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^^_ ORIGEM,
E
ORTHOGBAPHIA
DA
LINGOA PORTUGUEZA
POR DíilRTE NUNES DO LEAÕ
Desembargador da Casa da Supplicaçaõ , ÔÇc.
Obra útil, e necessária, assim para bem escrever a língua
Portugueza , como a Latina , e quaesquer outras
que da Latina tem origem:
COM HUM TRACTADO DOS PONTOS DAS CÍ.ACSULA3.
NOVA EDIÇÃO
Correcta, e emendada, conforme a de 178 í.
LIlfBOI
TYPOGRAPHIA DO PANORAMA
TIUYKSSA DA VICTORfA, 73
Í8G4
/^K^^^^&Tsts^v £***> & Jfa* A*<s/fr^ M^ //} é> Y
J
PROLOGO DO EDITOR DESTA EDIfAO
Emprehendendo a publicação da presente obra,
actuaram em nós causas, fáceis de justificar.
Havendo-se esgotado as edições da Origem da
Lingua Portugueza, o que prova o merecimento da
obra, era urgente a sua reimpressão, para não pri-
var os estudiosos de um livro de tanta utilidade.
Com effeito, reputamos um bom serviço áslet-
trás pátrias a impressão de livros clássicos, nos
quaes todos teem que aprender. Por isso, acabando
de publicar a presente obra, para a qual julgamos
desnecessário chamara attençãodas pessoas a quem
são familiares os primores da lingua, publicaremos
outro livro egualmente raro e meritório.
Em seguida á obra do distincto clássico Duarte
Nunes do Leão, apparecerá a Nova Floresta do não
menos distincto padre Manuel Bernardes, Esta acha-
se já no prelo, e confiamos que brevemente verá
a luz publica um livro em que o autor, com os vas-
tos conhecimentos que possuía, ostenta os ricos the-
souros da lingua.
• Se o êxito corresponder ás nossas esperanças
—hemos dado sobejas provas de que temos em mais
conta o lustre da litteratura nacional do que os nos-
sos interesses— não ficará a tentativa nestes dois li-
vros, continuando a publicação das obras clássicas
mais dignas de prenderem a attenção dos que teem
a peito o estudo e esplendor da lingua pátria.
Aos nossos concidadãos cumpre ajudar-nos na
árdua tarefa que emprehendemos.
PROLOGO DO EDITOR
DA FDICÃO DE 1784
V,
endo promover o estudo da lingua Portugueza, e
propagar-se o amor á sua illustre antiguidade, que
posso eu offerecer ao Público, a cuja utilidade uni-
camente se dirigem as miras do meu reconheci-
mento, do que dar-lhe reimpressas as duas immor-
taes Obras do sábio, e profundo Escritor o esclare-
cido Desembargador Duarte Nunes do Leaõ; huma
sobre a Origem da lingoa Portuguesa; e outra sobre
a sua Orthographia ! A acceitaçaõ, com que os verda-
deiros sábios tem acolhido as minhas Impressões,
cada vez mais me dá novos alentos para continuar*
lhes minha gratidão. EraÕ já raros, e vendiao-se
por summo preço os exemplar* s destas duas precio-
síssimas Obras, que se publicarão em Lisboa, a Ori-
gem em 1606, e a Orlhojraphia em 1576. A sua
escasseza, e raridade inquietava os Doutos; e eu at-
tendendo a isso repito nesta Edição as ditas Obras
taes, quaes se haviaõ impresso, e publicado em tem-
po do seu Author; nada se lhe alterou, nem mudou
da maõ original; conserva se do mesmo modo o seu
'Texto, naõ só em quanto á Orthographia, mas até
em quanto á sua mesma Pontuação; houve humin-
dizel escrúpulo nesta Edição, para que representan-
do a antiga, ainda que em diverso anno, fosse sem-
pre uniforme, e a mesma; para que os Sábios naõ
tivessem o* desagrado de buscarem sempre a antiga,
naõ obstante haver esta Reimpressão. Apparecem
pois
Prologo
pois aquellos Escritos taõ necessários para se apren-
derem n'hum o methodo Orthographico, que cons-
tantemente segurava as regras da escritura dos Sá-
bios daquella idade da língua Portugueza; no outro
se estuda a verdadeira, e quasi* genuína etymologia
de infinitos vocábulos Lusitanos/ e suas derivações,
estudo tanto mais útil, quanto rafais necessário para
se entenderem muitos termos já antiquados, e ob-
soletos da nossa linguagem, que pelo seu desuso se
tornaõ inintelligiveis. Nestas duas Obras tem muito,
de que se aproveitar os que se abalançarem ao de-
sempenho do Programma da Academia das Sciencias
de Lisboa, sobre a composição de uma Grammatica
Filosófica da língua portugueza; nellas todos acha-
rão deleite, e instrucçaõ; e saber-se-ha pela repeti-
ção das Impressões dos nossos antigos Authores,
que até os mesmos Juris-Consultos daquelles remo-
tos tempos, ainda que condecorados com as togas,
e administrando a justiça no Foro, e Relação da Ca-
pital do Heino se presavaõ muito naõ só de sabe-
rem com toda a perfeição, e pureza a sua lingua,
e a rigorosa Orthografia da sua escritura; mas até
empregavaõ as horas da recreação dos empregos se-
veros, e gravíssimos do Estado, esmerando-se na
composição de Obras de Bellas -Letras; ensinando a
todos que professavam as Sciencias maiores , que
sem o estudo; e exacto conhecimento da Filologia
da lingua Pátria; e sem o socorro das Humanidades
nunca já mais poderá! haver nem Theologos pro-
fundos, nem Juristas consummados, nem Filósofos
verdadeiramente instruídos. Mas que digo? Esta he
já ao presente a geral convicção; por quanto já os
doutos Theologos, os críticos Juristas, os illumina-
dos Filósofos, depois que raiou em nossos horison-
tes o luminosa facho dos depurados estudos, e do
bom
PaOLOGO
bom gosto da Litteratura, confessaõ cordatamente,
que ninguém poderá dar passo nas Sciencias subli-
mes, sem unir à fua instrucçaõ os conhecimentos
Filológicos das linguas, e mais que tudo da lingua
Pátria, o finalmente se naõ adornar o seu discurso
do especioso esmalte das Bellas-Letras, que logo fa-
zem sobresahir o sólido, e verdadeiro merecimento
nas Sciencias, eboas Artes.
Alguns Litteratos seriao de parecer que dissés-
semos alguma cousa do nascimento, pátria, estudos,
e litteratura do Desembargador, e Sábio Varaõ o
illustre Duarte Nunes do Leão; mas que poderemos
nós dizer, que naõ fosse transcrever o que já se
acha escrito na Bibliotheca Lusitana do incançavel,
e immortal Barbosa: como nem sobre os Escritos
do nosso Author, nem sobre a sua vida nada mais
se tem descuberto, para se observar, os amadores
destas úteis noticias as poderáõ beber nas crystilli-
nas aguas de taõ completa Obra.
Resteva agora dizer alguma cousa do mecanis-
mo, e ordem desta Edição, mas para que o Público
se naõ persuada que lhe queremos impor, ou exag-
gerar as nossas diligencias, com que lhe somos gra-
tos, elle mesmo decidirá da perfeição dos typos, ou
caracteres, da exactidão typografica, e da bondade
do papel.
O mesmo Público pois acolherá de bom grado
esta nossa offerta; e se houver que notar, esperamos
que como Juiz benigno naõ só nos releve nossas fal-
tas, e descuidos, mas que nos avise sinceramente
delles para os emendarmos nas futuras edições. Tal
he a ingenuidade, com que desejamos ser úteis a
huma Naçaõ, que merece prezar-se pelas maneiras,
com que se vai distinguindo, e illustrando!
AO
AO INV1CTISSIMO
E CATDOLICO BEI
• DOM PHILIPPE II.
DE PORTUGAL NOSSO SENHOR,
Desembargador da Casa da Supplicaçaõ , perpetua
felicidade .
x^OMOamaior demonstração que os homens de si daõ,
èÇ do seu entendimento, saõ as pala uras, per que ex-
primem seus conceptos, SÇ huas vidraças, per que se
trasluzem SÇ vêem seus ânimos, procurarão sempre os
Príncipes que a auantagem que no estado ^na gran-
deza leuauao aos homens baxos SÇ plebeos, se enxer-
gasse na policia SÇ estylo de seu fallar. Porque tam
indecente he sair da bocca de hum homem de alto lu-
gar SÇ nobre criação hua palaura rústica, SÇ mal com-
posta, como de hua bainha de ouro, ou rico esmalte
arrancar hua espada ferrugenta. E porque naõ cau-
saõ menos fealdade os erros que se commettem, escre-
uendo corruptamente que os que se commettem fallan-
^^ do,
Conservamos esta Dedicatória pela razaõ que allcgamos na Nola pa-
gina 96. ,
Dedicatória
do, mas muito maior, (porque a scriptura. fica sempre
viuá $" manifesta, $" as palauras passaõ como cousa
momentânea, 5f que nãõ permanece) compus em mi-
nha verde idade hum, liuro de Orlhographia da lingoa
Portuguesa, em que reduzi a arte gf preceptos o gne
nunqua teue arte nem concerto, o qual de todos os ho-
mens doctos foi bem recibido, $* per que se muito me-
lhorou a scriptura que entre nós andaua mui depra-
nada. E agora por me refocillar do trabalho de outros
stados mais pesados, tentei fazer este tractado da ori-
gem da mesma lingoa, áf das outras mais de Hesp.i-
nha, per que de hoje em diante se poderá f aliar mais
polido, 8f screuer mais concertado. O que nisto fiz,
mando a V. Magestade confiado, que receberá esta pe-
quena offerta com a vontade com que a Majestade dei
Rei vosso pai que está em gloria recebia minhas cou^
sas: porque desdo tempo que a este reino veo, ate que
JDeos o leuou 'ao Ceo, nunqua me deixou estar ocioso
mas o fim de hum seruiço era começo de outro, do
que as mesmas obras dao lestimunho, de que htías sai-
rão a luz, $* outras que naõ staõ publicas por me fal-
tar seu fauor §" a alacridade que me dauaõ animo para
poder com o trabalho. E porque homens inuidos $
contrários ao bem commum me fizereõ morto ante V.
Majestade com maa tenção, procurando gozar de meus
suores, y aproveitarem-se de meu silencio, eu o rom-
perei com nouas obras que cedo sahiraõ a luz com o
fauor de V. Majestade, cuja vida o Senhor Deos per
muitos y fel ices annos consente $f prospere. De Lis-
boa oito de Maio MDCVI.
OIU-
ORIGEM
LTNGOA PORTVGVESA
CAPITVLO I
Da mudança que as lingoas fazem per discurso
de tempo
r\SSI como em todas cousas humanas ha continua
mudança &■ alteração, assi he também nas lingoagcs.
E o que parecia increiuel, também isio estaa sub-
jecto ao arbítrio da fortuna: porque assi como os
vencedores das terras «Sc prouincias lhesdaõ leis em
que viuaô, assi lhes daõ lingoa que fallem. Daqui
veo os pouos de Grécia, cuja lingoa foi hauida por
mais polida & snaue. que todas as outras do mundo,
fallarem agora Turco, & Arábio, &. os de Hespanha,
latim, & os da Ethiopia & da índia português. E co-
mo os homcs entre si saõ per natureza taõ differen-
tes, nas opiniões, & imaginações, assi exprimem per
diuersas maneiras seus conceptos com inuençoès de
palauras. Polo que em hiía mesma lingoa vaô fa-
zendo-se tantas mudanças de vocábulos, que per
discurso do tempo, fica parecendo outra, comoveraa
quem cotejar a lingoagem, que se oje falia em Por-
t
2 Origem
togai, com a que se fallaua em tempo ciei Rei dom
Afonso Henriquez: & quem considerar o discurso
que a lingoa Latina foi fazendo em diuersas idades.
Por o que dizia Marco Tullio, que em seu tempo
pareciaô jí as orações de Marco Calaõ rudes, & hór-
ridas, &: assi os mais scriptos d^quella idade, naõ
sendo os tempos tao distantes bíls dos outros. E Po-
lybio no liuro 3. de sua historia diz que no seu tem-
po, que foi o de Scipiaõ Africano, naõ hauia quem
entendesse hiía scriptura de pazes, que íizeraõ os Ro-
manos com os Carthagineses no tempo da destroi-
•çaõ de Sagonto. Polo que como as palauras saõ
annunciadoras dos conceptos, que saõ tam \arios,
assi saõ ellas varias, & mudaueis, como cousa arbi-
traria, & em que o pouo tem jurdiçaõ. Esta suc-
cessaõ de vocábulos comparaua o Poeta Horácio aas
folhas das aruores, de que caindo humas, succediaõ
outras em seu lugar.
Vt syluce folijs pronos mulanlur in annas
Prima cndnnt, ita verborum vetus interit tetas.
Et juuemim ri tu jlorent modo nati, vigentque.
E outra vez sobre o mesmo,
Multa renascentur, quos jam cecidere cadentque,
Qu(e nunc sunt in honore vocabula, si volet vsns,
Quem penes arbilrium est, êÇ vis, § norma loquendi.
Fsta differença que se vai fazendo nas lingoas
acontece de muitas maneiras, ou deixando-se de to-
do as palauras como peças velhas, e tomando outras
em seu lugar, ou emendando as em parte, ou inuen-
tando-se de nouo, as de que se carecia naqueila
lingoa. M. Tullio (segundo screue Plutarcho en sua
vida) trouxe a Roma muitos vocábulos desacostuma-
DA LlNGOA PORTVfiVESA 3
dos, como foraõ indiuiditum , continuum , vacuum,
phantasia, atomus, e outros muitos que como de
tal author foraõ do pouo recebidos, e nos duraõ ate
agora. E da mesma maneira deu nonos vocábulos
latinos aos términos dos dialécticos, e Philosophos
naturaes, que soo hauia Gregos. Scipiaõ Africam»
por voriex começou a dizer, vertex, e por vorsus,
versus: de Augusto se screuem algíías paiauras que
innouou. Com estas crescenças de lionês insignes,
& de authoridade se foi a lingoa latina enriquecendo
ate virão cume a que veo com o império.
CAPITVLO II
o
Da lingoa que a pri?icipio se fallaua em
Hespanha
^V ESTA O he tratada de muitos, que lingoa foi a
que primeiro se fallou em Hespanha, que tem a res-
posta tam incerta, quam incerto lie que gente foi a
que primeiro veo apportar a ella. O que os maisaf-
firmaõ he, que Tubal foi o primeiro, que despois
da confusão das Iingoas veo a Hespanha, como se
nisso naõ tiuessem duuida Os Castelhanos, & algus
Portugueses o fazem vir assentir em Setuual, que
de seu nome dizem se denominou, mouidos da se-
melhança do nome corrupto, que neste tempo tem
aquella villa. A qual conjectura de semelhança de
nomes, he pouco urgente para quem sabe, que Iin-
goas diuersissimas per caso vem concorrer n > soido
em algíías paiauras, sendo distantíssimas na signifi-
cação. Este he mui claro erro: porque Setuual he
nome moderno, que se deu a aquelle lugar, cor-
rupto de Cetobriga, ou Cetobrica, que antes se cha-
maua em tempo dos Romanos o lugar fronteiro, que
agora^ se chama Tróia, pouoaçaô ignóbil de pescado-
4 Origem
resque tratauaõ em pexe salgado, em cujas ruinas
se oje vem as salgadeiras. E a razaõ de seu nome
como lembra André de Resende nas suas Antiguida-
des da Lusitânia he, que todo o pescado grande, que
se desfaz em postas, se chama cetim, áf briga entre
os Hespanhoes, queria dizer cidade, ou pouoaçaõ
como se vé em Talabriga, Conimbriga, Medobriga,
Lacobriga, ao costume de muitas gentes, que aca-
baõ os nomes de suas cidades, em o nome geral de
cidade como os Alemães, que dizem Lucemburg, Am-
burg, Frisbnrg, & os Franceses em dunum, como
Lugdunum, Ebrodunum, Segodunum , & os Gregos
em polis, como Neapolis, Adnanopolis, Coslantino-
polis, Tripolis; dahi se disse Cetobrica, ou Celobriga,
que tudo he hum quasi lugar em que se vende pes-
cado adubado, ou de salmoura. O qual lugar passan-
do-se da outra banda do rio no tempo dei Rei dom
Afonso I. de Portugal leuou consigo o nome que per
tempo se corrompera em Setuual, que por o soido
enganou aos que andauaõ buscando assento a Tubal,
& a suas gentes, de que foi Floriano do campo, scrip-
tor docto; mas pouco ditoso na matéria que se lhe
deu a screuer, porque lhe foi necessário, ou deixar
de fallar no mais que disse da Hespanha, ou scre-
uer tantas fabulas, quantas os sciiptores que lhe con-
ueo seguir lhe recontauaõ , como foraõ Manethon,
Beroso, suppositicios, & falsos que por o verdadeiro
Manethon, & Beroso se lêem vulgarmente, & tantas
patranhas de quasi do principio do mundo sobre
híia terra barbara, onde naô hauia letras, nem scrip-
tores, nem memorias de algiias cousas em que se
fundar. Outros Hespanhoes naô contentes de vir
Tubal a este reino de Portugal, o faz^m dar consigo
nas montanhas de Vizcaia, & naquelles penhascos
fazer seu assento, assi para alli escaparem de outro
diluuio se o houuesse, como por a commodidade de
DA LlNGOA POKTVGVESÀ 5
mantimentos naturaes, que aquelles matos dauaõ>
de maçaãs brauas, & madronhos, & outros taes fru-
tos montanheses, cuidando que aquellas gentes, por
serem taô propinquas aos primeiros homès, come-
riad aquelles fruitos syluestres como fingem os Poe-
tas, que eomiaõ os primeiros homís-, que a terra
produzio. O que tudo tem muitos erros, porque
aquellas gentes, e outras maisanttga&se sostentauaõ
naquelle tempo do leite d;is criaçors- de seus gados,.
& dopam & vinha que laurauaõ, como sevo no ca-
pit. 4. do Génesis, onde se diz que Abel segundo ge-
nito filho de Adam, & terceiro hamem do mundo,
era pastor de ouelhas: e que de seus gados ofrereceoa
Deos os primogénitos: &Caim filho primeiro da- mesmo
Adam era laurador. E no capit. 9. faWando de Noe,
que foi auó de Tubal, diz que era laurador, & la-
uraua as terras, & plantaua vinhas de que colhia vi-
nho. E os que dizem que ainda Tubal trazia receos
de autro diluuio, e por isso buscaua lugares altos,
naõ se lembrarão do pacto solenne que Deos fez
com Noe, que nunqua mais mandaria outro diluuio
para consumir os homès: por o que lhe deu em pe-
nhor, & firmeza, o arco celeste da Íris. Nem erave-
risimil que homès nascidos na Chaldea, terra fértil,
& quente, deixando os fertiles ;& estendidos campos-
de Hespanha desoccupados, onde podiaõ escolher a
vontade, pêra apascentar seus gados, & pêra sua la-
uoura, viessem aa pobreza, & frialdades das mon-
tanhas de Vizcaia. Desta vinda de Tubal a Hespanha
vem a eollegir que a primeira lingoa que se nella
fallou foi a Ghaldaica, & que delia procedeo a Vas-
conço que em Vizcaia se fallaua: & que ahi se con-
seruou como em lugar menos frequentado de outras
gentes, e quo aquella era a lingoa que em Hespa-
nha se fallou ate a \inda dos Romanos. E' que des-
pois de usarem a Latina a fallauaò entre si quando
6 Origem
queriaõ, como ainda agora fazem O que se assi he
deuemos de crer. que pela mudança que essalingoa
faria em tan:os mil annos, deue ser tam diíTerente,
da de entaõ, como agora be da Grega, ou de outra
mais remota. Polo que sendo as lingoagès tam mu-
dauel cousa, & que em pouco tempo se alteraõ tanto,
querer inuestigar que lingoagem fallauao os primei-
res Hespanhoes, que foraõ quasi no principio do
mundo, he perder tempo, & vir a disparar em cem
mil deuaneos; pois de palauras que consistem soo
em som, & percussão do aar, e saõ inuisiueis naô
pode hauer rastro, nem memoria senaõ em scriptu-
ra que naõ temos. A verdade do que se sabe he
(vindo a tempos menos antigos) que como Hespanha
lie cercada dos mares Occeano, & mediterrâneo, &
quasi bua liba, a que por causa das riquezas que
nella hauia, &. per sua fertilidade vinhaõ muitas gen-
tes, híís a habitar, & outros a tratar, nella se fal-
lariaõ diuersas- lingoas, que aquelles estrangeiros
necessariamente hauiaõ de trazer consigo, sendo de
taõ diuersas prouincias. Porque a ella vieraõ os Phe-
nices, que habitarão, & pouoarao a Ilha deCadiz, &
outros lugares da Tartesia onde tiueraõ grandes ci-
dades, & insignes em tratos, & edifícios: Vieraõ Gre-
gos de diuersas prouincias, & por diuersos tempos,
como foraõ os companheiros de Vlysses que pouoou
Lisboa, & os companheiros de Baccho, que deraõ nome
aa Lusitânia, os de Hiacintho que deraõ nome a Sagun-
to, & os que vieraõ com Teuero filho de Thelamon, que
pouoarao Galliza, & os que vieraõ com Menestheu Athe-
uiense, que pouoarao o porto de seu nome que se
oje diz de Santa Maria. Vieraõ os Messenios, &La-
cedemonios que assentarão em Cantábria, & os Pho-
censes que dizem edificar Tarragona, & os Hhodios
que habitarão aquella parle de terra que oje se cha-
ma ttoses, & Astur Troiano com seus companheiros,
DA LlNGOA PORTVGVESÀ 7
que edificou Astorga, & deu nome aa prouincia das
Astúrias. A Hespanba veo Nahuchodonosor Hei dos
Babylouios, que sojigou a maior parte da Hespanha,
segundo conta losepho nos livros de suas Antigui-
dades em que deixou muitos dos seus soldados de
varias nações: dos quaes os Iudeus dizem pouoar a
cidade de Toledo. Aa mesma Hespanha foraõ tam-
bém os Gallos de Marselha que pelejando com os
Iberos gente vezinha ao rio Ebro, vieraõ despois a
concertar-se, & fazerem companhia, & tratarem casa-
mentos entre si, de quem procederau os Celtiberos.
Outros Gallos vieraõ também de Marselha, que as-
sentando na costa do mar Balearico edificarão a ci-
dade de Empurias, que primeiro se chamou Dyopo-
.lis, que quer dizer cidade de dous, porque elles com
bua gente de Hespanha chamados Indigetes a habi-
tarão. Posto que Sylio Itálico no lib. 3. entende ser
ediiicio dos Phocenses nestas palavras.
Dat Carlkago viros Teucro fundata vetusta
Phocaicai dunt Em-por ice, dat Tarraco pubem.
Despois destas gentes vieraõ os Carthagineses
a Hespanha, os quaes por terem sua origem de Tyro
cidade de Phenicia, & lhes pedirem os de Gadiz, que
também eraõ Phenices, soccorro contra as oppres-
soês dos Hespanhoes os ajudarão. Mas vendo a fer-
tilidade & riqueza da terra, vieraõ despois a ella com
grande poder, &se senhorearão da maior parte dei*
la, principalmente da Andaluzia, onde assi contra
os Hespanhoes, como contra os seus parentes os
Phenices de Cadiz fizeraõ grandes «feitos com suas
armadas que trouxeraõ em diuersos tempos forneci-
das de muitas gentes. Cujo império durou muitos
annos ate os Romanos virem, que os lançarão fora
da Hespanha, hauendo entre bua gente, & outra mui
S Origem
grandes guerras, em que morrerão aquelles dous
grandes capitais Publio, & Gneo Scipioès, de cujos
feitos estaõ os liuros das historias cheios. Polo que
sendo Hespanha tam grande prouincia em que hauia
gentes de tam varias nações que a tinhaõ toda oc-
cupada, & nella edificadas muitas cidades, assi ti-
nhaõ diíTerentes lingoag^s, " leis & costumes. E da-
quellas gentes, com que os Hespanhoes assi tinhaõ
eommercio & vezinhança, tomarão huas lingoas &as
confundirão *com a sua, como he natural onde ha
concurso de diversas gentes. Polo que crer alguém
que a primeira lingoa que os Hespanhoes fallauaõ,
perseuerou ate aquelles tempos, he erro manifesto,
& cousa increiuel a quem sabe as mudanças que as
lingoas vaõ fazendo cada dia, ainda sem tamanhos
accidentes, &conuersoes de Republicas como entam
houue. De tudo isto está manifesto que como em
Hespanha hauia divisão de gentes & senhorios, & as
gentes eraõ tam diíTerentes, assi hauia dríTerentes
lingoagès, & que as mais dessas gentes fallariaO a
lingoa Grega, pois os mais dos estrangeiros, que
naquella prouincia concorriaõ, e vinhaõ negocear,
eraõ Gregos como acima fizemos mençaõ.
CAPITVLO III
Como os Hespanhoes tiueraõ letras antes que os Roma-
nos viessem a Hespanha.
vjOMO as letras naõ saõ senaõ hu retratto das pa-
lauras, e declaração dos conceptos de nossas almas,
consequente he* tratando da lingoa que se primeiro
fallou em Hespanha, tratar das letras primeiras que
nella houue, & quem as trouxe. E fazendo eu nisso
discurso, &inuestigando, se das letras antigas hauia
algu rastro, achei que tam pouca noticia hauia d is-
DA LlNGOA PORTVGVESA 9
so, como de outras cousas dignas de se saberem. O
que se acha mais recebido dos scriptores he, queTu-
bal neto de Noe, como foi o primeiro pouoador de
Hespanha, e a lingoa Galdaica foi a que em seu tem-
po se fallaua, que se as letras a esse tempo erao
inuentadas, traria consigo as Chaldaicas, como trouxe
a lingoa, & que naõ estaria Hespanha sem o vso das
letras, que todas as gentes de commum consenti-
mento receberão. Mas procedendo o tempo, & vindo
depois a esta prouincia tantas gentes de diuersas
partes (como atras temos -dito) be de crer que como
dauaõ lingoa aos lugares que edificauaõ, ou occu-
pauaõ, assi lhes dariaõ as letras que saõ o thesouro,
& custodia das palauras, & que naõ seria bua soo
maneira de letras, & que na Tartesia, & mais terras
da Betica, em que os Cartbagineses dominarão tantos
annos, se faltaria a lingoa Púnica, assi como se fal-
lava na Libya, & teriaõ as letras Púnicas: & os Gregos
que babitanaõ Galliza, & a Lusitânia, & outras re-
giões de Hespanha teriaô" a lingoa Grega, & as letras
Gregas. Posto que António Nebrissense varaõ docto,
& de maduro juizo tem para si, que ate o tempo
dos Romanos carecerão os Hespanhoes do vso das
letras, & que as primeiras que tiueraõ foraõ as dos
mesmos Romanos, que saõ as Latinas. Para esta opi-
nião naõ se moue por outra conjectura, senaõ, que
nunqua em Hespanha se achou moeda, ou letreiro,
em que houuesse letras Hespanhoes, Gregas, ou Pú-
nicas, achando-se dos Romanos muitas moedas, e
letreiros. A qual conjectura be muito fraca: porque
quanto aas moedas, muitas nações estiueraõ muito
tempo, sem cunhar moeda, & vsavaõ dos metaes
por peso em suas compras, & trocas, em lugar
de dinheiro, a que os Romanos despois chamarão
pccunia, por o final de lida ouelha que nas primei-
ras moedas de cobre sculpirao que em latim se dia
i
10 OaiGEM
pecus. E os mesmas Romanos gente de grande go-
uerno & policia, estiueraõ tanto tempo sem cunhar
moeda de ouro ou praia, que conta Plínio no liiiro
33. da Natural Hntorvi, que a primeira moeda de
prata que se cunhou em Roma, foi cinquo annos an-
tes da primeira guerra Púnica no consulado de Q.
Fábio, hauendo ja quinhentos fc oitenta & cinquo an-
nos, que sua cidade era fundada, & que a primeira
moeda de ouro se cunhou despoisdahi a sesenta &
dous annos. Por a qual razaõ ficarão aos Romanos
despois muitos nomes de pesos, Ubripens, slipen-
dium, dispendium, impendiam. & por nomes das mes-
mas moedas por a correspondência que tinhaõ aos
pesos, porque antes se pesauaõ os metaes. Quanto
aa outra razão que António Nebrissensc dá de se
naõ acharem letreiros antigos em Hespanha senaõ
dos Romanos, naõ era de espantar, porque sós elles
como homes de mais generosos spiritos, & policia 6c
mais cobiçosos de honra & fama, buscauaõ esses
meos para perpetuarem sua memoria : o que na
outra gente barbara de Hespanha, ou Phenicia naõ
hauia, nem nos Gregos vindiços & mercanlijs de que
os mais vinhaõ a Hespanha buscar ouro, & prata, &
chatinar naõ se diuerteriaõ a essas imaginações de
honra, & memoria. Testemunhas podem ser disto os
poucos letreiros, & memorias que os nossos Portu-
gueses que vaõ aas índias Orientaes, c os Castelha-
nos que vaõ aa* Occidentaes deixarão de si naquel-
las vastas prouincias. E se alguns dos antigos de
Hespanha as procurarão, a antiguidade do tempo
consumiria esses letreiros , como desfez o Mauso-
leo de Caria , & os hortos pensiles da Babylonia,
<Sc os outros milagrosos edifícios do mundo. E que
os Hespanhoes tiuessem suas letras antes dos Ro-
manos virem a Hespanha, se vee em Slrabaõ no
lib. 3. o qual escreue que os Hespanhoes tinhaõ
DA LlNGOA POIITVGVESA 11
letras, e essas desuairadas segundo as gentes erâo,
& suas lingoas, & que os Turdetanos, ou Turdulos
(que todos faz hiía gente) eraõ mui dados aos studos
das letras, e mostrauaõ íiuros antiquissimos de suas
leis escriptas em versos, de mais de seis mil annos.
Os quaes annos ainda que fossem de quatro meses,
comoentam os faziaõeraõ assas antigos.
CAPITVLO 1III
Ba inuençaõ das letras, $ sua antiguidade &■
/A QUE gente se deua a inuençaõ das letras, lie
questão tratada de muitos, & de tempos mui antigos,
mas como sua origem he tam antiga quasi como o
mesmo mundo, naõ ha quem com certeza vá dar com
ella. Plinio diz que foi inuençaõ dos Assyrios, ou
Babylonios. Outros a daõ aos liebreos. Diodoro Si-
culo diz que aos Egypciosse deuem, e muitos dizem
que aos Phenices, dos quaes lie hum o Poeta Luca-
no, que diz no lib. 3.
Phenices primi (famtesi creditur) ausi,
Mansuram rudibus vocem signáre figuris.
Iosepho nos Íiuros contra Appiaõ Alexandrino diz
que no lempo de Homero ainda as letras naõ eraõ
inuentadas, & que a sua poesia naõ ficou scripta
com leiras, mas ficarão seus cantos conseruados na
memoria dos que os quiseraõ encomendar a ella. O
que he de espantar deixar scriplohum tam celebra-
do, & authentico historiador. Porque se sabe que
antes de Homero houue muitos que deixarão Íiuros
scriptos, como foi Lino, Amphion, Tamiras, Orpheo,
Museo, Demedoto, Epimenides, Aristeo. E Palame-
des, diz Plinio no lib. 7, capit, 56. que na guerra
12 Obigem
dà Tróia accrescentou ao alphabeto dos Gregos as
letras aspiradas, ♦fcfX; Onde diz também que as le-
tras forao eternas, & nunqua o mundo esteue sem
ellas. E em outro lugar diz que Memnon as inuen-
tou no Egyplo vinte &cinquoannos antes de Phoro-
neo antiquissirno Rei dos Argiuos, que naõ ha du-
uida hauer sido muitos annos antes de Homero. Ou-
tros fazem as letras inuentadas em tempo de Abra-
ham, & que elle as ensinou aos pósteros. Outros as
attribuemaMoyses: outros a Mercúrio /Egypcio. Mas
segundo ellas forao reueladas aos homès para gran-
des mysterios da religião, & ornamento da vida hu-
mana, & para conseruaçaõ, fc perpetuidade da memo-
ria das cousas passadas, he de crer que naõ estaria
o mundo muito tempo sem o vso delias, & que ja a
Adam foraô reueladas, & elle as ensinou a seus fi-
lhos. O que vem quadrar com o que screue o mes-
mo Iosepho no liuro 1. cap. 4. de suas Antiguida-
des, que os filhos de Seth, netos de Adam screue-
raô em duas columnas hua de pedra, e outra de la-
drilhos a disciplina das cousas celestes, de que a de
pedra permanecia ainda em seu tempo do mesmo Io-
sepho na Syria. Mas ainda que acerca do tempo, &
inuençaô das letras, ha tanta diííerença nos scripto-
res , todos vem a concordar , que os Phenices as
trouxeraõ a Grécia, no tempo que Gadmo filho de
Agenor buscaua sua irmãa Europa, b edificou a ci-
dade de Thebas era Bneocia. E que da Grécia as
trouxe a Itália Nicostrata. Era esta Nicostrata a que
per outro nome chamarão Garmenta mãi daquelle
Euandro Rei de Arcádia, que sendo lançado & des-
terrado de seu reino per sedições que nelle liouuc-,
veo a Itália, e ajudou a iEneas contra Turno.
D
DA LlNGOA POHTVGVESA 13
CAPITVLO V
Que as lingoas cada dia se renouaõ com nonos
vocábulos per que se deixaô ou emendaõ
os antigos
IXEMOS atraz em geeral a muita mudança que
nas lingoas se fazia, & como cada dia hauia inuen-
çaõ de vocábulos. Destas innouaçoês huas saô volun-
tárias, que líomès doctos ou bem entendidos fazem,
para policia, & pureza dos vocábulos que achaô ru-
des. Outras saõ necessárias por a inuençaõ das cou-
sas, a que he necessário dar-lhe seus vocábulos. De
que temos exemplo nos muitos que os Latinos to-
marão dos Gregos por as artes & disciplinas que del-
les receberão, como se vé na medicina que sendo
posta em arte, & methodo pelos Gregos, & mui igno-
rada dos Romanos, veo a elle & delles a nós com
grande enchente de vocábulos de doenças como pa-
ralysis, erysipelas, apoplexia, epilepsia, chiragra,po-
dagra, arlhiris, ischias, icleros, exanlhema, lethar-
gus, asthma, catharrus, oplhalmia, alopecia, ophiasis,
phthiríasis, achores, cephalangia, cephalwa, scotoma,
phrenitis, catocha, coma, spasmus, ephialtes, mania,
melancholia, iromos, pterigyon, phlyctena, synanche,
pleuritis, phthisis, syncope, cholera, diarrhoca, dysen-
teria, licenteria, tenesmos, íleos, hwmorroides, anasar-
ca, diabetes, stranguria, anguria , ischuria , mola,
phíegmon, lichen, schirrus, elephantia, e infinito nu-
mero de vocábulos outros, que soo de doenças par-
ticulares de olhos dizem que ha perto de cento. To-
marão outros das partes do corpo humano, porque
como os Romanos ignorauaõ a arte anatómica, nem
tinhaõ vocábulos per que nomeassem os membros,
& partes do corpo. Tomarão mais dos Gregos todos
os nomes de heruas & plantas & medicinas simples
li OllIf.EM
Sc compostas, de que veraõ os liuros dos médicos, &
authores herbolarius cheos, & das pedras preciosas
todas de que parece os Romanos mostrauaõ ter pou-
ca noticia: porque da pedraria naô sabemos vocábulo
algum Latino, & todos saô Gregos, como Adamantes,
Agulhas, Amathystes, A em atites, Beryllos, Chrysolitos,
Crystalhs, Sardonichas, Hyacinthos, Pyropos, Saphy-
ras, Smaragdos, k o infinito numero de pedras ou-
tras preciosas, de que Plínio faz menç 5 no vitimo
liuro de sua Naturil Historia, & o infinito numero
de remédios para as doenças que ajunta André Tira-
quello no liuro de Nobilitatc rapit. 31. n. 275. que
seria cousa longa referilos aqui. !)a mesma maneira
tomarão dos Gregos todos os vocábulos, & partes da
architectura, com seus perystilios $ pistylios, exIie-
dras, cócleas, y pyramides & infinidade de vocábulos
de partes da casa, dos templos, das basílicas, das
thermas, &■ theatros, de que estaõ cheos os liuros
dos architectos. Dos mesmos Gregos lhesvieraô todas
as partes da Arte Gymmastica. Torque como tam-
bém os Komanos careciaô daquella arte, assi care-
ciaô dos vocábulos delia que saô muitos, por os mui-
tos exercícios, que debaixo da Gymmastica se com-
prendem, de co rer, de snltar, de voltear, de lutar,
de esgrimir, de lanhar, úe lauar y de vntar, & outros
taes. Dos mesmos Gregos tomarão os Latinos com a
musica, que naõ tinliaõ posta em arte os nomes das
consonancias, & proporções com seus tonos, semito-
nos, diapenthes, diatcsseroès, diapasões, hypates, hy-
j atoes, diesis. Os géneros da musica chromatico, en-
harmónico, Diatónico. Os modos Phrygio, Ionico,
Doríco, Lydio, Mixolydio hypermiecolydios, A eólico.
E se visitarmos os liuros dos Poetas he hum chãos
da multidão de vocábulos, Se termos, de Rythmos, de
variedade de pees Iambúos, trocheos, pyrrirhios, da-
ctilos, spnndeos, & os géneros dos versos monocolos,
DA LlNC.OA PORTVf.VESA 15
dicolos, tricolos, distrophos, tet strophos: de poemas,
Comedias, Tragedias, dos Hym?ws, Eglogas, Salyras,
Epilhalaiv.ios, Elegias. A mesma infinidade acharão
€m os Geómetras Uclrigonos, Tetragonos, Pontago-
nos, Hexagonos, Heptag /nos, Cylindros. Cu ! os, Sphe-
ras. Outro tal nos Astrónomos & Astrólogos, com seus
Zod l a os, hemisphcrios, climas, constell çoès, SÇ horós-
copo 8 , gcnelhliacos O referir os vocábulos que sobre
a Grammatica os Romanos tomarão dos Gregos, se-
ria encher muitas folhas de papel, que deixo, por-
que a todos saõ notórias as partes da Grammatica
Prosódia, Ortographia, Etyi ologia, & Syntaxis, &
quanta multidão tem de figuras, & mrJaplasmos. O
mesmo fizerao em todas as mais disciplinas. O que
causou a excellencia dos engenhos dos (regos, &
rudeza dos Romanos antigos, que tratarão mais de
obrar, & mandar, que de faltar ou specular. Por as
quaes nações ambas com muita razaõ dixe Virgílio
naquelles excellentes versos.
Excudent alij spirantia mulflus cera
Credo equidem, viuos ducent de mármore vultus.
Orabunt causas wclius, coelique mentas
Describent raéio,.$ surgentia sydcra dicent.
Tu reijere império populos lloinane memento,
lhe libi erunt orles paciqite imponere mores
Parcere subjectis, S>' debellare superbos.
Outros vocábulos da lingoa Grega vieau aos Lati-
nos, despois de receberem a religião Christaâ, como
Baptismo,, Euchoristia, prwsbyler, Clericus acoluthns,
Diaconus, cnadiema, Chrisma , scisma , exorcismus.
Outros vocábulos vsurparaõ os Latinos de outras
gentes, por causa do commercio, ou conquistas que
com elles tiueraõ, como petoritum, ambactus, brenna,
ecusa, gesum, essedum dos Gallos, lancca dos Hespa-
16 Origem
nhoes, phramea dos Germânicos, mantissa dos Thus-
cos, mitra dos Moeonios , angaria dos Persas, bis-
canda dos Ikitannos, romphea dos Thraces , sa-
rissn dos Macedones, maslrua dos Sardos, vehia
dos Cscos, cuba, cascus, capencus dos Sabinos, ma-
galia, mapilia, mapa dos Púnicos. Outros muitos
vocábulos se hauiaõ necessariamente de pegar aos
Romanos a principio de sua cidade, assi no ajuntar
que fizeraô de Alba longa a Roma, como no roubo
que fizeraõ das Sabinas que lhe ficarão em casa, &
despois por a disciplina & religião que tomarão dos
Hetruscos, & ceremonias delia, com que de neces-
sidade hauiaô de vir, nouos vocábulos, & cousas. Ou-
tros lhes vieraô por as victorias que houueraõ de
muitas gentes, de que sempre os vencedores trazem
nouos vocábulos. Os Gregos também polas conquis-
tas, & commercio que tiueraõ com os Persas sabe-
mos que tomarão de seus vocábulos, como foraõ ga-
za, parasangi, diadema, tiara, sair upa, ma g us ff ma-
gia, & dos /Egypcios schwnus, dos Cyprios cerasmos,
& dos Medos acyjiacis. E segundo Plataõ no seu Cra-
tylo dos Phrygios tomarão hydor por agoa, pyr por
fogo, & zutov por caõ. E depois de terem o jugo
dos Romanos tomarão muitos vocábulos do nosso
dereito ciuil, cujas leis guardauaíí, como foi stipu-
latio, legatum, fidei commissum, fidei commissarius,
codicilli posthumus. & outros que antes naõ tinhao,
sendo livres. Isto mesmo, no> aconteceo á nós, que
por as cousas que de nouo seinuentaraõ, & por as
conquistas & commercio que tiuemos com outras gen-
tes, nos vieraô muitos vocábulos como foraõ da ín-
dia, catle, cabaia, lascarim, chalim, de que fizemos
chatinar, veniaga, corja, & de Africa alquicee, filele,
balaio. E por inuençaõ de muitas cousas, bombarda,
arcabuz, espingarda, bomba, estribo, e muitos noua-
mente vsurpados dos Latinos, como splendido, arro-
DA LlNGOA PonTVGVESA 17
gante, rommodo, accomwodar , deliberar , consulta,
primórdio, infesto, infestar, alludir, que hora não
ha trinta annos se não vsauaõ. Todos estes exem-
plos trouxemos, pêra mostrar chiam ente que não
ha lingoa algua pura, nem a houue sem ter mistura
de outras lingoas. E a variedade de vocábulos de
que cada dia se vaõ híís introduzindo, & outros per-
dendo, & como pelo discurso do tempo se vaõ de-
semelhando buas lingoas de outras com que tinhaõ
algua semelhança, & consigo mesmas, tanto que
ficaõ parecendo outras. E para também mostrarmos
o erro dos que crêem que a lingoa dos Vizcainhos
que chamaõ Vasconço, mal podia ser a que os pri-
meiros pouoadores de Hespanha trouxeraõ consigo :
pois vemos que nenhum vocábulo daquella lingoa se
parece com algíía outra das que se oje fallaõ per
natureza, ou per arte, sendo verdade que todas as
lingoas tem communicação com algíías outras, ou
per commercio, ou per vezinhança como dizem que
a Hebrea em muitas cousas se parecia com a Phe-
nicia fc Chaldea & Egypcia, a Arábica com a Pér-
sica, a Indica com a Scythica. E pêra que se co-
nheça como a lingoa que se primeiro fallou em Hes-
panha ficaria desdo principio do mundo até agora,
porei aqui estes versos da lingoa Púnica scriptos com
caracteres Latinos que o Poeta Plauto em bua co-
media chamada Pennlc, faz dizer a hum Chartagi-
nez, para que se possa mais comprehender a es-
tranheza daquella lingoagem, & que se não parece
com algua outra das qne se oje faliaõ em todo o
mundo, tantas mudanças fazem pela longura do tem-
po as lingoagès
18 Origem
Nytha Ionim valou vchsi corathifima comsylh
Clijlijm Iac ehunylh in vmistyal myctibari] inihehi
Iipho canct hylh bynuUiij ad codin bynuthij
Byrnarob Syllo Iwmalonin vby misyr perthoho
Bythlym mothyn noclothy vdec chanlr dasmasetiòn
Y side librim thifil ylk chylijs chon tem ítphul
Vib bynim ysdibur thinno cuth nu Agorcislorlis
Yt lie manet tliy ehirsas lycobli fithnaso, $c.
CAP1TVLO VI
A lingoa que se oje falli em Portugal donde teue
origem, y porque se chama Romance
T
JL EMOS dito atraz, como por as muitas & desuai-
radas gentes que a Hespanha vieraò pouoar & nego-
ciar, estana a terra toda diuidida em muitos régu-
los, & senhorios, & assi bania muitas diííerençasde
lingoagês & costumes. Tolo que vindo os Romanos
a lançar de Hespanha os Carthagineses que oceu-
pauaõ grande parte delia, foi-lhes fácil hauer o vni-
uersal senhorio de todos, & reduzir Hespanha em
forma de prouincia como fizerao, dos quaes como-
de vencedores naò soomente osHespanhoes tomarão
o jugo da obediência mas as leis, os costumes, & a
lingoa Latina que naquelles tempos se fallou pura
como em Roma, e no mesmo Latim até a vinda dos
Vândalos, Alanos, Godos, & Sueuos, & outros bár-
baros que aos Romanos succederaO, & corromperão
a lingoa Latina com a sua, & a misturarão de mui-
tos vocábulos assi seus como de outras nações bar-
baras que consigo trouxeraõ, de que se veo fazer a
lingoa que oje falíamos, que por ser lingoa, que tem
fundamentos da Romana, ainda que corrupta lho
chamamos oje Romance. Desta introdução da lingoa
Latina, que os Fomanos fizerãò em Hespanha, &
DÀ LlNGOA PÔtHVGVESA 19
como de muitas nações & vários costumes, se vieraô
a conformar, & parecer tudo bum pouo de Roma-
nos, he testemunha a mesma lingoa que oje falía-
mos, ainda que corrupta, «Schuma pedra antiga que
se achou na cidade de Empurias do reino de Ara-
gão, que era habitada de Gregos, & Hespanhoes que
diz assi:
EMPORITAN!
DlAN.E EPI
POPVLI 6faiÈCI HOC TEMPLVM SVB NOMINK
EPHESLE E O SECVLO CONDIDHUE, QVO NEC
RKLICTA GR.ECORVM UNGVA, NEC 1D10MATI PATRl.E IBER/E
RKCEPTO, IN MORES, IN LlNGVAM, IN IVRA, IN PITlONIíM
CESSEUE ROMANAM. M. CETEGO, ET LVCIO APRONIO, GOSS.
Que querem dizer:
Os moradores Gregos da cidade de Empurias
edificarão este templo aa inuocação da Deosa Diana
de Epheso no tempo que não deixando sua lingoa
Grega, nem tendo tomada ate enttitn a lingoa natural
dos Hespanhoes, se subjectaraõ aos costumes, aa lin-
goa, aas leis, Sf ao senhorio dos iRomajios sendo Co?i-
sules. M. Cetego, t$ Lúcio Apronio:
Desta maneira ofizerados mais pouos assi dos Gre-
gos, como os Hespanhoes, & os Phenices, que fi-
carão em Cadiz. E finalmente todas as mais gentes
que em Hespnnha residiaò, & assi ficou a lingoa La-
tina commum a todos, como se fallaua em Roma.
De que despois procederão muitos homès insignes
em todas as artes como foraõ os Senecas, Lucano,
Martial, Pomponio Mela, Columella, Sylio Itálico,
& muitos phiíosophos, & oradores de que foi mui
celebrado Portio Latro, que nao iaò a Roma apren-
der a lingoa dos Romanos, como também auia em
Africa; que da mesma maneira acceptou a lingoa
V
20 OlUGEM
Latina, de que vieraõ os Apuleios, os Victorinos,
Tertulianos, Cyprianos, Fulgencios, Anobios, & Au-
gustinhos, & outros muitos grandes varões cujas obras
temos oje.
Vindo pelos tempos, como lie natural, hauer
mudança nos estados, & declinar o Império Roma-
no, veo a Hespanba a inundação dos Godos, Vân-
dalos, & Silingos, & de outras gentes; barbaras, que
deuastaraõ Itália, & as Galhas, & dominarão Hes-
panba, & com sua barbara lingoa corromperão a La-
tina, & a mesturaraõ com a sua da maneira que se
vé nos liuros, & scripturas antigas que 'pelo tempo
foi esta lingoa fazendo differença nas Prou?ncias de
Hespanha, segundo as gentes a vieraõ babitar. De-
pois desta barbaria que se introduzio veo a perdi-
ção de toda Hespanba, que os Mouros assolarão, &
destroiraò entre os quaes ficarão .os ílespanboes bus
captiuos, & outros tributários por partidos, que de
si íizeraõ, para lhes laurarem as terras como seus
ascripticios, e inquilinos. E viuendo entre elles
corromperão ainda mais a lingoa mea Gotbica, &
mea Latina que fallauaõ tomando outros vocábulos
dos Mouros, que ainda oje nos durão. Despois des-
te captiueiro vindo-se recuperar muitos lugares de po-
der dos Mouros, pelas relíquias dos Cbristãos que
da destroiçâo dos Mouros escaparão nas terras altas
de Vizcaia, Austurias, & Galliza. E fazendo cabe-
ças de" algiís senhorios íicou aquella lingoa Gotbica,
que era commum a toda Hespanba, fazendo algua
diuisaõ, & mudança entre si cada bum em sua re-
gião segundo era a gente com que tratauaõ como os
de Catbalunha que por aaquella parte vir el Rei Pi-
pino de França com os seus, ficou naquella prouin-
cia sabor da lingoa Francesa, & quando se apartou,
lhes ficou notauel differença entre ella, & a lingoa
DA LlNGOA POUTVGVESÀ âi
de Castella, & das de Galliza & Portugal, as quaes
ambas eraõ antigamente quasi hua mesma, nas pa-
lauras, & nos diphtongos, & pronunciaçaõ que as
outras partes de Hespanha naò tem. Da qual lingoa
Gallega a Portuguesa se auentajou tanto, quanto na
copia & na elegância delia vemos. O que se causou
por em Portugal hauer Heis, & corte que he a ofíi-
cina onde os vocábulos se forjãõ, & pulem, & don-
de manaò pêra os outros bornes, o quenunqua houue
em Galliza. EraalingoaPortuguezana sakla daquei-
le captiueiro dos Mouros mui rude, & mui curta,
& falta de palauras, & cousas, por o misero estado
em que a terra estiuera: o que lhe conueo lomar
de outras gentes, como fez. Polo que sua meninice
foi no tempo dei Rei dom Afonso VI. de Castella,
& no do Conde dom Henrique até o dei Rei dom
Dinis de Portugal que Jeue algua policia, & foi o
primeiro que pos as leis em ordem, & mandou fa-
zer copilaçâo delias, & compôs muitas cousas em
metro aa imitação dos Poetas Proençaes, como se
melhorou a lingoa Castelhana em tempo dei Rei dom
Affonso o sábio seu auò, que mandou screuer a chro-
nica geral de Hespanha, & copilar as sete partidas
das leis de Castella, obra graue, & mui honrada,
posto que rude nas palauras, como também mandou
trasladar muitos authores da lingoa Latina na Cas-
telhana. E assi se foraô ornando ambas as lingoas,
Portuguesa & Castelhana ate a policia em que ago-
ra estão.
