- 
mo os originários do paiz para onde vieram. 

Bem sabemos que a este respeito, c muitos ou- 
tros, como por exemplo, os motivos pon|ue Deus, 
ou o Ente Supremo, fez morrer todos os animaes, 
se subnuMgiu a terra, «te, fazem os incrédulos 
repetidas interrogações. A resj)0sta está na Iíx- 
rrijiliini Sajjriidd. e não vimos a(]ui defender a 
lliesc. Apresentamos os factos. Estes bastam para 
responder n'este c^so. Rslá provado pela scien- 
cia. e pela descoberta dos fosseis ou animaes an- 
lidiluvianos (jue o diluvio foi univer.sal. Isto nos 
basta para conlirniar a authenticidade das lettras 
sagradas. 

Ainda se leu) opposto ao diluvio outra ol)jec- 



ção ; e vem a jcr: — <'Como possível que uma 
chuva de quarenta dias inandasse todo o globo 
terrestre? 

Também a resposta é fácil, e unicamente a de- 
mência ou cegueira poderia inventar a interro- 
gação. Leia-se a Escriptura, e veja-se o minu- 
cioso cuidado que cila emprega em nos indicar 
todas as fontes d'e-sta terrivel chuva. — «O mar 
trasborda; abrem-se os abysmos da terra; esgo- 
tam-se todos os reservatórios dos ceos!») — Que 
quantidade d'agua não podia sair d'ali? Calcu- 
le-se, se é possivel, ainda mesmo que se não de- 
seje mctter em linha de conta a Omnipotência de 
Deus. 

Ainda outra objecção a este terrivel castigo. 
Se a terra esteve submergida pelo espaço de um 
anuo, como é possivel que as sementes, plantas, 
c arvores se não corrompessem? 

E quem não sabe que os pântanos e os mares 
tem plantas próprias? Quem ignora que as ar- 
vores se conservam nas aguas? Concedamos ain- 
da que os troncos das arvores se destruíssem e 
corrompessem cobertos um anno pela agua ; mas 
as suas raizes, fortalecidas por ura sol vigoro- 
so depois d'aquella inundação, acaso não reben- 
tavam mais robustas e virentes? Não falíamos 
na possibilidade de <}ue Daus expressamente as 
conservasse, como a sciencia já descobriu que 
SC conservam incorruptas as seraentcís involvidas 
na terra, ou no limo. 



DURAÇÃO DA VIDA niiilA^iA. 

A sua declinação depois do dilucio iiiiirfrsal 
cxplica-sc physicamente, sem recorrer a outra 
origem. Os suecos «nterrados ou contido» na ter- 
ra altcraram-sc necessariamente por essa gran- 
de massa de aguas que caiu, e pttio longo pe- 
ríodo que a inundaram. 

O ar, carregado d'uma excessiva humidade, 
dcsinvolveu e fortificou os principio* da corru- 
pção. 

Seguiu-sc d'aqui achar-se enfra(iuecida a pri- 
mitiva constituição do universo ; e por tanto a 
vida humana, que até á occasião do diluvio se 
estendia a séculos, diminuiu progressivamente. 

Também, por este mesmo motivo, as herva» 
8 os fructos não conservaram a sua força primi- 
tiva. Então foi preciso dar ao homem um nutri- 
niento mais substancial ; e este se encontrou n;à 
carne dos animaes. Apesar d'isso o novo alimen- 
to não pôde suster o progresso descendente da 
vida ; que já no tempo de David chegara ao pon- 
to delle dizer: — (Os dias da nossa vida, ordi- 
nariamente não passam dos setenta annos; e se 
os mais robustos chegam a viver oitenta, já é 
com muito custo e muitas dores.» 

Continua. k. 



Damos hoje, comoprometlemos, a «stampa (juc 
representa o palácio de Queluz. 



o PANORAMA. 



tr 







THEATRO DE MACRI. 



Os araphitheatros eram cdificios puramente j 
romanos, de que os gregos não usavam : portan- 
to, á época do domínio romano pertencem todos | 
os que ainda existem na .Vsia Menor, nenhum i 
dos quaes, comtudo, é comparável na grandeza, 
nem no estado de conservação, aos de Itália e 
da França. Sobre uma eminência, visinha a Ni- 
cea, acham-se umas ruínas, denominadas ago- 
ra o palácio de Theodoro, pequena porção da mu- 
ralha e quasi todo o alicerce ainda permanecem 
como monumento eterno da solidez das construc- 
ções romanas; ahi se contam doze varandas sub- 
terrâneas de abobadas dispostas em forma cir- 
cular e declinando pata o centro, circunstancias 
que denotam que não podia ser senão um ara- 
phítheatro. O de Angora na Syria está quasi no 
mesmo estado ; mas as fieiras de tijolos mistu- 
radas com as pedras que o compõem marcam-lhe 
época menos antiga que a de Augusto. Também 
se encontrara vestígios de uma obra d"esse gé- 
nero em Bergaraah, antigamente Perganio. ca- 
pital do reino deste nome, fundado por Attalo, 
um dos generaes de Alexandre Magno. 

As ruínas de theatros ainda são mais raras na 
Ásia Menor, mas a sua conservação é em geral 

VOL, I. í.° SERIE. 



mais perfeita do que as dos de Itália á excepção 
de Pompeia e Tusculum. O que e representado 
em nossa estampa está situado á beira do go!- 
pho de Macri e faz parte das ruinas de Telmis- 
so : é como quasi todos os theatros da antigui- 
dade fabricado no declive de uma collina que 
sustenta uma grande porção dos bancos dos es- 
pectadores ; lodo o semícirculo acha-se bem con- 
servado ; mas. as extremidades que o reuniam 
ao palco scenico, como não eram sustentadas pe- 
lo terreno, já desappareceram de todo. O thea- 
tro de Laodicea e outros na mesma região exis- 
tem egualmente em bom estado comparativamen- 
te aos de outras partes do mundo, onde ainda 
se observam essas provas da magnificência do 
povo rei que assoberbou a terra. 



Os nionarchas devem identificar-se com a.' 
nações : mas os thronos devem estar sobran^ 

ceiros a todas as facções. 

No theatro do mundo alternadamente todos 
são actores e espectadores. 

j.^HKiBO, 17, 1S57. 



1^ 



o PANORAMA. 



VINGANÇA POR VINGANÇA. 



> V 1. A K E 1 R A . 



Continuarão. 



Neslc (Mitremcntes que Âldousa Peros c Ma- 
riauna conlinuam sua tarefa, sem a interrompe- 
rem, Sancha tinalmente ronca l)eni ferrada no 
somno, e Beatriz acompaniia seu primo Simão 
Kodrifiues á refeição, tentemos descrever estes 
(iois personagens. 

Principiemos por Beatriz. 

Não julgue o leitor que vamos á antiguidade 
pagã procurar o cinzel, com que os famosos es- 
tatuários da Grécia e de Roma cinzelavam os 
grupos das suas donzellas, para Levantar comcl- 
les o gracioso l)Usto da virgem clirislã. O rosto 
severo daquellas só pode traduzir a expressão 
da alma materialisada — expressão que se não 
casa com o perlil gracioso dadonzelia que deve 
reproduzir a idéa grandiosa de uma religião to- 
da espiritual. 

Nem seus famosos pincéis, uem suas riquis- 
>inias palhetas também nos servem para traçar 
i: colorir o graciosíssimo rosto das nossas vir- 
gens, poetisadas pela crença de um goso inefla- 
V(!] que lhe desprende o espirito da forma ter- 
rena, para lh'o divagar peia inlinidade dos es- 
paços. A grega Iphygenia, resignada ao sacrili- 
ci(», tem a expressão de uma dòr mundana ; a 
martjr christã, correndo ao supplicio, retrata 
cm todas as feições a alegria, ([ue lhe inunda a 
alma, vendo aproximar-se a hora de se reunir 
ao princqiio immutavel de todas as coisas. Vma 
e grande nos aílectos do mundo; a outra é su- 
blime na crença do espirito. 

Será, portanto, a nossa deseripção mais apro- 
priada ao typo ([ue aprcseutánios. 

Beatriz, collocada no meio termo entre a es- 
tatura elevada e baixa, acliava-se u'aquella 
mediania, que não apparenta a mulher de alli- 
ta para pretender a independência, nem de frá- 
gil para unicamente vegetar encostada ao arri- 
mo que a ampare. 

Ao vêl-a dir-si'-hia logo moldada para ser 
verdadeiramente a companheira do liomem, e 
não sua tyranna, nem sua escrava. 

S*i1huís.s;i em termos laes que não rastejavam 
n,i escravidão, .<abia assumir a dignidade pró- 
pria nas occasíões em que a mulher se exige 
o esforço e a ccuislancia d<! mãe ou de esposa. 

Ui'unindo á lucidez da sua inleliigencia uma 
(lercepçãi) clara, e luUurahnrnte sagaz, parecia 
fadada para conselheira daqueile ijuc a despo- 
sasse ; e nã.0 talhada para Ikc impor absoluta- 
mente a sua vontade. 

i) perlil diiquella cabeça apparecia como 
circundado de uma aureola de l)ema\enturança 
ecleslial — re^iglla(la ao sacrilicio quando loísc 



mister, sublime no amor quando chegasse a 
amar. 

Seu rosto mimoso moldurado cm longas ma- 
deixas de cabello còr d'azeviche, tomava alter- 
nativamente a expressão de uma doce melanco- 
lia, ou uma suave alegria, segundo o estado 
d'a(iuella alma ; e seus olhos, meigos e mavio- 
sos, traduziam a languidez de uma terna .sau- 
dade e esperança, ou o fulgor de um casto amor 
e reciproca sympathia. Nas linhas severas de 
um nariz bem contornado, não appareciam as 
rugas de (juem se possue de cólera ou ódio ; e 
em seus lábios delicados que matisavam o car- 
mim com o alvo de uns llnissimos dentes, liam- 
se palavras de alTecto e candura, que outras 
não jxidiam nuinchar, nem ter saida por aqnel- 
la pequenina bocca costumada sempre á verda- 
de, e nunca a mentir. Sua engraçada barba, 
posta em relevo por uma feiticeira covinha, ri- 
val de outras duas que se lhe descobriam nas 
faces ao sorrir, comjiletavam o todo d'aquelle 
rosto que se unia ao tronco por um collo decy.s- 
ne, e ao ([ual se seguiam as formosissimas for- 
mus da mulher (jual o Eterno as destinou pa- 
ra alimentação da espécie humana. A cintura 
era tão delicada e tão flexível como o v ime que 
graciosamente se curva. Ao ver-lhe seus petjue- 
ninos e delicados pés jnlgal-os-hieis perteuceren» 
aos rujos, que os trazem sempre poisados cm 
transparentes nuvens de azul e oiro! 

Tal era Beatriz. 

E Simão Rodrigues? 

Não lhe busqueis o typo nem na classe ele- 
vada da sociedade, onde a alvura da pelle trans- 
pareuciando as veias, e uma synietrica proporção 
de formas logo vos denunciam o apuro da ra- 
ça ; nem na mais intima, onde a rudeza do tra- 
balho, a escassez dos recursos, e a negligencia 
que a acompanha desde o berço, causam uma es- 
pécie de estranheza ao espectador logo ao pri- 
meiro aspecto. 

ide procural-o á classe media — á burguezia, 
que participa da primeira pelos desvios de am- 
bas, e procede da segunda por essa lei natural 
que a impelle a clevar-se. Quer abastada, (|uer 
vivendo na mediania tem sempre um cunho que 
lhe é jieculiar ; e por isso nunca desce aos mis- 
teres mais rudes da vida, nem se consome na 
indolência da primeira classe. Trabalha, e vive 
do trabalho honesto — do trabalho que enrique- 
ce o estado porque eo seu ner\o; que alimen- 
ta a classe mais baixa, ponjue lhe da emprego; 
que uegocei;i com a nuiis nobre, porque lhe of- 
íerece o necessário aos seus commodos. E, eiu- 
lim, a classe do empregado, do militar, do pro- 
prietário, do lavrador, do negociante, do artis- 
tista, e de outras eguacs prolissíjes ([uc se hon- 
ram e os honram. 

Varonil, sem prelenções ás formas robustas 
do athicta ; apessoado, sem tendências á galhar- 
dia do guerreiro ; bem feito e contornado, .sem 
ra>tejar pela elTeminação ; trigueiro algum tan- 
to na còr da pelle, cerrado na barba, negro em 



o PANORAMA. 



í» 



calicllos, tal era a pessoa do primo <Ii> Bea- 
triz. 

Em quanto ao moral — de earaeter franco, e 
honestidade exemplar, sem nunca se torcer a 
preconceitos ou aml)ii'ões, sabia conser\ar tão 
intacta, na edadc de vinte seis annos. a IV-coni- 
merciai, que .«iua ]ialavra bastava de garantia a 
iiual(|ner somma, por mais exorbitante que fos- 
se, apesar da mediocridade da sua fortuna. Por 
isso era muito estimado pelos da sua classe de 
mercador ; e mais de um havia lançado sobre 
1'lle vistas lie alliança com as filhas (]ue tinham, 
no interesse de não verem desbaratada sua fa- 
zenda ; pois ao contrario, Simão era homem, 
pelo seu trabalho, intelliiiencia, e actividade, 
para dobrar, ou triplicar os cahedaes. 

Airora ijue conhecemos a um e outro, eelles 
voltam a sentar-se ,á lareira, continuemos a nar- 
rar os acontecimentos tieste dia. 

— Á fc vos di^, minha íia, que o mercador 
Samnel era bom para thesourciro da casa d'cl- 
rei. . . 

— Dize primeiro. Simão, se comeste a far- 
dar, ou ainda ficaste alf:o-reni por saciar? 

— Graças a Deus, por mais que me apresen- 
tassem não teria gana. 

— Bem sabe que o primo alimenta-sc de bem 
pouco. Bem ateimei para não deixar rcsto.s; foi 
o mesmo que martellar em ferro frio. Ainda tl- 
con eom que alimentar a dois pedintes, se por 
vendaval tão solto aqui viessem pedir esmola. 

— Mas como ia faltando; cncontrci-me com 
Samuel quando elle vinha do Troncn, de met- 
£cr cm ferros d'el-rei um desvalido, (jue por 
lhe sonegar fazenda que não teria de conto mais 
de dois ceitis, se íento cu dera. . . 

•^ — O de.shumano ! 

-—Caiu cm boas mãos a triste prèa ; mais 
lhe Talerâ ser caplivo da moirama. 

— Qual! Sr. Samuel, lhe disse en 

depois de regularmos uossa contagem, que, a 
juisos meus, não lhe (icon pouco no trato, ape- 
-xar de mutias protestaçrFÇs de qne tivera )>erda 
quando se lhe alvitrava ganância. Não, que me 
não c»gam assim as falias brandas qne elle em- 
prega ! ... Sr. Samuel, lhe disse : — Aqui está 
um cruzado que é sua estima pela fazenda, e 
vamos ás justiças pela liberdade desse homem. . . 

— Sempre bora ! honrado sempre I exclamou 
.sua prima. 

■Encontron-mc com falias <le demora, por 



— Bem fizeste, Simão, lhe disse sua tia. 1,' 
obra meriloria qualipier alma tirar de pena com 
Tim Padre Aovvo que se reze : não menos digno 
é porém aos olhos de Deus soltar um pobre en- 
carcerado. 

— E pov mim te agradeço, primo, essa boa 
acção. Teidio que dalii nos Iiaile vir ventura. 

E assim dizendo, Beatriz Icvantou-se donde 
estava sentada, poisou com muito cuidado lio 
mesmo sitio a almofada em qne costuVca\í» uma 
capinha das que então andavam em moda, e 
foi direita a Simão dar-lhe um meigo aperto de 
mão. 

Quem [loderá descrever o elTeito daquelly 
acção no enamorado mercador? 

Bastará dizermos que Simão se ergueu febril 
e agitado. 

— Louvado Deus! por uma coisa de tanta 
desvalia, gabos tamanhos ! . . . Ora já que vou 
Ião miudo heide-me aventurar a contar-vos \\\- 
do. Vaz Gil que tem moradia cerca ao Am â<i 
Tanoaria, além me guiou; e encontrei-me toni 
sua mulher, e tilhos qne pranteavam aiiuelie 
tristonho succcsso. Ao assentar olhos n'elle. nau 
tomavam por desengano a verdade do ((ue es- 
ta\am vendo ; e força foi repetil-o muitas vt'zes 
para o crerem. Então a mulher enlaça-se-me ai) 
pescoço, e os filhos abraçam-se-me ás pernas, 
que força me foi também chorar de enterneri- 
do ; e por esquivar-me aquella scena vim se- 
gnindo de cubada pelo Rocio, senão ainda at^e 
ora estaria ouvindo palavras de gabn. , . Vede 
que so ao recordal-o as lagrimas se me escájiráth 
éos olbo.*;. 

Mas nfio era somente nos d'eHe (|ue estas pl¥- 
goeiras da alegria ou dòr, borbulhavam e Iwn» 
grossas ; também os lindos olhos de Beatriz s^e 
debulhavam em myriadcs de aljôfares, qtie, de,-- 
lisando-se-lhc pelo rosío, similbavam pérola-^ 
da aurora escorregando levemente pela nibra 
folha da rainha das flores. 

Aquelle chorava de enternecimento pelo (Hia- 
dro que acabava de presencear ; esta. de seu 
natural benéfica e bemfazeja, por conhecer que 
amava um ente capaz de comprchender-lhe os 
sentimentos de sua alma. 

Bem depressa estas lagrimas de felicidade se 
apagaram e seccaram, como se um vento abra- 
sador as viera extinguir, ou um ardente raiodn 
sol as rescfywisse no cálice da llor onde esta- 
vam depositadas. 

Bastou o som da aldrabada na porta dá ruM. 



esquivança ao mau tem()o. finde ha tardar,- !e o timbre de uma voz bem conhecida. (|iie]>e. 



ca. retruquei, se um homem se afoga !... Par- 
tamos já... E assim foi, que logo se portou por 
fé estar inteirado Samuel ; e Vaz Gil, que a.s- 
sim se chamava o revendão, m'o agradeceu, ao 
ver-se solto, com muito cortezes meneios, e um 
forte aperto de mão. 

— Se eu fora rainha, di>se Marianna, .so- 



nelrou agudamente por (Mitre as rotulas da adu- 
la, para aqTiellas lagrimas refluirem ao cora- 
ção, que estavam alliviando, e trocar aquella 
scena de ternura n'ontra de constrangimento. 
Aldonsa Peres largou tão depressa o fiado, e 
com tanta precipitação se levantou para ir des- 
cerrar a porta, que por pouco não caiu sobre 



licitara del-rei, ou mandara as gentes de sua Sancha. 

justiça transpassar os ferros de um nara o ou- Esta, só n'essc momento acordou; c ú nofi- 

tro. I cia de ser o padre mestre Gaspar, dcsencnizoii 



^o 



o PâNORàOIâ. 



as entorpecidas pernas, e foi seguindo sua ama. 
— A benção do Senhor seja comvosco. Disse 
o padre mestre, entrando com o seu companhei- 
ro, e estendendo a descarnada mão ás duas ve- 
lhas, que reverentemente lha beijaram. 

E ao pronunciar estas breves palavras relan- 
ceou os olhos pela casa, e ao aperceber Simão, 
que se encostara com sua prima á janella, que 
se abria para o lado da rua da Péla, franziu 
imperceptivelmente o supercilio, e contrahiu os 
lábios com um leve sorriso de desdém, mas tão 
rápido, que a vista mais perspicaz não lh'o per- 
ceberia. 

Simão sentiu como o calafrio percorrer-lhe o 
corpo ; e Beatriz apertou involuntariamente o 
braço a seu primo, como se um presenlimento 
a impellira a pedir-lhe amparo. 

Era a força da repulsão que assim actuava 
sobre aquelles três indivíduos, que não tendo 
ainda motivos de aggravo entre si, já seaggra- 
vavara só da vista. 

E quem pode dar razão da sympathia ou an- 
tipathia que sentimos por uma pessoa logo á 
primeira entrevista ? 

Ninguém. 

E, comtudo, esta força de attracção ou repul- 
são é bem natural ! 

Não teem os animaes instincto para conhecer 
as plantas que os podem nutrir ou matar? 

E porque não hade tel-o egualmente o ho- 
mem n'estas affeições ou desalfeições da alma ? 

O padre mestre Gaspar, retomando a impe- 
netrabilidade do rosto, que a ninguém permit- 
tia mergulhar-lhe a vista no coração para esqua- 
drinhar-lhe os pensamentos dalma, dirigiu ura 
cândido comprimento a Beatriz, e uma leve sau- 
dação a seu primo. 

— Oh ! Como bella se vae reflorindo a açu- 
cena do Senhor, cultivada nos jardins da sua 
graça ! . . . Como é santo ver a benção de Deus 
unir no espirito da nossa religião duas pessoas 
pelo .sangue humanamente unidas ! . . . Admirae, 
meus lillios ; admirae o quadro da natureza que 
o horisonte ahi vos descobre, e os vossos cora- 
ções rendam graças ao Omnipotente que de tu- 
do isso é creadcfr ! 

Beatriz correspondeu ao comprimento com uma 
mesura, e Simão com uma leve inclinação de ca- 
beça . 

Depois voltaram-se para a janella, ou para 
verem quem passava, ou realmente para admi- 
rar aquelle magnifico ponto de vista ; pois de.s- 
cobrindo-se dali parte da cidade <lc então, cin- 
gida pela segunda muralha de el-rei D. Fernan- 
do, se via ao fundo iraquclle panorama o mon- 
te de Nossa Senhora da Graça, e toda a exten- 
são, que decorre ale á encosta do Castello aon- 
de a nuirallia se fechava, coberta de \ecejantes 
hortas. I';ira aii-m a lorjuosissima parte do Tejo 
que em ondas de .saliras, e em outras de agua, 
banha as faldas do monte em que Palmella está 
assentada, e mais logares que se lhe avisinham 
ao longo da |)raia. 



O padre mestre Gaspar voltou-se então para 
Marianna, que pacientemente aguardava a vez 
de lhe beijar a mão, e, estendendo-lh'a, leve- 
mente lhe tocou com os dedos na face, dizen- 
do: 

— Não me descuidei hoje. Eis o promettido 
Agnus Dei. Tende n'elle fé e devoção, que mui- 
tos perigos vos hade evitar da alma, e do corpo. 

A verónica de latão era tão polida e luzente, 
que podia correr parelhas com o oiro. 

Depois de examinada pelas três mulheres, Al- 
donsa Peres instou com os padres para se sen- 
tarem ; ao que elles se recusaram sob pretexto 
do avançado da hora, e dos urgentes negócios 
que haviam tido naquelle dia, e os obrigava a 
recolherem-se o mais breve possível ao collegio 
para darem conta da sua commissão. 

As velhas contaram então o medo que tive- 
ram com a trovoada, os sustos causados pelo raio 
que cairá na cerca, as orações que rezaram, e 
a desgraça de se lhes ter entornado toda a agua 
benta ; ao que o padre mestre Gaspar promet- 
teu remediar, enviando no dia seguinte nova hi- 
Ihinha. 

— Senhora Aldonsa Peres, continuou o padre, 
que dia é amanhã? 

— Se o não sei ! É dos Santos Reis. 

— Por isso mesmo foi que entrei em vossa 
poisada. Quereis reconciliar-vos, como tende* 
de usança? 

— Se o quero, meu padre! Ás sete horas da 
manhã achar-me-hei na egreja. 

— Madre, exclamou vivamente Beatriz, lá ap- 
parece o arco da velha tão vivo e tão brilhante, 
mesmo sobranceiro ao Castello. 

As mulheres e os padres correram á janella 
para admirar o íris. O ceo estava no oriente 
carregado de nuvens que se desfaziam em chu- 
va, e no occidente o sol tocava o seu occaso. 
Reflectia-se contra ellas num circulo brilhante, 
decorado com as sete cores do prisma, eíleilo 
natural da decomposição dos raios da luz. 

Ao cabo de alguns minutos de muda contem- 
plação, o padre Gaspar, ajoelhando em frente 
da janella, disse para os mais que seguiram o 
seu exemplo : 

— Adoremos a Deus nas suas maravilhas. 
Aquelle é o signal da alliança de Deus com os 
homens, e o monumento da sua misericórdia. 
Tal o prometteu a Noé, quando este santo pa- 
triarcha saiu da arca onde se salvou u raça hu- 
mana. A Egreja está figurada naquelle arco. 
(jue assentado no ceo faz brilhar sobre todas as 
|)artes da terra a vivacidade das suas cores no 
meio das sombrias nuvens que o cercam! Aquel- 
las cores tão vivas syrabolisam as diversas gra- 
ças que o Eterno espalha sobre sua divina Espo- 
sa, liei em reconhecer que todas lhe iiiovéni d'eJ- 
le, (' que somente este e o verdadeiro sol que 
a esclarece, e a faz brilhar aos olhos dos ho- 



mens 



Continua. 



o PANORAMA. 



m 



í^íd 




ACADEMIA DAS BELLAS-ARTES EM S. PETERSBOURtí . 



DILUVIO DE LUZ. 



Continuação. 



Ill 



Enilini o Senhor soltou os ventos que dinii- 
>!uirani as chuvas. O mar afastou-se das mon- 
'anhas. O tufão parou nos ares. Os rochedos do 
*:aucaso surgiram. Oarcoiris, signal de univer- 
.*al alliança, apparece no firniamento. No ceo e 
na terra vae seguir-se-lhe grande harmonia de 
hymnos e louvores. Geração perversa e adulte- 
ra pedia um prodígio e não lhe foi dado outro 
prodígio. Os maus, que escarneciam dos mais 
santos princípios e perseguiam os sectários da 
luz, foram aniquilados. Só os escolhidos da ar- 
ca se salvaram. Grande é o seu futuro, grande 
a renascença, grande a empresa que lhes toca, 
porque resurgem depois de dias de soUrimento 
(■ tribulação. 

.Mas, comprehenderão elles todo o alcance da 
iinva missão? 

IV 

O diluvio das aguas veiu limpar o mundo da 
raça humana pervertida, e transviada da sua 
vocação original. Mas esse castigo infligido em 
tempos de Noé não aproveitou. A. lição perdcu- 
se. O meio foi ineíBcaz para melhorar os vícios 
da espécie. 

Muitos séculos ha que a humanidade (o maior 
numero do género humano, a parte desherdada, 
e sacrificada) combate para chegar ao triumpho 



d'uma organísação .social, onde a medida do di- 
reito seja uma, indefcctivel e inquebrantável. 
Contra os privilégios de excepção tem andado 
era campo alguns princípios de luminosa e pos- 
sível equidade. Ora tríuraphantes, ora eclipsa- 
dos, nem prosperidade nem revezes os desvai- 
raram no espirito, ou afrouxaram na aspiração. 
Cada vez mais acesa tem conservado a fé na 
própria santidade, e na missão grandiosa. 

Até agora toda a guerra tem sido entre o for- 
te collectivo, e o fraco individual ; que se assim 
não fosse, e em ambos os contendores se egua- 
lassem as condições de collectividade, os fortes 
foram menos fortes e os fracos menos fracos. 

Agora, porém, parece chegado o tempo em 
que esses dois elementos fundidos como em dois 
indivíduos, vão achar-se um diante do outro, 
fronte a fronte. A pendência deve acabar, e a 
victoria do fraco, egualado ao forte, semoppres- 
são nem desequilíbrio social, proclaniar-se. Ao 
império da razão e da justiça não ha poderes 
nem sophismas que resistam por muito tempo. 
Até aqui a liberdade foi um nome vão, que rea- 
lidades negativas tornaram irrisório. Esmaga- 
vam-na com pé desdenhoso quando queria me- 
near a cabeça e remoçar-se. Nos antros e ca- 
vernas gemeu com ella, desconsolada, homisia- 
da. e triste, a humanidade de boa fe. Ameaça- 
ram-na, apuparam-na. Os privilégios nunca qui- 
zeram estender-lhe a mão, nem eleval-a até si. 
Mas ella protestou na sua condição miseranda 
subir ás mais altas prerogativas, de que os se- 
nhores foram, por seu mal, sempre tão avaros. 

Embalde se crera a principio que a razãe 



33 



O PANORAMA. 



podesse, por si só, trazer a conccrlo de opiniões 
os exagerados e insolTridus dos dois campos. Foi 
mau, mas inevitável ([ue se empregasse oostra- 
fismo contra a exagerarão dactos e doutrinas, 
contra preconceitos deshumanos que ainda mui- 
tos fruaniavam no coração. Cegos c obstinados 
foram emlim banidos. Possessos de jirincipios 
viciados não consentiam admoestação ou conse- 
lho ; resistiam a modilicação ou conciliação. A 
composição entre elles tora licção, e laço trai- 
çoeiro aos bons. Esses elementos de perturba- 
ção e descrédito foram analliematisados, dester- 
rados para sempre. Nenhum dos contendores 
conta, ou deve ia'gora contar com elles. 

O plano íinal da regeneração pacilica, tem 
por si a força que profunda convicção e união 
crearam ; é pensamento melhorado pelo estudo, 
e pelas grandes lições de experiência doloro- 
.sa. Não se pedem dilúvios d'agua, ou sangue, 
já sabidos inefficazes para obviar trevas, causa 
efficieute c primaria dos males e desconcertos 
do mundo. Para isso só um diluvio de Ltz, que 
é o que os sinceros amigos da humanidade que- 
rem, e preparam. 

V 

Estamos na sazão em (pic deve semear-se a 
verdade. Agora é que ella não pode deixar de 
crescer, engrossar o tronco de dia para dia, e 
distender as franças por lodo o mundo. Arvore 
de sciencia .será uma arvore sagrada. So para 
ella haverá sol que lhe dè vida, orvalho doceo 
que lhe mitigue a sede, seiva na terra para ali- 
mento da rainha dos l)ósqucs. Nem sol, nem or- 
valho, nem seira lerão as outras, reprovadas co- 
mo inúteis e venenosas. A verdade estenderá raí- 
zes por todo o solo, cobril-o-ha de ramos fron- 
dosos, cuja coma ascendente transpondo terra e 
espaço será escada para a bemaventurança e 
para a justiça. Sombreada pela verdade, a raen- 
(ira, que até agora enchia o mundo d'espinhos 
f peslilencias, definhará sem ter luz nem calor 
que lhe dê vida. 

Na nova empresa lia muito que fazer mate- 
rial e moralmente, muito abuso (jue cortar, ul- 
ceras mui velhas que cauterisnr na sociedade. 
Tal é a (d)ra (|ue incumbe á razão liberlaila, c 
ás mãos purificadas de commoçõcs e tumultos. 
Paz e nn)deração nos lábios, cpie não c entre 
discórdias, que se hasteiam pendões de liberda- 
de social. Perdão com generosidade, para fazer 
amigos ca|ilÍTOs pela clemência. Punição aos 
crimes, para quií a inqiunidade os não alente; 
i\ias som nuiis austeridade (jue a da lei, ponjue 
nada ha mais amargo do que castigar. 



VI 



Ale a(|ui blasonou-sc muito da libcnladc jio- 
litica, c a liherdade iiolitica não soube ou não 
pôde corrigir o nuil na origem. 

Já hoje se conhece (jue a liberdade politica é 
por si só uma id^a vã, va.siu de sentido prati- 



co, fallaz no meio de seductoras apparencias, 
jironiettendo benefícios que não dá e podia 
dar. Bem longe de ser a expressão da justiça o 
a amiga do fraco, deixa-o ao desamparo e es- 
quece-o. Guarda todas as blandícias, toda a ex- 
])ressão de sua ephemera ternura para o pode- 
roso, sacerdote esacrihcador. único iniciado nos 
mysterios do seu templo vedado a profanos. Não 
protege o fraco contra o forte, não faz a ambos 
dependentes e subordinados a direito commum, 
mas escurece, encobre, salva da condemnação 
os crimes da prepotência, que a corteja a toda 
a hora. 

A liberdade social é a (jue é de todos, de 
fracos como de fortes, de pobres como de ricos, 
llade levantar-«e emlim sobre as ruinas da li- 
berdade politica prostituída, desacreditada, sem 
moralidade, sem alma generosa que pranteie a 
malfadada na queda de ignominia. As armas 
que seus pseudo amigos levantam sobre os cam- 
peões da liberdade social, são ténue nevoeiro, 
que a api)arição do astro luminoso da verdade, 
e a vulgarisação da sciencia, hãode dissipar. 
Nullas, impotentes toupeiras amam as trevas ; 
a luz deslumbra-as, desconcerta-lhes as ambi- 
ções immoraes de ([ue viviam, e é para ellas o 
peior dos patíbulos, o pelourinho de umior exe- 
cração. 

Com a liberdade social cada individuo será 
atalaia vigilante por si, e por todos. Só assim 
irão em esquadrão cerrado, caminho da ilhi;*- 
tração e progresso. Sciencia incapaz de benefí- 
cios, arte que a paz não engrandeça nem apri- 
more, não as haverá. Não haverá fortes para o 
mal, j)or(}ue não haverá fracos para o bem. 
Eguacs nos direitos da sociedade, e da vida, 
como na hora do n«scimento em que por entre 
lagrimas e nudez cairara todos no Buiado, ha- 
verá paz entre os homens, que hãode concen- 
trar o pensamento na própria destinação, e con- 
formar-se com as dores e alegrias que prepara- 
rem ou não souberem evitar, mas sempre im- 
potentes para fazerem reflectir sobre os outros 
o peso de suas magoas, ou as tramas da sa» 
malignidade. 

VII 

O conceito que os es])iriK)s fracos, ou p«rver- 
tidos forniíim da nova philosophia social, dista 
da verdade, quanlo o sol, que alumia cor» des- 
lumbrante clarão, dista das tretas, que tudo 
dcsiuaiam, tudo cegam, tudo escomleni. Tam- 
hiMM os publicauos accusavam a doutrina de.Ir- 
sus, e erravam. 

A nova ])hilosoj)liia social, que ha tnlo pro- 
longada paixão, deve lambem ter uma re.-ur- 
reição. Atraiçoem-na, prendam-iia, arrastem-na 
de tribunal em tribunal e de juiz em juiz, con- 
dcnincm cmliiu a inHorcnte. despojem-na dos 
vestidos, coròcm-na de espinhos, apresenlem-na 
d'est'arle ás turbas como espantalho aterrador, 
Icvem-na aoGolgotha, evhale ahi o ultimo alen- 
to, nem assim haverá triumphado o erro. Osan- 



o PMORAMA. 






gue d;i viilinia cairá sol)ie a caltera dos rciiro- 
bos. Crendo tid-a si'iniltado, \ol-a-lião no lim 
de três dias rvsurgir ovante; centre resplendo- 
res de liiz ascxjjider ao eco. 

A rdha seriedade já aão pode lanhar da .sua 
altura .secular oiiios desdenhosos sobre a nova 
tendência social, «as diante delia enfia como 
a creança a «lueju iallani de eucantanieutos. 
Mesmo sentada nas nuvens sueciuube ao peso do 
disiiao. .V sede eíJá carmichosa, carcomida dps 
.iiiuos e dos vermes. .Vceidentes doirados ipie- 
leni disfarçar-llie e eucobrir-lhe a rraqueza do 
ibrouo, mas jii Ibe não e dado illudir-se. e esta 
provima a desíaliecer. .sem ter seíjuer um cabei- 
lo a que na queda possa iauçar mão e pedir am- 
paro. Precipita-se de barranco em barranco. 
N'eIUi encarnou o obscarautismo. tiuc nem pa- 
ra si nem jiara ninguém quiz. nem iliuslração 
nem liberdade. Não tem leito senão conduzir 
[ii-la mão a liiimanidade ao altar em ([ue a iui- 
uiuhna baubíiíla no próprio sangue, iiuia trai- 
voeira tem levado o cego á borda do preeipicio 
i'm <pie (lespeabar-se. Viu impassível o borri- 
\i'l espL'cta<ulo. o infeliz rolaj' pelos alcantis com 
-iiiiido surdo, dependurado um ou oirtro mo- 
iii'n!o das pontas do ro«'bedo, mas escorregando 
-rnq)re para sumir no abysmo os membius des- 
pedaçados ! — E acompanliou todo este saerili- 
1 io com uuia gargalhada feroz I 

K velha sociedade e incoliereute e banal na 
accusação i[ue faz ás novas idéas. Não as uc- 
' ii>a por factos consequentes, pede a sua con- 
ilemnação porque teme ver n"eilas o juiz auste- 
ni e inflexível <[ue deve julgal-a. Como os ju- 
deus respondiam a Pilatos, ([uando lhes pergun- 
tava porque pediam a condemnaçâo de Clirislo, 
não tem mais razões daecusação do que este 
irrito diuvcja e sedição — Seja crucificado! — 
Trefere favorecer os maus. que opprimemos jus- 
itjs : — prefere á soltura de Jesus, a soltura de 
li.irrabas. .Mas, pois e indigna da apotheose, 
nem por isso merece niartyrio. Basta ([ue seja 
'xpulsíi pelo azorrague, como os mercadores do 
tiniplo. Em vão protesta contra o novo princi- 
|iio. (jue se levanta contra ella. Côa um mos- 
quito, e engole um camello. Quando os vermes 
do sepulchro a esperam para tragar tantas so- 
berbas : quando tudo a aponta reprolia : ainda 
pensa poder dizer ao pássaro que não voe, ao 
peixe que não atravesse os mares? Guerras e 
revezes são nada para a causa da humanidade, 
(]ue renasce de suas próprias cinzas. Deus e jio- 
deroso para ([ue de pedras nasçam hllios a .\bra- 
hão. 

As paixões humanas tão preconisadai como 
obstáculo ;i grande reforma social, são como 
quaesquer sentimentos, susceptíveis de educa- 
ção. A illustração que serve a des_braval-as, en- 
sinara a contel-as. Tal e o primeiro degrau a 
subir na escada do capitólio. 



Continua. 



José de Toures. 



ESTl nos SOBRE A HISTORIA SAGRADA. 

Continuação. 

cosTiMKs PMitui(i:n\Ks. 

Eram os paíriíiirbiis jvrCeitamente livres, e 
as suas famílias podem cousiderar-se boje como 
um pe<(ueno estado, .sendo o pae o seu soberano. 

Todas as suas riquezas consistiam especial- 
mente em rebanhos. Estes conq)unham-se de ca- 
bras, ovelhas, camellos. e burros. Cavallos e por- 
cos não CLitravam nesla conta, [lorque pe(iuen<» 
u.so faziam delles. 

Já nos tenqios primitivos encontramos enume- 
rados os escravos. Da sua necessidade provinha 
o grande numero que havia dcHes. Deve advcr- 
tir-se porém, que n'a<(uellas longincjuas eras, os 
escravos serviam para ajudar no lral)allio, e não 
para o dispensar delle. 

Conhecia-se também naquelles tempos o uso 
do oiro e da prata, pois se diz na Escriflura, 
que no tempo de Abrahào abundavam estes pre- 
ciosos metaes. 

Serviani-se também de perfumes ; e isto não 
deve causar estranheza. por<[ue o paiz que ha- 
bitavam produzia-os exuberantemente. 

No meio d'esta opulência eram, comludo, la- 
boriosos. Viviam sempre no campo, resguarda- 
dos pelas suas tendas ou barracas, e iiiudanilo 
de habitação, ou acampamento, segundo a com- 
modidade dos pastos, e necessidades dos seus rc- 
baniios. 

Não se nega que podiam construir cidades e 
víllas. como os outros povos, que [Mila sequen- 
cia dos tempos se foram lixando nos paize» que 
habitavam; porém preferiam a vida pastoril, co- 
mo a mais simples e a mais apropriada a despren- 
der os homens da terra, e esperançal-os n'uma 
pátria mais perfeita. 

Daijui se vè que a sua principal occupaeão 
era o cuidado dos rel)anhos ; e entregavam-se a 
esta vida com admirável constância. Não temiam 
as injurias do tempo, e para elles os raios arden- 
tes do sol, ou a cacimba da noite eram indilTe- 
rentes. 

.K.S mulheres compartilhavam estas penosas oc- 
cupações. Sirva-nos de exemplo a esposa de Ja- 
cob, a formosa Rachel, que ia tirar do poço a 
agua que bebiam os seus rebanhos; Sara, a es- 
posa de .Vbrahão, que fabricava o pão necessá- 
rio á sua populosa casa. 

E esles oflicios domésticos não prejudicavam a 
nobreza e formosura d'estas mulheres celebres. 

Que o sustento d'estes povos primitivos era fru- 
gal, bastará julgal-o por esse prato de lentilhas 
preparado por Jacob, e que tão tentador foi pa- 
ra Esaú, que por elle vendeu os seus direitos de 
primogenitura. O banquete com que Abrabão 
brindou os três anjo? seus hospedes, é d'uma 
simplicidade admirável; — carneiro assado, pão 
asmo cosido sob a cinza, hydromel e leite ! 

Não se infira por isto que os antigos falriar- 



94 



O PANORAMA. 



chás não conheciam a caça; de quando em quan- 
do comiam os animaes apanhados n'ella. Veja-se 
o que a este respeito a Escriptura diz de Isaac 
e de Esaú. 

A hospitalidade era um dos actos beneiicos 
d'este povo ; e levavam-a a tal ponto que mui- 
tas vezes chegavam a ser importunos para com 
os viajantes. Cedendo qualquer aos seus convi- 
tes, então era para ver como toda a familia an- 
dava em movimento para obsequiar os seus hos- 
pedes, que reputavam enviados do ceo. O dono 
da casa lavava-lhes os pés, determinava as igua- 
rias que se lhes deviam apresentar, e era o pró- 
prio que os servia. As mulheres u'esta occasião, 
ou não appareciam, ou vinham á presença do 
estranho, cobertas com grandes veos. 

Não serviam as grandes viagens de obstáculo 
a estes povos primitivos. Qualquer homem as em- 
prehendia sósinho, e sem algum soccorro ou ad- 
jutorio. Jacob saiu de casa de seu pae para ir 
a casa de Labão, seu tio, não levando comsigo 
mais do que um bordão. E o caminho que teve 
de andar era nada menos de duzentas léguas ! 
Onde a noite o surprehendia ahi se deitava. Uma 
pedra lhe bastava para travesseiro. E este homem 
era o tilho de Isaac, o neto de Abrahão, com 
quem os reis buscavam alliaucas com que se hon- 
ravam ! 

os MÁGICOS DE PHABAÓ. 

É uma verdade que se não deve acreditar só 
ua palavra d'aquelle que se diz enviado por Deus. 
Deve-o provar por milagres que autorisem a mis- 
são de quem o enviou. Os mágicos de Pharaó 
fizeram milagres ! Logo eram lambem autorisa- 
dos por Deus. 

Aqui está uma proposição onde se faz neces- 
sário distinguir a verdade da mentira ; a reali- 
dade, do prestigio. 

Deus quiz punir um rei injusto, e uma nação 
criminosa que violara o direito das gentes, e os 
logares sagrados da hospitalidade, reduzindo á 
mais cruel escravidão um povo estrangeiro, ao 
qual o Egypto devia a salvação, e de quem não 
tinha motivo de queixa. Permittiu pois aos seus 
magos, que operassem prodígios para os confun- 
dir mesmo por ellcs. 

Os egypcios adoravam o sol, debaixo do no- 
mp de Osiris, o rio Nilo, os animaes, e as plan- 
tas. Deus, por via de Moysés, converteu-lhes o 
sol em trevas, transformou-lhes em sangue as 
aguas do Nilo, e cobriu de ulceras os animaes, 
c os seus adoradores. Encheu o reino de animaes 
damninhos, destruiu-liies as plantas com sarai- 
va c gafanhotos, para provar á idolatria que afo- 
ra elle não havia Deus. 

Que diflerença, porém, entre os prodigios de 
Moysés e os dos magos de Pharaó? Os mági- 
cos, não podendo com a sua vara fazer brotar 
da terra nenlium daquelles animaes damninhos, 
que Moysés evocou somente com a sua palavra, 
conressain a sua fraqueza, dizendo: — aqui q,n- 
(1(1 o dedo de Deus. 



A TERRA SANTA. 

O paiz habitado pelos fdhos de Israel teve 
muitos nomes. Primeiro foi designado pele de 
terra de Canaan, em consequência de ser occu- 
pado pelos descendentes d'este neto de Noe. 

Contavam-se então n'este paiz sete povos di- 
vididos em muitos reinos, (piando os hebreus, 
capitaneados por Josué, se apoderaram delle. 

Phamou-se-lhe Terra da Promissão, porcjue 
Deus promettera dal-o á posteridade de Abra- 
hão, Isaac, e Jacob. 

Teve o nome de Judéa depois do captiveiro 
de Babylonia, porque a maior parte dos que vie- 
ram estabelecer-.se nelle eram da tribu de Judá. 

Também se lhe chamou Palestina, nome da- 
do pelos gregos e romanos por conhecerem pri- 
meiro os palestinos ou philisteus do que os ju- 
deus, por via do seu commercio. 

Finalmente os christãos appellidaram-o Terra 
Santa por causa dos mysterios de Jesus Christo 
n'elle operados para a redempção do mundo. 

Este paiz tem quasi sessenta léguas do meio 
dia ao norte, e oitenta do oriente ao occidente. 

Limita-se ao meio dia por grandes montanhas 
que cortam o vento abrasador dos desertos da 
Arábia, e estas montanhas seguem na direcção 
do deserto pela banda do oriente. 

O mar Mediterrâneo limita-o ao poente, es- 
tendendo-sc-llie pela parte norte, e por i.sso o re- 
fresca com os seus ventos. 

Pelo norte íica-lhe o Libano, cadèa de monta- 
nhas subdividida em seis ordens, que se vão le- 
vantando umas sobre outras como um lanço de 
escadas, oppondo assim grande barreira aos ven- 
tos glaciaes do septentrião. 

O interior d'este paiz, antigamente tão fecun- 
do como o diz a Escriptura, onde manam o mel 
e o leite, segundo as suas expressões, está divi- 
dido por innumeraveis montes e collinas, excel- 
lentes para o cultivo da vinha e de arvores fruc- 
tiferas, e creação de rebanhos. Nos seus valles 
rebenta uma immcnsidade de correntes, necessá- 
rias á fecundidade do paiz que não tem outro rio 
afora o Jordão. As chuvas n'este clima são ra- 
ras, mas regulares, porque só abundam na pri- 
mavera e no outono, ao que os livros sagrados 
chamam — «a chuva da madrugada e a chuva da 
noite.» No estio os abundantes orvalhos obstam 
á sequia. 

Continua. A. 



A ingratidão, e desobediência dos filhos para 
com os pães seria substituída pelo amor. e res- 
peito, se a lei desse a estes a livre faculdade 
de dispor de seus bens. 



A noticia sobre a Academia de Bollas-.Vrtos 
em S Petersbourg, cujo desenho apresentamos, 
reservamol-a para o numero seguinte, por não 
podermos dal-a no de hoje. 



i 



o PANORAMA. 



't& 




GEMISIIOME>S DE 1572. 



Estes trajes oram os de corte em Fraiira no 
finado de Carlos ix, e como se vè não unifor- 
iies, porém assaz variados, porquanto só apre- 
sentamos os principaes, copiados da collecção de 
Gaiiinières, existente no galiinete de estampas 
ih bililintiieca imperial, desenhadas mesmo cm 
tempo d aquelle moiiarclia, e que todas teem a 
data de \^~i ; mostram as diflerentes capas que 
então se usaram, primeiro a de gola derrubada 
com forro de setim, depois a de gola direita e 
forrada de taleta, outra com mangas assopradas 
e soltas, e liiialmente a de capuz, denominada 
de Bearn por ser imitada dos montanhezcs dos 
Pyreneos ; estas quatro modas distinguiam a ca- 
pa de grande e pequena gala, quer para o ve- 
rão, quer para o inverno. Vèem-se lambem as 
calças chumaçadas e as pantalonas justas ao cor- 
po, são innovaçõcí que já annunciam revolução 
no modo de vestir, que de facto se verificou mais 
tarde no reinado de Henrique ni. 

, ^^\ I 

i 
A ociosidade, o luxo. e o mau exemplo, são 
os principaes motores da prevaricação dos cos- 
tumes. 

VOL. I. 



VINGANÇA POR YiNGANÇ.\. 

Continuação. 
II 

o ORVTORIO DE ALDONSA PERES. 

Os josuilas tinham saido. 

Simão Rodrigues encostado á janella parecia 
absorto em profundas meditaçiies.- A vinda do 
padre Gaspar, na occasião em (jue mais arro- 
bado estava ao lado de sua prima, sonhando 
delicias de um venturoso porvir , aquelle medo 
glacial que lhe arripiara todo o corpo : aquelle 
concheganiento de Beatriz agarrando-se-lhe ao 
braço; o olhar obliquo do padre, que, espiando 
as acções dos dois amantes, duas vezes lhe sur- 
j prehendera : tudo se apresentava ás suas idéas 
como um turbilhão confuso, e de todos os pen- 
samentos não podia conjecturar senão um mal 
i futuro. 

Era natural para Simão que sua tia fosse re- 
conciliar-se no seguinte dia, mesmo porque Âl- 
donsa .o tinha em costume ; porém que o pa- 
j.ijsEino. ii. í<Sõ7. 



26 



O PANORABÍA. 



ili(i \\\o viesse recordar, coisa era com que elie ] 
não potlia atinar, c naturalmente suspeital-o fa- ! 
zia de que o jesuila ie\a\a interesse em fallar j 
a sós com Aldousa Peres, tanto em iiariicular 
que unicamente pelo sifc^illo da conlissão conser- 
var-se poderia o segredo sobre a pratica que 
ambos deviam ler. 

Simão Uodrigues dava por tal forma largas 
ao seu pensamenío ; e este cada vez mais pro- 
fundo ilie caia na duvida e ua irresolução, sem 
saber a que atcr-se. Á similhança do homem 
que íinuando seus passos á beira do precipicio, 
se debruça de mais na contemplação que faz 
d'elle, c vae porlim escorregando de penedo em 
penedo, e de fraga em fraga, até chegar-iiíeao 
luudo, licando depois confuso e mara\ilhadode 
ter chegado ali a salvamento, eenieiado na for- 
ma como SC salvará d'elle. 

As Trindades soaram ; e a voz de Aldonsa Pe- 
res veiu sacudil-o d'a(iuelle profundo racditar. 

Ale ali não arredara ainda pe da janella, c 
sem curar da escuridão que a pouco e pouco ia 
esíendeudo sua negra tinta pelo horisonte ao 
nascente da cidade, parecia ainda engolfado no 
espectáculo d^aquelle panorama ! 

Não eram os olhos do corpo, que elle tinha 
atteutos, que esses lhe erravam ao acaso por 
.sobre os objectos que se lhe apresentavanr, sem 
u'elles fixar a atteucào ; eram os dalma que 
buscavam penetrar-lhc o futuro denso e opaco; 
porém quanto mais os aílirmava, mais de tre- 
vas se lhe condensavam. 

Beatriz também não csta\a menos inquieta 
que seu primo. Nunca o padre mestre Gaspar 
lhe fallara ião brando, nem tão despido do ri- 
gor ascético que costumava empregar para guiar 
as almas no caminho da salvação ; e aquella 
conqiaração tão ílorida v. tão meiga da açucena 
do Senhor, junta com os laços espirituaes, allu- 
uindo ao seu amor, deixava-lhe aperceber-se de 
que o padre da Companhia soubera ler-lhe no 
fundo do coração, e lhe devassara ahi o segre- 
do que nem mesmo revelara a sua mãe, ape- 
sar de su.speilar que o desconliara ella. 

Seriam taes palavras na bocca do pailre mes- 
tre Gaspar indícios de assentimento, ou de re- 
provação ? 

No primeiro caso, achava-sc completada a sua 
ventura, por (juanto o casamento com seu pri- 
mo não encontraria olorvo ; no segundo era a 
perspectiva do inforiunio , e de uma porlia- 
da luta, porque bem conhecia o poder (}uc o 
padre mestre exercia sobre o animo de sua mãe 
— força duplicada pelo sentimento religioso de 
uuia alma tão cândida. 

['orem, Beatriz, ([ual se preparava para a le- 
licidade, assim mais energicamente se armava 
para a peleja, resolvida a não ceder por (|uanto 
houvesse no mundo. Caracter de similhante te- 
nacidade herdar.i-o de seu pae, que o possuirá 
cm subido grau. 

Beatriz fazia esias relle.vões ao passo que bis- 
poulava a sua capinha ; c foi, como seu primo, 



arrancada a ellas pela llau^a<la voz de suamãc,. 
quando esta disse : 

— Simão, que de vezes tens espraiado olhos 
por essas hortas da encosta do Castello, e nun- 
ca saciado pareces de contemplal-as ! Vamos, 
lilho, que estão soando Trindades, e no alma- 
zem te aguardam para o cerrares. 

— E verdade, accresceutou Beatriz. . . Lou- 
quiiiha i[ue sou. . . la ião embebida na tarefa 
da minha capinha, com tenção de a vestir áma- 
niiã, que nem dava pelas horas fugindo tão 
apressadas ! 

— E eu, tia minha, nem reparo fazia nas hor- 
tas, nem na encosta. . . . Sonhava.' . . sonhava 
agora. 

— Nas santas palavras do servo de Deus ao 
adorarnios o prodígio do arco da velha ? 

— Nem era isso. , . Nem cu sei que sonha- 
va ! 

E assim dizendo, despediu-se de Aldousa c 
Beatriz, e saiu apressado, qual o insensato que 
passeia sem destino, ou pela rua fora corre aco- 
tovchuuio todos, como se tivera de achar-se em 
ponto certo e a hora dada, e rcceiara chegar 
tarde. 

Mariauua, que o seguira para cerrar a porta, 
estendeu a cabeça para a rua, c disse a sua 
ama : 

-—La esta o \iceute Braguez, trepado á ca- 
cada, acendendo as alauipadas do oratório de 
Nossa Senhora da Graça. 

— Não veiu hnje cedo, respondeu a viuva, 
oliiaiulo jjela janella ([ue deitava para a rua da 
Pella ; que ja o da Senhora do Ro.sario, ali na 
Porta díi Palma, e o da Virgem Mãe, lá adian- 
te na da Mouraria, alumiados estão também. 

Á noticia de que estavam acesos os lampiõe> 
dos nichos, que a piedade christã dos nosso> 
antigos monarchas lizera collocar sobre as por- 
tas rasgadas na muralha da cidade, Sancha foi- 
se chegando para a adula, alim de tomar o lo- 
gar fronteiro na janella que deitava para a rua 
direita — logar que ella. n'aquella casa, estava 
de posse immeraorial, em attenção á sua edadc. 

O grande acontecimento que attrahia Sancha 
para a janella era a reza do terço, que todas 
as noites se rezava u'aquella rua, apenas davam 
Trindades, capitulado por Vicente o Braguez, 
dono de uma tenda que estava quasi fronteira 
ao arco. 

Aiiuellas pessoas que se não agglomeravant 
na rua para esta devoção, assistiam a ella das 
janellas ; c d'ahi respondiam em commum, (í 
em altas vozes, ás orações de quem capitulava. 
Era indicado com uma matraca o momento em 
((ue se dava principio á devoção, e com uma 
campainha a occasião em que se chegava ao 
Gloria Palri. 

A hora não se fez demorar muito. 

Já Aldonsa Teres, Sancha e Marianna estii- 
vam reunidas na janella, (|uando a rouquenh.i 
voz de Vicente o Braguez principiou a entoar: 
«67o/"i(í Palri...' 



o PANORAMA. 



pmt 



Mas porqiio não assistia taiubom Beatriz esta 
noite a reza do terço ? 

Aquella alma estava muito encontrada de di- 
versos pensamentos para poder rezar em eom- 
mnm. quando, mais do que nunca, Ihceramis- 
l"r orar sosinha. 

Por isso, com licença de sua raãe. fora acen- 
der as velas do oratório, onde Aldonsa Peres 
lievia depois ir fazer s<mi exame de ronscieiícia. 
'• ahi se deixara ficar. 

Lançando mão do Yi\ni dos Psainios — li\ro 
'onsolador em todas as afllioeões da vida, e 
' heio de liymnos para todas as alegrias — abriu-o 
uo acaso no i.\ ii. e leu : 

«Que a minha oração chegue atq vos. Pres- 
tac vossos ouvidos aos meus gritos, porque a 
minha alma está acabrunhada de males, e eu 
estou prestes a cair no inferno...» 

Deixemos aquella alma orar cm socego. e 
iiào vamos perturbal-a no recolhimento com (jiie 
iiusca, nos livios da religião, palavras que tra- 
duzam o que está sentindo. 

Vamos descrever o iiralorio de Aidonsa Pe- 

Acasa onde elleeslaxa era um pequeno quar- 
'■>. cujas paredes se forravam com custosos pan- 
'i"S de raz. representando passagens da Escrip- 
!ura. N'um d'clles se tigurava a entrada de Ja- 
1 ob em casa de seu tio Labão, na Mesopota- 
:MÍa ; o juramento de servil-o por sete aunos 
:iara alcançar a mão de sua prima Rachel ; a 
-ubstituição desta por Lia, quando se terminou 
(^ praso : o novo contracto de outros sete annos 
lara finalmente obter aquella a quem amava ; 
' a partida de casa de seu sogro, com as duas 
lulheres, fdhos. e rebanhos que lhe perten- 
' iam. 

Noutro panno viam-se debuxadas algumas 
-< cnas das historias de David e Salomão. 

Do teclo pendia uma alampada de prata, con-' 
-errada sempre acesa. 

O oratório, propriamente dito. abria para os ' 
;idos umas immensas portas de madeira do Bra- 
il. riquíssimas no lavor de talha c embutidos 
!e marfim, com seus frisos doirados. 

Estavam cobertas internamente de placas e ] 
;eiicarios com rariadissimas estampas de santos, ! 
cuja historia a velha Sancha mais que ninguém i 
sabia em casa, e repelidas vezes contara aBea'- 
!riz, quando, para a enlrefer em creasça. ali a: 
levava a ver o I'ae ih Cen. 

Uma banqueta, occupada por uma dúzia de ; 
castiçaes de prata levantada em flores e folhas j 
muito ao natural, senia dn base a um grande! 
retabolo da Virgem no mysterio da Conceição, I 
trinta e quatro annns ante.s fem cortes de 1CÍ6; 
declarada padroeira d"estes reinos, e significada j 
á cidade a sua intercessão em lapidas encrava- ' 
das nas portas da muralha, como aquella que | 
se lè ainda hoje por cima do Airo da Moura- ' 
ria : — A Virgem Maria No>sa Senhora foi con- j 
cebida sem peccado orisinal. j 

No centro da banqueta ek5vava*ee, numa cnií i 



de pau santo, lauxeada de madrepérola, nma 
imagem de (;iiristo, obra prima em iiuirlim. 
lavrada pelos indios, e trazida daquelhis re- 
giões pelo marido d.Vldonsa Peres n'uma das 
suas viagens. Kntre vários santos em vulto, fi- 
gurava um S. Francisco Xavier na altitude de 
pregar aos gentios : e o maTlvr S. Sebastião, 
com uma rica laxa de veludo carmezi franja- 
da de oiro, e suas seitas de jirala. 

As coroas c os resplendores eram de linissi- 
ma prata de lei ; e cada santo acliava^se orBá^ 
do com tantos cordãíè de oiro, amieis, pingen- 
tes, e arrecadas de exccllente pedraria, (juo ei-a 
a quanto os oliios mais podiam admirar de ri- 
queza. 

Dir-st-liia que ali estava o thesouro da círsa 
de Aldonsa Peres, se acaso se não soubera que 
em contado haviam cheias duas pequenas ar- 
cas. Estas, que eram forradas de carneira ver- 
mellia, com ]>regaria amarella, estavam lambem 
guardadas ali na casa do oratório, como collo- 
cadas sob a protecção d"a([uelles santos. .Ser- 
viam ao mesmo tempo de assentos, porque ne- 
nhuns outros moveis ali existiam. 

Beatriz acendera duas velas, e apagara o ci- 
rio bento qne ale ali ardia desde que rebentara 
a trovoada. Lia e medita\a os psaimes. como 
dissemos. 

Continua. «^^ 



.\CADEML\ DAS BELLAS-ABTES 
EM S. PETERSBOIRG. 

Havia vinte e cinco ânuos (jue em França es- 
tava concluido Versailles, quando Pedro i da 
Rússia manifestou aos seus confidentes o projec- 
to que concebera de transportar a sua capital 
das margens do 3Ioskowa. e do augusto santuá- 
rio do Kremlin para a jionla do golpho da Fin- 
lândia nas praias paludosas e deshabitadas do 
Neva. 

O local sob considerações de politica não era 
talvez bem escolhido: os estadistas, que olham 
muito para o futuro e desdenham ás vezes o pre- 
sente, pretendem que Pedro commettera um er- 
ro tão grave quão grandiosa a sua obra e audaz 
o seu projecto ; isto é, que para nictter respei- 
to aos suecos e communicar directamente pelo 
Báltico com a Europa occidental. removeu a' 
Rússia ou \yln menos o seu centro de acção pa- 
ra longe do huio a que se inclina por sua ori- 
gem e Índole, por suas necessidades e ambições, 
isfo é. para longe do miiado oriental ; porquan- 
to se tiver de acontec^ír, com anuuencia da Eu- 
ropa ou a despeito delia, que o czar euv ie seus 
exércitos alem do* Balkans e suas esquadras além 
do Bosphoro; e apossando-se de Stambui a hera 
guardada restai)eleça a cruz grega sobre os zira- 
borios de Santa Sophia, desde então a Rússia 
tendo duas cabeças, uma ao norte c ou4ra aa 

Cl Video Rtfitt: aHtcceittàW. 



89 



O PANORAMA. 



meiodia, dividir-se-ha infallivelmente em duas 
partes, como siiccedeu ao império romano em 
tempo do fundador do Constantinopoia. 

No entanto o génio e força de vontade de Pe- 
dro I com os recursos de seu império levantou 
como por magica d'entre pântanos desertos uma 
cidade regular, formosa, europca, ahi onde o 
Neva, antes de lançar-se no golpho da Finlân- 
dia se reparte em muitos braços ((ue formam ca- 
naes de difFerentes tamanlios e umas quarenta 
ilhas, as quaes no começo do século passado, 
bem como as terras visinhas, eram todas alaga- 
diças, e que hoje, postoque coraprehendidas no 
recinto de S. Petersbourg, estão occupadas por 
jardins, parques, e magnificas casas de cam- 
po, sendo mui frequentadas no verão como es- 



pécie de passeio e recreação dos habitantes. En- 
tre as maiores conta-se a ilha Vassili ; nella es- 
tá a academia das bellas-artes, grande edificio 
de setenta pés de elevação e quatrocentos de 
comprimento cuja fachada que olha para o Ne- 
va é guarnecida de columnas e pilastras; sobre 
a cupola central figura uma colossal Minerva, e 
o pórtico e apoiado por um Hercules farnesio r 
uma Flora. O parapeito em frente da academia 
é adornado com duas soberbas esphinges de gra- 
nito trazidas do Egypto. Este instituto é tão vas- 
to que não só ali residem os alumnos como tam- 
bém os professores, académicos, e muitos artis- 
tas ; diz-se que ao todo não são menos de mil 
pessoas. Quanto ás obras darte não contém gran- 
de thesouro. M. 




NOVA CAPELLA DE S. MlfiUEL. 



Coventry, cidade de Inglaterra, que dista de 
Londres para o noroeste trinta e duas léguas, é 
de fundação muito antiga, como ainda mostram 
em gerai os seus edifícios, entre os quaes se no- 
tam alguns templos dignos de exame do curioso. 
No meio do mercado grande ha uma cruz da al- 
tura de sessenta e sete pés, toda ornamentada 
com íiguras de muitos reis dlnglaterra ; fabri- 
ca relógios, tecidos de lã c seda, e outros ob- 
jectos. No meado do século \v celebrou-se ali 
um parlamento, que foi alcunhado diabólico, 
contra os cabeças da facção de York. Nesta ci- 
dade esteve ]ior algum tempo prisioneira a in- 
ieliz Maria Stuart. 

Ahi se começou ultimamente uma capcila da 



invocação de S. Miguel, cuja jiedra fiindamen' 
tal foi collocada com pompa publica em o dia !* 
de Outubro do anno passado ; é delineada para 
accommodar seiscentas e setenta pessoas iios dia^ 
de exercido do culto ; o eslylo de architectiira 
é o denominado -gothico ornamentado.' 

M. 

DILUVIO DE LUZ 

Conclusão. 

VIII 

Em todos os tempos sempre houve quem, des- 
prendendo-se dos laços do egoisnio romnuim. se 



o PANORAMA. 



votasse por impulso d'uni afTecto generoso a cau- 
sa da humanidade. Se assim não entravam pelo 
heroísmo, faziam alguma eoisa mais que o so- 
lipso vulgar, que nas idoas, nos raciocínios, nos 
juízos, uas crenças, no trabalho emlim, não quer 
nem acceita por guia outra luz, que não seja a 
que leva de |)receito á conveniência privada. 

Bem amargo tem sido o destino d'essas almas 
preeleitas I Os que não as entenderam, e para 
(|uem j)or isso mesmo eram indiflerentes, deixa- 
ram-nas passar sem apoio nem conforto. Os cor- 
rompidos, porque mirando-se n'ellas não tives- 
sem de (|ue envergonha r-se, e corar de pejo, não 
as quizeram ao pe de si, e expeiiiram-nas co- 
mo energúmenos. Banidas, errantes, persegui- 
das pelos poderosos, ainda assim nada pôde of- 
fuscar a sua aureola, porque pediam ser livres; 
que não as curvassem com o peso e ignominia 
dos grilhões ; que não as impacientassem pelos 
solTrimentos do corpo, impedindo-as de remontar 
as alturas de que emanavam, e empenhar-se na 
paz do mundo, introducção obrigada de toda a 
felicidade. Dos poucos que as ouviram todos, pe- 
la insciencia ou pela má vontade, as escarnece- 
ram. 

Os verdadeiros apóstolos teem quasi sempre 
acabado como ave innocente presa do abutre. 
Dilaceraram-lhes as entranhas, e as aves carní- 
voras as partilharam entre si. Foi d'ahi que mui- 
tas vezes nasceram appellos extremos, preferín- 
do-se ao soflVimeuto da perseguição o borbori- 
uho do povo amotinado, o fogo e o combate na 
íríncheíra. o calor dos paços incendiados. Se não 
queriam ver estas contradicções entre a paz que 
professavam, e a guerra a que recorriam, por- 
que levantavam sobre elles mão injusta? Porque 
<sbofeteal-os, e cuspil-os ? Quem sanccionaria 
loís direitos, um que dava a predilectos acção 
honesta para abaterem, para comprimirem ate á 
aniquilação tudo e todos, levando a t\ rannia alem 
da barbaria ; outro que não consentia, que de- 
baixo do jiigo se gemesse ao menos, porque até 
gemer era subversão? Se a humanidade era uma 
na origem e vocação, como não seria um só o 
direito de toda ella? E comtudo tão mudado era, 
e é, o direito, que custa a reconhecel-o, de trans- 
viado que está da origem. Séculos e homens o 
teem perdido. Uns e outros teem ido juntando á 
obra do passado mais um vicio, mais um abuso. 

.Vpostolos sempre foram martyres da fé social. 
Sacriticam-se para conduzir ao leito natural a 
corrente distrahida por mãos sacrílegas. Querem 
restaurar a sociedade, e vestir-lhe as vestes cân- 
didas das filhas de Sião. Caminham debaixo do 
ferro e do fogo do inimigo, que quer escravisar 
os que houveram herança de liberdade e egual- 
dade. .\ugusta e de benção é a missão! Mas até 
aqui o seu fructo não pôde sasonar limpo e escor- 
reito, que más hervas o teem insombrado. Ater- 
mado o tempo da colheita, tão fallida e pouco 
rendosa veiu ella, que pareceu outoniça. Essas 
mas hervas, que teem infezado um pouco a plan- 
ta social, são os rigores e o ferro, em logar da 



illustração que convence e cathequisa ; as exa- 
gerações, porventura de boa fé, que a inexpe- 
riência fez commetler nas revoluções ([ue se pro- 
punham acender nova luz para a humanidade. 
Semearam espinhos nos campos onde não que- 
riam que vecejasscm senão rosas. 



IX 



É agora que surge no ennuvcado horisonte 
social nova eslrella de bonança. Acende-se pha- 
rol mais seguro, que levará á terra de promis- 
são. Este culto, que todos prestam á paz ; esta 
disposição dos espíritos, que pedem illustração, 
e se abrem a ella, são syrtes em (jue a tyran- 
nia, que desde muito ouve o som confuso do seu 
remorso, hade perder-se. 

Armas, ribeiros de sangue, revoluções tumul- 
tuarias não sabem erguer monumento que per- 
dure. X revolução para attingir ao seu verdadeiro 
lim, para consolidar-se, e resolver-se em bene- 
licios sociaes, hade fazer-se nos espíritos. Guer- 
ras não saram feridas sociaes ; irritam-nas, fa- 
zem que as ulceras se convertam em gangrena 
incurável. O povo que um dia se levantou pela 
liberdade, curvou depois a cerviz á tyranuia. 
Contra a espada, que um dia se ergueu victo- 
ríosa, veiu depois o próprio vencido, e com maior 
ímpeto lhe fez abater para a terra o orgulho, e 
os lauréis dos passados triumphos. 

Cada campo de batalha, em que ticaram in- 
sepultos tantos martyres, foi uma decepção pa- 
ra a causa esperançosa. O coração dilacera va- 
se á vista do espectáculo aterrador de tantos ma- 
les. O meio foi julgado emlim perigoso e inefli- 
caz. Não minguaram forças nem valor, mas tan- 
tos rios de lagrimas derramadas pela viuvez e 
pela orphandade, chamaram a razão a novo con- 
certo. Proclamando sem preliminar a liberdade 
e a organisação equitativa da sociedade, pade- 
ce-se, como por tal arrojo já Christo padeceu,, 
mas o principio caminha vivo e latente, cami- 
nha qual raio (jue se despede das nuvens, cor- 
ta impetuoso, fere, e derruba quanto o estorva 
na carreira. X verdade, uma e indivisível, sobre- 
vive sempre, porque não morrerá jamais. Quan- 
do parece perdida apenas se esconde. Aguarda 
melhor conjuntura de apparecer, e ir, coroada 
com as I)ençãos de todos, seutar-se no throno do 
mundo. A estrella solitária, que ao alvorecer ain- 
da fulgia nos ceos, não desappareceu senão apoz 
porfiada resistência. Sumiu-se, mas não se apa- 
gou. Na seguinte noite surgirá de novo, com a 
mesma vida, com a mesma animação, com o mes- 
mo scintillar. É assim a verdade, que nenhuma 
outra coisa é senão a liberdade, a um tempo 
principio e fim, causa e etíeito do progresso. 

A verdade é hoje mais do que nunca indis- 
pensável conhecel-a e ensinal-a, porque é a úni- 
ca arvore amiga a cuja sombra dilecta podemos 
repoisar. depois de Ião ardentes peregrinações, 
depois de soes tão calmosos. Desceu do ceo á 
terra como refugio da vida. É a eslrella brilhan- 



30 



O PANORAMA. 



ir ([ui! luz sobre as tempestades da existência, 
t: como aos .Mafios nos Ijadc ronduzir poi- ra7iii- 
nlios ij{iioU)s ao oiimiti" da paz c da lelicidadc. 
Agora é' mostrar a lodos o brilho da \erdade, 
lallar á razão e á couscieiícia, não deixar (jiie 
\aciliein, destruir a duvida, depor o erro, línaii- 
lar a alma mais ii(d)r(; e relorrada sohrc a mi- 
na dos preconceitos, piaular a sciencia onde ape- 
nas havia a fé, se a havia, e niio convém (|ue 
a itaja. A illustração hade gerar Iciicidade, e a 
Iclicidad^í virtude doce e amena, que a virtude 
Víirdadeira não é de lur\o semblante e fallazes 
asperezas, mas alej^re, bondosa, concertada de 
delicias. O tempo em que a julgavam montanha 
fragosa e alcantilada, jjara guindar á qual se 
Iressuava c desfallceia e não se alcançava na cii- 
miada i)or ultimo lenili\o ao cansaçft senão so- 
lidão de rochas descompostas, onde nem vi\ia 
musico desbotado, passou já ! 

K tempo de abrir o livro do passado, que não 
illude, que não mente, ([ue dá a todos um fatal 
desengano, que diz o (|ue foi, e ensina para que 
i^ à existência. 

Não se percam as lições da experiência. ]*ro- 
rurc-se o codif^o original das liberdades iiuma- 
iias, que lanto ha correm á revelia c mal com- 
prohendidas no juizo do mundo. Se muito ha que 
a humanidade padece, não e is.so motivo jiara 
desesperar. Na sua vida os séculos são dias. 
Ouasi que receninaseida na redenípcão, apoia 
começa a crescer. Sc ainda mal se conq)reheii- 
de, paira lá caminha, e hade cheiíar ao conhe- 
( iuícnto de si e da verdade, cuja luz já parece 
<]uerer raiar para lodo o mundo. Inda (|uc sem 
estrondo já as boas doulrinas peneiram em todos 
os corações generosos. 

O' passado, que se julgou glorioso, olhemos 
com p jo para ellc, (jue para desculpar-sc não 
linha senão a sinceridade dos fins, o desejo cor- 
deal de salvar os (jue gemiam. Mas os meios, 
esses deshonrava-os o erro. Em logar de derra- 
mar tanto sangue, (consumir sem fruclo tanto oi- 
ro, tantas forcas, tanta boa vontade, devia levar 
a todos a illuslratíão, o conhecimento do cncar- 
íço e do direilo, o horror á lei que ojiprime, o 
respeito á (|ue é justa e egual. 



Xi 



Al liberdade, a ventura pela moralidade nui- 
Aersal é lambem uma religião. O seu ;i|iostola- 
do começa. .Missionários da doutrina pacilica de- 
ve.m aj)parelliar-M' com resignação e bons exem- 
plos. S() assim alcançarão victorias, (|uc nem 
(raição nem lyrannia possam minar, destruindo, 
como alé aqui, numa .só hora a obra de tanto 
tempo e de taulos ijcrigos ; derribando homens 
e priuci|)ios só com um sopro dadversidade, (-o- 
1110 o vento do deserto abala a grande arvore da 
floresta, que apoz \acillar um nnjnienlo, i'slala, 
e jaz |)or terra. 

Mi.ssionarios ! Apparelhae-vos para combale, 
íião de força, mas de lozão! Acendei pelo mun- 



do luz que o illuminc sem dcshimbral-o nem pcr- 
del-o no escolho das visões c delirio phrenetico: 
e a sociedade será salva sem passar por nenhum 
cataclismo lucluoso. Advogae de novo modo a 
causa da humanidade. A liberdade não medra 
senão ua paz. Acaulelae-vos comludo dos (pie 
vos crerem sem vos ouvirem nem conhecerem, 
que esses taes com o seu plano d'enganos são 
como o sepnlchro, exteriormente branqueado, li- 
so, e espelhante, que dentro de si guarda ossos 
c as(]uerosidade. O lobo também se reveste da 
mansidão do cordeiro para entrar insuspeito no 
redil. 

Homens constituidos em poder! Deixae (jue a 
liberdade e a paz façam seus caminhos. Com a 
reacção injnsta darieis mais forças aó gigante, 
(jue ajjcnas se espreguiça depois d'acordar da 
primeira somnolencia. Fanatismo e liypocrisia. 
([ue sois os peiores dos crimes moraes, não con- 
tinueis a obrar com negra c damnada vontade. 
Não vos Icvanleis contra a sociedade, ea favor 
do individuo. Não continueis a jungil-a ao vos- 
so carro de tortura. Ouercndo alrou\ar-lhe o bra- 
ço, ensinaes a le\antal-o. Querendo materiali- 
sar-llie o espirito, fazeis com que \òe mais alto 
e de lá aviste, olhando para a terra, a aviltação 
em (pie jazera, e por isso vos amaldi(;oe e cuspa 
na face impudica. Convencei-\os, que a huma- 
nidade camiivha sempre na senda do progresso, 
e (pie n'esla tendência natural é constante como 
a grande corrente do oceano. O progresso, que 
é coisa de Deus, não será o vosso poder (jue o 
estorve. 

O mundo tem olhos fixos sobre os vicios que 
corroem a constituição das sociedades. A accu- 
sação I' antiga. A contestação só tem appareci- 
do na obstinação d'algumas más rontades. (I 
mundo nem hade succumbir a cilas, nem enga- 
nar-se na sua esperança de reforma. Os bons 
princípios convertidos em Dilcmo de Liz porão 
termo ás guerras fratricidas ; confundirão ojiprcs- 
sores ; salvarão fracos e opprimidos; retemperan- 
do a sociedade, fazendo-a mai-s^ digna de í<i c do 
porvir. 

Josí: py: Torhks. 



(imSONÍCAS MONÁSTICAS. 

DA CIOMPAMIIA l>K JKSrs. 

Continuação. 

Ill 

CAS\ lu: s. noQCi:. 

I)eseja\aiii os padn^ da Companhia, (pie já' 
tiiihani em i'orlugal famosos collegios. dotados 
com excellenles rendas, estabelecer também a/(ui 
em Lisboa uma casa prolessa, onde sem renda. 

(•) Da num, 52 do vol. anlcccdcnlc. 



o PANORAMA. 



:{f 



lomo í^c li" lia Cliionica, por serem inciiditaiiles, 
obser\a!iscm a mais exacta pobreza, sem outro 
subsidio (jue o da esmola dus lieis. 

Einiou para este iim a Portugal o fundador 
(Ja rciijíião, .Santo I^naiio de, I.ojoJla, ao hes[)a- 
iiliol 0'padre .leronuno Nadai, para solicitar de 
<'l-rei D. .loão III a devida lieeura. El-rei llie 
ordenou que escolhesse na cidade sitio actommo- 
dado para o intento ; c logo os padres assenía- 
laiM, ([ue irum campo ([ue iicava então Ibra da 
I idade, porem mui pnnimo a ella, e ijiie servia 
de cemitério, onde estava uma ermida de .S. Uo- 
'|ue, e se chamava Caiiipo (la'< Oliveiras, se le- 
Nauta.s-se a sua oasa professa. 

Assim o communicarani a el-rci ; porém os ir- 
mãos de .S. lloijue, ((ue ali linliam a sua ermi- 
da, como dissemos, mostraram repugnância á 
\oiilade dos padres, e foi eiuarreyado D. 1'edro 
Mascarenhas, esse íidalgo de ([ucm já falíamos 
na primeira parte d'esta chronica, de comijor 
a iju(!stão, e conseguiu que a sobredita irmaii- 
liade cedesse, propondo as condições para a doa- 
i.ão. 

k nova casa conservou o titulo de S. Roque, 
'• erigiu-se no seu templo uma capella ao mesmo 
-anto, onde os irmãos continuaram suas dcvo- 
'ões como na ermida. 

Daijui veiu serem geralmente designados cm 
l.i>boa, pelo titulo de padres de S. Ro<|ue. 

Aquella ermida havia sido erecta no reinado 
de el-rei l). Manuel, em occasião de uma gran- 
de jH-sle que afíligiu o reino. I)ivulgara-se então 
rm Portugal que a intercessão d'este .santo era 
iíllca<:issiiiia contra as contagiõcs, como se esta- 
.a comprovando em Veneza, e o piedoso nionar- 
rlia mandou pedir á referida republica que lhe 
■ nviasse algumas relíquias suas. Satisfez \eneza 
.10 pedido, e para as guardar se levantou a er- 
mida em ii de Março de iiiOO, e em 1513, aos 
-.') de Fevereiro, foi consagrada auílioritale upo.s- 
li)lic(i. com indulgências, pelo bi.spo D. Duarte. 
AO anuo de iliil se íagrou também o adro pe- 
io bispo U. António. 

\o domingo que caiu no 1.° de Outubro de 
1. ').';;{ tomaram os padres po.=se da ermida com 
uma solemnidade espiritual, á qual assistiram o 
[irincipe I). .loão, o infante D. Luiz, o arcebis- 
po de Lisboa 1). Fernando de Menezes, e mais 
nobreza da corte. 

CoiiKiçaram logo os da Companhia a exercitar 
seus mini.sterios, e diz o manuscriplo que segui- 
mos : — ■concorrendo as missas, as contissões, c 
communhries tanta gente, c com tanta frei(uen- 
cia e devoção, que n'ella os dias de semana e 
de trabalbo pareciam de festa e de guarda. Ás 
pregações, (|ue eram mui frequentes de manhã, 
e algumas vezes de tnrde, eram taes os concur- 
sos, (|ue não sendo capaz d'elles a estreiteza e 
limitação da ermida, saia algumas vezes fora 
delia um padre a pregar á muita gente, que 
não tendo logar dentro da ermida, ticava fora 
della.i 

As únicas casas que existiam junto a ermida 



eram umas tcrrcas onde se recolhiam o capellão 
e o ermitão, e mais outra para as pes.soas devo- 
tas que vinham fazer romaria ao santo. 

Foi nt^slas casas, i; no coro, i; na sachrislia 
da ermida (|ue se accommodaram ([uatorze qia- 
diTs (|ue vieram do Collegio de Santo Antão, tra- 
zendo d'ahi tudo o neces.sario, c (lue faltava na 
acanhada ermida. 

El-rei lhes mandou comprar sitio snlliciente 
para egreja, casa e cerca. 
^ Ao cabo de um anuo, os [ladres com as esnio- 
; las (jue tinham recolhido lizeram um corredor 
estreito com oito cubículos, na jiarte superior, 
jc na inferior mais algumas casas, e trataram lo^ 
!go de estender a ermida. 
\ Corria ella de oriente a jioente, o os padres 
resolveram que íicasse servindo de cruzeiro e ca- 
i pella-mòr, accrcscenlando-sc de norte a sul em 
comprimento oitenta palmos, (|iie então corriam 
ido logar onde está o pul])ilo até á jKuta jirinci- 
pal, como hoj(! ainda se acha. 

Deu-.se principio á obra no anuo de VÒIVJ ; 
sem outro cabedal, diz a Chronica, mais do que 
ciucoenla cruzados, e esses mesmos foram em- 
prestados. 

A primeira pedra do novo Collegio de Sanltt 
Antão fora lançada em muilo M<-r,'do, por ca u- 
.sa da opposição (pic ali faziam os empregados do 
curral, e o padre caiiellão das freiras de .SanfAn- 
na: a d'esla fundação foi, pelo contrario, com 
muita solemnidaile. Lançou-a o padre da mes- 
ma Companhia D. João Nunes Barreio, e (|ue 
havia pouco fura sagrado palriaicha d'Ethiopia. 

Assim fui progredindo a obra, concorrendo as 
esmolas, com cpie os padres se desempc>nharam 
dos cincocnta cruzados pedidos, a ponto que no 
anno de loOG trataram íle fazer nova egreja com 
sufliciente capacidade, e lhe abriram os alicer- 
ces com intentos de ser de três naves ; porem 
no anuo seguinte resolveu-se que fosse unica- 
mente de uma, e desfeitos portanto os primeiros 
alicerces se lançaram os fundamentos como ho- 
je existem. 

Aqui tem logar transcrevermos as palavras le\- 
tuaes do manuscripto : 

' E posto que por razão da peste, que houve 
na cidade, foi a obra mais de vagar, jjor serem 
menos as esmolas; mas acabada a peste, se con- 
tinuou com grande fervor, pêra que com ella se 
pro.segui.sse, foram tantas as esmolas que aco- 

''''"'!.'_! '",^'^'''' '''"-' '""^'^"do-se computo no anno 
de 1 o77 á despeza que se tinha feito, assim na 
fabrica da igreja como no edifício da casa, .se 
achou que se tinham gastado setenta e cinco mil 
cruzados, procedidos das esmolas, com (pie cou- 
correram EiHei D. .Sebastião, sua avo a líainlm 
D. Cathariíia, o infante Cardeal, e depois liei 
D. Ilenri([ue, e alguns particulares.» 

Correram as obras com vagar por cau.sa das 
alterações que houve no reino com a morte do 
cardeal c invasão deCastella; serenadas porem 
aquellas turbulências, com o acto conhrmado da 
usurpação de Ilespanha, se tratou de assentar 



S3 



O PANORAMA. 



o tecto (la egreja : mas duvidando-se que as 
paredes tivessem força suffitiente para sustentar 
o repuxo da abobada, e seu peso, resolvcu-se 
que fosse de madeira, para cuja obra D. Phiiip- 
pe I lhe cedeu o seu architecto. 

Aqui transcreveremos da Chronicu do Padre 
Telles quanto diz respeito á construcção do tec- 
lo : 

" Logo se tratou do tecto, havendo primeiro 
grandes consultas de insignes architectos, sobre 
a traça que teria, e finalmente se vieram a re- 
solver a o fazer de madeira, por lhes parecer 
que o sitio era alto, algum tanto pendurado, e 
que não teriam as paredes bastantes hombros, 
pêra sustentar o pezo, e o repuxo, que tão gran- 
de abobada demandava. Resoluto este ponto, as- 
sentaram também, que o lanço fosse de esteira, 
o que ainda que tinha grandes commodos, linha 
também grandes dilliculdades por davante, peia 
notável largura, que vae entre as paredes cola- 
teraes. Para se vencerem estas dilliculdades, veio 
um famoso architecto mandado por elrei catho- 
lico Dom Philippe o Prudente, o qual traçou a 
obra com um novo invento nunca visto em Por- 
tugal, dispondo o tecto com tal traça (que sem 
ter columnas pelo meio da Igreja, que é tão lar- 
ga, nas quaes se possa estribar) está seguríssi- 
mo, e parece que se sustenta no ar. Por ser a 
obra do madeiramento, que vae por cima do for- 
ro, mui notável, e não se ver de baixo da Igre- 
ja me pareceu descrevel-a aqui, p"ara que quem 
tiver curiosidade de a ver, ao menos a possa aqui 
ler. 

«Fez vir da Prússia os mastos, ou traves que 
lhe pareceram bastantes, d'estas lançou doze, ca- 
da uma de noventa e sete palmos de comprimen- 
to, e de notável grossura (porque as não pode 
um homem abranger com os braços) lançou-as, 
digo, de cornija em cornija, atravessando a lar- 
gura da Igreja, de maneira que se vão assen- 
tar, e pegar nos frexaes, que estão encaixados 
sobre as cornijas ; e logo ao sopé d'cstas grossas 
linhas, ou traves fez estribar, e levantar, em mo- 
do de esquadria, outras doze de cada parte, mais 
pequenas, porém da mesnui grossura, a (jue po- 
demos chamar guieijros, que escoram na mesma 
cornija e parede, e vão subindo como em esqua- 
dria, até iecbar em uma valente trave da fileira 
(que responde ao espigão do telhado, em que aca- 
ba o cume do tecto) estes vinte e quatro ipneij- 
ros se asseguram j)elo meio com doze nlireij.'! : 
descem logo outras doze traves de cada parte do 
fim dos oliveys, da mesma grossura das doze li- 
nhas, e dos vinte e quatro guieijro-s, a que cha- 
mam pendoraes. cada um de vinte c quatro pal- 
mos de comprimento, os quaes vão a prumo, e 
são como esteios c columnas para sustentar o 
madeiramento do forro; mas com esta diíTeren- 
ça, (]ue as outras columnas ordinárias tem mão 
no ]iezo, sobre os capiteis; porem estas, com no- 
tável novidade, sustentam ou levantam o pezo 
pela parle que houvera de ser base d estas co- 
Jumnas, e sem carregar nas traves, que atraves- 



sam a Igreja, as estão sustentando no ar, e pu- 
xando para cima ; porque como estas traves são 
Ião compridas, necessitavam de algum arrimo, 
que as sustentasse, e supposto ([ue não tem co- 
lumnas, que subam do pavimento da Igreja pa- 
ra o teclo, tem estas, que por cima do tecto o 
estão sustentando, e chamando para o alto, a> 
quaes para este efieito, descem com tal traça, 
que para não abaterem as ditas traves do forro 
com o próprio pezo, íicam como pendentes no 
ar, sem lhe tocar, por si mesmas, e comtudo pa- 
ra as assegurar, e sustentar, lança-lhe cada uma 
das columnas duas cintas de ferro fortes, e gros- 
sas, que abraçam os terços das mesmas traves : 
e d'esta maneira fica a obra segurissima. por- 
que estas columnas não carregam no forro, an- 
tes puxando para o alto, sustentam as traves em 
que vae pegando o mesmo forro, para que não 
faça algum pendor. 

«Entre estas vinte e quatro columnas. ou pen- 
doraes, corre um grande lanço de corredor, que 
representa uma larga e comprida coxia, por on- 
de seguramente se passeia o ledo lodo de Nor- 
te a Sul ; o qual tecto por esta parte de dentro, 
representa outra grande Igreja de Ires naves, 
feita toda de madeira, e lundada sobre o templo 
de S. Roque que em baixo vemos. Como esta 
obra foi nova, e sua arciíiteclura nunca usada 
n'este reino, e como por outra parte era esta 
raachina tão grandiosa, e tão segura, foi nota- 
\el o concurso dos curiosos que acudiam a ver 
a nova fabrica do teclo.. .» 

Sob o adro da egreja de S. Roque se lavrou 
pelos annos de 1700 um grande jazigo, que era 
da irmandade de Nossa Senhora dos Agonisan- 
tes, para sepultura dos seus irmãos. 

Ainda ha poucos annos. quando se mexeu n'es- 
tc adro por causa do rebaixamento da calçada 
d'ahi se removeram os ossos das pessoas soter- 
radas. 

Subia-se para o referido adro somente por três 
degraus de pedra. Hoje ha quatro degraus. 

Sobre as paredes da egreja. corria á roda del- 
la pela jjarte de fora uma cornija com seus den- 
tilhões de pedra, com um passadiço no qual se 
abriu um canno lambem de pedra para receber 
as aguas do telhado. 

Havia também á roda do dito canno uma va- 
randa com pilares de pedra, que serviam não só 
para segurança dos que andavam jior ella. como 
para ornato exterior da obra. sendo assim mais 
fácil subir ao telhado, que primeiro foi de lami- 
nas de chumbo, por parecer que com ellas fica- 
ria o teclo mais bem resguardado, mas que a e\- 
perioiícia mostrou ser pelo contrario, como tom 
acontecido com o teliiado do theatro de D. Ma- 
ria II, onde se consome não jicíjueno cabedal 
com o vedar-lhe a agua. o que nunca se con- 
segue. Por isso se deixaram os padres das taes 
laminas de chumbo, e se voltaram para o anti- 
go syslema de telhas. 

Continua. 

F. D. dAi.mkidv t Araújo. 



3 



o PàHORâMâ. 



33 




ESTAIfTE DO CORO DO CONVENTO ÍOS PAULISTAS. 
VOL. 1. — 4.* SERIE. JANEIÍO, 31, 1857. 



34 



O PANORAMA. 



ESTANTE DO CORO DO CONVENTO 
DOSPAULIMAS. 

A escuiptura em madeira, o officio de enta- 
Ihador, e todos aijuelles que mais ou menos di- 
rectamente estão cm reiação com a marceneria 
florecem de ha muito em o nosso paiz, com jus- 
tos louvores j)ara as pessoas que' se empregam 
ii'elk's. Raro será o convento onde hoje entre- 
mos (|ue os olhos não admirem, guardados n'e.s- 
les depósitos, variados e elegantissimos primo- 
res darte inanulacturados por mãos nacionacs. 
Ás cadeiras do coro do mosteiro de Nossa Se- 
nhora de Belém, onde a variedade do ornato 
rivalisa com a perfeição do seu desempenho, 
iazem pasmar o estrangeiro curioso que visita 
estes restos das nossas passadas grandezas, e 
muitas outras não somenos maravilhas ha por 
ahi como entregues ao esquecimento por iaita 
de memoria <ine avive a sua justa celebridade. 

Pela nossa parte vingamos hoje este desleixo 
estampando nm d'esses primores na obra de 
marceueria. E a estante do coro da egreja dos 
Paulistas, onde actualmente se acha a parochia 
de Santa Catharina. Os olhos faliam á intelli- 
gencia, como o discurso falia á alma para a per- 
cepção dos objectos ; e assim é que a nossa gra- 
vura, representando fielmente este de que tra- 
tamos, nos dispensa de mais ampla descripção; 



VINGANÇA POR VINGANÇA. 
II 

o ORATÓRIO DE ALDONSA PESES. 

Continuação. 

Algum tempo havia que assim estava entre- 
gue ás suas devoções, desafogando com Deus 
.sua alma e cuidados ; tão enlevada em su;is me- 
ditações, que nem se apercebeu de que a porta 
da casa do oratório se abrira, alguém entrara, c 
ajoelhara mui subtilmente uni pouco atraz d'el- 
la. 

Mas como a porta não licara cerrada, e o 
vento continuasse, lá fora a soprar com violên- 
cia, peneirando ali, fez vacillar a luz das velas, 
c repentinamente as apagou. 

A luz da lâmpada tremia agitada também pe- 
la força do vento, c reflectindo seu ténue cla- 
rão sobre as colossaes figuras estampadas nos 
pannos de raz, estas pareciam mover-se, edes- 
laear-se da parede, para irem ter com Bea- 
triz. 

A donzella ergueu a cal)eça c assustou-sc. 
Esten(l(>n uma das mãos para aquellas figuras, 
que a sisão lhe mostrava caminhando, como pa- 
ra as fuzer parar em sua marcha \ e compri- 
mindo com a outra o coração, sdltOirufli ai, co- 



mo quem se arrancava violentamente a uma 
terrível agonia. 

■ — Que tens, Beatriz? lhe pcrgiiiilou meiga- 
mente a pessoa que se ajoelhara, {lOuco antes, 
a alguns passos d'ella. 

— Tu ahi, Simão!?... Eu to agradeço, se- 
não tinava-me de medo. As luzes extinguirara- 
se ali : aqurllas figuras pareciam niover-se para 
mim ; o corpo tranziu-sc-me de medo ; o espi- 
rito está acabrunhado de tão encontrados pen- 
samentos ! . . . Mas porque vieste, Simão?. . . 
Como te achas aqui tão inesperadamente? 

— Nem t'o sei dizer, Beatriz ! . . . Uma força 
estranha, desconhecida, impellia-mc a voltar a 
casa de tua mãe antes de ir para a minha poi- 
sada... Tinha tanto que te dizer!... Era mis- 
ter fosse hoje mesmo... Se o espaçara para ama- 
nhã, encontrar-me-hiam morto, pois o coraçãe 
arrebentava-me. 

— Simão ! 

— Sim, Beatriz. Não te quero occnitar na- 
da. . . . Estava esta tarde tão feliz, quando me 
dizias que do mesquinho bem que liz a Vaz Gil 
nos houvera vir ventura ! . . . . Tão feliz, Bea- 
triz ! . . . tão feliz, que nem tenho falias para 
t'o expressar. . . . Olha : balia-me o coração tão 
satisfeito como agora... ve... 

E pegando na mão da donzella, que sem re- 
pugnância Ih'a abandonara, a levou ao peito; 
e depois de ahi a ter poisada um instante, con- 
tinuando a aperlal-a entre as suas, seguiu di- 
zendo : 

— Sonhava então um mundo de delicias, e 
um paraiso na terra!... De repente a entrada 
d'aquelle padre gelou-me todo o sangue nas 
veias... Uma nuvem mais negra que o seu ha- 
bito, correu-me por diante dos olhos, e immer- 
giu-me em trevas!... Diz-se tanta coisa da Com- 
panhia de Jesus!... É tão fallada a sua avare- 
za! ... . Seus planos são tão complicadamente 
urdidos nas trevas, que ao virem á luz do dia 
já não ha traças de lh'os desmanchar. Tre- 
mo. . . . 

— Falias, primo, com a sabedoria de nm li- 
vro. Ahi está a causa da vaga ini[uietação que 
hei sentido, e a mim própria não podia expli- 
car. . . Oh ! . . . se a minha Jierança é o que el- 
Ics cubicam, pois tenho voz de muito rira. . . 

— Tai não é o que me arreceia, Beatriz. Es- 
sa deixara-a eu ir: dera-Hra de boa vontade, e 
também tu, se clles se não aventurassem a mais. 

— Então que mais? 

— A tua mão, Beatriz ! . . . esta mão que tão 
contenle agora aiierlo enlrc as minhas ! 

— A minha mão, sem me consultarem o co- 
ração! Isso nunca, Simão; disse a donzella, er- 
guendo-.se com um ar allivamente .soberano. Us- 
so nunca. 

— A Companhia tem taes embustes. . . tua 
mãe é Ião frágil. . . . sua consciência tão timo- 
rata. . . 

— Quulevenv.cjnbora a minha herança, po- 
rém a niihiia mão ! . . . Aqui a tens, Simão. . . 



o PANORAMA. 



3; 



Dou-t'a para a vida e para a morte ; e tomo por 
teslemunlia a Virgem (|ue nos ouve; e ao Cru- 
cificado, que ali está naquella cruz, rogo ai)en- 
çoe os laços formados, aíjui, em sua presença... 
Espera um pouco, Simão. Dei-le falias de mi- 
nhas promessas : e mister que le faça entrega 
de um [lenhor da minha fé. 

E levada d'a(iuella agitação febril que a ani- 
mava, correu á banqueta, acendeu todas as ve- 
las, tirou um íinissimo annel de oiro de um dos 
cordões ([uc se eulaçaxa ao pescoço da imagem 
da Senhora SaaiAniia, c ajoelhando outra vez 
coiu seu primo ante o oratório : 

— Por Deus, e pelos anjos aqui tens, Simão, 
(accresccnlou eniiando-lh'o no dedo) o annel de 
espop.saes dado por tua esposa. Trou\e-o sem- 
pre, como te lembras, ate á hora do fatal j)as- 
sanicnto de meu pae: quando os fatos de dó não 
consentiam usal-o, aqui o depositei, á espera se 
terminasse o anno. Agora é teu. 

Simão beijava as mãos de sua prima, sobre 
asquaes, de (juando em quando, ia cair-lhe uma 
lagrima das muitas de reconhecimento que llie 
borbulhavam nos olhos. 

— Sim. . . precisava essas falias, Beatriz, pa- 
ra me aquietar esta alma, mais revolta que o 
mar em tempestade. . . precisava essas tuas fal- 
ias para crer em Deus, pois quasi já ia descren- 
do. \calmou-se o vendaval cm que me ia nau- 
fragando. Deus ouve-nos, Beatriz, e minha al- 
ma se condemne, se não fòr sempre digno de 
li ; se te desamparar ou trahir. 

A casa eslava brilhante de luz, que se ia re- 
flectir nos resplendores de prata, fazendo fulgu- 
rar as liniss'imas pedras dos adereços, como se 
fossem eslrellas a luzir no firmamento. 

Até as figuras dos pannos de raz, que tanto 
pavor acabavam de incutir a Beatriz, agora lhe 
pareciam sorrir-se c aniraal-a ; tanto é certo que 
o eslado da alma concorre para embellezar os 
objectos que nos circundam! 

Mesmo a historia de Jacob e Rachel parecia 
tecida ali, n'a(iucllc momento, sobre aquelles 
pannos, para apontar ao amante o exensplo da 
constância do santo pairiarclia, e á moça des- 
posada as alegrias, e as promessas, feitas por Deus 
á sua futura geração ! 

Beatriz e Simão santificavam os mútuos jura- 
mentos que acabavam de fazer-se, repelindo com 
o rei prophcta um dos seus hymnos de alegria, 
tão santamente narrado no. psalmo xxxin. 

'(Abençoarei sempre o Senhor; e o seu lou- 
vor andará continuamente em minha bocca.» 



O terço havia acabado. Todos que na rua ti- 
nham assistido a elle eram recolhidos já a suas 
casas ; e as adufas fechando-se a pouco c pou- 
co, cerravam-se com as usuaes despedidas das 
boas noitesj trocadas de umas casas para as ou- 
tras entre os seus moradores. 

A da casa de Âldonsa Peres fora uma das ul- 
timas a fechar, porque Marianna distinguira en- 



tre as vozes do terço uma, que lhe era conhe- 
cida, e eslava espreitando quando essa pessoa 
se recolhia a casa. 

Aldonsa Peres, inquieta pela inopimula volta 
do sobrinho, apesar do que se não atrevera a 
interromj)er o terço para indagar-lhe a causa, 
dirigiu-se ao oratório, onde bem presumiu que 
encontraria sua filha e seu sobrinho. 

Empurraiido a porta ficou extremamente en- 
leiada, \endo aquelles dois anjos assim ajoelha- 
dos, rezando no livro dos psalmos. 

Deu interiormente graças a Deus por permit- 
tir que a sua familia fosse ião piedosamente re- 
ligiosa, e cada vez se louvava mais em ter en- 
tregue a direcção espiritual ao padre mestre Gas- 
par, a quem a boa velha atlribuia o fervor e 
devoção com que sua casa se exemplificava. 

Chegavam os dois amantes ao Bedimel Domi- 
mis animas sereornm siiornm (o Senhor resgata- 
rá a alma dos seus servos) quando presentiram 
que sua tia os escutava. 

Repetiram o ultimo versículo com uma ento- 
nação tão cheia de esperança, tão repassada de 
confiança, que a boa mãe, alheia ao sentido que 
os dois amantes ligavam áquellas palavras, cor- 
reu a abraçar sua filha pela uncção com que as 
pronunciara. 

Simão ergueu-se rapidamente, não sem pri- 
meiro cruzar com sua prima um olhar de iníel- 
iigencia. 

N'esse momento aquelles olhos expressavam 
mais do que quantas palavras pudera proferir. 
Significavam o juramento por uma eternidade. 

Também nos olhos de sua prima brilhava um 
fulgor Ião estranho, que o próprio Simão se en- 
contrava mais fascinado tjue nunca. Amor, ter- 
nura, fidelidade e constância, todos estes senti- 
mentos se llie confundiam n'alma u'aquella do- 
ee languidez, que, de mslantes a instantes, re- 
lampejava com a expressão enérgica d'esses actos 
voluntários que não podem terminar senão com 
a vida. 

— Talvez abusasse, minha tia, disse o man- 
cebo volvendo-se para esta ; mas tomei sobre 
mim uma liberdade que, se culpada, somente 
eu deverei pagar por delinquente. Os rapazes 
do almazem desejavam ir cantar os Reis. Tal 
lhe pcrmitti ; fechei o almazem, c vos trago as 
chaves, porque só ámanbã vêem por ellas. 

— Não! Não! Pobres rapazes !'... É preciso 
que também tenham um dia do folguedo. O gé- 
nero luimano deve regosijar-sc quando os anjos 
do ceo dão signaes da sua alegria, e na mesma 
terra os potentados vem conduzidos de tão longe 
a Bclhlem, só por uma cstrella que os guia, e 
a fama do nascimento de um Deus Menino ! 
Lembra-me bem que dinda no anno passado o 
padre mesírc Gaspar me disse : — «Os magos 
viram o Homem Deus, prostraram-se na sua 
presença, adoraram*no, e lhe. offercceram por 
presentes oiro, incenso e myrrha. Pelo oiro rc- 
conheciam-no seu rei ; pelo incenso prestavam 
homenagem á sua divindade ; pela myrrha hon- 



36 



O Panorama. 



ravam a sua humanidade.» Assim éque aEgre- 
ja explica os niyslerios de amanhã. 

— Absolvido, pois, minha tia, agora só me 
resta retirar. Eis as chaves, que amanhã virei 
por ellas. 

E, entregando-lh'as, beijou reverente a mão 
de sua tia, e saudou sua prima. 

Simão Rodrigues morava no largo dos Escu- 
deiros, que era ahi diante do Poro do Borra- 
tem. 

— Olha, Simão, lhe disse sua prima, não 
desças pela rua da Pella a entrar pelo arco da 
Porta da Palma ; segue por cá direito a S. Do- 
mingos, inclina ao Hospital de Todos os San- 
tos, e vae descair em tua casa. A hora já vae 
tarde, a noite está bastante negra, o transito 
aqui por cima é mais acompanhado. 

— Sim, prima, respondeu Simão, já comum 
pé fora da porta. Boas noites. 

— Boas noites... até amanhã. 

— Até amanhã, se a Deus aprouver. 

E effeclivamente seguiu o caminho que sua 
prima lhe indicou. 

Ouviu em vários pontos cantar os Reis. Pare- 
ceu-lhe que todos naquella noite estavam como 
elle satisfeitos. 

Em tudo isto reparou, mas deixou de notar 
que apenas sairá de casa de sua tia um vulto 
o seguia, parecendo espional-o. 

Continua. »«t 



NATAL EM MAFRA. 

I 

As santas memorias, 
No berço embaladas, 
No leite da infância 
Nascidas, creadas ; 
São lume perenne, 
Brilhante, solemne, 
Que o tempo, mais vivo 
No peito reflecte : 
Impulso, que activo 
Recresce na edade ; 
Jucundo, sem riso, 
Se triste, sem dòr, 
Sentir indeciso 
De tanta saudade, 
Ternura, e amor... 
Oh ! salve, bemvindas 
Memorias da infância ; 
Tornadas mais puras, 
Visíveis, seguras, 
Se cresce a distancia. 
Um anno, que pas.sa. 
Lhes dá nova graça : 
l'm raio celeste. 
De novo lhes veste. 
No longe da vida 
A mente arrefece, 



Memorias esquece. 
Só tu, doce crença, 
No peito embalada, 
És sempre lembrada. 
Oh salve, bemvinda 
Memoria da infância ; 
Feliz consonância 
De maga isenção. 
Que vozes modulem 
Sonora canção ; 
Que, mil instrumentos 
Accordes accentos. 
Em breves momentos, 
Os sons, que s'ouviram 
Apenas ouvidos, 
Em eccos são idos. 
Que nascem, expiram. 
Só tu, mais gentil. 
Memoria infantil. 
Da vida n'aurora, 
Vibrando sonora, 
Tu vaes dhora a hora, 
Mais pura e crescida. 
Se Bais repetida. 
D'eterno condão 
Teu gérmen fecundo 
A flor, que no fundo 
Do peito — em botão 
Creara uma vez ; 
Embora, o revez 
De negra procella, 
Cruel a combata ; 
Refulge viçosa. 
Se mostra mais bella. 
Que, em mar d'infortunio 
Melhor se retrata, 
Ao som da tormenta, 
Melhor se acalenta ; 
Campêa, mais forte. 
Nas raias da morte. 



II 



É noite benta. Agora mesmo, ao lorigi, 
D'alegre sino, o som festivo escuto. 
É noite benta; — exulte a humanidade. 
Em galas troque seu pesado luto. 

.\lfo, sacro mysterio, hoje adoremos. 
Celeste aurora de brilhante luz 
Cobre o ceo do Oriente: — eil-a remida 
A espécie humana, que nasceu Jesus. 

.\ nobres, a [ilebeus, a todos cabe 
Na dadiva do ceo, egual quinhão. 
Precedências, no alfecto, — essas consente 
Infinita Bondade ; — as outras não. 

E já, de modos mil, o pobre, o rico. 
No burgo humilde, na cidade altiva, 
Aíjui, por entre o fausto, ali desciiito, 
Mostram amor, que o peito lhes captiva. 



o PANORAMA. 



39 



III 

E as porias, de par em par. 
Abre o templo, a hora dada. 
E o sino, logo a chamar. 
Seus alegres sons tangendo, 
A hora não costumada. 

— Até o sino vigia, 

^íão dorme n'aquelle dia. 
E lodo o povo christão, 
NVssa noite, a essa hora, 
Como se ura ente, só fora, 
Ouve do sino o pregão, 
Annuncio da Redenipção ; 
Que o mesmo sentir em todos 
Acorda no coração. 

— E já, na casa, ou na egreja, 
Tributos d'adoração. 

Por todos rendidos são. 
E pobre ermida, que seja. 
Lá se \ê no seu altar. 
Limpa toalha, (jue alveja. 
Mais viva luz, a brilhar ; 
E vozes, que juntas soam 
Em seu devoto cantar. 
Canto rude, por singelo. 
Por leal, — não menos bello. 
Que, a melodia perfeita. 
Essa, que só Deus acceita, 
É toda em vozes, que são 
Nascidas do coração. 
O crime d'ingratidão. 
Hoje — abençoada noite! 
Não ha peito, onde se acoite. 
Já, cultos d'adoração. 
Por todos rendidos são 

IV 

l'or todos... errei — não! — onde ora habito 
Do magestoso templo, as férreas portas 
Nem descerradas foram ! Em silencio 
Jazeu, — qual cemitério, a horas mortas. 

Nas celsas torres, onde a cruz e tope. 
Nem um som festival s'ouvira — ao menos. 
Ue pagode infiel, torres disséreis, 
l'rofanos minaretes serracenos. 

1>() — Magnânimo Rei — padrão eterno, 
Solemne voto a Deus, que o mundo espanta; 
Lume, de viva fé, — um só não vira. 
Nada o silencio ingrato lhe quebranta 1 

\qui, — sacro recinto, onde s'enfeixam 
iialas, riquezas mil — prodígios d'arte, 
Nrra um som ! Como sórdido avarento, 
One. se mais oiro tem, — menos reparte. 

i.a — na visinha aldèa, humilde, pobre, 
f udo, em festa pernoita : alegre sòa 
[)a singela garrida, o crebro toque. 
Votivo som d'amor, que ao ceo revoa. 



Murta fragrante, — ali — por entre a urze, 
numilde, embora, a crença reílorece ; 
Rosa soberba — aqui, — faltou-lhe a seiva, 
N'haste pendida jaz, — amarellece. 

— Ao gigante, onde a pompa os thronos junta 
Dos reis de ceos, e terra, — hoje, rural 
Modesta capellinha exemplos tece. 
Vergonha eterna ao luso Escurial ! 



Dezembro de 18 06. 



J. DA C. Casc.\es. 



MEMORIAS HISTÓRICAS. 

Continuação. » 

(1592) 

Completamos os excerptos que eraprehende- 
mos fazer do Itinerário de Lintschoten, e que já 
publicámos a paginas 39 i, 402, e ílO do vo- 
lume antecedente, com a relação que o viajante 
hollandez faz do estado em que estavam as ilhas 
açorianas n'aquella época. 

nfiescriprão das sele ilhas (los Açores ou Flandricas. Nomes. 
Terceira, caber,i de todas. lta'hia d'.\nj;ra. Monte Brizil. 
Ooluinnas donde os naluraes da ilha dão sienal dos navios 
i|ue se aviilam. Fortalezas. Villa da Praia na ilha Terceira. 
O terreno da ilha ferlil em cereaes. Abundância de peixe e 
carne. Fruclos Batata. Descripcâo da junca cora cuja raiz 
enchem colchões. Commercio principal do pastel Canário» 
(aves). Fnverno Rochedos da Terceira, que proiluzera vi- 
nhas. Presidio de hespanhoes Admirável maneira de con- 
servar os cereaes. Os bois na Terceira dão lucro Solo con- 
cavo. Frequentes tremores de terra. Fontes quentes. Fonte 
que muda o pau em pedra. Cedro. Madeiras varias. Madeira 
de teixo. Presidiários hespanhoes da Terceira. João Hugo 
avista a ilha Esboço da cidade d'An"ra por João Hugo. 
Moléstias da Terceira. Vehemencia dos ventos Villa da 
Terceira. Commercio dos insulares. Ilha de Sao-Miguel fér- 
til em pastel. Ilha de Sa«la .Maria. Ilha Graciosa. Ilha de S. 
Jorge Cedro. Ilha do Faval. E tomada pelos inglezes. Os 
belgas cultivara a ilha do Fayal. llhadoPico Montealtis- 
simo. .Muito excellentes pomos de oiro (laranjas). Flores e 
Corvo. 

«As ilhas dos Açores, ou Flandricas, são em 
numero de sete, a saber: Terceira, S. Miguel, 
Santa Maria, S. Jorge, Graciosa, PicoeFayal. 
.Vs outras duas, Flores e Corvo, não se compre- 
hendem no nome d'Açores, posloque hoje se as- 
signem nove ilhas debaixo d'um só e mesmo 
governo. Chamam-se Açores, pela multidão d'es- 
tas aves, que ali se encontrou quando foram 
descobertas, e de cuja espécie hoje nem uma só 
apparece. Chamam-se também Flandricas dof 
flamengos, porque foram elles os primeiros ha- 
bitantes da ilha do Fayal, e ainda hoje ali exis- 
tem famílias de indivíduos similhantcs aos fla- 
mengos pelo rosto e pelo cabello, e mesmo no 
logar em que habitam ha uma torrente que se 
chama Ribeira dos flamengos. 

"A cabeça de todas as ilhas é a Terceira, 
que vulgarmente se chama ilha de Jesus Chris- 
to da Terceira. Abraça uma extensão de quin- 
ze ou dezeseis léguas, e o seu solo é muito al- 

(■) Do num. 32 do vol antecedente. 



'AH 



O FàNÚRâMà. 



lo e povoado de rochçdos, de modo que se jul- 
ga invcncivel, cingida de Ioda a parte d'uma 
como raiiraliia natural, (lue é supprida por for- 
tes baluartes nos legares onde falta, ^âo tem 
porto ou enseada conveniente para resguardar 
os navios. ConUudo diante da cidade d'Angra o 
mar entrando pela terra em forma de meia lua 
ou de abra aberta, forma uma espécie de por- 
to. D'aqui vem o nome á cidade, da abra aber- 
ta, ou em meia lua, que os pcrtuguezes desi- 
gnam pelo vocábulo Anyra. D'uma parte, para 
onde se estende como um cotovelo tem dois 
montes chamados Bruzil, que saem ao mar, 
com tal configuração, que vistos de longe pa- 
recem separados da iiha. São por tal forma al- 
tos, que em dia sereno se podem avistar de 
quinze léguas de distancia. A<iui estão duas co- 
lumnas de pedra das quaes o vigia dá signal á 
ilha dos navios ([ue chegam. Os que vem da 
parte Occidental ou austral, a saber d'uma ou 
outra índia, do Brazil, de Guiné, de Cabo Ver- 
de e outros logares, são assignaiados por ban- 
deiras que se içam na columna occidental, e se 
.são mais do que cinco, indicam-se por maior 
bandeira, e ao som de trombeta. Pela bandeira 
içada do mesmo modo na columna oriontal se 
conhecem os navios que vem de Portugal, c ou- 
tros logares orientaes ou septeulrionaes, visto 
que estas columnas pela sua altura se avistam 
de toda a cidade, de maneira (jue não ha no- 
vidade alguma no mar, qac logo se não saiba 
por toda a ilha. Também por todos os montes 
que ayistam o mar, estão collocadas eguaes vi- 
gias, que dão signal ao governador e generaes 
da iliia, para. que não solfram algum prejuiso. 
Ao pé do mencionado monte Brazil está situada 
uma fortaleza em frente dum outro caslello, 
para defensão da supradita enseada, c para que 
navio algum saia ou entre sem licença dos cas- 
telios. 

«A cidade d'Angra, metropolitana das ilhas, 
e lambem* cabeça das outras dos Açores, brilha 
muito pela honra de cathedral, pela autorida- 
de do governador e tribunaes judiciaes. D'esia 
cidade para o nordeste, distante três léguas, es- 
tá a chamada V.illa-da Praia, por ser a sua po- 
sição á borda do mari É pouco frequentada do 
comniercio porque não tem porto, c não é pro- 
curada dos navios senão cin occasião de mau 
tenípo, para ahi depositarem os seus géneros, 
que são depois levados a Angra. E cercada de 
muros, ííolTrivelraenle construidos, menos popu- 
losa, e habitada por lavradores. O campo visi- 
nho ó fértil de cercaes. Além d' isto o resto da 
ilha, que é muito aprasivel, tem muito trigo e 
Vinho. Não podem comludo exportar cslc ulti- 
mo, por ser inferior, c de pDU<ía, força, e ^^qr 
isso é bv'bido pelo povo, visto que as pessoas 
ricas usam vinhos da Madeira e Canária. lia 
grande abundância de peixe, carne, aniuuies, e 
outras coisas necessárias, que abundam para o 
consumo da ilha. Somente azeite, é que fazem 
uso do que vem de Lisboa. Da mesma sorte ca- 



rece de sal, panellas, pratos, vasos de barro e 
outros utensílios similhantes. Produz fructos ; 
ha abundância extraordinária o quasi milagrosa 
de pccegos de varias espécies. Aseerejas, amei- 
xas, nozes, e castanhas em pequena quantida- 
de, porém as maçãs, peras, laranjas, limões, 
ctc. abundam. Dá em certo e determinado tem- 
po do anno todas as hervas e plantas, como 
couve, rábano, etc. Cresce aqui debaixo da ter- 
ra um fructo principal c singular, similhante ao 
rábano e outras raizes. As ramas são de forma 
da planta de vinha, porem de folhas dilTeren- 
tes, e acamadas pelo chão. Os fructos a que 
chamam batatas são do peso de libra, mas, de 
pouro valor ali, servem de excellente alimento 
ao povo. Tem mais merecimento em Lisboa, 
porque na Terceira a abundância lh'o diminue. 
Vè-se a(|ui um outro fructo (junca) semeado á 
maneira de trigo, que cresce da raiz ou das fo- 
liias d'i!ma herva similhante á gramma, de for- 
ma quasi espherica, como ervilha. Tem gosto 
muito agradável parecido ao da castanha, e é 
de mais dura casca. N'outras regiões tem gran- 
de valor : aqui pela abundância deita-se aos 
porcos. Aclia-sc n'esta ilha, a cada passo, uma- 
planta d"altura d'homem, que não dá fructo, 
mas sóiuenle uma raiz molle e loira, como lios 
de oiro, tão branda como seda : serve aos na- 
turaes da ilha para encher colchões, em logar 
de pennas ou de lã. Algum curioso (assim o 
julgo) {loderia facilmente fabricar d'esta matéria 
algum tecido. O jnincipal género de commcr- 
cio que aqui vem buscar os iuglezes, escocezes 
e francezes é o pastel, (jue usam nas tintas, que 
trocam por pannos e outras mercadorias. Mas 
ocommercio foi ha pouco interdito aos iuglezes. 
A ilha não tem muitas aves silvestres. As que 
cham.am canários \oam por toda a parte em 
grande numero, por isso muitos passarinheiros 
se occupam n'esta distracção. Também tem mui- 
tas codornizes e aves domesticas, gallinhas afri- 
canas, etc. Ninguém aqui 'se dá á caça, por- 
que a terra somente alimenta alguns coelhos. 
De peixe ha no tempo de verão grande abun- 
dância. D'iaverno o mar não é muito com- 
modo para pescar. Nos mezes de Janeiro, Fe- 
vereiro, Março, Abril, e mesmo em Setembro, 
ha horríveis tempestades. A mesma terra mon- 
tuosa, cm muitos logares deserta, cheia d'arvo- 
rcs e nialtos, não ollerece commodos caminhos. 
De toda a parte saem rochas agudas como bi- 
cos de diamantes, que podem cortar os pés dos 
viajantes. Estas rochas estão plantadas de vi- 
nhas, que no tempo de verão as cobrem com 
densas folhas. É admirável ver como se lixam 
as raizes entre as pedras, ale á maior altura. 
Nos campos c planícies não cresce avinha, nuis 
folga entre as pedras onde dá mui grande lu- 
cro. A terra plana, que ha cm muitos logares, 
principalmente junto á Villa da Praia, é'mui 
abundante cm trigo e pastel. Por isso os ilheos 
não carecem d'inq)orlar trigo do estrangeiro, 
senão em ãnnos de grande esterilidade, posto- 



o PANORAMA. 



39 



que, além dos habitantes, quatorzc companhias 
de hespaniiocs, se aiiiiientniu delie a iiuilo de 
idefender a terra. O que porem é admirável é 
que os trigos e outros fructos da ilha não du- 
ram alem do anno em perfeito estado. Os que 
restam corrompidos iiotim do nnno não tem va- 
lor aljrum. Para que. pois. preservem o tri^'o. 
guardam-no os habitantes debaixo da terra por 
espaço de quatro ou cint-o mczes. Para este ef- 
feitocada cidadão abre, n'um certo largo ou 
praça um poro redondo, tirada a terra com pe- 
queno trabalho, deixando-llic uma abertura por 
onde á vontade pode descer um homem, e ccni 
uma tapadoira onde se inscreve o nome do do- 
no. D'esta forma cada um guarda na sua cova 
o trigo que tem, depois da ceifa em Julho, c 
coberto com terra e com a tapadoira o conserva 
até o tempo do Natal. Então todos os habitan- 
tes o tiram inteiro c são, por partes, sòaquelle 
de que querem usar. deixando o resto no men- 
cionado poço. Passado o tempo èm que se gas- 
tou ooutro, esteque desenterraram dura por toJo 
o resto do anno em cestos ou cabazes de canna, 
sem nenhuma necessidade de lhe tocarem. Ti- 
ram tamb?m os instilares grande lucro dos bois, 
que pelo tamanho dos cornos, pela sua belleza 
e qualidade excedem muito os bois da Europa. 
Todos tem ura nome próprio, e chamados por 
elle pelo d-ono quando pa.ssara em rebanho , 
aproximara-se. 
Continua. 

José de Torres. 



ESTUDOS SOBRE A HISTORIA SAGRADA. 

Continuação. 

CIDADES E CASAS. 

As cidades que os hebreus tiraram aos cana- 
neus foram as suas primeiras habitações fixa-s. 
Eram bem edificadas e fortiíicadas. As que .se re- 
puta^•am mais importantes estavam situadas em 
alturas. Cingiam-as com dupla, e ás vezes trí- 
plice muralha. Guarneciam-as de seteiras, e tor- 
res de espaço cm espaço, circundadas de fossos 
profundos, que lhes defendiam o accesso. 

.\s ruas não eram calçadas: porém havia um 
cuidado immenso em as conservar aceiadas. 

Tinham uma immensidadc de edifícios públi- 
cos c temploí. N'estas cidades, os únicos legares 
notavc;is eram a porta, e o mercado. A primei- 
ra por s^T o sitio onde se administrava justiça; 
c era este o motivo porque sobranceiro á porta 
havia um edifício, ou collocado ao lado. O se- 
gundo, que não era distante da primeira, servia 
para as assembléas do povo, e para a venda dos 
géneros. Eram uns pateos mui grandes, erra- 
dos de pórticos e galerias cob 'rtas, onde os mer- 
cadores armavam as suas barracas, e os estran- 
geiros passavam a noite, quando não encontra- 
vam quem lhes desse hospitalidade ; porque as 



albergarias eram raras n'aquellas épocas, e mui- 
tas cidades havia (juc as não ilnliani. 

A belleza das casas consistia mais no comi>le- 
to da sua conliguração e alTeiçoa mento e trava- 
ção das pedras do que nos seus ornamentos. Em- 
pregavam um cuidado extremo para que as pe- 
dras ficassem bem unidas, perfeitamente a pru- 
mo. Revestiam internamente as casas mais ricas 
com madeiras de cedro ou de cypreste. Estas ma- 
deiras serviam egualmente para columnas e hom- 
hreiras. 

Os tectos eram horisontaes, e em vez de te- 
lhados calcava-se a terra, da mesma forma que 
o que se chama hoje taipa, afim da chuva não 
peneirar. Havia nina lei que obrigava a circun- 
dar estes terraços com iim parapeito sufficiente 
a obstar que alguém fortuitamente se precipi- 
tasse. 

Serviam estes terraços ou plataformas para 
passeiar ; e muitas occasiões havia em que 
ahi comiam, c dormiam. Também nas épocas 
de alarme ahi se refugiava a gente da casa, e 
servia de mlíito para quem bradasse por soc- 
corro, pois mais facilmente assim era ouvida de 
longe. 

!N''aquelles tempos não era conhecido o uso 
das chaminés. Acendia-se um brazeiro no cen- 
tro da casa, e ao redor d'clle se sentava a fa- 
mília para se aquecer. Cosinhava-se a comida 
n'uma espécie de fornos. 

As janellas eram fechadas com barrotes como 
uma espécie de grades. As portas fecliavam-!5C 
por dentro com trancas de pau ou de metal, e- 
pesados ferrolhos. 

Tanto na frente, como aos lados dos edifícios 
ou casas de habitação havia umas galerias co- 
bertas, nas quaes os criados e os escravos ti- 
nham um abrigo e eommodo agradável. Estas ' 
galenas communicavam-se entre si, e com o edi- 
fício por tal arte que para o serviço domestico 
não era de receiar a intempérie da estação. 

popruçÃo. 

A fertilidade da Terra da Promissão (que ho- 
je está reduzida a miseráveis aldèas, terras in- 
cuUa?, e ruinas) pode calcular-se pela multidão 
dos sens habitantes. Quando os hebreus entra- 
ram n'este paiz eram mais de seiscentos mil os 
homens que podiam pegar em armas, a contar 
dos vinte annos até aos sessenta. Junte-se a es- 
te nuniero as mulheres, as creanças, os velhos, 
os escravos, os naturaes do paiz que não foram 
exterminados, e sem falhar o calculo teremos nma 
população de três milhões d'alnias. 

Depois este numero augmentou muito. Passa- 
dos os dezeseis annos que se seguiram á morte 
de Josué, n'nma guerra que as onze tribus de- 
clararam á de Benjamin, esta. que era a mais 
pequena de todas, poz em pé de guerra vinte e 
cinco mil homens. O resto do povo ainda consta- 
va de quatrocentos mil. Saul apresentou duzen- 
tos mil homens contra os amalecitas, quando os 



4« 



O PANORAMA. 



exterminou. David tinha efTectivamente em ar- 
mas doze corpos de vinte e quatro mil homens 
cada um, os quaes serviam por mezes, o que fa- 
zia o total de duzentos e oitenta e oito mil ho- 
mens. No recenseamento a que procedeu no fim 
do seu reinado, encontrou-se com um milhão e 
trezentos mil combatentes. Josaphat, um dos seus 
successores, apesar de não possuir senão o ter- 
ço do reino de David, teve em armas um mi- 
lhão cento e sessenta mil homens, sem contar as 
guarnições das praças. 

Os hebreus (e neste caso todas as nações an- 
tigas) dirigiam toda a sua politica a favorecer a 
população. — «A multidão do povo, disse Salo- 
mão, é a gloria do rei, e o pequeno numero de 
vassallos a vergonha do prinCipe.» Por isto se 
applicavam á cultura do paiz. Procuravam faci- 
litar os casamentos, e tornar sadias as suas ci- 
dades ; ler o povo robusto e na abundância ; e 
(inalmente sacar da terra tudo quanto ella po- 
desse produzir. 

Este era o motivo porque desde a mais tenra 
infância exercitavam os lilhos no trabalho, inspi- 
ravam-lhes o amor do paiz, a reciproca união, 
e a subjeição ás leis. 

Não tinham só no paiz trigo e cevada, vinho, 
azeite, e mel ; também cultivavam toda a casta 
de fructos, n'uma prodigiosa quantidade. Todo 
o terreno era aproveitado, e por isso poucos bos- 
ques possuíam. Parques e jardins era raro vèl-os. 
Nos campos nutriam numerosos rebanhos, que 
no leite e na carne lhes forneciam metade das 
subsistências. Viviam, como se pode colligir, uma 
vida simples e frugal. 

CASAMENTOS. 

Havia liberdade nas allianças entre todos os 
israelitas. Por isso se podia tomar mulher numa 
das suas differentes tribus, excepto quando as 
raparigas eram as herdeiras, por falta de varões. 
N'este caso não queria a lei que os bens d'uma 
tribu se confundissem com os da outra. Até mes- 
mo se adraittiam casamentos com as estrangei- 
ras, no caso de ellas se converterem ao verda- 
ileiro Deus. Exceptuava-se unicamente um povo 
— o de Canaan. 

Os casamentos não eram acompanhados de ne- 
nhuma ceremonia religiosa. Não seoffereciam sa- 
crifícios n'esta occasião ; não se ia ao leniplo ; 
não se chamavam para elles os sacerdotes. Tu- 
do se passava entre os parentes e os amigos. Era 
rigorosamente um contracto civil. 

Os esposos, magnillcamente paramentados, e 
com coroas que eram o symbolo da alegria, rece- 
biam a benção do chefe da familia, (pie orava 
sobre elles acompanhado de todos os assistentes, 
c lhes desejava numerosa posteridade. Eram con- 
duzidos depois ao som de instrumentos músicos, 
levando o cortejo palmas e ramos de murta. Os 
esposos tinham comsigo um certo numero de ho- 
mens, aos quaes se ('hamava os amigos do espo- 
so; e o mesmo acontecia com a mulher que era 



acompanhada de egual numero de raparigas, e 
se denominavam as companheiras da esposa. As 
núpcias duravam sete dias, sempre em continua- 
dos festejos. 

Como as mulheres eram muito laboriosas, o ca- 
samento entre os hebreus servia mais de allivio 
que de peso. Longe de receiarem ter filhos, de- 
sejavam-os ; e até olhavam como uma honra o 
seu grande numero. Eram felizes aquelles que 
se viam á frente de uma numerosa posteridade. 
A vida frugal que passavam cooperava muito 
para sustentarem uma grande familia. 

Quando os filhos eram pequenos pouco lhes 
custava nutril-os, e menos ainda vestil-os, por- 
que nos paizes quentes quasi sempre andam nús: 
quando já crescidos ajudavam os pães no traba- 
lho, poupando-lhes assim escravos, ou criados a 
soldada. As ambições do chefe da familia eram 
deixar aos seus descendentes a herança recebi- 
da de seus pães, melhor cultivada, e mais aug- 
mentada em rebanhos. 

Este desejo de ter muitos filhos induzia os is- 
raelitas a terem ao mesmo tempo muitas mulhe- 
res, o que era simultaneamente uma honra, e 
signal de grandeza. .\lém das mulheres eram 
também permittidas as concubinas, que ordina- 
riamente se tomavam na classe das escravas. As 
esposas de primeira classe a única dignidade que 
tinham sobre as ultimas era fazerem herdeiros 
os sei's filhos. Por este motivo a concubinagem 
não era uma devassidão, como hoje ; era um ca- 
samento menos solemne. 

A virgindade era então uma virtude pouco 
conhecida, e reputavam-se infelizes ou desgra- 
çadas as mulheres que morriam sem ter tido es- 
poso. Á mulher casada era opprobrio a esterili- 
dade, que se julgava uma maldição de Deus. 

Este amor da posteridade era o fundamento 
da lei que determinava ao irmão que desposas- 
se a viuva de seu irmão, quando elle morria 
sem lilhos. Deshonrava-se faltando a este dever 
de piedade, cujo fim era obstar a que o nome 
do defunto caisse em esquecimento. Assim os fi- 
lhos eram-lhe attribuidos por uma espécie de 
adopção. 

Nos hebreus, assim como se permittia a plu- 
ralidade de mulheres se consentia o divorcio. 
Unicamente os homens podiam repudiar as mu- 
lheres, porénj com certas formalidades, sendo 
uma das principaes dar-lhes um documento es- 
cripto, e autheiíticado por um escriba ou offi- 
cial publico autorisado pelo governo. A esposa 
repudiada podia casar-se com outro homem, po- 
rem nunca mais se podia ajuntar com aquelle 
que a demiltira de si. 

Continua. 



Se as apparencias dos homens nos levam a 
amal-os ; o vero conhecimento delles conduz- 
nos a odial-os. — 

A ignorância torna-se fátua e orgulhosa, quan- 
do e condecorada com os graus académicos. 



6 



o PANORAMA. 



41 




MOSTEIRO DE EKMIAZIN. 



A Arménia foi das primeiras regiões conver- 
lidas ao christianismo ; porém, no iv século da 
BOSsa era, quando os erros de Eutychio, que ge- 
ralmente havia adoptado, deram motivo a re- 
Hnir-se um concilio em Chalcedonia, os armé- 
nios, então empenhados em guerra contra os 
persas seus visinhos, descuida ram-se de enviar 
representantes aquella assemhh^-a, como tinham 
feito os demais estados christãos. O concilio foi 
unanime na condemnação das doutrinas commet- 
tidas ao seu exame ; só os arménios, que não 
tomaram parte na condemnação, recusaram ad- 
herir, do que proveiu um scisma que ainda du- 
ra, postoque recentemente haja esperanças de 
que se desvaneça voltando os arménios á ohe- 
djencia e praxes da Egreja calholica romana. Os 
membros principaes da fommunhão arménia, que 
vivem nos estados do sultão estão collocados sob 
a jurisdicçâo do patriarcha de Constantinopola; 
e os que habitam na Rússia, na Pérsia e outras 
regiões da Ásia reconhecem a supremacia do pa- 
triarcha de Ekmiazin, o qual tem viute bispos 
suffraganeos, que pela maior parte são eleitos 
d'entre as ordens religiosas. Estes prelados pre- 
gam assentados e trazem báculo pastoral, o pa- 
triarcha os investe cm a dignidade assim como 
elJe recebe do príncipe soberano a investidura. 

TOL. I. — í," SERIE. 



Os padres seculares podem casar-se ; só lhes é 
vedado celebrar missa nos sete primeiros dias 
do matrimonio ; os monges são celibatários. 

A religião arménia quasi que se funda em pra- 
ticas exteriores e habituaes. As creanças ainda 
em tenra edade não só são ensinadas a persig- 
nar-se e invocar a Christo, mas também a je- 
juar, comendo uma só vez ao dia, á hora do pôr 
do sol, com abstinência de carne, peixe, ovos, 
lacticínios e vinho. O culto é o mesmo que ha 
doze séculos; rcza-se e canta-se o officio divino 
na língua do paiz; a communhão eucharistica é 
geral para o padre e para o povo sem exceptuar 
as creanças ; todos comem do pão consagrado, 
e todos bebem do mesmo cálice ; a consagração 
é feita com vinho puro e o pão de uso quotidia- 
no. Os padres sustentam que cm Jesus Christo ha 
só uma natureza, e não as duas divina c humana, 
e que o Espirito Santo não procede do Pae e do 
Filho, mas do Pae p?lo Filho. ,Tá se vA que os 
arménios são oppostos aos catholícos romanos. 
Na Turquia exercitam livremente o seu culto ; 
são de costumes austeros e teem grande cuida- 
do em retirar suas mulheres da sociedade dos 
homens : passam por hábeis negociantes, ava- 
rentos, sóbrios, modestos, porém dissimulados c 
desconfiados. 

FEVERBIBO, 7, 1857. 



