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Full text of "O Panorama; semanario de litteratura e instrucção. v. 1-5, maio 6, 1937-dez. 1841; v. [6-8] (2. ser., v. 1-3), jan. 1842-dez. 1844; v. 9-13 (3. ser. v. 1-5), set. 5, 1846-dez. 1856; v. 14-15 (4. ser., v. 1-2), jan 1857-dez. 1858; v. 16-18 (5. ser., v. 1-3), [jan.?] 1866- [dez.?] 1868"

SEMANÁRIO DE LITTERATDRA E IXSTRUCCÃO 



VOLUME XVI 



PRIMEIRO DA QUINTA SERIE 



LISBOA 

TYPOGRAPHIA FRANCO-PORTUGUEZA 

6 RUA DO THESOURO VELHO 6 
1866 




^^. 



ÍB R A ^J 

K 9 1964 

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o PANORA 




SEMANÁRIO DE LITTERATURA E INSTRUCGÀO. 



DUAS PALAVRAS AO PUBLICO 

Depois de bastanles annos de interrupção reap- 
parece o Panorama, esse biilhante museu da lit- 
teratura porlup;ueza, onde penduraram maravilhas 
duas gerações de escriplores. A interrupção d'es- 
te jornal foi deplorada pelos muitos assignanles 
que o tinham seguido com interesse na sua longa 
e esplendida carreira. 

O modo como este jornal foi redigido impõe gra- 
ves obrigações áquelíes que se encarregam de sa- 
tisfazer um desejo do publico, c que hão de ten- 



lar não deixar desmentidas as esperanças que o 
titulo d'esle jornal inspiíH. Não ousariam fazel-o 
se não contassem com o auxilio de algumas das 
pennas mais justamente illustresdc Portugal. 

Não fazemos programmas, nem tentames captar 
a bene\olencia dos assignantes com promessas 
pomposas. Ninguém duvidará de que não acceita- 
riamos (nem pessoa alguma acceitaria) o pesado 
encargo que tomamos, se não tencionássemos em- 
pregar todos os esforços para nos desempenhar- 
mos, o melhor que podcssemos, da tarefa que 
emprehendemos. 




- A SUISSA 

Gostais de viajar, leitor, de mudar de sitio amiú- 
de, de caçar? Gostais de perspectivas, de paisa- 
gens; vera escuma das correntes, a melania dos la- 
gos, os eííeilos da cerração, llorcs, arvores, roche- 
dos, estreitas? Ide á Suissa! Onereis ver o rio seintil- 
lante, o lago de gelo, o vai negro e fecundo, a 
ponte do Diabo, a força c a belleza do mundo? 
ide á Suissa? 

A Suissa é a Cintra da Europa. Se estais doen- 
te, curar-vos-hão as suas aguas Ihermaes ; se go- 
sais sauJe, sentireis alli mulliplicarem-se-voâas for- 



ças, alongar-sc-vos a vida, dilatarem-se-vos os pul- 
mões. Assim como a águia das montanhas, banhar- 
vos-heis n"uma nuvem, e a vossa vida se renovará. 
Na alluia emque vos achardes, oh! como se tem com- 
paixão das miseráveis agitações do mundo 1 Como a 
alma se aproxima da Divindade! Como se lastimam 
os homens, com as suas peíjueninas idéas e pai- 
xões, diante dos grandes mysterios da existência! 
Oh! não pode haver duvidas na presença d'aquella 
natureza ! Conhece-se alli j)erfeitamente a mão do 
Omnipotente. Das arvores, das torrentes, das nuvens, 
dos rochedos, dos abysmos, saem mil vozes con- 
fusas, errantes e meíodiosas, que vos gritam in- 



o PANORAMA 



cessanlemenle : Deos 1 Deos ! Deos ! A imniensi- 
dade esmaga-vos, Iritura-vos, confunde-vos, an- 
iiiquilla-vos, e julgais ouvir por Ioda a parle, cm 
torno de vós, essas palavras que, com Ião desde- 
nhosa ironia, caiam dos lábios de Montaigne : 
En/h-toí, paurre /lomnie, et encorei et encore! 

K depois, que de lembranças, que de grandes 
nomes a j)airar por cima d'aquellas collinas, 
d'aquellas cidades, d'aquelles caslellosi Primeiro, 
os nomes de hcroes : Jiflio César, (íuilhermeTell, 
Napoleão. Em seguida, outros nomes celebres de 
enlre os historiadores do pensamento: Rousseau, 
Calvin. Byron. Lavaler, Mme. Slael, Sénancourl. 
Ouando, Jean-Jacques, percorria os desorlos da 
Meillerie. essas escabrosas solidões inspiravam- 
Ihe. sem duvida, as paginas severas onde o século 
\1X eslava em gérmen. Byron ai li levou a seu scep- 
licismo zombador ; também teve o seu quarto de 
hora de enlhusiasmo ; e a sua vida, agitada como 
as ondas do Uhodano. precipilou-se nanoile eter- 
na, cxhalando csle grilo funesto: «U que sei cu?!)) 
Só a pupilla de Schlegel. conservou até ao lim o 
seu sangue frio philosophico, os seus estudos po- 
sitivos e sérios, a sua potente virilidade. Só ella 
introduziu o escalpello sem perturbação e sem 
commoções na organisação moral do homem. 

Uma coisa que tornará a Helvécia sempre cara 
aos viajantes de todos os paizes, é a novida- 
de, a nmlliplicidade e a variedade das sensações 
que alli se experimentam. A llalia, o berço das 
artes, esse grande edifício niaimoreo, incontesta- 
velmente, contém innumeras bellezas. A admira- 
ção, porém, é deencommenda. Se alli fordes, lei- 
tor, experimentareis as mesmas commoções que 
experimentaram os que vos precederam, e que se 
acham consignadas nos seus manuaes. Na Suissa 
a natureza varia de aspecto a cada passo, a cada 
instante. Aqui, o inverno semelhante ao da Sibé- 
ria : a neve, a geada, o nordeste; voltais um ro- 
chedo, eis a primavera : relva, flores, cascatas, 
luxuriante vegetação. Por vezes tendes a vosso 
lado o perigo, esse rude, mas precioso compa- 
nheiro, que «rgue o peso da dor e que prende á 
vida. 

Logo, um novo espectáculo doce e consolador 
se vos oflerece. Tm hospício de religiosos, cuja 
caridade, mais do que os cálculos dos sábios, 
vos ensina, o caminho do ceu. Oue admirá- 
vel quadro o d'esses homens desconhecidos, vi 
vendo a vida mais santa, não levantando o seu 
melancholico olhar senão paia abençoar os que en- 
contram, e mostrando por suas palavras c acções 
que não vivem senão para esse Deos tão grande, 
esquecido no mundo, adorado no seu deserto. Oh! 
(juão i)enetrante é a voz da religião (|uc se tem 
lefugiado no meio d'aquelles cimos abruptos, 
d"aquell('s gelos eternos! Como ella jjrende o co- 
ração do homem! Como o prejiaia para os phe- 
nomenos da outra Nida ! 

Ainda outra mutação de scena. Atravessais um 
corredor, abris uma i)orta, e entrais em um ma- 
pniíico salãT), ricamente mobilado, onde estão mu 
Iheres amáveis c lisonhas ; achais os costumes 



elegantes, a conversação espirituosa. Por vinte e 
quatro horas deixais o vosso traje de viagem; jo- 
gais uma ])arlida de xadrez, ouvis um motivo do 
admirável Gnil/tenne Tcll, de Rossini, folheais os 
jornaes, as revistas, os álbuns, e no meio d'estc 
passatempo, podeis ouvir as lamentações do ven- 
to nos pinheiros rudes, as cantigas dos pastores, 
os gritos dos guias, o eslampido abafado das ava- 
lanchas e ao longe os surdos bramidos do espiri- 
to da montanha. 

No dia seguinte continuais a vossa viagem. 
Numerosas caravanas de curiosos se vos deparam 
perdendo-se no meio dos pinheiros, para reappa- 
recerem um instante depois, parando a todo momen- 
to a tim de remediar qualquer accidente sobrevindo 
ás suas cavalgaduras, e preparando-se para atra- 
vessarem um d'esses precipícios diante dos quaes 
recuaria uma cabra. Os mineralogistas fazem sal- 
tar fragmentos de rochas com o seu martello de 
aço ; os botânicos andam curvados, examinando 
as plantas raras que lhes apparecem era multidão; 
os entomologislas perseguem com suas redes de 
gase os lepidópteros ; os pintores arrastam o seu 
cavallete e a sua tella ; os poetas recitam ; os 
músicos tocam e cantam; as mulheres pensam. 

Se quereis fazer uma idéa da Suissa, sob o 
duplo aspecto que apresenta, é necessário que 
vos demos o esboço de duas scenas : uma de paz, 
de quietação, de serenidade; a outra de alvoro- 
ço, de desolação, de morte. 

Para a primeira scena, temos só a pedir-vos 
que lanceis um olhar pela nossa gravura. Avis- 
ta do assumpto poderíamos muito facilmente apre- 
sentar-vos um idilio no gosto dos de Gessner, de 
Florian ou de M. de Fonlenelle ; mas isso é re- 
trogrado ; o século não se entrega a essas ninha- 
rias. Hoje em dia as damas desenham, gravam, 
tocam piatio, e não mungem as cabras, como a 
infeliz Maria Anlonietta ; os generaes só lêem as 
ordens do exercito; os padres, cn vez de ver- 
sos e outras obras lillerarias, praticam a carida- 
de evangélica e vivem, pobremente, soiTrendocom 
resignação os revezes mundanos; a nossa aristo- 
cracia ensina cavallos, farpea louros e não com- 
põe charadas nem madrigaes. Não vos cansare- 
mos, pois, leitor, com o (pe está fora de uso, 
nem com minuciosos exames; porque o quadro, 
por si só, e bastante para poderdes ajuisar. Ve- 
des uma pequenina aldeia, não é verdade? e 
três camponezes que se dirigem para o seu do- 
micilio, a |)rocurar o descanço dos trabalhos agres- 
tes do dia. Oh! mas tudo resj)ira paz, traníjuil- 
lidade; tudo é risonho, |)erfumado ; é como um 
êxtase da natureza sob o olhar de Deosl 

Acabais de ver o agradável; vinde agora ao ter- 
rível. 

A avalancha ! Esta palavra tem um tanto de 
assustador e de glacial. A (jueda de uma avalan- 
cha produz um ruido isolado, que não se asseme- 
lha a nenhum outro. Ente algum vivo lhe respon- 
de com um grito de terror O mesmo eco é mudo 
nas innumeraveis anfractuosidades das montanhas; 
esses tortuosos dédalos, atapetados de neve, recc- 



o PANORAMA 



bem eiu silencio um murmufio insensível, ao qual 
não succede o menor som,* O soce^o, em regiões 
onde a natureza está como envolvida n'uma im- 
mensa mortalha, augmenta a impressão do terror, 
que produzem esses picos agudos, essas extremi- 
dades inaccessiveis, esses esqueletos mirrados, 
essa libré dos invernos eternos, estendida como o 
veu do esquecimento sobre o tli^alro das mais an- 
tigas revoluções do globo. O tocar com o pé na 
borda de uma fenda, pode produzir a queda de uma 
avalancha. Um tiro de espingarda, a voz dos via- 
jantes, o som das campainhas dos machos, podem 
causar o mesmo resultado. As avalanchas de neve 
pulverulenta {staublouinrn) são mais perigosas, 
poi-que abrangem ura grande espaço, e, sobretudo, 
pelo movimento que imprimem no ar. O furacão 
leva tudo quanto encontra em sua passagem: arvo- 
res, casas, aldeias inteiras. Era menos de uma 
hora, as estradas desapparecera, e a neve toraa 
por toda a parte dez pés de profundidade. A 
montanha treme até nos seus fundamentos ; as 
arvores entrechocam-se, os ramos despedaçam-se, 
os rochedos desarraigani-se, as paredes das casas 
abrem largas fendas, as vigas estalam, os tectos 
caem. Tudo se desmorona ! São convulsões, hor- 
rores, uma agonia. Aopallido clarão da lua, os ho- 
mens, as mulheres, as creanças, arrancados ao 
somno, errara senii-nús, olhos espantados, boqui- 
abertos, cabellos erriçados, sem se reconhecerem, 
sem saber aonde enconli"ar um abrigo. Os que po- 
derara escapar-se de suas casas, meio destruídas, 
procuram-se, abraçam-se, reunem-se. O cura, en- 
tão, cólloca-se uo meio d'elles, sereno c grave, 
tendo na mão a custodia, que encerra a hóstia 
consagrada. Todos ajoelham sobre a neve, fronte 
descoberta, olhos levantados para o céo, com a 
alma transida de terror; e logo ao ruído das lon- 
giquas avalanchas, soa nos declives da montanha 
a terrível e solemne melodia do J)k's irce.] 



A QUESTÃO LITTERARIA 

ror ZACHARIAS AÇA. 

Ha ura anuo lia-se em Lisboa ura livro novo a 
lodos os respeitos, novo pela forma, |)ela ídéa e 
pelo nome do auctor. Ouando digo novo, cla- 
ro está que me retiro a Portugal. Discutia se 
o titulo e o assumpto; a forma era aquilatada pe- 
los mestres, pelos cinzeladores, pelos Cellinis da 
palavra; a ídéa era estudada pelos que lidara com 
os assumptos históricos, com a philosophia e com 
a poesia. O livro lilíava-se era alguma das esco- 
las modernas da AUemanha, e punha a mira mui 
alto. O tentaraen eia uma temeridade, e o resul- 
tado provou que os ícaros não acabaram ainda ; nem 
era isto para admirar quando vimos Victor Hugo, 
que precedera n'estaemi)reza o sr. Theophilo Ura- 
ga, rojar-se, elle, a águia, pela terra, indo mos- 
trar nos ares, agora manchadas pela lama, as azas 
outr'ora alvas e esplendidas. .lá disse o nome do 
auclor ; o livro chama-se — Visão dos lempos. — 

A ignorância de uns, a falta de senso critico 
de outros, e a extrema e, no meu entender, crimi- 



nosa benevolência da nossa imprensa, fizeram com 
que esle livro occupasse oflicialmente na liltera- 
tura contemporânea um togar distíncto a que de 
certo não tem direito. 

Visão dos tempos ! Esta reconstituição das ci- 
vilisações que passaram é diflicilima, em alguns 
pontos é impossível, e requer os talentos e a 
sciencia de ura Cuvier, de ura Goethe. Esle titulo 
,esmaga a obra de um escriplor que nasce para as 
leiras, e o sr. Theophilo Jiraga, se, era vez de ser 
portuguez, fosse allemão, inglez ou francez, e vi- 
vesse era ura paiz onde acrítica abrangesse todos 
os ramos dos conhecimentos humanos, o que en- 
tre nós não succede, infelizmente, havia de estar 
agora arrependido de ler publicado o seu livro. 

Não bastam, para que uma obra passe á poste- 
ridade, os títulos pomposos e as citações abun- 
dantes, porque não é isso o que constítue a ver- 
dadeira sciencia, a luzqueallumia a todos. A eru- 
dição assim entendida é fácil, mas é inútil, e o 
titulo, se é chamariz que altrahe o publico ao 
balcão do mercador de livros, é lambem e ao mes- 
mo tempo signal de leviandade ou de nimía pre- 
sumpção das próprias forcas. 

Escrevendo ura prologo com o titulo de «Gene- 
ralisação da historia da poesia» o sr. Theophilo 
Braga não podia aspirar a outra coisa que não 
fosse o vulgarisar entre nós, até hoje segregados 
quasí completamente do grande moviraento phí- 
losophíeo, histórico e litterarío da Europa, as idéas 
que se ensinara nas academias e universidades 
estrangeiras. Isto e só isto podia ser, allentas as 
circurastancias que se davara no joven poeta que 
não poderia racíonalraenle loraar a si as funcções 
de mestre e iniciador. 

As qualidades, que se lequerem no vulgarisa- 
dor, são em primeiro logar a sciencia, depois o me- 
thodo e a clareza na exposição. 

Encontram-se no prologo da Yisão. dos tempos 
estes predicados? 

Parece-me que não. A exposição é confusa ; as 
syntheses não se ligara rigorosamente; não ha ló- 
gica na deducção das idéas, e a phrase, por vezes 
germânica, não tem o rigor geométrico tão ne- 
cessário em assumptos d'esta ordem: em compen- 
sação as citações abundam. 

Isto pelo que diz respeito á prosa. 

i\a Bacclianle, a maior e a melhor das com- 
posições que constituem aquelle livro, foi mais 
feliz o auclor, comquanto licasse aqui rauilo á quem 
da perleição. Deixando de lado a parte aitistica, 
a metriucação, 'que n'este assumpto devia ser mui- 
to esmerada, o sr. Theophilo Braga é, n'esle poe- 
meto, inferior aos poetas francezes que lera pro- 
curado fazer reviver nos seusescriplosa singeleza, 
a elegância, a harmonia e a serenidade da poe- 
sia grega. Citarei apenas o nome de André Che- 
níer e o de Leconte de Liste, e, corao a respeito 
d'este ultimo escreveu Gustavo Planche algumas 
observações que vera de raolde, lianscreve-las- 
hei aqui*. — «O prefacio do sr. Leconte de Lísle 
prova alé à evidencia que o manejo do melro e 
da rima não ensina as regras mais elementares 



o PANORAMA 



da prosa. As idéas mais justas não podofii pres- 
cindir de ser apresenladas sob uma forma clara 
.' exacta ; ora o sr. Leconle de Lisle parece des- 
jiresar abertamente a clareza c a e^;actidão. As 
>uas ideas não se oncadeam e apreseiilam-se-nos 
vanas e confusas. Habituado a falhir a lingua dos 
deuses, o auctor mal se sabe exprimir na linaua 
tios homens c obriga-nos a adivinhar-lhe o pen- 
-amenlo.)^ « 

Isto que o eminenle critico diz de Leconle de 
l.isle, e como se vè. pouco mais ou menos, o que 
ou disse acerca do prologo da Visão dos tempos. 
Ksla, portanto, o sr. Braga em muito boa compa- 
nhia, mas o caminho ò mau. 

Voltando à poesia direi que aBacchanle não é, 
j.ara mim. nem uma estatua, nem uma pintura 
de Ilerculanum ou da grande arte da Henas- 
rença, porque não len\ nem a vida exuberante c a 
-raça dos contornos da esculplura grega, nem o 
dorido e a expressão de Corregio ou Raphael. 
Aquellas figuras são pouco accentuadas, e, se é 
preciso compara-las a um objecto de arte, direi 
(jue são antes um esboço do que uma obra per- 
íoita e acabada. O desenho é incorrecto ainda, a 
luz não está- bem distribuída, a composição, o 
iigrupamento das figuras não está determinado 
delinitivamente. 

O sr. Camillo Castollo Branco, ■n'um dos seus 
artigos crilicos sobre este assumpto, diz que 
«Na contextura da Bacchante a critica não tem di- 
reito a assignalar inverosimilhanças.» Mais abaixo 
accrescenta; «O sr. Theophilo Braga inventou ; 
dos usos gregos aproveitou as decorações para a 
scena : foi a poesia mUhologica, sem duvida, que 
Ufas deu. A íjrecia não era assim, de certo. » 

A critica tem direito a notar as inverosimilhan- 
ças, porque ellas existem no poemeto, cesse di- 
reito assiste seni()re á critica. 

Era preferivel (|ue o joven poct^ não invenlas- 
so, j)orquc a (Irecia comj)unlia-se não de nomes, 
mas de homens que tinham cosjumes e ideas 
difierenles das nossas, e na emprcza do sr. Bra- 
ga havia uma parle histórica importante que elle 
não devia despresar. 

Finalmente, sem discutir agora as outras opi- 
niões da critica, aliás çxcellente em muitos pontos 
do sr. Camillo Caslello Branco, e que c uma das 
mais completas que ultimamente lem apparecido, 
direi que o illustre romancista c^ndemnou a ]{ac- 
chante quando disse (jue a íjírecia não era assim. 

Das outras cí/mposiçõos, inferiores em q^jalidade 
c quantidade á Baocliante, pode-sé dizer o mesmo 
que a respeito d'esta escrevi. 

Eis-aqui, em synlhese, o que eu penso da Visão 
(los lempos, reservando |)ara mais tard(! c se fôr 
necessário,- a coníirmafão anal\tica do (lue deixo 
dito. 

{Continrm) 



tremamente empenhada, tendo recebido convite 
para um baile na corte, mandou, por carta, a uma 
sua amiga, mais idosa e menos bella, pedir empres- 
tados os diamantes. 

Esta, que n'aquelle dia não eslava de bom hu- 
mor, terminando a leitura do escripto, voltou-se 
para o criado, e exclamou: «Diga a essa senhora 
que, SC me envia a sua cara, tleixo de fazer uso 
de Iodas as minhas jóias.» 



A in-.LLESA E OS ADORNOS 

Ima das senhoras mais formosas e eleganlesda 
arislocracia hcspanhola/my.^ cuja casa eslava ex- 



OS PHÍLO-PORTUGUEZES. 

rOR INNOCENGIU b\ DA SILVA. 
I 

Por impulso da insaciável curiosidade, que apo- 
derando-se do nosso espirito em annos bem lenros, 
tem permanecido comnosco até á idade madura, 
lovando-nos a ler, ou antes a devorar indislincla- 
-menle n'este já longo intervallo milhares e milha- 
res de volumes de lodo o género, desde os 
mais raros e exquisilos primores do saber huma- 
no, alé as mais fúteis e minguadas producções 
que os prelos de si lançam muilas vezes para ver- 
gonha e descrédito de quem as engendrara : pe- 
gámos ha dias de um folheio, recenlemenle im- 
presso, e que por seu assumpto começou a dar 
tamanho brado, que já corre, segundo se diz, em 
terceira edição. Com pretenções á originalidade, 
e recheado, ao que nos pareceu, de muitas e sin- 
gulares originalidades, não foi sem grande ex- 
Iranheza que por enlre os paradoxos, que o auctor 
se comprazeu de semear a llux por todas as pa- 
ginas de Ião notável obra, o vimos alludir com 
ostentoso desdém ás plirases rabujentas dos 
nossos lieros bolorentos chamados clássicos, e lo- 
go adiante acoimar os escriptos em prosa de um 
nosso palricio, (por ventura o mais vernáculo dos 
contemporâneos que se esmeram em bem escrever,) 
de imitações das algaravias mj/sticas de frades 
estonteados !!! Assim, i)ois, se conceituam de um 
rasgo de penna, c na phrase dos modernos pro- 
j)Ugnadores da Jdéa (com inicial maiúscula !) os 
Vieiras, os Bernardes, os Sonsas, os Lucenas, os 
Arraes, os Dcitores l'intos, os Thomés de Jesus, 
e tantos outros mestres do nosso formoso idioma, 
que pela lluidez, energia, persj)icui(iade e elegân- 
cia da linguagem lêem sido, e são ainda as deli- 
cias dos que chegam a enlendei-os! A fé, que 
ao ver laes palavras escriptas por homem (|uc 
se diz portuguez, ou (|ue ao menos nasceu em ter- 
ras de Portugal, sentimos a alma sombreada de 
uma commoção dolorosa, que em vão lenlaria- 
mos exprimir ! 

Não o pensavam assim tantos erudilos estran- 
geiros, que em tempos mais antigos e até no sé- 
culo actual, conseguindo vencerá força de estudo 
as confessadas dilliculdades da lingua, e peneirar 
os mysterios da no.ssa elocução, se apressaram a 
trasladar nas suas, esses bolorentos andores, de 
que tão enjoados desdenham os modernos inicia- 
(lores de novas sendas. Nem Ião pouco os ama- 
dores esclarecidos, (|ueem Iodas as nações compra- 
vam, c compram ainda; lahcz 51 peso de ouro, 



o PANORAMA 



esses desprezados livros, para com elles enrique- 
cerem suas fastosas e escolhidas bibiiolhecas. 

O extenso catalogo que de uns e outros pode- 
riamos tecer, seria talvez n'esta parte a refutação 
raais azada que cumpria dar a insólitas asserções, 
forjadas nos cérebros escandecidos dos que a si 
se preconisam de idealistas por excellencia. Bem 
feriamos esse desejo, porém lallece-noS agora mais 
que nunca o tempo, e sobram-nos occupàções 
que impedem realisal-o. Faremos todavia o que 
podermos, e a começar pelaGran-Bretanha; coni- 



memoraremos em seguida a este artigo os nomes de 
cinco illustrados philologos inglezes, distinctos 
por seus conhecimentos, e alguns notáveis por 
sua elevada cathegoria na ordem social, que no 
século corrente se mostraram enthusiasticos ama- 
dores da nossa litteralura clássica, patenteando 
por modos nada equívocos a estima e admiração 
(jue lhes inspiravam esses auctores, que hoje vemos 
indignamente vilipendiados por nacionaes com 
apodos ião grosseiros. 

iConlinua.) 











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M. LÉON DE LABORDE 

Esle illustre varão, filho de Alexandre L. Jo- 
sepb, conde de Laborde, nasceu cm Pariz no 
anno de 1807, e lornou-sc distinclo no mundo 
lilteraiio pelas suíis iuleressantes averiguações 



sobre a historia da arte, da gravura, da imprensa 
e das bibliothecas. É a elle, depois de Niéburh, 
Hurckardt e Mangles, (jue se devem as mais vas- 
tas e magnilicas noticias sobre a Arábia, paiz ce- 
leberrimo da antiguidade ecuja historia vai pren- 
der nos primeiros tempos. Estudou, durante um 
anno de residência no Cairo, o idioma árabe, e, 



6 



O PANORAMA 



em 1828, á frente de uma numerosa caravana, 
vestido como os liabilantes de Alepo, trajo que 
adoptou para melhor poder idenlilicar-se com os 
povos que queria visitar, inlernou-se pelos areiaes 
do Egyplo, e atravessando a Syria. Alepo, Liba- 
no. Damasco. Palmira e outros pontos igualmen- 
te curmsos, subiu o monte Taurus, penetrou até 
a antiga cidade de Petra. 

Esta viagem não teve só por fim a contemplação 
dos monumentos da antiguidade ; como se vè das 
Yoyages dans rArabie Pefréc, en Asic Mineure 
et enSyrie, Mr. de Laborde, estudou também as 
plantas, animaes e geographia d'aquella parte do 
mundo ; o que, realmente, foi um grande serviço 
prestado ás sciencias. 

As obras que conhecemos do intrépido viajante, 
são as seguintes : Les Grandes hahitaliom fran- 
raises an XVIÍ siêcle ; Yoyages dans rArabie 
Pétrèe, 1830, — en Asie Mineure _ et en Syrie, 
1837 ; les Ducs de Bourfjoyne, Études sur Ips 
lettres, les arts, et t industrie, pendant le XV 
siècle, 1819 — o{:_La fícnaissance des arts à la 
eour de f rance, Études sur le XVÍ siècle, 18o0; 
Aotice des émaux, bijoux, exposés au Louvre, 
1853; Atliènes aux XV, XVI et XVJÍsiécles, 1855. 

Mr. Léon de Laborde substituiu seu pai na 
camará dos deputados e na Academia das scien- 
cias moraes. 



PEREZ LORENZO 

(SrcnaM d» Cantitanha do IMçxico) 

ror riMIElRO CHAGAS." 

I 

Todos conhecemos os últimos acontecimentos 
do México, acontecimentos, que transformaram a 
anarchica republica americana, graças á interven- 
ção franceza, n'um império que por ora apenas se 
esteia nas bayonetas dos zuavos, mas que, para 
o futuro, se não commetler grandes erros, se des- 
envolver o espirito nacional, se entrar no cami- 
nho dos progressos materiaes, poderá conquistar 
mais seguras garantias de solidez. Sabemos dos 
insultos selvagen.s.e anli-politicos a que estiveram 
sujeitos os estrangeiros, da insistência do gover- 
no mexicano em responder com orgulho ás recla- 
mações das potencias occidentaes, da intervenção 
motivada por esse inqualificável procedimento, e, 
finalmente, do celebre convénio da.Soledad, que, 
isolando a politica franceza da politica ingleza e 
(la hespanhola, deixou a divisão imperial em cam- 
jio contra as foi'ças todas da rej)ublica. 

A questão da honra da bandeira arrastou a 
França talvez muito para além do ponto a (|ue 
tencionara chegar. As águias victoriosas de Alma, 
c de Solferino sustaram o vôo audacioso perante 
as muralhas de Puebla. O general Lorencez leve 
de recuar diante do indiscij)linado exercito ame- 
ricano-hespanhol. A noticia d'este desastre mili- 
tar deu rebates em França ao brio nacional. A 
memoria da antiga expedição de S. Domingos, 
em que a febre aniarella, e as balas dos atirado- 
res negros dizioiaraui os intrépidos soldados, que 



tinham atravessado incólumes os paúes d'Arcola, 
os areiaes do Egyplo, as selvas de bayonetas aus- 
tríacas de Iloheiilinden, e as escarpas dos Alpes 
varejadas pelas carabinas dos caçadores tyrolezes, 
a memoria d'essa expedição infeliz, eni vez de 
afrouxar o desejo de vingança, ainda mais o excitou. 
O novo grande exercito estava ancioso por de- 
monstrar ao' mundo que as vastas planicies da 
America não eram simplesmente o cemitério dos 
vencedores da Europa, e que não perseguia uma 
fatalidade especial as armas francezas nas regiões 
tropicaes. Tratava-se de vingar a um tempo o 
ataque infeliz de Puebla, e a exterminação do 
exercito do general Leclerc. As águias da Gallia 
tinham que ajustar contas antigas e modernas com 
os condores americanos. 

Um exercito de trinta mil homens, commanda- 
do pelo general Forey, um dos heroes da (Iriméa, 
e o vencedor de Montebello, saio dos portos fran- 
cezes a bordo de uma esquadra, e singrou para o 
mar das Antilhas. Desembarcou em Vera-Cruz, e, 
depois de uma espécie de marcha triumphal, em 
que o exercito mexicano se dissipou, ainda mais 
depressa que o fumo dos canhões francezes, o ge- 
neral Forey chegou diante de Puebla. 

Foi então que principiou a verdadeira guerra. 

Não comportam nem a Índole nem as dimen- 
sões da ligeira narrativa, a que este capitulo serve 
de prologo, uma discussão politica sobre o direito 
da intervenção, e o caracter justo ou odioso de 
uma guerra, emprehendida para tirar vingança de 
uma ofi"ensa real, e que, principiando debaixo de 
tão justiceiros auspícios, foi continuada por um 
capricho de pundonor militar, e levada a ponto de 
assumir o caracter de conquista, violando os di- 
reitos das nacionalidades e impondo a um paiz 
livre, um govcri» melhor ou peior do que o an- 
iigo, mas irrogado á humilhação dos vencidos pela 
pressão dos vencedores. Considerando a guerra 
apenas debaixo do seu ponto de vista militar, 
confessaremos que cesta campanha uma das mais 
gloriosas para o exercito francez. Reuniam-se 
contra elle dois elementos; eada um dos quaes 
bastara, nas was brilhantes do consulado e do 
império, para obrigar a fortuna a. atraiçoar a bandei- 
ra tricolor tão sua predilecta em todos os campos de 
batalha. Por um lado a infiuencia devastadora do 
clima trojHcal; qile prostrara os valentes do Egy- 
plo, do Uheno e da Itália, nas planuias do llaiíi. 
Por outro lado a sublevação dos povos de raça 
ibérica, o seusystema de guerra original e mortí- 
fero que sepultara nos serros da llespanha e de Por- 
tugal os heroes d'Austerlitz e de Friedland. Isola- 
dos, estes dois elementos haviam saído victoriosos 
da lucta. O que não fariam reunidos? 

Por isso dizemos: A guerra só principiou, ver- 
dadeiramente, (|uando o geneial Forey chegou 
diante de Puebla. Em batalha campal era irrisó- 
ria a lucta. Uma carga de Íja\oneta dos zuavos 
dispersava os soldados mexicanos, como as hostes 
deSoult c de Suchel alíugentavam as tropas hes- 
punholas. Mas na defcza das praças contava Pue- 
bla uma ou antes duas ascendentes heróicas, Sa- 



o PANORAMA 



ragoça, e Niimancia. Lannes e Scipião haviam es- 
tacado perante as muraJhas das duas cidades. Fo- 
rey parou também diante de Puebia. 

Esta cidade recebeu com justiça a denominação 
de nova Saragoça. Para em tudo ser notável a 
coincidência, dava-se o caso de se ler o general 
siliador distinguido no mesmo campo de batalha. 
(3 titulo de duque de Mentcbello recompensáia 
as façanhas praticadas por Lannes n'esse ponto 
em 1800. Em 18o9 ganhava Forey uma batalha 
em Montebello contra os filhos dos austríacos der- 
rotados pelo heróico subalterno de Bonaparte. 
Ambos se encontravam, cara a cara, com inimigos 
da mesma raça, iguaes em denodo, e em situação 
idêntica. Ortega não envergonhou Palafox. X nova 
Saragoça só faltou um Byron para lhe cantar a 
gloria. O que prova mais uma vez que são mais 
raros osllomeros do que os Achilles. 

Mas o systema de defeza da raça hespanhola 
não estaria completo se faltassem as guerrilhas. 
Não faltaram effectivamente. Emquanto o general 
Forey abria as paralellas diante de Puebia, iam- 
Ihe sendo cortadas as communicaçOes com a bei- 
ra-mar pelos ataques audaciosos dos guerrilheiros, 
que salteavam os comboyos do exercito. Os de- 
sastres da guerra de Ilespanha ameaçavam reno- 
var-se. O exercito francez, internado no México 
via-se em imminente risco de se transformar de 
siliador em sitiado, ou de imitar a retirada de 
Massena, depoi§ dos seus infrucliferos ataques ás 
linhas de Torres Vedras. Mas essas terríveis li- 
ções sel-o-iam duplamente se não tivessem apro- 
veitado aos vencidos. Além d'isso, as guerras de 
Alger, guerras lambem de emboscadas e ardis, 
haviam dado aos soldados e generaes de Napoleão 
III a experiência que faltava aos veteranos do 
primeiro imperador. O' general Forey poz logo o 
dedo no único meio de defeza, de que podia lan- 
çar mão. Combateu os mexicanos com as suas 
próprias armas ; á entrada cm campo dos guer- 
lilhas respondeu com a organisação das conlra- 
guerrilhas. 

Este corpo, que tantos serviços prestou e está 
prestando á occupação franceza e ao novo impé- 
rio, apresentou, nos primeiros tempos dasuacrea- 
ção, o mais extravagante aspecto, que é possível 
imaginar-se. Confusa miscellanea de trajos, de idio- 
mas e de physionomias, parecia indicar que os 
obreiros da torre de Babel haviam desembarcado 
cm Yera-Cruz para auxiliarem o novo império, 
que lambem linha a sua feição variegada, porque 
apresentava a anomalia de ser a rcconstrucção do 
Ihrono dos Aztéques emprehendida por um im- 
perador francez, em proveito de um archiduque 
allemão eleito por colonos hespanhoes ! 

Expliquemos esta confusão. 

Quando os francezes, de posse de Alger, se vi- 
ram obrigados a travar com os árabes e os kabi- 
las uma guerra de montanhas, perceberam logo 
a necessidade de organisarem corpos ligeiros, c, 
se fosse possível, de indígenas, que, por conhe- 
cerem bem as disposições do terreno, podiam ser 
opposlos com fructo a esses intangíveis inimigos, 



que appareciam e desappareciam cora a rapidez do 
raio, mas deixando lambem sempre, como o raio, 
vestígio da sua passagem. 

Foi esse o motivo da creação dos zuavos. Uma 
tribu árabe, a Iribu dos zaouas, que se havia liga- 
do aos conquistadores, formou o primitivo núcleo 
dos regimentos. Depois em torno d'elles foram- 
se agrupando aventureiros audaciosos, a quem o 
ministro da guerra, com toda a generosidade, 
dava um passaporte para Alger, aíim de os livrar 
das impoitunidades da policia. Já se vê que eram 
só admitlidos os que tinham peccados veniaes, e 
não os que tinham na sua vida macula que im- 
plicasse deshonra, e que por conseguinte des- 
honrasse a bandeira, que se deve desfraldar illibada 
ao vento das refregas. Assim, estes regimentos 
eram formados de gente um pouco turbulenta mas 
decidida, folgazã e audaz, ágil sobretudo, porque 
os membros indígenas estavam habituados aos fra- 
guedos do Atlas, e os francezes já em Paris mos- 
travam grande predilecção pelos caminhos extra- 
vagantes onde se não aventura a dignidade da 
gendannerie, laes como telhados, muros de quin- 
tal e outras vias excepcionaes. 

Os bons resultados obtidos por esta idéa inspi- 
raram o desejo de a desenvolver ; a infanleria dos 
zuavos perseguia nos mais inaccessiveis píncaros 
da Kabyliaos atiradores árabes, eera necessário 
não deixar o campo livre a esses terríveis caval- 
leiros nirmidas, que foram sempre, desde Jugurlha, 
o terror dos exércitos europeus. Na defeza as bayo- 
netas dos quadrados francezes bastavam para apa- 
rar o embale d'esse turbilhão de ginetes. Mas a re- 
tirada linham-n'a os assaltantes sempre segura, 
porque seria necessário que fosse cada soldado da 
cavallaria franceza um Franconi, para que os po- 
desse acompanhar nas penedias que elles galga- 
vam como se cada cavallo tivesse azas nos pés, 
em vez de ferraduras. Uemediou-se a este incon- 
veniente pelo mesmo systema, que se applicára ao 
outro. Um corpo de cavallaria indígena foi creado 
com o nome de «spabis». 

Esta dupla experiência ensinou aos francezes o 
methodo de auxiliarem sempre os movimentos do 
exercito regular com estas tropas irregulares, co- 
nhecedoras, do terreno, e próprias para atalharem 
a insurreição dos povos, quando elles tivessem a 
idéa de entrar em scena. Logo na campanha da 
Criméa, o marechal Saint-Arnaud, pensando nos 
damnos que as nuvens dos cossacos lhe podiam 
causar, ordenou a organisação dos bachi-hozouks, 
espécie decossacos turcos, encarregados delivrarem 
o exercito alliado das impoitunidades da selvagem 
milicia moscovita. Foi quasi inútil a organisação, 
porque a invasão da Uussia estacou perante as 
muralhas de Sebaslopol, e não tiveram por conse- 
guinte as forças alhadas de atravessar as solitá- 
rias slcppcs, domínio incontestado das hordas bru- 
taes do Don, do Dnieper, e do Volga. 

Se havia campanha, onde fosse indispensável 
o auxilio d''essas tropas irregulares, era de certo 
a do México. Ahi a questão principal era a das 
guerrilhas, só d'esse lado é que se podia temer 



8 



O PANOrxAMA 



um desastre. Mas como obviar a elle? O exercilo 
estava no México u'iima posição completamente 
excepcional. Não tinlia alli como na Turquia um 
paiz alliado, que lhe desse os seus irregulares 
para os organisar : não tinha como em Alger um 
núcleo indígena, a Fiança a dois passos para lhe 
enviar as suas aventurosas recrutas, tempo largo 
para as adestrar, e um (juartel seguro, onde a or- 
ganisação se podesse fazer co*m toda a commodi- 
dade. Alli o paiz era adverso em massa, urgia o 
tempo, e os fiancezes não piodiam chamar seu 
nem seqwr ao terreno em ijue se j)rojectava a 
sombra dos seus regimentos. Havia um único 
meio, foi para elle que se appellou. O México é 
ainda o El-Dorado dos europeus, uu pelos pró- 
prios recursos, ou por ser, para assim dizermos, 
a porta do maravilhoso paraiso da Caliloínia. Fer- 
vilham nas suas cidades os aventureiros de Iodas 
as nações, gente resoluta, ávida de riquezas, 
amiga da lucta, doida pelos acasos da vida erran- 
te. Foi com esta canalha de heroes que se forma- 
ram as contra-gucrrilhas. 

Imaginem ja o que devia ser, especialmente 
no principio, uma semelhante tropa. O allemão ta- 
citurno formava ao lado do palreiro francez, do 
monosyllabico inglez, do expansivo italiano, do 
]»hantasioso hesjjanhol, do ávido suisso. A disci- 
])lina conservava-se, graças aos esforços do co- 
ronel Dupin e dos seus subalternos, mas a 
muito custo. Porém o Um preencheu-se ; as 
guerrilhas, se tentavam atacar os comboyos, re- 
cebiam, segundo as regras grammaticaes, uma 
resposta no mesmo caso em que faziam a pergun- 
ta. Ás vezes esses eternos inventoi-es de em- 
boscadas caiam nos mesmos laços, que tinham por 
uso armar, e og;eneral Forey ponde continuai' o 
cerco de Pnebla, tomal-a, e marchar sobre a 
capital, sem receio de ver os seus feridos assassi- 
nados, as suas bagagens roubadas, os seus com- 
boyos salteados. 

Um dosoni€Íaesd'essasconlra-guerrilhas, o con- 
de d(^ Kéiati-y, deu na Rcvisla dos Dois Mun- 
dos de 1 de outubro de \Wò uma noticia circuns- 
tanciada das expedições em que tomou parte. 
Interessantissimo.por qualquer lado que se consi- 
dere, ou como subsidio j)ara a hisloiia militar da 
campanha do Mex-ico, ou como quadro dos cos- 
tumes bárbaros d'es.sas tei-ras americanas em ple- 
no século XIX, abunda esse artigo em anecdolas 
que podem scr\ir de base a romances altamentcí 
commoveRles, se as deparar a hábil penna de 
um Alexandre Dumas, ou de uoi Paulo Féval. iNão 
ousamos tanto, que não são para isso as nossas 
forças, e apenas tentamos esboçar, na leve nar- 
rativa que se segue, um caso horroro.so sim, mas 
cuja veracidade é asseverada por um ollicial fran- 
cez, e confirmada, sendo necessário, |)elo teste- 
munho dos seus collegas, que elle invoca, caso 
í|ue pode dar aos nossos leiloro.s uma idea do(|ue 
eram, ha um anno, e do íjue jjrovavelmentí! ain- 
da hoje .são os costumes de um paiz. que se apre- 
senta como civilisado. 

(Continua) 



A ESTRELLA 

Like a star on eternity's ocean! 
MoonE. 

Por entre o raro veu, que, pouco a pouco, 

Viera o céo toldar, 
Eu, deslumbrado, contemplava a eslrella 

(Jue via ídém brilhar. 

Oh, era bella, sim ; seus raios trémulos 
Sobre a terra desciam ; 

Mas n'aquelle esplendor pallido e sanlo 
Os lyrios se reviam. 

Era bella, perdida e solitária 

Em meio d'ampli(lão ; 
Como um fanal d'esp'rança, radiando 

Na escura cerração. 

E o meu espirito evocava inquieto 

Delicias que eu perdi, 
\l o meu passado inteiro e redivivo 

Sorria-me d'alli. 

E o coração balia-me convulso 

Como jamais bateu : 
A rainha vida toda estava presa 

Na luz d'aquelle céo. 

É que a eslrella era a imagem saudosa 
De um sonho d'alegrias : 

Aslío consolador, raio perdido 

Na treva dos meus dias I 

E. A. Vidal. 



O SEGREDO 

Fm ofTicial, que tinha grande familiaridade com 
o piincipe de Orange, por occasião de ciTta mar- 
cha foiçada, dirigiu-lhe a seguinte pergunta : 

— Ponjue motivo, senhor, fazemos esta marcha? 

— (luardareis o segredo? lhe tornou o príncipe. 

— Sou incapaz de abusar da vossa confiança! 

— Fslou convencido d'isso, replicou o príncipe; 
mas, se possuis o dom de poder guardar um se- 
gredo, Deos lambem me concedeu igual graça. 



A POSTERIDADE 

— Appello para a posteridade, dizia (não nos 
lembramos da época nem do logar) um poeta, a 
quem acabavam de palear uma das suas produc- 
ções dramáticas; despresoum publico que se com- 
põe somente de analj)habelos. 

— Ai, meu caro amigo, lhe tornou um indi- 
viduo, (jue o acompanhava ; vò aqueilas creanças 
além jogando o pião e dando cambalhotas? são 
ellas que hão de representar -a posteridade. ()s 
analphabetos de (|ue hoje se (|ueixa,são a posteri- 
dade porquí! tanto clamaram os poetas de ha cin- 
coenta annos, cujas obras lambem foram palea- 
das. De maneira, f|ue, essas suas palavras: — 
appello para a posteridade — equivalem a — appello 
para os analphabetos do porvir. 



Tyi). l''rancu-l'orliit;ucza. — llua do Thesouro Vtllio, G. 



o PANORAMA 



A ANDORINHA 

Os Fisstroslros diurnos são algumas vezos de- 
signados pelo nome commum de Andorinluis ; 
não obstante, dividem-n'os, geralmente, em duas 
espécies: Andorinhas propriamente ditas, e Gai- 
vões. 



As Andorinhas propriamente ditas [Hirundo) 
teem o bico triangular, largo ria baser e um pouco 
recurvado na ponta, as ventas oblongas, pernas 
curtas, os dedos dos pés dispostos como na maior 
parte dos pardaes, azas muito compridas e a cauda, 
ordinariamente, bipartida ; procuram sempr-e as 
grandes povoações, e os serviços que prestam 




purgando o ar de uma multidão do insectos prc- 
judiciaes, der-am logar a que, por muito tempo, 
fossem consideradas como emanação divina, e por 
consequência lidos por criminosos os indivíduos 
que procurassem mallralal-as. 



Poucas espécies teem o instincto social tão des- 
envolvido como as andorinhas. Reunem-se em 
familia, caçam, percorrem em bandos o espaço, 
prestam-se mutuo soccorro contr^a as aves de 
i"apina e edificam os seus ninhos nos mesmos 



10 



o PANORAMA 



sitios duranle nuiilos annos conseculivos. É na 
jirimavcra que as Tômos apparecer, primeiro, em 
pequenos bandos, depois em grandes, e espalha- 
rem-se então pelos campos e cidades, reparando 
os ninhos do anno precedente ou conslruindo novos 
em que empregam muitas vezes um mez de tra- 
balho. 

A forma dos ninlios, bem comoologar, variam, 
segundo as espécies. Ora lêem a forma de um 
cvlindro ou de um quarto de semi-espheroide ; 
nia a de um cone troncado ; umas famílias cons- 
lroem-n'os nos ângulos das janellas e nas beiras 
dos telhados; outras nas concavidades dos roche- 
dos, nos buracos do solo, nas fendas dos muros 
e das arvores velhas. As matérias que empre 
gam na construcção variam igualmente: as An- 
dorinJms de chaminé e de janclla fabricam-n'os 
de terra molhada e palha miúda, forrando-os in- 
teriormente de cotão e de pennas; oGaivão preto 
edifica o seu de bocadinhos de madeira, palha, 
pennas e outras substancias semelhantes, ape- 
gando-as entre si com o humor vis.coso que lhe 
cobre constantemente o interior da Í30ca. A pos- 
tura é de seis a oito ovos. Duranle o choco, que 
dura ordinariamente deseseis dias, a fêmea não deixa 
um só momento o ninho. O macho leva-lhe o pro- 
ducto da sua caça, e vigia de noite a ninhada. 
Ouando os fdhos nascem, os pais ensinam-lhes a 
fazer uso das azas, mostrando-lhes, de longe, o 
sustento; guiam-n*os em suas excursões em quanto 
carecem de auxilio e depois passam a cuidar da 
nova ninhada ; o que se repete Ires vezes, ordina- 
riamente, em cada estação. >'o outomno, as andori- 
nhas emigram Iodas, e no mez de outubro come- 
çam a apparecer no Senegal. Todavia, durante o 
inverno, encontram-se, algumas vezes nas grutas 
ou nos caniçados, muitos d'estes pássaros, mergu- 
lhados n'um torpor lethargico. As andorinhas são 
dotadas de uma potencia de voo extraordinária. 

Poucas espécies voam com tanta rapidez. Spal- 
lanzani aífirma, que a andorinha de janella pode 
andar por hora vinte léguas e que o voo do gaivão 
é muilo mais rápido. Um sentido singularmente 
desenvolvido entre estes pássaros, c a vista. Um 
facto, de que Spallanzani foi testemunha, mos- 
trou-íhequcasandorinhasdistinguem, perfeitamen- 
te, na distancia de 105 melros, um objecto tal, 
como uma formiga de azas. 

Quatro são as espécies de andorinhas que se 
acham em todo o Sudoeste da Kuropa : a Andori- 
nha de janella (Ilirundo urbicaj preta pela parle 
superior do corpo, branca pela inferior e no uro- 
pigio, c cujos pés são revestidos de pennas até ás 
unhas. Kdiiica o seu ninho nos ângulos das janellas, 
nas beiras dos telhados, ele. a Andorinha de 
chaminé (Ilirundo ruslica) preta pela parle su- 
perior do corpo, branca pela inferior, fron- 
te e garganta ruivas, dedos nus e cauda rasgada e 
longa. Deriva o nome do logar que jjiocura para 
a sua habitação, onde fabrica o ninho, a que dá a 
íórma de um (juarto de semi-espheroide: a Ando- 
rinha das praias ilfirundo riparia) mais pequena 
do que as precedentes, parda pela jiarle supeiior do 



corpo e no peito, branca na garganta e pela parte 
inferior. Desova em buracos nas margens dos rios, 
lagos e, muitas vezes, no inverno, é encontrada 
n'aquelles togares n'um estado de torpor lethargico : 
a Andorinha dos montes, (Hirimdo riipeslris) que 
nãodilVere da andorinha de chaminé senão em ler 
as pennas alvadias pela parte superior do corpo e a 
cauda um pouco rasgada. Das espécies estranhas 
citaremos apenasa A/íí/o/v'/?Aí( Salanf/ana. ilfirundo 
esculenta) que habita nas ilhas do Archipelago 
índio; é muilo mais pequena que todas as outras, 
e a substancia gelatinosa com que fabrica os 
seus ninhos é muilo procurada pelos chinezes, 
que a consideram um excellente manjar. Os 
guisados de ninhos de andorinhas llguram em 
lodos os grandes banquetes do Celeste Império : 
estes ninhos lambem são objecto .tle um grande 
commercio, e vendem-se por preços elevadíssimos. 

Os gaivões dislinguem-se das andorinhas, com 
as quaes se confundem nos costumes, por terem as 
pernas mais curtas e as azas muilo mais compridas. 
Esta curtesa das pernas junta ao comprimento das 
azas faz com que, estando no solo, tenham grande 
diíTiculdade em lomar o voo ; em consequência do 
que raras vezes poisam; vivem constantemente no 
ar reunidos em bandos numerosos, perseguem os 
insectos, gazeando fortemente e aninham-se nas 
fendas dos muros e nos rochedos. Encontram-se 
apenas na Europa duas espécies : o Gaivão preto 
íCijpsellus apus) que tem o corpo preto, garganta 
branca e que anda pelas torres e pontos elevados, 
importunando os habitantes doslogares com os seus 
incessantes guinchos ; e o Gaivão grande [Cypsel- 
lus melba) habitante dos Alpes, que se aninha nas 
concavidades dos roohedos. 

Entre as espécies exóticas, a mais elegante e 
notável pelas lindas cores e sobretudo pelas pen- 
nas que tem sobre o bico, em forma de bigode, é, 
sem contradição, o gaivão da Nova Guiné. 



O homem de coração puro encontra sempre 
rasões para aggravar o seu crime e não para jus- 
lificar-se. 



A QUESTÃO LITTERARIA 

1'or ZACHARIAS AÇA 

Paliarei lambem, para completar este esboço 
critico, do livro que se seguio á Yisão dos tempos, 
e cuja segunda parle é. Nas Tempestades sonoras 
lia a mesma tendência poética e histórica, quero 
dizer, o mesmo modo de manifeslação, e ainda o 
mesmo intricado de phrase na prosa, e na poesia 
accresce a exageração, a transferencia impossível 
de allribulos, c uma falsa grandeza que, perdoem- 
me a palavra que é dura, não consegue ser senão 
ridícula. 

Eis-aqui e em poucas palavras o que geralmen- 
te se diz e pensa a respeito d'esles livros. Não é 
o (jue a imi)rensa publica, bem o sabemos, por- 
(|ue os órgãos da opinião, largam muitas vezes mão 
da consciência c escrevem o (jue não sentem, mas 



o PANORAMA 



11 



é o que eu penso e creio ser a opinião geral que 
se não deixa levar pela opinião de escriplores lou- 
vaminheiros. 

As tendências que revelaram no sr. Theophilo 
Braga um scismalico, scclario da religião das 
trevas que luzem (a) não eram novas para nós, 
infelizmente. Os que teem frequentado a Universi- 
dade, e os que estudam e seguem o movimento 
intellectual em Portugal, sabem que desde muito 
lavra em Coimbra este incêndio obscuro, que pre- 
tende substituir o sol. Todos conhecem o Raio, o 
Minlio e outros jornaes em que alguns mancebos 
de merecimento, porque o lêem, -coslumavam per- 
der o seu tempo e transviar o espirito dos cami- 
nhos luminosos para nos dizerem : «A liberdade 
se não ó Deus é um estilhaço de Deos.» ccO me- 
Iharuco do encephalo devora sempre a abelha da 
alma» e outras coisas assim de que eu podia fa- 
zer um grande estendal. 

Pertenceram a este grémio, em que reinavam o 
archaismo e o neologismo, o sr. Camillo Caslello 
Branco, que já descendas alturas, felizmente para 
elle e para nós, osr. Ayres de Gouvôa e osr. Viei- 
ra de Castro quando escrevia a biographia do nosso 
eminente romancista. Aqui em Lisboa ha al- 
guns escriptores e não dos somenos a quem se 
pôde fazer o mesmo reproche. 

A critica, até hoje, tem-n'os respeitado e pare- 
ce-me que pôde bem ser accusada de se parecer 
com os fidalgos do antigo rbgimen, humildes nos 
paços, orgulhosos nas ruas. Perante a critica, 
quero dizer perante a rasãoe a consciência, todos 
são eguaes. 

A imitação das allucinações de Victor Hugo 
tem feito com que alguns poetas e prosadores des- 
presem por vezes a naturalidade e procurem á 
custa do sacrilicio d'esta realisar um ideal impos- 
sível. O distincto poeta, o sr. Mendes Leal, incor- 
reu n'esta falta quando escreveu algumas dasestro- 
phes do ^'apoleão no Kremlin. 

É ainda à imitação mal entendida do grande 
poeta francez, que, forçoso é dizel-o, vae na de- 
cadência do seu talento, que devemos attribuir a 
falsa grandeza, o procurar do efleilo, o amanei- 
rado, que se nos depara nas composições poéticas 
do sr. Anthero do Oucnlal; e como os imitadores 
costumam exagerar os defeitos dos originaes, a 
poesia cosmogonico-philosophica que tem por ti- 
tulo — Fiai lux — leva a palma ás maiores extra- 
vagâncias da phanlasia de Victor Hugo. 

Isto liça dito por uma vez, e parece-me que 
ninguém que tiver lido o Fiat lux, me pedira a 
analyse d'esta composição. 

Até hoje lenho escripto exclusivamente sobre 
artes e é esta a primeira vez que me occupo dtí 
critica litleraria. Os que me tem lido (poucos são) 
na Revista do Século, sabem que sou habitual- 
mente severo nas minhas apreciações, e que tra- 
tei alli os professores da Ac?demiâ das Bellas Ar- 
tes, que são todos meus amigos, e os outros ar- 
tistas para mim desconhecidos, coma maior igual- 

((') Fiat íif-x'— por Anthero do Ouciilal. 



dade. Distribui os louvores e a censura conforme com 
a minha consciência, e d'isto não me arrependo. 

O que (ligo aqui não me é dictado pelo desejo 
de agradar, de ganhar coroas no torneio. Andam 
na lid«e outros campeadores a quem ellas são de- 
vidas. Não sou d'esses que a troco de zumb.aias 
vis procuram grangear a graça regia do um sor- 
riso, d'csses a quem um grande poeta, Corneille, 
se não me engano, disse — aAffaslai-vos porque o 
vosso thuribulo fei'io-mena face» mas lambem não 
levanto a lama para a lançar ao rosto dos que an- 
dam na mesma faina e que tiveram a desventura 
de nascer antes de mim, nem lhes grito» — Velhos! 
curvai-vos, respeitai-me e segui-me, porque eu 
sou a verdadeira sciencia, a luz e a inspiração; 
forque eu sou novo e bello, e porque a aurorada 
vida ainda meillumina a fronte com os seus últi- 
mos clarões ! 

Entre o critico c a pamphlelario, enire a digni- 
dade e^^a vaidade, ha um abysmo. Não entendo 
que a critica deva ser insultadora,' nem tenho pa- 
ra mim que seja grande o nome do que poz a co- 
roa de espinhos na cabeça do Christo. 

Não é nas cavernas lobregas do orgulho que 
(levemos procurar a luz. O orgulho fez Salanaz, 
mas não faz os eleitos. 

É na consciência que está a justiça, e, como disse 
o sr. Alexandre Herculano, devemos Iraze-la sem- 
pre comnosco, para que não seja, fora de nos, 
como uma visão tremenda que nos acompanhe, 
inexorável como o olhar que perseguia o Cain da 
Lenda dos séculos 

(CoiUinu(i) ■ 



IDÍLIO 
I 

A Confi.x.siio 

Era pelo descair de uma linda tarde de prima- 
vera; hora em que o sol, ao occullar-se, tinge de mil 
cores o ceo ; hora de doce e religioso encanto, em 
que vaguea melancolicio o pensamento, e o coia- 
ção sente indelinivel íernura. Azues se mostra- 
vam, quasi sem perfis, as longiquas montanhas 
por entre um vapor alvacento que, como trans- 
|}arente véo as cobria. A brisa, com o seu 
errante e leve sopro, agitava, graciosamente, as 
copas das arvores, e silvava, branda, por entre a 
ramagem, onde brilhava, e desapparecia, e tornava 
a brilhar por instantes, a luz phosphorica do pyri- 
lampo. O triste e saudoso canto de algumas aves 
confundia-se com o prolongado estridor do grillo. 
A passo lento, preguiçoso, se dirigiam os rebanhos 
para o redil seguidospelos pastores que, ora os acom- 
panhavam, ora se distraiam, para escutar as tar- 
das vibrações de uma harmonia ao longe. Soberbo, 
magesloso era o (juadi-o, que a natureza, sempre 
pródiga, n'aquelle momento apresentava! Pela en- 
costa do monte desciam então, em deleitoso col- 
loquio entretidos. Narciso e Lilia formosa. 

— Consegui fallar-te hoje, amável pastora; mas, 
por estranho acaso ; porque na estreiteza do ca- 
minho não podesle evitar o encontro, como o tens 



42 



O PANORAMA 



feito na planície. Foges de mim, Lilia, e eu bus- 
co-le por Ioda a parle, e a lodos os inslantos : 
como o gado procura o pasto, como o extraviado 
cordeirinlio a mãi alllicta. Foges-me, Lilia, que 
eu amo, como as a])clbas amam o cálix das llo- 
res, e como as lloros amam a luz c a frescura 
da manhã. Feliz queni possue o leu carinho, 
pastora, porque o prazer lhe trasborda do co- 
ração. Desgraçado de mim, que o leu despreso 
choro incessantemente ! 

— Não dnvido ; mas, a quantas pastoras lens 
dilo o mesmo que oia me disseste. Narciso? Já 
t'o ouvio, certamente, llina, a bella, para quem 
tuas canções possuem tantos atlractivos ; a sober- 
ba e altiva IJelisa a quem abrandam os maviosos 
sons da tua fraula; e l'hillys, aalVectadae langui- 
da Phillvs, (jue honlem ostentava uma grinalda 
de rosas colhidas por lua mão. Falia a essas do 
leu amor, sensível Narciso, cyie eu não troco a 
minha liberdade, nem a minh^ alegria por men- 
tirosas palavias. 

— És injusta, Lilia ; o ceo dou por testemunha 
de que não mereço me dirijas taes accusações. 
Escuta-me : lia poucos dias, disputavam dous 
pastores o premio do canto, na presença de muita 
gente da aldeia reunida debaixo da grande azi- 
nheira. Casualmente, passei j)or alli ; e ao avis- 
larem-me, deteve-se o que cantava, poz-se de pé 
o rival, e alguns dos jovens pastores me convida- 
ram a entrar na liça. Úlina exclamou então : «Can- 
ta, Narciso, (juc lua voz é grata ao ouvido e com- 
move o coração.» «E senão, que acompanhe com 
a fraula os cantores, porque os sons que d'elki 
lira são mais agradáveis do que os suaves gor- 
gcios do rouxinol.)) Isto disse Belisa. Eu respondi: 
c( Amigos, como poderá cantar quem vive tão tris- 
lemente? (^omo poderá tocar quem chora a todo 
o momento ? lia muito que não exercito a voz e 
bem sabeis que minha fraula, lambem ha bastan- 
te lempo, se acha pendurada n'um ramo do ála- 
mo que sombrea a minha cabana. Não me falíeis, 
j)0Í5, em canções, jogos 4i danças, em quanto 
aquella, (|ue me roubou o áocego, o não reslituir 
ao meu peito contristado». «Roguemos a Lilia (jue o 
ume; exclamaiarn, como que de mim zombando, as 
duas pastoras que citei. Ao ouvir pronunciar o 
teu nome, senti que lodo o sangue me aílluia ao 
coração, e que o roslo se me tornava rubro... co- 
mo ferro em brasa. Vès? a lodos, d'esle modo, 
descobri o meu segredo. 

— E a grinalda de Fhillys? 

— Eu To digo: llontcm procurando um cabrili- 
nho extraviado, eslava Fhillys colhendo llores 
no rosal silvestre, (jue vegeta na borda mais 
escarpada do monle. Ao divisal-a (e não o liz 
jior fugir-lhe, foi por não interi-omper o meu 
Irabalhoy torci caminho, tingindo não a ler vis- 
to ; porem, não havia andado muito, íjuando um 
grito penclranle me chegou aos ouvidos. Era um 
grilo de 1'hillyspor se ler ferido nos espiniiosao 
apanhar uma rosa... 

— l>ogo, esqueceste o cabritinho, corresle diici- 
lo a ella, c procuraste, com solícito cuidado, es- 



tancar o sangue, que lhe corria pela nivea mão... 
não é verdade? Não beijaste apaixonadamente aquel- 
les delicados dedos?... E a grinalda que. Ião or- 
gulhosa, ostentava no prado? não foste, tu, quem 
lh'a poz sobre os lindos cabellos louros? 

— Lilia, não esqueci o cabritinho, nem corri, 
nem. lhe beijei os dedos ; pelo que respeila á gri- 
nalda é certo ; porém, não sei o que ella cm mim 
notou quando lhe puz as llores ; porque na des- 
pedida exclamou : «Agradeço a tua extrema cor- 
iezia, geiílil Narciso; ainda (pie conheço, que não 
deveras fazer um obsequio d'estes a outra paslora. 
Eras tu, a quem ella se referia. 

— A mim? 

— A ti, sim, paslora; porque lodos da aldèa 
sabwn que te amo. Sabem-n'o os bosques, a cuja 
espessura lautas vezes hei confiado meus pesares; 
a fonte, -cujas aguas crystallinas lêem sido um 
bálsamo refrigerante para meus olhos cansados de 
chorar o leu desamor; o meu descuidado rebanho; 
as minhas llores que, |)elo abandono, leemmurchc- 
cido ; as arvores em que lenho gravado o teu no- 
me ; o dia em que te vejo tão cruel e os meus so- 
nhos em que ás vezes te com templo branda a 
meus rogos; lodos, lodos sabem do meu amor e 
dos meus tormentos ! 

E se, pois, tanto amoi te consagro, formosa 
Lilia, porque não me has de lambem amar? Oh! 
quão felizes seriamos, unidos pelo amor em sua- 
ve jugo! Para ti, só, reservaria o melodioso da 
minha voz; para ti, só, osécos repercutiriam os sons 
(la minha campestre fraula ; adornar-le-ia o seio 
com a primeira llor da primavera, e teu seria o 
primeiro cacho que amadurecesse na vicfe. Oíle- 
recer-te-ia os passarinhos que apanhasse nas bre- 
nhas escarpadas ou no elevado cimo das faias ; 
seria a tua companhia nos bosques; e quando o 
sol abrazasse a terra com os seus ardentes raios do 
meio dia, á fresca sombra abrigados, fallar-te-ia 
do meu amor, e procui-aria ler o leu n'esses lin- 
dos olhos e no leu amável sorriso. 

Ama-me, Lilia. Orphão ao nascer, não ouvi a 
voz de minha mãi, não lhe adormeci nos braços, 
não lhe senti bater o coração ; lambem não andei 
ao collo de meu pai, nem tive irmãos que me es- 
timassem c que brincassem commigo. O meu 
primeiro, e único amor és tu ; por isso, talvez 
nenhum airecto seja mais profundo. Ah ! parece 
que n'esta afleição que te dedico, amo os ir- 
mãos que a Providencia me negou, a mãi que 
me deu a existência, á custa da sua, c o pai, 
cuja fronte jamais tocaram meus lábios... 

— Narciso, meu amigo, lambem te amo. Quan- 
do choravas o meu apparente desdém, eu, julgan- 
do-te inconstante, rogava aos céos (jue a minha 
imagem se te gravasse no coração; porque o meu, 
por li só, c só para li vive. 



Ouão perigoso é o esludo da philosophia quan- 
do "se não tem o entendimento são c baslanlc- 

mente solido i)ara resistir ás impressões, aos so- 
phismas capciosos dos falsos philosophos! 



o PANORAMA 



1-^ 



A FESTA DOS REIS 



o rei lieJse de Jordàes. 



Este desenho é cojiia de um quadro dcJacques 
Jordães, celebre iiinlor da escola flamenga, que 
nasceu em Anvers no anno loDí, e que lendo se- 
guido algum tempo as lições de Rubens, chegou 
a imital-o com tania felicidade que se altríbuiu a 
este ultimo uma das suas melhores composições : 
Jesas Christo enire os douforc-s. As obras de Jor- 
dães são notáveis pelo vigor do colorido e peio 
que os entendedores chamam claro-escuro; e, se 



o que dizem biographos merece credito, este ar- 
tista trabalhava com tanta facilidade, que poude 
concluir em seis dias um quadro de grande di- 
mensão, representando a nympha Syrinx, trans- 
formada era canna por suas irmãs, as Nayades, no 
momento em que ia ser apanhada pelo deus Pau, 
que a pei-seguia. 

Os leitores ainda não adivinharam qual é o as- 
sumpto da nossa gravura ? É uma d'essas festas com 
que ainda hoje em alguns paizes da Europa se 
commemoi-a o dia da Epiphania ou dos Santos 
Reis; festa celebrada com um banquete, que co- 




meça pela nomeação de um rei, a quem lodos 
devem obedecer e render preito e homenagem 
durante o festim. Esta nomeação é feita á sorte 
e do seguinte modo : Amassa-se um grande bolo, 
dentro do qual se mette uma fava. Pouco antes 
de começar o jantar traz-se o bolo para a meza e 
corla-se em tantas partes quantas são as pessoas 
presentes ; procede-se á distribuição dos quinhões; 
e aquella, a quem a sorte leva o bocado que con- 
tém a fava, é, immediatamente, com grandes ap- 
plausos e ceremonial devido, proclamada rei ou 
rainha da festa. Em seguida, o monarcha escolhe 
um bobo de entre os convivas, o qual é encarre- 
gado de divertir com seus gestos grotescos e ditos 
chistosos a companhia. As despezas do banquete 
são feitas pelo rei. 

Não designaremos o papel de cada um dos 
personagens do quadro ; bem claro o mostram o 
seu caracter e altitude. Também não ha necessi- 



dade de citar o facto religioso que se celebra no 
dia da Epiphania. Observaremos, todavia, que 
alguns sábios, considerando a coincidência quasi 
exacta, quanto á época do anno, d'esta festa e das 
antigas saturnaes dos Romanos, e julgando ao 
mesmo tempo achar na realeza improvisada d'es- 
le dia a dominação momentânea dos escravos nas 
festas de Saturno, disseram que aquella não era 
senão a continuação daí saturnaes. Alguns escri- 
ptores christãos lambem se pronunciaram contra 
o rei bebe, porque, diziam elles, se misturava o 
divino com o profano. Mas tanto uns como outros 
encontraram adversários bastante religiosos que 
os combateram logicamente em seus juizos. 

Parece que, não somente nas reuniões dos 
estudantes e entre o povo, mas lambem na corte, 
em épocas remotas, eram taes os abusos gastro- 
nómicos que a fraqueza dos estômagos de hoje 
não poderia'.cerlo supporlar, e que muitas vezes 



u 



o PANORAMA 



presidia a mais completa desenvoltura a estas no- 
cturnas orgias. 

Antes da revolução de 1789. a festa dos reis 
deu logar a que muitas vezes na corte de Fran- 
ça o pVincipe aconii)anhasse os cortczãos no alc- 
i^re baiujuele. Mas depois da restauração era ex- 
clusivamente cm familia, que nas Tulberias se 
dividia o bolo, do qual devia sair a ephemera 
realeza. 

N'uma época muito mais distante, os soberanos 
de Inglaterra admittiam ao banquete dos Heis 
ate os simples menestréis; e é notório, que foi 
n"um d"estes que, sob o reinado de Eduardo 111, 
caio em certo auno a sorte. 

No meio-dia da Inglaterra, a designação de um 
rei ou de uma rainha era seguida da nomea- 
ção dos niinislros, camaristas, escudeiros, damas, 
de que se rodeavam os novos príncipes ; o que 
era também feito á sorte. 

Seria fastidioso enumerar todas as particularida- 
des d'estas festas : mas não podemos deixar de men- 
cionar a circumstancia interessante que se d^va, 
antigamente, em muitas d"estas reuniões, especial- 
mente entre a gente do campo, de, ao repartir o 
bolo dos reis, contar-se com as pessoas ausentes da 
familia, guaidando-sc-lhes o seu quinhão com um 
cuidado religioso, a que se juntava quasi sempre 
algmna superslição; j)orque muitas vezes, via-se 
a mãi saudosa consultar o fragmento d'esse bolo, 
crendo ler nas alterações originadas pelo lempo, 
um prognostico seguro da posição mais ou me- 
nos critica do terno objecto dos seus cuidados. 



Naturalmente os homens lêem mtiis inclinação 
))ara quem os não contradiz do que para quem 
os reprehendc. 



OS PIllLO-PORTLGUEZES. 

POR hNNOCENGIO F. DA SILVA. 
II 

Dos cinco beneméritos inglezes, cujos nomos 
temos de commemorar, notáveis alguns quer ])elas 
qualidades do sangue e riqueza, quer por elevadas 
luncçõfs exercidas na hierarchia civil, dignos to- 
dos de respeito por dotes de ingenho e sciencia, 
e que cm nossos dias demonstraram mais ajjaixo- 
nada predilecção pela litteralura jiortugueza, como 
que sagrando-llie uma espécie de culto, ou con- 
\erlendo-a cm objecto de seus particulares estudos, 
abe o primeiro logar, segundo a ordem chrono- 
logica, a Lord llolland. D'elle, como dos outros, 
' scrcvcremosem poucas palavras, menos do que úo- 
-fjaramos. attentas as dimensões do espaço (le(jne 
podemos dis|)ôr. 

Herdeiro e roprcsentante de uma familia dis- 
lincta da Grã-Hretanha, elevada ao parialo por 
lorge 111 em 1702. Ib^nriquc Ricardo Vassall Fox, 
terceiro l.ord llolland, nasceu, segundo se diz, em 



1773. A sua educação foi esmerada, c própria para 
desenvolver seu talento e natural propensão para 
os estudos. Sobrinho do eminente orador e mi- 
nistro Carlos Fox, c como elle devotado membro 
e servidor do partido iv/iig, cedo começou a oc- 
cupar-se das coisas j)ublicas da sua pátria, toman- 
do assento nas cadeiras do parlamento. Ahi pro- 
fessou li defendeu as idéas e princípios do lio, cujo 
collega veiu a ser no gabinete durante o curto in- 
tervallo em que aquelle celebre estadista se viu 
por segunda vez col locado á frente dos negócios 
como primeiro ministro cm 1800. Ao cabo de vin- 
te e seis annos, no de 1832, tocou-lhe ser ainda 
chamado ao serviço, no importanle cargo de cl-ian- 
celler do ducado de Lencastre, por occasião da 
subida ao poder do ministério Grey-Melbourne. 
Porem as lides politicas, e os debates da tribuna 
jamais tomaram. sobre o seu espirito preponde- 
rância tal, que por ellas se esquecesse do cullivo das 
leiras, sobretudo de estudos philologicos, (jue 
amava apaixonadamente. » 

Havendo passado cm Ilespanha, e cremos que 
em Portugal, uma parte da sua juventude, obti- 
vera dos idiomas de ambos os paizes conhecimen- 
to bastante para entender os seus escriptores e 
poetas; e para apreciar nos originaes de cada um 
as bellezas e defeitos. Na sua escolhida e nume- 
rosa liviaria avultavam em grande copia os livros 
hespanhoes e porluguezes, ditos ckCssicos. Como 
fructo dos conhecimentos philologicos adquiridos 
no estudo da litteralura peninsular, escreveu e pu- 
blicou em Londres (1805) umas Memorias para 
a vida de Lope de Ve/ja, ás quaes addiccionou, 
reimprimindo-as em 1817, em dois volumes, ou- 
tras acerca de Guilhen de Castro. Obra bem tra- 
balhada, e de aprasivel leitura em que se contem 
curiosas e interessantes particularidades relativas 
aos dous poetas, e a critica judiciosa de suas com- 
posições. 

A liberdade dos povos peninsulares leve lam- 
bem em Lord llolland um dos seus mais ardentes 
campeões. Acolheu o hosj)edou cm sua casa com 
fraterna e carinhosa hospitalidade vários hespa- 
nhoes illuslres, (jue cm Inglaterra se refugiaram, 
no lemi)o em que a península supporlava os rigo- 
res da invasão franceza, ou (|uamlo as barbaras 
|)erseguições de Feinando Yll forçavam os súbdi- 
tos a expatriar-se jiara não cairem nas garras do 
algoz. No periodo de 1828 a 1833 advogou calo- 
rosamenle por mais de uma vez no parlamento 
britannico a causa liberal jiortugueza, e os direitos 
da rainha, e houve-se com a costumada genero- 
sidade j)ara muitos dos poituguezes alli refugiados. 
Seu caracter alVavel, instrucção e franca amenida- 
de do Iralo faziam a sua sociedade uma das mais 
agradáveis e instructivas, não só do seu paiz, mas 
da Kuroi)a. Falleceu cm 18í(). F é para notar que 
t<'n(lo-se elle mostrado toda a vida um ligido e 
fervoroso sccjuaz do |)rotestantismo, seu lilho e 
heideiro viesse logo depois de sua morte a abju- 
rar laes doutrinas, lornando-se catholico, e mor- 
rendo como tal cm Nápoles, ainda não ha muitos 



annos 



o PANORAMA 



^5 



Ignoramos o destino que tivesse, ou onde pára 
lioje a rica livraria de LordKolland. Enlre os seus 
clássicos portuguezes de maior estimação, conta- 
va-se um exemplar da primeira edição dos Lusía- 
das (Vòll). D. José Maria de Souza, morgado de 
Malheus, que o teve presente para a esplendida 
edição que do mesmo poema fez em 1817, a elle 
se refere em mais de um passo, com circumstan- 
cias que lhe realçavam o valor. 

(ConíÍ7iua.) 

PEREZ LORENZO 

(^ccuns fia Cainiiaulia «lo México) 

Por PINHEIRO CHAGAS. 
II 

No dia 3 de maio de 18G3, ao cair da tarde, 
reinava em Medellin, cidade mexicana situada á bei- 
ra do Rio-Jainapa, extraordinária agitação. Abriam- 
se e fechavam-se portas, descerravam-se janellas, 
e homens vestidos de modo extravagante, ainda 
que pittoresco, davam-se pressa em correr para o 
sitio, onde resoavam as notas vibrantes de uma 
corneta, que locava a assembléa. Estes homens, 
cuja j)liysionomia devastada indicava a maior parte 
das vezes uma existência excepcional, levavam 
revolveis mettidos no cinto, e punham ao hombro 
a carabina moderna. Comtudo o seu armamento 
era tão caprichoso como o seu traje, o que dava 
azo a que alguns d'elle5'apresentassem um aspecto 
de verdadeiros arsenaes d'antigualhas, e que, des- 
de a frecha dosÀzteques até á carabina raiada de 
Minié,* não houvesse arma que não tivesse a sua 
representante n'este pouco venerável congresso. 
Com estes homens cruzavam-se, trocando algumas 
palavras ou alguns gestos amigáveis, outros que 
mostravam, pelo uniforme, pertencer ao corpo de 
infanteria da marinha franceza. Os mexicanos pa- 
catos assomavam ás janellas para espreitarem cu- 
riosos este buliciq, e, com uma das mãos no fecho 
e a outra na tranca, preparavam-se para as cerrarem 
immediatamente assim que os ares se mostrassem 
turvos. Depois, quando acabavam de passar esses 
n.agotes de gente armada, tudo se trancava de 
novo, e as ♦ruas desertas caiam n'um profundo 
silencio. 

Pois não era porque a tarde não estivesse lin- 
da, e porque as larangeiras, asbaunilhas, easpimen- 
leiras,que rodeiam a formosa cidade com perfuma- 
do cinto, não exhalassem as suas fragrâncias mais 
suaves. Mas Medellin, a cidade das festas e dos 
bailes, a voluptuosa creoula, que se recosta à 
beira do rio, i'efrescando-se com o leque das suas 
palmeiras, e balòuçando-senasua rede de lianas a 
dois passos de Vera-Cruz, havia Ires dias que ver- 
gava a um pungentíssimo receio. As guerrilhas 
mexicanas, animadas pela impunidade, já se não 
contentavam apenas em esperares viandantes nas 
estradas, vinham até ás portas da cidade, e, 
aproveitando a espessa verdura, e as lloridas 
moitas que cercam Medellin, emboscavam-se n'el- 
las e varejavam as ruas com um diluvio de bailas, 
que affugentava os Iranquillos burguezes, e obri- 
gava a guarnição a fazer uma sortida quasi sem- 



pre infructifera, porque se bem que as guerrilhas 
retiravam, retiravam sem perderem um homem só, 
e voltavam d'?.hi a pouco a repetir as mesmas fa- 
çanhas. 

A guarnição de IMedellin compunha-se de con- 
tra-gueriilhas, de uma companhia de infanteria 
de marinha, e d'uns vinte soldados mexicanos, 
allectos aos francezes, e commandadosporLloren- 
ta. Todos estes bravos mordiam-se de raivosos ao 
verem a impudência dos guerrilhas, mas tinham 
de se conientar com essas demonstrações de cóle- 
ra, porque o chefe dos assaltantes soubera por lai 
forma dissimular o sitio do seu covil, que, por 
mais diligencias que se fizessem, não era possivel 
atinar-lhe com os rastos. 

Comtudo n'esse dia decidira o coronel Dupin, 
que, desse por onde desse, a contra-guei-rilha ha- 
via de tomar a offensiva, e bater malto até des- 
cobrir a caça, emboi'a ficassem estirados na es- 
pessura das florestas virgens os caçadores desde 
o primeiro até ao ultimo. Mais valia isso do que 
supporlar-se por mais tempo que uns miseráveis 
salteadores estampassem tão feia macula na ban- 
deira tricolor, vindo todos os dias insultar impu- 
nemente a cidade protegida pelas azas possantes 
das águias imperiaes. 

Por isso reinava tanta agitação na graciosa ci- 
dade mexicana, e os seus habitantes, em vez de 
tomarem indolentemente o fresco da tarde tão apre- 
ciável n'essas tierras calienles, cuja temperatura 
é sempre abrasadora, em vez de respirarem com 
morhidezza os cálidos perfumes, que a brisa dos 
laranjaes sacudia da túnica impalpável, seguiam 
com avidez os movimentos da guarnição. 

Ao pé da casa do coronel Dupin era maior o 
reboliço. Os olllciaes francezes passeavam dando 
o braço uns aos outros, mirando com olhos ga- 
lanteadores o rosto moreno de algumas gentis me- 
xicanas, cujas negras pupillas lampejavam por 
traz dos vidros da janella, ou relanceando-os com 
tristeza para o Oriente, cujo extremo horisonte, 
já entenebrecida pelas primaras sombras do cre- 
púsculo, lhes escondia a pátria, para onde a al- 
ma lhes voava nas azas da saudade. 

Os turbulentos soldados da conlra-guerrilha 
formavam grupos pittorescos; um inglez, um hes- 
panhol, e um italiano faziam louváveis, mas bal- 
dados esforços para se entenderem, mais adiante a 
queimada tez e o sombrio olhar de um mulato 
contrastavam com a cândida pelle e o olho azul 
de um allemão. Este com um chapéo de palha, 
calça até meia perna, e jaqueta de veludilho sa- 
fado encostava-se á boca de um bacamarte, aquel- 
le de boné de tocador de realejo, comprido casa- 
co, bolas rotas, e correias de côr duvidosa, revis- 
, lava escrupulosamente a fecharia da sua espingarda. 
Os soldados de marinha esperavam com as armas 
ensarilhadas, os contra-guerrilhas de cavallo, 
lendo passado no braço a rédea dos ginetes arreia- 
dos a capricho, puxavam bafuradas de fumo dos 
seus papelitos, ou accendiam a abrigo do vento 
os seus magníficos regalias. Era um quadro pitto- 
resco e digno de se observar. 



>I6 



O PANORAMA 



Já o coronel Dupin. iiniformisado e proraplo, 
apparecera á janella, e relanceara os olhos para 
a Iropa variegada que linha debaixo das suas 
ordens, quando" assomou ao íim da rua uni vulto 
embuçado n'uma capa, que se dirigio rapidamen- 
te para a casa, que servia de quartel general. 

Era um hespanhol novo e esbelto, cujo Irajc 
ficava escondido pela ampla capa castelhana, que 
punha com garbo. A lina e pallida cabeça, coroada 
de cabellos negros, e coberta com um chapéu anda- 
luz, poisava-se erecta e llrme. A pallidez do rosto, 
n'esse instante mais que pallido, livido, chegava a 
assustar, tanto mais quanto lhe dava um grande 
realce a gola de veludo negro, que contrastava 
com a pallidez que aj)onlámos. Mettiam medo os 
olhos, lai era a sua atonia. Não tinham nem uma 
lagrima : ])arecia que o sopro queimador de uma 
procella lh"as bebera uma a uma, e lhe exhaurira 
as fontes d'onde ellas manavam. O seu andar pa- 
recia d'especlro, rápido mas hirto. Involuntaria- 
mente aflastavam-se todos d'elle, edavam-lhc cam- 
po largo para passar. Gelavam-se as conversações 
dos grupos ao seu aspecto ; eum vago eindelinivel 
calafrio corria pelas veias dos mais valentes. 

— Oue vulto de melodrama! disse um official 
francez reagindo contra a impressão que sentira 
como todos os outros, e voltando-se para um dos 
seus camaradas. 

— Isto foi comparsa da Gaite, que trouxemos 
nas bagagens sem darmos por tal, redarguiu o in- 
terpellado. Gosta de fazer os ensaios a alguma dis- 
tancia da scena, e veio alé ao México estudar al- 
titudes. 

— Oual historia, homem ! Isto é o phantasma 
de Fernão Corlez, que nos vem fulminar com os 
seus analhemas por lermos poisado o pé sacríle- 
go n'esta catholica lerra. Não acha, amigo? conti- 
nuou em hespanhol, voltand,o-se para um logisla 
mexicano, que, sentado á porta do seuestabeíeci- 
menlfí, picava com toda a gravidade um rollo de 
tabaco, e endji'ulhava o clássico cigarro. 

— Oue diz tisled? perguntou o logisla, nieflen- 
do a navalha nos dentes para nivellar o tabaco 
picado, e enrolar a preceito o papclilo. 

— pergunto se você sabe quem é este sugeilo. 

— É Perez Lorenzo, tornou o mexicano dobran- 
do as duas pontas do canudinho de papel, c ti- 
rando da algibeira a caixa dephosphoros. 

— E l*erez Lorenzo quem é ? 

— E o mais rico Itacendero dos contornos de 
Medellin e Vera-(>iuz, continuou o lleugmalico 
americano, accendendo um phosphoro, e resguar- 
dando-o com a mão do sopro da aragem. 

— Bravo, lornou o oííicial. É rico e tem cui- 
dados. Lembra o sapateiro de La I''onlainc. Apos- 
to (jueé celibatário c se enfastia do celibato'' 

— E casado, a<udio o seu imperturbável inter- 
locutor |)Uxando uma baforada de fumo, e apa- 
gando o phos[)lioro. 

— Com alguma mulher velha e feia como os 
sele peccadosca|)ilaes I 

— Com uma menina de dezoito annos, linda 
como Nossa Senhora de Guadalupe. 



— Pesle, acudio o francez, que feliz maganão ! 
Sendo assim, porque nos apparece o marido com 
esta cara de palmo e moio? Será elle ciumento... 
com motivos jusliticados? 

— Cármen é virtuosa como um anjo, e seii ma- 
rido adora-a. 

Os dois ofíiciaes francezes olharam pasmados 
um para o outro, depois desataram a rir, e, esten- 
dendo os braços em altitude heroi-comica, entoa- 
ram em duelto o chavão de todas as operas : 

— Qucl esl donc ce mysíere ? 

Entretanto Perez Lorenzo, depois de trocar al- 
gumas palavras com a sentinella, entrou em casa 
do coronel Dupin. 

Passado pouco tempo, veio ordem para se reco- 
lher a tropa aquaiteis, estando sempre em armas, 
e prompta para marchar uma força de' trinta ca- 
valleiros e de trinta infantes. 

Á meia noite foi uma ordp""-)í}a da i)arte do 
coronel Dupin buscar o paquete. 

A pequena força reuniu-se, saio do quartel, 
atravessou as ruas ermas e -escuras de Medellin, 
e fez alto á porta da casado coronel Dupin. 

'O camarada do coronel, empunhando um facho 
acceso, segurava com a outra mão. as rédeas de 
dois cavallos. Junto á hombreira da porta divisa- 
va-se o vulto sombrio de Perez Lorenzo. Quando 
a luz vermelha do archote lhe batia ."^m cheio, 
tomava o seu rosto um «speclo diabólico. Eluc- 
luava-lhc nos lábios um soitíso sinistro, e nos 
olhos relampejavam chammas infernaes. 

D'ahi a instantes poz-se a pequena tropa a ca- 
minho. 

{Conlinun) 



O aspecto de um moribundo é sempre, para o 
philosopho, o objecto mais fértil em reflexões. 



Nada é Ião commum como o ler e conversar 
inutilmente. 



O alphabeto foi a origem de todos os conhe- 
cimentos do homem e de todas as su^s loucuras. 



A dissimulação é algumas vezes necessária, c 
a franqueza atírae quasi sempre inimizades. 



A lisonja é o sustento dos tolos. 



r.m IJMboa — A'o i:srripf(jrio, Tini. Friniro-Porti({/iu'za, rua 
(lo Thfsovro Vi-llio n"l\. oiulr ilrri' xrr ilinyidn toda a carrespon- 
ílintcíu nnhscriídada á Kniprcza do ■•uiioriiiiia. 

p„r (imo 13110) (ir.fio ?•<'/« 

Soiiexirc CUii] I^stumiJillioilo j '«'i " 

Trimeslre 3'.o) \ ''UO » 

ISo acto (la cnlrcga e avulso 30 rcin. 

Vcndc-sfí PM loiluí ag loja» do costume. 

Xo porto — Assiuna-sf c vvndv-sc ciu inaa da Viuva MoriL 

Typ. Franco-1'orHigueza. = Rua do Tbesuuro Vcllio, G. 



OPANORAMA 




•ir 



A CATIIEDRAL DE LICÍIF/ELD 






(oj-ano, sendo ^l^r.,^Jl%ÍZll' ,lXt 



o PANORAMA 



É cerlo que Lichfiekl e Covenlry eslavam coin- 
preoiulidos no reino de Mercia, quefoi conqiiislado 
por Oswy, e converlido por clle á fé chrislã ; no- 
ineou-se, em GoO, o primeiro bispo de Liclilield e 
Ceudda ou Chiul, foi o terceiro em 667. Béde, diz 
il'este ultimo: cque editlcou, com suas próprias 
mãos, um retiro pouco afastado da igreja, onde 
tinha por costume ir ler e resar, com um pe- 
([ueno numero de seus irmãos, quando os deve- 
res do seu ministério lhe deixavam alguns instan- 
tes de liberdade.)) 

O concilio de Londres reunido em 1075, trans- 
feriu a sede de Liclilield para Chesler, onde este- 
ve até loí2. Durante esíe periodo, os bispos es- 
tabeleceram a sua residência entre estas duas ci- 
dades. l)iz-se, que um d'elles, Uoger de Clinton, 
em 1128, reedificou a cathedral. Wallerde Lang- 
ton. em 121)3, é também citado como um dos 
bemfeilores da cidade ; deve-se-lhe a construcção 
de muitas ruas, o magnifico relicário de Sainl 
(lliud e o palácio episcopal. 

A cathedral foi devastada no reinado de Ilen- 
liquc VIII e confiscadas todas as preciosidades 
(|ue continha, á excepção do relicário, que foi 
salvo a muitos rogos do bispo Rowland. 

A historia de Lichfiekl, nenhum interesse offe- 
rece até às guerias civis. Em 1642, teve Ires 
cercos, durante os quaes a cathedral soítreu muito; 
(' no anno seguinte lizeram-se grandes preparati- 
vos de defeza, para resistir a Lord Brooke, que 
avançava, para tomar a cidadella,á frente de três 
mil homens. Era um inimigo zeloso do episcopado 
e que estava decidido a destruirá cathedral. Quan- 
do entrou na cidade, dizem, que rogara aos céos 
que o castigassem, se a sua causa fosse injusta; 
poucos minutos depois caiu morto por duas 
bailas ; o tiro i)artira da- mão de um surdo-mudo 
da nobre familia Dyolt, que do alto da igreja ob- 
servava os movimentos do inimigo. A arma existe 
nos archivos da familia J)yolt, c a armadura de 
Lord lirooke está no castello deWarvvick. Apesar 
da perda do seu chefe os rebeldes conlinuaiam o 
cerco e a guarnição foi obrigada a ceder ás tropas 
do parlamento. Era a primeira cathedral que, caía 
em seu poder ; devaslaram-n'a com um vandalis- 
mo incrível, e allisecommellei-amas maiores pro- 
fanações. 

No mesmo anno, 1643, o príncipe Rupert reto- 
mou a cidadella, nomeando por governador o co- 
ronel Hagot, (|ue recebeu n'ella Carlos I, depois 
da batalha de ilaseby, lOí.j; porem, alguns mezes 
depois, recaiu nas "mãos dos rebeldes, e as suas 
muralhas foram arrasadas. Em lOol, o parlamen- 
to mandou tirar todo o chumbo que cobria a igre- 
ja, e fundir os sinos. 

O serviço divino foi, durante alguns annos, ce- 
lebrado na casa do capitulo; e quando .lohn lía- 
cket foi nomeado bispo, a cathedral não era mais 
que um montão de ruinas ; mas o zelo e activida- 
de d'estc varão venceram lodosos obstáculos. Pos- 
suía esla ultima qualidade em tão subido grau, que, 
no mesmo dia da sua chegada a Liclifieid, mandou 
começar o desentulho, prestando para is.so os seus 



creados e cavallos. No curto espaço de oito annos, 
conseguiu apagar todos os vestígios de devastação 
e a igreja começou a funccionardenoro em 1669. 

Ainda que a cathedral de Lichlield não possa 
rivalisar, nem em grandeza, nem em magnificên- 
cia com a de York, e algumas outras, ella não ce- 
de, comtudo, a nenhuma, pelo que respeita a ele- 
gância; a sua architectura ligeira é objecto de 
grande admiração. Oedificio tem a forma de cruz; 
a parte principal compreende a nave, a igreja, o 
coro e a capella de Nossa Senhora. O seu maior 
comprimento é de 403 pés e a largura de 
177. A principal fachada é para o lado do oc- 
cidente, e está coroada por d uns torres pyra- 
midaes, havendo outra, do mesmo feitio, que se 
eleva no centro do edificio. As duas primeiras 
torres teem 192 pés de altura, cada uma; c a ulti- 
ma 252. 

A igreja contem um numero considerável de 
túmulos, interessantes uns por sua antiguidade e 
outros pelos personagens que encerram. Os mais 
notáveis são: o doutor Johnson, lady Worlhley 
Montagne, a quem a humanidade deve os beneli- 
cios da inoculação, e David Garríck. Entre os mo- 
numentos; que ornam o interior, admira-se, o do 
bispo Hackel ; represenla-o deitado, e lé-se ao 
lado esta inscripção : «Não deixarei fechar meus 
olhos sem ter achado um logar para o templo do 
Senhor.)) 

RÀ-PULANTE 
I 

Confesso, que nunca encontrei pessoa alguma 
com tanta propensão para a facécia, como esse 
rei, bravo e intelligente, cujo ultimo episodio da 
vida vou narrar. Era um ente que só vivia para 
a comedia; o seu principal elemento era o riso. 
Ouem soubesse contar, com todos os-SS.-e-RR. 
uma historia no género chocarreiro, possuía, cer- 
to, todos os dons e dotes para ser recebido, 
distinctamente, na corte e ganhar a estima do 
monarcha exemplar. Por isto c fácil imaginar 
como deviam de ser os sete ministros d'aquella 
nação : os homens de niais pilhéria que tem vin- 
do ao mundo; inexcediveis na sublime linguagem 
do — ha! lia! ha! — expressão equivalente á palavra 
portugueza — gargalhada— e Inimitáveis na narra- 
ção de contos facetos, e no canto do flôce lundu 
choradinho, que então se' usava com lodos os re- 
quebros. Realmente, eram sete varões impagáveis; 
e, o que é mais para admirar, parecia que lodos ti- 
nham sido feitos pelo molde i'eal~corpolencia, obesi- 
dade, olhos, nariz, bocca, desmesurado appelite, 
grande (jueda para o entremez, tudo isto n'elles 
realçava em tão subido grau, como no seu queri- 
do rei. 

Oue os indivíduos engordem com a farça, ou 
que na gordui-a haja alguma cousa que predispo- 
nha para o entremez, é uma questão f;ue nunca 
pude decidir; mas, o cerlo c, que um galhofeiro 
magro, pode, perfeitamente, considerar-se rara 
avis tu lerris. 



o PANORAMA 



19 



Livros, fossem elles de que natureza fossem, 
discursos parlamentares, prelecções scienlificas, 
poesias cheias de sentimento e amor, dramas, 
tragedias, as próprias comedias-dramas, emíim, 
todas essas producções que os da actualidade con- 
sideram fiUias do talento c de um trabalho assi- 
duo, eram, para o intelligente, erudito e magnâ- 
nimo rei, cousas de nenhum \alor; denominava- 
as, já se \è, para fazer espirito (^permitlam-me"o 
gallicismo) — monumentos eternos da ignorância e 
insensatez ■ da humanidade. As maneiras civis 
incommodavam-n'o. Em resumo, o bom do rei 
preferiria o Gargnnlua de Rabelais ao Zadig de 
Yoltíiire, e acima de tudo, as hufoncrias em acção 
causavam-lhe mais prazer, do que as subtilezas 
na palavra. 

Na epocha em que passa esta interessante his- 
toria, ainda os bobos de profissão não tinham 
sido, completamente, banidos da corte. Algumas 
das grandes potencias continentaes ainda conser- 
vavam os seus loucos; eram infelizes, vestidos á 
maneira de arlequim, tendo, por gorras, bonnés 
guarnecidos de campainhas, e que deviam de 
estar sempre preparados para empregar, á letra, 
ditos subtis e graciosos, em troca das migalhas 
que caíam da meza real. Hoje, felizmente, já não 
se presenceiam d'estas misérias na corte. Tudo 
alli é serio, respeitável e imponente; e assim con- 
vém; pois, o que hão de esperar, dos pequenos, 
os grandes de uma nação, que só comem, bebem, 
riem e folgam com os doudos? 

O nosso rei, naturalmente, tinha o seu louco. 
E o facto é que elle sentia a necessidade de al- 
guma cousa que tendesse para a bobice, — quan- 
do mais não fosse, para contrabalançar a pesada 
sabedoria dos seteillustres varões seus ministros, — 
(para não faltar do rei.) 

É, porém, muito de notar, que o louco, o bobo 
de proíissão, que vou apresentar ao leitor, não 
era somente um loàco; tmha para o rei um valor 
Iriplice; pois era, conjunctamente, anão e coxo. 

JN'aquelle tempo, eram Ião communs na corte 
os anões, como os coxos; e muitos monarchas te- 
riam sem duvida achado o tempo ditíicil de pas- 
sar — o tempo é mais longo na corte do que em 
outra qualquer parte — sem um bobo para os fazer 
rir, e um anão para rir d'elles. Mas, como já te- 
nho observado por varias vt?zes, lodos estes bo- 
bos, em noventa 3 nove casos contra cem, são 
gordos, redondos e maciços, de sorte, que era para 
o nosso rei um grande motivo de orgulho o pos- 
suir em Rã-Pulante — assim se chamava o louco — 
um triplo thesouro em um só individuo. 

Julgo que o nome de llã-Pulante não era o do 
baptismo, mas que lhe havia sido conferido por 
voto unanime dos sele ministros, em consequên- 
cia de não poder andar como os outros homens. 
Eífectivamente, Rã-Pulante, não se podia mover 
senão com uma espécie de passo inlcrjeccional, 
uma cousa entre o salto e o torcicollo, um certo 
movimento que era para o rei um perpetuo rego- 
sijo e, naturalmente, um goso; porque, não obs- 
tante a proeminência do ventre e a intumescên- 



cia constitucional da cabeça, o rei passava aos 
olhos de toda a córlcpoi um bello homem, aman- 
te de toda a sorte de divertimentos. 

Mas, se bem que, Rã-Pulanle, graças à sinuosi- 
dade das suas pernas, não se podesse mover se- 
não a muito custo, já no caminho, já em um 
estrado, a prodigiosa potencia muscular com que 
a natureza lhe dotou os braços, como que para 
compensar a imperfeição dos membros inferiores, 
tornava-o apto para executar muitos rasgos de 
admirável destreza, quando se tratava de arvores, 
cordas, mastros ou outra qualquer cousa aonde 
se podesse marinhar. N'estes exercidos, mais pa- 
recia uma harda ou um macaquinho, do que 
uma rã. 

Não posso dizer, precisamente,, de que paizera. 
oriundo Rã-Pulante. Parece-me, todavia, que vi- 
nha de alguma região barbara desconhecida, a 
uma grande distancia, já se vô, da corte do nos- 
so rei. 

Rã-Pulante, e uma rapariguinha pouco menos 
anã do que elle, mas, admiravelmente bem pro- 
porcionada, e excellente dançarina, tinham sido 
roubados de suas casas, e enviados de presente ao 
rei por um dos seus famosos generaes sempre fa- 
vorecidos da victoria. 

Em taes circumstancias, não era para causar 
admiração que entre estos dous pequenos capti- 
vos se estabelecesse uma grande intimidade. E, 
realmente, dentro em curto espaço de tempo, eram 
dous verdadeiros amigos. Rã-Pulante, embora 
empregasse todos os exforços, nunca poude tor- 
nar-se popular, e por consequência prestar gran- 
des serviços a Castanheta; esta porém, pela muita 
graça de que era dotada, e pela exquisita belieza, 
de anã, era geralmente admirada e respeitada ; 
tendo, pois, grande influencia nos espíritos, 
approveitava-a, sempre que podia, em fav^or do 
seu amigo, Rã-Pulante. 

Em uma occasião solerane, não me recordo 
quando foi, o rei resolveu dar um baile de mas- 
caras ; e, todas as vezes que na corte tinha lugar 
uma mascarada, ou outra qualquer festa d'este 
género, os talentos de Rã-Pulante e Castanheta eram 
sempre requisitados. Rã-Pulante, particularmente, 
era tão inventivo em matéria de decorações, no- 
vos typos e disfarces para os bailes de mascaras, 
que, sem a sua opinião cousa alguma se podia 
fazer. 

A noite designada para a funcção cl>egára. Ima 
sala esplendida tinha sido preparada, sob as vis- 
tas de Castanheta, com grande artificio. 

Toda a corte anciava pelo momento da festa. 
Quanto aos trajos e papeis, -cada qual escolheu 
como lhe aprouve ; e muitos dos convidados de- 
terminaram as cousas, com uma semana, ou mes- 
mo um mez de antecedência, para não se verem 
depois a braços com difllculdades. Em summa, não 
havia incerteza, nem indecisão de parte alguma — 
só o rei e os seus ministros hesitavam. l*orque 
hesitavam elles? não posso dizel-o. Mas, prova- 
velmente, pela grande dilliculdade de obter uma 
idéa; porque eram muito gordos ! 



20 



O PANORAMA 



Fosse qual [fosseJXiiiolivor^o tempo fugia, e, 
como ultimo recurso, mandaram chamar os dous 
anões. 



tConlinun'> 



CARTA 

Do sr. .%• F. lie Cn.sUllio no «ír. Iiiiioceiício 
Frnuri«>co «ia Silva. 

lll.'"'eEx."'°Sr.,e meu querido confrade: — .Muito 
devemos nós a essa ijenle de malla que alii ap- 
j)arecou na feira lilleraria com as anjuetas abar- 
rotadas de filosoíias, de sciencias, de cosmogo- 
nias, de tlieologias, de profecias, de versos a 
olho em logar de metros, de lógicas escangalha- 
das, e de linguagem sem grammatica ! Devemos- 
Ihe realmente muito! Se não foram elles com os 
seus pregões tão altos, e o séquito que levam de 
gaiatos embeilecados naquellas louçainhas, o mer- 
cado dos géneros sãos e fazendas de lei, já pouca 
allenção chamava ; e era pena, por não ser pe- 
(|ueno o prejuízo que havia de resultar d'essa es- 
tagnação, se ella fosse por diante. 

Vivam pois os belfurinheiros e oiapazio ! Foi a 
Providencia quem os cá mandou ; ella bem sabe 
quando e onde as coisas são precisas. 

.Ia ouvi a um fazendeiro do Algarve, que, se não 
fura certo bichinho., que dá no ligo, a fiuta amuava, 
impedernia-se em logar de amadurecer, e adeus 
uma das maiores riquezas d'aquella formosa pro- 
víncia 1 

Vivam pois, ç medrem, se puderem, tanio os 
insectos dos tigueiraes, como os transcendentes da 
iitleralura; e viva Deus que fez para bem toda 
essa bicharia ! 

V. Ex.", meu querido confrade, linha despen- 
dido, quasi em vão, annos largos d^amor, de zelo, 
de claro entendimento e de conselho óptimo, em 
prol das boas lellras e da razão : tinha. chegado a 
levantar, sósinho, um monumento áí leltras .pá- 
trias, d'aquelles a que só se aventurava uma cor- 
poração de benedictinos ; e apesar da merecida e 
reconhecida autoridade da pessoa, e do coro ge- 
ral de louvores prestados á obra, os effeilos prá- 
ticos, ou não appareciam, ou eram escassíssimos. 

A Providencia, que também deve governar nas 
coisas inlellectuaes, abençoara á nascença o seu 
trabalho como agora se está vendo : faltava xjue 
a inveja e a ignorância viessem conlirmar com as 
suas negações as verdades confessadas pela gente 
de saber e probidade. Vieram. Deixe cair chuva 
e neve sobre a sementeira ; melhor ceara nos es- 
pera. V. rifão velho de lavradores; até já Virgílio 
o sabia. 

Não quero eu dizer com isto que descance V.Ex." 
na sua fadiga. Depois de desf)onla(la a messe, ain- 
da íica muito que fazer ; o ceareiro entendido não 
pára nunca; no mesmo Virgílio o lenho: 

MU cau8aB á luvoira amcaçani indu agravos; 
iadical-as convóm: damnam-Hic os [lalos bravos; 
flamnam ftrymoneos i,'rous; danona a raiz amarga 
dos almeirões, e damna a arvore que cinjjarga 
ao sol jpassagem livre. 



O pae, rei da natura_, 
hem podia alhanar o tracto da cultura, 
mas não quiz: preferiu, porque o mortal se adestre, 
se estimule, so active, e o reino seu campestre 
não viesse a perder-so um dia ao desamparo, 
que o lavrar fosse atin, c industria o seu preparo. 

Boa doutrinal boa de lei , apesar de nos vir da 
Ualia velha, e eu não a saber fraldar com uma 
dúzia de citações de livros allemães cisadas da 
feira de Leipzig 1 

Note V. Ex." o como vem frisando no nosso 
ponto CS nomes d'aqucllas pragas : os patos bra- 
vos ! (A(|ui não venha algum i)raguenlo fingindo 
cuidar que alludo ao nosso excellenie confrade 
Bulhão Paio : esse assigna Pato e é cisne dos 
mais alvos e canoros ; eu fallo só dos que, ten- 
do-se em conia de cisnes, não passam de patas e 
patos bravos); os grous lambem para aqui acer- 
tam : as cabeças naquelles hybridos são d"isso ; 
os almeijões deixemoí-os; pojém não já assim: 

a arvore que embarga 

ap sol passagem livre 

Estes esparaveis de quatro folhas que tèem a 
presumpção de querer tapar o solj e ensombrar a 
terra., é que são o peior inimigo ; e nunca as mãos 
doam a V. Ex'% que já tomou o machado para os 
dei lar a baixo. 

Este seu artigo oom que se eslreiou o novo Pa- 
norama, promelle muito, e estou certo de que 
ainda ha de dar muito mais. 

Pela boa doutrina queV.Ex,"vai espalhar pelos 
muitos leitores d'esta acreditadissima folha, e so- 
bretudo pelo insigne favor com que a sua bene- 
volência ahi me trata, devia eu a V. Ex." mil 
agradecimentos. Acceite-m'es nesta carta, e creia 
nas veras com .que me honro de assignar-me 

De V. Ex." 
admirador, confrade, amigo e-servo obrigadissimo 

Lisboa i de Janeiro de 186G. 

■• - A. F. DE Castilho. 



Oueixava-se hum requerente a oulro de que hum 
seu juiz, sendo pobre, gastava como rico; e, no- 
meando suas ostentações, rematava com dizer: Pois 
isto, senhor, de que sahe? E outro lhe respondia: 
Do que entra. Tornava o queixoso, e dizia: Senhor, 
não fizeram isso seus passados ; o outro respondia: 
Não, senhor, mas fazem-no nossos presentes. 

D. Francisco Manoel. 



Casa limpa. Mesa asseada. Pralo honesto. Ser- 
vir quedo. Criados bons Hum que os mande. Paga 
certa. Escravos |)Oucos. Coche a ponto. Cavallo 
gordo. IMata muita. Ouro o menos. Jóias que se- 
não pecam. Dinheiro o que se j)0ssa. Alfaias Io- 
das, Pinturas as melhores, Eivros alguns. Casas 
j)ropria"s. Quinta pequena. Missa em casa Esmola 
sempre. Poucos visinhos. Filhos sem mimo. Or- 
deuí em tudo. Mulher honrada. Marido chrislão; 
é boa vida, e boa morte. 

D. Francisco Manoel. 



o PANORAMA 



21 



S. SEBASTIÃO 



Se no mundo lêem apparecido homens que, á 
sombra da frondosa e fi-uclifera arvore do chris- 
tianismo, hão commetlido Ioda a sorle de crimes 
invocando o santo nome do Uedempfor da huma- 
nidade, cujo código é todo doçura, paz e o único 
que ensina a verdadeira senda que conduz á feli- 
cidade eterna; se mesmo, de entre os que enver- 
gam as vestes sacerdolaes, -cuja missão deve ser 



unica e simplesmente, com bons exemplos e sãos 
conselhos, conduzir os povos e propagar as sa- 
bias doutrinas do mar.lvr do Goigolha, al-^uns 
lêem saido que, por seu procedimento allaniente 
repreensivel, hão manchado essas vestes vene- 
randas, só dignas de quem possue uma alma bas- 
tante elevada para poder encarar, indifferentemente 
as ephemeras grandezas na terra e resistir ás pai- 
xões; outros muitos, que a historia nos aponta «se 
hao distinguido por suas virtudes, zelo e infàíi- 




navel trabalho em, por meio de palavras repassadas 
de intimo sentimento religioso e rasgos, não íin- 
gKlos, de verdadeira caridade evangélica, enca- 
minhar para o aprisco as ovelhas extraviadas, 
a. bebastiao foi um d'eslcs. 

Nascido em Narbona, cidade da província de 
Languedoc, e educado em Milão, domie era ori- 
ginaria sua familia, este heroc, que desde tenros 
annos mostrara sempre uma alma grandiosa ecégo 
lespeito pela religião do Crucilicado. com a qual 



o educaram seus pais, lendo completado a idade 
própria de poder começar a sua santa missão, foi 
constituído, pelo imperador Diocleciano, Capitão 
da primeira companhia das suas guardas, chamada 
ratriarcha. 

iNão era, certamente, o desejo de occupar uma 
posição brilhante na sociedade que o levou a ac- 
ceitar semelhante cargo : a sua nobresa de carac- 
ter e magnanimidade de coração não lhe inspi- 
ravam taes sentimentos. Acceitou-o porque, devo- 



22 



O PANORAMA 



lado chrislão, entendeu que, servindo o imperador, 
podia, mais facilmenle, auxiliar os fieis, seus 
correligiosos, que princi^)iavam a ceder ao rigor 
dos tormentos. 

Seria supérfluo enumerar os relevantes serviços 
que desde logo este mart\ r começou a prestar ao 
clirislianismo ; assaz e de sobra os conhece todo o 
mundo. Diremos, apenas, que, depois de haver 
salvado das mãos dos pohlheistas milhares de vi- 
timas, e de ter induzido muitos gentios a recebe- 
rem o baptismo, foi accusado, por um desgraçado 
apóstata, ao juiz Fabião, de ser pregador da lei de 
Christo e protector ellicaz dos que a seguiam. 

O juiz, ao receber a nova, apezar de lh'o pe- 
dir o coração, não o mandou prender, altcndendo 
ao seu elevado cargo; mas cojreu a informar o im- 
perador que, logo, expedindo ordens para que o 
accusado fosse conduzido á sua presença, o repre- 
endeu asperamente, censurando-lhe a sua ingra- 
tidão, e fazendo-lhe ver que um tal procedimento 
podia chamar a irados deoscs sobre todo o impé- 
rio. Ao que S. Sebastião respondeu : «O maior 
serviço que posso prestar-vos, senhor, é, obdecer 
aos preceitos do único Deos verdadeiro e dili- 
genciar quo os outros me sigam o exemplo ; 
jiorque, nada vos é mais conveniente, e ao aosso 
estado, do que fieis vassallos que, despresando 
os falsos deoses, façam, por vosso respeito, pe- 
rennes votos ao Supremo Creador.» 

Irritado, Diocleciano, por esta tão inesperada, 
quanto audaciosa resposta, ordenou que, imme- 
dialamente, sem forma de processo, o seu capi- 
tão fosse morto a tiros de frechas pelos próprios 
soldados da guarda imperial. 

A sentença foi promptamente executada, e o 
santo deixado, por morto, no campo do marlyrio. 
Mas, a devota Irene, viuva do mailyrCastulo, pas- 
sando no ília seguinte por aquelle logar e vendo 
ainda no mancebo signaes de vida, ajudada por 
alguns lieis, levou-o para sua casa, onde, sendo tra- 
tado com o maior disvélo, em pouco tempo se 
achou restabelecido. 

Muito o inslaiam, então, para que se retirasse 
d'aquelles sitios; o santo, j)orém, não approvou a 
idoa; antes apresenlando-se ao imperador, lhe disse: 
«É possível, senhor, que ainda continueis a dar ou- 
vidos ás imposturas e calumnias com que vos vem 
todos os diaè muitos dos vossos desleaes servidores 
para perseguirdes os chrislãos? Sabei, que estes, 
longe de sej-em inimigos do eslado, são os vassallos 
maisíieisque tendes, e a elles, que em suasorações 
não cessam de pedir por vós aoKnle Supremo,'de- 
veis só attribuir todas as vossas prosperidades. 

Attonito, o imperador, de ouvir fallar um ho- 
mem que ja julga\a morto, exclamou: 

«És tu Sebastião, aquelle que ha poucos dias 
mandei malar a tiros de frechas ?! 

«Eu mesmo, respondeu o santo; foi o meu Deos 
que me quiz conservar a vida para na vossa pre- 
sença, e na de lodo este povo, dar um publico 
testemunho da injustiça c impiedade (|ue commet- 
teis, perseguindo os chrislãos, com tanto furor.» 

Enlão, Diocleciano, era quem eslas palavras 



produziram o eíTeito do raio, mandou que, sem 
a minima demora, o santo, fosse levado ao circo, 
e, alli, a bastonadas, lhe tirassem a existência; 
mas que o não abandonassem em quauto o não 
vissem soltar o ultimo suspiro. 

Com eflVito, d'aquello grande supplicio passou 
o Santo a receber no ceu a coroa do marlyrio, no 
dia 20 de Janeiro de 288, da era chrislã. 



OS PIIILO^PORTUGUEZES. 

rOR INiNOCEiNGIO F. DA SILVA. 
II 

Daremos o segundo logar ao dislincto historia- 
dor, poeta e lilterato Roberto Soulhey, nascido em 
Bristol pelo anuo de 1774, e fallecido em 1843. 
Deixando-se enthusiasmar ile principio com todo 

fogo- próprio da mocidade pelas idéas democrá- 
ticas inauguradas em França com a revolução de 
1789, a ostentação apparatosa. que d'ellas fez em 
um drama ]VV// J^/rr, que parece haver sido a sua 
estreia Iheatral, allrahiu sobre elle o desfavor do 
governo, intimando-se-lhe, senão ordem formal, 
ao menosa insinuação para que sahisse temporaria- 
mente de Inglaterra. Veiu pois para Portugal, pro- 
curar a comj)anhia de um próximo parente, o rev. 
Herberlo llill, a esse tempo estabelecido em Lis- 
boa na qualidade de ministro daegreja anglicana. 
Aqui se deu por alguns annos ao estudo das lín- 
guas portugueza e castelhana, c da lilteratura penin- 
sular, em que muito aproveitou ; até voltar em 
1801 para a sua pátria, onde fora provido no car- 
go de secretario do Chanceller do Thesouro da 
Irlanda, As suas aspirações i)oliticas tinham i)a- 
decido entre tanto uma completa transformação, 
de sorte que o ardeu le democrata se convertera 
em decidido conservador, alislando-se na bandei- 
ra do partido lorfi, aò.qual permaneceu sempre 
liei em todo o reslo da vida 

O sr. Visconde de Juromenha, na sua novíssi- 
ma edição das Obras de Luiz de Camões, tomo 

1 pagina 288, pretende que Sonlhey residisse por 
algum tempo entre nós pelos annos de 1811 a 
1812. Ueceiamos, porém, que haja n'estas datas al- 
guma equivDcação, pela carência absoluta que se nos 
alligura de documentos, que possam comproval-a. 

For alheio do intento, omUtir-se-ha o muito 
que haveria para dizer, se tralassemosdedaraqui 
uma biographia completa do illustre poeta laurea- 
do. Referindo-nos unicamente (l'enlre as suas nu- 
merosissimas obras áquellas que tcem tom as coi- 
sas de Fortugal mais estreita intimidade, pedem 
menção especial a sua llislorid do Brasil^ im- 
|)ressa pela primei ia vez (1810-1810) cm três 
volumes de 4.", geralmente estimada e ha pouco 
vertida em poituguez e publicada no Brasil a ex- 
pensas do benemérito livreiro editor o sr. B. L. 
(jiarnicr em seis bellos volumes de 8.° grande : — 
A Memoria ou ensaio sobre a Lilteratura por- 
tuf/ueza, por elle inserta no jornal Quarter/i/ Keriew 
de Londres ('Maio de 1809), cuja traducção em por- 
luguez acompanhada de notas pelo académico J. 
G. C. Mullcr SC imprimiu, segundo cremos, cm 



o PANORAMA 



23 



Hamburgo, no mesmo anno: — e outra Memoria 
acerca de Camões, com Xnahjse doOrienle de José 
Açjostinho, publicada no tomo XXVII do sobre- 
dito periódico (n.°'de abril a julho de 1822); pos- 
to que o auclor ahi se mostre assas injusto com 
o nosso grande épico, ao qual pouco mais conce- 
de que a facilidade de esfjjloU 

A livraria de Southey compreendia muitos e 
valiosos livros portuguezes impressos dos nossos 
auctores de melhor nota; e além d'ellesuma im- 
portante e variada collecção de manuscriptos, re- 
lativos á historia civil e litteraria de Portugal, 
adquiridos à custa de dispendiosa e perseverante 
curiosidade. Por orcasião da venda do seu espo- 
lio, realisada em leilão, no mez de maio de 1845, 
a maior parte d'esses manuscriptos foram com- 
prados para o Museu de Londres, e ahi se con- 
servam eccessiveis entre as innumeras preciosidades 
d'este immensissimo deposito. Os tilulos e contex- 
tos acham-se devidamente mencionados no Cata- 
logo dos manuscriptos portuguezes do Museu Br i- 
tannico escripto e dado áluz em 1834 pelo sr. F. 
F. de la Figaniére. 

^Continua) 

PERES LOREXZO 

(Scenas da Cainpaulia do México) 

Por Pi:<HEmO CHAGAS. 
III 

A noite, primeiro serena e eslrellada, foi-se 
turvando a pouco e pouco. No ceu, azul escuro, 
conglobaram-se as nuvens, e as bafagens, precur- 
soras d"esses terríveis furacões dos trópicos, prin- 
cipiaram a affagar a faee dos expedicionários com 
o seu hálito abrazado O capitão Viarmont, o 
mesmo que vimos no capitulo antecedente arran- 
cando, uma a uma, dos lábios do fleugmatico mexi- 
cano, respostas que lhe satisfizessem a curiosi- 
dade, marchava na testa da columna. Ao seu lado 
ia Perez Lorenzo, empunhando nas mãos o facho, 
que allumiava a estrada. O coronel Dupin mar- 
chava na retaguarda. 

O capitão Viarmont era um rapaz de vinte e 
quatro annos, que sairá das escolas com. vinte an- 
nos, e as dragonas de alferes, fora logo reunir-se 
ao exercito de Itália, encontrara as dragonas de 
tenente nas alturas de Solferino, c viera depois 
procurar ao México as dragonas de capitão. Jovial, 
galanieador, aventuroso, desejara servir na contra- 
guerrilha, cujos movhnentos quadravam mais á 
sua Índole do que as pausadas manobras do exer- 
cito regular. Palrador por' natureza, não podia sup- 
por que houvesse no mundo alguém que podesse 
estar calado dez minutos a lio. Comludo o aspecto 
sombrio de Perez Lorenzo involuntariamente ge- 
lara-lhe a palavra nos lábios, e reprezara-lhe a 
torrente da elocução. Mas a columna tinha já um 
quarto de hora de marcha, e Viarmont, depois de 
ter assobiado todas as árias do seu reportório, co- 
meçava seriamente a enfastiar-se. Tirou da algi- 
beira o porte-ci gares, ç, antes de escolher um ha- 
vano, oflereceu charutos ao seu silencioso compa- 
nheiro. 



Viarmont procurara na sua memoria a mais gra- 
ciosa frase castelhana, de que podesse dispor, para 
formular o seu oflferecimento. Apesar d'isso Perez 
Lorenzo respondeu apenas com um gesto cortez 
de recusa. 

O capitão soltou um suspiro de enfado, tirou 
um havano, e, chegando-o ao lume do archote, 
accendeu-o, e expellio uma baforada defumo azu- 
lado, que se foi esconder entre a copa das arvo- 
res. 

— Não fuma? insislio o ofíicial francez, ainda 
não descoroçoado de lodo. 

— Agora não fumo, respondeu Perez Lorenzo. 

— Ah ! mas costuma fumar, acudio logo Viar- 
mont, ufano por ter obtido uma resposta em Ires 
palavras e seis syllabas, e desejando não perder 
a occasião, — o contrario espanlar-me-hia muito, 
porque n'este paiz um homem, que não fuma, é 
uma anomalia, uma excepção monstruosa, um 
phenomenoque os naturalistas logo estudam e clas- 
sificam. Um homem! que digo.^^ Um ente qualquer, 
que tenha vida e lábios. Fumam as mulheres, fu- 
mam as crianças, e parece-me que os recem-nasci- 
dos, antes de beberem o leite maternal, accendem o 
papelito. Ah! e é um óptimo costume. Nada co- 
nheço melhor do que o charuto para alliviar ma- 
gnas, desterrar saudades, e transportar no azulado 
regaço do seu fumo os nossos devaneios para o céo a 
que elles aspiram. Houve poetas que cantaram o 
café e o chocolate; ainda não houve um só que se 
lembrasse de entoar os louvores do charuto ! In- 
gratidão tremenda que eu, se fosse poeta, havia de 
remediar. Não; engano-me; se fosse poeta, can- 
tava antes a cigarrilha, a cigarrilha que eu, logo 
que desembarquei em Vera-Cruz, vi apertada pelos 
mais formosos e vermelhos lábios, que jamais pro- 
duzio a terra dos amores e das romanzeiras. Di- 
zem-me que a sua esposa é uma gentil senhora, 
meu caro amigo; ia apostar em como adora a ci- 
garrilha. 

Ao ouvir a palavra — esposa — Perez Lorenzo 
parou, como se uma dor aguda o houvesse tras- 
passado. Scinlillou-lhe nos olhos um relâmpago 
de raiva, e a mão convulsa apertou a coronha da 
caçadeira, com embutidos de prata, que levava 
ao hombro. Depois, como por um esforço violento 
da vontade, reassumiu o seu aspecto impassível, 
e disse fria, mas corlezmente : 

— Desculpe-me, senhor, o eu não sustentar uma 
palestra, que n'outra qualquer occasião me seria 
muito agradável ; motivos poderosos absorvem o 
meu espirito n'uma preoccupação dolorosa. 

E, comprimentando o joven oíTicial, desviou-se 
d'elle e passou para o outro lado da estrada. 

O capitão Viarmont ficou estupefacto. 

— Diabos levem o mexicano ! murmurou mor- 
dendo raivoso a ponta do charuto que tinha 
na boca, se elle não fosse o nosso guia pedia-lhe 
uma satisfação. Mas fica descançado que não per- 
des por esperar. 

A atmosphera ia-se tornando cada vez mais pe- 
sada, e o grito do jaguar, o uivo do chacal resoa- 
vam no meio do silencio agoireiro da floresta. 



n 



o PANORAMA 



Afinal o furacão irrompeu no espaço arraslando 
no redemoinho folhas e ramos de arvores. A 
columna parou, sem receber para isso ordem, 
mas como se uma só vonlade animasse lodos os 
soldados. Comludo por entre o espantoso rugir 
da tempestade ouvia-se vagamente a voz do coro- 
nel Dupin: (íEn avant ! En avanl !y) Os oíliciaes 
repetiram a voz de commando, c a pequena columna 
tornou-se a pòr em marcha alravez de inuumeras 
dilliculdades. 

Para cumulo de desventuras, principiavam os 
contra-guerrilhas n"esse momento a subir uma 
ladeira escarpada, verdadeiro caminho de cabras, 
onde a cavallaria teve de se apear e de levar á 
mão os cavallos, que, assustados com o vento, ce- 
gos com os relâmpagos, que fusilavam por todos 
os lados, e pareciam envolver o horisonle n'um 
cinto de fogo, recusavam galgar a ladeira. Os 
soldados afierravam-se a tudo o que se lhes de- 
parava, para assim facilitarem a subida, mas as 
plantas espinhosas, que orlavam a estrada, rasga- 
vam-lhes as mãos e ensanguentavam-n'as. Todos 
procuravam mais ou menos resguardar-se com as 
capas, e praguejavam, blasfemavam contra os 
guerrilhas, e contra o clima do México. Só Perez 
Lorenzo, Iranquilio e silencioso, caminhava conío 
se possuisse um talisman que o resguardasse da 
fúria do vendaval. Da capa servia-se unicamente 
para abrigar o facho, cujachamma ondeava, louca 
pelas excitações do vento, e ameaçava a cada ins- 
tante extinguir-se. De vez em quando Perez Lo- 
renzo agitava o archote no ar. derramando por essa 
forma um jorro de vivissima luz na estrada, c se- 
meando ao mesmo tempo emtorno de si uma nu- 
vem de centelhas, que parecia uma constellação 
lluctuando na nossa atmosphcra. 

Visto assim ao fulgor avermelhado d'essa luz 
vacillante, ou ao clarão sinistro dos relâmpagos, 
o vulto d'esse homem, altivo e Iranqliillo, assumia 
um aspecto verdadeiramente maravilhoso. Um 
bretão e dois hespanhoes, que faziam parte da co- 
lumna, decidiram no intimo da sua consciência 
(jue o mexicano não podia ser senão o demónio 
em pessoa, c; agoiraram por esse motivo um triste 
lim á expedição. 

Um dos hespanhoes chegou até a projectar li- 
vrar-se a si e aos seus companheiros da presença 
do inimigo do género humano. Approximou-se 
d'elle o mais (|ue ))ôde, e beriou-lhe quasi ao ou- 
vido : (f.Iesus 1j; "(loisa notável! Perez Lorenzo não 
estoirou, nem sequer largou cheiro a enxofre ! 

A trovoada e ao vento succedeu a chuva, «m 
verdadeiro diluvio. Torrentes de agua desabaram 
em cima dos pobres expedicionários, c apagaram 
ao mesmo tempo o facho de Perez Lorenzo. Ficou 
tudo immerso na mais prolunda escuridão. 

— IJom foi isto, nmrmiirou Perez Lorenzo para 
junto do qual se chegara o coronel Dupin. Todas 
as precauções são poucas; a luz do archote |)odia 
denunciar-iios. 

— Então estamos próximos do co\il.^ perguntou 
o coronel. 

— Ouve aqui do nosso lado direito o estrondo 



de uma torrente ."^ É a voz do arroio de Canas, 
que vae engrossado com as chuvas. As choupanas, 
onde elles se reuniram, licam a dois passos. 

Ouvindo isto, o coronel Dupin mandou fazer alto 
á columna, para reformar as liteiras. Depois, sem- 
pre com voz mansíssima, ordenou á infantaria que 
avançasse de modo, que envolvesse as choças. 
Deu o commando d'essa força ao capitão Viar- 
monl. Elle, com os trinta cavallos, ia formar um 
cordão concêntrico ao da infantaria para impedir 
a fuga dos guerrilhas, e perseguir os que pudes- 
sem escapa r-sc. 

A infantaria avançou sem fazer o mais leve ruido. 
Tudo era silencio nas choupanas ; não havia nem 
uma luz lá dentro, nem uma senfinella cá fora. 
Perez Lorenzo dava signaes visíveis de inquietação. 

Afinal, á voz do capitão Viarmont, os soldados 
que tinham envolvido os rr///c//o.v, precipitaram -se 
sobre as casas, e entraram, arrombando portas e 
janellas com simples coronhadas. Ia na frente Perez 

Lorenzo. ^ ^ (ConUnua) 

SAUDAÇÃO \ AURORA 

Ver.so.s laUiio-iiorfiigiioze.ti, f|iie |twileni ser lidoM siiiiiil- 
(iinciaiiieiite em qualquer dn^ «liinN Jinj^tiaN, seg;uin«lo 
visorosaiiieiife u .syii<a\e «la |>figiioii'a. 

l'i'losr. dr. António de Castro Lopds, do Hio do .laneiro. 

Salve, -Aurora ! Eia, refulge. 
Eia, anima valles, montes: 
llymnos canta, oh philoinela, 
llymnos vós, -aves insontes! 

Quam pura, quam pudibunda 
És tu, Auroia formosa ! 
Diffunde odores suaves, 
Divina, purpúrea rosa! 

Eia, surge, vivifica 
Pendentes ramos, Aurora : . 
Áureos fulgores emilte, 
Pallidas messes colora ! 

Matutina aura, mitiga 
Solares, nimios ardores; 
Inspira gratos Favoíiios, 
Euros, Zephyros protectores. 

Eóa, Tithonia Diva, 
Fecundos campos decora. 
Canoras aves excita,' 
Oh serena, bella Aurora ! 

Protege plácidos somnos, 
Imiuietas mentes tempera. 
Duras procellas dissipa, 
Terras, fiores refrigera. 

Lúcidas portas expande, 
Oh sol, oh divina fiamma ! 
Extingue umbrosos vapores, 
Tristes ânimos infiamnia ! 

Salve, Aurora! Eia, refulge, 
Eia, anima valles, montes ; 
li\mnos canta, oh philomela, 
Ihmnos vós, aves insontes! 



Typ. Frarico-l'ortugu(jza. = Hua do Thesouro Velho, 0. 



o PANORAMA 



25 



||l|lll!trí:'.., ,:,;:, ;J 




O PAPA lp:ão X 

De todos esses grandes homens que encheram 
de brilho e esplendor o século XVI, Francisco 
I, rei de França, Henrique VJII, rei de Ingla- 
terra, Solimão I imperador da Turíjuia, ele, é o 
papa Leão X, que ao dito século deu o sou nome, 
quemoccupa o primeiro logar nahisloriad'aquc]le 
tempo. O importante papel que este personagem, 



tão sabiamente, desempenhou no Ihealro politico 
do mundo e o modo como se houve n'essa grande 
revolução religiosa, de que Lulhcro foi origem, 
bastaiiam para dar ao seu nome toda a celebri- 
dade: outra coisa, porém, concorreu para a sua 
eterna gloria e para tornal-o o alvo da admira- 
ção de todas as gerações futuras: foi o grande 
impulso que deu ás sciencias e ás artes, as quaes, 
ao tempo, se achavam em peifeita decadência. 



26 



O PANORAMA 



Leão X. descemlenle da celebre família dos 
Médicis, nasceu em Florença, no mcz de dezem- 
bro de li"o. Destinado, desde logo, por seu pai, 
Lourenço de Médicis, cognominado o Magnifico, 
á vida "ecclesiaslica, recebeu a tonsura não tendo 
ainda completos sete annos de idade. ISão com- 
mentamos este fado, porque o espaço de que po- 
demos dispor nol-o não permilte. Toda a ambi- 
ção de Lourenço de Médicis era ver seu íilho ele- 
vado ao cardinalado, e baslantemenle instruído ; 
por consequência, se por ura lado empregou to- 
dos os esfoi-ços para a sua boa educação, já dan- 
do-liie os melhores exemj)los, já enlregando-o a 
mestres os mais babeis; esforços estes não balda- 
dos, pois o talento de João dê Médicis era tal que 
depressa conseguiu igualar os homens encarrega- 
dos do seu ensino; por outro lado, não trabalhou 
menos para obter-lhe, deinnocencío Vlll, o cha- 
pou de cardeal, objecto principal dos seus cuidados. 

Tinha, pois, João de Médicis, 13 annos, 1488, 
ijuando subiu ao mais alto graúda jerarchia eccle- 
siaslica; mas não podendo, pela sua pouca edade, 
ser logo revestido, formalmente, da purpura, o 
|)apa estabeleceu a condição de que o joven car- 
deal passaria a estudar três annos na universidade 
de Pisa. Assim succedeu; e, em 1Í92, recebeu as 
jirimeiras ordens, indo imediatamente para Roma, 
onde, por suas maneiras atraveís, talento e vasti- 
dão de conhecimentos grangeou a aíTeição dos 
grandes e a estima dos homens de letras. 

Obrigado, bem como toda a família dos Médi- 
cis, pela entrada de Carlos VIU na Itália, a sair 
de LIorença, paia onde se havia retirado, em 
consequência da sua opposição á eleição do papa 
Alexandre VI, João de Médicis visitou a Allemanha, 
França, Inglateira e por toda a parle encontrou 
admiradores e amigos. No numero d'csles últimos 
citaremos Erasmo, a quem o cardeal consultou 
sempre nas mais diíliceís circumslancias. 

Durante os seis annos do seu desterro nunca 
teve ingerência nos negócios do estado; enlregou-se 
unicamente ao cultivo das letras e das artes. 

Foi só em loOIi, voltando a Roma, onde logo 
SC fez notar pelo seu gosto pelas scienciase bellas 
artes, que o cardeal Médicis, obtendo a amisade 
(lo papa Júlio .11, começou a ingeri r-se nos negó- 
cios do governo. Desempenhou vários cargos im- 
portantes sob este ponliíicado, e, em 1513, por 
morte de Júlio II, foi eleito seu succcssor, to- 
mando então o nome de Leão X. A subida d'este 
vaião ao Ihrono ponliíical foi magnilica e os seus 
discursos cheios de graça, de bondade c de elo- 
(juencia encantaram os Romanos. Kscolheu para 
seus secretários os cardeaes Rembo e Sandoleti, 
dois dos maiores sábios do seu tempo. 

A nossa intenção não é desenrolar hoje o vasto 
quadro dos acontecimentos políticos c religiosos 
que assignalaiamo reinado de LeãoX. Mais tarde 
tratando de Luthero e de outros homens notáveis 
(lo século XVI, teremos occasião de mostrar aos 
nossos leitores os eminentes servi(;os prestados 
por aquellepontilice ao calholicismo e o seu tacto 
e linura na politica. O que, por agora, quere- 



mos, é apresentar Leão X como o protector das le- 
tras e das artes, que foi isso, justamente, o que 
lhe immortalisou o nome. 

Em tempos anteriores á morte de Júlio lí, no- 
tava-se nos povos uma impaciência, ura desejo 
ardentíssimo de saírem das trevas da ignorância 
e da barbárie. As cruzadas, abrindo novas estra- 
das commerciaes, haviam começado esta grande 
revolução, suíTocada pela allluencia, em Itália, de 
um grande numero de sábios que os Turcos, vic- 
toriosos do império grego, repelliram para a Eu- 
ropa. 

Esta tendência dos espíritos para a civílisação 
não necessitava senão do auxílio dos governos para 
ter todo o desenvolvimento. Procuravam-se, com 
uma avidez incrível, as obras dos antigos. Era na 
Itália, principalmente, que se operava esta nobre 
agitação do espirito humano; mas os homens dís- 
linctos, que se entregavam ao estudo das scíencias 
e das artes, estavam sendo a todos os momentos 
arrancados aos seus trabalhos e separados uns dos 
outros pelas guerras que assolavam o paíz. A 
exaltação, porém, de Leão X ao throno pontifical 
foi uma barreira insuperável a todos os males que 
acabamos de expor. Este homem, amante do pro- 
gresso, que via, com grande pezar, a queda da lít- 
teratura, procurou, immedíalaraente, reunir em 
um só centro todos os raios dispersos. Restaurou, 
por tanto, a universidade romana, enlregou-lhe 
todos os seus rendimentos, e chamou sábios de to- 
das as partes do mundo para regerem as suas ca- 
deiras. A medicina, as mathematicas, o direito 
civil, a philosophía moral, a rhetoiica, todas estas 
scíencias alli tiveram logo os seus representantes, 
bem como a theologia e o direito canónico. 

Devido aos cuidados d'este pontífice, os mode- 
los da lítteratura grega e latina, Homero, Platão, 
Sophocles, Píndaro, Theocrito, Tácito, dos quaes 
comprou por elevadíssimo preço ura manuscrípto 
incompleto, saíram da obscuridade e foram im- 
pressos sob a direcção dos homens mais instruí- 
dos da sua corte, aos quaes, cm recompensa, con- 
feriu depois altas dignidades. 

A astiologia judiciaria começava então a ceder 
logar á verdadeira astronomia ; Celío Calcognini 
tinha já procurado provar o movimento diurno da 
terra, que mais tarde foi a gloria de Copérnico cde 
Calileo, e Leão X, projectou a reforma do calen- 
dário; mas ahonrad'esta reforma eslava reservada 
para o papa íiregorío XIII. 

Duas biblíothecas, a do Vaticano c a que o papa 
mandou construir por Miguel Angelo, era Florença, 
sua pátria, se enriíjucceram de livros, restos da 
antiguidade, c de todas as producções das bellas 
artes que Leão X mandava colligir, cora grande 
dispêndio c gosto esclarecido. Os leitores não 
ignoram que foi sob o ponliíicado de Leão X que Mi- 
guel Angelo c Raphael oi-naram com suas magnificas 
pinturas o palácio do Vaticano e muitos outros dos 
principaes monumentos de Roma. O pontífice com- 
prehendia toda a extensão do talento (restes gran- 
des mestres cvia com ura orgulho nobre elevar-se 
uma mullídão de discípulos intelligenles era roda 



o PANORAMA 



27 



d'esles dois homens, cujogcnio creador elle exci- 
tava. 

O brilhantismo da côitc de Leão X augmentou 
em seguida ás meditlas de rigor que se vio ol3ri- 
gado a tomar contra os conspiradores que quize- 
ram tentar contra os seus dias. Reconhecidos cul- 
pados do projecto de envenenamento, três d'entre 
elles foram sentenciados á morle, e muitos outros 
condemnados a penas severas. Personagens dislinc- 
tos, mesmo cardeaes, tinham sido cúmplices na 
conspiração, e Leão X sentiu a necessidade de 
suavisar o sentimento de tristeza c de irritação 
que esles actos de justiça produziram em mui- 
tos corações. Fez, pois, uma promoção de trinta 
e um cardeaes, c procurou encantar a aristocracia 
romana com a magnificência c o bom gosto. Este 
luxo bem entendido, espalhou a abundância e os 
prazeres na vida de todas as classes do povo Ro- 
mano. 

A liberdade do commercio, e a sabedoria da 
administração, augmentaram a felicidade geral, e 
íizeram abençoar o nome do pontiOce pelo povo 
e pelos artistas que lhe deviam uma grande parte 
da sua prosperidade: assim, não houve senão uma 
voz para applaudir o decreto solemne que conferiu 
a Leão X uma estatua cuja execução foi confiada 
ao grande Miguel Angelo, e que ainda se vê no 
Capitólio. 

Tanta grandeza, prazeres e prosperidade, tinham 
tornado a capital do mundo calholico o ponto de 
reunião de todos os homens grandes e instruídos, 
no meio dos quaes Leão X goslava sempre de se 
achar. Reunia-os em esplendidos banquetes, onde 
mostrava, com tudo, uma grande sobriedade, e 
animava uma familiaridade tal, que, provavel- 
mente, escandalisaria as gentes do nosso tempo. 
Muitas vezes, durante os banquetes, mandava fa- 
zer leituras escolhidas, ou originava discussões de 
ordem elevada sobre sciencias e artes. 

Gostava das pompas do culto e procurava sem- 
pre harmonisar a riqueza de seus ornamentos pon- 
lificaes com a solemnidado c brilhantismo dosof- 
ficios divinos. 

Leão X era de nobre presença, estatura elevada, 
rosto alvo e corado, olhos pardos e vivos, nariz e 
bocca regular, voz agradável e sonora e manei- 
ras aíTaveis, excepto nas raras occasiões em que 
a caça, divertimento que amava até á loucura, 
não correspondia aos seus desejos. 

O inimitável Raphael traçou de Leão X um re- 
trato fiel, que é uma das suas melhores obras, e 
do qual ofierecemos uma copia aos nossos leitores. 
Á esquerda do pontífice está o cardeal Rossi; á 
direita o cardeal Júlio de Médicis, que depois foi 
elevado ao pontificado, tomando o nome de Cle- 
mente ML 

Havia apenas nove annos que Leão X tinha re- 
cebido a tiara, 1 de dezembro de 1520, quando 
morreu quasi subitamente. O corpo tendo appa- 
recido inchado de uma maneira extraordinária, 
foi aberto, com permissão do consistório, e os 
médicos declararam que o papa linha morrido en- 
venenado. Foi preso o copeiro, mas depressa saiu 



solto por falta de provas. Um rumor suido accu- 
sou Francisco!, rei de França, que tinha lido com 
o papa grandes contendas, e que acabava de per- 
der, oito dias antes, o Milanez; mas não está mesmo 
bem averiguado que houvesse envenenamento. 

Os médicos d'aquelle tempo não estavam muito 
conhecedores do-s eííeitos do veneno. 

O tumulo que se elevou a este grande príncipe 
na igreja de St." Maria da Minerva linha sido 
esboçado por Miguel Angelo. A estatua do pontí- 
fice é de Raphael Monte-Lupo. 



PERES LORENZO 

^Sccuas da Campanha «lo Mcxico) 

Por PINHEIRO CHAGAS. 
Ill 

O desapontamento foi igual ao impelo. As chou- 
panas estavam ermas. 

— Inferno! exclamou Perez Lorenzo, os malditos 
fugiram. 

E correu como louco, por todos os recantos, ba- 
tendo com a coronha da caçadeira nas paredes e 
nos moveis, esperando encontrar algum dos ban- 
didos. Os contra-guerrilhas olhavam para elle com 
certa desconfiança. Lorenzo de coisa nenhuma dava 
fé. Com as faces afi^ogueadas corria como um tigre 
em torno da jaula, arrombando moveis, despeda- 
çando fechaduras. Afligurou-se-lhe suspeito um 
enxergão, cuja palha parecia que fora revolvida 
de fresco. De um pulo saltou para cima d'elle, e 
ia a despejal-o, quando um homem, que lá estava , 
escondido, se ergueu de súbito agitando um pu- 
nhal, que lhe cravava de certo no peito se o ca- 
pitão Yiarmont, a quem esse enxergão lambem cau- 
sara suspeitas, e que se fora, devagarinho, chegando 
para lá,* não aparasse o golpe, decepando ao 
mesmo tempo a mão do bandido. 

— Obrigado, exclamou Perez Lorenzo estendendo 
a mão ao oíficial francez, se houvesse realisado já 
o meu desejo, não lhe agradecia o serviço. Assim 
agradeço-lh'o do fundo da alma. Preciso viver até 
me vingar. 

Os soldados lançaram a mão ao bandido, que 
se debatia furioso. Novas pesquizas fizeram des- 
cobrir ainda outro, que só pedia a vida, e que se 
mostrou tão covarde como o primeiro se mostrara 
audacioso. Não foi possível encontrar mais nenhum. 
O bando dos condores deixou apenas nas mãos 
do caçador aquelles dois trainards. É verdade 
que eram ambos captivos de bastante importância 
porque um d'elles era Juan Lopez, cunhado de 
Juan Pablo, o outro Omata, primo do mesmo chefe 
de guerrilhas. 

N'este momento entrava na choupana o coronel 
Dupin. 

— Fugiram os milhafres? perguntou elle relan- 
ceando para Perez Lorenzo um olhar suspeitoso. 
— Fugiram ! tornou Perez Lorenzo com um modo 
sombrio, mas a águia não lhes perdeu os rastos; 
não conservam os ares o sulco das azas, mas a 
terra denuncia o voo rasteiro dos pássaros covar- 
des. 



28 



O PANORAMA 



— Responde pelo cumprimento da sua promessa? 
tornou o coronel. 

— Respondo, tornou PerezLourenzo, lembrc-seo 
coronel de cumpiira sua. 

— A minha ? atalhou Dupin lentando recordar-se. 

Perez Lorenzo não fez mais do que apontar 
para os dois prisioneiros. 

—Olá! exclamou o coronel, que ainda lião repa- 
rara n'elles, sempre licaram alguns nas redes. 
Enlendo. conlinuou, Aollandose j)ai'a o mexicano, 
estes dois homens perlencem-liie, mas primeiro 
consinla que os oiçamos caniar. 

— Si Icur ramagc rcssemhle á Iciir plumage, 
murmurou o incorrigível Viarmonl, i/s seront Ics 
phènix d CS /tal es de cc bois. 

A cilação de Lafonlaine fez brotar um sorriso 
nos lábios do coronel, que se voltou para o seu 
suballerno, dizendo : 

— Se elles nos derem as informações de que 
precisámos, ser-uQsha mais agradável a sua voz 
ílo que o próprio canlo do gracioso colibri. Pa 
rece-me, meu caro capitão, que a boa da raposa, 
ao saborear o queijo, achou dulcíssimo o grasnar 
do corvo. 

— É escusado, interrompeu Perez Lorenzo; co- 
nheço-os a ambos. Juan Lopez morre mas não 
dà palavra ; e .hian Pablo não é tão tolo que vá 
conliar a Omala o segredo dos seus movimentos. 

— Tentemos sempie, disse o coronel. 

Perez Lorenzo encolheu os liombros, e foi sen- 
tar-se a um canlo da choupana. Mellia horror, 
contemplar esse rosto juvenil e formoso, devastado 
pela lormenla de uma dor immensa; a sua phy- 
sionomia linha a immobilidade do mármore, mas 
do maimore lascado pelo raio, que lhe deixou ves- 
tígios indeléveis na sua lisa superfície. 

Como elle o presagiava, foram infrucliferas to- 
das as tentativas queosfrancezes lizeram para ob- 
terem dos dois prisioneiros a revelação do cami- 
nho que os bandidos haviam seguido. Juan Lopez 
não descerrou os lábios, senão para dizer: Ca- 
ramba! quando as supplicas e as lamentações do 
seu companheiro o irritavam em demasia. O co- 
ronel, vendo que não tirava fructo da sua persis- 
tência, voltou-se para Perez Loienzo, e, indican- 
do-lhe com um gesto que podia fazer dos prisio- 
neiros o que quizesse, saio com os seus subordi- 
nados. 

Viarmonl foi o ullimo a sair. Ainda pôde ver 
um relâmpago de satisfação infernal fusilar nos 
olhos de Perez l>oreiizo, ainda o pôde ver Icvan- 
lar-se, c avançar para os dois bandidos com um 
diabólico sorriso nos lábios. 

O próprio .luan Lopez estremeceu e descorou, 
ao ver aquelle vullo sinistro caminhar em direi- 
tura a elle. 

