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Full text of "Os ciganos de Portugal; com um estudo sobre o calão. Memoria destinada a 10 sessão do Congresso Internacional dos Orientalistas"

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SOCIEDADE DE GEOGRAPHÍA DE LISBOA 

os CIGANOS 

DE 

CA)M UM ESTUDO SOBRE O GALÃO 

MEMORIA DESTIMDA A X SESSÃO 

no 

CONGRESSO INTERNACIONAL DOS ORIENTALISTAS 

POR 

F. ADOLPHO COELHO 

S. S. G. L. 




LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1892 



^ 



os CIGANOS DE PORTUGAL 



COM UM ESTUDO SOBRE O CALÃO 



SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA 

OS CIGANOS 

DE 

COM UM ESTUDO SOBRE O CALÃO 

MEMORIA DESTIMDA A X SESSÃO 

DO 

CONGRESSO INTERNACIONAL DOS ORIENTALISTAS 

POR 

F- ADOLPHO COELHO 
S. S. Q. L. 




LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 
189? 



Nuestra ventura, que fue cuntra nuz, 
Por tierraz estranaz nuz tiene perdidaz. 

G. Vicente, Farça das Ciganas. 

. . . somos senores de los campos, de los 
sembrados, de las selvas, de los montes, 

de las fuentes y de los rios 

. . . por dorados techos j suntuosos palá- 
cios estimamos estas baiTacas y movibles 
ranchos 

Cerrantea, La Jitanilla. 




1155349 



AO SENHOR 



a--A-ST03sr F-A-nis 



Meu querido amigo: 



Encontrei muitas e valiosissimas lições e direcção para 
os meus estudos em todos os seus escriptos, e mais de 
uma vez, nas horas de desalento, vieram as suas palavras 
aífectuosas insuflar-me o animo que me fallecia. Tinha eu, 
pois, razão sobeja para honrar a pagina de dedicatória de 
um livro meu com o seu nome illustre e venerado, não 
para pagar a divida, que não se paga, mas para provar 
que a tinha bem presente no meu espirito. 

Não era este volume de modestissimas aspirações o que 
eu destinava a esse preito, mas obra de mais fôlego e por 
ventura menos imperfeita. Todavia as circumstancias dolo- 
rosas da minha pátria, resultado previsto de causas contra 
as quaes combato ha mais de vinte annos, a incerteza do 
futuro, até o mais próximo, tiram-me a segurança da per- 
spectiva de levar a cabo os trabalhos a que tenho consa- 
grado mais tempo e mais sacrifícios. 

Agora que se me offerece ensejo de lhe enviar uma ex- 
pressão publica do meu respeito e reconhecimento, apro- 
veito-a, pedindo-lhe que, como critico a aprecie no pouco 
que ella vale, mas como amigo a considere só pelo que 
ella quer significar. 

Lisboa, 1 de setembro de 1892. 



F.Adoljpho Coelho. 



o presente trabalho é o desenvolvimento e complemento 
de uma curta noticia que ministrei aos redactores de Con- 
gros International d'anthropologie et d'archéologie préhistoT^ 
queSy Comjpte rendu de la neuvième session à Lishonne, 1880 
(Lisbonne, Typographie de FAcadémie Royale des Scien- 
ces, 1884, 8.° gr.) e que elles quizeram dar-me a honra de 
inserir nesse volume, de pag. 667 a 681, e fazer reprodu- 
zir numa tiragem á parte de ÕO exemplares. 

Divido o trabalho em três partes : 

I. A Mngua dos ciganos de Portugal. 

II. O calão ou gíria portuguesa e suas relações com a 
língua dos ciganos. 

III. Historia e esboço ethnographico dos ciganos de Por- 
tugal com dois appendices, um contendo documentos, outro 
sobre os ciganos do Brasil. 

Cumpre-me dizer que este trabalho teve por ponto de 
partida materiaes reunidos pelo intelligente e infatigável 
folk-lorista de Elvas, o sr. A. Thomaz Pires, que a pedido 
meu investigou a lingua e a ethnographia dos ciganos do 
Alemtejo, já directamente, já com o auxilio de amigos seus 
alemtejanos. 



Na Revista Lusitana, I (1887), pag. 3 a 20 publiquei 
um primeiro ensaio sobre a lingua dos ciganos do Alem- 
tejo, baseado sobre alguns curtos textos e uma lista de 
palavras que aquelle investigador me enviara, contendo ao 
todo uns 250 termos. 

Depois d'aquella publicação o sr. Pires enviou-me algu- 
mas phrases novas e uma nova coUecção de termos, co- 
lhido tudo da boca de um cigano pelo sr. Francisco Lobão 
Rasquilha, lavrador dafreguezia de Santa Eulália, no conce- 
lho de Elvas. De outro lado o redactor da Revista Lusitana, 
sr. José Leite de Vasconcellos, teve occasião de estudar 
a lingua de um grupo de ciganos que encontrou no Cadava] 
(Extremadura), naquelle mesmo anno, e enviou-me o resul- 
tado d'esse estudo. Um dos ciganos, que lhe ministrou os 
elementos da lingua, disse que elle e a sua gente eram 
originários dos arredores de Lisboa. O sr. Leite de Vas- 
concellos poude auxiliar-se do meu artigo, publicado na 
sua Revista, e como notou algumas differenças entre os 
dados alli reunidos e os que elle colheu, suppoz a existência 
de um dialecto particular nesses ciganos que se diziam da 
Extremadura. As differenças notadas existem, em parte 
pelo menos, também entre os ciganos do Alemtejo, como 
provam os factos novos que me deu a conhecer o sr. 
Pires ; assim a forma romano, notada pelo sr. Leite de 
Vasconcellos, existe também no Alemtejo. 

Com os novos subsidios, o vocabulário apresenta agora 
cerca do dobro dos termos ou formas differentes que tinha 
naquella publicação ; algumas formas não são dadas em ar- 
tigos especiaes, mas nos mesmos artigos que as variantes. 
Os termos ou formas novas colhidas na Extremadura pelo 
sr. Leite de Vasconcellos levam a abreviatura — Vasc, que 
as distingue das recebidas do Alemtejo. 

O confronto dos novos materiaes com os anteriores, nova 
revisão dos vocabulários gitanos á minha disposição per- 
mittiram diversas correcções nos textos e vocabulário, em 
que supprimi também alguns artigos ou por muito duvi- 
dosos ou por inúteis. 



A investigação do sr. Leite de Vasconcellos confirmou 
pela maior parte os dados do vocabulário publicado na 
Rtvista Lusitaiia: ao cigano por elle explorado só eram 
desconhecidos os seguintes termos d'aquelle vocabulário: 
hocunchas (mas conhecia a forma boque), chasaVj chupe%o, 
chuhelarj c}iorÍ7né, chiquel (mas conhecia a forma chuqael), 
churon, comhisarar, cratiá, culrró^ dicaní, erná^ gajon^ gor- 
helar, grupo, gustipehi, istitelar (mas conhecia ustilar), 
jucalorro, llen, millenj miquelar, olíbás, olipandó, pandelar, 
parnau (mas conhecia parnê), patarró, patê, pato, peti, 
raisaro, rebrandihi, satalla (mas ministrou o termo asita- 
lluna, que é connexo com satalla)^ somhrimé, sonsidelar, 
soltar, sorhar (mas conhecia a forma sohar), tardimen, ta- 
rihé (mas conhecia a forma estariben), taripenas (cfr. esta- 
ríberi)y trupo. Alguns desses termos não são do fundo tsi- 
gano europeu. 

Das formas e vocábulos novos recebidos ultimamente 
do Alemtejo vinham os seguintes na lista do sr. Leite de 
Vasconcellos: abillar, chor, foro, llaque, mol, najar, pa- 
pires, pallilli (paquilli)^ quer, romano, tusa. 

A reconhecida competência do sr. Leite de Vasconcel- 
los como dialectologo, a perfeita seriedade do sr. Thomaz 
Pires e seus collaboradores, todos os caracteres intrinsecos 
do que reuniram, incluindo os erros que revelam a novi- 
dade do assumpto para elles, provam-me á evidencia a 
perfeita authenticidade dos textos e do vocabulário. Se 
nalguns raríssimos casos houve burla, essa partiu dos ciga- 
nos. O sr. Pires conta, por exemplo, que um cigano a 
quem perguntou o que era lua na sua lingua, lhe respondeu 
que era balebá, que aliás significa toucinho. 

As relações entre o tsigano e as girias justifica a adjunc- 
ção a este trabalho da parte II. Se mais fosse preciso para 
me justificar, lembraria o exemplo de Pott, que na intro- 
ducção do vol. ii dos seus Zigeuner se occupou das girias 
em geral. Em verdade o assumpto tomou aqui maiores di- 
mensões do que era meu intuito primitivo dar-lhe e ainda 
assim deixei de inserir muitos factos que determinei. 



Os ciados do esboço ethnographico dos ciganos que se 
acha na parte III provêem principalmente do sr. Thomaz 
Pires, a quem devo também o traslado dos documentos que 
descobriu no Archivo da Gamara municipal de Elvas. 

Sem duvida mais largas investigações nos archivos e nos 
escriptores permittiriam alargar essa terceira parte; mas 
faltando-me o tempo para essas investigações, exprimo o 
desejo que outrem as faça. 

O fim principal d' este estudo é ministrar á sciencia os 
dados essenciaes de que ella carecia para completar com 
o conhecimento dos ciganos de Portugal o dos outros 
grupos irmãos, já mais ou menos estudados. O assumpto 
era, por assim dizer, virgem, pois apenas aqui e alli se 
encontrava alguma rara e accidental noticia dos nossos ci- 
ganos e acerca da lingua d'elles nem palavra em os nossos 
escriptores, que até foram sempre escassos no que res- 
peita aos ciganos em geral. Permitta- se-me que ponha 
em relevo, todavia, que esse mesmo estudo se liga ás 
minhas investigações geraes sobre as linguas mixtas, de 
que os dialectos tsiganos são tão frisantes exemplos, e sobre 
os problemas da ethnologia geral, taes como a persistência 
dos caracteres ethnicos, as migrações, as formas primitivas 
das relações internacionaes, problemas para cuja solução 
a tsiganologia ministra dados importantes. 

Julguei dever encerrar-me em muito modestos limites. 
Os problemas geraes relativos aos tsiganos (designo assim, 
com outros investigadores, os ciganos portugueses e todos 
os grupos parentes dos outros paizes) têem sido objecto de 
consideráveis trabalhos, a que envio o leitor desejoso de 
se informar, porque poderia dar apenas a minha opinião 
e de modo algum materiaes novos para resolver aquelles 
problemas; e essa mesma opinião não ofFereceria nada de 
novo, pois eu sigo simplesmente a direcção em que se col- 
locam os espirites menos phantasistas e que é a que pre- 
valecerá naturalmente na sciencia. 

O presente trabalho demonstra, creio, que os ciganos 
de Portugal devem ser considerados como um simples ramo 



dos gitanos de Hispanha; ora a língua d' estes foi objecto 
de diversas publicações, conhecidas, dos principaes glotto- 
logos que se occuparam da lingua tsigana, Pott, Ascoli e 
Miklosich; por isso limitei-me, em geral, a comparar o cigano 
com o gitano, sem ir mais longe, porque se quizesse pe- 
netrar nas fontes remotas do cigano e do gitano pouco mais 
poderia fazer que repetir o que escreveram aquelles inves- 
tigadores celebres, e esse pouco exigiria longos estudos 
para os quaes me faltam o tempo e os indispensáveis meios. 

A quem queira instruir-se sobre os tsiganos em geral 
indicarei, além dos trabalhos de Pott, Ascoli e Miklosich, 
cujos titules transcrevo mais abaixo, as seguintes publica- 
ções, em que, como nas d'esses glottologos, se acham abun- 
dantíssimas indicações bibliographicas, que não haveria uti- 
lidade nenhuma em repetir aqui: 

Origin of Gypsies in Edimhurgh Review, n.'^ 303. 

Francis H. Groome. Gipsies in The Encylopaedia hri- 
tannica^ vol. x (1879), pag. 611-618. 

Adriano Colocci. Gli Zingari. Storia âfun popolo errante, 
Turin, 1889. 

Guido Cora. Die Zigeuner in Das Ausland. Jahrgang 63 
(1890), n.°^ 31, 32, 33, 34, 36. 

Pischel. Die Heimat der Zigeuner in Deutsche Rundschau 
1883, Sept., pag. 353-375. 

Paul Bataíllard. Diversas memorias, cujos titulos se 
acham em Colocci. 

A. Pott in Internationale Zeitschriftfur aUgemeine Sprach- 
loissenschaft, II (1885), pp. 110-115. 



A LINGUADOS CIGANOS* 



a) Textos 



1. Ai chai! 

2. Gorobon de sanacay. 

3. CurrelalO; ustitelalo. 

4. El jambo se camela ru- 

mandinar. 

5. Manguinela el jambo. 
Ustilela ai jambo. 

6. Para j alar ter ela boque. 

7. Parnés de sanacay. 

8. Non li pineles. 

9. Mira que te dica. 

10. Sonsidela qu'el gajon 

diquela. 

11. Mira ese paio. 

12. Por la tasara di calicó ! 

13. Por la tardimen. 



O tu! (?) 

Um cordão de oiro. 

Bate-lhe, agarra-o. 

O homem que quer casar-se. 

Pede ao homem. 

Para comer se tem^fome. 
Moedas de oiro. 
Não lhe peças. 
Repara que te olha. 
Repara que o gajo está 

olhando. 
Olha esse estranho. 
Pela manhã. 
Pela tarde. 



1 Como a base principal da lingua dos ciganos de Portugal é o 
hispanhol, ainda que influenciado pelo português, emprego a ortho- 
graphia hispanhola. Represento todavia por x o som do port. eh 
no Sul. Sigo a disposição usual nos vocabulários portugueses. 



8 



14. Es di chibe. 

15. Médio chibe. 

16. Media arachí. 

17. Plasarela el lampio. 

18. Si chaló. 

19. Aplasarelate, abaixare- 

late. 

20. S'está chibando airún. 

21. Non le camelo. 

22. Ni dicalo. 

23. Miquela que m'istitelan. 

24. Miquela que lo ba ajus- 

ti sarar. 

25. Miquelame sorbar. 

26. Estoy acharán. 

27. Lo maráron en un castí. 

28. Estás machingamó. 

29. Por el palonó me quie- 

ren ustabar. 

30. Allá chalo. 

31. Ya chaso. 

32. Non pmeles eso. 

33. Te amarelo con una 

churí. 

34. Manguinela que non é 

pirabada. 

35. Pode pillar en todas las 

panís. 

36. Manguiiiela ó labrao- 

resa {ou laboroçal) que 
te dinele. 

37. Escusas de manguinar 

que non te camela di- 
nar (ou que non te di- 
nela). 



E de dia. 
Meio dia. 
Meia noite. 
Apaga a candeia. 
Foi-se embora. 
Abaixa-te. (?) 

Está-se abanando (á lettra: 

está-se deitando ar). 
Não o quero. 
Nem vê-lo. 

Deixa-me que me apanham. 
Deixa que o vá ajustar. 

Deixa-me dormir. 

Estou zangado. 

Mataram -no num poste, na 
forca. 

Estás bêbado. 

Querem-me roubar pelo cur- 
ral. 

Lá vou. 

Já venho. 

Não digas isso. 

Mato- te com uma faca. 

Dize-lhe que não é rouba- 
da. (?) 
Pode beber em todas as 
aguas. 
Pede ao lavrador que te dê. 



Escusas de pedir que não te 
quer dar {ou que não te 
dá). 



9 



38. Mecles! Non chingare- 

les mas con los ga- 
chés. 

39. Ai! mi patarró maró, a 

quien me combisararé 
yo? 

40. Chasa, manii! Ustila la 

pucf y amarila este 
jambo que bamos a ni- 
cobar los parnés. 

41. El sacramento Otibé sea 

el que benga en mi 
bea! 

42. Ay! el sacramiento Oti- 

bé que nos bá marar! 
Mira lo que querela 
{sic), Otibé!* 

43. Que chorró está el chibe 

que non pueden andar 
los chiqueles! 

44. Del posonó si chicubela 

la paní. 

45. Te bas alijerar tanto 

qui á luego los jam- 
bos nos ban a ustilar 
con el grupo di lo que 
ligarelas. 

46. La dicaní está abertisa- 

ra, a ber s'el jambo 
nos diquela, a ber se 
lo podemos ustabar. 

47. Entrun la callí á una 

camallí y ustiló dos 
diclés, y los jambos 



Alto ! Não ralhes mais com 
os collegas! 

Ai! meu pae morreu, a quem 
me encommendarei eu? 

Anda, homem! Toma a es- 
pingarda e mata esse ho- 
mem que vamos roubar- 
Ihe o dinheiro. 

O sacramento de Deus ve- 
nha em meu auxilio. 

Ai! o sacramento de Deus 
que nos vae matar! Olha 
o que fazes. Deus ! 

Que carregado está o dia que 
não podem andar os cães. 

Da nora se tira a agua. 

Vaes abarcando tanto que os 
homens vão-nos tirar com 
o vulto do que abarcas. 



A porta está aberta, a ver se 
o homem nos olha, a ver 
se o podemos roubar. 

Entrou a cigana numa loja e 
roubou dois lenços, e os 
homens atrás d'ella corre- 



1 Exclamação por occasião das trovoadas. 



10 



detrá si la chalaban y 
Tustilaran las dos di- 
clés ; á la taripenas la 
chibaran (ou la liga- 
raran). 

48. Non querela baguin. 

49. Escusas de manguiiiar 

que non te camela di- 
nar, ou que non te 
dinela. 

50. Terela alguna guchí. 

51. Terela bute pamés. 

52. Tu billelas ou te maque- 

las? 

53. Pinelale que non es ma- 

ladé. 

54. Be se te dinela. 

55. Bamos pirabala. 

56. Bamos? — Nanais, que 

está naracliicliunga. 

57. Me lo pinaran a mangue. 

58. No molachí. 

59. Guillemos aracarar. 

60. Bamos junar Otebel la 

canguerí ? 

61. Tusa chalelas. 

62. Amanga non terelo. 

63. Abillela, los jambos d'a- 

palé de trás de la 
suete. 

64. Abillela ó coi. 

65. Pasa médio chibe. 



ram e tiraram-lhe os dois 
lenços e á cadeia a leva- 



ram. 



Não faça caso. 

Escusas de pedir que não te 

quer dar, ou que não te 

dá. 

Tem alguma coisa. 
Tem muito dinheiro. 
Vens ou deixas-te (ficas)? 

Dize-lhe que não és rouba- 
da. 

Vê se te dá. 

Vamos violentá-la (futuere). 

Vamos (roubar)? — Não, que 
está a noite feia, tene- 
brosa. 

Contaram-m'o a mim. 

(Diz-se de um cobarde ?) 

Vamos fallar. 

Vamos ouvir missa? 

Tu sabes. 

Eu não tenho. 

Vem; os estranhos (os não 

ciganos) atrás da gente 

(correm). * 
Vem cá. 
Passa de meio dia (é tarde). 



1 Esta phrase trazia a traducçâo : olha que correm atrás de ti ; 
mas ahillelar significa vir; apalé detrás; poz-se, pois, no texto a 
traducçâo d'esse adverbio cigano. 



11 



66. Posta dei can. Pôr do sol. 

67. Plajo para las naclés. Rapé. 

68. Piar la cliaborilla. Irmã. 

69. Ron de mi piar. Cunhado (á letra: marido 

de meu irmão ou irmã). 