48 



O FâNORâMâ. 



o edifício principal d'estc culto e residência 
de 11111 patriarcba é o moslciro situado a cinco 
milhas de Erivan uas faldas do monto Ararat, 
no cimo do (juai se diz que parara a arca de 
Noé; alii é o celebre santuário dos arménios ao 
qual professara grande devofão ; chamam-lhe 
Ekmiazin, isto é,. a vinda do único íilho gera- 
tlo, e dizem que lhe tora dado tal nome, por- 
que u'csso logar appareceu Christo a S. Gregó- 
rio, o illuminador, primeiro patriarcha, que fun- 
dou a egreja principal sobre as ruinas de ura 
templo de Ycnus alii pelos annos de 27G, rei- 
nando Tiridates, soberano da Arménia. Os ma- 
hometanos lhe chamara Utch Klis.sa, as três egre- 
jas, porque além da do convento ha inais duas 
próximas. Estavam antigamente no centro d'uma 
grande cidade, capital da Arménia, de que só 
existem fragmentos dispersos, e juuto a ura enor- 
me monte de entulhos uma mesquinha aldêa ; 
comtudo tem subsistido o mosteiro com suas de- 
pendências convenientemente reparado ; o seu 
exterior similha uma fortaleza da edade media; 
entra-se primeiro n'Hm bazar, depois n'um gran- 
de pateo, de (juatroccntos passos de comprido, 
no meio do (jual está a egreja, que dizem de- 
ver a S. Gregório, apostolo dos arménios, a sua 
fundação primitiva. 

M. 



MEMORIAS UISTORICAS. 

Conclusão. 

«Quem descreverá o alto solo da ilha, fre- 
queutcmenle cavado nos montes, onde o ecco 
responde, c^iirindo se caminha, como saindo de 
profundas c .-.ublerraueas cavernas? Âbalani-no 
freiínentes terremotos. Ha fogos e respiradoiros 
de chamnias. Ainda hoje na Terceira, e na ilha 
íle San-Miguel se encontram logares d'onde saem 
a mindo espessos vapores, queimando em toda 
a parte o solo. Da mesma sorte ha fontes onde 
cozeríeis um ovo, como com auxilio do fogo. Na 
ilha Terceira, três léguas distante d'.Vngra, ha 
uma fonte que tem propriedade de petrificar to- 
<la a madeira (jus se lhe deita, como eu mesmo 
conheci pela experiência: d'uma arvore, as raí- 
zes que estavam do lado onde lhes chegava a 
agua, estavam empedernidas, emquanío do ou- 
tro lado estavam <la mesuia forma que as das 
outríis anores. A ilha Terceira produz diversas 
emiii excellentps madeiras, principaliiierite o ce- 
dro, em tamanha (iiianlidade que o empregam 
vilmente era coiislruc^-ão de navios, carros, e 
até o queimam, lia lambem ali uma outra qua- 
lidade de pau a que chamam sany ninho, de bo- 
nita còr de sangue ; assim como outras madei- 
ras brancas e aloiradas, de cores fixas e magni- 
ficas, de que os marceneiros aqui fabricam ar- 
mários, eserevaninhas, caixas, estojos, ele. que 
mandam para Portugal, c que são particular- 
mente procurados pelos navios da índia hespa- 



nhola, que sempre aqui refrescam. Era Portugal 
e Hespanha são estes trastes de sunima elegân- 
cia, e muito procurados, porque eviedera mui- 
to ás caixas e outros moveis fabrica ;Ios pelos nu- 
reraberguezes. Na verdade teem muito mais va^ 
lop pela naturalidade e variedade da cor da ma- 
deira. Além das supramencionadas qualidades 
de madeira, ainda se tirara muitas outras da ar- 
mada da índia hespanhola, que são de cores \a- 
riadas e de tão magnifico e agradável aspecto, 
que nem que fossem pintadas. 

«A ilha do Pico, que dista doze léguas da Ter- 
ceira, produz certa qualidade de raadeira cha- 
mada tí'iav, ([ue e na verdade regia e admirá- 
vel. Por isso por alvará se prohibc que qualquer 
lhe 'toque, visto que somente empregados do rei 
estão encarregados de a cortar. É de extrema 
dureza, de còr interiormente vermelha, ondula- 
da de escarlate, de surama belleza, que se aug- 
menta pelo decurso do tempo. 

« Os portuguezes possuem todas estas ilhas ; 
comtudo depois dos últimos acontecimentos de 
Portugal, a Terceira recebeu uma guarnição hes- 
panhola, com um governador da mesma nação. 
Aquella guarnição habita nas fortalezas e cas- 
tellos, e nenhum dos portuguezes é maltratado, 
visto que nenhum soldado sae da cidade para 
os camjios sem licença ; por isso ha segurança 
continua nas estradas de toda a ilha. O estran- 
geiro não pode andar a pé nem a cavallo á ro- 
da da ilha : assim o mandam as ordens portu- 
guezas. Antigamente assignava-se na cidade ura 
bairro era que o mercador vendia os seus géne- 
ros, e d'elie não podia afastar-se. Hoje deixa-se 
transitar mais li\ remente por toda a cidade e pe- 
los campos, sendo comtudo prohibida a explora- 
ção do paiz. Esta nos foi concedida por especial 
benevolência do governador, e sendo-nos por el- 
le ollerccidos cavalíos, duas vezes percorremos 
a ilha era roda. Como pareciamos andar em ser- 
viço do rei, repiitavam-nos naturaes do paiz, e 
por isso caminhávamos sem a menor difliciilda- 
de. O governador pedia-me cora instancia (]up 
lhe desenhasse toda a ilha, pois queria mandar 
a planta ao rei de Hespanha, porém eu escusa- 
va-me com o trabalho e enfado que isso causa- 
>a. Comdido delineei a cidade d' Angra, com a 
situação do castello e fortalezas, da qual foi man- 
dada ao rei uma copia, e m'insiiiuei por esl(> me^ 
do no animo do governador. Estavam coraiiosco 
na mesma hospedaria dois mercadores, ura fran- 
cez, outro escocez, que ardiam era desejo d'ob- 
servar a iliia : porém os portuguezes não o con- 
sentiram, para não abrirem exemplo, temendo 
que a cada passo appareça um explorador. Vol- 
temos á descripção da ilha. 

«O ar aqui é bom por toda a parte. As doen- 
ças da terra são poucas. É enfermidade commum 
dos portuguezes o ar {ar mau), i\uf torna o ho- 
mem fraco ou paralytico de todo o corjio ou de 
algum membro. O súbito derramamento do san- 
gue faz nascer nos portuguezes tumores sanguí- 
neos no rosto, á roda dos olhos, ou n'outms par- 



o PANORAMA. 



t» 



J«s do corpo. Eis aqui as duas moléstias princi- 
paos. ori^'iiuu]as pelas tempestades, pela humi- 
dade dos logares, e pela veliemencia do \eiito. 
Tamanha e a força deste ultimo, ijue consome 
inteiramente o ferro, c as pedras dos edilicios. 
Gu mesmo vi, no thesouro régio (alfandega) 
«onstruido apenas ha seis ânuos, as grades de 
ferro que foram da grossura d'um braço, redu- 
zidas a delgadeza de palhas, e as mesmas pe- 
dras gastas e ([ua^i reduzidas a nada. Por isso 
quasi sempre collocam nos fronli.spicios das ca- 
sas as pedras que arrancam debaixo d'agua jun- 
to a praia, porijuc estas resistem mais tempo á 
acção dos ventos. .S.lem das supraditas cidades 
teiii a ilha muitas villas e aldèas, a saber: — 
S. Sebastião, Santa Barbara, Altares, Agualva, 
VilIa-no\ a, e outros logares, de maneira que por 
toda a parte é povoada, excepto nos bosques (pie 
são tão cerrados ([ue nelles se não pode transi- 
tar. Os insulares cultivam o pastel com lucro 
especial : por(|ue uns são agricultores c enlre- 
gam-se ;i preparação e cultura dflle, outros ti- 
ram lucro das armadas da Índia, do Brazil, de 
Cal)o-\erde, Guiné, e outras regiões. ,\ Tercei- 
ra pela sua commoda e celebrada posição rece- 
be (juasi todos os navios, de que colhe grande 
proveito. Ahi separam os insulares os alimentos 
e mercadorias ([ue leeni, e as pequenas coisas 
que fabricam, e vendem-nas aos viajantes. N'es- 
te tempo era que frequentam esta ilha os visi- 
nhos insulares, por causa do commercio, os in- 
glezes infestam o mar em navios de corso, l^íim 
de roubar os navios ([ue vem ancorar n'esta ilha. 
Por isso agora muitas naus evitam chegar a 
estas ilhas, com medo das ciladas, o que causa 
grande prejuízo aos insulares, e grave transtor- 
no aos navios. 

"Da Terceira para sueste, distante vinte c se- 
le, ou vinte e oito léguas, está a ilha de San- 
Miguel, tendo de extensão quasi vinte léguas, 
povoada de aldèas e ontras povoaçBcs. É habi- 
tada por poríuguezes, e gosa do mesmo ar, e 
outras commodidades como a Terceira. .V sua 
principal cidade chama-sc Ponta-delgada, que 
os inglezes, escocezes, c fraucezes frcíiuentam 
mais do que a Terceira, por causa da extrema 
quantidade de pastel que ali ha, e de que im- 
portam todos os annos para cima de duzentos 
mil quintaes. É também tão fértil em trigo, (]ue 
muitas vezes suppre as faltas das outras ilhas. 
iS'ão tem porto algum, e o mar rebenta por to- 
da a parle, o que torna a permanência menos 
.segun» do que junto á Terceira. Também ahi 
não ha fortaleza alguma que impeça a saida, c 
por is-so quando accommette alguma tempestade 
os navios saem livremente para o mar alim de 
evitar o perigo, o que não podem fazer na Ter- 
ceira. Por esta raxão as naus d'estrangeiros en- 
tram livremente em San-Miguel. Também a ban- 
deira hespanhola serve na fortaleza para defen- 
der a cidade de Ponta-delgada. 

«Da ilha de San-.>íiguei para o sul doze lé- 
guas está situada a ilha de Santa Maria, que 



tem de circunferência dez, ou doze léguas, seu» 
outro commercio (|uc a torne celebre, alem do 
de \a.>ios e ulensilios de barro. Não tem pastel, 
porem abunda em tudo quanto e necessário pa- 
ra alimento. É habitada por poríuguezes, e não 
é guardada por guarnição hespanhola, porque- 
sendo cingida d'e\traoi(linarios rochedos, pode 
muito bem ser defendida pelos insulares. No 
tempo eui que eu morava na Terceira, o inglez 
conde de Cumberland quizera ali entrar para fa- 
zer aguada e refazer-se de viveres, porém aía.*- 
tou-se com grande mortandade da sua gente, 
depois de ter recebido muito damno dos insu- 
lares. 

«Da Terceira para nornoroosíc sete ou oito 
léguas esla a ilha chamada Graciosa, tendo ape- 
nas d'extensão cinco ou seis léguas. Sobre mo- 
do amena e agrada\el, dá vários fructos de que 
ainda abastece a mesma ilha Terceira. É habi- 
tada por poríuguezes, e nenhuns soldados tem. 
para a guardar, porque pela pequenez não podft 
satisfazer ás despezas da guarnição. 

"Da Terceira para noroeste oito ou nove lé- 
guas avista-se a ilha de San-,íorge, tendo maLs 
de doze léguas de comprimento, ])orém só dua.^; 
ou Ires de largura. É povoada de montes e bos- 
(lues e tem algum pastel. Os insulares cultivam 
os campos, e os fructos, que logo depois trans- 
portam para a Terceira. Produz a ar\(ire cedro 
com abundância. Esla madeira é muito procu- 
rada pelos marceneiros da Terceira, (|ue pela 
qualidade do logar ahi passam. 

<'Da terra de San-Jorge para oes-sudoeste está 
situada a ilha do Faval, que tem de circuito 
dezesete, ou dezoito léguas, muito celebre, em 
terceiro logar, depois da Terceira e San-Miguel, 
porque dá com abundância tudo quanto é neces- 
sário para sustentação. Abunda em gados e pei- 
xes, de que ainda abastece a ilha Terceira. Tam- 
bém tem pastel e por isso é frequentada dos in- 
glezes. O principal porto d'esta ilha é junto á 
viila da Horta, onde fuudeiam navios dalto bor- 
do. Junto á cidade ha uma fortaleza de pcíiue- 
na importância. E porque os insulares se quei- 
xavam da grandeza das despezas, t? incommodo 
da guarnição, afierecendo-se para a fazerem el- 
les mesmos, o rei mandou retirar os soldados. 
Como porém o conde de Cumberland, depois de 
fraca defesa, e teudo-se manifestado dissensão 
entre os insulares, tomou a ilha, destruiu o cas- 
tello, c lançou os canhões ao mar, levando al- 
gumas caravelas ; reprehendidos e castigado.-; 
pelo rei os principacs da ilha, tornaram a rece- 
ber da Terceira uma nova guarnição militar. 
Habitam aqui muitos belgas, porem por longo 
habito fallaado já a lingua portugueza, porque 
os naturaes da Bélgica morreram já. Amam mui- 
to os do nosso paiz, e voluntariamente os alteu- 
dem. 

" Do Faya! três léguas para sueste, da ilha 
de San-Jorge quatro léguas para o sudoeste, e da 
Terceira para oe.s-sudocsíe doze, está a ilha do 
Pico, que tem quinze léguas de extensão. Tira 



44 



O PANORAMA. 



o nome do tnontc, pico, que dizem exceder em 
altura o pico das Canárias. Da iiha Terceira quan- 
do está o tempo claro, pode avistar-se facilmen- 
te ; e parece estar distante apenas uma légua, 
quando se calcula que distará quasi vinte e cin- 
co léguas, porque está na ultima extremidade da 
ilha do Faval. O cume estende-se além das nu- 
vens, de modo que o monte parece estar cober- 
to por ellas e pelo horisonle. A iliia tem por 
elle grande fama. É fructiiera e dá madeira em 
abundaucia, como cedro e a outra, preciosa, (jue 
clianiaiu tei.io. Aqui taml)ein se fabricam navios, 
pela abundância de madeira. Tem muitos gados, 
abundantes vinhos, e excellentes fruclos, e, en- 
tre estes, laranjas d'exquisilo gosto, -que são mui- 
to procuradas pelos moradores da Terceira c de 
P»rtugal. 

«Da Terceira para o occidente ale á illia das 

. Flores contam-se setenta léguas. Esta. que abran- 

je o espaço do sete léguas, nada produz próprio 

para commercio, além do pastel. Nutre abundan- 



temente gados, e abre-sc a todos os que ali apor- 
tam, bem como aos inglezes, que os habitantes 
da ilha não podem conter. 

«Distante d'esta, coisa d'uraa légua, está uma 
pequena ilha, que terá de circunferência duas 
ou três léguas, chamada do Corvo, também ha- 
bitada pelos porluguezes. Entre estas duas ilhas, 
ou perto d'cllas cruzam quasi sempre navios in- 
glezes, esperando as armadas da Índia Occiden- 
tal ; porque de Iodas as ilhas dos Açores são es- 
tas as primeiras que avistam. Por esta razão os 
seus habitantes vivem pouco felizes, expostos a 
presas, e muitas vezes privados de seus bens. 

« A iiha Terceira está situada em 39 graus, 
na mesma altura que Lis))oa, d'onde dista para 
o occidente duzentas e cincoenla léguas hespa- 
nholas. 

(' Basta a respeito das iliias dos Açores, «jue 
aliás são bem conhecidas dos do nosso paiz («í 
Iiollanihzes).» 

.losÉ DE Torres. 




SMTAI2AB 
ELRA.IW^AD£ 

COL!:OCi?.ESTEK 
DR4MMrElVG/ÇL 

E^íyENOR^ DAPA^ 
CEFÍC/KAOQVENFL 

KíDOELREÍDQNK 
ESEVÍ°DAFOJ\rSO 

4'EST/W3D r3B^ 
REJV1BT"N/Ví^\/)£ 

t323 



PADUVO NO ARCO DO CEfiO. 



Quando el-rei D. AlTonso iv, ainda infante, 
se tomou de ciúmes com el-rei D. Diniz seu pac, 
por suspeitas de que estimava mais aos lilhos na- 
iuracs D. AfTonso Sanches e João Affonso, do 



que a elle que tiulia um dia de lhe succeder na 
coroa, e a quem estes não serviam nem acata- 
vam como o infante desejava, levantou armas 
pelo reino, chamando á sua parcialidade quasi 



o PANORAMA. 



4S 



todos os nobres e senhores. Daqiiella predilec- 
ç3o d'cl-rei pelos referidos dois filhos bastardos 
tmha o infante provas em ver desterrado ao mais 
velho dos naturaos, o ronde D. I'rdro, que por 
seguir partes de I). Aflonso, foi a requerimento 
de João Allonso expatriado para Castella, tonian- 
do-sc-lhe cá no reino todas as suas terras e fa- 
zenda. Alguns historiadores accresccntam que 
ás referidas razões acerescia ser também o infan- 
te de grande e desordenada cubica, desejando 
cobrar para si as ritiuezas e thesouros d'el-rei 
seu pae, bem como que este demittissc n'elle a 
justiça c governança do reino. 

I'rincipiou o rompimento indo a Castella o in- 
fante U. AlTonso, sob pretexto de ver sua sogra 
a rainha D. Maria, e para i.sso levou comsigo 
sua esposa D. Beatriz e liliios. o que tudo foi 
contra vontade del-rci, que d'esta jornac'a logo 
.«suspeitou turvação ao reino. Em Cidade Rodri- 
go combinou D. AíTonso com sua sogra como pro- 
ceder naquella conjuntura, e regressado que foi 
o infante a Portugal, logo veiu <á corte um Pê- 
ro Rendei, ouvidor das justiças em casa do rei 
de Castella, com recado da rainha, no qual com 
grande instancia requeria e pedia a D. Diniz en- 
tregasse ao sobredito infante o regimento das jus- 
tiças; ao que el-rei, como justo era, se escusou. 
Com esta resposta se aggravou o infante, e prin- 
cipiou a andar sempre afastado dcl-rei, e a ten- 
tar meios de matar a AfTonso Sanches, ou pelo 
menos desterral-o, como causa primaria que sus- 
peitava ser de seu pae não delegar n'elle o re- 
gimento das justiças. Para isto tramou ijue Af- 
fonso Sanches o pretendia assassinar, peitando 
homens para esse fim, e forjando treslados des- 
ta intriga — que primeiro leve cuidado de fazer 
públicos em Coimbra, onde se achava, para com- 
mover o povo — os enviou depois a el-rei, pedin- 
do desaggravo de seu irmão bastardo. El-nM não 
quiz crer n'estas invenções, e mandou pedir ao 
infante os documentos originaes, para em vista 
d'e]lps proceder com o dpvido castigo como cum- 
pria ; ao que o infante também não quiz obede- 
cer, e el-rei tcíu a descobrir a falsidade. 

D'estas desavenças seguiram-se serem também 
desavindos os homens d'el-rei e do infante, com 
estrago de fazenda de ambas as parcialidades, 
e mortes traiçoeiras de alguns. N'estas conten- 
das interveio o papa para que o infante se tor- 
nasse obediente ao pae, ao que ejle foi constan- 
temente recusando-se, até que por fim saiu de 
Coimbra com muita gente armada, caminho de 
Leiria, com fama de vir a Lisboa em romaria ao 
mosteiro de S. Vicente, porém na verdade com 
a tenção de tomar e ter Lisboa contra seu pae. 
El-rei que o soube mandou-lhe recado a Santa- 
rém para que despedisse aquella gente, pois não 
dava assim o infante mostras de romaria, antes 
de maus intentos. D. .VlTonso despresou os con- 
selhos do pae, e continuou sua marcha sobre Lis- 
boa, e ao seu encontro saiu el-rei,_ levando em 
companhia a rainha D. Isabel sua mulher. Acha- 
va-se o infante a oito léguas de Lisboa, quaa- 



do soube da saida de seu pae, e inclinou para 
Cintra, onde D. Diniz o foi buscar; mas o infan- 
te não quiz combater, e abalando-se mais pró- 
ximo á cidade de Lisboa, seguido foi por el-rei 
que em Benlíica soube achar-se o infante a uma 
légua dali appandhado a combate. Comtudo o 
encontro das duas hostes não teve logar pela in- 
tercessão da rainha Santa Isabel, e foi em n-ie- 
nioria d'estas tregoas entre pae e filho (|ue se 
levantou o Padrão que hnjc se vô ao Arco do 
Cego, estrada do Campo Porjueno para o Lumiar, 
encravado na parede de uma quinta que até 1833 
foi dos padres Nerys. A nossa estampa represen- 
ta este padrão com a sua lapida, rc.Cormado ha 
poucos annos. 

E por concluir com esta noticia, diremos que 
depois se fez concórdia entre o infante e el-rei, 
na vi lia de Pombal, e estas pazes se firmaram 
com solemnc juramento no aliar da capclla de 
S. Simão em Leiria. ?* 



ESTUDOS SOBRE A IILSTOP.ÍA SAGRADA. 

Conliuuação. 

EDUCAÇÃO. 

Consideravam os israelitas a educação dos fi- 
lhos como o primeiro e mais doce dos deveres 
impostos ao homem. 

Começava ella d'algum modo logo depois do 
nascimento, porque as mães não se dispensavam 
como hoje de nutrir aos próprios peitos o fructo 
das suas entranhas. 

Apenas a creança podia caminhar, e soltava 
algumas palavras, o trabalho e os exercicio.s 
iam formando a sua educação physica, da mes- 
ma sorte que a musica e as lettras lhe forma- 
vam o espirito. l'ma e outra educação iam se- 
guindo proporcionalmente os annos. 

O pae acostumava o filho a correr, a levan- 
tar pesos, a disparar o arco, a servir-se da fun- 
da, e a combater contra os animaes ferozes. 
Estes exercícios eram ás vezes acompanhados de 
esercicios militares. 

Ensinava-lhe também tudo quanto respeitai 
agricultura, esclarecendo as lições com uma con- 
tinuada pratica ; de sorte que ura mancebo, sain- 
do da casa paterna, sabia todas as coisas ne- 
cessárias á vida, coniiecia perfeitamente as dií- 
ferentes qualidades de terra, as plantas próprias 
a cada uma, o seu tratamento especial ; modo 
de cultivar e recolher os friíctos, a natureza de 
cada animal domestico, o sustento mais apro- 
priado a cada um d'elles, as moléstias de que 
o gado adoecia, e o modo de as curar. 

As mães ensinavam ás filhas todo o arranjo 
de uma casa: como se cosinhava; afiar; a tra- 
balhar de agulha ; a cortar etc. 

Havia máximas especiaes á educação de 
cada um dos sexos, que pela sua extensão não 
podemos mencionar aqui, mas que tem um ca- 



^tt 



o PANORAMA. 



nho de profunda philosophia, e t[ue os sábios 
modernos ainda não souberam cgiialar. 

Além destas instrucções eram os pacs c as 
mães obrigados a ensinar aos filhos as maravi- 
lhas que Deus operara tanto cm seu tempo, co- 
mo no dos seus antepassados. Ordcnava-lhes a 
lei i[ue explicassem a origem das festas que ce- 
lebravam, e as ceremonias praticadas n"ellas. 

Os israelitas não tinham escolas publicas, 
porque a sua vida laboriosa não lhes permittia 
que deixassem sair os filhos da casa paterna 
para ouvirem as lições de mestres particulares. 
A maior parte dos estudos lazia-se sem leitu- 
ra, nem lições regulares : era por via das pa- 
lestras dos pães e dos anciãos. 

Tinham, porém, um grande numero de livros. 
Desde o tempo de Moysés falla-se n'um livro das 
guerras do Senhor ; e n'oulra parte se mencio- 
na o livro dos justos. Nos livros dos reiscilam- 
se muitas vezes as chronicas dos reis de Judá e 
d'Israel. Salomão escreveu ires mil parábolas, 
c mais de mil cânticos. Havia tratados sobre 
todas as plantas e animaes, feitos pelo mesmo 
priiicipe, e eile próprio se lastima do furor que 
liuiia de escrever e compor. 

Todas estas obras, e muitas outras que se 
perderam, serviam de certo aos entretenimentos 
dos hebreus, e os pães n'ellas colhiam grandes 
lições para seus íillios ; porém o livro principal 
que lhes entregavam era a Biblia, a qual só 
l)astava para instruir perfeitamente. 

E eITectivamente este livro suppria-lhes todos 
os mais, ponjue encerrava o ijue elles deviam 
saber. Tiniuim ahi a historia do mundo ate ao 
seu estabelecimento na Tt^rra da Promissão, os 
progressos da sua nação, as diversas revoluções 
que a agitaram, os benelicios que receberam de 
Deus, as penas com que as suas infidelidades 
foram punidas. Ali se achava toda a sua reli- 
gião, todos os seus dogmas, todas as ceremo- 
nias do seu culto, lodos os preceitos da moral, 
iodas as suas leis civis. Finalmente encontra- 
tam n'aquello livro todas as nações que lhe eram 
conhecidas, e especialmente aquellas que mais 
lhes importava conhecer. 

Aquelle isolamento eiu que os israelitas vi- 
viam das nações estrangeiras fazia-lhes inúteis 
o estudo das suas linguas edos seus livros. Até 
mesmo similhanle estudo ser-lhes-hia perigoso, 
poniuc teriam aprendido as fabulas irapias e ex- 
travagantes de (|ue se compunha a theologia dos 
idolatras. 

Applicavam-se a. pronuuciar e ler correcta- 
mente a sua lingua natural — a hebraica, que 
é a mais antiga, a mais simples, e apesar d'is- 
so a mais rica e enérgica de que nenhuma ou- 
tra (jue se tenha la liado sobre a terra. 

Eram as suas leltras as que chamamos sama- 
ritanas pori|iie este povo as conservou. E como 
cilas não são correntes, nem fáceis de formar, 
duvida-sc, e com razão, (juc o uso da cscripta 
fosse muito comnium entre os hebreus. O certo c 
porém que a maior parle do povo as sabia ler. 



Isavam muito de parábolas, enigmas, alego- 
rias e discurso tigurado, encerrando assim aa, 
máximas de moral em imagens agradáveis ena- 
turacs , expressas por poucas palavras, atim 
das crcanças facilmente as relerem de memo- 
ria. 

Parte da educação consistia cm aprender o» 
cânticos compostos por Moysés, c outros profe- 
tas, e os psalmos de David. Estas poesias eram 
cantadas, e para isso precisavam suas noçõc» 
de musica. 

Nada nos resta hoje da musica dos hebreus, 
nem da struclura dos seus versos. Tinham mui- 
tos instrumentos como flautas, trombetas, har- 
pas, pandeiros, etc. 

Os cânticos eram acompanhados de danças. 
Por isso os rapazes e as raparigas se exercita- 
vam 11'ellas. Muitas vezes as raparigas formava»- 
coros, e saiam ao encontro, ganha uma victo- 
ria, dos soldados triumphantcs, para os felici- 
tarem pelo bom exilo das armas. Dançavam e 
cantavam, em signal de alegria. 

RIOIJEZAS. 

Todos os israelitas tinham um campo para 
cultivar. Era o mesmo que os seus antepassa- 
dos haviam recebido de Josué. O israelita nãa 
podia nem mudar de logar, nem arruinar-se. 
nem enriíiuecer excessivamente ; porque a tud« 
isto provia a lei do anuo mbbaiico, e a do an- 
uo do jtibileu. 

Pela primeira d'estas leis estatuia-se que í 
terra descansasse todos os sete annos em honra 
do Seniior. No decurso deste anno sétimo, não 
podiam nem semear o seu campo, nem empara 
vinha, nem limpar as arvores, nem ceifar, nem 
vindimar, nem colher os fructos e legumes qu« 
a terra produzisse. Tudo isto ficava abandonado 
n'esse anno aos pobres c aos estrangeiros. Du- 
rante o sexto anno os proprietários faziam as- 
suas provisões. Se porventura careciam de no- 
vos fructos, podiam sim recolhcl-os da prodjus- 
ção espontânea das suos terras, porém com mo- 
deração, não prejudicando aquelles que pela su» 
pobreza eram n'esse anno os que linliam direi- 
to a estes fructos. 

Pela lei do jubileu santilicava-se do mesmo 
modo o quinquagesimo anuo. Publicava-se en- 
tão uma liberdade geral, pela qual os hebreus 
que a miséria obrigara a entregarem-se como 
escravos a seus irmãos, recobravam lodos ot; 
privilégios de cidadãos. Cada um entrava no 
pleno direito do que tinha alienado. 

Durante o anno do jubileu, a.ssiin como tam- 
bém cm todos os annos sahbaticos não se po- 
diam exigir dividas, e até muitas vezes se per- 
doavam cilas aos pobres. Esta dilliciildade de 
jiagamento, e a impossibilidade de fazer acqui- 
sições duráveis, tornava os empréstimos mais 
dilliceis, (í as vendas menos fre(iuenles ; e por- 
tanto dimiiuiiam as occasiõcs de empobrecer, o 
que era o principal lim da lei. Cada um se li- 



o PANORAMA. 



•ty 



roitava á sua lieiaiira, ^\ esmcrava-se cm lhe 
aupuRMitar o valor, [lois sabia qiic minta sairia 
da sua família. 

guando se queria MMider uma propriedade 
ruslica, calculava-se o preço pelo numero de 
snuos que deviam decorror até ao próximo an- 
no do jubileu : quanto maior era o numero <!e 
annos, mais valor linha. Nunea se vendia se- 
não eoni a condieão do resgate, .\ssira o ven- 
dedor podia recuperai- a sua propriedade dois, 
Ires, quatro annos depois de a ter alienado, 
dando ao comprador o dinheiro que recebera por 
ella. Se não podia resgatal-a esperava pelo aii- 
no do jiibilcii. 

Quem vendia uma casa dentro do rccinlo 
■murado de uma cidade, podia resgalal-a dentro 
de um anno ; passado esto praso, (içava perten- 
cendo perpetuamente ao comprador, que não era 
mais o!)rigado a rcsliliiil-a, nem mesmo no an- 
uo ào jubileu. D'esta lei só estavam exceptua- 
das as casas dos levitas. Se a casa estava em ci- 
dade não murada, vendia-se segundo o costume 
das terras, isto é, sob a condição do resgate, 
ou pelo menos a de se recuperar no anno do 
jubileu. 

Os hebreus não eram propriamente mais do 
que os usufructuarios das suas terras ; eram os 
"endeiros de Deus único proprietário verdadei- 
ro. Antes de se clejierem os reis, elles não pa- 
gavam mais tributos do que os dízimos e primí- 
cias ordenados pelo Senhor : quando a realeza 
se estabeleceu foram gravados com tributos c 
impostos arbitrários. 

Todos os israelitas eram quasí egualados em 
bens, e se a multiplicação da família obrigava 
a dividir as terras em mais porções, deviam suj>- 
prír a falta que daqui resultava pela industria 
e pelo trabalho, nutrindo mais rebanhos nos de- 
sertos e nas terras communs. 

Era nnii escasso entre elles o numerário. E 
realmente não podia ser de muito uso n'ura paiz 
onde os bens de raiz se uão podiam alienar, nem 
contrahir dividas, c o trafico era tão limitado. 
k usura era prohíbida entre os israelitas e per- 
mittida só com os estrangeiros; porém segundo a 
!eí lambem não era fácil ter commercio com elles. 

Quando qualquer homem morria sem tilhos 
varões, as propriedades passavam ás femens. 
Se também não tinha íilhas então os irmãos her- 
davam. Faltando o irmão, era o tio paterno. Na 
falta deste a succ«ssão passava para o parente 
mais próximo. 

Continua. A. 

CHROMCAS MONÁSTICAS. 

DA COMPA^UIA DE JESCS. 

CASX I«I S. ROQCE. 

111 

Corilínuação. 

Para subir ao tecto da egreja e telhado ha 
duas escadas junto 3,os cuwhaes do cruzeiro, não 



sendo ellas cocleadas, como geralmente é uso, 
mas com tiilmloiros e dciiiaiis de dois em dois, e 
de (jiiatrn cm i|ii;i!i-n. pelos (]iiaes se sobi' desaba- 
fadamente pela largura, e claridade que teein. 

O frontispício da egreja termina em um trian- 
gulo de pedra, que Inma toda a sua largura. Ao 
remate do triangulo segnía-se pela |iarte infe- 
rior um nicho, acompanhado de cada parte por 
duas eolunmas também <\c jjedra. Dentro do ni- 
cho íicava a imagem do Salvador do mundo com 
um globo na mão, e sobre elle uma cruz. 

O triangulo que hoje se vê .sobre o .segundo 
cor[)o da fechada é de construcção moderna. Fal- 
ta-lhe portanto, não .só a varanda, que corria 
pela parte exterior do corpo da egreja. mas tam- 
bém o nicho e as colimmas que o acompanha- 
vam de cada lado. Hoje existe n'este logar um 
óculo imperfeito : porque .se não levou a effei- 
to o projecio de uni relógio. Quem reparar para 
o triangulo sobreposln ao segundo corpo, reco- 
nhecerá immedialanientc que houve um terre- 
moto que alhiiu esta elegante frontaria. 

Pela parte debaixo ha trcs grandes janellas, 
guarnecidas de mármore branco, todas de vidra- 
ças, que ílcani sobn- o coro, e ser\em de lhe 
dar luz, e a toda a egreja. 

Além d'eslas janellas tem mais duas o fron- 
tispício que são qu;>si quadradas, e servem tam- 
bém para augmenlar a luz da egreja, e do coro. 

Tem o frontispício egualmente três jiorlas, pe- 
las (]iiaes se dá enírada do adro para a egreja. 

Ao entrar na egreja logo se admira o tecto de 
esteira que resguarda o vão por baixo do coro. 
E de estuque doirado, e as paredvs de ambos 
os lados eslão revestidas de azulejo. Na da di- 
reita ha uma poria grande com serventia para 
o <"laustrn. O coro é sustentado por duas colura- 
nas inteiriças, e de boa grandeza. 

Esta egreja tem de comprimento, não lallan- 
do na capella-mor, cento e oitenta e seis pal- 
mos, e de largura oitenta e dois, não mettendo 
em conta o vão oeciipado pelas !]iiatro capellas, 
que correm de cada lado do corpo da egr^-ja. 

Os arcos d"estas capellas são de mármore bran- 
co, sustentados em pilares da mesma pedra, e os 
seguintes .que acompanham os ditos arcos estão 
ornados de painéis, vendo-se anjos pintados em 
alguns, e n'outros vários doutores da Egreja. 

Um friso de pedra corre por sobre as capel- 
las, e por cima d'este, no meio de cada arco, fi- 
ca uma tribuna, com seus balaustres. Por estas 
tribunas, a íjue eorrespondeiu por detraz largas 
janellas, com vidraças, entra niuis claridade e 
luz na egreja. .Vs tribunas .são tantas de cada 
lado como as capellas. Tarabi m no caiz iro, .so- 
bre o arco qu« n'elle fica, cts cana paric, cor- 
respondente aos das capellas, ha outra tribuna. 
Com estas são de cada parte, cinco. 

Entre as tribunas ha painéis ornados cflm 
grandes molduras, lisas, e doirnias. .A.s suas 
pinturas são passos da vida de Santo Ignacio. 
l)e cada lado ha quatro painéis grandes, e qua- 
drados, e mais outros quatro mais pequenos, íi- 



4S 



O Panorama. 



cando dois d'estes entre as janellas do coro. Re- 
presentam a morte de Santo Iguacio, e a sua se- 
pultura. 

Sobre os painéis vem uma cornija, cora den- 
tilhões de pedra, guarnecidos com fios de oiro, 
rematar as paredes. Sobre estes dentilhões des- 
cansam as vigas, que sustentam o tecto da egre- 
ja, e correm como já dissemos por toda eila. 

Exactamente no meio de cada lado da egreja 
ha um púlpito de pedra, de llgura quadrada. 
Sobre o guarda-pó de cada púlpito, e que são 
bem ornados, assentam dois nichos, sobrepostos 
um ao outro, c em cada um seu Evangelista, que 
represeulam altura proporcionada á de um ho- 
mem. 

O pavimento da egreja era dividida em duas 
partes, na sua largura, por uma teia. A parte des- 
tinada ás mulheres, que ficavam assim totalmen- 
te separadas dos homens, era coberta de estra- 
dos, excepto uma via," de competente largura, 
ao centro, e lageada, para dar logar ás procis- 
sões, ou passar ao cruzeiro 

A parte que pertencia aos homens estava occu- 
pada por bancos. Por traz d'estes bancos deixa- 
va-se livre uma passagem, para ir da porta da 
egreja ao cruzeiro. 

Umas grades de pau santo terminavam o cor- 
po da egreja, dividindo-o do cruzeiro. Assenta- 
vam no pavimento d'este, que é mais alto que 
o do corpo da egreja coisa de um palmo. Esta 
altura forma um degrau. 

Nola-se n'esle templo o defeito de ser o cru- 
zeiro mais acanhado do que o demandava a lar- 
gura e extensão do corpo da egreja. 

Capella-^iór . 

k capella-mór também padece do mesmo de- 
feito, pois bem se liie nota a falta de fundo. Do 
pavimento até á abobada é sua altura de cin- 
coenta e seis palmos. De largura mede trinta e 
sete. 

Esta capella foi dada pelos padres a D. João 
de Borja, e sua mulher D. l-raucisca de Aragão. 
Aquelíe era filho de S. Francisco de Borja, du- 
que de Gaudia, que foi casado com a porlugue- 
za D. Leonor de Castro, dama da infanta D. Isa- 
bel, que em Castella casou com o imperador Car- 
los V. O daijue foi depois religioso da Compa- 
nhia, e canonisado pelo papa Clemente x. 

Era n'esta a sepultura do referido D. João, 
sua mulher, e successores, e a Companhia d'el- 
la lhes fez doação em agradecimento do grande 
thesouro de relíquias que elle doou á Ca.sa de 
S. Koque. Aqui so exi.ste soterrado D. João de Bor- 
ja ; sua esposa e lillios morrendo cm reinos es- 
trangeiros nunca foram trasladados para este ja- 
zigo, (jue fica por baixo da mesma capella. 

O retabolo, que foi feito pelos padres, á cus- 
ta de esmolas, consta de dois corpos. Tem co- 
lumnas curinthias, striadas com terços mui bem 
lavrados. Os capiteis .são lambera de feitio co- 
jíBthio ; e sobre as columnas correm as alqui- 



traves e frisos, c sobre estes as cornijas e ema- 
mentís com bom relevo. 

Entre as columnas ha nichos striados, e as 
meias laranjas que formara estão artesoadas de 
florões, e os baixos acompanhados de tarjas eom. 
folhagens e fructos era relevo. N'estes nichos es- 
tão quatro santos da Companhia, a saber: — San- 
to Ignacio, S. Francisco Xavier, S. Francisco de 
Borja, e S. Luiz Gonzaga. 

O sacrário é perfeito e doirado com grande 
primor. Está mettido no vão de um arco, que. 
láz o retabolo, composto também de varias eo- 
lumnas striadas. Uns anjos de relevo inteiro, 
com os emblemas dos martyrios nas mãos, r«- 
matam as columnas. Couclue esta obra um zim- 
bório, com sua peanha, e a cruz por symbolo. 

No meio do retabolo o que se via ordinaria- 
mente era um excellente quadro da Circuncisão, 
feito em Roma. Ila mais quadros que ali se põem 
conforme a variedade de festas e mysterios que 
a Egreja celebra ; e são estas a festa do JNatal, 
Resurreição, e Pentecostes. 

Nos (piarlos domingos de cada mez havia 
communhão geral na Casa de S. Roque. N'essa: 
occasião tiravà-se o retabolo, e apparecia então, 
uma casa onde estava uma charola doirada, com 
(piinze palmos de pé direito, e de vão treze, 
formada por seis columnas com seus capiteis co- 
rinthios. Entre columna e columna ha um arco 
era forma de nicho transparente, cora pequenos 
pilares e arcos formando ura circulo. 

Sustentam estas columnas uma meia laranja 
que prende de columna a columna cora florões. 

Dentro do nicho está a peanha, onde .se ex- 
põe o Sacramento, e tem dois anjos era humil- 
de adoração, e que parecem á vista sustentados 
no ar, e cora as azas, que por meio de um ma- 
chinismo, se levantara e abaixam, cobrem, ou 
descobrem o Sacramento. 

Em cada lado do retabolo ha dois nichos de 
pedra, com suas imagens, que representam os 
quatro jubileus perpétuos que tinha a Casa de 
S. Roque, e eram nas festas da Invenção da 
Santa Cruz, de S. Gregório Taumaturgo, de 
Santa Brígida Virgem, e de Santa Úrsula com 
as ouze mil virgens. 

Nos lados da dita capella ha também quatro 
painéis representando os três martyres do Ja- 
pão, Paulo, João, Diogo, e o beato Estauis- 
lau. 

Continua. F. D. d' Almeida e Ahauío, 



Publicou-.se a comedia de costumes — O Sa- 
PATKiiio d'es(;ada — representada no theatro de 
D. Maria ii, — preço 160 réis; bera como — A 
ToKKE DO Corvo — drama original do autor da 
comedia — O Camões do Rocio. Preço 400 réis. 

Pubiicaram-.se as doze primeiras folhas da 

ClIllOISUU DA Ra^ma. 

Estas obras aeham-se á venda na loja do editor 
d' este jornal, rua do Oiro, 227 e 228. 



o FáNOBãMâ. 



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yoL. I. — 5.' SERIE. 



PEVEREIIÍO, li, 1S57. 



50 



O PANORAMA. 



CAMINDO DE FERRO DE LESTE. 
ABERTURA REAL. 

i\o (lia 29 de Outubro do anno passado foi 
aberto á viação publica, com as ceremonias usa- 
das eui taes actos, o primeiro caminho de ferro em 
Portugal. O cardeal patriarcha, sua alteza a se- 
nhora infanta D. Isabel Maria, o corpo diplomá- 
tico, os altos fuuccionarios, e grande concurso de 
povo já se achavam reunidos na estação de San- 
ta Apolónia, que é onde em Lisboa principia a 
linha , quando ás onze horas da manhã che- 
gou sua magestade el-rei o senhor D. Pedro v, 
acompanhado de seu augusto pae, princezas e 
infantes. Foram recebidos no pavilhão, onde ha- 
via três compartimentos ricamente armados ; um 
para a familia real, outro para o cardeal e cle- 
resia, e o ultimo para o corpo diplomático e cor- 
te. Ao lado, porém fora da estação, havia um 
grande amphitheatro toldado para os convida- 
dos. Deu-se principio ao acto pela benção das 
locomotivas, que entraram na estação cada uma 
por sua vez, parando junto ao estrado onde s. 
em.' se achava. Então o cardeal tomando o hys- 
sope aspergiu-as, deitando-lhe a benção. Fin- 
da a ceremouia duas d'ellas foram engatadas no 
comboy, que se compunha de dezeseis carrua- 
gens, indo na do centro a familia real, e na pri- 
meira a gnarda real dos archeiros. Meia hora 
durou a viagem do primeiro comboy desde Lis- 
bía ao Carregado. Três quartos de hora depois 
partiu o segundo comboy, composto de nove car- 
ruagens, levadas só por uma locomotiva, condu- 
zindo accionistas e convidados. 

No Carregado houve um banquete volante, no 
pavilhão que para esse fim se preparou na esta- 
ção provisória. Este pavilhão acha-sc represen- 
tado na gravura que hoje publicamos. 

Pelas quatro horas e meia da tarde regressou 
á capital o comboy real; e ás dez da noite o res- 
to dos convidados já se achava em Lisboa, c 
terminado o festejo. Em todas as povoações do 
transito foram recebidos os comboys, acodindo 
o povo á linha percorrida com musicas, giran- 
dolas de foguetes, e arcos triumphaes. 



VINGANÇA POR VINGANÇA. 

Continuação. 
III 

AUTOPSIA DO COIIAÇÂO. 

N'este capitulo será o autor quem fará sua 
falia, dando-lhc começo na linguagem d'a(}uel- 
la época. 

Não sei se a historia irá muito gostosa. Sei 
que a sofreguidão com que a vou narrando, 
não me pcrmilie dar-lhc algo rcpoiso para ad- 
vertir nas grandes coisas que a antiguidade dei- 
xou escriptas, e cxomar com ellas as que os 



modernos accrescentaram, pondo também em ou- 
tras palavras as antigas. 

Se bem não padece aqui alguma força a li- 
berdade, solTrc comtudo sobeja violência o apres- 
sado com que vou. Se o heide dizer n'outra par- 
te, .«eja aqui logo. Tempo não hei tido de polir 
as minhas figuras, nem de levantar melhor tra- 
çado ao pedestal. Nem que o tivera o poderia 
fazer, que os proventos de autor são tão mes- 
quinhos que nem lhe deixara para uma pada 
se quizera somente viver da escripta. 

Quem com juizo considerar estamachina, ve- 
rá que mui similhantc vae ella ao natural : e 
se parecer miúdo e proluxo, não me acoimem 
de armar tão largas redes, que assim é força 
para colher todos os casos, e todos os avisos da 
época. 

Prasa a Deus, que nos não hajamos cansado 
debalde. 

E assaz de falias nossas. Dèem-nos alviçaras 
que vamos entrar no conto. 

O cadafalso (|ne ora levantamos para a au- 
topsia do coração, querendo Deus não terá algo 
de asco para d'clle se desviarem os olhos. 

Até mesmo vamos tão minuciosos no reca- 
to, que talvez nos opponhamos a que olhos de 
mancebo se esguelhem pelo santuário da vir- 
gindade, onde vamos conduzir o ledor siziido. 

Não queremos sombra de facilidade e ligei- 
reza, onde advertimos que a galanteria não po- 
de fazer mal, se nascer de um discreto ou avi- 
sado ; mas é para cuidar, por comtudo se lhe 
seguir perigo, se toma causa n'aquelles que nem 
do seu, nem do alheio, zelam a honra, e se 
desconcertam em lembranças que se não devem 
nem á fé, nem ao pudor. 

É na alcova da donzella onde havemos en- 
trar. 

Beatriz se acolhera ali vinda do oratório, on- 
de sua mãe ficara esquadrinhando na consciên- 
cia peccados alheios, que próprios não os tinha 
aquella alma de Deus. 

Uma pequena murmuração ouvida, e não par- 
ticipada, era nos escrúpulos feminaes de .Mdonsa 
Peres um crime tal na santimonia, que nem to- 
da a beataria \\\'o poderia expurgar ! 

Por isso cria naturalmente nas mulheres que 
faziam profissão de mestras de virtude, em ve- 
lhas alumiadas, e em gentes professoras de no- 
vidades (jue traziam orações e devoções de tan- 
tos dias com tantas candôas, e de tal côr, por- 
que logo Deus lhes mostrava o que havia de 
ser. 

Assim era que n'essa mesma noite mandara 
Aldonsa chamar uma freira, das veleiras que 
havia em certos conventos, e onde nunca para- 
vam ; madre que se presava de dizer coisas cm 
segredo — como, se casaria, se teria lilhos, se o 
marido alcançaria despacho d'estc ou d'aquelle 
cargo ; que benziam enfermos ; iam a Santo An- 
dré ; e como diz certo autor : « gastavam relhos 
com seus nós lodo o anno.» 

A madre Joanna, que assim se chamava cl- 



.róií .H 



I .J07 



o PANORAMA. 



&i 



la, era também das confessadas certas do padre 
mestre Gaspar, e d'elle muito estimada, porque 
tinha a virtude de arrebatar os ânimos singe- 
los e piedosos das senhoras e gente principal 
com quem se tratava. 

Estas duas almas estavam na casa do orató- 
rio entregues á sua mystica devoção, correndo 
o capitulo das vaidades feminaes, — como a do 
modo de vestir-se, em que devem haver cres- 
centes ou minguantes conforme á edade ; — se 
mais SC confiou na formosura, sendo formosa, 
do que se reportou a fealdade, sendo feia ; — se 
com perfumes e cheiros se trauformou em per- 
petua pastilha e caçoila perenne, mais do que o 
adubo necessário da. discrição com que melhor 
rescendem : — se foi desaffeiçoada . ao concerto 
da casa c das pessoas; — se acudiu mais com 
regalos, doces, c conservas faltando a outras 
coisas mais precisas : — se na demasia das vi- 
sitas se passou do velho púcaro dagua á me- 
renda e ao banquete; — se a pratica d'ellas 
mulheres se podia considerar uni bom lenço de 
amostras ; --se fumos ou vaidades começaram 
a cobrar de bem vistas; — se do papagaio ou 
saguim que tinha era casa se lhe induzira ligei- 
reza ; — se do rouxinol de todo o aano, porque 
cantava de noite, lhe cresciam saudades. . . . E 
outras coisas que, por este jaez, elegantemente 
descreve o nosso D. Francisco Manuel. 

Aldonsa Peres não tinha cm casa negrinho, 
ao qual se induzisse que ella dissesse requebros ; 
nem engeitadinho gracioso, nem villão simples 
vestido de cores, a quem desse estranho trata- 
mento, e que d'ahi a sua opinião lh'o tomasse 
reprehensivel ; porque de ordinário estes eram 
os que n'aquelles tempos, e nos tratamentos da 
sociedade iam por onde queriam ; o que nSo 
deixava de ser reprehensivel. 

Era, como dissemos, a viuva de um homem 
que consumira a melhor parle da sua vida no 
trato e ganância das índias, para onde puxara 
sempre o seu natural, e não excesso de marido, 
nem desvio da mulher. 

Por isso, com muita razão Aldonsa Peres da- 
va tratos á imaginação por enxergar um pecca- 
do n'aquclles trinta dias passados dès que ulti- 
mamente se reconciliara ; e se não fora o da 
Leataria, que por tal o não tomava, nem de 
sombra se poderia accusar de facilidade ou li- 
geireza, nem vangloria ou leveza. 

Sua honra e sua consciência era bem que 
fossem n'cste caso seus conselheiros ; porque sen- 
do difficultoso emendar cada um as suas fraque- 
sas, comtudo é possível ; mas emendar as alheias, 
isso sobre o difficultoso é impossível. 

E era este o caso em que se achava a ma- 
dre Joanna ; que de uma pequena vaidade que 
Aldonsa Peres colhia de ter na sua arca muitas 
alfaias, prata em abastança, oiro sobejo, ejoias 
bastantes para arrebicar doze mulheres, induzia 
d'essa vaidade um grande peccado, e lhe falla- 
va na mulher honrada que deve tratar o dinhei- 
ro com aquelle mesmo temor que ao ferro, c fo- 



go, e outras coisas de que convém sejam me- 
dro.sas, por parecer o dinheiro em mãos de mu- 
lher uma arma imprópria. 

D'aqui um temor de consciência, onde nem 
ao de leve sombra de escrúpulo devia passar ! 

E.stremecia muito Aldonsa Peres por sua tilha 
Beatriz ; e era natural este achego de mãe, por 
ser a única que em sua vida tivera. 

De portas a dentro eram muitas as figurarias 
com que se folgava cora ella ainda em menina, 
porque seguindo a natural inclinação das mães 
não quiz entregar a villãs, bem dispostas com 
honrarias de amas, o cuidado de crear aquella 
([uc nove mezes sustentara dentro em si ; mas 
de portas afora Aldonsa Peres soubera sempre 
evitar-lhe seus momos, para que na opinião nãO; 
parecesse mal creada. 

Crescendo sua filha e formando-se donzellaji 
mais sentira redobrar-lhe a afleiçâo ; e como 
se acaso á sua alma. se accrescentasse outra al- 
ma de )\oyo, ,a obrigação se lhe ajuntava á ia-, 
clinação de mais a amar. . ! ; . 

Por isso lhe cresciam seus cuidados e.seiis 
respeitos, avantajaudo-se na diligencia para com 
maior conimodo e descanso poder passar com el- 
la a vida. t::lh b 
> Não se assombrava pouco a boa velha quagj-K 
do se lembrava da hora em que Beatriz viesse 
a casar : e se verdade é que lhe desejava o re- 
poiso de um honrado casamento, e.spassava-lh'o. 
quanto podia, para melhor tempo, a pretexto da 
pouca edade, mas na verdade pelo sobejo amor 
que lhe tinha, e que não soffria apartamento da 
lilha. 

Ainda se o noivo lhe viera para casa, e fora 
homem que ella já se costumara a estimar, cui- 
dados seriam esses menos passados I 

Por isso fora com um secreto estremecimento 
que notara a affeição dos dois primos, e assen- 
tava ahi seus propósitos de concerto no futuro 
matrimonio. 

Também isto era um escrúpulo para a timo- 
rata consciência de .aldonsa Peres ; e a este res- 
peito tomava, na pratica d'âquclla noite, con- 
selho com a madre Joanna, bem resolvida a 
pedil-o no dia seguinte ao padre mestre Gas- 
par. 

E a autopsia ? 

Mão lhe principiámos a pôr quando caminhá- 
vamos mais descurados de tal, volvendo olhos 
para traz ao oratório de Aldonsa Peres. 

Não acabamos de levantar aqui uma ponta ao 
veo que este coração de mãe nos encobria a 
vista ? 

Não lhe afastámos as nuvens áquclla timora- 
ta con.sciencia, para devassar-lhe os mais Ínti- 
mos segredos seus? 

Não lhe arredámos levemente da fronte, ali 
mesmo ajoelhada, as venerandas cãs, para lhe 
publicarmos os mais recônditos pensamentos? 

Sim que o fizemos; não lhe embellecendo po- 
rém o amor contado, porque o amor de mãe é. 



&9 



O PâNORâBU. 



coisa tão santa, que receber-se deve todo como 
é próprio de si, sem composto nenhum lhe mis- 
turar de outro affecto, para o não profanar. 

Adiviuha-se, e não se decifra ; scnte-se, e 
não se traduz ; admira-se, e não se descreve ! 
Sufliciente a si mesmo, alimenta-se a si próprio, 
de si vive, e só comsigo se apaga quando se 
extingue a vida com os lances da morte ! 

Já em taes extremos se não affronta o amor 
de iilha ! 

Áquella estremece-Ihe por esta a alma, por- 
que um pedaço foi da sua que Uie communicou 
nas entranhas, filtrando-lhe depois o néctar da 
vida n'aquelles jorros de dulcissimo leite, que 
arrecadava nos próprios seios, para a amamen- 
tar no mundo, como a creara com o próprio 
sangue antes de a deitar á luz: — esta, paga- 
IJie o beneficio que recebeu d'ella, em se sepa- 
rar, subjeitando-se pelo casamento a estranho 
<'om a liberdade, com a vontade, com a fazen- 
da, com o cuidado, com a obediência, com a 
vida, e com a alma ! 

Ainda que a affeição filial fora grande, fora im- 
raensa, vem-lhe depois o amor cego, que se dei- 
xa cair nas redes armadas, e logo avôa e foge 
d'ellas, que por isso o pintaram também com 
azas. 

É este amor aquelle comnuim affecto, como 
disse um escriptor, com que sem mais causa, 
que a sua própria violência, nos movemos a 
amar, não sabendo o que, nem o porque ama- 
mos. Acaba na posse do que se desejava. 

Avoado elle, fica a amisade, produzida do 
trato e da familiaridade ; e dahi se gera o se- 
gundo amor que na estima dos filhos vem dar 
yazão aos passados extremos, e vingar na filha 
MS lagrimas secretas, que lhe afogaram o seio 
pelo voluntário desapego da ([ue mais tarde se 
volveu também mãe ! 



Continua. 



DESEJOS. 



Se eu soubesse que no mundo 
Existia um coração, 
Que só por mim palpitasse 
De amor em terna expansão ; 
Do peito calara as magoas. 
Bem feliz eu era então ! 



Se essa mulher fosse linda 
Como os anjos lindos são, 
Se tivesse quinze annos. 
Se fossa rosa em botão. 
Se inda brincasse innocente 
Descuidosa no gazão ; 



Se tivesse a tez morena, 
Os olhos eom expressSo, 
Negros, negros, que matassem, 
Que morressem de paixão, 
Impondo sempre tyrannos 
Um jugo de seducção ; 

Se as tranças fossem escuras. 
Lá castanhas é que não, 
E que caíssem formosas 
Ao sopro da viração, 
Sobre uns hombros torneados, 
Em amável confusão ; 

Se a fronte pura e serena 
Brilhasse d'infpiração. 
Se o tronco fosse flexível 
Como a rama do chorão, 
Se tivesse os lábios rubros. 
Pé pequeno e linda mão ; 

Se a voz fosse harmoniosa 
Como d'arpa a vibração, 
Suave como a da rola 
Que geme na solidão. 
Apaixonada e sentida 
Como do bardo a canção ; 

E se o peito lhe ondulasse 
Em suave ondulação, 
Occultando cm brancas vestes 
Na mais branda commoção 
Thesoiiros de seios virgens. 
Dois pomos de tentação ; 

E se essa mulher formosa 
Que me apparece em visão, 
Possuísse uma alma ardente. 
Fosse de amor um volcão ; 
Por ella tudo daria. . . 
— A Tida, o ceo, a razão ! 

Casimiro Abreu. 



GHRONICAS MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESUS. 

III 

CASA DE S. ROQUE. 

Continuação. 

Vem a propósito darmos aqui noticia dos orna- 
tos que havia n'esta capella em o começo do 
século passado. A sua prata constava de seis 
castiçaes grandes de banqueta, mui bem lavra- 
dos ; mais dois, de ligura triangular, mui per- 
feitos ; um par de castiçaes pequenos; umaca- 
çoila bom lavrada ; seis pivelarios grandes ; um 
cálix de prata lavrada, com a copa toda de oi- 



o Panorama. 



5S 



ro ; «ma custodia grande, contra pequena; dez 
jarras para ramalhetes ; mais dtias jarras de 
pau, porém guarnecidas de prata ; uma alam- 
pada grande, também de prata. 

Os seus oruamentos de frontaes c casulas 
eram riquíssimos, c vários os cortinados, entre 
os quaes havia um de damasco carmesi, com 
seu sitiai guarnecido de grandes franjões de 
oiro. 

Ilavia na mesma capella, e annexa ao altar 
mór uma irmandade dedicada ao serviço de S. 
Francisco Xavier. 

Capellas do cruzeiro. 

A primeira capella collateral á capella-uiór, 
e que fica á face do corpo da egrcja, chamava- 
se dos Santos Martyres, cuja invocação se lhe 
dera pelas muitas e valiosas reli(iuias (juc u'el- 
la estavam expostas. Entre estas rcli(iuias se 
contavam também as de muitos santos pontífi- 
ces e confessores, mas como o seu maior nu- 
mero era dos que tinham recebido martyrio, 
d'ahi lhe proveiu a invocação. 

O ornato principal d'esta capella é o painel 
representando Christo com a cruz grande ua 
mão, e varies santos martyres e confessores que 
lhe assistem. 

Este painel retirava-se quando se expunham 
as relíquias, e por isso a capella não tem outro 
retabolo, porém primava no ornato de frontaes, 
casulas e cortinado. 

Por cima do arco que forma a sobredita ca- 
pella tem logar uma tribuna com uma imagem 
de S. José, segurando á direita outra do Meni- 
no Jesus. 

Superior a esta tribuna ficava outra, d'onde, 
na Semana Santa ([uando se pregava a Paixão, 
se mostrava a imagem do Ecce Homo. 

Corresponde a esta do lado da Epistola, a ca- 
pella das Santas Virgens. 

É o seu principal ornato um retabolo, onde 
avulta a Rainha das Virgens, Jlaria Santíssima, 
acompanhada d« ontras virgens e santas, das 
quaes havia reli([uias n'aquelia capella. 

O seu ornamento é em tudo egual á que lhe 
fica correspondente. Foi comprada esta capella 
por João Pimenta de S. Payo, para seu jazigo. 

Tem egualmcnte sobranceiras ao arco, porque 
é formada, outras duas tribunas: a primeira es- 
tá ornada com a imagem de Nossa Senhora, e 
a segunda servia egualmente na occasião do 
.sermão da Paixão, para mostrar a imagem de 
Christo crucificado. 

No mesmo cruzeiro, e próxima á capella das 
Virgens, havia uma capellinha da invocação de 
Nossa Senhora do Desterro, que foi mandada fa- 
zer por D. João de Castro, senhor de Rezende, 
para n'ella se sepultar seu filho D. António de 
Castro. Aqui está soterrado também o padre da 
Companhia, doutor Francisco Soares Granaten- 
se, que fora seu mestre. Via-se portanto do la- 
do do Evangelho o seu jazigo, por baixo de 



uma pedra de mármore onde se declarava quem 
mandou fazer a capella, c trasladar para ali es 
ossos do referido padre ; e inferior a esta a se- 
pultura do discípulo. 

A capellinha tinha por ornato uma pintura da 
Senhora do Desterro. 

A esta corresponde outra da parte do Evan- 
gelho, collateral á dos Santos Martyres, da in- 
vocação da Santíssima Trindade. Foi dada pe- 
los padres a Gonçalo Pires Carvalho, c sua mu- 
lher D. Camilla de Noronha. Mandaram-lhe es- 
tes fazer o retabolo de pedras mui perfeitas e 
finas, lavradas em Roma. N'ella iia o carneiro 
para os referidos donos e seus descendentes. 
Deixaram-lhe elles para fabrica quinze mil réis 
annuaes de juro, os quaes se pozeram em no- 
me de outrem, por não poder tel-os a casa em 
seu nome. 

São estas as únicas capellas do cruzeiro ; a 
cada unia das quaes correspondia uma alampa- 
da de prata. 

Correm por todo o cruzeiro umas grades de 
pau santo, assentadas sobre um degrau de pe- 
dra. Estas grades servem de resguardo ácapel- 
la-mór, e suas collateracs, e também para se 
encostarem a eila os que. tíniiam de comnuiu- 
gar. 

Entre o degrau onde assentam estas grades, 
e as que dividem o cruzeiro do cerpo da cgre- 
ja, era o logar destinado para sepultura dos re- 
ligiosos d'aquella casa, mas nem por isso excluía 
outros indiv iduos dislínctos ; do que resultou 
dívidír-se aquella arca em 1C37, ficando a or- 
dem das sepulturas junto ás grades da commu- 
nhão para as pessoas estranhas á casa, essou- 
tras para os religiosos. 

Passando á descrípção das capellas que estão 
no corpo da egreja, diremos da primeira, que fi- 
ca á mão direita de quem entra pela porta prin- 
cipal, que tem a invocação de Nossa Senhora 
da Doutrina. Primariamente esteve esta capella 
na que deste mesmo lado estava mais próxima 
ao cruzeiro, com o titulo de Nossa Senhora da 
Assumpção. Aqui principiou o celebre mestre 
Ignacio a ajuntar alguns moços solteiros, offi- 
ciaes, a quem o padre instruía em piedade e 
devoção. Crescendo o numero dos alumnos, to- 
maram o nome de Irmãos da Doutrina, pelo 
mesmo motivo que o padre Ignacio Martins, por 
ensinal-a, e fazer os livros d'el!a, dos quaes ainda 
nos resta o Cathecismo que se usa nas escolas, 
foi appellídado o padre Mestre da Doutrina. Por 
muitos annos estiveram na capella da Senhora 
da .í^LSsumpção, até que desejando ter uma pró- 
pria, obtiveram dos padres que lhes cedessem 
gratuitamente o sitio d'esta em que vamos fal- 
lando, para a fazerem á sua custa. 

.^ui tem logar darmos uma noticia mais ex- 
tensa d'esta congregação que era especial nos 
tempos antigos do nosso reino, e por isso trans- 
creveremos na íntegra aChroníca manuscripta, 
a que mais especialmente nos temos reportado 
neste trabalho. 



54 



O Panorama. 



«Alcançou o reverendo padre Álvaro Pires, 
bem conhecido n'csta cidade, por grande pro- 
motor e protector da dita Irmandade, que o re- 
\crendissimo padre Cláudio Aquaviva, geral da 
Companhia, annuisse á celebre congregação cha- 
mada da Nunciada, que tem seu assento em 
Roma, no collegio da Companhia, a qual sendo 
geral da Companhia o padre Diogo Laynes te- 
ve seu principio no auno de 1362. E depois por 
uma bulia passada por Gregório xiii, em No- 
Ncnibro de laSí, á instancia do reverendíssimo 
padre Cláudio Aquaviva, quinto geral da Com- 
panhia, de novo a instituiu c fundou, cora titu- 
lo dAnnunciação da Beatíssima Virgem Senho- 
ra Nossa, fazendo-a cabeça de todas as mais 
congregações, assim das já iuslituidas. cómodas 
([uc de novo se fundassem, as quaes unidas, c 
incorporadas n'ella, participassem todas as in- 
dulgências, que á dita primeira congregação 
eram, e ao diante fossem concedidas, dando po- 
der ao dito padre geral, que de presente era, e 
de futuro fosse para poder unir e incorporar na 
dita primeira congregação todas as mais que 
com sua vontade e approvação se instituíssem. 

«Depois d'esta bulia de Gregório xiii. Xis- 
to V por outra sua despachada no niez de Ja- 
neiro de 1380 accrescentou que não só se po- 
dessem ordenar congregações de osludantos, co- 
mo nos collegios da Companhia até então se fa- 
zia ; mas que se estendesse a faculdade a po- 
der fundar congregações de qualquer sorte de 
pessoas, assim ecclesiasticas como seculares : e 
por este meio se veiu a multiplicar grande nu- 
mero (!>■ congregações nas casas da Companhia. 

«E em \irtudo do seu poder, usando de sua 
autoridade o revercndissimo padre geral Aqua- 
Tiva passou sua carta de união, e approvação, 
em 10 de Outubro de 1612 á congregação que 
continuou com o titulo de Nossa Senhora da 
Doutrina, a qual se augnienlou muito, com a 
resolução, que tomaram, de receber na irman- 
dade, não só mancebos solteiros, mas também 
os que já eram casados. 

«E para que o augmcuto fosse maior, e a 
congregação melhor governada, se llzoram no 
anuo de 1023 estatutos pelos ([uaes encaminham 
tudo ao maior serviço de Deus, da Virgem Se- 
nhora, c proveito espiritual dos próximos.. . 

«A Mesa compõe-se de vinte e quatro irmãos, 
dos quaes doze tem o titulo de olficiaes de Me- 
sa, c doze de presidentes. 

«A.ssisle á dita Mesa, como prefeito, protec- 
tor, e presidente um padre grave da dita Casa 
de S. Uoque, que ò chanuulo sempre para as re- 
soluções das coisas graves^ que occorrem na 
dita Mesa, que consta dos officiacs seguintes: 

"De um juiz, que tem por adjuntos dois ir- 
mãos com o nome de assistentes, os quaes ser- 
vem de ajudar o juiz com seu conseliio e cui- 
dado. 

«Tem um secretario, que tem seu assento ao 
lado es(}uerdo do juiz, e 6 o seu cargo propor 
lodos os negócios (jue se oflerecem lui congre- 



gação ; ler todas as petições ; tomar conta de 
toda a receita e despeza da irmandade ; fazer 
os assentos e termos dos cjue professam entran- 
do n'ella, e dos que fallecem ; e liiialmente tu- 
do o que occorre pertencente á congregação. 

'O companheiro do secretario tem obrigação 
de nas ausências d'elle fazer seu oíTicio, c as- 
sim a tem também de ser procurador dos de- 
funtos, e ter cuidado, que se cumpram as mi.s- 
sas e sulíragios por suas almas. 

"Ao procurador da irmandade pertence zelar 
e acudir pelo bem da congregação : e quando 
alguns irmãos são notados de algumas faltas, se 
não pode escusar as faltas, procura moderar o 
castigo d'ellas. 

«O procurador da Mesa tem por oflicio acu- 
dir peio credito e bem d'ella, arrecadar suas 
rendas, c dispendel-as, conforme a ordem que 
tem da Mesa. 

«Os dois mordomos tem a seu cargo toda a 
fabrica, e ornamentos da capella da irmanda- 
de. 

"Ao enfermeiro toca visitar os irmãos pobres 
que estão doentes, acudiudo-lhe com medico, 
cirurgião, sangrador, e medicamentos, soccor- 
rendo-os com esmolas, o que faz não só distri- 
buindo aquellas, que ministra a congregação, 
mas supprindo também com as próprias confor- 
me suas posses. 

«O thesoureiro tem a seu cargo cobrar e dis- 
pender todos os rendimentos da irmandade, coa- 
forme a ordem que d'ella para isso tem. 

"O apontador toma os recados dos que tem 
algum negocio na Mesa, dando primeiro parte 
a ella da pessoa que \emfallar, declarando o a 
que vem. Tem também á sua conta advertir, e 
apontar tudo aquillo que pode ser útil para bem 
da congregação. 

"Dos doze presidentes, tem cada um certo 
dislricío na cidade, c n'elle cobra todas as es- 
molas da irmandade, e também faz a\izo aos 
irmãos do seu districto para as occasiões so- 
lemnes, e para os enterros, e cada um d'elles 
tem voto nas coisas que pertencem á sua pre- 
sidência. 

"E tendo dito as obrigações dos oíliciaes da 
Mesa de ([uc depende o governo d'ella : seguc- 
se dar conta de outros, que ha fora da Mesa, 
os quaes se elegem cada anuo. E d'estes tem 
quatro o titulo de visitadores, para cujo officio 
se deputam irmãos abundantes e caritativos pa- 
ra soccorrcrem sessenta visitados pobres, e pa- 
ra esse eflVito lhe entrega a Mesa dois livros, 
com os nomes dos visitados, e para seu soccor- 
ro se lhe dão doze mil réis cada mez para os 
distribuir dando a cada um duzentos réis. Bes- 
ta esmola, que não parece grande, costuma fa- 
zer maior a caridade dos visitadores, que ac- 
crescentam contórrae suas posses. 

«Elegem-se mais seis irmãos cada auno, com 
titulo lambem de visitadores, aos quaes se en- 
trega o cuidado de vigiar sobre o procedimento 
c YÍda dos irmãos congregados, e adiando ai- 



o PANORAMA. 






guns menos ajustados com as obrigações da 
christandade, dão parte á Mesa, para que ella 
procure a sua emenda, e quando anão tenham, 
proceder ao castigo (jue parecer razão. 

"Nomeam-se mais vinte e quatro irmãos, a 
que dão o titulo de eleitos, podendo dar-llic com 
mais razão o de eleitores, porque a elies toca 
eleger os otficiaes da Mesa uova, unindo-se por 
sorte cada um d'ellcs com um dos officiaes da 
Mesa que acaba. 

«E além d'esta occupação tem a seu cargo 
informar todas as petições dos (jue pretendem 
entrar ua congregação. 

«E havendo algum negocio extraordinário são 
chamados para concorrer com os mais olViciaes 
da Mesa para a resolução do negocio que se 
liade tratar. 

"Alem dos ditos sugeitos, que servem a ir- 
mandade annualmcnte tem n"ella outros, que 
não são annuaes, e taes são, um advogado, que 
é irmão, com obrigação de advogar em todas as 
causas, i|ue se moverem á dita congregação, ou 
ella fòr obrigada a mover, sem por isso levar 
salário algum. 

"E assim mesmo tem mais um requerente, 
(|ue é também irmão, e serve sem estipendio. 



Continua. 



F. D. n'Ai,MEiDA E Aiiujo. 



ESTUDOS SOBRE A HISTORIA SAGR.VDA. 
Continuação. 

CONDIÇÕES ou CLASSES. 

Todos os israelitas eram irmãos; não havia 
portanto entre elles nem nobres nem peões. A 
principal distincção que o nascimento punha era 
a de levitas e de sacrificadores. 

A Iribu de Levi era consagrada a Deus. ISão 
possuíam bens, e recebiam os dizimes e as pri- 
mícias que as outras tribus liies entregavam. 
Desígnavam-se-lhes quarenta e oito cidades pa- 
ra em roda d'ellas os levitas fazerem pastar os 
seus rebanhos. 

Entre os levitas unicamente os descendentes 
de Âarão eram sacrificadores : o resto da tribu 
occupava-se nas outras funcções da religião, nos 
cânticos dos psalmos, na guarda do Tabernácu- 
lo ou do Templo, e na instrucção do povo. 

Entre as tribus, as mais distinctas eram a de 
•ludá, a mais numerosa de todas, e a de Ephraim, 
filho de Josué. 

Em cada tribu eram muito considerados os 
ramos mais velhos, e os chefes de cada família, 
aos qnaes se chamava príncipes do povo. Por 
este motivo na Escriptura, velho ou ancião ex- 
pressa ordinariamente dignidade. ElTectí vãmen- 
te só a edade e a experiência é que podiam dis- 
tinguir homens egualmente nobres, quasi egua- 
lados em riquezas, educados do mesmo modo, e 
occapados nos mesmos trabalhos. 



ARTES E OFFICIOS. 

Os israelitas não se entregavam nem ao com- 
mercío nem ás manufacturas ; só a tribu de Zam- 
bulão, porque ficava próxima ao mar, é que fa- 
zia algum trafico. 

Até ao tempo dos reis, parece que não havia 
hebreus artistas de profissão, e que trabalhas- 
sem para o publico. Desde o «hefe da tribu de 
Judá, até ao ultimo cidadão da de Beijamin to- 
dos eram lavradores e pastores, pastoreando el- 
les mesmos os seus rebanhos, e lavrando a sua 
terra. A maior j)arte dos officios era-lhes inútil. 
Aquella vida simples e a doçura do clima isemp- 
tara-os d'esta enormidade de necessidades crea- 
das pela molleza, pelo lu.xo, e pela vaidade. 
Quanto ás coisas verdadeiramente necessaria.s 
poucos havia que as não soubessem fazer. Tu- 
do quanto respeita ao nutrimeuto se fazia den- 
tro era casa. As mulheres amassavam, prepara- 
ram o comer, fiavam, teciam, costuravam. Os 
homens encarregavam-se do resto. 

David deixou no seu reinado grande numero 
de artistas de toda a espécie, especialmente pe- 
dreiros, carpinteiros, ferreiros, e ourives. Salo- 
mão escolheu em todo Israel trinta mil artistas 
para a construcção do Templo, e oitenta mil car- 
reteiros e canteiros para as pedras das monta- 
nhas. Por isso é unicamente do reinado d'estes 
príncipes que se vêem introduzidas as artes e os 
oiricíos entre os hebreus. Depois da divisão do 
reino de David, o luxo augraentou, e o numero 
dos artistas cresceu em proporção : unin prova 
porém de que nunca tiveram grandes manufac- 
turas, é que o propheta Ezequiel, descrevendo 
a intluencia das mercadorias que vinham a Ty- 
ro, diz que da terra de Judá e de Israel ia o 
pão, o azeite, a resina, e o bálsamo, tudo pro- 
ducções do paiz que habitavam. 

VESTIDOS DOS nO.MENS. 

o vestuário dos israelitas quasi que não tinha 
feitio. Eram peças de fazenda que se faziam se- 
gundo o tamanho e a configuração do que as de- 
via vestir: nada se talhava, e pouco se cosia. 
As mulheres tinham artes de tecer logo um fa- 
to com mangas no tear, sem costura ou abertu- 
ra senão na parte superior, para metter a cabe- 
ça. Tal a túnica que se diz ter sido feita pela 
Virgem para Jesus Christo. 

As modas não mudavam os fatos, e os estofos 
empregados eram, pela maior parle, a lã, o li- 
nho fino, o algodão, e uma espécie de seda de 
amarelio doirado. K belleza dos vestidos consis- 
tia na finura dos estofos, e na côr ; as cores 
mais estimadas eram a branca, a escarlate, e a 
violeta. Os mancebos e raparigas usavam ves- 
tidos variegados. Os ornamentos dos vestidos 
eram franjas, tiras de purpura, bordados, e al- 
guns colchetes de oiro e pedraria onde necessá- 
rios. A magnificência consistia cm mudar mui- 
tas vezes de vestidos, e trazel-os bem aceíados. 



so 



o FANORABIÃ. 



Conipunha-se o vestuário da túnica, c do man- 
to. A túnica era larga para deixar ao corpo des- 
embaraçados todos os movimentos. Quando não 
trabalhavam desprendiam-na da cintura, e então 
cila arrastava; mas quando se dedicavam ao tra- 
balho cingiam-na. Os cintos faziam uma parte 
da magnilicencia do vcítuario: os dos priucipes 
E sacerdotes eram largos e compridos, de pre- 
cioso tecido, e de diversas cores. D'elles se pcn- 
tlurava a espada e a faca. O manto era uma 
peça de fazenda, sem feitio algum. 

Os israelitas cobriam a cabeça com uma es- 
pécie de tiara. Usavam a barba" e cabellos com- 
pridos. Banhavam-se muitas vezes, e lavavam 
os pés quando entravam em casa, se sentavam 
à mesa, ou se deitavam, porque usavam de san- 
dálias. Como a agua disseca a pelle, untavam- 
'se com óleo simples, ou com uma infusão de 
drogas aromáticas; e era a isto que elles cha- 
maram unguento. 

Vestidos, d.vs jÍulheres. 

Tanto como os homens eram simples no ves- 
tuário, as mulheres eram esmeradas nos orna- 
tos. As túnicas eram similhantes ás dos maridos, 
€ diflerençavam-se somente pelo comprimento, 
ixrnatos, e finura do estofo, pintado ordinaria- 
mente de diversas cores. 

Usavam cintos d» seda, sapatos de cor de vio- 
leta, coUares, braceletes, e manilhas no lino 
da perna onde se lhes prendia o calçado; ar- 
recadas, anncis, cadèas de oiro, caixas com per- 
fumes, adereços de pedraria, caindo-lhes pen- 
dentes pela fronte, ou pelas costas, alfinetes na 
cabeça ornados de pérolas, ou pedras precio- 
sas, ou rubins de grande preço. A cabeça an- 
dava coberta com uma espécie de mitra ou bar- 
rete, que se prendia com titãs seguras por alfi- 
netes de oiro, diamantes ou pérolas. Estimavam 
mais os cabellos prelos, e as que os não tinham 
d'e.sfa côr pintavam-n"os. Tinham grande cuida- 
do em unlal-os com óleos odoríferos, apartan- 
do-os no alto da cabeça, e eulrançando-os Fi- 
nalmente usavam uni veo muito comprido, que 
ao mesmo tempo lhes servia dí manto. Não ap- 
parcciam em publico sem este ornamento. 



.MOVEIS. 

Os israelitas erani tão simples nos mos eis co- 
mo nos vestidos : liniitavam-sc ao simplesmente 
necessário. Yasillias de madeira ou de barro era 
o uso geral da nação; os vasos de oiro ou de 
prata unicamente se encontravam no templo do 
^Senhor, no palácio dos reis, e em poucas casas 
d'aiguns opulentos. Os moveis ijue se julgavam 
mais indispensáveis eram o leito, a mesa, o as- 
sento, e o candelabro. Os leitos eram camas sem 
cortinas. Os mais ricos tinham leitos de marfim. 
O logar ordinário do leito era de encontro á pa- 
yede. o candelabro era uma espécie de colum- 



na, que se fixava ou assentava no chão ; tinha 
uma, ou mais luzes a azeite. Usavam também 
tapetes para se sentarem n'elles ou deitarem. 



usos. 

Em geral os costumes c usos dos israelitas fo- 
ram sempre puros, porque uma nação laboriosa 
é necessariamente menos corrompida do que a 
ociosa. Não se conhecia o luxo entre elles; a 
caça não era ali um divertimento, era uma ne- 
cessidade para o sustento, e também para pre- 
servarem os campos e os vinhedos. Os caça- 
dores não iam seguidos de matilhas de cães, 
nem os próprios reis os tinham. O caçador con- 
tcntava-se com armar laços e redes. 

Não tinham espectáculos profanos : as ceremo- 
nias da religião e dos sacrifícios eram os seus 
únicos espectáculos. Deviam ser magnilicos, por- 
que o templo era o mais soberbo edifício do paiz, 
e contavam-se mais de quarenta mil levitas en- 
carregados das funcções sagradas. 

Também servia muito para a pureza dos cos- 
tumes aquelle isolamento em que as mulheres 
viviam, fugindo dos estrangeiros. 

As raparigas, antes de casarem, nunca appa- 
reciam em publico ; e mesmo cm casa estavam 
em quartos separados, onde os h»mens não en- 
tra vau-. As mulheres, quasi tão retiradas como 
as filhas, poucas vezes saiam, ou se eram obri- 
gadas a fazel-o com suas filhas, para irem ao 
templo, ou á celebração d'alguma festa publica 
ou particular, só appareciam com o veo, não o 
tirando senão quando estavam com os seus mais 
próximos parentes. Quando em casa jantavam 
estranhos não comiam á mesa dos seus mari- 
dos; mas serviam-n'os. Nos festins as mulheres 
reuniam-se para comerem isoladas dos homens, 
nunca se misturando com elles. 

Os israelitas evitavam cuidadosamente o com- 
mercio dos estrangeiros, aos quaes designavam 
pelo nome Ac gentios ; nunca lhes entravam em 
casa. Aborreciam os idolatras, especialmente os 
incircumcisos, porque não eram só elles que pra- 
ticavam a circumcisão : estava ella em uso en- 
tre muitos descendentes de Âbrahâo, como os 
ismaelitas, os mailianitas, e os idomeus ; nos 
moabitas e ammonilas descendentes de Loth; e 
até mesmo os egypcios a reputavam uma puri- 
ficação necessária. 

Apesar d'isso os hebreus soflriam os incircum- 
cisos que adoravam o verdadeiro Deus, consen- 
tindo-lhes mesmo que entrassem na Terra San- 
ta, comtanto que observassem a lei da nature- 
za. Chamavam-lhes proselytos de habitação, ou 
Noechidas, pon|ue não eram obrigados senão aos 
preceitos dados por Deus a Noc quando saiu da 
arca. Se estes fieis se faziam circumcidar, eram 
reputados filhos de Abrahão, subj.íilos a todas as 
observancias judaicas, c- denominados proselytos 
da justiça. 

Continua. .,,„Hí,.j,.,. ,,^,í,,^,., A. 



8 



o PANORAMA. 



&7 










\m&, - 




BCIXAS DA EGBE;A E MOSTEIRO DE CRASTO DE AVELÃS. 
VISTA DO POE.ME. 



A descripçSo do antiquíssimo mosteiro da ai- 
dèa de Crasto de Avelãs, feita por um curioso 
mancebo, ja fallecido, da cidade de Bragança, 
no Almanach do sr. Castilho do anno passado, 
não é exacta porque houve engano no numero 
dos fogos da aldèa de Crasto de Avelãs que só 
tem onze, dando-se-Ihe na alludida descripção 
cincoenla e seis. Os cincoenta e seis são de toda 
a parochia que consta de mais dois povos, que 
são Fontes e Grandaes. 

Parece, á rista dos documentos antigos, ter 
sido este o primeiro mosteiro que houve na Penin- 
sula dep«is que n'ella se estabeleceu o christianis- 
mo ; bem como que fora fundado por S. Fructuo- 
so, arcebispo de Braga, no anno de 067, sendo 
depois a casa capitular da ordem em Portugal. 

Todos os senhores reis (especialmente o sr. 
D. Diniz) lhe concederam muitos privilégios e 
doações de rillas, e aldèas que os monges fun- 
daram, e as parochiavam como consta dos li- 
vros do cabido de Miranda, creado por el-rei o 
sr. D. João III com as suas rendas por bulia 
do santíssimo padre Paulo iii datada de Julho 
de 13Í6, desmembrando todo o seu território 
do arcebispado de Braga, consistindo as rendas 
em dizimos, foros, e prasos. 

Todo o mosteiro está em minas, como se ob- 
serra das estampas, á excepção da capella-mór 
da egreja que está conservada, porque pela sua 
construcção, de tijolo e argamassa, tem resisti- 
do ao tempo. 

Removendo-se ha poucos annos para um tu- 
mulo do cemitério de Bragança uma pedra gran- 

VOL. I. 4.' SERIE" 



de quadrada de jaspe, tinha nomeio bem aber- 
ta a seguinte inscripção : 



DEO 
.ETERNO 

ORDO 

ZOELAR 

EX VOTO. 



O corpo da egreja já foi mandado levantar 
pelo cabido haverá sessenta annos, e esta dentro 
junto á pia baptismal o tumulo que a estampa 
representa, que diz a tradição ser de um con- 
de, e talvez o fundador. 

Tinham também os monges um hospício na 
cidadella de Bragança, e tanto este como o mos- 
teiro foram extinctos, dando-se como fundamen- 
to o serem os monges pouco exemplares e ja em 
numero muito diminuto ; mas creou-se o cabido 
com obrigação de sustentar e apresentar nas 
suas egrejas os monges restantes até acabarem 
de todo, e assim se praticou. 

Em 176i, por bulia apostólica, foi transferi- 
do o cabido de Miranda para Bragança pelo bis- 
po D. Fr. Aleixo de Miranda Henriques, por 
carta regia del-rei o sr. D. José i, deixando a 
Sé de Miranda, que é um dos melhores templos 
do reino, para vir occupar uma pequena egi'e- 

FEVEREIRO, l\, 1857. 



o FáNORâMã. 



ja que era dos jesuítas e onde estes tinham o seu 
collcgio. Depois uniu-se á nova Sé a parochia 
de S. João Baptista, concedeudo-se-ihe um ab- 
bade com o privilegio, de combinação com o ca- 
bido, de usar de murça de meio prebendado, 
ficando a egrcja de S. João simples capella, e 
a nomeação d'este beneficio pertencente aos bis- 
pos. Assim consta da provisão do dito prelado 
de 28 d'Agosto de 1707. 

A egreja de S. João, que estava arruinadis- 
sima, desabou. Resta unicamente em bom esta- 
do a capella do Santo Christo que pertence aos 
barões de Santa Barbara. O padroeiro existe na 
Sé, onde também esta o patriarcha S. Bento. 

De tudo quanto dissemos, e de muitos monu- 
mentos que existem dos romanos, collige-se o 
quanto é antiga a cidade de Bragança, e pou- 
co exacto o que dizem alguns escriptos que da- 
tam a sua origem do tempo de D. Sancho i. É 
verdade que foi este rei (jue a mandou povoar 
dcpoi.s de uma grande peste que matou quasi 
todos os habitantes em 1187 ; e foi também el- 
le que, n'essa occasião, para attrahir povoado- 
res, lhe concedeu grandes privilégios. 



VINGÃNÇ.V PÓR VINGANÇA. 
III 

ACTOPSIA DO COKAÇ.ÍO. 

Continuação. 

Agora silencio que somos chegados ao mais 
delicado da autopsia. 

O umbral d'csta alcova só pode penetral-o a 
donzelia honesta, ou o operador severo. 

Olhac vós tidos que vos assomaes ahi á por- 
ta com olhos cubiçosos a espraial-os por este san- 
tuário dentro. 

Ahi tendes em frente aquelle grande espelho, 

segredeiro liei de muitos encantos que \istas 

.■de homem ainda não descobriram. Interrogae-o 

.,d'ahi, e nem uma só vez relatará das muitas que 

cViu enastrar e dcsenastrar a comprida e negra 

trança de sua dona, por causa de uma rebelde 

madeixa (jue se lhe não ageitava sob a tremula 

,nião com (|ue buscava fazer-se mais formosa, se 

possível, para quando seu primo chegasse ! 

- Não vos contará nenhum dos muitos sorrisos 
,de conlentanienlo que n'esse quarto elle tem re- 
produzido, ao ver descerrarem-se-lhe os lábios 

• mostrando as fieiras de pérolas occullas sob a(|uel- 
> le carmim, c dirigidos unicamente a elle coniu em 
agradecimento de a retratar formosa I 

- Olhae como o espelho se tornou repentinamen- 
-te baço, só para vos não deixar adivinhar- n' uma 

das .suas maife iniinias moléculas, a reproducção 
d'a([uellas elegantes formas ([ue um vento mais 
tra\css() lhe desnudou, ao descaptivar o lenço 
do allinete com (jue o subjeitava sobru o seio ! 
Invejosos, arredae depressa os olhos d'ahi, e 



applícae-os antes sobre aquellas flores, que em- 
balsamam com tão suave fragrância o templo da 
virgem. Adívínhae-lhe, se puderdes, no matiz 
das cores, na symetría, no nome, na collocação 
d'ellas as palavras que lhe terá dirigido, e os 
pensamentos que haverá trocado com ellas ! . . . 
Eu antes que o soubera não vol-o diria. Foram 
um presente de Simão ; é um segredo d'aquel- 
las duas almas, e que não devo assoalhar. 

Não olheis para aquella cadeira de espaldar, 
guarnecida de pregaria amarella sobre couro flo- 
reado, porque ali estão lançadas a sua camisa 
de dia, suas saias, seu vestido com o competen- 
te (juarda infantes ; e podeis ser tão indiscretos 
que alvoroteis lembranças que não tem entrada 
n'este aposento. 

Não relanceeis a vista por sobre aquelle ma- 
tizado tamborete, onde n'nma s\ métrica confu- 
são estão os pequenos sapatos, as ligas, e as 
meias da donzelia ; postas ali mais á mão, jun- 
to mesmo ao leito, porque o pudor lhe ensinou 
principiar a vestir calçando-se, para o próprio 
ar se não aventurar a deslisar-se-lhe brandamen- 
te pela assetinada pelle colorida em competên- 
cias com o jasmim e a rosa ! 

Sim. . . cansae debalde os olhos para ver se 
a vista se infiltra por entre os tenuíssimos fios 
d'aquella finíssima cassa da índia, que lhe cae 
cm frocos de neve do sobreceo do leito!... Não 
vedes que as cortinas estão cerradas, e eu não 
quero erguer-lhes nem um canto, emquanto es- 
tiverdes todos ahi devorando cora olhos cubiço- 
sos este magnifico espectáculo? 

Erguei-os antes para ali, para aquelle painel 
da boa Virgem, colorida em vidro, e que está 
sobranceiro ao leito. Foi n'elle que ainda ha pou- 
co cila fitou seus meigos olhos, antes de os cer- 
rar no doce somno que ora gosa, susurrando nos 
lábios uma oração cheia de fé e de esperança, 
e que lhe rebentava tão suave lá dos seios d'al- 
nia ! . . . 

Saí. . . saí depressa, importunos, porque a 
lâmpada que ali jaz sobre aquelle bofete, que 
vela uma noite inteira o somno da ínnocente, 
reflectindo em suavíssimas ondas de um mystí- 
co palor a dulcíssima luz da religião, do amor, 
e do mysterío, se agita con\;ulsa, como sacodi- 
<la pelo hálito impuro dos immergídos nas de- 
mandas do mundo ! 

Sai. 

Agora nós, leitora. 

Acompanhae-me a descerrar as cortinas d'es- 
te leito. 

Eil-a dormida 1 . . . 

Levantae um pouco a roupa da sua cama, c 
poísae-lhe a mão ahi uo peito. . . Não o sentis 
arfar?... 

Applicae o ouvido a esses mouosyJlabos que 
solta interrompidos... Não lh'os adivinliaes? ... 

A virgem sonha n'est^ momento um d'c!;scs 
sonhos de amor, tão suaves e tão doces n'essa 
cdadc de prazeres, onde as auroras são sempre 



o PANORAMA. 



59 



precursoras de um dia scrcuo, e nunca suspei- 
lam o tufão da tempeslade. 

Agora mesmo vè aiiuellc espirito realisadas as 
promessas ([ue fez a seu primo ua casa do ora- 
tório. 

Notae-lhe como aquella mão direita se agita 
convulsivamente como se estivera apertando a 
mão de alguém. Parece-lhe que Simão está ali 
a seu lado, e que ella lhe renova seus castos 
juramentos. 

Sua mãe, aquella amante Âldonsa Peres, que 
ha pouco \imos tão preoccupada da sorte futu- 
ra da lilha, não lhe lembra n'esle momenlol Se 
lhe lembrara seria mesmo d'iu\olta com um Ím- 
pio pensamento — o do abandono! 

Sim. porque a lilha não hesitaria, vendo ob- 
stáculos ao seu amor, em abandoual-a para se- 
guir o amante ! 

Assim, donzellas, sois vós todas!... Escure- 
ceis OB carinhos e os afagos maternos por esse 
novo pendor do coração, que a vós próprias mui- 
tas vezes nem sabeis detinir. 

Não du\idaes lazer tragar, ate ás mais repu- 
gnantes fezes, o cálix da amargura aquella que 
vos amimou desde o berço, \os ensinou a bal- 
buciar as primeiras palavras, vos amparou ua 
infância, e vos idolatrou depois com tantos ex- 
tremos de amor, que ambicionara trocar a pró- 
pria vida para augmentar a vossa ! 

Como estes amores de íilha affronlam os amo- 
res de mãe ! 

Escutemos, douzella. 

São passos que se dirigem para aqui ! 

Quem poderá ser nesta hora a\ ançada da noi- 
te, (jue assim se aventure a penetrar neste quar- 
to?! 

Quem, senão o entrarihavel allecto de mãe ! 

Aldonsa Peres acabou o seu exame de con- 
sciência, e as suas orações, e dirige-se para aqui 
a despedir-se da lilha, como costuma, velando 
porque ella esteja hem agasalhada. 

Retiremo-nos para este canto mais escuso, e 
presenceemos dahi esta scena de amor mater- 
no. 

Eil-a, a pobre velha, com que extremos con- 
chega a sua filha a roupa da cama ! ... 

Como receia que o frio desta nevada noite de 
Janeiro ainda ali lhe penetre, por isso mais rou- 
pa lhe lança para a agasalhar!... 

Olhae, como a contempla n'um extasi de ter- 
nura, e parece rever-se n'aquelle mimoso rosto! 

La se lhe inclina a depositar-lhe ua fronte 
um osculo, resumo apaixonado de todos os af- 
fectos que encerra no coração ! 

Vède-a erguendo os olhos para o quadro da 
Virgem, e soltando dos lábios uma oração de 
ventura e felicidade. 

E n'este momento a (ilha la se agita, murmu- 
ra phrases inintelligiveis, e com um suspiro pro- 
nuncia distinclamente o nome de Simão. 

A pobre mãe estremece ! 



Saiamos, donzella, saiamos d'aqui, porque a 
nossa pre-sença profana estes affectos maternos. 

Aquelle que ali vês dormido é o amor de fi- 
lha. 

Este que rês velando é o amor de mãe I 

Continua. »** 



LAGRIMAS. 

I 

Oh quem não fora nascido 
A"estas horas malfadadas. 
Que requeimam no sentido 
Tristes lagrimas choradas ! 

II 

Chorei-as ! . . . inda na infância, 

N'essa edade do sorrir. 
Que só t' dado á ventura 
Em tenros annos florir ! 

Chorei-as I . . . na juventude, 
Em que sonha o coração 
Devaneios n'uma crença, 
Santa e pura de alTeieão ! 

Chorei-as!... e bem amargas, 
Quando na edade viril, 
Em que duros desenganos 
Me pungiram mil, a mil ! 

Choral-as-hei ! . . . e (juem sabe ! 
Se, quando fòr ancião, 
Inda restos me ficarem 
D'esta vida d'ilIusão ! 

III 

Mas que muito eu vertesse este pranto 
Pela sina dura triste penar, 
Se no Horto as chorou — chorou tanto 
Quem nos risos mais pode mandar ! 

E chorou-as — chorou-as bem triste 
No Calvário, abraçando-se á cruz, 
Santa Virgem, que assim não resiste 
Ao trespasso do Verbo e da Luz ! 

IV 

Embora aos tristes olhos já cansados 
D'este pranto verter, mais pranto afogue, 
Não creia a sorte avara que eu lhe rogue. 
Ás lagrimas me poupe os meus cuidados. 

Eu por mim aprendi na desventura : 
Riso e prazer escarneos são da sorte ; 
Esta vida — illusão ; verdade — a morte; 
E lagrimas do berço á sepultura. 



o PANORAMA. 









nUINAS DA EGIiEJ.V E MOSTEIRO DE CRASTO DE AVELAS. 
VIST.V DO NASCENTE. 



CHRONIC.^S MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESUS. 
III 

CASA DE S. ROQUE. 

Continuação. 

«Servem mais a irmandade dois andadores, 
cujo vestidt é de comprido, e côr parda, com 
as insignias da irmandade no peito, os quaes 
serrem nas coisas que occorrcm, e assistem tam- 
J)cm a ajudar ás missas: e estes andadores tem 
cada um vinte mil réis por anno. 

iTem mais a irmandade um menino que tem 
por «llicio ajudar ás muitas missas, que se di- 
zem na capella, o que faz com sua sobrepeliz 
sohre o vestido comprido de que usa. Este tal 
tem de ordenado doze mil réis fora .suas propi- 
nas. 

«Tem a irmandade da Doutrina vinte e nove 
oapellães, (luinze dos quaes são de capellasque 
a Mesa administra ; porque irmãos que o foram 
da congregação, encarregaram á Mesa o cuida- 
do de prover as ditas capellas, e de pagar aos 
capellães, a esmola que para isso deixaram. 

«'Dos outros quatorze capellães, que fazem o 
sobredito numero de vinte e nove, doze d'ellcs 
dizem <[uotidianamenle missa pelos irmãos e ir- 
mãs que vão fallecendo, um mais tem obriga- 
fão de dizer trezentas vinte sete missas por obri- 
gações particulares, c as que sobejam das tre- 
zeutas sessenta c cinco, se applicam por algu- 



mas faltas, que poderam ter tido alguns capel- 
lães ; e por esta obrigação tem o tal capellão o 
titulo de capellão das faltas. 

"O ultimo capellão dos quatorze, diz missa 
pelos irmãos viros da congregação. 

«Três dos ditos quatorze capellães tem de or- 
denado annual quarenta mil réis; e os mais ca- 
da um trinta e seis mil réis. 

«No anuo de 1707 era o numero dos con- 
gregados mil e duzentos. Quando entram na ir- 
mandade oflerecem por entrada dois mil e qua- 
trocentos réis, e para esmola de pobres quatro- 
centos e oitenta réis. 

«Paga cada irmão todos os mezes um vintém 
applicado para a dcspeza da fabrica : e por to- 
do o defunto, ou defunta que fallece paga todo 
o irmão outro vintém applicado para missas ; 
sendo porém pobres não pagam nada, e as viu- 
vas satisfazem com dez réis cada niez. 

"Provft a Mesa todos os annos três dotes em 
Ires órfãs filhas de irmãos ; um de sessenta 
mil réis, o segundo de ciucoenta, e o terceiro 
de (|uarenta, desmola que dão os doze presi- 
dentes. 

«Todos os sabbados á tarde ha Ladainha de 
Nossa Senhora com musica e instrumentos. E 
cada mcz faz o padre proti'ctor uma exhortação 
espiritual, e se reza a Ladainha, c se tiram os 
santos. 

«Assistem todos os dias de manhã na capella 
duas merciciras, que tem de ordenado cada uma 
vinte mil réis. 

<iTodos os mezes se (iram de esmola dois mil 
e (|uiiilicntos réis, concorrendo o juiz com du- 
zentos réis, o outros \inte trcs irmãos da Mesa 



o P190RAMÂ. 



«t 




TUMULO QUE SE ACHA JUNTO A PIA BAPTISMAL >A EGREJA I>E CIIASTO DE AVELAS. 



com cem réis cada um. E adita quantia se dis- 
tribuo por pobres e enfermos. 

«Dispendem-se lodos os dias do mez varias 
esmolas que faz a Mesa, umas de rendimentos 
que ha para isso, e outras das suas bolsas, e 
juata a despcza das ditas esmolas, com os três 
dotes (jue dissemos rira a importar a despeza [ 
toda trezentos e cincoenta mil réis. ' 

«Faz a Mesa á sua custa duas festas solem- j 
ne< cada anno com suas vésperas, uma e na se- i 
gunda-feira depois da Dominica in Âlbis, cele- 
brando os gostos e prazeres da Virgem Senhora 
na Resurreição de seu beraditissimo Filho, e ou- 
tra a d'As«enrão deChristo Senhor iSosso, eem 
cada uma d'estas festas se costuma dispender a 
quantia de sessenta mil réis. 

«Todas as vezes que morre algum irmão ou 
irmã a vae acompanhar a congregação com os 
seus vinte nove capellães, cora sobrepelizes c j 
barretes, e para isso tem cada um a sua sobre- 
peliz e barrete em uma caixinha com sua chave j 
mettida nos bancos de encosto que estão no ; 
claustro. I 

«E se o irmão ou irmã era pobre, depois de| 
lhe ter assistido a congregação com medico, ci- 
rurgião, botica, e alimentos convenientes, mor- 
rendo lhe dá sepultura. 

«Por todo o irmão ou irmã que fallece diz 
cada capellão quatro missas ; e se o numero dos 
defuntos é grande, e os capellães da irmandade 
não jiodem dizer todas, se mandam dizer as que 
faltam em outra parte. 

i Por cada irmão ou irmã que morre rezam 
cinco padres capellães um nocturno, e no oita- 
vario dos Santos, se faz na egreja de S. Roque 
um officio solemne com pregação. 

(Quando se sabe haver discórdias entre al- 
guns irmãos são chamados a Mesa, e admoesta- 
dos se procuram compor, e reduzir a boa paz e 
amisade christã. 

«Quando algum irmão se ausenta se lhe dá 
sua patente, para constar ([ue é irmão, e avi- 
sada a Mesa de que é fallecido se lhe não falta 
com os suílragios, como se estivesse presente na 
cidade. 

('Importa a receita de tudo que a irmandade 



cobra valor de nove mil cruzados cada anno, e 
a mesma quantia pouco mais ou menos costu- 
ma dispender com os capellães, esmolas, dotes, 
fabrica da capella, e mais gastos no decurso de 
cada anno." 

E justo fallarmos aqui do melhodo adoptado 
pelos padres da congregação para ensinarem a 
doutrina — metliodo que tão grande nome gran- 
geou ao padre mestre Ignacio, por aulonomasia 
o Padrt da Doutrina, que, entre os vários livros 
que confeccionou, coordenou a Cartilha. 

A doutrina principiou a íazer-se dentro da 
egreja de S. Roque, saindo primeiro o irmão sa- 
christão com a campainha, e assim ia pelas ruas, 
ajuntando os meninos, e convocando o povo pa- 
ra o templo de S. Roque. 

Reunidos os meninos e o povo, subia ura pa- 
dre ao púlpito, e d'abi doutrinava. 

Foi no anno de liiSl que o padre mestre Igna- 
cio se lembrou de sair pelas ruas de Lisboa com 
os seus doutrinados ; usando de traças de cari- 
dade e zelo para acarinhar o povo, e ganhar- 
Ihe a confiança afim de lhe confiarem os filhos 
a quem elle desejava ensinar. Conduzia o padre 
o seu rancho, com uma canna na mão, cantando 
e repetindo-Ihes as orações. 

Custou no principio a habituar-se a cidade a 
este novo methodo de doutrinar, e não peque- 
nos desgostos colheu d'isso o padre Iguacio, os 
quaes não citaremos aqui, por não virem ao con- 
texto da nossa obra. A perseverança venceu ao 
cabo dos tempos, e o auditório foi a pouco e pou- 
co crescendo, a ponto de assistirem a estas lições 
até os adultos, e ainda os mais autorisados em 
empregos. 

Para induzir a estes últimos a estarem bem 
certos na doutrina, principiava o padre Ignacio 
a interrogal-os também quando fazia repetir ás 
creanças as orações ; d'aqui tomavam os mais 
crescidos vergonha de se verem menos scientes 
do que os meninos, e por isso estudavam a dou- 
trina para não serem encontrados em falta quan- 
do succedesse serem interrogados. 

Escolhia o padre os logares mais públicos pa- 
ra doutrinar. As escadas do Hospital d'El-rei, que 
então se achava estabelecido no sitio onde íioíg 



•• 



o PANORAMA. 



está a Praça da Figueira ; o patco das Comedias, 
logar que de propósito buscava para combater os 
comediantes ; o largo do Corpo Santo, onde con- 
corriam muitos estrangeiros, soldados e marinhei- 
ros ; a praça da Ribeira ; a leira da Ladra, c ou- 
tros assim "concorridos os preferia elle para ex- 
plicar o cathecismo. Âhi se apresentava de sú- 
bito com o bando dos seus meninos, e assim ca- 
thequisava, como é de justiça dizer. 

Lembrou-se o padre de conquistar também a 
muita gente preta que havia na cidade. Chamou 
para e.sse lim os principaes das nações, e lhes 
expoz o grande bem que se seguiria para clles 
de ouvirem a doutrina. Difficullaram clles o 
poderem-se ajuntar pela semana por andarem 
occupados no serviço de seus senhores, e aos 
domingos e dias santos de guarda terem de uso 
j«ntarem-se nos seus bairros, e alliviarem-se do 
trabalho da semana em suas festas e bailes. Eram 
os escravos divididos em vinte nações, e mes<re 
ígnacio concordou com elles que cada domingo 
saissem cinco nações á doutrina, caindo assim 
um domingo para se doutrinarem, licando-lhes 
livres os outros três para as suas recreações. 

Não licando n'esta primeira conferencia as- 
sentado o negocio definitivamente, combinou o 
padre com os maioraes fazer n'um dos próximos 
domingos uma procissão a egreja do Hospital 
d'El-rei, aonde se ordenaria por ultimo o nego- 
cio, e se assentaria a definitiva resolução. 

No dia aprasado acudiram os pretos á referi- 
da egreja, em numero de mais de mil, c o pa- 
dre lhes fez uma pratica do púlpito, narrando- 
Ihes o que estava assentado, e dividindo em tur- 
nos os domingos das doutrinas. N'este dia, e com 
esta soleninidade ficou combinado quanto respei- 
tava aos pretos, e por muitos annos successivos 
assim acudiram á doutrina. 

Premiava o padre os meninos que melhor res- 
pondiam ao calhecismo com premiosiuhos como 
por exemplo contas, verónicas, santos, e outras 
coisas de devoção. 

Para estas verónicas alcançou do estado uma 
esmola nos armazéns do chumbo. 

Das contas que distribuía narra a Chronica do 
padre Telles o seguinte, que merece especial men- 
ção para conhecermos os santos ardis de que este 
valente soldado de Christo se servia. Reza assim 
a Chronica: 

('Com a mesma confiança com (|ue dava uma 
verónica de chumbo, ofierecia umas contas de 
carvão (([uc assim chamava ás que mandava fa- 
zer, dando-lhe por mui pouco dinheiro muitas 
dúzias) estas repartia pslos meninos, e talvez as 
dava aos nu»is ricos, e mais illustres. Contarei 
n'este particular um caso de estranha edilicaçào; 
estava elle uma vez fazeiulo a sua doutrina no 
Terreiro do Paço, nas escadas aonde hoje se alo- 
ja a companhia, que está de guarda; assistia na 
janelia (em (|ue Os governadores d'este reino cos- 
tumavam ver as festas daíiuelle terreiro) o car- 
d«ul Alberto, (illio do imperador Maximiliano, 
archiduque de Áustria, e irmão de Ires impera- 



dores (Rodolpho, Mathias, c Fernando) príncipe 
digníssimo dos estados de Flandres (o qual en- 
tão governava este reino) porém estava recolhi- 
do dentro com as vidraças corridas, de lai ma- 
neira que elle via, sem o verem. Chegou • pa- 
dre mestre ígnacio pelo discurso da doutrina a 
um passo, n'elle mui azado, que era perguntar 
a todos se tinham contas? E em prova da devo- 
ção da Senhora, fazia com o auditório, que ca- 
da um saisse a publico, fazendo mostra, e dan- 
do conta de suas contas ; e era n'este particu- 
lar tanta a confiança do padre, e tinha ordina- 
riamente, tão bons successos n'este seu aiardo 
geral, que com todos entendia, e nenhum se lhe 
escusava de mostrar as suas contas, havendo por 
vezes muita festa no auditório, em razão da boa 
graça com que o padre entendia, até com os mais 
graves, que por medo, ou por vergonha, traziam 
e mostravam contas. 

«Foi elle d'esta vez fazendo sua resenlia; e per- 
guntando pelas contas, chegou com os olhos ao 
logar da janelia, aonde sabia que estava o car- 
deal, e com a mesma confiança, entendendo cora 
elle, lhe pediu que quizesse também sua alteza 
honrar a(iuelle auditório, mostrando suas contas, 
pois também era devoto da Senhora ; e vendo 
que lhe não respondiam, viraudo-se para o po- 
vo, disse : parece que nos não quer mostrar as 
suas contas ricas : e logo chamou um menino 
da doutrina (que estes eram os seus embaixa- 
dores) e lhe poz sobre o chapeo umas das suas 
contas de carvão, dizendo-lhe que fosse acima, 
que de sua parte as offerecesse a sua alteza. Sae 
logo este anjo da embaixada, sobe as primeiras 
escadas, atravessa a sala dos Tudescos, pas.^a 
por todas as mais escadas, salas, e corredores, 
vence quantas guardas costumam assistir nas por- 
tas reaes, entra dentro da camará aonde estava 
o sereníssimo príncipe, põe o joelho no chão, e 
na salva do chapeo lhe ofiereceu as contas de 
carvão ; recebeu-as o christianissimo cardeal, e 
com a confiança de príncipe, fez logo abrir a ja- 
nelia, c niostrando-se ao auditório, deitou o bra- 
ço fora, mostrando ao povo as contas da santa 
doutrina, que o padre mestre ígnacio lhe man- 
dou. Com a vista de acção de tanta christanda- 
de, foi grande o auditório; levantando todos um 
grande viva, não menos ao prinoipe, que ao pa- 
dre; a este pela santa confiança, ao príncipe pe- 
la grande piedade.» 



Continua. 



F. D. d'Ai.meida e Araújo. 



ESTUDOS SOBRE A HISTORIA SAGRADA. 

U.S0S. 

Continuação. 

Cheios de respeito para com os seus similhan- 
les, tratavam como senhores aquelles que que- 
riam honrar, indinando-se ante elles até loca- 



o PANORAMA. 



«3 



rem o chão. É a isto que a Escriptura chama 
adorar. Êra ordinário abrararem-se quando se 
encontravam. 

Em logar de se descobrirem, como nós faze- 
mos, descalçavam-se ao entrar nos templos. 

Nenhuma* nação observou mais religiosamen- 
te as leis da hospitalidade. Recebiam os seus hos- 
pedes com muita alTahilidade, faziam-lhcs todos 
os bons olTicios que podiam ; n'uma palavra to- 
dos os deveres da humanidade. 

A vida farta e tramiuilla ([ue os hebreus pas- 
savam, a belleza do seu paiz, a doçura do cli- 
ma que habitaram, tudo emfim os induzia aos 
prazeres ; porém estes prazeres eram simples e 
fáceis ; consistiam em comer bem, e na música, 
ííos sabbados é (|ue se entregavam aos festins, 
c assim também nos dias de festa determinados 
pela lei. Os casamentos, a repartição dos despo- 
jos depois de uma victoria, a tosquia dos carnei- 
ros, a ceifa, a vindima eram para elles dias fes- 
tivos e de recreação. 

A cavalgadura ordinária era o burro, alé mes- 
mo para as pessoas mais ricas. Para dar uma 
grande idéa de íair, um do.< juizes, diz a Es- 
criptura que elle tinha trinta filhos montados em 
trinta burros, e chefes de trinta cidades. Diz de 
Àbdon, outro juiz, que tinha quarenta filhos c 
Trinta netos montados em setenta burros ; e no 
cântico de Débora, os chefes de Israel estão des- 
criptos montados em burros gordos c anafados. 

COMID.V E BANQUETES. 

Os hebreus não comiam indistinctamente toda 
a casta de animaes. Deus lhe ordenara as Vian- 
das de que deviam fazer uso. Os peixes que não 
tivessem escamas, as aves de rapina, os amphi- 
bios, 08 animaes que não tem unha rachada, os 
que não ruminam, e o porco especialmente, o 
sangue etc. eram-lhes prohibidos, mesmo por 
causa da difficuldade da digestão n'aquelles pai- 
zes quentes. 

Nas melhores mesas serviam-se viandas soli- 
'das e succulentas; coraiam-se cozidas, assadas, 
"t guizfldas. Não conheciam a maior parte das 
especiarias. O sal, o mel, o azeite eram os seus 
temperos ; e usavam algumas vezes de aniz, gen- 
gibre, açafrão e hervas aromáticas. Depois das 
viandas, as iguarias mais estimadas eram as que 
se compunham de legumes e grãos. Poucas ve- 
'zes comiam peixe ; reputavam-no um alimento 
muilo delicado e leve de mais para homens ro- 
bustos. Faziam bolos com azeite c mel. .V comi- 
da ordinária dos ceifeiros eram sopas de vina- 
gre, e cozido. O vinho reservava-se para os dias 
de festa, e para os festins de apparato. 

Não comiam com toda a espécie de gente, por- 
que julgavam mauchar-se e deshonrar-se sentan- 
do-se á mesa com pessoas d'outra religião, ou 
de profissão vergonhosa e desacreditada. Primei- 
ramente comiam sentados ; mas depois a exem- 
plo dos povos da sua visinhança, comeram dei- 
tades em leitos, encostado o cotovelo, postura in- 



commoda imaginada pela molleza dos orientaés, 
e que a rusficidade dos povos do norte aboliu 
passados séculos. 

.V gente bem regrada comia dopois do traba- 
lho, c bastante tarde. É por esto motivo que na 
Escriptura comer e heher desde manhã, significa 
a desordem e a devassidão. Nos jantares cada um 
tinha sna mesa á parte, e a pessoa que dava o 
festim fazia a distribuição das viandas. O gran- 
de respeito para com os hospedes consistia em 
lhos dar mais abundantemente de comer e be- 
ber. Parlia-se o pão á mão, e por isso os pães 
eram estreitos e compridos. 

Nos festins solemnes creava-se um rei, qiic 
destinava a cada conviva o seu logar, e que era 
eleito pela sorte, ou escolhido pelo dono da ca- 
sa. Era quem mandava, e todos estavam obri- 
gados a obedecer-lhc. Esta obediência nada li- 
nha de penosa, porque o seu fim era a ordem 
e vivacidade no prazer. Emquanto se comia, os 
músicos tocavam, e os servos (]uoimavam perfu- 
nies. Ordinariamente estes ban(|uetcs tinham lo- 
gar no campo á sombra das arvores. 

PURIFICAÇÃO. 

O aceio e limpeza são muito necessários nos 
paizes calmosos, onde o ar se corrompe com mais 
facilidade, e ha mais falta de aguas do que nos 
paizes frios. Era por isto que todas as purifica- 
ções ordenadas aos judeus pela lei de .Moysés, 
não tinham unicamente por fim costumal-os á 
obediência, e eleval-os a Deus por via das acç(5es 
as mais ordinárias da existência ; eram também 
para conservar a saúde, e portanto prevenir as 
doenças. Tinham por base a hygiene. 

Determinavam atjuellas leis não só o banho 
do corpo, como também a lavagem dos vestidos 
c muitas e amiudadas circunstancias e recontros: 
especialmente quando o hebreu tocava um cor- 
po morto, ou um animal impuro. De ordinário 
as purificações tinham logar ao levantar da ca- 
ma, ao deitar, e antes de comer. Os vasos c as 
casas, onde se notava alguma corrupção, eram 
purificadas ou pelo fogo ou pela agua. Obriga- 
vam-se as mulheres depois do parto a esta pra- 
tica. Aos sacerdotes pertencia julgar das impu- 
rezas legaes, e ordenarem o modo das purifica- 
ções. 

LUTO. 



Os israelitas tomavam luto nas calamidades 
publicas, c[uaes eram as pestes, a esterilidade 
geral, c invasão de inimigos: e também nas des- 
graças particulares, como por exemplo a morte 
de um parente, ou d'um amigo; na sua enfer- 
midade perigosa ; quando se caía em captivei- 
ro, e até mesmo se elles eram accusados de um 
crime. 

Não consistia o luto só em mudar de vesti- 
dos ; também os rasgavam. As acções mais or- 
dinárias eram bater uos peitos, descobrir a ca- 



•4 



o PAIOBiMA. 



beça, lançar n'ella cinza e terra em vez de per- 
fumes, rapar a barba e os cabellos. 

Emquanlo o luto durava não se ungiam, nem 
laTaTam. Era da essência trazer os vestidos su- 
jos e rasgados ; ou em vez d'esles usar o que se 
chamaram saccos, que eram fatos muito estreitos 
e sem pregas. Também estes vestidos se appel- 
lidavam cilícios, por serem feitos de fazeada 
grosseira. A cabeça e os pés andavam descober- 
tos, porem o rosto tapado. Ordinariamente em- 
buçavam-se num manto, para não Terem a cla- 
ridade do dia, e occultar assim as lagrimas. Só 
depois do sol posto é que comiam, e estes ali- 
mentos eram dos mais ordinários, por exemplo 
pão e legumes. Unicamente se bebia agua. 

Encerravam-se durante o luto, ou sentados 
no cbào, ou deitados na cinza, e guardando pro- 
fundo silencio, so interrompido por lamentações, 
e cânticos fúnebres. 

O luto por uma pessoa morU durava ordina- 
riamente sete dias. Algumas vezes prorogava-se 
por um mez, e ainda mais tempo, porem isto 
poucas. Viuvas havia que o conservavam por 
toda a vida. 

Continua. •^• 



RELAÇÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
, EM A CIDADE DE ANGRA, ILUA TERCEI- 
■ RA, DEPOIS QtE SE PERDEU EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação.* 

LYI 

De como o Snr. I). António ordesou a armada, 
e do que llis succedeu. 

Sendo já no íim de agosto do ditto anno de 
l!i82, dice o Snr. D. António com os do seu 
conselho, que se determinasse de se aperceber 
a armada que eslava no porto, por que se vi- 
nha chegando o hiuverno ; sem o povo saber pa- 
ra onde. Mandou lazer gente nesta ilha, e nas 
ilhas debaixo. Âjuutaram-se como trez mil por- 
tuguezes soldados. Desta ilha não queria elle 
tirar muitos, pelo que importava á defensão des- 
ta ilha. Fizeram-se muitas enxadas, pás, e ou- 
tros artilicios, para guerra. Proveu-se a armada 
de todos os baslimenlos, que tudo a ilha linha. 
Uns diziam que a armada, que se fazia para as 
ilhas de Canária ; outros, que para a ilha da 
Madeira ; c a prcsumpção que se tinha que ia 
direita a Lx.° E como tudo levava ruim tim,se 
embarcou o Snr. D. António : podiam ir nella 
portuguczes, inglezes e francezes, sette para oi- 
to mil homens. Foram perto de seltenta velas 
graudes, e pequenas, com muitos navios latinos. 
Foram com vento prospero no mez de Sellem- 

(') Do Quu. !>2du vol. aulccadenlc. 



bro. No íim delle, e entrada de Outubre,, tal 
tormenta lhes deu, que com ella s« apartaram, 
uns para um Cabo, outros para oulr«, muitos 
destroçados. Os inglezes se foram logo para In- 
glaterra. Os francezes parte delles. Quando o 
Sur. D. António, acabada a tormenta, saiu fo- 
ra, não viu mais que quatro naus com a sua ao 
longo da ilha de Santa Maria. Agente de terra 
não sabia que naus eram : pozeram-se em armas 
para defenderem a ilha. Mandou o Snr. D. An- 
tónio recado, que era elle : ficou a gente toda 
quieta, e alvoroçada e contente. O capitão não 
lhe quiz fazer a vontade, dizendo que lhe não 
pozessem a cabeça ao talho, por que era eousa 
perigosa que se deixasse sair o Snr. D. Antó- 
nio com aíiuella gente fora dar-Ihe obediência 
como vassalos, e que a elle o mandaria El-rei 
degolar, e a elles todos bem castigados ; que o 
deixassem com isso. Fez um grande presente, e 
o mandou ao Snr. D. António, e lhe mandou 
dizer que bem via sua alteza, ou magestade, o 
perigo em que punha sua vida, e fazenda edos 
moradores da ilha ; e que elle como principe 
calholico, c natural fosse servido ser juiz da 
causa, em querer lhe dessem obediência como 
rei ; que se elle (juizesse sair em terra só com 
alguns fidalgos porluguezes, que elle e sua fe- 
zeuda e dos moradores da ilha estavam a seu 
serviço, e que se recreasse em terra, que lhe 
não faltariam mimos, e que a ilha o teria por 
gra ide mimo e ditta o que nunca se imaginou : 
mas que como a rei se não attreviam a dar-lhe 
vassalagem, porque tinham jurado, e dado obe- 
diência a seu primo el-rei Filippe : mas que to- 
mo principe e Snr. D. António, filho do Infan- 
te D. Luiz, fizesse o que (luizesse delles, e que 
mandasse dizer o que havia mister para as naus, 
que tudo iria. Parcceram-lhe tão bem as razões 
do capitão-mor, que lhe mandou os agrade<;i- 
menlos, dizendo, que não saia em terra pornSo 
tornar de novo a enjoar, e que ia muito satis- 
feito de tão honrado aviso. Não quiz sair em 
terra, posto que sua vontade era boa, sem a 
gente das naus, porque conheceu em si, que 
bem Icaes se lhe tinham mostrado muitos, eque 
lhe faziam cada hora traições : que se elle sai- 
rá em terra eom trinta ou (luareuta homens, 
que melhor sorte podia ter aquellc capitão que 
prendel-o. E o mais dissimulou e mandou dar 
as naus á vela, e se veiu metter no porto desta 
cidade, onde foi bem recebido, cora muita fes- 
ta, posto que aguada com seus ruins succes- 
sos, e lhe ir tudo para traz. 
Continua. 



Os desenhos que hoje publicamos, e a curio- 
sa noticia (|ue os acompanha devemol-os ao ill.°"* 
sr. J. A. C. de Castro e Sepúlveda, Deão da 
Sé de Bragança, a quem agradecemos cordeal- 
meute este distincto obseiiuio, e pedimos des- 
culpa da demora na publicação, devida a cau- 
sas estranhas á nossa vontade. 



9 



o TANORAMA. 



6ã 




!in,ii!!llil: 

'"•"iif p ■ i'r 'i'. 



VI. J. — i.' SBBIE- 



FEVBRBIRO, 28, 18S7, 



ee 



O PANORAMA. 



PALÁCIO DE PALIIAVÂ. 

Ignorados hoje, como celebrados foram em 
tempo mais antigo, estão alfíuns palácios, cujas 
.salas ao presente silenciosas e mudas, já rctum- 
iaram cora os eccos de festivas reuniões. N'es- 
te caso está o palácio de Palhavã, cuja princi- 
pal fachada se i-epresenta em a nossa estampa, 
o cae para o grande pateo que lhe dá entrada, 
íechando-se para a estrada peln elegante pórti- 
co que apresentámos em o num. 4!) do anuo pas- 
sado. 

Quem irá agora acordar aquclles eccos tão 
dormidos e repoisados dès que os seus primeiros 
liahiladores, os srs. D. António e D. José (vul- 
garmente chamados os meninos de Palhavã) d'ali 
passaram á sua ultima morada u'uma singela 
capellinha, que para jazigo se lhes lavrou no 
claustro do real mosteiro de S. Vicente de Fora, 
junto ao corredor que dá saida para o segundo 
pateo do mesmo mosteiro? Quem recordará ho- 
je que n'essas elegantes salas, onde os variados 
génios da pintura se deram mãos para as fadar 
com todos os encantos da sua enobrecida arte, 
houve festas esplendidas no tempo dos marque- 
zes (lo Louriral, também seus possuidores? 

Ninguém ; vendo-as ao presente tão abando- 
nadas c desertas, vendo-as taes que a poeira de 
muitos annos, amontoada sobre as suas paredes, 
já tomou consistência para alírontar as mais vio- 
lentas rajadas de vento, que, i5enetrando atrevi- 
do i)elas vidraças (juebradas, corre desaffronta- 
d:imenle aquellas ermas .solidões, tão desguar- 
necidas de tudo ! 

Ao escutar-Uie o sibilo por tamanho labyrin- 
tho de salas, ao ouvir-lbe o som plangente re- 
percutido n'el!as, diríeis de certo que até os pró- 
prios elementos choram tamanho abandono ! Tal- 
vez... Para nós é crença ([ue desde 5 de Setem- 
bro de 1833 ali caiu uma dessas maldições que 
aniq uilam completamente . 

Wesse dia verteu-sc ahi muito sangue por- 
tiiguez derramado ás mãos de portuguezcs! Sol- 
dados de um e outro partido combatente satiuea- 
ram o palácio, c as frondosas e copadas arvores 
do seu tão fallado c notório bos([uc foram der- 
rubadas a machado ! Desde esse dia o génio da 
destruição assentou ali seu throno, c despeda- 
çou ]ielas próprias mãos as grinaldas festivas que 
íulornavani a fachada d'a([uellc edilicio, expul- 
sando (relle o riso e as festas, c fechando á cha- 
ve o templo onde por lautos annos tiveram cai- 
lo ! 

Lindíssima é a paizagem ([ue se logra d'csta 
^ivenda, puros e saudáveis os ares d'estc for- 
moso arrabalde da ca})ital; mas nem assim a ca- 
sa de 1'alhavã p(kle ainda attrahir sobre si a at- 
lenção dos actuaes possuidores, ([ue nos dizem 
.ser os srs. condes de Lumiarcs; e dentro em pou- 
cos annos, a continuar tal descuido, esta famo- 
sa architeclura, estes enlevos de arte serão ruí- 
nas venerandas da época faustosa d'ei-rci D. 
João V. 



Eram lilhos naturaes d'este monarcha os seus 
primeiros habitadores, D. António c D. José, de 
que acima falíamos, c que foram ieuitimados já 
em tempo d'el-rei D. José. De haliilareni desde 
a infância n'estc aprasivel sitio lhes veiu o epi- 
Iheto de meninos de Palhavã, que conservaram 
em toda a sua longa vida. Como Hlhos de rei 
viveram com estado de príncipes, e muito feste- 
jados na côrtc ; se bem que tiveram a queixar- 
se do marquez de Pombal, que alcançou do mo- 
narcha, por um d'aquellcs caprichos a que o 
omnipotente ministro era subjeito, ordenar-Ihes 
residência no Bussaco. Inseparáveis na infância, 
companheiros no referido infortúnio, e muito uni- 
dos durante a vida, ainda na.morle se abriga- 
ram sob o mesmo tecto, pois seus túmulos, le- 
vantados durante o reinado da senhora D. Ma- 
ria I, estão collocados na mesma capella, com 
inscripçõcs ([ue relatam sua iilustre ascendência. 

Não virá aqui fora de propósito arrojarmos 
uma conjectura sobre a origem d'este nome de 
Palhavã ao sitio que corre fora das portas de S. 
Sebastião da Pedreira. Houve, em tempos anti- 
gos, uma dona cora este appellido, casada com 
um descendente do celebre João das Regras. Tal- 
vez tivesse vivenda n'este logar, e por sua no- 
breza desse nome ao sitio. A outro, mais inves- 
tigador d'estas minuciosidades, apontamos a con- 
jectura, e deixamos a gloria de esclarecer a ver- 
dade. "-"^ 



CÍIRONICAS MONÁSTICAS. 

D.V COMPANHIA DE JESUS. 

III 

CASA DE S. ROQUE. 

Continuação. 

Agora que já demos noticia da irmandade da 
Doutrina, e contámos do padre mestre Ignacio 
Martins, ([ue foi na Companhia o mais distincto 
no ensino da Cartilha, seguiremos na dc.scripção 
das capellas da egreja, dando conta do ornato 
d'esta da Doutrina. 

Os congregados da Doutrina não se satisfa- 
zendo com o ornato que acharam na capella, o 
que já então era reputado um dos melhores pe- 
ia sua perfeição, resolveram no anno de 1088 
formal-a de maneira (jue parecesse toda feita de 
novo. A nova obra foi acabada no anno de 
1G'J0. 

Até á altura da banqueta foi a capella toda 
feita de pedra mármore, com embutidos de va- 
rias cores. Teve duas portas, em volta redon- 
da, llcando uma da parte da Eiustola, e dando 
serventia á sachristia, e a corrcsjiondente com 
saida para a capella de S. Francisco Xavier. 
Estas portas brilhavam pelos seus embutidos de 
varias cores. 



o FâNORâMâ. 



G7 



Segue (los dois lados por cima da pedraria 
excdlcnte obra de talha «[ue reveste a parede. 
Do cada parle um santuário, que nos dias de 
lesta se descobria. De talha é eijuainieute o tec- 
to, e o arco ([ue assentado sobre pilares dá en- 
trada á capelia. Fecha-se ella com grades de 
pau ébano, de balaustres retorcidos, seguros em 
pilares de pedraria com embutidos. O frechai 
não desmereceu em nada obra tão perfeita. 

Duas columnas compõe de cada lado o reta- 
bolo, obra corynthia, com os respectivos capi- 
teis, alquilrave, friso, e cimaiha. Entre as co- 
lumnas um nicho, e ao seu tluono a inuigem da 
Senhora da Doutrina. Para serventia do throno 
acha-se o altar separado do rclabolo. Por cima 
do nicho correm os trossos que seguem em vol- 
ta do retabolo. 

Da parte do Evangelho ficava a imagem de 
S. Joaquim, e da Epistola a de Sant'Auna. 

O altar de, mármore guarnecido de embuti- 
dos, contem em si a imagem do Senhor morto, 
que se expõe nas sextas feiras de Quaresma, 
porque desia capclIa principiavam os Passos. 

No tempo da Companhia conipunha-se das se- 
guintes peças a prata d'esta capella. 

Duas alampadas grandes. 

Ima cruz grande, e (juatro jarras, sobre a 
Lanquela do altar. 

Um rico frontal, que sobre a prata batida de 
que constava era em partes sobre doirado. 

Banqueta de prata. 

Uma peanha de prata, sobre a qual se expu- 
nha a Senhora quando saia em procissão. 

Era egualmente de prata o andor em que se 
levava a imagem. 

Trinta e seis castiçaes, entrando neste conto 
seis grandes, e de diversos feitios. 

Uma sacra, e uma estante. 

Um Evangelho de S. João, e um missal guar- 
necido de perfeitas chapas de prata. 

Quatro pivetarios, um prato, e um gomil. 

Uma caçoila. 

Dezeseis jarras tanto grandes, como petiue- 
nas. 

Um cálix doirado, com sua patena. 

Um vaso para consagrar as partículas da com- 
munhão. 

Um vaso para o lavatório dos que commun- 
gavam. 

Umas galhetas com seu prato. 

Uma cruz de prata, de guião. 

Dois vasos que serviam para tomar os votos 
nas eleições. 

Cinco varas de prata, que os officiaes leva- 
vam nas procissões. 

Uma palangana, e uma cai.Ma de hóstias. 

Duas coroas de tilagrana de oiro e aijofres. 

Duas coroas de prata, uma da Senhora, ou- 
tra do Menino. 

Um livrinho guarnecido de prata. 

Um sinete. 

Estimava-se toda esta prata em trinta mil 
cruzados. 



Correspondia a toda esta riqueza outra não 
menos sobeja em fronlacs, casulas, e mais or- 
namentos, ([ue tantos eram (jue com elles se po- 
diam prover não só capellas, mas íambeni egre- 
jas. 

A capella que a esta se seguia era dedicada 
a S. Francisco Xavier, c foi fabricada por An- 
tónio Gomes d'Elvas. 

E de abobada e mármores, com seus painéis 
de cada lado encaixilhados também em már- 
more. 

De talha doirada com duas columnas por ban- 
da se compoz o retabolo, com uma imagem do 
Apostolo da Índia em vulto. Por traz d'esta um 
painel, onde se representou o m'.'smo santo fa- 
zendo oração diante de Nossa Senhora. 

Próxima está a capella de S. Roque, que foi 
feita á custa dos padres, segundo a obrigação 
que tomaram com a irmandade quando se em- 
possaram da ermida. 

Esta capella teve dois rclabolos, o primitivo, 
que havia servido na sobredita ermida, e ou- 
tro mais moderno, feito também pela irman- 
dade. Foi este de talha doirada, com duas co- 
lumnas por banda, e asseutou-se em um nicho 
a imagem do santo, em vulto. 

Na parte do Evangelho poz-se um quadro com 
moldura de talha doirada, e n'elle a pintura do 
santo apparecendo-lhe um anjo. Correspondente 
do lado da Epistola, ha uma tribuna na passa- 
gem para o púlpito. 

Á capella visinha da de S. Roque, e inune- 
diata ao cruzeiro deu-se a invoca^.j da Seaiio- 
ra da Conceição, que na primitiva fundação te- 
ve a de Senhora da Assumpção, dada pe'la sua 
fundadora D. Luiza Froes. Nesta, como já dis- 
semos, foi que teve começo a congregação da 
Doutrina ; e por mudança para a outracnpcl- 
la, se passou a dar á de que tratamos a iiivo- 
cação da Conceição. 

Aqui teve assento a irmandade dos Âgonisan- 
tes, cujo era o carneiro que havia por baixo do 
adro. 

Fez-se-lhe retabolo de talha doirada, com duas 
columnas por banda, e no meio um nicho com 
uma gloria de anjos, aos pés da Senhora. Abai- 
xo do niciío poz-se a imagem da mesma Senho- 
ra^ já defunta. Esta imagem tinha o rosto e as 
niaos de cera. Antigamente fazia-se uma pro- 
cissão em que se conduzia esta Senhora n'um 
andor. 

Embutiram-sc os lados do altar com mármo- 
res, e assim também se ornou o espaço (lue 
decorre do arco da capella até á porta. 

Sobre a altura da porta, fez-se de cada lado 
um santuário de relíquias, cobertos com dois 
painéis, que se tiravam nas occasiões de festa. 
As molduras dos painéis, de talha doirada e com 
muita perfeição, acompanhavam o vão que fica 
junto aos santuários. Entre os pilares do arco 
assentaram-se grades de pau santo, fechando a 
entrada. 

A prata d'esta capella compunla-se de uma 



GS 



O PANORAMA. 



boa alampada de praia, luu excelleiUc frontal, 
titias banquetas, uma sacra, seis castiraes de 
pé triangular, unia cruz com a respectiva lias- 
tea também de prata, ([iic servia no guião pre- 
to dos defuntos, e no pendão da festa. 

Para o carneiro, de que já tratámos, dava 
entrada, por uma escada de pedra, a porta que 
Jica á mão direita da principal da egrcja. 

Hoje é a capella do Santissimo. 

Tratando agora das capellas no corpo da egre- 
ja, da parte do Evangelho, logo á mão esquer- 
da a quem entra no templo, liça a que se inti- 
tulou de Jesus, Maria, José. Teve uma irman- 
dade de gente nobre. 