22 O mr. fm
CAP1TVL0 VII
Das muitas maneiras per "que se causou a corrupção
da lingoa Latina que em Hespanha se
fallaua na que se oje falia.
N.
ATURAL cousa he aos que se en treme Item a fal-
lar algiía lingoa alhea desencaminhar-se das regras,
& propriedade delia, & commetterem os vícios que
chamaõ barbarismos & solecismos, mormente quan-
do as lingoas saò mui desemelhantes como aconteceo
aos Godos, & Vândalos, & outros taes nascidos na
Gothia, & na Sarmacia; vindo a Hespanha onde a
lingoa Latina casta & pur.i que se fallaua corrom-
perão, adulterando os vocábulos, & mudando-os em
outra forma, & significado differente, & introduzin-
do outros de nono de suas terras. & de outras gen-
tes que comsigo trouxeraO. Das quaes corrupções po-
remos algfis exemplos per que os lectores saberão
muitos segredos desta lingoa, que atequi naõ enten-
diaõ. E a etimologia de muitos vocábulos que lhes
abriraa os olhos para inuestigarem o mais.
Corrupção que se commette na terminação das
palauras.
A primeira & mais geral corrupção he a de-
terminação das palauras que se apartarão do soida
das Latinas que quasi ha em todos os vocábulos.
Porque a\e sermo dizemos sermão, de seruus seruo,
de prudens prudente, de sanguis sangue, de simi-
lis simel, desuiando-se sempre da terminação que
lhe dauaò os líomanos.
DA LlNGOA PORTVGYESA 23
Da corrupção per diminuição de letras, ou syllabas.
Outra corrupção foi per diminuição de letras
ou syllabas, como de maré de que dizemos mar, de
nodo noo, de alri, aa, de sagitla, seetta, de balista,
beesla, de nudo nuo, ou nuu.
. Dos corruptos per acere scentamentos de letras ou
syllabas.
A corrupção per accrcscentamento de letras ou
syllabas se faz, ou no começo, como de vmbra som-
bra, ou no meo de stella strella, ou no fim, como
em migalha de mica, agulha de acu, coração de cor,
como também os Latinos fizeraõ frigus de rigos, &
sylua de hyle.
Dos corruptos per troca $ trasmudapao de huas
letras em outras.
A corrupção per troca de liiías letras por outras
he mui commum,eque comprendem as mais das pa*
iauras, porque de ecclesia dizemos egreja, de desi-
derium desejo, de cupiditas cobiça. IV a qual manei-
ra de corrupção ha huas certas letras que quasi sem-
pre respondem a outras, como o diphlong u au y dos
Latinos a que os Portuguezes respondem com o seu
ou, como por audio ouço, por aurum ouro, por tau-
rus touro, por laurus louro, por maurus mouro, por
mulis couue, & por paucus pouco. E por naò gas-
tarmos tempo da mesma maneira em todos os mais,
tirando auris, per que dizemos orelha, & Agosto de
Augusto, faluo quando for cognome de Emperadores
que diremos Augusto (porque nomes próprios nun-
qua se variaõ ) E anthor & authoridade, & agouro
24 Origem
& agourar de augurhim, audiência, audácia, augmen-
to, austero, authentico, causa, caução, cautella, nau-
frágio
Da mesma maneira se mudaõ as letras em ou-
tras semelhantes como he o 1. em r. & o p. em b.
o t. em d. Porque por obliqar dizemos obrigar, por
Mandas brando, por supplere supprir, por simplex
simprez, & simpreza, por claras craro, por glaten
grude, por mesptjlum nespara, aaditas ouuido, por
amatus amado, & assi todos os participios acabados
em tas. E assi se mudaõ muitas letras em outras
affijs suas como fizeraõ os Latinos nas palauras que
vsurparaõ dos Gregos que demij dixeraõ mus, de
sjjs sus, de htjle sylua, como mais largo mostramos
na nossa Ortographia da lingoa Portuguesa, porca-
pra cabra, pur capillus, cabello, por caput cabeça,
por capistum cabresto, por aperio abrir, por apricus
abrigado, por prunum brunho
Corrupção per troca de letras para outras naõ
semelhantes .
Outra corrupção se faz per troca de hiías le-
tras, naõ em outras affijs <Sc semelhantes: mas em
outras mui diííerenles. como de scapha esquife, de
mimus momo, de locusta lagosta, de pústula bustel-
la, de cumulare cogular.
Corrupção per traspassaçaõ de leiras de hum
lugar a outro.
Traspassaõ-se as letras de hum lugar a outro,
como foi em fenesir/i, porque dizemos freesta, de
capistrum cabresto, por feria feira, por vicário vi-
gairo; & como em sylucster. porque dizemos sylues-
DA LlNGOA PoMTGVESA 25
tre, em niger negro, em pauper pobre, de zinzibcr
gengiure.
Corrupção per mudança degenero.
Outra corrupção se faz mudando o género dos
vocábulos, & cousas, como quando dizemos esta cor,
esta flor, sendo estes nomes no Latim, donde os to-
mamos do género masculino, e esta goma sendo gumi
do género neutral : & por o contrario dizemos este
methodo, este dote f este paul, este tribu, este naris,
este aruore, sendo todos estes acerca dos Latinos, do
género feminino como também fizeraõ os Latinos que
sendo dacryon do género neutro fizeraõ lacryma io
feminino. Outros fizeraõ ambíguos hora de hu gé-
nero Uora de outro, como este fim, esta fim.
Corrupção per mudança de numero.
Mudamos o numero em scopcescoparum, de que
dizemos escoua, & de arma armorum bua arma, &
de scalce scalarum escada, de codicilli codicillorum
codicillo, de c mcelli cancellorum, concello & cancel-
la, & de paleai palearam palha, de relíquia? aram
hua relíquia, & de antena? arum antena, & outros
taes sendo nomes que na lingoa Latina naô tem nu-
mero singular : e pelo contrario dizemos pelo nu-
mero plural de clatra grades, & de craticulas gre-
lhas que os Latinos dizem singularmente.
Corrupção per mudança do vocábulo em outra forma
por a mudança de significação.
Mudamos o mesmo vocábulo latino em diuer-
sas formas por a variedade da significação como esta
palaura macula, que quando queremos por cila si-
2G Origem
gnifiear abertura de rede, mudamola em malha, &'
quando queremos significar labe, ou peccado, ou sen-
timento de animo, mudamola em magoa, & quando
nódoa em mancha, «Sc de puluere dizemos poo, & pol-
uora per diííerente significação.
Corrupção per impropriedade de significação alhea.
A corrupção de imprópria & alhea significação
que damos aos vocábulos comprendegran.de numero
dellos como nesta palaura ladraõ que chamamos,
naõ somente o que rouba em publico, ou no cam-
po, mas ainda ao que furta occultamente, & que he
o que os Latinos chamaõ fur, sendo differentes de-
lictos, & que teem diílerentes penas, porque a obra
do ladrão publico chamamos roubo, & a do ladrão
secreto, furto.
K como na palaura chamar que vem úedama-
re t que tem diííerente significação do verbo vocovo-
cas t porque nem todo o clamar se faz clamando, nem
todo o chamar chamando.
E como nesta palaura molher, que fazemos cor -
relatiua de marido poraquillo que os Latinos dizem
vxor, sendo a palaura mulier commum a toda fê-
mea, ainda que naõ seja casada.
E como nesta palaura Casa, que significando
propriamente na lingoa Latina as choupanas, ou cho-
ças, que saõ as casas rústicas, chamamos casas,
assi as que saõ grandes & reaes como as do campo.
E como na palaura mandar prolegare, antcom-
mendare, que tomamos impropriamente \}ov impera-
re, & jubere, & por enuiar.
E como nas palauras tio & tia, irmã» de meu
pai ou irmaã, que tomamos assi por os irmãos de
«ossos pais, como por os de nossas mais, sendo ver-
DÀ LlNGOA PORTVGVESA 27
dade que o irmaô de meu pai he meu patruo, & o
irmau de minha mãi meu auunculo, & a tia irmaã
do pai a mita, & a irmaã da mãi, matertera, & co-
mo na pai aura sobrinho que chamamos aos filhos de
nossos irmãos, ou irmaãs, querendo propriamente
dizer primos com irmãos os filhos de duas irmaãs,
cemo palmeies filho de dous irmãos varões.
; E como na palaura manco, que sendo propria-
mente acerca dos Latinos, o que tem aleijão nas
maõs, o tomamos por o aleijado dos pees. .
E como na palaura alugar que vindo de loco
locas, que quer dizer dar de aluguer, dizemos tam-
bém alugar por tomar de aluguer, o que se hauiade
dizer por outro verbo que respondesse ao verbo la-
tino conduco, que he tomar de aluguer, porque o que
daa a casa a outro por dinheiro chama-se locator,
& o que a toma he conduetor.
É como na palaura emprestido pela qual assi
significamos o que em Latim se chama mutuam, to-
mo o que se chama commodatum sendo contractos
mui diíferentes. Porque o mutuam he emprestido de
dinheiro, ou cousas que se pesai) ou medem, como
trigo, vinho, azeite, que damos pêra o que as recebe
hauer o senhorio delias, & as conuerter em seus
vsos & tornar outro tanto dinheiro, trigo, ou azeite
como o recebeo. Finalmente he o mututmem pres-
tido de cousas que consistem em género. & o com-
modatum he emprestido de cousa que consiste em
specie como um cauallo, ou liuro, que acabado o
tempo do emprestido se ha de tornar o mesmo cor-
po, s. a mesma cousa. \l nós por curteza da lingoa
a tudo chamamos emprestar, & emprestido sendo
cousas tam differenles.
Ecomo na palaura morada, & morar que vindo
28 Origem
de moror raris, que quer dizer estar de uagar, ou
de assossego vsamos delle em lugar de habitar.
E como na palaura postigo que querendo dizer
porta detrás a dizemos por a portinha, que estaa em
outra porta maior, que se abre sem a grande se abrir.
E como na palaura entremettido & entremetter,
que querendo dizer deixar algla cousa, ou affroxar,
ou dar vago, dizemos polo contrario entremettido o
que he solicito ou se entremetteou occupa, em con-
traria significação do verbo Latino intcrmitto.
E como na palaura dinheiro que vindo de de-
narius, nome particular de certa moeda, que pesaua
dous vintees o vsamos por o geeral que os Latinos
dizem pecunia: como também fizemos nesta palaura
maçaã, que sendo nome special de hum certo gé-
nero de pomos, que foi planta de hum Gaio Matio
grande accepto a Augusto Caesar, Pliniolib. 15. cap.
29. ^ lib 12. cap. 2. por o que os Latinos lhe cha-
mauaô malum Matianum o tomamos por o geral de
todos os daquelle género que chamao malus, porque
dizemos malas pânica, malas medica, malas matiana,
&c. O contrario fizemos neste nome br unho, que sen-
do prunum geeral de todo género de amexas, o to-
mamos spomente por hua espécie de amexas brauas,
que trauaõ a que chamamos brunhos, como também
fizemos na palaura poldro, que vindo de pollo, que
quer dizer todo animal nouo & pequeno, o dizemos
specialmente por o cauallo nouo.
E como na palaura louro, que sendo corrupta de
luridus a um, que quer dizer cór como amarella de
home morto, azulada, ou verdenegra, como a dos
dentes podres, chamamos louro, o que os Latinos
dizem flauus, que he cór fermosa, & clara como a
dos cabellos de cór de ouro, que chamamos louros.
E como na palaura jantar corrupto de jentacu-
DA LlNGOA POMTVGVESA 29
htm latino, que quer dizer almoço, que se comia
pela manhaã, per ella significamos o comer ordiná-
rio, a que os Latinos chamauaõ prandium, & se co-
mia na força do dia.
E como na palaura jogo, que querendo dizer em
Latim soomente graça, ou galantaria de palauras a
confundimos na significação com a palaura ludus. E
dizemos jogo de cartas, de bola, & todas as mais
maneiras de jogos.
E como nesta palaura cunhado, per que chama-
mos aos que nos saõ afíijs, naõ se podendo chamar
per ella senaõ os parentes do mesmo sangue.
E como na palaura parente per que chamamos
os que na verdade saõ cunhados em sangue, s. os
tranuersaes, sendo a palaura parente que soomente
comprendei pai,mãi. auoos & bisauoos, & dahi pêra
cima aos mais ascendentes.
E como na palaura spcrar que vsamos por expec-
ta e hauendo de híia a outra muita diíferença, por-
que spcrar denota aquella paixão ou alíecto do ani-
mo que he spes que segundo M Tullio he aguardar,
por algum bem , & o outro he aguardar olhando
por alguma cousa se vem ou nâo, & diz se de ex &
specto as, porque quando aguardamos por algiía pes-
soa costumamos olhar se vem.
E como na palaura rostro, que sendo soo das
aves, k, animaes o dizemos, por o dos homeès que
os Latinos chamaõ foce, ou vulto, como também na
palaura perna, que sendo soo dos porcos, o dizemos
por as pernas dos homecs & das molheres, a que os
Latinos chamaõ crura.
Ecomo nesta palaura matar tomada impropria-
mente do verbo macto macias, que he matar sacrifi-
cando.
E como na palaura Tauerna, que especialmente
30 Onír.EM
dizemos por a casa cm que se vende vinho, sendo no-
me geeral de todas as casas, em que se vendem quaes-
quer cousas.
E como na palaura trazer, sendo tomada de traho,
his, que quer dizer trazer per força, por a qual sig-
nificamos tudo o que se leua sem força, que se ex-
plica na lingoa Latina pellos verbos duco, porto, fe-
ro, gero, gesto, veho, que saõ differentes maneiras de
trazer.
E como na palaura vicio que querendo dizer
peccado, ou máo costume, & vicioso, mal costumado,
dizemos campo viçoso, terra viçosa, posto que nos
escuse ser melaphora, de que também vsaô os Lati-
nos, que dizem luxuries, segctam, pecoris, ant arborum.
E como na palaura marticola por sim ia que er-
radamente tomarão, sendo nome de outro animal
mui differente. A causa deste erro foi que ouuiraõ
dizer, que hauia um animal que tendo semelhança
com o homem no rostro, & nas orelhas, & na voz
humana que imitaua para encanar homeès de cuja
carne he mui goloso, como tudo conta Plínio no li~
tiro 8. capit. Mt; d§ sua Natural Historia, & se cha-
ma manticora, enganados por a figura dos bugios ter
algua semelhança com o corpo humano , cuidarão,
que este era o mesmo animal que bugio, & assi lhe
chamarão marticola por manticora, & contra razaõ
porque aquelle animal he crudelissimo entre os mais
feros, & tem outra figura, & diííerença dos outros
animaes, como o pinta Plínio. E ja que viemos a
fallar em bugios, queremos dar razaõ, porque secha-
maõ assi,&he que na cidade de Bugia fortaleza que
os Hespanhoes tinhaõ em Africa, ha tantos (pie os
moradores se naõ podem valer com elles, & dalii os
trazem & lhe deraõ esse nome; que de Bugia com-
sigo trouxeraò.
DA LlNGOA PORTVGVESÀ 31
Também se deu significação imprópria a esla
pai aura paruo que querendo dizer pequeno, chama-
mos assi aos que sabem pouco, ou saõ tontos ainda
que sejaõ grandes. E a razaõ lie que os Hespanhoes
antigos, principalmente os Portugueses chamauaõ aos
moços pequenos ou meninos, partias, segundo se vee
das suas scripturas antigas, como também ihe cha-
mauaõ os Latinos como leemos cada passo nos me-
lhores authores delles, & M. Tullio no liuro 5. de
Finibus Bonorum onde diz: Parai primo orla sic ja-
cent, tamquam, omnino sine animo s int. E logo no mes-
mo lugar. Parai virtutuui simiilachri<, quatum in se
habent semína, sini doctrina mouenlur. E muito mais
frequentemente o leemos na Sagrada Scriptura, como
naquelle lugar deS. Matth. vap. 18. Nisi (onueni
faeritis sicut paruuli, &c>
E como os desasisados a que os Latinos cha-
mai) fátuos, ou dementes, saí) no entendimento, &
nas palauras como os meninos cliamaraõ-lhe pamos.
O que se vee da palaura menino superlaliuo de par-
tias, de qne formarão duas palauras differentes na
forma, sendo ambas de hum mesmo significado. Por-
que aos dedo,s mais pequenos chamamos meiminhos,
& aos moços mais pequenos meninos, hauendo os de-
dos & os moços de chamar-se per hum mesmo nome
mínimos.
Outra corrupção & impropriedade ha na pala-
ura mancebo, que vindo de mancipium, que quer di-
zer escrauo, chamamos assi ao moço que nos serue
ainda que seja liure. Donde viemos também chamar
mancebo ao homem que lie de pouca idade, & man-
ceba aa molher moça, & dahi manceba aa molher,
que lie amiga de algum, de deshonesta amizade, por-
que por a maior parte lie vicio da mocidade : & dahi
dizemos amanerbados os que estaõ em conuersaçaõ
32 Obigem
deshonesta, & mancebia ao lupanar em que as maas
molheres estaõ. \l tanto veo aextender se o começo
errado, ou corrupção desta palaura, que como os
Latinos chamaô jptier ao moço de seruiço: porque
para aquelle ministério, se buscao moços, & naô
velhos, assi cuidarão os bárbaros que podiaõ vsar de
mancipium por moço, sendo causa mui diííerente.
Porque puer denota idade, & mancipium stado da
pessoa captiua, per que se naõ podia significar moço,
nem velho. Pola mesma razaô como por o criado to-
marão o nome de moco, que h&puer, vieraô chamar
senhor, que he o mesmo que sénior, ao patrão da ca-
sa : a que mais propriamente chamaríamos dono, que
he mais propinquo de Domino. Porque como aos
mais anciãos se deue mais honra, ao patrono, &
principal da casa começarão chamar senhor muitas
gentes, a quem este vocábulo ficou commum, como
os Romanos chamauaõ Patres aos maiores, & aos go-
vernadores das cidades. Tal foi a extensão da pala-
ura barregaõ, que os antigos chamauaõ ao homem,
ou molhêr que eslauaõ no vigor de sua idade, que
hora chamamos aos que estaõ em amizade desho-
nesta, a que chamarão barreguice.
Outra tal foi a corrupção da palaura, puta,
que sendo vocábulo honestíssimo, que quer dizer
moça puríssima, & limpa por encobrir a fealdade do
vocábulo de meretriz, ou tanto tam feo, vieraõ a in-
famar aquelle nome, chamando puta, a molher que
estaa posta ao ganho, deputaria o lugar onde ganha.
Outra corrupção se faz em muitos participios,
que sendo da voz passiua lhe deraô significação ac-
tiva chamando:
Atreiíido, o que se atreue.
Agradcscido } ao que agradesce.
DA LlNGO\ FORTVGVESA 33
Arriscado, ao que arrisca.
Arrufado, ao que se arrufa.
Attentado, ao que attenta.
Bem foliado, ao que falia bem.
Calado, ao que cala.
Confiado, o que confia.
Conhecido, o que conhece.
Costumado, o que costuma.
Considerado, o que considera.
Crescido, o que cresceo.
Desconfiado, o que desconfia.
Desenganado, o cfue desengana.
Determinado, o que se determina.
Encolhido, o que se encolhe.
Entendido, o que eníende.
Esforçado, o que se esforça, ou tem força
lurado, o que jura.
Lijdo o que lee.
Negociado, o que negocea.
Ousado, o que ousa.
Porfiado, o que porfia.
Recatado, o que se recata.
Sentido, o que sente.
Sabido, o. que sabe.
Valido, o que vai.
Jantado, o que jantou.
Corrupção que se faz traspassando muitos vocábulos
de hiía significação em outra, per hua figura que
se chama metaphora.
I\ TRASLADAÇÃO de palauras de huma significa-
ção em outra, a que os Gregos chamao metaphora,
he mais natural aos Portugueses que a nenhiia ou-
tra nação, & em que tem muita graça, & ficaõ ricos
3
34 Origem
de muitas palauras, & maneiras do fallar, como he
chamar assomado ao accelerado, ou que supitamente
se põem em ira, tomada a metaphora dos que fazem
a conta em somma, & naô pelomeudo, porque como
a ira he hum breue furor, o irado naõ considera,
nem lança conta ao que faz ou diz com tento Don-
, de disse Aristóteles no Muro 7. cap. 6. das Ethicas,
v que a ira he como seruidor diligente, que antes de
' ouuir todo o recado, ja parte, & quando chega aon-
de o mandaõ, naõ sabe o que ha de dizer. E assi
dizemos abelhudo o que anda apressado em algíía
cousa, tomada a metaphora das abelhas, quando an-
daõ em lauor. E dizemos lampeiro o que faz algfia
cousa ante tempo, tomado das figueiras, que daô fi-
gos temporaõs. O que parece vem de lampas porre-
lampado. E assi dizemos taludo por o homem, ou
molher que he já de dias, tirada a metaphora das
heruas, que sao ja de todo crescidas & tem talo; &
estaô" para dar semente
E a hua molher que he já de dias chamamos-
lhe auellada, tomado das castanhas quasi setfcas, &
para expedir a casca. K dizemos viuer depressa o que
se mette em muitos perigos, & arrisca a vida, to-
mado dos que correm ou andaõ depressa per lugares
de que podem cair ou embicar. E dizemos viuer a
olho por os homès que viuem sem ordem, tomado
dos que vendem a carne a olho ou aa enxerga, f.
sem peso & sem medida. Estas maneiras de fallar
que os Latinos tem em muito, quando se perseuera
muito nellas naõ se apartando do sentido metapho-
rico, em que começarão, he tam frequente aos Por-
tugueses, que algus estarão muito espaço de tempo,
fallando sempre metaphoricamente, sem se mudar
da mesma metaphora.
DA LlNGOA PORTVGVESA 35
CAPITVLO VIII
De algas vocábulos Portuguezes tomados dos Latinos,
que pella corrupção que se delles fez estaò obscuros.
JAbEGOAMA, de pecuária.
Abestruz, de auis & strulhio.
Acha de lenha, de assula.
Acertar, de certus a um, id est dar em certo lugar.
Acintemente, que os antigos diziaõ cintemente. id est
scienter quasi scientemente.
Adestrar % de dexter.
—Adro, de atrium.
Áh Agora, de hac hora.
Albequorque, id est frutta noua, que vem primeiro de
preçoquum.
Alcatruz, de a quão ductus.
Alcofa, de cofinus.
Aleijão, de kcso is.
Alimpar; de limpidus a um.
Alporcar, de porca, que quer dizer coua ex columella.
Ancho, de amplo mulata mula cum liquida ín eh
Annojo, animal de hum anno, de annuus.
Antcado, quasi ante natus ex primo matrimonio.
Anzolo, de vucinus. i.
Apaniguado, de pane á- aqua quasi paniagnado.
Arenque, peixe, de halec.
Arrebique, de ruhrica.
Arroz, de oryza.
Arreigar, de radicare.
Assoprar, de sufHare .
Atorcelar, de torqueo, es,
Ataguantar, id est eteguentar, id est ethicum facere.
Aualiar, poer preço, de valeo, es,
Auença, de venio, como conuença de conuenio
Auenturar, devenlurus a um,
_-- Aziago dia de Egypdacus, porque os Egypcios tinhaõ
agouro em certos dias.
— Baixella, de vas is inde vasilha.
3€ Origem
Barros de rosto, barrus.
^''Baratta, de blatta.
Barato, dizem algus que deparato, id cst preço que es-
taa apparelhado facilmente.
Bebera, ligo, i d est bifera.
Bejfâcar, de vellico as.
Berrar das ouelhás, de bcllarc ex varr.
Bigorna, de bicornis.
Bochecha, de bueca.
Bolsa, de bulga latino ou byrsa Grego.
Bramar, de tremo is.
Bulis, de bulio is, por feruer.
Cachopos, penedos do mar, de scopulus.
Ganauoura, cana ferula.
' Çarrafaçar, sca ri fica re .
Catar, de captare.
Caueira, de ca lua ri a.
Cenrada, de cincero quasi cinera ta.
Cezao, de frio ou febre, accessío is.
Ccuada, pro ordeo, de cibo cibas quasi cibata.
Ceva, cibare.
Chaga de plaga, muta cum liquida in eh more nostro.
Chama de ílamnia, cadem ralione, inde cbamusco & cha-
muscar.
Chapim de sapinus, aruore de matéria leue, á- specie de
pinheiro aluar de que em Itália fazem este calçado, á
soccos como fazemos de cortiça, segundo Laguna ih
Bioscoridcm como também dizemos pantufos, de pan,
pantos, & phellos por cortiça, quasi tudo cortiça, se-
gando Ioacbím 1'erionio, no Tratado da Cognaçaõ da
lingoa Francesa, com a Grega. E como dizemos al-
corques de alcornoque palavra Castelhana, que quer
dizer soucreiro, que daa a cortiça, segundo o mesmo
Laguna.
- — .Chorar, pro plorare, mula cum liquida in eh.
Chouço, de clausum, muta cum liquida in eh.
^Chuina, de pluuia, cadem ratione.
Chumaço, chumella de pluma, vide orlhograpbiam nos-
tram.
/
DA LlNGOÀ POUTVGVESA 37
Chupar, de fugo is.
Cigarra, cicada.
Cobra, de coluber, ou de copula, por as voltas que pa-
rece que faz dobrada.
Cobro, de qualquer cousa, de copula, por a mesma razão,
Cocedra, de culcilra.
Começar, de com d- de ínílio as.
Contar, de computare.
Corrco, á currendo.
Corcouado, forte a cucurbíla.
Corte, de aues decors is.
Corte, de senhor de cohors is.
Gostai, quía costis aut humerís porlatur.
Couto, a cauto quía ibí cautí sumus.
Cozer, no fogo, coquo is.
Cravo, spccíaría, a similitudiue claui.
Deitar, dejecta re.
Desbarate, dísparalum.
Dobrar, duplícare.
Dorsel, de dorsum, porque arríoiaõ a elle as cosias.
Encetar, ínceptare.
^Escrauo de sclauonc.
* Espdoa , spatula.
Enxabido, ínsipídus.
Ensoso, insulsus.
Esteiro, do Diár, ícstuarium.
— Estrago, slrages.
-v- 'Farol, de Pharo torre, em que se punha lume para en-
dereçar os nauegantes.
Feira, de feria, porque nos dias feriados se faziaõ os
mercados.
— - Fita, de vítta.
Garça, á glauco colore, id esl garço ou zarco.
(irade, de cia ih la.
. lanella, dímínutiuo de Ianua. #
Ilharga, de ilíum ílij, ília pluralíter.
inchar, de inílo muta á líquida ín eh.
foiaa, & Joíel, de jocale bárbaro latim.
Ioio, de loltum, de que vem joeira por o instrumento.
38 OníGEM
com que se alimpa o trigo do joio, d joeirar, d en-
joar, que quer dizer, padecer o pesadume ou accíden-
te que tem os que comem paO de joio.
Laçada, de laqueus.
Lagar, de lacus.
Laurar, de laboro as.
Lograr, de lucror lucraris, corrupta signiíicatione.
Manposleiro, de manu d pos tus.
Maia, de Maiumis sesta de Gentios.
Mealheiro, de mealha, d medalha de melallo.
Menagem, seu polius homenagem, de homagio, nome
Lombardo.
Menino, de mini mus.
Menoscabado, de minulus capilé. %
Merceeiro, que roga por a alma de outrem, de miseratío
is, porque pedem misericórdia para alguém, d naõde
mercês dis quasi mercenário.
Mesura, de mensura alias Ilebreo. vide in llebríeis.
Messageiro, de milto por enuiar.
Mexer, de misceo es.
Místico, de mistus ou mixtus.
Modéstia, de modus.
Molho, de manipulus.
Morcego, de mus muris, d cíccus a um, porque se pa-
rece com os ratos, d naO vee de dia.
Oganno, por hoc anno.
Orello, de ora, por cabo ou estremo.
Pagar, do verbo pacare, que significa apazigar ou aman-
sar.
Palmatória, de palma, porque na maõ estendida se daa
com ella.
Palmeiro, peregrino, de palma aruore, por os que vinhaõ
da peregrinação da terra santa, traziaõ por bordão
húa palma, em final que linhaO acabada sna peregri-
nação, segundo^aulo ^Emil.na Vida dei Itei Luís VIL
Pancada, vem de paio, d segundo outros de Phalanga
Grego, que lie a vara roliça com que os nauegan-
tes trazem as barcas aa terra, ou as leuaò da terra
ao mar.
DA LlNGOA POKTVGVESA 39
Parceiro, de partiaríus, de pars partis.
Peçonha, de polío nís.
Pella, que baila, de puella ou de pila, porque salta, á
daa pulos como pela,
Paul, de palus dís.
Píuírada, de piure corrupto de pipere pelos Franceses.
Piuida, da gallinha, pituíta.
Píntão, por frangão, de pipo pipas, por piar.
Poio & Poiar, de podium.
Poír, de polío is.
Queda, ou Caida, de cado is.
Queimar, de cremo.
Quixume, de queror is.
Quente, de caleo, es, quasi calenle.
Quilate, de ceratiuni, ex Budeo in asse.
Reptar, a carreira, repedare.
Rispido, de hispidus a um.
Roçar, de runcare.
Romeiro, de Roma, porque dos antigos e>ra a prin-
cipal perigrinação, por causa da religião, á- dalii vco
romagem á romaria por qualquer visitação que se faz
a casas de oração.
Rombo, por redondo que parece vem de rhombo y que lie
o peixe rodoualho, que tem a figura redonda.
Sacho, de sarculum, & sarculum de sarrio is.
Sindeiro, de cantherio.
Serão, de sero por tarde.
Sesudo, de sensus quasi sensatus.
Sirgueiro, de serícum que he seda.
Sopear, trazer sob os pees.
Theima, por contumácia, parece porque os conlumazes
sempre estão em hum preposito.
Trombctta, de tuba.
Trez, panno, de certa tecedura de trilíce.
Virate, de verutum, que quer dizer ferro longo é agudo.
40 Origem
CAPITVLO IX.
Dos vocábulos que tomamos dos Gregos
A
SSAZ temos mostrado no que acima deixemos
sobre a communicaçaõ de vocábulos que buas lin-
goas tem com outras, quam grande numero delles
os Romanos tem dos Gregos por as artes & discipli-
nas, que delles receberão, & nós tomamos dos Ro-
manos. A fora estes nos vieraô outros dos mesmos
Gregos, de que porei algiis para exemplo.
Agonia, por temor ou perigo.
Alampada, de lampas dís.
Alcendro, herua de Rhodo dendros.
Apartar, de apartar que lie o mesmo.
Artesa, instrumento de amassar, ou leuar o pam, de ar-
tos por pam.
Calma, de caunri por calor.
Camilo ginete, parece que de ginete por raça quasi cauallo
de boa raça.
Chefe, por cabeça da linhagem, que tomamos corrupto
dos Francezes de cephale Grego.
Calafate, por carpinteiro de nãos.
Cara, por mascara ou caput.
Carauclla, forte de carabion, id est nauicula.
Caixa, de capsa.
Chronica, de chronos por tempo.
Fragata, forte, ab aphrata.
Esquerdo, de Zxeoc por sinister.
Espada, spatha.
Guitarra, de cytbara.
Galee, de galé por mustella, id est doninha por a seme-
lhança que tem daquelle animal potius quam á Gaulo
pio nauigio.
Goiuo, de leucoío.
Harmonia, harmonia.
Idiota, por ignorante.
Mania, por doudice.
PA LlNGOA POKTVGVESA 41
Mecha, de mixus.
Para, preposição, que significa acerca dos Latinos ad.
porque os vulgares dizem pêra.
Papa, em Grego, significa pai.
Thermoços, legume, de thermos.
Titio d- Tina, por os irmãos de nossos país.
Tragar, de tragein, por comer.
u
CAPITULO X.
Dos vocábulos que os Portugueses tomarão
dos Árabes.
UMA das lingoas de que os Hespanhoes muitos
vocábulos tomarão foi a Arábica, des do tempo que
em Hespanha entrarão os Mouros, pela geeral des-
troiçaõ que delia fizeraô, no tempo dei Rei Rodri-
go , per que os Christaõs ficarão entre elles , híís
captiuos, outros tributários, como gente subjecta &
misera que outras gentes naõ conúersauaõ. E ainda
despois que se as terras recuperarão, pelas relíquias
dos Christaõs que escaparão nas terras montuosasda
Cantábria, das Astúrias, & Galliza, & ainda ficarão
vnidos com os Mouros. Porque assim como os Chris-
taõs viuiam subjectos, & tributários aos Mouros, fi-
carão polo contrario os Mouros subjectos & tributá-
rios aos Christaõs, & nas mesmas terras ate o tempo
de 1492, em que os Reis de Portugal, & Castella
os desterrarão de Hespanha, naõ se tornando Chris-
taõs. Polo que ficarão muitos vocábulos delles aos
Hespanlioes. E se alguas palauras, que aqui como
Mouriscas apontamos, virem que se pareçaõ com as
Latinas, ou de outras lingoas, não se espantem por-
que por a trasladação de liuros de medicina, & de
alguas outras artes que íizeraõ os Mouros em sua
lingoá, & por a communicaçaõ que tinhaõ com ou-
42
OlUGEtt
tras gentes, tinbaô elles muitos vocábulos communs
comnosco, & com outros. E muito menos se deuem
espantar se virem que algíís tomarão dos Hebreos
por a lingua Hebrea ser como mãi de todas por sua
antiguidade , de que todas as outras tomarão prin-
cipalmente os Árabes, que com os Hebreos tinhaõ
muita vezinbança, & semelbança na hngoa, de que
porei os que me lembrarem para exemplo.
Açacal^ que c aguadeiro ,
Caça Caçain
Açafrão, zaafaram.
Açafate, çafait.
Acelga, celq celb.
Açofar, certo meta! de mcs-
turas, açofar.
Açofeifa, zuuftifa.
Açorda, curda.
Açúcar, cucar.
Açucena, cuçina.
Açode, çud.
Açumagrc, çumac.
Adarga, darga.
Adello, delil.
hduff, duf.
Agulheta, gugita.
Albacar, albacar.
Albarda, barda a.
Albafor, bofor.
Albarrada, barrida.
Albanão, torre, barranía.
Albernoz, bernoç.
Albuquorque, becorqz.
Alencar, caçar.
Alcácer, heuaa, cacil.
Alcaceua, ca caba.
Alcatruz, eardus.
Alcaide, caide.
Alcarouta, carauía.
Alcântara, ponte. ^p"*"
Alcandora, candare.
Alçaria por aldca, caria.
Aldraba, dabá.
Alfauaca, habaca.
Alferce, aufiç.
Alfaiate, haíat.
Alforhes, horç.
Alcachofre, hurxofa.
Alcaíote, caguid.
Alço for, cohol.
Alcoueteiro, de liat caguei
por alcoueitar.
Alforza, fuza.
Alpnctte, hilil.
Alfageme, guarnecedor de
espadas, bageme.
Alferroba, harroba.
Al faça, baça.
Alfaia, baia.
Alfandega, fondaque.
Alfeloa, Hulua alfeni, linid.
Alfolua, holua.
Alforria, hurría.
Alfazema, buzima.
Algodão, cólon.
Algema, prisão, magimie.
Alguidar, alguidar.
DA LlNGOA PORTVGVESA
43
Aljôfar, de julfar, Ilha de
Ormus; logar onde se
pesca.
AU aba, tuba.
Aliube, íubb.
Almofaça, mohaza.
Almeccya, mestech.
Almofariz, mihíriz.
Almofrexe, mafraz.
Almarraxa, maraxa.
Almojauana, mujcbene.
Almoxarife, mixrif, é ma-
xírif.
Almagra, magra.
Al mude, mud.
Alma z em, magzem
Almadraua, madraba.
Almeirão, miron.
Almofada, mu liada.
Almotacel, muh teceb.
Almogauere, mogageurc.
Almocadem, ímiquedem.
Almotalia, mui i lia.
Aspargute cajçado, pargat.
Alquicee, quicé.
Alquítira, quetíra.
Alquilara, quitara.
Alquiez, medida de cortí-
dores, quíez.
Ar quelha, paramento de ca-
ma, queílhe.
Arrabalde, rabad.
Aluará, borâ.
Alucitar, bei ta r.
Aluaíde, baia d.
Aluanega, coifa, baneca.
Alucrca, herque.
Aluíçara, buxula.
Arre;ife, aracife.
Arrobe, rub.
Argamassa, laxamax.
Arroba, robaa.
Arrátel, rethl ratai.
Aroeira, da roa a.
Atanor, tanor.
Atalaia, tagalía.
Atafona, tabona.
At abale, tabal.
Azagaia, zagaia.
Azeitar, cíbar.
Azougue, zauque.
Azulejo, zuleca.
Azorrague, çurríaga.
Aziar, ziar.
Abeíte, zait.
Azeitona, zeítune.
Azeuezinhos, zebezín.
Azemala, zemíl.
Bacio, por scruidor, baciz.
Banco, banco.
Baba, baua.
B abeira, baucra.
Bolota, bolota.
Beca, beca.
Berringella, bíndíngína.
Best ioga, beslía.
Bolo, poia.
Bolsa, borja.
Borracha, borra che.
Borzeguim , borzaguin de
burus por couro.
Cadimo, cadím.
Cáfila, cáfila.
Ç amarra, ca marre.
Camisa, ca mija.
Canastra, ca na eh a.
Canona, ca na na.
Çapateiro, çapatàir.
«
Origem
Carauctla, carabiUa.
Carda para cardar, carda.
Carrapato, capaíta.
Casco, quixca
Ceifo, caifa.
Ceroulas, çaraguíl.
Ceroto emplastro, çaírot.
Ciranda, ca rand.
Citara , ou caparazão de
sei la citara á carbazon.
Corço, Curz.
Cossairo, corsa 1.
Cota, cota.
Cremesim, cremes.
Cuzcuz, cuzcuzu.
Elche, aílch.
Ema, heama.
Enxoual, xigar.
Enxarrafa, xaraba.
Espinafra, yspinag.
Escarlata, ísquerlat.
Esteba, íslíp.
Faixa, faíja.
Falcão burní, bumí.
Falcão neblj, neblí.
Falcão alfaneque, faneque.
Falcão sacre, çacrc.
Falcão barahíj, bahari.
Falcão girí falte, jarafan.
Fatia, ou pedaço, fitita.
Fazenda, verbo dictum de
hazen por enthesourar.
Fouueiro, côr de cauallo,
baíberí.
Gaita, gaita.
Garça, aue, garça.
Gato, guit.
Gergelim, jolfoli, julíulin.
Girão , de vestidura, jaron.
Gorjal, de vestido, gorgaíra.
Guaías , por canto triste,
guaía
Jaualí, porco, jabelí.
Lezira, gizira, gízaira.
Legoa, licua & leugé.
Lousa, para tomar aues,
luxa.
Maçaroca de fiado, mazorca
ex Maceca Hebreo.
Manchil, mengíl.
Mandíl, mandíl.
Marfil, defil por elephante.
Marlota, marlotta.
Marrano, forte aba rra no por
estrangeiro.
Mesquinho, mesquino á- mu-
ceíquín.
Mesquita, mergíl.
Mochilha, morchilla.
Nora de poço, na aura na ora .
Pandeiro, pandaír.
Pardal, pardal.
Peixota, peixota.
Perrexíl, perrixín.
Picota, picota.
Porra por maça, porra.
Queda por medida, qued.
Quilate de ouro, quírat.
Quintal, peso, quínlar.
Rapaz, por moço criado de v
alguém, ou lacaio, rapaz.
Resma de papel, raxma. -
Roca para fiar, ruça.
Romaã, pomo, roman.
Sardão porlagarlo, hardon,
Seira de esparto, xaíra.
Sirga com que leuão os bar- .
cos, sirga.
DA LlNGOA PORTVfiVESA 45
Sótão, ou Açotea, cethoe. Tauana, mosca grande, ta~
Tabíquc, parede de ladrilho, bana.
taíxbiq. Tauxia lauor, tanxíque.
Taforca, nauío, lafuría. ' Zagal, por homem animoso,
Taipa de barro, ta pia. ou forle, zagal.
Talque barro, para os cry- Zaragatou, zargatona.
soes. Zarauatanu, zarbalana.
Taracena, da racínaa. Zorzal, zorzai.
Tarefa de oííicial, lareha.
CAPITULO XI.
T.
Dos vocábulos que os Portugueses tomarão
dos Franceses
AM diííicil he dar razaõ porquo dos Franceses
vieraõ aa lingoa Portuguesa tantos vocábulos, quanto
inuestigar, quaes saõ os mesmos vocábulos. Porque
a razaõ que demos que as gentes communicaõ suas
lingoagens por causa da vezinhança, esta razaõ pa-
rece que naõ milita entre Portugueses & Franceses,
porque o Reino de França esta apartada de Hespa-
nha, cujos limites assi da parte do mar como da
terra saõ os montes Pyreneos, & pella banda da ter-
ra está França ainda mais alongada de Portugal que
de nenhiía outra parte da Hespanha. A razaõ que
achamos a esta communicaçaõ de palaura^ parece ser
por as idas que em tempos mais antigos os Portu-
gueses faziaõ a França por causa da nauegaçao que
era mais frequente que agora, & por a maior con-
federação, & amizade que antes hauia entre huana-
naçaõ & outra. E porque como os Portugueses naõ
nauegauaõ para as praias do mar Oceano, nem ti-
nhaõ achadas as regioòs da \\ thiopia, nem da índia,
& ilhas descubertas, que despois continuarão com
nauegaçao de mais proueito, daquelles portos ds
4G Origem
França, aonde entam iafi a leuar suas mercadorias,
& buscar outras, traziaõ nouos vocábulos À outra
razaô era que des do principio deste Reino sempre
vieraõ a elle Franceses, como foi o Conde dom Hen-
rique, que vindo de Borgonha, necessariamente ba-
nia de trazer sua família, «5c gente daquella naçaô.
Vieraõ também a este Reino os estrangeiros que aju-
darão tomar Lisboa, de que vinha por Capitão gee-
ral Guilelme da longa espada, filho de Ricardo,
Conde de Anjou, com que vinhaõ muitos senhores
Franceses que neste Reino ficarão, &pouoaraô mui-
tas villas & logares, de que oje ha muitos fidalgos
descendentes seus. Veo o Infante dom Affonso de
Bolonha de Picardia, que casou com Mathildc, Con-
dessa daquelle estado, & foi Rei de Portugal, III.
do nome, que comsigo para o seruir & ajudara de-
fender dei Rei dom Sancbo seu irmaô, a que vinha
despor do gouerno, necessariamente hauia de trazer
grande companhia. Viera a Rainha dona Mafalda,
Francesa, filha do Conde Amadeu deMoriana, & de
Sabóia a casar com dom Afonso Henriquez, que tam-
bém viria acompanhada de Damas, & Caualleiros
Franceses. E por causa da nauegaçaõ & trato vi-
nbaõ também a este Hei no tantos Franceses, que
cuidarão muitos que se chamaua Portugal, do porto
de Gallos. E aduertimos aos lectores que se aalgíís
nomes Franceses dermos origem Grega, he porque
em França nos tempos antigos se fallaua nellaa lin-
goa Grega, que os Druides, pouos de Grécia que a
habitarão trouxeraô; que per discurso de tempo se
mesturou com a Latina, que os Godos a corrompe-
rão, quando em França dominarão, de que oje ficou
o nome de Gallia Gothica, a prouincia de Langue-
doc Os nomes pois que nos lembrarafí saô estes.
DA LlNGOA PORTVGVKSA
47
Abaixar, abaisscr.
Abater, abatrc.
Abrasar, braser.
Acabar, acheucr.
Aço, acícr.
Acordar, por consentir, acor-
dei-.
Acostar, acoster.
Adarga, dargue.
Agastar forte, ab agacer por
irritar.
Aguilhaõ, cguíllon.
Algodão, coton, coton.
Alabarda, halcbarde.
Alojar, aloger.
Ana por vara, a une deu) na.
Anca por coxa, anche.
Anciano, ancien.
Apontamentos, apoíncte-
ments.
Arame, arain.
Arenga, harangue.
Armada, armée.
Arpa, arpe.
Arrancar, arracher.
Arrepender, repentir.
Ao reues, a reuers.
Assas, assez.
Atar, atacher.
Atauiar, atifer.
Afanado, a lane.
Atiçar o lume, atícer.
Atordoar, elo urdir.
Azedrez, eschez.
Anisar, auiser.
Bacio, bacín.
Balança, balance.
Baluarte, boulcuart.
Banco, bane.
Banhar, baigner,
Bannir, bannir.
Bargantim, brígantin.
Batalha, bataílle.
x Batel, baleaii.
Berço, berceau,
Bico, bec.
Boeta, boi te.
Bofetada, buffê.
Bola, boule.
Bolsa, bourse.
Bornear, de borne por Jusco,
Borda, bord.
Borzeguim, brodequim.
Botar por lançar, bouler.
Botelha, vaso, bouteille.
Botaõ, bouton.
^ Botica, bou tique.
Borquel, bouclier.
Bradar, braire.
Branco, blanc ex Greco se-
cunduin Períon.
Brasa, brase ex Greco ex Pe-
rion.
Broslador, bordeur.
Broslar, border.
Bujjete, bufei.
Buíra por graça, bourde.
Buril, burín.
Burjaca, besace.
Ca pro quía, car.
Cacha forte , à cacher pro
abscondere.
Calções, causons.
Caldeirão, chauderon.
Calhao, caíllou.
Camisa, chemise.
Caminho, eh e min.
Campo de arraial, camp.
48
Origem
Caníuette, caníuet.
Cappa, cappe.
Caparoza, caperousc.
Carrega, chargc.
^- Carpinteiro, charpentier.
Cauilha, cheuille.
Gelada, salade.
Chaõ de campo, champ.
Chamalote, caraelotc forte a
camelorum píllís.
Chamarra, charaarre.
Chambaò por perna , jam-
bon.
Cantor, chantre.
Chanfrai chanfra in.
Chapeo, chapeau.
Chapeirão, chaperon.
Charrua, charrue.
Cínsel, císeau.
Cobre, cuiure.
Cochino, cochon.
Cofre, cofre.
^Colher, cueíller.
Combate, combat.
Começar, commencer.
Companheiro, compagnon.
Compasso, compas.
Contar historia, conter.
Contrafazer, contrefaire.
Copa, vaso, coupe.
Cortes, courtois.
^Costume, cousturae.
'~~~Cota, cotte.
Couarde, couard.
Coxear, clocher.
Coxin, coissín.
Corucheo,ác courechíef, por
toucado de cabeça.
Croque gancho, croc.
Cuidar, cu ide r.
Dama por senhora, daiíie.
Dança, dance, danser.
Dardo, da rd. ■
Debater, debatre.
Deleixado, lache ex Greco
Períon teste.
Despeito, despi t.
Droga, drogue.
Embaixador, embassadeur.
Embuchar, boucher.
Embarcar, embarquer.
Empregar, ettiployer.
Encaixar, enchasser.
Encenso, encens.
Encerrar, enserrer.
Engelhado, engelé.
Engolir, engloulir.
Ensaio, essay.
Ensaiar, essayer.
Ensinar, enseigner.
Ensoualhar, souitler.
Entalhar, entailler.
Entrouxar, trouxer.
Escansad, exchanson.
Escapar, eschaper.
Escaramuça, escarmouche.
Escarlata, escarlatte.
Escassamente, escarssa-
mant.
Escoar, escouler.
Escote, escot.
Escumar, escumer.
Esguardo, esgard.
Esgarrar, esgarrer.
Esgrima, escrimfe.
Espalda, espaule.
Espanto, espauanle.
Espiar, espíer.
DA LlNGOA PoilTVGVESA
49
Esquínencía, esqui na nce.
Estancar, estancher.
Estandarte, estenda rt.
Estofar, estoíTer.
Faca , ou fa quine e , haque-
née
Faraute, berault.
Fana. farce.
Fardel, fardeau.
Farpar, farper.
Fauta por erro, faute.
Feira, foire.
Floresta, fores t.
Frauta, íleute.
Frasco, flacon.
Franja, frange.
Frecha, íleehe.
Foraõ, furet pro viuerra.
Forja, forge.
Forjar, forger,
Forrar, fourrer.
Forte por a raiai, fort.
Fosil, fusil.
Fouueíro, fouues de fuluus.
Fronteira, limite de terras,
frontierç.
Frota, de flot por onda.
Fusta, fuste.
Fustaõ, fusteme.
Galante, galand.
Galeão, galíon.
Galee, Galée.
Galardão, guerdon guerdon
amanl.
Ganho, gain.
Gauella despígas, jauesle.
Gastar por danitiar, gasler.
Ginjas, gnísnes.
Golpelha, corbeille.
Gouiiír por gozar, jouir.
Granar, por seulpir.
Garganta* gorgia gorgorille.
Gergelim, jugíoline.
Golfão por enseada, golfe.
Grelhas, gríl.
Guardar, guarder.
Guardião, guardíen.
Guardar oupa, guarderobbe.
Guarnecer, guarnír.
Guarecer, guarír.
Guia, guie.
Guiaõ, guídon.
Guisa por maneira, guise.
Ialde por coramarella, jau-
ne.
Jardim, jardín ex GrecoPe-
rion.
Jaquetta, jaquette.
J arretar, de jarret por a
curua da perna.
Leitão, laíton.
Lcgoa, leugue.
Leixar, laísser.
Ligeiro, legíer.
Leuada de ribeira, leuée.
Lençol, linceux.
Liça de correr, lice.
Maço, arma, mace.
Madrasta, marastre.
Mala, em queleuaOos ves-
tidos, male.
Maneira, maniere.
Manlco, manteau.
Marca, marque,
Marchar, inarclicr.
Martello, marteau.
Martínetlc, marlínet.
Mascara, mascare.
4
50
Oiiir.mr
/"
4-
/
Massoneiro, masson indo
massoneira.
Marichal, mareschal.
Meijaõ, maison.
Mecha do candea, meelie.
Meneslril por tangedor, me-
nestrícr.
Message, & Messageiro,
messagíer a mitto.
Mester por oííieial, mes-tier.
Mostarda , m o u s l a rd e .
Molhar, mouiller.
M o te, mot.
Motette, motet.
Mouçaõ forte á moísson por
a ceifa.
Niuel, niueau.
Orgulho & Orgulhoso , or-
guillcus ex Gracco Períon.
Padrasto, parastre.
Padraõ ou modello, patron.
Page, page.
Pantufo, pantufles ex Grseco
'Períon.
Papagaio , pa pegay .
Partido, parti.
Passar, passer.
Pasta, paste.
Pastel, paste.
Pala por planta de pec ,
patle.
Paues escudo, pauois.
Pausar por pousar, ou re-
pousar.
Peça, piece.
Pilourinho, pilorí.
Perfumar, parfumer.
Porfil, pouríil.
Pergaminho, parclieniío.
Pérola, perle.
Petrina, poictrine.
Pesar, peser.
Piloto, pilot.
Pinta de vinho, pinte.
Pique, pique.
Pitança, piíance.
Piuirada, de piure por pi-
menta quasi pinica tada.
Posta, poste.
Potage, potage.
Prasmar, ou vituperar blas-
mer.
Prato, pia t.
Prazer, plaisir.
Priuado por familiar prive.