70. A noche estube en chique * 
Dama, para pirabar-te ; 
Pé^ non ha pódio sé, 
Qu'estabas con el arate. 

71. Catro cales me diiiaste 
Hermosisimo chupeiio^ 

Y yo te he dicho trinca el bato 
Qu'el arachí nos beremos ^. 

72. Por no haberle dinau el mando, 
Aora serrana me beo, 
Castigai-ta de sus manos ^. 

73. Eueruuo. Se tu paní fu- Janeiro. Se tu agua (chuva) 

rata chicubelas, en fora deitas (?) nos teus 

tus mulés me jinelo ; mortos me ca ; nem 

ni el chuquel á la o cão á rua pode sair em 

oricha puede sicabar teus dias. 
en tus chibes. 

74. Ferbruno. Como carne- Fevereiro. Como queres que 

las q'ustabele s'eres roube se és um leiteiro, se 
un lecheruno, si non não deixas roubar, porque 
miquelas ustabar, as noites são penosas; as 



1 Em (tua) casa. 

2 Fero. 

3 Deste-me um bellissimo beijo por quatro quartos ; e eu disse-te 
desvia (?) o pae ; que nos veremos á noite. 

* Texto evidentemente incorrecto. 



12 



porque las arachís 
son penosas ; las patís 
non mi miquelon, dei 
hir, desamarisar las 
petís. 

75. Marso. Como camelas, 
Marso, que yo baya 
a randaiv se tus panís 
son muchas, j yo non 
puedo colisarar ? Se 
ustabar puedo dos 
granis, los raisaros 
estan di trás, randalas 
he podido, y ora el 
pasisarar ? 



mãos não me deixam, com 
o frio, desamarrar as bes- 
tas. 



Março. Como queres, Mar- 
ço, que vá roubar, se as 
tuas aguas são muitas e eu 
não posso passar? Se rou- 
bar posso duas éguas, os 
ribeiros estão de trás, rou- 
bal-as pude, e agora pas- 
sar? 



76. Abriluncho. Abela con Abril. Vem com as favas no 
las habuncbas en el mandil. 
mandiluncho. 



77. Maio. En las fardisaras 
de mi romi mi sorbelo. 



Maio. Nas saias de minha 
mulher me durmo. 



78. Junioluncho. Los sega- Junho. Os segadores vão a 



brunchos ban a segui- 
sarar y los cales ban 
di trás, y nicobelan 
los guós, cando sor- 
bando s'están. 



segar e os ciganos vão^de- 
trás e furtam os burros 
quando dormindo s' estão. 



79. Julíuncho. Como las 
grafíís pones a hacer 
la muUa, sabiendo que 
acaban la mulla, y 
chuga, y salen los ca- 
les e se las nicobelan? 



Julho. Com as éguas pões a 
fazer a debulha, sabendo 
que acabam a debulha, 
e e saem os ciga- 
nos e as roubam? 



13 



80. Agustimcho. En la huer- Agosto. Na horta está o 



tisara sina el julay; 
solto se ya ; los chu- 
queles me ladrisare- 
lan, yo manró le 
chubelo, ya le chicu- 
belo dos petís que ba- 
riás son ya. 



hortelão; adormeceu já; 
os cães me ladram, eu pão 
lhe dou, já lhe furto duas 
bestas que grandes são já. 



81. Setembruncho. Como Setembro. Como deixas as 



miquelas las chorís 
en los palonolarés, 
siendo el mesuncho 
más contrariuncho de 
los gustipenís? Dejas- 
telas choriar, biene un 
calo y te las nicoba. 



mulas em os curraes, 
sendo o mez mais contra- 
rio dos roubos ? Deixaste- 
las roubar, vem um ciga- 
no e t'as rouba. 



82. Octubruncho. Está lo Outubro. Está o pastor na 



pastorchuncho en su 
chosimé, y los chu- 
queles ladrisarelan, y 
los cales le nicobelan 
las ernás. 



sua choça, e os cães la- 
dram e os ciganos lhe rou- 
bam as burras. 



83. Bíovembruncho ? 



Novembro ? 



84. Decembruncho. El me- 
suncho de las bocun- 
chas. Andan los cales 
de montuncho en 
montuncho para po- 
der jalar. Eneruno 
abela, y sicabamos a 
randar, pa benir bon 
tempisaro, pa los cha- 
borrillos poder jalar. 



Dezembro. O mez das fomes. 
Andam os ciganos de 
monte em monte para 
poder comer. Janeiro 
vem, e saímos a roubar, 
para vir bom tempo, para 
os filhos poderem comer. 



14 



h) Vocabulário 

Incluo neste vocabulário todos os termos próprios da 
lingua dos ciganos, ainda quando são derivados de palavras 
hispanholas ou portuguesas, ou quando são palavras his- 
panholas ou portuguesas, sem suffixo novo, mas com si- 
gnificação própria ao cigano, excluindo ou o que é sim- 
plesmente hispanhol ou português, ou ainda as formas 
mixtas hispano-portuguesas. 

Em as notas que seguem as definições, limito as minhas 
comparações, como já disse, ao tsigano ou gitano da His- 
panha. Essa parte comparativa seria talvez mais completa 
se eu tivesse á minha disposição as obras seguintes : 

R. Campuzano. Origen, usos y costumbres de los gitanos^ 
y diccionario de su dialecto. 2.^ edicion. Madrid, 1851. 

E. Cruzillo. Vocabulário dei dialecto gitano. Madrid, 1844. 

A. de C. Diccionario dei dialecto gitano. Origen y cos- 
tumbres de los gitanos. Coritiene mas de 4:500 vocês. 
Barcelona, 1846. 

D. A. Jimenez. Vocabulário dei dialecto gitano, con cerca 
de 3:000 palabras. 1.^ ed. 1846. 2.^ ed. Sevilla, 1853. 

V. de Rochas. Les Parias de France et d^Esjpagne (Cagots 
et Bohémiens). Paris, 1876. (Contém palavras do dialecto 
dos gitanos do norte de Hispanha.) 

A seguinte publicação é, segundo Pott, um extracto da 
de Borrow, abaixo citada: 

Hudson. Gli Zingari in Spagna. Milano, 1878. 

Os trabalhos que possuo sobre a lingua e litteratura dos 
tsiganos da Hispanha são os seguintes: 

George Borrow. The Zincali; or an account of the Gy- 
jpsies ofSpain. London, 1843. 2 vol. S.*', vol. ii. Appendix: 
The Zincali. Vocabulary oftheir language, pp. *3-*119. 



15 



El gitanismo. Historia, costumbres y dialecto de los gitanos^ 
por D. Francisco de Sales May o. Con un epítome de 
gramática gitana, primer estúdio filológico publicado 
hasta el dia, y un diccionario caló-castellano, que con- 
tiene, adernas de los significados, muchas frases ilustra- 
tivas de la acepcion propia de las palabras dudosas. 
Por D. Francisco Quindalé. Novíssima edicion. Madrid, 
1870. peq. 8.« 76-76, pp. 

Colecion de Cantes flamencosj, recogidos e anotados por 
Demófilo (António Machado y Alvarez). Sevilla. 1881, 
peq. 8.° 

Die Cantes flamencos, von H. Schuchardt. Halle a/S. 1881, 
8.® (Separatabdruck aus der Zeitschrift fur rom. Philo- 
logie, V.)* 

Francisque Michel. Le jpays Basque, sa jpo^ulation, sa lan- 
gue , ses moeurSj sa littérature, et sa musique. Paris, 1857, 
8.° Cap. VII: Les Bohémieíis du pays basque. Vocabu- 
laire p." 144-146. 

Os trabalhos scientificos de que me sirvo para o estudo 
dos dialectos tsiganos em geral são os seguintes : 

A. F. Pott. Die Zigeuner in Europa und Asien. Ethno- 
graphisch-linguistiche Untersuchungen, vornehmlich ihrer 
Herkunft und Sprache, nach gedruckten und unge- 
druckter Quellen. 2 vol. 8.« Halle, 1844-1845. 

G. I. Ascoli. Zigeunerisches. Besonders auch ais nachtrag 
zu dem Pott'schen werke «Die Zigeuner in Europa und 
Asien». Halle, 1865, 8.° 

Dr. Franz Micklosich. Ueher die Mundarten und Wander- 
ungen der Zigeuner Europa's. l-xii in Denkschriften der 
kaiserlichen Akademie der Wissenschaften. Philosophisch- 



1 Não esteve á miuha disposição o livro de Balsameda y Gonzalez, 
Primer cancionero de coplas fiamencas populares segun el estilo de 
Andalucia. Sevilla, 1881. Vid. sobre esse poeta flamenco F. Rodri- 
guez Marin, Cantos populares espanoles, vol. iii, pp. 230-234. 



16 



historische Classe. Wien, 1872 ss. Bd. xxr, xxii, xxiii, 
XXV, XXVI, XXVII, XXX, XXXI. — Beifrãge zur Kentniss 
der Zigeunermundarten. i-iv. Sitzungsberichte der kais. 
Akad. der Wissenschaften. Wien. Bd. Lxxvii, Lxxxiii, xc. 
Das três primeiras memorias cito a paginação da separata, 
das outras a paginação do corpo dos Denkschriften. 



abaixarelar, v. a. Abaixar. Vid. abaixisarelar. 

abaixisarelar, v. a. Abaixar. Port. abaixar. 

abalar, abillar, v. n.Vir, chegar. Git. ahillar, abillelar^ 
V. n. Venir, acudir. Mayo. Borrow. 

abertisara, s. e adj. f. Aberta. Port. aberta. 

abillelar, v. n. Vir. Git. abillelar, v. n. Venir, Uegar. 
Mayo. To come. Borrow. 

abriluiicho, s. f. Abril. Port. e hisp. abril. 

acais, s. m. pi. Olhos. Vasc. Vid. sacais. 

acbaráii, adj. Zangado. Git. jacharar^ v. a. Calentar, 
escaldar, abrasar. Mayo. To burn. Quemar. Borrow. ja- 
chare, s. m. Quemazon, tormento. Mayo. Esta derivação 
foi-me suggerida porDemóíilo, Colecíon de cantes fiamencos, 
p. 43, n. 1, e justiíica-se : 1.° phoneticamente, pela troca de 
h Q j em gitano e cigano (vid. jambo); 2.° morphologica- 
mente, porque acharán por *acharanô é uma forma do part. 
pret. frequente em tsigano (Miklosich, Abhandl. ii, 14), 
o que se confirma ainda pela forma achardó, colhida pelo 
sr. Leite de Vasconcellos, e que é um participio pret. 
em c?o, typo também frequente em tsigano (Miklosich, 
ibid.^ p. 8 segg. ; vid pinodó) ; 3.^ semanticamente pelo 
facto, entre outros, de que o hisp. quemar se tem os sen- 
tidos de — queimar-se, agastar-se, impacientar-se. aEstar 
acharado^ diz Demófilo, es otro modismo andaluz que si- 
gnifica estar con disgusto, pêro disgusto que tiene mas de 



17 



pena concentrada que de ira; la palabra acharão, acharado, 
es el participio dei verbo achararse que parece calo, aunque 
no lo bailamos en el diccionario de D. Francisco Quindaló. 
Este verbo se emplea mucho en Andalucia en sentido de 
incomodarse, enojarse, disgustarse». Demóíilo correlacio- 
na-o com git. jacharar. 

achardój adj. Zangado. Vasc. Vid. acharán. 

achochinar, v. a. Louvar. 

acotistamente, adv. Sem ser presentido. Vid. cotistá. 

agostuncho, s. m. Agosto. Port. e hisp. agosto. 

agullá, s. Laranja. Vid. gollás. 

airesunchoj s. m. Ar. Vasc. Hisp. aire. 

airun, s. m. Ar. Hisp. aire. 

ajustisarar, v. a. Ajustar. Hisp. ajustar. 

alijerar, v. a. Vid. ligarar. 

almarronas, s. f. pi. Alforges. Git. manrona, s. f. Alforja. 
Mayo. manronas, s. pi. Bags (for bread). BoRROW. 

alsiplesis, s. m. pi. Casas dos botões. 

amanga, (amangues.VASC), pron. pess. Eu. (Nós, nos?). 
Git. amangue, pron. pess. Nosotros, nosotras, nos (en ge- 
neral). Mayo. Vid. mangue. 

amarelar, v. a. Matar. Vid. marar. 

anela, s. f. T. giria. Agua. Vasc. Vid. infra calão ancia. 

ancian, s. m. Moinho. Qçii. ' asiá, s. m. Acena, molino. 
Mayo. azia, s. f. Mill. Borrow. osian. Schuchardt, p. 12. 

andantes, s. f. pi. T. giria. Meias. Vasc. Port. e hisp. 
andar. 

apalé, adv. Detrás. Git. ajpald, adv. Detrás. Mayo. 
Behind. Borrow. 

aparador, s. m. T. giria. Cão. Vasc. Port. e hisp. aparador. 

apatuscos, s. m. pi. T. giria. Aparelhos de montar. Mis- 
tura de port. aparelho ou hisp. aparejo com ^ovi. patusco, 
associado unicamente pelo som. 

aplasarelar, v. a. Pagar. Abaixar? Git. plasarar, v. a. 
Pagar, satisfazer, recompensar. Mayo, Borrow. 

aracaná, s. m. Guarda, policia. Vasc. Git. aracate, 
s. 2. Guarda. Mayo. s. m. Guard. Borrow. jaracaliales. 



18 



s. pi. Guards, ofíicers of the revenue. Guardas, carabi- 
neros. BORROW. 

aracarar, v. a. Vid. araquerar. 

arai, s. m. Cavalleiro. Vasc. Git. eray^ s. m. Caballero. 
Mayo. Gentleman, knight. BoRROW. 

arachí, s. f. Noite. Git. aracM, s. f. Noche. adv. De 
noche, por la noche. Mayo. Last night. Anoche. Borrow. 

araquerar, v. a. Fallar. Git. araquerar, v. a. Hablar, 
senalar, proclamar. Mayo. To speek, talk, call. BoRROW. 

arate, s. m. Sangue. Git. arate, s. m. Sangre, mens- 
truacion. Mayo. 

arboléo, s. na. Arvore. Vasc. Hisp. arhol^ aròoledo; i^ort. 
arvore, arvoredo. 

archí, s. f. Noite. Vasc. Vid. arachí. 

aricanás, s. m. pi. Botões. 

ascuuo, s. m. Abysmo? (Asco, nojo. Vasg. Port. e hisp. 
asco.) 

asitalluna, s. f. Azeitona. Vasc. Vid. satalla. 

atracaj^j s. f. Uva. Git. traquia, s. f. Uva. Mayo. Bor- 
ROW. 

B 

baguim, s. m. Caso (importância, consideração). Git. 
hajin, s. m. Eespeto, atencion. Mayo. 

balabá, (balbá. Vasc), s. m. Toucinho. Git. halelá, halibá, 
s. m. Tocino. Mayo. 

bale, s. m. Cabello. Los bales dei mui, bigode. Git. hal, 
hale, s. m. Pelo, cabello. Mayo. s. f. Hair. Pelo. Borrow. 

balebá, s. m. Vid. balabá. 

(balichó. Vasc), balicbil, s. m. Porco. Git. haliché, s. m. 
Cerdo, puerco. Mayo. balichó, s. m. Hog. Marrano. Bor- 
row. Cf. bato 2. 

balul, s. m. Azinheiro. 

(balulas. Vasc), balules, s. pi. Vid. balunes. 

balunes, s. m. pi. Calças. Git. baluné, s. m. Calson 
corto, balunés, s. pi. Pantaloons. Pantalones. Borro w. 

bancuncho, s. m. Banco. Vasc Port. e hisp. banco. 



19 



1. bar, s. f. Pedra. Yasc. Git. har, s. f. Piedra, roca. 
Mayo. Stone. Bokuow. 

2. bar, s. PIorta. Git. hal, s. f. Garden, kitchengarden. 
Jardin. Huerta. BoRROW. Noutros dialectos tsiganos hári^ 
har^ sebe, jardim. Miklosich, Jíhhandl., vii, 17õ. 

barbaló, adj. Pico. Git. harhaló, i, adj. Pico, exquisito. 
Mayo. Pich, strong. Rico, fiierte. Borrow. 

barbuiia, s. f. Barba. Vasc. Port. e hisp. harha. 

barco, s. m. Carneiro. Vid. barquí e braiiquiá. 

l)aró, adj. Grande. Git. haréj haró, harij, adj. Gran, 
grande, superior, excellente. Mayo. Great. BoRROW. A 
forma hariás do texto n.° 80 é o feminino plural, em git. 
bartaSj, com translação do accento. 

barquí, s. f. Ovelha. Vid. barco e branquiá. 

barr, s. Horta. Vid. bar 2. 

basisaro, s. m. Copo. Hisp. vaso. 

basní, basiló, s. Gallinha, gallo. Git. hasnó^ s. m. Gallo. 
Mayo. Cock. Borrow. 

baste, s. m. Mão. Vasc. Git. hate^ haste, s. f. Mano. 
Mayo. has^ s. f., hastes, pi. The hand. Mano. BoRROW. 

bata, s. f. Mãe. Git. hata, s. f. Madre. Mayo. 

1. bato, s. m. Pae. Git. hato, s. m. Padre. Mayo. 
Fatlier. BoRROW. 

2. bato, s. m. Porco. Bise. haticho, halicho, cochon. Fr. 
Michel, p. 144. 

bea, s. m. Auxilio. (Justiça. Vasc.) [Git. bea, s. f. Me- 
dida. Mayo]. 

bibiora, s. f. Abelha. Tsig. bise. hedeyo, abeille. Fr. 
Michel, p. 144. 

bicha, s. f. Cobra. Port. hicha. 

blUelar-se, v. refl. Vir. Vid. abillelar. 

binar, v. a. Vender. Git. hinar, v. a. Vender. Mayo. 
To sell. Borrow. 

blaucaera, s. f. T. giria. Cal. Vasc. Hisp. hlanco. 

bobe, s. f. Fava. Git. hohi, s. f. Haba. Mayo. hóhes, 
s. pi. Beans. Habas. Borrow. 

bocunchas, s. f. Fome. Vid. hoque. 



20 



boque, s. f. Fome. Git. hoqui, s. f. Hambre. Mayo. ho- 
quiy boquisj s. f. Hunger, famine. BORROW. 

brancuncho, adj. Branco. Vasc. Port. branco. 

branquiáj s. m. Carneiro; borrego, s. f. Cabra. Git. 
hracô, s. m. Carnero. hraqui, s. f. Oveja. hraquilô, i, s. 
Cordero, a. Mayo. hr acura, s. f. A sheep. Oveja. Borrow. 

braquíj s. f. Ovelha. Vasc. Vid. barquí e branquiá. 

1. b regue, s. m. Monte. Git. hreji, s. m. Field, moun- 
tain. Campo, monte. BoRROW. 

2. bregue, s. m. Anno. Git. hre^e, s. m. Ano. Mato. 
bucharronj s. m. Tiro. Git. hucharrar, v. a. Echar, arro- 
jar, lanzar, etc. Mayo. huchararj v. a. To shoot. BoRROW. 

budar, s. Porta. Git. hurda, s. f. Gate, door. Puerta. 