A necessidade de formar os seus soldados obri- 
gou Viarmonl a sair, mas a curiosidade actuava 
ftoderosamenl* no seu espirilo, e, quando a con- 
tra-guí-rrilha se poz cm marcha, Viaimont dei- 
xou-se íicar á reclaguarda para ver o (lue resultava 
d'alli. 

Primeiro ouvio gritos dolorosos, depois > io abrir- 



sc a parla, c sairem os dois prisioneiros, impel- 
lidos pela coronha da caçadeira de Perez Lorenzo. 
Devemos dizer que os francezes tinham alado com 
rijas cordas os pulsos dos dois bandidos. 

A avaliar pelo movimenio dos lábios de Juan 
Lopez, e pelo seu sorriso irónico, o valente guer- 
rilheiro insullava o seu algoz, como os índios sel- 
vagens, cujas tradições de bravura impassível pa- 
recia que eram conservadas lielmente por elle, 
quando os seus inimigos os alavam à estaca do 
marlyrio ; Omala chorava como uma creança. 

Perez Lorenzo amarrou os dois a uma arvore, 
volíou á choupana, trouxe uma corda, atou-acom 
todo o vagar a um ramo, fez a laçada e enfor- 
cou Juan Lopez. Era quanto o guerrilheiro estrebu- 
chava nas convulsões da agonia, Perez Lorenzo 
parecia dirigir-llie palavras zombeteiras, cujo mur- 
múrio sinistro chegava muito vagamente ao ouvido 
de Viarmonl. 

Depois desatou o cadáver, alirou-o com um pon- 
tapé para o cerrado do arvoredo, e passou a en- 
forcar o pobre Omala, que desmaiara de pavor. 
Esse quasi que nem senlio a morte. Os uivos dos 
chacaes, que parecia prcsenlirem (pie se lhes es- 
tava preparando um festim, resoavam lugubre- 
mente no fundo da tloresta. 

— Mordieu, exclamou energicamente e n'uai 
tom de cólera reprimida uma voz por traz de Pe- 
rez Loi'enzo que mirava com um prazer feroz os 
dois cadáveres, julgava que se tinha extinguido a 
raça dos Caraíbas. Vejo que me enganei. Se a 
sua vida não estivesse garantida pela palavra do 
meu coronel, e por conseguinte debaixo da pro- 
tecção da bandeira franceza, havia de lhe ensinar 
a corlezia e a humanidade europeas. 

— Capitão, respondeu Perez Lorenzo vollando-se 
e tilando n'elle um olhar que esfriou o capitão até 
á medulla dos ossos apezar da sua reconhecida 
bravura, não avalie o procedimento dos oulros, e 
deixe que Deus peze, na sua divina balança, os 
nossos merecimentos e as nossas culj)as. 

E, dizendo isto, aíTaslou-se vagarosamente. A 
chuva continuava a cair lorrentuosa, o trovão ri- 
bombava nos ares, e os chacaes uivavam lugu- 
bremente ao fundo da lloresla. 

(Continua) 



O INFELIZ POETA 

O quadro, do qual é copia fiel a gravura que 
hoje olVerccemos aos nossos leitores, foi desenhado 
pelo celebre pintor e gravador AVill llogarth, a 
quem as bellas artes conferem um logar eminente 
entre os seus cultivadores. 

Will llogarth, cuja .biographia publicaremos 
opportunamcnle com o seu relrato, lornoií-se no- 
tável pela sua originalidade c pela verdade com 
que conseguiu exprimir as paixões e as scenas 
ordinárias da vida. 

Todos os seus (piadros, como disse um notável 
escri|)tor, são oulias tantas comedias em pintura, 
censurando os vicios dos homens, para corrigil-os; 
alli tudo c acção, movimento, interesse, verdade 



11 




nue lendo deixado o filbinho adormcc lo e havia 
assentado coslurando.cslorvada em st^"* 1'^' ''''''"^ 
nPb ei eira nuc,moslrando aconla.exigeapiom a 
L k arin do seu credito. Atraz da leiteira, o cao 
»nò dmndo se de um boccado de toucinho que a 
?S esposa a troco da pequena somma nela qual 
"h ompSm uma louquinba que engenhara na 



de interesse para os donos da casa. 
Ouanla verdade nao existe neste quaaro. 



30 



O PANORAMA 



idílio 

II 

A Tempestade 

— Ouves Lilia, o horrisono bramido da tompesla- 
de, que nos eslà iniminenlc? Vòs os fogos que 
fendem as nuvens, ouves o Irovão, e a par do 
trovão o ruido medonho dos cslragos causados 
pelo raio despedido do firmamento ? Na profun- 
da obscuridade que nos rodèa não posso ver-le 
senão á luz dos relâmpagos ; nem me deixa ouvii' 
o grilo da lua angustia, o bramir horroroso e ter- 
livel da tempestade. Parece que só a nós ameaça 
de morte; porque estamos sós no meio dos bosques. 
Sinto. ))orém, que no meio do terror, que te 
anniquilla, cingiste meu corpo com os teus bra- 
ços, e que leu coração, sobresaltado, palpita jun- 
to ao meu. Eslreila-me ainda com mais força con- 
tra o teu seio, Lilia, e abençoarei os terrores e 
os perigos da tempestade. 

Em breve apparecerà novamente o sol, plácido, 
sereno, como um pensamento do amor divino. 
Em seu refulgente carro percorrerá os límpi- 
dos ceos, e o vento aquietará. As nuvens, os 
montes, e os prados de luz pura serão vesti- 
dos, e tornará o murmúrio do arroio a acompa- 
nhar o canto das aves e a voz mysteriosa dos 
bosques. Oiça eu então a harmonia da tua fal- 
ia no concerto que a natureza envia á gloria do 
Senhor; beije tua fronte radiante de alegria; leia 
em teus olhos que confirmas na bonança os di- 
reitos que me deste na tormenta ; e lembrando-me 
de onde me vem tanta ventura, abençoarei os 
terrores e os perigos da tempestade. 

Ail o que égi vida do homem senão um temporal 
desfeito ? Ê o que seriam sem elle o coração e o en- 
tendimento.^ Apoz medonha tormenta e mais bri- 
lhante o céo, o ar mais puro, mais alegre a campi- 
na; depois do obstáculo que retarda a ventura, ou da 
desgraça que d'ella nos afasta, mais funda e viva 
a sente o coração. Quão sublime c o poder de 
Deos quando arma o seu braço com a tempesta- 
de! Assim como elle sublime, apparece a virtude 
no meio dos combates do vicio. Oh! que meus 
dias não findem com a alma já cansada de gosar 
perenne ventura. Que cu veja azares, lides e pri- 
vações na vida, e com o teu amor, Lilia, as tuas 
iras ; porque o socego me intristece, e no cora- 
ção, e na natureza me dão prazer, os terrores e 
os perigos da tempestade. 

—Cessou a tormenta, amado bem ; reconhece- 
mos Deos no raio ; bemdigamol-o agora no iris. 
Aqui tenso meu rosto; imprime n'elle o beijo 
do leu amor... Um, um somente; que o meu co- 
ração estremeceu ao contado dos teus lábios... 
Deixa-me... Logo cantarei a felicidade dos pas- 
tores c a sua innocente vida. Depois de cantar 
reclinarei a cabeça sobre o teu peito e abraçar- 
tc-hei como ainda não ha muito o fiz, quando 
fechados os olhos c o peito opprimido, buscava 
em ti, que f"s homem, um appoio contra a tor- 
menta. Em seguida, meu bom amigo, zangar-me- 
heipara que tu procures abrandar-me; mas, se 



quizeres obter o meu perdão, buscarás a permis- 
são de minha mãi, para jungirmos os nossos fados, 
quando eu durma reclinada nos seus joelhos. 
Ah ! se ella te dá o nome de filho, e se a ambas 
nos prometles um amor eterno, bemdiremos, 
como tu, meu querido amigo, os terrores e os 
perigos da tempestade. 



RÃ-PULANTE 
II 

Quando Rã-Pulante e Castanheta, paraobedecc- 
remás ordens do rei, correram a fallar-lhe, acharam- 
n^o bebendo \'m\io realmente com os sete membros 
do seu conselho privado; mas parecia estar de 
máo humor. Sabia que Rã-Pulante temia o vinho, 
porque esta bebida levava-o á doudice — e a dou- 
dice, aqui para nós, não é lá das cousas mais agra- 
dáveis— mas o rei, que presava muito a sua di- 
gnidade, e era bastante caridoso, tinha um prazer 
inexplicável em obrigar o coxo a beber, e — usan- 
do da expressão real — a ficar alegre. 

— Aproxima-te, Rã-Pulanle, disse elle, logo 
que o bobo e a sua companheira entraram na ca- 
mará ; bebe este copo á saúde dos teus amigos 
ausentes (aqui Rã-Pulante suspirou) e ajuda-nos 
com a tua imaginativa. Necessitamos de lypos, de 
caracteres, meu bravo ! de alguma cousa nova, 
extraordinária. Já estamos cansados d'esta mono- 
tonia eterna. Vamos; bebe ! o vinho ha de escla- 
recer-te as idéas ! 

Rã-Pulante procurou, como de costume, res- 
ponder ao rei com uma palavra chistosa, mas não 
poude. Era justamente o dia do anniversario do 
seu nascimento e a ordem de beber á saúde dos 
amigos ausentes fez-lhe rebentar as lagrimas dos 
olhos. Algumas gotas amargas cairam no copo ao 
recebel-o humildemente das mãos do seu bom 
rei. 

— Ila ! ha! ha! rugio este ultimo,, quando o 
anão, com repugnância, levou o copo aos lábios; 
vê o que pódc um copo de bom vinho ! Ileiu ! 
Como já te brilham os olhos ! 

Pobre rapaz ! Os olhos mais depressa lhe fais- 
cavam do que brilhavam; porque o vinho excila- 
va-lhe instantaneamente o cérebro. Acabando de 
beber pôz, todo tremulo, o copo sobre a mesa, c 
passou um olhar fixo c quasi doudo pelo audi- 
tório. 

Todos pareciam contentíssimos do feliz successo ^ 
da farça real. 

— Agora, mãos á obra ! disse o primeiro minis- 
tro, homem muitíssimo gordo. 

— Exactamente, disse o rei; vamos, Rã-Pulan- 
te, auxilia-nos. Dá-nos typos, meu rapaz, carac- 
teres! temos grande precisão de caracter! ha! 
ha ! ha ! 

E, como o dito tinha pretensões a engraçado, lo- 
dos fizeram coro ao riso real. Rã-Pulante lambem 
rio, mas o seu riso era frio c dislrahido. 

— Vamos, vamos, continua o rei, com impa- 
ciência; não achas nada? 

— Diligenceio achar alguma cousa inteiramente 



o PANORAMA 



34 



nova, replicou o anão, desorientado, porque o 
vinho lhe fervia no miolo. 

— Diligenceias ! grilou ferozmente o rei exem- 
plar. Que entendes, lu, por essa palavra? Ah ! 
comprehcndo. Desconfiou ; precisa mais vinho. 
Toma ! bebe isto ! — e encheu novamente o co- 
po e apresentou-o ao coxo, que nem podia res- 
pirar deaíllicto que estava. 

—Bebe, já te disse, gritou o nobre rei, vá, com 
mil demónios !.. 

O anão hesitava. O rei eslava como um pimen- 
tão. Os corlezãos sorriam maliciosamente. Casta- 
nheta, pallida como um cadáver, aproxima-se do 
bom monarcha, e, ajoelhando diante d'elle, roga- 
lhe que poupe o seu amigo. 

O rei olhou-a por alguns instantes, evidente- 
mente estupefacto de semelhante audácia. Parecia 
ignorar o que devia fazer ou dizer n'um caso d'a- 
quelles, ou como exprimir sufricienlementea sua real 
indignação. Por ultimo, sem pronunciar uma syl- 
laba, repelliu-a violentamente para longe de si, 
e alirou-lhe ao rosto o vinho que se continha no 
copo cheio para o anão. 

A pobre pequena, ergueu-se conforme poude, e, 
não ousando nem suspirar, retomou o seu togar 
junto á mesa. 

Seguiu-se por uns trinta segundos um silencio 
mortal, durante os quaes ter-se-ia sentido a que- 
da de uma folha, ou de umapenna (que não fosse 
de aço.) Este silencio foi interrompido por uma 
espécie de cstiidor surdo, porém, rouco e pro- 
longado, que pareceu rebentar de todos os cantos 
da camará. 

— Porque, porque... porque fizeste isso? per- 
guntou o rei, voltando-se com furor para o anão. 

Este, que parecia recobrar os sentidos, olhando 
fixamente o monarcha, mas com tranquillidade, res- 
pondeu : 

— Eu, eu? Como poderia ser? 

— O som, pareceu-me, que vinha de fora; ob- 
servou um dos corlezãos; talvez fosse o papagaio 
aguçando o bico. 

— É verdade, tornou o monarcha, como bas- 
tante consolado pela idéa; mas, pela minha honra 
de cavalleiro, juraria que era o rangido dos den- 
tes d'esle miserável. 

Ao ouvir isto, o anão, soltou uma estrepitosa 
gargalhada (o rei também rio, porque era um 
d'estes homens que não podia conter o riso quan- 
do o via nos outros) e rangeu os dentes de modo tal, 
com tanta força, que seria para todos ficarem attoni- 
tossenão estivessem rindo tão despropositadamente; 
e depois, declarou que eslava disposto a beber tan- 
to vinlio quanto lhe quizessem dar. O monarcha 
Iranquillisou-se, e Rã-Pulánte, lendo absorvido um 
novo copo, sem o menor inconveniente, entrou 
em seguida e com enthusiasmo no plano da mas- 
carada. 

— Não posso explicar, — observou elle muito 
tranquillo, e como se não tivesse bebido vinho — 
como se operou em mim esta mudança; mas, lo- 
go que Vossa Magestade bateu em Castanheta e a 
baptisou com vinho; logo que Vossa Magestade 



leve a inspiração, que tanto nos alegrou; e em 
quanto o papagaio fazia aquelle singular ruido, 
occorreu-me uma maravilhosa idéa de diverti- 
mento ; é um brinquedo do meu paiz, que se in- 
troduz muitas vezes nas mascaradas; aqui deve 
oíferecer novidade. Infelizmente, são necessárias 
oito pessoas, e... 

— E nós somos oito ! — disse o rei, rindo muito 
da sua descoberta;— a conta justa ! — eu e os meus 
sete ministros. Vejamos ! que diverlimenlo é esse; 
como se chama? 

— Denominamol-o — Os oito orangotangos acor- 
rentados—é uma cousa interessantíssima, sendo bera 
executada. 

— Bello! executal7a-hemos, disse orei, emperli- 
gando-se e esfregando as mãos. 

— A belleza do divertimento, continuou Rã-Pu- 
lanle, consiste no grande susto que sempre causa 
ás mulheres. 

— Excellente ! rugiram em coro o monarcha e 
o ministério. 

— Eu vos caraclerisarei, proseguio o anão; 
fiaivos de mim. A semelhança será tal que lodos 
vos tomarão por verdadeiros irracionaes, e, natu- 
ralmente, o terror deverá ser igual ao espanto. 

— Oh! é surprehendente ! exclamou o rei. Rã- 
Pulanle, acredita, que havemos de fazer de ti um 
homem ! 

— As cadeias teem por fim augmentar a desor- 
dem pela bulha que fazem. Todos julgarão, que 
fugistes aos guardas? Vossa Magestade não pode 
calcular o effeito que ha de produzir, no baile, 
a entrada dos oito orangotangos acorrentados, que 
a maior parte dos indivíduos tomarão por verdadei- 
ros brutos, saltando e dando grilos selvagens, 
por entre a multidão de homens e mulheres gar- 
rida e brilhantemente vestidos! Cousa alguma se 
lhe poderá igualar! 

— Muito bem ! disse o rei ; e logo, porque a 
hora se aproximava, lodos se levantaram para exe- 
cutar o plano do bobo. 

(Conclue) 



Valho-me sempre das coisas naluraes, e assom- 
bro-me certo n'este caso, considerando que uma 
só gota de tinta que caia em uma redoma de agua 
claríssima basta e sobeja para a lornar turva; e que 
para aclarar e deixar limpa uma redoma de tinta, 
não basta uma pipa de agua clara. Assim costuma 
ser a má, e a boa fama que a muito boa não pode 
acabar de purificar a ruim, ea ruim logo empece 
á muito boa. 

D. pRANcisco Manoel. 



Sou tronco e rocha, ó bella, 
Que açouta o sul, que brama, 

E o mar que se incapella ; 
Não lemas que do rosto a cór se mude; 

Vence as rochas e os troncos 

A solida virtude. 

Thomas António Gonzaga. 



32 



O PANORAMA 



BEATRIZ 

—Oh tradimento I Pace 

Sperar pos£'io piú mai? Quol vita orrenda 
Di rimorsi, e di lagrime, e di rabbia ! 

ALFIEni 

I 

Cada qual tem seu dom; eu amo e canlo. 
Sei que o fadário é mau, sei que" apoz ludo 
Que exalla o coração, que o prende alegre 
Em exlase ideal, q"iie lhe da mundos 
Onde o deixa voar, por ecos em fora. 
Não falta um dia, e breve, em que a verdade 

Nos accorda, e nos diz —que diíja, emboral 

Em quanto o mundo passa, revolvendo. 

Cem mil questões de jota e de i romano, 

Eu ergo a voz, e os anjos da Rarmonia 

Vagueam junto a mim; brillia-me um rayo 

De santa inspiração, minha alma accesa 

Eleva-se ate Deos, ])erde-se ludo 

N*um jubilo immortal; da vida as trevas, 

Dissipam-se em redor, um paraiso 

De elhereo amor, do fervidas delicias 

Desabrocha ao meu lado; crescem rosas 

Por entre os estevaes d'agra collina. 

Desponta a aurora, as aves vem chilrando, 

A tépida bafagem traz a espaços 

O perfume subtil das larangoiras; 

E eu ergo a voz, minha alma em vago anccto 

Ardente anecia;— o mundo pas^a c geme 

Cada qual tem seu dom; eu amo e canlo! 



II 



Porque abri d'esle modo o conto humilde 
Que passo a relatar?.... não sei, mas penso 
Qoe anda vaidade arrodo, e sem motivo, 
N'este exórdio fatal; ai, se as leitoras 
Soubessem, como eu sei, quanto nos cusia 
Tragar a prosa vil que ondeia cm torno 

De nós de nós ?— perdão, eu sou apenas 

Um misero cantor, que algumas vezes 
Versejo por demais, mas que não posso 
Deixar de lhes dizer,' que, se a policia 
Fedesse metter pé, de vez em quando, 
N'esta citla dolente de escriptorcs, 
E se deitasse a mão, como devia, 
A quanto néscio vil ousa acoular-sc 
Entre os que avultam, dilTundindo raios 
De essência divinal, talvez eu fosse 
(^om mais de cem, que de ouropel mentido 
Parvos! se adornam ; oh, mas, sem rebuço, . 
Dava tudo por bom, vendo na recua 
Tanto sandeu que alrota de chibantel 



III 



Passado o mau humor que eslas palavras 

Me fez vociferar, sem mais delonga 

Entro na acção, e exponho o simples caso 

Que ouvi contar ha dias, de passagem, 

Mas que gravei na mente, resolvido 

A dar-lhe, como dou, carta de corso. 

Talvez fosse melhor para o bom nome 

Que eu pretendo alcançar, deixar no escuro 

A pobre narração; mas c, defeito 

Que não posso perder, — mal que uma historia • 

Me cai no ouvido, em quanto a não desfcixo 

Sobre a primeira victima (|Uf; encontro, 

Revolvo-me inda mais que S. Lourenço 

Na grelha, o que cu não vi, mas oqucaíTirmam 

Livros de santos padres, que egualnienle 
Não vi, mas que me dizem (quanto basta), 
Que são obras de truz,... louas in folio!— 



IV 



Desprenda-sc a voz; sumida 
Já vai de ha muito a tristeza; 
Aos pés de elherea belleza 
Prostre-se humilde o cantor. 
Do mundo as vagas impura 
Jamais o locam de leve; 
Em sonhos d'ouro c de neve 
Contente respira amor! 

Desprenda-se a voz; que imporia, 
Se a tempestade rebrama? 
Não brilha na mente a chamma 
Que a tudo em torno dá luz? 
Que importa, cpiando ante os olhos 
Radiam mansões do empyrio, ' 
Que a turba, no seu dclirio. 
Nos dé por leito uma cruz? 

Deixai rugir a tormenta. 
Almas que innunda a poesia; 
Cantai por noite e por dia, 
Erguei-vos na iVispiração. 
Bem vedes que a natureza 
Também de inverno se agita, 
Que tudo canta e palpita 
No seio da creação! 

Que tendes, se acaso agora 
Passais na terra -esqucciílos; 
Sc os vossos cantos, perdidos. 

Ninguém sequer enlendeu? 

Quom sente o grato perfume 
Que espira a rosa virenle. 
Sc ella, á beira da correnie. 
Por entre os juncaes rompeu? 

Deixai que os homens blasphemem 
Na sua eIVrcnc impudência; 
Levai, sorrindo, a existência, 
Fitai a luz semi temor. 
Aves de nivia plumagem. 
Cantai da vida as doçuras, 
Vagai nas ondas mais puras, 
Entre ribeiras em flor. 

Amai sempre; o amor resume 
Quanto é poesia divina; 
Chamma (pie a fronte illumina 
Ascende do corajão. 
Amar c crcar um mundo 
Em (jue arrobados vivemos, 
Em que a nossa alma embebemos 
Nas ondas da inspiração! 

Eis, pois, o vosso destino; 
Que importa qual seja a sorte?.... 
O cysne, mesmo na morte, 
Solta gorgeios de amor. 
Dissipai (pianlas tristezas 
Vos podem tocar de leve: 
Em nuvens d'ouro e de neve 
Erga-se altivo o cantor! 



(Continua. 



E. A. Vidal. 



Km IJmIxmi - Nu ]',xíriplorii>, Tjip. Fi<iit(o-l'orli(fjHcz(i, rua 
(lo 'Jlicsoiiro VcIIk/ n." D, ninli; deve >í('r (lirit/ida Inda. a cvriespon- 
ilcncia sul/mrijiliitld á lOiíiprexu «lo ■>uiioraiiia. 

Preço?, ia assVywaVuta 

Por invio 1 300 ) ( 1 'M) ri'is 

Semestre... {',j()\ l^iildtnpillKido < 780 « 

Trimestre ^ío) l'iOO « 

No (Ido ilii inln-gn e avulso ;!0 J'éis. 
Viwle-se i')n Iodas as tojas do costume. 
l\'o porto — Assifina-sc e vende-se em casa da Viuva More'. 

Typ. Fraiico-Porlugueza. = Rua do f besouro Velho, G. 



o PANORAMA 



3S 




34 



O PANORAMA 



COSTLMES DOS TURCOS 

Não é muito fácil formar uma idéa exacla do 
caracter e costumes de um povo que, não obstante 
visitado a miude, nos é ainda pouco conhecido, 
e cuja lingua, talvez considerada como a de ura 
povo bárbaro, tem sido despresada pelos nossos 
sábios. Esta dilliculdade sobe de ponto em pre- 
sença das exagiíeradas narrações dos viajantes. Uns 
lêem elogiado "os Turcos de modo tal que, tudo 
quanto em seu favor se diga, é pouco; outros, pe- 
lo contrario, teem só visto n'elies os homens cruéis, 
ignorantes e fanáticos, que levaram o ferro e o 
fogo á decantada pátria dos Péricles e dos Demos- 
llienes. Efleclivamenle, o procedimento dos Musul- 
manos, para com os povos que lhes estão sujeitos, 
tem sido extremamente bárbaro; mas lancemos 
um olhar pelos seus visinhos lussos, pela Itália e 
pela llespanha... o que vemos? 

Comludo seria injustiça considerar os Ottoma- 
nos debaixo do mesmo ponto de vista que os ou- 
tros povos da Europa; poucas reformas tem havido 
em seus costumes antigos, as sci^ncias e as artes 
pouco ou nenhum desenvolvimento teem lido, eo 
fanatismo e a superstição, que os dominam, levam- 
os á pratica dos maiores absurdos. Os paizes, que 
lhes estão submeUidos, são governados como ter- 
ras de conquista e os tributos lançados sobre os 
súbditos não são, a seus olhos, mais do que um 
resgate Nos gregos, nos arménios e nos judeossò 
vêem povos avassalados; e queinterresse poderiam 
excitar-lhes homens que designam pelo nome de 
cães? Altivos para com os estrangeiros, não re- 
nunciam ao seu exterior soberbo senão diante 
d"aquelles que recebem como hospedes; então a 
hospitalidade franca e generosa que lhes dispen- 
sam, faz lembrar a dos antigos palriarchas. A sua 
caridade para com os pobres não tem limites; e 
é d'islo uma prova ciara os numerosos estabele- 
cimentos chamados Karvanserais. Os senhores 
abastados empregam uma parte dos seus rendimen- 
tos na edificação de hospicios, em dotes para os 
mesmos, ou, na construcção de fontes em cami- 
nhos áridos. Com a aflectuosa hospitalidade dos tem- 
pos primitivos, teem lambem conservado a maior 
devoção; nunca o Musulmano empreende um ne- 
gocio importante, sem que, antes de eíTeclual-o, 
dirija ao céo uma supplica; depois, cheio de confian- 
ça na bondade de Deos, espera com santa resignação 
lodos os acontecimentos, e ([uando a desgraça vem 
feril-o, em vez de derramar lagrimas, humilha a 
íronle no pó, e consola-se pensando que Allah as- 
sim o quiz. 

Quanlo á sua habilidade na guerra, bastantes 
e gloriosos sí^o os litulos que apresentam; basta 
citar as façanhas de Mahomet, Solimão e outros 
muitos guerreiros, aos quaes não poderam resistir 
nem os esforços desesperados de .1'ah'ologos, nem 
o grandt; valor dos cavalleiros, senhores de Khodes, 
iiemaaudaciadosavenlureirosilaliaL'Os,que Minotti 
commandava. Se os Turcos moderno.s n'esle |)onto 
estão muito longe dos seus antepassados, não é 
porque a sua coragem tenha degenerí^do; hojcíjue 



o sangue frio e o calculo subslituiram a coragem 
ardente dos antigos, e decidem da sorte dos com- 
bates, os exércitos ottomanos, mal disciplinados, 
sem laclica e com um artilheria fraca e mal or- 
ganisada, não podem luclar comos das outras na- 
ções da Europa, que os excedem, unicamente, n'a- 
quellas duas vantagens. 

O seu governo em tempo de paz é ainda mais 
ruinoso. Um déspota fraco, nos momentos diíTiceis, 
gosando de um poder illimitado para fazer mal; a 
escandalosa venalidade que cede os empregos a 
quem mais oflí^rece; ministros ávidos de dinheiro, 
sacerdotes ignorantes e fanáticos; laes são os can- 
cros que roem pouco a pouco o império ottomano. 
A sua foiça tem, de dia para dia, diminuído, e 
talvez que, dentro 6m pouco, deixe de ser contado 
entre o numero das nações. Os seus últimos sobe- • 
ranos tentaram, é verdade, innovações úteis; mas 
alguns pagaram caro a sua temeridade, e não foi 
sem uma carnificina medonha, que Mahmoud con- 
seguiu destruir o corpo dos janizaros, prompto 
sempre a sublevar-se. Operou mesmo outras mu- 
danças nos costumes dos seus súbditos; mas os 
seus progessos teem sido lentos, c o fruclo será, 
sem duvida, tardio. 

fora dos tempos guerra o turco parece esque- 
cer na tra.iquillidadedoseu retiro, as penas d'esta 
longa peregrinação que se chama vida. Para ellc 
a existência não é outra coisa alem de um sonho 
feliz que só deve acabar no tumulo, um banquete 
cujas delicias deve haver pressa emgosar. Grave 
silencioso, indifferente a todos os interesses mes- 
quinhos da terra, passa os dias languidamente es- 
tendido sobre as macias almofadas do seu sophá, 
rodeado das nuvens odoríferas que saem da sua 
caixa de perfumes ou do seu longo cachimbo. Sa- 
boreia obellocafé de Moka, eo ópio Iransporta-o 
em dilicioso sonho ao paraiso de Mahomel onde 
vivem as buris de olhos prelos. 

Nos momentos de enfado as suas mulheres dan- ^ 
çamlhe emlorno e cantam ao som da suave harmonia 
dos alaúdes. Depois de ceia faz as abluções do 
costume, dirige aacéo a sua oração quando a voz do 
miwzim, se faz ouvir do alto das torres das mes- 
quitas e adormece entre sonhos de amor nos bra- 
ços da sua formosa escrava Circassiana. 

As mulheres, ainda (|ue guardadas com todo o 
cuidado, não são tão privadas de liberdade, como 
muitos viajantes teem aílirmado. O seu dote as- 
segura-lhes uma tal ou qual independência, e o 
uso da polygamia é muito raro, não obstante, o 
Conm permiltir ao homem desposar qualro mu- 
lheres. Além d'isso ellas sabem perfeilamenle vin- 
gar-se de um marido iniiel, graças a certas mu- 
lheres judias ou arménias que lêem livre accesso 
nos harems. Sustentam uma correspondência amo- 
rosa por meio de fiores dispostas de certa maneira 
e não é muito raro o ver entrar um ou outro aven- 
tureiro no recinto sagrado, a pezar dos oliios pe- 
netrantes dos eunuchos. Os cemitérios lurcos, 
|)lantados de cyprestes e de plátanos, são muitas 
vezes testemunhas das apaixonadas declarações dos 
amantes. 



o PANORAMA 



35 



As habitações, em geral, de fraca apparencia, 
por assim o determinarem os livros da sua lei, são 
decoradas interiormente com grande magnificência. 
Faleos espaçosos, rodeados de galerias sumptosas 
sustentadas por arcos e columnas c ornados de 
íontes, quartos forrados de soberbos tapeies da 
Pérsia e assoalhados de preciosa madeira, pilastras, 
balaustres, arcos enriquicidos de arabescos de ouro 
c azul e de pinturas de tlores, uma rica salla de 
banhos, onde quasi tudo é mármore, janellas, que 
n'este bello clima, dão livre accesso ao vento agra- 
dável e aos pássaros, varandas cheias de vasos 
de flores, kiosques, boscagens onde se vecm o li- 
lás, o loureiro, roseiras, larangeiras, e no sitio 
mais retirado o harém; tal c a bella morada 
onde o Musulmano espera o dia em que se devem 
cumprir as promessas do Coran. 



RÃ-PULANTE 
III 

A maneira de caraclerisaros nossos oilo heroes 
era muito simples, sutíiciente, porém, para os de- 
sígnios de Rã-Pulante. Ora, é preciso notar^ que 
no tempo em que isto aconteceu, raríssimas vezes 
appareciam animaes d'aquella espécie nos paizes 
civilisados ; e por isso, como as imitações eram 
em extremo beslíaes e hoifendas, todos accredi- 
laram na semelhança. 

Vestiram, primeiramente, camisolas c calças de 
algodgio, em ponlo de meia. Depois foram alca- 
troados desde os pés até ao pescoço. N'esta occa- 
siãoumdos ministros suggeriu aapposição dcpen- 
nas; mas, foi ímmedialamente rejeitada aidéa pelo 
bobo, que com uma demonstração occular, depres- 
sa convenceu os oito personagens de que o pello 
de um animal como o orangolango, era com mais 
lidelidade representado pela estopa, do que pelas 
pennas. 

Por conseguinte, foí-lhes applicada por cima da 
camada de alcatrão, uma espessa camada de es- 
lopa. As caras lambem foram untadas de uma 
matéria viscosa e, bem como o corpo, cobertas 
de uma camada semelhante. Estavam lindíssimos! 
Todos riam a bom rir, e não cessavam de fazer 
reflexões sobre o effeito que produziria a sua en- 
trada no baile. Já não faltava senão a cadeia para 
complemento da grande obra. Não tardou, porém 
em apparecer, e com as dimensões exigidas. Foi, 
portanto, em primeiro logar, lançada cm roda do 
rei, e^ convenientemente, apertada ; depois em roda 
da cintura do primeiro ministro e, igualmente, com- 
primida ; seguiu-se o terceiro, para com o qual se 
obrou do mesmo modo ; e assim successivamentc. 
Terminada esta operação, affastaram-se, quanto 
podiam, uns dos outros, e formaram um circulo, 
dentro do qual, Rã-Pulante, para completar a 
verosimilhança, achou meio de inscrever, com o 
reslo da cadeia, uma cruz. 

A grande sala em que devia ler logar o baile, 
era uma casa circular, de grande pé direito (co- 
mo hoje diria uriía notabilidade architeclonica) e 
que apenas recebia a luz do sol por uma clarabóia. 



De noite, (era só quando d'ella se serviam) cos- 
tumava ser illuminadapor um grande e magniíico 
lustre, pendente da clarabóia por uma corrente, 
cuja extremidade livre sustentava um contrapeso 
com o auxilio do qual o lustre podia baixar ou 
elcvar-se ad libitum. Mas para não prejudicar a 
elegância estava este contrapeso da parle exlerior 
sobre o telhado. 

A decoração da sala, linha sido confiada aos 
cuidados de Casíanheta, que, provavelmente, em 
certos pontos consultou o sensato juizo do seu amigo 
anão; pois, foi por conselho d'esle que na cele- 
bre noite do baile, o lustre não figurava no logar do 
costume.. Como o excessivo numero de convidados 
devia occupar todas as regiões da sala, tiveram 
naturalmente em vista, com esta disposição, o evi- 
tar que sobre os sumptuosos fatos dos convivas 
mascarados cuspissem asvellas insultos frequentes 
de cera fundida. Portanto, novos candelabros foram 
dispostos cm differentes partes da sala, e ao lado 
de cada uma das cariatidcs, que em torno a guar- 
neciam, cm numero de cincoenta a sessenta, ar- 
diam tochas, que projectavam abundantes e va- 
riados reflexos sobre quanto n'ella existia. 

Os oito orangolangos, seguindo o conselho de 
Rã-Pulante, esperaram, para fazerem a sua en- 
trada, que a salla se enchesse completamente de 
mascaras; o que durou até á meia noite; mas logo 
que no relógio soou a ultima badalada, irrompe- 
ram com fúria tal, que, presos, como estavam pelas 
cadeias, cairam rolando confusamente. 

A sensação produzida por este inesperado acon- 
tecimento foi prodigiosa e encheu de alegria o co- 
ração do rei. Como se esperara, o maior numero 
dos convidados acreditou que, estes entes de aspecto 
feroz, eram verdadeiros animaes de uma certa espé- 
cie ; não precisamente orangolangos. Muitas senho- 
ras desmaiaram; e se o rei não tivesse tomado a pre- 
caução de prohibir n'aquella noite o uso de ar- 
mas, teriam pago, desde logo, com sangue o di- 
vertimento. A confusão, o susto não podiam ser 
maiores. Todos corriam para as portas como lou- 
cos; mas em vão, porque o rei tinha ordenado que 
as fechassem, logo depois da sua entrada e, con- 
forme lhe aconselhara o anão, as chaves haviam- 
lhe sido entregues. 

Emquanlo durou o tumulto, e que cada um 
pensava na própria salvação, — porque, em ver- 
dade, n'cstc pânico e n^esta desordem havia um 
perigo real, — ler-se-ia visto a cadeia, que servia 
usualmente para suspender o lustre, descer, des- 
cer até a sua extremidade, em forma de anzol, fi- 
car a Ires pés da altura do sobrado. 

Poucos instantes depois, os orangolangos, tendo- 
se arrastado pela sala em Iodas as direcções, acha- 
ram-se, em lim, no centro e em contacto com a 
cadeia. Em quanto se conservavam n'esla posição, 
o bobo, que os tinha seguido sempre de perto, indu- 
zindo-os a attentar na commoção, apoderou-se 
da cadeia na intersecção dos dois diâmetros e, 
com a rapidez do pensamento, prendeo-a ao anzol. 
Em seguida, como por encanto, subiu a cadeia 
asuíTiciente altura para ficar fora de todo o alcance 



86 



O PANORAMA 



econseguinlemenle levou após os oiangolangoscm 
confusão reunidos. 

As mascaras, duranleeslo episodio. Unham pau- 
lalinamenle n-cobrado animo: e como já começa- 
vam a lomar ludo islo como um brinquedo, engenho- 
samente combinado, desalaiam-se a lir, despropo- 
siladamenle, vendo a eslranha posição dos macacos, 
— (;uardai-m"os: grilou Uã-Pulanle, com uma 
voz que retumbou sobre o tumulto ; — guardai-nros 
bem. parece-me que os conheço. Vou cerliíicar-me 
para dizer-vos ja os seus nomes. 

Então, engatinhando por cima das cabeças da 
multidão ate próximo da parede, lançando mão 
de uma tocha e voltando, como tinha ido, para o 
centro da siila, saltou como um macaco á cabeça 
do rei, tre|)ou pela corrente a alguns pes de al- 
tura e aproximando achammadogrupc, como que 
para examinal-o, exclamou : — Depressa descobri- 
rei quem elles são ! 

Depois, em quanto toda a asscmbléa, — iucluindo 
os macacos — ria a bom rir, o bobo soltou subi- 
tamente um assobio agudo c a cadeia subio mais 
uns vinte pes, levando comsigo os orangolangos, 
que se debatiam atterrados. Rã-Pulanlc, seguro á 
cadeia, linha também subido com ella e guardava 
sempre a sua posição relativamente aos oito mas- 
carados; masconlinuando a aproximar d'elles a tocha 
accesa, como que j)rocurando descobrir quem eram. 
Toda a assemblea licou de lai modo estupe- 
facta com esta ascensão, que se mergulhou em 
profundo silencio pelo espaço de um minuto, pouco 
mais ou nu-nos, silencio que foi inlerromjjido 
por um luido surdo e áspero, como aquelle (|ue 
allraiu a allenção do rei e dos scbs respeitáveis 
conselheiros, quando este atirou o vinho á cara 
de Castanheta. I*orcm, no caso presente, não ha- 
\ia que procurar donde partia o cslridoí; saio da 
bocca do anão, que rangia os dentes como um 
desesperado, e lançava dos olhos faíscas de raiva 
para o rei e os seus sele companheiros, cujos ros- 
tos estavam voltados para elle. 

— Ah! Ahl — disse cmlim o anão, furibundo, — 
ah', ah! i)rincii)io agoia me.smo a conhecel-os. 

Entã(j, sob |)retesto de examinar os mascarados 
demais pt-rto, chegou tanto o fogo á estojta que 
a inílainiiiou. Em menos de trinta segundos os oito 
(irangotangos ardiam, furiosamente, no meio dos 
gritos de uma multidão (jue os conlemj)lava cheia 
de horror e sem poder j)reslar-lhc o minimo soc- 
corro. 

Continuando as chammas a augmentar de vio- 
lência, vio-sç o anão obrigado a trepar mais alto 
p;ir;j licar-llus fora do alcance; e, em (luanto exe- 
( iilaNa esta niunobr;», a multidão rcciíiu, poj' um 
in-lante ainda, no siloncio. O bobo aj)rovcitando 
o ensejo tomou novamente a palavra. 

— .\i,'ora, disse elle, vejo, distinclamcnte, de 
que í'siicri(! são eslas mascaras. NCjo jiin grande 
rei e os seus sete conselliciíos pri\ados, um rei 
que não escrupulisa em bater numa crcança in- 
dcfeza e sele conselheiros que o animam na sua 
atrocidade. Quanto a mim, sou simplesmente líã- 
i*ulanle c esta é a minha ultima bobice I 



Graças á extrema combuslibilidado do linho e 
do alcatrão, ajienas o anão acabou de proferir es- 
tas palavras, estava a sua vingança satisfeita. Os 
oito cadáveres balouçavam-se na corrente — massa 
confusa, fétida, fuliginosa, repugnante. O anão 
atirou a tocha j)ara cima do grupo, trepou até ao 
tecto e desap|)areceu pela clara-boia. E claro que 
Castanheta, de sentinella no telhado, sérvio de 
cúmplice ao seu amigo n'esta vingança incendia- 
ria e que fugiram juntos para o seu paiz; por- 
que nunca mais ninguém os vio. 



PERES LORENZO 

(^cciins An Cniiipniilia do Illoxico) 

■ Por riMIEniO CIIAUAS. 

IV 

Passaram-se alguns diassem^que Perez Lorenzo 
reapparecesse. Andava inquieto com a demora o 
coronel Dupin, e aos que lhe perguntavam por- 
que motivo se não punha de novo a caminho a 
valente conlra-guerrilha respondia, se era mexi- 
cano o pergunlador, (|ue, se Annibal se deixara 
seduzir pelas delicias de Capua que se não po- 
dia dizer (jue fosseum paraiso, não admirava que 
elle coronel Dupin. sem ser Annibal, se deixasse 
caplivar pelas delicias de Medellin, (pie era o pa- 
raiso do kexico, do México que era o paraiso do 
mundo. 

Um dia um dos seus interlocutores, mexicano 
esperto que não via com muito bons olhos a pre- 
sença dos esliangeiros no seu paiz, observoú-lhe, 
sorrindo-se, que Annibal, antes de adormecer cm 
Capua, vencera eni Cannas. 

O mexicano era um rapasito dos seus dezoito 
ânuos, cuja casa o coronel Dupin fretpienlava muito, 
e a quem se alleiçoára jiarticularmente. 

— Deixe estar meu republicanosinho êchappé du 
collófjr, disse o coronel rindo c puxando-lhe ami- 
gavelmente uma orelha, deixe estar (|ue, se não 
tivemos a fortuna de Annibal, tauíbem não have- 
mos de ler o infoitunio d*elle. Diga ao seu amigo 
.luarcz que se por acaso se está pre|)arando |)ara 
ganhar a batalha de Zama, pôde mudar de ideia. 

— Bom! tornou o mexicanozito, rindo-se. .lua- 
rez éScipião. E (jue papel distribuo a Juan Pablo? 
O de Eabio Máximo? 

— Cunclalor, pois não ! Todos vocôà são uns 
heroes da antiga Roma. 

—Odiamos César, coronel, c ainda mais Au- 
gusto, relrocou o mexicano com um fogo sombrio 
no olhai'. 

— Odeiem, odeiem, tornou Dupin rindo-se do 
enlhusiasmo do juvenil republicano, mas diga-me, 
o pa))á e a mamã estão lioje resolvidos a darem 
uma chávena de chá a Varo? 

—Quem é Varo? 

--Sou cu, homem! Pois recusa-nie lambem esse 
lilulo? (ieneral infeliz (PAugusto, mais dia menos 
dia vejo as minhas legiões estiradas poi' ahi nos 
|)lainos mexicanos. 

— Olhe (pie a vontade é boa, tornou o mexicano 
rindo. 



o PANORAMA 



37 



— Mercês, meu joven amigo. 

— Mas, emquanto não se realisa o desejo, ve- 
nha Varo lomar chá, e venha hoje que lemos ter- 
lullia. 

— Eslá dilo, respondeu o coronel. 

E despedio-se do seu juvenil companheiro. 

— Coronel, grilou o moço mexicano depois de 
ler dado uns dez passos, Iraga os chefes das le- 
giões e principalmenle o magister eqimm Yiar- 
mont. 

— Todos iremos, respondeu o coronel dirigin- 
do-se para sua casa a passos vagarosos a íim de 
saborear a doçura e a placidez da tarde. 

N'essa mesma noile em casa de D. llamon (as- 
sim se chamava o mexicano) reunia-se a mais es- 
colhida sociedade de Medellin. D. Ramon era rico 
e as suas /er/í////aí gosavam de merecida fama. Ti- 
nha a sua casa um terraço todo plantado de ba- 
naneiras, larangeiras, e pimenteiras, forrado de 
baunilhas, e perfumado pelas mais opulentas ílo- 
les dos trópicos, e por esse fruclo, que da ílor 
tem o aroma, c que se chama ananaz. 

Para esse terraço fugiam os pares muitas vezes 
fatigados do redemoinhar das valsas, e os cara- 
mancheis e as laladas, se fossem indiscretas, po- 
diam repetir bastantes frases melodiosas de amor, 
que haviam sid© confiadas à larga folha das bana- 
neiras, ou á alva ílor das grinaldas de noivas, 
que o venlo desprendia manso e manso da ramada. 

Na noite em que introduzimos o leitor nas salas 
do opulento mexicano, eslava, como dissemos, 
animadíssima a tertullia. 

Os oíUciaes francezes, intrépidos valsadores, 
tinham arrancado as creoulas á sua habitual in- 
dolência. As morenas filhas dos trópicos haviara- 
se lembrado da sua origem hespanhola, e os seus 
languidos olhos incendera-os um reflexo do fogo 
andaluz. A musica derramava na atmosphera da 
sala a torrente vertiginosa das notas de uma valsa 
de Strauss. As arvores do terraço entornavam pe- 
las janellas abertas as suas uriías de perfumes. 
Tudo dizia amor, e nada recordava as scenas de 
guerra que se estavam a cada instante passando 
iressas campinas, que se viam do terraço, e que 
n'esse instante pareciam adormecidas debaixo do 
docel de veludo azul do seu esplendido firma- 
mento. 

Na sala próxima d'aquella onde se dançava, a 
mesa do jogo estava mais rodeada, do quê todas 
as rainhas de baile que agitavam garridamente os 
seus leques no salão. O jogo é a paixão dominante 
dos mexicanos, ou antes e a febre do paiz, a fe- 
bre do oiro, (jolden fcvcr, dizem os inglezes. E 
não era o modesto voltarete que desdobrava gra- 
vemente no panno verde as suas vasas disputadas, 
era o monte, o monte frenético e vertiginoso, o 
monte que fazia oscillar de jogador para jogador 
riquezas, que dariam o bem-eslar a dez famílias. 
O oiro escorria em fulgidas torrentes sobre o 
panqo verde da mesa. Os olhos negros, e brilhan- 
tes de esperança ou de raiva dos mexicanos se- 
guiam com anciedade o seu curso variável, que 
mudava de direcção a cada capricho das carias, i 



Entretanto o baile agitava as suas ondas graciosas 
de mulheres e de flores na sala principal. 

Os ofliciaes francezes, ou mais pobres ou de 
coração mais inflammavel do que os mexicanos, 
preferiam apertar a delicada cintura das creoulas 
a assistir, com a fronte aljofrada de suor frio, á 
fluctuação caprichosa de enormes âommas. Alguns 
jovens mexicanos viam, com desagrado, a interven- 
ção estrangeira passar dos negócios públicos aos 
namoros particulares. Elias... achavam que os 
francezes valsavam admiravelmente. Pouco se lhes 
dava dos desastres da pátria. Também as damas 
de Paris, depois da capitulação de Fonlainebleau, 
achavam os Prussianos des beaux valseurs, e de- 
pois de AYalerloo morriam pelos favoris blonds dos 
ofliciaes de>Yellinglon. 

Vivent nos amis 

Nos amis les ennemis! 

dizia, em nome d'ellas, Béranger. 

E o caso é que assim foi sempre. Não ha pa- 
triotismo feminil que resista a uma declaração de 
amor, nem espíritos de Cornélia que não entonte- 
çam com uma valsa. Emquanto a mim, Brites de 
Almeida nunca mereceu as attenções do mais re- 
les homem de armas do exercito castelhano, elza- 
bel Fernandes nunca pôde conseguir entrar no 
harém de Roume-Khan. 

Entre todos os valsadores, era o capitão Yiar- 
mont o que mais intrépido se mostrava; de lodos 
os galanteadores era elle o mais requebrado. Fa- 
zia a corte á mais formosa senhora do baile, me- 
xicana de tranças opulentas, e olhos de veludo, 
íilha dos donos* da casa, irmã d'esse joven repu- 
blicano que dava generosamente ao capitão Viar- 
mont o titulo da maf/isler eqimm por elle ler si- 
do nomeado, havia poucos dias, commandanle da 
cavallaria da contra-guerrilha. 

Findara uma poika, e a gentil mexicana (Do- 
lores se chamava ella) fôrarecoslar-sen'umsophá. 
Ameigava-lhe o fogo do olhar essa morbidez creoula 
que invencivelmenle se apossa das filhas d'esse 
paiz do sol; as paJpebras semi cerradas resguar- 
davam-ihe a luz ardente das pupillas. As faces 
morenas tingiam-se do rubor do cançaço. As li- 
nhas fleumosas do corpo revelavam, nas suaves 
ondulações, a elegância da hespanhola, e a gra- 
ciosa indolência que maior realce Ihedava. Era uma 
estatua, não uma d'essas estatuas produzidas pelo 
génio austero de Phidias, revelando a formosura 
grega em todo o esplendor da sua nobre correc- 
ção, mas uma das que o génio hellenicoproduzio, 
quando a decadência principiou, estatuas em que 
se sente já a lasciva inspiração oriental, em que a 
languidez do desenho e a moUeza das linhas, se 
dão ao mármore um voluptuoso encanto, roubam- 
Ihe a pureza e a correção nobre que immorlalisam 
os grandes modelos. 

As tranças negras flucluavam-lhe era opulentos 
cachos sobre os hombros nus, que os beijos de 
fogo do sol haviam coberto de uma leve côr mo- 
rena. O pesinho impaciente e quasi invisível balia 
dislrahidamenle o compasso da polka finda na es-' 
leira do salão. 



38 



O PANORAMA 



A mãosinha, perfeilamenle enluvada, agitava o 
loque ou antes a ventarola magnifica para cujas 
l)ennas haviam concorrido as mais esplendidas 
azas dos pássaros americanos. 

— Ksses instantes de isolamento, sr'\ D. Dolores, 
são um roubo que nos faz a nós todos e es- 
pecialmente a mim, disse o capilão Viarmont ap- 
pro\imando-se da gentil senhora. Por onde voa 
o seu pensamenlo?bhI quem me deracolhel-o nos 
ares com um beijo. Parece-mo que lhe prendi as 
azas. Dà-me licença que lhe diga o que o passari- 
nho me disse. 

—Diga, capilão, respondeu languidamente Do- 
lores redobrando de velocidade no menear do le- 
que, digal quero ver se é adivinho. 

— Sesoul Ahi vai o que o passarinho me disse 
que V.Ex." lhe tinha dito mansinho;((Acabei de pol- 
kar, sinto uma commoção deliciosa, mas que não 
hasla a salisfazer as aspirações insaciáveis da minha 
alma. Anceia ella por fragrâncias ignotas, por igno- 
tos esplendores, e as flores, (jue a minha mão co- 
lhe, não teeii o perfume que eu desejo, e as noites 
estrelladas da minha pátria não chovem o fulgor 
que me enleva. Essa flor desconhecida, essa des- 
conhecida eslrella não será por acaso o amor?» 
Aqui esláo que V.Kx." [dizia ao passarinho, que 
enviou depois a correr aventuras por esses ares. 

—Guapo adivinhol respondeu Dolores com uma 
voz melodiosa como o ciciar da brisa nos ramos 
da palmeira, morria de fome, capilão, sequizesse 
exercer o oflicio de feiliceiro. Sabe em que eu 
pensava? N'uma .sigadilla andaluza, que me licou 
honlem no ouvido. Pensava n'ella, c cantarolava-a 
em voz baixa. 

— Ouc lhe dizia eu! Sempre acertei! Uma si- 
f/ndido hespanhola, uma sigadida andaluza! Oh! 
bem conheço as pérfidas! Faliam de mil coi- 
sas, da loirada, do cifjarilo, da namja, e só 
uma coisa dizem — amori Amor, volupluosidade, 
requebros é o que ellas respiram, as maganas com 
a sua innocente desenvoUura! Senlc-se o olhar 
gaiato da cantora no acompanhamento, noharpejo, 
n'uma insignificante melodia, lia nas mais capri- 
chosas variações um echode castanholas, um doi- 
dejar de pésinhos no bolero, hdi o requebro, ha o 
amor. São como a serenata do I). Jnan de Mo- 
zart, acerca da (jual o meu compatriota Alfredo 
de Mussel escreveu os seguintes formosíssimos ver- 
sos: 

Te sonvipns-tn, Icclonr de cr-tle Pérénndc, 
Ouc Doii .luau di;giiis<; diante sous uii Jjalcon! 
Lric mcloíiíioliqiK; et iiileusc flian£(in, 
Hesjiirant la donleur, rnmour, cl la Iristesso 
Maia raccompagaeiíieul pariu d"uii. aulre Uju. 

E se as sifjadillas assim são na fria Europa, 
como o não serão transportadas para a America? 
.Não ha uma palavra só que a brisa d'eslas flores- 
tas não imf)iegno em ingnolos perfumes, não ha 
uma só nota, a que as vagas do mar das Anti- 
lhas não accrescentem uma languida melodia! Não 
pensava em am()r?e pensava em .sif/adil/as hespa- 
nhas, numa noite crestas, com o seio a arfar da 
agitação da poika, rodeada de nmsicas e (h; per- 
fumes, asj)irando pelos lábios vermelhos todas as 



desconhecidas sensualidades que expande esta na- 
tureza magica, este cálido paiz...! Ai, Dona Dolo- 
res, olhe que ha um provérbio na sua lingua que 
diz que é muito perigoso... 

— Muito perigoso o que? 

— Ju(/ar com fuego. 

— Jesusl que peccado que eu commetli, segundo 
vejo, tornou Dolores garridamente, devo dizel-o 
ao meu confessor? 

— Deos nos livre de tal. Confessou-m'o a mim, 
é quanto basta. Tenho plenos poderes e já lhe 
imponho a penitencia. 

— Que não seja muito severa, capitão. 

— Oh! sou indulgentíssimo. A síf/adi/la que ti-, 
nha no pensamento, e que em voz baixa cantava, 
ha de a cantar em voz alta. 

— Não posso, capilão, tornou Dolores vivamente, 
não a sei cantar e não conheço o acompanha- 
mento. Ficou-me hontem de a ouvir a uma rapa- 
riguita andaluza. 

— Eu me encarrego de a acompanhar, tornou o 
oíTicial francez,apanho a melodia nos primeiros com- 
passos, deixo-lhe a gloria toda do triumpho, se 
o houver, e, se houver fiasco ^ assumo eu só a res- 
ponsabilidade. 

— Veja o que diz, redarguiu a formosa mexi- 
cana erguendo-se, e encostando-se ao braço do ca- 
pitão. 

A languidez graciosa dos seus movimentos, a 
encantadora indolência com que foi revelando a 
pouco e pouco a riqueza do seu talho esplendido, 
o gesto infantil com que arredou da fronte as tran- 
ças opulentas do seu negro cabello, o modo como 
poisou o pésinho aéreo no sobrado, o abandono 
(\i o gallicismo) com que se encostou ao braço de 
Viarmont, tudo isto entontecia, innebria o jovcn 
ofíicial, que de bom grado sacrificaria a um sor- 
riso de Dolores o bastão de marechal de Fran;,;a, 
que tinha, como lodosos seus camaradas, em pers- 
pectiva. 

Assim que se annunciou na sala que Dolores 
ia canlar uma sigadilla, inlerromperam-se todas 
as conversações, e lodos os olhos se viraram para 
o lado do piano. Se ofliciaes francezes principal- 
mente tizeram roda, e o próprio coronel Dupin, 
apezar das graves preoccupações que o absorviam 
e que o obrigavam a cravar de vez em (juandoos 
olhos na poria, como se esperasse ver apparecer 
algíiem, approximou-se do piano, e prestou sor- 
rindo toda a sua atlenção ao canto andaluz, 

A voz de Dolores possuia não sei que vivacidade 
temperada poruma certa indolência, que davaum 
tom indelinivclmente voluptuoso ás notas que gor- 
geiava. A harmonia do canto acabou de entonte- 
cer Viarmont. O jovenoílicial, quando se levantou 
do piano, estava como -íiue ébrio de harmonias, 
de luz de, perfumes, de formosura e de volupluosi- 
dade. 

Os applausos soaram com cslrepilo de lodos 
os lados da sala, lodos os olflciaes francezes rodeia- 
ram a juvenil cantora, e enlearam emiorno d'ella 
um hymno suavissimo de lisonjas. Dolores, ver- 
melha de orgulho satisfeito e de confusão lambera, 



o PANORAMA 



39 



agradecia modestamento os louvores que lhe pro- 
digalisavam, e anciava por fugir ao seu trium- 
pho. 

Viarmont percebeu esse desejo, o aproveilou-se 
d'elle. OlTereceu o braço a Dolores, e propoz-lhe ir 
dar um passeio ao lerraço para respirar mais de- 
saíTronlada ao ar livre. A joveu mexicana accei- 
tou com alegria, e ambos, esquivando-se do grupo, 
sairam do salão. 

(Continua) 



UMA ARTE 1>ERDIDA 

Os sábios, ao examinarem essas gigantescas 
producções dos egypcios, lêem repetido muitas 
vezes: já (i/gumas artes eslão perdidnsl Mas se 
tivessem lançado um olhar pelo luxo, pela magni- 
ficência da mesa dos antigos, e comparassem o seu 
esplendor com a miséria de hoje, com quanta 
mais razão não teriam clamado: 

A arte de comer acha-se inteiramente perdida! 

EíTectivamente, o que são os nossos glotões á 
vista dos glotões romanos? Seria preciso recordar 
o rodovalho de Domiciano, os almoços de Maxi- 
miano aslinguas de papagaio de IIeliogabalo?Que 
immensa gloria a d'este imperador que ofTerecia 
metade do seu império por um molho novo! Que 
resolução a d'aquellc Apicis, de entregar-se a 
uma vida cujos únicos prazeres se limitavam ao 
dispêndio de alguns milhões para ter uma soffri- 
vel mesa! Veja-se a multidão de manjares que 
possuíam os antigos e o numero das refeições que 
tinham logar durante odia,7>/í/a í(liuit,prandiii,ni, 
merenda, ccenum, comessatio! Que faculdade di- 
gestiva deviam possuir os romanos!... 

Os homens teem, extraordinariamente, dege- 
nerado: a prova acha-se mais patente n'istodo que 
em todas as façanhas dos semi-deuses. Que de costu- 
mes caidos em desuso! que excellentes pratos perdi- 
dos! sem contar as viandas ordinárias, nas quaes se 
incluem os porcos assados, ventres de javali, ca- 
bras, doninhas, raposas, cobras e sobre tudo os 
pardaes, pavões reaes, os tordos de Lucullor cys- 
nes, porquinhos da Índia, alforrecase pão de rala! 
sombra de Trimalcião, chorai; chorai, sombra de 
Apicio! 

E com tudo, o que era a glolonia romana com- 
parada com a monstruosa gastronomia dos egyp- 
cios? Leia-se Plutarco: quinze foram os porcos as- 
sados para António e Cleópatra enxugarem o es- 
tômago, n'unia occasião em que tinham bebido 
dois ou Ires copinhos de agua antes de jantar. 
Leia-se Luciano: a terra, o mar, o céo fornece- 
ram os seus mais importantes productos para um 
jantar que a rainha do Egypto offereceu a César. 
Inda mais; Cleópatra apostando com António que 
era capaz de consummir n'uma só espécie de co- 
mida dois milhões de sestercios, íicou victoriosa; 
porque apresentou um petisquinhode pérolas que 
excedeu muito o valor da aposta! 

Na verdade, repelimos, a arle de comer está 
de lodo perdida! 



BEATRIZ 



Jacques linha perdido, liavia muilo, 

Seu velho pae, íidalgo dos mais nobres, 

Modelo de honradez, que lhe deixara 

Senão riqueza enorme, pelo menos, 

Muilo com que passar, vivendo á larga. 

Tinha trinla annos; quanlo ardor na vida 

Podemos ler, de cerlo é n'esle edade 

Que mais vivo & sentimos, escaldando 

O sangue e o coração; dava-se o caso 

Com o nosso heroe: Irinla annos linha apenas; 

Era genlil, loução, trigueiro um pouco, 

Negro o cabelló, olhar que embriagava, 

Leve sorriso lhe adejava languido 

Nos lábios finos, lábios que tremiam 

Á menor commoção; em quanto a espirito, 

Era vivo, sarcasúco, volúvel. 

Borboleta fugaz, que errante andava 

Buscando o sol, e as rosas entre-aberlas, 

Onde libasse o mel no doce calixl 

Por tanto é de suppor que as aventuras 

Não faltassem jamais, que cem donzellas, 

Das mais lindas, lhe andassem como presas 

Ao seduclor olhar; penso até mesmo 

Que, se a lua não fosse tam discreta 

Como todos o sabem, contaria 

Quantas vezes o vio galgando o muro 

D'algum jardim de Armida, que deixasse 

O thóro conjuga], e manso e manso i iwíiA 

Descesse ao parque, a dar-lhe amor e vida,»' ■ ■i» 

Em transportes de jubilo fervente! 

Isto são presumpções, eu não aíTirmo 

Cousas de pouca 'monta, e muilo menos 

Estas, que vão bater mesmo de chapa 

Na sacra honestidade das famílias; 

Mas lambem se a leitora não permitte 

Que eu Iraga estes capítulos a lume, 

Então feche o romance, antes que o pejo, , 

E mesmo a indignação lhe core as faces. 

O que passo a contar é simplesmente 
Uma historia de amor, da qual c Jacques 
O principal heroe; verei se posso. 
.\menisar o conto, e desbraval-o 
De certas asperesas que se encontram 
Aqui e alli no texto primitivo. 
Oh, não temaii por mim! — a minha musa 
É das de mais pudor que se tem visto; 
Jamais roçou de leve as azas brancas. 
Que o ceô lhe deu, nos lodaçaes immundos 
De infames polluções; voa-nie* em torno, 
Sorri d'estas loucuras innocenles 
Da vida mundanal, conta-me tudo, 
Inspira-se de um beijo que murmura 
Entre as ramas do bosque immaranhado, 
Mas foge a medo, a pomba espavorida, 
Mal que o rudo bolicio das torpezas 
Lhe fere, acaso, os virginaes ouvidos! 

VI 

Jacques era visita, e das mais intimas. 
Do conde... (occulto o nome porque entendo 
Que o pede a discrição), basta que saibam 
Que o conde era casado co'a mais linda 
E mais genlil mulher que eu tenho visto. 
Chamava-se Beatriz, contava apenas 
Vinte ou vinle e dois annos, quando muito. 
A trança loura, a face desmaiada, 
Pensati*va no oíhar, túrgido o seio, 
Languido o porte, a voz meiga e sonora 
Como os chilros de amor da toutinegra. 
Quando súbito a cor lhe illumÍDava 



lÕ 



o PANORAMA 



o pallido semblante, refulgia 

Não sei que luz do coo n"aquclles olhos 

Quasi sempre — iuda mal,— como escoiuiidos 

Na carregada sombra das pestanas. 

Era o Ivpo ideal dessa belleza 

Que a monte esboça apenas, se d<^lira 

Km namorados sonhos de poeta. 

O conde amava-a co'o fervor ardente 

De um nobre coração; o mundo inteiro 

5esumia-se alli, n'áquplla pomba 

Que arrulliava ao sou Indo, e que entre beijos 

l.he pagava extremosa tanto alToclo. 

Oh. como os anjos bemdiziam lodos 

Aquella santa paz, doce harmonia 

Em que dois corações, pulsando juntos, 

Se perdiam no céô, como o |)erfunie 

Que ondôa e sobe a Deos no fim da larde! 

Não pensem que exagero, descrevendo 

D'esta maneira a rara formosura 

Da condessa, nem mesmo no que digo 

A respeito da límpida existência 

Que passavam no mundo os dois esposos. 

Aflirmo o que aventei, como mais tarde 

liei de allirmar lambem.... basta não digo, 

Não quero accelerar o desenlace, 

Nem roubar a leitora alguns instantes. 

De pasmo e agitação, que, sem vaidade, 

Ha de por força ler nesta leitura. 

VII 

Amor lu és o esphinge, o ser divino 
Que inda ninguém na terra comprehendeu; 
O teu semblante e meigo e peregrino, 
Mas lens garras de tigre, que o sei eu! 

Quem se inieva no magico sorriso 
Que a lace te illumina de esplendor. 
Quando em leu seio encontra o paraíso. 
Sente que lhe entra n^alma a eterna dor. 

V Nas caricias subtis cora que embriagas, 
O veneno mortal coberto vera: 
A pérola gentil que sai das vagas, 
iSegro limo do fundo Iraz lambem. 

Mas tu és sempre bello; enabora um dia 
Nos rasgues fibra a fibra o coração. 
Tens segredos de encanto e de alegria 
Onde se perde em jubilo a razão. 

Que importa o mundo? -lúgubre deserto, 
Onde se Naga, á loa, a suspirar, 
E onde, somente apoz o errar incerto. 
Vamos na morto a fronte descançarl... 

Tudo é sombra em redor, tudo é tristeza, 
Nem siquer um botão [iromelle flor. 
Negra saudade envolve a natureza... - 
E tudo canta e brilha á luz do amor. 

Chovem do sol os raios matutinos, 
Heluz do orvalho o límpido crjstal, 
(iorgèam pelo campo os pequeninos, 
E as tenras avesinnas peto vai. 

S6be o perfume cm ondas Iransparenles, 
Da montanha, da balsa, o do vergel; 
As abelhas, zumbindo, vão contentes 
l'or entre as rosas procurando mel. 

E tudo á tua voz, alma infinita. 

Que vens no mundo e em lodos palpitar: 

Inteira a criação febril se agita 

Mal que um raio dos teus vô .scinlillar! 



Amor, lu és o esphinge, o ser divino 
Que inda ninguém na terra comprehendeu; 
lens doce o olhar, o rosto peregrino,.... 
Oh, mas garras de tigre, que o sei eu!— 



(Continua. 



E. A. Vidal. 



DUAS MÃES 

Ao sr, Thoiiiax Itibciro. 

por occasião do fiillecimcnlo de sna cxrollentc mãe 

Uma, quando não podes inda ve! a, 
os olhos te descerra á luz do dia; 
(ratlectos se opulenta, e se disveía 
em ser no mundo leu celeste guia. 

A outra, fronte cândida singella, 
ante o lilho dilecto se extasia, 
os segredos do génio te revela, 
c 1'cmbala cm torrentes d'harmonia. 

Uma, sumindo o .seu fulgor d'eslreUa, 

dos anjos busca a doce companhia, 

que d'enlre os anjos Deus chamou por ella. 

A oulra não te deixa noite e dia 
—séculos durará, mas sempre bella... 
Uma era Amália, a oulra c...a Poesia. 

Vizeu, outubro de Gj. 

Candibo Figueiredo. 



O uso DA PALAVRA 

Dizia Taileirand: A palavra foi dada ao homem 
pai'a que elle possa exprimir os seus pensamentos. 
Nós, porém, diremos, que ella lhe foi concedida, 
unicamente, para saber apreciar as vantagens do si- 
lencio. 



A MORTE E O SEU MINISTRO 

Quiz a morte escolher um ministro excellente : 

Peste, Febre, Asma e Gola acodem de repente: 

«INão, a morte lhes diz, toda a minha esperança 

Fundo-a só na— Intemperança.» 



Quid non mortalia pcctora cogis 

Auri sacra fameè? 

Virgílio. 

Execranda sede de ouro! que de crimes não 
inspiras aos morlaes? 



Parece que a natureza que, tão sabiamente, dis- 
poz os órgãos do nosso corpo para tornar-nos fe- 
lizes, nos deu Inmbem o orgulho para poupar-nos 
a dòr de conhecermos as nossas imperfeições. 

La Rochkfolcauld. 



Typ. Franco-Porlugueza. = Iluado Tlicsouro Vellio, C. 



o PANORAMA 




4^ 



O PANORAMA 



A IGREJA DE SAINT-MAGLOU 

O Mfelo XVI foi para a architectura uma época 
detraSBíção, em que os artistas, abandonando, pouco 
a pouco,* o eslylogothico, voltaram ás tradições da 
arte grega^ £is porque se dá a esta revolução o 
nome dereiiíJscoiça. A imaginação dos artistas 
começava a cançar. As esculpturasmais vari?idas, 
as formas mais^ fantásticas, mais caprichosas, ti- 
nham-se excessivamente m.ultiplicado, echegara-se 
a esse ponto em que o espirito, fatigado das des- 
cobertas passadas, experimenta a impotência de 
innovar, e a necessidade do descanço. A archite- 
ctura grega foi o refugio dos artistas. Guiados pelos 
grandes modelos da antiguidade, conduzidos a 
princípios seguros, invariáveis e consagrados pelos 
séculos, senliram-scmais àsua vontade e enlrega- 
ram-se com ardor a um género esquecido durante 
muito tempo e que lhes ofterecia lodos os atra- 
ctivos da novidade. O seu zelo reanimou-se; 
o seu enlhustasmo retomou toda a sua liberda- 
de. Por isso, na maior parte dos njonumen- 
tos d'aquelle século, encontram-se uma vida, 
um calor, que é mui raro achar nas obras de imi- 
tação, e que em vão se procurariam nas cdnslruc- 
çõos posteriores. Um dos mais eloquentes escrip- 
tores franc^es, Iral^ndo da renascença das artes, 
diz: c(A architectura do século XYI passou, dos bri- 
lhantes arrojos do estylo gothico, às bellezas clássicas 
da renascença, lilha engenhosa da antiguidade, cujas 
risonhas graças rivalisam muitas vezes com as de 
sua mãe. -o 

Entretanto, a transição não se fez rapidamente. 
O capitel corinthio ou dorico não desthronou logo 
a ogiva; houve no principio uma espécie de fusão 
dos dois géneros, e não é raro encontrar nos mo- 
numentos d'esta época os recortes, os entalhos e 
os ílorões gothicos, unidos e ínlremgiados cora as 
folhas do acantho, os Iriglyphos, modilhões e to- 
dos esses ornamentos tão puros e symelricos dos 
monumentos da Grécia. 

Entre asconstmicções queapresenlatn eslemixto 
de architectura e que por esse titulo são dignas 
de toda a atten^ão (los artistas e dos historiadores, 
citaremos, particularmente, a magnifica igreja de 
Saint-.Maclou,^ em Iluão, de cuja perspectiva do 
lado do Xorte* damos hoje o desenho. Ainda que 
situada em uma das cidades de Franca, talvez a 
mais fértil em -nwjnumentos curiosos, esta igreja 
pôde sustentar, sem desvantageraj-a comparação com 
ladas as que a rodeiam. 

Saiiit-Maclou é notável pelo tamanho, pela bel- 
la porporção no seu lodo im|)onente e pelo sedu- 
clorencai]to (pie oílííieccm Iodas as suas miude- 
zas. As menoix's esculpturas sãode uma perfeição 
incrivel. Admiram-se sobre tudo as portas, de um 
trabalho ao mesmo tempo rico c delicado, que 
mereceram a honra de serem attribuidas ao celebic 
João (joujon. 

Mas o (pie está acima de lodos os elogios, para 
o que não existem expressões, é o eíTeilo, de al- 
guma sorte magico, da soberba escada que con- 
duz ao orgain, E impossivel existir alguma cousa 



que se possa comparar com aquelle luxo de orna- 
mentos, desenhados e esculpturados com um apuro 
e arte incomprehensiveis! 



OS PHILO-PORTUGUEZES. 

POR INNOCENGIO F. DA SILVA. 
III 

O terceiro logar n'esta serie dos apaixonados da 
litteratura portugueza (isto é, dos nossos bolorentos 
clássicos, a nos servirmos da phrase adoptada pe- 
los ponlillces do moderno culto da Jdeia-JJeus, ou 
do Deus-Ideia (V pertence a Carlos Sluart. 

Nascera este distincto diplomata em Buthe, 
ilha da Escócia, a 2 de janeiro de 1779; e de- 
pois de prestar ao seu paiz importantíssimos ser- 
viços, pelos quaes mereceu ser elevado ao parialo 
com o titulo de Lord Stuart de Rothesay, fallcceu 
cumulado de honras e condecorações a 6 de no- 
vembro de 18íl>. • 

Vindo para Lisboa pouco depois de realisada a 
expulsão do exercito francez em 1808, com o ca- 
racter de ministro brilannico acreditado junto á Re- 
gência do reino, participou com ella dos actos e 
resoluções governamentaes nos annos que se se- 
guiram, tomando assento entre os seus membros 
com voto deliberativo, que devia ser principalmente 
atlendido em todos os assumptos de guerra e fazen- 
da. Assim o determinara do Rio de Janeiro a su- 
prema potestade do então príncipe regente ! Este 
mesmo, quando reinante com o nome de D. João 
VI, o escolheu para seu plenipotenciário no Brazil, 
commettendo-lhe o cargo de negociar eassignar em 
seu nome o tratado de 29 de*agoslo de 182J3,pelo 
qual íicou deíinitivamenle sanccionada a separa- 
ção, e reconhecida a independência do império. O 
desempenho d'esta missão foi-lhe remunerado, em 
22 de novembro do mesmo anno com o titulo de 
conde de Machieo. A coníiança do pai, succedeu 
a do filho D. Pedro IV, que fazendo-o portador 
da carta constitucional decretada em 29 de abril de 
182G, creava para elle no 1." de maio immecfiato 
o titulo de Marquez de Angra. 

Apontamos singelamente estes factos, csem com- 
mento alguni* Ouaesquer considerações politicas 
(jue elles possam suscittr nada lêem que ver com 
o nosso intento. 

Foi Lord Stuart homem notavelmente instruído, 
e mui versado na litteratura antiga e moderna, 
conhecendo e faltando todas as linguas cultas da 
Eurojja. Amava com excesso os livros, ena leitura 
(Telles consumia a maior parte do tempo que lhe 
sobrava do exercício das funcções diplomáticas, em 
que andou constantemente empregaílo; com (juanto 
de preferencia se dedicasse á lição dos históricos, 
por mais adeíjuados e úteis á sua profissão. 

ISo período (hísua primeira residência (mi Por- 
tugal deu-se ao estudolla nossa lingua : è lalalTei- 
(;ão Ijie ins|)iraram os nossos cscri||lorcs antigos, 
que não poupou cuidados nem dinheiro para ad- 
quirir as obras impressas mais notáveis por preço 

(•) Vcja-se a eiiigraiilie das cOdus modernas'). 



o PANORAMA 



43 



e raridade, e para haver copia dos manuscriptos 
mais imporlanies de nossos archivos e livrarias. 
Reuniu uma collecção, completa quanto era pos- 
sível, das actas ou capítulos de nossas antigas cor- 
tes, e fez copiar o Canceionciro original dito do 
Collegio dos Nobres, que mais tarde, em 1823,estan- 
por embaixador em Paris, fez imprimir n'aquella 
cidade com o [úulo-.aFragmeíitos de hum Cancioneiro 
inédito, que se acha na livraria do Real Collegio dos 
Nobres de Lisboa. Impresso ^'i cusia de Carlos Sluart, 
sacio da Real Academia de Lisboa. Em Paris, no Paço 
de Sua Magestade Britannica. M. DCCC . XXI 11. 
Edição de que apenas se tirou um pequeno nu- 
mero de exemplares, destinados exclusivamente 
para presentes (*), e da qual resultou tornar-se 
Conhecido e celebre na Europa um monumento, cuja 
existência era totalmente ignorada. Adquiriu pelo 
mesmo tempo um exemplar do Cancioneiro geral 
(impresso) de Garcia de Resende; porém mui dam- 
nillcado, e até falto de folhas. O zeloso bibliophilo 
fez copiar com toda a exactidão as que faltavam; 
e imprimindo-as, passados annos, em Londres, 
em caracteres eguaes aos da obra, conseguiu res- 
taurar um exemplar mutilado, tornando-o com- 
pleto e perfeito. 

Finalmente, os que levados da curiosidade pre- 
tenderem a descripção minuciosa de todas as pre- 
ciosidades que n'esfe género conseguira accumular 
em sua vasta e rica bibliotheca o illustrado diplo- 
mata, podem recorrer ao livro estampado em Lon- 
dres, 18oo(annoem queveiua realisar-sea venda 
da livraria) cujo titulo é: Catalogue of the valua- 
ble Library of the late Right Ilonorable Lord 
Stuart de Rothesay... collected during many years 
residence as British Ambassador at lhe Courts of 
Lisbon, Madrid, the Ilague, Paris, Vienna, St. 
Petersburg, and Brazil. — E um volume, que em 
324 pag. no formato de 8. "grande contêm 4323 arti- 
gos, encerrando estes correspondentemente muitos 
milhares de volumes. 

(Conlimui.) 



ADYERTENCL\ 

. No trecho d'este art-igo inserto no n." 3, pag. 
22 e 23, cumpre fazer as seguintes correcções: Na 
pag. 22, linha Li, /}e/o anno:\iidi-s<i pelos annos. — 
Na pag. 23 linha 2, com Anahjse: léa-se com a 
Analgse: c na linha 18, eccessiveis, lêa-se acces- 
siveis. 

A PASCIÍOA DOS HEBREUS 

A festa da Paschoa, Pessah, entre os hebreus, 
na actualidade, começa no dia quinze do mez de 
Nisan, Abril, dia era que seus pais sairam do 
Eg\pto, edura, para os que vivem na Terra Santa 
sele dias, e oito. para os que habitam nos outros 
paizesdo globo. O sabbado que precede a paschoa 
denomina-se o grande sabbado; n'este dia o rabi 
de cada synagoga faz uma pratica explicando aos 

(t) Pôde ver-se acerca desta edição c do Cancioneiro um artigo 
inserto no Panorama de 1842, pag. 406; e o Dirrionario liiblio- 
ijraphico Portugue:., tomo II pag. dl7, com os demais artigos que 
ahi mesmo se apontam. 



seus correligiosos as regras que teeni a observar 
nas vésperas da festa. Durante a paschoa, os he- 
breus não podem comer senão pão asmo e devem 
ter todo o cuidado de que em suas casas não 
exista fermento de qualidade alguma. Para esse 
lim, no dia treze, os chefes de familia procedera 
a um exame minucioso em suas habitações, etodo 
o fermento que encontram meltem-n'o em um 
vaso, que durante a noite é cuidadosamente guar- 
dado, e nodia seguinte queimado com toda asolem- 
nidade. O serviço de mesa e utensílios de cosi- 
nha de uso quotidiano teem de ser substituídos 
por novos ou por outros que hajam sido guardados 
de um a festa para outra. Tudo se purifica; até as 
próprias mezas de cosinha, cadeiras, prateleiras 
são lavadas, primeiro cora agua quente e cinza e 
depois com agua fria. 

Terminada a puriíicação, passam a tratar do 
fabrico da bolacha sem fermento, para substituir o 
pão ordinário. A farinha é amassada pouco tempo 
antes de cozedura, afim de evitar a ferraenlação. 
Estas bolachas são ordinariamente redondas, del- 
gadas e crivadas de buraquinhos; na sua com- 
posição só entram farinha e agua; mas alguns he- 
breus abastados costumam ajuntar-lhes ovos e assa- 
car. Não lhes é permitido usar de licores de grão 
durante toda esta epocha; só devem beber agua 
ou vinho por elles fabricado. No dia quatorze, o 
primogénito de cada familia é obi'igado a jejuar, 
em memoria "dos primeiros israelitas que cairam 
em poder dos primeiros Egypcios. Na tarde d'es- 
se mesmo dia, os homens junlara-se na syna- 
goga alim de, com suas orações, se prepararem 
para a festa, e durante este tempo as mulheres em 
casa occupam-se em dispor as mezas para o ban- 
quete solemne. 

Tudo o que ha de melhor no trato domestico 
apparece n'esta occasião. Sobre um prato collocam 
um quarto de cordeiro assado e um ovo; sobre 
outro três bolachas embrulhadas em guardanapos; 
e.sobre um terceiro alface eaipo. Junto d'estasher- 
vas põem um copo com vinagre, e outro com sal 
e agua. Vè-se também um bolo, o qual é desti- 
nado a representar os tijolos que os seus antepas- 
sados eram obrigados a fazer no Egypto; é com- 
posto de maçãs, amêndoas, avelãs, iigos, romãs, 
vinho e canella. 

Disposta a mesa, como acima dissemos, assen- 
ta-se toda a familia em roda e começa uma espé- 
cie de ceremonia. O dono da casa pronuncia uma 
benção sobre a mesa em geral e o vinho em par- 
ticular; depois procurando um ar nobre, jiyorque 
ha a intenção de representar a liberdade que re- 
cuperaram seus pais saindo do Egypto, bebe 
uma porção de vinho, e. este exemplo é se- 
guido pelo resto da familia. Então cada (jual mo- 
lha uma porção das hervasno vinagre ecome-as, 
em quanto ochefe pronuncia uma segunda ben- 
ção. Em seguida, desdobra os três guardanapos 
que estão no prato, toma a bolacha que se contem no 
do centro, parle-a em duas, e colloca um despe- 
daces entre as duas bolachas inteiras, escondendo o 
ouiro debaixo da toalha; esta ceremonia é uma 



44 



O PANORAMA 



allusão, dizem olles. a esla circiim?;lancia refe- 
rida por Moisés (Exod. XII. 3í.; (h Israel is- 
lãs tomaram a sua massa antes de ser descoberta, 
efufjiram, levando-a escondida debaixo dos seus res- 
tidos. Pejiois o chefe da família lira o cordeiro e 
o ovo de cima da mesa, e reiíniiulo-se todos os 
assislcnles para segurarem no pralo (juc conlcm 
as boiaclias, dizem juntos: 

«Eis aíjiii o pão da poijresa e da alllicção, (|ue 
nossos pais comeram no Egypfo; que todo o (jue 
tem fome venba e coma; (juc todo o que n(?ces- 
sila entre e coma do cordeií-o pascoal. Esto anno 
eslamos aqui; no |)roximo fiiiuro, se íòr da vontade 
de Doos, cslarcmos na (erra de Clianaan. Esle anno 
somos servos; se Deos o pormilir, seremos livres 
cm pouco.» 

O cordeiío e o ovo são novamente collocados 
sobie a mesa. e o pi-ato (jue continha as bolachas 
o (irado alim de obrigar as crianças a pergunta- 
rem o que significa esla fesla; se as não ha, uma 
pessoa da família faz esla |)ergunla sob uma fórrati 
regular. Eíu resposta conla-se o capliveiro, a es- 
cravidão do |.ovo de Israel no Egyplo, a sua re- 
dempção jior Moisés e a insliluição da paschoa 
jtor esla occasião. Esla narração é segiiida de al- 
guns psalmos, ehymnoscanladospoi toda a família. 
Depois as bolaclias sendo noyamcnle collocadas 
sobre a Inci^a dislribuem-se em pequenos bocados 
j)or lodos os commensaes em lugar do cordeiro 
pascoal que se comia nNniíro tempo. Os hebreus 
dão por molivo d'esla mudança, (|ue não é exe- 
cutar a lei o comer o cordeiro fora do paiz de 
Chanaan en'uma terra estrangeira não sanlííicada. 
Ema ceia abundante segite-se a esla ceremonia.a 
(jual se ie|,cle, pouco mais ou menos, na segunda 
tarde. Os dois j)rinieíros diase os dois últimos são 
celebrados com grande solemnidade e pompa nas 
synagogas; os hebreus n'estes quatro dias abslem-se 
do trabalho, tão severamente, como no. sabbado. 
Os (jualro dias ínlerniedíaríos não são observados 
com laiilo rigor. O ultimo dia termina por uma 
ceremonia bhamada Ilabdala, fluranle aqualo dono 
da casa, tendo na mão um copo cheio de ^inho, 
lepcle muitos cai)ilulos da escriplura, bebe uma 
porção do licor e passa o copo aoreslo'dos assis- 
lcnles que lhe seguem o exemplo. 



A PONTE DE lUALTO EM VENEZA 

Veneza, esse grande empório do commercio do 
mundí», essa soI)crba Cidade, com tania justiça, 
cDgnoniiuada a rainha <lo Adriático, celebre |)elo 
esplendor e maiíuificencia, (|ue ostentou no deci- 
mo (juinlo século, como j)elo esforço e ousadia de 
seus hahilantes; Veneza, a'dominadora de jjovos 
t nações, h deposito geral de Iodas as riquezas do 
Oriente, de quem o no<<o inimíla\el jioela Luiz 
de Camões, disse: 

A s(>l)orli;i Veneza o&l.i no meio 

D.'i8 ;if{ti''.s ; qiKí Ião Iftiix.i coinccon 

I).'i tfrra uni lirnço voin ;io rnar, (|ue clicio 

UVsforçn, nncôe.s 'variíis snjcitou, 

Hr.nço forle ifc gente subliiiiíidíi, 

^ ■' : '■::';.'! no.s engenhos que na espad". 



Veneza, em fim, que chegou a occupar o ma- 
gno sólio do poder e da opulência; apezar da sua 
(jueda, sorte que espera sempre quem muito se 
eleva, é ainda objecto de grande admiração para 
o estrangeiro, que a \isila. 

Não, porque la encontre hoje o grande commeicio, 
o pasmoso luxo e costumes de outras eras: negoci- 
antes de Iodas as nações do mundo, arménios, gre- 
gos, índios, judeus, turcos, ele, patenteando aos 
olhog do publico osíinissimos tecidos deCachemi- 
ra, os diamantes de Uolconda, as pérolas da Pér- 
sia, as especiarias de Ceilão; os lilhos de Veneza 
com os seus trajes de seda bordada a ouro, e as 
bellas occultando seus formosos rostos com masca- 
ras de velludo prelo; mas, pelo maravilhoso (jua- 
dro que llie olferece, cujos traços, os maisinsignili- 
canles, são dignos de Ioda a altenção. 

A cidade de Veneza eslá situada no meio de um 
grande lago na extremidade seplentríonal do gol- 
fo Adriático, e a duas legoas do continente. Sa- 
nazzaro, comparando Roma e Veneza, diz que se a 
primeira é obra dos homens a segunda deve ser 
allribuida aos deoses. E na verdade, Veneza parece 
sair do seio das aguas, com os seusmagnilicos tem- 
plos, soberbos palácios, cupolas, columnas, arcos, 
torres, ludo notável pela sua grandeza e variedade 
dearchitecluia. Está dividida em cento e vinte ilho- 
tas separadas por uma inlinidade de canaes e uni- 
das entre si por quatrocentas e oito pontes, quasi 
'lod?s construídas sem symetria. O canal chamado// 
canalazzo, ou grande canal, semelhante a uma ar- 
téria principal á qual allluem todas as ramilicações 
secundarias, divide a cidade era duas parles, se- 
guindo uma direcção que lhe dá a ligura de um S. 
Esle canal, cujo comprimento regula j)or dois mil 
e seis centos passos venezianos e quarenta de lar- 
gura, é a vida de Veneza, é o seu coração; é alli 
que todos concorrem para admirarem as mais raras 
obras de archíleclura. A esquerda da Piazzeta, 
onde elle começa, eleva-se a alfandega edilicio tão 
solido como magnilico, c maravilhosamente adap- 
tado ao logar que occupa. Depois \ê-se a rica e 
magestosa igreja de Saneia Maria delia Salule, 
ediíicada com grande disj)eudio para cumprimen- 
to do voto feito pela republica na occasião da 
peste de 1G30, que roubou a vida a mais de ([ua- 
renla mil indivíduos. Ao lado d'este templo iiota-se 
um outro edilicio, construído em 1(170, que de 
1818 em diante tem servido de seminário. 

A direita do canal enconlram-seos j)alaciosEini, 
Coiner delia Ca (Irande e Cavalli e na margem es- 
(juerda, em frente doestes, o grande palácio Dário, 
incrustados de íino mainiore, os palácios Vencir, 
Augarani e a aca<lemia das IJellas Artes. As |)ín- 
luras que exislfin n'cste edilicio, (piasi todas da es- 
cola veii(>ziana, foram' execuladas j)elos seus me- 
lhores meslies. A collecção d'esivs ijuadros c de 
um valor ('xlraor(l»nario,e interessa, no mais subido 
grão, aos amadores. 

Conltnuaiido a percorrer o.grande canal, encon- 
traiii-se os palácios Contarim Dagli Sgiigní, llczzo- 
nico, .Mor(»-Eiii, Cíuslinianí, Toscari, Haibi, Coiila- 
rini,Moiicenigo, risani, iJarbarigo, CornerSjiiiirlIi, 



o PANORAMA 




45 



ianuscri|)tos,elc; La- 
lem excellenles qua- 
dra do soculo XVI 




46 



O PANORAMA 



obras gregas e romanas; e erafim, o palácio Cor- 
niani tl'Algarolli, em cuja bibliolheca se acham Io- 
das as prodiicções Ihoalraes representadas desde 
1630, época doeslabelecimenlo do primeiro tliea- 
tro n'a(juella cidade, alé aos nossos dias. 

Veneza, como acima dissemos, possue quatro- 
centas e oito pontes, grandes e pequenas, mas a 
principal, a mais digna de menção, é a de Riallo, 
cuja persj)Ccti,Ya se aciía representada na nossa gra- 
vura. Esta ponte, collocada sobre o grande canal, 
única que serve de communicação entre os dois 
principaes grupos de ilhas que formam a cidade, 
e uma das "mais primorosas obras de archilectura 
do século \V1. Compõe-se de um só arco cuja lar- 
guií tem 00 pes e a altura 20, contando do nível 
da agua à parte inferior da abobada; è correm so- 
bre ella três ruas estreitas, sendo a do centro guar- 
necida de uma arcada elegante, em cujo meio se 
eleva um pórtico de forte e magestosa eslructura. 
A construcção desta ponte, uma das mais solidas 
que se conhecem, é devida ao grande architeclo 
António Ponli, que a concluiu em 1388, sob o go- 
verno do doge Pascoal Cicogna.Nos prósperos dias 
da republica, a ponte de Rialto, de todos os lu- 
gares de Veneza o mais concorrido, offerecia ura 
espectáculo surpreendente; duas ordens de magni- 
licos estabelecimentos, nos quaes se viam as mais 
raras e soberbas j)roducções da natureza e do arte- 
facto, bordavam a galeria do centro; alli se encon- 
travam os negociantes judeos, gregos, turcos, ctc, 
trajes e costumes dos povos mais distantes da Eu- 
ropa, e da Ásia, os orgulhosos filhos de Yeneza 
ricamente vestidos, as altivas bellezas disfarçadas, 
emlim, tudo quanto havia de mais nobre e opulen- 
to n'aquella republica. 

N'uma cidade, como esta de que estamos tra- 
tando, que foi uma verdadeira conquista sobre o 
mar, os fundadores obrigados a seguir as irregu- 
laridades do solo, não poderam estabelecoruma certa 
ordem, e sobretudo construir ruas largas e espaço- 
sas, como se vêem nas cidades de terra lirme. A 
sinuosidade, pois, das ruas, ou para melhor di- 
zer, dos canaes (jue formam a cidade, dá-lhe um 
aspecto inteiramente particujar e único. Em Yene- 
za não ha carroagens;^ alli, as ruas são canaes; os 
carros, barcos; as carruagens, gôndolas. Estas são 
deveras {)ara admirar. Nada mais simples do que 
a sua forma. O comprimento regula por trinta pés; 
tem pouco míiis ou mencvi quatro de largura no 
nifio, e formam nas extremidades duas pontas 
agudas e elevadas. Na proa vè-se um ferro, com 
a forma de serra, de sorte (jue na rapidez da sua 
carreíia,*ameàça cortar tudo (jue*se lhe oppõe. 

No meio lenrèima camará coberta, com suas vi- 
draças e cortinas. A gôndola ó pintada de preto 
interior e exteriormente, o que lhe dá um tal ou 
qual aspecXíJ triste. O que é sobre tudo muito pa- 
ra admirar é a agilidade c destreza com que os 
gondoleiros dirigem o seu 'ligeiro barco; passíim 
uns pelos outros, criízam-se e evitam-se com tal 
ligeireza, (jue os (estrangeiros que não estão accos- 
lumados a este espectáculo, experimentam um sen- 
ti mento de receio. 



PEREZ LORENZO 

(SccnoN fia Cnnipnuha do México) 

Por PINHEIRO CHAGAS. 

Y 

Brilhava a lua no firmamento d'utn azul purís- 
simo. As llores do terraço baloiçavam a sabor da 
brisa as suas urnas de aromas, e perfumavam a 
atmosj>hera com as suas balsâmicas .exhalações. 
As ruas de Medellin estavam desertas, e o fulgor 
do astro nocturno banhava as fachadas brancas das 
casas silenciosas. 

A hora, o socego, as excitações d'uma vegeta- 
ção luxuriante, a molle frescura da almosphera, 
tudo convidava a fallar d'amor; as harmonias 
dulcíssimas da natureza pareciam o preludio d'ura 
canto namorado. 

Estava o pensamento de Viarmonl a cem lé- 
guas das pelejas, da gloria, do sangue e do fumo 
da artilheria. N'esse instante nem poderia dizer 
se viera ao México erigir o throno do imperador 
Maximiliano, se defender a republica de Juarez. 
O que sabia era que, republicano ou imperialista, 
levava encostada ao seu braço tremulo a mais for- 
mosa flor dos jardins do sol. 

— Dolores, dizia elle em voz tão baixa que pa- 
recia um murmúrio, sentemo-nos aqui. Esqueça 
por um instante o baile e as suas loucas alegrias, 
e pense um momento no amor e nas suas incfTa- 
veis felicidades. Yeja ! a baunilha, vergando ao 
doce peso do seu corpo, enche-a de inebriante 
perfume; a lua, resvalando silenciosa no ceu, bei- 
ja-lhe a face formosíssima com os seus raios de 
prata, e desenha-lhe no rosto a expressão suavís- 
sima da mais namorada languidez. A Diana, a 
fria Diana phantasiada pelos antigos, deixou-se 
abrasar pelas chammas d'esle clima, e sente os 
ardores de Vénus. Não resista só, Dolores, ao doce 
iníluxo que impera em tudo que nos rodeia, que 
faz com que gema o colibri Ião doces cânticos 
poisado na corolla das flores... 

E mil outras lonlerias apaixonadas, que DoloVes 
ouvia enlevada. A mão tremente, correspondia a 
pouco e pouco ao brando a|i«rto das mãos do jo- 
ven ofTicial ; a cabeça reclinava-se-lhe para Iraz, 
o os olhos diziam já o que ainda não diziam os lá- 
bios em que o joven ollicial ia colher com um 
primeiro Ijeijo a doce conlissão... quando súbito 
ergue-se um vulto deanle dos dois, e uma voz gra- 
ve murmurou estas palavras : 

— Senhor capitão, preciso de lhe fallar. 

O capitão eriçueu-sc furioso. Dolores deu um 
grito, c murmurou depois : 

— O Senhor Perez Eourezo ! 

— Eu mesmo, minha senhora, respondeu o rc- 
cem-vindo gravemente, eu (jue a V. Ex." e a este 
senhor |)eço desculpa de lhes ter interrompido a 
conversação, Ajas precisa Vxi immenso de poder con- 
ví^rsar em particular com (|ualquer dos senhores 
odiciaes, e íialiieia hora (|U(; tslou no baile, ainda 
não pude encontiar-me a sós còm nenhum d'elles. 
Vi-osdirigiiem-se para a(|ui, e aproveitei o ensejo, 
es|)erando da discripção da Ex.""' Sr."" De Dolores 
o maior segredo acerca (reste encontro. 



o PANORAMA 



47 



— De certo, senhor Perez Lorenzo, mas... tor- 
nou ella embaraçada. 

— Nada tema ; versará a nossa conversação so- 
bre pontos de serviço, juro-lh'o. Jura-me também 
Y. Ex." guardar o segredo que lhe pedi? 

— Juro. 

— Queiram pois voltar á sala ; aqui espero o 
senhor capitão Yiarmont. 

O capitão, dando mostras visíveis de mau hu- 
mor, deu o braço a Dolores e acompanhou-a até 
ao sophá. Depois, voltando de sobr'olho franzido, 
veio ter com Perez Lorenzo e disse-lhe: 

— Meu caro, mando-o cordealmente para o in- 
ferno. Que me quer? Creia que estava muito lon- 
ge de pensar na sua pouco sympathica pessoa, 
e que os sonhos em que me embebia distavam 
bastante de certas recordações de dependura que 
a sua presença me aviva. Não o esperava n'esta 
casa; sempre julguei que os morcegos tinham me- 
do do clarão do baile. 

— Basta de palavras frívolas, e de injurias mais 
frívolas ainda, tornou Perez Lorenzo com voz 
grave, a hora é solemne e impõe-nos deveres a to- 
dos. Faça calar os seus despeitos de criança na- 
morada, senhor capitão, e lembre-se que é militar, 
e que é francez. Volte á sala, procure sem alTecta- 
ção o coronel Dupin, diga-lhe que esteve comigo, 
que não ha tempo a perder, que faça sair todos os 
seus ofíiciaes de modo que se não faça reparada a 
sua saída. Lá os espero no quartel. Prudência e 
discripção. 

E o mexicano desappareceu. Yiarmont fitou ura 
instante os olhos na baunilha junto da qual estivera 
com Dolores, e soltou um suspiro. Depois entrou 
na sala, e dando o braço ao coronel Dupin, pas- 
seiando com elle naturalmente, disse-lhe algumas 
palavras em voz baixa. 

D'ahi a instantes os oíTiciaes francezes iam-se 
esquivando a um e um com a maior cautella pos- 
sível, e dirigiam-se a toda a pressa para o quartel 
dos contra-guerrilhas. 

Absorvidos pela febre do jogo ou das valsas, 
cuja melodia fascinadora jorrava da brchestra em 
notas tumultuosas, não repararam os convidados 
na saida dos officiaes"francezes. 

Só Dolores mostrou alguma inquietação, mas 
nada disse, fiel ao seu juramento. Depois a volú- 
vel mexicana, em dois ou três giros de valsa com 
um seu joven e elegante compatriota, esqueceu a 
sua preoccupação momentânea, e o homem que a 
motivara. A nuvem fugio rápida, como as nuvens 
do seu pátrio céo,e nos lábios vermelhos fluctuou 
de novo o sorriso da mocidade e do prazer. 

(Continua) 



São peiores os homens que os corvos. O triste 
que foi á forca, não o comem os corvos senão 
depois de executado e morto ; e o que anda em 
juizo, ainda não está executado nem sentenciado, 
e já está comido. 

Antomo Vieira. 



JOAQUIM JOSÉ DOMINGUES LIMA 

O nome, que serve de epigraphe a este artigo, 
não pertence nem a um litterato celebre pelos seus 
escriptos, nem a um guerreiro illustre pelos seus 
feitos de armas. Éo de um simples caixeiro por- 
tuguez, do Maranhão, que, não se distinguindo 
por nenhum d'aquelles predicados, possue com- 
tudo um outro de não somenos valia : — O amor 
do próximo no mais subido e apurado gráo. 

Bem que de um género mui diverso dos do in- 
trépido Joaquim Lopes, os serviços pelo sr. Lima 
prestados á humanidade merecem, como os d'aquel- 
íe, as bênçãos de todos os corações generosos e 
bemfazejos. 

Se um, com' arrojo e valentia sobrenaturaes, 
explie a própria vida para salvar a do infeliz, a quem 
a mais terrível das mortes ja se antolhava certa 
no medonho revolver das vagas ; outro, com uma 
dedicação talvez sem exemplo, vae de porta era 
poria implorar o óbolo da caridade para distri- 
l3uir depois pelos indigentes e engeitados da sorte, 
qualquer que seja a classe, ou a nacionalidade a 
que pertençam. 

Ambos, portanto, embora por diversa senda, 
se encaminhara para o mesmo fim. 

A par dos progressos e luzes do presente século 
caminha indubitavelmente aimmoralidade e a cor- 
rupção, com todo o seu cortejo de misérias ; mas 
pede a verdade que também se diga, para honra 
da presente geração, que nunca a caridade se os- 
tentou em todas as suas variadas formas, tão bella 
e radiante, como nos nossos dias. 

As associações de beneficência forraigam ; os 
asylos de mendicidade mulliplicam-se, e, a par 
de' tão bellas instituições, apparecem ainda homens 
como Joaquim Lopes e Joaquim Lima, que espon- 
taneamente, e só obedecendo aos seus instinctos 
philantropicos, se dedicam exclusivamente a ser- 
vir a humanidade. Limitando-nos a faltar unica- 
mente do sr. Lima, não procuraremos enumerar 
todos os seus actos de philantropia, porque sendo 
elles tão numerosos, como os dias, que aquelle 
benemérito portuguez conta de existência, seria 
necesssario um livro de largas dimensões para os 
conter. 

O misero escravo, o naufrago, a viuva sem ar- 
rimo, o orphão sem abrigo, o enfermo sem am- 
paro, o mendigo, emfim, todos os que precisam 
de soccorro e protecção, encontram soccorro e pro- 
tecção no sr. Lima. 

Citaremos, pois, apenas alguns dos s^s benéfi- 
cos actos, que se acham registrados no consulado 
portuguez do Maranhão, e que merecidamente lhe 
alcançaram o grau de cavalleiro da ordem de (abris- 
te, com que o honrou o sr. D. Pedro V, e o di- 
ploma de sócio honorário da Real Sociedade IIu- 
nianilaria, d'esta cidade, que espontaneamente lh'o 
conferiu. 

• Tendo naufragado na costa do Maranhão abarca 
portugueza «Linda,» e ficando a sua tripulação, 
que pela maior parte se compunha de homens ca- 
sados, e com filhos, reduzida á maior miséria, por 



48 



O PANORAMA 



ter perdido, com os objectos que levava para ven- 
der, lodos os seus escassíssimos haveres, osr. Lima 
proraoveu logo era favor d'aque!ies infelizes uma 
subscripção, que produziu um conto e quinhentos 
mil réis fracos, os quaes entregou ao nosso côn- 
sul alli para lhes serem, como eíTcctivamente fo- 
ram, d i st ri bui d os. 

O capitão do brigue-escuna brasileiro «Graciosa» 
João José de Sousa, brasileiro adoptivo, e .portu- 
tuguez de nascimento, foi barbaramente assassi- 
nado por um negro marinheiro a. bordo do mesmo 
navio, e deixou mulher e íilhos menores no maior 
abandono emiseria.Acudiu-lhes. |)orem, osr. Lima, 
promovendo immediatamente uma outra subscri- 
pção, que rendeu mais de três contos, com ps(|uaes 
lhes comprou uma casinha para se abrigarei^, e 
algumas acções de um estabelecimonto bancário. 

(Conclue) 



PALLIDA MOPiS. 

Imagem lúcida, vestal de encanto, 
involvc-me nas dobras do teu jiianlo! 

Murchae ; podeis murchar da terra ó ílores, 

iJe variegadas cures! 
Não sei que valliam folhas, viço e aroma 
Que ao sol expiram quan(lo o" sol dcscae, 
bo seio encantos, explendor da coma 
Se, a noule. ao vento, cada dom se esvae?! 
A minlia lloV que os dons, perpetua, encerra 
Não é d'esics jardins! Flores da terra 

Podeis murchar ; murchae ! 

ÍTarmonias cessae ! Parli-vos lyras 

Que o sois, e sois mentiras! 

Que sois hymnos, no templo, ao Deus eterno 

Depois das salas cantos sem calor, 

Coros de lupanar, gritos do inferno. 

Trovas de orgia, e queixas de uma dor! 

De vós descreio já, descrer profundo! 

Que eu sei de uma liarmonia de além-mundo 
Que é so e sempre amor 1 

Visões, sumi-vos, que debuxa c cria 

A douda phantasia ! 
Lúbricas fadas, festivaes bacchantes, 
1'hantasmas do prazer, que a febre dá, 
Beijos de foiro, lábios palpitantes, 
Graciosas sombras, que vos quero eu já?! 
Fugi, visões, passae ! Foge, chymera ! 
Que eu só n'um anjo espero que me espera 

Da tumba para la! 

Nos vaivéns da procella desabrida * 

Do turvo mar da vida, 
Lá quando o nauta da aidielada praia 
.Se adasta pelas rochas a bater, 
Ou (piaiido, ii'um momentí^, lhe desmaia 
O plinrdT (|ue nas trevas crera vc^r, 
K o desalento apoz vem da esperança ; 
Só é j)rain fiel, luz (pie não cança 

A ideia de morrer ! 
» 
Fabrique o orgulho os thronos, sonhe a gloria. 

Depois invente a historia ! 
Monumentos sem fim erga a vaidade, 
l{las|)lieme, 1'romotheu, ou chore, .lob, , 

Ao erro ajuste a palma da verdade, 
F'm quanto jul^M Í)eos, rasleje o pó; 
Ao fniclo da silencia iieb.i o sumo; 
Que tudo despiirece como fumo, 

E resta a morle só! 



A morle! a doce, a perfumada ideia 

Por que minha alma anceia! 
Alli onde ouiros vêem só matéria 
E o cadáver no leito sepulchral. 
Vejo eu a apparição, vivaz elherea, 
De gesto encantador, voz divinal. 
Que com um braço o passo nos conforta, 
E com o outro nos rasga em frente a porta 
Da existência immortall 

A morle! aquella a que sagrei meu culto, 

Que a Deos não c insulto! 
A (|ue de frágil barro á terra avara 
Atira o corpo vil, mas a potção, 
Que (loulra essência dimanou* prepara 
i'ara entrar n"oulra cxplendida mansão; 
A que os laços estale em que me empeço, 
A que, de vida lim, ainda é começo 
E de vida rasão! 

A morte, sim, a cândida lembrança, 

A pomba da alliança, 
A que é so verdadeira, e saiiicta, e jusla, 
Que a nenhum foge, que nenhum maldiz, 
Que ao triste a quem a vida pesa e custa 
ÍNão dá mais dos afagos seus gentis 
Do que ao louco, ao altivo potentado, 
Que a nega ou a receia, ao desgraçado 

Que se julga feliz! 

Archanjo pensativo, clara estrella, 
Como eu te creio bella 1 
Pallida morte! pallidez suave, 
Transparência subtil, mimo dos céus, 
Transumplo, symbolo, padrão, e chave 
Do (]ue se passa alem-terrenos véus, 
Do que é sereno e grande, eterno aspecto 
Da placidez augusta do archilecto 

Dos mundos, seus trophéosl 

Eu amo as rosas brancas que lu pisas, 

E as formas indecisas 
Do teu vago perfil; disco de lyrios 
Em que, perenne, brilhas no arrebol, 
E a i)urpura só dos meus delírios 
Tcn impollulo, alvíssimo lençol! 
Por ti a minha fé se ateia, e" lavra. 
Por ti, da alma a suprema e sã palavra, 

O supremo chrysoll 

Que os que tremem de vèr-tc face a face. 

Nem te querem o enlace, 
Te pintem dcspiedada, foice em punho, 
Esquii4ida (f senil, de olhar cruel; 
Que para mim, (|ue só lamento o cunho 
De horror cpic fimprimio falso cinzel. 
Es vivida e louçã, bálsamo, essência. 
Ou flor de immoredoura recendencia, 
E do mais puro meti 

Por isso que n'um dia breve, breve, 
Em (|ue «o longe e de leve 
() antegoso pedir de um teu mysicrio 
Á viração que um sopro leu julgar, 
Á rama" do cypreste, ao cemitério, 
Ou á discreta solidão do mar, 
Possa eu ceder a fronte ao somno amigo, 
E dos sonhos (|uc houver, por li, comligo, 
Nu leu seio acordar ! 

Imagem lúcida, vcslal de encanto, 
involvc-mc nas dobras do teu manlo! 



12 Ue janeiro ilc l8G<i 



Ernesto Marecos. 



I .Typ. Fratift)-l'orliiKUCZa. - lUia ilo Tlcsouro Velho, 6. 



I 



o PANORAMA 



49 




A BANANEIRA 

Das vaiMas espécies em que se divide a famí- 
lia das Musaceas,- a Bananeira c a. mais im- 
portante. Este vegetal não é uma arvore, como 
geralmente se julga na Europa, mas sim uma plan- 
ta herbácea, vividoura unicamente pelas suas go- 
meleiras, ecujo tronco morre logo que dá o fruto. 
A sua vegetação oííerece a maior analogia com a 
das Lilaceas. Uma vagem carnuda semelhante a 
uma cebola de planta, espalha raizes fibrosas pela 
parte inferior efoltas pela superior. Estas folhas, 
de dous a três metros de comprimento e de um, 
pouco mais ou menos, de largura,, sueccdem-sc ra- 
pidamente, e os seus pcciolos persistentes, que se 
envaginam uns nos outros, formam, em seccando, 
uma espécie de tronco que attinge a altura de 
3 a o metros. O fruto que d'elle sáe é um «dos 
mais úteis que se encontram nos trópicos. Duas 
espécies sobretudo, ^Bananeira de frnfa longa ou 
Bananeira do Paraíso (Musa paradtsiacaj e a 



Figueira ou Bananeira dos sabias (Musa mpieir 
liiuit) fornecem aos habilíyites dos paizes onde 
são cultivadas uma parle do seu Imbiluaí susten- 
to. As fruías da Bananeira do P<iraiso, chama- 
das Bananas, são um pouco arqueadas, lêem o 
comprimento de 12 a 15 cenlimelros, e encon- 
tram -se algumas vezes em numero de cem e mais 
no mesmo cacho. Coihem-as um pouco anles de 
amadurecerem, e se bom que a sua carne molle 
seja de sabor mui doce e agradável, raras ve- 
zes as comem cruas ; cozem-as no forno ou de- 
baixo de cinza, o que, realmente, as torna um 
alimento muilissimo assucarado nutritivo e de fá- 
cil digestão. A Banana qurla, ou Figó-Banana, 
pelo contrario, come-se sempre crua. A carne 
d'esla é delicada, molle, fresca, excellente. As ba- 
nanas verdes encerram muita fécula; maduras, 
disputam o lugar á Canna pela grande abundân- 
cia de assucar que conteom. 

Para conserval-as, cortam-as em talhadas del- 
gadas e poem-asa scccar. Outros ralam-as, cosera- 



ÕO 



o PANORAMA 



as à maneira de mandioca, econverlem-as d'esle 
modo om farinha, de que depois fazem paf>a. 

As liananciías planiam-se, ordinariamenle, em 
lo^^ares frescos e sombrios; ós renovos são coUoca- 
dos dous ou três melros dislanles uns dos oulros. 
V.-àih heclomelro quadrado |)ro(liiz* lermo médio, 
2(100 kiloiírammas de--bananas; oiiiíe fornece uma 
collieila mais considerável ^mu mateíjia milriliva 
que nenhuma outra planta cuUrvada. () frumenlo, 
em uma extensSo igual, j^ão dá mais que lo kilo- 
irrammas de írrão, o a balata produz em pezo 43 
vezes meno5 do que a bananeira. Entre as outras 
espécies da meímaf^nilia. ciíaremos ainda a /ií/- 
nanoira da China {}fum sinensis^ , qéie, talvez, não 
passe de uniahrariedadc da J/«.s7í saj*/Qntinm. Não 
excede dois melros de altura e produz nas nos- 
sas estufas um píiaueno fruto, mas cxceTlente. Em 
muitos paizes, osTiabilanles cobi'em as casas com 
as gran-des folhas da J/í'.* paradisíaca e da Musa 
sai)ii')iliiiiii e, fambem d'ellas se servem para fa- 
bi-icar cordaii tecidos, cestos e muitas outras obras 
d "arte. _^_ 

A C.ílAVrRA EM MADEIRA EM PORTUGAL 

Por NOGUEIKA DA SJiVA. 

A gravura em madeira pasceu entre nós com o 
Panorawu, e %i seu primeiro cultor Bordalo Pi- 
nTieii'o, aiiista èem cdlhecido pelas suas obras de 
esculptura e gcnio emprehondedor. 

Não são ft muito relevo para a apreciação ab- 
soluta os ensaios publicados n'aquelle jornal; po- 
rem, á luz da historia da nossa arte, sobresaem 
pelo prandeji mérito da iniciativa, que c, ci^i Iodas 
as cousas, a chave do piogresso. 

Sem meslie, nem livro da especialidade, porque 
não o havia então; tendo de adivinhar b systema 
e os meios práticos pelo que, apenas, a sua in- 
telligencia ^)odia l6r na simples observação das 
gravuras estrangeiras, Bordalo* 'fez mais do (jue 
seria rasoavel exigir. As suas tentativas, postoque 
ettremamenie longe das estampas áoMaf/asin Pil- 
/0/T.S7///P, sobre cujo molde se publicava o Panora- 
ma, nãoparecem os prelúdios de uma arte que, na 
presença de tã(fadveisas circumstancias,* póde-se di- 
zer, apparecia entre nós, como se não existisse em 
parle alguma. 

E í^ie, á semelhança de Alberto Durer, IJorda- 
lo Pinheiro, voando nas azas do seii engenho, rom- 
pia por si só o veu (|ue em l*ortugal occultava, nas 



trevas de uma completa ignorância, os segredos 
do mais dillicil género de gravura. 

Mas esto iriMmplio, sullicienle para glorificar o 
nome de um homem n'um paiz em (|ue se soubesse 
o que era art.^, e quaes as suas iniluenciasnos pro- 
gressos pliysicos, moraeí a religiosos das socie- 
dades, não bastou ao artista, (|ue jjictendia alcan- 
çar as gravuras estrangeiras no avanço em que já 
iam então. 

Vendo, pela experiência, (|uc do estudo de de- 
senho especial dependia o aperfeiçoamento da gra- 
vura wi madeiía, resolveu entiegar-se todo a es- 
sa parlicularida(h\. eonliado nas boas disposições 



que tinha descoberto em Baptista Coelho, a quem 
tomou por discípulo e em breve habilitou para 
substitui-lo e auxilia-lo no patriótico empenlio. 

Pena foi, porém, que este expediente, aliás pro- 
duclivo, não fertilisasse tanto quanto havia rasoa- 
velmente a esperar. 

Doixando-se atterrar na presumpção exagerada 
de certos obstáculos, o artista escolheu um géne- 
ro que, pela sua extrema facilidade e detestável 
menotoifia, paraJysava a acção variada, graciosa 
e, por vezes, inicial em que deve e'xercilar-se e 
ameslraV-se o bnril. Com o intento, mal funda- 
do, de facilitar o ensino, desenhava tudo a traço 
parallelo, e o novo gravador, habituando-se a es- 
te trabalho mediqcre e viciado, não poude dar á 
arte aquelle impulso' que uma vocação regular, 
coftio a de Coelho, teria de certo imprimido, se 
o mestre, menos medroso e míiis severo para com 
a commodidade do disci|íulo, o houvesse obrigado 
a encarar sem receio, nem susto* toda a cathegoria 
de ditUculdades. ,*, 

Depois, a estas circumstancias v(;io juntar-se a 
morte, hoje por dugs tezes reconhecida apparen- 
le,^do jornal. Bordalo Piflheiro*achou inesperada- 
mente um dia cortaíío o lio das suas esperanças, 
e olhava inc|:edulo para o illustre tinido, que, pe- 
la violeílcia e fatal brevidade da agonia, não tive- 
ra tempo i)ara dotar a arte nacional, no valioso 
testamento que deixava, com titulo superior ás hon- 
ras modestas de uma auspigo^a apresentação. 

Todavia, se lhe naufragou o i^lento em tão co- 
fiioso diluvio d^ fal.alidades, ficou-llie de pé a glo- 
ria, immarcescivel de ha#er dado ao terreno, (|ue 
o seu esforço patriótico amanhava, as dimensões 
precisas j)ara, mais. tarde, oulros poderem levan- 
tar, em mohmnenlos eloquentes, a realisação de 
suas aspii'ações. • 

JOAQUIM JOSÉ DOMINGUES LIMA 

Reinando no interi^or da j)rovincia da Bahia 
uma fome horrível, á qual succumbiram centenares 
de pessoas, foi ainda « sr. Lima em auxilio dos 
infelizes habitantes d'aquettes remotos sertões, an- 
gariando-lhes uma subscripção, qne produziu um 
conto e sessenta e cinco mil réis. acção pela qual 
foi merecidamente louvado pelo governo e imprensa 
do Brazil. 

Como membio das commissões nomeadas pelo 
consulado portuguez para promoverem subsci"ip- 
ções em favor dos habitantes de Cabo-Verde, lam- 
bem llagellados pela fome, e dos asylos (fe infân- 
cia desvalida, de Portugal, ninguém mais do que 
elle se esforçou para qike a jwinuMra produzisse 
dois contos e oito centos mil i'éis, e a segunda 
dois contos duienlos e noventa e Ires mil (|ui- 
nhenlos réis. 

Egual esforço empregou para se levarem a ef- 
feilo as magnificas exéquias, que no Maranhão se 
celvbraram pelo eterno descanço da virluosa Bai- 
nha, a sr. I). Maria 2.', e do chorado Bei, o sr. 
I). Pedro V, lambem como membro das commis- 
sões para esse fim nomeadas. K lendo um dos so- 



o l»ANOUAMA 



51 



cios fundadores da Sociedade portugueza de bene- 
liceiíciâ, denominada — Humanitária 1." de de- 
zembro — Sociedade, que se dedica exclusivamente 
osporluguezesa soccorrer desvalido», e que, n'este 
sentido, lem prestado grandes serviços, ninguém 
mais do que o sr. Lima se tem empenhado pelo 
seu engrandecimento c prosperidade. 

Finalmente, são tão numerosos, cumo dissemos, 
os actos de philantroj)ia praticados por*a(|ucile 
generoso portuguez, que fião podemos, sem tomar 
grande espaço a esta interessante i)ublicação, dar 
noticia de todos elles' aos i^ossos leitores, pois 
ainda não lia muito, grassando no Maranhão, com 
lerrivel intensidade, a epidemia das bexigas, nma 
carta, qued'8lli temos á vista nos pinta o sr. Lima 
andando de casa em casa, ou antes de mansarda 
era mansarda, a prestar toda a casta de soccorros 
aos infelizes aLacado^s (♦'aquella lerrivel moléstia. 

Sirva, porem, o que temos dito para dar idéa 
dos sentimentos humanitários, » coração caritativo 
do nosso benememto compatriota, e para que o 
seu nome seja senipra lembrado com respeito e 
veneração entre os d'aquelles, que mais se distin- 
guem por acções generosas, verdadeira philantro- 
pia e caridade evangeiiea. 

Nasceu- o sr. Lima em Lisboa a 8 de agosto de 
181Í, sendo lilho do negociante José Domingues 
Lima, e 1). Joaquina Rosa do 'Livramento Lima, 
ambos já lallecidos. 

Foi para o Maranhão e!nl827,e alli lem exer- 
cido sempi'ea prolisSão de caixeiro, servindo como 
tal na casa do negociante inglez, Henrique Sea- 
son, ha trinta annos. • ** 

Pouco auibicioso de adquirir bens da foriuna, 
vive modestamente do seu parco ordenado, que 
ainda frequenlesi vezes dizima em favor dos indi- 
gentes, pois é em soccorrel-os que consiste todo 
o seu prazer.*' 

Paga também a educação e serve de pai a uma 
interessante menina [fbandonatla, cuja historia ro- 
mântica -não cabe ms limites d'este pequeno ar- 



tigo. 



J. IL d'Oliveira Samos. 



preambulo a]udar-me do seu costumado estilo, era 
(|uerer louvar as excellencias de V. A.co\iio elles 
fazem aos senhores a quem suas ohi-as endereção, 
que farei? sendo certô (|ue, ainda que fosse cm* mi 
só a sua oratória tão facunda como em todos elles 
e me fosse tiasjiassado o espirito de David, não 
presumiria escrever de V A. a miiiima iiarle ilesua 
iwagnilica bondade, de sua noblissima condição, 
de sua discreta mansidade, do perfeito" zôlo* da 
sua justiça, da sua paz, da sut gueria, da sua gra- 
ça, gravidade, conselho, sabedoria, iiharalidàde, 
pindencia, e linalmenle do seu chrisliani*simo lir- 
mamento. Outro si querendo navegar pela rola do 
seu exórdio d'elles, pedindo a V.A. favor e era- 
paro paw que minha enferma escrij)luia não seja 
ferida das linguas damnosas ; parecc-me injusta 
oração pedir tão alto esteio para tão baixo ediiiciO; 
([uanto mafÇ> que, ainda que digno fora de tão no- 
bvQ emparo, tenho considerado que Christo lilho 
de Deos sob emparo do poderio eternal dfe Padre, 
e lodos seus bemavenlurados Sanctos, não passa- 
rão por esta vida tão livres, que dos malditos de- 
tractores não fossem julgadas siftis divinas obras 
por humanas leviandades, sua saneia doutrina por 
máxima ignofancia, sua manifesta bondade por 
falsa malTcia. sua sanctissima graça i)or sorreticio 
engano, sua excelça abstineocia, por vil hypocrisi«, 
sua celeste pobreza por terreno vicio. Pois rústico 
peregrino de mi, (juc espero eu.' Livro meu, (fue es- 
peras tu ! Porem te rogo que (juando o ignorante 
malicioso te reprender que lhe digas: se meu mestre 
aqui estivera, tu calaras. Finalmente que por escu- 
sar estas batalhas e por oulros*respeitos, estava 
sem^iroposilo de im])rimii- minhas obras, se V.A. 
mo não mandara, não por serein dignas -de tão 
esclarecida lembiança, mas V. A.- haNlíMa respeito 
a serem muitas d'elias de de.vação e a serviço de 
Deos endereçadas, e não quiz que se perdessem 
como quer que cousa virtuosa*, |M)r pctjuena (|ue 
seja não lhe liça j)or fazer. Por cujo serviço traba- 
lhei á copillação (relias com muila pena de níinha 
velhice e g'oria» lie minha vontade, cpie foisanpre 
mais desejosa de servir a V. A que cubiçosa de 
outro nenhum descanso. 



EPISTOLA DEI^CATORLV 

de f>il-Vicrii(e a D. Joiío III 

Os livros das obras que escriptas vi, Sereníssi- 
mo Senlior, assi em metro, como em prosa, são 
Ião llorecidas»de scientes^ matérias,, de graciosas 
invenções, de dóceis eloquências e elegâncias, que 
temendo' a pobreza de meu engenho, porque na- 
ceo e vive sem ^)ossuiJ• nenhua destas, deteuni- 
na\a leixar minhas misérrimas obras por impri- 
mir, porque os antigos e modernos não dei\árão 
cousa boa por (jizçr, nem invenção linda por achar, 
nem graça por descujjrir. Assi q^e para passar 
seguro da, pena- que minha ignorância padecer 
não escusa, me fora fermosa guarida não dizer se- 
não o que elles disserão, ^inda que eu ticásse co- 
mo eco. nos valles, que falia o que dizem sem sa- 
ber o que di-z. Porem querende eu no presente 



FABl LA DE JOSÉ MARÍH DA COSTA E SILVA 

o lii|>i«lario c o «liaiuautf 

Um'lapidario ignorante , 

Um diamante ^ * 

Comprou; 

Ténue cabello lhe achou; 

Mas no niíiis era excellente 

Por grandeZíi, e |)oi- fultíor. 

Para' til ar-lhe o defeito 

Com todo o geilo 

Limava; . ^ 

Fundamente o lapidava. 

E a grandeza cerceando, 

Diminuiu-lhe o valor. 



52 



O PANORAMA 



Ohl quantos, quantos, authores, 
Eiuendadores 
. Eu vi,. 

Que rhscando aqui, p alli, 
Çoin \ãs correçOes tiravam . 
Ás obras lodo o vigor. 



Considerai a multidão o a lirandeza dos mnlos 
que oppriíiiem as cveanças, e quão cheios de vai- 
dade. ([[' Sí^lVinuMUos, de ^Ilusões, de sustos, são 
os primejrtv^ aniios da sua vida;, depois qupdo 
adultos, e (juando mesmo principiam a servir a 
Deos, tentam-os o erro para seduzii-os, o traba- 
lho c a dòr para enfiaquecel-os, a imiontencia 
jiara inllaaiimal-os, a tristeza ])araabatel-os, o or- 
giilho para eleval-os; e (|uem poderia rei)resenlai', 
em poucas palavi-as, tantas penas diversas quejjc- 
sam sobre, os lilhos de AdSo? A evidencia 
d"estas jniserias tem forrado os philosophos j)a- 
gãos, que não sabiam, nem acreditavam no pec- 
cado do nosso j)ijmeiro jiai, a dizer que nós não 
tínhamos nascitte senão para sollrer os castigos 
que merecer^nos por alguns crimes commcttidos 
em uma outra vida, e que por isso ae nossas almas 
ha\iam sido unidas a coipos corruptitcis, pelo 
iijesmo género de supplicio (juc os tyrannos da 
Toscana íaziam s^flrer aos enles vivos ligando-os 
a corpos mortos. 

Esta opinião, poiém, (|ue as almas são juntas 
aos corpos ein castigo das laltas precedentes de uma 
outra vida, e rejeilat^i jielo ajioslolo. Oue secon- 
clue, pois, senã<t (|ue a causa d't^leS|fnales liorri- 
veis seja, ou a injustiça, ou a impotência de ^)eo5', 
ou o castigo doyriuíciro peccadodo homem? Mas, 
poiqiie Doi)s não é nem injusto, nem impotente, 
outiik coisa se conclue que não (|uereis reconhecei', 
mas que e necessário (jiie a reconheçais; e vem 
d ser, que o jujo Ião pesado (|ue os lilhos de Adão 
são obrigados asupportar desde ([ue saem dovcn- 
tre^e sua mãi ale que entram no §eio da sua 
raãi €ommum, íjue c a terra, não o leria sido, se 
o não houxfssem merecido pelo crime (jue liram 
da sua origem. Samo Agostinuo. 



IKIGARTll 



Por PI.MlEmO CHAGAS. 



A caiicatura. (|uando è um j)amj)hlelo desenha- 
do lem um instanlcde voga, e morre com as pai- 
xões que lhe deram origem. Esse desabafo chis- 
toso da veia satyrica de um pintor, quasi sem- 
pre [)r()voca apenas o riso dosçonlcmpoiancos, e 
não tem o minimo interesse aos olhos da posteri- 
dade. Ha apezar 4'is.so um hoTiiem notável. (|ue só 
caricaturisla foi, cujas graN uras hão de viver eter- 
namente, admiradas, apreciadas por todos, e já de- 
ram ao seu aucloi' nina reputação que os seus 
trabalhos de pintura seria nunca lhe {)0(leriam as- 
segurar. 

É porque a íarça morre, ma.s a comedia fica ; 
é porque o pamphleto desfolha-se ao vento das 



paixões-, que o inspiraram, mas a salyra, quando 
a traça mão de mestre, atlronta impávida as vicis- 
situdes do tempo.' É porque o pamphleto verbera 
este, ou aqueile homem, cuja nome até muitas 
vezes se apagada memoria das gerações, e a salyra 
dos mcslres fustigando derelanceasuaviclima, as- 
senta o látego no homem que tem sempre os mes- 
mos ridículos, os mesmos vicios, as mesmas pai- 
xões. O TartulTo assentava o chicote nas coslasde não 
sei já que prelado frantez, mas ainda hoje zurze 
ini|)la('avel a numerosa família dos hypocritas; a 
Vcna de Talião verl^erava José .\gostinho de Ma- 
cedo, mas não ha um só verso d'essa admirável 
salyra que jião estale magnilicamenle no dorso 
da innumeravel prole litteraria do frade verseja- 
dor. 

As caricaturas do celebre pintor inglez, cujo 
retrato apresentamos hoj# aos leili^res úo Pano- 
rama, possuem esse dom preciosíssimo da sa- 
lyra. A phylosoplíia galhofeira dessas bellas gra- 
vuras não e só applioavel ao século \VllI,e a se- 
rie que se intitula aCasammlo da moda» é de cir- 
cunstancia cm lodos os tempos. Aá dillerenles se- 
ijics das gravuras de llogarlh, consliluera como 
os albums de Gavarni (laienlo que é da mes- 
ma familia, (jue o do cai'icalurista inglez) ver- 
dadeiros romances á l|alzg,c, romances onde 
o phylosopho colhe uma 'opulenta messe de pro- 
fundas observações sobre a natureza humana, 
e o historiador jircciosissimos estudos de costumes 
do século XVI II. ♦ 

E, nole-se mais ainda, a fama de llogarlh é in- 
(lr[)endénte dt) a|)rimoiado dos seus desenhos. No- 
tam os conhecedores defeitos gravissiiiios na ma- 
neira do pintor e gravador inglez. O seu colorido 
é péssimo, os seus quadros sio «juasi sempre 
csbocelos, as suas gravuras não lêem, uma estre- 
mada correcção, mas a idóa tudo tiomina e ludo 
desculpa; na idéa é quese rcNcla ograiule homem. 
Com dois traços rápidos evHiemenles, llogarl es- 
boça uma scena. A sua. veia <inaliciosa foz cresses 
dois traços um poema salyrico, do poema salyrico 
um degrau para a immorlalidade. 

William llogarlh nasceu em Londres cm 1008 
Seu |)ai, revedor de provas ifunia typographia, 
melleu-o como apreiítliz cm casa de um ourives. 
Mas esse demónio familiar, que se chama génio, 
desenrolava já diante dos olhos de llogarlh as 
suas miragens prestigiosas. Saio de casa do ou- 
rives com umas leves tinturas de desenho, de (|ue 
se sérvio paia viver muito a cusl«,* e' na maior 
miséria. yVssim mosmo.enti^ osvendavaes da ad- 
versidíide, o lápis ia traçando no |)apel os prelú- 
dios d'essa comedia, (|ue Imvia depois de lazer as 
delicias (la velha Inglaterra. Ima caricatura, re- 
presentando um pugilato de bêbados chamou, 
para elle a altenção. O nosso Ilouarlh da pcíuna, 
[Nicolau Tolenliiio, também se uãodediguou com- 
memorar n'um dos seus mais chislosos soneloi 
uma scena semelhante. ' * 

A dona da casa, em que o píulor inglez morava, 
persegiiia-o por causa de uma divida de uns vinte 
schellings. llogaTlh creio que lhe não pagou os 



o PANORAMA 



vinte schillings, mas passoii-lhe uma ielra com 
o endosse para a poslerjdado. Essa letra era a ca- 
ricatura da biâonba proprielaria. 
Foi então que um livrei i o o encarregou de lhe 



53 



lilusírar o Ifudibras da Butler. Esse trabalho de 
maior fôlego assegurou a sua- reputação. Estava 
encontrada a mina; o obreiro foi incancavel Todas 
as physionomias do século XYIIJ c todos os gra- 




ves personagens da sisuda Inglalen a desfilaram cm 
procissão, evocadospelo implacável lápis do chistoso 
pintor, entre as gargalhadas do publico 

oilodaKíí^a de tm devam, a Feira de Soulhwark 



Uma palestra moderna á meia noile, o Infeliz 
pocla (de que n'es(e jornal se deu uma copia) e 
os Comediantes na granja, publicaram-se com mui- 
tas outras inferioies de 1733 a 1738. Em 1730 
casara elle com a filha do pintor Thornhill con- 



OA- 



PANOIUMA 



Ira vontade do fao, que o tinha na conta de um 
valdevinos, mas que se reconciliou com eile mal 
que o vio nco. Muilobom^^enro foi llçííarlli senão 
poz o querido so.^rro no primeiro plano de alguma 
das suas gravuras satyricas. 

Uogarlli era um bom rapaz, amável, expansivo, 
franco, ingenuamente vaidoso, não fazendo ifiuito 
caso do seu lalente de caricaturista, e tendo a ma- 
nia de se consi(*erar o primeiro pintor histórico 
lio seu loiupo. Desgraçado de quem ousava allir- 
niar diante d't'lle(iue Úubens (ui Van Dick seriam 
dignos ffe mais alguma coisa do que de lhe moer as 
tinias. Um dia lenibrou-se de provar o seu dilo^ 
fazendo um quadro que elleannunciou alto ebom 
som que devia desbancar outro de Correggio 
sobre o mesmo assumpto. Era uma Sif/isinundu. 

Concluio-sc e expoz-se o miserando quadro. 

Não se pôde imaginar o diluvio de jiiotejos a 
que deu origem, llogarlh, furioso, voltou n'um 
Ímpeto de cólera á sua -verdadeira inspiração, e 
fulminou os dois principaes motejadores, CJiur- 
cliill e Wilkes, com duas caricaturas, que, como di- 
zem os Francezes, viirent ^es ricurs de son cole. 

Eslava doente n'essè occasião, mas teve tan- 
ta satisfação em se ^n^i que de puro gosto re- 
cobroh a saúde. E[elle mesmo quem o conta nas 
suas Aiieducles of mi/.self\i\io citado por Thacke- 
rav no seu bello (^sluáo sohvn The Linfjlis/i /lumoii- 
risls of l/ie cif/lileenlh eentury. 

íiT/i(> pleasure ir/tích I dcrived froiii Ihese two 
enf/ruvhias restored me (b as much lleulth as can 
hc expeclrd ai iiiij fiine of tife. 

Com tildo p sua saúde licou sempre alterada até 
que morreu em ITOí. 

As suas gravuras mais uplaveis além das que 
ja mencionamos são: O musico damnado, O casa- 
iiirnlo da moda. A industria e a ociosidade, e as 
J* o lias' de Ca/ a is. 

Se não juntou um nome illustre aos tantos, que 
já liguiavam em torno dos grandes mestres da ar- 
te italiana, llamenga, ou hespanhola, leve cm com- 
pensação uma gloria maior, a de abrir uma [lagina 
nova na hisl^iia das bellas artes, e de dar á sua 
pátria um gene]"o.quíí ella ainda hoje cultiva com 
buccesso,oda caricatura humoristica. 



A UALATEA MODERNA 

; Por A. OZOIUO dÉ VASCONCIÍLLOS 
• Et fugil ad s.ilire? 

Alfi-tnlo de .llrllo a .%iitonfo .llvaron 

Meu caroT\nloni(r.— Eslou em plena cdade-mc- 
dia. 

Sc eu flvesse* talento descriptivo de N\alter Scoll 
e o hrismo senliiiiental de ()cta\e Eeuillet pode- 
la apresentar a teus olhos um (|uadro esplendido im- 
pregnado do suavissimu perfume das eras cavalhei- 
rosas. . • 

Bem sabes (piai era o meu viver n'essa monó- 
tona e aborrida Lisboa, cujo bulício mais parece 
o rouí|uejar do febricilanle do (|ue o estridor do tra- 



balho. Sabes que me contraia ahi em espasmos de té- 
dio, farto de ouropéis enganosos, repleto de bai- 
les faustosos, aonde lodos se cobromcom a. mas- 
cara da opulência, e pompeiam galas m(^nlidas. 
iNão nasci para esses esplendores, (jiie me ceg*am 
e otTuscam. Os meus ouvidos melhor se dão com 
o murmurar queixoso dos regalos, com os quebros 
dos passarinhos, que saltitamMios recessos, como 
rumorejar dos ra^^. 

De noite mais \W apraz oscinlillar da estrella 
por enUe nuvens sombrias, de que o jorro perenne 
de go.z, cuja luz se relVange nos piíigeutes do 
lustre. Sou rico e não lenho ambições. Com pouco 
me contento, c pouco ai^peleço d'essat vaidades 
mwnúdims, sombras p/iosp/iorecoiles, se me descul- 
pas a expressão, atraz das quaes todys correm, 
como a Ophelia do grande poeta. 

iSão julgues que fallo sem conhecimento de causa. 
Demasiado conheço o mundo, apezar dos meus 
vinte e três annos. Hoje enverga-se a toga viril aos 
dezoito annos; aos fínle somos sceplicos 'e blas- 
phemamos, aos vinte e cinco desejamos síltar a 
pátria periclitanle, depois alcançamos uma caria 
de conselho^ que cimentaa excelleiícia embais per- 
duráveis, e a linal, senão chegamos a ministro ou 
não somos barão sem baronia, vamos comer esses 
reditos proventosos, despojos opimos de vuia tra- 
balhosa, em suave e tor|)e aposentação, até que a 
morte nos arrebate da eoi-rente do egoísmo, jiara nos 
arrojara sepultura, deixando logar a outros, que 
seguirem o mesmo caminho. 

OhlEu sinto profundo horror por este rnoderno 
sybarilismo, em*(iue os próceres pela intellig*encia se 
bandeiam [)ara serem os p.arasitas do povo! Ja 
não ha Tácitos que os verberem com o látego im- 
piedoso e lhes imprimam nas faces hedfoydtis o 
ferrete da infâmia e ignominia. 

Fujo d'elles como (le um ruim fermenlo. Tenho 
medo (|ue me contaminem. Sigam outros o exem- 
plo d'elles; eu não, que nasci n'este século com uma 
abna dos velhos iempos. Sequeslro-me do mundo, 
porque o mundo se corrompe. Yollo-me pira o 
passado, abraço a natureza e adoro OH:reador. 

Ah! Reparo agora como eu ia divagando mora- 
lidades, parvoas parenesis deslocadas n'esle século. 

Yolto-mejá ao principio d'esla carta. 

Dizia-te (|ue estou em plena edade media. Eu le 
conlo. Convidado ha muito por um fidalgo da pro- 
víncia, que foi amigo de meu pai, e c parente re- 
moto ila minha família, fugi um dia de Eisboa, 
e vim abrigar-mc aíjui, n'esta, aldeia ignota. A 
casa aondei^habito, ((|uizera dizer tecto, que me 
abriga, mas os K'lhados alluidos gão m'o pcrmit- 
tem), é uma das velhas honras dos saudosos leni- 
pys de Egas ]Moniz,j)oi(|ue no lar dos velhos ca- 
valíeiros dâ cruz,só a.iionra enlravíi' e iii^día\a. 
As paredes de granito, meio dorrocadas dobram sob 
o pezo dos annos. As janellas góticas, com umas 
vidraças toscas, lançam uma claridadiC dúbia nos 
a|)osentos sobradados de. v<!lho e negro castaubo. 

A porta, da entrada, com uirs reinlilhados gros- 
seiros quasi inleíramenle obliterados, suslentando 
a custo umas armas cheias de musgo, mal pôde com 



o PAXOKAMA 



^0 



as costaneiías de carvalho, que giram em quicios 
empenados. 

A casa eslá ,110 lopo de uma alameda estreita 
longa e escura. 'Por noite de inverno, quando as 
folhas caem noclião e revoluteiam impoilidas pelo 
vento gelado, os cedros como que abrigam comas 
ramas sombrias os braços descarnados e nodosos 
dos castanheiros, ao tempo que cada cipreste me- 
neando a coma esguia meio encuberla pelas outras 
arvores, parece o penacho ^ um ginete phantas- 
tico, que escarva no tumulo de valente guerreiro, 
e agita a cabeça em signal de dó. 

Era noite cerrada quando chegei ao solar do meu 
parente. Ouvia-se o mar ao longe a bater nas pe- 
nedias, e a brisa nocturna açoitando o arvoredo, 
que projectava sombras immensas. Na athmos- 
phera não havia uma nuvem; a lua brilhava lim- 
pida no grande tabernáculo do universo;' Ia só. O 
meu cavallo- resfolegava de medo quando uma som- 
bra o cegava. De voz em quando batia com aspa- 
las nas pedras, soltas, que saltitavam pelo chão, 
e ceiam nas folhas seguindo um serpear rumoroso. 

Chegado ao fim da alameda, entestei com o velho 
portão carcomido. Quizera ler ao lado a trombeta 
dos paladinos para soltar uma nola que echoasse 
na solidão. E como que via homens de armas e 
archeiros aprestando-se para o combate, e bestei- 
ros coroando as ameias. Um tronco, que jazia em 
terra, atfigurava-se-me como uma catapulta e era 
tal a minha illusão, que cheguei ajulgar-me úm 
mensageiro de gucira, envolto na armadura, e so- 
pesando a lança e a» acha de armas. 

Pouco durou o engano. Apeei-me, alcei três ve- 
zes a aldrava, e logo depois abria um aldeão a 
porta. 

Ouerer contar-te as minhas impressões ao en- 
trar na sala prinoipal fora o cumulo do impossí- 
vel. O especta(^ulo era completamente novo para 
mim. Imagina uma tala vastíssima toda forrada 
de pannos de ariaz, já muito rolos. No fundo uma 
chaminé agigantada meltidana parede, quasi sem 
brazas. Assentados em dtias ,cadeifas de espaldar 
antigas estavam pai c filha, *unicos habitadores 
d'aquella casa. 

Nos rostos de ambos pintava-se o tédio e abor- 
recimento. O pai tinha umas feições de cavalleiro 
antigo e respeilaCel, denotando os seus sessenta an- 
nos. Os cabellos fartos e-compridos iam enbran- 
quecendo, os olhos grandes e azues reflectiam 
não sei que perpeUia indecisão, uma certa tibie- 
za, que se traduzia em todds os gestos. A barba, 
por uma coptradicgão singular, era completamente 
branca, e caindo-lhe pelo peito, dava-lhe uns ares 
de velho peregrino, cuja vida fora cortada de ma- 
gnas e dores. 

O seu todo eva emfim o retrato dos fidalgos 
provincianos, que, adoí adores do passado, talvez 
])0i-que nãp se sentiam com forças para seguir o sécu- 
lo, agarraram-se, por instincto de conservação, ás 
tradicções da monarchia antiga. Assim o cêphalo- 
pode cinge os innumeros braços ao rochedo do 
mar por não seguir a corrente,' que o arrasta. 

Vão acabando esses represenlantes de uma fé 



moribunda, que se esvae a pouco e pouco impel- 
lida pelo bafejar potente das idéas modernas. 

Deixemol-os em paz, na contemplação do pas- 
sado, que não volta. 

• Também elles tiveram a sua aurora rodeada de 
esperanças; também elles souberam rejuvenescer 
as tradicções herdadas; também elles respiraram 
largamente no grande âmbito da actividade hu- 
mana. 

Eoram, a seu pezar, obreiros do progresso. 
•Ouerendo reconstruir o mundo velho sobre os ali- 
cerces movediços da revolução ; transformando-se 
cm atalantes-de um edilicio instável, caindo em- 
fim sob o pezo da cúpula, que haviam erguido a tanto 
cust-oe com tanta fé, mostraram na mesma queda 
aos povoí absortos que as idéas não param, que 
a humanidade caminha, e que acima de tudo ede 
todos, constranj^endo os mais remissos está a lei do 
p*-ogresso,tão santa e divina como as tábuas do Sinai. 

Respeitemos, pois, essas cariatides da realeza, 
f}ue passou. Reluz-lhe na fronte a aureoki da re- 
signação. Se dobraram o collo ao homem é por- 
que lhe deram os attributos da divindade sobre a 
terra. 

Juncto do pai estava, como disse, 9 filha. Á 
primeira .vista cuidei ver uma estatua, tal era a 
lixidez, a frieza o tom marmóreo do seu rosto. A 
sua belleza espanta e esmaga, por demasiado es- 
culptural. Debalde procurei o menor indicio de 
turbação depois da minha entrada. O coração 
d'aquella mulher tem a profundeza do pego tlormen- 
U;. A limpidez do seu olhar parece^se com a do es- 
pelho, que rellecte em sala escura e silenciosa os 
raios da lua. Quando a via alçar ligeiramente o 
corpo para me corlejar, julguei que o mármore, 
sem perder a sua frieza e correção, se transfor- 
mara em carne. Meditei por um pouco na fabula 
de Pygmalião e recuei involuntariamente um passo. 

E comludo, ó meu caro amigo, que formosura 
peregrina. Seduz, mas não-atrae; encanta mas af- 
fugenta. 

Não sei como dcscrever-te este iypo único, que 
fizera desesperar o próprio Balzac. Se o analysa- 
mos como artistas encontramos todas as perfeições 
reunidas, sem uma só. discrepância. 

Phidias não creara obra mais completa. Yé-se 
que n'aquelle coração poderá haver vida, mas la- 
tente por ora. Não me pergunfjos mais. Sou na- 
turalmente curioso, mas não posso encontrar a 
chave d'aquelle ènygma esplendido. Esta mulher é 
indelinivel. Pertence apparenlemente a todas as 
escolas, porque para todas seria modela de per- 
fejçãí) physica. 

Mas n'aquelle rosto tão bello ninguém procure 
os oxtasis voluj)tuososdas virgens de Murillo, nem 
o desi)rendimento, o desapego, esse como que ílu- 
ctuar elhereo das madonas deRaphael. Nada pro- 
cure, porque nada j)óde encontrar. Esse roslo é 
por ora um modelo. É necessário que a paixão 
lhe vibre as cordas do senlimenlo para que assom- 
bras se conbinem com a luz, para que appareçam 
os caracteres proeminentes. Quem será o afortu- 
nado?... 



5 b 



O PANORAMA 



Parecer-le-ba singular que logo depois da primeira 
entrevista eu possa ser tão explicito, dando assim 
opinião quasi segura. Ahl É que tu, ó meu caro 
amigo, nunca estudaste o problema vivo, que Sc 
chama — mulher— For um presentimento, ou. ins- 
tincto. que não sei explicar, ha occasiões da vida, 
na edade das paixões romanescas, em que somos 
dotados de uma penetração admirável. Então, e 
talvez porque e perigo se nos antolha inevitável, 
d(C;'rram-se-nosas profundezas, illuminam-se,alar- 
gam-se, vemos tudo um momento, rápido como o 
laiscar do raio, e depois, quando calmos outra vez 
nas li'evas, medimos já o abysmo aonde vamos 
precipitar-nos. Não creias que isl^ se possa ap- 
plicai-me. Longe vá o agouro. As circumslancias, 
|)orem, do logar, a minha imaginação instigada 
por uma viagem longa, o trajecto nocturno por 
cerros e algares, as gi andes sombrai dos arvoredos, 
que SC destacavam uo lirmamento iUuniinado pelai 
lua. o profundo rumorejar da noite, todas eslas 
impressõífs como que me atilavam o espirito, con-^ 
cenlramdo-o e' jjredispnndo-o à analyse. 

.Mal entrei, fui iTcebido de braços abertos ^lelo 
cavalheiro, meu j)arenle e amigo intimo de meu 
jiai. A lilha, que se chama IX Violante da Con- 
ceição, lez-me uma leve cortezia, c poz-fie ê con- 
templar o brazido com uma pertinácia incrível. 
Debalde ccuilei lodos os promenores da minha via- 
gem: debalde mostrei o meu res|)eilo i)elo pas- 
sado e nelos feitos dos nossos communsavoengos; 
debalde fallei com azedume da sociedade de Lis- 
boa á qual preík'0 o plácido viver campestre. Foi 
tudo baldado. • 

Apenas consegui alguns sorrisos de approva- 
ção do lidalgo, e dois olhares distrahidos de D. 
Violante. 