O retabolo, que consta ser ainda o primeiro 
que a capella teve, c bom, assim como o pai- 
nel que lira entre as duas columnas que de ca- 
da bíinda se assentaram. 

Em cada um dos lados da capella se pozcram 
painéis de boa pintura , representando um o 
nascimento de Christo, e outro a adoração dos 
lieis. Excellentes molduras de talha são comple- 
mento dos painéis. 

Junto á capella ha a respectiva sachristia i)a- 
ra esta irmandade. 

A prata constava, no tempo da Companhia, 
d'u!na formosa alampada de prata, e no altar seu 
frontal de prata batida, e da mesma a banque- 
ta, seis casliçaes, uma sacra, e cruz com bas- 
lea de prata para o guião. 

Segue-se a da invocação de Santo António. 
Foi fabricada á custa da herança de Pedro Ma- 
chado de Brito, que ordenou á Mesa da Mise- 
ricórdia de LisJjoa, sua testamenteira, lhe lizes- 
se uma capella para sepultura d'elle, e seus 
descendentes. Para cumprimento da testamen- 
tária deu a Misericórdia um conto c seiscentos 
mil réis aos padres de S. Roque, (juc fizeram 
então esta capella, pelo risco das outras da egre- 
ja, correndo j)or obrigação dos padres a fabrica 
e o guisamento das missas, que n'clla diziam 
dois capellães com a esmola de quarenta mil 
réis cada um, pagos pela Misericórdia. 



Continua. 



F. D. dAlmkida k Araijo. 



A VIDA ]■: SOMIO. 



Nã» hajas medo, não: a \ida é sonho... 
Se queres desengano estuda a morte ; 
N'ella reluz da crença o mais sublime, 
Porque só Deus é Pae, é Justo, é Forte. 

Ao acordar da vida o triste sniiho, 
Bem podes crer passado o jiesadelo : 
Lagrimas, dòr, saudades, amargura. 
Tudo lindo será no eterno appello. 



No regaço da fé adormecido, 
Aquelle anjo não vês, tão junio á cruz?! 
Olha ([ue os lábios seus lá stão sorrindo 
Ao brilhante fulgor da eterna luz. 

Não vive?!... Sim que vive eternamente 
Na celeste mansão ; lá nos espera 
Numa aurora perenne, que deslumbra 
Vivo clarão de fulgurante esphera ! 

Choral-o cá na terra é crime infando, 
Que do mundo fugiu á pena, ás dores; 
Foi prazeres buscar, almos, infindos, 
Onde as virtudes são puros amores!... 



Da virgem tu não vês sereno o rosto, 
Tran(|uilla, ali na cça, repoisando?! 
Á terra o vil despojo ella deixou. 
Glorias immortaes lá está gosando. 

Não lamenta do mundo a vida ingrata 
Que a vida, cá na terra, é trevas — morte! 
No ceo, onde milhões de estrellas rolam, 
É d'anjos immortaes perenne a sorte!... 



Ali, se vê também descida á campa, 
Aquella terna mãe dos filhos seus ; 
Espirito immortal na gloria adeja 
Ca na terra vclando-os lá dos ceos ! 

O susurro das auras é voz sua : 
O lilhinho a entende, e desvairado 
A morte implora — a morte, que o separa 
D'aquelle amor materno tão presado!... 



Triste cinza que vês ali dormida 
Por outra cinza espera!... Sim que espera 
Os laços conjngaes, que deu no mundo, 
Reapcrta!-os lá na santa esphera. 

Isemptos dos vaivéns do mundo ingrato 
Não temem, não, os acerados guines 
Que os ulcerou na terra, entre mil dores, 
De sus]]citas cruéis, negros ciúmes!... 



Não hajas medo, não... a vida c sonho 
A sepultura só falia a verdade. 
Além d'ella nos chama a voz do Eterno, 
Que no mundo só reina a falsidade ! 



O ócio facilmente se casa com a ignorância: 
a dissipação, e a pobreza, são os legítimos fruc- 
tos d'essa união. 



o PANORAMA. 



69 



ORIGEM DAS C.UIAR.VS MLMCIPAES. 

As guerras, as desaTenras eiUrc os monarchas 
ç os seus poderosos vassallos, c as grandes cri- 
.-es narionaes eram as occasiõcs em (jue nos tem- 
pos antigos a classe do povo se via mimoseada 
e afagada pelos poderosos, porque sendo ella a 
mais numerosa, o seu peso era inimcnso no la- 
do a que propendesse. 

Não era coisa para estranhar o ver cut;\o n"es- 
sas épocas remotas como os monarchas se apres- 
savam a noticiar ás cidades e villas, não só os 
grandes acontecimentos, como até mesmo os pro- 
jectos ainda em mente, para que ellas os coadju- 
vassem no empenho da alta empresa que se com- 
raeitia. 

Destas causas foi tomando corpo o elemento 
municipal, e com elle o elemento do [)ovo, e nos 
primeiros tempos da nossa monarchia, em (jue o 
estado era propriamente uma aggregação de niu- 
nicipios, serviam as camarás de intermédio en- 
tre o povo L- o rei para a execução das ordens 
deste ultimo. 

Foi daqui que proveiu também nos primei- 
ros tempos desta monarchia o cuidado empre- 
gado pelos soberanos em promoverem a povoa- 
ção, porque o paiz falto estava d'ella em con- 
sequência das sanguinolentas lutas com os ser- 
racenos ; em fomentar a agricultura, que j)elas 
mesmas causas a terra se podia chamar virgem: 
cm levantar cidades, e villas, poniue arrazadas 
a maior parte d'ellas tinham passado á denomi- 
nação de fogo morto. 

Era doloroso n'aquelle tempo o aspecto do paiz. 
Os povos ([ue não haviam siilo cortados pelo fer- 
ro inimigo, morriam de fomu. S. agricultura 
reduzia-se a herdades^ coirellus. granjas, villas. 
aldeãs e ahjuarias, que eram terras dispersas e 
isoladas, marcadas pelo miserável casebre onde 
o agricultor com a sua familia e os seus gados 
encelleirava os productos das suas mesquinhas 
cearas. 

Por isso lambera grande foi o zelo que os nos- 
sos primeiros monarchas empregaram em repo- 
voar o reino, publicando leis ajustadas, e dando 
aos colonos muitos privilégios. 

Dividindo em coirellas as terras da conquista, 
entregavam estas porções a homens de boa re- 
putação e nome, que assim encontravam n'estos 
terrenos o sustento necessário á sua familia e 
servos. 

E quando por este meio se achava um logar 
já alguma coisa considerável, dava-se-lhe um of- 
ficial municipal e um juiz que decidia as causas 
dos seus moradores em primeira instancia. 

Mais avultadas já estas aggregações de culti- 
vadores, e com ellas as dos oflicios mecânicos 
attrahidos áquelles novos grémios pelos traba- 
lhos agrícolas — que reciprocamente se davam as 
mãos. fomentavam e protegiam — passavam a ter 
seu foral, que mais fortemente attrahia então os 
homens isolados e dispersos, a quem se assegu- 
rava assim o fructo do trabalho e da industria. 



Muitas vezes estas regalias subiram a ponto 
de se declarar livre lodo o servo, que se fixa.s- 
se por mais de um anno n"um determinado lo- 
gar. 

iVestes foraes reservava sempre o rei os seus 
direitos, e por i.sso tinha elle na camará um of- 
íicial para este mester, bem como para prepa- 
rar a gente para a guerra, e cobrar as contri- 
buições da coroa. 

A estes officiaes se designa\a por moradia o 
palario, (|ue hoje se diz Casa da ('amara, e este 
se distinguia .sempre de todos os outros edilicios 
pelas insígnias reaes. 

Era aoladod'eslc que commummenfe se levan- 
tava o palácio episcopal, quando a terra era das 
episcopaes, ou o senhorial, ([uando pertencia a 
algum senhor, iN'esles palácios cobravam estes 
senhores lambem as suas reni:..s e tributos, e 
flscali.savam os seus privilégios ; sendo comludo 
isemptos das determinações dos foraes, 

Ouíro edilicio bem importante naquelles tem- 
pos era o eoneiliiim, isto é o ponto central da 
administração, a verdadeira Casa da Camará, 
por([ue esta era quem nomeava, d'entre si, .sem 
excepção mesmo do juiz, os funccionarios do seu 
concelho. 

Esta população de uma Camará, designava- 
se pelos nomes de tributários, pediles e peões, 
e se compunha dos lavradores, negociantes e ar- 
tistas residentes no logar. Tomavam aquellas de- 
nominações pela sua qualidade de contribuintes, 
e pela obrigação de concorrerem á guerra, onde 
batalhavam a pé, por não poderem sustentar ca- 
vallo a sua custa. 

Quando pelo andar dos tempos a autoridade 
real se foi robustecendo, e absor\ endo em si os 
elementos de força espalhados pela classe da no- 
breza e do povo, estes juizes locaes nomeados 
pelo concilio foram substituídos pelos de nomea- 
ção regia, que os reis lhes mandavam com o ti- 
tulo de juizes de fora parte, e os seus vereado- 
res ficaram também dependentes da nomeação 
de um tribunal. Esta nova ordem constituiu as 
Camarás em delegação do poder real. 

O tribunal por onde se conlirmavam as verea- 
ções era o Desembargo do Paço. O respectivo 
corregedor enviava uma relação das pessoas nos 
lermos de andarem no exercício desses cargos 
em os diversos concelhos da sua comarca, c as- 
sim se escolhiam os vereadores, que constilui- 
rani modernamente as Camarás, das quaes eni 
presidente nato o juiz de fora. 

Como em tempos já antigos se 'olhava com 
uma espécie de despreso todos os oflicios mecâ- 
nicos, d'ahi proveiu a necessidade, para se de- 
fenderem da oppressão dos donatários das ter- 
ras, de se embandeirarem em corporações. 

Chamado assim cada ofllcio a um centro, as 
corporações nomearam os procuradores dos mes- 
teres, que tinham a seu encargo cuidados espe- 
ciaes, e por este meio ficaram os oflicios mecâ- 
nicos representados nas Camarás, 

Também estes procuradores dos mesteres vie-- 



iO 



o FâNORàMÂ. 



ram pelo andar dos tempos a ser viciados pela 
autoridade real, succedcudo, como a historia nos 
mostra, serem reconduzidos por meio de decre- 
tos estes nmieres, antes do praso das eleições. 

Falíamos acima no oflicial do rei nas terras 
a que se havia dado ioral. Como bem se pode 
presumir, este, e os mais empregados do palacto 
eram nomeados pelo monarcha. 

Havia Gamaras (jue não tinham immediato se- 
nhor. A estas assistia o privilegio, consignado 
nos respectivos íoraes, de terem assento em Cor- 
tes, nomearem suas justiças, murarem a cidade 
ou Villa, e levantarem e armarem soldados, dan- 
do-lhes capitão que os commandasse na guerra. 

Este direito dado ao povo de eleger os func- 
das Camarás, administrando- por este 



ziu e naturalisou em Évora ; e no norte do rei- 
no, o de Salamanca. 

Algumas das suas disposições eram tiradas do 
código visigothico. m*,* 



ilargaudo a área da 



cionarios 

meio sua justiça, loi-liic aia 
existência politica; e com o augmeuto da popu- 
lação se foram construindo cidades e viiias, que 
í^eiu subjeicão a donatários, agrupavam novas 
sociedades particulares, ao abrigo das suas Ga- 
maras. 

Esta actividade que se desiuvoivia pela fre- 
(juencia das relações internas, ia dando impor- 
tância ao elemento popular, e dillundindo-se as- 
sim por elle a riqueza attrahiu a atlenção do mo- 
narcha a ponto de ser chamado á representação 
em Cortes. 

Concorreu de certo muito para o engrandeci- 
mento d'esta classe, que pouco ligurou nos pri- 
mitivos tempos da monarchia, a necessidade que 
o monarciía tinha de meios pecuniários para sa- 
tisfazer não só as despezas do estado, como as 
da sua própria còrle, e depois a luta entre o 
poder real c o clerical e senhorial. 

Não podemos deixar de confessar aiiui ser bas- 
tante obscuro nos tempos primordiaes o direito 
civil das nossas Gamaras Municipaes. Yèmol-as 
comtudo no decimo (luarto século obtendo os seus 
respectivos privilégios não só das mãos dos reis, 
como também das dos donatários, mediante coii- 
lirinação real. Os foraes continham tudo quanto 
era r*elativo á governança municipal, e abran- 
giam disposições civis, criminaes e militares, 
í)em como a 'laxa dos foros, serviços o direitos 
que os respectivos povos deviam pagar. 

Como elles variavam nas suas disposições par- 
: ticulares, segundo as circunstauc 
dades, e as isempções, as terras 



das locali 
a que se ap- 
plicavam licavíiniYora da homogeneidade e cen- 
tro necessário para conslituirem força por meio 
da sua unidade. 

Assim vinha a licar cada terra, por causa dos 
seus foraes, dilVerentc em usos c costumes, di- 
vidida pelas rivalidades da legislação, e dilli- 
cultadas as communicações pela diversidade de 
portagens; o que foi na verdade um mal, (lue 
concorreu poderosamente para a falta de unida- 
de de acção no elemento municipal, único (lue 
poderia elevar o estado do povo ao logar que 
lhe competia na sociedade. 

Os nossos foraes tomaram por modelo no Alcm- 
lc]o o foro d'ANÍla nu CaslcHa, que se iulrodu- 



ESTUDOS SOBRE A HISTORIA SAGRADA. 

Continuação. 

FU.NER.iES. 

Reputavam os hebreus uma terrivel maldição 
o ficarem os seus corpos, ou os d'aquellas pes- 
soas que estimavam, expostos a serem devora- 
dos pelas feras e aves de rapina, ou a corrom- 
perem-se e iufectar os vivos. Repoisar no sepul- 
ciiro dos seus antepassados era para clles uma 
consolação. 

Apesar dos funeraes serem um dever de pie- 
dade, não eram comtudo acompanhados de ne- 
nhuma ceremonia religiosa ; antes se reputavam 
uma acção profana que tornava immundas todas 
as pessoas que tomavam parte n'eilcs, até se pu- 
rilicarem. Por isso se prohibia aos sacerdotes as- 
sistirem aos funeraes, excepto sendo de paren- 
tes. 

Offereciam-se sacrifícios pelos mortos, isto é 
pela remissão dos seus peccados. Também havia 
uma ceremonia ciiamada Baptismo dos moilos, 
que coasistia em purilical-os. Esta ceremonia jul- 
gava-se tão útil aos defuntos, como proveitosas 
lhes deviam ser as orações. 

Pelo communi os corpos eram enterrados ; po- 
rém aquelles de pessoas mais dislinclas embal- 
samavam-se, e depositavam-se em túmulos. Os 
corpos circundai am-se de drogas dissecantes, e 
algumas vezes queimavam-se perfumes. 

Não havia sitio destinado para enterramento 
dos mortos. Abriam-se muitas vezes na rocha os 
seus sepulchros, e com tanto artificio que as por- 
tas eram de pedra gyrando sobre gonzos da mes- 
ma. Dentro destes sepulchros havia uma mesa 
de pedra, e n'esta é que se depunha o cadáver. 
Havia sepulchros nas cidades, nos campos, em 
jardins, e nas estradas reaes. O commuin das 
sepulturas do povo era fora das cidades, e pu- 
uha-se todo o cuidado em distinguir as dos is- 
raelitas das dos estrangeiros, especialmente sen- 
do idolatras. Os sepulchros eram caiadas exter- 
namente todos os annos ; e foi a este costume 
que Jesus Christo alludiu ([uando comparou os 
phariseus aos sepulchros muito pintados de bran- 
co, (|ue por fora parecem mui aceiados, c por 
dentro encerram ossos e podridão. 

Quando chegava o momento de soterrar o ca- 
dáver, todos os parentes e amigos do defunto se 
reuniam vestidos de dó para acompanharem o 
corpo, formando-lhe o cortejo fúnebre. Suas la- 
mentações eram proferidas em voz alta. Ate ha- 
via mulheres que se alugavam para esse fim. 
Algumas vezes estas vozes eram acompanhadas 
de iuslrumenlos fúnebres. Até mesmo se com- 



o PANORAMA. 



91 



punham cânticos para servirem de orações fú- 
nebres ás pessoas illustres. 

GOVEUXO. 

Quem abre os livros de Moysés logo depara 
com um corpo de leis (juc não so tendem a con- 
servar a relijíião e o culto do verdadeiro Deus, 
mas cgualmentc a sustentar c conservar os cos- 
tumes^ e estabelecer um estado feliz e tranquil- 
lo. Elias proscrevem a idolatria, a blasphemia, a 
impureza, o luxo. a intemperança, a devassidão, 
a prostituição, todos os vicios eniíim, que per- 
turbam a ordem da sociedade e a felicidade das 
laniilias. Ahi apparecem reguladas as lestas, os 
deveres recíprocos dos pães e das mães, dos se- 
nhores e dos servos. ]N'ellas se Icem ajustadas 
regras para a modéstia e para a frugalidade. 

O primeiro governo dos hebreus foi Iheocra- 
lico ; quer dizer que o próprio Deus os gover- 
nava pela lei que lhes dera. Os juizes, como Jo- 
sué, Gedoão, Jephté etc. eram simples logar-le- 
nentes que elle delegava, quando lhe aprazia, 
para certas obras extraordinárias, cujas commis- 
•sões ás vezes prolongava durante o decurso de 
suas vidas, porém não lhes communicando nun- 
ca a autoridade soberana. 

Os israelitas foram perfeitamente livres antes 
do estabelecimento dos reis. Esta liberdade foi- 
Ihes porém bastante cerceada quando rejeitaram 
o império de Deus para se subjeitarem ao de um 
homem. Yiram-se então expostos a todos os abu- 
sos do poder arbitrário: — «O rei que pedis, dis- 
se-lhes Samuel, tirar-vos-ha os iilhos para os fa- 
zer seus servos, e as filhas para o servirem; to- 
mar-vos-ha os escravos e os animaes para os fa- 
zer trabalhar para si ; arrebata r-vo.s-ha o que 
melhor produzirem as vossas vinhas e oliveiras, 
para o dar aos seus servidores ; fazer-vos-ha pa- 
gar o dizimo dos trigos e do producto das vinhas 
para o dar aos seus officiaes ; receberá o dizimo 
dos vossos rebanhos, e sereis seus escravos.» 

Desde o captiveiro até ao tempo dos reis As- 
moneus ou Machabeus o governo se transformou 
em aristocrático e democrático; queremos dizer, 
composto de um senado (pie se formava dos mais 
distiuctos cidadãos, e do povo que se juntava, 
e decidia conjuntamente com os senadores. Eram 
porém subjeitos ao rei da Syria, a quem paga- 
vam tributos, e que os tratava como nação con- 
quistada. 

Recobraram uma sombra de liberdade no tem- 
po dos Machabeus que restabeleceram a monar- 
chia, porém o reinado d'estes príncipes foi de 
curta duração. Âppareceram os romanos, e os 
judeus foram obrigados a curvar a cabeça ao 
jugo destes conquistadores. Pelo favor d'estes 
novos senhores foi Herodes, que era idomeneu de 
origem, collocado no throno de David e dos Ma- 
chabeus. O reinado d'este príncipe estrangeiro 
foi brilhante ; porém com a sua morte acabou o 
poder da .ludéa. Seus filhos depressa foram des- 
pojados dos fracos restos da sua grandeza, e no 



império de Vespasiano, quando os judeus tenta- 
ram sacudir o jugo, licaram vencidos, expulsos 
do paiz, c reduzidos ao estado em que ainda ho- 
je vivem. 

POIIEU DOMESTICO. 

o poder domestico dos chefes da família so- 
bre os seus escravos e filhos era grande. 

Havia entre os israelitas duas espécies de es- 
cravos ; uns eram hebreus, c outros estrangei- 
ros. Preferiam servir-se com estes últimos, que 
toda a vida ficavam na escravidão, a scrvirem- 
se com os hebreus de origem, que saiam resga- 
tados no anno sabbatico. 

Quando o escravo hebreu não queria aprovei- 
tar-se do Jienelicio da lei, apresentava-se ao ma- 
gistrado, fazia a sua declaração, c o senhor o 
reconduzia para casa, furava-!he a orelha logo 
ao limiar da porta, e então o escravo perdia pa- 
ra sempre a liberdade. 

Sc o escravo hebreu recobrava a liberdade, 
era despedido com o mesmo fato que trouxera 
para casa do senhor ; e se tinha mulher, esta 
saía com elle, excepto se lhe fora dada pelo se- 
nhor, que n'estc caso cila e seus filhos eram 
pertença do amo. Este era obrigado a dar-lhe 
com que se manter na viagem, e a tratal-o co- 
mo a um irmão. 

Quando um senhor batia no escravo, e este 
morria passados dias, não era por isso castigado; 
mas se o escravo expirava na occasião do casti- 
go, coucluía-se d'ahi que o quizera matar, re- 
putava-se um homicídio, e a lei o declarava cul- 
pado. N'este ponto a lei era mais humana do 
que nos outros povos, onde se não faziam tacs 
distincções. 

Os pães tinham sobre os filhos direito de vi- 
da e morte : não o podiam porém exercer sem 
participação do magistrado. O pae e a mãe, de- 
pois de ensaiarem todas as correcções domesti- 
cas, iam denunciar ao senado da cidade o filho 
desobediente c extravagante; e em virtude d'es- 
ta queixa saía condemnado á lapidação ou á mor- 
te. Seguía-se d'aquí estar o íilho sempre n'uma 
completa submissão, com receio de attrahir a 
cólera dos pães. 

Continua. «*« 

RELAC.lO DAS COIS.\S QUE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA, ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QLE SE PERDEI EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação. 
LVII 



Do q',ie foz com os padrcí da conifjanhia 
e com algumas mulheres. 



Antes (]iie o Snr. D. António partisse com a 
armada atraz, que se espalhou com a tormenta, 
havia muitos homens nesta ilha de suspeita con- 



S3 



o PANORAMA. 



Ira seu serviço. Dcteniiinou de os levar todos 
Cdni sigo na armada, como levou. E[)on[iie an- 
davam muitos a monte, sem delles se saber par- 
le, lhe diceram que os padres da companhia sa- 
biam onde elles anda\am, e as niuiheres. Fez 
mu medo : mandou tomar os padres, e metel-os 
em um navio que estava no porto ; e as mulhe- 
res, dos que andavam ausentes, noutro, tingin- 
do que lhes haviam de dar fundo para os aca- 
barem. Todos os padres, como tem dado de si 
grande exemplo de paciência, sollriam tudo, e 
ve calavam : as pobres nuiliíeres, c os lillios, era 
uau\ harmonia de choro e gritos. Tanto que as 
pobres estiveram embarcadas, e eram a buscar 
mais, se vieram os maridos e filhos logo entre- 
gar, havendo perto de dois annos que andavam 
a monte. Yeio-sc entregar .íoão Lopes Fagun- 
des, c seu lilho Lopo Gil Fagundes, António 
Francisco seu canhado, e sen lilho que agora é 
Deão desta cidade, e um seu parente que se 
chamava Buiccão, e Luiz .Mourato, c outros, aos 
quaes o Snr. D. António fez muita festa, e hon- 
ra conforme a calidade de suas pessoas, c os 
mandou embarcar, e os mais que estavam pre- 
zos, e todos os que eram de suspeita contra seu 
.serviço, e assim os Padres da Companhia, di- 
zendo que os Padres e os mais inlluiam muita 
gente contra seu serviço. E foram embarcados 
na ditla armada muitos homens fidalgos, cida- 
dãos e poucos mechauicos ; a saber Manuel Fer- 
nandes de Cea, e seu irmão Hieronimo Fernan- 
des de Cea, Pedro Eanes do Canio, António 
Pacheco de Lima, seu irmão Hieronimo Pache- 
co de Lima, Jorge de Lemos de Bettencourt, 
Vital de Bettencourt, Fernão Garcia Jaijues, e 
seu lilho Sebastião Jaques, Diogo Vieira Pache- 
co, e seu lilho Manuel Henriques, Gaspar de 
Magalhães, c seu irmão Melchior de Magalhães, 
Fernão Bayão, Álvaro Luiz, o Cónego Luiz Al- 
vares, e o padre Hieronimo de Fontes, oChan- 
celler Simão Gonçalves, Custodio Vieira, Pedro 
Alvares Cabral, Pedro Alvares Pereira, Melchior 
Fernandes Redovalho, Manuel Vieira de Carva- 
lhal, Gaspar Gonçalves mercador, Gaspar Fer- 
nandes Bispão, Francisco das Neves, Álvaro 
Pires Ramires, Paulo Gomes, Matheus Pires, 
Melchior Bodriguos, Christovam de Lemos, Pan- 
taltíão Pires, Manuel .\Lartins, Jorge Cabral, Gas- 
par l{odrigues de Cea, Bui Dias de SanPayo, 
Gomes Pacheco de Lima, Diogo Gonçalves Ma- 
cedo, o Velozo, Francisco de Bettencourt, seu 
lilho, e o de Ornellas, Francisco Vaz Chama, 
Pedro Rodrigues d'Aguilar, Francisco Paim da 
Camará, Hieronimo Paim da Camará, Bernardo 
da Fonseca, Heitor Homem da Costa, Galas Vie- 
gas de Atavdc, que estava nesta cidade, Este- 
vam Silveira, Manuel da Silva Borges, Pedro 
Fernandes Coelho, e outros mais, que estão es- 
quecidos. Toda esta gente se embarcou, carnais 
delia foi ter a Inglaterra, e de doença fallece- 
ram muitos, no mar, e na terra. Os ((ue esca- 
param foram todos mui l)(!m despachados por 
«l-rei Filippe, c os herdeiros dos mortos. 



LVIII 

De como veio .amador Vieira por mensagoiro, com carta? 
d'el-rei Filippe ao Snr. D. .\nlonio. 

Depois de partido o Snr. D. António pa- 
ra França chegou por via de S. Miguel uma 
embarcação, em que veia um Amador Vieira 
com cartas d'el-rei D. Filippe para o Snr. 
D. António ; e vinha por seu companheiro 
um mancebo nobre, ([ue se chamava Maga- 
lhães. Ficou nesta ilha por logar tenente Ma- 
nuel da Silva (que nunca ficara!) c tomou as 
cartas todas, c as leu, vindo cilas para o Snr. 
D. António ; por que logo houvera de tomar 
uma embarcação e mandar ao mesmo Amador 
Vieira com ellas a França, por ((ue eram par- 
tidos que sua magestade mandava comraetter ao 
Snr. D. António, muito honrosos, e favores pa- 
ra esta ilha ; o que ouvindo os moradores da 
ilha ao sobreditto se alegraram, salvo gente per- 
dida, c outra de pouco entendimento. Amador 
Vieira era homem mancebo, e havendo de pro- 
curar o a que vinha se inetteu no serviço do 
Snr. D. António de tal maneira induzido pelo 
ditto Manuel da Silva, que veiu a descubrir 
homens, fazendo-se do serviço do Snr. D. Fi- 
lippe, que nelle vinha, c de.scubriu com artes 
muitos, e os fez matar, e elle veiu acabar com 
o ditto Manuel da Silva. 

LIX 

De como Manuel ila Silva Ocou fo com 
o governo da ilba, e o (jiic fez. 

Quando o Snr. D. António partiu para França 
levou Ciprião de Figueiredo e Va.scoucellos, ([uc 
era governador, que se este homem ficara na ilha, 
estava bem quisto com a gente, fora tudo bem 
encaminhado, c a ilha não fora destruída, nem 
houvera sacco. E vendo-se o ditlo Manuel da 
Silva só e logar tenente do Snr. D. António, 
queria que todos o adorassem. Mais estado to- 
mou que o Snr. D. António. Fallava-se-lhe por 
c.xccllencia. Tomou da terra muitos creados, pa- 
gens : servia-se com estado de rei : a sua guar- 
da eram francezes e inglezes : tinha todos os 
ofliciaes como ha em casa d'el-rei : fez capitão 
de gente de cavallo um Gaspar de Goam, ho- 
mem de respeito, e capitão de gente de pé, dos 
homens fidalgos um grande fidalgo António da 
Silveira, homem solteiro. O ditto Manuel da Sil- 
va era na corte grande homem de cavallo, e 
dado muito a folgares todos os dias Santos e 
festas, e nisto gastava o tempo, c em fazer mal 
e buscar invenções para dar tormentos aos ho- 
mens, c o mais ijue tenho ditto atraz, e todos 
lhe haviam de ir á vontade : não tomava conse- 
lho com pessoa alguma tudo fazia de sua cabe- 
ça e potencia. 

Continua. 



!0 



o PANORAMA. 



9S 




BOLÍA DO COMUERCIO EM S. PETERSBOURG. 



S. Petersbourg é na realidade uma cidade ita- 
liana, franceza, iiigloza, alemã, e não uma ci- 
dade russa, pois que só Moscow assim pode cha- 
mar-se por antonomásia. Mas, assim mesmo co- 
mo foi crcada. rodeada do resto do império, S. 
Petersbourg oíTerece a imagem fiel de toda a na- 
ção, de toda a sociedade russa tal como a fize- 
ram a natureza, a historia, e as instituições. Es- 
ta grande capital, toda ella moderna, toda euro- 
pea, lançada no meio de um paiz quasi asiáti- 
co, mal povoado e mal cultivado, atrasado cm 
consequência das leis, dos costumes e usos, e 
das artes, c uma sociedade que reúne os dois 
extremos sem intermédio, desprovida de toda a 
classe media, de toda a transição apresentando 
uma casta de nobres no meio de um povo de 
servos, a riqueza excessiva entre a excessiva po- 
breza, a sciencia de alguns entre a commum 
ignorância, a civilisação cercada da barberie, 
o século decimo nono enxertado no decimo ter- 
ceiro, como diz mr. Viardot nos seus « Museus 
de Alemanha e da Rússia.» 

«O que impressiona mais em S. Petersbourg 
(diz M. de Custine) c a quantidade e a fornia 
das torrinhas, agulhas metálicas, espigas de cam- 
panários, que se levantam de toda a parte, e ao 
menos isto c architectura nacional, porque S. 
Petersbourg é semeada de numerosos e vastos 
conventos com suas torres de sinos. Estas agu- 
lhas doiradas ou pintadas cortam as linhas mo- 
nótonas dos telhados da cidade ; rompem pelo 

VOL. I. í,' SERIE. 



ar com flechas tão agudas que a vista mal pode 
distinguir o ponto onde a doiradura que as re- 
cama se pprde na cerração de um ceo polar ; 
; as mais notáveis são a agulha da cidadella, raiz 
] e berço de S. Petersbourg, c a do almirantado 
I revestida do oiro dos ducados de BoUanda ofTc- 
recidos ao czar Pedro pela republica das Provín- 
cias Upidas. Estes pennachos nionumentaes, imi- 
tados dos toucados asiáticos, parecem-mc de uma 
altura e arrojo extraordinário ; custa a crer co- 
mo se teem no ar; ó um ornamento verdadeira- 
' mente russo. Figurae, pois, um ajuntamento im- 
menso de zimbórios acompanhados dos quatro 
campanários, construcção obrigada n'uma egre- 
ja dos gregos modernos ; imaginae multidão de 
j cúpulas prateadas, doiradas, azuladas, estrella- 
das, e os tectos dos palácios pintados de verde 
esmeralda ou d'ultramar, as praças ornadas de 
estatuas de bronze em honra dos principaes per- 
sonagens históricos da Rússia c dos seus impe- 
radores, guarnecei este painel cora rio caudal 
que em dias bonançosos serve d'espelho, c nos 
de tempestade de rcpellir todos os objectos ; jun- 
fae-lhc a ponte de barcas de Troitza lançada so- 
bre o ponte mais largo do Neva entre o campo 
de Marte, onde se perde no espaço a estatua de 
Souwarow, e a cidadella onde Pedro o grande 
e a sua familia descansam em jazigos destituí- 
dos de ornamentos ; iinalmente imaginae que a 
esteira de agua do Neva sempre cheio corre ren- 
te da terra e apenas respeita, no meio da cida- 

M.\Bço, 7, 1857. 



74 



O PANORAMA. 



ik-, uma ilha toda guarnecida de edifícios com 
suas columnas gregas sustentadas em alicerces 
de granito c erectas conforme desenhos de tem- 
plos pagãos ; se comprehcnderdes bem este con- 
junto, percebereis como S. Pctersbourg é uma 
cidade iniinitamente pittoresca apesar do mau 
gosto de grande parle da sua architcctura de 
empréstimo, não obstante a tinta paludosa das 
planicies que a rodeiam, a ausência total de ac- 
cidenles de terreno, e o descorado dos dias ame- 
nos do verão n'aquçlle emiiaeiado clima do nor- 
te. » 

Todavia, ha edifícios modernos, que são ma- 
gnilicos e regularmente construídos ; d'este nu- 
mero é a bolsa ou praça de commercio edilica- 
da na ilha Vassili, cujos lanços de escadaria des- 
cem até ao rio ; no terreiro em frente avultam 
duas columnas rostradas á romana, de cem pés 
d'aUura, adornadas como indica o nome com 
proas de navios, são ocas por dentro e nas sum- 
midadcs, para onde tem escadas de ferro inte- 
riores estão collocados vasos gigantes, que se 
enchem de combustível cm todas as occasiões 
de illuminação publica. A sala da reunião dos 
commerciantes recebe a luz de cima. De ambos 
os lados ha espaços occupados por arcadas. 

Outro edifício, a casa do correio, que também 
vae gravado n'este numero, tem grandes acfoni- 
modacões e uma sumptuosa fachada. 

M. 



CBRONICAS MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESIJS. 

Ill 

CASA DE S. ROylE. 

Continuação. 

Passada esta capella liça a que tem invoca- 
ção da Senhora da Piedade, apesar de se lhe 
chamar lambem a do Senhor Jesus, porque na 
cruz, ao pé da cpial está a Senhora com o Filho 
nos braços, se acha também a imagem de Chris- 
to crucificado. 

Esta caiielhi na sua fundação foi dedicada a 
S. Sebastião, e por isso lhe pozeram no teclo e 
paredes as setlas. Fora feita com esmolas ([ue 
deu a rainha D. Catharina ; mas pelo andar dos 
lempos, os jiadres a deram a Martim Gonçalves 
da Camará, grande valido dVl-rei D. Sebastião, 
c i[ue era irmão do padre Luiz Gonçalves, mes- 
tre <jue foi do mesmo moiiarcha. 

O referido Marlim Gonçalves recolheu-se de- 
pois do seu (lesTalimenlo á casa de S. Roque, e 
(alleccndo n'ella, foi sepultado n'esta capella. 
Com a testamentária d'elle compraram os pa- 
dres dez mil réis de juros para prémios das dou- 
trinas que u'esta casa se faziam, os quaes se 
accrcscentaram a outros riute ciuco miJ reis de 



juros que elle, em sua vida, havia comprado 
para o mesmo fim ; e que se distribuíam tanto 
pela doutrina da casa de S. Roque, como da 
província. 

]\'esta capella se instituiu lambem uma ir- 
mandade de Nossa Senhora da Piedade. 

A quarta e ultima leve a invocação do Es- 
pirito Santo. Foram padroeiros d'ella Barlholo- 
raeu Froes, e Sueyra de Yasconcellos, sua mu- 
lher. Esta capella era de todas a mais pobre 
de ornato, por não ler irmandade. A maguifi- 
cencia d'el-rei D. João v trocou a sua jiohreza 
em galas esplendidas, como adiante diremos. 

Faz-se notável no corpo da egreja de S. Ro- 
que uma sepultura, que fica por baixo do púl- 
pito da parte do Evangelho. Lè-se n'ella a se- 
guinte inscripção : 

"Aqui está em pé o corpo de D. Francisco 
Tirgiam, fidalgo inglez mui illuslre, o qual de- 
pois de confiscados seus estados, c grandes tra- 
balhos padecidos cm vinte oito annos de prisão 
pela defensão da Fé catholica na perseguição da 
rainha Isabel, no anuo de 1608, a vinte e cin- 
co de Setembro morreu n'esta cidade de Lisboa 
com grande fama de santidade. E havendo deze- 
setc annos que estava sepultado n'esta egreja 
de S. Roque da Companhia de Jesus, no anno 
de 1623, a rinle e cinco de Abril se achou seu 
corpo inteiro e incorrupto. E foi collocado nes- 
te logar pelos calholicos inglczes, residentes n'es- 
ta cidade aos rinle cinco de Abril de 162C.» 

Este D. Francisco de Trigiam era, como se 
vè, um cavalleiro inglez, senhor de muitos vas- 
sallos. Foi casado com D. Maria Stourten, neta 
dos condes de Dardi, senhores mui poderosos em 
Inglaterra. Viveram no calholicismo, no tempo 
da rainha Isabel pagando grandes penas pecu- 
niárias impostas áquelles que professavam a re- 
ligião orlhodoxa. Suceedeu que fosse preso em 
casa de D. Francisco um sacerdote, no anno de 
1577, que foi suppliciado em Novembro d'esse 
anno; e D. Francisco que lhe dera asylo foi 
condemnado a cárcere jierpetuo, e confiscação 
de bens. Quando morreu a rainha Isabel, foi o 
lidalgo inglez solto do cárcere, e desterrado. 
Passou a Ilespanha, onde D. Filippe iii lhe as- 
signou uma pensão de setenta escudos cada mez, 
e de Madrid passou a Lisboa, onde residiu até 
ii sua morte. 

Na mesma egreja teve logar a sepultura de 
Simão Gomes, vulgarmente chamado o Sapatei- 
ro Santo, ao qual altriluiiam os sebastianistas 
umas projiliecias com as ([iiaes pretendiam auto- 
risar a miraculosa vinda do infeliz rei D. Sebas- 
tião, morto na jornada dAIrica. Diz a Chronica 
(|ue esle Simão Gomes, lillio de um sapaluiro do 
logar de .Marmeleiro, junto a Thomar, e que exer- 
ceu o mesmo ollicio ainda em ])orteiro das casas 
religiosas da Companhia, era nuiilo estimado do 
iuianie D. Luiz, do cardeal D. !lriui(|uo, e lam- 
bem (lo'du(|ue de Areiro, que comtudo não ti- 
veram força* de o arredar d'at|uella occupação 
na ([uaI morreu, e que foi realmente alumiado 



o PANORAMA. 



9& 



com o espirito de prophecia, não sabendo ler, 
nem escrever ; c que conheceu muitos contin- 
gentes futuros, entre os quaes se designam a 
grande peste que assolou o reino, a perda de 
D. Sebastião, c a entrada dos castdiíanos. 

Também n'esta egreja teve sepultura o padre 
mestre Simão Rodrigues, que foi, como se viu no 
principio d'esta nossa Chronica, um dos compa- 
iilieiros de Santo Tgnacio, e o fundador da Pro- 
viucia em Portugal, tendo também depois a Pro- 
\ incia do Aragão quando se dividiu da de Cas- 
tella. Os seus ossos estavam soterrados atraz 
de uma pedra branca de dois palmos cm qua- 
dro junto á porta por onde se entra na via sa- 
cra, do lado da capellinha da Trindade, saindo 
yd do corpo da cgreja, e entrando no cruzeiro ; 
porem no anuo de 1705 se liie lueliiorou a se- 
pultura substituindo o mármore branco por ou- 
tro preto com molduras que guarnecem outro 
amarelio, e lauçando-se-llie a mesma inscripção 
í|ue tivera a primeira. 

Na via sacra passando da egreja para a sa- 
christia fez levantar D. Francisco de Bragança 
um altar com seu retabolo de talha doirada, re- 
presentando no painel a Annuuciação da Senho- 
ra, e na frente d'esta capellinha umas grades de 
pau santo, c nos lados da via sacra alguns pai- 
néis com passos da vida da Senhora. Xo mes- 
mo pavimento foi soterrado, declarando-se na 
inscripção da campa ([uc era de pedra branca, 
ser elle sacerdote do conselho dos reis deste 
reino, e ter fabricado aquella capella e altar. 
Era neto do duque D. Jaynie, primo coirmão de 
el-rei D. João in. 

Fronteira a este altar fica a porta com passa- 
gem para os corredores da casa ; e outra porta 
a um lado da via sacra, dá entrada para a sa- 
christia, da qual mais adiante também fallare- 
mos. 

Tratando das antigas capellas dos Martyrcs e 
Santas Virgens, falíamos do thesouro de reliquias 
que n'ellas se expunham. Aqui damos uma re- 
lação não só das que foram doadas á casa de 
S. Roque por D. João de Borja, mas egualmen- 
te das que a mesma casa já anteriormente pos- 
suia, segumio consta da Chronica manuscrip- 
ta a que nos reportamos, e da relação dos fes- 
tejos com que as reliquias se receberam, escrip- 
ta pelo licenceado Manuel de Campos. Esta no- 
ta servirá para se comparar com as que se en- 
contraram u'esta egreja ha poucos annos, pro- 
\ando-se assim estarem muito desfalcadas. 

Na capella dos Santos Martyres eram as se- 
guintes : 

Quatro meios corpos de prata com as cabe- 
ças de 

S. Gregório, Thaumaturgo. bispo confes.sor ; 
S. Clemente, bispo e martyr; 
S. Yidasto, bispo de Aries, confessor; 
S. Chrisanto, bispo de Basiléa. 

O Santo Sudário, pintado em tafetá branco, 
que foi tirado pelo próprio, que está cm Turim, 



e o houve D. João de Borja. por meio da im- 
peratriz. 

Uma cabeça dos Santos thebanos, companhei- 
ros de S. Maurício. 

Seis l)raços de prata, com reliquias dos San- 
tos seguintes : 

S. João, Esmoler ; 

S. Sebastião, martyr ; 

Santo Anlonio, de Pádua ; 

S. Roque, confessor ; 

S. diriam, martyr ; 

S. Optoni, bispo. 

Onze braços de pau doirados, c estofados, dos- 
Santos seguintes : 

Santo Estevão, papa, mart\r; 

S. João, e S. Paulo, martyres ; 

S. Mauro, e .\.udiface, martyres ; 

S. Ciirispim, martyr ; 

Santissimos Martyres de Treviris. 

Mais cinco braços de outros Santos Martyres; 
entre elles S. Gereão, martyr, capitão da com- 
panhia de S. Mauricio. 

Uma Custodia de prata, que tem dois anjos 
que a sustentam ; tem duas cruzes do Santo Le- 
nho, com doze repartimentos, em que estão as 
reliquias de Santos Inuoceutes, S. Coloniano M. , 
S. Acasio M., S. Floriano M., S. Usualdo rei, 
S. Cândido duque, S. Eleuterio M. , S. Procopio 
A])b., S. Gil Abb., Santo Albano M. 

A cruz de prata pequena, que tom o pé qua- 
drado com engastes redondos, e lettreiros das re- 
liquias de Christo Senhor Nosso, da Virgem Se- 
nhora, dos Apóstolos, e outros Santos. Especi- 
ficando estas reliquias, vem a ser: — Uma cruz 
do Sagrado Lenlio ; da toalha da mesa do Se- 
nhor ; da túnica interior da Virgem Maria ; de 
S. João Baptista : — dos Apóstolos e Evungelis- 
tas, S. Pedro, S. Paulo, Santo André, S. Thiago 
maior, S. Filippe c S. Thiago, S. Bartholfuaeu, 
S. Thomé, S. Matheus, S. Malhias, S. Barnabé, 
S. Thadeu, S. Marcos Evangelista: — dos .¥«/•- 
tjjres. Santo Estevão, S. Lourenço, S. Vicente 
(um pedaço de queixo com dois dentes), S. Gre- 
gório, S. Sebastião, Santos Cosme e Damião, 
S. Christovão, S. Venceslau, S. Erasmo: — S. 
Gregório papa. Santo Agostinho, S. Jeronymo, 
Santo Ambrósio, S. Domingos, S. Bento ahbade, 
S. Bernardo ahbade, S. Gregório bispo, S. Ni- 
colau bispo : — das Virgens MarUjres, Santa Eu- 
femia, Santa Ignez, Santa Barbara, Santa Apo- 
lónia, Santa Christina, Santa Cordula, Santa Ca- 
thariua. Santa Luzia, Santa Dorothea: — e das 
Sanius Maria Magdalena, Isabel viuva, Maria 
.Salomé, Pliotina ((jue dizem ser a Samaritana), 
Afra, Elvira, Maria Egypciaca, Helena impera- 
triz, e Anua, mãe de Nossa Senhora. 

Uma cruz de prata de três palmos de alta, la- 
vrada, tendo d'um lado Nossa Senhora e do ou- 
tro um Crucifixo. 

Uma columua de prata, de dois palmos de al- 
ta, que tem a relíquia de S. Lúcio, papa e mar- 
tyr. 

Continua. F. D. d'.\.lmeida e Ar.vujo. 



96 



O PANORAMA. 



VINGANÇA POR VINGANÇA. 

Continuação. 
IV 

SAMUEL. 

Logo adiante do Postigo do Carvão, a que vui- 
garmcutc se chamava o Arco do Espinho, c pelo 
qual se passava para a Tanoaria c Fundirão, 
appcllidada a Ferraria pequena, era a casa do 
mercador Samuel, chrisíão novo, da extracção 
dos judeus que el-rei D. Manuel, no século xvi, 
arrancara a seus pães para serem educados na 
religião de Ciiristo. 

A posição da casa de Samuel era adrede ta- 
lhada para o mester cm que se empregava : c 
realracnlc com esses intentos clle a havia esco- 
lhido. Próxima á Fundição e á Tanoaria, tinha 
mesmo á mão os ofiicios com que mais tratava 
os seus negócios de ferro, tanto novo como ve- 
lho, que para este ultimo, além do que compra- 
va sizado, trazia no inverno uns poucos de ra- 
pazes á gandaia, apanhando nas enxurradas o 
que «stas traziam d'involta. Como do mesmo 
Arco do Espinho (que por signal tinha seu por- 
tal de pedra lavrada como qualquer das outras 
portas antigas, e duas cabeças de pedra, uma 
de homem e outra de mulher) não se distanciava 
muito o Tronco, ahi fazia elle também seus ne- 
gócios, pois conhecia todos os presos de então, 
e sabia-lhes as manhas e artes para que eram 
tons, não se esquecendo de continuar as rela- 
ções de amisade, quando os desembargadores 
de el-rei soltavam algum. Negociava também 
em pannos de fora do reino ; em canclla, em 
cravo, pimenta, e outras especiarias da Índia e 
dos Brazis. Mas devemos dizer que a maior par- 
te d'estes negócios eram feitos a occultas, e por 
intervenção de outras pessoas, que o único lici- 
to, e porque entrava em corporação, era o de 
mercador. 

Comtudo SC Samuel sizava aos direitos e fa- 
zenda de el-rei negociando muito em contraban- 
do, e não escrupulisava em dar grandes sommas 
á onzena, e comprar valores (lue bem conhecia 
não provirem de origem pura, não era capaz de 
faltar um dia á missa na capella real de S. Tho- 
mé, edificada por el-rei D. Manuel no seu palá- 
cio da Ribeira, e isto para impor de bom chris- 
tão ás pessoas da corte, de quem ambicionava 
créditos, com medo da inquisição, que ali no 
palácio dos Estaos, ao Rocio, (juc antigamen- 
te servira de hospedagem para os embaixadores, 
tinha o seu tribunal e cárceres. 

Até se dizia que Samuel tivera pretenções a 
uma nomeação de familiar do .«anlo oCficio, c que 
desistira por não poder apresentar certos papeis 
cm regra, nos quaes provasse que por tantas as- 
cendências era christão velho. Se o não conse- 
guira porém, soubera ganhar as boas amisades 
dos padres de S. Domingos, (o que era meio ca- 



minho andado para se forrar ás inquirições do 
santo tribunal) acudindo com algumas sommas 
não só ás urgências particulares de alguns frades 
quando tinham de dotar irmã ou parenta, que 
n'isto eram ellcs muito oíTiciosos, mas também 
ás do convento, bem entendido que nunca do 
seu, como elle dizia, porque o não tinha, mas 
alcançado por credito entre os da sua corpora- 
ção. 

Não se descuidava também de quando em 
quando o bom Samuel d'algum donativo para a 
egreja de S. Domingos, como por exemplo uma 
peça de finíssima cambraia para toalhas do al- 
tar e corporaes, ou de preciosíssimas rendas de 
Flandres para o sumptuoso templo de Nossa Se- 
nhora da Escada, ali junto a S. Domingos, e que 
era também capella real. 

Dos donativos que todos os annos fazia ao 
nospiíal de Todos os Santos, isso então não fat- 
iemos. Assim era que o seu credito subia de 
dia para dia entre os physicos e padres Camil- 
los que tinham o mesmo Hospital a seu cargo. 

Costumava dizer elle, com uma ardente cari- 
datle, ([uando lhe agradeciam estes donativos : 
— «De Deus me vem, e para Deus volta. Para 
mim não quero mais que o necessário á vida : o 
resto c dos pobres que são os herdeiros do que 
morreu nu sobre a cruz para nos salvar pelos in- 
finitos merecimentos da sua misericórdia.» 

Fon d'estas esmolas, no que realmente mais 
entrava o calculo do que a caridade, nenhuma 
viuva, orphão, ou pobre lhe arrancava um cei- 
til. Dizia elle que Deus o livrasse de animar a 
ociosidade ; porém a verdade era, que taes es- 
molas dadas a occultas não tinham o mérito da 
publicidade, que lhe fazia render os cem por um 
com que Deus retribue, segundo o texto sagra- 
do, áquelle que dá a Deus. 

Os seus principies de fé commercial levava-os 
publicamente ao ponto que já vimos com o re- 
vendão Vaz Gil. 

Também uma vez por semana tinha de costume 
andar de noite com sua alcofa, ao peditório pa- 
ra a Misericórdia, que estava a.ssentada n'essa 
época junto ao postigo da rua das Canastras, 
ou Porta do Mar Antiga, á qual correspondia a 
porta travessa da mesma egreja da Misericórdia. 

Temos o retrato moral do mercador Samuel. 
Agora é necessário descrever-lhe também o phy- 
sico, porque de ordinário ha uma tal connexão 
entre ambos que muitas vezes um nos induz a 
suspeitar do outro. Não sabemos se a força de 
uma idéa, actuando constantemente no homem, 
chega por lim a moldar por cila esse typo ca- 
racterístico, de que os pintores se aproveitam 
j)ara retratar com o pincel o sentimento espiri- 
tual que não tem forma para se reproduzir; mas 
o facto é que nas feições do avarento sobresaem 
logo os toques d'este vicio ; nos ademancs, ges- 
tos c falias do velhaco se lhe descobre a tenção 
reservada de enganar e illudir; nos olhos do li- 
bidinoso SC lhe adivinham os desejos d'a!ma. 

A sua ligura esquálida e QSfiuda, repuguautc 



o PANORAMA. 



99 




CASA ÍO COBREIO EM S. PETEUSBOURG. 



á vista pela curva desproporcional da espinha 
dorsal que o fazia pender demasiadamente para 
diante, não erguendo nunca a vista, nem mes- 
mo para a peísoa com quem fallava, iilumina- 
ra-se com uma expressão mais hedionda quan- 
do a cubica lhe fazia scintillar os pequeninos 
olhos, forrados de uma orla vermelha, e tão es- 
condidos pela cara dentro, que custava a dis- 
tinguir-lh'os. O nariz, grande e bastante aver- 
melhado na ponta, era o que mais lhe sobre- 
saía no rosto, e uma bocca rasgada e contor- 
nada por grossos lábios, parecia talhada para 
dar saída a falias volumosas c rijas ; mas não 
era assim, porque ninguém se lembrava de lhe 
ouvir palavras que chegassem á diapsão natu- 
ral, tão mansamente fallava, c tão brandas eram 
as suas vozes. 

São dez horas da noite do dia 5 de Janeiro, 
e a esta hora vamos encontrar Samuel saindo 
de casa ao Arco do Espinho, e dando volta por 
um becco escuso, que licava na trazeira da sua 
habitação, bater n'uuia porta tão velha c carun- 
chosa, que parecia impossível servir ainda de 
guarda a qualquer habitação. 

Nem uma única luz se via por entre as adu- 
fâs das poucas e raras moradas d'aquelle becco. 
A escuridão era por este motivo tão completa, 
que muita pratica se precisava, e muito conhe- 
cimento do sitio, para acertar com a casa que 
se buscava. 

Quem d'esta fosse o morador não o sabiam os 
visinhos, pois não havia noticia de se ter visto 
alguém ali de dia. Dizia-se que saía diariamea- 



te um pouco antes de alvorecer, c nunca se re~ 
colhia senão por noite bem adiantada. 

Sobre seu emprego corriam varias versões. 
Fallavam uns em que se oceupava nos traba- 
lhos da casa de um lidalgo cujo nome se não 
citava ; outros, que era empregado no tribunal 
da inquisição, e que linha a seu cargo a guarda 
de vários cárceres onde mais cuidadosamente se 
encerravam os convictos de heresia até lhes che- 
gar a hora do auto da fe. Esta crença, que era 
a mais geral, defendia aquella poisada de uma 
indiscreta curiosidade ; o que servia á maravilha 
os desígnios do seu habitador. Outros tomaram 
a casa por habitação de um feiticeiro ; e alguns 
rapazes chegavam mesmo a certificar terem vis- 
to algumas vezes, já de noite, sair uma chamma 
muito viva c azulada, depois de negros turbi- 
lhões de fumo, por um buraco que havia na pa- 
rede, o que necessariamente não podia deixar da 
ser a prova de que o feiticeiro se entregava aos 
seus sortilégios. 

O facto era que nunca de dia se vira niu- 
guera bater áquella porta ; e que somente uma 
vez por semana, c sempre em noites desencon- 
tradas, se ouvia ali um coufuso ruído de vozes, 
como de gente que altercava, e ás vezes até ho- 
ras bem avançadas. 

Tudo isto dera ao principio muito que scismar 
á visinhança ; mas por fim o habito venceu a cu- 
riosidade, e na época que historiamos já ninguém 
fallava d'aquella mysteriosa casa, da qual com- 
tudo se afastavam coiu um terror supersticioso. 

Continua, k. 



98 



O PANORAMA. 



OBSCIRIDADES NA PRIMITIVA 
HISTORIA DA LUSITÂNIA. 

Quem pode hoje, lanranilo olhos sobre a car- 
ia gcographica de 1'ortugal, marcar com preci- 
são os pontos onde es primitivos iiabitadorc; 
cdilicarani as snas cidades? Qnera pode im- 
laergindo vistas prescrutadoras por entre as tre- 
vas do passado, coutar uma por uma todas as 
gerações e raças de liomens, que successivaraen- 
le se" foram s*eguindo até chegarmos ao ponto 
de nos constituir em monarchia? Quem pode 
allirmar ([ue o nome do canto da Europa que 
habitamos fosse primitivamente esle ou aciuel- 
le, e não tivesse também passado como os lio- 
mens por successivas modilicações, até se fixar 
110 de Lusitânia com que chegou ao nosso co- 
nhecimento? 

Ninguém ; e não venha d'ahi o mais presu- 
mido de saber antiguidades, e profundar ar- 
cheologias, quercr-se-nos impor com a sua 
scieiícia. Famoso foi Hercules nas viagens c tra- 
balhos por esta parte do mundo, c não se aven- 
turou a passar para cá do estreito de Gibral- 
tar : deu-se por satisfeito de assentar abi as ba- 
lisas (lue marcavam o fermo das suas peregri- 
nações, e voltando costas á terra que lhe fica- 
va"mais occidental, enganou os geographos con- 
temporâneos com o famoso rotulo do noii phts 
ultra, ([ue assentou no marco das suas trabalho- 
sas lides. Não foi terra que lhe faltou onde 
podesse saciar o furor tourisla : foi mingua de 
animo, por não dizer fraqueza. 

Não depõe muito em pirol dos conhecimentos 
geogiaphicos d'esta fabulada divindade o receiar 
aventurar-se mais longe. Os nossos primitivos 
povos deviam ser bárbaros, e os nossos matlos 
podiam crear liydras. Ate seria próprio da sua 
grande curiosidade desenganar-se pelo teste- 
munho dos olhos se cá existia oulro celebra- 
do jardim das Hespérides cujas arvores produ- 
:iiani pomos de oiro. Para nós era forte a tenta- 
ção de acreditar na mythologia, se nos não dis- 
-sesseni (jue foi da China que vieram as primei- 
ras laranjas (jue lisemos na Península. .V não 
ser csíe peque.110 inconveniente, que logo faria 
conhecer um erro na chronologia, acccitavamos 
de bom grado a poesia d'este primor de flori- 
cultura com os seus temerosos dragões que não 
dci\a\am aproximar á arvore tentadora ; pori[ue 
realmente o nosso clima, com os seus odoríferos 
])oniares de laranjeiras, podia mui bem escan- 
decer a romântica imaginação de um fabulisla, 
que nos fizesse o presente de assentar aqui o 
lormo.so Éden da mythologia greco-romana. O 
[leior são as datas. 

Mas (luem sabe, poderá dizer-nos algum es- 
perto anti<iuario, se Baccho que andou lá pelas 
índias, c veiu também a estas jiaragens da 
Hespanha, visitou a China, c d'ahi nos tronxe 
o mimoso presente das laranjeiras ! Não admi- 
raria, responderemos, (jue tão bom amador das 
coisas boas, — o primeiro mestre de plantar, 



empar, e amanhar a vinha, e que é fama n'esle 
ponto lançou a barra a Noé — \iesse lambem 
carregado com pes de laranjeiras comoquabiuer 
horticullor francez ou belga, d'estes que nos hon- 
ram lodos os annos com a sua visita : mas aqui 
entra a nossa duvida, se Baccho andou cá pela 
terra primeiro que os fabulislas lobrigassem o 
jardim dns Hespérides, ponio ([ue na historia 
não eslá lá muito claro. Nós dccidimo-nos pela 
crcação do jardim antes de haverem as divin- 
dades de segunda ordem, mesmo por que o deus 
cm chefe devia querer que as divindades pere- 
grinadoras achassem cá na terra coisas dignas 
d'ellas ; portanto, temos segunda vez a chrono- 
logia pela proa, e por isso hãode permiltir-nos 
que continuemos a du\idar. 

E que não teremos também de dizer da via- 
gem do manhoso Llysses á nossa formosa Lis- 
boa, durante a longa peregrinação que por tan- 
tos ânuos o furtou aos braços da sua lidelissi- 
ma Penélope? A honra é mui grande para a 
acceilar, lembrando-nos que o bom do rei da 
Grécia, que andava corrido pelos temporaes, e 
almejando por voltar á cara pátria, d'onde os 
enredos de Circe o traziam tão arredado, se oc- 
cupasse em fundar cidades e estabelecer coló- 
nias, quando depois de tantos trabalhos de uma 
rude navegação, e tamanhos naufrágios, havia 
necessariamente carecer de gente para a nia- 
reação das suas naus, com as (juaes era de sup- 
por quizesse chegar a Ithaca. 

E da viagem de Tubal ! De certo que rauito 
teve de peregrinar o dcscendenle de Noé, pon- 
do-se a caminho bi das visinbanças do monte 
Ararat, onde poisou a arca salvadora do uni- 
versal diluvio, — e que portanto devia ser o 
primeiro assento d'aquella geração que saiu in- 
cólume do cataclysmo — para chegar aqui á 
embocadura do Sado a levantar uma cidade ! 
Viajante famoso, que naturalmente vinha de 
passeio encostado ao seu bordão, admirando as 
formosas paisagens por onde atravessava, não 
encontraria sitio mais encantador para fixar a 
sua residência antes de cá chegar? Coitado do 
pobre Tubal ! que de noites inclementes não 
passaria em Ião longa jornada, sem poisadas 
pelo caminho onde se abrigasse da inclemência 
das estações ! que soes tão ardentes não lhe 
torrariam o corpo n'esta estirada peregrinação, 
se porventura os montes e os valles que atr^a- 
vessava não estivessem bordados por copadas 
e frondentes arvores que lhe sombreassem o ca- 
minho ! A gloria de levar a cabo a empresa de 
vir cá mimosear-nos com uma cidade, não ó 
muito para invejar, ainda mesmo mcttendo em 
linha de conta os liui.ssimos gorgcios que pelo 
caminho l!ie descamariam as avesinhas para o 
enlretcr, e as lindas auroras <iue gos;iria atra- 
vessando as altas serras e cordilheiras da Eu- 



ropa . 



tubal, porém, não veiu por lerra. Pois bem; 
porijue veiu cá tão longe, (|uando tinha lá mais 
uroximo oor onde se uccommodar? Eallavam- 



proximo por 



o PANORAMA. 



9» 



lhe porlos no Mediterrâneo, mais tentadores 
que o da entrada do Sado? De certo i]ue não. 
Agora nos Ieml)ra : talvez que Tubal fosse fa- 
moso pirata daqnellas eras, c abicasse pelo es- 
treito fugindo a um outro navegante que lhe 
desse eara, e viesse cá pòr-se a seguro. Sendo 
assim não honra muito a origem da fundação. 
Verdade é (pie os principios de Roma se cou- 
tam por dois engeitadinhos lançados ao despre- 
so sobre o Tibre, e Ronui foi a cabeça de um 
grande poder temporal, c ainda hoje o é de uma 
{irande communhão espiritual. Que tem isso? 
Roma soube resgatar-se das facinorosas empre- 
sas de Rómulo pelos arrojados commellimeutos 
dos seus soldados conciuisladores : Setúbal dei- 
xou-sc descair de cidade em villa. 

Devaneios poderão chamar os apaixonados das 
origens fabulosas a esta nossa descrença. Per- 
mittimos-lho ; mas também hãode consentir que 
pela nossa parle não prestemos credito a ne- 
nhuma destas fabulas, .\ssim ficamos quites, 
liagamio liberdade de opinião com a mesma li- 
berdade. Temos por nós a razão e o racio- 
finio para nos ajudarem a duvidar : por si 
tem uma cega credulidade, o que quasi sempre 
induz ao erro. Remontando até aos celtas ou 
iberos ainda lhes prestaremos fé; recuar mais 
além já nos não é possível, bem como nos re- 
pugna acceitar muitas das fabulas urdidas de- 
pois d'elles. Se até nem se pode fixar o ponto 
d'onde vieram estes povoadores da Lusitânia ! 

Quer fosse pela sua vida selvagem, quer pe- 
la rudeza dos costumes, a obscuridade é com- 
pleta relativamente a estes povos. A historia 
unicamente principia a aclarar-se com a do- 
minação carthagineza ; porque então já os his- 
toriadores romanos nos faliam d'estes povos in- 
domáveis e heróicos, que com as tropas de Car- 
thago passaram os Alpes, e penetraram na Itá- 
lia com Annibal. O Tessino viu a sua appari- 
ção quando ahi foi derrotado o cônsul Cornelio 
Scipião : em Trebias afugentaram Serapronic 
Longo; no lago Trasimeno desbarataram a Caio 
Flaminio, e na famosa batalha de Cannas, em 
que se mediram a alqueires os anneis dos ca- 
valleiros romanos, os lusitanos combateram ao 
lado dos carthaginezes. 

Depois, como era natural, derrotada Cartha- 
go, as suas colónias e as suas conquistas pas- 
sar?.m paara o poder da rival vencedora. A Lu- 
sitânia foi romana, como tinha sido carthagine- 
za. E verdade que lutou por se subtrahir ao 
dominio, porém vencida n'essa luta, que inces- 
santemente se renovava, cedeu finalmente á fe- 
liz espada de Júlio César, para seguir depois a 
sorte varia do império, e receber sem custo, ja 
desmoralisada pela devassidão romana, as leis 
c os costume* dos bárbaros vencedores da alti- 
va senhora do mundo. 



Se a egualdade de condições é uma utopia, 
a egualdade da lei é uma necessidade social. 



ESTUDOS SORRE A HISTORIA SAGRADA. 

Conclusão. 

AlTORIDADE DOS \ KI.IIOS. 

A autoridade dos anciãos era grande entre os 
israelitas. Entre os \ olhos era que especialmen- 
te se escolhiam os juizes e conselheiros de esta- 
do. Quando os hebreus principiaram a formar 
um povo, foram governados pelos anciãos; e no- 
ta-se na Escriptura. (juando trata das asscmbléas 
e negócios públicos, <iue os anciãos vem sempre 
collocados na primeira linha, quando não são 
elles os únicos mencionados. 

Para se calcular a edadc em que os hebreus 
contavam a ancianidade, basta reparar na Es- 
criptura quando chama mancebos áquelles cujo 
conselho Roboão seguiu. Ora diz o livro santo, 
<iue haxiam sido cieados com -lie; do que se 
deve concluir, que, andando pela mesma edade, 
tinham então quarenta annos. 

ADMlMSTliVÇVO DA JLSTIÇV. 

Os cargos da justiça davam-se aos levitas, aos 
sacerdotes, aos chefes de familia, que todos el- 
les, pelo seu caracter c edade, podiam exercer 
cora integridade estas funcções. 

Os juizes das cidades particulares eram em 
numero de vinte e três. Deviam reunir-se todos 
para as sentenças de morte, c para as causas 
particulares e negócios de menor monta basta- 
vam três. Quando eram mui dilliceis as questões 
apresentadas nos seus tribunaes eram devolvi- 
das ao senado de Jerusalém. Este compunha-se 
de setenta anciãos, presididos pelo sumrao pon- 
tífice. 

Ordinariamente o logar das sessões dos juizes 
era á porta das cidades : porque sendo os he- 
breus mui laboriosos, saindo de manhã para o 
trabalho, e regressando á tarde, por isso a por- 
ta da cidade era o sitio onde mais se encontra- 
vam ; e os juizes sentenceavam em presença de 
toda a assembléa. 

Como a lei de Deus regulava tanto os negó- 
cios temporaes como os da religião, não havia 
distincção entre os tribunaes: os mesmos juizes 
decidiam os casos de consciência, e terminavam 
os processos civis e criminaes. 

Uma sentença de morte era dada com escru- 
pulosa attenção. Os crimes em que ellas recaiam 
especialmente eram o homicidio voluntário e pre- 
meditado, o adultério, a blasphemia, e testemu- 
nho falso quando por elle morria algum inno- 
ceute ; ponpie entre os israelitas guardava-se 
escrupulosamente a pena de talião. 

Quando acontecia a alguém matar involunta- 
riamente um homem, ia logo procurar asylo n'al- 
guma das cidades para isso destinadas, e que 
se chamavam cidades de refugio. O autor da 
morte involuntária não podia ser perseguido ali 
pelos parentes do morto ; e demorava-se no re- 



so 



o PANORAMA. 



fugio até se acabar o processo, e provar-sc a sua 
innocencia. 

Aos siippliciados, para lhes tlimimiir a sensa- 
ção da dôr, dava-sc-llies a licber vinho mistu- 
íado cora incenso, mynha, e outras drogas for- 
tes que entorpeciam os sentidos. Os supplicios 
mais usados eram a cruz, a suspensão por meio 
de corda ou forca, a lapidação, o fogo, a serra, 
o azorraguc e a prisão. Algumas vezes eram os 
criminosos passados por baixo de um cylindro 
ou rodas armadas de navalhas ; ou precipitados 
de um rochedo; mettiam-n'os em torres atulha- 
das de cinzas ; martyrisavam-n'os com espinhos 
ou os faziam pisar pelas patas dos cavallos; ar- 
rancavam-Uies os olhos ; estendiam-n'os no ca- 
A'allete ; arrancavam-Ihes os cabellos, alem de 
outros supplicios ainda mais cruéis, mais sug- 
£:cridos pela barbaridade, do que ordenados pe- 
las leis. 



Todos os israelitas, sem exceptuar os levitas 
e sacerdotes, eram obrigados a pegar em armas 
quando havia guerra. Por isso os soldados con- 
tavam-se por aquelles que tinham edade de ser- 
Tir. Esta lixava-sc nos vinte anhos para cima. 
Corriam ás armas logo ao primeiro aviso, e as- 
í»ini encantrava-se o príncipe com tropas nume- 
rosas, e tanto mais próprias para os exercícios 
militares, por isso que se compunham de lavra- 
dores e pastores, costumados desde a juventude 
á fadiga e ao trabalho. 

Marchavam ao som de trombetas, cada um na 
sua tribu, que se dividia por companhias, com 
um capitão e ofliciaes para a conduzirem. 

Não era diflicil aos israelitas vitualhar os seus 
exércitos ; porque os inimigos de ordinário eram 
mui próximos, e o paiz tão pequeno, que mui 
las vezes vinham dormir a casa. A marcha era 
de uma, a duas jornadas. 

As armas ollensivas eram a espada, larga c 
curta que andava pendente sobre a coxa ; o ar- 
co e as flechas, os dardos e as lanças, e a funda, 
da qual se serviam com muita destreza. Muitos 
combatiam com ambas as mãos, o que provava 
grande exercício. Nos combates serviam-se de 
carroças, cujas rodas eram guarnecidas com pon- 
tas de ferro, c dentro delias iam um, ou dois 
homens. Precipitavam estas carroças sobre o ini- 
migo, mettendo a confusão entre as suas fileiras 
e batalhões. 

As armas defensivas eram o escudo, o capa- 
cete, e a coiraça. 

Nunca usavam armas, nem mesmo espada, se- 
não cm tempo de guerra. 

Os israelitas não tiveram cavallaria .scjião no 
tempo dos reis. lístimavam muito o saco e os 
despojos. Estes eram dislinctivos de honra. 

tjuando se dispunham a sitiar uma cidade, 
oftereciam-lhe a paz antes de romperem as hos- 
tiiidadeg. Se a cidade acceitava as condições pro- 
postas fazia-sc tributaria ; se as recusava e re- 



solvia repellir a força pela força, depois de to- 
mada passavam-se todos os varões á espada, 
poupando-se unicamente as mulheres e as crean- 
ças. 

DOS BEIS. 

Os reis tinham direito de vida c morte', e po- 
diam fazer morrer os criminosos mesmo sem as 
formalidades da justiça. Lançavam tributos a seu 
aprasimento; reuniam o povo quando entendiam 
conveniente, e tinham sempre prompto um cer- 
to numero de tropas. Afora isto o seu poder era 
muito limitado. Obrigados á observância da lei, 
como qualquer particular, não a podiam dero- 
gar, nem accrescentar. Não ha exemplo de ne- 
nhum d"elles fazer lei nova. 

Apenas subiam ao throno, os sacerdotes da- 
vam-lhe uma copia do Deuteronomio, o qual era 
obrigado a fazer transcrever para seu uso, e a 
lèl-a amiudadas vezes para aprender a lei do 
Senhor, e as santas ordenanças. 

Os reis eram os primeiros e os soberanos ma- 
gistrados do seu povo, ao qual muitas rezes el- 
les próprios administraTam justiça. Na vida do- 
mestica eram mui simples, c ainda que appare- 
ciam em publico muito acompanhados, o servi- 
ço interno do palácio era feito por mulheres. 

SYNAGOGAS. 

Além do templo de Jerusalém, havia nas ou- 
tras cidades logares consagrados ao serviço di- 
vino, que se chamavam Synaijofjas, ou casas de 
assembléa. Na Synagoga orava-se, lia-se a Es- 
criptura sagrada, e prcgava-se. O povo concor- 
ria a ellas três vezes por semana, não contando 
os dias festivos e de jejuns. Cada Synagoga ti- 
nha um certo numero de ministros, encarrega- 
dos dos exercícios religiosos que deviam desem- 
penhar. Deviam ser sacerdotes e levitas ; porém 
á falta d'estes cscolhiam-se os anciãos mais au- 
torisados por sua edade e virtudes. 

A. 



ORDEM DA ÁGUIA BRANCA NA POLÓNIA. 

Foi instituída em 132o pelo rei Uladisiau v, 
no casamento de seu filho Casimiro o Grande, 
com a lilha do duque da Lithuania. 

Im ninho de águias, achado pelos primeiros 
reis da Polónia, quando tratavam dos fundamen- 
tos da cidade de Guesne, foi a origem de se to- 
mar a águia por insígnia da dita ordem. 

O seu collar era uma cadèa de oiro, da qual 
pendia a ligura de uma águia, coroada de prat<i. 



O homem com razão recusa subjeilar-se ao 
despotismo dos reis ; mas subjeila-sc, como vil 
escravo, ao império das paixões. 



!l 



o PANORAMA. 



SI 



,,-r"';'''Ti-r!:ii;ll1I!llllllI'll!ITl:''l"ll!!nr'l'!!'':'"llli 

I "I-IIIHII!! 




'•'í'Í!Íi!,Í!ll!:i,lii!H:!.|!lÍiÍ!l! 

VOl. I. — 4.'SE1«E. 



MABÇO, lí, 1837. 



»9 



O PANORAMA. 



S. BASÍLIO EM MOSCO W. 

Próximo da porta santa do Kremlin esta a ca- 
thedral de S. Ba.silio ; só a urciíiteclura íjoíhica 
em seus caprichos mais extravagantes é compa- 
rável a esta primaz ilas egrejas russas. Está si- 
tuada na praça denominada Vermelha ; apresen- 
ta vinte torres e cúpulas, todas do dificrentes 
formas c lamauiios, c pintadas do (puintas cores 
podem imagina r-se. 

Historiadores ha que aiBrraam que foi cons- 
truida para commemorar a tomada de Kazan ; 
outros dizem que foi obra de uma phantasia do 
czar Ivan o terrível, ordenando (}ue n'unia só 
fabrica e sob o teclo geral a todas se erigissem 
muitas e separadas capellas, e de mòcTo que os 
cilícios divinos se celÈbrasscm ri'ellas simulta- 
neamente e sem dependência límas das outras. 

N'esle caprichoso agrapameato a torre que so- 
brepuja as demais tem cento eincoenta e seis pés 
de altura, e denomina-se o seu recinto o tem- 
plo de Santa Maria Protectora. Todos os orna- 
tos de architectura tanto 'internos como exterio- 
res são de invenção irregular e parecem mais 
obra do acaso do que de systema combinado, ; 
mas a sua profusão, a riqueza dos materiaes, c 
mais que tudo a variedade não deixam de cap- 
tivar por momentos a atlenção do estrangeiro, 
que prompto se desengana da falta da arte c da 
enormidade e aleijões de todo aquelle conjunto, 
embora custoso no despendio, mas di\spro\ido 
das qualidades (jue o gosto artístico nota e apre- 
cia. M. 



ESPANTOSA íNUNDâCÃO DE MAR. 



I 



• De iiiílanU' a instaníe, as ondas agilaJ .,-. 
Umas sobre outras, com furor rebentani, 
E quaes medonhas bombas rcracçadas 
Por Inimiga mão, ludo amedriíntani.» 
Gii.u.is. 

O anno ISTs!) aproxíma-se do seu termo sem 
que na ilha de Sau-Míguel, a primeira dos Aço- 
res, se tenha experimentado inlcmperie de es- 
tações, rigor do inverno (jue já era começado, 
c que muitas ^ezes se mostrava intratável. 

Chega o principio de Dezembro, e não pode 
prescntír o espantoso caso que está iuiniinento. 

No segundo dia d'esse mez, corre na cidade 
de Ponta-delgada um forte e insoRrivel nordes- 
te: continua por toda a noite seguinte, e só ter- 
mina í'oiii a manhã do dia 3, (jue desponta se- 
reno, c nem por sombras pres:iL'ia sucí'essos pe- 
rigosos. 

O quarto dia apparecj ^o;w,..c;ido c. toldado. 
Correm ventanias de leste c Icssuestc ; o mar 
braveja descoi-iposto. E o precursor da cataslro- 
phe — e o primeiro grito da tempestade! 

A noite ante o dia '■> foi de chuva modera- 
da, que, loraando-se forte e copiosa por iator- 



vallos, lindou pelas oito horas da manhã. Con- 
tinuaram porém sempre rijos o.s \eiiios predomi- 
nantes durante a noite, e começou então o te- 
mor das vagas que cresciam com jirodigio, e da 
maré que ia na sua enchente. 

É espectáculo aterrador ver o oceano inves- 
tir com praias indefesas — o elemento solido a 
arruinar-se, a succumbir ! Montanhosos vaga- 
lhões varrem toda a ancoragem — as infelizes em- 
barcações, que ainda jazem na abra, sacode-as 
soberbo iinpeto ! 

xis oito horas e meia da manhã torce o ven- 
to a oesle e noroeste. D'ahi cursa meia hora, e 
abranda perto das nove. Entretanto o entumeci- 
mento das ondas recresce, arremessando-se des- 
apiedadamente sobre os limilrophes da cidade, 
e pontos mais haixos da costa meridional da ilhal 

Então começaram a amotinar-se temerosos os 
habitantes da cidade, e dos logares ameaçados. 
±\.s vagíis furibundas batem fortemente as costas, 
e principiam uma eversão lastimosa e pungente ! 
Pelas dez horas a maré tem chegado ao seu mais 
admirável crescimento. Quatorze pés subiu a en- 
chente a.ssustadora ! (1) 

O painel que pelo meio do dia apresenta a ci- 
dade assaltada de um inimigo tão poderoso, se- 
ria grand^ ousadia querer esboçal-o. Digam-no 
tantos corações afilictos — os pobres esbulhados 
de seu mais precioso possuir, a afumada habi- 
tação — os lamentos de tantas vicíimas, em um 
abrir e cerrar (folhos condenniadas á miséria, 
vendo suniir-se no insondável abysmo do ocea- 
no toda n •^ua fortuna, todos os seus teres, per- 
didos sem esperança — diga-o toda uma nume- 
rosa povoação em alarme, correndo espavorida, 
tremendo diante das fúrias do ondoso elemento, 
e chorando sobre o montão de desgraças, ([ue 
elle fazia ! A costa do sul de Ponta-dolgada só 
apresentava uma pa\orosa linha de ruinas ! 

As vagas espraiam-se com impeto incommen- 
suravel. Nos logares mais baixos, o mar entra 
pela supcríicie de mais de sessenta braças. Os 
de maior altura, em que não ha rocha, são aluí- 
dos e despedaçados. Nos pontos do ro<'ba natu- 
ral, ou muralha de forte construcção, d'este mo- 
do tornados inexpugnáveis, as ondas, arremes- 
sando-sc indignadas, sobem em pyramides cóni- 
cas a altura de setenta pés ! 

A revolução (jue similhante enchente causa 
onde penetra basta que a enunciemos notando 
a ana.lyse feita nas matérias ([ue revolveu e ar- 
rojou ás praias, ou aos terrenos litoraes. Pelo 
espaço de mais de cento c vinte braças, nas im- 
mediações da costa no bairro de Santa Clara, 
extremo occidenla! da cidade, se descobriu uni- 
formemente esta transição : primeiro slrato (su- 
perficial) terra vegetal — segundo, cascalho ama- 
rello grosso, na altura do cinco polegadas — ter- 
ceiro, terra vegetal — quarto (inferior), pedre- 
gulho. 

Não foi só Ponta-delgada a victima d'aquella 

(I) As marós ordinárias nunca excedem cinco pés. K .sele, 
Huanilo muilo, chegam as extraordinárias ou CjUiinociaes. 



o PANORAMA. 



8S 



i-pvol lição, e poderosos assaltos do raâr : em to- 
dos os demais concelhos da banda meridional da 
ilha de Saii-Mitiucl se jnovarani com aiuargura 
«s seus flagellos, desde a cidade ate villa-Fran- 
tííi-do-campo — desde a Ivibeira-ijiu-nte ale a Po- 
voação — e ahi estão as folhas periódicas então 
publicadas na ilha que oattestani. (1) Também 
quasi lodo o restante do archipciufro dos Açores 
os (juinhoou, especialmente a ilha Terceira ([ue 
não foi a mais de>lembrada v-'- 

Os estragos que nas ilhas a inundação causou 
avaliaram-se em alguns centos de coutos de réisl 

Taes foram as capitães desventuras que mui 
de perto e por muilo tempo amarguraram a exis- 
tência de grande parle dos açorianos. 

(-ontiuua. 

Jost DE ToHKKS. 



CHRONICAS MONÁSTICAS. 

PA C0.MPANniA DE JESIS. 
III 

CASA DE S. Il0yl.E. 

Centiauação. 

Doib relitanos de madeira doirados em forma 
de reíabolo, cada um de três palmos de alto, 
com trinta e quatro reparlimenlos de varias re- 
líquias. Um dos relicários contem pedaços do 
Santo Lenho, do Santo Sudário, e da toalha da 
Mesa do Senftor; e relíquias dos Santos André 
Apost., Filippe Apost., Bertolo, Malhias, Este- 
vão Martyr, Lourenço M., Vicente M., Maurício 
M., Longino M., Sixto papa M., Braz bispo M., 
Valentim bispo M.. Adalberto bispo M., Clemen- 
te bispo M., Pedro M. da Ord. dos Pregadores, 
Juliano M., Theodoro M., Uulino M.. .Martinho 
bispo, Gregório papa, Gregório Thaumaturgo bis- 
po, Mcolau bispo, Félix arcebispo, Mário arce- 
bispo, Valério confessor, Medardo bispo, Florên- 
cio duque, Chrisanto bispo, Vigberto sacerdote, 
Simeão eremita, Nicodemos, de quem faz men- 
ção o Evangelho. 

L'ra relicário de prata, o\ado, de altura de 
dois palmos, e friso lavrado de relevo com três 
remates á feição de quartães. No aberto tem dois 
anjos com uma ambula de cristal na mão, na 
qual esta um espinho da coroa de Christo. So- 
bre o espiuiio uma cruz de Santo Lenho, e nos 
abertos do friso as relíquias de S. Thiago Ap., 
Santo André Ap., S. Barlholomeu Ap., S. Bar- 

{Ij V. "Aforiano Oriental.» num. 242, de 7 lie Dezembro 
1839 — «Monilõr.u num. ío. (íe 11 de Dezembro de 1839 — 
«Diário do Governo, u num. 303, de Dezembro de 183!) — "Pa- 
norama,» vol. iT da 1.' serie, pag. 43 — <.I'hiloloeo,n uum 9, 
pag. GB. 

[i] \. Supplemenlo ao num, IBfi do ".\ngrense,u de 15 de 
Dezembro de 1839 — ^ 4. ' e 8.' do Relatório que acompanha 
ai." •'Collecçãodos E^criptos adminijlratívo» e litterarios. do 
sr. José Silvestre Ribeiro.. — ..TopograpLia.» do sr. padre Je- 
ronytto Emiliano d'Andrade. 1. l.', pag. 23eseg. 



nabe Ap., Santo Estevão M., S. Lourenço M. 
S. Vicente M., S. Braz bispo .M., S. Nícolaií 
bispu confessor, Santa .Maria Magdaiena. 

Dois relicários grandes de pau, de .-^eis pal- 
mos de alto, e quatro de largo, doirados, com 
varias relíquias dignas de muita estima, como 
são um osso de S. Mathias Ap. 

As relíquias ate aijui referidas, pertencem to- 
das a doação de ]). ,loão de Borja. Antes da re- 
ferida doação, ja a casa de S. Uoque tinha al- 
gumas, o como aiiuellas também e.xpostas na mes- 
ma capella . Para darmos egualinenle relação del- 
ias, atiui as memoramos : 

Uma cruz grande de prata, que (cm dentro 
outra peíjuena do Sanio Lenho, engastada em 
oiro, com alguns aljofres. 

A casula com ((ue dizia missa o glorioso pa- 
triarcha Santo Ignacío. 

Dois braços de prata dos Santos seguintes: 

S. Pantaleão, Mart\r ; 

S. Bento, abbade. 

O braço de cobre doirado, com rcliijiiia de 
S, Chrisostomo. 

Um braço de prata, doirado, o qual lem no 
meio um engaste de oiro, que contem dentro a 
firma da mão de Santo Ignacío, de seu nome. 

Um braço de praia, com a relítiuia de S Ro- 
que. 

Um dente do glorioso patriarcha Santo lena- 
cio, mettido em um meio corpo de madeira, doi- 
rado, e estofado. 

_ Um relicário grande de prata, que remata 
n'uma charola, com quatro columnas, e uma 
cruz de cristal. 

Um meio corpo de madeira, doirado, (lue tem 
no peito uma relíquia do Santo Xavier. 

Um deníe de S. Lino, papa, Martvr. 

Um corpo de madeira, encarnado,' e doirado, 
em que estão relíquias dos Santos Innn( entes.' 

Im meio corpo de prata, e nelle uma cabe- 
ça dos Santos xMartyres Thebeos. 

Na capella das Santas Virgens, as seguintes : 

Três meios corpos de prata, que contém as 
cabeças de 

Santa Brígida, Virgem; 

Sania Aurélia, Virgem ; 

Santa Geva, Martyr. 

Mais dois meios corpos de prata, com duas 
cabeças das onze mil Virgens. 

Quatro meio.- corpos de bronze doirados, em 
que estão quatro cabeças das onze mi! Virgens-. 

Cinco meios corpos de pau doirados, e esto- 
fados, em cada um delles uma cabeça das on- 
ze mil Virgens. 

Uma custodia de prata doirada, com um ca- 
nudo de cristal, e nelle mettidos os cabellos da 
Virgem Senhora. 

Uma imagem de vulto da Virgem Nossa Se- 
nhora com o Menino Jesus nos braços, peças 
ambas de prata, doiradas, com resplendor a ro- 
da também doirado, com seis ovados de relí- 
quias no pedestal. As relíquias são de S. Esta- 
niêlau, bispo; S. João, esmoler; Santo Eusia- 



84 



O PANORAMA. 



chio, Marlyr ; S. Palmachio, Martyr ; S. Wuol- 
fango, bispo c confessor. 

Um pedestal de cobre doirado, estribado so- 
bre uns globosiuhos, e umas campainhas pen- 
dentes, fjue em dois ovados tem rarias relí- 
quias. 

Duas taboas de prata doiradas, com lisonjas 
de prata, e as armas de D. João: uma (em trin- 
ta e cinco reliquias, e outra quarenta e duas. 

Um relicário com um osso de Santa Praxedes. 

Um relicário de prata, com uma cruz, e qua- 
tro columnas que tfm a relíquia de Santa Jus- 
lina. Virgem e -Martyr. 

Um braço de prata com relíquia de Santa Isa- 
bel, viuva do rei de Hungria. 

Outro braço de prata, com relíquia de Santa 
Simphorosa. Martyr. 

Oiilro braço de prata, com relíquia de Santa 
Kimpla, Virgem e Martyr. 

Um braço de praia doirado, que tem quatro 
engastes com reliquias de Santa Maria Magda- 
lena, que são um vaso de cheiros preciosos que 
derramou sobre o Senhor, e ossos do braço da 
mesma Santa, e outras partes do corpo. 

Um braço pequeno de prata, com reliquias 
dos Santos lunocentes. 

Cinco relicários de pau doirados. Um grande 
contendo nove casas com relíquias. Outro tam- 
bém grande, com similhante feitio, e reliquias. 
Dois menores, e d'elies o mais pequeno com 
uma jelosía de prata, e vinte e quatro relíquias. 
O quinto, pequeno, tem seus engastes, com mais 
de cíncoenta relíquias. 

Entre estas relíquias se contam as da túnica 
interior de Nossa Senhora, do veo da sua cabe- 
ça, dos vestidos da Virgem, e de S. João Evan- 
gelista, e ossos das Santas: Maria Salomé, Ma- 
ria Magdalena, Marlba. Photina, Catharina. Bar- 
bara, Cecília, Eufemia, Marinha, Apolónia, Mar- 
garida, Dorothea, Clemência, Prisca, íosipa, Bar- 
gara, Cordula, Esposa, Benigna. Getruda, Milía, 
Casaíra, Corona, Eulália, Eduígis du([ueza, Ily- 
polita, Odílía, Tenella, Anastácia, Ignez, Pau- 
lina, Justina, lluníguuda imperatriz, Isabel viu- 
va, Ludmila viuva, etc. 

Um relicário de pau doirado, com relíquias 
do retrato da Santa Verónica. 

Dois ])raços de pau doirados, com reliquias 
de Santos Martyres. 

Uma cruz de pau de oliveira de Jerusalém, 
com (juarenta e duas relíquias dos Legares San- 
tos. 

Doze columnas de folha de Flandres doiradas, 
com \ árias relii|uías. 

E as antigas da casa eram : 

Um meio corpo de prata, com uma cabeça das 
onze mil Virgens. 

Um relicário de prata, dado jiela rainha D. 
Catharina, com as reliiiuias de Santa Eteria, rai- 
nha ; Santa Helena, rainha ; Santa Isabel, rai- 
nha de Hungria ; S. Mathias, Apostolo. 

A imagem da Virgem, copia de unut pintada 
por S. Lucas. 



Um relicário de três palmos, com um espi- 
nho da coroa de Christo, e cruz do Santo Le- 
nho. 

Um relicário grande de prata, rematado por 
uma charola, com quatro columnas, e dentro 
uma verga da coroa de Christo, e relíquias das 
suas alparcas; e cabellos e reliquias de Sant'An- 
na, S. José, e outros Santos. 

Um Menino Jesus de vulto, com ura resplen- 
dor de prata, e dentro uma relíquia do Santo 
Lenho. 

Um presepe, parte de prata, e parte de la- 
tão doirado, de dois palmos e meio de alto, e 
mais de um de largo, com figuras do Menino 
Jesus, da Virgem, de S. José; e o Menino posto 
em uma mangedoura, que pela parte de fora 
mostra uma relíquia grande do pau do próprio 
estabulo cm que se deitou na lapa de Bethlcm. 

Continua. 

F. D. d'Almeid.\. eAr.vujo. 



AONDE EXISTE A VENTURA? 

Aonde existe a ventura. 
Que pois desejo buscal-a? 
Será no ceo que se esconde. 
Porque não posso alcançal-a. 

Na terra não, que não mora. 
Que tantos somos traz d'ella, 
E não me consta d'algum 
Que viva sem lhe dar q'rella. 

Ide ao palácio do rico. 
Onde sobeja a vaidade, 
OuTÍl-o-heis lastimar 
Da negra sorte a maldade ! 

Buscae da còrtc a nobreza, 
E vel-a-heis pressurosa 
Buscando nova honraria. 
Que mais a torne vaidosa ! 

U)lhae o cura da aldèa, 
E vel-o-heis surrateiro 
Mitra de bispo invejando. 
Na santimonja matreiro ! 

Vede o soldado, na paz 
Males da guerra chamando ; 
Tiro pede, que o eleve, 
O camarada matando. 

O larrador, o artista. . . 
Todos... nenhum iatísfcilo. 
Em altas vozes bradando 
Contra este mundo imperfeito! 

Se ])0is aqui sobre a terra 
Tudo são males, tristura. 
Não ha quem viva contente, 
Aoude c.viitc a ventura? «*« 



o PANORAMA. 



sm 



HOFFMANN ! 
I 

Propondo-nos grupar cm ura quadro alguns 
passos da vida do grande poeta alemão, e uma 
biographia ou um romance que vamos tragar? 

O vulto multiforme do autor dos Coh^m /)/íaíí- 
tastieos, quasi tão impalpável como as visões 
creadas por aquclle cérebro vertiginoso, é de tal 
forma extraordinário, que pertencendo á galeria 
dos contemporâneos, se nos ligura destacado das 
oras fabulosas. 

Paliando do homem, occupar-nos-hcmos si- 
multaneamente das obras qae o tornaram im- 
mortal pela sua originalidade. 

Os livros de IIoITmann não foram Tasados cm 
nenhum moldo, e ninguém conseguiu ainda imi- 
tal-o. O excêntrico prussiano pode dizer como o 
Christo : E<jo sitm qni num ! 

Antes delle ninguém adivinhara aquelle mun- 
do de phantasmas ; depois d'elle ninguém lhe 
achou ainda o caminho. 

Mais feliz que Cólon, não encontrou invejo- 
sos que lhe disputassem a gloria da descober- 
ta, porque a este mundo, todo seu, não aporta- 
ram depois Americos nem Cabots. 

A apparição dos Coníos phanlasticos de Holl- 
mann, produziu em França um maravilhoso en- 
thusiasmo ; mas como uma lei fatal impõe sem- 
pre ao génio alguma miserável perseguição, os 
que se diziam seus interpretes, não lhe podendo 
rastrear o talento, procuraram diCfamal-o, escar- 
necel-o. 

A caricatura o pregou, como outro Sileno, a 
cavallo em um barril de cerveja ; cercou-o da 
fumarada das tabernas ; cobriu-o de nódoas de 
vinho : e para fechar o accesso d"aquelle famo- 
so livro de phantasias aos gabinetes da gente ho- 
nesta, taxou as suas incomparáveis bellezas de 
mero producto da embriaguez e da dcTassidão. 

É um dos seus traductores e biographos, mr. 
P. Christian, que se expressa assim em 18í2 ; 
é um francez, que fulmina os seus invejosos 
conterrâneos, e desaggrava as cinzas do grande 
poeta, do intelligente magistrado, do amigo leal, 
<lo homem probo. 

E tudo isso era Hoflmann, o eminente génio, 
de quem se riam quatro críticos burlescos I 

Coitados ! Ninguém conhece hoje os seus no- 
mes, em quanto o de HotVmann durará tanto 
como o mundo ! Cuidaram que a verdadeira glo- 
ria podia abalar-se com sarcasmos, motejos e 
caricaturas... o seu alvo ficou de pé sobre o pe- 
destal dos séculos, e d'elles, os críticos, nada 
resta ! . . . 

Ha muita gente que cita o nome d'esle admi- 
rax'el realisador de chimeras, e emitte a seu res- 
peito uma opinião favorável ou desfavorável, 
sem ter lido mais do que um ou dois dos Con- 
tos jjhantasticos, e alguns unicamente por lerem 
ouvido fallar do autor como um talento excep- 
cional, ou como um visionário ridículo. 



Só a leitura de todos os seus livros, compa- 
rada com a existência aventurosa do autor, po- 
de dar a medida da prodigiosa flexibilidade de 

I IIoITmann em todos os ramos das bellas-artes. 
Nas lettras, na pintura, e na musica, o autor 

i dos Contos pkanta-stiros foi sempre origina! , 
inimitável, único. Ou escreva um romance, ou 

j desenhe um quadro, ou execute uma .sympho- 

jnia, o reflexo do homem excepcional transpare- 
ce sempre em qualquer destas formas da arte. 
Nem os heroes de Homero, nem os guerrei- 
ros de 0.ssian, teem mais sublime individualida- 
de do que os personagens de Holfmann. O Pa- 
raíso de Milton e o Inferno do Dante, os jar- 
dins encantados do Tasso, e as cavernas tenc- 

j brosas do Ariosto, não apresentam uma collec- 
ção tão original de figuras severas e grutescas, 

J tétricas e risonhas, duendes, mágicos, feiticei- 
ras, como as phantasticas creações do nosso au- 

j tor. 

, Aquella imaginação ardente, em continuo mo- 
I vimento, ora fugia da poesia para a pintura, 
I ora da pintura para a musica ; c se os seusde- 
^ senhos não tem a severa correcção de Salvator 
Rosa, nem as suas operas attingem a sublimi- 
dade de Mozart, apresentam todavia o cunho de 
uma incontestável e surprehendenie originali- 
dade. 

Ernesto Theodoro Guilherme IlolVmann, nas- 
ceu em Kouigsberg, na Prússia oriental, a 2í 
de Janeiro de 1776. Seu pae occupou, durante 
mais de vinte e seis annos, os empregos de con- 
selheiro criminal e commissario de justiça em 
Insterburg. Sua mãe era filha do advogado con- 
sistorial Doerfer, homem de mérito, que foi lon- 
go tempo procurador de quasi todas as famílias 
nobres da Silesia. 

A infância e a juventude de IIoITmann pas- 
saram-se na cidade que lhe deu o berço, escu- 
tando os sons melancólicos que sua débil mãe 
arrancava do piano, ou traçando sobre uma Bí- 
blia de seu avô, .extravagantes figuras de de- 
mónios, pouco em harmonia com o texto sagra- 
do que ladeavam. Um tio rispido, atlectado e 
systematico, como o barão que figura no conto 
da Fascinação, e uma tia, ainda moça, engra- 
çada e travessa, como a encantadora creação de 
Seraphina, escoltavam também de continuo o 
futuro poeta, dando-lhe, talvez, a primeira idéa 
dos contrastes humanos. 

Destinado por seu pae a seguir a carreira da 
jurisprudência, entrou, sem vocação para tal 
estudo, na antiga universidade de Kouigsberg, 
e estudou direito, porque tendo nascido pobre, 
comprehendeu <|ue o seu amor pelas artes lhe 
não abriria uma carreira vantajosa no mundo, 
como a profissão de legista. 

Esta sabia consideração não o impedia, com- 
tudo, de abandonar repetidas vezes as pandectas, 
para lançar mão da penna, dos pincéis, ou da 
rebeca. 

Na universidade contrahiu elle amisade com 
o celebre llippel, que foi até á morte o seu fiel 



86 



O PANORAMA. 



Achates Estes dois entes, estreitamente umdos 
pela sympathia, entendiam-se niaravilhosameu- 
te ape';ar do serem os seus génios dessimilhan- 
tes e ate oppostos em vários pontos. Um era o 
fogo. o outro a calma ! 

Porem esta união teve de ser interrompida 
fógo á nascença. Uippel ioi nomeado para um 
empreco judicial, longe de Komgsberg, eviu-se 
obrif-ado a abandonar temporariamente o seu 
amieo. o que tornou Ilollmann triste c melan- 
cólico. 

Na edade de viule annos, porem, e sempre 
tacil achar distracções, ima paixão ardente to- 
mou então posse do coração de UoITmann, e o 
espirito romanesco do joven estudante produziu 
logo os seus dois primeiros romances — Cornti- 
íVe o My-^terioso, (lue nunca .se publicaram. 

O amor havia inspirado estes primeiros en- 
saios artísticos de UoíTmann, que Coram aniqui- 
lados quando cessou a paixão. A diversidade de 
posição social e de fortuna obstava á união dos 
dois'amantes. Como Bernardim, como Camões, 
como o Tasso, o nosso heroe foi obrigado a se- 
parar-se do objecto do seu primeiro amor, mas 
não commemorou, como aijuelles, em sentidas 
cndeixas a ausência da mulher querida, a sau- 
dade dos fugitivos dias de ventura. 
fe É (jue HolVmann nascera nos fins do sécu- 
lo wiii. Mais de duzentos annos o separavam 
d'esses temjios de fé viva e robusta crença, que 
allumiaram os amores dos três sua\issimos poe- 
tas por Beatriz, Natércia e Leonor. 

Gomo nem amante nem amigo o prendiam já 
a Konigsbcrg, antes dali o afastavam, e o em- 
prego de auditor que elle exercia pouco inte- 
ress"e e consideração lhe dava, passou a concluir 
os seus estudos jurídicos era Glossglogau, na Si- 
lèsia prussiana, sob a direcção de um tio seu, 
conselheiro da regência d'aquella cidade. 

Em 1798, tendo concluído os estudos, foi des- 
pachado para um tribunal de Berlin ; e dois ân- 
uos depois, acabando de passar pelo que se cha- 
ma na Prússia exame rigoroso, subiu a um car- 
go superior da magistratura, na regência de 
Posen . 

Ahi compoz as suas primeiras operas, que fo- 
ram cantadas com applauso no grande thcatro 
da cidade. Uma d'ellas intitulava-se — A oporá 
(Die siiií/spiclj, palavras de Goethe; outra — O 
ijrarejo ; a uma terceira — Astúcia e vimjança. 

Inlolizmcnte, porém, para UoITmann, o seu 
talento não se exercitou unicamente na musica; 
e esquecendo que aspirava a seguir a carreira 
da magistratura, começou a fazer caricaturas a 
respeito de tudo e de todos ; o que lhe valeu 
um exílio para Plozk, pequena cidade a trinta 
e duas léguas de Varsóvia. 

lloffiuann havia sacudido de si a melancolia ; 
os seus desenhos eram apreciados geralmente ; 
c. a fama do seu talento deveu o amor apaixo- 
nado de uma joven polaca, com «luem casrm, 
pouco antes de ser exilado. 

O satyrico desenhador não .se Iembra\a que 



havia creado com o seu lápis muitos inimigos 
poderosos e vingativos ; e.sperava a todo o mo- 
mento, ao lado de sua esposa, o despacho de 
conselheiro de regência, quando viu apparecer 
a arbitraria ordem de exílio. 

O nosso heroe não perdeu comtudo o seu tem- 
po em Plozk. Escreveu ali um folheto, cujo as- 
sumpto é a introducção dos coros no drama ; 
compoz algumas missas e sonatas ; tirou retra- 
tos ; continuou a fazer caricaturas ; e reprod»- 
ziu a penna as pinturas de vasos etruscos, que 
se acham na collecção de estampas, publicada 
em Paris pelo gravador David, c o antiquário 
d'llancarville. 

Em 1804, cessando emíím a perseguição de 
que fora victima , passou Uoffmann a exercer 
um novo posto na magistratura, como conse- 
lheiro da regência de Varsóvia. 

Era a primeira vez que o poeta contemjilava, 
n'uma posição independente, o bulício de uma 
grande cidade. Novos horísontes se abriam ante 
a sua vista de águia ; e sem que o seu génio 
SC amancirasse, as liçOes do muudo augmenta- 
vam em larga escala odesinvolvimeuto íntellec- 
lual do philosopho. IIofFmann ia, emlim, ser 
devidamente apreciado pela Alemanha , pehi 
Europa, por todo o orbe litterario. 

Continua. 

í. M. Bordalo, 



COSTU.MES HOLLANDEZES. 

Quando uma mulher deste paiz se casa. pre- 
param-lhe as convidadas uma capella de flores, 
com que coroam a noiva, pendurando-a a noite 
na cabeceira do leito nupcial, o qual também se 
cobre todo de ramos verdes. 

Quando os noivos saem de casa para a cgre- 
ja, as ditas convidadas os acompanham até ao 
lim da rua, lançando-lhe uma d ellas continua- 
damente punhados de flores, que leva num ces- 
to ou bandeja. Quando voltam da egreja esta 
mesma convidada vue encontral-os a trinta pas- 
sos distantes da casa, tornando outra vez a dd- 
tar-lhe tlores. Esta pratica só tem logar (juando 
a noiva é donzella. Ás viuvas não quadram as 
ílorcs, que são emblema d'aquelle estado. 

Quando morre um hollandez, os seus herdei- 
ros e parentes dão-lhe sepultura com toda a so- 
lemnidade. Concorrem ao acto fúnebre os pa- 
rentes, amigos, e visinhos. Ajuntam-se em ca- 
sa do defunto á hora determinada, lodos vesti- 
dos de preto. 

Saiudo o corpo, todo este acompanhamento, no 
qual se não admittem mulheres, o segue cm duas 
alas, a dois c dois, com toda a gravidade. Lo- 
go ao pé do defunto vão os parentes, depois a>- 
pessoas de maior distincção, em terceiro logar 
os amigos, e tinalmente os visiuhos. Enterrado 
o corpo acompanham todos até casa aquelles her- 
deiros ou parentes mais chegados do defunto. 
Chegando perto de casa param estes, e agrade- 



o PANORAMA. 



8? 



cendo aos convidados, com profundas reveren- 
cias, a companhia i}uc lizeram ao morto, os con- 
vidam para i)el)L'ri'ni a saúde dos vivos. 

Mudam então completamente as scenas. Ku- 
trando todos em casa, começam a encher gran- 
des copos de vinho, ou cerveja, segundo as ri- 
quezas do defunto e grandeza com que os her- 
deiros querem honrar a sua memoria. Começam 
todos a beber t.ão desatinadamente que em bre- 
ve o logar de tristeza se muda no de alegria, 
ouvindo-se rir, cantar, e zombar, no mesmo si- 
tio em que poucas horas antes se uão fazia ou- 
tra coisa senão chorar. 

Este uso é da gente ordinária, ponjue os no- 
bres, bebendo um ou dois copos de vinlio á saú- 
de dos herdeiros, saem immedialamcnte da casa. 

Se o defunto foi pessoa de distincçiio era cos- 
tume antigo levar adiante do féretro um gran- 
de painel com as suas armas pintadas. Este pai- 
nel ticava na sepultura por tempo de um anuo; 
e outro similhante quadro .-ic via na casa do de- 
funto em todo o tempo que durava o luto. 



RELAÇÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA, ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QUE SE PERDEU EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação. 



LX 



De como Manuel da Silra ordenou uma ou duas armadas 
para irem a Cabo-Terde, e Caslello (fArguim. 

Estava nesta cidade um tidalgo da ilha da 
Madeira, por nome Manuel Serradas Caraello. 
Aviou Manuel da Silva outo ou dez velas com 
soldados ; fez capitão-mor delias ao ditto Ma- 
nuel Serradas, e capitães particulares de cada 
«au ; e dice que levas.sem a bandeira de Por- 
tugal, com suas armas em cada nau, eque to- 
dos os navios que lhe não obedecessem como 
capitães d'el-rei D. António os tomassem, e to- 
dos trouxessem a esta ilha de qualquer sorte 
que fossem, com todas as mercadorias que den- 
tro viessem, por que tudo venderia aqui hem ; 
e os que resistissem os tomassem por guerra, e 
os prendessem como traidores, e prezos viessem, 
e que ás naus e navios do reino de Castella íi- 
zessem o mesmo, não como traidores pois eram 
vassallos d'el-rei de Castella; e que el-rei D. An- 
tónio, que com elle andava em guerra, que se 
havia de ajudar; e que fossem ao Castello d'Ar- 
guim e que tomassem e embarcassem toda a ar- 
tilheria ; e que fossem a ilha de Gabo-verde e 
que dando obediência a seu rei natural lhe não 
fizessem darano algum, mas que fizessem um pe- 
dido pelos moradores delia, para ajudarem seu 
rei ; e lhes deu oiítras ordens, e tudo por regi- 
mento feito. Foram como dez velas, francezas 



quasi todas, uma formosa nau capitanea, por 
nome Amberte, e se foram, e logo foram direi- 
tos ao Caslello dWrguim. Como os acharam des- 
cuidadob facilmente os tomaram ; e tomaram 
muitos navios de pescaria, e naus de muito por- 
te, e as mandaram todas a esta ilha com solda- 
dos portuguezes e francezes dentro, e em uma 
nau metteram um piloto d'esta ilha, por uome 
o Trompica com outros iiortuguezes. No mar, 
como os portuguezes eram poucos e se liaram 
da génio da nau í|ue era muita, por serem to- 
dos portuguezes, se levantaram uma n,9itç es- 
tando dormindo, e mataram Irez ou quatro e fe- 
riram os ouíro^ (|,ue por todos eram dez, e os 
le\aram a ilha da, Aíatleira aonde enforcaram o 
pobre pilotOj e .outro qac- ia por cabo, lambem 
natural' desia cidaíie, por nome , o Marquçz, c 
em oulra ii.aií,«!!Cti.era]u soldados francezes. Es- 
tes tiuliani Jjioa vigia : ievanlaram-se os portu- 
guezes da nau contra clies, mas foram desgia- 
çados porque os francezes eram senhores das ar- 
mas, fim brev.e espaço mataram as mais dos por- 
tuguezes, ,e.d[elle.s mal feridos, e os que trouxe- 
ram vivos, os nsandou Manuel da Silva açoutar, 
e tomar-lhe as fazendas, e vieram muitos navios 
e naus quu a armaíá tomava. 



LX! 



De como Manuel Serradas lomou a ilh.i 
de Cabo-vcrde por armas. 



Chegou Manuel Serradas á ilha de Gabo-ver- 
de com seis naus, porque as outras se ficaram 
a piliiagem pelo mar. E chegando á ilha man- 
dou recado por um padre chamado Manuel Ro- 
drigues Teixeira, t}ue aquella armada era de 
el-rei D. António, que lhe uão queria fazer ag- 
gravo algum, mas que se reconiiecessem por seus 
vassallos. O diíto padre foi a terra, e mal to- 
mado o recado ou mensageiro, começaram a pe- 
lejar com elle, que estavam por el-rei D. Filip- 
pe, e que não queriam fazer o tal ; e o toma- 
ram e o metteram ua cadeia a bom recado, .la 
n'este tempo as naus tinham hotado em terra 
como dusentos soldados, sem eiles qs verem bo- 
tar, e vieram pela fralda de um monte, segun- 
do se dice, e coutaram nesta iliia. Quando os 
moradores da cidade viram vir a gente posta 
em ordem e atirando uns afastados dos outros 
pareceram-liíe.-í muitos mais dos que eram, e sem 
mais ordem dedefeza se pozeram em tugida, c 
sem guerra entraram na, cidade, e, cuidaram (luc 
o padre Manuel Rodrigues que o tinham morto, 
e o acharam uiellido na prisão; c saquearam a 
terra de tal maneira, que veio a armada rica', 
e carregada de Uido o da terra, e de muitos es- 
cravos forros e cativos. Ao bispo Uiç. não ticoii 
cousa alguma, .<{uc té as mitras irouxérjam, an- 
tes dizem que o molestaram os soldados fran- 
cezes; e nada di.sto parecia bém.a geafe chris- 
tan, e de eutendimeulo. 



ss 



o PANORAMA. 



LXII 



Da ordem (|uo Amador Vieira c Manuel da Silva 

tiveram para dcfcubrirem muitos liomens, 

<io que tinham determinado. 



Siispeitava-sc que além da gente que o Snr. 
D. Autonio fez embarcar comsigo, que ainda fi- 
cara outra de suspeita, e ja neste tempo estava 
prezo na cadea Braz Nogueira, que foi o mais 
zeloso do serviço do Snr. D. António, e era ca- 
pitão de uma companhia, por estar tido dos mui- 
to ieaes, e estava Gaspar Gonçalves de Utra, e 
seu irmão Estacio de lUra na cadea. Foi-sc ter 
com elles o ditto Amador Vieira e lhe dice, que 
bem sabiam suas mercês como elle viera com 
recados de sua magestade ao Snr. D. António, 
para que se tirasse de andar peregrinando por 
reinos estrangeiros, fazendo-lhe muitos honrosos 
partidos ; e que Jlauuel da Silva como cá o aco- 
lheu lhe fizera ameaços grandes, que o havia 
de degolar se elle se não provocasse de «oracSo 
ao serviço d'el-rei D. António seu senhor, e que 
lhe andava á vontade, mas que tudo era Mm- 
baria ; que por fim eI-rei,D. Filippe era pode- 
roso, e que todos o temiaA ; que duraria pou- 
co tempo a opinião desta ilha. E outras mais 
couzas lhes dice, para os apalpar. O ditto Gas- 
par Gonçalves de Itra e seu irmão Eslevam de 
LUra eram uatiiraes da ilha do Faial, homens 
fidalgos, e dos melhores da ilha; e Gaspar Gon- 
çalves de Ltra era capitão-mor da ditta ilha, e 
ilha do Pico ; e Manuel da Silva os tinha pre- 
ios só de suspeitos, mas não tinha culpas del- 
les : os qiiaes, segundo viram o lingimento do 
ditto Amador Vieira, e ser homem mancebo, e 
não ter ido nunca fallar com elles, nem nunca 
o tinham visto, tiveram aquiilo por novidade, e 
entenderam a peçonha que ia dentro, lhe dice- 
ram : Pois para que nos vem v. m. ca persuadir 
a isso, a dois homens prezos? Respondeu que 
Manuel da Silva lhe dicera que delles não tinha 
culpas formadas, e que por presumpção os ti- 
nha prezos, e que por isso os avisava, e junta- 
mente que lhe descobrissem seu peito, que o 
queria saber para que el-rei D. Filippe, quan- 
do lhe perguntasse depois delle liberto, para lhe 
dar rol delles, e dos homens de seu serviço: os 
quaes lhe responderam : Pois snr. os nossos pei- 
tos so Deus nosso Senhor os sabe, e neste easo 
V. m. vem mal encaminhado, porque se nós con- 
tra o serviço do Snr. D. António nosso rei ti- 
Teramos feito alynma rouza, não nos viéramos 
metlcr nesta ilhn, que no Faial senhores éramos 
delia, que não havia lá quem nos prendesse, an- 
tes se nós pretendêramos ser do serviço d'el-rei 
Filippe, poderosos éramos para lhe entregarmos 
a ilha do Faial ; pelo que v. m. vem mal enca- 
minhado, comnosco não tem nada que fazer nis- 
so : prezos estamos, livrar-nos-hemos : o snr. 
Conde fará justiça : somos vassallos d'el-rei D. 
António, e o temos jurado por rei : a elle have- 
mos de seguir. Ficou Amador Vieira apai.xona- 



do, pedindo-lhes que o não descubrissem : quiz. 
ter estes fingimentos com elles. 
Continua. 



EFrEITOS DE UMA PRAGA. 

Em todas as nações ha lendas e contos ma- 
ravilhosos, que uns tomam por fabulas, e outros 
acreditam com uma boa fé e crença que fazem 
pasmar. Muitas d'estas lendas passam á poste- 
ridade, autorisadas pelo fanatismo, e pela su- 
perstição, que lhe consagram testemunhos para 
impor aos crédulos. Em o numero d'estas se po- 
de classificar a seguinte que anda espalhada na 
historia da Hollanda. 

Achamo-nos na aldêa de Losdum, que dista 
da Haja meia Icgua, celebre pelo convento que 
a condessa Margarida ahi fundou no anno de 
12C7, e ainda mais celebre pelo monstruoso par- 
to da condessa Mathilde, filha do conde Floren*- 
te, e irmã de Guilherme, rei dos romanos. 

Foi succedido no anno de 1376. Esta prince- 
za negou um dia esmola a uma pobre que d'um 
parto teve dois gémeos, dizendo-lhe que dois fi- 
lhos não podiam ser do mesmo pae. 

A pobre, cscandalisada de que assim se sus- 
peitasse da sua honra, respondeu á condessa que 
permittisse Deus ella concebesse de uma só vez 
tanlos lilhos quantos dias t«m o anno. 

iSove mezes se passaram, e a praga leve o seu 
efleito. A condessa houve eíTectivamente de um 
parto trezentas e sessenta e cinco creanças, todas 
vivas e perfeitamente formadas, cada uma do 
tamanho de um dedo. A todas administrou o sa- 
cramento do baptismo o bispo Gui, suíTraganeo 
do de Utrecb, dando o nome de João a todos os 
meninos, e de Isabel a todas as fêmeas. Uns e 
outras, c também a condessa, morreram pouco 
depois, e sepultaram-se no mesmo tumulo. 

Na egreja da aldôa mostram-se duas bacias 
de arame, nas quaes dizem qac foram baptisa- 
das as trezentas e sessenta e cinco creanças. As 
bacias não teem de fundo mais de palmo e meio. 

Também se poz na mesma egreja um quadro 
com a representação d'c«ta historia, e uma in- 
scripção em latim, que vertida é a seguinte: 

«Eis aqui um monstruoso e memorável elTei- 
to sem exemplo egual desde o principio do mun- 
do. Em observando este portentoso caso r«tira- 
te d'aqui confuso, e admirado.» 

Demos noticia da historia, e, como não somos 
obrigados a mais, deixamos á crença de cada-um 
prcstar-lhe o grau de fé que quizer. 



na historias, tidas por verdadeiras, que, se 
a verdade podesse fallar, não passariam de mç^ 
r09 contos. 

A historia do mundo c a rccopilação das lou- 
curas dos horacos. 



12 



o PANORAMA. 



S9 











?'líMlW^' 







CAB AVANÇA» A DE SARRON. 



Cáfilas ou caravanas são mui numerosas par- 
tidas de mercadores, viajantes, ou peregrinos, 
que se reúnem para atravessarem com mais se- 
gurança os desertos da Ásia e da Africa, com 
especialidade os da Arábia, fazendo jornadas 
curtas, e poisando em estações certas onde ha 
alguma fonte ou poço, e n'algumas o seu cara- 
vançará. D'estes edifícios os que ha nas cidades 
são em geral espaçosos e magnificos. 

O padre Manuel Godinho na sua Viagem da 
índia por terra para Portugal, diz no cap. 6.°: 

«Nada menos sumptuosos edifícios são os dois 
caravançarás, quer dizer estalagens publicas, 
que tem Surrate, feitos a modo de claustros, 
com muitas casas de alojamento por banda, e 
uma so porta, que se fecha logo á noite e se 
abre com dia claro para maior segurança das fa- 
zendas dos mercadores, que se recolhera n'aquel- 
les caravançarás.» 

No cap. 2o escreve o mesmo curioso autor : 

«... os caravançarás de Alepo são tão for- 
mosos como os melhores conventos d'este reino, 
do mesmo feitio, com as mesmas repartições, e 
todos em quadro com suas fontes no meio.» 

A coisa ainda hoje é a mesma, porquanto nas 
viagens modernas assim é descripta esta casta 
de construcções, e entre outros M. Breton diz: 

« São estas as hospedarias e estalagens dos 

VOL. I. 4.'SE1«E. 



orientaes, edificadas em quadrado e parecendo- 
se muito aos nossos claustros ; em geral só tem 
um andar, e raras vezes dois ; entra-se no pa- 
teo por uma grande porta, e ao meio de cada 
um dos outros três lados ha uma grande cama- 
rá destinada ás pessoas de mais consideração, 
o resto do edifício é occupado por pequenas ca- 
marás; de ordinário as cavalhariças ficam detraz 
d'estas. São construcções edificadas por monar- 
chas e princezas, e também á custa das cida- 
des, onde a todos os viajantes se dá gratuita- 
mente agua, e um cobertor para agazalho.» 

A nossa estampa representa o caravançará da 
Sarron, que é o mais magnifico da Pérsia. 

M. 



OS GODOS NA península. 



Um dos estudos interessantes para a nossa 
historia, é sem duvida o da época que se pren- 
de com estes conquistadores, por isso que a sua 
legislação e costumes de sobejo influíram nos 
primeiros tempos da nossa monarchia. Não será 
portanto de estranhar que lancemos aqui algu- 
mas observações a seu respeito. 

MABCO, 21, 1S57. 



so 



o PANORAMA. 



Invadido o baixo império pelas aguerridas co- 
liortes dos bárbaros do Norle, csles se espalha- 
ram, como era natural, pelas provincias occi- 
dentaes subjeitas aos romanos. A desnioralisacão 
do império que havia eITeminado atiuelles âni- 
mos oulr'ora tão varonis, quehrara-lhes os brios, 
entregando-lhos sem esforço os pulsos ás cadèas 
da subjeição ; o Alarico, que llô orgulho da vic- 
toria se intitulava o aroite de Deus, truimphou 
na própria Roma, da qual se não presumia po- 
dessem braços de homem arrancar a coroa de 
rainha do universo. 

Nos principies do quinto século, desceram á 
Europa varias nações dos mesmos bárbaros, e 
devastando e assolando as Gallias, atravessaram 
os Pyreneos — fracas barreiras para homens cos- 
tumados cás selvas dos seus paizes, e <ás fadigas 
das guerras — e admirados da bclleza do paiz, 
que, para á(|uem d'aquella famosa cordilheira 
de montanhas, lhe apresentava um ceo formo- 
so, uma terra fértil, e nm excellenle clima, 
sentiram recrescer-lhes o desejo de um exclusi- 
vo dominio. Haviam sido, porém, solidarias na 
guerra, e do mesmo modo o deviam ser na con- 
quista ; e d'ahi foi (juc para evitar contestações 
tiraram á sorte o lote de terra que devia caber 
a cada uma d'ellas. A nossa Lusitânia coube aos 
alanos, e a Galliza c Braga aos suevos e vân- 
dalos. 

Guerras se travaram entre uns o outros, e a 
sentença da sorte foi annuUada; fiue homens eram 
todos elles, costumados ao saco, a se não con- 
tentarem facilmente com o que já possuiam, e 
impossibilitados de guerrear com os naturaes do 
paiz, porque se lhes haviam subjeito, contra si 
próprios voltaram as armas. Assim foi que por 
termo de todas estas contendas, os vândalos ti- 
veram de passar á Africa, cujo caminiio facil- 
mente se lhes franqueou ; e os alanos confun- 
didos com os suevos, ficaram na posse exclusi- 
va d'estas regiões. Das duas trilnis era sem du- 
vida mais numere-.a a ultima, e absorveu em si 
a primeira, extinguindn-lhe até a denominação, 
porque do anno de Í20 em diante a historia 
unicamente nos designa a segunda. 

Um grande facto, ([uc não deve passar des- 
apercebido, é o da conversão d'estes bárbaros 
ao chrislianismo ; primeiro passo para a sua ci- 
vilisação. Alanos e suevos eram idolatras ao pe- 
netrar nas Jlespanhas; porém a luz da religião 
atravessou o espirito dos primeiros ajieuas trans- 
pozeram os Alpes, c se bem que adulterada a 
doutrina pelos erros de Ario, comtudo lá lhes 
ficou a boa semente que mais tarde teve de fruc- 
liflcar, limpa da ruim iu'rva(|uc a infezava. Foi 
no anno ile l\'.')'.) (|uc Theoilomiro, seu rei, abju- 
rou publicamente as heresias d'aquella seita, c 
desde então os suevos foram contados no gré- 
mio da religião orthodoxa. 

Com aque-llas Iribus tinham também descido 
á Europa os godos, como cilas originários do 
IVorle ; porém luu iam-se lixado nas Gallias. Sub- 
dividia-se a sua nação em ostrogodos, e visigo- 



dos. Estes últimos attrahidos da Gallia-narbone- 
sa á Uespanha, aqui se assentaram definitiva- 
mente; e Leovigildo, seu rei, estabeleceu a cor- 
te em Toledo. Pouco tempo depois esta nação 
predominou em toda a Península, e com o seu 
império lindou o dos alanos e suevos. Foi das 
mãos dos godos, aniquilados pelas mesmas cau- 
sos destruidoras do império romano, que a Pe- 
nínsula passou para o poder dos árabes. Rodri- 
go, o desthronisador de Wittiza, pagou a usur- 
pação, e extrema violência dos seus amores com 
Florinda, perdendo a coroa nas margens do Gua- 
dalete, até onde o árabe Tarife, logar-tenente 
de Musa, emir d'Africa, fora conduzido pelo vin- 
gativo conde Julião, que peladcshonra da filha, 
ou por partidista do rei desthronado, lhe tinha 
aberto as portas de Uespanha. O ferrete da igno- 
minia não deve porém estampar-sc unicamente 
na fronte do conde .lulião : Oppas, arcebispo de 
Sevilha, deve compartilhar com elle a nota in- 
fame de traidor á pátria, porque não sabendo 
refrear no espirito vingativo os sentimentos de 
alTeição pelos filhos de Wittiza, dos quaes era tio 
e tutor, se bandeou na batalha para o árabe, 
com as consideráveis tropas que capitaneava, 
commettcndo o sacrilégio de franquear o domi- 
nio de um paiz cbristão ao chefe de uma seita 
sua irreconciliável inimiga. 

Desde este momento a historia deixa de per- 
tencer ao periodo que commemoramos no pre- 
sente trabalho. Aqui assentaremos a baliza do 
estádio que brevemente temos de [>ercorrer n'es- 
te periodo de cerca de dois séculos que durou o 
dominio godo. 

Se dermos credito aos escriptores romanos 
mais desapaixonados, acharemos que os godos 
eram sóbrios, guerreiros atrevidos, perseveran- 
tes nas suas empresas, hospitaleiros, humanos 
depois da victoria, se bem que terríveis antes 
d'ella, e ciosos da liberdade e independência. 

A religião catholica, ao principio permittida 
por elles, c por fim recebida com fervor, serviu 
muilo j)ara adoçar-lhes os costumes bárbaros, e 
amaciar-lhes a rudez, induzindo-os a abraçarem 
a polidez e boa razão das leis romanas. Foram 
estes conquistadores de quem os naturaes do 
paiz menos tãveram de queixar-se ; porque lhes 
respeitaram suas leis e crenças religiosas, e por 
tal modo se misturaram com os habitantes, que 
pelo andar dos tempos, uns c outros se encon- 
traram compatriotas, extinguindo-se as denomi- 
nações de vencidos e vencedores. Se a conquis- 
ta material foi pelos godos, o Iriumplio intellec- 
tual e espiritual foi petos habitantes do paiz, 
que assim \iram abraçada essa tal civilisação 
(|ue já desfructa\am por aquelles mesmos ([ue, 
na fereza dos seus costumes, ameaçavam barba- 
risal-os também. E tanto mais é para admirar 
o triumpho, quanto que este povo, antes de pi- 
sar a Península, não so receiava alliar-se com os 
romanos, mas até mesmo lhe detestava as prati- 
cas e usos. \ benignidade do clima inlluiu de 
certo n'estas boas di.sposições ; porém o(iue fora 



o PANORAMA. 



^ 



de duvida trouxe aquclles bárbaros, como os ro- 
manos os designavam, a sentimentos mais do- 
ces, foram os reciprocos enlaces e casamentos 
que entre uns e outros se efloctuaram. E de mais 
os godos conheceram que li\ando-sc no paiz, 
terminava assim aquella vida errante de emi- 
grações cm (jue até ali tinham andado, e mais 
pela necessidade, do que pela i)olitica para ([ue 
não eram muito asados, deviam acarinhar os 
corações dos vencidos. 

Pela abjuração que os reis godos fizeram dos 
seus erros religiosos abraçando a orthodoxia da 
fé catholica, veiu a preponderância ao clero em 
todos os negócios do estado. Aquellcs his|)os e 
pastores ([ue no tempo dos precedentes bárba- 
ros, se tinham visto forçados a salvar no escon- 
derijo as imagens dos santos, as relíquias, e os 
livros sagrados, e no predomínio dos arianos se 
occulla\am nos concílios provinciaes e diocesa- 
nos para mutuamente se fortificarem ua fé e 
conservarem os povos na communlião catholica, 
foram adr.iittidos então ao governo, e á feitura 
das leis ; e tanto foram medrando n'este poder, 
que foi o clero quem descarregou o golpe mais 
profundo na nobreza goda, que saiu mal-ferida 
do estabelecimento da nova ordem de coisas, 
onde a realeza se consolidava, e o poder cleri- 
cal se constituía. 

Vemos que Leovigildo e seus successores , 
imitando a Alarico na Gallia, se deram em Ues- 
panha ao trabalho de juntar num código as leis 
dispersas ; e que este código foi proposto e exa- 
minado no duodécimo concílio toledano, e de- 
finitivamente confirmado no decimo sexto. Ao- 
tam-se n'elle os altos privilégios do clero, por- 
que os bispos não podendo demandar, nem ser 
demandados pessoalmente em juízo, tinham com- 
tudo recurso para si dos juizes inferiores, e até 
dos mesmos condes, que era a maior dignidade 
na corte palatina. Quem não respeitasse a isemp- 
ção dos cargos públicos clericaes, e aos seus ser- 
vos libertos, e colonos, incorria nas penas de 
excommunhão, uma das mais graves n"aquella 
época. A mesma sorte era reservada a iiuem de- 
mandasse clérigo fora de juízo que não fosse o 
do seu bispo ; e além d'isto decaía no litigio. 
Até os reis eram ferçados, no acto de subir ao 
throno, a comprometterem-se por juramento, a 
não consentir nos seus estados nem judeus, nem 
outros indivíduos que não professassem o ca- 
tholícismo. Que muito era porém se introduzis- 
sem estas leis n'aquelle código, se o clero era 
ao mesmo tempo o juiz e executor d'ellas, com 
supremacia sobre todas as outras classes ; e os 
concílios, as assembléas legislativas da época, 
erani movidos e dirigidos por elle ! 

É indubitável que para esta supremacia con- 
correu poderosamente ser a classe mais instruí- 
da, achar-sc habituada pelos seus estudos a lar- 
gas discussões, o que, pelo contrario, enfastia- 
va aos homens educados no rude mester das ar- 
mas , impacientes especialmente pela duração 
dos debates. Foi no primeiro concilio toleda- 



no. no anno de bOO, que o clero se resolveu a 
admittir também a elles os seculares, e o rei 
Heccarredo compensou da sua parte, authori- 
sando o concilio para comminar penas, e con- 
centrar emfim todo o poder legislativo. O rei e 
os nobres pareciam ganhar n'isto uma partici- 
pação no governo interior da egreja, o que real- 
mente não era assim. Õ clero foi (luem lucrou 
a gerência do governo temporal, da qual se sou- 
be por tal arte apoderar, que ate o rei Resce- 
víndo, no oitavo concílio, chegou a prometterde 
antemão sanccíonar quanto ali se legislasse. Ga- 
nha assim a iniluencia dos negócios de interes- 
se nacional, tratou o clero de cercear as con- 
cessões feitas aos leigos, e foi no decimo sétimo 
concilio toledano, que ordenaram se reservas- 
sem os três primeiros dias da reunião para tra- 
tar as matérias de fc, e de disciplina, não sen- 
do admitlidos os secuhuis no concilio. Depois 
lançaram também mão da redacção das actas 
d'estes parlamentos nacionaes ; o que hoje se 
conhece pela linguagem empregada n'elhs, e 
pela substituição da pena de excommunhão a 
todas as outras penas. 

Continua. A. 



GALANTE MODO DE S.VTISFAZER 
IMA LETTRA. 

Um dos nossos viajantes conta pelas seguin- 
tes palavras como em Osnabruck (na Alemanha) 
se lhe pagou a importância d'uma letlra; e pa- 
rece-uos que de aventura egual se não poderão 
gabar muitos dos que andam correndo mundo : 

«Indo a casa do correspondente que me ha- 
via de pagar a lettra, me disseram que cUe se 
achava em uma feira trinta léguas distante de 
Osnabruck. Desconfiando inteiramente do nego- 
cio, declarei quem era, a lellra que trazia, e o 
incommodo que me dava a falta ou a demora da 
sua cobrança. Logo que me conheceram estran- 
geiro me mandaram entrar as duas criadas, com 
quem esta conversação se passava, dizendo-me 
que esperasse por sua ama (jue se estava levan- 
tando. Appareceu esta que era uma moça mui- 
to formosa, e com tão pouca ceremonia que em 
camisa, em manteo mui curto, e em chiuellas 
me veiu tomar a visita, com tanta promptidão 
que até deixou de calçar as meias. D'esta figu- 
ra menos esperanças, porém de boa cara boas 
obras. Assim que recebeu a carta e a letlra as- 
sim me começou a contar a sua importância, di- 
zendo-me que para similhantes negócios não ha- 
via horas iucommodas, nem razão alguma que 
os embaraçasse.» 

Isto narrou o viajante para provar a prompti- 
dão que por aquellas terras ha em similhantes 
pagamentos. Esta sincera mulher não se conten- 
tou só com isto, e vejamos o que o autor ac- 
crescenta lhe succedeu ao passar o recibo : 

« Emquanto escrevi fez ella vir uma grande 
botelha de precioso vinho, e o peior c que acom- 



9Z 



O PANORAMA. 



panhando-me com um copo egual ao que me deu, 
me obrigou como por força a que a despejásse- 
mos. Teve a galanteria de me perguntar se que- 



ria mais algum dinheiro alémjdo credito, e veiu- 
me acompanhar até fora da porta.» 




, aíTiT»^ ,'r 









EtiREJA EM OIITAKEOI. 



Em consequência da guerra do oriente houve 
considerável augaiculo no numero de inglezcs 
domiciliados nos subúrbios da capital do impé- 
rio oltomano, e por isso além de outras provi- 
dencias (jue egualmente foram reputadas neces- 
sárias, tratou-se de erigir um templo para o cul- 
to protestante anglicano. Escolheu-se para local 
a aldèa de Ortakeoi, próxima de Constantino- 
pola, e foi aberta a capella em Novembro do 
anno próximo passado. O risco, orçamentos c ou- 
tros trabalhos foram obras dos architectos Gcor- 
ge ^^'ood & C.% o estylo é da primitiva archi- 
lectura britânica. E o primeiro templo inglez 
erecto na Turquia. M. 



VINGANÇA POll VINGANÇA. 
IV 

SAMUEL. 

Continuação. 

No momento em cjue Samuel batia á poria, 
ouviam-sc vozes altercando lá niais ao interior 
da casa. O recemchegado escutou, ;,orém não 



pôde distinguir o motivo da altercação, poniuc 
as vozes se confundiam com o som cavo da ar- 
golada repercutida no fundo da casa. Ainda es- 
perou alguns instantes, mas n.âo sentindo pas- 
sos de quem lhe viesse abrir a porta, bateu se- 
gunda vez, com um signal particular ; e logo 
aqucllas ruidosas vozes se calaram, c alguém 
veiu descerrar o ferrolho. 

Este homem, que revelava no seu todo o of- 
licio da forja, levou a mão ao gorro para com- 
primentar Samuel, e foi marchando adiante d'el- 
le, com uma lâmpada na mão, até chegarem 
ambos á casa immcdiata. 

Unicamente de duas se compunha aquella ha- 
bitação. A primeira estava desguarnecida de mo- 
veis ; tinha umas poucas peças de ferro ve- 
lho, amontoadas a um canto, e ao lado da por- 
ta unia chaminé com um buraco para expellir 
o fumo para a rua. A segunda era mobilada com 
uns toscos bancos, mesa da mesma luialidade, 
e uma barra encostada á parede, com o com- 
petente almadraque c roupa. Sobre a mesa acha- 
va-se um gomil, um tinteiro de loiça, pennas, 
algumas folhas de papel, c uma balança. Na 
; parede fronteira á cama eslava um grande ar- 
i mario, correndo toda a altura da casa, desde o 



o PANORAMA. 



"lis 



tecto até ao soalho, figurando mettido na pa- 
rede. 

Os três homens que se achavam n'esta segun- 
da casa haviam-sc erguido e desbarretado á en- 
trada de Samuel. 

Se não tiTessemos dito ao leitor que este era 
o personagem descripto no principio do capitu- 
lo, não o reconheceria de certo, vendo-o agora 
muito mais recurvado, apoiando-se n'um bordão, 
como pessoa que busca dar allivio á perna que 
traz enferma ; e justiça é confessar, remedava 
tão perfeitamente o paralytico, que mais pare- 
cia moléstia real que fingida. A cor do rosto 
niudara-se-lhe de «idra na adusta e tostada do 
soldado ([uc tinha batalhado na .VCrica ou ha^ia 
embarcado para as índias, graras a um elixir 
com que o esfregara antes de bater aquella por- 
ta. \ Toz rouquenha e forte era tão dissonante 
da sua habitual, que parecia irapossivel serem 
ambas soltadas pela mesma garganta. Samuel 
era de edade de quarenta e tantos aunos, porém 
assim disfarrailo figurava ter mais vinte. 