BORROW. 

bui, s. m. Membro viril (?). Git. hul, s. m. Orifício, ano. 
Mato. The anus. Borrow. 

bute, adv. Muito. Git. hut, adv. Muy. Mayo. huter^ hu- 
tré, adv. More. Mas. BoRROW. 



cabruncha, s. f. Cabra. Vasc. Port. e hisp. cabra. 

cachas, s. f. pi. Tesoira. Git. cacha, s. m. Tijera. Mayo. 
cachas, s. f. pi. Scissors. BoRROW. 

caíque, pron. indef. Ninguém. Git. caíque, pron. indef. 
Nadie. adj. 2. Ninguno, a. Mayo. 

cajuquí, s. f. Lua (?). (adj. f. Surda. Vasc.) [Git. caju- 
quyy s. f. File. Lima. BoRROW. cajuquí, adj. f. Surda. Mayo. 
A lua seria chamada a surda?] 

calduncho, s. m. Pão. Port. e hisp. caldo. 

cale, s. m. Moeda de cobre. Git. cale, s. m. Cuarto de- 
nario, moneda. Mayo. 

callardí, s. f. (Preta. Vasc.) Lucto. Morcella. Git. ca- 
llardí, adj. f. Negra. Vid. callardo, adj. Black. Negro. 
BORROW. 

callicó, calicó, s. m. Manhã. Git. callicó, s. m. y adv. 
Manana. Mayo. callicó, s. m. Dawn. Madrugada. Borrow. 



21 



calo, cale, adj. e s. m. Cigano, calli^ adj. e s. f. Cigana. 
Git. calo, caiu, adj. Gitano, a. Atezado, moreno, a. Mayo. 
calo, coloro, s. m. A Gypsy, a black. calli, s. f. A Gypsy 
woman. BoRROW. 

caraallí, (camellí. Vasc), s. f. Loja, casa de venda. Git. 
camení, s. f. Shop. Tienda. BoRROW. 

carabelés, s. m. Camarada (?). 

camelar, v. a. Querer, amar. (Vasc. dá camelo, como s. 
m. amor, amisade; mas é talvez 1.* pess. prés. ind.) Git. 
camelar, v. a. Querer, consentir, enamorar. Mayo. To love. 

BORROW. 

camelí, s. f. Prima (?). 

camiua, s. f. Caminho. Vasc. Hisp. camino, 

can, s. m. Sol. Git. cam, s. m. Sol. Mayo. cam, can, 
s. m. Sun. BoRROW. 

cangré, (cangrí. Vasc), canguerí, s. f. Igreja. Git. can- 
gari, cangrí, s. f. Iglesia. Mayo. Borrow. 

caní, s. f. Orelha. Git. cané, s. m. Oido. Mayo. cani, 
B. f. Ear. Oreja. BoRROW. 

carruncho, s. m. Carro. Vasc. Port. e Hisp. carro, 

cascabes, s. f. Tigella. Git. cascaraòi, s. f. Caldera. 
Mayo. 

castende, s. m. Varapau. Vasc. Vid. castí. 

(casté. Vasc), castí, s. m. Pau, pedaço de lenha. Git. 
casté, cate, s. m. Paio, baston; árbol. Mayo. 

centenate, s. m. Centeio. Vasc. Hisp. centeno. 

chadí, s. f. Feira. Vasc. Vid. chedé. 

chaborrí, chaborilla, s. f. Menina, cliaborron, s. m. Me- 
nino, chaborrillo, s. m. Filho. Git. chabó, i, s. Nino, mu- 
chacho, a. chabaró, i, s. Hijo, a. Mayo. 

chague, s. f. Couve. Git. chaja, s. f. Cabbage. Col. Bor- 
ro w. 

chai. A phrase ai chai ! veiu com a traducção : ó tu ! Mas 
Git. chai, s. f. (de chabi). Nina, mocita. Mayo. chai, s. pi. 
Children, fellows, Gypsies. Ninos, muchachos. Jitános. 
Borrow. 

chai, s. m. Herva. Git. cha, s. m. Yerba. Mayo. 



22 



chalar, v. n. Ir, andar, caminhar, correr, clialar-se, v. 
refl. Fugir. Git. chalar, v. Ir, andar, caminar, marchar; 
meter; pasar. Mayo. To walk^ to go. BoiiROW. 

chalelar, v. a. Saber. (jii. chanavj, v. a. Saber. Mayo. 
chanelar^ v. a. Entender, saber, conocer. Mayo. To know. 

BOEROW. 

chardó, s. m. Cobertor. 

charibéo, s. m. Cama. Vasc. Grit. cheripen, s. f. Lecho, 
cama. Mayo. charipé^ s. f. Bed, bedstead. Borrow. 

charó, s. m. Prato. Git. charó^ s. m. Plato. Mayo. 

chasar, v. n. Vir, andar. Git. chasar, v. a. Pasar, tras- 
ladar, conducir. Mai^o. 

chechipen, adv. Sim. Git. chachipé, chachipen, s. m. 
Verdad, realidad. Mayo. Truth. Borrow. 

chedé, s. f. Feira. Git. chardí, s. f. A fair, a market. 
Feria, cliati, s. f. fair. Feria. Borrow. 

chi, pron. indef. Nada. Git. chi, s. f. y adv. Nada. Mayo. 

chibar, v. a. Pôr, deitar. Git. chibar, v. a. Poner, po- 
sar; echar, tender, postrar; esconder, sembrar. Mayo. 
To cast, shoot. BoRROW. 

chibe, s. m. Dia. Git. chíhé, s. m. Dia. Mayo. Borrow. 

chichobo, s. m. Gato. Git. chichoji, s. Cat. Gato, BoR- 
ROW. 

chicubelar, v. a. Tirar, furtar. Git. sicohar, sicobelar, v. a. 
Sacar; repartir; saltar. Mayo. sicohar, v. a. To extract, 
puU out. Borrow. 

chindos, s. m. pi. (Cegos. Vasc.) Óculos. Git. chindó, í, 
adj. Ciego, a. Mayo. Borro av. 

chingarar, v. a. Ralhar. (Bri>íar. Vasc.) Git. chingarar, 
V. a. Disputar, reilir; reprender; guerrear. Mayo. To 
fight. Borrow. 

chliigarelar, v. n. Vid. chingarar. 

chiiigle, s. m. Cabrão. Chavelho. Git. jhiqalé, s. m. Ca- 
bron, cornudo. Mayo. sungaló, s. m. Traitor, he goat. Trai- 
dor, cabron. Borrow. 

chinutra, s. f. Estrella. Git. chimutri, s. f. Lua. Mayo. 
chimutra, s. f. Moon. BORROW. 



23 



chique. Esta palavra occorre numa quadra cigana 
(n.° 70). O sr. Pires traduz : tua casa. O sr. Leite de 
Vasconcellos verificou o sentido: casa. Pelo som só acho 
para comparar gitano chique, s. m. Lodo, fango. Mayo. 
s. f. Earth, ground. Tierra, suélo. BoRROW. 

chiquel, s. m. vid. chuquel. 

clioij chol, s. m. Cevada. Git. cho7; s. m. Cebada. 
Mayo. 

chor, s. m. Ladrão. Git. chor, s. m. Pecador. Mayo. 
Thief. Ladron. BoRROW. Vid. choriar. 

1. chorí, s. f. Mula. Fêmea (em geral). Git. chore, i, s. 
Mulo, a. Mayo. Borrow. 

2. chorí, s. f. Navalha. Git. churí^ s. f. Cuchillo, punal. 
choi^, s. f. Knife. Cuchillo, navaja. BoRROW. 

choriar, v. a. Roubar. Git. chorar', v. a. Bobar. Mayo. 

choro, s. m. Macho. Vid. chorí. 

choror(3, adj. Pobre. Vasc. Git. choror, chororó^ i, adj. 
Pobre, indigente. Mayo. chororo^ adj. Poor. BoRROW. 

chorrés, s. m. pi. Policias. Git. chorré^ adj. Feo, de- 
forme, maio, preverso, pecador. Mayo. 

chorró, adj. Frio, carregado, fallando do dia. (Zangado. 
Vasc). Git. chorré^ i; adj. Feo, a, deforme. Maio, perverso, 
pecador, a. Mayo, choro; s. f. adj. Thief, thievish, evil. La- 
dron, maio. Borrow. 

chosimé, s. f. Choça. Der. de port. choça, com o suffixo 
tsig. men {== me), 

chubelar, v. a. Dar? [Git. rJiohelar^ v. a. Rociar, mojar, 
lavar. Mayo. chohar, chohelar, v. a. To wash. Lavar. Bor- 
ro w]. 

chuchas, s. f. pi. Seios de mulher. Git. chuchai, s. f. 
Teta, pecho. Mayo. chucha, s. f. Breast, pap. Pecho. 
Borrow. 

chuga? Significação incerta. Textos, n.° 79. 

chunga, s. f. Mulher feia. Vid. o seguinte. 

chuiigo, adj. Feio. Git. chungalo, chungo, adj. Ugly, 
heavy. Feo, pesado. Borrow. A palavra falta em Mayo, 
que traz todavia os derivados chungalipen, chungalo, s. m. 



24 



Tentacion, maldad de pensamiento ; significa também : 
maio. 

Como rebienta un cânon, 

A fuersa e chungas partias 

Tengo e rebenta yo. 

Demofilo, Cantes flamencos, p. 13, n.** 63. 

Yo no se porque motibo 
Tan chungamente me pagas, 
Jasiéndolo bien contigo. 

Ibid., p. 74, n.« 389. 

chupa, s. f. Jaqueta. Vasc. 

chupeno, s. m. Beijo. Git. chumendó, chupendó^ s. f. 
Beso. Mayo. Borro w. 

chuquel, s. m. Cão. Git. chuquel, s. m. Perro. Mayo. 
chuque, chuquel, s. m. Dog. Perro. BORROW. 

chuquela, s. f. (Cadella. Vasc.) Ralhona. Vid. chuquel. 

churdiní, s. f. Facada. Git. churdina^ s. f. Dagger-blow. 
Punalada. BORROW. 

chupí, s. f. Navalha. Git. churi, s. f. Cuchillo, punal. 
Mayo. Vid. chorí 2. 

churon, b. Arvore. Provavelmente do portuguez chorão, 
espécie de salgueiro. 

chute, s. m. Leite. Git. chuti, s. f. Leche. Mayo. Milk. 

BORROW. 

cicubar-se, v. refl. Vid. cicubelar-se. 

cicubelar-se, v. refl. Retirar-se, ir-se embora. Cf. chi- 
cubelar. 

clalles, s. m. Rei. Vasc. Git. crally, s. m. Rey. Mayo. 
crallis, s. m. King. BoRROW. 

clallesa, s. f. Rainha. Vasc. Vid. clalles. Git. crallisa, 
s. f. Reina. Mayo. Queen. Borro w. 

clechí, s. f. Bolsa (?). Vasc. [Git. clicjii, s. f. Llave, 
clave. Mayo. Key. BoRROW.] 

coi, adv. Cá, aqui. Git. acoi, adv. Aqui, acá. Mayo. 
Here. Aqui. Borrow. 

colcorró, adj. Sósinho. Git. colcoré, colcorô, í, adj. Solo, 
único. Mayo. colcoro, adj. Alone, BoRROW. 



25 



colisarar, v. a. Passar (o rio) (?) 

colpiche, s. m. Arroz. Git. corpiche^ s. m. Arroz. Mayo. 
corpichí, s. f. Rice. Arroz. BoRROW. 

combisarar, v. a. Encommendar (?) 

contrariuucho, adj. Contrario. 

coro, s. m. Cântaro. Git. corá, s. m. Cântaro. Mayo. 
Pitcher. BoRROW. 

correllar, currelar, v. a. Bater, trabalhar. Git. curelar, 
V. a. Castigar, penar; trabajar. Mayo. curelô, s. m. Trouble, 
pain. Trabajo, pena. curarar, v. a. Ultrajar, golpear, pegar. 
Mayo. curar, v. a. To strike, do, work. Pegar, hacer, tra- 
bajar. Borro w. 

costiuar, v. a. Montar. Git. costunar, v. a. Levantar, 
alzar, colmar. Mayo. v. n. To mount. Montar. BoRROW. 

costinelar, v. a. Vid. costiuar. 

cotistá (a), loc. adv. Sem ser presentido. Cf. acotista- 
mente. 

cotobillo, s. m. Cotovello. Vasc. Port. cotovello, com 
troca de suffixo port. ello por hisp. illo. 

cratiá, s. f. Laranja. O cigano do Brasil tem gerta, la- 
ranja; o gitano tem gerta, orelha (Mayo), que é propria- 
mente um termo de germania. O hisp. naranja ter-se-ha 
tornado oranja (cf. fr. orangej e oranja assimilado a oreja 
e esta substituída por gerta, synonymo, pelos processos da 
formação das gírias. O endurecimento da pronuncia do g 
(cí. git. gi e gui, etc.) poderia ser o ponto de partida de uma 
forma greta, creta. Mas dou isto como simples hypothese. 

cribó, s. m. Compadre. Git. quirihó, s. m. Compadre. 
Mayo. Godfather. Borrow. 

culebra, s. f. Cinta. Germânia: culehra, s. f. Fajã, ce- 
nidor. Mayo. 

curajaui, s. f. Abbadessa. (Ama de padre. Vasc). Vid. 
o seguinte. 

curajay, s. m. Padre (cura). [Git. corajai, s. pi. The 
Moors. Los Moros. Borrow. Melhor git. arajay, s. m. Friar. 
Frayle. BoRROW. Mayo. Houve talvez confusão das duas 
palavras.] 



26 



cupchelo, s. m. Braço. Vasc. 

culiTÓ, s. m. Abegâo. Git. curará, i, s. Obrero, traba- 
jador, ejecutor, a. Mayo. 

currar, v. a. Açoutar. Git. curarar, v. a. Ultrajar, 
golpear, pegar. Mayo. curar, v. a. To strike, do, work. 
Pegar, hacer, trabajar. BoRROW. Vid. correllar. 



D 



dai, s. f. Mãe. Git. dai, s. f. Madre (en general). MayO- 
Mother (projperly, Nurse). BoRROW. 

danes. s. m. pi. Alhos. Sem duvida = daíies^ cf. port. 
dentes d' alho. 

daííes, (danes. Vasc), s. m. pi. Dentes. Git. dani, s. f. 
Diente. Mayo. Borrow. 

debel, s. m. Deus. Git. dehel, s. m. Dios (en general). 
Mayo. God. Borrow. 

desamarisar, v. a. Desamarrar. Port. e bisp. desamarrar. 

decembruncho, s. m. Dezembro. Port. dezembro, liisp. 
deciembre. 

deuncho, s. m. Dedo. Hisp. dialectal deo por dedo. 
Vasc. 

dicaíií, s. f. Porta, janella. Git. dicahi, s. f. Mirada. 
Mayo. dicaní, s. f. Window. Ventana. BoRROW. 

dicar, v. a. Ver. Git. dicar, v. a. Ver, percibir, acochar. 
Mayo. To see. Borrow. 

diclé, s. ra. Lenço. Git. dicló, s. m. Lienzo, paifial. 
Mayo. Handkerchief, clout. Panuelo, panai. BoRROW. 

dicló, s. m. Lenço. Vid. o anterior. 

dineló, i, s. Peru, a (?). Git. díneló, lli, adj. Necio, louco, 
desatinado, disoluto, a. Mayo, dinelô, s. e adj. Fool. Tonto. 
Borrow. No argot dinde significa tolo. 

diiiar, v. a. Dar. Git. dinar, v. a. Dar, entregar. Mayo. 
To give. Borrow. 

diíielar, v. a. Dar. Git. dinelar, v. a. Dar, conceder, 
ofrecer. Mayo. To give. Borrow. 



27 



diquelar, v. a. Ver. Git. díquelar, v. a. Attender, mirar. 
Mayo. 

douares, s. m. Soldado. Git. jundunar, s. m. Soldado. 
Mayo. Soldier. BoiuíOW. Cf. Imiidunal. 

doudéscaro, s. m. Candieiro. Git. dundisqueró^ s. m. 
Candiloii, velon. Mayo. dandesquero, s. m. Lanip, candle. 
Candil. BORKOW. 

droir, s. m. Caminho. Git. drun, druné^ s. m. Camiiio, 
viaje. Mayo. Road. Borro w. 



ejeró, s. m. Cabeça. Git. jeró, s. m. Cabeza, cmnbre, 
etc. Mayo. Head. Borro w. 

eiieinmo, s. m. Janeiro. Git. inerin^ s. m. Enero. Mayo. 
Borro w. Hisp. eiuro. 

eragar, s. m. Padre. Git. erajay, i^ s. Sacerdote, isa. 
Fraile. Mayo. arajay, s. m. Fraile. Mayo. Friar. BoRROW. 
Cf. curagaj^ 

eresí, s. f. Eira (?). Git. eresí^ s. f. Vina. Mai^o. eresia, 
s. f. Vine, vineyard. BORROW. 

eruá, s. f. Burra. [Git.- eriné^ s. m. Cerdo. Mayo. eri- 
hes^ 8. pi. Hogs. BoRROW.] 

estache, s. m. Chapéu. Git. estache, s. m. Sombrero 
(hongo, chambergo). Mayo. Hat. BoRROW. 

estaíia, s. f. Estrebaria. Git. estana^, s. f. Tienda, co- 
vacha, puesto de vender. Mayo. 

(estaribeii. Vasc), esteribin, s. m. Cadeia, prisão. Git. 
estaríbel, estar ipel, s. m. Carcel, prision. Mayo. estar ipel, 
s. f. Prison. Borro w. 

estripamulés, s. m. Coveiro. Palavra composta, cujo pri- 
meiro elemento é sem duvida o port. estripa^ v. a. estripar^ 
e segundo o git. mulo, llí, adj. Muerto, defunto, a. Mayo. 
mulo_, s. m. A dead man. BoRROW. Vid. mulé. 



28 



fajima, s. f. Faixa. Hisp. fajã. 

fardisara, s. f. Saia. Git. fardí, s. m. Eopa, ropage. Cf. 
port. farda. 

ferbruuoj s. m. Fevereiro. Hisp. fehrero. 

floruiicha, s. f. Flor. Port. e hisp. flor. 

foro, s. m. Cidade. Git. foro, s. m. Ciudad. Mayo. City. 
BORROW. 

frumachos, s. m. pi. Cabellos. De port. pluma, plumacho. 
Vaso. 

fupata, adv. Fora. Port. fora, hisp. fuera. 

fusca, s. f. Espingarda. Git. pusca, s. f. Escopeta, Mayo. 
BoRROW. Vid. puca. 



gaché, s. m. CoUega. (Um quidam. Vasc). Git. gaché, 
gachô, s. m. Varon, mancebo. Mayo. gachó, s. m. A gentle- 
man. Caballero. — Properly, Any kind of person who 
is not a Gypsy. Cualquiér hombre que no sea Jitáno. 
BORROW. 

gajon, s. m. Gajo. Git. gachó. Vid. gaché. 

gallardíj s. f. Pólvora (a negra). Git. gallardó, i, s. 
Negro, a. Mayo. 

galler, s. m. Figo. Vasc. 

galluncho, s. m. Gallo. Hisp. gallo. 

gani, s. f. Burra. Git. grení, s. f. Burra. Mayo. grafíij 
s. f. Maré. legua. BoRROW. 

garabar, v. a. Guardar. Git. garabar, v. a. Enterrar, 
sepultar, guardar. Mayo. garabelar, v. To be on one's guard, 
to guard. BoRROW. 

garbo, s. m. Relógio. Git. pajardo, s. m. Watch. Re- 
loj. BORROW. 

gate, s. m. Camisa. Git. gate, s. m. Túnica, camisa. 
Mayo. Shirt. Borro w. 

gatuncho, s. m. Gato. (Cão. Vasc). Port. e hisp. gato. 