Comecei a dcsespei'ar-me. Como poderia des- 
perlar-lhe a attençãoPEu seu dos fátuos, queima- 
ginam enredar logo ao principio as senhoras bo- 
nitas com as arguciasíK; minha eloquência. Não lo- 
grei o meu intento. As torrentes de poesia bucóli- 
ca, (|ue se desprendiam, em catadupas, resvala- 
vam sobre a tríplice couraça da minha ouvinte 
distraída. Passado pouco, e aproveitando uma 
pausa forçada, ergueu-se ella, desculpando-secom 
05 deveres ile dona de casa, que carecia de deli- 
near a ceia. O velho fidalgo sorriu outra vez, e co- 
meçou a contar-me as suas campanhas, como co- 
ronel de um regimento de voluntários, que fez o 
cerco do Porto. A narcotina só acabou linda a ceia. 
Chegado ao meu (|uarto o meu primeiro cuidado 
foi escrcw;r-le esta cart». 

Crè-me, como sempre, teu vcrdadeiít) amigo 
— Alfredo de Mello. 

ií^oiilinit") 



BEATRIZ 

VIII 

Como já disse, e agora inda repilo, 
Jacqups cravisila, e das mais inliiuas 
Do conde,... (; d;i condes.sa ; (ora escusado 
Dizer islo ao leitor, mas eu iiHo jíosIo 
De escuras narrações; prefiro sempre 



Pôr ludo era l)oa tuz, porque não quero 

fer de anotar, em dez ou doze tomos 

Três ou qualro de versos, quando muito)!* 

No Icmpo em que eslas cousas succederam 

O conde tinha ja, se eu bem me lembro, 

Alguns annos a mais do (jue convinlia 

.\ quem era casado com Iam linda 

E Iam genlit mullicr; lodos sabiam 

Qué ella era o hpo angélico e divino • 

Da santa candidez, que "a leve sombra 

De uni pensamento mau jamais viera 

Toldar o puro ceu (raqgellc espirito ; 

Mas (piem pode iivrar-se, lá um dia, 

De ou\ir a tentação, (pie passa e cania • ' 

Como as scrèas de que falia Homero? 

Não sei, mas acredito, (e peco venià 

,\ formosa leitora que, dcce'i*to, 

Não é do barro vil de (pie eu sou feito, ' 

Mas do cryslal de rocha mais sybidol, 

Oue á voz (la tentação, não ha, não pódc 

Deixar de se abalar" quem Icidia peito, 

E coração, e vidn, e saneie ardente. 

Deos a affasle d(í nós, (pie lí pra.i^a horrível ; 

Pois SC a deixa a vontade, em pouco tempo 

I.á SC vai todo o mundo a tona d'asua 1 

O Lucrécia, ó virtude incomparável * 

Da Roma, (picja foi, Lucrécia antif^a, 

Como eu le vejo santa e luminosa 

N'um turbilhão de nuvens ! — tu devias 

Ter um culto enlre ncis, e, sempre acesas, 

Quatro vcllas de C('ra ou de slearina ! 

Éii já \\ no sacrílego soneto 

D'um Zappi rebelião, leu nome illuslre 

Atirado ao vaivém de uns versos toscos ; 

Mas vingiiei-mc d(>pois, que o próprio vale 

Expurgou-se de lodo, memorando 

A alroz expiação úa leve culpa. 

l'or isso eu teidolalro, ó casta »lla, 

.Modelo conjugal, (pie preferiste 

Uasgar os seios d'alma. (embora fosse 

Apoz o crime vi!;, a terna vida 

(javado o acerbo espiídio do remorso. 

Isto não (í sermão, caras leitoras ; 

Ninguém tem. melhor fé, fé rmis siijpcra 

Do que eu tenho, na extrema pudicícia 

De alvas iiombas do ninho meu patcfno; 

Mas não posso deixar de ergu(# meu cahto, 

E de saudar a esposa incorruplivel 

Do pobre Collalino ; oh, a virtude 

É (pianto ha bom no mundí) ; e se índa houvesse 

Conventos no paiz, «m cala (relia 

Iria já, sem mais, mctler-me a frade! 

E. A. VID.4L. 



i 



O ESPELHO MAGICO 

Dizes-me tu mie as estreitas 
fogem a tuz do arrebol, 
e que ninguém pòde«v(7l-as 
quando já dardi^ja o sol. • 
Mas olha, eslás enganada, 
nem Ioda a estreita ;* occuU» 
mesnib depois da alvorada. 

Se não— já que é dia agora — 
vae, caminha, desce ao vai, ^ 
e inclina essa fronte lotTia 
na corrente de cryslal. 
E o crNstal (piô te revela ? 
olha bem : no azul dag aguas 
não vés sorrir uma eslrella ? 

Cam>ii>o Fkjueiiif.do. 



Typ. Franco-Porlngufza. — liua do Thesonro Vellio, 0. 



8 



o PANORAMA 



57 




VistH pittoivsra Mos jiaros ivaes .lo Cintrn _ (ít.senl.o . arii.,, ,|,. \,„u..ir., ,1a Silva - (Iravuia ,1. Alberto) 



58 



O PANORAMA 



Postoque uuiilas hajam sido as investigações 
sobre a origem d este nolavel e pilloresco palácio, 
comludo, nenhuma d'eilas espalhou ainda uma 
luz (jue penetrasse profundamente as trevas que 
envolvem o nome do seu fundador. O que, ape- 
nas, se pôde ver é que foram árabes os que lhe 
pozeram os alicerces e levantaram as conslrucções 
íundamenlaes. porque isso nos mostram o eslylo 
e o jilano particular em que está moldado. 

Alguns escriplores attribuem a sua fundação a 
D. João 1, mas a esta opinião se oppoem as ulti- 
mas palavras de um bom documento, o mais an- 
tigo que para illucidação do assumpto se tem 
achado, [que é uma doação que dos paços reaes 
de Cintra faz aquelle monarcha, em 4 de dezem- 
bro do anno da sua acclamação, 1365, a D. Hen- 
rique ^lanoelde Vilhena, conde deCèa, como pro- 
va de particular alfeição e premio dos muitos ser- 
viços preslados por este nobre descendente do rei 
de rastella,'S. Fernando; equc depois foi annul- 
lada, não se sabe como, pelo próprio D. João I, 
(jue, altenlando melhor nas bellezas, que fazem de 
(Cintra um verdadeiro paraiso, se arrependeu 
(Ia sua muniiicencia, na verdade, um p^ouco 
precipitada e larga de mais. 

(.) soberano que principiou a gosar das delicias de 
Cintra, com freíjuencia, foi D. Allbnso III; D. Manoel 
o rei que, em mais larga escala, começou a desenvol- 
ver o palácio; e édo reinado d'este príncipe que data o 
amalgama de estylose plantas diversas, segundo o 
capricho, a moda e as commodidadesde cada monar- 
cha, (|ue tanto caracterisa aquelles edilicios, 
onde inteiiormente nada reina que corresponda á 
luxuosa decoração exterior. N'uma época em que o 
oiro chovia sobre Portugal, ceia, por assim dizer, a 
aureola que esmaltava o fundo onde se via fulgu- 
rar esplendida a gloria das nossas assombrosas e 
inimitáveis conquistas, devia ser mui natural que 
o gosto propendesse lodo para o luxo das rique- 
zas maleriaes. Fazia-se gala de forrar os aposentos 
de ostentosas tapeçarias, e ornamenta-los com al- 
faias de custosos valores; e, apenas, para a arte, 
propriamente dita, se guardavam os tectos, como 
para íicar, creio eu, maisfóia do alcance da ^isla, 
que mesmo assim não pude encarar sem resfriamen- 
to, as linhas contr^hidas do desenho, e a pallidez ca- 
davérica da j)intura. 

A mais bel la das obras de D. Manoel é a sala 
das armas, cujas janellas e portas, de brincados 
relevos, dão exteriormente ao palácio a feição ai- 
chiteclonica mais característica do f/ol/iíro-jlondo 
ou manuflino, que (listingu(!m inimitavelmente as 
conslrucções monumqitaesdo rei aforíiinado. ^'o 
cenlro do teclo d'osta sala sobresaem aè arnfas 
roaes, o, em ciiculos concêntricos, primeiro, as 
armas de Ioda a familia real então existente, c 
depois os escudos das famílias nobres que mais 
dislinclamente gravaram coma espada oseunomc 
nos fastos maravilhosos dos nossos tempos herói- 
cos. 

Enlre estes brazões vôem-se dois espaços onde 
mal se descobrem vestígios de pintura. Ahi esta- 
vam os escudos do ullimo diniue de Aveiro o dos 



marquezes de Távora, justiçados em 1759, pelo 
conhecido crime de attentado contra a vida dei). 
José. A dignidade mandou apaga-los, deixando 
d'elles, apenas, ^uma leve sombra como para si- 
gnilicar a nódoa* cora que aquelles fidalgos man- 
charam a honra dos grandes de Portugal. 

Mandoti D. Manoel fazer as pinturas primitivas 
d'estes brazõescom a idéa manifestamente politica de 
premiar os serviços, ê estimular o nobiHí orgulho dos 
que tanto tinham concorrido para tornar o nosso no- 
me admirado e temido em todas as partes do inundo; 
enão satisfeito com traduzi-la pelas cores, determi- 
nou que as letras viessem ajudar os que não sa- 
biam ler na plasjica do pensamento, fazendo traçar 
em grandes caiá*cteres doirados, junto ao friso, os 
seguintes quatro versos, correspondentes ás quatro 
paredes da sala: — Pois com esforços leacs — Sc/'- 
uiços foram (janhados — Com estes ^ outros taes — 
Devem de ser consi-rvados. — 
. lia nos paços de Cintra duas salas, cuja ex- 
trema singeleza dá á memoria e consideração dos 
factos que alli se passaram um tommais poqtico e 
melancholico. Uma é a sala do conselho. lN'ella de- 
cidiu terminantemente D. Sebastião partir para a 
Africa*. Alli eccoou pela ultima vez a voz do en- 
thusiasmo, que as areias africanas abafaram para 
sempre. É uma sala |)equena, rodeada de simples 
assentos revestidos de azulejos, e no centro dos 
quaes um tem a forma de cadeira de braços, onde 
o joven monarcha malfadado se asienlava. De 
preciosidades apenas guarda uma chaminé de már- 
more, obra, segundo boas aucloridades, do ad- 
mirável cinzel de Miguel Angelo, que um papa 
olléreceu a D. Sebastião. 

A outra sala á aquella onde primeiramente es- 
teve preso D. Anonso VI. Nada tem de notável 
senão a memoria d'este facto, que os pésd'aquelle 
infeliz rei assignaliiram, gastando o ladrilho do 
pavimento desde o logar da cama até á janella 
onde esperava o seu antigo valido Conti, que á 
serra fronteira ia de vez em quando, dar-lhe 
algumas esperanças de liberdade; estreito desa- 
fogo que de lodo lhe fecharam, passando-o para 
outro ([uarlo mais acanhado, e quasi sem respira- 
ção. 

Muitas outras circumslancias de nolavel impor- 
tância histórica fazem do palácio de Cintra o maisi 
curioso dos nossos paçoS reaes. ' 1 

Alli se meditou reaíisar eraprezas qui ninguém 
até então havia sequer sonhado. I)'alli partiu a 
directriz que conduzio as nossas frotas ás conquis- 
tas (ralém-mar. Alli existe a camafa ondí.nasceu 
e se linou I). AlTonso V. Alli colheram, palmas, 
o creador da nossa scena dramática, o espirituoso 
(jil-Vicente, na representação dos seus autos; mar- 
lyrios c saudades, (^mavioso Bernardim Ribeiro, 
nos seus amores com a infanta D. liealriz. 

Kis a liistoi ia resumida do monumento que a gra- 
vura representa n"uma das mais piltorescas vis- 
tas que, à distancia, se gosam nos frescos c llori- 
dos recintos de Cinlra- 



A razão é o conselheiro da alma. 



o PANORAMA 



59 



DO MOYIMEMO 

Bos«i(iejo pliilOMopliico 

Por A. OSÓRIO DE VASCOiNCELLOS 
1 

Uma das coroas mais gloriosas, que cinge a 
fronlc swcna e radiosa da sciencia, é sem duvida 
essa synlhese admirável, profundamenle philoso- 
pbica, pela qual, ao cabo de immcnsos trabalhos 
e fadigas nem sempre incruenlas, a humanidade 
galga mais um esladio no seu caminhar. 

Se os heráldicos e antiquários m'o permitlem, 
a sciencia é a arvore genealógica da humanidade, 
é o padrão glorioso que attesla' a nobreza da gran- 
de família humana, que trabalha, lida, tressua 
continuamente, obedecendo a uma lei providen- 
cial. 

Qualquer que seja a hypolhese antropogenica, 
que so adopta, ou o homem, conforme diz a bí- 
blia, seja um anjo caído, um rei destronado, ou| 
como* dizem outros, a transformação de um oran- 
gotango, ou seja simplesmente e desde a crcação 
do mundo, o que é agora, islo é, um. ser pensante, 
postoque rude e bronco a principio, o que não se 
pôde negar é que leve de construir desde os ali- 
cerces o edilicio da sua civilisação, qual a de que 
estamos fruindo. 

O homem lançado na terra safara e povoada de 
animaes ferozes, domou ou alTugentou estes, arro- 
teou e cultivou aquclhv Trabalhou, e no trabalho 
scienle lirmouo seu domínio. Grande pela inlclli- 
gencia, collocado pelo destino defronte;do grande 
esphingc da natureza, tratou de lhe devassar os 
segredos, de lhe roubar as forças, para as apro- 
veitar cm beneficio próprio. Cada conquista que 
fazia, era mais um passo que andava, mais um 
foro de fidalguia, mais um brazão nobliarchico. 

A sciencia é pois o conjunclo de todos esses es- 
forços, cm virtude dos quaes, o homem saldo de 
berço humilde, sentou-se no throno da realeza. 

Mas se faltasse á sciencia um nexo philosophi- 
co, de que servira tanto eneelleirar, se as próprias 
riquezas amea;;avam confundir-se c cair no cahos, 
d'ondc as foi cxtrahindo o génio do homem? 

Para que tanto esmeuçar de analyse, se a syn-* 
Ihese não concluía nenhuma lei geral, nenhum 
d'esses gr-d-ndes princípios, que são apoios para 
novas conquistas e novos combates? 

Este é o caracter distinctivo da sciencia moder- 
na, como a íizeram os Descartes c Pascal e Leibnilz. 
Sciencia sem phílosophía é uma luz ophemera e 
repentina, 'c um fogo faluo, que pôde allumiar um 
momento, rasgar as trevas, que circundam o ho- 
mem, mas não é pharol brilhante, que alenta c 
dirige o mareante no grande oceano do desconhe- 
cido. 

E este é lambera o pendor da sciencia moderna. 
Hoje pouco se inventa. J)esde Copérnico atóGause, 
desde Boyle até lierzelius, desde Torricelli até Eara- 
day, surgiu uma tal plêiade de talentos vigorosos 
e audazes, de génios investigadores e profundos, 
que de tal modo alargaram e expandiram os ho- 
risontes da sciencia, e devassaram tantos segredos, 



que hoje é diíTicíl a observação, diflicilimos os 
descobrimentos. 

Nos tempos, que vão correndo, em que as ap- 
plicações praticas abundam tanto, a sciencia lians- 
formára-se em arte, se a philosophia não a alen- 
tasse e guiasse. 

D'aqui essa vastíssima synthese, que determina 
as leis geraes, que residem na matéria. D'aqui 
essa segunda analyse dos factos descobertos ,e dos 
phenomenos já conhecidos, para cxtrahír os gran- 
des princípios, que são di anima do mundo. D'aqui 
essa tendência á simplicidade, á unidade, á pro- 
tolypia, tendência porventura fatal, inconsciente 
ale, c que pôde conduzir ao absurdo e ás vezes 
á escuridão, quando galgamos as raias do conheci- 
do e trilhamos o campo das hypotheses e conje- 
cturas. 

Entre as syntheses fnais formosas e admiráveis 
da sciencia, nenhuma encontro, que mais me le- 
nha prendido, do que a da força edo movimento. 

lleduzir a força a um typo único, mostrar (jue 
lodos os movimentos sãá) gerados por uma so causa 
ou antes que ha sô um movimento, propriedade 
essencial de matéria movimento que se transfoima 
em todos os outros, que coisa mais para admirar 
ecs|!antar! 

Disse eu que esta é uma das syntheses da scien- 
cia, e eslà-me parecendo que é a única, que é a 
mesma sciencia. 

Pois se nôs chegássemos a descoilinar, não já 
a essência da /b/ra, senão o modo porque se trans- 
forma nos immcnsos movimentos, que constituem 
a vida na accepção mais lata e grandiosa; se alcan- 
çássemos a i)rofundar essemyslerio incomprehensi- 
vel da vida cósmica em lodos os seus recessos e arca- 
nos mais íntimos, a sciencia houvera attingido quasi 
a perfeição, e o homem fora um semi-deus. Sô 
então é que o ignoto ppderíaser medido c as tre- 
vas tenderiam a díssipar-se completamente: A gé- 
nesis dos mundos do seio do cahos, as dillerentes 
eclusões de vida em todas as ordens, todas essas 
iniinilas e varias transformações poderiam ser de- 
terminadas. 

E seo homem, collocando-se pela intelligencia 
na origem das cuisas, conhecesse todas as cir- 
cunstancias da força, do tempo e espaço, veria 
desfilar diante de si, como em correria phantas- 
tíca, ò universo inteiro, e os mundos formando 
um cortejo esplendido trazer-lhc-hiam as páreas 
dos seus segredos. 

Mas quem poderá conhecer essas circunstancias 
de espaço, tempo e força? Qual a intelligencia, 
por mais vigorosa, que não vergue perante o in- 
finito da matéria? 

Qual o homem que ascendendo do conhecido 
para o desconhecido, não j)ára espavorido, absorto, 
esmagado, e ajoelhe c adore, ou o crcador, que 
deu vida ao cahos, ou a força ingcnita, que ba- 
fejou a matéria? 

Por mais que a sciencia caminhe, dando mes- 
mo de mão ao .muito que falia para estudar, o ho- 
mem não podft abarcar o universo, e ainda me- 
nos a causa d'elle. 



60 



O PANORAMA 



Acceitando porém, como inconlroversa a nossa 
pequonoz, o não inlonlaiulo dolerminar a essência 
da força, d"esse quid ineomprebcnsivel e intangí- 
vel, a sciencia pode desde já apresentar gran- 
dissinios resultados e formar uma synthese su- 
blime. 

Será esle se tanto j)oder o fito principal do traba- 
lho, que ora entrego á apreciação dos leitores do 
Panoiama. 

(Continua) 



A GALATEA MODERNA 

Por A, OZORIO DE VASGGNCELLOS 

u 

D. Violante á bnrwiiezu do Alpedral 

Minha querida: — Tudo d(^-me n'esle abençoado 
e derrocado solar. São onze horas da noite. O si- 
lencio é profundo e comj)leto. Nada interrompe a 
mudez nocturna senão os ruidos soturnos emysle- 
liosos da naturezJa. Que diirwença entre este viver 
e o teu. 

Tu, minha querida, lá vaes descrevendo a tuTi 
orbita, como um astro radioso, nos salões illu- 
minados, nas feslas esplendidas, cegando com o 
leu brilho os bastos admiradores. Eu, pobre vio- 
leta es(|uecida n'esles fraguedos, em vão abro as 
pétalas aveludadas, que não encontro raio de sol 
que me aqueça e acalente. Tudo dorme, só eu velo. 
Ah! Alguém mais está acordado. Advinha. Não te 
demores a pensar, que nada concluirás. Sabes quem 
chegou hoje a esta velha casa, que ameaça desa- 
bar com o primeiro temporal ? Sabes quem veio 
procurar abrigo n'esleleclo alluido pelos séculos? 
É o elegante Alfredo de Mello, nosso parente, no 
qual me faltaste tanto, durante a tua -estada ein 
Cintra no passado verão. . 

Não te admires. Não rias. Agora está elle es- 
crevendo no seu quarto, que apezar de niLU, é o 
melhor da casa. Eslou-me lembrando dos transes, 
que soílreu Uavenswood quando recebeu a bella 
Lúcia na sua torre da Wolfcrag. O que dirá Al- 
fredo da nossa pobreza, que mal posso dis- 
farçar com uns restos de anti^^o explendor ! Tu 
não sabes o triste estado a que chegámos. Não julgues 
que te peço esmola. Louvado Deus podemos vi- 
ver na província sem vergonha. Mas c necessário 
acabar com o fausto, (|ue meu pai exige, sem se 
lembrar (jue cada aiuio vae desfalcando o seu ren- 
dimento. 
Ahl mas como estou atreita a divagar. Perdoa... 
Alfredo chegou já muito noilc, como bom pa- 
ladino que se preza de ser. 

Julgava elle provavelmente que vinha encontrar 
j)roviuciana bonita, mashoçal. Enganou-se, fran- 
camente l'o confesso e licou espantado do engano. 
As luas lições, c a leitura de romances de algu- 
ma coisa me serviram. Fallou muilo de poesia 
bucólica, da placidez e iiinoceneia dos campos, 
não sei se invocou as dryades e os zagaes de 
(Ireuze. Decidiílameiíle o meu caril primo parece- 
se estupendamente com o cavalleiro dC Florian, 



auclor da Numa Porapilio. Fiquei-o conhecendo 
por dentro e por fora. 

Vèse approvas o retraio, que faço d'elle. 

E bonito e cavalheiroso. Tem bom coração. Acre- 
dita-se conquistador. Tinha-mc em pequena conta. 
Ouer namorar-me, poripie lhe saí muilo diversa 
do (jue julgara. Toma-me ^'omo o seu ideal, por- 
(jue sou enigmática. Eu por mim quero fazer a 
vontade de meu pai, que ha muito poz os olhos 
em Alfredo para erguer a casa das ruiuas, e dar 
novo lustre ao seu antigo brazão. Alfredo é rico, 
possue quatro contos de renda em herdades alem- 
tejanas. E já boa^ herança. Se me pergun- 
tas o que diz o meu coração, nada te ()osso res- 
ponder. Sinto-me inclinada para o meu primo, mas 
não sei se esta inclinaftío nasce do meu profundo 
horror pela» pobreza. 

Oue triste futuro, me aguarda aqui «'esta aldeola 
do Minho! Talvez algum casamento com um-d'es- 
les morgados, cuja parvulez excede muilo a de 
lodos os Osbalditones, quellguram no Uob-lloy de 
Walter Scolt. Imagina a minha vida, se |)or acaso 
Alfredo me não quizesse. Ligada eternamente a 
algum: 

Bojudo beirão morgado 

A quum os cauliOes afrontam, 

como diz Tolentino, seria misera caslellã de uma 
casa arruinada, vestindo por uns figurinos fosseis, 
e banhando-me lodos os outomnos nas ondas da 
Foz, depois de visitar o Vo*-lo de braço dado com 
meu marido, que se revô de vaidoso no chapelli- 
nho desabado, com fitas vermelhai e pingentes 
amarellos, (pie me comprou na modista mais acre- 
ditada da rua de Santo António. Que horror! Ah! Se 
eu puder algum dia |)isar os salões de Lisboa! Que 
de frémitos, no walsar vertiginoso! Com que j)ra- 
zer hei de requeimar-me nos lumes scintillantes! 
Como te imitarei ó minha querida! Como heide 
respirar com anciãs essa athmosiihera ignea! 

Corramos o veu a tantas venturas. Perdoa-me es- 
tas conlissões ingénuas. Sou uma creança. Apenas 
conlo dezoito annos |7íssad(5s n'uma aldeia serta- 
neja. Que loucura! Pois não ia eu dizer^ que amo 
Alfredo, o eleito do meu coraçãol E quem sabe? 



Vem a romper a aurora por entre as franzas 
dos pinheiraes da serra. 

Alfredo já apagou ha muilo a luz do seu quarto. 
O que escreveria elle? l*eza-meestesilencio. Parece 
^|ue a natureza também dorme antes da madrugada. 
Logo lenho os olhos inchados da vigilia. 

Que heide fazer !'^ Já é scv cof/ucllc, ffãoc assim? 
Adcos. Se eu podesçe sonhar venturas! Pelo me- 
nos o meu sonho hiT de ser dourado. 

Tua do coração — Violante. 

(Cunlinua.) 

O VAYÃO E A CEGONHA 

Pavão orgulhoso abrindo emproado 
I)o leípie vistoso matiz variado, 
A sua belleza se poz a miiar, 
E á leve Cegonha, (jue ali vio chegar, 



o PANOKAMA 



61 



c(Afasla-te (disse) villã e zoiípeira; 
«Sem cores, sem garbo, famiiUa grosseira!. 
«Desprega se podes o leque como eu!... 
Prudente a cegoniia se rio do sandeu, 
E rapidamente as azas abrindo, 
Aos ares patentes qual seita subido, 
Librando-se airosa de lá lhe bradou: 
Remonta uma vez á altura em que estou, 
O meu cavalheiro, que assim me despresa 
Injuria seria de tanta belleza 



Não poder ás vezes erguer-se do chão. 
Nem mais do que um gallo, voar um Pavão, 

Leitor se não gosas melhor galhardia, 
Que nobre prosápia com vã ufania, 
Não zombes d'aque|le que humilde nasceu, 
Talvez em desconto natura lhe deu 
F.ngenho, e virtude que o encham de gloria, 
E só por teus vicios, tu lembres na historia. 

Costa e Silva, 




«iinii)iiii;iMUj;ilij;!M:i!iiiiiiilillil 



62 



O PANORAMA 



OS CORVOS-MARLNHOS 

Eslas aves aquáticas são grandes consumidoras 
de peixes, especialmenle dos de agoa doce, cper- 
seguem-os com extraordinária rapidez. 

Logo que o corvo-marinlio avista o peixe na- 
dando paciíicamenle no seio da agua, em um abrir 
e fechar de olhos, mergulha, agarra a victima, 
que em vão tentaria fiigir-lhe, tral-a á superíicie, 
c, para engulil-a, coisa nolavell por um movimento 
ágil, atira-a ao ar, de forma que venha a cair de 
cabeça p^ira baixo, erecebe-a. então, sem resistên- 
cia dajiarte das barbalanas, que se acamam so- 
bre o coi-^o. Se algumas vezos acontece haver fal- 
ta de destreza, nem por isso o peixe escapa á vo- 
lacidade do seu lerrivel adversário; porque per- 
segue-o de novo, torna a agarral-o e lança-o ao 
ar, como da primeira .vez, ate que a queda pro- 
duza o desejado ^eilo. 

Eni muitos paizes tem-so aproveitado a habili- 
dade dos corvos-marinhos, ensinando-os a pres- 
tar ao pescador os mesmos serviços que o caçador 
obtém do falcão adestrado. Esta pesca, ouír'ora 
muito usada rra Inglaferra, ainda o é (vêdea gra- 
vura) em alguns pontos da parte oriental áà Ásia. 
O corvo-marinho domestico traz ao pescoço um 
anncl muito justo; collocado na borda do barco, que 
o seu o dono dirige, ao avistar o peixe, mergulha, 
lanç^L-se s,obre elle e volta para o seu posto tra- 
zendo a presa atravessada no bico, com uma íi- 
delidade, da qual é, sem duvida, a mais segura 
garantia o annel, que impede a entrada do peixe 
no papo da ave. 

A maior parte dos corvos-marinhos', tão bons 
voadores como nadadores, procuram a sociedade 
dos seus congéneres; fora da época da creação, 
durante a qual estão conslanlemenle reunidos, en- 
contram-«e quasi sempre em pequenos bandos. O 
grande consumo do seu alimento lorna-se o fla- 
gello das lagoas c dos rios e obriga-os a não se de- 
terem muito tempo no mesmo logar. O peixe de 
que ellcs pereten] mais golosos é a anguia; pelo 
menos é o que mais se tem encontrado, no estô- 
mago dos que se lêem examinado. A carne d'esta 
ave, fétida e negra, é um alimento que repugna; 
por isso não se faz uso d'ella senão i)or grande 
necessidade. , 

O corvo-marinho pertence ao pequeno numero 
dos palmij)e<l('s dotados da faculdade de se empo- 
leirarem. Os seus ninhos, construídos de junco c 
hervas, encontram-sc mais a miude nas arvores, 
do que nas concavidades dos rochedos. A postura 
ordinária é de lies a quatro ovos. Os corvos-ma- 
rinhos da Clwna são de um pardt denegrido pela 
parle su|)erior do corpo, esbraníjuiçados ficla in- 
ferior, garganta branca, bico arnaréllo, irií azul, 
pés denegridos e doze rectrizes. 



A riqueza é uma rainha que dá a nobreza c a 
formosura. A própria Vénus e a eloquência lhe fa- 
zem corte. 



PEREZ LORENZO 

(Scenn.s da Cninpauhn do México) 

Por PINHEIRO CH.\G.\S. 

V 

Entretanto formava-se silenciosamente ^conlra- 
guerrilha á porta do quartel, e desfilava, sem fa- 
zer o minimo ruido, pelas ruas dcMedellin. 

A cavallaria fora dar uma volta maior afim de 
tornear a casa de D. Ramon, para que não sentis- 
sem lá o tropear dos cavallos. Viarmonl, que ia 
no seu posto, passando ao longe, pôde ver o ter- 
raço, onde estivera havia um instante bem alheio 
a pensamentos bellicosos, e pelas janellas illumi- 
nadas da sala vio perpassarem as sombras gracio- 
sas dos pares que rodopiavam no trèfego volteiar 
da valsa. Aquella setna de prazef, th amor, de 
folguedo illuminada pelo fulgor vivíssimo dos can- 
delabros, contrastava de um modo Ião notável com 
o silencio da campina, o vento frio que obrigava 
o capitão Viarmonl a conchegai-se nas dobras da 
sua capa, o aspecto pouco gracioso dos seus ru- 
des cavalleiros, e a desagradável perspeí^tiva de 
um combate nocturno, que o oflicial francez não 
pôde deixar de exclamar á% si para si, torcendo o fino 
bigodinho, que lhe ensombrava» o lábio superior: 

— Chicn de mélierl 

A infanteria e a cavallaria reuniram-se fora da 
cidade. Perez Lorenzo lá ia na frente, isolado e 
envolvida no seu eterna manto, e respondendo 
monosyllabicamerfle ás perguntas dos ofliciaes fran- 
cezes. 

O céo continuava a desdobrar o seu docel azul 
sem mancha, onde palpitavam as eslrcllas. O vento, 
esvoaçando por entre os palmares e os bananaes 
da estrada, impregnava-se em cálidos perfumes, 
que sacudia depois das azas sobre os soldados, 
como que aconselhando-os a que não fossem per- 
turbar com as suas pelejas a Iranquillidadc inalte- 
rável d'essa risonha natureza. 

Viarmoni scismava, e não era já o vuUo de Do- 
lores o que lhe assomava na phantasia. O pensa- 
mento voava-lhe para as terras da pátria, para a 
quinta á bciramar junto de Bordéus, onde sua 
velha mãe, com os olhos cravados no Oceano, 
esperava anciosa ver surgir no horisonlc a vela 
branca ou acolumna de fumo, que Iheannunciaria 
a voUa do lilho querido. Via-se a si mesaio pas- 
seando pelas suas terras, cujas ricas qjesses estavam 
sendo ceifadas pelos segadores, c respirando com 
alegria o perfume da terra natal, deliciando-se com 
as bucólicas delicias d'essa campestresccna, fruindo 
os gosos da i)az e da familia; e vendo-te agora 
sósinho em terra estranha, devastando, |)or si- 
nistro dever, o solo a que oulros se prendiam com 
o mesmo afecto com que elle se aflerrava ao solo 
da (juyeina, |»erturbando a tranquillidade que 
outros gosavanii a(|ui como elle a gosava além, 
não i)odia deixar, apesar da sua bravura, de pen- 
sar nas tristezas da;íuerra, c no absurdo d'esse 
dever que obriga um homem por ponto de honra, 
a ser scelerado, c a obedecer ao capricho sangui- 
nário de outro homem, que só d'ellc dilíere era 



o PANORAMA 



63 



vestir a purpura monarchica em vez da farda mi- 
litar. 

Mas estas phylosophicas reflexões, que davam, 
bem apuradas, a substancia de um discurso que 
seria muito applaudido no congresso de paz, des- 
vaneceram-se promplamente quando, depois de 
duas horas de marcba, soou de súbito o clarim e 
uma ordenança do coronel Dupin, correndo a ga- 
lope sobre uma das vedelas dos guerrilhas, a 
degolou sem que ella tivesse tempo de dar um 
grilo que avissase os seus companheiro*. 

Parecia comludo que um Mephistopheles mexi- 
cano se estava divertindo a lo^\-ar os francezes 
com tours depasse-passe. Ainda d'esla vez, segundo 
parecia, tinham ea-apado os bandido^. Em seu lo- 
gar estava um bando de mulheres Índias, em 
trajes ligeiros mas, tendo cada uma d'ellas 
uma esplendida crinoiine. Ufanas do seu ba- 
lão, estavam as pobres mulheres immoveis nomeio 
da casa, como temendo que, se dessem um passo, 
transtornassem a magesladedo seu porte. Espan- 
taram-se os francezes, e ainda mais do que elles 
Perez Lorenzo, do extraordinário luxo* d'essas crea- 
turas semi-selvagens, kixo que, limitando-se ao 
balão, contrastava de um modo notável com os 
farrapos que as vestiam. Com mais curiosidade 
do que delicadeza picou Perez Lorenzo com a ponta 
da sua espada uma das crinolines das senhoras. 
Realisou-se, com pouca diíTerença, o soneto de 
Nicolau Tolentino sobre os toucados altos. De um 
d'estes saio um culxão; da crinoiine ádi índia bro- 
tou um homem, e logo em seguida todos os ofltros 
balões se achataram, dando cada um á luz um 
bandido armado com punhal e pistolas e disposto 
a vender cara a sua vida. 

Mas os francezes já estavam preparados para 
pstas surpresas; e desde a aventura dos enxer- 
gões, tinham sempre o olho em saia ou colxão, 
que apresentasse dimensões suspeitas. Os guerri- 
lhas, que, sem terem, lido Homero, saltavam a 
flux dos novos- cavalloí de Tróia, encontraram 
para os apararem as bayonetas.dos francezes. 

Foi breve a resistência porque se vio que era es- 
cusada a lucta. 

Perez Lorenzo, logo no principio do inculente, 
soltara um grilo de jubilo, vendo apparecer um 
hom*m de estatura elevada e de vigorosos músculos, 
que parecia ser o chefe da guerrilha. Lançou-sea 
elle com os dentes fincados; acceitou o bandido a 
duello, e, enlaçando-se nos braços vigorosos, tra- 
varam-se arca por ar«a, embebendo um no outro 
os olhos em que fusilava um rancor insano. 

Quizeram os conlra-guerrilhas, já vencedores 
dos seus adversários, intervir na lucta e apode- 
r^r-se de Juan Pahlo, que esse era o que luctava 
com Perez Lorenzo. Este porém fez um gesto para 
*pedirqueo deixassem desajudado .ia lucta. Arreda- 
ram-se todos, como os combatentes da idade media, 
quando n'alguma batalha se encontravam face 
a face dois paladinos cujo duello se tornava es- 
pectáculo brilhante para os membros d'essa gera- 
ção cavalheirosa. 

Os dois mexicanos, queluclavam corpo a corpo 



no combate singular, eram espécimens diff'e- 
rentes de robustez, mas inculcavam ambos vigor 
acima do vulgar. A força de Perez Lorenzo era 
toda nervosa, a de Juan Pablo provinha essencial- 
mente de uma reforçada musculatura. A robustez 
de Perez Lorenzo não lhe prejudicava a elegância 
do talho, e a delicadeza das formas; Juan Pablo, 
pelo contrario, linha formas verdadeiramente tau- 
rinas. 

Esteve por largo tempo indeciso o combate; os 
conlra-guerrilhas, selvagens mal disfarçados com 
uma leve tintura de civilisação, que a primeira 
circunstancia, que lhe pozesse em fogo as paixões, 
levava immediatamenle, davam grilos de enlhusias- 
mo, como se assistissem a uma corrida de touros. 
E a comparação não é das menos acertadas, por- 
que eflelivamente Juan Pablo investia com a bru- 
talidade cega do boi; Perez Lorenzo esquivava-se- 
Ihe aos ímpetos com a destreza do capinha, não 
deixando por isso de lh'os subjugar com o vigor 
do homem de forcado quando se lhe deparava en- 
sejo. Furioso de ver constantemente escapar-lheo 
adversário, Juan Pablo, que primeiro combatera 
desarmado, deu um pulo á retaguarda, e sacou 
de uma navalha. 

Ao verem esla infracção á lei do duello, os con- 
lra-guerrilhas soltaram um grilo de desapprova- 
ção, e correram para castigarem o audacioso. Mas 
de novo Perez Lorenzo fez um gesto e bradou com 
voz colérica: 

—Ninguém se mova. 

E, correndo para Juan Pablo a fim de lhe não dar 
tempo dejogar-lhe afaça, com um movimento rá- 
pido agarrou-lhe os pulsos, eapertou-lh'os comum 
vigor incrivel. Grande foi -a surpreza dos especta- 
dores d'esla scena, quando viram as mãos de- 
licadas de Perez Lorenzo prenderem como n'uma 
lorquez os braços vigorosos do seu adversário. E 
mais espantados ficaram quando o gigante soltou 
um bramido de dor, descorou, e, deixando cairá 
navalha dos dedos inteiriçados, vergou e caiu de 
joelhos proferindo uma blasphemia. 

Um applauso enlhusiasla acolheu esla façanha 
do myslerioso mexicano. 

Mas este nada ouvia. Brilhava-lhe nos olhos uma 
alegria feroz; pondo um joelho em cima do peito 
do chefe de guerrilhas, pediu uma corda, que os 
soldados logo lhe aliraram. Depois arraslou-o para 
fóia da choupana, bradando: 

— Emfim. 

A lua esplendia no céo azul c banhava as flo- 
restas com as ondas da sua luz prateada. Vm vago 
c delicioso murmúrio se exhalava dos ramos agi- 
tados pela cioce brisa das noites. A natureza jazia 
immersa em profunda paz. 

Perez Lorenzo, arrastando a sua preza, sumiu- 
se nos recessos da floresta. 

— Vamos, disse o coronel Dupin, por hoje eslá 
acabado. Meus senhores, continuou voltando-se 
para os seus oíficiaes, se teem alguma polka ou 
alguma valsa proraetlida em casa de D. Ramon, 
parece-me que ainda podem ir exigir o cumpri- 
mento da promessa. 



64 



O PANORAMA 



— Confesso-lhe, coronel, acudiu Viarmont, que 
n'este momento não desgostava, em vez de dan- 
çar, de me divertir um pouco vendo bailar este 
verdugo maldito, que temos trazido agarrado anos, 
no ramo de uma arvore. Nunca biclio venenoso 
me causou maior repugnância do que este selva- 
gem com apparencias de cavalheiro, que passa a 
sua vida a encher de fruclos humanos as arvores 
d'estes bosques. 

— Capitão Viarmont, respondeu o coronel com 
seriedade, este homem é menos criminoso do que 
pensa; tem paixões selvagens c verdade, mas foi 
um motivo bem justo, que lh'as soltou. Nunca es- 
teve na Córsega, capitão"? 

— Dois dias apenas; arribámos lá na passagem 
de Toulon para Alger. 

— Pois eu estive dois annos de guarnição em 
Ajaccio; conheço as montanhas da ilha e os mon- 
tanhezes. Jiiro-íhe que os Perez Lorenzos não são 
raros por lá. 

^'esle momento um gi-ilo horrível atravessou 
os ares, e veio expirar no ouvido das tropas fran- 
cews. 

Todos se entre-olharam com espanto; mas os pri- 
sioneiros pareceram perceber mais rapidamente o 
que occasionára esse grito, porque murmura- 
ram um: ((Caramba)), que revelava a ira impo- 
tente que oi salteiára. 

A tropa poz-se em marcha. Ao chegarem á orla 
extrema do palmar viram um vulto negro, que se 
baloiçava nos aios. 
Era o cadáver de Juan Pablo. 

(Continua) 



Um bom cidadão nunca se vinga d'uma injuria 
particular; mas arrisca, boamente, a vida pelo bem 
publico. 



BEATRIZ 



a— Se te hei de amar sempre, e sempre?.,. 
Pois lu não sal)es, querida, 
Que o meu ser, a minha vida 

Provem de li? 
Não vis como cu sou rliloso 
Quando le aljraro e te ijcijo? 
Que ludo quanlo desejo 

Termina aqui? — 

Se le hei de amar!...— que me impoita 
Senão leu meigo sorriso ? 
Não m» déslc o |)araiso, 

No leu amor? • 

Como é possi\cl que um dia ^ 

Te esí|ueça, rosa innoconlo, 
E le esfollie na orrenle, 
Candid aílòr ! 

Oh, tu és a minha estro h, 
O meu anjo, a providencia 
Que em minha negra exislencia 

Tem s(/ poder. 
Quero seguir-le, eníevar-me 
No leu gesto peregrino : 
Não ha mais hcilo destino, 

Nem pode haver 1 — 



E lu vaciltas, lu pensas 

Que deve alguém condemnar-le, 

Porque vim cego adorar-te, 

Porque te amei. 
Porque me deste os lliesouros 
Do leu seio palpitante, 
Porque anceio a cada instante 

Quanlo gosei?,.. 

Quem CS lu?... que lem o mundo 

Que tu me íibrapes agora? 

Quem ouve o mundo? quem chora? 

Que mal te íiz?.., 
Quem pensa que existe um crime 
IVesla alcj;ria encantada 
Em que a nossa alma arrobada 

\&d fíliz?... 

Sim lu és minha ; o teu peito 
Inda convulso lateja, 
Fervido raio lampeja 

No leu olhar; 
Sim tu és minha, que cu sinto 
Que nic apertas contra o seio;... 
Não penses, não, que este enteio 

Possa lindar !... 

Sim tu és minlia, e na vida 
Outro sol nSo me illumina, 
Quanto me alegra e fascina 

, Provém de ti. 

lia luz do ceu na minha alma 
Quando agitado le beijo : 
O que eu sonho, o que eu desejo 
Termina aqui. 

Amar-le é viver, e eu quero 
Levar cantando esta vida ; 
Só nos teus braços, querida, 

^ Quero expirar ; 

Oh, mas sentindo que o peito 
Inda te anceia e lateja, 
E que um rayo inda lampeja 

Nd leu olhar!—» ♦ 

Continua) • 



E. A. Vidal. 



ANGÉLICA -» 

Se Deus me perguntassQ, o que eu mais qVia, 
ique julgas lu que a Deus cu pediria? 

l, talvez sabedoria, 
como a pedio oulr'ora Salomão ? 
ou de Créso os innumeros thesouros 
que assombraram presentes e vindouros? 

Oh ! não, mil vezes não ! 
eu calcaria as pompas da o|)ulencia, 
eu fecharia os olhos á scicncia, f 

e só pediria então 
— como palma devida ao meu marlyrio — 
respirar teus perfumes, branco lirio, 

unir-le ao coração. 

Cândido Figufuiedo. 



Feliz o pai, de cujo filho se poda dizer: É a 
imagem da- humanidade e da probidade de seu pjy. 

A prosperidade atlrae amigos falsos e a adver- 
sidade afugcnla-os. 

A virtude deve ser sempre recompensada, seja 
qual for o estado ou habito sob os quaes ella se 
encontre. 



Typ, Franco-Portugucza i^ Kua do Thesouro VeUio, C. 



I 



66 



O PANORAMA 



ENÉAS SALVANDO ANGHISES 

(Quadro ilc Doniiiiiqniiio 

A eslanipa, a que se referem as linhas que va- 
mos liaçar. é copia de um dos mais bellos quadros 
do celebre pinlor Domiuico Zampieri, conhecido 
no mundo aitistico polo nome de Dominiquino. 
Esle pinlor, discípulo dosCairaches, lloiesceu nos 
jiiincipios do século XVII. Nasceu em Bolonha em 
15SI, morreu em Nápoles cm IGil. 

Allribue-se a morle de Dominiquino (e com seus 
visos de probabilidade) a veneno ministrado pelos 
seus colle^as. Não deixa de ser curiosa a tradição 
que se refere a este acontecimento, por isso a con- 
taremos rapidamente. 

Assplára uma peste assustadora a cidade de Ná- 
poles, e os Napolitanos, que já se viam assober- 
l)ados com o Vesúvio e com os hespanhoes que os 
dominavam, tendo ainda, para cumulo de desven- 
turas, a visita da peste, andavam iramersos em 
profunda tristeza, quando se lembraram de meller 
empenhos com Deos Nosso Senhor, para que elle 
por sua inlinila misericordfó, os livrasse do íla- 
irello. Fez-se portanto o voto a S. Januário de se 
Ihtí construir a capella mais magnifica da llalia, 
depois da capella Sixtina, so a peste se fosse em- 
bora. Acceilou S. Januário o contracto; a peste foi 
espairecer magoas i)ara outro sitio, e os Napolita- 
nos trataram de eomprir a sua promessa. 

Ora tinham elles juiado que o dinheiro neces- 
sário para a construcção sairia só de bolsas na- 
cionaes. Regeilaram até a ofierta de uma quantia 
considerável, que a mulher do seu vice-rei lhes en- 
viara, visto ser estrangeira a devota, accresccndo 
ainda o ser hespanhola, nome que principiava a 
soar mal aos ouvidos dos comj)alriotas de Masa- 
niello. 

Mas o que elles não juraram foi que a mencionada 
capella fosse piíjláda só por artistas napolitanos. 
Não o juraram os votantes, mas juraram-n'o os 
artistas, e declararam urbicl o//»/(juetodo c qual- 
quer artista de fora de Nápoles, que acceilasse o 
convite que aos pintores da Itália dirigia a com- 
missão, podia contar que recebei'ia em |)aga uma 
boa estocada do llespanholeto, ou (b; Laufranco, 
que manejavam o ílorete pelomenos tão bem como 
o pincel. 

A ameaça era séria. Ouem vè hoje passar pelo 
meio da rua o sr, Annunciação. ou o sr. Lu|)icom 
todas as a|H)arenciasde cidadãos pacilicos, amigos 
de ordem, eleitores da sua fríguesia, e respeita- 
dores das leis policiaes não pode imaginar o qu(í 
eram os arlistas do século XVI e do sfculo XVII. 
Era tudo gente de (-hapeo á banda, capa traçada 
o mão na illiarí,'a, espadim a pular na bainha, 
nariz a procurar avcntui-as. lira gente da laia de 
Salvator Rosa, que foi amigo d(! Masaniello, eque 
fez [)aile de um corpo de voluntários da morla, 
composto (juasi todo de artistas, íjue usavam car- 
tucheiras em vez de palheta, arcabuz em vez de 
pincel, e que desenhavam á ba'a nas cabeças dos 
hespanhoes, que tinham a desgraça de lhes ser\ir 



de tela. Já vêem pois que a ameaça dos pintores 
napolitanos devia inspirar sérias reflexões aos ou- 
tros artistas da península italiana. 

Não se importaram com a ameaça alguns dos 
pintores, entre outros duido que appareccu ura 
bello dia em Nápoles acompanhado por dois dos 
seus discipulae. Mas os ares logo se mostraram 
turvos, e Guido não teve remédio senão dar às de 
Yilla Diogo, Succedeu-lhe o cavalheiro de Arpino, 
que era espadachim, mas que se vio obrigado 
também a retirar, porque não era possível estar 
em cima dos andaimes, de pincel n'unia das mãos 
e espada na outra. Veio apoz elle o nosso Domi- 
niquino. 

Esse era um velho. Os pintores napolitanos te- 
meram o odioso que cairia sobre elles se o assas- 
sinassem ou á traição ou em combate, eniflm se 
lizessem correr sangue. Optaram, segundo se diz, 
pelo veneno, e os precedentes, que mencionámos, 
authorisam-nos a supporque esta opinião não será 
desliluida de fundamento. 

Assim mori'eu da idade de sessenta annos esle 
notável pintor, que não tem quasi rival na expres- 
são das physionomias, ainda que o colorido esteja 
longe de ser primoroso. Na gravura, que orna este 
numero do Panorama, podem os leitores ver a 
justiça do elogio que lhe fazemos. 

O assumpto do quadro é conhecidissimo. É o 
episodio da Eneida, em que o pio heroe foge de Tróia 
levando ás costas seu pai Anchises, ao lado 
seu filho Ascanio, atraz sua mulher Creusa. Estão 
estes maganões lodos a sair de casa na occasião 
que o pinlor escolheu. Creusa entrega ao sogro 
uns bonequilos que parecem obra de capellista, 
mas que são nada menos do que os deuses pe- 
nates, o pequeno insiste para que se ponham a an- 
dar, e Enéas, com o pai ás costas, volta os olhos 
saudosos para a sua habitação. 

Devo confessar-lhes, aqui muito á puridade, que 
nunca me commoveu muito este episodio da Enei- 
da. A idéa do velhote escarranchado nos hombros 
do filho de capacete sempre me transtornou o pa- 
Ihelico do lance, e não posso reler os versos do 
Manluano, sem me lembrar do Virgile íravesliÚQ 
Scarron, em que o malicioso poeta nos pinta o 
l)ai Anchises aos pontapés ás cosias de Enéas, cha- 
mandolheumas vezes «meu querido filho,» outras 
vezes cão e patife, para o fazer andar mais de- 
pressa, c Creusa quê se perdeu no caminho \)ov- 
(|ue ficou a atar a liga da meia, e Ascanio que 
berra por pão com manteiga, e Enéas, (jne vindo 
bater á poita de casa para dizer (|ue está o fogo 
na cidade, fica immenso tempo na rua, porque, se- 
gundo elle depois conta 

Un me cri:i par la funcire 

Que Von n'ouvrdit jamais la nuit 

E(, qiic jc falsais Irop tlc hiuit. 

Em todo o caso Dominiíjuino não podia adivi- 
nhar (|ue, depois da sua morte, um francez travesso 
se havia de divertir á custa do seu assumpto, e 
foi pintando um (|ua{lro admirável, de (|ue dá uma 
boa idéa a gravura (jue apresentamos. 



o PANORAMA 



67 



DO MOVIMENTO 

Por A. OSÓRIO DE YASCONCELLOS 
II 

Ouando a Iradicção piedosa poz na boca de 
Gafileu Galilei o celebre /• pur si muovc, como 
resposta audaz da sciencia ás torvas perseguições 
do fanatismo, mal diriam os homens de então, 
que os discípulos do grande sábio italiano pode- 
riam dizer passados três séculos: ludo se move na 
natureza. Esta conclusão concisa, verdadeira, lu- 
minosa, é um corollario do pensamento profunda- 
mente phylosophico, que sempre dirigiu os tra- 
balhos do sábio de Pisa. 

Tudo se move na natureza,. dizemos nós, os ho- 
mens de hoje, sem nos lembrarmos que este apho- 
rismo tão simples e tão singelo, custou séculos de 
observação e vigílias, noites e noites mal dormi- 
das, dias de Ímprobo labor, combales mal-feridos 
. contra os preconceitos herdados, e hecatombes de 
"^ victimas, que se finaram em prol da sciencia, in- 
terrogando a terra, cruzando-a em lodos os sen- 
tidos, já nas regiões hyperboricas, já nos climas 
adustos. 

Tudo se move, porque não ha vida sem movimen- 
to. Movem-se os mundos na amplidão, sulcando 
as ondas ethereas immensas, sem limites ; movem- 
se as estrellas, nos conlins da creação, tão dila- 
tadas, Ião longínquas, que a nossa imaginação es- 
tupefacta ao contemplar tanta grandeza, só pôde 
explical-a, acceitando o infinito real. 

Movem-se os cometas, essas borboletas do ceu, 
essas nuvens vaporosas, que volilam com rapidez 
aterradora e gastam milhares de annos a descre- 
ver as suas orbitas; 

A par do infinitamente grande, move-se o in- 
finitamente pequeno. 

O alomo, assim como o astro, gira perpetua- 
mente. 

Porque a vida é uma serie de movimentos que 
se combinam, cruzam-se e completam-se. A vida 
éafiuxão de Newton, è uma corrente continua em 
que as monadas se balançam e revoluteam. 

A acção que uma recebe, envia-a intacta e in- 
tegra á que se lhe segue, e o átomo do phosphoro 
que se fixa no cérebro do homem, resulla de uma 
acção, de que o universo è participante. 

Os movimentos, invisíveis ou atómicos nunca se 
equilibram na grande faina do mundo. 

Dois movimentos, que se combinam, produzem 
sempre um terceiro movimento harmónico com 
os primeiros, e como elles necessários ao íimcom- 
mum. 

O que Descartes dizia dos corpos é applicavel 
immediatamentc aos alomos. «.Para mim tenho, 
exclamava o grande phylosopho, queha uma certa 
quantidade de movimento em toda a matéria 
creada, que nunca augmenta nem diminue, e as- 
sim é que, quando um corpo obriga outro a mo- 
\'er-se, perde tanto movimento quanto éo queda 
como acontece com uma pedra que se depois de cair 
sobre a terra, não volta para o ar, antes fica pa- 
rada, parece-me que isto provem de que a pró- 



pria terra é abalada, e lhe transfere assim todo o 
seu movimento.» 

E?las palavras de Descartes, exprimem o que 
se passa era todo o universo. 

Os movimentos, assim visíveis como invisíveis 
combinam-se mutuamente, mas não se perdem. 

Da mesma sorte que a pedra abala a terra, o 
raio luminoso ou calorífico não pôde perder-se e 
acabar o seu eíleílo, para não mais se renovar. 
Cada acção tem o seu cyclo fatal e necessário, c 
o limite derradeiro e grandioso é a vida, que se 
perpctija no universo. 

Por isso, se a vida está em Ioda a parte, e se 
não ha vida sem matéria, o vácuo é impossível 
e repugna como absurdo. 

Assim acreditáramos anligos em a sua admirá- 
vel presciência, assim julgamos nós e provamos 
pela explicação e permanência de certos pheno- 
menos. 

O vácuo não existe. Aonde não ha matéria pal- 
pável, tangível ha um fluido tenuíssimo, vibratil, 
que escapa a todas observações, imagem viva dos 
gnomos subtis, verdadeiro sylpho da creação, por- 
que penetra os mais íntimos recessos dos corpos, 
enche os espaços inleralomicos e interplanelarios. 
Esse fluido ou o que quer seja, cuja existência foi 
adivinhada, é o ether, que alguns phylosophos jul- 
gam imponderável, não se lembrando que o vá- 
cuo é absurdo, eonde não ha pezo não ha matéria. 

Porque o ether escapa á observação directa, não 
se conclue que não tenha pezo. Desde quando a 
experiência pôde substituir o raciocínio em ques- 
tões de phylosophia ? Dado que o vácuo não pôde 
existir, o ether, que o enche, é matéria, e por- 
tanto peza. 

O ether é pois o vehiculo, o meio ]3elo qual 
os movimentos se transportam e combinam, da 
mesma sorte que o ar transporta os sons. As ondu- 
lações do elher são as vibrações do ar(l) 

O que é a forra"! Se temos movimentos, e se 
estes são a vida, segue-se que aquella, a forca, 
é a própria vida'' 

Eis-nos chegados ao mysterio da natureza. A 
força c a incógnita, que ninguém pôde determi- 
nar. A força é tudo e é nada. Considerada como 
causa primaria do movimento, a força é a alma 
do universo, é a ligação providencial dos elemen- 
tos, é o agente das transformações e metamor- 
phoses, é o fautor d'esse camalião sublime, que 
se denomina vida. Tomada como entidade abstracta 
ou como idéa absoluta a força é a desconhecido, 
é o ponto de interrogação perante o qual todos 
estacam. 

Mas a sciencia moderna, honra lhe seja, dei- 
xou ha muito essas definiçõ^s e distíncções subtis, 
que foram em tempos Irislissimo apanágio da phy- 
losophia natural. 

Quando se ignora, o melhor meio de se forrar 



(1) A própria camará barométrica, o espaço comprehendido entre 
a superficie dacolumna do mercúrio o a extremidade fechada do 
tubo, transporta a gravidade, o magnetismo etc. e não transporta 
o som. . . . 

tí' jiorque existe ali ether a pezar do vácuo ser o mais perfeito 
de todos que é possível obter. 



68 



O PANORAMA 



ás difliculdades, é confessar a ignorância, c cami- 
nhar ávanlc. 

Assim lez a scicncia não curando das causas 
primarias, que vinham a cada passo tolher o pro- 
gresso e enlibiar os arliíices. 

Acceilo, como principio inconlroverso que a 
matéria se move, ou antes, que o movimento c 
uma propriedade inherente e essencial á maté- 
ria, não era necessário recorrera cada instante a 
uma causa exterior c desconhecida, a uma força, 
que explicasse e determinasse os phenomenos. 

E lanlo isloé assim, que os maiores geómetras, 
que lloresceram depois de Newton, Laplace, l.a- 
grange, Plana, Poinsot.elc. até confundem de caso 
pensado o movimento com a força, e combinara 
uma com oulra coisa, o que seria absurdo, se com 
elTeilo csía fosse a causa d'aqueile. 

Cabia principalmente á sciencia mostrar, não 
só que a matéria eslava em perpetuo movimento, 
senão que, e isto era o principal, um movimento 
quabpier, fracção da energia natural, podia gerar 
outro ou outros movimentos e com ellesconbinar- 
se por todos os modos. 

Assim foi que Rumford, Mayer, Grove, Joule, 
e outros demonstraram evidentemente que o mo- 
vimento, das massas pôde converter-se em movi- 
mentos de átomos, isto é que o movimento de um 
corpo se tiansforma em calor, e este, jiarecendo 
aniquilado, surge outra vez, como Phenix, sob a for- 
ma de movimento. A acção do sculptor, que ani- 
ma o mármore, é uma parcella da energia da na- 
tureza, é uma fracção de calor solar, que se trans- 
formou em movimento. 

Pertencia e pertence ainda á sciencia posto que 
este problema esteja ainda no dominio das con- 
jecturas, o mostrar que, se a matéria pôde ser 
una e simples, a força, ou o movimento é tam- 
bém simples e uno, ou o que é o mesmo, que 
a quantidade de movimento inicial não augmenla 
nem diminue, não tem natureza diversa, apenas 
se Iransfoinia e metamorphosca continuamente, 
incessantemente. 

Assim com o sol é umas vezes centro de foiça 
impulsora e mantém os planetas, salelliles e co- 
metas nas suas orbitas, e outras vezes emana 
calor, luz, electricidade, magnetismo, c aílinidade 
chimica, assim lambem nos seios da natureza ha 
uma faculdade, em virtude da qual todas estas 
manifestações da energia, apparenlemenie tão di- 
versas, j)ódem ser oriundas do mesmo centro, 
e transfoimaren^-se mutuamente, segundo as cir- 
cunstancias. 

Ouer isto dizer quea sciencia procura a unidade 
dos movimentos e anuidade das matérias elemen- 
tares pela sua correlação intima. 

Km conclusão vc-se que a (hnamica (2) deter- 
minou pela anal \ se e observação : 

1." Ouc ao axioma de Lavoisier de í|ue a ma- 
téria não se cria nem se perde, corresponde o axio- 
ma de (|ueo movimento não se cria ikmii se |)erde. 

2." Oue sendo a maleriauna, a força éuuaíam- 
bem. 

(2) Sciencia das ijrc::i. 



Assentes estes principies, que vão aqui exara- 
dos com a possível clareza e brevidade; conside- 
rando o movimento assim nos corpos como nos 
corpúsculos digamos alguma coisa á cerca d'elles 
e da vida do cosmos, antes de faltar da vida phy- 
siologica, como nós acomjjrehendemos mais facil- 
mente. 

A GRAVURA EM MADEIRA EM PORTUGAL 

Por NOGUEIRA DA SILVA. 
11 

Em seguida ao Panorama veio a llluslrarão. 
O pensamento inicial d'esla nova publicação il- 
lustrada era, creio eu, radicar a arte nacional e 
alargar-lhe a esphera até ás vastas proporções dos 
jornaes estrangeiros do mesmo titulo. 

Para realisar este milagre deram-se as mãos, 
lapjs, penna, c buril, suppondo cada um que em 
qualquer dos outros existia o santo. Mas, infeliz- 
mente, em todos faltava a graça. O estudo e o cxer- 
cicio permanentes, sem os quaes não é dado ás ^ 
bellas-artes convencer os incrédulos e abrir o rei- 
no da gloria, tinham morrido á nascença. Não po- 
dia, por conseguinte, a cadea deixar de |)arlir, 
([uerendo faze-ia chegar forçadamente aos exti-e- 
mos de um caminho paia que não tinha a sulli- 
ei(^nte extensão. Não era possível que a vontade llo- 
risse faltando-lhe a seiva da acção. 

Os artistas que deviam realisar tão pretencioso 
ensaio eram ainda os mesmos do Panorama. A 
arte de gravura em madeira não havia, portanto, 
crescido, nem em aperfeiçoamento nem em culto- 
res; teria, pelo contrario, emmagrecido, porque dor- 
mia; e o somno é para as artes que dependem, como 
as da gravura, de uma execução aturada, o mes- 
mo que o reumatismo é para a gente. Enlorpe- 
ce-as, impossibilitando-as, conseguinlemente, de 
poderem entrar, de prompto, em vida activa. 

('omo, pois, allingir o lini com a doente tão de- 
bilitada por este duplo mal? Não parecia quasi 
certo o sinistro, empregando medecina tão forte e 
elevada? 

l^or outro lado, mais uma circumstancia, não 
menos desíavoíavel, e dupla lambem, se apresen- 
tava a conspirar. Era o numero maior e grande- 
'sa superior das estampas que reíjueria uma publi- 
cação de vastas dimensões com o titulo exigente 
ÚG Illuslração, em nenhum paiz autharisada pela 
|)obreza numérica e artística de desenhos e gra- 
vuras. Mas este obstáculo, para mim, o inimigo 
gigantesco da empreza, foi o que ninguém vio, nem 
editores, nem redacção, nem artistas. 

A uns vendava-lhes*os olhos o desconhecimento 
involuntário de uma serie de cousas d'arte, que 
as próprias iiitelligencias não sentem, e mesmo não 
coiiii)rehen(lem, em as nações onde falia a educa- 
ção e o habito de ver e aj)ieciar as obras mara- 
vilhosas das bellas-artes. A outros cegava-os o 
amor próprio, dizendo-lhes que ludo poderiam fazer. 

Ninguém se lembrou (jue uma J/hi.sIrarão era já 
íim, e não meio; (|ue era o resultado do desenvol- 
vimento (jutisi complelo do desenho e da gravura 
em madeira, e não estudo; que era academia de 



o PANORAMA 



6^ 



mestres, e não escola de discípulos; que era. pro- 
fissão, e não tyrocinio. Todos disseram «sim», e 
principiaram logo a fazer o trabalho que melhor 
mostrava que deveriam ter dito ((não»; porque um 
desenhador e um giavador não podiam dar em 
uma semana a obra que, por ser mais multiplicada 
e exigir successivo aperfeiçoamento, carecia, para 
Ião limitado numero de artistas, de dois mezes pe- 
lo menos. 

Certo foi, portanto, afíogarem-se os estimules 
do capricho n'este lago de diíViculdades, e cada 
um tratava de salvar-se como podia. Desenhou-se 
e gravou-se aos trambulhões. Bordalo remettia os 
desenhos apenas alinhavados j)ara a mão de Coe- 
lho, e este, mau grado sou, de tal modo se via 
obrigado a aguilhoa-los comos sous buris, para os 
dar esgara valados a tempo, quede todo os descosia. 

IKus/rnrão com tal arte não podia agradar. 
Os assignantes i-ecebiam-a mal, e, assegurando 
a robustez de seus peitos, principiavam a decla- 
rar que não careciam de emolaslos, remeltcndo, 



em troca, pelo distribuidor, algumas pilulas para os 
editores. Estes, achando-as amargas de mais, sen- 
tiram a necessidade de acabar com o jornal ou de 
o reformar. Pensou-se em crear discipulos; mas 
estes não se decretavam em bellas-artes. Além disso 
o presente corria instável, e o futuro não sorria. Para 
mais ajuda o publico" não estava, como ainda ho- 
je não está uma grande parte d'elle, intelligenle- 
mente preparado para jornaes illustrados. Conspi- 
rava tudo. Em o ecu irrevogável programma, li- 
nha o destino decidido que 'Bordalo Pinheiro, e 
Baptista Coelho, fossem os primeiros martyres dos 
grandes esforços, em que ninguém lhes podia já of- 
fuscar a realeza de heroes. O impulso que havia 
de fazer sair de tão acanhada orbita a arte de gra- 
vura cm madeira estava longe, e o jornal, que 
não podia esperar, morreu de paralysia artística, 
deixando, apenas, como o Panorama, para não 
mentir ao seu estatuto litterario, um nome illus- 
tre nos annaes das nossas publicações amenas. 

(■("i.nlinm 1 




ALCATUÀO 

Dá-se o nome de Alcatrão a certos productos 
empyreumaticos, que procedem da distillação de 
matérias vegetaes ou do carvão de pedra. * 
_ O Alcatrão ordinário, chamado muitas vezes 
Alcatrão vegetal para se distinguir do Alcatrão 



(te carvão de pedra ou coallar dos Inglezes, é uma 
substancia resinosa, espessa, molle, negra, amar- 
ga e de um cheiro forte e empyreumalico, que 
se oblem do pinho em ignição; é um mixio de 
resinaspyrogéneascombinadas com o acido acético, 
carvão e óleo essencial empyreumalico; emprega- 
se na indusliia para preservar as madeiras da de- 



70 



O PANORAMA 



composição e usa-se d'elle lambem na medecina 
e na veterinária, contra as doenças de pelle, ca- 
thaiTOS chronicos, lisica pulmonar, ele. No estado 
solitlo, consequência da evaporação de uma gran- 
de parte dos priucipios liquides, chama-se /V:. 
O alcatrão da Rússia e da Noruega é o mais esti- 
mado; depois o dos Estados-Unidos, Bordéus, Slras- 
burgo, Provença, ele. 

Ò processo para extrair o alcatrão vegetal, é 
muito simples. (Vede a gravura). Escolhe-se um 
silio favorável no declive de uma montanha, junc- 
to ao bosque, do qual se hade cortar a madeira, 
e próximo de um lago ou riacho. Bate-se bem um 
taboleiro de terreno para cada forno, sustentan- 
do a terra na frente com fortes paliçadas de ma- 
deira. Os fornos são covas abertas no chão, de 
forma cónica, tendo as paredes forradas de argila 
bem batida. No fundo pratica-se uma caldeira na 
qual ha um cano ou bica, que sae fora da paliça- 
da. A madeira depois de secca, reduz-se a cava- 
cos, mette-se em uma espécie de dorna, que se 
adapta justamente ao forno, e que descendo a este 
é coberta de terra argilosa, mui balida, para evi- 
tar a fuga das partes voláteis, licando apenas 
um pequeno orifício para a saida do fumo. Reli- 
ra-se em seguida o madeiro em forma de cruz que 
eslà no centro da dorna, e no buraco que elle 
deixa introduz-se o fogo. A madeira vai-se len- 
tamente queimando, sem fazer chamma, e a resina 
caindo na caldeira, donde passa então, pela bica, 
para os barris, que depois de cheios são batoca- 
dos convenientemente. A nossa estampa explica 
bem todo o processo e mostra lodos os instrumen- 
tos precisos para este fabrico. 

O Alcatrão mineral, ou Alcatrão de carvão de 
pedra é um dos resíduos do fabrico do gaz de iilu- 
minação. A sua composição é excessivamente va- 
riável*. Calvert achou-o composto, ora quasi ex- 
clusivamente de Aapittalina, ora de Paraffma, 
outras vezes de Benzina, Acido phenico e de di- 
versos cartmretos de iiydrogenio. Submellido á dis- 
tillaçãomoderada,oalcalrãodecarvãodepedra, pro- 
duz, sucessivamente, agua, ammoniato, carburelos 
leves de hydj-ogenio, e depois carburelos mais pe- 
sados. Os primeiros servem para a illuminação, os 
segundos applicam-se á dissolução do mixlo do 
caoutchouc e ^'omma laca, conhecido pelo nome 
de Visco. Estes óleos dislilkidos servem lambem 
para a preparação do acido picricoA) Y('ú(\\m da 
distillação do alcatrão ou hren, dissolvido em oleo, 
forma com as ocres uma tinta própria para conser- 
var as madeiras, mclaes^ctc. 



tão pendurados de seus favores e respostas como 
de oráculos; as acompanham como a coisas sagra- 
das; se vestem, ornam, e enfeitam pelas agradar; 
se desvelam pelas servir; se apuram para as me- 
recer, no esforço, na gentileza, na galantaria, no 
dito discreto, no escriplo avisado, no mole galante, 
na endeixa subtil, no soneto conceiluoso; por ellas 
se ensaiam para o saráo, no dançar, no fallar, 
no acompanhar, e no oflerecer; por ellas se apres- 
tam nas occasiões de jornadas, de criados, e li- 
brés, galas e ginetes; por ellas continuam o pas- 
seio á vista das janellas, atravessam as salas á 
sua conta, e rodeiam o terreiru do Paço mil vezes 
por seu gosto; por ellas se oíTerecem a todo o pe- 
rigo; porque qual he que um servidor de damas 
não ache fácil por amor d'ellas? que palavras diz'? 
que extremos receia? que esquivanças não solíYe? 
que riquesas estima? que quimeras não finge? 
que occasiões não busca? vela de noite, não des- 
cança de dia, não se entristece com a pena, não 
desconíia com o desengano, não faz conla de ag- 
gravos, nem estima desprezos, não cura de vin- 
ganças, e emfim tudo é veneração e humildade 
com que as engrandece. 

Francisco Rodrigues Lobo 



O decoro c primor com que as damas se tra- 
tam n'esle reino, princi|)almenle as que assistem 
no Paço, parece que em certo moíío conserva 
aquella preeminência, qu(! os Egypcios liic, deram, 
qu(í com o exemplo do bom governo d'Isis rei- 
navam as mulheres, porque em prezença c auzcn- 
cia os cortezãos as nomeiam por senhoras, se lhes 
descobrem e ajoelham como a deusas, lhes fazem fes- 
tas, jogos, justas e torneios como a deidades, cs- 



A GALATEA MODERNA 

Por A. OZORIG DE VASCONGELLOS * 

III 
jtlfredo de Mello a António Alvares 

Meu caro amigo. — Correu um mez, e este lapso 
de tempo, que é um zero na ampulheta do uni- 
verso, inlluiu immenso na minha vida. 

Vou conlar-le tudo sem rebuço e com fideli- 
dade. 

Arrastado pela frieza marmórea de Violante, 
cuidava pressentir um vulcão coberto de gelo. A 
principio sorria-me a idéa de mostrar á bella al- 
deã que pouco me importava a sua isenção, que 
entre ella vinha eu armado de Lisboa com o meu sce- 
plicismo.... que jà agora me está parecendo pos- 
tiço. Eu ([ue tantas vezes havia clamado contra 
os enganos do coração mal podia arreceiar-me 
d'elles, em uma aldeia perdida nas campinas do 
Minho. 

l^oi-se porém amortecendo a pouco c pouco a 
minha contiança e comecei a temer alguma fraqueza 
indigna dos meus brios de I). .hian. Bem sabes 
que uma das doenças moraes do século é este du- 
alismo artilicial entre o coração c í educação. 
Byron e Espronceda deixaram uma escola, que 
ainda hoje nos governa e allribula. 

Todos queremos confessar-nos supeiiores ao 
amor, c dalii essa pugna travada, que mal nos deixa 
gosar a mocidade, colher os seus fructos, cultivar 
as suas 11 ores. 

Eu mesmo que sou tão amanledos velhos tempos 
romanescos não aceitara o papel de trovador, que 
suspira pela sua bella c almeja conquislar-lhe o 
alvedrio. 

Por isso, com senlir-me arrastado para Violante, 



o PANORAMA 



71 



tomava-a apenas como um problema, emal cuida- 
ra que a solução (Velle poderia ainda imporlar q 
meu fuliiro. 

(Ihegado aqui, eslou a ver-te amarrotar esta caria 
com violência, bradando incendido em raiva: 

— Bem le dizia eu, pobre Alfredo, desventura- 
do amigo. Ninguém foge ao seu destino, e o teu 
sempre foi gemer alllicto aos pés de umaserêa. Cui- 
davas, que podias luctar com a sorte, e caiste em 
misero engano. Amar! Pois haverá ainda alguém 
que se deixe levar d'este sonho enganoso 1 Pois 
a innocenciaarcadica poderá chegar ainda a tanto! 
Amar é arder, ércqueimar o coração em chamma 
devastadora. Ninguém pense que esse fogo não 
queima. A vestal (|ue o guarda e o mantém acce- 
so, manchou ha muito a túnica enconsutil no bos- 
que sagrado. Ó mísero Alfredo! Porque te foste pren- 
der? Porque não fugiste? Assim esqueceste os meus 
conselhos? Ignoravas acaso que braços de mulher 
são liames, que nos enredam e precipitam no abis- 
mo undoso, contia o qual não ha luctar? 

— Devagar! devagar! respondo eu. Pintas o qua- 
dro tão negro, meu velho amigo, que vou lançar 
luz nas nuvens, que encastellas no meu firmamen 
to. Ouve e socega. Eu não amo ainda, e tenho 
pena. 

Vai-se-me extinguindo a mocidade, conio flor que 
emmurchece com o calor do sol. 

A edadc viril, como é de uso chamar ao pri- 
meiro alvor de decadência, vem assomando car- 
regada de desenganos. Que refrigério lenho eu 
contra elles? Oue fogo para derreter os gelos, que 
se amontoam? Aonde buscar alentos para os tor- 
mentos da vida? Aonde, senão em um peito ado- 
lado, em um seio de virgem, nessa pyra, cujo fu- 
mo é incenso sacralissimo? Não escarneças. A 
minha doença, a doença de nós todos está na ma- 
ter lalisação úo amov . Amor sensual, exhaure; amor 
espiritual, alenta. Sansão deixa que Dalila lhe cor- 
te os cabellos, e rende-se; Hercules lança aos pés 
de Omphalc a pelle do leão da Neméa; mas An- 
teu cobra novas forças quando abraça a terra, e 
Amadiz obra prodígios e gentilezas. 

Se eu portanto lançar para longe o materialis- 
mo, que herdei do século, poderei ser feliz. Seiíão, 
que importa? 

Deixa-mc porém voltar ao fio da minha narra- 
tiva, se porventura as minhas phylosophias não 
te cansam o espirito. 

Pirme no meu sceplícismo e julgando-mc um 
Achilles invulnerável comecei a dirigir a minha 
táctica, com a perlidía de um conquistador, que 
por satisfazer um capricho, não se arreceia de 
macular o tecto hospitaleiro e preparar um futuro 
de lagrimas a unuulonzclla virtuosa, que vive uma 
vida tão santa c clausuialna província. Assim nos 
fez este século! 

Durante este tiroteio não poupava nenhuma das 
artimanhas, que é uso empregar, e que aqui po- 
diam dimh fazer cffei lo. Não penses que me cons- 
titui um Lovelace ridículo. 

Outro e mais alto era o meu fim, porque que- 
ria interrogar aquelle coração. 



Assim correram os primeiros dias e devo con- 
fessar-te que tudo foi baldado. 

A mesma frieza, sempre a mesma indifferença. 
Um sorriso dcdesdem,um olhar glacial elimpido, 
e nada mais E não sei porque cada vez me sentia 
mais subjugado e vencido. 

Á noite, junto ao fogão, quando começávamos a' 
rememorar as melhores paginas dos primeiros es- 
criploi-es, em que elles como que haviam deixado 
uma parte de sua alma, Violante conservava-se im- 
passível, rosto erecto, sem uma sombra de senti- 
mento, sem uma scentelha nos olhos, sem um gesto 
de enthusiasmo, e quantas vezes, depois de me 
haver deixado librar nas azas da imaginação ás 
espheras altíssimas do afiecto puro c immaculado, 
não me precipitava ella e me deixava aturdido, 
absorto, estúpido, lembrando-sederepente de uma 
minúcia caseira, das horas do chá, da lenha paia 
o fogão? N'esses momentos crescia-me uma raiva 
coiícentrada; quizera abrir-lhe o peito e ver late- 
jar-llie o coração nas minhas mãos ensanguentadas. 
Outras vezes c ella quem me induz e arrasta e 
obriga a conversações intimas, em que a alma se 
alarga e expande e então ou sorri ou fica pensa- 
tiva e suspira contemplando o brazído. 

Assim continuavam os nossos serões, interrom- 
pidos ás vezes pelas narrativas do velho fidalgo, 
que muito se deleitava em contar as suas campa- 
nhas e os feitos de seus avós. 

O tempo estava chuvoso e carrancudo. 

A athmosphera nublára-se com a minha che- 
gada; caíamos primeiros choviscos, que succedem 
ás chuvas torrencíaes do inverno e precedem o 
bafejar da primavera. 'Os campos alagados não 
permittiam caçadas, para que o meu hospedeiro 
me andava convidando todos os dias. São terríveis 
para um namorado estas clausuras forçadas frente 
a frente arca por arca com o objecto amado. E 
brincar^ com o fogo, que nos queima, é aguçar o 
cutello,\iuc ha de decepar-nos. 

E eu sinto-me cada vez mais prezo, sem poder 
desatar os laços, que me enleim. Não julgulfe 
que goso esses extasis sublimes do primeiro 
amor. Julgo-me velho para isso. Amoíino-me, 
ponpie começara por um brinquedo, o qual se 
volta depois contra mim. Tal é o meu estado 
digno de lastima. Não a amo por ora, como usa- 
vam os trovadores, antes me rebello conlra essa 
idéa, (jue ainda ha poucos dias me iázia sorrir. 
Vejo porém que se aj)roxima a crise, para a qual 
não estou preparado. Se Violante não se apresen- 
tara tão diversa do que eu pensava, por formosa, 
(jue soja, não teria poder pai-a me encantar. iVias 
levado |)ela curiosidade quiz estudal-a de peito, e 
afinal i)arece-me que virá a acontecer-me como a 
Plínio, que para estudar o vulcão, debruçou-seda 
cratera, e caiu na lava de fogo. Já me lembrei de 
fugir, mas fora cobardia. Antes quero morrer no 
meu posto, como soldado fiel á bandeira. Teu ver- 
dadeiro amigo — Alfredo de Mello. 

A prudência junta ao valor Iriumpha dos maio- 
res obstáculos. 



72 



O PANORAMA 



BEATRIZ 

Escusado é dizer quem murmurava 
Este canto de amor; por mais virtude 
Que o leitor tenha em si, en perco tudo 
Que é possi\ el perder, se não c certo 
Que já desconllou de quem soltava 
Estas palavras ternas e amorosas. 
Fica. portanto; assente que a condessa, 
A despeito de tudo amava Ja^^ques. 
O que mais succedeu depois do canto 
Que acabamos de ouvir, c ponto serio 
Que não ouso tocar; demais a noile 
Era escura c sombria, e os dois amantes 
Vagavam no mais denso da espessura 
De um copado jardim. Ohl quem poderá 
Ouvir quantos suspiros maviosos 
O vento repetiu, quantos protestos 
De infinita paixão soaram brandos 
Entre os ramos em flor da larangeiral— 

Deixai, deixai viver quem ama e senie 

Bater o coração ébrio de affeclo; 

Deixai colher as rosas, que despontam 

Neste duro pragal, chamado a vida; 

Deixai gosar, o goso é quanto resta 

Ao que tem alma, e farto (feste mundo, 

Inda pode sonhar com o paraisol 

Que importa o mais? Eu quero em minha fronte 

Uma c'roa de lyrios, em meus braços 

O meu anjo infiintil, sobre os meus lábios 

Um beijo ardente e longo, e o mundo inteiro 

Que desa!)e em redor: feliz e altivo 

Hei de viver de amor entre as ruinas!— 



XI 



O certo c que a condessa amava Jacques, 

E o conde nem de longe suspeitava 

Esta infame paixão; verdade seja 

Que a esposa encantadora .já não tinha 

O mesmo agrado -e affecto como d'antcs; 

Mas, que cu saiba, ninguém se atreveria 

Por mudança tão leve a ter vislumbre 

De uma idea ruim. Passava o tempo, 

.\s visitas de Jacques repetiam-se 

Cada vez mais, os ânimos alheios 

Iam sentindo já de vez em quando 

Seus momentos de duvida; a má lingua 

Começava a grassar na visinhança. 

Bealri/. pensou, viu, bem que era impossível 

Viver assin), fingindo, atraiçoando, 

Mentindo a cada instante; era preciso 

Kemif-se, pelo menos, d'essc crime 

iJa traição desleal — que lhe restava?.... 

O que íazia alli?...pois não temia 

Que. desfeita a illusão que inda enganava 

O velho conde, súbita procella 

Desfechasse uos dois horridamcnte?.... 

Pensou, viu ludo,combinou mil casos, 

Modilou largamente, e sem'i)re ao cabo 

l)'essas cogitações, vinha-lhe á mente 

.\ífastar-sc d'alli, fugir, roubar-se 

Aos affagos do esposo, e só com Jacques 

Entre arrobos de amor passar a vida. 

Esta idea, de corto, era a mais prompla 

Que podia acudir a (luem se visse 

Na posição terrivel da condessa; 

Sei que as coisas, levadas d'oiitro modo, 

Podiam vir a dar n'um resultado 

Muito melhor, talvez, c até mais próprio. 

M;is a pobre mulher que só peccara 

Cega (hí amor, que ouv:a a consciência 

(>oridemn;i-l;i na voz de seu marido, 

Inda tiidia a loucura imperdoável 

De julgar, que, mostrar-sc a lodo o mundo 

Tal qual era, dccerlo era mais digno 



Do que fingir pureza, quando n'alma 
A pústula da infâmia ia lavrando! — 

Assim foi; certo dia, a desgraçada. 

Entre lagrimas tristes, disse a° Jacques 

Que era myster partir, irem sosinhos 

Viver longe do mundo, não sentind» 

O rumor da procella que já perto 

Começava a rugir; elle,beijando-a 

Na face desmaiada, disse apenas 

Co' um sorriso de amor: — «Oh! sim, querida, 

«É preciso partir, sou leu, és minha» 

Pouco tempo depois ambos viviam 

Na mais doce união, na paz mais doce 

Que podemos sonhar; o ceo banhava-o.s 

De luz e de prazer, e as brandas horas 

Deslisavam serenas, como um rio 

Entra o frescor e o cheiro das boninas. 

O conde, o pobre conde retirara-se 
Do bulicio do mundo; e alguém dizia 
Que, pungido de magoa, ultimamente 
Fora— coitado— recolher-se a Trappa, 
E devorar no horror o fel da vida. 
O certo é que partira; onde parava 
Não posso já dizer, porem suspeito 
Que a baleia da Trappa é sem verdade. 
Isto é fallar de mais; eu deveria 
Conservar o mysterio até às ultimas, 
Cobrir com um veo de névoa as peripécias 
Que lenho a relatar, baralhar ludo, 
E assim ganhar terreno onde podesse 
Mostrar no desenlace os meus recursos. 
Isto mí^nda o bom siso, e os grandes mestres, 
Que valem muito mais; mas eu não posso, 
Seja dito afinal, não posso nunca 
Prender-me cm grande acção, aproveilar-lhe 
Quanto ella tem. lorcel-a"e reviral-a 
Em trato de, polé; loco-a de leve, 
Tomo apenas a flor, vou pela rama, 
E acabo exhausto e farto; estou no caso 
Do bom de La Fonlaine: — «As grandes obras 
Nunca as pude tragar; lenho-lhes medo!»— 

ConUnun. 

E. A. Vidai. 



PRISÃO DE AMOR 

Trailiieção de iii» epigraiiiiun grego 

l'm dia, cortou ella um só cabello 
da longa e lina trança d'ouro bello, 
e as duas mãos comelle me ligou. 

lieixei lig.al-as; e sorri-me, quando 
vi fácil o quebrar o laço brando, 
com que a travessa minhas mãos alou. 

Mas quando de Ião frágil embaraço 

me quiz livrar, achei que o brando laço 

n'uma dura cadeia se tornou. 



Vizeií. ouLuljro de O.i, 



Cândido Figueiredo. 



Nilo (í haslanlc o sor justo, é pi-ociso ser bonefi- 
cenlc. 

É o ospirilo quo (leve, do ser a rogra do nosso 
pi-occdinuiiilo o o guia das nossas acções. 

Sallistiro. 

A virlude é a única cousa que se não dá e que 
SC iijjo recebe. Maiuus 



Typ. Fraijco-1'orlugueza. = Huado Thesouro Vullio,6. 



10 



o PANORAMA 



73 




WIESBADEN E SEUS CONTORNOS 

AViesbaden, celebre por suas aguas mineraes,e 
aonde todos os annos concorre um grande nume- 
ro de estrangeiros, é uma das mais conliecidas cida- 
des de Ailemanha, Foi fundada, um século antes da 
era chrislã, pelos Ubianos, pequeno povo da Ger- 
mânia, que d'e!lalizerama sua capital. Não existe 
historia d'est8 povo: apenas d'ellese sabe o pouco 
que disseram os romanos, com os quaes havia 
feito alliança. 

Parece que as nascentes deagua quente de Wies- 
baden eram já conhecidas dos romanos no tempo 
das suas primeiras guerras no Rheno; Plinio falia 
d'ellas no seu tratado de historia natural, escriplo 
oitenta annos depois de christo: «a agua, diz elle, 
trez dias depois delirada da nascente, ainda está 
quente». 

Os príncipes do ducado de Nassau, cuja capital 
é Wiesbaden, descendem da antiga familia de 
Laurenburgo, que reinou por muito tempo sobre 
as duas margens da ribeira de Lahn. O castello 
onde residiam, e que tem o mesmo nomo, ainda 
existe; eleva-se no cume de uma montanha silua- 
da na margem esquerda da ribeira de Lahn, qua- 
tro léguas distante do Rheno. 

AViesbaden contem um grande numero de anti- 
guidades romanas; as mais notáveis são um muro 
de quinze a vinte pés de altura, que oufrora ser- 
via de cerco à cidade, e muitos banhos perfeitamente 



conservados. Estes banhos teem noventa pés de 
de comprimento, sobre dez de largura e cinco de 
profundidade; os tanques são construídos de can- 
taria, c o fundo forrado de tijolos quadrados em 
muitos dos quaes se vêem asiniciaes da 22 legião 
romana. Nos arrabaldes da cidade teem-se encon- 
trado quasi todos annos um grande numero de 
túmulos inscripções, etc. 

A meia légua de AViesbadea, existe um sitio, 
no meio de um bosque, onde repousam, dizem, as 
ossadas dos Ubianos e dos Mattiacos: (íScpidcnim 
ccspcs cr/^// (Tácito).)) Pordetraz doeste cemitério 
eleva-se o Néroberg, ou monte de Nero, sobre os 
flancos do qual se vêem ainda as ruinas de um 
palácio í:omano. Segundo a tradição, estendia-se 
um vasto parque sobrecslamo.itaniia, quecompre- 
hendia em seu âmbito a floresta que cobre oTau- 
nus. Ouasi todos os cumes d'este monie são co- 
roados por grandes pedras, restos de forticações 
levantadas pelos povos aniigos da Germânia para 
se defenderem contra os a(,aques dos romanos. È 
obia dos Ubianos,. ou dos povos que os precede- 
ram n'este paiz? É o que se não sabe. E provável 
que estas construcções fossem não somente um 
meio de defeza, mas que servissem também de 
limites e de linhas de demarcação. São ellas, sem 
duvida, que deram aos romanos a idéa da famosa 
muralha (Teufelsmaner, ou muro do diabo) e do 
iramenso fosso que se estendia desde o Rheno ate 
ao Danúbio. 



74 



O PANORAMA 



W'iesbaden.deye os seus primeiros aformosea- 
mentos ao duque Frederico Augusto. O Kursaai, 
começado em 180S, é o mais nolavel edilicio da 
cidade: exisle n'elleuma stilla que, pela sua gi-an- 
deza e decoiação,- pode rivalisarcom as melhores 
de 1'ariz e de Londres. O theatro, conslruido na 
mesma praça em que se acha o Kursaai, não cede, 
pelo goslo da sua architeclura, pela riqueza de 
seus ornamentos, á nenhuma outra construcção does- 
te género A grandeza do salão foi calculada sobre 
o numero dos habitantes e dos estrangeiros que 
aili vão passar a estação das aguas. 

Ha \inte annos, a nascente principal de Wies- 
baden era rodeada de uma muralha; hoje brota 
cm liberdade no meio de um passeio delicioso, 
cenli'o de reunião de lodos os estrangeiros e 
não menos frequentado dos habitantes da terra. 
Todas as manhãs, das cinco ás sette horas, uma 
orchestra numerosa secolloca em um ponto qual- 
quer do passeio, e, bebendo a agua quente, doen- 
tes e curiosos teemo prazer de ouvir as árias mais 
melodiosas de Weber, ^Veigel e Mozart, desem- 
j)enhadas como só se desempenham em Allema- 
nha. Esta musica e o ar fresco da manhã contri- 
buem, quasi lauto, estou certo, para a cura dos 
doentes,- como a enorme quantidade de copos de 
agua que os fazem beber todos os dias. 

Km NViesbaden ha quatro nascentes piincipaes 
e onze secundarias que fornecem a agua para todas 
as casas de banhos. Amais abundante é a chama- 
da Kurbrunnen. A aguad'estas nascentes deposita, 
como 1'linio já o havia notado, uma pedra muito 
semelhante á j)edra pomes, e á qual se dá o nome 
de sinler; no museo da cidade existem bellas 
amostras cryslallisadas. Os elementos principaes 
das aguas dè ^Viesbade^ são o carbonato de cal, 
magnesia, hydrochlorato de soda, hydiochloralo 
de cal e de magnesia, sulphato de soda, algum 
alumínio e algum ferro dissolvido no carbonato de 
soda. Comtudo, estas substancias variam segundo 
as diíTerentes nascentes. E preciso um espaço de 
trinta e seis horas para que, exposta ao ar, a agua 
arrefeça; forma-se então sobre a sua superlicie 
uma pellicula íina, branca, composta de cal puia. 
Os médicos recommendam asaguasde Wiesbaden 
às pessoas atacadas de rheumatismochronico, gola, 
paralysia dos membros, doenjas metasticas, sar- 
nosas ou herpeticas; elías lêem sobretudo muita 
virtude contra os abscessos c doenças cutâneas. 

Todos os estrangeiros que teem visitado ^Vies- 
baden não se cansam de gabar os seus airabaldes 
e, certo, que em lodo o elogio que possam faz(ír 
não exageram. O que haverá mais lindo, por exem- 
plo, que Dietenmuhl? B^s caminho areiado, bor- 
dado de flores, que parle do passeio de Kursaai, 
conduz aquelle delicioso retiro. IJn pouco mais 
longe, a meia légua da cidade, eslão as ruinasdo 
caslello de Sonnenberg montanha do sol) que se 
elevam magcstosamente sobre um rochedo e do- 
minam a linda aldèa do m(!smo nome. l)iz-sc que 
nos tempos antigos havia sobre este rochedo um 
templo consagrado ao sol. Seja como for, é certo 
que o caslello, cujas ruinas existem, foi construí- 



do pelos fins do século XII; mais tarde serviu de 
habitação aos condes de Nassau, e o imperador 
Adolpho engradeceu-o e fortilicou-o. Foi devasta- 
do durante as guerras que o paiz leve de sus- 
tentar no século XIII contra os suecos e pelos 
lins do século XVH contra a França. 

Riébrich, residência do duque de Nassau actual, 
acha-se a uma légua de Wiesbadan. O caslello 
que se eleva na margem direita do llheno, ò cons- 
truído ao estylo moderno e apresenta um magni- 
fico ponlo de vista. D'alli se vé o Rheno, quasi 
na sua maior largura, coberto de uma multidão 
d"ilhas, e de um grande numero de embarcações de 
lodo "o género; ora, barcos a vapor passando com 
a rapidez do relâmpago, ora ní\'ios mercantes, ora 
barcos pequenos, ora grandes 'jangadas, andando 
lenta e vagarosamente, que servem para o trans- 
porte das madeiras das florestas de Allemanha. 

O panjue de Bièbrick rivalisa com o que ha de 
melhor n'este género; é um passeio deliciosamente 
variado. Nola-sealli sobre tudo um pequeno cas- 
lello imitando a archictelura da idade media e 
edificado no meio de um lago, n'um sitio admi- 
ravelmente romântico. 

A aldeia de Schierslein é celebre pelg seu vi- 
nho excellente, designado pelos nomes de lacrima 
díaboli ou lacryma infernalis. 



A GALATEA MODERNA 

Por A. GZORIG DE VASCONGELLOS 

IV 

D. Violante ú baroncza ilo Alpcdral 

Minha querida.— Eslou infernando de invejas. 
Dês que li a tua ultima caria, não socégo, não 
durmo, vivo em perpetua exilação. Porque motivo 
descreves com tão vividas cores o ultimo baile do 
club, as loili'lles explendidas, a orchestra encan- 
tadora, as walsas rodopiantes, o coquetismo sen- 
timental, todas essas vertigens, todo esse oceano 
de prazeres, e gosos olympicos, em queluflucluas 
docemente embalada pelas brisas lisongeiras? l'or- 
quc motivo, infernal amiga, feiticeira encantadora, 
me estás mostrando a laça de oiro, aonde te em- 
briagaste, aonde sugaste com lábios voluptuosos o 
licor divino, que te deu extasis de huri, sonhos 
Ígneos, visões (|ueimadoras? Awalsa, a walsa! Ouem 
me dera levolulear endoidada, sem tino, sempezo, 
sem tocar o chão, arrastada pela orchestra que ora 
freme em paroxismos agudo^, ora se desentranha 
em queixumes valentes, furibundos, loucos, como 
a maldição do Adamastor! Ouem me dera respirar 
as lufadas ardentes do baile, sorver uma a uma as 
lavas d'esse vulcão, tisnar-me sem dó nos lumes 
de gaz, lucluar, lluctuar no redemoinho immenso! 
E depois que me importava a morte! Mais vale 
uma noile assim, do que a vida aqui, n'esles cer- 
ros malditos,' ouvindo o balar queixoso das ove- 
lhas, (jue pastam nas campinas. A vida bucólica' 
Pois ha coisa mais monstruosa e aborrida, do que 
contemplar o riacho, que corre sob os salgueiros! 
Se eu ao menos podesse ser nymplia dos bosques! 
Mas até as dryadas fugiram espavoridas, e já não 



o PANORAMA 



75 



ha tenlar homens nos itcossos naniorosos! A vida 
c essa, é a que vive aiii. A vicia é respiíar a 
alhmospliora de fogo, é sui-gir ladiaiilc cingindo 
unia auréola luminosa, e cegar os lisongeiros, que 
se rojam e pcdeuv uma scenlellia, (jiie os allumie 
nas trevas do scui(mor. A vida é senlir em pouco 
tempo um século de gosos, é arrojar lama aos que 
pas.-am e pedem a esmola de um olhar, é cami- 
nhar ávanle c dar a morle em um sorriso. 

A vida é a vvalsa vcríiginosa, louca arquejanle. 
Oue moula morrer depois, á saida de um baile, 
exhauslo de foiças, açoitado pela brisa gelada da 
noite, se calcamos flores, se deliciamos na lebre 
da dança, e se o ultimo passo da derradeira walsa 
nos arrojou á sepultura! 

Ah! mesmo n'esla solidão, aonde chegam ape- 
nas esmoi'ecidosechosd'esse tumultuar de folgança, 
sinto pular o coração ancioso, quando me descre- 
ves os encantamentos da lua vida. Quizera acom- 
panhar-te... e não posso. Que supremo desespero! 
Psão posso! Que tormento santo Dcos! Pieso a este 
rtc'.iedo, como Tântalo, vejo os fructos a lourejar 
por entre a ramaria, e se acerto de estender a 
mão, para os colher, encontro o vácuo, a solidão, 
a clausura, o tédio. 

Para que nasci? De que me serve ser linda, 
como dizes nas luas lisonjaiias, de que me serve 
o meu rosto de fada, o meu olhar languido, o meu 
seio arquejante a minha cinia breve e ílexi- 
vel se hei de morrer aqui n'cste cantinho do 
mundo, rouxinol perdido no deserto, ílor secca 
na estufa?. Oh! mas não. Venha a lucla, acceito o 
repto da desgraça. Conslrange-se o coração. Seja 
o amor... mercancia. Extinga-se o pranto, aca- 
bem as insomnias de moça gentil, que entreve o pa- 
raíso e devaneia delicias inelTaveis. Amor ! Aven- 
temos para longe esse fardo pezadissimo, essa coroa 
de espinhos, que nos dá a realeza na escravidão. 
Sejamos mulher como o scculo afez. 

A Galaléa não vive nos bosques, antes se refu- 
giou nas salas Pois serei a (íalaléa moderna... 
como tu, querida baroneza, queatlraesos teus ad- 
miradores para os queimar depois. .Serei coquettc. 
Cada sorriso meu será mordedura de cupido em 
coração de homem. Reinarei, sim, mas encostada 
ao braço de um escravo. E esse escravo... Cusla- 
me a escrever o nome d'elle. Sinto calor nas fa- 
ces. Tenho pejo. Quecreancicc! Vou ver-me no es- 
pelho. Credo! Como o rubor me tingiu o rosto. 
Pareço uuia ronul. E então ! Não estou a na- 
morar-me a mim mesmo! Serei tão bonita, como 
dizes? Como os meus olhos scinlillam nas orbitas! 
São negros, negros e brilhantes, como carvões, que 
chispam na escuridão. E choro e rio ao mesmo 
tempo! Ora me parece que suíloco, ora julgo lUic- 
luar na amplidão. 

Isto é loucura! Se Alfredo me visse! Ah! Eil-o 
que chega. Deixai-me esconder esta carta. Com- 
batamos! 



Que escaramuça! Foi guerra de guerrilhas, foi 
um tirot'^io continuado e regular, em que elle fi- 



cou mal ferido. Estou a ler immensa curiosidade 
nos teus olhos maganos. Ouve pois: 

Alfredo vinha melancólico c trazia o Dante, por- 
que queria tomar-mc a lição de italiano. Travou- 
se a conversação. Eu estava preparada. O thealro 
re|)reseiila uma saleta arruinada, com duas gran- 
des janellas no fundo, uma banca de mogno an- 
tiga, de pés salomonicose gavetões cheios de per- 
gaminhos velhos, que são os títulos da familia. 
Eu estou assentada em cadeira enorme, com ade- 
manes da heroina das cruzadas, rosto erecto e gra- 
ve ligeiramente encostado á mão. Alfredo assen- 
la-se n'oulra cadeira, auma distancia rasoavel sem 
se atrever a passar a linha de respeito. Olha o 
Dante, folheia-o com ardor, olha para mim, como 
um meirinho inquisilorial dos velhos tempos, e 
pei'gunta emíim: 

— Já estudou a lição? Venho hoje muito rigo- 
roso. 

Estou por um pouco a perder oseiio, que guar- 
do com muito custo, e respondo zombeteira: 

— Por favor, j)rimo,-esqueceu-lhe a palmatória. 
O seu Dante é de uma diíliculdade pasmosa, e 
quando entendo alguma coisa do Inferno, tenho 
pesadellos de noite. Prefiro Petrarca. 

— ^ Petrarca, esse eterno chorão, cujas lagri- 
mas ainda alimentam a fonte de Vaucluse, Petrar- 
ca, ?ssa creança, que morreu senil, sem nunca 
aperlar nos braços a Laura, que o inspirou! Con- 
fesso, piima, que Petrarca chega a causar dó. 

— Petrarca, é modelo de encantos, como eu os 
comprehendo, e como o primo deve comprehen- 
del-os. 

— Como devo... oh! Parece-me que não ouvi 
bem. 

— Perfeitamente. Quem tanto se compraz na 
vida campestre, não é muito que suspire debal- 
de toda a vida ali'azde Galatéa. Pergunteao amor, 
(juando suspirou nos bos(|ues e agitou as cordas da 
harpa éolia, se s'imporlaque ossylphoso oiçam. O 
vento suspira, porque é esse o seu destino. 

Assim devem fazer os poetas da sua tempera, 
assim faziam os trovadores nos seus queixumes do 
amor, assim fez Petrarca, assim deve fazer o 
primo. Ser Melihen só para comer castanhas e be- 
ber leite fresco e lembrar os explendores de Ro- 
ma... para isso não valia a pena esse seu rosto 
sombrio e melancólico, que lhe fica a malar. Qual- 
quer minhoto namorado é Melihen, quando acerta 
de encontrar Galatéa esquiva e louçã. 

— Com que então, segundo o que a prima diz, 
eu estou uamorado. 

— Isso é exagerar horrivelmente as minhas pa- 
lavras. Não sei se está namorado, nem mesmo 
quero sabel-o. 

—Na sua idade, prima, sabel-o é causal-o, bra- 
dou Alfredo erguendo-se e fitando-me singular- 
mente. 

— Deixe-me rir, primo. Desculpe este riso in- 
tempestivo, mas estou hoje muito nervosa... Com 
que então. .. Não, não quero sabel-o. O primo não po- 
de estar namorado, e se o estiver, faça como Petrar- 
ca. Suspire e faça sonetos, invoque as musas. 



76 



O PANORAMA 



Imniorlalise as diyadas da fonle fresca, qiio 
aguarda ha séculos o seu Petrarca. Aquella fonle 
fresca, ião romântica, Ião cheia de poesia, com o 
seu olmeiro carcomido pelos annos, com os (juei- 
xumes da sua lympha crislallma, com os seus li- 
mos verdejantes, com o seu tapete de relva, como 
seu penedo de granito ao lado! Por Deus! i)rinio, 
improvise um soneto á fonte fresca. Olhe. já lhe dou 
u princij)io: 

Formosas dryadns da fonte fresca 
Vinde espreitar á beira do cristal! 
Ouvi, ouYJ qui.ixumes de um zagal 
Que se fina de amor, de noite a fresca. 

Não. Isto assim não vae bem. Não ha rima para 
fresca. Kmfim. improvise o soneto como (juizer, 
e pôde começar os versos por letra pequena, por- 
que não hão de confundir-se com prosa. 

Alfredo íicou aterrado. Não sabia como respon- 
der aos meus ataques. 

O pobre rapaz estava arrependido da sua poesia 
bucólica. AUnal, passado um momento rápido, ex- 
clamou: 

— Está enganada, prima. Se por acaso quizesse 
recorrer á mytbologia grega para exprimir os meus 
amores, e caísse uo immenso ridículo de tocar 
a frauta pastoril ia sentar-me á beira da fonte e 
mirando-me a mim mesmo, diria, como Narciso, 
e em prosa «Podes fugir, Galatea, que não te sigo 
nem persigo. » 

— Deveras! Issoé que éter caracter. 

Pois o primo havia de estar sempre a mirar as 
próprias feições! 

— Se encontrasse aGalatéa e vivesse nos formo- 
sos teiapos, a que a prima quiz transportar-me, 
preferira a parvoíce de Narcizo. 

— Com que então o primo não é Melihen. 

— Nem mesmo como castanha pilada. 

— Aborrece portanto Petrarca. 

— Petrarca é o rei dos trovadores da meia cdade. 

— Logo não é trovador também. 

— AhJ. Já sei! É D. .luan. 

Alfredo soltou uma gargalhada, c exclamou: 

— Não sou nada. Sou o seu meslrede italiano, 
sou seu primo muito respeitoso. Vamos pois á li- 
ção. 

Eu estava zangada com Alfredo. Não podia con- 
ciliar a attenção. A manhã corria chuvosa e car- 
rancuda, o ceu loldava-se de nuvens negras, (pie 
corriam impcUidas pelo sul gemedor. Os arvoredos 
descarnados abanavam os troncos. iNão sei poríjue 
caí (lerepente cm um accesso de melancolia. Sou 
verdadeira. A actriz tinha desapparecído, e liíjuei 
(piai sou, creatuia débil, aiijoravcl, e triste, vi- 
vendo na solidão, açoitada pela desgraça, sem um 
seio de niãi, aonde repousar nas horas da angus- 
tia, sem ura carinho, sem um osculo de amor casto 
e santo, sem uma visão consoladora, sem um echo 
símpathíco no meu isolamento, sem animo para 
encostar a cabeça dolorida. í>)meç('i a chorar amar- 
gamenie. >ião pude conter o pranto, por mais qu<í 
(juizesse. Ouizera reler os soluços^ embora o coração 
ficassemorto para sempre;quízera secar opranlo ain- 
da que depois me aííogasse n'elle. Ah! mas não pude. 



A dor era immensa e fora exacerbada pela própria 
zombaria. O sarcasmo irritante que mostrara, linha 
provocado o choro, e foi em prantos, que traduzi o 
celebre terceto de Dante, esse grito sublime de 
um coração que se parte de saudade, e geme em 
fenos de desventura: *^ 

Nessum ma.crprior dolore 
clie ricordarsi dol tempo folice 
Nella miséria. 

Alfredo íitou-me outra vez. Tremia-lhe a falia, 
os seus olhos também estavam húmidos. Travau- 
do-me da mão, disse n'uni ímpeto : 

— O que tem Violante? 

Em ergui-me e tirei a mão d'enlre asd'clle. En- 
costeí-me ao peitoril da janella, contemplando a 
natureza nioría e nua e profundamente melancó- 
lica, ciciei: 

— Olhe primo, como tudo respira saudade e 
tristeza. Parece que todos os ruídos das campina 
se unem e formam um gemido plangente. Eu lam- 
bem sinto saudade. Só lenho saudades de mi- 
nha mãe. O terceto de Dante pinla o estado da 
minha alma. 

— Tudo tem remédio, respondeu Alfredo. 

— A saudade não o tem. Pelo menos não o quero 
nem o acceito. 

E sai zangada da minha fiaqueza, odiando Al- 
fredo do fundo da alma, e jurando vingar-me. 
Agora sou outra vez o teu diabrete — Violante. 

(Conlinua.) 



SEPULTURA DE GIL VICENTE 

o gran juizo esperando, 
.laco aqui nesta morada; 
Também da vida cansada 
Descansando. 

Pergunta me qnem fui eu, 
Altenta bem para mi, 
l'or(]uc tal fui coma ti, 
E tal lias de ser como eu, 
E pois tudo a isto vem, 
O leitor, de meu consoilio, 
Toma-me por teu espelho, 
Ollia-me e oi!ia-te bem. 



Os Athcnienses, segundo alTirma Alexandre de 
Alexandro, livro 3", tinham lei, que condemnava á 
morte o rei, q.ue com demasiado vinho se alienas- 
se. Os índios, de (jue escreve Atlieneo, cujo rei 
davam em guarda a certo numero de donzellas, or- 
denaram (|ue, se alguma d'aquellas o achasse com 
vinho demasiado fora do seu juizo, e o malassi, es- 
ta fosse despozada com o successor a (|uem vinha 
o reino. Os Maciíieiises, como o seu rei fazia al- 
gum erro no governo, não lhe davam de comer 
atiuelle dia. Os Imersas faziam ao seu rei estar es- 
condido no interior das casas, para nem ver 
mulheres, nem ser muito tratado dos homens, co- 
mo conla Heródoto, livro 3°. 

Francisco Rodrigues Lobo. 



Acontece mui las vezes lomar-sc uma paixão na- 
tural por uma virtude moral. 



o 1>,\N0RAM.\ 




O MANNÁ 

r^.^J^''''"^] (-y^'''^''«> íios calahrinus) assim cha- 

sTiTneri. !t'f '"?'"' '^''''^'^ ' "^^^^^ A^i^nm 
ZJZu: ""■'"' ''«^"^'-íi-^tía, laxanle, inodoi-a 

d^/^eh ff'-'^"' l'"'"'-^"^'^ ^« muilas espécie 
de ímxo e principalmente do />m//»/. ornus e 
do y^.r/^,.,, ro/«..///W,«, arvores que vege am 



n Ioda a Lumpa me/id/onal, especialmente na 
Calábria e na Sicília. O manná escoa-se natural- 
mente pelos poros da epiderme e pelas fendas da 
casca; para obtel-o, porém, em maior abundância, 
pralicam-se profundas incisões na parte superior 
e sobre um dos lados do tronco da arvore ( ue se 
quer explorar. ^ 

Três são as espécies de manná que sedistiní?uem 
no commercio. O mais puro denomina-se Manná 



78 



O PANORAMA 



em lagrimas [Manua lacrymafa, Manna canoío); 
é em pedaços alongados, leves, irregulares, mui 
friáveis, dé ww bianco amarellado, aspeclo crys- 
tallino ou granuloso, sabor doce, assucarado, um 
pouco enjoativo. O Mannà em grãos ou commum 
(Manna granulosa, Manna eommunis) compõc-se 
de pequenas lagrimas agglutinadas por um liquido 
viscoso; tem um sabor mais assucarado que o pre- 
cedente, mas o clieiro é nauseabundo. O que vem 
da Sicília chama-se Manna geracg, <• o que pro- 
vem da Calabiia Manna eapacg. O Manná pingue 
ou inferior (Manna pinguis, Manna sórdida, 
Manna spissa) lem o aspeclo de massa molle, glu- 
Imosa, cheia de impurezas, laes como fragmentos 
de vegelaes, terra, aieia,clc; é maisnaus/^^abundo 
que omannácommuneosabor assucarado é muito 
desagradável. 

oManná é solúvel em agua e em álcool. Além 
do assucar amorpho e da gomma, encerra uma 
malei'ia branca e crystallina, a que se dá o nome 
de Mannita, que c o seu principio chimico cara- 
cterislico, e um principio nauseoso ao qualsealtri- 
buem as suas propriedades medicas. A mannita, 
não obstante o seu gosto assucarado e a anologia 
da sua composição com o assucar ordinário, não é 
«iusceptivel de fermentíção alcoólica. Obtem-se 
dissolvendo o manná cm álcool fervente e redis- 
solvendo em novo álcool o precipitado que se for- 
ma pelo resfriamento. Comtudo a mannita não 
pertence exclusivament')aomanná;encontra-se tam- 
bém nos sucos ti'anssudados por certas cerejeiras, 
macieii'as, em algumas espécies de cogumelos, al- 
gas etc. 

O mannà em lagrimas emprega-se como purgati- 
vo doce. Entra em muitas preparações pharmaceu- 
ticas taes como pastilhas de Calábria, marmellada 
de Tronchin. etc. Algumas vezes é substituído pela 
mannita. () manná commun applica-se maispartícu- 
larmenlc em crysteis. O maná inferior não lem hoje 
serventia entre nós. 

Ouanto ao Manná que sustentou os Israelitas no 
d'S'rlo, diz-nos iMoyses (Exod., XYI) que appare- 
cia de manhã como o rocio, e quea terra se achava 
(obcria d' giíos miúdos semelhando orvalho con- 
gelado. Oliistoii dur sagradoaccrescenlaqueoman- 
nà tinha a forma da semente de coentro branco e que 
o gos'o era da mais pura faiinha misturada com 
mel. Cada Israelita recolhia um gomor (pouco 
mais ou menos 2 litros,; co manná derretia-sc e 
dosapparecia desde o momento que o sol aquecia o 
teri'('no. 

Além disso, o níanná amontoado corrompia-sc no 
lim de vinte e quatro horas, de sorte que era pre- 
ciso renovar a provisão todos os dias. Entretanto, 
na véspera do sabbado, faziam dujjlicada colheita, 
alim de não trabalharem no dia consagrado aodes- 
canço, e então o manná podia-se conservar j)elo es- 
paço de quarenta e oito horas. I)iz-se lambem, 
(jue o [)Ovo costumava pizar o manná sobie uma 
pedra ou almofariz, cozia-o depois e fazia d'ell(!bol- 
los, cujo sabor era de pão amassado com azeite. As 
particularidades tão precisas em que entram os 
livros santos tratando do m?nná, fazem ver, mui 



claro, que era um sustento verdadeiramente mila- 
groso enviado todos os dias por Deos ao seu povo. 
Todavia uma multidão de auctores lêem procura- 
do destruir a idéá de milagre altribuindo o facto 
a um simples phenomeno natural. Pelo que, a 
maior parte, d*esles escriptores tem identiticado o 
mannà com a matéria que distillade certas plantas 
leguminosas. Alguns teem avançado que o mannà 
era uma espécie de musgo conhecido pelo nome 
de Parmdia ou Lecanora esculenta, que nos de- 
sertos do Oriente, costuma apparecer subitamente, 
de tempos a tempos, sobre uma vasta extençãode 
terreno. Eis aijui uma noticia curiosa publi- 
cada ha annos em uma revista scienlifica: 

«Alguns jornaes lêem annunciado (jue no dis- 
Iricto de Jenicheher, Ásia menor, caiudocéo, no 
mez de janeiro, uma grande quantidade de manná 
em pedaços do tamanho de uma avelã, que sepultou 
a terra sob uma espessura de 3 a 4 polle- 
gadas, e que os habitantes se sustentaram durante 
muitos dias. Este manná fornecia uma substancia 
muito branca ; mas o pão, que d'elle faziam era 
insípido. O mesmo phenomeno se tinha já dado no 
mesmo logar em 1841. Por muito estranho que 
pareça este facto, não pôde deixar de ser attribui- 
do a causas perfeitamente naturaes. Os exemplos 
da apparição repentina de uma matéria comestível, 
que parece cair da athmosphera, já na Ásia, já na 
Europa, não são muito raros. Todas as vezes que se 
lem observado esta substancia, tem-se reconhecido 
que não é oulra coisa mais do que uma espécie 
de musgo, Parmelia esculenia, cujo tecido muito 
succulento pôde ser comido pelos animaes. Leveil- 
lé, na sua viagem áCriméa, enconlrou-a em grande 
quantidade à superíicie do solo, apresentando alli 
uma côr cinzenta e formando pequenos montinhos. 
Observando um grande numero de espécies d'este 
singular vegetal, achou-as sempre livres e separa- 
das do solo, e nunca pôde conhecer-lhe pontos de 
ligação de sorte alguma. Aucher Eloy, na sua 
viagem á Pérsia, lambem viu e mencionou um 
facto do mesmo género. Emfim, os jornaes nos tem 
dado asabcrfque, no tempo da expedição do schah 
da Pérsia contra Héral, osbabilantesd'esta cidade 
acharam e recolheram em grande quantidade, so- 
bre a superfície do solo, uma substancia inteira- 
mente semelhante, que lhes serviu de alimento por 
muitos dias, e a qual se resolveram a comer vendo 
as cabras suslenlarem-se d'ella. M'csles dilleren- 
tes exemplos, como lambem no facto recentemente 
observado em .lenicheher, o maravilhoso manná não 
é mais do que um*a espécie de lichcn que os ven- 
tos conduzem em grande quantidade para deposi- 
lal-o depois a uma distancia mais ou menos con- 
sideraveb). 

Seguramente, o phenomeno da apparição d'este 
l.ichen ollercce uma analogia singular com a do 
manná dos Israelitas; mas, ainda assim, identiíican- 
do-se este ou com o manná da Tamargueira, ou com 
o Parmelia esrulenia, não pôde deixar de se ad- 
mitlir a intervenção milagro.sa do poder divino, 
dando-se credito á narração de Moysés. Elletiva- 
mente, como se pôde explicar, sem isso, que as Ta- 



o PANORAMA 



79 



marisdo deserto fornecessem manná sufficiente para 
sustentar perto de dois milhões de homens durante 
quarenta annos, ou que o phenomenod'esta queda 
(Ití lichen se reproduzisse exactamente seis vezes 
por semana durante o mesmo periodo de tempo? 
A elymologia da palavra manná, em hebraico 
man é muito incerta. (íMan, diz Bei'gierj é um 
monosyllabo primitivo que, nas linguas antigas e 
modernas significa: alimento, sustento. A dizer a 
verdade, Moyses parece applicar este nome ao es- 
panto dos Israelitas que, vendo o manná pela pri- 
meira vez, disseram: 3ían hu, o que é isto? Mas 
o texto hebreu é susceptível de outro sentido.)) 



O REliSO DE DAHOMEY 

O abbade Borghero, superior da missão do Da- 
homey, na sua volta á Europa em julho de 1865, 
forneceu as noticias mais interessantes sobre aquella 
celebre região. Sabe-se, com effeito, que Dahomey 
é um ponto de Africa, onde o Iraíico dos escravos 
ainda hoje tem lognr em tão larga escala como nas 
margens do Nilo Branco. Sabe-se igualmente que 
aquelle paiz é o mais sanguinário do mundo, ge- 
mendo sob ura despotismo sem limites e sem com- 
paixão. Os sacrifícios humanos alli são um uso reli- 
gioso, um costume nacional. Se o rei os quizesse 
supprimir, os súbditos vociferariam contra a he- 
resia e reclamariam a conservação das suas san- 
tas tradições! 

Já, em 1863, M. Borghero linha dado nos An- 
naes da propagação da Fé, uma noticia cir- 
cumstanciada da sua viagem à capital d'aquelle 
reino bárbaro, chamada Abomé ou Agbomé, e da 
sua recepção pelo rei. Começaremos, pois, por ex- 
trair d'esla narração alguns dos pontos mais im- 
portantes e completaremos o nosso artigo com as 
communicações recentes de M. Borghero á Socie- 
dade de geoyrapliia de Paris, 

Para se chegar a Abomé atravessa-se uma flo- 
resta de vinte léguas de largo, cuja estrada é aber- 
ta a machadadas. Esta floresta compõe-se de pe- 
quenas mangueiras, algodoeiros gigantescos, pal- 
meiras de difl^erentes espécies. O algodoeiro, que 
altinge algumas vezes uma altura de quarenta me- 
tros, é objecto de um culto particular. 

Os negros de Lahomey, no que diz respeito a 
agua, estão em peiores condições que os habitan- 
tes de Paris. Não fazem poços, mas contentam-se 
com a agua lodosa e esbranquiçada que se junta 
em covas pouco profundas. Mesmo na capital a agua 
é péssima ecara, porque é preciso ir buscal-a muito 
longe. Só o rei tem direito a beber de uma fonte 
cuja agua é um pouco transparente. 

Além de Aliada estende-se uma zona pantanosa 
que tem perto de 100 kilometros de largura. Os 
conduclores das machilas atravessando os pântanos 
esterram-se muitas vezes até aos rins, o que dá não 
pequeno tiabalho para se desembaraçarem. Perto 
de Cana, cidade santa de Dahomey, êncontram-se 
muitas aves, entre as quaes se nota uma do tama- 
nho de uma gallinha, que se assemelha á pequena 
águia dos Alpes; >òom-se também pombos de ra- 



ra belleza, e outros pássaros de esplendida plu- 
magem mosqueada de azul, verde, vermelho e 
violeta. 

A caravana de M, Borghero chegou a Abomé 
pelas cinco horas da manhã, e parou no meio da 
rua, não longe de um immenso algodoeiro, cuja 
sombra formava uma barraca natur?!. O príncipe 
Choudato avançou a cavallo, armado convenien- 
temente, e andou três vezes com a sua escolta em 
roda do algodoeiro, saudando-o respeitosamente. 
Dous cabécéres (altos funccionarios) apresenta- 
ram-se depois a M. Borghero ofTerecendo-lhe aguar- 
dente da parte do rei. A aguardente é o verdadeiro 
deos d'estes negros. 

Acompanhados da sua escolta de honra, os mis- 
sionários chegaram á frente do palácio real, que 
não é mais do que um vasto recinto de três ki- 
lometros de circumferencia, cheio de casas que 
outro tempo foram coroadas de craneos humanos. 
Notava-se no interior a famosa casa das conchas, 
grande edifício inteiramente cobei'to de conchas, 
isto é, de dinheiro, porque estas são a moeda no 
paiz de Guiné. É d'este modo que o rei faz os- 
tentação das suas riquezas. 

Quando todos se assentaram debaixo do pavi- 
lhão de parasoes em um dos pateos do palácio, 
as libações de aguardente e as felicitações, sem- 
pre as mesmas, recomeçaram com grande enthu- 
siasmo. O rei apresentou depois a M. Borghero o 
estado maior do exercito das mulheres. 

Effeçtivamente, o rei de Dahomey tem por guarda 
de honra um* corpo.de amazonas, intrépidas guer- 
reiras, que são, especialmente, encarregadas de 
cortar as cabeças nas fíleiras inimigas. O nume- 
ro é, segundo M. Borghero, que as contou, de 2:500 
e não de 4 a 10:000 como se tem sustentado. Jú- 
lio Gerard, o caçador de leões, deixou-se enganar 
na avaliação doeste numero porque, fizeram des- 
filar diante d'elles três ou quatro vezes o mesmo 
batalhão de amazonas, como se costuma fazer com 
um exercito de thealro, 

M. Borghero tomou conhecimento com as duas 
generaes d'estc exercito estranho. A primeira, de 
uma edade já avançada, offerecia um verdadeiro 
typo militar; os seus modos marciaes mostravam 
claramente que a sua vida linha sido passada nos 
campos c no meio das vicissitudes da guerra. A mais 
nova, era de um aspecto mais brando, mas, não 
obstante, muito desembaraçada. Mostrava grande 
habilidade no manejo das armas. 

No dia seguinte ao da recepção, o rei deu aos 
seus hospedes brancos oespetaculo de uma fanta- 
sia guerreira. Mandou collocar na praça de armas 
uma grande porção de molhos de espinheiro e cá- 
ctus, que occupava 400 metros de comprimento, 
seis de largura e dois de altura. A uma distancia 
de quarenta passos, elevava-se o madeiramento de 
uma casa do mesmo comprimento e da altura de 
cinco metros. O telhado era coberto dos mesmos 
vegetaes. Ouatorzcmetrosalém d'este edificio via- 
se uma fileira de cabanas. Ouandose deu osignal 
do ataque, algumas centenas de mulheres preci- 
pilaram-se, com uma fnria dahouiana sobre o 



80 



O PANORAMA 



monte de espinhos, alravcssaram-o,sallaram sobre 
a casa, desceram como que procurando um rodeio 
oíTensivo, alacarani-a novamente, tudo com uma 
lapidez extraordinária, vertiginosa. Estas mulhe- 
res subiam, rojavam-se pelas construcções de espi- 
nhos com tanta facilidade como uma bailarina vol- 
teando sobre um esli'ado, e portanto pisavam com 
os pés nus as pontas agudas dos cactus. Quando 
as evoluções terminaram, viram-se entrar no pa- 
lácio com as pernas rasgadas c ensanguentadas, 
trazendo cada uma um molho de espinhos. As que 
mais se dintinguiram receberam coroas de silvas 
e enfeitaram o corpo com o mesmo arbusto. 

M. Boighero faz uma pintura horrível dos sa- 
criiicios humanos que se executam anuualmente 
em Dahomey. Durante a noite em que deve ter 
logar o repugnante espectáculo, ninguém pode 
circular pela cidade. Todo o individuo que è en- 
contrado paga caro o atrevimento. ConUudo,com- 
jjanhias de músicos passeiam na sombra cantando 
de um tom lúgubre. Pela meia noite, uma des- 
carga de mosqueteria annuncia o principio das 
execuções. As victimas são conduzidas á praça, em 
series de vinte e quatro ou tiinta. Tapam-lhesas.vias 
respiratórias, eapertam-lhes o peito até os verem 
dar o ultimo suspiro. 

Uma outra maneira de immolar as victimas con- 
siste em pregal-os pelos pés a um barrote, dei- 
xando-os expostos ao sol, sem alimento. Ordina- 
liamenle moirem ao terceiro dia, em qiianío que 
a multidão curiosa, se deleita com^a horrorosa 
scena das convulsões. Os cadáveres não são enterra- 
dos. Abandonam-os aos cães, lobos, porcos e 
abutres. "Os restos corruptos c dispersos infe- 
ctam a athmosphera a uma légua em redondo. 
É, realmente, um espectáculo, cujo horror excede 
tudo quanto é possível imaginar. 

Os paizes que conlinam com Dohomey estão de 
lai modo empobrecidos, que tudo parece um de- 
serto em torno d'esla desgraçada região. Por 
consequência os Dahomeyanos nada encontram 
pelo caminho quando vão atacar os seus visinhos; 
o que resulta chegarem ex haustos de forças, es- 
fomeados, incapazes de sustentar uma lucta. Isto 
explica as successivas derrotas, queteem soCfrido 
n'estes últimos annos. 

M. liorghero dá lambem preciosas informações 
sobre a topographia da Alta Guiné e particular- 
mente sobre o delta do Niger. Segundo elle, a 
costa de (juiné está cortada n'um espaço de SOO 
kilometros pelos ramos d'aquelle rio, e estes ramos 
lêem a sua origem no Sodan. Apesar de todas estas 
noticias ageographia desta parte da Africa é ainda 
muito obscura. 



IJEATIUZ 
XII 

Ela, gosemos; pela flórea Iara 
Beba-se o neclar de clernal 'prazer: 
O goso é fumo que se esvae e passa, 
Quando mais ébrios nos parece ver. 



Gosemos muito; sabe Deos se agora 
Negra procella vcin rugindo ao perto, 
Se o puro brilho d'esta immensa aurora 
I)c liorrendas trevas ficará cobertol 

Somos convivas no festim da vida, 
Que (em se a morte, jicrpassaíido atroz, 
31iiis de uma rosa vem deixar caida, 
Quando ha tão bellas em redor de nós? 

Que tem, se em meio dos festivos cantos 
Que ardente o goso nos inspira já, 
Sussurra o ecco de abafados prantos, 
Que a desventura soluçando está?.. 

Que tem que o mundo se airopelle e corra 
A|)ós um sondo ([ue atravessa o ar?... 
Que o perca, embora, que esmoreça, e morra, 
Que eu só, ditoso, viverei de amali— 

Vòa, minha alma, pelo espaço cm fora, 
O ceo te inleva resplendendo aberto: 
Gosemos muito! sabe Deos se agora 
Negra procella vem rugindo ao perto! 

Voa, minha alma, que (falem, do prado, 
Sot)e o jierfume que embalsama o vento; 
Deixa esic mundo, que, a chorar curvado, 
Modula apenas sepulcliral lamento. 

Eia, gosemos; pela flórea taça 
Beba-se o néctar que nos da" prazer: 
O goso c fumo que se esvae e passa, 
Quando mais ébrios nos parece ver. 

(losemos muito! da ventura breve 
(>eifem-se as rosas que viçando estão; 
Ceifem-se Iodas,— uma só não deve 
Soltar nas brisas seu perfume em vão. 

Gosemos muito! que o prazer recenda. 
Em quanto a aurora mi! lampejos tem; 
Deixai que a sombra do pesar se estenda 
Sobre os que ficam meditando além. 

Somos convivas no festim da vida, 
Ergamos todos n'um só canto a voz; 
Se um parle, embora! que uma llor caida 
Não turba o goso que lateja em nós! — 

Continua. 

E. A. 



Vidal. 



O primeiro instrumento da pratica é a voz; e, 
para essa ser engraçada no fallar, ha-de ter então 
propriedades; ser clara, branda, .cheia, e compas- 
sada; porque a voz escura confunde as palavras; 
a áspera esecca lii-a-lhes a suavidade; a muito del- 
gada e feminina faz imprópria a acção do que falia; 
a muito apressada empeça e revolve as razões, 
que por si podem ser muito boas; não trato das 
(juc a natureza inhabililou i)ara esta perfeição, co- 
mo hea voz do gago, do cicioso, e do rústico gros- 
seiro; mas na do cortezão tomara eu estes altri- 
bulos; porque ha alguns que faliam com a voz tão 
meltida por dentro, que deixam as palavras para 
si, e os ouvintes ás escuras que lhes c neces.sario 
estar espreitando o que lhes quereni dizer; e ou- 
tros, (jue j)ronunciam com tanta aspereza, que es- 
pinham as orelhas dos que escutam; e outros que 
faliam tão apressadamente que parece que levam 
esporas na lingna. 

Francisco Rodrigues Lobo. 



Tyi). Frfinco-l'ormKUf;7.a. - Rua do Ttiesouro Vellio, C, 



1 1 



o PANORAMA 




PALERMO 

A cidade de Palermo foi bastante celebre na an- 
tiguidade. Thiicydides diz que os Phenicios, por 
occasião da chegada das colónias gregas á Sicilia, 
no primeiro século da fundação de Roma, se re- 
tiraram para Vanorinos, que os Latinos depois 
chamaram Vanormus. Esta cidade foi successiva- 
mente occupada pelos Carthaginezes, Romanos, 
Gregos do Baixo-Imperio, Sarracenos, príncipes 
normandos, Francezes da dynastia d'Anjou, Ara- 
gonezes, Espa.nhoes e Francezes da raça dos Bour- 
bons. Hoje, esta capital da Sicilia tem uma popula- 
ção de cento e quarenta mil habitantes. O epithelo 
de/"e//cefoi-lhedado muito tempo depois, por causa 
da sua belleza, da actividade florescente do seu 
commercio, da fertilidade do solo, da serenidade do 
seu ceu, da amenidade da sua situação, e da ri- 
queza e cortezia da maior parle dos seus habitantes. 
Se o vento chamado scirocco, não soprasse alli, não 
haveria, sem duvida, no mundo paiz mais saudá- 
vel do que a Sicilia. O seu golpho não é menos riso- 
nho do que o de Nápoles, e a coroa pitloresca que 
formam ao longe, em torno d'clla, o monte Pere- 
grino, o cabo Zafferano e as collinas da Bagaria, 
semeadas aqui e alli de lindíssimas casas de cam- 
po, dão a esta cidade o aspecto mais encantador, 
e tornam-n'a uma vivenda muito agradável. As ruas 



são largas e compridas; duas de entre ellas cruzam- 
se no meio da cidade, dividindo-a assim em qua- 
tro partes eguaes. A que tem por nome Cassaro, 
cujo comprimento é de mil e quinhentos metros 
e largura treze, prolonga-se parallelamenteá praia, 
desde a porta Antoniana até á porta Maqueda; a 
outra, chamada Rua Nova ou de Toledo, tem du- 
zentos e cincoenta metros de comprimento; é mais 
larga do que a precedente, e estende- se ^lesde a 
Porta Nova até à l^orta Felice. Estas duas portas 
são muito notáveis: uma pelo seu arco de triumpho 
e a outra pela nobreza da sua archilectura. 

A praça eslá situada justamente no ponto em 
que, as duas ruas, que acabamos de citar, se en- 
contram: a forma é ocíogona, rodeiam-n'a bellas 
casas, ci'ja architeclura se compõe das três ordens 
dórica, jónica e corinthia, artisticamente combina- 
das, e está ornada com as estatuas de Carlos V, 
Filippe I!, Filippe III c Filippe IV. Fora da porta 
Felice, vô-sc o magniíico passeio da Marina, que 
conduz ao de Flora. Este ultimo jardim é de rara 
belleza. A pouca distancia ha um rico jardim bo- 
tânico no qual as plantas exóticas crescem e se 
multiplicam como no seu solo natal. 

A porta de Palermo é pequena, mas commoda, 
segura e bem fortilicada. 

A praça do palácio real é bastante espaçosa, e 
tem no centro a estatua em bronze de Filippe IV, 



82 



O PANORAMA 



rodeada de outras de menor dimensão, que repre- 
senlam as virtudes d'esle principe. A praça Pre- 
toriana distingue-se por uma fonte, cujo desenho 
e escuiplura são admiráveis, não obstante a ex- 
travagância da concepção. A praça San Domi- 
nico contém as estatuas em bronze de Carlos llí 
e de Maria Amélia, sua esposa, e uma columna 
magnifica que sustenta a estatua em bronze de 
Nossa Senhora. A frontaria da igreja de San Do- 
minico forma egualmenle um dos principaes or- 
namentos d'esla praça. A praça de Bologni apre- 
senta aos entendedores uma bella estatua em bronze 
de Filippe Y. 

Palermo conta um grande numero' de igrejas, 
todas merecedoras de particular attenção. A ca- 
thedral, diz Mr. Moret, fundada em 1170, por 
Gautbier, no reinado de Guilherme II, é um vasto 
edilicio de aspecto imponente, mas de um género 
h\ brido; é um quadrilongo com travessas salien- 
tes, terminado em cada extremidade por quatro 
altas torres, elevando-se, no centro, um zimbório 
de architectura italiana. Uma ponte suspensa jun- 
ta ao corpo do edilicio uma outra torre de forma 
diílerente, mas de altura igual á das outras. A fron- 
taria principal é lateral e dá para uma praça lon- 
ga que a separa da rua Nova; a entrada é de 
estylo mixto, que M. Fargasse classifica, não 
sem razão, de arabe-normando, assim como o 
todo exterior e os campanários. O conjunclo, se- 
mi-oriental e semi-europeo, é soberbo e magesto- 
so ; mas ao primeiro exame, reconhecem-se logo os 
retoques, variedades e mesmo, permitta-se-nos a 
expressão, a hostilidade dos estylos. O interior não 
é tão explendido e bello como o exterior, comtudo 
tem bastantes ornamentos. A abobada está susten- 
tada por oitenta columnas de granito oriental. O 
altar mór é riquíssimo, e distingue-se por uma co- 
lumna magnifica de lapislazuii, de extraordinária 
dimensão. Notam-se também n'esta igreja muitos 
mausoleos de mármore branco edeporphyro, onde 
repousam as cinzas de antigos monarchas. 

A igreja de S. José acha-se situada na praça Vi- 
gliana ; encerra grandes columnas de mármore 
turqui, jDreciosas pedras no altar mór, e uma ca- 
pella subterrânea cujos ornamentos são riquíssi- 
mos. 

Entre os monumentos religiosos que erigiram ao 
deos dos exércitos, que os fazia triumphar, os va- 
lorosos filhos de Ilauteville, o estrangeiro observa 
com interesso a igreja dcMartorana, uma das mais 
curiosas da Sicilia, que foi edificada, dizem, por 
Georgio Rozio Anticliiano, almirante do rei Iloge- 
ro, pelos annos de 11 íO. Contém mosaicos, pin- 
turas soberbas e alguns lraI)a!hos admiráveis de 
escuiplura. Esta igreja acha-se sob a invocação 
de São Simeão. 

Citaremos também as igrejas, de S. Maltco ou 
deirAnima, S. íiiusoppe dei Tcatini, .íesu, S. l)o- 
minico, Olivella, S. Filippe Neri, a capella sub- 
terrânea, «dita Capella dei Santo Crocilisso, o ora- 
tório do Uozario, etc, ele, onde se encontram 
magnificas pinturas e objectos de arte muito curio- 
sos. 



Os palácios de Palermo são numerosos e ricos. 
O Palácio Real, perto da porta Nova, foi em outro 
tempo uma fortaleza defendida por muitas torres, 
das quaes apenas resta uma, que hoje serve de 
observatório astronómico. Este palácio é a residên- 
cia do lenente-rei. A capella que n'elle existe, cha- 
ma-se de S. Pedro ; é obra de architectura mages- 
losa c contém preciosos mármores , magníficos 
mosaicos e outras muitas raridades. 

O palácio do senado, diante do qual está a fon- 
te, de que já faltámos, é lambem digno de admi- 
ração ; possue duas estatuas antigas e muitos frag- 
mentos gregos e romanos. 

Entre os palácios parlicularea citaremos os dos 
príncipes Brotera, Torremuzza, e os dos duques de 
Gravina c de Anjou. 

Palermo tem cinco hospitaes, uma universida- 
de. Ires bibliothecas publicas, a Pinacoteca (gale- 
ria de pinturas) para a fundação da qual contri- 
buiu poderosamente o principe de Belmonte, o mu- 
seu archeologico, que conlém uma grande collec- 
ção de medalhas greco-sicilianas, e que todos os j 
dias recebe as raridades que se encontram nas 
escavações feitas em diversos pontos da ilha, e, 
emíim, a fundição real. 

Os arrabaldes de Palermo não são menos inte- 
ressantes. Saindo da cidade pela estrada ao longo 
da praia vê-se o Lazarelo e chega-se ao pé do mon- 
te Peregrino, chamado pelos antigos, Ereias. Esta 
montanha, durante as guerras púnicas, teve algu- 
ma celebridade; depois caiu no esquecimento. 
Mas, em 1624, descoljrindo-se alli, em uma gruta, 
o cadáver da virgem real. Santa Rosália, começou a 
adquirir novamente importância. Esta santa, fu- 
gindo aos altraclivos da corte, rcfugiou-se n'aquella 
gruta, onde passou uma vida solitária e contem- 
plativa. O seu cadáver tendo sido transportado 
para Palermo, no tempo em que a peste devastava 
esta cidade, e cessando n'essa occasião o fiagello, 
fez com que fosse declarada, Santa Rosália, a 
protectora de Palermo, e em seguida se transfor- 
masse a gruta em uma igreja, cujo aspecto é 
maravilhoso. A estrada que a ella conduz, cons- 
truída nas costas do monte, custou grandes som- 
mas; está quasi toda assente sobre sólidos arcos 
de alvenaria. Instituiu-sc lambem, por aquella oc- 
casião, uma festa annual, que se celebra a 15 de 
julho, c que altraho a Palermo uma grande multi- I 
dão de curiosos. N'esle dia, a igreja depositaria 
dos restos morlaes da santa, apresenta-se de tal 
modo illuminada, que a vista senle-se oííuscada 
com o brilhantismo das luzes. 

São lambem notáveis dois caslellos de cslylo 
mourisco ; um chamado Ziza, que se eleva na al- 
dôa de Olivazza, pertencente ao principe Schcrra, 
e o outro denominado Cuba, situado na estrada de 
Monrealc. Estes nomos de Ziza o Cuba, são os dos 
filhos de um Emir, que os mandaram construir 
pelos seus árabes. A situação d'esles dois edificios 
é admirável. 

Avisla-se ao longe Monreale pela sua elevada 
posição; esta cidade bellissima e bem edificada, 
conta, aproximadamente, dez mil habitantes. En- 



o PANORAMA 



83 



Ire os seus magníficos templos, citaremos a calhe- 
dral de Sancta-Maria-Nuova, fundada por Guilher- 
me o Bom, era 1174 e o convénio dos Benedicli- 
nos, cujos arcebispos, pro tempore, são abbades. 
A grandeza d'esle templo, a sua arcbiteclura, a 
raridade dos mármores que contém, as suas por- 
ias de bronze trabalhadas pelo celebre Pisan Bo- 
nanni, o S. Jeronymo, do esculplor António Ga- 
gini, os sarcophagos dos dois Guilhermes, o Bom 
e o Mau, e outros preciosos ornamentos, tornam 
esta igreja um dos melhores emais sumptuosos edi- 
fícios da Sicilia. Giovanni Luigi Leilo, publicou 
d'ella uma exacta discripção, cuja melhor edição 
appareceu em 1702. Mas, de então para cá, o 
o templo tem sido enriquecido de novos ornamen- 
tos, entre os quaes mencionaremos particularmen- 
te o altar mór, todo de prata, que o arcebispo 
Testa, prelado não menos piedoso que sábio, man- 
dou fazer á sua custa no fim do século passado. 
Um incêndio, em 1811, causou a esta igreja gra- 
ves perdas, que, entretanto, teem sido inteiramente 
reparadas, á excepção de alguns túmulos que fi- 
caram completamente destruídas O mosteiro dos 
Benedictinos, possue um claustro extremamente 
notável. Existe no seu refeitório uma pintura 
muito estimada, representando S. Benedicto dis- 
tiibuindo pão aos pobres. Este quadro é obra de 
Pietro Novelli, natural de Monreale, pintor digno 
de maior fama, que a de que gosa. Yô-se allí tam 
bem um quadro deRaphael ; asna ricabíbliolheca 
foi consideravelmente augmentada pelo arcebispo 
Testa. 

A cidade de Palermo tem dois portos; um pôde 
pcrleitamente receber navios de grande lote; o outro 
apenas admitte pequenos vasos mercantes. O seu 
comniercio é limitado. 

Palermo foi o theatro das famosas Vésperas Si- 
cilianas, de que opportunamente fallaremos. 



PEREZ LORENZO 

(Sccnas «Ia Camitanha «lo IMcxico) 

Por PINHEIRO CHAGAS. 

VI 

Não durou muito a impressão produzida por es- 
te sinistro espectáculo no animo doscontra-guerri- 
llias. A sua vida aventurosa habiluara-os a estas 
scenas, e não havia talvez entre elles um só, que 
não tivesse feito já alguma execução semelhante 
n'algum recanto sombrio das florestas mexicanas, 
ou dos desertos da Califórnia. A lei de Lynch im- 
pera ainda n'esses ermos, onde a relê das gentes 
euiopéas se despe dos incommodos fatos da civi- 
lisação, e se arroja com enlhusiasmo a plena bar- 
baiia. Olho por olho, dente por dente, eis a lei que 
rege essas hordas de emigrados, que vagueiam ás sol- 
tas pelas savanas da America. 

Os oíHciaes francezes sentiram mais repugnância. 
Os bravos militares, educados nas tradições cava- 
lheirescas das guerras europeas, não podiam coni- 
prehender estas vinganças selvagens, e ainda me- 
nos a tolerância cora que o seu coronel j)arccia 
cobrir estes actos indignos. Agruparam-se era torno 
do capitão Yiarmont, e a conversação animada, que 



travaram em voz baixa, mostrava que a disciplina 
não seria já bastante forte para os reter, se esse 
verdugo, que lhes servira de guia, tivesse a au- 
dácia de reapparecer diante d'elles. 

Comtudo o cadáver já lá ficava muito para traz, 
pendurado da sua arvore, e os contra guerrilhas 
caminhavam alegremente, de espingarda ao hom- 
bro, atravessando as clareiras innundadas pelo ful- 
gor da lua, as veredas intrincadas da íloresta, on- 
de as hervas altas se curvavam ao peso das gotas 
do orvalho, e onde os ramos cruzados do arvoredo 
mal deixavam coarem-se alguns pallidos raios da 
rainha da noite. A influencia suave d'essa noite 
dos trópicos dissipara rapidamente a triste impres- 
são, que por alguns momentos pairara sobre to- 
dos. O desaffogo, que o espirito mais intrépido 
sente, depois de uma batalha que se atravessou 
incólume, abria o animo dos ofliciaes e dos sol- 
dados ás brandas emanações d'aquella poética na- 
tureza. A brisa da noite, impregnada nos frescos 
vapores dos arroios e das fontes, acariciava sua- 
vemente as faces dos conlra-guerrilhas. Uma con- 
versação animada percorreu as fileiras, que antes 
do combate haviam atravessado silenciosas esses 
mesmos sitios. Accenderam-seos charutos e os ci- 
garros, parecendo que de súbito ura bando depy- 
rilampos sulcava com a sua luz palpitante a sombra 
do copado arvoredo. Brotaram aqui e acolá ale- 
gres risadas como um tiroteio de alegria, que se 
foi reforçando cada vez mais até que a ílnal se trans- 
formou n'um confuso borborinho de risos, falias, 
e cantos que encheu o silencioso bosque. 

Súbito ouvio-se ao longe, por entre a ramaria 
das arvores, um som vago e aerio, uma longínqua 
musica, que parecia exhalar-se do seio fremente 
das arvores, como um canto de fadas, ou um con- 
certo melodioso entoado pelos sylphos, que se baloi- 
çaram na ramaria das bananeiras. Todos se ca- 
laram, e, por um comraura accordo, pararam e 
pozeram o ouvido á escuta. No meio d'esse silen- 
cio solemne ouviu-se mais clara, mais distincla 
e mais harmoniosa também essa musica distante, 
cujas notas vinham, no regaço da brisa, expirar 
no ouvido dos subordinados do coronel Dupin. 

Enlre-olharam-se todos com expressões bem 
diversas no olhar. Os soldados americanos reve- 
lavam a impressão supersticiosa, que lhes salteiara 
logo oscredulosespiritos, os europeus maisscepticos 
mostravam simplesmente espanto, e os ofliciaes fran- 
cezes, de organisação mais poética e enthusiastica, 
sentiam a doce sui preza do viajante que peneira 
n'um palácio de fadas, e que apenas se maravilha, 
sem se espantar, dos prodígios que vão succe- 
dcndo. 

Não houve talvez um só d'entre elles que não 
se julgasse o heróe predestinado de alguma aven- 
tura de incantamenlos. 

— Coronel, disse Yiarnionl approxiinando-sedo 
commandanle, entrámos,-segundo me parece, nos 
jardins de Armida. Ou, se estivéssemos no mar, 
em vez de estarmos no centro de uma floresta, dir- 
Ihe-hia que tomasse cautella porque tínhamos as 
sereias comnosco. 



o PANORAMA 



—Capitão Viarmont, respondeu Dupin,não sup- 
ponha que mereçamos ás sereias a honra de ser- 
mos equiparados' a Ulysses. E de mais, ainda que 
assim losse, não temeria as consequências de tal 
apparição. Não seria decerto o capitão quem cede- 
ria as tentações. De outras mais perigosas escapou 
ha pouco, evi com jubilo a lemljrança dos seus 
deveres militares arrancal-o a doce inlluencia da se- 
reia, que a todos nos incantou em casa deD.llamon. 