Também aquelles homens, e outros que tb- 
rias vezes ali costumavam concorrer, nada sa- 
biam da vida e profissão de Samuel . Julga vara-no, 
porque elle assim o dissera, velho soldado que 
se distinguira nos terços portuguezes pelejando 
na .^.merica contra os hollandezes ; mas a Ame- 
rica eslava longe para se verificar o caso. Em 
Ceuta, contara elle que um pelouro lhe maltra- 
tara a perna direita; e Ceuta já não estava em 
poder de Portugal, pois doze aunos antes '13 de 
Fevereiro de ICGS} fora cedida a Castella pelo 
príncipe regente D. Pedro, em nome de seu ir- 
mão 1). .\flonso VI, para Ilespanha o reconhe- 
cer como soberano legitimo de Portugal ; e por- 
tanto não Ta lia a pena ir incommodar os hes- 
panhoes para examinar os registros da niilicia 
que guarnecera a praça. .\s vezes narrava com 
muita exactidão proezas e gentilezas d'armas na 
guerra da indepeudencia, as quaes dava tam- 
bém succedidas com elle ; mas a sua exactidão 
n'este ponto não era para admirar, porque a his- 
toria daquelles últimos quarenta annos ainda 
estava tão fresca que todos a sabiam mui bem, 
até as creanças que não tinham assistido áquel- 
las batalhas. 

Samuel lambem usava para elles de um no- 
me supposto. Não o conheciam por outro que 
não fosse Pedro de Bulhões. 

Chegara mudo e silencioso até á mesa. que 
n'aquella occasião estava extraordinariamente 
adornada com varias alfayas de prata. Depois 
de olhar desdonhosamcute para ellas. e voltan- 
do-se para Filippe Tranqueira, que assim se ap- 
pcllidava e alcunhava o personagem que lhe veiu 
abrir a porta, disse sacudidamente : 

— Que senzala quando cheguei ! Pareee-me 
(jue tu, meu alma de cântaro, eras melhor pa- 
ra capellão de freiras que para homem de ne- 
gocio. Por S. Braz que me não amedronta\ a as- 
sim com vozes tão desentoadas, c haveria obri- 
gal-os a conhecerem-me, como os hollandezes 



me experimentaram na America, se não recuas- 
sem as falias como leigo mendicante em pedi- 
tório. . . 

— Tem .sobras de razão, sr. Pedro Bulhiies, 
interrompeu um dos três estranhos ; mas este 
perro do Tranqueira tem palavras para mudar 
dez Jobs n'ura diabo. 

— Pois não queria, acudiu outro, que essa 
prata se desse só pelo peso sem lhe juntar na- 
da pelo lavor I 

— E d'esta qualidade I accresccntou o tercei- 
ro, pegando n'uma naveta, e mostrando-a a Sa- 
muel. Dois anjos tão bonitos, com umas azas tão 
compridas, e ajoelhados que parecem mesmo es- 
1ar orando ! 

— Pois sim. . . pois sim. . . Carregae com to- 
da ella lá para as vossas poisadas, que a estas 
horas ja a justiça de el-rei anda em cata das al- 
fayas que desappareceram ha dois dias do mos- 
teiro da Rosa. 

Os três homens olharam-se admirados, pois 
ainda não haviam dito d'onde roubada a prata, 
e o caso passara-se sem arrombamento de por- 
ta, pelo que esperavam se não desse tão cedo 
pelo seu desapparecimento, 

— Com que então? ! . . . 

— Vede o risco que correis. Andae agora ahi 
offereccudo-a ao primeiro que vos tenha mal- 
querença, e vos entregue aos oíliciaes de e!-rei, 
porque n'este tempo, louvado Deus, a gente vè 
caras, e não vê corações. 

— Por isso lhes dizia eu que a prata de cgre- 
ja não tinha o valor da outra. 

— Trazei cá um candelabro sem firma, mas 
que pertença a particular, ([ue mais cruzado me- 
nos cruzado sempre se accrescentará ao pe- 
so. Porém esta I . . . Se não fora o costume de 
fazermos negocio, estava tentado a despedir- 
vos já. 

— Porém este firmai I. . . 

— Tudo recende a egreja a cem léguas d'aqui. 
Muito favor vos faria, para segurar-vos a mellior 
cautela, comprar-vos esses objectos que logo vos 
denunciariam em vossas casas. . . Mas não que- 
ro. . . ficarei exposto. . . 

— Porém onde havemos ir, se vemos já des- 
coberta a falta da prata? 

— .Vinda por vos obrigar, vá.. . Porém na- 
da. . . nada. . . A compra é de muito risco, e 
n'ella não ganho nem um ceitil. 

— Portanto nem o valor pagaes? 

— Levae-a. . . levae-a depressa. Ide com el- 
la a estas horas, e Deus vos conduza que não 
topeis com a ronda do corregedor, que ajuste 
melhor a conta do que eu. 

— Era o mesmo que lhes estará dizendo, ac- 
cresccntou o Tranqueira, e elles não queriam 
entender razão. 

— Não tem duvida, passamos a derretel-a mia 
depois bem se venderá. 

— Quem cabras non tiene e cabritos viende 
dalgures lhe viene — dizem os perros dos caste- 
lhanos com quem pelejei ha ([uarenta annos. 



94 



O Panorama. 



Tristes homens de officio a \endeicm barras de 
prata ! . . . 

— O sr. Pedro tem razão, disse um dos ven- 
dedores para os outros dois. Vamos a risco car- 
regando com cila a estas horas. . . 

— E lembras-te do Joaquim, que ha dois an- 
nos foi vender á ourivesaria aquelle pouco de 
oiro derretido, e depois lá foi para o Tronco ? 
disse o segundo para o terceiro, que era o mais 
renitente. 

: — Cá por minha parte leve o diabo o nego- 
cio que pode trazer tal perca. Yamos ao ajus- 
te. 

O terceiro estava vencido não só pelo nume- 
ro de votos na parlaria, mas lambem pelos ar- 
gumentos que eram convincentes. Samuel para 
ainda mais os estimular, e reliaixar na fazenda 
incutia-lhes mais temores sobre o risco que cor- 
riam, porém fazia-se mais grave quanto ao pon- 
to de ser elle o comprador. 

— Levae, levae. A gente da rua anda muito 
desconliada de mim. . . e se aca viessem as jus- 
tiças 1 . . . Nada. . . levae. 

— Mas agora a estas horas ? ! . . . 

— Sim. . . sim. . . levae. 

— Está tratado, sr. Pedro ; nós é que não po- 
demos agora levar as alfayas. 

— Yèem que me arrisco. . . 

— Estaes na vossa casa, e nós temos ainda 
de ir longe. 

— Faremos um desconto no valor da pra- 
ta. 

— Ora não (juero se diga (jue deixo de ser- 
vir a gente que me procura. Vamos. A conla 
será fácil de fazer. Não temos nada de feitio, 
porque isto não pode apparecer: quaesquer dez 
por cento de abatimento para eu ter um pcíjue- 
110 interesse no obsequio que vos faço, é uma 
insiguilicancia a troco de tamanho risco ; e de- 
pois a prata hoje vae estando tão depreciada, 
louvado Deus ! . . . 

E assim dizendo lança\ a as alhxyas na balan- 
ça, e annotava o peso de cada uma. Concluida 
a operação fez conlas, c tirando de um cinto de 
coiro algumas moedas, pagou religiosamente o 
valor com os indicados abatimentos. 

E ao j)asso que lhe contava as moedas, fa- 
zia-as tinir e retinir para os arrebatar por aquel- 
le som argentino, acompanhando-lhe as vibra- 
ções com estas c similhantes palavras: 

— Esta prata sim, (|ue tem voz de rei, e dci- 
xa-sc ouvir de todos. Vão lá conliecer-llic a ori- 
gem, e d'onde vieram tão boas moedas!.. Não 
denunciam quem as possue, e invcntaram-se pa- 
ra paga de todos os trabalhos. . . A justiça que 
reconlièça agora n'ellas o valor da prata do mos- 
teiro da Rosa. 

Ajustada c paga assim a conla, os três homens 
diviíliram ali mesmo o producto, e se despedi- 
ram (Ic Samuel (|ue, com alVectuosas expressões, 
«ontinuou a encarecer-lhes o serviço i|ue acaba- 
va de prestar arrancando-os ao temerário risco 
de atraTcssarem com aquclla prata a cidade tan- 



to a dcshoras, e promettendo-lhes estar promp- 
to sempre a valer-lhes. 

Continua. *Ȓ* 



ESTUDOS SOBRE A PRIMITIVA 
EGRFJA CURISTÃ. 

1>STRUCÇÃ0 RELIGIOSA. 

O methodo de pregar e ensinar o Evangelho 
era diverso segundo a disposição das pessoas que 
se doutrinavam. Os judeus convenciam-se pe- 
las prophecias e outras provas tiradas da Escrip- 
tura e das suas tradições. Aos gentios as pri- 
meiras iustrucções que se lhes davam tendiam 
a corrigir-lhes os costumes, pois se julgava in- 
útil fallar de religião a homens ainda cheios 
de suas paixões e falsos prejuízos. Orava-se per 
elles, dava-se-lhes ))om exenqdo ; procurava-se 
attrahil-os pela paciência, pela doçura e pelos 
benefícios temporaes, até se ver n'elles um sin- 
cero desejo de conhecer a verdade, e abraçar a 
virtude. Então persuadiam-n'os pelos raciocínios 
mais simples ou mais subtis, segundo a capaci- 
dade d'clles, e com a autoridade dos seus phi- 
losophos e poetas. Das coisas de Deus unicamen- 
te se fallava aos que seria e trauquillamente as 
escutavam. Quando n'estas praticas os infiéis 
principiavam a aborreccr-se ou a rir, o christão 
calava-se, para não profanar as coisas santas, e 
não excitar blaspliemias. 

Quando se era obrigado a confundir algum 
herético, para o induzir á verdadeira crença, 
lançava-sc mão do sentido lilteral da Escriptu- 
ra, e quando se seguia algum sentido figurado 
era somente aquelle em que o adversário con- 
cordava. N'estas occasiões havia grande reserva 
nas questões de religião. Limitava-se a respos- 
ta á questão assentada, e não se propunham no- 
vas. Havia todo o cuidado cm reprimir a curio- 
sidade dos espirites levianos e amigos de dispu- 
tar sobre esta matéria. 

Emquaiito ao modo de instruir os lieis, era 
leccioaando-os na doutrina da Egreja, precavcn- 
do-os e fortilicando-os contra as heresias, e dan- 
do-lhes regras para o seu comporlaniento, c cor- 
recção de costumes. 

A egreja era a escola onde se juntavam os 
christãos de todas as edades e estados, c era ahi 
que bebiam as iustrucções análogas a este no- 
me com (jue se decoravam. O bispo explicava o 
Evangelho, e os livros sagrados, com a assidui- 
dade de um professor, se bem que com muito 
maior autoridade. Punha todo o cuidado em se 
reportar lielmenle ao que aprendera dos padres 
e bispos mais antigos, i)ela tradição iiue remon- 
tava até aos apóstolos. Quando o bispo não po- 
dia preencher estas fiincções tão imporlantes, c 
que eram as principaes do seu ministério, en- 
carregava d'ellas um sacerdote digno de o sub- 
stituir por sua doutrina c virtudes. 



o PANORAMA/ 



ífW 



Os fieis estudavam e meditavam dia e noile 
a lei de Deus no interior de suas casas. \iii re- 
liam o que tiuliauí ouvido ler na egreja, e se 
recordavam das explicações do pastor. Uiz S. 
Chr\sostomo que n'aquelle tempo as casas dos 
chrislãos eram egrejas, e cada chefe do família 
um pastor particular que presidia as orações e 
ás leituras domesticas, instruindo a nuillicr, fi- 
lhos e servos, sendo o primeiro a praticar as 
virtudes (|ue exhortava, e esforçando-sc todos 
em o seguir como a seu modelo. 

A prova do grande cuidado (jue tinham os 
pães e as mães de bem instruir as suas faniilias 
está em se não encontrar na antiguidade ne- 
nhum vestígio de calhccismo para as crcanças, 
nem de instrucção publica para os baptísados 
antes da edade da razão. A instituição dos ca- 
thecismos quaes se usam hoje nas escolas, data 
do concilio de Trento, e estabelcceu-se para re- 
mediar a ignorância em ([ue caiu a maior par- 
le dos pães e das mães, relativamente á reli- 
gião. 

B.\PTISM0. 

Quando alguém pedia scrchristão, levavam-no 
á presença do bispo ou de um sacerdote, que 
em primeiro logar observava se a sua vocação 
era solida e sincera. Examina vam-se as causas 
da conversão, e o estado; se era livre ou escra- 
vo; os costumes e a vida passada. Os que se- 
guiam profissão infame e perigosa, ou estavam 
engolfados era hábitos criminosos, não eram re- 
cebidos sem primeiro renunciarem eíTectivamen- 
te a ella, porque o zelo da conversão das almas 
não fazia mais condescendentes os ministros de 
Christo para com os que desejavam professar o 
christianismo. i 

Aquelle (|ue era julgado capaz de ser christão, 
fazia-se cathecumeno , que quer dizer discípulo, 
peia imposição das mãos do bispo, ou do sacer- 
dote comniíssiouado da sua parte, fazendo-lhe 
também na testa o signal da cruz, orando a 
Deus para que lhe aproveitasse a instrucção que 
ia receber, e se volvesse digno do baptismo. As- 
sistia depois aos sermões públicos, aos quaes 
também os iulieis e heréticos eram admittidos. 
Havia cathcquislas, ou mestres, os quaes vela- 
vam sobre o comportamento do adepto, e lhe 
ensinavam em particular os elementos da fe, 
stm comtudo lhe explicarem a fundo os myste- 
rios que ainda não podiam compreheuder. Ins- 
truiam-no especialmente nas regras de moral, 
para e!le saber como devia viver depois do bap- 
tismo. 

O tempo da instrucção do cathecumeno du- 
rava ordinariamente dois annos, mas espaçava- 
se este praso, ou encurtava-se conforme o pro- 
gresso do educanr.o. Os que pediam o baptismo, 
e que se julgavam dignos delle, davam seus no- 
mes no princípio da quaresma, para se inscre- 
verem na lista dos competentes ou illuminados. 
Assim havia duas ordens de cathecumenos : os 
ouvintes, e os competentes ; estes últimos usa- 



vam já com anticipação o nome de christãos, je- 
juavam durante a ([uaresma como os lieis, e jun- 
tavam ao jejum frequentes orações, genuilexões, 
vigílias, e confissão de peccados. !N'este grau 
eram instruídos mais a fundo, explicando-se-lhes 
o symboio, ou Credo, e especialmente o myste- 
rio da Trindade e da Encarnação. Cliamavani-n'os 
muitas vezes á egreja para os examinar, c fazer 
sobre elles em presença dos fieis os exorcismos e 
as orações. Era a isto que se chamava escrutí- 
nios, que se observaram por muitos séculos, mes- 
mo com as creanças. No fim da quaresma, ensi- 
nava-sc-llies a oração dominical, einstruiam-n'os 
succintamente dos sacramentos (jue elles iam re- 
ceber, e que depois se lhes explicariam mais 
profundamente. Então aquelles que se reputa- 
vam ja sullicieutemcnte instruídos e approvados, 
chamavam-se eleitos, porque os separavam para 
serem baptisados solemnemente nu Pasciíoa, ou 
no Espirito Santo, por causa da relação entre 
estes dois mysterios e os sacramentos do Baptis- 
mo e da Confirmação que se conferiam ao mes- 
mo tempo. 

Ordiuariameute não se administrava o baptis- 
mo senão n'estas duas festas, e este costume ain- 
da durava no decimo .sexto século na maior par- 
te das egrejas. Em caso de necessidade baptisa- 
va-se em qual(|uer dia. Os filhos dos lieis eram 
baptisados apenas seus pães os apresentavam, 
mesmo sem se esperar que tivessem os oito dias. 
O uso de se administrar o baptismo todos os dias 
iudistínctamente só principiou no fim do undé- 
cimo século. 

Desde os apóstolos até ao século decimo quar- 
to, e ainda mais adiante, dava-se o baptismo 
immergiudo n'agua por trcs vezes em nome das 
três pessoas divinas. Não se dava por aspersão 
ou infusão, senão quando se não podia por ou- 
tro modo, por exemplo na doença. Foi nos sé- 
culos quinze e dezcseis que se tornou universal 
o baptismo por infusão. 

Chegado o dia do baptismo, levava-se o ca- 
thecumeno ao baptistério, faziam-no renunciar ao 
demónio e ás suas pompas ; eram interrogados 
sobre a fé, e elle respondia recitando o synibo- 
lo dos apóstolos. O cathecumeno despia-se, e 
descia á fonte baptismal assistido do padrinho 
e de um diácono, ou outro clérigo. Então o bis- 
po ou o padre fazia-lhe a tríplice immersão. Se 
havia duas cubas, ou duas fontes, as rapari- 
gas e as mulheres baptisavam-se á parte ; eram 
assistidas de suas madrinhas, despidas pelas dia- 
conas ou outras pessoas piedosas, tendo sempre 
o corpo coberto, ou de agua durante o acto, ou 
com alguma cobertura ao entrar e sair d'agua. 
Se não havia senão uma cuba, eram baptisados 
primeiro os homens, e depois as mulheres. 

Aos recembaptisados chamava-sc neoplujtos, 
que quer dizer recemnascidos, qualquer que fos- 
se a sua edade. Davam-lhes a comer leite e mel 
que significava a entrada na verdadeira terra da 
promissão, e a infância espiritual. Usavam du- 
rante a primeira semana do baptismo um vesti- 



9» 



O PANORAMA. 



do branco que recebiam ao sair da fonte baptis- 
mal, como symbolo da innocencia que haviam 
recobrado, e que deviam conservar até á morte. 
Toda essa semana commungavara, porque ordi- 
nariamente se conferia o sacramento da Eucha- 
ristia lOjAO depois do baptismo e da conlirniarão. 
O neophytisrao durava um anno, durante o ([ual 
os novos christãos não podiam ser elevados ás 
ordeus sacras, senão por mui fortes motivos. 

CONFIRMAÇÃO .^ 

Nos primeiros tempos da Egreja, era o sacra- 
mento da Conlirmação como uma sequencia e 
com])lemento do Baptismo, e por isso quando o 
neopliyto saia da fonte baptismal era conduzido 
ao bispo que lhe impunha as nitãos, ungia-lhe a 
testa com a santa chrisnm, e o confirmava na 
fé pela plenitude do Espirito Santo. 

Foi a pratica mais geral até ao decimo ter- 
ceiro século não separar estes dois sacramentos, 
ou apro\imal-os o mais possível ; e era a razão 
d'islo para não deixar exposto o neophyto aos 
ataqties do inimigo dos recemregenerados. Pre- 
Yaleceu depois o uso contrario, e o cathecismo do 
concilio de Trento exhorta a esperar pela edade 
de doze annos para a Confirmação. 

Havia padrinhos e madrinhas para este sacra- 
mento. Os que o recebiam levavam á egreja uma 
ligadura de panno branco, com a qual cingiam 
a cabeça depois da unção com o óleo santo, e 
traziam-na por sete dias. Depois perdeu-se este 
costume. A ceremonia de uma ligeira pancada 
com os dedos na face, é moderna. Quanto ás dis- 
posições necessárias para se receber este sacra- 
mento não mudaram — exigc-se uma consciên- 
cia pura, fé viva, e profunda humildade. 

ECCUARISTIA E SASRIFICIO DA MISSA. 

Era a oração a principal occupação do chris- 
tão. Juntavam-se nas cgrejas aos domingos c 
sextas feiras para orarem em commum de mo- 
do mais soleunie, e olíerecerem o sacrilicio in- 
cruento dos nossos altares pelo ministério dos 
sacerdotes: chamava-se-lhe ceia, fracção do pão, 
oblação, .sijnaje (que quer dizer a.v.srwfc/«/), col- 
iectà, encliaristia, ou linalmente Itlnryiu, pala- 
?ra que signilica serviço publico. 

Não havia cm cada egreja, que quer dizer em 
cada diocese, mais de um sacrifício. Era o bis- 
po (lucm o celebrada, e os sacerdotes só o fa- 
ziam quando o bispo estava ausente, ou doen- 
te ; porem todos os padres o ajudavam n'esta 
augusta funcção, e oITereciam com cUe a victi- 
ma sem mancha. A ordem da liturgia mudou 
com os tempos e logares, porem no essencial foi 
sempre a mesma. 

Eis o que SC observava na maior parte das 
cgrejas : 

Depois de algumas orações liam-se as Escrip- 
luras sagradas, e acabava-se sempre pelo Evan- 
gelho, (juc o prelado explicava. Depois lodos 



os assistentes se levantavam, e voltados para o 
oriente com as mãos erguidas prua o ceo ora- 
vam por todas as pessoas, christãos, infiéis, gran- 
des e pequenos, e especialmente pelos afflictos, 
doentes, e todos que sollriam. Um diácono ex- 
hortava a orar ; o sacerdote fazia a oração, e o 
povo respondia Amen. Depois oíléreciam-se os 
dons, que constavam de pão e vinho misturado 
com agua, que deviam ser a matéria do sacri- 
licio. O povo dava-se o beijo da paz, os homens 
aos homens, e as mulheres as mulheres, em sig- 
nal de perfeita união; depois cada um ofíerecia 
os dons ao sacerdote, que os ofierecia a Deus 
em nome de todos. Principiava então a acção do 
sacrifício, sendo o povo advertido a elevar os 
corações a Deus, render-lhe graças, e adoral-o 
profundamente com os anjos e as virtudes ce- 
lestes. 

Depois da oflerenda fechavara-se as portas, e 
guardadas com grande cuidado pelos diáconos 
ou porteiros, não as abriam, nem mesmo aos 
fieis, senão depois da communhão. Outros diá- 
conos andavam pela egreja, muito devagarinho, 
vigiando que se não fizesse o menor motim. Ha- 
via um diácono especialmente encarregado de 
vigiar as creanças cujo logar era junto á cadei- 
ra do bispo, e pelo que respeitava aos mais pe- 
queninos recomraendava-se ás mães que os tives- 
sem ao collo. Assim todo o povo, attento e silen- 
cioso, escutava com profundo respeito as ora- 
ções do prefacio e da acção, a que chamamos 
Canon, porque o prelado as dizia em alta voz, e o 
poTO respondia Amen, como em todas as orações. 

Continua. A. 



UM PONTÃO NOS RIOS DA ALEMANHA. 

Pontão, ou ponte volante é uma barca mui- 
to grande e chata que serve para passar os 
rios. É feita de sorte, que cgualando com a ter- 
ra entram n'ella dois e Ires coches com os ca- 
vallos e muita gente de pé. Passa com bastan- 
te ligeireza á outra parte, sem embargo das cor- 
rentes arrebatadas d'alguns rios que se atraves- 
sam da mesma forma. Ouçamos um viajante do 
século passado : 

«Muitas vezes não saí da carruagem em que 
ia, nem o postilhão descia do cavalio, e assim 
que chegava á outra banda, continuava a jorna- 
da sem embaraço algum. As ditas barcas são ti- 
radas em algumas partes por cordas, e roldanas, 
obra que me pareceu de pouco engenho, mas de 
muita segurança. Usam lodos os postilhões de 
umas pequenas cornetas de metal, que levam 
presas a um cordão, tecido cora as mesmas co- 
res das suas librés, que em cada província, ou 
reino são dilTerenles. Antes de chegarem aos lo- 
gares onde ha pontões para passar, tocam a di- 
la corneta varias vezes, de sorte ([ue se o pon- 
tão, ou barca está da outra parte do rio, trata 
de se fazer prompta com muita diligencia, para 
que a posta uâo tenha demora." 






1 



3 



o PANOF.AÍSA. 



o: 



í ji-i ,1 I J 1 LÍI 




NSCROFOUS DE DOCIMU. 



Necropolis é um termo grego que significa ci- 
dade dos mortos, e appiicava-se especialmente 
aos túmulos subterrâneos ou hypogeus, que os 
egypcios excavavam na visinhança de suas ci- 
dades ; cita-se sobre todas a Necropolis de Ale- 
xandria. Na Ásia Menor também existem mui- 
tos, e nem todos são ornados de fachadas ricas 
ou elegantes como os de Urgub e Myra ; ha-os 
que não passam de simples grutas sem adorno 
algum : e mesmo no ultimo logar mencionado, 
Myra, se vêem bastantes d'estc género. D'esses 
hypogeus (quer dizer, subterrâneos) escolhemos 
para exemplo, um d'aquelles era que se acham 
reunidos em maior numero, a necropole de Do- 
eimia. M. 



ESPANTOSA INUND.A.C.10 DE MAR. 



II 



«11 faut aTOucr .jue nous sommes bien 
éloignés de pouvoir en donner une expli- 
cation satisfaisente, dans 1 etat actuei de 
nos connaiísances.j) 

Alexasbre de Humboldt. 



Não e sem reluctancia, que levamos mão do 
simples relatório das occorrencias relativas á 
inundação de mar, que tão poderosamente se 
fez sentir no archipelago dos Açores no dia 5 
de Dezembro de 1839, para lhe* aventar algu- 

VOL. 1.-4.^ SESIE. 



mas conjecturas causaes. Leigos nas doutrinais 
e lições das sciencias naturaes, entramos cons- 
trangidos n'este particular. De boamente quize- 
raraos fugir-lhe, e lhe fugíramos, se não fosse 
o implícito reclamo que a narração precedente 
está fazendo d'algumas palavras, que, se não 
satisfaçam cabalmente a curiosidade dos leito- 
res, deixem ao menos motivo de a entreter com 
pareceres e adivinhações ; porque, emlim, qua- 
si que a isso se reduz o pouquíssimo, que so- 
bre este ponto se pode dizer. 

Sábios naturalistas tem parado confusos e ma- 
ravilhados ante a immensidade de quejandos phe- 
nomenos marítimos, desconhecendo-lhes a ori- 
gem, e contentando-se em admirar-lhes os elTei- 
tos, sem aventurarem sobre aquella mais do que 
coníradictorias, e volantes supposições. 

Este successo particular, só remotas analogias 
de origem nos offerece com muitos outros, fre- 
quentes nas costas asiáticas e americanas. Não 
virá inútil fazer aqui menção especilicada d'e.s- 
tes, para illustrar o nosso propósito, com que 
parecem ter fraternidade. 

João de Barros, e Diogo do Couto, nas Déca- 
das ou Ásia Portugueza, nos dizem, que na ín- 
dia lhes chamam mararéo, que é — «fluxo de. 
maré. . . tão veloz, que não ha cavallo, por li- 
geiro que seja, a que a maré não alcance, quan- 
do entra pela planície da praia.» — «Nos mares 
da índia (lè-se n'um escripto contemporâneo) cha- 
ma-se macaréo aquclh ímpeto, com que por es- 
MABOo, 28, 18Õ7. 



9S 



O PANORAMA. 



la costa enchem e vasam as aguas do mar. Tal 
e a força, tamanho o arrebatamento, e violên- 
cia com que descem e sobem, que de qualquer 
postura que colhem os navios, se nao e com a 
proa direita, c muito cuidado contra a corren- 
te, de nenhum modo escapam de trabucados.)- 

No Tratado breve dos rios de Guiné, André 
Alvares d'Almada, considerando a navegaçcão do 
rio de Geba, lambem falia d'este phenomeno. — 
nEsta navegação (diz elle) é perigosa por causa 
da agua do Maçar éo, que é encher este rio la 
çm cima com três mares somente. Estando a ma- 
ré vasia, dando três mares fica preamar de to- 
do ; (1) e antes de virem estes mares se ouve 
roncar um grande espaço, e mette medo ás pes- 
soas, que nunca viram isso. E correm as embar- 
cações grande risco » 

Á America é elle familiar. Pororóca no Ama- 
zonas, Maranhão, etc, como era macaréo na 
Ásia ; seus elíeilos violentos são tão análogos, 
como porventura suas causas, que indubitavel- 
mente continuam ainda hoje a ser uni segredo, 
que a natureza tem sonegado ao olho atrevido 
do homem. 

La-Condaminc, observador experimentado e 
perito, nos dá testemunho da pororóca. «Prin- 
cipalmente em frente da grande confluente do 
Arawary no Amazonas (diz) pelo norte, singu- 
lar phenomeno nos presenla o fluxo da maré. 
Nos três dias mais convisinhos aos pléiiiluriíos 
ou noviluuios, em que as marés são mais subi- 
das em logar de empregar como de ordinário 
seis líoras á crescei", o mar se éléva em um ou 
uóis niinutos a,ó seíi niáis alto ponto. Clâró está 
([lie este descomposto súófcèsso naó correrá em 
soccgo. Na distancia de uma oii duas léguas já 
se ouve o bramido horroroso; precursor e certo 
annuncio á-à pororóca — que tal chamam os Ín- 
dios d'estes cantões a esta terrível enchente. O 
rumor augmenta á proporção que eila se apro- 
xima, e logo apparcce um vagalhão promontó- 
rio, d'allura de doze a quinze pés ; — apDz, so- 
brevem outro. . . outro. . . e outro. . . sem espe- 
ra, estendidos por toda a largura do canal. Es- 
ta vaga prosegue com uma rapidez prodigiosa ; 
arrasa e faz pedaços quanto ousa a!itcpor-se-.lhe. 
Em vários logarcs eu vi muito terreno arreba- 
tado por a pororóca, grossíssimas arvores arran- 
cadas, e toda a casta d'assolações. Tudo o (jue 
eliu percorre fica tão limpo cojno-se a praia fo- 
ra varrida cuidadosamente. Botes, canoas, e até 
barcas, nenhum outro refugio topam,- que a tal 
furor as furte.. . senão lançar ancora em Joga- 
res de muito fundo » 

Sobre este j)iicuomeno no Maranhão, que é — ■ 

(1) «flc todo não fica; — nota José Joaquim í.opcs 
(ie Lima — pprqiic ainda depois d'esles mares con- 
tinua a encher por mais Ires horas, no fim liasquaes 
— vasa por seis horas, — e seguem-sc cnlão Ires ho- 
ras de baixa-mar, durante as quaes vae successiva- 
mente crcscei:do o ronco que causa o impclo do mar 
d'cncoutro ás coroas d'areia até que chega a romper 
nos três mares do macarco,» 



»um movimento irregular das aguas na occasião 
da enchente das marés, entrando pelos rios e 
lagos acima com Ímpeto inexplicável» — nada 
accrescentaremos, porque substancialmente se 
reduz a quanto fica dito. 

Conhecido n'algumas partes, nomes particula- 
res ou accidentaes lhe impõem em cada uma d'el- 
las. Nas costas da Gironda, na Garona cerca de 
Bordeaux, onde o appellidam variamente maça- 
rei, mascarei, barre, é de tão sensível violência, 
que no meio de mil outros sortidos e pasmosos 
effeitos, faz, sem que isso admire pela frequên- 
cia, afundar as embarcações sobre a amarra ! 
As ilhas Orcades, na parte septeutrional da Es- 
cócia, não desconhecem esta corrente caudal — 
e quem em Cayenna perguntar por o barre acha- 
rá ahi farta experiência d'elle. (1) 

Sendo familiares nos mares da índia e da 
America, o macaréo e pororóca não são frequen- 
tes cá nas partes europeas — raridade, que não 
pouco talvez tenha concorrido para que a scien- 
cia os coniieça tão vagamente ; porquanto, qua- 
si estranho na Europa, que sem falsidade ou of- 
fensa de pundonores podemos dizer tem sido o 
núcleo dos sábios, d'esl'arte ha sido de mais 
custosa e rara investigação. 

Volvendo a fallar da singular inundação dos 
Açores em 1839 — depois de termos apresenta- 
do o bosquejo de alguns successos análogos, que 
j)eH(}dica ou extraordinariamente occorrem em 
longin([uas plagas — diremos, que o dia 3 de 
Dezembro não tomou desprecatadas as ilhas por- 
tuguezas. A de San-Miguel tem por vezes expe- 
rimentado taes assolações,., e ainda que a sua 
historia não seja mui particular na relação das 



(1) Não podemos resistir á tetjtação de trazer pa- 
ra aqui a formosa descripção que do barre faz um 
dos mais eloquentes c poéticos escriptores francezes. 
— «... Nous entendimes au loin un bruit sourd, mu- 
gissànt, semblable àcelui d'une cataracte... J'aper- 
çus a la biancheur de son ccnme, une montagne 
d'eau qui venait à nous du còté de la raer, en se 
reuhint sur elle-mème. Elle occuppait toutc la lar- 
geur du íleuve, etsnrmonlant ses rivages à droitcet 
à gaúche, elle se brisait avcc un fracas horrible par- 
mi les trones des arhres de la fòret Dans Tinstant 
elle fut sur notre vaisseau, et Ic renconlrant eu tra- 
vcrs, elle le coucha sur le còté : ce mouvcment me 
fit tomber dansTeau. Un moment apiès, une secun- 
de vague, encore plus élevée que la premiére , fit 
toarner le >aisseau loul-à-fait. Je me souvieus qu' 
alors j'cnlendis sortir une raultit\ide de cris sourds 
et étouflés de cette caréne renvcrsée...» 

((Celte montagne d'eau est produite par les niarécs 
qui entrent de la raer dans Ia Sciue, et la font re- 
íluer conlre son cours. On Tentend venir de fort 
loin, sur toul la nuit. On Tappelle la Barre, parce 
qu'elle barre tout le cours de la Seine. Cette barre 
est ordinairement suivie d'unc seconde barre enco- 
re plus élevée, qui la suit à cent toiscs de distauce. 
Elles cuurcnt beaucoup plus vitt quun clicval au ga- 
lop. » — Bernardin de Snint-Pierre, oeuvkrs com- 
pletes (ed. d'Aimé Marlin) na Árcadie, t. 7." dos 
Eludes de la Nature. p. 132 e 375. 



o PANORAMA. 



f>9 



enchentes anteriores, assim mesmo de algumas 
d'ellas nos legou pungente memoria. 

Por occasião do espantoso terremoto, ipie so- 
verteu Lisboa, no 1." de Novemiiro 17!ii>, mui- 
tos tremores de terra, acompanhados d'uma ex- 
traordinária inundação de mar, destruiram al- 
gumas povoações daquclla illia, e em Ponta- 
delgada a enchente entrou e assolou as ruas 
convisinhas ao litoral. 

No meio de ventos violentíssimos, com o ce- 
lebro temporal de 2o d'Âgosto 1779, o mar fu- 
rioso e descomposto, elevado a uma altura des- 
mesurada, entrou por muitas vezes a mesma ci- 
dade, cercando de todos os lados a egreja ma- 
triz de San-Sehastião, e espraiando-se, como ou- 
tros tantos braços de rio, pelas ruas adjacentes. 
Por sobre o penedo amarello, no areal de San- 
ta Clara, doze pés acima do nivel do oceano, no 
extremo occidcntal de Ponta-delgada, arrojou o 
mar um navio até ao poço (distante do penedo 
duzentos e quarenta pés) e da tripulação só pô- 
de salvar-se um homem. 

Apoz isto não veiu de novo a inundação de 
1839. Acompanhada de cortejo horroroso che- 
gou ella ! Mais vehemente sobre a madrugada, 
tomou incremento espantoso com o dia. Feliz- 
mente não durou muito, e dentro de poucas 
horas já a violência do phenomeno declinava. 
Tma atmosphera pesada e escura — nuvens con- 
tinuadas e espessas — altíssimas vagas d'um es- 
pantoso colorido, como montanhas encobrindo 
todo o horisonte, succedendo-se, revesando-se, 
rolando furiosas sobre a praia, aluindo e des- 
concertando não só todas as obras dos homens 
que lhe ficavam diante, mas também as rochas 
naturaes, de que despregavam muitos borcelos, 
subvertendo tudo quanto se oppunha á sua ino- 
pinada violência arrebatadora — taes eram al- 
guns dos prospectos, que apresentavam os suc- 
cedimentos d'aquelle dia ! 

Seria este phenomeno produzido por um des- 
regramento ou desconcerto da grande corrente 
submarinha, que saindo do golpho do México, 
toma a altura de Newfoundland, passa pelos 
Açores, e emfim, apoz outras rotas, vae entra- 
uhar-se no Mediterrâneo? 

Seria uma tempestade marítima, gerada n'es- 
ta paragem, ou consequência doutras mais lon- 
gínquas ? 

Seria o macaréo ou pororóca, ainda que não 
reagindo sobre nenhum rio, mas só por parida- 
de de seus efTeitos mais genéricos? O já citado 
La-Condamine, fallando da pororóca e queren- 
do afeiçoar-lhe uma explicação plausível, escre- 
ve — «. . . . Notei sempre, que ella não sobrevi- 
nha senão com a enchente da maré, a qual re- 
presa em canal estreito, topava no caminho com 
ura banco d'areía ou fundo alteado, que se lhe 
oppunha, e que só aqui principiava este movi- 
mento impetuoso e irregular das aguas, que ces- 
sava um pouco além do banco, quando o canal 
se profundava ou alargava consideravelmente.» 
]N"este mesmo sentido também parece escrever 



Lopes de Lima, (1) fallando dos bancos d'arcia 
ou coroas de Goiajé, (jue obstruem o rio de Ge- 
ba na Guiné-portugueza, c dizendo — «. . . Es- 
tas coroas ou dunas d'areia, tomam o rio quasi 
de banda a banda, deixando apenas um canei- 
ro estreito, por onde raal podeni passar duas ca- 
noas a par durante ura bom espaço do rio, e co- 
mo são mui altas represam ali a maré por três 
horas, o que nas grandes marés de conjuncção 
de lua produz o phenomeno do macaréo, o qual 
não deixa de ser perigoso para as embarcações, 
que se acham n'aquelle canal ao tempo que as 
aguas represadas rompem com fúria aquclle di- 
que natural.)' 

Mas a respeito das razões em que La-Conda- 
mine assentou para illustrar a pworúca, disse o 
sábio naturalista Paírin : — '«Parece-me que o 
phenomeno da pororóca so pode explicar pelas 
razões de La-Condaraine, tanto como os furacões 
.se podem julgar eíTeitos de simples alteração no 
eq4iilibrío da atmosphera, que quando muito pro- 
duziria uma ligeira viração.» 

Seria a nossa inundação consequência de con- 
tra marés, que violentamente se debatessem, 
correndo de pontos oppostos? — Esta hypolhcse 
achou ecco cm muitos espíritos. Um velho exj)e- 
rimentado marítimo michaelense foi um dos ((ue 
primeiro suscitaram similhante idéa. — Eram, 
dizia elle, marés correntes do noroeste e sueste. 
E para muita gente isto se constituiu em facto 
averiguado. — Não o fora comtudo assim, nem 
o podia ser, para os mais escrupulosos, acostu- 
mados a razões lógicas e demonstráveis. Ura en- 
tendido, escrevendo sobre isto, disse e com mui- 
ta sensatez — «O que.. . não está bem averi- 
guado ainda é a causa da apparíção de tão des- 
truidores eíTeitos.» (2) E o mesmo Patrin o vem 



(1) Ensaios sobre a Statistica das Possessões Por- 
tuguezas no Ultramar. L. 1.° Part. ii. pag. 107 e 
seg. 

(2) « O dia S de Dezembro de 1859 na cidade de 
Ponta-delgada. — O^espantoso phenomeno marilimo, 
novo entre nós, extraordinário, e para sempre me- 
morável, observado, e gravemente sentido no dia 3 
do corrente, não é estranho nas ilhas francezas ame- 
ricaaas, e em outros pontos do globo. Dão-lhe ahi 
o nome de Ilas-de-marées. Tem logar este phenome- 
no desde o principio do mez de >'ovembro até o meia- 
do d'Abril, especialmente em Dezembro, e Janeiro; 
6 sempre junto das costas, ou praias, ainda que em 
pouca extensão d'ellas. Tão violentos, e Ião impetuo- 
sos são os assaltos das desmesuradas ondas, que sub- 
mergem, d'ordinarlo, as embarcações ancoradas, oti 
amarradas nos portos, e enseadas. — Sabido ó que a 
terribilidade dos vagalhões junto daspraias lhes pro- 
vém de se recurvarem sobre si mesmas as vagas, aug- 
mentando de volume, e de se quebrarem com fragor 
horrendo. — O que porém não está bem averiguado 
ainda é a causa da appariçZw de tão destruidores ef- 
feitos. — Dos naturalistas julgam uns serem furacões, 
ou tempestades locaes, independentes do sopro dos 
ventos. Para si tem outros serem consequências de 
procellas, que eta outras partes reinaram. Outros 
eflifim presumem não serem mais do que contra-ma- 



i^® 



o PANORAMA. 



roborar, quando diz que a pororóca é — «um 
lacto extraordinário, de que fora diílicil desco- 
brir a origem, com a qual nvm mesmo La-Con- 
damine parece ter acertado.» 

Seria um eITeito vulcânico? — Esta opinião, 
que ao primeiro aspecto parecera iraproducenie, 
tem por si,. no caso isolado de que falíamos,' as 
leis e theorias da sciencia. Com tantos vestigios 
vulcânicos, e com muitos respiradoiros, seria 
disputar ao sol a faculdade de allumiar, negar, 
que o archipelago dos Açores é sobreposto a um 
vasto laboratório de fogos interiores. Que mili- 
to, pois, que esta verdade nos empreste meios 
de alcançar a solução do nosso problema? A 
enchente não parecia partir de mui longe: a uma 
milha da costa talvez o seu impeto já fosse ir- 
reconhecível. As tripulações de alguns navios de 
levante, cjue se mantinliam durante o successo 
a pouca disíancia, foram unanimes em declarar, 
(jue na altura poniue enlão andaram, as aguas 
não apresentavam nenhum caracter extraordiná- 
rio, que revelasse o (jue ia junto da costa, que 
demorava perto. — Assim, por qual outra causa 
seria senão por uma subterrânea reacção vul- 
cânica, onde as matérias em combustão se in- 
ílammassem e debatessem, — não com a força de 
projecção bastante para produzir um respiradoi- 
ro, romper, e ultrapassar a crusta do globo ter- 
restre — mas conseguindo apenas subleval-a, 
temporária ou permanentemente ? Não seria por 
esta alteação inopinada, que as aguas arroja- 
das d'aquclle fundo cm que repoisam, e violen- 
tadas talvez por concussões repetidas viessem 
furibundas, debater-se contra as costas próxi- 
mas? Muitas outras causas podiam soccorrer es- 
ta hypothese : o uoiulunio e a acção dos ventos 
seriam sobejas. A iniluencia das conjuncções lu- 
nares sobre o movimento das aguas não ha ahi 
quem a conteste ou ignore ; e o poder dos ven- 
tos é tão portentoso (jue o génio de La-Place 
creu só por elle explicar satisfatoriamente a cau- 
sal da grande corrente de oriente a occidente, 
dita equinocinal. 

Que mais razões podemos aventurar aqui? — 
Observações meteorológicas ninguém as fazia en- 
lão. (1) Podiam concorrer muito para illustrar. 



rés, isto é, marés que se encontram, vindo cada uma 
<le seu lado opposto, formando tnuilas vezes, e em 
certas paragens, correntes rápidas, e perigosas. ..d 
— O Monitor, n. 4o, de 11 de Dezembro 1839. 

(1) Depois d'isso houve quem as fizesse, c cuida- 
dosamente, por alguns annos. Allndimus aos curio- 
sos c scientilicos trabalhos de mr. Thomaz Carew 
Uunt, cônsul geral de sua inagestade britânica nos 
Açores, residente na ilha de San-,Migucl, cavalheiro 
da maior distincção e affabilidade. Sob o titulo de 
Ohscrvaçúcs Metcurologicas os pnblicoii regularmen- 
te e no decurso de annos, desde 20 d'Oiitubro 18ii 
»o importante jornal O AíjriculUir Micluicicnsc. É di- 
gno de ler-sc o seu artigo sobre o Clima dos Açores, 
íi pag. 169 do Álinanak Itural tios Açores para o an- 
no (Jj; ISiil , mandado publicar pela benemérita So- 
«iedadfi Promotora da Agricultura Michaelense. 



e porventura fixar a theoria d'este phenomeno, 
restando á historia somente dizel-a, e não adi- 
vinhal-a, como agora lhe succede. 

Se ainda assim não puder satisfazer a alheias 
curiosidades o pouco que dito fiea, pegar-nos- 
hemos ao argolão dos mysterios, e sem força pa- 
ra explicarmos convincentemente este notável 
caso, saberemos ao menos defender-nos, dizen- 
do, como o prccitado naturalista francez: — «Nas 
grandes massas de íiuidos, que cobrem o globo 
terrestre, ha movimentos espontâneos, animan- 
do cada uma de suas moléculas, que não são de 
maneira alguma mecânicos, e cujo principio nos 
é tão incógnito como aquelle, que produz a cir- 
culação do sangue nas veias ; e pode ser que 
n'isto não falte analogia.» (1) 

José de Torres. 



BIBLIOTIIECA DE ALEXANDRIA. 

O Egypto, que por tantos ânuos foi um paiz 
clássico das lettras, achou-se successivamente 
dominado e subjugado pelos persas, gregos, ro- 
manos, e árabes. 

Sabe-se que os gregos tiveram o Egypto em 
subjeição por mais de trezentos annos. Morto 
Alexandre, o throno foi occupado pela dynastia 
macedónia dos Lagidas que ahi reinaram por 
duzentos c noventa e quatro annos, ate á mor- 
te de Cleópatra. 

A famosa bibliotheca de Alexandria, fundada 
e enriquecida pelos primeiros Ptolomeus, cons- 
tava de setecentos mil volumes quando os ro- 
manos a incendiaram, na occasião em que Cé- 
sar cercava esta cidade. Rfformou-se depois com 
k'uzentos mil volumes da bibliotheca de Perga- 
mo, donativo feito por Antonino a Cleópatra. No 
tempo do imperador Theodosio, o Maior, foi ou- 
tra vez incendiada pelos christãos, que lança- 
ram fogo ao templo de Serapis, onde ella esta- 
va collocada. Novamente a incendiaram os ára- 
bes, queimando os restos que ainda ali havia de 
livros profanos, e ecclesiasticos colligidos pelos 
christãos. 



JANELLA GOTHICA. 

Em Agosto do passado occupando-se alguns 
trabalhadores na obra de apearem o lanço da 
muralha do angulo sudoeste no edilicio denomi- 
nado Guildhall, ([ue são os paços do concelho, 
ou palácio da corporação municipal de Londres, 
descobriu-sç esta janella, <|ue se presunu; estar 
enlaipada na parede desde o grande incêndio 
de Londres em KiGC; e bem se vè que em par- 
te achou-se exposta á acção do fogo : as suas 

(6) Nouveau Dictionnaire de Uistoire Naturelle, 
verb. Mer, artigo de Patrin. 



o PANORAMA. 



aoi 



molduras e repartimentos são de pedra calcarca, 
n'alguns logares calcinada (juaudo outras porções 
estão perleitamenle intactas. 

Foriua esta janclla duas frestas envidraçadas ^ 
ao uso d'aqueiies tempos ; a peça do meio ([ue i 



divide as frestas tem de altura quatro pés até 
onde faz arco ; e a largura é de cinco pes de 
honibreira a liombrcira ; a parede em ([ue está 
mettida tem (|ualro pés de f^rosso. 



M. 




'^li''';!;^!'! I isí'',:-:m|í'I 



ll|x$':^^qi^$5M^ 



I ■' , \ ^ "^ '-■■■;■ .' ' ■ - 'i j ' i. 




lANELLA GOTHICA. 



HOFFMANN! 

Continuação. 



II 



Somos chegados á época em que começa pa- 
ra Hoffmann a verdadeira gloria. Aesphera dos 
.seus estudos alarga-se, pelo ardente desejo de 
saber que o accommette. O seu talento variado 
desinvolve-sc com mais actividade, na presença 
d'aquella sociedade tão adiantada no caminho 
da civilisação. O poeta, o musico, o pintor sen- 
te duplicarem-se-lhe as forças da intelligencia, 
pelo contacto de homens já conhecidos no mun- 
do artistico, taes como llitzig, Voss, e Zacha- 
rias Werner ; lanca-se com assiduidade ao tra- 



balho : compõe peças musicaes, faz quadros, es- 
creve livros; e toda a cidade presta homenagem 
ao seu raro en<renho. 

líoffraann foi feliz em Varsóvia, porém essa 
ventura não durou muito tempo. 

Apesar do ruido de uma grande povoação, 
que muito o contrariava em seus estudos, como 
elle graciosamente conta em uma poética carta 
ao seu fiel amigo Ilippel ; apesar mesmo dos 
enfadonhos trabalhos do lòro, a que o obrigava 
o seu emprego de magistrado : Iloflmann achou 
tem|)o para compor a musica de três operas — 
A Cliarpa e a Flor, — O Coneyo de Milão, e — Os 
Músicos fjalhofeiros. — Além d'isso, encarregou- 
se de fazer prosperar uma sociedade philarmo- 
nica, que existia em Varsóvia, atai ponto, que 
alcançou comprar para ella o palácio Mniszk, 



flOS 



o PANORAMA. 



onde se deram repetidos coucertos musicaes. 
nolTiuann incumbiu-sc de decorar, pela sua mão, 
a grande sala d'aquelle palácio, aonde elle pró- 
prio devia figurar como mem])ro da orchestra. 
O conselheiro trocava a miúdo a toga pelo aven- 
tal do pintor ; e muitas vezes, erguido sobre um 
andaime, cercado de potes de tinta, e com uma 
garrafa de vinho do Rheno ao alcance da mão, 
dava audiência na sala da philarmonica aos li- 
tigantes, que reclamavam justiça. Á noite, ope- 
rando terceira metamorphose, embriagava com 
as harmonias da sua rebeca um auditório de en- 
tendedores. 

Porém uma tarde, a 28 de Novembro de 1806, 
a cavallaria de Mural entrou em Varsóvia. No 
dia seguinte o marechal Davoust, arrojando os 
cossacos para além do Vistula, tomou posse da 
cidade. A 19 de Dezembro, ás duas horas, che- 
gou Napoleão á capital da Polónia. A 8 de Julho 
de 1807, creava-se o ducado de Varsóvia, e 
era entregue o seu domínio ao rei de Saxonia. 
Hoffmann estava pois desempregado, e fora- 
gido também. Os bcllos dias de prazer tinham 
voado. Da tristeza provciu-lhe uma grave en- 
fermidade ; e viu-se sem recursos pecuniários, 
sem protectores, nem amigos, preso ao leito da 
doença ! 

Não tendo podido alcançar em Berlin uma 
collocação official, começou a dar lições de mu- 
sica, para não morrer de fome. Por pouco que 
não teve a sorte dos grandes poetas ! . . . 

O seu amigo Hitzig alcançou-ihe, a muito 
custo, a nomeação de chefe da orchestra do thea- 
tro de Bamberg ; e Iloffmann partiu alegre a 
desempenhar o seu novo cargo, bem differente 
do que occupara em Varsóvia. Mas oh fatali- 
dade ! Á sua chegada não encontrou o director 
do theatro, que havia fugido com o pecúlio da 
companhia ! Os actores, que não podiam pagar 
aos músicos, resolveram-se a declamar em vez 
de cantar ; e Hoflmann, amoldando-se ás cir- 
cunstancias comstoica philosophia, decidiu-sc a 
fazer Tersos em logar de reger a orchestra. E foi 
applaudido. ,' ".'urj- •' 

Porém os reditos do seu novo emprego eram 
insignificantes. Para melhorar um pouco a si- 
tuação em ([ue se achava, Hofiraann escrevia ar- 
tigos para a Gazeta musical de Leipzig, mas 
ainda assim a sua penúria era extrema. 

Um dos seusbiographos, Eiailede laBédoUii- 
re (a quem seguimos, em parte, n'estc estudo) 
menciona como prova da triste verdade que apon- 
támos, o final de uma carta, escripta por llolV- 
niann ao editor d'aquelle jornal; (lizia assim: 

'iN'cstc momento não tenho nada, não sou 
nada ; mas quero tudo, sem saber precisamente 
o que.» 

Uma febre nervosa, aggravada pelo doloroso 
sentimento da perck de sua única filha, esteve 
a ponto de fulminar o pobre lIoíTmann, privan- 
do a litteralura de um de seus mais bellos or- 
namentos — Os Contos- phantasticos ! Felizmen- 
te, quando o anno de 1808 locava o seu termo, 



tinha Iloifmann melhorado de saúde ede fortu- 
na. 

Por influencia do conde .lulio de Soden, o 
nosso poeta é empregado em um novo theatro 
de Bamberg, sob a direcção de Hol!)ein, homem 
emprehendedor e honrado, mas decidido a enri- 
quecer em pouco tempo, ou a perder o seu ul- 
timo real. Hoffmann torna-se machinista, archi- 
lecto, musico, pintor, tudo, n'aquclle theatro. 
A concorrência publica o anima a trabalhar sem 
descanso.... porém um bello dia, por mero ca- 
pricho, Holbein larga a direcção do theatro, e 
abandona Bamberg, deixando outra vez o seu 
machinista a braços com a miséria ! 

Quando já tinha vendido a ultima casaca pa- 
ra comprar uni pedaço de pão, Hoffmann encon- 
tra de novo a sua segunda Providencia, o seu 
amigo ííitzig, que lhe alcança o logar de che- 
fe d'orchestra no theatro de Dresde. 

O magistrado lança mão, outra vez, do arco 
da rabeca, c põe-se a caminho da capital da Sa- 
xonia. 

N'esta cidade, se a fortuna liie não foi mais 
propicia, teve ao menos a consolação de encon- 
trar o seu melhor amigo, Ilippel ; e a amisade 
lhe fez esquecer um momento os seus infortú- 
nios. 

A miséria de Hoflmann não provinha de man- 
dreice ou orgulho; oex-conselhciro preslava-se 
a todos os trabalhos, de qualquer ordem que cl- 
les fossem, como temos observado. É que tam- 
bém na Alemanha, pelo menos n'aquellLí tempo, 
como em Portugal, ainda hoje, é muito diflicil 
alcançar uma posição independente pelas bel- 
las artes, em quanto se não cria uma grande 
reputação artística. 

Hofl^mann toca rabeca, compõe operas, faz 
caricaturas ; mqs a nudez está a bater-lhe á 
porta ! 

N'este miserável estado o encontrou Talma, 
em Dresde, quando ali foi dar algumas repre- 
sentações em francez, ao mesmo tempo que Hoff- 
mann introduzia no theatro alemão as comedias 
de Calderon de la Barca. 

Em 1810 escreveu o incansável Hoffmann a 
sua adraira\el analyse do 7). João, de Mozarl, 
e as Idcas de Kreissler sobre a musica. (Kreis- 
sler é um pscudonymo que elle adoptou para 
si.) Nos intervallos que lhe deixavam os traba- 
lhos litterarios e musicaes, pintou a fresco a 
torre do castello de Âltenbourg ! 

Em Abril de 1813 pa.ssou a dirigir a orches- 
tra da companhia de Joseph Secondo, que re- 
presentava alterna livamcnte em Dresde e em 
Leipzig ; e, segundo se deprehende de uma car- 
ta sua, datada d'esta ultima cidade, passava 
então a vida mais alegremente , postoque os 
meios pecuniários lhe não sobrassem. 

lloITmann possuía uma intrepidez natural, que 
locava as raias do heroísmo, quando alliada com 
a gastronomia. Eis um exemplo d'esta verdade. 
Eslava elle em Dresde, a '2C de Agosto de 1813, 
no meio da terrÍNCl luta do exercito francez com 



o PANORAMA. 



«03 



os alliados, quando, no momento de entrar em 
casa, lhe passou uma bomba por cima da ca- 
beça, que foi rebentar entre quatro caixões de 
])oívora. Depois outra, e outras estalaram na 
praça, e os moradores da casa, aonde llodiuann 
habitava também, trataram de se pôr ao abrigo 
da artilheria. Deixemos que o próprio heroe ter- 
mine esta narração. 

«A cada explosão não se ouviam senão gri- 
tos, soluços, lamentos... e nem um copo de vi- 
nho ou de rhiim para iortilicar o coração ! Es- 
capei-me pela porta travessa, e corri para casa 
do actor Keller, aonde achei que beber. Está- 
vamos nós, de copo em punho, em uma saca- 
da, que da\a sobre o Mercado Novo, quando 
outra bomba rebentou na praça. Um soldado de 
"Westphalia licou com a cabeça espedaçada ; e 
um paisano, bem vestido, caiu perto delle. O 
pobre burguez tentou erguer-se ; mas tinha o 
ventre aberto, e os intestinos saíam-lhe pela fe- 
rida ; baqueou de novo, e expirou. Keller dei- 
xou cair da mão o seu copo; eu despejei o meu, 
exclamando : O que e ávida? Como o homem é 
fraco ! Não poder supportar o choque de um pe- 
daço de ferro ! » 

Apesar d'esta inseiisibilidade, um pouco egoís- 
ta, Iloffmann amava a sua pátria, e a retirada 
dos francezes causou-lhe uma sincera alegria. 
Parecia-lhe que, depois da sua partida, se res- 
pirava mais livremente. E postoque atacado de 
um pleuriz e de rheumatismo gotoso, esqueceu 
o soUrimento para ridicularisar em caricaturas 
os invasores da Alemanha. 

Ainda doente, em Leipzig, no principio do 
anno 181 i, lloiTmann terminou a sua opera Oii- 
dina, que mereceu os applausos do publico, c 
o que é mais, os elogios de AVeber, o illuslre 
autor de Freijsdtutz. 

O nosso maestro legou á posteridade, alem dos 
trabalhos musicaes já mencionados, as operas 
— Amor e ciúme, e — A taça da immortalidade. 
Muitas symphonias, trios, quartetos, um ffl!.seí-e- 
re e um requiem. 

Até esta época, Hoffmann ora mais conhecido 
como musico, e como pintor, do que como lit- 
terato; mas a datar de 181í é por esta especia- 
lidade que vae tornar o seu nome eterno. 

Dos seus artigos publicados na Gazeta de 
Leipzig, accrescentando-lhe alguns inéditos, for- 
mou um volume, que publicou sob o titiilo de 
Phantasias no gosto de Callot, por E. T. A. 
lIolTmann. Não se sabe por que, havia mudado 
o seu ultimo prenome (Guilherme ou Wilhelm) 
para Amadeu. 

Em Setembro do mesmo anno voltou HofTmann 
a Beriin. aonde encontrou o bom amigo Hitzig; 
e alcançou em breve, por -intervenção do seu 
Pylades, o constante Hippel, um honroso logar, 
que conservou ate á morte, conselheiro da ca- 
mará real de justiça na mesma cidade. 

A miséria tinha acabado de uma vez para 
Ilollmann ; a abundância, apar de um nome 
glorioso, embalava docemente o poeta. Porém o 



homem que conhecia bem o mundo pela expe- 
riência, fugia do tumulto da corte para o seio 
da araisade ; e ligado estreitamente cora Hitzig, 
magistrado, critico, e criminalista distincto, com 
Adalberto de Chamisso, autor da curiosa histo- 
ria do Homem que perdeu a .sua sombra, com o 
romancista Contessa, o doutor Koreff c poucos 
mais, creou uma sociedade litteraria, que se de- 
nominou de Serapião, aonde se discutia littera- 
tura, philosophia, magnetismo, e se contavam 
historias e legendas. 

Era ahi ([ue Hofimann patenteava as suas mais 
phantasticas inspirações ; e d'estas palestras diá- 
rias nasceram os seus-immortaes Contos, o mais 
bello ilorão da sua coroa artística. 

Continua. 

F. M. Bordalo, 



CINTRA. 



Cintra, amena estancia, 
Throno da 'veccjanlc primavera. 
Quem te não ama? 

Camões — poema db Garrett. 

Cintra, Cintra, se eu tivesse 
Do Tasso as inspirações; 
Ou a lyra liarraoniosa 
Do nosso grande Gamões ! 
Se eu hoje fosse inspirado, 
Como o Dante enamorado. 
Com o seu estro immortal ! 
Com ardor eu te cantara, 
Os meus cantos te oQcrtara, 
Pois não tens belleza egual ! . . . 

Tudo era ti e aprazível. 
Tudo bello e seductor! 
De manhã, de tarde, á noite, 
Sempre nos falias d'anior ! 
Tu encerras iaes encantos, 
Teus atfractivos são tantos. 
Gomo eguaes não encontrei ! 
És p'ra mim a mais formosa, 
A mais linda e primorosa, 
Das terras por onde andei ! 

Onde tem mais poesia 
O nascer e o pòr do sol ? 
Onde é mais harmonioso 
O canto do rouxinol? 
Onde mais formosas flores. 
Palácios mais seductores. 
Nós iremos encontrar? 
Onde mais amenos prados. 
Arvoredos mais copados. 
Poderemos admirar?. . . 

Lá sobre a serra escarpada, 
Que magestoso não é, 
O castello dos reis moiros 
Erguendo-se inda de pé ! 



§.®g 



o FAIJCSâMâ. 



Com suas fortes muralhas, 
Testemunhas das batalhas, 
Que o tempo fez olvidar ! 
Quando as quinas levantadas, 
No meio das nossas espadas, 
Lá -se foram hastear ! . . . 

E no mais alto da serra. 
Da Pena o paço real ! 
Com os seus lagos tiio bellos, 
Suas fontes sem rival ! 
Com seus bosques seductores, 
Seus jardins e suas flores. 
Sua belleza sem par ! 
Lá n'esse monte elevado, 
Que da terra levantado. 
Quer os astros dominar ! . . . 

Acredita, ó minha Cintra, 
Que nas terras onde andei. 
Formosura egual á tua. 
Em nenhuma eu encontrei ! 
Eu n'ellas não desfructava, 
O prazer que em ti gosava, 
Nem achei encanto egual ; 
Pois tu és a mais formosa 
A mais bella e magestosa 
Das terras de Portugal ! . . . 

J. A. X. DE Magalhães. 



CnRONICAS MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESUS. 

III 

CASA DE S. ROQUE. 

Continuação. 

Foi esplendida a funcção do recebimento das 
relíquias doadas por D. João de Borja, e o prín- 
cipe cardeal, e archiduque Alberto regente d'es- 
te reino de Portugal, sob o domínio de Castel- 
la, ordenou que para noticia d'este acto se re- 
colhesse em narração de historia tudo quanto a 
este respeito se passou. 

Approvadas as relíquias, ordenou-se a pro- 
cissão com que foram transferidas da Sé para 
a casa de S. Roque. Ornaram-se as janellas e 
paredes das ruas, por onde tinha de passar, e 
na véspera se illuminou com lanternas a facha- 
da da egreja de S. Roque, e se fizeram foguei- 
ras no adro, lancando-sc fogo ás respectivas 
barricas de alcatrão com grande alvoroço de 
charamelas c repiques de sinos. Houve janella 
que SC alugou para o dia da festa por ([uarcn- 
ta cruzados, e casas por trinta mil réis. 

Aos 2'j de Janeiro de 1588 teve logar a so- 
Jemuidadc, c o préstito começou i\ sair da Sc 



pelas nove horas da manhã. Iam diante de tu- 
do os meninos da Doutrina com suas capellas na 
cabeça, e ramos verdes nas mãos. indo no coi- 
ce, ordenados em procissão tambe;a com ramos 
c capellas de flores, os meninos que já andavam 
cm hábitos de frades. Levavam elles n'uma 
charola doirada a imagem do Menino Jesus, e 
no mesmo andor, dois meninos de vulto, vesti- 
dos em habito de S. Domingos, e na attitude 
de estarem comendo com o Menino Deus; o que 
era representação de um caso, que se dá por suc- 
Gedido em Santarém. Acompanhavam esta cha- 
rola dez meninos vestidos de damasco carme- 
si com capellas de flores na cabeça ; e quatro 
d'ellcs levavam diante castiçaes de prata, com 
suas velas brancas acesas, e os outros salvas de 
prata, com varias insígnias e divisas do Meni- 
no Jesus. Seguia-se a capella da Doutrina com 
musica de motetes e cantigas devotas, acompa- 
nhando-a o celebre padre mestre Ignacio. 

Iam logo as bandeiras dos officios da cidade 
de Lisboa, e algumas folias e danças da mesma 
cidade, e entre estas uma de pastores. 

Seguiam-se as confrarias e irmandades, qtie 
foram em numero de mais de cincoenta, indo 
os confrades com seus hábitos e divisas, capel- 
las de flores na cabeça, ou lyrios nas mãos. Só 
a confraria do Santíssimo da Magdalena levava 
cento e vinte confrades, com suas opas de grã 
e escarlata, capellas, e tochas de quatro pavios, 
e suas particulares charamelas, das quaes ha- 
via varias ordens e ternos por toda a procissão, 
repartidas por seus intervallos. Pelo meio iam 
as cruzes d'estas confrarias, e de todas as fre- 
guezias da cidade, que passavam de cem. 

Vinham depois trezentos religiosos, que eram 
cento e dez da ordem de Nossa Senhora do Car- 
mo ; cem de Santo Agostinho ; cincoenta de S. 
João ; e os restantes, padres da Companhia da 
casa de S. Roque, e Collegio de Santo Antão. 
Levavam tochas nas mãos. 

Seguia-se aos religiosos grande numero da 
cleresia, indo no coice de uma parte o cabido 
da Sé, e da outra os capellães da capella real. 

O pallio era levado de um lado pelos capel- 
lães régios, c do outro pelos cónegos. 

Pelo meio dos religiosos e cleresia iam dis- 
tribuídas as relíquias em doze andores, feitos 
de novo para este acto, ricamente guarnecidos 
de oiro e sedas. Eram levados aos hombros por 
quarenta e oito clérigos, revestidos em almati- 
cas ricas. 

Os andores não iam todos juntos, mas divi- 
didos de quatro em quatro. Os primeiros, entre 
os religiosos que vinham diante : os quatro do 
meio quasi no fim de todas as ordens : os der- 
radeiros no coice da procissão entre a cleresia. 

Continua. 

F. D. u'Almeida e Araújo. 



A verdade pode calar-se, ou dizcr-se ; mas 
nunca adultcrar-sc. nem coutradizer-sc. 



14 



o PANORAMA. 



IO» 




TOURE DE RAfiES. 



A pouca distancia dcTeheran, capital do im- 
pério da Pérsia, ha uma torre de construcção 
singular entre as ruinas da antiga Ragés, cida- 
de mencionada na Sagrada Escriptura, no livro 
de Tobias, cap. ix, e aonde este foi por manda- 
do de seu pae buscar o dinheiro que lhe devia 
Gabelo ; e ahi mesmo é designada como cidade 
dos medos : et vadas ad Gaheinm in Bngés civi- 
fatein Medorum ; e de facto passou na antigui- 
dade por ser a segunda da Média. Passando a 
ter vários nomes no tempo dos romanos, e por 
ultimo os turcos e árabes lhe chamaram Rei ou 
Razi, de que existem restos dispersos. 

Difficil c saber se a torre, ainda de pé, per- 
tenceu a algum palácio dos antigos persas. É 
construída de "tijolos, de figura redonda, dividi- 
da em vinte e quatro repartiraentos, cada um 
dos quaes forma dois lados de um triangulo, 
cuja base mede sete palmos e quarto ; a altura 
da' torre, segundo o viajante Ker-Porter, é de 
oitenta e sete palmos, e já não existe a parte 
que a cobria. A entrada é por uma porta extre- 
Tiiaraente adereçada de ornatos. Extramuros da 
cidade acha-se mais outra torre circular, em tu- 
do similhante e egual mente descoberta, porém 
construída de cantaria. M. 



Onde a vontade exclusivamente impera, nada 
pode o raciocínio. 

VOL. I. — 4.* SEiME. 



MINAS DE PORTUGAL. 

A gazeta de Leipzig estabelece como princi- 
pio que o ferro, e o carvão são hoje em dia os 
primeiros agentes da moderna civilisação. Com 
effeito, se notarmos que estes mineraes são a 
alavanca principal da industria, e que o desin- 
volvimento d'ella produz o da intelligencia do 
homem, pela necessidade em que o coUoca do 
estudo das principacs sciencias, e das suas ap- 
plicações ; não poderemos deixar de concluir, 
que o principio estabelecido é incontestável, e 
deve tomar-se como um axioma. 

Por maiores que sejam os desejos de implan- 
tar ou desinvolver a industria fabril em um paiz 
aonde faltem estas matérias ; por mais efficaz 
que pareça a protecção oluciaimente concedida ; 
a industria vi\era vida mestiuinha, rachitica, e 
enfesada — vida emprestada — e a sua duração 
será ephemcra, quaesquer que sejam os sacrifí- 
cios feitos para lh'a conservar. 

Procurar, portanto, o carvão e o ferro, não é 
menos necessário á prosperidade de uma nação, 
do que promover a instrucção do povo. dotar o 
paiz com boas communicaçôes, ou quaesquer ou- 
tras coisas de reconhecida utilidade. 

Sem communicaçôes fáceis não ha commercio 
que mereça este nome ; sem ferro e carvão não 
pode haver industria que prospere. 

O mesmo jornal estranha que a Ilespanha, tão 
. ABRIL, 4, 1857. 



lOft 



o PANORAMA. 



rica cm jazigos de ferro e carvão, se conserve 
ainda iioje tributaria ao estrangeiro de não pou- 
cos miiiiõcs de reales aunuaes, peia acquisição 
de matérias, que podia obter de si própria, se 
a lavra das minas tivesse ali tomado o devido 
incremento; conitudo, ainda que o reparo é jus- 
to, e verdadeiro o desfalque da riqueza nacio- 
nal, a emancipação da industria pode de ura 
momento para oulro rcalisar-se n'aqu('lle paiz, 
porque se os jazigos que occultam similhantes 
matérias não estão explorados, ao menos não se 
ignora a existência d'elles. 

Na Europa ha unicamente um estado aonde 
.se não lavra o ferro. Em todos os mais as mi- 
nas de ferro e de carvão, são procuradas com 
extrema avidez. As sciencias naturaes e econó- 
micas, e com especialidade a physica, a chimi- 
ca, e a mechanica, como que disputam entre 
si á poríia, sobre qual hade prestar maior som- 
ma dos seus innumeraveis recursos, e resolver 
os mais complicados problemas sobre o Irala- 
menlo do ferro em todos os periodos da sua la- 
boração. Os gazes, o calórico, até ha pouco per- 
dido, nos altos fornos o emprego do ar quente, 
tudo é aproveitado, e recebe a mais admirável 
e inteliigente applicação no beneficio do ferro. 
D'esl'arte se diminuiu o traballio e a dcspeza, 
e o que se reputava inútil, ou de pouco provei- 
to, tornou-se um novo e poderoso agente, e mais 
um elemento productor de grande riqueza. 

Ao progresso das sciencias se deve, que pai- 
zes aonde se não labricava o ferro, tenham ho- 
je em actividade altos fornos, e forjas: que ou- 
tros, aonde esta industria ameaçava de succum- 
bir, ou de se amesquinhar, pela falta do com- 
bustível vegetal, recobrassem, e até desinvol- 
vessem a energia primitiva, alargando o .seu 
campo d'acção industrial. EITeito maravilhoso 
dos novos agentes de calórico, que a physica e 
a chimica descobriram, e que a inlelligencia 
humana tão vantajosamente soube aproveitar, 
supprindo assim uma falta, que a principio pa- 
recia irreparável. 

No estado de adiantamento em ijue actual- 
mente se acha este ramo da industria, podc-se, 
sem grave oHensa, appellidar de semibarbaro o 
povo, que não possuir ao menos um alto forno, 
ou uma forja de beneíicio do ferro. 

Por vergonha nossa (com profunda magoa o 
dizemos) o único paiz da Europa aonde se não 
hcnelicia um gramma de ferro, é Portugal ! ! 
E Portugal tem minas de ferro em quasi todas 
as suas províncias ! ! 

O viajante ijue percorrer este paiz em todas 
as direcções, encontrara repelidas localidades 
com a denominação de ferrarias, aonde achara 
patentes os vestígios que a justilicani, denun- 
ciando que n'esses logares houveram outr'ora 
trabalhos de mineração e fabrico do ferro. .Vin- 
da não teem decorrido muitos annos desde {|ue 
foi abandonada a lavra das minas de (Ihapa Cu- 
nha, de Thomur, c Machuca. .V lãbríca da Ibz 
<l'Alge, aonde se trala\a o Jerro das minas das 



proximidades de Figueiró dos Vinhos, Pedrógão, 
Maçãs de D. Maria, Portella do Braz, c outros 
logares, fechou-se era 1833. 

Vè-se pois (jue as gerações passadas não des- 
cuidaram a mineração e fabrico do ferro, e se 
as suas modestas forjas não tinham o apparato 
nem as Tantagens dos estabelecimentos moder- 
nos, ao menos provavam que os portuguezes de 
então acompanhavam, ([uaudo não precediam, os 
outros povos na carreira da civilisação. 

Assim se obtinha então não só o ferro metá- 
lico para satisfazer as necessidades da industria 
agrícola, e para todos os usos da ifida, como 
também para o fabrico dos canhões, e projectis 
que se empregavam nas guerras. Estava com- 
tudo reservado para os portuguezes d'este sécu- 
lo, não terem sequer uma forja de beneficio do 
ferro ! 

Se outros factos não atlestasseni o nosso atra- 
zo, este, só por si, bastaria para o provar. 

Talvez se diga que a falia do carvão mine- 
ral e, entre nos, a causa única de se não po- 
der continuar o fabrico do ferro; porém, se, até 
certo ponto, esta falta é bastantemente sensível, 
cila não é todavia a verdadeira causa da inter- 
rupção daqueile fabrico, e se o paiz tivesse um 
bom systema de fáceis vias de communicação, 
se se tivesse tratado de crear novas florestas, e 
conservar as que existiam, e estabelecido conve- 
nientemente a policia d'ellas, não teríamos pas- 
sado pelo dcsar de ver interrompida a mais útil 
c principal base de toda a industria. 

Na Hungria, na Corinthia, em muitos dos es- 
tados da Alemanha, na França (e na própria In- 
glaterra, ainda ha bem poucos annos) fabrica-se 
muito ferro com o carvão vegetal, e hoje, mais 
do que nunca, se ventila a conveniência do em- 
prego de ambas as espécies de combustível no 
tratamento do ferro, preferindo uma ou outra 
segundo os diversos periodos do seu lahrico, ou 
a applicação a que e destinado. 

Sc os governos se compenetrassem da utilida- 
de de promover a todo o transe o progressivo, 
porém rápido, incremento da industria ; se os di- 
versos partidos de|iuzessem antigos ódios, e vol- 
vessem a sua attenção para os verdadeiros inte- 
resses do estado ; se se comprchendessc que sem 
industria não ha civilisação digna d'este nome, 
porque a industria não é outra -coisa mais do 
que a sciencia, e a intcUigencia em acção — a 
nobilitação do homem ; se o cgoismo vil desse 
logar a razão, e se não protegessem ignorantes, 
especuladores abjectos e charlatães, por consi- 
derações indignas de gente honrada, a indus- 
tria do fabrico do ferro havia de em breves an- 
nos chegar em Portugal ao grau de prosperida- 
de (jue tem attingido entre os outros povos, c 
com ella medrariam todas as mais industrias, e 
floresceria o commercio interior e exterior. 

O carvão fo.ssil é, sem duvida, o combuslivel 
mais económico que .se pode empregar no fabri- 
co do ferro, quando os dois mineraes se acham 
simultaneamente em condições vantajosas, e c 



o PANORAMA. 



107 



por este motivo que ellc tem tão grande appli- 
cação n'aquolle fabrico; porém este combustivcl 
tem mais vasto emprego, e todos sabem que o 
paiz (jue possiie minas al)undaiiles d'es(o pre- 
cioso agente, tem em si o gérmen de uma ver- 
dadeira riqueza. 

Em Portugal ignora-se ainda se o solo abun- 
da ou não em combustiveis fosseis, nem mesmo 
se podem formar ([naesquer ronjecturas, porque 
não está geologicamente estudado. 

As únicas minas de carvão que existem em 
lavra, são : a de S. Pedro da Cova, duas léguas 
ao nascente da cidade do Porto, e a do Cabo 
Mondego. A primeira produz apenas quatro mil 
toneladas annuaes, pouco mais ou menos, de an- 
tbracite, que se consome nas cosinhas (raquella 
cidade, sendo impo.«sivel abrir maior campo de 
lavra para augraentar a extracção, porque não 
passa de um insignificante retalbo deixado pela 
denudação. X segunda acba-se em uma forma- 
ção secundaria, mas a sua importância ò pura- 
mente locai, ponjue os pontos accessiveis oITe- 
recem uma frente de ataque mui limitada, e o 
deposito c pouco extenso. 

Ultimamente verificou-se a existência de uma 
outra formação carbonífera nas proximidades de 
Alcobaça e districto de Leiria, também do pe- 
ríodo secundário, e que apresenta indicações 
muito lisonjeiras sobre a sua extensão e rique- 
za. Cremos que a lavra não tardará em dcmons- 
trar-nos se as esperanças concebidas são ou não 
bem fundadas. 

Afora estas não ba entre o Tejo e o Douro ou- 
tras indicações próximas da existência do carvão 
mineral, do verdadeiro periodo carbonífero — 
terrain houiller (*). 

No districto de Coimbra ha uma formação do 
terrain liouiller, porém as indicações da existên- 
cia do carvão são mui remotas, e para se evi- 
denciarem seria necessário despender alguns ca- 
pitães. 

Em outras localidades, as índucções geológi- 
cas levam a suspeitar a presença do carvão; mas 
estas presumpções são insullicicntes para deci- 
dir o emprego dos capitães na pesquiza d'elle. 

Pode portanto dizer-se, que Portugal não tem, 
por ora, minas de carvão, e que é obrigado a 
importar todo o combustível que a sua nascen- 
te industria consome, o que lhe faz despender 
avultadas quantias. 

A espectativa sobre a futura descoberta de ri- 
cos depósitos de carvão, que o emancipem da 
dependência em que se acha a sua industria, 
não é destituída de fundamento ; é porém ne- 
cessário cmprebcnder, sem demora, o estudo 
geológico do paiz, mas um estudo proveitoso, 
feito por homens de sciencia, e não por impos- 
tores, que só tenham em vista sugar o thesou- 
ro publico, e a quem falte a capacidade e hon- 
radez, que tão árdua o importante commissão 
reclama ; para que em logar de se colher escan- 

(') O anlhracitc de S. Pedro da Cova pertenci a este pe- 
riodo. 



dalos, .se alcance credito e utilidade para esta 
nação, tão digna de melhor sorte que a que lhe, 
tem cabido. 

Tal é o estado da industria mineira, e melal- 
lurgíca em Portugal ; estado verdadeiramente 
lastimoso, c que só administrações eminente- 
mente patrióticas poderão fazer cessar. 

C.\ULOS RiBEino. 



VINGANÇA POK VINGANÇA. 
IV 

SAMUEL. i 



,í. 



Continuação. 

Samuel acabava de fechar a porta, despedin- 
do os três homens, quando, vollando-se para Fi- 
lippe o Tranqueira, ja o viu em preparativos de 
fundir a prata. 

— Hoje não, lhe disse elle, porque temos em- 
presa de maior lucro ; e as horas, que já vão 
adiantadas, charaara-nos a outra parte. Filippe, 
sereis homem de resolução? 

— E quem o negará, sr. Bulhões! 

— E ambicioso? ■ '' '• 

— Também não digo que não. 

— Pois então a vossa fortuna está feita, e fei- 
ta por meios honestos, e no serviço do príncipe. 
Trata-se de uma grande conspiração contra sua 
alteza, pois se projecta arrancar cl-rei D. Aflon- 
so do palácio de Cintra, e entregar-lhe novamen- 
te o regimento do reino. . . 

— Anda n'isso vingança de fidalgos. . . 

— Ta^vez, e de frades com toda a certeza. É 
preciso, porém, contraminar todos os projectos, 
sem dar ao publico conhecimento de que se tra- 
ta de uma conspiração, e isto com o tim de di- 
vertir da política a attenção do povo : portanto 
a inquisição. . . 

— Já percebo, o santo officio encarrega-se de 
desaggravar o regente. 

— Parte sim, e parte não. Só entra no segre- 
do um dos inquisidores, e por causa dos outros 
é preciso voltar o processo para a religião. Um 
dos conspiradores mais influentes deve estar pre- 
so a estas horas, e n'esta mesma noite hade en- 
trar nos cárceres do santo officio. 

— Mas por ora, sr. Bulhões, não percebo a 
parte que eu possa ter n'esse negocio, para d'el- 
le me provir interesse. 

— Devagar, e lá chegaremos. O regente, 
que está ao facto de tudo, recompensará mui 
bem aquelle que se prestar a jurar que taes ho- 
mens judiaram. . . 

— Um testemunho falso ! . . . 

— Que não passa das mãos dos inquisidores, 
nem transpira cá fora das abobadas do santo of- 
ficio. 

— Que pode levar um homem á morte ! 

— E que salva outro que neste momento, por 



lOS 



o PANORAMA. 



saber do segredo, e não se querer prestar a co- 
adjuval-o, está arriscado a ser mettido nas ga- 
lés. 

— Como •? ! 

— Os segredos de estado não pesam somente 
sobre os que n'elles tomam parte, também so- 
bre a(|uelles que teem d'elles o mais pequeno 
vislumbre. Vede pois o que arriscaes. 

— Mas ninguém sabe da nossa pratica. 

— Como vos enganaes. A dois passos de nós 
estão os homens que esperam a vossa resolução, 
e aos quaes tereis de acompanhar, se vos resol- 
verdes. 

— Mas esses homens não vos ouviram, e eu 
negarei 

— Illusão! Sabem (|ue vim aqui, c não cogi- 
tam fosse para outro iim. Yamos, dccidi-vos. . . 
quando não, abro aqucJla porta, dou-lhes entra- 
da, aponto para essa prata que direi pertcncer- 
vos, e o resto licará por conta das justiças d'el- 
rei. 

— E eu terei vozes para dizer que é vossa, 
e citarei mesmo a quem a comprastes. 

— Nova illusão! Os denunciados juram que 
lhes não pertence, que sobejo interesse teem ei- 
les em conservarem as cabeças pegadas ao cor- 
po, e a prata do mosteiro da Rosa unicamente 
a vós denunciará. 

— As justiças d'el-rei não se illudem assim, 
inquirem provas, e uma d'ellas contra vós será 
achar-se a prata em vossa casa. 

— Tranqueira ! Tranqueira ! Esse ponto ain- 
da é um segredo para vós, e jiara todos, e não 
estou por ora resolvido a communicar-vol-o; mas 
considerae que sou homem que já andou por Ceu- 
ta e pelas Américas, c ([ue nunca me deixei cair 
nos laços nem de malãmedcs, nem da hollande- 
zes, e ijue portanto me havia também acautelar 
contra as vossas denuncias quando vos associei 
a mim, porque conheço o coração do homem, e 
sei quanto n'elle podem a ambição, ou a vingan- 
ça. Vamos, Tramiueira, decidi. . . 

— Estou decidido, não juro falso contra nin- 
guém. 

— E tal é a vossa ultima resolução? 

— Sem duvida. 

— Veremos se novo argumento vos pode con- 
vencer, porque realmente hade custar-me ver-vos 
penar. 

E assim dizendo, puxou de uma bolsa que 
despejou sobre a mesa. 

Um monte de moedas de oiro rolou d'ella. 

— Vede, continuou, tudo isso vos pertencerá 
como paga do primeiro serviço. 

O Traii([ueira hesitou um momento, e respon- 
deu resolutamente : 

— Não. 

— 1'ariencia ! ... Já que assim o quereis. . . 
E camiuhou para a porta. 

Filippe, que lhe não descobriu a intenção, não 
se moveu. 

Salina'!, jiondo a mão no fecho, gritou para 
o Tranqueira : 



— A vossa ultima palavra? 

— Não. 

E Samuel abriu a porta, e um vulto apparc- 
ceu no limiar. 

A vista d'aquelle homem, e as palavras de 
Samuel fizeram vacillar Filippe, que rapidamen- 
te passou da hesitação ao medo dos ferros d'el- 
rei. 

O recemchegado deu alguns passos avançan- 
do para a segunda casa, e Filippe tremeu. 

Rápida foi a luta entre a consciência d'este 
homem tantas vezes adormecida sobre outros ca- 
pítulos, e o instincto da própria conservação. 
Esta venceu. 

— Vinde cá, sr. Rulhões. 

Samuel fez um signal ao novo personagem pa- 
ra se deter, c dirigiu-se para Filippe. 

— Então, reconsiderastes bem? Decidisles-vos 
a ganhar esse dinheiro? 

— Sois homem de fazer tremer. . . eu nunca 
dei testemunho contra ninguém ! . . . mas que é 
mister? 

— Seguir aquelle homem que ali vedes, e 
cumprir ás cegas as suas ordens. Emquanto aos 
nossos negócios n'esta casa, nem uma palavra... 
senão. . . 

— Rem conheço que me arrisco, e muito, coni- 
vosco. Serei, portanto, discreto. 

— Levae dahi esse dinheiro que vos perten- 
ce todo. . . Tendes folga até á semana ; porém 
de hoje a oito dias aqui sem falta ; irei encon- 
trar-vos, como de costume. 

Filippe guardou a bolsa que Samuel lhe lan- 
çara sobre a mesa. 

Parecia-lhe que o contacto d'aquellc dinhei- 
ro o abrasava, porque era a paga de um teste- 
munho falso, o que clle nunca lizera cm toda a 
sua vida ; porém não tinha meios de resistir a 
Samuel, (jue estava de posse de todos os segre- 
dos da sua vida, e o podia perder para sempre 
com uma palavra que soltasse ás justiças. 

Depois, aquella perspectiva de um serviço ao 
infante D. Pedro, que todos já tratavam c obe- 
deciam como a rei, era o primeiro degrau para 
unia amnistia plena de todos os crimes passa- 
dos, e isto o induzia também a involrer-se na 
aventura, que principiava .sob tão felizes auspí- 
cios, como o d'ai]uella ampla rccompensii. 

Estas considerações, que fez mais rapidamen- 
te do que as descrevemos, resolveram-no por Iim, 
e agarrando no gorro que pouco antes tinha ar- 
remessado para cima de um banco, seguiu si- 
lencioso a Samuel, que apresentando-o ao des- 
conhecido, disse : 

— Eis o homem, podeis confiar nelle, que 
respondo pela sua discrição. E mudo como um 
sepulchro, liei como um cão, fino como uma ra- 
posa, e valente como um leão. 

O desconhecido fez um leve aceno com a ca- 
beça a Filippe, ilando-llie signal de o seguir, e 
a|ierlando a mão a Samuel, relirou-sc acompa- 
nhado (lo Tranqueira. 

Continua. **« 



o PANORAMA. 



too 







^^feíÍ'"í^W^'l^ 










EGREJA EM CHAMPION-PARK. 



Os membros da congregação alemã luthera- 
na, residentes era Camberwell e proximidades 
lormando um corpo ja bastante numeroso resol- 
veram erigir um edifício accommodado d cele- 
bração de seus olllcios divinos, aos quaes ate 
ah assistiam em uma sala que servia de escola 
Escolheram para esse effeito o local n'uma pro- 
priedade particular em Champion-park, Denmark 
bill, e a primeira pedra foi collocada solemne- 
mentc no mez de Junho do anno passado. 

Esta capella da communhão lulherana foi ha 
pouco aberta e sagrada ; tem capacidade para 
duzentas pessoas, e consiste n'uma nave de qua- 
renta e oito por vinte e oito pés, com seu pres- 
byterio conliguo, e uma sachristia do lado do 
norte ; o estylo d'architectura é o gothico pri- 
mitivo com ornatos. As despezas da obra mon- 
taram para mais de duas mil libras esterlinas 



M. 



CERCO DE TROYA. 

I 

Ahi, nas partes da Phrygia, 
Ao Bosphoro avisinhada, 
De Troada a capital 
Estava então assentada ; 
E pelo nome de Trotja 
Era entre os homens chamada. 



E Teucro foi o primeiro 
Que nestas partes reinou;, 
E Dardano, genro seu. 
Os fundamentos lançou 
D'essa Troya, tão fa*mosa, 
De que tanto se fallou. 

Eridonio foi seu (ilho 
E foi também seu herdeiro. 
Que o mesmo throno deixou 
l)'entre os filhos ao primeiro, 
E por signal Trós chamado, 
Monarcha illustre e guerreiro. 

Á cidade deu seu nome, 
Deu-o também á nação. 
E dos três filhos que teve 
Por fiança á successão, 
liu, houve sorte de rei ; 
Os dois, varia condição. 

Ganymedes, era um d'elles : 
E moço tão tentador, 
Que, p'ra divino escanção, 
Destinado com primor ' 
Foi por Jove omnipotente, 
Dos ceos e terra senhor. 

A deusa da juventude, 
E que Uehe se chamava, 
Era quem antes, no Olympo, 
Cargo tal desempenhava ; 
Progénie illustre de Jvno, 
A quem ella muito amava. . 



fllO 



o FÂNORÂnA. 



E d'aqui — se pois não mente 
Quanto diz a antiguidade — 
Esses ódios da mãe Juno 
Contra a regia magestade, 
Que na Phrijfjia então reinava, 
E na troyana cidade. 

Outro liliio era Assaráco ; 
De quem nada falia ou conta 
Essa historia grandiosa, 
Que tão antiga remonta : 
Do que se pode inferir 
Que não fez coisa de monta. 

E lio foi o terceiro, 

Que o sceptro e c'rôa herdou ; 

E no de llion famosa, 

De Tvoíja o nome trocou. 

A Laomedonte, seu iilho, 

Excelso throno deixou. 

Âs mãos de Priamo illustre 
Esta herança foi parar ; 
E no seu tempo os troyanos 
Foram tanto no medrar. 
Que outro reino mais rico 
Não era ali d'encontrar. 

Cercou de fortes muralhas 
Sua capital famosa ; 
Torres tão bastas lhe deu, 
Que de forte a fez vaidosa ; 
E de fossos, bem profundos, 
Cercou em roda a ciosa. 

Jlemba foi sua esposa : 
E era lilha do rei 
Que na Tliracia imperial 
Dava as ordens, dava a lei. 

Eu agora vou contar-vos 
Um caso que d'ella sei. 

Muitos lilhos, muitas filhas, 
Teve a boa da rainha : 
E por extremos dos lilhos 
Lhe veiu a sorte mesquinha, 
Não só d'ella, mas dos seus. 
Bem triste, cruel, c asinha. 

Quando Paris deu ao mundo. 
Imaginou a princeza 
Das entranlias lhe sair 
Uma tocha muito acesa ! 
E scismou no caso infando, 
Que bem era de estranheza. 

Assim o disse ao marido. 
Que também n'elle pensou, 
E um oraclo famoso 
Sobre o caso ('onsultou : 
E a resposta foi tal, 
Qu'ao pobre rei assustou. 



«Esse filho" — assim lhe disse — 
«Ilade ser a perdição 
«Do pae, da mãe, dos irmãos, 
«Até da mesma nação ; 
«Porque trouxe já comsigo 
«Uma eterna maldição!» 

Pobre rcil... Tal sina ouvindo 
Mandou o íilho matar ; 
Pois desgraças tão subidas 
Quiz a todos evitar. . . . 
Mas quem podo a lei dos fados 
Por lei da terra frustrar I 

Quando os intentos do 'sposo 
A rainha presenliu, 
Com taes artes, e taes manhas 
Seu algoz tanto induziu. 
Que salvado o tenro infante. 
Tal mandado não cumpriu. 

E iilho d'el-rei que era 
Foi creado entre pastores ! 
Assim na edade cresceu 
Do campo exposto aos rigores 
Por tal modo, que esforçado 
Ganhou honras, e primores ! 

JL guerreira juventude. 
Com grã premio de valor. 
Dava o monarcha um torneio: 
E lá foi por campeador 
Paris gentil, a provar 
Nobre esforço, nobre ardor. 

A todos venceu, que ousaram 
Com elle as armas medir. 
Quem era p'ra forças ter 
De o desmontar ou ferir ! 
Um primor era na liça 
As armas vèl-o brandir. 

Jlector — o filho mais velho 
Do rei, e muito esforçado — 
Teiu também a combate, 
Yalentc, forte, e ousado, 
De tanto valor sentido. 
De tanta força espantado. 

Porém no fero combate, 
Eil-o que as armas deixou. 
Direito a Paris se foi, 
E nos braços o tomou ; 
Tinha o irmão conhecido, 
E ternamenle o saudou. 

E Paris foi descoberto. 
Pela corte festejado, 
E logo no reino teve 
Nobre emprego reservado , 
A ir buscar sua tia 
Foi a Sparla deputado. 



o PANORAMA. 



111 



Porém, ah! que triste sina 
Não foi a (l'esta embaixada! 
Do pobre rei Mmclun, 
Helena — esposa adorada, 
Por quem Púris se rendeu — 
A Troija levou roubada ! 

Não entrcj;al-a jurou, 
Sc não lhe dessem a tia 
Que se achava lá captiva, 
E que Sparta não queria 
D'aquelles ferros soltar, 
Em que a triste se morria ! 

Juntaram-se os gregos todos 
Por sua Helena vingar, 
E juraram furibundos 
A Trorju inteira arrasar. . . 
Em breve tudo se apresta 
Para em campo batalhar ! 

Tal foi a causa da guerra 
Que todo o mundo espantou, 
E do cerco tão famoso. 
Que por dez aunos durou, 
E vencidos, vencedores. 
Em mil damnos abvsmou ! 



ClIRONtCAS MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESUS. 

III 

CASA DE S. ROQUE. 

Continuação. 

Organisado assim o préstito, inventaram os 
ordenadores da festa que os Santos, cujas relí- 
quias já estavam em Lisboa, saíssem a receber 
as novas relíquias. Ao passar a procissão pela 
rua da Padaria, mesmo no íim d'e!la, saiu a re- 
cebel-as, a cavallo. Santa Engracia, virgem e 
martjr, com dezoito cavalleiros portuguezes, os 
quaes todos tinham sido martyrisados em Sara- 
goça. Esta companhia de maríyres, com palmas 
nas mãos, e vestidos á portugueza mui ricamen- 
te de cores differentes com muitas jóias, cadèas 
de oiro, medalhas, pedras preciosas, e botas de 
côr com orelheiras ornadas de muitos botões de 
oiro, e rica pedraria, todos com terçados de pu- 
nhos d'oíro e prata, vinha em formosos e bem 
ajaezados cavallos, com mais de vinte lacaios á 
moirisca, vestidos de marlotas, levando os cor- 
seis pela rédea. Os Santos levavam os seus no- 
mes escríptos no arção Irazeiro da sella. 

Santa Engracia ia montada num cavallo pom- 
bo. A fralda do vestido lhe fazia duas vasqui- 
nhas de tela, uma branca, outra verde, com 



barras e lavores de brocado. O gibão era lavra- 
do de ramos de oiro com umas mangas largas 
de tela vermelha, barradas de broslado de mui- 
to rico feitio. Levava um saio alto de tela bran- 
ca com muitos passamanes d'oíro ; e o manto que 
a cobria era de tela de prata apassaraanada de 
oiro. O toucado era á antiga, todo semeado de 
rubis, pérolas, e mais pedraria. No pescoço le- 
vava um foliar de dois lios de pérolas. 

Ia sentada n'uma sella de prata, que foi da 
infanta D. Maria, lavrada de bastiães, com ta- 
boas de cavalgar, todas de prata doirada, do 
mesmo lavor. Os arreios do cavallo eram peças 
ricas e lavradas de tarjas e carrancas de prata. 

Esta cavalgada uniu-se á procissão, e foi com 
ella para S. Roque. 

No Pelourinho velho estava levantada uma es- 
tancia de mais de cincoenta palmos em compri- 
do, com varias columnas na froutaría, ornadas 
de damasco carmesi, e histriadas com rendas de 
oiro e prata; sobre as quaes se armava um ceo 
toldado de nuvens, feitas de volantes, sobre da- 
masco azul, com muitos anjinhos, que saíam 
d'entre as nuvens, c se mostravam com muita 
arte e propriedade. O ceo estava cheio de gran- 
de multidão de estrellas d"oiro matte, e de pra- 
ta. Da parte da parede desciam d'este ceo mui- 
tos dóceis de brocado, em que se encostavam 
os anjos de cada hierarchia cm três ordens de 
degraus, a modo de tiirono. Do pavimento da 
gloria pendiam varias sedas c peças de broea- 
dilho, que serviam de cobrir o travejamento e 
acompanhar a formosura da escada, que estava 
ornada de seda e veos fingindo nuvens. D'es!a 
estancia desceram as três hierarchias de anjos, 
cada uma por sua vez, a acompanhar as recem- 
chegadas relíquias. 

Chegados ao Pelourinho velho os quatro pri- 
meiros andores, descerraram-se as cortinas da 
Gloria e ajjpareceram mais de sessenta anjos da 
primeira hierarchia. Vestiam sedas de diversas 
cores ; tinham azas doiradas ; calçavam alpar- 
cas semeadas de rica pedraria, e na cabeça tra- 
ziam uma capelia de flores. Estavam divididos 
em coros, e cada coro com sua divisa nas mãos. 
Os da ultima hierarchia, que eram oi principa- 
(loa, estavam no degrau mais elevado, vestiam 
de verde e roxo, e seguravam sceptros doirados: 
seguia-se na escala decrescente a segunda or- 
dem, os arcluinjos, trajando branco e carmesi, 
com espadas na mão : no ultimo degrau esta- 
Aam os anjos, adornados de varias cores, al- 
guns segurando leques, outros com punhaes, e 
vários tangendo instrumentos músicos. Recebe- 
ram as relíquias cora um suavíssimo canto, e 
depois desceram o Ihrono para se incorporarem 
na procissão, adiante dos primeiros andores. 
Á frente de toda a hierarchia ia um anjo vesti- 
do de ricas armas, cora morrião, peito, e es- 
paldar doirado, segurando na mão um guião 
de seda branca ; e no coice do esquadrão ia o 
príncipe vestido e armado com espada e escu- 
do 



113 



O FâNORàMâ. 



Ao apparecerem os quatro andores do centro, 
se deu vista novamente da Gloria, com muita 
musica. Agora era a vez da segunda hicrarchia, 
representada em perto de cento e cincoenta an- 
jos. As (Iciwminaçõe.s vestiam branco e verde, 
com salvas de prata nas mãos, e coroas por in- 
sinuias : depois as virtudes, trajavam azul, e se- 
guravam espheras doiradas e prateadas : ulti- 
mamente as potestades, adornadas de carmesi e 
oiro, com varas doiradas nas mãos. As capellas 
de flores que lhes cingiam as cabeças eram de 
cera, as azas doiradas, e as alparcas ornadas de 
pérolas e l)otões de oiro. Acompanharam como 
a precedente liierarchia a procissão, collocando- 
tíe na frente dos quatro andores do centro,' iam 
á cabeça da phalange um com o guião que era 
de seda azul, e cerrava a comitiva o príncipe, 
com espada e escudo. 

Finalmente ao dar-sc vista dos quatro últimos 
andores, correu-se novamente a cortina á Glo- 
ria, c appareceram os seraphins no mais alto lo- 
gar, vestidos de oiro e carmesi, e nas mãos por 
divisa uns escudos doirados com corações asse- 
leados e lançando chammas. No centro estavam 
os (heruhins, vestidos de tela e seda branca em- 
punhando lyrios doirados. Por ultimo os thronos 
trajando de vermelho e amareilo, com escudos 
onde se pintaram por divisa thronos reaes. In- 
volveram-se na procissão levando na frente o seu 
guião, c no coice, como principe d'esta hicrar- 
chia, o archanjo S. Miguel. 

Entrando a procissão na Rua Nova ahi encon- 
trou levantado outro estrado, de comprimento 
de cem palmos, com doze columuas na fronla- 
ria, ricamente adornadas, e sobre ellas assente 
um ceo de carmesi, e da banda da parede ricos 
dóceis de brocado, aos quaes se encostavam trin- 
ta cadeiras de velludo com pregaria doirada, so- 
Lre estrados de dois palmos de alto. N'estas ca- 
deiras estavam assentados, pela ordem e digni- 
dade das províncias, os Santos que Portugal tem 
particularmente por seus; e eram — de Braga, c 
Entre Douro c Minho — S. Gonçalo d' Amarante; 
S. Rosendo ; S. Pantaleão; S. Victor; S. Gerar- 
do ; S. Fructuoso ; Santa Suzana ; S. Martinho 
arcebispo, e S. Pedro martyr : — de Coimbra, 
Santa Isabel, rainha; S. Theotonio; Santa Com- 
ia; S. Berardo, Pedro, Adjuto, Oito, e Accur- 
sio, da ordem de S. Francisco, martyrisados em 
Marrocos; S. Dâmaso: — de Santarém, S. Fr. 
Gil: — de Évora, S. Vicente; Santa Cristeta ; 
Santa Sabina, c S. Mancos: — de Lisboa, S. Ve- 
ríssimo; Santa Máxima; Santa .lulia; Santo An- 
tónio; c S. Vicente, martyr. Todos estes .Santos 
receberam de pé a procissão, e se incorporaram 
ii'ella, repartindo-se pelo acompanhamento dos 
andores, Icvamlo na frente anjos custódios e da 
guarda das cidades e provimias que represen- 
tavam. 

Na mesma Rua Nova, junto á ermida de Nos- 
sa Senhora da Oliveira, se levantava um arco, 
de (juarenta palmos de largo, noventa de alto, 
c onze de grossura. Era corinthio, c de (juatro 



faces : simples as duas que davam para as pa- 
redes, e adornadas as outras (jiic olhavam para 
o seguimento da rua. 

A primeira d'estas faces dedicava-se aos dou- 
tores da Egreja, bispos e confessores. Tinha dois 
pedestaes de dez palmos de alto, cada um com 
seu caixilho ovado, e dentro d'um representado 
um carro triumphante puxado por dois pavões, 
com ventos nas rodas, e por terra uma figura, 
(|ue signilicava a soberba ; e no outro represen- 
tada a cubica na allegoria também de um carro 
levado por grandes lagartos e sapos, c derruba- 
do um horrendo monstro, com coroa na cabeça, 
a bocca aberta recolhendo dinheiro, e unhas 
muito compridas. Tudo isto era acompanhado 
de lettras que o explicavam. 

Sobre os pedestaes elevavam-se (juatro colum- 
nas, duas a cada parte, com cornijas, alquitra- 
ve e fechos do arco; c n'este a sua dedicação; 
c nos seguintes dos arcos uns anjos com allego- 
rias. Por cima do friso corria um corpo com seu 
painel que representava Christo em uma nu- 
vem, com os braços abertos, como a receber os 
Santos ; e dos lados do quadro diversos douto- 
res, bispos, religiosos, e Santos do estado secu- 
lar. No alto do painel estavam muitos anjos, e 
nas laxas dois nichos com sua estatua da sobrie- 
dade e da viyilancia. Mais estatuas e emblemas 
adornavam esta face do arco, e que para o in- 
tento seria prolixo narrar aqui. 

A outra face opposta a esta era dedicada á 
pureza e castidade. Egualava aquella nos orna- 
mentos e obra. No painel circular do frontispí- 
cio tinha varias estatuas representando a casti- 
dade, a vergonha, etc. D'este lado o painel cor- 
respondente ao outro representava a historia do 
Apocalypse, com o cordeiro e a cruz, e coros de 
virgens e anjos. Nas faxas d'este painel as figu- 
ras do temor c do amor. Nos ovados dos pedes- 
taes, de uma banda o diluvio e a arca de Noé; 
c da outra o incêndio de Sodoma, e Loth con- 
duzido por um anjo. 

l*or dentro do arco, na parte que formava a 
sua grossura, vários emblemas, divisas, tenções 
e llguras de José do Egypto, e S. José esposo 
de Maria. 

Nas voltas das ruas c encruzilhadas por on- 
de seguia a procissão estavam tiguras como ve- 
remos. Logo ao sair da Rua Nova para entrar na 
ourivczaria, estava uma indicando por onde o 
préstito devia seguir : no principio da rua dos 
Escudeiros, onde se tomava para o Poço do Chão, 
e se começava a subir a calçada de Pé de Navaes 
para S. Roque, estava a estatua da virtude da 
fortaleza: no cimo d'esta calçada achava-se a da 
justiça. 

Continua. F. D. d'Ai.meu'a e Auaujo. 



Purificada a religião chrislã dos abusos n'clla 
introduzidos pelos homens, nada ha mais elo- 
(lueutc, mais santo, c mais perfeito. 



i5 



o PANORAMA. 



113 




CHRISTO NO J.VRDTV DAS OLIVEIRAS» 



O coração conlurbou-se dentro do corpo, e o 
medo da morte asíalteou-me : o rtceio e o tre- 
mor apoderaram-se de mim. e fiquei coberto de 
trevas. 

Porque vos retirastes. Senhor, para longe, e 
TOS dedignastes olhar-me no tempo das minhas 
necessidades c alllicções'.' 

PíALMO.-. 



A razão e a verdade para biilharfiii com mais 
esplendor na liora do triumpho, apiiram-se nos 
martyrios suscitados pelos ódios, pelo erro, e pe- 
jas más paixões. A Sabedoria Eterna permitte 
estes contrastes para maior exalçamenlo d'afiuel- 
las. Ao sair repentinamente das trevas para o 
vivo clarão de uma brilhante luz, a vista ce- 
ga-se, e o homem deslumbra-se : já não succe- 
de assim quando a preparação para supportar 
o effeito da sua intensidade se opera por meio 
das gradações. Nos insondáveis mysterios da Re- 

VOL. i. i.' sEÃlE. 



derapção humana também Deus permittiu que 
esta SC cumprisse scijuindo a marcha e regula- 
ridade das coisas da natureza, para que a dou- 
trina se estabelecesse pela convicção e não peio 
deslumbramento, para que os olhos e a razão 
dos mortaes se achassem preparados a encarar 
e comprehender as verdades eternas sem se of- 
fuscarem. Xa queda do primeiro homem pren- 
deu o Supremo Poder do universo a augusta ca- 
dèa das revelações, cujos anneis, desenroscando- 
se pela successiva marcha dos tempos nas gran- 
des épocas dos Prophetas, vieram soldar-se na 
existência do Precursor ; e preparado assim o 
espirito humano, permittiu, na occasião pró- 
pria, se manifestasse o Verbo que devia evocar 
a uma vida de gloria os povos da terra, e as 
attribuladas gerações. O Verbo revelou-se. Pou- 
cos o acreditaram, e muitos o perseguiram ! Na 
ABníL, 11, 18S7. 



111: 



O FâNORâMâ. 



valoroso combate entre clle c o erro, este mani- 
íestou-se triumiiliante ; e (iiiando no delírio da 
vangloria se acclaniou vencedor, caiu aterrado 
pela evidencia, e liiiminado pela manifestação 
do ni\sterio! Haviam erguido bem alto a Cruz 
do màrtyrio para ser vista por toda a gente ; e 
a gente viu-a, mas com os braços abertos con- 
vidando a todos para irem receber o seu am- 
plexo, e ouviu ao mesmo tempo o brado que 
<rclla saía a percorrer o universo! Tínbani cor- 
rido o veo do templo, c o vco rasgou-se de al- 
to a baixo, para patentear a todo o mundo que 
a verdade e a razão, ali encerradas como um 
symbolo niNstico, iam sair da guarda de uma 
tribu consagrada, para se commuuicar a lodo o 
género liunuino! Tinham encerrado n'um sepul- 
cbro o corpo que esse divino espirito animava, 
e as pedras rebentaram cm horrorosas convul- 
sões, porque não podiam conter cm si tamanha 
inimensidade ! Ate então, nunca estes signaes 
se haviam manifestado, nem no eco que se ve- 
lou de trevas, nem na terra que se agitou con- 
vulsa, nem na natureza (|ue deu assim testemu- 
nho de que um facto extraordinário e maravi- 
lhoso se havia cumprido; e desde então até hoje 
nunca mais esses signaes se repetiram, nem se 
poderão repetir, porque os sacriíicios augustos 
não se reproduzem no mundo ; c este, que foi 
augustissiiuo, abrangeu em si uma eternidade ! 
Era pon[ue as prophecias se cumpriam naqnel- 
Ic momento solemne da expiação de milhares de 
gerações. O psalmista havia dito : — «a terra foi 
abalada e tremeu, e as montanhas revolvidas 
ate aos seus fundamentos:» — outro propheta 
accrescentara : — ^( u'esle dia o sol terá no ze- 
uith o seu occaso, c cobrirei a terra de trevas 
quando ella devia estar resplendente de luz.» — 
e assim succedeu como estava escripto. O Ver- 
bo elevou-se e ascendeu nas azas dos cherubins 
— voou sobre os ventos fendendo as nuvens com 
o esplendor da sua presença, e a terra liberta 
recebeu o espirito e o sopro divino que tinha 
de renovar-lhe Ioda a sujieríicie ! A razão c a 
verdade surgiam do martírio do*Christo! 

Nos livros sagrados estão descriptas todas as 
grandezas da sua vida, todos os tormentos da 
sua paixão, toda a sublimidade do seu sacrifí- 
cio ; e descriptos n'essa linguagem da simplici- 
dade que faliu ao coração, á evidencia e a ra- 
zão, com uma língua de anjos que os homens 
nem hãode nem podem imitar: — nas solemnida- 
des e ollicíos da Egreja estão reproduzidos todos 
os actos desse sacriíicío sobreluimano com uma 
verdade tão santa, que a alma, i)resenceando-os, 
rebenta nos trances de unui sublime dòr, e se 
desafoga nas saudosas e sentidas lamentações 
com que acouqjaidux a desolada esposa na sua 
\iu\e/. (' orpliaiulade. Se tentássemos reproduzir 
tudo a(iui, fallar-nos-hia de certo a energia pa- 
ra tamanho assunqito; escolheremos portanto só 
um quadro entre tantos milhares d'ellcs que com- 
pletam o immenso e augusto drama da lledemp- 

CãO. ; , 



Christo, depois de entrar triumphante em Je- 
rusalém, ahi celebrou pela ultima vez a Pas- 
choa com os seus discípulos : lavou-lhcs os pés 
para lhes designar por este acto a pureza com 
que os homens se devem aproximar do banque- 
te da vida a que os chama : e deu-Ihes cm 
iguaria o seu corpo e sangue transubstancia- 
dos nas espécies de pão e de vinho ! N'estc mo- 
mento havia instituído o sacramento que encer- 
rava o mysterio do sacrifício incruento ! Nada 
mais lhe restava do que consummar esse sacri- 
íicío ; e preparou-sc para elle orando no Horto. 
Ao jardim das Oliveiras foi só acompanhado por 
Pedro, Thiago e João; e esses mesmos ahi aban- 
donou á entrada, e avançou sósinho para o seu 
interior, porque o espirito quer meditar no isola- 
mento a intensidade dolorosa do sacriíicío. Com 
os espíritos celestiacs se entreteve o espirito di- 
vino ; mas a pouco e pouco também d'estes se 
isolou para deixar ao corpo lodo o peso da dór, 
todo o medo da morte ! Suou a matéria até se 
transformar era sangue o (jue havia de terreno 
n'aquelle Ser divino ; mas a alma subjugou o 
corpo, venceu-o, e passado o tyrocinío da sua 
immensa dòr, ergueu-o do chão onde se pros- 
trara vergado, para o entregar volunlariamenle 
nas mãos dos instrumentos do seu padecer e da 
sua gloria. A razão a vontade e o amor sobre- 
pujaram a fraqueza da matéria, e n'este venci- 
mento do Christo tríumjihou a humanidade. 

E quanto não tem a philosophía para meditar 
só n'es!e passo? No recolhimento da solidão c 
da oração preparou-se a grande verdade (jue em 
breve tinha de ser manifestada. O peso d'essa 
verdade alerrou e confundiu a malería, que se 
rebellou, aflVontou, e por lim se rendeu subju- 
gada para obedecer ao espirito, que fez confes- 
sar-lhe a excelleucia mesmo nos tormentos do 
patíbulo ! 

Na reunião do espirito e do corpo para o seu 
triumpho moral, rebenta a manifestação da gran- 
deza da Creatura-Creadora ; nas oliveiras que as- 
sistiram á sua dòr, o symbolo da paz que tem de 
oflerecer-se ao mundo ; no cálix da amargura 
que se esgota até ás fezes, as immeusas dores 
que se padecem pelo amor da verdaile; e línal- 
mcnte naiiuelle grito doloroso que o Horaem- 
Dcus eleva até ao Padre, o appello sublime á 
humanidade inteira ! 

Remidos e tríumphanles, (|uem poderá aterrar 
os povos? Libertos pela razão suprema, i(uem 
os poder;! escravísar? Egualados pelo sacriíicío 
dai)í\indade, t|uem estabelecerá sobre elles m;iís 
elevada jerarchía? Chamados todos como irmãos 
aos braços de Deus, quem poderá suscitar dis- | 
cordías entre elles? 

Ninguém ; ponpie a Cruz symbolísa desde o 
Golgolha a verdade suprenm que desceu dos ceos 
para renovar a face da terra ; que se cimentou 
no Calvário pelo sangue do Justo; o que d'ahi 
tem marchado ha quasi dezenove séculos a abran- 
ger o universo inteiro entre os braços do Cbrislo 
([ue a proclamou ! ., > *', 



o PANORAMA. 



llã 



HOSSANA ! 

I 

Sonhei-tc Jerusalom! .. Santa cidade, 
Onde os iiiysicrios tinham do cuinprir-so. 
Em resgate da triste liunianidade ! 

Yi alegre o teu ceo ! — vi-o sorri r-se I 
E de ))almas festivas, verdes ramos, 
Juncado o solo, em galas revestir-sc ! 

O teu povo exclamou : — «Nós exultamos ! 
«E d'lsrael o rei, por Deus mandado ; 
«É justo que em tnunipho o recebamos! 

«E Ei.i.E o santo, o rei annunciado, 
«Al) aMerno, por tantas pro[)liccias ; 
«Pelo povo dAbrahão tão suspirado ! 

'Jlosmna !... Hossana I... vão surgir os dias 
aD'opuIeiita Israel os mais formosos I 
«0 reinado começa do Messias ! ! ! . . . 



Ingrato povo ! raça d'orgulhosos ! 

Miraste um rei no throno deslumbrante ! 
Fitaste altos empregos magestosos ! 

Invejaste-o de imigos triumphante ; 
Egoista qual tu : guerreiro ; altivo ; 
Sobre as outras nações predominante ! 

Quizeste ver o mundo assim captivo, 
DMmpia subjeição grilliões rojando, 
Á liberdade morto, ao crime vivo ! 

Ao desejo mentiu-te orgulho infando ; 
Um rei tiveste, não tingido á mente. 
D'um déspota cruel, abominando : 

Mas sim um rei de paz, um rei clemente. 
Qu'ao banquete chamou da liberdade 
Povos da terra, a todos egualmente. 
De laços fraternaes na santidade ! 

II 

Vem, oh povo d'Israel, 
Ao encontro do- Messias, 
E cumpram-se as prophecias 
Da humana redcmpção ! 
Adornem santa Sião 
Suas galas mais custosas ; 
Virentes palmas frondosas, 
Verdes ramos estendidos 
Sobre os mantos c vestidos... 
Eil-o — o Christo, o Redemptor, 
Ao sacrifício chamado ! 
Ahi vem, triumphador. 
Sem soberba, sem vaidade, 
Entrar na santa cidade. 



Onde tantos peregrinos 
Ilãode, na futura edade, 
Entoar-lhe os santos hymnos ! 

Vinde oh povos, vinde vèl-o, 

— O (|ue serena a tormenta. 

Impera na magestade 

Dos ecos, dos astros, da terra, — 

Como prova dMiumildade 

Montado em pobre jumenta ! 

Oh, salve, .leru.salem I 

As tuas portas descerra. 

Porque as santas comitivas. 

Entre hossanas, entre vivas. 

Avançando p'ra li veml... 

Salve, santas oliveiras, 

Salve, frondosas palmeiras 

Que tão bella festa ornastes. 

E da victoria o da paz 

Eterno emblema ficastes 

A'iva memoria serás ! . . . 

Vence o Christo — a liberdade! 

Paz ao liberto, ao captivo ; 

Cora ella a .«anta egiialdade I... 

Triumpha o Christo — o Deus vivo: 

Foge espavorida, — insana 

A vencida tyrannia ; 

E na fraterna alegria 

Os po\ os bradam : Hossana ! 

III 

Onde o Verbo que nos trouxe 
Esta santa redempção. 
Deslumbrante de verdade, 
Libérrima aspiração ? 
Que soltou essa palavra 
Que deu triumpho á razão. 
Redimindo os opprimidos 
Nos ferros da escravidão? 
Que na mais pura doutrina 
Que rebentou da afleição, 
Escravo da terra ergueu. 
Do rei proelamou-o irmão? 
Onde a fronte omnisciente 
Que teve tal concepção. 
Que em dois preceitos somente 
Legislou ao coração?! 

IV 

Ergue teus olhos, fita-os nos espaços, 
N'a([uella cruz ali o tens cravado ! 

Regia pnrp"ra cobriu-lhe o nudo corpo, 
Um sceptro d'irrisão ergueu na dextra. 
Por diadema tomou verga d'espinhos. 
Foi rei, e no Calvário ergueu seu throno I 

Do superno poder a vil parodia, 
Israel consummou !... Oh reis da terra 
Como frágeis que sois ! Mirae no exemplo. 
Que lionras e poder assim fenecem ; 
— Só não morre a virtude — a liberdade I 



116 



O PANORAMA. 



Fraterna, livre egiialdade, 
Tríplice applaiiso te dou ; 
Tu CS a luz da verdade 
Que Christo ao mundo ensinou ! 

O Verbo tinha de vencer na luta 
Jlas antes de vencer ([uantos tormentos ! 
Era a voz ()ue troava a liberdade, 
Ao mundo revelando um novo mundo, 
E nos pulsos partindo as vis algemas 
Os homens nivelava, eguaes nascidos 
Do li ouro antij/o do priíiiciro humano ! 
Ferrenhas ambições, o despotismo, 
Os prejuízos de classe, insano orgulho 
Contra a nova palavra rebellados 
Abafal-a tentaram no Calvário. 
E ([uando em vil tripudio s'exa!tavam 
Julgando ter vencido — eil-os vencidos!... 
Gloria, oh povo, a ti ! — ao Christo hossana! 
Das imniergidas trevas, pavorosas, 
Rebenta um mar de luz, que a luz afoga 
E do tope da cruz troando immenso 
O seu brado immortal da liberdade 
Dos tyrannos o mundo corrompido 
Roto e desleito sepultou no abysmo. 



OS GODOS M PEXINSUL.i. 

Conclusão. 

Esta ascendência foi porém ganha a pouco e 
pouco, mas com arle ; porque nas diversas cons- 
pirações ([ue então houve contra os reis, uota- 
se que o clero sempre estava ao lado do parti- 
do vencedor; o que faz presumir, ou que elle 
as dirigiu e fez triumpiíar pela força de que já 
.se achava revestido, ou (jue prudentemente se 
conservava afastado d'estas pendências, esprei- 
tando o ensejo de se pronunciar pelo partido 
vencedor para o consagrar com a sua autorisla- 
de. Sizenando, que usurpou o tiirono a Swcn- 
Ihila, alcançou do clero (jue o rei deposto e os 
seu.s parentes fossem excommungados : Ervigio, 
cuja ascensão ao Ihrouo se não baseou nos meios 
mais honestos, foi por eile justilicado. O seu 
successor, (juc com despreso do juramento da 
nação ao lillio de Ervigio, usurpou o throno, 
obteve também que o clero o absolvesse a elle 
e á nação d'aquelle juramento. De nada valeu 
(jue Recaredo a quem o poder clerical tanto de- 
via, introduzisse com o seu apoio a hereditarie- 
dade da coroa ; o (im achava-se conseguido, e 
não devia haver duvida em despedaçar o ins- 
trumento; e assim foi que posleriormenie, no 
quinto concilio toledano, reinando Swenthila, 
o clero annullou a hereditariedade, declarando 
íjuc o rei devia ser eleito por todos. 



O poder real (pie entre os godos, na occasião 
da sua entrada em llespanha, era dependente 
do capricho dos magnates, não ganhou para a 
sua estabilidade, com a participação do clero na 
gerência publica. O poder politico era então 
exercido pelo rei e jielos nobres, em assembléas, 
ás quaes concorriam os condes, os gardingos, 
juizes das villas e todos os senhores de terras. 
Estas assembléas, que tinham a apparencia de 
um conselho militar, reuniam-se, ([uando se não 
haviam lixado como cm llespanha, na tenda do 
rei, seu general em chefe, e elevado á suprema 
magistratura pela eleição. Aquelles altivos se- 
nhores, cônscios da sua força, indóceis e insof- 
fridos por natural condição, contrabalançavam 
e ate mesmo annullavam a autoridade real ; 
porque n'a(iiielles tempos o direito da força era 
o mais respeitado, e as pendências com o rei 
se decidiam quasi sempre depondo-os, ou não 
lhe continuando o supremo cargo na linha recta 
da successão, poniue os nobres escolhiam aquel- 
le membro da familia real mais disposto a pro- 
mover-ihes os interesses. Foi para abater este 
orgulho (|ue serviu a admissão do clero no go- 
verno, e já vimos como o novo elemento serviu 
unicamente para mudar as inlluencias de uma 
para outra mão, ambas egualmente dispostas a 
tirar o maior proveito da força das circunstan- 
cias, e da posição ([ue assumiam. 

Alguma coisa dissemos dos privilégios do cle- 
ro no código dos godos, bem éque digamos tam- 
bém algumas palavras dos da nobreza. Para dar- 
mos uma abreviada noticia bastará dizer que os 
nobres eram olhados como juizes natos nos seus 
districtos e senhorios de jurisdicção, (|ue podiam 
exercer por si, ou delegados. Os seus juramen- 
tos nas causas eram de subido valor, e consti- 
tuíam uma prova legal. 

O povo era o único sobre quem as leis caiam 
com mais peso. Não havia titio participação no 
confeccionauiento d'ellas ; nas cúrias e concílios 
tinha íicado sem defensores, e d'ahi nenhum 
melhorameulo na sua condição. Vassallos, ingé- 
nuos, libertos e servos, não podiiin hombrear 
com os grandes senhores, que os tratavam com 
imnierecido despreso. Era uma classe reputada 
por elles a\ ilíada, e como nascida para lhes ser 
subjeita. A pena de talião, a Instigação, a mão 
e o nariz cortado, a castração, e outros casti- 
gos eguaes, estatuídos mais |iara o terror e vin- 
gança arbitraria, do (jui; para a emenda, foram 
preparando, com a drsmoralisação das classes 
superiores, a degeneração da sociedade, e a sua 
degradação, a ponto dos árabes não carecerem 
de grande esforço para subjeitar a Península, e 
passearem íriumphanlos o crescente sarraceno 
por onde a cruz do C.hrislo se havia solemne- 
uieiite hasteado. Assim acabou no occidente o 
império godo ; e a nação — que o clero e a nobre- 
za não souberam elevar, avullando-lhe os nobres 
estímulos ijue o povo sempre po.ssue, cque uni- 
camente esperam por um redeiiiptor para bri- 
lhar a luz do dia — '. iu exlinguir-se o som fes- 



o PANORAMA. 



119 



tivo dos sinos das suas ald('as, c calar-#c no es- 
paço o dobre dos campanários, para dar iogar 
á voz que saía dos miuaretes chamando os in- 
fiéis á mesquita. Desde essa hora a soleninida- 
de do culto só teve um asylo — verdade eque o 
mais nobre e santiliea(U:i — o corarão dos lieis. 
que n'elle acoiiíeram e salvaram a religião em- 
quanto approuve a Deus fazer durar o cataclys- 



mo. .\. lalla de celebração dos augustos mysle- 
rios em comuium afrouxou os laços (jue deviam 
unir e robustecer a sociedade christã, e ifahi 
a indilTerença com que foram curfando a cer- 
viz ao jugo invasor, não se encontrando ja com 
forças lie soltar esse grito supremo dos povos, 
sua derradeira invocação — Palria ! 

« ** 




A CEIA DO SENHOR. 



ESTUDO.S SOBRE A PRIMITIVA 
EGREJA CllRIST.V. 

EOCn.\RISTI.\ E SASRIFICIO DA MISSA. 

Continuação. 

Depois da consagração e oração dominical, o 
bispo comraungava, c dava a commuubão aos 
padres que celebravam com elle, e depois aos i 



diáconos e clérigos, aos ascéticos e monges, ás 



diaconas, ás virgens e ás outras religiosas, ás 
creanças, e por ultimo a todo o povo. Para abre- 
viar esta acção, que era sempre mui longa, mui- 
tos padres distri])uiani ao mesmo tempo o corpo 
(lo Senhor, e muitos diáconos apresentavam o 
cálix contendo o precioso sangue. Para evitar 
a confusão, os sacerdotes e diáconos levavam a , 
communhão ás pessoas postas em fileiras: que do ' 
mesmo modo tinham elles ido receber as olferen- 
das. Os homens recebiam o corpo de Jesus Chris- ' 
to nas suas mãos, e as mulheres em toalhas des- 
tinadas a seu uso, eque se chamavam domini-i 
cães. Uns e outras commungavam ])0r suas mãos 
com extrema precaução, para que lhes não caís- 
se a menor parlicula. A communhão do cálix fa- 
zia-se ao principio apresentando-o aos fieis para 
i\ beberem, porém depois introduzia-se o uso 
d'nma salva de oiro, ou de prata, para evitar 
o inconveniente de se entornar o precioso san- 
gue, e por fim n'algumas egrejas ensopava-se 
um pedaço de pão consagrado no precioso san- 



gue, ks creanças davam-se as partículas que 
sobejavam da Eucharistia, e mesmo algumas-^ve- 
zes não se lhes dava senão a espécie de vinho. 
Finalmente áquelles que não commungavam. n 
que era mui raro nos tempos primitivos, davam- 
se os restos do pão oflerecido, e não consagra- 
do, d'onde veiu o uso do pão bento. 

>'o tempo dos apóstolos, não se recebia a com- 
munhão senão depois de uma comida de cari- 
dade, a que se dava o nome de af/apa. e que 
tinha por fim imitar a ceia de Jesus Christo. e 
induzir os ricos a contribuírem para o sustento 
dos pobres. Cada um trazia a sua ceia, e du- 
rante a comida, cantavam-se louvores a Deus, 
e faziam-se leituras santas. Apesar d'isto o cos-- 
tume de commungar em jejum é muito antigo, 
e Santo Agostinho o faz datar do tempo dos após- 
tolos ; generalisou-se no quarto século, se bem 
que as agapas continuaram. Ao diante não se 
celebraram os santos mysterios depois de ceia 
senão na ([uinta feira santa. Finalmente, estas 
comidas, verdadeiramente christãs na sua ori- 
gem, tornaram-se abusivas, e a pouco e [lOuco 
foram abolidas em diversos tempos e diflereutes 
partes da Egreja. 

Desde o decimo segundo século foi-se insen- 
sivelmente perdendo o uso de dar a communhão 
nas duas espécies ; porém só foi no concilio de 
Constança que se retirou aos fieis a participação 
do cálix sagrado. 

Áquelles fiue não tinham podido assistir ao 
sacríficio enviava-se a Eucharistia pelos diaco- 



118 



O PANORAMA. 



nos ou acolytos. I{cscr\ava-se iiiiia porção para 
o viatico (Jos luoriliiiiidos, isto é, para a provi- 
são da grande jornada que iam fazer. Pcrmit- 
tia-se aos íieis levarem para casa a Eucharislia 
para a tomarem todas as manhãs antes de qual- 
quer comida, ou nas occasiões de perigo, como 
quanilo iam para o martyrio pois ([iie não havia 
lilterdade de se juntarem lodos os dias para a 
celehração dos mysterios. Como porém unica- 
mente se reservava para os sãos e doentes a es- 
pécie de pão, prova-se por isto que em lodos os 
tenq)Os a Egreja creu que a communhão era tão 
conqtleta soh uma espécie, como em ambas, e 
que i(iiem recebia somente o corpo, on o sangue 
de Christo, recebia sempre Jesus Christo. O uso 
de guardar cada um a Eucharistia em sua casa 
tem-se conservado até iioje na maior parte dos 
gregos e dos orientacs, porém acabou nos occi- 
dentaes peio lim do quarto século e princípios 
do quinto. 

PENITENCIA. 

Não se impunha a penitencia senão aos que a 
pediam; os quaes então eram recebidos com gran- 
de caridade, acompanhada de muita discrição. 
Fazia-se-lhcs conhecer que era uma graça que 
.se não devia conceder facilmente, c por isso e\- 
perimentava-se o delinquente para se conhecer 
.se o seu arrependimento era sincero e solido, 
niettendo-se de permeio algum tempo antes de 
lhe conceder a penitencia. Era ao bispo a (luem 
pertencia designal-a para os peccados mortaes, 
e se devia ser publica ou secreta, c o tempo que 
devi,a durar, e até mesmo se era conveniente, 
jiara edilicação da Egreja, que o peccador fizes- 
se confissão publica, porque regularmente ella 
era feita secretamente ao sacerdote. U tempo da 
penitencia regulava-se pela grandeza e qiwlida- 
de da falta. Ordinariamente era de dois annos 
para o furto, onze para o perjúrio, ([uinze para 
o adultério, vinte para o homicidio, c a vida 
inteira para a apostasia. O numero dos pecca- 
dos da mesma espécie iníluia no rigor da peni- 
tencia, porém quasi nunca iníluia no augmento 
da sua iluração. Aiiuelles a quem se ordenava 
a jienitencia publica, apresentavam-se no pri- 
meiro dia da ([uaresma á porta da egreja com 
vestidos pobres, rotos e sujos, cm signal de lu- 
to, e recebiam das mãos do bispo a cinza na ca- 
beça, e cilicies para se cobrirem: depois o pre- 
lado e\j)ulsava-os do tenq)lo. Os penitentes fica- 
vam de ordinário encerrados, dando-se aos je- 
juns, ás orações, c a todos os exercícios de mor- 
tificação. 

lla\ia (piatro ordens de peuilentes: os llebi- 
les ou lacrimosos; os ouvintes ou auditores; os 
]irostrados; e os consistentes, ([ue quer di/.er os 
<1U(! oravam de pé. Todo o lenqio da |)enilencia 
era disliibuido por estes quatro graus. Por exem- 
plo, aíiuelle (jue linha commetlido um homicídio 
voluntário, ficava (juatro annos no grau dos fle- 
biles, (|uer dizer a porta da egreja nas horas da 
oração, e ficava fora, não no vestíbulo, mas na 



praça, exposto ás injurias do tempo. Ia vestido de 
cilicio, ievava cinza na cabeça, e deixava cres- 
cer os cabellos. iVeslc estado conjurava os fieis 
que entravam na egreja a terem piedade, c ora- 
rem por elle ; e eflectivamenlc toda a Egreja 
orava pelos penitentes. Nos seguintes cinco an- 
nos passava á classe dos ouvintes ; entrava na 
egreja para ouvir a instrucção, ficava no vesli- 
bulo cora os cathecumenos, e saia antes de prin- 
cipiarem as orações. Depois passava á tercei- 
ra classe, e orava com os heis, porém no mes- 
mo logar junto á porta, prostrado no pavimen- 
to da egreja, e saia com os cathecumenos. De- 
pois de estar sete annos n'estp estado, passava 
ao ultimo, cm que ficava quatro annos, assis- 
tindo ás orações dos íieis, e orando de pé como 
elles, mas não lhes sendo permittido nem oITer- 
lar, nem comuuingar. Por fim, tendo cumprido 
os vinte annos de penitencia, era recebido á par- 
ticipação das coisas santas, isto é, á Eucharis- 
tia. 

Durante o tempo da penitencia, o bispo visi- 
tava muitas vezes os peccadores, ou enviava al- 
gum sacerdote para os examinar, e tratar de 
diversos modos, segundo as disposições cm (|ue 
os encontravam. Uns eram excitados ; outros 
amedrontados ; outros consolados. Os prelados 
olhavam a penitencia como uma medicina espi- 
ritual, e persuadiam-se de (|ue a cura das al- 
mas exigia tanta sciencia, observação, paciên- 
cia e applicação, como a cura dos corpos, e que 
se não podiam destruir os hábitos viciosos já in- 
veterados senão por via d'um exactissimo regi- 
men. Tinham muita cautela em não desesperar 
o penitente por excessiva dureza, ponjue d'ahi 
resultaria voltarem de novo ao mundo e á vida 
pagã. I{eprimiam-lhos as imiiaciencias, conhe- 
cendo (luanto é prejudicial uma prematura ab- 
solvição : só concediam a perfeita reconciliação 
as lagrimas, á reconhecida mudança de costu- 
mes, e nunca á importunação, nem as ameaças. 

O penitente não passava de um grau ao ou- 
tro senão por ordem do prelado. Não era o tem- 
po ([ue decidia da penitencia ; esta encurtava- 
se quando havia para isso alguma razão parti- 
cular, como o fervor extraordinário do peniten- 
te, ituui doem;a mortal, ou a perseguição. Esta 
dispensa, ([ue abreviava a penitencia regular, 
chamava-se indiilyencia; e S. Paulo dera o exem- 
plo (Fella com o incestuoso de Corintho, a quem 
liavia exconimungado. 

Ouando o bispo julgava conveniente acabar 
a penitencia, fazia-o ordinariamente no lim da 
(luaresma, para o penitente recomeçar na festa 
da Paschoa a participar dos santos mvsterios. Na 
([uiuta feira de Endoenças, os penitentes apre- 
sentavam-se a porta da egreja, c o prelado de- 
pois de fazer |ior elles muitas orações, fazia-os 
entrar a pedido do arcediago, que lhe represen- 
tava ser aciuelle um tempo próprio para a re- 
conciliação, e que era justo (pie a Egreja rece- 
besse as" ovelhas transviadas, ([uando ella aug- 
mentava o seu rebanho por via de novos bap- 



o PANORAMA. 



«19 



liíados O ponliricc fazia então uma cxhortação 
sobro a misericórdia do Douí;, e a mudança do 
vida que deviam ter, c fazia-os levantar a mão 
em signal de promessa. iMualmentc deixando- 
se abrandar pelas supplicas da Egreja, c per- 
suadido da sua conversão, dcitava-lhes a absol- 
vição solcmne. Depois rapavam as barbas e cor- 
tavam o cabello, largavam os vestidos de dó, e 
principiavam a viver como os outros Hei.s. 