Quitar, quiter.
Raça per casta, race.
Raya por limite, raye.
Rato, rat.
Repouso, repôs.
Reproche, reproche, repro-
cher.
Resgatar, racheter.
Rico, riche.
Rocha, roche.
Rodella, rondele.
Roj algar, reagal.
Ronha, rogne. <— T*
#o/, roule.
ík#o, roux, rous á rosseau.
Roubar, rober d- derrober.
.fíim, rue.
Saia, saya, sayon á sago.
Sala, sale.
Saluagem, sauuage.
Sargento, sergeant.
Sazaõ, saison.
Sella, selle.
DA LlNGOA PORTVGVE?A
84
Sembrante, semblante.
Sopa, soupe.
Tacha por inocula ou culpa,
tache.
Talha por jmta, taillc.
Talhar, taíller.
Taquanho , taquin ex He-
biseo Tiçaquin.
Tara, tare.
Tassa, taça, tasse.
Tenta, tente.
TVto por mama, tette.
í T m/m, teygne.
Tirar, tírefr
Tocar, toucher.
Togue, touche.
Toc/m, torche.
Toalha, touaille.
Tombar por e#tf% tomber.
Tratando de vocábulos tomados dos Franceses
naô he sem propósito tratar dos que se tomarão dos
Limosijs, que saõ os da cidade de Limoges da mes-
ma França na Prouincia Turonense, em cuja lingoa
os Poetas Aruernos, Proençaes & Catelaês screue-
raô, de que o principal foi Ausias March, de que
temos estes vocábulos.
Tonel, toneau.
Traça por rastro, trace.
Trafego, trafique.
Trahír fazer treição, trahír.
Trampear, tromper, trom-
perie.
Trinchar ou cortar , trincher.
Tregoas, tr ienes.
Tripas, tripés.
Tropel, troupeau.
Trotar o cavallo, troter.
Turgimaõ, turegemant.
Valente, vaillant.
Vermelhão, vermilhon.
Vianda, viande.
Vilaõ, vilain.
Vinagre, vinagre, id est f I-
num acre.
Virar, virer.
Aturar^ esperar ou durar era alguma cousa, ou perseue-
rar, avançar, adiantar, alcançar, ou ganhar.
Bugio, por simia por a cidade de Bugia, onde ha muita
iopía de estos anímaes, donde vinhaõ a Hespanha.
Amonte, dizem por acima.
Estojo, instrumento onde guardaõ tesouras, ou outra
cousa, assi de estojar por guardar.
Ficar, porque os Latinos dizem mancre, & nos ficar.
Flac, fraco.
Pec, homem pecco, id est néscio.
52
Origem
Jlench, por Ica para justa donde dizemos as cousas nos-
^ tas em ordem ou ala estarem em Rench.
Trufan, truão.
Trufar, gracejar.
CAPITVLO XII
Dos vocábulos que tomamos dos Italianos.
jt\BASTANÇA, bastanza.
Arenga yor pratica; arenga.
Atiçar, atizzare.
Atilado, attilato.
Auanço, auanço.
Auançar, auanzar.
Auer por riqueza, auer.
Auezado, costumado, auez-
zaro.
Anisar, auisare.
Azagaia, zagaglia.
Badalo de sino, bataglío.
Baio, baio.
Balcão, balcone.
Bancai, bancale.
Baratta, baratta.
Bárgantim, bríganlíno.
Barrette, berretta.
Barril^ barrile.
Baxo, basso.
Bico, becco.
Bilhelte, bolelttino, boletto.
Borzeguil, borza chino.
Brauo, brauo.
Buial, guembriale.
Briga, briga.
Brônzo, bronzo.
Cadafalso, ca ta pai to.
Canalha, canaglia.
C ar ameia, cera me la.'
Chusma, chiusma.
Çoçobrar, de soto sopra.
Companheiro, compagno.
Cortiça, corteccia.
Cousa, cosa.
Couardo, codardó.
Crencha, trencia.
Banza, danza.
Debar, depanare.
Dissenho, dissegno.
Destino, destino.
Destroncar, stroncare.
Emborcar, ímbrocare.
Embudo, embudo.
Emburilhar, ímbroglíare.
Enganar, íngannare.
Ensaiar, assai are.
Enxugar, ascíugare.
Enxuto, asei u to.
Esb abado, a baba to.
Escorchar, scorcíare.
Espantar, espauenlar.
Esparaud, sprouiero.
Espeto, spedo.
Espía y spía.
Espora, sperone, spuola.
Esquino , schifo.
Estampar, estampar.
Estandarte, s tenda rd o.
DA LlNGOA PORTVGVESA
53
Estoque, slocco.
Estrago, straco, straccío.
Estragar, straliare.
Estribar, streuíare, appo-
gíare.
Faltar, fauellare.
Fralda, falda.
Frasco, fiasco.
Fatia, fetta.
Gaiola, gabba, gaiola.
Galardão, guíderdone.
Galardoar, guiderdonar.
Galope, galopo.
Ganho, gadagno.
Ganhar, gadagnar.
jjfa<tea,matassa.
Manjar, mangiar.
Mascara, maschera.
Mezcla, mescola.
Orgulho, orgoglío.
Orla, orla.
Ostao, hostao.
Ouropel, orimpelle.
Pagar, pagare.
Palafren, palafrono.
Palio, por premio dos que
correm palio.
Pairar, parlare.
Pauelhão, padiglione.
Pauonazo, color, pauonazo.
Pichei, bichier.
Pífaro, pífaro.
Praia, piaggía.
Presunto , presuto.
Quica, forte de quí fá? ou
chi sá?
Remoque, rímbollo.
Resgate, risca to.
Ríbaldo, ribaldo.
Risco, rischío.
Sisa) Porque sobre a origem deste nome de tributo
ha muitas opiniões, & todas albeas da verdade vo-la
quis aqui declarar. Os Portugueses que o querem fa-
zer seu dizem que quando el Rei dom Ioaôl. trazia
guerra com os Castelhanos, para a poder sostentar
impôs ao pouo este dereito que se pagaua do que se
comprasse & vendesse ate se acabara guerra, & que
vendo a Rainha dona Philippa, sua molher o muito
que importaua o gabara muito. E que como Ingresa
que era, dixera que fora bona sisa, por dizer bom
siso, & que dahi lhe ficara o nome, o que be mera
falsidade. Porque aquella santa Princeza era tal, que
antes lhe chamara maa fortuua, vir el Rei a neces-
sidade que posesse ao pouo nouo encargo, como quem
sempre fauoreceo ao pouo, & aos pobres. A verda-
de disto he que muitos annos antes que aquella Rai-
5Í- OlllGEM
nha nascesse, ja houuera sisa neste Reino, que era
hum dereito temporal que se pagaua das compras &
vendas das vitualhas ate se acabar a guerra, ou cousa
para que se impunha como se agora faz em Lisboa
para a agoa que se trouxe ao ressio. E eu vi hua
doação de hum dos ReisAfonsos de Portugal III. ou
IIII. feita aos moradores da serra de Minde, em que
dizia, que os libertaua de pagarem sisa por o serui-
ço, & gasalhado que lhe íizeraõ hua noite em que
se perdeo dos seus na caça. Também antes da dita
Rainha seu antecessor el Rei dom Fernando pos o
mesmo tributo com o nome de sisa por certo tempo
por outras guerras comCastella. Este mesmo dereito
de sisa com o mesmo nome se pagaua em Itália da
compra & venda das vitualhas, como se vee em An-
dré de Isernia Doctor antigo no liuro dos feudos tit.
de pace tenen. cap. violatar. §. post naiale. O mes-
mo nome de tributo tem os Alemães, & o tiueraõja
os Castelhanos em tempo dei Rei dom Afonso XI.
polo que deuemos alargar este vocábulo aos Italia-
nos ou Lombardos cujo he.
Testa, cabeça, testa. Trotar, trottare.
Toalha, touaglia. Vantagem, vantaggio.
Trapo, drapo. Vianda, vitianda.
Trincheira, trincha. Zarauatana, zerbetana,
GAPITVLO XIII
Dos vocábulos tomados dos Alemães.
í\ MUITA distancia que ha entre Hespanha& Ale-
manha, e a pouca communicação que de entre es-
tas prouincias causa termos menos vocábulos dos
Alemães. Os que a nós vieraõ que sabemos saO os
Da Llngoa PoutvuVesa 55
nomes dos ventos, que o Eraperador Carlos nau sem
razão chamado Magno, por a grande eminência que
nas armas & nas letras, & noticia de todas lingoas
teue mais que nenhum outro Príncipe da Europa,
o qual o Septentriaõ chamou Novdl, & e a hum
dos seus vezinhos collateraes, que lie o circio ou
Thrafeas chamou Noroest, ao outro que hc o Bo-
reas chamou Nornordest, ao Stubsulano a que os Gre-
gos chamauam Apehotas chamou Leste & aos dous seus
vezinhos collateraes, dos quaes hum he o Cesias a
que por outro nome alguns chamaõ Volturno lesnor-
dest, & ao outro que he o Euro chamou Icssaest, ao
Austro que he o contrario áoNordt, a que nós cha-
Sul chamou suest, & a hum dos seus collateraes. f.
ao da maõ direita que he o Euronotho, chamou sa-
sucst, & ao da maõ esquerda que he o Lybanotho
susuduest, & ao Fauonio que por outro nome he
Zephiro chamou oest, & ao collateral da maj di-
reita que era o Libyo ou Africo oest suduest, & ao
da maõ esquerda que o Coro oest, noroest.
Temos mais dos Alemães.
Ganzá, por adem quePIinio já no seu tempo diz no liaro 10.
cap. 22. de sua Natural Historia, que era Céltico á Ger-
mânico antigo.
Marcha, que quer dizer díuísa ou limite entre Prouiocias
como diz Ydalrico. Zazio no Tratado dos feudos, parte 5.
cap. í. donde se chamarão .Marqueses os capitães que
eraõ das fronteiras das Prottineias, á dahi teue prin-
cipio sua dignidade, do qual vocábulo dizem lambem
que vem commarca por certa demarcação á- repartição
de terras.
Raid, por limite, ou demarcação de terras também di-
zem ser nome Germânico de Rain, que quer dizer o
mesmo, segundo Vuolfango Lazío.
Rocin por cauallo.
5G Origem
Sabugo por certo género de rães de caca.
Torneo por o jo#o de armas de torneamentuni que tam-
bém fazem Alemaõ.
CAP1TVLO Xllll
I)os vocábulos que temos tomados dos Hebreos If Syros
D
A lingoa Hebraica como mais antiga & quasi
mit de todas as outras tomarão as mais das gentes
muitos vocábulos, que pelo tempo que tudo muda
se foraõ desconhecendo da origem, donde emanarão.
De que aos Hespanhoes caberia a maior parte por
a communicação & vesinhança que com os Hebreos
tiueraõ des do tempo do Emperador AlWo Adriano
que de Jerusalém os desterrou querendo pouoar
aquella cidade de nouas colónias, & transformada
em outra forma com nouos moradores, & nouo nome
de iEíia que lhe deu. Dos quaes muitos vieraõ a Hes-
panha como também foraõ a França, Alemanba, &
outras partes da Europa, & Africa : Acrescentaraõ-se
também outros vocábulos Hebreos, & Syros que com
a Religião Christã vieraõ ao Portugueses, como aas
outras nações catholicas com as ceremonias que a
Igreja sancta vsa, como também vieraõ outros Gre-
gos, de que já fizemos mençaõ. Dos quaes vocábu-
los Hebreos, «Sc Syros poremos aqui alguns.
Abbas ou Abbade por Padre, que nas bngoas Hebrea á*
Syra se diz Abba.
Açoute de çot. que quer dizer flngello ou azorrague.
Alleluya, aliás liallelluyah, louuai ao Seuhor.
Ama por criada que serue, id est ancilla, ou que cria
de leite, id est nutrix.
Amen, no fim das preces ou orações, que quer dizer
DA LlNGOA PORTVGVESA 57
assi seja. E no começo he palaura aííirmatiua, de que
nosso Saluador vsaua, quer dizer em verdade, como se
ve muitas vezes nos Euangelhos: Amen dico vobis.
Azeite por óleo, porque lambem os Mouros tomandoo
dos Hebreos dizem zail.
Bica por fonte ou cano da agoa que corre, que os Gre-
gos á- Latinos dizem sipho de Apic Hebreo.
Capa por vestidura superior que os homens trazem, de
capar, que quer dizer cobrir.
Chcrubin ordem da mais alta Gerarchia de anjos, signi-
fica enchimento da sciencia de Deos.
Corbona de que os Euangelistas vsão, quer dizer arca do
thesouro das oíTortas do templo.
Forlo ou Fulana dos Castelhanos soo os Hespanhoes vsaõ,
idest certo homem que se não nomeia se diz em Hebreo
pheloni, de phala verbo que significa abscondor.
Crarabulha por emburilhada ou conluio do verbo garab,
que quer dizer mexericar.
JESV, quer dizer Saluador.
Maçaroca em Hebreu se diz macecha, donde os Árabes,
tomarão ma corça.
Mazmorro de íamar por ter em custodia.
Mesquinho, mizquien, que quer dizer mísero.
Mesquinhesa por pobreza ou micquenilh.
Mamona, Deos das riquezas, d* as mesmas riquezas.
Malsim por calumniador ou mexeriqueiro, delator.
Missa, de micça por oblação ou oíTerta.
Osanna, rogouos que me liureis.
Itabbi, palaura he Syta, que quer dizer mestre.
Raça, homem sandeu sem meollo.
Romaã rymon de que tomarão os Árabes o seu romaã.
Sabbaotk exércitos.
Sabbatum por requie ou folgança.
Sacco de sac ou çac de que tomarão todas lingoas.
Sathan, aduersario ou diabo.
Tacanho por homem astuto, á- fraudulento de Tacae por
fraude.
Tâmara por o fruite da palmeira.
Touro, de tor que quer dizer o mesmo.
58 Origi-m
Vacca, de bacar, pro boue communis generis.
CAP1TVLO XV
Dos vocábulos que vos ficarão dos Godos
D
OS Godos & e de outras gentes que em Hespa-
nba dominarão, naõ soomente nos ficou o Komance
que falíamos f. a Latina, ou Romana que com a
sua corromperão, mas muitos vocábulos de suas pró-
prias terras, de que não sabemos dar conta, porque
os temos por próprios, & peculiares nossos por lhe
naõ sabermos origem, de que adiante faremos men-
ção. Mas algas authores dos quaes he um Vuolfango
Lazio no seu Tratado de Immigrationibus Gentium,
aííirmaõ serem estes poucos da lingoa Gotbica.
Alauãe, alberga, ama, andar, bosque, bandeira, ca-
beça, caça, cangirão, esgrimidor, elmo, harpa, moça,
roca, fuso, jardim, joglar, tripas, escamar, praça,
riqueza, roubar, &Ç camisa, diz o bemauen lurado
S. Hieronymo que he Gothico, a que eu mais creo
que o Vuolfango Lazio, ao menos na palaura joglar
que he mera Latina de jocularis que se deriua de
jocus. E bosque mais o tenho por Francês deriuado
do Grego, como ha outros muitos, & deste parecer
he Ioachimo Perionio varão doctissimo na sua lin-
goa Francesa, & na Grega, que diz no livro 2. da
Cognaçaõ da lingoa Francesa com a Grerja, que se
deriua de Boskeir, que quer dizer pascer o mesmo
diz tratando da palaura jardim, que vem do verbo
Grego ap^ouiv, que quer dizer regar. E cabeça, mais se
pôde dizer que he corrupto pelos Godos de caput,
que trazido por elles da Gothia por a affinidade que
ha entre estas duas letras, b. $* p. O mesmo parece
de praça, que seria corrupto por elles de platca. E
Da Lingoa Portvgvesa 59
se admittimos rico ser palaura Céltica, antiga àerich,
claro está que d'ella se deriuaria riqueza, per ar-
gumentim coniugatis, & por razaô da* analogia. Tal
me pareceu o que diz da palaura caça, vsada de
muitas nações, que sem duuida algua parece que
vem de capto, pis, ou de capto, captas, como naquel-
les versos de Virgílio no liuro das Georgicas.
Tum laqueis captare feras, SÇ (altere visco
Inuentum, Jf magnos canibus circumdare saltus.
E Ouidio no lib. 1. de Arte.
Nec teneras tutum est semper captare puellas.
E assi se chama captura aprea que se na caça toma.
Plin. lib. 19. ctip. i. Est SÇ sita gloria Cumano Uno
in Campania a d alítuum, $ piscium capturam.
Também a palaura moço parece suspecta que
alguns dizem vir da palaura Grega mothax, que quer
dizer escrauo pequeno, ou escrauo nascido em casa,
a que os Latinos chamaõ vertia. Ama palaura he de
Hebreos como vereis nos vocábulos da lingoa He-
braica. Os mais vocábulos acima ditos que VuoU
fango diz serem Godos, fique em sua verdade &
consciência, ao qual em muitas cousas tiue por sus-
pecto de negligente, por as que lhe vimos errar tra-
tando dos Reis de Portugal, a que ignorou & tro-
cou os nomes que tiueraõ, & os tempos em que
foraõ, & os filhos que deixarão, como fazem os que
se atreuem a escreuer historias alheias, sendo tanto
trabalho escreuer certo as próprias.
60
OlUGEM
CAPITVLO XVI
Dos vocábulos que os Portugueses tem seus nativos,
que naõ tomarão de outras gentes que nós saibamos
o
U fosse dos Godos, ou de outras nações, ou
inuentados per si, os Portugueses tem vocábulos, a
que nâo podemos dar origem, & que saò* seus pe-
culiares de que ha grande numero, de que ajuntamos
estes.
Abafar. v
Ac lie g a.
Abalar.
Adubo, adubar.
Abalroar.
Affeite.
Abobara.
Affermosentar .
Abrigar.
Afpdalgar, a/filar,
Absentar.
A ff rei mar.
Açacnlar.
Affreguezar.
Aça fel ar.
Affronta.
Acalentar.
Affrontar.
Acamar.
Agachar.
Acamar.
Agarrocha.
Acarrar.
Agarrochar.
Acetinar.
Agasalhar.
Acepilhar.
Ajoujar.
Açodar.
Airoso.
Acoimar.
Alaõ.
Acossar
Al ardo .
Acostar.
Alarido.
Açotea.
Alçada.
Acotouellar.
Alçar.
Açoutar.
Alcatea.
Acoutar,
Alcunha.
Achar.
Alcaçuz.
Achacozo
Alcançar.
Achaque.
Alem.
DA LlNGOA PORTVGVESA
Cl
Alento.
Atochar.
Aletria.
Atinar.
Algoz.
Atoleiro.
Almanjarra.
Assolar.
Alnitre.
Atordoar.
Aluoroço.
Atrauessar.
Amofinar,
Atreuer.
Aniorar.
Atropelar.
Amarrar.
Ançaõ.
Andar ej o.
Auantajar.
Antolhar.
Auellado.
Apaixonar.
Anel lar.
Apanhar.
Auerigoar.
Aparentar.
Auiuentar.
Apojar.
Azedo.
Apodar.
Azo.
Aportar,
Azougne.
Apostemar.
Baço.
Arganaz.
Bacio.
Argel.
Bácoro.
Argola.
Badalo.
Arranhar.
Bafo.
Arremetter.
Bafio.
Arregaçar.
Baia.
Arreuessar.
Bailar.
Arremangar.
Baldear.
Arriscar.
Balisa.
Arrombar.
Balsa.
Arrotea, arrotear.
Bancai.
Arrufar.
Banda.
Arrumar.
Bandouua.
Assacar.
Baque,
Acanhar.
Baraço.
Assoar,
Baralha.
Assoalhar.
Barcada.
Atacar.
Bargante.
Atar.
Barra de cama.
Atear,
Barra de rio.
Atilado.
Barra de melai
02
Obicem
Barra de vestido.
Borra.
Barrenta.
Borrar.
Barriga.
Borracha.
Barroca.
Borralho .
Baxo.
Bosta.
Bastecer
Botar, hebetem fie ri,
Bastida.
Botar, expellere,
Basliaens.
Botoqtie.
Basto, denso.
Bradar.
Bastidor.
Branco,
Bater #a porta.
Brauo.
Bater moeda.
Breu.
Bater roupa.
Brinco.
Beatilha*
Brejo.
Beco.
Brenha*
Beiço .
Brincar.
Beirão.
Brocha.
Bellida do olho.
Buíra.
Beleguim.
Buraco.
Belmaz.
Burnir.
Berço.
Burrifar.
Bezerro.
Burro.
Boca, Bocal
Cabadella.
Boode.
Cabre de na o.
Bofe.
Cação.
Boga, pexe.
Cachaça.
Bojo.
Caçar amarras.
Bola.
Cacha.
Bolor.
Cacho de pescoço.
Bolo.
Cacho de vuas.
Bolra.
Cachorro.
Bomba.
Coldre.
Boneca.
Colmea.
Bonina
Çafar.
Borboleta.
Çafoens.
Bordão .
Çafra.
Bomfrate.
Cágado, por testudo.
Bornear.
Calar, por encetar.
Boroa.
Callar, estar era silencio
DA LlNGOA PoitTVGVESA
Caldo.
Chincha.
Camará.
Chiqueiro.
Çnmbarco.
Choca.
Çanefa.
Chocar a gal linha.
Canga.
Chocalho.
Campaã, de sepultura.
Chouriço.
Cansar.
Ceifa. *
Canseira.
Cisco.
Cano.
Coçar, cócegas, çoçobra
Canteira.
Côdea.
Ç a pato.
Cogumelo.
C arear.
Comboça.
Caraò.
Coma.
Caramelo.
Concerto.
Carga.
Coitado.
Carnaz.
Coita.
Carregar.
Conquistar, conquista.
Casar.
Confortar, conserua.
Casca.
Consoar.
Casco.
Consoada.
Caspa.
Coima* acoimar.
Casta.
Compasso.
Castiçal.
Compassar.
Castigo.
Conués de nao.
Catar.
Corço, m
Cecíoso .
Corchette.
Ceppa.
Cordeiro.
Ceruúha.
Corisco.
Cercear.
Cortidor.
Ceuada.
Cortir.
Ceuadeíra.
Cortar.
Chaminé.
Costa de mar.
Chantar.
Costal.
Chaça .
Cotejar.
Chapa de metal.
Couaõ.
Charco.
Couardo.
Chegar.
Coxo.
Cheirar.
Cr enchas.
Chiar.
Criar de leite.
64
Omgem
Çujar.
Deuassar.
Cujo.
Deuisa.
Cucuruta.
Deuísar.
Curuja.
Doaíro.
Çurrar.
Doninha.
Çurrador.
Do/ia/porauoo.
Debaro fiado.
Dorna.
Debuxar.
D rica.
Demanda.
Dazia, da algúa cousa
Demasia .
Eíba.
Derramar.
Eibado.
Derrancar.
Embuçar.
Derreter.
Embalar.
Derribar.
Embaraçar.
Desabafar.
Embelecar.
Desafeiçoar.
Embicar.
Desafreguesar.
Embirrar.
Desaforar.
Emborcar.
Desaferrar.
Emburilhar.
Desfauorecer.
Empar ar.
Desfigurar.
Empecer.
Desagastar.
Empilhar.
Desairoso.
Empinar.
Desconhecer.
Empregar.
Desencouar.
Emprenhar.
Descarnar.
Emprastar.
Desamparar.
Empresa.
Desmazalado.
Emprestar.
Desnaturar.
Emprestido.
Despejar.
Empuxar.
Despedir.
Encalmar.
Desperdiçar.
Encalhar.
Desapegar.
Encampar.
Despachar.
Encarar.
Despregar.
Enfadar.
Despir.
Enfronhar.
Desastre.
Enjeitar.
Destroçar.
Enramar.
Deuassa.
Enjoar.
DA LlNOOA PoitTVGVESA
G5
Encarniçar.
Encarecer.
Encaxar.
Enganar.
Engastoar.
Engatinhar.
Ensejo.
Ensinar.
Ensaiar.
Ensandecer.
Entalar.
Entanguido.
Entauolar.
Entregar.
Entupir.
Entulho.
Enxada.
Enxergar.
Enxurrada.
Enxugar.
Escanchar.
Escapar.
Escalaurar.
Escarnecer.
Escoar.
Escasso.
Escoimado.
Esmagar.
Esguja.
Esguichar.
Esmechar.
Esmorecer.
Espantar.
Esparrella.
— Espeto, espetar .
Espeuitar.
Espiar.
Espirrar.
Espreitar.
Esquerdear per esquerdecer
de esquerdo.
Esquecer.
Estirar.
Estourar.
Estribo.
Estribar.
Estrondo.
Facho de atalaia.
Fanchono.
Fanhoso . ,
Fadiga.
F aliar.
Fallecer.
Farello.
Farrapo.
Fateixa, fatia.
Fato de casa.
Falo de ouelhas.
Fechar.
Fechadura, fecho.
Feito, herua.
Feito, autos de processo.
Feo.
Ficar.
Fino, ouro, melão, panno,
vinho.
Fincar.
Fintar, finta.
Fita.
Fito.
Folar.
Folgar.
Fofo, occò.
Folia.
Forca.
Forja.
Forgicar.
Forrar, veste, escrauo, casa.
60
Oric.rm
Fruto.
Gomil.
Fraga.
Golpe.
Fragoso.
Golpear,
Fragoa.
Gordo .
Francelho.
Gozo.
Frangâo.
Gozar.
Fr anta.
Gozmento.
Fresco, frescura.
Gozma.
Frete, fretar.
Gral.
Frisar.
Graxa.
Fronha.
Greta.
Frouxel.
Grilhões.
Gabar.
Grumete, s
Gadanho.
lanei la.
Gafo.
Jantar.
Gafanhoto.
Jaquetta,
Gago,
Ichoo.
Gaita,
Igoaria,
Gamo.
Ilharga.
Gancho.
Ilheo.
Garanhão.
íngreme.
Garfo,
Jornea.
Garrido.
Jubão ou gibão,
Garganta.
Labareda,
Garrafa.
Lacão.
Gasalhado.
Laia.
Gastar.
Lançar.
Guarecer.
Lapa.
Guarnecer.
Laparo.
Gauíão.
Lastro.
Gaztila.
Lata.
Geíto.
Latão.
Geitoso.
Lazeira.
Gema de ouo.
Zeicenço,
Guedelha.
Ligeiro.
Guelra.
Lindo.
Guindar,
Liso.
Guisar.
Listra.
Golfo de mar.
Listrado.
DA LlNfiOA POUTVGVESA
07
Lixo.
Manta de guerra.
Lembrar.
Manteiga.
Lembrança.
Marmanjo.
Leuar.
Mar orna.
Logo.
Mar r aã.
Logia.
Mariolar.
Lograr.
Mascara.
Louça.
Mata.
Loução.
Matiz.
Lousa.
Mauioso.
Luua.
Meada de fiado.
Maça por clatta.
Meado dimidio.
Maçaã do rosto.
Medrar.
Maça de maçar ou pisar.
Meigo.
Maço de pao.
Menear.
Maçorral.
Menencoria.
Machado.
Mexerico.
Maciço.
Milhará.
Machocar.
Mimoso.
Madraço.
Minhoca.
Madronho.
Minuta.
Madrugada.
Mocho , aue nocturna.
Magarefe.
Mofar.
Mala.
Mofino.
Maleitas.
Mofo.
Malhada.
Molde.
Mamno&teiro.
Molhar.
Manada.
Molho.
Mancai.
Mongil.
Manchil.
Monturo.
Mango.
Moreno.
Mangaz.
Motejar.
Mandar.
Muella de aue.
Mandil.
Mulletta, barca pequena
Maninho.
Murcho.
Maninha.
Muslo.
Maneira.
Nada por nihil.
Manteis.
Nastro.
Manta de cama.
Nora de agoa.
G8
Origem
Obrea.
Oco.
Orualho.
(P adejar, fazer pão.
P adejar, alimpar o trigo.
Palanque.
Pampilho heiua.
Papagaio . •
Papada.
Papo.
Pardo.
Pardilho.
Páreas, tributo.
Páreas âas paridas.
Pequeno.
Pescoço.
Pestana.
Picaroto.
Picar.
Pingar.
Pintasirgo aoe.
Podengo.
Poiduro.
Pojar.
Polec.
Polme.
Porra.
Porrada.
Porsouejo.
Posta de carne ou cousa-.
Posta, que corre.
Postura.
Pote.
Potra.
Poupar.
Praga.
Prancha.
Prata.
Prato.
Prazo.
Prego.
Preito.
Pulha.
Puridade.
Puxar. .
Puxo.
Quebrantar.
Quebrar.
Queixo.
Queixada.
Quinhão.
Rabo, donde vem raposa
por rabosa.
Recender por cheirar bem.
Reguei fa.
Reposteiro.
Requebrar.
Requebredo.
Resfolegar.
Resguardar.
Respingar.
Ressío.
Retalhar.
Rijo.
Rima.
Rinchar.
Risco.
Risco por perigo.
Rocio, por orualho.
Rol.
Rola, aue.
Roliço.
Rolha.
Roim.
Roncar.
Rosalgar.
Rosca.
Roubo.
DA LlNGOA POETVGVESA
C9
Roubar.
Tauanes.
Roupão.
Teima.
Ruço.
Tento.
-^ Saca, por tirada para fora.
Terçado , arma.
Sair.
Testa.
Saio.
Tiborna,
Sandeu.
Tirar, tiro.
Sarna.
Tisoura.
Sapo.
Titella.
Sorrido, slridor pectoris.
Tocar.
Sarnoso.
Tojo.
Saramago.
Tollo.
Sarro.
Tollice.
Saraiua.
Tolher.
S ar dão.
Tolhido.
Sartão.
Toldar.
Seringa.
Toldo.
Serra por monte.
Tomar.
Sesudo.
Tomar-se de algua cousa
Sirgueiro.
Tombo.
Sobaco.
Tombar, cair.
Sobrado.
Topar.
Sôfrego .
Topete.
Solapar.
Toque.
Sol fio.
Toscanejar.
Sordir.
Touca.
Souto.
Toucar.
^-^Tacha, por erro.
Toucinho.
Tacho, vaso.
Toutiço.
Tachaõ.
Trabuco.
Taful.
Traça.
Taleiga.
Trago.
Talha, vaso.
Tragar.
Talha por finta.
Trabuca.
Taipa.
Trabucar.
Tapar.
Trafego.
Tanto ou tento de contar.
Trama de peste.
Taramclla.
Tranca.
^ Tasco de linho.
Tr atiçado.
70
Origem
Tasquinhar
Tranco, por spaço de cer-
tos pees.
Trapassa.
Traua, prisaõ.
Trauar.
Trotaa.
Trebelho.
Tripa.
Troço, de pao.
Tronco.
Troçquíar.
Tronar.
Trouísco.
Toucado.
Toutiço.
Vagado.
Vara.
Varanda.
Vásquinha.
Vassoura.
Velhaco.
Vendaual.
Venda, atadura.
Venda, estalagem.
Vereda.
Ver ilha.
Vesgo.
Vermelho.
Verruma.
Vieira.
Viola.
Virar.
Viração.
Vis a gr a.
Vis agre.
Xacoco.
Xarroco, certo peixe.
CAPITVLO XVII
l)e alguns vocábulos antigos Portugueses, que se achao
em scripturas, SÇ sua interpretação.
A BILHAR, alauíar,
Abílhamento, atauio.
Acimar, acabar,
Acoimar, aceusar.
Adergar, acertar.
Adar, apenas.
" Afam, trabalho.
Afincar, importunar.
Afundo, abaxo.
i Aguísada, cousa feita a pre-
posito.
Agnimdo, couucnicnte.
Agro, campo.
Aguça, pressa.
Aguçoso, apressado.
Aleiue, traição.
Alfageme, guarnecedor de
spadas.
Algo, algôa cousa.
Albergar, aposentar.
Algures, em algum lugar
outro.
Alhures, cm outro lugar.
Aquecer, acontecer.
Aquecer, esquentar-se.
DA LhNGOA POUTVGVESA
71
Apres, despois.
Aprisoar, prender.
Arefercer, abaixa r-se a fer-
uura.
Arefece, homem baixo.
Asuso, acima.
Atímar, acabar.
Aturar, perseuerar.
Atroar, de trom estouro
de tiro grande.
Auísamento, auíso.
Auer, por fazenda.
Az, por batalha.
Bafordar, jogo de armas ti-
rando lança por alto.
Bastiaens, lauores de bai-
xel la de prata.
Bem pareccnte, bem pare-
cida.
Bacinette, "casco de ferro.
Bicornia, bigorna.
Britar, quebrar.
Cima, por cabo ou fim.
^ Coita, paíxaô ou nojo.
Condessilho, deposjto.
Confortar, consolar ou es-
forçar.
— Comunal, por commum.
Consum, juntamente.
Coudel, capitão.
Couilheíra, camareira.
Cota, veste de armas.
Domaa, semana.
Desfeita, dissimulação.
Desempachár, desem pedir
<r Desuaíro, desauença.
Borado, que tem dor.
1 Bíuído, parentesco.
Doesto, doestar, desonrar.
Estimo, estimação.
Encalçar, alcançar.
Emprir, encher,
Entemes, enlremes.
Entonces, cnlam.
Einader. acerescentar.
Ensinança, doctrina.
Ensanhar, irar-se.
Esmerar, fazer algíia cousa
com diligencia.
Esguardar, respeitar.
Estado, pompa ou apparato.
Estugar, apressar.
Forrejar, roubar o campo
dos inimigos, deprcdari.
Filhar, tomar,
Falha, falta.
Fagueiro, brando, meigo.
Femença, mostra ou von-
tade.
Finado, defunto.
Gançar, ganhar.
Gafo, por leproso.
Gomtír, gozar.
Grei, por rebanho ou com-
panha.
Grado, vontade.
li éreo, herdeiro.
Hoste, por arrajal.
Hostao. hospedaria.
Hostes, por imigos.
Hu A por onde.
Increo, incrédulo.
lusu. abaixo.
Ioglar, truaõ.
Infançoens, mocos fidalgos
que inda naõ eraõ caua-
leiros, que os Castelha-
nos diziaô donzellcs.
n
Origem
Lançar a tauolado, jogo de
armas de arremessar.
Lanços, para alto sobre
tauoado, ou cousa alta.
Laidar, por litigar.
Lidar, pelejar.
Lindo, por puro á limpo.
Lídimo, por legítimo.
Maguer, posto que.
Medes, o mesmo. -
Mentar, por lembrar.
Nenhures, por nenhum lu-
gar.
Oufano, porpresuntuoso ou
contente de si.
Pcró, por tanto ou mas.
Possança, poder.
Posar, entrar.
Paruo, por menino.
Puridade, por secreto.
Prasmar, por vituperar.
Prez, por preço,
Preste, por sacerdote.
Quebrantar, por quebrar.
Sagaz, prudente.
Sagería, sabedoria.
Sagazmente, prudentemen-
te.
Sanhudo, irado.
Sanha, por ira, á indigna-
ção.
Scudus, por senhos, ídest f
singulos.
Sina, bandeira.
Talante, vontade.
Tanger, tocar.
Tendo, obrigado.
Toste, logo.
Trebelho, brinco.
Trebelhar, brincar.
Trigança, pressa.
Trigoso, apressurado.
Trom, tiro de bombarda ou
que faça grande estouro.
Vcha, arca, á dahi vcharia
d vcliaõ por despenseiro.
Vindita, vingança.
CAPITVLO XVIII
De alguns vocábulos que vsaõ os plebeios, ou idiotas
que os homens polidos naõ deuem vsar
\^VANTO os homens polidos deuaõ escusar de fal-
lar palanras insolentes, & grosseiras, de que nos
Iulio César auisaua nos guardássemos, adiante fare-
mos mais larga menção, soo ajuntaremos aqui aa
sombra de palauras antigas que se também naõ deuem
vsar estas que nos lembrarão.
DA LlNGOA PORTVGYESA
73
&J
Adergar, por acertar.
Agastura, por agastamento.
Assente, por repousado.
- Atabafar, por encobrir com
engano.
Atermar-, por assinar termo.
Z -Barafustar, por reluclar.
Betar, por quadrar.
Batocar, por bater.
- Chapado, por assinalado.
Compeçar, por começar.
Cenreíra, por birra ou tei-
ma.
Corriqueira, cousa, por vul-
gar, ou costumada.
- Cuspido a seu pay, por
esculpido, ou semelhante.
-—Definhar, por gastar-se ou
acabar-se.
Dança, por negocio, a ndar
em dança.
Destrinçar, por declarar.
Dissingular, dissimular.
Elegante, por solteiro ou
liure.
Enfunar-se, por ser arro-
gante.
Escafeder, por fugir.
Esmerar, por apurar.
Estulto, por valente ou ro-
busto.
Escarmentar, por ensinar- x
se pella experiência.
F aliar de outiua, desentoa- r~
damente.
Falcatrua, por engano.
Focinho, por rostro.
Focínhudo, homem de mao
rostro,
Forfante, por fanfarrão,
Galasia, por engano.
Gualdído, por comido ou
perdido.
JnçAa, por ódio.
Lufada, por frequência.
Matulla, por mecha.
Manínconia, por melancolia.
Matreiro, por astuto.
Místico, em muitas cousas,
por vniuersal.
Parafusar, por cuidar.
Pouchana> por choupana:
Rechaçar, por lançar.
Sen/70, por sabedor que os
Rústicos corromperão de
Séneca.
TV/xfr, por contumaz. ■*■■
Trefo, por malicioso ou as- o
tuto.
Tcstaçudo, por contumaz ou
rustícano.
Vindimar, por matar ou
acabar.
74 OlUGEM
CAPITVLOXIX
Como a liíigoa Portuguesa com as mais lingoas vul-
gares em alguas cousas he mais curta
que a Latina.
A
PARTE da oração que se chama] verbo que he
aquella, que tem significação com tempo, pessoas,
modos, & números, tem três vozes hua actiua, ou-
tra impessoal, outra passiua. A actiua he quando
dizemos, eu amo, tu amas, aquelle ama, nos ama-
mos, vos amaes, aquelles amaõ, que demostra a mi-
nha pessoa, a tua, a daquelle terceiro, a nossa, a
vossa a de muitos. A impessoal he quando naõ se
fas menção de pessoa algua, & dizemos, amase, en-
sinase. A passiua he quando a obra que eu fazia ma
faz outrem a mym ou a outros, eu sou amado, tu
es amado, aquelle he amaáo, nos somos amados, vos
soes amados, aquelles sao amados. De duas vozes des-
tas s. da impossoal, & passiua carece a lingoa Por-
tuguesa como as outras, Hespanhoes, Italiana, &
Francesa, porque o que hauiaõ de dizer per suas
palauras directas, & extendidas como fazem os La-
tinos, & os Gregos, o dizem por circumloquios, &
arrodeos de vozes emprestadas do verbo substan-
tiuo sou, es, quaes haõ mister, porque o impessoal
supprem com as terceiras pessoas do verbo actiuo
do mesmo tempo, & modo, & com este pronome,
se, dizendo sem demonstração de pessoa algua ama-
se, correse, ou absolutamente sem ajuda do pronome
pelas terceiras pessoas do plural do mesmo modo,
& tempo, & dizem, amaõ, correm, E'assi por o que
os Latinos dizem currebatur, amabatur, dizem cor-
riase, amauase, curriaõ, amauaõ & assi por todo o
restante da coniugaçao em todos os modos.
DA LlNGOA PORTVGVESA 75
A voz passiua se suppre pelo verbo sou, es / &
pelo participio da passiua," do tempo passado do
mesmo verbo, & dizemos eu sou amado, tu es ama-
do, Pedro he amado, SÇ eu era amado, tu eras ama-
do, Pedro era amado, & assi mesmo em os mais tem-
pos, modos, & pessoas, fui amado, sou amado, &c.
Também na voz actiua supprimos algumas fal-
tas que temos em nossa coniugaçaõ Portuguesa com
este verbo hei, has, ha, que he o habeo, habes dos
Latinos que ajuntamos ao infinitiuo, porque dizemos,
amarei, amaras, amaraa, amaremos, amarias, ama-
riaõ, & aos mais modos em que me naõ detenho,
porque para os que sabem Latim basta fazer esta
lembrança. E para os que naõ sabem he perder
tempo; & fazer grande volume de cousas imperti-
nentes, de que sempre fugi.
Outra falta temos também com os mais Hespa-
nhoes, Franceses & Italianos, que nâo temos par-
ticipio do futuro, como tem os Latinos porque el-
les tem do presente amam, & do passado amatus,
& do futuro amaturus, & nos naõ temos mais que
amante do presente, & do passado amado, & do fu-
turo carecemos, supprindoo por arrodeo de mais pa-
lauras, & dizemos por amaturus, o que ha de amar.
Oufra curteza tem a lingoa Hespanhola, que a
hum soo verbo daa muitas significações supprindo
com hiía paiaura muitas, como neste verbo acorda,
de que fazemos muitos manjares. Porque dizemos
acordar do sono, o que acaba de dormir, porque os
Latinos dizem, expergiscor, & dizemos acordar do
sono, por o que os Latinos dizem excitare, & dize-
mos acordar por determinar dizendo acordaõ em re-
lação, também dizemos acordar por fazer paz, SÇ
concórdia, como foaõ & foaõ qué eraõ imigos já se
acordarão. Assi temos jâ dito nas formas da corru-
76 Origem
pção da palaura criança, empresttdo, tadraõ, mother,
AÇ alugar.
Outra curteza he como também a todos os mais
Hespanhoes, Franceses, & Italianos, que como nos
nomes naõ tem desinências certas de casos, como
tem os Latinos, naõ tem meo para deriuaremdelles
seus aduerbios, & supprimos essa falta com esta pa-
laura mente: & dizemos, prudentemente & fortemen-
te, porque os Latinos dizem, prudenler, & fortiter,
& assi dizem os Italianos como nos, & os Franceses
o supprem com esta adjeçaõ syllabica mant, que he
o mesmo.
Outra curteza da nossa lingoa, & das outras
vulgares; he por a mesma razaõ de falta de termi-
nações que por o que os Latinos dizem bis, ter,
quater, quinquies, & outros aduerbios numeraueis,
supprimos com a palaura vez. & dizemos hiia vez,
duas vezes, três vezes, &c. E diz o Italiano em lugar
de nossas vezes vna volte, due volte, tre volte, qua-
tre volte, cinque volte, & os Franceses deux fois,
trois fois, quatre foís, cinq fois, & assi os mais nú-
meros ate infinito.
Outra curteza he por a mesma razaõ que na
formação dos comparatiuos supprimos com o aduer-
bio mais, & o Italiano com piu, & o Francês com
plus, porque dizemos mais docto, mais prudente, &
o Italiano piu docto, piu prudente, & o Francês plus
doct, plus prudent, tirando a cerca de nos estes vo-
cábulos que tomamos do Latim inteiros, maior, me-
nor, superior, inferior, prior, melhor, pior.
Outra curteza he que por falta de bua prepo-
sição que responda a propter, supprimos com estas
palauras amor, ou causa que naõ tem parentesco com
propter. E dizemos por amor da chuiua naõ semeo,
por causa dos cossairos naõ nauego.
TA LlNT.OA PORTYGVESA
GAPITVLO XX
77
da copia da lingoa Portuguesa em deriuar de hiia
soo palaura muitas mais que a dos Latinos
i\ SSI como a lingoa Portuguesa em alguas cousas
lie mais curta que a Latina, assi em outras mui-
tas he mais larga <Sc copiosa, formando de hum vo-
cábulo muitos, porque tem mais própria significa-
ção que per outros.
De Ferro formarão
Ferrugem.
Ferrugento.
Ferragem.
Ferraria.
Ferrador.
Ferradura.
Ferrar.
Ferramenta.
Ferrado.
Ferrolho.
Ferrolhado.
Ferrenho.
Ferropça.
Ferrão.
Ferrette.
Ferretoar.
De Terra
Terreiro.
Terrestre.
Terrenho.
Enterrar.
Desenterrar.
Soterrar.
Terrado.
Térreo.
Terreal.
Terremoto.
Soterraneo.
Desterrar.
Desterrado.
Conterrâneo.
Terranles.
Terrao.
Enterre irar.
Terradego.
Território que parece vir
mais de terra que de tér-
reo torres como dizia Pom-
ponio jurisconsulto.
De Mar
Marinheiro.
Mareante.
Marinhar.
Marinha.
Marinho.
Maree.
Marítimo.
Marulho.
Maresia.
78 Origem
Maré iro.
Mortal.
Marisco.
Mortalha.
Mariscar.
Mortuorío.
Mortificado.
De Morrer
Mortulho.
Morte.
Mortesinho.
Morto.
Mortandade.
CAPITVLO XXI
De alguas palauras Portuguesas SÇ maneiras de fatiar ,
que se não podem bem explicar per outras
Latinas, nem de outra lingoa.
Achaque
Àchacoso.
Adherencia. Como entre outras naçoens naõ ha cousa
que signifique esta diabólica palaura, tanto como en-
tre nos não tem palaura que a explique soo aqui a
entendemos, por grande mal da republica, porque esta
adherencia he, a que entre nós impide fazer-se justiça,
á executarem-se as leis, & que os prémios das virtu-
des, ou boos feitos se dem aos indignos, á se tirem a
quem os merece.
Àluoroço este affecto do animo se explicará mal em ou-
tra lingoa propriamente, porque he perturbação do
animo por a causa que cstaa por vir, porque por causa
presente mais se diraa gosto ou prazer.
Arriscar.
Atinar.
Conquista, Conquistar.
Encampar.
Encarecer.
Encarar.
Inçar.
Definçar.
Pairo, pairar , andar ao pairo, metaphora dos neuegan-
tes.
DÀ LlNttOA Pohtvgvesv 79
Primor.
Tomar-se de algúa cousa.
Saudade. Este aíTecto como he próprio dos Portugueses
que naturalmente são mauiosos, á- e affeiçoados naõ
ha lingoa em que da mesma maneira se possa expli-
car, nem ainda per muitas palauras que se declare
bem. Porque por o que os Latinos chamaò" desiderium,
naõ he isso propriamente. Que segundo a diffiniçâode
M. Tullio no tiitro 4. das Thusculanas, questoens.
Desderium est, libido videndi eius, qui non adsit, que
quer dizer : Desiderium ou desejo he vontade de ver al-
guém que naõ cstaa presente, sendo saudade palaura
que se naõ diz, soomente referindo a pessoas, mas a
coisas inanimadas. Porque temos saudade de ver a ter-
ra em que nascemos, ou em que nos criamos, ou em que
nos vimos em algum gosto, ou prosperidade. Polo que
parece que mais lhe podia quadrar esta difíiniçâo, que
he lembrança de algúa cousa com desejo delia.
Mano, Mana estas palauras de brandura com que falía-
mos aos meninos o» pessoas a quem queremos bem.
Naõ ha outra na lingoa Hespanhola nem nas outras
vulgares que lhe responda : soo os Latinos tem húa
interjeição blondientis que he amabo, que parece vai
ter a isto como seve em Cicero no liuro 1. das Epist.
a volumnio, onde diz: Vrbanitatis possessionem amabo
quibusuis interdictis defendwmus. E plauto in Amphit.
Noli amabo, Amphitruo, írasci sosice, causa mea. E em
outra parte: quo amabo ibimus ! E Terêncio in Eunuch.
Vide amabo num sit domi. Mas emfim naõ o explica
da maneira, que o nos queremos significar, porque
•cada lingoa tem sua propriedade.
CAPITVLOXXII
Porque os Portugueses naõ vsurpaõ tantos vocábulos
dos Castelhanos como tomao de outras nações mais
remotas.
R
ELATANDO nos tanto numero de vocábulos de
80 Origem
outras nações de que os Portugueses se seruem, ten-
do tanta vesinhança, commercio, & parentesco com
os castelhanos , he de espantar como delles naõ
tomarão outros tantos vocábulos. Antes parece que
fogem de se parecerem com elles na lingoa. A
razão he que alem da emulação que entre estas
gentes houue despois que os reinos se diuidiraõ,
se encontrão os Portugueses perpetuamente com
os Castelhanos em duas letras, que hemais notauel
differença que tem estas duas nações, & por que se
mais desconhecem. Porque tudo o que os Portugue-
ses pronunciaô com a letra m. os Castelhanos pro-
nunciaô per n. que a elles he letra taõ familiar que
per a pronunciaçaõ delia mais que por outra cousa
algua se ve hum homem ser castelhano. Qua naõ
soomente nos verbos a frcquentaõ em todos os mo-
dos & tempos, mas nos nomes, &aduerbios, & pre-
posições, & todas as mais partes da oração: porque
toda as terceiras pessoas do plural de todos os ver-
bos acabaõ em n. & dizem aman, amaiian, amaron,
hauian amado, amaran, hauran amado, aman, ama-
rian, amassen, hauerian amado, amassen, & toadas as
mais vozes perpetuamente. Com isto se encontrão os
Portugueses em tudo & vsaô m. ou puro ou liquido
per diphtongo em meo de duas vogaes, & dizem amaõ,
amauaõ, amarão. E desta maneira em os mais tem-
pos & modos. Da mesma maneira se encontrão nos
nomes, porque os Castelhanos dizem pan, gauilan,
capitan, palafren, malsin, sermon, obligacion, & to-
dos os nomes participaes, como comparacion, ora-
cion, atun, algun, que os Portugueses pronunciaô por
seu m, puro, ou líquido sem excepção algua. E por
as preposições dos Castelhanos en, sin, con, temos as
nossas em, sim, com, & tam caroaueis saõ os Caste-
lhanos do seu n. que as diçoes Latinas que se aa-
DA LlNGOA POUTVGVCSA 81
baô em m. pronunciaô com n & dizem mman, tem-
plun, dòminun. O que causa a negligencia dos mes-
tres que naO ensinaõ desde moços os discípulos a
pronunciar como lhes ensina Quintiliano. Outro en-
contro ha entre bua lingoa & outra, que faz muita
dificuldade aos Portugueses, que querem fallar Cas-
telhano, que onde os Portugueses conforme aos La-
tinos dizem porta, porto, porco, torto, oito, horto, os
Castelhanos per hum seu peculiar dipthongo ne di-
zem puerto, iuerto, huerto, hueuo, & assi os mais que
na primeira syllaba batem o, polo que quando o
Português quer fallar Castelhano cae muitas vezes.