— E olhe que foi meritório o sacrilicio, tornou 
Viarmont rindo. Se tivesse fugido aos laços má- 
gicos do amor para me arrojar no fervido seio de 
gloria; se tivesse deixado murchar a murta de Vénus 
para enramar a fronte com os loiros de Bellona, 
como se dizia no tempo do nosso primeiro impé- 
rio; se saisse de casa de D. Ramon ao som dos 
clarins da alvorada, para ir entrar n'uma pugna 
brilhante como a de Solferino, em que se com- 
balia á luz ardente do sol da Itália, à vista de dois 
imperadores e um rei, entre as cargas magnificas 
da cavallaria, o magesloso estrondo da artilheria, 
o som das musicas militares, o perfume inebriante 
da pólvora; inílammados além d'isso pela consciên- 
cia de que defendíamos uma grande idéa, de que 
dávamos a liberdade a um povo digno de a obter, 
então sim, não seria muito acerbo o sacrifício. O 
enthusiasmo ardente das grandes batalhas era mais 
do que bastante para consolar da perda das doces 
commoções do amor ! Mas sair d'um baile esplen- 
dido, abandonar um terraço cheio de aromas ine- 
briantes, uma mulher adorável que escuta com 
certa condescendência o vago hymno namorado 
que lhe murmuiámos ao ouvido, para irmos assis- 
tir a uma lucla nocturna com meia dúzia de ban- 
didos, |)ara nos expormos a morrer obscuramente 
varados por uma navalha ou pela baila d'ura re- 
volver, para assistirmos a actos de barbaria que 
nos revoltam, e tudo isso ímpellidos porque mo- 
tivo? Por um motivo que não podemos nem com- 
prehender, nem acceitar, o de opprimirmosum po- 
vo livre, o de lhe impormos... 

— Capitão, capitão! interrompeu o coronel com 
certa serenidade, cautella no que vai dizer! Nunca 
se emenda, continuou o benévolo Dupin sorrindo-sc, 
é um frondvur incorrigível. 

Continua. 

AS RÃS DE SARTILLY 

Quando Mr. Kerengal combateu na Assembléa 
constituinte de França os direitos scnhoreaes, e 
citou entre outros a obrigação imposta a certos al- 
deãos de bateras aguas dos tanques para fazer ca- 
lar as rãs, uma parte da Assembléa indignou-se 
contra um prccoilo Ião [lucril c indecoi'oso. Aclia- 
va-íiC então a nação franceza em uma epocha que 
obrigava a olhar para todas es coisas seriamente; 
os factos, portanto, tomavam a magnitude do prin- 
cipio que os produzia. Ainda se não tinha inven- 
tado essa zombaria systematica, que mais tarde 
appareceu nas reuniões, e que torna impossível o 
pronunciar certas palavras ou tocar em certos pon- 
tos, porque o sarcasmo está sempre prompto para 
apoderar-se da sua presa e despedaçal-a. 



Ora, se entre os privilégios senhoreaes houve al- 
gum ínolTensivo foi, sem duvida, o de castigaras 
tranquillas aguas dos tanques. Osvillãos olhavam- 
mais depressa como um divertimento do que 
como um encargo e nunca o levaram a cabo, diz 
um auctor antigo, sem canções e sem nma sa- 
raivada de ditos ef/arf/al/iadas.Coi\ser\di-iQ uma 
ti'adição graciosa, consagrada por um provérbio, 
quejuslitíca essa alegria sarcástica, Ião natural do 
povo normando. 

Sartilly, situado no departamento da Mancha, 
tinha, ao que parece, na idade media grandes tan- 
ques cheios de canaveaes. Formavam, e*stes, ver- 
dadeiros bosques, cuja caça se compunha de rãs, 
caça alvoroçadora,cuja destruição se permiltia aos 
aldeãos, que, em verdade, pouco se dedicavam a 
ella, porque a boa gente de Sartilly, segundo a 
tradição, era mais affeiçoada a comer tripas e a 
beber cidra do que a matar rãs. 

Succedeu, comludo, n"um certo verão, a caslellã, 
estrangeira que linha chegado da França, sedu- 
clora e cof/uel(e formosura, cega por musica e dança, 
achar-se lóra do sgu elemento pela incommoda vi- 
sinhança dos músicos aquáticos. As rãs não a dei- 
xavam dormir, pertubavam-lheo canto, moiam-lhe 
a paciência (as damas ainda não tinham inventado 
os nervos) em uma palavra, tanto fizeram, que a 
interessante caslellã viu-se obrigada a supplicar 
a seu senhor, que era seu escravo, que, a todo 
transe, fizesse callar as malditas rãs. 

O senhor, de Sartilly convocou, por consequên- 
cia, todos os aldeãos, para que sacudissem as man- 
sas aguas, a fim de impor silencioso á turba. Os 
villãos reuniram-se armados de grandes cajados e 
começaram a espancar o pobre tanque, não sem 
soltar alguns ditinhos com relação ao capricho da 
dama. Em pouco tempo o bosque de canas achou- 
se transformado em um charco immundo e asque- 
roso, de modo que a nobre caslellã, não podendo 
supportar as suas pestilentesexhalações, adoeceu.' 
Chamaram-se todos os curandeiros das cercanias, 
que empregaram, durante trczmezes consecutivos, 
lodos os esforços possíveis para salvar a caslellã; 
mas tudo foi baldado; a pobre senhoia caminha- 
va de mal para peior. Não foi, senão depois de a 
lerem deixado em paz, declarando a doença incu- 
rável, que conseguiu algumas melhoras. ÍSa con- 
valescença appeieceu-lhe íiar, para o que mandou 
buscar uma roca jerde; pois as canas de Sartilly 
servem para este uso; quando, porem, trataram 
de satisfazer o desejo da caslellã, viram que os 
villãos, ao espancar o tanque, tinham reduzido a 
fanicos Iodas as rocas. A dama não gostou dodiver- 
mcnto e mandando chamar os destruidores das ro- 
cas reprehendeu-os asperamente. Um, porém, dos 
mais ousados, coçando na cabeça, c dando milha- 
res de voltas ao barrete que linha nas mãos, dis- 
se-lhe, que, no seu entender, 

Oneiii ti" niu-l 'J<3 rãs .solFria, 
Hoc;is iiiislcr não Iimvííi. 

Esle dito lornou-se alli proverbial, ehoje appli- 
ca-se a Iodas as pessoas do bello sexo, exlrema- 
menle delicadas ou habitualmente ociosas, que se 
dão ao trabalho por casualidade. 



o PANORAMA 



85 



MURILLO 

A grande gloria arlislica da Hespanha cifra-se em 
dois nomes eternos; Cervantes e Murillo: Cervan- 
tes o pintor da terra, Murillo o pintor do ceu. 
Aquelle, mordaz, sul)lil, delicado, um pouco cynico, 
por vezes até galanteador, (como observa um grande 
espirito), encara o mundo atravez da mascara da 
comedia, e ri-se d'elle com o sorriso lino do sar- 
casmo. Este, crente, 
espiritualista, alma 
propensa ao extasi, 
imaginação que ten- 
de a erguer-se da ter- 
ra para se engolfar 
em novos mundos , 
involve as suas crea- 
ções em uma atmos- 
phera celestial, e im- 
prime-ihes a feição 
dos anjos. 

Sevilha, sua pá- 
tria, é boje o templo 
da sua gloria. No mu- 
seu, uma das salas é 
completamente cheia 
pelos quadros de Mu- 
rillo, um dos quaes, 
(S. Thomaz de Villa 
nova) pôde ser repu- 
tado, no dizer dos en- 
tendidos, como a obra 
prima do pintor, e 
uma das mais notá- 
veis em pintura. 

Felicien Mallefille, 
nas suas Memorias 
de D. Juan, diz o se- 
guinte, ao descrever 
Sevilha : a Murillo , 
comme s'il avait 
voulu laísser á sa 
patrie le secret de 
son génie, n' existe ré- 
element et ne se révêle 
qu'ici.La sallequon 
lui a exdusivement 

consacrée est un tresor et vaut à elle seule le voyage.T) 
Vinte e três são os quadros de que esta soberba ga- 
leria se compõe, galeria em que o viajante penetra 
como n'um sanctuario, cora o respeito que as gran- 
des obras impõem, e com o estremecimento que os 
grandes nomes suscitam. 

Os quadros são: — O Nascimento, S. Leandro, 
e S. Boaventura, A Piedade, S. Agostinho, uma 
virgem, A Annunciação, outra virgem, outro S. 
Agostinho, S. Pedro Nolasco e a virgem da Mercê, 
S. José, Christo e S. Francisco, outro S. Agosti- 
nho, Uma visão de S. António, Uma (Conceição, 
S. Félix de Cantalicio, outro S. Félix, Uma Con- 
ceição, pequena, Santo António, A Conceição ul- 
t-ma. Santa Justa e Uufina, S. Thomaz dê Villa 
d ando esmola aos pobres, outro S. Félix, A Vir- 
gem da Toalha, (í/í! laservilleta.) 




A propósito d'este ultimo quadro corre, como 
justificação do nome, uma certa historia, que, seja 
ou não seja exacta, aceita-se, todavia, como rasgo 
caraclerislico do admirável talento de Murillo. Este 
pintor havia sido encarregado de fazer diversos qua- 
dros para certo convento. Durante os mezes do 
trabalho, um kigo virtuoso, \m\ amador tenaz, ha- 
via constantemente auxiliado o grande mestre, no 

pouco, no quasi na- 
da em que poderia 
ser-lhe ulil. A coad- 
juvação limitava-se, 
portanto, ao lim- 
par dos pincéis e 
ao moer das tintas. 
Guando Murillo deu 
por concluidos ostra* 
balhos de que o ha- 
viam incumbido, o 
pobre leigo por taes 
maneiras e com taes 
instancias lhe pediu 
uma memoria, uma 
recordação, uma lem- 
brança apenas, que 
Muriilo, pegando da 
toalha a que costu- 
mava limparas mãos, 
traçou, esboçou, e em 
poucos dias concluio 
o celebre quadro co- 
nhecido pelo nome 
de Virgem de la ser- 
villeta. 

Digamos agora 
duas palavras bio- 
graphicas: 

Bartholomeu Este- 
vão Murillo nasceu 
em Sevilha em 1618. 
Seu primeiro mestre 
em pintura foi Juan 
dei Castillo. Até os 
vinte quatro annos o 
espirito do que mais 
tarde deveria ser uma 
gloria humana, viveu, por assim dizer, circumscri- 
pto e encadeado. Castillo não era para nortear o 
vôo incerto d'aquella águia. Quando Pedro de Mova, 
na volta de Londres para Granada, passou pelo logar 
onde Murillo se achava, tra5íendo comsigo o fructo 
das lições de Van-Dick, Murillo. despertado subi- 
tamente, arrancado por aquellas obras ao ma- 
rasmo emque se achava, sente inllaramar-se-lhe n'al- 
ma uma luz nova, e parte para Madrid, a apresentar- 
se ao grande pintor de Filippe IV, Velasquez, en- 
tão cercado de gloria, de respeitos e de riquezas. 
O que os conselhos d'este mestre lhe produziram 
no animo, dil-o a rápida evolução do seu talento. 
Dois annos bastaram para este noviciado; em 
IGio vemos de novo Murillo em Sevilha, entregue 
a si próprio, pintando, progredindo sempre, lu- 
tando trinta e sete annos cora esse gigante, que 



86 



O PANORAMA 



depois se chama a immortalidade, e a quem elle 
ganhou os louros de que se engrinalda o seu tu- 
mulo. 

O. quadro do que a nossa gravura é copia existe 
ao presente na galeria nacional de pintura de 
Londres, pela qual foi comprado, em 1841, no 
leilão do espolio do sr. Simon Clark, por nove 
contos de reis 

Repiesenla elle, como se vê, o sanlo precursor 
de Clirislo. As palavras queannuuciaram arcdem- 
pção liumana: 

— «Eis-aqui o cordeiro de Deos por quem serão 
rcdcn)idos os peccados do Mundo;» — deram o as- 
sumplo para este delicioso quadro. 

E. A. Vidal. 



♦ A QUESTÃO LITTERARIA 

Por ZACHARJAS AÇA. 
II 

Propondo-me escrever não um pamphlelo que 
derrame nova luz sobre a questão, como porahi cos- 
tumam dizer alguns araulos e pregoeiros amadores 
de lilleralura ligeira, e onde se ataque accintemente 
com garras e dentes um dos grupos litlerarios que 
se gladiam n'esle momento, mas sim uma historia 
crilica, uma apreciação rápida das idéas aventa- 
das pelos contendores dos dois campos, parece- 
me ter sido lógico começando pelo principio, isto 
e, por um esboço crilico de algumas obras do sr. 
Theophilo Braga e do sr. Anthero do Ouental, 
porque foram eslas a causa occasional do sr. An- 
tónio Feliciano de Castilho escrever as celebres 
paginas da carta ao sr. Pereira, e (|uea seu turno 
motivaram a epistola que tem por titulo Bom senso 
c bom f/oslo, dirigida por um dos criticados ao 
auclor da Noífe doCaslello. 

Ha já tanta luz por ahi, a questão tem sido tra- 
tada e visla de tal alio, na altura dos princípios 
como se costuma dizerem S. Bento, que livre-me 
Deus da tenlação de elucidar n'este ponto aquém 
quer que seja. í^om tal pretenção faria, sem du- 
vida alguma, o eíieito de um homem que em um 
brilhante dia d'estio sahisse á rua com uma lan- 
terna accesa na mão. 

Ouando appareceu a Visão dos lempos fui um 
dos que applaudiram a tentativa ])oelica. O livro 
era uma promessa. Pensei d'elle o que agora penso. 
Entre outras coisas, achci-o confuso e pouco por- 
luguez na linguagem da Inlioducção, que, atlenia 
a novidade que seu auclor nos qiíeiia dar, devia 
vir mais cuidada e esmerada. Conhecendo a Índole 
do nosso espirito que, desgraçadamente, nãoédado 
a profundas cogitações, o sr*. Theophilo Braga de- 
via doirar a pillula. ISão o fez. O resultado foi o 
que era de esperar. Correndo o risco de ser con- 
siderada como uma turba de ineptos a população 
leitora de Lisboa declarou, una você, que o prefa- 
cio do novo livro era ininlelligivel, e, rechaçada 
d'aHi, lançou-se, anciosa de comjjrehender, sôbic 
a Bacchante; e exaggerou o merecimento (raquella 

composição porque a entendeu. Veem-se com 

bons olhos as coisas que nos lisongciam. 



Porque é que o publico declarou que não per- 
cebia nem uma phrase da Generalisação da /tis- 
toria da poesia ? Foi só porque ella não tinha aquelle 
esplendor de estylo tão grato aos nossos espíritos 
tão amantes da luz? ou porque a linguagem não 
denunciava o convívio dos bons modelos? Não, 
não foi só por isso. O publico não entendeu, por- 
que em todo o casa -não i)odia entender. É esta a 
verdade. E não podia entender porque não sabe. 

Concorreram, portanto, três rasões, todas for- 
tíssimas, para que a prosa do sr. Braga não agra- 
dasse aos leitores; e vem a ser, a falta de clareza 
e vernaculidade do dizer, a pouca aptidão dos po- 
vos da península para os estudos phílosophicos, e 
principalmente a ignorância quasi geral em que 
jazemos. 

O livro receberia, por certo, outro acolhimento, 
se o auclor fosse mais lógico, atlentasse com 
mais círcumspecção na natureza e circumstancias 
do nosso publico, e fizesse, em vez de uma gene- 
ralisação, um trabalho anah tico. Não digo aqui 
se esta tarefa era mais ou menos dillicil do que 
a que escolheu ; provavelmente ser-lhe-ía impos- 
sível leva-la a cabo com a proíiciencia que ella 
exige, mas, qualquer que fosse o exilo da obra, 
havia já a agradecer a intenção e a louvar o senso 
critico do poeta que mostrava d'esse modo conhe- 
cer a atmospher? ínlellectual em que vive e que- 
rer ser útil ao seu paiz. 

Muitos dos livros escriptos em Allemanha não 
podem ainda ser percebidos e utilisados por quem 
sahio dos nossos mesquinhos estabelecimentos se- 
cundários, ridículos se os compararmos com os 
gymnasíos allemães, com as escholas normaes e 
faculdades de lettras da França e com os institu- 
tos livres da Grã-Bretanha. E depois, conviver com 
i{alzac. Dumas, Musset c o p/iilosopho Henrique 
lleíne, não é habilitação sullicicnte para estudar 
Olfricd Muller eosescríplores da cschola histórica 
allemã. O nosso publico está ainda muito innoccnte 
n'estes assumptos. Os mais adiantados lêem a Re- 
vista dos dois Mundos \ os outros continuam a fo- 
lhear romances ; a grande maioria dos escri piores 
entretem-se a fazer estylo, isto é, cobrir es(iueletos 
com muitos ouropéis, isto, que é visível e clarís- 
simo, escapou ao senso profundo do sr. Theophilo 
Braga. 

Qualquer que seja a impressão que produzam 
as minhas palavras não me Iremeo a mão ao es- 
creve-las, porque estou convencido da verdade 
(relias, porque entendo que é necessário dar um 
exemplo de consciência lílteraría, e poríjue hei de 
ter sempre a audácia de dizer o que penso. 

Encantoados n'este palmo de terra, communi- 
cando com a Euro|)a i)elo Mediterrâneo, gosamos 
de uma grande liberdade i)olílica, mas n'isso se 
cifram as nossas ventuias. E muito, mas não é 
tudo. As sciencias, as lettras e as artes jazem en- 
tregues ao esquecimento; foram preleiídas pela 
politica. Deus (jueira (jue não venha longe o dia 
do seu i'enascimenlo entre nós. 

Hunsen escreve a sua obra sobre o logar do 
Egypto na historia universal, Layard traz das 



o PANORAMA 



87 



suas viagens as Antiguidades de Nitiiveh, Otfried 
Muller morre aos quarenta annos, victima do seu 
amor á sciencia, e deixa-nos oí Etruscos, os Dó- 
ricos, o Bianual d'arclieologia da arte e a His- 
toria da litteratura grega,' {\) Curlius e Grote 
escrevem a Historia da Grécia, trabalhos admirá- 
veis, ricos de sciencia e de critica, multiplicam- 
se as edições da Sciencia da falia úa Max Muller, 
um dos primeiros philologos modernos, etc. mas 
todos estes estudos são perdidos para nós, porque 
as nossas bibliothecas não os possuem, porque os 
nossos jornaes e revistas não se occupam d'elles e 
mostram desconhece-los completamente, porque a 
nossa sciencia em n^aleria de philologia, tomando 
esta palavra no sentido allemão, conserva-se pouco 
mais ou menos na altura da de Frei Bernardo de 
Brito, porque, quando se discute a formação das 
linguas, ainda ouvimos fallar a serio na Torre 
de Babel, porque se ataca aphilosophia e a scien- 
cia da Allemanha, fachos queilluminam hoje todo 
o mundo pensador, sem previamente as ter lido e 
estudado, e não ha por ahi basbaque nenhum que 
não mofe da philosophia transcendente, indo, infe- 
lizmente, achar ecco na intelligencia de homens 
que teem obrigação de guiar os outros e de resis- 
tir ás más paixões da ignorância e da vaidade. 

Os nossos antepassados são insultados porque 
vieram do Norte, são bárbaros! Para se,dizer isto 
é necessário esquecer que foram esses selvagens os 
fundadores das nações modernas. 

Em que tempo vivemos nós? Estamos no sé- 
culo XIX ou ouvimos os oradores romanos pedir 
legiões para guardar os limites do império e ir 
resgatar as águias de Varro sepultadas nos plai- 
nos da Germânia? 

(Continua) 



FESTAS DOS MUSULMANOS 

A sexta feira é para os musulmanos o que o 
domingo é para os christãos e o sabbado para os 
hebreus. Nesse dia concorrem aos templos, onde 
devem entrar descalços, passeiam, dão suas reu- 
niões, etc. 

No dia 8 de ínaAarr«n, primeiro mez, celebram 
por dez dias seguidos o assassinato de Ocein, grande 
iman da Pérsia; e n'esle mez estão prohibidasas 
hostilidades, pois ha suspensão de armas, não sen- 
do caso de grande urgência. 

Na primeira sexta feira de safar, segundo mez, 
reunem-se os turcos para tratarem assumptos de 
guerra e seus preparativos. No dia 11, celebram 
a santa noite e festa do nascimento de Mafoma; 
alguns califas fesfojam-n'a seis dias depois; e na 
ultima quarta feira celebram a santa noite ou a 
festa da trombeta que convocará a juizo. 

No dia o de rabie, terceiro mez, tem lugar a 
festa da noite santa da concepção de Mafoma. A 
16 commemoram a santa noite da sua ascensão. 

Em lo de schaben, oitavo mez, é a festa da 
santa noiíe do exame ou acções dos homens, es- 

(1) Esta obra foi recentemente traduzida etn froncez por Karl 
Hillebrand. 



criptas pelos anjos para serem apresentadas no 
tribunal divino. 

O mez santo de ramadan, e nono, é de um je- 
jum rigoroso, e não comem nem bebem senão 
depois do sol posto. Na tarde e véspera do 
primeiro dia do mez seguinte, schabal, começam 
a festejar a sua paschoa ou o grande Bisrem. 

Em 2i de ramadan festejam a noite santa da 
omnipotência ou revelação de mysterios de Deos 
a Mafoma. Em 16 de schah celebram a victoria 
ou a batalha de Gud, dada por Mahomet á sua 
própria tribu. A 20 á&scahal, noite santa e festa 
da partição da lua por Mafoma, a que se atlribue 
o intitular-se o gram sultão senhor de meia lua. 
O mez de dul-kaden é mez de descanso, e o se- 
guinte (lul-kaden segundo é o das peregrinações; 
pois creèm que n^eile foi determinada por Abra- 
ham a peregrinação de Ismael e de Agar, pelo 
que se denominam como descendentes de Agar, 
agarenos, e de Sara, sarracenos. No dia 8 doeste 
mez celebram a festa da apparição de Deos ao 
prophela. 

OS PHILO-PORTUGUEZES. 

POR INNOGENCIO F. DA SILVA. 

IV 

(Conclusão) 

Havendo de pôr termo por agora a estes apon- 
tamentos, falta-nos para cumprir oproraettido com- 
memorar ainda dous distinctos philologos ingle- 
zes, cujo olfato senão perturbava com o bolor dos 
nossos clássicos, e que no estudo da antiga litte- 
ratura portugueza viam e admiravam alguma coisa 
mais que as algaravias mysticas dos frades eston- 
teados, de que com tamanha irrisão mofam e des- 
denham estes nossos modernos innovadores por 
excellencia, sublimes alvitristas âas, praias do fu- 
turo, para as quaes se encaminham geifosamente, 
inspirados, ou antes conduzidos 

«De alguma mão feita d'amor e luz, 
'A revolver' lá dentro em si nma ideia, 
«Que alfim luza também no nosso fundo I! {') 

Fatiaremos pois de Lord Strangford e de sir J. 
Adamson. 

O primeiro, não menos insigne na carreira di- 
plomática que o seu compatriota Stuart, nasceu na 
Irlanda, segundo se dizem 1780. Tendo sido se- 
cretario da Legação britannica em Lisboa, foi no- 
meado ministro plenipotenciário perante el-rei D. 
João VI, a quem, na qualidade ainda de príncipe 
regente, acompanhou para o Brazilem 1807. Ten- 
do servido na corte do Rio de Janeiro durante al- 
guns annos, passou depois a exercer eguaes func- 
ções nas de Stockolmo, Constantinopla e S. Peters- 
burgo, vindo emfima fallecerna sua casa de Has- 
tey Street em anno que ignoramos. 

Possuía excellenle bibliotheca, em que avulta- 
vam os livros portuguezes: e como prova de appli- 
cação e do apreço que fazia de nossas letras pu- 
blicou: Poems from the portuguese of Luis de Ca^ 
moçns: with remarks on liis Life and Writings^ 
notes, etc, etc. The second edition. London 1804. 

(*) Vid Odes vioderme, 



88 



O PANORAMA 



12.° gr. de 160 pag. — E apezar de que esta ver- 
são haja sido julgada com pouco favor por alguns 
crilicGS inglezes,"é comtudo estimada, c tem lido 
varias reimpressões. 

Deve-seainda aoillustre diplomata a publicação 
de um dociimenio notável, e de maior importância 
para a historia de Inglaterra. Existia entre osma- 
Duscriptos do cartório do mosteiro de Alcobaça, 
onde fazia parte do códice n.° 473, um dos que 
hoje se reputam infelizmente extraviados. Lord 
Strangford, havendo solicitado e obtido copia d'esse 
documento, o fez imprimir com o titulo seguinte: 
Lettre í/'í//? (/endlliommc jwrlugais à nu de ses 
amis de Lishonne sur iexecution d'Anne Bolem, 
Lord Rochford.Brereton, i\orn's,Smeltonet Wes- 
ton: publiée pou r la prirn icrefois avec une traduclion 
françaisc par F. Michel, accompafjnée d\ine Ira- 
duclwn auglaise parle \icomie Strangford. Paris, 
chez Silvestre 1832, 4.° — Nitidamente impresso, 
em Ires columnas, contendo o texto portuguez, e 
as duas accusadas versões francezaeingleza. Consta 
que se tiraram unicamente vinte e seis exempla- 
res. Veja quem quizer o mais que a propósito 
d'esla raríssima edição dizemos em o nosso i?/cf/o- 
nario Bihliographieo Portuguez, tomo V, pag. 181. 

De João Ádamson, nascido em Gateshead a 13 
de setembro de 1787, e fallecido a 27 de egual 
mez em 18oo, muito haveria que dizer, se o es- 
paço nol-o permittisse; porém tendo de nos res- 
tringirmos n'estas poucas linhas, rcmetteremos o 
leitor curioso para o Diário do Governo n." 03 de 
Í4 de março de 1856, onde achará traduzida uma 
biographia*d'esse conspícuo litterato: ou para o 
tomo I da novíssima e completa edição das Obras 
de Camões, dada á luz pelo sr. Visconde de Juro- 
menha, que de pag. 277 a 280 dá a respeito do 
mesmo uma noticia assas circunstanciada. 

Da sua particular predilecção pela litteratura 
clássica portugueza, e das riquezas que n'esse gé- 
nero possuía, é prova sobeja o volume que im- 
primiu c distribuiu particularmente aos seus ami- 
gos, com o titulo: Bihliotiieca Lusitana or Ca- 
talogue of Books and Tracts, relating to lhe líis- 
torg, Literature, and Poetry of Portugal: for- 
mtng part oft/ie Library ofJolin Adamson, etc. etc. 
NeNVcastle on Tyne 18'36. 8.° de lio pag. — Ahi 
se com prebende a mais ampla collecção que até 
áfjuellc tempo se havia reunido das obras e edi- 
ções de Camões, passante de cento e vinte volumes. 

Publicou também: JJ. Ignez de Castro, a Tra- 
gcdy from tlie Portuguese of Nicola Luis, with 
remar s on thellistorg of thal infortunale Ladij, 
bg John Adamson. Newcastlc, 1808. 

Memors of the Life and Writing of Luis de 
Camoens, bg John Adamson. Edinbourg and Ncw- 
caslle 1820. 8.° 2 volum<'S com retratos. 

Lusitânia illusírata: Noliccs on lhe Jíislorg, 
Antifjuities, Literature, etc. of Portugal. Lite- 
rorij Department. Part. J. Seleclion of Sonnets, 
with bioíjraphicalSketrhes of the Auíhors, bi/John 
Adamson. Newcastle 18í2. 8." de Ml— lOi) pag. 
Lusitânia illustrata etc. Pai-t U. Minstrelhj. 
Ibi, 1846, 8 .« de XVII— 54 pag. 



Todas estas obras gosam de geral estimação; ^ 
como os exemplares apenas de longe em longe, ^ 
só casualmente se deparam no mercado, quando 
algum apparece acha logo compradores que o dis- 
putam entre si, pagando-o por elevado preço. 

EiiQ ignorado cani o de terra, a que ainda se cha- 
ma Portugal, composto só de pequenos homens 
e de pequenas cousas (na phrase dos modernos vi- 
dentes que vem trazer-nos a luz!) leve sempre en- 
tre os estranhos, e tem ainda hoje, quem o preze 
e admire mais vantajosamente que certos nacionaes. 
Colligimos n'outro tempo, e chegámos a adiantar 
um extenso Catalogo bibliographico e critico das 
obras escriptas e publicadas por auctores estran- 
geiros acerca de Portugal e de suas cousas; tra- 
balho que bem quízeramos offerecer aos nossos il- 
lustres sábios, como prova do que dizemos, se as 
circunstancias nos favorecessem para complelal-o 
e imprimil-o. Como pouca ou nenhuma esperança 
nos resta de que tal desejo se converta em reali- 
dade, fique embora para ser por nossa morte, com 
outras similhantes minudencias, mais utilmente 
aproveitado em alguma tenda no embrulho dos 
adubos! 



SAUDADES 

Que pela face a lagrima resvale 

A quem no exílio geme. 

J. DE DeOS. 

Quando a noute desdobra o estreitado manto, 
e emcima da monlanha a lua pallideja, 
o génio da saudade em torno a mim adeja, 
silencioso então dos olhos cáe-me o pranto; 

o espirito revoa ás noites do passado, 

e do passado evoca os l)rilhos e os fulgores: 

lá, fosse dia ou noite, em tudo, em tudo amores, 

amor— dizia a lua, amor— o sot dourado. 

A lua!— ella bem sabe os cânticos e harpejos 
que eu soltava ao clarão dos mil celestes lumes; 
ella liem sabe ainda os risos e os perfumes 
que a minha flor me dava em troca de meus bejos. 

Que noites! que prazer! que sonhos! que ventura! 
que aureola deslumbrante então nos envolvia! 
N'aquella doce voz que incanlosl que magia! 
N'aquelle terno olhar que luz suave e pura! 



í,Recordas-te de quando a lua fascinante 
cheia de luz surgiu da serra na clareira? 
e uma nuvem surgiu também, lenue, ligeira, 
a lua sombreou, se desfez n'ura instante? 

Oh! lembras, sim, que então um intimo receio 
o seio te agitou, lurl)ou-te um pouco a face; 
mas, quando a nuvem ténue se esvaeceu fugace, 
teu rosto serenou, calmo ficou teu seio. 

E a lua proseguiu, cortando a immensidade, 
c a lua inda hoje brilha, c segue o mesmo trilho; 
mas, alil quanto é mais trisle e pallido o seu brilho, 
visto assim através do pranto da saudade! 

Vizcu, outubro de (ió. 

Cândido Figueiredo. 



Typ. Franco-Portugucza. - Bua do Thesouro Velho, 6. 



12 



o PANORAMA 



89 



'Mm? 






WILLIAM PITT CONDR DE CHATÍÍAM 

Por riNHKiaO CHAGAS. 

O lalenlo é ás vezes hereditário. Parece (jue 
muitas vezes o génio se vincula n'unia familia, e 
passa, como um legado santo, de pais a filhos. Rara- 
mente comludo deixa de acontecer que ura dos vul- 



tos d'cssa tribu de homens notáveis se eleve tanto 
acima dos outros, (juc brilhe umd'elles com tama- 
nho esplendor que as outras liguras liquem sumi- 
das na sombra, e apenas recebam um reflexo da 
luz que dimana do astro principal. Bernardo Tasso, 
o pai do cantor da Jmmlem Libertada, seria um 



90 



O PANORAMA 



poeta dislinclo, se o vale deGodofiedonãoolizessG 
entrar na classe secundaria dos salelliles. Napo- 
leão 111 seria talvez considerado como um grande 
homem, se a figura magestosa de Napoleão I 
soflresse confrontos. Augusto ainda avultaria mais 
na historia se o acaso o não fizesse sobrinho de 
César. 

Não acontece assim com o vullo, cuja biogra- 
phia vamos esboçar rapidamente. Wiiliam Pill 
conde de Chalham, foi pai do outro celebre AVilliam 
Pilt, conhecido pelas suas grandes qualidades de 
estadista, e pela energia com que susienlou uma 
guerra implacável contra Napoleão. Para o dis- 
tinguirem d'elledão os biograplios ao primeiro Pitl 
a qualiíicação de Pitt o antigo, mas uão ousam 
decidir qual dY^fes deu mais i Ilustração á sua fa- 
milia, mais gloria á sua pátria. 

filho de um lidalgote, que dissipara a muita 
riqueza da sua casa, Wiiliam Pitt vio-se obrigado 
a comprar uma pateníc de alferes de cavallaria, 
atim de poder viver com a decência indispensá- 
vel a um membro da alia aristocracia ingleza. Não 
convinha porém nem á sua Índole nem ásua saúde 
a vida militar. Uma doença grave inlerrompeu- 
Ihe a carreira; ea leitura dos grandes historiado- 
res e políticos da antiguidade, abrindo um novo 
horisonte á sua intelligencia, revelou-lhe a sua 
vocação de estadista. Ouando melhorou, íez todos 
os esforços para ser eleito deputado, e conseguiu 
entrar na camará dos Communs, como represen- 
tante de um burgo, que fazia parte do fraquíssimo 
resto dos seus domínios hereditários. 

Logo revelou a eloquência, que lhe devia dar 
tanto nome. Alistou-sc nas íileiras da opposição, 
e guerreou sir Roberto Walpole, cuja administra- 
ção perdulária lhe desagradava. O rei Jorge II e 
o príncipe de Galles andavam iressa occasião dis- 
sidentes um do outro. Pitl defendeu, n'um brilhan- 
tíssimo discurso; o herdeiro da coroa, que, no- 
meando-o gcntil-homem da sua camará lhe attra- 
hio as perseguições do ministério, e com a per- 
seguição a popularidade. 

Tal foi essa i)oj)ularidadc que muitas pessoas 
opulentas, enlre outras a duqueza de Marlbourogh, 
lhe deixaram legados importantes paia recompen- 
sarem o seu patriotismo. 

Andava então accesaa guerra entre a Inglaterra 
e aPrança. Não eram felizes as armas britannicas, 
e o rei, vendo despopularisado o seu ministério, 
viu-se obrigado em 17,'3G a chamar ao poder o du- 
que de New-caslle, e com elle Pitt, a quem confiou 
a pasta dos negócios da guerra. 

A energia indomável, quecaracterisava o cele- 
bre minislro,*revelou-se logo no modo como di- 
rigioe activou ospn'paralivos,organisando a milícia 
nacional, e projectando um desembar(|ue nas praias 
francezas. Não o ajudava muito el-rei, movi- 
do pelo antigo rancor; Pitt, irrílavel em extre- 
mo, demíllia-se; forçado pela opinião publica, via- 
sede novo .lorge II obrigado a chamal-o ao minisle- 
rio. Assim andou n'eslas alternativas, mas entie- 
tanto a França ia perdendo assuas mais bellas coló- 
nias, e, graças à audaz iniciativa do ministro ínglez, 



via a Grã-liretanha tremular victoriosoo seu pen" 
dão em todos os mares, e eslender-se cada ve^ 
mais o immenso território das suas possessões ul- 
tramarinas. 

Comtudo Pilt linha defeitos graves; a mais leve 
conli-adicção o irritava, e n'esses momentos não 
respeitava direito das gentes, não respeitava coi- 
sa alguma. Molou difierentes armistícios, e quiz 
uma vez aprisionar a esquadra hespanhola por 
que suspeitava que a llespanha eslava para 
se alliar com a França, e para declarar guerra á 
Grã-lírelanha. 0|)poz-se o resto do ministério; Pilt 
irritado demilliu-se, mas teve a gloria de ver dos 
bancos da opposição os acontecimentos contirraarem 
as suas suspeitas. 

Doente já, orou três horas na camará contra um 
acto ministerial, foi de novo chamado ao poder, 
nomeado visconde Burton, conde de Chatham, e 
membro da camará dos lords. Voltava moribundo 
á camará a defender os seus actos, até (|ue uma 
vez, querendo responder a uma interpcMação do 
duque de liíclimond, caio desfallecido na sua cadei- i 
ra.Transporlaram-n'o, para casa onde morreu n'esse ' 
mesmo dia, 17 de abril de 1778. 

A nossa gravura representa a scena, em que 
a nalureza írahindo a energia do gi-ande orador, 
lhe cortou a palavra no meio dos seus amigos e 
adversários políticos igualmente consternados. A 
morte, apparecendo no limiar da sala das sessões, 
c riscando o nome do conde de Chatham da lista 
dos vives, congraçou n'um sósenlimenlo doloroso 
os homens, havia instantes, divididos entre si pelas 
mais profundas animadversõcs. 



O TABACO 

É, realmente, obra muito ingiata iratacar um cos- 
tume degenerado em paixão, e que domina por 
toda a parte. Não receiamos, porem, lornarmo-nos 
aqui o echo de algumas vozes authorisadas, que 
de tempos a tempos se levantam, jiara advogar a 
causa da verdade e do bom senso; cremos até pra- 
ticar um acto de bom cidadão reproduzindo algu- 
mas das considerações pelas (juaes o doutor Jolly, 
membro da Academia de medecina de Paris, Icn- 
lou chamar á |)rudencia os fumadores de todas as 
idades e condições Os estudos hif/ijenicos e médi- 
cos sobre o /í/6r/('o, publicados pelo erudito doutor 
em um compendio de hygiene, despertaram a al- 
lenção geral. Foram examinados pela Academia 
de medecina e merecem ser lidos e meditados por 
todos. 

A im|)orlação do tabaco na Kuropa dala dos 
annos de liJlS. Parece (pie c devida a um missio- 
nário hespanhol, Fra Homano Pone, companheiro de 
viagem de (Jiristovão Colombo, o (|ual teve a idèa 
de enviar a Carlos V a semente do tabaco, depois 
de haver observado entre os sacerdotes do Deos 
Kiwasa os elleitos da embriaguez j)roduzida pelas 
folhas d'esta plinia acre e venenosa. 

Data d'esla epocha a cultura do tabaco na Ku- 
ropa. O governo hespanhol não tardou acullival-o 



o PANORAMA 



9' 



em grande escala na ilha de. Cuba, e nós, os 
porlugiiezes, seguimos este exemplo no ]}razil. O 
cardeal de Sanla Cniz, núncio do papa ein Portu- 
gal, importou o Iribaco na Itália, o que IVz darem 
principio á planta o nome de lierva de Santa Cruz. 
Emlim, em loIiO, João Nicot, embaixador de França 
em Lisboa, que linha em si i)roprio experimen- 
tado o pó do tabaco contra a enxaqueca, olVereceu-o 
á rainha Cathai'ina de Médicis, e assim o tornou 
conhecido em França, sob a forma de tabaco de 
cheiro. Foi isto que fez dizer que o tabaco, 
depois de ler viajado por mar e por terra, em toda 
a Europa, dera eulrada em França pela estrada 
do nariz. 

A rainha Calharina e seu filho Francisco II sof- 
friam ambos de uma pertinaz enxaqueca; por con- 
seguinte, o novo remédio teve o mais favorável 
acolhimento. Mas a historia não diz se elle se mos- 
trou eílicaz. Em todo o caso, se o tabaco curou as 
enxaquecas d'aquella epocha, c forçoso confessar 
que d'então para cá tem perdido muito da sua vir- 
tude, 

O tabaco de cheiro correu rapidamente por to- 
das as classes da sociedade, como todas as mo- 
das absurdas e excêntricas. 

Longe de enfraquecer com o tempo, o seu uso 
desenvolveu-se como uma verdadeira epidemia. Nos 
reinados deLuiz Xill c Luiz XIV, era quasida eti- 
queta apresentarem-se os nobres na corte, de rapa- 
doura na mão, io/l!'ò-sal|)icados de tabaco, nariz atu- 
lhado d'aquelle pó negro e os vestidos perfumados 
com o seu cheiro. As rapadouras cederam o logar 
ás caixas, quando a industria achou o meio de 
pulverisar o tabaco de um modo mais completo, 
e crè-se que o uso das rapadouras o tabaqueiras 
tem enormemente contribuído a propagar o em- 
prego do tabaco de cheiro. 

Muitos médicos se pronunciaram contra o abuso 
d'esta planta exótica. Fagon, que mais tarde foi 
elevado a primeiro medico deLuizXÍV, estreiou-se 
por uma thésc brilhante contra o tabaco. Desgra- 
çadamente, esta opposição não suspendeu os pro- 
gressos do mal. Veio depois a Igreja, mas também 
nada conseguiu. Uma bulia do papa Urbano Víll 
excommungava lodosos que tomassem tabaco den- 
tro das igrejas. Esta ameaça não sullbcouo desejo. 

sultão Mahomet IV prohibiu o tabaco sob pena 
de morte. O grão-Duque de Moscovia, Miguel Fe- 
derovitz, mandava enforcar os tomadores! Um rei 
da Pérsia mandava-lhes cortar o nariz ! 

O tabaco, porém, saiu viclorioso de todas estas 
perseguições, e quando, sob os reinados deJacques 

1 de Inglaterra e Christiano IV de Dinamarca, o 
castigo se limitava apenas a muletas pecuniárias, 
o habito do tabaco foi olhado como um privilegio 
dos ricos! 

Mas ainda aqui não pára. O cachimbo já em uso em 
toda axVllemanha enos Estados do norte, depressa 
deu a sua entrada triumphal na corte de França. 
Alli foi introduzido pelo celebre João Bart. O 
exemplo foi logo seguido por muita gente. Luiz 
XIV surprehendeu um dia suas íilhas fumando ás 
escondidas!. 



O exercito de teri-a recebeu o cachimbo das 
mãos da marinha. O uso do cachimbo generalisou- 
se durante o cerco deMaestrich, e d'ahi em dian- 
te começaram a occupar-se quasi tanto da provi- 
são do tabaco como da dos viveres. Uonhecia-se 
perfeitamente que o tabaco enfraquecia o a|)petite 
e retardava a digestão; mas era uma distracção 
para os soldados no acampamento. 

Hoje seria dilíicil dar a rasão porque se fuma. 
Grandes e pequenos fumam, como se come, como 
se bebe, como se dorme. Parece que o tabaco faz 
parte da nossa existência. Estranho desvio! Houve 
um medico, o doutor Demeaux, que ousou propor a 
introducção oílicial do tabaco nas escolas, como 
meio de moralisação para as creanças ! ! 

Nada mais próprio pôde haver para dar uma idéa 
do grande desenvolvimento que oconsummo do ta- 
baco tem lido em França, do que a inspecção dos 
algarismos que representam o producto annual do 
imposto liscal d'esle género. 

No fim do século passado, o tabaco não produ- 
zia ao Ihesouro mais de vinte a Irinla milhões de 
francos, cujos dois terços crain altribuidos ao ta- 
baco de cheiro, eum terço unicamente ao defumo. 
Depois de 1810, anno em que foi restabelecido o 
monopólio, o consummo augmentou rapidamente. 
Eis, por períodos de cinco annos, a importância 
das sommas que, durante cincoenta annos, este 
svstema tem feito entrar nas caixas do estado: 



1811 a 18i:j . . . 


. . . 307:000:000 


18iG a 1820 . . . 


. . . 311:000:000 


1821 a 182o . . . 


. . . 327:000:000 


1826 a 1830 . . 


. . . 336:000:000 


1831 a 1835 . . . 


. . . 350:000:000 


1836 a 18Í0 . . . 


. . . 431:000:000 


1841 a 1845 . . . 


. . . 522:000:000 


1846 a 1830 . . . 


. . . 589:000:000 


1831 a 1853 . . . 


. . . 696:000:000 


1856 a 1860 . . . 


. . . 892:000:000 



A receita de 1861 eleva-se a 213 milhões. Jun- 
tando esta somma ás que produziram os annos de 
1811a 1860,enconlra-se um total de 5000:000:000! 
E esta somma não representa a totalidade dades- 
poza feita pelos consummidores de tabaco. Pode-se, 
sem receio de erio, accrescentar 2000:000:000 
proveniente de tabacos e charutos entrados em 
França, utensílios de fumadores e tomadores, per- 
centagens a, pouco mais ou menos, 36000 vende- 
dores. O total seria de 7000:000:000! 

E preciso não esquecer que o decreto de 19 de 
outubro de 1860, que de uma vez elevou o preço 
dos tabacos a mais 25 por 100, contribuiu mui- 
to para o augmento da receita n'estes últimos an- 
nos. Mas estacircumstancia pouco influe ainda so- 
bre o resultado geral da comparação que tentamos 
estabelecer. Yè-se, pois, que o redito do lisco, que 
durante a epocha comprehendida entre 1811 a 
1835 era apenas de 1632:000.000, eleva-se repen- 
tinamente a 3130:000:000 nos vinte cinco annos 
seguintes. Como, alem disso, as estalislicas da admi- 
nistração provam que o beneticio do thesouro aug- 



92 



O PANORAMA 



mentou mais depressa do que a receita bruta, pois 
que as despezas que absorviam, em 1816. iO por 
10(1 da receita biuta, não excediam, em 1860, 1i 
por 100, compreliende-se a altenção que o tisco 
deve prestar a uma fonte de receita tão abun- 
dante e productiva. Em 1861, os 215 milliões pro- 
duzitlos pelo imposto do tabaco, formaram um quin- 
to do rendimento dos impostos c contribuições in- 
directas. O que distingue sobre tudo o imposto do 
tabaco, o que (az com que o governo vigie 
sempre para que seja mantido e augmentado o 
mais possivel, sejam quaes forem os inconvenien- 
tes e os perigos reconhecidos de uma droga inútil o 
morbosa. é que a sua marcha tem sido sempre rápida 
e imperturbavelmente ascendente, que nada o faz 
parar, nem as guerras, nem as revoluções, nem as 
fomes, nem as crises commerciaes. 

Dá-se, porem, uma cousa muito curiosa; e vem 
a ser que, de 1832 em diante, o consummo do 
tabaco de cheiro tem consideravelmente dimi- 
nuído. Em 1842, a terça parle das receitas 
provinha do tabaco de cheiro; em 1863 uma sex- 
ta parle somente. Póde-se aflirmar lambem que 
n"aquellas províncias onde a mortalidade é maior, 
o tabaco de fumo tem muito maior extracção do 
que o de cheiro; o contrario tem lugar n"aquellas 
em que a mortalidade é menor. 

Segundo M. JoUy, em 1860, o consummo do 
tabaco de fumo. foi, nas províncias do norte da 
França, de l~l)o grammas por cabeça; de 1366 
grammas no Fas-de Calais; de 1178 grammas no 
Allo-Rheno, ele— No meio-dia, apenas 102 gram- 
mas em Charente; 103 em Tarn; 144 em Lozé- 
re, ele. 

Tomando o termo médio, M. Jolly, calcula um 
consummo annual de 8 kilogrammasde tabaco por 
fumador; o que talvez seja um pouco exagerado. 

Com eíTeito, as estatísticas da administração mos- 
tram que o consummo, que era de 14 milhões de 
kilogrammas em 1816, elevou-sc a 20 em 1852, 
e a 22 em 1860, o que dá um resultado de, pouco 
mais ou menos, 800 grammas por cabeça. Admitía- 
mos que, em 38 milhões de habitantes, haja 10 mi- 
lhões de fumadores; isso daria a media annual de 
3 kilogrammas por cabeça. Esta cifra deve pare- 
cer enorme se se attender a que corresponde a um 
gaslo de 30 a 36 francos por anno, islo é, o equi- 
valente a dois terços do gasto individual de pão, 
cujo consummo se eleva á media de 3 por bocca. 

Ouanlas vezes se não vè o obreiro, reduzido a 
optar enliea compra do |)ãoe a do tabaco, optando 
alinalpor este ultimo 1 Ouantos fumadores não ex- 
cedem a media que estabelecemos! 

Não nos occuparemos do quanto cuslam á França 
os vinte mil hectares de excellenles terras que a 
cultuia do tabaco rouba á agricultura; não entrare- 
mos Ião j)ouco na analysedas coisas mesquinhas (|ue 
o tabaco tem introduzido nos hábitos da sociedade 
e nos da família; limitar-nos-hemos, apenas, a con- 
siderar*, com M. Jolly, a queslão pelo seu lado 
hygienico. 

Parece estabelecido, pelas eslalislicas medicas, 
que as doenças nervosas augmenlam em uma propor- 



ção espantosa: as doenças mentaes, as paralysias ge- 
raes e progressivas, enfraquecimentos do cérebro e 
da medulla espinhal, emlim certas enfermidades 
cancerosas, taes como os cancros dos lábios e da 
língua, parecem caminhar em paiallelo com as 
rendas do Eslado devidas ao imposto do tabaco. 
Ultima coincidência ajilicliva: o movimento pro- 
gressivo da ))opulação jnira ao mesmo tempo que 
se eleva a cifra esmagadora do consummo do ta- 
baco! 

Estes eíTeitos manifestaram-se depois que o ha- 
bito de fumar supplantou o de cheirar. E preciso re- 
conhecer que o tabaco de cheiro, embora não seja 
isento de perigo, eslá, comludo. longe de prejudi- 
car a saúde geral, como o cachimbo e o charuto a 
prejudicam. Podc-se allbulamenle dizer que no 
dia em que a humanidade começou a fumar, co- 
meçou a envenenar-se. 

ÉITeclivamenle, será ainda objecto de duvida a 
natureza venenosa do tabaco, quando está reco- 
nhecido que as folhas d'esta planta conleem 2 a 
7 por 100 de nicotina, (1) um dos mais terríveis ve- 
nenos vegelaes, que a therapeulica baniu do seu 
quadro, e que só o crime poude escolher para 
cumprir atrozes projectos? O óleo essencial de 
tabaco, muito rico em nicotina é lambem um ve- 
neno fulminante: algumas gotas bastam para dar 
a morte. Uma simples infusão de folhas de ta- 
baco, tomada em crysteis, matou um doente. '() ce- 
lebre poeta Sanleuíl foi formalmente atacado depois 
de um grande banquete a (jue assistiu, por ler 
bebido um copode vinhodellespanha, no qual um 
dos convivas tinha deitado o rapé que se continha 
na sua tabaqueira. Toda a companliia riu d'esta 
engraçada travessura, excepto o jjobi-e [)oeta que 
d'ella morreu! A simples applicação de folhas seccas 
de tabaco sobre a pelle é suflicíenle para produzir 
gravíssimos accídenles. 

Tudo isto é, sem duvida, conhecido; só, por uma 
estranha cegueira, se não quer comprehender que 
uma substancia tão perigosa seja oflensíva, quan- 
do consummida em pequenas doses, mas de uma 
maneira regular e constante. 

Os tabacos não lecm todos a mesma força, 
pela razão da sua desigual riqueza de nicotina: 
os tabacos, que conleem pouca, são muito me- 
nos prejudiciaes á saúde do (|ue os tabacos fran- 
cezes que conleem 7 por cento e mais, d'aquelle 
veneno, segundo as averiguações dos chimicos 
Henry, Barrai, Schloesíng, e outros. 

Cunlinua. 



A obrigação do Príncipe he lutar com este gi- 
gante, que c o impossível de trazer a lodos con- 
tentes; e para isso ha de ser Protèo e Achelóo, 
que se transforme em leão e cm cordeiro, que se 
vista humas vezes das propriedades de fogo, c outras 
das de agua. 

P.\DRE Amónio Vieira. 

(1) Os tabacos iJo Brasil e da Havana contcnin apenas 2 por 
100 de nicotina, o da Alsacia 3 por 100, do Kentuclcy 6, os de 
Virginia de Lol-cl-Garonne, etc, mais de 7 por cenlo. Os taba- 
cos do Levante conleem inui pouca. 



o PANORAMA 



93 



ESCOLA MILITAR DE WOOLWIGll 

A cidade ingleza, onde existe a escola militar, 
que a nossa gravura representa, faz parte do con- 
dado de Kent. Construída nas margens do Tamisa, 
conta 25:000 habitantes, mas nem é á sua popu- 
lação nem á sua grandeza que deve a sua muita 
importância. Esta importância provém-llie toda de 
possuir dentro dos seus muros o mais vasto e o 



mais opulento arsenal da Inglaterra. Além de im' 
mensos quartéis encontram-se alli todos os estabe- 
lecimentos necessários ao serviço de arlilheria*» 
immensas oílicinas, onde se fabricam espingardas, 
canhões, etc. ; vastos depósitos d'armas, projectis 
e munições de toda a espécie, tanto para os exér- 
citos de terra como para os exércitos do mar. Em 
parle nenhuma do mundo se encontram essas coi- 
sas em tão prodigiosa quantidade. A opulentíssima 




Inglaterra não poupou o dinheiro, que as suas vas- 
tas possessões, o seu desenvolvidíssimo commercio 
Ihegrangeíam para se abastecer exuberantemente 
de tudo quanto d'um para outro momento se pôde 
tornar necessário á defeza do seu território, ou dos 
seus interesses, ou à sustentação da sua intluencia na 
política européa. Para se fazer idéa dos recursos 
de que dispõem as tropas inglezas, eque estão em 
grande parte accumulados em Woolwich, bastará 
dizermos que havia nos arsenaes d'esta cidade em 
1849, vinte e quatro mil peças d'artílheria, e mais 
de quatro milhões de balas para serviço d'essas 
peças. 

 numerosa marinha britannica lambem dispõe 
em Woolwich de vastos editicios. Alli ha estaleiros 
para a conslrucção de navios de guerra, cordoarias, 
emlim, todos os estabelecimentos necessários j)ara 
a conslrucção e equipamento d'essas immensas 
frotas, que vão tremular em todos os mares do 
globo o audaz pendão do leopardo, e que impõem 
a lodos os povos o respeito do nome e da nacio- 
nalidade da Grã-Bretanha. 

Mesmo em tempo de paz, trabalham diariamente 
em Woolwich Ires a quatro mil operários. 



A escola militar, que a nossa gravura apresenta, 
é uma escola especial d'artilheria. O numero dos 
seus discípulos está fixado em oitenta. 



A GALATEA MODERNA 

Por A. OSÓRIO DE VASCONCELLOS 

Y 

Alfredo de Mello a António Alvares 

Meu caro amigo. — A minha doença ainda não 
fez crise. O estado pathologíco, como dizem os mé- 
dicos materialistas da época, prosegue sem altera- 
ção. Mas se o coração, considerado como víscera 
importante do organismo, pulsa regularmente, olha- 
do como sede do sentimento, continua no seu an- 
ceiar j)or esperanças illusorías, descortinando ao 
longe, em paragens distantes, um pallido alvore- 
cer de nova vida e gosos novos. 

E comtudo o repouso é agora relativamenle nor- 
mal, comparado com as estranhesasdo principio. 
Da lua ultima carta conclui, não sem um sorriso 
de commíseração, que muitotearreceiavasdo meu 
natural pendor para aventuras romanescas. Dizes 
que devo de ser cauteloso, evitando tentações de 



94 



O PANORAMA 



feiticeira, que almeja mais vastos horisontes para 
o seu voltear trefe^^o e vertiginoso. 

Tensa bondade de me chamar crearica, que se 
deixa enganar com ouropéis e íallacias, que os 
meus ouvidos transformam em quebros melodiosos 
de rouxinol. 

Acrescentas que os meus vinte quatro annos fo- 
ram gastos em ler romances, os quacs lançaram no 
meu coração, já perfeitamente pi-eparado, as se- 
mentes d'essa poesia ruim, que enleia o homem, 
enlibia-o, mostia-lhe o mundo cheio de vicios e 
torpezas, enche-lhe a solidão de alTeclos e prazeres, 
e a linal arrasta-o fatalmente ao tumulo. 

Continuas ainda, e cada vez 'em tom mais stri- 
dulo, que a harmonia esta no trabalho, e fora d'elle 
o ranger dos condemnados; que a vida contem- 
plativa exacerba a doença, e conduz a alma ao 
sceplicismo e extasis religiosos, apanágio de faná- 
ticos, ou ao idiotismo simples, o que é pertença 
de Rilhafoles. 

Atinai, e por encurtar mais rasões e periphra- 
sessomnolentas,aconselhas-meciuesaiadaqui, does- 
te cantinho do mundo, cujo maior crime é, na lua 
opinião, o ser tão retirado, que nem mesmo me- 
receu as honras de apparecer na carta de Portugal. 
Não sei se devo tomar a serio este kyrie de 
conselhos, que parecem de homem assisado, grave, 
amaneirado e de muito juizo e consciência como 
não devias de sei', porque nunca subiste ao capi- 
tólio de S. Bento, nunca y^Pí/ /ó/f a palavra, nem 
eícreveste ?rtigo de fundo; es immaculado de 
todas as artimanhas politicas e sociaes, vives no 
teu cenóbio, gosando os prazeres austeros e sacro- 
sanlos da sciencia, adoras oXgiganleo do univer- 
so, contemplas e observas de noite, quando o mur- 
murar dos homens emmudece, as, estreitas, que 
sulcam ethereas ondas. Pois quel És tu, em ver- 
dade, o auclor da carta, que recebi? Foste tu quem 
escreveu tantas necedades em tão pouco papel? Las- 
timo-te, do fundo d'alma. Lastimo-te e abjurar-te- 
bia, se o erro não fosse do homem. Ah! meu amigo, 
quem me dera arcar com os perigos, que tu estas 
antevendo com tanta perspicácia, e de que queres 
arredar-me... com tanta rudeza! Prouvera a J)eus 
que eu visse a meus pes, hianle, explendido, 
fascinador, esse abysmo, que te alemorisa. Pjou- 
vera a Deus, que me arrojara lá, ao seio das 
ondas, corpo a corpo com a sereia mádida. Co- 
mo ella havia de embalar-mc nos seus braços 
voUi|)tuosos ao sabor das vagas indolentes, can- 
tando-nu; toadas maviosas! (^omo ella havia de 
allumiar as trevas da noite com o fub^or dos seus 
olhos, e mostrar-me as mil pedrarias, as columnas 
adamantinas, os frisos de amethysta, as (>mpenas 
de esmeraldaseonyx, as laçarias de topázio e cris 
tal. os rendilhados phantasiosos, as maravilhas in- 
tiuitas do seu palácio encantado! K depois, (juando 
farto já de tanta opulência e a sereia me dcscerras- 
seas portasdo gyneceu explendido, como havia de 
reclinar a cabeça no seio d'ella, e ouvir-Ihe o co- 
ração a palpitar, até que a morte me arrebatasse 
no meio d'a(iuelle somno de amor! 
Chegando a este ponto da caria, a lua zanga to- 



cou as raias do licito, e vomitas impropérios c 
pragas capazes de me soterrarem nas mais intimas 
profundezas do inferno. 

— Sè maldicto, ires vezes maldicto, bradarás 
n"um rapto de desespero e raiva. Corres á perdi- 
ção, e debalde te esconjuro. 

Escusas de erguera cabeça da tua retorta, 6 meu 
pobre amigo. Não é mister que arredes os olhos 
dos astros, que brilham no tirmamenlo, como Iam- 
padarios longínquos na cupola do grande templo. 

Podes seguir com a vista a lua melancólica en- 
volta em veu de Ihama e que, segundo a formosa 
imagem de uma poetisa franceza, parece hóstia 
alevanlada por antistite invisível no tabernáculo 
do universo. O leu amigo, o que le escreve esta 
carta, •■ puro e immaculado de todas as torpezas c 
voluptuosidades pagãs Não o tentam sereias com 
os seus cantares maviosos. As Messalinas em vão 
se envolvem nas suas roupagens vaporosas e pin- 
tam o lindo roslo com mil cosméticos da Arábia. 

Debalde entoam hymnosanacreonlicos os escra- 
vos que tangem lyras em volta do Iriclinio dou- 
rado. É tudo em vão, bem devias sabel-o. A cima 
das mundanidades está a verdade; acima da sen- 
sação o sentimento. Por isso, repito, c será esta 
a ultima vez, não le arreceis de mim. Se eu delirar, 
não será nos myrlaes da Grécia, libando o mel 
do Ilymelo; mas sim na Scandinavia, ouvindo o can- 
tar suavíssimo das virgens, que choram a morte 
da Fingal e entoam o hymno fúnebre, o coronah 
sentido nos basaltos sonoros das Orcades. 

Por essas se apaixonara o próprio S. IJruno, 
apezar dos seus extasis, porque as tomara como 
visões sidéreas, como enviadas do Senhor, como 
seraphins puríssimos, que cantam em chorèa 
angélica o Irisagio celestial. 

Ante uma dessas virgens vaporosas, cujos cabei- 
los agitados pela brisa do norte se tornam em raios 
de aurora polar, curvara-me reverente, como to- 
cado do fogo divino, 

E se ella se dignasse de baixar os olhos para 
mim c sorrir-me envolta na sua auréola, amara-a 
toda a vida, poiíjue Ioda a vida me fora enlevo e 
perpetuo arrombamento. Ah! Aonde encontrar esse 
anjo puríssimo, apezar da argila, que o reveste! 
Aonde buscar esse ideal, recendendo ainda aromas 
do empyreo, bafejado ha pouco pelo creador, tendo 
nos olhos essa placidez profunda, que denota in- 
nocencia,quasi inconsciente? Aonde? Quem poderá 
sabel-o! 

— Mas ahi, nesse teclo hospitaleiro, nessa Ao/?/vi 
dos Viegas, prosegues tu, vive nma donzella for- 
mosa, azougada tentadora, olhos húmidos, rosto 
lindo, ora pensativa, melancholica e jjallida, ora 
louçã, petulante, alegre. Respiras ahi o bafo, ({ue 
saedeum peito aniuejanle, inebrias- te com fragrân- 
cias de dezoito primaveras. E atinai, (juem pôde 
resislir a um combale, cuja victoria fica ignorada 
e esquecida, e custa lagrimas e arrependimentos 
ás vezes? 

Isto dizes, c acabas aconselhando-me a fugir por 
evitar maior damno c estrago. 

A lua voz é a de rasão fria, mas a rasão nem 



o PANORAMA 



95 



sempre é rasoavel.Dado que a minha posição aqui 
fosse análoga á do homem que adivinha um preci- 
I)icio, e não sabe cvilal-o, ainda assim, não seria 
cobardia, ou demasiada prudência fugir vergonho- 
samente? Eslou na eílade, em que o coração muito 
tempo comprimido por falsos sentimentos de sce- 
plicismo e requintados respeitos pelo queé de uso 
ciiamar conveniências sociaes, acceita a lucta travada 
com as tormerdas da paixão, com esses mil nadas 
que custam muitas lagrimas, muitos desesperos, 
muitos suspiros dolorosos, que mais realçam os 
raros momentos de felicidade puríssima. 

Tu, que és homem hyperborico, mal podes com- 
prehender esta attracção irresistível, que me arrasta 
ao supplicio e aos exlasis. Tu, que es homem po- 
sitivo, não avalias o que é soffrer aos pés da mu- 
lher adorada, implorando um olhar, que muitas ve- 
zes é punhal a dilacerar-nos o coração. 

E queres que fuja! E ousas aconselhar-me que 
saia da liça, logo ao primeiro golpe! Não, mil vezes 
não! 

Os homens fazcm-se assim. A vida é a lucta com 
o desconhecido. E que coisa mais desconhecida 
que o coração de mulher! Ah! mas todas estas re- 
llexões phylosophicas, que o divino Platão não re- 
negara, não tem cabida aqui... porque Violante é o 
mysterio feito donzella. Ha mais de um mez que 
estudo esse problema explendido, e a equação que 
ha de resolvel-o ainda não houve estabelecel-a. 
Violante é o camaleão mythico e incomprehen- 
slvel. Umas vezes, pesquisador audaz, quando in- 
tento descerão fundo do coração d'ella, encontro... 
cinzas e nada mais. Violante aíTigura-se-me então 
uma d'essas estatuas antigas, em que o cinzel de 
Phidlas afíelçoou o mármore hellenico para lhe 

collocar lá dentro, no Intimo do peito uma 

urna funerária. 

Outras vezes as cinzas agllara-se bafejadas pelo 
sopro creador do aichanjo e a estatua fria, mar- 
mórea, impassível, chora, geme, c soluça como 
virgem encarcerada em mosteii'o alpestre. 

A zombaria succedeo pranto; á acrimonia a do- 
çura, á ironia pungente a lenldade amorosa. Em 
iim não posso, por entranhados que sejamos meus 
desejos, pholographar-te esta alma, que rellecte 
mil cambiantes, mil gradações diversas... talvez 
porque lá dentro ha muita poesia, ha muitos pran- 
tos, aonde os raios de amor se refrangem e pro- 
duzem esse irls encantador, que nemsemprcprecede 
a bonança. 

E comtudo, ó meu caro amigo, a minha situação 
é, relativamente, feliz csocegada. Entre mime Vio- 
lante estabeleceu-se certa Intimidade contida nos 
mais estreitos limites do decoro. 

Esta intimidade Ião doce, cortada perpetuamente 
pelas Irritações incomprehenslvels de minha prima, 
constitue um enlevo, a que não ha resistir. 

Durante as nossas conversações, que se amiú- 
dam cada vez mais, borboíeteamos desculdo- 
samenle por todas as lltteraturas conhecidas, desde 
o canto Informe e imaginoso do selvagem até 
ás estancias perfumadas e sentidas de Lamartlne 
€ Soares de Passos. E não julgues que a minha supe- 



rioridade me serve de multo. Violante, que ajunta 
bastantes conhecimentos á multa perspicácia, a qual 
se traduz, ora em petulância coruscante, ora em 
modéstia melancólica, Icva-me muitas vezes van- 
tagem e obriga a callar o professor. Ah! É que 
todas as minhas idéas se confundem quando 
ouço aquella falia tão argentina e maviosa. 

lá vês que o meu estado é invejável. Não pro- 
curo o perigo, mas também o não evito. Estou 
preparado para a lucta, se houver Inimigo que 
queira Investlr-me. Desconfio porém que por ora, 
e talvez, para sempre, o Idylllo só seja interrom- 
pido pelas valas Innocentos de Violante... e pelas 
narrativas do velho cavalleiro, cuja espada brilhou 
ao sol das batalhas, como elledlzemphatlcamente. 
Desnecessário é acrescentar que o velho realista 
tem em mim um ouvinte attencio&o e reverente, 
que nem pestaneja no discorrer mais dlcaz. 

Sei applaudir, quando oapplausocae do molde, 
e de tal sorte me aííiz a este seroar patriarchal, 
entre o pai, a íllha e o cura da aldeia, que nem 
sei como se vive no Grémio ou no Martinho, ou 
como se pode ouvlf de uma feita quatro actos de 
opera em S. Carlos ou de drama em D. Maria. 

Vae já bem longa, e por ventura multo fastidiosa, 
esta carta; mas não quero fechal-a sem responder 
a uma pergunta, que me fizeste com Inexcedlvel 
desplante e hombridade sem igusl. 

Tomaste uns ares de inquisidor, engrossaste a 
voz pedagogicamente, e disseste como o doge no 
Othelo: 

— Já te arriscaste a alguma declaração? 

Aphrase é textual e íique-le a responsabilidade 
d'ella. 

Continuas logo: «Isso a que eu chamo declaração 
é o maior arrojo a que pode abalançar-se um na- 
morado verdadeiro. Out'rora, quando nos tempos 
cavalheirosos o brio e pundonor envolviam a terra 
no seu manto de delicadeza, uma declaração era 
coisa simplicíssima. 

«O bardo envergava o ornez e a cota de ma- 
lha, brandia a acha, cavalgava ginete farfante, 
derrubava na liça o contendor, e apregoava rainha 
da belloza e dos amores a alvidrosa donzella, que 
o enfeitiçai a. 

«Assim faziam cavallelros enamorados; assim fa- 
zia o rei Arthur, assim faziam os doze de Ingla- 
terra. Quando porém ocynismo revolto surgiu nas 
ondas da orgia, quando D. João V, ou Luiz XV 
deram leis de galanteria, confundlu-se a declaração 
com o beijo luxurioso, que nem mesmo era fre- 
mente. 

«A esses tempos de Impudicos evenaes prazeres 
segulram-se os nossos de hypocrlslae falso recato. 

«Ravenswood pode salvar Ires vezes a sua Lú- 
cia, que nem assim lhe é licita uma declaração 
senão depois de muitos rodeios saplentlssimos e 
rigorosamente métricos. 

«O amor é agora umasclencla positiva e exacta. 
O amor é a arlthmetica do coração, 

«Esta nova applicação dos números, que escapou 
ao próprio Gauss, tem os seus princípios e axio- 
mas, tem as suas deducções e schollos. 



96 



O PANORAMA 



«Desgraçado de quem ignorar estas artimanhas 
sociaes, qilepara logo será posto a um canto, como 
soez e indigno da illustração do século. 

«Uecommendo pois a todos os que se atrevem a 
libar a ambrósia das Ilebes de salão, que não caiam 
em patentear a chamma, que os queima, sem pri- 
meiramente experimentarem se no seu tirocínio 
encontram a seguinte proporção: 

«A somma de sorrisos d'ella está para a somma de 
suspiros nossos, assim como as herdades ou posi- 
ção social do noivo estão para iguaes quantidades 
da noiva. 

((>i'isto se encerra o amor d'cste século. 

<íÉ o amor ex-professo. 

Transcrevo estes periodos, para eterna vergo- 
nha tua. E ousas dizer que tens um coração! 

Não quero combater esta doutrina; digo-le só, 
para teu descanço, que ainda não liz declaração a 
Violante... porque nada tenho que declarar-lhe. 

Pois o que havia de dizer-lhe, senão que posso 
amal-a um dia, que é esse o meu desejo, e que 
talvez a ame já, como um louco? 

Oh! Mas essas declarações fazem~n"as os olhos, 
que são os mensageiros eternos do amor. 

Parece-me que tenho travado com ella certas 
phrases nimio-sentimentaes, mas declaração ex- 
plicita pertence ao acaso, ao deus dos namorados, 
em cujo numero não sei se devo incluir-me. 

É alta noite. Reina a solidão n'este cantinho do 
mundo. Tudo aqui é placidez e innocencia, e as 
noites correm bem dormidas. Teu, ele.— Alfredo 
DE Mello. 

{Conlinun.) 



ERRATAS 

No capitulo IV (lo romance Galaíéa Moderna, deve fazer-se as 
seguintes correcções; 
Pag. 74, col. 2.^, onde se li'^ — luctunr .... leia-.se flartuar. 

> > » » , » » — dryadas. ... » dnjades. 

• 7.J, » 1.* » • • — exhausto . .. » cxhnusta. 

I n n ■> » /) . — açoitado . . <> açnilada. 

. . » ^ 1. » » — deliciámos.. » delirámos. 

> • > > p. . » • — Prrso .... " Presa 

. » • » » » » — conslrange-se ■> conslrnnia-se. 

„ m » « » » » — cupido » áspide. 

, . » 2." » » » — Melihen. ... » Mclibeu. 

^ » — namorosos . » nemorosos. 

E mais alguns erros se encontram, que escaparam por defeito 
de revisão, e dos quaes pedimos desculpa aos leitores c ao auclor. 



ÍIARPEJO 

K vidi lagrimar clieduo bei lumi, 
Gh'an faúo mille volte invidia ai sole. 
Tasso 

Se soul)es.';cs nuanlo peno, 

miniin flor, 
quando o teu olt)ar sereno, 

turva a dor, 

quando uníi véu de funda mágua 

vejo ir 
os teus olhos rasos d'agua 

encobrir, 

quando um ai do seio exhalas, 

ílor do ceu, 
e m'escondes luas falias, 

anjo meu;— 



e se visses que almo gosto 

reina em mim, 
quando alegre esse leu roslo 

vojo emlim; 

se meu seio examinasses, 

fosses ver 
quando anima tuas faces 

o prazer, 

e teus olhos scinlillantes 

vejo a par 
como dous astros amantes 

palpitar; 

quando corres vaporosa 

para mim, 
como a douda mariposa 

do jardim ; 

quando, longe dos abrolhos, 

vejo em li 
ceu d'amor, que dos teus olhos 

me sorri: 

ai se visses, se soubesses!... 

então, sim, 
ouvirias miidias preces^ 

cherubim. 

De minh'alma doce incanto, 

casta ílor, 
i porque clioras? susla o pranto, 

dei.va a dor. 

Deixr. a dor que assim te opprime 

o coração, 
como o sol q°ue verga o vime 

para o chão. 

Vai ás flóridas campinas 

resi)irar 
os perfumes que as boninas 

le soem dar. 

Vai, que o ceu é lindo; e o prado 

le sorri 
com mil llores que ha guardado 

para li. 

E se á larde pende a coma 

cada flor, 
é perpétuo o saneio aroma 
d'esle amor. 
Vizcu. 

Cândido Figueiredo. 



As rosas brancas e incarnadas, os lirios roxos 
e azucs, as cecéns brancas, os bcm-me-quercs e 
as boninas com uma roza dourada nomeio se guar- 
necem e enfeitam para os olhos dos homens; os 
frutos das arvores quando chegam á sua desejada 
perfeição, e as searas na fertilidade de suas espi- 
gas se tornam de ouro: e as mais formosas crea- 
turas humanas, com as cabeças douradas mostram 
sua belleza; e a esta imitação trazem os príncipes 
e monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os 
reis e imperadores nas coroas, os papas nas thia- 
ras, ou bispos nas mitras, e as matronas illuslres 
nos toucados, ao pescoço, sobre o peito, e pendu- 
rado das orelhas, nos dedos, e nos braços, fazen- 
do voluntárias prisões da sua formosura. 

Francisco Rodrigues Lobo. 



Typ, Franco-Portugueza = Rua do Thesouro Velho, 6. 



13 



o í>ANORAMA 



97 



TIIEATRO DE D. MARIA II. 

ror A. OSÓRIO DE VASCONCELLOS 

Singular e estranho destino persegue ás vezes as obras 
do homem. Que vicissitudes! Qnc. baldões da sorte! 
Quem dirá, se por ventura não for sabedor da historia, 
que n'aquelle ediíicio, que hoje ó templo das artes, já 
se aqueceu a fornalha, aonde ossos humanos se tisnaram 
para honra e gloria de um Deos de clemência e bonda- 
de 1 Quem dirá que no garrido e loução Ihealro de D. 



Maria, aonde echoam risos e volilam jocos, crguia-se ou- 
tr'ora um palácio torvo e sombrio, minado de cárceres, 
em cujos arcanos soterrados reboaram maldições de Ire- 
dos juizes e rangeram dentes milhares de*victimas. E 
comtudo, esta a historia authenlica e genuina do nosso 
theatro normal. Singularissimo contraste muito para pen- 
sar e admirar. Rastreemos, porém, sem grandes individua- 
ções a historia d'esle ediíicio. Sigamos a monographia 
d'esle monumento de pedra desde a sua fundação olé 
hoje. Muito havemos de aprender que o lhea*lro de 




|í!la-íai/íJL uij 



'If ^1 K ]f "" ' f '' 

iníifilí |li!'Í fi 





D. Maria 11 teve o condão de andar ligado, desde eras 
remotíssimas, ás grandes revoluções que alteraram por 
vezes mui profundamente o viv*er e crer de Portugal. 
D'esses edifícios se pôde dizer afíbitamente que são ver- 
dadeiros livros de pedra, porque foram testemunhas mu- 
das e quedas e eloquentes dos principaes successos de 
que reza a historia. 



Era no melado do século XY. I). João I, o rei heróico, 
liavia descido ao tumulo, envolto na velha armadura, 
aonde batera de chapa o sol em mil recontros. O caval- 
leiro, que conquistou a coroa e libertou o reino nos plai- 
nos de Aljubarrota, o foro conquistador de Ceuta, o pri- 
meiro portuguez, (jue pizou as arcas adustas da Africa e 
desfraldou ao vento do deserto a bandeira do occidente, 
o artista, que fundara a Batalha, esse monumento de um 
povo juvenil, cônscio da própria força ; o rei popular 
emíim, eleito pelo i)ovo e filho do pov"o, repousava das 
fadigas da vida na crypta do seu mosteiro, e as suas cin- 
zas dormiam o derradeiro somno. 

A ala dos namorados e os cavalleiros ardentes do con- 
destavel já se tinham csvaido a pouco e pouco, e cada 
((ual por sua vez, nas sombras da morte. Nascera c cres- 
cera outra geração, com outras esperanças, com diversos 
intuitos. A D. João i succedera T). Duarte, á ala dos na- 
morados os marítimos de Sagres. Os leões do occidente 
geraram os leões do oriente, os litãcs deram o ser a ou- 
tros litãcs, os quaes avassallaram o Adamastor, titão co- 
mo ellcs. 

D. Duarte, porém, passados cinco annos de reinado, mor- 
reu da peste, que assolou por aquelles tempos o reino ; 
o heróico e malfadado irmão do saneio infante finou-se 
ouvindo os prantos e lamentos dos seus vassallos mori- 
bundos. 

Perdera um pai o reino, e (li ara-Ihe uma crcanca, té- 
nue vergonlea da heróica estirpe. 



Appareceu então um homem, que segurou com mão ex- 
periente as rédeas da governança, e dotou o paiz de 
grandes melhorias, ao passo (jue lhe dirigia os impeles e 
hardimentos. Era o infante D.Pedro, um dos vultos mais 
venerandos e respeitáveis d'essa época gloriosa. Era o 
infante D. Pedro, soldado valente e audaz, sábio cosmo- 
grapho, amantíssimo das grandes entreprezas, que por 
largos annos jjreparou, já com os seus estudos e viagens, 
já com a poupança dos redditos c boa direcção do espi- 
rito nacional. 

Era pois no melado do século XV (1) Portugália sendo 
procurado pelas nações da Europa. Todas queriam a 
alliança c amizade deste pequeno reino, que esbracejava 
já, c intentava rasgar com as proas dos seus galeões as 
névoas, (pie encoliriam o berço da aurora. 

O vasto porto de Lisboa mal podia receber no seu âm- 
bito os baixeis que vinham de toda a parte, e raro era o 
dia em que um embaixador estranho não vinha pactuar 
com o grande infante que ora geria a coisa publica. 

Era forçoso dar condigna c faustosa pousada a Ião ricos 
estrangeiros. Assim o pedia a grandeza própria. 

l)elerminou-se D. Pedro a erguer sumptuosa fabrica, 
aonde recebessem moradia e gasalhado não só os em- 
baixadores senão lambem os cortezãos, que não livessem 
cabida nos paços reaes. 

Esta a origem dos paços dos cstaos, ou hoslaos, vocá- 
bulo antigo, que quer dizer iiospedaria i)ublica. 

Occupava o paço dos Estáos o laílo seplemtrional para 
oesle, sendo rpie o Rocio tinha a mesma .situação de agora 
com a só dilVerença de ser então muito irregular. 

Serviu o palácio pela primeira vez em 14.^1, porocca- 
sião das festas que hou\e em Lisboa, quando a infanla 

(I) lilO, .«ognnilo o sr. Vilhena B:'.rliosa. Escreveu este sábio e 
erudito iicademiro alg"ns artigos sobre o inesnio assumpto no VI 
Toluniu do Arrhiro PUturesco, que rccommendaiuos aos leitores 
assim como todos os trabalhos de tão ubulisado escriptor. 



98 



O PANORAMA 



D, Leonor, filha de D.Leonor, filha de D. Duarle e irmã 
de D. AlTonso V, o Africano, conlrnhiu niípcias com Ire- 
dericoUI, impenidor daAllemanlia. Foram pomposamente 
acolhidos' os embaixadores tudescos durante os mezes que 
se demoraram na ja então florescente Lisboa. 

Correram emtanto os annos. A simplicidade e rudeza 
de costumes de D. João 1 cedera o passo ás blandicias e 
lenidades de D.Manuel, e este, após tantos annos inin- 
terruptos de venturas e .i;lorias, baixou á sepultura. Com 
a morte do rei venturoso começou a decadência de Por- 
tugal. A mortalha de D. Manuel deixou vastas sobras para 
a mortalha do paiz. Subiu D. João 111 ao Ihrono, e com 
elle assomaram de envolta os primeiros negrumes do fa- 
natismo torvo e sombrio. 

Se os judeus haviam sido expulsos e definhadn a in- 
dustria nacional ; se a sede de ouro, que não a fc imma- 
culada e os brios de cavallciros, lti*a\a os porluguezes 
ao oriente, ao rei fanático e intolerante coube a triste 
sorte de dar o derradeiro golpe á prosperidade publica. 
Qu'imporlava que os baix"eis vergassem com o peso das 
pedrarias e especiarias, e os herocs recebessem as parcas 
do oriente, se as praças africanas eram abandonadas, e 
se perdíamos o futuro dominio de tantas riquezas para 
colonisar as plagas longínquas de Santa Cruz! Qu'inq)or- 
tavam esses restos, cnd)(.ra sumptuosos, de opulências 
herdadas, se a Santa Inquisição surgia d,is sombras, qual 
fúria delirante, brandindo o" facho ardente, que havia de 
tisnar os últimos alentos do povo? 

Ou"importava o nosso poderio se o cancro nos comia 
as entranhas e nos dilacerava iniplacavelmenle? Oh ! Por- 
tugal era já um jiaiz moribundo. Gloriosos c para sem- 
pre admiráveis eram os seus derradeiros arrancos, com 
os quaes estremecia o mundo espavorido. Mas ninguém 
podia dar vida ao cada\er. Cercavam-n'o as iividas som- 
bras da morte, seu rei-entoara-Ure o hymno fúnebre e as 
psalmodias tétricas da egreia,c no seu tumulo aniidiava- 
se a inquisição como um replil gigante c roaz, qiic care- 
cia de fogu*eiras i)ara se deseniorpeccr. A inquisição! 
Que idéas" pavorosas não soltem á mente quando soltamos 
esta palavra fatídica 1 A santa inquisição ! Não vasculhe- 
mos esse paul infecto, esse lago de sangue, aonde pullu- 
laram cirdumes de vermes sanguinários ! A santa inqui- 
sição! Macula indelével da historia moderna, creação 
hvbrida do fanatismo hespanhol, do delirio clausurai, da 
vòlupluosidade ardente de homens que, na força da idade 
e das paixões, sentindo os impudicos extasis dosílagicios, 
sequestrando-se do mundo, que aborreciam para melhor 
o dominar, arreceiando-se de satanaz, que os perseguia, 
afogavam em sangue o vulcão, que lhe ia revolto e me- 
donho lá dentro ! 

Era necessária a iníjuisição a Portugal moribundo. Kra 
necessário que as fogueiras Iividas e sinistras espalhas- 
-cm de cn\olta comos seus clarões o espanto, a morte, 
n estrago. Era necessário que um rei fanático lhe desse 
acolhida nos seus pnçns, e escondesse a purpura por 
traz da negra sotaina, da medonha estamenha de S. Do- 
mingos. 

Assim fez D. João III, c o paço dos Esláos lornou-sc o 
ergástulo immenso de um povo escravo. Nas salas aonde 
pousaram tantos fidalgos estrangeiros c nacionaes ; n';:- 
quellas salas, que serviram de abrigo a tantos varões 
illustres, e foram lestemutdias de scenas de gloria, amor 
e saudades, ergueram-se potros, accenderam-se fornalhas, 
prepararam-sc tractos, forjaram-se algemas c cadeias. As 
tapeçarias foram substituídas, chumbadas as grades nas 
ianeílas, por onde cnlra\a oulr'ora livre e á folga ar, 
luz, calor e vida. Era necessário que o aspecto do |)a- 
laoio da inquisição fosse lúgubre e carrancudo, era iie- 
cpssario que fosse. . . inquisilorial. Tudo sollrou com- 
pb'tn transformação. Cornam estreitos passidiços pelo 
meio das paredes, os cárceres abobadados liidiam mira- 
douros imperceptíveis, e o desgraçado não podia soltar 
um gcuiido ou uma maldição sern que os liarbaros e 
implacáveis algozes o ouvissem. Fora longo descre- 
ver ja o palácio inquisilorial, já as salurnaes christãs, 
c|ue comoçaram no [laço dos Estáos. Assunq)to é esse de 
si Ião importanio, que não cabe nas estreilezas de um 
artigo. Os que forem curiosos de\em ler a lli<loria da 
Inf/iiisição em I'orOi[/al, pelo profundo e sábio historia- 



dor o sr. A. flerculano, e nessa ol)ra admirável, verão 
como a hydra do christianismo teve artes de aninhar-se 
em Portugal. 

São passados mais de dois séculos e meio. Encarre- 
gou-se uma grande cat:!s!rophe, o terramoto de 175o, de 
derrubar o palácio da inquisição, e comquanio resurgisse 
mais augmenlado e sumiiluoso das ruinas fumegantes, 
dava o marquez de Pombal profundo goljte na sanguiná- 
ria instituição, acabando com as differenças entre chrislãos 
novos e velhos, abolindo o castigo do fogo e cortando 
as azas ao abutre, que esvoaçava sinistro no firmamento 
de Portugal. 

Estamos em 1820. O povo sedento de liberdade e re- 
conhecendo emlim (jue era mais que um rebanho, er- 
gueu-se á voz dos tribunos, soltou o grilo de redempçào 
e do mesmo modo que os parisienses, correram os lisbunen- 
ses à bastilha do santo oíTicio, abriram portas enferruja- 
das, atravessaram lúgubres salas, franquearam cár- 
ceres escuros, libertaram algumas victimas, que ainda 
restavam, e atinai, refugiram es|)avoridos, horrorisados, 
mal podendo acreditar na crueza e ferocidade dos seus 
antigos algozes. Pouco faltou que o edilicio não fosse ar- 
rasado, e se as xiclimas não cscaceassem tanto em vir- 
tude das sabias reslricções do grande marquez, certo que 

povo havia de dançar tombem sobre os fundamentos 
da bastilha religiosa. 

Sumiu-se para sempre esse espectro mal raiou a liber- 
dade, cujos clarões escureceram as fogueiras. 

Quando rebentou a revolução no rocio, e a palavra 
magica— liberdade,— reboou, com a velocidade do relâm- 
pago nos (|uatro ângulos do paiz, foi derrubada a esta- 
tua da Fe, que canqieava no alto da empena, calcando 
aos pés a heresia. Foram delirantes os applausos da mul- 
tidão, que se .revolvia, como as ondas do oceano. 

A revolução porém, com ser popular porque apregoa- 
va e sancliíi(;ava os direitos do homem, que não mais 
podia ser arrebanhado á vontade de um pastor despótico, 
lirdia inimigos entranhados. Entre eslcs e na vanguarda, 
apparecia o vulto do general Silveira, que lamentava a 
([ueda do despotismo e almejava alevantíil-o das ruinas, em 
(|ue baqueara. N'este intuito intentou proclamar a cons- 
liluição [hespanhola de 1012, de parceria com outros 
conjugados, para á sombra crcUa crearem uma silnação 
polilica, em r/iie podcssem dictar a lei ao pai:, como diz 
o sr. Vilhena ISarbosa. 

Ainda a revolução não eslava consolidada, e surgiam 
inimigos de toda a parle; mas já o grande Fernandes Tho- 
maz recebia a aiiotheose do povo, que lhe entregou, nos 
paços da inquisição, as funcções governativas. 

() illustre patriota pagou depois com a vida na mas- 
morra, este grande acto de a alor cívico e humanitário. 

Por uma d'aquellas antinomias lerriveis e inexplicáveis 
da historia, acontece q;iasi sempre que os que (jucbram 
os ferros dos povos, morrem em ferros. 
1 A revolução de 1820 deu pois mate á inquisição. A luz 

1 afugenta as somJ)ras, a vida expelle a morte. 

Ós cárceres, não mais foram povoados, já não reboa- 
vam nas abobadas os echos plangentes de suspiros c la- 
mentos. 

As fogueiras, que ainda bruxuleavam depois do minis- 
Iro de D. José, foram extinclas de lodo. O crr ou morre 
(los mahometanos incircumcisos ninguém ousasa pro- 
leril-o n'a(|uella época auspiciosa, em (|uc os velhos romanos 
como (]ue reviviam na brilhante jílciade de liberaes. Os 
brandões funerários das confrarias já não allumiavam as 
longas procissões de i)enilentes, e os in(|uisidores e fami- 
liares em vão derrubavam o sobrecenho, que ninguém 
entoava su|)plices preces. 

Só restava, após tantos annos de bárbaros supplicios, 
a tradição ensanguentada e lúgubre de um tribunal Icr- 
rivfl, composto de algozes, (jue Iripudiaram cm uma or- 
sia (lo matança e carnificina. 

Em 1821 decrelaram as cíules a exiincoão da Sanla- 
Jrmandadc de jiav orosa memoria. Folgaram a justiça e a 
humanidade no iniillo tribunal da historia. 

O povo acolheu com frémitos de alegria esse decreto 
memorável. 

O palácio da in((uisição soíTreu então diversas vicissi- 
tudes. No seu ambilo estanciaram, desde 1820 ate 1836, 



o PANORAMA 



99 



o governo provisório, a camará dos pares e o Ihcsouro 
publico, alè que um incêndio pavoroso o dcvoroi!, dei- 
xando-lhe apenas as pareilcs. 

De jusliça foi que o fogo |)uriricasse aquelle edifício, 
aonde correu tanto sangue innocente. 

Co)iti)iU(i] 

IDÍLIO 

III 

A nrvorc do bom pasíof 

Na margem de um lio caudaloso, cujo leilo 
liumilde ora rodeado de altos e escarpados roche- 
dos, vegetava, solitária, robusti azinheira Cau- 
sava dó vèr a gigantesca arvore, que na planície 
teria elevado ate ás nuvens sua mageslosa co- 
ma, crescer sem gloria em áspero e profundo 
barranco. De que servia os seus ramos esteude- 
rem-se a grande distancia em roda do tronco? !)e 
que servia, suas ílores, soltas pelo vento, Ibrma- 
i'em a seus pés macia e deliciosa alfombra? Nunca 
viu pastor algum piocurar á sua sombra abrigo 
conli'a o fogo abrasador do meio dia, nem jamais 
ouviu o terno discorrer de dois amantes, nem os 
alegres sons das danças campestres, nem a voz 
grave e solemne dos anciiJos, ora em pastoril con- 
curso, adjudicando o premio do canto, ora em doce 
colloquio, ricos de experiência, pregando a vir- 
tude: aos maus annunciando cui-la vida e cheia 
de tormentos, aos justos promeltendo larga senda 
de paz e de viilude. Da vereda do monte, a cujos 
pés jazia a iníeliz arvore, os rebanhos lhe despiam 
os ramos da sua copa e as creanças da aldeia fa- 
ziam fogueiras dos seus despojos; por isso, se al- 
gum estrangeiro a admirava, não obstante a sua hu- 
milde posição, os lilhos d'aquella terra diziam: 
«Como podesergi'andea arvore cujas lloresefructos 
são colhidos pelos nossos pequeninos no seu mais 
elevado cimol» 

Ostente em má terra um bello coração suas flo- 
res, seus fructos de oui-o um alto engenho. Ein 
vãol Como troncos sem seiva mui'charão; como 
as aves sem ninho morrerão sem canto e sem 
plumagem; ou como tu, formosa azinheira, des- 
conhecidos pela ignorância, viverão sem lustre en- 
tre brenhas, sem honra entre abrolhos. 

— Cortemos estaarvore inútil, disse um dia Nar- 
ciso, seu dono; o seu producto dar-me-ha, pelo 
menos, duas cabras e umaiovelha. Com as pri- 
meiras augmentarei o meu rebanho, com a segun- 
da, de ílores e íilas adornada, presentearei a 
minha querida l.ilia.E alegre, ufano com tão feliz 
ideia, pensando na sua pastora e cantando, começou 
a desbastar a pobre arvore. 

«Caiam, disia, léus ramos e teu tionco aos 
repelidos golpes do meu machado, velha azinheira, 
e invejem o teu destino as arvores, que nos bos- 
ques e nos prados o furacão derriba, ou as que 
podendo resistir aosseusfui-ores morrem velhas en- 
tre injurias e aíiVontaS. Não morrerás, não, sem 
recordações e sem gloria. Ouando Lilia, com seus 
lindos ííraços, enlaçar o alvo collo da minha ove- 
lliinha, quando, amorosa, acariciar o seu íino vello 
pensando em mim, então abençoarei tua memoria, 
e juntamente com o meu amor guardal-a-hei para 
sempre em meu peito. 



«Trinai suavemente, passarinhos que vos ani- 
nhaes em sua ramagem; soprai em torno vosso 
doce alento, auras embalsamadas, que dais frescu- 
ra á sua sombra, voz ás suas folhas; morra o vosso 
amigo enlre caricias como o menino que do regaço 
materno baixa á sej)ullura.)) 

Assim cantou Narciso; e apenas acabava, quando 
uma voz grave e sonora feriu seus ouvidos. Appro- 
ximou-se para ver de quem era, e reconheceu o 
pastor Cecilio, oráculo da aldeia, honia e gloria 
da comarca. Assentado aos pés da azinheira, re- 
clinada a venerável cabeça sobre o Ironco, levan- 
tava para o céo seus olhos já amortecidos pela 
idade, puros como sua alma, doces e ternos como 
o sou lerno coração, e assim dizia: 

«Tenho visto o fogo consumir as cidades e abra- 
zar os campos; lenho \is!o a terra commovida 
eslremecor com fi'agor e derribar os templos, sober- 
bos palácios e as humildes cabanas; lenho visto as 
guerras estrangeiras e as dissensões intestinas agi- 
tar sobre os povos seus fachos homicidas e apagai- 
os com sangue; e quando as innocentes creanças 
brincavam com as pedras dos tectos domados e 
das santas abobadas; quando os reis pereciam nos 
supplicios, como se foram obscuros mal feitores; quan- 
do as nações se não poupavam á morte, vi lambera, 
arvore amiga, que o hospede da tua ramagem 
cantava alegre e tran(|uil!o em sua guarida, em 
quanto que tu crescias formosa como os lilhos das 
selvas, modesta como ludo quanto e gi^ande e for- 
moso. 

«Vi o leu tronco em sua infância, pequeno ain- 
da e llexivol, crescer com grande custo em terra 
pobre; vile, solitária e som apoio, levantar para o 
céo a fronte secca e sem adornos, qual oipham 
abandonado. Bemdilaseja a mão que te protegeu 1 
Vi-le depois forte, erguida, feliz, como se amor de 
mãe te tivesse conservado, como se formosa com- 
panhia houveras lido ; e ao passo que os annos 
teem ido desfolhando uma a uma as tlores da mi- 
nha vida, as tuas nascem mais bellas e fragrantes 
de primavera em primavera. Bemdila seja a von- 
tade de quem le lez formosa, e bemdito o poder 
que te tornou forte, arvore querida. 

«Gosto de le ver subir e crescer quando eu ve- 
lho e fiaco desço e morro' Cavar-se-me-ha a se- 
pultuia a leuspes e grata sombra á minha humilde 
lapida darão teus ramos, e acceitarás agradecida 
os últimos amores do que na vida não Ice lilhos 
nem esposa! Mil annos vivas e outros mil, linda 
azinheira; e o céo conceda verdor eterno a tuas fo- 
lhas, ditosa liberdade ao passarinho que lormar 
seu ninho em lua ramagem; zéphiros brandos á 
lua copa formosa, fresca chuva e lerna amiga a 
tuas raizes. Já mais o aquilão ou o sudoeste fu- 
riosos le murchem, nem traidor insecto te disse- 
que roendo-te o coração.» 

Assim cantou o ancião. Approximando-se depois 
de Narciso: «Orpham, lhe disse, conserva a soli- 
tária arvore; é lua irmã. Yem comigo viver, se- 
rá leu tudo quanto possuo. Eu vos adopto: a li 
para a curta vida que me resta; a ella, para de- 
pois da vida.» 



4 00 



Õ PANORAMA 



O desejo de Cecilio foi satisfeito. Os restos mor- 
laes do ancião foram depositados aos pés da azi- 
nheira, que os habitantes da aldeia chamaram d"ahi 
em diante a arvoír do bom pastor. E fama que 
desde então goza a azinheira de uma constante 
primavera, e que uma multidão de llores de ex- 
quisita fragrância, nascidas espontaneamente á ro- 
da da sepultura, embalsamam o ar, sem nunca mur- 
charem. Dizem os pastores que a alma do bom 
ancião, ao subir á mansão dos justos, passou por 
aquellas ílores, communicando-lhes uma pequena 
paite do seu divino perfume, e que no silencio da 
noite se ouvem debaixo da arvore suavíssimas e 
ineftaveis harmonias, que não são mais do que os 
echos da sua voz celestial. 



BATALHA DE POITIERS 

Este nome sôa lugubremente, como o de Crécy, 
como o de Azincour!, aos ouvidos fi-ancezes. Estas 
três batalhas foiam por muito tempo as três ma- 
culas estampadas na alva bandeira das llores de 
liz, maculas que os francezes só julgai'am lavadas 
com o glorioso sangue de Fontenoy. Em Poiliers, 
em Crecy, em Azincourt o leoiiardo inglez tripu- 
diou ovante sobre os rotos pendões dos descen- 
dentes de Carlos Magno. 

Longas foram as guerras travadas durante a idade 
media cnli-e a França e a Inglaterra. Molivaram- 
n"as principalmente e facilitaiam-n'as o possuir o 
rei de Inglalei-i-a, na sua qualidade de duque de 
Normandia. extensos lerritoiios no continente fran- 
cez. Correram estas guerras (que deram prin- 
cipio ao velho rancor, que entre si dividio as 
duas naçõesj com varias alternativas. A coroa de 
França, rolando da fronte frágil de Caiios VI, 
o rei louco, chegou a cingir a fronte dos mo- 
narchas inglezes. Voltou ella aos seus naturaes 
possuidores, graças á iniciativa audaz de uma 
criança verdadeiramente inspirada por Deus, .loan- 
na de Are. E assim lindou a prolongada lucta, 
que inimizou os dois povos durante a idade 
media, lucta que se reaccendeu depois em varias 
occasiões, e hoje parece quasi de todo aplacada. 

Retrocedamos á época, a que nos chama a gra- 
vura. Iicina Kduardo 111 em Diglaterra, Eduardo 
lil o fundador da Jarreteira, o pai do príncipe Ne- 
gro, d'esse vulto sublime, que brilha nas trevas da 
idade media com o duplo esplendor do valor cava- 
lheiresco, e do talento militar. 

O príncipe de Calles, cognominado o príncipe 
negro pela negra armadura que usava constante- 
mente, é talvez o general mais notável de uma 
época, em que, mais do que a habilidade e a estra- 
tégia, decidia as viclorias a força bruta. A pe- 
ricia d'este grande homem fez inclinar j)ara o lado 
da Inglaterra a balança, cm cpie se pesam os lii- 
umphos militares. Teve também a França um ho- 
mem notável a oppor-lhe; mas esse era mais do 
seu tempo, mais cavalleiro andante do (|uc hábil 
general. O homem, a quem nos referimos, já de 
certo os leitores o adi\inharam, era o condestavel 



Duguesclin, o predecessor de Bayard em bravura 
pessoal, em caracter integerrimo, c em cavalhei- 
rismo immaculado. 

Mas nem esse mesmo eslava na batalha de Poi- 
liers. Faltava o heioe da França para disputar, 
ao menos por um instante, as palmas da victoriaao 
heróe da Inglaterra. 

F]ra em 13;)G. Invadiam as tropas inglezas o 
território da França. Eduardo líl invadia a Picardia, 
seu lilho, o príncipe Negro, atravessava, pre- 
cedido pela vicloria, as mais férteis provindas 
fiancezas. Sam-lhe ao encontro o rei João à testa 
da flor da sua íidalguia. 

Contava dezeseismil homens o exercito francez, 
oito mil apenas o do príncipe Negro. 

Apenas o i-ei de França vio approximar-se o 
inimigo, logo foi ouvir missa o commungar junta- 
mente com seus íilhos, que o acompanhavam, ingé- 
nua usança d'esses lemjjos, em que Deus era invoca- 
do pai-a auxiliar a satisfação das paixões desenfrea- 
das dos homens. 

Apesar da superioiidade numérica dos francezes, 
era da parle d'elles uma imprudência acceitai a ba- 
talha, ([ue o intrépido príncipe lhes oITerecia. Tão 
hábil (|uanlo valoroso, o pi'incipe de Galles esco- 
lhera um leireno favoi'avcl, d^onde os .'íeus besteiros, 
abrigados pelas arvores que lhe cobriam a frente 
de batalha, espalhariam a morle nas íileiras fran- 
cezas antes que estas podessem chegar a alcance 
de se travarem, arca por arca, com os seus ini- 
migos. 

Foi o que succedeu. O rei .loão dividiu o seu 
exercito em ti-es corpos, coramandados, o da van- 
guarda pelo duque de Orleans, irmão do rei; o do 
centro ])elo du(juedaNoimandia e o da retaguarda 
pelo monarcha em |)essoa. Como a cavallaría for- 
mava a máxima parte do exercito francez, e como 
o terreno aonde o príncipe Negro, como con- 
summado estratégico, chamara a batalha, não se 
prestava ás manobras d'essa arma, o rei de França 
mandou apelar uma porção dos seus cavalleiros, 
e encurtar as lanças, porque previa e desejava que 
fosse o combate corpo a coijjo. Avançou a linha 
commandada pelo duque de Orleans, efoi recebida 
por uma nuvem de frechas, que introduziram a de- 
sordem nas suas lilei«s. Os cavallos feridos re- 
cusavam avançar, e atropellavam os peões, que 
se lhes seguiam. Muitos dos cavalleiros, arrastados 
pelos coroeis furiosos, caíram no meio da segunda 
linha, (jue igualmente desordenaram. Apossou-se 
o pannico dos francezes, que já n'esse tempo, le- 
miveis na avançada, se desmoralisavam facilmente 
em sendo obrigados a fazer um movimento retro- 
grado. 

O corpo, commandadopelo rei, foi o único que 
oppoz uma resistência seria, e salvou a honra <las 
armas francezas. Pralicaram-sealli essas genlilezas 
e façanhas, (|ue os menestréis cantavam com en- 
tluisíasmo, e os chronislas registravam escrupu- 
losamente nos seus venerandos in-folíos O rei .loão 
em pessoa praticou aclosde valor, que desculpam 
até certo ponto a sua imprudência de general. O 
seu lilho mais novo, (jue foi depois Philíppe o Au- 



o PANORAMA 



•, " í- 'f í 




mm 1 



f/fel M 




(laz no catalogo dos reis de Fiança, então apenas 
de idade de treze annos, piincipiou logo d'alii a 
merecer o cognome com que a historia o distinguiu. 
Debalde os Inglezes insistiam com el-rei João que 
se rendesse, o intrépido monarclia rcspondia-lhes 
abrindo em torno de si um largo circulo com a 
espada ensanguentada. Só (jueria entregar-se ao 
príncipe de Galles, mas, vencido pelos rogos do 
cavalleiro deArtois, que combatia nas liteiras ini- 
migas, constituio-se atinai prisioneiro. 

O príncipe Negro tratou-o com extraordinária 
distincção; recebeu-o na sua tenda e quiz elle mesmo 
servil-o á meza, não cessando de louvar o seu valor, 
e procurando adoçar-lhe as amarguras do capti- 
veiro e a vergonha da derrota. 

A batalha de Poitiers teve para a França con- 
sequências desastrosas. Além dos sacriíicios que 
teve de fazer paia resgatar. o seu rei, licou-lhe no 
campo de batalha a ílor da sua nobreza De 10:000 
corabalenles, morreram GOOO. 



Eram assim as batalhas antes da invenção da 
palavra, estygmalisada por alguns philosophos que 
se dizem humanitários! 



PEREZ LORENZO 

(iSccnaN tia CaBiiiiaiilia ilo niexico] 

Por PIMIEIRO CHAGAS. 

YI 

Assim, conversando c rindo, tinham-se ido ap- 
proximando do sitio, d'onde partiam os sons, que, 
ouvidos ao longe, tanto iinham enlevado os conlra- 
guerrilhas, e que se iam tornando cada vez mais 
distinctos e harmoniosos. Afinal, um jorro de vi- 
víssima luz inundou o arvoredo, que, rareando-se 
de súbito, deixou ver uma ampla clareira, e n'essa 
clareira um espectáculo, deveras próprio para ma- 
ravilhar homens menos habituados do que esses 
aventureiros, aos casos inesperados e extravagantes 
das florestas mexicanas. 



4 02 



O PANORAMA 



No meio da clareiía ardia um fogo, cujo clarão 
avermeliiado purpúrea va as arvores immoveis, que 
circumdavam a sala de baile (chamamos-llie assim 
por justos molivos), e projectava sombras vacillan- 
les nas ditrerentes veredas que alli iam ler, e que 
até um cerlo poníoeram illuminadas pelos lampe- 
jos da fogueira. Junto d'es[a, insolentemente re- 
costado na relva, estava um homem, o único do 
bando, dedilhando uma guitarra com toda a non- 
c/ifilaiice do amador andaluz, e contemplando a dan- 
ça lasciva d'uni bando de mulheres, que revolu- 
teavam n'um bolero dos mais animados, acompa- 
nhando-se com as inevitáveis castanholas. Entre 
estas mulheres havia-as bonitas, leias e horrendas, 
havia-as de todas as procedências, mexicanas, hes- 
panholas, Índias até, mas todas essas nacionalida- 
des se fundiam perante a iniluencia magnética do 
bolero e das castanholas, da guitai'ia e do pandei- 
ro, que se casavam harmoniosamente inundando 
a lloresla de melodias, que tinham ido, como vi- 
mos, alVagar suavemente o ouvido doscontra-guer- 
rilhas. 

Depois das scenas de guerra e de sangue que 
tinham vindo procurar, esta scena de paz e de 
serena tranquillidade não podia deixar de incan- 
lar os aventurosos soldados. Todos elles estavam 
muito longe de se parecerem com a Hermínia do 
Tasso, mas convenço-me de que todos sentiram a 
impressão que a heioina do poeta de Sorrento sen- 
tio ao deparar-se-lhe a dois passos das pelejas san- 
guinosas, dos combates de Jerusalém, do acampa- 
mento dos cruzados, o suave idilio dos pastores. 
Não foi pequeno o espanto dos dançadores, ao 
verem appaiecer de súbito na clareira aquelle gru- 
po inesperado, e ao verem scintillar as chammas 
nos canos das espingardas, nas folhas das espadas, 
enas bayonetas luzentes. Ao brado deesj)anloede 
satisfação com quíí os contra-guerrilhas saudaram 
esta scena tranquilla, que se lhes deparava, cor- 
responderam os actores d'ella cora um grito de 
terror. 

Logo se lhes dissipou o susio, ainda que não 
fosse senão pela impossibilidade em que estavam 
de fugirem. Todas lizeram da necessidade vii-lude. 
Era impossível a fuga, resignaram-se. Também, se 
fugissem, parecc-me que l^ugiriara como as nym- 
phas da lllia dos Amores do nosso immoilal (Ca- 
mões fugiam dos aventurosos companheiros de 
Vasco da íiama, paia terem o prazer de ser alcan- 
çadas, pai a darem aos seus perseguidores a doce 
gloria de as vcncei-em. 

O (íguiiarreiroj) esse é que tentou esquivar-se 
deveras. Armou o pulo, e saltou como um jaguar 
para o mais cerrado do arvoredo. Mas logo deu um 
grito portjue se achou nos^ braços d'um homem, 
que surgia d'esse lado onde elle* não esperava ini-i 
migos. 

Entretanto os soldados, com o consentimento do 
commandante, capitulavam com as suas mais ou 
menos bellas prisioneiías, escolhiam par e prepa- 
ravam-se para aproveitar o bail.', a que o acaso os 
convidara. Era tanto mais justa a sua resolução 
quanto, como depois conheceram, essas mulheres 



e esses preparativos esperavam n'esse sitio os ban- 
didos, que lhes appareciam agora manietados e 
encerrados n'um circulo de bayonetas. 

Só faltou o guiiari-eiro; o homem, como vimos, 
no ímpeto da fuga lòia cair nos braços d'um novo 
actor, que parecera surgir de propósito do centro 
da lloresla para se prestar a essa tocante scena. 
Quando todos perguntaram por elle, viram-no ap- 
parecer rebolando junto da fogueira. O homem li- 
zera a sua entrada em scenad'um modo um tanto ori- 
ginal imi)eHido pelos braços robustos do recem- 
chegado, que não o recebera, como vêem, com um 
carinho exemplar. 

Todos se riram, e o que fornecera assumpto para 
as gargalhadas, approxímou-se mansamente do ca- 
pitão Viarmont, que permanecia distrahido, o dis- 
se-lhe, tocando-lhe no hombro: 

— Capitão, preciso que me oiça. Ao deixar para 
sempre este mundo, não quero que a minha ima- 
gem tique gravada, como a d'um assassino selva- 
gem, na memoria d'um homem de bem. 

O capitão voltou-se estremecendo, e vío Perez 
Lorcnzo. 

(Continua.) 



UM PESADELLO 



Era n'um baile de mascaras: lagar da scena, 
ambíguo; actores, meia dúzia de mancebos assen- / 
tados em torno de uma mesa, ond^ sé viam os mais \ 
exquisítos manjares e vinhos de todas as ([ualida- 
des. A conversação, a pi'incípio solto você, ainda 
que um pouco animada, foi seguindo depois a es- 
cala progressiva até chegar a um /íf///alroador, no 
qual um musico poderia observar uma desalinação 
crescente. 

Primeiro que tudo convém dizer que eu finono- 
syllabo satânico) representava uma unidade da 
mencionada meia dúzia. 

Ainda que não conservo mais do (jue uma idéa 
confusa d'a(iuella scena, recordo-me, comtudo, que, 
em quanto os meus cinco comj)anheiros, com o rosto 
afogueado e os olhos faiscantes, referiam uns a ou- 
tros, sem se allenderem, as conquistas d'aquella 
noite e os encantos da«polka intima, a minha pes- 
soa (procurarei evitar o eu tanto quanto me for 
possível j cantarolava em voz baixa a Avalsa do Fausto, 
batendo o com|)asso com uma faca, (jue feria si- 
multaneamente um pialo, onde jaziam os restos do 
esqueleto de uma perdiz. Aminlia altitude reconcen- 
trada e (|uasi silenciosa no meio d'aquella tumul- 
tuosa assembléa formava um contraste flagrante, 
(|uc os meus amigos não podiam deixar de perce- 
ber. 

— Ólá, acorda! me disse um d'elles, dando-mo 
com o pé por debaixo da meza. Então, não eslá quasi 
a dormir estesenlioil 

— Levanta os olhos, disse outro, se é que não 
receias de que ifelles contemos os copos (pietens 
bebido. 

Parece-mc que n'este momento levantei a ca- 
beça. 



o PANORAMA 



103 



— Sabes, meu amigo, que és pássaro de mau 
agoiro? exclamou um terceiro; essa caia de miserere 
é imprópria da situação. 

— Muito bem dito. È dissonante. 

— Incongruente. 

— Yá-se deitar. 

— Não, não, íalle. 

Procurei fazer um esforço sobre mim mesmo. 

— Sabem o que lhes digo? exclamei a íinal 
olhando em torno de mim; é que os vossos 
rostos \'ão-se tingindo successivamente de amarello, 
azul, encarnado e até de todas as cores do arco 
iris. 

— Safai conhecc-se quelcm bebido mais do que 
um inglez. 

— Isso é conforme a còr do vinho com que nos 
olhas. 

— É singularissimo! tornei eu, com a insis- 
tência própria da embriaguez, e levando aos 
lábios um copo formidável, coroado de fervente 
escuma; n'este momento todas as phisionomias pas- 
saram de encarnado a uma còr de ouro vivíssima. 

Esta observação foi acolhida com estrondosas 
gargalhadas, em quanto que eu sentia com prazer 
na garganta o agradável attrito do artiíicial cham- 
panlie. 

Cançado sem duvida, d'aquelle esforço, ou para 
melhor dizer, magnetisado pelos vapores do néc- 
tar, tornei a deixar cair a cabeça, iiiostrando-me 
insensível a tudo quanto me i-odeava. Julgo, toda- 
via, que procurei abiir os olhos; porém, cada umJf 
das pálpebras pesava, seguramente, Ires a quatro 
mil kilogrammas; quiz livrar-mc d'aquelle peso 
importuno, mas os braços negaram-se a obedecer- 
me, e... 

Estou desconíiado que adormeci. 

Não, porém, com esse somno tranquillo e des- 
cançado, parenthesis da vida, que com tanto afan 
deseja quem padece; pelo contrario, com um d'essos 
somnos agitados em que a sensação se duplica e 
em que a vida moral se reconcenlra em um sen- 
timento exclusivo, em um desejo supremo. Sú- 
bito, vi llucluar ante meus olhos uma ligura 
branca, cujos contornos se perdiam nas som- 
bias: nada mais fantástico e voluptuoso que es- 
ta apparição, superior ás creações de Raphael, 
superior, em iim, á própria natureza. l'm véo 
branco, semelhante a uma d'essas nuvens que va- 
gam pelo ceu cm noite de lua, occultava suas fei- 
ções, deixando transparecer o brilho abrasador de 
seus olhos. 

Fez-me um leve signal com a mão, como que 
chamando-me, mas em vão: as pernas e os braços 
negaram-se ao movimento c (iquei immovel, não 
sem experimentar um inexplicável sentimento de 
angustia. 

Não obteve melhor resultado outro novo signal 
da sylphide, até que me voltou as costas e come- 
çou a caminhar. Como o aço attrahido pelo iman, 
assim uma força, cuja origem desconhecia, me 
arrastou em seu seguimento. Os pés não se moviam 
e comtudo caminhava. 

Na minha cabeça ainda havia alguma coisa que 



se parecia com baile de mascaras, e por isso foi 
ao salão que o meu guiamysterioso me conduziu. 
Yia-a revolutear por cima d'aquelle fervente occeano 
de cabeças, e seguia-a sempre com o coração 
palpitante. Depois de ter percorrido todos os 
ângulos do salão, desappareceu por uma das 
portas, deslizando-se ao longo de um corredor 
escuro e tortuoso, para o qual me senti arrastado 
em seu seguimento. À medida que caminhávamos 
as paredes iam-se estreitando visivelmente, e pres- 
tes me achei preso entre ellas, sem poder retro- 
ceder, nem avançar. Um suor frio brotou da raiz 
dos meus cabellos erriçados pelo terror, e senti 
a cabeça tomada de vertigem: a vista obscureceu- 
se-me: fallou-me aos pés o ponto de apoio e des- 
penhei-me em um chãos de trevas! 

A tentadora imagem não tinha desapparecido : 
vi-a circumdada por uma auréola de luz, que fazia 
realçar os seus contornos no fundo escuro do espaço. 
Ouiz approxiraar-me (relia: ella voltou-se e veio en- 
tão para mim ; cingi-lhe com o meu braço a sua esbel- 
ta cintura, cuja fria e dura superfície me gelou o 
sangue nas veias. Ati-avez do seu branco véo, dois 
pequenos pontos luminosos vinham ferir-me as pu- 
pillas: eia sem duvida a chamma que despediam 
as suas: arranquei-lhe aquella importuna venda. 
Horror! Em vez de um rosto radiante de belleza, 
encontrei a fria e repugnante imagem da morte! 
Era uma caveira, cuja boca sem lábios, entreaberta, 
tinha uma expressão de cruel sarcasmo. No fundo 
d'aquellas duas escuras cavidades brilhavam duas 
chispas phosphoricas, que contribuíam a dar uma 
expressão ainda mais sombria ao seu espantoso 
conjuncto. Inutilmente tentei arrancar-mc de seus 
braços, que me agarra\am com uma força sobre 
natural, e assim continuamos a rodar pelo vácuo, 
sem ar, sem luz, semhorisonte. O fantasma appro- 
ximou do meu o seu loslo de esqueleto: os meus 
lábios sentiram o frio contado da sua boca car- 
comida: no cumulo da angustia quiz retirar vio- 
lentamente a cabeça, que bateu sobre uma superfície 
dura, e me fez exhalar um gemido de dor .. 

Accordeil 

Eslava deveras cançado. Em lorno de mim tudo 
era desordem; alguns dos meus companheiros re- 
sonavam deliciosamentcestendidossobrcas cadeiras 
e outi'os tinham dcsajiparecido. Alravez do cortina- 
do das janellas a aurora tingia de uma cor lívida to- 
das as phisionomias. O ruído que vinha do salão 
era mais igual, porém, mais rouco e amortecido 
do que quando eu e os meus companheiros de 
banquete o abandonamos. 

Acendi um charuto e fumei: isto screnou-me 
completamente; parecia que a terrível imagem do 
meu sonho fugia involla no fumo que me saía da 
boca. 

Enirei no salão. l'm baile de mascaras, no seu 
ultimo período, tem sempre alguma coisa de ter- 
rível. Então já não ha mulheres bellas. O triste 
sello da orgia imprime em lodos os rostos a sua 
marca infei-nal: o matiz das fac(S, o carmim dos 
lábios, a voluptuosidadc dos olhares, tudo desap- 
parece. Já nãohaprazer, commoções, re^Iasóofas- 



i04 



O PANORAMA 



tio. Parece que o demónio da realidade empeçonha 
com seu hálito acfnella alhmosphera pouco antes 
impregnada de beijos, de queixas e suspiros de 

amor. 

Uma mascara approximou-se silenciosamenle de 
mitti, pegando-me no braço. 

— Vamos! me disse, já são horas. Tenho-le 
procurado toda a noite, por toda a parte, sem te 
encontrar. Receei que me tivesses esquecido. 

Em i-esposla levei o charuto à bocca, fugi-lhe 
com o braço, metti as mãos nas algibeiras e, vol- 
tando costas, dirigi-me para a poria comum passo 
vacilante, sentindo' d'ahi a bocadinho açoitar-me 
o rosto o frio orvalho da madrugada. 



Mais de um leitor, ao terminar a leitura d'este 
artigo, exclamará: 

— E que me imporia a mim tudo isto? Quem é 
que não lera sonhado alguma coisa parecida'^ Es- 
tes senhores fazedores de artigos, julgam que tudo 
quanto lhes succede é sobrenatural. 

Tranquil!ise-se. leitor. Tem rasão: os leitores 
lem-n'a sempre. Lembre-se, porém, que a vida é 
um sonho, que sonhou ter lido este artigo como 
eu sonhei tel-o escriplo. Se o sonho lhe parece 
mau, classilique-o de pesadello e d'esse modo 
concorda com migo. 



BEATRIZ 

XIII 

Beatriz eslava só; Jacques sairá. 

Tinha passado nin aiino dos (juo a hclla 

Commellera o dclicto imperdoável 

De abandonar o condo; a providencia 

Não lhe tinha, porem, como cm casligo, 

Amortecido a esplendida bellesa 

Do rosto encantador: anjo caido, 

Inda ostentava o mimo, a graça pura 

(Jiic o eco lhe havia dado, como a poucos. 

Kra am.ada e feliz, toda a existência 

Espraiava-se então n'um paraizo 

De ventura, ideal; como pensara 

Na escura cerração (]ue em torno d'ella 

Sc cohdemnava *ja, (piando em sua alma 

Grata aurora de amor ííenlil brilhava?.... 

Beatiiz eslava só; rapidamente 

Um confuso Iropel lhe invade a sala. 

Que foi?., quem era pois?., porque viriam 

Amedrontar a pomba que arrulhuva 

No seu ninho de murtas perfumadas?.. 

Ceos! eu a vi sem cor, sem voz, sem tino, 
Rojada aos pés de um velho, que bradava 
A' chusma dos algozes:— cHil-a é estai» - 
CeosI cu a vi sem còr, sem voz, sem Uno, 
Morta de espanto e dor, arrebatada 
D'aquelle eco de paz, como a folhinha 
Que o norte ajíudo arranca ao jasn)ineiro, 
É a vai deitar nos a;:oaçiies immundos!. 
(leos! eu a vi....- não v"i, peço desculpa, 
Porém ouvi contar; um dia o conde, 
Firmado cm Ires artigos cascarrudos 
Do Coílif/o pntitl, foi com a justiça 
Dar i)riiicipio ao cíisligo memorável 
Que a lei lhe concedia; — ó Chrislo, Chrislo, 
(>jmo tu eras bom, como sabias 
Quanto é fácil cair no horrendo abismo 
Que se nos rasj^a aos |)esl... Que alire a pedra 
A mulher (pie peccou, (piem jamais leve 
Ura remorso a mordcr-lhc a consciência! .. 



XIV 

Estou cerlo que alguém, de 'gosto e critica, 

Censura esta passagem, como avessa 

Ao lyrismo, ao perfume, a singeleza, 

A' graça natural, e a muitas cousas 

Que os versos devem ler; oh! mas se a gente 

Seguir, como ovelhinha, estes pastores 

Que nos estão guardando as lettras pátrias, 

Tomba da serra abai.vo em pouco tempo. 

Cada (jual tem seu rumo; a minha estreita 

E' meu pharol,— caminho e não percebo 

O canto chão dos críticos roufenhos. 

É trivial o assumpto?... que me importai... 

Fora melhor talvez sagrar a musa 

Ao género de truz, aos grandes cantos, 

]\ aos retumbantes versos que apavoram ; 

Faltar no Parthenon, em Gnido, cm 1'aphos, 

Nas abelhas do Hymeto; entrar no Egypto, 

Conversar com as pirâmides altivas, 

Dar voz ao rayo, ao vento, aos esqueletos, 

As montanhas, ao pego, ao mundo inteiro, 

Aos demónios cruéis; fazer um coro 

De estrondo à Mayerbecr,— (jue produzisse 

Três vagados morlacs, e depois d'isso, 

Adormecer na gloria salisfeilo. 

Talvez fosse melhor, creio até mesmo 

Que este ponto é de fe; mas quem me dera 

Que em togar disso tudo, um dia cedo 

Eu podesse escrever Hl diablo mundol— 

E. A. Vidal. 

ContiiiuM 



IMPROVISO 

Bem sei que o gelo do inverno 

s(') tristezas reverbera ; 

mas se pródiga de incantos 

dos annos a primavera 

em tua fronte sorri, 

^porcjue repellos de li 

a saneia luz da alegria, 

e por entre um véu de lagrimas 

olhas alem no horisonte 

a neve que o vento envia 

ás cumieiras do monte? 

^porípie íilas tristemente 

com esse olhar maguádo 

a(|uelle arroio gelado 

que alem sustou a corrente? 

Afasia os olhos do gelol 
o monte, não qiieiras vel-o 
nem as neves que lá vão 
dependurar-se na crista 
(|ue no horisonte se avista 
airavez d'esla janella 
açoutada do aquilão. 
Nem! inclina-té em meu seio; 
c, se lhe ouvireé o anceio, 
contente veras então 
(juo se o rigor da estação 
tuda lá por fora gela, 
não gela meu coração l 

.laneiro de 18G... 

Cândido FicuEiRnDO. 



São os dous entes mais parecidos da natureza, 
o poeta e a mulher namorada: vècm, sentem, 
pensam, faliam como a outra gente não vè, não 
sente, nã') pensa, nem falia. 

Garrkít. 



i 



Typ. Tranco rorliigiitza, Rua (Jo Tlicsouro Velho, G. 



14 



o PANORAMA 



4 05 




CIRCASSIANOS 

Fazem parte estes povos da turbulenta popula- 
ção do Cáucaso, que os Russos não conseguiram 
subjugar nunca, e sobre os quaes exerceram ha 
pouco uma d'aquellas terríveis vindictas, que lem 
feilo o nome de Russo execrando a lodos os ami- 
gos da humanidade e da civilisação. 

A sua historia é um pouco obscura, principal- 
mente nas suas origens. Suppõe-se que aCircassia 
occidenlal devia fazer parte do antigo reino da 
Colchida, e, depois, doRosphoro Cimmeriano. So- 
bre a parte oriental d'este paiz ainda são mais vagas 
as conjecturas. Conquistou-o Milhridales, e quan- 
do o grande rei leve de curvar o colio á fortuna 
de Roma e á de Pompeu, entrou a Circassia na 
vasta lista dos dominios romanos, fazendo parte 
do impeiio do Oriente, quando se bipartio o colosso. 
Coratudo os imperadores byzanlinos não foram mais 
felizes do que os czares de S. Pelersburgo ; o seu 
domínio n'essas regiões remotas do império foi 
sempre nominal. Quando veio a invasão dos bár- 
baros, coul}e aos terríveis Hunos subjugarem a 
Circassia. Siiccedeiam-lhes os Khasares, contra os 
quaes estes povos se sublevaram, com fortuna va- 
ria, no século onze da uossa era. Depois vieram 



os Turcos da Pérsia e os reis da Geórgia, depois 
Tamerlão, depois os kans da Criméai depois fi- 
nalmente os russos, que entiaram como allíados, 
e quizeram licar como conquistadores. Nãolh'o sof- 
freram os Circassianos, sempre turbulentos e in- 
domáveis, e voltaram a sujeitar-se aos Tártaros da 
Criméa. Mas estes principiaram a commelterexac- 
ções; eis de novo os Circassianos em revolta, e 
implorando a protecção da Porta Ottomana, cujo 
domínio acceitaram, sem comtudo lhe pagarem o 
mais leve tributo. 

Como os leitores hão-de ler notado, os differen- 
tes domínios estrangeiros a que os Circassianos se 
sujeitaram, nunca foram senão quasí exclusiva- 
mente nominaes. Quando os seus senhores que- 
riam reivindicar os seus direitos, os audazes mon- 
lanhezes refugiavam-se nos seus serros inaccessi- 
veis, e d'ahi desafiavam impunemente os exérci- 
tos, que pretendiam subjugal-os. 

Mas ainda aqui não pararam as vicissitudes po- 
líticas da Circassia. Em 1739 a Circassia foi pro- 
clamada independente, em virtude da paz de Bel- 
grado, alim de servir de baluarte á Rússia. Mas 
os Circassianos, que defendem obstinadamente a 
sua independência individual, porem que pouco 
se importam com a sua autonomia de nação, uni- 
rani-se de novo á Criméa, que, rendendo vassalagem 



06 



O PANORAMA 



á Turquia, tornou dependentes da Porta Ottoma- 
na estas populações que se llie tinham ligado. 

Em 1774 perdeu de lodo o sullão, em virtude 
das conquistas de Catharina da Ru§sia,a sombra 
d'autboridade que exercia sobre estas províncias 
monlanhezas. Em 1789 passaram ellas deliniliva- 
iiiente a fazer pai te do império moscovita. 

Começou então uma nova era para a Circassia. 
Até ahi os povos, que a tinham dominado, só de 
longe a longe tentavam ti-ansfoi-mar em realidade 
essa Delicia suzerania. A Ciicassia revollava- 
se, sacudia o jugo, coUocava-sc debaixo da pro- 
tecção d'oulro paiz, e acabava tudo. Com a 
Rússia não succedeu o mesmo; a Rússia tentou a 
sério estabelecer o seu dominio, e a Rússia não 
era paiz que desistisse das suas pretenções perante 
a insurreição d'um povo pequeno, ainda que atre- 
vido. Os Circassianos enlenderam que não deviam 
alterar por caso algum o seu velho systema. I)'ahi 
provieram as longas e continuadas guerras, que 
ainda ha pouco terminaram... se terminaram, e 
se a medida horrivel, adoptada pelo governo rus- 
so, de airancar populações inteiras á sua terra na- 
tal, e populações que tèem tão desenvolvido o amor 
da pátria, e de as transplantar para outro solo, 
para outros climas, obrigando-as a outro género 
d'existencia, fez mais do que annuliar jior algum 
tempo a insuireição, exacerbando comludo os ódios, 
que, em chegando a occasião própria, se reaccen- 
derão com nova fúria. 



ESBOÇO DESCRIPTíVO DO MAR 
I 

É o oceano a imagem grandiosa do mysterio e 
da solidão. Que espectáculo sublime o contemplar 
pela primeira vez esses ])lainos líquidos, cuja su- 
perlicie oia se ostenta brilhante e reluzente como 
um espelho ciislallino apenas encrespado de leve 
peias ondas arquejantes, ora seenturva e rebrama, 
erguendo montanhas de agua que tumultuam, ge- 
mem e luctam e se estorcem em vascas de deses- 
pero, e alinal, tritões prostrados, beijam fremen- 
tes os rochedos da praia ! 

O mar é o symbolo da immcnsidade e da força 
ingente, louco, vertiginoso. 

É no mar que a natureza é verdadeiramente 
terriíica aos olhos do homem. 

iNo oceano é tudo grande, c (udo gigante e res- 
peitável. 

Todos os phenonienos marítimos leera uma fei- 
ção grandiosa e profundamenl(í mystica, e a alma 
quando vôa por sobre as límpidas solidões oceânicas, 
como que se flilata no sanctuario da terra. 

Quem ha ahi, que não tenha contemplado o pôr 
do sol no mar, em tarde límpida de estio? 

O rei do universo, o astro-lampadario vae des- 
cendo para o oriente. As vagas tumultuam e do- 
bram docemente a íimbria es[)umosa para recíiber 
no seio o planeia. Disséreis um bando de huris 
arquejantes, (|ue S(! alindam e enfeitam para da- 
jcm guarida ao sullão lumino.so. Eil-o emlim que 
mergulha. Retingem-se as aguas com os derradei- 



ros clarões. Forma-se a auréola na extrema do 
horisonte. As ondas pulam e bailam e refran- 
gendo a luz nos seus crystaes líquidos, enru- 
becera-se, corôam-se de pedrarias. A alhmos- 
phera parece um rio de fogo, as nuvens, diapba- 
nas qual bafejar de archanjo, precipilam-se no 
mar e seguem o rei do dia. No zeniih reina ainda 
o fulgor Ígneo e relampejam reflexos brilhantes. 

As sombras não surgem ainda no oriente, eraal 
ousam tufar o seu negro manto. 

Psão brilham estreitas. Tudo é placidez csocego. 
Nem um só murmúrio. Só a brisa da tarde cicia 
medrosa na espessura e os passarinhos soltam os 
últimos quebros. 

Vae mergulhando entanto o astro do dia. E lento 
o seu caminhar. O globo afogueado deixa um 
hemíspheriocom saudades, paraillumínar o outro. 

K o mar continua no seu tumultuar, e as ondas 
gemem e soluçam. 

Desapparece emlim o asíro radioso; desfaz-se o 
sulco da luz no lii-mamento, apparecem as pri- 
meiras sombras, as estreitas scintillam a medo, os 
pyrilampos, essas estrellas das campinas, reluzem 
nas selvas e sarças, acallada da noite é interrom- 
pida pelos mil rumores do estio. Yolitam inse- 
ctos multicores, aninham-se pássaros nos recessos 
sombrios, aílloram reptis nos relvados, grasnam 
rãs nos paues, cruzam-se immensos ruídos surdos, 
profundos, vilães, até que chegue a hora do re- 
pouso, que é tardia nas nossas latitudes, dui-ante 
o verão. 

Quem não dirá então como Castilho, que pin- 
tou o pôr do sol, quando escreveu após intima 
c profunda elaboração aquelle cântico que começa: 

«Sumiu-sc o sol esplendido 
unas ondas rumurosas. 



Mas quantas vezes, mal o sol se some nos plai- 
nos (lo oceano, não surge alua radiante e formosa, 
illuminando a terra com os seus raios pallidos! 
Muda então o mar de aspecto. 

Rebrilham ao longe as vagas endoidadas brin- 
cando na orla do horisonte. 

Os rochedos, que circumdam a praia projectam 
sombras phanlasticas nas aguas, que se emba- 
lam docemente e beijam i)regui70sasa areia. A imagi- 
nação povoa as solidões de seiTS fabulosos, e sereias, 
(jue descantam, no silencio da noite, toadas ma- 
viosas c plangentes. Debalde intentam os olhos ras- 
gar as profundezas do abysmo. O espectador liça 
aterrado, absorto, altonilo. 

Ou Iras vezes, a estes espectáculos já de si Ião 
grandiosos, succede a ardenlia, essa phosphores- 
cencia do mai-, esse relampejar entre partículas 
de agua. Este phenomeno, que ainda hoje c revel 
á sciencia, |)Oslo {|ue tenlia excitado a allenção 
de lodos os grandes naturalistas, ostcnla-se mara- 
vilhoso e produz não sei que suavíssima impressão 
em (|uem o contempla. 

Não é tilo meu, nem caberia nas eslreilezas de 
um artigo, ofallar, se bem (jue perluncloriamenle, 
(las mil e uma maravilhas do mar. I'ara obra de 
lai magnitude, se por ventura a tanto podesse aba- 



i 



o PANORAMA 



i07 



lançar-me, carecera de escrever um livro, ou an- 
tes um poema, entre os muitos que a natureza 
encerra nos seios vastíssimos, cada vez mais opu- 
lentos, á medida que a sciencia vae dilatando os 
seus dominios. 

E que bello e formosíssimo livro não seria esse 
se alguém o escrevesse! (jue de tliesouros não 
encerrara! Que magnificências ! 

Quando as vagas tumultuam e se contorcem em 
ímpetos raivosos, quando erguem o collo e ondeiam 
e se enroscam, como serpentes líquidas tauxiadas 
de côrcs esverdeadas; quando cingem os rochedos 
e os coraes madreporicos, resfolegando, gemendo 
e cuspindo espuma na praia; quando no meíodVsse 
coiôbate, em que a tormenta ronqueja nos ares 
revoltos, se alevantam mil rumores sinistros de 
estrago e morte; quando aos gritos da natureza 
enraivecida respondem os gemidos dos homens, 
que luctam e disputam a vida em pleito desigual; 
quando a tromba se balouça por sobre a crista da 
onda, e qual cetáceo invisível, sorve a agua aos 
repuxões, arrastando o navio imploravelmente; 
quando o bulcão estruge a athmosphera e corr^, 
como visão infernal, a superfície dos mares, quando 
o mareante contempla todos estes phenomenos e 
escapa incólume a tantos perigos, que sublime 
epopêa não traz comsigo? Da mesma sorte que Ca- 
mões, esse mareante salvou um poema, bem sen- 
tido, bem verdadeiro. 

Mas afora estes, que de espectáculos ainda, cada 
qual mais grandioso! Na zona temperada do norte 
o fjulf-slream, esse rio de mar, esse Mississipi do 
aliantico, vastíssima corrente de agua lépida, que 
vae das costas da Inglaterra ao golpho das Anti- 
lhas, passando pelas ribas de Portugal. 

Mais ao norte o Maelsirom, essa corrente fa- 
tídica, esse tragadouro medonho, que tem engo- 
lido tantas viclimas, esse redemoinho, aonde habi- 
tam, segundo é pia crença de bandinaria, os ini- 
migos dos homens. 

Nas regiões hyperboricas os mares gelados, os 
amphitheatros e circos de neve eterna endurecida 
pelos séculos, cinta fúnebre, que envolve a terra e to- 
lhe a vida nas suas manifestações mais singelas. 
Im pouco para o sul, em latitude menor, entestando 
ainda com os coruchéus e miranetes de gelo, com 
as immensasmoUes de agua solida, perpetuamen- 
te íixas e quedas, estanceiam as ilhas lluctuantes, 
que estalam com ruído, mal assoma o primeiro 
alvor do dia de seis mezes, e vão mudando de 
forma e posição correndo aos baldões, arremessan- 
do-se e desfazendo-se, para se formarem de novo. 
É ahi queas geleiras septemtrionaesse entumecem 
e enchem o espaço de sinisti'os rumores, éahi que 
esses rios de neve, moendo e triturando rochedos, 
desembocam no oceano angustiado, é ahi que o 
movimento desordenado e medonho começa, pre- 
cedendo a vida. 

Já os ursos do norte vão apparecendoepreiando 
algum cetáceo, que o frio colheu de súbito, no 
começo da longa noite; allloram lichens por 
entre os rochedos fendidos; bandos de lobos fa- 
mintos e esguios abrem as fauces, e uivam na so- 



lidão; o esquímáujá estende as redes, e nos char- 
cos e paues da Laj)onía mais septemtrionalexpan- 
de-se a vida após tão largo somno. 

Na Irlaiidia ergue-se um vulcão do meio domar 
e, da mesma sorte que na llalia, voam as cinzas 
para o mar, aonde caem rios de lava. 

Deixemos porém o septemtríão. 

Aguarda-nos o equador. É a vida ahi excessiva 
e gigante. Nascem as tormentas por encanto, as 
ondas entumecem-se, os furacões derribam flores- 
tas e casarias depois de sulcarem o mar. 

Mais além começam as correntes auslraes. 

O Cabo daBoa-Êsperança, ocyclope de Camões, 
estende os rijos membros, e solta os eternos la- 
mentos, que echoam nos rochedos da montanha da 
Meza. São medonhas as correntes que passam ao 
longo do cabo; arrastam navios e deitam-n'os na 
costa; engolem victimas no abysmo undoso, como. 
que vingando-se da audácia humana, que ousou 
devassar os segredos da solidão. 

Para o oriente, no oceano indico, que os ma- 
reantes chamaram oceano Pacifico, os cyclones e 
tormentos girantes começam a sua carreira insen- 
sata. Nada lhes resiste. 

O navio, que acerta de encontrar, por desgraça, 
um cyclone, um d'esses tufões medonhos, difíicil- 
mente escapará ao naufrágio. 

É ahi que os coraes, esses humildes archilectos 
de mundos, esses artífices phanlasiosos, erguem 
ilhas e archipelagos. Quantas vezes não encontra 
o mareante uma bacia plaeída esocegada no meio 
do oceano em fúria? Quantas vezes não topa com 
um abrigo providencial, se teve a ventura de não 
se despedaçar contra os gumes afiados dos coraes? 
É que estes obreiros infatigáveis zombando do ocea- 
no, vão erguendo desde o fundo altíssimas paredes 
a pino, duras e compactas, até à superlicie! Mi- 
lhares de annos levam elles em obra tão grandiosa. 
Mas saíu-lhe perfeita a fabrica, e o seu destino é 
construir. Venha depois um vulcão que alevanteo 
banco lá do fundo, desfaça e oblitere a intempé- 
rie algumas arestas mais vivas; forme-se um pouco 
de pó, que se deposite em côncavos mais abriga- 
dos; caíam ahi algumas sementes trazidas pelo 
vento; nascem lichens e outras plantas rudimen- 
tares, e teremos um principio de vida. Depois, esses 
lichens, secando eapodrecendo, formarãoum terreno 
vegetal, que se combina com os detritos inorgânicos; 
surgirão coqueiros, palmeiras, fetos giganteosegi- 
ganteas trepadeiras. A vegetação tropical cobrirá a 
nova ilha de basta espessura: as chuvas tornar-se-hão 
regulares, cada anno se formam novos terrenos e a 
floresta irá ganhando e j)rosperando. Virão pássa- 
ros canoros aninhar-se n'aquelles recessos umbro- 
sos, encontrar-se-hão riquezas e thesouros e afinal 
a vida só acaba, quando o europeu ou americano, 
arrastado pela sede do ouro, puzer machado ao 
tronco das arvores, e desnudar a terra, que só 
muito tarde poderá refazer-se,sobaquella athmos- 
phera abrazadora, sem chuvas que a desallerem e 
refresquem. 

Com o arvoredo acaba a vida. 

E não param aqui as maravilhas do oceano. 



>I08 



O PANORAMA 



Além das correntes, que cingem o globo como 
demonstrou o celebre capitão 31aury, evão do cabo 
da Boa-Esperança ao cabo de Horn, atravessando 
todo o Pacilico; esquecendo as gélidas solidões que 
se dilatam por delraz do Erebe e Terror até ao 
polo austral, que nunca foram devassadas por des- 
cobridor; não levando em conta lodos osplienome- 
nos, que se patenteiam na superíiciedo mar, outros 
e certamente mais admiráveis ainda, se verificam 
no interior do oceano, n'essas moradas explendi- 
das, aonde os gregos puzeram Neptuno com o seu 
cortejo de deuses marinhos, naiades e uerines, 
Proteu com o seu rebanho, Amphitrite com as 
suas nymphas. 

A natureza excedeu a imaginação. No interior 
do mar expande-se formidável e opulento o diama 
da vida. Ha lá florestas e sarças impenetráveis; ha 
lá vegetações luxuriantes, algas immensas. Milha- 
res de espécies de animaes povoam aquelles reces- 
sos crystallinos desde o cetáceo gigante até ao hu- 
milde infusorio. 

Também lá resfolgam vulcões e arrojam lavas can- 
dentes; também lá se erguem montes, se angustiam 
gargantas e dilatam valles; também lá se travam 
combates em que o mais fraco é viclima do mais 
forte; também lá o rythmo da vida se desentra- 
nha em harmonias perennes. 

Mas a sciencia ainda não poude devassar todos 
esses segredos. 

Muito se sabejá; muito porém se ignora ainda, 
e para sempre talvez Nos seios do oceano édiílicil 
e muitas vezes impossível a observação, e fora ne- 
cessário um cataclysmo horrendo, em que todos 
houvéramos de perecer, para que o leito do mar 
ficasse a descoberto. 

Do que se sabe irei eu apresentando aqui o que 
me parecer mais útil e curioso. Ordem e metho- 
do não são de grande necessidade, quando a scien- 
cia ignora ainda tanlo. Esforçar-me-hei com tudo 
por ser resumido e breve, sem me tornar obs- 
curo. 

DiíTicil é escrever sciencia para quem deseja 
aprendel-a sem trabalho. 

Nem lodosos paladares apetecem estas iguarias, 
que algumas vezes tem muito travo. É o caso de 
illudir diííiculdades, fugindo-lhes com o corpo por 
evitar desdéns de leitor indolente. 

Certo que os leitores do Panorawa sâo pessoas 
muito asisadas, de bom conselho eamanles dains- 
Irucção. 15em o sei, e não me atrevera a negar o 
que deve de ser jjiedosa fe. Mas, não c menos 
evidente que o commum dos paladares prefere 
prestes e iguarias, ainda que de somenos ali- 
mento, comlanlo que tenham bom |)iej)aio. 

Ora ahi é (jue está a diniculdade. 

Preparar sciencia popular é condão dos grandes 
talentos. 

Em lodo o caso, são tantas e tão magnificas as 
maravilhas do oceano, os espelaculos do mar são 
Ião grandiosos, que faliam de persi, e estão exi- 
gindo altenção e estudo dos mais remissos. 

Será pois o oceano o campo das no.ssas pesqui- 
sas. É imraensaa ceara. Podemos respirar á von- 



tade, que não ha limites nem barreiras para a nossa 
curiosidade... senão o desconhecido. 



A. OSÓRIO DE VASCONCELLO 



CIDADE DE PEKIM 

Portn do :%'ortc 

As ultimas expedições da Inglaterra c da Fran- 
ça rasgaram o veu myslerioso, em que se en- 
volvia tenazmente a China, refractária á luz da 
civilisaçãoeuropea. Devemos confessar (jue alguma 
razão Unham os chinezes para isso, porque a luz 
d'essa civilisação tem-lhes relampagueado ape- 
nas dos canos das espingardas, e das espadas 
dos zuavos do imperador Napoleão III e dos sol- 
dados da marinha ingleza. A ultima campanha dos 
alliados levou-os a Pekim, eoschinezes, alíerrados 
aos seus velhos hábitos, viram com horror os bár- 
baros eurojjeus profanarem o sagrado recinto da 
cidade santa. O palácio do imperador foi saqueado 
pela soldadesca, e a China vio-se obrigada a fazer 
as mais extraordinárias concessões aos estrangei- 
ros. Pekim deixou de ser uma cidade quasi legen- 
daria, apenas visitada por um ou outro viajante, 
por um ou outro missionário mais audaz. Hoje 
estão desvelados todos os seus myslerios, e, d'aqui 
a um século, talvez os bigodes dos velhos chinas 
se erriçarão horrorisados, vendo entrarem as lo- 
comotivas fumegantes nas ruas alinhadas da sua 
velha capital. 

Pekim ou antes Pe-king está situada á beirado 
rio You-ho, a distancia de uns cento e cincoenta 
kilometros da celebre muralha. Este nome de Pc- 
kinfj significa residência do norte, em conlra-posi- 
ção a Nan-kinf/, residência do sul, onde os im- 
peradores da China habitaram até ao principio do 
século XV. Pekim tem 28 kilometros de circuito. 
Compõe-se de duas cidades, a meridional e asep- 
temtrional. A(|uella, denominada a cidade velha, 
é habitada pelos chins de velha raça, porque, 
como os leilores de certo sabem, a dynaslia rei- 
nante é de origem tártara, e subiu ao throno em 
consequência d'uma grande invasão d'esses incom- 
modos visinhos do immenso império, visinhos con- 
tra os quaes se construiu a grande muralha, que 
é, como vêem, bastante imponente. A cidade se- 
plemlrional denomina-se cidade dos Tártaros, é de 
muito melhor construcção do que a antiga, e ainda 
se subdivide em Ires bairros concêntricos, sepa- 
rados uns dos outros por muralhas especiaes. Es- 
ta cidade dos Tártaros contém vastissimosjardins, 
pequenas ruas habitadas na sua máxima parle por 
empregados da corte, negociantes, e induslriaes. 
Alem (fisso alli se ergue o [)alacio imperial. 
I O palácio im[)erial é um immenso quadrado, 
que-lem (jualro kilometros de circuito! Rodeiam-n'o 
muralhas, fossos profundíssimos, e lem, den- 
tro do seu recinto, innumeros palacetes c templos, 
enlremeiados de jardins e paleos, de columnalas 
snmptuosií^simas (! de maravilhosas galerias. Os 
aposentos da residência imperial são vastos eappa- 
ralosos, e dislinguem-se por nomes campanudos. 



o PxVNORAMA 



i09 



N'esse recinto iramenso lambera se enconlra a im- 
prensa imperial, de cujos prelos sáe a Gazela do 
Estado. Sabem os leitores que a imprensa é co- 
nhecida pelos Chinas desde tempos immemoriaes. 
mas (é este o característico mais notável das ci- 
vilisações do Oriente) não deu um passo tal in- 
vento, e ainda hoje é applicado na sua rudeza pri- 
mitiva. Além da imprensa, maiiifesla-se o gosto 



dos monarchas chinezes pela illustração na exis- 
tência dentro do seu palácio d'uma rica bibliolhe- 
ca, e d'um vasto museu de historia natural. 

Contém a cidade tártara além do palácio do im- 
perador, muitos edifícios notáveis, principalmente 
mosieiros e templos bouddhislas, e algumas mes- 
quitas ; mas a cidade chineza também não ficou 
privada de monumentos. É alli que se admira o 




famoso templo redondo do ceu, coberto por um 
teclo que foima três andares, e ornado interior- 
mente de columnas azues matizadas d'ouro. Exis- 
tem além d'isso alli muitos outros templos, thca- 
tros, estalagens, banhos públicos, e lojas brilhan- 
lissimas. 