Se, durante o curso da penitencia, se caía em 
novo crime, dcvin-se ella começar de novo. Se 
o penitente não mudava de vida, deixavam-no 
no mesmo estado, sem Ibe dar os sacramentos; 
e se depois de receber a absolvição, ainda com- 
nietlia um crime capital, não havia para elle 
mais sacramentos ; poniuc a penitencia publica 
não se concedia mais de uma vez. Contentavam- 
se com orar por elle, exliorlal-o a converter-se, 
c esperar na misericórdia de Deus (jue não tem 
limites. .\(|uelles que uma vez tinham estado na 
classe dos penitentes, não podiam receber or- 
dens, iiem ser elevados a nenhum ministério ec- 
clesiastico. 

Este era geralmente o niethodo de administrar 
a penitencia canónica, a que chamavam baptis- 
mo laborioso. Depressa perdeu porem o seu vi- 
gor, especialmente no decimo primeiro século. 
Imaginou-se então que cada peccado da mesma 
espécie merecia a sua penitencia, de sorte que, 
por exemplo, um bomicidio, devia expiar-se por 
vinte annos de lagrimas, e eram precisos duzen- 
tos annos para dez liomicidios, o ([ue fazia im- 
possiveis as penitencias, e ridiculos os cânones. 
Recorreu-se então a compensações e estimativas. 
Imaginou-se recitar psalmos, genuflexões, disci- 
plinações, esmolas, e peregrinações. Até houve 
monges que se encarregaram de fazer peniten- 
cia pelos peccados alheios, e um d'esles foi S. Do- 
mingos o Cuiraceo. Raro era o dia em que este 
santo não recitasse duas vezes todos os psalmos, 
acompanhando isto de disciplinações. Três mil 
golpes de disciplina faziam um anuo de peniten- 
cia, e dava mil disciplinadas durante cada dez 
psalmos. Sendo o numero total dos psalmos cen- 
to e cincoenia, e emyuanto recitava todos dan- 
do quinze mil golpes de disciplina, cumpria as- 
sim cinco annos de penitencia. Era mister por- 
tanto repetir vinte vezes os psalmos, e levar tre- 
zentas mil disciplinações para fazer uma jieni- 
tencia de cem annos. S. Domingos cumpria-a 
em menos de seis dias, e como era ambidextro 
disciplinava-se ao mesmo tempo com ambas as 
mãos, não mettendo porém em conta o duplo 
golpe. Houve uma quaresma em que fez assim 
uma penitencia de mil annos. Quanto isto se 
apartava do verdadeiro espirito da Egreja pri- 
mitiva! As penitencias do undécimo século e se- 
guintes eram só próprias para produzir a bypo- 
crisia e a superstição. Como crer que as disci- 
plinações de um pobre religioso tinham para a 
peccador a virtude medicinal? O peccado não 
é como uma divida que liça quite pagando-a ao 
credor em (lualquer moeda : e uma doença pe- 



rigosa que se não pode curar senão na 
do próprio doente. 



pessoa 



EXTHKnA-UXeVO. 



A Extrema-Unção é um sacramento celebrado 
na Egreja já no tempo dos apóstolos, pois S.Thia- 
go, dirigindo a palavra aos cliristãos em geral. 
disse: — "Algum de vos esta enfermo? que cha- 
me os padres da Egreja, para orarem por elle. 
ungirem-no com o óleo em nome do Senhor, e a 
oração salvará o doente, e o Senhor o allivia- 
rá, e se commetteu peccados ser-lhe-hão perdoa- 
dos.» 

Até ao decimo sexto século era uso geral dar 
a Extrema-Unção antes do Viatico ; e costuma- 
va-se levar o doente, ou ir elle próprio se podia 
á egreja, para receber este sacramento; pois não 
se esperava como hoje (juc chegasse a hora ex- 
trema para lhe conferir as graças que esta di- 
vina unção communica. 

Administrava-se a Exírema-Vnção confessan- 
do-se o doente dos seus peccados ; depois os pa- 
dres (porque eram uns poucos os que conferiam 
este sacramento^ faziam-ihe a aspersão da agua 
benta, acompantiada de orações. Então o doente 
ajoelhava á direita do principal ministro. Egre- 
jas havia onde se ajoelhava sobre cinza, emquan- 
to se cantavam as antífonas, e recitavam as ora- 
ções. Depois d'esla ceremonia, os padres impu- 
nham as mãos no doente; depois cada nm d'el- 
les o ungia com o óleo santo, applicando-rn'o 
em forma de cruz no pescoço, na garganta, no 
peito, nas espadoas, no sitio onde o enfermo 
sentia mais dores, e nos órgãos dos cinco sen- 
tidos corporaes. Tudo isto era precedido e se- 
guido de antífonas, cantigos espirituaes, e fer- 
voroi;as orações. Em muitas egrejas terminava 
a cetemonia com a benção das cinzas, que se 
punham em forma de cruz sobre o peito, ou ca- 
beça do doente, para lhe recordar o seu nada; 
e n'outras cobrindo-o com um cilicio para lhe 
inspirar sentimentos de penitencia. Vè-se que a 
administração d"esle sacramento durava muilo 
mais tempo do (jue hoje. 

OIIDEM. 

As ordenações eram precedidas de um jejum, 
e acompanhadas de orações. Ordinariamente ti- 
nham logar em a noite do sabbado para o do- 
mingo. Yelava-se n'essa noite ; e celcbrava-se de- 
pois a ordenação, cuja principal ceremonia era 
a imposição das mãos, seguindo-se depois o sa- 
crifício da missa. 

Escolhia-se o bispo em presença do povo, pe- 
los bispos da província, reunidos na egreja va- 
ga, pelo menos em numero de dois. Julgava- 
se necessária a presença do povo, para que es- 
tando todos persuadidos do mérito do eleito, lhe 
obedecessem de melhor vontade, pois que ordi- 
nariamente se escolhiam os baptisados na mes- 



tao 



O PANORAMA. 



ma egreja, e que n'ella tinham exercido por mui- 
tos annos todas as funcrões ecclesiasticas. 

Os bispos escoliiiam os clérigos entre os cliris- 
tãos cuja santidade mais l)rilhava, e de mais re- 
conhecida virtude. Esta era a ordinária recom- 
pensa dos confessores, o ([ue quer dizer, aquel- 
íes que tiniiam defendido a fe contra os pagãos 
e liereticos, e que haviam mostrado mais cons- 

■ íancia nos tormentos. O prelado fazia muitas 
vezes esta escolha a pedido do povo, pelo me- 

■ nos com a sua participação, semj)re com o con- 
seliio do clero, e depois de ter examinado, com 
os sacerdotes mais habjis, os que escolhia, pa- 
ra ver se tinham as qualidades requeridas. Pou- 
co se attendia á vontade dos ordinandos. Não so 
se não esperava que elles pedissem a ordem, mas 
ate os ordenavam contra sua vontade, por força 
ou por arliiicio. O hispo não ordenava uem sa- 
cerdotes, nem diáconos, nem outros clérigos, mais 
que os rcstrictamente precisos para o serviço da 
sua egreja. O numero não era grande. Em pro- 
porção havia mais bispos, porque se nomeavam 
para todas as cidades onde existia um numero ra- 
soa\el de christãos. Era prohibido ordenar n'uma 
província os que tiidiam sido baptisados n'outra, 
por não ser conhecida a sua vida. Depois da or- 
denação obrigavam-se os clérigos, não só á rc- 
.sidencia, mas á estabilidade pelo 'resto de sua 
vida, licando sempre em comi)leta dependência 
dos bispos, porque eram os discípulos que elles 
tinham cuidado de instruir, formar e educar, gra- 
dualmente, para os applicarem a diversas func 
ções, segundo os seus talentos. 



MATItlMOMO. 

Os christãos olhavam nobremente o casamen- 
to, como sendo o seu Um a produrção das crea- 
turas racionaes, (|ue devem durar eternamente, 
e tornando o homem imagem de Deus d'um mo- 
do particular, no que concorre com elle para a 
producção do homem. Entre os princijjios para 
a educação das crcanças, reconunendava-se ca- 
sal-as cedo, jiara prevenir a devassidão ; e ex- 
hortavam-se a(|uelles (|ue por caridade acolhiam 
c nutriam orphãos, a casal-os chegada a edade, 
de preferencia com os próprios iilhos; e isto mos- 
tra que então o interesse não tinha parte nos 
•casamentos dos christãos. 

Consultava-se o bispo sobre os casamentos, 
como sobre lodos os negócios importantes, para 
que se fizessem segundo Deus, e não segundo 
a concupiscência. Quando as partes estavam de 
accordo, celcbrava-se o casamento pul)li(;a c so- 
âemiuMuente na egreja, e era consagrado pela 
l)('nção do pastor, e conlirmado pela oblação do 
santo .sacrilicio. Os esposos davam a mão, e a 
mulher recebia do marido um aunei onde estava 
gravada uma cruz, ou a figura symbolica de al- 
guma \irtude. Os lieis abslinham-se do uso do 
casamento durante os dias solemnes de festa, ou 
de jejum, e d'ahi vciu a prohibição de celebrar 



núpcias em certo tempo do anuo. Não era per- 
mittido o casamento com os iniieis ; porém se 
antes tinham sido casados podiam habitar jun- 
tos. As segundas núpcias, aimla que permitti- 
das, reputavam-se uma fraípieza, e nalgumas 
egri'jas obrigavam-se á penitencia os que se tor- 
navam a casar. 

3E3VSS. 

Os christãos jejuavam mais vezes do que Of. 
judeus; porém emquanto ao modo do jejum era 
quasi o mesmo, dando mostras de alllicção. O 
essencial era não comer senão uma vez ao dia, 
de tarde ou jantar, e a abstinência de vinho, e 
de comidas delicadas e nutritivas, passando-se 
o dia no isolamento e na oração, .luntava-se ao 
jejum a esmola, que saía da economia feita na 
de.speza ordinária. Até se julgava quebrado o 
jejum bebendo-se agua fora da occasião da co- 
mida. 

Nos tempos primitivos da lei da graça, não 
havia jejuns obrigativos senão os da quaresma. 
A devoção instituiu outros, como as quartas c 
sextas feiras, e os que os bispos ordenavam pe- 
las necessidades extraordinárias das egrejas, e 
linalment(^ as ([uatro têmporas, para consagrar 
pela penitencia, as diversas estações do anuo. 
Regularmente não era permittido jejuar ao do- 
mingo, por causa da excellencia deste dia. 

Distinguiam-se três espécies de jejum : os da 
estação, que acabavam ás três horas da tarde, 
e se chamavam meios jejuns ; os da quaresma 
que duravam até ás seis horas, ou pôr do sol ; 
e o duplo jejum em que se passavam vintí e 
quatro horas sem comer. Também se jejuava no 
sabbado da alleluia ; na sexta feira de Paixão; 
muitos passavam três dias, outros quatro, ou- 
tros toda a semana santa, sem tomarem uutri- 
mento, segundo as suas forças. 

Eram diflerentes os graus da abstinência: uns 
observavam a homopliafiia, que quer dizer não 
comer nada cosido ; outros a xeropliagia, que 
signilica limitarem-sc ás fructas seccas, absten- 
do-se não só da carne e ?iO vinho, mas também 
de fructos vinosos ou siicculentos, e comendo 
portanto pão e nozes, amêndoas, e outros fruc- 
tos similhantes. 

Dos jejuns solemnes da Egreja, especialmen- 
te a quaresma, ninguém era dispensado, e nem 
a condição e a edade passavam por escusas le- 
gitinms. Todos os negócios públicos cessavam ; 
e viam-se as cidades, ainda as mais povoadas, 
tranquillas como as solidões. Os tieis passavam 
a maior jjarte dos dias nos templos orando, e 
ouvindo leituras santas e predicas. D'ai|ui pro- 
vem serem nuiis extensos os olVicios d'estes dias. 
Não se celebravam núpcias, havia privação dos 
prazeres ainda os mais innocenles ; não se jul- 
gavam os processos ; não se usara de armas, e 
não se emprchendia nenhuma viagem sem gran- 
de necessidade. 
Continua. • A- 



\% 



o FAICOItAMA. 



'[•'■-. i:: 



13t 







RESURREXIT. 



Annunliale hoc iii univprsa terra; 

Que foi feito das antigas philosophias? Recua- 
ram vencidas ante a máxima siil)ii!iie do amor de 
Deus e do próximo ensmada pelo Cliristo. On'k' 
está hoje o fulgor d'esses celebrados nomes com 
que o paganismo por tantos séculos se ufanou? 
Eclipsou-se ante o esplendor do nome de Jesus ! 
Qual sellou mais nobremente a proclamada dou- 
trina com mais generoso sacrifício? -Nenhum. A 
verdade, divina na sua essência, carecia lambem 
de um poder divino para se revelar. Esse poder 
baixou á terra encarnado na figura mais enobre- 
cida da creação — o homem, — que o Omnipo- 
tente havia formado á sua imagem c similhança! 

A creatura humana, saida expressamente da 

VOL. I. í." SERIE. 



nicão de Deus para o glorificar ; animada pelo 
seu sopro divino a!im de se elevar á preeminên- 
cia de rei da creação, foi glorilicada pelo sacri- 
fício augusto da Redempção. Havia sido creada 
immortal, e pelo peccado entrava na duvida d'es- 
ta graça da sua creação. Era preciso um gran- 
de exemplo que autorisasse a doutrina, e o La- 
zaro foi evocado á campa, e os incrédulos con- 
fessaram a evidencia (jue não podiam negar. Pas- 
saram então as duvidas da doutrina para a pes- 
soa que a proclamava, e negaram aquelle que 
assim imperava sobre a morte, que a si próprio 
se podesse eximir delia. «O/í morte! eu serei a 
tua morte ; ok inferno ! eu serei a tua ruina, » 
iiavia dito a prophecia pela bocca de Ozéas. Re- 
suscitafci ao terceiro dia, linha repelido o Chris- 
.\BRiL, 18, 1857, 



193 



O PANORAMA. 



to; e os homens, allucinados, haviam sellado o 
sepulchro de Jesus, guardando-o com soldados, 
para (jue o corpo não Ibsse arrebatado pelos dis- 
cípulos, e a impostura se não impozesse á ver- 
dade annunciando uma resurreição que não exis- 
tia ! Esta mesma guarda, porém, esta mesma vi- 
gilância era precisa para testemunho do milagre 
entre os incrédulos, que não poderam deixar de 
exclamar, confundidos pela evidencia: — f(Este 
liuiiiem era na verdade u filho de Beus!» 

Tal é o assumpto que representa a nossa gra- 
vura. N'este momento solemne da resurreição, 
a humanidade folga, remida das cadèas do pcc- 
cado. Uegenerou-se por este modo a face da ter- 
ra; os anjos e os santos entoaram a Alleluia! e 
nós os homens, abraçando-nos como irmãos, fe- 
licitamo-nos reciprocamente por tão augusta e 
solemne festa ! Assim também vol-a desejamos, 
leitor, venturosa e feliz. *** 



VIAGENS DE BECKFORD A PORTUGAL. 

CARTA XXII. 

MSITA AOS CONVENTOS DA SERHA. SCEN.\S 
DA COSTA MARÍTIMA. 

Continuação. * 

19 de Setembro de 1787. 

Nunca tive um dia mais formoso, nem vi um 
ceo de azul mais aprazível. Os marquezes já es- 
tavam comigo ás seis horas e meia, e divaga- 
mos por oiteiros incultos, sobranceiros a uma 
grande extensão de paiz apparenlemente deser- 
to, porque os logarejos, onde os ha, estão escon- 
didos nas quebradas c covas da serra. 

Intentando explorar as montanhas de Cintra 
de um a outro extremo da cordilheira, collocá- 
mos mudas em diflereutes estações. O nosso pri- 
meiro objecto foi o convento de Nossa Senhora 
da Pena, pequeno e romântico conjunto de edi- 
íicios braníjueados, que cu tinha visto brilhar 
de longe a primeira vez ([ue naveguei pela cos- 
ta de Lisboa. Desta pyrauiidal altura o horison- 
tc é intiuito; \èdes, logo inimediatamentc abai- 
xo, immen.sa expansão de mar, o vasto, illimita- 
do Atlântico. Ima longa serie de nuvens soltas, 
de alvura deslumbrante, também abaixo de nos 
suspensas sobre as ondas, produzem elliilo ma- 
gico, e nos tenq)Os do paganismo pareceriam, sem 
esforço algum da phantasia, os carros das dei<la- 
des marítimas (jue viessem surgindo da profun- 
deza do seu elemento. 

Não havia coisa verdadeiramente interessan- 
te nos objectos que ])roximamente nos cerca\ani. 
As relíquias nioiriscas das circunvisinhanças do 
convento apenas merecem menção, e de facto 
mostram não pertencerem a edilicio algum con- 

(■) DonuM. Uíde Tol. anlecsdcnte. 



sideravel ; foram provavelmente fabricadas com 
as dilapidações feitas a um tcr.iplo romano, su- 
jos constructores talvez que também se tivessem 
aproveitado de algum fano (egreja) púnico ou 
tyrio erecto n'este sitio elevado, e denegrido pe- 
lo fumo de sacrihcios horríveis. 

Por entre as rachas dos muros esbroados e 
particularmente na abobada de uma cisterna, 
que indica ter servido tanto para deposito como 
para banho, descobri algumas plantas capillares 
e pol\ pódios de estremada delicadeza, e n'uma 
pequena chã defronte do convento numerosa tri- 
bu de cravos, gencianas e outras plantas alpi- 
nas, agitadas e robustecidas pelo ar puro das 
montanhas. Estas brisas refrigerantes, impregna- 
das do perfume de innumeraveis hervas aromá- 
ticas e flores, parece que me infundiam nas veias 
nova vida, movendo-me por um impulso quasi 
irresistível a prostrar-me e adorar n'este vasto 
templo da natureza a fonte e a causa da exis- 
tência. 

Como estivemos largo espaço em contempla- 
ção, não pude passar metade do tempo (jue eu 
desejava nesta aeria e solitária summidade. Bai- 
xando por uni caminho soífrível mente commodo, 
que serpèa entre as rochas em muitas e irregu- 
lares curvas, seguimos por algumas milhas um 
triliio estreito sobre os cumes de eminências ma- 
ninhas e agrestes até ao convento da cortiça (1), 
que corresponde exactamente, no primeiro re- 
lance d'olhos, á pintura cjue se pode imaginar 
da vivenda de Robinson Crusoé. Da banda de 
fora da entrada, que formam dois enormes ro- 
chedos proeminentes que se tocam pelos cimos, 
estende-se um macio lerreírinho de relva tosada 
pelo gado, cujos tintinnabulos me recordaram 
antigos dias decorridos em meio da rústica pai- 
zageni dos Alpes. O eremitério e suas cellas, a 
capella, o refeitório, tudo é cavado no mármo- 
re nativo, e guarnecido de cortiça de sobreiro; 
em muitas partes não é só o forro do tecto, mas 
também o soalho recamado do mesmo material, 
extremamente macio e agradável ao piso. Os 
arbustos e as plantas de jardinagem dispersos 
entre as rochas musgosas (]ue jazem na mais sil- 
vestre desordem, são coisa deleitosa, e muito 
gostei de explorar aquelles recantos e voltas se- 
guindo o curso de um regato transparente e ru- 
morejante, que é conduzido por um canal rús- 
tico airavez de moitas de alfazema c alecrim do 
verde mais mimoso. 

O guardião deste romântico retiro e apresen- 
tado pelos Marialvas (2), c n'este dia era a sua 
posse, de modo que tão instados fomos para o 
jantar que não pudemos desculpar-nos ; como 
era ainda muito cedo cavalgámos com o intuito 
de ver a famosa arriba marítima chamada Pe- 
dra de Alvidrar, que é um dos objectos mais 
notáveis d'cste famigerado promontório. Levava- 
nos o nosso caminho pelas beiras dos arvoredos 

(1) «rCork-coiivcnt» aísiiu (.hiuiiam os iiiglezei o convoíito 
(los capuchos (la serra. 

(i) Nio é exacto. " ' ' 



o FÃNORâMâ. 



123 



próximos da deleitosa \illa de Collares até ou- 
tra ordem de escalvadas eminências ([ue se di- 
latam ale a costa brava do mar. Cheguei mes- 
mo ao pino do rochedo, que e de grandissima 
altura e quasi perpendicular. Seguia-nos uma 
tropa de rapazes alcançando os cavallos ; e cifl- 
co dos mais taludos desceram com lodo o des- 
embaraço pelo temeroso precipício ; um d'elles 
especialmente baixava de braços abertos e co- 
mo individuo de ordem superior aos mais e á 
natureza. 

 costa marítima é o que se pode cliamar pit- 
toresco, consistindo de bojamentos muito arro- 
jados, que se entremeiam com penedos pyrami- 
daes uns apoz outros em perspectiva theatrai, 
avistando-sc os mais remotos coroados por uma 
torre mui alta, que serve de pbarol. 

Não ha termos que expliquem a suavidade da 
atmosphera, e a luz prateada ([ue o mar reflec- 
tia. Da orla do ab\srao, onde nos demorámos 
alguns minutos como por encantamento, desce- 
mos unui ladeira tortuosa, obra de meia milha, 
até á praia. Achámo-nos fechados por penedias 
desordenadas e varias grutas, amphitheatro ima- 
ginoso, que não havia nenhum mais próprio pa- 
ra .suppur os brinciuedos das nymphas neptuni- 
nas. Nunca vi angras como estas, tão fundos e 
interceptados esconderijos, um jogo assim da li- 
nha geral do perhl, e lambem nunca ouvj tão 
valente mugido das aguas que investem com a 
costa. 

Não admira que a escandecida e suscepHveí 
imaginação da antiguidade, enthusiasmada pela 
pa-izagem das i^eafidades, os persuadisse a <[uc 
tinham visfé' as coAchás dos tritões resoando ao 
entrar nas cavernas marítimas ; c por isso al- 
guns dos mais autorisados c antigos lusitanos po- 
sitivo declararam que não só os tinham ouvido, 
mas também visto, c despacharam um mensagei- 
ro ao imperador Tibério aniiunciando-lhe o suc- 
cesso, e congratulaudo-o por tão evidente e aus- 
piciosa manifestação da divindade. •'; ' 

 maré começava a vasar e deu-nos licença 
para entrar, não sem algum risco, n'uma caver- 
na de pasmosa altura, cujos lados estavam in- 
CTUslíidos de bellos mariscos e de uma varieda- 
de de conchinhas em vários grupos. Contra al- 
gans ásperos e porosos fragmentos, não distan- 
te da bocca por onde tínhamos engatinhado, as 
ondas erapolavam-se violentas, arremettiam pa- 
ra o ar, formavam instantâneos dóceis de espu- 
ma, e depois escorriam em milhares de reguei- 
ros còr da prata. As vacillantes espadanadas da 
luz pelas irregulares arcadas batendo nas mais 
sombrias c recônditas cavernas, o crepúsculo 
mysterioso e húmido, os murmúrios resonantes 
e quasi todos os tons musitaes, occasionados 
pelo embate dos ventos e das aguas, o cheiro 
activo da atmosphera impregnada de partículas 
salinas, produziam tal desvario dos sentidos que 
eii não duvido que um geuio poético se incli- 
nasse ali á crença das apparições sobrcnaíuraes. 
Não me espanta, por isso, a credulidade dos an- 



tigos, e só me maravilha que a minha imagi- 
nação não me illudisse similhanleraente. Se a 
solidão excitasse as nereidas a cerlilicarcm-me 
da sua existência por uma apparição, não falta- 
ria csla, porque lodos os meus companheiros se 
haviam trasmalhado deixando-mc inteiramente 
só; por meia hora estive secluso do mundo ani- 
mado ; a única creatura viva que pude depois 
descortinar foi um arisco corvo marinho, empo- 
leirado n'uma rocha, insulada a cincoenta pas- 
sos da abertura da caverna. 

Os sons complicados e susurros ([ue me en- 
traram pelos ouvidos atordoavam-me a ponto, 
que estive alguns momentos sem poder distin- 
guir as vozes de Vcrdeil e D. Pedro, os quaes 
voltavam de uma colheita de algas e conchas, 
chamaudo-me estrondosamente para montar a ca- 
vallo e reunir-nos ao marquez e sua comitiva, 
que todos tinham ido á missa ao conventinho da 
Serra. Felizmente as pequenas nuvens .soltas, 
que tínhamos visto do cume altíssimo da Pena, 
em vez de se fundirem no tirmanienlo azul ha- 
viam-se condensado e nos protegiam contra o ca- 
lor do .sol. Foi, portanto, deliciosa a cavalgata; 
assim que nos apeámos apparecen-nos o abbade 
veliio que chegava na occasião com Luiz de Mi- 
randa, coronel do regimento de Cascaes, cerca- 
do de todo o synodo de frades, pittorescos quan- 
to podiam tornal-os as cabeças calvas e as bar- 
bas venerandas. 

Logo que o marquez findou as suas devoções, 
servífee o jantar no gosto do (jue se pode es- 
perar em Mequiuez ou em Marrocos ; cusciís e 
similhantes massas, saborosas codornizes, e py- 
ramides de arroz coradas de açafrão. A nossa 
sobremesa, quanto a frucías c doces, foi mais 
opípara ; nem a própria Pomona se envergonha- 
ria de trazer no regaço pecegos e abrunhos co- 
mo os que rolavam com profusão por cima da 
mesa. 

O abbade parecia animado depois do jantar 
pelo espirito de contradicção, c não queria con- 
ceder que o marquei ou Luiz de Miranda sou- 
bessem mais da còiie de D. João v do que da 
de Pharaó rei do Egypto. Para não ensurdecer- 
mos aos berros da disputa, em que dois ou três 
frades com vozes de stentor começaram a met- 
ter-.se com veheraencia, galgámos D. Pedro, Ver- 
•deil e eu pelas empinadas moitas de medronhei- 
ros c murtas até um terreirinho atapetado de 
mimosa relva, que á mais leve pressão recendia 
com perfumes suaves. Ali nos sentámos, acalen- 
tados pelo borborinho das ondas distantes que 
rebentavam na penedia da praia, que de manhã 
tínhamos vísitaclo; as nuvens passavam vagaro- 
sas por cima dos oitciros. Os meus comjianhei- 
ros partiam as pinhas c davam-me os pinhões,' 
que teem agradável sabor de amêndoa. 

A tarde ia muito adiantada quando deixámos 
este pacifico retiro e fomos ter com o marquez, 
que não fora capaz de accomraodar o abbade : 
o velho vozeador appellou tantas vezes para o 
guardião do convento em defesa das suas opi- 

» 



194 



O PANORAMA. 



niões, que eu pensei que nunca d'ali nos des- 
pcgariamos. Afinal partimos, e divagando entre 
névoas e trevas esparo de duas horas, chegá- 
mos exactamente as dez a Cintra. A niarqueza 



c os meninos estavam inquicíns com tão longa 
ausência, e ralharam ao abl^uie por ter sido a 
causa. 

Continua. M. 



-(.... 







ARCOS NORMANDOS. 



Winchester, capital do condado de Southam- 
pton e distante d'este porto cinco léguas para o 
nordeste, foi cidade importante no tempo dos reis 
saxonios. Teve uma celebre abbadia de benc- 
dictinos; ainda possue um collegio onde se edu- 
cam muitos estudantes e se preparam a seguir 
os cursos dcnsino superior na universidade de 
Oxford ; é pátria do rei Eduardo i. 

A cathedral, obra antiga e primorosa, care- 
cia de alguns reparos e arranjos ([ue ultima- 
mente se teem feito, e o progresso dos mesmos 
deu logar a um interessante descobrimento ar- 
cheologico em a cerca interior ou claustra mais 
recôndita. 

Bemovendo os trabalhadores o paredão que 
liga os aposentos do deão com o claustro escu- 
ro que cm tempos antigos era jiassagem para a 
enfermaria do mosteiro, destaparam uma serie 
de cinco arcos maciços com suas pilastras, de ar- 
chitcctura normanda, c sendo o central de muito 
maiores dimensões que os outros quatro; acham- 
se em bom estado de conservação, e por esse do 
centro seguirá a communicação (jue se preten- 
dia abrir. Não ha du\ida (jue estes arcos são 
resto dos sustentáculos cm que se estribara a 
antiga casa do capitulo, que era de noventa pés 
quadrados, vendo-se ainda grandes porções nas 
paredes do claustro acima referido. 

A(iui se passaram graves acontecimentos his- 
tóricos. O soberbo e irreligioso rei João aqui se 



humildou aos pés do arcebispo Langton para ob- 
ter absolvição da sentença de excommunhão, e 
renovou o servil preito que d'antes rendera ao 
papa Innocencio iii. Aqui seu filho, Henrique iii 
l)regou um sermão em forma, sobre um texto 
que iiavia escolhido, perante toda a communi- 
dade dos monges, para resolvel-os a escolherem 
seu co-irmão Ethelniar para prelado. Aqui tam- 
bém, por intervenção do abbade e monges, se 
ajustou felizmente a fatal desinlelligencia entre 
llenrif[ue de Winchester e seu brioso filho e li- 
bertador Eduardo i. 

Os arcos, como estão situados, debaixo de al- 
gumas formosas arvores de tilia, quando o ter- 
reno estiver amanhado e plantado de arbustos, 
mostrarão, vistos de diversos lados, uma appa- 
rencia bastante pittoresca. 

M. 



OS ALEMÃES, E A SUA MODERNA 
LITTERATLRA. 

Para prova de como se avalia em França a 
lilteratura dos outros paizes, vamos trasladar 
um esboço da apreciação feita por um escriptor 
d aquella nação, acerca da moderna litteratura 
alemã, dessa litteratura que mostrou, em tem- 
pos não mui remotos, génios da elevação de 
Goethe, Schiller, Burger, Hotímann, e tantos 



o PANORAMA. 



13S 



outros, dignos ri vãos dos melhores autores de 
todo o resto da Europa. 

Eis cm substancia o arrasoado do critico fran- 
cez. 

Se algum futuro bibliophilo se lembrar de di- 
rigir um olhar retrospectivo sobre a Alemanha 
do decimo nono século, enxergará ahi maior nu- 
mero de petiuenos livros do que de grandes ho- 
mens, podendo atravessar annos e annos, como 
se passeasse sobre as estantes carunchosas de 
uma velha e extensa livraria. 

À posteridade de Arrainio trocou o escudo pe- 
la estante, e a águia de duas cabci;as do bra- 
zão teutonico, pode vantajosamente substituir-se 
por um ganso. 

Não me queiraes mal, caros visinhos d'além 
do Rtieno, se esta imagem oITusca a vossa glo- 
ria; ella saiu inteira de um cérebro alemão, per- 
tence a Wolfgang Menzel. 

Na verdade, a rude Germânia trocou as suas 
armaduras de ferro pelo roupão e os pantufos ; 
e será ditlicil de encontrar um fio de Ariadne, 
que nos ajude a descobril-a, adormecida, como 
está, debaixo das suas catacumbas de papel. 

Deixando á Itália a sua ardente poesia, a Ues- 
panha os seus esquecidos santos, á Franca as 
vaidades da gloria, á Inglaterra a sua fortuna 
commercial, a boa Alemanha bebe cerveja, fu- 
ma cachimbo, e perde a vista a ler. Não lhe 
disputeis a descoberta da imprensa ; pois o uso 
que d'ella faz é tão uniforme, que não pode dei- 
xar duvida sobre a prioridade do seu direito. 
Passa metade da vida a sonhar; e a outra me- 
tade a pôr em ordem os productos das suas vi- 
gílias. 

Esta accumulação de livros, que cresce todos 
os dias na Alemanha, estas muralhas descomu- 
naes. erguidas por um povo inteiro, á maneira 
de uma nova Babel, este phenomeno de dez mi- 
lhões de volumes, publicados todos os annos por 
cincoenta mil escriptores, promettem, por pou- 
co que augmente a fúria de escrever livros, uma 
estatística de autores alemães, que virá a exce- 
der muito o numero dos leitores. 

De que provém isto? É que desde tempos mui 
remotos, os alemães eram um povo phantastico; 
na edade media tornaram-se mysticos ; e á pro- 
porção que caminham para as modernas épocas, 
mais a sua organisação contemplativa se encer- 
ra nas regiões da intelligencia. 

Em nenhum outro paiz se encontram tantos 
systemas, opiniões, gostos e talentos diversos ; 
tão differeutcs estylos no pensador e no poeta. 
Nenhuma regra dirige aquelles espíritos ; cres- 
cem aqui e ali, como plantas agrestes, dessími- 
Ihantes na natureza e na forma; e a sua reunião 
na litteratura apresenta, portanto, um aspecto 
irregular. Faliam a mesma língua, assim como 
vivem sob o mesmo ceo, mas distinguem-se uns 
dos outros por uma pronuncia especial. O na- 
tural os arrebata, apesar da severa doutrina de 
certas escolas, que pretende extirpar esta pre- 
tendida barbárie. 



A Alemanha tem pouca llcxibilídade social, 
mas a sua individualidade c por isso mesmo mais 
enérgica; caminha livremente ate ao capricho e 
á caricatura. O génio rompe todos os diques; e 
o espirito da mãe-patria predomina mesmo en- 
tre o vulgo. 

Se olhamos para a litteratura dos outros po- 
vos, sempre vemos, mais ou menos, um certo 
amor pelas regras, pelos jnrrfiftç á franceza; po- 
rém a litteratura alemã é como uma floresta vir- 
gem, como um prado coberto de hervas desco- 
nhecidas. Cada espírito parece-se com uma flor 
distincta pela côr e pelo perfume. 

O que ha de rico e original no mundo phan- 
tastico dos alemães, deve attribuir-se a inthien- 
cia imraediata da natureza. O vòo do génio ale- 
mão é livre e arrebatado. Uma só coisa é com- 
mum á quasi totalidade dos escriptores germâ- 
nicos ; é o pouco caso que fazem da vida real, 
e a supremacia da contemplação interior.' 

Por isso mesmo diversificam tanto as idéas 
n'aquella região. Nos estreitos limites da vida 
pratica, as idéas teriam de grupar-se em ura pe- 
queno numero de partidos, que buscariam re- 
sultados simples ; mas na esphera íulinita da 
imaginação, todo o espirito original acha um 
terreno sem horisontes. 

Os alemães procuram instínctivamente este 
elemento de liberdade. Os francezes servem-se 
das idéas para as applicar a experiências ; os 
alemães empregara as experiências para deduzir 
d'ellas maravilhosas theorias. O francez inven- 
ta dramas ou tragedias para agradar ao espiri- 
to politico nacional ; aos alemães não resta das 
suas acções e experiências senão dramas ou tra- 
gedias. Os francezes teem uma língua pobre, 
porém excellentes oradores; os alemães podiam 
fallar muito melhor, mas límitam-se a escrever: 
aquelles faliam porque obram, estes escrevem 
porque só pensam. 

A actividade litteraría devora a Alemanha. 
A mais pequena cidade tem o seu gabinete de 
leitura, e a sua casa de conversação. Qualquer 
habitante, mediocremente rico, possue uma bi- 
bliotheca. Desde a arte de governar até ao mo- 
do de embalar uma creança, tudo é objecto de 
sciencía, e se estuda, além do Rheno. Os livros 
multiplicam-se cora uma perseverança infatigá- 
vel ; tudo ahi apparece estampado : as receitas 
do medico, as sentenças do juiz, os sermões do 
parocho, as lições do mestre-escola, e até o pen- 
sum do discípulo. Governa-se, cura-se, nego- 
ceia-se, viaja-se, cosínha-se com um livro na 
mão. . . sem livros, a mocidade alemã estava 
perdida. 

Este juizo mais que severo de mr. Christian 
sobre os alemães e a sua moderna litteratura, 
acha comludo apoio em um autor nacional, Wolf- 
gang Menzel, o mesmo que já o escriptor fran- 
cez havia citado em sua defesa. 

Ouçamos o critico germano : 

Em todas as épocas foram os alemães menos 
hábeis na vida pratica do que outro qualquer 



136 



O FâNORâMÂ. 



povo, porem mais indígenas ho mundo interior; 
todas as suas virtudes e todos os seus vicios de- 
vem attribuir-se a essa concentração intima, a 
essas disposições uiedilali\as. São elias, mais 
que tudo, ciue lazem de nós um povo litterario, 
e que imprimem, ao mesmo tempo, á nossa lit- 
teratura, um caracteristico singular. Os escrip- 
tos das outras nações occupam-se mais de coi- 
sas positivas, como o seu género de vida ; os 
nossos teem um colorido sobrenatural ou anti- 
natural, que não se liga com o mundo pratico, 
jiorque só temos diante dos olhos o nosso mundo 
interior e as suas maravilhas. Nós somos mais 
phantasticos do tjue os outros povos, não somen- 
te pon|uc a nossa imaginação se arremcça da vi- 
da real para um ambiente de prodígios, mas ain- 
da porque tomamos os sonhos pela realidade. A 
nossa intelligencia perde-se no espaço, e somos 
apontados geralmente como especuladores e fa- 
bricante* de systemas. Não sabemos realisar as 
nossas theorias senão no campo da litteratura, 
e dando ao mundo das palavras uma superiori- 
dade desproporcionada com o mundo real, me- 
recemos com razão que se nos prodigalisem os 
epithetos de pedantes e atormentadores de li- 
vros. 

Todavia os resultados de nossas assiduas me- 
ditações, apparecem com um brilhantismo, que 
os estrangeiros não sabem apreciar. Nós trata- 
mos da cultura universal do espirito, e não é 
debalde ([ue lhe sacrilicamos a energia, de que 
ha\ianios mister para obrar, bem como o nosso 
orgulho nacional. Os conhecimentos que nós ad- 
quirimos, podem tornar-se facilmente mais salu- 
tares ao género humano, do que certas acções, 
alcunhadas de grandes ; e o desejo de ensinar 
os estrangeiros, deve honrar-nos mais do que 
uma victoria alcançada sobre elles. 

Ha cm nosso caracter nacional uma tendên- 
cia particular para o bem da humanidade; pre- 
tendemos surprehender tudo que diz respeito ao 
género humano, no seu próprio centro, c adivi- 
nhar na multiplicidade iníinila da vida o enygma 
da unidade occulla. K por isso que trabalhamos 
ao mesmo icmpo, c com egual fervor, em todos 
os pontos da sciencia. Temos um gosto innato por 
tudo, simultaneamente; o nosso espirito aproxi- 
ma as maiores distancias, cjuando tem avidez de 
conhecer os objectos, e devassa a profundidade 
die todos os mjsterios da natureza, da vida e da 
alma. Nenhuma outra nação é dotada de um es- 
pirito encyclopedico como a Alcnuinha, e o que 
não pode conseguir o esforço individual, alcan- 
ça-o um trabalho coUeclivo : numerosos órgãos 
estão espalhados entre o poxo, e servem para 
alargar os horisonle^ do saber. 

Das opiniões, homogéneas até certo ponto, que 
expendem o francez e o alemão, pode concluir- 
se, e concluc-se (jU(; c um povo original o da 
antiga (icrmauia; mas de fornui alguma se acha 
justilicado (|ue a moderjia litteratura (i'além-Hhe- 
uo seja insignilicante. A chula Alemanha, cha- 
mam os sábios de todo o mundo áquclla parte 



da Europa ; e outra prova da sua importância 
litteraria é a maneira porque se tem generaiisa- 
do o estudo d'aquelle idioma. Os seus livros não 
teem o brilhante colorido das obras francezas, 
nem a utilidade pratica dos escriptos britânicos ; 
porém mostram o supremo esforço da intelligen- 
cia, são a arca santa da sciencia. 



CURONIGAS MONÁSTICAS. 

DA COMPANHIA DE JESUS. 

III 

CASA DE S. nOQUE. 

Continuação. 

No cabo da rua de Santa Catharina havia ou- 
tro arco dedicado á gloria dos Apóstolos c Mar- 
tyres. Tinha quarenta e oito palmos de largo, e 
quarenta e quatro de alio; e sobre elle uma ar- 
vore de \inte e cinco palmos. Fundava-so sohre 
quatro pedeslaes, cada um com duas columnas 
jónicas. De um lado do arco estava a porta da 
cidade, e do outro se tingiu pela pintura egual 
porta para svmetria. No alto inscre\eu-se a de- 
dicação. Representava em painéis a gloria dos 
Apóstolos, todos sentados em thronos, c tendo 
aos pés as quatro partes do mundo, e emble- 
mas c tenções dos martynos. Aquella arvore de 
([ue acima falíamos representava a arvore do 
martyrio : junto ao seu tronco estavam figuras 
de homens pondo-lhe fogo, e derrubando-a com 
vários instrumentos que significavam as perse- 
guições da Egreja. Cada ramo vinha rematar 
nas pontas em um martyr, e no mais alto ramo 
ficava Santo Estevão como primeira flor d'csta 
arvore. Nos pedeslaes estavam as estatuas c re- 
presentações da raridade, idolatria, tyrannia, 
mbeãoria do mundo, heresia, etc. 

Passado o arco da porta de Santa Catharina, 
mesmo defronte do angulo da egreja do Loret^o 
para S. Roque achava-sc a estatua da temperan- 
ça. Representavam-na segurando n'uma das mãos 
um freio, e com a outra indicando o camiiUio 
que a procissão tinha a seguir. Devemos aqui 
advertir que todas estas representações symho- 
licas das virtudes tinham suas poesia.s em latim, 
portuguez, e hespanliol. 

No meio da rua de S. Roque, defronte do pos- 
tigo da Trindade, se levantava outro arco trium- 
phal. Era este dedicado á Santa Cruz, c ;i Vir- 
gem Nossa Senhora. D'estc arco até ao largo de 
S. Roque havia uma rua de pinheiros. 

O arco linha (luatro faces. 

Aquella que dava de frente para o prolon- 
gamento da rua até ao Lorelo era dedicada ao 
triumpho glorioso da Santa Cruz. '' '" '■•' 

A outra que olhava para a egreja de S. Ro- 
que, á Virgem Nossa Senhora. 

As duas faces laleraes osiavam occupadas por 
duas pyraraides, que tinham sete palmos de lar- 
go, e mais de cincocnta de altura. Os pedeslaes 
d'estas pyramides eram em quadro de selo pai- 



o PANORAMA. 



15» 



mos. Sobre elfes se lundnvam quatro columnas, 
duas a cada parte, com ticznito palmos do alto, 
além dos dois de moldura que tinham ác em- 
posta sobre os (apiteis. 

Entre os capiteis e frisos h'\antavam-se uns 
nichos, de dez palmos de alto. 

Na lace dedicada a Santa Cruz havia no meio 
do ovado do Ironlispicio uma cruz tendo ao pé 
sceptros, coroas, livros, e armas, o que signifi- 
cava os despojos do mundo, e suas lettras que 
o explicavam. 

Egualmente a adornavam duas estatuas: uma 
de Wovses, e a outra de Jacob. Ambas simiiha- 
vam bronze, e tinham cscriptas as suas tenções, 
em versos latinos. 

Em os nichos por cima dos capiteis represen- 
taram-?e era vulto Constantino Magno, e I). Af- 
íonso Henriques. 

Nos triângulos do arco assentavam-se dois an- 
jos, apontando o primeiro para uma coroa, e o 
secundo para um sceptro. 

Havia também pyraniides n'esla face do arco. 
de mais de cincoenla palmos de alto, ornados os 
terços inferiores d'ellas com emblemas, c os pe- 
destaes com figuras. 

No remate duma d'estas pyramides achava-se 
representada a Phcnix, e na outra o Pelicano. 

Entre as allegorias e figuras que estavam no 
terço das pyramides notava-se esta de Adão em 
um naufrágio, com a nau meio soçobrada, e a 
elle a nado com as ondas, e lançando mão de 
um madeiro em forma de cruz. 

No lado do arco, dedicado á Virgem, era a 
traça da architectura egual ao opposto, diversi- 
ficando somente nas figuras e emblemas. 

No ovado havia pintada uma imagem da Se- 
nhora, com o Menino Jesus nos braços. Ambos 
estavam derramando oiro, prata, e pedras pre- 
ciosas ás mãos cheias ; e todos esses thesouros 
eram recebidos pela grande copia de gente que 
se representava no baixo do quadro, com as mãos 
estendidas para a Virgem 

Aos lados do painel representaram-se a Porta 
de Ezequiel, e a Arca da alliança. 

Também ali se achavam as estatuas de David, 
e Salomão. 

Nos triângulos ficavam as figuras da pureza 
com um cordeirinho nos braços ; e a da Inaiiil- 
dade, com um hysope na mão. 

Em os nichos collocaram-se as estatuas de Es- 
ter e Judith. 

Em cada terço das pyramides havia um em- 
blema da Senhora ; e nos pedestaes pintaram-se 
as allegorias do peccado. 

No vão do arco. pela parte interior havia tam- 
bém muitas allegorias e representações, todas 
allusivas á dedicação. 

Entre os pinheiros que acima dissemos orna- 
rem a parte da rua desde este arco até á egre- 
ja, armaram-se palanques. 

A frontaria da egreja de S. Roque estava ar- 
mada de telilha de oiro e prata, e sedas de la- 
vores, com festões de murta. 



Em um nicho da mesnla frontaria se accom- 
modou um ([uadro do Menino Jesus, segurando 
na mão e.síiuerda um globo, e com a direita em 
menção de deitar a benção. 

xSobre a porta principal da egreja achava-se 
a estatua de S. Ro(jne, em vulto, e doirada. 

No terreiro havia uma cruz de cera, de vin- 
te e cinco palmos de alto, assente sobre um Cal- 
vário que descansava n'um pedestal de dez pal- 
mos. Esta cruz tinha muita diversidade de flo- 
res, fructos e folhas de cera. Foi olíerecida pe- 
los cereeiros da cidade. 

O príncipe cardeal Alberto assistiu de uma 
das janellas da frontaria da egreja de S. Roque, 
á entrada da procissão na mesma egreja. 

Os festejos por esta trasladarão duraram oito 
dias, c para o li\ro do licenceado Manuel de 
Campos remettemos o leitor curioso de mais es- 
pecificada relação, onde encontrará também um. 
thesouro de poesias todas dedicadas a este ob- 
jecto. 

Continua. F. D. dW^ieida e Araújo. 



MISCELL.VNEA. 

À primeira vista parece não vir a bons aus- 
pícios um artigo cuja epigraphe pode significar 
— confusão de muitas coisas. Mas depois de se 
atlender um momento occorre a idéa de que mis- 
cellanea, é quasi tudo qUe nós vemos ; é o mun- 
do em geral. 

Fatiga-se o observador em achar o nexo, e a 
relação das coisas, em classilical-as, e o diabo 
da miscellanea a confundir-lhe tudo. Vejamos se 
isto é assim, mediante alguns exemplos. 

No rez de cliaussée d'uma casa mora um cu- 
telleiro, que mais adorna as suas vidraças com 
agudas navalhas de mola, d'estas que se encon- 
tram nas mãos do assassino, do que com garfos 
e facas de uso licito e commum : e no primeiro 
andar habita um medico homícopatha, que, com 
diminutíssimas e milagrosas substancias, salva 
(diz elle) o doente, que morreria ás mãos da 
allopathia, se continuasse a engulir as formulas 
do código pharmaceutico. 

Ora va lá achar o nexo, ou a relação em que 
estão, debaixo das mesmas telhas, o cutelleiro 
aguçando navalhas para dar cabo da vida. e o 
partidário de Hahnemann receitando medicamen- 
tos para salvar da morte! Aqui. forçoso será con- 
fessar que procede, não a miscellanea simples, 
mas a revoltante. 

Emquanto as doutrinas de Hahnemann, patrí- 
cio do historiador, e poeta Schlegel, são segui- 
das, a despeito das que sustentaram os Hyppo- 
crates, Galenos, e Bro»nes. e o apostolo da ho- 
moeopathia entende que vae conquistando a mor- 
te as victimas que a medicina allopathica lhe le- 
gava, está o cutelleiro preparando instrumen- 
tos de morte violenta, quando passam ás mãos 
daquelles que lhes fazem bainhas de intestinos 
humanos. . . 



1«8 



O FãNORÂMÂ. 



Vamos ainda a oulro exemplo menos repu- 
gnante. 

Annuncia-se ahi um recemchegado de Paris, 
que tira dentes com a rapidez da electricidade, e 
logo em seguida do annuncio, para que não che- 
ga ás vezes todo o costado d'um jornal politico, 
assevera que faz queixos inteiros, que excedem 
os do dragão semeados por Cadmo rei deThebas. 

Entra-se em casa, ou melhor será dizer na 
vasta e cheirosa habitação d'um coifeur ; e nos 
centenares de vidros, frascos, e boyões, lacra- 
dos com mais cuidado que um testamento, que 
lhe occupam os mostradores e armários, diz el- 
le, que estão os cremes da Pérsia e dos Alpes, 
que renovam a pelle velha, aformoseiam a feia 
cara, tiram, põem, encaracolam, aloiram, e aze- 
vicham os cabellos. 

Passando daquellas composições já feitas, pa- 
ra os improvisos manuaes, reduz elle uma ca- 
beça (por fora, já se sabe) á condição dos que 
habitam os hospitaes de Hainirl, e AlaréviUe, 
na Inglaterra e França, ou mesmo cá em Rilha- 
folles, nos parcos minutos em que nivela outra 
aos respeitáveis rolos da cabelleira do marquez 
de Pombal. 

E não será tudo isto uma verdadeira misccl- 
lanea ? Pois se o é escreveremos n'este gosto, 
não impróprio do Panorama, visto significar a 
palavra uma perspectiva circular. 

E poiíjuc havemos de começar? Seja por ver- 
sos, mas destes que não levem muito tempo a 
ler. 

,, A VENTURA JA PERDIDA. 

. . llarpa divina de Homero, 
Tu de Apollo protegida, 
Empresta-me sons que exprimam 
A ventura já perdida. 

'" Mas não! de Byron invoco 
Musa forte e destemida. 
Pois voz de ferro só canta 
A ventura já perdida. 

Não pode a sonora lyra. 
Por amor ao ceo erguida, ■.,■•>, 

Desferir nas cordas de oiro , i' . > . 
A ventura já perdida. 

Se a perda do bem é golpe 
Da sorte mais desabrida, 
Sc é carpir dos desgraçados 
A ventura já perdida • 

Não mais oh musa! cmmmlecc! 
Pois não pode a noz da \i(la 
Cantar o que excede a morte, 
A ventura já perdida. 

EF|-i;nOS DA SIMILUANÇA. 

(Juaiuio boje \i um jovcn 

(Jomo tu, da tua edade, 

Aguçaram-sc os espinhos 

Da minha eterna saudade. , , , 



Chorei por aquellas horas 
Que comtigo fui feliz, 
Como foram venturosas 
Riscal-as o fado quiz. 

Aquelle fado iracundo 
Que horrorisada esconjuro. 
Porque a luz da minha esperança 
Apagou-m'a no futuro. 

Os laços que amor ligava 
Puros de crime, e de erro, 
Cortou-m'os aquelle monstro 
Com a dura mão de ferro. 

E como se não bastasse 
Pena que nunca me esquece, 
Yeiíi o bárbaro mostrar-me 
Quem comtigo se parece! 

A UM ANMVERSARIO NATALÍCIO. 

Iloje as três Graças, currando 
Ante Jove o níveo collo. 
Desprenderam voz celeste 
Ao som da lyra d' Apollo. 

Pediram bens infinitos. 
Aos altos deuses soberanos. 
Qu'espalharam, entre flores, 
Sobre o dia dos teus annos. 

Nos altares da Ventura 
Se elevou áureo lettreiro, 
E os anjos proclamaram 

= yint'e cinco de Fcc'riiro.^ 

ESCRIPTO n'um álbum. 

Tu queres que a minha musa. 
Tão pobre de inspirações, 
Escreva aonde se escrevem 
Centenares d'illusões? 

Eu idolatro a verdade ; 
E se elia é que me inspira. 
Não sei dispor d'essas galas 
Com que se adorna a mentira. 

Quantas vezes um poeta 
Vae recamar de belleza 
Aquella, que tão escaços 
Dons lhe deu a natureza ! 

Pinta-lhe uns olhos de Vénus, 
Uns cabellos de setim. 
Uns dentes como o aljôfar, 
E nada disto é assim. 

D'estas ficções nada sei. 
Por mais que attento as estude. 
Não te iliudas, não as creias, 
A belleza é a virtude. 



Aos déspotas nunca faltam mandarins, que 
sejam vis execufores de seus decretos. 



17 



o PANORAMA. 



±29 




MERCADO DO TP.inO EM B0STO> . 



Capital do estado de Massachussets na União 
Americana, está a grande e bella cidade de Bos- 
ton edificada em amphitheatro n'unia peninsula 
dentro da bahia de Massachussets. Lançaram-lhe 
os fundamentos os habitantes da visinha Char- 
les-Town em lf)31 denominando-a Trimountain, 
nome que depois perdeu recel)endo o que ora tem 
em veneração á memoria de M. Cotton, ministro 
do culto protestante na pequena cidade de Bos- 
ton, do condado de Lincoln em Inglaterra, e que 
foi o ministro da primeira egreja estabidecida em 
Boston da America. É o porto da America sep- 
tentrional, abaixo de Nova York, onde se faz mais 
commercio, e tem capacidade para quinhentos 
navios ; em seus numerosos estaleiros se cons- 
truem embarcações de todo o lote ; só tem um 
canal seguro para a entrada, e tcão estreito que 
mal podem passar dois navios emparelhados, mas 

VOL. I. 4.' SERIE. 



dentro c excellentc o surgidoiro. Á bocca da I)a— 
lua ha muitos rochedos que se descobrem ao lu- 
me d'agua, e mais de doze ilhotas, algumas das 
quaes são povoadas. No fundo da bahia ha nm 
soberbo molhe de dois mil pés de comprimento, 
guarnecido do lado do norte de vastos armazéns 
para as fazendas ; os navios de maior porte car- 
regam e descarregam atracados ao cães. 

Boston, que no principio deste século conta- 
va vinte mil habitantes, tem hoje perto de cem 
mil, e acha-se n'ura estado florescente com todos 
os estabelecimentos próprios de uma grande ca- 
pita], inclusivamente os de instrucção publica. 
Uma soberba ponte a liga com Charles-Town e 
é para ver o mechanismo do alçapão e levadi- 
ça, que dá passagem aos navios; por outra pon- 
te comnuinica com a cidade de Cambridge lam- 
bem visinha. É pátria de Benjamim Franklin, e 
ABRIL, 2y, 1857. 



130 



O PANORAMA. 



ahi tiveram logar os primeiros movimentos que 
geraram a independência dos Estados Unidos. O 
edifício que a estampa representa foi concluido 
ha dois annos. M. 



IIOFFMANN! 

Conclusão.» 
III 

• O phantastico de HolTmann está ao mesmo 
tempo na acção c na maneira de a pur em sce- 
na. O ornato dos seus contos c tão rico como o 
íundo d'eiles. A sua imaginação fecunda dá aos 
quadros um colorido, que exclusivamente liie 
pertence, e os objectos mais simples tomam, na 
sua mão, a apparencia de maravilhosos.» 

Bedoilière avalia dignamente n"eslas poucas 
palavras a collecção dos Contos phantaslicos de 
HolTmann ; e Christian completa a apreciaç-ão no 
seguinte trecho: 

« HolTmann possuo alternativamente a phan- 
tasia de Rabeiais, o brando sarcasmo de Voltai- 
re, a sensibilidade de Bernardin de Saint-Pier- 
re. Nos seus Contos depara-se com a variedade 
chistosa de Le Sage, apar da agudeza de Mo- 
Cèrc, da pungente ingenuidade de Cervantes, do 
fino tacto do abbade Prèvost. É o livro de to- 
dos.» 

Walter Scott criticou, todavia, com azedume, 
os livros do poeta alemão ; mas é o único ho- 
mem de talento superior, que deixou de prestar 
homenagem ao génio do grande artista, que não 
segue nenhum modelo, nem pertence a nenhu- 
ína escola. 

E longa a lista dos romances do nosso autor, 
e diílicil de estremar aquelles, que devem en- 
trar no numero dos Contos pliantasticos. Cada 
uma das versões estrangeiras que adopta es- 
te titulo, contém as noveilas que mais agrada- 
ram ao Iraductor; algumas, porém, d'estas ex- 
cêntricas creações, apparecem em todos os tras- 
lados. 

Taes são, por exemplo, Martim o tanoeiro de 
J\ureiiibcrri : Madcmui.selle de Sctnlénj, onde en- 
tre as galas da curte de Luiz \i\. apparccc o 
vulto sinistro de Cardillac, o assassino ; A ban- 
ca, ou a felicidade ao jogo, em que se pinta es- 
ta paixão com as mais vivas cores ; Salcator Ito- 
sa, mistura do sublime e do burlesco, como só 
IIo(Tmann seria capaz de ligar; a Ánuunziata, 
cm que se desenrola a trágica historia de Ma- 
rino Falieri ; emlim, o Canto de Antónia, c a 
monouiania do conselheiro Krespel, fanático ra- 
he<iuisla. 

Todas as mais obras do illustre poeta, lêem 
comludo esse colorido especial, que as torna in- 
imitáveis. Os prodígios de uma imaginação exal- 
tada, brilham egualmente no Vaso de oiro, su- 
blime divinisação do poeta ; no Morgado, em 
(') Dtoum. 13. 



cujas paginas, segundo a feliz expressão de L. 

Spach, se respira o ar frio do Bailico, passeian- 
do sobre uma costa árida, porém vivificada pelo 
sopro da poesia; no Elixir do diabo, longa com- 
posição de um género sombrio, que o próprio 
autor condemnou como perigosa, pela sensuali- 
dade (jue nVila predomina ; nas Minas de Fulnn, 
conto sueco de trágico desenlace ; nos Retratos 
d'après nuture, aonde tão bem se pintam as pai- 
xões ; na Porta entaipada, que. nos arrasta com 
uma deliciosa curiosidade até ,á sua derradeira 
pagina ; i\o Beflexo perdido, uma das mais ex- 
travagantes e graciosas concepções do autor; no 
Rei Traharcliio, cujas a^enturas deixam a per- 
der de vista as invenções da terrível Auna Ra- 
dclilTe; na Cadéa dos destinos, excçllente scena 
cómica da vida real; no Coração de ayatba, cu- 
jo heroe é de uma excentricidade so imaginada 
por lIoíTmann ; em Copjielitis, historia maravi- 
lhosa, onde se admira o seu talento no estylo 
epistolar; em Bertholdo-o-loiico, supremo esfor- 
ço de combinações phanlasticas ; nas Aventuras 
do joven Traujiott, que é ao mesmo tempo um 
formoso drama, uma galeria de retratos, um 
quailro de paizagem, e um curioso esboço da vi- 
da commercial ; na Fascinação, onde se discu- 
te o magnetismo e os sonhos, fallando pela boc- 
ca dos seus personagens a imaginação escande- 
cida do autor; no Mysterio da casa deserta, cu- 
jo titulo, por si só, indicaria suíTicientemente o 
género da obra, ainda que não tivesse na fren- 
te o nome de Ilnffmann ; nas Scenas da noite, 
espécie de gravura, onde os objectos claros des- 
tacam sobre um fundo negro ; nas Estranhas mi- 
sérias de um director de theatro, resumo das ob- 
servações feitas pelo antigo chefe d'orchestra so- 
bre o palco e entre os bastidores ; nas palestras 
dos Irmãos de Serapião ; na inimitável historia 
do ministro Cinuhre ; na Princeza Bramhilla, e 
linalmentc no Mestre Pulga {Meister Floh), ul- 
tima obra completa do autor, que reproduz, com 
algumas moiiiíicações, a idea motriz do Vaso de 
oiro. 

Depois da morte de IIofTmann, ainda Ilitzig pu- 
blicou duas noveilas inéditas, que deixara aquel- 
le grande génio: Ajanella de sacada, e A cura; 
e a sua viuva deu ao prelo cinco volumes de 
Miscetianea, extrahidos de papeis avulsos que 
encontrou. 

Ficou por acabar um livro, que tinha por ti- 
tulo — Exposição summaria do gato Murr acer- 
ca da vida, e fragmentos jla Inograpliia do mes- 
tre de capella João h'reifèler, achados por acaso 
em papeis de embrulhar. — Kreissler era, como 
dissemos, o próprio HolTmann : e Murr. o seu 
gato querido, que elle transformou em pbiloso- 
pho, era um ente real, creado em sua casa, e 
que vinha muitas vezes instalar-se, sem cere- 
monia, sobre a carteira de seu dono, e até so- 
bre o papel em que elle escrevia. Perdendo este 
amigo irracional, em 1820, deu parte do acon- 
tecimento ao seu amigo racional Ililzig, na se- 
guinte caria: 



o pàncsâisà. 



131 



«Era a noite de 29 para 30 de Novembro, de- 
pois de uma curta, mas cruel enfermidade, o 
meu discipulo querido, o gato Murr, adormeceu 
para passar a melhor vida. Ainda não tinlia ([ua- 
tro annos. Não posso dispensar-me de noticiar 
esta perda aos meus amiiíos e protectores. Quem 
conheceu .Murr apreciara a miulia dòr, e .•cabe- 
rá respeital-a." 

N'essc mesmo anuo traduziu Ilofimanu a ope- 
ra franceza Olympia, para a qual Spontini cora- 
pozera a musica. 

O .seu derradeiro trai)aiho lilterario, que a 
morte liie não deixou acabar, foi uma novclia, 
intitulada O inimigo, que elle dictou já no lei- 
to da agonia. 

Eis em summario, quanto o comporia a estrei- 
teza dos limites de um jornal lilterario, uma no- 
ticia das obras do profundo escriptor, que faz o 
objecto deste nosso liumilde estudo. 

Kico cora o producto da venda dos seus livros, 
HolTmann, que odiava o geral dos homens, pelo 
muito que lhe tinham feito solfrer, quiz gosar 
da possível independência, fugindo quanto po- 
dia do contacto de falsos amigos. De manhã pre- 
enchia regularmente os seus deveres de magis- 
trado, mas apenas vinha a noite, se não concor- 
ria ao club de Serapião, dirigia-se á taberna, 
aonde passava longas horas de isolamento. Pre- 
feria este passatempo, altamente censurado, as 
reuniões da melhor sociedade deBerlin, para on- 
de era convidado sempre, e solicitado com ins- 
tancia. 

I N'aquella atmosphera de fumo, qtro elle con- 
! tribuia para se tornar mais densa, via HoUmann 
um mundo de phantasticas apparições. Deslum- 
lirado pelo narcótico do tabaco, e pelas bebidas 
alcoólicas, esvasiando alternadamente uma taça 
de cerveja ou um copo de nule-sheim, chegava a 
um grau de exaltação, que o seu cérebro se po- 
voava de estranhas chimera.s. Quando descia 
destas regiões sobrenaturaes, era para notar sn- 
])re a terra os typos mais excêntricos, os carac- 
teres mais singulares. Seguia os originaes, e sur- 
prehendia-lhes as feições moraes e physicas, por 
mais dilliceis que fossem de apanhar. Implacá- 
vel para com os pedantes, folgava de os ridicu- 
larisar no meio de um grande auditório, provo- 
cando estrondosas gargalhadas. Quando julgava 
impotente a palavra, reproduzia com o lápis o 
seu pensamento; e mostra-sc ainda hoje, n'uma 
taberna de Berlin, uma collccção de desenhos, 
inspirados pelos caprichos d'aquella imaginação 
excitada. 
' «Enchei-lhe a taça de espumoso vinho de prin- 
crpes ; apresente ella os áureos reflexos do .lohan- 
nisberg, c a imaginação do poeta dispara a ga- 
lope, como o corsel que arrebatava a Leonor de 
Burger. Apoz elle se arrcmes.sa em carreira doi- 
dejante todo esse turbilhão de seres phantasli- 
cos, que o seu cérebro creou, e que apparecem, 
apenas evocados pelo grande génio, aproximam- 
se, crescem, e pertilam-se ante o poderoso se- 
nhor. É um drama que clic cria entre o ceo e 



a terra ; é o seu mundo, povoado de entes que 
só o poeta conhece. 

Enchei-lhe a taça de Johannisberg, e o seu 
pensamento, tantas vezes recalcado pelas áridas 
occupações do trabalho ([uotidiano, magoado tan- 
tas vezes pelo contacto de perdidas crenças, il- 
luminar-se-ha de um magico clarão. .VIarga-se 
a scena, e todas as artes vem com o seu con- 
tingente dar-lhe brilhantismo. A pintura traz as 
suas cores vivas e variegadas ; a musica as suas 
vibrações que sobresaltam e pungem ; a poesia 
os seu.-- mais Íntimos thesouros. 

Enchei-lhe a taça de .lohannisbcrg, e vereis 
a vida real, misturando-se com as phanlasias do 
drama. Avançae n'esse terreno, desconhecido pa- 
ra vós, por entre esses personagens que nunca, 
havieis encontrado em outro logar, e que todavia 
pareceis reconhecer: as mais disparatadas emo- 
ções vão surprehender-vos e fascinar-vos! » 

Da physionomia poética, quasi sobrenatural 
do autor dos Contos phantasticos, desçamos a 
esboçar a physionomia do homem, como simples 
mortal. Servir-nos-hão de guia as biographias 
publicadas por llitzig, e Loeve-Weimars. 

Hoffmann era pequeno de corpo, tinha o na- 
riz fino e arqueado, os beiços delgados, a tez 
biliosa, e cabellos quasi negros, que lhe cobriam 
a fronte. Seus olhos pardos, nada tinham de no- 
tável, quando se lixavam traufjuillamenle sobre 
(juahiuer objecto, mas em casos excepcionaes de- 
nunciavam astúcia e zombaria com seu continuo 
pestanejar. O corpo, apesar de magro, parecia^ 
de boa constituição, e o peito era largo e ele- 
vado. Durante a mocidade, vestia-se com apu- 
ro, mas sem excesso de lafularia. Depois gostou 
muito de vestir a sua farda de conselheiro, ri- 
camente bordada, e que lhe dava a apparencia 
de um general francez. 

HolYmann tinha uma mobilidade extraordiná- 
ria de gestos, que augmentava ainda, quando 
elle fazia uma narração. Fallava com muita vo- 
lubilidade, e como a sua voz era naturalmente 
rouca, havia difficuldade em comprehendel-o. 
De ordinário, usava de pequenas phrases e pe- 
ríodos soltos na conversação; mas quando falla- 
va de bellas-artcs, creava enlhusiasmo, e a sua 
locução tornava-se iluente e harmoniosa. 

HolTmann lia mal ; (juando chegava as passa- 
gens de mais effeito, assumia um tora guinda- 
do, e passeiava olhares prescrutadores sobre o' 
auditório, como para se assegurar que era com- 
prehendido. 

Diflicullosamente se ligava amisade com este 
homem excêntrico, mas também não era fácil 
rompel-a, porque elle queria muito aos .seus ami- 
gos. Não gostava da sociedade das mulheres,' 
principalmente des fnnme.s sarantes, que o fa- 
ziam sair, inclusivamente, dos limites prescrijj- 
tos pela civilidade ao mau humor. Se alguma 
dama-autor ti-nha a desgraça de vir scntar-se ao 
pé d'e!le, á mesa, e começava a dirigir-lhe a 
palavra, Uolímann pegava no seu talher, e li 
sentar-se na extremidade opposta. Quanto aos 



132 



O PANORAMA. 



homens, dava a preferencia aos que o divertiam, 
isto é, aos que contavam anecdotas com chiste, 
aos faliadores de imaginarão viva, e também 
áquelles que mostravam prazer em ouvir os seus 
arrazoados. Em sua casa, Iloffmann era por ex- 
tremo amável com as visitas ; n'aque]lc recinto 
supportava, com uma paciência evangélica, to- 
das as extravagâncias e disparates, que o obri- 
gariam a fugir em diversas circunstancias. O seu 
génio era assaz variável ; às vezes a boa dispo- 
sição de espirito levava-o até ao excesso da ale- 
gria ; outras vezes o spleen arrastava-o a uma 
inconsolável tristeza. 

HolTmann era constantemente dominado por 
uma idéa, que de alguma sorte explica a extra- 
vagância das suas obras. Tinha a convicção pro- 
funda de que o mal se occuitu sempre atroz do 
hcin, ou, como elle dizia, (jne o rabo do diabo se 
entre mel te em tudo. Continuamente flagellado por 
presentimcntos funestos, via cm roda de si, quan- 
do escrevia, todas essas pavorosas figuras que 
apparecem nos seus romances e nos seus qua- 
dros : era tão forte a illusão, que chegava mui- 
tas vezes a acordar sua mulher, pelo meio da 
noite, pedindo-lhe que se sentasse a seu lado, 
e com os olhos abertos, emquanto elle trabalha- 
va !.. . O homem que se ria das bombas á cla- 
ridade do dia, tinha medo de sonhados phantas- 
mas no silencio da noite. Extravagante aberra- 
ção da natureza humana ! 

Poucos poetas teem existido tão identificados 
com os personagens das suas obras, como Ilof- 
fmann ; quer pinte com energia as mais horro- 
rosas scenas, quer folgue com as loucas crea- 
ções das suas satyras e caricaturas. Este ente 
excepcional não tinha a menor predilecção pelas 
próprias obras, aonde as duas qualidades distinc- 
tivas do seu espirito se não reproduziam; d'este 
numero era o Tanoeiro de Nurembert/, avaliado 
por muitos como a sua melhor producção. 

HolTmann havia estudado os grandes poetas, 
mas não se oecupava demasiado com a leitura, 
e importava-se muito pouco com as novidades 
littcrarias da época. Buscava o objecto dos seus 
contos na própria imaginação, em velhas cliro- 
nicas, ou nas observações da sociedade que 
frequentava. Despresava o juizo critico dos pe- 
riódicos, e rara vez lia algum jornal. Só dos 
amigos apreciava as reflexões sobre as suas 
obras. 

Deus não iiermiltiu que o honrado conselhei- 
ro gosasse por muitos annos da felicidade do- 
mestica, c dos applausos dos seus admiradores. 
.As misérias do passado tiniiam quebrado as suas 
forças. Aos (juarenta annos começou a sentir ata- 
ques de paralysia nas extremidades ; c depois, 
uma horrível doença, o tubes dursalis, vciu rou- 
bar aos seus amigos Ioda a esperança de o pos- 
suírem por muito tempo. 

Durante cinco mczes soffreu llolfníann uma 
agonia horrível. No dia 2í de .laneiro de 1S22, 
em ([ue se celebrou pela ultima vez o annivcr- 
sario do seu nascimento, ouviu elle citar a uma 



das pessoas que o rodeavam, este verso de Schil- 
ler: 

«Não é a vida o melhor bem, drcerto.y> 

E exclamou : 

«Não ! não ! . . . Viver ! ! . . . Com tanto que 
se viva, pouco importam as condições!.. .» 

O sensualista, que tanto saboreava o Tokai e 
o Johannisberg, o observador poético da nature- 
za, o caprichoso satyrico, o amigo dos homens 
de mérito, sentia fugirem-lhc todos os seus go-; 
SOS ! 

Prolongaram-lhe a vida por alguns dias, usan- 
do de um tratamento horrível : o ferro em bra- 
sa applicado aos dois lados da colunina verte- 
bral. Quando Ilitzig entrou no seu quarto, mo- 
mentos depois da dolorosa operação, Hoffmann 
perguntou-lhe — se não sentia o cheiro de car- 
ne assada! — e começou a contar-lhe, detalha- 
damente, o processo de que usara o medico, con- 
cluindo por dizer — que o tinham sellado, para 
que não entrasse no paraiso como objecto de con- 
trabando. 

Emlim, no dia 2."> de .lunho do mesmo anno, 
tendo dito ao medico : — Vou ficar livre em pou- 
co tempo, porque já não solTro. . . — deixou ef- 
fectivamente de soflrer, inclinando a cabeça so- 
bre o seio de sua inconsolável esposa, e mur- 
murando estas derradeiras palavras : 

«É preciso pensar em Deus!» 

Tinha quarenta e seis annos d'edade. 

Toda a Alemanha o chorou ; e a posteridade 
venera a sua memoria, como poeta, como pin- 
tor, como musico, como magistrado, como bom 
amigo, e como cidadão probo. 

Paz ás suas cinzas. 

F. M. BORD.VLO. 



TORRE DO CASTELLO DE ALNWICK. 

Na pequena cidade de Âlnwick em o Northum- 
berland ha um castello memorável na historia de 
Inglaterra. A nossa gravura mostra a torre da 
poterna, porta falsa ou postigo que é uma das 
dezeseis que flaníiueiam a muralha do castello; 
a parte superior serve agora de museu de ar- 
mas e armaduras antigas, e a inferior é ura la- 
boratório. 

O assedio mais notável que o castello susten- 
tou foi no reinado de Guilherme Rufo. sendo 
briosamente defendido por Mowbray, conde de 
Nortliumberland, contra o assalto dos Scotos 
commanilados por Malcolmo iii ; estando, po- 
rém, a guarnição a ponto de render-se um sol- 
dado raso tentou livral-a. Saiu fora armado e a 
cavallo, levando as chaves da fortaleza pendu- 
radas da sua lança, e a|)resentou-se ao rei em 
postura supplicante como para entregar-lhe as 
chaves ; Malcolmo adiantou-sc a recebel-as e o 
soldado lhe jogou um bote de lança direito ao 
coração. O soberano caiu redondamente morto; 
o soldado aproveitando a confusão que se seguiu. 



o PâNORàIOâ. 



I3:r 



arreraetteu á corrente do rio que ia muito rauda- 
loso, e atravessando-o alcançou a salvo a forta- 
leza. O príncipe Eduardo, primogénito do rei, 
avançando temerária c precipitadamente para ti- 
rar TÍngança da morte do pae, caiu também mor- 



talmente ferido, e falhou a empresa. A tradição 
deu ao soldado audaz o nome de Hammond, e 
o sitio onde elle passou o rio, junto da ponte 
que existe hoje, c chamado «o vau de Ham- 
mond.» M. 








r - 



TORKE DO CASTELLO BE ALNWICK. 



ESTUDO CRITICO. 
FAZER FORTUNA 

DRAMA ORIGINAL EM 5 ACTOS 

POR 

ANTÓNIO DE LACERDA. 

Conclusão, t 

VII 

Au siède oú nous títobs. Thorison de Tart 
est bien elargi. Autrefois le poete disiiit : le 
public; aujourdhui le poete dit : le peuple. 

Y. Hugo — Prèface de «Angelo.» 

Traçado, ainda que pobremente, e com defei- 
tuosas linhas, o enredo e urdidura do drama — 
Fazer fortuna, — cumpre-nos agora, segundo pro- 
mettemos, dizer a nossa opinião sobre a idca que 
presidiu á sua composição, o modo porque foi 
desinvolvida e os instrumentos que obtiveram 
este resultado. Em resumo: escrever-lhe a criti- 
ca, phrase que bem nos custou a proferir; por- 
que sabemos quantas inimisades mesquinhas, ou 
despeitos, mais mesquinhos ainda, acobertados 
com a ridícula prelenção de conselho e tutoria 
não pedidos, nem desejados, vêem ahi para a im- 
prensa, alardeando justiças, traduzir desforras, 
ou servir compadres. 

[') fio nun. 92 do toI. aBlsc«4eiite. 



Todavia, quem escreve este estudo, posto que 
longe de se suppor isempto de parcialidade, es- 
tá convencido de que hade trilhar sempre estra- 
da opposta. Na grande praça da publicidade ha 
logar para todos. Grandes vultos e intelligencias 
mínimas todos ahi podem contar com um sitio, 
onde desassombrados recebam a animadora luz 
do grande sol da inspiração ; e se alguns ha, 
que apesar dos seus esforços todos, tiritam de 
frio, e sentem gelar-se-lhes o sangue, não é por- 
que a projecção visinha os ínvolva em trevas, 
mas porque a frieza própria é tão intensa, que 
resiste a qualquer calor, por mais forte que se- 
ja, como as suas intelligencias resistem e se op- 
põem á comprehensão de qualquer idéa, por mais 
simples de natureza. 

Vivara embora como melhor lhes aprouver. 
Contentem-se com a sua pequenez, ou, imitan- 
do o cego que negava as cores, reajam impoten- 
temente contra o crescimento alheio que os aco- 
barda ; que não seremos nós quem os arranque a 
uma illusão tão doce, nem lhes procure conver- 
ter o transviado animo. 

Outro assumpto nos prende, e esse bem ou 
mal, agrade ou não a quem quer que seja, le- 
val-o-hemos ao cabo como pudermos ; não sem 
tropeçar repetidas vezes no caminho, mas orgu- 
lhosos ao menos por não pedir a cyrenco algum, 
por mais pintado que elle fòr, accrescirao de for- 
ças, para a conclusão do nosso trabalho. 

Toda a composição dramática, mais que ne~ 



134 



O PãNOBÂHA. 



nhuina outra, exige a demonstração de ura prin- 
cipio, ou o desinvoiviraento de uma idéa, que 
seja como um coração de que o corpo todo tire 
sangue, ou como um cérebro que lhe dê senti- 
mento e acção. 

Tirem-lh'o e dcsapparecerá o drama. Sem o 
pensamento originário, primitivo, radical de to- 
do o contexto, origem de qualquer peripécia, po- 
der-se-ha escrever tudo, menos unia obra, que 
satisfaça ás condições theatraes c ás exigências 
das platéas. A pintura terá chiste e graça como 
uma composição de llogart ; terá critica e ver- 
dade como uma satyra de Boileuu, terá ameni- 
dade e mimo como uma virgem de Raphael, se 
tanto quizerem ; mas laltar-lhe-ha o que n'estas 
concepções todas excite, a conclusão liual, a in- 
ducção requerida dos principies apresentados, a 
resolução do problema, o pensamento moral que 
Lafonlainc tirava mesmo das suas fabulas todas, 
posto que despretenciosas em si, e singelas no 
seu correr. 

Difficilmente se tornará a escrever um livro 
em que a mais iina critica, a maior ligeireza de 
toques, a suprema perfeição de desenho se li- 
guem á máxima correcção de phrase e á maior 
elegância de eslylo, como a — Voyage autour 
de ma chambre — de Xavier de Maistrc: c toda- 
via se d'ali se pretendesse deduzir uma comedia 
em três ou mais actos, o trabalho seria sobre es- 
téril impossivel, o successo desaslrosissimo, e o 
abandono geral o premio de similhantes porlirts. 
O celebre — Que est ce que cela prouve? — 
do mathenuitico distincto proferido tantas vezes 
pelos centenares de espectadores, que a novida- 
de do titulo attrahe aos theatros, explica bem o 
desamparo da scena portugueza: na tenacidade 
de propo.sito, com que se pretende costumar o 
gosto de muitos ás inclinações de poucos, quem 
sabe se os melhor esclarecidos, está a causa dos 
dissabores a que se subjcitam os sectários de 
uma escola, se o é, que não apraz, nem inte- 
ressa os frecjucntadores dos tlicatros. 

Os homens (jue se sentam nos bancos das pla- 
téas desejam, que lhes acatem as preferencias, co- 
mo os que vão pela primeira vez a casas alheias 
estimam, (juc acíiuiescam aos seus desejos ; uns 
e outros, se são contrariados, abandonam a ca- 
-sa e o tiíealro ; e diga-se o (jue se ([uizer, a co- 
media ou o drama cm que a palavra simples- 
mente substituo a acção, c o dialogo não acci- 
dentado suppre a peripécia, não são do gosto 
do publico, nem pmlem convidal-o á comparên- 
cia. 

Molière consultando Laforct deixou sobeja li- 
ção aos seus seguidores nas lides theatraes. O il- 
lustre cscriptor tinha compreheudido, havia mui- 
to, que uma composição dramática destinada úni- 
ca c exclusivamente a deliciar um serão liítera- 
rio, ou a enlevar um concurso de homens de leL- 
Iras, seja embora um primor d'arle, traje impu- 
uente de grandeza as vestes roçagantes da tra- 
gedia grega, ou a airosa túnica da comedia, .se 
não tivesse a approvarão siqjrema d'esse tribu- 



nal tremendo, que se chama — o publico, — po- 
deria fazer pasmar as gerações futuras apregoan- 
do o talento do seu autor; poderia figurar com 
honra nas prateleiras de uma bibliotheca ou so- 
bre a mesa de um gabinete de leitura ; mas não 
conseguiria nunca esse viver especial, epheme- 
ro talvez como as trevas da noite, que um raio 
de sol do seguinte dia dissipa, fascinante e men- 
tiroso embora como as scenas do theatro, mas 
o único e exclusivo, que deve levar em vista o 
homem que procura apresentar a sua idéa ás 
turbas agrupadas e pendentes da sua palavra, 
e que deseja não ver o antojo apoderar-se da 
assembléa, nem os regelos das solidões arrefecer- 
Ihe os commettimcntos dos seus trabalhos. 

Se o orador, que muitas vezes se acha incen- 
dido pelo fogo sagrado do génio, alquebrado pe- 
las fadigas e pelo estudo, illuminado pelo res- 
plendor da complacência publica, procura ainda 
captar e jirender a attenção ou as tendências de 
seus ouvintes, e fallando-lhe a enérgica lingua- 
gem dos affectos busca leval-os apoz de si, tra- 
tando de sentir e de animar-se para lhes commu- 
nicar sentimento e animação ; se todos os que 
aspiram á publicidade se curvam perante a von- 
tade soberana do publico, ([ue por si, e só por 
si, construo e derruba reputações, para (jue ha- 
de o autor dramático por um systema especial 
impor-se ás maiorias, e do alto do seu throno 
mais ou menos seguro paraphrasear o dito his- 
tórico de Luiz XIV clamando: — o gosto, o géne- 
ro, a arte, a litteratura, a scicncia e o mundo 
sou eu. 

A resposta levou alguns annos a escrever ; 
todavia mais tarde ao som dos canhões e ao es- 
tridor do desabar de um thróno de séculos, o po- 
vo gravava nas ruiuas da Bastilha, em replica 
vehemente ao amante de madame Maintenou, 
esta antiphrase solemne : — o estado e o poder 
sou eu. 

Quem sabe se o publico, trabalhando todos os 
dias na resposta, lhe escreverá um dia a ultima 
pala\ ra abandonando o theatro de todo aos ama- 
dores do género? Quem sabe se então umii ge- 
ração nova, surgindo como em 89, sem se saber 
d'onde, lançará por terra os thronos quasi ca- 
ducos dos reis do theatro?. . . 

Mas cedendo a uma pecha maldita iamo-nos 
afastando insensivelmente do ponto principal ; 
Íamos escrevendo uma critica lilteraria socialis- 
ta ou humanitária, que decerto nos viria acar- 
retar maldições bem merecidas dos criticòs das 
criticas. Uma vez cm caminho as tendências le- 
vavam-uos para o trilho preferido, c depois ver- 
nos-hiamos obrigados a retroceder, sem o que, 
attribuindo-nos intenções que não tivemos, ir- 
nos-hiam considerar um propagador de certas 
doutrinas, e que por já terem produzido aos que 
as professavam o mais que lhes poderiam pro- 
duzir, SC deixam para um canto, como uma farda 
velha ((ue se envergou outr'ora para dar maior 
luzimento e valor á pessoa que a trajava, e que 
SC expunha em airaoeda. 



o PANORAMA. 



iSâ 



Fazer fortuna tem um grande pensamento 
fundamental, a condeninação da escravatura, 
que se desinTolve c prova pelo modo e systenia 
que aproximadamente deixámos ver no decurso 
d'este trabalho. Um dos mais vastos e propícios 
acha-se alii tratado pela melhor forma ijue seria 
para desejar, altendendo ás dimensões de uma 
composiçião dramática. 

Baseado em antagonismos e antinomias, o au- 
tor pinta-nos primeiro o quadro de felicidade, 
que desvairadas ambições hãode annuvear era 
breve; leva-nos depois a presencear os horrores 
e infâmias todas d'esse tratico inhumano, e quan- 
do nos tem carregado essas perspectivas hedion- 
das, reconduz-nos ao ponto d"onde tínhamos par- 
tido, e faz-nos sentir as tristes consequências da 
emigração por desejos de riquezas, na transmu- 
tação o mudança das alegrias e socegos cm in- 
quietações c tristezas. 

Deixaremos cm paz os preceitos da arte an- 
tiga sobre unidade de logar e tempo, tantas ve- 
zes citados fora de propósito, e tantas vezes cal- 
cados pelos que se dizem maiores veneradores 
-•■us. Para nós a unidade de logar acha-sc con- 
.servada. Os três actos intermédios são como a 
narciíção animada d'aqueiles horrores c desven- 
turas feita por um personagem qualquer, vene- 
rando pelos conhecimentos e pela edade. São. 
perjuilla-se-nos a phrase, a palavra em movi- 
mento, o discurso em acção ; como um sonho, 
(lu uma visão, que sobreviesse a Emília no mo- 
mento de abandonar a casa paterna. 

Assim corre naturalmente o drama em todo o 
seguimento. O desenlace é preparado pouco a 
pouco, e de forma que se a arte e o elleito sce- 
nico ganham immenso, a lógica e a naturalidade 
nada perdem. Tudo está calculado, não ha pre- 
cipitação nem demora; o andamento é regular 
.«eiupre, combinado e perfeitamente deduzido 

Quando se censurou no Fazer fortuna a pou- 
ca rasoabilidade do abandono da casa paterna 
da parte de Emília, levou-se mais cm vista exer- 
cer rigores mal cabidos e pouco legitimados, do 
que fazer justiça. .\ ambição, talvez de todos os 
seutimentos o que a maiores loucuras nos leva, 
que attiugindo o immenso e o sublime em Na- 
jioleão e em Alexandre os obriga a derramar o 
sangue a torrentes, e a destruir milhões de ho- 
mens ; ou confrangendo-se nas acanhadas pro- 
1 porções do ridículo em Empédocles impelle a 
commettimentos sobre loucos infructiferos; a am- 
bição, aquentada e favorecida pela pessoa, que 
maior dominio exercia sobre a protogonisla, ti- 
rando dessa pessoa mesmo o apoio de um exem- 
plo palpitante e concludente; a ambição, germi- 
jnando aquecida pelos ardores desenfreados de 
uma imaginação exaltada, será porventura mo- 
tor de menos força do que o amor ou o ciúme, 
que tantas vezes afastam dos lares paternos os 
ânimos superexcitados que os abrigam e reco- 
lhem ? 

Ninguém de boa fé o poderá contestar; a am- 
ição, que das paginas da historia (talvez nem 



uma só deixe de lhe servir) tira argumentos eat 
favor da sua força, só pode ser combalida por 
um outro sentimento de egual alcance se não 
superior; mas esse, o amor, que de má fé ou por 
ignorância se disse dever ligar Emilia á casa pa- 
terna, era o que na verdade não existia. 

Emilia não cuidava nos requebros de Manuel; 
uma ou outra vez, se para elle se voltava, era 
quando, bem natural estimulo em mulheres, se 
sentia preferida, e sofTria quebra no amor próprio 
ao ver o seu arrojado mostrando alguma predi- 
lecção por sua irmã mais nova. Fora d'isso co- 
ração e alma tinha-os ella de gelo, para que 
bem verdadeiro lhe fosse o caracter, e para que 
se conhecesse bem na obra do poeta a reproduc- 
ção de tantos outros vultos que os annaes das 
nações conservara, onde a ambição, creando raí- 
zes e desinv.olvendo-se á larga, abafa c destroe 
qualquer outro sentir, que porventura procuras- 
se çrescer-llie ao lado. 

É ao que não attenderam os cri ticos, que não 
são elles homens que attendam a similhantes ba- 
gatellas, e como de costume desfeiaram a com- 
posição com defeitos, que só provinham da sua 
cabeça, e se não devoraram, como Saturno, os 
próprios filhos, trataram pelo menos bastante de 
os llagellar e corrigir. 

Não e este o defeito do drama. Tem-n"os el- 
le, porém de tal natureza, que por insignifican- 
tes mal se apercebem, nem são para se mencio- 
nar, quando as bellezas os occultam pelo seu nu- 
mero e magnitude. 

O desenho dos caracteres é talvez uma das 
perfeições da composição, e que outro não fora, 
o de Berenyce erguendo-se superior, com a ma- 
gestade dos grandes vultos da tragedia, valeria 
por si só um título de mestre ao poeta que o 
creou. 

Largo de mais vae este trabalho; a índole da 
publicação em que tem apparecido não so pres- 
ta a maiores desínvolvimentos. Concluil-o-hemos 
pois pedindo ao autor, malqueiram-nos embora 
os críticos, nos dê muitas composições d'esla or- 
dem, para que nós, os que não vemos as obras 
dramáticas de tão alto, possamos estudar e apren- 
der. ■ , ' 1 -n n 

R. Pagamro. 



SAUDADES. 

í; quant» pode 

Do deitcrro enviar-te um pobre 6lk«. 

A. IlERCULin». 

Ò minha formosa terra. 
Terra do meu coração ! 
Logares da minha infância, 
Minha pobre habitação! 
É por vós esta saudade, 
Esta dôr, esta anciedade, 
Que faz meu peito estalar? 
É por vós que eu amo tanto, 
Que sinto correr meu pranto, 
Sem uma esp'rança gosar!... 



a.ati 



O PàNORâIIIã. 



Sois YÓs a terra encantada, 
Dos meus sonhos infantis ! 
A mais bella, a mais formosa 
Das terras do meu paiz! 
Ai ! de quantas alegrias. 
Eu gosava n'esses dias, 
Que tão cedo vi passar! 
Quando ainda não pensava. 
Que os logares que adorava 
Eu haria abandonar ! . . . 

Deixei-os ! . . . oh ! quem me dera 

Esquecer idéa tal ! 

Quem olvidar-te pudera 

O minha terra natal ! 

Que não havia o tormento. 

Que sinto n'este momento. 

Meu peito dilacerar! 

Esta dor egual á vaga, 

Que incessante a praia alaga 

Sem nunca poder lindar ! . . . 

Foram tempos bem ditosos 
Os que outr'ora ali gosei ! 
Foram dias venturosos, 
Que não mais olvidarei ! 
Quando a vida ali passava 
Nem sequer imaginava, 
Que existisse o padecer ! 
Mas ha muito estava escripto 
O meu destiuo maldito, 
Para um dia inda solTrer ! . . . 

Que me importam os prazeres 
Que esta terra em si contém, 
Se estancar elles não podem 
O pranto (jue aos olhos vem ! 
Se eu trocara essa grandeza. 
Esplendor, luxo e riqueza, ■ 
Que ante mim vejo passar. 
Por essa aldca isolada, 
Onde em rústica morada 
Yi a infância deslisar ! . . . 

É aqui mui bella a lua, 
É formosa a noite aqui ; 
Mas ainda é mais formosa 
Lá na terra onde nasci ! 
Aíiui brilhantes estrelhis. 
Sempre puras, sempre bellas,. 
Lá no ceo a scintillar ; 
Mas o ceo da minha terra, 
Outros encantos L^nccrra, 
Que eu não posso a(iui achar!... 

Mil llores aijui se encontrara 
Em variado jardim I 
Todas ellas são mui lindas, 
Mas não as quero p'ra mim ! 
Todas tem vários odores, 
Seduzem as suas cores, 
Seu delicado maliz ! 
Mas as llores que cu lá via, 
Acha\a-lhes mais valia, 
Tornavam-mc mais feliz ! . . .. 



Ó minha formosa terra, 
Terra do meu coração, 
Logares da minha infância. 
Minha pobre habitação ! 
Possa um dia ainda ver-vos, 
Minha vida ollerecer-vos. 
Meus dias ahi findar ! 
Possa eu ter a ventura, 
D'encontrar a sepultura. 
Onde o berço fui achar ! . . . 

J. A. X. DE Magalhães. 



MEISSEN, E A INVENÇÃO DA PORCELANA. 

Meissen é uma cidade da Saxonia Superior, 
na província da Misnia, da qual foi capital. Foi 
erigida em bispado no anuo de 932, e Buchar- 
do, capellão do imperador Othon, foi o seu pri- 
meiro prelado. Foi primitivamente cidade do bis- 
po, e passou depois a sel-o do eleitor de Saxo-- 
nia. 

Entre as suas poucas raridades de que um 
escriptor nosso falia nas Memorias das suas vion 
gens, vem a seguinte, a que verdadeiramente po- 
díamos chamar uma extravagância : — «Se não é 
praça fechada Meissen, tinha as portas fechadas 
quando aqui cheguei ; porem abriram-se umas 
para entrar, e outras para sair ao toque da cor- 
neta do postilhão. Não foi possível informar-me 
d'esta ceremonia, porém é coisa mui digna de 
riso ver abrir estas portas por um soldado des- 
calço, e em camisa, que faz a guarda dormindo 
na cama. Parece-me um moço de mulas abrin- 
do a porta de uma cocheira, nem mais nem me- 
nos.» 

Elléctivamente este inusado modo de metter 
sentiuella não depõe muito em favor do serviço 
militar da guarnição de Meissen, e a cidade sa- 
xonia seria olhada cora despreso pelos rigoristas 
da disciplina marcial, se ella não tivera um ti- 
tulo especial á consideração dos homens de cora- 
mercio. É a sua fabrica de loiça de porcelana, 
cuja bondade de pintura, e excellente invenção 
de a doirar, lhe dá preferencia á do Japão. De- 
veu-se esta notável fabrica á direcção de um cer- 
to alchiraista, que depois de enganar a muitos 
fez crer em Polónia, que elle tinha o verdadei- 
ro segredo de converter em oiro todos os metaes. 
O rei para se segurar da sua |)essoa o mandou 
encerrar no castello de Kunigstcin, a três mi- 
lhas de Dresde ; porem o alchimista, em logar 
de fazer ali o oiro solido que promeltia, inven- 
tou a frágil porcelana, (jue não deixa de satis- 
fazer de alguma sorte ao seu empenho, pois que 
pelo grande commercio (|ue corii ella se faz en- 
tra quantidade de oiro no paiz. 



O vaidoso nunca chegará a ser sábio ; mas 
muitos sábios chegam a ser vaidosos. 



18 



o PA90RÍHA. 



isy 





•-■:^-'i:^';' Qrr'rn''^'<..é^.x..../:...LM. 



iliidfi^â : "'J^^^;^il|'ll|ÍÉ*^ I 



F'I ■ú^qM'^ 



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*a-íf'3^^. 






■■■'^'''/■à FiWir JHiíSíl 









II 



AS¥LO.'EM BLACKHíATn. 



Muííou-se para novo edifício espressaraenle 
construído em Blafí.hcath o asyio com suas os- 
(olas para os filhos e orphãos "dos niissioiiarios 
ingiezes. 

A architcctur.1 da nova casa é no osl, lo e 
gosto do século xin. O plano geral consia do 
um corpo centrai e dois iateracs. O niaiorial 
emprega*5 foi dos melhores tijolos do Kcnt e 
os angules e revestimentos das "portas e janeíh.s 
de pedra de Bath ; os tectos são altos, de duas 
aguas, .correndo em todo o coriipriraento uma 

VOt. I. 4.' SESÍE. 



serie de trapeiras ([uo lhe dão realce e um as- 
pecto singular, e do centro dos mesmos levan- 
!a-se uma torrinha ou campanário alto, ordena- 
do pura a garrida ou sincla das escolas, e ao 
mesmo tempo para ventilar todo o edilicio. 

No pavimento inferior ha espaçosos legares 
cobertos para as recreações dos aliimnos no in- ' 
v^-rno ou tempo chuvoso; no andar térreo estão 
as aul.is, as classes, casas de jantar, e sala de 
visitas ; e no andar superior os quartos de ca- 
ma e de lavatório cora aposentos para o reitor e 

vAío, i, 1857. - 



3 3S 



O PANORAMA. 



a regente. Ha para lodos fácil accesso por meio 
de escadas de pedra e corredores largos, tain- 
fcera de pedra, para salvação em caso de incên- 
dio. Altendeu-se muito a facilitar a luz e a ven- 
tilação, c a obra é construída com segurança. 
Celebrou-se a inauguração em T6 de Novembro 
do anno passado. M. 



IMPRENSA. PERIÓDICA. FRANCEZA. 



I 



Entre as diversas matérias de que se tem oc- 
cupado esta encyclopedia, denominada Panora- 
ma, não podia nem devia deixar de ler logar a 
origem das Gazetas, essa poderosa alavanca que, 
nascendo humilde como os mais remotos troncos 
de todas as altas estirpes, se foi successivamen- 
te nobilitando, e empunha hoje o sceptro da opi- 
riiiào em ambos os mundos. 

Logo no primeiro volume d'este semanário se 
fallou largamente dos Acta Diurna romanos ; e 
no segundo se deu noticia das gazelas chinezas, 
dos periódicos manuscriptos de Veneza, e emtim 
dosjornaes impressos das nações modernas, in- 
clusive dos portuguezes, que, segundo ali se de- 
monstra, não começaram muito depois dos fran- 
cezes e inglezes, se é que os não precederam, co- 
roo suppõe, cóm fundamento, o esclarecido João 
Pedro Ribeiro. 

Menos competentes do que os distinctos es- 
criptorcs que trataram do assumpto, vamos, com- 
tudo, invocando o auxilio de respeitareis auto- 
í-es, e com especialidade o de mr. Edmond Te- 
xier, traçarem rápido bosquejo a historia da im- 
prensa periódica de França. 

O nome de gazeta dado ás publicações perió- 
dicas foi importado de Veneza, aonde, no prin- 
cipio do século XVII, appareceu um jornal, por cu- 
ja leitura se pagava uma pequena moeda d'aquel- 
la denominação. 

No primeiro d' Abril de 1031 saiu á luz a pri- 
meira gazela Ira nceza, publicada por Théophras- 
te Renaudol, medico do rei ; e parece (jiieLuiz 
xiii escrevia lambem para este primeiro jornal 
do seu reino!... Apparccia uma vez por sema- 
na, constando de oito paginas de quarto, e divi- 
dida em duas partes, sob os litulos de Gazeta, 
C Notirins ordinárias de difjcrcntes localidades. 

A Gazeta de frança, publicada ainda em nos- 
sos dias, é a continuação da 1'oliia scniaiial de Re- 
naudol; ella, o Mercurtij e o Jornal de Paris, 
constiluiam, (|uasi exclusivamente, a imprensa 
|)erioilica de França até ao lenqm da revolução. 
Em 1 (ifi.') começou a publicar-se o celebreYoit/- 
tial des Savunls, cujo annivfisario csiMupre fes- 
tejado cm Paris. Outras iolhas litlerarias segui- 
ram successivamentc a orbita d'esle brilhante 
|)lancta. 

Qui'm não conhece a Revista dos dois mundos, 
a fllusliação, a Semana, a Moda, o Universo, o 
Amitjoda Hcligiãu, o Jornal dos Economistas, o 



Consellieiro do povo (de Lamartine) , .1 Mosqueteiro 
(de Alexandre Dumas), o ISovo mundo (de Luiz 
Blanc) ? Não falíamos de muitas outras folhas 
litlerarias, que nem mesmo em França são co- 
nhecidas. 

Voltemos, porém, á fiazíía Jc /'>fl«pa, que so- 
breviveu á revolução de 1789, eque chegou até 
nós. 

Grande foi o espanto e o terror do herdeiro do 
sr. Theophrasto, quando .se promulgou a liberda- 
de de imprensa, c viu em roda de si um cento de 
rivaes a dispular-lhe o privilegio exclusivo, de 
que os seus gosavam havia cento ecincoenlaan- 
nos ! 

Todavia, a Gazeta de França lutou corajosa- 
mente contra a concorrência, e a datar do pri- 
meiro de Maio de 179* appareceu todos os dias. 
Três mezcs depois, accrescentou o formato, es- 
creveu na sua frente as palavras — liberdade e 
egualdade — e tomou o nome de Gazeta nacio- 
nal de França. 

Em Dezembro do mesmo anno, lê-se pela pri- 
meira vez no topo d'esta folha a phrase sacra- 
mental, seguida até hoje por todos os periódicos : 

«lloga-se aos srs. subscriptores, cuja assigna- 
tura acaba no ultimo do anno, etc.» 

E a Gazeta declara que admitte annuncios, 
correspondências e communicados, em um sup- 
plemento do jornal ; e começa a publicar os an- 
nuncios dos espectáculos. 

No tempo de Luiz xv a Gazeta de França mo 
julgava simplesmente limitada a sua missão a sa- 
tisfazer a curiosidade publica; tinha pretenções 
a uma obra histórica, a umarchivodesuccessos 
c de datas ; porém a revolução surprehendeu-a 
nomeio d'este sonho doirado; desthronou-a; ni- 
velou-a com a chusma dos novos jornaes; ea po- 
bre Gazela, depois de tenaz resistência, resol- 
veuíse a bradar, com a multidão, no dia 22 de 
Janeiro de 1793 : — Morreu o tyranno ! 

A imprensa periódica do século xix completou 
a obra dos philosophos do século anterior. Ainda 
antes que este acabasse, apenas convocados os 
Estados geraes, innumeros periódicos apparece- 
ram em França, possuídos do enthiisiasmo da épo- 
ca, que lhe conmiunicavam os seus redactores. 

Mr. Eugene Hatiu, na sua Historia do jornal 
em França, dá-nos a seguinte lista daspriucipaes 
folhas periódicas d'esse tempo de agitação. 

Appareceu primeiro o Correio de Provença; e 
cm seguida o Jornal dos Fstados geraes; o Bo- 
letim das sessões da mesma assemblca, por Ma- 
ret, mais tarde du(]ue de Bassano ; a Aurora; 
os Evanijelistas do dia ; o Patriota francez, por 
Brissot ; o Correio de Versailles a Paris; as ííe- 
voluções de Paris, por Prudhomme c outros,- os 
Annaes da Revolução, tornados depois cm Jornal 
da municipalidade e dosdistrictos; o Observador; 
a Chronica de Paris, por Coudorcet e outros ; o 
Publicista parisiense ou Amigo do povo, famosa 
publicação de Marat ; os .\ctos dos Apóstolos, a 
que se oppoz o Discipulo dos Apóstolos; oJornal 
geral da còrle e da cidade; o Jornal universal, de 



o PANORAMA. 



139 



Audouin; o Jornal da cidade e das provinciti.s, por 
Fontanes; os Annae.f patrioliros e liKerariox; a^ 
Revoluções de França e do Ihulnmle, portianiillo 
Desmoiilins; a Orador do povo, porFreron;a ll«- 
zeta universal: o Mercúrio nacional: a Chronica 
da astticia: a Assend>li'a nacional: a Hocca de fer- 
ro, do abbade Fauchel; o Amigo do rei; o Amigo 
dos cidadãos: o Jornal de Imíz \\\ e do seu povo; 
o Jornal da Soctedade (/p 17811, por Condorcet, 
Dupont de Nemours, Paslorct, Ândre Chenier. 
etc. ; c mais duzentas folhas periódicas , das 
quaes duas ainda hoje continuam a sua tareia: 
o Jornal dos debates c decretos , fundado por 
Barère e Louvei; e a Gazela nacional ou }foni- 
lor universal, cujo primeiro numero saiu a luz a 
ií de novembro de 17S9. Occupar-nos-liemos 
mais de espaço com estes velhos lidadores da im- 
prensa franceza. 

Ainda depois appareeeu a Quotidiana, jornal 
tantas vezes perseguido; o Republicano, (|ue mu- 
dou de nome muitas vezes, como aqueilc, e por 
idêntico motivo ; o Roletim dos amigos da verda- 
de, publicado pelos girondinos ; o Novellista ; o 



Bertin, èmlSOO, c na sua lamilia tem continua- 
do até hoje. '■''^ 

['or occasião da coroação de Bonaparte, estai 
tolha passou a deuorainar-se /oriírt/rfo /;/í/;f/ ío ; 
pela (|ueda de Napoleão voltou ao seu primeiro 
titulo, que tornou a largar nos cem-dias, e re- 
tomou á segunda entrada dos Bourbons era Pa- 
ris. 

Este conhecido periódico tem por mais d'uma 
vez mudado de politica, como de titulo. Ouçamos 
como o avalia mr. Edmond Texier, uos seguintes 
extractos : 

'.O Jornal dos Debates nunca foi, em sua lon- 
ga carreira, nem o cavaileiro errante de um sys- 
tema, nem o paladino de uma idéa. Nunca se ar^^ 
riscou ao perigo de defender theorias, mas lam^- 
bem jamais se enfeudou completamente ao mi- 
nistério que defende. Chamavam-lhe jornal mi'- 
nisterial, no tempo da monarchia, o que não erà 
exacto. .\ folha ministerial é o instrumento sef- 
vil de um gabinete , é o pilar aonde se aflixa D 
pensamento do ministério, é o prego aonde a ad- 
ministração pendura o seu systenia. O jornal mí- 



Jornal da Montanha, órgão dos jacobinos; o Ve-\ uisterial não tem opinião própria, não pertencíí 



lho franciscano, por Camillo Dcsmoulins; oTribu 
no do povo ; o Conservador ; o Memorial histot i- 
co. politico e luterario, por La Ilarpe, Vauxelles 
e Fontanes ; e muitos outros viram a luz da im- 
prensa, desde 1791 até 17 de Janeiro de 1800, 
que o consulado reduziu a treze o numero dos jor- 
naes, cuja publicação era permittida no departa- 
mento do Sena ; a saber: o Monitor (Admoesta- 
dor); o Jornal dos Debates; o Jornal de Paris; o 
Bem-inf armado; o Publicista; o Amigo das Leis; 
a Chave do gabinete dos soberanos; o Cidadão fran- 
cez; a Gazeta de França; o Jornal dos homens li- 
vres ; o Jornal da tarde ; o Jornal dos defensores 
da pátria, e a Década philosophica. 

Depois da restauração, a Gazeta de Franca tor- 
i!0u-se ministerial, e em 1830 declarou-se contra 
a revolução de Julho e a dynastia de Orleans, o 
que lhe custou muitos milhares de francos de 
multas, apoz innumeros processos por abuso de 
liberdade de imprensa. 

O Monitor, inllexivel como o destino, regis- 
tra, com o mesmo sangue frio, os actos de fodos 
os governos que se tem succedido em França, lia 
cincoenta annos ! Os fundadores d'este jornal fo- 
ram Sauvo, seu redactor cm chefe até 18i0, e 
Maret, duque de Bassano. Os papeis do primei- 
ro, que morreu ha poucos annos, só serão aber- 
tos daqui a meio século, segundo uma determi- 
nação governativa. Foi homem da situação, este 
caro sr. Sauvo, cora a assembléa constituinte, 
com a legislativa, a convenção, o directório, o 
consulado , o império, a restauração, os cem- 
dias, a sígiinda restauração e o governo de Ju- 
lho ! Mr. Grun, que o substituiu, continuou em 
serena paz com o governo provisório, a presiden- 
ci • da republica e o novo império. O verdadeiro 
redactor eui chefe do Monitor é o governo. 

O Jornal dos Debates, fundado no mesmo an- 
uo de 1789, passou a ser propriedade dos srs. 



a si mesmo, anda á vontade de um ou de mui- 
tos homens ; porém, o Jornal dos Debates nunca 
representou esse papel de subalterno. Pode mes- 
mo dizer-se que elle não tem servido, mas siiO 
protegido os gabinetes. Nunca prestou o apoio 
da sua influencia a nenhuma administração, serti 
haver discutido o seu prograrama e apresenta- 
do as suas condições; e tanto isto é verdade qu& 
mr. Gnizot tentou libertar-se do protectorado do 
grande jornal. O Globo e a Época foram funda- 
dos para contrabalançar a influencia dominado- 
ra do Jornal dos Debutes. 

«A imprensa da opposição adoptou um tal ha- 
bito de chamar a este jornal ministerial e ven- 
dido, e isto pelo espaço de vinte annos, que ho- 
je tomar-se-ha como um paradoxo a affirmaíiva 
de que o Jornal dos Debates tem provado , por 
muitas vezes, uma certa independência. 

O Jornal dos Debates não abandonou jamais 
a questão da liberdade de imprensa; nem a cau- 
sa da Polónia contra o czar, a (luem o gabinete 
dasTuillerias cortejava; applau(liu as generosas 
reformas de Pio ix, as boas intenções de Carlos 
Alberto, e bradou desassombrado a favor da li- 
biTdadi' italiana. ' 

A parte das noticias estrangeiras nesta folha 
c sempre bem desin\olvida, e alheia a peque- 
nas considerações de corte ou de partido. Na côl- 
Iccção áo Jornal dos Debates enconlra-se toda a. 
moderna historia da Europa. 

Nas suas coliimnas escreveram siicc('ssiv,ímeiii- 
te Napoleão, Chaleaiibriand, Laiaé, Boníild. Ca- 
niillc Jordan, Marlignac, Casimir Périer, Boyer- 
Collard, Guizot, Thiers, Cousin, Salvanriy, Víl- 
lemain, Saint-Marc Giraidin, Michel Clievaliér, 
Beriioz, Jules Janiii, e aimla hoje escrevera oíu- 
tros distinclos litleratos e políticos. 

Depois de havermos dado noticia d'estes de- 
canos da imprensa franceza , vamos laacai úitt 



140 



O PÀN0BAH4. 



lapido \olver (l'olhos sobre o jornalismo parisicu- 
«e da actualidade, isto é, sobre aquella parte que 
merece as honras daanaiyse. 
^ (Continua.) B. 



VIAGENS AO HEMISPHERIO AUSTRAL. 

(\TÍ Á EPOCA DA DO CAPITÃO COOK.) 

Oportuguez Fernando de Magalhães Ibi o pri- 
meiro que atravessou o uiar Paciíico. 

Largando de Hespanha, com cinco embarca- 
ções, a 10 de Abril de 1519, descobriu o es- 
treito que d'elle tomou nome ; e foi no dia 27 
de Novembro que entrou no mar do sul. 

Descobriu n'este mar duas ilhas deshabitadas. 

Passando depois a linha encontrou a ilha dos 
ladrões, e avançou para as Philippinas. 

N'uma d'estas ilhas foi morto, entrando n'uma 
escaramuça com os naturaes do paiz. 

Victoria era o nome da embarcação em (]ue 
este famoso descobridor deu volta em roda do 
mundo, e foi também este navio o único da sua 
esquadra, que levou a cabo tão famosa empresa. 
. O caminho descoberto por Magalhães não dei- 
xou de ser trilhado successivamente por portu- 
guezes e hespanhoes. A America do oeste foi 
explorada por estes intrépidos navegantes mui- 
tos annos antes de Álvaro Mendanha de Neyra, 
no anno de 1595. 

As noticias que ha d'aquellas descobertas são 
vagas : cm geral sabe-se que exploraram a No- 
va Guiné, as ilhas de Salomão, e muitas outras. 
Sobre a posição das ilhas de Salomão dilferem 
os autores em geral. Ha probabilidade de que 
seja o grupo das que depois se chamaram Nova 
Bretanha, Nova Irlanda, etc. 

Foi com intentos de reconhecer estas ilhas que 
Mendanha deu á vela de Calais. Descobriu as 
Marquezas, a ilha de S. Bernardo, que foi de- 
nominada do Perigo pelo comodoro Byron, e as 
ilhas Solitária e Santa Cruz, á qual Carteret 
chama dEgmont. 

, Nesta ultima morreu Mendanha, e a maior 
parte dos seus companheiros. Levava elle por 
primeiro piloto a Pedro Fernandes de Quirós, 
que conduziu para a Planilha os restos d'esta 
expedição. 

Foi depois encarregado este mesmo Quirós do 
descobrimento do continente austral, e hoje pa- 
çece ter sido elle o primeiro europeu ijuc con- 
cebeu tal idéa. 

. Saiu de Calais em 21 de Dezembro de 1605 
como piloto de duas naus e um patacho, com- 
niandadas por i.iiiz Paz de Torres. Em .larieiro 
dp anno seguinte descobriram a terra, que pa- 
rece ser a mesma a (jue Carteret deu nome, .le 
ilha Pitcairn. Foram até á bahia de S. Filippe 
«•• S. Tliiago na ilha do Espirito Santo, e ao .sair 
d'a(]ui a (íxpedição dividiu-se indo Qniros para 
a Nova Hespanha, dejwis de soIVrer muito por 
íalta de provisões, e Torres descaindo para oes- 



te foi o primeiro que navegou eotre a Nova Hol- 
landa e a Nova Guiné. 

Em 1C13 seguiram-se as eapediçõ-s de Mai- 
re e Schouten aos mares do sul. Deram de vela 
de Taxai em 14 de Junho com duas embarca- 
ções, unia das quaes se iucendiou no porto De- 
sejado. Foram clles o» descobridores do estreito 
Le Maire, e os primeiros que entraram no mar 
Paciíico pelo cabo de Horn. 

Descobriram também as ilhas dos Cães, de 
Sonde-Grondt, de Waterland, das Moscas, dos 
Traidores, dos Cocos, da Esperança, e de Horn. 
Chegaram d Balavia era Outubro de 1616, se- 
guindo a costa septentrional da Nova Bretanha 
e Nova Guiné. 

D'este artno até 16Í3, excepto algumas des- 
cobertas nas costas occidentaes e septentrionaes 
da Nova Hollanda, não houve nenhuma expe- 
dição importante. Foi então que partiu de Ba- 
tavia o capitão Tasman, com dois vasos da com- 
panhia hollandeza, e descobriu a terra de Van 
Diemen, parte da costa occidental da Nova Zel- 
landia, e as ilhas dos Amigos e do Príncipe Gui- 
lherme. 

John Strong de Farewell descobriu em 1689 
a Virgínia ou Maíden-Land-de-Hawkins, assim 
chamada por Hawkins, que foi o primeiro que 
a viu era 1594. 

Farewell reconheceu que esta terra se divi- 
dia em duas ilhas, e atravessou o estreito que 
as separa, dando a esse estreito o nome de Fak- 
land. Este norae estendeu-se depois ás duas ilhas. 
Parece que esta terra :;ra conhecida com o no- 
me de Pepys. 

António da Rocha, mcicador inglez, voltava 
do mar Paciíico em Abri! de 167o quando, im- 
pellido jielos ventos e correntes para este do 
estreito de Le Maire, encontrou uma costa, a 
qual o capitão Cook entende ser a mesma a que 
elle depois denominou illi i Geórgia. Largando 
d'aqucl!a terra para o uorte, Rocha descobriu 
outra ilha, aos 45° de latil-.ide sul, com um ex- 
cellente porto na parle oriental, e muito provi- 
da de boa aguq e cxcelleníe pescaria. 

Halley, famoso as'n)(i')ino que em 1699 foi 
encarregado de van.i.s observações naciuelles 
mares, não descobriu nenhuma terra austral. 

Em 1721 os holíandezes equiparam duas em- 
barcações para tentar varias descobertas nos 
mesmos mares Roggewin, qu;-, as commandava, 
saiu de Texel em .'í1 de Agosto, e torneando o 
cabo de Horn descobriu a ilha da P;:schoa, que 
Davisjá tinha visto, mas nào reconhecido. Alem 
d'esta apercebeu muitas ilhas, que se suppõem 
as mesmas descobertas depois por oulro.s nave- 
ganti's inglezes. Entre estas .se coniam as de 
Bai.mcn e outra, a que Bougain.ille depois deu 
nome de ilhas dos Navegantes. 

A coiiqtanhia.franceza das Índias orienlaes 
apparelhoii tambcni .em.l738 duas ciiibarcações, 
cujo coiíimiHido entregou a Bouvet, para seguir 
nas (l"scoberlHS do oceano Atlântico meridional. 

Em Janeiro de 1739 deu vista de terra. Cook 



o PANORAMA. 



f4«-' 



fez depois muitas tentativas para a encontrar, c 
não o conseguindo suppõe este navegante, que a 
descoberta de Bouvet não passou d'algunia ilha 
de gelo. 

BjTon principiou cm 176Í as suas empresas 
no hemispherio austral. Em Junho d'esse anno 
entrando pelo estreito de Magalhães no mar do 
sul descobriu as ilhas da Desillusão, Jorge, Prín- 
cipe de Galles, Perigo, York e Byron. 

Wallis e Carleret seguiram-no em 17(ití. Se- 
pararam-se estes dois oITiciaes no grande mar do 
sul. Wallis descobriu as ilhas de Pentecostes, 
Rainha Carlota, d'Egmont, do Duque de Gloces- 
ter, do Duque de Cumbcrland. de Maitea, de 
0-Taiti, É-Iméo, Tapamanou, How, Scilly, Bos- 
cawen, Keppel, e Wallis. 



Carferet seguiu differente rumo, e descobria 
as ilhas d'Osnabruy, Glocester, Cartcrct, Gover, 
e o estreito entre a Nova Bretanha e a Nova Hot- 
landa. 

No mesmo anno de 1766 Bougainvillc deu á 
vela de França, e descobriu no mar Pacifico as 
ilhas dos Facardins, Lanceiros, e la Harpe. Esta 
ullima, diz Cook parecer-lhc a mesma que eite 
depois denominou do Lagon. Também Bougain- 
villc descobriu a ilha Are, ç houve vista de mni- . 
tas terras e ilhas que para elle eram novas, mas 
de que já alguns navegantes tinham noticia. 

Foi depois d'este anno que principfaram as 
viagens de Cook, das quacs elle próprio escre- 
veu uma extensa e minuciosa relação. 




mCENDIO EM PONTAIÍTEBLEAn. 



Pelos seus extensos o íormosos bosques e ta- 
padas, onde os soberanos da França com fre- 
quência procuram o recreio das caçadas, é Fon- 
tainebleau muito conhecida; grande numero de 
recordações históricas se premieni a estes sitios, 
onde Francisco i ediíicou uma soberba residên- 
cia real, que muitos de seus successores refor- 
maram e embellezaram. Este palácio soffreu no 
anno passado um violento incêndio; a nossa es- 
tampa figura a parto destruída pela conflagra- 
ção, que foi o lado direito da Cour de Fontaine, 
que pega cora o Lago, a avenida Maintenon, a 
Porte Douce, e também a galeria de Francis- 
co i e a magnifica sala denominada das festas, 
onde foi a easa em que se faziam representa- 
ções dramáticas. A sala das festas teria sido pre- 



sa das chammas se houvesse vento; porém, fe- 
lizmente, o tempo estava bonançosa, e a agua 
em grande abundância ficava niuilo á mão; a 
tropa tomou opporlunameiíte todas as providen- 
cias necessárias para atalhar o fogo, (jin' ao ca- 
bo de três horas achava-se vi nciíio, cuncorren- 
do todas as class°s de habitanlts, iticlusivameif- 
te mulheres e ccclesiasticns, a conduzir ugua pa- 
ra as machinas, e a prestar outros valiosos ser- 
viços. O desenho foi tirado da longa alauieda 



nos jardins ingl-zes. 



M. 



O luto umas v;zi:s é o symbolo da tristeza ; 
outras e íi mascara, com que a hypocíisia cobra 
os sentimentos da alegria. 



14S 



O PMORAMA. 



T' llM DUELLO. 

f 

•> FRAGMENTOS. 

É uma historia verdadeira a que se vac ler. 
Parte d'ella escreveu-a o protogonista de seu 
próprio punho ; as explicações necessárias para 
ser comprehendida, e que constituem a outra 
parte, escreveu-as a pessoa que a dá á luz. 

Conliou-lhe o moço, de quem se conta aqui 
parte da vida, um volumoso manuscripto, onde 
estavam notados, dia por dia, os mais importan- 
tes acontecimentos da existência que vivera. 

Só depois de acabada esta, lhe era perniittido 
dar ao publico, do manuscripto que lhe entre- 
gara, a porção que melhor lhe aprouvesse, se 
o não qiiizesse porventura produzir na sua inte- 
gra. 

E merecia-o bem. Poucas obras tem o editor 
visto Ião perfumadas de sentimento, tão lacera- 
das de angustias, tão enérgicas e tão suaves ao 
mesmo tempo d'eutre tantas que tem lido, e que 
por ahi se contam entre os modelos, como era 
aquella que desde então possuia. 

Quiim a escreveu tinha amado como René, 
padecido como Werther, morrido como Raphael. 
De todos elles tirava dotes e mimos; como d'el- 
les toidos partilhara a coroa de padecimentos. 

Os seus escriplos e;icoutram-se pois com elles 
em mais de um ponto. 

Triste plagiato, que fão caro custou ! 

Por este preço a maioria, senão todos, dos que 
escrevem, quereria antes inventar, que de tudo 
é o que mais lhe custa, do que respigar no cam- 
po alheio tão duro de pisar, tão ouriçado de es- 
pinhos e silvados. 

Largo seria o livro se todo apparecesse como 
o seu autor o escreveu; enfadonho demais a mais, 
por particularidades pessoaes, que só a elle po- 
diam importar. 

Uma pequena parle apparecerá d'esta vez : o 
acolhimento que lhe fizerem decidirá do resto — 



Num d'esses bailes (,iue pelo entrudo se costu- 
mam dar nasphilarMionicas de Lisboa, poucos ho- 
mens api)areceriam tão elegantes e bem postos 
como Luiz de... 

Era um geulil moço e uma grande alma. Su- 
perior á condição em ((ue vivia, pohic gravador, 
um mero acaso o levara á([uellas reuniões, que 
não costumava frequentar. 

Vivia do seu trabalho, c não Mie era o tempo 
tanto de sobra, ([ue o podesse perder nos desf.is- 
tios da.s listas. 

Aos dezoito ânuos morreu-lhe seu pae, deixa n- 
do-lhe, com uma herança bem peipiena, irmã e 
mãe, que só d'elie jiodiau) esperar .-.tiiparo. 

N'estas circiiustaneias, ojuizo vem bre\c, ea 
creauça, carregada de ponderosos deveres, es- 
quccc-se de que o é, c procura ser homem. 



Não era para tão humilde condição, (|ue tinha 
sido destinado. Preparava-se para seguir um cur- 
so de escola superior, e já dava então voltas á 
intelligencia, consagrando-se aos preparatórios, 
que lhe reclamavam. Tinha também um tanto de 
poeta, na forma; que na essência era-o elle muito. 

Por uma ou outra vez tinha apparelhado mais 
de uma strophe, que por lhe não responderem em 
valentia aos arrojos de imaginação, que lhe es- 
candeciam a intelligencia, puzera de parte como 
fracas e dcsgeitosas. 

Sentia muito; tinha fé como poucos; talento 
como raros; só lhe faltava pois amar, comple- 
mento fatal da epopea dojoven, eque elle pre- 
sentia ao longe como o marinheiro presente a 
tempestade. 

Não o desampararia essa sagração sublime das 
almas de vinte annos, e mais breve do que elle 
o suppunha se aproximava já mysteriosa e terrí- 
vel. 

Espraiava esperançosas vistas para o futuro, 
quando a falta de seu pae o obrigou a pensar com 
maior madureza. Não podia contar com os recur- 
sos precários de uma posição por vir n'um praso 
longo ainda, e precisava quanto antes lançar mão 
de um modo de vida, que lhe garantisse rneios de 
existência para si e para os seus. 

Orgulhoso de mais para solicitar um emprego, 
que. lhe seria certamente recusado, attenta a sua 
posição e pouca importância, recorreu o si e aos 
seus braços, para de si e d'elles esperar o que ca- 
recia. Um tio lhe serviu n'essa occasião; e deixan- 
do aulase livros, entregou-se d'alma e coração ao 
oflicio que exercia, onde a boa vontade lhe sup- 
priu o tempo da aprendisagem, alcançando em 
mezes o que outros só podiam obter em annos. 
Era, ao começar esta narração, um dos mais 
hábeis no seu mister, e dos que mais ganho ti- 
rava do seu trabalho. 

Pobres castcllns no ar decreança, que tão em- 
bevecido o tinham trazido nos primeiros annos, 
haviam esmorecido de todo. O dia de amanhã era 
para elle, como o de hoje, de fadigas c trabalhos. 
O futuro o mesmo que o presente, e a melhoria da 
condição nem ao m-nus liie alegrava as mag.ws, 
segredaiido-lhe esperanças nas horas de desalen- 
to. 

Versos soltados ao vento ; aspirações de gloria 
e de nome ; momentos, que se não [lagam, do de- 
vanear intimo, de sentimento profuudodianledôs 
esp!endori's da creação, ou dos primores dos ho- 
mens, tinha tudo acabado |)ara elle. Uma hora 
fliic nelles gasiass-, era uma hora ijue tirava ao 
trabalho, era um roubo que fazia a .suamãeea 
sua irmã, que precisavam d'cllc para o susten- 
to do dia. 

Passam desapercehilos por nós não poucos 
desses lutadores incansáveis, (|ue lidam a vida 
toda para cavar como a toupeira a occultas mo- 
rada e aninho para os seus, e a (juem vem por lim 
a cheia ou a remoção de terrrnos, deitar-lhes a 
perder o fructo de tantas fadigas, o consumo de 
tantos ânuos. 



o PANORAMA. 



143 



Todavia, tjuando aborrecido de trabalhar, des- 
'Csperado de si, stm crença e sem ambições, quasi 
-como morto, esmorecida a alma c perdidas as as- 
pirações, entrava em CAsa á noite, e via sua mãe 
■« sua irmã re(;ebel-o de brados abertos, tão agra- 
decidas ao que por sua causa O^zia; desappare- 
ciam-lhe os dissabores, e o aborreciniento esvaía- 
se mais rápido do que o fumo da pobia ceia que 
o esperava na mesa sempre aceiada e alogt«. 

Paga c gloria encontrava-as elle então ali d« 
•sobejo; e se lhe dessem tudo o que mais queria 
nos seus sonhos desvairados, não lhe posporia 
aquella desvelada família, aqiiella refeição mo- 
desta, e aquelle santo orgulho de poder dizer: sou 
eu quem sustento a minha familia. 

Era por isso que raras vezes se via fora da ofli- 
, cina ou de casa. Rogos reiterados de um amigo o 
tinham levado áquello baile onde o encontramos 
no principio d'esta narração, e onde se achava tão 
estranho c alheio, quanto o eram aquelle mundo e 
aquelles costumes, aos que suspeitara ephanta- 
siara nas suas concepções de poeta. 



II 



— Encostado á urabreira de uma porta — é elle 
quem falia — vi pela primeira vez hediondo e nú, 
apesar das suas vestes e atavios, aquelle mundo, 
que tão vestido c ornado suppozera. Vi aquella 
gente toda mover-se, agitar-se, aniniar-se co- 
mo autómatos, mais ou menos perfeitos, sem que 
em tantos rostos sem expressão, em tantas faces 
sem sentimento, me apercebesse de que tinha 
diante de mim os reis dacreação. Mesquinhos e 
abjectos, intrigas pequeninas os demoviam; phra- 
ses estudadas e insulsas os enlevavam; olhares 
lascivos, cujo eITeito de antemão se previra, os 
traziam enlevados e presos. 

Para que fora eu aquella festa, se não era ali 
o meu logar? Que linha aquella gente comigo, 
que os não comprehendia, nem era dos seus ? 
que podia eu ter com elles, que não tomava par- 
te nos seus prazeres, nem procurava accommo- 
dar o gesto pela alegria geral ? 

Estranho a tudo e a iodos, nem sabia de mim, 
nem do que me cercava. Eduardo, que me obri- 
gara a acompanhal-o, sjguia seus amores e en- 
Iretinha-se com a mulher que o levara; e eu esta- 
va ali isolado e triste, inal.|uerendo, mais do que 
nunca, a obscuridade em que vivia, e que me 
alheiava tanto á consideração d'aquella gente. 

E os que ali eram tidos i>m granle conta, não 
valiam mais do que eu. Conhecia-os a quasi to- 
dos. Astros de clarão emprestado, o nouie ou 
o dinheiro os Jazia luzir e brilhar ; por si, se 
os deixa.ssem desamparados, íigurariam tanto, 
quanto essjs milhares de mundos, que o dedo do 
Senhor porventura sfineou no espaço, e que pas- 
sam sobre nós desapercebi los e involtos no sudá- 
rio de trevas que noi-os encobre. 

Ainda assim entre uns e outros nma diíTcrcnça 
cxisle. Estes teem uma nii.-ism própria para cum- 
prir. Sustentara talvez outras croaturas, tem uma 



carreira marcada, uma orbita para descrever, nm 
lira, um que quer que é, causa bastante da sua 
existência e modo de ser ; aquelles, pequenos c 
acanhados, sem nenhum desses preceitos, nas- 
cem, vivem, morrera sem saber a que vieram a 
este mundo, sem poderem dar razão da sua vida. 
(Continua.) R. Paganino. 



ESTUDOS SOBRE A PRIMITIVA 
EGREJA CHRISTA. 

Continuação. 

COSTUMES DO CLERO. 

k autoridade do bispo sobre o seu clero não 
era um poder despótico, c sim um governo de 
caridade. Os clérigos tinham parte no poder do 
bispo, porque não fazia nenhuma coisa de im- 
portância sem se aconselhar com elles. Consul- 
tava os padres que eram assim como ura senado 
da egreja. Tão veneráveis crara estes, e os bis- 
pos tão humildes . que no exterior pouca diffe- 
rença havia entre uns e outros. 

Todos os clérigos, comprehendendo os bispos, 
viviam pobremente; pelo menos mui simplesmen- 
te, como as pessoas do commum, sem coisa al- 
guma os distinguir. A maior parte nutria-se de 
legumes e viandas seccas, jejuando muitas vezes, 
e praticando toda a espécie de austeridades , 
quanto lhes permittiam suas penosas funcções. 
Muitos depois da sua ordenação continuavam 
a viver do trabalho de suas mãos, a exemplo de 
S.Paulo. -Muitos abraçavam a vida emcomraum, 
morando juntos na mesma ca.sa, e comendo á mes- 
ma mesa. Não possuíam nada de propriedade, e 
unicamente subsistiam do que a egreja lhes for- 
necia. Era uma grande família, sendo o bispo o 
seu pae. 

O que especialmente se reconimendava aos bi.s- 
pos, aos sacerdotes e diáconos, era a continência. 
Quando o que se elevava ao episcopado ainda ti- 
nha mulher, seguia tratando-a desde então co- 
mo uma irmã; e a egreja latina sempre fez obser- 
var esta disciplina aos sacerdotes c diáconos. 

O bispo nunca deixava de presidir as orações 
publicas, e explicar a Sagrada Escriptura, e of- 
iertar osacrílicio todos os domingos, efésias par- 
ticulares. Elle e os sacerdotes estavam continua- 
mente occupados em instruir os cathcciímenos, 
consolar os doentes, exhortar os penitentes, e re- 
conciliar os inimigos. Compunham todas as des- 
avenças, pon|ue não queriam que os christâos 
pleiteassem ante oslribunaes dos iniíeis. Era or- 
dinariamente a segunda f'ira que os bispos des- 
tinavam a examinar os processos, para que, se 
as partes se não compozessem logo, tivessem tem- 
po em toda a semana para se apasiguarera, eè^ 
le o-i congraçar antes do domingo seguinte em que 
deviam orar juntos e comniungar. O bispo esta- 
va ssnlado com os seus padres, assistido dos diá- 
conos, e as parles litigantes estavam de pé. De- 



144 



O PAF05.AMA. 



|)0is de os ter ouvido, fazia o possível pór con- 
cordal-os amigavelmente, e conciiial-os antes de 
pronunciar o julgamento, que o prelado dava de 
accordo com os padres. D'aqui nascia a affeição 
e o respeito dos (leis para com os bispos ; porque 
estes eram os pães dos pobres, e o refugio dos des- 
graçados ; por isso se prostravam diante dos pa- 
dres quando os encontravam , beijando-lhes os 
f)és, e recebendo-lhes a benção. Cliamavam-lhes 
santos, bemaventurados , piedosos, religiosos, 
amados de Deua. O nome de papa, quer dizer 
pae , foi por muito tempo commura a todos os 
bispos, e ainda boje se dá a todos os sacerdotes 
na Egreja grega, como na Egreja latina o de ab- 
bade, que tem a mesma signiticação. Os bispos 
e os padres por sua parte tomavam muitas ve- 
zes por humildade o titulo de servos de Deus, e 
outros eguaes, que iioje passam em formula. 

BELIGIOSOS K RELIGIOSAS. 

^avia christãos que, sem serem obrigados, pra- 
ticavam voluntariamente todos os exercicios da 
penitencia para imitarem os prophetas e S. João 
Baptista, para se exercitarem na piedade, casti- 
gando os corpos, e reduziudo-sc á servidão. Cha- 
mavam-se ascéticos, que quer dizer exercitantes. 
Encerravam-se de ordinário nas casas, onde vi- 
viam cm retiro, guardando a continência, eac- 
crescentando a frugalidadc ciiristã as abstinên- 
cias e jejuns extraordinários. Exercitavam-se em 
trazer o cilicio, andar descalços, dormir uo clião, 
passar em vigiiia parte da noite, ler assidua- 
mente a Escriptura, e orar quanto fosse possi- 
TCl. 

Grande numero de mulheres .solteiras consa- 
gravam a Deus a sua virgindade, ou por con- 
selho dos parentes, ou por impulso próprio. Pas- 
savam a vida asceticameute, morando pela maior 
:})arte na casa paterna, ou vivendo duas ou Ires 
leuniilas, não saindo senão para irem á egre- 
ja, onde tinham logar separado das outras mu- 
lheres. 

As viuvas que renunciavam ás segundas nú- 
pcias viviam quasi comoas virgens ; porem não 
estavam tão encerradas, porque se applicavam 
a obras externas, como visitar os enfermos e en- 
carcerados, consolal-os, sustentar os pobres, en- 
terrar os mortos, e geraliueiUe todos os actos da 
mais viva e generosa hospitalidade. 

Escolbiam-se para di.iconas as viuvas mais 
edosas, prudentes, e exp(!rimentadas por toda a 
espécie de exercicios de piedade. Recebiam a 
■imposição das mãos, e eram contadas cm o nu- 
mero do clero, porque exercitavam para com as 
mulheres as fuucções dos diáconos. Estava a seu 
cargo visitar as pessoas do seu sexo, a quem a 
pobreza, as enfermidades, ou qual(|ui'r outra mi- 
séria fazia dignas dos cuidados via l'^greja. IJe- 
potiani ás cathecumenas as insliiicções do bi^^jjo 
ou do padre ; apresenlavam-nas ao baptismo, 
ajudavam-nas a despir-se e reveslir-se para que 
-os padres as não vissem n'um estado indecente; 



conduziam depois as recem-baplisadas por al- 
gum tempo para as dirigirem na vida christã. 
Nos templos guardavam as portas do lado das 
mulheres, e tinham cuidado em que cada uma 
estivesse no seu logar, e guardasse o silencio e 
modéstia convenientes ao logar e á religião. Da- 
vam conta de todas as suas funcções ao bispo, 
e por sua ordem aos sacerdotes e diáconos. 