Ao que ajuda a errada razaõ da analogia, que os Cas-
telhanos guardaõ; porque dizendo pnerta, dizem por-
tero, & de fuerte dizem fortaleza, & de puerto por-
tazgo. Outro encontro tem lambem com outro seu
diphtongo de i, e, porque dizem quien, bien, cierto,
cieruo, tierno, vientre, siempre, desuiando-se do Por-
tuguês que diz: quem, bem, certo, cerno, tenro, ven-
tre, sempre. E se alguns disserem que ha muitos vo-
cábulos que os Portugueses tem semelhantes aos
Castelhanos, naõ he porque delles os tomassen, mas
saô communs a elles comosaô aos Castelhanos, Ita-
lianos, e Franceses, sem saber quem os tomou, de
quem, como saõ muitos deriuados dos Latinos, ou
Godos, que cada hum cor.rompeo segundo tinha a
lingoa como vem nestes exemplos, o Português diz
começar, que parece viria de com, & initiare. O Cas-
telhano diz comenrar, o Italiano cominciar, o francês
commenccr, dizem os Portugueses espantar, os Ita-
lianos espauentar, os Franceses espouvanter, que to-
dos vao a hum E se algiis vocábulos se agora acha-
rem tomados dos Castelhanos, será despois que nos
vnimos com elles, & somos todos de hum mesmo
Príncipe, & de hum gouerno, k com quem agora
6
S2 Origem
í
temos mais commercio & mistura, por a vinda U
sua Majestade, k dos Castelhanos a nos , «St nos a
elles, como saõ lastima, regalo, bilhete, camarada, a
troco de mima, brinco, menino, enfadar, desenfadar,
festejar, marmelada, seraõ, & outros mais que os
Castelhanos tomarão do nos. Polo que se se houues-
sem de fazer represálias de parte aparte poros vocá-
bulos vsurpados, ainda acharão mais dos nossos vsur-
pados dos Castelhanos, que seus vsurpados dos nossos.
CAPITVLO XX11I
Porque a língua Portuguesa se naõ toma das outra»
nações com a facilidade, com que os Portugueses
tomaõ a» outras lingoas.
o
1NUENTOR cias tetras quem quer que foi que
deuia ser inspirado per Deos considerando bem
quantas eraõ as diílerenças das vozes humanas,
tantas figuras formou, pelas quaes postas em ardem
representou as palauras que queria. E assi naõ he
cada híía letra senaõ hua figura que be retrato da
voz, cuja diíftniçao ja vistes na nossa Trattada da
Orthographia da lingoa Portuguesa. De maneira que?
as letras representaõ as vozes, & as vozes as pensa-
mentos & conceptos cia alma. Mas posto que as vo-
zes sejao naturaes a todo homem em eommum, al-
gumas gentes tem certas vozes suas próprias que ho-
mens de outras nações, nem com tormento que lhes
dem as podem bem pronunciar, por as naõ terem
em costume. Polo que dizia Quintiliano que assi co-
mo os voHeadores dobrão & torcem os membros em
certas formas desde mininos, pêra despois fazerem
soltamente ssu oíftcio, que quando ja fossem duros
naõ poderiaõ fazer assi os mininos em quanto fos-
sem tenros se haviaõ de costumar a pronunciar to~
DA LlNGOA PuRTVGVESA 83
das as letras & vozes que algum tempo hauiaõ de
vsar. Tal he a pronunciaçaõ das palauras que es-
creuemos com Ih, que hc pronunciaçaõ particular
dos Hespanhoes, que nem os Hebreus nem os Lati-
nos nem os Gregos a podem pronunciar por suas le-
tras nem os Árabes, & Mouros de Africa com tor-
mento. Polo que para significarmos o que per nos-
so alphabeto Latino se naõ pode explicar, accrescen-
tamos ao /, a nota de aspiração, assi Ih & os Caste-
lhanos dobrão o //. erradamente por a razão que de-
mos na Ortografia, tratando da dita letra /. & os
Italianos & Franceses, dos quaes esta pronunciaçaõ
era alhea, &a tomarão dos Hespanhoes lhe acrescen-
tarão outras letras, pêra notarem a impropriedade
daquella voz: Os Italianos a rcpresentaõ acrescen-
tando humg. antes do l & hum i. despois delle, k
por dizerem fdho escreuem ftglio,k\)ov batalha, ba-
taglia, & os Franceses ao /. que dobrão como os
Castelhanos, prepoem-lhe hum i.icpút dizerem mu-
ralha, dizem muraiZ/e, &por trabalhar, travailler. Do
bemauenturado S. Jeronymo lemos, que ardendo em
desejos de saber as lingoas Hebrea, & Syra, tantas
diíficuldades achaua na pronunciaçaõ de alguas vo-
zes & letras delias, como natural de Dalmácia, que
era,, que com desesperação de as tomar, determinou
tornar-se do caminho, & deixar o que começara, &
lhe conueo serrar os dentes para pronunciar alguas
letras. Esta aspereza naô ha na lingoa Portuguesa,
cujo alphabeto, & ajuntamento de letras em sylla-
bas, & de syllabas em diçoès, he todo conforme aos
Latinos & aos Castelhanos, Franceses, & Italianos.
Á diííiculdade que os estrangeiros achaõ na lingoa
Portuguesa, porque a naô tomaõ facilmente, naõ he
por a obscuridade das palauras, nem por a aspereza,
ou maa conglutinaçaõ, & ajuntamento de letras que
84 Origem
todas saõ Latinas, & mui propinquas aas outras lin-
goas deriuadas da Latina, s. Francesa, Italiana, &
Castelhana soomente por seisdiphtongos que temos
em que intreuemhum m. entre duas vogaes que naõ
tem a pronunciaçaõ pura & inteira, mas fica liquido,
& sem força sem se pegar aa letra precedente, nem
ferir na seguinte, que nós supprimos com hum til.
Os diphtongos sao estes ão,èe, ij y õo, iiu. que temos
communs com os Gallegos, cuja lingoa & a nossa era
toda quasi hua. Esta pronunciaçaõ de nenhua ma-
neira he áspera nem confragosa, como as que dixe-
mos dos Hebreos ou Syros, mas mui suaue, poishe
hua letra tam branda como he o m. que todas lin-
goas tem: cuja pronunciaçaõ por assi ser frautadahe
alhea de outras naçoês. Mas em o mais naõ ha por-
que se negue a facilidade, & suauidade da lingoa
Portuguesa, que para tudo tem graça & energia, &
he capaz de nella se escreuerem todas as matérias
dignissimamente, assi em prosa como em verso. E
posto que aos estrangeiros se faça aquella difficul-
dade na pronunciaçaõ daquelles diphtongos naõ he
assi na scriptura, porque he facillima de se enten-
der de todos, como se vee pelas muitas trasladações
que homens estrangeiros fizeraõ de liuros& obras de
Portugueses.
CAPITVLO XXIIII
Que naõ he falta da bondade da lingoa Portuguesa
naõ ser commum a tantas gentes da Europa,
como a Castelhana,
o
S Castelhanos, & os affeiçoados a sua lingoa se
jactaõ que por a elegância k excellencia delia, he
commum a muitas nações que a entendem, & fal-
laõ como na mesma Hespanha, em Itália, & nossta-
DA LlNGOA PORTVGVESA 85
dos de Flandes, & ainda entre Mouros que a tem
por sua algemia, & que a Portuguesa tem os limi-
tes tam estreitos, que naõ passa da raia de Portu-
gal, tomando dahi argumento da melhoria de hua,
& menoscabo da outra. E porque tratando eu da
origem de híia & outra, me pareceo sperariaò de mi
que interposesse nisso meu juizo ; o quis fazer naô
como juiz suspecto, presuppondo que estender-se
hua lingoa mais que' outra naõ he efficaz argumen-
to de melhoria, ou peoria. A lingoa Latina que no
principio tinha o primado das outras lingoas de Itá-
lia, naõ saia do Latino antigo que era hum peque-
no território de doze legoas & mea do comprido, s.
des do Tybre ate os Circeios, que oje se chama a
campagna de Roma, mas nem por isso deixaua de
ser hauida por a melhor lingoa de toda a Itália, &
de todo^ o mundo tirando a Grega. E pelo contrario
a lingoa Arábica barbara, & hórrida, com seu Ma-
famede natural da Arábia se estendeo tanto pelo
mundo, que occupou a maior parte de Ásia, & to-
da Africa ; & muitas partes de Europa, & despois
quasi toda a Hespanha : onde se fallou em quanto
os Mouros a senhorearão, & ainda despois de recu-
perada ate o anno de mil & quatrocentos & nouen-
ta & dous, em que el Rei dom Fernando o V. des-
terrou os Mouros delia. E no reino de Granada se
fallou ate estes tempos em que el Rei dom Phelipe,
que sancta gloria aja os domou por força de armas,
quando se rebellaraõ no anno de mil & quinhentos
& sesenta & noue, & os desterrou daquelle reino,
pelo que naô se pode tomar argumento para auan-
tajar aquella barbara lingoa das outras que se naõ
estenderão tanto. E como natural cousa he os ven-
cedores darem leis, & lingoa aos vencidos : assi to-
marão dos Mouros sua lingoa muitas nações como
86 Origem
tomarão a subjeiçaõ, & reconhecimento de senhorio.
Da mesma maneira tomarão as prouincias de Itália,
França, & Hespanha a lingoa barbara, & hórrida
dos Godos, dos Vândalos, Alanos, Sueuos, & Lon-
gobardos, com que se corrompeo a lingoa Latina
que naquellas partes se fallaua, des do tempo que
os Romanos a subiugaraõ. A causa da lingoa Caste-
lhana se estender per algiías prouincias, & hauer
nellas muitos que a saibaõ entender, & fallar, naõ
he por a bondade da lingoa (que nos naõ lhe nega-
mos) mas por a necessidade que delia tem aquellas
gentes, que delia vsaõ. Porque como os Aragoeses
que tem a mesma lingoa que Castelhanos sairão de
Hespanha, & conquistarão o Reino de Nápoles por
a doação que a seu Rei dom Affonso o Magnânimo
fez a Rainha dona Ioanna. E despois el Rei dom
Fernando o V. o de Castella aa conquista do mes-
mo reino. K o Emperador Carlos V. aa conquista
deMilaõ, & os Gouernadores&Officiaes queaaquel-
les stados mandauaõ eraõ Castelhanos & Aragoeses,
& os de suas Cortes & Chancellarias era-lhes ne-
cessário tomarem aquellas gentes dos vencedores a
lingoa, como tomauaõ as leis & o gouerno, ainda
que a lingoa Castelhana fora mui barbara, & naõ
tal qual he. A mesma razaõ houue para os stados
de Flandres, que por casamento se vniraô com Hes-
panha, a que foi necessário entenderem-se com a
gente a que ficarão súbditos : posto que os homès
desses estados tanto pretendem saber a lingoa Por-
tuguesa, por o muito commereio que com os Por-
tugueses tem, que todos os annos nas nãos que a
Portugal vem continuamente, mandão muito numero
de moços, filhos de mercadores, & tratantes a apren-
der a lingoa Portuguesa, & seruem soo por o pre-
mio de a saberem. E ja que demos razaõ porque a
DA LlNGOA PORTVGVESA 87
lingoa Castelhana se estende tanto, & para onde,
razaô he, que liuremos de calumnia a nossa, a que
tam estreitos termos dão. E manifesto lie que como
entre todas as nações que no mundo na, nenhua se
alongou tanto de sua terra natural, como a naçaõ
Portuguesa, pois sendo do vitimo occidente, & der-
radeira parte do mundo, onde (como Plinio diz) os
elementos da terra, agoa & aar, faz*em sua demar-
cação, penetrarão tudo o que o mar Oceano cerca,
& comsigo leuaraô sua lingoa. Â qual tam puramen-
te se falia em muitas cidades d«e Africa, que ao nos-
so jugo saO subjectas, como no mesmo Portugal, &
em muitas prouincias da Ethiopia da Pérsia & da
índia, onde temos cidades & colónias, nos Syonitas,
nos Malaios, nos Maluqucses, Lequeos, & nos Bra-
sijs, & nas muitas & grandes Ilhas do mar Oceano,
& tantas outras partes, quo com razaô se pode di-
zer por os Portugueses o que o diz o Psalmista :
In orrmem terram exiuit sanus eorum, êf in finis or-
bis terra verba eornm. E a lingoa Portuguesa com
razaò se pode ter em muito, & chamar ditosa, pois
por ella se annunciou & manifestos a tantas gentes,
& de tam remotas & estranhas prouincias, a Fò de
Nosso Senhor lesu Christo, & foi causa de se tira-
rem as erróneas & treuas, em que o mundo viuia.
CAPITVLO XXV
De que lingoa tomarão os Portugueses os vocábulos
de que tiuerem falta ou lhe forem necessários
pêra ornamento do que fallaõ ou escrevem
r\NTIGO dito he que muitos mais saõ os negócios
que os vocábulos, & como os conceptos dos homês
saô infinitos, & as palauras finitas, necessariamente
88 Origem
as inucntamos, ou buscamos, & tomamos empresta-
das de outras gentes pelas maneiras que atras temos
dito, naõ soomenle para supprir a necessidade de
explicarmos o que queremos, mas para copia & or-
namento por naõ repetirmos hiías mesmas palauras
muitas vezes: o que aos que ouuem, ou lêem traz
sempre nojo & fastio: Alem disso ha nas lingoas
alheias algus termos que naõ ha na nossa, para de-
clarar o que sentimos ou ensinamos, tolo que cada
dia os tomamos das lingoas Latina, ou Grega, por
terem para isso seus términos sabidos, & notos a
todos. Polo que quem quisesse tratando da Dialécti-
ca em lingoa Portuguesa (porque as sciencias naõ
tem lingoa própria, & em qualquer se podem ensi-
nar & saber) & vsasse de outro termo em lugar de
syllogismo, que os Romanos tomarão dos Gregos,
naõ se daria bem a entender, ainda que por rodeos,
& por a difíiniçaõ do mesmo syllogismo (que seria
cousa longa & fastidiosa) o quisesse explicar. E o
que tratasse da Cosmographia melhor se daria a
entender pelas palauras longitudo áf lalitudo, que
saõ términos notos & magistraes, que pellas pala-
uras longura Sf largura nossas, posto que mui cla-
ras. E se viéssemos a declarar speeificamente os li-
mites das idades do homem onde começaõ & aca-
baõ, mal o poderíamos exprimir senão pelas pala-
uras dos Latinos que as especificarão, & incluirão
em certos limites: que saõ infância de 4 annos ate
7. pnerilia de 7 ate 14. Adolesceíicia de 14 ate 22.
luueniude de 22 ate 41. virilidade de 41 ate 56.
scnectude de 56 ate 68. A idade decrépita des dos
sesenta & oito ate 98. O Português, ou Castelhano
que quisesse limitar estas idades por seus nomes,
naõ os acharia em sua lingoa; & assi as confundem,
porque chamamos mininos aos que estão na infan-
DA LlNGOA PORTVGVESA 09
cia, & ainda os que estaõ na puerícia & chamamos mo-
ços o$ que estaõ na puerícia J( na adolescência, E mance-
bos assi aos que estaõ na adolescência, como aos que es-
tão n&juueutude, &dahi acima a todos chamamos ve-
lhos sem differença alguma. He também necessária a
copia de palauras pêra delias fazerem escolha os que
fallaõ ou escreuem de cousas graues, como saõ os histo-
riadores que naõ devem seruir-se de palauras communs
aos baxos, & mecânicos, senaô congruentes aa matéria
que trataõ & aas pessoas a que fallaõ ou escreuem, por-
que haõ de respectar o capto da gente mais nobre, &
de maior entendimento, que tem diííerentes termos
de fallar. Que assi como os músicos no que cantão
ou tangem se acommodaõ com a qualidade & capa-
cidade dos ouuintes. Porque hum homem plebeio,
ou rústico mais se contentaraa de ouuir huma cha-
cota ou cantiga villanesca, que huma cançaõ de ar-
tificiosa compostura, & úe toada mui lamentauel ;
Assi os que escreuem ou fallaõ, se deuem accommo-
dar aos maiores & mais nobres, & aa sua maneira
de fallar. Para o que se naõ deue ouuir huma seda
de homens, que querem que o que se falia ou es-
creue seja per palauras costumadas & antigas, & que
os homens do vulgo entendaô sem innouar vocábu-
los, que he razaõ de homens de pouco discurso, &
sem erudição. Porque se essa regra se guardara, &
naõ renouaramos vocábulos, ou naõ os tomáramos
emprestados, quando os naõ temos nossos, estiuera
a lingoa Portuguesa, & as outras mais de Hespanha,
na torpe rudeza em que a principio estauaõ, quan-
do por comigo deziaõ migo, & por alguma cousa al-
gorrem. E em lugar de partículas que dessem graça
& ornamento ao que se falia, como os Gregos tinhaõ
seu Men & Gar, diziam a cada passo samicas, & ne-
go, como oje dizem os que nas farças arremedaõ aos
00 Okicem
homens rústicos, ou da Beira daquelle tempo, & os
que daquella opinião saõ tanto monta, como quere-
rem que depois de achado o trigo, & os manjares
que oje temos, tornemos a comer a lande & bolo-
tas, & fruttos syluestres, como a principio dizem os
Poetas que faziaô os primeiros homens, & julgarem
por melhor a poesia antiga dos Portugueses & Cas-
telhanos daquelles tempos antigos, que a polidíssi-
ma destes, que se pode igoalar a Grega & Latina.
Sendo pois auerigoado que de necessidade se haô de
innouar vocábulos, & tomar emprestados, resta tra-
tar de que lingoa os tomaremos. Para o que nos he-
mos de valer do conselho de Quintiliano : o qual
tratando de que lingoa tomariaõ os Romanos os vo-
cábulos que na sua lhes faltasse, resolue que da
Grega, como da matriz de que emanou. O mesmo
conselho lhes daa o Poeta Horácio naquelles versos,
em que também mui elegantemente nos ensina que
regras hemos de guardar no criar palauras de nouo.
Si forte necesse esl.
índicijs monstrare rccentibus abdita rerum, d
Fingere cinctutis non ex audita Ceihegis,
Continget dabitwrque licentia, sumpta prudcnter
Et mua fictaque nuper habebunt cerba fidem, si
Orwco fonte cadant par et de torta. Quid autcm
Coecilio, Plautoque dabit Romanus ademptum
Virgílio varioque ? Ego cur acquirere pança
Si possum inuideor ? cum lingua Catonis, SÇ Enni
Scrmonem patrium ditauerit : d noua rerum
Nomina protulerit? licuit semperque licebit
Signatum pressente nota, producerc numum, de
Sendo pois a lingoa Portuguesa na origem Lati-
na, e reformada muitas vezes, <5c ampliada de voca-
is -*Y<rv ÍU\ft^<K , ^^ y^^ W/W*.^ u^o**w
DA LlNGOA PonTVGVESA 91
bulos Latinos, de que carecíamos, por a corrupção
que os Godos nella íizeraõ sem nenhum pejo, & com
mais honra nossa nos deuemos aproueitar delia, co-
mo filhos, que dos bens paternos se ajudaô mais
sem aíTronta sua, o que naõ fariaô dos estranhos.
E por a muita semelhança que a nossa lingoa tem
com ella, e que he a maior que nenhiia lingoa tem
com outra, & tal que em muitas palauras & perio-
dos podemos fallar, que sejaõ juntamente Latinos &
Portugueses, como muitos curiosos ja mostrarão em
alguns poemas, & orações: de que he huma este
hymno que aas onze mil Virgens fez hum Religioso
principal mui docto nas letras Diuinas, & humanas,
& noticia das lingoas, & mo mandou com huns ele-
gantes versos que tudo diz assi.
De quem senhor honrastes tantas vezes
Aceitai estes versos peregrinos,
que lidos era Latim, serão Latinos,
Lidos em Português, saõ Portugueses.
De minha rude maô" leuam mil fezes,
Na vossa alcançarão ficar tam finos,
Que de rudes que saò se tornem dignos
De serem lidos hfla á muitas vezes.
Das lingoas a Latina he mui prezada,
E quanto mais a imita a Lusitana
Tanto seu preço fica mais subido.
Agora ficara mais estimada,
Que descobrindo as fontes donde mona,
Descobris seu valor naõ conhecido.
Canto tuas palmas, famosos ctyno triumphos,
Vrsula diuinos martyr concede fauores, i J
Subiectas sacra ninpha feros animosa lyrannos.
Ta fihcenix viuendo ardes ardendo trhtmphas,
J Ilustres generosa choros das Vrsula, bellas
Das rosajbella rosas, fortes das saneia cohtmna»
92 Origem
JEternos viuas annos ò regia planta,
Deuotos cantando hymnos, vos imwco sanefas,
Tam puras nymphas amo, adoro, canto, celebro,
Per vos felices annos ó cândida turba
Per cos innumeros de Christo spero fauores.
Da mesma maneira se podia encher muito papel de
versos juntamente Latinos & Portugueses, senaõ fos-
sem os artículos da lingoa Portuguesa, per que naó
podem andar igual passo nus & outros.
CAPITVLO XXVI
Da eleição que devemos fazer dos vocábulos, <Jf do
exame, $Ç cirêunstancias delles.
VjOMO huma das cousas em que mais distamos dos
animaes brutos, sejaõ as palauras per que demons-
tramos os conceptos de nossas almas, & nossos pen-
samentos deuem ellas ser taes, que bem & clara-
mente os expliquem. Tendo pois nós feitas tantas
diuisoes de vocábulos que se variaõ pelo tempo, k,
hus se extinguem, & outros renascem, & ha palauras
tam antigas que ja nau estaô em vso, outras que saõ
taes que em bocca de homens bem costumados se
naõ deuem achar, parece que me obriguei a dar al-
guas lembranças para a eleição que delias deuemos
fazer. \i tratando da antiguidade & nouidade dos vo-
cábulos, para mais persuadirmos aos pertinazes, que
naõ consintem deixarmos vocábulos velhos, por mui
velhos que sejaõ, nem admittem os nouos, daremos-
lhes authores authenticos, cuja authoridade os con-
uença. O Emperador Júlio César, cuja policia & ele-
gância no fallar foi a maior daquelle seu tempo, on-
de a eloquência chegou tanto ao cume, quanto che-
DA LlNGOá Pwtvgvesa 93
gou o império, dizia que tanto hauia bum homem
de fugir de vsar hua pai aura insolente & desacostu-
mada, como um penedo no mar, per que nauegasse.
E Octauio Augusto, seu sobrinho &successor do im-
pério, era nisso Iam supersticioso que a hum lega-
do que mandara a Ásia priuou do ofiicio, porque em
hua carta lhe escreveo bua palaura com bua letra
trocada por outra. E a Quinto Mecenas seu grande
priuado que vsaua de palauras antigas, & mui ado-
cicadas, o arremedaua contrafazendo-lhe a lingoa-
gem, como fez em hua carta, em que lhe posaquel-
la graciosa saudação que escreue Macrobio no lib. 2
de seus Saturnacs. E Fauorino Philosopho grauissi-
mo, que foi em tempo do Emperador Adriano, ou-
uindo fallar a hum mancebo, que em toda a pratica
vsaua de palauras antigas, & exquisitas, o repren-
deo per estas palauras: Marco Curió, Fabrício, &
Goruncano , antiquíssimos cidadãos nossos, & os
Horacios Tergeminos, que foraõ ainda mais anti-
gos, que esses, fallauaõ claramente & chãamente
pelas palauras de sua idade , e naõ pelas palau-
ras dos Aruncanos, Sicanos, ou Pelasgos que antes
delles foraõ. E tu agora como se fallasses com amai
de Kuandro vsas de lingoagem de hora ha mais de
mil annos a fim de te naõ entenderem o que dizes.
O que se tu homem néscio pretendes o mesmo po-
dias fazer calando-te. Se dos antigos te contentas
porque eraõ honestos & modestos, vsados costumes
de seu tempo, mas das palauras dos de agora. O
Philosopho Demonax se enfadaua também dos que
ouuia fallar per termos antigos. E fazendo elle hum dia
bua pergunta a hum certo homem que lhe respondeo
per palauras ja ignotas aos daquelle tempo lhe disse:
Eu perguntei-te isto agora neste anno, & neste dia,
k tu respondes-me como se estiuessemos no tempo
94 OltfGEM
dei Rei Agamemnon. Estas palauras antigas ou af-
fectadas so deuem mais de euitar, dos que fallaõ com
Príncipes, ou lhes escreuem, os quaes tomaõ por
descomedimento, & desacato fallarem-lhe assi fora
de vso corrente, como aconteceo a Antigono, liei de
Macedónia, que querendo-lhe dizer hum que presu-
mia de muito rhetorico, queaneue que cairá aquella
noite passada, seccara toda a herua do campo, o dixe
per estas palauras; Hora niuium iaculatrix aduehiens
regionem herbis defectam reddidit. Ao que que el Rei
dixe com indignaça-j, palauras que mostrauaõ ter
por desacato aquella afTectaçaõ. E para naõ gastar
mais tempo em exemplos Marco Fábio Quintiliano,
grande mestre de fallar, interpondo nesta matéria
seu juizo nos amoesta, que de palauras antigas, &
desacostumadas nos guardemos. E que nos ajamos
com ellas, como com as moedas que se naô buscaõ para
gastar, nem se tomaõ se naõ as correntes, & que de
todos se acceptaõ. E que quando de palauras antigas
quisermos vsar, tomemos delias as mais nouas, &
das nouas as mais antigas, s. as que ja tem authori-
dade, & estaõ recebidas. Sendo poisa principal vir-
tude & requisito das palauras, a propriedade & cla-
reza delias, pois para declarar nossos pensamentos
se inuentarao, que cousa pode ser mais absurda, que
ser necessário buscar interprete, para que se en-
tendaõ? Esta insolência de que Júlio César nos aui-
saua que fugíssemos, naõ he soomente na idade ou
propriedade das palauras, mas na compostura & pro-
nunciaçaõ delias. Porque assi se commete barbaris-
mo no erro do accento, como em outro qualquer vi-
cio de acerescentar, diminuir, ou trocar syllabas ou
letras por outras em híia dicaõ: mas ainda a cousa
que daa mais matéria para se rir de quem falia, he
o erro do accento, de que darei algum exemplo para
DA LlNGOA P.ORTVÒVESA 95
aniso & resguardo dos quo isto lêem, se a lingoa
Latina naô sabem. Esla palaura Latina wmulm, que
quer dizer aduersario, ou competidor, tem o accento
na antepenúltima que he o ce primeira syllaba, &
dizendo-me bum dia bum meu amigo homem nobre, &
auisado mas que naõ sabia Latim, que eu tinha nesta
terra dous grandes osmulos, fazendo longa a letra w.
que he penúltima, & pondo nella o accènto agudo,
respondi eu a propósito do errado accento, que ja
que eraõ grandes, quisera antes que foraõ meu&ww-
los, para os vender para humas andas. Disto succe-
deo hila grande risada, de que eu fiquei desconten-
te, & o delinquente corrido. Outro homem por a
mesma falta de^ Latim: dizendo que, bum fuaõ se
trazia mui splendido, pondo o accento no i. que he
a syllaba penúltima, deu também que rir, & os que
lhe aquillo ouuiraõ lhe chamauaõ depois entre si o
splendido, pronunciando vicisoamente como elle fez.
Mas esfoutra foi peor que estando certos homens do
qualidade, em conuersaçaõ tratou-se da antiguidade
da cidade de Mcrida, & assentando os mais que fora
edificada em tempo de Augusto para nella recolher
os soldados jubilados que chamauaõ eméritos, & que
por isso se chamara emérita Augusta, dixe hum da
companhia que estauaõ enganados que muilos cen-
tos de annos antes dos Emperadores Romanos era
ja cidade, porque Daoid no Psalmo que começa:
Qui habita, in adiutorio altissimi, fazia menção do
diabo Meridiano, naõ sabendo, por falta da analo-
gia, que se o diabo fora de Merida, Emiritense lhe
houuera o Propheta de chamar, & naõ meridiano,
como chamaõ as cousas do meio dia. Destes erros
assi ou sejaõ de opinião errada, ou ignorância, dizia
Júlio César que se guardassem como quem enten-
dia, que desfaziaõ muito na reputação de hum homem.
ORTHOGRAPHIA
DA
m PORTVGVESA,
REDUZIDA A ARTE, E PRECEPTOR
AO MVITO 1LLVSTRE
E GENEROSÍSSIMO SENUOB
LO¥RM(^ DA SlXVA,
Do Conselho cVElrei Nosso Senhor, e Regedor da Justiça
deste Regno.
O LICENCIADO DYARTE NVNES DO LIAÕ.
s.
UMA das mais apparentes vantagens, que os ho-
mens fazem aos brutos animacs, he a falia, jf as pa-
lauras com que hum a outros exprimem seus concep-
tos. E assi como os homens nisso excedem aos brutos,
tanto entre si huns dos outros se auantajaõ, quanto
na policia, ff arte das palauras mostraõ ser superio-
res. Estas saõ o toque, em que se vce o valor das pes-
soas, jf a differefiça, que ha do nobre ao plebeio, do
anisado ao indiscreto, jf do vicioso ao bem instituído.
Conservamos esta « Dedicatória» naõ só por aaõ se perder esta com-
posição de laõ insigne, e erudito Sábio; mas também porque he como
o Prefacio da mesma Obra; cm que recommemla a sua utilidade.
H
Dedicatória 97
Donde com razaõ Sócrates rogado de hum Athenien*
se, que lhe quisesse veer hum filho moço, SC examinar
o para que era, mandou ao mancebo que foliasse, di-
zendo: Falia, êÇ veerle-ei: dando a entender, que as
freestas, per onde o interior do homem se vce, saõ as
palauras. Polo que em aquelas duas Respublicas, don-
de manarão todas as boas artes, § disciplinas, per que
hoje viuemos em policia §* ordem, naõ menos indus-
tria puser ao no studo da Eloquência, que na discipli-
na da Milícia. E como as letras, Sf scriplura saõ o
retracto, Sf representação das palauras, êf ainda nel-
las fica o erro (se o fia) sempre viilo, Sf immortal,
naõ menos cuidado tiucraõ de bem screuer, do que
tiueraõ de bem f aliar. E tinhaõ muita razaõ; porque
como a certa SÇ ordenada maneira de screuer, naopos-
sa ser sem saber o sentido, propriedade, &f origem das
palauras, claro está, que quem mal screue, ignora o
fundamento do que screue E quanta diligencia puses-
sem os Antigos nã arte de seu screuer, testemunhas
saõ as Pedras, as Moedas, Sf Antigualhas de squs
tempos, que hoje em dia leemos, em que naõ soomen-
te se naõ acha vicio algum, mas as tomamos por exem-
plo, Sf imitação de nossas scripturas. E por tama-
nha [alta tinhaõ o erro de hua soo letra, que se conta
de Augusto Cwsar, que sendo hum Príncipe iam cle-
mente priuou do Officio a hum legado Consular, por
lhe screuer em hua carta hum icsi. por hum ipsi.
O que se agora el-Rei Nasso Senhor fizesse, heimed'>,
que muitos ficássemos sem officio. De que se collige,
quam mal soffrera aquelle Príncipe maascrípturanas
Cartas, que mandaua, pois a soffria tam mal nas que
recebia. E contaua Tyro, liberto de Marco Tullio,
que querendo o Qvam Pompeio sêreaer seu nome 3f
titulo no Templo da Victoriá, que elle edificara, em
que declarasse como fora três vezes Cônsul, houue
7
98 DFMCATOIUÀ
áuuida se hauia de dizer Terlium, s/Tertio, SÇ c in-
sultando com os mais doe tos, $ nobres, ficou a causa
tam mais duitdiosa, Sf quasi partida em votos iguaes,
que se soccorreo a Marco Tullio, que o mandou screuer
abbreuiado, por nenhuns ficarem descontentes. De ma-
neira que p:>r a duuida de hua letra, se reuolvia toda
Roma. E agora teem-se taõ pouco respecto ao bom, ou
mao screuer, como daõ testemunho nossas Cartas, nos-
sas Moedas, nossas diuisas, iuss ;s Sepulturas, Sf to-
dos nossos Scriptos, onde naõ vai cousa em seu lugar,
E o que peor he, quedos que mais nisso peccam s, so-
mos os que maior ohrigaça r ) tínhamos de acertar. Por-
que como a Jurisprudência se diuida em duas Partes,
na sciencia de distinguir o justo do injusto, & na
interpretação das Palauras, mal as saberá explicar,
quem as naõ sabe screuer Polo qus com razaõosque
mal screuemos, naõ merecemos o nome de Letrados,
pois viuendo das letras, 8Ç teendo nome de letrat, os
primeiros Elementos delias naõ sabemos reger, nem
ajuntar. que naõ he menos dissonância, da que os
Mitsicos fazem, quando tocaô as cordas que naõ de-
uem, mas ainda he mui maior, porque estes fazem
toruaçaõ ao ouuir, SÇ os outros ao entender. E p jr
isto ser tam impo tante, SÇ a Orthographia ser o lu-
me das scripturas, foraõ os antigos nobres 8f doctos
exquisitamente curiosos delia. Marco Varraõ o mais
docto de todos os Romanos (segundo o testemunho de
Marco Tullio) screueo muitos Liuros da Ftymologia
das palauras. Iulio César, Monarchi do Mundo tam
insigne nas letras, como nas armas, screueo outros
muitos da Analogia, que saõ o fundamento do bom
screuer. O grande orador Marco Messala Coruino,
igual a César em s&ngue, na eloquência, Sf na digni-
dade Consular, screueo xxij. liuros de Orthographia,
attribuinlo hum liuro a cada letra do alphabeto. De
Dedícatoria 99
Sciflião Africano, Sf Caio César Emperador, leemos ,
hoje em dia pa! auras que mudarão em melhor scri-
piara E o Emperador Cláudio César, cuidando que
per hi se faria immorlal, quis accrcsccnlar a Ortho-
graphia Lalina certas figuras de leiras, que seruiraõ
em quanto elleviueo,de que hoje em dia ha Letreiros,
$* memoria. O Emperador Carlos Magno,, príncipe
doclxssimo nas Leiras Diuinas Sf Humanas, Sf em
as lingoas Grega, Hebraica, Sf Latina, estando re-
colhido em Aquisgiano, o tomou a morte screuendo,
$" reduzindo em arte a lingoa Sf scriptura dis Ale-
mães. Mas como a auareza Sf ambição trouxer ao
tantos males ao Mando, Sf assi corromperão as Dis-
ciplinas, como os costumes, Sf os mais dos homens
pretenderão soo mente delias, o que lhes podia trazer
ganho, ou reputação, perJeo-se o bom screuer, como
se perdeu o bom fdlar, e como se esquecerão outras
muitas Artes, cujo principal interesse he virtude, Sf
boa instituição. Polo que vendo eu em minha moci-
dade, o descuido, Sf falta dos homens de Hespanha,
em seu escrcvar, Sf a diligencia, que alguns estran-
geiros nisio mostrarão em suas lingoas, com o de-
sejo que sempre liue de illuslrar as cousas da Nação
Portuguesa, tentei ensinar a meus naturaes, o que
cu de outrem mo pude apprender. E em algms dias
feriados, áf ócio (de que lambem Marco Catão nos
manda dar conta) reduzi a regras, Sf preceplos a
Orthographia de nossa linguagem. Mas porque nesles
tempos, a mais certa paga destas empresas he ingra-
tidão, Sf murmurações., Sf a nouidade d*esta inuen-
cão necessariamente haaia de ter muitos contrad>clo-
res, receei na mocidaie, o que me agora V. S. obriga
fazer aa minha velhice, quando se esperava, que saisse
a luz com outras Obras de minha Faculdade', que o
longo sludo, Sf algms letras não vulgares de mim
iOG DeDICATOIUA
promctihô, g eu promelti. Mas como nenhíía cousa
eu mais desejo , que occasiaõ de seruir V. S. $* o
querer que uiuulgue este Traindo, he Iam conforme
aa tenção com que o fiz, succedia ao que me mandou,
sem me lembrar o risco a que me punha, Sf o descré-
dito em que caia com alguns homens de minha Fa-
culdade. Os quacs por raõ serem da opinião de ILip-
pias EliU, não querem consentir aos Letrados de sua
profissão mais que hua seruenlia, naõ se lembrando,
que a. Jurisprudência he teer noticia das cousas Di-
urnas, $ Humanas, $f a sciencia, que moor presidia
requere de owras muitas artes. Das quacs forco or-
nados aquelles, que em lanta ordem, SÇ perfeição
no4as deixarão. Porque do grande Cataõ se lee,que
sendo o meor Iurisconsulto de seus tempos, ninguém
soube mais da Arte Militar, de culliuar os cam-
pos, $ da Arte Oraicria, da Historia, & Antiguidade,
$" que para lhe v.aõ faltar nada, de Irxxij. annos
upprendeo as leiras Gregas. De Cornélia Celso luris*
consulto na profissão, SÇ que screueo de Direito Ciuil
muitos liuros, sabemos escrcuer outros muitos da Phi-
losophia, da Medicina, da Agricultura, da Disciplina
Militar, $* da Rhelorica. E iam louuado foi cm tudo,
dos moeres professores d* a que H as artes, como se naõ
soubera mais, que cada hua delias. E por os liuros
da Medicina, que d' cite foje ha, he chamado o Hip~
pocralcs Latino, De Modestino lemos versos em que
summa a JEneida de Virgílio : SÇ de Iulio L^rontino
liuros de A quedados. Polo que com exemplo de tam
graues homens deuo ficar desculpado, Sf naõ mur-
murado, como me dizem que já sou. E se ao Car-
deal Pedro Bembo, varaò iam insigne em todas as
letras, $ a loaõ Francisco Fortunio, Jurisconsulto
doeste tempo, naõ lhe estranharão os seus escreuer
a Gra ai iii a li ca Thoscana, não me deitem acoimar os
Dedicatória 101
meus a Portuguesa, de que elles teem mais neressidade
moormente a Orthographia, que entre nos anda tam
deprauada, ty stando eu para publicar a doctrína dos
Notários, de que mo he pequena parte o saber scre-
uer. Mas como eu tenho o parecer de V. S. que por a
excellencia de seu juizo, &Ç engenho, a mi {como Marco
Tullio dizia por Catão) he por muitos mil, perco o
medo a todas as maas línguas, E se ainda alguus
temerários me maltratarem, eu o teerei par gloria,
assi por descontentar a taes homens, como porque
me naõ tirarão o gosto de seruir nisto a V. S. $*
de com meu talento aproueitar, se quer ao mais pe-
queno de meus naturaes. Mas porque os Lectores
naõ tenhaõ em pouco este benefício, que lhes V. S.
faz, quero lembrar -lhes que reduzir a regras geeraes,
SÇ poer em arte hui lingoa, que ate qui naõ teue
arte, he cousa árdua, SÇ se se bem faz, heróica, &
que naõ pode emprender senaõ hum Messala, ou ou-
tro homem de tal authoridade. E se cu não pude
chegar ao melhor, e ao que quis, contento me com
a honra de abrir o caminho, para outros agora o
fazerem melhor. Porque d' estes Paaços Reaes, destes
Templos, & destas Pyramides, que agora veemos,
naõ he a honra de Ctesiphon, nem de Metagenes,
nem de Vitruuio, que os melhor fizeraõ, mas do que
imitando as solicitas aues, de barro fez as primeiras
paredes, $* de vil colmo as começou cobrir.
102 Orthogiupíiía
Da difiniçao da Orlhographia, e da Voz
o
RTHOGRAPHIÀ he a sciencia de bem escreuer
qualquer linguagem: porque per ella sabemos, com
que letras se haõ de escreuer as palauras. E diz-se
de orthos, que quer dizer directo, kgrapho, escreuo,
como se dixessemos sciencia de directamente escreuer.
E porque as paiauras, que saõ o subjecto desta arte,
constaõ de letras, & as tetras de voz, começaremos
da diífiniçaõ delia. E voz naõ he outra cousa, senaõ
hua percussão, ou ferimento do aar, que se pro-
nuncia pela bocca do animal, & se forma com arté-
ria, lingoa, &,beiços. E da voz ha duas maneiras,
hua articulada, & outra inarticulada, ou confusa.
Articulada se chama, a que sendo ouuida, se entende
& escreue : a qual também chamaõ declarada, &in-
telligiuel. Confusa he a que naõ representa mais
que um simplez som, como hum gemido. E da voz
articulada, & que se pode entender, a mais pequena
parte, & indiuidua, he letra. Porque das letras cons-
taõ as syllabas, & das syllabas as dicções, ou pa-
lauras. E por isto se chamaõ as letras per outro
nome elementos. Porque assi como dos elementos
constaõ todas as cousas, assi delias, como de prin-
cipio constaõ as palauras. Polo que diremos das le-
tras em geeral, & despois de cada hua em special.
Das letras, fif de sua diaisão jjf natureza
-j ETRÀ he voz simplez, que se nota com hua fi-
gura soo, como, «. ou. b. E diz-se letra de lego,
legis, & de iter, que quer dizer caminho : porque
abre caminho ao que lee. Estas letras saõ mais ou
menos, segundo as lingoas : porque segundo suas pro-
nunciardes buas teem menos, & outras mais. Mas
DA LlNGOA PORTVGVESA Í03
como nossa lingoa Portuguesa na origem & seme-
lhança, se'a Latina, teemos em figuras as mesmas
letras, que os Latinos teem : posto que tenhamos
mais algfías pronunciações, que supprimos com as
dilas letras : de que adiante faremos menção. E as
letras sao estas. a. b. c. d. e. f. g. h. i. k. I, m.
n. o. p. q. r. s. t. u. x y. r. que são xxij. tirando.
h. que naõ he letra, mas figura de aspiração, ou
assopro, que formamos para pronunciaçaõ de algfías
letras. Destas letras as seis são vogaes á. e. i. o.
u. y. Chamai) se vogaes per excellencia : porque
per si se podem pronunciar, <Sc formar syllaba, sem
ajuda das consoantes. Das quaes. i. u. teem vigor
aas vezes de consoantes, como em seu lugar se dirá.
Consoantes cliamaõ todas as outras, tirando as vo-
gaes : porque naõ se podem pronunciar, senáõ fe-
rindo, ou tocando vogal :& por isso se chamaô con-
soantes, porque juntamente soaõ com as vogaes. E
destas consoantes ha duas species : buas sao mudas,
outras semiuogaes, que quer dizer meãs vogaes As
mudas saõ xj. b. c. d. f. g. k p q. t. áf i. &Ç u.
quando saõ consoantes. E chamaõ-se mudas, porque
per si soos, naõ se podem pronunciar, nem soaõ
sem ajuntamento das vogaes. As semiuogaes são. /.
m. n r. s. x. z Chamaõ-se semiuogaes, naõ como
cuidaõ alguns, porque começaõ, & acabaõ os nomes
delias em vogal, mas porque se formão em tal parte
da bocca, que se podem pronunciar sem ajuda das
vogaes, posto que naõ fazem per si syllaba.
Alem destas letras teemos mais quatro em pronun-
ciaçaõ, posto que naõ em figura, que são. p. eh. Ih. nh.
das quaes vsamos, acerescentando aa primeira hum
signal de difíerença do. c. commum, & aas outras.
h. nota de aspiração, para supprir as figuras das di-
104 OrmiOGnAPHiA
das letras, de quo carecemos. Das quaes a baxo
faremos menção, tractando de cada letra per si.
A
A.
HE a letra vogal simplez & pura, & acerca de
nós duuidosa na quantidade, como acerca dos Gre-
gos & Latinos: porque pôde ser breue, &ser longa,
segundo as letras, a que se ajunta, ou o logar onde
cae. E naò ha mais que hum, a. porque ser longo,
& ser breve, he accidentalmente. Qua elle per si
naô he longo, nem Jjreue, & pôde ser hum, & ou-
tro. E se por em hua parte veermos. a. longo, &
om outra parte breue, ou em hua parte com accento
agudo, & em outra graue, ou circumílexo, dixer-
mos que saô diuersas species de. a. também dessa
maneira o diremos de todas as outras vogaes : &assi
cada hua seria de muitas maneiras. O que se nao
ha de admitlir acerca de nòs, que nas vogaes ne-
nhua diííerença teemos dos Latinos, de quem teem
origem nossa lingoa. E a razão que faz parecer que
saô dous. aa. hum grande, Sc um pequeno, he a
pronunciaçaõ varia, que se causa dos accentos, ou
das letras, a que se ajunta esta vogal. Porque quando
teem o accento agudo, parece grande, como em prato,
& quando graue, parece pequeno, como em prate-
leiro. E todas as vezes, que despois do. a. se segue.
m. ou. n. como nestas palauras : fama, cano, pro-
nuncia-se com menos hiato, & abertura da bocca,
& fica parecendo pequeno, naõ sendo assi. Porque
o ser grande ou pequeno, consiste na longura, &
spaço da pronunciâção, 6c naô na maneira delia.
E a causa de soar assi. a. he, que a formação da
dieta letra se faz com abertura da bocca & o .ró.
$■ .n. se formão per contraria maneira, fechandoa.
da LingoaPoiitvgvesa 105
E naõ se pode em taõ pequeno spaço, como se con-
sume em liua syllaba, seruir perfectamente a dous
officios contrários, de abrir, & cerrar a bocca. Por
tanto ficamos pronunciando o .a. com aquella dif-
ferença de pronunciaçaõ, naõ menos longo em tem-
po. Porem junto a outras letras naõ soa o .a. assi
obtuso, como quando se ajunta a .w.n como veemos
per todas as mais letras do .a. b. c. a que se pode
ajuntar, como nestas palauras, aba, la baça, adaga,
cáfila, praia, calça, sapo, atabaque, arca, casa, pra-
ta, caua, taxa, azo. Nos quaes lugares, ainda que
quiséssemos dar-lhe som de .a. pequeno, naõ po-
deríamos Porque na verdade naõ o ha mais, que de
huma maneira, quer seja longo, quer breue. Assi
que todas as vezes, que virmos variar a pronuncia-
çaõ do .a. causa-se do accento ser differente, ou de
se ajuntar a taes letras, que o apagaõ, & naõ de
esta letra ser de outra specie. Porque o .a em abs-
tracto (como dizem) & em quanto letra elementar,
naõ teem accento, nem medida, se naõ despois que
lie feito diçaõ.
B. P. PH.
B
\ & P saõ letras mudas entre si mui chegadas.
E assi como se pronunciaõ & formaõ na mesma par-
te da bocca, & quasi com a mesma postura dos ins-
trumentos, daõ hum som mui semelhante. Soo teem
esta difíerença, que o. b. pronunciamos, lançando
do meo dos beiços o som: & o. p. pronuncia-se
apertando os beiços, & lançando o spiritu & fôlego
mais de dentro. E por assi teerem esta semelhança,
os Latinos, na trasladação de muitos vocábulos da
lingoa Grega na sua, mudauaõ híia letra em outra,
dizendo, de tríambos, triumphus, & de pyxos, bu-
ocus : como nós também fazemos, que em muitos vo-
106 OimiOGRANIIA
cabulos, que tomamos dos Latinos corrompemos o
.p. em .b. dizendo de Aprilis, Abril, & de capillus,
cabello, & de capra cabra De maneira, que o .b.
fica meo entre .p. & .ph. porque nem he tam puro
& limpo como o .p. nem tam froxo, como o .ph.
Porque se aspira esta letra .p. a qual acerca dos
Gregos teem o lugar do nosso /. & assi o tinha
acerca dos Latinos antigos, como a diante diremos
na letra -F.
Teem outro si esta letra ,b. algua semelhança
com o .u. consoante, porque assi na lingoa Latina,
como na nossa, muitas vezes se muda o .b. em .v.
como nesta palaura composta de, a'>, & fero, por-
que dizem os Latinos aufero, & de, ab, & fugio,
au fugia. E nós dizemos absente, & ausente, & aba-
no, & auano, & aljaba, & aljaua, & de faba\ dize-
mos fana, & de tabula, tauoa, & àeabhorreo, auor-
reco, & de cibus, ceuo. O que muito mais se vee nos
Gallegos, & em alguns Portugueses d'entre Douro
& Minho, que por vós, & vosso, dizem bos, & b-js-
so, & por vida, disem bida. E quasi todos os no-
mes, em que ha .ú consoante mudai! em .b. E como
se o fizessem aas vessas, os que nos pronunciamos
per .b. pronunciaò elles per .u,
Teem outro si estas letras hiía propriedade,
que naô admittem ante si ./*. senaõ .m. & dizemos:
ambos, tempo, tríumpho, & naõ anbos, tenpo, triun-
pho. Da qual scriptura se dará razão, quando faltar-
mos da letra .M. Mas ainda que poemos o .ph. por
letra distincta das outras, naõ na accrescentamos ao
nosso alphabeto, porque naõ teem figura própria,
per que se denote, como teem acerca dos Gregos,
que he esta .9. Polo que nem os Latinos a poseraõ
entre as suas, por quanto a escreuiaõ per .p. & Ji.
DA LlNGOA PORTVGVESA 107
que sao do seu alpbabeto. Da qual diremos mais na
letra F.
C
Vjtiem acerca de nós muitos officios:hum próprio,
quando despois delle se segue .a. .o. n. como nas
primeiras syllabas destas dições. cauallo, comedia,
cutello.X)^ qual maneira os antigos também pronun-
ciauaõ o .c. quando despois delle se seguia .e i. se-
gundo se collige de Quintiliano, que diz o .c. teer
igoalmente sua força com todas as vogaes. E como
se vee daquelle dicto gracioso de Marco Tullio. O
qual querendo motejara hum, que lhe pedia, que o
fauorecesse em bua dignidade, que pedia em Roma,
sendo filho de hum cozinheiro, lhe respondeo: Ego
tibi quoqiie fauebo. Porque assi se pronunciaua coce,
como qnoque.
Mas agora damos a esta letra differente pronun-
ciarão, exprimindoa com .e. & i. como a pronun-
ciamos, quando lhe accrescentamos a cifra, ou cer-
cilho, ajuntandoo a estas vogaes, .a.o.u. Porque para
exprimirmos as cinquo vogaes todas de híía mesma
pronunciaçaô, dizemos, ca, que, qui, co, cu, como
se vee nestas palauras de hiía mesma substancia,
& parentesco: vacca, vacqueiro, vacquinha, vaccona,
vaccum. E para pronunciarmos, a.o.u junto ao c.
como, c.i. poemos-lhehua cifra, ou cercilho de ba-
xo, que fica fazendo hiía specie de .z. & dizemos:
çnpato, çoçobrar, çurrador. A qual cifra naõ poere-
mos, quande despois do .c. se segue .c.i. como fa-
zem os idiotas. Porque o .c junto aas dietas letras,
naõ pode dar outro soido, segundo a pronunciaçaô
destes tempos. A pronunciaçaô imprópria do .c. com
a cifra naõ h.e de Latinos, nem Gregos, mas própria
dos Mouros, de quem a tomamos.
108 Ortiiograpuia
^ Outro officio de .^he ser aspirado, com a qual
letra escreuemos os nomes Gregos, que dos Latinos
tomamos, como Achilles, patriarcha. Aa qual letra
os Gregos daõ esta figura /.. fazendoa distincta do
.c. puro, &accrescentandoaao seualphabeto: O que
nós naõ fazemos, por naõ tecrmos figura, per que
a denotemos, & por a exprimirmos per .c. & h.
Outro officio teem o .c. emprestado, quando
despois delle se segue Ji. & lhe damos differente
pronunciaçaõ do .c. aspirado dos Gregos, como nes-
tas dições, chamar, cheirar, chiar, chorar, chupar.
A qual pronunciaçaõ tam própria lie da lingoa Hes-
panhol, que nem os Gregos, nem os Latinos, He-
breos, ou Árabes a tiueraõ: posto que os Italianos
a pareçaõ imitar na pronunciaçaõ do seu, ce. ci. Polo
que podemos dizer, que debaxo de huma figura do
.c. ha muitas letras em potestade & officio.