. Em geral as ruas dePekim são escrupulosamen- 
te alinhadas e muito largas, porém bastantes vezes 
cortadas por viellas estreitas. Doze vastos ari-abal- 
des rodeiam as duas parles da cidade. As casas 
são baixas, e d'um só andar. J)'ahi proveio natu- 
ralmente o atlribuir-se-lhe por estimativa muito 
maior numero de habitantes do que o que real- 
mente conta. Agora que a China está mais conhe- 
cida, e que os Europeus se teem posto ao fado dos 
documentos oíliciaes, póde-se ver n'uni recensea- 



mento feito em 1853 que a sua população c de 
l,li8,881 habitantes, inferior por conseguinte á 
população de Londres c de Paris. 

O syslema politico da China éuma vasta e seve- 
ríssima cenlralisação; por isso a capital tem uma 
importância enorme. Alli residem Iodas as aulhori- 
dades superiores; é alli o centro da vida social 
e politica e do movimento industrial e commcr- 
cial da China. Uma das causas, que mais concor- 
rem para o desenvolvimento do seu commercio, é 
o estar ella em communicação com o grande canal. 

Possue esta cidade um grande numero de 
sociedades litterarias, e grande copia de eslabele- 
cimentos de inslrucção publica, porque a civilisa- 
ção da China, se bem que destituída de toda a 
idéa do progresso, se bem que essencialmente con- 



\0 



o PANORAMA 



serradora, nem por isso deixa de ser muito notável, 
e em poucos paizes da Europa está tão desenvol- 
vida a instrucção das ciasses populares como n'esse 
grande império asiático. 

Este vasto paiz, por tanto tempo cerrado aos 
Europeus, abrio agora, bem que com timidez e 
repugnância, as suas portas ; os myslerios da sua 
civilisação extravagante vão ser revelados, e o 
pobre Fernão Mendes Pinto, accusado por tantos 
séculos de mentiroso, vai emfim ser rehabilitado. 
Era tempo. Se a China conlinua a ser impenetrá- 
vel, as Peregrinações do honrado portuguez iam 
occupar um logar dislincto ao lado das Viagens 
de Gulliver phantasiadas pelo malicioso Swift. 

PiiVUEiRO Chagas. 



OS RELÓGIOS 

N'esla época, em que apenas se fixa a altenção 
n'esses dous admiráveis descobrimentos, de cujas 
forças nos servimos para nos transportarmos de 
um extremo a outro do globo, com a velocidade 
do raio, e pai'a nos correspondermos com todos 
os povos, ainda os das mais longínquas regiões, 
com a rapidez do pensamento; hoje, que só se at- 
tende ás emprezas positivas e que produzem maiores 
resultados, mais se devem apreciar as invenções an- 
tigas, que à força de se haverem generalisado teem 
deixado de causar-nos admiração. De outro modo 
não deixaríamos de contemplar com religioso en- 
thusiasmo os relógios, essas machinas que conleem 
em si a resolução de um grande problema, e que 
chegaram a constituir uma das necessidades da 
vida. Pareceria impossível que a distribuição exacta 
do tempo, a regulação fixa e invariav^ das horas 
que forniam o dia se podesse fazer por meio de 
umas rodas que caminham em direcção opposta c 
cujo andamento se regula com a maior facilidade; 
e e extremamente sensivel que se não tenha con- 
seguido ateriguar quem foram os que prestaram 
tão importante serviço à humanidade, para os seus 
nomes serem esculpidos no bronze e até gravados na 
memoria. Bastantes investigações temos feito acer- 
ca d'esle assumpto, porem, nada mais temos ob- 
tido do que o que consignamos n'esta resenha ou 
ligeira historia d*este invento. 

Desde os primeiros tempos conheceram os ho- 
mens a precisão que tinham de uma norma lixa 
e constante que lhes facilitasse o conhecimento 
do tempo que deviam dedicar ao trabalho, do que 
bastava para descanço e do que deviam empregar 
nas outras occu[iações. Como as artes se acha- 
vam então na sua infância, não podiam a ellas 
recorrer para lhes proporcionarem o que com tanto 
anhelo desejavam e, por conseguinte, atlentaram 
no que mais vivamente lhes tinha ferido a imagi- 
nação, que eram os astros, e d'aqui provie- 
ram os relógios de sol, chamados lambem qua- 
drantes. Duvidou-se por muito tempo de a quem 
se devia adjudicar a gloria d'esta invenção; 
l>aercio e Suida altribuem-n'a a Anaximandro, 
que morreu no aiino 3157 da creação do mundo 
e Plinio a Anximenes, discípulo de Anaximan- 



dro. Os egypcios e babylonios disputaram a pro- 
|)riedade e outros mais a foram assignalando em 
diversos tempos. Com tal variedade de opiniões 
não podemos acertar de uma maneira positiva quan- 
do se começaram a usar; no que, porem, não ca- 
be duvida é que anteriormente a 3291 já eram 
conhecidos, porque vemos na Biblia, livro IV. Re- 
gum, cap XX, que estando enfermo o rei Ezechias, 
Isaias, o proj)hela, fez com que retrocedesse dez 
linhas a sombra no relógio de Achaz, cm signal 
de que convalesceria. 

Algum tempo depois introduziu-se também o 
medir o tempo a pés, do que achamos noticia nos 
doze livros da Ré rústica de Paládio, que viveu 
no segundo século, e que põe a sombra do sol me- 
dida a pés em todas as horas do dia. Este modo 
de contar as horas era summamenle gracioso, 
e hoje, certo, prestar-se-ia a alguns fjuidproquos, 
pois dizia-se: vou comer tal pé, ele. 

Ambos os methodos eran\ extremamente imper- 
feitos, porque necessitavam como primeiro agenle 
ou único móbil a presença do sol; porem quando 
este desapparccia ficavam envoltos na obscuridade 
que cobria a terra. Foi preciso procurar outro im- 
pulso perenne e constante, e cuja auzencianão se 
podesse temer com facilidade, e nenhum se achou 
mais a propósito do que a agua, que encerrada em 
um vaso com um estreito cano no qual se praticava 
um pequeno buraco, deslillava gota a gola, até 
completar o numero das horas. Este género de re- 
lógios foi introduzido em lloma no anno 59o da 
sua fundação, por Scipião Nasica: e mais adiante, 
em 613, aperfeiçoou-o Clesibio, construindo uma 
verdadeira machina hydraulica. 

Esta classe denominou-se clepsydra, e d'ella se 
serviam os gregos e romanos para medir o tempo 
que deviam durar as causas ; para o que distri- 
buíam Ires porções : uma para o accusador, 
outra para o accusado e a terceira para o juiz. 
Cada clepsydra compunha uma hora, segundo pa- 
rece pelo que diz Marcial, livro YIII, Epig. VII. 
Na leitura dos processos e leis não corria a agua, 
e isto era: Aquam suslinere, conforme se lê nos 
auclores d'a(iuella época. 

Os relógios de areia conlam lambem muitos sé- 
culos de antiguidade; porém não é fácil assignalar 
nem os seus inventores, nem a época da sua in- 
troducção. Estes eram usados com preferencia nos 
mosteiros, e pela noite estava a cargo dos religiosos 
o cuidado de observal-os para que não parassem. 

Chegámos já á perfeição da arte: vemos o in- 
vento cm toda a sua latitude preslando-nos o ser- 
viço de que necessitávamos, sem que seja preciso 
auxilial-o senão ephemera e levemente: locamos em 
lim a época dos relógios de roda, cujo auctor por 
desgraça se ignora. Na opinião dcí alguns perten- 
cem a tempos remotos, pois asseguram que eram 
d'esla classe os que tinham lioccio, (lilberlo, o 
papa Paulo II, e o (jue o califa Arão Baschil deu 
de presente a (>arlos Magno em S()7. 

Parecia em \ista (risto que se tinha chegado ao 
complemento e (|ue não se podia dar nem mais 
um passo; mas eslava-nos reservado outro novo 



o PANORAMA 



U] 



assombro. Walindorf, monge beneclictino inglez, 
que morreu em 1325, vendo que nem todas as clas- 
ses podiam disfruclar d'este bcnelicio, porque era 
muilo dispendioso o poder-se aproveilar d'eilo, 
discorreu ogeneralisal-o etornal-o publico, e cons- 
truiu os relógios de torre com sinos. Alguns allri- 
buem esta invenção a Santiago D. Diniz, natural 
de Pádua, celebre astrónomo, medico e matbema- 
lico; mas este não fez mais do que aperfeiçoal-a 
de um modo admirável; pois em 1344 coílocou 
cm a torre do Palácio d'aquella cidade um reló- 
gio composto de uma multidão de peças e rodas 
movidas por uma só peça, que marcava todas as ho- 
ras, e além d'isso o curso do sol e dos planetas. 
Este prodígio e esta maravilha da arte altraiu a 
Pádua uma concorrência espantosa, porque os sá- 
bios de toda a Europa iam admirar aquella obra 
tão perfeita, o reflexo vivo das revoluções celestes, 
aquelle propheta automático, por assim dizer, e 
comtemplavam-n'o com um religioso enthusiasmo. 

Como era natural, depois d'isto excitou-se a cu- 
riosidade dos relojoeiros das de mais nações, e em 
breve começaram a apparecer relógios de todos 
os feitios e qualidades. 

Depois d'esta época não teem havido variações 
essenciaes na arte, poisaijida que se lenham cons- 
truído de maior ou de menor latitude e de tama- 
nho menor, augmentando ou diminuindo as rodas, 
pôde considerar-se tudo isto como aperfeiçoamento 
da primitiva invenção e não eram cousa nova, 
pois sempre se tem operado sobre abased'aquella. 



Não ha cousa que mais quebrante ânimos elin- 
goas serpentinas, que largar-lhes o campo com 
silencio. Fr. Luiz de Souza 



A GRAVURA EM MADEIRA EM PORTUGAL 
III 

No raslo luminoso que, em relação á lilteraturii, dei- 
xaram o Panorama e a lUustraçao, mais dois ou Ires 
jornaes illuslrados pretenderam viver. Morreram, porém, 
pouco depois de nascerem, no que não fizeram mal, por- 
que eram a negação absoluta da arte, e da grammatica 
lambem. 

É que os momentos que precedem a morte são sem- 
pre tristes, e, já se vê, cm plena contraposição com as 
leis da vida, A arte agonisava, e esses jornaes, não po- 
dendo scrvir-lhe de médicos, fizeram-sc cargo de sim- 
plices enfermeiros administrando-llie a dieta rigorosa, que, 
segundo a tlieoria escholar, exigem as doenças graves. 

Em presença d'islo, e não havendo, em*taes casos, 
tribunal para onde appellar, pasmaram, Bordalo Pinheiro 
a gastar os lápis, que ainda lhe restavam, em as notas 
provisórias das despezas domesticas, e Coelho a encor- 
tiçar os buris, para (pie não lhes desse a ferrugem. Em 
seguida cruzaram os braços e deixaram-se dormir. . . 
para a arte. 

Dormiram muilo, e dormiriam elernamenle, talvez, se 
o sonho, que é o inimigo mais zombeteiro dos desenga- 
nos da realidade, não viesse alenlar-lhes o espirito des- 
fallecido. Bordalo e Coelho sonharam. . . que estavam 
desenhando e gravando para um jornal, de que cites pró- 
prios eram os editores, e do qual fruiriam prodigiosas 
consolações para o seu coração d'arUslas, bem como 
para a sua bolsa de homens que não viviam da graça, 
nem vestiam pela moda de Vénus de Canova. No quadro 



lisongeiramenle colorido da sua phantasia, viam-se elles, 
á sombra de um grande ramal de loiros, trabalhando 
sentados sobre uma burra, não das que alimentam tísi- 
cos, senão das que vivificam usurários : e tão excessiva 
foi, por isso a sua commoçào, que n'este ponto acorda- 
ram. 

Para outros, acharera-se nas suas cadeiras de velha e 
arrombada palhinha, á sombra dos curvos e carunchosos 
tectos do prosaico lar domestico, seria obra para deses- 
perar : para Bordalo e Coelho, que eram artistas de bom 
gosto, foi objecto de galhofa. A caricatura, que a vida 
positiva acabava de fazer á vida da imaginação, tinha 
realmente graça, e os dois amigos soltaram uma estron- 
dosa gargalhada. 

D'esla gargalhada é que nasceu a realisação da pri- 
meira parte do sonho. 

— Não será isto um aviso da providencia ? disse Coe- 
lho, rindo ainda. 

Bordalo respondeu espivitando o charuto, que n'este 
comenos eslava quasi apagado. 

— Olha lá! continuou Coelho. Publiquemos um jornal? 

— Publiquemos. . . E o dinheiro. . . e o redactor, 
observou liordalo Pinheiro, puchando uma grossa fuma- 
rada. 

— O redactor, arranja-se já ; agora o dinheiro está na 
algibeira dos assignantes, e so com o jornal poderemos 
de lá saccal-o. 

— Parece-me, exclamou Bordalo, rindo-se como se riam 
os antigos velhos de cabelleira, que tens por cá andado 
n'estas coisas, com a cabeça na lual . . . Mas. . . eslou ás 
luas ordens. 

Coelho aperlou-lhe a mão, e foi logo procurar o seu 
amigo Pereira d'Almeida, apreciável escriptor, já por 
mais de uma vez feliz na direcção e collanoração litle- 
raria de diversas publicações, e, communicanilo-lhe o 
intento, convidou-o a associar-se na qualidade de reda- 
ctor principal. Amador, e, o que é raro em amador, en- 
tendedor lambem de boas-artes ; gosando já na perspe- 
cliva de ver o seu nome e o seu esforço vinculados 
n'um impulso em que via os mais fecundos auspícios 
para a propagação e desenvolvimento da gravura em ma- 
deira, Pereira d'Almeida dispoz-se, com toda a abnegação 
do apostolado, a sacrificar o interesse á gloria, e accei- 
tou o convite. 

Passados poucos dias, sahia á luz o primeiro numero 
de um novo jornal iltustrado, com o titulo modestíssimo 
de Revista Popular. 

IV 

Este jornal não parecia haver nascido de um longo 
interregno arlislíco. Tão desenvolvida e animada se apre- 
sentava agora a gravura em madeira, que ninguém diria 
ser o remédio o ócio, a somnolencia e a inércia. 

Posloque, vestindo ainda de franja ; não lendo perdido 
o amor ao insípido e monótono syslema do paraltelismo, 
o traço, até então desengraçadamente irregular e termi- 
nando, umas vezes, á maneira de cabellos hirtos, outras, 
como peito crestado, em forma de vírgula, ou de ponto 
de interrogação, era, ao menos, mais nítido no lanço, 
mais uniforme no capricho das ondulações, mais gra- 
duado nas cambiantes do claro-escuro, O* desenho geral 
tinha uma certa correcção, e as composições accusavam 
esforço de gosto e iniciativa. 

Pela primeira vez apparecia entre nós um romance 
original illuslrado. Essa coroa deixou-a o destino cair, 
pelo lápis de Bordalo Pinheiro, sobre as paginas viçosas 
dos primeiros números da Jtevista Popular. Os dois ar- 
tistas tinham elTeclívamenle dado um passo gigante no 
progresso da gravura em madeira, e por tal passo mos- 
Iravam que poderiam dar todos quantos precisos fossem 
para chegarem ao nível das iltustrações estrangeiras d'a- 
quella época, se o paiz os houv*esse ajudado era tão 
comprido e íngreme caminho. 

Como, porém? a fortuna, por ser cega, não pôde ler, 
continuava a fugir de jornaes, e os desejados assignan- 
tes, que só alraz d'ella correm, fugiam, por consequên- 
cia, lambem. Apesar de não envergonhar, não tinha a po- 
bre Revista quem lhe desse o braço, senão os amadores; 
mas esta gente admirável, que anda em cata de tudo sem 



^12 



O PANORAMA 



Iarp;ar o fardo immenso dos seus idolos, sempre assaz 
suííiciente para susieníar um viveiro de canários, não 
chega nunca para cobrir as despezas superiores ao custo 
de dois ovos e um pão de ló. Para completar tamanho 
desfavor, o povo não acceilava a invocação do titulo. 

Era caso para desesperar. Preso por ler cão ; preso por 
não ter cão. 

Que fazer ? Nenhum dos emprezarios tinha corac;em 
bastante para propor a applicnção da pena de morte á 
innocente Bevista. E, comtudo, não parecia haver outro 
expediente. As semanas succediam-se, a bolsa eslava va- 
sia, e da burra do sonho, nem sequer o casco se tinha 
podido comprar. O problema exigia prompta resolução. 
Suspender a publicação; equivalia a declara!-a morta" Os 
jornaes, suspensos são, quasi, como os reis deslhronados. 
JRaras vezes voltam. No meio crestas terríveis oscillações, 
lembraram-sc de passar o infeliz semanário para as ínãos 
de um homem monetário. Mas os homens monetários do 
uosso paiz não amam senão o toucinho c seus correlati- 
vos. Letra redonda, compram-n'a só para embrulhar. Por- 
tanto, uma tal idéa era, talvez, a peor de Iodas. 

— Não te dizia? exclamava, de vez cm quando, Bor- 
dalo Pinheiro para o seu collega, com ares de triumpho 
e um certo sorriso, de que, já de ha muito, Coelho gos- 
tava pouco. Não te dizia que linhas trabalhado com a ca- 
beça na lua? 

— E agora? perguntava Coelho, encolhendo os hom- 
bros, e tomando umS grande pilada. 

— Agora ? . . . Choremos, como bons pacs, \ islo pare- 
cer-me que já morreu. 

— Não morreu ainda, disse, apparecendo inesperada- 
mente, Pereira d'Almci(la, com a accenluação inalterável 
da sua habitual tranquillidade. 

E assim era. Pereira d'Almeida trazia a receita iiifalli- 
vel para a cura radical da enferma. Acabava de nego- 
ciar a propriedade da Revisln com Fradesso da Silveira, 
que, desde muito, pensava na publicação de um jornal 
illustrado com gravuras em madeira. 



[Concinua] 



NOGUEIRA DA SILVA. 



O qiiG seda pedido e rogado já cuslalantocomo 
comprado. Fii. Luiz de Souza. 



BEATRIZ 
XV . 

Jacqucs sabia tudo; a sua amante 
Solfria o vil castigo, a pena infame 
Que a cegueira dos homens lhe impozera. 
Chorou, coitado!— o pobre amesquinhou-sc, 
Quiz morrer de pesar, porém não poude. 
Ella expir.Tva só,— ella, tão moça, 
Tão linda, que rasgava os seios d'alma 
Ve-la penar assim; nem uma lagrima 
Poderá derramar, nem um gemido 
Desprendera sequer; pasmada e louca, 
Incerto o olhar, as faces maceradas. 
Erma com a sua dor, sem voz, sem força, 
Euclando peito a peito com o gigaule 
Da amargura cruel, sentia apenas 
Vacillar-ihe a rasão naquellc embale. 

E fugio-llie, ai de mim! . . . deixai que o pranto 

Corra em meus olhes tristes, que um momento 

Orvalhe as rosas murchas desse a!leclo. 

Que acerba magoa me lacere o peito 

Costumado a bater convulso e forte 

De amor, de ceo, de luz, de aroma evida, 

Deixai, deixai,. . . que em breve eu torno aos cantos!.. . 

Poucos mezes depois partio o conde. 
Para onde foi, não sei; dizem, comtudo, 
(E eu creio,, cpje, sem mais, puzcra termo 
A crua dor que lhe pungia a vida. 
Jacques linha perdido, a pouco e pouco, 



Aquella vaga sombra de tristeza 

Que lhe toldava o rosto; começava 

A metler pé no mundo como d^antes, 

E mais de uma a\cnlura escandalosa 

Ia correndo, então de boca, em boca. 

Se era ou não era fel (|ue as linguas torpes 

Deitavam sobre elle, não allirmo 

Porque não quero errar; mas sei, mas juro 

Que alguns mezes de|)ois (Festas noticias 

Terem lavrado já, quando a saudade 

Dida devia ardenle compungir-lhe 

Inteiro o coração, feliz e amado, 

Elle contava as horas da existência. 

Ébrio de amor, no seio d'outra pomba! — 

XV!. 

Eia, gosemos! pela floroa taça 
Beba-se o néctar (relernal prazer; 
A densa nuvem que troveja e passa 
Nem uma sombra nos vem dar sequer. 

Gosemos sempre! da ventura breve 
Ceifem-se as rosas que despontam já; 
Que tem, que imporia se um montão de neve 
Rosaes inteiros sepultando está?... 

Que tem que as faces da mulher perdida 
Vão definhando na amargura atroz?... 
Somos convivas tio festim da vida: 
Ergamos todos n'um só canto a vozi 

Voa minha alma, pelo espaço em fora, 
Tu és o aroma ([ue re*spira a flor; 
Deixa este mundo ([ue se prostra e chora 
Voa minha alma, procurando amor! 

Não falta um dia em que infernal desgraça 
Azede o néctar (pie nos dá prazer: 
O goso c fumo que se esvae, e passa 
Quando mais ébrios nos parece ver. 

Gosemos tudo! que o prazer resplenda 
Em (juanto a aurora mil lampejos tem; 
Basta que um dia sobre nós se estenda 
A sombra elerna que divaga além! 

E. A. Vidal. 



As causas excessivamente intensas produzem 
eíícilos contrários, A dor faz grilar, mas se he ex- 
cessiva faz emmudecer; a luz faz ver, mas se he 
excessiva cega; a alegria alenta c vivifica, mas se he 
excessiva mala. P. António Vieira. 



O engano leni denlcs alvos e mordedura vene- 
nosa. Como ser|)enle, contenta pêra magoar, c 
alegra pêra inlrislecer. 

Francisco Rodrigues Lobo. 



Tam indecente he sair da bocca de um homem 
de alto lugar e nobre creação uma palavra ruslica 
e mal composla, como de uma bainha de ouro ou 
rico esmalte arrancar uma esj)a(ia ferrugenta. 
Duarte INunes de Leão. 



Se andássemos sobre aviso ligeiramente enlen- 
deriamos tudo, ou parte do que nosesLí para vir. 

B. HlUEIRO, 



A boa fama c a melhor herança que ha no mundo. 

li. RlIlEIRO. 



TyjJ. Franco l'orliigucza, Rua do Tlicsouro Vfllio, G. 



o PANORAMA 



IMPRENSA NACIONAL 

Resultado da poderosa iniciativa do celebre ministro de 
D. José I, e.creada por alvará de 24 de Dezembro de 1768 
com a denominação de Onicina Regia T\pop;raphica, que 
mais tarde se transmudou na de Impressão Regia, «a Im- 
prensa Nacional de Lisboa é hoje pela vastidão de suas 
oíTicinas, pelo numero de seus operários, e pela excellen- 
cia do seu Iraballio, não só um dos mais importantes es- 
tabelecimentos públicos da capital, mas lambem o primeiro 
do seu eenero em todo o reino. » 



Com o titulo de Breve noticia histórica da Imprensa 
Nacional de Lisboa elaborou ha annos o nosso prezado 
amigo F. A. d'Almeida Pereira e Sousa, zeloso e habilis- 
simo empregado da conladoria d"a(|uella casa, um valioso 
trabalho, íjuc sahiu publicado como nppendice do RclaM-io 
apresentado ao Ministério do Reino em 28 d' Abril de 1855 
polo administrador geral da mesma Imprensa o sr. con- 
selheiro Marecos, formando-se da reunião d'estas duas 
l>eças um opúsculo de (i;5 paginas no formato de 8." má- 
ximo, estampado com primor e nitidez pouco menos que 
inexcediveis. 




c^ã/,3 j.~f£:=::^ 



Moeste escripto, fructo de investigação acurada, e com- 
paginado á vista dos registros é documentos oíTiciaes ar- 
chivados no respectivo cartório, conseguiu seu illusirado 
aucíor dar uma idéa perspicua, concisa, e quanto pôde 
sor exacta da fundação e mechanismo da administração 
d'aquelle magnifico estabelecimento, das vicissitudes por- 
que passou, e do seu incremento em diversas epochas; 
patenteando egualmente a sua situação actual, e os melhora- 
mentos n'elle progressivamente realisados para attingir o 
grau de prosperidade em que hoje o vc-mos. 

Ao leitor que desejar inslruir-se no assumpto recom- 
mendamos esse trabalho, de cujo começo foram exlrahi- 
das quasi textualmente as phrases de verdade incontes- 
tável com que encetámos o presente artigo. 

Percorrendo com altenção as [)aginas do referido opús- 
culo, ver-se-ha como por uma serie de alternativas, ora pros- 
peras, ora adversas, e mediante os desvelos e sabia ge- 
rência das ultimas administrações, esse estabelecimento 
para cuja fundação se tomaram em 1708 d'emproslimo ao 
cofre da Uni\ersidade 4O:OOO,s<lO0 réis, destinados para 
aluguer da casa, e cusleamenlo das primeiras c indispen- 
sáveis despezas, começando asna laboração com oito pre- 
los de madeira, taes como então se usavam, servidos 
apenas por dez operários ao todo, encerrava cm si pelo 
inventario geral a que se procedeu no íim de 18'J.'), va- 
lores excedentes a 227.000<j(JOO réis cm machinas, typos, 
moveis, uíensilios, exemplares de obras impressas, "etc, 
ele, sustentando a esse tempo para mais de duzentos em- 
pregados de diversas classes, em que se incluíam cento 
e quarenta e quatro operários, dislribuidos pelas oiricinas 
de composição e impressão, fundição de typos, lilhogra- 
phia e fabrica de cartas de jogar! * 

Nos últimos dez annos tem-se ainda introduzido novos 
e importantes melhoramentos em lodos os ramos ; mulli- 



plicam-se os produclos, augmeníam-se os valores, e for- 
na-se de dia em dia mais sensível o exemplo do quanto 
vale a perseverança, e do quanto podem os esforços de 
uma direcção acliva, e não menos zelosa que i!lu.slrada. 

Perdoe-nos |)orem o digno andor do opúsculo, se ape- 
sar da sincera afleição que lhe consagramos, e do eleva- 
do conceito que nos merece a sua intelligencia, temos, 
por honra e credito da pátria comnuim, de discrepar um 
pouco do seu parecer, na parte em que, como em todas, 
quizcramos estar de acordo. Foi isso o que mais nos 
impelliu a traçar estas linhas. Suppõe elle que a mais no- 
bre das artes (a typographica) descahira entre nós no 
maior abatimento, <ão tempo em que o então conde de 
Oeiras concebera o projecto de rcvalidal-a mediante a 
fumlação do novo eslabelecimenío. A asserção é, quanto 
a nós, inexacta, e cremos que sem maior "esforço a de- 
monstraremos tal. Se é certo que pelos deploráveis estra- 
gos do grande terremoto, que destruiu Lisbop treze annos 
antes, ficaram sepultadas nas ruinas, ou reduzidas a cin- 
zas algumas ty[)ographias, outras comtudo escaparam da 
calaslrophe, e não poucas se erigiram logo dos annos se- 
guintes ao do lamentável successo. 

Deitando agora um lanço de olhos para os apontamen- 
tos e noticias, já copiosas, que preparávamos em tempo 
com o desígnio de organisar um dia do modo possível 
os Annaes ti/pof/ruphicos de Portugal, empreza que, como 
varias outras, a edade c desgostos nos inqjcdem de pro- 
seguir, observamos que não menos de onze (ypographías 
se contavam cm Lisboa precisamente no anno do 1708, 
todas mais ou menos ílorcscenles, e dislinguindo-se entre 
cilas algumas, que na execução dos produclos que nos 
deixaram accusam em ífeus directores e operários mais 
que suílicicnte habilidade c dedicação pela arte que pro- 
fessavam. 



4 14 



O PANORAMA 



D'ellas faremos resenha, posloque abreviada, c tanto 
quanto baste para abonar de verdadeiro o que deixamos 
dilo: servindo juntamente de commenlario corroboralivo 
(la alUrmaliva do nosso illustre amigo, na parle cm que 
diz que certos lypographos gosavam de privilegio para 
a impressão dos documentos oíticiaes. 

Guardaremos a ordem chronologica. 

1. MiGLT.L Rodrigues. A sua oílicina era por aquelle 
tempo uma das melhores de Lisboa, e a mais antiga de 
iodas, existindo anteriormente ao terremoto na rua das 
Portas de Santa Catharina. D'elle achamos memorias des- 
de 1726 ale 1774, anno em que aos oitenta e dois de sua 
edade faz sahir de seus prelos a nova edição das Obras 
de Francisco Rodrigues Lobo, bem como dos mesmos sa- 
hiram por lodo aquelle intervallo numerosas e aceiadas 
edições. Era impressor do cardeal patriarcha. 

2V' Domingos Gonçalves. Imprimiu pelos annosdel733 
a 1780. Parece que n'esle fallecera, continuando ainda por 
mais alguns a ollioina em poder dos seus herdeiros. Era 
cila situada no palco da Charidade, próximo de S. Ghris- 
tovão. Ahi se estamparam além de muilos livros, e rela- 
ções noticiosas em prosa e verso, a maior parle das co- 
medias chamadas de cordel em mui solíriveis edições. 

.S. Miguel Manescal da Costa, im|)ressor do' Santo 
Oflkio, e descendente de outro mais antigo hpographo 
do mesmo nome. Ha livros impressos na sua bllicina de 
174(1 em diante, ate que no anno de 1768 passou a ser 
administrador technico da nova Typographia Regia, para 
a qual passaram egualoienle a fim de servirem de núcleo os 
seus prelos, caracteres e mais ulensilios. Cremos que a 
ultima obra publicada sob o seu nome foi a Dcducção 
chronologica e analylica. Era tido por habilissimo im- 
pressor, e homem de muita probidade. Morreu no 1." 
de Novembro de 1801. 

4. Officina Regl\ SiLviANA, ã cssB lempo e desde 1740 
em poder dos descendentes de .losc António da Silva, 
antigo impressor da Academia Real de Historia, e em 
cuja typographia mui bem fornecida de tudo, se impri- 
miram" nos reinados de D. João V e D. José 1 (até 1768) 
a maior parte das leis e documentos officiaes. Esta im- 
prensa continuou ainda por largos annos, com algumas 
interrupções, ale os nossos dias. 

l). Francisco Luís Ameno. A sua typographia, ((ue se 
honrava com a denominação de «Palriarchal» foi por 
elte estabelecida segundo cremos em 1718. Comp?lia com 
a de Mancscal, se é que se lhe não avantajava na belleza 
dos lypos e a inhetas, e no bom gosto, esmero e correc- 
ção das edições. Haja \ista a Vida do infante D. Uenri- 
fjup, a Vida da Madre Tffcreza da Annunciada, as Me- 
morias das providencias dadas no terremoto, e muitas 
outras obras, entre a infinidade das que este infatigável 
l>pographo 'que lambem era escriptor) produziu nos qua- 
renta e cinco annos decorridos até o de 1793 cm que 
se finou com 80 do edade. A oíTicina, que depois do ter- 
remoto estivera collocada succcssivamentc nas ruas da 
Procissão e do Jasmim, conservou-se ainda por alguns 
annos com a mesma denominação de «Patriarchali' depois 
da morle de Ameno. 

6. Manuel Coelho Amado. A sua oíTicina, que lambem 
pode conlar-se entre as mais consideráveis d'aquelle lempo, 
existiu em diversos locaes no Rairro-Allo, já na travessa 
da Estrella, já na rua da Rosa, ou da Vinha etc.,c começou 
a trabalhar ao (jue parece em 17'i0. l)'ella sahiram mui boas 
edições. Por óbito do proprietário cm 1775 passou para Luis 
Francisco Xavier Coelho, que cuidamos ser filho, ou pa- 
rente próximo de Amado. Tendo-lhc este dado a deno- 
minação de "Luisiana» Iraclava de amplial-a ; porém 
pouco se gosou da uosse d'ella, morrendo em 1780, Fi- 
cou enlão o cslabelecimento a uma irmã, com a (|u;d 
casou pouco depois o conlra-meslre, que era Simão Thad- 
deo Ferreira, nome assas conhecido enlre os nossos ly- 
pographos do século actual. 

7. FiiANcisco RoriGES de Sous\.Esla typographia durou 
ao que podemos jrdgar de ]7.')7 alé 1792, e estava nos 
ullimos Ifmpos situada no Poça do P>orrateni. Era cm 
verdade de menor consideração*, o mal sir\ida de l>pos, 
o por muilos annos se occúpava rpiasi exclusivamente 
da impressão de autos, comedias de cordel, c outros |)a- 



peis similhanles, cuja execução faz pouca honra à sua 
[jcricia. 

8. António Vicente da Silva. Melhor que a precedente, 
posto que não comi)aravel ás de Ameno ou Manescal. Im- 
primiu bastantes li\ros c opúsculos no intervallo decor- 
rido de 17í)9 a 1773. Não sabemos que destino levou 
depois d'esle ultimo anno. 

9. António Roduigues Galuardo. Temos que era pa- 
rente próximo, ou genro lal\ ez de Miguel Rodrigues. Co- 
meçou a imprimir por 1761, c a obra mais antiga que 
temos visto de seus prelos, a serem verdadeiras as indi- 
cações, é uma edição da sentença condemnaloria do je- 
suíta Malagrida, nô formato de 8." pequeno, com lypos 
(jue nos parece serem fundidos em França. Foi impressor 
da Real Meza Censória, e por morle de Miguel Rodrigues 
passou a sel-o lambem do cardeal patriarcha. Imprimiu 
numerosíssimos livros e papeis avulsos. Asua ofliclna. 
estabelecida de principio na rua de S. Bento, e depois 
na esquina da rua de Santo Ambrósio, passou a llnal 
para a rua hoje chamada da Escola Polytechnlca, com 
entrada pela da Procissão. Ahl existia ainda ha poucos an- 
nos, em poder dos filhos e herdeiros do primeiro pro- 
prietário, que seguindo carreiras ou profissões diversas, 
a deixaram ir era successlva decadência ale se extinguir 
de lodo. 

10. Caetano Ferreira da Costa. Encontramos memo- 
rias d'este impressor enlre os annos de 1765 e 1778, 
Cumpre porém confessar, que dos seus prelos não conhe- 
cemos outros produclos mais que relações avulsas, e co- 
medias de cordel, e algum raro livro por excepção. 

11. JosK DA Silva Nazareth. Enconlram-se memorias 
d'este hpographo desde 17G8 até 1786, sem comUido po- 
dermos determinar se a sua ofilcina subsistia ainda depois 
d'esse anno. Das multas obras (pie Imprimiu no mencionado 
período, lembraremos a'^í/ísío?'áí do poio romano por José 
Thomaz,d'Aqulno Barradas, tomos l.°j e "L", no formato 
(b 8.". É provável que a Imprensa passasse por sua morte 
para novo possuidor, cujo nome figurará talvez enlre os 
de muitos cfue nos annos subsequentes a 1768 foram es- 
tabelecendo novas officlnas, ou continuando com as exis- 
tentes. 

Poiler-se-ia tornar esta resenha mais extensa, se hou- 
véssemos de addiclonar-lhe os nomes de vários outros 
lypographos, que funcclonavam como laes cm annos mui 
proximamente anteriores ou posteriores, mas de que não 
alcançamos certeza de quo se conservassem alé ode 1768, 
que tomamos por ponto tixo. Taes seriam por exemplo, 
Ignaclo Nogueira Xisto e João António da Costa, (|uc exis- 
tiam de certo em 1765; Pedro Ferreira em 1763; Antó- 
nio Isidoro da Fonseca c Manuel António Monteiro de 
Campos em 1760: José d^Aíjuino Bulhões, do qual já le- 
mos obras por ellc im|)ressas em 1769, parecendo que 
começara n'esse anno, ele. ele— Sem nos fazermos cargo 
(Fesle^s e d'oulros, nem ainda dos que pelo mesmo lem- 
po (ixlsllam em exercício no Porto e em Coimbra, cre- 
mos todavia haver sallsfello de sobra ao nosso propó- 
sito, que foi simplesmente o de mostrar (pic a arle typo- 
graphica não eslava entre nós em 1768 em Ião lastimoso 
abatimento como se pretendeu suppor. 

liNNOcENCio Francisco da Silva. 



OS TRÊS ESTADOS 

O passado! A rcniinisccncia do passado! 

Kslivéra dcniLMile, c a loucura, onuscando-mc a 
inlolliííoncia, havia-me obliUcrado da memoria as 
imprcs.sõos fio juclerilo, as recordações de l-oda a 
minha vida? 

Tinha bebido das aguas d'aquelle celebrado fio 
que produziam, em quem as beiíia, o esqueci iiien- 
lo de ludo quaplo gozara ou padecera alé alli? 

Impossível me f()ra responder a laes perguntas, 
resolver lai duvida. 

O certo é, poiém, que' da mente havia-mc des- 
aj)parí'cido toda a lembrança da minha vida 



I 



o 1»AN0KAMA 



anterior, e até nem podia affirmar que linha cxis- 
lido anlos. Todavia, do mesmo modo. ([uc ás vezes 
rcsoam era nossos ouvidos harmonias, que não po- 
demos precisamente qualitlcai', mas que estamos 
convencidos já lermos ouvido; assim minha al- 
ma conservava a noção de uma existência pre- 
cedente, cujos fados, porém, cujas alegrias, cu- 
jas dores se desvaneceram da uiemoria, como 
do cryslal ou da lamina de aço se apaga o hálito 
que o embaciara. 

Solíreu minha alma uma metempsycose pytha- 
gorica, e ao mudar de forma Corpórea olvidou o 
passado? Ou viclima o m.eu espirilo de uma in- 
sólila allucinação não podia j)erceber os fulgores 
do que fui, nem a luz do futuro, no meio das den- 
sas trevas, que o cercavam por todos os lados? 

Estas idéas se me agglomeravam no pensamento; 
cessando, porém^ de meditar no segredo da mi- 
nha alma, olhei em torno de mim. 

Acliava-me em um magnillco palácio. As pa- 
redes não eram de mármore, jaspe, ou de outra 
qualquer pedra que o homem arranca das pedrei- 
ras. Cousa estranha ! eram de gelo! Um largo ves- 
tihu'o profusamente illuminado por enormes can- 
delabros d;í bionze, cada um com cem luzes degaz, 
o cujo pavimento ei'a forrado de bocadinhos de 
pieciosas madeiras, dava accesso a uma sumptuosa 
escada, guarnecida de grandes e custosas jarras 
com plantas de desconhecidos climas. No cimo d'cs- 
la escada via-se uma longa e e&pacosa galeria, al- 
califatia com tapetes da Pérsia, i|lumina(la á giorno 
e na qual se agi"upava uma multidão de areados 
com soberbas librés bordadas a oiro, e cabelleiras 
empoadas. De ambos os lados da galeria as pare- 
des permiíliam, pela sua transparência, admirar 
a magnilicencia nunca vista, de uma serie deim- 
mensos salões de baile, onde a vista se sentia 
desluiiibrada ])elo brilho da luz que brolava dos 
bicos das lâmpadas de oiro, e que relleclindo no 
gelo das paredes adquiria nova força e intensida- 
de. ]']m torno dos salões havia coramodos divaus 
forrados de pelle de marlha para os pares des- 
cançaiem das danças. A alhmosphera que alli se 
respirava era suavemente tempeiada por occullos 
caloriferos; e estranhos, porem, dulcíssimos aro- 
mas deliciavam o òlfato. 

Vai discorria pelas salas com uma bandeja de 
ouro na mão coberta de íinissimos doces, vendo 
relieclir no gelo das paredes a minha encarnada 
libré bordada a oiro. Outro lacaio me seguia le- 
vando em outra bandeja gelados caguadulciíicada 
com essências nunca pr^adas de suavíssimo sa- 
bor. 

Via passar junto de mim. levadas pela volu- 
|)luosa embriaguez do baile, todas as dilVerenles 
bellezas da terra; poréin, cada uma d'a(p!ellas 
mulheres era mais bella do que o que é dado 
sel-o a mulher alguma terrena. Alli se via a lilha 
do iXorte, de tez ligeiramente rosada, olhos celes- 
tes, loura cabelleira, semelhante a uma aureola 
dourada; junto a ella, com o seu trajo de ri(|uis- 
sima cachemira de vivas cores, a brahmane 
da Índia com a cútis levemente bronzeada e 



os olhos fendidos á maneira dos personagens 
dos leques chinos; lambem alli se encontrava 
a orgulhosa mandarina do Celeste Império, com 
o seu estranho vestuário e bailando enlhusiasmada, 
apezar da pequenez de seus pés; nem faltavam 
n'aquelIaextiaordinaria assembléaa (ilha da Abys- 
sinia, assemelhando uma formosa estatua de már- 
more negro, c a íilha das antigas raças ame- 
licanas, meio nua, e cobertos os braços e peito de 
hiorogliphios de vivas côies: chamavam, porém, 
sobretudo a attenção, por sua irresistível formo- 
sura, a indolente crcoula, com o seu languido c 
voluptuoso coqueltismo, e a til.ha das Ilespanhas 
e a da ílalia, de tez pallida, cabcllos negros, 
olhos avelludados , magnéticos; irresistíveis, e 
movimentos já preguiçosos, jà cheios de viveza e 
elegância. 

E ao lado de cada uma d'aquellas mulheres, mais 
bellasdo que o natu!'al, taes como os poetas de seus 
paizes as sonharam, viara-se lambem valoro- 
sos guerreiros, príncipes, sábios, trovadores dos 
ditlerentcs climas. O fato preto do europeo, con- 
fundia se com o manto branco do brahmane, as 
variadas cores do vestido do mandarim, com o 
luxuoso trajo persa e os ricos uniformes cobertos 
de oui"o e biilhantes contrastavam com a veslimeula 
' talar dos africanos. 

E, coisa estranha e inexplicável! a cada uma d^a- 
quellas mulheres fallava eu, polyglola universal, 
no seu idioma, ao oííerecer-lhe os doces que leva- 
va na bandeja. Quando e como pude aprender 
tantos idiomas? Como foi dado à minha memoria 
reter tantas e tão variadas línguas? Problema dif- 
ficil de resolver! 

O baile durou algumas horas. A tempo notei que 
as luzes começavam a empallidecer; as mulheres 
parec.-am mais elhcreas e vaporosas, menos cor- 
póreas ; os contornos lornavam-se mais flucluan- 
tes e indecisos, e as íiguras que minha vista al- 
cançava parecia como que vagueavam no ar ou 
via-as alravez dos vapores de um sonho. E ao 
mesmo tempo a musica invisível- que h^via diri- 
gido o baile, ia pouco a pouco apagando os seus 
melodiosos sons até chegar aum pianissimoapenas 
perceptível. Alguns momentos depois, aquellas for- 
mosas mulheres, aquelles guerreiros, príncipes e 
sábios se desvaneceram couq)leiamenleiia sombra; 
a musica extinguio-se n'um dulcíssimo sus|)iro, c 
o palácio de gelo sumiu-se iuleiramente no silen- 
cio e na obscuridade. 



Não sei quanto tempo'passei sem que chegas- 
sem a meus sentidos um som, ou um raio de 
luz. O que é certo é, (jue decoi'rido um espaço do 
temi)o, cuja duração não me é possível calcular, 
a vista deveu-se-me accostumar ás trevas, ou de- 
vi'rara ler sido dotados os meus olhos da faculdade 
dever ás escuras, como os indivíduos da raça fe- 
lina. Pelo que respeita ao ouvido, não se percebia 
o menor ruído no palácio de gelo. 

Eslava na grande galeria que dava entrada para 
os salões de baile, antes Ião esplendidamente illu- 



\ 10 



o PANORAMA 



minados e que n'aquelle momenlo jaziam em profiin-I rosto pallido, de porfeição divina, de linhas ma 
daobsciiridade. Apalpando-me, paraccMiiíicar-mese gestosas, severas e agradáveis, e aquella bocca pe- 

.-I „ «^^..,lníl,^ rvrtlni ni-ia «i iiiiiiho i-ipQ li_ fiiipim O Hii i'i rncfi rl'.i filin cni'1'in 1'filiinl lírica nií»n 1(1 nt\ 



estava accoidado, nolei que a minha rica li 
bré bordaJa a oiro, havia sido subsliluida por 
uma vesliiuenla de pelles, tal como as dos escra- 
vos russos. 

Ao longe, no meio das Irevas, via um raio de 
luz. Aquolle pallido reliexo allraia-me e fascina- 
va-me como o serpente ao pobre passarinho, para 
saciar a fome, como a chamma a leve mariposa, 
que n'ella vai queimar as suas lindas azas. O in- 
deciso fulgor chegava-me amoriecido pela transmis- 
são ao atravessar varias paredes de gelo. 

Orienlei-me na obscuridade. Levantei sem ruído 
um pesado reposteirode pelles, que servia deporia, 
atravessei varias salas descrias e cheguei por lim 
anle uma estancia em que a visla não |)odia pene- 
trar. Com eITeilo, a transparência das |)nredes acha- 
va-se resguardada por inagniticas pelles, brancas 
como o arminho, que defendiam á vista a sanli- 
dade d'tiquelle santuário; mas o reposteiro não 
fechava hermelicamenle aporia opor uma fenda 
deixava iilliar o raio de luz que alli me havia at- 
traido. 

O que existiria n'aquella habitação? Porque se 
tinha procurado o segredo e fechado a porta á 
curiosidade"? Eslas perguntas, que a mim próprio 
fazia, unidas ao aguilhão da curiosidade, con- 
trabalançavam o justo temor que aquelle mys- 
terio me infundia. Por oul.-o lado, porém, o 
silencio espantoso que reinava em todo o palácio 
e o envolvia como um frio sudário de morte, 
havia-me gelado o coração e ateri^ado a alma: 
quiz vencer o pânico que me dominava e levantei 
a cortina de pelles. 

Como linha presumido, grandes alcatifas de 
pelle de arminho, mais brancas do que as neves 
do Cáucaso, fonavam aquella sumptuosa camará, 
abiigando-a e resguardando-a dos olhares da indis- 
cripção: |)elles semelhantes serviam de tapete, tor- 
nando assim aquella estancia um ninho branco. 
Do tecto pendia, sustentada por três cadeias de 
oiro, uma lanijjada, cuja llamma exhalava um 
suave perfume e allumiava a estancia com 
os seus pallidos e trémulos rellexos; no fundo 
via-se um leito abiigado por grandes cortinas 
de seda azul celeste sustentadas [)or uma coroa 
de ouro adornada de pérolas e esmeraldas. Sob 
aquellas cortinas ouvia-se uma res|)iração suave 
»' Iraiiqudhi. Atiuella estancia era o quarto de uma 
piinceza. 

A curiosidade lulava em meu peito com a idèa 
do knot, o látego dos escravos; mas por íim a cu- 
riosidade venceu o temor. 

Alfaslei com cuidado as azuladas cortinas do 
leito e apenas pude conter um grilo de admira- 
ção. 

Cma mulher extraordinariamente bella, mais 
bclla do que quantas haviam passado anle meus 
olhos no baile, dormia com osonino liaiujuillo da 
infância. Como descrever a opulenta cxplendidez 
dos seus cabcllos negros, cujas perfumadas 
tranças chegavam até ao chão? Como pintar aquelle 



quena eaurirosada que sorria voluptuosamente no 
somno? Algum movimento indiscreto havia apartado 
um pouco a roupa e podiam-se admirar um collodo 
alabastro de languida morbidez e uns homhros de 
mármore que as antigas Vénus teriam invejado. 
Emlim, pendia descoberto um dos seus braços que 
parecia o da Yenus de iMilo ou de outra quabjuer 
d'essas obras monumentaes de estatuária da anti- 
guidade, que são o assombro e todas as idades. 

lia sensações que se não podem explicar, pois 
são complelamenteinelíaveis. A vista daiiuclla mu- 
lher tão bella no abandono do seu somno causou-me 
uma d'essas sensações. Sem saber o que fazia ajoe- 
lhei junto do leito, tomei-lhe a mão e levei-a aos 
lábios. 

Ao fogo ardente do beijo a . princesa abrio 
os olhos. A estatua adquirio animação; aquelle cor- 
po tão formoso pareceu volver á vida, o seu rosto 
tomou a expressão do temor, e aquelles olhos ras- 
gados, irresistíveis, magnéticos, e poi cuja punilla 
de prelo velludo julgaria ver o iniinito, lixaram~sc 
aterrados em mim. Por lim convenceu-se de 
que não era um sonho o que via c seus lábios 
deixaram escapar um grilo de angustia. 

Continua 



O MUSICO ENRAIVECIDO 

Cariciitura de Hogarth 

Já n'este jornal se esboçou rapidamenle a phy- 
sionomiaarlistica (restenolavel pintor inglez, cuja 
Índole observadoi-a dotou a Inglaterra de um ver- 
dadeiro monumento, porque não podemos consi- 
derar d'oulra forma a verdadeira «Comedia huma- 
na» que as suas obras constituem. 

l)'essa «Comedia humana» possuímos algumas 
folhas, (|ue iremos successivamente apresentando 
aos nossos leitores. Já uma appareceu n'este volu- 
me do Panorama; essa gravura, que se intitulava 
o Infeliz Poda, era um drama pungente, (pie pal- 
l)itava sob a mascara do riso, era uma d'essas ri- 
sadas á Moliéi"e que occultain profundas agonias. 

Mas a vasta obra de llogarlh abrange todos os 
sentimentos, todas as inspirações que podem salleiar 
o poela ou o pintor cómico. Se além solta a gar- 
galhada irónica, e inscreve com o buril, que tem 
um não sei que da penna de Juvenal, um |irotesto 
amargamente zombeteiro contra os decretos do des- 
tino, aqui observa fria, Sagaz, anatomicamente o 
corpo social e expõe bem visíveis as |)ustuliis que 
o ulceram. Outra coisa não é essa magnilica serie, 
que se intitula o Casanienio da moda, outra coisa 
não c a Vida de iiiii devasso, e a Vida de iniia 
devassa, comedia de observação, estudo á IJalzac, 
modelo que ha de inspirar (javarni. 

Outras vezes a travessa inspiração áovaudeville 
vem-lhe guiar também o buril com (pie desenha 
os seus |)oemassat\ ricos. Apanha em llagranteum 
ridículo inollensivo, uma situação cómica; apodeia- 
sc d'elle um riso inextinguível, e, malicioso já e 



o PANORAMA 



M7 



não sarcástico, reproduz a scena, onde encontrou 
a inspiração da comedia. 

É este o caso da gravura, que hoje apresenta- 
mos aos nossos leitores. ^ 

Ouem não tem sentido milhares de vezes, nesta 
tuniultuosa Lisboa, a tentação irresislivel de se en- 
tregar a uma d'essas fúrias, que serviram de as- 



sumpto aveia cómica do satyricoinglez, quando o 
realejo da esquina móe infatigavelmente as peças 
de musica do seu reportório, quando a corneta de 
chaves de um virtuose de praça publica matiza de 
variações impossíveis as árias mais singelas, os hym- 
nos menos empolados, quando o bando dos toiros 
passa formando com os instrumentos ma's conlra- 




dictorios o acompanhamento da parte cantante, que 
é desempenhada pelo bombo, quando os pregões 
se cruzam, se confundem, se atropellam vibrando 
discordantemente por esses ares, qual de nós não 
sentio ainda, repito, u tentação irrcsislivcl de des- 
cer á rua, e de correr a chicote, em nome da har- 



monia, esse coro e essa orciíestra malditos que o 
próprio Satmaz repelliria do seu inferno? 

Ora se isto acontece ao poeta, que ve fugir-ltie 
a musa hoirorisada d'essc bulício insupportavel, 
ao pensador que vò a sua meditação interrompida 
por esses cdiUios plusquam infernaes, ao mathema- 



8 



O PArsORAMA 



íico, quo corifunde a demonstração do seu tlieo- 
rcnia, graças a esse charivari atroz, ao chymico, 
cujas i-eacções são embaiulliadas por esse diluvio 
de sons, o que não será quando a desgraçada aí- 
ctima da tempestade da rua é nem mais nem me- 
nos que um sacerdote d'esstí mesmo deus vilipen- 
diado pelos lyricos profanos, um cultor enthusiasla 
c apaixonado d'essa musica apedjeJ8da, insultada, 
viclimada pelo realejo, pelo bombo, pela corneta 
de chaves, e pelos pregões? 

Passa-se então a scena, que o malicioso pintor 
inglez estudou, e reproduzio com rai'a felicidade, 
iia gravura que orna este numero do Panorama. 
O infeliz corre á janeila com os cabellos em pé, 
os olhos esgazeados, aterrado, fulminado, fora de 
si. E elles, os amaldiçoados, os profanadores, os 
Ilottenlotescontinuam, grave e imperturbavelmente, 
a perpetrar aquella atrocidade musical. O clamor 
da viclima é cobtMto pelo estrondo dos instiiimentos 
de vento. i\ão se desintumecem as bochechas ao 
assoprador doligle, não descançam os braços ver- 
tiginosos do que maneja as vaquetas, não estaca 
a torrente de sons, que irrompe do realejo! Parece 
que é elie o profanador, parece que é elle quem 
vem perturbar a celebração dos augustos myste- 
rios, elle o sacerdote, elle que desejaria escorraçar 
do templo da arte esses vendilhões de musica fal- 
siOcada! 

E o pintor, sorrindo-sc maliciosamente, repro- 
duz admiravelmente na tela as diílerentes figuras 
da scena cómica. Cada traço do pincel revela o folhe- 
tinisla; porque, digâmol-o com desassombro o 3Ia- 
sico enraivecido é um vei-dadeiro folhetim. 

PlNHKlRO CUAGAS 



THEATRO DE D. MARIA lí. 
II 

Corria o anno de 1810. Após aí guerras civis, que en- 
sanguentaram a palria, reluzira por enirc tantos negru- 
mes, a eslreila honançosa (i;i paz e concórdia. 

As artes e as scieiírias iain colorando alentos nas niinns 
fiinieganles de uma sociedade carcomida que baqueara 
sol) a influição potente das novas ideas, que não com o 
eslrondar dos caidiões. Havia liomens então. E que ho- 
mens! Os patriotas de 20, 2õ e ;]i, esses perigrinos, pie- 
dosos que haviam cliorado lagrimas de sangue nos agros 
do exílio, lambem tinham visto muito, e o pranto, que 
llies empanava os ollios, não podia escurecer os mit os- 
plciiflores da civilisação nas grandes capitães da Europa. 

Esses cruzados de uma idca, que haviam deixado pá- 
tria c familia para hastearem o pendão da liberdade em 
ura lieroico rocliodo do oceano, mal foram de volta ao 
seu paiz, viram que o desjjotismo nem mesmo encobrira 
as puslulas no manto do esplendor material. Tudo aqui 
ora mesquinho, homens e coisas. IJsboa não soíTrera a 
menor alteração depois que o grande marquez se afundara 
nas sombras do sepulcro e da ingratidão. 

Lisboa era ainda uma cidade do século passado, que 
era necessário rejuvenescer. 

O estrangeiro, afeito r.s maravilhas da terra natal, fica- 
va pasmado o absorto desenibareando aípii, n'cstas praias 
cheias de lodo e contem7?Tando osriíjssos usos e costumes 
impugnados de nativa barbaria e proverbial sujidade. 

Huins avenças dávamos nós a \iajanles di>tinelos, ecom 
sobrada razão dizia Byron, em inqx.-tos de mal. contido 
desprezo e m.-recida ironia, que estávamos na Europa e 
não pertencíamos á Europa. Era necessário lazer tudo, 
porque tudo fallava. 

A transformação fora rápida e absoluta. Ao despotismo 



succedèra a liberdade, ao silencio do cárcere o clamor 
da praça publica, á Gazela censurada e tonsurada o pe- 
riódico livre, libérrimo, e que cm ser desbragado ás \ezcs, 
impetuoso, Iribunicio, era puramente oblata' ás novas con- 
quistas. 

Estes porém não se cifravam n'is!o. Um povo que re- 
nasce no meio das cinzas á voz da bberdade exige muito 
mais Já o não contentam procissões faustosas com os seus 
renques de andores e charamellas c limbaleiros archai- 
cos. 

Outros espectáculos requer, mais consentâneos do pro- 
gresso, mais civilisadores, mais dignos da liberdade; espec- 
táculos que ao tempo que divirtam sejam de boa lição e 
doutrina. 

Era preciso que a transformação phisica e moral de 
Lisboa acompanhasse o século^ cujas feições se iam pro- 
nunciando. 

Era preciso que as sciencias se desenvolvessem c as 
artes encontrassem gasalhado. 

Era preciso construir escolas, abrir bibliothecas, levantar 
palácios, dispor muzeus, fazer estradas, melhorar por- 
tos, lacililar mutuas relações decommercio e industria em 
que a liberdade se espanejasse á vontade, e ao par does- 
tes e outros melhoramentos polilicos, sociaes, e económicos 
que os governos iam iniciando, dilfuudire espalhar luzes 
pelo povo por lodos os modos, porque a liberdade assim 
como as flores, definha se e morre nas sombras. 

E entre esses meios tão variados, posto que desigual- 
mente fecundos, um havia, que quasi nos faltava em l^or- 
tugal. Era o thealro, es.sa escola de costumes, esse pal- 
ladio de verdade, esse foco de luz, esse destruidor de pre- 
conceitos, esse facho que brilhara nos piínlhons da Grécia 
e nos circos de Roma, essa religião, que tem por patri- 
archas e apóstolos os maiores génios da antiguidade: 
E.sch\lo Euripedes, IMauto, Terêncio e tantos outros; o 
thealro em cujo tablado se rei)resentaram na idade media so- 
lemnes mysterios,dominio glorioso de histriões ejograes (pie 
diziam tantas verdades aos poderosos da terra, elemento ro- 
busto de renovação nas mãosda Chakspeare,Molicree Allie- 
ri, campo neutro aonde as ideas fecundas se aninhavam para 
depois esvaaçarem sobre a humanidade, arca santa deop- 
primidos c p"hylosophos, lempio em cujas abobadas re- 
tumbavam gargalhadas de folião de envolta com grandes 
princípios e grandes verdades, ahnanca poderosíssima de 
revolução, espelho fiel, aonde se relleclem em Ioda a 
sua hediondez os vicios mal disfarçados com a mascara 
da hypocrisia. Era o.theatroque nos faltava, além do nuiilo 
que trinta annos de fadigas e trabalhos ainda não pude- 
ram conquistar. Os brios porem de um povo, que an- 
elava sair do antigo torpor, não consentiam essa macula. 
Como não corar de pejo e vergonha ao entrar esse edi- 
fício informe da liua dos Condes, que a nossa soberI)a 
pobreza linha alcunhado de IheaVro normarí Como havía- 
mos de rcs|)onder ao sorriso de commiseração c desprezo 
do estrangeiro, que assistisse á representação de um dra- 
ma nacional em legurio tão immundo e indigno? 

Construir um edifício sumpUioso, que fosse lempio da 
arte dramática era pois instante necessidade. Pertencem 
as honras do commeUimenlo a .loaquim Larcher, então 
governador civil de Lisboa (t8;56'iea Almeida Garrett, o 
dramaturgo nacional, que ao passo (pie cuidava doedili- 
cio material, não descurava o augmenlo da arte, anies 
propunha e creava o conservatório real o a inspecção dos 
theatros. 

Começa aipii uma longa série de luctas c desenganos, 
que assoberbaram outro que não lôra o restaurador das 
letras pátrias e os seus não menos robustos sequazes c 
amigos. 

Escolheu-se o palácio da inquisição, ou antess as suas 
ruínas para local do projeelado thealro, e o architecto Chiosi 
fez um risco tão eeonomíco e comezinho, que não exigia 
a execução (felle mais de vinte e quatro conctosde reis. 

Esses 'mesmos porem faltavam, apezar de continuados 
esforços. 

Nomeou-se depois uma commissão (pie tinha por en- 
cargo angariar uma companhia do edificação; escolheu-sc 
a cerca do convento de S. Francisco, mas tantas c Ião 
variadas foram as opiniões. Ião discordes os alvitres, que 
não houve apaziguar os contendores. 



o PANORAMA 



M9 



Veio enlãoa combale o sr. conde do Fnrrobo, esse pro- 
tcclor convido dns arles earlislns,que hoje alii está, po- 
bre e desamparado, viclima da pátria injírala e de pa- 
triotas mais ingratos ainda. O sr. conde do Farrobo cujo 
nome andava ligado ao Iheatro de S. Carlos, oderecia-se 
a construir othoatro nacional sob certas condições. Baldo 
porem foi ainda este esforço. 

rsão esmoreceu comtudo Almeida Garrett, que linlia 
por irmão de armas em tão santa cruzada, outro poeta 
grande também, amanlissimo das coisas pátrias— António 
Teleciano de Castilho. 

Almeida Gairett, deputado da nação, apresentou um 
projecto de lei ^6 de novembro de 18í0; (pie tinha por fim 
erigir o monumento áarle nacional. Devia o governo dar 
o terreno e iiarte dos materiaes- correndo as outras des- 
pezas á conta de uma companhia, que só fruia os reddi- 
tos da sua obra em cci lo prazo de tempo, passando de- 
pois o Iheatro a ser propiiedade nacional. 

Mas ainda d'esla vez venceu o mau fado, que perseguia 
o nosso Ihcalro. 

Correra cerca de um anno. Os caixas do contrato do 
tabaco offereceram quarenta contos se porventura lhes 
tirassem o encargo de empresários do thcatro lyrico. 

Approvada e acceila esta proposta a esforços' de Joa- 
quim Sanches, então inspector dos theatros, approvado 
lambem o risco do ilaliano Fortunato I.odi e creada nova 
commissão, começaram os trabalhos em julho de J8i2,e 
ainda não eram cÔrriíios quatro annos, abriu-se o Iheatro 
em abril de 18iG, no dia natalício da rainha D. Maria 1!, cujo 
nome foi dado ao novo thealro, represenlando-se o dra- 
ma Alvai'o Gonçalves, o Magriço ou os doze delnglaterra. 

Querer descrever miudamente o edificio, tanto por fora 
como por dentro é obra demasiado longa e porventura 
mais adequada a um jornal technico do que ao PíOiorai/ia 

Contenlar-me-hei pòr isso em fazer rápida descripção 
lio novo Iheatro normal, indicando os tópicos principaes 
que convém não ignorar. 

A. OSÓRIO DE VASCO.N'CELLOS. 

iConiinua-] 

VIAGEM Á LUA* 

Aj^ologo por ILiisgieu 

Aconteceu que unia vez os sete sábios da Gré- 
cia, reunidos em Alhenas, quei-endo decidir qual 
ei-a a maior maravilha da creação, resolveram que 
cada um porsuavezexposesse o seu parecer acer- 
cado assumpto. 

O primeiro que failou, sustentou que nada ha- 
Tia de mais maravilhoso que as estreitas: na opi- 
iiião dos astrónomos, a maior parte eram soes em 
roda dos quaes giravam mundos contendo, como 
a terra, plantas e animaes, mas de formas es- 
tranhas e desconhecidas. Excitados por esta pres- 
pecliva, os sábios supplicaram Júpiter lhes per- 
mittissc visitar o planeta mais próximo, a lua. 
iNão estariam lá senão três dias e viriam contar 
aos homens os prodígios que vissem n'aquelle 
mundo desconhecido. Júpiter deferiu-llieso reque- 
rimento e marcou como [lonto de |)arlida o cimo 
de uma elevada montanha onde uma nuvem os de- 
via esperar. A hora indicada apresentaram-se, 
acompanhados de artistas e poetas encarregados de 
pintar e descrever as suas descobertas. 

Depois de terem rapidamente atravessado o es- 
paço ethcrco, chegaram á lua, onde achaiam um 
palácio preparado para reccbe!-os. iXo dia seguinte, 
estavam tão cançados da viagem que acordaraiu 
ao meio dia. Foi-lhes servido, para recuperarem 
forças, um succulento almcço, do qual tanto se 
aproveitaram que a sua curiositlad-e diminuiu con- 
sideravelmente. N'este dia entreviram atravez das 



janellas um delicioso paiz, coberto da mais rica 
verdura e de flores de rarabelleza; ouviram o me- 
lodioso gorgeio dos pássaros c promelteram le- 
vantar-se na madrugada seguinte, para darem come- 
ço ás suas observações. Mas no segundo dia, quando 
iam para sair de casa, um bando de dançarinos e 
dançarinas embargou-lhe o caminho. Um segundo 
banquete, ainda mais lauto que o primeiro, eslava 
servido. Vinhos raros, musica, danças: tudo convida- 
va ao prazer; íicaraiii presos. De repente, vizinhos 
invejosos perturbaram a festa, prccipilando-se ar- 
mados na sala do festim. Travou-se a lucta; os 
sábios tomaram parte n'ella eos invasores ticaram 
vencidos. A justiça teve o seu curso, c o terceiro 
dia foi absorvido inteiramente pelos inquéritos, 
re])licas e sentença; de modo que o tempo con- 
cedido por Júpiter expirou^ e os sele sábios vol- 
taram à Grécia, cuja ])opulação correu logo ao seu 
encontro, ávida de noticias da lua. 

O que os sábios poderam dizer é que era um 
excellente paiz, coberto de verdura, matisado de 
tlores, e onde os pássaros cantavam a arrebatar. De 
que nalurezB eram esta verdura e estas flores? 
Como eram estes pássaros? Não sabiam a tal res- 
peito nem uma palavra. 

DANIEL RIGHARD 

Já o século XVII eslava bastante adiantado, ain- 
da os bravos habitantes de Locle se contentavam 
com os quadrantes solares para medir o teiupo. . 

Em 1()79, porém, um curioso, que para alli foi 
residir, levou um relógio de Londres. Gran- 
de maravilha foi esta, para aquella gente, por- 
que dentro em pouco tempo o fabrico dos relógios 
tornou-se quasi que a sua única industria ! O re- 
lógio desorganisou-se; o seu dono contiou-o a um 
habitante de Sagne, cuja destreza e génio eiuprehen- 
dedor, sem duvida, conhecia. Daniel João Richard 
(não se encontra este nome nas biographias) teve 
seis mezes o relógio em seu poder; mas não o 
guardou inuliliuente para si e para o seu possui- 
dor: n'este curto espaço de tempo, tinha estuda- 
do o complicado mechanismo, e havia inventado 
a serie de utensílios necessários para reparar a 
famosa machina ingleza. Ainda não tinham decor- 
rido, depois d'isto, outros seis mezes, já Daniel 
Richard se achava habilitado para fabricar o reló- 
gio mais complicado. Fez mais: tinha o génio que 
jnvenla, e a paciência que aperfeiçoa; adquiriu 
"grande somma de conhecimentos, e depois diri- 
gio-se a (icnova, aonde estudou. Estudar, pra tra- 
balhar para o bem dos seus patrícios e estes, com 
eílVito, aproveilaram: pacientes como elle, como 
elle se cnritiueceram. Além d'isso, Richard tinha 
cinco lillios, herdeiros de seus talentos, e por quem 
o ensino era dado a todos. A^m se povoou aquelle 
cantão de relojoeiros. 

Daniel Richard morreu eiu 1711. Mas, porque 
se calam a seu respeito as biographias? E porque 
se não lêem as cartas de Coxe sobre a Suissa, 
onde se acham consignados, mil factos cuiiosos: é 
alli que se encontra a historia d'este hábil indus- 
trial. 



■120 



O P\NORAMA 



Á MORTE DE MANUELA REY. 

Permille que em soluços eu deponha 
Também uma saudade, ó alma bella, 

>io leu fúnebre leilo! 
Se á flor da pranlos a manhã risonha, 
Eu dou-le a llor, — ai I pobre Manuela ! — 

Mais trisle do meu peilo 1 

Nenhuma aos pés te avremecei outrora, 
Em vida, quando meiga no proscénio 

E ardente de paixão, 
Sentia toda a luz da tua aurora, 
E a suave fragrância do teu génio 

Descer-me ao coração I 

Nenhuma 1 Acaso pode humilde planta 
Roçar com seus perfumes o empíreo, 

Dos orvalhos em paga? 
O verme que do pó se não levanta 
O néctar retribuo ao doce lirio 

Que um dia o embriaga? 

As almas como a tua são um canto 
De frescas, de continuas melodias, 

L'm arrulho d'amor ! 
Orvalho solto do azulado manto 
N'aridez glacial de nossos dias' 

Sobre pallida flor. 

Foi bello o ver-le, sim, gentil creança. 
Nas azas do teu génio erguida acima 

Das tormentas da sorte; 
Qual a ave que num vòo se abalança 
Vor entre os vendavacs, c se aproxima 

Da luz que tem por norte ! 

Foi bello e grandioso ! Não se exprime; 
Mas eterna lembrança em nossa vida 

Ficou do que era teu ; 
Quando o elhcrco, o intangível, o sublime, 
Moldavas na palavra traduzida 

Em cânticos do ceu l 

Da santa inspiração o beijo caslo 
Depoz-te Deus na fronte; ea luz divina, 

Que cm bem poucos se ateia, 
Brilhou em ti, e um horisonte vasto 
Ás ambições da gloria que fascina, 

Sèm veu se patenteia. 

Tiveste só aurora ! mas bem raro 
Tão risonha manhã ú\\n\ bello dia 

iNo ceu assim reluz ! 
Não se diga que IJcos te foi avaro! 
No leu celeste alvor se resumia 

Um futuro de luz! 

Aos grandes só, somente aos escolhidos 
Concede n'este mundo a providencia 

Tal dom e tal baptismo! 
São o bello : — nós somos os sentidos. 
Apenas somos pó: — elles essência. 
. São o ceu : — nós o abysmo 1 

Que tem que elles não tenham por cortejo 
A gloria só? Que sempre lhes (lecline 

O sol, quando em manhã? 
Que tem que a febre estampe o ardente beijo 
Cm dia em Mille^e, nVxitro cm ISellíni, 

Se a luz c sua irmã ? 

O génio dVsses laes, centelha errante, 
Baqueia, mas apoz deixa um vestígio 

De fterna claridade ; 
E os crentes do ideal, a rada instante 
Evocam sempre o divinal prodígio 

Nas hras da saudade ! 



Assim, ó anjo louro e pensativo. 

Aos ecos do triumpho abrindo o espaço, 

Levou-le o vendaval! 
Mas nós, ainda apoz o vôo altivo. 
Sentimos n'alma um luminoso traço 

De luz celestial I 

GUILHEUIIE DE AzEVEDO. 



CAUSERIES 

Tersos a Angélica 

—Quando às horas do sol posto 
vês o dia desmaiar, 
Isempre triste a meditar, 
sempre as lagrimas no rostol 

— Escuta, são as lagrimas 
um peso que sai (ralma, 
e que— celeste bálsamo — 
nas ulceras se espalma... 

—Mas em faces, cujo encanto 
rochas pôde commover, 
dóc me tanto, linda, o ver 
a cair em lio o pranto!... 

—Também da noule o róscio 
orvalha a linda flor, 
e a flor não pende languida, 
nem perde a viva cor. 

—Mas se a noute assim espalha 
sobre a rosa o seu frescor, 
^qual a noule, branca flor, 
que de lagrimas te orvalha? 

— Não é a noule!— volta-le 
alem para o occidenie: 
choro aos adeuses últimos 
do astro resplendente. 

- Oh! não chores, que se o astro 

ao seu leito desce ja, 

amanhã Ic sorrírtá, 

branca estatua de alabastro. 

—Mas quando sobre os píncaros 
do monte repontar, 
<,quem sabe se inda Angélica 
tu saberás amar? ! 

— l\Iarchc embora o lírio na hasle, 
fnja o sol, loldem-sc os céus... 
6 eterno como Deus 
este amor que me inspiraste. 



Vizcu, 18G6. 



Cândido Figueiredo. 



SEM TITULO 

Viste ao serão a douda borboleta 

volitar descuidada, 
c arder depois na luz... Tiveste pena 

e disseste:— coitada! 

E cu (jue a Ioda a hora ardo nas chammas 

(Vvíiiío. olhar adorado, 
oh! quando te ouvirei compadecida 

dizer lambem:— coitado! 



Vizeu 18G5. 



Cândido Figueiuedo. 



Typ. l'"ranro I'(jrlugucza, líua do Tliueouro VcUio, (l. 



I 



16 



o PANORAMA 



\% 







CAMARÁ MUMCU'AL 1)R DERBY 

M uiu (los mais nolavois cdiUcios (rcsla liiula 
cidade ingleza, capilal do condado do mesmo nomo, 
siluada á boira do DciwímU no moio de unia 



romanlíca palzagom, de campinas verdejantes cotíi^ 
são Iodas as da' Iníiiaíei-ra, paiz a (lue o céu nog'^ 
os sorrisos do claro sol meiidional, mas onde a 
leria se rcvesle, em compensarão, de um ir.anlo 
de ÍVesca o viçosíssima \erdura, de (jue se nã) 



122 



O PANORAMA 



podem ufanar as torras do sul, queimadas e rc- 
queimadas pelos beijos de fogo do asiro ardenlis- 
simo, que as inunda de luz. 

O condado de Derby um dos do norle de Ingla- 
terra e dislinga-se bem cnlre Inglalerra e (jiã- 
Brelanha; porque esla ilha compõe-se de dois reinos 
unidos, Escócia e Inglaterra, licando aquella ao 
norle, esta ao sul, deforma que dizendo «noite de 
Inglaterra», dizemos «sul da Escócia») o condado de 
Derbv, pois, c um dos mais curiosos e mais o\n\- 
lentosdo território inglez; fazem-n'o assim assuas 
formosas paizagcns, os seus magnificos prados, as 
vastas cavei-nas das suas montanhas, as numeio- 
sas cataraclas dos seus rios, o desenvolvimento 
prodigioso da sua agricultura, o grau elevadoaque 
chegou a sua industria manufactureira. Abundam 
no seu território as aguas mineraes, as minas e 
as i)edreiras(le mármore; a exploiação d'essas mi- 
nas, e a criarão de gcidos formam uma grande 
parle da ri(iuí'za do condado; assuas manufacturas 
de algodão, seda, clã completam a lista das fontes 
principaes da sua opulência e importância. 

A população do condado ó avaliada em duzen- 
tas e sessenta mil almas, e a da sua capital em 
quarenta mil. Conia eslacidadomuilosedilieiosnola- 
vcis, entrcos quaescilaremosalgumas igrejas, uma 
das quacs, a de lodosos Santos, otTercce um bellissi- 
nio espécimen de archithecluia golkica, o hospi- 
tal, a cadeia, o theatro, a sala das r( uniões pu- 
blicas, e a casa da camará, odificio de nobre as- 
pecto, como os leitores podem ver pela gi-avura 
que lhes apresentamos 

Conta esta cidade fabricas imporlanles de sedas 
e algodões, e uma fabrica de porcelanas, cujos pro- 
duclos rivalisam com os da China pela beíleza da 
massa e vi\acidade das cores. 

Nos arredoies de Derby, matizam a paízagem 
magnificos palácios, habitados pelos membros da 
aristocracia ingleza, residências enire as quacs 
se tornam notáveis pela sumptuosidade o palácio 
de Keddieston-house, e jx-la sumptuosidade ainc^ 
maior, e pelas recordações históricas que o illu-' 
minam, o palácio de 6'Ar/.s?roW/í, residência do du- 
(jue de Devonshirc,c que sérvio outr'ora de j)risão 
á formosa, á sympathica, á infeliz Maria Sluart. 



OS TRÊS ESTADOS 

Assim como nos thcatros, a um signal dado por 
um dos piincipaes personagens, a scena vè-sc ins- 
tantancamenlt.' invadida pelos coros ou com|)arsas, 
que es|)eram a(|uelle signal entr(! bastidores, tal, 
ao rcsoar o grito da princesa, se precipitaram no 
quarto un.a multidão de escravos, pagens e es- 
cudeiros. 

Ainda apertava a mão da piincesa, ao lado de 
cujo leito me achawa ajoelhado. O meu delicio era, 
pois, llagrante e o castigo não se deveria fazer es- 
perar. 

—O que succede? exclamou com voz imperio.sa 
um velho es(|ualido envolto em um magnilico cham- 
bre de cachemiia e com uma espada nua na mão. 

Immedialamenle foi inteirado do successo. 



— E claro, pois, continuou o velho, que esse 
miserável ousou levantar os olhos para a i)rincesa 
e piocurava levar a cabo seus criminosos intentos. 
Vós toilos, sois testemunhas do crime. Sede lam- 
bem juizes. Ouo pena merece este escravo? 

Aquella turba de servidores exclamou a uma 
voz, como um coro bem ensaiado: 

— A morte! 

— Oue morte? Empalado, enforcado, (lueimado, 
esquartejado, ou morto ás [)áoladas como um 
cão? 

— A morte do gelo! repetio o còi'0. 

— Seja! Levai-o d'aqui e cumpra-sc a senten- 
ça sem dilação. 

Aquelles energúmenos precipilaram-se sobre 
mim e a empuxões me lizeram sair do camarim, 
atravessar varias salas, depois a galeria, descer a 
escada c passar o vestibulo. 

Então apresentou-sc-me á vista um espectáculo 
surprehendente! 

Era uma immensa planície, sem limites, sem 
horisonle, coberta completamente de neve, cuja al- 
vura brilhava pallidamentc á luz débil do cre|»us- 
culo da manhã. Nem uma pedra, nem uma arvore, 
nem uma habitação interrompiam a mageslosa uni- 
formidade d'aquelle quadro, sobre o (lual se es- 
tendia o firmamento transparente, onde começa- 
vam a empallidecer as cslrcllas ante os primeiros 
raios do dia. 

Os meus olhos não se cançavam de contemplar 
aquelle maravilhoso panorama. 

No enlrelanlo, os (jueme conduziam haviam plan- 
tado na neve um grande madeiro. Terminada es- 
la operação de^pa^aram-me de lodos os meus ves- 
tidos e ataram-me fortemente áquelle poste. Então 
deram-sc as mãos e começaram, em roda de mim, 
uma dança frenética, infeinal, dando grilos des- 
compassados e gargalhadas estridentes. 

Eu sentia um frio horrível, espantoso! 

— Agua! agua! gritaram os meus verdugos. 

A estes grilos alguns da comitiva desapparecc- 
ram para voltarem d'ahi a pouco com grandes 
vasilhas cheias de agua. 

Eoi então que lompeu o verdadeiro sujiplicio. 

Começaram, com* refinada crueldade, vertendo 
sobre mim. lentamente ea pouco e pouco o li(|ui- 
do que, n'aquella temperatura, ao cair se con- 
gelava. 

E a dança, c as gargalhadas continuavam sem 
interrupção. 

rareci'a que a agua me abrasava as espadoas 
como um ferro candente ao cair sobre ellas. 

O sangue legelava-se-mc nas veias, os mem- 
bros a(l<|uiriam |)aulalinamente a dureza e a soli- 
dez do gelo, o cíilor abandonava-me pouco a pou- 
co, a vida extinguia-se e eu sentia que ella me fu- 

'"ia. 

^ Ao cabo de alguns minutos d'aquellc horrível 
tormento, o meu corpo assemelhava-se a um nm- 
Iréco informe de gelo nauseabundo e frio. 

E comtudo, minha alma conlinuava habitando 
n'aquelle disforme corpo e sentia ludo o que se 
jtassava em roda de mim. 



o PANORAMA 



'lâ3 



Assim, ouvi os meus algozes, que diziam: 

— MorrcuI Acabou-se-nos o diveilimenlo. 

E {Icsappaioceram. 

A vasla planura licou solilaria e só eslorvava a 
sua monolonia o grande madeiro a cujos pés eu 
jnzia convertido u'um deforme pedaço de gelo. 

ISão posso dizer quanlo lempo assim eslive. 

Por íim um raio de sol illuminou aquelle hori- 
sonle de bruma e neve, deslumbiando a visla ao 
rellcclir-sen'esla. 

Quando o doce calor do aslro do dia chegou a 
temperar o frio que eu tinha, experimentei um 
consolo inexplicável. 

A neve começava a derreler-se e a verde alfom- 
bra do prado apparecia pouco a pouco. 

Ima idèa desconsoladora se apoderou de mim 
ao ver isto. Sou um bocado degelo, pensei, e o sol 
vai derreter-me. 

Ouiz mover-me. Impossível. Era uma estatua 
dura como o mármore. 

A neve havia formado um arroio que se desli- 
sava por entre a herva. 

Se me derreto, continuei pensando, irei com 
esse arroio até ao rio e do rio ao mar. 

Não tardou muito lempo que não augmentasse 
o calor do sol. Senti que o gelo do meu corpo 
começava a abrandar. Depois fui-me conver- 
tendo em liquido, perdendo pouco a pouco o es- 
tado solido. E, como o havia adivinhado, uni-me 
á neve derretida que formava o arroio. 

Oue sensação tão agradável! Sentia uma inef- 
favel doçura ao ver a fácil mobilidade do meu 
corpo. 

— Vem cbmnosco, me disseram as aguas do 
arroio. Vamos ver as margens do rio para nos per- 
dermos depois na immensidade do oceano. 

Com elfeilo, em pouco o arroio juntou suas aguas 
ás do rio e me arrastaram pela corrente d'eslc. 
Milhares de tlores desconhecidas ciesciam por entre 
os juncos de suas margens e os passarinhos salta- 
vam pela relva. Alguma vaca, cujo lombo parecia 
nevado, ou algum cervo de grandes hastes vinham 
beber ao rio. Um mancebo cantava em quanto a 
corrente fazia andar o seu tosco barco; e era tão 
formoso o prado, tão odoríferas as llores, tão 
bello o ceu azul (|ue se retlecliaem nós, aguas do 
rio, e tão agradável o calor do sol que |)arecia a- 
cariciar-nos coiii os seus iaics,queme sentia feliz, 
muito feliz! 



— Adeos, me disseram as aguas que antes me ti- 
nham fallado. Vamos correr o espaço e vaguear 
sobre as nuvens. Prestes viiás fazer-nos compa- 
nhia. Adeos. 

E com etVeilo, evaporaram-se ao dizerem-me 
estas palavras e desappareceram no ar. 

Brevemente me chegou a vez. Senti que me torna- 
va mais incorpóreo, mais impalpável, peidendo a 
consistência, porém adquirindo mais mobilidade 
e subtileza. 

Tinha passado ao estado de gaz. 

As lilhas do ar me receberam em seus braços 



e subimos ás alturas por um raio de sol que nos 
servia de escala. A sua luz os nossos vapores se 
lingiiam de uma formosa cor de violeta que en- 
cantava a vista. 

— Nós, me diziam algumas filhas do ar, somos 
os aromas que exhalam as llores dos prados. 

— Nós, murmuravam outras, somos as harmonias 
do espaço. 

— Somos suspiros de anu)r, diziam outras. 

— Do mar nascemos ao evaporarmo-nos. 

E entretanto, percorríamos o Ilrmamento, len- 
tamente levadas nas azas da brisa. 

De repente senti um hoi-rivel sacudimento. Todas 
nós estremecemos comprehendendo o pei'igo. 

O furacão chegava mais furioso que nunca: os 
seus braços robustos impelliram-noscom violência. 

Súbito, sentimos que o fogo do raio rasgava a 
nuvem que formávamos. E levadas pelo furacão, 
andando mais rápidas do que o pensamento pela 
immensidade do espaço, vimos ao longe outra 
nuvem impellida para nós com a mesma violên- 
cia que nós para ella. Tremíamos de medo, po- 
rém era-nos impossível evitar a sorte. 

Eram sem duvida dois furacões inimigos que 
vinham ás mãos. A lucta foi espantosa. A nu- 
vem contraria avançava para nós cada vez mais 
rápida e ameaçadora, vomitando raios medonhos 
e brilhantes centelhas que vinham ferir-nos com 
o seu fogo. Nós imitando os seus rugidos de có- 
lera, e seus silvos discordantes lhe lançávamos 
também ardentes i'aios para deler-lhe o andar. 
Tudo em vão : cada vez i)arecia mais perto, e 
ameaçava deflruir-nos. 

O que ia ser de nós quando as duas nuvens se 
encontrassem? 

Os raios mulliplicavam-se. A nuvem vinha sobre 
nós com horroi'oso fragor. Um momento mais 
e a espantosa catastrophe verilicava-se. 

Passou um segundo de cruel agonia. 

As duas nuvens combateram. Ambas se quei- 
maram no fogo dos seus raios, e bramindo de cólera 
se aniquilaram com a sua violência. 

Senti um esp?nloso abalo, julguei arder no fogo 
do raio, o Ímpeto do choque desfez os meus áto- 
mos gazosos... 



E acordei, 



UM DIA DE INVERNO 

niediluçào 

A neve estendeu sobre o solo a sua pallida mor- 
talha. Os alegres habitantes dos ares desapparece- 
ram. O insecto já não zumbe ao sol. Parece que 
a morte iuvadio a natureza. 

Ouanto esla aj)parencia é enganadora, e nos 
occulta, ó Deos, os mysterios da tua actividade! 
No momento em que a vida parece suspensa exterior- 
mente, tu, nas profundezas inaccessiveis á vista, lhe 
fazes opeiar osseus milagres. Os renovos que tens 
feito nascer sobre os ramos, no momento em que as 
folhas seccas vacillavam sobre as hastes, intume- 
cem-se lentamente sob o seu manto protector epre- 



1^4 



O PANORAMA 



sagiam, no meio da dosohição do inverno, as ri- 
quezas da priínavcia. 

Assim a correnle da vida proseguc no s"io da 
humanidade, nas próprias épocas em que parece 
eslar cm com|)li'[a esla^nação. >'a familia, na so- 
cicdailí', a obra do desenvolvimcnlo e do progi-esso 
avança sem inlerrupefio. A familia renova-sc pelas 
creanras, giala esi)eiança do fuluio, quando os 
seus clieles abatidos pela idade e pelas enfermi- 
dades se diiigem para o lumulo. 

Logo que uma sociedade envelhecida, uma ci 
vilisarão anliquada, que parece ler esgolado Ioda 
a sci\a de um povo, soflie a decadência e a disso- 
lução, uma nova sociedade, cheia de ardor e de 
vitalitlade, germina e brola, e prepara em silencio 
uuia nova era de piosperidade. 

Cousa alguma podei ia, pois, ó Pai lodo podero- 
so, abalar a nossa confiança no fuluro. Como a 
iunocenle andoiiiiha nascida sob as nossas telhas 
parlio esle oulomno, dirigindo-se para regiões que 
nunca ^io, mas onde a conduzio o insliísclo que 
lhe desle, onde achou um sol mais agiadavcl e 
suslenlo mais abundanie, nós lambem queremos 
caminhar, sob tua palernal direcção, para uma or- 
dem mellioi- de cousas, certos de atlingir e de 
achar ahi uma compensação superabundante a 
nossos esforços, a nossas fadigas, a nossos soflVi- 
menios. 

A NATUREZA 

O espectáculo da natureza não c a prova única 
da vontade e do poder divinos; mas é a mais evi- 
dente para o maior numero dos homens: allen- 
tando nas maravilhas da creação, os seus olhos. 
assim como a sua inlelligencia proclamam o Deos 
creador. 

As oi)jecçõcs cmbolam-se, os sophismas dcspe- 
daçam-se contra um argumento sensível e palpá- 
vel, (jue não exige esforço algum de abstracção. 
Kis aipii a obra: acredilo no obreiro. A obra e 
cunho de giaiideza, bondade e pi-evidcncia: creio 
que o obrei IO e todo podei-oso, todo sábio, todo 
bom. 

^.Us céos, onde a (li\ina mão tem suspensas 
niilliões de estrellas, onde collocou, como sob uma 
abobada reluzente, o sol (|ueallumia o nosso mun- 
do; a terra, nuliix bemíVilora, amiga cuidadosa, 
que esparge os thesouros do seu seio em íloies 
odorileras, cm f:utos deliciosos; o mar, elemento 
lerrivcl e enganador, que faz \ãos esforços paia 
aricndjar a sua prisão, que b.ame agitado pela 
loiíiHMíla, ou SC nioslia lizo cfnío um espelho; 
tudo isto, cm lim, não nos está a todo o momento 
patenteando o Supremo l'oder, caniando ;í sua 
gloria, obrigando-nosa reverenciaro Deos occullo? 

K se, commovidos d'(ste grande esi)eclarulo, 
jiroruramos estudar-lhe o machiiiisuio, com (jue 
admiração não notamos nós a oídem (jue susl>'nla 
o univer.sol O astro, sempre o mesmo c sempre 
novo, como vem lodos os dias mimosear-nos com 
os brilhantes raios da sna luz fecundai Como o 
oceano, escravo subnntlido, a\ança e se ii-lii-a ás 



horas que lhe lixa uma lei mysteriosa! Como a lerra, 
para produzir o trigo, sustento do homem, recebe 
annualmente os thesouros do ar, chuva e calor, 
alimenta a semente que o lavrador lhe confia, fal-a 
s:ibir em herva, em espiga, em dourada ceifai 

Air. maldito o.coi-ação rebelde (jue se nãoabi'issc 
a jirovas tão claras; maldito o liomem que não 
dobrasse os joelhos diante do aulhor(l'esIas mara- 
vilhas e que não rendesse homenagem ao Cieador, 
ao Conser\ador do uiiiversol ^ ■ 



IXSTRUCÇÃO NA LNOIA 

lia alguns annos a esta pai-le que os índios se 
mostram ávidos de inslrueção. As creanças fre- 
íjuentam assiduamente as escolas c os colleiíiosde 
Calculla, VounsM, Dellii, Agra cBénarés. Um ha- 
biíanle de Surale deu ti-inla contos de reis pai a a 
creação de um collegio n'esta cidade; um Paisi 
oífeieceu vinte e quatro contos, para seiem appli- 
cados na educação de cinco Índios em Inglaleira; 
Piema-Chodra deu noventa contos para o eslabc- 
lecimento de uma bibliolheca em líombaim; Mo- 
hamed-llabil-Bhay legou cento e treze contos para 
a fundação de uma escola na mesma cidade. Em 
Lacknau, Labore, Barhampur, Bombaim, Allaha- 
bad, efe, todos os dias apparecem novas casas de 
intiucção. Lmfim, parece que o mundo velho ac- 
coidou do profundo lethargo em que jazia e quer 
tomar jiarte na grande obia da civilisação. 



VOLTAIRE 

Voltaire é um d'essos vultos gigantes que á pro- 
porção que os séculos decorrem vão 'patenteando 
novas bellezas. Como as estatuas colossaesquc, vis- 
tas ao perto, feiem pelo (jue se nos aíligura incor- 
recção c rudesa, mas que a distancia deslumbiam 
e avassallam |)ela mageslade do porte e j)ela har- 
monia das formas, assim elle hoje se nosaj)resenla, 
giandioso e sublime. 

V. Hugo veibeiou-o aos vinte um annos, jiara 
a( s sessenla^odivinisar. O (|ue lhe dera mostras de 
um iconoclasta, Iransliguiou-se-lhe em apostolo; 
o que lhe pareceia vibrar na dextra o camarlello der- 
rubador das crenças, revelou-se-Ihe mais tarde 
como obreiro do piogresso, do bem, da liberdade 
na justiça, da ledempção social. 

A posleiidade quando observa 'eslas creaturas 
prodigiosas, não tem que altenlar nas leves ma- 
culas ([ue |)od('m emi)anar-lh(>s o semblante; deve 
só ver a maior ou nieuor intensidade do rayo lu- 
minoso (jue lhes dardejou na fronte, e (|ue sérvio 
de farol e de estrella aos peiegrinos do mundo. 

Francisco Maria Arouel, celebre pelo nome de 
Voltaire, nasceu quando o muudo illuslrado come- 
çava a respirar 1ím-( mente á sombra de Loeke e 
de Newton, noiiiiiíbrokc popularisara a philoso- 
pliia de Sliaftersbui y, l{a\le ainda não esfriara na 
sua cova. o norte agitava-se o indagava o porque 
das cousas, com a severidade da razão inflexível, 
e a França vergava sob a iiilhieneia jesuilica. 

K preciso insi^lirmos no esj)irito do século XVIll 



o PANORAMA 



i25 




Voltaire 

para podarmos comprehendcr a missão de Vol- 
taire. 

O século AYIII está enlallado enlie Luiz \1V 
e liuonaparle. É uma quadra de formenlação, de 
elaboração vasíissima e profunda, em que as fezes 
sobrenadam, em que as ioi'pozas abundam, em que 
os ânimos periclilam, em que vemos ouzados os 
mais robustos espíritos; quadra, emlim, de gesta- 
ção, cujos symplomas são em tudo análogos aos 
que a historia do século XV nos apresenta muitas 
vezes. 

A sua face politica é esta: — «Escandiílos da Re- 
gência, ignominias de Luiz XV, despotismo no mi- 
nistério, violência nos paikimenlos, pertlida a for- 
ça, a corrupção moial descendo da cabeça ás en- 
tranhas, da nobreza ao povo; os prelados cortozãos, 
os abbades galanteadorcs; a velha monarchia, a 
sociedade velha cambaleando sobre esta base com- 
mum )) 

Arouet, nascido com todo o talento dos pre- 
destinados, sentiu a necessidade de uma recoiis- 
trucção social. O génio dera-lh'o Deos; moldou-lh'o 
o século. 

O que fazer em meio da degeneração e 
da crápula? o que fazer, quando a loriente la- 
vrava desenfreada c caudalosa? deixar-se arrastar 
cu pòr-lhe dique? Lrgueu a voz, |)roclamouos di- 
reitos humanos, lidou pela veidade, soIlVeu [lor 
cila, fez d'ella a sua dama, e defendeu-a com a 
galhardia de um campeador esforçado, levantou o 
homem pela razão, e para elle fundou o grande 
monumento da civilisação moderna. 

A encyclopedia devia de ser um marco milia- 
rio; as suas quatro faces mostravam os quatro 
pontos cardeaes do j)rogresso; de cada uma d'el- 
las partia o seu defensor c operário. 



É como diz V. Hugo n'uma synthese eloquen- 
tíssima : — c( Diderol caminhava para o bello, 
Turgot para o util, Voltaire para o verdadeiro, 
liousseau para o justo ! » 

Este é que era o verdadeiro grupo philosophi- 
co. Quem grasnava, quem vociferava, quem apedre- 
java, quem se apregoava atheu e retorcia o bigode, 
eram os sophistas, os especuladores, os escrevinha- 
dores diffamalorios, os que saíam do lodo, ainda 
sujos, para manchar o edilicio a que indignamente 
se acostavam. 

Os (jue haviam protegido e amparado o Jornal 
de TvévouJí^ e a Gazeta Ecdesiastica, os (|ue ha- 
viam dado missão a Pompignan ea.Palissol para 
insultarem na academia e no thealro os philoso- 
phos da Kncyclopedia, esses taes, quando vi- 
ram succumbir a grande obra, tripudiaram 
no cumulo da sua alegria pharisaica. Depois 
veio a revolução, e esses mesmos humanitários, 
esses tonsurados de todas as épocas, foram sen- 
tar-se no adro das suas ermidas milagrosas, e pra- 
gu(jaram contra a 93 que era o parlo damnado 
da philosophia voUaireana. Coitados! Mal sabiam 
elles que a 93 era o fruclo d'aque!la arvore gran- 
diosa, amadurecido ao sol de Deos para alimento 
de lodos. O tempo encarregou-se de mostrar esta 
verdade; e o sangue do ultimo rei comprou bara- 
to a civilisação e a liberdade. 

Isto é ao que me parece, o verdadeiro sentido 
philosophico do século XVII I. Naquella época ou 
pensador ou jansenisla, ou luz ou sombra, ou fogo 
ou lodo. Ouem se não chama d'Alembert appelli- 
da-se Frèron ; quem não c Helvécio c Patouillet. 
Boileau e Racine haviam sido os poelas da Côrle; 
Voltaire devia de ser o poeta da humanidade. 

l*oeta quer dizer apostolo, no sentido remon- 
tado. 

Lis o poder dos tempos, eis a necessidade dos 
acontecimentos. Nenhum liomem apparece com o 
seu caracter definido; detinem-llfo as circumslan- 
cias. (íoldsmith diz graciosa e profundamente: «Cé- 
sar, nascido hoje, seria sargento de niilicias; Crom- 
well, talvez regedor de parochia.» 

A philosophia vollaireana e a lilha legitima do seu 
século. As torpezas da Regência criam a Revolu- 
ção, como as iniquidades dos Rorgias originam a 
Reforma. Voltaire c a grande linha de união lan- 
çada entre aquelles dois extremos, como Savona- 
rola a havia sido entre estes dois últimos. 

Tal é, se eu não me engano, a face politica ou so- 
cial de \oltaire. O seu primeiro grito de guerra 
cifra-se n'estes dois versos memoráveis: 

«Nos prèires ne sont pas cn qii'un vain pciipie p nsc. 
N(jlrc crúiluliló Tail tuulo luur scicnce." 

D'ahi resultou a lucta que se estendeu por tan- 
tos annos, e que veio terminar, ao cabo. pelo trium- 
pho completo da razão sobre os mantenedores do 
obscurantismo. 

Tiacemos agora rapidamente as principaes li- 
nhas da sua physionomia litleiaria. 

(Continua.) 

E. A. ViD.\L 



426 



O PANORAMA 



PEREZ LORENZO 

(Sccnas úa Camiiaitlin «lo México) 

(Conclusão ) 

VII 

o capitão Viaimonl franziu o sobi"ollio. 

— Senhor, disse eile, não lhe aconselho que me 
escolha para seu coníitlente. Se Alexandre Dumas 
viesse na expedição, era provável que elle accei- 
tasse com mui lo gosto o |)apel, que me quer ver 
desempenhar. As suas aventuras de corto seiviriam 
para um romance em vinte volumes, e, altendendo 
a isso, Alexandre Dumas ouvil-o-liia coiifsummo in- 
teresse. Eu, que não preciso de fazer romances, con- 
fesso-lhe que de bom grado dispenso as conliden- 
cias dos carrascos. 

Perez Lorenzo não moslrou resenlir a injuria. 

— É breve a minha historia, tornou elle, e pre- 
ciso de lh"a contar, É um moribundo quem lhe 
falia, capilão Viarmont. 

Eslss palavras produziram no official francez uma 
profunda impiessão. O mexicano possuia o con- 
dão especial de exercer umaiiicomprehensivel in- 
lluencia em todos quantos se approximavam d'elle. 
Os grandes infoi-lunios lêem eslas propriedades, 
paia assim dizermos, magnéticas. 

Silencioso, o capitão Viarmont seguio o mexi- 
cano. Os soldados francezes, com licença do co- 
ronel, e com o génio aventureiro que os caraclerisa, 
tinham debandado, escolhendo pares entre as gentis 
mexicanas, que facilmente se consolaram da inespe- 
rada substituição. O guilarreiro, recobi'ando-sedo 
susto, e percebendo que era inviolável, graças á 
sua qualidade de trovador, e á precisão que os 
dançadores tinham crelle, recostou-se de novo junto 
da fogueira, e continuou a musica interrompida. 
Só os guerrilhas, acorrentados e guardados á visla 
por quatro ou cinco senlinellas, devoravam em 
silencio a sua ira, e, vendo a facilidade com que 
as mexicanas os tinham olvidado, pensavam na- 
turalmente de si para si o que Francisco I escre- 
via nas paredes de Eonlainebleau: 

Síjnvcnl lemnic v.iric 
iJiea íol L'st qui s'y lie. 

Enlrelanlo Perez Lorenzo c o capilão Viarmont 
tinham-se aííaslado da claieira illuminada, e, in- 
lernando-se no bosque, tinham-se ido senlar junlo 
de uma pimenteiía, (|ue entornava sobre elles a 
sua urna de penetiantes aiomas. A melancólica 
musica da guitaiia, assim ouvida ao longe, re- 
soando no meio da ineílavel serenidade de uma 
noite dos trópicos, casava si; de um modo suavíssi- 
mo com a doce melodia da brisa, sus|)irando bran- 
damente nas folhas doai Noiedo. A lua, resvalando 
no azul do ceu, envolvia a paizagem no seu manto 
de cândido fulgor 

Perez Lorenzo relanceou cm torno de si um olhar 
saudoso, e como ()ue paieecu (lueicr impregnar-se 
bem na poesia immensa da sua palria, í|ue elle 
ia trocar pelas desconhecidas regiões da eterni- 
dade. 

Depois, passando a mão pela lesta, como para 



aflugenlar esse pensamento, voltou-sc para o capi- 
tão, e disse-lhe ex-abrupto: 

c(A minha vida resume-scem duas palavras só 
«Amor e vingança.» Não leva tempo a narrar. Nasci 
ifesla formo.^a terra, que tão dilaceiada tem sido 
pelas facções. Conservei-me estranho sempre á 
agilação revolucionaria. iNão podia mesmo com- 
prehender a frenética loucura, que as vaidades da 
polilica accendiam no aninio dos meus patrícios. 
Lu iirefeiia apenas as doces loucuras do amor. 
Ouem me diria que havia de chegar um instante 
em que teria de me arrojar a esse mar das revo- 
luções, cujas tempestades me apavoravam, cujos 
sorrisos mentirosos me não -conseguiam allrahír? 
Ah! quando a procella ruge embravecida, quando 
as ondas quebram furiosas nos fraguedos, despe- 
daçam juntamente o navio que as alíronla, e o 
pobre barquinho fundeado, que se abriga no porto. 

aAmei quasi desde criança uma formosa meni- 
na, minha visinha. Cármen se chamava ella. Era 
linda como os anjos, casta e meiga como a Virgem 
da Guadalupe, liequeslava-a também esseJuan Pa- 
blo, cujo cadáver se baloiça agora ao sopro das 
auras; masjá então era conhecido pela sua Índole 
sanguinária, e dizia-se que a sua carabina não estava 
immaculada. Vingativo e dissimulado, a mais leve 
injuria, que lhe fosse dirigida, fuava para sempre 
registrada na sua memoria; mas sorria-se para 
aquelle que o injuriava, até que chegasse o ins- 
tante em que podesse traiçoeiramente, emboscado 
por trás de uma sebe, atravessar o peito do inimi- 
go, que o olvidara já, com duas bailas da sua ca- 
rabina, certeira como se o demónio mesmo lhe di- 
rigisse a pontaria. 

«Cármen despresava completamente o seu ga- 
lanteador. Seus pais preferiam vel-a morta a vel-a 
unida a tão vil creatura. Eu, pelo contrario, era 
acceiío com muity gosto por toda a família. Não 
houve por conseguinte a mínima opposição ao nosso 
casamento. Mas, no dia em que nos recebemos em 
Medellin, Juan Pabloesperou-nos ásaida da igreja, 
edeu-nos os parabéns, sorrindo-seamavelmente com 
esse sorriso, que para tantos signilicara a morte. 

cOs meus amigos empallideceram ao verem-n'p, 
e um d'elles, apj)roxímando-se de mim, disse-me 
em voz baixa. «Acautella-le, I'erez Lorenzo !ln- 
Iroduzio-se a víbora nas llores do teu dia nupcial.» 
Lu encolhi os hombros, e relanceei um terno olhar 
para a minha des|)osada. Ao vel-a Ião bella com 
a sua grinalda de llores de larangeira, com Ião doce 
sorriso nos lábios de romã, com Ião nacaradas ro- 
sas nas faces levemente morenas, quem havia de 
dizer que Ião cedo m'a havia de roubar Deus! Ai! 
(luandí» o ceu eslá azul, e as eslrellas scintillam, 
como fruclos de oiro, por enire a folhagem das 
arvores, quem se lembra (jue ha de vir o bulcão 
tuivar essa augusia serenidade?» 

Perez Lorenzo inteirompeu-se por um inslante 
e duas lagrimas deslisaiam-lhe dos olhos, lanto 
[empo esbrazeados pelo sopro das nuís paixões. A 
proximidade da morte sollava as lagrimas repre- 
zadas, que lavariam, quem sabe! aos olhos de 
Deus misericordioso, os crimes da sua existência. 



o PANORAMA 



\TÍ 



Viarmontouvia-ocom inlerossc, singular influen- 
cia (lo amor! Essa palavra só basla para levantar 
na nossa eslima o criminoso mais vil. O amor e o 
palriolismo tiansformam n'um lieroe um assas- 
sino. 

«Correram os primeiros mezes do num casa- 
menlo na mais inalterável tranquillidade. Todo 
entregue ás inebriantes delicias d'esse amor, que fo- 
ra a minha vida, nem pensei uma vez só nas amea- 
ças, (jue o sorriso de Jnan Pablo encerrava em 
si. Os meus pioprios amigos, se bem (|ue mais caulel- 
losos chegaram comtudo a pensar que o meu vinga- 
tivo rival linha olvidado, ou pelo menos adiado indi- 
linidamente a sua vingança. 

«Foi por este tempo que rebentou a guerra en- 
tre o México c as três potencias européas. Não lhe 
contarei as particularidades d'ella. Sabe-as melhor 
do que eu, a quem, devo confessa-lo, eiam com- 
pletamente indiíTerentes esses grandes abalos polí- 
ticos. Uma noticia me preoccupava muito mais do 
que o desembaíque do exeicito francez, inglez, e 
hespanhol, do que o convénio da Soledade, do 
que o desastre do general Lorencez, do que a 
chegada do general Forey. Essa noticia, pela qual 
eu olvidava lodos os desastres do meu paiz, essa 
noticia que me fazia exultar quando a pátria es- 
tava em lucto, essa noticia ineílavel dera-m'a Cár- 
men, havia pouco tempo, com as faces affbgueadas 
nas rosas do pudor; ia ser pai! A imagem d'esse 
anjo alvoe loiro, :)endui-adodo seio malei-nal, como 
uma abelha do cálice de um lyrio, não me dei- 
xava ver a imagem do México vertendo sangue pelas 
largas fendas, que lhe abiia a espada do estran- 
geiro. Casligou-me Deus talvez poi- essa culpável 
indiflerença. 

«Juan Pablo, desde o princij)io da lucla, ce- 
dendo aos seus inslinctos de rapina, lançara-se, 
acompanhado poialguns da sua laia, nas florestas, 
onde reunio denlio em breve uma forte gueriilha. 
Os incendios,as devastações começaram a assignalar 
a passagem d'esse teirivel bando. Ouando de sú- 
bito se via o ceu avermelhado das bandas do norte, 
do sul, ou do oriente, quando uma lingua de fogo 
brotava nas [)lanlações, e, coriendo com a rapidez 
do relâmpago lambia os cafezaes, ou os canaviaes 
do assucar, já se sabia que n'essa noito vaguea- 
ra Juan Pablo, com o seu facho falai, nas campi- 
nas dos arredores de Medellin. 

«Mas uma coisa se notava, Juan Pablo escolhia 
escru|)ulosamenle as plantações a que deitava fogo, 
c o raio da sua ira caía sempre sobre aquelles 
que se tinham ligado ao cslrangeiío. Juan Pablo 
não queria por forma alguma tirar aos seus actos 
mais terríveis a cór patriótica. Nisso estava a sua 
segurança. Se o não fizesse não tardaria muito em ser 
entregue nas mãos dos Eiancezes. Mas o astuto 
bandido linha as sympalhias da população, (juc 
via n'elle o heroe e o vingador da sua naciona- 
lidade. 

«Por isso eu estava seguro. Ainda que indif- 
fercnte aos negócios políticos, a marcha Iriumphal 
de Forey linha produzido em mim uma profunda 
impressão. Acordou no meu espirito com certa vi- 



vacidade o sentimento patriótico, ao ver para 
sempre destruída a republica mexicana. Não oc- 
cullei as minhas sympalhias pela causa nacional, 
.e cheguei a dizer que, se me não retivessem minha 
esposa e meu lilhofjá fallava n'essa querida crian- 
ça como se a tivesse nos braços) iria alislai'-meno 
exercito da independência. Estes sentimentos ex- 
pressos em voz alta coUccavam-mc até debaixo da 
severa vigilância da policia franceza. De Juan Pa- 
blo, o patriota, que podia eu lemer? 

«Uma noite eslava eu junto da janella conver- 
sando com minha esposa e fazendo mil projectos 
sobre a futura sorle do nosso filhinho, quando os 
ladridos desesperados dos cães nos revelaram que 
havia alguma coisa de novo. Cármen descorou, e 
chegou-se para mim, relanceando em torno de si 
os olhos, em que se relleclia um vago terror. 

«As porias da herdade eslava m abeilas. Como 
disse, nada julgava ler que recear. Mas, conhecen- 
do a inlelligencia dos cães,suppuz que eram fran- 
cezes os visitantes. Os meus cães consagravam 
um ódio mortal ao uniforme fiancez. 

« — Alguma visita domiciliaria da policia! disse 
eu, encolhendo os hombros. 

«E dirigi-me para a poria, a fim de a abrir cu 
mesmo. 

«Mas Cármen cingio-mc com os braços, e, toda 
tremula como se um estranho presontiraenlo a assal- 
tasse, não consenlio que eu desse um passo, e, 
escondendo a cabeça no meu peito, desatou a cho- 
rar. 

«Os cães linham-se calado de súbito. Pieinava 
na habitação um profundo silencio, mas um d'es- 
les silêncios que precedem as tempestades. 

ccRfleclivamente não duiou muito a calmaria. 
As portas da sala abriram-se com fracasso, e vi 
luzirem na sonbraas pupillas de tigres dos guer- 
rilhas mexicanos, que se afíaslaram |)ara deixarem 
passar um homem, que avançou, sorrind»-se gi'a- 
ciosamente, até ao meio da sala. 

«Cármen soltou um gi-ito horrível, eu brami um 
rugido sufíocado. Esse homem era Juan Pablo. 

«Soara emlim a hora da vingança. A chamma, 
que eu julgara abafada debaixo das cinzas, fora 
lavrando, lavrando, ate irromper medonha, fatal, 
na própria accasião em ([ue seriam mais pungentes 
para mim as agonias da desgraça. 

«Oue lhe hei de eu dizer mais, capitão? conti- 
nuou Perez Lorenzo com voz sulTocada. Adivinha 
de certo que, a pezar da minha resistência, fui 
agariado, prezo a uma arvore, e que tive de as- 
sistir lugindo de furor ao incêndio da jilanlação. 
Mas o (|ue não adivinha de ccilo é que, jior um 
requinte inaudito de barbaridade, tive de assistir 
á deshonra, á jjrofanação da casta companheira do 
meu leito, que a vi csto'rcer-se, louca de desesj)ero, 
nos biaços dos infames, c que elles, possuídos 
verdadeiramente da embriaguez do ciimc, depois 
■de terem saciado os seus torpes appetiles, a sua bru- 
ta sensualidade, rasgaram o ventre de Cármen, e ar- 
rancando das lépidas entranhas, santo ninho onde 
|)alpitava ainda implume essa cândida avesinha 
(jue havia de ser a pomba da nossa arca, arrancan- 



i28 



O PANORAMA 



do o feio informe, arrojaram-m'o ao roslo, rindo 
com um riso na realidade satânico. (1)» 

— Horrorl exclamou o capitão Viarmonterguen- 
do-se convulso e pallido. 

«Abl compreiíende agora capitão, continuou 
Porez Lorenzo n'um l>)ngo c angustioso soluço, 
comprehende a inllexibiiidade, a tenacidade, a cruel- 
dade com que cu persegui os assassinos, o de- 
leite amargo que eu senti cm assistir a cada uma 
das suas torturas, em os vei- eslorcerem-se lambem, 
blaspliemando, nos biaços da morte? Alil mas 
nem lhes paguei a millesima parle das agonias, 
que me lizeram soflVer. Km compensação abri-lhes as 
portas do inferno, e, se esta vingança cruel m'as 
abre lambem, consolai-me-liei (kischammas eter- 
nas, vendo-os soIVrerem a meu lado. 

ff A minba missão está cum|)rida no mundo, capitão 
Viarmont, continuou Perez l.orenzo levanlando-se. 
ISão me considere como um assassino vulgar. Pen- 
se alguma vez em mim, e se o fazer, reze um 
padre-nosso por alma d'esle desgraçado, que 
o acaso lhe atravessou no caminho, como um pássa- 
ro agourei 10». 

E, deixando ficar o capitão Viarnionl ainda de- 
baixo do pezo da sinistra confidencia, desappare- 
ceu nos recessos da floresta. 

D'ahi a pouco ouvio-se um liio do pislola. Pe- 
rez Lorenzo cumprira a sua palavra. Depois de 
ler terminado a sua vingança, deixava o mundo, 
e ia, coníiado na misericórdia divina, navegar no 
sombrio oceano da eternidade. 

Y.armonl limpou o suor, que lhe escorria em ba- 
gas pela fronte, depois, como os coi^nelas fi'ance- 
zes tocavam já a reunir, dirigiu-se vagarosa- 
mente para a clareira. 

l)'ahi a meia iioia entravam em Medellin. Ain- 
da durava o baile em casa de 1). Ramon 
• Muitos oíliciaes, lomaiulo apenas o cuidado de 
escoviu-em o falo rapidamente, A ollaiam, com a /«- 
ó-oMCíVí/ícc do caracter fiancez a lançar-se no turbilhão 
das valsas. Mas, com grande espanto do coronel 
iJupin, o capitão Viarmont, em vez de seguir o 
exemplo dos seus camaiadas, vcio-llie pedir licença 
para dispor de oito soldados n'uma peíjuena ex- 
j)edição, que nada linha de guerieira. 

— E D. Doloios (jue o espera? disse Dupin de- 
pois de saber que se tratava de dar se|)ullura 
a Perez Lorenzo, cuja histoi ia clle conhecera ainda 
antes do capitão. 

— Qualquer dos meus camaradas me subslituiiá, 
coronel, respondeu. Viarmont encolhendo os hom- 
bros, Dolores lembra-se tanto de mim, como a 
borboleta se lembra da poeira inipaljjavel (jue lhe 
poisa nas azas. 

D'ahi a uma hora, Viarmont, acompanhado por 
oito soldados c um padre, chegava ao sitio em (jue 
Perez Lorenzo se tinha suicidado. Seria impossí- 
vel conhecel-o, se o não Iraliissí; o fato; o infeliz 
fizera saltar os miolos com um tiro de pislola. . 

Ouando o corpo foi enterrado n'uma cova, (pie 
os soldados alli mesmo abriram, e que o padre 
começou a psalmear as suas orações sobre a ler- 

(1) Não (ihanUaio Lorrorcs. Lsle fuclo c Icituol. 



ra remechida de fresco, Viarmont affaslou-se um 
pouco, e, deixando descairá cabeça sobre o peito, 
tilou os olhos no ceu azul, onde as eslrellas co- 
meçavam a desmaiar com a approximação da ai- 
voiada. 

Kntão das pali)ebi;as do valente deslisou uma 
lagrima silenciosa. É porque n"esse momento via 
a guerra debaixo do seu aspecto hediondo, e em 
vez das pompas da ovação, do esplendor do sol 
das batalhas, dos gritos davicloria, do enthusias- 
mo das cargas, via a dois passos de si a cova hu- 
milde de um homem, a quem as vinganças hor- 
ríveis, a que o demónio da guerra dá latitude, 
tinham arrojado para fora do seu lar Iranquillo, 
e tinham ensanguentado a vida, que podia ser 
para elle uma benção do Deus bom. 

E depois o penscimenlo voou-lhe para as terras 
da (iuyenna, c vio o ninho immaculado da familia 
onde só elle faltava, c pensou que um dia podia o 
sangue manchar as alvas corlinas do L-ilo de sua 
irmã, o incêndio passeiar os seus fachos rúbidos 
pelos tectos das granjas, pelas loiras messes dos 
campos, e o i)unhal (Jo guerrilha lampc^jar furioso 
sobre o peito indefezo de sua velha mãi, como o 
punhal lampejara sobre o peito de Cármen, como 
o incêndio devoíara as plantações de Perez Lorenzo, 
como o sangue manchara as cortinas d'esse Ihala- 
mo, doce asylo de um casto amor. 

\\ |)or isso a lagrima silenciosa deslisava dos 
olhos do valente! 

NOTA 

Transcrevo em seguida o [lacho da P.eiisla dos Dois 
Mundos, qiio sorvio de iiasc para este romance. 

(i|,c 8 mars ISG.'}, iiii Rspap;iio!, dti nom de 1'crez Lo- 
renzo, SC prcsenlail á la ii;raiid'gar(ie. l)c íirosses larmcs 
coulaicnl de. ses yeus.; sa lijíiirc pàlc el maigrc accusait 
la duuieui;. II demanda á elrcí reni en i)arlictilier par te 
colonel. Á peine inlroduil dans lactente: Veux-lu nic ven- 
ger? lui di[-il, 

.Favais une maisonellc en!our('C (!e jardins, donl je por- 
tais les fruils á Vera-Cruz cl á Meilellin; j'a\ais une 
jeiínc femme de di\-Iiuil aiis, (|iie j'a\ ais aiinéc el éi)oii- 
sée á La I!a\ane; elle ('liiil eneeinle de six móis. Ilier 
ta puíMMlIa eommand('C par don .liian Palito, lieuleiíatil des 
l)an(les de .lamapn, esl enlrec dans nia maison, m'a ada- 
elié á un pofeaii, ils onl viole' ma remnic, el,aprés lui 
avoir onverl Ic ventre, ils nronl jeii^' à la face mon 
enfant à peine fornu». (",omprends-ln cnlonel, pnur(nioi 
je ne me snis |);;s Ine? "licciíila dos dois mvudos, 1 de 
outubro de 18(j.') pag, (i!)7. 

D'islo SC fez o romance. Era escusado dizol-o. A ima- 
ginação dos romancistas não ousa plianlisiar esles iior- 
rorcs. 

ri-MIElUO CII.VG.VS. 



ííum milhão de arrobas de gloiias temporais 
não faz meia onça de bemaventurança eterna. 
P.t' Amomo ViriRA. 



Pelo meio da prodigalidade c avaieza, corre a 
liberalidade, (|ii(; dis|)en(le e guaida com a mode- 
ração devida, e por isso he virtude. 

P/^ António Vikika. 



Typ. Friíiico l'or(ngueza, Rua do Tlictouro VcUio, G. 



17 



o PANORAMA 



i29 



HONG-KOxXG 

Esla pequena ilha, siliiada a uns scsscnla kilo- 
mclros a leste do eslabelecimenlo poiliigucz de 
Macau, no golpho, que a embocadura do' rio de 
Cantão forma, c que se denomina Bocca-Tigris, c 
uma das provas mais notáveis da energia e da ac- 
tividade inglezas. Tem esla pequena ilha apenas 



li kilometros de comprimento c 7 de largura. Foi 
cedida á Inglaterra pelo governo chinez no tra- 
tado de paz de 1812. 

Logo os iuglezes alli fundaram uma cidade a 
que deram o nomo de Vicloria-Town, segundo a 
velha usança britannica de darem, na sua nomen- 
claluia geographica, tanlas provas de respeito ao 
nionarcha reinante, que se torna cmbrulhadissimo 




líong-Kong-. 



O csludo das suas possessões coloniaes, pela repeti- 
ção incessante dos nomes das cida^.ies e das pro- 
\incias. 

Mas cmíim, fundou-seesla nova Vicforia-Toivn, 
e lornou-sc o deposito principal do commercio in- 
glez na China. Os indígenas, attrahidos |Kdas van- 
tagens, que lhes oíleiecem as leis europeas, porque 
os livram do intolerável despotismo dos seus man- 
darins, vieram abrigar-se á sombia da bandeira 
britannica, c tal foi a actividade desenvolvida pe- 
los governadores da nova colónia (juc esla cidade, 
fundada em 1812, já em 1850 linha trinta c lau- 
tos mil habitantes. 

A sua impoilancia deve ler diminuído com a 
abertura d'oulros portos do celeste impciioao com- 
mercio estrangeiro, c com a fundação de novas 
colónias. Por outro lado, se perdeu o monopólio 
do commercio inglez, lucrou decerto com o d(>senvol- 
\í mento dos eslabelecí mentos europeus lia Chi na e no 
Japão. Actualmenlejá ha carreira de barcos de vapor 



de um para ouiro império, e o tubo dos sfeamers ar- 
roja desassombradamente as suas espiraesde fumo 
negro ás paredes de porcelana das torrei chinezas. 
Decididamente la Chine s'en va. 



A BOCCA DO INFERNO 

I 

Um dos espectáculos mais para ver em Cascaos 
é o oceano n'um dia de temporal, revolto, enca- 
pellado, açoitando a costa, como querendo saltar 
fora dos limiles(|iie lhe foram marcados pelo crea- 
dor dos mundos. E soberbamente magnílico aquellc 
quadro, observado do píncaro mais alio dos ro- 
chedos; c a primeira idéa que atravessa a mente, 
como o relâmpago que assombra, ó a idéa de Deus, 
do poder grandioso da sua mão omnipotente, que 
assim revolve os abysmos, e diz ao oceano: pára! 
quando elle parece querer ongulir a leria, corren- 
do impetuoso sobre a sua superfície. 



30 



O PANORAMA 



E quem sabe?! Talvez um dia a voz do Senhor 
emnuulcça; o o monslro, que ruge no immenso 
leilo, querela esleiulor mais longe os braços, e, 
arcando com as montanhas em arremessos gigan- 
tes e infrenes, subir a anancar-lhcs a coma! Tudo 
desappaieceiá enlão no calaclysmo; co mar, exe- 
cnlor lalvez da Providencia nos destinos da hu- 
manitlade. apagará sobi-e os continentes os vestí- 
gios dos homens, como já porventura antigos po- 
vos, n'outras erasenguliu! 

O mar! lu es a verdadeira imagem da omnipo- 
tência divina! 

— O homem conseguiu encaminhar o raio aos 
seios da leria; cortar as serranias, abi'indo estra- 
das atravez dos alcantisdos Alpes; zombar do tem- 
po, realisando o instantâneo nas communicações 
do pensamento: só tu licaste o que eras! 

A sciencia iiumana abre sobre ti caminhos que 
logo se apagam; construiu umedilicio de madeira 
que lluctua no seu dorso; mas se uma vez estre- 
meces, como o leãodeNumidia saccudindo a juba, 
edifício e homens desapparecem nos abysmos 
infinitos do leu seiol Eo homem, átomo impercep- 
tível ao pé do gigante, geme de raiva e dôr; cos 
seus gemidos são, ó mar, o leu hymno de viclo- 
rial 

O mar inspira-me respeito, como tudo quec gran- 
de e superior, (joslo de vel-o quando está sereno e 
pacilico; mas admiio-o, se o vejo furioso, c lhe 
ouço os rugidos. Cada onda que se levanta im])0- 
iiente, e vem, vem, cieando corpo á proporção que 
caminha, até, desdobrando-se sobre si, estenderão 
longe um lençol de espuma, produz-mo uma sen- 
sação que mal posso explicar. 

Km Cascaes ha tudo isto para ver. A costa eri- 
çada de rochedos recebe o embate das ondas, que 
SC arremessam furiosas contra ella, i)ara depois 
se levantarem em columnas alvacentas a grande 
ai lura. 

Kra n'um dia lemposluoso (juando fui senlai- 
mc ao pé da /forra do infníio a observar o ocea- 
no, a que o vendaval acordara as fúrias. Caia a 
tarde, e eu estava só ao pé'do abysmo. A Bocca 
í/o inferno cuma furna medonha, espécie de poço 
profundo, cujas paredes estão eriçadas de rochedos. 
Lá em baixo existe uma ab('ii"ia natural (|ue 
communica com o mai-. A onda entia rugindo por 
ahi, saltando sobre os cachopos, e elevando-se de- 
pois, para rociar de espuma as paredes do abysmo. 
É um especlaculo medonho (djservar d'àlli o 
oceano (|uando vae o temporal. Os cabeços da ro- 
cha, negros e agudos, o mar a estorcer-sc como 
desespciado entre elles, apresentam um asj)eclo 
infernal, cheio de horrorosa mageslade. l.enibia 
a cova dos campos 6'/;/? /;í (?/•/(/ /ío.ç da Ody.sstki, on- 
de as sombras iam beber o sangue. 

K tudo isto é bello, por (|iie é grande, admirá- 
vel, sumptuoso! São atiuellas as galas do oceano. 
Quando está socegado c manso, dorme — quero 
antes vel-o acordado, ufanando-se da sua belle- 
za com os paramentos da lempeslade. Kstoure lá 
em cima o trovão; aclare o relâmpago os pincaios 
da rocha; desça o raio cortando os ares; -e li- 



caià enlão completo o quadro! A belleza do lago, 
que juncaes e salgueiíos bordam, é a serenidade 
do espelho; a do oceano, marginado de escalvada 
rocha, c o movimento, o arremesso, a fúria. É assim 
(jue elle é complelamenle bello. 

Debruçava-me sobie a Bocca do inferno para 
observar melhor o elíeilo que sobre os cachopos 
produzia o mar, quando a meu lado, de entre as 
rochas, vi sui'gir um vulto. Era um velho que 
viera pescar, c voltava desanimado para a villa, 
porque o mar não lhe permitlira aproximar-sc da 
extremidade da costa. 
— Tome tento não caiai— disse-mc o velho. 
Retrocedi, c dei a andar para elle. Tinha uma 
physionomia franca, como costuma ser a dos ho- 
mens do mar, c os cabellos brancos como a neve. 
As rugas profundas do rosto, toslado pelo sol, 
moslravam a acção dosannos e dolrabaMio, posto 
que o corpo robuslo c direito reagisse conlia o 
pezo da velhice. 

— Que grande temporal se cslá fazendo! — ex- 
clamou elle quando eu me aproximei. Deus se 
amerceie de quem anda sobre as aguas do mar! 

E pelo Iremor dos lábios do velho suppuz que 
murmurava alguma oração. 

— Não é bom chegar-se muito á beira dos ca- 
beços — tornou elle dirigindo-se para mim — Pode 
resvalar-lhe um pé, eacuda-lhe Deus! Já ninguém 
de lá o levanta com a vaga que faz. Ainda não 
ha muitos annos que aqui houve um desgosto, na 
villa... 
— Caiu alguém? 

— Ai senhor, nem quero lembrar-mc de tal! 
— Pois ha de lembrar-se, e conlar-me o que 
houve. 
Tem muito que contar... 
— Não importa. O sol vai alio— temos duas ho- 
ras antes que seja noite. 

A historia que o velho me narrou, com a sua 
rude linguagem de marinheiro e pescador, vou eu 
contal-a á lei!oi'a. Não acredilai-à lalvez n'ella; 
mas ha acontecimentos. (|ue desenvolvidos, sobre o 
palco, ou no romance, passariam por ficções, por 
creações phanlaslicas de alguma imaginação de 
poeta, e que são, todavia, realidades tristíssimas 
da vida. 

E qual é o homem (jue lá no extremo horisonlc 
da existência, volvendo os olhos para o seu |)as- 
sado, não enconlra ahi e|)isodios, que aproveitados 
fariam um romance ou um drama rico de lances? 
Ilealmente a vida não e mais (lue isto — peri- 
pécias encadeadas, (iue lêem por desfecho a morte. 
Drama, cujo primeiro ado é o berço, e o ulti- 
mo o tumulo. Os acontecimentos principaes, cnlre 
os dois extremos da vida, foimam os actos inter- 
médios. Os e|)iso(lios dão o romance, cujos lypos 
por mais cxageiados (iue|)areçam encontram sem- 
pre proloty|)0 na vida real. Hasta saber rcconhe- 
cel-os alravez da mascara. Hasgae-lh'a, e vereis 
(|ue a realidade alcança a licção. 

Depois do que deixo dito, perguntarei á leitora — 
acredita na \erdade da minha historia? 

Oodnn.i.) \. |»'Ol.iVI'IR V PlIlES. 



o PANORAMA 



13 



VOLTAIRE 

(ContinunçAo.) 

Vollaire rcpi'osenlí\ a inlclligencia Iiiimana na 
sua vasla comploxidile. 

Os espirilos alhlolas são como os cryslacs de 
inniimeias faces, iTÍleclem simullaneameiUc myria- 
das de imagens; são como o lai'go oceano, abraçam 
lodos os conlin.íntes. 

Alguém disse a respeito do escrijjlor sobre que 
traçamos eslas linhas: Vollaiie desmedrou-se pela 
universalidade. Se o seu lalenio se concenlrasse 
n^esle ou n'aquelle ponio dos conhecimenlos hu- 
manos, se as suas tendências se diiigissem exclu- 
sivamente a um determinado ramo litlerario, se o 
Iheatro, por exemplo, fosse o único objecto dos 
seus amores, e applicasse n'elleloda a actividade, 
toda a força da sua intelliiíoncia, Voltaire sobre- 
levaria a liacine, e empaielhariacom o bravo Cor- 
neille. 

Na prosecução d'esla noticia leremos de ava- 
liar Voltaire em relação aos seus predecessoras na 
tragedia; por em quanto diremos apenas, que, a 
reslricção, que a dieta a que muitos críticos querem 
subjeitar o génio nos parece destituída de bom 
senso. 

Voltaire foi o que a sua natureza quiz que elle 
fosse. lia naturezas multíplices. Os troncos robus- 
tos bracejam varas para lodos os lados; são esses 
ramos innumeros, ílorenles, flexíveis mas vigoro- 
sos que constituem a belleza, a magestade da ar- 
vore que os alimenta. Voltaire passa da Zaira 
para os Elementos da philosophía dciNewton, como 
o Dante sae do Inferno para escrever o seu trata- 
do De Vnlyari eloqnentia. Nisto não ha Iransvía- 
mento, ha repouso. O espirito cansado das gran- 
des luctas, cxhausto pelo voar constante, sentin- 
do as azas fraquejarem pouco a pouco, descende, 
pousa, espairece, e readquire no\as forças para 
se elevar a maiores alturas. N'esles períodos de 
descançq pode transiijir com as puerilidades mun- 
danas. E como a ave arrojada, que viesse lá de 
cima, das visinhanças do sol, e que ao abater o 
vôo no seu ninho de fiagas se dislrahisse em es- 
picaçar os insectos. A mão que desenhou os 
maiores c os mais bellos vultos da scena mo- 
derna diverte-se em tracejar FalstaíF; o poeta 
do Adamastor escreve os disparates da Índia. 
La force, cc n'est pas Protée, cest Júpiter p 
dizem ainda os que censuram a multiplicidade de 
assumptos de que Voltaire se preoccupou toda a 
vida; a imagem é graciosa, mas, ao que me pa- 
rece, falsa, desde a raiz até á copa. Júpiter e a 
força, e ao mesmo tempo ametamorphose. O Deus 
do rayo, é o cysne de Leda, e o touro da Europa; 
transmuda-se perpetuamente, e em caria uma das 
formas de que se reveste imprime o cunho divino. 

Concedo que em Vollaiie não haja aquella ve- 
hemencia, aquella energia que se admira em Cor- 
neille, que as suas creações não lenham aauslera 
severidade que muitas vezes demandam, que a 
palavra inflammada e ardente não caia em meio 
das grandes scenas ou dos elevados quadros épi- 



cos; mas a paixão sem exagero, a paixão natural, 
alíecluosa, pathetica, docemente aquecida ao fogo 
interior, essa é a que nós encontramos nas suas 
tragedias, como talvez em nenhumas d'oulro 
poeta da França. E mais, note-se o século em 
que Vollaire vivia, século de frivolidades e 
de descrenças, sem aspirações, sem grande- 
za, sem a hombridade altiva que robustece o 
poeta que em meio (relie se move, e que por elle 
se inspira. É esta a razão por(|uc na Henriada 
escasseam os traços e|)icos, por(|ue lhe faltam os 
arrebatamentos da epopca. O canto heróico não 
apparecc inditíerciUemente eniquabjuer época; ha 
paia elle uma quadra em todas as nações. Se essa 
quadra passou sem que os poetas quizessem ou 
podcssem embocar a tuba homérica, debalde pro- 
curarão ao diante preencher o grande vácuo litle- 
rario. « — O século XVIIL diz Edgar Quinei, — 
adverso ás Iradicções, e tentando isemplar-se d'cl- 
las, era o contrario dos tempos épicos; as guer- 
ras da regência não poderiam reacender o heroís- 
mo exlincto. Por um esforço de génio, puramente 
individual, Voltaii'e conseguio elevar-sea brilhan- 
tes imitações da poesia alexandrina c romana. 
N'esle género de poesia, inútil é, porém, o traba- 
lho de um homem; se o pensamento e a vontade de 
lodos não contribuem de metade para a sua obra, 
tal obra será impossível. — úl nos princípios da 
[vida litteraiia de um povo que as ejiopeas appa- 
recem de facto. Se a França do meio dia e do 
norte produzio na edade media alguns monumen- 
tos épicos, como ao presente se assegura, não o 
sabemos nós, nem nos parece mesmo que as rha- 
psodías do século XII e XIII possam merecer o 
verdadeiro nome de epopèas. Foi de certo no sé- 
culo XVI, no grande fervor das luctas religiosas, 
no grande embate das crenças e das paixões su- 
blimes, quando o povo no seu viver tempestuoso 
e poético respirava o cnlhusiasmo cavalleíroso ea 
nobreza dos puros affeclos, foi então que soou 
para a França a hora d'ella dar ao mundo a Epo- 
pea. Ilonsaid, o maior de todos os poetas da Plêia- 
de, atravessou a onda popular, sem lhe entender 
os profundos rugidos, ou sem descobrir na sua al- 
ma, naturalmente lyrica, um único accento que 
podesse consagrar às soberbas mageslades he- 
róicas. Depois, em seguida, veio a escola dura, 
secca, empertigada emethodica, d'aquelleMalher- 
be frio e coríaceo, de quem Boileau fez um Deus 
e a posteridade uma múmia. Começaram os gram- 
maticos a aggredir os poetas; ii goiva, o prumo, 
a lima eterna da pedanteria poz-se a fazer o seu 
oílicio contra a inspiração e contra o génio. Dis- 
cutiam-se os solecismos emetrilicava-se por bitola; 
as musas tinham quebrado a lyra, e andavam de 
régua e compasso. 

Ouando alguém sahia do carril pizado e recal- 
cado, tinha sobre si a ferula dos mestres, e a im- 
precação dos aslhmalicos. 

«Enfin Malhciim vint qui le prcniior en France 
Fil sentir dans Ics vcrs une justo cadence; 
n'un mol mis cn sa place cnseií^iia le pouvoir, 
Et rcduisil ]a rause aui roglss du devoir. 

Não eram, pois,similhanles poelas que podiam 



3â 



O PANORAMA 



crcar a cpopòa. Os que lhos siiccodoiam, oncon- 
traiani abonança, a Iranqiiillidado, a modorra do 
povo que pieíei-o o somno solío ás ruidosas con- 
llaiiraçõcs da praça publica. O poema épico pres- 
ci'e\ei'a de (otlo. Vollaire, na sua anc'a de agii- 
cuUar em lodos os campos, de provar a mão om 
lodos os assumplos, liavou da cyliiara vir- 
iídiana, e acoixlou ' os eccos da sua paliia 
com o som de um canio novo. Embora a lícn 
riada não lenha o caracler épico, a virilithide 
heróica, a fur/a grande c sonorosa (hn vcM(hi(içi- 
ras epopèas, t(>m, comhub), quadros, descripções, 
trechos de lai eloquência que em nada cedem ao 
que a anli^iuidade possa apresentar de mais subi- 
do. A fada de l'olier aos Kslados da Ii^a é justa- 
menle posla por Marmonlel ao \)nv dos mais no- 
táveis ras.sos poéticos. Quando csle ou aquclle 
heroo se lhe ai)resenla, com que correcção de li- 
nhas o não deixa elle desenhado na leia? — Vede 
Çoligny. llenii de Guise, Mayenne e dWumale, 
llichelieu, Cionnvell. immensa galeria (jueadmira- 
mos sempre, c aonde Vollaire revelou toda a lii- 
meza dos seus traços e Ioda a riqueza do seu co- 
lorido deslumbrante. O (juc íalla nesse poema, que 
é o tom varonil eseveio, que éa serena dignidade 
do comi)oslo, que é linalmenlo esso ar olympico, 
esse rumor sagiado de heroes c de numes, (lue 
nos confrange ou nos ergue, que faz com que Mi- 
guel Angelo se sinta maior quando acaba de ler 
a llliada, e com que Chaleaubiiand diga que a 
Jerusalém paiecc íei- sido escripla em um campo 
de batalha, o que ilie falta, re()ilo, jirocedeu, de- 
rivou logicamente das condições do século em que 
foi escripto. Agrando gloiia de Vollaii'e é ter po- 
dido, de ceito modo, Icvanlar-se ao de cima d'es- 
sas paixões pequenas que i\'ferviam e tumultua- 
vam, e insj)irar-se j)oi- vezes, encontrando o veibo 
sublime, c a forma digna econ-ente. Este impeto, 
esta vontade enérgica, este remontar impetuoso, 
este arrancar o espirito das contendas triviaes, e 
das lides inglórias para o embeber cm conlem[)Ia- 
ções mais bellas, este quebrar um dia com asf/;/ro 
])r(iposirô('s de Jansenius, e voltar cestas a toda a 
cainçada dos Desfontaines, para estender a mão á 
deosa que sorri no limiar da historia, isto ésem 
duvida alguma o génio. 

C-umpie allenlai-cm Iodas ascircumstancias que 
expozemos, reparar bem nos tem|)os em (jue Vol- 
laire viveu, nas mundatiidades (|ue o cercaiam, e 
nas guerras infames que lhe j)i'omoveram. Ouando 
apezar de tudo vemos suigir a llcnriada, quando 
ouvimos a nota e|)ica resallar do nozcío alioz de 
uma multidão de vidgaridiidcs pilias e razas, é então 
(jue calculamos Ioda a pujança, Ioda a seiva, Ioda 
a llexibilidade (raí|uelle lalenlo iiicom[)aiav('l. 

Entarandoa physionomia lilteiaria de Voltaire, 
fomos insensivelmente levados a aprecial-o em 
primeiro logar sob o ponto de visla ej)ico; eslude- 
niol-o agoia em relação ao Ihealro, onde innior 
luz o illumina. E ahi í|ue Vollaire palenlea em 
maior copia as forças da sua inlelligencia, é ahi 
que melhor poderemos medir a sua grandíssima 
estatura. 



Racine, eCorneille terão por vezes de ser citados 
em confi'onlo; quanto a Crebillon penso que não 
será preciso remechel-o na cova. 

Conliiiua 

E. A. YlDAL. 



CASTELLO DE KEMLWORTll 

Não é esli'anho esle nome aos leitores de Wal- 
ler Scoll; logo lhes acode de ceilo á memoiia o 
magnifico i'omancc que tem esle titulo, romance ad- 
mirável, que se baseia na sombria tradição da 
moile da condessa de Leicestcr, e em que o gran- 
de esci'iplor escocez soube pintar com Ião largos 
l raços os esplendores e os myslerios (la còrlc de Isabel 
de Inglaterra, eo caracter a um tempo varonil ea|)ai- 
xonado, austero e alfeclo á lisonja da enérgica rai- 
nha, que regeu com mão tão hábil c Ião tirme os 
destinos do seu paiz, mas sobre cujo reinado pro- 
jecla uma sombra inimensa a morte da infeliz Ma- 
ria Stuait. 

O sangue da formosa e estouvada cscoceza macu- 
la de um modo que a historia não pôde deixar de 
registar, o alvo manto da rainha que tanto folga- 
va com que lhe dessem o cognome da rainha vir- 
gem 

O romance de Waller Scolt lem por assumpto, 
como disse, a morte da infeliz condessa de Lci- 
cester, sacriíicada por seu marido, elegante minis- 
tro de Isabel, que aspirava a partilhar o Ihalamo 
eo throno da rainha, á ambição, (]ue fora desper- 
tada pela manifesta tei^nura que a enérgica rainha 
sentia por elle. 

No (|uadro da narração entram naturalmente, e 
descri |)tas como Waller Scolt sabe descrever, as 
magnilicas festas dadas pelo conde á i'ainha n'esse 
o|)ulenlissimo palácio, que e hoje o que a gravura 
o mostra, uma luina. 

Fica situado no condado de Warwich. O que 
elle era no tempo do seu esplendor, será o mesmo 
Waller Scolt quem nol-o diiá quando no seu 
b'.'llissimo romance descreve a chegada da infeliz 
condessa ao palácio, (Tonde seu marido a queria 
afastar por lodosos modos, j)or(jue não confessara 
á rainha o seu casamento, e convinha-lhe que Isa- 
bel o consideiasse livre dos laços malrimoniaes. Ce- 
damos a palavra ao grande i-omancisla. 

((I']mlim siir^Mo o caslello magnilieo de Kenilwor- 
Ih; para o embellezar epara melhorar os dominios 
{|ue (Telle dependiam, gastara o conde de Leices- 
t(>r, segundo se diz. sessenta mil libras esteilinas, 
somma (jue nV.sse temjK) equivalia a meio milhão 
de libras na actualidade. 

«Os muros exteriores d'esse eíMIicio soberbo e 
gigante abrangiam seleacres, uma (larle dos quacs 
era occupada por vastas cavallariças e um jardim 
de recreio com eleganles malas, c canteiros cheios de 
llores; o leslo forma\a o primeiro paleo ou palco 
externo. 

aO ediíicio construído no meio (Eeste espaçoso 
recinto com|)unha-se de muitos |)alaceles magni- 
licos, que |)areciam ter sido conslniidos em dilfe- 
renles épocas, e que rodeavam um paleo interno 



i 



o PAiXOHAMA 



i33 




"'\Vii h\ 



besse ouvir, daria u.na li,-ão „i/; a/oP^u í" ó , 'Lli^^ n ao houvcss.- noiícia alguma, ,l,gna ,le cre- 
1.^0 ,uo.ad,„irira o au„.i,o„,ara o.sc;'^tr,i;iÍ'''':Tit'Vn:r;,;Co^ la'lvor';:;;'';tsa da 



i34 



O PANORAMA 



sua parecença com a cidadella do mesmo nome que 
so vè na Torre de Londres. Aííirmavam alguns 
anli(|uaiios que lôi"a esle foile elevado ])or Kenel])Ii, 
rei saxonio de Meicia, que dera o seu nome ao 
caslello. e ouiros que lòia conslruido pouco lempo 
depois da conquisla dos Normandos. Nos muros 
exteriores campeava o brazão dos Clinlon, que 
os linham fundado no lempo de Henrique 1 da 
mesma forma que o brazão de Simão de .Alonifoil, 
vullo ainda mais lemivel, que, nas íjueiras dos 
barões, defendera muilo lempo Kenilworlh con- 
tra o rei Henrique Hl. Morlimer, conde de March, 
famoso pela sua elevação c a sua queda, alli dera 
feslas e lorneios, emquanlo o seu soberano des- 
llironisado, Eduardo 11, delinliava nas próprias 
masmorras do caslello. O velho João Ganul, da 
anliga raça dos Lancasler, augmenlara muito esle 
edilicio, construindo a aza, que ainda hoje tem o 
nome de palácio de Lancasler; mas Leicesler ven- 
cera os seus predecessores, apezar d'esles serem 
bem ricos c bem poderosos, erigindo uma immen- 
sa fachada, que desappareceu debaixo das suas 
próprias ruinas, monumento da ambição do seu 
fundador. Os muros exleiioiTS dY^la residência 
verdadeiramente regia eram banhados por um lago, 
em parte aililicial, sobi'e o qual Leicesler mamla- 
ra construir uma [)onle magnifica, a tlm de que 
Isabel podessc enti-ar no caslello por um caminho, 
feito para cila só. A entrada habitual era pelo lado 
do norle, onde Leicesler erguera, para delVza do 
caslello, uma lorre altíssima, que ainda existe, e 
que vence, pela sua extensão e pelo eslylo da sua 
arcliileclura, muitos caslellos de alguns chefes sop- 
lemlrionaes. 

Do outro lado do lago havia um parque im- 
nienso, povoado de gamos, cabritos, veados, e Io- 
da a eíipecie de caça. Ksle bosque era plantado 
de arvores soberbas, do meio das (juacs a fachada 
do caslello e as suas torres macissas pareciam sair 
mageslosamenlc. Não podemos deixar de accrescen- 
lar agora que este nobre palácio, que recebeu nionar- 
chas,e (|ue foi illuslrado por guerreiros que alli de- 
ram sérios e. sanguinolentos assaltos, e por justas ca- 
valheirescas cm (|uc a belleza distribuía os prémios 
obtidos pelo valor, não oííeiece hoje senão uma 
scena de ruinas. O seu lago Iransformou-se n'um 
|)rado húmido, onde os juncaes veccjam, e as suas 
immensas ruinas servem só pai'a dar uma ideado 
seu aniigo esplendor, e para fazer a()i(ciar melhor 
ao viajante (jue reflecte sobre a vaidade das ri- 
quezas do homem, aventura dos (|ue desfrutam a 
sua mediocridade com um virtuoso contentamento. 



O ESTUDO DA HISTORIA 

— Ouoreis saber, dizia um índio a um Europeu, 
como eu í|U('reria (|ue se iniciassem as creanças 
na historia dos homens? 

Observai esle punhado de lodo apanhado no 
leito do Aracan. Oue numero iníinilo de molécu- 
las, e comludo quão poucas partículas do metal 



precioso que procuramos' Que trabalho tão longo 
e dillicil para descobril-as c separal-as do lodo em 
que estão enlerradasl 

Pois bem, o mesmo se dá com a historia das 
geiações que se lêem succedido úi^iúc a creação 
do mundo. Oue de acontecimentos! mas os, ver- 
dadeiramenle, dignos de memoria, que derramam 
luz sobre a natureza do homem, sobre a sua mis- 
são cá na terra, que lhe oílerecem exemplos no- 
bres, (pie lhe desenvolvem o coração c a inlelli- 
gencia, esses são raros e só a vista do sábio os 
pode discernir. 

Ensinai unicamente ás creanças os fados pou- 
co numerosos e escolhidos. Poupai-os á fadiga de 
revolverem inteiramente a montanha de fragmen- 
tos pulverulenlos aggiomerados pelo lempo, para 
procurarem alli algumas raras partículas de ouro, 
Guiai-0s logo ás fontes do verdadeíi-o saber, ao 
Ihesouro que a phílosopfiia tem obtido da expe- 
riência de milhares de gerações exlinclas. 