Pelos fins das perseguições da Egreja, e prin- 
cipalmente nos primeiros tempos em que esta des- 
friictou paz, principiaram a ediflcar-se os mos- 
teiros. Santo Antão, que vivera asceticamente, 
como S. Paulo que se olha como o chefe e mo- 
delo dos eremitas, foi o primeiro que reuniu dis- 
cípulos no deserto, e os fez viver em commum. 
Não lhes chamaram simplesmente ascéticos, ain- 
da que se entregavam ás mesmas praticas; cha- 
niavam-lhes monges, que quer dizer solitários, 
ou eremitas, habitantes dos desertos. Designa- 
vam-se por cenobitas, os que viviam em com- 
munidade, e anacoretas os que se retiravam a 
mais completa solidão, depois de viverem por 
muito tempo em commum, tendo aprendido a 
vencer as suas paixões. Os cenobitas eram mui 
solitários, porque unicamente viam os seus con- 
frades, estando separados de Ioda a habitação 
muitos dias de jornada pelos desertos de areia, 
e onde tudo é preciso levar, até a agua. Não 
se viam uns aos outros senão de tarde e á noi- 
te, ás horas da oração, passando o dia tode a 
trabalharem nas suas cellas, sósinhos, ou dois 
a dois, e guardando sempre silencio. 

Havia também nos desertos mosteiros de mu- 
lheres, assaz próximos dos monges para recebe» 
rem delles soccorro, e assaz distantes para evi- 
tarem perigo e suspeita. Os monges editicavani- 
Ihes as cellas, e ajudavam-nas nos trabalhos mais 
rudes ; as religiosas faziam os vestidos aos mon- 
ges, e outros similhantes serviços ; porém lodo 
este commercio ds caridade era exercitado por 
velhos escolhidos, que eram os únicos que iam 
aos mosteiros das mulheres. 

A santidade da vida monástica foi tão resplen- 
dente, que dentro em pouco tempo se propaga- 
ram milhares de monges e mosteiros por lodo o 
Oriente. Espalhou-se pela christandade, e pelo 
Occidenle, onde successivamente appareceram 
as ordens de S. Bento, Cluny, e Cister, os re- 
ligiosos mendicantes, e outras que seria longo 
enumerar. 

Pela mesma occasião se formaram em muitas 
egrejas communidades de clérigos, que viviam 
(|uasi pelo mesmo theor dos monges, tanto quan- 
to as suas funcções o permittiam. Estes clérigos 
tomaram o titulo de cónegos. Havia pois duas 
ordens de religiosos, uns clérigos, e outros lei- 
gos, e a maior parte dos monges eram d'estes 
ullimos, sendo o !im do seu instituto trabalha- 
rem na sua salvação individual, con.serrando 
sua innocencia, ou reparando por \ia da peni- 
tencia as desordens c erros da vida passada. 



Continua. 



A. 



19 



o PANORAMA. 



14» 




HOO-kll-Sn.VN. 



A arte de adornar ura edifício na China não 
e mais coraparativamenle do que a empregada 
peíos europeus na conleceão da mobília ou de 
objectos de !u\o caprichoso; e de facto ali tra- 
tam da decoração dos editicios como nós di; uma 
guarda-roupa ou de um armário de loiça; o (|ue 
entendem ser belleza é a precisão e ateio do tra- 
balho; envernizam as columnas, dão colorido nos 
tectos, pintara todas as paredes ; as côrcs mais 
lindas e brilhantes e mais inalteráveis consti- 
tuem o principal merecimento dos palácios re- 
putados mais formosos; mesmo nas figuras o me- 
nos a que altendem é ao desenho, todo o seu 
enlevo e no esplendor das cores. Os materiaes 
que empregam são madeira, tijolo, alguma pe- 
dra, e ferro; c não e a falta de boas cantarias e 
mármores que torna raras as coastrucções d'es- 
te género, nem tampouco é o receio da despeza, 
porque a prodigalidade dos imperadores não ad- 
mitte esta ultima supposição, e até as ruas de 
algumas cidades são calcadas com mármores de 
differentes castas que abundam em todas as pro- 
víncias. Dão por motivo o receio de terremotos; 
raas parece que também se oppõe a essas con- 
strueções o clima. Os próprios palácios dos im- 
peradores são de pouca importância pelo lado 

VOL. I. — i.' SEftlE. 



da architpctura, porque os chinas fazem consis- 
tir a grandeza so na quantidade, e este gosto 
e\plica-sc lambem pelos seus usos e costumes : 
os imperadores, por exemplo, teem um serralho, 
e as suas mulheres habitam casas separadas uma.s 
das outras, cada uma com suas dependências par- 
ticulares; a saber, officinas, jardins com seus la- 
gos, e mais accessorios. A casa de campo do im- 
perador, denominada IIoo-Kiu-Shan, pode niini.';- 
trar idéa do singular aspecto desta reunião de 
edilicios. M. 



A FLORA. 

(episodio marítimo.) 

"Tudo ampara ine\itavol prigo ; 
Tildo apresenta ao-, pavorosos nautas 
Misérrimo naufrágio, abysmo. e uiorte.» 

EiPiNoDciiiBNSE. — Sohe o Infaiile 
D. Henrique. 

As tribulações, com que a Providencia casti- 
ga a audácia humana pelas solidões do mar, não 

maio, 9. 1857. 



14ft 



o Panorama. 



as viu todas a imaginação de Gessner; nem Coo- 
per — o Waltcr-Scott do Novo-Miindo — chegou 
com a arrojada phantasia a verdade, que nós va- 
mos, se pudermos, apresentar, sem enfeites pos- 
tiços que a desligurem, sem flores intempestivas 
que a desornem, disfarçando-lhc a terribiiidade. 

O successo, que vamos expor, até na memorá- 
vel Historia Náutica Tragim-Maritimu se apon- 
taria como raro ; e entretanto muitos dos que 
nos hãode ler o sabem como ([uasi testemunhas. 

Nunci se viu a constância mais heroicamen- 
^ te a braços com a adversidade ; nunca o génio 
do homem triumphou mais nobremente da na- 
tureza ! Assim, a modesta coroa que procura- 
mos cingir com mão? desinteresseiras á memo- 
ria de dois Argonautas, que talvez já hoje não 
são dos vivos, não será inteiramente inútil. Pon- 
do n'ella os olhos muito esforço quebrantado se 
reanimará porventura, e era muitos lances, d'es- 
ses em que o animo aturdido com o repentino, 
com o insólito, com o monstruoso dos trabalhos 
costuma succumbir, o exemplo de Moraes, e Tra- 
jaiio fará nascer da ousadia a esperança, da es- 
perança a força, e da força o livramento. 

A barquela Flora, commummente denominada 
Espada-de-[erro, era uma pequena embarcação 
só destinada á communicação da ilha de San- 
Miguel com a de Santa Maria, nos Açores. O 
seu trafego era andar trazendo das pedreiras da 
ultima, para os fornos de cal da cidade de Pon- 
ta-delgada, na primeira, material necessário ao 
seu consumo. Quem tiver visto os barcos de 
serviço dos portos michaelenses, a (jue os natu- 
raes chamam da carregação, melhor idea formará 
do frágil batel, escusando-nos a pintura. Fal-a- 
hemos, comtudo, não só para complemento des- 
ta memoria, mas para que mais devidainenle se 
admire, á visla da pequenez do lenho, a cons- 
tância, que por tanto tempo resistiu ao furor das 
tormentas, e ([ue a salvamento o poz no Tejo. 

Fora a barqueta nos seus princípios uma lan- 
cha de carga e descarga no porto de Ponta-del- 
gada, e depois transformara-se em barco de on- 
ze toneladas, com sua coberta, trajando galas 
de yacht. Pertencia a Alexandre Pereira de Mo- 
raes. 

Fizera já esta jicquenina vela com prospero 
successo varias excursões até á visinha iliia de 
Sanla Maria, somente mareada por Moraes, na 
qualidade de mestre; seu irmão Jeronymo Luiz 
de Moraes Pereira Traiano,,distincto náutico, al- 
ma temperada de semi-estoicismo pela escola dos 
mares ; e um moço appellidado Búzio Canhoto. 

Íamos jiclo anuo mil oitocentos trinta e no\e. 
Pelas cinco horas da tarde do dia dezoito dOu- 
tubro, soprando um impetuoso nordeste, larga- 
va do porto da Calheta de Ponta-deigada a nos- 
sa Flora, com a sua invariável tripulação, pas- 
.sando jjcla popa da corveta nacional J). João i 
fundeada em frente do castello de San-Braz, en- 
caminhando-se ao seu ate então immutavel des- 
tino. 

Sobre a manhã do dia immediato, dezenove, 



começava a tempestade a raanifestar-se para a 
parle do noroeste, com seu semblante azul fer- 
rete, quando a barqueta, com menos de doze 
horas de viagem conseguiu tomar na ilha de 
Sanla Maria o surgidoiro da villa do Porto on- 
de ancorou. 

Ali os deteve o vento até á tarde de vinte. 
Então, favorece u-os para correrem a leste da 
ilha ao porto de San-Lourenço, aonde chegaram 
na manha seguinte, e se conservaram até vinte 
c três : pelas duas horas da madrugada com ven- 
to fresco, por lhe rebentar a pequena amarra, 
buscaram com incontestável risco das Formigas 
um abrigo pelo nordeste da ilha, passando a 
oeste d'a(iucJles baixos, com as velas totalmen- 
te rinzadas, precaução necessária ao nenhum 
lastro que havia o barco, e aos marouços do ca- 
nal, perigo de que um sudoeste repentino aca- 
bou de libertal-os. 

Para a ilha de San-Miguel os impelle o ven- 
to. Avistam-na em tempo escuro, pelas sete ho- 
ras da manhã do dia vinte e quatro. Ás três da 
tarde passam em frente do porto do areal de San- 
Francisco, de Ponta-delgada, e, com receio do 
vagalhão da costa, temendo entrar n'este ponto, 
puxam para leste da bahia, cuja ponta, a da 
Gale, montam não sem custo. 

Ires dias se conservaram á capa ao sul de 
Yilla-Franca-do-Campo, até que na manhã de 
vinte e seis, sobrevindo um forte oesnoroeste, e 
buscando tomar a bacia do ilheo d'aquella vil- 
la, lhe rebentara as driças da vela grande, pe- 
lo que, correndo ao longo da terra, demandam 
ahrigar-se com a ponta da villa do Nordeste, on- 
de repararam os estragos havidos ; volvendo na 
manhã de vinte e oito ao porto do Fayal-da-ter- 
ra, que não podem tomar, fundeando, e com al- 
guma difficuldade, distante da costa, pelo fim 
da tarde do dia vinte e nove. 

A extrema mingua de mantimentos lhes fez 
adoptar o costumado expediente d'annunciarem 
perigo com a bandeira acolha. Resultou d'isto 
serem procurados por cinco homens em um ba- 
tel, que para isso muito se expoz. E n'este jeque 
que tomam passagem o mestre da Flora, e o 
moço Búzio Canhoto, e vão a terra refazer-se 
de comedorias, ficando entretanto a barqueta en- 
tregue ao piloto Trajano. 

Tem em si o perigo certa fascinação, que at- 
trahe os ânimos heróicos, mas (jue repelle sem- 
pre os corações vulgares e pusilânimes. O ma- 
rinheiro, que até ali acompanhou os dois irmãos, 
julga-sc desatado de (pialquer dever ao pisar o 
.solo michaelense. Olha para os mares ; calcula 
pela sua pratica as probabilidades ; dá por in- 
evitável o perdimento de quem se lhe aventure; 
foge ! 

Moraes desamparado e só, vae bater á porta 
de Manuel Francisco de Rezende. N'essa casa 
encontra algum soccorro para a occasião — cin- 
co broas, um pão de trigo, e \ima cabaça de vi- 
nho, não esquecendo uma pedra volumosa des- 
tinada a melhor fundear a barqueta — ssndo-lhe 



o PANORAMA. 



147 



proraettida para a manhã seguinte mais abasta- 
da raatalotagera. 

Faeil é de presumir a que ponto não subiria 
a impaciência do dono do barco, lojro que em- 
balde esperara pelo moço ate ás seis horas da 
tarde I . . . Via-se reduzido, para não desampa- 
rar a embarcação, a contar apenas com seu ir- 
mão, sobre cuja intrepidez não cabiam duvidas. 
\nimou-se a tornar para bordo, levando os pou- 
cos viveres que alcançara, e a pedra que labo- 
riosamente se aíTeiçoou para a ancoragem. 

Pouco havia desde que «s dois irmãos, refa- 
zendo-se de tamanhas fadiga? eram a ponto de 
olvidar os passados perigos, quando um impre- 
visto accidente os fez acordar d'essa espécie de 
lethargo. A maré corria pressurosa, e a FIsra 
esteve em lances de se ir lazer pedaços contra 
os rochedos, garrando para leste, ao que ainda 
felizmente se pôde acudir fazendo-se de vela, e 
correndo, por impulso d' um fortissimo oesnoroes- 
te, á ilha de Santa Maria, aonde chegou no dia 
immediato, penúltimo do mcz d'Outubro, abri- 
gando-se na bahia do Santo-Espirito. 

Pelo lim da tarde desembarcando o mestre 
nada mais pôde do que procurar o professor 
d'ensino simultâneo d'aqnella freguezia, João 
Evangelista — natural da Madeira — e pedir-Ihe 
soccorrns na ac([uisição dalguns mantimentos, 
ao (jue elle se prestou, promettendo-lhos para o 
seguinte dia. Volvendo Moraes nesta esperança 
para bordo, e conservando-se ao abrigo da ter- 
ra, faltando-lhe infelizmente a provisória amar- 
rasiuha, pelo quarto d"alva do dia trinta e um, 
deram a popa em arvore secca á veheraencin da 
procella do noroeste, sem comedorias algumas, 
no rumo da ilha da Madeira, em cujo caminho, 
fazendo três singraduras, andaram perto de du- 
zentas e sessenta milhas. 

Na madrugada de três de ]Vovembro rondou 
o vento ao sudoeste, compellindo d'est'arte os 
dois infelizes navegadores a arribar, e dei\ar- 
se especialmente conduzir pelas laboriosas va- 
gas, e pelo acaso do tempo, tão mudável entre 
os canaes açorianos na estação invernosa. N'es- 
la volta passaram obra de vinte léguas ao orien- 
te das Formigas. 

Em seis do mesmo mez na proximidade da 
ponta do Nordeste da ilha de San-Miguel se des- 
involveu uma horrivel tormenta do oesnoroeste, 
que forçou a barqueta a correr á popa, só com 
um pequeno bolso de panno de proa. Foi então 
o primeiro período da afanosa e perigosíssima 
crise d'este quasi naufrágio. O piloto Trajano. 
ainda que mais acostumado ao aspecto medonho 
d"uraa tempestuosa navegação, conhecedor do 
eminente perigo a que era exposto, não pôde 
comtudo dissiraular-se a tal ponto, que não dei- 
xasse a seu irmão companheiro ler-lhe no rosto 
carregado uma amostra de seus secretos temo- 
res. Estes momentos eram pavorosos no meio 
d'um lenho aventureiro, entre os amortecidos 

corações de dois irmãos I Nada por certo 

melhor pinta o desfallecimento que os acompa- 



nhava, entre o abysmo c a esperança, do que es- 
te simples e natural trecho d'uma carta de Tra- 
jano: — <iO pobre Alexandre arregalava os olhos 
e olhava para mim. quando vinham aquellas ser- 
ras de mar pela nossa pequena popa. . . ([ueria 
chorar.. . tolhia-se-lhe a voz.. . e dizia — ok! 
Jeroni/ino. . . Jeromjmo. . . . é agora. . . — e C» 
fazendo-me mais forte do que as circunstancias 
perraittiam, dizia — não é nada, esconde-te jja- 
ra o porão, ou amarra-le para o mar te não le- 
var. s> 

Eram agora chegados á maior penúria ! Fa- 
ziam caminho de Lisboa, e no dia onze linha- 
se-lhes acabado uma mui pequena porção de 
cuscús que levavam da ilha de Santa Maria pa- 
ra um particular de San-Miguel, do qual, de- 
pois de muito tempo e forçados pela necessida- 
de haviam lançado mão, quando já estava bo 
estado d'ardido. 

Até quatorze — três dias que decorreram des- 
de onze — nada tiveram que comer ou beber, 
utilisando-se pani satisfazer a ..esta ultima e po- 
derosa precisão, d'alguma agua aparada no con- 
cavo duma vela na occasião d'aguaceiro. Foi 
n'este dia que começou de abonançar, e pelas 
onze horas da noite se fixou o vento do noroes- 
te, com cujo sopro se encaminharam positiva- 
mente ao reino. 

Continua. José de Torkes. 



VINGANÇA POR VINGANÇA. 



Continuação. 



MVSTERIO. 



Filippe Tranqueira seguia, engolpbado em pro- 
fundas cogitações, o guia mysterioso, que, ca- 
minhando em silencio adiante delle, parecia 
apressado em chegar ao seu destino. 

Outro homem acompanhava o Tranqueira, la- 
do a lado, olhando-o suspeitoso e desconfiado. 

Já, era bom caminho andado, e nem um, nera 
outro lhe tinham dirigido, sequer, uma falia. 

Tranqueira, que era amigo de pairar, aven- 
turou ao companheiro algumas d'essas phrases 
banaes, que, nada significando, serveua para tra- 
var conversação: porem não recebia resposta iie- 
nhunia. 

Enfadado por aquelle silencio, lançou mão vi- 
gorosa ao braço do desconhecido, e sacudiu-o 
com força. 

Este, tomando a acção de Filippe por um acto 
de accommettimento, fez relampejar um punhal, 
que trazia escondido entre as vestes. 

O nosso homem, que não esperava tão rude 
arrebatamento, tratou d* o tranquillisar com pa- 
Ia\ra5 brandas e macias, explicando-lhe que não 

(') Do num. li. 



148 



O PANORAMA. 



tivera intentos de o accommetter, e que só de- 
sejava matar o tempo conversando com elie. 

Grande pasmo foi o seu, vendo que o com- 
panlieiro continuava caiado. 

Encoliíeu os liombros despeitoso, propondo-se 
a seguir caminlio sem dar mais palavra, quan- 
do reconlieceu que o personagem que o acom- 
paniiava era mudo. Os signaes que este fazia 
para o induzir a seguir tranquilio, sem o incom- 
niodar com perguntas inúteis, por tal llio de- 
ram a conhecer. 

O individuo que marchava na frente, e fal- 
tara cora Samuel, entendeu que alguma coisa se 
passava á sua rectaguarda, pelo som rouco e 
gutoral que o mudo soltara quando guardara o 
punhal. 

Parou, c quando os outros dois se lhe junta- 
ram, disse para o Tranqueira: 

— Vamos lá, sr. Filippe, que não é de cor- 
tesia atacar a quem vos não quer mal. 

— Ao contrario de o tccommetter, rogava-lhe 
que caminhássemos conversando em boa paz. 

— Como quereis que conrerse o pobre Da- 
mião, que nasceu surdo e mudo? 

— Deveríeis ter-me prevenido, que escusado 
seria então de incommodal-o, e incommodar-me. 

— E quando havia dizer-vol-o, se ainda não 
trocámos palavra ? 

— É verdade; e eu bem desejara fallar-vos, 
para conhecer a qualidade de serviço que devo 
prestar. 

— Sobre esse ponto, sr. Filippe, nada por ora 
vos posso dizer. De outra bocca, que não da mi- 
taha, o sabereis. 

— Bem está, que hoje é a noite dos myste- 
rios. Não tereis, porém, duvida em dizer-rae pa- 
ra onde imos? 

— É fatil de conhecer o caminho. Não vedes 
que nos inclinamos para o mar? 

— Acaso teremos de embarcar ! ? 

— Sem duvida ; e é no rio, sobre as formo- 
sas aguas do Tejo, mas que em Janeiro não po- 
dem ser appeteciveis, que conhecereis o segre- 
do d'esta aventura. 

— Vá de feito, que para tudo aqui me ten- 
des apparelhado. 

Assim fallando chegaram á beira do rio. 

O som agudo e penetrante do um assovio fe- 
riu os ares, e logo outro som egual lhe corres- 
pondeu do meio do Tejo. 

— Temos de esperar um pouco pela barca, 
disse o companheiro de Filippe. 

— Parcce-mc pouco ajuizado, aventurou o 
Tranqueira, embarcarmos ])or uma noite d'es- 
tas, que ameaça outra trovoada como a da tar- 
de. 

— Mas é forçoso que embarquemos. 

Filippe dizia bem ; a atmosphera estava car- 
regada, e o vento principiava a soprar do sul 
com espantosa violência. 

Repentinamente o vivo fulgor do coristo ilhi- 
minou os ares, e á sua claridade viu-sc uma 
fcarca remando para a praia. 



A barca tocava em terra quando o estampido 
de um trovão rebombou no espaço. 

Continua. *»« 



AS ruínas. 

Ruinas solitárias ! tristes sombras, 
Espectros d'essas antigas nações ! 
Eu sinto ao meditar-vos mil saudades, 
Amargas e fataes recordações ! . . . 

Outr'ora esse» impérios invencíveis, 
Cidades e nações tão poderosas ! 
E hoje resta só de tal grandeza, 
Ruinas e lembranças dolorosas!.. . 

Carthago e Babylonia destruídas. 
Restando apenas d'ellas a memoria : 
Immensas maravilhas possuíram, 
Tão grandes, que rivaes não tem a historia ! 

Na Alia essa Palmyra tão famosa. 
Tão rica e opulenta n'outras eras ! 
Agora abandonada. . . já sem vida, 
Servindo de guarida só ás feras ! . . . 



Pompeia e Herculanum sonhariam. 
Que um dia haviam ser no pó lançadas? 
Se alguém lhe predissesse ura tal futuro. 
Seriara laes palavras escutadas ? ! . . . 

Que os tyrannos vos vejam, e conheçam 
Que todas as grandezas d'este mundo, 
O tempo estragador vae destruindo, 
Lançando no abysmo o mais profundo ! . . 

Dos grandes a soberba de que serve? 
De que servem os ódios e ambições?.. . 
Se um dia tudo finda, tudo acaba. 
Se tudo morre apoz as gerações ! . . . 



Ao ver, ao contemplar tantas ruinas. 
Ás horas em que vae lindar o dia ; 
O peito sente amarga ancíedade, 
Respira tudo só melancolia ! . . . 

Ruinas solitárias ! . . . tristes sombras, 
Espectros d'essas antigas nações I . . . 
Eu sinto ao raeditar-vos mil saudades. 
Pungentes e fataes recordações ! . . . 

J. A. X. DE Magai-bIes. 



ILHA DAS SERPENTES. 

Da parte de fora das boccas do Danúbio, obra 
de vinte milhas, está situada a pequena ilha das 
Serijcnles, ([uo parece collocada ali pela Provi- 
dencia para marcar a entrada do grande rio, cu- 
jas praias são baixas e perigosas para os navios 
que SC lhes aproximam. 



o PANORAMA. 



14» 



Aqui foi a primeira arribada da esquadra dos 
alliados que conduziu as tropas á Criniéa ; e ain- 
da ha pouco foi este pequeno espaço de terra, se- 
meado com outros ilheos menores ainda n'aquel- 
la paragem do mar Negro, objecto de contesta- 
ção, porque os russos o tinham occupado arvo- 
rando ou restabelecendo um pharol para lhe ser- 
vir de pretexto alim de terem ahi um destaca- 
mento militar, e espiarem e dominarem dalgum 
modo as boccas do Danúbio. Destas as que são 
accessiveis a navios de algum porte maior con- 
tam-se Ires, a de Kilia ao norte, a de Sulina no 
centro, a de Khas-Flias ou de S. Jorge ao sul: 
ijulina e o braço mais considerável deste rio, o 



maior da Europa, e é também o caminho que 
tomam de ordinário os navios ; os russos esta- 
vam de posse desta foz e podiam obstrui!-a; o 
tratado de Paris deixou-a neutral, e livre a na- 
vegação para os vasos de todas as nações, van- 
tagem de grande transcendência, porque é mui 
importante o movimento commercial em ambas 
as margens do Danúbio. 

.V ilha das Serpentes acha-se de?;habitada, se 
exceptuarmos o pharol que e mantido pela com- 
missão mixta das potencias ([ue vigiam a execu- 
ção do tratado recente e a navegação do Danú- 
bio ; abunda, porém, em caça, e tem uma pe- 
quena lagoa na parte mais elevada. M. 




ILU.V D.^^S SERPENTES. 



IMPRENSA PERIÓDICA FR.ANCEZA. 



Conclusão. 



II 



A imprensa em França não gosa actualmente 
■de verdadeira liberdade, e os jornaes que ainda 
se publicam em Paris, tiveram de modificar as 
suas opiniões, mais ou menos exaltadas, para 
continuarem a subsistir. Hoje nada representam 
as folhas politicas francezas, porém cada uma 
d'ellas tem sua historia assaz curiosa, e mesmo 
rica de episódios. Trataremos de esboçar, com 
o laconismo que demanda o semanário aonde es- 
crevemos, o mais importante da vida politica de 
alguns valentes athlelas da imprensa moderna, 
deixando de parte outros que ainda vivem qua- 
si esquecidos, ou que morreram combatendo no 
seu posto de honra. 

O mais antigo dos campeões, que não pere- 
ceram na luta, è o Constituriouul. Âho da fu- 
silaria de quasi toda a imprensa, mereceu ao 



lápis de Cham o mais certeir» dos tiros, um re"" 
trato no Charivari. O Constitucional apparece 
ali na figura de um venerável patriarcha, em 
muletas, e de barrete branco. 

Este jornal data dos primeiros dias da restau- 
ração (1815), e diversos homens de estado, e 
altas intelligencias politicas e lilterarias o tem 
successivamente redigido, sem lhe fazer attingir 
nunca a importância de folha universal, como 
elle modestamente se intitula. 

Seus fundadores foram Etienne, Jay e Saint- 
Albin; e este oráculo da burguezia teve succes- 
sivamente os nomes de Independente, Ecco da 
tarde. Correio geral, e Jornal do Commercio, 
antes de se lixar, era 1819, no pomposo titula 
de Constitucional. Thiers e Mignet, que foram 
seus redactores, desertaram-lhe, em 1829, para 
irem fundar o Nacional, com Armand Carrel ; 
porém outros escriptores distinctos substituíram 
aquelles ; Rémusat mesmo lhe deu alguns arti- 
gos avulsos, e ainda hoje apparece assignado 
nos seus folhetins o nome de Eugénio Scribe. 

Depois de 18i0, a direcção politica do Com- 



150 



O PANORAMA. 



iihicional voltou á mão de Thiers, porém Achil- 
les Fould, como ministro das finanças de Luiz 
Napoleão, soube convencer o ultimo proprietá- 
rio do jornal, o doutor A'éron, de que nenhuma 
politica era tão útil a França como a de seu 

amo. 

O Constitucional chegou aos paroxismos da 
morte, como jornal politico, e deveu unicamen- 
te a sua salvação ao lolhetim. O Judeu Erran- 
te, de Eugénio Sue, resuscitou, se pode dizer, o 
Constitucional. 

O retrato de um dosprincipaes redactores d'es- 
ta folha, que se encontra na Bioijruphia dos jor- 
nalistas, tem tanta similhança com pessoas do 
nosso conhecimento, que não podemos resistir á 
tentação de o reproduzir, ainda que em minia- 
tura. 

Boilay começou o seu tirocínio jornalistico em 
Clermont, n'uma folha da opposição, e fez-se te- 
mido do prefeito da localidade. Reconhecendo a 
sua vocação, trocou a província pela capital, e 
entrou na redacção do Corsário. Thiers, Guísot, 
e Luiz Filippe mesmo, eram as principaes victi- 
mas d'estes ullra-liberaes. 

Porém um dia, achou Boilay que não seguia 
bom caminho, e apresenlou-se a Thiers para col- 
laborar no Constitucional. 

Thiers recebeu Boilay de braços abertos, e ao 
cabo de dez minutos de conversação estava con- 
tentíssimo do seu novo conhecimento. Thiers 
achara o jornalista por exccllencía, o escriptor 
ideal ! Boilay não possuía a sombra sequer de 
uma idéa politica ! . . . 

A datar d'esse dia, o novo redactor do Cons- 
titucional apparecía todas as manhãs em casa 
do ministro, em busca do thenia para o artigo 
de fundo; e reproduzia uo jornal, não só as idéas, 
mas as palavras de Thiers, até com a mesma 
pontuação. 

Perguntando-se áqueile sábio estadista, qual 
era a sua opinião acerca de Boilay como jorna- 
lista, respondeu: «Não é um jornalista, é um 
daguerreotypo." 

Boilay continuou a dagucrreol\ par Thiers em- 
quanto este foi ministro : logo (|ue o viu caído 
do poder, passou com armas e bagagens para o 
campo de Guísot, c foi pouco depois condecora- 
do com a Leçjião de Honra. 

Sob o regimen de Napoleão o flexível Boilay 
foi elevado ao eminente posto de redactor em 
cheie do Constitucional, sob a vigilância do lui- 
bil doutor Yéron. 

Passemos agora a tratar do Nacional. 

Este periódico foi fundado, como dissemos, 
por Thiers, Mignet, e Armam! (larrel, em lSi!l; 
mas apenas relienlou a revolução de 1S'.Í0, os 
dois prínu'íros largaram a redacção, e o ultimo 
ficou só á testa do Nacional. A(iuelles suppu- 
nliam terminada a luta, poniue não aspiravam 
a mais do que á constituição ingleza; este con- 
sidcrava-a suspensa, porque entrevia a jjossíbi- 
lidade da republica para a França. 

lia (|uem diga ([ue o rei cidadão respondia 



ás vezes no Jornal cios Debates ao seu mais im- 
placável inimigo da imprensa, ao único que el- 
le respeitava e temia, o celebre Garrei. 

Morto em duello, por Emile de Girardin, este 
infatigável athlela, tomaram Bastide e Liltré a 
redacção do Nacional, emquanto Trélat não aca- 
bava de cumprir uma sentença de prisão. Pou- 
co tempo depois devolveu este a Bastide a re- 
dacção em chefe do jornal, e Arniand Marrast 
veiu coadjuvar o trabalho da folha desde 1837 
até á revolução de ISiS. N'essa época collocou- 
se Leopoldo Duras á frente da collaboração do 
Nacional. 

Paulo de Musset, irmão do mimoso poeta Al- 
fredo de Musset, foi um dos activos escriptores 
d'este temível periódico, e muitos outros nomes 
conhecidos, laes como os de Forgues (redactor 
da Revista Uritanica), Alberto Terrien, Edmond 
Robinet, André Cocbut, Caylus, e Alexandre 
Rey, appareceram nas columnas do Nacional. 

Em 183o operou-se uma grande revolução na 
imprensa periódica, com a diminuição do preço 
da assignalura, publicações commercíaes e fo- 
lhetim, e foi a Imprensa (Presse) que fez desin- 
volver em maior escala o gosto do povo por es- 
te género de leitura. Só a nobreza legitima com- 
prava a Gazeta de França e a Quotidiana ; só a 
burguezia reinante lia e pagava o Correio fran- 
cez, o Jornal dos Debates, o Constitucional, o 
Tempo, e mesmo o Nacional; folhas republica- 
nas, como o Tribuno, o Bom-senso, o Heforma- 
dor e o Jornal do poro morriam á nascença, por 
falta de subscriptores, emquanto todo o povo lia 
c comprava a Imprensa e o Século, ([ue custa- 
vam metade do preço d'aquelles, e davam folhe- 
tim, com os romances dos melhores autores fran- 
cezes. 

Posto (|uc a Presse fosse desde o seu princi- 
pio um jornal ])olitico, Emile Girardin, que o 
fundou, em 183o, conqirehendeu desde logo que 
a sua fortuna dependia mais das sobre-lojas do 
que do primeiro andar da folha. Por quarenta 
francos annuaes tinha o leitor ronuinces de Du- 
mas, Sue e Méry, além dos artigos políticos de 
Girardin e Granier de Cassagnac. t) Século, que 
começou em 1830, seguiu a mesma esteira, e 
foi feliz também. 

Duas palavras acerca de Emile de Girardin. 

l)iz-se que nasceu na Suissa, em 1802 ou 
18(13, pobre e abaiulouado. Trabalhando em ca- 
sa de um baníjueíro, escreveu nas horas de des- 
canso um livro intitulado Jiniilio, aonde conta 
a historia dos seus primeiros annos. Largou de- 
pois o commercío, e fundou succcssivamente dois 
jornaes, a ^^tlda e o Ladrão. Em 182S es|)osou 
Dellina (iay, ja então celebre como escri[itora, 
e que mais celebre se tornou ainda sob o nome 
de madame Emile de (iirardin. Em 1831 publi- 
cou o Jornal dos Conhecimentos ateis, (]ue che- 
gou a ter cem mil assignanles ; depois o Pan- 
tlieon Ittterario, e tratou de outras enqiresas até 
183;>, eiioca do nascimento da Presse. 

Aj)0z uma viva polemica coui o Nacional, ma- 



o PANORAMA. 



151 



tou cm duello, com um tiro de pistola, o intel- 
ligente e valoroso Armand Carrcl. Passado al- 
gum tempo c oioito deputado. Protep:c Guisot no 
começo da sua carreira parlamentar; depois guer- 
reia-o de morte. 1'reso por ordem de Cavaignac, 
torna-se seu inimigo implacável; c ello, que pro- 
põe a candidatura de Luiz Napoleão á presidên- 
cia da republica, e um mez depois de triumphar 
o seu candidato, declara-se em guerra aberta 
com elle. 

Girardin acaba de comprar a propriedade da 
Bevista dos dois mundos. 

Texier couta que lhe ouvira estas palavras : 
Vinte e quatro horas de poder valem mais do 
que vinte c quatro annos de jornalismo; porém 
accrescenta que não suppôe que (iirardin che- 
gue jamais a ser ministro, porque tem idéas es- 
peciaes, e uo governo das maiorias só se chega 
ao poder tendo as idéas de todos. 

Além dos escriptores já mencionados, a Pres- 
se tem-se honrado com a collaboraeão de Theo- 
philo (iautier, Eugénio Pelletan, e outros auto- 
res assaz conhecidos. 

O .S>(ií/o tem coutado egualmente no numero 
dos seus redactores muitas das celebridades lit- 
terarias da França. 

A Pátria data de 1841, e foi seu primeiro 
redactor em chefe Pagès (de TAriége). Lm an- 
no depois passou a ser propriedade de Delamar- 
re, e tem mudado de politica repetidas vezes. 

Já conta bastantes annos de existência a im- 
portante Gazeta dos trihunaes, fundada por dif- 
ferentes summidades judiciaes e politicas, entre 
as quaes se encontram os nomes de Cormenin, 
Dupin, e Darmaing. 

Não terminaremos este esboceto, sem dedicar 
duas linhas ao Charivari, espécie de bobo da 
imprensa franceza, e que, em companhia de seus 
irmãos mais mocos, o Journar poiír rire e ou- 
tros, faz a delicia d'aquelles que não são cari- 
caturados. 

Os desenhadores do Charivari, isto é os seus 
principaes redactores, são Daumicr e Cham. Dau- 
! mier, o autor dos Bobertos Mararios, dos Bepre- 
sentantes representados e dos Idylios parlamen- 
tares, é um artista de grande talento. Cham, tilho 
de Noé, antigo par de França, adoptou aquelle 
pseudónimo, sob o qual tão conhecido é, lera- 
brando-se do diluvio. Cham é o génio da cari- 
catura, e as columnas da Ilhi\iração, como as 
do Charivari, se teem aformoseado com os seus 
primorosos desenhos. 

Eis-aqui como era avaliada a imprensa fran- 
ceza antes do império. Hoje, não se repetiriam, 
com verdade, a seu respeito estas enthusiasti- 
cas palavras : 

«Para quem viu funccionar de perto esta in- 
telligente machiua (a imprensa), esta prodigio- 
sa fera, cujo appetite augmenta na proporção do 
alimento que lhe dão, o jornal é a obra colos- 
sal do dia. Carece de trabalhadores infatigáveis, 
de espíritos activos, claros e laboriosos, de sol- 
dados sempre promptos na brecha, de homens 



que sacrifiquem o repoiso c o sangue a esta ta- 
refa sem lim, mythologicamcnte representada pe- 
lo tonel das Dauaides. O jornal é o motu-conti- 
nuo, procurado ha iiuatro mil annos pelos ma- 
ihenialicos. luia vez lançada esta locomotiva so- 
bre o carril da publicidade, caminha sem des- 
canso, a toda a força do vapor, mostrando o fu- 
mo das suas inspirações, cóleras e enthusiasmos. 
Passa, ardente e rápida como os mortos da bai- 
lada alemã, e não parará, fatigada da carrei- 
ra, senão quando lhe faltar o uitinio leitor, isto 
é no dia do juizo linal. 

«A imprensa chamou-sc a si mesmo — o ter- 
ceiro poder do estado. Parece-nos que foi mui- 
to modesta. Em nosso entender o único poder 
do estado, é o sereníssimo poder da opinião, re- 
presentado pelos jornaes.') 

B. 



ESTUDOS SOBRE A PRIMITIVA 
EGRE.IA C1IRIST.\. 

Conclusão. 

COSTUMES DOS FIEIS. 

A oraçã» era a primeira e principal occupa- 
ção dos fieis. Faziam-na em comnuim. Era or- 
dinariamente de manhã e a noite, a que hoje 
chamamos Laudes e Vésperas. N'ella se exhor- 
tavam a consagrar assim o principio c iím do 
dia, pois que as occupações temporaes só de- 
vem ser accessorios das espirítuaes. Recommen- 
dara-se aos christãos que empregassem o tem- 
po antes de adormecerem em recitar os psalmos, 
e a oração dominical, c o credo todas as manhãs, 
e nas occasíões de algum perigo. Todos os tra- 
balhos, como a lavoira, a sementeira, a ceifa, 
a colheita etc, principiavam e acabavam com 
orações. A saudação no começo de uma carta, 
e quando se encontravam uas ruas não era uni- 
camente um testemunho de amísade, era egual- 
mente uma oração. Nas menores acções serviam- 
se do signal da cruz, como de uma benção mais 
abreviada. 

O exterior dos christãos era severo e desali- 
nhado, simples e ao mesmo tempo grave. Não 
usavam cores vivas, nem sedas, nem anneis, nem 
jóias, nem cabellos frisados, nem perfumes, nem 
banhos muito frequentes, n'uma palavra de ne- 
nhuma d'essas coisas que podsssem excitar o 
amor sensual e a voluptuosidade. Evitavam os 
espectáculos públicos, e os jogos. A maior par- 
te dos fieis eram casados, porque odiavam o ce- 
libato dos pagãos, que induz á libertinagem e 
devassidão. Viviam em rommum, chamando-se 
pães, filhos, irmãos, irmãs, conforme a edade e 
o sexo. Esta união manlínha-se pela autoridade 
de cada chefe de família, e submissão ao bispo 
e sacerdotes, que eram os primeiros a servir de 
modelos ao resto do seu rebanho. 

Havia grande cuidado em esmolar os pobres. 
Não se classificavam porém n'este numero os 
que podiam trabalhar. 



«59» 



O PANORAMA. 



Os cliristãos acudiam a soccorrer e assistir aos 
enfermos ; e nas calamidades publicai eram os 
primeiros, talvez os únicos, que se expunham a 
consolar os seus compatriotas. Olhavam a mor- 
te como a porta da Eternidade. Como na maior 
parte viviam bem, mais a desejavam do que a 
temiam ; menos se aflligiam com a perda tem- 
poral dos seus parentes e amigos do que se re- 
gosijavam com a sua felicidade eterna, e espe- 
rança de os tornar a ver no ceo. Encaravam a 
morte como um somno, e d'alii vem o nome de 
vemilerio, que em grego significa dormitório. 
Para melhor testemunhareni a fé. da resurrcição, 
tinham grande cuidado nas sepulturas : enterra- 
vam os corpos, depois de os embalsamarem, co- 
brindo-os com estofos mui finos, e telas precio- 
sas : deixaTam-n'os expostos por três dias, du- 
rante os quaes se velava e orava junto ao ca- 
dáver : depois era conduzido ao tumulo, acom- 
panhando-se o funeral com muitas tochas e fa- 
chos, cantandó-se psalnios e hymnos, c oITere- 
cendo-se o sacrilicio para impetrar a misericór- 
dia divina em favor dos linados: dava-se aos po- 
bres o feslim, a ([ue também se chamava aya- 
fus; e varias esmolas: ao fim de um anuo re- 
novava-se-lhes a memoria, e assim annualmcn- 
te, além da commemoraçao que se fazia todos 
bs dias (lo santo sacrilicio. Muitas vezesenter- 
ravam-se com os corpos dilVerenles coisas, para 
honrar o defunto, como os distinctivos da sua di- 
gnidade, os instrumentos do seu martyrio, cru- 
zes, o Evangelho, e medalhas com o seu nouie 
gravado, donde veiu o uso dos epitaphios. O 
corpo deitava-sc de costas, com a face voltada 
para o Oriente. Havia grande devoção em se en- 
terrarem os corpos junto ás sepulturas dos mar- 
lyres, e d'ahi proveiu o costume dos enterramen- 
tos nas egrejas. 

Esforçaram-se os christâos em conservar-se 
cm paz com todos, e viverem de modo que os 
seus mortaes inimigos nada tivessem que lhes di- 
zer. Não fallavam de religião com aquelles que 
não estavam dispostos a ella, e limitavam-sc a 
orar por elles, edifical-os por via da paciência 
e boas obras, retrihuiiido-lhes incessantemente 
o mal pelo bem. Nunca se iiueixavam do gover- 
no, nem fallavam com despreso das autoridades ; 
honravam-nas e obedeciam-lhes cm tudo quan- 
to não induzisse ã idolatria ; pagaram os tribu- 
tos, não só sem resistência, mas até mesmo sem 
murmurar. Longe de excitarem sedições c re- 
voltas, nunca tomaram parle nas conspirações 
forjadas contra os imperadores ; foram os únicos 
que não trataram de se desfazer de Nero, Domi- 
oiano, Commodo, (laracalla, e outros lyrannos. 

Taes foram os primeiros christâos, os seus 
costumes, usos, e disciplina da Egreja primi- 
tiva. ' A. 

SAXONIA. 

T)os antigos saxonios dizem os historiadores 
mais gra\es, que eram homens de aspecto ler- 



rivel, olhos irados, e de condições ferozes. Vi- 
viam com grande brutalidade,* observando po- 
rém sempre exactamente a sua palavra. Costu- 
mavam jurar sobre as armas, e era-lhes prohi- 
bido comer ou conversar com os perjuros, sob 
pena de serem exterminados em tempo de paz, 
e condcmnados á morte em tempo de guerra' 
Adoravam uma divindade a que chamavam Ar- 
ro, e sacrificavam-lhe a decima parte dos homens 
que aprisionavam nas guerras que continuada- 
mente traziam com os visinhos. 

k maior parte dos seus templos e dos seus 
Ídolos foram destruídos quando Carlos Magno 
venceu e subjeitou estes povos, que, justiça c 
dizer, foram sempre bellicosos. 

O padre Bouhurs, autor da ITisloria secreta 
da Polónia, descreveu o povo de que tratamos, 
e em geral o alemão, como homens que não teem 
mais ollicio do que comer, desafiando-se por apos- 
tas a quem hade beber mais. Verdade é que este 
defeito é excessivo nos saxonios, e especialmen- 
te no uso da cerveja, que mui galantemente pre- 
tendem não seja vicio embriagarem-se com esta 
bebida, porque dizem que S. Paulo só condem- 
nara o excesso a respeito do vinho. Outros au- 
tores os descrevem de grande estatura, fortes, 
robustos, e de muito bom natural, sendo de to- 
dos os alemães os que mostram mais doçura, e 
mais agrado nas suas praticas. 

Presam-se muito os fidalgos saxonios da sua 
nobreza; e bem que hoje alguma mudança haja 
na sua antiga ufania, comtudo no geral não tra- 
tam de comraercio, nem fazem allianças com os 
mercadores ou homens de negocio, ainda que d'el- 
las lhes resultem grandes conveniências. Quan- 
do um nobre casava com a filha de um merca- 
dor, ou de outro qualquer que não correspondia 
á sua qualidade, era despresado de todos, que 
por vileza lhe chamavam: — sacco de pimenta l 
Até n'estes casos chegaram a correr grande ris- 
co de serem mortos pelos parentes. 

Quando casam, quando lhes nascem filhos, e 
também quando morrem, se fazem grandes fes- 
tejos nas suas casas, onde concorrem todos os fi- 
dalgos e senhores, mesmo sem serem convidados. 

A religião predominante é a lutherana. porém 
ha livre exercício de culto. As pessoas de qua- 
lidade faliam quasi todas francez e italiano. Um 
escriptor do século passado diz que a Saxonia 
podia pôr em campo, em menos de quatro dias, 
mil e duzentos senhores seus feudatarios, com 
oito mil cavallos, e vinte mil homens de pé. 



PRELÚDIOS POÉTICOS 

DE 

J. RAMOS COELHO. 

Com este titulo saiu á luz um volume de poe- 
sias, de :tO(> paginas, nitidamente impresso, com 
o retrato do autor. Vendc-se nas lojas do costu- 
me — preço íiOO réis. 



20 



o PANORAMA. 



l&S 




r\pr.i.i.A i)i; ii\nnow. 



-Muitos são os templos novamente erectos em 
Inglaterra para monumentos dos que morreram 
na campanha da Criméa; parece que na multi- 
plicidade e fausto destas construcções se empe- 
nhou o orjíulho nacional, alem do desejo de ren- 
der este preito a memoria dos que susientaram 
em região remota a gloria da pátria ; demais é 
um tributo (jue recorda aos vindouros o sacrifí- 
cio dos que morreram victimas da sua dedica- 
ção e do cumprimento de seus deveres; e, por- 
tanto, um incentivo para o exemplo : ponuie a 
nação ingleza não so remunera os que a servem 
«om recompensas pecuniárias, condecorações e 

VOl.> I. 4,' SEME. 



honras durante a \ida, e os anima e excita pe- 
las pensões e outros cuidados com que trata e 
ampara suas lamilias depois que perecem no ser- 
\iço. mas lambem lhes erige monumentos que 
perpetuem a sua memoria. E d'este género a no- 
^a capelia de Harrow fundada no anno passado, 
de grande beileza no interior, como se mostra 
na estampa que nqiresenla a nave do lado do sul : 
j e dedicada aos ofiiciaes, que tinham sido educa- 
dos no coUegio de Harrow e morreram na guer- 
I ra do Oriente. Harrow c uma povoação, aldèa 
j grande. >ituada na coliiua mais alta do conda- 
I do de Middlesex, distante de Londres para o no- 

M.4(o, 16, 1857. 



154 



O PANORAMA. 



roeste pouco mais de duas léguas ; a escola ijue 
ali foi fundada oní 1571 reinando Isabel é ce- 
lebre pelos estudos clássico^ : educa cem aluni- 
nos. M. 



A FLORA. 

(episodio .M4R1TIM0.) 

Conclusão. 
II 

"Em lenho nadailiir ilobrar souberam 
A iíisepaia\el mela em que se opiiunlia 
Á força (1(15 morUies a nalmeza.» 

J- A. iiE Macetid — O noro Argonnutu. 

Um longo tormento, um continuado soflVimcn- 
ío de fome e sede, durante vinte e oito dias de 
trabalhosa e aventurada viagem, haviam quasi 
totalmente exhausto as quebradas forças de nos- 
sos viajantes. Viam-se a cada instante entre os 
abysmos da morte e o desespero da miséria ! A 
cada embate das ondas no costado da frágil Flo- 
ra, se alevantava um novo perigo ! Ainda, po- 
rém, lhes sobrava animo para que apreciando o 
salvamento da existência, era muito houvessem 
a necessidade de se esforçarem por alcançar por- 
to amigo e hospitaleiro. Assim, de quatro em 
quatro horas revezaram os quartos de governo 
da embarcação. 

Em abono d'esta assiduidade não calaremos 
um tormento, que espontaneamente se impunha 
o valoroso mestre Quando no começo d'esta tra- 
balhosa navegação, em trinta dOutubro, Moraes 
saiu a segunda vez na ilha de Santa Maria, pre- 
cisado a saltar em terra na escuridão da noite, 
houve a infelicidade de, ao tocar a praia, inopi- 
nadamente, entalar com o pé um dos despojos 
ósseos d'algum peixe, pelo oceano arremessado 
áquelias costas, o qual rasgando-lhe o calçado 
foi entranliar-se pela planta do pé obra d'unia 
polegada de comprimento. Os successos que de- 
pois recresceram em cardume constrangeram Mo- 
raes a omittir o curativo da ferida, para se en- 
tregar todo, e pacientemente, aos iinmedialos 
negócios e precisões de sua viagem, deixando 
d'est'arte á chaga tomar considerável incremen- 
to. Attenuado de forcas, carecente de repoiso ha- 
via tantos dias, agora que já se iam desengana- 
damente caminho de Lisboa receando em seu 
{|uarto de leme ser accdiiimcltido d'alguma for- 
tissinia somnolencia, com resignação se (inha 
acostumado a irritar a ferida com os dedos da 
mão, para que a dòr o trouxesse desperto a des- 
peito das vigílias ! . . . 

Uelomemos o lio. 

As oito horas do dia quinze de Novembro de- 
parou-se-lhes, em direcção do nordeste, uma ve- 
la sobre a qual correram (odo o dia, fazendo-lhe 
signa! de perigo: pela tarde achavam-se na pro- 
ximidade de duas léguas, o que não podia em 



tempo claro servir d'escusa á embarcação des- 
conhecida c inhumana, que nenhiiiii caso fez do 
pequeno baixel alllicto ! Esta vela era uma es- 
cuna, cuja nação não conheceram. 

Qual não seria o pasmo dos dois irmãos ! Ne- 
gava-se-lhes, e no meio do perigo e da necessi- 
dade, o soccorro usual entre os raaritiraos I De 
tudo pareciam desamparados ! 

Ao meio dia do immediato dezeseis apparece- 
Ihes outra escuna, ingleza. Tinha o vento amai- 
nado, inda que as ondas continuavam descom- 
postas. A escuna avistou e reconheceu a situação 
da barqneta, e es])ontaneamente a capa aguar- 
dou a sua aproximação. Se voariam para ella 
Moraes e Trajano?! 

Eram tinalmente o mais juntos que permitlia 
o grande baralhar dos mares: um aceno bastou 
a denunciar aos bemfeilores a 1'omc e a sede 
d'estes intrépidos marinheiros. O momento era 
precioso. Os da escuna compadecidos da situa- 
ção da Flora, gostosamente lhe enviaram algum 
soccorro, mas este, ainda que destramente ar- 
remessado pelo ar, só deixava aos necessitados 
o desgosto de o ver bater sobre o convez, e com 
o restante impulso da carreira saltar ao mar por 
cima de sua pequena borda falsa ! Conseguiram 
com tudo isto tomar ainda treze bolachas, e pa- 
ra os fornecer d 'agua a escuna desparou a re- 
tranca da vela grande para sotavento, e por ci- 
la fez conduzir na mão d'um moço um balde, 
resultando d'esta manobra o ficar a mesma re- 
tranca embrulhada em uma abertura das enxár- 
cias — perigo de que custosamente se livrou a 
barquota, á qual a escuna ([uasi suspendia em 
seu balancear. Em seguimento d'este risco veiu 
um inesperado abalroamento da Flora com o na- 
vio inglez, de que nasceu perder aquella o gu- 
rupés — falta a que occorreram em continente e 
da possível maneira. 

Desfizeram os dois navios a capa e ouviu-sc 
em altas vozes trocar entre os bemfeitores e pro- 
tegidos sincero (íoíl sare yoii ! Cada qual conti- 
nuava seu caminho. 

No dia seguinte, dezesete, demandaram nos- 
sos mais resignados navegantes, bordejando com 
uma brisa de oessudocste. o cabo da Roca em 
1'orlugal, — diligencia continuada mesmo com 
vento sul no dia dezenove, e até avistarem ás 
quatro horas da tarde de vinte e um a jionta do 
dito cabo. Enthusiasmados velejavam ellcs com 
todo o panno, quando lhes sobreveiu calmaria, 
só dissipada ás seis da tarde pela aragem do 
norte. 

Em sua compassada carreira mais tranquillos 
admiravam o perigo de que saiam, ao ver se- 
meadas as immediações da costa de não poucos 
borcelos de embarcações perdidas ! N'esle tem- 
po só tinham unui bolacha, das com que haviam 
sido socorridos. 

Apenas pela noite do dia vinte e dois pode- 
ram entrar o Tejo. Ás sete horas da tarde uma 
vigia do contrato do tabaco na sua agua os se- 
guiu até á roca de Cintra, c só pelas nove fa- 



o PANORAMA. 



13: 



Noreccu o vento na proximidade de Cascão*, em 
que uma embaieacão de pilotos da barra pre- 
tendeu que a barqueta tomasse um para a con- 
duzir, ao ([ue os d'esta se denegaram pela fal- 
ta de meios para abonar a despeza, correndo 
com toda a Torça. O barco costeiro yvigia do 
contrato I resolveu-se linalmente faliar aos da j 
Flora, que iiie deram um mui abreviado bos- ^ 
([uejo de sua extraordinária viagem, virando de- 
pois aquellc de bordo, e esta abocando ousada- ^ 
mente o rio peio bem conhecido corredor do nor- 
te, levando comsigo a rasto algumas redes ar- 
madas pela loz, ser\indo a lirral-a do furor dos ; 
pescadores por um tal êxito a rapidez da sua | 
corrida. 

Pela uma hora da luanhã de vinte e três fo- 
ram dar fundo diante de Belém ; depois do que, 
julgando-se seguros em protegida ancoragem, e 
mui acabrunhados de cansaço, repoisaram am- 
bos. Tanto se entranharam pelo somno que não j 
sentiram o abalroamento, que quasi ás ti\'s ho- I 
ras com a bar([ueta houve uma barca sueca dcs- 
arvorada, que subia o rio, praticando-lhe gra- 
ves avarias e concorrendo para ([uo depois de 
livres do abalroamento, e de terem buscado no- 
vamente repoisar, a vasante le\a.>ise a barqueta 
na corrente aos cachopos da torre do Bugio. Pa- | 
ra os esfiuivareni, não podendo marear o panuo 
por causa do estrago da apparelhação, tomaram 
o expediente de suster-se com os remos, ate aos 
seus brados acudir a tripulação de um falucho, , 
que lhe lançou um dos seus marinheiros para ' 
os ajudar a sair do grande embaraço em que I 
eram. E com eíleito depois de varias diligencias j 
conseguiram aproar para Paço dWrcos, aonde 
esperaram a enchente para de novo subir o rio, j 
vindo a ser a sua allima ancoragem em Belera 
as quatro horas da tarde do mesmo dia vinte e 
Ires, depois da falua haver demandado e rece- ! 
bido o seu marinheiro. ' 

Pouco apoz, ás cinco e meia horas tiveram a j 
primeira visita, a quem relataram em summa- ! 
rio sua espantosa viagem, ([ue a todos maravi- 
lhou a ponto de porem em duvida a inteira ve- 
racidade das declarações dos díHs'íravãós. '^Pe- 
dindo estes remédio para a fome <jue os devo- 
rava, do escaler foi ordenado que se lhes man- 
dasse algum soccorro : e este não tardou. Mas 
q«al, apoz tão trabalhosa inedia? Sete libras de 
pão, sardas, e algum vinho, que tudo foi ale- 
gremente recebido ! 

Cumpre que não se olvide uma boa acção pas- 
sada ao momento da visita. Achavam-se Moraes 
e Trajauo quasi nus, que tací os pozeram o 
tempo cos trabalhos. Condoídos, dois dos remei- 
ros d'aquelle escaler despiram as próprias cami- 
sas, e as entregaram aos recem-chegados ! A 
henetícencia extrema é a virtude dos pobres. 

Em um bordo pela uma hora da manhã do 
dia vinte e quatro levaram a Flora a amarrar 
em um dos argolões do cães d'a!fandega. Das 
dez para as onze horas do mesmo dia a auto- 
ridade policiaria houve de tomar conhecimento 



de todo o succcsso niaritirao da barqueta, cha 
mando a repetidos interrogatórios os dois irmãos, 
que mui conformes foram em suas declarações. 
Fazia espanto e punha-se em duvida o esforço 
dos interrogados 1 Receando cavilosa falsidade 
na narração delles, ([uasi não podiam acreditar 
que barco de onze toneladas, ousado aventurasse 
caminhar atravez de duzentas e sessenta léguas 
doceauo ! Neste comenos appareceu um conhe- 
cido de Moraes e Trajano, ([ue concorrendo en- 
tre os innumeros curiosos que buscavam ver a 
Flora e seus conductores. condoído da situação 
d'estes, os aliançou a policia, nu reforço da ver- 
dade de quanto era deposto. 

Desembaraçados iam ja no meio da turba en- 
thusiasmada os irmãos Pereiras I 

Por este tempo um verdadeiro e diligente ami- 
go dos desvalidos, promoveu uma suhscripção 
voluntária em favor dos dois arribados, ciijopro- 
ducto, cerca de duzentos mil réis, lhes foi compe- 
tentemente entregue. Honra aos que não ensur- 
decem aos brados da humanidade indigente ! 

Assim acabaram trinta e sete dias de traba- 
lhos não interrompidos ! 

Notaremos por lim, que ainda em cinco d'Ou- 
tubro de mil oitocentos e quarenta, depois de 
composta em tudo o que carecia, e de uma via- 
gem de treze dias, os nossos heroes com menos 
custo retornavam com a Flora á ilha de Sau- 
Miguel, d"onde haviam partido um anno antes ! 

Eis os solTrimentos dos dois intrépidos e ou- 
sados filhos do benemérito actua! escrivão da 
camará municipal de Ponta-delgada , Manue! 
Francisco Luiz Pereira, quando a fúria dos ele- 
mentos pretendeu experimenlar-lhes o valor : ahi 
estão os rasgos de sua coragem e atilada perse- 
verança '. 

III 

" .\insi tombe une fleur avant le tcmp fannc...» 
Lamírt!>e. 

Assim como nos successos que relatámos esta 
a mais importante parte da historia da Espada- 
de-ferro, tambenl depois de a trazermos em vista 
com tanto cuidado, parecerá desamor largal-a 
de estalo a borda do olvido. Poucas palavras 
mais nos pouparão esta ingratidão, contando o 
resto da sua Aida, e seu desastroso fim. 

Depois de chegar em mil oitocentos e quarenta 
á ilha deSau-Miguel, a barqueta foi distratada, 
e começou a bem servir ao novo dono Acos- 
tumada já a viagens longinijuas, passava do 
Atlântico ao Mediterrâneo como zebra corre des- 
assombrada no deserto!... 

Mas « tantas vezes xae o cântaro á fonte até- 
que para sempre lá fica ' : assim, em quinze de 
setembro de mil oitocentos e quarenta e três, a 
Flora deu grande testemunho desta usual pare- 
mia. Foi nas aguas do logar dos Mosteiros, da 
mesma ilha de San-Miguel, apprehendida por 
um escaler da alfandega de Ponta-delgada, ve- 
cheada de contrabandos, tendo em Gibraltar des- 



1&6 



O PANORAMA. 



pachado em lastro para a ilha Graciosa ! Agora, 
tornada objecto da fazi^nda, cliegoii ao porto da 
cidade pela tarde do dia dezeseis ; inipozeram- 
Ihe o novo nome de Quinze de Setembro, c de- 
pois de reparada c artiliiada com nma pe(;a de 
rodízio, entrou em exercicio ficai e registo das 
costas da ilha. 

De pouca duração foram porém estes novos 
serviços da i)ari[ueta. 

Largando a cinco dOutuhro em demanda de 
nma veia que vagava nos mares de Villa-Franca- 
do-campo, pouco apoz, perseguida pelo fado, en- 
calhou na praia dos Mosteiros com agua aber- 
ta, c quasi inútil. Arrematada e desmanchada 
depois começou, porventura antes de i|uinze dias, 
a alimentar o fogão dos arrematantes! 

Será curioso ponderar duas notáveis coinci- 
dências, que aqui se dão. 



1'nmeira: — Foi no mesmo logar dos Mostei- 
ros, em que a barqueta nascera ]iara o estado, 
que depois de o ter tão mal servido entregou a 
alma a Deus, e acabou a vida!... 

Segunda: — O destino d'este barco parecia 
atado ao piloto Trajano. Aquelle ipie a encami- 
nhou ao Tejo, c o mesmo que tem d'assistir ao 
seu funeral ! Trajano era ainda n'esta ultima 
conjuntura o olíicial da Flora: e se primeira- 
mente a livrou, guiando-a a porto de salvação 
na arribada a Lisboa, também ella agora o re- 
compensa, ponjue estando a ponto de abrir e 
sepultar enlre as ondas (|uautos a jiejavam. re- 
solveu-se fazel-oapoz ler posto incólume na praia 
o seu piloto. Nota\el agradecimento da matéria 
bruta e inanimada !... 

Tal foi o termn dofatalissimo destino da bar- 
([ueta Floni ! .losí; nr. Torres. 




NOTA ENTRAD\ DO PARQTTE PE S. JAHES. 



É da banda dePall-Mall, que faz frente á rua 
dcS. Jaraes que ultimamente foi aberta esta no- 
va entrada. Nopanjue de S. James está situado 
o palácio de Buckingham, residência ordinária 
da rainha Vicluria, Nota-se ijue os palácios reaes 
em Londres não correspimdein peia archileclura 
á magniticcucia que se admira nos edilicios pú- 
blicos ; são umas casas que exteriormente nada 
teem de notável. Osparí[ues constam de alame- 
das, jardins, tapadas, ruas ; não são passeios 
para num hora só, nem só para um relance de 
olhos (pie conqjrehenda todo o seu espaço : .S, 
Jaraes park e llj de [)ark, porexemplo, teem mais 
de seis milhas cm volta. Nos jardins inglezes 
não ha a cxacção e o rigor do compasso, e (co- 
mo diz um viajante) laboleiros de lloros não pa- 



recem á vista uma só c immensa flor, ruas de 
arvores não parecem uma só, e as aguas não 
dormem nos tanques : não se guarda a mesma 
ordem c regularidade que nos jardins francezes ; 
teem poucas linhas rectas e essas seguidas de 
curvas, ([ue tão admiravelmente entretém sem- 
|)re o espectador ; não ha monotonia de planos 
e são aproveitadas as irregularidades que o ter- 
reno oITerece ; o gosto dos jardins inglezes con- 
siste na recreativa variedade dos.accidentes, na 
imilação da nalureza, e já foram celebrados no 
hello poema deDelille. traduzido pelo nosso Ro- 
caíie. M. 



O governo, que domina pela força as eleições, 
reconhece nisso a falta de popularidade. 



o PANORAMA. 



lÕíi 



o IMPÉRIO D ANNAM. 

Havondo nós. nos números 2 i' 20 do Pannrama 
(lo anno pussatlo, (aliado do templo de Fai-Fo. e 
das barracas annamitas, na índia d'além do Gan- 
ges, apenas nos limitamos á descripção d'esses 
edifícios, sem tocarmos ua historia do paiz ; o 
que, sem deixar lacuna no assumpto ([ue então 
nos propozemos, licava nuiiloiuiuem das exigên- 
cias históricas. 

Para salislazer essas exigências, começamos 
hoje a publicar resumidamente a' interessante his- 
toria do império d'Annam, ([ue. estamos certos, 
agradara aos nossos leitores, em vista dos acci- 
dentes ([ue apresenta. 

Já dissemos nos referidos números, que este 
paiz se estende desde o 9." ate o 2 ".i." grau de lati- 
tude norte, e desde o 1 1 8. "e trinta minutos até ao 
127.° grau e trinta minutos de longitude; ijue ao 
norte e limitado pela China, e seu mar, ao sul pelo 
mesmo mar, e ao oeste pelo reino deSiam; i[ue 
estes estados compõem agora um só império — 
o d'Annam, abrangendo o Tunkin, a Cochinchi- 
na, Tsiampa, Camboja, Lao, Lac-Tho e Kan-Kao. 

A porção d'este império, situada ao sul de Tun- 
kin, é dividida em Ires grandes partes; a primei- 
ra, comprelieude a ponta meridional que íorma 
a extremidade do golplio de Siam, equeoccupa, 
pouco mais ou menos, desde o 9." grau de latitu- 
de até ao 12.°, chama-?eDon-nai; a segunda, que 
íe estende d'ahiatéaolC."grau,Chang:e a tercei- 
ra, situada entre esta e o 17." grau, onde come- 
ça o Tunkin, tem o nome dcllué. A costa marí- 
tima d'estas divisões apresenta bahias e angras 
seguras e commodas. O rio de Don-nai (Cam- 
boja, nas cartas) é navegável para os maiores na- 
vios até á distancia de cincoenta kilometros pe- 
lo interior, onde se acha a cidade de Sai-Gong, 
que tem um porto vasto , e um grande arsenal 
para a marinha. Este rio divide-se em muitos 
braços larguíssimos. 

Na parle que contém Chang encontra-se a ba- 
ilia e enseada deChin-Cheu. Esta é vasta e per- 
feitamente abrigada dos ventos; mas os navios 
de grande porte não podem ahi fundear senão 
quando o mar está agitado, por causa da barra 
que ha na entrada bastante estreita da foz que 
tia bahia exterior ali conduz. No cimo d"esta en- 
seada está a cidade de Quin-Nong. A principal 
cidade da província de llué tem este mesmo no- 
me ; está situada sobre a margem d'um grande 
rio navegável por navios de considerável porte, 
mas uma barra de areia obstrue a embocadura. 
A bahia de Han-San, uma das melhores de todo 
•o Levante, e situada um pouco ao sul deste rio. 
É esta mesma ([ue ordinariamente é designada 
nas cartas pelo nome deTuranne. 

O Tunkin , propriamente dito , tem ao sul a 
Cochinchina e Lao; ao norte, a China pela pro- 
víncia de Kang-Tong ; a este, esta mesma pro- 
víncia e o mar da China (jue forma um golpho 
a que Tunkin dá o nome ; a oeste, Lao, Lac-Tho 
€ as províncias chinezas de Yun-an 6 Kuan-si. | 



Os pontos de contacto de Tunkin com a China 
são. pela maior parte, ermos, onde só ha aguas in- 
salubres; e os limites dos dois estados ainda não 
foram determinados duma maneira jiositiNa. Fu- 
tre o Tunkin e a província de Kang-Tong ha mon- 
tanhas inacessíveis, ijue deixam apenas um iu- 
terrallo, cuja passagem é fechada i)or uma mu- 
ralha , que tem porta guardada por soldados 
d'ainbos os iiaizes ; a fertilidade de 'funkin e 
devida principalmente ao Sang-Koi , vasto rio 
cujo curso não tem menos de seiscentos e qua- 
renta mil metros. Notaremos, de passagem, que 
a denominação de Tunkin não e exacta. O paiz 
assim conhecido na Europa chaiua-se Kiao-Tclii. 
Este- erro nasceu de se atinluiir ao esl;ido o no- 
me da sua capital, ([uc, por alguns tempos, se 
chamou Dong-Kinh Dong, é.ste, a Kinh, cidade.) 
Depois da reunião de Tunkin aos outros estados 
que formam o império (rAunam , acliando-se a 
sua capital ao norte dVste império tomou o no- 
me de Bac-Kinh •cidade do norlc.; e também cha- 
mada Thang-Long-Thanh [cidade do dragão ama- 
rello). 

A Cochinchina é uma liiigua de terra, .sobre 
a margem do mar da China, que, antes das con- 
quistas que a engrandeceram, apenas teria trin- 
ta e dois myriaiuelros de comprimento do noroes- 
te ao sueste. Hoje, comprehendendo-se a parle 
de Camboja, que se lhe reuniu, e o Tsiampa, es- 
tende-.se desde o 9." grau de latitude até quasi ao 
17.°; e muito desegual, pois ijue na maior largu- 
ra tem oitenta a cem kilometros, em quanto que 
em algumas partes, desde o mar ale ao sopé das 
montanhas deshahitadas, esta largura não é de 
mais de ires a quatro kilometros. A Cochinchi- 
na divíde-sc emalta, central e baixa. A capital 
da alta é Phu-xuan ou Hué-fou ; a central tem 
duas, Quin-nong e Quí-phu ; a capital da baixa 
e Sai-gong. Este paiz é lambem dividido era 
sele províncias que são, começando do sul, Bin- 
Thuan, Nah-Trang, Pha-ycn, Quin-nong, Kang- 
ai, Kaug-nan ou llau. è Ilue. A Cochinchina 
confina ao norte com Tunkin, ao este e sul com 
o mar da China, ao oeste com o reino de Siam, 
Camboja e Lao ; e separada de Tunkin por uma 
cordilheira que deixa um intervallo de Ires ki- 
lometros, pouco mais ou menos, fechado por uma 
muralha. O nome de Cochinchina talvez tenha 
sido formado pelos portuguezes. dos nomes de 
kíao-Tclii, Tunkin, e Djinna ou Tsina, China ; 
ao menos é esta a opinião de muitos viajantes : 
outros querem que Cotchiii-Tsína sígnihque em 
japonez paiz a oeste da China. 

Tchiem-Thanh, designado pelos europeus com 
o nome de Tsiampa, Tsiompa ou Ciainpa. está 
incluído na Cochinchina, e é limitado por ella ao 
norle e ao meio-dia, a ésle pelo mar da China, 
e a oeste por Camboja. É um pequeno paiz mon- 
tanhoso, que se percorre em Ires dias de jorna- 
da. Pode divídír-se de este a oeste em três par- 
tes : a oriental é um deserto, composto de mon- 
tanhas, algumas das quaes são banhadas pelo 
mar. É preciso atravessal-as para ir da baixa 



158 



O PANORAMA. 



Cocliinchina á central ; mas não ha agua potá- 
vel em uma grande parte d'cstc caminho. O cen- 
tro (loTsiampa c habitado c cultivado; a parle 
Occidental c uni paiz de montanhas pelo qual 
vagam alguns homens ijuasi selvagens. A pri- 
meira noticia d'este paiz acha-se em Marco-Polo ; 
mas depois os escriptos dos missionários na Co- 
chiucliina lallara muito d'el!e. Foi um reino po- 
derosissimo, que os europeus não conheceram 
senão ua decadência, e que não existe agora. 
O quarto rei da segunda dynastia tunkineza apo- 
derou-se d'elle pelos íins do decimo quinto sé- 
culo, reuniu-o aos seus estados, e formou duas 
províncias a que chamou Thuan-hoa cKouang- 
nam. 

Continua. 

OBSERVAÇÕES SOBRE ALGUMAS FLORES 
E ARBUSTOS MODERNOS. 

Os ahiitillons são uns arhustos de folhas per- 
sistentes, de florescência continua, e resistem 
ao calor e á secca. São próprios para os segun- 
dos planos dos bosquesinhos, e assaz rústicos 
em quanto ao ar, terreno, e exposição. O iiisi- 
ij-ni-f, que é o mais hello, é também o mais me- 
lindroso. 

As acácias são mui elegantes. A sua ligeira 
folhagem e profusão de flores, juntamente com 
a sua rusticidade, aspecto pittoresco, e facili- 
dade de cultura, fazem-nas procuradas para com- 
posições de paizagens. O húmus vegetal, expo- 
sição arejada, e regas moderadas são próprias 
á sua vegetação. 

As achiménes (gesnerias) são estimáveis pela 
variedade do matiz das flores, que se succedem 
sem interrupção no verão e no outono. Convem- 
Ihes muito o húmus vegetal e a sombra. Na épo- 
ca do repoiso da seiva precisam abrigadas. 

As cyrtandáceus, meias-epephyteas, são pro- 
])rias para guarnecer vasos suspensos nas estu- 
fas, ou nas casas, onde com os seus ramos pen- 
dentes e flori's tubulosas produzem lindo elVeito. 
Precisam do húmus vegetal, sombra c calor. 

As apocyneas são originarias do Brasil. Que- 
rem no inverno o abrigo da estufa ; trabalho 
(jue recompensam generosamente com a grande 
abundância das suas flores cór de oiro. Gostam 
da luz dirccla do sol, e carecem do húmus ve- 
getal, e de regas moderadas. 

\íi astrdplwas devem ser abrigadas no verão. 
Também ([uerem abrigo no inverno, raios di- 
rectos do sol, e terra substancial. 

h^aplielandras são iialuraes das sombrias flo- 
restas do Brasil. CuUivam-se em terra bruyère, 
reservando-as do sol, e do ar. 

As anlocéreas são uns formosos arbustos de 
folhas persistentes, que na primavera se vão co- 
iuindo de folhas brancas e pequenas. Resistem 
ao calor e á seccura. Medrando em todos os ter- 
renos, são j)roprias para formar abrigos contra o 
vento. 

As aruliáceas servem de ornato ás estufas e 



jardins, e teem um aspecto pittoresco. A maior 
parte d'ellas são originarias das regiões tropi- 
caes, e exigem o abrigo da estufa durante o in- 
verno, regas moderadas e terra bruvère. 

A araucária excelsa é originaria da ilha de 
Norfolk. É a mais pittoresca das coníferas. A 
sua forma pyramidal, a ramagem disposta hori- 
sontalmente por ordens continuas é de elegan- 
te efleito. Em Lisboa e Ião rápido o seu cresci- 
mento, que uma da altura de um metro, plantada 
ha cinco annos no jardim do real palácio das 
Necessidades, já chegou á altura de dez metros. 
A cuningliami, a imbricata. e a brasiliense me- 
drara nas exposições frias. Pouco delicadas acer- 
ca da ([ualidade de terreno, preferem todavia 
as terras substanciaes, nas quaes o húmus ve- 
getal se encontra misturado com a areia. 

.Ks azáleas, da China e da índia, são arbustos 
de folhas persistentes, formando tufos elegantes, 
que se cobrem de uma profusão de flores notá- 
veis pelo brilho e frescura das cores, variadas 
desde o branco puro até ao mais vivo escarla- 
te. Pode prolongar-se-lhes a florescência por 
mais de um mez, abrigando-as do sol. Exigem 
terra de bruyère pura, e uma exposição semi- 
sombria, e regas moderadas. 



VIAGENS DE BECKFORD A PORTUGAL. 

cauta xxih. 

Pionua-Veiide. — Caracteres da Còrte. — 
Festas. 

líi de Setembro de 1787. 

Quando me levantei a névoa encobria os ca- 
beços, c o mar distante apresentava o .seu azul 
esplendido. 

Não obstante esperar algumas visitas de con- 
sideração procedentes de Lisboa, a manhã con- 
vidava tanto que não pude resistir a montar a 
cavallo depois d'almoço, correndo o risco de não 
estar presente á sua chegada. 

Tomei a estrada (h; Coitares. O ar estava de- 
liciosamente sereno c fragrante, algum cbuvi.s- 
co que havia pouco cairá refrescou toda a su- 
perfície do terreno, c <-oloria os alcantis para 
lá de Penlia-Verde de purpura e esmeralda ; a 
numerosa tribu das urzes começava a florecer ; 
c os pequenos plainos irregulares, sobre os quaes 
pendem tortuosos sobreiros, e ijue tão frequen- 
temente se euconlrani por a([uelle caminho, víam- 
se cobertos agora de avantajados lirios jirancos 
raiados de carmezim. 

Penha- Verde é de per si um sítio agradável. 
A casa de campo com seus tectos baixos e cha- 
tos e um corpo .saliente n'uma extremidade, as- 
simiilia-so exactamente aos ediíicios das paiza- 
.^ens de Gaspar Poussin : diante de uma das 
fronteiras ha um jardim quadrado com sua fonte 
no meio, e nas paredes nichos occupados por 



o PANORAMA. 



159 



bustos antigos, \rima d'essas paredes variedade 
de arvores sobem a iiraiide altura, e compôein 
uma condeusarão da uiais rica lolhafíiMii. (Is 
pinheiro», que jielo seu lustroso verde deram 
o epitheto a este rochedo poale-agudo (Penha- 
Verde"! são tão pittorescos como os que eu cos- 
tumava admirar tanto no jardim Negroni em 
Roma, e de certo tão aiiliiíos ou talvez mais ; 
a tradi:;ão refere ([ue loraiu plantados pelo afa- 
mado D. João de Castro, cujo coração repoisa 
n'uma capella de mármore á sua sombra. 

Quantas vezes aquelle coração heróico, em 
quanto bateu dentro do mi'llior e mais magnâ- 
nimo seio humano, se allliiiiu depois no seu so- 
cegado retiro ! Aqui, pelo menos, aguardou aquel- 
le repoiso que tão crueimenle lhe negava a cega 
perversidade de seus ingratos concidadãos ; j)or- 
que asna \ ida foi uma ardna contenda, uma lon- 
ga e trabalhosa luta, não só no campo debaixo 
de sol ardente aIVrontando os perigos c a morte, 
mas também na sustentação da gloria e boa fa- 
ma de Portugal contra enredos da corte e vis 
cabalas de invejosos inimigos domésticos. 

Estas paizagens, postoque ainda encantadoras, 
provavelmejite soQreram grandes mudanças des- 
de o tempo do heroe. 

Temos lido que os fechados bosques desappa- 
receram, e com elles muitas das nascentes que 
alimentavam. Fontes architectonicas, alinhados 
terraços, e talhões regulares plantados delaran- 
geiras usurparam o logar d'aquelles vergéis sil- 
vestres e Lorbulhantes ribeirinhos, osquaes bem 
podemos suppor que a phantasia lhe represen- 
tava em sonhos, quando distante milhares de 
léguas do seu torrão pátrio. Essas coisas mu- 
daram ; mas, os homens são o mesmo que os do 
tempo d'elle, egualmente insensíveis á voz fer- 
vorosa do puro patriotismo, egualmente dispos- 
tos a vergar de rastos sob a vara da corrompida 
tyrannia ; e assim pelo despreso com que são 
tratados os sábios e virtuosos, pela vil subser- 
viência a tolos velhacos, as eras, i\ne poderiam 
ser de oiro, se transmutam por alchimia mal- 
dita em ferro oxydado pelo sangue. 

Impressionado com todas as recordações que 
este interessantíssimo sitio não deixa de inspirar, 
custava-me separar-me d'ellc. Uma e outra vez 
segui os musgoso? trilhos, que vão era voltas por 
entre sombrios penedos até á pequena assentada 
da capella funerária, acima da qual se agitam 
com stridor as copas dos pinheiros. 

^"ão vos admirará, pois, que eu viesse preoc- 
cupado, em todo o caminho para casa, daquel- 
Jes mysteriosos susurros, e que em tal disposi- 
ção não me agradasse ver uma procissão de se- 
ges, e uma caravana de burros, encaminhando- 
se para o portão da minha quinta. É certo que 
eu estava preparado para esperar considerável 
afíluencia de visitas ; mas, aquillo era uma inun- 
dação. 

Não vos envio a lista da companhia porque 
vos enfadaria tal individuação, como a mim uma 
similhante invasão em massa. 



Basta nomear-vos dois dos principai-s caracte- 
res, o piedoso ancião, conde de S. Lourenço, e 
o prior de S. Julião, um dos princii)aes validos 
do arcebispo confessor, e pessoa de muito res- 
peito. .\contecendo estar sobre a mesa a biblia 
hollandeza de .Mortier, folliearam-na de um mo- 
do muito grosseiro. F.u que aborreço ver os li- 
vros enxovalhados, e as estampas com as nódoas 
da jiega de um pollegar besuntado, ralhei ao 
conde velho, e lancei um olhar .severo ao prior, 
que debruçava lodo o seu peso clerical sobre o 
volume e dobrava os cantos das paginas. 

Continua. J^ , 



O P1UXCIP.\D0 DE XEITCIIATEL. 

Os successos j)olitii"os de 2 e 3 de Setembro 
de 1S,'ÍG tem chamado a attenção da Europa so- 
bre as suas questões politicas. Deixando estas 
de parte, por não serem da indole d'cste jornal, 
vamos dar alguns promenores sobre a historia 
particular do cantão. 

O principado de Ncufchatel, hoje da Confe- 
deração helvética, corapõe-se do condado de Va- 
leiígin, e do referido principado, com uma su- 
perlicie de quatorze léguas quadradas, e uma 
povoação de setenta e dois mil habitantes, que 
na maior parte faliam o idioma francez, e que 
com poucas excepções pertencem á religião pro- 
testante. 

Quando em 1707 se extinguiu a familia dos 
Longuevilles, por decisão do conselho soberano 
de Neufchatel, assegurou-se este estado ao rei 
da Prússia, como herdeiro da casa de Orange, 
porque os seus direitos eram indisputáveis. Fo- 
ram-llie garantidos depois pela paz de rtrech, 
em 1713. 

O poder real foi muito limitado pelos estados 
geraes do paiz ao conferir-lhe o respectivo se- 
nhorio. Em 180f) >'apoleão induziu o rei da 
Prússia a ceder-lh'o, para o dar com o titulo de 
principe soberano ao marechal Berthier. Os acon- 
tecimentos de 1814 devolveram novamente o 
paiz, com augmento de território, ao rei da 
Prússia, que lhe outorgou uma constituição si- 
milhante á deírenebra, declarando-o ao mesmo 
tempo estado independente, e separado da Prús- 
sia propriamente dita. Alguns mezes depois foi 
cncorporado como único cantão monarchico na 
Confederação. 

Emconsequencia das desordens occorriílas em 
1831, a constituição foi moditicada por disposi- 
ção regia, concedendo-se ao respectivo governo 
separar-se, querendo, da liga helvética, e en- 
trando para esse fim em negociações com a Die- 
ta. Apresentada esta proposta á Dieta, foi re- 
jeitada em 1834, ficando o principado na am- 
bígua posição anterior, pagando ao rei uma lista 
civil de setenta mil francos anuuaes, e dando- 
Ihe um contingente de quatrocentos homens, sem 
embargo do que lhe correspondia como cantão 
siiisso. 



160 



O PANORAMA. 



■ Westas circunstancias se formou um partido 
realista, e outro republicano. Este ultimo ga- 
nhou supremacia noanno de 1847. Um governo 
provisório declarou a delinitiva abrogação do po- 
der monarchico, decretando a iramediata instal- 
lação do systema republicano puro. Uma com- 
míssão especial redigiu uma constituição em sen- 
tido democrático, a (jual foi approvada peia maio- 
ria do povo, e garantida a sua inviolabilidade 
pela Confederação. O rei da Prússia protestou 
solemnemente contra estas alterações, e repro- 
vou especialmente a venda dos bens patrimoniaes 
e ccclesiasticos, a que se procedeu em 1830. 
Um congresso celebrado em Londres em 1852, 
ao qual assistiram os plenipotenciários das gran- 
des potencias, formulou e cx[)ediu um protocolo, 
(jue reporlando-se ao tratado de 1S1.'3, decla- 
rou o direito do rei ao restabelecimento da sua 
.soberania em Neufchatel. Esta disposição vigo- 
rou as esperanças do i)artido realista, e foi o 
motivo porque este, não podendo por outro mo- 
do conseguir o restabelecimento do antigo syste- 
ma, lançou mão da força, combinando asurpre- 
za, que teve em resultado tão infeliz êxito. 



REL.\C.\0 DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
^ EMA CIDADE DE ANGRA. ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QUE SE PERDEU EL-REI D. 
8ERASTIÃ0 EM AFRICA. 

' Continuação.* 
LXIII 

■ ■ ,' .-■ De comn foi cn,í;anar rom similliaiite.< enganos 

.,. , , , o ililo Amador Vieira, a Francisco Gil, lii- 

■"' ' loto. e outro pilolo francez 

Havia nesta cidade um homem mancebo, na- 
tural delia, piloto, por nome Francisco Gil, tillio 
de Gil Rodrigues. Parece que Manuel da Silva 
tinha delic alguma suspeita, e o disse ao dito 
Amador Vieira, o (|ual se foi logo ter com elle, 
e lhe começou logo a descubrir o ([ue tinha tra- 
tado com Gaspar Gonçalves deUtra, e com seu 
irmão; c que Manuel da Silva o tinha como pre- 
so, e o não queria deivar ir ; (|ue remédio teria 
para se jindcr ir desta ilha, para onde [lodesse 
.ser. O pobre homem, enganado da maldade de 
Amador Vieira, em vez de lhe dizer que lhe da- 
ria remédio ao que lhe pedia, descubrio-lhe seu 
peito, e tudo o que sabia, e o que tinha deter- 
minado, e com muito conteiitamenlo lhe disse, 
que um piloto francez tinha um patacho, e elle 
havia levar cartas de certos homens desta cida- 
de a el-rei Filippe, para «jue, ijuando vies.se a 
armada no verão sobre esta ilha, por donde lhe 
haviam dar entrada ; e que estavam esperando 
occasião de vento noroeste esperto, para a horas 
de meio dia, ou de noute por escuro botarem 
pelo meio das fortalezas, poríjue tinha o patacho 
fora de todos os navios, e lho mostrou, dizendo- 

(■) Do nura. 11. 



lhe quem eram algumas das pessoas que o fa- 
ziam ir. Disse-lhe todas as que sabia, nomean- 
do-lhe um Melchior Affonso. Disse-lhe o dito 
Amador Vieira que não fo.ssem sem elle, porque 
lhes havia de importar muito, e que lhes havia 
fazer botar o habito, e muitas mercês. Ficou o 
dito Francisco Gil cheio de grande contentamen- 
to, dizendo-lhe : Snr. Amador Vieira, eu direi 
a V.m. (jKondo ha de ser: esteja V.m. aviado, 
e seu romjuinlieiro, porque depois de estarmos 
dentro uo pntarlto fará V. m. que vae a folgar 
em um barquinho ás vaus ancoradas, correndo-as, 
porque de V. m. não se ha de suspeitar cousa al- 
guma. E íicou isto assim, e Amador Vieira a 
fazer estas boas obras, tinha ainda ijue correr, 
já tinha este pobre descuberto. 

LXIV 

De como Amador Vieira .se foi ter com Mel- 
chior Affonso, a descubrir-lhe seu falso e 
fingido intento, como aos outros. 

Vivia nesta cidade um Melchior Affonso, na- 
tural delia, que tinha andado nas índias deCas- 
tella muito tempo, e vivia honradamente. Poi- 
se ter com elle o dito Amador Vieira, com a 
mesma toada atraz, para lhe descubrir seu peito 
á sua vontade. Como o dito Melchior Aifonsa 
não podia deixar de ser descuberto pelo muito- 
cabedal que mettia, e os muitos a quem se ti- 
nha descuberto, saltendo ([uc o dito .Vmador Viei- 
ra tinha vindo com cartas d'el-rei Filippe ao Snr. 
D. .\ntonio. teve-se por muito seguro. Descubrio 
quanto tinha imaginado, e a gente que tinha 
certa para o elfeito que pretendia. Vivia elle 
perto de um forte na freguezia de S. Matheus, 
perto da cidade : disse ([ue tinha escripto a Sua- 
magestade, que vindo as armadas ([ue se faziam 
sobre esta ilha, que viessem ter defronte da- 
quelle forte, porque estavam appellidados cem ho- 
mens do seu serviço, em vindo a armada defronte 
delle, para pegarem nos bombardeiros e solda- 
dos que dentro estivessem para os amarrarem, 
c que como estivessem senhores do forte haviam- 
de pôr por signal uma bandeira branca, porque 
licavam com a artiiheria senhores do mar e dd' 
terra (A 

Continua. 



Publicou-se o 3." volume da Enehh de Vir- 
iilio, por Barreto Feio — preço 1:000 reis. 



Publiiou-se SrvMBiL, comedia em :< actos e 
O (]uadros, original de Ari.stides Abranches — 
preço 300 réis. 

Cj Nesle losar faltam duas (laiçin.-is no manuscripto. que 
coniurcliciidiam o lini divte capitulo, u o |jrincJ]iio tio capitulo 
lAV. 



2! 



o PANORAMA. 



tom 




PO>TE D ALLAJI-VERDI-KHAN. 



Em Ispahan, sobre o Zendeh-Ronli, aclia-se 
lançada a ponte de Djonlfa ou d'Allah-Yerdi- 
Khan, a mais elegante das da Pérsia : tem du- 
zentos e quarenta metros de coraprimesito e tre- 
ze de largura. O centro é reservado para os vian- 
dantes a cavallo e bestas de carga ; década la- 
do ha uma galeria d'arcadas, para os que pas- 
sam a pé, de três metros de largura c de oito a 
nove d'altura. É sobrepujada por uma plata-lor- 
ma, guarnecida de parapeitos, para a qual se sobe 
por uma escada situada nas torres que se acham 
nas extremidades das galerias. Pode também pa.s- 
sar-se os arcos da ponte, quando a agua vae bai- 
xa, por meio duma galeria (jue os atravessa, e 
de pedras que se elevam do leito do rio, e estão 
distantes umas das outras obra d'um passo. 

Esta ponte é construída de ladrilhos e pedras 
calcarias muito duras. Os arcos são trinta e qua- 
tro. 



O IMPÉRIO D ANN.\M. 

Continuação. 

Camboja ou Cambodia começa um pouco aci- 
ma do 9.° grau de latitude, e acaba no íi.° 
K ésle tem aCochinciíina eoTsiampa ; a oeste, 

VOL. 1. 4.* SESIE. 



, O reino de Siam ; ao norte, Lao; e ao sul, a 
jCociíinchiua. Este paiz e agora chamado Kao- 
mien ou Kao-raen pelos tutikinezes ; antigamente 
i chamavam-lheTchan-lap, o que é a mesma coisa 
que o Tchin-la dos chins. Camboja, designada 
pelos habitantes com o nome de Youdra-Skan, 
|e uma região fértil, que só t(m duas cidades 
principaes, Penom-Peng ou Ca-Lompé, a capitai 
I moderna, e Pontai-Pret, a antiga, mais conhe- 
cida pelo nome de Camboja. Camboja foi ura 
'reino muito poderoso visto que no decimo século 
pôde conquistar a Cochinchina. Depois de diver- 
sas alternativas de elevação e decadência, de 
conquista e submissão, foi, cm 1809, encorpo- 
rado delinitivamente ao império d'Annam. 

O Lao, ou Mi-lao, é um paiz pouco conheci- 
[do; eslende-se do íi." ao 18." grau de latitu- 
1 de ; ao norte confina com Lac-Tho e Tunkin, ao 
!meio-dia com Camboja, a este com Tunkin e a 
j Cochinchina, ao oeste com o reino de Siara. A 
capital é lian-Niech. Este paiz é banhado por 
um grande rio, chamado ílaykang. 

O Lac-Tho é desconhecido na Europa. Ainda 
que pequeno, formou comiudo outrora um es- 
tado independente ; é limitado ao sul pelo Lao, 
ao norte e a este por Tunkin, e a oeste pela 
China. 

Finalmente, Kan-Kao, chamado Ila-ticn pelos 

MAIO, 23, 1837. 



ie9 



O PANORAMA. 



cochinchinezes e Palmerinha pelos portuguezes, 
é uma pequena soberania, situada na extremi- 
dade sul de Camboja, sobre a costa oriental do 
golpho de Siam. Ha muito tempo que o cliele 
d'este estado tem só o titulo de governador : é 
tributário do imperador d'Annani, tendo-o já 
sido do rei da Cochinshina. 

A. origem dos tunkinezes e dos cochinchine- 
zes, como a de todos os povos que conquistaram 
as grandes ilhas do archipelago da Ásia, tem 
estado occulta até hoje ; comtudo alguma simi- 
lliança na religião, nos costumes, e principal- 
mente nos preconceitos que se perpetuam nas 
classes inferiores, e resistem ao tempo e aos 
acontecimentos, poderá fazer suppor que estes 
povos descendem dos chins, expulsos da sua pá- 
tria pelas invasões successivas dos tártaros , e 
que viriam a esta plaga pouco mais ou menos 
doisseculos antes da nossa era. Os prófugos 
acharam opaiz occupado portribus negras, que 
defenderam o seu solo com a energia do deses- 
pero, e lutaram por longos annos. Obrigados a 
rctirar-sc diante dos vencedores e a abandonar 
o litoral, de que, conforme todas asapparencias, 
a natureza os fizera primeiros possuidores, os 
Moyes refugiaram-se nas montanhas do Lao, do 
alto das quaes, ha pouco ainda, estas tribus fe- 
rozes desciam como uma torrente sobre as ter- 
ras, incendiavam as aldèas, talavam os campos, 
e matavam os habitantes. 

Por muito tempo os tuukinezes, quasi selva- 
gens, occupados unicamente era prover ás suas 
necessidades physicas, ignorando o uso da es- 
cripta, não poderam conservar a lembrança do 
passado senão pela tradição oral, sempre tão 
vaga, e incerta ; ha só seiscentos ânuos, pouco 
mais ou menos, queelles começaram a escrever 
a sua historia. Todavia os seus annaes, verda- 
deiros ou falsos, reportam-se quasi ao tempo em 
que este paiz começou a ser habitado, e com- 
prehendem perto de dois mil annos; mas nos 
primeiros tempos , só apresentam os nomes dos 
chefes do estado, seai tocar em nenhuns outros 
factos. 

Os historiadores tuukinezes coUocam á fren- 
te da sua historia uma djuastia de liong-Mang, 
a qual, lendo sido fundada por um bisneto de 
Chiii-Noung, imperador da Cliina, reinou duran- 
te dezoito gerações. Esta primeira lista de reis 
pode ser tida como suspeita, por isso (iucn'ella se 
menciona um fundador descendente d'umd'estes 
antigos imperadores da China cuja existência his- 
tórica é pelo menos duvidosa. A estes reissuc- 
cederam duas pequenas dyaastias, a de Touk e 
a de Trieou, a duração darabas as quaes foi do 
anno 252 ao anuo lOC antes de Jesus Christo. 
Depois a dynastia dos Trien reinou pelo espa- 
ço de noventa c sete annos ; os llan occidcn- 
taes occuparam o throno por cento quarenta c no- 
ve ; os Ilan orienlacs durante cento ([uareuta e 
quatro; os Ngooli e os Luong por trezentos e qua- 
torze. Os chins ajjoderaram-sc então de Tun- 
kiu, c ahi governaram, por vice-reis, durante 



mais de trezentos annos ; mas pelo meado do sé- 
culo decimo, a dynastia dos Ngo foi fundada pe- 
lo genro d'um general chim, e reinou vinte e no- 
ve annos. Depois d'ella começaram as dynaslias 
propriamente tunkinezas, a primeira das quaes, 
a dos Diah ou Dinh, teve por fundador, cm 068, 
um zagal, chamado Bo-Linh, tártaro, que tendo- 
se retirado para as montanhas de Tunkin com 
alguns dos seus compatriotas, incitou-os a uma 
revolução, poz-se á testa dos tunkinezes, venceu 
os chins, e fez-se acclamar rei. Mas sobrevindo 
nova revolução, Bo-Linh foi assassinado, trava- 
ram-se guerras civis, e muitos tunkinezes disputa- 
ram o throno. Umd'estes, chamado Lé-Day-Hong 
ou Lé-Dai-Kanh, foi ahi collocado, e fundou, em 
981, a dynastia dos Lé.Não gosou porém muito 
tempo do seu triumpho: atacado pelos chins, mor- 
reu em uma batalha que lhes apresentou. O seu 
successor, mais feliz, alcançou muitas victorias 
sobre elles, pondo-os em estado de não lhe pertur- 
barem o reinado. Succedeu-lhe a sua posterida- 
de, que sustentou a coroa por mais de dois sécu- 
los. Uma filha d'esta casa, única herdeira do thro- 
no, o levou por casamento para a casa dos Han, 
que já o tinham possuido. Esta nova dynastia, 
conhecida também pelo nome de Tran, come- 
çou em 1226 ; durou cento oitenta e oito an- 
nos, mas foi n'esse tempo inquietada por muitas 
revoluções. Alguns partidos chamaram em seu 
soccorro o imperador da China , que enviou 
exércitos, restabeleceu o antigo domínio, e fez a 
sede d'uma vice-realeza. Tendo os vice-reis cora- 
mettido grandes violências, os tunkinezes rebel- 
laram-se, mataram o vice-rci que então funccio- 
nava, e pozeram á sua frente um príncipe da an- 
tiga familia real dosLé. Lé-Loiera grande guer- 
reiro ; ganhou muitas victorias, expulsou os chins 
do paiz, e, proclamado rei, fundou, em 1428, a 
segunda dynastia dos Lé. Obrigou o imperador 
da China a reconhecer a existência da monarchia 
tunkineza, com o encargo d'um tributo pela exal- 
tação de cada principe ao throno de Tunkin. Al- 
guns historiadores, porém, não suppõem que isto 
tivesse effeito senão até ao sucessor immediato 
de Lé-Loi. 
Continua. 



A COMPANHIA HOLLANDEZA DAS ÍNDIAS 

Assim que os hollandezes começaram a 
animar-se para estabelecer uma pátria livre sa- 
cudindo o jugo hespanhol, cuidaram logo nos 
meios de conservar-se, e considerando bem em 
que o seu paiz não podia sustentar coinmercio, 
que os interessasse com as outras nações, se 
determinaram muitos particulares com a protec- 
ção do publico a armar navios, e a tentar Ibr- 
iuna nos maiores perigos do mar, azcndo opos- 
sivel por se enriquecerem á custa dos bárbaros, 
que n'esses princípios começaram a despojar. 
No auno de 1002 muitos d'aquellcs particu- 



o PANORAMA. 



les 



lares interessados n'este negocio, trataram do 
estabelecimento de nnia companhia, o alcança- 
ram dos Estados Geraes ampla autoridade e po- 
der despótico de inteira soberania no reino de 
Batavia, Jacarra, e de outros logares adjacen- 
tes, para exercitarem n'eiles toda a qualida- 
de de negocio, tratico, c coninicrcio, com facul- 
dade de elegerem governador c magistrados 
não só para a Batavia, mas para a mesma com- 
panhia que se formava em llollanda. 

Para o primeiro estabelecimento delia se IVz 
um fundo de sessenta c três toneis de oiro, 
cada um de (luarcnla mil escudos romanos, que 
eram cem mil tlorins, dividido em mais de mil 
e duzentas pessoas de diversas partes da Euro- 
pa, havendo algumas que tiuham n'esle fundo 
mil e quinhentos florins somente, ao mesmo tem- 
po (jue outras tinham sommas muito conside- 
ráveis. Pode dizer-se (lue dos judeus era a maior 
parte d'este fundo. Â quantia que cada um ti- 
nha na companhia chama va-se acção. Este di- 
nheiro não se podia augmentar, nem diminuir, 
nem mudar, mas podia vender-se, e alienar, co- 
mo hoje éuso n"estas empresas. Quando chega- 
Ta alguma frota grande das índias augmentava 
o preço das acções ; quando se presumia alguma 
perda ou naufrágio diminuia. 

Do dinheiro do fundo não sepagaxa inte- 
resse as partes, mas ([uando chegava a frota, 
depois de descontadas as despezas d'elhi, se 
deixava um quinto para a companhia, e fazendo- 
se uma repartição de tudo o mais, se dividia 
pelas referidas partes á proporção. Dois e três 
annos se passa\ am ás vezes sem os interessados 
tirarem proveito algum, porem havia annos em 
que recebiam vinte cinco por cento, ou mais. 

Esta companhia, em attenção aos relevan- 
tes serviços que o príncipe dOrange fez ao Es- 
tado, estabeleceu-lhe no anuo de Itiíí um fun- 
do de dois toneis de oiro, que são 200000 flo- 
rins, k companhia no seu principio tomou di- 
nheiro a juro até a somma de sete milhões, a 
([ualro por cento, podendo os credores retirar o 
capital quando quizessem. 

Quando chega^a uma frota repartiam-se as 
fazendas e mercadorias a proporção nos seis ar- 
mazéns de Amsterdam, Zelanda, Delf, Rolter- 
dam, Uorn, e Euckusen, logares onde havia as- 
sembleas geraes, tendo cada armazém seus direc- 
tores particulares. Amsterdam tinha vinte direc- 
tores com o salário annual de 3100 libras : Ze- 
landa, doze com 2000 libras; e os outros arma- 
zéns, sete cada um, com 1200 libras. Eram 
cargos vitalícios, c não podiam ser directores 
os judeus, nem dois irmãos, ou cunhados, ou 
primos co-irmãos. De todos estes directores uo- 
meavam-se annualmente dezesete para o gover- 
no geral da companhia. Esta assemblea reunia- 
se três vezes cada anno, em differentes tempos, 
e cada uma das reuniões durava três semanas, 
\encendo cada director uma gratificação. Havia 
um director que servia de procurador da com- 
panhia, tendo em seu poder todos os livros e con- 



tas, subscrevendo egualmentc todos os negócios 
concluídos. 

Esta assemblea dos dezesete elegia o go- 
vernador geral d'enlre os seis conselheiros resi- 
dentes na Batavia, onde o seu poder era sobe- 
rano e despótico, podendo fazer guerras e pa- 
zes, enviar governadores a outras províncias, 
suspender e castigal-os. Lm dos conselheiros da 
Batavia presidia no tribunal da justiça criminal 
e civil, cujas sentenças para se executarem ca- 
reciam de conlirmação do governador ; mas o 
tribunal era tão supremo, ([ue tinha jurisdição 
para condemnar á morte o mesmo governador, 
sendo convencido de traição. 

A despeza da companhia no entretenimento e 
fabrica dos navios, nos salários de tantos mi- 
nistros e ofliciaes, e em tantas expedições assim 
na índia como na Ilolianda, era enormissima. 
Chegou a ter trinta mil homens a soldo, e cen- 
to e cincoenta naus de guerra para as empresas 
e comboios. Muitas fortalezas edilicaram na ín- 
dia. Em 1617 transportaram uma de pedra, fa- 
bricada e preparada em Amsterdam. O rei de 
Bantam deu-lhes licença para que fizessem nos 
seus estados um grande armazém, em que re- 
colhessem as fazendas que traziam da Europa, e 
ajuntassem as que compravam no Oriente. Os 
hollandezes, que formaram o armazém de taboas 
e pranchas, tomaram um grande terreno, e co- 
meçando nos annos seguintes a fazer lastro aos 
seus navios com as pedras talhadas em Hollan- 
da, foram edificando uma cidadella dentro do ar- 
mazém. Logo ([ue a acabaram, guarnecida já 
de arlilheria, abateram em uma noite toda a 
obra de madeira que a encobria, com grande 
espanto dos Índios. O mesmo rei, que não po- 
dia crer aquelle impossível, ficou tão contente de 
ver o cdificio que o queria escolher para sua 
habitação. Então lhe declararam os hollandezes 
que não tiuham ordem para tal, e seguindo a 
responderem com o ruido da arlilheria ás (]uei- 
xas e ás representações do enganado príncipe, 
que veiu assim no ultimo conhecimento de que 
a fortaleza se não tinha construído para elle. 

O governador de Batavia guardava a cha- 
ve dos thesouros d'oude tirava todo o cabedal a 
seu arbítrio. Quando saia do palácio era prece- 
dido de cincoenta guardas de cavallo, uma com- 
panhia de infantería, e doze pagens aos lados. 
-Vs audiências aos embaixadores dos príncipes 
índios eram executadas com grande fausto c ma- 
gnificência. 



A aspereza na reprehensão só deverá ser em- 
pregada, depois de esgotados inutilmente osmeíos 
da docilidade, e brandura. 

Grande parte de republicas tem perecido aos 
golpes de tyrannos, que souberam fingir-«e de- 
mocratas amantes dos povos. 

A sabedoria é um mar sem fundo ; não ha son- 
da, que lhe meça a altura. 



«64 



O PâNORâMâ. 



f;;;-, 




Edifício monumento. 



No passado atino de 1830 erigiu-se cm 
Mashani no condado de York uma bonita capcl- 
la destinada para memoria de Thoraaz Riddeli, 
respeitável e sábio vigário d'esla peqnena cida- 
de, e presidente do instituto mecânico desde 
que foi fundado; por uma subscrijição dos seus 
parochianos e de seus numerosos amigos, de 
quem era venerado e querido, foi erecto o tem- 
plo, concorrendo miiilo o almirante Octa\ io Har- 
court , principal proprietário de bens rústicos 
n'aquelle districto. O estylo da construcção é 
110 gosto da architectura italiana, cora vestíbulo 
espaçoso e boa escadaria ; contém uma hAh 
sala de leitura, bibliotheca, casa para os em- 
pregados, e todas as mais conducentes a esta 
applicação, para que foi feita, com o intuito de 
facilitara instrucção a todas as classes. No con- 
junto das obras se combinou a elegância cora a 
utilidade e a económica , sendo n'eslas essen- 
ciacs condições que sobresae o caracter da na- 
ção britânica. M. 

PAKA.LLELO ENTRE .\S UTTERATUR.VS 
ALEMÃ E INGLEZA. 

Ha poucas semanas que apresentámos nas co- 
lumiias do Panorama um pequeno artigo a res- 
peito da nioilerna litteratura germânica, como 
c()m|)lenienlo de um estudo biograpliico sobre 
llolVmann, (jue pelo mesmo tempo reproduziaraos 
no jornal ; hoje vamos fazer ura ligeiro paralle- 
lo entre aquella litteratura e a britânica, como 
introducção a outro estudo acerca de lord By- 
ron. Cônscios da nossa insulliciencia, e sem pre- 
tenções a chamar nosso ao trabaliio alheio, con- 
fessamos desde já que temos á visla uraaexcel- 



lente obra de Charles Remusat, que seguircmoi 
n'esta apreciação lilteraria. 

A poesia ingleza e a poesia alemã tem am- 
bas o cunho da melancolia, mas differem era que 
aquella se impressiona pelos objectos exteriores, 
e esta vive do aceso pensar, ou antes de visões, 
de delirio. Isto, porém, não quer dizer queseja 
impossível a um poeta alemão descrever os ob- 
jectos exteriores, nem a um poeta inglez pene- 
trar nos mysterios do pensamento. Goethe eBur- 
ger apresentaram a verdade, a natureza, a in- 
genuidade mesmo nos seus versos ; e sem ser 
discípulo de Kant, sem ter estudado em Heidel- 
berg ou em Goetting, lord Byron soube, mais 
de uma vez, rasgar o veo que esconde a alma 
do homem. 

Byron era |iinlor e pensador ; mas se foi o 
maior poeta britânico dos tempos modernos (tal- 
vez de todos os tempos), pode considerar-se ger- 
mânico pela ousadia da imaginação. Todavia, o 
seu caracter individual o distingue dos autores 
alemães, cuja vida pouco activa e uniforme se 
revela nas próprias obras. 

Klopotock passou uma existência socegada. 
Goethe, apesar de haver escriplo o Werther, go- 
sou dos prazeres do homem do mundo, e cum- 
priu os deveres de u;u ministro. Scliiller teve 
uma vida menos tempestuosa do (|ue a sua ima- 
ginação nos quer inculcar ; porém Byron não 
p(>de respirar no meio da sociedade aonde a sor- 
te o collocara, precisava de sensações extraordi- 
nárias ; obstáculos, pi'ri?os, escrúpulos, tudo des- 
presava. Os .seus livros não rebelam o homem 
(Ic leltras f-chado no gabinete de estudo; denun- 
ciam o poeta que st; fez á vela do porto n'ura 
dia de tempestade, que passa a nado o Ilelle*- 



o PANORAMA. 



tGS 



ponto, que vac morrer á Grécia como soldado da 
liberdade 

A vida ociosa dos alemães contrasta siiiiiiiiar- 
mente com a vida activa dos bretões. Por isso a 
poesia germânica é toda contemplativa. Retle- 
xo da acliridade nacional, a poesia ingieza re- 
TÒ-se nos campos cuidadosamente cultivados, ver- 
des e risonhos ; no< ril)i'iros arlisticaniente e.i- 
canados ; nos opulentos castcllos da nobreza ; nas 
machinas de vapor; nos caminhos de ferro; nas 
pontes suspiMisas : no telegrapho eléctrico. Os 
versos dos seus bons poetas parecem escriptos 
ao ar livre dos campos, pintiiudo íiclm.nite lo- 
dos os objectos, e reproduzimlo as impressões 'jue 
elies causam. Transparece ali a simplicidade da 
vida de famiTa, a alegria campestre, em loJa a 
sua pureza. As narraçõ;'s são as mais das vezes 
tocantes e singelas, e mesaio ijuando versam so- 
bre grandes acontecimentos, parece ([ue estes são 
contados diante do lar de velho castello ou de 
humilde cabana, em longo serão de inverno. 

Em geral, o talento descriptivo não falta a ne- 
nhum poeta inglez, mesmo aos pouco conheci- 
dos, mas brilha com o maior esplendor em Biirns, 
Crabbe e Walter Scott. Ealre tantas qualidades 
poéticas que distinguem o celebre B^ron, ne- 
nhuma possuiu, talvez, era Ião alto grau. Nas pró- 
prias pinturas deslumbrantes de Thoniaz Moore 
assoma aqnelle talento; com a diíTerença, po- 
rém, que Moore parece ver a natureza atravez 
de um prisma de cores brilhantes mas falsas. 

\ Inglaterra Itíve o seu grande poeta opiro, 
o seu grande poeta dramático, e ainda no ultimo 
século muitos poetas philosophos ; mas tudo is- 
so passou, e, o que é inexplicável, sob o impé- 
rio da mais adiantada civijisação, a sua poesia 
voltou-se de novo para a natureza ! 

Parece isto um contrasenso, mas não é. Ne- 
nhum paiz, cora effeito, deve mais áarte que a 
Grã-Bretanha ; o aspecto mesmo do solo reve- 
la por toda a parte o esforço do homem. Ima 
cultura aprimorada tem mudado ali a face da 
terra : não se encontram cumes de montanhas 
inaccessiveis ; nenhum ribeiro se despenha em 
torrente ; as serras mesmo deixaram de ser sel- 
vagens. Â industria humana apropriou-sc de tu- 
do : o fogo, a agua, a terra, tudo esta submelti- 
do, tudo está domesticado. Os próprios animaes 
parece prestarem voluntariamente a sua lorça ao 
serviço do homem. O cavallo mesmo, o cavallo 
inglez tão vigoroso e corredor, não rincha de im- 
paciência, não pula com energia, asuairapetuo- 
jiidade pode chamar-se dócil. 

O inglez tem hábitos invariáveis, teme geral- 
mente a mudança, professa a religião da ordem 
estab,;lecida : parece pois que devera ser o povo 
mais prosaico do mundo, e todavia a Europa in- 
teira festeja o canto dos seus poetas. 

Em meio dos milagres da industria, das pro- 
fusões da riqueza, dos requintes do luxo, a ima- 
ginação não tem perdido o seu império na Grã- 
Bretanha, antes pelo contrario tem ganhado mui- 
to. A frescura da sua moderna poesia parece per- 



tencer a outras eras. Mas é que a Inglaterra 6 
poética porque é pittoresca, e a sua maravilho- 
sa agricultura não trata só do útil mas lamb;!in 
do agradável, danlo mesmo ares, ás V(!zes, de 
que cuidou mais de aformoscar do que de fer- 
tilisar o terreno. 

Aquelles campos tão bem lavrados, aqucllas ar- 
vores tão respeitadas, aquelles rib.'iros (lueler- 
tilisam as planícies, teem um aspecto risonho e até 
poético. .\|uelles castellos, onde a opulência os- 
tenta todas as pomsias, são cercados de tapetes 
de r.dva em que p.islam numerosas manadas ; e 
a arte que traçju esses parques imaunsos parece 
íiaver li lo uaicaiUMite em vista inoldarar uma 
linda paisagem. 

O luxo ali não consiste em"al)rir grandes lagos, 
inventar collinas ariiiiciaes, e alinhar alegretes, 
m:is em encanar ribíirjs, cuidar do arvoredo, e 
fechar grandes tapa. las. E.ii toda a Inglaterra se 
encoatr.» unu decidida prediieceão pjlas belle- 
zas naturaes ; desde o lu lis rico ate ao ra lis po- 
bre cidadão, todos apreciam o canijio ; o([ucnão 
succcde em outros paizes, onde o ahL'ão só ad- 
mira as cidades. Qualquer modesta coí/^i^ff apre- 
senta um bonito jardim, donde partem os jasmi- 
neiros c roseiras a forrar-lhe as paredes eaco- 
roar-lhe a porta, crea.ido uma encantadora pers- 
pectiva. Em meio dos th 'soaros de um.i admirá- 
vel vegetação, vè-se uma ruina gothica, as tor- 
res de um antigo solar, osarcosponteagudos de 
velha ahhadia, a hera que forra exteriormente a 
parochia, a arvore abalada e secca a (|ual só a ve- 
lustidadc dá valor, e todos estes monumentos das 
passadas eras são respeitados como taes, ecorao 
ornamentos da paisagem lambem, pelo coramum 
do povo britânico. 

Toda a população toma interesse pelos objec- 
tos que embellesara o logar da sua residência ; 
e esta nação, rainha do comraercio e da industria, 
parece reconhecer com amor que deve á terra a sua 
opulência, a sua gloria, ea sua grandeza. 

A actividade, o goso da lih;.'rdade, e a affei- 
ção por todas as bellezas que o cerca, tornam 
o inglez muito dilTerente do alemão, que está 
condemnado á inércia politica, que é, por ca- 
racter, inimigo do movimento, que, concentra- 
do em si mesmo, despresa os objectos exterio- 
res. Dois poetas, entretanto, que foram contem- 
porâneos, e morreram já n'este século, como que 
se deram as mãos na carreira lilteraria, e apro-* 
ximaram quanto era possível, uma da outra, as 
duas poesias ingieza e alemã. Eram dois talen- 
tos excepcionaes — HofTmann e Bvron! 

Ha uma grande analogia entre estes dois poe- 
tas, tanto na vida errante que levaram, ainda 
que por dilTerentes motivos, como em parte das 
suas obras; o leitor, que não conhece de perto os 
inimitáveis livros destesaiitores, poderá comtudo 
avaliar a verdade da nossa asserção, comparan- 
do o estudo biographico sobre lord Byroa , que 
vamos começar no seguinte numero do Panora- 
ma, com outro estudo que estamp inns n'este mes- 
mo semanário acerca do iramoriai H )fTmann. 

F. M. fionoÀLO. 



166 



O FàNORãMâ. 



os DIABINHOS. 

CONTRABANDO DE VISEU. 
I 

Era em tempo de segadas, 
Grande aperto de serviço, 
Descansar (mesmo ao domingo) 
Era bom, nem fallar nisso !... 

Tinha o lavrador Fernandes 
Uma campina de trigo, 
Fazia mister segal-o 
E ninguém tinha comsigo. 

Scismava o bom lavrador 
Roendo o cabo á foucinha. 
Quando vè chegar á beira 
Homem que de longe vinha. 

— Amigo, diz elle a pressa, 
Quer você ganhar jornal? 
Fique comnosco e verá 
Se lhe corre a vida mal . — 

= Ua pois muito que fazer ?= 
Diz o tal recem-chegado, 
= Minha gente de trabalho 
Leva tudo num coitado. =(^*) 

— Que fazer?!... olhe esse campo 
De trigo já a largar. 

Que é preciso ser segado 
A'manhã o mais tardar. — 

= Amanhã será segado. 
Se promette pagar bem. = 

— Pagar bem?!... olé se pago!..- 
Mas a gente aonde a tem? — 

= Eu bem sei aonde a tenho, 
Não lhe dè isso cuidado : 
Terá em medas o trigo 
Amanhã logo ao sol nado.= 

Fernandes correu a casa 
E gritou ao ver Maria : 

— Temos grandes novidades ! . . . 
Novidades de alegria ! 

Com homem desconhecido 
Justei a grande segada : 
Ha d'estar na eira o trigo 
Amanhã de madrugada. — 

" Olha lá não vá ser isso 
Tramóia do inimigo !...» 
' — Pois quer seja, quer não seja, 
Quero ver segado o trigo. 



('] Termos próprios da geuic do campo. 



■1' 



11 



A lua nascia, 
Os ventos sopravam, 
Â. porta dos heidos • 
Cachorros ladravam. 

O gallo cantava, 
Tornava a cantar, 
Lá no campanário 
Meia noite a dar. 

De casa sozinho 
Fernandes saía 
Em casa resando 
Ficava Maria. 

Ao campo de trigo 
Fernandes chegou. 
Que tal foi a peça? !... 
Ninguém avistou. 

Encontra o coitado 
O campo deserto ; 
Nem um segador, 
Nem longe, nem perto. 

O trigo c'o vento 
Rugia c bailava : 
Da magoa do dono 
Parece zombava. 

Retira-se á pressa, 
Fernandes zangado. 
Descobre um pipinho 
Ao pé do vallado. 

— Um pipo !... diz elle, 
Tem vinho de certo! 
Pois s'elle tem vinho, 
A gente está perlo. 

Arreda !... é pesado 
O tal barrilinho ; 
Vejamos então 
Se é bom o seu vinho. — 

E tira o batoque 

O bom lavrador. 

Jesus ! . . . que tormenta ! . . . 

Que susto e pavor!... 

Do pipo scsgueiram 
Rapazes aos gritos !... 
São tantos c tantos, 
E tão pequenitos !!!... 



Parecem abelhas- 
Era sestas calmosas, 
Buscando ligeiras 
Boninas e rosas. 



o fânobâmâ. 



169 



Camisas traziam 
Tão frescas !.. . lavadas, 
Que mais escurecem 
Carinhas tostadas. 

Barretes vermelhos 
Com borlas caidas ; 
Nas mãos còr da noite 
Foucinhas polidas. 

Pulseiras e brincos 
Da mais tina prata, 
Anneis de brilhantes, 
Fachas d'escarlata. 

Os pescoços nus, 
E nus os bracitos. 
As peruas esguias, 
Os pés de cabritos. 

Guinchavam os demos : 
— «Pra onde... pra onde"?»- 
Cercando Fernandes, 
Que nada responde. 

Pois cuida vae ser 
Dali arrastado 
Ás portas tio inferno 
Vestido e calçado. 

Mas a vozeria 
Cresceu tanto e tanto, 
Que o mesmo terror 
Lhe tira o quebranto. 

E toca no pipo 
Gritando assustado : 
— Aqui !... no barril ! 
Ó rancho damnado 1 — 

A chusma guinchando 
Entrou no pipinho : 
Á. solta não hca 
Um só diabinho. 

Fernandes o pipo 
Batoca apressado ; 
E foi-se esconder 
Atraz d' um silvado. 

E logo avistou, 
(Favor do luar) 
O homem do ajuste 
Que vinh'a chegar. 

Chegado que foi 
O tal sugeitinho 
Do pipo soltou 
O bando damninho. 



O homem lhes brada : 
=.Vo trigo ! o caluda !... 
Segar e ajuntar ! 
Caterva miúda. 

Em medas na eira 
Depois arranjado. 
Madraço nem um I... 
Nem umdesazado.= 

Oh, que barafunda 
No campo e no ar ! 
O trigo se via 
Cair e voar. 



Suava e tremia 
O pobr'escon(lido ; 
Seu trigo julgava 
De todo perdido. 



Mas finda a tarefa, 
O homem guardou 
Os demos no pipo. 
Que ás costas levou. 

Fernandes na eira 
Deu logo comsigo 
Que gosto ! . . . em medas 
Viu lá o seu trigo. 

A casa regressa 
E diz á mulher : , , 
=Hei d'ir a Viseu..,' 
E dè o que der I 

Irei lá buscar 
Criados ladinos : 
Trabalhem, e sejam 
Embora raotinos.= 

CONCLUSÃO. 

É que lá na grande feira (*) 
Se vendiam em canudo 
Diabinhos a retalho 
Que serviam para tudo. 

Outros dentro de barris 
Aos milheiros cada bando ; 
Mas negocio era este 
Feito -to por contrabando. 



— íi Aonde ?- 
Mil vezes em 
Pulando em redor 
Os taes diabitos. 



» repetem 
aritos, 



Porto, 2G dÂhril. 



M. P. DE SOUSA. 



ÓPTIMO EMPREGO DAS CONDEMNAÇÕES. 

Francisco Xavier de Oliveira conta-nos, nas 
Memorias das suas viagens, o seguinte uso da 
Hollanda: ' . 

CJ Esta crença era geral nas atdéas, e d'ella náscw es- 
se conto que se narra ás creanças. 



i6& 



O PANORAMA. 



i« Aborrecem os hollandezes em lai forma as 
blasphemias, as pragas, easstra-razõesquepara 
evitar disputas entre uns, e outros se tem re- 
partido as cidades em bairros, havendo em cada 
uma d'ellas um juiz, e um Ihesoureiro que tem 
a superintendência de paciíicarem os inimigos, 
provendo em tudo o que é necessário para quie- 
tação do publico, e doconimum. O juiz procura 
accommodar todas as dilTerenças que lhe cons- 
tam : se o não pode conseguir remette-as aos 
commissarios estabelecidos pelos estados. Aquel- 
Je que se acha culpado dando principio, ou causa 
a siniilhantes desordens paga certa condemna- 
ção. O marido que dá em sua mulher paga um 
presunto, ou o seu valor. A mulher que dá no 
marido paga o dobro. O thesoureiro não só re- 
cebe estas condcninaçõcs, mas as que também 
pagam os que não acompanham os enterros dos 
seus visinhos a que estão obrigados. Recebe tam- 
bém dos herdeiros de cada defunto um presente 
voluntário de dinheiro, c o laudemio d'a(|uelies 
que com|!ram terras, oqiial é muito módico, ou 
para melhor dizer aoarbitrio do comprador. Lo- 
go que o Ihesoureiro tem bastante dinheiro em 
caixa, se ajuntam todos os moradores em casa 
do juiz do bairro, onde se elege o sitio e o dia 
em que se hade fazer um festejo com aquelle 
cabedal. Ordinariamente se escolhe uma aldèa, 
onde concorrendo os moradores do bairro por 
temj)0 de quatro dias, se não faz outra coisa 
que comer, beber, fumar, cantar, dançar, e jo- 
gar. Cada morador vae somente com sua mulher, 
iiendo-lhes prohibido levar creanças, nem cães, 
sob pena de novas condemnações. Para estes 
dias de divertimento convém todos em certas 
leis que se fazem, prometlendo observal-as para 
socego, e commodidade do concurso. Entre ou- 
tras se dispõe (|ue se não obrigue pessoa alguma 
a beber coniru sua vontade, que não haja dispu- 
tas, nem blasphemias, e que se não argumente 
em matéria de religião. Se o cabedal das con- 
demnações não é bastante para a despeza do 
festejo, succede algumas vezes íintarem-sc todos 
para inteirar o resto que f.illa.» 



RELAÇÃO DAS COISAS QUE ACONTECEHAM 
EM A CIDADE DE ANCRA, ILDA TEKCEI- 
IlA, DEPOIS QUE SE PERDEU EL-REl D. 
SEBASTIÃO E.U AFRICA. 

- Continuação. ' 

LXV 



c outros muitos que já se não lembrarão. E to- 
dos foram metlidos na cadôa : e porque na cadêa 
estava ja muita f;ente, não cabiam, e deram so- 
bre lieis carcereiros todos a(|uelles que o dito 
Melchior Affouso (iuha assentados, porque lodos 



negaram, nem contra elles havia prova alguma, 
mais que saberem uns dos outros ; e ficou na ca- 
dêa Melchior AfTonso, Francisco Gonçalves, Ál- 
varo Pereira, por haver delles algumas culpas, 
e foi preso no aljube por não caber na cadêa. 



LXVl 



De como foram soltos Gispar Gonçalves d'Ulra e Estacis 
d'Utra seu irmão. 

Depois de presos os sobreditos, foi na cidade 
grande espanto, porque alguns d'aqueUes homens 
serviam officios pelo Snr. D. António, e tinham 
acceitado mercês suas ; e logo se dice que Ama- 
dor Vieira descobrira tudo. E mandou Manuel da 
Silva soltar a Gaspar Gonçalves d'Utra, e a seu 
irmão Estacio dXtra , e os mandou ir aos pa- 
ços e aposentos onde estivera o Snr. D. António, 
e então estava o ditlo Manuel da Silva ; aos quaes 
em os dittos paços fez muitas honras, dando-lhes 
grandes agradecimentos de tal lealdade, de tão 
honrados vassallos ; que se os prendera fora por 
mexericos, que lhe vieram da ilha do Faial, di- 
zendo-lhe que elles eram parentes da mulher de D. 
Christovam de Moura, eque eram muito podero- 
sos na ilha, que nulles estava entregarem-na cada 
vez que quizessem ; e outros mexericos; e que 
tudo tinha por falso , antes elles tinham dado 
de si tal testemunho, que tudo tinham bem des- 
feito, peio que lhe tinha contado António Vieira, 
que com elles fallara ; e que el-rei seu Senhor lhes 
havia fazer grandes mercês, e elle em seu nome, 
e como seu logar tenente; e lhes botou a cada ura 
o habito de Christo, com cem mil réis de renda 
e tença em cada um anno, os quaes elles toma- 
ram, e trouxeram cruzes nos peitos, té a entra- 
da desta ilha Terceira. 

Continua. 



PUBLICAÇÕES LITTERARIAS. 

PRELÚDIOS POÉTICOS 

DE 

J. RAMOS COELHO. 

Com este titulo saiu á luz um volume de poe- 
sias, de 300 paginas, nitidamente impresso, com 
o retrato do autor. Vende-se nas lojas do costu- 
me — preço íiOO réis. 



Publicou-se o 3." volume da Enkiua de Vir- 
gílio, por Barreto Feio — preço 1:000 réis. 



Publicou-se a comedia em 3 acíos c 9 quadros, 
Stamiiul, original de Aristides Abranches — pre- 
ço 300 réis. 



22 



o PANORAMA. 



16» 




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■i^^k:^ 




1 



MCE, A PONTE .NOVA. 



Por occasião do desenho da egreja de Santa Rc- 
parata, já falíamos de Nice on Nizza do Piemon- 
te. O território de que é cabeça esta cidade, em 
geral raontuoso e alpestre, cria corafudo na par- 
te cultivada eproductiva óptimos fructos; porém, 
a sua mais notável particularidade é que, encra- 
vado nos Alpes, participa do clima ríspido epro- 
■prio de montanhas logo a pouca distancia da ci- 
dade, ao passo que esta gosa de tão amena tem- 
peratura que é procurada pelos doentes e vale- 
tudinários para residência no inverno, especial- 
mente os achacados de doenças pulmonares ; e 
também muitos opulentos, especialmente alemães 
e inglezes, a buscam como estancia recreativa nos 
outros períodos do auno. Provavelmente a causa 
de uma transição tão rápida e de assaz definido 
contraste em pequeno espaço nasce da proximi- 
dade domar, sobre o qual Nice parece estar im- 
pendente. De facto vive-se em Nice comon'uma 
feira franca onde concorressem indivíduos de toda 
a parte da Europa, e o homem in>truido e sabe- 
dor das principacs línguas acha sempre conver- 
sação variada e deleitosa. 

Uma das boas vistas da povoação, que apre- 
senta muitas e mui agradáveis, desfructa-se do 
lado da ponte nova. 

Foi capital do condado do seu nome, e depois 
de passar pelo domínio de variõs senhores, encor- 
porou-se finalmente nos estados da corò;> da Sar- 
denha . M. 



VOL. I. • 



SEBIE. 



. , FUNCH.\L. .,. 

.V 29 de Julho de 1772 a expedição comman- 
dada por Cook ao hemispherio austral, tocava 
n'este porto. É curiosa a noticia d'csta ilha, da- 
da por M. Forster filho, que em companhia de 
seu pae, iam encarregados, pelo governo inglez, 
de observações de historia natural. Para vermos 
como os estrangeiros ros avaliavam n'aiiui;lle 
tempo, damos aqui as suas palavras : 

"Funchal está edilicada em forma de araphi- 
theatro, em roda da bahia, no declive das pri- 
meiras collinas. Logo do mar a vista abrange 
todos os edifícios públicos c pariiculares. Estes, 
na maior parte são caiados, e constam de dois 
andares, com os tectos quasi horisontaes, n'es- 
sa elegância d'ama architeclura oriental que se 
não encontra em as nossas casas estreitas, de 
tectos escarpados, e com grande numero de cha- 
minés. 

1 Do lado do mar ha diversas baterias e pla- 
ta-formas guarnecidas de artilheria. O velho cas- 
tello, que domina a babia, eleva-se no alto de 
um negro rochbdo, cerca :'o de bastante agua. 
Outro forte, chnr.ir.do dí S. .íoão, está postado 
n'uiBa visinha eniiii-^ucia, sobranceiro á cidade. 
As collinas por traz do Funchal, cobertas de vi- 
nhas, varias plantações, bosques, quintas e egre- 
jas, augnientam a bcileza da pr.izagem. Isto cha- 
ma ao pensamento os jardins das fadas, e assi- 

MAio, 30, 1837. 



HIO 



o PâNORâMâ. 



íl 



milha-se ao que a historia conta dos jardins sus- 
pensos da rainha Semiramcs. 

o A cidade, porem, não corresponde ao pros- 
pecto que apresenta na bahia. As ruas são es- 
treitas, mal calçadas, e sujas; as casas construí- 
das de pedra negra, e sem ridraças, excepto as 
que pertencem aos negociantes inglezes e prin- 
cipaes habitantes. As vidraças supprera-se por 
meio de rotulas. A maior parte das lojas são 
occupadas pelos criados, armazéns, casas de 
venda, etc. 

'lAs egrejas e mosteiros são muito simples; 
não teem nenhuma ordem d'architectura ; c no 
interior nota-se-lhes falta de gosto. A pouca cla- 
ridadi; que penetra u'est('s edilicios só esclarece 
ornamentos amontoados uns sobre outros n'uma 
forma gothica. O convento dos franciscanos é 
accommodado e espaçoso, porém a cerca mal 
arranjada. .\s religiosas de Santa Clara recebe- 
ram-nos mui politicamente ;i grade. 

«Principiámos na madrugada do dia seguinte 
as nossas excursões, seguindo ura rio que cor- 
re pelo interior do paiz. Era uma hora da tar- 
de quando chegámos a um bosque de castanhei- 
ros, quasi no pico mais eicTado da ilha, e dis- 
tante cerca de seis niiilias da quinta de mr. Lou- 
ghan, onde havíamos pernoitado. Ali era o ar 
mais vivo que nas partes baixas, e uma agra- 
dável brisa contribuía muito para a sua frescu- 
ra. Servia-nos ura preto de conduclor, e ao ca- 
bo de um passeio de hora e meia regressáraos 
á casa que nos oITerecera tão generosa hospita- 
lidade. 

«Entrarei nalgumas observações que fiz du- 
rante a minha estada na ilha, e julgo que serão 
de interesse para o leitor, porque me foram com- 
municadas por inglezes instruídos, e que habi- 
tam a Madeira ha muitos annos. 

«A ilha tem de comprimento quasi cincoenta 
è cinco milhas, e dez de largo, e foi descober- 
ta, em 1119, por Gonçalo Zarco, não tendo fun- 
damento a noticia de qui' o foi por um inglez 
chamado Machin. Acha-se dividida em duas ca- 
pitanias, Funchal e Machico : a primeira tem 
duas judicaturas, que são Funchal e Calheta ; 
a segunda outras (hias, que vem a ser Machico 
e S. Vicente. 

"■runchal é a única cidade. A ilha subdivide- 
.>c cm sele villas, que são Calheta, Camará de 
Lobos, Ribeira, Brava, e 1'onla do Sol na ca- 
pitania do Funchal, que se divide em vinte e 
seis parochias: as Ires restantes estão na capi- 
tania de Machico, compondo-sc de de/.esete pa- 
rochias. Estas Ires villas leeni iionu'. de Machi- 
co, S. Vicente, e Santa Cruz. 

«O governador está á lesta de todas as re- 
()arlições civis e militares tanto dCsta ilha co- 
mo das de Porto Santo, Selvagius, e Desertas, 
onde unicamente ha, era tempo próprio, compa- 
nhas de pescadores. Quando tocámos no Fun- 
chal era seu governador D. António de Sá Pe- 
reira. 

"A administração da justiça depende de um 



corregedor, nomeado pelo rei de Portugal, e or- 
dinariamente é enviado de Lisboa, e amovível 
á vontade da corte. A judicatura tem um sena- 
do, presidido por ura juiz eleito na ilha, e na 
ausência, ou morte do corregedor, é este quem 
preenche as suas funcções. Os negociantes es- 
trangeiros escolhera o seu juiz privativo, cha- 
mado firinwdor ; que é ao mesmo tempo o col- 
lector dos rendimentos reaes, que montara a cen- 
to e TÍnte mil libras esterlinas. Os soldos dos of- 
íiciaes civis e militares, o pret da tropa, as des- 
pezas dos edilicios públicos consomem a maior 
parte d'esta somma. O rendimento consta do dí- 
zimo de todas as producções da ilha, que o rei 
arrecaíla na ([ualidade de grã-raeslre da ordem 
de Christo;'de um inq>osto de dez por cento so- 
bre Iodas as importações, sem exceptuar os gé- 
neros de consumo; e linalmente de onze por cen- 
to sobre o que se exporta. 

"A ilha tem de guarnição uma companhia de 
cem soldados de tropa de linha; porém ha egual- 
niente uma railicía na força de três mil homens, 
que não recebe soldo, apesar do que são muito 
invejados os seus postos em virtude da conside- 
ração que teera. Esta milícia reune-se uma vei 
por anuo, e tem exercício durante um mez. 

«Ha na ilha cerca de mil e duzentos padres 
seculares, e a maior parte d'elles são mestres 
em casas particulares. Depois da extincção dos 
jesuítas não ha nenhuma escola regular excepto 
um seminário, onde se educam dez estudantes 
á custa do rei. Estes pensionistas usara por dis- 
tíncção ura manto encarnado por cima da bati- 
na que é comnium aos outros escolares. Na Ma- 
deira ha também ura deão, ura capitulo, e ura 
bispo, cujo rendimento e maior que o do gover- 
nador, e consiste em cento e dez pipas de vi- 
nho, e quarenta moios de trigo. Pelos quatro 
mosteiros estão repartidos cincoenta ou sessen- 
ta frades franciscanos, e trezentas religiosas das 
Mercês, Santa Clara, Encarnação, e Bom-Jesus. 
Estas ultimas podem largar o habito e casar-se. 