D
D. T. TH.
, T. Letras mudas teem em si muita semelhan-
ça: porque a pronunciaçaõ de hiía, & da outra, he
quasi de híía maneira, com a lingoa posta no mes-
mo lugar: saluo quanto o .t. se forma com mais spi-
ritu. & com a lingoa mais leuantada para o paadar,
& o .d. com ella entre os dentes. Pola qual seme-
lhança (como diz Quintiliano) muitas palauras, em
que entraua .d. screuiaõ os antigos per .t. como:
Alexanter, Cassantra, por Alexander, áf Cassandra.
Outros screuiaõ, set, por sed. kaluentus, por aduen-
tus, segundo Victorfno screue. E pelo contrario ou-
tros diziaõ, amauid, por amauit.
Pola qual aífinidade de letras, muitas vezes con-
certemos o .t. dos vocábulos Latinos em d, quando
os accomodamos aa nossa lingoa, como saõ todos os
DA LlNGOA PORTVGVESA J09
participios em a tus, ou itus,J$c os verbaes em or, &
outros muitos sem conto, que pelo vso seveeraõ, co-
mo amatus, amado*, auditus, ouuido. Redor, Regedor;
secretum, segredo; [atum fado.
Teem também os Portugueses o .th dos Gregos
aspirado em as dições Gregas, de que vsamos, como
Tlieologia, Theorica, Thomas. A qual letra nós naõ
acrescentamos ao nosso alphabeto, nem os Latinos
ao seu. Porque naõ teemos figura, que denote como
os Gregos, que lhe daõ híta soo figura assi .0. mas.
figuramola com o A. & h com a qual aspiração so
affroxa a pronunciarão do J.
E
HE letra vogal simples, & naõ de duas maneiras,
como alguns cuidaõ, que fazem .e. pequeno como em
besta por animal, & e. grande co:uo em besta per
arma, & instrumento de tirar: o que naõ ha. Porque
na pronunciaçaõ dessa letra, nenliiia differença tee-
mos dos Latinos. E a differença, que vai desse .e.
que aos vulgares parece longo, ao outro, a que er-
radamente chamaô breue, notamos com accento agu-
do ou circumflexo, ou graue (como teemos dicto do
.a. & diremos adiante na letra .0.) ou comdous ee.
L HE letra muda, a que os Aeolicos (dos quaes
ella teue origem) chamauaõ Vau. & os Latinos lhe
chamauaõ digamma, porque na figura parece hum
dobrado .g. dos Gregos, a que elles chamauaõ gam-
ma.O qual gamma he assi J\ & o F. parece que
fica fazendo dous. Â qual letra seruia aos Aeolicos,
do que serue a nós o .u. consoante, como se vee do
110 OllTHOGIUPHIA
nome, Vau, que lhe deram. E esta letra lomâraõos
Latinos, para com ella scruerem os vocábulos- de sua
lingoa, que screuiaô como .u. consoante. Masdespois
para fazerem differença dos nomes Latinos aos (ire-
gos, porque todos os screuiaõ com .ph. que era le-
tra Grega, começarão usar a dieta letra .F. nos no-
mes Latinos em lugar de .ph. & por phama, & phu-
cus, começarão dizer, fama, & facus. Despois Cláu-
dio César Emperador costumou screuer em lugar do
M. consoante o digamma, Aeolico, que era o .F. posto
porem aas vessa assi jj. aa differença de quando
seruia por .ph. como se oje em dia vee em letreiros
antigos de seu tempo, onde se lee. TERMINA4IT.
AMPLIÀ^ITQVE. por terminiuit & amplíauit, &
^IXIT, por víxit. Morto porem Cláudio, se deixou
de costumar esta letra, & tornarão ao .v. como se
também desacostumou o antisigma, outra letra, que
o mesmo Glaudio inuentou, para supprir ás vezes do
.^. dos Gregos, que he ops. ou bs. Pola qual seme-
lhança, que o .f. teem com o .v. consoante, vieraò
os Franceses mudar o .v. consoante em ./*. & por
viuo dizem, vif, & por breue, brief.
Mas he de notar, que entre o .f. Latino, & o
.ph. Grego hauia muita differença na pronunciâçaõ,
que agora naô sentimos. Porque (como screue Quin-
tiliano) o .ph. dos Gregos tinha hum soido brando,
& suaue, & o .f. dos Latinos hórrido, que quasi
naõ parecia de voz humana. Donde se pode collegir,
quam adulterada, & mudada stâ a pronunciâçaõ de
muitas letras, & quam delicada he a musica delias.
G
he letra muda, de que vsamos em sua própria
pronunciâçaõ, quando se ajunta a estas vogaes .a.o.u.
DA LlNG-OA PQuTVGVESà 1 1 1
como dixemos do .c. Outra pronunciaçaõ lhe viemos
dar imprópria, & adullerina, quando se ajunta ao
.e. i. que fica soando corno A. consoante, & dizemos,
gato, gente, ginelte, gosto, gala. À qual pronuncia-
çaõ com .e i. lie alhe:i dos Gregos, & Latinos, & pró-
pria dos Mouros, de que a recebemos. De maneira,
que para. pronunciarmos o g. com e.i. da maneira
própria, & natural, como o pronunciamos com a.
o. u. lhe accrescentamoshum u. liquido, & dizemos:
ga, gue, gui, go, gu.
H
11
não lie letra, mais que na figura. Mas lie hua
aspiração ou assopro, com que se pronunciaõ as le-
tras, a que se ajunta. Da qual aspiração, os Portu-
gueses naô vsamos em pronunciaçaõ, posto que a
vsemos na scriptura. Porque assi pronunciamos ho-
mem, como, ornem, & honra, como, onra, & hoje,
como, oje & hoganno, como, oganno, & hagora,
como, agora, & hauer, como, auer. E soomente pa-
rece, que a sentimos na pronunciaçaõ de duas in-
terjeições .s. de ha ha, significatiua de riso, & de
ah, significatiua de temor, ou indignação. Porem
ainda que pareça esta aspiração ociosa, pola nâo pro-
nunciarmos, he porem necessária, para guardar a
orthographia dos nomes Latinos, & Gregos, para
per ella se conhecer a origem, &etymologia dos vo-
cábulos, & para differença delles: como fazem os
Franceses, que muitas letras naõ pronunciaõ perfe-
ctamente, em alguas palauras, & em outras as naõ
pronunciaõ de maneira algiía, & todauia as screuem,
para entendimento das palauras na scriptura, & para
se saber a origem delias.
E assi como esta aspiração se ajunta a vogaes,
assi também se ajunta a consoantes. Mas teem nisto
112 OllTHOGRAPHlÀ
differença, que aas vogaes sempre o ,h % precede,
como, homem, humilde, tirando estas duas interjei-
ções dos Latinos, ah, §" oh, E nas consoantes sem-
pre vae despois, como, Philosophia, Theologia. Item
teem outra differença, que os vocábulos, que teem
as vogaes aspiradas, podem ser Latinos, ou Gregos,
& os que teem as consoantes aspiradas, sempre saò
Gregos, tirando estes nomes, pttlcher, èf sepukhrum,
que saô" Latinos.
Item ha outra differença, que todas as vogaes se
podem aspirar, como, hastea, herdeiro, Hippolyto,
Homero, humanidade, hydropico. Mas naõ se aspi-
raô" todas as consoantes : porque soo os Gregos, &
os Latinos, que delles o tomáraõ, aspiraõ estas ,c.
como em, schola, p, como em, Philosophia, r. como
em, Rhethorica, t. como em, Athenas.
Mas os Portugueses, por teermos pronunciações
próprias, & peculiares nossas, que os Latinos naõ
tinhaõ, para que nos faltao as figuras, supprimolas
com a aspiração, dizendo : eh. Ih. nh. Porque sem
aspiração, naõ achamos letras com que as formar ;
por teerem muito differente pronunciaçaõ, da que
daõ as ditas letras, sendo ténues, & naõ aspiradas.
De maneira que aspiramos o ./. & o ». o que ne-
nhuas outras nações fazem, & aspiramos o c. em
ôs vocábulos nossos peculiares, soando a dieta letra
aspirada de differente maneira, do que soa nos vo-
cábulos Latinos, ou Gregos, que outro si se aspiraõ.
Porque d'outra maneira soa o .c. em esta palaura,
tacha, do que soa em a palaura, mechanicu.
i
I
HE letra vogal, cujo soido próprio & natural he
o das primeiras syllabas destas diçôes, imagem, ira.
DA LlNílOA PORTVGYESA 1 1 3
Outro soido lhe damos impróprio, quando lie con-
soante, qnc he falso, & alheo da natureza d'esta
letra, o qual é commum a . g. da maneira que o
nós pronunciamos com .e.i. que lie IlOa pronuncia-
ção Mourisca, Iam alhea da propriedade do .g. co-
mo do i. Porque dizemos : janclla, jejum, joanne,
justiça. Em as quaes palauras, noõ sentimos na pro-
nunciaçaõ àlgua semelhança do J. consoante dos La-
tinos: o qual tem o soido, que veemos nestas palauras,
Tróia, Maio, & nestas palauras Latinas, hei, huic>
cui. Onde os authores antigos dizem o .u ser con-
soante. Polo que pola diíTerença que assi faz, quando
lie vogal, de quando he consoante, costumamos de
o escreuer, quando he vogal, de corpo pequeno,
& quando he consoante, fazendoo mais comprido,
& rasgado para baxo assi . j. O que eu naõ contra-
diria. Mas antes se fora em minha maõ, dera noua
& particular figura aaquellas letras, que tendoas em
potestade, lhe naõ deraõ os nossos passados figura,
como saj o .ç.ch.lh. nh % & aquella, que falsamente
screuemos per as figuras alheas de .#. (quando se
ajunta a estas letras .<?. .«.) & de x. e z*
Mas sendo verdade, que da mesma maneira soa
.ge. .gi. do que soa je. ji. he de saber, nas diçoes,
onde entra esta pronunciaçaõ, que ordem teremos
em as escreuer: & se ind is tine lamente poderemos
vsar de hua & d'oulra. E nisso deuemos teer res-
pecto a duas cousas .s. aa origem dos vocábulos Ln-
tinos, donde descendem as palauras, que escreue-
mos, & ao costume. Polo que escreuemos impigem,
& naõ impijem, porque vêem de impetig», tmprti-
ginis: k, assi virgem, êf origem, porque vem de virgo,
áf origo. E assi os mais, que tem a mesma analo-
gia, & correspondência, ainda que naõ tenhaõ ou-
tros Latinos semelhantes, como saõ todos, os que
8
114 Orthogràpiiia
teem .a. ou ai. na penúltima syllaba, como: ferra*
gem, fogagem, lingoagem, passagem, romagem, ama-
rugem, ferrugem, lambugem, babugem.
liem se esereueraõ com g. os vocábulos, que
dos Latinos vieraõ a nós, que teem essa letra em
algumas syllabas que lhe ficarão i Ilesas, sem as cor-
rompermos, como gente, gemer, legitimo, género, &
outros infinitos.
Mas per .j. screueremos todas as diçôes, que se
passarão dos Latinos a nós, que linhaõ o mesmo .j.
consoante, se essa syllaba ficou inteira, onde o .j.
vinha, como jejum, subjeclo, enjeitar, majestade, &
alguns nomes peregrinos, como jebusseo, jephte, &
outros vocábulos, que se screuiaô com estas letras,
Hie, no principio, ou fossem Gregos, ou Hebraicos,
como: Hieronymo, Hierárchia, Hierosoiyma, Hie re-
mias, Ilieroboam, Hierusalem, Hierico, que vulgar-
mente screvem tirado o ./&.& mudado o t\ vogal em
.j. consoante) Ieronymo, ler ar chia, Ierusalem, leròso-
lyma, Ieremias, leroboem, Ierico. O que "eu naò con-
tradiria, porque tudo isto pode o costume, &apro-
nunciaçaõ, & a corrupção de huma lingoa a outra.
Mas disso naó hemos de fazer regra geeral. Porque
posto que nesses o costume fizesse essa mudança,
naó screueria assi os outros que o vso, por naõ se-
rem nomes mui communs, naõ tiuesse mudado. Polo
que por Hiempsal, nome próprio de hum Carthagi-
nes, naõ screueria Ie.npsal: nem por Hieron, nome de
hum ííei, screueria Ieron. Porque naõ me entende-
riaõ de quem fallaua. Assi que os nomes próprios se
haõ de screuer como stafi nas outras lingoas de que
elles saõ, sem mudança de algfía letra, mais que a
da terminação final, tirando aquelles, que per cos-
tume staõ mudados, ou corruptos. Como também os
Í)A LlNGOA PoRTVGVESA H*
Italianos fazem em Girolamo, por Hijeronimo, & Gio~
uãnni por Ioanne, & em outros muitos»
K
K
HE letra Grega, que os Latinos trouxcrao a seu
alphabeto sem necessidade; porque teem seu c^que
responde a ella. E assi na lingoa, naõ nos serue em
palaura algiía, nem na Latina, ao presente teem al-
gum vso, saluo se for para screuer esta palaura Ky-
rios t donde dizemos Kyrie eleison, ou esta palaura
Kalendas, que conforme ao antigo se costumaua scre-
uer assi. E porque naõ façamos differença do nosso
alphabeto ao Latino, a deixamos na posse, & lugar,
que tinha, & para que os nossos a naõ estranhem,
quando vierem a apprender as letras Latinas. Que
quanto aa nossa lingoa, & scriptura Portuguesa, he
letra sobeja, & ociosa.
L. LÍI.
\
HE letra scmiuogal, que teem algíía semelhança
com o .r. sem embargo de o ./. ser notavelmente
branda, & o r. áspero, por o vibrar da lingoa, que
se faz quando se forma. Pòfa qual razaõ os piuido-
sos, que na~) teem a lingoa hábil para a vibrar, o
mudaõ em X como se lec de Demosthenes, & Alci-
bíades. O qual vicio chamaõ o Gregos lambdacismo,
que quer dizer vicio de frequentar .1. que elles cha-
maõ la m b da. Pola qual semelhança, os Portugueses,
na corrupção de muitas palavras, fugindo as delicias,
& mimo d'aquella letra, a mudaõ em :r. como mais
varonil, em muitas dições, cm que entra ./. liqui-
do, despois de letra muda, como: brando de blandus.
yranlo de planctus. crauo de clauns. praz, & prazer
de placeo. supprir de supplcre, & outros semelhan-
HG Orthograpiiia
tes, que deuemos screuer com j\ & naõ com .1. por
nos desuiarnos de faltar como Castelhanos, que di-
zem: Mando, supplir, plaz, k pia z cr, dano. Mas ou-
tros há, eih que podemos concorrer como os Cas-
telhanos, sem oííensa das orelhas, screuendo com
.1. ou com .r. se quisermos, como: simphz ou sim-
prez, cravo, ou claro, obligar, ou obrigar, clamar,
ou cr amar, & muitos, que por breuidade deixo. Ou-
tros ha, que naõ deuemos mudar, como clemente,
'clemência, flamma, inflammar, supplicar, supplicaçaõ,
clérigo, ckrisia, flor, aflores, & outros muitos, que
o vso vos ensinará, & a esmptura de homens doctos,
que os vulgares erradamente serenem per ,r. dizen-
do: frolcs & creligos, preuertendo as letras.
A esta letra ./, teem os Portugueses, & Caste-
lhanos huma pronunciaçaõ mui propinqua, posto que
a naõ tenhaõ em nome, nem em figura, que he tam
peculiar, & própria nossa, que nem os Gregos, nem
os Latinos, nem os Hebreos, nem Árabes a conhe-
cem. E algumas nações há que nem com tormento a
pronunciarão. A qual nós supprimos per J. & -h.
nota de aspiração assi Ih. menos mal que os Caste-
lhanos, que erradamente a supprem, com dous .//.
contra toda razaõ da orthographia. Porque nenhuma
lingoa soffre, que duas letras de huma specie, pos-
saõ juntas ferir huma mesma vogal. E naõ ha tanta
differença, de huma dição scrita com ./. singello, a
outra scrita com dobrado, quanto de huma, & outra
a esta letra, que representamos per ./. & .h. como
se vee nestes exemplos: querela, bella, velha. Donde
^em, screuerem mal os Castelhanos todos os vocá-
bulos Latinos, que teem dous .//. que na sua lingoa
Castelhana gnardaõ o soido Latino, por starem in-
corruptos. Porque necessariamente lhes tiraõ hum
.1 como nestas palauras: silogismo, sylaba, colégio.
DA LlNGÔA PORTVGVESA 117
Qua screuendoas com dous .//. como deuia ser, fica-
riaõ dizendo, sylhogismo, sylhaba, colhegio. Assi qne
os Portugueses stamos nisto melhor; porque teemos
nossas diíTerenças de J. singello, dobrado, & aspira-
do. Porque se bem se attentar, a differença de do-
brar-se hiía letra, naõ faz mudar o soido, que tiuera
sendo singella, mas soomente spessa, & esforça a
pronunciaçaõ, stando no mesmo ser & figura, como:
caro, carro, pela, pelle, que tudo he hua letra, &
hum soido; senaõ, que em pelle, pronunciamos de
maneira, que sentimos ficar hum ./. com a syllaba
precedente, & o outro com a seguinte assi, pel-le.
O que naõ he nesta palaura Castelhana, cauallo.
Porque naõ o pronunciaõ de maneira, que pareça,
que hum ./. vai com a syllaba precedente, & o ou-
tro com a seguinte. Mas assi o pronunciaõ, como se
./. k, J. fossem hua soo letra. Porque naõ se pode
diuidir assi, Caual—lo. Mas a diuisaõ sua acercados
Castelhanos, he assi necessariamente: Cana lo. E
os dous .//. serem hua mesma vogal, & soaõ como
hua soo letra, como na verdade' he em potestade, &
pronunciaçaõ. Polo que o ./. em tal pronunciaçaõ
naõ pode ser dobrado, senaõ differençando, como
nós fazemos com aspiração E com o til o houueraõ
de difTerençar os Castelhanos, como fazem ao seu
n. de que na leira .N. faremos menção. Mas o me-
lhor fora, darmos-lhenoua figura, assi comohenoua
pronunciaçaõ.
E assi veeraõ que os Italianos, que também
teem esta pronunciaçaõ como os Fíespanhoes, para
a denotarem, screuem por filho, figlio, & por folha,
foglia, & por batalha, batagiia. E os Franceses, que
também a teem em algumas palauras, para outrosi
a denotarem, screuem com dous .//. como os Cas-
telhanos. Mas por mostrarem a impropriedade da
H8 Orthographia-
scriptura, ajuntando-lhe antes hum j. iota, que se
naò pronuncia, mas soo he nota da dilíerente pro-
nunciaçaõ. E dizem mcilleur, por melheur; & gaillart,
por galhart, porque viraõ. que por se dobrarem os
II se não representaua o som, que lhe damos.
M
M.
HE letra semiuogal, cuja propriedade he naõ
ir ante outra aigiía consoante. Porque sempre vsa-
mos do .w. ainda que pareça que vai teer ao soido
w». Polo que naõ diremos, Amlonio, nem eutcmdi-
mento, senaõ, António, entendimento. Mas seguindo-se
outro .m. ou .6 ou .p. sempre prepoemos u .m. &
dizemos, ambos, & naõ anhos, & tempo ,& ntâ tenpo ,
& immenso, & naõ inmenso. E a causa he, porque
d'onde se forma o m. que he ferindo a ponta da
lingoa, na parte dianteira do paadar, ale onde se
formão aquellas três letras .b. m. />. ha tanta dis-
tancia, que foi necessário, mudar o .n. em .m. quan-
de se seguem, por o .m. star perto delias na pro-
nunciaçaõ. O que sempre os Gregos, & Latinos guar-
darão, & nós outros o hemos de guardar, se quere-
mos screuer, como pronunciamos. Porque naquelle
lugar naõ pode soar .w.
Mas ha se de aduertir, que alguns nomes ha,
que admittem o .m. ante do n. os quaes ainda que
sejao Latinos, & Gregos, naõ deixarei de os poer,
porque d'algiís delles, & de seus deriuados, pode-
mos vsar na nossa lingoa, como: amnis, contemno,
datmio, damnum, damnas, gymnasinm, hymnus, som-
mts, & alguns nomes próprios, como Agamcmnon,
Clytemnestra, Clytumnus, Lemnos, Memnon, Mnes~
tkcus, Pohjmneia. E assi acharão soo este nome La-
tino, byems, que ante do .5. teem .m.
N
DA LlNGOA PoitTVGVESA 11$
N. NH.
HE letra semiuogal, a qual se pode ajuntar a
todas consoantes, tirando b. m. p. a que não pode
preceder, como acima temos dieto no precedente
capitulo da letra .M. Polo que na composição dos
vocábulos, quando vêem proposição, que se acabe
em n. como, in. con. se o nome, ou verbo, a que
se ajunta, começa em algfía das dietas três letras
b. m. p. o .n se*. muda em .m. como embeber, im-
mimidade, commutar.
A esta letra .n. leemos es Hespanhoes outra
mui assim & propinqua, que naõ teem nome, nem
figura. Porque os Latinos, cujo alphabeto seguimos,
a naõ tinhaõ em pronunciaçaõ. A qual por assi teer
muita similhança com o .n. a assinalamos per .nh.
& os. Castelhanos a denotaõ como n. & til, assi .fi.
dizendo. Alemã na > por o que nós dizemos, Alie ma-
nha. Da qual letra nh. usaremos soomente nos vo-
cábulos meros portugueses, ou corruptos dos Lati-
nos, que na corrupção da lingoa tomarão essa letra,
em logar de outras, como : meirinho, façanha, en-
genho, testemunha.
Com o qual .nh não escreuemos algum nome, a
que os Latinos antes do .n. põem .g. Polo que di-
remos magno, Sf Iam magno, magnifico, insigne, di-
gno, regno, ignoto. O que entendo d'aquelles vocá-
bulos, que stão incorruptos, como são os sobredi-
ctos, & outros taes. Mas aquelles em que houue
corrupção d'algHa letra, per mudança, diminuição,
ou addição, ou outra qualquer maneira, screuer-se-
aõ como corruptos, aa maneira vulgar. Polo que
ainda que penhor vem de pignus, ^ lenho, Sf lenha,
de lignum, naò diremos, pegnor, nem legno, por
assi já starem desuiados da forma Latina.
120 OltTHO GRÀHI1A
Item se ha de notar, que aquelles nomes, a que
per costume na pronunciaçaõ tiramos o .g. que
sendo Latinos, tinhaõ ante o . n . que sem . g . os
screuamos, para que a scriptura naO discrepe da
pronunciaçao, & digamos : sino, sinal, sinette, SÇ assi-
nar, & os que destas palauras se deríuão, como
assinatura, assinalar. Os qua^s naõ se deuem
screuer d'autra maneira, porque assi os pronuncia-
mos. E quem sabo lingoas, entenderá, que mais
que isto pode o costume, na razão de escreuer : Sc
que ainda que alguns deriuados dos vocábulos acima
dictos, screuamos com .g. como significar, insigne,
SÇ consignar, que naõ he inconveniente, screuermos
os acima dictos sem elle. Porque d algumas palauras
Latinas nos seraimos, sem as corrompermos, & ou-
tras corrompemos, Polo, que as corruptas screue-
mos como corruptas, & e da maneira que as pro-
nunciamos, & as inteiras como inteiras, como n'este
nome, signum, que corrompemos per detracção do
.g. dizendo, sino, §f sinal. Mas significo, êf insigne,
que se deriuão da dieta palanra, ficaô inteiros : polo
que os screuemos como inteiros.
M.
O
vitos homens mui dados, & curiosos da lingoa
Hespanhola cuidarão, que acerca de nós hauiaduas
maneiras de .o. hum grande, & outro pequeno, como
acerca dos Gregos. Mas, como teemos dicto do .a.
assi como naõ teem mais que bua figura, assi não
teem mais que hua natureza: que ser longo, ou breue,
he accidente, como nas outras vogaes. E a occasiaõ
que tiueraõ, os que dizem, que teemos dous .00.
hum grande, como .*>. mega dos Gregos, & outra
pequeno como .0. micron, nasceo, de veerem adif-
DA LlNGOA PORTVGVESA 121
forença da pronunciaçaò" desta letra, que em huns
lugares a pronunciamos com grande hiato, & aber-
tura da bocca, & em outros com muito menos, como
se vee nesta palaura, ouo, no singular, que na pri-
meira syllaba parece, que a pronunciamos com hum
pequeno .o. & quando dizemos, ouos, no plural, o
pronunciamos de maneira, que parece hum .o. gran-
de. Polo que para mostrar a differença do .0. que
chamai grande, screvem muitos esta palaura no plu-
ral, com dous .00. dizendo, oouos. & assi poouos, &
oolhos, & os mais desta qualidade.
Mas attenlando isto mais consideradamente, &
com a promptidaô da orelha, que a musica das letras
requere (que segundo Quintiliano naõ he menos dif-
ficultosa de comprehender, que a das cordas,) acha-
rão, que a dieta differença naõ vem do .0. ser gran-
de, ou pequeno, nem longo, nem breue, mas do
accento, com que entoamos as palauras. Porque quan-
do he agudo, leuantamos 0.0. & quando he circum-
llexo, fica entoado de maneira, que fica obtuso, &
quasí unisono com as outras syllabas granes, fazendo
de huma syllaba aa outra tam pouca differença, no
leuantar, que quasi naõ o sinte a orelha, como ma-
nifestamente se vee nestas palauras, pólo, por ceo,
& pôllo, por aue, ou animal pequeno. Porque em
polo, sendo o primeiro .0. breue, & o segundo lon-
go, por causa do accento agudo, que leuantaaquel-
le .0. fica parecendo pelo contrario, os que não
sintem a musica. Porque parece, que o primeiro. o.
he longo & grande, & o segundo pequeno, & breue.
E em pôllo, onde o accento da primeira syllaba naõ
he agudo, fica parecendo o .0. pequeno, & breue,
sendo na verdade longo.
A qual pronunciaçao de accento circunflexo
(se o este he) parece, que soomente sentimos, era as
122 Orthographia
dições de duas syllabas, que em ambas teem .0. &
naõ em outras vogaes. Porque «gora nestes tempos,
não ha noticia alguma deste accento, nem se sabe,
em que proporção stá do agudo, ou graue: nem ha
orelha tam delicada, que possa comprehender adif-
ferença; que ha entre terra do caso nominatiuo, que
teem acerca dos Latinos, accento circunflexo, de ter-
ra do ablatiuo, que o teem agudo. Qua se perdeo
isto, como se perdeo a pronunciaçaô de muitas le-
tras, & como se perdeo o processo da musica a r n-
tiga, que hauendo três géneros delia s. diatónico,
chromalico, & enharmonico, soomente os músicos
deste tempo conhecem o diatónico, & ainda datheo-
rica desse sabem mui pouco, ou para dizer melhor,
naô sabem nada, quantos músicos hoje viuem, nem
ainda da pratica se sabe quomo cantauao os antigos
antes de S. Gregório, nem per que notas: nem ha
rastro, de como procedias nisso: como também igno-
ramos muitas artes, & cousas dos antigos, de que
a penas entendemos os nomes, como he toda a arte
gymnaslica, & gram parte daarchitectura, & dasme-
chanicas, de que os homens deste tempo somos tão
rudes, ao menos os Hespanhoes.
E outras muitas razoes ha, para persuadir, que
não ha .0. grande, nem pequeno. Porque teendo a
mesma posição de letras, ouo, Sc ouos, naõ se pode
dizer, que em o singular he o primeiro .0. pequeno,
& no plural, que o mesmo he longo. Porque não se
mudando as letras, nem a significação, senaõ o nu-
mero, naô se pode mudar a quantidade. Polo que
fica claro, que a mudança he. de hum accento em
outro, & naõ de hum . o . grande a outro .0. pe-
queno.
Outra razão ha, que ainda que stemos hum gran-
de espaço, pronunciando, & soando a primeira syl-
DÁ LlNGOA. PORTVGVESÁ 1 23
laba deste nome ouo, sempre o primeiro .o. soa ba-
xo, & com menos hiato da bocca; E pelo contrario,
ainda que mui pequeno spaço nos detenhamos, em
pronunciar a primeira syllaba desta palaura, modo,
ou cornos, no plural, fica logo soando de differente
maneira, & com a bocca mais aberta. Donde se col-
lige, que a differença naõ consiste na grandeza, ou
pouquidade do .o. senaõ no aleuantar, ou abaxar do
tom, ou na differente maneira de formarmos os .00.
na pronunciaçaõ.
Item se ha de aduertir, que no soido nenhua
differença ha entre .«, mega, & o. micron, acerca
dos Gregos, mais que ser longa a syllaba de .w.
mega, & a do .0. micron breue. Polo que naõ fa-
zem a differença do nosso .0. leuantado, ao baxo.
Mas em muiios vocábulos Gregos em que naõ ha
mais differença, que hum screuer-se com .«. & ou-
tro com o. parece que pelo contrario o .0. micron
soa mais alto, & semelhante ae nosso .0. que querem
chamar grande, & .«. mega mais baxo, & semelhan-
te ao que querem chamar pequeno, por causa de
accento circunflexo, com que se differenceaõ, como
se vec nestes nomes pote; poj* funda, & pwlo; por
teiraõ, ou almagra, & &poaa, por dom, & àpoSfxa, por
casa: onde ninguém na pronunciaçaõ faraa tal diffe-
rença de hum a outro, que se possa comparar aa
nossa de ouo, ou ouos, ou que pareça teer outra
differença, mais que a tardança de pronunciar a syl-
laba.
E o que tenho aduertido da nossa lingoa he,
que as dições, em que ha esta differença de .00. sao
os nomes de duas syllabas, que na primeira, & na
segunda syllaba teem .0. Dos quaes muitos teem no
singular accento circumflexo, na primeira syllaba, &
no plural accento agudo na mesma, como, fogo,
124 Ortiiograpuía
fogos, forno, fornos. ôs$'>, ossos olho, olhos, pôuo,
pouos. porco, porcos, tojo, tójospk, outros taes como
estes. Mas alguns ha, que naõ mudaõ o accento no
numero plural como: bojo, bolo, boto, coco, choro
por pranto; & choro por congregação, corro, colo,
coxo, fojo, forro, froxo, gordo, gosto, gozo, horto,
lobo, moço, mocho, moio, molho por escaueche ou
potage, nojo, oco, olmo, poç,n, potro, vedo, rogo, rolo,
soldo por stipendio ou soldada, solho, somo, tollo,
torno, troco, vodo.
Item se pronunciaõ com accento circunflexo,
assi no singular como no plural, todos os nomes,
que na primeira syllaba teem .m. ou .n. despoisdo
.o. como, lombo, momo, tombo, pombo, longo, ponto,
conto, dono. \i os que na primeira syllaba teem dt-
phtongo de .ou. como couro, louro, touro, pouco,
rouco.
Item ha outros, que teendo no singular o ac-
cento indifferente. Porque de poço, dizem poços, y po-
ços. & de torto, tortos, & tortos. & de nôuo, nôuos. &wtf-
uos. & de osso, ossos, íkóssos, & de pôuo, pôuos, kpôuos.
Item ha outros dissyllabos, que assi no singu-
lar, como no plural, teem na primeira syllaba o
accento agudo, como: copo, modo, malho por fexe,
soldo por moeda, vosso, nosso, eólio, froco, /o^oaduer-
bio.
Item se ha de notar, que não somente ha esta
differença do singular ao plural, mas do género
masculino ao feminino, que assi como mudaõ o ac-
cento agudo no plural, assi no género feminino. For-
que do torto, dizemos torta; & de porco, porca; &
de côruo, córua. Mas os que naõ mudaõ o accento
no plural, naõ o mudaõ no género feminino, assi
comi, moço, moça ; f roxo, f roxa ; coxo, coxa ; gordo,
gorda. Tirando porem de dono, dona por auóa; &
DA LlNGOA PORTVGVESA 125
de posto, posta; & de nôuo, nôua, que se pronunciao
com o aecento aguda.
E a mesma regra guardaõ 03 nomes de muitas
syllabas, se na penúltima, & vitima teem .0. porque
assi no singular, como no prural, teem aecento cir-
cunflexo, como, xãrrôco, xarrôcos; barroco, barro-
cos; peixôto, canhoto, raposo, & todos os nomes aca-
bados em .oso. como fennoso, copioso, iroso. Mas teem
esta diíferença, que os femininos mudaõ o aecento
em agudo, como: barroca, peixota, fermósa, irosa: ti-
rando raposa, que vem de rabôso, & rabósa.
Itemnaõ soomente Ira esta diíferença de aecen-
to nos nomes , mais ainda nos verbos Porque
huns sao circunflexos, como: corro, ôugo, ])ônho t co-
mo: Jk, outros saõ agudos, como: jogo, posso, folgo,
troco.
Deue-nos por tanto ficar por regra, que pois a
diíferença consiste no aecento, & naõ na scriptura,
que naõ toemos mais que hum .0. & que naõ se de-
ue screuer com .0: dobrado, neníiàa diçaõ tirando
na vitima syllaba, os nomes contractos, de que a
diante faremos menção. Nem lie necessário notar as
palauras com aecento, para fazer diíferença, quando
lie agudo, de quando lie graue, ou circunflexo, por
nao trazermos aa nossa lingoa o trabalho da lingoa
Grega. Mas baste para a pronunciaçaô, saber as re-
gras acima .dietas. Soomente devemos accentuar as
diçoes, em que pode hauer diíferença de significação,
quando teem d ifferente aecento, como: cor, por co-
lor, que sereueremos com aecento circunflexo, &,cór
por vontade com agudo. E pôde, quando hc preté-
rito, screueremos com cirunllexo, & pôde do presente
com agudo, & assi outros desta qualidade.
126 OltTHOGRAP.II.Y
O
HE letra muda, que nenhíía lingoa tem, senão
a Latina, & as que delia descendem, & pronuncia-
se como c. segundo os antigos. As quaes duas letras
entre si, naõ scdiííerenciauaõ na pronunciaçaõ, mais
que na figura. Polo que dixeraõ muitos antigos, que
o ,g. era letra ociosa, & desnecessária. D'onde veo,
que muitos homens doctos nunqua a costumarão em
sua scriptura, como foi Nigidio Figulo contemporâ-
neo de Marco Tullio, que nunqua usou k. nem % q.
Porque o mesmo eííecto tinha o x. em tudo. Eassi
veeraõ, que muitos dos mesmos antigos, screuiaõ per
.q. palauras que despois se screueraõ .per x. que
per dizerem arcus, Sioculus, diziaõ arqus, & oqulus.
E pelo contrario, de sequor dixerao secutus, & de
loquor ' } loculus . Eassi nos relatiuos, variamos os ca-
sos, hora per .q. hora per x. como: quis, cuius, cm,
quem, quo. Mas porem esta difTerença ha, que sem-
pre despois do .q. se segue hum ai. liquido, & sem
força- O qual naõ se pode negar fazer alguma dif-
ferença na pronunciaçaõ do .c. Porque de hua ma-
neira nos soa, aqua. & d'outra, aca, por causa d'a-
quelle ai. que sempre se sente. D'onde se segue,
que a pronunciaçaõ, que nós agora damos ao x. co-
mo assouiando, & chegando a lingoa dobrada aos
dentes, he falsa, & que a verdadeira pronunciaçaõ,
lie retrahindo a lingoa, que naõ chegue aos dentes,
& apertando a campainha, lançando a voz de den-
tro, da maneira que pronunciamos o .q dizendo que,
ou como agora os Italianos pronunciaõ o seu rela-
tiuo Che, quando dizem, Che fai? Che pensi? Mas
ainda que os antigos chamassem a esta letra ociosa,
a nós he necessária, assi para screuermos todas as
diçoes, que os Latinos per elía screuiaõ, como por
DA LlNGOA PORTVGVESA
127
a adulterina pronunciaçaõ, que viemos dar ao c.
junto a estas letras .e.i. de que nos ficou necessida-
de, de soccorrermos com que, qui, para correrem
todas vogaes de hum soido, & pronunciaçaõ. & di-
zermos; ca. que, qui, co, cu. áe, qua, que, qui, quo,
quu.
R
R.
HE letra seminogal, simplez, $ç nau de duas-
maneiras, como os vulgares cuidaõ, que põem no
seu alphabelo duas figuras: bua, que dizem ser de
.r. singello, & outra de dobrado, que se põem na
principio das dições, ou quando soa como dobrado.
O que he grande erro. Porque dessa maneira, a to-
das letras podiaõ dar duas figuras, lifía para quando
saõ singellas, & outra quando saõ dobradas. Polo
que hemos de dizer, que naõ ha mais, que hum .r.
em potestade. O qual quando se dobra em voz, se
dobra lambem em numero. E o que enganou aos
vulgares, foi que aas vezes sem se dobrar, se pro-
nuncia, quasi como dobrado, sendo na verdade sin-
gello. O que se faz de cinquo maneiras. A primeira
se se puem em principio dedioaõ, como: raposa, rio,
rua: onde stá claro, que naõ pode ser dobrado, por
ser principio de syllaba, & naõ poderem duas letras
de hum género ferir a mesma vogal. A segunda se
antes do .r. vai ,n. como: honra, tenro, genro. A ter-
ceira- se pelo contrario, se antes do .n. vem o. r. co-
mo: sarna, inferno, forno, torno. A quarta se antes
do .r. vem .s. como: Israel A quinta se a dição,
que começaua em .r. se compôs com algumas das
preposições, pre, ou pro, como: prcrogatiua, pro-
vo gar.
Í28 ORTHOf.RAPHlA
s.
O HE letra semiuogal, & mais assouio que leira,
segundo dizia Marco Messala. D ? onde veo, que a fi-
gura dellla denotarão, como hiía cobra enroscada,
por parecer mais pronunciaçaõ de cobra, que de
homens. A qual letra, ainda que os vulgares a figu-
rem em seu aiphabeto de duas maneiras assi .f. s,
em potestade, & força, he buma soo letra. Forque
essa differença be para a graça da scriptura, mas
naõ para fazer differença na pronunciaçaõ. Isto lem-
bro, porque ha alguns que cuidaõ. que de .s. ha
duas species, idefl, hum que se pronuncia dobrado,
& que se vsa no principio, que he o comprido assi
./*. outro curto assi .s. mais brando, para o cabo das
syllabas. O que naõ he assi. Porque se ha de notar
que todas as vezes, que as diçles começaõ em ./". &
despois delle se segue vogal, naturalmente se pro-
nuncia como dobrado, como: fane to, falia, filio, fo~
litario, famma. Ea penas o poderão pronunciar co-
mo singello, que naõ Fique soando como o ,z. O que
naõ he nas dições. que teem despois do ./. outra
consoante, como fparo fulo. No que também haõ do
aduertir, que da mesma maneira se pronuncia, como
dobrado, quando vem despois de consoante, como
falso, manfó, per fu adir, & outros semelhantes.
v
TEEM dous ofFicios, hum próprio, quando soa
per si como as outras vogaes, como: vsso, vsura:
outro emprestado, quando fere vogal, que teem gran-
de semelhança com o ./. no som, como nestas pa-
lauras: verdade, virtude. A qual pronunciaçaõ (como
teemos dicto) os Latinos antigos screuiaõ com o di-
DA LíNGOA PORTVGYESA 129
gammados Aeolicos, que tinha semelhança do nos-
so ./; no som, & na figura. Mas despois que o /".
succedeo em lugar do .p/i. Grego, tomarão empres-
tado o .ti. & vsaraõ delle em lugar do digam ma. O
qual diííerenceamos agora, quando he consoante, de
quando he vogal, desta maneira .v. ao menos no
principio das dições. Porque no meo delias, vsaõ do
m. indistinctamente, quer seja vogal, quer consoante.
j\. HE letra dobrada, que consta de c & s em al-
guns vocábulos, & em outros de .g. & .s. Porque
em pax, assi pronunciaõ os Latinos o .x. como se
dixessem,/?ac, & lhe accrescentasscm .s. E assi pro-
nunciaõ lex, como se dixessem, kg, k- despois lhe
ajuntassem .s. O que se vee pela formação dos ca-
sos. Porque de pax, dizemos pacis, & de nnx, mi-
eis, & de lex, Ugis, & de /ter, liegis. Mas isto he
quanto aa pronunciaçaõ das palauras Latinas. Por-
que a pronunciaçaõ que agora damos a esta letra, he
Arábica, da maneira que os Mouros pronunciaõ o
seu, xin. Polo que nas palauras Hespanhoes, naõ
nos fica seruindo o ..£. dos Latinos, em força & po-
testade, senaõ em figura, per que denotamos a dieta
pronunciaçaõ Arábica, como nestas palauras: paixaõ,
caxa, enxada, coxim. E assi os Franceses, que teem
a mesma pronunciaçaõ que nós, a denotaò per .eh.
impropriamente, porque per ,x. se naõ podia de-
notar, & dizem, Cheual, «Sc Chapitre , por Xeual, &
Xapitre.
Y.
1 HE letra vogal dos Gregos, que os Latinos rece-
berão em seu alphabeto. para com ella screuerem
9
130 Orthograptiia
os nomes Gregos, que naturalmente teem como nó»
também deixemos fazer. Mas assi os Hespanhoes, co-
mo os Franceses tsao delia mal: porque indistiRcta-
mente se aproueitaõ delia, em lugar de .*. vogal,
em vocábulos originalmente Latinos, ou próprios da
lingoa Ilespanhol, & Francesa, que naõ podem teer
aquella lotra, que he propriamente Grega. A, quaí
teue muita differença do .*. na pronunciaçaõ, posto
que ao presente a naõ sintamos, como he em mui-
tas outras letras, a que naõ damos seu próprio som,
por se perder com a discurso do tempo. De que he
grande argumento, que os Latinos antigos, quando»
screuiaõ com suas letras as dições, em que entraua
.y. em lugar delle, punbaõ, e pronunciauaô .u. co-
mo neste nome, Sylla, por o qual diziaõ, Sulla, &,
como se vee na trasladação do muitos vocábulos da
Jingoa Grega na Latina. Porque por mylos, dixerao
muluSj & por lhynnu$> thunnus, &por mys, mus, &
por sambyca, samhuca. Porque nisto- seguiaõ aos-
Aeolicos, que pranunriauaò o aj. como ai. E assi
veraõ, que em muitos nomes Gregos, mudarão os-
Latinos o .y. em .o. como de nyx, nox. de slyrax,
storax. de myle, mola, O que quis lembrar, para que
saibaõ, quanta differença tinha & aj. do A. na pro-
nunciaçaõ, que naõ se podia exprimir per outra le-
tra mais propriamente, que per ai. ou .o. com que
tinha mais semelhança. Pelo que stá claro, que nai
pronunciaçaõ tinha manifesta differença do ,4. ain-
da que agora a naõ alcancemos. Porque se naõ ti-
uera differente soido, naõ o accrescentaraõ os Gre-
gos ao seu alpbabelo, como letra differente do .t.
& das outras vogaes. Qua acerca delles, assi como-
distaõ as letras na figura, assi distaõ na pronun-
ciaçaô.
Do que fica. conuencido o abuso, dos que fazem
PA LlXCOA PORTVGVESA 131
i, como o j. Porque sendo de
vogal, serenem Ycronimo, & Yoaõ,
esta letra consoante,
sua natureza sempre
como se vee em moedas de alguns Reis de Hespa-
nha, onde pelo . F. denotauaô, Ioamie, por a maa
orthographia de seus ministros, que deraô traça pa-
ra ellas. O que os Reis naõ deuiaõcommetter, senaõ
a homens exquisitamente doctos, & mui auisados.
Porque como as moedas correm muitas terras, &
muitas mãos, fica mui exemplado o acerto, ou des-
concerto delias. Assi que hemos de seguir nisto os
Latinos, & soomente screuer.com .y. as dições Gre-
gas, de que vsamos no Hespanhol, em que vem a
dieta letra, & naõ as originalmente Latinas, ou Hes-
panhoes, como: Hieronymo, Hippolyto, hydropico,
crystal, myrrha, mysterio, & outros infinitos, que os
versados na lingoa Grega saberão. Dos quaespoerei,
os que podem vir sob certa regra: como saõ todos
os compostos desta preposição, syn, que quer dizer
cum, & acerca de nós, com, como: syllaba, syllogis-
mo, synagcga, syncopa, syndico, synodo.
Item os nomes deriuados de chrysos, que quer
dizer ouro, como Chryseis, Chrysippo, Chrysogono,
Chrysos tomo.
item os deriuados de pyr, que quer dizer fo-
go: como Pyrcneo, pyramis, Pyramo, Pyrrho, Scpy-
ropo.
Item os deriuados de lycos, que quer dizer lobo,
como: Lycaon, Lycaonia, Licomedes.
Item os deriuados de poly, que quer dizer muito,
como: poly pus, Polycrales, Polydoro.
Item os deriuados de hydor, que quar dizer agoa,
como: hydria, hydra, hydropico, hydropesia.
Item os deriuados de physis, quer dizer natu-
reza, como: physico, metaphysico, & physionomia, por
o qual os idiotas dizem phylosomia.
132 Orthográphia
Item os compostos da preposição hyper, que quer
dizer, super, ou vltra, como: hyperbole, hypcrbaton,
hyperboreus.
Item os compostos de hypo, que quer dizer sub,
como: hypochrila, hypotheca.
No que se deue aduertir, que todas as vezes,
que a diçaõ se começar em .?/, sempre vai com as-
piração, como nos exemplos acima dictos.
Item ha aiguus nomes Latinos, a que daõ ori-
gem Grega, que se escreuem com .y. como sylua,áe
hylc & consyderardesydus. O que em considerar naõ
admittiria porque sidus he nome Latino (como diz
Macrobio sobre o sonho de ScipiaõJ&diz-se de sido,
que quer dizer star fixo, que he mais verisimel ety-
mologia, que a que lhe daõ de syn, & de eidein,
palauras Gregas, que querem dizer juntamente veer.
Polo que fique por regra, que toda a diçaõ sere-
namos per A. Latino, tirando os vocábulos Gregos,
em que entra .y. porque da mesma maneira ossere-
ueremos.
Z.
z
NAÕ he hiía soo letra, mas abbreuiaçaõ, ou fi-
gura de duas letras, como o x. porque se compre-
hendem nesta figura .s. .d. Porque assi pronuncia-
vam, os Gregos, & Latinos, Zacyntlws, como se scre-
ueraõ Sdacynthos. E a mesma pronunciaçaõ teem
Ezrás, que Esdrás. Mas com o tempo, perdeo-se a
própria pronunciaçaõ desta letra, que os antigos lhe
dauaõ, & damos-lha agora per hua maneira, que soa
entre .s. & ,ç. A qual letra, porque muitos vulga-
res a confundem com o .$. & aas vezes com.p. poe-
rei alguns lugares, onde a deuemos vsar. E com elía
screueremos todos os nomes patronymicos Portugue-
ses, como de Aluaro, AJaarez; de Nuno, Nunez; de
DA LlNGÒi PORTVGVESA 133
Pedro, Pirez; de António, Antunez; de Paio, Paacz;
de Garcia, Garcez, de Martinho, Martijz; de Ro-
drigo, Rodriguez; de Mui, Ruiz; de Lopo, Lopez; de
Tello, Tellez; de Gonçalo, Gonçaluez; de Mendo,
Mendez; de Vasco, Faa-s; de Lain, Lainez; de Ber-
mudo, Bermudez; de Henrique, Henriquez; de Xi-
meno, Ximenez; de Diogo, Ôhu; de Ioanne, Tarc^,
Janes;de Marcos, Marquez.
Item se screuem com esta letra, os nomes fe-
mininos denominados, d'outros desta figura: àuareza,
largueza, fraqueza, simpleza.
Item todos os nomes, que na ultima syllaba
teem .a. com o accento nelía, como: arganáz, cabaz,
rapaz. E os que significaõ augmento, ou abundân-
cia, que as mais vezes se tomaõ em maa parte, como:
bebarráz, ladrauáz, lingoaraz, truanaz, &c.
Item se screuem alguns nomes, que teem ac-
cento, & .e. na vitima syllaba, como: axedréz, véz,
pêz, freéz, treêz, & garoupêz. E estes sao poucos:
porque os mais se escreuem por .s. ainda que te-
nhaõ o accento na vitima, como: Português, Ingres,
Marquês, reuês, conuês, kc.
Item se screuem com .z. os nomes, que teendo
.%. na vitima syllaba, teem o accento nelía, como:
abuíz, almofariz, chafariz, chamariz, codorniz, juiz,
perdiz, raiz, verniz.
Item òs nomes, que teem da mesma maneira na
vitima o accento, & .0. vogal, corno: albornoz, algoz,
arroz, atroz, Badaiôz, Estremoz. E os monosyllabos
.s. de hiía soo syllaba, que teem o accento agudo:
coz, foz, noz, voz, tirando nós, k vós pronomes, quê
se escreuem com .s.
Item os nomes que teem .u. na mesma vitima
com accento, como: alcaçuz, arcabuz, Andaluz, al-
catruz, Ormuz, cuscuz. E asdiçõesde huma syllaba,
134 Ortiiographia
como: cmz, luz: tirando a primeira pessoa do pre-
térito perfecto, do verbo ponho, que he pus, que se
screue com .$.
Item se screuem com esta letra, as terceiras
pessoas destes verbos, & seus descendentes; faz, diz,
jaz, traz, como: fazia, dizia, jazia, trazia: fazer, di-
zer, jazer, trazer.
Item estes nomes numeraes, dez, onze, doze, tre-
ze, quatorze, quinze, dezaseis, dezasete, dezoito deza-
noue; dozentos, trezentos. Mas quatrocentos, & os mais
ate mil, se screuem per x.
Item se ha de notar, que por esta letra em si
ser dobrada, se naõ pode dobrar na scriptura. Polo
que he grande abuso o dos Italianos, os quaes todas
as vezes, que o .z. vem entre duas vogaes, o dobraõ,
& dizem, vaghezza, bellezza, dolcezza. O que naõ
pode ser: porque os dous az, teenl força de quatro
consoantes, que naõ teem vogaes, a que vaõ atadas.
Saluo se dixerem, que esta letra perdeo a própria
pronunciaçaô antiga das letras dobradas, & que agora
he bua specie de .s. que dobrado vem dar nosso ,£.
TIL.
_l IL naõ he letra, mas hua linha & abbreuiatura,
que se põem sobre as diçôes, com que supprimos
muitas letras. D'onde veo chamar-se tir, que quer
dizer titulo, como se vee nesta palaura, misericórdia,
que abbreviando a com o til, escusamos todas estas
letras, isericord. screuendo assi, mm. & assi outras
muitas letras em outras palauras, como: Bispo, Apos-
tolo, tempo, Bpo, Ap\o, ipo. Mas o mais frequente vso
desta abbreuiatura, he seruirde .m .w. A qual sendo
a todas nações, que delia vsaõ voluntária, a nós he
necessária, quando com ella supprimos o .m. com
BA LlNGOA PORTVGVESA 135
que formamos alguns diphthongos. E a causa desta
necessidade he, que a razaõ da orthographia, em to-
das as lingoas, requcre, quando entre duas vogaes
vem hua consoante, que sempre essa consoante vá
com a vogal seguinte, como; amo Roma. As quaes
dições he manifesto, que se haõ de screver assi,
a—mo. Ro-~ma. Mas acerca de nós, ha hua peculiar,
& própria pronunciaçaõ, «Sc estranha das outras na-
ções, onde o .m. vem entre duas vogaes, pronuncia-
moio de maneira, que fica com a vogal precedente,
& naõ com a seguinte. A qual pronunciaçaõ de .m.
naõ he períecta, nem inteira. Polo que naõ sem ra-
zão, o chamaremos liquido, porque fica mais apaga-
do, & froxo, que quando vai com a vogal seguinte,
como sevee nestas palauras, Âlemam—o, Capitam—o*
Onde assi soa o .ro. como se ficasse com o .a. pre-
cedente, sem ferir no .0. que se segue.