THF.ATRO DE D. MARIA H. 
Ill 

lí o llicniro de D. Miiria II uni dos mais formosos edi- 
fícios de Lisboa, c no seu geueio, pode compelir comos 
de maior nomeada, não só na decoração e riqueza de or- 
natos, senão lambem na distribuição interior. 

A ordem arcliileclonica adoptada é a jónica, como es- 
tão mostrando as cotumnas do perislylo, as pilastras das 
facliadas, as molduras e volulas. 

Seria esta de feito a ordem arcliileclonica, que mais con- 
\inlia? 

Não se deveria antes, seguindo as bellas (radicçõcs her- 
dadas, ronslruir um edifício no gosto dos Jeronymos ou 
da Halailia? 

Esta opinião aventada por alguns críticos pouco sabe- 
dores e demasiado patriotas, não Icm fundamenlo na 
nrlf. 

K necessário ignorar profundamente os mais singelos 
preceitos do gosto para defender a arte romântica em edifício 
d'esla ordem. 

Encantadoras e sobre todas formosissimas, são emver- 
daffi^, as arcliilccluras clirislãs, Ijrincadas, floridas, ar- 
rendadas, com as suas craslas silenciosas e poéticas, com 
as suas arcarias mudas c melancólicas. 

Nada mais admirável do que um velho mosteiro, no 
pendor da serra, illuniiuado pela lua, cercado de arvore- 
do remaiiçoso, la dentro o claustro com as suas ogivas, 
com as suas jiortas sobrejioslas, com as suas columnalas 
rendilhadas, com as suas fikií^ranas de mármore, com 
as suas estatuas, e bruteseos meio sondireados. 

Nada mais poético do que esse perfume religioso que 
se alevanla em ondas, do silencio do templo, todo laçarias 
imaginosas, (|ue irrompem ardentes em feixes, c se des- 
dobram até se espalharem nas abobadas, como as cren- 
ças redivivas dos fundadores e dos artistas, crenças pos- 
santes, fervidas (|uc se crfiuiam da terra e iam atiraçar 
o ceu, enramando de grinablas c festões o throno da Vir- 
fíem. Que architecturas sutilimes! Como a alma se ex- 
pande em elUuvios de harmonia, c a prece sac frc- 
menlel E depois aquellas janellas escondidas e docemen- 
te \oiadas, c os vidros corados, em (pie a luz bruxulea 
formando auríiolas celestiaesl E acima de tudo, involvendo 
tudo, um manto de santidade e candura, casto csingelocomo 
as crenças d'a(piellas eras relif^iosasl 

Oh! .Mas (|uem ousaria profanar os sacrosanios mysle- 
rios do mosteiro transportando jiara a praça publica, para o 
Ihealro essas arcliilecliiras nnsliras (pie so convém aos 
penelraes em cujo seio se aninharam os (pie litavam 
olhos piedosos no ceu? Para os Ihealros e para todos 
os edifícios de egual natureza, Roma e Athenas, Augusto 



I 



o PANORAMA 



i35 



e Péricles, legarnm-nos modelos eternos, que é força imi- 
tar, porque ninguém excede a perfeição. 

Uepresenla a architcclura grega uma grande idéa e a 
pujança e força de um povo, .que chegou à maturi- 
dade,* ao apogeu da gloria e cxplendor, ao acnmcn 
da riqueza. 

As linhas severas c harmónicas, rectas c inflcxiveiscomo 
o destino, soi)re|)ondo-se parallelamenlc, não coidiecendo 
limites, aquelles frontões carregando soljre columnas,que 
se conservam erectas e orguliiosas, as columnatas robus- 
tas, os festões evoluías, os hypogriphose caduceus, lodos 
os symbolos e hierogliphos, os niclios, os vasos, 
os balaustres os acanthos, tudo nos está mostrando 
que a architectura clássica, empregada no Farlhenon eno 
templo da Paz, era a que mais convinha a dois povos, 
cuja civilisação correra o mundo, cujas ideas se haviam 
espalhado pôr toda a parte, cujos exércitos tinham, cada 
qual segundo a si, esmagado Dário e Xcrxes, ou ven- 
cido o oriente e o occidente. 

Em Vilruvio dev'a pois encontrar o archilecto a norma, 
que o guiasse na traça do edifício. 

E assim foi. O the^atro dei). Maria, apezar dos seus 
defeitos, é explendida amostra da architectura clássica, 
é um monumento formoso eriço, é um edifício nobre, que 
não desdourara Paris e Londres. 

Tem este edifício quatro fachadas, symetricas duas a 
duas, deitando cada <|ual para o seu largo, o (pie produz 
óptimo eíTeito e mais realce dá ao monumento. 

Para a praça de I). Pedro olha a tachada |)rincipal, que 
é a do sul, para o larçjo do lletjedor a do norte, para o 
larrjo do Camões a de oeste, para o largo de S. Do- 
miníjos a de leste. 

Representa a nossa gravura a fachada principal e a de 
oeste, e deixa ver o largo de Camões eo de S. Domin- 
gos em cujo topo se divisa o pal.icio dos condes de Al- 
mada, aonde se reuniram os heróicos c gloriosos conju- 
rados de IGíd 

A fachada principal, assim como as de mais, são de 
mármore, sendo róseo o do liso das paredes e superior- 
mente ao andar nobre, e lios o resto. 

É o perisl\lo assente em seis columnas jónicas; no 
vértice do frontão campeã a estatua de Gil Vicente e nos 
acrolerios as estatuas de Melpomene e Thalia. 

Sobrepostos ás janellas e no altico do andar nobre, 
vèem-sc quadros allusivos, bustos de poetas, e outros 
ornatos, osquacs, assim como as estatuas, muito honram a 
Academia das liellas Artes. 

A frente scptemtri;)nal c similhante a esta e só dillere 
em não ter peristylo e nas esculpturas. 

As fachadas (|ue deitam para oeslc e lesle são em tudo 
idênticas, e ambas tem o seu vestíbulo com arcada de 
cantaria, sendo o vestíbulo occidenlal serventia dos espec- 
tadores, e o oriental dos adores, empregados e artistas. 

Em frente do vestíbulo occidenlal e quaíi no mesmo 
nivcl está o salão da entrada, cujo tecto se apoia cm 
quatro columnas de mármore sem soco, como era de la- 
são, para não emi)ecrr a passagem. 

lyiede o salão dcze.-cis metros de comprimento sobre 
dez de largura. No andar superior e occupando a mes- 
ma posição, eslá o salão nobre, ricamente decorado, ro- 
deado de duas ordens de galerias em sacada c sustenta- 
das por columnas. O pa\imcmlo todo de mosaico cor- 
responde aos camarotes de primeira ordem, e as duas or- 
dens de galerias communicam com as outras ordens de 
camarotes. 

Do salão da entrada sobc-se a uma galeria, que cir- 
cumda a platea, e permittecommunicaçòes com os diver- 
sos andares. 

Conta a sala setenta camarotes distribuídos em (lualro 
ordens, contando as frisas. lia uma tribuna real c uma 
galeria. Aípiella é rica c perfeitamente ornada, tendo as 
l)arcdes revestidas de espelhos, e sendo o tecto cm for- 
ma de cúpula de oir(» e azul. Toma em altura duas ordens 
de camarotes; contíguas á tribuna real ha duas salas, que 
dão para um gabinete, uma copa e um vestíbulo sendo 
(jue cada camarote tem uma sala especial e um gabinete 
de toucador. 

A área da plaléa c de cento c oilenla e dois melros 
quadrados. O palco mede vinte metros de largura e vinte 



e Ires de fundo, e em volta d'clle, encontram-se os ca- 
marins, gabinetes, arrecadações, sala do commissario, da 
ilirecção, foyer ele. 

Tal é mui resumidamente, sem minúcias prolixas a des- 
crípção do actual Iheatro de D. .Maria, que ja foi modi- 
licado em 1858, porque a principio contava mais uma or- 
dem de camarotes, em forma de galeria, o que, sobre 
desfeiar o Ihealro, lira va- lhe todas as propriedades acús- 
ticas, porque havia uma resonancia, que não permitlia 
ouvir. 

Diminuiu-se lam])em a plaléa, avançando o palco, abrl- 
ram-se camarotes no proscénio, frisas na galeria inferior, 
diminuiu-se o fundo dos camarotes esepararam-se por deci- 
pimentos. 

Com serem grandes estes melhoramentos, que eram 
ha muito requeridos, outro havia, de não menos necessi- 
dade, qual era mudar a cobertura do teclo, feita de fo- 
lhas de ferro galvanisado. 

Quiz-se experimentar o ferro que era muito encarecido 
por architeclos estranhos, e a experiência custou-nos ca- 
ra, por(|uc deu péssimos resultados. 

Não são as folhas de ferro para o nosso paiz, e muito 
menos para um Ihealro de declamação. 

Quando chovia, e lodos sabem quê as chuvas em Portu- 
gal são lorronciaes, era tal o ruído, que ninguém ou- 
via os actores. Ajunta\a-se a este defeito a ruina prema- 
tura e rápida dos madeiramentos, porque asagoasescoa- 
vam-se pelas junctas, e orifícios dos pregos. As folhas esta- 
lavam e enrugavam-se no verão e fazendo saltar os pre- 
gos de tal sorte aqueciam, que queimavam as madeiras, 
listas alternativas continuadas da secca e humidade acar- 
retavam a ruina do madeiramento. 

Em virtude d'eslas ponderosissimas rasões foi substi- 
luida a cobertura de ferro pelas chamadas lelhas hollande- 
zas. chatas, acinzentadas, que removeram lodos os incon- 
venientes. 

A. OSÓRIO DE VASCO.NCELLOS. 



As unlias, que iisurpão o titulo de bentas, são 
aquellas, que empclgaiido piedades, fazem a preza 
em lattocinios. !'"• Amomo Vieira'. 



INVOCAÇÃO 

Em (juc recesso le escondes, 

Ó anjo da minha paz? 

Não me escutas? Não respondes? 

Onde existes? Onde estás? 

Que espesso sendal te vela 

A serena fronte bella 

Que gruta escura te encerra, 

E te occulta aos olhos meus? 

Já baixasli' acaso á terra, 

Ou inda moras nos céus?! 

Formosa imagem sonhada. 
Um dia vem, outro apoz, 
E tu, ó niNstica fada, 
Sempre muda á minha voz! 
Nas leves nuvens le embalas? 
Nas densas ílorcslas falias 
Pela voz do rouxinol? 
Junto ao sol, n'elle le abrazas? 
Ou libraste as brancas azas 
Para os mundos de alemsól? 

Quanto mais le julgo perlo 
I'ara mais longe tu vaes, 
E é mais árido o deserto 
Que se fraiupieia a meus ais! 
(*:a(la inslante, novas formas: 
N'uma estrella te transformas 
E eis-le no espaço a brilhar! 
Ora CS a flor que perfuma. 
Ora passas sobre a espuma 
Que orla a túnica do mar! 



36 



O PANORAMA 



\cm das plagas do iiifinilo! 

Desce, diega, ó anjo, vem; 

Que cu sei que não és um myllio, 

Que cu sei que \ ives tambemi 

I>ão; não es uma cl)ymera. 

Ks a eterna primavera, 

í>s a esperança louçãa, 

És a luz, o riso, a fesla, 

Para a vida que me rcsla 

És a percnnc manliãa! 

Sei-o. Senli-o. No berço 
Adivinhci-le, e, de cnião, 
Tara mim todo o universo 
Resumiu esta paixão. 
^ão mente o sonho. Sonhci-le 
Al\a, pura como o leite 
Da so \irgem que foi mãe, 
Radiante do lirillio immenso 
(Jue, por entre ondas de incenso, 
Da ideia de Deus nos vem! 



O sonlio encantado cu posso 
Traço a traço repetir. 
Vi-le eu mesmo. Que alvoroço! 
Como houvera a fé mentir? 
Embora de extranha essência, 
Pulsa-me a tua exislciicia 
Nas minhas veias, bem vês, 
Arfa-te o seio em meu seio, 
Penso, sinto, vivo, c creio, 
Porque tu vives c crês! 

Vm dia cm que na vereda, 

Que percorro |)or te achar, 

Kntrc a sondaria ahimeda 

Me sentei a descansar, 

Suppuz cliegado o momento 

De atlenlar iresse portento 

Que a minha alma aidichi c quer. 

Jurara (pie o paraíso 

I\íe acciia\a no sorriso 

Dos lal>ios de uma mulher! 

Irrisãol Tremi, corri-mc, 
A lace verguei ao pó: 
Respirava a infâmia, o crime 
A falsa deiíladtí só. 
Ai, deb:dde te imil.nal 
Krgui-me, parti, a escrava 
Deixei do mal sem i)udor; 
Pedi-tc perdão do insulto, 
E vohi para o teu culto. 
Caminhei ao teu amoi! 

Exhausio de força, o ermo 
l\Iais tarde sem Vim pensei, 
E dentro do peito infermo 
Toda a agonia pczci. 
Como (]uc pensei,— perdoa— , 
Mentida a lua coroa, 
Que eras um brinco infernal, 
E tentei buscar o olvido 
E o descanso no ruido 
Infrene da bachanal! 

Jorrava o viidio nas laças 
Os topasios, os rubis, 
Amei-o, e, com elle, as graças 
Das Messalinas mais \is! 
Mas eis de rc|)cnle, cm meio 
D« festa devassa, o seio 
Freme em doce estremecer; 
Nova crença cm li surgia! 
E o facho apaguei da orgia, 
Corri longe por le v(5rl 



Sempre tu, a mesma, aquella 

Que eu não \i, mas de quem sou, 

A mesma lúcida estrella 

Que o futuro me rasgou! 

Dia c noute, n*um deserto, 

No baile, em sonhos, des[)erto 

Sempre aquella (juc não \i! 

Seaiprc este aspirar constante 

Ao bem ignoto, distante, 

Ao desconhecido, a til 

Como pois a li voara 

N'eslc anceio que seduz, 

Se o Senhor Ic não creara 

De um raio da sua luz? 

Eòras illusão, mentira, 

E dentro em mim não sentira 

Os divinos dons da fél 

Quando um falso Deus se adora, 

Qual das crenças não descora? 

Qual a que fica de pé?! 

Oh, existes, sim! Já'gora 
Não tardas, não le deténs! 
No-expicndor \irás da aurora? 
Nos raios da lua vens? 
Quero amal-os, quero vel-os. 
Os teus ondados cabellos, 
Teu jdiant.islico sorrir, 
Quero fartar os desejos 
De prelibar em teus beijos 
Toda a \entura por vir! 

Oh, existes, sim! Das veias 
I*ercel)o-o nas pulsações: 
Assomas, pairas, volteias, 
Entre lúcidas \isõcs! 
Extasis de puro goso! 
E no dia venturoso 
Que me surgir onde eslãs, 
Por seguir-tc os aéreos traços; 
Deixa eingir-te em meus braços, 
O anjo da minha paz! 

Mal n'estc canto se fixar o amado, 
O teu sonhado olhar a cujo encanlo 

Estes versos sagrei. 
Oh! d'oiide quer (pie estejas, rasga o manto 
Que assim te encobre, solta ao longe um brado, 

E aos pés te cahirci! 

Vac longo o caminhar! Afrouxa o passo! 
Que mais lo não procure, anjo, debalde! 

Por não morrer, 6 flor, 
Da magoa de não ver-te, ou de cansaço, 
Consente emlim que a fronte le engrinalde 

Com rosas d'eslc amor! 

fevereiro, 18GG. 

En.NESTO Maiiecos 



Hum animo nobre, mais se obiiga da coílcsia 
allièa, que da vonladc pi-opiia. 

FnANCisco RouniGUES Lobo 



fii-andc remédio liccnnlraos niale.s desviar (rel- 
les o senliílo, c oriípal o em ciii(lailo.s dilícren- 
los. I'^ poslo, (|ue o íjue niiiilo se senle não dá Jo- 
gar nem liberdade ao pensamento para se enlre- 
gar a oulra cousa, (omludo,como a nalureza ap(^- 
Icce novidades, sempfe em algum bieve espu(;o 
lhe dá ouvidos. 

FnANCISCO RODRIGLTS LoBO 



Typ. Franc(j*l'ijitiigucza, Rua c!o Tliesouro Velho, '1. 



o PANORAMA 



^37 



ILHA DA BARBADA 

Esla ilha foi uma das muitas, que a audácia dos 

navegadores portuguezos revelou á Europa, e foi 
também uma das ultimas. Quando nós a descobri- 
mos estava já Portugal em plena decadência, e o 
leão de Castella empolgara nas suas garras as 
quinas portuguezas. Com tudo, devemos dizer 



que está demasiadamente desprezada a historia de 
Portugal durante os sessenta annos em que fez 
parte do reino das llespanhas. Os filhos da Lusi- 
tânia, mesmo reconhecendo como seus monarchas 
os três Philippes, moslraram-se dignos dos heroes 
de quem descendiam. Será bom que reivindique- 
mos a gloria que é nossa, e que os hespanhoes 
chamam a si, porque a historia universal, não 













-'4'Vmv''^'^»-- 



Ilha da Barbada 



distinguindo n'csses sessenta annos Portugal da 
Hespanha, lhes allribue as grandes acções cmpre- 
bendidas pelos nossos antepassados. 

Assim, por exemplo, o grande navegador Pedro 
Fernandes de Oueiroz, que descobrio uma grande 
parte das ilhas da Oceania, c considerado pela 
historia como hespanhol, quando elle era porluguez. 

Esta ilha da Barbada também os porluguezes a 
descobriram alii por IGOO, sem que se saiba ao 
cei'to nem o anno, nem o nome do descobridor, 
nem o motivo porque lhe deu esse nome visivel- 
mente porluguez. Mas, nós já n'esse tempo não 
fundávamos colónias, c, depois de a termos desco- 
berto, deixamol-a desamparada, sem aproveitar- 
mos ou sem conhecermos a riíjueza dessa jóia, 
uma das mais brilhantes, da grinalda das Antilhas. 

Em 1605 alli arribou um navio inglez, cm 162i 



alli os inglezes se cslabeleceram, e em 1628 fun- 
daram a cidade de Bridgetown; a ilha estava en- 
tão coberta de bosques de madeira tão rija, que 
houve um trabalho immenso para os deceparem, 
a lim de estabelecerem a lavoura. Venceu todos 
os obstáculos a perseverança dos colonos, teimo- 
sos como inglezes que eram. Em poucos annos 
prosperou incrivelmente a Barbada. Quando re- 
bentou na mãi pátria a guerra civil, que terminou 
com a morte de Carlos 1 no cadafalso, alli se re- 
fugiaram muitas famílias realistas, que, conservan- 
do-se fieis á causa dos Stuarts, recusaram reco- 
nhecer a authoridade de Cromwell, proclamado 
protector. Eoi necessário que este enviasse uma 
esquadra, que a reduzio á sujeição em 18.j1, não 
sem dilliculdade. Para a punir d'isso prohibio-lhe 
Cromwell o commercio com o estrangeiro. Esta 



1 38 



O PANORAMA 



circumsíancia fez parar o desenvolvimento rápido 
da Bai-bada. que iinia grande parle da sua popu- 
lação abandonou para ir liabilar nas oulras ilhas. 
(Aislou-Ihe depois a rccobrar-se das consequências 
d'eslc golpe. 

A Baibada óamaisorienlaldas Anlilhas; tem 22 
milhas de comiirimenlo, e 10 na sua maior lar- 
gura. O seu aspeclo e formosíssimo, o seu clima 
quenie, mas saudável, coisa rara nas Anlillias. Um 
recife de coral, que a orla pelo lado do norle e 
de leste, não permille que se approximem d'ella 
navios de mais de oO toneladas; as oulras praias 
são prolegidas'por boas forliiicações. A sua piin- 
cipal producção é a do assucai-. A sua população 
tem sido muilo variável. Augmenlou com incrivcl 
rapidez, mas depois diminuio sensivelmente. Era 
1()28, quando os inglezes fundaram BridgeloA\n, 
havia na ilha uns cem habitantes. Km 1070 cons- 
tava de cincocnla mil brancos e de cem mil ne- 
gros e mulatos. Em 172 í já havia só uns dezoito 
mil brancos, cem 1780 uns dezeseis mil. O recen- 
seamento de 1832 deu o seguinte resultado: oi- 
tenta c um mil e quinhentos escravos, doze mil se- 
tecentos e noventa e sete brancos, seis mil sete- 
centos c quatro homens de côr livres.. De 18.] i 
para cá havia de diminuir a população, porque 
n'essa época foi abolida alli a escravatura. 

A capital da ilha, Bridgetown, Uca situada á 
beira da magnifica bahia de (larlisbjf: único porto 
bom da Barbada. E uma linda cidade, d'uns cinco 
mil habitantes, c que possue alguns bonsediíicios, 
entre os quaes se notam a cathedral, cujooragoé S. 
Miguel, que tem uma torre que pouco so eleva 
acima do tecto, por causa dos tufões periódicos, 
que assolam a ilha, e cuja violência ò enorme; o 
palácio do governador, o tribunal, os quartéis, o 
forte de SanfAnna, quasi inconquislavel, e um ar- 
senal bem fornecido de armas c munições. Esta 
cidade possue alem d'isso algumas bibíiothecas e 
uma sociedade lilleraria. 

Não sei que invencível tristeza se nos apodera 
do espirito ao descrevermos a prosperidade (festa 
ilha, descoberta pelos i)0i-tuguezes, e possuída pela 
Inglaterra; comparamola involuntariamente com o 
estado miserando das nossas colónias, c não po- 
demos deixar de sentir que, para bem da huma- 
nidade, não fossem parar lambem a mãos (|ue os 
soubessem tratar esses vastos e ferlilissimos ter- 
ritórios, que a nossa incúria deixa estar por essa 
Africa sem cullura nem civilisacão. 



Muilas senhoras sacrificam a saúde ao excessi' 
vo amor pelas llores. 



DESCONFIAI DAS FLORES Dl RANTE A NOITE 

Na obscuridade c dui'anle a noite, as plantas 
cxhalam um gaz venenoso, o acido carbónico. É, 
pois, mui contrario á hygiene conservar de noite 
e de dia ílores dentro dos quaitos de dormir: as 
llores querem sol e \asta liberdade deathmosphe- 
ra; captivas, castigam os seus ii)ij)rudenles admi- 
radores viciando o ar que ellesi-esjiiram: d'alii do- 
res de cabeça, vertigens, e, mais cu menos, uma 
indsposição, uma languidez, cuja verdadeira causa, 
muilis v 'Z('S está lon;-C d' ser coiiheeida. 



HENRI BARTII 

Esboço Siiogrnphico 

Uma das perdas que as sciencias geographicas 
e históricas cxperimentai'am duiante o anuo de 
Í80j, a do dr. Barlh é, seguramente, das maiores 
e mais dolorosas. 

O grande viajante, o inlrei)ido & sabio explo- 
rador da Africa central morreu em Berlim no dia 
25 de novembio, cheio de vigor c vida, ferido 
por um d'esles golpes tão rápidos e certeiros, que 
matam sem ameaçar. 

llenri Barlh nasceu cm Hamburgo, cm 18 de 
abril de 1821. Seu pac era abastado negociante; 
porém Barlh ainda bem novo manifestou a mais 
invencível repugnância por aquella carreira. Mos- 
trou desde verdes annos para o estudo rara as- 
siduidade c admirável aptidão. Era para elle o 
trabalho da escola antes vivíssimo goso, do que 
afanosa tarefa 

Em roais de um escriplor lemos, que desde os 
12 annos havia traçado o plano de uma leitura 
melhodica de todos os auclores da antiguidade, c 
este plano seguio-o com surprehendcnle constân- 
cia, ampliando-o de todas as acquisições subsidia- 
rias, bebidas na edade media c tempos modernos, 
que são próprias para foililicar e desenvolver fiuc- 
luosamenle as noções aprendidas nos valiosos li- 
vros, que a antiguidade nos legou. 

U-om similhanle (lisj)osição de espirito e tal 
ordem de estudos, Barlh no século WI ou XVI l 
havia de ser um laborioso erudito: n'esla época o' 
saber sério e solido d'ellc impellio-o para as in- 
vestigações activas, e produzio um dos viajantes, 
que Sjcrão honra e gloria d'este século. 

Em 1830, Barth vai a Beilim para ali cursar 
as aulas universitárias. Coração impetuoso, ima- 
ginação impacientemente ardente, quiz beber em 
todas as fontes. A archeologia grega c romana, 
as antiguidades germânicas, a historia de todas as 
épocas, a philosophia anliga e a escholaslica, o 
direito allemão c o direito romano, tudo abrangeu 
simultaneamente: coisa raríssima, senão única, ti- 
nha tempo para devorar tanlas sciencias! 

As sciencias physicas, parece que o occuparam 
menos; aprendia, porém, escutando as lições do 
mais eminente geographo do presente século, Karl 
Riltcr, a encarar o estudo da terra nas suas rela- 
ções elevadas e fecundas, e a não separar esle es- 
tudo do da historia da iiumanidade. 

Receiava-sc que a allenção disseminada não lo- 
casse senão mui de leve na superlicie das coisas, 
deixando por isso de profundal-as. Um pensamento 
predominante produzia felizmente a unidade n'esta 
multiplieidade de investigações, e encaminhava-as 
|)0i- uma diiccção commum, sem a (piai não c 
íruclifero (|nal(|ner estudo. 

A idéa constante a que alludimos, era a anti- 
guidade clássica. 

As lições de BffcKh conlribuiiam muilis'^imo 



o PANOPxAMA 



139 



para fazel-o presislir ii'aquelia idóa. O illiislre 
philclogo havia promplanieiiledislinguitlo c loma- 
do grande alRMção aojovcii csludante, no qual trans- 
parecia, a par d'esla lara aptidão para as scien- 
cias liisioi-ioas, uma cnoi-gia de voniade (pic mais 
tarde havia de raanifcstar-se biilhanlemenle. 

Ao encerrar o seu primeiro anno da universida- 
de, IJarlh sentioo veherucnle desejo de ver uma 
j)arte, pelo menos, dos paizes ([uc foram o Ihealro dos 
glandes aconlecimenlosdo mundo antigo. 

Seu pae forneceu-Ihe os meios de emprehender 
uma viagem á ílalia. Passou 4 mezes em lioma c 
muitas semanas na Sicilia. Ainda impressionado pe- 
las solidas lições de Iiiller, Barth abraçava com 
a vista, cm presença dos monumentos das suas ci- 
vilisações mortas, lodo otheatro onde cilas se de- 
senvolvoi'am. Desde então concebeu o tenladoí' 
projecto de uma longa viagem, a qual, todavia, só 
decorridos i annosse verilicou. 

Queria executar o périplo do Mediterrâneo, ver 
os Togares que foi'am os lócos da chamada, talvez 
impropriamente, civilisação antiga, Tyr, Cartlia- 
go, Cyrenc c Alexandria e as plagas tão admirá- 
veis e formosamente recortadas, onde o génio hel- 
lenico, manifestando-se debaixo de suas múltiplas 
faces, mostrou ao mundo, pela primeira vez, até 
onde pode chegar o espirito humano na poesia, 
arte c liberdade. Esla excursão de Barth a Roma 
e a Syracusa teve no destino d'elle uma influição 
decisiva. Abriu-lhe as portas de um explendoroso 
futuro. 

Regressando, a Berlim prosogue os estudos uni- 
versitários, e continua-os ainda durante 3 annos, 
até 18ÍÍ. Na Ihese latina para o doutorado dedi- 
cada ao seu excellente professor e amigo Boeckh, 
na qual toma poi' assumpto a historia de Coryn- 
Iho, vè-se estampado o cunho da sua preoccupação 
dominante. O pensamento da grande viagem ás 
extensas, poéticas c históricas ribas do Mediter- 
râneo não o abandona, pelocontraiio, havia ama- 
duj-ecido e fortiíicado com a reflexão. 

A ausência devia ser mui longa e a despeza 
crescida; pouco mais ou menos 9 contos de réis 
da moeda portugueza. Não o faz, porém, sustar 
esta consideração na execução do poríiado empe- 
nho. 

No fim de janeiro de 18io dirige-sc a Londres; 
passa dois mezes curvado sobre as ricas collecções 
do museu brilannico, ao mesmo tempo que ence- 
tava o estudo dos primeiros elementos da lingua 
árabe, cujo uso lhe era essencial. D'ali parte para 
França. Atravessa este paiz e a líespanha, como 
viajante que lera um lim, que parece lhe tarda 
alcançar, não, comtudo, sem lançar um golpe de 
vista sagaz e curioso por sobre os interessantes 
logares onde passa e, essencialmente aíiuelles 
que accordam uma emoção poética, ou lembram 
um facto notável. 

Em 7 de agosto saltava em terra africana. 

Era ali que começava realmente a viagem, (los- 
leia Marrocos; peneira cm Ai-gel, onde o impres- 
siona o trabalho activo da transição, que se opera 
sob a inlluencia da civilisação europea; corta em 



diversos sentidos as regências de Tunis c Tripoli; 
contorna as Syrtes; visita a Cyrenaica, cuja con- 
templação desperta na alma recordações históricas 
tão antigas; costeia a ilha deChypre o a Ásia Menor, 
toca em Constantinopla, lança um olhar por sobre 
o que foi Gi"ecia centra na Allemanha peio Adriá- 
tico. 

Tal foi, pois, o seu itinerário. A relação d'este 
devia abranger dois volumes, dos quaes um ape- 
nas se publicou, c é esse que leva o leitoras por- 
tas do ]']gypto. Inlilula-se, «Excursões pelas re- 
giões litoraes da Africa cailhagineza cCyrenaica,» 
Wandennujen durchdas Piinisc/ie und Kyreuacis- 
c/te A'ust('u/and; é essencialmente pelos detalhes 
geographicos que se assignala a discussão da si- 
tuação das localidades antigas. A idéa primitiva 
do viajante talvez comporte algumas pesquizas mais 
dilíusas c sérias acerca do estado das populações, 
dos destinos históricos d'ellas e da inlluencia do 
desenvolvimento do estado social, nas suas rela- 
ções com as condições physicas d'esta zona meri- 
dional do Mediterrâneo; considerações de que Vol- 
ncy deixou tão exccllentes modelos para o Egypto 
e Syria. Talvez que Barth houvesse reservado para 
a segunda parte, que devia terminar a obra, os 
desenvolvimentos que suggerc aquelle vasto ebello 
assumpto do papel do Mediterrâneo na historiada 
humanidade. 

Tma circjimslancia imprevista vem surprehen- 
der Barth em meio d'aqueile relevante trabalho, 
para novamente o arrojar na carreiía activa das 
explorações. 

Pieparava-se em Londres uma expedição des- 
tinada ao interior do Sudan, expedição cujo plano 
havia traçado James Bichardson e que teri?, como 
a d'Oudney eClapperlon, em 1821, ou, com mais 
propriedade, como Iodas as expedições inglezas, 
um caracter conjunctamentecommercial e scienli- 
fico. 

James Bichardson escassa scicncia possuia; ur- 
gia, pois, aggregar-lhc bons observadores. Por 
instigação do eminente sábio Bunsen, n'aquella 
conjunclura embaixador da Prússia em Londres, 
foi á douta e admirável Allemanha que a Ingla- 
terra os requereu. A respeitablissima sociedade de 
geographia de Berlim indigitou o doutor Overweg, 
naturalista distinclo, grande especialista em geo- 
logia, o qual, sendo oriundo de Hamburgo, deter- 
minou o seu compatriota llenri Barth a reunir-sc 
á expedição. 

A posição dos dois mancebos allemães era a 
principio inteiramente subalterna; todavia o des- 
envolvimento imprevisto que adijuirio aquella 
memorável emj)rcza, os descobrimentos famosos 
que a illustraram, o vivíssimo c persistente inte- 
resse (pie todos lhe ligaram, o echo (pie produzio 
na Euro|)a ea resplandecência ([uea coroou, ludo 
isso é devido ao impulso que lhe imprimiram os 
dois jovens eruditos desde o inicio d'ella, á di- 
recção que lhe deram, á actividade sobrehumana 
([ue manifestaram, .c, talvez ainda mais, á fria e 
perseverante energia que nem um instante sequer 
afrouxou n'aquelle grande espirito de Barth, no 



40 



O PANORAMA 



meio das duras privações que durante cinco annos 
houve a cortir. 

Os companheiros d'elle caem um após oulro, 
extenuados com a fadiga e corroídos pelo clima. 
Ollia em i'edor, e vè-se sósinlio.Em uma occasião 
quasi sem recursos, no coração d'aquellas regiões 
iirdenles, é cercado por povos ignotos, em paizes 
onde a cada passo se topa com um j)erigo, onde 
cada relancear da vista é uma suspeita ou uma 
ameaça, e sem nieio^ilgum de communicar com 
a Europa. Durante mezes a vida d'elle está de- 
pendente de uma única palavra, de um acaso, de 
uma imprudência ou cajiriciío. Mas que imporia? 
Nada o desvia da sua mira. Observa e estuda. 
Desde a região do lago Tchad até á mysleriosa 
Timbucklu , onde consegue i)enetrai-, de toda a par- 
le colhe uma quantidade incrível de infoi^mações, 
110 meio dos perigos, como nos momentos da maior 
tranquillidade. 

Tem fe em Deus e em si próprio, e as suas fa- 
gueiras esperanças não deverão de ser frustradas. 
Foi o único dos desditosos membros da expe- 
dição que tornou a ver apatiia após cinco longos 
annos de trabalhos, fadigas c perigos inauditos ! 
As acclamações com que o saudaram no regresso 
inesperado d'elle, pagaram cm um dia cinco annos 
de martyrio. 

Foi a elle que coube o pezado cargo de desen- 
rolar perante a Europa a longa narrativa d'aquella 
prodigiosa exploração, sem duvida a mais com- 
pleta de quantas a nossa época lia produzido. E é 
por isso que a relação d'ella se estende por cinco 
grossos volumes, (1) e ainda estes cinco volumes não 
foram suííicienles para conter tudo. Barth i)ubli- 
cou em separado, de 18G2 a 1803 uma collecção 
de vocabulários colhidos em toda a extensão do 
Sudan. (2) Esta collecção subministra preciosos 
subsídios á elhnologia africana. Em uma terceira 
parte, que havia de complelal-a, Ijarlh propunha- 
se a submetler o alludido conjuncto de documen- 
tos linguisticos a uma elaboração comparativa, ([ue, 
indubitavelmente, projectaria grande luz sobre a 
clhnographia do norte da Africa. 

A morte ferio o escriptor antes que elle hou- 
vesse imprimido a conclusão dosou trabalho; mas 
assegui-a-seque o manuscripto está completamente 
acabado, e que a sciencianão lerá a deplorar uma 
nova perda além da do illustrc viajante. 

15aith, depois de regressar á Europa, havia 
lixado a sua residência em IJerlim, onde a sociedade 
de geographia o escolheu para presidente. 

Havia elle conlrahido o habito de fazer cada 
anuo uma excursão scientilica em qualquer parle, 
pouco visitada, dos paizes clássicos. Eslas explo- 
rações annuaes eranirt.ç suas férias; uns pecjuenos 
passeios em seguida ás suas longas joi-nadas. 

D'<'sta sorte visitou o norte da Ásia Menor, a 
Thracia, a Macedónia e o I>piio. Eslas excursões, 
que foram succcssivamente publicadas, são, debai- 

(1) Com o titulo de Traveis and ÍJisrovcrirs in Norlh and Cintral, 
Africa, 18'iO— lífiO. Lond. 1857— 18Õ8. A-chaiii.-ida edição fr.iiicezu 
ó uma mim traduído de um resumo aUfimâo em 2 volumes. 

(2) Summlnng imU JJearhcirluny Ccnirol — Alril^atuxclnr Yoca- 
butarien. Uolha, 18G2— 03, 2 vol. 



xo de uma forma modesta, mui interessantes e 
úteis acquisições para a sciencia. 

Barth, por isso, fui tão grande que mesmo nos 
seus ócios soube servir a sciencia alé á morle. 

Alfredo May 



UTILIDADE DOS CYCLO?sES 

Se os cyclones devastam os paizes que se acham 
direclamente em sua passagem, se fazem correr 
os navios os maiores perigos, são elles lambem 
que fértil isara as regiões (|ue visitam espalhando 
ahi benelicas chuvas. Parece que estes terríveis 
tlagellos teem uma missão a cumprii', e (pie o seu 
ulíl elVeilo excede muito os desastres que causam. 
A estação invernosa seria a ruína das messes da 
zona lorrida, mirradas pelo ardor de um sol im- 
placável, se frequentes chuvas não temperassem 
o clima (raquellas abrasadoras regiões. É preciso 
pois que as aguas vaporísadas nas regiões do equa- 
dor vão ser derramadas nos paizes ínlerlroi)ícaes. Os 
cyclones são os motores destinados para este trans- 
porte: é á sua passagem que se devem as grossas 
chuvas que fornecem as grandes massas de saes 
ammoniacaes, d'acido carbónico e de electricidade 
tão favoráveis á vegetação; chuvas benéficas, cuja 
acção salular chega muitas vezes a reparar os es- 
tragos causados pelo furacão. 



COMO SE FAZ O GELO EM BEiNGALA 

Nunca a temperatura em Bengala desce a ponto 
de se congelar a agua. Mas, obtem-se alli o gelo 
artíticial, procedendo do modo seguinte: Abrem- 
se covas pouco profundas que se enchem em parlo 
de palha; sobre a palha collocam, ao ar livre, al- 
guidares cheios de agua a ferver, A agua tem, como 
e sabido, uma grande força de i-adiação; espalha 
abundantemente na athmosphera o calor que 
contem: ora, o calor perdido d'este modo não 
pôde ser substituído pelo da terra, porque os al- 
guidares estão se|)arados do solo por meio da i)a- 
Iha, que c mau conduetor e detem-lhe a passa- 
gem. Antes mesmo do sol nascer, a agua dos algui- 
dares está convertida em gelo. Dizem, que para 
obter esta congelação devem-se escolher noites 
claras e serenas e durante as quaescaia mui pou- 
co orvalho E preciso lambem observar que a pa- 
lha não esteja húmida, porcjue o vapor (|ue (Telia 
sairia ese elevaria ao de cima dos alguidares, sus- 
penderia a dissipação do calor da agua, ou jjor ou- 
tros termos, a sua radiação. 



(;ALERL\ NACIONAL DE LONDRES 

A ímmensa caf/ítal da (Jrã-Brelanhaéa cidade 
que talvez possue maior numero decollecções par- 
ticulares, de galei-ias, de museus, de edilícíos des- 
tinados a aichivarem os prodiiclos da arte, e os 
exemj)lares zoológicos, cmlim tudo quanto chama a 
allen('ão, e atlralie a curiosidade dos viajantes. 

Os' mais notáveis eslal)elecímenlosd'esle género 
são: 3/iis('a inulcz, ediíício enorme, talvez sem ri- 



o panora:\ia 



MA 



vai no^undo, que possuía lamanha quantidade de 
objeclos relalivos a sciencias e arles, liltci-aluia, 
archcologia, cIc. que uão baslaram Irinla annosa 
uma sociedade de sábios pa:'a organisar o catalo- 



go; o Soane's museum destinado exclusivamente 
para objeclos archeologicos, que alulliam vinle e 
quatro salas, o entre os quaes se distingue um 
celebre savcophago de alabastro encontrado nas 




142 



O 1'ANORAÍMA 



minas de Tbebas; o museu de medicina; o museu 
de cirurgia; o museu ideológico de Saull; o mu- 
seu de anliguidades de Londres, rico em meda- 
lhas que sobem até à época do domínio romano; 
o museu entomológico; o museu zoológico; o mu- 
seu da Academia Real que possuía cai iões de Ra- 
j)liael, telas de Rubens e da maior parte dos pin- 
tores; a (jialeria Vermon que possue principal- 
mente quadros inglezes, e linalmenle a Galei-ia 
nacional, que a nossa gravuia lepresenla, e cujo 
edilicio SC dislingue pela sua nobre archilectura. 

Já vêem, por esíe leve espécimen meu, que não era 
exaggerado o nosso suavíssimo poeta João de Le- 
mos (juando exclamava, saudoso da sua iialria e 
mirando os esplendores da opulenla cidade in- 
gleza: 

Ânsias serras de tijolo, 

Eslaliias, praças sem lim, 

Retalham, cobrem o solo... 

Mas não me encantam a mim. 

Tinha rasão o grande poeta. Fica-le embora; ó 
Londres gigante, com a lua Galeria Nacional, os 
teus museus, os lius palácios c lemi)los que... 

Na minha terra uma aldeia 
Em noites de lua cheia 
L Ião beila, c Ião feliz! 
Amo a casiiilia da serra 
Co a lua dá minha lerra 
Ka terra do meu paiz. 



A BOCCA DO LNFEKNO 
II 

Que s(l Ião Irilhanic! (|ue lym|)ida allimos- 
])heia 1 Como oníre as arvores gorgeiam contentos 
os pas>aros! Como a natureza sorri ! E um lindo 
dia de agoslo, que convida a viver e amar! 

Mas a noite esteve ventosa, eo mar está crespo. 
Os navios que passam diante de Cascaes vão ao 
largo e parece que se arreceiam da barra, por cau- 
sado vagalhão que alli rebenta sobre os chopos. 

Lá se avista um lindo brigue com o j)anno 
solto ao vento. Como se cmballa sobre as ondas 
revoltas! Está muila gente na praia observando o 
brigue, que ora se levanta allerosono largo dorso 
de uma vaga, ora parece descer ao abysmo. De- 
manda a embocadura do Tejo, j)ára, observa, he- 
sita e volta de bordo, obedecendo ra|iido c ligeiío 
á manobra. O mar na foz referve em cachões; es 
lá a maré \n\\'à o a vaga é immensa. Que procu- 
ra o navio? Navega para a enseada de Cascaes. 
Aproxima-se; pára; ouve-seo apito do ollicial ma- 
rinheiro: o panno ferra-se. Seguc-se um ruído 
surdo. É a amarra que passa veloz pelos escouvens; 
é o brigue (pie dá fundo! 

A população de Cascaes corre quasi Ioda á praia 
para reconhecer o navio. De bordo larga uma 
lancha, bnada a oito remos, e trazendo, sentado 
a ré, um ollicial de miiiinha. 

O sol retlectellie nos galões de ouro da farda e 
do bonel. Na |)r<jia, alguns corações /'emeiínios 
balem de curiosidade e anciã j)or ver de perlo 
o oílicial que traz os cordões do leme, guiando 



tão bem a frágil embarcação sobre as ondEjA furio- 
sas, sereno e intrépido, como valente marinheiro 
que é. 

A lancha abicou, e um gentil moço de 2i a 2o 
annos saltou em lerra. Era segundo Icnenle. Na 
physionomia linha esses traços severos que reve- 
lam energia e denodo. A cabeça era de um bello 
perlil grego. Tinha o roslo loslado pelo queimor 
do sol imenso dos Iropicos. 

Os olhos eram negros e grandes; a barba prela 
e bem talhada. Por baixo do bigode alvejavam-lhe 
magnilicos dentes, cuja brancura faria inveja ao 
mais i)uro marlim da Elhiopia. 

Entre as diversas famílias que n'aquella época 
se achavam cm Cascaes, havia uma que constava 
somente de Ires pessoas, c cuja descripção vou 
rapidamente esboçar. 

D. Thereza de Brito era viuva de um velho fi- 
dalgo, admiiiislrador de vinculo, c morto havia 
Ires annos. Eicára com um lilho, que por direito 
de varonia herdara o morgado, e uma linda lilha 
de 21 annos, com quem Deus fora pródigo em 
graças. Christina era o seu nome — Christina Ade- 
laide, se não me engano. Havia no seu roslo uma 
suavidade melancólica que encantava. Advinhava- 
se-llie no olhar languido um mundo de myslerios. 
A boca, da còr vermelha do cravo, sorria esses 
sorrisos meigos que enfeitiçam. Os cabellos pre- 
ciosos coiiplelavam aquella linda imagem de mu- 
lher, que representada na tela, os apóstolos da 
arle tomariam porlicção, por sonho, por alguma 
inspirada visão de Cimabué, Rembrandl, ou Ra- 
fael. 

Na fronte de (Uirislina havia, alem da belleza 
altraenlc da forma, esses reflexos de luz superior, 
que são o poder falidico da fascinação, e (pie pa- 
rece lerem sido o segredo dos liiumi)hos de Cleó- 
patra, de Aspasia, c de lady Ilamillon, a celebre 
amanlc de Nelson. 

A formosura do roslo juntava Christina a per- 
feição esculplural da ligura. Realisava na suavidade 
dos contornos e na harmonia das proporções o 
bello ideal da plaslica, (]ue na antiguidade pagã 
celebrara o Júpiter de IMiidias e a Vénus de 
Praxileles. Tinha d'aquelle a mageslade, desla a 
formosura. No porte o ar de soberania do rei dos 
deuses — nas feições a languida ternura da amanlc 
de Mavoíle. 

Quando Christina passava, com a sua ligura de 
rainha, nos saraus de Lisboa, lodos a admiravam 
como um grande astro que não se podia lixar sem 
deslumbramento. 

I']u gosto de ver na mulher bella esse ar de su- 
pcriodidade, de soberania, que Ião bem (piadra á 
realeza da formosura. Clirislina do alio da sua 
magnilicencia olhava como por favor para as tur- 
bas dos cortesãos que aos pés lhe moviam Ihuri- 
bulos, envolvendo-a no fumo do incenso. Não 
eram esses Ihiiribularios (b; prolissão (pie podiam 
caplival-a. Alma elevadíssima, aspirava a go- 
zos superiores, (|iie não esses que lisonjeiam a 
vaidade sem darem ao cora(;ão verdaileiros 
prazeres. Sonhava com o omor, mas na paz, no 



o PANORAMA 



U3 



remanso, na solidão. Esse que se manifesta, qua- 
si sempre falso, no lumiilto dos l)ailes; que se ex- 
prime com phrasesparvuinlias e vulgares, aquefal- 
lam inspiração eenlliusiasmo; que se declara calçan- 
do as luvas, endireilando os coliarinhos, ou compon- 
doas pulseiras, esse, repugnava-lhe. Coração forma- 
para comprehejj^er ludo que é grande e superior, 
não poderia nunca impressionar-se pelos sentimen- 
los vulgares e melhodicos dos pretendentes de salão. 
Chrislina contava por este tempo 24 annos. 
Alguns pães se tinham apresentado a requerer 
para seus lilhos a mão da donzella, mas elfa re- 
geitára lodos; e quando a morgada um dia lhe 
perguntou se lenciunava íicar solteira, Christina 
respondeu: 

— Não sei ainda, mamã. O ([ue posso dizer-lhe 
é que só casarei com o homem que o meu cora- 
ção escolher. Dos que tem ate hoje pretendido a 
minha mão nenhum me agrada. Que quer? 
ISão posso tolei'ar estas creatui-as que apenas 
sabem fallar dos seus cavallos, e cuja linguagem 
ás vezes importuna mais do (|uc deleita as mu- 
lheres, dotadas quasi sempre deinstinctos delica- 
dos, que elles não comprehendem... Aquelle que 
quizer ser meu marido ha de amar-mc de outi'0 
modo. 

— Ora ahi está o que se chama ser creança. 
Ci'eio que o amor foi sempre a mesma coisa em 
lodos as épocas. 

— É verdade, mas em todas as épocas houve 
tolos, e houve homens superiores. Se soubesse 
. como os tolos me enfastiam! 

D. Therezanão comprehendeu bem oque Chris- 
tina quei'ia dizer. Fez um trejeito, e rctirou-se 
dando graças a Deus por ter uma lilha com tanto 
juizo. 

É que á morgada faltava o que Christina possuia 
em alto grau — irihlligencia e imaginação. Se é 
bom ou mau dote, não tento eu discutir. Para a mu- 
lher ci"eio que é sempie presagio de desventura. 

As imaginações vivas são ricas de visões. Chris- 
tina leve muitas, visões cândidas, que povoam a 
mente dos adolescentes e ari-astam muitas almas 
para precipicios, em busca da felicidade que o 
mundo não pode realisar. 

As vezes são eslns as imaginações que a socie- 
dade chama desregradas. Christina pertencia por- 
ventura a ellas — oh! mas bemdita a mulher que 
se deixa viver nas regiões doiradas da phantasia, 
e foge de cair no charco das vilezas e das aber- 
rações moraes, que na linguagem do mundo se 
chamam conveniências da razão, e similhantes. 

A. u'Oliveiua Pjííes 
{Conliima.) 

O QUE ACONTECEUIA SE O MOVIMENTO 
DA TERRA GESSASSE SUJilTAMENTE 

Supertluo seria dizer que procurando nós res- 
ponder a esta curiosa questão, lhe não damos por 
isso mais importância do que cila deve ler. Que 
o nosso globo cesse um dia subitamente "de 
girar, é o que nós podemos sem receio declarar 
impossível, e isto com toda a aucloridadc que 



pertence aos princípios da mechanica celeste. Da 
parte do nosso mundo não lemos a esperar,— a 
receiar— essa phantasia. A receiar, porque, com ef- 
feito, eis as consequências inevitáveis que resul- 
taiiam de semelhante phenomeno. 

Convém, porém, antes de tudo, dizer que a ve- 
locidade de um corpo situado na superíicie da 
terra compõe-se de dois elementos: movimento de 
rotação diurna do globo á roda do seu eixo c mo- 
vimento de translação á roda do sol. Em virtude 
do primeiro, os corpos collocados no equador ter- 
restre percorrem 417 léguas por serjumlo. Esla 
velocidade diminue do equador', aonde ella é má- 
xima, {)ara os poios, aonde é nenhuma, porquan- 
to os corpos teeni natiiialmenie tanto menos ca- 
minho a percorrer quanto menor for o circulo de 
latitude. Pelo que diz respeito ao segundo movi- 
mento da terra, da sua revolução no espaço á roda 
do sol, lodos os seus pontos indistiuctamente per- 
correm il)() léguas por minuto, ou 7 7,0 léguas por ^í*- 
fjuudo. Poder-se-ha fazer uma idea d'esta veloci- 
dade se se rellectir que um comboio expresso, 
expedido com Ioda a força, não anda mais de IG 
melros por segundo, e que uma bala de 24 ape- 
nas percorre na mesma unidade de tempo 390 
metros. 

Todos os pontos, que pertencem a um systema 
material em movimento, sendo animados do mes- 
mo movimento, se, por uma suspenção repentina 
este systema cáe subitamente em repouso, os pon- 
tos que se podem descollocar na sua superíicie 
continuarão, em consequência da velocidade ad- 
quirida, a mover-se na direcção primitiva. É em 
virtude d 'este principio que, quando succede um 
cavallo atrellado a um carro cair de improviso na 
sua carreira, os indivíduos que elle conduz, sal- 
tam desastradamente por cima da cabeça do pc- 
gaso; é ainda em virtude d'estc mesmo principio 
que e preciso tomar certas precauções quem des- 
ce de uma carruagem em movimento, a íim de, 
pousando subitamente no solo immovel em quanto 
que o corpo está ainda animado da velocidade 
adquirida, não ir beijar os rastos do vehiculo. 

A terra é, como lemos visto, uma carruagem 
mais rápida do que os omnibus, caleches, wagons. 
Se parasse de repente, escusado é dizer que, todas 
as precauções, para evitar uma morte instantânea, 
seriam inúteis. Todos os objectos que não estão 
implantados e fixos no solo, que só adherem á 
superíicie pela lei da gravidade, seriam immedia- 
tamente e de um só jacto lançados no espaço, com 
uma velocidade inicial de 8 léguas por segundo, 
rapidez de que somos dotados presentemente. Os 
jiasseantes Iranquillos, os trabalhadores e os in- 
dividuas em repouso, os animaes domésticos e os 
(pie vivem nas florestas, os pássaros, as nossas 
carroagens, machinas, em fim, tudo isto se preci- 
pitaria de um salto na direção do movimento da 
lerra. 

Quanto ao oceano, que cobre os dois terços do 
globo, a sua massa li(iuida, beijando as praias, sub- 
mergiria, em um abrir e fechar de olhos, as ilhas 
c conlinentes, coroando o edilicio da morte; de- 



444 



O PANORAMA 



pressa galgaria as mais elevadas montanhas e faria 
passar o nosso globo por uma transformação de 
superfície como "nenhuma das antigas revoluções, 
que o teem atormentado. 

Os theoricos que se (eem entretido em procu- 
rar no diluvio bíblico uma causa natural não teem 
deixado por vezes de por cm scena essa causa 
poderosa c de afllrmar que o choque de ura co- 
meta podia facilmente operara suspensão de mo- 
vimento e as suas pesadas consequências. Hoje 
sabemos que um cometa poderia passar sobre a 
terra sem que nós déssemos por tal. 

Outro fado muito curioso, que se seguiria ao 
anniquilamcnto da velocidade da terra, è este. A 
força centrípeta, que attrahe os planetas para o 
sol* deixando de ser contrabalançada pela força 
centrífuga, a terra cairia em linha recta no sol. 
Sc houvesse ainda sobre o globo outros seres alem 
dospeixes poderiam então ver o astro brilhante, que 
Ião pequeno nos parece, crescer, crescer, cres- 
cer g-ganleamenle. A terra chegaria láCí dias de- 
pois da sua sahida do lugar que occupava e de- 
sappareceria na superfície do planeta ardente, como 
um aerólílho sobre aquclla. 

O nosso globo não é uma excepção á regra ge- 
ral; a mesma sorte estaria reservada aos pulios 
planeta^,' se se achassem no mesmo caso. Assim, 
se a velocidade de Mercúrio, de Yenus, de Júpi- 
ter, ou de Saturno fosse anni(|iiiia(la, estos planetas 
iriam também, immedialamente, dar um passeio 
até ao sol, o primeiro em lo dias, o segundo em 
40, o terceiro em 767, o ultimo em 1900. 

Mas, eis-aqui uma cousa ainda mais curiosa. 

Está reconhecido que o movimenlp não pode 
deixar de existir, assim como átomo algum de 
matéria; pode combinar-se, dividir-se, perder-se 
em uma certa somma de forças parciaes, mas 
nunca anníquilai-se. Pode, e c este o ponto im- 
portante, transformar-seem calor; o transforma-se 
enectivamento todas as vezes que paiccc perdcr-sc 
como força motriz. Assim, dando-se repetidos gol- 
pes sobre um prego cravado e por consequência 
iinraovel; o movimento do motor, não se commu- 
nicando ao prego, transforma-se em calor: isto 
facilmente se percebe pelo lado. Sem multiplicar 
exemjjlos, lodos teem aílirmado por experiên- 
cias esta transformação nicchaníca do movimento 
cm calor. 

Ora, se por uma causa qualquer parasse instan- 
taneamente o movimento miiltiplo que anima o 
nosso globo, este movimento soIlVeiia a transfor- 
mação, de que acabamos de fallar. A tei-ra aque- 
ceria de rej)cnte; — c quer saber, leitor, em (\[\(\ 
grau? — A quantidade de calor gerado pela sus- 
pensão, equivalendo a um choque colossal, basta- 
ria não somente para fundir toda a terra, mas 
ainda para reduzir a sua maior parte a vapor. 

i'.sla consequência domina todas as precedentes 
c absorve-as. A terra deixaria de ser um planeta; 
a sua massa, o seu volume, a sua densidade, in- 
leiramenle mudados, não mais perniitliiiam as 
applicações fpie acima assignalamos, sobre o mo- 
vimento desordenado dos corpos na sua superílcie, 



a eílusão dos mares, e a queda no sol; lodos es- 
tes elementos dados pela mechaníca seriam mo- 
dificados segundo o modo mais ou menos rápido 
com que se tivesse operado o phenomeno. 

Se a suspensão em vez d'instanlanea fosse 
um afrouxamento ju-ogressivo, cujo complemento 
demandasse da duiação de algunsjiiinutos, a terra 
poderia lornar-se tão que.ile que^todos os seres 
vivos que existem na sua superficie perecessem 
subitamenle. 

Terminamos estas reflexões como as começa- 
mos, dizendo que a questão é mais curiosa (jue 
importante, e que, com toda a certeza, podemos 
dormir tranquíllos, c sem os mais leves indícios 
dos temores imaginários que ella momentanea- 
mente poderia fazer nascer em nosso espirito. 



MONUMENTO ERIGIDO À MEMORIA DE 
UENÉ CAILLÉ 

A colónia fi-anccza do Senegal, quiz, segundo 
consta, prestar um testemunho da sua sympalhia 
á memoria de Renè Caillé, ao qual se devem as 
príméíi'as noções positivas relativas á Africa cen- 
tral, mandando levantar em Deboké, assente no 
rio Nuncz, um poípieno monumenlo em cuja cons- 
tiucção a admínislração da colónia gastou íOOO 
flancos, (OiOOOO réis prox.) 

A inseri j)ção gravada cm uma das faces é da 
forma seguinte: 

«Este monumento foi levantado á memoria do 
illustre viajante Renc Caillé. Tendo partido d'esle 
logar em 29 de abril de 1827, chegou em 7 do 
setembro de 1829 a Tanger, havendo passado por 
TimLuktu » 

A. May 

SONETO 

Os poda?, que o são de raça fina, 
Eiilonderain (iiic c ler jírande (inura 
FJcvar o mhlimc a tal allura 
Que o mundo não perceba patavina. 

E sua linguagem tão divina, 
Que llic não mellc dciile acrealura; 
K cuida, ao escutar coisa tão pura, 
Que ella aos deuses.do olijmpo se úcslindi: 

Cliama-sc a islo f/onio transcendente, 
Que, Iradnzindo idéíts sinf/ularcs, 
ISão lhe é dado lallar linguadc gente: 

Estes são da poesia os luminares; 
Deixam o mundo, c devem, certamente, 
INo 1'arnaso habitar quintos andares. 

J. I. d'Akaujo. 
Não ha cousa que traga mais certo o som no ás 
moças, que a dòr grande: c ás velhas, tira-lho. 

B.UlBElItO 



Bemavenlurado se pode chamar nesta vida quem 
lem dòr que se suporte; pois segundo parece não 
se pode viver sem ella, assim, ou assim. 

B. UlDI-IKO 



Ty|). Franco-Porlguozi, Rua do Tliesouro Velho, G. 



19 



o PANORAMA 



^45 



O LEOPARDO 

A paníhera e o leopardo são duas espécies que 
pertencem á rara /'í7/;ía e que se confundem muitas 
vezes uma com a oulra. O leopardo (Felis leopar- 
dus, do lai. leo leão, pardns panlheia) habita na 



Africa e na Ásia; a panthera [Felis par dm) sós^ 
enconlia na índia e nas ilhas da Sonda, Ó pri- 
meiro c maior que a segunda e allinge por vezes 
1 melro 30 de comprimento, não comprehendida 
a cauda. A côr do pello do leopardo é de um lou- 
ro claro com 6 a 10 fileiras de manchas pretas 




o Leopardo 



em forma do roseta, islo é formadas do Ires a 
quati'o laivos simples, sobre cada flanco. A da 
panthera é de um amarello cai^reiíado, com um 
grande numero de manchas igualmente em forma 
de roseta, porém mais próximas umas das outras. 
Estes dois animaes vivem nas lloreslas, e sobem, 
dizem, ás arvores cora extrema agilidade perse- 
guindo os macacos, aos quaes fazem uma caça 
aclivissima. Os seus costumes são muilissimo se- 
melhantes aos dos outros animaes felinos de gran- 
de corpo. 

Existe na ilha de Java uma espécie d'esla mes- 
ma familia, que se chama Melas o Arimaii [Felis 
melas,) poi'ém mais comniummenle Paníhera ne- 
gra, que excede algumas vezes, as espécies de 
que falíamos, em tamanho- mas, ordinariamente 
tora o corpo e a forma geral da jjanthera, e a 
côr do pello negra deixa ainda distinguir signaes, 
jomo os d'esla, de um preto mais carregado. Mui- 
tos andores olham este animal como uma espécie 
jislincta, e outros consideram-n'o sim|)lesmente 
jorao uma variedade da panthera vulgar. Seja 



como fòr, é impossível existir um animal mais 
cruel, e de aspecto mais feroz. Durante o dia, não 
sae do covil; mas, logo que a noite cobre com o 
seu negro manto a terra, torna-se um objecto de 
teiror para lodos os entes vivos. 

O leopardo tem logar entre as figuras heráldi- 
cas. 

O TABACO 

(Conclusão ) 

A maneira de fumar o tabaco está também lon- 
ge de ser indiííerenle. 

Os cachimbos tuix'osouhollandezes leema vanta- 
gem de despojar o fumo dos seus óleos empyreuma- 
ticoscde lorna!-o menos prejudicial. Ocharuto, pelo 
contrario, colloca os fumadores na posição de mascar 
eenguliro sueco do tabaco, oque dá lugar a elleilos 
de irritação local, assim como a elleilos de absorpção 
muito incommodos. Os fumadores lêem os beiços e 
as gengivas inllamniadas, os dentes amarellos, fuli- 
ginosos e com o esmalte alterado. Emlim,oabuso do 
tabaco pôde gerar o cancro nos lábios, doença 



41) 



O PANORAMA 



tenivel, que do anno para aiino se tem tornado 
mais frequente. Segundo uma estatística devida a 
M. Leroy. oeaiicrodos lábios ligura apenas';,, en- 
tre a nuiíher, em quanto que no liomem eleva-sea 
mais de '/.,,;. O cancro da lingua poderia, como o dos 
lábios, merecer o nome de cancro dos fumadores ;'à 
sua causa é quasi sempre o abuso do cacliimbo, espe- 
cialmente do cacliimbo curto, dito rjuciriia-f/uclas, 
cujo fumo enira quente e agro na bocca. Também, 
por uma estatística de M. Jíoi-gerou, o cancro do 
estômago c mais freípiente no Immem do que na 
mulher, e a causa devc-se procurar nos funes- 
tos eíVtítos do tabaco de mascar. O celebre ptiilo- 
soplio fiancez .Mallebranchc morreu d'esta terrível 
moléstia: tínha-se habituado a mascar tabaco. 

Passemos agoi'a a fallar dos elVeitos do fumo 
do tabaco, o qual, segundo M. Melsens, contem, 
pouco mais ou menos, 7 por cento de nicotina. 

É sabido que niim espaço cheio de fumo de 
tabaco, não se podem reunii- muitas pessoas cde- 
morarem-se alli algum tempo sem experimentarem 
dores de cabeça, náuseas e mesmo syncopes. Eis 
um caso dos mais frisantes. Um mancebo de dc- 
zesele annos ;linha ido ^visitar seu tio, que oc- 
cupava, em uma casa de campo, um quailo pe- 
queno e pouco arejado. O lio entrou próximo das 
Ave-Marias em companhia de dois amigos e todos 
Ires estiveram fumando ate á meia noite. Logo que 
os amigos se retiraram, o lio quiz deitar-sc ao pé 
do sobrinho; mas, qual não foi a sua admiração, 
quando, ao entrar na cama, encontrou o mancebo 
inleiramente fiio. Pediu soccoi'ro, mas já era tarde. 
O joven linha succumbido a uma congestão cere- 
bral determinada pela asphyxía. 

E nas fabricas do tabaco, "especialmenie, que os 
peritos podem fazer as suas observações. A maior 
parle dos operários são obrigados a suspenderem, 
de vez cm (]uando,os seus trabalhos, por causadas 
dores de cabeça, náuseas, dyspepsía, etc. Ainda 
não ha muito tempo que um infeliz, que linha 
adormecido na casa da fermentação, morreu as- 
phyxiado. Os oj)erai'ios acostumados a esta alh- 
mosphera, conservam sempi-e um ar de soílrimenlo, 
com certos caracteres physicos de velhice pi'ematura; 
lêem má còi-, soíírem da cabeça e do cslomago, 
emmagrecem, icem tremores, ele. 

A maior parle d'esfes symplomas, com especia- 
lidade as dores de cabeça e digestões diíliceis, 
observam-se lambem nos fumadoies de jjrolissão. 
Experimentam habitualmente uma s<\le mais ou mo- 
nos viva, alternativas de prisão de ventre c de 
diarrhca. A estes symptomas juntam-seo cmbota- 
menlo dos sentidos, à denmra da concepção, o enfra- 
quecimento da memoria, a falta de preci'são nos mo- 
vimentos museu la r<>s, o tiemor dos mend)ros; n'uma 
palavra, tudo o que denota um estado mórbido dos 
centros nervosos. Os órgãos do ouvi(h) c da vista 
sonVem lambem com o abuso do tabaco, como o 
provaram M. Bonnafont, Sichel, líutchinson c 
oulros médicos. 

^ Segundo as avei'iguações expiírimentaes de M. 
Claudc Bernaid e do doutor Decaisne, o tabaco 
exerce principalmonie os seus elTeilos sobre os 



centros nervosos, com especialidade sobre a fibra 
motriz. Ultimamente citou-se o exemplo de um es- 
tudante ainda novo, que linha chegado a um es- 
tado de idiotismo epiléptico, resultado da embria- 
guez permanente de tabaco. Sir Charles Pastings 
observou um caso de epilepsia muito grave cm 
um menino de doze annos, que fumava em excesso 
havia dois annos, c que se achou curado logo que 
conseguiu abandonar este funesto habito. M. Mi- 
chéa, encontrou muilos exemplos de alaxia loco- 
motiiz entre os fumadoiTs incorrigíveis. O Doutor 
llilVelsheim contou na í/;??(íoJM//ca, um caso úede- 
lirinm Ircmens sem delírio, devido ao abuso do 
cachimbo, e que desappareceu com a causa do 
mal. 

iMas o que sobre tudo é muito grave, é a parle 
evidente que o tabaco toma no desenvolvimento 
das doenças menlaes, e especialmente d'esta for- 
ma de alienaftio mental, que se designa sob o no- 
me de gei-al e progi'essiva. Dois médicos belgas, 
Gaislan e Ilagon, foram os primeiros a mostrar 
a inliuencia do tabaco o das bebidas alcoólicas 
sobre o desenvolvimento quasi inaudito d'estas 
doenças. Por uma estatística do doutor Rubio, ve- 
se que o numero relativo de alienados é muito mais 
considerável nos paízes do Norte, onde o consummo 
das bebidas alcoólicas eo do tabaco é muito maior, 
que nos paizes meridionaes, muito sóbrios e pou- 
co fumadores. Segundo M. Moreau, de Tours, não 
se encontra um só caso deparalysía geral na Ásia 
Menor, onde se não abusa das bebidas, e onde se 
fuma um tabaco quasi isento de nicotina. Pelo 
conlraiio, as doenças menlaes mullíplicam-se de 
uma maneira espantosa na Europa, á meditla que 
o consummo do tabaco augmcnta. 

Já se viu que de 1830 a 18G2, o rendimento do 
tabaco, ao thesouro de França, elevou-se de 30 a 
200 milhões de francos. Oia, durante o mesmo 
peiiodo, o numei'odos alienados elevou-se, alli, de 
8000 a iiOOO. Eslas cifras não comprehendem, 
além d'isso, senão os alienados sequestrados; porque 
se se Ihé ajuntasse a dos (|ue são tratados cm seus 
domicílios, chegaria provavelmente a (iOOOOl 

Era suFiima, contando as outras doenças dos 
centros nervosos, que testemunham uma etio- 
logia communi e que não figuram nas eslaliscas, 
seria preciso escrever — 100:000 — para mos-trar 
o numero dos indivíduos que, em França somen- 
te, sotírem os elTeilos tóxicos do fumo do tabaco. 

M. Jolly pi'ocurou nosasylos públicos e particula- 
res documentos j)ropríos para esclarecer a ques- 
tão de que estamos ti-alando, e assim poude con- 
vencer-se de que nos homens é sempre a parai}/' 
sia nnisrnfar ou nicolica íjue domina, a ponto de 
constituir ella só por si o excedente da cifra nor- 
mal dos alienados, ([uando as outras formas dei 
alienação mental soIlrem apenas fracas variações [j 
de ^numero. Nos asylos das mulheres alienadas, |!| 
pelo conli-ario, não se encontram senão as formas 
antigas e poi- assim dizer clássicas da loucura, c 
as paralysias geraes raras vezes apparecem. 

Poderão objectar que ludo islo não passa do 
simples coincidências. Mas quando as coinciden 



i 



U l»ANOKAMA 



47 



cias se mui li plica m, equivalem a uQia demonslra- 
ciio. Vemos a principio que a paralysia geral a- 
ítica de preferencia os indivíduos que fazem uso 
de labaco mais ou menos saUii-ado de nicotina. 
Os mililarcs, os marinheiros sobre ludo, que ex- 
cedem o resto da população no uso do ca- 
chimbo e do charuto, liguram sempie em pilmei- 
j-a linha na cifra dos alienados parah ticos; pelo 
contrario, as mulheies são quasi isentas d'esla 
doença. As populações que não fumam, ou que fu- 
mam um labaco sem nicotina ou outras jdantas, laes 
como lúpulo, chá, ele. gosam da mesma immuni- 
dade. 

Objeclou ainda M. Joilyqueo abuso das bebidas 
alcoólicas associa-se muito a miude ao abuso do 
labaco, para que se ])ossain sepai^ai- os elíeitos 
d'eslas duas causas. Sem negar os elíeitos perni- 
ciosos do absinlho, da aguai-denie e de ouli^as be- 
bidas alcoólicas, W. Joily crè lei' demonstrado que 
o abuso do labaco deve ser considerado como sede 
principal das causas da paralysia geral dos aliena- 
dos, e eisa(|ui a razão: i)l. .lolly viu (e outros mé- 
dicos lêem já confirmado esta observação) paraly- 
licos bebendo apenas agua, mas fumando desme- 
didamente. M. Grisolle observou um doente que, 
muito sóbrio nas bebidas, fumava uma parte do dia 
e da noilee que tinha caido em um estado quasi de 
demência paralylica. Achou-se pronq)tamenle cura- 
do logo que, avisado da causa da sua doença, renun- 
ciou o labaco. O doutor Maillot, presidente do con- 
selho de saúde militar, aíTirmou que entre o gian- 
(le numero de paralyticos, que se oITerece annual- 
menlc á inspecção, encontram-se muitos que se 
distinguem j)ela sua sobriedade no que diz respeito 
ás bebidas alcoólicas, mas que abusam do cachim- 
bo e do charuto. Emlim, em certas províncias da 
França, Saíntonge, Limousin, Bretanha, aonde se 
fuma muito pouco, mas é'grande o consummo da 
aguardenle, a paralysia geial é quasi desconhe- 
cida. 

Este concurso de fados e lestemunhos é mais 
que suflicíenle para provar que é, especialmente, 
ao abuso do labaco, que se deve atlribuir a causa 
essencial da paralysia geral, doença que ligura hoje 
cm França por dois terços na cifra tolal dos alie- 
nados. 

Um lai fado não pôde deixar de ler influencia 
iio movimento da j)opulação. Elleclivamente, as 
eslalislicas provam que a população em vez de au- 
gmenlar lem diminuído. 

Antes de 18íí, o excesso annual dos nas- 
cimentos sobre os óbitos era de liJOOOO almas. 
Km 18Í7, nolou-se, pela primeira vez, um exce- 
dente na mortalidade de 107000 sobre a cifra dos 
nascimentos. Em IHoi, coníirmou-seumexcedenle 
de ()l>000 óbitos; o que, sommado com a cifra 
loOOOO, (pie tanto foi o de ISoS, dá uma perda 
de 211)000 almasem dois annos. l']m vão se lem i)ro- 
curado explicar estes Irísles resultados pela carestia 
dos víveres, pelas guerras, epidemias, causas Io- 
das eslas que, geralmente, produzem fracas oscil- 
lações no movimento da população; c não se 
lem allendido ao numero crescente dos alienados 



e |)araplegicos, com os quaes senão pôde contar 
para a roproducção da espécie. Além disso está 
provado que o labaco actua como um anaphrodisia- 
co, e M. Légalas citou ultimamente um exemplo 
frisanle. O abuso, pois, d'esla planta prejudica 
não sómçjpte as forças musculares e intellecluaes, 
mas ainda a conservação da espécie. 

O exame dos mappas de mortalidade n'estes id- 
limos vinte annos, inostra também (jue, de Irinla 
a cincoenia annos, os, óbitos são muito mais nu- 
merosos nos homens do que nas mulheres; de sorle 
que o numero {Fesías que, anles d'esla época, 
era inferior ao (Fatjuelles, hoje é supeiíor. Este re- 
sulíado, decididamente, não pôde conli-ibuir para 
o augmenlo da população. Frocurando a causa 
(Tesse vácuo ímmensoque se opéi^anas lileirasdos 
homens na é|)()ca mais llorescente da sua vida, a 
estatística da mortalidade diz-nos que o maior nu- 
mero d'eslcs óbitos é devido ás doenças dos cen- 
tros nervosos, ás dillerentes formas de doenças 
menlaes e de |)aralysias. Ora, como lemos de- 
monstrado que o abuso do labaco vem em pii- 
meíio lugar entre as causas d'estas alíecções, não 
se poderá contestar que este veneno não lenha uma 
influencia manífesla no nenhum augmenlo da po- 
pulação, mostrado pelas estatísticas. O labaco 
viria da America paia esgotar as fontes da vida'? 

Uma vez que o mal chegou a um tal grau de 
gravidade, é tempo de s& lhe procu!'ar remédio. 
Eis aqui as dilTerentes medidas que M. Jolly pro- 
põe: 

Em primeiro lugar, substituir no commercio os 
tabacos mais ou menos saturados do nicotina, |)e- 
los do Levante, Gi^ecia, Arábia, Havana, Faraguay, 
Brazil, quasi isentos d'a(|uelle alcalóide. Ao mes- 
mo lempo dar-se-ia á agricultura essa grande por- 
ção de terreno que França está empregando na a 
cultura de uma jdanla venenosa. 

Infelizmente, não é provável que um tal pro- 
jecto possa ser realisado. Mas n'eslecaso, M. Jolly 
propõe outra medida, que consiste em des- 
pojar os tabacos indígenas do seu excesso de ni- 
cotina. Díflicilmente se chegaria ao desejado íim, 
mas nada impede o introduzir bolinhas de algodão 
nos tubos dos cachimbos e nas boquilhas [)ara 
não poder passar a nicotina. Em todos os casos os 
chimicos deveriam díiígir os seus esforços para 
este lado, isto é: a eliminação da nicotina; fariam 
com isso um verdadeiro serviço á humanidade. 

O que lambem é necessário é esclarecer o pu- 
blico sobre o valor relativo das diversas espécies 
de labaco no ])onlo de vísla hygíenico, e sobre as 
doenças (|ue devem a sua origem ao abuso de tal 
planta. Dever-se-hia cmlim proscrever severamente 
o labaco cm lodos os estabelecimentos de ínstruc-' 
ção |)ublica, e prohibir a venda d'esla j)lanla aos 
indivíduos (jue contassem menos de dezeseis an- 
nos de idade. Estas medidas prohibílivas impedi- 
riam bom numero de crianças de se habituarem a 
uma cousa Ião funesta, n'uma idade cm (jue não 
podem prever as consequências, e arruinarem o 
seu temperamento e força antes de lerem acabado 
o seu desenvolvimento physico. 



a.8 



o PANORAMA 



UM BAILE DE ESTRELLAS NO 
SÉCULO XVII 

>'o anuo 1012, por occnsião do casamonlo de 
Isabel de Inj:lalerra com Frederico V, houve em 
Londres íeslas magnilicas, (|ue lerminaram pela 
re|)resenlação de uma esj)eeie de baile ao qual se 
jukou mui acertado dar o nome de Moralidade. 

Or|)héo appareceu primeiro seguido de um ca- 
mello, de um tigre e de um leão, aos quaes fascinava 
com os melodiosos sons da sua lyra. Cousa surpre- 
ln-nilenlel mas a idea uão era nova; em li72 já 
havia iigurado no Ihealro o Orfco (le Ange Toli- 
lien, peça áqual a Itália iiavia dado o nome de 
Irageília, e que foi representada diante do cardeal 
Erancisco de Gonzaga. O Orphéo do Ihealro inglez 
eslava ualuralmenle submellidoao j)oder do gran- 
de .luj)iter. Oi'a, (juando cmsegíiiu amansar os 
animaes ferozes que se achavam reunidos á roda 
d'clle, um mensageiro divino, Mercúrio, veio pc- 
dir-lhe da parte do lei dos deuses oulro mila- 
gre : convidou-o a fazer dansar as esli-ellas pro- 
longado os sons da sua lyra. Immedialamenle as 
cslrellas se agitaram nos céos e dansaram uma 
giga niuilissimo animada; cavalleiros armados de 
lanças negras guiavam csles astros, c quando dan- 
saram sullicienlemente no Olympo, desceram á 
lerra para divertirem os morlaes. Mas, súbito, as 
cslrellas femininas desceram do céo c, depois de 
lerem ligurado entre as nuvens, não desdenharam 
vir procuiar os dansadores e executarem com elles 
nma sarabanda. Eram as almas das íieis damas 
(jue provavam d'este modo a sua constância aos 
bellos cavalleiros com os (piaes haviam promeUido 
unir-se. .N'ist(i, sem duvida, e que estava a mora- 
lidade. 

Allirma-se que esle baile, que não c mais ex- 
Iravaganle que muitos outros^ leve uma fama sur- 
prehendenle, não diremos voga: estas peças mis- 
turadas de canto, apenas tinham uma represenla- 
ção e não serviam senão para a solemnidade que 
as havia feito nascer. 



TASSO 

BoDKincJo biograflco 

Torqualo Tasso nasceu cm Sorrcnlo, ali de 
de março de loíí. Descendente de uma das mais 
illuslres famílias de Itália, recebeu em Nápoles uma 
educação esmerada. 

pf.- Oiiando Carlos V desterrou de Nápoles os par- 
tidários do príncipe de Salerno, foi enti'e elles 
Bernardo Tasso, j)ae de Torqualo. A cslrella fu- 
nesta, que, não sei poique mofino sestro, acom- 
panha sempre os grandes génios |)oelicos, atlribuiu 
l^crnardo Tasso um especiai iiilliixo nas suas des- 
venturas; e |)ara logo resolveu tolher a oxlraordi- 
naria vocação para a poesia que em seu lilho se 
manifeslára desde a idade de sele annos, man- 
dando-o estudar direito em Pádua. 

Mas o génio reagiu; e, por entre as agruras 
da jiirisjHudencia, cresceu breve a ílor da poesia 



que— magesloso florão — engrinaldou depois o ins- 
pirado cantor da (íierusaleinmc liberala. 

Logo aos dezesete annos publicou um poema, 
sob o Ululo de Reinaldo. Mas o Reinaldo, como 
nota Voltaire, não passa de uma imitação de A- 
chilles, com quanto desperle mais interesse. To- ■ 
davia a estreia do joven poeta leve um acolhi- 
mento bastanle lisongeiro, que o animou a cnce- 
lar aos vinlc e dois annos a Jerusalém. i 

Tasso procurou um Mecenas, e alcançou o pa- * 
trocinio do duque Afíonso II, sendo bem recebido 
na còrle de í errara. 

Allirma-se que Torqiuito Tasso se apaixonara 
proíundamente por D. Leonor, irmã do duque. 
Alíonso II, breve foi iniciado nos suavissimos mys- 
lerios d'aquelles dois corações, e o poeta começou 
a ser mal tratado na corte. 

Sem bens, sem pao nem paíria, mal visto jxdo 
(lu(iue, e conhecedor da impossibilidade de reali- 
sar as suas mais intimas aspirações. Torqualo Tasso 
lornou-se extremamente melancólico, caindo por 
vezes n'um lai furor, que o fazia passar por louco. 
i)'estes accessos momentâneos lançou mão AlVisnso 
11, para o afastar do seu jialacio, encarcerandc-o 
no hospital de SanfAnna, que era então o hos[)i- 
tal dos doudos. 

Dejiois dp alguns annos de prisão, ponde tornar 
a ver a luz do dia, não para entrar de novo na 
exi)len(Uda còrle de Ferrái'a, mas para ir a Sur- 
reiílo ])edir a uma irmã algum allivio para assra 
desventuras; porém o poeta voltou |)ara Ferrara 
coberto de andrajos, e de novo foi encarcerado! 

Ao cabo de vinle annos de penas e piivações, 
os inimigos de Torqualo Tasso curvaram-se dianlc 
da auréola do génio, c o poeta foi arrancado aos 
braços da miséria. 

d cantor das crusailas foi mesmo chamado a 
Roma por Clemente VIU, para receber a coroa de 
louro, que n'a(|uelle lempo era uma grande honra. 
Porém, adoeceu durante os pre|)aralivos da cere- 
monia; e, ao romiier do dia, em que havia de ser 
coroado no caj)itolio, foi receber da mão de Deus 
a coroa iramarcessivel da gloria eterna. 

CaNDIUO FlGCEinEDO. 



lia chorar com lagrimas, chorar sem lagrimas, 
e chorar com riso: chorar com lagrimas é signal 
de dôr moderada; chorar sem lagrimas c signal de 
maior dôr, c chorar com riso é signal de dòr sum- 
iu a e excessiva. 

A dòr moderada solta as lagrimas, a grande as 
enxuga, as congela e as seca. Dòr, que pôde sair 
pelos olhos não é grande dor. 

1'.'' Amomo Vii;ÍRA 



LIVERPOOL 

(íiNa lia r<i[n«is'a 

í], (lo])f)is (Ifí i.oiidrcs, ;i cidade mais commcrcial do 
Rciíio-Uiiido. l''az |)arl(! do condado do l.aiicaslor, c de- 
jjruça-sc no ospollio críslallino do rio Mcrsov, (|iio lom, 
no silio cm (ino a l)anlia, nma lar^íiira do dois Ivilomelros, 
(í (|iio, tros Jviloiiiclros mais nl)ai\o,.sc vni lançar no mnr 
da Irlanda. K uma formosa cidade, conslruida om nmplií- 



o PANORAMA 



449 



Ihealro não poisada em collinas Íngremes como a Liver- 
pool nôrliigueza, a cidade do Porto, mas espraiada por- 
um plano suavemente inclinado. Cinge-a uma formosa laxa 
do lindas casas j:le campo que matizam os prados relvo- 
sos em que ja se presente a viçosíssima verdura da Ir- 
landa que lhe fica fronteira. _ ,• „. 
Conta esta cidade trezentos mil habdanies, e podíamos 
até da.r-lhe quatrocentos mil se raellessemos n'esle numcio 



a população dos arrabaldes, e os marinheiros do seu por- 
to. As principaes occupações d'esta população numerosa 
são o coDimercio c a navegação; mas a industria não está 
por isso menos desenvolvida, c não deixa de occupar 
uma grande quantidade de braços na construcção dos 
navios, no fabrico dos chronomelros, dos pannos para ve- 
las, das ancoras, dus amarras, dus artigos d'aço, das ma- 
cbinas de vapor, dos cristaes, do assucar, clc. 



m\ 



,iiii 



eiro'- 




iõO 



O PANORAMA 



Não soffrcu esta cidade, como a sua rival Mancheslor, 
c como o resto do seu condado {o de Lancasler'! com a 
guerra americana, que produziu a crise do algodão. A 
única manufaclura d'es(c género, que alii se eslal.>elecera, 
arrazou-a um incêndio em 18o3. 

A nalureza e a arte ligaram-se entre si para fazerem de 
Liverpool uma das mais imporlaiílcs cidades commcrciaesdo 
mundo. A sua posição no occidenie da Inglaterra lorna-a 
mais própria do que Londres para o commercio da Ame- 
rica, ponpie esta lhe fica a muito menor distancia ; es- 
tando defronte da Irlanda é naturalmente o centro de lo- 
do o commercio enire as duas ilhas, que formam o reino 
de S. M. a rainha Victona. Accresce a isto o ser esta ci- 
dade o porto natural dos ricos condados manufactureiros 
de York e Laiicaster. 

Serviços regulares de paquetes a vapor põem Li\erpool 
em communicação com os portos mais importantes da 
(irã-llretanha eVie Irlanda, do resto da Luropa. das duas 
Américas, das Índias e da China ; com as cida(ies manu- 
factureiras do interior ligam-n'a caiiaes c caminhos de 
ferro. Caminhos de ferro \ão alli parar cinco; um (jue 
foi o primeiro (jue se conslriiiu om Inglaterra, liga-a com 
Manchester, e não so este caminho de ferro, mas tandjem 
um canal põe em comnuinicação estas duas importantes 
cidades. Um outro canal, que é o mais grandioso de lo- 
dos os canaes inglezes, une esta cidade com a de Leeds. 

Por lodos os motivos mencionados e Liverpool o grande 
centro da importação dos produclos americanos ; a tonela- 
gem sommada dos navios que entram annualmenlc no seu 
porto c maior do que a dos na\ios que entram em Lon- 
dres. Por aquella porta cnlra também na Inglaterra a seda 
e o chá da China, o gado, o pez, as carnes salgadas, as 
farinhas, e os pannos d'lrlanda; e tudo isto é tanto mais 
prodigioso quanto Liverpool se pode dizer que não tem 
porto, ou que o não teria se a actividade ingleza não ope- 
rasse verdadeiros prodígios. 

Com eíleito Li\ erpool, situada junlo da foz do Mersey, 
iião ollerece o minimo abrigo aos navios, que ficavam ex- 
postos aos furacões, e que, na vasante, se enterraNam no 
lodo. Estas dilliculdades fariam desmaiar qualquer povo; 
não trepidou diante (relias a Inglaterra; o génio dos seus 
melhores engerdieiros hydraulicos começou a procurar o 
meio de obviar a todos' estes inconvenientes creados pela 
natureza, e encontrou... encontrou as í/oA«5, esses mara- 
Nilhosos portos arlificiaes, que obrigam as ondas a esta- 
carem perante obstáculos, que a mão dos homens, e não 
ja a mão de Deus, lhes poz diante como barreira insupe- 
layel. A primeira doka foi conslruida em Kiílfl, depois se- 
guiram-sc-lhc outras e outras, e o desenvolvimento do 
commercio de Liverpool é em grande parle devido a essa 
causa. 

As dokas de Liverpool são de cerlo os mais curio- 
sos e mais notáveis monumentos d'esla grande cidade. 
K em geral accusada a nossa época deburgueza, chata, mes- 
quinha, incapaz de comprehender o grandioso, de erguer 
essas moles gigantes, que airrontam os evos, e em (pie a 
nião dos Homunos gravou os poemas dasua gloria. A esta 
accusação respondem Iriumphantemenle asdokasde Li\er- 
pool contras construcções semelhanles. Oue imjtorta que 
não ergamos ColNseus, "templos erguidos áTerocidadede|)ra- 
vada d'iim povo corrupio egaslo, llicrmas colossaes, (pie 
não atleslam senão a \ oluptuosidade, indolência e desenfrea- 
do amor do luxo dos degenerados nelos dos Calões e dos 
(íracchos? Que imporia, se em troca (fisso, erguemos 
nioniimentos (jiic mais valem, dokas imponentes cm cujos 
diques de granito, em cujas muralhas agigantadas queíwa 
o mar com respeito as suas ondas espumanles? Lslcs (' 
que são os vordadciros monumentos d'uma ci\ilisação illu- 
minada |:(1) fulgor do Evangelho, mil \ezes su^periores 
aos monumenlos erguidos pelo fútil e depravado scnsua- 
lismo pagão da de( repila llon)a. 

São doze as dokas úc, Li\erpool, e prolongam-sc pelas 
margens do rio duraníc mais de Ires kilomelros; não fal- 
lando nas dokas giganies, começadas a conslruir em 18íi 
a cusia d'uma sociedade (raccionislas, dokas (|uc liveram 
já por feliz resultado transformarem a aldeola de Jiir- 
kenhcadc n'uma cidade de mais de (juarenla mil habitan- 
tes. As n)ais bellas dokas de Liverpool são as de Cla- 
rence. de Wellington e sobretudo a do príncipe Alberto, 



cuja conslrucção custou um milhão de libras. Junto das 
dokas ba formidáveis leliíeiros e armazéns, alguns dos quaes 
chegam a ler doze e quinze andares. Entre as muralhas 
das dokas c o rio correm uns pequenos cães que servem 
de passeios públicos. 

A cidade apresenta o aspecto gernl de Iodas as cidades 
inglezas modernas, um conjunclo de magnificência c de 
miséria, vastas ju-acas, ruas largas e bem arejadas, e \iel- 
las estreitas e imnuuidas, onde uma po|)ulação misera\el se 
roja nos Iremedaes mais asípierosos da pobreza e do \[- 
cio. Ruas como a de Escócia [Scolldnd-road] (Puma ex- 
tensão de perto de Ires kilomelros, orladas de lojas sump- 
tuosas, e becos infeclos onde os indigentes se accuQiulam 
em palcos escuros e doenlios. 

A parle mais bella da cidade é ainda assim a parle orien- 
tal, onde se admira o lindo passeio í|ue se intitula Mount 
pleas(int,úo qual sedesfiucla um a(lIllira^el panorama que 
abrange a cidade toda, o porto c as casas de campo dos 
arrabaldes. 

Liverpool debaixo do ponto de vista arlistico pouco 
offerecedenolavel ao viajante: osseus monumentos são frios 
e|H'sados.Ha n'esla cidade cenio e sessentae dois templos, 
capellas, igrejas, e synagogas, tudo edificios extremamente 
sinqiles. Os mais consideráveis são a igreja de S. Paulo, 
(pie tem um portal, que se esteia em formosas coluninas, a 
igreja de S. Jorge, cuja nave é Ioda il'.' ferro fundido, extra- 
vagância perfeitamente inglezal A alfandega, a praça do com- 
mercio, os mercados da carne e do peixe, manteiga, legumes 
ele, reunidos n'um edificio que se denomina o mercado de 
S.João, o mercado do trigo, os diííerentes Bancos, a caixa 
económica, e a casa da camará que a no.'si gravura repre- 
senta, são os edificios mais notáveis da cidade. 

Ha em Liverpool a mania das grandes edificações. Para 
se conslruir um grande deposito na rua de Watcrloo foi 
necessário demolirem-se cento e cincoenla casas; para se 
conslruir a estação de um caminho de ferro tornou-se 
necessária a demolição de cincoenla casas e uma igreja. 

Apezar de se entregar toda ao commercio, não seima- 
gine (pie a cidade de Liverpool desdenha o movimento 
scientifico e lillerario, ou que presta menos altenção á 
beneficência c á inslrucção publica. As classes illuslradas 
da Inglaterra fazem os mais louváveis esforços para ar- 
rancarem o ])rolelariado á situação terrível, em que se 
acha por muitas causas que seria longo enumei'ar. Em 
Liverpool abundam as instituições de beneficência c os 
asylos de crianças |)obres. Ima dasinsliluicões inaisuleis 
e mais originaes que lá se encontram é o asjjh noclur- 
no para os pobres srm casa. São alli recebidos os pobres 
e os estrangeiros que não Icem onde (içar. Ha lambem 
hospilaes íliictuanles jiara marinheiros; um d'elles é de 
inválidos, e recebe junclamenle com os marilimos,(pic 
não podem continuar a sua trabalhosa \ida. suas mulhe- 
res e seus filhos. Li\erp()ol possue lambem muitas insti- 
luições lillerarias e scienlilicas, entre outras o Mcchank íns- 
lilulc, cujo jardim botânico passa por ser o mais rico de 
Inglaterra. 

A historia de Li\erpool conla-se em poucas palavras. 
Como a da maior parle das cidades inglezas, moslra-nos 
um rápido e incessanlc desenvolvimento. Em ISlil era 
uma aldeia de pescadores (|ue possuia uns cenIo e (pia- 
renla habilanles, senhores de uns'doze ])arcos. JáemlCii 
('; uma cidadesinha rodeiada de muralhas. Em Kií)!) cons- 
Iroe, como dissemos, a sua primeira doka. Em J7(l() con- 
ta cinco mil habilanles; em 17.'{(i doze mil, em 17(i0 vin- 
te e seis mil, em 1T";{ Iriíila e quatro mil, em 17!)() cin- 
coenla e seis mil, em 1801 sclenia e sele mil, em 1821 
cenlo e dezenove mil, em 18íl duzentos e vini,e c cinco 
mil, actualmente conta mais de trezentos mil. E maravi- 
Ihosoi 

Esta prosperidade (If\eram-ira os habilanles de Liver- 
pool ao trafico iniipio da escra\alura, c a guerra da suc- 
cessão de Carlos II de llespaiiha que, iiniiediíido os ne- 
gocianles hespanhoes de traficarem impiiiiemenlc, entre- 
gou aos pouco escru|)uIosos navios da cidade ingleza o . 
mono|)olio d'esse commercio odioso. Sua muito sangue j 
o oiro que se empregou no dcscnvoUimenío de Liver- 

|)00l. 

l'iMii;iiio Cu A CAS 



o PANORAMA 



45 



INVOCAÇÃO 

Vontade sublime e viva que nome algum pôde 
exprimir, que idéa alguma pôde abraçar, cu posso, 
comludo, elevar a ti o meu coração; poi-que tu c 
eu não estamos separados' Dentro de mim a tua 
voz faz-se ouvir; em li, o incomprehensivel, a mi- 
nha própria natureza e o mundo inteii'o tornam- 
se-rae intelligivcis; lodo o enigma da minha exis- 
tência eslá resolvido e uma perfeita harmonia reina 
em minha alma. Diante de ti velo o meu rosto e 
ponho a mão sobre os lábios. O que tu és real- 
mente, o (|ue te mostras a ti mesmo, é-me tão 
impossível vel-o como chegar a ser teu semelhante. 
Depois de mil vidas iguaes ás dos espíritos supe- 
liores, eu estaria tão j^oiico no caso de comi)re- 
hender-te como hoje o estou no fundo da minha 
prisão d'ai'gila. () (jue eu compi'e!iendo, segundo 
o meu próprio entendimento, eiinito, e |)or pi'0- 
gressão alguma poderia transfoiniar-se em iniini- 
to; porque tu dilíeres dolinito, não em grau, mas 
em espécie. 

Não emprehendei'ei, pois, o que a minha natu- 
reza finita me impede de emprehender; não pro- 
curarei conhecer a essência e a natureza do ser. 
Comludo, as tuas relações comigo e ludo o que 
é linilo acham-sc patentes a meus olhos. Creasle 
em mim a consciência do meu dever, a do meu 
destino na série dos seres i'acionaes; ^como? igno- 
ro-o; ^mas tenho necessidade de sabel-o? O que 
é certo, é que tu conheces os meus pensamen- 
tos e acceilas as minhas intenções, e a con- 
templação de tuas lelações com a minha natu- 
reza linita basta para tranquillisar-me e tor- 
nar-me feliz. De mim mesmo não sei o que devo 
fazer; operarei simples, tranquillamente e sem 
nialicia, porque é a lua voz que m'o ordena, e a 
força com a qual cumpro o meu dever é a tua pró- 
pria. Não tenho medo algum dos acontecimenlosd'es- 
te mundo porque este mundo é o teu. Todo aconteci- 
mento fazparte do plano do universo elerno e da bon- 
dade. 0(iuen'este plano, é positivamente bem, ou so- 
mente meio de evitar o mal, ignoro-o, fVo teu 
universo, ludo acabará bem; ó suíTiciente para 
mim, e n'esta fé estou íiime. Que importa que 
eu não conheça o que é puro gérmen, ílor ou fructo 
perfeito! A única coisa para mim importante é o 
progresso da rasão e da moralidade atravéz das 
iileiras dos seres racionaes. Ah! quando o meu co- 
ração se fecha a todo desejo terrestre, como o uni- 
verso me apparece sob um aspecto glorioso! As 
massas mortas eincommodas que servem somente 
para encher o espaço des\anecem-se, e, em seu 
logar, uma eterna onda de vida, de força e de 
acção, dimana da giande fonte de vida pi'imordial, 
da tua vida, ó lu, eterna unidade! 



A BOCCA DO INFERNO 

III 

Luiz de Mello, o segundo tenente do brigue, 
pertencia a uma distincta família poriugueza. Ti- 
nham-no deixado seguir a carreiía de niarinha 
para lhe contrariar a vocação. 



Luiz gostava do mar, porque, dizia elle, eraalli 
que sentia a alma desligar-se das cadeias da ter- 
ra. Sonhara desde criança com a gloria e com 
o amor, copula abençoada enlre uma aspiração e 
um sentimento, da qual resultam muitas vezes he- 
roísmos. Creio mesmo que andam sempre ligados. 
A ambição dos triumfos que levava os heroes da 
cavallaria, os soldados da media idade aos campos 
da Palestina, ás plagas inhospilaleiías do Oriente, 
não era apenas ateada pelo fervor religioso — havia 
talvez o desejo voltar á I-lurojja podendo depor os 
elmos laureados aos pés da caslellã promettida. 
A inspiração que na alma do Dante creou os se- 
gredos sublimes do Inferno, insuíllou-a IJeatriz, a 
quem coube colher as palmas do génio da poesia 
moderna. Quando o lasso concebia a conquista de 
Jerusalém, ea imaginação fervente de enthusiasmos 
creava Tancredo, e produzia Armida,^ — o anjo dos 
seus sonhos, a^/íf/Zíí Eleoitora, hwpvmh talvez com 
um osculo na fronte do poeta o condão dos seus 
destinos immorlaes. Quando Rafael de Urbino, tra- 
çava na tela esses buslos inspirados das suas wfíc/o- 
nas, Foi'narina prestava ao génio da pintura os 
encantos do seu rosto e a ternura da sua alma 
apaixonada. 

Que glorias não tiveram o incitamento do 
amor? 

Luiz, que sonhava com os triumfos ganhos nas 
lides da intelligencia, estudava e escrevia; mas no 
meio das suas justas aspirações, sentia elle as 
vagas anciedades do coração, que anhela por sen- 
timentos mais suaves e não menos bellos — Luiz 
desejava, precisava amar. 

As ligações occasionaes, que forçosamente deve- 
ra ter tido durante a vida, não lhe satisfaziam as 
necessidades da alma, que pedia os gozos superio- 
res do alfecto. 

Passara no mar o melhor lem])0 da mocidade— dos 
14 annos aos 2o, e no mar nãoapparecem dessas 
creaturas formadas por Deus de uma parte do ho- 
mem, para serem d'elle eternas companheiras. 

Correra os oceanos; visitara quasi toda a Eu- 
ropa; vivera muito tempo nas regiões tropicaes; 
passara mais de uma vez o equadoí; e de mar em mar, 
de tormenta em tormenta gastara, esses bellos 
annos da vida. Se nos curtos inlervallos d'esta 
existência passada sempre sobre as aguas, acerta- 
va de encontrar alguma mulher bella a quem po- 
derá amar — a visão desapparecia rapidamente, 
passava-lhe de relance deante dos olhos — e elle 
continuava a seguir a sua sorte, velas largas pelos 
oceanos! 

Depois de alguns annos de ausência da pátria, 
Luiz de Mello voltava a Lisboa, e como o tempo 
não permitlisse a entrada sem risco no Tejo fun- 
diava defronte de Cascaes. 

Quando Luiz desembarcou, muitas das pessoas 
((ue estavam na pi'aia vieiam otlerecer-lhc servi- 
ços. O mancebo agradeceu cordialmente, e per- 
guntou onde podia fallar ao capiíão do porto. 
Acom|)anharam-no alguns homens, cnti"e os quaes 
foi o irmão de (^hristina. 

Pedro de Brito, que assim se chandava o lilho 



452 



O PANORAMA 



da sr.'' morgada, conhecia quem enlão exercia as 
funccões decapilão do porlo e apresentou-llie Luiz 
de Mello. Acabada a conferencia entre os doisof- 
ficiaes, Pedi'0 saiu com Luiz e convidou-o a des- 
cancar em sua casa. A morgada, fiel aos deveres 
da íios[)ilalidade, recebeu o tenente cora acorlezia 
que lhe era peculiar. 

O enlhusiasmo com que o mancebo fallou das 
suas viagens; as descripçOes cheias de verdade e 
poesia que fez do oceano e das tempestades, fas- 
cinaram Christina. O extraordinário principiava a 
produzir seu efloilo no espirito da donzella . 

Luiz não sentira menores imj)ressues quando 
Pedro de Brito o apresentou a sua irmã, e poude 
ver uma bella physionomia de mulher, que íixou 
n'elle um languido olhar. 

Durante a conversação Christina mostrou os 
dotes de espirito que possuia, e revelou ([uc a par 
d"a(iuella oj)ulenla natureza, existia um coração 
cnlhusiasla, e uma intelligencia disTincla. 

O accaso,ou a providencia, aproximava aquclles 
dois entes tão irmãmente organisados! 

P ara que hei de demorar mais uma confissão que 
a leitora perspicaz já adivinhou? 

Luiz amou Chrisíina, e foi cori-espondido. 

A. d'Ohveira Pjres. 

(Conlinua.) 



SOMBRAS 

.4 iueiii<H-ia de Jl. E3. Cciiz Liiua 'I) 
I 

Vai a ííenie vivendo n'oste miiiulo 
como hiiixci sem rumo no oceano, 
ale que enilim um dia (lí>sça ao fundo, 
myslerios d'alcm-lii!)iulo a sondar... 
ISõ cnlanio, as illusftes passam e correm 
—falsas miragens, qiic nossa alma prendem; 
mas passam! c com cilas lambem morrem 
aqucllos que no pó vão descansar. 

A morlc! a morlc é o ómcga da Aida, 
selo que fecha o livro da exislcncin; 
anjo, que ao fim de senda dolorida, 
nos conduz ao repouso tumular; 
nuvem ignca que vem a este inferno 
lagrimas enxugar, queimar abrolhos, 
c levar-nos lá acima aonde o eterno 
os marhres da vida sóc c'roar. 

A vida, curto epilogo das dores 
que alanceiam as almas dos precitos, 
?quem a pode chamar jardiu) de llores, 
quem ha dos homens que inda a possa amar? 
l'or isso, o nosso coração duvida 
se ha purgalorio (pie não seja o mundo; 
c os (pie eslalam os vínculos da vida 
é sorrindo que o mundo vão deixar. 

E pois que aqui se pena e além se gosa, 
VpVa que chorar (piem (reste vai de lagrimas 
sobe entre risos á mansão ditosa, 
onde não ha nem sondira de pe/.ar? 
Mas, viajor no dc.^-erlo da existência, 
cu choro um com[)anIicirõ de viagem, 
não sei se jior sentir a sua ausência, 
se por o não poder acompanhar !.,. 

(I) Foi nin ])Of'ta rle basLinle morccimenlo, rjiic clicgiiria a sor 
uma disliiicia j^loria (Jc Vizeu, fc o não arrtli.ieisfe a niorlo no 
verdor dos aiiuof. l'ut)lifou algumas |if)(«ias na (irinulda Oo I'(jrto, 
e noutras foUias periódicas; e deixou niuilas, iiiédit-is, (|iip, se 
não iiit! engano, breve seião oírere<^idas ;i aprcciaeão do imhlico. 



II 

Eu vi-lhe na fronte pálida 
o estigma do soíTrimento; 
e da dòr a pobre viclima 
não soltava um so lamento: 
curvado já para o tumulo, 
á desgraça o vi sorrir, 
e com as flores do génio 
os espinhos da existência 
encobrir... 

Da elernidade ao vestíbulo, 
inda enlão vinha involvel-o 
com as suas azas cândidas 
da poesia o archanjo bello; 
mas em sua fronle lívida 
breve o riso feneceu, 
e o fenecer d'esse jubilo 
foi transição momentânea 
para o ceu. 

Depois... ao ceu subia uma alma pura, 
c um cadáver baixava á se|)ullura. 

m 

Ás horas do crepúsculo, 
(piando desmaia o ília, 
e o sol, involto em purpura, 
um triste adeus envia; 

e quando além suspira 
a brisa; e a luz da lua, 
na campa fria e nua, 
da cruz a sombra estira; 

quando o cipreste Irèmulo, 
(ins auras agitado, 
entorna sobre os lunvjlos 
um canto dolorido: 

irei verter meu pranío, 
soltar tristes endeixas; 
e do cipreste ás queixas 
irei casar meu canto. 

Na lápida ?iiarmórea, 
á noilc a sós proslrailo, 
segredarei aos túmulos 
meu canto magoado, 

que ao ceu, o subtil bando 
das auras, erguer hade, 
as vozes da saudade 
no espaço murmurando. 

E lu ha>de escular-me, ó alma pura; 
e hasdc pedir a Deus, saudoso amigo, 
que eu \ença en)fim o mstl.e entre comllgo 
na partilha do bem que sempre dura. 

Cândido Figukuiedo. 



RESPOSTA A UM TOLO 

Um lí)lo exprobando a um lord o ler sidoaj)ren- 
diz de barbeiro, o giande personagem respondeu- 
Ihe: 

(cA differcnça que ha entro vós c cu, é que, se 
tivésseis sido aprendiz de barbeiro, ainda hoje o se- 
rieis.» 



Typ, I'ranr,o.pnrUiguc'za — Rua do Tlicsoiiro Velho, G. 



2CL 



o PANORAMA 



^53 



GIBRALTAR 

Esla notável cidade, a fortaleza mais temível do glo- 
bo, e uma das mais importantes possessões da Grã-Bre- 
tanlia, está situada na extremidade meridional daílespa- 
nlia, a beira do estreito do mesmo nome que liga o Me- 
diterrâneo com o Oceano Atlântico. A natureza fizera o 
rochedo, em que a cidade está construída, de diflicil ac- 
cesso; a arte lornou-o inexpugnável. É um promontório 
que está ligado ao continente por uma estreitíssima lín- 
gua de terra de perto de 900 metros de comprimento. A 
cidade conta 17000 habitantes. No tempo do ultimo cerco 



foi completamente reduzida a cinzas, mas das cinzas re- 
nasceu mais pomposa, senão mais bella, porque seoppõe 
a isso a particularidade que vamos mencionar. 

Todas as casas são pintadas de preto, em parte para 
que os olhos sintam menos a reverberação dos raios do 
sol, em parte para, em caso de ata*que tornar mais 
dillicil ao inimigo o vel-as dislinclamente. Em Gibralta^r 
reina o clima mais quente da Europa. Um calor africano, 
temperado pelos ventos refrigerantes do mar, consente 
que alli se cultivem todas as plantas meridiouaes. Não é, 
como se poderia suppòr, um rochedo mi e estéril. Pelo 
contrario, nas suas anfractuosidades, as cabras e os car- 




Gibraltar. 



neiros achara alimento sempre verde, e nâo ha uma pol- 
legada de terra que não esteja coberta de arvores de fruc- 
to de toda a espécie, umas crescendo espontaneamente, 
outras pertencendo a espécies aperfeiçoadas pela cultura. 
Gibraltar é também o único ponto do novo continente, 
em que se encontram macacos; e quer a tradição que 
para alli viessem pela Gruta de S. Miguel, profunda ca- 
vidade toda coberta de stalactites, situada ao pé do cume 
do rochedo, de que se não encontrou o fundo, e que se 
julga que forma uma via de communicação submarina 
icom o continente africano. 

Foi em Gibraltar que embarcaram os Vândalos para 
irem invadir a Africa, alli, em paga, desembarcaram os 
Árabes para virem invadir a Hespanha. Tarik fundou uma 
fortaleza, que teve o nome de Geb-al-Tarik, etymologia 
do nome actual. Em 1302 tomou-a aos Moiros Pernando 
II de Caslella, reloraaram-iva elles em 1333; mas, durante 
o reinado de Henrique IV de Castella, lomou-lh'a defi- 
nitivamente o duque de Medina Sidónia. 



Carlos V foi o primeiro que percebeu a importância 
d'esta praça, e que principiou a fortifical-a formidavel- 
mente. 

Corremos ligeiramente por estes primórdios da historia 
de Gibraltar, porque queremos dar circumstanciada noti- 
cia aos nossos leitores dos cercos, que fizeram a sua 
reputação, e que são eíTeclivamente das paginas mais in- 
teressantes da historia militar. Para isso traduzimos uma 
porção do artigo, que a este respeito escreveu o sr. A. 
Tardieu na Encijclofedxa moderna. 

«Não daremos, diz o distinclo escriptor francez, um rol 
exacto das fortificações que, nos tempos modernos, senão 
tem deixado de atcumular desde Carlos V cm todo os 
pontos d'esle rochedo, posição militar talvez única no 
mundo. Mas, como nos fallao espaço, limilar-nos-hemos 
a fazer conhecer o estado em que os trabalhos successivos 
do illustre Daniel Specke, do príncipe d'Hesse, d'Hornec, 
e do coronel Monirésor pozeram o lado seplemtrional, 
quer dizer a parle mais inaccessivel; por ahi se poderá 



•154 



O PANORAMA 



avaliar a força do rcslo. Sem fallar cm casamatas llan- 
queadas por* canhões do mais grosso calibre c ligadas 
t-iilre si i)or galerias coberlas, e uma linha dentada 
dfe baterias dispostas em escalão sobre diversas alturas, 
entre as formidáveis baterias WiUis, c a do liocli-Morlar, 
com que se coroa o vértice da montanha, ahi vai cm 
scguiila a enumeração das obras, que dominam a com- 
mònicaçâo única aberta entre a cidade e o continente, 
calçada\le seis para sele metros de largura, apertada cn- 
lre*o mar e essa lagoa ou inundação artilicial de que o 
principe de Ilesse teve a primeira idea, e que foi acaba- 
da pelos seus successores. De frente csla calçada é de- 
fendida por uma cortina, chamada a grande' bal cria, c 
por dois baluartes, (pie se apoiam um no mar outro no 
escarpado do rochedo. Esla frente, que cobre a cidade 
pelo lado do norte, é precedida por um grande fosso sem 
agua, por um caminho coberto, por uma praça de ar- 
mas, e por esplanadas minadas. Á direita da calçada e 
por cima da inundação, o escarpado, dividido na sua al- 
tura em muitas parles, forma outros tantos degraus ou 
terraços inaccessiveis, que se chamam linhas do Kei, li- 
nhas da Rainha, c linhas do Príncipe. Por outro lado, á 
direita da grande cortina, asseie baterias do caslello dis- 
postas em escalão segundo o traçado das linhas dentadas, 
e as baterias de Jlanovcr, e da rainha Carlota á esquerda 
do baluarte do norte, o cavalleiro da montanha, e a ter- 
rível bateria do Velho xMoIhe, que entra pelo mar, á ílor 
(Kagua, cruzam sobre o mesmo ponto fogos por tal for- 
ma fulminantes, que no grande cerco de 1779, os hes- 
panhoes deram a esta entrada da cidade o nome de boca 
de fogo. 

<' Todos sabem que foi em 1704, quando eslava mais 
accesa a guerra da successão da llespanha, que a cida- 
della de Gibraltar caio nas mãos dos inglezes, alliados 
do archiduquc Carlos. Mas o facto foi contado de dtíTe- 
rentes maneiras. Uns dizem que o almirante sir Jorge 
Rook, envergonhado de ainda nada ler feito com a bella 
esquadra que commandava, reunio próximo de Teluão 
um conselho de guerra, no qual, lendo sido proposta uma 
nova tentativa sobre Cadiz, e regeitada como impraticá- 
vel, por falta de tropas de desembarque, se decidio ata- 
car-se (librallarque se sabia que tiidia n'essa occasião uma 
guarnição insuíTicienle. Por conseguinte, no dia 21 deju- 
Iho, ai)resentava-se dianle de Gibraltar a esquadra com- 
binada da llolhinda e da Inglaterra; o príncipe d'IIesse- 
Darmsladt desembarcava com mil c oitocentos homens no 
isthmo arenoso para cortar toda a communicação entre 
a cidade c o continente, c intimava o marquez de Salinas 
governador para eniregar a praça ao archiduípic; re- 
cusando o marquez, o ataque, demorado dois dias por 
causa do vento contrario, principiava no dia 23; os ca- 
j)itãcs Ilick, .lamper, c V\'hitaker apoderaAam-sc das for- 
liíicações do No\ o .Molhe, abandonadas pelos hes|)an!ioes, e 
Salinas, vendo o inimigo senhor de uma i)arle dos fortes 
do sul, aceitava a capitulação olíerccida. Mas, segundo ou- 
tra versão muito mais cs*palhada, depois do bombardea- 
mento, alguns marinheiros ébrios tinham ousado desem- 
barcar, do lado da ponta da Europa, n'um sitio (pie se julga- 
va inacccssivel. Ilidiam conseguido escalar o rochedo e fazer 
prisioneiras todas as mulheres da cidade, que haviam saldo 
para irem a uma pequena capella dedicada á Virgem da 
Europa; o (pjc decidira Salinas a capitular. Eouvillc, nas 
suas Memorias, acciísa formalmente o go\erno hespanhol 
<le não ler feito caso do aviso (pie o duque de (iram- 
mont, embaixador de França, IIk; dera de uma próxima 
tentativa da Inglaterra sobre Gibraltar. 

"Fos.se como fosse, dcfiois de lomada a cidade, deve- 
mos prestar justiça aos hespanhoes dizendo que fizeram 
todos os seus esforços para a relomarcm. Logo, no dia 
11 de outubro de 17iií, o marquez de \illadarias abria 
a trincheira diante de (iibrallar, á lesta de forças IVance- 
zas e hespanholas, mas sem ter podido impedir (pie a 
praça fosse abastecida jiorsir .lohn íj-ake. Foi neste pri- 
meiro assedio, no dia . 'ti de outubro, (pie uns voluntários, 
debaixo das ordens do coronel Figuerra, e, guiados por 
um cabreiro do sitio, chamado Simão Fusarle, |)assando 
pela Ovcbradiira, proxiaio da Care-Guard, conseguiram 
;ilojar-se, sem terem sido vislos, na espaçosa caverna de 
S. -Miguel, d"onde tornando a sairtpiandofoi noite fcciía- 



da, escalaram a muralha de (".arlosV c mataram a guarda de 
Middle-hill desde o primeiro al(> ao ullimo soldailo; se 
são sustentados conseguiam iiifalli\elmenle tomar a pra- 
ça; mas espalhou-sc o alarma na cidadclla, e os assaltan- 
tes foram repellidos com perda de cento e sessenta ho- 
mens. 

»N"uma segunda teníaliva, no dia 12 de janeiro de 1705, 
quinhentos a seiscentos granadeiros francezes e walões, 
sustentados por mil hesiianhoes, ás ordens do tenenlo 
general Tuy, tomaram d"assalto duas brechas, uma cha- 
mada da Torre //cí/oju/íí, na extremidade das linhas de Fi- 
liei, a oulra mesmo no entrincheiramento da montanha, 
que Yilladaria sabia que e.-lava quasi abandonado acerta 
hora do dia. la ser tomada a cidade (piando uma carga 
de.-esperada (Puns qualrocontos ou (piinhentos homens, 
commandados pelo tenente coronel Moncal, repellio os 
inimigos para fora das fortilicações. Depois d'esle segundo 
assalto Villadarias foi substituído pelo marechal de Tessí?, 
que, apezar do poderoso concurso de Ponlis, encarregado 
lie bloquerr o ])orto com a sua esquadra, nada pôde em- 
preliender por causa do máo tempo, e teve ali', depois 
de sir John Leake abastecer pela segunda vez a praça, 
de retirar as suas tropas para fora das linhas, e de se redu- 
zir, mesmo por terra a um simples bloqueio. Assim terminou 
o primeiro cerco, que custou aos alliados mais de dez 
mil homens. 

«Depois interveio o tratado d'Ulrechl, cujo artigo 10." 
cedia á Grã-Brelanha, sem a minima reserva, a plena e 
inteira propriedade da cidade e do castello de Gibraltar 
conjiinctainente com o porto, e com as defezas c fortifi- 
cações que lhe pertencessem. Mas, como (^natural, esla ces- 
são custara muito á Hespanha; e cm 1720, cerlo de que 

seu governo lhe não recusaria o apoio moral, o mar- 
quez de Leda, sob pretexto de soccorrer Ceuta, cercada 
pelos Moiros, reunia uma força importante, na intenção se- 
crela de surprehcnder.Gibrallar. Ainda (Festa vez foi esse 
projecto descoberto, e a praça abastecida e soccorrida a 
lem|)o pelo coronel Kane, gcívernador de Miiiorca, 

«Por essa mesma occasião esteve a diplomacia quasi 
para restituir á Hespanha o que* a força e a astúcia não 
tinham podido enlregar-lhe. Disse-se, e* iiarece certo, que 
Fhilippe V só consenlio em entrar na Quadrupla Alliança 
depois do regente de França lhe ter assegurado (jue Gi- 
braltar lhe seria restituída proximamente; ab^. existe, nos 
Archivos da Coroa em Madrid, uma caria d'el-rei Jorge 

1 de Inglaterra, em que essa restituição é formalmente 
promellida. A aulhenticidade d'essa carta, bem que seja 
atacada na Inglaterra, é hoje reconhecida geralmente, e, 
se no duplo Iralado de 13 e 14 de Junho de 1727 senão 
faz allusão alguma a essa |)romessa real, sabc-se, por o 
ler dito o próprio lord Stanhope embaixador em Madrid, 
que fora recommendado o silencio a esse rcs[)eilo ao ga- 
binete hespanhol, para seu próprio interesse, afim de 
não sobrcsalíar a nação ingleza. Philippe V reclamou; 
mas não se fez caso*(ressa reclamação; e ali; cm 17'Z8, 
depois de um inquérito solemne do parlamento de In- 
glaterra, as duas camarás unanimemenlií intimaram el-rei 
Jorge, para nunca, nos seus tratados ulteriores, abando- 
nar os direitos incontestáveis da nação ingleza sobre esta 
preciosa conquista. Não tinham os hes|)anlioes pois outra 
esperança que não residisse na força das armas. Em 1730, 
sendo governador de (jibrallar o general Sabine, princi- 
piaram os hespanhoe? a construir os fortes de S. Fhilip- 
pe do lado (la baliia, e o de Santa Itarbara do lado do 
mar, ligados entre si |)or essas formidáveis linhas (pie apenas 
íicam a uma milha de di.slancia do rochedo; por occasião 
do grande cerco e do bombardeamento da cidade (1781) 
sentiram os inglezes o erro (pie haviam commeltido cm 
não impiieíar e impedir a conslrucção d'eslas linhas. 

«Temos pressa de chegarão assedio memorável que fez 
a reputação mililar de (id;rallar; por isso não insistimos 
na conspiração de Reed, soldado do 7;{ de linha, (jue, 
movido por um desconlenlamenlo ipiahpier, tentou en- 
tregar a praça aos hespanhoes, e (piasi (pie oconseguio 
(17li(lj. Emqiianlo a guerra (le 17(i2, rebentou e acabou 
Ião de repente, ipii; nem os hespaidioes tiveram tempo do 
preparar uma e\|)(>diçã() s(}ria contra (iibrallar, mas a guer- 
ra da independência (ia America ingleza, cm que o gabinelo 
hesjianhol |)odia contar com unia diversão poderosa ecom 



o PANORAMA 







o aclivo concurso da França c da IloIIanda, pareceu com 
r;i/ão uma occasião única de Icnfar um supremo esforço 
(lo lado do rochedo inexpugnável. Tendo o maríjuez de 
'\lnn)du\al, no dia IG dejunlio de 177!), apresentado acorle 
de Londres a declaração da guerra, cessou, no dia il do 
mesmo mez, toda a communicação eníro (libra.llar c a lies- 
l)anha, e no dia o de julho principiaram as lioslilidades. 
«Constava cnlão a guarnição do seis mil Irezenlos e 
oilcnla e dois homens, eiilrando olliciaes; mas o go- 
^ ernador Jorge Augusto Llliott, que linha sido nomeado 
para esse posto importante por causa de uma ferida re- 
cebida na batalha de Detlingen, e por ser\iços eminentes, 
que prestara como engenheiro em 1777 no cerco de Ha- 
vana, era um prodígio de bravura, de sangue frio, e de 
abnegação. No dia 10 de julho l)loqueiam os hespaidioes 
o |)orto; no dia 2G estabelecem os seusarraiaes na planí- 
cie de S. iloque. No principio de outubro o corpo dos 
cercadores consistia em quatorzc mil homens, commanda- 
dos pelo tenente general D. Martin Alvarez de Solo Mayor. 
os (piaes liidiam já soflVido muito com uma iincnção riova 
do capitão inglez Mercier, que vinha a ser umas granadas 
e uns balazios ocos de cinco pollegadas e meia munidos 
de um foguete, bellico artificio que durante o cerco todo 
os assaltantes procuraram imitar, sem nunca o consegui- 
rem. Os Ir.ibalhos tios hespanlioes avançavam vagarosa- 
nieníe, tanto mais quanto os inglezes, do cimo de uma 
plataforma acabada liavia pouco e chamada Rock Morlar, 
descobriam os seus mais leves movimentos tanto nas li- 
nhas como nos arraiaes. Com o anno de 1780 a fome, em 
consequência do rigor do bloqueio, declarou-sena cidade; 
mas no dia 18 de janeiro, o almirante sir Jorge Roduey, 
depois de ter batido a esquadra hespanhola e de ler feito 
prisioneiro o almirante D. Juan de Langara y Uuarte, 
que a commandava, conseguio abastecer a praça. I*arle, 
e logo no dia 27 o almirante hespanhol IJarcelo reforma- 
\a o blocpieio. Todavia não se limitava a isso a actividade 
tios marinheiros hespanlioes, e o diário do cerco falia de 
frequentes tentativas nocturnas, que, mais do que tudo, 
fatigaram a guarnição. A primeira, na noite de G para 
7 de junho, compunha-se de nove brulotes dirigidos, seis 
em forma de crescente contra os navios fundeados no 
Molho Novo, e Ires contra a náo Pantlwra, que se achava 
luiideada na Bucnavisla. Na dala do 1." de outubro de 
1780, a guarnição achava-se n'uma .situação deplorável; 
atacada pelo escorbuto, falta de viveres, e"dizimada todos 
os dias pelas canhoneiras e bombardas, teria talvez suc- 
cumbido se então se tivesse lenlado um vigoroso ataque; 
masemvez de atacarem, entretinham-se os hespanhoesa fa- 
bricarobrasd'assedio e a continuar um bloqueio inútil. No 
dia 12 de abril, estava a praça de novo abastecida, e a occa- 
sião perdida de vencer os sitiados pela fome não se lornava a 
encontrar. Depuro despeito, os hespanhoes bombardearam 
a cidade, que logo foi convertida ifum montão de cinzas, 
sem f[ue uma só casa ficasse de pe. Ao mesmo tempo as 
tentativas nocturnas das canhoneiras e bombardas lorna- 
\am-se mais frequentes e ameaçadoras, até porque o ge- 
neral Elliott, para poupar as suas munições de guerra, pro- 
hdiira que fizessem fogo sobre ellas; mas, como avançavam 
cada vez mais, lembrou-sc de mandar fundear a meio tiro 
d"espingarda da frente do Novo Molhe um Iirigue raso, 
i!i'pois de collocar cm frente do Molhe Velho um morteiro de 
treze pollegadas, atraz seis canhões a 42." de elevação. Ora 
no dia 28 de junho, quando pela primeira vez se ensaiou 
esie novo meio de defeza, houve susto geral no acampa- 
mento dos hespanhoes; e um batalhão, que se achava em 
armas, foi dispersado Ires vezes, 

«Desde esse dia todas as vezes que as embarcações fa- 
ziam fogo para a cidade o Molhe Velho rcsiiondia para o 
acampamento, hespanhol ; mas se o bombardeamento, 
no dia 1 de jullio, tinha (|uasi completamente cessa- 
do em compensação eslreitava-se sempre o blo(pieio; 
por isso os sitiados recorriam mais vezes ás sortidas. 
No dia 27 de novembro principalmente, ás Ires horas 
menos um quarto da manhã, houve uma muito felizmen- 
te dirigida pelo brigadeiro Uoss, a quemilLlliotl se 
I untara como simples voluntário, e que assombrou os 
hespanhoes; as obras avançadas foram completamente dcs- 
Iruidas pelo fogo, encravados dez morteiros de dezoito polle- 
gadas e dezoito canhões de calibre vinte e seis. 



«Emquanto os siliadores trabalhavam em reparar o estra- 
go o mais depressa possível, Elliott multiplica\a-se, prepa- 
rava melhores abrigos aos artilheiros, mandava ensaiar um 
novo reparo inventado pelo tenente deartilheriaKohler,com 
cujo auxilio se jiodia apontar em todos os ângulos, entre 
'20." acima e 70." abaixo do horisonte, o que permiltio 
varejar com favorável succèsso as obras avançadas do 
inimigo, sobretudo a bateria de S. Carlos. No "principio 
de abril de 1782, correndo a noticia que se approximava o 
momento critico c que se faziam enormes preparalivos 
em Cadiz e nos portos do Mediterrâneo, que ia chegar 
o du(|ue de Crillon com o conde de Artois e o diupicde 
Bourbon, e um celebre engenheiro de Arçon de quem se 
espcra\'am maravilhas, Elliott mandou distribuir pelas ba- 
terias da praça fornalhas para pôr em braza as lialas, e 
no dia (1 de "setembro um fogo de balas rubras, jjom di- 
rigido pelo general Boyd, segundo commandante da pra- 
ça, reduzia a cinzas a bateria Mahon, a do llanco, e a 
parallela adjacente, e arruinava gravemente as baterias 
de S. Carlos e de S. Martinho. Ora altribuio-se a esto 
desastre inesperado a precipitação com (pie foi ordenado 
e distribuído o ataque geral, eque deitou a perder sem re- 
curso algum todo o succèsso do cerco. Consta com elleito 
que, no dia 1) tlc setembro, quando o duque de Crillon 
mandou abrir o fogo, muitas das suas baterias esla\am longe 
de estar acabadas. Seja como fòr, o apparato bellico de- 
senvolvido pelos assaltantes ainda era formidável; do lado 
da terra, obras admiravelmente executadas, armadas com 
duzentas c cincoenla bocas de fogo, e defendidas por qua- 
renta mil homens, commandados por um general, até 
então habituado a vencer, e animado pela presença de dois 
príncipes da familia real de França; do lado do mar qua- 
renta e sele náos de linha e uma quantidade innumera- 
vel de fragatas; brigues, canhoneiras, bombardas, e cha- 
lupas flucluantes, e coroando isto as dez baterias lluctuan- 
les de Arçon, insubmergivcis e incorabustiveis, laes 
eram os jioderosos meios de destruição que iam ser 
emj)regados para subjugar uma guarnição de seis mil ho- 
mens, prostrados pela fome e pelo cançasso. 

«As cortes de ílespanha e de França, cancadas de verem 
prolongar-se indelinirlamenle o inutif bloqueio de Gibral- 
tar, com que se divertiam a Europa e os próprios sitia- 
dos, tinham, havia muito tempo, pensado seriamente em 
tomar esta fortaleza por algum meio extraordinário, con- 
tra o qual a sua posição inaccessivel, asna formidável ar- 
lilheria, e a habilidade do general Elliott fossem insulTi- 
cientes. Houve então uma como que aposta entre os en- 
genheiros a ver qual inventava planos mais audaciosos e 
extravagantes. Propunha-se formalmente construir na frente 
das linhas de S. Roque um enorme cavalleiro, que, le- 
vantando-se ainda mais alto do que Gibraltar, lhe tirasse 
o seu principal meio de defeza. O aulhor calculara a quan- 
tidade de loezas cubicas de terra que ahi se deveriam 
amontoar, o numero de braços que eram precisos, os dias 
que se deviam gastar., e provava que esse prodigioso traba- 
lho seria menos dispendioso e menos mortífero do que a 
continuação do cerco do modo como fora principiado. Outro 
imaginara as bombas asphyxiantes. O projecto de Arçon, 
engenheiro natural do Franco-Condado, fixou mais seria- 
mente a attenção do governo hespanhol; mas esse projecto, 
tão bem concebido, foi mal executado, e gorou por um 
concurso de circumslancias que o génio de Arçon não 
podéra prever. 

«Dez galeras tinham sido conslruidas de modo que apre- 
sentassem aos fogos da praça um costado coberto de uma 
blindagem de trcs pés de espessura e conservado n'um es- 
tado continuo de humidade por um mecanismo muito en- 
genhoso |)ara (pie as balas rubras se apagassem no mesmo 
sitio em que peneirassem. Primeira medida que só foi 
executada imperfeitamente; a falta de geilo dos calafates 
impedio o jogo das bombas que deviam alimentar essa 
humidade- Só a bordo de umad'ellas, aTallapiedra, é que 
isso se realisou. Em segundo logar as posições, designadas 
a cada uma das galeras depois dese ler sondado escrupu- 
losamente, não foram observadas; e D. Ventura Moreno, 
marinheiro valente, mas incapaz de combinar e de exe- 
cutar um plano, mettido cm brios por uma carta em que 
o general franccz Crillon lhe mandava dizer no dia 12 de 
setembro á noite: «Tel-o-hei por covarde se não dér 



156 



O PANORAMA 



começo ao ataque >- não tomou tempo de concertar bem 
as su*as medidas, nem sobretudo de bem calcular as dis- 
tancias. O que resultou doesta precipitação? Só duas galeras 
poderara collocar-se na distancia convencionada, a duzentas 
lo^zas da frente da praça, a Pastora, commandada pelo 
próprio Moreno, e a TÍilfa-Pjcdra, dirigida pelo príncipe 
de xNassau, e onde estava Arcon; e de mais a mais (i- 
caram expostas á bateria mais temível, a do l)aluarlcreal, 
emquanto no projecto de Arçon deviam estar todas 
asrupadas defronte do Velho Molhe e receber só de lado 
os fogos d"esta bateria. D'este modo essas duas galeras 
soíTreram mais do que olTenderam. A Talla-Picdra, .sobre- 
tudo recebeu um golpe mortal. A despeito da blindagem 
uma bala rubra penetrou na parle secca do navio. O seu 
eíTeito foi vagarosíssimo. A galera rompera o fogo pelas 
dez horas da manhã; a bala cravou-se-lhe no costado das 
três para as cinco, e o incêndio só rebentou de um modo 
irremediável à meia noite. Ao lado a San Juan teve a 
mesma sorte. Parece averiguado que as outras oito fica- 
ram intactas. Para cumulo de desventuras faltaram a um 
lempo todos os recursos; ancoras de soccorro, chalupas 
para receberem os feridos, ele. O ataque devia ser apoiado 
por dez navios de guerra, e por mais de sessenta chalu- 
pas, canhoneiras e bombardas; nem canhoneiras, nem 
chalupas, nem vasos de guerra appareceram. Emíim Arçon 
contara, para reduzir a silencio a arlilheria da praça com uma 
superioridade de mais de duzentas peças. No momento 
do ataque, os assaltantes não tiveram senão sessenta para 
setenta peças a oppôr ás duzentas e oitenta dos si- 
tiados. Além d'isso a esquadra combinada conservou-se 
espectadora immovel do combate. Guiché, commandante 
da esquadra franceza, mandar propor a Moreno suslen- 
tal-o; este recusou. 

«Voltemos á scena de desordem e de horror, que se 
seguio ao incêndio da Talla Piedra. No dia 14 de setem- 
bro, áuma hora da manhã, estava essa galera devonida 
pelas chammas; a o fogo como dissemos, pegára-se aba- 
teria próxima, a 5fiíi /hoíí; ás quatro horas oito ílucluantes 
estavam a arder. O capitão inglez Curtis parlio então com 
as suas embarcações para ver se salvava uma porção das 
tripulações; mas a explosão de duas das ílucluantes, 
que até fez sossobrar um dos seus barcos, interrompeu-o 
n'essa missão de humanidade, esó pôde levar para terra 
nove ofiiciaes, dois capellães e trezentos e trinta e quatro 
soldados e marinheiros. Ás onze horas mais três baterias 
vão pelos ares, e outras ardem à flor d'agua. Ainda res- 
tam duas ílucluantes, pega-se o fogo a uma, e os Ingle- 
zes, não podendo capturar aoutra, incendeiam-n'a. Na tar- 
de do segundo dia já nada existia d'essas terríveis machi- 
nas de destruição. A perda dos alliados, n'esle funesto 
dia 13 de setembro passou de dois mil homens, emquanto 
que os inglezes contaram apenas ao todo um oílicial e 
quinze soldados morlos e sessenta e oito feridos. Houve 
por occasião d'este desastre um jogo de amaríssimas re- 
criminações entre as quaesserá custoso reconhecer a ver- 
dade, d duque de Crillon, nas suas memorias, procurou 
justificar-se. e attribuir ao conde de Florida-Hlanca a res- 
ponsabilidade de uma precipitação, que não permiltira 
travar o combate como elle merecia travar-se. Arçon, 
pela sua parte, publicou, além das Memorias para servi- 
rem á historia do cerco de Gibraltar uma jusliíicaçãoem 
regra do sou projecto c do seu procedimento, debaixo 
do titulo de Conselho de fjurrra privado sobre os aconte- 
cimentos de Gibraltar em 1782; mas o que os justifica 
melhor a um e outro é essa nova actividade que elles de- 
senvolveram para continuarem o cerco de Gibraltar se- 
gundo um novo pbino que a imaginação viva e fecunda 
de Arçon de novo concebera. Conseguira elle abrir uma 
entrada no próprio rochedo do lado do Mediterrâneo, fa- 
zendo ir pelos ares as baterias baixas da fortaleza, depois 
fizera uma segunda abertura na entrada da vereda que se 
estreita entre 6 sopéíla montanha e o Mediterrâneo, e (|ue 
vai ter á ponta da Europa; mas não llies foi dado ver o 
eíTcilo d'estes novos trabalhos, que fizeram, segundo .se 
diz, estremecer Ellioll quando, depois de levantado o 
cerco, os vio pela primeira vez, porípie no dia .'{ de fe- 
vereiro de 17S.'{ o duque deOillon informava Eliiol que 
estavam assignados os preliminares da paz geral, e, Ires 
dias depois, que eslava levantado o bloqueio marilimo. 



Em fim no dia 10 de março trazia a fragata Theiis a no- 
ticia oflicial da paz; e no dia 13 Crillon e Elliott tinham 
uma entrevista a meio caminho dos entrincheiramenlos 
hespanhoes e da base da penedia. 

«Assim terminou, depois de Ires annoséele mezes edoze 
dias de duração, um dos cercos mais memoráveis dos 
tempos modernos, e que assegurava para lodo o sem- 
pre a Inglaterra a posse d'esla chavo do Mediterrâneo. 



KARL CIIRISTIAN RAFN 

Celebfe antiquário e philolo.iío dinaniarquez. 
Nasceu no dia 16 de janeiro de Í79o em Braborg 
na ilha de Funen; morreu em 20 de outubro de 
1864 em Copenhague. O trabalho ao qual Rafa 
deve, principalmente, a sua notoriedade europea, 
foi a grande obra d'elle acerca das antigas nave- 
gações dinamarquczas e noroeguezas na Groenlân- 
dia e nas plagas N. E. do continente americano, 
obra que foi publicada, em Copenhague em 1837, 
em um grosso volume em i.° com o titulo de An- 
tiquitates Americanae, seu Scriptores septentrio- 
nales rerumanlecolumhianarum in America. kM^m 
d'este importantíssimo estudo, muitos outros tra- 
balhos, lodos relativos ás antiguidades históricas 
e geographicas das altas regiões do norte, occupa- 
ram a longa carreira d'este laborioso sábio. Tra- 
balhos d'aquella natureza haviam-se tornado para 
elle um verdadeiro culto; foi, pois, para lhes im- 
primir maisunidadee actividade que em 1825 pro- 
moveu e organisou a fundação da celeberrima Socie- 
dade dos Antiquários do AW/e de quefoi secretario 
perpetuo e alma d'ella até ao fim da sua vida. 

lia poucas sociedades na Europa, que hajam 
assignalado a sua existência por trabalhos tão nu- 
merosos como di Sociedade dos Antiquários do Nor- 
te. Além de uma serie já considerável e sobeja- 
mente importante de volumes de memorias, deve- 
se-lhe uma coUecção em 3 volumes das «Historias 
heróicas do Norte ou dos Sagas mylhicos ou de 
imaginação»; uma «Colleção dos Sagas históricos do 
Norte» egualmente em 3 volumes; o Livro das tra- 
dições de Fceroe (Fícreyinga Saga) com commen- 
tai*ios críticos; os «Monumentos históricos da Groen- 
lândia,» em 3 volumes; as «Antiguidades russas;» 
em dois volumes; etc. etc. Todas estas obras, tex- 
to ou traducções são em dinaniarquez; algumas, 
porém, são acompanhadas de traducções latinas, ou 
teem sido vertidas 'para allemão. 

Aquella lista é muito incompleta e Rafn colla- 
borou prodigiosamente na maior parte de todas 
essas publicações. 

Alfredo May 



Que esta (jualidade tom a virtude, todolos 

trabalhos estimar pouco e os vícios muito menos. 

Francisco de Moraes. 



Do homem, que é mau do berço á sepultura, 

Uma íl coisa á natureza deixam 

Os hábitos ruins que não pervertam; 

Do coração é o ])rimeiro impulso. 

Garrett 



o PANORAMA 



4 57 




Gibraltar (fortaleza) 



A BOCCA DO INFERNO 

IV 

D. Thereza deixou Cascaes, passou o inverno e 
verão em Lisboa, e no outono voltou a tomar ba- 
nhos. Luiz de Mello, que durante todo este tempo 
continuara as suas apaixonadas relações com Chris- 
lina, vinha vel-a a Cascaes muitas vezes. A sr.** 
morgada é que não podia conformar-se com a lem- 
brança de sua filha se apaixonar por um homem 
que, sobre não ter capitães, andava habitualmente 
mar em fora, e devia por tanto ser um péssimo 
marido; ella, que se não cançava de contar 
os seus amores com o morgado, que vivera sem- 
pre junto delia, sem embargo, accrescentarei eu, 
de lhe fazer por fora suas infidelidades, segundo 
era voz publica. 

Era uma santa creatura D. Thereza de Brito! 
Revia-se nos filhos, porque ambos, dizia ella, lhe 
recordavam o defunto marido. Tinha um os olhos 
do morgado, outro a bocca, cambos a alma! Como 
ella fazia esta ingénua partilha da alma do morga- 
do, que talvez eslava então dando contas a Deus! 

No seu amor de mãe sonhara um dia com o fi- 
lho embaixador e a filha viscondessa. D. Thereza 
achava immensamente eufonica a palaíS'ra viscon- 
dessa, titulo que lhe parecia fácil de adquirir, 
tendo Christina, além dos alimentos que lhe per- 
tenciam, um bom dote em bens livres, que o de- 



lunlo morgado adquirira e não quizera encorporar 
no vinculo para deixar a filha em melhor situa- 
ção. 

Ora ver D. Thereza que Christina desprezara 
óptimos casamentos para agora se apaixonar por 
Luiz de Mello, causava-lhe grande desgosto. 

Por algum tempo a sr.^ morgada contentou-se 
em dirigir a sua filha mil exclamações de espanto. 
Depois passou a um monologo quotidiano de ex- 
probações. Finalmente, como visse que nem con- 
selhos* nem boas razões afastavam de mau trilho 
o coração da donzella, procurou obstar por todos 
os modos á continuação das suas relações com Luiz 
de Mello. 

Christina, firme no meiod'esta lula, sugeitou-se 
ás deliberações de sua mãe, ofTerecendo a melhor 
de todas as resistências, a resistência passiva. 

Amando Luiz como ella o amava, podiam ati- 
çar-lhe paixões ruins de ambição e soberba, que 
iodo o empenho seria baldado. Esta é, se não a 
maior, uma das grandes virtudes do amor, n'este 
século em que tudo se sacrifica ao interesse e ao 
egoismo. 

Mais do que as considerações de D. Thereza valia 
o amor de Christina, que se alimentava de espe- 
ranças, como todos os amores, esperanças muitas 
vezes irrealisaveis, mas que teem o dom precioso 
de enganar. É o mel com que Deus adoça as bor- 
das do cálix de absynthoquc o pobre amante che- 
ga aos lábios, e no qual, como disse o Tasso no 



4 58 



O PANOiLVMA 



primeiro canto do seu poema, vae enganado be- 
bendo a vida: 

Surchi amari ingannato in tanto ei beve, 
E clall'iDg.mno suo vita riceve! 

Tso entanto, estas contrariedades constanleraenle 
levantadas por D. Thereza faziam soíTrer muito 
Chrislina, e arrancavam-Iiie lagrimas, t{ue era vez 
de destruirem o sentimento parece que mais vigor 
lhe dão. 

Digam embora os felizes, os que do amor sú 
provaram o mel, que são tolos os (jue lhe haurem 
o absvntho, e consentem que o coração se lhes 
esmigalhe debaixo do pezo dos soíTrinientos. Ouanlo 
não valem mais; que myslico encaiito não tem 
mais as lagrimas do amor verdadeiro e santo, 
que os risos e as alegrias buliçosas do amor frá- 
gil e vulgar! 

Os que só tem sentido o coração pelas aíTeiçOes 
ardentes e desinteressadas, os que no regaço da 
mulher adorada teem chorado com cila as perse- 
guições do mundo, esses comprehendcrão o amor 
de Luiz e Christina, grandioso como todos os sen- 
timentos sancliíicados com o baplism.o das lagri- 
mas. 

Oh, amor! amor! mysto da alma edos sentidos, 
como te chamou Chateaubriand, de que a amizade 
ê a parte moral, como ainda hoje fluctuas grande, 
virginal, á superticie d'este oceano de paixões sór- 
didas' em que se precipita a humanidade, impel- 
lida talvez pelo destino da sua comdemnaçãol Só 
tu, amor, no calaclysmo que arrasta para o abys- 
mo tudo quanto é nobre e bom,e vae produzindo 
uma subversão monsti'uosa na alma humana, sólu 
não foste ainda envolvido! Surges, como o génio 
da poesia e da saudade no meio das solidões, co- 
mo o anjo que aponla para o futuro sobre as mi- 
nas de um mundo que desaba, bello, grandioso, 
imponente de magestade! 

Digam embora os (|ue hoje sacriiicam só ao 
bezerro de ouro, sem receio de que sobre elles 
caia a cólera de um novo Moysés — que o amor foi 
vencido pelo calculo, que a criança débil e meiga 
ficou para ahi moribunda n'alguma encruzilhada. 
É falso. O dinheii-o, estendendo por toda a i)arle 
as suas garras de abutre, procuiando emi)olgar 
ludo, até a consciência, ainda não chegou ao co- 
ração. Está ahi a scenlelha divina, que Salanaz 
não pôde apagar. 

Digam embora que o amor passou com o mundo 
antigo. >ão. Ouando aos pés da cruz victoriosa 
expiravam as salurnaes da impudica Vénus, oamoi- 
acompanhou o mundo moderno convertido em 
culto do coração, em aspiração de uma alma para 
outra. Foi um raio da luz sublime que illuminava 
a fronte do Chrislo qucconverteu na alma de Mag- 
dalena o amor maleiial e |)agão que comdcmna, 
no amor espiíitual que salva eieg(!nera! 

Eteino companheiro da humanidade, nasceu com 
Adão no Paraizo, para só morrer com o ultimo 
homem. Henrique Kleist apunhalando-se obede- 
cia á sua inlliiciicia; liuckinghdm sanilicando um 
exercito, e talv(.'z a |)ropria liiglateria, curvava-se 
ao seu império; Nelson traindo a capitulação de 



Nápoles ajoelhava, elle o vencedor, elle o he- 
róe, aos pés de Emna Hamilton, que era para elle 
a pe!'sonilicação do amor. 

ccOuand Tamour — disse Madame Cottin — n'esl 
pas une flamme qui cchaufl",', mais un feu qui 
brule, qui consume, qui devore, il eloulfe toul, 
tout, jusqu a la conscience!.» 

(Continua.) A. d'OuveIRA PlKES. 



APPLIGAGÃO DO BELLO AS SGIENCLVS, 
As LETRAS E AS ARTES 

As proporções e as relações reciprocas dos sen- 
dos immateriaes são a base das dilferenças que 
distinguem as sciencias, as leiras e as artes, assim 
como as suas diversas escolas e os génios que as 
teem i Ilustrado. 

As sciencias, laes como a geometria, astro- 
nomia, historia natural, geographia, etc, teem 
por tim a aveiiguação do verdadeiro e dependem 
quasi exclusivamente do sentido lógico. 

As leiras teem por íim a imitação da natureza 
ou a combinação dos factos naturaes, em uma nova 
ordem, sob a inspiração do verdadeiro, do útil, 
do sentimento da forma edo bello. Dependem dos 
quatros sentidos intíiUectuaes; mãs, propoem-se 
particularmente á união do sentido moral e do 
sentido poético, isto é, o bello moral. Collocadas 
entre as sciencias e as artes, comprehendem dois 
géneros de trabalhos: sciencias lilterarias e artes 
litterarias. 

As sciencias litterarias, taes como a historia, a 
philosophia, procuram o verdadeiro e o ulil, e de- 
pendem especialmente do sentido lógico e do sen- 
tido moral. 

As artes litterarias, eloquência, poesia, arte 
dramática, etc, buscam o verdadeiro, o útil, a forma, 
o bello e particularmenteo bello moral. De|)endem 
dos quatro sentidos intellecluaes, mas sobre ludo 
do sentido poético. 

As artes lambem, como a pintura, aesculptura, 
a musica, a dança, ele. , teem por objecto a imita- 
ção da natureza ou a combinação, em uma nova 
ordem, das formas naturaes. Dependem dos (|ua- 
tio sentidos intellecluaes e procuram o verdadeiro, 
o útil, e o bello, mas com especialidade o bello plás- 
tico. 

Assim as letras, que unem as sciencias ás ar- 
tes, dilVerem das primeiras, porque ajuntam á inves- 
tigação do verdadeiro a do ulil, da forma e do bello; 
das ultimas, porque dão á parle moral do bello 
a preferencia, em quanto que estas a concedem á 
parle i)laslica. 