29 



gau, s. m. Aldeia. Git. gau^ s. m. Logar, pueblo, aldeã, 
granja. Mayo. gao, s. m. Town, village. Pueblo. BoRROW. 

gaubarí, s. Cidade : gau -j- baró. 

goi, s. f. Morcella. Git. goji, s. f. Salchicba. Mayo. 

goUás, s. f. pi. Laranjas. Vasc. Propriamente : doces. Git. 
gulôy llíy adj. Dulce. Mayo. Em tsig. bohemio gudlo, café. 

gorbelar, v. a. Apanhar. Git. golheri, s. f. Crop, harvest. 
Cosécba. BoRROW. 
. gorobó, goroboii, s. m. Cordão. 

goroes, s. pi. Pernas. Git. goro, s. m. Potro. Mayo. 

grai, s. m. Cavallo. Git. gra^ s. m. Bestia. Caballeria. 
Mayo. Horse. Caballo. Borro w. 

grani, (gresní. Vasc). Égua. Git. grahi, s. f. Maré. 
legua. Borro w. grasrli, s. f. Yegua. Mayo. 

grupo, s. m. Vulto. Comp. trupe. 

guchí, s. f. Coisa. Git. huchi, s. f. Cosa, vision. Mayo. 
Anything. etc, BoRROW. 

gué, s. m. Vid. guer. 

guenassuertes, s. f. pi. Fortuna. Hisp. dialectal gxieno, 
por bueno, e suerte. 

guer, s. m. Burro. Git. gel, grei, s. m. Asno, burro. 
Mayo. guel, s. m. Donkej, ass. Borrico, asno. Borro w. 

gueriní, s. f. Burra. Vid. guer. 

guillabar, v. a. Cantar. Git. guillàbar, v. a. To sing. 
BoRROW. guiyalar, guiyabelar, v. a. Cantar. Mayo. 

guillar, v. n. Ir. Git. guillar, v. n. Ir aprisa ó de re- 
pente, echar a andar. Mayo. 

guil, guir, s. m. Trigo. Git. gi, gui, s. f. Trigo. Mayo. 
gi, jil, s. m. Wheat. BoRROW. Esta palavra foi dada na i?e- 
vista lusitana, I, 12, com a significação de «toucinho», que 
supprimo por duvidosa. 

gupui, s. m. ou f. Boi, vacca. Git. goruy, gruy, s. m. 
Buey. Mayo. Ox. Borrow. 

gustipení, s. m. Koubo. 



30 



H 



habiiuclia, s. f. Fava. Hesp. haba. 

hacais, s. m. pi. Vid. sacais. 

haller, s. m. Vid. galler. 

liarame, s. Jaqueta. 

liarou (h aspirado), s. m. Pé. Cp. goroes. Vasc. 

her Qi aspirado), s. m. Burro. Vasc. Vid. guer. 

(hil. Vasc), hir, s. ra. Frio. Git. jil, s. m. Cold. Frio. 
BORROW. adj. 2. Fresco, a. MayÔ. jir, s. m. Cold. Frio. 
BORROW. 

horobar, s. Trovoada grande (?). Vid. orobelar. 

huertisara^ s. f. Horta. Hesp. liuerta. 

huiidunal {li aspirado), s. m. Soldado. Vasc. Git. jundóy 
jundunar, junduné, s. m. Soldado. Mayo. jundunar^ s. m. 
Soldier. BoRROW. 



istiteJar, v. a. Apanhar. É talvez erro por ustilelar^ 
vid. ustilav. 



jalar, v. a. Comer. Git. jalar^ v. a. comer, absorber; 
disipar. Mayo. To eat. Comer. Borrow. 

jamar, v. a. Comer. Git. jamar, v. a. Comer. Mayo. 
To eat. BoRROW. 

jamba, s. f. Mulher estranha, que não pertence á tribu. 
Vid. jambo. 

jambo, s. m. Homem estranho, que não pertence á tribu. 
Git. hamhé, s. m. Gente, muchedumbre. Mayo. Jiamho^ 
B. m. One who is not a Gypsy. El que no es Jitáno. BORROW. 

jambobaró, s. m. Auctoridade superior, juiz. jambo -[- 
baró. 

jinelar, v. a. Cacare. Git. jinar^ v. n. To exonerate the 
belly. Descargár el vi entre. BoRROW. 

jocar, adj. Bonito. Vid. jucalorro e ojacá. 



31 



jojoy, s. 111. Lebre. Git. jojoy, s. m. Conejo. Mayo. 
A hare. BoRKOW. 

jucalorro, adj. Bonito, git. jucal^ í, adj. Lovely, gene- 
roíis. Herinoso, generoso, làoduov^. jucal, juncal, adj. 2. 
Generoso, liberal, esplendido, a. Mayo. 

julay, s. m. (Dono. Vasc.) Hortelão. Git. julay, s. m. 
Ainoy duefío, mesonero. Mayo. Master. Borkow. 

juliunclio, s. m. Julho. Hisp. julio. 

junar, v. a. Escutar. Git. junar, v. a. Oir, escuchar. 
Mayo. To hear, listen. Borrow. Vid. junelar. 

junelar, v. a. Escutar, ouvir, saber. Git. junelar, v. a. 
Oir, percibir, atender. Mayo. 

jiiiiiolunclio, s. m. Junho. Hisp. junw. 



labiunclio, s. m. Lábio. Vasc. Port. e hisp. lahio. 

laborosal, labrosal, s. m. Lavrador. Vid. labraoresa. 

lahraoresa, s. m. Lavrador. Hisp. lahrador. 

ladrisarelar, v. n. Ladrar. Port. e Hisp. ladrar. 

larapio, s. m. Azeite. Candeia. Candieiro. Git. lampio, 
s. m. Olco. Mayo. 

? las dos pimbrés. Meias. Vid. pirabré. 

lecheruno, s. m. Leiteiro. Hisp. lechero. 

lechute, s. m. Leite. Hisp. leche. 

lias, s. f. Carta. Git. Ua, s. f. Carta; credencial, pa- 
tente. Mayo. li, s. f. Paper, a letter. BoRROW. 

libanó, s. m. Administrador ( auctoridade) . Git. lihanó, 
s. m. Escribano, escriba. Mayo. Notary public. Borrow. 

ligarar, v. a. (Levar. Vasc.) Prender. Git. liguerár. v. a. 
To cariy. Llevár. Borrow. legerar, liquerar, v. a. Llevar, 
Mayo. ou de port. hisp. ligar? Yiá. os seguintes. 

ligarelar, v. a. Vid. ligarar. 

ligerar, v. a. (Levar, agarrar. Vasc.) Abarcar. Vid. o 
precedente e conf. as significações do git. liquerar, v. a. 
Llevar, conducir, cargar. Mayo. 



32 



liles, s. Carta de jogar. Git. lel^ s. m. Librito, cartera. 
Mayo. li, s. f. Paper, a letter. BoRROW. 

linguncha, s. f. Lingua. Vasc. Port. lingiui. 

livruncho, s. m. Livro. Vasc. Port. livro. 

Uaque, s. m. (Lume. Vasc.) Phosphoro. Git. yaque, 
s. m. Fuego, lumbre, etc. Mayo. Fire. Borro w. 

lleii, s. m. Rio, ribeira. Git. len, leste, s. m. Rio, cor- 
riente, inundacion. Mayo. len, s. f. River. Rio. BoRROW. 

llierbisáj s. f. Herva. Hisp. dialectal llierba por yerha. 
Vasc. 

lolé, s. m. Pimentão. Git. lolé. s. m. Tomate, Mayo. 
Love apple. Borro w. 

lon, s. m. Sal. Git. lon, s. m. Sal, Mayo. Salt. Borrow. 

lumí, s. f. Prostituta. Git. lumí^ lumica, s. f. Muchacha, 
querida, manceba. Mayo. lumi^ lumia^ lumiaca. Hárlot. 
Raméra. BoRROW. 

M 

machingarnó, adj. e s. Borracho, bêbado. Git. mata- 
garnó, matój i, adj. Borracho, a. Mayo. machingano^ ma- 
chargarno, s. m. A drunkard. Borracho. BORROW. 

macho, s. m. Bacalhau. Git. maché, macho, s. m. Pez, 
pescado. Mayo. macho, s. m. Fish. Borrow. 

magrena, s. f. Égua. 

majarí, s. f. Santa. Virgem. Git. majaro, adj. Holy. 
Santo, majaríj s. f. The beatic one, ^. e., The Virgen. La 
Virgen. BoRROW. 

majaró, adj. e s. m. Santo. Vid. majarí. 

maladé, adj. Roubado? Antes assassinado. Cp. git. mu- 
lahar, v. a. Matar, exterminar, ahorcar, ajusticiar. Mayo. 
No cigano do Brasil, muladar^ assassinar. 

mandiluncho, s. m. Mandil. Port. e hisp. mandil, 

mangar, v. a. Pedir. Git. mangar^ v. a. Pedir, rogar, 
mendigar. Mayo. 

mangue, (mangues. Vasc), pron. pess. Me, mim. Git. 
mangue, pron. pes. Me, mi. Mayo. The accusative of the 
pron. pers. man, BORROW. Cf. araanga. 



33 



manguinar, v. a. Pedir. (Vid. mangar). Git. manguelar, 
** V. a. Orar, suplicar, pedir. Mayo. To entreat, beg. BORROW. 

maiiguiííelar, v. a. Pedir. Dizer. Vid. manguinar, 

maniscobar, v. a. Descontar. Parece composto com 
sicubar. 

manró, mãorron, s. m. Pão. Git. manró, s. m. Pan. 
Mayo. Bread. Borrow. 

mauú, s. m. Homem da tribu. Git. manú^ s. m. Hom- 
bre, varon. Mayo. Man. BORROW. 

maquelar^ v. a. Vid. miquelar. 

marar, v. a. Matar, assassinar, v. n. Morrer. Git. ma- 
rar^ v. a. Matar, destruir. Mayo. To kill. BORROW. 

marelar, v. a. Matar. Vid. marar. 

más, s. m. Carne. Git. maás^ s. m. Carne, vianda. 
Mayo. Meat, flesh. Borrow. 

masauuucha, s. f. Maçã. Vasc. Port. maçan, hisp. man- 
zana. 

matagaíianeSj s. f. Estrella d'alva. 

mecar, v. a. Deixar. Abandonar. Git. mecar^ v. a. De- 
jar, permitir. Mayo. Conf. miquelar. 

mecles, interj. Pára, alto lá! Git. medi, interj. Calle, 
vaya, en paz. 

mesuncho, s. m. Mês. Port. mes] hesp. mes, 

milla, s. f. Légua. Git. milla^ s. f. League. Légua. 
Borrow. Hisp. millaj port. milha. 

millen, s. m. Laranja (?) 

minche, s. f. Pudendum muliebre. Git. minchi, s. f. 
Pudendum feminae. BoRROW. minchabar, v. a. Parir, 
Mayo. 

mindai, s. f. Mãe (propriamente, minha mãe). Git. dai^ 
s. f. Madre. Mayo. mm, por git. minri, minha. 

miquelar, v. a. Deixar. Git. mequelar, v. a. Dejar^ sol- 
tar, despedir. Mayo. 

misto, adv. e s. m. Bem. Vasc. Git. misto, s. m. Bien, 
beneficio, conveniência, adv. Bien, bueno, conveniente- 
mente. Mayo. mistas, adv. Well. Borrow. 
mistos, s. m. pi. Phosphoros (?). 

3 



34 



raoliiiuncho, s. m. Moinho. Vasc. Hisp. molíno. 

molachí, adj. Significação incerta. Vid. Textos, n.° 58. 

mol, mon, s. m. Vinho. Vid. moro. 

montaiiésj s. m. Monte. Vasc. Hisp. montanés^ adj. 

montuiicho, s. m. Monte. Port. hisp. monte. 

morchada, s. f. Burra (Burra fraca. Vasc). Pelo som só 
acho que comparar git. morchás^ s. Skin, hide. Pelléjo. 
BoRROW. No calão h^a, píleca, cavallo magro, àepelle (vid. 
parte II), que permitte ligar o termo cigano ao gitano. 

moro, s. m. Vinho. Git. mol, s. m. Vino. Mayo. Wine, 
BORROW. 

mui, s. f. Cara, Git. mui^ s. f. Boca, Mayo. Mouth, 
face. Boca, cara. BoRROW. 

mulé, adj. e s. Morto. Git. 7nulô^ mulU, adj. Muerto, 
difunto, a. Mayo. mulo^ s. m. A dead man. Muérto. BOR- 
RO w. 

mulla, s. f. Debulha. E sem duvida a palavra portu- 
gueza debulha^ a que se tirou o prefixo, mudando o ô em 
m^ som muito próximo d'aquelle ; cp. port. pop. òelancia 
por melancia^ baraço de árabe maras^ comquanto aqui a 
modificação seja inversa. 



naclés, (iiacles. Vasc), s. m. Nariz. Git. nacH^ naquí, 
s. f. Nariz. Mayo. naqui^ s. f. Nostril. BoRROW. 

uajai-, V. n. Fugir. Git. najar^ v. n. Marchar, parar, 
correr; llejar, desaparecer; huir, evitar. Mayo. To flee, 
BORROW. Vid. najelar. 

najeJar, v. n. Fugir. Git. najar, najarar, v. n. Marchar, 
pasar, correr; alejar, desaparecer; huir, evitar, najalelar, 
V. n. Huir, fugar, escapar. Mayo. 

nanais, adv. Não. Git. Nanai, adv. No, de ningun modo. 
Mayo. No. Borro w. 

narachichunga, s. f. Noite escura, tenebrosa. Será erro 
por rachichunga? rachí, git. racM, s. f. Noche, tiniebla 
(vid. arachí) e chuugo (vid. este). No git. ne é prefixo 



35 



negativo: nahelar, carecer, de abelar, poseer, neharó, pe- 
queno, de haró, grande. No cigano do Brasil na apparece ^ 
como prefixo indifferente : nahasnão, gallo ; vid. basíii. 

nicobar, v. a. Roubar. Git.- nicohelar, nicabar, v. a. 
Apartar, desembaraçar; destruir, invalidar; vedar; disi- 
par. Mayo. nicabar, v. a. To take away, steal. Quitar, 
robar. l^ORROW. 

nicobelar, v. a. Vid. nicobar. 

nasalo, adj. Enfermo, nasalo si ya, está enfermo. Git. 
nasalo^ lli, adj. Maio, enfermo, adj. Mayo. 

O 

o jaca, ojocá, adj. Bonito. Por jocar = git. jucal; vid. 
jucalorro. Um o prostbetico também em git. oclaye = 
*claLlis, crallis, rei. BORROW; vid. clalles. 

olibás, s. pi. Meias. Git. olihias, s. pi. Stockings. Mé- 
dias. BoRROW. Falta em Mayo. 

olicha, s. f. Rua. Vasc. Vid. oricha. 

orejuncha, s. f. Orelha. Hisp. oreja. 

? olipaudó, s. m. Sol. 

oricha, s. f. Rua. Git. oUcha, s. f. Street. Calle. BOR- 
Row. ulicha, s. f. Calle. Mayo. Borro w. 

orobar, v. a. Chorar. Git. orobar, orobiar, v. a. Llorar, 
lamentar, gemir. Mayo. To weep. BoRROW. 

orobelar, v. impess. Chover. Conf. o precedente. 

orocal, s. m. Oliveira. Git. eridé, eruqué, s. m. Arbol. 
orucal, urucalj s. m. Olivar. Mayo. eru, eruquel, s. m. 
Olive-tree. Olivo. erucar, s. m. Olive-ground. Olivar. 
Borro w. 

otebel, otibé, s. m. Deus. Git. ostebé, s. m. Dios, Mayo. 
ostebel, s. m. God. Dios. Borrow. Parece haver aqui fusão 
de git. osté = hisp. ustéd, pi. ostelende (BORROw) e git. 
debelj s. m. Dios. Mayo. ondebel., undebel, s. m. Dios, 
único ser supremo. Mayo. un-debél, s. m. God. Dios. Bor- 
row. Fr. Michel, pag. 14õ. Cf. Pott, Die Zigeuner, II, 40. 

octubruncho, s. m. Outubro. Port. outubro, hisp. octubre. 



36 



paguillí, s. f. Dinheiro em prata. Git. paquillí, s. f. 
Silver. Plata. BoRROW. 

paioj s. m. Homem extranho, que não pertence á tribu. 
Companheiro. Git. paillo, s. m. One who is not a Gypsy. 
El que no es Jitáno. BORROW. paillô, s. m. Individuo, 
sujeito, hombre, jomalero. Mayo. 

pajé, s. f. Sorte. Git. pajin, s. f. Part. Parte. BoRROW. 

pajo, s. m. Cigarro. Vid. plajo. 

paUillí, s. f. Prata. Vasc. Vid. paguillí. 

palonó, s. m. Curral. (Palheiro. Vasc). Git. palunó, 
s. m. Corral. Mayo. A wood, farm-house. Bosque, también 
cortijo. Borro w. 

palonolaré, s. m. Curral. Vid. o precedente. 

pandelar, v. a. Amarrar. Git. pandar, v. a. Atar, liar, 
arreliar, estrechar ; cerrar ; encubrir ; pandelar, v. a. Opri- 
mir, apretar, sujetar. Mayo. pandar, jpandelar^ v. a. To 
inclose, to tie, to shut. Atar, cerrar. BoRROW. 

paní, s. f. Agua. Git. pani, s. f. Agua. Mayo. pani, 
s. f. Water. Agua. Borro w. 

papires, s. m. Papel. Git. jyapiri, s. m. Paper. Papel. 
BoRROW. papira, s. f. Carta, naipe, papiri, s. f. Vale, 
bono. Mayo. 

pareauj s. f. Parede. Vasc. Port. parede, hisp. pared. 

parga, s. f. Choça. 

parnau, s. m. Dinheiro. Vid. o seguinte. 

parné, s. m. Dinheiro, moeda. Git. parné, s. m. Dinero 
(haber). Mayo. White or silver money. Dineros blancos. 
BORROW. 

parrogar, v. a. Trocar. Git. parugar, v. a. To exchange, 
barter. Cambiar, trocar. BoRROW. paruguelar, v. a. Trafi- 
car, negociar. Mayo. 

pasabelar, v. a. Enterrar. 

pasonó, s. m. Palheiro. Vid. posonó, pusoíiou. 

pasisarar, v. a. Passar. Port. passar, hisp. pa^ar. 



37 



pastorchunchoj s. m. Pastor. Port. hisp. pastor. 
patarró, s. m. Pae. Git. bato, hatú, s. m. Padre, hatorré, 
s. m. Padrino. Mayo. 

patê, patí, s. f. Mão. Git. bato, baste, s. f. Mano. Mayo. 
pato, s. m. Pae. Vid. patarró. 

patuque, (patusco. Vasc), s. m. Albarda. Vid. apa- 
tuscos. 

peliche, s. m. Velho da tribu que tira a prova da vir- 
gindade (entre os gitanos). [Git. pelichó, i, s. Huevero, a. 
Mayo. pele, s. pi. Eggs, the genitais. Huevos, los jenita- 
les. Borro w]. 

penré, s. m. Vid. pimbré. 