E por assi ser liquido este .m. & naõ ferir a
vogal seguinte, & ainda soar pouco, dá lugar, quo
as duas vogaes, em que elle interuem se ajuntem
sMlpreem diphthongo, fazendo hiía soo syllaba, ain-
da que as vogaes ambas seja:) de hum género. Polo
que para denotarmos esta diííerença, de quando vai
com a vogal precedente, & he assi froxo, o screue-
mos necessariamente per a dieta abbreuiatura, por
naõ teermos outra letra, com que o representemos.
E assi dizemos, Alemão, Capitão, falcões, belcgmjs.
E a causa d'esta pronunciaçaõ he, por a pro-
priedade da nossa lingoa Portuguesa, que sempre
põem .m. no fim das dições, onde os Castelhanos
põem.w. Polo que dizendo elles, hermano, hermana,
lana. era necessário, que dixessemos, hermamo, her-
mama, lama, que ficaua em outra forma, & mui des-
fiado da razaõ, & analogia Latina, & Hespanhol, a
•que a nossa lingoa sempre teem repecto. E por tanto
136 Okthograp.tu
fazendo aquetle .m. liquido, ficamos imitando a pro-
nunciaçaõ, & analogia da lingoa Castelhana, & nao
fogindo da Latina, & guardando a propriedade de
nossa lingoa, de fugir o .w. & dizemos irmaõ, irmãa,
lãa. E assi respondemos com o .Hl. a todos os vo-
cábulos Castelhanos, que se acabaõ em .n. como
mais largamente diremos, em o capitulo dos diph-
thongos.
Ba afinidade, que alguas letras teem entre si &f como se
conuertem huas em outras.
A
S letras entre si lêem huas com as outras muita
semelhança, & aíTinrdade, & por tanto facilmente se
corrompem & mudaõ humas em outras, naõsoomen-
te de hua lingoa a outra, mas em hiía mesma lin-
goa. Polo que teendo noticia desta semelhança, &
mudança, que fazem de huas em outras, facilmente
viremos dar com a origem dos vocábulos corruptos.
O que muito serue, para saber a propriedade das
palavras, & verdadeira scriptura delias.
A primeiramente se muda em .e. como àe ala-
cris, alegre; factus, feito; amaui, amei; & aas vezes
em .o. como saô" todos os diphthongos de .au. em
ou. como de aurum, ouro; de laurus, louro; de tau-
rus, touro; de caulis, couue; por Autumnus, outom-
no. E (por naô gastar tempoj todos os mais vocá-
bulos, em que este diphthongo .au. entra, tirando
aulkor, aulhoridade, auçaõ, caução, causa, agouro,
Agosto, Agostinho, & poucos mais
B muda-se em .u. como de debeo, deuo, de ca~
ballus, cauallo; de cibus, ceuo. E aas vezes em .p.
comof de rabosa, raposa.
C n,uda-se em .g. como de coecus,cego; locusta,
lagosta; secrelum, segredo; periciilum, perigo; & tam-
DA LlNGOA PORTVGVESA 137
bem em .z. como de recens, rezente; de sarcio, sar-
zir; de faço, fazer; de jaço, jazer.
li muda-se em À. como de legi, lij; feci, fiz.
F muda-se em .b. como de rafanus 014 rapha-
nits,rabaõ; de fremo, bramo* E muda-se em ,u. com
que teem mais parentesco, como t.eemos dicto, como
àeruffus, ruiuo; de tri foliam, treno.
G muda-se em .c. como òegammarus, camarão;
de Gades, Galez. E o .gn. c«rrompe-se em .nlu como
de li g num, lenho; de pignus, penhor.
I muda-se em .?. como de cifow, cewfl/de^íca,
pega; de 6/&0, òeóo; de lignum, lenha; de pignus,
penhor.
L corrompe-se em .r. como de blandus, brando;
de clauus, crauo. E quando vem despois de .c. f. p.
corrompe-se em .eh. como de clauis,chaue; de flam-
ma, chama; de plaga chaga.
O corrompe-se em .u. como de /ocws, Jw^ór; de
cognatas, cunhado; ainda que em errada significação;
de constar e, custar.
P corrompe-se em ,b. como àeprunum brunho;
capra, capillus, cabello; pústula, bustella.
Q em .ç. como laquem, laço: & aas vezes em
.z. como de coquus, cozinheiro; de coquo, cozo, por
co^er mo /b#o. Porque por coser com agulha, de con-
suo, dizemos per .s. Outras vezes em .g. como de
aquila, águia; aqua, agoa.
S mudamos em .c. como de suecus, cumo.
T corrompe-se em ,d. como de amatus, amado;
de auditas, ouuido: de fatum, fado.
V vogal corrompe-se em .0. como de ^í;^c?a orc-
da; masca, mosca; narus, nora; lupas, lobo; vmbra,
sombra.
X corrompe-se em .z. como de nox, noz; de
pqx, paz; de vox, voz.
I3S Orthographia
Dos diphthortgos da lingoa Portuguesa
D
JPHTHONGO he li um ajuntamento, ou concurso
de dua* vogaes, que guardaõ sua força em hua soo
syllaba: & he palaura Grega, que quer dizer do-
brado som. E todas as iingoas teem seus diphthongos
próprios, & alguas teem triphlhongos, que quer di-
zer, ajuntamento de três vogaes em huma soo syl-
laba, como se vee nestas palauras Francesas, veao,
beao ; & nestas Castelhanas, bueis, bueitre, vaiais. E
estes diphthongos se formão em cada lingoa de dif-
ferentes maneiras, & per diuersos ajuntamentos de
vogaes. Item,, huas nações teem mais diphtongos,
& outras menos. Porque os Gregos vsaõ de XII, &
os Latinos de VI. s, ce. au. ti. eu* 03. yi. Posto que
antigamente tinhaò .X. dos quaes se foraô esque-
cendo quatro. Mas em nossa lingoa ha XVI. diphton-
gos .5. ãa, ãe, aí, ão, nu, èe. ei, tu, t/\ oa, oi, õe,
<õo, ou, ui, nu. Dos quaes teemos três communs com
os Latinos .s. au, ti, eu. & outros três communs
com os castelhanos .$, oi. oi ui. E X. são pecu-
liares nossos, & naõ d'outra algua naçaõ .s. ãa, ãe,
èe, ij, ao, õe, 00, mi, im.
O primeiro diphthongo he .ãa. que he hua com-
posição de dous .a«. íom hum til, em que se aca-
bao muitos nomes femininos, que se não podem scre-
uer com as letras directas dos Latinos, que saô as
do nosso a! ph abe to, de maneira que ficam escriptas,
como as nós pronunciamos. Porque se escreuerem,
irmam, r ornam, Iam? vaô dar em outro soido mui
difíerente. Porque ficaõ soando, quasi como irmão,
romão, Ião. E não faz dizer, que com hum .a. &
com hum til, representarão o som, que nós pronun-
ciamos, & que se escutará o inconueniente, de for-
mar um diphthongo de duas vogaes semelhantes.
DA LlNGOA P041TVGVGSA 139
Porque esse til, assi soa no fim da dição, como ,m.
ou ,n. por ser abbreu : atura das dietas letras.
Item se ha de aduertir, que os nomes femininos,
que em Português se acabao em ,ãa, teem a mes-
ma differença de seus masculinos acabados"em ,ão %
que teem os Latinos em .ana, dos acabados em anus,
ou ano, se saõ Italianos, ou Castelhanos, & a mes-
ma analogia, & proporção guardaõ. Polo que assi
como dizemos , germanus , ou germano & germa-
na , mudada a terminação significati.ua do género
masculino de ,us, ou 0. em a feminina de .a, assi
esta palaura fica na mesma regra, acabando em .a,
porque o tU, que se põem em irmão, não he sobre
o .0, que he a derradeira letra, senão sobre o .4.
que he a penúltima, como teemos dicto no capitulo
do Til. O qual mettendo-se no meio, faz aquelle
vinculo de duas letras, que he o diphthongo. Assi
que irmãa, hauendo de guardar a mesma analogia,
deue-se escreuer mudada soo a terminação do .0.
em .a. E desta maneira fica o ,a, dobrado.
O .II. diphthongo he ,âe. em que se acabao os
nomes pluraes, cujos singulares se acabao em ,ão.
como Capitães, gauiães, Alemães, & outros infinitos,
que peio vso se sabem, posto que outros fazem os
pluraes em .ãos. como cidadãos, villãos, aldeãos, &
outros em ões. como cordões, roupões, quinhões, como
vereis abaxo no quarto diphthongo.
O .111. diphtongo he .ai, como : gaita, bailo, Cairo.
As quaes duas vogaes .a. áf À. podem concorrer em
hua mesma dição, sem formar diphthongo, á fazer
cada hua syllaba per si, como rainha, bainha, cair,
O que se conhece, que quando não he diphthongo,
vai sempre o accento no .i.
O .1111. diphthongo he.ão. o qual he o mais fre-
quentado na nossa lingoa, & sobre que ha mais opi-
140 Ortiiographia
niôes, & duuida, em que lugares se lia de vsar.
Porque huns indistinctamente o vsaô, & o confun-
dem com esta terminação .am. naò fazendo de hum
a outro differença algíla. O que he erro manifesto.
Porque no fim das palauras, que acabamos com esta
pronunciaçaõ, achamos hum sabor de .0. que naô
achamos no fim da primeira syllaba desta palaura,
campo. E he manifesto (como diz Prisciano, referindo
a Plínio) que o .m. no principio da dição dá um
som claro, & no meo medíocre, & no fim mui obscuro,
& apagado. De maneira que se nossas dições aca-
bássemos em .am. soariaô mui mais apagadamente,
do que soa a primeira syllaba de cam-po. E nós pelo
contrario, nas dietas dições sentimos hum som muito
descuberto, & mui desuiado de ;m. que o nâo pq-
demos exprimir, & representar, senão com o nosso
diphtongo .cio.
De maneira que com este diphthongo liemos de
screuer necessariamente as terceiras pessoas do plu-
ral do indicatiuo modo, da primeira conjugação dos
Portugueses, como amão, aceusão. Item as terceiras
pessoas do plural de todos os verbos, de qualquer
conjugação, do pretérito imperíecto, como amanào,
Unhão, onuião. Item as terceiras pessoas do plural,
do pretérito perfecto, de todos os verbos indistincta-
mente como amarão, lerão, ouuírão. Item todas as
terceiras pessoas do futuro de todas as conjugações,
como: amarão, screuerão, ouuirão com o accento na
vitima. Item todas as terceiras pessoas do imperatiuo
modo do plural dos verbos da segunda, & terceira
conjugação dos Portugueses, como: leão, oação. Item
as terceiras pessoas do futuro do optatiuo modo da
segunda, & terceira conjugação, como: oxalá leão,
oação. Item as mesmas pessoas do presente do con-
junctiuo, como: leão, oução.
DA LliNGOA PcRTVGVESA 141
Finalmente, com o dicto diphthongo se haõ de
screuer, na final terminação, todos os nomes, que
vulgarmente se screuem per am. dizendo, Capitão,
Alemão, galeão, TabaUião, se queremos screuer, como
pronunciamos. De maneira que nenhum nome, nem
verbo se screua no fim per .am. que he pronuncia-
çaõ all.ea, da que nós damos aos dictos vocábulos.
E quem quiser veer a pronunciaçaõ própria de .am.
& quam diíTerente he, da que damos aos dictos vo-
cábulos assi acabados, coteje a primeira syllaba des-
ta palaura cam-po, com a final desta palaura, fal-
tam. A qual pronunciaçaõ, de nenhiía outra manei-
ra podemos representar, senaõassi, falcão. Polo que
per .am. me naô atreueria screuer outras palauras,
senaõ aquellas, (am, & quam, que dos Latinos nos
ficarão inteiras, & aquellas syncopadas, gram, por
grande, qnando se segue consoante, &, sim, por
sancto: porás quaes alguns screuem, grand, &sanct.
E a razaõ dos dictos vocábulos se naõ screue-
rem per .am. & succeder aquelle diphthongo, em
lugar das dietas letras, segundo tenho aduertido, he
a analogia, & respecto, que a lingoa Portuguesa vai
teendo com a Castelhana, que sempre onde a Caste-
lhana diz, an. ou on. que he sua particular termi-
nação, responde a Portuguesa com aquella pronun-
ciaçaõ de mo. que suecede em lugar da antiga ter-
minação dos Portugueses de .om que punhaõ em lu-
gar do .an. ou on. dos Castelhanos. A qual ainda
agora guardaõ alguns homens d'entre Douro, & Mi-
nho. & os Gallegos, que dizem, fizerom, amarom,
Capitom, Cidadom, Taballiom, appellaçom. O qual
respecto, & analogia, se guardaõ em muitas pala-
uras, liiías lingoas a outras, como seveenas lingoas
Latina; Thoscana, Castelhana, & Portuguesa, em mui-
tos nomes, que começaõ em letra muta com liquida,
142
OnTHOGRAPHÍA
que sempre vao em bua proporção, respodendo
buas lingoas a outras, como se vee nestes exemplos
seguintes.
Latino.
Italiano.
Castelhano-
Por tugiu
Clamare.
chiamarc.
llamar
chamar.
clauis.
chiaue.
Ha uc ,
chaue.
flamma.
fiam ma.
llama.
chama.
plaga.
piaga.
llaga.
chaga.
planus.
piano.
llano.
chão.
plenus.
pieno.
lleno.
cheo.
pluma.
piuma.
pluma.
chumaço,
chumeila.
plumbum.
piombo.
piorno.
chumbo.
pluuia.
pioggia.
Munia.
chuiua.
pluit.
pioue.
Ilueue.
choue.
planlago.
plantagine.
llanten.
chantagem
Nos quaes exemplos de industria me quis deteer,
para saberem os lectores, que pela analogia, & cor-
respondência, de buas lingoas a outras, podem sa-
ber a origem de* muitos vocábulos, que per outra
maneira não poderiaõ alcançar: & para veerem por
esta semelhança, a razaõ do nosso dipbtbongo .ão>
que sempre vai respondendo ao .n. dos Castelhanos,
& dos Latinos, & Italianos, como ao amarunt Lati-
no, amareno Italiano, amaron Castelhano, o amarão
Português.
Mas porque alguns, que se naõ prezauaô de
mãos Portugueses vi errar, & embaraçar-se, no for-
mar dos pluraes destes nomes, cujos singulares se
acabaõ em ,ão, & hus dizem, villões, & outros vil-
lãos, cidaddes, & Alemõcs, quero-lho poer em arte,
para quando duuidarem. E tenhaõ esta regra: que
vejaõ esse nome acabado em ,ão. como acaba acerca
DA Liivgoa Pqutvgvesa 143
dos Castelhanos no singular. Porque se acaba em
.an. faz o plural acerca d'eMesem y anes, como: Ca-
pitem, Capitanes; gauilan, gauilanes; Aleman, Ale*
wanes. E assi fornia sempre, sem excepção algua, o
Português o singular em .ão. & o plural em .ães.
dizendo de Capilão, Capitães] de gauião, gauiães;
de Alemão, Alemães: & assi os mais.
Mas se acerca dos Castelhanos, o singular que
o Português forma em mo. se forma em ano, como
tillano, ciudadano, aldeano, de fjjue elles formão o
seu plural em, annos, o nosso plural seraa em, aos*
E assi como elles dizem, villano, villanos; ciudada-
no, ciudadanos; aldeano, aldeanos, diremos nós, vil-
lãos, cidadãos, aldeãos.
Mas se o singular acerca dos Castelhanos he em
cn. será o nosso em .nes. E assi como elles dizem
sermon, sermones, opinion opiniones ; coraçon, cora*
cones ; assi diremos nós sermão, sermões; opinião ,
opiniões ; coração, corações. Porque nisto, & em mui-
tas cousas outras que por breurdade deixo, teem
respecto, & correspondência a lingoa Portuguesa aa
Castelhana. D' onde vem que dizemos por o seu,
ean, canes ; cão, cães : & por o seu, cano, canos ;
cão, enes.
Porem se os vocábulos em .ão. sao meros Portu-
guezes, ou communs a outras lingoas, & os naõ ha
em Castelhano, sempre se acabará a voz do plural
em .des. como palicão, patncões, ; tecelão tecelões ;
follião, follioes. Porque se teem nisto respecto, que
as palauras, que se agora acabao na lingoa Portu-
guesa em .ão. se acabauaõ todas antigamente em
.om. como acima está dicto. E pelo costume (que
nisto sempre hemos de seguir) ficáraõ fora das di-
etas regras, Taballiàes, êf Escriuães, que por a di-
eta analogia, houuerão de fazer, Taballiòes, áf scri-
444 Orthographía
nãos. E também ficaô fora desta regra estes indiíTc-
rentes, cidadãos, & cidadões, de cidadão; villãos,
& villoes, de vi lia õ.
O V. diphthongo he .au. com que se serenem
os nomes Latinos, que ficara') incorruptos na nossa
lingoa, como author, authoridade, Aurélio, causa.
Mas bem podem concorrer estas duas vogaes, sem
formar diphthongo, & ir cada letra per si,& fazer
syllaba, como em saúde, alaúde, ataúde, O que se
conhece no accento, que vai no .u.
O VI. diphthongo he .ei. como geito, feilo,Rei.
As quaes letras podem outro si concorrer, sem se
coalharem em diphthongo, como em Deiphobo, Dei-
phile. O que se conhece pelo accento que vai no ./.
O VII. diphthongo he èe. que vem nos nomes
pluraes, cujos singulares se acabaõ em em, bem,
bens; vintém, vinténs. Os quaes pluraes, se naò po-
dem formar em nossa lingoa, sem o vinculo do til.
que liga os dous .ee. por naõ dizermos, bernes, como
a razaõ, & analogia da nossa lingoa pedia, nem be-
nes, como Castelhanos.
O VIII. diphthongo he cu. como Euphrate.s,
Eugénio, meu, teu, seu. O qual concurso de letras
pode também fazer duas syllabas separadas, sem se
diphthongarem, como, ceúmes, teudo,manieâdo, mea-
do. O que se conhece no accento que vai no n.
O IX. diphthongo he, ?]', o qual vem necessa-
riamente nos pluraes dos nomes, cujos singulares se
acabaõ em Âm. como tnalsim, malsljs; roim, roíjs ;
beleguim, beleguJjs. Os quaes se naõ podem formar
sem o dicto diphthongo, como teemos dicto no di-
phthongo .ée.
O X. diphthongo he .ao. que vem despois do
.g. em lugar do m. liquido, que vinha em vocábu-
los Latinos despois do .q. como de aqua, ogoa; equa,
»\ Lingoa PoRTVGYKSxV 145
egoa; língua, língua; & em outros meros Portugue-
ses, como fragoa, ou corruptos, & contractos, como
de macula, magoa. Mas quando se o accenlo põem
no .o. que denota diuisaõ da syllaba, naõ forma di-
phthongo, como Lisboa, boroa, azambôa.
O XI. diphthongo hu .oi> como noite, coiro. Mas
nem sempre se estas letras ajuntaõ em hua syllaba,
formando diphthongo: porque muitas vezes se diui-
dem, como em soidade, soído,arroklo 9 moinho, & ou-
tros muitos. O que se conhece ne accento, que vai
no .t.
O XIÍ. diphthongo he .õe. como cordões, rou-
pões, quinhões.
O XIII; diphthongo he .00. que vem para for-
mação dos nomes pluraes, cujos singulares se acábaõ
em .om. como, bom, tom, som, Dom. Porque dize-
mos, bõos, tãos. sãos, Duos, pela Fazaõ, quedeemos
no diphthongo VII. E de caminho lembro aos lecto-
res, que esta palaura Dom, quando faz Dõos y he pro-
nome de nobreza, que vem de dominus, <Sc quando
significa beneficio, ou doação, que vem de donum,
faz does, pela razaõ da analogia, que deemos no MI
diphthongo, por o qual dizem os outros Hespanhoes,
don, dones.
O XIUI. diphthongo he .ou. que succedeo acer-
ca de nós, em lugar do mu. dos Latinos. Porque,
por o que elles diziaõ aurum, dizemos nós ouro, &
por laurus, louro & por raucus, rouco, & assi os mais.
O XV. diphthongo he .ui. como, muito, cuida-
do, ruiuo. As quaes duas vogaes podem ir desata-
das, sem fazerdiphthongo, como, Luís, ruina.
XVI. diphthongo he uu. que serue para forma-
ção dos nomes pluraes, cujos singulares se acabaõ
em .um. como de vaccum, vaccuus. de atum, aliius,
pela dieta razaõ do VII diphthongo.
10
146 OaTHOGRAPíífA
E naõ seraõ diphthongos, senaõ as vogaes, que
se coalhaõ, & ajuntaõ em hum soido, fazendo hw-
ma syllaba. No que muitos teem errada oppiniaõ,
cuidando, que saõ diphthongos, quando concorrem
estas vogaes .ae, como, amae. ao, como, pao. ea f
como, cca. eo, como, ceo. ia, como, Maria, ie, como,
frieira* io, como, rio, oé, como, poeta, ua, como, rua.
iie, como crueza uo, como, nuo. iiii, como, muil.
Porque a orelha nos ensina, que saõ letras soltas,
& sem vinculo, que fazem cada hiía per si syllaba,
posto que breues, por serem vogal ante vogal; & que
em verso, quando fosse necessário, facilmente se
poderiaõ fazer de duas em huma syllaba, per a figu-
ra chamada syneresis, como em o concurso de algu-
mas das dietas vogaes se pode veer, em os Poetas Thos-
eanos, & Hespanhoes.
Das si/llabas, y dicõe».
OABIDA a qualidade, & natureza das letras, fica
tractarmos, que cousa he syllaba. Porque das letras
constai) as syllabas, & das syllabas asdições, ou pala-
uras, Qua as syllabas saõ partes das dições. E syl*
)aba de hum vinculo, & ajuntamento de letras, que
se pronuncia debaxo de bum sprritu, & hum accen-
to. E diz- se de syllambono, verbo Grego, que quer
dizer comprehendo. E a syllaba, em quanto he parte
de diçaõ, carece de sentido, & significação. Porque
dizendo templo, que he diçaõ, entendemos que quer
dizer, casa de oração. Mas separada per si esta pri-
meira syllaba, tem, naõ quer dizer nada, nem menos
a final, pio. Mas bem podia hiía syllaba, & hiía soo
letra ser diçaõ, & teer significado, como, vou, vas t &,
i, por ide, segunda pessoa do imperatiuo modo. Por-
que então naõ significa em quanto syllaba, senaõ eia
DA LlNGOA POKTVGVESA 147
quanto dicaõ acabada. Mas este ajuntamento de le-
tras, a que chamamos syllaba, naõ pode ser, sem in-
teruir algíía vogal, com que as consoantes vaõ liga-
das. E huas syllabas saõ de menos letras, outras de
mais, & outras de híía soo letra, & essa necessaria-
mente, ha de ser vogal. Porque as consoantes naõ
podem fazer syllaba per si. E por isso se chamauaõ
vogaes, porque per si sem consoante, podem soar,
& fazer syllaba. E a que he de bua soo letra, naõ
he propriamente syllaba, mas abusiuamente se cha-
ma assi. De maneira que pode hauer syllaba de hiía
letra, de duas, de três, de quatro, & de cinquo, co-
mo se vee nesta palaura, a-na-ren-to. de que a pri-
meira syllaba, he de bua letra, a segunda de duas,
a terceira de três. E como na primeira syllaba desta
palaura, scripto, que he de quatro, & na palaura
Latina, scrobs, que he de bua syllaba, & cinquo le-
tras. Item pode começar a syllaba pela vogal, como
auarento, & pode preceder a vogal lula consoante, co-
mo, Deos, & podem preceder duas, como, prado, &
três, como, scripio.
Das letras em que as syllabas podem acabar no meo
dsa dtcôes,
F
JLjM todas vogaes, &• diphthongos, se pode acabar
hua syllaba acerca de nós, tirando os diphthongos
ãe. a que necessariamente acerescentamos ..<?. por-
que não serue, senaõ no numero do plural de al-
guns nomes: & tirando o diphthongo ão. no meo
das dições, pelas razões, que deemos acima, onde
tractamos delle. Polo que erraõ , os que screuem
cãopo, & brãoco, & outros assi.
Em .b. pode acabar a syllaba, se a que se se-
gue começar em outro .b. como, Abbade, gibba,gib-
148 OUTIIOGIUPHIA
boso, sabbaclo Saluo se saõ dições Latinas compos-
tas com estas preposições ab, ob, sub, porque se-
guindo se vogal, acaba a syllaba em .b. como de obc-
dio, ob-edeço, ab-ortiuo, ab-ominauel, ab-undante, ab-
orreço, & tirando abscnte, obscuro.
Em x. pode acabar a syllaba, seguindo-se ou-
tro x. ou .q. como, Bacho, vac-ca, vac-queiro, ac-
quiiir.
Em .d. naõ ha syllaba de diçaõ simplez, que se
acabe, senaõ composta, como, addição.
Em .f. naõ se acaba syllaba de algíía diçaj sim-
plez, senão das compostas, quando em lugar de .6,
d. s. x. derradeiras letras das preposições, entra o
f. como em suficiente, offeiçaõ, diflicil, ejfecto.
Em .g. da mesma maneira naõ se acaba sylla-
ba algaa de diçaõ simplez, senaõ das compostas,
quando se muda a letra final da preposição em .g.
como, aggrauar.
Em .h. naõ acaba syllaba algíía em meo de
diçaõ.
Em ,fc. naõ acaba syllaba algja porque he letra
ociosa, & que naõ serue.
Em J. se pode acabar a syllaba, ainda que se
sigaõ quaesquer consoantes, tirando .k. x. z. que
nunqua se seguem despois do ./. como, alba r rada,
alcofa, coldre, alfaça, Algarue, aljaba, collo, olmo,
alno nome de aruore, culpa, alqueire, pairar, salsa,
alio, caluo.
Em .m. se pode acabar a syllaba, se a seguinte
começar em b. m. p. como ambos, commentario, tem-
po, & quando a syllaba de .m he de composição,
como, ci r cume isà o , c ire umflexo , c ir cu mferen cia, a i n d a
que naõ se siga algíía das dietas três letras. Posto que
alguns na composição , mudaõ o .m. em m, & dizem
circuncisão, circunflexo.
DA LlNGOA PORTVGVESA 149
E se em algua diçaõ se ajuntar o .m. com .n.
o .m. irá ligado com a syllaba seguinte: & naõ se
acabará a syllaba nelle , como : autu-mno , dam-no,
de que a diante no capitulo seguinte faremos menção.
Em .n. se pode acabar híia syllaba, se a se-
guinte começar em c. d. f g. n. q, r. s. t. & em ./.
& v. consoantes, como: cancella, Conde, inferir, man-
ga, canna, nunqua, honra, conselho, tentar, conjurar,
conuerter. O que muito se deue éncommendar aa me-
moria por os erros em que caimos, screuendo .m.
antes das dietas letras.
Em .p. naõ pode acabar syllaba algua, senaõ
começando a seguinte também em .p. como, ceppo,
poppa, supplicar.
Em .q. se naô acaba syllaba, nem dição algíía.
Em .r. se pode acabar a syllaba, ainda que se
siga qualquer consoante, como, orbe, arca, arder,
garfo, Margarida, marlotar, arma, carne, corpo, ar-
quibanco , serra , verso , arte , Xerxes , Aribarzancs.
E ante i. &.w. consoantes, como, perjuro aruore.
Em .$ naô se acaba syllaba algíía em meo de
diçaõ simplez, senaõ seguindo-se outro .5. como passo,
spesso. Forque quando se segue c. m. p. t. como em
páscoa, cosmographia, prospero, testemunha, vai o .s.
ligado a consoante seguinte, por serem letras com-
patiueis, como a diante se dirá.
Em .£. se naô pode acabar syllaba algua, se naô
seguindo-se outra, que comece na mesma letra, como,
golta, metto, admitlo, prometto.
Em .x. nenhíía syllaba se pode terminar, tiran-
do sexto, texto, dextra, mixto.
Em .z. naõ se acaba syllaba algíía em meo de
diçaõ, porque sempre he principio de syllaba, como,
Zacyntho, Zephyro, gozo,
150
OnTHOcnAPniA
Das letras, em que se podem acabar as dições da lin-
goa Portuguesa.
r\lNDA que as syllabas se possao* acabar nas dietas
letras, no meo das dições, no fim delias naô he assi.
Porque soomente se podem acabar nestas. Primei-
ramente, em as vogaes Latinas, como, sema, serue,
servi, siruo, tu. E nos diphthongos todos, tirando
au. ce, »/, uu, ãe, em que se naõ pode acabar diçaõ,
como, pai, irmãa, irmão, Rei, meu, agoã, poe, boi,
bõo, grou, fui. E nestas consoantes J, m. r. s. z.
como
Cardeal.
anel.
barril.
Sol.
azul.
Iam.
lambera.
mal sim.
com.
Vaccum.
foliar.
screuer.
ouuír.
senhor.
Artur.
JSneas.
Achilles.
Paris.
Marcos.
Mattheus
rapaz.
axedrez.
Codorniz.
voz.
luz.
Mas se forem dições peregrinas, trazidas aovso
da nossa lingoa, podem se acabar em outras letras,
como em ./;. como Iob. em .c. como Melchisedec. em
d. como JJauid. em >g. como Agag. em n. como
Sion*. em .eh. como Lamech. em .ph. como Ioseph.
th. como Nazarclh.
Da Diuisão das diçces, <5( como se deuem separar as
syllabas.
c
OOLETRAR bem as palauras, & cortalas em partes
de maneira que vaa cada parte, ou syllaba com suas
letras, he cousa mais diíficultosa, do que parece, &
que alguns, dos que baõ de teer esta minha empresa
por baxa, não sabem. Polo que deuem sempre de tra-
balhar os que screuem, por acabar no fim de cada
DA LlXCOA PORTYGVESA 151
regra, as dições, para que as na?) diuidaõ & acabem
no principio da regra seguinte, assi por o sentido se
naõ distrahir, como por a maa diuisaõ, que fazem
alguns, esfarrapando as syllahas, como os mãos trin-
chantes,, quando naõ acertaõ com a juntura, do que
querem cortar. D'onde veo, que o Emperador Octa-
«io Augusto, Príncipe doctissimo, nas cartas, que
screuia de sua maõ (como conta Suetonio Tranquillo
na sua vida) por naõ fazer algiíã maa repartição do
letras, soia sempre acabar as regras com palauras
inteiras. E para saber dinidir as palauras, & dar a
cada syllaba suas letras, teeraò as regras seguintes.
Presupponhaõ primeiramente, que nenhuma
vogal em palaura, Portuguesa, pode teer ante si mais
que três consoantes, como, scmio, nem despois de
si, mais que bua: saluo em algua palaura contracta,
& abbreuiada, como alguns screvem, sanct, por sane-
to, quando se ajunta a nome, que começa em con-
soante, como, sanct Pedro. O que alguns screuem
per m. sam.
Item nunqua despois de níía consoante, de
qualquer género, se podem seguir duas outras con-
soantes irmãas. Polo que erradamente screuem,
conlluio , ou trasUadar , com dous.W. &Henrrique,
& honrra, com dous .rr. Porque o. Z. & ,r. primei-
ros naõ ferem vogal, nem saõ feridos, nem teem le-
tra, a que se ajuntem. E tal erro he o dos que di-
zem, Elrrei, começando rrei, em duas letras de hua
sorte.
Item se ha de presuppor, que toda letra muda,
que despois de si leva liquida, saõ ambas compati-
n eis , & naõ se podem separar , como , ma~dre,
ale—grc.
Isto presupposto, a primeira regra de diuidir
as letras, seja esta. Se na diçaõ naõ ha consoante
152 OrTHOCRAPHIA
entre hiía vogal & outra, na ha que fazer màts, que
acabar híía syllaba em vogal, & começar em outra
vogal a outra syllaba, como, Ce-o, De os.
Se entre hiía -vogal & outra ha hiía soo con-
soante, essa consoante ha sempre de ir com a syl-
laba seguinte, como, fa-ma, lu-me, ainda que essa
consoante seja aspirada, como, ba-nho, òala-lha. Por-
que .//. nao he letra, senaõ figura de aspiração.
Se entre vogal, & vogal, ha duas consoantes, &
saõ incompatiueis de se ajuntarem a hãa vogal, bua
das consoantes ficará com a syllaba precedente, &
outra irá com a seguinte, como, fal-so, campo, par-
te > cor-po^
Se da mesma maneira, se ajuntarem duas con-
soantes ambas de hum género, hííá delias ficará com
a syllaba precedente, & outra com a seguinte, co-
ma, vac-ca, ab-bade, ad-diçaõ, af-feiçoar, ag-gressor,
vai-lo, flam-ma , an-no , cep-po , ter-ra , passo,
gvt-ta.
Se as duas consoantes forem compatiueis de so
ajuntarem, ambas irão sempre com a vogal seguinte,
& nenhua com a precedente, como, di-gno, re-gno,
hospede, ca-slo, scri-pto.
Se entre vogal & vogal , vaô mais que duas
consoantes, hi ha moor trabalho, de saber, quaes
letras vaô com a vogal precedente, & quaes com a
seguinte. Polo que he necessário saber , que le-
tras saj compatiueis, de se ajuntar em híía syllaba,
para que concorrendo , as naõ apartemos. Porque
ha alguas consoantes, que assi vaõ ligadas a outras,
que nao se podem apartar, de que diremos por sua
ordem.
DA LlNGOÀ PonTVGVESA 153
Das letras, que se podem ajuntar a outras, na com-
posição das syllabas.
B
PODE-SE ajuntar a. d. como neste nome bdelium
de certa aruore, & como A-bdera cidade de Thracia.
E pode-se ajuntar a /. & a r. como Hi-blen, o-bra, &
ante outras consoantes naõ se soffre.
C pode-se ajuntar a ./. como, Heraclito, & a .r:
como. ale-crim. &a.m. w. t. como nestes nomes Âl-
cmemu Arac-ne, Hec-tor, doctrina, & a outras con-
soantes naõ se ajunta.
D pode-se ajuntar a .r. como, pa-dre t adro. E
cm algiías dições peregrinas a /. m. n. como Abo-
dlas, nome de hum rio, Ca-dmo, Aria-dna.
F ajunta-se a estas duas consoantes ./. r. como
flam-ma, fresco.
G ajunta-se a ./. m. n. r. como, e-gloga, au-
gmenlo, di-gno, a- gr o.
L nunqua se ajunta a outra, que vá diante dei-
le: mas sempre elle vai despois destas letras mudas
b. c. d. f. g. p. t. com as quaes fica liquido, como
bíasphemo, claro, Abodlas, flamma, gloria, Plataõ,
Atlante.
M nunqua se põe na mesma syllaba antes dou-
tra consoante, sena 1 } em algiías palauras Gregas, &
Latinas, seguindo-se .n. como hym-no, autu-mno, da-
mno, tirando a palaura Latina, hyems, que antes de
s. teem .m. & alguns nomes próprios peregrinos,
como, Amri, Nemrot, Samson.
N nunqua se pje antes d'outra consoante, mas
antes vai despois de alguas, como, en-ten-di-men-to,
pne-uma, Ara-cne, di-gno.
P se pode ajuntar em hua mesma syllaba antes
de l. n. r. s. t. como, disci-plina, Terà-pne, le-pra,
psal-mOj Hiem-psal, scri-pto, ap-to.
154 OílTHO&nAPHIA
Q naõ se põe antes d'outra consoante algua,
porque necessariamente iena despois de si hum .«.
liquido. E ainda despois desse .u. nunqua se segue
outra consoante, senaõ sempre vogal, nem o .q. se
junta a outra consoante, que vá antes delle.
R naõ se põe antes d'algua consoante na mes-
ma syllaba, mas eila segue sempre as consoantes, co*
mo vimos nos exemplos acima dictos.
S pode-se ajuntar na mesma syllaba a .c # m.
p. q. L como, screuer, acudo, fisco, Cosmo, spa-
smo, aspereza, Gaspar, mesquinho, esquadrão, tes-
tamento,
T pode-se na mesma syllaba ajuntar a .1. como,
Â-ilas, & a m. como, Tmolus, por hum monte de
Sicília. Ârithmeti a, & a .r. que heomais commum,
como, ma-trimonio, qua-tro.
V consoante naõ se ajunta a outra algua con-
soante, soomente na lingoa Portuguesa ao .r. nestas
palauras,[/a-Mrar, la-arador, li-ura, luure, li-uro, vi-
tire, & em nenhíía outra diçaõ, que me lembre.
X, & Z como saõ letras dobradas, naõ se ajun-
tatõ com outras consoantes em palaura algua.
Da divisão das dições compostas.
tO E a diçaõ for composta, & a quiserem cortar
pela primeira syllaba, sempre as preposições, ou
partículas compositiuas, que pola moor parte são
de hua syllaba, saiaõ com as letras com que entra-
rão, ainda que a derradeira letra da partícula com-
positiua, stee conuertida em outra letra, por causa
da composição, como constituir, pre screuer, rescri-
pto, restituição, descender, sobstabelecer, ap-pellar
an-notar.
E se se houuer de cortar pela segunda syllaba,
DA LlNGOA PORTVGVESA 155
& a dição for composta de proposição, ou partícula ou-
tra de duas syllabas, cortar-se-aõ da mesma maneira,
saindo a preposição com as suas duas syllabas in-
teiras, ainda que a derradeira letra stee corrupta>)&
mudada em outra, por causa da composição, como,
subter-fugio, super- fluo, circum-ferencia, presup-posto.
H
Das letras, que se dobrão nas dições.
UMAS letras se dobrão nas dições per natureza
das palauras : outras per derinaçaõ: outras per si-
gnificação: outras per corrupção: outras per varia-
ção: outras per composição. Das que se dobrão per
natureza, naõ se pode dar regra: nem he cousa
que consiste em arte, senaõ em vso. Porque os vo-
cábulos primitiuos, foraõ compostos aa vontade, de>
quem os inuentou. Polo que naõ se pode dar rezaôV
porque este nome, gotta, lêem dous M. ou cauallo,
dous .11. Mas com o-vso, & conhecimento da lingua, La-
tina se pode saber, quaes dobrão as letras, & os que La-
tim naõ souberem, com imitar a scriptura de homens
doctos.
As que dobrão per deriuaçao, são os nomes,
ou verbos, que se tiraõ d'outros, os quaes guardaõ
a scriptura de seus primitiuos, como de terra, ter-
reno, terrestre, enterrar, sotterrar, enterreirar, terreiro.
E de cauallo, caualleiro, cauallaria. E de gotta, got-
tejar, gotteira, esgotlar. E de ferro, ferreiro, ferra-
ria, ferrar, ferrador, ferradura, ferramenta, ferragem,
ferrenho, ferrolho, ferrão, ferrugem, afferrolhar, fer-
ropea. As quaes dições dobraõ as dietas letras, por-
que seus primitiuos, de que se ellas deriuaõ, as
dobraj. E por aqui saberão a scriptura de muitos
vocábulos, como ha de ser, sabendo soomente a do
seus primitivos.
156 Orthogràphu
As que dobrão per significação, saõ osdiminutiuos,
que em nossa lingoa acabaò em, te, que parece, não
podemos screuer bem, sem dobrar o .í. segundo nos
a orelha pede, como, verdelte, pcquenette, scudette,
panette, camarolle, piparollc, franchinotte, k, outros
assi, que para significar diminuição, acabamos nes-
tas terminações, como os Latinos acabaõ os seus di-
minutivos em cllus, ou Mus. Como os Italianos tam-
bém dobrão a dieta letra, nas terminações de, etto,
ou otto , por denotarem significação diminutiua.
Porque de Laura, dizem Lauretta. & de piccoh,
piceoletio, Antoniotlo, Gianotto. Polo que pedindo-
no-lo a orelha, naõ deuemos ser mais couardes,
em dobrar nua letra, maiormente teendo exemplo
de outras nações. E assi dobrão .s. por causa da
significação os superlatiuos, como adiante tornare-
mos dizer.
As que dobraò per corrupção, saõ, as que stando
na lingoa Latina de híía maneira, & pronunciaçaõ,
as mudamos, & fazemos nossas, dobrando-lhe algiías
letras, querendo-as accomodar a nos, como por nos-
ter, vester, nosso, vosso : & por ipse, & ipsum, esse, &
isso : & por personn, pessoa : & por vrsus, vsso : &
por mori, morrer, & outros muitos desta maneira.
As que dobraô" per variação, saõ as que per va-
riação de conjugação, ou declinação, acerescentaõ al-
gua letra, para mostrarem diííerença de tempos, &
números, & significação, como nos verbos de todas
as conjugações, em alguns tempos dos modos, opla-
tíuo, & conjunctiuo, quando dizemos, amasse, lees-
se, ouuisse. E nos nomes, que sendo masculinos, va-
riaõ" a terminação, para formar os femininos, como,
mao, maa; páo, paa; reo, ree; ou que sendo do sin-
gular, formaõ seus pluraes, como, couuil, couijs.
As que dobrão per composição saõ muitas, & per
DA LlNGOA POUTVGVCSA 457
muitas maneiras. O que se faz, mudando-se a der-
radeira letra da preposição compositiua, em outra
tal como a primeira do verbo, ou nome composto.
E porque estas composições, se fazem com as pre-
posições Latinas, que se ajuntaõ aos verbos, para
lhe alterar a significação, ou lha accróscentar, ou
diminuir, diremos das que nos seruem .s. das que
fazem dobrar as letras.
Al, preposição dos Latinos, que quer dizer para,
junta aos verbos, que começaõ em .b.c.f.g.l.n.p.r.s.t.
conuerte o .d. na primeira letra do verbo, a que se
ajunta, & assi fica dobrada, como, abbreuiar, a ocor-
rer, accumular, affeclo, afeiçoar, aggressor, allegar,
alludir, annotar, approuar, assinar, altribuir, atlen-
tar. O que hemos de entender, nos verbos, & no-
mes em que já pela composição Latina, se dobra a
letra. Porque outros verbos que nós formamos de
nosso, começados em .a. naõ admittc a orelha, nem
o vso, que a dobrem. Porque teem os Hespanhoes
hum .a. seu próprio, ic peculiar, com que formão
os verbos, que querem, como quando dizemos, de
manso, amansar; de pedra i ^apedrejar; de nocte, ano-
descer; de cabo, acabar; de proueiio, aproueitar; de
puro, apurar; & outros infinitos. Os quaes saõ sim-
plezes & naõ compostos, porque a verdadeira com-
posição he, quando se ajunta a preposição aos ver-
bos: o que naõ ha nestes. Porque naõ ha, proueilar,
nem pedrejar, nem mansar, para dizermos, que se
compõe com a dieta preposição, ad.
Mas alguns ha, qu^ovso, & orelha nos ensinaÕ,
que dobraõ a letra, como saõ os que teem f. r. ou
.s. despois do .a. seguindo-se porem vogal despois
das dietas letras, como: afforar, a/finar, affogar,
arremessar, arredar, arruinar, assombrar, assoelhar,
assanhar, & assi todos os mais sem fallencia.
158 Orthographia
Fx, preposição junta a dições, que começaõ
em ./*, muda o lás. cm .f. & assi fica dobrado, como,
cffecto, effeditar: & em outra nenhiía se muda.
In, preposição muda o .n. em .m. se em % m.
começarem os verbos, ou nomes com que se compõem,
como, immemorial, immnnidade, immudauel, immo-
tiel. Ao que responde a nossa preposição .en. com-
posta com os verbos Portugueses começados em r,i.
como, emmadeirar, emmastrear, &c.
Ob, preposição junta a dições, que começaõ em
.c.f.p. muda-se o ,b. nas taes letras primeiras, como,
occorrer, offender, oppoer.
Con, preposição inseparauel, soomente muda o
;n. em ã.m.r. quando nas dietas letras começaõ os
nomes, ou verbos, a que se ajunta, como, collegir,
commetter, corromper.
Dis, preposição inseparauel, composta com di-
ções começadas em .f. conuerte o .s. em .f. & assi
fica dobrado, como, dífferír; differença, díffinir,diffKÍl.
Sub, preposição, ou a nossa sob, composta com
dições, que começaõ em .c.f.p. conuerte o .b. nellas,
como, suecorrer, ou soccorrer, su/ficiente, supprir,
supplicar.
Das dições, que dobrão as letras-
X eem para si alguns curiosos da lingoaHespanhol,
que o dobrar das letras, he escusado acerca de
nós. Porque naõ sentimos, quando se dobrão, senaõ
o .r. ou .5. & que tiradas estas, as outras todas se
deuem screuer singellas. O ^jue he grande erro. Por-
que a razaõ, que ha, para se dobrarem essas, ha
para se dobrarem essoutras: ainda que nem toda a
orelha sinta a differença, que ha de singellas a do-
bradas. E quanto ao .r. & .s. quando se dobrão,
quem quero sintirá. Qua assi como o som de hum
DA LlNGOA PORTVGVESA i59
tambor, & de buma trombetta, ate os cauaílos, &
bois o entendem, & os aluoroça, mas nem pos isso
os mouerá bum instrumento de cordas (porque isso
fica resguardado para os homens, que teem razáõ)
assi nas letras ha bua musica oceulta, e naõ menos
delicada, que a das cordas, que (como diz Quintilia-
no) se naõ deixa sentir de todos. E ainda que na
verdade, as nossas orelhas naõ comprehenderaõ a
differença das letras dobradas, para conseruaçaõ da
origem & etymologia dos vocábulos, era necessário
dobrarem-se tomando-os nós dos Latinos ou Gregos,
assi como elles nolos daõ. E porque aos que lingoas
naõ sabem, seria mui difíicultoso, saber as letras
que se dobraõ, & ainda para os que as sabem, se
naõ he exquisilamente, me pareceo, que naõ se per-
deria o trabalho, de poer specificadamente as dições,
que dobraõ por naõ ser cousa, de que se podia dar
em todas certa regra.
E ainda me pareceo mais necessário poer as
dições, que aspiraõ as letras. Porque coíbo a aspira-
ção, naõ sentimos na pronunciaçaõ de nossas pala-
uras Portuguesas, segundo tenho dicto acima na letra
K íicaua mais d iííicul tosaji orthograpbia delias, pois
era escreuer differente, do que pronunciamos, E
posto que de huns doutros, aja alguns mais dos que
aqui ajunto, bastem estes, para quem naõ tomou
de empreitada, fazer vocabulário, senaõ reduzir a re-
gras o que podia ser.
A
Das dições que dobraõ A
DOBRÃO os nomes femininos, cujos masculinos
se acabaõ em , ao. como , mao , maa ; Iao , Iaa;
pao, paa.
Item os nomes, a que per corrupção do Latim
160 OnTHOGUAPHIA
em nossa lingoa, cortamos algfía consoante, questaua
entre dous .aa. como de ala (que quer dizer braço
de aue) aa, & de palatam, p nadar.
Item os que teendo a. antes de outra letra,
corrompemos essa letra em .a como de aér, aar.
Item o articulo feminino de dativo, que se ex-
prime com a preposição .aa. que também fica ser-
uindo ao accusatiuo. como, dou esta regra aa rwewo-
ria, vou aa índia, de que a diante tractaremos.
Das que dobraõ B.
J3 DOBRAÕ, abbreuiar, abbadc, abbadessa, abbadia,
gibba, gibboso, sabbado.
Las que dobraõ C.
\^j DOBRAÕ os verbos, que começando na dieta le-
tra, se composeraõ com a preposição, ad. Porque se
muda o .d. em c. como, accelera , accelerado, ac-
cender, accento, accentttar, acceplo, accesso, accidc?ite,
accídental, accommodar, accorrer, accumular, aceu-
mulatiuo, accusar t acquirir. Porque o .q. como staa
dicto, & x. saõ híía mesma cousa.
Item todos os verbos, que começando em .c. se
composeraõ com estas preposições ob, sub, k os des-
cendentes delles, como, occasiaõ,occidente, occorrer,
occultar y occuíto, oceupar, oceupaçaõ, su eed^r, sue-
cessor, suecorrer, ou soccorrer %
Item estes naõ compostos, Baccho, bocra, bocca-
do, aboccanhar, Graccho, peccado, peccador, sacco,
sa quinho, ensaccar; seccar, seccOfSeccura^ecquidaõ,
socco, vacca, vaccum, vacqueiro.
DA LlNGOA PORTVGVESA. 1 61
Das que dobrão D.
\j DOBRAÕ addiçaõ, addicionaf, aldiuinhar.
Das que dobraõ E.
.Li DOBRAÕ os nomes contractos, ou abbreuiados,
a que na corrupção da lingoa Latina na nossa, se ti-
rou algua letra, que staua entre duas vogaes, como
de fides, fee; de balis ta, beesla; de pedica, peega; de
sedes, see; de pedes, pee; de sagilta, sectta. E assi
creedor, de creditar, & creenra; & preego, & preega-
dor, de predico. E pela mesma razaò, de generalis,
dizem gceral; & de gencrare, dizemos geerar; & geera-
çaõ. E assi estes verbos, teer, de Une e; leer, de le-
gere; veer, de videre. Porque seria cousa despropor-
cionada, ser o iníinitiuo, ou outras quaesquer par-
tes do verbo, de menos syllabas, que a primeira pes-
soa do mesmo verbo. Polo que diremos, vejo, vees,
vee, vêem, vcemos, veedes, vêem, veer. Porque a pri-
meira syllaba be necessária para o começo, analogia,
& formação, & demonstração de tempo, numero, &
pessoa. Ainda que alguns verbos ap, que saõdehiia
soo syllaba, como, vou, vás, vai, i, por ide; sou, es,
é; stou t stás, stá.
Item se serenem com dous .ee. todas asdições,
que no singular acabaò em esta terminação .em. co-
mo, bem, bèes; vintém, vintèes, per dipbtbongo.
Item dobraõ, dee, na segunda pessoa do impe-
ratiuo presente do verbo, dou, & na primeira, &
segunda do futuro do optatiuo, & do presente do
subjunctiuo.
Item dobraõ galec, Loulee, maree, polee, ree.
11
162 Oiithographía
Das que dobrão F.
jT DOBRÃO os verbos, ou nomes começados em .f.
compostos da preposição, ad, cujo .d, se muda no ./*.
como, affabil, affecto, affeiçoar, affeiçoado, affeite, af-
feitar, affim, afjinidade, affirmar, affligir, affligido,
affliçaÕ.
Item os verbos da li ngoa Portuguesa começados
em .a. que teem .f. entre vogal, como, afforar, affu»
gentar, affrontar, afferrolhar.
Item os verbos, & nomes compostos da prepo-
sição, dis, que começaõ em /. como diffamar, dif-
ferença, differir, difficil, difftcult so, difficuldade, dif-
finir, diffiniçaõ, diffuso, tirando d : sforme, & disfor-
midade, que muitos erradamente dizem por deforme,
& deformidade.