< Era 17G8, os habitantes das (juarenta e três 
parochias da Madeira andavam por 639i;{, sen- 
do 31341 homens e 32;)72 mulheres: mor- 
reram n'este anuo U2i3 pessoas, e nasceram 
2198 ; de sorte que o numero dos óbitos exce- 
deu os nascimentos em 30ii). E provável que 
houvesse então alguma doença epidemica, por- 
que se a mortalidade fosse sempre assim bem 
depressa a ilha ficaria despovoada. .\ excellen- 
cia do cliraa parece confirmar esta supposição. 
Em geral o tempo e doce e temperado no estio; 
o calor muito moderado nas partes elevadas da 
ilha para onde nessa estação se retiram as pes- 
soas abastadas; a neve dura ahi muitos dias, ao 
passo ([ue nas partes mais baixas não atura mais 
de vinte e quatro horas. Sobre a exactidão do 
que narrei a respeito dos oliilos e nascimentos, 
lenho a dizer que me foi communicado pelo pró- 
prio secretario do governador em presença do 
mappa das parochias. 

(O povo é ordinariamente de tez cobreada e 



o PâNORàMà. 



i«Í 



de corpo bem feito, se bera que os pés são lar- 
gos, talvez peia necessulade de trepar as escar- 
padas sendas deste paiz montanhoso. T(>ni o ros- 
to oblongo e olhos negros. Os cabellos, também 
pretos, aunelam-se nalnralmente. Algnns indios 
os teem crespos por cansa do cruzamento com 
os negros. Em geral, as feições, ainda que du- 
ras, uão são desagradáveis. A natureza não fa- 
voreceu as mulheres, pois falta-lhes aquella tez 
brilhante que é o complemento da belleza. São 
baixas, e trigueiras, com os ossos das faces 
proeminentes, pé comprido, e no todo laltas de 
graça. Estes defeitos, porém, d'a!guma forma 
lhes são compensados pelas justas proporções do 
corpo, bem feito das mãos, e >^eus olhos grandes 
e animados. 

Continua. 

\ REALIDADE DO INFINITO Ni) ESPAÇO. 
E NO TE.MPO. 

A medida que os inslr\imentos astronómicos 
se tem ido aperfeiçoando, tem-se também desco- 
berto milhares de estrellas desconhecidas, mais 
afastadas do que as que se haviam observado 
antes: e novos aperfeiçoamentos nos telescópios, 
produzirão novas descobertas. O certo é (jue o 
espaço não e limitado, mas realmente iníinito. 

O que é a \erdade do espaço, também o é a 
lio tempo. O geólogo que estuda a successão das 
camadas do globo e dos seres que ellas encer- 
ram, desde as mais antigas até ás mais recen- 
tes, retrocede espantado ante os milhares de sé- 
culos a que o conduzem os menores cálculos. 
Ua camadas a muitos centenares de metros de pro- 
fundidade formadas de animaes microscópicos, 
muitos milhares dos quaes caberiam n'um de- 
dal. Antes porém que vivessem na superticie do 
nosso globo seres organisados, já elle rolava em 
ibrma de bola incandescente, atravez os espa- 
ços. E esla incandescência não é uma hypolhe- 
>e gratuita, mas um facto estabelecido pela as- 
tronomia, pela mechanica, pela geologia, e pelo 
estudo da temperatura da terra a grandes pro- 
fundidades. Tudo mostra fine desde os tempos 
históricos a temperatura do globo não tem mu- 
dado. Quantos séculos não teriam sido precisos 
para se perder o calor incommensuravel que sus- 
tentava as rochas mais infusiveis num estado 
quasi liquido! E uma \ez tornado solido, quan- 
to tempo não teria sido preciso antes de se po- 
derem estabelecer nelle es seres \ivos! O iníi- 
nito no tempo é portanto tão real como o infini- 
to no espaço, e o homem (jue descansa na idéa 
lie uma existência sem íim para o futuro, deve 
concluir o mesmo a respeito do passado, e deve 
proclamar a eternidade do tempo. 

A noção do intinito não e portanto uma noção 
do entendimento, uma forma das idéas, como 
dizia Kant, mas uma realidade cuja existência 
foi deraouslrada pelos progressos da astronomia, 
e da geologia. 

F. D. dAlmeiw E Araújo. 



AMO A NOITE. 

V. Deus um vate e o mundo o seu poema. 

l..Pl«ES. 

Quando vae findar o dia. 
Quando a lua quer nascer, 
Quando as estrellas começam 
Lá no ceo a apparecer ; 
Quando a brisa docemente. 
Vem depois do sol ardente 
Da tarde que vae findar : 
Nessa hora de poesia 
Tudo diz melancolia. 
Tudo amor faz inspirar ! . . . 



k noite com seus mysterios, 
Que mil bellezas contém ! 
.^qui deslisando a fonte 
E o ribeirinho também ! 
Além n'um ramo visinho 
O canto do passarinho, 
Continuamente a soar ! 
E n'esses bosques frondosos 
Ruidos mystenosos. 
Que não se podem contar!... 



Tem immensa mageslade 
Essas horas de repouso ! 
Tem de certo mais encantos 
Do que o dia mais formoso ! 
Quando se ouve a ramagem,. 
Impeilida pela aragem 
Brandamente se agitar! 
Quando ua haste mimosa, 
A violeta otlorosa. 
Faz seu perfume e\halar!... 



Nesses momentos solemues 
Coiuo é bello então viver! 
Contemplar tanta grandeza, 
E de Deus um tal poder ! 
Esse Deus ([uc só podia 
Crear a noite e o dia. 
Do nada o mundo formar! 
Esse Deus (|ue se revela. 
Na bonança e na procella. 
No soffrer c no gosar ! . . . 



Amo a noite, porque sinto 
Bem suave inspiração. 
Ao ver a formosa lua 
Com seu pallido clarão ! 
Ao ver as puras estrellas, 
Tão brilhantes e tão bellas, 
Matizando um ceo d'anil! 
Sentindo a fagueira brisa, 
Que mansamente deslisa 
Nas lindas noites d'Abril!... 



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133 



O PANORAMA. 



N'essas noites encantadas, 
Que eu amo com tanlo ardor ; 
N'essas noites que nos faliam 
Constantemente d'amor ; 
Os olhos então eu tito 
Lá n'essc espaço infinito, 
Que nos separa dos ceos ; 
E admiro em tal grandeza, 
Immensidadc e riqueza, 
A existência de Deus !!... 



J. A. X. DE MAGALHÃES. 



O IMPÉRIO DANNAM. 

- Continuação. 

Os reis de Tunkin, que se chamam Dovas ou 
Vuas, tiveram, desde o estabelecimento do seu 
throno, grande poder. A nova dynastia dos Lé 
governou paciiicamente pelo espaço de sessenta 
e sete annos ; mas reinando o decimo rei d'esta 
casa, um nobre, chamado Mac, rebellou-se, as- 
senhoreando-se do poder. Outro senhor tunkincz, 
Nquien-Phiioé, liei a seus monarchas, derribou 
o usurpador e restabeleceu a família dosLé.Eui 
recompensa d'este serviço, obteve para si c pa- 
ra os seus descendentes a dignidade de Chna- 
vua, que lhe conferia o governo do estado debai- 
xo das ordens doDova. A creação d'ura segundo 
poder hereditário, de algum modo contraposto ao 
do rei, e um dos factos mais singulares que apre- 
sentam os annaes de Tunkin, e <{uc não tem tal- 
vez análogo nos de nenhum outro paiz. 

A familia dos Nquien-Phuoé não conservou por 
muito tempo esta dignidade, que devia á sua de- 
dicação e lealdade. UmChua-vua deu afilha cm 
casamento a um de seus escudeiros favoritos, cha- 
mado Trinh ou Trin<i; o (jual, destro, sagaz e pér- 
fido, concebeu o projecto de succeder a seu so- 
gro em prejuiso dos cunhados. Com effeito, por 
morte daquelle, conseguiu fazer-se nomear go- 
vernador de Tunkin, e bem depressa depois, por 
vontade ou por força, obteve o titulo de Ciiua- 
vua. 

Doan-Jong, o mais veliio dos Ni[uien, esbulha- 
do por Trinli, viii-se obrigado a fugir para a Co- 
chinchina, oiule, tendo reunido alguns i)artida- 
rios, tentou submellcr os Mac, os antigos usur- 
padores, que, expulsos de Tunkin, se haviam re- 
tirado para as montanhas da Cochinchina, con- 
servando sempre algumas esperanças. N(iuien, 
vencendo-os, e\pulsou-os da Cochinchina, e fez- 
se senhor de todo o [lalz, ([ue só governou sob o no- 
me c autoridade do reiLc. Desde então começou 
uma guerra civil, certamenle sem e\enq)lo nos 
fastos da historia. Viu-sc dois vice-rcis, reconhe- 
cendo ambos, ao menos apparcníemente, a au- 
toridade do mesmo soberano, combaterem-se ca- 
da qual á frente das irojias do paiz que governa- 
va. Esta rivalidade dos Triuh de Tunkin, e dos 



Nquien da Cochinchina , suspensa de tempos a 
tempos por tregoas e tratados, durou quasi dois 
séculos. Em um intervallod'estas guerras, 1553, 
6 que os direitos dos Nquien sobre a Cochinchi- 
na foram reconhecidos, sendo este estado erecto 
em monarchia, como ónus da homenagem, e tri- 
butos pagos ao rei deTukin. Os Nquien, inves- 
tidos na realeza, prestaram sempre a homenagem 
e pagaram o tributo, excepto em tempos de guer- 
ra, para que então este não fosse entregue aos 
Trinh, e lhes servisse para sustentar os exércitos 
que enviavam contra a Cochinchina . 

Depois do estabelecimento dumChua heredi- 
tário em Tunkin, os reis d'este paiz, Dovas, não 
tiveram senão um poder illusorio. Era tala nul- 
lidade do Dova, que não podia mesmo escolher 
entre os seus filhos o que queria por successor. 
Esta escolha era attribuição dosChuas, que não 
deixavam de preferir o príncipe cuja incapaci- 
dade offerecia maiores garantias ao seu poder 
usurpado. 

Em quanto Tunkin gemia sob o jugo tyranni- 
co dos Trinh, que em vão repetidas vezes tentara 
sacudir, a Conchinchina, governada pelos Nquien, 
que quasi lodos foram esclarecidos e virtuosos, 
começava a gosar os beneficios da civilisação, e 
tornava-se rival da potencia de que era tribu- 
taria. O mais celebre d'estes príncipes foi Hien- 
Nquien-Vuong, que reinou quarenta annos. A 
elle deveu a Cochinchina os maiores progressos, 
e a conquista d'uraa parte do Tsiarapa, e das pro- 
víncias septentrionaes de Camboja. 

Finalmente, chegou o momento em que Tun- 
kin se tíu livre da mão de ferro dos Trinh. Ten- 
do um d'estes Chuas sido assassinado e morren- 
do sem filhos, muitos dos seus parentes preten- 
deram essa dignidade, e se pozeram á frente de 
partidos oppostos , que mais d'uma vez vieram 
ás mãos no espaço de oito annos. Com o favor 
d'estas discórdias , o rei combateu os partidos 
divididos, e destruiu-os; a dignidade de Chua 
deixou de ser hereditária, e a promoção a este 
cargo elevado dependeu d'ahi em diante da es- 
colha do .soberano. 

A Cochinchina foi victima de acontecimentos 
ainda mais trágicos, e de maiores calamidades. 
Vo-Nquien-Vuong, que subira ao throno eml7'3'2, 
infiel a antiga virtude de seus antepassados, tinha 
alienado o amor dos súbditos, conferindo por tes- 
tamento o império ao filho d'uma das suas con- 
cubinas, chamado Anh-Vuong , em prejuiso de 
seus filhos legítimos. Este transtorno na ordem 
da successão á coroa excitou descontentamento e 
indignação universaes ; mas as medidas estavam 
tão bem' tomadas que a resistência foi impossí- 
vel, e a submissão inevitável. Fraco, incapaz, de- 
vasso, abandonando o cuidado do imiíerio a um 
miuislro que ja so tornara odioso no lenq)0 do go- 
verno de seu pae, Anh-Vuong opprimiu o povo e. 
tornou aborrecido o seu reinado. Muitas insur- 
reições foram então reprimidas; mas finalmente 
em 1 77-5 rebentou a revolução, <iue, por uma guer- 
ra de vinte oito annos e uma incrivcl alternativa 



o PANORAMA. 



173 



de acontecimentos, levou o paiz ao estado actual . 
Os sublevados chamaram em seu auxilio os 
tunkinezes e lhes facilitaram a entrada no seu ter- 
ritório. O {íeneral tnnkinez, tão politico como 
guerreiro, adrertiu o rei de que não tinha en- 
trado nos seus estados para lhe lazer guerra , 
mas para livrar os seus súbditos da oppressão 
do primeiro ministro; que se elle queria entregar- 
lh'o, retirar-se-hia immediatamentc. Siniilhan- 
te aos carneiros da fabula, que julgam sal var-se 



dos lobos entregando-llies os cães seus fieis de- 
fensores , o príncipe entregou o seu ministro 
ás mãos do inimigo. Quando o general tnnkinez 
o teve em seu poder, marchou contra \nh-Vuong, 
que, privado de conselhos, e incapaz de defen- 
(ler-se, procurou a salvação na fuga. Retirou-se 
para a baixa Cochinchina com tanta precipita- 
ção, ijuc não pôde levar osseus Ihesouros, sen- 
do estes presa do vencedor. 
(Continua.) 



!H 







BGREJA DE GAMSTON. 



O templo parochial deGamston, em Inglater- 
ra, é situado a três milhas quasi de Retford, nas 
margens do rio Idle, e á borda do que foi anti- 
gamente bosque deSherwood. Este edifício, no- 
tável assim pelas recordações históricas , eomo 
pela architectura, foi agora reparado e melhora- 
do, e restabelecido o pórtico do norte, que se acha- 
ra em ruina. 

É dedicado a S. Pedro. O corpo principal e de 
uma só nave, tendo outra ao sul, e a torre ao 
poente; aspilastras eos quatro arcos, que divi- 
dem o lado do sul da outra nave, mostram ser 
construcção do tini do século xiii, e são de bom 
desenho, sobretudo de um gosto particular e no- 
tável os capiteis das pilastras. Os tectos, as fres- 
tas ou janellas, e toda a restante obra datam do 
século XVI. A. torre, digna de menção por sua 
bella structura, é n'um estylogothico primitivo, 
denominado perpendicular. 

Foi originariamente mosteiro e priorado com 
seus cónegos regulares, que viviam em conimu- 
nidade, e eram senhores do território circunvi- 



sinho : o actual proprietário é o duque de New- 
castle, que concorreu com dois terços da despe- 
za total de duas mil e trinta e cinco libras ester- 
linas na actual restauração da egreja, a qual se 
abriu novamente ao culto em 20 de Dezembro do 
anno próximo passado. -'• M. 



BYRON ! 



A apparição de lord Byron na litteratura eu- 
ropea, foi um d'estes grandes acontecimentos, 
cuja influencia se estende a todos os povos, e a 
todas as gerações; não que lord Byron creasse, 
como querem alguns críticos, um novo género 
de poesia, pois não é dado ao homem ser crea- 
dor de coisa alguma ; mas porque ha sido o mais 
poderoso e inspirado interprete de todos os sen- 
timentos, de todas as paixões, de todos os delí- 
rios emlini, <[\\Q marcam a tempestuosa crise en- 
tre os ensaios de uma sociedade nascente, e as 
convulsões de uma sociedade que baqueia. By- 



194 



O PANORAMA. 



ron não inventou essa poesia, que eslava ua or- 
dem das coisas; o que fez foi revelal-a. 

Esta opinião de Ciiarles Nodier acerca do il- 
luslre poeta de qu(; vamos occupar-nos, caracte- 
risaudo devidamente o bardo inglez, justifica ao 
mesmo tempo o nosso desejo de apresentar aos 
leitores do Panorama, não um trabaliio comple- 
to sobre a vida e escriptos de Byron, mas um 
esboceto biographico e uma ligeira anaiyse das 
obras do grande poeta. 

Génio excepcionai, como Hoffníann, o autor 
de D. Juan e Childe-Ilarold tem feito desespe- 
rar milhares de imitadores, de todas as nações 
da Europa. Neste facto está o seu maior elogio. 

Lord Byron nasceu era Londres, a 22 de Ja- 
neiro de 1788, e posto que pertencesse a uma 
famiiia quasi de estirpe real, a sua velha nobre- 
za não o salvaria da obscuridade, se o talento 
o não immortalisasse. 

Um funesto accidente o tornou coxo, apenas 
enxergava pela primeira vez a luz do dia. 

Esta desgraça alíectou-o dolorosamente toda 
a sua vida, a ponto de dizer uma mulher espi- 
rituosa, que lord Byron daria de bom grado me- 
tade da sua gloria, para ter os pés tão formosos 
como as mãos ! 

Mooro conta que, sendo Byron ainda creança, 
e ouvindo exclamar uma pobre mulher, que o 
contemplava : «Bonita creança ! Que pena ser 
eslropeada !» pegara de um chicote e lhe batera, 
bradando colericamente: «Não lalles em tal!« 

Sua mãe tratava-o sempre por cojinlio; os con- 
discípulos da escola chasqueavam-no por causa 
d'aquclla deformidade : e é talvez por isso que 
lord Byron mostrou desde creança um génio con- 
centrado e spleenalico. 

O grande poeta conie;ou o seu tirocínio litte- 
rario na escola de Aberdeen, aos cinco ânuos 
de edade ; depois esteve na escola de Tlarroft, 
mas em nenhuma delias fez grandes progressos 
no estudo ; dístinguia-se mais pelos exercícios 
gymnasticos. 

Em Í7'JG fez uma viagem íá alta Escócia (llig- 
hlands) e desde então mostrou grande sympulhia 
pelas perspectivas da natureza alpestre. Dahi 
data também uma paixão precoce, que inspirou 
ao poeta, durante toda a sua vida, a maior e 
melhor parte dos seus versos. Diz-se que o Dan- 
te se apaixonara por Beatriz, quando apenas con- 
tava nove annos de cdade; porem Byron adian- 
tou-se ao vate florentino, começou a requestar 
Maria Dulí, sendo um menino de oito annos! 

Em 1798 falleceu seu pae, na ahbadia de 
Newstead, c o nosso poeta partiu de Aberdeen 
para tomar conta daquella habitação .senhorial, 
que lhe cabia por herança, pobre herança, na 
verdade ! Desde então começou a estudar com 
mais assiduidade, pelo menos a litieratura e a 
historia, e conseguiu que a cirurgia lhe mino- 
rasse a deformidade do pé, a ponto de poder cal- 
car botins ordinários, o que lhe causou a mais 
vcbementc alegria. 

Em 1801 acompanhou sua mãe a Ch*cllcuham. 



O aspecto das montanhas de Malrers, diz Âmé- 
dée Pichot, renovou-lhe a lembrança das suas 
primeiras impressões. Ao descair da tarde, o fu- 
turo poeta da Parisina e de Zulieka experimen- 
tava sensações estranhas, sonhava acordado pe- 
los desvios da serra. 

Uma casualidade veiu ainda, durante o curso 
d*esta viagem, alimentar a paixão de Byron pe- 
lo maravilhoso, paixão que elle nutria desde o 
berço, talvez devida ao caracter escocez de sua 
mãe, e que o poeta conservou até á morte. Mis- 
tress Byron foi um dia consultar uma cigana, 
annunciando-se como solteira ; porém a bohe- 
mia respondeu-lhe que ella era casada, e que 
tinha um filho coxo, que estaria em perigo de 
ser envenenado antes de pouco tempo, e que se 
casaria duas vezes, sendo a segunda com uma 
estrangeira. Esta prophecia, que se não verificou 
completamente, influiu comtudo no cérebro de 
lord Byron. 

Desde a escola mostrou o illustre poeta uma 
grande aptidão para orador e improvisador, e se a 
tribuna politica não registrou discursos eloquen- 
tes, pronunciados por elle na camará dos lords, 
é ponjue a sua vida errante o afastou sempre pa- 
ra longe da Inglaterra. Sir Robert Peei, seu com- 
panheiro de collegio, e mais tarde ura famoso ho- 
mem de estado e orador distincto, não excedia a 
Byron na viveza e facilidade da declamação. 

Apenas entrado na edade dos doze annos, já 
lord Byron sentia uma segunda paixão amorosa ; 
esta nova emoção ia fazer brilhar de toda a sua 
luz a centelha poética, que o amor de Mana Dufi' 
havia despertado no coração juvenil de Byron. 
Sua prima, miss Parker, gentil raenina de olhos 
negros e profil grego , foi o objecto d'esta nova 
aflVição do poeta, que pouco durou, porque a in- 
feliz morreu desastradamente, dois annos depois. 

Em 180:5 apoderava-se delle ura novo amor, 
mais serio do (]ue os dois primeiros; uma d'e.s- 
tas paixões que lançara raízes fundas n'um co- 
ração de ]it.eta. iMíss Maria Chaworth, filha deuin 
honicin (jue o velho lord B\ ron matara em duel- 
lo , foi a nova Laura deste variável Petrarcha ; 
porem a bidla despresou a alTeiçào do cantor de 
Ilaydee , e chegou mesmo a dizer, de maneira 
que elle ouvisse: Quem acredita que eu pense, 
um momento seijuer, nesse pobre coxo !? 

Byron fugiu daquella mulher, (luelhenãoera 
possível, todavia, deixar de adorar ; e um anno 
depoisj ilespedíndo-se delia, na occasíàode em- 
prehender uma viagem, balbuciou estas palavras; 

— Quando voltar, estareis, sem duvida, casa- 
da? 

— Assim o esjtero, respondeu friamente a co- 
(/ueíte. 

Passado um anno tinha casado. 

Miss Chaworth, tornada mistress Musters, foi 
tão infeliz no consorcio como, mais tarde, o pró- 
prio lord Byron. 

O nosso grande poeta entrou então no collegio 
de Cambridge, mas sem auginentar de assiduida- 
de ás disciplinas escolares. Tratava, com mais 



o PANORAMA. 



19J» 



fervor, de aprender a nadar, e oseudiTertiracn- 
to favorito era fazer manobrar um urso. 

O excêntrico bretão começou desde a mais ten- 
ra edade a viver em guerra aborta com o género 
humano, e aos dezoito annos já vivia também mal 
com sua mãe ; occupava-se por esse tempo, qua- 
si e\clusÍTamente,de atirar á pistola, nadar, ades- 
trar cães para a caça, e representar eiu tbeatros 
particulares. Quasi ninguém o suppunha poeta, 
quando apparcceram os seus primeiros versos , 
colleccionados sob o titulo de Horas vagas, em 
Newark. Este livro foi bem recebido do publico, 
mas violentamente atacado pela fíecistn de Ediín^ 
burgo, em ura artigo de M Brougham. «lue lord 
Byron tornou celebre pela famosa satyra com que 
lhe respondeu, obra assaz conhecida, e que tem 
por titulo : Os poetas iiiglczes e os críticos esco- 
cèzes. Dizem os seus biographos que o illustre 
poeta bebera Ires garrafas de vinho de Borgonha 
em quanto compoz os primeiros vinte versos des- 
ta satyra I 

Byron achava-se numa situação singular. A 
aristocracia, a cujo grémio elle pertencia, des- 
presava-o, e as dividas que tinha contrahidoobri- 
gavara-no a supportar quasi a miséria, por falta 
de recursos. Entre fidalgo e aventureiro, mais in- 
clinado comtudo a carreira de par do reino do que 
á poesia, viu-se todavia forçado, por assim dizer, 
a abraçar a gloria lilteraria. 

l'ma mulher decidiu do seu destino, como suc- 
cede a quasi todos os homens. Uma amante, que 
o acompanhou a Brighfon, vestida de homem, foi 
a origem de todas as historias escandalosas que 
se contaram a seu respeito, e que o resolveram a 
abandonar a pátria, que o não apreciava. 

Tencionava dirigir-seá Pérsia, porémantesquiz 
ir a Londres tomar assento na camará dos lords. 
A í! de Março de 1809 entrou no parlamento, mas 
sem que um só dos membros da camará o acom- 
panhasse, diz com indignação mr. Dallas. A sua 
intenção de deixar a Inglaterra creou desde en- 
tão, se é possivel, ainda mais fundas raizes. 

Pouco depois voltou á sua velha e solitária ha- 
bitação de Newstead, e ahi, segundo as suas pró- 
prias expressões, «destrahia-se em folguedos des- 
regrados, n'uma alegria impia : apreciando só a 
companhia das prostitutas, e dos homens devas- 
sos e grandes bebedores, fosse qual fosse a classe 
da sociedade a que pertencessem. >> 

Em Junho, finalmente, deixou lord Byron o 
solo da pátria, e é d'essa hégira que data a sua 
gloria, como tem succedido a outros grandes ho- 
mens. Lisboa foi o ponto do mundo que o illus- 
tre poeta escolheu para começara sua longa ex- 
cursão, mas não se deu muito bem comosar;>s 
da nossa terra, onde um boleeiro o zurziu com 
o pau do descanso da sege, como faria a qual- 
quer estúpido, por causa da sua i nsolencia de grão- 
senhor. 

As viagens de Byron constituem uma época in- 
teressante da sua vida. O seu caracter, incora- 
prehensivel para o vulgo, nada tinha de attrahen- 
te, todavia encontrou em vários pontos almas que 



o comprchenderam. Uma das suas idéas lixas era 
arranjar uma taça do craneo de algum frade ! Mau 
sestro para viajar então na Península. 

No seguinte capitulo daremos noticia desta poé- 
tica Odissca de Byron, atravez de Portugal, do 
meio dia da Hespanha, Malta, Sardenha, Sicí- 
lia, a Albânia, a lllyria, a Moréa, Thebas, Athe- 
nas, Delphos, o Parnaso, c Conslantinopola. 

(Continua,) F. M. Bordalo. - 



O sacrifício interrompido. 

'- 'J.l 

Em o pagode que se encontra a uma miliiadr 

I Serampor ha um idolo, ao qual passeiam em um 

I carro uma vez cada anno. Mr. de Lanoye conta 

a este respeito o .seguinte caso : 

«Esta festa reúne sempre immensa concorrên- 
cia de fanáticos, e muitos d'elles procuram uma 
morte religiosa debaixo das rodas do carro do 
idolo. lia alguns annos. um gentleman, secreta- 
rio particular do governador geral da companhia 
das índias, passando a cavallo pelo mesmo sitio 
no momento da ceremonia, viu ura d'elles deita- 
do na estrada |)oronde o carro ia passando, ejá 
;!s rodas quasi lhe tocaram, de que se seguiria 
inlallivelmente ticar pisado. .Mettendo o cavallo 
a galope, oinglez precipitou-sesobre oraartyrás 
chicotadas. O desgraçado levantou-se immedia- 
tamente e fugiu a bom fugir, clannndo pela mor- 
te. 

Inteiramente preparado para uma morte hor- 
rorosa , não o estava comtudo para as chicotadas ! 



QUE FIM LEV.i.RAM OS BIGODES ■ 
DE D. JO.VO DE C.VSTRO ? 

.^ historia transmittiu-nos este feito honrado d» 
nobre vice-rei da índia, este solemne testemu- 
nho do valor da palavra de um tidalgo portuguez. 
O penhor que pareceria, a quem fosse menos pre- 
sador da honra, coisa de nenhuma estima, en- 
controu homens honrados que souberam avalial-o 
acima das mais excellentes jóias. A confiança não 
foi trahida — nem podia sèl-o — por quem nos em- 
penhos do patriotismo dava tão subidas proras de 
honra: e salva a possessão, que era uma jóia da 
coroa portugueza, foi resgatada a palavra como 
desempenho do penhor, que passou a conservar- 
.«c no thesouro da família dos Castros, como ve- 
neranda relíquia da lealdade e da honra. 

Folheando alguns manuscriptos da Bibliothc- 
ca Publica de Lisboa, encontrámos entre vários 
papeis o testamento original de D. .Mariannade 
Noronha c Castro, viuva de D, Álvaro de Por- 
tugal, e que falleceu no anno de 1681. .\chá- 
mos n'elle a seguinte verba, a respeito das bar- 
bas de D. ,loão de Castro, e que nos pareceu bas- 
tante curiosa, e digna de publicidade: 

'(Quero mais e ordeno que os bigodes de meu 
« tresavô D. João de Castro, vice-rei da índia os 
« tenham sempre para eterna memoria os ditos re- 



Jl3ft 



O PANORAMA. 



« ligiosos theatinos da Divina Providencia, em lo- 
« gar decente da sua sacristia, com o mesmo or- 
« nato de prata e caixa com que lh'os deixo sem 
< o poderem mudar, nem dcsfazer-se deile, e a el- 
« les deixo o livro da família dos Castros com o 
« mesmo encargo de se não desfazerem delle. » 

O testamento teve seu cumprimento como exa- 
minámos em varias notas ([ue acompanham ou- 
tros papeis da referida D. Marianna de Castro ; 
e portanto os padres theatinos, que no mosmo tes- 
tamento não eram os menos favorecidos, colloca- 
ram as barbas em logar decente na sacliristia, co- 
mo se lhes ordenava. Conservaram-se ali muito 
tempo? Existiriam ainda ([uando em 1833 teve 
logar a extincção das ordens religiosas ? Onde 
existirão hoje? 

Não podemos satisfazer por ora a estas inter- 
rogações. ** 

RELAÇÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
E.M A CIDADE DE ANGRA, ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QLIE SE PERDEU EL-REl D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 



i,; :, Continuação. 

,;: LXVIl 

_.,;De como Manuel ila Silva ordenou tormentos de fogo 
para dar tratos. 

Ordenou Manuel da Silva , por traça de um fran- 
x;ez, uma invenção de tormentos, que taes eram 
elles que tudo quanto elle ([uizesse que lhe des- 
cobrissem, sem ser assim o diziam. Mandava pi- 
zar carvão, c faziam-no em pó que parecia farinha 
coada, e o bolavam em azeite de oliva, efaziam pol- 
mc, (' mandava fazer lume com boa lenha na cerca 
- dos paços, e mandava descalçar os homens, e com 
os pés mettidos em um tronco direilos ao lume, 
com umas serrilhas calçadas, c o polmcalli pos- 
to, e com as mãos tomavam o polme e untavam por 
fora as servilhas, e pés, e os punham ao lume, 
como quem os assava; de maneira (jue se esta- 
vam vivos fregindo ; e o ditto Manuel da Sih a 
a passear e a perguntar ; e os pobres a gritar. 
O primeiro (|ue assim foi atormentado foi o po- 
bre Melchior Alfonso, o ([ual descobriu tudo o que 
linha ditto e o mais <|ue sabia. Tiraram-o en- 
curtado, com os pes assados e fritos, (nie não li- 
caram mais homens, por t|ue por alli lhe derre- 
tiam todos os tutanos do cor[)0. Coiuo lhe con- 
fessou tudo o mandou retirar, e o mandou reco- 
lher para um aposento dos paços, c tudo man- 
dou escrever por tabeliães, e escrivães (juc al- 
li estavam, e eu que vi tudo. Aooulrodiao niau- 
<lou metler na cadea, e isto era ja no anuo (le 
li>S3, e lhe mandou sequestrar todus seus L.i.'iis, 
iazeudo inventario, e lhe mandou (|ue eiii bicvc 
tempo arrazoasse a linal de sua deleza. Cuido (jue 
não arrazoou. Foi sentenciado t|ue fosse arrasta- 
do pelas ruas publicas da Cidade, e enforcado, 
c esquartejado, c a cabeça posla c ]jregada no 
relógio da praça, na torre delle, e os quartos pos- 



tos pelas entradas da cidade, e seus bens per- 
didos para a coroa, por traidor e cabeça de bando 
contra seu rei natural. E dada a sentença lhe foi 
publicada, elogo foram padres confessâl-o e isto 
foi a um Sabbado pela manhan, cos padres es- 
tiveram com elle té a vespora, e á vespora o foram 
tirar do cárcere com a bandeira, e um Crucifi- 
xo, e irmãos da casa da Santa Mizericordia.e ao 
rabo de um cavallo o levaram em ura couro pe- 
las ruas da cidade, e elle muito animado, e lhe 
lembraram algumas cousas pelo caminho de obri- 
gação que tinha a outras pessoas, e se assenta- 
va no couro, e com sua mão escrevia tudo. E as- 
sim foi té a forca, ([ue foi posta ao longo do mar, 
na ponta do cães, e alli enforcaram o desgraça- 
do Melchior AlTonso, morrendo muito animado,; 
pedindo perdão a todo o povo se lhe tinha dado 
escândalo no caso que linha ordenado. E alli o 
es(|uartejou o algoz, e no mesmo cavallo foram pos- 
tos os quartos, e os levou aos logarcs em que cos- 
tumavam pòr-se, e a cabeça á praça pregada em 
um pau que estava atravessado em cima no re- 
lógio, ou na torre delle, aonde esteve té que .se 
entrou a ilha, que foi em 20 do mez de julho do. 
ditto anuo de ly83. 



LXVIII 

Do como foi muita gente pedir a Manoel da Silva manda.sse 
liríir a cabcija de Melchior AQonso, e do que elle respondia. 

Este homem era casado segunda vez com uma 
Izabel de Nabais, que ainda c viva té esta era 
deltill, e havia pouco tempo que era com elle 
casada, e tinha dois meninos delia, e da primei- 
ra mulher tinha outra hlha, e um hlho ausente. 
Depois de estarem alguns tempos os quartos pos- 
tos j)elas portas da cidade, com licença do dilto 
Manuel da Silva foram enterrados. Era elle na- 
tural da cidade, e linha parentes ; ca mulher de 
honrados parentes, e parte delles muito do ser- 
viço do Snr. D. António. Metteram rogadores ao 
ditto Jlanuel da Silva, se lhe queria dar licença 
para tirarem d'alli a cabeça, que os mesmos mo- 
radores da cidade tinham compaixão de a verem 
alli ; e destes rogadores iam os mais dos dias mui- 
tos sem se poder acabar com elle o tal. Conliuuou- 
se por espaço de tempo com os dittos rogos, era 
por demais : foram um dia muitas pessoas jun- 
ctas para ver se o podiam abrandar d'aquella tei- 
ma, onde foram alguns religiosos, por amor dos 
(juacs o ditto Manuel da Silva tinha concedido al- 
gumas cousas. Deliberou-se o dilto Manuel da 
Silva com isto, porque lhe não fallassem mais, e 
dice : l'ara que é já porfiar nisso? Se eu houvera 
de dar lai licença para se tirar a cabeça desse ho- 
mem, já a houvera dar : mas forque me não por- 
fiem, a/jirmo, que quando cireui tirar d' alli a ca- 
beça de Melchior A/fonso, que se hade pôr a mi- 
nha ; c com isto vão todos desenganados , e não 
cancem mais. Este ditto de Manuel da Silva se 
cumpriu á risca, e assim foi, porque a de Mel- 
chior AlVonso se tirou, e se poz a do dito Manuel 
da Silva, como ao diante se contará em seu logar. 
(Continua.) ^ 



23 



o PANORAMA. 



139 




^fsm 




SARLAT —- LANTERNA DOS MORTOS 




No departamento do Dordogne, estáSarlat, ci- 
dade pequena e cabeça de uma comarca que por 
muitos é chamada o Perigord negro , formando 
parte do departamento o antigo Perigord. É si- 
tuada n'um Talle sombrio e fundo, rodeado de 
montanhas cobertas de castanheiros ; deve a sua 
fundação a uma antiga abbadia de benedicti- 
nos que o papa João x\ii erigiu era bispado, ho- 
je transferido para Perigueux, capital de toda a 
provincia. Talvez que esta circunstancia de ser 
sé episcopal fosse a causa de não a abandona- 
rem os seus antigos habitantes, visto ser expos- 
ta a frequentes inundacijes e estar muito distan- 
te das estradas reaes e outras mais importantes 
vias de communicação. Actualmente o conimor- 
cio que nella se faz, e achar-se elevada a ca- 
beça de cantão, conscrvam-lhe ainda sufficiente 
actividade. É triste, e as ruas tortuosas são to- 
davia guarnecidas, pela maior parte, de elegan- 
tes casas doestylo, e sobretudo do tempo da cha- 
mada renascença ; sendo as mais agradáveis as 
que pertencem á época dos reis Francisco i e 
Henrique ii. 

O templo principal de Sarlat, posto que vas- 
to, pouco tem de notável, algumas estatuas niu- 

VOL. I. 4.* SERIE. 



tiladas por cima da portada e um cruzeiro do sé- 
culo XIV, mui despido de ornato, eis unicamen- 
te o que pode entreter por minutos a attenção. 
Porém, no cemitério acha-se um monumento di- 
gno de ser conservado e examinado : é uma ca- 
pella scpulciíral, coroada pela cúpula ou rema- 
te, a que ali deram o aoma de lanterna dos mor- 
tos. Os edifícios d'cste género são raríssimos; os 
fachos ou pharoes construidos nos séculos xii e 
xiu nos cemitérios consistiam de ordinário n'u- 
nia simples colunina quadrangular, no sócco da 
qual se formava um altar de pedra. Âscapellas 
sepulchraes com fachos foram quasi todas des- 
truídas ; a do antigo cemitério das religiosas de 
Fontevrault, que ainda ali se vê no passeio pu- 
blico, e quadrada, llanqueada de escarpas, ena 
cobertura do alto, que e de cantaria, surge uma 
columna òca de duas braças de elevação, rema- 
tada por uma lanterna octogona. A capella de 
Sarlat é inteiramente redonda ; o pavimento tér- 
reo, do estyio byzantino, era alumiado por uma 
porta ogival e três janellas da mesma forma, ho- 
je tapadas , porque serve de paiol da pólvora ; 
havia dentro um altar e a abobada era em for- 
ma de cúpula ; o primeiro andar recebia luz de 

JUNHO, C, 1867. 



tS8 



O PANORAMA. 



quatro aberturas de figura curva, ena parte su- 
perior ou anilar ultimo, c que termina cm forma 
cónica, passava por alguns buracos quadrados a 
luz do fogacho «lue ali se acendia todas as noi- 
tes. 

O seminário de Sarlat é o edifício que se vê 
no fundo do desenho e do lado direito. 

M. 



BYRON ! 

Continuação. 
II 

Em Julho de 1809, contando apenas vinte e 
um annos de edade, partiu Byron de Inglater- 
ra, como dissemos, dirigindo-se a Lisboa, cm 
companhia de rar. llobhouse. Da nossa cidade 
escrevia elle a mr. Uodgson (provavelmente an- 
tes da desavença com o boleeiro) estas palavras, 
assaz lisonjeiras para nós: — « Sou felicíssimo 
aqui. Como laranjas; failo péssimo latira com 
os frades, que clles comprchendem como se fos- 
se o seu; vou ás reuniões com pistolas na algi- 
beira; atravesso o Tejo a nado (duvido, e creio 
que os leitores também !) e galopo sobre um bur- 
ro ou sobre uma mula; praguejo em portnguez; 
e além de tudo isto tenho diarrhéa, e sou de- 
vorado pelos mosquitos Mas que importa? Quem 
corre atraz do prazer, precisa não attender mui- 
to á cominodidade.» 

Depois, no primeiro canto do Clnldc-Iíarold, 
ainda fallou assim do nosso paiz: 

6 Christo, como é bello contemplar-se 
Quanto por essa terra de delicias 
O ceo fizera ! Que fragrantes fructos 
De rubicunda còr as arvores pejam! 
Sobre as collinas que formosas scenas! (•) 

Mas logo, mais abaixo, accresccnta (e tradu- 
ziremos em humilde prosa os excelieutes versos 
do autor) estas expressões pouco lisonjeiras pa- 
ra o nosso amor pro[irio : 

«Pobre povo de escravos, nascido em tão for- 
moso clima! O natureza, para que prodigalisas- 
tc os teus dons a similhaiiles homens?» 

Depois, (|uando [lassou á Ilespanlia, ainda nos 
mimoseia com esta delicada comparação : 

«O mais pobre aldeão hespanhol, tão orgu- 
lhoso coaio o primeiro dos seus duciues, conhe- 
ce i)('m a distancia ([iie o separa do escra^o por- 
tugucz, o ultimo dos cscraNOs!» 

Isto ainda eram reminiscências do pau do iles- 
ranso do seu amigo boleeiro. 

Deixemos porém de parle esta niesriuinha vin- 
gança exercida sobre lodo um povo, por causa 
de uma ([uestão ad Itoniinem, e tratemos do gran- 

- _ (') Eslc» versus s5o tiaduziíios pelo doulor Francisco José 
Pinueiru Guiiiiarãct, 



de poeta, com a veneração d'^vida ao seu alto 
talento. 

"Bclla Hespanha ! Reino glorioso e românti- 
co!. . .» exclamou Byron ao [lassar o Guadia- 
na ; e chegando a Cadiz, apaixonou-se por uma 
andaluza, daquellas que elle pinta enthusiasli- 
camente «com longos cabellos negros, olhar pe- 
netrante e ao mesmo tempo languido, tez more- 
na, e ademan gracioso.» 

Porém Byron não se demorava em nenhum 
ponto ; apenas Veneza pôde, mais tarde, reter 
por dois annos nos seus cjnaes e pontes o volú- 
vel poeta. 

Pouco tempo depois, tinha esquecido a gentil 
hespanhola, e nos braços de iima interessante 
compatriota, passara dias alegres sob o bello 
sol de Malta. 

Saltando de ilha em ilha, ora açoitado pelo si- 
rnco, ora contemplando a calma das vagas azues 
do Mediterrâneo, descansava um momento na 
Sardenha para coliíer a herva milagrosa que pro- 
duz o risus sardonicus, e comer das suas deli- 
ciosas laranjas, qiie Byron tanto apreciava; de- 
pois ia extasiar-se na presença do Etna, e re- 
cordar a terrível scena das Vésperas na própria 
Sicilia. Mais tarde recordava-se da mythologia, 
visitando o archipelago, sulcando as aguas do 
mar Egeo, cruzando o Peloponeso, e entrava na 
fabulosa Grécia. 

(Vetusta cidade, augusta Athenas!» exclama 
o poeta (no segundo canto do Cliilde-Harold). 
"Aonde estão os teus grandes cidadãos, essas 
almas heróicas? ... Já não existem. . . e só nos 
apparecem entre os sonhos do passado!» 

As ruinas d'aquella poética Grécia, os primo- 
res darte de seus monumentos derrocados, o as- 
pecto do porto Pirco, a perspectiva do monte Par- 
naso, tudo ijue ha de sublime nas recordações 
d'esse paiz da sabedoria e da arte, arrancava 
do coração de Byron brados de fundo sentimen- 
to pelo estado da Grécia de então : 

«Ô Grécia! Como será frio o coração do ho- 
mem que ousar contcmplar-te, e não sentir a 
dòr de um amante sobre as cinzas d'aquella que 
adorou !» 

No sublime poema ChUde-IIarold, manifesta 
o poeta as diversas impressões que o assaltaram 
ao avistar Itliaca, (Oude a triste Penélope sus- 
pirava contemplando o mar; » depois o cabo 
Leucade, c o seu promontório «que foi refugio 
de amantes sem esperança, e tumulo da musa 
de Lesbos;» mais adiante as collinas selvagens 
da Albânia, e o Pindo meio velado pelas nu- 
vens ; em .seguida o gnlpho de Ambracia «onde 
o império do mundo foi perdido por unui mu- 
lher.» 

Byron penetra at6 aos valles da Ulyria, visi- 
ta \li-pachá, e depois de mais algumas excur- 
.sôes no interior da Grécia, embarca para Cons- 
tantinnpola. 

«Que cidade do mundo ollerece maior nume- 
ro de divertimentos do que tu, Stambul!» ex- 
clama o poeta nos preciosos versos da Pereyri- 



o PANORAMA. 



139 



nação do joven Ilarold ; c em outro logar falia 
assim da antiga capital do império grego: uVi 
as minas de Athenas. d'Epheso, e de Delphos; 
percorri uma grande parte da Turquia, e mui- 
tos outros logares dt Europa e da Ásia ; mas 
em parte alguma encontrei uma obra da natu- 
reza ou da arte que me impressionasse tanto co- 
mo Constanlinopola.» 

Também tinha visitado Thebas (a da Livadia, 
não a do Egypto), vira correr a Castalia, transi- 
tara pela Beócia, passara pela Arcádia, porém 
nenhuma perspectiva parece havel-o encantado 
tanto, como a que se gosa das ruinas de Ph\ le, 
que o poeta antepõe mesmo á magnifica vista 
de Cintra, e até a de Constantinnpola. 

A escassez de meios pecuniários apressou o 
regresso de lord Byron a Inglaterra; mas então 
já não era o homem desconhecido do vulgo e da 
corte, apesar de ser par do reino ; era o poeêa 
festejado no seu paiz. 

Sua mãe morreu, pouco depois de elle che- 
gar á pátria, sem prever a immensa gloria que 
ia ligar-se ao nome do seu único lilho. 

Byron publicou pouco depois desse triste 
acontecimento as íinitarões de Horácio, salyra 
do mesmo género que os Poetai inglezes e os 
iriiicos escocezfs ; e em seguida os dois primei- 
ros cantos de Cliilde-Harold, que desde logo ad- 
quiriram uma grande aura, e deram uma bem 
merecida celebridade ao seu autor. Este poema- 
roraance de uma originalidade inimitável, por 
isso mesmo que se apartava de todas as regras 
sanccionadas pelas escolas, que despresava to- 
dos os modelos, foi recebido com o maior en- 
thusiasmo pelo verdadeiro talento. 

D'ahi a pouco era reputado o nosso poeta co- 
mo uma das maiores illustrações litterarias da sua 
época, o que junto u sua bella presença lhe at- 
Irahia a afTeição das mulheres e o ódio dos in- 
vejosos. O seu espirito perdeu também por este 
tempo o caracter severo, orgulhoso, e até silves- 
tre que se revela, em parte, nos seus primeiros 
escriptos, e dedicando-se a galantear o bello 
sexo, foi heroe de muitas anecdotas amorosas, 
e conquistador de algumas beldades. N'esle nu- 
mero entra a, não formosa, mas seductora, ladj 
Carolina Lamb, para quem lord Byron foi o pri- 
meiro amante... porém não o ultimo. 

Vivendo ora em Londres, ora na sua abbadia 
de Newstead, ora em Cheltenham, recordava-se 
a miúdo do formoso sol da Península e do Orien- 
te, e acabou por se enfastiar da Inglaterra, e 
do far niente em que vivia. Quiz voltar de no- 
vo a viajar, porém as suas finanças estavam em 
péssimo estado. Por fim, saciado de gosos, com 
a saúde deteriorada pelos abusos de uma vida 
desregrada, lemiirou-se de casar, e a sua esco- 
lha recaiu em lady Elisabeth Forbes, porém es- 
ta dama rejeitou a sua mão. 

Lady Melbourne, amiga e confidente de By- 
ron, eucarregou-se então de lhe arranjar o ca- 
samento com outra dama da sua escolha, porém 
ainda esta combinação falhou. 



Em conclusão, no dia 2 de Janeiro de 181'J 
desposou miss Milbanke, e pelo teor das suas 
cartas a vários amigos, pirecc ter achado mui- 
to agradável o seu novo estado ainda depois da 
lua de mel. 

Por esse tempo travou elle conhecimento com. 
o celebre Walter Scott, e as suas relações de 
amisade nunca solTreram interrupção. 

Não sueceileu o mesmo com sua mulher que 
lhe fugiu, su[ipondo-o doido, dizem alguns dos 
seus biographos ! 

A 2o de Abril de 1816 deixou lord Byron pe- 
la segunda e ultima vez o solo da pátria, em 
companhia do seu medico, o doutor Polidori, 
de Wiliiam Fletchcr, Robert Rushton, e de um 
criado suisso. 

Já então havia publicado, além das satyras 
e dos dois cantos de Childc-Harold, uma novel- 
la turca, intitulada Giaour (Infiel ou Christão, 
em lingiia turca^ A Desposada de Mjydos, ou- 
tra recordação do Oriente. A Waha, pequena 
mas engraçada peça de poesia. O magnifico poe- 
ma O Corsário, sublime quadro marítimo, que 
tem tido mil imitadores, quasi todos infelicissi- 
mos. Lara, outro poema de grande valia, que 
é considerado como continuação do Corsário. 
Ainda outro poema oriental, O assedio de Co- 
rintho; a Parisina, canto elegíaco de uma tra- 
gedia domestica, e o Prisioneiro de Chillon. fú- 
nebre narração de um horrível captiveiro. Estes 
dois últimos poemetos acham-se traduzidos em 
excellentes versos portuguezes. 

Todas estas obras obtiveram grande acceita- 
ção em Inglaterra e na Europa culta. Algumas 
d'ellas haviam sido escriptas, como o próprio au- 
tor diz, em trajo de baile, outras sob o peso de 
graves inquietações domesticas. 

Deixando para sempre a pátria, que honrara 
com o seu talento, o iliustre poeta recordava 
com tristeza o que sofTrera no seu paiz natal, 
aonde só a dignidade de par o salvara de ge- 
mer n'uraa prisão. . . Fatal destino do génio. 
Em guerra com o mundo, e até com sua pró- 
pria mulher, endividado, calumniado, persegui- 
do, o nobre viajante contiou ao mar a sua sor- 
te, e foi procurar a consolação em longínquas 
praias. 

Acompanbal-o-hemos ainda n'esta nova pere- 
grinação, até ao seu termo... o termo de todas 
as viagens I 

Contínua. F. M. Bobdalo. 



As paixões naturaes contidas nos limites, que 
prescreve a razão e a moral, são úteis ; e podem 
ser virtudes : quando es ultrapassam, são vicios ; 
e podem chegar a ser crimes. 

-■ . "■ \í.<'ú^: 

A grandeza e poderio dos tyrannos não é de 
invejar : os perigos e os remorsos os pungem ; o 
veneno, ou o punhal lhes encurta a vida : tal foi 
a sorte da maior parte dos Césares de Roma. 



tso 



o PANORAMA. 




VASO ESMALTADO »E JÓIAS. 



Na exposição franceza de 1853, entre outros 
productos das artes britânicas , figuraram pela 
primeira vez uns vasos que imitaTam com bas- 
tante artificio o esmalte com pedras preciosas , 
sendo os materiaes empregados vidro e o papei 
denominado marhé ; eram obra deMessr/ Jen- 
nens cBettridge, que obtiveram privilegio de in- 
venfão. Agradaram tanto ao príncipe Alberto, 
quando visitou aquella exposição industrial, que 
encommendou dois de siniilliantc natureza, e pe- 
lo desenbo (|ue a estampa mostra: innbos, antes 
de serem levados para o real paço delJuckingbam, 
estiveram patentes no estabelecimento dos fabri- 
cantes em llalking-slrect, Belgrave-sqnare ; os 
ornatos em relt!vo são de electro-doiradiira ; a 
côr (lo fundo principal é de uma esplendida pur- 
pura, realçada em partes por toques escuros acas- 
tanhados ; os ornatos imitam \ árias pedras pre- 



ciosas com suas naturaes cores brilhantes; a for- 
ma não c elrusca nem clássica, mas tem uma bel- 
la apparencia e produz o melhor efteito. 

si.- 



O IMPÉRIO DANNAM. 

Continuarão. 

Entre as insurreições que rebentaram antes 
da invasão tunkinesa, houve uma que não pu- 
dera ser sopeada : tinha começado na cidade de 
Quin-Nong, sob a direcção de três irmãos que 
compunham uma família, chamada Tay-son(mon- 
lanliiis orridcnlaes), sobrenome (jue tinha por ser 
originaria d'csta parte da Cochinchina. O mais 



o PANORAMA. 



1S£ 



velho, chamado Nhac ou Yin-Yac, era um rico 
negocianle; o segundo, um bonzo conhecido pe- 
la sua santidade ; o terceiro, por nome Long- 
Niang ou Long-Nhu-ong, era um ollicial gene- 
ral, a quem a aptidão e o valor tornavam digno 
de fecundar os projectos ambiciosos de seu ir- 
mão mais velho, emquanto taes projectos se não 
oppozcssem á sua própria ambição. 

Tanto que os tunkinczes entraram na Cochin- 
china. Nhac aproveitou o ódio natural dos co- 
chinchinezes contra esta nação para declarar 
que elle queria tomar a defensa do rei ; mas 
accommetteu os recebedores dos seus rendimen- 
tos, sob pretexto de que estavam de intelligen- 
cia com o inimigo, e roubou-ihes as casas c os 
cofres públicos. Estes manejos c roubos foram 
levados tão longe, que não mais foi possível o 
engano sobre as intenções de Nhac, e o rei da 
Cochinchina reuniu grandes forças para marchar 
simultaneamente contra elle e contra os tunki- 
nezes. Nhac, peio ardil ou pela força, bateu ou 
corrompeu este exercito. 

Durante estas batalhas, ojoven rei, lodo en- 
tregue aos seus prazeres, satisfazia-se em dar as 
ordens sem lhe importar a sua execução, e dei- 
xava invadir e saquear o paiz. A nação indigna- 
da derribou-o d"um throno que elle envilecia, 
matou-o, e levantou em seu logar um neto do 
ultimo rei legitimo Yo-Nquien-Vuong. O novo 
rei julgou achar um apoio em Nhac esposando 
sua filha; mas tendo descoberto os pérfidos de- 
sígnios do seu sogro, desembaraçou-se de suas 
mãos. Levantando então um pequeno exercito, 
marchou a castigar este rebelde ; porém, ven- 
cido, viu-se reduzido a entregar-se-lhe. Ainda 
que tratado cora respeito, desappareceu bem de- 
pressa com os seus principaes officiaes, sem que 
se soubesse nunca o que fora feito d'elles. 

O filho d'este principe reuniu um exercito, e 
marchou contra os Tay-son para salvar seu pae 
que julgava ainda vivo; mas Long-Niang apre- 
sentou-se a este exercito, portador d'uma falsa 
ordem do rei que tinha desapparecido; ordenou- 
Ihe que depozesse as armas, e entregasse o fi- 
lho que assim faltava ao respeito que devia ao 
pae, e á submissão devida ao rei. O exercito 
obedeceu : o desgraçado principe foi entregue 
e decapitado na praça de Sai-Gong. A princeza 
sua mulher, que • acompanhava, fugiu com o 
seu segundo filho, Ong-Nquien-Chung, ao qual 
estavam reservados grandes destinos. 

Este joven principe esteve algum tempo occul- 
to com sua mãe, e só conseguiu evadir-se com 
o soccorro d'um missionário francez d'.Vdran, 
que devia em pouco fazer um papel bem im- 
portante. 

Nquien-Chung chegou a reunir um exercito, 
e entreteve algum tempo a campanha contra os 
Tay-son; mas, em 1781, foi obrigado a retirar- 
se e a procurar refugio era Pulo-Wai, pequena 
ilha deserta do golpho de Siam. Ainda ali foi 
descoberto, e esteve quasi a ser preso. Então re- 
solveu-se ir pedir asylo ao rei de Siam, a quem 



soube tornar-sc tão útil pelos seus talentos mi- 
litares, que este em reconhecimento lhe confioa 
ura exercito para tentar a reconquista dos seus 
estados : esta tentativa porém mallogrou-se pe- 
la falta de valor c má conduta dos siaraezes. 

Os Tay-son, nada tendo a temer pela baixa 
Cochinchina, trataram de expulsar da alta os 
tunkinczes que d'ella se tinham apossado. Ani- 
mados pelo êxito, Long-Niang levou mais longe 
as suas vistas. .\proveitan(io o descontentamen- 
to que os Trinli tinham excitado em Tunkin, ahi 
entrou, c fazendo-se passar pelo legitimo rei da 
Cocliinchina N(iuien-Chung, esteve a ponto de 
se assenhorear do paiz ; mas a fraude foi des- 
coberta, c elle obrigado a sair do Tunkin. 

Então os tros irmãos, definitivamente senho- 
res da Cochinchina, cuidaram cm dividil-a en- 
tre si. N'esse arranjo estabeleceu-se ([Mc a Nhac 
pertenceriam as duas divisões inferiores de Chang 
e de Donnai; que Long-Niang teria o Hué, que 
se estende até o Tunkin ; e o ultimo irmão se- 
ria grão sacerdote de toda a Cochinchina. Por 
esta disposição, Nhac coUocava sagazmente o ir- 
mão entre os seus estados e os de Tunkin que 
podiam causar-lhe algum desassocego. 

Long-Niang tinha-se apenas estabelecido cm 
líué-fo, sua capital, quando aproveitou a pri- 
meira occasião que se lhe offereceu de pendên- 
cia cora o rei de Tunkin, então tributário do im- 
pério da China. Este ao primeiro combate aban- 
donou o seu exercito, e foi a Pekin pedir soccor- 
ro ao imperador. Kien-Long enviou o vice-rei de 
Kang-Tong, Fou-Chang-Tong, á frente de cem 
mil homens para expulsar o usurpador; mas Long- 
Niang, prevenido da sua marcha, tinha devas- 
tado o paiz que os chins deviam atravessar. Es- 
tes, depois de terem perdido mais de cincoenta 
rail homens pela fome e os combates, foram obri- 
gados a relirar-se, e bem depressa o imperador 
se viu reduzido a reconhecer Long-Niang por so- 
berano dos reinos unidos de Tunkin e da Co- 
chinchina, sob o nome de Quang-Tung. O an- 
tigo rei de Tunkin foi feito mandarim d'uma das 
províncias da China. 

Entretanto Nquien-Chung, depois de ter soli- 
citado inutilmente do rei de Siam novos soccor- 
ros para tornar a entrar nos seus estados, viu- 
se obrigado a fugir de novo para a ilha de Pu- 
lo-Wai, que fortificou, acompanhado de mil e 
quinhentos cochinchinezes que seguiram a sua 
sorte. Elle tinha confiado a educação de seu fi- 
lho ao missionário Adran, encarregando-o de 
acompanhar o joven principe á corte de Versail- 
les, e de solicitar soccorro do rei de França. 
.Vdran e seu discípulo chegaram a Paris em 1787, 
e a sua missão teve completo êxito. Foi assigna- 
do ura tratado offensivo e defensivo entre a Fran- 
ça e a Cochinchina; e Adran, nomeado bispo :n 
partibus d'este paiz, partiu levando as ordens 
pelas quaes o principe desthronado devia obter 
todos os soccorros necessários para tornar a en- 
trar nos seus estados. Porém as intrigas e a má 
vontade de Coaway, governador de Pondichérv » 



1S3 



O PANORAMA. 



retardaram a empresa que a revolução franceza 
lez definitivamente abandonar. 

Este concurso de circunstancias desgraçadas 
não fez desanimar Adran, que persistiu no pro- 
jecto que formara de restabelecer o soberano le- 
gitimo, se elle vivesse ainda ; ou, no caso con- 
trario, de entregar ao joven príncipe o tbrono 
de seus maiores. O bispo, o joven príncipe, e 
muitos ofliciaes fraucezes, que se llies uniram co- 
mo voluntários, embarcaram em um navio mer- 
cante (jue os levou ao cabo de S. Jaques, na em- 
bocadura do rio que conduz a Say-Gong. Ahi 
foi que pela primeira vez tiveram noticias do rei. 
Depois da sua partida, este príncipe estivera 
perto de dois annos na ilha de Pulo-Wai, viven- 
do de raizes como os seus companheiros. 

Continua. 

í' ' ASTÚCIA CONTRA ASTÚCIA. 

CO?>rO PERS.^. 

Um habitante da cidade de Bagdad, (jue, du- 
rante a sua mocidade, se deleitafa em estudar as 
astúcias dos ladrões, e muitas vezes em lh'as frus- 
trar, viera a ser, quasi no lim da sua vida, um 
modesto 6c::«:, istoé, tinha-se feito commercian- 
te d'estolos d'algodão no bazar da cidade. 

Ora uma noite, algumas horas depois de fe- 
chados os armazéns, um hábil ladrão, disfarçado 
em negociante, entrou no bazar. Era, sem con- 
tradicção, o nosso bezzaz em pessoa: o molho de 
chaves, o turbante, a bengala, o capote, o mes- 
mo som da voz do velho, eram imitados com in- 
crível perfeição. O astuto gatuno foi ao enc»ntro 
do guarda do bazar, e lhe disse com o maior so- 
cego do mundo : 

— Toma este candeeiro : vae acendel-o ; te- 
nho contas a fazer esta noite. 

Depois, sem esperar resposta do guarda, abriu 
a porta da loja do bezzaz. O guarda não se de- 
morou com o candeeiro; e o velhaco pegou-lhe de 
maneira que a luz lhe não desse no rosto, e, sem 
dizer palavra, assentou-se diante dum livro de 
contas. 

Próximo ao romper do dia, chamou o guarda 
e disse-lhe : 

— Vae procurar um moço, e recommenda-lhe 
que se não es(|ueça de trazer os seus uíensilios, 
por que tem de levar alguns fardos de fazenda pa- 
ra minha casa. 

E accrescentou : 

— Esta noite velaste por minha causa; eis a 
minha bolsa, tira o que precisares para pagar o 
teu almoço, e avia-te. 

O moço enconirou promptos muitos pacotes de 
panno de valor, carregou-os ás cosias, e seguiu 
o ladrão. 

O verdadeiro bezzaz chegou ao bazar algum 
tempo depois de nascer o sol, segundo o seu cos- 
tume. Ahi estava o guarda que, saudando-o com 
rosto alegre c reconhi;cido, c.\clamou : 

— iloje os meus lilhos, graças ao que me des- 



te esta noite, regalaram-se como uns príncipes. 
Que Deus derrame as suas bênçãos sobre ti e so- 
bre a tua família ! Po<sas tu prosperar no mundo, 
e gosar no ceo unia felicidade eterna ! 

O bezzaz, admirado de tantos agradecimentos, 
tCTC a prudência de não responder. Suspeitando 
porém alguma desgraça, correu a abrir o seu ar- 
mazém. Logo áprímeira vista conheceu que amais 
rica parte dos seus estofos tinha sido roubada, e 
adivinhou tudo. Entretanto absteve-se de gritar ; 
chamou trauquiliamente o guarda, e, sem mani- 
festar a menor alteração, perguntou-lhe com voz 
socegada : 

— Dize-me, quem foi que me ajudou esta noi- 
te ao transporte dos meus fardos? 

— Que ! Não te lembras que me mandaste pro- 
curar um moço, e que elle saiu comtígo? Eus(^ 
fiz o que tu me mandaste. 

— E verdade. Mas eu tinha tanto somno, e a 
noite estava tão negra, que não me lembro mui- 
to bem do rosto d'esse moco. Vae procural-o e 
volta com elle aqui. Conhece-lo? 

■ — Conheço. 

Quando o moço chegou, o bezzaz fez-lhe si- 
gnal de o seguir e fechou o armazém á chave. 
Depois de ter conduzido o homem para um sitio 
distante do bazar, poz-se a fazer-lhe perguntas 
conlidencialmente e em voz baixa. 

— Podes índicar-me o logar para onde esta noi- 
te levaste os meus pacotes? Olha, meu amigo, se- 
ja dito entre nos, é uma triste confissão que fa- 
ço, mas eu tinha bebido de mais e tudo me es- 
queceu. 

— Tenho melhor memoria, eu, que não tinha 
bebido senão agua. Conduziste-me ao embarca- 
douro da margem esquerda do Tigre, e ali orde- 
naste-me que chamasse um barqueiro , o qual 
me ajudou a arrumar os fardos no seu barco. 

— É isso mesmo. Vamos ao embarcadouro. 
Farás com que eu falle a esse barqueiro, sim? 

— De boa vontade. 

Chegados ao Tigre, encontraram lego o bar- 
queiro. O nosso bezzaz despediu o moço. Depois, 
tendo entrado no barco poz-se ao lado do bar- 
queiro, a quem disse : 

— Ha apenas algumas horas que ajudaste meu 
irmão na conducção de muitos fardos de merca- 
dorias. 

— É verdade, foi ao romper do dia. 

— Muito bem, vamos, leva-me ao mesmo sítio 
onde os desembarcaste. 

A rápida corrente do Tigre e algumas vigoro- 
sas remadas conduziram em pouco tempo o bar- 
co ao seu destino. O l)an]ueiro procurou o moço 
(|uc ratoneiro linha encarregado, neste sitio, do 
transporte dos fardos roubados. O bezzaz, tendo 
ordenado ao barqueiro que o esperasse até á sua 
volta, chamou o moço de parle, c lhe disse: 

— Leva-me ao deposito onde, esta manhã, dei- 
xaste as mercadorias de meu irmão. 

Encamiiiharam-se enlào para um edilicio afas- 
tado da margem do Tigre, e construído na raia 
dos terrenos arenosos que cercara a cidade de 



,r 



O PANORAMA. 



183 



Bagdad. Chegados á porta, bateram: ninguém 
respondeu ; mas o bezzaz, hábil em conhecer o 
mecanismo das mais complicadas fechaduras, não 
esteve muito tempo sem abrir clle mesmo com iim 
prego o cadeado. Deixou o moço aporta, entrou, 
e achou lodos os seus fardos intactos amontoa- 
dos a um canto. Da parede pendia um tapete ve- 
lho preso a uma corda. Estes objectos serviram 
para embrulhar os fardos que o bezzaz entregou 
em seguida ao moço, dizendo-lhe que os leva.s- 
se para o barco. 

A este tempo encontraram o próprio ladrão, 
que não tinha ainda largado o seu disfarce. Todo 
perturbado, não ousou fazer observação alguma, 
e a um gesto imperativo do bezzaz, aproximou- 
se-lhe e caminhou silenciosamente até ao barco. 
Não desdenhou mesmo ajudar o moro no embar- 
que dos fardos. 

O bezzaz, depois de ter entrado no barco, 
mandou pelo barqueiro entregar o tapete e a cor- 
da ao seu proprietário. Da parte de ambos pas- 
sou-se tudo com perfeita conveniência e politica. 
O gatuno deitou o tapete aos hombros, e fez as 
suas despedidas ao bezzaz nestes termos : 

— Deus te conduza a salvamento, irmão que- 
rido ! Agora estamos, um e outro, na posse do 
que legitimamente nos pertence. O provérbio diz: 
A cada qual o que éscu. Em todo ocaso, faço-te 
justiça, tu inteiramente procedestes como homem 
que sabe viver. 

E separaram-se. O bezzaz voltou para o bazar 
com as suas mercadorias; e oratoneiro, para sua 
casa com a corda e o tapete aos hombros. 



BOHEMIA. 

Este paiz, de que hoje apenasse falia, masque 
foi reino que principiou com o dos egypciose dos 
assyrios, e tão famoso como elles, é o mais alto 
de toda a Europa, pois que nascendo nelle mui- 
tos rios, como sãooOder, o Elb, e o Vistula, ne- 
nhum outro entra n'elle. Não são dos mais sadios 
os seus ares, e por isso muitas vezes tem grassado 
n'elle horríveis pestes; porém é fértil em trigo, 
e em pastos. As vinhas não se criam ahi mui bem 
por causa dos frios. 

Este reino tem setenta léguas de longitude, e 
quarenta de latitude, com cento e duas cidades, 
algumas das quaes são grandes e dignas de con- 
sideração, como Praga, sua capital, Cuttemberg, 
Piisen, Egra, Bohmisbroda. Glalz, Tabor, Koni- 
gratz etc ; trezentas e oito villas : e duzentos qua- 
renta e oito castellos. Segundo os cômputos de gra- 
ves autores, pode pôr era campanha dez mil ho- 
mens de cavailo, e cento e trinta mil homens de 
pé., 

E governado pela casa d' Áustria. A religião 
dominante éacatholica; porém conserva m-se ali 
muitas seitas, que apesar de grandes esforços não 
se poderam extinguir. De:ois da batalha de Pra- 
ga, na qual foi desbaratado o príncipe Palatino 
do Rhin, mandou o imperador Fernando a ex- 



terminar não só os lutheranos e calvinistas, que 
queriam dar a coroa de Bohemia ao dito prin- 
cipe, mas a todos os outros sectários que havia 
em Praga. Sem embargo da diligencia com que 
se executaram as ordens, ficaram ainda muitos 
lutheranos e calvinistas, e entre elles muitos ada- 
niitas, pikards, taboritas ou hussistas. Os judeus 
eram os únicos que se permittiam com exercício 
publico, pagando annualmcnle pela sua residên- 
cia em Praga uma sorama muito forte ao impe- 
rador. 

Esta nação, á simílhança de todas muito anti- 
gas, tem as suas fabulas. Alguns autores graves 
da antiguidade, dizem que n'ella viveram as ama- 
zonas. D'ahi vera esses notáveis e singulares cos- 
tumes que se contam, de serem as mulheres don- 
zellas as que presidiam não só nos governos, mas 
nas campanhas, servíndo-se dos homens como de 
escravos , e diz-se que não se submelíeram ás 
suas leis senão depois da morte de Libusa, que 
casou com o primeiro duque Promissão. 

Os bohemios d'esse tempo adoravam muitas di- 
vindades, e faziam sacriticiosásOrcadas, Driadas, 
Hamadriadas, á Agoa, ao Fogo, ás Florestas, e 
ás iMontanhas. Enterravam os mortos no campo, 
ou no matto, e faziam sobre as suas sepulturas 
jogos e mascaradas. 

No geral são de cabello loiro, olhos brilhan- 
tes, e o seu timbre de voz é um dos mais bellos.Sã» 
fortes, robustos, subtis, ambiciosos, glotões, e 
amigos de vinho. O seu idioma é uma confusão do 
alemão e esclavonio. Tinham ura modo exquisi- 
to de contar as horas. Ao pôr do sol era a pri- 
meira hora, e seguem-se as outras consecutiva- 
mente, dizendo treze, quatorze etc. 

Este paiz foi antigamente todo coberto de raal- 
tos e florestas. Os seus primeiros habitadores de 
que a historia faz menção foram os da colónia cha- 
mada de Léche, que ali se estabeleceu noanno 
de 3íí. O primeiro que teve o titulo de duque foi 
Promissão, com quem casou em 632 Libusa, fi- 
lha de Croco, que era então governador d'estes 
paizes. Pela seguinte forma se narram os princí- 
pios d'este reino. 

Zechio Crovato, banido do seu paiz, retirou-se 
a estas terras, e achando que os seus habitado- 
res eram homens brutaes, e costumados a viver de 
roubos e caça, os ensinou a cultivar a terra, c 
plantar arvores fructiferas. Esta foi a causa por- 
que o elegeram seu governador. Por sua morte 
(leram o mesmo cargo a Craco. ou Croco. homem 
prudente, douto, e justo, que fez muitas leis para 
seu bom governo. Este Croco deixou três tiihas: 
Brelia, doutissima na medicina; Torba, adivinha- 
dora e encantadora ; e Libusa, que sendo a mais 
moça de todas, foi a mais scientifica, mais in- 
telligente, e por isso a mais amada. 

Estas seriam as razões porque se lhe deu o do- 
mínio em que governou com geral e admirável 
satisfação. Sendo persuadida a que se casasse pa- 
ra que houvesse herdeiros de uma princeza tão 
sabia, foi rauí solicitada, porém nãoacceitando 
ella nenhum dos partidos mais vantajosos que se 



tS4 



O PANORAMA. 



lhe propozeram, determinou que a fortuna fizes- 
se a eleição. Mandou um dia soltar um cavallo, 
com ordem de que deixando-o correr á vontade 
o seguissem, e que conduzissem á sua presen- 
ça aquelle homem junto a quem o cavallo paras- 
se a primeira vez. Parou justamente diante de 
Premissão (\uc lavrava a terra, e sendo este tra- 
zido diante de Lihusa, ella o reconheceu por seu 
marido, e em memoria de que era um camponez 
o que começa a senhorear aciuelle reino com o ti- 
tulo de duque, mandou Lihusa pendurar no tem- 
plo os tamancos, com que Premissão Machado 
na lavoira do campo. 

No espaço de quatrocentos annossuccederam 
dezoito du(|ues a Premissão, sendo um d'estesBor- 
sivolhio, que no annodc 890 se lez chrislãocom 
a duqueza sua mulher, chamada Lumilla. Empre- 
gando o duíjue muita diligencia para a conver- 
são de todo o reino, foi lançado fora do gover- 
no, mas por fim admittido outra vez, a fé e 
christandade se eslaheleceu naBohemia, sendo 
d'ahi por diante christãos todos os seus duques, 
finalmente,' succedendo no ducado Uratisláo, ho- 
mem generoso, bom soldado e prudente, foi a 
Mayença ouMoguncia, onde todos os principes do 
império com Henrique iii o proclamaram rei da 
Bohemia no anuo de 108!). 

Por mais de seis séculos foi este reino electi- 
vo ; porem a casa d'Austria o reduziu a heredi- 
tário desde ([ue o imperador Alexandre ii, eleito 
rei de Bohemia, alcançou uma assignalada vic- 
íoria contra o príncipe Frederico Palatino, gen- 
ro de Jacob, monarcha de Inglaterra, que lhe dis- 
putava a coroa, tendo-a recebido em Praga no 
mez de Novembro de 1619. 

Este paiz é cheio de montanhas e de bosques, 
e mui fértil, achando-se n'elle muitas minas de 
oiro, prata, arame, cobre c chumbo. Um escrip- 
tor nosso, viajando no século passado por este 
paiz, expressa-se do seguinte modo : 

« Depois que entrei no reino de Bohemia pa- 
receu-me sempre que caminhava por estradas de 
Portugal, achando n'cstas muitas coisas similhan- 
tes, como por exemplo as searas, c todo o tra- 
balho do campo feito com bois, coisa que até 
aíjui não tinha visto praticar, mais do que com 
cavallos. As vinhas e os pomares também se pa- 
recem, e pelo que respeita a esta (jualidade de 
arvores fructiferas, eu as não vi nas outras ter- 
ras mais do que em jardins. A pobreza dos lo- 
gares, e a quantidade de rapazes que correm a 
posta uma legua a pé atraz do carro para lhe da- 
rem alguma esmola, lambem é uma imitação de 
algumas estradas do nosso paiz. » 



Kondern, onde passei por três antes de entrar 
n'aquella terra. Na entrada de Hall estavam lam- 
bem quatro, e na saida outras quatro, no mes- 
mo sitio cm que se vê a forca. Este supplicio 
tremendo com o qual se tem emendado as bar- 
baridades iniquas de algumas nações, era que 
eram continuados os crimes insolentes de mor- 
tes, roubos, e outros similhantes, consiste em 
um madeiro cravado no chão, e em uma roda 
pequena das que se usam nos jogos dianteiros 
dos coches, a qual se põe na extremidade do 
mesmo madeiro. Sobre esta roda se ata o delin- 
quente, ao qual estando vivo se lhe quebram as 
pernas e os braços, ficando depois exposto na 
roda não só até morrer, mas até o tempo o con- 
sumir. Em casos menos graves se concede a es- 
tes miseráveis o golpe chamado de graça, que é 
uma pancada sobre o coração, a qual subitamen- 
te os livra de padecer. Para cada delinquente 
se faz uma roda, e muitas vezes é executado no 
logar do delido se este assim o pede, ou para 
exemplo, ou para terror. Todas as rodas que vi, 
conservavam ainda as caveiras, ossos, e parte 
dos vestidos dos miseráveis que n'ellas tinham 
acabado." 



O SUPPLICIO DA BODA. 

Um viajante do século passado descreve pela 
seguinte forma este supplicio, então luuilo usa- 
do na Alemanha: 

n A primeira parle onde vi as chamadas ro- 
das, cm que SC castigam os facinorosos, foi cm 



BELACÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA, ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QUE SE PERDEU EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação. 
LXIX 

De como deram tratos a Francisco Gil, e de como o enforcaram 

Mandou lambem Manuel da Silra que Francis- 
co Gil fosse levado ao pomar dos seus aposentos, 
aonde estava o tronco, elogarordenadoaonde.se 
tinham dado tormentos, e tratos de fogo aoditto 
Melchior Affonso, e primeiro que os mettesse nos 
tratos os mandava confessar. E começou de dar 
tormentos ao dito Francisco Gil. Confessou tudo 
quanto tinha dilto Amador Vieira, e confessara 
quanto lhe perguntara. Teve-o pouco tempo nos 
tratos, e o mandou pôr logo em a cadea, e es- 
cripla sua confissão e por elle assignada , tudO' 
em breve foi sentenciado, e lhe mandaram que 
arrazoasse de sua justiça em 24 horas. Mas pou- 
co lhe aproveitou, porque a sentença foi de mor- 
te, e seus bens sequestrados e perdidos para a 
coroa, por ser contra o serviço d*el-rei, e que- 
rer fugir com o navio alheio, e levar rei adis de 
traidores. Sobre este homem houve muitos rogos, 
foi por demais: dizendo Manuel da Silva que se 
lhe perdoava, que o mestre de campo dos fran- 
cczes havia perdoar ao piloto francez, equeera 
bem que se não dissimulasse com cousa alguma; 
e ([ue nestes casos nem peccados veniacs se ha- 
viam perdoar. E enforcaram o pobre Francisco 
Gil, o qual dicc, quando o queriam enforcar, que 
se guardassem do diabo enfeitado, como a elle fi- 
zera um c o enganara c o fizera descobrir se» 
peito. (Continua.) 



24 



o PANORAMA. 



18» 




o 
o 

H 






o 



voi. I. — 4.'sBBa. 



JC.NHO, 13, 18li7, 



1S6 



O PANORAMA. 



Era 11 de Setembro do anno passado lanca- 
ram-se, junto de Hanwell, condado ou prorin- 
cia deMiddlesex, os fundamentos para a exten- 
sa linha de editicios que se estão construindo, 
cujo prospecto a nossa estampa representa co- 
mo deve ficar depois de acabado. 

Em 1849 creou-se por lei com seus estatutos 
a instituição das novas escolas do districto cen- 
tral de Londres, o qual corapreliende a denomi- 
nada city of London union, a London luiion orien- 
tal e Occidental, S. Salvador, e a parochia de S. 
Martinho dos campos. A ceremonia da collocação 
da primeira pedra fez-se com toda a soleranida- 
de em presença da commissão directora, creada 
na referida época, assistindo a este brilhante acto 
numerosa concorrência de senhoras , e também 
conduzidos debaixo de formatura a testemunhar 
o mesmo os discípulos da escola de Harrow. Con- 
cluída a ceremonia , e depois de um eloquente 
discurso de mr. Whiteside, o capellão das aulas 
recitou as orações apropriadas ao objecto, e em 
seguida cantou toda a asserablea o psalniolOO, 
achando-se para mais de trezentas pessoas. Termi- 
nou a funcção com um banquete sumptuoso, dado 
á direcção e seus amigos por mr. Holt, de Hadley- 
Hotel e só á sua custa. Âs aulas estão agora em 
Westow-hill, Norwood ; o seu destino é receber 
as creanças da população pobre do districto, que 
ahi são mantidas e ensinadas, e depois se lhes 
manda aprender olBcios, havendo além d'isso uma 
fazenda, onde rapazes e raparigas aprendem res- 
pectivamente os trabalhos da lavoura e os raiste- 
fes caseiros. 

M. 



BYRON ! 



Continuação. 



III 



O terceiro canto do Cliilde-Harold parece co- 
meçado no momento de lord B\ ron emprehender 
esta nova viagem. Os primeiros rersos que ahi 
se encontram são dirigidos á sua única tilha, á 
querida do seu coração, Aza. O poeta menciona 
em uma nota que este nome era o de uma das 
suas ascendentes, e também da irmã deCarlos Ma- 
gno. Depois d'esta como invocação, aos olhos 
azues da gentil menina, passa a descrever uma 
d'essas scenas de mar, ([ue ninguém pintou me- 
lhor do que Byron, e mostra o desapego com que 
Te fufíirem do na\io que o conduz as costas de 
Inglaterra. N'este terceiro canto, e no quarto e 
ultimo do poema, vae o poeta narrando a sua pe- 
regrinação, tornando-se ao mesmo tempo o heroe 
e o cantor das próprias aventuras. 

Antes de admirar as bellezas do Ilheno, des- 
cansa por um momento emWaterloo " o tumulo 
da França ! » 

«Pára ! diz o poeta : são as cinzas de um im- 
pério que estás pisando ! » .^ 



E mostra sympathisar mais com o corso vencido 
do que com o bretão vencedor. 

As margens escarpadas do grande rio, as bel- 
lezas naturaes do lago de Genebra, a corrente im- 
petuosa do Rhone, foram successivamente impres- 
sionando o espirito deByron, e alliviando-lhe mes- 
mo o coração. 

Foi na Suissa que elle compoz a sublime tra- 
gedia de Manfredo. Em uma carta a Murray diz 
o próprio autor que este poema dramático é de 
um género selvagem, metalisico e inexplicável ! 
Os interlocutores do terrível drama são espíritos 
do ar, da terra e das aguas, um magico, uma fa- 
da, um abbade e caçadores ; a scena passa-se nos 
Alpes. 

Quasi do mesmo género é Ametamorphosedo 
corcunda, outro poema dialogado do nosso au- 
tor, e fundado sobre a tragedia Fausto do immor- 
tal Goethe. 

Depois de visitar os Alpes, Byron passou á Itá- 
lia, em companhia do seu liei amigo Hobhouse ; 
parou em Milão, viu o tumulode Julieta em Ve- 
rona, e foi descansar para Veneza, a rainha do 
Adriático. 

«Estava em Veneza, sobre a ponte dos Suspi- 
ros, entre um palácio e uma prisão ; via a cidade, 
saindo do meio das vagas, como se fosse tocada 
repentinamente pela varinha de ura feiticeiro. Dez 
séculos estendiam suas sombrias azas em volta de 
mim, e uma gloria expirante sorria para esses tem- 
pos remotos, em que muitos paizes subjugados ad- 
miravam o monumento de mármore do leão alado 
de Veneza, que tinha assentado oseuthronono 
meio d'estas cem ilhas. « (») 

A cidade dos doges enlhusiasmou o poeta in- 
glcz. Alojando-se a principio em casa de um mer- 
cador, apaixonou-se pela esposa deste, a gentil 
Marianna, joven de vinte e dois annos. E não foi 
tão ephemero este noTo amor da lord Byron, como 
os anteriores ; nem o passeio que fez a Roma na 
primavera de 1817 lhe pôde fazer olvidar a for- 
mosa veneziana ; o coração obrigou-o era breve 
a regressar para junto d'ella. Esta mulher lhe 
inspirou o quarto canto do ChUde-Uarold, que 
foi eseripto em Veneza, na volta da sua excur- 
são á capital da christandade. 

A Itália tinha attractivos poderosos para seduzir 
o grande poeta. Ferrara, com as suas recorda- 
ções do Tasso e do Ariosto ; Florença, cora as suas 
lembranças do Dante e de Petrarcha ; Roma cora 
as suas mil reminiscências poéticas, não podiam 
deixar de impressionar vivamente o espirito de 
Byron; e raereceram-lhe, com efleito, alguns dos 
seus mais sublimes versos. 

Voltemos porem a Veneza, logar de delicias pa- 
ra o mysterioso bardo. 

Por muito que o rosto oriental de Marianna hou- 
vesse seduzido O volúvel poeta , não pôde elle 
esquivar-se ao seu destino, (]ue o fadara para a 
versatilidade no amor; deivini pois a casa da gen- 
til mercadora, e alugou um palácio na margem 

(•) ChiUk-IIaroUI : Cuntu iv. Eitancia (., 



o PANORAMA. 



189 



do grande canal, onde, segundo Moore, passava 
ura género de vida só próprio a quchrar-lhc as 
Corças physicas, c entorpecer-ihe as faculdades 
moraes. Na segunda parte enganou-se. 

Não tardou muito queBx ron não coiitrahisse no- 
vas relações amorosas n'esta cidade dencanto ; 
elle mesmo contou esteepisodiodasua vida, que 
vamos resumir em poucas palavras, como a es- 
treiteza d'estas columnas exige. 

Margarida Cogni erapobre.muitolbrmosa, con- 
tando vinte e dois annos de edadc. e casada com 
um tisico. Fugiu ao marido para se instalar no 
palácio de Byron ; amava ternamente o poeta, mas 
linha um génio tão desegual, ora tocando na fe- 
rocidade, ora no sentimentalismo. (|ue fazia d'a- 
quella casa um verdadeiro inferno. Ciumenta, co- 
mo uma veneziana, arrancou o veo a .v);/;íor« «** 
e insultou-a na rua. logo que soube das suas re- 
lações amorosas com lord Byron: arrancou a mas- 
cara a )iiad(ime Contarini no baile da opera, por 
que a viu pelo braço do seu amante ; finalmente 
batia em todas as mulheres de iiuem descoutia- 
Ta que quizessem seduzir o seu .?í(/Hor, intercep- 
tava as cartas que vinham para elle, apesar de 
não saber ler, suppondo sempre que fossem de na- 
moradas, e quando se enraivecia quebrava tudo 
que encontrava á mão. Byron. enfastiado, resol- 
veu-se emíim a mandal-a para casa de sua mãe, 
porém Margarida araeaçou-o com uma faca ; agar- 
rada pelos criados do lord, escapou-lhes e lan- 
çou-se ás aguas do canal : salva da morte, cus- 
tou ainda a rcsignar-se, masao cabo de grandes 
esforços, terminou por deixar era paz a sua vic- 
tima. 

Foi no meio d'esta singular vida que lord By- 
ron começou o seu Don Juan, talvez o mais bri- 
lhante florão da coroa do iramortal poeta. Nos pri- 
meiros cantos deste poema respira-se, como no 
Childe-IInrokl, o ar embalsamado da Península ; 
depois, ainda como n'aquelle romance, gosa-se o 
jierfume das plagas orientaes; finalmente chega- 
se com o heroe ;i pátria do autor do livro. Ahi 
parou a obra, no detimo-sexlo canto, quando By- 
ron, talvez por brincadeira, dizia que tenciona- 
va levar este poema até cento e cincoenía cautos ! 

No manuscripto do primeiro canto acha-se uma 
nota, em que o autor declara não se poder ter nas 
pernas na occasião de escrever aquelles sublimes 
versos, embriagado com \inho do Rheno, que to- 
davia elle misturava com soda I 

Apesar, porem, da vida desregrada que leva- 
va, não deixou de apaixonar-se, mais uma vez, 
c de ser correspondido. Esta nova musa do famo- 
so poeta, foi a condessa Guiccioli, joven esposa 
de um velho nobre de Veneza. 

Em .\^bril de 181!t partiu ella com seu mari- 
do para Ravena, e Byron nãodei.xou deseguil-a. 
Logo em Agosto teve de dirigir-se a Bolonha, c 
o seu amante acompanhou-a. Como porém adoe- 
cesse ali, e lhe aconselhassem os ares de Vene- 
za, voltou a esta cidade em companhia de lord 
Byron, a quem o marido a confiou, por não po- 
der deixar Bolonha n'essa occasião. Já se vê que 



o conde italiano c o fidalgo inglez viviam na me- 
lhor harmonia ! Porém não durou muito a paz, 
poríiue as circunstancias de Byron não lhe per- 
mitliram satisfazer a uma exigência do nobre ve- 
neziano, ura enqirestirao de rail libras esterlinas. 
Então ovellio fallou da sua honra... ea falta de 
oiro operou a separação dos dois amantes ! 

Os cônjuges partiram de novo para Ravena, po- 
rém a condessa adoeceu gravemente ; e téndo- 
se conhecido que o seu mal era a saudade do 
amante, foi este chamado para a acompauhar,^ 
por conselho dos médicos e dos parentes da con- 
dessa, e com autorisação do marido. 

Byron residiu por muito tempo em Ravena, 
e tinha grande predilecção por esta cidade pou- 
co ruidosa, e pelas sombrias florestas <iue a cer- 
cam. .Vhi compoz elle as suas tragedias históri- 
cas Marino Faliero, Surdanupalo, e Os dois Fos- 
caris, o mysterio Caim, ura poema em quatro can- 
tos A proplieria do Danlc, (jue ticou incompleto 
como muitas outras das suas obras, o terceiro e 
quarto cantos do Dom Jnão , e traduziu Pulei. 
Tanto as tragedias como o mvsterio são pouco 
próprios para apparecerem na scena , pelo seu 
diminuto movimento dramático, porém excellen- 
tes para serem lidos, porque encerram bellezas 
poéticas de toda a ordem. O poemeto A jiroplie- 
ria do Dante, inspirado pela vista do tumulo do 
grande poeta, em Ravena, como outro poema 
seu, As lamentações do Tasso, havia sido inspi- 
rado pela vista da prisão d'est'outro poeta em 
Ferrara, é egualraente digno do heroe e do au- 
tor ; faz-nos lembrar os versos de Garrett can- 
tando o nosso Camões. 

Tendo-se separado de seu marido, em 1820, 
a condessa Guiccioli recolheu-se á habitação pa- 
terna, situada a quinze milhas^ de Ravena, aon- 
de só uma ou duas vezes por mrz recebia a vi- 
sita de lord Bvron. O poeta entregue pois á so- 
lidão e a melancolia o resto do tempo, teria mor- 
rido de tristeza, se a agitação da Itália não viera 
despertar-lhe os brios de homem livre e enthu- 
siasta pelos descendentes dos antigos romanos 
O seu palácio tornou-se um foco de conspiração 
pela causa da liberdade italiana, e o refugio dos 
conspiradores da Romania. 

É notável uma carta escripta por lord Byrou 
ao governo napolitano, oiferecendo os seus ser- 
viços á causa da Itália ; infelizmente, porém , 
nem este auxilio, nem os esforços dos patriotas, 
alcançaram o triumpho da liberdade italiana. 
Quando o exilio foi a recompensa do nobre pro- 
ceder d"estcs homens livres, os pobres de Rave- 
na dirigiram uma petição ao cardeal legado, sup- 
plicando-lhe que deixasse residir ali o seu pro- 
tector, lord Bvron. 

E e o nome de um homem d'estes, que gente 
covarde e infame tem querido denegrir... dcs- 
presiveis invejosos ! 

Byrou disse um dia: «Os que me perseguem 
constantemente, Iriumpharão emlim ; e não se 
me fará justiça, sem que esta r-ão e«tcja tão fria 
como os seus corações. « 



1S8 



O PANORAMA. 



- Entre o numero dos patriotas exilados conta- 
va-se o conde Gamba e seu fillio, pae e irmão 
da condessa Gui<'cioli, que se retiraram para Pi- 
sa ; e ahi os foi encontrar lordBvron, emOiitu- 
LrodelSil. 

N'esla cidade collaborou o nosso poeta na re- 
dacção de um jornal, O Liberal, commrs.IIunt 
e Shelley, e nas suas columnasappareceram pe- 
la primeira vez o poema A visãn do juiso final, 
e o mystcrio O eco e a terra, de lord Bvron. 

De Pisa passou o poeta para Génova; porém 
o ecco das batalhas ([ue se pelejavam no orien- 
te, pela liberdade da Grécia, veiu acordar de 
novo o enthusiasmo de Byron, e este amigo da 
humanidade decidiu trocar a Itália escravisada 
por ai|uelle lúrmoso paiz onde se combatia para 
ser livre. 

Entrou immediatamente cm correspondência 
com o comité grego, e declarou-se campeão d'a- 
quella justa causa , muito a contento dos seus 
compatriotas, que só então descobriram no poe- 
ta calumniado um nobre caracter. Em.Iiilhode 
1823 deixou elTectivamente a Itália, em compa- 
nhia do irmão da condessa ; e a pobre senhora 
ficou só ! 

Byron dirigiu-se a uma das ilhas Jonias, pa- 
ra tomar informações sobre o estado da guerra 
antes de desembarcar no continente; e partindo 
deCephalonia, chegou á vista da costa da Morea 
em tins de Dezembro. Apesar dos ventos contrá- 
rios, e da esquadra turca que bloqueava Miíso- 
longhi, entrou n'esta cidade, entre as vivas ac- 
clamaçõcs do povo, enthusiasmado pelo seu no- 
bre alliado. 

Este derradeiro periodo da vida do generoso 
poeta, e mais algumas noticias acerca das suas 
preciosas obras, completarão o esboço que nos 
propozemos delinear, e serão o assumpto do (|uar- 
to e ultimo capitulo deste humilde estudo. 

Continua. F. M. Bord.vlo. 



FUNCII.\L. 

Conclusão. (.) ' ' 

"É extrema a sobriedade e frugalidade dos 
camponezes. Nutrem-se de pão, batatas, cebo- 
lal, varias raizes, e são ])Ouc() carnivoros. Tecm 
um tédio tão pronunciailo pelas Irijias dos ani- 
raaes, que passa entre elles conio provérbio di- 
zer-se de um homem pobre: c.sla reduzido u co- 
mer tripas. A bebida ordinária é agua, e agua 
pé preparada com o bagaço da uva, depois de 
no lagar ter servido ao vinho. iwUi agua adi[ui- 
re pela fermentação um gosto j)icante, (jue con- 
serva por pouco tempo. Pouco vinho bi'bem el- 
les do (juo preparam pelas suas mãos, e faz tão 
famosa e conhecida esta ilha. 

"A cultura da vinha e sua princijíal occupa- 
ção; porém, pedindo esta industria cuidados não 

(t) l)u num. ii. 



muito assíduos, passam a maior parte do anno 
na ociosidade. Como o calor do clima obsta a 
conservarem-se por muito tempo as provisões, e 
é fácil satisfazer ás necessidades doappetite, a 
indolência é maior, e infelizmente as leis não 
procuram excitar o esjjirito de industria. Pare- 
ce que o governo portuguez não adopta as ne- 
j cessarias providencias contra esta perigosa le- 
I thargia do estado. Ultimamente ordenou a plan- 
tação de oliveiras nos terrenos mais seccose es- 
téreis para vinha, porém não se lembrou de coad- 
juvar os cultivadores, nem de olTercccr-lhes re- 
compensas para os estimular a vencerem a natu- 
ral repugnância ás innovacões e aversão ao tra- 
balho. 

«'Os lavrailorcs não recolhem para si mais de 
quatro décimos do proilucto : pagam quatro em 
espécie ao proprietário do solo, um ao rei, e ou- 
tro ao clero. Trabalhando assim para os outros 
é tão pequeno o benelicio que gosam, que pou- 
cos melhoramentos applicam á cultura. Apesar 
<la sua o|ijiressão parecem comtudo contentes e 
felizes. Em (juaiito trabalham cantam, comodul- 
cilicando as suas rudes penas, eá noite reunem- 
se e dançam ao som d'uma guitarra. 

«Os habitantes da cidade são ainda mais infe- 
lizes, e a prova está, além d'outras, na magre- 
sa e pallidez do rosto. Os homens vestem áfran- 
ceza, ordinariamente de preto, o que lhes nã» 
assenta mui bem ; as feições das mulheres ex- 
pressam delicadeza e agrado, porém o ciúme dos 
liomens lem este sexo como encerrado, privan- 
do-o assim da felicidade que gosam as campo- 
nezas, ainda na sua miséria. Tcem grandes pre- 
tcnções a nobreza, e lisonjeiam seu orgulho n'al- 
guns velhos titulos ; são insociáveis e ignoran- 
tes, e tem uma ridícula atfectação de gravidade. 
A terra pertence ([uasi toda a um pequeno nu- 
mero de famílias antigas, que vivem no Funchal, 
e nas dilVerenles cidades da Madeira. 

".\ ilha é composta d'uma grande montanha; 
os llancos erguem-se, por todas as partes do mar, 
reunindo-se no cume e no centro. Diz-se(|ueno 
meio ha niiia cavidade natural, a (pie os insula- 
res chamam ovalte, semjire coberta de herva mui 
delicada e tenra. Toda a pedra parece queima- 
da, é cheia de buracos, e de côr escura, sendo 
a lava asna parte principal. O solo é misturado 
com greda, cal e areia. Estas circunstancias, e 
a elevarão do cume da montanha, me fazem crer 
([ue em teuqjos antigos um volcão produziu a la- 
va, !• (]ue o valle de hoje era a cratera. 

«Muitos mananciaes d'agna e riachos descem 
das parles altas para os valles e queb''adas que 
cortam a ilha. Não eisconlrámos na ilha as pla- 
nícies de ((ue alguns viajantes faliam , t se as 
houvesse a corrente da agua naturaluiente se di- 
rigiria para ahi. Os leitos das ribeiras estão co- 
bertos de pedras de dilferentcs grossuras, que fo- 
ram arrastadas pela violência das chuvas de in- 
verno 011 desgelo da neve. Ha canaes que con- 
duzem estas aguas por entre as vinhas, e todos 
os proprietários, por um lempo limitado, teemo 



o PANORAMA. 



1S9 



usufructo d'estas aguas ; alguns podem ser- 
vir-se d'cllas todo o anno ; outros três, duas e 
uma vez por semana. A rtga é absolutamente 
necessária ás vinhas por causa do calor do cli- 
ma, e a plantação de uma vinha nova custa mui- 
to. O proprietário pode comprar a agua, que é 
mui cara, áquelles que teem ousurrucIod'ella. 

« Onde querque nas coilinas ha um terreno com- 
pacto, os insulares logo ahi fazem uma plantação 
do (turuin esculenliim, de Linn. Cercam a planta- 
rão com um fosso, para conservar a agua esta- 
gnada: porque efectivamente esta planta se dá 
melhor nos terrenos pantanosos. \s folhas ali- 
mentam o gado suino, e os homens comem as rai- 
zes. 

«Plantam egualmente batatas doces [convolcu- 
lus balatas) de que ha grande consumo; e tam- 
bém de castanhas, que crescem nos bosques mais 
elevados da ilha onde não ha vinhedo. Semeiam 
trigo e cevada nas vinhas velhas, ou por entre o 
bacello; porém o producto d'estas searas não dá 
para mais de três mezes, e os habitantes vêem- 
se forçados a recorrer a outros climas, especial- 
mente á America, com a qual permutam o seu 
vinho por cereaes. Sc a producção é tão peque- 
na, deve attribuir-sc á falta do marne, e inac- 
tiridade dos habitantes ; suppondo porém mes- 
mo que a agricultura ali chegasse á sua máxi- 
ma perfeição, julgo que as colheitas nunca da- 
riam para o consumo. Debulham o trigo n'um 
campo, muito calcado e varrido (a que se cha- 
ma eira); estendem os feixes, e os bois arrastam 
um quadro guarnecido de pontas agudas. O 
conductor colloca-se cm cima do quadro para 
lhe augmentar o peso, e assim liça cortada a pa- 
lha, e separado o trigo do invólucro da espiga. 

«Onde o solo, a exposição, e o ar o permit- 
tem, ha uma vinha, aberta em ruas separadas 
por valados de pedra, de dois pés de altura. A 
vinha está em parreiras, que terão quasi sete pés 
d'alto, e estão sustidas por estacas de madeira, 
ou pilares em distancias regulares. Assim a uva 
íica levantada, e os cultivadores podem arran- 
car facilmente as ruins hervas que nascem de 
permeio. No tempo das Tindimas trepam os tra- 
balhadores ás parreiras, e cortam os cachos, e 
alguns d'elles vi que pesavam seis libras. Este 
methodo de conservar sempre o terreno fresco e 
húmido, e fazer amadurecer a uva á sombra, con- 
tribue para dar ao vinho da Madeira essecxcel- 
lente sabor e corpo que o faz tão celebre. É pre- 
ciso destinar terrenos á cultura da canna neces- 
sária para as latadas e parreiras, ediz-se que ás 
vezes por falta d'ellas se abandonam certas vi- 
nhas. 

«Não sendo todos os vinhos de egual bondade, 
tem por isso diversos preços. O melhor é o que 
se extrahe de uma planta que o infante de Portu- 
gal fez transportar de Cândia, eque se chama m«/- 
vasia da Madeira. Uma pipa, comprada na iliia, 
custa. iO ou i'2 libras esterlinas. D'este fabrica- 
se pouco. Ha outro vinho secco que se exporta 
para os mercados de Londres, a 30 e 31 libras 



esterlinas a pipa. As qualidades inferiores, que 
se exportam para as índias orientacs , ilhas da 
America, e .\merica septentrional, vendem-se a 
28, 53 e 20 libras esterlinas. Anno eommum fa- 
bricam-se 30 mil pipas, de 1 10 gallões cada uma. 
Exportam-se 13000 da melhor espécie; e o resto 
consome-.se na ilha, e distilla-se em aguarden- 
te para o Brasil. 

«As vinhas teem ao redor seus muros e arvo- 
res fructiferas, como pereiras e romãs, e tam- 
bém murta, e plantas agrestes. Nos pomares e 
hortas plantam pecegneiros. alperceiros, e mais 
fructos da Europa, e plantas dos trópicos, como 
bananas, goiabas, ctc. 

«Ha na Madeira os animaes domésticos da Eu- 
ropa, e o carneiro e o boi, ainda que pequenos, 
são de excellente gosto. Oscavallos, também pe- 
quenos, são seguros e ágeis, trepando facilmen- 
te pelos caminhos ainda os mais escabrosos. N<ão 
ha vehiculos de rodas, e os vinhos e as merca- 
dorias são transportados de uni logar para outro 
sobre duas pranchas unidas por meio de uma tra- 
vessa, e formando na parte dianteira um angu- 
lo, aonde atrelam os bois. 

('Ha poucos quadrúpedes selvagens, e só en- 
contrei o coelho ordinário. Os pássaros são mui- 
tos. Não se encontra ali nenhuma serpente; po- 
rém as casas, vinhas e hortas abundam em la- 
gartos, que chegam a destruir os fructos. As cos- 
tas da Madeira, e das ilhas visinhas, as Selva- 
gens e Desertas, teem pescaria, mas como não é 
assaz para o consumo da quaresma, usa-se mui- 
to do bacalhau e dos arenques fumados. Acha- 
mos poucos insectos, e esses de espécie conhe- 
cida. Farei aqui uma observação geral. Os qua- 
drúpedes, os reptis amphibios, e insectos não são 
numerosos nas ilhas um pouco afastadas do con- 
tinente, e os que se encontram n'ellas foram trans- 
portados pelos homens.» 



O MORTO VIVO. 

HISTORIA DE UM FAKIIl QUE GANUA A SUA MDA DEI- 
XANDO-SE ENTERRAR. 

No entanto que os sábios disputam sobre as pro- 
priedades da vida. referiremos a noticia de ura 
homem. (|ue depois de estar enterrado muitos me- 
zes, volve ás funcções da vida. Por extraordinário 
que pareça o caso, não se pode qualiiiear de fa- 
buloso, se as regras da fé humana merecem al- 
gum respeito, e o testemunho de pessoas graves — 
testemunhas oculares do fado extraordinário ([ue 
vamos narrar. Entre estas pessoas figuram o agen- 
te inglez de Lodhiana, vários officiaes do exer- 
cito da índia, e o celebre general Ventura, que 
na sua viagem a Paris confirmou a exactidão da 
relação de rar. Osborno, autor de um livro tão ins- 
tructivo, como divertido, sobre a corte de Rund- 
jet-Sing, imperador de Lahoz. 

Se desejássemos ultrapassar os limites de uma 
modesta narração, citaríamos em apoio da possi- 



190 



O PANORAMA. 



bilidade d'este phenomeno vários exemplos de ca- 
talépticos que mais ou menos mezes permanece- 
ram em estado de verdadeiros cadáveres. A Gaze- 
la Medica franceza, de 1709, refere um caso d'es- 
ta espécie, succcdido no Berri. Um lavrador, cha- 
mado Mateo Anclerc, homem de caracter melan- 
cólico e taciturno, se bem que cuidadoso dos seus 
interesses, caiu n'uma completa catalepsia, c por 
três mezes não deu signal nenhum de vida. Es- 
te acidente repetiu-se por varias vezes, sempre 
com a mesma duração, c a insensibilidade e pa- 
ralisação geral das luncções vitaes resistiram a 
todas as experiências que se ensaiaram. Ainda 
.se podia citar outro caso mais recente que foi ad- 
mittido na noticia das experiências de mr. Seguin, 
em Blois, o que escusamos para entrar já no ca- 
so a que alludimo.s. 

" Em 6 de Junho de 1838 (diz o autordo re- 
ferido livro sobre a corte de Rundjet-Sing) inter- 
rompeu-se felizmente a monotonia da nossa vi- 
da do campo com a chegada, a Pcndjab, de um 
homem celebre. Â veneração de quccilegosaó 
extrema, e funda-se em possuir a faculdade de 
estar sepultado o tempo que quer. Referiam-se no 
paiz lances tão extraordinários deste homem, e 
a sua authcnticidade era abonada por pessoas tão 
respeitáveis, que anciosamente odcsejavamosver. 
£lle próprio nos certilicou que havia já alguns an- 
nos que exercia aquelle sca ojpcio (expressõespro- 
priasj, fazendo-se enterrar, e cffectivamente em 
muitas partes da índia o viram repetir esta sin- 
gular experiência. Entre as pessoas formaes e fi- 
dediguas que certificam a sua authcnticidade, de- 
ve citar-se o capitão Wade, agente politico em 
Lodhiana, que assistiu á resurreição do fakir, en- 
terrado havia jú alguns mezes em presença do ge- 
neral Ventura, do mahazadjab, e jirincipaes che- 
fes. " 

Eis agora os pormenores do enterro, e as cir- 
cunstancias da exhumação. 

Os preparativos duraram alguns dias, e são de 
Índole (jue se não podem enumerar sem excitar 
repiiguancia das nossas leitoras. Concluidos es- 
tes preparativos, o fakir declarou estar disposto 
a subjeitar-se á prova da sepultura. O mahazad- 
jab, os cheles indígenas, c o general Ventura re- 
uniram-se juntoaumsepulchrode hulrillios, cons- 
truído expressamente para receber e conservar o 
corpo que se ia enterrar. Em presença dos cir- 
cunstantes o falvir laiiou com cera todos osconduc- 
los por onde o ar lhe podia entrar, excepto aboca; 
despiu depois toda a roupa que levava, c assim 
nu o involveram n'iirua mortalha ou sacco, vol- 
tando-se-llie, segundo elle próprio determinara, 
a língua, de modo (|ue iiie cerra.sse a entrada da 
garganta. Terminada esta operação , o fakir 
caiu n'unia espécie de lethargo. Então fecharam 
o sacco onde se tinha encerrado, e o mahazad- 
jab poz-Ihe o seu sello. Assim omctteiaiu num 
caixão de madeira, que se fechou a cadeado, e 
sellou de novo, mettendo-se depois dentro da co- 
va. Deitou-se-llie por cima muita terra, que se 
acalcou, e semeou de cevada, pondo-se ao redor 



do sitio sentínellas para velarem dia e noite na 
guarda d'aquelle sitio. 

Apesar de tantas medidas de prevenção, o ma- 
hazadjab, receios» e suspeitoso, como o são todos 
os orientaes, não deixara de ter suas duvidas, 
e foi por duasTezes visitar a. sepultura no espaço 
de dez mezes que o fakir esteve enterrado. Quando 
mandou abrir a sepultura, viu com seus olhos e 
pôde tocar com as mãos o corpo exânime e ge- 
lado, tal qual o metteram no sacco e ataúde Fi- 
nalmente, passados os dez mezes procedeu-seá 
definitiva exhumação. 

Acudiram a presenceal-a todos que foram tes- 
temunhas do enterro. O general Ventura, e o ca- 
pitão Wade viram abrir o cadeado, romper os sel- 
los, c extrahír o caixão da sepultura. Tirou-se o 
fakir, no qual nem pulso, nem coração davam o 
mais leve signal de vida. Só na extremidade da 
cabeça se percebia algum calor. Uma pessoa, in- 
troduzindo-lhe com muita cautela odedonaboc- 
ca, voltou-lhc a língua á postura natural. Der- 
ramando-se-Ihe depois agua quente sobre o cor- 
po, se foram obtendo, pouco a pouco, symptomas 
de vida. Finalmente, ao cabo de duas horas de 
um tratamento prolixo e adequado, o bom fakir 
levantou-se, e principiou a andar sorríndo-se. 

" Este homem verdadeiramente extraordinário 
(accrescenta Osborne) conta, que durante a sua 
exhumação sempre tem sonhos deliciosos, mas que 
ao despertar sente dores mui Tiolentas. Antes de 
recobrar o conhecimento padece vertigens. » 

A sua edade, na época a que nos referimos, 
seria de trinta annos, e o seu aspecto desagra- 
dável, com certa expressão de astúcia, que con- 
trasta com a idéa que deve suggerir o seu esta- 
do frequente e prolongado de amortecimento. 

Tal é o singular phenomeno que queríamos dar 
a conhecer aos nossos leitores. Citámos os nomes 
respeitáveis das pessoas que o presencearam; com- 
tudo não estranharemos que se duvide de sua 
exactidão, por ser até racional duvidar-se dos foc- 
tos (|ue estão cm aberta opposição com o curso 
ordinário das coisas; mas nem por esta razão nos 
parece que o caso se possa negar. Acaso sabe- 
mos se a vida é um movimento essencial conti- 
nuo? Sabemos se é capaz de temporárias inter- 
rupções? Qual é a regra? Qual a excepção? O 
estado dos aniiuaes que hj bernam, a suspensão 
das luncções vitaes n'algumas enfermidades que 
affectam ou a vida de relação ou a vida orgâni- 
ca, e ás vezes uma e outra, e, finalmente, a ex- 
periência de factos ainda não bem classificados 
entre a patologia e a phisiologia, aconselham uma 
prudente circunspecção. ^ * 



O IMPÉRIO DANNAM. 

Conclusão. 

Durante este tempo, os dois usurpadores li- 
nham-se de tal modo enfraquecido por cortiba- 
tcs successitos, e os súbditos lieis desejavam lan- 



o Panorama. 



191 



to a presença do rei cm Donnai, que este determi- 
nou aventurar uma spjiunda invasão em seus es- 
tados. Os seus vassallos de todas as classes rcuni- 
ram-sc-!hc com ardor ás bandeiras; e clle trans- 

Sortou-se a Say-Gong que imniediataniente for- 
ficou, pondo-a em estado de defesa. O acaso 
linha-íhe apresentado o momento mais favorável 
para o desembarque; porque os dois irmãos re- 
beldes, que estavam em guerra, achavam-se en- 
cerrados nas suas capitães, onde cada um espe- 
rava ser atacado peio outro. Além d'isso, o rei 
tinha conquistado uma parte de Camboja e do 
Lao ; e soubera dantemão tirar grande provei- 
to dos soccorros que esperava do rei de França, 
annunciando por toda a parle a alta protecção 
que tinha grangeado, e inspirando assim con- 
fiança aos amigos, e terror efficaz aos inimigos. 
Estas felizes noticias reanimaram as esperanças 
do bispo e do seu pupillo, os quaes se juntaram 
ao rei era Say-Gong no anno 1790, levando 
um pequeno navio carregado d'arnias e muni- 
ções. Então concertaram o plano para proseguir 
vigorosamente a guerra contra o usurpador. Fo- 
ram obrigados a empregar quasi todo o primei- 
ro anno em fortificar Say-Gong, recrutar, disci- 
plinar o exercito, pôr em ordem e esquipar uma 
frota . 

No anno 1791, o rebelde Quang-Tung mor- 
reu em Ilué, deixando um lilho, chamado Canh- 
Thin, de doze ânuos de edade, pouco mais ou 
menos. Este acontecimento fez accelerar as dis- 
posições do rei legitimo. Nquien-Chung atacou 
a armada de Nhac no porto de Quin-Nong, e 
quasi a destruiu. Em 1793, todo o Donnai es- 
tava submettido, apesar dos esforços algumas 
vezes felizes de Canh-Thin. e principalmente do 
famoso general Thien-Pho, que commandava as 
suas tropas, guerreiro tão notável pela intrepi- 
dez como pela elevação dalma. 

Nhac conservava ainda o centro do paiz ; o 
reino de Hué, que comprehendia o território e 
as ilhas adjacentes á bahia de Turon, era go- 
vernado por Canh-Thin. Nhac morreu breve- 
mente, deixando por successor um lilho que ti- 
nha todos os vi«ios do pae sem ter nenhum dos 
seus dotes. 

Em 179G, Nquien-Chung resolveu investir a 
sua capital por terra. O inimigo tinha cem mil 
homens, mas não obstante, desbaratado comple- ' 
tamente, perdeu Quin-Nong. O lilho de Nhac I 
foi submettido, e todos os seus estados entraram : 
na obediência do rei legitimo. O joven usurpa- 
dor de Ilué estava ainda de posse do reino de 
Tunkin em 1800. Em 1S02, Nquien-Chung mar- 
chou contra elle, entrou em Tunkin, assenho- 
reou-se do reino, e tendo feito decapitar Canh- 
Thin, todos os chefes da familia Tay-son, o va- 
lente general Thien-Pho, sua mulher e lilha, re- 
uniu aos seus domínios os estados que compõem o 
actual império d'Ânnam. Foi reconhecido rei pelo 
imperador da China, em 180 í, e sob o nome de 
Gya-Long reinou paciticamente até á sua mor- 
te, acontecida a 25 de Janeiro de 1820. Seu 



filho, o discípulo do bispo .\dran, morrera sem 
casar: era o único que Gya-Long tivera da im- 
peratriz. Foi pois o lilho d'uma das suas con- 
cubinas que lhe succedeu e subiu ao throno a 
13 de Fevereiro de 1S20. Tomou o nome de 
Min-Menh, brilhante providencia, nome que a 
sua bondade e virtudes podem justificar, mas 
não a sua capacidade e talentos. 

Sobre a religião já demos resumida noticia 
nos mencionados números d'estc semanário. Ac- 
crescentareraos unicamente que o chrislianismo 
foi introduzido no império pelos portuguezes nos 
fins do século xvi e princípios do xvir. O nu- 
mero de prnselytos augmentou em pouco tempo, 
graças ao zelo dos jesuítas francezes ; mas fre- 
quentes ordens contra o exercício do culto, lhe 
impediram os progressos. Os jesuítas foram ex- 
pulsos em 1772, e desde então augmentou a se- 
veridade contra os chrístãos, e ainda ha pouco 
muitos missionários receberam ahí a palma do 
martyrio. 

Nas diversas operações das bellas-artes, oj 
annamitas não procuram de modo nenhum pro- 
duzir as sensações moraes; vêem só a matéria, 
e não tratam senão de impressionar os sentidos. 
Desprovidos de princípios e modelos, entregam- 
se ás suas phantasias, que degeneram por ve- 
zes em extravagâncias. Da mesma forma que na 
acção sobre o ouvido, preferem o estrondo á me- 
lodia ; assim na acção sobre a vista, deixam a 
justa proporção pelo gigantesco, e a elegância 
pela accumulação d'ornatos. As conveniências, 
a graça, a simplicidade são-lhes desconhecidas; 
entretanto algumas das suas pinturas são agra- 
dáveis mesmo pela singularidade. 

O desenho, sem o qual a pintura é nada, nun- 
ca dirige os seus pincéis. Não lêem nenhuma 
idéa da perspectiva : pintam todos os objectos 
como se fossem isolados, e sem ter em conta as 
differenças da proporção causada pelo effeíto da 
sua distancia relativa. A todos os quadros falta 
ordem e união ; as figuras não teem correcção, 
elegância, nem espirito; o colorido é vivo, mas 
sem graduação de cores ; apenas conhecem o 
emprego das sombras, e ignoram completamen- 
te o do claro-escuro. Assim, nas obras d'es- 
tes artistas, debalde se procurará a illusão, e 
mesmo a apparencia da realidade. É verdade 
que as particularidades são representadas com 
exactidão e paciência admirareis ; mas o que é 
esse mérito dexecução mecânica em comparação 
da ausência total dos princípios da arte ? 

A esculptura n'estc paiz é ainda menos cul- 
tivada que a pintura. Em todo o império ha só 
uma província, a de Xu-Tlianh, onde se grava 
a pedra, porque ahí existe uma qualidade del- 
la que se aproxima ao mármore. N'essa provín- 
cia, algumas famílias applícadas a esta arte, re- 
presentam bem os animaes, mas pessimamente 
a figura humana. Nas outras partes do império, 
trabalham em certas madeiras duras, próprias 
para a esculptura; mas aindaque o paiz apresen- 
ta os animaes da melhor apparencia, os artistas 



199 



O PANORAMA. 



preferem sempre representar animaes monstruo- 
sos, e phantasticos, aos quaes a sua imaginação 
liga algumas idéas supersticiosas. 

Quanto á arcliitectura, não está mais adian- 
tada que as suas duas irmãs, e como cilas pa- 
rece coudemnada, no império d'Ânnam, a uma 
eterna infância. 

Algumas vezes, entre os annamitas, o templo 
não é mais que uma espécie de casiuhola com 
duas portas, collocada em uma arvore, contendo 
a figura de Bouddha. Nos bosques que cercam 
Turanue, vèem-se muitos cestos ou caixas de 
madeira suspensos nos ramos das arvores, ten- 
do Ídolos de madeira ou figuras de papel pinta- 
do e doirado com inscripções sobre pequenas la- 
minas. O povo oITerece a estas imagens as pri- 
mícias das colheitas depondo-as junto á arvore, 
ou suspendendo-as nos seus ramos. 

Por esta espécie de capelias, e por certos tem- 
plos rectangulares, que são apenas simples aí- 
pendradas abertas de todos os lados, sem alta- 
res, nem outros ornamentos mais que alguns Ído- 



los suspensos, ou postos sobre cavallctcs de pau, 
tinham acreditado certos viajantes que os anna- 
mitas não levantavam nenhum templo digno de 
ser classificado como monumento : é um erro. 
Se o império d'Annam não apresenta edifícios 
sagrados que se possam comparar aos da índia, 
ha comtudo ali alguns que são dignos de atten- 
ção. Um d'estes é o templo subterrâneo que se 
encontra na cidade de Fai-Fo, na província de 
Cham, cuja descripção já demos. (») 

Todas as víllas tem ura templo, cuja simpli- 
cidade ou magnificência depende naluralmea- 
te da riqueza ou pobreza dos moradores. Quan- 
to aos templos de Confúcio, ainda que a religião 
deste piíilosopho não seja a reconhecida pelo 
estado, são os únicos para que o governo con- 
tribue : ha dois em cada província, k despeza 
dos outros templos está a cargo de quem os fre- 
quenta, ou é fornecida por fundos applicados ha 
muito tempo a este uso, e provenientes de le- 
gados. 

(■) Yid. Panorama num. 2 de 1856. 



íM m m 



o editor e proprietário do Panorama começou 
em Janeiro del.S5() a publicação da lllustração 
Luso-Brasileira, que, apesar de estar Inngedo 
que devia ser, o que não admira, se se atten- 
der a que foi uma tentativa, era incontestavel- 
mente o primeiro jornal litterarío do paiz. 

O anno de 18ofi foi, infelizmente, bastante ca- 
lamitoso; porém tal circunstancia não fez dcscoro- 
çoar o editor, que, encetando era Janeiro essa pu- 
blicação, leve o gosto de concluir o volume em 
Dezembro do mesmo anno, tendo lutado com in- 
gentes obstáculos. 

No corrente anno quiz publicar o segundo vo- 
lume, consideravelmente melhorado, o que lhe 
não foi possível por falta de assignantcs. 

Tencionando continuar para o anno futuro essa 
publicação, o editor confia que será ajudado pelos 
seus concidadãos amantes das letras pátria.?. Nin- 
guém ignora que uma grande parte dos assignan- 
tcs, tanto de Portugal como do império do Brasil, 
lêem sido fraudados com algunuiH publica-ôes 
portuguezas, suspensas em meio, ficando assim 
sem o dinheiro que nellas empregaram, e sem 
as obras, porque um livro por concluir c inútil. 

Para que não haja receio dcsimilliante dolo, 
o proprietário da lllustração continuará esse se- 
manário para o futuro aunodelSíiS, offerecendo 
a seguinte garantia, que altesta a sua lealdade, 
boa fé, e zelo pela nossa liileratura. 

Quahiuer pessoa que angariar no Brasil assi- 
gnaluras |)ara a mesma lllustração, deverá re- 
quisitar o numero de exemplares que preci.sa, pa- 
ra lhe serem remettidd.s regularmente a propor- 
ção que se forem publicando. As importâncias 
das assignaturas deverão ser pagas no fim do an- 



no ; de maneira que, se o volume ficar incomple- 
to, nada lerão a pagar os correspondentes pelos 
exemplares que tiverem recebido, qualquer que 
seja o seu numero e valor. 

Eis o que ainda ninguém fez ! 

O editor mostra assim que não a ambição, 
mas só o desejo de ser util ao seu paiz, o deter- 
mina a continuar uma publicação, que deman- 
da exorbitantes despezas. 

É justo porém, que quem assim dá seguran- 
ças, as tenha também por parte dos outros. 

O editor portanto pede aos senhores que se en- 
carregarem de solicitar assignaturas, que quan- 
do fizerem a requisição dos exemplares, indiquem 
logo pessoa de credito, n'esta cidade, que deva pa- 
gar, immediatamente depois da publicação do 
ultimo numero do anno, a importância de todas 
as assignaturas que forem enviadas durante o 
mesmo anno. Sem esta clausula, não se farão as 
remessas. 

Os srs. correspondentes devem participar, até 
o fim de Setembro do corrente anno, qual o nu- 
mero de exemplares que pretendem ; afira de se 
]ioderem fazer as encommendas dos maleriaes ne- 
cessários para um jornal de tal ordem, se o nu- 
mero de exemplares pedido bastar para as des- 
pezas da sua publicação. 

O preço da assignatura, pago no fim do anno, 
e íSnno'réis fortes, livres de toda a despeza. Se 
liorem algum sr. correspondente, confiando no 
l»rnprietario, quizer pagar adiantado, temo aba- 
liinento de 1!5 porcento. 

Os srs. correspondentes terão a bondade de in- 
dicar o modo como desejam receber os exempla- 
res. 



2S 



o PãNORàMâ. 



193 




NOVA EGREJA DE S. SALVADOR. 



Ha um anno tem-se erigido cm Inglaterra, 
tanto na metrópole e seus subúrbios, como em ' 
as outras cidades o povoações, grande numero ' 
de edifícios com diderentes destinos; e de mui- 
tos d'elles este jornal tem dado desenhos e no- 
ticia ; templos, escolas, monumentos, construc- 
ções particulares são fabricados com um despen- 
dio, que só uma nação assim poderosa e opulen- 
ta pode costear as avultadas despezas que de- 
mandam, principalmente sendo feitos quasi ao 
mesmo tempo. É para notar que pela máxima 
parte não entram nisto os dinheiros dos cofres 
do estado, e tudo é á custa de associações e de 

VOL. I. — 4.' SEKIE, 



indivíduos que promovem as subscripções, oii 
pagam da própria bolsa, c dirigem as obras e 
os institutos a que são applicadas. A nova egre- 
ja de S. Salvador em Warwick-road, sagrada 
no anno passado é de amplas dimensões e gran- 
diosa structura no que chamam hoje estylo go- 
thico, incluindo no mesmo gosto as vidraças da 
cores em repartimcntos, apresentando uma se- 
rie de pinturas de assumptos escolhidos do No- 
vo Testamento. O púlpito é uma peça rica de 
obra de talha em madeira de carvalho; e egual- 
mentc bem trabalhados são todos os ornamentos 
e adereços da egreja. M. 

JUNHO, 20, 1857. 



i»4 



O PANORAMA. 



ALFAYAS DO KREMLIN. 

Ko thcsouro do santo castello da Rússia, es- 
tSo depositadas não so as coroas que teem cin- 
gido as frontes dos czares e czarinas nos dias da 
sua coroayão, mas taiubeni os lliroaos, e as co- 
roas dos reinos que no decurso dos tempos teem 
íuccumbido ás armas russianas, e que íormam 
hoje parte integrante do império. Poucas d'cllas 
se distinguem pelo seu mérito artístico, c sim al- 
gumas por sua antiguidade , e quasi todas por 
sua magnificência e extraordinária ritjueza. Par- 
te d'estas alfayas figuraram na calliedral de Mos- 
Gow, na occasião da coroaçcão. 

Daremos a descripção das priucipacs. 

Citaremos em primeiro logar a coroa da im- 
peratriz A.una Iwanowna, guarnecida de dois mil 
quinhentos e trinta e sete diamantes, e um rubim 
que foi comprado cm Pekin por 60000 rublos. 

A coroa de Uladimiro serve na coroação do 
herdeiro ao throno. É lavrada em iilagraiia, so- 
bremontada por uma cruz de oiro massiço, que 
tem em cada extremo uma pérola. Tem incrus- 
tadas quatro esmeraldas, dois rubins, vinte cin- 
co pérolas, e é rodeada com uma lira de marta de 
Sibéria. 

A coroa de Astrakan tem a forma de tiara com 
uma assombrosa profusão de pedras preciosas ; 
mas de gosto pouco agradável. É ao mesmo tem- 
po a coroa imperial de oiro de primeira ordem 
do czar, e do grã-duque Miguel Tendorowitsch, 
e está adornada com cincoenta e seis pérolas 
grandes, uma safira de assombroso tamanho, 
doze gemmas de cor azul celeste de medianas 
dimensões, e doze mais pequenas de egual còr. 
Na parte inferior está como a precedente guar- 
necida de pelle. 

A coroa da Sibéria é de oiro massiço com ador- 
nos de preciosa obra d'arte. Tem sobreposta uma 
cruz adornada de pérolas, e na parte inferior uma 
tira de velludo carmesim escuro. 

Os dois seeptros — o imperial c o grande de 
estado — são riquíssimos, se bem que alguma coi- 
sa de tosca eonstruccão, guarnecidos com gran- 
de numero de pedras preciosas, e o ultimo re- 
matado ))0v uma formosa esmeralda. 

A coroa de Kasan é de filetes de oiro, com es- 
maltes pretos. As pedras preciosas que a ador- 
nam são rubins e tiirquczas, e tem além d'isso 
muitas pérolas engastadas em oiro. O remate é 
formado por um grande rubim que descansa so- 
bre duas pérolas , e sobremontado por outras 
duas. k borda inferior é forrada de pelle dezi- 
btlina. Kasan foi conquistada pelos russos cm 
1!)5I], reinando Iwan iv. O valor da coroa está 
taxado cm SSi rublos e iO kopiikes. 

A coroa do czar e do grã-duque Pedro Ale- 
xiewitsch c geralmente chamada a gorra dos dia- 
mantes, por ter oitocentas c dezesete d'eslas pe- 
dras preciosas, e mais quatro rubins e oito esme- 
raldas. Calcula-se o seu valorem 16030 rublos. 
Tem mais adornos , e lambem está forrada infe- 
riormente «om pelU de zibelina. 



A coroa de primeira ordem, que é a do czar 
Iwan Alexiewitsch, excede em valor as outras por 
causa de um grande rubim avaliado em 700 ru- 
blos. O seu valor total é de 17£ll rublos. 

O pequeno globo imperial é o da Rússia Menor, 
e denoraina-se de oiro. Foi depositado no thcsou- 
ro imperial em virtude de um ukase do impera- 
dor Pedro II, datado de 30 de Março de 1728. 
E rematado por uma cruz massiça de prata. 

O grande globo imperial da Rússia, é de es- 
tylo bizantino; data do século x, e serviu de mo- 
delo a outros, que mais tarde se construirani em 
Veneza. Consistem as suas jóias em cincoenta e 
oito diamantes, oitenta rubins, vinte e três gem- 
mas de còr azul celeste, cincoenta esmeraldas, 
e trinta e oito pérolas engastadas cm oiro esmal- 
tado. Sobre nus escudos de fornia triangular ha 
pintadas a esmalte varias scenas da vida de Da- 
vid. No anno de 1723, exceptuando os rubins 
da cruz, duas esmeraldas, e seis grandes péro- 
las, foi este globo avaliado em 1630 rublos. 

A coroa do czar Pedro Alexiewitscii é uma co- 
roa de segunda ordem, de oiro liso, e assim tam- 
bém a cruz com pérolas nos extremos. Avalia- 
se cm 4o0 rublos. 

O vaso que contém o óleo para asagraçãodo 
imperador, é de forma oval com pedestal de oiro 
ricamente adornado; a tampa é do mesmo metal, 
e por dentro a taça é de jaspe. 

Também ha no thesouro imperial do Kremlin 
três cruzes adornadas com profusão de pedras, 
cujas insígnias usam os czares em certos actos 
solemnes, c um terceiro globo, no género bizan- 
tino, com abundantes adornos de esmalte e pe- 
dras preciosas. 

As outras insígnias do império russo, são : o 
escudo imperial, o estandarte, sello, e espada do 
império, com dilTerentes pendões e vários sólios 
de deslumbrante magnificência. 

O escudo imperial é feito de coiro forrado do 
velludo carmesim, e bordado a oiro. A espada do 
império, que está n'uma bainha de velludo car- 
mesim com bocal e ponteira de oiro, tem uma 
folha muito larga e a ponta arredondada. O pu- 
nho coinpõe-sc de duas cabeças de águia, cober- 
tas com uma coroa, sobreniontada d'um peque- 
no globo imperial com uma cruzinha. 

Dos sólios ou thronos mencionaremos os que 
serviram na ultima coroação. O que a imperatriz 
occupou é o mais antigo, e foi dado no anno de 
IOOj pelo shali Abiias da Pérsia ao czar Boris 
Godunow. Está tão perfeitamente coberto com 
uma chapa de oiro, que parece ser todo massi- 
ço d'este metal. Os adornos, que constam de pe- 
dras preciosas o jierolas, são niagnilicos. O se- 
gundo throno, destinado á imperatriz reinante, 
e que se chama o throno de oiro, é uma cadeira 
com seu respaldar muito alto, adornado com mil 
e (|uinlientos rubins, oito mil tur(|uezas , dois 
grandes topasios c ametistas de grande bcllcza. 
Data do U'.m\)o do avô de Pedro Grande, o cjar 
Miguel Feodorowitsch. 

O terceiro ú o throno imperial propriamente 



o PàNORâMâ. 



19» 



dito, c ordinariamente se lhe cliauia a cadeira 
de diamantes. Está incrustado de abundantes 
pedras preciosas e pérolas, e foi dado de jirescn- 
te ao pac de Pedro Grande, o czar Alcxis Mi- 
«haaeiowitsch. Tem no espaldar a seguinte ins- 
«•ipção : 

lAo ])odcroso o invicto Aiexis, imperador dos 
moscovitas, (jue felizmente reina sobre a terra. 
Sirva-lhe este throno, obra distincta pela arte e 
formosa execução, de signal de benção e ventu- 
ra u'este mundo, e no outro.» A. 



Tratámos de traduzir esta legenda de um dos 
mais notáveis romancistas contemporâneos de hi- 
jlaterra, AVilliam Ilarrison Ainsworth, porque se 
riífere a uma época pouco conbecida, o que tem 
passado quasi inappercebida aos estudos da eru- 
dição britânica, e mesmo ás inspirações menos 
profundas do drama, e do romance. 

Walter Scott, que soube escolher sempre os 
assumptos mais dramáticos da historia de Ingla- 
terra e de Escócia, ([ue abrange com as suas ad- 
miráveis narrativas o longo periodo que decor- 
re desde as cruzadas até ás derradeiras tentati- 
▼as dos Sluarts, para reconquistarem o throno 
da Grã-Brelanha, nunca nos fez assistir á luta 
inevitável que deveria travar-se entre o catho- 
licisrao e a reforma, durante o reinado de Hen- 
rique VIII. 

«O ultimo abbadedcWhallcya, leva-nos exac- 
tamente ao seio dos acontecimentos, queoccorre- 
ram logo que o monarcha inglez abraçou o pro- 
testantismo. 

Não admira que o clero, excitado pelo seu pró- 
prio perigo, recorresse á revolta. Henrique viii 
separando-se de Roma, cedia aos resentimenlos 
do seu amor próprio, e ao desejo de engrande- 
cer o estado, com os despojos das ordens monás- 
ticas. Os intuitos políticos, como as paixões in- 
dividuaes, levaram-no a firmar o poder absoluto 
desvanecendo as resistências da aristocracia, pe- 
lo largo quinhão que lhe offerecia , n'esta vio- 
lenta expropriação das propriedades e riquezas 
do sacerdócio catholico. 

A reforma, entretanto, lavrava ha séculos na 
Inglaterra e na Escócia depois de "\^'iclef. O cle- 
ro, abandonado pelas classes superiores, com pou- 
cas raizes no espirito do povo, não pôde susten- 
tar a sua causa. A Peregrinação da Graça, co- 
mo a denominou a revolução, e de que trata o 
romance, caiu diante das armas do rei. A rai- 
nha Maria depois, pelas suas crueldades, e ly- 
rannica perseguição em favor do catholicismo, 
condemnou-o mais depressa. Isabel, finalmente, 
opera a transformação religiosa, unindo ás cren- 
ças um raro talento para o governo, e tornando 
solidários os destinos de Inglaterra na guerra em- 
prehendida contra o poder desmedido de Hcspa- 
nha. 

Sem acreditarmos esta composição uma obra 
prima de pensamento e estylo, preferimol-a a 
outras, porque derrama uma grande luz sobre 



um dos pontos, não sabemos se mais obscuros, 
mas pelo menos mais ignorados da historia in- 
gleza. 

Lopes de Mendonça. 



O ULTIMO ABBADE DE WHALLET. 



I 



N'uma tarde de Novembro de 1336, estavam 
oito homens de vigia no cimo do monte de Pendle. 
Dois conservavam-se collocados a alguma distan- 
cia dos primeiros, de modo que podiam avistar to- 
do o campo de um e outro lado da montanha ; 
estavam armados de espadas e arcabuzes, evia- 
se pelo seu trajo que eram archeiros: traziam bor- 
dado nas mangas o nome de Jesus, cercado das 
cinco chagas, emblema da Peregrinação da Gra- 
ça. Ao pé d'elles existia nm estandarte, mostran- 
do uma cruz de prata, o cálix e a hóstia: e por 
baixo uma figura de ecclesiastico, de capacete e 
espada, apontando para um edifício monástico, 
como para indicar que era em sua defesa qui 
assim SC havia armado. Esta figura representa- 
va João Paslew, abbade de '^'^ halley, ou conde 
da pobreza, como se intitulou depois que se de- 
dicara ao exercício das armas. 

Dos outros seis, dois eram pastores, e segu- 
ravam duas mulas e um cavallo ricamente ap- 
parelhado. Outro era couteiro, trazia faca á cin- 
ta, um clarim a tiracollo, e encostado a um ar- 
co de setta, olhava para os outros três homens 
que estavam defronte d'elle. Dois d'estes ves- 
tiam o habito de monges císterníenscs, e o ter- 
ceiro , que pelo respeito com que o tratavam , 
parecia ser seu superior, estava embrulhado n'um 
grande manto de velludo preto, tendo bordado 
nas mangas o mesmo emblema que os soldados 
traziam. 