.peperes, s. m. pi. Tomate. Git. pepéres, s. m. Pepper. 
Pimento. Borro w. 

perjj^na, s. f. Pêra. Vasc. Port. e hisp. pêra. 
petí, s. f. Besta. 

petuno, s. m. Peito. Vasc. Port. peito. 
pillar, V. a. Beber. Git. piyar, v. a. Beber. Mayo. 
BORROW. 

pinar, pinar, v. a. Dizer. Pedir. Vid. pinelar. 
pinelar, v. a. Dizer, pedir. Git. penar, v. a. Decir ; ha- 
blar; contar, mandar. Mayo. To say. Borrow. penelar^ 
V. a. Referir, decir, narrar. Mayo. 

pimbré, s. m. Pó. Git. pinãro, pinró, s. m. Foot. Pié. 
pi. pinrés. BORROW. 

pinodó, adj. Contado. Vid. pinar, de que pindó ó um 
participio regular tsigano (Miklosich, Abhandl., ii, 8). 
pinon, s. m. Pinheiro. Vasc. Hisp. pino. 
pinré, s. m. Pé. Vasc. Vid. pimbré. 
pirar, v. a. Andar. Git. pirar, pirelar, v. n. Andar, 
caminar, pisar. Mayo. To walk. Andar. BoRROW. 

pirabar, v. 'n. Futuere. Git. pirabar, v. n. Cooperar, 
cohabitar. Mayo. To copulate, to heat. BoRROW. pira- 
belar, v. n. Fornicar. Mayo. 

pirabaor, s. m. Ladrão (?). Talvez violentador. Vid. pi- 
rabar. 

pisquèsuno, s. m. Pescoço. Vasc. Port. pescoço. 



38 



piticar, 9. f. Piteira. Vasc. Port. jpita, piteira. 

plajo, s. m. Tabaco, cigarro. Git. placo, s. m. Tobacco. 
Tabaco. BoRROW. plojorró, s. m. Tabaco. Mayo. 

piar, s. in. Irmão. Git. piai, s. m. Hennano, confrade. 
Mayo. Brother. BoRROw. 

plasarar, v. a. Apagar. Git. plasaravj, v. a. Pagar, sa 
tisfacer, recompensar. Mayo. Borrow. 

plasarelar, v. a. Vid. plasarar. 

plasta, (plata. Vasc), s. f. Capa. (Lençol. Vasc.) Git. 
plasta, plastami, pÀata, s. f. Capa corta, talma, esclavina. 
Mayo. plata, platamugioii, s. Cloak. Capa. BORROW. 

pocachiní, s. f. Pistola. Git. prucatihi, s. f. Escopeta. 

pol, s. f. Barriga. Vasc. Git. poria, s. f. Entraria, poriáj 
s. f. Barriga, vientre, panza. Mayo. porias, s. pi. Bowels. 
Entraiías. BoRROW. 

posabar, v. a. Enterrar. Cf. pasabelar. 

posonó, s. m. Nora. Cf. pusunon. 

pu, s. m. Palha. Git. pus, s. m. Paja. Mayo, Borrow. 
puy, s. m. Straw. Paja. Borrow. 

puca, s. f. Espingarda. (Mi. pusca. s. f. Escopeta. Mayo. 
Musket. Borrow. 

pus, s. m. Vid. pii. 

pusca, s. f. Vid. puca. 

pusnó, s. m. Eapazinho. Será o mesmo que git. husné, 
busnó, s. m. Extrano, bárbaro, gentil? Mayo. hiisnô, s. m. 
A gentil, a savage, every person who is not of the Gypsy 
sect. Borrow. 

pusuiion, s. m. Abegoaria. Git. pusanó, s. m. Cortijo, 
Mayo. posuno, s. m. Court, yard. Corral. BORROW. 

Q 

que, quer, s. m. Casa. Git. quer, s. m. Casa. Mayo. 
House. Borrow. 

quehonche (Ji aspirado), s. m. Ódio. Vasc. 

quehucar, adj. Bonito. Vasc. Será que hucar, que bonito? 
hucar, pode estar ^or jucar, ju cal; vid. juealorro. 



39 



querelar, v. a. Fazer. Git. aquerar^ v. a. Hacer, ejecu- 
tar. querar, v. a. hacer. querelar^ v. a. Ejercer, hacer^ etc. 
Mayo. queraTj querelar^ v. a. To do, to make. BoRROW. 

quimera, s. f. Desordem. Vasc. 

quiutalzuncho, s. m. Quintal. Vasc. Port. quintal. 

quiral, s. m. Queijo. Git. quira, quirális, s. f. Chôese. 
Queso. BoRROW. quirá, s. m. Queso. Mayo. 



R 



raisaro, s. m. Rio, ribeira. Port. e hisp. rio. 

rau, s. m. Bordão, vara. Git. raw^ s. m. Vara. Mayo. 
raUj s. f. Rod. Vara. BoRROW. 

randar, v. a. Furtar. Git. randar^ v. a. To rob. Robar. 
BoRROW. ranâelar, v. a. Hurtar, robar, arrebatar. Mayo. 

rebraiidiuí, s. ni. Licor. Proveniente talvez do ingl. 
hrandy, com o prefixo re e terminação gitana. 

redundes, randundes, s. m. pi. Grãos. Git. redundi, re- 
jundif s. f. Garbanzo. Mayo. redondis^ s. pi. Chick-peas. 

BORROW. 

remendiíiar, remondiíiar, v. n. Casar. Vid. rumandiííap. 

renduudes, s. m. pi. Grãos. (Feijões. Vasc.) Vid. redun- 
des. 

repafií, s. f. Aguardente. Git. reparti^ s. f. Brandy. 
Aguardiente. BoRROW. Bebida (espirituosa). Mayo. 

r 11 acra, s. f. Batata. 

rile, s. m. Flatus ventris. Git. rilo, s. m. Pedo. Mayo. 
BoRROW. 

róis, s. m. Colher. Git. roin, s. m. Cuchara. Mayo. 
Spoon. BoRROW. 

romano, s. m. Lingua dos ciganos. Vid. rumaíío. 

romí, s. f. Mulher da tribu, cigana. Git. romí, s. f. A 
married woman, a female Gjpsy. Mujér casada. Jitána. 
BoRROw. Esposa, mujer (casada). Mayo. 

ron, s. m. Marido. Git. rom, romá, s. m. Marido, hom- 
bre, varon (casado). Mayo. rom^ s. m. A husband, a mar- 



40 



ried man, a Grypsy. roma^ s. m. pi. The Husbands; the 
generic name of the nation or sect of the Gypsies. BoR- 
ROW. 

rucó, s. m. Burro. Vasc. [Cf. tsigano grego rukonôj n- 
konó, cão ; rumeno rikonó, húngaro rikonô, polaco rykonon. 
Miklosich, Ahhandl., viii, 58.] 

rumíj s. f. Vid. romí. Vasc. 

rumandinar, v. a. Casar. Git. romandinar, romandinelar, 
V. a. Casar, desposar, enlazar. Mayo. romandi/hary v. n. 
To marry. BoRROW. 

rumano, s. m. Língua dos ciganos. Git. rom, s. m. A 
husband, a married man, a Gypsy. BoRROW. romano, ni, 
adj. Familiar, domestico, próprio, de casta gitana. Mayo. 
romani, s. f. The Rommany or Gypsy language. Lengua 
de los Jitános. BoRROW. 



sacais, s. m. pi. Olhos. Git. sacais, s. m. pi. Ojos. Mayo. 
Cf. acais. 

salbana, s. f. Sardinha. 

sanacay, s. m. Ouro. (Libras. Vasc.) Git. sonacai, s. 
Gold. Oro. BoRROW. Mayo. 

sanou, 8. m. Chouriço. Git. sané^ s. m. Sausage. Cho- 
rizo. BoRROW. 

sapuna, s. f. Videira. Vasc. 

sapunes, s. m. Sabão. Git. sampuni, s. f. Jabon. Mayo. 
Soap. BoRROW. 

satalha, s. f. Azeitona. Git. chetalli, s. f. Olive. Oliva. 
BoRROW. Cf. letaya^ s. f. Aceituna. Mayo. 

se, pron. relat. Que. Git. sos, pron. rei. 2. Que, cual, 
cuales. Mayo. Who, that. Borrow. 

segabruncho, s. m. Segador. Port. e hisp. segar. 

seguisarar, v. a. Segar. Port. e hisp. segar. 

senelar, senelar, sinelar, sinelar, v. Ser. Do sr. Pires 
recebi a phrase: 1. no senela caíque, com a traducção — 
um cobarde; do sr. Leite de Vasconcellos a phrase: 2. si- 



41 



nela damangues, com a traducção — pertence-me ; do sr. 
Pires ainda a phrase quasi idêntica a essa: 3. senela la 
mangue com a traducção — primo. O sr. Vasconcellos dá 
também siííel com a significação — elle, ella; o sr. Pires 
enviou-me demais a traducção de uma phrase em que esse 
sentido é dado a senela : 4. senela terela callardó, elle está 
de luto. De outro lado tem o git. sinar^ sinelar, v. aux. Ser, 
estar. Mayo. sinar, v. n. To be. BoRROW. E esse verbo que 
temos na phrase 1., que deve traduzir-se — não é ninguém 
(z= não ó um homem, ó um cobarde; vid. caique)^ na 
phrase: 2., que deve traduzir-se — é de nós ou de mim 
(sinela de amanges^ vid. amanga^ mangue) 5 a phrase: 3. 
parece ser uma alteração de 2. ou estar por senela a 
mangue — é a mim (= é dos meus, é meu parente). Não 
acho no gitano nada que justifique o sentido attribuido a 
sinelj sinela, como pronome ; ha aqui sem duvida erro de 
interpretação. Em senela terela juntaram- se ao que, parece, 
dois verbos que separadamente se ligam a callardó, na lin- 
guagem corrente. O texto n.° 80 trazia sin na com a tra- 
ducção sósinho, por sina, está, o que corrigi por não me 
parecer exacto. 

seresí, s. f. Vinha. Vid. eresí. 

setembrimcho, s. m. Setembro. Port. setembro, hisp. se- 
tiembre. 

sicabar, v. a. Sair. Git. sicahar, v. n. Salir. Mayo. 

sicubar, v. a. Furtar. Vid. chicubelar. 

sicubelar-se, V. refl. Ketirar-se, ir-se embora. Vid. sicabar. 

sila, s. f. Força: a silas, á força. Git. sila, s. f. Virtud, 
facultad, potencia, impeto, porfia. Mayo. 

silbar, s. m. Freio. 

sínar, v. Vid. senelar. 

sobap, V. n. Vid. sorbar. 

sombrimé, s. f. Arvore. Port. e hisp. sombra. 

sonacay, s. m. Vid. sanacay. 

sonsidelar, v. a. Olhar, reparar? [Git. sonsibelar, v. Cal- 
lar, enmudecer. Mayo. Borro w]. 

soltar, V. n. Adormecer. 



42 



sorbaPj v. n. Dormir. Git. sornibar^ v. a. Adormecer, 
Mayo. soymar, v. n. To sleep. Dormir. BoRROW. 

sorhelar, v. n. Vid. sorbar. 

sungolí, s. f. Melancia. Git. sungli, s. f. Sandia. Mayo. 

siiete, s. f. Gente. Git. suetí, s. f. Gente, familia, genera- 
cion, universo. Mayo. World, people. BoRROW. 

sungló, s. m. Melão. Git. sungU, s. m. Melon. Mayo. 
BoRROW. Cf. sungoli. 



tallardí, s. f. Morcella. O mesmo que callardí: nos dia- 
lectos tsiganos ha outros exemplos de substituição de c 
por t; vid. Ascoli, ZigeuneHsches, index. 

tardimen, adv. Tarde. Port. e hisp. tarde. 

tarelar, v. a. Vid. terelar. 

taribé, s. f. Cadeia. Vid. o seguinte. 

taripeuas, s. Cadeia, cárcere. Git. taripen não tem ana- 
logia de significação; Mayo traduz por — astrologia; vid. 
estariben. 

tarní, s. f. Burrinha. Falta em Mayo e Borrow; mas 
parece ligar-se ás formas ciganas tyrnój novo, joven (Mi- 
klosích, Abhandl.j ii, 26), ternipe, mocidade (ii, 58), etc, 
comp. novilho^ anejo. 

tarrosa, s. f. Batata. Vasc. Talvez por terrosa, do por- 
tuguez. 

tasalda, s. f. Madrugada. Vid. tasara. 

tasara di calicó. Manhã. A. Th. Pires. Mas calicó signi- 
fica manhã (vid. calicó) e git. tasala significa tarde (Mayo, 
Borrow). Zingaro laci tosara, buona mattina. (Miklosich, 
Ahhandl., ii, 81), tosara, mattina, (pag. 82). 

tejauncho, s. m. Telhado. Vasc. Hisp. teja. 

tempisaro, s. m. Tempo. Port. tempo. 

tprelar, v. a. Ter. Git. terelar, v. aux. Haber. v. a. 
tener, poseer, existir. Mayo. To hold, have, possess. 
Borrow. 



43 



teriiegal, adj. Valente. Git. ternejal^ adj. 2. Valiente. 
resuelto. Mayo. ternejá^ adj. Valiant. BoUROW. 

testuncha, s. f. Testa. Vasc. Port. e hisp. testa. 

tiragaisj s. m. pi. Sapatos. Git. tirajay, s. m. Zapato. 
Mayo. tirajai, s. pi. Shoes. Zapatos. BoRROW. 

tremuche, s. f. Lua. Git. tremácha, s. f. Moon. Luna. 
BoRROW. E, ao que parece uma simples alteração de chi- 
mutra (vid. cliinutra) por troca de logar de consoantes, 
processo vulgar nas gírias. Vid. Pott, ii, 194-5. 

triguisate, s. m. Trigo. Vasc. Port. e hisp. trigo. 

trincar, v. a. Apanhar (?). Git. trinqiidar, v. a. Apre- 
tar, comprimir; apurar. Mayo. 

trupo, s. m. Corpo. Git. trúpo^ s. m. Body. Cuerpo. 
BoRROW. Vientre, cuerpo. Mayo. 

tusa, pron. pess. Tu. Cf. git. tue^ contr. de tucue, tute, 
pron. pess. Tu, te, ti. Mayo. 



U 



ua, adv. Sim. Git. unga, conj. Si. Mayo. adv. Yea, 
truly, yes. BoRROW. 

ustabar, v. a. Furtar, roubar. Git. ustihar, ustibelar, v. 
a. Tomar. Mayo. 

ustabelar, v. a. Vid. ustabar. 

ustilar, V. a. Tomar; furtar. Git. ustilar^ ustitelar^ v. a. 
Coger, llevar, prender; tomar, percibir, cobrar, exigir, 
grangear, hospedar, acoger; alzar, arrebatar. Mayo. 

ustitelar, v. a. Vid. ustilar. 



vinagruncho, s. m. Vinagre. 



44 



Os ciganos do Alemtejo, segundo os dados precedentes 
e os que me communicou o sr. Pires, faliam o português, 
o hispanhol, e esse fallar a que elles chamam rumano, ro- 
mano ou ainda romano, de que pode fazer-se ideia pelos 
textos e vocabulário acima impressos. Como se vê, o ru- 
manho não é mais do que o hispanhol influenciado pelo por- 
tuguês e semeado de palavras particulares, a maior parte 
das quaes se encontram também no gitano ou linguagem dos 
ciganos de Hispanba. Noutros paizes da Europa os tsiganos 
faliam verdadeiros dialectos ou antes sub-dialectos particu- 
lares aparentados com os dialectos neo-hindus, saidos da 
mesma base popular de que o sanskrito se elevou á cate- 
goria de lingua litteraria. Esses dialectos tsiganos apresen- 
tam algumas peculiaridades phoneticas archaicas que os 
approximam especialmente de linguas ainda pouco conhe- 
cidas do noroeste da índia, do Kafiristão e do Dardistão *. 
Miklosich enumera treze dialectos ou falias tsiganas na 
Europa: grego, na Turquia da Europa; rumeno, na 
Rumenia, Siebenbúrgen, Bucovina, Serbia e Rússia ; hún- 
garo, na Hungria e Sirmia ; bohemio, na Bohemia e Mo- 
ravia ; allemão, na Allemanha ; polaco, na Polónia e Lituâ- 
nia; russo, na Rússia septentrional ; finno, na Finlândia; 
escandinavo, italiano, basco, inglez e hispanhol. Miklosich 
não teve conhecimento do importante dialecto tsigano do 
paiz de Galles (tsigano welsh), o qual, nesse meio de lin- 
gua céltica, conserva muitas particularidades perdidas 
noutros seus co- irmãos. 

O gitano conserva ainda partículas, pronomes, nume- 
raes, a moção, certos processos de derivação e outras for- 
mas grammaticaes da lingua tsigana, representada por os 
mencionados dialectos ou sub-dialectos extra-hispanicos ; 



Miklosich, Beitrãge, iv, p. 287 segs. 



45 



mas doutro lado perdeu quasi por completo a antiga de- 
clinação, adoptou a conjugação hispanhola em -ar^ conser- 
vando algumas formas tsiganas do verbo sinar ser (sis, 
sisle, sirij sou, es, é). Alguns numeraes gitanos mostram já 
influencia das formas hispanholas (johenta sessenta, oto- 
renta oitenta, junto de otordé; comp. ostardí quarenta, 
panchardi cincoenta, éster dí setenta). Ao lado de amaro, 
nosso, de origem tsigana, apresenta o gitano nonrió deri- 
vado do hisp. no(s)^, 

O rumanho, a julgar pelos documentos que publico, per- 
deu quasi todas as particulas e pronomes (vid. no vocabu- 
lário apalé, amanguej mangue, mindai, se), e outras formas 
grammaticaes que ainda conserva o gitano ^ ; representa pois 
um estádio mais adeantado na ruina da lingua tsigana pri- 
mitiva que o gitano, e oíferece por esse lado interesse 
particular para o estudo de um dos processos de substi- 
tuição da lingua de um povo por outra. Nos dialectos tsi- 
ganos europeus extra-hispanicos conserva-se em geral a base 
indica primitiva do vocabulário e da grammatica ; no gitano 
os elementos tsiganos da grammatica reduzem-se considera- 
velmente, perdendo-se quasi por completo a antiga decli- 
nação e conjugação, apenas representada por ténues ves- 
tígios ; no rumanho os vestigios tsiganos reduzem-se quasi 
unicamente a vocábulos feitos e alguns processos de deri- 
vação : o hispanhol e ainda o português occupam o logar 
abandonado pela grammatica tsigana. Assim por misturas 
successivas o elemento românico foi eliminando o tsigano. 
Se tivéssemos documentos da linguagem dos gitanos pro- 
venientes dos séculos xvi e xvii, ainda mais de perto 
poderíamos seguir esse processo, que, como mostrarei 



' Schuchardt, Slawo-de?itsches U7id — Slawo-italien., Graz, 1885, 
4.0, p. 8-9. 

2 Todavia achamos ainda no cigano si, é, está (vid. nasalo). É 
possível que ulteriores investigações descubram mais uma ou outra 
forma verbal tsigana no cigano. Notem- se ainda as formas femini- 
nas e do plural como calo m., callí f., cales pi. Vid, p. 53. 



46 



noutra parte, está longe de ser o único pelo qual um povo 
perde a sua própria lingua para adoptar a alheia. 

Os 484 termos ou formas do rumanho reunidos em o 
nosso Vocabulário classificam-se, em quanto á sua origem 
próxima, do modo seguinte : 

353 encontram-se também no gitano, em geral sem dif- 
ferença considerável de sentido ou de forma; 

3 não se encontram nos vocabulários gitanos que temos 
á mão, mas occorrem noutros dialectos tsiganos (hato, bi- 
biora, tarní); 

68 são derivados de palavras hispanholas ou portu- 
guesas ; 

8 são palavras portuguesas ou hispanholas de significa- 
ção alterada ou especialisada (andantes, aparador ^ arboleo, 
bicha, churon (?J, frumachos (fj, guenassuertes, tarrosa). 
Vid. também apatuscos, patuque fe patusco). 

1 (culebra) provém da germania. 

1 (anda) provém da germania ou do calão. 

1 é uma forma portuguesa muito alterada phonetica- 
mente : mulla. 

47 são de origem para mim incerta ou desconhecida. 
Talvez que nova investigação do gitano e dos outros dia- 
lectos tsiganos prove a origem tsigana de alguns desses 
termos, parte dos quaes tem aspecto que a faz suspeitar. 