Itom os compostos da preposição ex: se elles
começaõ em .f. como effecto, e/fectuar, effeminado,
cfficaz, ef ficada, effigie.
Item os compostos da preposição, ob, como,
officio, officiah officina, offetider, offensa, offerecer, of-
ferescimento, offerta, offertar, offuscar.
Item os compostos da preposição sub, como,
sufficiente, sufficiencia, suffragio, suffraganeo.
G
Das que dobrão G.
DOBRAÕ as dições começadas nesta mesma le-
tra compostas com a preposição, ad, por se mudar
o .d. em .g. como aggraaar, aggrauo, aggressor, ag-
gerar, & exag gerar, bagga, de bacca.
i
Das que dobrão I.
DOBRÃO os nomes acabados em .tf. na formação
I)Â LlNGOV PORTVGVESA 163
do seu plura^ como, barril, barrijs; septil, septijs;
conil, couijs; buril, burijs. E assi todos os mais, ac-
crescentando ao singular hum.*', em lugar do .<?. que
os outros nomes acabados em consoante tomaõ, na
formação de seus pluraes.
Item os nomes pluraes se acabaõ em Am. como
arbim, arbljs; beleguim, beleguijs; delfim, delfljs. Os
quaes entre os dous .ijs. admittemo .til. que os ata,
& faz ser diphthongos.
Item dobrão .». estes pretéritos Mj, de legi;
vij, de vidi; corrij, de cucurri; & crij, de credidi.
K. naõ se dobra, porque lie o mesmo, que .c.
Das que dobrão L.
I_j DOBRAÕ muitos, d'onde veo, que alguns igno-
rando a natureza das palauras, & sitio das letras,
& syllabas, o dobraõ em quasi todas as dições sem
juizo, naõ deuendo fazelo assi. Porque lhe alteraõ
o accento, & as vozes, & a significação. E os que
deuem screuer com ./. dobrado saõ estes. Primeira-
mente os compostos com a preposição, ad, junta a
verbos começados em ./. como, allegar, alludir, al-
luuiaõ.
Item os compostos de dições começadas em ./.
com a preposição, con, por mudarem o .n. em J.
como: collaçaõ, collaço, collateral, çollegio, collegial,
collegir, collector, collocar, colloquio, colludir, col~
lauiaò.
Item os compostos coma preposição, in, como,
illaçaõ, illicito, illiberal, illudir, illusaõ, illustrar, il-
lustre.
Item todos os nomes diminutiuos acabados em
lo. ou Ja. como, bello, libello, caslello, bacello, cadella,
donzella,janella, portella, codicillo, pupillo.
164 OilTHOGRAPHIA
Item todos os nomes acabados em .lo. ou Ja a
que precede .e. ainda que não sejaô diminutiuos: por-
que assi parece que o pede a orelha, como, adella,
carauella, scudella, amareUo, singello, verdizello. E
outros taes: porque nenhua differença lhe achamos
de janella, nem de balo.
Mas aquelles screueremos com J. singello, que
os Latinos assi screuem (digo dos acabados em .lo.
ou Ja.) como, camelo, pelo, querela, camela, tutela,
tela, pela, que he o mesmo, que pila, vela polo ins-
trumento dá nao, & vela, de vigília.
Item os verbos, a que ajuntamos os relatiuos, o,
a, em lugar de is, ea, id, Latino, a que por bom
soido mudamos o .s. em .1. em algiías pessoas do
singular, & plural, como, vistela? vistelo? fizestela?
fizestelo? amastela? amastelu? amalo? amala? ama-
malo. Item tirando a preposição, per, & por, junta
aos artigos masculino & feminino, pelo, pela, polo,
pola. Item tirando os nomes, que teem ./. aspirado,
como, abelha, ouelha, coelho, trebelko.
Item dobrão l. estes superlatiuos, facillimo,.
âiffictllimo , humillimOi simillimo.
Item dobrão estes per natureza das mesmas pa-
lauras, sem virem debaxo de regra geeral.
Achilles, alli aduerbio local, amollescer, ampolla,
annullar, appellar, appellaçaõ, appellante, appcllidar,
appellido, Âpelles, Apollo, Apollonio, aquelle, aquella,
aqueloutro, aquello, ou aquillo, auellãa, auelleira.
Bellicoso, bulia.
Cabello, calle, callo, Calliope, Camillo, Camilla,
cauallo, cebolla, cella, celleiro, chanceller, colla por
grude, colle por monte, collo, collar, colleira, colhj-
rio, compeller.
Dcgollar.
Elle, ella, ello, cxcellente, excellencia.
DA LlNGOA PORTVGVESA 165
Falia, fallar, fallacia, fallencia, fallescer, fal-
lescido, fallescimenio, folie, follia.
Gallego, Gallizi, Gallia, gallo, gallinha, gàl*
Unheiro, gallinkola.
Helleboro, fíellcsponlo, fíollanda.
Tllyrico, inter uai lo.
Marcello, marlello, melles, mellado, mcollo, mol-
le, mo liei te.
Nullo, nullidade.
O liaria, illeiro.
Parallelo, Palias, pelle, & os que delle descen-
dem, como, pellica, pellileiro. Mas naõ pélome, por-
que naô vem de pelle, senaõ de pelo & do pelar, que
se screuem com ./. singello, pollegar, pollo por aue
pequena, polluçaò , polluto , pusillanitno , pusillani-
midade.
fíepeller, rcuellar, ou relellar, reuellia.
Sella, selleiro, sello, Sibylla, stillar, sírella, Syl-
la, syllaba, syllogismo.
Tollo, tolla, Túlio.
Yacillar, va f le, vallado,vallo,vello de laa,w/-
h por cabello, velloso, villa, villaõ, vWania, mas
naô vileza , que vem de vil, vllo.
M
Das que dobrão ST.
DOBRÃO os conipostos das preposições, con, &
fft, juntas a verbos, ou outras diçôes, que começaõ
em .m. como, commemoraçaô, commendar, commenda-
dor, commendalario, commcnlo, commenlar, com-
mentario,'Commercio, commetier, commissario com-
miserar, commissura, commodo, incommodo, commo-
didade, accommodar, commutar, commulaçao.
166 Ortuographia
lmmemoria> immenso, immodesto, immodico, tm-
mortal, immoveL immvndo, immunidade, immulaueh
Item esies meros Portugueses compostos com a
nossa preposição , en . emmadeirar, emmagrescer ,
cmmanquescer, emmaslear, emmininescer, emmenía,
emmadescer.
Item dobraõ cammaruõ, cimmerio, commum, com-
munidade, commiinicar, commungar, excommungar,
communhão,epigramma y flamma, inflam mar, gomma,
grammaíiea, summa, summo, summario, summaria-
menle % cQnsiunmado*
N
Das que dobra® N,
DOBRAÕ os compostos destas preposições, aJ, <Jf
tu, juntas- a diçôes, que começaõ cm . n . como ,
annotar, annumerar, annunciar, annunciação, an-
nunciada, innauegauel, innocenle, innouar innoua-
çaõ, innummerauel. E os Portugueses compostos da
nossa preposição, en, como : cnnastrar, ennobrecer y
ennuurar.
Jíem dobrão per natureza, anno y SÇscus compos-
tos, Sf deriuados, como, annal, anniuersario, anno-
jal, -por causa de hum anno, annala. ou mea annala„
aunei, perenne,perennat, sobmne, solennidade, triennal
Item dobrão banno, bannido, Brilannia, Bri-
tanno, eanna, canaucal, cannauoura, cannaue, gan-
nir, Gebenna, Ioanne, lannez nome patronymico de
Joanne, panno> penna por pluma : porque por cas-
tigo he com .n. singello, linnir, lyranno, tyrannia,
tyrannxzar, Vianna.
o
DA LlNGOA POHTVGVESA 167
Das que dobrão em O.
DOBRÃO os nomes contractos, &abbreuiados, a
que se tirou algíía consoante do meo de duas vo-
gaes, como, noo, de nodo. onde se tirou o .d. &
moo, de mola ; SÇ soo, de solo, onde se tirou o J.
$* poo, de poluo, & de pulucre Latino ; SÇ noclivoo,
de nocthtolans. A qual letra se dobra em outros para
denotar a vitima syllaba ser longa, & teer o accento
agudo. Forque para mostrar a vogal ser longa, se
permitte, que se dobre na scriptura, como os antigos
faziaõ segundo Quintiliano no lib. i das' Instituições
Oratórias, cap. vj, & Angelo Politiano nas Miscel-
lanias. Polo que screueremos também assi enxoo,
ciroo, ilhoo, ichoo, traçoo, malhoo, auoo. E isto soo-
mente nas dições, que teem .0. final, & o accento
agudo nelle.
Das que dobrão P.
Jl DOBRÃO os verbos compostos, que teendo .p. no
principio, se composeraõ com as proposições ab,
ob, sub, como :
Apparar, apparato, apparo, appàrelhar, appa-
rescer, apparencia, apparescimento , appellar appella-
çao, appellante, appellado, appellidar, appellido, ap-
petite, appetescer , applacar , applanar , applauso,
applicar, apportar, appresentaçaõ, appropinquar, ap-
propriar, approuar, approaaçaõ, approuadamente.
OppilaçaÕ, oppilar, oppilado, eppoer, oppoente,
opposiçaõ, opportuno, opportunidade, oppressao, oppri-
tnir, opprobio, oppugnar.
Supplicar, supplicaçaõ, suppoer, supposto, pre-
suppoer, presupposto, supportar, supprir, supprimento,
supprimir.
Item estes não compostos, Aggrippa, Agrippina, Appio,
168 Orthosraphia
AppianOfCappa, Cappadocia, cappello, ceppo, mappà,
pappar, pappa por comer de meninos : porque por
summo Pontífice se diz Papa, pappa, sapphira.
Item os nomes Gregos deriuados desta palaura
hippos, que quer dizer cauallo, como Àristippo,
Chrysippo, Cratippo, Damasippo, Bippocentauro, Hip-
pocrates, Hippocrene, Hippodamia, Hippolyto, Hippo-
menes, Hipponax, Philippa, Xanthippo, Xanlhippe.
, NAÕ se dobra, porque se muda em .c. sua se-
mediante, quero, acquiro, vacca, vacqueiro.
Das que dobrão R.
COMO as mais outras letras, que se dobrão, naõ
se pode dobrar, senaõ vindo entre duas vogaes,
como, arra, carro, [erro, terra E porque a aspe-
reza da letra lie lai, que vindo dobrada, logo se co-
nhece, he escusado particularmente poer aqui os
que a dobrão: porque naõ ba mais, que sercuer, co-
mo pronunciamos .s. o áspero per dous .rr. & o
mais brando per hum. Soomeníe nos deue lembrar,
que quando esta letra vier em principio de diçaô",
ou despois, ou antes de outra consoante, ainda que
soe, quam áspero quiser, naõ se screuerá dobrada,
como já tccmos dicto, no capitulo desta leira R.
Das que dobrão S.
Q
wj DOBUAÕ muitos, que he escusado poer particu-
larmente: porque ho letra tam apparenle, quando
se dobra, que qualquer orelha o sinte: como dixe-
mos do .r. Polo que naõ fica mais, que screuer, como
pronunciamos com a obseruaçaõ, fc regras, que tee-
DA LlNGOA PORTVCVESA 169
mos dadas, no capitulo desta letra .$. & com nos
lembrar, que nenhua letra se dobra, senaò vindo
entre duas vogaes, que he hua regra, em que pou-
cos caem. D'onde vem dizerem mansso, immensso,
& outros assi erradamente. Mas o que se pode dizer
em somma, & per via de regra he, que dobrão esta
letra os superlatiuos, como, doclissimo, illustrissi-
moy sereníssimo. Mas naõ os numeraes, como alguns
mal cuidaô, como, vigésimo, trigésimo, porque erra-
damente dizem vigessimo, trigessimo.
Item os verbos Portugueses, que começaô em
.a. & teem logo depois elle .s. & despois outra vo-
gal, como, assacar, assanhar, assectUar, assegurar,
assentar, assossegar, assinalar, assoelhar, assolar, as-
soldador, assomar, assombrar, assou ia r.
Item os nomes femininos de dignidade, como,
Abbadessa, Prioressa, Alcaidessa, Baronessa, Condes-
sa, tirando estes,, Princesa, Duquesa, Marquesa, &
da mesma maneira Dcosa, que stá recebido pronun-
ciarem-se, & screuerem-se por bum .5.
Item dobrão os verbos deste tempo de todas
conjugações, amasse, leesse } ouuisse, per todos seus
números, & pessoas.
Das que dobrão T.
T
J DOBRÃO, attento, attençaõ, attenlqdo, ationito, at-
traher, atlribuir, attriçaõ, & os nomes próprios, At-
teio, Attico, Attica, Attilio. Item gaito, gotta, gotto,
metler, arremelter, permittir, promelter, Scotto, Scot-
tia, seetta.
Item os diminutiuos em Je, ou Ja. como, ver*
deite, pcqueneltc, pequenetta, mocette, mocetta, &c.
170 OhthogrAphta
Das que dobraõ V.
V DOBRAÕ, cruu por cruo;nuu por nuo;mau por
mão; assim no plural .cruus. nuns. minis.
x
& Z naõ se dobraõ por serem letras dobradas.
X NAÕ se dobra porque naõ entra, senaõ em di-
ções Gregas, em que naõ ha dobrar-se vogacs.
DAS LETRAS QUE SE ASPÍRAÕ
A
/\S consoantes, que se aspiraõ, saõ quatro x.p.
.r.t. das quaes porei alguns exemplos de dições, que
podem vir emvso em nossa lingoa. E naõ chamamos
aspiradas .eh. (da maneira que os Portugueses a
pronunciaõ diíTerente dos Latinos) nem .Ih. nem .nh.
porque o naõ saõ, como teemos dicto acima.
Das dições que aspiraõ C.
Vj ASPIRAÕ todos os nomes compostos desta pala-
ura Grega archos, que quer dizer Príncipe, ou Prin-
cipal, como, Archangio, architriclinio, architecto, mo-
narcha, monarçhia, patriarcha, tetrarcha, tetrachia.
Item os compostos desta palaura Grega, chry-
sos, que quer dizer miro, como Chrysostomo, Chry-
solito, Chryseida, Chrysippo.
Item os compostos da palaura chir, que quer
dizer maõ, como, chiromantia , chirurgia.
Item aspiraõ estes: Achata, Achilles, anchora,
Antiocho, Antiochia, Baccho, charo, charissimo, cha-
ridade, cherubin, chimera, cholera, choro por congre-
D\ LlNGOA PORTYGVESA 17 1
gaçao, christo, Christouaõ, drachma, machina, me*
chanico, melancholia.
Os quaes vocábulos para bem ser, se haõ dô
screuer assi, posto que a pronunciaçaõ, que vulgar-
mente damos a .eh. seja mui differente da que se ha
de dar aos dictos vocábulos. Porque a que os Gre-
gos, & Latinos lhe daõ he como .c. & .a. que ago-
ra lhe damos he entre .s. & .c. Pola qual razão aos
que naõ souberem differençar os nomes Gregos, &
Latinos dos vulgares, será trabalhoso entenderem
quando o pronunciarão aa maneira dos Latinos, ou
Gregos, & quando aa maneira vulgar. Polo que de-
uiamos de fazer híía de duas, ou screuermos os di-
ctos nomes Gregos, & Latinos, .per c. simplez, como
fazem os Franceses, que teendo a mesma differença
que nòs, os nomes vulgares de eh. pronunciaõ como
com .#.& os Gregos, & Latinos, que teem .eh. scre-
uem com .c. simplez para fazerem differença nascri-
ptura, como fazem na pronunciaçaõ, dizendo por
camará, chambre, & pronunciando xambre; & por
caualleiro serenem cheualier, & pronunciaõ xeualier,
& por castello, chasteaii, & pronunciaõ xasteau, &
por dizerem cholera, chameleon, dizem, cólera, ca-
meleon. Ou screuamos o .eh. dos nomes vulgares, que
se pronuncia como .x. ou .s. ou .ç. com a cifra a
baxo do .c. que faça a differença, de choro por pran-
to, a choro por ajuntamento, que se faz de cappa,
a capa, dizendo, choro, <Sc choro, tacha, monarcha.
Porque naõ ha duuida senaõ, que se screuessemos
per .c. simplez, os que teem .eh. aspirado, que nos
embaraçaríamos, quando viéssemos screuer, Antío-
chia, Antiocheno. Porque seria necessário soccorrer-
mo-nos a letras alheas, & dizer Antioquia, Anuo-
queno. Porque dizendo Antíocia, vai dar em outro
soido differente, por o corrupto, que viemos darão
172 Ortuographlv
.c. junto a .e i. Polo que fica mais necessidade da
aspiração, para screuer o dicto vocábulo, uo que^ ti-
jihaõ os Latinos. Porque assi se pronunciaua acerca
delles^wíí'oda,sem aspiração, como Antioquia, como,
teemos dictomais largamente no capitulo da letra C.
Das que aspiraõ P.
ji ASPIRADO teerail acerca de nós os nomes Gre-
gos assi como o tinhaõ acerca dos Latinos, como,
antiphona, aphorismo, apophlhegma, blasphemo, blas-
phemia, philosopho, philosophia, phantasma, phartla-
sia, physico, physionomia, Philippc, íriumpho, nym-
pha, camphora, diphthongo, porpkydo.
Das que aspiraõ R.
R
ASPIRAÕ os nomes Gregos, que começaô na
dieta letra, como, Rhetorica, Rhodes> Rhodope, Rha-
damanlho, «Sc os que teem . r. dobrado, sempre as-
piraõ o derradeiro deites, como, Tyrrheno, P/tyrrho,
catarrho.
Das que aspiraõ T.
X. ASPIRAÕ asthma, Arithmelica, Alhcnas, Alhe-
niense, anathema, analhemalizàdo, anlhor, $* aulho-
ridade, segundo o costume, ainda que André Alcialo
diz, que em liiía pedra antiga vio scripto auclor, a
qual scriptura agora os mais seguem na lingoa La-
tina. Item canlharo, calholico, Carihago, Carthagi-
nez, Corinlho, calhedra, Elhiopia, epithalamio, Ia-
cyntho, Lahyrinlho, Malhcmalica, melhodo, parenthe-
sis, orthographia, rilhma, Scylhia, lheatro, awjthi-
theatro, thema, Thebas, Theseu, Thracia, tliio, Thes-
salia, thesouro, Thetis, Thoscano, throno.
DA LlNGOA PORTVGVESA 173
item os nomes compostos desta palaura, theos,
que quer dizer Deus, como, Theologo, Theologia, Theo-
dosio, TheotoniOy Theodoro, Theophrasto, Theocrito,
Theophilo, Thcophilacto, Timotheo.
Item os nomes próprios Gregos, que se com-
põem desta palaura, Sthmos, que quer dizer força.
ou potencia, como, Demosthenes, Callisthenes, Antis-
ihenes,
E os que se compõem de agathos, que quer
dizer bom, como, Agalhocles Agalhosthenes.
Item estes peregrinos, Elizabeth, Nazareth, Iu-
dith, Iapheth, Ruth, Golliath, Thamar, Seth % Zenith,
Martha, Matlheus, Thotnas, Bartholoneu, Mathias,
Malhusalem.
item os nomes de que a sagrada scriptura rsa,
compostos de beth, que quer dizer casa, como, Be-
thania, Belhphage, Bethleem, Bethsabee, & outros
muitos.
REGRAS GERAES
DA
ORTHOGRAPHIA DA LINGOA PORTUGUESA
Regra I
D
O que Iractei em particular da força, & natureza
de cada letra, podemos inferir a primeira regra da
Orthographia Portuguesa : que assim hemos de scre-
uer, como pronunciamos, & assi hemos de pronun-
ciar como screuemos.
D
Regra 11
ESTA primeira regra se infere, que nunqua na
scriptura accrescentemos, nem mudemos letras a di-
ção algua, querendo-nos accommodar aa origem, &
scriptura Latina. Porque isso he fazer noua lingoa-
gem, & mudar a commum & vsada, que falíamos.
Porque nao consiste a policia da lingoa Portuguesa,
em as palauras serem mui conjunctas & parecidas
com as Latinas. Mas antes quanto nos desuiamos da
Latina, tanto fica teendo mais graça, &seendo mais
nossa como também dizem os Italianos da sua. Os
quaes a chegada aa Latina chamão lingoa pedantesca,
que quer dizer lingoa de pascasios. Polo que he no-
jenta scriptura, & fora de razaõ, a dos que dizem
Princepsa, por Princesa, jf epse, por esse. Sf oolho,
por olho, áf comptar, por contar, por ser niais con-
forme ao Latim. Porque sendo a nossa lingoa cor-
\
DA Lh\GOA PORTVGVESA 175
rupta da Latina, & fazendo nós desta corrupção
noua lingoa própria, & peculiar nossa, que pelo vso
se foi deriuando, & introduzindo, não hemos de
mudar, nem torcer os vocábulos do soido, & vso
commum. Qua as palauras sao como as moedas, que
naõ valem senaò" as correntes, & as que stão em
vso. E d'outra maneira, se fosse melhor reduzirmos
as palauras todas ao Latim, & por, esse, podesse-
mos dizer, epse, também diríamos por elle, Me, &
por agoa, aqua ; & assi ficaríamos fallando tudo
Latinamente. Qua menos mudança he conuerter
huma letra em outra sua affim que accrescentar-lhe
outra diíferente. Polo que nos fique por regra, que
aa commum pronunciaçao, naõ accrescentemos, nem
diminuamos, nem mudemos letra alguma. Mas que
na scnptura sigamos a corrupção dos vocábulos cor-
ruptos, & naõ a origem, & digamos pentem, & naõ
pecte ; feito, jÇnaofeclo , contar, & naõ comptar: pois já
stão corruptos. No que se deue aduertir, que alguns vo-
cábulos ha, que descendendo todos de um primitiuo
em huns seguimos a scriptura Latina, & em outros
a corrupta: porque na verdade os pronunciamos
assi diferentemente. Porque huns vocábulos cor-
rompemos, & outros deixamos incorruptos, que pola
maior parte saõ os de que a gente vulgar naõ vsa
tanto. Porque screuemos insigne, significar, & si-
gnificaçaõ com g. porque staõ incorruptos : mas
sinal, sinette, assinar, sem .g. por starem corruptos,
sendo certo que todos descendem de signum. E scre-
uemos vnidade sem aspiração, por star quasi incor-
rupto, & o primitiuo ser vnus Mas, hum, & hua,
screuemos com ella, pelo costume, que não carece
de razaõ. Porque se dixeramos, um, $" uns, tia, $*
uas, causara d unida, por se encontrarem com outras di-
ções de differente significado. O que também fize-
176 Ohthoguap:iia
\ mos em o verbo substantivo, he, por se desencon-
trar do, e, conjunção.
Item se deue aduertir, que aquelles vocábulos po-
deremos screuer com Orlhographia Latina, que achar-
mos incorruptos. E incorruptos chamo aquelles, em que
naõ está mudado mais, que a terminação final, que he
geeral em todas as lingoas corruptas. Polo que se
ha de screuer officio com dous . ff. porque officium
se screue assi, kcauallo com dous .//. porque cabcl-
lus se screue assi. E screueremos docto, doctor, do-
clrina, precepto, preceptor ; pecto, pectoral, perfecto,
contracto, usufructo, & outros taes. E se alguns de
orelhas mais mimosas dixerem, que lhe soa melhor,
pronunciar-se estes como corruptos, & dizer, douto,
doutor, doutrina, notite, ou noite, peito, perfeito, naô
\ lho estranharia. Porque na verdade, a pronunciação
d'aquelles vocábulos, & de outros semelhantes, al-
guns a fazem sem x. Mas por starem taõ inteiros
na forma Latina, eu os naõ screueria senaõ per c.
que o uso tudo vem amollentar, &- fazer corrente.
Polo que a cada hum fique, screuelos como os pro-
nuncia. Mas os versificadores, cujo trabalho he bus-
car consoantes, poderão screuer de hiía maneira, ou
de outra.
Regra III
\
i
TEM se infere da sobredicta regra, que na scriplura
naô ponhamos letras, que naô se ajaô de pronunciar,
& de que as mesmas palauras naò constaô, como os
vulgares fazem ao nome de christo, que o screuem
com .x. êf .p. dizendo X]jo, XJmiaõ, naõ sendo es-
tas diçôes compostas d'aquel!as letras. No qual erro
tiueraô esta occasiâo de cair, que os Gregos screuião
o nome de Christo, com suas letras capitães assi xí>I
como se em Latinas dixessem ghrs. E como este
PA LlXGOA PORTYGVESA 177
sanstissimo nome por a celebridade, & frequência
delle, seruia de figura tanto como de letras, como
agora, ihs, que scripto em letras cabidolas, o enten-
dem os que naõ sabem leer, os mesmos Latinos o
screuiaõ com as mesmas letras Gregas. Mas os scri-
ptores indoctos despois, não entendendo os charac-
teres Gregos, cuidarão, que eram as lettras Latinas,
& que o .X. era .#. .& que o .P. ora o .p. nosso,
naõ sendo assi. Porque esta figura .X he o x. as-
pirado dos Gregos s. eh. $\P. he o seu .R. porque
saõ suas letras assí na figura differentes das corres-
pondentes Latinas. Polo que enganados com os di-
ctos characteres, screuiaõ despois Xpo, SÇ Xponão,
nâo entrando em taes nomes .x. nem .p. E da mes-
ma maneira se houueraõ com o nome de iesv. Por-
que screuendo-o os Gregos abbreuiado desta maneira,
ih2. cuidarão, que a letra do meo era Ji. nota de as-
piração, naô sendo assi senaô .h. letra vogal dos
Gregos, que pronunciamos como .é. longo, como se
dixeraô .ies. D'onde veo, screuerem este diuino no-
me com .h. naõ o teendo, assi ihesv, notando com
cinquo figuras de letras o nome tetragrammaton, quo
he de quatro per secreto mysterio.
i
Regra ML
TEM se infere, que deuemos fugir o abuso, que al-
guns teem, por se conformarem com o Latim na scri-
ptura, os quaes screuem crux, por cruz. SÇ vox, por
voz. pax, por paz. perdix, por perdiz. No que erraõ
de duas maneiras, a hua porque screuem differente
do que pronunciaõ (o que nâo deue, nem pode ser,)
a outra porque quando viessem formar os pluraes
dos taes nomes, era necessário, que dixessem de vox,
voxes. &f de ernx, cruxcs. $Ç de pax, paxes. Sf de
12
\
178 OníttOCRÀpííiA
perdix, perdixes. Porque a formação dos Hespanhoes
nos pluraes, lie acerescentar aosdictos nomes, & aos
mais dos acabados em consoantes, hum .es. sobre a
terminação do singular. Polo que accrescentando a
pax, as dietas leiras, òkhpaxes. SÇ de vox, se dirá
voxes. & de crux, cruxes. Àssi que fique por regra,
que todo nome Latino acabado em .x. de que os Por-
tuguezes vsaô conuerteo .x. em ,z. como, cruz, luz.
paz, perdiz, verniz, simplez, anthraz, capaz, rapaz,
voz, noz, pez, fez, atroz. O que como digo, se en-
tende dos nomes Latinos, que a lingoagem toma sem
outra corrupção. Porque muitos se acafraõ em x.
acerca dos Latinos, que não screuemos com .2. em
Português, porque staõ corruptos, & mudados. Qua
de rex, dizemos rei. & de grex, grei. $ de lex, lei.
SÇdescx, seis. SÇ de dux, dtiqite. 6Ç àenox, nocte.SÇ
outros, que d'outras maneiras slâo corruptos.
A
Regra V.
INDA que digamos, que os nomes Portugueses
hauiaô em todo de seguir a Orthograpbia Latina, naõ
sejamos taô supersticiosos, que alguma dição, que
jà he feita Portugueza, ainda que stee inteira Lati-
na, screuamos com diphthongo de .03. nem de .03.
dizendo cedificio, heerdeiro, cestio, JElhiopia, peena,
famo. Porque nem nossa lingoa os recebe, nem a
nossas orelhas soaô mais que e. Mas diremos edi/icio,
herdeiro, estio, Elhiopia, pena, feno. E soomente po-
deremos screuer com diphthongo, os nomes próprios
Latinos, ou Gregos, que o tíuerem, que naõ forem
mui vsados, para que nos naõ façaõ duuida, & enten-
damos de quem se falia, como, Oenono, Oedipo, Mlio 9
pola razaõ, que deemos no capitulo da letra J.
DA LíNGOA PORTVGVESA 179
Regra VL
%J VE nao sigamos o abuso, de accrescentar a to-
das as dições Latinas, quecomecaõ em .s. Mrtff.é. fa-
zendoas sempre de mais.híía syllaba, do que teem
de sua colheita. Porque dizem vulgarmente escrhiaõ,
esperar, espirito, Esteuaõ, $" outros infinitos. O que
he 'grande erro, & maa maneira de screuer. E o que
enganou aos vulgares foi, que o .s. como he mais
assouio, que letra, dá híía apparencia de lhe prece-
der um .e. Mas os doctos, que saõ os que fazem o
costume, naõ screuem assi. E assi veemos, que os
Italianos, & Franceses, que da mesma maneira to-
marão dos Latinos as ditas dições, naõ as screuem,
nem pronunciaõ per.e. No qual erro agente Caste-
lhana também cae. Assi que hemos de dizer, stado,
studo, star, statua, Steuaõ, spirito, esperar, ser ip lura ,
sermão, SÇc.
Regra VIL
Q
VE naõ soomente os vocábulos Portugueses, que
staõ inteiros, como no Latim, mas os corruptos, no
que naõ stiuerem mudados, deuem guardar a mesma
Orthographia. De maneira que assi como stella, -do-
bra o ./. em Latim, assi o dobrará strella em Por-
tuguês. E assi como dizemos guita, diremos gotta :
& como dizemos spissus, diremos spesso.
-Regra VIIL
^j;VE esta partícula, se, junta aos verbos da tercei-
ra pessoa do singular, de qualquer tempo, faz que
signifiquem passiuamente, ou impessoalmente, per
arrodeo, por falta de palauras, de que a lingoaHes-
panhol carece. Porque em lugar áeamatnr, Sfania-
180 Orthographía
batur, impessoal dizemos amase, áf amáuase, SÇ cm
lugar de amatur da voz passiua, dizemos também
àmase, em lugar de he amado, como dizemos, a vir-
tude amase dos boons. A qual partícula, se, deuemos
screuér separada, & per um .s. no que vulgarmente
os mais erraõ, & dizem, digasse, foçasse, passesse,
naõ attentando, que alteraõassiassyllabas na quan-
tidade, & mudaõ o accento. $" deduasdições fazem
hua, & causaõ confusão no significado. Polo que assi
como dizemos aquillo se ama, prepoendo o, se, assi
hemos de dizer separadamente, amase, quando o
postpoemos, & com um .s, soomente, como, fazse,
diz-se, nauega-se, ajunte se, pode-se, passe -se.
Regra IX.
\JVE naõ confundamos esla partícula, ou preposi-
ção, de, com as dições, a que se ajunta, que come-
çaõ em vogal. E que ainda que o .e. da dieta partí-
cula, se aja de elidir, & comer na pronunciaçaõ, que
se naõ coma na scriptura, que lie cousa fea, & bar-
bara. Porque screuem vulgarmente, a cidade deuora,
anel douro, homem darmos, delle, delia, tudo ligado,
como se fosse hua diçaõ, hauendo de dizer a cidade
de Euora, assim como dizem de Roma, anel de ouro,
homem de armas, de elle, de ella. E ja que quizes-
sem logo na scriptura tirar o e. como se tirana pro-
nunciaçaõ, façaõ como os Italianos, & Franceses, que
denotaõ a detracçaõd'aquella vogal comumapostro-
pho.como os Gregos, desta maneira cidade d' Euora,
anel agouro, homem d' armas, d' elle, oVella. O que pa-
rece mui bem, & vsaõ já alguns Hespanhoes curio-
sos das lingoas. O que também fazem nestas partí-
culas, no, na, (que saõ a preposição, en, junta a ar-
ticulo) quando as ajuntaõ a pronomes, ou nomes co-
DA LíNGOÀ PORTVGVESA 181
meçados em vogal, como, n' este, ri aquelle,n'aquella f
ri aqueW outro, noutro, ri algum ri um. Dos quaes di-
rei no capitulo dos apostrophos.
Regra X.
%JVE naõ vsemos fallando, ou screuendo indistin-
ctamente destas preposições, per, Sfpor, nem as con -
fundamos, como fazem vulgarmente, naõ fazendo dif-
ferença de híía a outra, sendo entre si taõ differen-
tes, como no Latim saõ, per, SÇ pro, que teem dif-
rente significação, & pedem diuerso caso. Àssi que
quando quisermos dizer o meo, per que se faz algu-
ma cousa, o hemos de significar, & screuer per esta
preposição, per, & naõ per esta, por, como he quan-
do dizemos ; Eu vos mostrarei isto per razões eui-
dentes : Este liuro % he composto per tal author : Sf tudo
o mais, que os Latinos dizem per a dieta preposi-
ção.
Mas o nosso, por, poemos em lugar do pro dos
Latinos, como quando dizemos . Eu vos tenho por
amigo,' 1 este lagar stá por clRei, trocai-me este liuro
por outro. O que naõ se soífria dizer assi : Tenho-uos
per amigo, este lugar stá per elRei, trocai-me este li-
uro per outro. E aas vezes se põe a mesma preposi-
ção em lugar de propter, como nestes exemplos ; Por
a tempestade que vai, não nauego : fazei isto por hum
vosso amigo. Posto que quando se põem na dieta si-
gnificação, pola maior parte se lhe ajunta esta pa-
laura amor, ou causa. Porque dizemos : Por amor
das neues naõ passo os Alpes : & por amor dos Tur-
cos naõ passo o mar. As quaes palauras, amor, ou
causa, naõ servem de mais, que de explicar a signi-
ficação da dieta preposição. Porque naõ teem a lin-
goa Portuguesa voz, que responda &, propter, &por
182 Orthographía
isso vsao d'aquelle rodeo. E a mesma ordem se deue
guardar no vso das mesmas preposições juntas aos
artículos, o, a, quando por bom soido, mudamos o
.r. em J. dizendo, Polo amor de Deos, pola honra,
polo min tio, pela terra. Porque do, per, vem pelo,
pela, & do por, polo, pola, & a conjunção polo que,
que dizemos por a Latina, quapropter. De que se col-
lige também, que se deuem screuer per hum soo ,L
que succede em lugar do .r.
Regra XI.
%jVE tiremos outro abuso, de poer a letra .p. entre
,m. & n. como alguns mãos Hespanhoes, & piores
Latinos faziaõ, que screuiaõ, sompno, dampno, solem-
pnidade, ■& aas vezes antes de m. consoante, como,
scripuaõ, screpuer, &Ç peor ainda que isto deziaõ,
spriuaõ, spreuer.
Regra XII.
\f\E reduzamos a melhor scriptura muitas dições,
que sendo Latinas, & stando incorruptas em muitas
syllabas, & algumas em todas, tirada a da termina-
ção, lhe tiramos suas letras, como saõ estas : cali-
dade, cantidade, contia, nunca, cinco, ca, acolá, como,
aduerbio interrogatiuo, hauendo de dizer : qualida-
de, quantidade, quantia, nunqua, cinquo, qua, aquo-
la, quomo ?
Regra XIIL
\J\ 7 E nunca dobremos a primeira letra de algíía di-
ção, porque a nenhiía vogal, nem consoante, podem
preceder duas letras semelhantes. Porque a primei-
ra naõ teeria vogal que ferir, nem letra, a que se
ajuntar : o que naô pode ser. E pela mesma razaõ,
DA LlNGOA PORTVGVESA 183
nao dobraremos a letra final de algíía palaura : por-
que a vitima nao teeria uogal, a que fosse atada.
Assi que erraõ os que screuem, llourenço, rrei, §"
urrei, quall, mill, §" outros assi.
Regra ML
^VE por abbreuiar a scriptura, nao screuamos per
notas numeraes, ou de algarismo as palauras, que nao
denotaô numero, como fazem alguns por ignorância
da lingoa Latina, & da propriedade, & natureza das
palauras, guiados do som delias, & naô da signifi-
cação. Porque dizem.* Nao vos vades, sem i.° faltar
comigo. E por dizerem, segundo Platão, dizem 2.°
Platão. E por dizerem : Eu serei neste negocio bom
terceiro, screuem 3.° O que be grande erro, & feal-
dade da scriptura. Porque alli a palaura, primeiro,
lio aduerbio, que significa antes, & a palaura, segun-
do, he preposição, que quer dizer acerca, &a pala-
ura, terceiro, he nome, que quer dizer intercessor &
medianeiro. Polo que fica claro, que naô denotando
numero, nao se podem screuer com cifras, ou notas
numeras.
Regra XV.
%JVE guardemos a analogia, & ordem nos vocábu-
los deriuados, & que nao variemos nelles. Porque
dizem muitos, rindeiro, vindeiro, vistido, naô respei-
tando aos primitiuos. Porque se renda se screue com
.e. necessariamente, se ha de screuer assi, rendeiro,
que he seu derivado. E se dizemos veste, & vestimen-
ta, assi vestir, & vestido, éÇ assi de venda vendeiro.
E como dizemos, pelle, também diremos pelliteiro,
$* pellica, SÇ nao pillica, nom pilliteiro. E assi como
dizemos pomo, diremos pomar, & naõ pumar, como
184 Oktuoguapíija
muitos dizem. E de de gemer, diremos gemido, &
naõ gimido. E como dizemos pedir áepeço, diremos
petição, & naõ pitiçaõ ; pedinte, $* naõpirimfó, E de
ferir, diremos, ferimento, áf ferida, Sf naõ firimen-
to, nem firida. E de mealha, diremos, mealheiro, SÇ
naõ mialheíro. E de wzeco, medes, medida, Sfmomi-
dida. E de mento, mentes, mentira, Sf naõ mintira :
posto que também digamos, minto, Sf mintes.
Regra XVI.
\^VE tenhamos grande tento nos vocábulos, em que
entra .c. .s. SÇ % z. Porque a mais da gente, & naõ
soo a vulgar, se engana na scriptura, confundindo
estas letras, & poendo híías por outras, sem distin-
ção, sendo ellas differentes, & distantes na pronun-
ciaçaõ, & natureza, assi como o saõ na figura. Das
quaes letras o que se pode reduzir a regra lie isto:
Que com .c. se screuem todos os nomes verbaes, cor-
ruptos dos Latinos acabados em, tio, de qualquer
conjugação que sejaõ deriuados, como, oraçaõ de
oratio ; geeraçaõ, de generatio ; liçaõ, de lectio : ti-
rando razaõ, de ratio, que dizemos aa differença de
raçaõ, por porçaõ.
Item todos nomes cujos Latinos se acabaõ em,
tium, como, seruiço, de seruitium; negocio, de ne-
gotium ; exercido, de exercitium. Por o que naõ di-
rão negotio, nem exercitio. Porque como dixe na le-
tra .C. he pronuuciaçaõ mui alhea. Nem menos di-
remos, offitio, como alguns, querendo ser mais La-
tinos do que he necessário, dizem. Porque os La-
tinos naõ dizem offitium, senaõ officium, por vir de
facio f assi como também dizem judiciam, áejudico,
que corrompemos, & mudamos em juízo.
Item screueremos per .c. os vocábulos acabados
DA LlNGOA PORTVGYKSA 185
acerca dos Latinos em, tia, que sao os nomes, que
chamaõ denominados, como prudência, dô pruden-
tia 9 paciência, àepatientia, sciencia,descientia.Y*ov-
que a nossa lingoa naõ admítte nelles a pronuncia-
çaõ Latina, que naõ he, a que lhe nós damos vul-
garmente. Polo que os hemos de screuer, como os
pronunciamos. O que se vee em alguns, a que tira-
mos o ;t\ per syncopa, que necessariamente ficaõem
.p. como justiça, de justitia ; sentença, de sententiã.
E pela mesma analogia, conaença, differença, Va-
lença.
Item os verbos deriuados dos ditos nomes deno-
minados acabados em ça, como de sentença, senten-
ciar, de justiça, ajustiçar. de preguiça, espreguiçar.
de cobiça, cpbiçar.
Item todos nomes deriuados de outros ainda que
meros Portugueses desta figura, confiança, medrança,
possança, bonança, abastança, &c.
Item todos os verbos com toda sua inflexão de
tempos, modos, & pessoas, cujas primeiras pessoas
do presente do indicatiuo, se acabaô em, iço, como,
espreguiço, espreguiçar, esperdiço, esperdiçar, enfei-
tiço, enfeitiçar.
Item todos nomes acabados da mesma maneira,
que por a maior parte significao abundância, ou fre-
quência, como, chouediço, fugidiço, feitiço, castiço,
mettediço, maciço, dobradiço % agastadiço, nouiço, &fc.
Item todos os verbos desta figura, preualeço,pre-
ualeçer ; basteço, basteçer ; appareço, appareçer ; & assi
conheço, stabeleço, emmagreço. E assi mesmo os no-
mes, que delles descendem, como, conhecimento, bas-
tecimento, sobstabelecimento.
Item se screuem per .c. todos nomes, que acer-
ca dos Castelhanos se acabaõ em zo, ou za. que si-
gnificaõ grandura, ou abundância, que saõ contrários
186 OnmoGRAPHii
tia significação aos diminuliuos, como, bargantaço,
caiiallaço, porcaço, negraço, gordaço, gordaça,<&c.
E todos os nomes, que os Castelhanos acabaõ na
dieta terminação, zo. ou za. ainda que naõ tenhaõ
aquella significação augmentatiua, como laço, agra-
ço, inchaço, chumaço, aço, couraça, &c.
Item os nomes desta figura, ladroice, bebedice, san-
dice, velhice, meninice, paruoicc, garridice, kc.
Per ,5. se screueraõ aquelles, cujos Latinos teem
.s. Polo que de mensa diremos mesa, kndJJmeza. E
de casa naõ diremos caza. E assi screuemos os de-
riuados delles, como, casal, caseiro, casamento, &
naõ cazal, nem cazamento. E se dizemos diuisio, naõ
diremos diuizaõ, & de defensa, naõ diremos defeza,
nem prezmte, por presente. Polo que nas fique por
regra, que todo nome verbal, que acerca dos Lati-
nos se acaba em sio, mudemos em, saõ, k digamos
de diuisio, divisão; de conclusio, conclusão: àspen-
sio, pensão: & todos os mais pela mesma maneira,
tirando paixão, que dizemos de passio.
Per .z. se screuem aquelles, de que a trás fize-
mos menção no titulo da letra Z.
Regra XVII.
\JVE todo nome próprio de homem ou moíher, so
screua com a primeira letra grande, & capital, como,
Lourenço, António, Duarte, Maria, Ambrósia. E assi
os cognomes, ou appellidos, ainda que em outra ma-
neira sejaõ appellatiuos, ou communs, como Sylua,
Pereira, Carualho, Lobo, Raposo, Gama, para com
a dieta maneira de screuer, se tirara duuida que
aas vezes incide, de quando saõ appellatiuos, ou pró-
prios.
Item todos nomes de prouincias, como : Portu-
DA LlNGOA PORTVGVESA 187
gal, Algarue, França, Alemanha, índia, E de cida-
des, como : Euora, Lisboa, Coimbra. E os nomes das
gentes, que das prouincias, ou cidades se deriuaô,
como: Português, Arábio, Lisbones, Coimbrão.
Item os nomes de montes, como : Sion, Olympo,
Tauro, Mina.
E de rios, como : Tejo, Guadiana, Danúbio, En-
phrates.
E de fontes, como : Arelhusa, Castallio.
E de meses, com : Ianeiro, Março, Maio, Nouem*
br o.
E de Deoses da gentilidade, como : luppiler,
Neptuno, Vénus, Diana.
Finalmente todo o nome, que naô pode compe-
tir, senaõ a huma soo pessoa, ou cousa.
Item se screue com letra capital & grande, todo
o principio de leclura, & qualquer clausula, que se
siga despo^ de acabar outra clausula precedente,
em ponto final, ou interrogatiuo, ou admiratiuo,
como se veraa nos exemplos, que poeremos, quando
tractarmos dos pontos das clausulas.
Item se screue com letra capital, o que vai des-
pois do comma, quando se muda de bua sentença a
outra, como : Bicam Deo : Noli me condemnare. Di-
rei a Deos : Naõ me queirais condemnar.
Ou quando se passa de buma pessoa a outra,
como : IHxit autem quidam : Ecce mater tua. Dixe
entaõ hum certo homem : Exaqui vossa mãi.
E em meo de algua diçaõ, se naô poeraa letra
maiúscula, que seria feo dizer .Io Am. LouRenço. An-
Rique.
188 OrthO'Jraphia
Regra XVIII.
\JVE em a scriptura naõ liguemos letras a outras
& muito menos huadiçaõ a outra, como fazem gee-
ralmente scriuuães, por razaõ de com huma penada
fazerem muitas letras, & em pouco spaço mais scri-
ptura, respectando mais ao seu proueito, que ao dos
lectores. Porque da tal ligatura nasce confusão, &
obscuridade, ainda em letra de boa maõ, & naõ se
lee senaõ o que se tira per descrição. Porque por
causa das ligaturas, naõ se podem formar as letras
perfectamente. De que vem que per discurso de tem-
po, ou de se costumarem outras ligaturas, ou se naõ
costumarem, se naõ leeraõ muitas scripturas. No que
deuemos imitar a nossos passados, cujas scripturas
antiquíssimas, por naõ screuerem ligado, leemossem
nenhíía difficuldade, o que nossos pósteros naõ faraõ
das nossas. Outro inconueniente se segu# das liga-
turas, que por causa delias, nenhum estrangeiro pode
leer, nem entender nossas cousas. O que naõ fora se
as letras foraõ soltas, porque oscharacteres, & figu-
ras de nassas letras puros em si, saõ communs a to-
das nações, quevsaõ do alphabeto Latino. Achega-
se a isto, que toda letra solta & desapegada, por
raaa que seja, representa ao sentido de quem a vee,
& faz conceber, o que nella seconteem, & pormaa
que seja, se lee, sem difficuldade. E pelo contrario,
sendo ligada, ainda que boa letra seja, se lee com
trabalho, & muitas vezes se naõ entende. Do que
quis fazer regra de Orthographia naõ o sendo, por
o trabalho que scriuães daõ, a quem lee seus pro-
cessos, que por cobiça de pouco ganho, muitas vezes
ofTuscaõ a justiça das partes, & porque meu intento
he ser este tractado, um preludio da arte & instru-
ção dos notários, que despos elle spero logo divulgar.
DA LlNGOA PORTVGVESA 189
Regra XIX.
\JVE naõ confundamos, nem misturemos as figuras
numeradas da conta Romana com a Arábica, como fa-
zem alguns, que por dizerem, xxv.xxvj. xxvij. xxvnj.
screvem xx5. xx6. xx7. xx8. que he cousa fea, &
nojenta para quem entende. Nem comecemos a conta
em figura» & acabemos em letra, mas toda a conta
screuamos junta, ou per palauras, ou per notas nu-
meraes, & digamos : Anno de mil k quinhentos &
setenta & seis, ou: Anno de 1576, & naõ: Anno
de mil, & quinhentos & 76, nem Anno de 1500. &
setenta & seis,, que outro si he cousa fea & despro-
porcionada.
Regra XX.
A
YLTIMA regra, que na lembrança deue ser a
primeira seja, que trabalhemos sempre, porinuesti-
gar a origem dos vocábulos. Porque pelaetymologia
delles, se sabe a Orthographia, & pela boa Ortho-
graphia a etymologia. E esta hea fonte & a raiz de
fallarmos, & screuermos bem, & propriamente, ou
mal. Porque de as palauras andarem tiradas de seu
curso, & scriptura, vem naõ se saber a origem, á
propriedade delias : & de naõ sabermos a origem,
vem andarem muitas tam mal scriptas, que porsta-
rem tam recebidas do vulgo, naõ podem ja teer
emenda. Esta palaura, memposteiro, ategora andou
mal scripta, mas agora, que com outras muitas vola
dou emendada em, mamposteiro, facilmente caireis
no que quer dizer, & donde se deriua, que he ho-
mem posto de maõ d'alguem, para algum negocio, na
forma que dizemos manteudo, o questá teudo,^ ali-
mentado da maõ d' alguém. E assi sabendo, que farro-
pea vem de ferro, & de pea, direis ferropea com e.
190 Orthogràpiha
& naõ com .a. como quem sabe, donde se deriua.
E quem soubera, que maniobernio, queria dizer,
manto de Hybernia, Ilha a que per outro nome cha-
maõ Manda, onde se fazem, como, Paris, RuaÕ,
Hollànda, por outros panos, dixera hybemio, .$" naõ
bernio, que naõ he menos grosseria, que sedixesse-
mos, Taliano, por Italiano , & Lemaõ, por Alemão, o
que se naõ soííre. Porque em nomes próprios ou de-
riuados delles, naõ pode hauer mais corrupção que
na terminação final. Ao que naõ obsta dizer, que isso
he o affecto da corrupção das lingoas, & que assi he
em todos os mais vocábulos, em que se mudaõ huas
letras em outras, & se accrescentaò, & diminuem.
Porque hfía cousa he a corrupção, crue se faz por a
propriedade da lingoa, a que traspassamos os vocá-
bulos, & per que corrompemos humas letras em ou-
tras suas affijs, outra he, a que se faz por a igno-
rância da origem delias, que he corrupção, que as
orelhas de homens polidos, & de bom entendimen-
to naõ admittem, como he dizer enxucaçaõ, pore#e-
cuçaõ ; socresto, por sequestro ; rendição de captiuos,
por redempçaõ ; alicornio, por vnicornio ; sorodio, por
serôdio; & outros infindos vocábulos, que muita gen-
te pronuncia, &screue mal, por naõ saber a origem
delles, sem a qual lie impossiuel screuer certo, nem
falar próprio. Assi que ainda que da vulgar gente ve-
jamos, que stá recebido, scre^erem-se d'outra ma-
neira, como naõ deuem, atlrevamo-nos a os screuer,
como deuem sem medo, & por memposteiro, digamos
mamposleiro, por sorodia, serôdio, Sf por bernio, hy-
bernio, que o vso tudo vem abrandar, k fazer corren-
te, & natural. E reuendiquemos, & restituamos a seu
lugar os vocábulos, & façamos costume do que con-
siste em razaõ, & analogia. Porque em nenhuma cou-
sa pode mais o costume, que na Orthographia, &
DA LlNGOA PORTVGVESA 19!
nas palauras, tjue se mudaõ, & variao como as moe-
das. Scipiaò Africano (segundo Quintiliano screue) do
vorto, vortex $Ç vorsus, começou a screuer, verto, ver-
tex, & versus, & assi ficou em vso. Caio César de
optumusSÇ maxumus, que entaõ diziaõ, screueoopít-
mus, &Ç muxi . tis, que nos duraõ ategora. Vormagis-
ter diziaõ os antigos magester. por Uber, leber. por
nuirix, notrcz. por ílecuba, Hecoba, SÇ por sibi diziaõ
sibe. §Ç por quasi, quase, & outros infindos, que se
mudarão com o tempo em outra maneira de screuer.