A jiropoição do sentido lógico, que caraclerisa 
o pensador, com o sentido |)laslico, (jue caraclerisa o 
arlisla, estabeleci! duas classes dislinclas em cada 
ramo da artee da litleralura. Lns cingem-se mais 
ás idéas; outros á forma; estes à força, aquelles à 
graça. () mais j)ioximo da perfeição c o que, em 
lugar de apresentar esse antagonismo eterno da 
forma e do fundo, reúne, no mais subido grau o 
em justa proporção, os dois elementos do bello. 



o PANORAMA 



4 59 



É, applicaiulocs[c principio, que se poderá, com 
algum resullado, comparar e apreciar os grandes 
espirilos que, no mesmo género, são liabilualmenle 
opposlos uns aosoulros: Homero c Virgílio, Aris- 
loleles c IMalão, Tliiicydides e Xenophonle, Zeu- 
xis e Pliidias, Tacilo e Tito Livio, Demoslhenes 
o Cicero, Danie e Tasso, Miguel Angelo c Ra- 
l)Iiael, Corneille e Racine, Glucke Piccini, e, en- 
tre os contemporâneos, Hugo eLamartine, Cousin 
e Villemain etc. 

As relações do sentido poético com os senlidos 
lógico, moral e plástico, ou do sentimento dobello 
com o do verdadeiro, do ulil eda forma, dão con- 
ta das diílerenles escolas artísticas e litterarias. 

O fim geral da arte é a procura e a imitação 
do bello que a intuição nos revela na natureza. 

O fim da arte clássica é o ideal, isto é, a investiga- 
ção de um bello um pouco excepcional no verdadeiro, 
do útil edas formas naturaes. Exagerandoo seu prin- 
cipio e afastando-se muito do real á procura do ideal, 
pinta-se uma natureza de convenção. 

O Romantismo c o nome da revolução que^quiz 
conduzir a arte ao sentimento da realidade. Mas 
foi alem do fim; e, em vez de procurar o bello no 
real, julgou encontral-o no commum, que levou 
até ao trivial, e ornal-o pelo extraordinário, que 
perseguiu até ao desagradável, isto é, até ao con- 
trario do verdadeiro, do útil e da forma natural. 

Esta revolução produzio duas escolas românti- 
cas, que ora se separam, ora se prestam mutua- 
mente os seus erros: são o Realismo e o Fanla- 
sismo. 

O Realismo faz consistir o bello na imitação 
pei feita do ri>al e na pholograpliia, por assim di- 
zer, da natureza. É o Romantismo prosaico. 

O Fanlasismo comparte com o Realismo o de- 
feito de multiplicar as individuações e as descrip- 
ções estudadas a uiicroscopio, e distingue-se por 
uma afiectação de independência, pelo gosto do 
extraordinário e pelo descommunal das proporções, 
elfeito de óptica devido ao processo. 

A arte néo-classica é uma escola de conciliação que 
colloca u bello na alliança medida do real e do 
ideal. 



BAZIN 

Sinologo fiancez, nasceu em Sainl-Crice (Scine- 
et-Oise) em 26 de março de 175)9 efalleceuem Pa- 
ris nos principies de 1803. Desde 18i3 professava 
o curso de chinez vulgar na escola das linguas 
orientaes vivas. Publicou no ISonvean jourual 
asíal/f/ue numerosos trabalhos acerca da lingua e 
liltcralura moderna da CJiina; entre outros muitos 
um estudo importante intitulado le Siécle des Youcn, 
ou Tableau hislorique de la_ liUeraiure chinoise 
(18o0 — 18'>2.j No Univcrs píltoresque da livraria 
Didot, a Cliine moderne de Bazin, que loi'ma o com- 
plemento da Cliine andennc de Pautliier, é um 
dos mui raros volumes que podem dar algum va- 
lor serio áquella vasta compilação. 

A. M\Y 



ESCRÚPULOS HONROSOS DE DOIS HOMENS 
ILLUSTRES 

Mungo-Park, o primeiro c talvez ainda hoje o 
mais interessante dos exploradores da Africa, li- 
nha o costume de contar a miude, em intima so- 
ciedade, muitos incidentes curiosos c engraçados 
da sua celebre viagem à procura do Niger, inci- 
dentes que havia omiltido na obra que imprimio. 

Um dos seus amigos admirando-se d'isto, per- 
guntou-lbc um dia a rasão. 

— Sabe, replicou Mungo-Park, que fui a Africa 
com a missão expressa de explorar certas regiões; 
ora, importava muito que não somente as pesqui- 
zas fossem feitas com consciência, mas que os re- 
sultados dados ao mundo fossem Ião criveis como 
exactos. 

— De accordo, tornou o amigo; mas uma vez que 
nas muitas historias que nos tem contado, coisa 
alguma se nota que não soja Ião real como tudo 
quanto publicou; i porque, sem motivo, privar o 
publico de factos interessantes e tirar ao livro um 
exilo ainda mais feliz? 

— Não andei de levante no negocio, respondeu 
o viajante. É possível que a narração d'essas aven- 
turas dessem á obra uma voga ephémera; mas eu 
punha a mira mais alto. Entendi que havia sido 
chamado a cumprir um grande dever. Encarrega- 
do de um trabalho importante, desempenhei-o con- 
forme a minha capacidade o permiltio, e, cum- 
prida a tarefa, senli-me ligado pela obrigação, não 
menos grave, de dar á minha narrativa um tal ca- 
racter de authenticidade, de boa fé, de que pessoa 
alguma podesse suspeitar a menor parte. Se me 
abstive de contar, aos que não me podem conhecer 
senão pelo meu livro, as anecdolas que se afastam 
do curso ordinário das coisas, e que não me atrevo 
a dizer senão aos meus Íntimos amigos, é porque 
temi que um fado estranho, por mais averiguado 
que tivesse sido, fosse enlYaqrecer a auctoridade 
do todo; não (jueria correr esse risco. <; Deveria 
eu, pelo fútil prazer de fazer i-ir alguns ociosos, 
ou fazel-os abrir muito os olhos, comprometter a 
minha reputação de veracidade, da qual sou res- 
ponsável perante o publico, que me elegeu seu ser- 
vidor e delegado no vasto campo das descobertas? 

Depois da morte de Mungo-Park, um escriptor 
que preparava uma biograpliia d'este consciencioso 
e perseverante viajor, dirigio-se a um dos seus 
amigos, dotado de uma memoria das mais felizes, 
e pediu-lhe a communicação d'essas anecdolas cu- 
ja fama havia transpiíado fora do pequeno circulo 
d'escolhidos. 

Este amigo, que não era outro senão Waller 
Scott, refiectio -um momento c disse: 

— Não, não repetirei uma só palavra, embora 
me estejam bem presentes, e eu convencido da sua 
yeraciílade. Uma vez (|ue o meu honrado amigo 
Mungo-i'ark, não julgou acertado, depois de ma- 
duro exame, dal-as á publicidade, eu faltaria á sua 
memoria contribuindo a fazel-as conhecer depois 
da sua morte. 



4 60 



O PANORAMA 



IMAGEM DA VIDA 

...Embarquei de noite... Coisa alguma se po- 
dia distinguir... Pouco a pouco foi apparecendo a 
aurora; os objectos que me rodeavam tomaram a 
principio formas confusas, depois foram-se tor- 
nando mais claras, até que em fim o dia moslrou- 
se inteiramente. Este foi cheio de peripécias e 
de interesse: diversas perspectivas no horisonte; 
ora borrascas, ora bonança e bom tempo; uma 
companhia distincta, conversações variadas, A 
viagem, que no momento da partida me pare- 
ceu devia ser longa, não o foi. O tempo desap- 
parecia com o rápido andar do navio... De- 
pressa declinou o sol; as risonhas cores apagaram- 
se e d'ahi a pouco apenas se divisava no espaço 
essa infinidade de estrellas que nos enviavam de to- 
das as partes a sua mysteriosa luz... Mas eu sa- 
bia que o porto não estava longe, tinha confiança 
em quem nos guiava, e fatigado, do dia, adormeci 
em paz. — Tal é, me parece, a historia de uma 
vida. 



O JANOTA LITTERATO 

Do janota lilleralo 
Eu vou tentar a pintura ; 
Se ficar bom o retrato 
Heide comprar-lhe moldura, 
Obra de laltia em ornato. 

Não faltarão estrangeiros 
A pasmar dos meus pincéis; 
Conto já com bons dinheiros, 
E vencer os Raphaeis, 
Que em lojas pintam letreiros. 

Um janota bem pintado 
Enfeita sempre uma sala, 
Na parede pendurado; 
Toda a bella se regala 
Em lhe gabar o frisado. 

E se ajunta este idiota 
Ser esbelto ao ser la fui, 
Como prodígio se nota. 
Porque c ouro sobre azul, 
Luz da testa até á bota. 

Comecemos: — bigodinho 
Nas guias enserolado, 
O cabello frizadinho, 
O gargalo levantado 
A saltar do colarinho. 

Chapellinho posto á banda 
Em ar de certo desdém, 
Camiza de fina hollanda, 
CoUete, que mostra bem 
Quanto nos bolsos chalo anda. 

Casamiirilio aprimorado, 
Botirina de polimento, 
Um charuto desmarcado, 
Que lança fumos ao vento... 
E eis o janota esboçado. 

Mas janota— e litterato — 
E tão chistosa figura, 
Que se requer fino lacto 
Em quem fizer a pintura 
Desle sábio carrapato. 



Comtudo para pintal-o 
N'um botequim vou entrar : 
Eis lá vejo um a camllo 
N'uma cadeira, a fumar 
Monstruoso, havano talo. 

Falia d'um drama, portento 
Que saiu da sua penna: 
«Original pensamento 1 » 
Diz, sem ver que á lusa scena 
Tem ido eguaes mais d'um cento. 

Eis surge um severo crilico 
A castigal-o, sem dó; 
Fica o auctor paralytico, 
Afoga as magoas n'um grog, 
Tacha o censor d'impolUico. 

Outro apregoa o seu chiste 
Por diversos botequins, 
Diz que n'elle o sal existe, 
Que leiam seus folhetins, 
E acaba tudo que é triste. 

Este com grande ousadia 
A um bom auctor faz offensa. 
Outro mui parvo elogia... 
E os aprendizes da imprensa 
Corrigem-lhe a orthographia ! 

Aquelle em phrases mui ricas 
Louva as modas invasoras, 
Gaba das bellas as nicas, 
E para agradar ás senhoras 
Faz o papel de maricas 

Descrevendo uma soirée 
Aquelfoutro estraga a tinta; 
Um grande sábio se crê... 
Mas em loleima requinta 
Cuidando que alguém o lê! 



Fiz um péssimo retrato... 
É bem grande a minha dor! 
Trabalhei por ser exacto, 
Mas não pude ser pintor, 
Nem fingir de lilteralol 

Quiz pintar... e causei dó 
Por não estudar cm Roma!.. 
Dá-me ó Marrarr um lirò, 
Que hei-de guardal-o em redoma, 
E polo sobre um tremo. 



J. I, D ARAÚJO 



— Um tyranno. 
Quando deixa de o ser, c sempre escravo. 

Garrett 

A vingança é viriudc e c peccado; 
l*eccado (;m(|uanlo mal a executamos, 
Virtude emquanlo só por zelo honrado 
As afTronlas do próximo vingamos. 

Braz Garcia de Mascarenhas. 



Typ. Franco-Portugueza. Rua do Tlicsouro velho, C 



21 



o PANORAMA 



i61 



UMA RUA DE ALBANY 

Os Eslados Unidos acabam de passar por uma 
longa e dolorosa crise. A republica fundada por 
Wasliinglon, que alé aqui era aponlada como o 
modelo dos governos republicanos, e a demonslra- 
ção evidente da bondade d'essas insliluiçOes, sér- 
vio por alguns annos de argumento aos monar- 
chislas, que, sorrindo-se com desdém, aponta- 



vam Iriumphanles para a guerra titânica, em que 
se debatiam os estados da America, e diziam; Ve- 
de o fructo das vossas Iheorias, vede-o no próprio 
paiz, que a])iesentaveis como exemplo da suapro- 
iicuidade. 

INão acreditamos que essa deplorável guerra quo 
inundou de sangue os leríeis plainosdo novo mun- 
do abale por forma alguma as convicções dos de- 
mocratas; parece-nos que pelo contrario as deve 




Uma rua do Albanj' 



robustecer. A republica americana atravessou ura 
periodo doloroso, como todos os eslados podem 
atravessar, como todos atravessam quando no seu 
seio se levanta uma questão a que esteja ligada a 
sua existência polilica Ouando uma monarchia 
absoluta se transforma em monarchia constilucio- 
nal, ha lucla inevitável; ha lucta muito maior (juan- 
do se lenia a abolição de direitos feudacs, de pri- 
vilégios seculares de uma classe, ^como não have- 
ria uma lucla de gigantes quando se lenlou abo- 
ir a escravatura n'um paiz cheio de força e de 
vitalidade, a escravatura essa instituição seculai', 
que estavam ligados tão poderosos interesses? 
Quem se pôde espantar, por conseguinte, de que, 
no momento de se operar essa grande reforma, 
louvesse lucta? Quem se pode espantar de que 



essa lucla foãse terrível, sabendo quaes siío osim- 
mensos recursos d'cssa tão prospera republica? 
Quanto mais vigorosos são os combatentes, tan- 
to mais sanguinário c o combate! Mas o que 
devemos admirar ó como, no meio d'essc formi- 
dável calaclvsmo, se conservou o respeito da le- 
galidade, não havendo mais do que uma scissão 
na republica! O que devemos admirar é não ter 
ido cair o poder nas mãos de algum soldado fe- 
liz! O (jue devemos admirar é a magestosa sere- 
nidade com que a republica, linda a lucla, voltou 
ao seu eslado normal, sem (|ue uma só das suas 
insliluicões i)oliticas perecesse no naufrágio! 

Oescidpem-nosa digressão; eradillicil de evitar. 

Vamos já ao assumpto a que a gravura nos 
chama. 



4 62 



O PANORAMA 



A gravura representa uma rua de Albany, cida- 
de das mais anligas da União, eséde do governo 
do mais poderoso Estado do Norte, o de Nova- 
York. 

A cidade de Albany liça situada na margem 
direita do nudson,no meio de um território fér- 
til e bem cultivado. O lludson, que vai desembo- 
car no Oceano junto da populosa e commercial 
cidade de Mova- York, c accessivel até Albany a 
barcos de vapor, que põem em communicação a 
cidade que deu nome ao estado com a cidade 
que foi escolhida para capital. Um caminho 
de ferro liga Albany com Boston; duas estra- 
das commerciaes, uma que é a via terrestre, ou- 
tra maiitima, o canal Erié, ligam-n'a com Buffalo, 
centro do commercio, com as regiões de Oeste e 
com o Canadá. Por isso Albany e o ponto de pas- 
sagem obrigado de todos os emigrados europeus, 
que vão tentar fortuna n'esses vastos ermos ainda 
inexplorados. 

Esta cidade, fundada em 16Uí pelos Hollande- 
zes, conta actualmente perlo de 50000 habitantes. 

Os seus edilicios mais notáveis são o Capitólio, 
ou palácio do governo, feito de mármore branco, 
um Iheatro e um museu. 



D. JORGE DE MASCARENHAS, GOVERNADOR 
DE MAZAGÃO 

Os nossos chronistas habitualmente, e mesmo 
os nossos modernos historiadores, deslumbrados 
pelo esplendor da nossa grande época, pelo bri- 
lho das façanhas de Duarte Pacheco, do génio mi- 
litar de Affonso de Albuquerque, só consideram 
como digno da sua attenção esse glorioso cyclo 
que, abrindo-seno íim do século XV, no momen- 
to em que Vasco da Gama põe o pé na tão alme- 
jada praia do Indostão, se fecha no llm do século 
XVI no lúgubre instante em que os valentes 
portuguezes perdem de vista o doirado elmo de D. 
Sebastião no meio das ondas de mourisma, que, 
tlagelladas pelo veflto da sua espada, de lodos os 
lados o piocuravam subverter. 

Comludo e necessário jiensarmos que a gloria 
portugueza não se resume Ioda n'essa época; é 
necessário não nos dei\ai'mos por tal forma ce- 
gar pelos esplímdorcs da boa fortuna que só con- 
sideremos conm dignos da immortalidade os gran- 
des feitos dos nossos maiores no tempo em que 
um destino propicio bafejava as quinas portugue- 
zas. Não supponhâmos que o vasto império lusitano 
se desmoronou sem lucta,c que os lilhos dos Cas- 
tros e dos Atiiaydcs renegaram logo a herança da 
gloria que seus pais \\m haviam deixado. Nãol 
Portugal luctou por grande espaço de tempo con- 
tra a má fortuna, e a historia da sua (pieda he- 
róica não é menos digna da nossa attenção do que 
a historia do seu glorioso desenvolvimento. L(!van- 
temos o negro veo, que nas nossas chronicas es- 
conde os sessenta annos do captivciro hespanhol, 
como na galeria dos retratos dos doges cm Vene- 
za esconde um véu igualmente negro o sitio em que 
devia estar o retraio de Marino Ealiero, decapita- 



do por traidor. lia razão para isso; Portugal tam- 
bém fora decapitado, e decapitado por ter traí- 
do, em benelicio de uns frades perversos e fa- 
náticos, a alta missão civilisadora, que a Pro- 
videncia lhe coníiara. 

Levantemos pois esse véu, e convençàmo-nos de 
que a lista dos grandes feitos dos portuguezes não 
linda na segunda deléza de Dio; convençàmo-nos 
até de que talvez fosse necessário mais desespera- 
do heroísmo aos soldados de então para caírem 
com gloria, do que aos seus antepassados para 
lançarem os fundamentos do seu immenso impé- 
rio. Se estes tiveram que luctar com os índios, 
que defendiam a sua pátria e a sua religião, com 
os valorosos Musulmanos, que eram n'essa época 
o terror da Europa, tiveram aquelles que luctar com 
esses mesmos Musulmanos, e além d^isso com essa 
raça enérgica, forte, e obstinada dos IloUandezes, 
com os valentes soldados, que fizeram recuar os 
velhos terços hespanhoes, com os companheiros 
heróicos do conde de Egmont, do conde d'Horn, 
de Maurício de Nassau, de Guilherme o Taciturno, 
de Marnix de Sainte-Aldegonde; e em que cir- 
cumslancias emprehendiam essa lucta! quando es- 
tavam sujeitos a um domínio estrangeiro e odiado, 
quando viam a sua pátria enluclada, quando ti- 
nham de combater pelos oppressores d'elles, quan- 
do os seus mais valentes irmãos de armas lhes 
eram arrancados para irem ensopar no seu sangue 
as terras frigidas de Flandres, quando a politica 
hespanhola parecia tender unicamente a sacrifi- 
car, a enfraquecer o reino, (jue approximára Fi- 
lippe II do sonho doirado da monarchia universal. 

Contaremos um dia algumas das façanhas com que 
os nossos antepassados se oppunham ao desenvol- 
vimento do poder hollandez; hoje evocaremos ape- 
nas das trevas do passado um dos vultos heróicos, 
que, nas nossas praças africanas, continuavam as 
tradições dos heroes de Ceuta e Arzilla, e vinga- 
vam nos mouros o desastre de Alcacer-Kebir, que 
fora origem de tamanhas desventuras. 

Em I()16 era governador da praça de Mazagão 
um valente lidalgo porluguez, D. Jorge de Mas- 
carenhas, que foi depois conde de Castellonovo. 
Era homem da velha raça dos combatentes da Africa, 
pelejador inlrepido, (jue só folgava de viver no 
meio do ardor das batalhas, que tinha o cheiro da 
pólvora pelo mais delicioso perfume, e as corre- 
rias contra os árabes pelo festim mais deleitoso. 

Elle é que podia dizer com a bailada antiga 

Miiilias galas são as armas 
Meu tlescaiiço o pelejar 

Durante o seu governo pouco descanço tiveram 
os mouros. Não esperava elle que o viessem ata- 
car; mas tomando a iniciativa, ia á testa dos seus 
cavalleiros, mal assomava no céu a estreita d'alva, 
espalhar o terror nos aduares dos lilhos do deser- 
to. Sempre de espada cm puuho, sempre armado 
de ponto em branco, i)arecia aos seus compatrio- 
tas o espectro gigante de uma época já extincta, 
o ultimo dos com|)anheiros de D. João I, o ulti- 
mo dos bravos pelejadores de Aljubarrota, o dos 



intrépidos conquistadores de Ceuta. 



o PANORAMA 



63 



No dia 5 de julho, pois, do anno de 1616 qui- 
zeram os beduínos tomar vingança da constante 
inquietação em que D. Jorge os linha, e j)rocla- 
niando os seusmarabuíos de novo a guerra santa, 
invocando as recoi-dações de Aicacer-Kehir que 
liceu sendo para lodo o sempre a grande gloria 
nacional dos marroquinos (1) vieram em grande 
numero e em grande grila insultar as muraliias 
de Mazagão. Não era I). Jorge de Mascarenhas ho- 
mem que suj)porlasse muito tempo essas [)rovo- 
cações, abrigado por traz dos muros da sua ci- 
dade. Poz-se á testa de um j)unlKido de portu- 
guezes, e saio a planície rasa a combater com os 
mouros. Esperavam-n'o elles bem apercebidos, e, 
deixando-o avançar levado pelo seu ardor impe 
luoso, descobriram de súbito grandes forças em- 
boscadas, por entre as quaes se viram os porlu- 
guezes obrigados a retirar. Mas D. Jorge de 
Mascarenhas, todo alíbgueado pelo ardor da pele- 
ja e levado pelo seu ardor cavalheiresco, despre- 
sando os soldados que fugiam e vollando-se para 
os poucos fidalgos que o acompanhavam, bradou- 
Ihes: 

— Pelejai, cavalleiros, que se perdem os solda- 
dos e aquella bandeira de el-rei; voltai-vose vede 
como o vosso capitão morre. 

E, cravando as esporas no fino murzello, arre-j 
messou-se nos moiros, sem ver se alguém o se- 
guia. Ninguém o pôde acompanhar na impetuosa 
carreira, e só, a pouca distancia d'eHe, mas ten- 
tando debalde pôr-se-lhe a par, galopava o adail 
IJraz Gonçalves, que lhe dizia! «Senhor para que 
quereis morrer?» 

Não o ouvia D. Jorge, e, com a lança em riste 
entrava no mais cerrado da brava turba dos árabes, 
derrubando, ferindo e dispersando os cavalleiros do 
deserto, que revoluteavam emtovnod'elle, espanta- 
dos de tanta audácia. Com uma lançada derribou um 
moiro, mas, acudindo outro, recebeu o valente ca- 
valleiro uma lançada no peito; já a este tempo se 
haviam approximado alguns cavalleiros |)orlugue- 
zes; com elles rompeu o governador, continuando' 
a fazer proezas dignas d'esses heróes dos roman- 
ces de cavallaria, de que Cervantes zombara ha- 
via pouco tempo. Guando voltou para junto dos 
seus cavalleiros trazia cinco lanças no corpo, 
quatro espetadas nas roupas, por baixo das quaes 
n'essa época se escondia a armadura, e a oulra 
quebrada na mão. Julgavam os porluguezes que 
vinha linalmenle dar a ordem da retirada; enga- 
navam-se. 1). Jorge vinha apenas procurar oulra 
lança porque a sua lhe licára embebida no corpo 
de um moiro. Armado de novo, tornou a entrar 
no mais acceso da peleja. Defendiam-se vigorosa- 
mente alguns cavalleiros, entre os quaes o alferes 
que hasteava a bandeira, contra os aiabes que for- 
cejavam por lh'a arrancar. (^Ihegou D. Jorge, como 
um raio, em auxilio dos seus compatriotas, mas 

(1) Conta Lcon PIl'C na sua historia das guerras rlc Algur, 
que na bataUia d'Isly, ganha pelo marechal Bugeaud coiit.ia as tro- 
pas do imperador de Marrocos, andavam os n)araljutos percor- 
rendo as lileirns mnsiilnianas. animando os soldados ( om as lera- 
l)ranças da batalha d'Alcaçer-KeLir. Perto do trcssecuios depois ain- 
da as' tradições populares conservam a memoria d'aquella terrível 
batalha. 



os inimigos já o temiam tanto, que não ousaram 
esperal-o. Abrindo um largo circulo em lorno 
d'elle, arremessaram-lhe pedras, uma das quaes, 
bateu na cabeça do cavallo, e matou o Uno cor- 
cel. Caio 1). Jorge em pé, e assim aparou o em- 
bate dos árabes, que o assaltaram com novas pe- 
dradas, uma das quaes, dando-lhe no elmo, lh'o 
deitou ao chão, porque o trazia desatado. Assim com- 
bateu de cabeça descoberta, i'eccbendo duas feri- 
das na mão esqueida, até que os porluguezes, 
caindo em massa sobie os inimigos, livraram o 
seu capitão, e voltaram com elle para dentro dos 
muros da cidade, onde lodos os receberam com o 
enlhusiasmo, que estas façanhas dignas da idade 
d'oiro da cavallaria deviam facilmente inspirar. 

Estas façanhas conta-as xVnlonio de Sousa Ma- 
cedo no seu livro intitulado Flores do Espana, 
Excellencias de Portiifjal, livro escriplo em hes- 
panhol, dedicado a D. Filippe IV, e publicado em 
1630. Tudo isto parece indicar que b seu auclor, 
que linha n'êsse tempo a idade de vinte e dois 
annos, era adherenle ao jugo hcspanhol, eque es- 
tava resignado á união. Pois apezar d'isso n'esse 
livro dedicado ao rei de Ilespanha, se percebe o 
ódio latente que animava os porluguezes contra 
os seus dominadores, e o bom do escriplor, ao 
passo que enumera os grandes feitos de 1). Jorge 
de Mascarenhas, não se esquece de dizer que eram 
elles tamanhos, e tão assombrosas as forças do 
inimigo que, estando era Mazagão um soldado hes- 
panhol, e vendo a grande quantidade de ára- 
bes, que se apinharam em torno da cidade foi 
para casa e morreu de medo. (1) Isto é dito sem 
a mais leve reflexão, e com a mais perfeita inno- 
cencia. Mas eu estou vendo o sorriso magano, 
que se havia de desenhar nos lábios dos leitores 
porluguezes, quando chegavam a este ponto, e as 
bulhas que haveria, nas ruas de Lisboa por causa 
do fado mencionado pelo travesso escriplor. 

Não nos despedimos ainda d'este nobre vulto de 
D. Jorge de Mascarenhas, d'este heróe da nossa 
decadência. No segundo capitulo veremos que o 
valente governador de Mazagão não era menos ler- 
rivel no mar contra os corsários argelinos, do que 
na terra contra os cavalleiros bereberes. 

(Conlinua.) 

PlNUEinO CUAUAS 



VOLTAIRE 



Continuação 



O theatro francez começa em Pedro Corneille; 
antes d'elle encontramos apenas o cahosdo poema 
dramático. Racine fez o elogio d'esle grande ho- 
mem, indicando a sua alta signiticação lilleraria. 
A apotheose do auclor do Cid c notável na bocca 
do poeta da Al/ialia:<í Quelles obUgalions ne lui 
a poinl nolre poésic l Dans qnellc élat ne se Irouvoít 

{{) Otras vitorias muy grandes o sefialadas tuvo Mnga/au mien- 
tras D. Jorge Masearenas la governo, entro las qiiales fueron contra 
lãn gran numero de Moros. que hallando-se ali un Gastellano do 
Olva, y llegnnilo ai muro, vii iido tantos enemigos, y el desigual 
partido de los nnestros, que eun ellos amiavan poleando, se fuo para 
su casa, y murio subitamente, parece que con ânsia de dcsconhar ae 
la vitoria, y loner-se yá por cativo ó muerto. 

FLOliES DE ESPANA PAG. 223. 



-164 



O PANORAMA 



la scéne françoiselorsqu'il commeuça à travaillcr! 
Que! (lesordre! qucl írrc(ju(arilé\ .\iU f/ouí, niille, 
co)uioissa)ice dcs véritables beauiés du {hcàfir.y> 
Corneiile apparcce, c com elle a aiic dramática 
enlra no veicladeiro caminho da razão, para subir, 
cercada de pompas, ale á elevada allura en\ que 
depois a conlemplamos. Corneiile é a força, o ím- 
peto, a vehemencia nas paixões, a niageslade, a 
magnilicencia no eslylo. Nascido em um sé- 
culo eivado pelo mau goslo, lucia conlra elle, 
e consegue quasi leval-o de vencida. A mor- 
dacidade e o fel dos émulos que desbaratara, 
cae-lhe em cliuva sobre os louros nascentes, mas 
os louros reverdecem mais viçosos ainda, e na larga 
sombra que projectam occuítam os Scudérys rai- 
vosos. A llespaniia é o jaidim opulento onde elle 
colhe as mais bellas ílores, para depois fabricar 
os favos do seu mel delicioso. Guillen de Castro 
inspira-o. D'este volver de olhos constante para 
alem dos Pyrenéos, d'esle amor cego pela iiyper- 
bole castelhana, procede, logicamente, o principal 
defeito de Corneiile; a allectação. Eulendamo-uos 
sobre esta palavra. 

A aíTeclação, nas admiráveis creações do poeta 
dos Jloracios, não consiste na frivolidade elegante, 
110 dizer amaneirado, no porte cortezãoe delambi- 
do, ao contrario; rezide na bravata enfollada, no 
tom de mata moiros com que se expressam os seus 
heroes. 

Por vezes sentimos nas suas tragedias um certo 
rumor de farruscas, e uma parlenda guttural de 
asturianos façanhosos. Camillo, imprecando con- 
tra Roma, tem versos de um exagero manchego. 
Eis ao que eu chamo a allectação de Corneiile, e nada 
mais. 

D'este ponto em diante o Ihealro francez pro- 
gride. Não è o nosso íim acompanhal-o no seu 
andamento constante, e estudar-lhe as suas phazes 
diversas. Citámos o iniciador do poema dramático 
em França, por nos parecer impossível deixar de 
commemoral-o n'um estudo d'esta Índole. A nossa 
missão é, proseguindo na apreciação litteraria 
de Voltaire, deitar sobre este vulto a luz que lhe 
é divida. 

Voltaire forma, com Racine e Corneiile, uma 
das mais bellas trilogias. Collin-d'narleville gru- 
pou-os em alguns versos memoráveis. No poeta do 
Cinna encontramos a altivez cavalleirosa; no de 
Andromaca a suavidade amoravel, no de .Mcrope 
o calor santo dos nobre allcctos, achainma do en- 
thusiasmo, (Jvivo manancial dasscenaspalheticase 
das commoções profundas rebenta n'elle vigoroso. 
// a passionné Ic diafofjue et les situai ions, — diz 
Emile Deschamps com extrema verdade. 

Educado nos bellos modelos antigos, Voltaire 
soube lirar-lhes o mimo, o beijo dos seus primo- 
res. Por isso n'uma das representações do Orcslc, 
vendo o publico levaiitar-se e proromper em bra- 
vos, elle, levado pelas generosas eífusões da sua 
alma, levanlou-se também, gritando: Apjilandi, 
applaudi atlienicnscs; isto é o jmro Sojihoclcs!)) 

De todas as suas tragedias a Zaira e aíjuepara 
nós realça mais brilbanlemenle. lia n'ella a ner- 



turbação, o movimento dramático, natural sempre, 
caloroso sempre, agitado, eloquente, cortado p-elos 
estremecimentos do terror ou da esperança; as 
phrazes saem í\ú coração espontâneas, simples, 
graciosas, com todo o perfume dos íntimos aíTec- 
tos, com lodo o fogo das paixões violentas. O se- 
gundo acto é ínexcedivel. Lusignan, velho, cap- 
livo, oppresso pela desgraça, vergado pelas recor- 
dações mais atUiclivas, vendo de um lado caluda 
a religião j)orque elle combatera tantos annos, c 
do outro perdidos os íilhos que idolatra, Lusignan 
respira um não sei que de sobrenatural e de ce- 
leste. Zaira entra, com o rubor nas faces, e os 
olhos inundados de lagrimas. Ohl como esta scena 
rivalisa com (pianlo o Iheatro francez possue de 
mais gabado; como ella nos impressiona com toda 
a sua sim|)licidade all^ecliva. Zaira confessa ludo; 
a momentânea alegria do velho será trocada pelas 
mais lancinantes angustias: 

— «Sous les lois (l'Orosmane, 
«Punissez volre lille... elle tlait iiiussulmane! 

É então que resôao famoso brado de Lusignan, 
aquelle assombroso trecho em que as lagrimas do 
velho se misturam com es arrebatamentos da in- 
dignação, Irecho ({ue por si só bastaria para dar 
a Voltaire um dos primeiros logaics entre os poe- 
tas de França. 

— i'Oue la foiídre en éclats ne tomhc que sur moi! 
Ali! nion flls! à ces niols j"ciisse cxpiíú saiis toil* 
Mon Dieu, J'ai comljatu soixaiUe aíis ])our ta gloire, 
J'ai vu toiíihtT tun templo, et. perir la iiiéiiioire; 
Daiis un caeliot aíTrenx abandoiiiié vingt ans, 
Mt'S kiraies t"iniploraient pour mos l.ristos enfans; 
Et. lorscjue ma íamiile e&t par toi réinie, 
Quaud je trouve une íille, elle e;t lon ennéniiclu 

Coníessemos francamente, em Racine ou em 
Corneil'xi não ha situação onde o palhelico sobre- 
leve ao do segundo acto de Zaira. Aquelle, te- 
ve, por ventura, em Jphigcnia um momento de 
inspiração egual; foi quando escreveu o dialogo 
entre ella e Agamemnon; Corneiile, no Pclijeude, 
c inferior na verdade do coração humano. 

O assumpto da Zíí/Va deu ao Iheatro inglez uma 
quasi que Iraducção da tragedia franceza. O seu 
auctor é Aaron liill. Esq. 

Depois da Zaira, a Mérope c a Sémiramisi^io^m. 
immedialo logar. N'esta ultima ha uma scena 
moldada nas puras formas eschylanas. Ião simples 
e tão vigorosa é ella; reíiro-me ao dialogo do (|uar- 
to acto, entre a rainha e Arzace. A(|ui-, Voltaire 
conseguio trazer para a scena a simples grandeza 
dos Cliocplíoros. A phrase cortada iiatuialmente, 
a paixão |)recipilando-se em hemystichios abruptos, 
tudo isto dá á situação um fervor, um tumultuar 
grandioso. 

Urutus e César são tragedias onde em algumas 
scenas achanios o aspeio sabor de CiOineille. lia 
n'ellas a força, a altivez do Cinna, mas a pompa 
é mais esplendida e fastosa.O canto da liberdade 
sem nada perder da sua feresa íngenita,c ao mes- 
mo tempo harmonioso e persuasivo. Ma/ioniet é 
uma das tragedias onde os lasgos sublimes se en- 
contram mais freí|uenles. lia irdla uma l_al origina- 
lidade de bellezas, uma tal abundância 'no eslylo, 
um tamanho orientalismo na dicção, que Racine 



o PANORAMA 



4 65 



se acaso a lesse, deveria dizer d'ellaoque Voltai- 
re disse um dia ao acabar de ouvir o monologo 
da P/iedra. 

A falia duMahomelaZopiro, sobretudo, tem lan- 
ços dci uma elevação prodigiosa. 

— nVois quel est Maliomct; nous sommes ?euls, ccoate: 
Je suis ainbilicui, tout huiiiffic Test saiis doute; 



II faiit im novean culte, il faut <le nonveaux fors, 
11 faut un uouveau Dieu pour 1'aveuglu univers. 

Rousseau, faltando d'esla scena na sua lellrc 
sur Ics speclaclcs, íWz não conhecer no theatro fran- 
cez outra alguma em que mais sensivelmente se 
manifeste o cunho do génio. Foi esla mesma tra- 
gedia, Mahomet, que Crebillon repellio dez annos 
e que só ao cabo d'elles foi dada a publico, em 
vi^ta da approvação de d'Alembcrt. 

Eis, resumidamente, alguns dos pontos mais sa- 
lientes no theatro de Voltaire. Todos os assump- 
tos lhe são familiares, todas as boUezas lhe são 
próprias. Passa do OEdipo para Zaira, como do 
Brutus para o Orphãoda China. Quando a rajada 
do furor o impelle, ergue-se coruscante e ílamme- 
jadas nuvens; quando os sentimentos maviosos o 
assaltam, expande-se em verdadeiros arrulhos. O 
coração do homem é ao que elle mira piincipal- 
mente; conhece todos os caminhos que vão dar a este 
abysmo, eé por ellcs que conduz o seu talento Sem 
ter aquella rudeza que nos confrange, tem aqueila 
variedade que nos deleita. Não é um promontório 
nu e alpestre, cortado a prumo, e severo nas suas 
rectas enormes; é um monte ?rrelvado e llorido, 
onde as rosas se baloiçam, mas aonde também se 
erguem as arvores seculares e possantes. 

[Conlinuu) 

E. A. Vidal. 



AS FLAUTAS DO GRAxNDE FREDERICO 

O principal entretenimento do rei da Prússia, Fre- 
derico 11, consiste em locar flauta; mas é tão es- 
crupuloso, tem tanto receio de commetter faltas 
em musica ou enganar-se, que, quando ensaia 
uma nova peça, fecha-se no seu gabinete muitas 
horas para estudal-a. Apesar d'esta precaução, tre- 
me todas as vezes que se trata de começar com 
os ajiompanhamentos. 

Possue uma excellente collecção de ílautas, e 
presta-lhes o maior cuidado. 

Um homem, que não trata d'outra coisa, está 
encarregado d'ellas, a tira de preserval-as, se- 
gundo a estação, da seccura ou da humidade. São 
todas do mesmo auclore paga-as ale cem ducados. 
Na ultima guerra, quando elle a todos dava di- 
nheiro falso, diligenciava sempre que o seu fabri- 
cante de tlautas fosse pago em boas peças de ouro, 
com medo de que este, por Si'U lado, o não en- 
ganasse na qualidade dos seus instrumentos. 




O mundo assemelha-se a uma loleria na qual 
um ganha e mil perdem. 



A SALAMANDRA 

O género Salamandra de Cuvier, que foi cons- 
tituído em família pelos erpétologistas modernos 
sob o nome Saíamandridas, pei'tence á secção doS 
Batraciosurodélos. Os reptis que o compõem teem 
o coi'po allongado, quatro pes e uma comprida 
cauda; o que lhes da a forma geral dos Lafjartos; 
mas apresentam além disso todos os caracteres dos 
Batracios. A cabeça é achatada, as orelhas estão 
occultas sob as carnes e não teem lympanos; os 
dois queixos são guarnecidos de dentes numerosos 
e pequenos, a lingua disposta como a das rãas, o 
esqueleto oflerece elementos de costellas e teem 
quatro dedos nos pés de diante e cinco nos detraz. Os 
seus embryões respiram por uma espécie de guelras, 
em forma de i)Oupa, no numero de três de cada lado 
do pescoço e lluctuantes, que depois se obliteram. 
Os membros apparecem successivamenle; mas os 
pés de diante desenvolvem-se prlmelio que os de 
traz. No estado adulto, as Salamandras respiram 
como as rãs. Dislinguem-n'asem/í'/7-e.y//ri-e aquá- 
ticas ou Tritões. 

As Salamandras terrestres ou Salamandras pro- 
priamente ditas (Salamandra) teem, no estado 
perfeito, a cauda redonda e não se conservam na 
agua senão durante o estado deen.byrão ou quan- 
do (|uerem desovar. Os pequenos nascem no ovl- 
ducto e executam piomplamente as suas metha- 
morphoscs. O lypo d"esle género e a Scfamandra 
commum ou maculada, [Sal. maculosa) tem 10 
centímetros de comprido, ea cor éde um |)reto luzi- 
dio levemente llnctoderosa, com grandes manchas 
de um amai-ello vivo. Pelos lados teem fileiras de tu- 
bérculos, dos quaes ressumam no perigo um li- 
quido lácteo, amargo e de um cheiro activo. E 
esla parliculnridade (|ue deu lugar a fabula esi)a- 
Ihada na antiguidade, e que chegou até aos nos- 
sos dias, que não somente o fogo não matava a 
Salamandra, mas ainda ({ue este replil tinha afa- 



66 



O PANORAMA 



culdade de apagal-o. Um outro proconceilo popu- 
lar quer que estes animaes sejam muito venenosos: 
é um erro. Etleclívamente, não teem glândulas 
salivaes de veneno eus dentes são muito pequenos 
para poderem oilender a pelle. Só o liquido que 
ressumbram os tubérculos de quefallámoséqueirrita 
um |)Oueoos olhos quando se lhes chega com os de- 
dos depois de haver tocado em algum d'estes reptis, 
llaainda duas outras esj)ecies chamadas Salaman- 
dra negra que se encontra dos Wpçse Salamandra 
de occulos, negra pele parte superior, e aniarella 
com manchas pretas pela inferior. Este animal, 
que se acha nos Apenninos, só tem (jualro dedos 
em cada pé. As Salamandras vivem em lugares 
húmidos e nos buracos subterrâneos; sustentam-se 
de lombrigas, insectos e pequenos molluscos. To- 
das são de pequeno corpo. 

Os Tritões ou Salamandras aquáticas, lêem a 
cauda comprimida verticalmente e passam quasi 
toda a sua vida na agua. Estes reptis são oviparos e 
não ovoviparos como as Salamandras terrestres. 
Encontram-se frequentemente nos nossos climas 
em aguas estagnadas, onde são tão ágeis e vivas 
quanto lentas e embaraçadas na superfície do solo. 
São sobretudo notáveis pela facilidade com que 
reparam as mutilações do seu corpo: a cauda e 
mesmo as patas lecrescem muitas vezes depois de 
terem sido cortadas, e isso com os ossos, múscu- 
los etc. Teem além disso a singular faculdade de, 
no gelo, poderem viver muito tempo, D'estc gé- 
nero encontram-se muitas espécies: conlentar-nos- 
hemos com o mencionar a Salamandra de crista 
que apresenta as cores laranja, branco e prelo. 
No numero das espécies exóticas citaremos a Gran- 
de Salamandra do Japão que tem o comprimento de 
um metro. As suas cores são as mais sinistras; a 
pelle sobre a cabeça e as costas é colheria de protu- 
berâncias e de tubérculos que, fora d'agua, res- 
sumam um humor viscoso e fétido. Lembramos 
também a celebre Salamandra fóssil de OEningen, 
que durante algum tempo foi tomada por um es- 
queleto iiumano. 



NECESSIDADE DE UMA MONOGRAl^HIA ACERCA 
DA província de 1'ERNAMBUCO 

Debaixo do ponto de vista commercial a pro- 
vinda de I'einambuco é hoje a segunda do impé- 
rio brasileiro, posto que não seja a mais extensa 
e poNoada. 

A situação feliz d'ella, em virtude da sua pro- 
ximidade relativa da Europa, devido aos vapores 
transatlânticos, é lai que da nossa Eisboa a|)enas 
dista U{ a lo dias, e lhe dá por isso certas van- 
tagens commerciaes, de íjuenão gosam as demais 
províncias íraí|ucll(' \astissimo estado. 

A população e alli abundante e acliva. (irande 
numero de estrangeiros tem-se estabelecido 
n'clla. A cultura do algodão e da cana de assucar 
tem ail(]uirido immenso desenvolvimento; tudo, 
linalmente, na província em (juestão progridi! con- 
sideravelmente, apesar de estar ella situada na 
zona tórrida, desde o 7" até ao 15° de latitude 



sul, visinha do mar, sobre o qual tem duzentos 
kilometros de costas, e não obstante, desde 18;30, 
haver sido visitada pela febre aniarella e cholcra, 
desconhecidas alli antes da mesma data fatal. 

Considerada geographicaraente, toda a parle 
próxima do oceano Atlântico está perfeitamente 
estudada. As costas teem sido examinadas sobejas 
vezes pelos navegadores portuguezes, hespanhoes, 
inglezos e francezes. São muito apreciáveis os tra- 
balhos do almirante Uoussain acerca do alludido 
assumpto, e é sabido que Mouchez, dislinclo olíi- 
cial da marinha franceza, ha executado, recente- 
mente, um novo reconhecimenlo. 

Com as regiões sertanejas não suecede oulio 
tanto. A configuração das cadeias de montanhas, 
que cortam a província de norte a sul e de leste 
a oeste, não é bem conhecida, ignora -se a sua 
altitude, posto que não pareça exceder U200 a 1500 
melros. \ sua composição geológica é parcialmen- 
te desconhecida, e diminuías pesíjuizas mineraló- 
gicas se tem n'ellas executado. 

A parte septemtrional da província apresenta lar- 
gas planícies ferieis, em ([uanlo a região austral é 
atravessada de norte a sul por uma longa ca- 
deia, que limita ao occidente o grande rio de S. 
Francisco, o qual separa esla província da da lia- 
hia. 

O curso do S. Francisco está perfeitamente re- 
produzido em um bello atlas especial consagrado 
áquelle rio, e que foi, ha alguns annos, lithogra- 
phado no Rio de Janeiro. Tudo, |)orém, que demo- 
ra ao occidente d'esle rio carece de ser reconhe- 
cido geographicamenlo, pois não existe ainda ne- 
nhuma boa descripção topographica da província. 

A ultima obra publicada em francez, sobre o 
Brazil, a de Eahure, não fornece senão uma sim- 
ples nomenclatura dos rios, cordilheiras, cidades, 
villas e aldeias que se encontram n'esla parle do 
Brazil, sem descer a particulai-idades algumas. 

Pelo que respeita á bella obra em dois volumes 
de Eallemand, fícise diirch nord Brasllien, {xlnúdi 
não foi vertida para francez. 

A escriplura d'estes aponlamenlos foi-nos, em 
parle, suggerida pela recente noticia da nomeação 
de um homem intelligentissimo e de provada il- 
luslração, Osmin Eaporle, para o cargo de côn- 
sul francez em Pernambuco. Visto que esla pro- 
víncia não possue ainda uma monograjjhia, a(|uelle 
cavalleiro |)or certo a fará com Ioda a j)roticiejicia, 
estudando acuradamente os elementos (pie ainda 
estão desconhecidos não só porque quahjuer das 
províncias brazileíras, em geral, é mais extensa 
(pie o nosso paiz, e algumas íncomparavelinenlc 
inuilo mais, mas tamlxMn porque o Hrazil cum paiz 
(|ue nasceu honteni, o (piai inuilo tem progredido em 
relação ao seu clima ardente, na máxima |)arle da 
sua extensão, e ao sangue porluguez, (pie não é 
do mais apropriado para rápidos desenvolvimen- 
tos na senda do j)rogresso. Deixemos as digressões, 
e vamos reatar o lio das considerações (|ue lemos 
a fazer, despertadas pelas leituras dispersas (jue 
hemos feito em muitas obras francezas, ínglezas e 
algumas brasileiras, relativas ao lirazil. 



i 



o PANORAMA 



^67 



Defeito, assim como indicamos precedeiUemen- 
to, exceptuando alguns pontos, nenhuma posição 
de localidade foi provavelmente determinada por 
observações directas. O sr. Osmin poderá, pois, 
com alguma vantagem, fazer uma descripção do Rio 
de S. Francisco, cuja regimen é conhecido pelas ob- 
servações do botânico viajante, A. Saint llilaire, 
que percorreu uma parte do seu valle desde 1820 
a 1825. 

É também mui ulil estudar a parte montanhosa, 
região a mais despovoada d'esta provincia, onde 
restam ainda algumas Iribus indianas de lupis, 
ananés e c/^acriabas, pertencentes á raça guaríni. 
Estes restos da anliga população indígena dimi- 
nuem lentamente, tanto pela mortalidade própria, 
as bexigas, a escassa fecundidade das mulheres, 
como pela sua fusão com o resto dos brasileiros. 

Por emquanto não podémosobter esclarecimen- 
tos com respeito á cifra a que esta população pôde 
hoje chegar. Quanto á população brazileira pro 
priamentc dita, compõe-se ella de descendentes 
de poi'tuguezes, emigrados durante três séculos e 
meio para a provincia de Pernambuco, de grande 
quantidade de outros europeos que ali tem ido 
estabelecor-se, desde 1820, e linalmenle dos ne- 
gros, e mestiços de todos os grãos, elemento que 
ora é considerabilissimo. Uma porção d'estes negros 
e mestiços são ainda escravos; porém ha já uma 
outra egual porção d'elles que são livres e consi- 
derados cidadãos brasileiros. É muito imporlante, 
a nosso ver, o saber-se qual é a lei da progressão 
d'esla população tão diilerenle d'origem, e que 
mostra crescer com rapidez, a despeito das doen- 
ças Iropicaes, da febre amarella e da cholera. Le- 
mos em Lahure que aquella população, era segun- 
do o recenseamento de 1860, de 9o0:000 indiví- 
duos ; no dizer de Warden, em 1831, era apenas 
de 550:000 1 

Allirma-se, que a provincia de Pernambuco, ape- 
sar da situação d'ella ser na zona tórrida, e mui 
salutifera, sobretudo na porção nordeste que con- 
fina com a provincia de Piauhy. É muito impor- 
lante haver conhecimento da proporção em que os 
brasileiros e os europeus emigrados tem sido ac- 
commettidos pela febre amarella, introduzida na 
capilal em 1850. Desde essa época tornou-se en- 
démica, apesar de ser desconhecida ali anterior- 
mente, exceptuando talvez uma epidemia passa- 
geira em 1688, sobre a qual ha informações muito 
incompletas. Jísia doença, tão mortifera paia os 
brancos om geral, tem sido benigna para os ne- 
gros e mulatos, ao passo que todos os que tinham 
sangue africano nas veias pagaram avultado tri- 
buto á cholera. 

Qual é a medida da emigração europea ha meio 
século? Além dos nossos com|)atriotas, que são os 
mais numerosos emigrados, entrando n'essa classe 
já se vê, os açorianos, qual é o numero aproxima- 
do dos allemães, inglczes, norte-americanos, fran- 
cezes, hespanhoes que vãoestabelecer-se n'aquellas 
plagas? Regressara para o seu paiz natal, casam 
com brasileiras e, consequentemente, ostabele- 
cem-se indeíinidamenle no paiz? Qual c o seu 



estado de saúde habitual, a sua longevidade? Con- 
servam as suas forças physicas e intellectuaes? 
Tudo que diz respeito a esta parle da biologia 
humana é altamente curioso. 

Carece-se lambem de detalhes relativos á sua 
posteridade, á nova geração que se forma da mis- 
tura do sangue europeu, introduzido no Brasil, 
com o dos portuguezes, este mais ou menos impre- 
gnado do dos indígenas ou dos africanos, importa- 
dos durante os Ires precedentes séculos. 

Uma questão mui imporlante, e que não pode 
ser elucidada senão por fados, é a de estabelecer 
delinitivamenle se é verdade que, apesar das ori- 
gens e misturas diversas, o sangue caucasiano vai 
lentamente, porém d'um modo seguro, predomi- 
nando entre os habitantes do Brasil; em outras 
palavras, se cada recenseamento dá ura numero 
cada vez mais considerável de brancos, o dos ne- 
gros puros ou o dos mestiços conservar-se-ha es- 
tacionário ou mesmo diminuirá ? Precisa-se final- 
mente saber, se colónias agrícolas, á maneira das 
que hão sido fundadas nas províncias do Rio 
Grande do Sul, S. Calharina e S. Paulo, tem sido 
estabelecidas na provincia de Pernambuco, e qual 
é o seu estado actual. 

Todos os que tomam a peito o progresso geral 
dos conhecimentos geographico-;, como essenciaes 
para o desenvolvimento commercial, asseveram 
que ha muitas noções uleis a beber d'uma região, 
sede de transacções tão extensas. Além da pro- 
ducção do algodão, do café, do assucar e tabaco, 
culturas industriaes principaes, que constituem a 
fortuna da província, quaes são os objectos d'um 
verdadeiro valor que a agricultura ali produz? 
Em que estado se acha a industria manufactureira, 
e pode-se pri;ver a época em que verdadeiras fa- 
bricas possam ser estabelecidas no paiz, senão 
para exj)ortação, pelo menos para piover ás ne- 
cessidades locaes ? Qual é o estado das vias de 
communicação ordinárias e dos caminhos de ferro ? 
São perguntas cujas respostas não, por certo, dão 
as folhas dos livros que ha nas línguas mais usuaes, 
acerca d'aquella inteiessante provincia brasileira; 
e por isso o mundo geographico espera ancioso 
que o sr. Laporle elabore a monographia de Per- 
nambuco, que seguramente vem preencher uma 
deplorável lacuna existente na geographia do 
Brazil. 

É sabido que a agricultura brasileira solTre 
muitíssimo na presente hora j)ela carência de bra- 
ços. O commercio da escravatura suspenso desde 
1850 não fornece mais os escravos, sobre cujo 
trabalho se estribava a producção agrícola. A 
morte, as alforrias em grande escalla, deduzindo, 
todos os annos, o numero dos trabalhadores de 
cor, ((ue oulr'ora formavam o pessoal das planta- 
ções, com.o pode a agricultura brasileira sair d'es- 
ta crise? O solo de Pernambuco é baslanlemente 
salubre para que os brancos jiossam, apesar do 
clima tropical, dedicarem-se á culluia.'^ 

Estas e muitas outras observações c pergun- 
tas servem, apenas, para demonstrar exuberante- 
mente a necessidade urgente d'uma descripção 



4 68 



O PANORAIMA 



geographica, applicada essencialmente ao com- 
mercio (ruma província Ião imporlante do Brazil, 
como é a de Pernambuco, com a qual toda a Ku- 
ropa, parlicularmenle Portugal, tem intimas liga- 
ções mercanlis. 

As communicações do antigo com o novo con- 
tinente mulliplicam-so diariamente. 

A máxima parle dos estados e das províncias 
da America do Sul são pouco conhecidas ; tudo 
que pôde contiibuir pois, paia mostrar à Europa 
os seus recursos infinitos, a sua riqueza nativa, 
que só espera por braços, para ser fructuosamente 
explorada, é um verdadeiro benelicio para a hu- 
manidade. 

Interessemo-nos, pois, nós, portuguezes, que 

demos o ser àquelle colossal império, i)ela sua 

prosperidade e engrandecimento moral, intelle- 

clual e maleriai. 

Alfredo May. 



Aon semper arciim tcndit ApoIIo IIoracio 

Apollo nem sempre arma o seu arco; isto é, 
nem sempre a desgraça nos acompanha. 



A BORBOLETA 

A ExcelIenUssiina Scuhorn B>. íèyiiii Piííllips 

(no sed alblm) 

Eli conheço-íi, oh! se a conheço! 
sempre volilaiulo anciosa, 
esl)elUi, fiiiiaz, airosa, 
esquiva, amaule, esquecida; 
olenio enigma na vida!... 
Eu coidioço-a, oh! se a conheço! 
Eslimo-a;*eslimal-a c gralo; 
(piero ci)lendcl-a... endoideço! 

Paira a mirar-se na fonle; 

bale as azinlias subtis, 

desce ao prado, solte ao monte, 

requesta, endoidece as flores, 

e engeila-as! Procura achamma, 

illude-a, foge... Não ama! 

Dei\ae-a fingir amores! 

são ludo ancoios leijris; 

eu conhero-a, oh! se a conheço! 

Dizem as dores do monte: 
—('Sabeis por(]uc cila nos foge? 
«somos serranas e pobres! 
«ella è fidalga e vaidosa; 
«lá qucr^rnores mais nobresl 
«a lisongcira da fonte, 
«moslrou-lhe o espelho o, prendeu-a 
«só com dizer-lhe:— És formosa.» — 

Diz a fotdc co'um suspiro: 
— "Vão lá fiar-sc das bellas! 
«eu, tão pura em meu retiro, 
«e tão recatada e amante, 
«eu, (|ue rogeilo asestrellas 
«o amor í|uc em seus raios leio, 
«cu, que lhe disse atdielante: 
— <'I)esce! bfbe do meu seio 
«lodo o néctar peregrino!... — 
«pobre de mim! que fiz eu? 
«julgou-mc lodosa c insossa!... 
«.Só bba néctar divino, 
«golas do orvalho do ceol" — 



E diz a gota do orvalho. 

— «Uesci, desci toda a noite 
«para a verde madrugada, 
«foi bem pago o meu trabalho! 
«sorriu-me, e ])assou! mais nadai 
«Ella quer lá gotas d'agua 
«tremula, fria, incolor?! 

«quer lume, incêndios! (e é magoa!) 
«quer chammas vivas no amor!» — 

— «Porque me foge a inconstante? 
murmura trémula a chamma; 
«será que um delirio amante 

«a altrae ao regato?... ás llores?... 
«carinhos de maior preço?... 
«cores de novo matiz?..* — 

Nada! nada! eu sei: não amai 

deixae-a fingir amores! 

são tudo anceios febris; 

Eu conheço-a, oh! se a conheço! 

Engana-se o orvalho e a fonte, 
íi chamnta e as flores do monte. 
E varia, como os matizes 
das suas azas doiradas; 
não pôde lançar raízes; 
quer liberdade sem meta; 
ir, sem saber onde vá; 
timbra de ser borboleta!... 
não ha prendcl-al não ha! 

Não lia?... quem sabe? Os segredos 

das formosas mais esquivas, 

teem românticos enredos 

que o mundo nem sempre vê. 

l*elos caminhos da vida 

o amor sabe armar uns laç^)s, 

e ás vezes... prende-se uni pc! 

depois prende-se a cintura! 

lucta-se e... prendcm-se os braços; 

e eis rendida a formosura! 

A flor, essa, de innoccnle, 
ama, deseja. ..mais nada; 
apenas sente... que sente! 
nào sabe fazer-se amada! 
IMas a chamma queé ladina, 
á formosa que a re(|uesta 
e a afaga co'a ponta (faza, 
rouba a innocenc.ia divinal 
co'o fogo as azas lhe cresta; 
com beijos de fogo a abraza!!... 



Nada! cu volto á minha idéa: 
esta borboleta é intrépida, 
não teme laços nem chamma; 
não ha paixão que a submetia ! 
SC a amarem, sorri sem do! 
se finge amores, não ama, 
que o juro aqui! vende só 
desdéns por subido preço. 
Ha de morrer borboleta. 
Eu conheço-a, oh! se a conheço! 

Lisboa, 21 demarco de 18(50. 

Thomaz RiBEino. 



O am3r do dinheiro nunca foi paixão do ver- 
dadeiro sábio. 



O vicio c a pobreza levam o homem á praclica 
de toda a sorte de crimes. 



Typ, franco-Porlugucza == Rua do Tliesouro Velho, G. 



00 



O PANORAMA 



69 



STOGKOLMO 

Apezar do seu céo nebuloso, apczar do seu cli- 
ma IVigido e um lanlo insalubre, a capiial da Sué- 
cia é uma das mais formosas cidades do Norte. 
VA{\ conslruida nas margens seplemlrioual c me- 
lidional do lago i^ieiarenno ponío em ([ue esle 
confunde as suas aguas com as do Haltico. Com- 
põem-n'a muilas ilhas formadas pelos golphos do 



Melai-en e peio mar, e que se ligam entre si e com 
as margens por numerosas pontes, o que dá á ci- 
dade um aspecto muito semelhante ao que apresen- 
ta a rainha do Atlriatico. Por isso Stockolmo tem 
merecido dos viajantes estrangeiros, deslumbrados 
por essa foi-mosa apparição italiana que lhes surge 
de subilo do meio das aguas do Báltico, debaixo 
d'um céo carregado de nuvens, o nome de Ve- 
neza do norte. 




Hockolmo. 



Efleclivamenle, a cidade, piincipalmeníc quando 
evô do rochedo de^íosebacko, apresenta um ma- 
çniOco panorama. PaUa-lhe só o esplendor do sol 
l'Ilalia, que beija amorosamente as marmóreas fa- 
chadas dos i)alacios da cidade dos doges, as gran- 
les recoiiiações que enlevam o mundo inteiro e 
]ue pullulam a cada passo do seio da formosa pc- 
insula, c a seductora hai^monia das vagas azues 
lo Adriático beijando os degráos dos cães. 

Mas ainda assim esse panoiama c encantador. 
U casas, quasi todas de tijolos, ei-guem-se em 
mphilheatro, alinhando-sc cm formosas ruas, as 
nais noiaveis das quaes são a da Rainha c a da 
legcncia, e formando seis bairros, que se chamam: 
i cidade, que se compõe de Ires ilhas, o bairro do 
\orle, em terra lirme, Ladiif/oras/aiulcl, que se 
grupa n'um promonlorio em que termina a leste 
ssa terra lirme, a iUia d'El-IU'i, a il/iado Alini- 
anlado, a que oulias duas, a ilha da Cidadclla 
í a iUtn de S. Braz se ligam por meio de pontes 
lucluantes, e cmtim o bairro do Sul. 

INo bairro da cidade encontra-se o i)a(;o, ediíicio 

uadrado, construído n'uma eminência etotlo cer- 
ado de jardins. As ruas d'este baii-ro são quasi 



iodas sombrias e ii'regulares, exceptuando com tudo 
a rua de Skcppsbron, que se deseni'ola ao longo 
do cães c em que eslá concenli-ada toda a acti- 
vidade commeicial. IN'esse bairi'o lia Ires igrejas: 
a sé, onde se nota um órgão magnilico e uma bel- 
la coliecção de quadros de i)inlores suecos, a igreja 
allemã, e a igreja linlandeza. Os outros ediíicios 
notáveis d'este bairio são a praça do commercio, 
a casa da ca ma ia, o correio, o banco, a moeda, 
c o palácio dos nobres, onde se reúne a nobreza 
durante a dieta, e em cuja fachada campeiam os 
brazões de todas as grandes famílias da Suécia. 

N'uma das ilhas, que formam este bairro, vê-se 
lambem a igreja, onde estão os túmulos de lodos 
os reis enire cinco mil estandartes, que dão teste- 
munho irrefiagavel da gloria militar que a Suécia 
soube conquistar, dirigida, no século XVII, no sé- 
culo XYIÍI e no século XIX, porgeneraes tão dis- 
lindos como foram Gustavo Adolpho, Carlos XII, 
e Rernadolle o general francez, que por tão estra- 
nho acaso pôde subir ao thi-ono sueco, e fundar 
dynaslia. Debaixo (Kesle glorioso docel dormem o 
seu somno eterno os herdeiros de (luslavo Vasa. 

Passemos agora ao bairro do Norte. Alli encon- 



470 



O PVNORAMA 



liaremos oiilio palácio rogio, defionle do qual se 
erirue o edilicio da Opera, mandado construir por 
fíuslavo III. Atravessando d'esle bairro para a ilha 
do S. Bi-az, com a qual eommnnica dii-eclamente. 
veremos um irrande numero de ))alacios sumjiluo- 
sos; d^essa ilha iremos por uma das ponles jluc- 
luanles á ilha do Almiranlado, atravessando por 
uma longa alameda e onde scaccumulam arsenaes, 
estaleiros, casernas, e (fahi passando á ilha da 
Cidadella encaniar-nos lia o seu pi|[oiescoasj?ecto. 
Um enorme rochedo de granito lorma toda a massa 
da ilha, e nas suas ladeiras vicejam arvores, ta- 
boleiíos de relva, tapetes de musgo, por entre os 
quaes serpeiam lamedas. Um dos píncaros do roche- 
do domina a entrada do poilo; n'oulro crgue-seo 
observaloi-io. 

Slockolmo tem vinte praças amplas, sendo a 
mais bella a que se chama Sfollshackoi. For- 
mam-n^a d'um lado o palácio real, do outro uma 
íileira de formosas casas; n'um dos topos está a 
calhedral e um obelisco de granito. A praça vem 
descendo cm amphithealro, e alargando-se até ao 
cães onde se ostenta uma estatua de bi-onze de 
Gustavo III. As estatuas não faltam em Slockolmo. 
ISa praça da casa dos dobres campeia a de Gus- 
tavo í, na de Gustavo Adolpho a d'esse grande 
Loraoni, na praça darmas a de Gaiios XII. Tudo 
isto contribue para embellezar a cidade, em cujo 
porto se vê sempre uma selva de mastros, por(|ue 
o seu commorcio, tanto de exportação como de im- 
portação, está desenvolvidíssimo. Em I80I a sua 
população ora de noventa e Ires mil almas. 

Eis o que é em rápido esboço a cidade, que a 
nossa gravura mostra aos leitores, a Veneza do 
Norte, a capital da monarchia sueca. 



A BOCCA DO INFERNO 
\ 

Fj-a por uma linda taide de outono, á hora em 
que o sol, meio envolto no manto de nuvens, es- 
parge sobre a leria libios reflexos. 

Creio que não é esta a lioia dos amanles; mas 
íiel, como devo ser, á chronica, cumpie-me pôi' 
de parle todo o eíleito scenico que poder colher 
do ceu cravejado de esl relias, eda luz meltincoli- 
ca da lua, paraconlaraoleilora verdadeem Ioda a 
sua puieza. 

Mn^uem crê mais do íjue eu na magia de uma 
noite de estio, cheia de segredos e niNStcrios! 0'it' 
encanto, o d'essas noites claras de agosto, íjuando 
a lua caminha cx[)lendida no céo, aseslrellas scin- 
lillam na abobada azul, o rouxinol trina melodias 
cnlrc as ramadas do bosciue, c as llores toem mais 
perfumo, mais frescura a rosa, mais pureza o ar! 
(',omo n'cssas noites voluptuosas do Meio Dia o co- 
ração se inspira de santo enlliusiasmo e pulsa ávi- 
do de ternura! Como então são maviosos os sus- 
piros! como é brando o susurrar dos beijos! 

Mas não foi, rej)ito, á hora dos amanles que 
Euiz c Uhrislina combinaram encontiar-se nos ro- 
chedos da Jiocra (lo lnfciuo. As rochas soltas, 
fendidos, ajirosenlam largas voragens, poiondena 



obscuridade, é fácil cair: o caminho é, além d'isso, 
escabroso por pouco trilhado, e se aqui se encon- 
tra uma lagoa lisa e espaçosa, além teremos de 
saltar sobre agudas ponlas de rochedo com diíTi- 
culdade de sustentar o equilíbrio. 

1). Thereza julgava ([ue Luiz de Mello estava 
em Eisboa. Era assim ; mas no dia aprazado 
para o encontro, que ellc próprio designara para 
communicar a Chiistina noticias graves e impor- 
tantes, chegara o mancebo sol nado á villa, e não 
appareccra em parle alguma até á hora convencio- 
nada. 

Ao cair da tarde saio Christina de casa e foi 
caminho da costa. Quando lá chegou já Luiz a es- 
lava esperando. 

Christina empregara n"aquelle dia mais esmero 
na sua lui/dlc. Ia esjjlendida de graça, elegância e 
formosura. Vestia de branco. Na garganta trazia um 
grosso lio de contas pretas. Os cabellos magnili- 
cos, que eram n'ella, como a juba no leão, um 
soberbo ornamento, caíam-lhcem ondadas spiraes 
sobre as espáduas. Cobiia-lhe a cabeça um bonito 
chapou de palha com grande pluma branca. 

Luiz de Mello estava sentado na base dos roche- 
dos, á beira mar, olhando de quando em quando 
para o cume dos cabeços que lhe íicavam a caval- 
leiro. 

Uc repente o vulto de Cliristina alvejou sobre 
os negros alcantis. Se a |)Iiolographia podesse 
n'aquelle momento reproduzir a imagem deChris- 
lina, far-se-ia um bello quadro. 

Immovel sobre as escalvadas penhas; flucluando- 
Ihe ao venio as brancas roupagens; destacando a 
lórma regular e bem modelada no íundo azul dos 
horisonles; batondo-lhe no rosto um raio fugitivo 
do sol que se atufava ao longe nas aguas; lixando 
a immensidade do oceano que lhe bramia aos pés 
em fiocos de espuma — parecia o anjo das tempes- 
tades repoisando na penedia, |)ara dej)ois, baten- 
do as azas, seguir nos seus voos alravez dos espa- 
ços, em demanda de outros mares. 

Mas se não era o que a íicção podia conceber; 
era um anjo de amor, era a mulher convertida 
pelo sentimento cm anjo de consolação. 

— Christina! — exclamou Luiz vendo-a. 

A (lonzella sorrio um d'esses sorrisos de mu- 
lher que toem o (juer (|ue é do céo, porque resu- 
mem a esperança e a felicidade. 

Luiz de Mello galgou n'um instante pelas ro- 
chas até aos pés'(le Christina. Aperlou-lhe con- 
vulsivamente a mão, que levou dejiois aos lábios. 
O beijo foi sôfrego c ardenle, como se lhe fora 
irelle a alma. 

— Oh Christina! foste Ião boa em \\i\ E vieste 
só-?!... 

— Do (piem precisava ou mais? Alé aqui o meu 
amor ser\ia-me deguaida — aqui basla-me Luiz... 

— I5asta-te sim, C-hiislina. O nosso amor acoiii- 
panha-nos! 

Poupe-inc o leitor á Iranscripção das apaixona; 
das scenas que se seguiram. Sentados um ao pé 
do outro, conversavam de seu amor e das espe- 
ranças (juc oiiiieviam no futuro. Eram sonhos doi- 



o FAiNOliAMA 



171 



lados aquclles, que um mau fado não quiz realisar. 

O mar fervia espadanando espumas na /iocca do 
Inferno: ouvia-se o mugir suido do oceano (jue- 
lirando-se em longes praias. Luiz eClirislina ollia- 
liim por um insíanle para a garganla do despe- 
nhadeiro, como que possuídos de resj)eilo. 

(llirislina poisou o bi'aço nu e formoso sobi-e o 
liomhio de Luiz; depois reclinou sobre elle a ca- 
beça. Luiz linha as mãos d"ella enlaçadas nas 
suas. 

Era assim que Paulo e Virgínia deviam eslar 
em S. Domingos na véspera da partida d'ellapara 
a Europa, contemplando o oceano, (|ue ia sepa- 
lal-os, e o sol que baixava nooccidenle marcando 
o seu ultimo dia de venluiM. 

Luiz solíria lambem como elles. Sabia que lhe 
era necessário separar-se de Ciiristína, e não li- 
nha coragem para lh'o dizer.' lia hesilações que 
iiiarl\ rí^sam. e esta era uma (Pellas. 

— Ves além aquella galeia'?— exclamou Luiz in- 
dicando as velas brancas de uma embarcação que 
jiassava ao largo. — Como vae empavesada c ele- 
gante! Oue linda mastreação! c como se leva li- 
geira!... 

Nos olhos do marinheiro passava um raio de 
enthusiasmo — era um lampejo d'essa paixão que 
na infância o condiiziía ao oceano! 

— Gostas ainda muilo do mar? — perguntou 
Cbristina. 

— Oh, muilo, Chrislina! muito! — 

— Mais do que de mim! — tornou ella triste- 
mente. 

— Não; isso não. Quero ao mar e quero- te a ti. 
Atlrae-me para elle uma fascinação diabólica, de 
que ás vezes tenho medo. Creio que o mar me 
! lia de servir de tumulo. O que eu agora desejava 
era levar-te comigo por esse oceano fora, onde 
o mundo se resumisse em nós, Mas o mar para 
1 mim é a vida, é o espaço... 

Í— E o meu amor o que é, Luiz? 
— Oh! — exclamou elle tristemente — o leu amor 
é tudo! Mas é necessário voltar para o mar, é ne- 
cessário deixar-le. 

— Deixar-me! — exclamou Chrislina mais pallida 
que uma defunta. 
— Deixar-le sim, e denlro de dois dias. 
Cliristina não respondeu. Eslava trémula e a 
voz licára-lhe preza na garganta. Passava-lhcatra- 
vez do coração uma angustia excruciante. As la- 
grimas sollaram-se-lhe lentamente dos olhos; de- 
pois vieram grossas, abundantes. 

—Oh! não chores! — dizia elle acariciando-a. 
-É uma separação curta. Volto depressa, e se- 
remos um do outro. 
— E se me achares morta quando voltares?... 
— Não digas isso, Chi istina— redarguiu (>llemeio 
desvairado — Não vês como solíro? Oue queres lu 
que eu faça? Recebi ordem para sair paraí^abo 
Verde; mas volto depressa, Chrislina, j)romelto-le, 
|ainda que tivesse de fugir. Agora, i)oiém, que 
ixiges de mim? Oue deixe o serviço? Obedecer-te- 
^a se fosse possível — mas não é tempo... amanhã 
"evo sair inevitavelmente. 



— Parte, pois. 

— E esperas me resignada? 

— Hei de esf)erar-te. Quem tanto te tem amado, 
não ha de saber sacrilicar-se? Vae!... esperarei 
por li, se tiver foiças para resistir á ausência; se 
as não tiver... irei procural-as alli! 

E apontou i)ara o fundo do abysmo, onde os 
rochedos agrupados e fendidos pareciam mil gar- 
gantas da morte. 

—Que dizes?! — bradou Luiz empallidecendo. 

— Já não parto, Chrislina. 

— lias de partir. 

—Não, sem jurares que esperas por mim. 

— Juro. 

— Por Deus? 

— Por Deus e por meu pae. 

— Um beijo, Chrislina! 

E o osculo concedido legitimou o juramento. 

No dia seguinte, ao pôr do sol. Chi istina estava 
no mesmo sitio, vendo passar um brigue que ia 
ao largo pelo oceano. Luiz ia n'esse navio. Ema 
tentação, um poder diabólico arraslava-o para o 
mar. 

A infeliz estava debulhada em lagrimas. Na mão 
esquerda tinha uma medalha, com o retraio de 
Luiz, que levava sofregamente aos lábios. 

Quando nos horisontes se sumiram as velas bran- 
cas da embarcação, Chrislina exclamou com as 
mãos erguidas para o céc: 

— Dai-me forças para soffrer, meu Deus! 

E o vento silvava pelas quebradas da rocha! e 
o oceano rugia, como o leão nos últimos arran- 
cos! e os milhafres passavam guinchando e ro- 
çando a aza negra pelo rochedo! e a este conceito 
infernal juntava-se um rumorejar de agua, como 
que despenhando-se de uma cascata! 

Era a onda que fugia lá em baixo pela abertu- 
ra da Bocca do Inferno. 

A. d'Oliveira Pires 

[Continua.) 



LOUIS DUBEUX 

orieutaILs(a 

Nasceu em Lisboa de pães francezes, em 2 de 
setembro de 1798 e falleceu em Paris a í de ou- 
tubro de 1863. O pae era armador de navios. A 
sua primeira educação foi inteiramente porlugueza, 
e enlão é que elle se iniciou no estudo da lingua 
hebi^aica. 

Tendo 20 annos, a familia passou a residir em 
Paris. (Continuou ali os estudos orientaes, que, no 
tempo de Luiz Philippe, lhe deram |)ossc da ca- 
deira de turco na escola de linguas vivas, e cm 
18.')8 a successão |)rovisoria de Qualremère na 
cadeira da mesma lingua no Collegio de França. 
Seus trabalhos, dos ([uacs grande quantidade foi 
dada no Nouveau Journal Asialique, pertencem 
á lilteratura da Ásia; ligam-se á historia e á 
geographia pela sua traducção da chronica de Ta- 
bari, emprehendida por conta da Sociedade das 
Iradueeòcs de Londres, cuja 1." parte, apenas, 
saio a himc (Loud 1836, em i.'), e por 2 volu- 



>I72 



O PANORAMA 



mes oscriplos para o Univers pillorcsque da li- 
vraria Didol, a Pcrse, 1840, o o Atgbanislan (cm 
collaboração cora Vaimonl), 18i8.A iiolicia sobre 
as Hcscarches in p/u'losop/tical and comparalivn 
])hi/ohgij de Ra^-iig é parlicularmcnle inleressan- 
le para a alhenologia philologica da Ásia cenlral. 
Esse esludo cnconlra-se no Nouvcau Journal 
Asiatique t. 1 de I80O (I. XVÍ da 4." serie) pa. 
283—309. 

Alfredo May 



APONTAMENTOS GEOGRAPIIICOS ACERCA 
DA PROVÍNCIA DE PARANÁ 

A provincia de Paraná é uma das mais ferieis 
do impeiio do I5razil. 

O seu clima doce e temperado reúne as vanta- 
gens do clima dos trópicos ás do clima de Porlu- 
gal e Ilalia. 

O Paraná produz lodos os vegetacs dos i)aizes 
inlerlropicaesdos do sul da Europa. Todavia aquel- 
la provincia tão fértil não expoita ainda senão ma- 
deiras de construcção, para queimar, c o chá do 
Paraguay [herva wak'),([UG produz em abundância 
e que é objecto de immenso compiercio com as 
republicas hispano-americanas. 

A arvore que produz o clià do Paraguay Y^^cj- 
paraguaycnsis) dá-se uuicameníe no Paraguay e 
na provincia de Paraná, e excepcionalmente em 
alguns pontos da provincia doRio-Grande do Sul. 
ElTeclua-se a collieita quebrando os ramos novos 
cumulados de folhas; em seguida submellem-se a 
uma ligeira torrefacção e reduzem-os a fragmen- 
tos, ou a pó mais ou menos grosso. As folhas são 
permanentes e não caem mesmo no inverno; a 
forma d'ellas éelliptica; tem uma cor verde muito 
carregado e são espessas e Insidias. As flores são 
dispostas em ramalhetinbos de trinia a quarenla 
flores cada um; teem quatro pétalas e egual nu- 
mero de pistillos, collocados nos inlervallos. 

A herva mate é usada como uma bebida de pri- 
meira necessidade para os indigenas que, assim 
como os hispano-americanos, o subsliluem com 
proveito ao chá das índias e mesmo ao café. 

Colonisarão — A provincia de Paraná possue 
uma enorme quaniidade de terrenos incultos, de 
excellcnte qualidade, que .são oííerecidos aos co- 
lonos, quer graluilamenie, quer pelo preço de meio 
decimo de real. proximamente, a bi-aça quadiada! 

liiclio de .src/íi— O Paraná é, de lodos os j)aizes 
da America do Sul, o que se presla mais á cul- 
tura do bicho de seda, principalmenie íIo Homhij.r 
arrindia que se alimenta de folhas do riciíio, 
e que produz cinco a seis colheitas annuaes de 
casulos. 

Café, assvrar, tabaco— i) café c a canna deas- 
sucarvingam perfeilamenlc na j)rovincia em (jues- 
tão; f)roduzem magniíicas colheilas. 

O tabaco do Paraná (em sirio reconhecido como 
superior aos tabacos da Rahia, epelo menos egual 
ao de Havana. 

Bamiilhn — A baunilha cresce esponianeameníe 
nos arredores de Paranaguá cem todas as localida- 



des da provincia. O perfume d'el!a não o cede ao 
das melhores baunilhas de Venezuela c do Méxi- 
co. 

Clíà — O arbusto de chá da índia prospera no 
clima do Paraná; porém os fabricanies indigenas 
ignoram os processos de preparação, e a especula- 
ção ali encontraria facilmenie um ramo de com- 
mercio que ainda não foi explorado. 

Alf/odão—0 algodão produz duas boas colheilas 
por anno. 

Lefjumes — Os arrozaes, milho c lodos os legu- 
mes farináceos cuUivam-se com bom exilo no Pa- 
raná. 

Madeiras — A provincia de Paraná abunda em 
madeiras excellenles para construcção e n.arcenaria. 

É preciso, principalmente, assignalar -a Arariva 
vei-melha, amarella e preta; 6'«?ír//í/ainarella e ne- 
gra; 6'o/7('/>///cí, o 7\{/iiba, (|uasi Ião duro como o 
ferro oJc(ji(iliba, o Peroba encarnado, o Sassafras 
branco, encarnado e prelo. 

3Hucracs—0 Paraná eslá litleralmenle coberto 
de mármores, poi-phyros, agathas, minérios de 
ouro, de ferro e de galena argcnlilera. 

Em uma das extremidades da cidade de Para- 
naguá existe uma jazida de mei-curio tão abun- 
dante, que na época das chuvas o mercúrio se 
escoa caindo de um talude na borda do mar. 

Diamantes e pedras preciosas — A máxima parle 
dos rios d'esla provincia são auríferos; alguns, as- 
sity como o Tybagy, encerram biilhanles, esme- 
raldas, topázios, amelhisles, lurquezes e rubis. 
Ouasi todos os dias, negros ou os camponezes 
vendem por inlimo preço os diamantes que en- 
contram nos rios. 

Plantas medeeinaes — A ipecacuanha, a quina, 
a salsa pariilha Japecanga abundam n"este paiz; 
acha-se ali igualmente o Cambara antisyphilitico, 
muito superior a todos os vegetaes conhecidos, da 
mesma es|)ecie a C arroba emj)regada nas mesmas en- 
fermidades, o bálsamo de copahiba, a Jahopha cur- 
cas, a Qtiassia amara, o ant/uro cuja resina e a casca 
são reputadas no paiz como antidolo da phlysica. 

Peixes — A bahia de Paranaguá, uma das mais 
vastas e seguras do globo, tem 12 léguas de pro- 
fundidade e 00 de circumferencia. Abunda em 
peixes. ()ulr'ora os hal)ilanlesda provincia de que 
se li ala forneciam o jjcixe salgado a todas as re- 
giões da America hespanhola. 

Alfredo Mav 

beduínos 

E esla a denominação dos árabes, que adopta- 
ram a vida nómada. Sãoelles os habilanles aborí- 
genes da Arábia. A signilicação do seu nome em 
lingua aiabe é «lilhos do deserto.» 

I^, essa com eííeilo a sua verdad(Mra pátria, c o 
silio em que elles folgam de usufruir a sua selva- 
gem in(le|)en(lencia. Partindo do deserto da Ara- 
i)ia, as suas Iribus csj)alharam-so pelos deserlos 
da Syria c do Egypto, e quando essas primitivas 
civilisações se deslizeram, arrojaram-se elles ás 
vastas j)la!iuras da Mesopolainia e di (ihaldèa. 

Como os pássaros sinistros, que só nas minasse 



o PANORAMA 



ns 



comprazem, os Boduinos esperam que a mão do 
tempo reduza a esquelelos as cidades i;iganles, 
para se irem enlão senlar nos fustes pailidos de 
Palmyra, nas moles derrocadas de Balbek. O 
viajante, que percorre essas immensas solidões on- 
de se agitaram nuIi-'ora innumcros povos, sonle 
uma lúgubre impresí-ão ao ver alvejar por enlreas 
i-uinas carcomidas o branco albornoz do Beduino, 
como qualquer de nós não pode deixar de eslre- 



mccer quando no claustro musgoso do convento 
solitário sente o vôo pesado e ti-iste do morcego. 
No soptimo século os Beduínos, caminhando 
sempre em dii-ecção aos silios onde sentiam ir a 
velha civilisação Laqueando, coníjuislaiam toda a 
Africa seplenitiional, e ahi se estabeleceram da 
mesma forma que no Grande Deserto, entre o Mar 
Vermelho c o Oceano Allanlico, território que 
ainda hoje occupam. Nas \mWs d'essa vasta zona 




Eoduinos 



onde é possível a cultura, encontram-se os Beduí- 
nos misturados com outros povos, mas no deserto 
são ellos sós os dominadores. 

D'ahi proveio, como era natural, a necessidade 
de lerem uma vida errante, e de tratarem só de 
criar gados, e de roubar os viandantes. Ksla vida 
solitária cheia de perigos, nómada fez d'elles um 
povo essencialmemte bellicoso, exti'emamen[e hos- 
pitaleiro, intrépido e frugal. O seu caracler tem 
também uma vaga c selvática poesia. O deseito, 
da mesma forma (jue o mar, poetisa os ânimos 
mais prosaicos. Aquellas duas immensidades en- 
sinam aos que as frcíiuenlam não sei que grandiosos 
pensamentos. 

Esta vida independente é também propiia para 
desenvolver e levar ao excesso as qualidades pre- 



dominantes de uma raça. A voluptuosidadc c a 
vingança naturaes á raça semítica, Iransformam-se 
nos beduínos em |)aixões impeluosíssímas. 

Os beduínos são uma bella raça de homens. A 
fadiga e as privações, a que andam expostos, aca- 
nham-lhes um pouco a estatura, c emmagrecem-n'os; 
apezard'isso são vivos, enei"gicos, e pouco suscep- 
tíveis de se deixarem pi'ostrar j)elo cançasso. Os 
seus olhos ai'dcnles revelam uma cxliema linura. 
As feições caracterislícas, o nariz ordinaria- 
mente aquilino denunciam uma cerla altivez. 
Como lodosos nómadas dos desertos, os seus senti- 
dos, especialmente o da vista, são levados a um acu- 
mc. raríssimo. 

A excepção de algumas liibus que iiabitam a 
Syría e uma das quaes até se diz que professa o 



i74 



O PANORAMA 



chrislianismo, os beduínos são niusiilmanos. As 
funcçõos sacerdotaes são desempenhadas por ma- 
rabuios, homens a quem as suas occupaçõcs ascé- 
ticas e Iheologicas asseguram uma grande inllucn- 

cia. 

A sua cultura inlelleclual oslá pouco adianlada; 
comludo lêem muilo bom senso natural, espiriío 
vivo e imaginação ardente. Os seus costumes lêem 
a dupla marca da sua religião e do seu género de 
existência. São hospitaleiros e vingativos. 

Ha mais liberdade nas relações entre os dois 
sexos, do (|ue é habitual entre os Orienlaos se- 
dentários. As suas mulheres não estão sujeitas a 
uma reclusão severa, e a polygamia não e usada; 
em compensação mudam frequenlemenle de espo- 
sa. Os seus diveilimentos jiredilectos são o jogo 
da i)ella c a caça. Piimam em montar a cavallo. 
Adoram a dança, gostam de ouvir contar histo- 
rias, de beber caie, c de fumar indolentemente o 
seu cachimbo. Sustcnlam-se dos productos vegetaes 
(|ue se lhe deparam, do leite dos seus rebanhos, e 
da caça. Veslem-se com estofos de lã, que elles 
mesmos fabricam. Tsam uma túnica branca longa 
e amj)la a ([ue chamam ((haik)^ que ao mesmo tempo 
llies cobre a cabeça, em torno da qual liça alada com 
uma corda de pello decamello. Í*or cima do haik, 
trazem um manto branco lambem, a que chamam 
albornoz. Os mais nobres e os mais ricos c que 
trazem calças e camiza por boixo do haik. 

A sua industria limila-se ao fabrico dos uten- 
sílios e dos estofos que lhes são mais indispensá- 
veis; e oscucommeicio á venda dos productos dos 
seus rebanhos, que lhes serve pai'a comprarem ar- 
mas e munições. O seu eslado social e politico é 
ainda o da vida patriaichal. Uma ou muitas famí- 
lias, cujo chefe toma o titulo de .sc/icick fói-ma o 
centro da Iribu, e constituem com os marabutos 
uma espécie tie nobreza. Entre elles ó que se es- 
colhem os cadis, que são os chefes superiores da 
tribu. Estes são generaes em lem|;o de guerra, e 
magistrados ejuizes em tempo de |)az. (Tada tribu 
comprehendc muitos aduares ou aldeias moveis, 
(|ue a maior parle das vezes só consislem em len- 
das fabricadas simplesmente, com pelles de camel- 
lo c dispostas ciiculainiente, no meio das (|uaes 
de noite SC mettem os i^ebanhos. Os seusprincipaes 
animaes domeslicos são o camello e o cavallo, o 
jumento, o carneiro, c a cabra. 



A GALATEA MODERNA. 
VI 

l>. ^ioltiiilc n liiifoiícxii <■(> .%l|>o«li'al. 

Oh ! É indesculpável o pobre Alfredo. Não ha 
forças que vençam a sua mania romântica, a 
qualj pelos modus, o accommetleu com maior 
intensidade n'cslas campinas minholas. Ecm- 
bras-lc de l\omeo Montaigu ? I>cml)ras-tc d'cssa 
creação inímilamenle poética, poelica de mais, 
para ípic [)Ossa existir no prosairo mundo, que 
habitamos V 1'nis o nieii Alfredo itníla, (oh! tem 
mão, por Dcos ! NTio te coulorsas cm espasmos 
de riso !) o pobre Itomeo. E o peior é íjue qu(!r 
fiir.cr de mim a sua Julieta, que de certo já liio 



houvera descantado o derradeiro gorgeio do rou- 
xinol moribundo : 

É forçoso ]inrtir, e viver. 

Ou ík-ar junlo a mim... c morrer! 

com accento profundamente melancólico, como 
de quem vê, com olhos d'alma, os negrumes do 
tumulo cm não bmginquo cemitério. 

Mas não! N'esta" época de prosa vil e chã, 
quando os próprios passarinhos da floresta como 
que cantam, só para que lhes não derrubem as 
arvores, em cujos ramos se aninharam, encontrar 
um Romeo. Oh! querida baroneza ! Já alcançaste 
um triumpho assim? As viclimas que has ceifado, 
nada são em parai leio com este pobre vencido, 
que me segue, qual sombra p.langenle e eterna- 
mente amorosa. Não píjdes phantasiar, se bem 
que a tua phanlasia seja capaz dos maiores ar- 
rojos, o que por aqui vae de sentimento. Toda 
eu sou ás vezes, ora uma elegia, tão triste como 
o ruído que se alevanta dos campos, por noite de 
outono, ora um ponto de admiração por esses lon- 
gos amores da edade media em mil cantos, co- 
mo um saga scandinavo, amores que os bardos 
da língua d'oe começavam a titubear no berço, 
e quando morriam ainda lhes faltava muito, o 
principal talvez. 

Aqui me tens, poi.=, minha querida baroneza, 
em perpetua meditação anftrosa, vendo lavrar o 
incêndio, que eu própria accendi, desviando-me 
porém, por me não queimar. 

E olha que estou cercada de perigos, que só a 
minha vasta sabedoria e profundíssima prudência 
poderiam evitar. Alfredo ama-me loucamente, 
digo-t'o sem rebuço, sem louca vaidade. Ama-me 
como um perdido, porque lhe causei uma im- 
pressão, que annos e desenganos nunca jamais 
poderão obliterar, listou certa d'isto. Assim o 
estivera da minlia felicidade. Vè pois que cuida- 
do não hei de ler, para domar os ímpetos, os 
delírios, as impaciências de um amor que irrom- 
peu súbito, como a lava de um vulcão, que ac* 
corda, após longo somno? Como dizer á lava que 
se desenijanha em chispas de fogo : não vás mais 
longe, que me queimas a orla do vestido? 

E depois, quando succedc a melancolia do 
amor, e o vulcão já não estruge; quando Alfredo 
me enleia n'um olhar, e intenta rasgar até ao 
coração, como obrigai o a calar? Como deter as 
mil conlissões, que estão saltando a ílux? Como 
não ouvir a palavra, que, segundo o poela, que 
lanlas vezes hei lido, 

.... Lip|íni.s rinq mille nns 

];e .=;usi)eii(l cliiKiue nuil aiix Irvres dcs amanis ! 

Como lograr tudo isto, no meio de tantos peri- 
gos, quando o inatrimonio acode em soccorro do 
coração ? 

Ai! tenho medo de mim! Nasci para a lucta. 
Quero luctar, c não sei se me sairei bem. Chamas- 
mc louca e romanesca. Eu, romanesca? Eu, que 
sou tua discípula ? Eu, que tenho por gloria se- 
guir os teus exemplos? 

Deus m(! livre de amar Alfredo, que seria esse 
o castigo eterno, o ])erpctuo flagício da minha 
vida! Amal-o, seria fi;gír d'elle, e para semi)rc. 
Amal-o, fora a solidão do convento i)or compa- 
nheira constante. Amai o fora a eslamonha da 
monja, fora o cilício doloroso. Se eu o amasse, 
adeiis mundo, que sonho, oslriumphos que ante- 



I 



o PANORAMA 



^175 



y vojo, os oxplendores, que descortino. Se eu amasse, 
não poderia desposal-o. Não le admires, minha 
querida. Põe os olhos cm ti. Amas apaso o pobre 
barão? Amas o teu marido, esse servo fiel e obe- 
diente dos teus caprichos. .Não. E por isso reinas 
despoticamente, imperas no baile, redopias na 
walsa, acorrentas escravos, dominas o mundo, 
vives em íim a vida dourada, senão a vida do 
oiro. Mas imagina por um pouco, que amavas o 
teu barão. Trocavas o sceptro pela roca, torna- 
vas-fe submissa, como uma matrona romana, 
não tinhas vontade, não surgias radiante toda luz, 
toda brilho, no meio dos festins. Pois comigo, 
aconteceria peior ainda. Sou pobre, devera tudo 
a Alfredo, e o meu amor confundir-se-ia com a 
gratidão. Os transportes da alma lornar-se-iam 
um dever de esposa agradecida e respeitosa, que 
só tem olhos para o seu marido. A paixão morria 
afinal n'essa athmosphcra plácida e socegada. Os 
arroubos de um amor intenso, os extasis que nos 
- lançam em timido pélago de sensaçcMís ignotas, os 
mil soíTiimentos, conqjensados por mil venturas, 
todos esses combales, que são a vida do amor, cs- 
vaecer-se-iam perante esse viver tranquillo e mo- 
nótono, como o caudal se some nas aguas soce- 
gadas do lago. 

Os meus sonhos mais queridos, as minhas es- 
peranças mais arreigadas desfolharaas o casamen- 
to por amor 1 

Por isso, ó minha querida, não queiras que eu 
ame Alfredo, e desejes ver nos unidos pelos sa- 
grados laços do hymeneu, como se dizia outr'ora. 

Mas deixemosdivagações. Queres ouvir Alfredo? 
Queres assistir a uma dias nossas conferencias phy- 
losophico-scntimentaes, em que nós discutimos, 
não sem alguns suspiros de Alfredo, os themas 
mais abstractos do coração? Eil-o que vem con- 
vidar-me para passeio. A tarde vae fresca e ame- 
na. Estamos na primavera. A brisa atufa as nu- 
vens, que são o gaze dos espíritos aéreos. Os pas- 
sarinhos enchem a solidão, com os seus quebros 
melodiosos. As folhas do arvoredo espargem-se, 
húmidas ainda, aos últimos raios do sol. E' a 
hora da melancolia 



{ConUnua) 



A. Osouio DE Vasconcellos 



LIÇÃO A UM LISONGKIUO 

Um dia, nos Pnizos-Baixos, acliando-se o bravo 
coronel escossez Edmunds ahnoçando com muitos 
dos seus oliiciaes, um dos seus compalriolas en- 
trou e dirigio-lhe estas palavras: (cMylord, vosso 
nobre pai c iodos os cavalieiros e fçenlishomens 
seus filhos c primos, estão de porfeila saúde.» O 
coronel sorrio-se e encolhendo os iiombros disse: 

«Senhores, não acrediteis uma palav;a úo que 
acabais de ouvir. Meu pai é um pobre padeiro de 
Edimburgo, cujo liabalho mal lhe dá para viver. 
Em Ioda a minha família não se enconlra um no- 
bre. Este homem queria lisongear-mce fazer acre- 
ditar que eu nasci em algum castello. Enganou se, 
meu camarada, nasci em uma loja, e não coro por 
isso.» 

A ambição e a cobiça não allentleiu nem á jus- 
lica, nem *á razão. 



OS ESCRÚPULOS 

O grande moralisla .lacques-Josoph Duguel, 
escreveu pelos annos de 1717 um tratado dos es- 
crúpulos. iN'aquellc tempo, a palavra escrúpulo 
não tinha o sentido que hoje se lhe dá. «O es- 
crúpulo, diz Duguel, é uma duvida em matéria 
de moral, que não tem fundamento ou se o tem 
é mui leve, ainda (|ue vá algumas vezes até á per- 
suasão, e encha a consciência de inquietação e 
perplexidades.» 

Escrevendo o seu tratado, tem por fim levarás 
almas timoratas <ío socego e a paz esclarecendo- 
as, c de conservar á virtude o privilegio de tornar 
o liomem feliz, o que só convém a ella, rasgan- 
do-lhe o véo lúgubre com que o espirito das tre- 
vas procura cobril-a a miude. O nome de escru- 
puloso, accrescenla elle, tem o quer que seja de 
liumilhante na opinião do mundo; mas o mundo 
é injusto. lia muita gente aquém melhor fora sof- 
frer d'essa doença que os faz sorrir, do que viver 
na falsa Iranquíllidadee perfeita confiança em si, 
que só veera da sua muita ignorância e do que 
ha de mais denso e obtuso no sentido moral. 

Nada mais perigoso do que o não guardar fi- 
delidade para esse grito da consciência, que é a 
regra pessoal de cada parlicular, e que dá a cada 
uma das suas acções a applicação das regras ge- 
raes da lei natural. Quando se procura abafar essa 
voz secreta, merece-se nada mais ouvir, e expõe- 
se a andar toda a vida nas trevas (|ue se lhe hão 
preferido. O homem de bem, sabe isso, e é muito 
para lastimar quando a sua consciência o adverte 
iora de tempo, e que lhe faz, sobre acções descul- 
páveis, ou mesmo innocentes, reproches tão vivas, 
Ião assustadoras como se essas acções foram cri- 
minosas. Porque não se lhe pode dizer. «Não es- 
cuteis nunca a vossa consciência.» Nem Ião pou- 
co: «Esculai-a sempre.» 

O meio entre estas duas extremidades é diíTi- 
cil, e é preciso uma razão sã e esclarecida para 
conservar-se n'elle. Se se pende nuiilo para o la- 
do opposlo ao que insinua a consciência, cáe-se 
no risco de habiluar-sea não ter bastante len'ella. 
Se SC abandona ao escrúpulo, é para temer que a 
causa não seja «uma fraípieza natural do espirito 
ao qual tudo faz impressão, que, como a cera, to- 
ma de lodos os pensamentos uma espécie de cu- 
nho, e í|uc recebe de (juasi lodos os objectos um 
ceilo abalo que o inquieta. Esla disposição, (juan- 
do é levada ao excesso, limila muito a liberdade 
c a razão, ou mesmo e\lingue-as complelamenle.^) 

Outra causa da IVa((ueza do espirito é a sua 
pouca extensão, incapaz de comparar o que pode- 
ria esclarecer o escru|)ulo com o que o produz, 
o es|)irilo não vê as causas senão por este, único 
lado, e é de oídinario o mais afiliclivo. É uma 
fonte inesgotável de falsos raciocínios, de falsos 
receios, de falsos preconceitos, o não considerar 
mais do que um ponto e n'elle lixar-se. 

Se o espirito é confuso, se não distingue coisa 
alguma com precisão, se conserva no discurso a 



/b 



O PANORAMA 



desordem e o embaraço de pensamenlos, senle-se 
uma grande dilliculdade cm socegar os escriipu- 
los. Não ha oulro meio senão procurar-lho dis- 
linguic claramenie as diflerenles parles do que 
concebe e confunde, edemonsli-ar-ilie(iuanlo cada 
ponlo sepai-ado comporia de exageração. 

Muilas vezes senlimo-nosperhirbados pela nos- 
sa imaginação, que nos apresenla visões assusíadoras 
c que nos indignam, i^ías nós devemos pensar que 
a nossa imaginação não é o eu; é a nos^o res- 
peilo conui um ptulercslranho; não somos obriga- 
dos a impular-nos os seus impolos, c não respon- 
demos senão pelo nosso pioprio coi'ação. Ouanlo 
menos nos deixarmos alemorisar pela imaginação, 
menor será o seu império sobre nós: ó o medo que se 
lem irellaque rodobra a violência e a assiduidade, 
em (pianlo que o despreso é o i'emedio. 

Não deveiiamos formar uma ideia muilo alia 
da virlude: ò preciso somente que cila esteja em 
relação com as condições cssenciaes do nosso es- 
tado n'esta vida. Por isto torna-se essencial uma 
união perfeila da delicadeza da consciência c da 
rectidão do juizo. E necessário conciliar todos osseus 
deveres. Somos escrupulosos na má accepção da 
palavra se vemos que, para satisfazer a um só d'en- 
tre cUes, se sacrificam os outros que lêem os 
mesmos direitos c não importam menos á perfeita 
honestidade. íla virtudes que se exj)õem a serem 
suspeilas equasi odiosas, por esta pi-eferencia que 
injustamente se lhes dá, e pelo pouco zelo que se 
mostra para o resto das leis moraes. 

(cUma attenção mui grande a examinar-se ca ob- 
servar todas as suas acções e todos os seus motivos 
degenera algumas vezes em inceileza. Ouanlo mais 
de perlo e mais tempo se olham, menos se conhecem. 
E precisoum certo pontode vista para discernir os 
objectos e quando estão muito próximos, tornam-se 
Ião confusos ou mesmo tão invisíveis como se esti- 
vessem muilo distantes. Não ha ainda mais do que 
o meio entre as duas extremidades, ou ver-se 
sempre, ou nunca ver-se, quem for esclarecido. 

«E preciso tanta equidade para si como para os 
outros; ser humilde, mas iccloe sincero; não cair 
na ingialidão para evitar o orgulho; c preferir 
uma quietação, (|ue conduza á conliança, a um de- 
sassocego duvidoso que não faz mais do que con- 
servar o receio c que leva ao desalento.» 

Enlrc 03 remédios que Dugiiet aconselha para 
a emenda dos escrúpulos desarrezoados ou exces- 
sivos, o trabalho entra cm primeira linha: recom- 
menda estudos im[)ortantes, o exercício da caii- 
dade fora de casa, a conveisação com pessoas de 
uma razão superior. l)e[)ois empichende um exa- 
me das esj)Ocies particulares de escrúpulos, e 
enlra em uma oídem de reílexões que se referem 
espccialmcnle á religião. 

A Verdade se acolheu, á unha de cavallo, dos 
conselhos e Iribunaes, lemendo algum desacato, e 
deixou nas cortes seuíilhoo Ódio, a (piem os gran- 
des casaram com a Príni/ira, jjrimeiro logar n'('llas; 
de cujo ajuntamento nasceu o Dcsfiu/a no. o (\ud\ os 
corlczãos ciiaramcom todo o apaialo que se pode 



imaginar: porém como chegou a uso da razão, c 
quiz exercitar o seu oíUcio, determinaram acabal-o. 

Elle que presenliu o pouco que parecia gentil- 
homcm, ))erigrinou grande parle do mundo, até 
dar comsigo na Tliebaida, onde \'\\c apartado de 
toda a conservação. Ó santo Desengano, quantos 
naufrágios tendes passadol M. Affonso de Miranda 

[Tempo de agora) 



IMMENSÍDADE 

Ali! SC a nossa visla fosse lai qiic podesscmos dcsco- 
lirir, íilli, onde npoiíns dislingiiimos i)oiilos luminosos no 
fundo negro do céu, os soes resplamieconles que gravi- 
tam na extensão c os mundos haijilados que os seguem 
em seu curso; se nos fosse dado abraçar cm um olIiaV ge- 
ral essas myriadas de syslcmas solares; se, avançando 
nós com a velocidade da luz, atravessássemos duranlc sé- 
culos esse numero illimilado de sócs e de esphcras, sem 
nunca adiar termo a essa immcnsidaflc onde Deos fez 
germinar os mundos c os seres; voltando para traz os nos- 
os olhos, mas não sabendo em que ponlo do iniinilo pára 
esse grão de |)ò (pie se chama Terra, licaiiamos fascinados 
e confusos por um (ai es|)eclaculo e unindo a nossa voz 
ao concerto da natureza, diríamos do fundo da nossa al- 
ma: ('Deos lodo poderoso! quão insensatos éramos em 
julgar que natia havia além da terra, e que só a nossa 
pobre morada tinha o privilegio de fazer reíleclir a lua 
grandeza c o leu poder!» 



ILÍÍAS DE GELO 

Encon!ram-sc ilhas de gelo flucluantcs de 3 a 8 Ivilo- 
metros de extensão e de 30 a CO metros de altura. A 
parte coberta jielo mar de\e ser (conforme as densidades 
relativas do g('lo e da agua) seis ou oiio vezes mais con- 
siderável, que a i^arlc visível. A espessura lotai pode ser, 
de 500 a COO melros. 



L'AMOUR, CEST LA YIE ! 
1 

Um dia, vi-te só ! eslavas triste, 
])cnd:da a frente, c os olhos rasos de agua ; 
c, ao ver (pie te opprimia funda rnágua, 
l)ergunleí-te jiorípiè, mas não me ouviste. 
Ceilo, o (piadro da vida contemplavas, 
e, saudosa do céo d'onde vieras, 
cm leu seio arcbangelico anhelavas 
por deixar (reslc ntundo as primaveras. 
Tinhas rasão ! E eu perguntei-le ainda 
se na terra um incanlo não achavas 
que Ic levasse alli\io ao coração. 
Ergueste a fronte iiáilida, mas linda, 
c respondeste — não ! 

II 

Mais tarde... quando o amor, em doce calma, 
em azas de ouro e neve te envolvia, 
e na fronte gonlil Ic entretecia 
a c"roa de raiidia da miidfalma ; 
(piando o amor, seus s(urisos entreabrindo, 
veio fechar depois nossos abraços ; 
e, sobre a terra (h)res espargindo, 
por llórea senda nos guiou os passos: 
logrei um ceu em cada teu sorriso, 
li a ventura no leu rosto lindo, 
\í te ditosa, e perí;,untei-lc emlim, 
se este mundo não era um paraíso, 
c respondeste — sim 1 

Vizcu 9 (lu maio, ISOG. 

Cândido riOUKinEDO. 



Tyii'. iMiuico-l-oriugUfKa. llua do Tlicsouio vellio, O 



23 



o PANORAIMA 



77 




Pi-aça de Luiz de Gamões. 



Ha de muita gente julgar fora de propósito a 
publicação d'esta estampa, por figurar uma scena 
que já vae bem longe; e, comtudo, vale mais a 
presente gravura, do que outra que desenhasse o 
estado actual do meio alinhavado monumento de 
Camões. 

Quando sua magestade, el-rei D. Luiz, foi lan- 
çar a primeira pedra da suspirada memoria, tudo 
tinha, até esse jubiloso momento, corrido com tanto 
fogo, que a todos pareceu resolvido o insolúvel 
problema de completar, nos prasos marcados, as 
obras começadas; e muitos chegaram a suppor que 
teríamos inauguração antes do termo das condi- 
ções. 

Esse acto do nosso monarcha foi, portanto, uma 
revelação de confiança, de alegria e de enlhusias- 
mo patriótico, que o seu luzimenlo inspirou, ro- 
bustecida pelos precedentes auspiciosos que a ti- 
nham definido. 

E hoje? 

Hoje, ha mais alguma coisa. Certamente. Ha o 
pedestal completo, que se compõe de muitas pe- 
dras, de muita cal, de muitas quinas, de muitos 
ornatos, de muita terra, e pó também. É mais 
alto do queum homem, c. Todos o vêem. Porem... 
ninguém se lembra d'elle. 

Tal é o lapso de tempo, carregado de irrisórias 
peripécias, que attesta aquella representação |)las- 
lica do slalu qno, e que tão desapiedadamente nos 
ameaça com um novo galheteiro, mais delicado, 
mais janota, mais pomjjoso, e verdade, do (jue o 
extincto galheteiro do Rocio; mas... um galhe- 
teiro. 

Portanto, a estampa que figurasse este novíssi- 
mo, correcto e augmentado galheteiro seria uma es- 
tampa... para rir, ou, se (luizerem, para chorar; 



e o nosso fim não é fazer rir das coisas sérias, 
nem entrar na complicada tarefa de phanlasiar 
portuguezes que, á semelhança de Scipião, chorem 
sobre as ruinas da pátria. 

Eis a,rasão porque a nossa gravura tem mais 
valor. E uma recordação de passadas alegrias, 
sempre bem vinda n'este mar procelioso de an- 
gustias em que, desde muito, navegamos. 

Já lá vão os tempos em que o génio nos des- 
pontava rápido e viçoso, e as diíTiculdades econó- 
micas e l)lasticas se apagavam instantaneamente ao 
sopro da vontade, da confiança e da energia. 

Morreram- com o reinado dê D. Maria I,"" e, ao 
menos, consolemo-nos por terem morrido religiosa- 
mente. 

Quando cortaram as azas ao ministro de D. José 
I, marquez de Pombal caio das maiores alturas da 
gloria, a que o seu vòo seguido e rápido o havia 
elevado. A sua queda estremeceu o paiz, e desde 
então nunca mais o infeliz Portugal logrou saúde. 
Ninguém se mostrou culpado em tamanho delicto; 
mas o convento da Estrella foi, talvez, uma ma- 
nifestação piedosa movida pelo remorso, um voto 
nascido de um erro politico, que só a Deus se 
revelou. 

Hoje, que não podemos resuscitar os mortos; 
que não é possível restituir á vida aquelles polí- 
ticos estacionários c despóticos que animaram o 
mármore em vultos gigantescos, e fizeram brotar 
das cinzas ainda lépidas uma cidade explendida; 
([ue acharam e ciiaram sabias e arlistas que não 
tropeçavam em qualquer difficuldade, nem, co- 
bertos com as vestes da fama, dormiam embria- 
gados pelo perfume dos loiros ; hoje tomámos o 
l)arlido de importar a cultura do progresso. 

Porém, como? 



•178 



O PANORAMA 



Esquecerao-nos de que nos faltava o eslrumc; e 
eis o proíresso. planta de eterna e crescente bel- 
leza, conveilido em uma espécie de caranguejo: 
andando mais paia traz, de cada vez que o im- 
purram paia diante. 

Proclamam-se Machados do Castro, como quem 
apregoa laianja da China; SebasliõesdeCarvalho... 
Minto. Hoje, ninguém quer ser Sebastião de Car- 
valho... l)eci'ctam-se Colberls, como quem olle- 
rece piladas de rapé; semeam-se artilices, como 
quem annnncia charutos Zamacoes. Depois, mãos 
ás obras. Kspera-se, espera-se... até que se de- 
sespera. Que será, que não será... Espreita-se o 
caso, e encontia-se ; 

Os Machados de Castro a scismarem sobre o mo- 
do porque de um bocado de pedra em bruto ha 
de sair uma figura que não venha torta; uma li- 
gura direita, perpendicular, aprumada; tendo, ape- 
nas, a liberdade simi)Ies de poisar um pé adiante 
do outro, ou de apalpar a i-egião do coração; 

Os Colberls... a scismarem sobre a causa de 
tudo lhe sair negativo, empregando constante- 
mente o signal de mais; 

Os artilices... a scismarem sobre a razão por- 
que se lhes partiiam as formas, e, em lugar de 
uma figura de Camões, lhes saio uma cascata. 

Vae para um século que, em o nosso paiz, dei- 
xaram, pouco a pouco, cair completamente as 
obras d'arte nos braços da infelicidade. Quasi to- 
dos os projectos ficam nos traços do tira linhas, 
ou no modelo; e os que, por acaso, conse- 
guem vingar, accusam sempre na phisiòuomia 
contrahida os bons tratos que a economia, o mau 
gosto, a parcialidade da compadrice, e o myslerio 
lhes deram. 

O theatro de D. Maria II é uma triste victima 
de todas essas coisas. Devia ter nascido dos traça- 
dos de Pedro Monteiro, e saio dos mal engendra- 
dos plagiatos de outro architeclo, que nemtalento 
linha paia fazer d'aquelles traçados tima parodia 
feliz. Houve dinheií-o para consliuir um Ihealro 
de lapis-lazuli; mas a economia cortou e o mys- 
teiio ainda mais. 

O pensamento que deu oiigem ao celebrado ga- 
Iheleiro do Uocio foi outra victima. O génio que 
se pro])oz eternisar pela plástica os feitos do im- 
morlal imperador, dormia lá fora. A tuba pre- 
goeira do concurso accordou-o, e elle, abrindo as 
azas, voou para nós. ISão esperando, porem, en- 
contrar em paiz Ião pequeno, tão grande e alto 
monumento, como é a estatua eqiieslie de D..Iosé 
I, n'ella esbarrou, partindo o nari:'., poiíjue assim 
pode dizer-se de quem ousou collocar cm a mes- 
ma terra, e á curla distancia da rua Augusta, uma 
parodia da obra prima de Machado de Castro, 
ainda mais infeliz do (jue os j)Iagiatos feitos aos 
planos de Pedro Monteiro. 

Os resultados dCsla comedia todos os leitores 
conhecem bem. 

Depois de levantaífo o pedestal, a estatua não 
quiz subir; e disse-se que era porípie, faltando- 
Ihc dinheiío para comprar abafos, não eslava re- 
solvida a ir expor-se permanentemente á chuva. 



Mais tarde, desmenlio-se esta desculpa e attribuio- 
se-lhe outra. A estatua tinha vergonha de desem- 
penhar o papel de aigola de galheteiro. D'esta se 
convenceu o senado, e, achando-lhe razão, man- 
dou arrazar a estulta cassoada. 

Assim é que morreu o desgraçado galheteiro do 
Rocio; e é assim que muila gente principia já a 
desconfiar que morrerá o galheteiro da moderna 
praça de Luiz de Camões. 

Terá o destino marcado no seu livro mysterloso 
a realisação de tão endiabrado agoiro? 

Nogueira da Silva 



A BOGCA DO LNFEKNO 
Vi 

Luiz vae encostado á amurada do brigue com 
os olhos filos nas aguas e o pensamento muito 
longe d'alli. Nem sequer se lembra de que está 
no seu querido oceano, que fora outr'ora a sua 
paixão. 

Atlásta-te da borda, e observa como o brigue é 
veleiro! A barquinha marca muitas milhas; as ve- 
las vão empavezadas, e tu immovelahi, quando n'ou- 
tro tempo passeavas na loldacom os olhos ora nas ver- 
gas ora na proa do barco; na agulha, ou nos horison- 
tesl Então no rosloqueimadolransverberava o inti- 
mo prazer, nos lábios saltava um sorriso! Porque 
estás agora triste e pensativo, fazendo o quarto 
silencioso, quando outr'ora a tua voz. cheia de 
enérgico vigor, retumbava de popa a proa dirigin- 
do a manobra? É que ha solTrimentostaes, que absor- 
vem todo o ser moral. 

Já não encontras Christina ateu lado. Se a cha- 
mas, responde-te o gemido lúgubre do oceano. 
Oh! deve ser horrível esse soffrimentol 

p] o oceano estendia-se em redor agitado, cres- 
po, rugidor! e o vento susurrava nas enxárcias, 
fazendo ranger os moitões! ea agua formava bran- 
cos cachões na proa do brigue! — Era um quadro 
magnifico, anle o (piai oulr'ora a alma de Luiz se 
extasiava. Agora, porém, tudo passava desaperce- 
bido para elle. Já não achava poesia nas ondas, 
nem já a voos largos deixava subir o pensamento 
aos seios da immensidade! 

Encostado á borda, olhos fitos nas aguas, o co-, 
lação retalhado de saudades, c a ideia na pátria, 
ia-se o pobre mancebo pelos mares fora, deman- 
dando outros portos, que não os do seu querido 
paiz, onde, se ouiroia o prendia o ninho pátrio, 
hoje o i)rende ainda mais o consorcio do coração! 

Se vos recordaes, leitora, do mancebo (jue en- 
contrastes na praia de (>ascaes, hesilarieis agora 
em afliimar que era o mesmo. Então represenlava 
o marinheiro que não lera paixão maior do que 
aquella (|ue o ocí^tuo alimenta no remanso da bo- 
nança ou no rugir da lem|)esla(le, paixão queal- 
trae o homem para elle por um diabólico poder, 
paixão que nem o naufrágio cura, i)orque o nau- 
frago, que um milagre salvou da morle, vae ain- 
da outra veziançar-seanciosonos braços do ocea- 
no, sem já se lembrar de que esteve |)ara ser por 
elles esmagado! —Agora o que ahi vedes a bordo 



o PANORAMA 



479 



do brigue, costeando o archipolago de Cabo Ver- 
de, é outro, magro, pallidu, como quem soílVe 
I do mal das saudades. É que ésó para os espíritos 
superiores abi'açarem-se com a dôr, e como que 
alimenlarem-se d'ella. Não são para as vulgarida- 
des os grandes soUVimenlos, Deus só trava as lue- 
las gigantes do espirito e do coração nas organi- 
sações elevadas, onde o combale pode ser heróico. 

Por isso lambem o génio, disse Clialeaubriand, 
usa depressa o corpo que o encerra: as almas gran- 
des, assim como os grandes rios, tendem a de- 
vaslar as suas margens. 

Havia doisannos que Luiz de Mello e Chrislina 
se tinham despedido em Cascaes. N'esta já longa 
ausência, o que a ambos consolava, o que a am- 
bos amparava na beirai resvaladia do tumulo, 
era a esperança, a vara magica da esperança, 
único arrimo dos desfortunados da terra. 

Nas carias de Christina havia a resignação evan- 
gélica de quem aceila tudo das mãos de Deus e 
só d'elle espera o remédio. Por isso as suas pala- 
vras eram todas de consolação, e n'este mister 
sanlissimo da mulher, em que eíla se converte em 
anjo de piedade, ia Chrislina dando coragem e 
vida ao desgraçado. 

Um dia Luiz pensou seriamente em voltar a 
Portugal quanto antes. 

Imaginou para isso uma doença e a necessidade 
de ares pátrios. 

Tomada deíinilivamente a resolução, não hou- 
ve considerações que o demovessem do intento. 

Vil 

A senhora morgada, D. Thereza de Brito, habi- 
tava em Lisboa uma casa grande e de veneranda 
velhice. D. Thereza tinha ódio a reformas e me- 
lhoramentos. Amava as suas antigas cadeiras de 
c>paldar, as mesas de pau santo, o contador e a 
papeleira; enão havia fazel-a acreditar na elegan- 
( ia da mobilia moderna, e das decorações do tempo. 
Agarrada às suas opiniões, como o berbigão se 
agarra ao rochedo, atacassem-na, combalessem- 
na, ou pretendessem convencel-a, que era embal- 
de. Tinha um respeito religioso á antiguidade, e 
não admitlia alteração nos seus usos e costumes. 

Deduz-se d'aqui que D. Thereza vivia muito 
concentrada. Se não tora o irmão, Chrislina não 
conheceria as soirées e os bailes, e teria de su- 
jeilar-se á companhia eífectiva do parocho e do 
velho procurador da casa, que costumavam vir á 
noite lazer a part'da do cassino ou do vollarcle 
com a senhora morgada. 

De dias a dias acontecia apparecerem algumas 
senhoras, correligionárias de D. Thereza nas ideias 
e nos usos. Eu não dispenso o leitor de ouvir a 
descripção de uma das frequentadoras, mais as- 
isidua. 

Era uma donzclla de cincoenla e sete annos, 
que debalde se esforçara nos tempos da sua mo- 
cidade por encontrar um coração que compre- 
iicndesse o seu. Isto dizia ella. Agora eu direi que 
ninguém quiz adivinhar o tal mysterio incompre- 
heusivel do coração. Os cabeiros, que, segundo 



diziam asmas linguas, eram já todos brancos, ap- 
paieciam da cór do azeviche, graça ao inventivo 
progresso que, aj)ezar de lhe aproveitar, ella 
tanto guerieava. Dentes, preslara-Íh'os a arte de 
Vitry. As faces desbotadas, rugosas, pareciam ás 
vezes incendiadas com os laivos carregados do car- 
mim: outras levemente rosadas como o enrubecer 
de innocenle donzella. Era este um dus arrebiques 
em que D. Ca|)itulina mudava frequentemente: 
errava sempie, apezar da pratica (juolidiana, a 
porção do carmim. O que ainda illudia um pouco 
eram os olhos. Deviam ter sido bellos aos vinte 
ou vinte cinco annos, ardentes aos trinta— e se 
lhes faltava hoje o brilho d'esse tempo, a luneta 
lixa suppria a falta, porque atravez do vidro chris- 
lalino, brilhante parecia o christalino dos olhos. 
Da moda colhera D. Capitolina todas estas excre- 
cencias insupportaveis— o que não acceitou, po- 
rem, foi justamente o elegante delia. Os seus tra- 
jes não soíVriam alteração; e ao ver a refolhada 
touca da decrépita donzella, a manga juslinha, o 
comprido espartilho, os grossos caiacóes, e a por- 
çilo dos anneis, transporlava-se o observador a trinta 
annos atraz. Para os que gostam de estudar o 
passado tinham alli a imagem viva d'elle. 

Respeito a velhice; lamento a caducidade; mas 
detesto a velhice pretenciosa. Era este o defeito 
de D. Capitolina. Gostava ainda de fatiarem amor, 
e nas novellas do seu tempo, em que dois aman- 
tes eram perseguidos pelo rigor da sorte, ou por 
algum tyranno escondido, para virem casar e vi- 
ver felizes, com muitos filhos, na ultima pagina 
do livro. E tanto sympathisava D. Capitolina com 
os nomes floridos e apollineos das suas novellas 
mais queridas, que a um afdhado pozera o nome 
de Valdemiro. Supponho que assim se chamava 
algum amante liei. 

E era esta a sociedade de D. Thereza de Brito. 
Quando Pedro levava a irmã a um baile, ou trazia 
um amigo a jantar, tornava-se caso estranho na 
familia. Chrislina chegava mesmo a pedir-lhe que 
trouxesse sempre alguém. O procurador não sabia 
fatiar se não em negócios do foro: o parocho nos 
negócios da Igreja. 

Quando Christina perguntava ao primeiro: 

—Que novidades ha, sr. Mathias? 

—Está o juiz de lai vara com uma grande cons- 
tipação — respondia o pobre homem. 

Se Christina se dirigia ao padre, ouvia: 

— Festeja-se tal dia o dogma da Conceição... 

E era a isto que as novidades dos dois interro- 
gados se cingiam. 

Se havia, pois, visita nova, Christina e Pedro 
aproveitavam a occasião para ridiculisarem todas 
as antigualhas o que desagradava sumraamente 
a D. Thereza. 

Quero que o leitor tenha a condescencencia de 
segui r-me aos paços da senhora morgada, em noite 
que D. Capitolina se achava presente. Pedro de 
Brito licara lambem em casa, tendo anteriormente 
convidado um amigo para o acompanhar. A quin- 
quagenaria donzella vinha essa noite mais rubicun- 
da e graciosa. Quando divisou o amigo de Pedro, 



80 



O PANORAMA 



que era um rapaz elegante e amável, D. Capitolina 
estudou um sorriso, que se esforçou por tornar ten- 
tador; deitou-llie um olhar meigo, grata recorda- 
ção do seu tempo de rapariga; IVz um requebro, 
o mais gracioso que poude, e cortejou o mancebo. 

Chrisiiua estava j)resente. Contra o costume, 
apresentava o semblante risonho. Apropria mor- 
eada estranhou muito sua tilha. Parecia que lhe 
illuminava o rosto o raio de algum prazer occiíllo. 

O jiarocho. o procurador, 1). Thereza, e 1). 
Capitolina senlaram-se ao jogo. J^edro de Brito e 
o seu amigo Noronha foram collocar-se ao pé da 
nieza. Jogou-se o Cassino. D Thereza quiz mudar 
de parceiros. 

— Faz mal — acudio D. Capitolina — Devemos 
ser constantes por isso que a constância c natural 
nas senhoras. 

— E porque não será nos homens'^ — atalhou 
Noronha. 

— Ohl não! nos homens não! 

— Minha senhora — redarguio Noronha, atiçado 
pelo lllho da morgada — peço em nome do meu 
sexo que seja mais indulgente com elle. 

— Indulgente I Merece elle indulgência ? oh I 
não!... os homens!... os homens!... 

— São maus, não he verdade? 

• — Muito maus! oh! muito maus! 

D. (Capitolina aprendera nas novellas esta se- 
rie inlinita de exclamações. Quando pronunciou 
muilo maus, foi tal o doce requebro que deu á voz e 
aos olhos, e tamanha a distracção que as cartas lhe 
caíram das mãos sem que o sentisse. 

— Por Deus! Mostra o jogo, parceira?! gritou- 
Ihe o padreprior— olhe, làlemumaz... e émão... 
perde-o por força... 

A donzella recolheu pressurosa as cartas. Noro- 
nha tornou com a mesmaaíTabilidade. 

— V. E\". não imagina quanto me custa vel-a 
apreciar tão mal os homens. Foi algum injusto 
com V. Kx.'? 

—Oh! sim! todos são injustos e ingratos. Oh 
infelizes as mulheres que se deixam illudir! Oh 
os homens não teem coração! 



procurador gritavam, um contra o outro, sobre se 
o jogo devia ou não proseguir, apezar dos desa- 
certos de l). Capitolina. 

Kram estes os episódios extraordinários da vida 
monótona da moi^gada e sua família: e valiam de 
muito para Cliiislma não morrer de aborrecimento. 

A noite continuou interrompida com alguns 
(Pestes graciosos episódios, que Chrislina achava 
agora muito mais interessantes. 

E que o estado do seu espirito era outro. A 
saudade tinha já uma consolação, que era a es- 
perança. 

Uecebera carta de Luiz em que lhe dizia que 
voltava brevemente a Lisboa. 

D. Capitolina é que se retirou mais triste, 
porque empregara delfclde toda a arte de 
seduzir, que por recordação lhe licara dos tem- 
pos juvenis, para ver se Noronha adivinhava 
a esphynge; isto é, se possuia um coração capaz de 
comprehender o seu, e d'este modo realisar a fe- 
licidade, como ella muilo modestamente dizia. 

[Continua) 

A. d'Ouveiu\ Pires 



DOUTOR JENNER 

Entre os muitos flagellos, que opprimem a hu- 
manidade debaixo do nome de doenças, um dos 
mais terríveis, o que infundia sustos maiores aos 
nossos antepassados do século XVIlIera o que re- 
cebera o noaie do bexigas. O vago terror que se 
apotléra de nós quando ouvimos pi-onunciar o no- 
me de febre amarella, de cholera, que são na Eu- 
ropa actual, os dois mais activos auxiliares do 
anjo da morte, não pôde dar idéa da profunda 
imi)ressão, que o terrível nome de bexigas, nos lem^ 
pos anteriores á descoberta da vaccina, |)roduzia. É 
poríjue esseflagello não se limitava ati-avar com a 
humanidade uma lucta suprema, em (pie matasse 
ou fosse vencido, mas, no requintado ódio que 
votara á espécie humana, não passou nunca atra- 
vez de um povo sem deixar vestígios horrorosos da 
sua passagem nos cadavei-es de que juncava oso- 
'o, ou na face dos vivos que conservavam, ainda 



— Eu creio que teem de mais... eê talvez esse que saissem Iriumphantes da pugna fatal, o esly- 
seu mal — redai-guio Noronha sorrindo. gma indelével do combate. O algoz linha n'uma 

D. Capitolina completamenie dislraida e não sei | (las mãos o culello, na outra o ferro em braza.Se 



se já suavemente impressionada não vio mais o 
jogo, nem as cartas. 

— Lá deitou o cassino\ exclamou o piocurador. 
Aproveite D. Thereza. Dos descuidos comem os 
escrivães... 

— Ponho iinftedimenlosl o jogo assim não con- 
tinua! — gritou o |)rior esbaforido, i)or ver que a 
parceira o le\ava diíeito a um cajiole. 

— E eu agravo! — retrucou o piocurador com 
nm sorrisinho de rábula nos beiços esbranqui(;a- 
dos. 

I). Capitolina estava passada. Que quciiam? 
Não era senhora de si a pobre mulher (juan- 
do ouvia um rapaz novo e bello a fallar-lhe 
de amores. Noronha levanlou-sc, deu o braço a 
Pedro, o saíram com elle da sala. Chrislina' ria 
nmilo. D. 'iliereza estava pasmada, e o padie c o 



a voz de Deus lhe dizia «Perdoa» o cutello des- 
truidor pendia inoífensívo, mas o ferro llamme- 
java, e, maicandoorosloda victimaquesejulgava 
salva, abria-lhe largos sulcos nas faces, ensanguen- 
lava-lhe as pálpebras, desligiirava as feições mais 
correctas, amortecia o esplendoí- dos olhos mais vi- 
vidos. Ao j)eslifero halílo dVsse anjo máo, perdia 
a llor o p(>rfume c o coloi-ido, se não*miirchava de 
iodo; dissi|)ava-se a belleza, senão se extinguia a 
vida. 

l'or isso as bexigas inspiraram tamanho horror 
aos nossos anle|)assa(los. As mães, contemplando 
as faces rosadas, os olhos azuesdos lilhos, aperta- 
vam ao peito as criancinhas, temendo a cada ins- 
tante sentir o vòo pesado da epidemia, c ver ao 
sopro maléfico desbolar-se o viço (Fessa ílorinha 
(juerida, (|ii(' protí^gera contra os frios agrestes do 



o l\\NORAMA 



8 



inverno, e contra as calmas abrazadoras do estio! 
A noiva gentil, vendo ajoelbar-lbe aos pés, enle- 
vado na sua formosura, o enamorado moço que 
não via outro sol senão o dos seus olhos, empal- 
lidecia de súbito se um pensamento atroz llie sal- 
teava a mente. O que faria esse eleilo do seu co- 
ração se a esplendida belleza, que o ca!)livara,de um 
instante j)ara o ouli'o se apagasse? E era essa uma 
hypothese gratuita? um d'esses vagos terrores que 



o amor phantasia, terrores sem causa, nuvens sem 
motivo que a imaginação forma no ceu azul da 
mocidade só para que um sorriso as dissipe, ca- 
prichos como o de Polycratesque temia a supera- 
bundância da sua ventura? Não! a hypotliese era 
bem fundada, o terror era juslilicado, o pe- 
rigo era real; porque esse demónio cruel, que pai- 
rava nos ares, não pou|)avanem sexo, nem idade, 
nem formosura, ou antes fazia uma selecção atroz, 




Doutor Jenner 



porque envenenava de preferencia os cálices mais 
doces da existência, entenebrecia os dias mais lu- 
minosos, cortava os lios da vida mais doirada, 
murchava as mais ridentes primaveras, maculava, 
como o caracol, as rosas mais radiantes de formosu- 
ra e viço. 

Foi então que appareceu, como um verdadeiro 
enviado da Providencia, o homem cujo retraio 
apresentamos hoje aos nossos leitores. O doutor 
Jenner nasceu no dia 17 de maio de 1749 em 
Berkeley, cidade do condado de Glocester na Grã- 
Bretanha. Principiou a estudar medicina com um 
chirurgião de Sudbury j)rovincia de {{ristol, depois 
foi para Londres, onde continuou os seus estudos. 



Na grande metrópole tomou conhecimento com o 
doutor John Ilunter, celebre chirurgião e anato- 
mista (listincto, a cuja amizade deveu ser escolhi- 
do para classilicar os objectos d'historia natural, 
([ue o afamado Cook trouxera da sua primeira via- 
gem á roda do mundo. Precedido de grande re- 
putação, como medico e naturalista, voltou Jenner 
para a sua pátria, onde em breve adquirio nume- 
rosa clientela, que, apezai-delhe dar grande tra- 
balho, sempre lhe deixava alguns instantes livres 
que elle consagrava aos seus estudos predileclos 
d'hisloria natural. 

Em 177o pi'inL'i|)iou a entrever a descober- 
ta, que lhe devia dar tanto nome e ser paia a hu- 



82 



O PANORAMA 



inanidade de tamanho proveito. Principiou n'essa 
época a germinar no seu espirito o que alguns 
caraponezes lhe tinham dito acerca da força pre- 
servati\a que tinliam contra as bexigas esses botões 
que se forniam no ubre das vaccas atacadas d'epi- 
zooíia. Oiiantas vezes o instincto popular precede 
as descobertas da sciencia ! Louco, bem louco é o 
sábio orgulhoso que despreza as praticas singelas 
d'esses rudes conlidentes da nalmeza! .lenner não 
as desprezou, esludou-as. Depois d'um trabalho 
assiduo de 13 annos, convenceu-se aíinal em 1788 
da ellicacia do cow-pox contra as bexigas. Com- 
tudo só em 1796 ousou fazer a primeira experiên- 
cia. Proporcionou-lhe ensejo para ella uma epi- 
zootia que então grassou no gado. No dia 
11 de maio d'esse anno inoculou a vaccina n'um 
rapazito chamado James Phipps. Depois inoculou- 
Ihe as bexigas, ecom que tremor o não faria! mas 
que jubilo não seria também o seu quando vio a 
moléstia impotente! Estava subjugado o monstro, 
estavam decepadas as cabeças da hydra, estavam 
arrancados os dentes e as garras a esse tigre ávido 
de sangue juvenil. 

Como sempre, a sciencia oíTicial recusou reco- 
nhecer o novo invento. k% Philosopliical Trans- 
aclions, espécie de encyclopedia medica, recusa- 
ram publicar a memoria que elle escreveu a esse 
respeito. Vio-se então obrigado a publicar a sua 
imporlanle descoberta n'um escripto a que deu o 
titulo de Inquirynlo the causes and effects of 
lhe variole vaccine. Acolhida admiravelmente na 
Europa e na America, o seu auctor mereceu o no- 
me de bemfeitor da humanidade. INão lhe es- 
cassearam as recompensas. Em 1802 recebeu dez 
mil libras, e em 1807 vinte mil a titulo de recom- 
pensa nacional. Depois da sua morte, que succe- 
deu no dia 26 de janeiro de 1823, a Inglatera 
erigio-lhe estatuas. 

i^oisa notável! quando Jenner n'um obscuro can- 
to da Inglaterra fazia a sua primeira experiência, 
despontava também na Itália entre os resplendo- 
res da victoiia o sol napoleónico. Pouco depois 
d'este se extinguir em Santa Helena terminava 
também Jenner a sua carreií-a benelica. Aos olhos 
da jjosteridade imjiarcial qual das duas glorias se- 
rá maior? a gloria deslumbrante do guerreiro, 
ou a gloria modesta do medico? a que se ergue 
n'um pedestal de cadáveres, ou a que sobe para 
os céus enti'e as bênçãos dos convalescentes? Não 
sei; mas, se para a humanidade deslumbrada vale 
mais a auréola que cinge a fronte do conquista- 
dor, não será esse igualmente o juizo de Deus. 
O Omnipotente presta mais attenção á oração sin- 
gela da mãe jubilosa, (pie vè já sem medo llores- 
cerem as rosas da saúde nas faces do lilho querido, 
do quo aos cânticos enlhusiasticos dos povos que 
saúdam os Osares. Hemdito mil vezes aípielle cu- 
ja apotheose é feita j)ela simples lagrima de reco- 
nhecimento que deslisa d'uiis olhos mateinaes ! 
Triste do triuniphador que, no seu carro ovante, 
escuta, em vez dos insultos do escravo, a maldi- 
ção das mães! 

PiNnEuio Chagas. 



LENDAS INDIANAS 

Por Mathews (I) 
A Cstrella da manhã. 

Eni tempos, que foram^ pereceram todos os 
habitantes de uma aldca, A excepção de uma 
donzellinha, e de um rapazinho que era ain- 
da de berço. Dormiam ambos quando pai c 
mni se finaram. A donzcUinha, que era mais ve- 
lha, accordou primeiro; mas como não visse se- 
não o irmàosinbo, que dormia entre sorrisos, 
vollou-sc no leito, começou novo somno. 

Dez dias eram passados, quando o innocente 
estremeceu no berço, ujas não abrio os olhos. 
Corridos outros dez dias, mudou de posição e 
continuou a dormir, e certo que sonhava lindos 
sonhos, porque quando a irmã o contemplava, 
via rebrilhar um sorriso celeste no rosto da crian- 
ça, cuja cabeça era cingida por aureola luminosa, 
que illuminava também a choça. 

A donzellinha foi crescendo' e era já mulher 
feita, a tempo que o rapazinho augmentava mui 
pouco de estatura. Levou muito tempo para que 
podesse icbolar no chão, e passaram annos c 
annos, que não havia suster-se de pé. Mal poude 
caminhar, a irmã deu-lhe aljava e frexas, e pon- 
do-lhe uma concha no pescoço, disíc : 

— De hoje em diante serás Dais-Imid, ou o 
Anão da Conchinha. 

Desde enlão Dais-Imid começou a caçar passa- 
rinhos. Foi um melharuco a sua primeira victima, 
e a donzella para influir brios no irmão, fez- 
Ihe uma ceia opípara. No dia seguinte ma- 
tou uma harda purpurina, que comeu lam- 
bera á noite, e no terceiro dia apanhou um* 
perdiz, com que os dois se regalaram á iripa- 
íorra. 

Pouco a pouco foi-se Dais-Imid animando c 
afaslou-sc mais e mais da choça ; cada vez era 
mais dextro, e afinal caçador já experiente não 
temia atacar as bestas-feras da floresta. Repartia 
sempre com a irmã as páreas da caça. Com ser 
porém entrado na idade madura, era pequeno de 
corpo, e tanto que recolhia a casa, logo lhe brilhava 
a aureola em volta da cabeça c illuminava a choça. 

Por um dia de inverno chegou á beira de uma 
lagoa, toda gelada, e vio um gigante a caçar 
castores. Em comparação d'aquelle homem, Dais- 
Imid parecia um insecto; assentou-se porém na 
praia, e seguio alícnfo os gestos do caçador. 

Este, apoz grande matança, carregou as viclua- 
Ihas em um carro, que puchou com uma das 
mãos, c poz-se a caminho de casa. Dais-Imid 
brandiu a conchinha maravilhosa, cortou a cauda 
de um castor e fugio de arrancada para a choça. 

O gigante ficou muito espantado ao ver que 
um dos seus castores linha a cauda cortada. 

No dia .'^eguinle o no.^^so herocsiuho voltou á 
lagoa e poz-se á socapa. O gigante já linha car- 
reí,^ado o carro e ia-sc embora, (luaudo Dais-Imid 
lhe foi no encalço, e cortou a cauda de um castor. 

Mal cliegou a casa o gigante bradou raivoso : 
«Quem me dera conhecer o ladrão, que havia sa- 
ber o comprimento da minlia garrocha.» Não .se 
lembrava que os castores habitavam n'um la- 

(li o viiijantí! M.ill](!\vs collicu oiilrc ns trihiis da Aniorina, alpii- 
mas Í(!ii(las, qiiií piililimii, e rpK! Iilo .'iido tradii/.iilns oiii f|iiasi todas 
as liiiguascullas. (joiíio amostra du jioesia iiojiiilar enire os pcaux- 
7-uiirjrs, traduzimos esta lenda qnc nos |)areceu das mais caracturisli- 
cas, porque explica poeticamente am phenomeno da natureza. 



o PANORAMA 



183 



go, que pertencia ao anão e a sua irmã. No outro 
dia voltou á lagoa: mas andou tão vidareiro, 
que Dais-Imid só poude apanhai o quando 
cruzava já os hombraes da casa. 

O gigante encheu-se de raiva e desespero, e o 
que mais o enraivecia, era não descortinar ini- 
migo, por isso que o anão da conchinha podia á 
vontade tornar-se invisivel. 

Blasphemando e jurando lá ia o gigante na 
pegada do anão ; baldo porém era o seu empe- 
nho, que não encontrava o mais leve vestígio. 
Determinou emfim para se vingar do igno- 
to inimigo, partir de madrugada; e tão presto 
andou, que o anão teve de procural-o em casa, 
aonde o encontrou a estripar os castores. 

Ao passo que Dais-Imid, sempre invisivel^ o 
contemplava, disse para si: é de justiça que o 
gigante possa ver-me uma vez. 

31eu dito, meu feito, e mal o colosso, (que era 
o celebre Manabnzho) ergueu a cabeça, vio oi 
anão, a quem faltou assim: 

— Quem és tu, traquinas? Estou vae não vae 
a esganar-te. 

— Não te acobardes ; que não conseguirás teu 
ruim intento. 

Palavras não eram ditas, estendia Manabozho os 
braços, mas quando abrio os dedos^ já Dais-Imid 
se havia escapolido. 

— Aonde estás agora, traquinas? rouquejou 
Manabozho. 

— No teu cinte, respondeu o anão. 

E o gigante cuidando esmagal-o, deu em si 
com toda a força; desenrolando porém o cinto, 
não encontrou o anão. 

— Aonde te escondeste^ diabrete? gritou Mana- 
bozho, incendido em raiva 

— Na tua venta direita, disse o anão. Manabozho 
apertou o nariz, mas como ouvisse a dois passos 
de distancia a voz do seu inimigo convenceu-se 
que o seu nariz fora quem tinha pago as custas. 

— Muito bons dias, Manabozho, gritava o invi- 
sivel adversário. Conta as caudas dos castores, e ve- 
rás que levo uma para minha irmã; porque, mes- 
mo brincando, o anão lembra-se da fada do seu 
lar. Até á vista, caçador de castores. 

E ao tempo que se apartava, o anão tornou-se 
visivel ; e a sua aureola resplandecia em volta da 
cabeça e illuminava o espaço, coisa que Mana- 
b ozho não poude explicar, porque era de natureza 
muito bronco e soez. 

Quando Dais-Imid entrou em casa,, disse áirmã 
que era chegado o tempo de se separarem. 

— Eu de mim, acrescentou^ vou-me embora. 
Ninguém foge ao seu destino. Tu deves também 
deixar esta morada. Aonde queres habitar? 

— Quizera eslancear nos plainos, aonde nasce 
o sol, aonde fulguram os primeiros clarões do 
dia, aonde os esplendores do céo são mais for- 
mosos. Quando eu estiver lá, ó meu irmãosinho, 
e vires nuvens retinctas brilhar no firmamento, 
cuidarás que tua iimã está pintando as faces com 
o carmim do céo. 

— E eu, disse o anão á irmã, viverei nosalcan 
tis, e poderei ver-te mal surjas do seio do mar. 
Nos píncaros o ar é puro e as torrentes espada- 
nam aguas transparentes. Esta luz bi^ilhante cin- 
girá a minha cabeça e serei chamado Pusk-Inince, 
ou o anão das montanhas. Antes, porém de nos 
separarmos para sempre, é força que conheças 
quaes são os manilus, que governam a terra, e 



os que nos serão favoráveis. O anão deixou a ir- 
mã, correu toda a superfície do mundo, e desceu 
até ás entranhas do globo. Recebeu boa acolheita 
em toda a parte. Chegado á morada de um gi- 
gante, que era parente de Manabozho, foi mal 
recebido a ponto de ser lançado *na enorme cal- 
deira que fervia em cachão. Dais-Imid envolveu-se 
na conchinha milagrosa, vasou n'um abrir e fe- 
char d'olhos a caldeira, e fugio são e escorreito. 

Voltou á choça e contando á irmã todos os 
seus trabalhos, acabou assim: 

— Minha irmã, ha um manitu em cada canto 
da terra ; por sobre elles, e nas profundezas do 
céo, habita o Ente Supremo que a todos governa. 
Ha também um ente mau, que rasteja nos seios 
do mundo. Havemos de escapar ambos ao seu 
poder. Quando os ventos soprarem dos quatro 
cantos da terra, levar-te-hão ao sitio, que esco- 
lheste. Eu de mim ascenderei ás montanhas, que 
sempre aprouveram aos meus similhantes. 

Dais-Imid tomou de um bordão, e começou a 
galgar a montanha ; cingia-lhe a fronte uma au- 
reola, e cantava assim : 

«Soprae, ventos, soprae! minha irmã suspira 
na mansão celeste, aonde a manLã, com os seus 
róseos dedos, lhe pintará as faces com o carmim 
do céo. Para ella se voltarão os meus primeiros 
olhares; os seus sorrisos, reflectidos nas nuvens, 
ser-me-hão guia e fanal nas aguas ou nos reces- 
sos das florestas, quando vaguear nos alcantis, 
ou me esconder nos valles verdejantes, aonde 
florece a roseira junto á fonte queixosa.» 

Os ventos começaram então a soprar assim como 
Dais-Imid havia predito, levaram nas azas invisí- 
veis a virgem para o oriente, aonde viveu até 
hoje com o nome de Estrella da Manhã. 

A. O. DE Vasconcellos. 



O centro de lodos os males é o jogo, e morada 
de todas as maldades, blasfémias, juramentos fal- 
sos, furtos, e os mais que a este se agregam. 
M. Affonso de Miranda. 



DE QUE VIVEM AS PLANTAS 

As plantas compõem-se de carvão, agua e de uma gran- 
de quantidade de hydrogenio; alem d'isso conleem um 
quaiio corpo simples, o azote, que se encontra em dimi- 
nuta proporção, mas cuja presença é essencial á vida. A 
allimosphera" fornece abundantemente o carvão; as cliu- 
vas, a agua ou o oxigénio e o liydrogenio; a terra, o 
azote, mas que, por ser raro, se llie introduz sol) a forma 
de estrume: é esla a grande preoccupação do agricultor; 
éa mais avultada, a mais inevitável e a mais producliva 
de todas as suas despezas. 



A CRITICA LITTERARIA 

O espirito da critica c um espirito de ordem; conhece 
os delidos contra o gosto c leva-os ao tribunal do ridí- 
culo; porque o riso é muitas vezes a expressão da cólera, 
e os que o censuram não relleclem que o homem de 
gosto antes de fazer uma ferida recebeu vinte. Diz-sc que 
o homem tem o espirito da critica quando recebeu do 
eco não somente a faculdade de distinguir as bellezas e 
os defeitos das producçOes que julga, mas uma alma que 
se apaixona por umas e se exaspera com outras, uma 
alma a qual o bello arrel)ata, o sublime transporta, e que, 
furiosa contra a mediocridade, esmaga-a com os seus des- 
déns, c opprimc-a com os seus enojos. 



i84 



O PANORAMA 



PROVÉRBIOS ARARES 

—A melhor scicncia é a que oíTercce ulilidado. 

— b que foi mordido por uma serpente tem medo de 
uma corda. 

—O corvo não.tira os olhos a seus irmãos. 

— iNão se mellem duas espadas na mesma bainha. 

—Se a gallinha tivesse dinheiro, não se lhe cortaria o 
pescoço. 

— A morte do burro c uma festa para os cães. 
—Não ha scentelhas na cinza. 

—As doçuras do mundo são paraaquellequeo não co- 
nhece; as 'amarguras para o homem esclarecido. 
—O tanque forma-se gota a gota. 

— O sábio em sua pátria o como o ouro em sua mina. 
—O que dá é mais feliz do que o (juc recebe. 

—A mão de cima vale mais do que a de baixo. 
— Aquelle, cujo termo e chegado não tem mais a fa- 
zer do que estender as pernas. 
—Os dias do homem estão contados; porque receiar a 

morte? , ,..,,. 