Palavras do rumanho derivadas de palavras 
hispanholas ou portuguesas 



1. Derivados com o suffixo -sar^: 

a) verbos. 
abaixisarelar (* abaixisar), port. abaixar, 
ajustisarar, port. e hisp. ajustar, 
desamar isar, por * desamar risar, port. e hisp. desamarrar 



1 Sobre esse suffixo tsigano, vid. Miklosich, Ahhand., x, p. 480-481 



47 



scguisarar^ port. e hisp. segar. 

ladrisarelar (*ladrisararj^ port. e hisp. ladrar. 

jpasisarar, port. passar, hisp. pasar *. 

h) substantivos : 
ahertisara, port. aberta, hisp. ahierta. 
hasisaro, hisp. vaso. 
huertisara, hisp. huerta, port. horta, 
lahrosal (por Habrosaro) , hisp. labraor, labrador, port, 

íarra(/or. 
lUerhisá (por Hlierhisar), hisp. dialect. lUerha por yerha. 
raisaro (por *rusaroJ port. e hisp. ?'io. 
templsaro, port. tempo, hisp. tíempo. — Vid. também /ar- 

disara, no Vocabulário. 

2. Derivado com o suffixo -eZa; 
àbaixarelar, port. abaixar. 

3. Derivados com o suffixo -me?z^ -me'^ : 

chosimé, port. choça, hisp. chosa. 
sombrimé, port. e hisp. sombra, 
tardimenj port. e hisp. fa?'c?e. 

4. Derivados com o suffixo -uncho^: 

bancuncho, port. e hisp. banco, 
brancuncho, port. braiico, hisp. blanco. 
cabruncha, port. e hisp. cabra, 
calduncho, port. e hisp. caldo, 
carruncho, port. e hisp. carro. 



1 As formas abaixisarelar, ladrisarelar, teem o duplo suffixo 
-«aí* 4" "^^<^- 

2 Sobre o suffixo -mcw, vid. idem, ^ò^c?., p. 445. 

' O suffixo -uncho é de origem românica ; acha-se também no gi- 
tano : ex. gostuncho. Mayo. Nas formas pastor chuncho, quintahuncho, 
segahruncho compHca-se com outros elementos. 



48 



contrariuncho, port. e hisp. contrario, 
deuncho, hisp. deo, dedo, port. dedo. 
Jloruncha, port. e hisp. fior. 
galluncho, port. e hisp. gallo. 
gatuncho, port. e hisp. gato. 
hahuncha, hisp. haha, port. fava. 
labiuncho, port. e hisp. lábio, 
linguncha, port. lingua, hisp. lengua. 
livruncho, port. Z{i;ro, hisp. libro, 
wandilunchoj port. e hisp. mandil. 
mesunchoj port. mes^ hisp. mes. 
molinuncho, hisp. molino, port. moinho, 
montuncho, port. e hisp. monte, 
orejimcha, hisp. oreja, port. orelha, 
pastor chuncho, port. e hisp. pastor, 
quintalzuncho, port. quintal, 
segabruncho, port. e hisp. segar, 
tejauncho, hisp. ^e/a^ port. íeZ^a. 
testuncha, port. e hisp. íesía. 
vinagruncho, s. m. port. e hisp. vinagre, 
abriluncho, port. e hisp. a5HZ. 
juniluncho, hisp. jfwmo^ port. Jim^o. 
juliuncho, hisp. julio, port. julho, 
agostunchoj port. e hisp. agosto, 
setembruncho, port. setembro, hisp. septiembre. 
octubrunchoj, hisp. octubre, port. outubro, 
novembrunchoj port. novembi^o, hisp. noviembre. 
decembruncho, port. dezembro, hisp. deciembre. 

5. Derivados com o suffixo -wtzo^ -m?i * ; 

barbuna, port. e hisp. barba, 
eneruno, hisp. enero, port. janeiro, 
fajuna, hisp. /a/a^ port. faixa. 



1 Esse suffixo é de origem tsigana. Pott, i, p. 123-124. 



49 



ferhruno, liisp. /éZ/re> o (troca de suffixo), ^^ori. fevereiro^ , 
lecheruno (suffixo composto -er-uno), liisp. leche, port. leite, 
peruna, port. e hisp. jpera. 
pefunOj, port. j)eitOj, hisp. pecho. 
pisqiiesinio^ port. pescoço^ hisp. pescvezo. 

6. Derivados com o suffixo -esa: 

lahraoresa, hisp. dialectal labraor por labrador^ port. 

7. Derivados com o suffixo -ata: 
furata^ port. fora adv., hisp. fuera, 

8. Derivados com o suffixo -ate : 

centenate, hisp. centeno, port. centeio, 
triguisate^ port. e hisp. fn^o. 

9. Derivados com o suffixo -ute: 
lechutej hisp. leche, port. Ze^7e. 

10. Derivados diversos: 

hlancaera, hisp. hlanco, port. hranco, 

pareau, port. parede, hisp. pared. 

pinon, hisp. j9iwo^ port. pinho, 

cotovillo, port. cotovello (troca da forma port. do suffixo 

-eZZo pelo hisp. -z7Zoj. 
piticar, port. /^iVa^ piteira. 



1 Os uomes de mês março e mato do rumanho (do port. março e 
maio, hisp. marzo e mayo) completam a lista acima. Como se vê, os 
ciganos perderam inteiramente os nomes particulares de meses tsi- 
ganos, que os gitanos conservam ainda pela maior parte como ÇMÍr- 
daré, marco, alpandy e quigléf abril, qvindaU, maio. 

4 



50 



Palavras do rumanho de proveniência incerta 

Referindo-nos só á proveniência immediata (gitano, his- 
panhol e português), e não á proveniência remota dos termos 
do gitano, do hispanhol e do português, que se encontram 
no rumanho ou de que derivam termos que neste se en- 
contram, reduz-se a lista aos seguintes, no estado actual 
da minha investigação: 



achochinar. 


comhisarar. 


molachi. 


alsiplesis. 


cratiá. 


parga. 


acotístamente (a cotistd). 


cur cheio. 


peti. 


agullá (gollás). 


erná. 


pusnó. 


aricáhás. 


galler (haller) . 


pasahelar. 


halul. 


gorohon. 


quehonche. 


hea. 


gustvpeM. 


quimera. 


cambelés. 


harame. 


rehrandini. 


cameli. 


harou. 


rilaora. 


charão. 


magrena. 


soltar. 


chubelar. 


maniscobar. 


rticó. 


chuga. 


matagananes. 


salha^a. 


chupa. 


millen. 


sapuna. 


clechi. 


ólipandó. 


silbar. 


colisarar. 


mistos. 





Observações phoneticas 



Apesar de os vocábulos ciganos terem sido colhidos na 
maior parte por pessoas estranhas aos estudos linguisticos, 
apresentam em geral muito poucas differenças phoneticas 
apreciáveis com relação aos correspondentes gitanos. 

Accentuação. Algumas palavras, agudas no gitano, appa- 
recem graves no cigano ; taes são : 



Gitano 

balunés 
chetalli 
chichoji 



Cigano 

balunes 

satalla 

chichobo 



51 



chimutH 


= chinutra 


ckindés 


== chindos 


chupendó 


= chupeno 


chuti 


= chute 


corpichi 


= corpiche 


gate 


= gate 


jingalé 


= chingle 


minchí 


= minche 


pailló 


= pajo 


poria 


= pol 


sueti 


= suete 



O part. pass. cig. acharan está por acharanó. 

Inversamente temos cig. churdini = git. churdi^a; cig. 
haté = git. hato, haste. 

Em gitano ha também essas variações de accento : assim 
temos nelle corpiche ao lado de corpichi ', poria, entranha, 
ao lado de poria, barriga. 

Algumas formas femininas do plural que em gitano ter- 
minam em ias apparecem em cigano com a desinência iás 
ou ás: hariás = git. hartas; gollás = git. gullias, oli- 
hás = git. olihias. 

Vogaes accentuadas. Um cig. é corresponde a git. á 
em chague = chajá; apalé = apalá. Também é alterna 
com o; gaché e gachó, cale e calo, cig. patarró = git. 
hatorré. Em sanou_, ou corresponde a é de git. sane. 

Vogaes atonas. 1. Modificações: sonacay SiO lado de sa- 
micay; halahá = git. halehá. 2. Suppressão: archi ao lado 
de arachi; crihó = git. quiHhó; halhá ao lado de halahá; 
chingle = git. jingalé; gollás = git. gullias; olihás = git. 
olihias; pol = git. poria. 

Consoantes. 1. t por k: tallardi = callardi; 2. p por h: 
patê, pati = git. hato^ haste ; patarró = git. hatorré. 3. 
g (gu) por j: hregue = git. hreji; hregue = git. hreje; 
garhó = git. pajardó; tiragais =:= git. tirajay. Mayo es- 
creve gi e gui, trigo. A substituição da continua palatal 
castelhana j pela momentânea guttural g dá-se em regra 



Ò2 



na boca dos portugueses e gallegos que faliam liispanhol^ 
sem reflexão previa sobre a differença dos sons. E possí- 
vel que a substituição nas palavras ciganas provenha dos 
colleccionadores. 4. h por d: garbo = git. pajardó. õ. of) 
A aspiração forte h substitue o j gitano (pronunciado como 
j castelhano) nalgumas palavras: her ao lado de gueo^ = 
git. gel,' Ml, hir == git. jil, jir; hundunal = git. jundu- 
narj aracaná por '^haracanal. Inversamente apparece em 
gitano hamòo = cig. jambo. (3) A mesma aspiração substi- 
tue s: hacais ao lado de sacais; noliotros = hisp. nosotros 
(Vasc). Por fim perde-se a aspiração: acais = hacais. 
6. O som representado no Vocabulário por y é o mesmo do 
hispanhol e gitano j. Esse som está por ill em pajo = git. 
pailló. 7. O som representado por eh é o mesmo que em 
hispanhol se representa por esse signa] (tch) ; apparece 
por J gitano em chingle == git. jingalé e por s em chicube- 
lar = git. sicobelar. Inversamente s por eh gitano em 
satalla = git. chetalU. 8. r paragogico (ou substituindo i 
final no dipthongo aij : eragar = git. eragay. rr = git. r : 
currelar = git. curelar. Metathese de r: barqui e braqui; 
budar = git. burda. Suppressão de r : chadi, chedé ==-. git. 
chardi, chatí; gani ao lado de graM; cascabes = git. cas- 
carabi; gué ao lado de guer, git. gelj grei. 9. a) Z por r: 
chol = git. chor; clalles =^ git. crally ; colpiche = git. 
corpiche; pol = git. poria; moro = git. mol; hundunal 
(ao lado de donares) = git. jundunar. Inversamente bar 
(horta) = git. bal. (3) l por 11 : calicó ao lado de callicó. y) 
l por n: chalelar de git. chanar, influindo talvez chalar, ir). 
ò) Suppressão de l final : aracaM = git. jaracanal; ojacá 
== git. jucal. 10. oí) 11 por y: pillar = git. piyar; llaque 
= git. yaque. [B) U por l: llen = git. len. y) 11 por n: 
camalli = git. cameni. ò) 11 por gu, qu: pallili = paguilli 
= git. paquilli. 11. a) n por m: chinutra == git. chimu- 
tH. [3) n por l: estar íben = git. estaripel; mon = git. 9noZ. 
12. n por 7iíZ; chupeho = git. chupendó. 

Suppressão de syllaba. donares = git. jundunar ; ^«í-èo 
= git. pajardó. 



53 



Varia, almarroíias = git. manrona; ansian = git. asiá, 
azia, osian; róis == git. roin; charibeo = git. cheripen^; 
ua = git. unga; atracai = git. traquia; choi ao lado de 
chol = git. chor\ seresí = eresí ; pocachiní = gii. jpruscatifíi. 

Formação do feminino e do plural 

As formas femininas em i apparecem ainda no cigano, 
como no gitano; chinutra e satalla apresentam uma ada- 
ptação ao typo feminino hispanhol e português. 

Em gitano as palavras femininas em i teem o plural em 
ias; huchij coisa, huchias; taiíj febre, tatias. Mas «el uso 
admite que, para evitar la cacofonia, de muchos a a se- 
guidas, sobre todo em poesia, el plural de i se forme tam- 
bien con s solo : Puhi^ pena, puMs ^» . Os nossos textos 
apresentam-nos as formas femininas do plural : pa^is, ara- 
cMs, granis, petis. Houve translação do accento em hariás, 
gullás e olíhás (nas duas ultimas com perda do f). 

Em gitano chibe tem o plural chibeses ; os textos dão-nos 
no cigano chibe, chibes. 



1 Ê possivel que seja antes chariben, que, mal escripto, fosse lido 
chariheu e reproduzido charibeo. 

2 Mayo, p. 52. 



n 

o CALÃO E A língua DOS CIGANOS ' 

/ 

Tem-se confundido muitas vezes a linguagem dos tsiga- 
nos em geral com o calão. Sabemos já o que é a primeira; 
vejamos o que é o segundo e se entre uma e outro exis 
tem quaesquer relações. 

Calão, gira^ gíria ou geringonça são os termos com que 
em português se designa o vocabulário especial dos crimi- 
nosos de profissão, fadistas, contrabandistas, garotos e 
outra gente de hábitos duvidosos, que por aquelle meio 
buscam não ser entendidos da sociedade geral. Por exten- 
são dão-se ainda aquelles mesmos nomes á terminologia 
especial de uma classe, de uma profissão licita, e sobretudo 
ao conjuncto de termos particulares, muitas vezes de cara- 
cter cómico, que usam certos grupos sociaes, como os estu- 
dantes, os actores, os pintores, os pedreiros, os typogra 
phos, os soldados. 

O calão ou giria não é um dialecto : tem palavras alte- 
radas phoneticamente, sem duvida, mas por processos 
geralmente distinctos dos que caracterisam a alteração 
phonetica dialectal ; não tem em regra nem morphologia 



* Esta parte, que foi prommettida em 1887 na Revista Lusi- 
tana, I, 3, nâo pretende de modo nenhum ser um estudo completo 
sobre o calão, o qual exigiria um volume, para cuja elaboração me 
faltam tempo e alguns subsidios. 



56 



nem syntaxe que o separem da lingua geral em que por 
assim dizer se encrava. Uma outra diíFerença fundamental 
separa demais o calão dos dialectos; naquelle as transfor- 
mações próprias são geralmente queridas, intencionaes ; 
nestes as transformações são geralmente espontâneas, inin- 
tencionaes. 

Ha duas espécies de giria : numa as alterações são pura- 
mente phoneticas — só a matéria da palavra se modifica; 
noutras accrescem ás transformações dessa espécie, que 
então se tornam menos numerosas, modificações morpho- 
logicas e semânticas (de significação). 

Da primeira espécie é uma giria usada entre nós pelas 
creanças nos collegios, que consiste em accrescentar a cada 
syllaba de uma palavra uma outra constituída por um g 
(gj ou p seguido da vogal daquella syllaba; assim tu que- 
res ir a casa torna-se tu-pu qué-pé-rés-pés ir-pir a-pa cá- 
pá-za-pa. 

Os caixeiros da Baixa, em Lisboa, usavam e usam ainda 
provavelmente uma giria do mesmo género, mas mais per- 
feita, que consistia numa inversão de consoantes : nao quero 
ir passear hoje tornava-se ãon' reco ri sapear johe. Essa 
giria era fallada e entendida com muita facilidade pelos 
iniciados. 

Os principaes processos das girias do segundo género 
serão estudados abaixo. Essas girias podem ser denomi- 
nadas — de vocabulário particular. 

Tendo definido o que deve entender-se por calão ou 
giria, examinemos agora a origem d'estas palavras. 

Os hispanhoes denominam as mesmas linguagens artifi- 
ciaes com o termo germanía, e tinham o synonymo anti- 
quado gerigonza, giringonza, xeringonça; os francezes com 
os termos jargon e argotj os italianos com os termos gergo 
e lingua furbesca; os inglezes com o termo cant; os alle- 
mães com o termo Eothwelsh (á lettra — italiano vermelho), 
os hollandezes com a expressão hargoensch ou dieventad 
(á lettra — lingua de ladrões), os russos com o vocábulo 
afinskoey os tcheques com a palavra Jiantyrka. 



;)i 



O termo calào como synoiíymo de giria parece não ter 
correspondente plionetico fora de Portugal; a sua etymo- 
logia é todavia muito transparente : calão ^ propriamente, 
quer dizer cigano, lingua de cigano ; é um termo com que 
os ciganos do nosso país ainda hoje se designam (vid. Voca- 
bulário, s. V.). 

A palavra gira, giria liga- se, ao que parece, a gerigonqa, 
giringonca, que como vimos se encontrava também em 
hispanliol, ao francez jargon, provençal gergonz, e ao ita- 
liano gergo, gergone. A etymologia desses termos offerece 
bastantes difficuldades. A hypothese mais favorecida é a 
que considera o francez jargon como derivado de uma 
forma jergue, de * gergo, de * gargoj, thema de que deri- 
vam fr. gar gaite, port. garganta, gargalo. EíFecti vãmente 
em antigo fr. dizia-se gargonner por jaryonner, gargonn 
em antigo inglez^ A forma girigonça parece ter resultado 
de uma * girgonça, * g erg onça, derivado de gergo (inter- 
calação swarabactica de i) ; giringonça é uma forma em 
que a nasal do suffixo produziu a nasalisação do i pre- 
cedente, plienomeno não raro (ex. : fanjões por feijões). 
A forma gira teria nascido de ^girionça pela suppressão do 
suffixo -onça. 

Os termos estrangeiros acima transcriptos revelam já 
por si a existência de girias nos principaes países da Eu- 
ropa. Mas em verdade a existência de giria, de uma ou 
de outra natureza, é um phenomeno por assim dizer uni- 
versal e por toda a parte os processos applicados são muito 
8Ímilai-es. Assim os tsiganos espalhados nos Pyrineus bas- 
cos, que adoptaram a lingua do país, empregam a alteração 
com as syllabas principiando por p^, como na giria das 
nossas creanças e fazem, por exemplo, de jaiina, senhor, 
jaii-jpau-na-pa ^. 



^ Diez, FÁymologisches Wõrterbuch, i, s. v. gergo. Littré e Scheler, 
s. Y. jargon. 

2 Francisque Micliel, Études de philologie comparée sur Vargot, 
(Paris, 185G), p. xxvm. . , 



58 



Os theg (thugs) ou phânsigâr da índia teem uma giria 
em que se notam mudanças de significação, ao lado de 
modificações phoneticas e morphologicas ; assim os nume- 
raes hindustanicos pane cinco, ceh seis, sât sete, des dez, 
o persa jek um (= hind. ek) ; tornam-se nessa giria respe- 
ctivamente: pancúrú, serlú ou cerú, satúrú, desrá^ jelú. 
Os theg adoptam ainda palavras de linguas estranhas*.- 

Ascoli repete de uma noticia de Klaproth, citada por 
Pott, o facto da existência de uma giria dos salteadores 
circassios, chamada farsipé e cujo artificio consiste em in- 
troduzir ri ou fé depois de cada syllaba^. O mesmo emi- 
nente glottologo italiano extracta de uma memoria de Ri- 
chardson sobre os Bâzígar, gente nómada da índia, uma 
passagem relativa a duas girias por elles empregadas, uma 
pelos chefes, a outra commum a homens, mulheres e 
creanças. «O hindustani é a base de ambas; a primeira 
resulta^ em geral, da mera transposição ou inversão de 
syllabas, e a segunda é patentemente uma conversão syste- 
matica de algumas poucas lettras.» Eis um espécimen: 



Hindustani 


Bàzigar I 


Bâzigar II 




ag 


ga 


kag 


fogo 


hans 


suhan 


nans 


bambu 


dum 


mudu 


num 


fôlego 


lumba 


halum 


kumba 


longo 


mas 


samu 


nas 


mês 


omr 


muroo 


komr 


edade 


peer 


reepu 


cheer 


santo 


qeella 


laqeh 


rulla 


um forte 


rooburoo 


buroo roo 


koohuroo 


opposto 


sona 


na-so 


nona 


oiro ^ 



1 G. I. Ascoli, Studj critici (Milano, 1861), p. 384, n. 1. 

2 Tdem, ibidem, p. 385. 

s Idem, ibidem, p. 385-6. 