E de dez diphthongos que os Latinos tinhaõse foraõ
esquecendo os quatro. E assi veemos na lingoa Por-
tuguesa, per quam differente maneira se screue agora
do que se screuia& pronunciaua, no tempo antigo
ate o delRei dom Ioaò o primeiro, que parece outra
differente lingoagem. E mui facilmente fpara tornar-
mos ao propósito que comecei) se alcançaraa a ori-
gem dos vocábulos (moormente per os que a lingoa
Latina souberem) se considerarmos as letras que se
conuertem em outras, como acima vos mostrei.
DA OBSERVAÇÃO DOS ARTÍCULOS,
E COMO SE DEUEM &CI&EUBR.
/AlNDA que na lingoa Latina se escusem os artí-
culos, por as terminações dos casos, que mostrai
quaes saõ. na lingoa Portuguesa, onde os nomes saõ
indeclinaueis (tirada a diííerença dos números) saõ
necessários, porque per elles vimos em conhecimen-
to dos casos, pois no caso em que elles staõ, sabe-
mos star os nomes, a que se ajuntaõ. Mas porque os
artículos, que também saõ indeclinaueis, & sooteem
variação no género & números, naõ podíamos dar
esta demonstração dos casos, de, $", a, pelas quaes
192 Orthographia
os mostramos. Porque, de, nosserue peraogenitiuo,
&ablatiuo, &, a, para o datiuo desta maneira.
Articulo masculino
Articulo feminino.
Singular.
Plural.
Singular.
Plural.
Ntõ. o.
os.
Ntõ. a.
as.
Gtõ. d'o.
d'os.
Gtõ. d'a.
d'as
Dtõ. a o.
aos.
Dtõ. a a.
a as,
Acctõ. o.
os.
Acctõ. a.
as
Ablti. d'o, d'os. Ablli. d'a. d'as.
O vocatiuo naõ teem artículos. Porque o .ô.
com que chamamos, he aduerbio de chamar, & naõ
articulo. Porque a natureza dos nomes relativos, &
demonstratiuos , como os articulos safi , naõ padece
aquelle caso. que requer presença da pessoa, a que
so dirijaõ as palauras de chamar. E assi vereis, que
naõ tem variação de género, nem de numero. Por-
que dizemos, ô senhor, ô senhores, ô senhora, ô senho-
ras. Assi que erraõ , os que cuidaõ que o articulo
teem variação de caso .s. o, a, do, da, ao, aa, ô.
Porque não ha mais que, o, a, & o que se lhe pro-
põe, saõ as dietas preposições. Porque por dizermos
de o. de a. viemos dizer, do, da, comendo, & apa-
gando o .«. per hua figura chamada synalepha, assi
como de en o, & de en a, viemos dizer no, na. &
de com o , co . & de com a , coa . De maneira que
quando dizemos ao % a, he preposição, & o, he ar-
ticulo. E quando dizemos aa, da mesma maneira o
primeiro, a, he preposição, & o segundo articulo
feminino. Donde se segue , que necessariamente ,
quando a preposição se ajunta ao articulo feminino,
que he no caso datiuo, screueremos per dous, aa.
O que antes parecia duro a alguns que naõ caíaõ
DA LlNGOA rORTVGVESA 193
nà razaõ disso. Porque o, a, como digo, per si soo
he preposição.
E porque lia alguns de engenho obstinados^
a que naõ sei se persuadi, quero-lho prouar per
huma demonstração nas lingoas Castelhana, Italiana,&
Francesa, que nisto conformaõ com a nossa. Porque
acercados Castelhanos, quando dizem voy a Roma,
aquelle, a, he preposição, & naõ põem articulo, por
Roma ser nome próprio, que o naõ admitte, E quando
dizem voy a la Iglesia, fica manifesto, que o, a, he
preposição, $*o, la, articulo como também fazem no
masculino, quando dizem, voy a Toledo, sem arti-
culo por a dieta razal de ser nome próprio, & voy
ai mercado por ser appellatiuo, com o articulo, ai,
que he o mesmo que a el, de que fazem syncopa. E
os Italianos da mesma maneira dizem ando a Roma,
& a la piazza, & /o passai per Bologna, SÇ passai per
lastrada. E os Franceses dizem, ie vay a Naples, SÇ
d Rome : Sf ie vay á la maison, & a leglise. Do que
fica conuencido, que necessariamente hauemos de
screuer dous .aa. quando ajuntamos a preposição,
a, ao articulo feminino no casodatiuo, & dizer, vou
aa Igreja; dou me aa virtude; das -te aas armas.
Item deueis saber outra regra, que nunca ouui-
rieis, que por os nomes próprios serem demonstra-
tiuos de seu género, & por naõ teerem necessidade
de artículos, demonstramos os casos d'elles, soomen-
te com as dietas preposições sem articulo, & dize-
mos : Pedro corre, & naõ, o Pedro. & Ccesar vence,
& naõ o Ccesar : & de Ccesar he vencer, & naõ do
Ccesar : & a Ccesar conuem vencer, & naõ ao Ccesar:
& com Ccesar stâ a victoria, & naõ com o Ccesar. O
que tudo he per as dietas preposições, sem articulo.
Mas nos appellatiuos, dizemos assi: O Capitão vence;
Do Capitão lie vencer : Ao Capitão conuem : Com o
i3
194 OnTHOGKAPHfA
Capitão, &c. Donde se segue, que erraõ huns, que
por se* fazerem mais Portugueses do necessário, &
muito anciãos, dizem, o Bartolo diz isto, o Baldo diz
aqueW outro. O que he contra a propriedade dos ar-
tículos, que naõ se ajuntaõ aos nomes próprios: por
que naõ demostraõ, o que naturalmente stà demons-
trado. Ainda que nos appellidos, & cognomes de pes-
soas mui conhecidas, de que frequentemente fazemos
menção, se ponhaõ alguas vezes, como quando di-
zemos, o Pinheiro, o Nauarro.
E assi como aos nomes próprios, se naõajunlaa
artículos, assi nem aos pronomes, porque staõ em
vez de nomes próprios, soomente lhes ajuntamos as
preposições, como de mi, de ti, de si, de este, d' escote-
iro, a mi, a ti, a si, a nós, avós,aaquelles. Mas naõ"
no mi, ao ti, ao este, ao nós, &c.
Item se ha de aduertir acerca (Fostes artículos
outra cousa, a que naõ se pode dar razaõ, senaõ pe-
dilo assi a orelha & costume, que a alguns nomes
de prouincias ajuntamos artículos, & a outras. naõ.
Porque dizemos : Itália he prouincia fértil, & cidade
de Itália, & disto vem bem a Itália, & uou a Itália,
& o mesmo em França, Lombardia, & Hespanha, &
outros. Mas naõ he assi nesta palaurà, índia, onde
naõ nos soffrem as orelhas dizer, índia he terra gran-
de, cidade de índia, nem vou a índia. Porque dize-
mos, a índia, da índia, aa índia. E assi dizemos:
Cambaia stá na índia, & vou a Cambaia. Mas naõ
diremos, China stá no Oriente, senão a China, & assi
vou aa China. E assi diremos vou a Corintho, vou
a Toledo, & naõ ao Corinlho, nem ao Toledo. Mas
naõ diremos vou a Cairo, se naõ ao Cairo.
Outra obseruaçaõ he, 'que quando os nomes das
cidades podiaõ per outra maneira ser appellatiuos,
ou eommuns, sempre lhes damos articulo. Porque
da Lingo\ Portvgvesa 195
ainda que digamos vou aTo!edo,vouaRoma, naõ di-
zemos assi, vou a Porto, vou a Guarda, se naõ vou
ao Porto, vou aa Guarda. E da mesma maneira quan-
do se as prouincias nomeaõ pluralmente, como vou
aas Hespanhas. vou aas Canárias, O que naO he nos
nomes das cidades: porque dizemos vou a Athenas,
vou a Bruxellas, vou a Thebax, vou a Cumas.
Item haõ de aduertir, que dizemos vou a casa,
quando entendemos da nossa morada, & vou a casa
de Pedro, & naõ aa casa. Mas quando naõ he casa de
habitação, dizemos com preposição, & articulo, t;<w
aa casa dos tabelliães, vou aa casa da índia, &c.
E porque muitos aspiraõ os artículos, cuidando,
que os tomamos dos Gregos, que no masculino, &
feminino do primeiro caso os teem aspirados, dizen-
do, o e a l . lembro que he escusada curiosidade, assi
porque os naõ pronunciamos aspirados, como porque
naõ tomamos esses articulos dos Gregos, ainda que
como elles os tenhamos. Porque os nossos articulos,
o, a, saõ o pronome, is, ea, id. por o qual dizemos,
o, a, o, o qual pronome naõ soomentevai antes dos
nomes, como articulo, mas antes & despois dos ver-
bos, como relativo quehe. Porque dizemos a Pedro
eu o amo, & dizemos amoo, amoa .s. eu o amo a elle,
& amo a e'la. E dizemos nos o amamos, Scamamolo
,s. por amamos o, mudando o .s. em .1 por bom soi-
do, como quando dizemos fizeslelo? ouuistela? por
fizestes o ? ouuistes a ? Por tanto he desnecessário as-
pirar o que de sua natureza naõ teem aspiração.
DOS AGGENTOS, E QVANDO
OS DEVEMOS VSAR NA SCR1PTUIU.
OMO as palauras constao de vozes, naturalmente
c
196 Orthochapiiía
as naõ podemos pronunciar, senaõ com diíTerença
de accentos .s. huns altos, & predominantes, & ou-
tros graues & baxos. E accento chamamos, o tom que
damos a cada syllaba, qne emcadahíía diçaõleuan-
tamos, ou abaxamos. E o predominante, de que tra-
damos, naõ he mais que hum em cada syllaba. E
tirada aquella syllaba, em que stá o accento predo-
minante, ás mais teem accento graue, que propria-
mente nal he accento, senaõ quanto em respecto do
agudo. E os accentos saõ três .s. agudo, grane, cir-
cumfle.ro. Agudo he, o que leuanta mais a voz, &
teem esta figura, á O graue he o que abaxa & he
assi, á. Circumflexo he o que participa de ambos,
& assi teem a figura, a. E porque muitas dições se
parecem com outras, por teerem as mesmas letras,
& todauia por serem diííerentes na significação, teem
differença no accento, releva vsar destes accentos,
para demonstração da differença. Dos quaes nas di-
ções, que naõ teem outras semelhantes, naõ deue-
mos vsar. Porque naõ seruiraõ de mais, que de cau-
sar confusão aa gente vulgar, & fazer cair em erro,
os que os quiserem imitar, naõ o sabendo per arte.
Assi que onde o accento faz mudança de signi-
ficação, o notaremos sempre, como nas terceiras pes-
soas do pretérito perfecto, do modo demonstratiuo
de todas as conjugações. Forque concorrem com as
terceiras pessoas do futuro do mesmo modo, & nu-
mero, em as mesmas syllabas, senaõ que differem
no accento Qua as vozes do pretérito teem o accen-
to agudo na penúltima, & as do futuro na vitima.
Polo que para tirarmos a differença dos modos, &
tempos, de que falíamos, quando for pretérito, di-
remos amara, leéra, ouuira. E quando /or futuro
diremos, amará, leerâ, ouuira, com accento circum-
flexo.
DA LíNGOA PORTVGVÊSA 197
O mesmo vsaremos nós nomos, onde assi for ne-
cessário, como nesta palavra, cor, por vontade, que
notaremos com accento agudo, aa differença de cor,
por color, que o teem circumflexo : & como em fêz,
pessoa do verbo faço, aa differença de fez, por borra:
& ia, pessoa do verbo vou, vás, aa differença de já,
aduerbio temporal, &, é, terceira pessoa do verbo
sou, aa differença de, e, conjunção, ainda que neste
a differença se tira sem accento, ou pela aspiração,
que se lhe põe de costume, quando he verbo, ou por
a figura que daõ ao, e, quando he conjunção assi, &.
Mas alguns ha, que por naõ teerem noticia dos
accentos, em lugar delles, dobraõ as vogaes do ac-
cento predominante, &screuem, amaaraõ, ouuijraõ,
aa differença do futuro, & amarai, no futuro do in-
dicativo, & amaara, no presente do optatiuo, & preté-
rito imperfecto do subjunctiuo, & assi em os mais Por-
que as syllabas, que teem o accento, pela moor parte
saõ longas acerca de nós. O que naõ carece de exemplo
dos antigos, como acima teemos dicto, dos que dobraõ
.o. Mas o melhor será, notar a differença com os accen-
tos, por naõ poer letras ociosas, que na verdade se naõ
pronunciaõ.
DOS APOSTROPHOS.
A
POSTROPHO he hua figura, que os Gregos con-
taõ entre seus accentos; sem ser accento. Porque
soo denota a vogal que se tira do fim da diçaõ per
hua figura chamada synalepha, quandose segue outra
diçaõ, que outro si começa em vogal. O que se faz
no verso, para se euitarohiato & abertura da bocca,
que se causa acabando hua dica 7 ) em vogal; & come-
çando outra também em vogal. A qual nota se põe
sempre sobre a derradeira consoante da diçaõ, fican-
do em lugar da vogal que se tira, cuja figura he ame-
198 OllTHOGRAPHlÀ
tade de hum circulo assi .0. E as dições acabadas
em vogal, emque maiscommummente comemos ati-
ramos a dieta ultima, vogal, saõ estas, de, me, te, se,
que, ante, no, na, esse, esle, aquelle, outro. Polo que
as screueremos assi, quando lhe tirarmos & elidir-
mos aquellas vogaes, m, t', s\ qu\ n\ n\ ant\ tss\
est (t aquell', outr', como, d' ambos, d'istOj naõ m'ou-
uis ? naõ t ouui, naõ s 9 entende qu' andais dizendo ? rí es-
te, ri esta, 11 outro, anC ontem, ess'outro, esfanno, aquel-
Voutranno. E confundindo tudo, & ajuntando o
na escriptura, como fazemos na pronunciaçaõ, seria
cousa fea, & que causaria duuida no significado, como
se screuessemos, naò mamais, por naO me amais, ou
naõ touco, por naõ te ouço.
E em alguns lugares necessariamente hemos de
vsar deste apostropho, ainda que seja em prosa,
como he nesta preposição, de, junta a dições, que
começaõ em vogal, se na pronunciaçaõ comemos aquel-
la vogal, de que já teemos feito mençaõ nas regras
geeraes da Orthographia. Item he uecessaria, para
screuer alguns nomes compostos, quando o primeiro
simplez, se acaba em vogal, & o segundo começa
em outra vogal, em que necessariamente tiramos a
primeira vogal, como em Montagraço, Montargil, Por-
talegre. Os quaes se haõ de screuer assi, Monfagra-
ço, Monfargil. Portalegre, Fonf arcada.
E da mesma maneira he necessário, para os no-
mes próprios & cognomes. Qua por o que vulgar-
mente dizemos. Fernaõ daluarez, Pedrafonso, tudo
junto, hemos de dizer separado, Fwnanéí Aluarez,
Pedr' Afonso. E assi naõ diremos, foaõ Dalmeida, Da-
guiar, Dantas, Doliueira, senaõ, d' Almeida, d' Aguiar,
a" Antas, tfOUucira, kc.
DA LlNGOA PORTVGVESA 199
DAS ABBREVIATVRAS.
à.JOCCEDE serem na scripturâ necessárias as ab-
breuiaturas, que já foraõ mui costumadas dos antigos,
para celeridade & presteza do screuer. Mas o abuso,
que entre nós anda, fora do costume d'outras nações
de abbreuiar as palauras per entrelinhas, se deue fu-
gir. Porque he remendar a scripturâ, que pode ir
limpa, & inteira. Qua nunca nos hemos desoccorrer
a screuer em spaço, s n naõ quando despois de tudo
scripto nos lembra algua cousa, que se houuera de
screuer em regra, que por nao hauer já lugar, amet-
temos em spaço, tirando a abbreuiaturado, til, que
he necessária, & naõ se pode poer em regra. Polo
que as abbreuiaturas, que houermos de fazer, naõ
sejaõ para poupar papel, senaõ para poupar tempo.
Porque screuendo em spaço, nao he abbreuiar, se-
naõ ntudar o lugar do papel,
Assi que nossas abbreuiaturas sejaõ de tal ma-
neira, que nas palauras, que staõ mui notórias, po-
nhamos letra por parte, & nas que o naõ forem tan-
to, ponhamos tantas letras em regra direira, ate que
fique maniíesto, que palauras saõ. As muiío notórias,
saõ as que andaõ em vso, & vaõ em consequência de
outras, como .S. por Senhor, & V.À. por Vossa Alteza.
V. E. Vossa Excellencia. V. S. Vossa Senhoria. V. M .
Vossa Mercê. F. P. Vossa Paternidade. V. R. Vossa
Reverencia. E por EIRei Nosso Senhor EIR. N. S. &
por Autor .A. & por reo .R.
Mas que nas outras partes, que naõ staõ rece-
bidas pelo vso, screuerem-se per uma letra, pore-
mos mais letras & em regra dereita, & naõ per en-
trelinha, como por Elrei Dom Sebastião Nosso Se-
uhor, El-rei D. Seb.N.S. E por Caio Mio Casar,
Ç. IuU Coes. \)oy Quinto Fábio Máximo, Q.Fab. Max.
200 Orthograpiiía
por Marco TuUio Cícero, M. T. Cícero, por Francis-
co, Franc. por Bartholomeu, Barthol. & por André,
And. & por supplicante, supp. E assi todas as mais
abbreuiaturas que se fazem em regra dereita com o,
til. como, apVo. ma snçã. & outras taes.
Mas deuemos ser auisados, que na abbreuiatura
de algiía palaura, nunqua ponhamos letras, que a pa-
laura scripta ao extenso naõ tenha, nem dobremos
letra algua, se outro si a naõ teem. Polo que por Gon-
çaluez, que he impossinel teer dous .//. não diremos,
Gllz. senaõ Giz nem por Fernandes, Frrz. mas Fri.
Item por euitar prolixidade de scriptura, se
costumaõ os números screuer per notas, & abbre-
uiaturas pela conta Romana assi,
Vnidade. I. II. III. II1I. V. VI. VIL VIII. IX.
Dezena. X. XX. XXX. XI. L. LX. LXX.
LXXX. XG.
Centena. C. CC. CCC. CCCC. D. DG. DCG.
DCCG. DCGCC.
Milhar M. IIM. IIIM. IIIIM. VM. VIM, VIIM.
yltití. ixm.
Dezena de ra. XVI. XXM. XXXM. XLM. LM. LXM.
LXXM. LXXXM. XCM.
Centena de m. C. CC. CCC. CCCC. D. DC. DCC. DCCG.
DCCCC.
Centena de m. CM. CCM. CCGM. CCCCM.DM. DCM.
DCCM. DCCCM. DCCCCM.
Conto 1". UM. I IIM. IIIIM. VM. VIM. VIIM
VMM. IXM.
Da Língoa Portvgveza
20t
.
REFORMAÇÃO
De cdg tias
palaaras que a gente vulgar vsa
& screve mal
ERMDAS
J\ Cipreste dignidade,
EMENDADAS
Arcipreste,
Acipreste aruore.
Cypresle.
Acolá.
Aquolá.
Ac u par.
Occupar.
Adaiaõ.
Deaõ ou Daiaò*.
Agabar.
Gabar.
Agardecer.
Agradescer.
Alanterna.
Lanterna.
Alcorcouado.
Corcovado.
Aiicornio.
Vnicornio,
Alifante.
Elefante.
Al ma rio.
ArmaPio.
Alraazona.
Amazona.
Aluidrar.
Arbitrar.
Aluidro.
Arbitro.
Antre.
Entre.
Apoupar.
Poupar.
Astim de terra.
Hastim.
Astrolomia.
Astronomia.
Aualuar.
Aualiar.
Aualuaçaõ.
Aualiaçaõ.
Auangelho.
Euangelho.
Auoar.
.
Voar.
Auto, por conucnicnte.
Apto.
Oaíxo.
Baxo.
Barrer.
Varrer.
Bisconde.
Vizconde.
Bilalha, bitualha.
Vilualha.
Boutiçar.
Baptizar.
Boutiço,
Baptismo.
202 Orihographía
ERRADAS
vjA, adverbio local.
EMENDADAS
Qua.
Ca, por quia.
Qua.
Calidade.
Qualidade.
Cantidade.
Quantidade,
Caronica, coronicn.
Chronica.
Caronista, coronista.
Chronista.
Chançaler.
Chanceller.
Cileiro.
Celleiro.
Cinco.
Cinquo.
Coadrar. (tiuo
Quadrar.
Como, aduerbio interroga -
Quomo? .
Compecar.
Começar.
Compeço.
Começo.
Concurdir.
Concluir.
Conselho por pouo.
Concelho.
Consinar. m
Consignar.
Consirar.
Considerar.
Contia.
Quantia.
Coresma.
Quaresma.
Creligo.
Clérigo.
Crelesia.
Cleresia.
J~/Edo meiminho.
Dedo minino.
Desenvorgonhado.
Desauergonhado.
Desdeque.
Desque.
Despeco-me.
Despido-me.
Disforme.
Deforme.
J^Dilos.
Edictos.
Emprouecer.
Empobrecer.
línfatiosi.
Emphiteusi.
Enfaliola.
Emphyteula.
Enlhear.
Enalhear, ou alienar.
Enleado.
Anleado.
Da Lingoa fortvgvesa 203
ERRADAS EMENDADAS
Entonces.
Entam.
Enxerca.
Enxerga.
Enxucaçâo.
Execução.
Enxucatar.
Executar.
Era, herua.
Hera.
Escuro.
Obscuro, oscuro.
Escuma.
Spuma.
Esprimcnlar.
Experimentar.
Esprilal.
Hospital.
Esprito.
Spirito.
Estiba.
Estima.
Estibar.
Estimar.
Es tormento
Instrumento.
Estreuer.
Atreuer.
Estribuidor.
Distribuidor.
Estribuiçaõ.
Distribuição.
1 Arnesia.
Frenesia, ou plirenesia
Farnetego.
Frenético, phrcnclico.
Farropea.
Ferropea.
Ferrugem de chaminé.
Felugem, de fuligo.
Filosomia.
Physionomia.
Fogir.
Fugir.
Frei ma.
Fleçma, ou fleuma.
Frol.
Flor.
Frolido.
Florido.
Fugareiro.
Fogareiro.
Ho, articulo.
.0.
1I1ESV.
IESV.
Impunar.
Impugnar.
Increo.
Incrédulo.
Intcrluculoria.
Inlerlocutoria.
Ioelhos.
Giolhos.
204 OhTHOGRAPHIA
ERRADAS
1V1 Agestade.
EMENDADAS
Majestade.
Mancipado.
Emancipado.
Manicordio.
Monocordio.
Ma ni fico.
Magnifico.
Manincolizado.
Melancolizado.
Memposteiro.
Mamposteiro.
Menagem.
Homenagem.
Menhãa.
Manhãa.
Mercaderia.
Mercadoria.
Mialheiro.
Mealheiro.
Miihor.
Melhor.
Miihoria.
Melhoria.
Monipodio.
Monopólio.
Mouro, deixo a vida.
Morro.
Mulher.
Molher.
Np •
t lEgrigente.
Negligente.
Negrigencia.
Negligencia.
Nunca.
Nunqna.
v_/Bsequias.
Exéquias.
Oucioso.
Ocioso.
p
Jl Eciçaô, precissaõ,
Procissão.
Pêra, preposição.
Para.
Pessuir.
Possuir.
Pirolas.
Piloras, ou pílulas.
Praceiro por cõpanheiro.
Parceiro.
Precurador.
Procurador.
Precuração.
Procuração.
Pregunta.
Pergunta.
Preguntar.
Perguntar.
Preimalica.
Pragmática.
D.v Lingoa Portvgvesa
205
ERRADAS
EMENDADAS
Priol.
Prior.
Proluxo.
Prolixo.
Prometor.
Promotor.
Proue.
Pobre.
Pruuico.
Publico.
Pruuicar.
Publicar.
Tf Quiçá.
Quiçais
1 1 Àbiscar.
Rebuscar.
Reinia.
Reuma.
Rendição de captiuos.
Redempção.
Resido.
Residuo.
Reueria.
Reuellia.
Rezào.
Razão.
Rindeiro.
Rendeiro.
Rolação.
Relação.
Rossio.
Ressio.
OAlmo.
Psalmo.
Sambixuga.
Sanguixuga.
Socresto.
Sequestro.
Solemne.
Solenne.
Solorgiaõ.
Cirurgião.
Solorgia.
Cirurgia.
Somana.
Semana.
Sorodio.
Serôdio.
T
-i Aballiaõ*.
TabellíaÕ.
Teima.
Thcma.
Theor.
Teor.
Theudo, manlheudo.
Teu do, mahteudo.
Tisouro.
Thesouro.
200 OkTHOGRAPIIIA
ERRADAS EMENDADAS
Titor. Tutor.
Titoria. Tutoria.
Trelado. Traslado.
Tribulo. Thuribulo.
v,
Eador. Vecdor.
Visorci. Vicerei, vizrei.
VOCÁBULOS
Que screvendo-se com diííerentes letras teem
differente significação.
H
VMA das cousas, per que se vee, quanto impor-
ta a razaô de bem screuer, ao entendimento dos con-
ceptos& palauras, he a diuersa significação, que mui-
tos vocábulos teem, por soo distarem de outros em
hua letra, per que fica conuencida a barbara practi-
ca de alguns, que por palliar sua ignorância, ou ne-
gligencia, dizem que pouco vaiscreuer com huas le-
tras, ou com outras, ou serem as letras singellas,
ou dobradas, como elles fazem, que fortuitamente as
dobrão, sem saberem onde, nem porque. Do que
poerei alguns vocábulos, dos que me occorreraõ, para
exemplo do que digo, & para emenda dos que o mal
screuem.
x\ Braço, co os braços. Abraso, com fogo.
Acamar o pam. Acamar os porcos.
Aço, ferro fino. Asso a carne.
Acoutar, ir ao couto. Açoutar, castigar.
Actor ou autor o que de- Auclor ou author de algu
manda. manda obra.
Da LlNGOA PORTV.VFZA
207
Açude, verbo.
Àmegeas, marisco.
Assas a carue, verbo.
Açude, de moinho.
Amexeas, frulta de aruore
Assaz, aduerbio.
B
'Arca que nauega.
Braça, medida.
Barça, vaso de palha,
Brasa, caruaõ acceso,
c
Àçar aues, ou animaes.
Caça de aues, ou animaes.
Caiado, branqueado.
Cal branca.
Canto, faço melodia.
Canto, cantiga.
Canto, esquina.
Ce, aduerbio de chamar.
Ceda de cauallo, ou porco.
Cegar dos olhos.
Célia de frade.
Celleiro de trigo.
Ceo d janto.
Ceo empyreo.
Ceo hei ceumcs.
Cerrar com fecho.
Cerra verbo, fecha.
Ceruo, Veado.
Cesta vaso de vime.
Ceuo, comida.
Cinto que cinge.
Como, mastigo.
Como por cum conjunção.
Concelho ajuntamento de
pouo.
Coso o panno cõ agulha.
Casar lomar molher, ou ma-
rido.
Casa em que habitamos.
Cajado, bordão.
Qual homem ?
Quanto, nome relatiuo.
Se, paiticula condicional.
Seda que vestimos.
Segar o pam.
Se lía de cauallo.
Selleiro que faz sellas.
Seo de Àbraham.
Serrar, com serra,
Serra instrumento de ser-
rar, ou montanha.
Seruo captiuo. (sexta.
Sesta nome numeral por
Seuo, gordura do animal.
Sinto, tomo sentimento.
(gatiuo.
Quomo? aduerbio inlerro-
Conselho dos sábios.
Cozo a carne no fogo.
203
Orthogkaphia
JCiMpoçar, melter no poço.
Era, verbo substanliuo.
Era dos annos.
Empossar, tomar posse.
Hera, herua.
JL Orça, fortaleza.
Forçado que padece força
Franca liberal.
1f Incerto, duuidoso.
Forca de ladrões.
Forcado de pau de duas
pontas.
França prouincia.
Inserto, enxerido.
JLjAço armadilha, ou pri-
são.
Liço de tear.
Louça de barro.
iTJLAça de ferro, ou pao.
Marquesa dignidade.
Meça, verbo de medir.
Moça, que serue.
% Ouço o que falia.
Lasso, froxo.
Liso, sem aspereza,
Lousa, armadilha.
Massa de farinha.
Marqueza nome próprio
Mesa cm que comemos.
Mossa de spada.
Ouso, atreuo-me.
1T Aço, casa real.
Parceiro, companheiro.
Passo, ando.
Peço com rogo.
Poço de agoa.
Preço valor da cousa.
Q
Veijada de queijo.
Passo de cinco pees.
Praceiro de praça, ou pu-
blico.
Pasço o gado.
Peso com as balanças.
Posso, lenho poder.
Preso no cárcere.
Queixada, parte da cabeça,
DA LlNGOA PORTVGVESA
209
Queijo de ouelhas.
Queijar, fazer queijos.
R
Aça, casla.
Raçaõ, quinhão, ou porção.
Ressio, campo largo.
Roça de mato.
Roido dos ralos, ou traça.
^f Spera, teem sperança,
verbo.
Queixo da cabeça.
Queixar, fazer queixume.
Rasa, chãa.
Razaõ, causa.
Rocio, chuiua meuda.
Rosa de cheiro.
Ruido de agoa.
Spliera, corpo redondo, no-
me.
% Vaso de prata, ou barro. Vazo, entorno, ou derramo,
VOCABVLOS
Que scriptos com letra singella
significaõ de bua maneira, & com dobrada
de outra.
Trás, aduerbio, retro. Attraz, verbo, attrahir.
A
AJArata de pouco preço.
Resta, animal.
Rota de calçar.
Botar, lançar.
Baralta, bicho.
Reesta, arma.
Rotta de vinho.
Bottar, perder a cor, ou
agudeza.
VJApa, os bois, verbo.
Caro, que custa muito.
Caso, acontecimento.
Caso cõ minha mulher.
Cera de mel.
Cometa, strella.
Coro de Igreja.
Cappa, vestido.
Carro, de bois.
Casso irrito cWaõ.
Cerra fecha verbo.
Cometta verbo.
Corro de louros.
14
210 OilTUOGRÂPHIA
*[ Encerar, vnlar com cera. Encerrar, fechar.
Fi
Ero, cruel.
Fora aduerbio local.
Foro, tributo.
Ferro, metal.
Forra, liure.
Forro, liure.
M.
Ascara, figura fingida. Mascarra de ca ruão.
Meses do anuo. Messes do campo.
Moleira do moinho. Mollcira de cabeça.
Mollinhar, chouer meudo.
Pccco, faço peccados, verbo.
Peega, prisão de bois.
Molinhar, moer.
I Eco, néscio, nome.
Pega, aue.
Pena, castigo.
Pêro, por pomo.
Polo por o ceu, ou norte."
Prego o crauo na parede.
Presa molher que staa em
prisão.
% Quinta nome numeral
de cinquo.
H Reuelar, descobrir.
c
OAca tirada para fora.
Se, conjunção dubitativa.
Sesta por sexta numeral.
Seraõ tempo da tarde,
v
Eelo, tu o vees.
Penna pluma de aues.
Perro, por cau.
Pollo, animal pequeno.
Preego o euangelbo no púl-
pito.
Pressa celeridade, ou traba-
lho.
Quintâa, casal.
^f Reuellar, ou rcbcllar,
resistir.
Sacca, sacco grande.
See cathedral.
Seesta hora da calma.
Serrão cousa da serra.
Vello de lâa.
DA LlNGOA POftTVGVESA
211
Velar de noite.
Vso, costume.
Yellar a freira, ou os ca-
sados.
Ysso, animal.
YOCABVLOS
Que mudado o accento, significaõ de
diuersa maneira.
rxCérlo dou no fito. Acerto, caso.
Amara, pretérito. Amará, futuro.
Auóo, ou auoa, mâi de meu Àuô , pai de meu pai , ou
pae, ou mãe. mãe.
^f Baia, corada. Baia, enseada.
VJÉo, empyrio.
Copo de beber.
Cór vontade.
Corte, quintal.
% Gosto, verbo.
% Molho de crauos.
Cêo, como a noite.
Copo, de lãa, ou algodão.
Cor, por color.
Corte delrei.
Gosto, nome.
Molho de coelho.
1 Égo, do rio.
Peso, com a balança.
Pésa-me a carga.
Pôde de presente.
OÁio, vestido.
Soldo, moeda.
Pego, aue.
Peso, com que pesaõ.
Pêsa-me, leuo desprazer.
Pôde, de pretérito.
Saio, verbo.
Soldo, stipendio.
% Véo, toucado.
Yêo, he vindo.
212 0«THOGR»PHIA
TRAGTADO DOS PONTOS
N
Das clausulas, & de outros que se põe nas
palauras, ou oraçaõ.
T
O processo da oraçaõ, ou pratica, que fazemos,
naturalmente usamos de híías distinções de pausas &
silencio, assi para o que ouue entender, & conceber
o que se diz, como para o que falia, tomar spirito&
vigor, para pronunciar. E assi heda mesma manei-
ra, quando screuemos. Porque como a scriptura he
bua repsesentaçaõ do que falíamos, para se tirar a
confusão, do que queremos dar a entender, & para
saber onde começamos & acabamos as clausulas,
vsamos de pontos, como de huas balisas & marcos, que
diuidaô as sentenças, &os membros de cada clau-
sula. E he taô importante o apontar a scriptura, quo
muitas vezes se ignora o verdadeiro sentido delia, por
falta ou erro dos pontos. Item serue para conceber
na memoria, o que se Ice. Porque os spaços ou bali-
sas fazem parecer o caminho mais pequeno, & ser
mais fácil, & o que nao stá dinidido, he mais com-
prido, & enfadonho.
E os pontos que neste tempo se vsâo, no partir
& diuidir as clausulas, assi na scriptura de maô, como
na stampada, saõ Ires ; virgula, comina, cólon, que
teem estas figuras.
Virgula ,
Co mm a :
Cólon
E a difíerença que ha entre estes três pontos he,
que a virgula se põe, & faz distinção, quando ainda
naõ stá dicto tal cousa, que dee sentido cheo, mas
soomente descansa para dizer mais.
DA LlNGOA POIÍTVGVESÀ 213
O segundo se põe, quando stá dicto, tanto, que
dá sentido, mas fica ainda mais para dizer, para per-
feição, & acabamento da sentença. O qual ponto se
ou ama comina, que quer dizer cortadura.
O terceiro se põe, quando teemos chea a sen-
tença, sem ficar delia mais que dizer. Chama-seco-
lon, que quer dizer membro, Porque elle he parte
do período, que he a clausula ou matéria acabada,
de que a baxo diremos mais. O qual período, que
quer dizer arrodeo, consta de três membros, & ao
menos de dous.
E os exemplos destes pontos, como se deuemvsar,
se podem veer nestas clausulas; Creo em Deos Padre,
iodo poderoso, criador do Ceo, &Ç da terra : & em Icsu
Chrislo, seu Filho, hum soo nosso Senhor. Amcrceaiuos
Senhor de mi, segando vossa grande misericórdia : &Ç
segundo a multidão de vossas misericórdias, apagai
minha maldade.
Item se ha de notar, que em bua clausula pode
vir hum comma, ou mais, sem nenhiía virgula, como
nestes exemplos : Senhor naõ mearguaesem vosso fu-
ror : nem me comprehendaes em vossa ira. No princi-
pio era a palaura ; & a palaura era acerca de Deos :
$* Deos era. a palaura.
E assi podem vir muitas virgulas sem algum comma,
como neste exemplo. Quem me dará pennas, como de
pomba, & voarei, SÇ descansarei ? E em verdade vos
digo, que quem naõ receber o regno de Deos, como
hum menino, naõ entrará nelle.
Item pode hauer clausulas, em que naõ entro
virgula, nem comma : senaõ soo o ponto final como
aqui. No principio criou Deos o Ceo & a terra. Qual
de vós me arguira de peccado?
Mas para saberdes vsar destes pontos em seu lugar,
heis de notar, que a virgula se põe para distinguir,
214 Ortuoguaphu
naõ soomente hua oração da outra, mas ainda para
distinguir huas dições de outras. Porque se põe des-
pos nomes adjectiuos, quando concorrem muitos em
hum mesmo caso, como aqui : Deuida cousa he ao
príncipe ser humano, liberal, justo, prudente, SÇ cons-
tante. Item se põe entre subslantiuos, como aqui.
As virtudes saõ quatro, fortaleza, justiça, temperança,
prudência. Item se põe despois de adjectiuo junto a
substantiuo assi : Homem de grande coração, de sin-
gular prudência, SÇ diligencia estremada. ItemsepÕe
entre aduerbios puros, sem outra cousa, como elle
o fez galantemente, valerosamente, ^ diligentemente.
Item se põe despos verbos simplrzes, sem algum caso
que rejaõ, como aqui : Pecquei em comer, em beber,
em rijr, em escarnecer. E o mais commummente, des-
pos verbos, que regem casos, que he a oração per-
fecta & acabada como seruir a Beos, amar o próxi-
mo, lembrar dq morte.
O comma se põe sempre em sentença suspensa,
& naõ acabada, como nos exemplos acima dictos.
Item se põe, quando na practica que fazemos, refe-
rimos palauras d'outrem, como aqui : S. Paulo diz :
fee sem obras he morta. E plataõ diz : Os homens naõ
nascerão para si soos. Item vsamos do comma quan-
do conuertemos as palauras em alguém, como na-
quellas palauras ; Direi a Beos : Naõ me condeneis :
ftlostrai-me como me julgaes assi.
O cólon & período tudo se assinala com hum pon-
to^ nisso ha pouco que dizer, pois saõ pontos, que
se põem no fim da sentença acabada, ou da clausu-
la Ioda, em que naõ ha que errar.
De maneira, que hum comma pode comprehen-
der muitas virgulas, & hum cólon muitos commas, &
hum período muitos cólons, desta maneira : O empe-
rador conhecendo, quam melhor he viuer em paz, que
DA LlNGOi PoiVfVGVESA 215
andar em guerra, fez concertos com elRei de França :
Sf para confirmar estes concertos, se viraõ em Nica :
da qual vista ficarão reconciliados, § os ponos mui con-
tentes. Agora se spera por a resolução do que se assen-
tou. Prazerá a Deos, será para quietação do pouo
Christaõ. Isto se chama peri odo, onde vai a clausula,
& matéria ioda acabada, incluindo Ires membros, que
saô três sentenças que vaõ distinctas com o ponto
final, que he o cólon.
De outro ponto vsaõ agora alguns modernos, que
consta de hum colou, na parte superior, & de hiía vir-
gula na inferior assi ; do qual dizem, que querem
vsar, onde naõ está dicto tanto, que se aja de poer
comina, nem tam pouco, que se aja de poer virgula.
Mas a meu veer, he inuençaõ de pouca vtilidade, &
desnecessária, & que eu naõ imitaria. Porque poios
pontos antigos se distingue tudo, & este faz mais
toruaçaõ, que distinção, que he o fim dos pontos.
A
LEM d'estes pontos, que seruem de demarcar as
clausulas, ha outros mais para outros effectos, cujas
figuras saô as seguintes.
Interrogatiuo ? Hyphen -u-
Admiratiuo _^ Asterisco
Paragrapho [/ — Obelisco - .
Parenthesis ( ) Brachia o
Meo circula ) Diuisaõ
Ápices •• Angulo a
O primeiro he o iníerrogante, que se poe no fim
da clausula, ou sentença interrogatiua.s. quando so
pergunta algíía cousa, como nestas palauras : Se vos
eu digo verdade, porque me naõ credes ? Qual de vós
me arguira de peccado ?
216 Orthograpiiia
OH. ponto he o admiratitio, que quasi se pare-
ce na figura como o interrogatiuo, senão que teera
a plica direita para cima. O qual se põe no fim da
clausula, que pronunciamos com algum espanto, ou
indignação, como neste exemplo: Quanta differença
ha de hum homem a outro! Com quam grande traba-
lho se sostenta a virtude !
O III. he oparagrapho, o qual he ponto de dis-
tinção, naõ de nua clausula a outra, mas de hum
traclado a outro, ou de huma matéria a outra, cuja
figura era esta \/. donde se tirou o § dos Iuristas.
Mas o próprio deste ponto he, poer-se no principio
da cousa diuidida, como o vulgarmente veemos usar.
O MI. he parenthesis, que he hiía formação de
diuersa sentença, & palauras estranhas, que se in-
põem na clausula, & se podem tirar, ficando perfecto
o sentido. As quaes palauras interpostas incluímos
em meo destes dous meos círculos. ( ). para deno-
tarmos, que saõ alheas d'aquella clausula, em que
se interpõem, como quando dizemos : Se accontecesse
caso ( o que Deos nao permita) que eu naõ torne da
Lídia: Bem auentaradis seraõ as republicas (segundo
dizia Platão) quando os Reis philosopharem , ouosphi-
losophos regerem. E aas vezes seruem estes dous meos
círculos, sem força de parenthesis, quando nelles in-
cluímos algiía addiçaõ, ou declaração nossa, sobre a
matéria que tracta algum author, que interpretamos.
O V. he hum meo circulo da parte directa, de que
vsamos, quando glossamos algaa sentença de algum
author, ou quando declaramos algum dicto, incluin-
do nelle as palauras glossadas assi.)
O VI. saõ huns ápices ou cimalhas, das quaes
vsamos, quando se ajuntaõ duas vogaes, que se po-
diaõ leer de duas maneiras, ou juntas em humasyl-
laba, ou separadas em duas. Polo que quando que-
Da LlNGOA PORTVGVESA 217
remos mostrar, que as vogaes se haõ de leer diui-
das, poemos os ápices nesta maneira, aio por mes-
tre de criação, catado por branqueado, a differença,
de cajado, por bordaõ. ia, pretérito imperfecto do
verbo vou, a differença de já, aduerbio temporal,
& assi Lotada, bota, arguir, saúde.
O VII. lie o hyphen, que quer dizer vniao, ou
ajuntamento. O qual se vsa de duas maneiras: a
primeira, quando se ajuntaô em bum corpo duasdi—
ções differentes, ficando feitas biía soo, como, pas-
sa ~ v - tempo, guarda - D - porta, vai - v ~ verde, MonC
~ v -agraço, & aquellas palauras Latinas, venum-v-*
dare, pessim-n-dure, ab~v-intestato, & outras mui-
tas. A outra maneira de que vsamos lie, quando per
caso, ou per erro, se acerta de screuer hua palaura
com as syllabas muito separadas humas das outras,
para denotarmos, que se haõ de ajuntar em hum
corpo, para formar hua dição, & tirar a duuida em
que staria o lector, como aqui : Confia-u-do navos-
sa palaura. De maneira que he sinal de vniaõ &
ajuntamento & como hua solda, & ferruminaçaõ" do
syllabas.
O VIII. he o asterisco, que quer dizer strelli-
nha. Do qual vsauao os antigos, & se vsa agora, quan-
do se notaõ alguns versos, ou palauras, que falta-
uaõ em o author, ou quando querem mostrar al-
gfías palauras, que saõ dignas de se notar, & he
assi, *
O IX. he o obelisco ■«. contrario ao asteris-
co, áf quer dizer pequena ponta de espeto ou seetta.
com que assinalauaõ os versos ou palauras adulteri-
nas, dalgum author. Das quaes duas figuras, o que
primeiro vsou, foi Arislarcho, na censura que fez
dos versos de Homero: Porque os bons & genuínos
notaua com asteriscos, & os mãos &adulterínoscom
^
248 OltTHOGKAPIlÍA
obeliscos. De quem despois os tomarão Origen
& S. Hieronymo, & os vsaraõ na Sagrada Scriptufí,
O X. he a nota, que os Gregos chamaõ brachia.
O que he sinal, de ser breue a vogal, sobre que se
põe. Da qual vsamos, quando queremos fazer diffe-
rença, em algua palaura, de que híía syllaba pode
ser longa & breue, & que sendo breue, teem diíTe
rente significado, de quando he longa, como, cag^i
do por o animal aquático, a que os Latinos chamao
testudo, & no Latim occldo por cair, a diííerença
de occido por matar.
O XI se chama nas impressões diuisao, quando
no fim da regra acerta de vijr híía diçaò, que por
naô caber nella, se parte, para se acabar na regra
seguinte. O qual se põe no fim da regra, na derra-
deira syllaba da diçaõ interrupta, desta maneira,
Anlo-nio, para demostrar que a diçaõ naô stá aca-
bada.
O XII, he o angulo ou meta, que os scriptores
de maõ vsaõ, quando lhe esquecerão palauras, que
vaõ per entrelinha, ou se põem na margem dascri-
ptura, com o qual mostramos que naquelle lugar
onde elle stá, se haõ demetter aslaes palauras des-
ta maneira.
do nascimento
Anno de nosso senhor Jesu Ghrislo.
FIM
liXDICE
PROLOGO do Editor d'esla ediçaõ m
Prologo do editor da edição de 1784 ........ iv
Dedicatória do Author . > . . vu
ORIGEM DA LINGOA P0RTUGUEZA
CAPITULO I. Da mudança que as línguas fazem
per discurso de tempo 1
CAP. II. Da lingoa que a principio se fallaua em
Hespanha 3
CÀP. III. Gomo os Hespanhoes tiueraõ letras an-
tes que os Romanos viessem a Hespanha 8
CAP. 1III. Da inuençaõ das letras, & sua antigui-
dade 11
CAP. V. Que as lingoas cada dia se renouão com
nouos vocábulos per que se deixaõ, ou emendaò"
os Antigos 13
CAP. VI. A lingoa que se oje falia em Portugal
donde tcue origem, & porque se chama Romance 18
CAP. VII. Das muitas maneiras per que se causou a
corrupção da lingoa Latina que em Hespanha se
fallaua na que se hoje falia 22
. Corrupção que se commetle na terminação das
palauras ibid.
. Da corrupção per diminuição de letras, ou syl-
labas .. ." 23
. Dos corruptos per accrescentamenloss de letras,
ou syllabas ibid.
. Dos corruptos per troca & trasmudaçaõ de nuas
leiras em outras ibid.
. Corrupção per troca de letras para outras não
semelhantes 2i
. Corrupção per traspassação de letras de um
lugar a outro ibid.
. Corrupção per mudança de género 25
220
. . Corrupção per mudança de numero 25
. . Corrupção per mudança do vocábulo em outra
fornia por a mudança da significação ibid.
. . Corrupção per impropriedade de significação
alhea \ . 2G
. . Corrupção de muitos parlicipios da voz passiua
em significação actiua ... 32
. . Corrupçõo que se faz trasladando muitos vocá-
bulos de huma significação cm outra, per huma
figura a que se chama Melaphora . . >, 33
CAP. Vlll. De alguns vocábulos portugueses to-
mados dos Latinos, que pella corrupção que se
delles fez estão obscuros 35
CAP. IX. Dos vocábulos que tomamos dos Gregos 40
CAP. X. Dos vocábulos que os Porluguezes toma-
rão dos Árabes 41
CAP. XI. Dos vocábulos que os Portugueses toma-
rão dos Fianceses ....... 45
CAP. XII. Dos vocábulos que tomamos dos Italia-
nos 52
CAP. XIII. Dos vocábulos tomados dos Alemães . . 5i
CAP. XIIII. Dos vocábulos que lemos tomados dos
Hebreos & Syros 56
CAP. XV. Dos vocábulos que nos ficarão dos Godos 58
CAP. XVI. Dos vocábulos que os Portugueses tem
seus natiuos, que naõ tomarão de outras gentes
que nós saibamos 60
CAP. XVII. De alguns vocábulos antigos Portugue-
ses, que se achâo cm scripluras, á sua interpre-
tação 70
CAP. XVIII. De alguns vocábulos que vsaô" os
plebeios, ou idiotas que os homens polidos naõ
deuem usar 72
CAP. XIX. Como a lingoa Portuguesa com as mais
lingoas vulgares em alguas cousas hc mais curta
que a Latina : 74
CAP. XX. Da copia da lingoa Portuguesa em de-
riuar de huma só palaura muitas mais que as dos
221
Lalinos 77
CAP. XXf. De algumas palauras Portuguezas d ma-
neiras de fallar, que se não podem bem explicar
per outras Latinas, nem de outra lingoa ....
CAP. XXIÍ. Porque os Portugueses naõ usurpaõ
tantos vocábulos dos Castelhanos como lomaõ de
outras Nações mais remotas 79
CAP. XXIII. Porque sfflfagaa Portuguesa se naõ
toma das outras nações com a facilidade, com
que os Portugueses tomaõ as outras lingoas . . 82
CAP. XXIlll. Que naõ he falta da bondade da lingoa
Portuguesa não ser commum a tantas gentes da
Europa, como a Castelhana 84
CAP. XXV. De" que lingoa tomarão os Portugueses
os vocábulos de que tiueram falta, ou lhe forem
necessários pêra ornamento do que fallaõ, ou scre-
uem 87
CAP. XX.YI. Da eleição que deuemos fazer dos vo-
cábulos, d do exame, d circunstancias delles . . 92
78
ORTHOGllArHIA DA LINGOA PORTUGUESA,
reduzida a Arte, d preceptos.
DEDICATÓRIA do Author. . 96
Da diffiniçaõ da Orlhographia, d da voz 102
Das letras, d de sua diuisaõ, d natureza ibid.
Da letra A, e das outras. 104, e seg
Da affinidadê. que algumas letras teem entre si, d
como se conuerlem buas em outras , . . 136
Dos diphthongos da lingoa Portuguesa 138
Das syllabas, d dições 146
Das letras em que as syllabas podem acabar no meo
das dições 147
í)as letras, em que se podem acabar as dições da
lingoa Portuguesa 150
Da diuisaõ das dições, d como se deuem separar as
syllabas ibid.
Das letras, que se podem ajuntara outras, na com-
222
posição das syllabas 153
Da diuisaõ das dições compostas. 154
Das letras, que se dobrão nas dições , . 155
Das dições, que dobrão as letras. 158, e seg. . . .
Das letras que se aspiraõ. 170
Das drções que aspiraõ C. .......... ibid.
« que aspiraõ P. . . . . 172
« que aspiraõ R. ^.f^n . ibid.
« que aspiraõ T. . . % «
Regras geraes da Orthographiada lingoa Portugue-
sa 174, e seg.
Da observação dos artículos, d como se deuem scre-
uer. . . . , 191
Dos accentos, á« quando os deuemos usar nascriptura 195
Dos apostrophos 197
Das abbreuiaturas 199
Reformação de algúas palauras que a gente vulgar
vsa & screue mal. . 201
Vocábulos que screuendo-se com differentes letras
teem differenle significação 206
Vocábulos que scriptos com letra singella signifi-
caõ de húa maneira, e com dobrada de outra. . 209
Vocábulos, que mudado o accento, significaõ dedi-
uersa maneira 211
Tratado dos pontos das clausulas, áde outros que
se põem nas palauras, ou oração 212
:
Il#l#l*
m.-m
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i 4 §, ■*■
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PC
5045
N8
I864
toes de Leão, Duarte
Origem, e orthographia da
lingoa portugueza Nova ed.,
eorr. e emendada
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