O seu aspecto era severo, e as suas feições, 
já quebrantadas pela edade, indicavam energia, 
como também o brilho dos seus olhos, e o seu 
porte magestoso. 

No meio d'elles estava amontoada uma gran- 
de porção de lenha, em termos de poder lançar- 
se-lhe fogo. Ao pé estavam archotes, provavel- 
mente para o mesmo etfeito: em sitio abrigado, 
c encoberto ardia uma pequena fogueira. 

N'aquelle anno desinvolvera-se uma terrí- 
vel rebellião no norte de Inglaterra, cujos sec- 
tários, respeitando a pessoa do monarcha Henri- 
que VIII, tinham-se ligado para conseguira res- 
tauração da supremacia papal, e a restituição 
dos bens ecclcsiasticos. O seu fim era também 
castigar os inimigos da egreja romana, e sup- 
primir heresias. Pelo seu caracter religioso to- 
mou esta insurreição o nome de Peregrinação 
da Graça, e contava como seus partidários to- 
dos aquellcs que não tinham abraçado as novas 
doutrinas nos condados de Torkshire e Lancas- 
hire. Não era para admirar que a suppressão 



196 



O PANORAMA. 



das ordens monásticas causasse uma insurreição 
d'esta natureza. A espoliação de tantos edifícios 
sagrado», a destruição de altares, e imagens, 
olhados com veneração ; a expulsão de tantos ec- 
clesiasticos conhecidos pela sua hospitalidade, e 
respeitados pelo seu saber; as violências e a ra- 
pacidade dos conimissarios nomeados pelo vi- 
gário geral Cromwell , tantos desacatos eram 
mal vistos pelo povo, que se dispunha a auxi- 
liar as Tictimas na sua resistência. Até então 
tinham sido respeitados os mosteiros mais ricos 
■do norte, e era para salvar estes das mãos dos 
visitadores , os doutores Lee e Layton , que a 
lerolução havia rebentado. Um levantamento si- 
miihante tivera também logar no condado de Lin- 
conkire, coramaudado por Makesel, abbade de 
Baslings, que foi logo suífocado pelo rigor e acti- 
vidade do duque de Sulforh, e o seu chefe fora 
morto. Mas a insurreição do norte era melhor or- 
ganisada, e de maior força, e contava agora trin- 
ta mil homens debaixo do commando de Robert 
Ashe, hábil e resoluto general. 

Os padres eram, deve-sesuppor, osprincipaes 
promotores desta revolta, porque todo o resul- 



tado revertia em seu beneficio : c grande nume- 
ro d'elles, seguindo o exemplo do abbade de Bas- 
lings, vestiam saias de malha em vez da de esta- 
menha, e armavam-se para manter os seus direi- 
tos e pôr termo aos seus males. Entre estes r^>- 
tavam-se os abbades de Jervaux, Furness, Foun- 
tains, Risanix e Salley, e ultimamente o abbade 
de Whaliey, fogoso e enérgico prelado, que havia 
sido sempre constante na sua opposição ás medi- 
das oppressivas do rei. Taes eram os designis, 
e os partidários do movimento, que se denominou 
Peregrinação da Graça. 

Já algumas cidades consid,eraveis pertenciam 
ao partido dos amotinados. York, Huli e Pontepact 
tinham cedido ; o castello de Shipton estava si- 
tiado, e defendido pelo conde de Cumberla? d, 
e aprestavam-sc a dar batalha ao duque de Nor- 
folk, e ao conde de Shrwenburg, que eommanda- 
vam as forças do rei em Doncaster. Mas estes che- 
fes realistas quizeram contemporisar, e offerece- 
ram uma amnistia aos rebeldes, que foi acceita 
por elles. 

Continua. 




ESCOLA PHILOLOGICA. 



Foi fundada esta escola em Lon^lres no nuni 
de 179i por um sobrinho do aliiiir.uitoColling- 
wood para dar educação das lettras e liiiguas aos 
lilhos dos ecclesiasticos protestantes, dosolficiaes 
do exercito e armada, dos i)roressores, e de ou- 
tros de empregos análogos (luc se achassem em 
«ircunstancias apuradas de falta de recursos. Ori- 
ginariamente estabeleceu-se próximo a Fitzroy- 



1 square. mas ha trinta annos foimudada para Glou- 
j cester-phue em New-road. O numero dos pupillos 
cresceu tanto, que os reitores da casa entenderam 
ser neces,sario construir edifício amplo, o qual o 
: nosso desenho mostra, e queéprimoiusona cxe- 
; cução da obra e com todas as precisas accommo- 
dações; forma um contraste notável, mas agra- 
dável á vista, com a County-Court e os banhos 



o PANORAMA. 



fl07 



públicos que lhe ficum exactamente fronteiros, 
dando assim um caracter architectonico áquclla 
jartcdeNew-road. M. 



BYRON ! 

Conclusão. 
IV 

Deixemos por ura momento o valente campeão 
da liberdade da Grécia, dedicando-se do cora- 
ção á árdua tarefa que a si mesmo se impozera, 
defendendo os direitos do homem tão longe da 
«ua pátria, privando-se da sua ])equcni fortuna 
para armar a guarnição de Missolonghi, lutan- 
do com as diflicuidades da guerra, cora os des- 
gostos da intriga e da desordem, com o perigo 
da peste que devasta a cidade: e lancemos ura 
olhar retrospectivo sobro aquollas de suas obras, 
em (]ue ainda não temos fallado. 

Melodias hebraicas, suave canto inspirado pe- 
la poesia biblica, para o qual adaptaram a mu- 
sica mrs. Braham e Nathara. A Maldição de Mi- 
neira, poema vingador da Grécia contra seus 
próprios compatriotas. Bepjio, novoUa venezia- 
na, de engraçadissimo tecido. Mazeppa, subli- 
me romance, cujo assumpto o autor extrabiu da 
Historia de Carlos xii por Voltaire. O Sonho, 
pintura ideal do seu primeiro amor. A Ilha, ou 
Chri.stiano e seus companheiros, scenas mariti- 
nias entre os arehipelagos do Oceano Pacifico, 
com soberbas descripções de algumas d'aquellas 
formosas ilhas, e a narração poética de extra- 
ordinários successos que se encontrara em duas 
relações de viagens ao mar do sul. ,1 Edade de 
bronze, satyra do congresso de Yerona era 1822, 
uma das peças lilterarias menos eguaes, que ap- 
parecem nas obras de Byron. As Trevas, poema 
extravagante, no qual o autor suppõe a extinc- 
ção de todos os corpos luminosos. O Avatar ir- 
landez, desafogo de uma alma nobre contra o 
niisero estado a que via reduzida a Irlanda. 
Avatar é uma superstição dos indianos, a encar- 
nação de Brahma ou Yishnou, que Byron appli- 
ca, por irrisão, como titulo de honra a Jorge i\ 
de Inglaterra. Werner ou a herança, drama ou 
tragedia, que por ambos os nomes lhe chama o 
autor, confessando todavia que não destinou es- 
te escripto para o theatro, nem o julga suscep- 
tível de ali ser adraittido. O enredo d'esta peça 
é extrahido de uma novella alemã, intitulada 
Kruitzner, e foi dedicada por Byron ao illustre 
Goethe. Oscar d' Alva, poemeto. Innumeros fra- 
gmentos de novellas, cantos de diversos géne- 
ros, e versos soltos de todas as medidas, pre- 
enchem a parte denominada Miscellaneas, na 
collecção completa das obras de lord Byron. 
Mencionaremos algumas de mais subido mere- 
cimento. 

A ptrda d'Alhama, por exemplo, romance la- 
mentável do sitio e tomada da mesma cidade ; 



imitação do árabe. Outras imitações do grego, 
do hespanho', e uma do portuguez. 

Prometheu: O tumulo de Churchill; (} adens, 
escripto (juando o autor cria ver a morte mui 
próxima: a Ode a iSapoleão: outra ode sobre a 
Estrella da Legião de Honra, vertida do fran- 
cez ; o Adeus de um polaco a Napoleão ; poesias 
a Santa Helena e a Veneza ; epygrammas ; O 
adeus ú Inglaterra, c muitos outros versos de 
valor, consagrados a dilforentos damas, ou es- 
criptos em diversos álbuns. 

No corpo das obras de Byron também se en- 
contrara três discursos parlamentares, únicos que 
pronunciou na camará dos lords, mas f|ue lhe 
ganharam vehemcntes applnisos; e egualmente 
algumas cartas a .1. Jlurray, acerca da vida e 
das obras de Pope, e outras correspondências 
de interesse secundário. Euifim o Vampiro, his- 
toria absurda, atlribuida a Byron, por elle a 
haver contado era unia sociedade, mas não es- 
cripto. 

Para ura horaem cuja vida não passou alem 
dos trinta e seis annos, c esses em continua agi- 
tação, escreveu muito mais do que devia espe- 
rar-se, o nosso poeta, e sempre com o cunho da 
originalidade. 

Volvamos á Grécia, a assistir aos seus últi- 
mos luoraentos. 

A 15 de Fevereiro de 1824 teve ura primei- 
ro ataque de febre, que não durou muito tem- 
po, mas que o enfraqueceu bastante. Desde en- 
tão não deixou de solTrer mais ou menos, e de 
enfraquecer successivaiiiente. Contribuiu para 
lhe aggravar o mal, a completa abstenção que 
adoptou de bebidas e comidas excitantes, e a 
inacção em que caiu. Um dia constipou-se, e a 
melancolia pintou-se-lhe logo no rosto com co- 
res assustadoras; virando-se para o conde Gam- 
ba, disse : «Soifro muito. A morte não me in- 
quieta, poréra não posso supportar esta agonia.» 

Se não existe nenhuma biographia completa 
de Byron, pois que nem as de Moorc, Bolwer e 
Gait são consideradas como taes, possuímos ao 
menos uma relação histórica dos seus últimos 
momentos, cscripta pelo seu liei criado Fletcher. 
Seguil-o-hemos. 

A doença fatal de Byron teve principio osten- 
sivo no dia 9 de Abril, cora uma grande febre 
quo se lhe desinvolveu, quando regressava de 
andar a cavallo, com tempo chuvoso. O mal pro- 
grediu a olhos vistos, mas ainda no dia 11 as- 
seguravam os médicos Bruno e Milligen que não 
existia perigo para a vida do famoso poeta. Lord 
Byron dizia que os médicos não entendiam da. 
sua doença, mas ia tomando os violentos pur- 
gantes quo elles lhe receitavam, e não comia 
absolutamente nada. No dia 16 sangrarara-no, 
e a 17 repetiu-se esta operação, sem apresen- 
tar resultados favoráveis para o enfermo. Byron 
não dormia, e algumas vezes delirava. A idéa 
de poder enlouquecer mortiticava-o mais do que 
o pensamento da morte. 

No dia 18, depois de um accesso de delírio. 



19S 



O FàNORâMà. 



o mysterioso bardo percebeu que se aproximava 
a sua derradeira hora. Ciiaraou Fietcher para 
junto do leito, c coaiuiunicou-ihe as suas ulti- 
mas disposições. 

— A tua sorte está assegurada, Fietcher; mur- 
murou o poeta. 

— Supplico-Ilie, raylord, que trate de objectos 
mais importantes ; respondeu o liei servo. 

— Oh I minha querida liliia ! Minha Ada. . . 
Meu Deus, se podesse ao menos vêl-a ! Aben- 
çoae-a por mira, e á minha querida irmã Augus- 
ta, e a seus filhos ! . . . Tu irás a casa de lady 
Bjron, dizc-Ihe. . . dize-lhe tudo ! . . . 

E continuou a fallar, por entre dentes, de tal 
maneira que Fietcher não podia tiúondcr o que 
lhe recsmmendava. 

— Executarás tudo o que te disse? pergunta- 
ra o moribundo. 

— Se nada percebi, senhor!... respondia o 
bom criado. Tentaç porém a repetição. . . 

— Não posso ! É muito tarde. . . Acabou-se 
tudo. . . Não é a nossa vontade, é a de Deus 
que se executa ! 

Ao meio dia houve junta de médicos, e recei- 
taram-lhe vinho quinado. O poeta tomou o me- 
dicamento, e passado algum tempo manifestou 
o desejo de dormir. Desde as seis horas da tar- 
de d'cste dia até ás seis horas da tarde do se- 
guinte (10 de Abril) não fez o menor movimen- 
to, e respirava como um agonisaute. Então abriu 
os olhos, c tornou a fechal-os sem nenhum symp- 
toma de dor. 

— Meu Deus! bradou Fietcher; receio que 
meu amo esteja morto 1 

Os médicos tomaram o pulso de Byron, e res- 
ponderam : 

— Tendes razão.. . está morto! 

Os seus restos mortaes foram depositados na 
egreja onde já repoisavam o general Normann, 
c Marco Botzáris. As tropas de Missolonghi e 
uma grande parte da população escoltavam o 
cadáver do sea mais desinteressado amigo. 

Sobre o grosseiro caixão que encerrava o cor- 
po d'aquclla grande alma, lançaram um panno 
negro, e collocaram-lhe em cima um capacete, 
uma espada e uma coroa de loiro. 

Era singelo, mas sublime. 

Algum tempo depois d'este fatal acontecimen- 
to, Walter Scotl, a quem Byron chamava o Arios- 
lo de Inglaterra, escrevia a seu respeito estas 
memoráveis palavras : 

«Calaram-se as \ozcs de uma justa censura 
c as vozes da maledicência. Dir-se-hia que um 
astro brilhante desappareceu do ceo, no momen- 
to em que se observavam, com um telescópio, 
as manchas que obscureciam o seu esplendor. -^ 

Lainartine, o glorioso poela da França moder- 
na, dedicou uma das suas melliores odes á me- 
moria do Dante da Grã-Bretanlia. 

A sua pátria erigiu-lhe um monumento. 

Como llomero, couio Camões, como quasi to- 
dos os grandes poetas, Byron viveu perseguido 
* calumniado, c morreu longe do seu paiz na- 



tal. A gloria tem sempre por pedestal a pedra 
do tumulo. 

Na edade de trinta c seis annos deixou de 
pulsar aquelle nobre coração, apagou-se a lue 
d'aquclla inlelligencia, calou-se para sempre a 
voz inspirada do poeta de D. Juan e de líarold, 
poeta tão original como Shakspeare e HolTmann, 
amigo desinteressado da liberdade como Was- 
hington e Franklin. 

F. M. BORÍAL». 



PBINCIPAES HERESIARCIIAS, E CONCÍLIOS 
QUE OS REPRIMIRAM. 

No anno 34 da era de Christo, Simão, de- 
nominado o Miujiio, vendo que os apóstolos com- 
municavam o Espirito Santo pela imposição das 
mãos áquelles que recebiam o baptismo, oflere- 
ceu-lhes dinheiro para ter o mesmo poder. S. Pe- 
dro rejeitou indignado esta proposta sacrílega, e 
Simão, para se vingar, tornou-se o chefe da pri- 
meira heresia que appareceu no christianismo. 
Dizia ser elle o poder supremo , que apparccia 
entre os judeus como Filho , na Samaria como 
Pae, e nas outras nações como Espirito Santo. 
Publicava além d'estas uma immensidade de ex- 
travagâncias, que, apesar de tudo, lhe attrahi- 
ram sectários. Até chegou a fazer-se adorar sob 
o nome de Júpiter, e á sua concubina sob o no- 
me <Ie Minerva. Esta seita não foi perseguida, e 
comtudo não durou mais de um século. 

No anno oi, Cerintho levantou-se contra os 
apóstolos, e combateu vivamente a sua doutri- 
na. Reconhecia os milagres de Jesus Christo, por- 
que tinham então um tal grau de evidencia que 
se não podiam contestar; mas para conciliar o 
estado humilde em que Christo appareceu, com 
todos os attributos de Filho de Deus, suppozem 
Jesus Christo dois seres differeutes — Jesus, fi- 
lho de José e de Maria ; e Christo, que descera 
em Jesus sob a forma de pomba na occasião do 
baptismo. Os apóstolos expulsaram a Cerintho 
da Egreja, como corruptor da doutrina. Já então 
SC reputava dogma fundamental do chrislianis- 
nio a diviudade de Jesus Christo. O evangelis- 
ta S. João escreveu o seu evangelho para pre- 
caver os lieis contra as heresias de Cerintho e 
seus discípulos. 

Em 6í, Ilymenèo, Philcles, e Alexandre en- 
sinavam que a resurreição já estava feita, o não 
reconheciam mais doiiuea resurreição espiritual 
(lo peccado á graça. Foram anathematisados por 
S. Paulo. 

Em 66, alguns falsos doutores, cscudando-se 
u'uma máxima equivoca de i\7cc»/«!í, um dos pri- 
meiros diáconos, que dizia xer mi.sler abusar da 
carne, no sentido da necessidade de a mortifi- 
car, ensinavam que tudo, ale as mulheres, de- 
via ser commum entre os christãos. Por este mo- 
tivo nas suas assembleas se entregavam aos cri- 
mes mais infames. Chamavam-lhes Nicolaiíai-, 
o S. Pedro fulminou-os na segunda epistola. 



o PANORAMA. 



1»» 



Em 72, Ehion, chcícàos Ebinnilas, intitulan- 
do-sc discípulo de S. Pedro, rejeitaTa S. Paulo, 
e ensinava que se devia consagrar a Eucharis- 
tia unicamente com apiua; negava a divindade de 
Jesus Cliristo , e a virgindade da Mãe , aceres- 
«entando (jue Deus entregara ao diabo o império 
do mundo, e o do século futuro a Christo, aquém 
elic distinguia, como Cerinlho, dolilhode Maria 
e José. 

No anno 75, Samaritctno adoptou os erros de 
Simão o Magico, c dos Nicolaitas. Sustentava que 
o mundo lora creado pelos anjos; c que elle pró- 
prio era a omnipotência de Deus Padre, o o úni- 
co salvador dos escolhidos que não podiam en- 
trar no ceo sem o poder da sua arfe magica. Seus 
discipulosviviam tão dissolutamente como aniaior 
parle dos heréticos d'este século. Foi d'esla seita 
que saiu, trinta annos depois, Saturnino, que en- 
sinava ser o casamento e a geração uma obra dia- 
bólica. 

Em tOõ, Basilidas, querendo conciliar a ori- 
gem do mal com a bondade de Deus, ensinava 
que o mundo não fora creado immediatamcnte 
pelo Ser Supremo, e sim pelas intelligenciasque 
o Ser Supremo tinha produzido, e que foi das im- 
perfeições d"estas intelligenciasque nasceu o mal 
que se encontra no mundo. O Salvador, segundo 
Basilidas', tinha feito os milagres de que os chris- 
tãos fallavam; porém sustentava que elle não ha- 
via encarnado, que tivera um corpo phantastico, 
que não fora verdadeiramente crucificado, c que 
se não devia e\por por sua causa á morte. 

Em 107, Elxai, de origem judaica, chefe dos 
Elcefaitas, mais conhecidos pelo nome de Ossea- 
nos, prega que sepode c deve dissimular a fé pa- 
ra subtrahir-se ás perseguições; e como ordina- 
riamente um erro precipita em novo erro , en- 
sina queJesusChristo é uma virtude material, á 
qual deu noventa e seis mil pés de longitude, e 
espessura á proporção. Pelo que respeita ao Es- 
pirito Santo, repr»sentava-o como uma divinda- 
de femia, postada defronte de Christo como uma 
estatua, sobre uma nuvem entre duas montanhas, 
que tinham as m#smas dimensões. Este extrava- 
gante , • os seus discípulos aborreciam a conti- 
nência, e olhavam a virgindade como uma infâ- 
mia. Juravam pelo sol, pela agua, pelo pão, pe- 
lo ceo, pelo azeite, pelo vento, e pelos santos an- 
jos da oração; e estes juramentos eram inviola- 
Teis e sagrados. 

Foi no começo d'esle século que a maior parte 
dos heresiarchas tomaram o nome de Gnósticos, 
palarra que significa sábios ou iUuminados, e 
que prova que o orgulho era o único facho que 
os esclarecia. 

lil. Cerdon e Marcion adniittem dois princi- 
pies; um bom, pae de Jesus Christo, que, segun- 
do elles, nunca tinha encarnado; o outro, autor 
da lei judaica, e creador d'este mundo. Foram 
condemnados n'um concilio que alguns annos de- 
pois se reuniu no Oriente. 

Ii4. Tkcodoto, pessoa muito instruída, apos- 
latou, para justificar a sua fraqueza, e negou a 



divindade de Christo , c a existência do Verbo 
eterno. Este heresiarcha, e os seus discípulos, 
foram chamados Alojeos, ou inimigos do Yerho, 
e foram condemnados nos concílios de Roma, em 
líO, d'Ilicraples, na Ásia, em17'.i, c vários ou- 
tros. 

168. Montano, chefe da seita dos montaiu.t- 
tas, era um eunuco phrygio. Dizia-se prophe- 
ta, e parecia agitado de espirito maligno. Ensi- 
nava que Deus havia primeiramente querido sal- 
var o munslo por Moysése pelos prophetas, e não 
o conseguira ; que depois encarnara, e não fora 
melhor succedido ; que finalmente descera n'el- 
le Montano pelo Espirito Santo, de quem dizia 
que recebera a plenitude. Por isto íntitulava-se 
Parnrleto, que &ignif\ca espirito consolador. Ga- 
bnva-se de maior perfeição que os apóstolos. S. 
Paulo pcrmíttira as segundas núpcias; Montano 
prohibia-as, como uma devassidão ; e permittia 
dissolver os casamentos. Estabelecia novos jejuns. 
Os apóstolos haviam instituído só uma quaresma, 
e 3/ontano ordenava três em cada anno. Prohi- 
bia fugir á perseguição, e queria que se procu- 
rasse o martyrio. Finalmente, quasi que não re- 
cebia os peccadores á penitencia. Os seus erros 
foram anathematisados nos concílios delconia e 
Synade, na Ásia, no anno de 233; e arenas el- 
les appareceram logo o foram por grande nume- 
ro de bispos e sábios catholícos. A seita de 3/oft- 
tano produziu uma infinidade d'outras. 

17!). Apelles, discípulo do heresiarcha Mar- 
cion, afastou-se do seu mestre em muitos pon- 
tos, e foi chefe do uma seita que de seu nome 
se chamou Apellitas. Entre outros absurdos di- 
zia que Jesus Christo se formara um corpo da 
parte de todos os ceos por onde descera aterra, 
e que na ascençào fora deixando a cada ceo a 
parle que d'elle tomara. Uma das grandes ob- 
jecções que pretendia fazer ao livro do Génesis, 
era que Deus não podia ameaçar de morte a .\dão, 
se comesse do fructo prohibido, porque Adão, não 
conhecendo o que era a morte, não sabia se isto 
era um castigo. 

Continua. 



REL.\CÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA, ILDA TERCEI- 
RA. DE!'01S QUE SE PERDEU EL-REI D. 
SERASTIÃO EM AFRICA. 



Continuação. 
LXI 



De enmo » mtstre de campo trancei, tanlo que TÍa enfoieor • 
(liito Francisco Gil m-iidou enforcar o piloto francaz. 



Poderá mui bem o piloto francez negar tudo» 
que Francisco Gil tinha ditto ; mas cuidou qu« 



soo 



o PANORAMA. 



nem a um nem a outro fizessem nada. Este pi- 
loto do patacho tinha nelle ametade, e o outro 
francez a outra ametade ; e tinha o patacho fa- 
ma de bem veleiro, c dizem que era um pensa- 
mento, poniue alguns tinham já fugido do porto 
desta cidade, e lhe botavam outros, cos traziam; 
mas estes estavam seguros, que ainda que lhe bo- 
tassem outros era por demais. E todos estes pa- 
tachos c navios francezes não se podiam ir nem 
bulir do porto, sem l'cença do seu mestre de cam- 
po general, e capitães. O dito Francisco Gil como 
era piloto, não faliou mais que com o outro pi- 
loto, e não faliou com o francez que era dono da 
outra ametade; antes ([uando faliou ao piloto, o 
piloto o avisou que não fallasse ao seu compa- 
nheiro, porque não havia de querer, e que sem 
alie iriam, pois lhe pagavam bem. E por esta 
causa o mestre de campo Bautisla, sabendo já 
tudo, fez perguntas ao piloto francez, sem tratos, 
o qual confessou tudo, que era verdade. Acaba- 
da a confissão o mandou enforcar na ponta do 
cães ; o qual piloto era christão, e catholico mor- 
reo, porque o Bautista o mandava enforcar sem 
ir com elle confessor algum, nem padre, nem ir- 
mãos da Casa da Santa Mizericordia, nem Cru- 
citíxo, que assim faziam elles antes a muitos. Sou- 
beram os irmãos da Santa Mizericordia que era 
catholico, e veio-o dizer o confessor, a quem el- 
le tinha mandado chamar áprizão; e acudiram 



com pressa, com padres c irmãos, com bandeira' 
e Crucifixo, e até o enforcarem o foram animan- 
do na nossa Santa fé, e elle nella morreu pedin- 
do perdão a todos, se delle tinham algum escân- 
dalo ; e não deixaram os moradores da cidade de 
terem delle muita lastima. Podia ser homem de- 
quarenta annos. 
Continua. 



PUBLICAÇÕES LITTERARIÀS. 

PRELÚDIOS POÉTICOS 

J. RAMOS COELHO. 

Com este titulo saiu á luz um volume de poe- 
sias, de 300 paginas, nitidamente impresso, com 
o retrato do autor. Vende-se nas lojas do costu- 
me — preço SOO réis. 



Publicou-se o 3.° volume da Eneida de Vir- 
gílio, por Barreto Feio — pr»ço 1:000 réis. 



Publicou-se a comedia em 3 actos e !) quadros, 
Stambul, originai de Aristides Abranches — pre- 
ço 300 réis. 



O proprietário do Panorama, tencionando con- ' 
tinuar para o futuro anno de 1858 a lllustração 
Luso-Brazileira, dirige-se aos seus assignantes 
actuaes, e aos (|ue o foram do mesmo semaná- 
rio, pedindo-lhe a sua coadjuvação. 

É inncgavel que uma publicação de tal or- 
dem demanda excessivas despezas ; mas é tam- ; 
bem certo que um paiz como o nosso precisa 
d'um jornal, ([ue diffundindo a inslrucção, sir- ' 
va ao mesmo tempo de recreio. Eis a idéa ([ue 
levou o editor a dar á estampa a lllustração Lu- 
so-Brazileira, c o induz ígora a continuai-a. 

Mas todos os esforços que faça para ^nseguir 
o seu fim — a publicação da llíustração — serão 
baldados, se os seus concidadãos o não ajuda- 
rem n'cssa tarefa, na verdade árdua, mas glo- 
riosa . 

Sabe-se ([ue apesar das calamidades que Por- 
tugal soffreu em 18jG, o proprietário da lllus- 
tração concluiu o volume que pertencia áquelle 
anno. Os obstáculos (juc para isso foi preciso 
vencer não se pudcm eiuiiuerar. Só, sem ajuda 
nem protecção, ponjue as assignaturas não che- 
garam á (juarta parle das despezas, lulou, mas 
teve a satisfação de conseguir o seu mais arden- 
te desejo, que era a conclusão d'a(iuelle primei- 
ro volume. 

Concluído porém, nada devendo aos assignan- 
tes, e causado de lutar, faltaram-lhe as forças, 



III PORTIlfiíL. 

e viu-se obrigado, com bastante magoa, a sus- 
pender uma publicação, que se era estéril quan- 
to aos interesses, não o era pelo lado da gloria, 
alvo constante do editor, que tem enriquecido o 
catalogo das suas edições com obras nacionaes 
de mérito, que a não ser elle, seriam sepultadas 
no pó das gavetas, e furtadas assim ao conhe- 
cimento dos amigos da nossa litteratura. 

Em Janeiro de 1858 recomeçará, pois, a pu- 
blicação da lllustração Lu.so-Brazileira, conside- 
raveUnente melhorada, se as assignaturas obti- 
das atá o fim de Setembro do corrente anno co- 
brirem a« despezas. 

O editor não quer lucros: satisfaz-se não per- 
dendo. 

Seguiremos o plano annunciado nos nossos 
prospectos, que são bem conhecidos, com as 
modificações reclamadas pelas circunstancias. 

As assignaturas recebom-se desde já na loja 
do editor, rua do Oiro n."* 227 e 228 (nume- 
ração antiga), e no escriplorio da Administra- 
ção, travessa da Victoria n.° 52 1." andar. 

LISBOA 

Por anno 4:000 rs. 

Semestre 2:100 » 

Á entrega 90 » 

províncias {franco de porte) 

Anno 4:300 » 

Semestre 2:250 » 



26 



o PANORAMA. 



90f 



'M\ 




CASIELLO DE BREDA. 



Este castello , situado no departamento da 
Gironda, é cercado de largos e prolundos fos- 
sos, e tem a figura de um polygono. As mura- 
lhas , cujos alicerces estão cobertos pela agua, 
são defendidas a oeste por uma graude torre or- 
bicular, coroada de seteiras de trinta metros de 
altura. Uma das casas desta torre, construida, 
no principio do século xv, para servir de prisão, 
está abaixo do nivel da agua. 

Chega-se ao castello por três pontes levadiças, 
defendidas pelas torres e muralhas. Sobre o fo- 
gão de uma casa do primeiro andar, onde está 
a bibliotheca, vè-se um grande painel dos lins 
do século XV, que parece representar o acto da 
tomada da posse da Guienne por Carlos vii. t'ma 
porta d'esta bibliotheca da para a capella em 
que João de Lande, senhor de Breda, foi auto- 
risado, por bulia de Bonifácio ix, a fazer cele- 
brar missa e administrar os sacramentos. 

Montesquieu nasceu neste castello, a 18 de 
Janeiro de 1689 ; e ahi compoz parte das suas 
obras. Ainda se mostra o seu quarto, os moveis, 
e o fogão, gasto, diz-se, pelo roçar dos seus pés. 



AS CATACUMBAS DE S. PEDBO. 

As catacumbas de S. Pedro entram na ordem 
dos mais admiráveis trabalhos que a mão do ho- 
mem tem emprehendido. Principiando osubter- 

VOL. I. í.* SERIE. 



raneo nas portas da cidade de Maestricht, vne 
perder-se por baixo das montanhas do Meusse, 
e chega até á cidade de Liége. 

Nada mais niystcrioso, nada mais imponente 
que este inimenso subterrâneo, onde se encon- 
tra uma immensidade de ruas epraçasinhas. Ca- 
vada pelos primeiros habitantes da província pa- 
ra extrahirem pedras para os edificios, foi a([uel- 
la caverna um passadiço vulgar, antes do tra- 
balho dos séculos a converter n'um objecto de 
assombro e admiração. 

A sua origem e data perdem-se na noite dos 
tempos. Os aldeãos do Meusse coutam curiosas 
tradições e historias, mais ou menos horríveis, 
que se prendem com a existência d'este largo e 
tenebroso caminho. N'estas narrativas toma o dia- 
bo a sua competente parte ; porém fora das len- 
das, e contos inventados pelo medo e pela igno- 
rância, ninguém sabe fixamente a época era que 
se construirara tão gigantescas profundidades. 

A Roma subterrânea não e tão curiosa e poé- 
tica como a caverna de S.Pedro. Amaiorparte 
das catacumbas que ha no mundo tiveram a mes- 
ma origem que a de Maestricht. Formadas com o 
íim de extrahir materiaes, converteram-se depois 
em cemitérios. O subterrâneo de S.Pedro rece- 
beu nas suas entranhas milhões de viajantes que 
encontraram a morte nos seus immensoslabyrin- 
thos. Em Catanea, Palermo, Agrigento, Siracu- 
sa e Nápoles, é que se encontram os mais anti- 

JC.NHO, 27, 18B7. 



r 



903 



O PANORAMA. 



gos subterrâneos. Nada ha tão extenso emages- 
toso como as excaTações seculares destas cinco 
cidades da Itália. As catacumbas de Nápoles são 
maiores do que as de Roma , tanto em exten- 
são, como em largura. Quasi todas teem tresan- 
dares de altura de vinte palmos, pelo menos. | 

Não sendo taraanlias as proporções do subter- 
râneo do Maestrichl , não é comtudo menos gi- j 
ganteico que o de Nápoles. A excavação compõe- j 
se só de um andar, porém apesar d'isso contem 
mais de cento e vinte ruas, e a sua vastidão é de 
duas léguas e meia. Tendo-se feito estaexcava-' 
ção n'unia época mui afastada ^segundo dados, 
ha dois mil e trezentos annos) a maior parte das 
ruas formam um labyrintho tão intriucado, (jue 
internando-se uma pessoa no seu recinto care- 
cerá de muitos annos para encontrar a saida. 

Serve de entrada á caverna de S. Pedro uma 
excavação natural de cincoenta e dois pés de lar- 
go, e quarenta e quatro d'alto. As galerias, ta- 
lhadas na rocha viva, são irregulares. Á direi-! 
ta e á esquerda da parede ha duas fendas sy- ' 
métricas , cujo fundo apresenta um cahos tene- 
broso e horrível. Todas as ruas que crusam o 
subterrâneo vão parar a estas duas saidas. A 
temperatura d'este logar, graduada pelo ther- 
mometro de Rcaumur, c sempre de doze graus 
acima de zero. Abysmos sem fundo, e precipi- 
cios espantosos rodeiam o estreito caminho (jue 
conduz a esta mansão de silencio e morte. O 
ecco da voz perde-se na immensidade das altas 
abobadas, e a sua profunda escuridão causa pa- 
vor aos mais valorosos espirites. 

O desejo de encontrar o fim destes labyrin- 
tho* tem attrahido áquellas galerias homens em- 
prehendedores. A maior parte sairam sem encon- 
trar o resultado, e outros pereceram no seu in- 
sondável abysmo. O subterrâneo tem uma fúne- 
bre celebridade , pois os curiosos a cada passo 
estão expostos a perder ávida, c morrer nas tre- 
vas. Os guias em quanto vão guiando com os ar- 
chotes aos visitantes, contam-lhes mil historias 
horríveis a respeito de viajantes perdidos nas ga- 
lerias, começando sempre a narrarão pela passa- 
gem mais tétrica. Assim conseguem dar maior 
prestigio áquelles abysmos, e ás vezes imaginam 
.sanguinolentos dramas capazes de eriçar os ca- 
bellos aos pobrss curiosos. 

Entre as historias contadas pelos guias ha al- 
fliUmas que merecem credito : o trágico lim de 
quatro frades mortos n'este domínio das trevas, 
é verdadeiro: «Estes cjuatro religiosos ([ue per- 
tenciam ao convento de Selavande , situado na 
escarpa da montanha de S. Pedro, conceberam 
o projecto de edíHcar uma capella no fundo do 
subterrâneo, onde grande parte dos habitantes 
costumavam passar o inverno por causa da agra- 
datel temperatura daquelle logar. Na época d'es- 
tes at^vutecímentos havia uma devastadora guer- 
ra civil , e os pobres trabalhadores não tiveram 
mais remédio que refugiar-se nas cavernas, le- 
taudo as suas provisões. Estes infelizes aldeãos 
tinham azeite para se alumiarem, legumes, fa- 



rinhas, aveia, e forragens, e no subterrâneo fi- 
zeram uns fornos para cozer o [ião. Assim po- 
diam ali viver muitos mezes. Vendo os religio- 
sos que faltava um templo onde celebrar o san- 
to sacrificio da missa e oQicios divinos , conce- 
beram a idéa de edificar a capella. Com este pie- 
doso objecto percorreram muitas grutas para a 
escolha do sitio mais conveniente ; porem não 
tendo (|ucrido penetrar no labyrintho os dois ho- 
mens que lhes serviam de guias, valerara-se de 
um meio engenhoso , que os gregos empregam 
com frequência quando se querem internar nas 
profundidades de um abysmo desconhecido. Ata- 
ram na ponta de uma rocha a extremidade d'um 
fio, e providos d'um farto novello , continua- 
ram andando. Depois de percorrerem diversos 
caminiios chegaram a uma espécie de praça, on- 
de não penetrara ainda pe humano. Depois de 
debuxarem com carvão n'uma das rochas o fron- 
tispício da plataforma deS. Pedro vista do Meus- 
se, no ponto onde se descobre o convento de Se- 
lavande, e de escreverem a data da sua desco- 
berta, dispozera n-se a voltar, e então conhece- 
ram, com terror, que o fio estava partido. 

«Durante o caminho tinham consumido as pro- 
visões e os fachos. Em tão alllictiva situação to- 
maram o partido de se encommendarem a Deus. 
Por dois dias andaram errantes por áquelles es- 
paços sem limites ; suas vozes perderam-se n'a- 
quella immensidade, e as mãos não encontra- 
vam senão rocha ao procurarem novos cami- 
nhos. Tudo foi inútil, e para cumulo de infeli- 
cidade morreram separados uns dos outros, aba- 
tidos pela fadiga, extenuados de fome, solTren- 
do uma horrível agonia sem poderem dar-se o 
ultimo adeus.'» 

Ao cabo de oito dias foram encontrados os ca- 
dáveres em diversos pontos do subterrâneo. 



OS BALKANS. 

Os sombrios e áridos desfiladeiros dos Balkans 
são ainda hoje tão impenetráveis como na época 
em que Dário os atravessou do sul ao norte, qui- 
nhentos annos antes da era christã. 

lia .séculos (jue o fértil Delta, que se estende 
por entre osKarpatas, os Balkans, e o mar Ne- 
gro, permaneceu ua atonia, e os seusimmensos 
recursos quasi ([ue ficaram desconhecidos das po- 
tencias europeas; e, comtudo, a natureza dota- 
ra ricamente estas magnilicas regiões, e o Da- 
núbio o!ferecia aos seus productos uma saida fá- 
cil para todas as partes do mundo. 

A sorte fadou estas planícies para servirem a 
todos os povos de campos de balallia ; tem sido 
devastadas pela guerra em Iodas as grandes épo- 
cas da historia. Assim, os seus habitantes, longe 
de se queixarem das elevadas montaniiasemque 
se encerram, mais as consideram como um ba- 
luarte contra a invasão, do que como obstáculo 
ás suas relações commcrciacs. 



o PANORAMA. 



aos 



Isto explica o motivo porque os Ballians são 
tão pouco conhecidos, c porque conservam o seu 
estado primitivo. O celebre historiador turco I!cr- 
Yòn-Hamracr, reduz a sete os desliladeiros da ca- 
déa principal; porém uma memoria que ha pou- 
co tempo se leu na sociedade geographica de Lon- 
dres augmenta muito o seu numero. 

O autor d'cste documento, ogencraiJochmus, 
antigo ministro dos negócios estrangeiros , diz 
que para reconhecer toda a cadèa desde o ca- 
ho Ennish [finis lloemi] até Tirnova , situado 
ao pé da montanha entre Schibka e Dransva, a 
atravessou sete vezes em dilTerenlcs sentidos ; a 
saber: deMfsidria a Sudshib, d*ahi a Achly, de 
\chly a Dobrai, de Dobrai a Carnabat, de Car- 
nabat a Kasan, de Kasan aSeiimnoh, de Selim- 
neh a Tirnova. Assim procedeu também a res- 
peito da pequena cadèa de llocmus, rnisando-a 
desde Tirnova a Osnianbazar, de Osmanbazara 
Kasan, de Kasan a Czalikavak, deCzalikavak a 
Koprikoi, de Koprikoi a Sciíumla, de Schumia 
aParaivadi, de Paraivadi a Varna. 

O ponto niais elevado da cadèa, pelo outro la- 
do de Monastirkoi, é de dois mil pés, e a passa- 
gem está a mil e oitocentos pés sobreonivel do 
mar, na direcção de Bana, a quatro horas de Mes- 
senvria, aonde se chega, atravessando bosques, 
por caminhos de serventia ás carretas que trans- 
portam lenha e ferro a Messenvria, etc. 

Schumia, collocada ao pé dosBaIkans, é uma 
posição estratégica mui importante , fortilicada 
pela natureza e pela arte, e tem augnientado mui- 
to em meios de delesa. Os turcos chamam-lhe 
Ghazi (a victoriosa). Esta cidade é a chave do 
valle, que jaz entre os Baikanse ornar : domina 
a principal {)assageni da cadea, eé, juntamente 
com Rulschuk e Silistria , o caminho de Cons- 
tantinopola. 

Schumia contém trinta a trinta e cinco mil ha- 
bitantes, e occupa uma arca de duas a três mi- 
lhas de longitude, e uma de latitude. Está edi- 
ficada ao pé de uma montanha, de seiscentos a 
setecentos pés de altura. Tem bíblias mesquitas, 
espaçosos quartéis, armazéns e lojas em grande 
numero. Ja não existe a maior parte das anti- 
gas trincheiras, porém a montanha que protege 
a cidade é de dillicil accesso, c nclla se apoiam 
as fortificações construidas á europea. 

Os fortes, reductos, e baluartes que tem, não 
só a defendem, como a tornam tcmivel. Os no- 
vos trabalhos que se fizeram agora fecham os 
desfiladeiros que podem conduzir ao acampa- 
mento. As mesmas precauções se adoptaram a 
respeito do caminho que dá accesso á grande 
passagem dos Baikans, distante trinta milhas de 
Schumia. ** 



A MUSICA ENTRE OS ANTIGOS. 

Os gregos altribuiam a Dionisio o principio 
da musica ; porém Eusébio rcmouta-a aos tem- 
pos de Cadnio, certificando que os inventores 



foram dois irmãos chamados Ceto e Imphion. 
Sotino julga que foi introduzida na Grécia pelos 
ilheos de Cândia. Polibio concede esta honra aos 
Árcades, e Diodoro altribue a Mercúrio a inven- 
ção das vozes da harmonia. Isidoro certifica que 
a casualidade fez descobrir a Pitágoras as pri- 
meiras notas musicaes no som dos martelíos e 
na vibração das cordas retezadas. Comtudo os 
modernos attribuem a sua introducção a Guido- 
de Arezzo. 

.Vthenen refere que os Árcades tinham por lei . 
aprender a musica desde meninos para cantarem, 
os hymnos em louvor de Deus, segundo as re- 
gras dictadas pelos músicos Timóteo e Filoseno. 
Estava tão acceito o canto entre os gregos, que 
segundo Cicero, o celebre Temistocles foi lidO; 
por indouto, só por haver recusado n'um convi- 
te o eaiito, com acompanjianiento da lyra. Epa- • 
minondas foi um excellente musico. 

Deve-se a esta affeição á harmonia o provér- 
bio grego citado por Quintiliano, segundo o qual 
os ignorantes se consideravam longe do trato das 
graças e das musas. O severo Lycurgo aconse- 
Ihou-a aos seus adustos espartanos. Platão jul- 
ga ([ue a musica é necessária ao homem politi- 
co, e Homero diz que Achilles cantava harmo- 
niosamente os méritos e a gloria dos heroes. O 
astrólogo Ptolomeu refere que os antigos tinham 
o louvável costume de applacar as suas irrita- 
das divindades com cantos e musica. Cicero e 
Boecio contam que o philosopho Pitágoras acal- 
mou a loucura de um mancebo com o cauto e 
com a suavidade de um instrumento. Tcotrasi- 
ro e Aulo Gcivi julgam que a musica é sufficien- 
te para acalmar a dòr da gota. Empédocles dii 
que obrigou a acalmar com a suavidade do seu 
canto um hospede seu, n'uma occasião de cóle- 
ra. Plutarco conta que o musico Timóteo exas- 
perava, a seu bel prazer, com o canto phrygio 
o animo de Alexandre o Grande; e o mesmo his- 
toriador elogia a extraordinária melodia da voz 
de uma dama por nome Lamia, que com seus 
cantos chegou a enternecer Demétrio, rei da 
Macedónia. 

Entre os antigos eram tidos por grandes mú- 
sicos Terprando ([ue, segundo Eusébio, viria na 
Oljmpiada 33, Agenor de Mitilcne, Alcidamas 
discípulo de Gorgias Leontino, e Antigenes, que 
excitou Alexandre para a guerra contra Dário 
Codomano, rei da Pérsia. Israenias, celebre mu- 
sico de Tebas, feito prisioneiro, foi apresentado 
a Architas, rei dos seitas. Irritado o príncipe 
pela admiração cora que os seus bárbaros vas- 
sallos ouviam. o som da flauta, tocada por ísme- 
nias, certificou, cheio de cólera, que preferia o 
relincho do seu cavallo áquellas harmonias. To- 
dos os que o ouviram zombaram d'elle. 

O monge iiiglez íleos Stephanus, autor da vi- 
da do bispo Vilfrido, era um excellente musico; 
e acrediía-se que Euchiriades foi no século viu 
o primeiro ijiie escreveu um tratado sobre mu- 
sica. Nos tempos bárbaros foram celebres Theon, 
Alipio, Isacio, Apuleyo e Boecio. 



20Í 



o PANORAMA. 



Epigone, niathcniatico, inventou um instru- 
mento musico, que de seu nome se ciiamava na 
Grécia Epigonioc, e Theodoro, pae do famoso 
tribuno e orador Isocrates, que vivia pelos an- 
nos 330 da fundação de Roma, inventou vários 
instrumentos, cuja industria llic valeu grandes 
riquezas. 

O historiador Mariano diz, que em muitas ci- 
dades gregas se publicavam as leis, acompa- 
nhando os pregões com a musica. Keferc Thu- 
cidides, que os lacedemonios entravam em com- 
bate ao som de citharas e lyras. Tirteo reani- 
mou o valor dos esjiartanos na guerra de Mese- 
nui com o som da ilaiiia. 

Os lidios marchavam ao compasso da musica. 
Os getas apresentavam os seus embaixadores de 
paz acompanhados de um tangedor de cithara. 



Sócrates, tão severo como profundo philosopho, 
aprendeu a tocar lyra na edade de setenta an- 
nos. Cavo Graccho, um dos revolucionários mais 
impetuosos da republica romana, quando falla- 
va ao povo, tinha atraz de si um escravo, que 
com a llauta lhe dava a intonação necessária pa- 
ra modular a voz cora mais graça e doçurr.. 

Finalmente, entre os gregos conheciam-se vá- 
rios methodos de canto, sob as denominações de 
Iliarcio, Elio, Jónico, Hipermixolidio, IJipodo- 



mio, e outros, cujo 



.a a quinze. 



Na edade media escreveram sobre a musica 
Gregório Tolosano, Angelo Policiano, João Tlio- 
niaz Phrygio, Olomaro Luscinio, Pedro Aroon, 
João Maria Lanfranco, Jacoho Vercher, João 
Froschio, Ocheglem, e Âbusnoi. 



i 




o PAGODE DF. BUDHA EM KAKODAD. 



Sobre o budhismo c seus sectários j.i i^nr ve- 
zes temos fallado u'('ste semanário, e dado al- 
guns desenhos de seus monumentos e ircliitec- 
tura religiosa. A vista desti' pagode de Kako- 
dad, tomada do lado do cemitiirio, é detida a 
um ollicial de marinha embarcado na fragata 
franceza Tirginia, o (jual tirou outras de vanos 
pontos das costas do Ja|ião . (|ue este vaso de 
guerra tem ultinianient(! visilailo. A Viii/iiiio 
faz j)arte da expedição mainlada pela Trança 
áquellcs mares, não somente para i!xploração e 
para recliticação dos muitos erros (|ue se nota- 
vam nas antigas carias geographicas, como lam- 
bem para promoNcr conjuntamente com as ou- 
tras potencias marítimas a abertura de alguns 
portos jaiionezes ao commercio da Europa e da 
America, e lambem operar de combinação com 



a esquadra ingleza, afim de obrigar a China a 
dar satisiação dos attentados commettidos por 
súbditos do celeste império ctnlra europeus, es- 
pecialmente em Cantão e inimcdiações. Já em 
Shangae a tropa de guarnição e a marinhagem 
dos dois navios, Jeunne d' Are. c Colbert, tiraram 
brilhante desforra. No dia 6 de Janeiro decor- 
rente travou-.se uma grave luta entre aquelles e 
os chinas insurgenles; ires mil d'estes foram der- 
rotados com i)erda de perto deciuatrocentos, pe- 
la gente das supracitadas embarcações, (juealem 
d'isso apeou e inutilisou toda a arlilheria queos 
chinas tinham collocada nas muralhas ; do que 
resultou infiindir-lhes terror, e í'azel-os mais pru- 
dentes e respeitadores da bandeira franceza. 

M. 



I 



o PANORAMA. 



30Ã 



O ULTIMO ABBADE DE WIIALLEY. 

I 

Continuação. 

Durante a amnistia todas as hostilidades ces- 
saram ; mas faziam sigiiaes nos cimos das mon- 
tanhas, eo fogo d'estes devia sor considerado co- 
mo um novo appeilo ás armas. Era isto ijue es- 
peravam agora os oito homens da vigia. 

— É ([uasi noite, disse impaciente o homem do 
manto de veliudo, e não apparece o signal. Tora 
o Norfolk acceitado as nossas condições ? E impos- 
sivel. O ultimo mensageiro do nosso acampamen- 
to em Scansty, trouxe a noticia que as únicas pro- 
postas que fazia o duque era dar perdão da par- 
te do rei a todos os rebeldes, exceptuando dez pes- 
soas, seis nomeadas e quatro em branco. 

— E serieis vós um dos nomeados, senhor ab- 
bade? perguntou um monge. 

— João Paslew, abbade de Whalley, era o pri- 
meiro nome da lista, respondeu © outro com um 
sorriso, depois seguia-se Guilherme StralVord, ab- 
bade deSalley, depois Adão Sudtiny, abbade de 
Jervaux, depois o nosso chefe Roberto Aske, e 
também João Eastgate, monge de Whalley. 

— Como, senhor abbade, exclamou o monge, 
o meu nome não era esquecido? 

— Não, respondeu o abbade. E o nome de 
Guilherme Haydocke era o ultimo da lista. 

— Que tyranno ! murmurou o outro monge. 
Mas estas condições não podem ser acceitas? 

— Certamente que não. respondeu Paslew. 
Foram rejeitadas com desdém. Mas as negocia- 
ções foram continuadas pelo Sir Ualph Ellerker 
e Sir Robert Bowas, que deviam pedir da nos- 
sa parle o perdão para todos, a convocação de 
um parlamento, e de tribunaes de justiça em 
Torck; a restituição da princeza Maria aos seus 
direitos de successão ao throno ; o restabeleci- 
mento da jurisdicção do papa, e a de nossos ir- 
mãos nos seus mosteiros. Mas isto nunca hãode 
conceder. Com o meu consentimento não have- 
ria este armistício. Nós perdemos com a demora, 
mas assim o quizeram os senhores arcebispo de 
Yorck, e lord Darcy. A opinião d'el!es tem mais 
peso do que a do abbade de Whalley, ou se o 
quizerdes do conde da Pobreza. 

— E esse titulo irónico que é causa de todo 
o resentimento do rei contra vós. senhor abba- 
de ; respondeu o padre Eastgate. 

— .\ssim pode ser, disse o abbade. Tomei-o 
das mãos de Cromwell e dos commissarios ec- 
clesiasticos, que tem reduzido á miséria a nos- 
sa Egreja, e milhares dos nossos irmãos a men- 
digar, ou a morrer á mingua. E os miseráveis a 
quem dávamos de comer e agasalho, não estão 
com fiune, e sem terem aonde descansar? E os 
doentes que soccorriamos, não teem morrido 
abandonados pelas estradas? Eu estou a testa 
dos pobres de Lancashire para remediar seus 
males, por isso me intitulei conde da Pobreza. 
E não achaes que tiz bem? 



— Decerto, senhor abbade; respondeu -East- 
gate. 

— E não é só a Egreja que hade soífrer, tor- 
nou o abbade; mas todo o reino, se os desígnios 
do monarcha, e dos seus hereges conselheiros ti- 
verem bom exilo. Cromwell, Audeley, e Rich, fi- 
zeram bem em mandar que nenhuma creança se 
baptisasse sem pagar tributo ao rei ; que nenhum 
homem que possua só vinte libras de renda pos- 
sa comer pão de trigo, carne de porco e gaili- 
nha. sem pagar tributo: que todas as terras la- 
vradas também o paguem : assim liça a Egreja 
arruinada, os pobres roubados, e todos padecem 
para engordar o rei e encher os seus cofres. 

— isso não pode ser serio, observou o padre 
Ilaydocke. 

— É tão serio que ninguém tem vontade de 
rir, replicou o abbade; como o não terão tam- 
bém os conselheiros do rei, do conde da Pobre- 
za em pouco tempo. Todo o paiz desde o Twced 
até o llumber, e desde o Lune até o Mersey, es- 
tá por nós, e a nossa causa hade vencer. 

— Deus assim o queira, disse o padre East- 
gate ; mas temos muitos e poderosos inimigos, 
e tivemos hoje noticia de (|ue o conde de Derby 
estava juntando as suas forças perto de Preston, 
com tenção de nos atacar. 

— Que venha e será corajosamente recebido, 
respondeu Paslew; a abbadia está forte e bem 
defendida. Mas a noite está escura, c o signal 
não apparece ! 

— Pode ser i[ue uma cheia no rio Don impe- 
disse o nosso exercito de atravessar, disse Hay- 
docke ; ou então aconteceu algum desastre ao 
nosso general. 

— Nada: supponho impossível a ultima con- 
jectura, respondeu o abbade. Roberto Aske foi 
escolhido pelo ceo para nos salvar; assim o diz 
a prophecia. 

— E é sobre essa prophecia que se fez a can- 
ção que cantam hoje peregrinos da Graça, di.s- 
se o padre Eastgate. Mas o ultimo verso lói-lhe 
accrescentado pelo Nicholau Demdike. Ouvi-lh'o 
eu cantar debaixo das janellas do mosteiro, ha 
dias. 

— O Nicholau Demdike de Worston? disse a 
abbade: aquelle cuja mulher é bruxa? 

— O mesmo: respondeu Eastgate. 

■ — Assim lhe chamam, é verdade, mas não é; 
redarguiu um couteiro que escutara attento es- 
ta conversa. .\^credite-me. senhor abbade. Eli- 
zabeth Demdike é muito bonita, e moça de mais, 
para ser bruxa 

— Estás embruxado por ella, Cuthbert. disse 
seccamente o abbade. Hasde fazer penitencia pa- 
ra te salvares de maus olhados. Elizabelh Dem- 
dike é uma celebre e conhecida bruxa, e teste- 
munhas que não podemos deixar de acreditar, 
tem-na visto assistir a um congresso do demó- 
nio, n'esta mesma montanha. Deus nos defen- 
da! E é por isso que pronunciei contra ella a 
sentença de excommunhão, e prohibo a todo o. 
meu clero o baptisarcm a sua filha . 



206 



O PANORAMA. 



— Ai ! é verdade, e bem lhe tem custado a 
cila, coitada ! respondeu Cuthbert. 

Então que se arrependa, ou pode-lhe so- 
brevir maior castigo, disse Paslew zangado. Sor- 
tilegam nun yalieris vivere diz a Lei Levilica. E 
se houverem provas contra ella hade morrer. 
Que essa mulher agrada á vista confesso, mas a 
sua formosura é de lilha do peccado. Conheceis 
o homem com quem é casada, ou se diz casada? 
Elle não é destes sitios. 

— Não sei nada a respeito d'elle, senhor ab- 
bade, respondeu Cuthbert, senão que veiu para 
aqui ha um anno, e que alcançou a mais boni- 
ta rapariga de Lancdshire, e mesmo de toda a 
Inglaterra. 

— Que qualidade d'homem é elle? pergun- 
tou o abbade. 

— Tem cara de poucos amigos, respondeu 
Cuthbert; é trigueiro, e possue uns olhos que fa- 
zem impressão. Mas ninguém lhe leva a palma 
em correr, e em jogar o socco. Traz quasi sem- 
pre comsigo um cão preto, e desconfio que se 
dedica, de vez em quando, á caça dos veados. 

— Uavemos de olhar por isso, tornou o ab- 
bade; mas é estranho não saberes d'onde elle 
vem ! 

— É um mal creado que não consente que se 
Jhe façam perguntas, e responde mal, quando não 
nos apalpa com o cajado as costellas. 

— Havemos de achar um meio para o fazer 
fallar, disse o abbade. 

— Oh ! elle sabe fallar e muito bem quando 
quer, observou o padre Eastgatc, apesar de es- 
tar quasi sempre calado ; mas não usa da lin- 
guagem do povo, e o seu porte é arrogante co- 
mo o de um homem ([ue houvesse feito bons ser- 
viços no campo da batalha. 

— Excitaste a minha curiosidade, disse o ab- 
bade, desejava vèl-o. 

— É dito e feitOj exclamou Cuthbert. Pela rai- 
nha fé eil-o ahi; mas como elle chegou, só o de- 
mónio sabe. 

E apontava para um vulto alto no cimo da 
monlanha, a alguma distancia d'elles. 

— Failae no mau, apparelhae o pau, obser- 
Tou o padre ílaydocke. E traz comsigo o cão 
negro. Quem sabe se será a sua mulher debai- 
xo d'essa furuia ! 

— Nada, padre Ílaydocke, que eu bem co- 
nheço o cão, tomou Cuthbert, e bom caçador é 
elle ; é o cão, senhor padre, de que eslava fal- 
lando. 

— Não me agrada o seu apparecimento n'es- 
ta occasião, disse o abbade; mas gostava de lhe 
fallar, e accusal-o das suas malfiiUirias ! 

— Escutem, está cantando, exclamou o pa- 
dre ílaydocke. 

E ouviram a caução dos peregrinos da Graça, 
accrescentada por elle, e em seguida uma gar- 
galhada de escarneo. 

— Pela Senhora de Wlialley, escarnece de 
nós, disse o abbade. Manda-lhe uma setta para 
o calar, Cuthbert. 



O couteiro assim fez ; mas ou fosse que por 
acaso não fizesse bem a pontaria, ou porque a 
não quiz fazer, é certo que o Demdike ficou co- 
mo estava. O reputado bru.xo riu-se, tirou o bar- 
rete como agradecendo, e principiou a descer 
lentamente a montanha. Pouco depois parou, e 
traçou um circulo com o pau que sempre leva- 
va, pronunciou algumas palavras, que os seus 
espectadores supersticiosos tomaram por algum 
encanto, e poz uns boccados d"herva secca em 
três logares dentro do circulo que tinha traça- 
do, depois correu precipitadamente pela monta- 
nha abaixo, seguido do seu cão, e saltando o 
muro que se achava em baixo desapparcceu. 

— Vae ver o que elle fez, disse o abbade ao 
couteiro, que já não estou contente. 

Cuthbert obedeceu ; mas chegando ao logar 
marcado disse que não via coisa nenhuma, mas 
em breve accrescentou que a terra mexia como 
um mar debaixo dos seus pés, e parecia que es- 
tava a desabar. O abbade então disse-lhe que se- 
guisse o Demdike, e que Ih'o trouxesse ahi. O 
couteiro desceu correndo a montanha, e desap- 
parcceu saltando o muro como tinha feito o ou- 
tro. 

Continua. 

PRINCIP.VES UERESIARCIIAS, E CONCÍLIOS 
QUE OS REPRIMIRAM. 

Continuação. 

240. Noelo, intitulou-se um uovo Moysés, e 
chamou-se Aarão. Não adraittia em Deus senão 
uma pessoa ; o que fez chamar a esta seita Mo- 
narchicos; porém reconhecia diversas operações 
e denominações. Foi condemnado nos concílios 
d'Epheso, em 2í3, e de Roma, em 237. 

2o 1. Nopaciano, sacerdote de Roma, fez um 
scisma contra o papa Cornelio, e recu.sava a pe- 
nitencia aos que caíam em peccado depois do 
baptismo, c prohibia as segundas núpcias. Foi 
numeroso o seu partido, que subsistiu por mui- 
to tem])0, e foi fulminado nos concilies de Ro- 
ma, no mesmo anno; no deCarliiago, em oanno 
seguinte; e especialmente uodeNicéa, em 32o. 

Munes, chefe dos Manicheos, seita muito ex- 
tensa, que aturou por muito tempo, edogmati- 
sou. Era pagão, e persa de nação; porém convcr- 
teu-se ao cliristiauismo, e pouco depois se decla- 
rou seu mortal inimigo. Como outros muitos he- 
resiarchas, que o tinham precedido, distinguia 
dois princípios: um bom, e outro mau. .Vdmit- 
tia lambem no homem duas almas: uma boa, c 
outra má. A carne era, na sua opinião, a obra 
do mau principio, e por conseguinte devia im- 
pedir-se o casamento e a procreação. Atlribuia 
a lei antiga a este mesmo principio, e pretendia 
portanto que todos os prophetas estavam coudem- 
nados. Tratava de idolatria o culto das relíquias, 
e prohibia a crença de que Cliristo tivesse real- 
mente padecido. Rejeitava todos os sacramentos, 
até mesmo o baptismo ; e accrescentava a esta 
doutrina uma multidão de extravagâncias. Sus- 



o PANORAMA. 



S07 



tentava, por exemplo, que (luem arranrassc uma 
•planta , ou matasse nm animal , seria transfor- 
mado n'aqnclia planta ou animal. Por este mo- 
tivo os seus discípulos, antes de comerem o pão, 
jttlgavani-se obrigados a uma espécie de protes- 
'"tafão. Lançavam o pão ao ar, e maldiziam aijuel- 
'le que o tendera c forneara, desejando-lhc que 
fosse semeado, ceifado e cozido como o pão que 
iam comer. 

Jtfanés tomava o nome de Paraclelo, e fazia- 
se seguir de doze fanáticos, a que chamava os 
seus apóstolos. Dividia os seus sectários em duas 
ordens: a uns chamava auditores ou ouvintes; e 
aos outros, eleitos. Eram estes últimos os que 
possuiam o segredo dos seus abomináveis m\s- 
terios. Foram anathcmatisados n'um concilio que 
houve na Mesopotâmia, no mesmo anno em que 
appareceram; e depois, Santo Agostinho descar- 
regou o ultimo golpe n'esta seita. 

312. Donato, bispo àe Ca.nia Negras, \n'Sn- 
midia, suscitou ura scisma na Egrcja deCartha- 
go, e depressa se separou da fé catholica, negan- 
do a validade do baptismo dado pelos heréticos, 
e a infallibilidade da Egreja. Os seus erros foram 
combatidos fortemente por Santo .\gostinho , c 
conderanados em muitos concílios. 

313. Ario, sacerdote de Alexandria, pesaroso 
por não ser collocado na sede desta cidade, fez- 
se heresiarca. Ensinou que o Filho de Deus é a 
creatara e obra do Pac, capaz de virtude e de 
■vicio pelo seu livre arbilrio; e apoiava-se n'es- 
tas palavras de S. João : — «No principio era o 
Verbo» — e eis como sustentava esta doutrina: — 
«Não é certo, dizia elle, não é mesmo artigo de 
fé, que o Pae Omnipotente engendrou a Jesus 
Christo? Mas para o engendrar era preciso que 
elle não existisse. Portanto, Jesus Christo teve 
ura principio na seu ser ; e não se pode dizer 
que é eterno, sem uma evidente contradicção. 
Se não é eterno, é uma creatura como nós ; e 
portanto deve ser subjeita ás mesmas leis.» — 
Este argumento seduziu muitas pessoas, e tão 
rápido foi o progresso do erro, que foi necessá- 
rio convocar muitos concílios para o sustar. O 
principal foi o concilio geral de Nicéa, em 325. 
A seita de Ario deu nascimento a muitas outras, 
que todas foram anathematisadas, e a maior par- 
te refutadas por Santo Athanasio. 

Continua. 

RELAC.lO DAS COISAS QIE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA. ILHA TERCEI- 
RA, DEPOIS QLE SE PERDEI' EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação. 

LXXI 

De como Ma»uel da Silva ordenou de dar Iralos dos sobrídiltos 
a Álvaro Pereira. 

Neste tempo estavam presos leigos e clérigos, 
por serem contra o serviço do Snr. D. António! 



Por não caberem na cadea estavam alguns no al- 
jube; e nelle estava preso um Álvaro Pereira, 
homem velho, já todo branco, muitn avisado, de 
nobre geração, e rico. Era nesta ilha mampos- 
teiro-mor dos Cativos, e nas ilhas de baixo ; e 
lealdador-raór dos pasteis. Parece tinha delle 
culpas Manuel da Silva, por fallar contra oser- 
viço do Snr. D. António publica e secretamente; 
e dessimulava com elle, por(|ue lhe queria tirar 
primeiro o dinheiro que linha da remissão dos 
Cativos, segundo parecia. Tanto que o achou no 
rol de Melchior .Vftonso, o prendeu com os mais, 
e não o quiz dar sobre liei carcereiro. Ordenou 
de lhe dar tormentos, e foi em um dia que deu 
a quatro ou cinco homens de fora desta ilha, ou 
eram das ilhas debaixo. Mandou vir ao dilto Ál- 
varo Pereira da prisão por um alcaide e escrivão, 
e elle tinha no mosteiro da Esperança duas ir- 
mans freiras, e uma delias era Âbhiidcssa. Em- 
parelhando o alcaide e escrivão defronte da por- 
taria, abriam cilas as portas, e de dentro pedi- 
ram todas ao alcaide lhe deixasse alli chegar seu 
irmão, para se apartarem delle. Ciiegou o alcai- 
de e escrivão, e seus homens, e as freiras Iodas 
postas da banda de fora, com as portas abertas, 
em pranto com o irmão, e elle com ellas, e o al- 
caide c escrivão raettido entre as freiras, sem 
ellas se lhes dar disso , cora o pranto do ir- 
mão ; e as mais freiras algumas eram paren- 
tas, e tudo era choro; e Manuel da Silva estava 
a esperar, .\cordou-se o alcaide do perigo em . 
que se poz, que bem o poderam as freiras met- 
ter para dentro, e fecharem as portas, porque 
elle era homem velho , e não havia que estra- 
nhar. Poz-se o alcaide era pé na porta, por don- 
de todas tinham saido, e lhes pediu lhe dessem 
licença para levarem o preso , que não fossem 
causa de alguns trabalhos seus, porque estava o 
Conde ja esperando por elle. De má vontade cy 
deixaram ir, e elle o mesmo ; e o escrivão dice 
á madre aboadessa, que em quanto elle se con- 
fessava mandassem cartas ao Conde Manuel da 
Silva do que lhes parecesse, e que podiam pe- 
dir licença aos padres de S. Francisco para irem 
por cima dos seus muros, que estavam ao longo 
do pomar dos paços ; o que ellas logo lizeram uma 
carta, porque se lhe davam tormentos nelles hou- 
vera o velho de morrer. E quando .Manuel da Sil- 
va dava os tratos dentro, não se abriam as por- 
tas a pessoa alguma. A abhadessa e discretas fi- 
zeram uma carta, porque tinham ellas fama de 
grandes servidoras do Snr. D. .Vntonio, e cora es- 
ses serviços pediam ao Conde dilação no caso. 
Chegou o ditto Álvaro Pereira ; perguntou Ma- 
nuel da Silva como tardaram tanto; dcu-se-lhe 
a e.scusa ; calou-se; começou a fallar com o dilto 
Álvaro Pereira ; perguntou-lhe a quem se queria 
confessar; dice que ao Licenceado .Melchior Gon- 
çalves de Antona, o qual era ura dos de[)utados 
da Meza da Consciência. Mandou-o chamar. Nes- 
tas detenças as madres não acharam quem trou- 
xesse a carta, porque nenhuma pessoa a queria 
levar. Tinham uma mulata por nome Ignez Ro- 



VtO» 



o PâNORàMâ. 



drigues: esta atrepou os muros com duas cadei- 
ras, e ajudas dos frades; e estando-se confessan- 
do oditto Álvaro Poreira chegou a mulata elhe 
metteu a carta na mão. Perguntou-llie : Por don- 
de entraste ? — Pel'i porta. — Quem te deixou 
entrar? — Ainíjuem. — Não te viram (juardus? 
E chamou o porteiro. Dice então o Licenceado 
Melcliior Gonçalves de Antena : Esta moça é das 
madres da Esperança , inuito servidoras d'cl-rei 
D. António , pelo qual fazem miiilas orações de 
continuo. Lea Yossa Excellencia a carta, e sabe- 
rá o que é, e a que vem ; e tempo tem pura fazer 
essoutro exame. Ficou elle quieto, e se assentou, 
e leu a carta. Depois de lida teve vontade de fa- 
zer o (|ue nclla se pedia. Poz-se com a mulata a 
zombar, dizendo, que pelo atrevimento que ti- 
vera de entrar lá, iiue lhe mettessem os pés no 
tronco, e lhe pozessem umas serviihas novas. A 
mulata nem zombando o quiz ouvir; mas respon- 
deu : Snr. se eu mereço pena aqui estou ; antes eu 
a tenha que o piorteiro , que não tem culpa, pois 
eu não entrei pela porta : fui ao pomar dos fra- 



des de S. Francisco sem elles mheremnada, epor 
meus modos me aventurei a subir e descer us mu- 
ros ; e Deus nosso Senhor me ajudou sabendo ao 
que vinha. Ficaram todos espantados de tal aflbi- 
teza ; e dice-lhe : Ide ; dizei ás Snr." madres, 
que o que me jmiem lhes concedo ; que muito mais 
farei por amor delias. Foi-se a mulata depressa 
a dar o recado, e lhe deram boas alviçaras, e o 
ditto Álvaro Pereira tornou para a prisão, onde 
esteve té a entrada da ilha. 
Continua. 



A mulher pode commetter a primeira falta por 
inexperiência: se comraette segunda, é por mal- 
dade ; e então está habilitada para commetter 
mil. 



A edade de oiro é um sonho : o mundo moral 
é, com pouca diUerença, o que sempre foi: o pal- 
co das ambições, o theatro de todas as paixões. 



Aíisíi m m. 



mi ÍÍO ilEltlft liil.lMlIO. 



o editor e proprietário do Panorama começou 
em Janeiro de I80G a publicação da Illustração 
Luso-Brasileira, que, apesar de estar longe do 
que devia ser, o que não admira, se se atten- 
der a que foi uma tentativa, era incontestavel- 
mente o primeiro jornal littorario do paiz. 

O anno de I80O foi, infelizmente, bastante ca- 
lamitoso; porém tal circunstancia não fez descoro- 
çoar o editor, que, encetando em Janeiro essa pu- 
blicação, leve o gosto de concluir o volume em 
Dezembro do mesmo anno, tendo lutado com in- 
gentes obstáculos. 

No corrente anno quiz publicar o segundo vo- 
lume, consideravelmente melhorado, o que lhe 
não foi possível por falta de assignantes. 

Tencionando continuar para o anno futuro essa 
publicação, o editor coutia (|ue será ajudado pelos 
seus concidadãos amantes das letras pátria?. Nin- 
guém ignora que uma grande parte dos assignan- 
tes, tanto de Portugal como do império do Erasil, 
lêem sido fraudados com algumas publicações 
portuguezas, suspensas em meio, íicaiulo assim 
sem o dinheiro que n'ellas empregaram, e sem 
as obras , porque uiu livro por concluir c inútil. 

Para que não haja recaio de siiuilhantedolo, 
o proprietário da Illustração continuará esse se- 
manário para o futuro anno de ls;iS, oITerecendo 
a .seguinte garantia, ([ue aítesta a sua lealdade, 
boa fé, e ztdo pela nossa litteratura. 

Quabjuer pessoa que angariar no Brasil assi- 
gnaturas para a mesma Illustração, deverá re- 
«piisitar o numero de exemplares que precisa, pa- 
ra lhe serem remettidos regularmente á i)ropor- 
ção que se forem publicando. As importâncias 
das assignaturas deverão ser pagas no lim do an- 



no ; de maneira que, se o volume ficar incomple- 
to, nada terão a pagar os correspondentes pelos 
exemplares que tiverem recebido, qualquer que 
seja o seu numero e valor. 

Eis o que ainda ninguém fez ! 

O editor mostra assim que não a ambição, 
mas só o desejo de ser útil ao seu paiz, o deter- 
mina a continuar uma publicação, que deman- 
da exorbitantes despezas. 

É justo porém, que quem assim dá seguran- 
ças, as tenha lambem por parte dos outros. 

O editor portanto pede aos senhores que se en- 
carregarem de solicitar assignaturas, que quan- 
do fizerem a requisição dos exemplares, indiquem 
logo pessoa de credito, n'esta cidade, que deva 
pagar, immediatamente depois da publicação do 
ultimo numero do anno, a importância de todas 
as assignaturas que forem enviadas durante o 
mesmo anno. Sem esta clausula, não se farão as 
remessas. 

Os srs. correspondentes devem participar, até 
o fim de Setembro do corrente anno, qual o nu- 
mero de exemplares que pretendem ; alim de se 
poderem fazer as encomniendas dos materiaes ne- 
cessários para um jornal de tal ordem, se o nu- 
mero de «xemplares pedido bastar para as des- 
pezas da sua publicação. 

O preço da assignatura, pago no fim do anno, 
é 4^0(10 reis fortes, livres de toda a despeza. Se 
porém algum sr. correspondente, confiando no 
proprietário, quizer pagar adiantado, tem o aba- 
timento de lo por cento. 

Os srs. correspondentes terão a bondade de in- 
dicar o modo como desejara receber os exempla- 
res. 



o PANORAMA. 




TOL. I.-_4.'sEBjg_ 



JciHo, í, 1857. 



«JO 



o FANORAMÂ. 



Esta cidade, capital da Valachia, estáedilica- 
da n'unia fjrande planicie, correndo-lhe pe!o cen- 
tro o rioDimbowitza. Dista setenta léguas do mar 
Negro, e dezoito do Danúbio. Segcrúdo os recen- 
seamentos modernos, Bucharest contém cem mil 
habitantes, posto que pelo espaço que occupa po- 
desse ter o dobro. 

As casas, quasi todas de um só andar, e de in- 
forme construcção, são fabricadas de tijolo cal 
c madeira ; sendo feitas assim de propósito por 
causa dos tremores de terra, que são ahi mui fre- 
quentes. 

As ruas, tortuosas, são pouco aceiadas, e, co- 
mo em quasi todas as terras do Oriente, mal po- 
liciadas. 

MLSSÕES DA índia. 

As missões da Ásia tinham chegado ao seu 
maior esplendor quando se extinguiu a Com- 
panhia de Jesus. Como estes padres lambem fo- 
ram despedidos das conquistas , ordenou-se no 
tempo do marquez de Pombal aos superiores das 
outras ordens religiosas, que arranjassem mis- 
sionários que occupassem o logar dos jesuítas. 
EiTectivamente os mandaram, masd'aquellesque 
melhor podiam dispensar; gente nova de quem 
a edade, as luzes, e a experiência eram pouco 
convenientes a funcções tão penosas. .lá por es- 
tas épocas grassava a relaxação n'aquellas or- 
dens, que de dia para dia se foi augmentando 
«ora as isenções dos regulares, e mandarem-se 
geralmente para o Oriente por castigo os reli- 
giosos menos revestidos de virtudes apostólicas, 
© darem-se-lhes de propriedade muitas missões, 
para as administrarem quasi independentemen- 
te dos bispos. De todas estas causas, mais ag- 
gravadas ainda com a extincção das ordens re- 
ligiosas em 1833, nasceram as questões (]ue tra- 
zemos pendentes sobre o padroado da coroa por- 
luguoza no Orieute. 

Para conhecermos quanto foi impolitica a ex- 
tincção dos missionários jesuítas em as missões 
da Índia, aqui apresentamos ura documento, que 
não anda muito vulgar. Por elle se avaliará o es- 
tado das nossas ordens regulares em o Oriente 
no começo d'este século. E testemunho insuspei- 
to, pon|iie parte deD. Fr. ManueldeS.Guaidino, 
que em 1804 foi transferido da egreja de Macau 
para a coadjutoria e futura successãodoarcL'bis- 
po de Goa, D. Fr. Manuel de Santa Cutliarina. 
Assira se expressava este prelado n'unui repre- 
sentação que dirigiu ao príncipe regente eni Ja- 
neiro de 180o : 

«Senhor. Como Y. A. houve por bera encar- 
regar-me o governo da principal egreja da Ásia, 
a <|uein presentemente está incum!)ido cuidar de 
to(las as outras, (|ue não leeni bi.spos, acho ser 
da minha obrigação expor a V. A. o estudo ge- 
ral em ([ue se adiam, e cm particular a de Ma- 
cau, que ainda estou governando, c da qual me 
persuado ter lodo o conhecimento, pedindo a V. 
A. pro\idencias para todas eilas. 



«Quando os portuguezes, senhor, conquista- 
ram a índia, cuidaram logo em fazer muitos con- 
ventos de religiosos, para que estes fizessem tam- 
bém conquistas para a religião : isto não podia 
deixar de ser muito útil mesmo para o estado, 
pois só a religião christã é capaz de fazer dóceis 
os povos, e subjeital-os de coração aos seus sobe- 
ranos, e assim aconteceu com effeito em quant» 
vieram religiosos escolhidos, homens já determi- 
nados ao combate das paixões ; porém logo que 
os provinciaes do reino entraram a não mandar 
senão aquelles que lá não podiam sofFrer, ou man- 
daram umas recrutas de rapazes sem talentos, 
sera estudos, e o peior é, sem costumes, e dos 
que elles não queriam para ficarem nos conven- 
tos da Europa, depois que Tieram para a índia 
frades, que a virem deveriam vir soldados, as 
religiões decaíram, relaxaram-se, e hcaram de 
bem pouca utilidade. As missões encarregadas a 
sugeitos tão pouco hábeis desfallecerara, decaí- 
ram, e á proporção decaiu lambem o amor dos 
povos ao nome christão, e ao nome portuguez, 
no que o estado tem soífrido uma perda, que não 
é fácil de calcular. 

«No princípio foi preciso encarregar as mis- 
sões aos religiosos, assim pela probidade d'es- 
tes, corao porque o clero indiano (se o havia) é 
pouco apto para grandes coisas : cada religião 
teve districto assignado de missionar para evitar 
as intrigas, que nasciam da mistura de religio- 
sos de diversos institutos nas mesmas terras; e 
pelo tempo adiante cada religião chamou seu ao 
districto, em que mais frequentemente missiona- 
va. Os bispos, contentes dos progressos, que en- 
tão faziam, e temendo entrar em contestações, 
calaram-se e não disputaram os titulos, com que 
se chamavam donos daquellas missões; ficou pois 
sendo isto para as religiões uma prerogativa, e 
um direito de posse , que teem procurado sem- 
pre conservar bem contra a vontade dos ullimos 
bispos, que se acham sem forças de eombalel-os, 
porque os bispos são sós, e as religiões em simi- 
Ihautes artigos fazem causa commura. Era pre- 
ciso para conservarera-se n'esta posse, e prover 
cada uma o seu districto, terem gente; c como 
da Europa nem mesmo da incapaz lhes vinha, 
entraram a mandar huscal-a a bordo das naus 
do reino, e acceitarem não só alguns rapazes que 
vinham servindo nos navios, mas até dos solda- 
dos da guarnição, o- alguns mesmo dos que vi- 
nham degradados. Não obstante a desordem d'es- 
ta escolha, as religiões não teem a gente sulli- 
cienle, e as missões que devem prover, eslão com 
tão pouca e tão má pela maior parte, (jne não 
exagero era dizer que eslão desertas. 

«Os provinciaes de Goa á imitação dos da Eu- 
ropa, taiiibem não mandam para as missões, cs- 
pecialinentc as mais distantes, e era paizes me- 
nos sadios, senão aiinelies de que querem des- 
fazer-se. Timor, por exemplo, que e o degredo 
dos degradados de Goa, o veiu aser tarabeni dos 
religiosos de S. Domingos com a dillerença, qua 
esles degradados vão a missionar, c parochiar. 



o PANORAMA. 



«tt 



Que pftroohos, c que missionários ! O menor mal 
que la lazem é negociar. Eu sou testomunlui de 
um padre, que no mesmo barco em que foi, man- 
dou logo varia» conimissões de sândalo por sua 
contA. 

(t O arcebispo alem de não ler clérigos que bas- 
tam a prover estas missões, os mesmos cjue tem, 
nío pode mandal-os por serem as missões deno- 
minadas dos religiosos; e se se atrevesse a desi- 
SBar os sujeitos mais capazes de entre estes, e 
de própria autoridade os quizesse enviar , além 
de não ser obedecido , havia logo recursos por 
um abuso de poder, logo gritavam que eram isen- 
tos, que lhes quebravam os privilégios, etc, ces- 
tas i.senções c privilégios que os saramos pontífi- 
ces lhes não concederam, senão para o melhor 
serviço da Egreja, veiu a ser presentemente, em 
especial na .\^sia. o meio de não serem as missões 
sorvidas, e de perder-se aquillo mesmo, ([ueciís- 
tou tanto a ganhar para a Egreja. 

«Eu faço gloria, senhor, de ser religioso, pre- 
so-me muito do meu habito , e da corporação a 
que tenho a honra de pertencer, mas é por isso 
mesmo que me atrevo a dizera Y. .\. que na .\sia 
não deve haver religiosos isentos, ao menos d'es- 
tes pontos, e que para o bom regimen d'estas egre- 
jas e preciso que Y. A. determine que os bispos 
mandem para qualquer missão, pertença aijuem 
pertencer, os individues que lhe pareçam ou se- 
jam seculares, ou regulares sem que os provin- 
ciaes possam oppor-se, salvo no caso que fosse 
immediatamente prejudicial ao governo econó- 
mico dos conventos. 

((Tão louge estou eu, senhor, de ser contra as 
religiões, que peço pelo amor de Deus a Y. A. 
mande bispos para estes bispados extrahidos das 
mesmas corporações, que presumem pertencer- 
Ihes, isto é, de S. Domingos para o bispado de 
Malaca, de S. Agostinho para o bispado deMe- 
liapor, e arcebispado de Cangranor. Para Cocbim, 
que agora não pertence a corporação particular, 
pode vir d'onde Y. A. quizer, com obrigação po- 
rém de que os proviaciaes destinem a cada bis- 
po, pelo menos quatro religiosos sacerdotes da 
mesma corporação para acompanhal-os , aliás 
vêem os pobres sem acharem ninguém que os 
ajude. AY. A. não querer mandar bispos, quei- 
ra ao menos mandar religiosos, homens já feitos 
e capazes. Eu sei que os provinciaesteem razão 
de não (luererem mandar d'estes, porque lá mes- 
mo são muito úteis ; porém, senhor, ainda que 
o sacerdote bom é utilíssimo cm toda aparte, c 
sempre faz falta d'onde se tira , os provinciaes 
devem attender á maior necessidade da Egreja c 
do estado, e mandarem para a índia ao menos 
homens sérios. 

Em uma palavra, senhor, o que eu lembro a 
Y. A., e encarecidamente rogo, é que determi- 
ne que venham padres , e de probidade , aliás 
perdeni-se de loJo estas missões, e consecutiva- 
jnente estas colónias.- 

Quando isto succedia então, que não será ho- 
je, em que desamparámos inteiramente as mis- 



sões? Tem sido tão afflictivo a este respeito o- 
estado da Egreja do Oriente, que n'estas longas 
negociações que estão pendentes com a C()rte de 
Roma sobre o padroado, se tratou de incluir na 
concordata, como remédio a tamanho mal, o res- 
tabelecimento da Companhia para aquellas mis- 
sões. * 



O ULTIMO .\BBADE DE >VnALLET; 
I 

Continuação. 

Já era noite fechada, e o couteiro não tinha 
voltado; o abbadc estava impaciente e inquieto, 
quando foi provocada a sua attenção pelo grito 
de um dos seutinellas, eviu um clarão ao longe 
n'uma das montanhas. 

— É osignal! O signall exclamou alegre Pas- 
lew, um arcliote, um archote, depressa! E osi- 
gnal de Blackstone Edge, agora outro se acen- 
de na grimpa de Clidiger, outro sobre Ighten- 
hill, outro no monte de Boulsnonlh, e agora se- 
gue-se o nosso. Possam ellesalluniiar a destrui- 
ção dos inimigos da nossa santa Egreja ! 

Dizendo isto chegou o archote á lenha, que 
já eslava preparada. Os monges fizeram outro 
tanto , e uma viva chanima ergueu-se illumi- 
nando tudo cm torno. Em breve viam-se fogos 
similhantes por toda a parte; parecia obra de en- 
canto tão repentina apparição. A cada novo fogo 
mais se animava o abbade e os seus companhei- 
ros, e tão extraordinário era o espectáculo, que 
dir-se-hia, ([ue celebravam alguma festa ás fa- 
das n*aquelia noite. 

O abbade montando então a cavallo, disse pa- 
ra os monges : 

— Segui-me, meus irmãos, como puderdes. 
Eu irei a toda a pressa para o convento dar 
ordem para marcharem duzentos archeiros para 
Huddustield e Wakelield. Os abhades de Jervaux 
e Salley estarão comnosco antes da meia noite, 
e ao romper do dia partimos todos para nos unir- 
mos com o exercito. E o ceo esteja comnosco. 

— Parae ! disse uma voz imperiosa. Parae ! 
Com grande surpresa o abbade ao voitar-se 

viu Nicholau Demdikc adiante de si. O seu as- 
pecto não tinha nada de agradável ; e visto á 
luz da fogueira o seu ar selvagem, os seus olhos 
scintillantes, a sua grande altura, e trajo phan- 
tastico, davam-lhe um aspecto sobrenatural. 

— Yenho-vos avisar, sr. abbade, disse elle; 
ouvi-me antes de partir para que não vos acon- 
teça mal. 

— Mal me acontecerá se te ouvir, respondeu 
o abbade. Que fizestes aCuthbert Aslited ? 

— Não o tornei a ver desde que 'lie me lan- 
çou a seita por vossa ordem, sr. abbade, res- 
pondeu Demdike. 

— Toma conta, se lhe tiver acontecido algu- 
ma desgraça tu o pagarás, disse Paslew ; mas 



1619 



O PANORAMA. 



não tenho agora tempo para perder coratigo. 
Adeus , meus irmãos, llade-se celebrar missa 
amanhã na egreja do convento antes de partir- 
mos, e ahi os espero ver. 

— Não haveis de partir amanhã, sr. abha- 
de, disse Demdike, cravando o seu varapau no 
chão tão perto do cavailo que este assuslou-se, 
empinando-se, e por pouco não atirou por terra 
o cavalieiro. 

— Que queres fazer, yilhio? gritou o abbade 
furioso. 

— Dar-vos um conselho, respondeu Demdiiíe. 

— Arreda-te e deixa-me pas.sar, disse o ab- 
bade, cravando as esporas no seu cavailo, ou li- 
G«rás esmagado ! 

— Eu poderia dei\ar-vos caminhar para a vos- 
sa perdição, tornou Demdike, deitando a mão ás 
rédeas do cavailo; mas haveis de ouvir-me pri- 
meiro. Digo-vos que amanhã não partireis : di- 
go-vos que antes de amanhecer o mosteiro de 
Whalley não estará no vosso poder ; e se atei- 
mardes era seguir o vosso caminho, seja á custa 
da vossa vida. Agora quereis dar-me attenção? 

— Faço mal talvez em o lazer , respondeu o 
abbade, falia, que tens a dizer-me? 

— Acorapanhae-me aonde os mais não nos pos- 
sam ouvir, e então vol-o direi, disse Demdike, 
encaminhando o cavailo para alguma distancia. 
A vossa causa está perdida, disse elle, de todo 
perdida ! 

— Perdida! exclamou o abbade impaciente. 
Perdida! Olha em torno de ti homem. Avis- 
lani-se mais de vinte fogos , mais de trinta , e 
•cada fogo que vès chama, pelo menos, cem ho- 
mens ás armas. E em menos de uma hora esta- 
rão quinhentos homens formados na frente do 
mosteiro. 

— E verdade ([ue estarão, respondeu Denuli- 
te ; mas não reconhecem o conde da l'obreza 
por seu general. 

— E quem o será então ? perguntou o abbade. 

— O conde deDerby, elle vem agora mesmo 
marchando de Uestow para a(iui , com o lord 
Mounleagle. 

— Ah! exclamou Paslew , dcixa-me partir. 
Mas para ([ue te dou eu attenção? Nada poderás 
saber; d'onde tiveste essa noticia? 

— Não vos llque duvida, respondeu o ouiro, 
a noticia é verdadeira. Digo-vos, orgulhoso pre- 
lado, que esse grande plano para a restauração 
do catholicismo caiu por terra para se não levan- 
tar mais. 

— E eu digo-te que mentes, canalha ! gritou 
o abbade, dando-lhe com o chicote na mão; lar- 
ga a rédea, e dei\a-nie passar. 

— Quando acabar o que lenho para vos di- 
zer, replicou Demdike, segurando a rédea. Fi- 
zestes bem cm tomar o titulo de conde da Po- 
breza, é o que vos íica agora; abbade de Wlial- 
bn' já o não sois. liãocle vos tirar os \ ossos hi-iis, 
e também a vida. Se fugirdes, a vossa cabeça ha- 
de .MM- posta apreço. Eu só vos posso salvar, e 
salvar-vos-hci, mas «om uma condirão. 



— Eu não acceito condições de ti, escravo de 
Satanaz ! disse o abbade, arreda-te ou morres ! 

— Estaes de todo em meu poder, respondeu 
Demdike , recuando o cavailo para a borda de 
um precipício. A surpresa e o terror sumiram 
a voz ao abbade. Podia, se assim o quizesse, 
lançar-vos daqui a uma morte certa, mas não 
éesse o meu desejo : ao contrario quero servir- 
vos, como já disse, com uma eondição. 

— A lua condição será a minha maldição eter- 
na, disse o abbade. Tentas assustar-me em vão. 
Vade retro Satanaz. Eu te arrenego e a todas 
as tuas obras. 

Demdike desatou a rir. 

— Os anathemas da Egreja não me assustam, 
disse elle ; mas reparae agora como se apagam 
as vossas fogueiras: eu bem vos disse que a vos- 
sa tentativa estava acabada. 

— Pela Senhora de Whalley que é verdade, 
exclamou oabbade, cujo terror augmentava; que 
nova feiticeria é esta ? 

— Não é feiticeria, tornou o outro. Houve ou- 
tra cheia no Don; os rebeldes acceitaram o per- 
dão do rei, e debandaram abandonando os seus 
chefes. Os abbades de Jervaux e Salley tenta- 
ram capitular, mas em vão. A Peregrinação da 
Graça está acabada, c os vossos esforços perdi- 
dos. Trinta annos tendes governado aqui, mas 
lindou o vosso governo. Dezesete abbades teem 
havido cm Whalley, o ultimo sois vós, e não ha- 
verá nunca outro. 

— É o deinonio em pessoa (jue me falia, ex- 
clamou Paslew, em suores frios. 

— Pouco importa quem sou, respondeu o ou- 
tro. Já vos disse que vos podia salvar; mas s6 
com uma condição, c não é grande. Retirae a vos- 
sa sentença de minha mulher, e baptisae minha 
llliia, é ([uanto vos peço. Nem isso pediria se não 
fosse por cila. Quereis fazel-o? 

— Não, respondeu oabbade. Nunca baptisa- 
rei uma filha de Satanaz. Não venderei assim a 
minha salvação. Deixa-me; tentas-meem vão. 

— Perdeis o tempo cm querer desembaraçar- 
vos de mim, lornou o outro. E se eu vos livrar 
dos vossos inimigos, de modo que vos possaes 
vingar d'elles? Agora mesmo estão alguns ho- 
mens armados á vossa espera era baixo d'esta 
encosta. Quereis ([ue vos ensine como haveis 
(lestruil-os? 

— Quem são? perguntou o abbade. 

— São commandados por JoãoUoaddyl, c lli- 
chardo Asskton, ([ue hãode repartir os bens do 
mosteiro de Whalley entre si, se vós os não im- 
pedirdes. 

— Que o inferno os possa queimar antes d'is- 
so ! exclamou o abbade. 

— Es.sa praga que proferis denota o vosso con- 
sentimento, disse Demdike, vinde por aqui. 

E sem esperar a resposta do abbade, princi- 
jiiou a encaminhar o cavailo para o outro lado 
(la montanha. Os dois monges tinham presen- 
ceado de longe, c cheios de surpresa esta entre- 
vista, sem ousarem interrompel-a ; e agora in- 



o PANORAMA. 



213 



terrogavara o abbide coni os olhos, nns clle rx- 
miaha»-a silencioso, e aos archeiros (juc Ihcper- 
guatavara se deviam apagar o fogo coiuo se ti- 
nha feito aos outros, respondeu enfadado que não. 

— .Vonde eslão os inimigos de que fallaes? 
perguntou ell« com bastante inquietação a Dmu- 
dike, que levava o seu cavallo com cuidado pe- 
■la encosta abaixo. 

— Vèl-os-has dentro em piuco, respondeu o 
outro. 

— Lcvas-mc para o circulo que traçaste ? dis- 
se Paslew, para ahi não vou. 

— Nem eu o quero, respondeu Demdike. Ficae 
íiqui, que não correis pi'rigo nenhum. Agora man- 
dão a vossa gente que seaproxiuii, e que prepa- 
re as suas armas. 

O abbade sem perguntarpara que, obedeceu; 
os frades a cavallo em duas mulas, coUocaram- 
se por traz do abbade, e os archeiros ao seu la- 
do. Apenas eslava isto feito, quando magotes 
de homens armados, com grandes brados, salta- 
ram o muro, e começaram a escalar a montanha 
com rapidez. Elles subiam por um fundo canal, 
que parecia ter sido o leito de alguma torren- 
te, agora secco, e que linha vau no sitio aonde 
o abbade eDemdike estavam. Ao clarão do fo- 
go viam-se distinclamente os homens que assim 
subiam, e o seu trajo indicava que eram solda- 
dos realistas. 

— Não dès um passo se ([uereis salvar a vi- 
da, disse o feiticeiro a Paslew, e reparae bem 
nas ordens que vou dar. 

Continua. 



PRINCIPAES IIERESIAUCIIAS, E CONCÍLIOS 
QUE OS REP1U.MIR.UI. 

Continuação. 

40 i. Apenas o Arianismo, e as seitas que el- 
le produziu foram fulminadas pelas mais authen- 
ticas decisões, nasceu das suas cinzas uma no- 
va heresia não menos funesta — o Peiwjianis- 
mo. Os arianos pretendiam que a filiação divi- 
na de Jesus Christo fora a recompensa dos mé- 
ritos previstos; os pelagianos pretenderam que a 
adopção divina dos seus membros era também 
a recompensa dos seus próprios méritos. Os aria- 
nos atacaram a própria divindade de Christo; 
os pelagianos atacaram a sua graça. 

Pdaijio, monge inglez, e Celestio, também 
monge, ambos hábeis, insinuantes, e doutos, 
revestidos de especioso exterior de Tirtude, fo- 
ram os principaes autores d'esta seita. Ensina- 
vam que Adão fora creado mortal ; que o seu 
peccado unicamente a elle prejudicara ; que não 
houve peccado original ; que todos que nascem 
estão no mesmo estado que Adão antes da sua 
desobediência, e que tem a vida eterna sem se- 
rem baptisados ; que o peccado de Adão não é 
;causa da morte do género humano, nem a re- 



surreição de Christo causa da reçurreição de lo- 
dos os honiíus ; qm; a lei de Moysés envia ao 
ceo b!m como a do Evangelho ; e (juc m^smo 
antes da vinda de Christo houve homens impec- 
caveis, isto é, sem peccados: que o homrra po- 
de viver sem peccar: que o livre arbítrio lhe 
basta para faz;r o b'.m, e evitar o mal ; e res- 
trictament'! fallanlo, ([ue o hnm'ím pole passar 
sem a graça. Muitas pessoas doutas se pronun- 
ciaram logo contra esta doutrina, tão favorável 
ao orgulho, e contraria aos princípios do Chris- 
tianisrao ; e foi condemuada em repetidos con- 
cílios. O bispo de Ilippona confundiu-a tão glo- 
riosamiínte que por esta razão foi cognominado 
o doutor da [irara. 

422. Os Semi-Pelarjiano';, assim chamados, 
pori[ue unicamente admittiam parle dos erros de 
Pelagio, e rejeitavam outra parte, principiaram 
então a apparecer na Ejreja. Confessavam a exis- 
tência do peccado original, e a necessidade da 
graça; mas sustentavam ao mesmo tempo que o 
homem podia dar os primeiros passos sem esta 
graça ; quer dizer, que sem ella podia, por exem- 
plo, desejar fazer o bem, e merecer, pelas suas 
próprias forças, a primeira graça necessária á 
salvação ; que, portanto, o principio da salva- 
ção dependia da vontade do homem: opinião 
errónea, e contraria á doutrina da Egreja, que 
ensina que ella vem de Deus. Os concílios não 
a pouparam mais que á de Pelagio. 

429. Nesforio, patriarcha de Jerusalém, ho- 
mem eloquente, que ganhara uma grande repu- 
tação de doutrina e virtude, ensinou que havia 
duas pessoas em Christo: o Deus, e o homem. 
Negou que a Santa Virgem fosse a Mãe do Sal- 
vador, como Deus; «porque, dizia elle, acaso 
um Deus pode ter mãe? A creatura pode dar á 
luz o Creador? Maria podia fazer nascer o que 
era mais antigo do que ella? Acaso comparti- 
lhou a divindade? Assim era preciso, para dar 
á luz um Deus; porque uma verdadeira mãe de- 
ve ser da mesma natureza do ([ue nasce delia. 
Maria não foi portanto a Mãe de Jesus Christo, 
senão como homem; ella não concebeu, pela ope- 
ração do Espirito Santo, senão um corpo ordi- 
nário a que o Verbo se dignou unir para n'elle 
j habitar como seu templo, e que se dignou fa- 
zel-o instrumento da nossa redempção.» Distinc- 
tos bispos se elevaram contra esta heresia; e foi 
anathematisada no concilio de Epheso. 

447. Eiitijchex, abbade de um mosteiro de tre- 
zentos monges nos subúrbios de Constantinopo- 
la, combateu com zelo os dogmas Ímpios de Nes- 
torio, e caiu depois n'uma heresia contraria. 
Concordava em que a Santa Virgem fora Mae 
de Jesus Christo, como Deus ; mas negava que 
o corpo que ella concebera lhe fosse consubstan- 
cial, ainda que se chamasse um corpo humano. 
Na sua opinião não era um corpo vulgar: era 
um corpo, por assim dizer, divinisado ; de sor- 
te que depois da encarnação, a natureza divi- 
na, e a natureza humana não faziam mais do 
que uma só natureza. Esta doutrina errónea foi 



Sft4 



o PANORAMA. 



condemnada pelo concilio de Constantinopola, 
«ui 448. 

622. Mahomet, homem de vasto espirito, e 
génio audacioso, emprehcndeu mudar a religião 
dos povos, e seduziu logo uma nação fanática c 
crédula, á qual apresentou, por única prova de 
sua missão, a espada e a morte. Mahomet, ge- 
nito do sangue dos príncipes da Meca, mas po- 
bre, depois de ter sido conductor de caravanas 
da Syria e da Arábia, tomou o modesto titulo 
de propheta, enviado, e amigo do Allissimo ; e 
por meio de uma ridícula mistura do judaísmo 
e do christianismo, compoz uma doutrina que 
forçou os seus compatriotas a adoptarem, já pe- 
los prestígios c imposturas, já com a espada em 
punho. Ensinou que não havia mais do que um 
Deus único ; que é eterno, e indivisível ; que 
predestina os homens ao bem, e ao mal ; que 
Jesus Christo era o propheta do Senhor, cruci- 
licado unicamente em appareucia ; que ainda 
que Jesus Christo não morreu, hade comtudo 
morrer e resuscitar; que os demónios hãode ser 
salvos ; que só a circumcisão é necessária ; li- 
nalmente, assenta como dogmas da sua religião, 
que elle é o maior dos prophetas, e o primeiro 
depois de Deus. Permitte toda a casta de volu- 
ptuosidadc dos sentidos, a polygamia, o divor- 
cio, e promelte aos seus sectários um paraizo, 
cuja brutalidade faria corar ainda o mais devas- 
so. Todos estes erros são conteúdos n'uma obra 
cheia de pomposa obscuridade, que elle dizia 
ter-lhe sido dictada pelo anjo S. Gabriel, e á 
qual os seus discípulos dão o nome de ul-lioran. 
que quer dizer: — o livro por excellcncia. Deu 
aos seus proselytos o titulo de muçulmanos, (jue 
significa : — verdadeiros crentes. 

Se o Evangelho é verdadeiro, Mahomet foi um 
impostor, poríjue estabeleceu uma religião con- 
traria; se o Evangelho é falso, ainda é também 
ura impostor, ponjuc se autorisa, c diz enviado 
para o conlirmar. 

G33. Nova heresia, não menos funesta que 
as precedentes, apparcce no oriente, e os (jue 
a professam appellidani-se monolhclila.s, j)or(|ue 
reconhecem em Jesus Christo só uma vontade. 
Eis como apoiam a sua opinião. íla em Jesus 
Christo uma só pessoa. Ora n'csta pessoa não 
pode haver senão um principio que quer, que 
determina ; portanto não pode haver em Jesus 
Clirislo senão uma só vontade. 

Os catholicos respondiam-lhes (jue a unidade 
da vontade não dependia da unidade da pessoa, 
e sim da unidade da natureza ; (|ue não havia 
em Ueus senão uma única vontade, apesar de 
n'elle haverem Ires pessoas; e (|ue tendo a Egre- 
Ja decidido (|ue havia em Christo duas nature- 
zas, também havia de ter duas vontades. 

Apesar destas solidas refutações, a opinião 
dos monolhelilas fez grandes progressos. O im- 
perador lleraclio favoreceu-a ; e Cyro, patriar- 
cha de Alexandria, e Sérgio, patriarcha de Cons- 
lautiiiojtola, (iz(!ram-na approvar nos cuiicilios. 
iJophrouimo, patriarcha de Jerusalém, oppoz-sc 



vivamente a esta doutrina, que apesar da pro- 
tecção dos imperadores foi fulminada no coaciír 
lio geral de Constantinopola no anno de 680. 

724. Leão de hauria, que foi imperador de 
Constantinopola, destruiu as santas imagens que 
estavam nas egrejas. Foi chete dos honodantas , 
ou quebradores de imagens, heréticos que cau- 
saram grandes perturbações na Egreja, e foraift 
condemnados em muitos concílios, sendo os prin- 
cipaes, o de Nicéa em 787, e o de Constantino- 
pola em 814. 

Desde esta época não houve novas heresia^, 
e principiaram então os scismas e as persegui- 
ções tão funestas como a m»sma heresia. 

Continua. 

RELAÇÃO DAS COISAS QUE ACONTECERAM 
EM A CIDADE DE ANGRA, ILDA TERCEI- 
RA, DEPOIS QLE SE PERDEU EL-REI D. 
SEBASTIÃO EM AFRICA. 

Continuação. 

LXXII. 

De como Manuel da Silva deu Iratos a outras pessoas, e d* 
que com ellus passoa. 

No ditto tempo quantos homens de fora vinham 
a esta cidade Manuel da Silva os não deixava ir, 
e os fazia todos soldados; c os bombardeiros os 
mettia todos pelos caslellos, e fortes; e os homens 
de mar para as armadas ; os (juaes como eram 
casados os maisdelles, tinham pouco proveito de 
estarem retidos nesta ilha, e a risco de morrerem 
nas guerras, como muitos morreram. Não pre- 
tendiam senão buscar remédio para se verem fo- 
ra da ilha, e muitos naturaes delia desejavam o 
mesmo. Manuel da Silva tudo era metter medos e 
fazer-lhes pregações, dizendo-lhes que elle dei- 
xara a Condessa, gavando-lhes suas boas partes, 
e seus lilhos muito formosos, por vir servir a el- 
rei seu Snr. com risco de sua vida, podendo estar 
muito ([uieto em sua casa. E isto dizia muitas 
vezes; e muito mais ([ue se escusa conlar-se, de 
maneira (iue estando aqui gente de fora, como 
tenho ditto, fallaram a um Salvador Fernandes, 
senhor de um barco, se queria levar dez ou doze 
homens para a ilha de S. Miguel com lhe paga- 
rem muito bem, e um João Lopes foi o corretor. 
Descobriu um dos marinheiros, dizendo-lhe que 
não queria ir. Mandou Manuel da Silva iraopo- 
mar dos paços todos prezos, e juntamente o mes- 
tre; e logo poz a tormentos o ditto João Lopes, o 
(|ual confessou tudo, porque todos estavam pre- 
sentes, e tal era o uuhIo dos tratos, que só de os 
verem dará outrem confessavam tudo, semote- 
rem feito, de maneira que logo mandou tirar o 
ditto João Lopes, e perguntou (]uemera o mes- 
tre do hiHco. Diceram-lhe quem em , oípial era 
um vellu) (1(! |)erto de SOannos, e muito despre- 
zível, e docnlc dos olhos. Quaiulo o elle vio licou 
espantado. Dici; : í'ara que e dar tratos a este ve- 



o PANORAMA. 



91& 



iho ? Vós entendefites a pena qn^ tínheis no que fi- 
zestes ? Dicc o velho ; Snr., não ; nem a mim nun- 
ca me pozeram pena, que não levasse qeiile para a 
ilha, e sou pobre e ganho minha rida com o meu 
hátco. Quando Manuel da Silva tío a muita ve- 
lhice delle, e o pouco entendimento, dice : Velho, 
i-vos embora, e daqui por diante não faraes viaqem 
para as ilhas .sem primeiro me virdefi dizer a (/en- 
te que levaes : stnão hei-vos de mandar enforcar; 
e i-vos loijo. Dicc o velho : Snr. Conde, ja cou .sol- 
to ? Dice elle: .SV. Bola o velho a correr, que em 
doií saltos apanhou o caminho. Depois dizia (}ue 
não havia tão honrado fidalgo no mundo como 
Manuel da Silva. E aos mais lhes perdoou, esó 
o que andou nos segredos da embarcaçiio como 
velho, que era João Lopes, ticon com os tratos, 
que nunca foi bem são dos pés, té que morreu. 
O Telho era Salvador Fernandes, 

LIXIII 

DecòmoTtin monsivurd* Chalres «om mil e trestnlos 
soldados fraactie; parad«ranjão d» ilba. 

Podiam nesta ilha estar como settecentos fran- 
cezes e inglezes. Chegaram da França no mez 
de Maio, ou Junho do anno 1383, outo velas 
grandes, francezas, e vieram amanhecer defron- 
te do porto dssta cidade de Angra. Sabendo que 
navios eram, diceram que era mousieur de 
Chatres que rinha por mandado do Snr. D. .An- 
tónio com soldados, para ajudar a defender a 
terra, porque estavam feitas grandes armadas, 
que sem falta vinham para esta ilha Terceira, 
por mandado e ordem del-rei Filippe. E logo 
se desembarcaram, e lhes deram casas e aloja- 
mentos para capitães, e soldados, e a monsieur 
de Chatres lhe deram as casas, e aposentos de 
Ternào Garcia Jaques, aonde esteve Duarte de 
Castro ; e assim estes francezes como os que cá 
estavam foram repartidos pela ilha, e Villas da 
Praia, e S. Sebastião; e as naus ancoraram era 
o porto, porque eram outo naus grandes, e mui- 
to bem artilhadas, e as não quizeram deixar tor- 
nar para fora, para com a gente e naus ajuda- 
rem a defender a ilha, porque eram naus de ar- 
madores, e não tinham obrigação mais que de 
botarem n'esta ilha a gente, e daqui haviam de 
ir á pescaria, que prouvera ao Senhor dos altos 
céus, que nem naus nem francezes cá vieram, 
porque elles foram parte para mais desmancho 
e desordem de tudo, e da ilha se não entregar. 
Diziam que monsieur de Chatres, era homeni 
de muito respeito, e grande fidalgo, e Senhor 
de terras ; mas elle não foi na occasião da de- 
fensão da ilha bom soldado, antes foi um gran- 
de cobarde judeu, como mostrou por obras, elle 
e Manuel da Silva, como adiante se dirá. 

LXXIV 

De como mandaram desta cidade à ilha de S. Miguel nra batel 
com cinco soldados p9rtuguezci,.a tumar falia da ilha. 

Como já SC tinha por nova certa, que vinha 



o marqucz de Santa-Cruz com gro.ssa armada .so- 
bre esta ilha, e era já verão, não sabiam se se- 
ria já partida, e para o saber mandaram um ba- 
tel de pescar com cinco soldados portuguczes, 
todos mancebos solteiros, que eram, um Fran- 
cisco Pacheco, João Nunes, Pantaleão Dias, Ma- 
nuel Gonçalves, Gaspar Gonçalves, todos cspin- 
gardeiros ; com quatro homens remeiros. E fo- 
ram á ilha de S. Miguel, c chegaram a terra, 
c cuidaram que era batel da ilha (|ue andava a 
pescar, não attentaram por is.so, ainda ([ue o- 
vissem. E .sairam como duas léguas da cidade 
de Ponta-delgada todos cinco, e andando um 
homem descuidado, sachando melões, pegaram 
nelle, e contra sua vontade o trouxeram, e o 
metteram no batel, por(|uc posto que elle qui- 
zessc resistir pouco lhe approveitava ; e mettido 
no batel deram á vela com vento leste, e em 
meio canal se lhe veiu ao norte, que era o mais 
contrario de todos. Pozeram-se a remar, e como 
o caminho era comprido c o vento fresco, qui- 
zeram dar á vela para ver se podiam tomar a 
ilha do Pico. Quando o homem que traziam lhes 
viu os trabalhos, e imaginações, e sendo de noi- 
te, lhes dice, que se elles o queriam tornar á 
ilha de S. Miguel a botal-o era sua casa, que 
lhes dava palavra de os não descobrir, e que 
em sua casa estariam té terem tempo, por(|ue 
a elle se lhe não dava nada de vir á Terceira, 
senão a imaginação de sua mulher, filhos, e pa- 
rentes, de desapparecer sem d'elle saberem par- 
te; e que o batel o varariam onde elle sabia que 
estava secreto. Os soldados, e dono do batel, 
convencidos delle, e confiados em suas boas pa- 
lavras, tornaram a arribar; e como o vento era 
em popa, em breve espaço tomaram a ilha. Sen- 
do ja ás quatro da manhan, confiados se foram 
todos metter em sua casa, os quaes elle levava 
vendidos. E estando os soldados e remeiros mui- 
to seguros, dão com elles por ordem do Gover- 
nador, que era um filho de Ambrósio de Aguiar, 
e os levaram presos á fortaleza da cidade ; e o 
aviso veiu do próprio homem, que os enganou; 
e presos na fortaleza lhes deram tratos, para que 
lhe descubrissem o que lhes perguntavam, e ao 
que iara, e como a elles lhes ia pouco em o di- 
zerem, tudo lhe diceram ; mas os tratos foram 
fracos, porque d'ahi a poucos tempos foram vi.s- 
tos nesta ilha Terceira, sãos e da maneira que 
delia sairam. E nesta cidade os tinham por mor- 
tos, por ser batel de pescar pequeno, e o canal 
ser de trinta legoas, e ventarem nortcs, e rijos^ 

LXXV 

De como a boras de meio dia fugiram cinco naus do porto. 

As naus que trouxeram monsieur de la Cha- 
tres, com os soldados francezes, desejosas de se 
irem fazer sua pescaria, e tendo pouca vontade 
de esperarem a occasião da guerra, estando um. 
Domingo por grande calma, no mez de Junho, 
ou no fira delle, do anno de 1383, recolhida io- 



2iG 



O fànorâmâ-. 



-da a gente a horas de jantar, que podiam ser 
^s onse do dia, ouviram repicar, e tocar o sino 
<lo Corpo-Sanlo. Acudindo gente ás janeilas e 
portas viram ir gente a correr para o mar. Per- 
guntando o que era, diziam que eram as naus, 
que se acolhiam do porto. O vento era noroes- 
te, que assoprava arresoadamente, e na fortale- 
za de Santo António não estava mais que um 
bombardeiro, e estava jantando, bem fora do 
que era, que bem o amargou. Na de S. Sebas- 
tião nem um, porque só de noute iam lá dor- 
mir. Acudiram depressa os bombardeiros, e já 
iam longe cinco, porque ellas eram oito, e as 
trez estavam ja botando, e tanto que viram o 
rumor na cidade, e tanger o sino do Corpo-San- 
to, estiveram quedas, que se largaram o panno, 
como as cinco, bem lhes fora ainda, que quan- 
do chegaram os bombardeiros e gente á fortale- 
za de Santo António, estava o bombardeiro jan- 
tando, e licou morto. Logo o prenderam, e se 
jpozeram a tirar de uma e outra fortaleza ás cin- 
-co velas, mas eram já longe; somente da forta- 
leza de San Sebastião atiraram uma colubrina 
duas vezes, e de um dos tiros deram no mastro 
do meio da capitania, e lho derrubaram em bai- 



xo, e com elle derrubado se safou com as mais. 
Continua. 



A astúcia dos litigantes, as tricas dos advoga- 
das, as suggestões da amisade, e do amor, e o 
attractivo do oiro, são inimigos da probidade do 
magistrado: com sciencia vence os primeiros ; 
com firmeza os últimos. 



Os princípios da moral philosophica são gené- 
ricos, e absolutos ; não se circunscrevem a pes- 
soas, circunstancias, ou tempos ; não admittem 
privilégios; são sempre os mesmos para o homem, 
para o cidadão, para os monarchas, para as na- 
ções. 



Ministros do Deus de paz, se não renegaes o 
exemplo, e doutrina doRedemptor, reconhecei 
que a religião se firmou, e se deve sustentar pô- 
la verdade, e não pela impostura; pela virtude, 
e não pelo alfange ! 



AVISO AOS SRS. ASSIGNANTES DE PORTUGAL. 



o proprietário do Panorama, tencionando con- 
tinuar para o futuro anno de 1858 a Illustração 
Luso-Brazileira, dirige-se aos seus assignantes 
actuaes, e aos que o foram do mesmo semaná- 
rio, pedindo-lhe a sua coadjuvação. 

É innegavel que uma publicação de tal or- 
dem demanda excessivas despezas ; mas é tam- 
bém certo que um paiz como o nosso precisa 
d'um jornal, que diffundindo a instrucção, sir- 
va ao mesmo tempo de recreio. Eis a idéa que 
levou o editor a dar á estampa a Uluslração Lu- 
so-Brazileira, e o induz agora a contiiiual-a. 

Mas todos os esforços que faça para conseguir 
o seu fim — a publicação da Illustração — serão 
baldados, se os seus concidadãos o não ajuda- 
rem n'essa tarefa, na verdade árdua, mas glo- 
riosa. 

Sabe-se que apesar das calamidades ([ue Por- 
tugal soPTreu em ISuO, o proprietário da lllu.s- 
tração concluiu o volume que pertencia áquellc 
anno. Os obstáculos que para isso foi preciso 
vencer não se podem enuiuerar. Só, sem ajuda 
nem protecção, poniue as assigiialuras não che- 
.garam á quarta parte das despezas, lutou, mas 
•teve a satisfação de conseguir o seu mais arden- 
te desejo, que era a conclusão d'aquelle priraei- 
jo volume. 

Concluído porém, nada devendo aos assignan- 
i«s, e cansado de lutar, failarara-lhe as forças, 



c viu-sc obrigado, com bastante magoa, a sus- 
pender uma publicação, que se era estéril quan- 
to aos interesses, não o era pelo lado da gloria, 
alvo constante do editor, que tem enriquecido o 
catalogo das suas edições com obras nacionaes 
de mérito, que a não ser elle, seriam sepultadas 
no pó das gavetas, e furtadas assim ao conhe- 
cimento dos amigos da nossa litteratura. 

Em Janeiro de 18S8 recomeçará, pois, a pu- 
blicação da Illustração Lu.so-Brazileira, conside- 
ravelmente melhorada, se as assignaturas obti- 
das até o fim de Setembro do corrente anno co- 
brirem as despezas. 

O editor não quer lucros: satisfaz-se não per- 
dendo. 

Seguiremos o plano annunciado nos nossos 
prospectos, que são bem conhecidos, cora as 
modilicações reclamadas pelas circunstancias. 

As assignaturas recebem-se desde já na loja 
do editor, rua do Oiro n.°' 227 e 228 (nume- 
ração antiga), e no escriptorio da Administra- 
ção, travessa da Victoria n.° 52 1.° andar. 

LISBOA 

Por anno 4:000 rs. 

Semestre 2:100 » 

Á entrega 90 »■ 

províncias {franco de porte) 

Anno 4:300 » 

Semestre 2:260 » 



28 



o PANORAMA. 



21 




VOL. I. — 4.«SEEIE. 



JULBO, II, 1857. 



ais 



O PANORAMA. 



N'cste porto, (juc é situado no canal da Man- 
cha, e disputa a Caiais a preferencia nas rela- 
ções da França com Inglaterra, fez o imperador 
Napoleão i grandes aprestos, com o lim de exe- 
cutar um desembarque em Inglaterra, o que to- 
davia não levou a efleito. 

Bolonha mantém relações commerciaes n<ão só 
com a Inglaterra, mas também com diversas na- 
ções, para o que se fazem grandes equipamentos 
de navios. 

É muito concorrida pelos que tomam banhos, 
e posto que a moda tenha feito espalhar por dif- 
ferentes localidades os banhistas, ainda assim a 
flor da sociedade franceza não desamparou Bolo- 
nha. 



PESCA NOCTURNA 

DESCRIPTA rOK UM PESC.iDOlt ESCOCEZ. 

Á medida que a noite se aproximava, o eco 
tomava uma cor triste e carregada ; o mar, agi- 
tado pela brisa em começo, projectava o ceo ne- 
gro, e a sua superlicie, desegual e sombria, ab- 
sorvia os nltiraos raios do sol no occaso. Um es- 
paço bonançoso e prateado, pouco mais ou me- 
nos de Tinte a trinta metros de extensão, agi- 
tava-se preguiçosamente no meio das trevas: 
dir-se-hia que sobre este ponto se lançara uma 
porção d'oleo. Obedecendo a algum outro motor 
que não a maré ou o vento, este campo move- 
diço aprnximou-se de lado ás nossas boyas um 
tiro de funda da proa do barco, alongou-se, c 
fez a pausa d'uni momento depois, três d'ellas ; 
levantando-se de repente sobre a estreita base 
com um abalo súbito, afundiram-se. 

"Uma, duas, três 1 gritou um dos pescadores 
contando no momento em que ellas desappare- 
ciam ; são dez barris certos.» 

Deixámos correr alguns segundos. Desatando 
então uma corda tixa na ])rôa, e puxando-a d'es- 
ta para a popa, começámos a içar as redes. Á 
proporção que as três primeiras se aproximavam 
da superlicie, a luz phosphorecente das vagas 
fazia-as parecer ardendo em chammas d'um ver- 
de desmaiado. Aqui e ali, um arenque brilhava 
atravez das malhas, ou passava nas negras pro- 
fuiulidades como um foguete, um momento vi- 
sítcI pela própria luz. A quarta rede, a mais 
cheia de todas, reluzia por entre a agua que ain- 
da estava a distancia de muitas braças. O ver- 
de desmaiailo estava ali mesclado de pedaços de 
neve, (|ue, lluctuando no meio da massa lumi- 
nosa, parecia, a cada sacudidela dada pelos pes- 
cadores, deshgurar-se, dissolvor-se, e restabe- 
lecer-se de novo , cm((uanto fora , nas trevas 
que nos rodeavam, se acendiam e apagavam um 
sem numero de raios v(!rdes, que não oram se- 
não os peixes escapos á rede, e retidos junto dos 
seus companheiros captivos até que o movimen- 
to da agua os advertisse do perigo. A rede con- 
tinha uma ([uantidade considerável de arenques. 



Quando os içámos, sentimol-os quentes ao tacto; 
pori|ue no meio de grande copia de peixes, a 
temperatura é sempre mais elevada, circunstan- 
cia bem conhecida dos pescadores de aremjues. 
Sacudindo-os das redes, percebemos um petiue- 
no som agudo, egual ao grito do rato, mas mui- 
to mais fraco, causado de certo pela evacuação 
do ar, pois que nenhum peixe possue os órgãos 
do som. Algumas redes só tinham apanhado uma 
ou duas dúzias de peixe miúdo; mas as três mais 
felizes rompiam-se com o peso. Esta primeira por- 
ção tinha-nos produzido uma dúzia de barris, 
pouco mais ou menos. 

Acordando, próximo á meia noite, encontrá- 
mos, como anteriormente, o mar livre ; mas o 
aspecto tinha mudado. Á brisa succedera uma 
calmaria podre ; o ceo, perdida a côr sombria, 
resplandecia d'estrellas ; e o mar, unido como 
um espellio, siniilhava um segundo ceo, tão bri- 
lhante e tão estrellado como o outro, com a só 
diflerença de que seus astros parecia terem-se 
mudado em cometas, porque o ligeiro tremor das 
aguas dilatava as imagens reflectidas e presta- 
va uma cauda a cada estrella. Não se distinguia 
a linha do horisonte. Do lado da costa, onde se 
elevavam as rochas escarpadas, duplicadas em 
altura na sombra fluctuanle desenhada na agua, 
julgar-se-hia ver uma multidão de nuvens im- 
moveis ; mas esta apparencia não prejudicava a 
illusão. A sombria figura do barco estendia-se 
ao redor de nós como um fragmento de planeta 
quebrado, suspenso no espaço a egual distancia 
da terra e do ceo, e o orbe inteiro se desenro- 
lava diante de nós do oriente ao occidente. 

De facto, se as perspectivas sublimes fossem 
suflicientcs para desinvolver as faculdades hu- 
manas, o espirito do pescador não permaneceria 
muito tempo inerte; mas assim como no daguer- 
reotypo, a lamina de metal não retém as ima- 
gens senão depois de ter softrido uma prepara- 
ção que a torna sensicel, assim a intelligencia 
em que o sentimento do bello não tem sido des- 
pertado, não repara nem conserva nada dos sí- 
tios os mais maravilhosos. 

A calma continuava, e a escuridão também. Só 
uma hora, pouco mais ou menos, dejjois de nas- 
cer o sol, é que a brisa caprichosa correu á su- 
perlicie d'agua, communicando-lhe, em diversos 
silios, uma còr cinzenta. Então formou-se uma 
mancha, seguida bem depressa do segunda, de- 
pois de terceira, e em um espaço de muitas mi- 
lhas, a superlicie prateada se cobria de pardo, 
como se a brisa, partida dum jjonto central, 
propagasse ao longe esta còr. .\o cabo dalguns 
segundos, tudo tornou a estar tran(]uillo. N'es- 
te instante, de roda d'um novo centro, as man- 
chas pardas restabeleceram-se, alargaram-se, c 
invadiram o golplio de Murray. Um ruido parti- 
cular, similhante ao aguaceiro fustiganilo a ter- 
ra com as suas multiplicadas gotas, se levantou 
em torno do nosso barco. A agua parecia feita 
d'uma multidão de pedaços de prata ([ue sciu- 



o PANORAMA. 



at» 



tillavam um nioiiuMito ao sol, depois cedi.im o 
loíiar a outros jiontos vivos c escorregadios, aos 
quaes outros succediain ainda. Milliares de arcn- ' 
quês saltavam, briucando, a algumas polegadas 
d'altura: depois caiam, e desappareciam para 
tornarem a apparecer e saltar. Em breve toda 
a bahia se cobriu descuma. Os sons, uuillipli- 
cados ao iniinilo. imitavam o ruido do vento nas 
grandes arvores, e ouviam-se ao longe. Este ces- 
to vivente occupava ao largo centenas de mi- 
Ibas : mas ainda que elles brincassem aos mi- 
lhares próximo as nossas boyas, nenhum aren- 
que nadava tão baixo como a borda superior das 
redes. Im dos pescadores pegou numa pedra c 
atirou-a acima da segunda boya : os peixes dis- 
persaram-se e desappareceram. 

«Foram-se, gritou elle, não importa; com tan- 
to que mergulhem bem baixo! Ha <iualro annos 
que eu apanhei na minha rede trinta barris de 
peixe miúdo sem mais trabalho do (jue alirar- 
ihe uma pedra.'; 

O eITeito desta vez não foi tão prodigioso ; 
mas a terceira e ultima arrecadação que fizemos 
recompensou largamente as nossas fadigas. 

Içando depois a vela por uma fresca brisa d'es- 
te, alcançámos a praia com uma carregação de 
vinte barris pelo menos. 

Nem todas as noites dedicadas á pesca são tão 
tranquillas e prosperas. A borrasca vem ás ve- 
zes juntamente com esses immensos bandos de 
peixe, que ella sacode para a praia, com graie 
perigo dos barcos que o procuram, ([ue licam 
presos nos escolhos visinhos á terra. Sem cober- 
ta, cheios d'agua ao mais pequeno desvio da cos- 
ta, estes frágeis barcos, não podendo fazer-se ao 
largo nem alcançar o mar alto, só lhe resta aproar 
á enseada ou porto donde saíram de manhã. Se 
não conseguem entrar ahi, pobres delles e das 
tripulações. Os despojos das cavernas, os remos 
quebrados, e muitas vezes os cadáveres que as 
vagas lançam á costa, attestam o triste drama 
do qual nenhum actor sobrevive. Uma cantiga 
popular no Escócia, intitulada o arenque fresco, 
chama-lhe a morte dos pescadores. 

E comtudo os tilhos e irmãos dos pobres náu- 
fragos largarão amanhã a vela e abrirão com os 
remos o sulco movediço que se fechou na vés- 
pera sobre aquelles que amavam. É que esta 
pesca, mortal para alguns, é a esperança e a 
riqueza de todos. 

Na Escócia e na ilha de Man, emprega dez 
mil ijuatrocentos c oitenta barcos, tripulados por 
quarenta mil trezentos setenta pescadores e mo- 
ços ; em terra, sessenta e oito mil novecentas 
trinta e nove pessoas são occupadas em salgar 
e embarrilar o arenque. Se se accrescentara esta 
cifra a das industrias que se prendem com ella, 
taes como a conslrucção dos barris, o fabrico das 
redes, das cordas, etc. teremos a enorme somma 
de S3Í32Í libras esterlinas, ou 2. i04:458^réis. 



O luxo destroe as fortunas, e deprava os costu- 
mes. 



RETR.\TO DE CARLOS M.VGNO. 

IRAGMKNTi ■■ lUDlZIDO KIKLMK.NTK DA CUUOMCA LA- 
TINA QLE E. CR-;VEL O SEt SECRETARIO ElUNUARD, 
NO SECOLO VIU. 

(( Vestia ordinariamente o mesmo trajo que os 
francos, a saber: camisa, c calçõesinhos de pan- 
ninho, túnica de seda bordada, e calções; cobria 
as pernas com tiras, e o pé com um calçado mui- 
to apertado. A este vestuário costumava juntar 
no inverno outro de pelle, e segurava a csjiada 
M'um telim de prata ou oiro. Nasprincipaes fes- 
ti\idades, e (luando dava audiência aos embai- 
xadores, cingia uma espada guarnecida de pe- 
dras preciosas; porém nunca quiz usar trajos es- 
trangeiros por mais magniticos que fossem : só 
(luas vezes, a rogo dos papas Adriano e Leão^ 
consentiu em restir a túnica larga, a clâmide, 
e calçado á romana. Nas grandes solemnidades 
e procissões usava uma túnica tecida de oiro , 
calçado cravejado de pedraria , e na capa um 
broche de oiro, e punha na cabeça um diadema 
onde brilhavam muitos diamantes. Parco no co- 
mer, e sóbrio na bebida, olhava com horror pa- 
ra quem se embriagava , especialmente se era 
pessoa do seu séquito. Custava-lhe muito pri- 
var-se de alimento, equeixava-se frequentemen- 
te desjejuns lhe deteriorarem a saúde. Só d^i- 
va banquetes nas grandes festas, en'essas o nu- 
mero de convidados era considerável. A sua co- 
mida ordinária era de quatro pratos, alem do as- 
sado, do que gostava muito, e que se lhe servia 
na mesma frigideira onde o assavam. Durante a 
mesa gostava de ouvir contar as façanhas dos an- 
tigos, ou que lhe lessem as obras de Santo Agos- 
tinho, a que dava muito apreço, especialmente a 
Cidade de Dtus. Raras vezes, quando comia, le- 
vava a taça três vezes ábocca; porém no verão, 
ainda que só comesse fructas, bebia em seguida; 
logo se despia, e dormia duas ou três hora.-. Du- 
rante a noite despertava quatro ou cinco vezes, 
e em cada uma d'ellas se levantava. Em quan- 
to se vestia recebia os seus favoritos, e quando o 
mordomo do palácio lhe annunciava algum plei- 
to, de i|ue elle devia tomar conhecimento, cha- 
mava logo as partes, ouvia as suas razões, esen- 
tenceava ; depois distribuía a cada um os seus 
afazeres, e aos ministros os negócios de que se 
deviam encarregar. A eloquência de Carlos Ma- 
gno era tão fecunda, que podia expressar todos 
os seus pensamentos, sem recorrer á lingua ma- 
terna. Sabia o latim, e fallava-o com tanta fa- 
cilidade como se fosse o seu idioma natiTO. Com- 
prehendia muito bem o grego, porem expressa- 
va-se n'elle com difficuldade. Havia-se dedica- 
do com muito afinco as artes liberaes; e por is- 
so venerava os seus mestres, e bonrava-os com 
benelicios. O diácono Pedro Pisan deu-lhe al- 
gumas lições de gramraatica, e dos outros estu- 
dos foi seu mestre Albim, por outro nome Alcuim, 
diácono bretão, homem muito instruído em todas 
as sciencias. Carlos havia gasto com elle muito 



990 



O PANORAMA. 



tempo a aprender a rlietorica, a dialéctica, e cs- 
peciaimeate a astronomia : também se applicou 
á arte do calculo, ao estudo do curso dos astros, 
e a escrever, tendo sempre á cabeceira da cama, 
para se adestrar na escripta, taboJetas e iivri- 
nhos ; mas pouco adiantou n'isto, porque se de- 
dicou já tarde, e fora de tempo.» 



, O l LTÍMO ABBãDE de WnALLEY. 

: i 

- I- II 

- 1 1 ; 1 1 ' 

• • ;.) li Continuarão. 

Demdike desceu um pouco a encosta, passan- 
do pelo centro do circulo que havia traçado. Cra- 
You então o pau no chão n'um dos lôgares em 
que pozera os boccados de tojo secco, e com tal 
força que o enterrou três palmos pela terra den- 
tro. Quando o arrancou viu-sc rebentar um re- 
puxo dagua negra como tinta. Cravou outra vez 
o pau no chão, e enterrando-o do mesmo modo 
appareceu novo repuxo d'agua tão negra como 
a primeira. 

Entretanto os soldados continuavam a avan- 
çar, contemplando este espectáculo, mas sem 
pararem um instante. Outra vez se cravou o pau 
no chão, e rebentara terceira fonte, negra co- 
mo as outras. Já estavam bem próximos os sol- 
dados realistas, já se distinguiam as feições dos 
dois commandantes João tíoaddjll, c Ricardo 
Asskton, e ouviam-se as suas vozes distincta- 
mente. 

— E elle, é o abbade rebelde! bradava Boad- 
dyll, avançando. Não nos enganaram. Estava 
também de vigia junto ao signal. É o diabo que 
o entrega ás nossas mãos. 
: '. — Andem! andem! bradou Demdike. 

— Já não é ablíade, redarguiu Asskton; po- 
deis chamar-llie agora conde da Pobreza ; hadc 
ser enforcado no sitio aonde levantou o signal, 
para escarmento de traidoi'es. 

— Hereges! blasphemos! ao menos posso-me 
vingar, exclamava o abbade cravando as espo- 
ras no cavallo. 

Mas primeiro ([ue desse um passo, Demdike 
tinha deitado a mão ás rédeas, dizendo-llie : 

— Parae, ou morrereis juntamente com tiles. 
i>'uviu-se então um estrondo similhante ao do 

trovão, e cedendo todo o espaço de terreno mar- 
cado pclo circulo, arrebentou com uma força ir- 
resistível uma torrente negra, que, chegando á 
altura dos peitos dos soldados que a\ançavam 
pelo canal, levou todos e tudo comsigo na sua 
impetuosa corrente. 

Era horroroso ;;quellc espectáculo. As aguas 
negras rellectindo us chammas pareciam ondas 
de .sangue. Nem era jnenos medonho ou\ir os 
gritos das victimas, acompanhados pelo rugido da 
torrente. Lutavam em vão c'om a agua, e as pe-- 
dras ([ue esta arrastava no seu impeto derribavam 



os que conseguiam tomar pé. Os que tentaram 
segurar-se ás hervas, sumiam-se para não tornar 
a apparecer, porque ellas eram um frágil apoio 
para vencer a força das aguas. Muitos morre- 
ram esmagados por grandes pedaços de roche- 
do que se deslocavam, e acompanhavam a cor- 
rente na sua descida, ou (jue encalhando por 
algum motivo era mais um perigo que encon- 
travam. 

Um homem jnidcra conservar-se n'uma d'es- 
tas pedras. Estendia ás vezes a mão para alguns 
dos seus companheiros que passavam, gritando 
junto d'elle. Mas não os podia soccorrer, e a 
sua própria posição era duvidosamente segura, 
e não a ousava abandonar, ponjue saltando pa- 
ra qualquer dos lados tinha inevitável a morte. 

As aguas saltavam espumando a muralha de 
pedra que se oppozera por um instante á sua 
iorça, mas esta cedera logo, e as suas relíquias 
acompanha vam-nas na sua carreira. Arvores, ca- 
sas, gados, tudo desappareceu ate que depois de 
encher um pequeno lago, encontraram o açude 
de um moinho. Aqui paradas, e não achando 
salda, formavam um redemoinho, aonde boiaram 
gados, homens, uns mortos outros meio vivos, 
até que com um estrondo inimenso o açude ce- 
deu, e a torrente rugindo e escumando conti- 
nuou na sua obra de destruição, engrossada 
pelas aguas do ribeiro de Pendle. 

O abbade e os seus companheiros contempla- 
vam esta horrível devastação com espanto e ter- 
ror. Pallido, e com o sangue gelado nas veias, 
Paslew suppunha aquillo tudo obra dos poderes 
infernaes, e que elle estava de combinação com 
ellcs. Tentou proferir uma oração, mas os seus 
lábios se recusaram a proferil-a. Queria mover- 
sc, mas parecia que os seus membros estavam 
parah ticos. 

Demdike soltava uma gargalhada estndente 
de espaço a espaço, o que ainda mais exacer- 
bava, a elle e aos seus companheiros, a horrí- 
vel