59 



G. W. Leitner estudou a giria dos ladroes dos paises 
do noroeste da lingiia numa publicação inacessível para 
mim*. Francisque Michel fez referencia a uma lingua 
artificial asiática, o haldihalan, que fora objecto de inves- 
tigações da parte de Silvestre de Sacy^. 

As fontes do calão 

O calão ou giria portuguesa, propriamente dita, per- 
tence á segunda das espécies acima referidas, isto é, á 
das girías de vocabulário próprio, que também podem 
ehamar-se complexas, por apresentarem um conjuncto de 
processos vários. Essa giria tem sido muito pouca estudada, 
e a sua historia anterior ao século xvii é, por assim dizer, 
inteiramente desconhecida. 

No século XVI Jorge Ferreira de Vasconcellos fez uma 
referencia á germanía: «Quando elles querem falão Ger- 
mânia». Eufrosina^ acto v, scena ii. O mesmo auctor em- 
pregou também a palavra geringonça, mas não no sentido 
de giria: «os honrados são pobres, os ricos vilãos são roíns, 
concertai-me esta geringonça». Ibid., acto lil, scena il. 

No século XVIII D. Jeronymo de Argote nas Regras de 
lingua portugueza (p. 300, 2.^ ed. 1725) disse: «Também em 
Lisboa entre os homens, a que chamão de ganhar, ha um 
género de Dialecto a que chamão Giria, de que os taes 
usâo algumas vezes entre si. E assim também os Siganos 
tem outra espécie de Giria, por que se entendem huns com 
os outros». 



1 Apud Pott in Internationale Zeitschrift fiir allgemeine Sprach- 
wissenschaff, ii, 110. 

2 Fr. Michel, Eludes de phil. comp. sitr Vargot p. 487. Pott in In- 
tei-nat. Zeitschrift f. allgemein. Sprachwissensehaft, r, 60, n. 2, repro- 
duz os títulos de dois estudos, um sobre termos de giria no Minahassa, 
outro sobre um calão mal aio e allude a uma nota de Crowther, Yo- 
ruha Vocab., sobre uma giria africana, consistindo em inversão de 
lettras, syllabas, palavras ou proposições. 



L)(.> 



Uma investigação bastante extensa no theatro portugiiez 
dos séculos xvi e xvii não me deu elementos seguros para 
o estudo da historia do calão. Outros talvez sejam mais 
felizes do que eu. Gil Vicente e J. Ferreira de Vascon- 
cellos oíferecera grande numero de tennos populares, mas 
não me atrevi a considerar nenhum como de calão. 

E numa obra do notável escriptor do século xvii D. 
Francisco Manuel de Mello (fallecido em 1666) que encon- 
tramos talvez os mais antigos termos indisputavelmente 
de giria *, alguns dos quaes são dados como taes por aucto- 
res do século seguinte. 

Nessa obra acha-se a palavra giria^ como adjectivo, num 
sentido que parece ser — jproprio da giria: «Bem encaixava 
sobre as ordens aqui agora o bispar: que é palavra giria 
a respeito do ver (p. 70)». Noutro logar ^mo significa as- 
tucioso: «Como vocês são girios! (p. 155)». Nesse mesmo 
sentido occorre a palavra noutros auctores e na boca do 
povo, assim como substantivamente com a significação de 
astúcia. Giria, como substantivo, significando forma par- 
ticular de linguagem, vem numa passagem abaixo citada. 
s. V. calcorrear. 

Os termos de giria contidos na Feira dos Anexins são 
os seguintes : 

arames j armas. «Pois parece bem um homem com os 
arames atravessados, mui direito (pag. 117).» Vid. infra 
Giria do século xviii. 

bispar^ ver. Vid. acima. 

cachucho, annel de oiro. «Não me aponte com o dedo, já 
lh'o disse ; bem sabemos que tem annel, e eu ca-chucho no 
dedo (p. 179)». 

calcorrear j correr. «Emquanto não recorrerem a pidhas, 
que é quem melhor os soccorre, porque concorre com o 



1 Feira dos Anexins. Obra posthuma de D. Francisco Manuel de 
Mello. Agora dada á luz pela primeira vez. Edição revista e diri- 
gida por Innocencio Francisco da Silva. Lisboa, 1875. Ha varias 
copias manuscriptas dos séculos xvii e xviii. 



íU 



resto de todos os equívocos jocosos, e em se lhes acabando, 
botam a correr a outra matéria, ou metaphora, e vão cal- 
correando com a g*iria que trazem estudada (p. 95). 

gabeo, chapeo. «Elle é anexirista de arromba ; traz cha- 
péu d'abah'oar. Girio equivoco de gabeo esteve aquelle 
(p. 119)d. 

lanterna^ garrafa de vinho. «Da adega gosta você, que 
o vi est'outro dia todo arrodellado com a lanterna feito 
Marcos, juiz da taverna (p. 117)». «... já o Joanico (que 
ainda não perdeu a confraria da camaldola) estará com as 
lanternas. Também você lhe resa pela conta benta? Nunca 
esse bêbedo me encheu as medidas (p. 176))). 

marabuto, marinheiro, homem do mar. «Antes é rapa- 
zio, e bom para marabutos (p. 117)». Olhem os poias 
(tomaram os marabutos) com que nos apoiam? (p. 205)». 
«Basta serem do mar para não serem gente; e senão olhe: 
os homens do mar como se chamam ? Marabutos^ que vale 
o mesmo que mar e brutos (p. 217)». 

monteií^a, como adjectivo, mas evidentemente em jogo 
de palavra com allusão a monteira^ carapuça (vid. Giria do 
século xvm): «Também para Turquia se vae de barrete 
veimelho : mas ella em campo com chapéu de sol, vae mais 
a propósito para a sua belleza. Indo de monte a monte, a 
formosura monteíra não lhe havia de estar mal (p. 118)». 

moscar-se, safar- se, ir-se embora. «Se lhe deu a mosca, 
vá-se moscando (p. 17õ)». 

moscoviaf «Ao cheiro da moscovia? (p. 176)». 

robtir, mascar, comer. «Vossê tem trazido nella os equi- 
vocos de rastos. Isso, é i-los assim rostindo ás marchadel- 
las (p. 9)í>. «Tenha mão: vossê suppunha, que sou bocado 
mal mastigado, que o atravesso? Que arenga é essa, que 
vossê vai rostindo? (p. 88: Em metaphora de comer). 

sornaj, somno. «Metaphora de dormir, é boa para os sete 
dormentes. Quem duvida que havia de ser uma sornaf 
(p. 100)». 

A mais antiga lista de termos de calão conhecida é a 
que deu o padre D. Raphael Bluteau no seu Vocabulário 



62 



portuguez e latino (Coimbra, 1712-1721, 8 vols. foi.) e 
no Supplemento á mesma obra (Lisboa Occidental, 1727, 
2 vols. foi.), respectivamente s. vv. gira e giria ou gira. 
« Gira, diz o erudito theatino, que tomou em consideração 
a linguagem viva, he o mesmo, que a linguagem dos ma- 
rotos». 

Fr. Luiz do Monte Carmelo, no seu Compendio de Ortho- 
graphia (Lisboa, 1767), pp. 613-614, reproduziu parte 
dos termos reunidos por Bluteau (os dados no corpo do 
Vocabulário) e juntou apenas uns quatro novos. 

A litteratura do século xviii parece dar também poucos 
elementos para a historia do calão. São bem conhecidos 
dois romances de Alexandre António de Lima, publicados 
nos seus Rasgos unetricos (Lisboa, 1742), em que se encon- 
tram muitas alterações populares de vocábulos, e algumas 
talvez apenas pretendidas populares e fabricadas simples- 
mente pelo auctor, junto com uns 17 termos de calão, dos 
quaes somente 4 não se encontram em Bluteau. A leitura de 
varias comedias do século xvin ministrou-me apenas alguns 
termos de giria, quasi todos já conhecidos desses dois au- 
ctores citados. Por exemplo, na Piquena peça intitulada o 
alfaiate c Adélia ou o Careca e Carcunda na Praça (1792) 
e noutras da mesma epocha occorrem os termos gimbo, di - 
nheiro, e geho, velho. A expressão china que é empregada 
na mesma peça no sentido de dinheiro (A mim china não 
me falta) era talvez do calão, e ginja velho (na mesma 
peça) saiu também talvez do calão. 

Nas Injírmidades da lingua e arte que a ensina a emmu- 
decer para melhorar. Author Sylvestre Silvério da Silveira 
e Silva. Invoca-se a protecçam do glorioso Santo António 
de Lisboa, por Manuel Joseph de Paiva, Lisboa 1759, 4.°, 
ha de pp. 104 a 153 uma collecção de palavras e phra- 
ses da linguagem popular, que o auctor condemna, e entre 
as quaes surgem alguns termos de calão, em parte repro- 
duzidos, ao que parece, de A. António de Lima, como se 
concluo, por exemplo, da expressão cloris de cachimbo (me- 
retriz), commum aos dois e que é provavelmente da fabrica 



63 



de Lima *. Infelizmente Paiva não deu a significação dos 
termos e phrases que colligiu^ o que torna em grande 
parte inútil a sua lista. O termo china, já mencionado^ 
occorre também nessa lista na phrase tem muita china. 

João Baptista da Silva Lopes, Historia do cativeiro dos 
presos doestado na Torre de S. Julião da Baí^ra de Lisboa 
(4 vols. Lisboa, 1833-34) deu uma lista de termos do calão 
ou algaravia dos malandros, colhidos por elle na prisão. 

Depois da publicação dos MysteHos de Paris, de Eug. 
Sue, e da sua traducção portuguesa publicada no Porto 
(1843-1846, 8 vols.), começaram a introduzir-se em roman- 
ces, em que figuravam individues das classes anti-sociaes, 
termos de calão, verdadeiros ou fabricados pelos auctores 
e traductores. Já o traductor dos Mysl^rios de Paris (o fal- 
lecido dr. José Pereira Keis, faculta- ''o distincto) dizia: 
«A linguagem dos nossos ladrões nãu é tão rica como a 
dos francezes; e por isso em alguns logares teremos de 
aportuguezar certos vocábulos». As aportuguesardes do 
dr. Pereira Reis e de outros traductores foram repetidas 
posteriormente como productos insuspeitos do calão, e o que 
é mais curioso é que pode admittir-se que alguns d'esses 
termos mal adaptados tenham entrado por fim no calão, 
por influencia das traducções, sendo todavia difíicil deter- 
minar ao certo quaes elles são. 

No romance Fr. Paulo ou os doze mistérios (Lisboa 
1844, 8.°, tomo i e único), colheu Francisque Michel os 
38 termos ou phrases do calão que inseriu a p. 441 dos 
seus Etudes de philologie comparée sur Vargot, e os quaes 
devem ser considerados como genuinos. 

Alguns jornaes teem publicado hstas, geralmente muito 
curtas, de termos de calão. Extractei duas d'essas listas 
publicadas uma no Jornal da Manhã, do Porto, ahi por 
1886, outra num periódico de Lisboa, mas infelizmente 
extraviou-se-me o extracto. 



1 Clori no sentido de amante vem já na Feira dos Anexins. 



Ô4 



Xa Revista do Minho, 1.° anno ( 187Õ, Barcellos), encon- 
tram-se os dois seguintes artigos que interessam ao nosso 
assumpto : 

Cândido A. Landolt. Vocabulário popular de alguns ter- 
mos especiaes usados pelos fadistas do Porto (pp. 54—55). 
Contem 53 termos dos quaes lazeira, pingas e versas são 
populares e não do calão. 

J. Leite de Vasconcellos. Gíria portuguesa (pp. 62-64). 
Reproduz a lista de Monte Carmelo, que suppoz ser o col- 
lector de todos os termos, e dá 18 novos ouvidos aos garo- 
tos do Porto. De um philologo, como é o auctor, havia que 
esperar mais. 

A lista mais extensa, muito mais extensa que todas as 
anteriores, dos termos de calão acha-se no artigo seguinte: 

J. M. de Queiroz Velloso. A giria (vocabulário, etimo- 
logia e historia) in Revista de Portugal, novembro de 189C> 
(pp. 153-183), Porto. 

Alem de varias considerações geraes e de indicações 
sobre as fontes do calão, contem uma lista com 1337 arti- 
gos (contei-os rapidamente, mas não pode ter havido senão 
muito pequeno erro) ; todavia o numero de termos distinctos 
é menor, porque o auctor, seguindo o exemplo, a meu ver, 
criticável de vários collectores de gírias, separa em artigos 
diversos as diíFerentes accepções de uma mesma palavra: 
ó assim que o termo macaco tem quatro artigos, o termo 
pae três, ralé três. O auctor serviu-se de Bluteau, A. An- 
tónio de Lima, Silva Lopes; examinou vários romances^ 
traduzidos e originaes, e outras fontes que não indica; mas 
a maior parte dos termos que publica foram colligidos da 
traducção viva ou directamente por elle ou por outras 
pessoas, o que dá á lista valor particular, sem comtudo 
ser possivel para nós a absoluta certeza de que não se 
tenham introduzido nella alguns productos espúrios, apesar 
da critica que o sr. Queiroz Yelloso se exforçou por exer- 
cer sobre os materiaes á sua disposição. Ha outra ordem 
de termos que não por sei'em espúrios, de falsa giria, mas 
sim por serem genuinamente populares, da hnguagem geral 



65 

do povo não deviam figurar, como figuram na lista. Taes 
são: 

Alapar-se, esconder-se, muito usado nas províncias, deri- 
vado apparentemente de lapa^ mas muito mais provavel- 
mente modificado por dimissilação de * alaparar-se (cf. pela 
forma coitar vb. por coaltarar, do s. coaltar, do inglez, e 
pelo sentido agachado^ propriamente escondido, de cachaj 
fr. cacher, e acaçapado, acachapado, abaixado, encolhido 
como o caçapo na toca). Temos também a forma alapar- 
dado, com um d epenthetico, também de laparo. 

Alhada, compromettimento, etc. Vem já em Bluteau no 
sentido de embrulhada. E perfeitamente popular. 

Almiscarado, i^oioisi^ como o antigo alfeninadoj adj. es., 
ó termo familiar (um almíscar ado). 

Asophisma é um arranjo popular de sophisma. 

Badejo, bacalhau, propriamente bacalhau vivo ou fresco, 
é termo perfeitamente geral, do hisp. abadio, de abhad, 
abhade, como bacallao de haccalario, segundo D. Carolina 
MichaêHs de Vasconcellos ^ 

Baralha, tumulto, desordem, etc, é um velho termo, 
sempre vivo na boca do povo. Nos antigos documentos era 
principalmente usado na forma tautológica á volta e ba- 
ralha: «Quem com alguém baralha e depôs a baralha a sa 
cassa entrar e hy auudo conselho fuste pêra ele firir peyte 
XXX. ^ soldos.» Foral de Santarém in Portugal, mon, hist. 
Leges, i, 408. Cp. Foral de Lisboa, pag. 413, Foral de 
Almada, p. 476, Foral d* Aguiar, p. 714^ Foral de Extre- 
moz, p. 681. «Alcaides ó iurados que a bolta ó baralla 
sobreueneren e uiren ferir ó mesar e lo uire alkalde ó iurado 
firme fasta en V morabitinos.» Costumes e foros de Castel- 
Eodrigo, ibid. p. 888. «Ningud orne que fugir de bolta ó 



1 «Certas Agulhas ferrugentas, tinham entre o Badejo e Bacalhao 
mettido tal enredo que dizia o Bacalhao : Ha quem faça melhor 
cozimento ao estômago que eu? Arre com o Badejo, que a piiro 
azeite é que vai escorregando.» Feira dos Anexins, p. 215. 



66 



de rebata tresquilenlo e pierda el quinon.» Costumes e foros 
de Castel Melhor j ibid. p. 932. «Em aquelles dias crecia 
muyto o conto dos dicipulos, e levantouse muy gram volta 
e muy gram baralha antre os diciplos Judeus.» Actos dos 
Apóstolos (in Inéditos d* Alcobaça) vi, 1. 

Encontramo-lo ainda nos provérbios colligidos por Blu- 
teau: 

Boca fechada, 
Tira-me da baralha. 



Não bulas baralhas velhas ; 
Não mettas mãos entre pedras. 

Estilha, bocado, porção, propriamente lasca, é popular. 

Foliar d'otivo, fallar sem saber de que, propriamente 
fallar do que não se conhece directamente, mas só por ou- 
vir fallar os outros, à^s^i fallar á toa, é alteração àe fallar 
d'outivo ou amies fallar d' outiva (outiva = auditiva); é po- 
pular e foi clássico na ultima forma, como pode ver-se dos 
exemplos reunidos por Moraes, Dicc. 

Manchas era simplesmente um velho plebeismo, conser- 
vado até ao século xviii, como se vê de A. António de 
Lima, e que anteriormente se encontra, por exemplo, no 
século XVI em Jorge Ferreira de Vasconcellos, Comedia 
Ulysippo, acto iii, scena vi: «Ai maochas, todo vós estais 
cortado». 

De modo nenhum podem ser considerados como termos 
de giria os seguintes também popularissimos : pança, bar- 
riga; copasio, copo (grande), cimeiro, que está no cimo, 
e outros que figuram na lista referida. 

Sem duvida ha, nas girias dos diversos países, velhos 
termos que pertenceram á lingua geral, mas que esta 
abandonou (matelote, p. ex., na lista do sr. Queiroz Velloso 
parece estar nesse caso; a palavra significa marinheiro 
como o fr. matelot, de que provém, e foi empregada pelos 
escriptores do século xvi no sentido de companheiro nas 



67 



lides do mar: (quem não sabe que Diogo do Couto cha- 
mava a Luiz de Camões seu maialote!); em muitas partes, 
como tem sido observado, os limites entre a linguagem 
popular e as girias são indefinidos; todavia isso não im- 
pede que a historia e o uso actual das palavras nos per- 
mittam separar nitidamente em muitos casos o que é da 
linguagem popular geral e o que é das girias. 

O sr. Queiroz Velloso introduziu com razão na sua lista 
os termos antiquados ou que tendem a sê-lo das listas de 
Bluteau e Silva Lopes e dos romances de A. A. de Lima, 
únicas fontes que cita anteriores a 1830; deveria ter 
notado todavia todos os termos que se acham nessas fon- 
tes, para assim apresentar no seu trabalho os poucos 
dados que possuimos para a historia do calão. Igual- 
mente teria feito bem o auctor do trabalho a que me 
refiro dando indicações rápidas (por meio de abrevia- 
turas) das fontes litterarias que examinou, alem das já 
indicadas. Apesar de todos esses reparos, deve-se reco- 
nhecer que elle prestou um apreciável serviço, que natu- 
ralmente será completado com a segunda parte promettida 
do seu trabalho. 