—Todo o cão ladra à sua porta, lodo o leão e altivo 
na sua lloresla. 

—O que sobe ao carro da esperança tem por compa- 
nheira a pobreza. 

—Quem te disser mal de outrem diz mal de ti. 

—O sábio conhece o ignorante, porque o foi, mas o 
ignorante não conhece o sábio, porijue nunca foi sábio. 

-No paiz das palmeiras sustentam-se os burros com 
tâmaras. 

—Se lodos os homens se entregassem unicamente a 
meditação, a terra tornar-se-ia inculta. 

— To"dos os que andam vestidos de pelle de tigre não 
são corajosos. 

—Aquelle que se aquece ao fogo conhece-lheo calor. 

—O leão sustenta-se somente da sua caça. 

—Se a lua é brilhante, o sol ainda o é mais. 

—Se os homens procedessem bem, o cadi cousa alguma 

—O que dá aos outros a beber é sempre o ultimo que 
hebe. ,^ „ , , 

—Na frente, espelho; por detraz tesouras, (fatiando do 
hvpocrita). 

"— Allumia os outros e queima-se. 



Tres partes hade ler o que quizer louvar algum 
sujoilo; verdade na língua, autoridade na pessoa, 



elegância no modo 



M. ArioNso DE Miranda, 



NA PRIMAVERA. 

Je suis la íleur dus miirnilles, 
Donl avril est, Ic seul hien. 
II sulBt que tu l'en ailles 
Pour qu'il ne reste plus rien. 

V. liUGO. 

Desfez-se a névoa do inverno. 
Começa a vir o calor ; 
No campo despontam rosas. 
No seio palpita amor. 

As andorinhas fugaces 
Chilrando alegres já vem ; 
Sorriem-se os pequeninos 
Nos ternos braços da mãe. 

O sol beija com sfMis raios 
Os cimos dos alcantis ; 
Desdobra a relva um tapete 
Do mais gracioso matiz. 

O vento suspira e brinca 
Nos ramos da larangeira ; 
O cysne canta e deslisa 
Pelas aguas da ribeira. 



Tudo é luz, tudo perfumes, 
Tudo alegrias singelas ; 
De manhã vicejam flores. 
De noite brilham eslrellas. 

Como a vida corre amena 
N'esla florida estação 1 
Quando a sombra foge aos campos, 
Foge a magoa ao coração. 

Aqui rcspira-se a vida, 
A(iui traga-se o prazer. 
A nuvem d'uma tristeza 
Não vem lurbar-nos, sequer. 

Oh, dá-me o braço, querida, 
É nossa a quadra do amor : 
O sol c grato aos amantes. 
Como ao campo e como à flor. 

Vem, não temas, divaguemos, 
Não íiíiues, não i)enses mais. 
Como os beijos são tão doces 
A sombra dos laranjaes ! 

E cu quero aspirar comligo 
Todo eslft aroma subtil. 
Em teus braços reclinado 
Contente saudar abril. 

Sim, eu amo a primavera, 
Os vivos clarões do sol, 
De noite as brandas endeixas 
Que modula o rouxinol. 

Amo tudo o que scinfilla. 
Tudo ([ue é raio e explendor ; 
O canto que vem das aves, 
O cheiro que vem da flor. 

Mas sem teu meigo sorriso 
Nada me encanta e seduz; 
Nas rosas perde-se o|viço, 
Nos astros desmaia a luz. 

Que tem que o sol encha a terra 
Com seu fulgente clarão, 
Se escura noute sentimos 
Toldar-nos o coração? 

Que importava a primavera, 
Que engrinalda a terra e o ceo, 
Se os teus olhos não dissessem 
Que CS minha como eu sou teu? 

Vem, pois, comigo, querida, 
Gosar do campo o frescor ; 
O campo é grato aos amantes, 
Como o sol é grato á flor. 

Vem, não temas, não vacillcs, 
Não fiques, não penses mais: 
Que doces beijos daremos, 
Á sombra dos laranjaes ! 



E. A. Vidal. 



A mentira é salteador que rebuçado ao meio dia 
nos rouba não nas estradas e charnecas, mas nas 
cidades e praças, e de (juem os mais levantados 
inlendimentos e honrados sujeitos não poderam es- 
capar. Por esla se perderam imi)erios, se deslrui- 
ram monarchias, se entregaram cidades, se odia- 
ram reinos, esc desunem e descompõem as maiores 
amizades e se dividem os mais ligados |)arentescos. 
M. Affonso de Miranda. 



Typ. Fianco-Portguezii, Rua do Thcsouro Velho, 6. 



o PANORAMA 



^85 



O CAPITÃO CORAM 

lia para mim não sei que indizível allraclivo na 
i;loiia modesta d'esses bemfeiloresda humanidade, 
(jiie passaram no mundo sem que a historia ofilciaí 
se dignasse registrar-lhes o nome no seu livro de 
liii-o. Sinto um doccpiazer em me debruçar sobre 
essas campas quasi de todo olvidadas, eVm fazer 
surgir á luz do futuro os vullosd'esses obscurosobrei- 



rosda civilisação, cujo nome até se foi rapidamente 
obliterando da memoria das gerações. l)iz-sc que 
a hora da justiça sôa ao mesmo tempo que a hora 
do passamento; nem sempre. Ás vezes a posteri- 
dade é tão injusta como os contemporâneos. A 
pjsleridade deixa-se deskunbrar pelo clarão de- 
vorador dos grandes meteoros da histoi'ia, c des- 
preza a luz serena e modesta das cstrellas, que 
brilharam n'um canto do céo azul, e cujos raios 




o Capitrio Corain. 



tranquillos e viviíicantes choveram consolações c 
aliivios sobre os tristes d'este mundo. 

Folheiem os diccionarios biographicos, o encon- 
trarão alli registrados os nomes dos mais obscuros 
gcneraes divisionários de Napoleão, dos mais in- 
signiíicantes chefes das esquadras inglezas, do 
Biais insulso romancista, do dramaluigo mais es- 
palmado, do jioeta mais prosaico. E no meio d"essa 
plêiade de eleitos da celebridade, de aristocratas 
da gloria, os quaes muitas vezes dillicilmentc 
aprescntani documentos que lhe jusliliquem o 
foro de nobreza, não encontrarão o nome do ho- 
mem, cujo retrato apresentamos hoje aos nossos 
leitores, do homem que foi um dos mais tenazes, 



um dos mais zelosos applicadores da doutrina da 
caridade, do homem que toda a sua vida consa- 
grou ao allivio das misérias dos seus semelhan- 
tes ! 

Thoniaz Coram, capitão de navios na marinha 
mercante ingleza, naseeu-em Londi'es no annode 
J()()8. A sua vida resume-se n'uma breve pagina, 
mas que immoital não devia ser essa pagina de 
gloria que não humedecem outras lagrimas que 
não sejam as lagrimas de gratidão dos infelizes, 
de quem elie foi o amparo constante! Nunca de- 
sempenhou cargos imj)ortantes, nunca representou 
um grande pajjcl na historia do seu paiz. Viveu 
paia fazer bem, c só paia fazer bem sem que os 



86 



O PANORAMA 



seus actos de caridade Ibe servissem de degrau 
á aQibição. Os seus rendimentos, ou herdados ou 
írrangeados na vida commercial, despendcu-os 
até a ultima m-ailia para allivio dos pobres. 
Kssa abnegação extraordinária, porque o capitão 
Coram nunca fci nem sequer empregado pelo go- 
verno como dispensador da benelicencia publica, 
nem teve uma só das honras que em geral as na- 
ções reconhecidas volam aos homens, que se con- 
sagram á Ímproba tarefa, em que Thomaz Coram 
consumia a sua existência e os seus liavcres, essa 
al3negação extraordinária é principalmente assom- 
brosa n'um marinheiro rude, educado antes para 
alTronlar as tempestades, do que para enxugaras 
lagrimas, n'um homem cuja educação religiosa se 
limitava á leiluia assídua da sua Biblia, ir"um ho- 
mem, emlim, a quem o seu ministério não impu- 
nha, nem sequer moralmente, os deveres que o 
sacerdócio impõe aos ministros de Deus, deveres 
que elle a impulso do seu coração desempenhava 
com jubilo, ao passo que os que lêem eslricta 
obrigação de os cumprir só desempenliam essa 
obrigação tanto quanto baste para não produzi- 
rem escândalo. 

No tempo em que vivia esle benemérito de Deus 
ainda não havia em Londres a instituição que 
Portugal se ufana de ter possuído primeiro que 
todas as outras nações europeas, que a Ilespanha 
deve ao zelo religioso da sua rainha Isabel a Ca- 
tholica, que em França teve origem graças á podero- 
sa iniciativa de S. Vicente de Paula, um hospício 
dos expostos. Debale-se hoje muito a questão se 
estas instituições caridosas são úteis ou não á mo- 
ralidade social, Diz-se que muitas vezes mais pro- 
tegem o vicio do que alliviam a miséria, que 
antes servem para favorecer a indifierença crimi- 
nosa de algumas mais do que i)ara alliviar as do- 
res excruciantes d'outi'as, asquaes sem a roda, essa 
muda conlidenle das suas agonias e dos seus re- 
morsos, veriam seus lilhosexpií^ando ao desampa 
ro, ou vergando ao peso do eslygma estampado 
por uma sociedade hypocrila na fronte innocente 
do anjo, que nasceu do peccado, como do pecca- 
do lambem nasce o ari-ependimento. Ma-; o arre- 
pendimento acollie-o um sorriso meigo de .lesus, 
o fruclo do amor peccaminoso acolliom-n'oos des- 
prezos dos homens, e as Magdalenas trementes 
não encontram pés divinos sobre que possam der- 
ramar o nardo das suas angustias, enxugando-os 
com as suas tranças, banhando-os com as suas 
lagrimas. As peccadoras tremem d'a(|uelles que, 
não receando encontrar o olliai' límpido do Filho do 
homem, não receariam lambem ajjcdrejal-as e in- 
sullal-as- Por isso, caminhando de noile, com o 
fardo precioí^ escondido- sob o manlo, vão entre- 
gar á caiidade jiublícaa criança banhada das lagri- 
mas matei naes, e abençoam em voz baixa o desco- 
nhecido santo, que prevendo as suas angustias, abrio 
primeiro os biaços misericordiosos para receber 
no suave amplexo os íilhos do amor e os íillios 
da miséria. 

Pallidas peccadoras aquém o remoi'so |iersegue! 
mais anciosas que tremeis de ver delinhart-m-sc-vos 



nos braços ao sopro da miséria essas floi-inhas 
tenras que vos bi'olaram no seio, e que alimen- 
taríeis cora o vosso próprio sangue, se o sangue 
podesse dar vida aos mimosos botões, abençoai 
também esse obscuro marinheiro, cujo retrato hoje 
apresentamos! O pobre Thomaz Coiam, o singelo 
capitão de navios, foi o primeiro que fundou na 
opulenta Inglaterra um hospício de expostos. Esse 
não dísculío friamente se iria auxiliar o vicio ou 
favorecer a AÍrtude, vio as crianças abandona- 
das no chão gélido de Londres, e levantcu-as nos 
braços, vio as pobres avesinhas implumes a tre- 
merem de frio n'essas manhãs brumosas de um 
inverno inglez a um canto das ruas silenciosas, e 
o marinheiro, cora as lagrimas nos olhos, aqucn- 
tou-as no peito, deu-lhescaloi-, abrigo, e vida. De- 
pois foi ao canto da sua aica,onde estavaaccumu- 
lada talvez a quantia que destinava pai-a liar d'ella 
o repouso, a tranquillidade, oagazalho, obem-es- 
lar da sua velhice, e com uma singeleza sublime, 
sem vãs declamações, sera ostentação alguma, ar- 
rojou a pesada bolsa aos pés de um architecto, e 
disse: «Erga -se um asylo para as ciianças aban- 
donadas.» E emquanlo os opulentíssimos proprie- 
tários da Grã-Bretanha despendiam loucamente os 
seus dinheiros, uns a prepararem conspirações paia 
o restabelecimento dos Stuaits no tlirono, outros 
a serem o escândalo do povo nas orgias, que fi- 
zeram a corte dos primeiros reis da casa de lla- 
nover digna rival da côrle de Luiz XV e de Phi- 
líppc d'Orleans, o pobre capitão, sem auxilio de 
pessoa alguma, lançava os fundamentos do seu 
monumento caridoso, e gastava até o ultimo pen- 
ny dos seus haveres, grangeados honestamente com 
o seu trabalho, em levar a cabo a realisação da 
sua tão evangélica idéa. 

E não se supponha que falíamos no figurado 
dizendo «alé ao ultimo penny». Tocante facto que 
vale por si só o mais pomposo panegyrico! O ho- 
mem, que fora a providencia dos pobres, o ho- 
mem que erigira o primeiro hospício dos expos- 
tos na Jnglalerra, vio-se no lira da sua vida obri- 
gado a recorrer á caridade publica 1 Não lhes faz 
lembrar isto aquelle bispo fiancez da Fcsla e ca- 
ridade de Thomaz Ribeiro, acerca do qual o no.sso 
glande poeta escreveu estes dois magníficos ver- 
sos: 

E filiando aelinn vasia a sua mão tão nobre 
jiilgou-se mais luliz, ora o primeiro pobro? 

Foi necessário que o |)rincipe de fialles e al- 
guns dos seus amigos se colisassem entre si para 
lhe dar uma jiensão até á sua morte, (juc succe- 
deu em 1751, lendo elle de idade oitenta e Ires 
annos. 

O que diria o honrado homem se resuscitassc 
e assistisse á discussão (juo no nosso século phi- 
lantropico se Irava ác(Mca da utilidade dos esta- 
belecimentos, de (jue elle foi um dos fundadores.' 
Duvidaria da sua obra? Não; diria talvez, llu- 
ctiiando-lhe nos lábios o mesmo sorriso meigo 
com que acolhia as criancinhas desamparadas, di- 
ria (|ue, perante ura facto dilacerante, não se traia 
de disculir, Irala-sc de remediar, que quaesqucr 



o PANORAMA 



87 



que sejam as culpas das mais, a criancinha inno- 
cefito é irresponsável por cMas, e que o logar no 
banquete da vida, que os seus labiosinbos imploram, 
não pôde a sociedade recusar-ih'o sob pretexto al- 
gum; diria mais ainda, diria que, se os legislado- 
les legislassem de vez em quando mais com o 
coração do que com o espirito, o quede cei'to lhes 
não faria mal algum, comprelienderiam que as 
mais que repellem seus íilhos sem necessidade 
pungentissima e fatal são excepções monstruosas, 
e que as leis sociaes da mesma forma que as leis 
(la natureza não se curvam ante a existência das 
aberrações; diria, emíim, que os homens de Esta- 
do que ousam discutir o amor maternal são uma 
espécie d'eunucos, que, mil vezes mais infelizes 
do que os guardas do serralho,* nem sequer com- 
prehendem a paternidade pelo lado do sentimento 
moral, e que, não comprehendendo a paternidade 
que illumina com um raio de luz celeste a figura 
grotesca de Triboulet, ainda menos comprehende- 
rão o amor de mãi que inunda de esplendor o 
vulto hediondo de Lucrécia Borgia. 

E, depois de dizer isso, o honrado capitão Co- 
ram esvair-se-hia como uma sombra que hoje é, 
e voltaria ao paraíso dando o braço a S. Vicente 
de Paula, causando assim grande estranheza ao 
Summo Pontiíiee, quede certo não comprehenderá 
esta ligação Ião intima entre ura santo esiim pro- 
teslante. Pixheiiio Coagas. 



A verdade é uma saúde que nunca enferma, uma 
vida que nunca morre, uma mesinha que a todos 
sara, um sol que nunca se põe, uma lua que nun- 
ca se eclipsa, uma porta que a ninguém se fecha, 
e um caminho que a todos descanca. 

M. AfFONSO de MIRANDA. 



AMOR Á PÁTRIA 

Indubitavelmente, entre os povos antigos, os gre- 
gos e os espartanos eram osque possuiam em mais 
subido gráo, em Ioda a sua nobre pureza, o amor 
á pátria de que tanto hoje debalde se blasona. Ve- 
jam-se alguns notabilissimos exemplos que a his- 
toria nos legou. 

Condemnado injustamente, por inveja dos seus 
concidadãos, o celebre Phocio, um dos mais famo- 
sos personagens da antiga Grécia, eslava já para 
beber o fatal veneno, quando lhe perguntaram se 
desejava despedir-se de seu íilho,e fazer algumas 
disposições. (cTrazei-m'o aqui,» respondeu; e ao 
vel-o, íhe disse : ccOuerido íiiho ! INão te recom- 
mendo outra cousa senão que sirvas sempre a tua 
pátria com o mesmo zelo e lealdade com que eu 
a servi, e que olvides que o premio dos meus ser- 
viços foi uma morte injusta!» 

Em Esparta, sobretudo, o amor á pátria era ge- 
ral. 

Homens, mulheres, crianças, emíim, individues 
de todas as idades e condições disputavam-sc a glo- 
ria de fazerem pela pátria os maiores sacrilicios ; 



o ambos os sexos, animados do mesmo zelo, con- 
sagravam-se sem reserva á salvação, ao bem-eslar 
e á gloria do Estado. Alguns rasgos que a histo- 
ria tem conservado, darão a conhecer o génio pa- 
triótico d'aquellcs famosos republicanos, 

Uma mulher de Eacedemonia dizia a seu íilho 
no momento em que o eslava armando, e enti'e- 
gando-lhe o escudo para marchar ao combate : «Vol- 
ta com elle ou sobre elle;» alludindo ao costume 
de trazer os mortos nos seus escudos. 

Outra fazia perguntas a seu íilho que acabava 
de chegar da guerra, e como este lhe respondes- 
se : «Todos os meus companheiros morreram,» 
cheia de indignação agarrou em uma telha e ar- 
remessou-lh'a con» fúria e modo taes que o matou, 
e ao vel-o cair, disse : «Mandaram-te a ti miserá- 
vel, para nos annunciares as suas desgraças?» 

Outra ao receber a noticia de que um dos seus 
íilhos tinha morrido gloriosamente em um comba- 
te, exclamou : «iSão me causa estranheza, era meu 
íilho.» E dizendo-se-lhe no mesmo momento que o 
outro havia fugido cobai-demente : «Não era meu 
filho !» disse com viveza aquella generosa mãi. 

Outra, tendo sabido que seu filho havia escapado 
do combate, escreveu-lhe, dizendo-lhe: «Levantou- 
se um murmúrio injurioso á tua honra; falo ces- 
sar, ou morre.» 

Outra ao ouvir seu filho relatar-lhe a morte glo- 
riosa do irnuío, que tinha sido traiçoeiramente 
morto em quanto combatia, lhe disse*: «^Porque 
não o acom|)anhaste desgraçado?» 

Outra que tinha cinco íilhos no exercito, estava 
ouvindo contar os promenores da batalha, e diri- 
gindo-se a um escravo que n'aquelle momento che- 
gara, este lhe disse : «Os vossos cinco filhos mor- 
reram.» — Vil escravo, replicou a mãi, é isso que 
te pergunto? — «Ganhamos a victoria,» tornou o 
escravo ; e a mãi dirigio-se immediatamente ao 
templo a dar graças aos deoses. 

Outra, vendo, no assedio de uma cidade, seu filho 
primogénito cair morto a seus pés, exclamou : «Cha- 
mem seu irmão para subslituil-o.» 

Quando- chegaram a Lacedemonia os que deviam 
annunciar a perda da famosa batalha de Leuctra, 
estava-se celebrando na cidade uma grande fesla, 
á qual havia acudido uma infinidade de estrangei- 
ros, altraidos pela curiosidade. Os coros de jo- 
vens de ambos os sexos celebravam seus ritos em 
pleno thealro segundo as instituições de Licurgo. 
iN'aquelle momento chegaram a Esparta os porta- 
dores da triste nova; porém não se interromperam 
os jogos, nem houve mudança noapparatodafesta. 
Unicamente se mandaram a todas as casas os no- 
mes dos mortos que lhes pertenciam. Ao amanhe- 
cer do seguinte dia já se sabia de lodos os que 
haviam escapado ou morrido ; os pais e parentes 
dos que deixaram de existir iam á pr-aça publica, 
abi'açavam-se csaudavam-se com semblante alegre, 
assim como os pais e parentes dos que se tinham 
salvado do ferro inimigo, se occultavam cm suas 
casas. Se algum d'elles se via obrigado a sair á 
rua para os seus negócios, apresentava-se com 
semblante, voz e olhar que bem denunciavam a 



88 



O PANORAMA 



sua tristeza e abalimenlo ; e na desgraça commum 
da pátria, não havia goso doraeslico. 



A BOCCA DO INFERNO 
YIll 

Fair drfcrt of nature ! — ú\z Millon da mu- 
lher. E todavia é a cs?{i erro formoso da natureza 
que nós levantamos altaiTs ! Tirae do mundo a mu- 
lher e desapparecerão muitos desvarios, muitas con- 
tendas, e ate muitos crimes, é a opinião do alguns; 
mas então o mundo diz um dos nossos esciiplo 
res, seria um ermo melancólico, os pi-azeres ape- 
nas o preludio do tédio. 

Um inferno íòia ellc, penso eu, sem a muliíer, 
esse ser abençoado que tem bálsamo para todas 
as desgraças na só meiguice de um í)li)ar. Se aqui 
faz um m"art\ r, puriíica alli um coração, regenera 
além uma alma. Pôde malar com o desprezo, mas 
tem o poder de resuscilar com um sorriso. 

Deus que vos fez bellas, que vos concedeu a 
fascinação soberana do olhar e do gesto, foi por- 
que quiz coliocar no mundo quem podesse abater 
os fortes, exaltar os humildes, consolar os des- 
graçados, incitar emíim todas as virtudes e enxu- 
gar todas as lagrymasl 

Sois fracas, e a vossa força é immensa, porque 
a tiraes do próprio desvalimenlo. l*ergunlac á 
sombra de Anua d'Austria (já que as exhumações 
de S. Diniz lhe dispersaram os ossos') pergunlae- 
Ihe se não era muito mais rainha quando Bnkin^ 
gham Ihesacrilicava um exercito, do que quando, 
envolta nos arminhos da realeza, se sentava no 
Ihrono da França! Perguntae á sombra de Cleó- 
patra se não se julgava muito mais soberana, do- 
minando o coração de César ou vendo quebrar-se- 
Ihe ás plantas a espada laureada de Marco-Anto- 
nio, que quando o Kgypto inteiro lhe prestava vas- 
salagem? Diga Joanna de Nápoles se não era mais 
despoticamente senhora quando com o olhar, que 
prometlia um mundo de venturas, fazia do duque 
de Tarento um regicida.^! 

As vossas glorias, a vossa grandeza, ioda a vos- 
sa supremacia eslá ahi. Na cabeça da esposa de 
Luiz XIII a coroa era quasi irrisão: — ura cardeal 
torcia-a entre os seus dedos de ferro. A íilha de 
Ptolomeu vio como o sceptro era frágil — c como 
lhe era mais fácil dominar um coração, do que 
dominar um povo. A esposa de André da Hun- 
gria sabia que o reinar em Nápoles, soba inlluen- 
cia de uma favorita, valia bem menos que diclar 
despoticamente a lei nos Iribunaes d'amor ! 

K que sobre vossos cabellos formosos fica me- 
lhor a coroa de rosas, perfumadas :le cândidos 
aromas, que os diademas querejjresenlam a sobe- 
rania dos estados ! A mulher nasceu para domi- 
nar pela blandícia dos sentimentos carinhosos, 
ou pela sceníelha ardente das paixões. Todo o 
poder que não seja este deveeslalar-lhe nas mãos 
como \idro frágil e quebradiço. Dominio pela 
influencia do coração, esse sim que o e\ei'ce ella, 
que o exei-cia Chrislina sobre Luiz. 

Era curvado a essa influencia que Luiz de Mello 



desprezava a sua carreira, sacrificava o seu futu- 
ro, punhado parle osatTectos que o prendiam á vida 
aventurosa do mar, e vollava a Lisboa. 

No jirimeiro navio que de Cabo Verde saio para 
Portuga! embarcou o mancebo com a esperança 
de volver depressa á pátria. Com o olhar cravacío 
nos horisontes, anhelava ver surgir os montes das 
cosias de Portugal — e á noite, quando a lua es- 
pai'gia sobre o dorso movediço das vagas os seus 
pallidos lampejos, conlava-lhc ellc conlidencias e 
segredos, que o vento levava nas azas. A alma 
generosa, como é sempre a alma dos poetas edos 
;ti'tislas, abria-se n'aquellas evocações ao amor c 
á saudade, á mulher e á pátria, cantos de um 
l)oema sublime em que se resumem todos os sen- 
timentos do homem na idade inspirada da juven- . 
tude! 

A. d'Oliveir.v Pires 

{Continua) 



DA UTILIDADE DE UMA LÍNGUA 

UNIVERSAL o 

É inconlostavct que lodos os povos cnniinliam liojc 
para uma organisação commum, paia uma sociedade uni- 
versal. A religião, "a politica, a |)iiilosophia, as artes, as 
sciencias, a industria, o commercio conduzem ip;ualmente 
a esla conclusão. Mas se lai é o futuro, o ])ro\imo futu- 
ro, talvez, da humanidade, a primeira consequência cres- 
te grande acontecimento (leve ser o eslaholecimento d'uma 
língua commum, cuie, deixando subsistir os idiomas na- 
cionaes, tcstemualio da indi\idualidade dos povos, seja 
comtudo o iucúhnn das relações inlernacionaes entre os 
po\ os e entre os indivíduos; que sirva ao mesmo lempo 
para a ex|)ressão d'essas supremas verdades que são o 
laço commum das sociedades e por cujo titulo devem por 
toda parle reveslir uma forma ideutica e universal. 



. PORTSMOUTIl 

Já aqui n'este volume do Panorama dêmos no- 
ticia de Woohvich, o primeiro arsenal da Ingla- 
terra; isso levou-nos naturalmente a apresentar- 
mos aos nossos leitores a gravura e a (lescri|)ção 
do seu principal porto militar. Com eíTeito assim 
podemos considerar a cidade de Porlsmouth. 

Fica situada esta cidade no condado de líam- 
pshire; está construída n'uma ilha paludosa, 
(pie se chama Portsea c que fica n'uma bahia do 
canal de S. Jorge, Divide-se em duas cidades dis- 
tinclas, a íle Portsmoulh propriamente dita e a de 
Porl!-:ea, que íica para o norte, que soem 1792 
recebeu essa denominação, e que hoje ó muito mais 
considerável, c c Ires ou quatro vezes mais po- 
voada do que a sua rival. As duas cidades reuni- 
das contam setenta elres mil habitantes 

O seu porto ó o mais vasto c o mais seguro de 
todos os porlos oiienlaes da (iiã-Urelanha; formi- 
dáveis forlilica('ões lhe defendem a enliada, e tan- 
to a ilha de Portsea como a cidade de J'orlsmouth 
estão por lodos os lados rodeadas de magni liças 
obras de defeza. (Comtudo ultimamente os baluar- 
tes da cidade foram cm grande parle transforma- 
dos em |)asseios. 

Os estabelecimentos de mais imporlaneia que 
alli existem são os estaleiros, o arsenal, a escola 

(1) Esludo pratico da linrjua (jrefjn, por M. Uiislave d'líiclitlial. 



o PANORAMA 



i89 



de marinha, e o celebre e vasto hospital que pôde 
jccober Ires mil marinheiros. Ao sul de Porls- 
iiioiilii, na extremidade noidesle da ilha\Vight, íi- 
ca a magnifica enseada de S])ilhead, ponto de 
leunião habitual das esquadras inglezas. 



Na celebre festa maiitinia, que ultimamente de- 
monstrou as estreitas ligações politicas da Fi-ança 
e da Inglaterra, festa em (jue se rcuniiam com 
grande ajiparato as esquadras dos dois paizes, fui 
Portsmoulh o ponto escolhido pela íiiglaierra ])ara 




Poitsmouth. 



receber os seus hospedes, como foi Cherbourg o 
ponto escolhido pela França para fazer honras iguaes 
aos Inglezes. 

Realisa-se actualmente a hypolhesc que tanto 
assustava o nosso grande Bocage, quando o poeta 
exclamava: 

Um triumpha no mar, outro nn terra! 

Stí as iiiãas se dértim que seni do mundo? 

Os triumphadores deram-se as mãos, e o mun- 
do não soflVeu com isso grande abalo. Bocage, se 
resuscitasse, havia de íicar eslranhamenle sur()re- 
hendido. Apezar da famigerada alliança, a Dina- 
marca é roubada escandalosamente nas barbas 
das esquadras de Cherbourg e de Portsmouth pela 
Prússia e pela Áustria, e a Polónia continua a ten- 
tar erguer em vão o triplico peso que a esmaga. 

Ouem tal diria! 



D. JORGE DE MASCARENHAS, GOVERNADOR 

DE iMAZAGÃO 

II 

Promettemos, no precedente capitulo, contar 
as façanhas marítimas d'"esle homem, que em ter- 
ra sustentava com tanto denodo e brio a honrada 
bandeira portugueza. Vamos cumprir a promessa; 
parece que mais folgamos em ver estos relâmpa- 



gos de heroísmo no meio das trevas da nossa de- 
cadência, do que mesmo em contemplarmos o es- 
plendor da glande época da nossa historia. 

Mas, apressemo-nos em dizel-o, feliz ou infeliz, 
a bravura dos nossos maiores nunca sedesmentio. 
Erros de governantes, fatalidade, corrupção social 
motivaram a rápida degeneração da nossa patiia, 
mas os seus íilhos mostraram-se sempre dignos, 
mesmo na desvenluia, do nome glorioso que ha- 
viam sabido conquistar em épocas de mais pros- 
pera fortuna. 

Digamos comtudo que uma verdade para nós 
axiomática é a seguinte; «são os generaes que fa- 
zem os soldados»; o italiano, o portuguez, o hes- 
panhol, o fi^ancez, o allemão, o inglez, o russo 
podem ter uma bravura diílerente; aqui mais eu- 
Ihusiastica, além mais tranípiilla, mas o brio mi- 
litar não os deixa recuar diante das balas, quando 
teem chefe que saiba arrastal-os á peleja. Sui)pôr 
o contrario seria entregar á força bruta os desti- 
nos das batalhas, quando pelo contrario é sem- 
pre a intelligencia que as decide. Ouem havia 
de dizer que os fiancezes, esses vencedores do 
mundo inteiro no principio d'eslo século, eram 
os mesmos que haviam soíTrido em Bosbach uma 
das mais vergonhosas derrotas de que ha memo- 
ria nos annaes militares? Quem havia de suppòr 



4 90 



O PANORAMA 



também que os pnissianos, esses vencedores de 
Rosbacb, haviam de ser os mesmos Ião miseravel- 
menle destroçados em lena? É porque uão foi o 
valor cego dos soldados quem ganhou as batalhas 
de Rosbach, e d'Iena, foi Frederico, foi Napoleão, 
foi o génio dirigindo as massas, foi a inlelligen- 
cia guiando a força bruial. 

Assim lambem os nossos soldados deram pro- 
vas sempre de um valor incomparável, mas na 
época da nossa grandeza tinham por generaes os 
membros d'essa plêiade brilhanlissima que for- 
mou a corte de D. Manoel, generaes que se cha- 
mavam D. Francisco de Almeida, Aflonso de Al- 
buquerque, Duarle Pacheco, Vasco da (íama e 
quantos! No tempo da nossa decadência as cam- 
panhas dos Paizes Baixos absorviam a ílor dos 
nossos guerreiros, e só nos licavam para defen- 
dermos as con(|uislas contra os aia((ues dos líol- 
landezes, e contra a sublevação dos |iovos con- 
quistados, o refugo das nossas valentes legiões, 
refugo, que, ainda assim, desanimado e indeciso, 
sustentava, senão com a pratica da guerra e a 
experiência militar, pelo menos com o denodo e 
a intrejjidez tiadicionaes a honra do pendão das 
quinas. 

Em 1G19 regressou T). Jorge de Mascarenhas, 
já enlão conde de Castello Novo, do seu governo 
de Mazagão. Trazia comsigo sua mulher e seus 
quatro lilhos, sendo os dois mais novos ainda 
crianças. A esquailiilha, (pie elle commandava, 
compunha-se apenas de Ires navios. No dia 21 de 
outubro sobreveio uma forte ventania, que os dis- 
persou, scjtarandoos dois navios, que navegavam 
de conversa, da capitania onde eslava D. Jorge. 
Ouiz a fatalidade que fosse exactamente n'essa 
occasião que appareceram de súbito no borisonte 
três velas barbarescas, (jue se dirigiram a todo o 
panno para o navio portuguez, assim que o viram 
isolado na liquida arena do oceano. 

Seria talvez fácil ao navio portuguez, tão próximo, 
como eslava, das costas da península hispânica, 
fazer força de vela, c demandar um dos porlosda 
Andaluzia, Cadiz ou (jibrallar, aonde chegaria 
talvez a tempo de se pôr a abrigados insultos dos 
piratas. Mas I). Jorge, que não estava habituado 
em terra a virar as costas aos esquadrões bereberes, 
não quei-ia no oceano tomar o máo costume de 
dar a popa aos navios dos iniieis. Pensava que, 
na decadência em que ia a sua pátria, esses actos 
de louca temeridade serviam ao menos perante a 
historia para dar magestade su{)i-ema á queda d'esle 
grande povo. A sua Iripulação compunha-se ape- 
nas de cincoenia homens; eiam três as náos ai- 
gelinas, uma linha trinta e seis peças de artilhe- 
ria e trezentos iiomens de peleja, outra vinte e 
seis peças e duzentos c cincoenia homens, a ter- 
ceira em íim vinte peças e cento o sessenta ho- 
mens. I). Jorge deu o signal da investida. 

A excepção das Ires velas baibarescas, eslava 
ermo o vasto plaino do oceano. No horisonte não 
surgia ornais leve ponlo alvejante, que annuncias- 
se uma das velas da esquadrilha de D. Jorge. Tal- 
vez o valente portuguez esperasse que o Iroar do 



canhão allrahisse os outros navios, que, appare- 
cendo de súbito, tornariam de certo a peleja me- 
nos desigual. 

la-lhe saindo o calculo certo. Feliz no primeiro 
impele, e arrojando-se ás duas naus argelinas 
(luc vinham na frenle, como um volcão flucluante, 
vomitando ferro efogo por Iodas as baterias, con- 
seguio repellil-as com perdas graves, e obrigal-as 
a alTaslarem-se da proximidade do lerrivel navio. 
Mas o terceiro vaso moiro, que era o mais pode- 
roso, caio, com a sua tripulação fresca e intacta, 
sobre o navio portuguez bastante avariado e so- 
bre a sua tripulação diminuidn. O combate era ex- 
tremamente desigual. Três \'ezes entraram os moi- 
ros no navio de D. Jorge, trez vezes foram 
repellidos. Deram um quarto assalto os argelinos 
e foram, como era de esperar, mais venturosos. 
A extenuada tripulação porlugueza, dirigida pelo 
valente conde, vio-se obrigada a refugiar-se na 
praça da arlillieria, deixando os inimigos senho- 
res doscastellosde prôaede]i.í[)a. Masnão se ima- 
gine que pensaram em se render; o combale con- 
tinuou cada vez mais encarniçado. 

Animava-os n'islo uma esperança, que viram 
fiusliada com profundíssima dor. Tinham surgi- 
do alinal no horisonle os navios portuguezes, mas, 
ou porque o vento lhes fosse contrario, ou por 
qualíjuer outro motivo desconhecido do historia- 
dor, conseivaram-se imraoveis espectadores da 
peleja! Os Argelinos, vendo surgir este refor- 
ço inesperado, não se linham atrevido a con- 
centrar todas as suas forças no sitio onde se de- 
fendiam com intrepidez sobrenatural esses pou- 
cos leões das aguas. Mas, notando a estranha im- 
mobilidade dos recem-chegados, perderam o susto, 
e conservando em observação um dos dois navios, 
que D. Jorge primeiro repeilira, chamaram o outro 
para domarem com a superioridade do numero 
essa lenacissima resistência. 

Já a este tempo estavam reduzidos á ultima ex- 
tremidade os jíortuguezes da coberta, mas não 
recuavam um passo, animados sempie pelo exem- 
plo do seu valenie capitão. Fsse é que parecia in- 
vulnerável; verdadeiro Achilles dir-se-hia que as 
balas o temiam ou que não passavam junto d'elle 
senão para prestarem homenagem ao seu nobre vul- 
lo.Já muitos projeclis lhe linham balido na arma- 
dura, quando uma bala de aitilheria lhe levou a 
espada da mão, sem lhe fazer a mais leve ollensa, 
mas deixando-o desarmado. Deu-lhe oulra espada 
seu lilho, D. Francisco de Mascarenhas, o qual no 
mesmo instante caio fei-ido gravemente, mas bra- 
dando: «Meu |)ai, morramos, sem nos rendermos. J) 
Dir-se-hia que o mesmo espirito animava Ioda 
aquella valorosa familia. 

Havia um poder magico que parecia proteger 
D. Jorge ; pcnsaiieis que eram iiicanladas as suas 
armas como asdosheioes dos romances decavalla- 
ria. l*osliado |)ela fadiga e peia dor de ver os seus 
dois lilhos mais velhos, um fei-ido gravemente como 
dissemos, o outro, D.João de Mascarenhas, já morto, 
D. Jorge, inclinando a cabeça sobre o peito, dei- 
xou-se cair sentado n'um tambor. Vem oulra bala 



I 



o PANORAMA 



^9 



de ?rtillierir), atravessa o (auihoi-, do um ao oiiíro 
lado, deixando íicar incolumeo inlropido cavalloiro. 
Não lendo já arlilheifos, dirij^e-se, acompanhado 
|)or um fidalgo chamado Manoel da Fonseca a uma 
])eça que lhes rcslava e cujo fogo queria dirigir 
contra o inimigo. Caminham amÍ)os lado a hido, 
uma bala paite ao meio Manoel da Fonseca, sem 
tocar em 1). Jorge; a mo: te, como de costume, 
esquivava-se ao hei'oe que a procurava; mas,. dei- 
xando ficar de pé o altivo roble, decepava-lhe as 
raizes que o prendiam ao solo, os filhos que ellc 
estremecia. 

Afinal D. Jorge vio que a resistência era inútil 
e uão pensou senilo om procurar gloriosa morte, 
(luc o livrasse dos ferros de Alger. Voltou-se fria- 
mente para os poucos portuguezes que o ouviam 
consternados, e disse-lhes; «Pieparemo-nos para 
morrer com gloria, mas antes preciso de degolar 
n.inha mulher e meus filhos.» Sublime ferocidade 
que lembra os grandes rasgos da primitiva Uoma, 
ou a celebre resolução dos habitantes de Numancia I 

Mas depois, vol laudo os olhos paia a bandeira 
porlugueza que ainda tremulava ufana ao vento 
do combate, salteiou-o um outro pensamento, e 
exclamou: 

«Pois ha de caii- nas mãos de infiéis aquelle 
pendão sagrado? INão! deitemos fogo ao navio. 

A ordem, dada com esía simplicidade, foi com 
não menos singeleza executada por Luiz de 
Lomba. 

Eram perto de cinco hoi'as da tarde, e pelejava- 
se desde as oito da manhã. 

Eslava-se fatigado de um e d"ouli-o lado, e os 
moiros contemplavam com assombro o punhado 
de heróes, que por tanto tempo haviam ousado 
resistir-lhes. Era em outubro, como dissemos, c 
a noite \inha próxima. Não mandando Itgo deitar 
fogo ao paiol da pólvora, o que abreviaria a ca- 
tastrophe, e a tornaria terrível para os argelinos 
accumulados nos castellos da proa e popa, o conde 
de Castello Novo abria uma ultima poria á ultima 
possibilidade de salvação. Os navios barbarescos ar- 
vcdar-se-hiam de certo; talvez podessem então os 
poucos portuguezes, que restavam, metter-sen'uma 
chalupa, e ir procurar os dois outi'os navios, que 
não tinham querid'» tomar parte no combate. A 
noite cobriria a reinada com o seu manto de trevas. 

Aconteceu ao principio o que D. Jorge previra. 
Logo que os moiros viram as chammas lamber os 
mastros, c enroscar-se em torno d'elles como rú- 
bidas serpentes, recuaram em desordem e lan- 
çaram-se ao mar jjara fugirem á explosão. 

D. Jorge contemplava sereno este espectáculo, 
mas alguns dos porluguezes, commovidos pela in- 
nocencia dos dois lilhos infantis do seu general, 
D. Pedro e 1) Simão, e, não podendo ver a san- 
gue frio a morte horrorosa d'essas cândidas victi- 
mas da guerra, e da exaltação pundonorosa do 
conde, que n'csse instante iazia calar a voz do 
amor paternal, tomaram nos braços os dois pe- 
queninos, e chamaram os escaleres argelinos, que 
andavam salvando os seus, bradando-lhes que se 
rendiam. Vendo os seus filhos em poder dos moi- 



ros, e ouvindo ao seu lado os i)ranlos da aíílicla 
mãe, D. Jorge sentio vergar o seu oi-gulho deguer- 
i-eiro, vencido pelas angustias do pai. Chamou 
lambem os botes, e entregou-s3 cora sua mulher, 
c com seu filho D. Francisco de Mascarenhas, que 
mal SC podia arrastar. 

I)'ahi a pouco ia pelos ares o navio, averme- 
lhando o ceo e o mar com os hórridos clarões da 
ex|)losão. Os navios barbarescos navegavam para 
Alger, levando a sua presa preciosa, "da qual ti- 
raram um valioso resgate. 

Eis em rápido esboço a historia militar de um 
vulto que, na época dos nossos grandes infortúnios, 
ainda se ergue como o representante de uma ge- 
ração cxtincta, da geração de heróes, cujo valor 
fundara o iminenso império Lusitano. 

Pinheiro Ciiagvs. 



A TERRA 

Çiie {»i-ovu.<! pn.tiitivns e\i>;íeíu do «jíie é roíionda^ que 
S'i*'íi ^oiirv si e á rofla d» .sol ! 

Conheci um certo numero de indivíduos de mui- 
to boa fé, excellentes pessoas, na verdade, que, 
todas as vezes que me encontravam, depois de me 
perguntarem pelo meu estado desande, passavam 
immediatamente a dirigirem-me mil questões de 
astronomia; c ainda não haviam recebido as mi- 
nhas respostas, já riam com a maior ingenuidade 
do mundo. A seus olhos os sábios eram visioná- 
rios, que julgavam saber, mas que, na realidade, 
não se avantajavam ao commum dos mortaes a 
ponto de acharem a solução do enigma da nalure- 
zu. Conheci outros, um pouco mais instruídos que 
os precedentes, que estudavam durante odiaalic- 
ção que á noite haviam de dar no botequim a ou- 
tros tão instruídos como elles, c que só passavam 
carta d'intelligente e erudito ao homem que se 
apresentava faltando com muita facilidade em tom 
bombástico c empolado, empregando um infinito 
numei'o de imagens colhidas aqui ealli em campos 
de diversos donos, que não citavam ; conheci ou- 
tros, digo, que, talvez para me desfiuctarem, con- 
siderando as (lilferentes phases da historia das 
sciencias, os seus successos bons e maus, diziam 
que andávamos em um circulo vicioso, que não 
tínhamos o verdadeiro conhecimento das cousas e 
que os nossos systemas, por mais solidamente fun- 
dados que parecessem, nunca deviam ser recebidos 
senão a titulo d'hypolheses. 

A questão cosmographica que nos toóa mais de 
perto, a do isolamento c do movimento da terra 
no espaço, tein particularmente o piivílegío de le- 
vantar as duvidas de que falíamos. Aos ((ue as lêem 
(juerido formular e (|ue nem sempre tem tido em 
mãos provas irrefr-igaveis a fornecer, aqui lhes 
damos os pontos fundamentaes sobre os quaes se 
apoia este elemento do novo systema do mundo. 

Dizemos primeiro que a terra é redonda, que 
tem a forma de uma esphera achatada nos pólos. 
O primeiro fado que allesta isto é a convexidade 
da iinraensa extensão d'agua que cobre a maior 
parte do globo. A observação de um navio no mar 
basta para mostrar esta curvatura. Chegado á li- 



192 



O PANORAMA 



Ilha azul que parece formar a separação do céo e 
das asnas, o navio que se afasta parece n'csscmo- 
menlo collocado no horisonte. Um pouco mais 
tarde, drsapparc'ce, não pela parle superior, mas 
pela inferior. O mar cleva-se a principio enlre o 
convez e o observador ; depois vão-se escondendo 
as velas pouco a pouco ; os lopos dos maslros ó a 
ultima cousa que deixa de se avistar. Tm plieno- 
meno similhanle gosa o observador collocado no 
navio: somem-se primeiro as cosias baixas; os 
cdilicios, as tonas elevadas e os pliaróes são os 
objectos que mais se demoram sobro a linha de 
visibilidade. Este duplo fado demonstra evidenlc- 
menle, a convexidade do mar. Se, polo contrario, 
fosse uma superfície plana, só a distancia faria 
perder de 'ista o navio, e, n'este caso, desappa- 
receria tudo ao mesmo tempo, tanto as velas su- 
periores como as infeiiores. 

Resulta mais d"esta mesma ordem de observa- 
ções que a curvatura do oceano é a mesma cm to- 
das as direcções : ora, esta propriedade só pcrlence 
á esphera. 

A convexidade do mar estende-se em terra fir- 
me. Apezar das desigualdades do terreno, a su- 
perficie dos continentes não diíTere essencialmen- 
te da-superficic dos mares, porque está conhecido 
que as mais elevadas cadeias de montanhas eslão 
longe de produzir sobre a superficie geral da ter- 
ra, protuberâncias cojnparaveis ás rugosidades da 
casca de laranja. Ora, a superíicie dos rios que 
cortam a terra fiime cm todo o sentido para se 
reunirem ao oceano é pouco superior ao nivel does- 
te, c pôde ser considerada como a superficie pro.- 
longada do mar em toda a extensão dos continen- 
tes. As medidas barometricas sobre a altura das 
montanhas tcem, por outro lado, cuníiimado csle 
fado. O solo dos continentes, pois, afasta-sc pouco 
d'esle nivel, e apresenta no seu todo uma conve- 
xidade inteiramente similhanle á das aguas. Km 
fim, lanlo em tetra firme como no mar, os obje- 
ctos mais elevados são sempre os primeiros e os 
últimos que o viajante avista. 

As viagens de circumnavegação lêem, por outra 
parte, dado uma prova palpável da esphcricidade 
da terra. O primeiro dos navegadores que com- 
metteu a grande e arriscada empresa de dar a 
volta em roda do mundo, o nosso Fernão de Ma- 
galhães, que por ter recebido a recompensa que 
os governos d'esla terra cm todos os tempos hão 
dado a quem por sua infelicidade bem os serve 
passara ao serviço de llespanha, partio d'alli no 
anno de DJIO, dirigindo-se sempre paia o orr/í/rí/- 
Ic. Sem mudar a sua direcção, um dos seus navios 
chegou á Kuropa Ires annos depois, como se ti- 
vesse yindo do Oriente. As numerosas viagens de 
circumnavegação feitas desde essa época até aos 
nossos dias, teem superabundanlcmente confirma- 
do esta verdade : A terra é redonda em lodo o sen- 
tido. 

Ima nova prova da convexidade da terra é for- 
necida i)ela mudança de aspecto que apresenta o 
céo durante as viagens. Ouer nos dirijamos para 
o polo, quer nos approximemos do equador, des- 



cobrem-se incessantemente novos astros, assim co- 
mo se perdem de vista os das latitudes de que nos 
afastamos. Este facto não pôde concordar senão 
com a redondeza da terra ; se esta fosse plana, es- 
tariam sempre visíveis os mesmos aslros. 

A sombra projectada pela terra sobie a lua e 
sempre circular, seja qual fòr o lado que o disco 
terrestre apresente ao disco lunar nos diversos quar- 
tos e eclipses. Esta sombra arredondada, observada 
universalmente, é mais uma prova a favor da es- 
phcricidade da terra. 

Taes são os factos vulgares que demonstram de 
uma maneira positiva a verdade a que temos avan- 
çado. Se quizessemos entrar na geodesia ou mecâ- 
nica racional, apresentaríamos considerações ain- 
da mais rigorosas ; mas as provas precedentes são 
l)astanles para aqui. Vejamos agora sobre que só- 
lido fundamento se apoia a questão de que a terra 
eslá isolada e se move no espaço. 

A dilficuldade que certos espirites lêem mani- 
festado em acreditar que a terra está suspensa 
como um balão no espaço e completamente isola- 
da de toda a espécie de ponto de a]H)io, provém 
d'uma falsa noção das forças da natureza. A his- 
toria da astronomia antiga rnostra-nos uma ancic- 
dade profunda entre os primeiros observadores, que 
começavam a conceber a realidade d'este isolamen- 
to, mas que não sabiam como impedir a (pieda 
d'esle globo tão pesado sobre o qual andamos. Os 
pi'imeiros chaldéos lizeiam a terra oca e similhanle 
a um bole; podia tluctuar sobre o abysmo dosares. 
Outros suppunham que se estendia indefinilamen- 
te abaixo dos nossos pés. Todos estes syslemas 
eram concebidos sob a impressão d'uma falsa idéa 
do peso. Para fugir a esla antiga illusão, é preci- 
so saber que o peso é um phenomeno constiluido 
pela attra^ção de um centro. Um corpo cáe só 
quando a attracção de outro corpo mais importan- 
te o sollicila. As imagens de alto e de baixo não 
se podem applicar senão a um sysl(>ma material 
determinado, no qual o centro atlradivo será con- 
siderado como o baixo : fora d'isto cousj alguma 
significam. Quando, pois, suppomos o nosso glo- 
bo isolado no espaço, não fazemos com isso cousa 
alguma (jue possa dar imporlancia á objecção que 
acima notamos ; temer que a terra caia não se sabe 
onde. 

A terra pôde, pois, estar isolada no espaço. K 
não só o pôde, que o eslá na realidade. Se se achas- 
se apoiada sobre um corpo qualquer, este apoio, 
que necessariamente deveria ter enormissimas di- 
mensões, seria visto cerlamenle quando d'elle se 
approximassem.. Ver-se-ia sahir da terra c perder- 
se no espaço. E escusado dizer (pie os viajantes 
que teem dado a \oUa em roda do globo nunca vi- 
ram similhanle apoio : a superficie da terra está 
inleiíamenle desligada de tudo quanto possa exis- 
tir á roda d'ella. 

{Conlinua) 

O rosto não é sempre o verdadeiro espelho do 
coração. M. de Tlrenne. 



Tyii. Franco-Portgucza, Hua do Thcsouro Veibo, G. 



o PANORA!\IA 



4 93 



EURENBREITSTEIN 

Podemos chamar a esta fortaleza a Gibraltar do 
llheno. Construída na margem direita d'esle rio, 
defronte de Cobleniz, liga-se por uma ponto de 
harcas com esta cidade, cujo systema de defesa 
completa. Está edilicada pelo systema Monlalemberl, 
e o seu forte principal compõe-se de duas e Ires 



fileiras debaterias casamatadas, abobadadas e so- 
brepostas umas ás outras. A cidadella pode receber 
uma guarnição de quatoize mil homens. Nos seus 
immensos armazéns cabem provisões de todo o 
género, sullicientes para abastecerem á farta 
uma guarnição de oito mil homens por espaço de 
dez annos. 
Segundo todas as probabilidades, o sitio em 




EnrenlDreitstein 



que esta fortaleza campeia era no tempo dos Romanos 
um ponto fortificado. Se o era effectivamenle, só no 
século XIII foi roconstruido pelo arcebispo deTreves 
Herman, d'onde lhe veio o nome de Ilermanstein. No 
decorrer do tempo foram-se-Ihc desenvolvendo as for- 
tificações, de forma que já na guerra dos trinta 
annos era uma posição importante. Em 1798 esta 
fortaleza foi investida pelos francezes, emquanto 
principiavam as negociações no congresso de Uas- 
tadt, que terminou, como é sabido, pelo assassí- 
nio dos ])lenipotenciai'ios de França. Desfeílas, por 
conseguinte, as esperanças de paz, que o tratado 
de Campo-Formio imposto por Bonaparte aos 
Austríacos inspíiara á Europa, continuou o blo- 
queio da fortaleza de Ehrenbreitstein, que no fim 
de quatro mezes se rendeu por falta de subsistências. 
Ainda então não existiam os famosos armazéns de 
viveres em que faltámos. Em 1801 desmantelaram- 
n'a os vencedores. 



Emlorno das fortificações da cidadella espraia-se 
uma cidade do mesmo nome, centro de um grande 
commercio, que principalmente consiste em vi- 
nhos. No século XVII era esta cidade conhecida 
pelo nome de Miilhcim in Thall. Depois chamou- 
se Philippsthal. Hoje tem o nome de Ehrenbreits- 
tein. Possueuma nascente de agua férrea, e um 
palácio que foi cm outros tempos residência dos 
eleitores de Treves, e que hoje está convertido em 
armazém militar • 

Ora em 1803, quando se tralou de serem secu- 
larisadas as possessões ecclesiaslicas da Allemanha, 
|)araserem distribuídas como indemnisação aos prín- 
cipes, privados dos seus territórios pela invasão 
da França consular que chegara aos seus tão am- 
bicionados limites do Uheno, em 1803, pois, foi 
esta cidade de I']hrenl)reilsleincom a sua fortaleza 
dada como indemnisação ao príncipe de Nassau- 
Weilbourg. Em 181') o congresso de Yienna en- 



194 



O PANORAMA 



trogou-a à Prússia, que mandou reconslriiir asfor- 
tificaL-ões, e que as levou ao estado de apcrfeiçoa- 
menlõ em que hoje estão. Essas obras empreliendi- 
das em Elireiíbreilslein desde 181.') custaramao go- 
verno prussiano mais de dezoito milhões de francos. 
Mas o que mais deve agradar ao pacilico (ou- 
riste do que este apparato guerreiro c saber que 
do alio dos baluartes da cidadella se desfruta a 
vista de uma das mais esplendidas paizagens do 
KhenOj que é n'ellas tãò fértil. 



A PENiNA D'AÇO (" 

A penna d'aço é a causa final dos males que 
opprimem actualmente a sociedade inteira. lia 
não sei em que poeta uma eloquente imprecação 
contra o primeiro que açacalòu o ferro, e que fez 
uma espada d'essa massa inerte, mas por Deus ! 
maldito seja e cem vezes mais maldito o primeiro 
que fez do ferro uma penna! Quem fabricou a 
])rimeira espada concorreu apenas, por íim de 
contas, para malar corpos, quem fabricou a penna 
d"aço matou a alma, assassinou o' pensamento! 
Vil scelerado que armou a espécie humana com 
um estylete mais formidável do que lodos os pu- 
nliaes envenenados da Itália! 

Basta comparar a penna d'aço de que actual- 
mente nos servimos com a benévola penna de 
pato, de que se serviam os nossos bons e amá- 
veis avós. A penna d'aço, essa invenção moderna, 
produz-nos immedialamente uma impressão desa- 
giaiiavel! Tem uma incrível semelhança com um 
punhalsinho imperceptível molhado em veneno. 
() bico é aguçado como uma espada ; lein dois 
fios como a lingua de um calumniador. A esse 
bico junta-se um cabo, um pedaço de madeira 
sècco, disforme, e iiú, que nos magoa a face cm- 
quanto a nossa mão se trilha cruelmente á força 
de carregar n'esse ferro, que em torno de nós 
range, escarrando no papel o nosso pensamento. 
>"a penna d'aço tudo è rude, triste, severo, c faz- 
nos frio na vista c na mão. 

Mas a penna de pato. pelo contrario, essa c 
que é uma fácil c í|ue!-ida conlidenle dos nossos 
mais predilectos pensamentos! Associa-se a mil 
felizes e benévolas recordações. Vimol-a cspane- 
jar-se brandamente no cristal do lago ou cnxu- 
gar-se ao sol, resplandecendo com a luz de mil 
pérolas; essa penna é prima -co- irmã da macia 
pluma em que recostámos á noite a cabeça; o 
animal d'un(le saio deu-nos os seus ovos e os seus 
lilhinhos; não nos pôde cila Iraír. Que diílerença 
no duplo aspecto d'esses dois instrumentos da 
idéa, que sem razão lêem o mesmo nome. A 
penna de pato c aha, nítida, leve! O seu canudo 
ilexivol freme de prazer entre os dedos que anima. 
A .sua rama aííaga ligeiramente a face; o bico dó- 
cil presla-sc a todas as combinações do estylo; 
caminha de manso, sem esforços, sem um só cl'es- 
ses horríveis escarros e grilos da penna d'aço. A 
travez d'esse lin:pido canal parece- nos (|iie \emos 

Ml Ksto formoso arligo, este delicio.so c cirto folliídim, ciij:! tra- 
fJucção aprescnUmos aos nossos leitores ó <Ja penna illutirc do ce- 
lebre escriptor franccz Ju';o .Inin. 



as nossas idéas descerem devagar c em boa or- 
dem, como devem brotar d'uma cabeça bem for- 
mada. 

O menor inconveniente da penna d'aço é estar 
sempre e a todos os instantes prompta a escrever 
sobre todos os assumptos. Não agarrámos nós a 
penna d'aço, c ella que nos agarra; segura-nos 
pela rédea, obriga-nos a seguil-a. É andar, correr 
para a direita e para a esquerda, por montes e 
por valles. É a machina de vapor do pensamento! 
Á medida que a nossa mão se cança e se irrita 
por ter de segurar n'estc horrível estylete, o nosso 
espirito irrita-se lambem c exalla-se involuntaria- 
mente; fica sendo a um tempo mais irreflectido, 
e mais despiedoso. Perguntamos porque é que fu- 
lano, de génio Ião meigo e amável, é terrível e 
sem piedade com a penna na mão"^ Escreve com 
penna d'aço! Porque é que aquelle pobre homem 
(jue outr'ora se entrelinha em pescar á canna, c 
em tomar banhos decalçolas, hoje se compraz em 
escrever obscuras e ignóbeis calumnias, que não 
divertem pessoa alguma, _e o horrorisam e lhe re- 
pugnam a elle mesmo'? É a influencia da penna 
daço! Faliam da pólvora, dos fogueies ácongréve, 
das carias conslilucionaes! ludo isso são insigni- 
ficâncias comparadas com a penna d'aço. 

Mas a penna de pato ! a penna de pato, pelo 
contrario, é a penna que gera as obras primas. 
Devemos-lhe os mais bellos livros que lêem hon- 
rado o espirito humano; é a mãi da reflexão. 
Graças á penna de pato, era o homem outr'ora 
obrigado a escrever o seu pensamento com pru- 
dente vagar, e esse vagar era a origem de mais 
apurada belleza de estylo. A penna de pato, longe 
de estar prompta sempre como a penna d'aço, 
exige mil pequenos preparativos. Em primeiro 
lugar temos de a aparar com as nossas próprias 
mãos, e ó esse um momento solemne no nosso 
trabalho. Emquanlo aliámos o bico da penna, o 
nosso pensamento alia-sc também ; vamos procu- 
rar a idéa no fundo do cérebro, assim como va- 
mos procurar a medulla da penna ; quando a penna 
está aparada, precisámos de a experimentar an- 
tes de começai-mos a escrever, e é mais uma j)e- 
quena demora de que o nosso pensamento se apro- 
veita, se o nosso pensamento ainda não está bem 
nilido, se não vemos d'um relance, o que é a pri- 
meira condição d'um cscriplor, o principio, o 
meio, c o fim do nosso discurso. 

Bem sei o que alguns espíritos me podem objec- 
tar em favor da penna d'aço. Descende, dirão el- 
les, do estylete antigo. Scepc slylnm vertas. Mas 
(jue péssima e fallaz defesa ! O estylete antigo tra- 
çava as letras n'uina camada de cera, que lhe 
amortecia a fúria, a penna (Kaço não encontra o 
mínimo obstáculo ; obrigado a abi'ir caminho n'essa 
camada resistente ia elle a passo; ella corre a ga- 
lope. Com muito custo gravava elle algumas li- 
nhos, que eia fácil apagar voltando contra as le- 
tras o outro bico da jienna; a penna d'aço grava 
no papel, como se gravaria em cobre, e nunca 
retrocede. É uma improvisação que não .sabe nem 
apagar-se, nem corrigir-se, nem suspender-se; 



o PANORAMA 



95 



lem de caminhar, sem altender aos erros, aos 
crimes c ás calumnias que deixa pela estrada. 

Dizem-me que grandes génios (que mereciam 
um liro) se estão occupando de aperfeiçoar a 
j)enna d"aço! Aperfeiçoar a penna d'açp, Deus do 
céo ! Oh! desgraçados, com que !im? Consistiria 
esse aperfeiçoamento em encontrar uma penna, 
que levasse comsigo c dislillasse a tinta, Por esse 
meio uma nova rapidez se ajuntaria a esta rapi- 
dez já assustadora; a mão do escri|)tor llcaria 
constantemente pregada no papei, sem que o es- 
pii'ilo podesse dispor sequer do pequeno inter- 
vallo, que ainda sopaia a penna d'aço do tinteiro 
onde se embebe. Se caímos n'esse progresso, aca- 
l)0U-se! está próximo o iim do mundo, o espirito 
humano fica sem defesa contra os seus próprios 
excessos, e a sociedade, invadida de súbito por 
uma improvisação sem Iim, sem termo, e sem 
eontrapezo, voltará á grande confusão de liabel 1 
i\a verdade não conheço perigo mais terrível do 
que o progresso! 



ACADEMIA DO CACHIiMBO 

Com este nome se designava a roda das pessoas 
mais da intimidade de Frederico lí da Prússia 
que se reuniam quasi sempre depois das cinco 
horas da tarde nos quartos particulares de Sua 
Magestade em Berlim, em Potsdam ou em^Viester- 
hausen. A Academia corapunha-se, dos oíTiciaes 
do estado maior de Frederico, dos sábios que pas- 
savam por Beilim, de alguns fidalgos, e lambem 
de plebeus honrados e instruídos. Não mettcmos 
em conta os bobos da corte, ou os que consen- 
tiam em serem tratados como taes. Os estatutos 
da Academia obrigavam os seus membros a fu- 
marem eraquanto duravam as sessões ou pelo me- 
nos a terem um cachimbo na boca. 

Cada membro tinha diante de si um jarro de 
cerveja; de quando em quando circulavam fatias 
de pão com manteiga, e para o fim da noite ser- 
via-se vinho, que se podia beber á vontade. N'essa 
extravagante Academia liam-se e commentavam-se 
os jornaes, faziam-se rellexões sobre os aconteci- 
mentos políticos do dia, e contava-se quantos boa- 
tos andavam pela cidade. As vezes transforma- 
va-se a Academia n'uma assembléa de senhoras 
visinhas; os ditos mordazes, as chalaças grossas 
cruzavam-se no ar sem que el-rei com isso se es- 
candalísasse. 

Os estatutos da Academia não permilliam que 
membro algum se levantasse á entrada de qual- 
quer pessoa, ainda que fosse cl-rei. Os únicos jo- 
gos permittidos eram o xadrez e as damas. Esta 
Academia linha uma grande importância, porque 
era no seu seio que el-rei e os ministros fallavam 
com mais desaflbgo dos negócios políticos. Os 
embaixadores das cortes estrangeiras procuravam 
sempre saber o que se dizia, para informarem 
com exactidão as suas cortes. 

Acabaram as sessões d'esta Academia, porque 
um dos seus membros esqueceu-se uma vez dos 
estatutos, e levanlou-se vendo entrar o príncipe 



real. El-rei enfureceu-se tanto que logo saio da 
sala, e nunca mais os Académicos do Cachimbo 
tiveram licença para se reunirem nos seus apo- 
sentos. 

Não era esta uma das menores extravagâncias 
d'esse jei a quem a hisloria deu o titulo de grande. 

CERVANTES 

Km (i|iu' rii-eeigiiis(n3iciiss f«l ooinjso.xt» o ruiiiiiiicc ile 
Uou <6tsgc!io(e 

Não c de hoje que se pergunta por(|ue motivo, 
entre tantas aldeias hespanholas, Argamasílla foi 
a escolhida por Cervantes para ahi coliocar o do- 
micilio do immorlal Don Ouichotc. Com suas ruas 
limpas e regulares, seus encantadores arrabaldes, 
Argamasílla devia inspírar-lhe lembranças agra- 
dáveis. Não disse elle na sua obra que queria es- 
quecer aquclla risonha terrinha? O grande ho- 
mem era um ingrato; foi Argamasílla que o im- 
mortalísou ; mas em compensação elle eternizou- 
Ihe o nome. No nosso século de investigações, 
tudo se descobre com os annos; c é a um poeta 
muitas vezes inspirado, que é lambem um sábio, 
Eugénio líarlzenbusch, que devemos o saber em 
que circumslancias foi escriplo o livro illusti"e que 
fez rir até Philippe III. 

Apertado pela pobreza, Cervantes aceitara um 
lugar na administração militar; era fiscaUdo exer- 
cito; mas nem tudo ei'a rosas n'aquellas funcções: 
via-se obrigado muitas vezes a usar de certos 
meios de violência para os pagamentos andarem 
em dia. Devem-se desculpar algumas distracções 
a um homem tal como Cervantes; a verdade, po- 
rém, força-nos a dizer que, usando contra certos 
habitantes de Argamasílla, nem sempre redigira 
com bastante regularidade as sentenças de execu- 
ção. A justiça do lugar valeu-se de algumas d'es- 
tas faltas para mandar prender o pobre Cervan- 
tes, que, no momento, não passava de um auclor 
de comedias pouco conhecido. Foi, pois, agarrado 
pelos alguazis da villa e encerrado na casa de uni 
certo Medrano, que, á falta de outra mais pró- 
pria para alojar os presos, servia então de cadeia. 
Ora, o que por muito tempo se ignorou, é que o 
principal motor d'esta prisão fora um tal Don Ro- 
drigo Pacheco, cavalleíro mui dislincto (segundo 
elle se dizia) cuja modesta habitação estava cheia 
de brazões por lodos os lados, e que se havia 
extremamente irritado por Miguel Cervantes, des- 
presando as considerações que se deviam a um 
fidalgo tão fidalgo como elle, ler feito um reque- 
rimento contra uma sua irmã ou uma de suas 
primas. N'esle ponto, os biographos não estão to- 
dos de accordo. Navarrete allribue a vingança de 
Pacheco a uns chascos que o fiscal leve a ousa- 
dia de dirigir-lhe. Todos, porém, são unanimes 
em dizer que Don Rodrigo não linha o juízo muito 
são, (pie houve mesmo uma é|)Oca em que elle 
andou coai o cérebro muitíssimo desorganisado. 

No coro da igreja parochial de Argamasílla, do 
lado do evangelho, vè-se ainda um altar com o 
seu rcldbulo dourado, obra de marcenaria remon- 



96 



O PANORAMA 



tando,sein duvida alguma, ao tempo de Philippe lII, 
retábulo cujo fundo, formado de uma tela i)in- 
tada a óleo, mostia uma Nossa Senhora subindo 
ao céo entre os anjos. Na parle inferior do qua- 
dro, estão uma dama e um senhor, ao que pa- 
rece, nobre: ella, joven ; elle, de idade um j)ouco 
mais madura, tendo o rosto comprido e estreito, 
olhos esgazeados, bigode com grandes guias, e a 
quem não iria mal o nome de eavalleiro da triste 
figura. Na parte superior, em um ornato que 
apresenta o retábulo, lè-se, cm caracteres pretos 
sobre fundo dourado, a seguinte inscripção, que 
facilmente se decifra, não obstante muitas letras 
estarem a cavallo umas nas outras: 

«Nossa Senhora aj)pareceu a este eavalleiro, 
«quando foi atacado de uma gravíssima doença e 
«abandonado pelos médicos, no dia de S. Matheus 
ffdo anno 1601. Tinha-se encommendado á Yir- 
cgem, e promettera-lhe uma alampada de prata, 
«acclamando-a de noite e de dia, em razão da 
«grande dòr, que sentia no cérebro, proveniente 
«de um resfriamento.» 

Era talvez este eavalleiro anonymo (Don Ro- 
drigo Pacheco) que Cervantes transformou em li- 
dalgo^da ^lancha; o resfriamento (jue lhe caíra 
no cérebro era naturalmente a insigne doudice 
(gravíssima doença, na verdade) da qual o pade- 
cente se achava atacado. Além d'isso, existem 
ainda na extremidade da villa certas ruínas de 
antigas habitações onde se elevam unicamente al- 
guns restos de paredes: era alli que se achava a 
morada de Don ilodrigo, ou, se o (juerem, a casa 
de Don Ouiehote. cMostra-se mesmo ainda a aber- 
tura da janella do quarto onde Cervantes dej)osi- 
tou os livros do digno lidalgo. Mas sé o tempo, 
ao qual nadaresísle, destruio a casa do genlillio- 
mem a quem Cervantes ollendeo, a que a este 
sérvio de prisão existe ainda de pé, se bem que 
o corredor que conduz ao pateo esteja maltratado 
e quasi que em ruina. O resto da construcção 
subsiste e parece duiavel.» 

Alli, em um lugar obscuro, a cuja minuciosa 
descripção pouparemos os nossos leitores, foi con- 
cebido o Dou (Jiiic/tolc; alli foram creados os per- 
sonagens tão vivos que animam este immortal ro- 
mance. Para lodo o hespanhol um pouco zeloso 
das glorias litterarias do seu pai/., a triste casa 
de Argamasilla tornou-sc um lugar veneiado, e 
quizeram prevenir a sua desliuiçâo, como ultima- 
mente preservaram das injuiias do tempo o pe- 
queno convento da Arrábida, lembrando-se (\\\v. 
Chrislovam Colombo, opprimido de cançaso, alli 
fora pedir uma gota de agua para seu filho, e 
onde achou, graças ao grande coração do bom 
Marchena, uma nova porta aos seus vastos pro- 
jectos. 

O infante Don Gabriel tornou-se possuidor da 
pobre casa de Argamasilla. Auxiliado por um dos 
escrij)lores mais estimados da iicsjianha, Itivado- 
neyra fez transportar jiara a antiga casa de Me- 
(Irano todo o material de uma imprensa, e, na 
Ijeíjuena camará obscura onde acordou o génio de 
Cervantes para illuminar repentinamente o mundo 



da fantasia, fez-se uma edição do seu livro. Este 
Don Quic/iotc, revisto por llartzenbusch, é um 
primor typographico, e pôde mesmo dizer-se um 
primor de critica. 

Sabe-se,que três edições primitivas saíram, em 
vida de Cervantes, dos prelos deCuesta. A primeira 
de todas, a de Madrid 1005, não pôde ser vista pelo 
auclor, que ao tempo residia em Yalladolid, e 
saio com muitíssimos erros; a segunda, publicada 
igualmente em IGO.") por Cuesta, não foi melho- 
rada ; o illustre escri])lor não havia deixado a sua 
antiga residência, e além d'isso eslava dolorosa- 
mente preoccupado com os mil cuidados da sua 
vida para se dar ao trabalho da inversão de tal 
ou tal capitulo, ou do nome escripto de dous mo- 
dos dilTerentes que elle dá á mulher do malicioso 
Sancho. O elíeilo fôia súbito; a hilaridade fora 
completa entre um povo que ri pouco; o successo 
não jjodia ser duvidoso. Foi para a terceira reim- 
pressão que Cervantes reservou os seus melhora- 
mentos no texto, e e esta a que llartzenbusch e 
Uivadeneyra reproduziram. 



OS BUGIOS OU SÍMIOS 

Os bugios ou siinios consliluem a primeira e a mais 
numerosa secção da grande família dos Quadrumanos. 
São de lodos os animacs os que mais se approximam do 
homefii, já pela forma, já pela estatura; comtudo, dif- 
ferem d'elle esscncialmeiíle, mesmo no ponto de vista 
anatómico. Os bugios teem o focinho um tanto prolon- 
gado, o nariz um |)ouco saliente, o corpo ordinariamente 
refeito e os membros habitualmente delgados. A face, 
quasi sempre nua, é às vezeí colorida de prelo ou de 
vermelho, ou malhada de branco, encarnado, azul. O petto 
que lhes cobre o corpo tem um fades particular, c dis- 
linguc-se em muitas espécies do dos outros mamiíeros. As 
cores são, ora elegantes e vivas, ora tristes e uniformes 
e ennegrecem com a idade. Entre muitos, estes pellos 
fornecem ornamentos variados simulando crinas, cabel- 
leiras, pennachos, coroas, barbas, ele: os da cabeça dos 
orangolangos teem a mesma implantação que os do ho- 
mem. O craneo c quasi sempre arredondado, c o an- 
gtdo facial, muito variável, está longe de exprimir com 
exactidão o seu grau de inlelligencia. Alem (l"isso, a gran- 
deza d'cste angulo varia muito entre a idade nova e a 
adulta ou velha. A face curta nos novos, é muito mais 
proeminente cnlre os adultos. O cérebro dos Chimpanzés 
e dos Orangotangos c o que, pela sua forma, mais se ap- 
proxima do cérebro liumano; mas, se l)em que melhor 
organisado (juc o de certos idiotas, c comiudo muito in- 
ferior, pelo volume e pela disposição, ao da nossa espé- 
cie. Os bugios teem (pialro mãos, Iodas com o pollegar 
op|)osto aos outros deiios, e servem-se de todas com cx- 
Ircma facilidade. Apezar (rislo, os pollegares das mãos de 
diante nunca são tão desenvoUidos como no homem, 
c as próprias mãos estão muito longe do lerem a mes- 
ma hal)ilidade. Em algumas espécies, o pollegar es- 
ta reduzido a um simples lid)erculo, ou não cxisle. Todos 
os dedos teem unhas, clialas nos bugios superiores, mas 
que se vão tornando ar(|ue;idas á medida que se desce 
na série. A dis|)Osição das mãos inferiores, (|ue não pou- 
sam no solo senão pela extremidade exterior, a eslreilesa 
da pelvis, c a frouxidão da articulação dos joelhos não 
lhes |)ermitlem conservar por muilo tempo a posição ver- 
tical: lodavia,'podem, es[)ecialmente ajudados por um páo, 
andar algum tenq») n'esla jjosição, ainda (|ue d'nm passo 
mal seguro. São, pelo contrario, admiravelmeide t)rgani- 
sados i)ara trepar, graças á flexibilidade de seus mem- 
bros c ás suas mãos po"steriorcs, (pie scr\em para agar- 
rar os olijcclos do mesmo modo que asanleriores. A cauda 
é ou nenhuma. 011 nirla, ou longa, ou niuila longa. iJillere 
igualmente na forma, segundo a sua fraqueza ou força. Os 



o PANORAMA 



^97 




Bugios ou Simios 

bugios de cauda forte on prchensil, servem-se deste orgam 
como (ie uma quinia mão, com a ajuda da qual se sus- 
pendem nos ramos, equilibram-se e formam o salto; ap- 
poiam-se também sobre ella quando se assentam. Os bugios 
são essencialmente frugívoros; todavia o seu systema den- 
tário approxima-se muito do nosso. Em cada queixo teem 
quatro incisivos direitos; os molares só teem, como os 
nossos, tubérculos obtusos e variam em numero dos si- 
mios do mundo antigo para os do novo. Quanto aos ca- 
ninos excedem os outros dentes, e tomam um tal desen- 
A'olvimen!o, em algumas espécies que exigem um es|)aço 
entre os dentes correspondentes da maxilla opposta para 
se alojarem quando a bocca se fecha. 

Os bugios habitam nas lloreslas, onde vivem ordina- 
riamente em bandos, e estão quasi sempre sobre as arvores. 
As fem.eas teem de cada vez um ou dous filhos que criam 
com grande ternura. 

A intelligencia d'estes animaes é geralmente muito no- 
tável ; mas varia em extremo de um género a outro na 
mesma tribu, de uma espécie a outra no mesmo género, 
assim como de uma idade a outra na mesma espécie e no 
mesmo individuo. Em idade tenra, a maior parte são dó- 
ceis, intelligentes e fáceis de domesticar. Envelhecendo, 
perdem todas as suas boas qualidades e docilidade. Esta 
mudança manifesta-se sobretudo entre os mais intelligen- 
tes, laes como os Orangotangos, Chimpanzés, Magos. 
Tornam-se tão turbulentos, tão |)erigosos, (pião submissos 
e obdientes haviam sido até alli. É tandjem muito para 
notar a variedade, a inconstância, a linura dos seus ins- 
tincto.^í, as manhas que costumam empregar para se apo- 
derarem do que lhes agrada, a sua curiosidade e a ten- 
dência para a imitação que os leva a reproduzir os nos- 
sos gestos e as nossas acções. 

Os simios estão espalhados pelos paizes quentes e cs- 
pccialmeiíle pelas regiões intertropicaes dos dous hemis- 
pherios. Mas as espécies (jue habitam no antigo conti- 
nente differem das que vivem no novo mundo. For con- 
sequência estes animaes estão divididos em duas grandes 
secções: Ihi(/ios do antigo continente e Ihujios do novo 
continente. Ós primeiros denominam-se Ciithurrinios, por- 
que teem as ventas abertas abaixo do nariz, e levemente 
separadas uma da outra. Alem d'isso o seu systema den- 
tário é composto, como no homem, de 32 dentes a saber: 
'' ; incisivos, - j caninos e '"/,„ molares. A cauda não é 
preheusil e apresentam quasi sempre callosidades ischia- 
ticas. Em fim, teem muitas vezes faceiras ou covas nas 
faces, communicando com a bocca. Os segundos pelo 
contrario receberam o nome de Plalj/rrhitiios, porque teem 
o nariz achatado com as vénias espessamente separadas 
uma da outra. O seu systema dentário compõe-se de 32 
ou 36 dentes, mas conruma formula diflerente da do ho- 
mem, mesmo quando idêntico o numero. Os dentes mo- 



lares são em numero de 12 em cada queixo. Finalmen- 
te, nunca teem callosidades nem faceiras, era quanto que 
na generalidade a cauda é prchensil. 

Os bugios do antigo continente formam cinco grupos 
ou famílias, a saber: Oranfjotanrjos, Semnopitecos, Cer- 
copilecos, Macacos e Cijnoccphutos. Os do novo conti- 
nente comi)õe-se unicamente de três grupos: Uelopitécos, 
(Jélopilecos o /íapalinises. 

O desenho que ollerecemos aos nossos leitores repre- 
senta um (los animaes que formam a quarta tribu dos 
Quadnnnanos catarrliinios ou Bugios do antigo continen- 
te, chamada dos Cynocephalos. A maior parte (festes 
pertencem á Africa; algumas espécies, porem, são pró- 
prias da Ásia meridional. 

A sua estatura, em geral, é, pouco mais ou menos, a 
de um cão grande. As pernas são pesadas e refeitas, pe- 
lo que teem menos agilidade que os bugios das tribus 
superiores. Os seus membros são fortes e vigorosos, a 
parelha anterior um pouco mais curta que a posterior e 
as pernns não teem barrigas pronunciadas. O focinho c 
muito allongado e como que cortado na extremidade, o 
que lhes valeu o nome genérico sob o qual se designam. 
A face tem faceiras notáveis pela sua amplidão, e é co- 
berta de pellos pouco espessos, cujo colorido varia se- 
gundo as espécies. \^ns apresentam cauda e outros não, 
e lodos teem nas nádegas grandes callosidades. O seu 
aspecto é feroz. 

Os Cynocephalos não habitam somente nas florestas ; 
muitos preferem as montanhas ou collinas semeadas de 
rochedos ; pois, o modo de andar dos quadrúpedes lhes 
c muito familiar. Cada espécie parece circumscripta em 
regiões dislinctas. 

Estes animaes vivem em bandos bastante numerosos que 
defendem pertinazmente, mesmo contra os homens, o ac- 
cesso dos togares em que teem fixado o seu domicilio. 
Se bem que os caninos destes bugios sejam tão longos 
como os do tigre, nem por isso são carnívoros ; o seu ali- 
mento é quasi inteiramente vegetal, e são um verdadeiro 
flagello para os pomares e jardins junto dos quaes habi- 
tam e que devastam com a mesma táctica dos cercopi- 
tliecos. Einfim, a julgar pelos indivíduos em prisão, o seu 
caracter é assaz dócil ale á idade da puberdade, a partir 
da qual se tornam de uma extrema maldade, que os cas- 
tigos não podem reprimir. A sua lubricidade adquire ao 
mesmo tempo proporções que se não encontram entre as 
outras espécies de bugios. 

A tribu dos CynOLé|)halos divide-se muito naturalmente 
em Ires géneros, cujos trataremos em um dos próximos 
números: Cynocépitéco, Théropitheco & Cynophalo propúà- 
menle dito. 

A FAMÍLIA DOS SAXE-COBURGO-GOTHA 

Lisboa, ou antes os nossos reis acabam de ser 
visitados pelo duque Augusto de Saxe-Coburgo- 
Gotha e por sua esposa a princesa do Brazil D. 
Leopoldina Theresa. Foi uma visita de família, 
porque os augustos viajantes são parentes dos 
nossos monarchas. 

A historia dos Saxe-Coburgo é uma historia 
curiosa, e para não largar mão do assumpto vou 
conlal-a em resumo ao leitor do Panorama: po- 
der-se-lhe-ia chamar a uistoria de im pequeno du- 
cado E DE TRES COUÒAS. 

Desdobrai um mappa da Allcmanha c procu- 
rai attento um ducado microscópio, perdido nas 
fronteiras da Ua viera. Tão pequeno é elle que o 
nome de Saxe-Coburgo o cobre em toda a sua 
extensão. Vivia ali no fim do decimo oitavo sé- 
culo um soberano allemão, que se presaya de 
reunir debaixo do mesmo sceptro o principado 
de Coburgo, o principado de Saalfelde e um pe- 
dac^o do condado de llcnneberg. Cincoonta legoas 
quadradas, uma populaí^ão de sessenta mil ha- 
bitantes (exactamente a quinta parte da popula- 
ção de Lisboa), duzentos e setenta mil crusados 



198 



O PANORAMA 



de rendimento, e um exercito de duzentos ho- 
mens, tal era o território, o numero de vassal- 
los, a receita e por ultimo a força armada deste 
soberano. 

Devemos confessar, para sermos verdadeiros em 
tudo, que o duque parecia á primeira vista o 
rei de um conto de fadas. Mas o favor das fadas 
é precioso e vale bem tomur a coisa ao serio : 
aquellas concederam ao duque de Saxe-Coburgo- 
Golha uma existência feliz e numerosa prole. O 
que cu não sei é se cilas lhe promel leram lam- 
bem deslumbrante futuro para seus filhos. Seja 
como fur, ahi vac o que succcdeu. 

O duque teve um lilho chamado Ernesto que 
soube agradar a uma princesa das visinhanças, 
á fillia do duque de (Jotha. Casou com ella cm 
1817, hcidou o dominio de seu sogro e reinou 
n"um ducado com o nome de Ernesto I, duque 
de Sa\e Coburgo Gotha. 

O velho duque teve outro filho de quem foi 
herdeiro o rei artista. Ião querido sempre dos 
portuguezes, o e.sposo d'uma rainha constitucio- 
nal, o pai de dois reis braganlinos, sua mages- 
tade el-rei D. Fernando : assim passou á pequena 
casa allemã a primeira coroa. 

O velho duque teve terceiro filho que se cha- 
mava Leopoldo e que também soube agradar á 
princesa ingleza Carlota Augusta. Casou com ella 
em 1810, e como Carlota fosse filha do príncipe 
regente, depois Jorge IV, rei de Inglaterra, d'aqui 
se pôde inferir os destinos que esperavam Leo- 
poldo. 

«Esta alliança, dizem, as chronicas da época, 
não tem nenhuma relação com a poUlica ; a 
escolha da princeza foi unicamente determina- 
da pela sympathia. O príncipe Leopoldo, com 
pouco mais de cinco lustros de idade, chamou a 
altenção em Londres, ha desoito mezes, pela dis- 
tincção da sua pessoa e dignidade das suas ma- 
neiras. E' bastante instruído, não só na sciencia 
militar, mas lambem na da economia politica. At- 
Iribuem-se-lhe mesmo diversos escriptos de mui- 
ta valia. O seu exterior produzio uma impressão 
favorável no publico inglez.o 

Infelizmente a princeza Carlota morreu de re- 
pente cm 1817, um anno depois de casada, sem 
deixar filhos. O príncipe Leopoldo parecia, pois, 
perder aquella protecção da sorte que se esten- 
dia a todos os njcmbros da sua familia. Bem lon- 
ge d"isto, estava-lhc reservado ser escol iiido por 
outra mulher e eleito por outro povo. Casou com 
uma filha do rei Luiz Philippe, e quando este so- 
berano recusou a coroa da IJeígica para o duque 
de Nemours, os belgas acclamaram rei o prínci- 
pe Leopoldo ; assim passou á casa allemã a se- 
gunda coroa. 

O velho duque também tinha uma filha, e esta 
chamada Víttoria, casou na idade de dezcsele an- 
nos, em 180:», com Érico Carlos de Línange, prin- 
cipe allemão, que nunca devia ser rei. U destino 
não reservava, i)ois, os seus pródigos favores á 
princeza Victoria: sucredeu o contrario, viuva 
em 181'i casou em 1818 com o duque de Kent, 
quarto filho do rei Jorge III. de (juem os liliios 
viriam a ser os herdeiros presuuiplivos do tlnouo. 
Quando morreu o duque de Kent, em :2:í de 
janeiro de 1820. deixou uma lillia. Mas em In- 
glaterra as nmlheres sobem ao throno: esta fi- 
lha foi por conseguinte a rainha Victoria. Ainda 
raais, estava escripto que a casa de Sa\c-Coburgo 



reinaria ali; um novo príncipe chegou da Alle- 
manha para casar com a soberana, e este foi seu 
primo, o príncipe Alberto, filho do duque Er- 
nesto I. 

Em 18't0 escrevia-se em Londres que o príncipe 
«chamara a altenção dos inglczes pela distíncção 
da sua pessoa e dignidade de suas maneiras.» Ui- 
zia-se mais: «é instruído e tem muito discerni- 
mento; o seu porte é decente e reservado; lam- 
bem soube impressionar favoravelmente o publi- 
co iiiglcz; a joven rainha distinguio-o entre um 
grande numero de pretendentes e dá-lhe a pre- 
ferencia.» 

Assim passou á casa allem^í a terceira coroa. 
Portugal, a Bélgica e a Inglaterra teem ou tive- 
ram reis ou rainhas desta família, e os filhos 
destes, por meio de novas allíanças, vão esten- 
dendo por toda a Europa a dynaslia pacifica e 
amada dos Saxe Coburgo-Gotha. 

Mas como, sem ter produzido nem grandes ho- 
mens de Estado, nem grandes homens de guerra, 
esta casa conseguio similliante exilo com tanta 
constância? r)evel o-hemos alliibuir ao acaso, di- 
zendo que elle preside a tudo n"este mundo? 
Não! 

«A casa de Saxe-Coburgo, diz um escríptor, 
deve a sua elevada fortuna á duqueza de Kent, 
de quem a grande influencia foi habilmente se- 
cundada pelo rei Leopoldo da Bélgica. 

('Do que não é possível duvidar, é que a casa 
de Saxe-Coburgo proseguio na sua elevação, des- 
apercebida, sem commoções, sem auxilio estran- 
geiro, sem que grandes é variados acontecimen- 
tos a fizessem conhecida. O que adquirio deve-o 
ás qualidades sensatas e apreciáveis dos seus mem- 
bros, á sua acção pessoal, á sua perseverança in- 
fatigável, á sua atlenta previdência, á sua gran- 
de arte de agradar e seduzir, ao seu tacto ins- 
tructivo de nunca offetider ou irritar alguém, li- 
vre sempre de sobrancerias que aíTugenlam a 
estima dos pequenos, e que nunca são bem vis- 
tas da aristocracia. 

«Foi com estas qualidades solidas que a du- 
queza de Kent e o rei Leopoldo alcançaram para 
sua família, em poucos annos, tão prodigiosos 
resultados, que apenas são criveis com relação 
ao ponto de partida.» 

A duqueza de Kent morreu em Londres ha 
seis annos, sendo universalmente chorada. Toda 
a cidade manifestou solemnementc a sua estima 
por meio de inequívocos signaes de respeito e de 
pesado luto. O conimercio suspendeu as suas tran- 
sacções, fecharam se as lojas; a Inglaterra tinha 
perdido uma parente querida. Não menores fo- 
ram as provas testemunhadas pelo povo de Lon- 
dres por morte do príncipe Alberto, ou pelos bel- 
gas no recente trespasso do rei Leopoldo, ambos 
elles da felicissima c sempre adorada dynaslia dos 
Saxc-Coburgo-Gotha. 



SOBRK O ESTYLO 

Escrever neglií?enlemente, c coHfessar que não se da 
grande valor aos i)eiisanioiiios, poniiiodaconvici-ão que 
nós lemos da verdade e da iinporlaiicia das nossas ideas, 
nasce um enlliusiasnio sullicienle para impor ao nosso 
espirito um cuidado iiifali^Mvel na escoltia das expressões 
mais claras, mais Ijellas, mais enérgicas ;— tal como o que 
se emprega n'cssas reli(|uias, n'esses preciosos objectos 
de arte dos receptáculos de ouro e de prata. 



o PANORAMA 



499 



A BOGCA DO INFERNO 

IX 

Chegara o oulono, e a senhora mor.aada não 
se esqueceu dos baii!iosdo mar. Foi para Cascacs, 
como era velha usança na família. 

Chrislina gozava melhor saúde. É que a espe- 
rança lhe doirava os dias. Tinha fé profunda no 
fuluro, que ella enxergava em róseos horisontes. 

Aquelle coração ainda não esterilisado pela in- 
fluencia dos desenganos, cria e esperava, c a ima- 
ginação enlhusiasla rasgava um campo illimilado 
aos projectos de felicidade futura. 

Era assim que ella ia contando os dias da au- 
sência, entregue toda á sua namorada fantasia, 
aos magniíicos esplendores da sua brilhante con- 
cepção, que levantava palácios de oiro e crystal 
para morada dos seus amores; que pi'oduzia cân- 
ticos suavíssimos para lhe deliciarem a vida toda 
passada ao pé de Luiz. Em torno d'aquella fronte 
intelligente adejavam a fé e o enthusiasmo! 

Fossem lá desnoivar-lhe o coração d'aquellas 
illusões! Fossem lá dizer que a separação d'ella e 
Luiz era possivell Rejeitaria esta idéa, porque o 
amor lhe faltava de presentimentos deliciosos. 

E todavia o mau fado devia inutilisar esses pre- 
sentimentos; apagar violentamente aquelle enthu- 
siasmo; arrancar pela raiz todas essas flores de 
poesia e de esperança que lhe enchiam a alma de 
perfumes ! 

Havia mais de quinze dias que a morgada fora 
para Cascaes. O mez de setembro eslava tempes- 
tuoso, como se o inverno estivera em todo o seu 
império. Nas altas regiões onde se geram as tem- 
pestades, durara muitos dias essa lucta de tilães 
que se trava ao som do trovão. 

As elegantes, que costumavam nos annos ante- 
riores ir banhar-se na praia á luz de um sol vi- 
vificante e convidativo, que vinha affagar-lhes com 
ura raio as húmidas tranças, estranhavam muito 
os luctos de um prematuro inverno. Nem uma só 
d'essas manhãs claras, em que o oceano se estende 
como uma planície esverdeada até aos horisontes, 
e a onda vem lamber de manso as areias da praia! 
nem uma só d'essn'-^. noites mysteriosas, cm que a 
lua surge do seio das vagas, para se levantar de- 
pois, como a deusa do amor e da melancolia, na 
vastidão lympida e infinita do-es|)aço! Era tudo 
feio, era tudo triste. Já debaixo dos pés lhe es- 
talavam as folhas seccas do outono, varridas pelo 
sopro do norte: as ruas dos prados estavam en- 
xarcadas, frias, incommodas! 

Eaquellas almasinhas, frescas como a relva dos 
jardins, puras como a agua dos lagos, tinham de 
viver encerradas nas suas habitações, olhando 
atravez dos vidros para o céo nebuloso, para o 
oceano encapellado, como se fossem rouxinoes 
presos na gaiola, para os quaes a falta de liber- 
dade é a tristeza, e a morte! 

D. Capitolina fora este anno para Cascaes na 
companhia da morgada. Esta sympatisava muito 
com a robusta donzclla. Chrislina era-lhe lambem 



affeiçoada. D. Capitolina como não conseguia já 
fazer-se heroina de aventuras próprias, dera em 
protectora dos amores dos outros. Gostava de fal- 
tar ás raparigas nos namorados, e n'essas conver- 
sações saia-lhes ás vezes do peito um suspiro. 
Kram saudades do seu tempo, eram as sombras 
do passado que deslisavam em cortejo por deante 
dos olhos, mas já com formas vagas e indecisas. 

Sabendo que Chrislina amava, insinuou-se facil- 
mente na alma da rapariga, fallando-lhe de Luiz. 

No isolamento era que Chrislina vivia, o encon- 
tro de um coração alíavel e amigo, que lhe rece- 
besse confidencias e desafogcs pareceu-lhe uma 
ventura que Deus lhe deparava. Aproveilou-a e D. 
Capitolina (aparte a monotonia das exclamações) 
sabia ler palavras consoladoras para taes soffri- 
menlos. 

— Olha, minha filha, dizia-lhe às vezes — nós, 
mulheres, nascemos para amar e soífrer ! Ah ! foi 
a nossa sina cá no mundo! Ah! resigna-te que não 
ha outro remédio! Ah! foi lambem o meul... 

Um dia estavam ambas sentadas ao pé da ja- 
nella. Chovia muito. O sul soprava violento e 
tempestuoso , fuzilava para diversos quadrantes. 
Nenhum barco sairá ao mar, e até os homens que 
costumara ir pescar á linha para a borda dos ro- 
chedos não haviara podido approxiraar-se da ex- 
tremidade da costa. 

Chistina com a cabeça encostada aos vidros 
olhava para o céo; as lagrimas corriam-lhe abun- 
dantemente. 

— Pensas no teu Luizinho ? murmurou D. Ca- 
pitolina. 

— Peço a Deus pelos que andam sobre as aguas. 

— Ah ! não te aíTIijas, Deus bade Irazel-o a por- 
to e salvamento. 

— Deus a ouça ! 

E a pobre rapariga ficava do mesmo modo immo- 
vel e muda, invocando a misericórdia divina. Cho- 
rava. As lagrimas nos olhos da mulher revelam 
dór ou sentimento ; porque ou a elevam á subli- 
midade da maityr, ou a levantam até a nivelarem 
com os anjos — fazem d'ella, a imagem pungente 
do solTrimento, como a Virgem aos pés da Cruz 
do Filho; — ou a imagem do amor celestial, co- 
mo a Magdalena abrindo o coração aos sentimen- 
tos duros! 

De repente entrou um criado na sala dizendo 
que da Guia se avistava uma galera correndo des- 
mastreada e sem rumo, a sabor do oceano ; que 
de bordo se havia lançado uma lancha ao mar, e 
que parte da tripulação demandava terra no pe- 
queno bai'Co. 

Chrislina fez-se livida como uma defuncta: o 
coiação déra-lhe um sallo no peito. 

Duas horas depois chegaram outras noticias e 
mais aterradoras. Havia ura naufrágio e viclimas 
a contar d'elle. 

iConlinua.) 

A. d'Oliveira Pires 



O mundo é um circulo que passa da guerra á 
paz e da paz à guerra. 



200 



O PANORAMA 



SENSIBILIDADE DE CONSCIÊNCIA 

Thomaz Curson era um amieiro muilo conheci- 
do na cidade de Londres. Morava perto de Bis- 
hopsgate. Um dia, um actor pedio-lhe emprestada 
uina' espingarda velha que estava misturada com 
muitas outras, já fora de uso, a um canto da loja. 
Este actor, ordinariamente, não entrava senão em 
peças cómicas ; por excepção, tinha de ligurar em 
um* drama como soldado. A noite, appareceu em 
scena, e, como pedia o papel, disparou um tiro; mas, 
infelizmente, a arma achava-se carregada com baila, 
havia muitos annos,eo homem que devia lingir-se 
morto caio, na realidade, ferido mortalmente. Tho- 
maz Curson, ao receber tão triste nova caio em 
um violentíssimo accesso de desespero, e desde 
logo se considerou responsável por esteaccidente, 
no" qual a sua vontade não tinha tido parte alguma, 
e que havia sobrevindo fora da sua presença de 
uma maneira inteiramente imprevista. No dia se- 
guinte dirigio-se á casa da camará e declarou que 
dava metade da sua fortuna, muitas centenas de 
libras, aos pobres, querendo expiar a morte de 
um homem ajudando a viver o maior numero pos- 
sível de famílias indigentes. 



CASTA DIVA 

Era no tempo cândido, 
Vivaz, risonho e iimpido, 
Em (pie o sol surge esplendido 
Dourando as illusôes! 
A primavera ílórida 
Rescende auras Ijalsamicas: 
Passam no ar murmúrios, 
Notas de mil canções! 

Elliereo c casto juhito 
Me transportava o espirito; 
Era o exalçar d'um exlasis!... 
Era um voar ao oeo! ! 
Lii)rava as azas limidas 
Tclos espaços lúcidos 1... 
Sorria a vida plácida, 
Envolta era róseo veo! 

Sentia o enlevo intimo!... 
—Infinda e alma \olui)ia! — 
Hauria o alento vivido 
Da csp'rança festival! 
E a alma desprendia-se, 
Pela amplidão cerúlea 
ISo (lucluar diapliano 
De um sonlio virginal! 

E então no sancluario 
Dos Íntimos antiélitos 
Vibrava ardente c enérgica 
.\ voz da insiiiraçãol 
Vinlia outras vezes languida 
Como um segredo ingénuo, 
Nas lioras do crepúsculo, 
Fallar-mc ao coração 1 

Mas, oh!... passou bem rápido 
Da aurora o róseo id\llio, 
Como é furtivo o hálito 
Da flor do laranjal!... 
Qual (la toada o frémito 
Kesoa apoz o cântico, 
Saudade melancholica 
Exhala o ideal I 



Sumio-sc a visão fulgida 
Deixando a sombra pallida, 
Como o luar seguindo-se 
Á luz de sol vivaz! 
Desfez-se o encanto magico, 
Bem como a es|)uma férvida 
Que á ílor da vaga túmida 
Rebenta, e se desfaz 1 

Cessou a alegre musica... 
E da alma a branda cytliara 
Soltou vago preludio; 
Mas logo emmudeccu: 
Em vez dos liymnos módulos 
Veio o silencio lúgubre... 
E então, não sei que angustia 
Meu peito confrangeu. 

Por que fugiste pudica, 

O mensageira sylphide 

Dos vividos eniuvios 

Do deus revelador?! 

Triste na ausência... evoco-te... 

Oh! vem, de novo, próvida, 

Fazer-me as confidencias 

Do matutino alvor! 

Trazendo a esp'rança myslica 
Do peito ao tabernáculo 
Desce, qual pomba incólume 
Voltando da amplidão!... 
Ou vem outra vez languida, 
Suave e melancholica, 
Nas horas do crepúsculo, 
Fatiar-me ao coração 1 

João M. Tedeschy. 

Abril de 18G6. 



DIVISÃO DO TEMPO 

Os chinos contam por cyclos de 60 annos co- 
meçando três séculos antes de J. C, época em que 
se ado|)tou este systema. 

Os annos compõem-se do mesmo numero de 
dias que os nossos. Este anno de 1806 é o 63 do 
cyclo "i"). 

" Também computam o tempo como alguns povos 
da Eurojía ; isto é, escrevendo, que tal successo 
teve lugar no terceiro dia da segunda lua do anno 
27 de Kien-Lung. 

O dia c dividido em 12 parles e cada uma d'es- 
tas em 8 mais pequenas, cíiuivalentes ao nosso quar- 
to de hora de 15 minutos. 

Geralmente servem-se dos relógios europeus. 

Os seus relojoeiros fabricam-n'os de madeira. 
Os homens trazem os relógios suspensos da cin- 
tura. A moda é usar dois, um de cada lado; isto 
explica o motivo porque n'a(iuelle paiz se vendem 
sempre os relógios aos pares. 

Também possuem quadrantes solares. Parece que 
aprenderam a construil-os com os missionários 
europeos. 

Desde tempos muito antigos lêem relógios que 
marcam as horas jjor meio da agua, como nós te- 
mos os de arèa ; porém não ha semelhança alguma 
entre uns c outros. 

O modo mais geral de marcar as horas consis- 
le em t|U('iiiuir uma espécie de vara de incenso, 
posta per|)en(lirularmente em um castiçal. O peda- 
ço de vara queimado indica o tempo que se pas- 
sou. 

Typ. Fninco-Portguoz:), l\u;i do Thusouro Velho, 0. 



26 



o PANORAMA 



201 




Arco da Rua Augusta 



A gravura, que boje o Panorama apresenta aos 
seus leitores, lem por lim justificar o nosso século 
perante a posteridade. Quando os historiadores 
futuros tratarem de mytho o arco da rua Augusta, 
quando asseverarem que essa conslrucção existio 
apenas na cabeça dos estadistas portuguezes, a 
nossa gravura responderá liiumpbantemente asse- 
verando aos nossos netos que existio um plano, 
que houve um desenlio, que a porta sumptuosa ^da 
cidade chegou a viver completa, pelo menos, no 
papel. 



O arco da rua Augusta ha de ser, estamos d'isso 
convencidos, um monumento de séculos. Cada ge- 
ração ba de liazer uma pedra, accresccntar um 
festão, bordar um lavor, juntar uma estatua, ren- 
dilhar uns cinzelados, prolongar um entabla- 
mento, tecer uma nova grinalda. Em quanto exis- 
tir Portugal, lia de estar em via de construcção o 
arco da rua Augusta, ^"um romance de Alexandre 
Dumas ba uma noiva, que, esperando a volta do 
esposo, borda o seu vestido nupcial, calculando o 
trabalho do maneira que dè o ultimo matiz no dia 



202 



O PANORAMA 



eni*que deve chegar o escolhido do seu coração. 
Demora-se o noivo e o bordado ooiiliinia, cnlrc- 
meiando novas flores, enchendo a tela, que ainda 
licàra desoccupada. Parece-nos que não havemos 
de errar egualiuente, c que a ullima pedra do arco 
lia de ser posta na véspera do Juizo [mal. 

O arco da rua Augusta tem tido etíectivamenle 
uma existência legendaria. Pesa sobre elle a mal- 
dição que fulminou outr'oi'a a egreja de Santa 
Engracia. Como esta sua irmã mais velha, já deu 
origem a provérbios. «O relógio da rua Augusta» 
ligura tantas vezes nas palestras populares como 
as (cobras de Santa Engracia» e a lenda ainda ha 
de vir a apoderar-so d'aquelle monumento fabu- 
loso, que, da mesma forma que os palácios das 
fadas, os jardins dWrmida, ou o caslello de Bella 
e da fera, só parece existir na imaginação dos 
poetas do ministério das obras publicas. 

Em um dos próximos números daremos aos 
nossos leitores a historia d'este monumento. Por 
hoje, limitar-nos-hemos a explicar resumidamente 
o projecto apresentado pelo dislincto artista fran- 
cez, o sr. Calmeis, que era, como se vô na gra- 
vura, digno de ter apparecido um século antes, e 
de haver sido comprehendido por Sebastião José 
de Carvalho, o ultimo homem que soube em Por- 
tugal executar grandes cousas. 

O grupo, que domina o arco, forma a parle al- 
legorica, e representa a Gloria coroando o Génio 
e o Valor. D'este grupo, cuja execução foi confia- 
da ao sr. Calmeis, auctor do plano, estava o mo- 
delo na exposição internacional do Porto, onde foi 
objecto da admiração de todos os que o contem- 
plaram. O sr. Calmeis, com quem o governo por- 
tuguez tem zombado em todas as obras que lhe 
contiou desde o monumento a D. Pedro IV até ao 
arco da rua Augusta, empregou n'cste grupo co- 
lossal todos os recursos do seu notável talento, e 
fez effectivamente d'elle uma obra prima, digna 
de se fitarem logo n'ella os olhos do estrangeiro, 
que desembarca nas praias da nossa formosa Lis- 
boa. 

As quatro figuras inferiores representam Vi- 
riato, Nuno Alvares Pereira, Vasco da Gama e 
Marquez de Pombal. Os dois vultos lateraes são 
ainda allegoricos, e figuram o Tejo e o Douro. 



A TERRA 

Que provaM positivaN cximtom Uc iinc v redonda, imo 
giru Nolirc Mi e ú roda do isol 

Vamos agora ao terceiro ponto d'csta noticia, 
ás provas positivas do movimento da Terra. 

Notemos primeiramente que as apparencias dos 
objectos exteriores serão para nós identicamente 
as mesmas, ou seja que, estando a Terra cm rc 
pouso, estes objectos estejam em movimento, ou 
que, estando estes objectos em repouso, a Terra 
esteja cm movimento. Se a Terra em seu curso 
arrasta todas as cousas que liie pertencem, as 
aguas, a alhmosphera. as nuvens, etc, n(js não 
poderemos ter consciência d'cste nio\imento, cujo 
participamos, senão pelo aspecto vario do céo 
immovel. Ora, sendo em um e outro caso as 
apparencias sempre as mesmas^ a hypothese do 



movimento da Terra explica tudo, e sem ella 
cae-se em uma inaceitável complicação de sys- 
teraas. 

Se a Terra gira sobre si em vinte e quatro 
horas, podemos vêr immediatamente que, sendo 
o seu raio mcdio de 1432 léguas, e a sua cir- 
cuinferencia de 9000, um ponto situado sobre o 
equador percorrerá um decimo de légua por segundo. 
Esta velocidade, que parece considerável, tem 
sido olhada como uma objecção contra o movi- 
mento da Terra. Mas vejamos agora de que ve- 
locidade sem igual, seria necessário animar as 
espheras celestes para fazei as percorrer cada 
uma a circumfereneia do céo no mesmo lapso 
de vinte c quatro horas. 

Em primeiro lugar, o Sol estando afastado 
da Terra 23000 vezes o raio terrestre, na hypo- 
these da immobilidade da Terra aquelle astro 
descreveria uma circumfereneia 23000 vezes maior 
que os pontos do equador, o que dá uma velo- 
cidade de 2300 léguas por segundo. 

Júpiter está pouco mais ou menos cinco vezes 
mais longe: a sua velocidade seria de 11500 lé- 
guas por segundo. 

Neptuno., trinta vezos: deveria percorrer 69000 
léguas por segundo. 

Taes seriam as diversas velocidades de que os 
planetas deveriam estar animados para girarem 
á roda do nosso globo, como parecem fazel-o. 
Vé-sc, pois, que a objecção contra o movimento 
da Terra de um decimb de légua por segundo 
nada é comparativamente com o que resulta de 
semelhantes números. 

O que seria se considerássemos as estrellas fi- 
xas?! A estrella oc do Centauro, deveria percor- 
rer 520 milhões de léguas por segundo. E, gra- 
dualmente, até ás estrellas longínquas, chega- 
ríamos ao infinito sem encontrarmos um numero 
que podesse exprimir a velocidade dos astros 
para girarem em torno d'este ponto invisivcl 
que se chama Terra. 

Accrescentemos a isto que estes astros são, um 
1400 vezes mais volumoso que a Terra, outro 
1400000 vezes, outros ainda maiores; que não 
estão reunidos entre si por laço algum solido 
que podesse ligal-os a um movimento das abo- 
badas celestes; que estão todos situados em mui 
diversas distancias; e esta medonha complicação 
do systcma dos céos testemunhará por si mesma 
da sua não existência — poderíamos dizer da sua 
impossibilidade mechanica. 

Mas não somente pela admissão do movimento 
da Terra em roda do seu eixo se pódc com- 
prehender o movimento diurno da csphcra ce- 
leste; os movimentos dos planetas no zodiaco, 
as suas estações c as suas retrogradações, recla- 
mam com o" mesmo rigor o movimento da Terra 
á roda do Sol. Para explicarem as apparencias 
planetárias, suppondo a Terra immovel, os anti- 
gos imaginaram vinte c quatro círculos mettidos 
uns nos outros, círculos sólidos ou céos de cris- 
tal cuja complicação nada podia igualar, c que, 
se podessem existir um instante^ immediatamente 
seriam feitos em pedaços pelos cometas vaga- 
bundos ou pelos aérolitíios que girassem no es- 
paço. 

Por outro lado ainda, a analogia vinha confir- 
mar singularmente a hypothese do movimento 
da Terra e mudar a vcrisimilhança em certeza. 
O telescópio mostrava nos planetas terras analo- 



o PANORAMA 



203 



gas á nossa, com um movimento de rotação á 
roda do seu eixo, movimento de rotação de vinte 
e quatro horas para os planeias mais próximos 
c de menor duração para os mundos distantes 
do nosso systema. Assim a simplicidade e a ana- 
logia são a favor do movimento da Terra. Ajun- 
temos também que este movimento é rigorosa- 
mente exigido e determinado por todas as leis 
da mcchanica celeste. 

A grande difficuldade que se tinha avançado 
contra o movimento da Terra, e que foi aceita 
durante algum tempo era esta: Se a Terra gira 
debaixo dos nossos pés, elevando -nos no espaço 
e achando o meio de conscrvar-nos alli alguns 
segundos ou minutos, deveríamos cair, depois 
d'este lapso de tempo^ em um ponto mais Occi- 
dental que O ponto dê partida. O individuo, por 
exemplo, que, no equador, achasse meio de 
sustentar-se iramovel na athmosphera durante 
trinta segundos^ deveria cair três léguas ao occi- 
dente do lugar donde tinha partido. — Excel- 
lenle maneira de viajar. — Alguns sentimenta- 
listas, Buchanan entre outros, deram á objecção 
uma forma mais aííectuosa, dizendo que, se a 
Terra girasse, a rola não ousaria sair do seu ni- 
nho, porque depressa perderia inevitavelmente 
de vista os seus filhinhos. — É de uma grande 
innocencia. 

O leitor já respondeu a esta objecção reflec- 
tindo que tudo quanto pertence á Terra parti 
cipa, como em um artigo o dissemos, do seu 
movimento de rotação, e que, até aos últimos 
limites da athmosphera, o nosso globo arrasta 
tudo em seu curso. 

A observação directa de diversos phenomenos 
tem confirmado a theoria do movimento da Terra, 
e tem-na confirmado com provas materiaes irre- 
cusáveis. 

Se o globo gira, desenvolve uma certa força 
centrífuga; esta força será nenhuma nos poios, 
terá o seu máximo' no equador, e será tanto 
maior quanto mais distante se achar do eixo de 
rotação o objecto ao qual ella se applica. Será 
cm ponto grande o que existe em ponto pe- 
queno, em uma funda ou em uma roda livre 
em movimento rápido. Ora, supponhamos que 
se fixa um prumo no cume de uma torre, c que 
o pezo que o estende desce até á superficie do 
solo. A direcção d'este prumo para o centro da 
Terra, isto é, seguindo a perpendicular ao nivel 
da agua, será um pouco modificada pelo effeito 
da força centrífuga resultante da rotação do 
globo, ínedida ao pé da torre. Se igualmente se 
lixa no cume da torre, a uma pequena distan- 
cia a leste do primeiro, um segundo prumo 
muito mais curto, cujo pezo fique situado um 
pouco abaixo do ponto de partida; este segundo 
prumo não terá inteiramente a direcção do pri- 
meiro, porque a força centrífuga devida ao mo- 
vimento da Terra, sendo maior no cume da torre 
que na sua base, fará desviar o cordel um pouco 
mais a leste. — Esta observação minuciosa tem 
sido feita e repelida com o maior cuidado: é 
portanto, mais uma prova do movimento da Terra. 

As oscillações da pêndula de segundos confir- 
mam o precedente facto. Não é somente, pelo 
raio equatorial ser maior que o raio polar, que 
as oscillações são mais lentas no equador que 
nos poios; a diíTerença é muito grande para ser 
atlribuida unicamente a essa causa. No equador. 



a força centrífuga attenua em parte o effeito do 
pezo. Uma observação curiosa é, que no equa- 
dor esta força regula ',5,^ do pezo. Ora, como o 
pezo cresce proporcionalmente ao quadrado da 
velocidade de rotação, e que 289 é o quadrado 
de 17, se a Terra girasse 17 vezes mais rápida^ 
os corpos collocados no equador não pezariam: 
uma pedra lançada no espaço não cairia. 

Eis outro facto, não menos positivo que os 
precedentes, e mais fácil a apreciar em suas 
consequências, a favor do movimento da Terra. 
Se a Terra fosse immovel e que a esphera estrel- 
lada girasse em torno d-ella cm 24 horas, os as- 
tros nunca passariam pelo meridiano, e nunca 
nasceriam nem se poriam, no instante em que 
o indica a linha da sua longitude no céo. Os 
raios luminosos que nos enviam, havendo inter- 
vallos desiguaes, segundo as suas distancias re- 
ciprocas, fariam uma extrema confusão nas ho- 
ras da sua passagem apparente. Tal astro que, 
na realidade, passa agora pelo meridiano, está 
situado a uma tal distancia que a sua luz de- 
mora seis horas para chegar até nós ; não appa- 
recerá, pois, senão seis horas mais tarde, isto é 
no momento do seu occaso. Tal outro astro le- 
vará doze horas para se mostrar; tal outro, me- 
zes, annos, etc. Eis uma nova prova material de 
que não são as espheras celestes que se movem, 
mas sim a própria Terra. 

Os movimentos próprios annuaes das estrellas 
no céo, de que opportunamente fallaremos, for- 
necem igualmente uma prova positiva do movi- 
mento da Terra em roda do Sol. O mesmo se 
dá com o phenomeno da abherração da luz. 

A physica do globo tem, também por seu lado, 
fornecido um bom contingente de provas á theo- 
ria do movimento da Terra, e péde-se dizer que 
todos os ramos que se prendem, de perto ou de 
longe, à cosmographia, acham-se unidos para a 
confirmação d'esta theoria. A própria forma da 
espheroide terrestre mostra que este planeta foi 
originariamente uma massa fluida animada de 
uma certa velocidade de rotação, conclusão a 
que os geólogos teem chegado nas suas averi- 
guações pessoaes. 

Outros factos, como as correntes da athmos- 
phera e do oceano, as correntes polares e as 
monções, teem sua causa igualmente na rotação 
do gíobo. 



AZARIA 

Foi uma rude luta a que os nossos avós trava- 
ram com os mouros. Não foi uma serie de guer- 
ras, separadas por tratados de paz, foi um com- 
bale constante, de cada dia, de cada hora, sem 
um minuto de descanço. As praças fronteiras 
estavam conslantemente em pé de guerra contra 
as correrias dos mouros, e lambem para irem le- 
var ás cidades, aldeias, c campos inimigos o 
mesmo terror e o mesmo sobrcsalto que elles tra- 
ziam aos nossos. D'abi provinha a formidável or- 
ganisação militar da idade media, os almogavares 
com o* seu adail, as alalayas, os csculcas, os ar- 
ricaveiros e vigias a cujo cargo estava a defensão 
das cidades, ou a aggressão dos mouros, que an- 
davam sempre á espreila rcceiando ver accen- 
der-se ao longe o fogo das almenares mouriscas, 



204 



O PANORAMA 



temendo senlir de súbito o galope dos cavallos 
inimif^os, e divisar por entre a escuridão da noite 
os alvejantes albornozes dos árabes. Não havia 
tréguas, nem repouso, nem inlervallo para aquelle 
combater frenético, raivoso, e incançavel. 

Os liabi (antes das povoações fronteiras não ou- 
savam aíTastar-se um instante desarmados da som- 
tra dos seus muros, e para prevenir as conse- 
quências sempre fataes d'algumas imprudências, 
os nossos reis haviam providenciado de diversos 
modos prohibindo a saída de um bando qualquer 
de chrislãos sem que fossem acompanhados de 
gente armada. 

Uma das occupações mais perigosas da lude 
vida dos habitantes* da raia era o irem cortar le- 
nha. Não havia lloresta, que se não assemelhasse 
ao incantado bosque do Tasso, e que não esti- 
vesse cheia de perigos, emboscadas, e traições. 
Cada arvore podia esconder um inimigo, e ao 
som da cúspide do machado lascando o carvalho 
podia responder de súbito o grito de guerra dos 
corredores mouriscos. Por isso era expressamente 
prohibido saír-se das praças fronteiras para cor- 
tar lenha nos mallos sem ir o bando dos racha- 
dores acompanhado por um troço de gente ar- 
mada. 

Era raro por conseguinte que se fizesse provi- 
são de madeiras sem que o sangue tingisse o solo : 
emquanto as ardores caíam decepadas pelo ma- 
chado dos portuguezes, revoluteava a pel(^"a a 
pouca distancia, e o montante christão, e o al- 
fange mouro abriam largos sulcos nas fdeiras dos 
combatentes. 

Estranho destino o dos nossos antepassados! 
Estranha existência essa que contava uma peleja 
sanguinolenta no numero dos seus mais vulgares 
incidentes! E que heróica geração! que espirito 
de bronze não era necessário para alTrontar com 
serenidade esses perigos de cada instante, essas 
tribulações, essas angustias pungentes, esse tremer 
de cada momento pela sorte do esposo, e dos fi- 
lhos, quando a própria vida lhe fosse indifíerente. 

Com tudo isto não dissemos ainda como as pe- 
lejas travadas no acto de irem os nossos antepas- 
sados cortar lenha se ligam com o titulo que dê- 
mos ao nosso artigo. Vamos dizel-o agora. Esses 
combates já previstos, á força de se repetirem, 
recebiam o nome de azarias, e a distribuição das 
prezas que n'elles se faziam eslava sujeita a uma 
legislação especial. 

A etymologia d'esta palavra Azaria dá-a Santa 
Rosa de Viterbo no seu Elucidário da seguinte 
maneira. 

O nome do machado n'esse lempo, na infantil 
linguagem portugueza, era aza. Ora, como n'esse 
serviço de cortar lenha c o machado o instru- 
mento que se emprega, ficou a essas expedições 
(assim lhes podemos chamai'; o nome de Azarias. 
Nus foraes antigos de algunuis villas se encon- 
tram as leis que regiam, como dissemos, a dis- 
tribuição das prezas feitas n'essas escaramuças, 
prezas que consistiam quasi unicamente em cavai- 
los. Assim se os corcéis tomados chegavam ape- 



nas para que cada homem da expedição ficasse 
com um cavallo, nada reclamava o senhor da 
terra; se a preza era mais abundante pertencia 
então a este a quinta parte do valor da preza to- 
tal. 

MOZART 

Porque motivo apparecem na musica, mais do 
que em qualquer outra manifestação da intelli- 
gcncia humana, essas crianças prodigios, que, na 
idade cm que as outras apenas balbuciam a nos- 
sa linguagem^ conhecem já todos os segredos da 
grande arte, e transformam o teclado sonoro do 
piano, as cordas vibrantes da rebeca n'outras 
tantas vozes cheias de lagrimas e palpitantes de 
commoçao, que vão despertar no auditório estu- 
pefacto sentimentos ainda desconhecidos dos pró- 
prios que os excitam? Porque motivo a historia 
da musica inscreve nas suas paginas os nomes 
gloriosos de Liszt, de Mozart, d'Artlmr Napoleão^ 
em quanto a poesia e a pintura, limitando-se a 
apontar o talento precoce d'alguns dos seus cul- 
tores mais notáveis, nunca se ufanaram de con- 
tar nos seus fastos crianças rivaes de Virgílio, 
pintores infantis rivaes de Raphael? 

É porque os entes privilegiados para quem a mu- 
sica tem de vir a ser a linguagem sublime, cm 
que hão de traduzir as concepções do seu génio, 
aprendem-n'a, como nós, crianças vulgares, apren- 
demos o idioma banal, o idiorna de todoSj o idio- 
ma que, segundo formos ou não fadados para as 
grandes coisas, nos bastará para as necessidades 
vulgares da existência ou com o qual luctaremos 
corpo a corpo, frementes de raiva ao sentirmos 
a coramoção, a poesia, o elevado pensamento es- 
vair-se ao contacto das frias palavras da lingua- 
gem humana. Esta linguagem aprendemol-a nós 
dos lábios malernaes, e se é ainda musica na voz 
suave 'da infância, é porque não teve lempo de 
se esvair a fragrância de poesia, com que a per- 
fumou o coração das mais, se ainda então é gor- 
geio, é porque a nossa alma, passarinho exilado, 
conserva umas vagas lembranças das melodias 
do céo. Depois vem a prosa da vida, c s() a 
alma dos poetas saberá conservar, no meio do 
turbilhão social, as doiradas reminiscências da ce- 
leste pátria. 

Mas os poetas da musica, os poetas sobre todos 
os outros filhos dilectos de Deus, se tiveram, co- 
mo nós, o anjo maternal para lhes suavisar a ru- 
de lingua da terra, tiveram um outro anjo, que 
lhes apparece c lhes falia em sonhos, e n'essas vi- 
sões luminosas lhes ensina uma outra linguagem, 
uma linguagem do céo, um idioma privilegiado 
c immaculado, que lhes poisa nos lábios o mel 
fragrantissimo da poesia, que os baptiza com os 
orvalhos do Empyreo, que lhes abre de par cm 
par a port i, para nós cerrada a sete chaves, d'essc 
mundo prestigioso intermediário á terra c ao pa- 
raizo, mundo todo povoado de sylphos e fadas c 
duendes, mundo de visões sublimes, mundo de 
harmonias mysleriosas, escada de Jacob por onde 
os anjos descem a visitar os homens, e por onde 
o pensamento humano sobe enlevado c emi)evc- 
cido a contemplar de perto as maravilhas do olym- 
pico fulgor. 

Esse mundo sublime, essa escada myslcriosa ó 
a musica. 



o PANORAMA 



205 



Um cVesses escolhidos, uma d'essas crianças 
predestinadas foi Mozart. Nascido em Salzburgo 
a 27 de janeiro de 1756 já em 1762 arrebatava, em 
Wunich e em Vienna, lodos quantos o ouviam, com 
as torrentes de melodia que os seus dedos peque- 
ninos sabiam fazer jorrar do piano e com a sua 
maravilhosa e magistral execução. Seu pai, mu- 
sico dislincto, principiara a ensinar-lhe a sua ar- 




Mozart. 

te quando elle tinha quatro annos. Na idade em 
que as outras crianças alinham em ordem de ba- 
talha os soldados de chumbo das caixas de Nu- 
remberg, em que espreitam curiosos a cauda do 
piario, ou despedaçam, se podem, o bojo das re- 
becas para verem que rouxinol mystcrioso des- 
canta lá dentro essas ineífaveis melodias^ o loiro 
allemão debruçava-se pensativo sobre as teclas, 
e dava com as alvas raãosinhas voz ao desconhe- 
cido passarinho, que os seus companheiros de 
brinquedos phantasiavam. 

Uma das originalidades d'aquella criança origi- 
nal era o não querer tocar senão diante de en- 
tendedores. A sua deUcada organisação de sensi- 
tiva parecia que se assustava com os applausos 
inconscientes do vulgo, como o seu ouvido finís- 
simo estranhava a mais leve desharmonia. O ju- 
venil Ganymedes adivinhava nos seus presenli- 
mentos que o génio, essa águia de Jupiler, o ha- 
via de empolgar nas garras e transportal-o ao céo, 
c não podia já contentar-se com o licor inebrian- 
te do elogio banal, desejava só o néctar que cir- 
cula na meza dos immortaes. Em Vienna pedio 
com todo o desembaraço ao imperador Francis- 
co que mandasse chamar o celebre musico AVa- 
genseil. Veio o grande liomem, e a criança de 
seis annos, sem a mais leve hesitação, tocou um 
dos concertos que elle já compunha, e acolheu 
com modéstia^ mas com jubilo^ os applausos do 
mestre. 



Até então exercitara-se elle apenas no piano ; 
acompanhava-o sua irmã, criança também, que 
possuia ura raro talento de executante. Mas no 
piano não linlia mais que aprender; estava tão 
senhor do instrumento, como o poderia estar um 
velho pianista. Tentou-o então a rebeca, e, ape- 
nas empunhou o arco, mostrou logo n'essa nova 
lingua a mesma superioridade. Seu pai, louco 
de contentamento, e, vendo na torrente de har- 
monia, que jorrava dos dedos de seu filho, um 
verdadeiro Pactolo, decidio aproveital-o empre- 
hendendo com elle viagens artísticas. Aos sete 
annos deslumbrou Paris, aos oito annos Londres. 
Começava-se já também a revelar o génio do com- 
positor. Na capital da França publicou sonatas 
para piano, na capital da Inglaterra, nos concer- 
tos que deu, só tocou symphonias da sua com- 
posição. Tinha nove annos quando percorreu a 
lloUãnda, onde esteve perigosamente enfermo. 
Voltou de novo a Paris, atravessou a Suissa, e 
no fim do anno de 1766 entrava em Salzburgo, 
não contando ainda onze annos de idade, e com 
a fronte ornada de mais loiros, do que os que 
habitualmente conquista um grande homem no 
decurso d'uma longa vida. 

É uma estranha biographia esta de MozarI ! Os 
annos da infância, que n'um rápido esboço bio- 
graphico habitualmente se passam em claro pa- 
ra depois se ir tomar o heroe no momento cm 
que verdadeiramente nasce para a immortalida- 
de, são exactamente aquelles que o biographo de 
Mozart deve narrar mais circumstanciadamente. 
Parecia que o grande espirito do maestro alle- 
mão, sabendo que pouco tempo havia de habitar 
no frágil corpo que escolhera para morada, tinha 
pressa de viver, e de deslumbrar o mundo. O fo- 
go, que aos trinta e seis annos havia de consu- 
mir Mozart, não brotava primeiro n'uma frágil 
scentelha que se ia a pouco e pouco aclarando, 
que lavrava em silencio alé se revelar em pleno 
fulgor. Não ; a chamma irrompia logo abrazado- 
ra c esplendida, o sol assomava no horisonte, 
quasi sem ter aurora, subia ao zenith, illumina- 
va novos e mais vastos horisontes, e depois des- 
cia rapidamente também, esmorecia no occaso, 
atufava-se no oceano da eternidade, mas deixa- 
va no mundo um longo 'rasto de luz. 

Era 1768 vamos encontral-o em Vienna, com 
doze annos, compondo por ordem do imperador 
José uma opera intitulada La finta simplice, ope- 
ra, que nunca se representou, mas que obteve 
os applausos do maestro Hasse, e de Metastasio, 
o poeta cesáreo, o grande lyrico, o companheiro 
d'ovações de todos osgrandes músicos da época. 

Pouco depois na inauguração d"uma igreja, é 
o Offerlorio composto por elle, e é a criança de 
doze annos quem rege a orchestra formada dos 
primeiros executantes de Vienna. 

Fallava-lhe ainda percorrer a Itália, a velha 
raatriarcha das artes, a soberana do mundo, que, 
deixando rolar aos pés dos estranhos o seu dia- 
dema de rainha, conservou sempre incontestada 
a coroa de flores que a proclamava soberana artís- 
tica. A varinha branca do génio de Mozart pro- 
duzio na formosa península as costumadas ma- 
ravilhas, c os Italianos, soberbos desprezadores 
da musica estrangeira, tiveram de se curvar pe- 
rante o bárbaro germânico, e de presentir n'elle 
um mestre, mais do que um mestre, um inicia- 
dor. 



206 



O PANORAMA 



Em Milão, no fim d'oiitubro de 1770, contan- 
do pouco mais de quatorze annos, compoz a ope- 
ra de Mithridatcs, que foi representada pela pri- 
meira vez no dia 2(i de dezembro d'esse anno c 
que obteve grande numero de representações. 

Em 1771 temol-o de volta a Salzburgo, onde 
compõe para o casamento do archiduque Fer- 
nando uma serenata tbeatral, intitulada Ascanio 
in Alba. O compositor tem quinze annos. 

Em 177:2, para a sagração do novo arcebispo, 
compõe a serenata 11 sogno di Scipioue. Tem de- 
zeseis annos o auctor. 

Em 1773 compõe a opera Lúcio Silla, que se 
representa vinle e seis vezes seguidas. Sóbc ao 
capitólio o triumpbador aos dezesete annos, quan- 
do os outros ainda nem fizeram as primeiras ar- 
mas. 

Em 177,'), com dezenove annos escreve a opera 
cómica La finta Giardiuiera. Depois duas missas, e 
uma serenata II Be pastore. Chamam-n'o de Pariz 
os Francezes curiosos de verem o prodígio, que 
tanto avultara depois que elles tinbam assistido 
ao balbuciar do seu génio. Prende-se Mozart bas- 
tante tempo na corte juvenil de Maria Antonieta, 
que ainda nem sequer presente o seu triste des- 
tino, e quando volta a Vienna em 1779 é nomea- 
do compositor da camará imperial. 

(Continuo )^ 

A BOGCA DO INFERNO 
X 

- No dia seguinte entraram em Cascaes onze ho- 
mens rolos, com os roslos macerados, implorando 
compaixão. Eram os tripulantes que se haviam 
salvo do naufrágio da galera. 

A morgada, que era esmoler e possuia excel- 
lenle coração, pedio para que lh'os trouxessem á 
sua presença porque desejava soccorrel-os. In- 
quiridos por 1). Thereza, os náufragos conlaram 
que haviam saido de Cabo Verde para Lisboa; 
que a lenipeslade os assaltara já á visla das cos- 
tas de Poilugal, rasgando as velas ao navio c 
desarvorando-o. O mar levàra-lhc depois o leme 
e as bilaculas. Quando se avisinharam da cosia, 
impeliidos á mercê das ondas, o navio fazia já 
lanla agua, que as bombas não podiam esgolal-a. 
O capitão mandara-os enlão arriar a lancha, que 
o mar ainda respeitara, ordenando-lhes que em- 
barcassem neiia e se salvassem. Elle, o piloto, o 
contramestre, e um segundo lenente da marinha 
real que vinha de passagem reservaram-sc para o 
lim. Eram bravos marinheiros aos quaes a idéa 
da morte não amedionlava. Os onze lrij)ulanles 

— quantos a barca i)odia conter — lizerani-se de 
remos procurando salvar-se. O oflicial, contava 
um, licàra agarrado a um resto da amurada com 
os olhos lixos em terra. Depois, diziam elles tris- 
temente, a galera tremeu n'nina convulsão pro- 
longada, como o eslorcer da agonia, jtrincipiou a 
redemoinhar, estoirou, c desapparcccu. O tenente 
descera firme para o fundo. 

Chama va-se Luiz de Mello. 

Ouando este nome saio dos lábios do um dos 
naufiagos, gelaram lodos de e.sj)anlo. Chrislina 
caio desam|iai;)da no chão... como a açucena 
que o tuíão pende na haste. 



Depois de recuperar os sentidos pareceu cair 
n'uma perigosa excitação mental. Passava as mãos 
pela fronte, d'onde manava suor frio, como se 
quizesse arrancar de lá uma imagem dolorosa. Os 
que sentem como ella arder no cérebro o fogo de 
uma imaginação exaltada, fujam de o atear, por 
que no incêndio pôde ir-lhes o entendimento. 

Torturava o coração observar a mudez insen- 
sata de Chrislina, a pallidez que lhe cobria as fa- 
ces, o espesso véo que lhe entenebrecia as fei- 
ções. O infortúnio passara por aquelle rosto a sua 
mão destruidora ; a angustia saccudira as negras 
azas sobre a fronte virginal, (Kaíiuella que talvez 
hoje cinge, reluzente de divinos resplendores, a 
coroa dos predestinados de Deus! 

A este estado de excitação seguio-se a atonia 
profunda. Era impossível arrancar-lhe uma pala- 
vra, provocar-lhe um movimento. 

No dia seguinle a alvorada invadindo com seus 
mágicos clarões o aposento de Chrislina, veio en- 
contral-a mais repoisada das lutas do espirito em 
que duianlc a noite se debattera. No seu rosto 
pallido havia uma doce serenidade, como se a es- 
perança animasse aquelle pobre coração! Parecia 
resignada. Por entre os lábios saia-lhc o susurro 
das orações. Dir-se-ia que uma inspiração divina, 
provocada pela fé viva d'aquella alma, descera 
sobre a infeliz para lhe fazer encontrar remédio 
nas consolações religiosas dos que recebem o in- 
fortúnio das mãos de Deus, e se lhe curvam sub- 
missos, como a decretos da Providencia, cujas in- 
tenções não é dado á crealura discutir, nem ave- 
riguar ! 

A resignação, porém, era apparenle. 

Aquella serenidade exterior repousava no de- 
sespero de uma resolução tremenda. 

Pedio que a deixassem só porque, dizia cila, 
queria chorar livremente; mas quando horas de- 
pois voltaram ao quarto já não a encontraram 
Tinha saído sem ser vista, e foi debalde, que 
D. Thereza expedio criados em busca d'ella. 

Um pescador que pelo cair da tarde se approxi- 
mou da costa e olhou para a Bocca do inferno, 
vio um pedaço de vestido branco preso a uma 
ponta da rocha. Lá em baixo não havia mais ves- 
ligios — a onda varre quanto lá encontra. 

Mas na madrugada foi visto passar distante da 
praia um cadáver boiando à mercê das ondas. 

Lm barco tripulado por quatro homens foi ao 
alcance do cadáver. 1'^ra já noite cerrada quando 
volveram á praia. As vagas estiravam-se espumo- 
sas sobre a areia, e o desembarque foi diílicil; 
mas á luz de alguns archotes os quatro homens 
levantaram nos braços um vulto de mulher, en- 
volto em roupagens brancas, com os loiros cabei- 
los soltos c alagados. 

Era o cadáver da pobre Chrislina. 

E a tempestade não seienára ainda; c o mar 
rugindo na sua cholera tremenda por entre os ro- 
chedos da Jiovra do inferno, preludiava um hymno 
de morte, hymno solemne e lerrivcl, á |)obre mar- 
t\r (pie U)\i\ no seio d'ellc procurar um tumulo, 

A. I)'0l1VEIU.V PlRIíS 



o PANORAMA 



207 



o SOMNO DAS PLANTAS 

Quando a luz do eco tinge de uma côr pura 
c brilhante as flores da terra ; quando os prados 
se desenrolam ante nossos olhos com o rico ador- 
no da sua verde relva e das suas flores; quando 
os insectos alados zumbem por cnlrc estas c a 
leve mariposa lhes rcvokitea em torno ; então 
sentimos pezar que a noite estenda o seu negro 
manto sobre este vasto quadro da natureza c que 
divida por um entreacto mysterioso o grande 
drama do mundo. 

O homem destinado a assistir a este sublime 
espectáculo descansa apenas desapparece o sol 
no horisonte, do mesmo modo que aquelles se- 
res ; deixa suas sensações para o dia seguinte e 
dorme tranquillo ou agitado por ambiciosos de- 
sejos. 

Não turbemos o seu socego; vamos^ porém^ aos 
campos em uma noite de estio: corramos as col- 
linas e os prados cobertos de flores, que antes 
tanto nos haviam chamado a attenção, ou va- 
mos debaixo da abobada sombria dos bosques 
seculares, que durante o dia servem para resguar- 
dar do ardor do sol. Não temamos cousa algu- 
ma n'este passeio, pois de noite não são os sen- 
tidos que nos produzem as impressões: a alma 
é que sente e julga ; a estas horas parece que os 
espíritos celestes se aproximam da terra e exer- 
cem sua intluencia sobre os vivos. Ah ! porque 
não havíamos de reconhecer esses seres incorpó- 
reos destinados como nós a considerar os prodí- 
gios da creação I Porque não nos havíamos de 
entregar aquelles presentimentos que tão raras 
vezes nos enganam e que nos são suggeridos por 
seres superiores ? Se cada alma pura tem um 
anjo da guarda que a conduz por entre os es- 
colhos^ n'esse caso nada receiemos e emprehen- 
damos o nosso passeio nocturno. 

O influxo religioso da noite^ começa no mo- 
mento em que o sol diz «Adeos» á terra, quan- 
do o mundo animado lhe envia a sua sublime 
despedida. 

Então já não c Ião puro o azul do céo ; os va- 
pores condensam-se formando leves gases, que 
o zéphyro conduz a seu capricho em tiras ílu- 
ctuanles, e que se reúnem formando um espes- 
so véo para occultar o astro resplandecente no 
momento mesmo em que termina a sua car- 
reira ; porém durante algum tempo inunda de 
luz o horisonte mostrando tftdas as cores desde 
a purpura até á roza. Ligeipas nuvens semelhan- 
tes a rolos de algodão, desprendem-se da massa 
geral c correm em direcção ao zenith para alcan- 
çarem alli o ultimo raio do astro moribundo, e 
o crepúsculo estende suavemente suas sombras, 
cujos contornos passam velozes como o tempo e 
fugazes como a vida. N'este instante cessa o ruí- 
do do dia e não resôa a voz sublime da nature- 
za em suas distínctas acclamarõcs^ que se elevara 
até á divindade. A ave que poisa sobre os ra- 
mos flexíveis da madresilva ou se occulta nos 
ramalhetes de flores do espinheiro branco, ces- 
sou os seus cantos de amor; os insectos dobra- 
ram as suas azinhas debaixo da coberta dourada 
que as occulta e embalados docemente no cálix 
odorífero da flor descançam sob uma cortina de 
purpura e saphira. O eco já não repete os can- 
tos dos pastores; tudo dorme na natureza; nós, 
porém, velaremos junto das flores que se acham 
sob a influencia do somno. 



No campo, no bosque, junto ao arroio, no pra- 
do, seja qual for o lugar que visitarmos, por to- 
da a parte encontraremos as plantas adormeci- 
das; a tempestade falas vergar sem acordal-as ; 
o trovão estrondea sem perturbar a sua tranquil- 
lidadc, a chuva humedece-as sem interromper o 
seu repouso. A delicada sensitiva dorme profun- 
damente todas as noites; reúne as suas peque- 
ninas flores, dobra as suas largas folhas e espe- 
ra immovel que a luz novamente a desperte. Se 
a agitam^ se a movem, se o vento sopra com vio- 
lência, tudo isto serve só para prolongar a sua 
immobilidade ; o socego, porém, torna-a á vida. 
No trifolio da Índia, descoberto em 1777 por la- 
dy Monson era Bengala, em um dos pontos mais 
ardentes e húmidos do grande delta do Gan- 
jes, a noite parece exercer uraa influencia ainda 
raaior. 

Cada ramo d'esta sensível leguminosa tem três 
folhas como o nosso trevo ; no centro a folha 
maior, e as duas menores aos lados ; durante o 
dia, a do centro conserva-se horisontal e immo- 
vel; de noite inclina-se sobre a haste como se o 
cansaço a convidara ao repouso ; esta folha per- 
manece sempre immovel em quanto que as duas 
dos lados se iCncurvam e endireitam com uma 
mobilidade incessante e incrível, sem empregar 
em qualquer d'estes movimentos mais de ura 
minuto. Agitam-se, elevando-se ou abaixando-se, 
como uma imagem d'esses seres atormentados 
que nunca encontram tranquillidade desde que 
nascem até que morrem ; são inquietas na sua 
juventude^ como nós, e moderam os seus movi- 
mentos quando a velhice chega, quando a mor- 
te as ameaça. No curso do dia apenas ha um ins- 
tante em que uma folha está parada em quan- 
to a outra continua o seu movimento. O vento 
suave dobra o talo da planta sem perturbal-a 
na sua agitação^ porém a tempestade torna-a 
immovel. A's° vezes o calor suffocante d'aquel- 
les paizes fal-a descansar ura raomento como 
SC fora uma sesta e então ambas as folhas flcam 
tranquillas. O hedysarjim gyrans conserva uraa 
parte da sua actividade era nossas regiões du- 
rante o inverno; longe, poréra, do sol abrasa- 
dor da sua pátria, longe do ar húmido d"aquel- 
les pântanos, os seus movimentos são mais len- 
tos e menos regulares e teem-se visto ás vezes 
no seu desterro entregarera-se a largas horas de 
somno. 

Tudo é prodigioso debaixo do lindo céo da ín- 
dia ; alli também se encontra uma arvore gran- 
de da mesma família da sensitiva, cujas flores e 
folhas dormem e velam alternativamente, como 
se entre arabos os órgãos existira uraa espécie de 
aversão a agitarera-se e a viverem ao mesrao 
tempo. 

Mas não necessitamos ir ião longe para buscar 
exemplos de phenoraenos tão estranhos ; visite- 
raos de noite os nossos bosques e os nossos pra- 
dos; vamos á selva silenciosa quando está allu- 
niiada pela luz prateada da lua, que penetra por 
entre a folhagem, e prestes veremos como ha mu- 
dado o aspecto de todas as plantas. 

Os trifolios uniram as suas folhas, que dormem 
em seus largos talos; a terna oxalida inclinou 
as suas, que dormem cansadas da sua actividade 
diurna. As folhas da armoles reclinam-se sobre 
os seus renovos e descansara ; as onágras tão 
comrauns nas margens dos rios^ unem pela noi- 



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O PANORAMA 



te as suas folhas superiores formando uma espé- 
cie de docel debaixo do qual a flor pôde dor- 
mir ou velar a seu gosto ; as malvaceas, com as 
suas flores de um dia, adormecem e abandonam- 
se descuidadas sobre a sua hasle e no dia seguin- 
te levantam-se novamente. 

Em outras partes vemos enrolarem-se as folhas 
das malvas com as suas bellas flores de còr de 
lilaz c aproximarem se d"estas ao tempo do re- 
pouso. 

Quando ao anoitecer as ervilhas de cheiro dos 
nossos jardins despedem as suas aromáticas ema- 
nações, então unem as suas folhas umas ás ou- 
tras e no meio d'aquelle perfume delicioso caem 
em profundo somno. 

A colutea tem folhas que pela noite se separam 
das flores e que descansam, como as sensitivas 
unindo a parte exterior. Em uma multidão de 
plantas vè-se que as folhas servem como que de 
resguardo ás flores e que estas não dormem em 
quanto se não acham protegidas por aquelle abri- 
go: assim succede com o formoso loíits oníilltopo- 
díoides, no qual Linneo observou pela primeira vez 
o somno das plantas e vio que as trcs folhas que 
formam o seu involtorio se levantavam quando a 
planta dormia para protegerem completamente 
as suas três flores finaes. Em outras plantas, pelo 
contrario, as folhas elevam-se scparando-se da 
flor, voltam-se e dormem deitadas sobre o re- 
verso. No lupinus albus, vô se esta singular dis- 
posição em algumas partes dos Pireneos onde 
esta "planta e o" trifolio roxo se cultivam juntos 
formando preciosos quadros em que as flores 
brancas do lupinus estão entrelaçadas com as 
ílores carmineas do trevo ; mas de noite tudo 
muda; o lupinus parece ter perdido as suas fo- 
lhas e o trifolio não mostra ílòr alguma; o rico 
matiz que anies apresentavam não se conhece 
quando dormem. 

[Continua) 

O SECUIO XVIII 

Alguns homens denominam scculo das riiinas o século 
passado; cu cliarmar-lhe-ia anles o século do mau rjoslo 
c deixaria fallar os que d'elle dizem mal, não percebendo 
que mordem no seio da sua nulrix. Jocão Raplisla ^'ic- 
colinc dizia um ília a um d'ep«es vaidosos e ingratos íillios 
do século ultimo: <> Vós fazeis como o pigmeo que, depois de 
ler suliido aos hombros do gigante, para ver mais longe, 
balc-llie na cabeça, grilando-llic;— Vejo melhor do que tu. 
— Ao que o giganlc poderia responder:— ISão dirias isso 
se te não tivesses empoleirado nas minhas costas. v 



CONTO INDIANO 

Em uma cidade situada nas mai'gens do Gan- 
ges vivia iim religioso mendigo (jiie linha feito 
publicamente o voto de nunca fallar. Um dia pe- 
dindo esmola á porta de um negociante abastado, 
a filha d'cste veio pessoalmente lrazer-lli'a. O 
mendigo deslumbrado jiela belleza d'esla menina, 
disse comsigo : 

— Eis aijui a espo.sa que os deuses me deveriam 
ter dado. 

Uelirou-se mui perluibado. Ouiz expcllir csle 
pensamento da imaginação ; mas não ponde. Fi- 
nalmente, exclamou : 



— Um enle de Ião rara formosura, de qualida- 
des tão distinctas, não é, certo, para um miserá- 
vel como eu ; mas se podesse conduzi l-a ao tem- 
plo ! obieria facilmente dos brahmanes a cerimo- 
nia que a uniria ])ara sempre á minha sorte. 

Aferrado a tão abominável desígnio, foi nova- 
mente pedir esmola á poria do negociante, e saindo 
este na occasião com sua lilha, o mendigo come- 
çou a. grilar, apezar do seu volo : 

— O desgraça ! ó desgraça ! 
E afastou-se. 

O negociante, impressionado deveras, seguio-o, 
e logo (jue se acharam sós : 

— Porque faltaste ao teu voloe pronunciaste pa- 
lavras tão aterradoras? 

O mendigo respondeu : 

— Tua lilha veio ao mundo sob oinlluxod'uma 
desgraçada esírella. Logo Cjue ella casar, lu, lua 
mulher e teus íilhos morrerão. Onando a vi e co- 
nheci o seu destino experimentei tal dor (tens sido 
tão caritativo paia comigo !) (jue não pude conter 
a voz. Faltei ao meu voto por tua causa. Queres 
fugir ao perigo que le ameaça? Esta noite, melle 
tua lilha em uma caixa, sobre a qual poiás uma 
tocha accesa, e abandona-a á corrente do Gan- 
ges. 

O negociante muito assustado promelteu de se- 
guir o conselho ; e, logo que veio a noite, esíe pai 
crédulo fez, derramando uma torrente de lagrimas, 
o que o mendigo lh