Da minha parte tinha eu já ha annos formado uma lista 
de termos de giria contemporânea, acrescentada depois e 
que continha 695 artigos. Tendo comparado essa lista com 
a do sr. Queiroz Velloso, eliminei delia tudo o que era com- 
mum e ficou assim um residuo que abaixo publico. A maior 
parte d' esses termos que faltam na collecção do referido 
escriptor tem ainda emprego e não foram puros caprichos 
do momento, o que prova que o sr. Queiroz Velloso foi 
demasiado longe na seguinte asseveração : «E possivel, é 
mesmo mais que provável — sobretudo para o sul do paiz — 
que ainda existem outros termos de giria, além dos aqui 
incluidos: nem nós temos a estulta pretenção de exgotar 
completamente o assumpto. Poucos serão, no entanto, em 
absoluto: e d'estes, raríssimos os que passarem d'uma 
extravagância ephemera da moda — que as tem também 
e consideráveis — o calão criminal». 



68 



Observarei que muitos dos termos da lista do sr. Quei- 
roz Velloso como da minha, teem adquirido certa genera- 
lisação na linguagem do povo, alguns até na litteratura, 
phenomeno que se dá noutros paizes relativamente ás gi- 
rias. As duas listas comteeni também termos de girias de 
classes não criminosas. 

Ha pois que distinguir, o que muitas vezes é difficil : 
1.° Termos antigos populares que se reduziram a termos 
de gíria (ex. matelote); 2.° Termos primitivamente de giria 
que se tornaram termos populares, familiares (ex. gajo); 
3.*' Termos populares geraes que, por serem empregados 
pelos que faliam o calão, podem ser erroneamente consi- 
derados como próprios do calão (ex. baralha); 4.° Termos 
das diversas girias. 

As fontes da minha lista são : 

1. Uma lista manuscripta que me ministrou ha annos 
o fallecido escriptor Leite Bastos; os termos aproveitados 
d'esta lista não levam nota particular. 

2. Os termos da lista de Landolt (abreviatura Land.). 

3. Os termos da lista de Leite de Vasconcellos (abre- 
viatura Vasc). 

4. O romance Eduardo ou os mysterios do Limoeiro^ 
pelo padre João Cândido de Carvalho (Lisboa, 1865-1866. 
4 vols.); indicado pela abreviatura M. L. 

5. A minha audição casual nas ruas de Lisboa e Porto ; 
os termos colhidos por mim próprio levam a nota C. 

Da lista de Leite Bastos tive que excluir muitos termos 
de genuidade suspeita ; mas é possivel que algum me esca- 
passe que devesse ser também riscado. 

O padre Carvalho (conhecido popularmente pela alcu- 
nha de padre Rabecão) colheu sem duvida da tradição 
viva alguns termos, mas outros revelaram-me que não me- 
recia sempre confiança. Assim encontrei nelle, além de 
alguns termos repetidos da traducção dos Mysterios de Pa- 
ris, a palavra anciã no sentido de égua, o que parece de- 
vido a um apontamento mal tomado, pois anda significa, 
não égua, mas sim agua (M. L., i, 139). 



69 



abancado, adj. Preso. C. 

abuçar, v. a. Cercar. 

abridor, s. m. Alçapão. 

acaiihotado, adj. Triste. C. 

'? acha-cliumbada, s. f. Phos- 
phoro. 

aguaruça, s. f. Fim, extre- 
midade; rol do esqueci- 
mento. 

1. alar, v. n. Ir. C. 

2. alar, v. n. Viver, 
alcide, s. m. Pão. 
alcilante, s. m. Relógio de 

senhora. Land. 

algodâo-em-rama, s. m. Pão 
alvo. C. Porto. 

alho, adj. e s. Espertalhão. 
C. 

alisar, v. a. Furtar. 

altar, s. m. Mesa de jan- 
tar. 

alumiada, s. f. Fogueira. 

ambria, s. f. Fome. 

amoinar, v. n. Pedir es- 
mola. C. moinar. Quei- 
roz. 

amostradora, s. f. Lanter- 
na. — com antrolhos. 
Lanterna de furta fogo. 

aparar, v. a. Acceitar, re- 
ceber. C. Tem também 
o sentido de — ser sodo- 
mita passivo. 

aparelho, s. m. Mordaça. 
M. L., I., 134. 

aparelhado, adj. Preso. M. 
L., I., 143. 



apertante, s. f. Corda. 

ar, s. m. Falta d'ar. Falta 

de dinheiro, C. 
aranhota, s. f. Sardinha. C. 
archeiro, s. m. Homem 

ébrio. C. - 
? arifes, s. f. pi. Tesouras. 

Cf. drifes, QuEiKOZ. 
armar, v. n. — á raposa. 

Evacuar. C. 
arrezinar-se, v. refl. Hor- 

rorisar-se. 
arrombada, s. f. Meretriz 

vilissima. Porto. 
asas, s. f. pi. Braços. C. 
asca, s. f. Quisilia, zanga. 
assentar, v. a. — á mesa. 

Denunciar. 
assoprar, v. a. Denunciar. 

C. 
assorda, s. f. Bebedeira. C. 
? atiçar, v. a. Picar (o ca- 

vallo). 
? atrimar, v. a. Vender. 
atroços, adv. Atrás, 
az-de-copas. Nádegas, po- 

dex. 
badejo, s. m. Pudendum 

mulieris. C. (Bacalhau. 

Queiroz, Vasc. Vide 

p. 6Õ). 
badona, s. Cavallo. 
b ágata, s. f. Bruxaria. C. 
baguines, s. m. Dinheiro. 

Estar a troços de — . Es- 
tar sem real. C. 
bailharote, s. m. Feijão. C. 



bailique, s. m. Quarto de 

prisão. M. L.; i, 400. 

Presentemente significa 

tarimba. C. 
balharote, s. m. Vid. bai- 

Iharote. M. L., i., 129. 
baldo, adj. — ao naipe. 

Que não tem vintém. C 
bálsamo j s. m. Vinho. 
balsar, v. n. Ladrar. Fr. 

Paulo. 
banano, s. m. Bofetada. C. 
bater, v. n. — certo. Estar 

de accordo. 
benzer, v. a. Pedir, 
besugo, s. m. Pudendum 

mulieris. C. 
bicudo, s. m. Alfinete de 

peito. 
bilontra, s. m. Maroto, bil- 
tre. C. 
bogalhão, s. m. Valentão. 

C. 
bola, s. f. Melancia. Vasc. 
bomba, s. f. Podex. C. 
borga, s. f. Pandega, orgia. 

Vasc. Passeio nocturno. 

Land. 
borla, s. f. De — . Grátis. 

C. 
bote, s. m. Podex. C. 
botica, s. f. Cara. C. 
brechar, v. n. Pagar a pa- 
tente. 
bpoi^ broia, adj. Bom, boa. 

C. 
bufo, s. m. Policia secreta. 



buldra, s. f. Podex mulie- 
ris. Land. Cf. hundra, 
barriga. Queiroz. 

busilhâo, s. m. Thesouro, 
dinheirama. C. 

butes, s. m. pi. Botas. C. 
(Pés. Queiroz.) 

cabeça, s. f. — de preto. 
Queijo. Vasc. 

cabo, s. m. Quatro soldados 
e um — . A mão, os cin- 
co dedos. Fazer quatro 
soldados e um — . Rou- 
bar. C. 

cachorros, s. m. pi. — de 
proa. Seios de mulher. 
C. 

cachucho, s. m. Annel de 
oiro. 

caganefa, s. f. Espingarda. 
M. L., I, 142. Cf. cagar- 
rufa. Queiroz (de Silva 
Lopes.) 

cagarrão, s. m. Prisão. C. 

caldo, adj. Que não tem 
real. C. 

cair, V. n. — no pau. Re- 
velar um segredo. C. 

caixilhos, s. m. pi. Olhos. 

caldaça, s. f. Vinho. 

caleço, s. m. Quartilho. 

calmeirão, adj. Preguiçoso. 
C. 

calona, s. f. Mulher despre- 
zivel. 

cambão, s. m. Ir no — . L* 
preso. 



71 



eamelote, s. m. Espolio. 

cantar, v. n. Padecer, sof- 
frer. 

capito, s. m. Capitão de la- 
droes. 

cara, s. f. Moeda de oiro do 
valor de 2?5000 réis. C. 
Land. 

cardar, v. a. Furtar. M. L., 
I, 120. (Cf. cardenho, 
roubo. Queiroz). 

careta, s. f. Moeda de 500 
réis. 'Cf. carinha. Quei- 
roz). C. 

carocha, s. f. Ponta de ci- 
garro. 

caruiifeiro, s. m. Fadista 
traidor, em que não ha 
que fiar. C. 

casca, s. f. Japona. 

catraio, s. m. Criança. Ra- 
paz. (Cf. catraia, égua. 
Queiroz). C. Land. 

cavalliiiho, s. m. Libra es- 
terlina (especialmente as 
que têem cunhado um 
cavallo). C. Land. 

cavallo, s. m. Vid. cavalli- 
nho. C. 

chaleira, s. f. Podex. C. 

chalrear, v. a. Cantar. 
Cf. chalrador, fallador. 
Queiroz. Vid. cheira. 

chalupas, s. f. pi. Botas. C. 

chamborgas, s. m. O que 
quer passar por valentão ; 
fanfarrão. 



Chão-grande, s. m. O Ter- 
reiro do Paço (praça de 
Lisboa). 

chapar, v. a. Futuere. C. 

chato, adj. Que não tem 
vintém. C. 

chavelho, s. m. Copo. 

chegadinha, s. f. Bofetada. 

cheira, adj. e s. 2 gen. Met- 
tediço, a. 

cheira, s. f. Palavra. 

chibo, s. m. Alavanca. 

chimpar, v. a. — o olho. 
Bater de chapa. 

chinfrim, adj. Que tem pou- 
co valor, que é de quali- 
dade ordinária. C. Como 
s. m. em Queiroz. 

chinoca, adj. f. Muito boa. 

cifra, s. f. Podex. 

clisar, V. a. Ver. — á pal- 
ma. Ver a geito, á von- 
tade. C. 

cocar, V. a. Vid. cucar. 

cochicho, s. m. Moeda de 
50 réis, de prata. Chapéu 
de amolgar. Casa peque- 
na. C. 

coco, s. m. Copo. C. 

coUa, s. f. Fechadura. 

collegio, s. m. Prisão, ca- 
deia. 

contado, s. m. Anno. 

copadas, s. m. Ir ás — . Ir 
ao café. Land. 

coragem, s. f. Dinheiro. 
Sem — . Sem vintém. C. 



cordaiite, s. f. Forca. 

corrida, s. f. Mês. 

corte, s. m. Koubo. Cf. cor- 
tar-sBy furtar. Queiroz. 
C. 

cortesão, s. m. Chapéu fino. 

corveta, s. f. Cachimbo. 

coveiro, s. m. — altanado. 
Procurador régio. 

cozinha, s. f. Esquadra de 
poHcia. 

cucar, V. a. Ver. C. 

culatra, s. f. Pedex. 

culatrona, s. f. Meretriz 
vilissima. C. 

cunha, s. m. Empregado 
que verifica passaportes. 

darona, s. f. Mâe. — lá de 
cima. Mãe de Deus. 

derrubador, s. m. Faca. 

descarregar, v. a. — o 
madeiramento. Andar li- 
geiro. 

desconfiar, v. n. Ir-se em- 
bora. 

?deza, s. f. Moeda. 

dia, s. m. Fazer — . Andar 
toda a noite em folgança. 
C. 

doente, adj. Compromet- 
tido. 

dor, s. m. Ciúme. Fami- 
liarmente a expressão 
dor de cotovello tem o 
mesmo sentido. C. 

dorminhoco, s. m. Ópio. 

doutora, s. f. Cabeça. 



embeiçar, v. a. Atracar. C. 

empandeirado, adj. Preso. 
C. Cp. empandeirar, ma- 
tar, assassinar. Queiroz. 

encabrestar, v. n. Apresen- 
tar a ceia. 

encaixotar, v. a. Enterrar. 

encalhar, v. n. Parar; en- 
trar. 

encanar, v. n. Mandriar, 
preguiçar. 

entrames, s. m. Entrada. C. 

envergadura, s. f. Vestuá- 
rio. 

envergar-se, v. refl. Ves- 
tir-se. 

escarnliida, s. f. Excre- 
mento. C. 

escovadinho, s. m. Chapéu. 

esfolado, adj. Zangado. 

esganador, s. m. Gravata. 

esganar, v. a. Esconder. 

espantar-se, v. refl. Zan- 
gar-se. C. 

espinheira, s. f. Mata, bos- 
que. 

esquilha, s. f. Sardinha. 

esteira, s. f. Estrada. 

Fabiano, s. m. Nome va- 
lendo como fulano que 
se dão os fadistas para 
não empregarem o nome 
verdadeiro. Land. 

faia, s. m. Fadista. C. 

faiante, s. m. Fadista. C. 

falso, s. m. Buraco da fe- 
chadura. 



73 



farar, v. a. Apanhar. 

faxar, v. a. Abrir. 

ferrameutal, s. m. Ferros 
para arrombamento. 

ferro, s. m. Dinheiro. 

fila, s. m. Official de jus- 
tiça. C. Q^. filante, agen- 
te de poUcia, guarda ci- 
vil. Queiroz. Uma quadra 
do tempo da guerra libe- 
ral allusiva a um certo 
meirinho de Coimbra di- 
zia: 

Morreu Custodio, 
Meirinho fino, 
Filante mor, 
Desde menino. 

filé, s. m. Palpite; espe- 
rança num ganho. C. 

fina, s. f. Astúcia. 

finfar, v. a. Applicar, dar. 
Bater. Futuere. C. 

fofa, s. f. Mentira. 

forty-two, num. Quarenta e 
dois. C. 

fraucisquinho, s. m. Copo 
de vinho. M. L., i, 6. 

fundo, s. m. Prisão. Cp. 
fundo, soldado, sentinel- 
la. Queiroz. 

funeral, s. m. Elogio. 

fungágá, s. m. Philarmo- 
nica. C. 

furacão, s. m. Morte d'ho- 
mem. 

gabinardo, s. m. Gabão. 
Capote. C. 



gadachim, s. m. Unha. M. 
L., I, 129. 

gaio, s. m. Cavallo. 

galdrana, s. f. Meretriz vi- 
lissima. 

galdrapinha, s. f. Meretriz. 

galdropar, v. n. — da cor- 
da. Comer da ceia d' ou- 
trem. 

gandaiar, v. n. Vadiar. 
Diz-se também no mesmo 
sentido andar á gandaia. 
C. Vid. infra, na Gíria 
do século XVIII, p. 81. 

gandaieiro, s. m. O que an- 
da á gandaia. 

gando, s. m. Piolho. Cp. 
gao, Bluteau. ganau. 
Vasc. Queiroz. 

ganfar, v. a. Vender. 

gangarina, s. f. Igreja. Cp. 
cangarína. Silva Lopes. 

garganta, s. f. Garrafa. M. 
L. I, 136. Cp. gargan- 
tosa, garrafa. Queiroz. 

garuella, s. f. Á — . A von- 
tade. 

garulla, s. f. Perua. 

gateira, s. f. Bebedeira. Vid. 
gata. Queiroz. 

gauderio, s. m. Vadio. Pa- 
tusco. Malandro. 

gaudinar, v. n. Andar na 
pandega, á boa vida, fol- 
gar. C. 

gelfa, s. f. Velha. Cp. gelfo 
(=z helfo), cão. Queiroz . 



gesso, s. m. Vinho. Vasc. 
Já nas cortes de Almei- 
rim de 1544 foi prohibi- 
do deitar gesso no vinho. 
Dessa falsificação vem a 
significação da palavra. 

gimbolinha, s. f. Aguar- 
dente. 

gingão, s. m. Coxo. C. 

giraldinha, s. f. Patuscada. 

giribato, s. m. Vinho. Land. 

giripití, s. m. Aguardente. 
C. gerípit{_, cacharolete : 
bebida composta de diffe- 
rentes Hcores. Queiroz. 

girote, s. m. Vadio. C. 

grane, s. m. Cavallo. granej, 
grani. Queiroz. 

grão, s. m. Arroz. Vasc. 

gregorio, s. m. Penis. C. 

grelha, s. f. Peru. 

griso, s. m. Frio. ^ris^ Blu- 

TEAU. 

grossa-casca, s. f. Caixa de 
prata. 

grosso, s. m. Bêbado. C. 

grossura, s. f. Bebedeira. 

grudar, v. n. Convir. Ad- 
aptar-se, accomodar-se. 
Estar de accordo. C. 

grulha, s. m. Porco. Nos 
M. L., I, 13Õ, peru. Em 
Queiroz, com outras si- 
gnificações. 

giielar, v. n. Gritar, pairar. 

guesso, adj. Caricato, desa- 
jeitado. C. 



guiho, s. m. Artelho. 

horar, v. n. Fazer horas. C 

ilhoz, 8. m. Podex. C. 

inglez, s. m. Percevejo. C. 

irmo, s. m. Irmão. C. 

kioske, s. m. Podex. C. 

labita, s. f. Casaca. 

lamira, s. f. Libra. Vasc. 
Cf. lamiro. Queiroz. 

lanterna, s. f. Sapato. Gar- 
rafa de vinho. 

largar, v. n. Mentir. 

larias, s. f. Laranja. Vasc. 

lascar, v. n. Evacuar. C. 

Jatingar, v. a. Comer. 

lavado, s. m. Quartilho de 
vinho. 

linguado, s. m. Lettra com- 
mercial. C. 

liré, s. m. Vinho. 

lirias, s. f. Vid. larias. 
Vasc. 

livraria, s. f. Repertório 
grande de cantigas. 

lixar-se, v. Futuere. 

lofo, adj. Pateta. 

lostra, s. f. Escarro. Bofe- 
tada. C. 

lupa, s. f. Cantar a — . Vo- 
mitar. 

luzente, s. m. Pedra pre- 
ciosa. 

luzida, s. f. Festa. 

lyra, s. f. Guitarra. Land. 

macote, s. m. Sacola. M. 
L., I, 143. Cf. maço. 
Queiroz. 



75 



macote, s. m. Podex liomi- 
nis. Land. 

madrinha, s. f. Testemu- 
nha. 

maduro, adj. Tolo, de- 
mente. C. 

magal, s. m. Soldado. 

major, s. m. Pae. Ir para 
o — . Não prestar, nao 
servir. 

malaíaía, s. m. Significação 
análoga á de melcatrefe. 

malva, s. f. Chapéu (de 
amolgar). 

Mandamentos, s. m. pi. 
Dez — . Os dedos da 
mão. C. 

maudigula, s. f. Bebida nar- 
cótica. 

mandíl, adj. Preguiçoso. 

mangalhado, adj. Pregui- 
çoso. 

man galho, s. m. Penis. 

maqumeta, s. f. Cabeça. 
Ter macacos na — . Ter 
mania, loucura. 

marinheiro, s. m. O que 
traz dinheiro comsigo e 
diz que não o tem. Land. 

marosca, s. f. Ardil, logro. 

marrão, adj. Apanhado, 
descoberto (num crime). 

marreta, s. f. Sapato. 

martelinho, s. m. Copo de 
meio quartilho. Penis. C. 

? martyrios, s. m. pi. Fer- 
ramentas. 



maseovia, s. f. Casaca. Vid. 
macovia. Queiroz. 

masquir, v. a. Mastigar. 
Land. 

mata, s. f. Logar onde se 
vende fato velho. 

matar, v. a. Prender. 

meio-bordo, s. m. Facada. 

melcatrefe, s. m. Sujeito de 
profissão duvidosa. Ter- 
mo vago de desprezo com 
que se designa um rapaz, 
um homem. 

menesa, s. f. Concubina. 
Land. Cf. manesa, mu- 
lher. Queiroz. Menesa, 
abbadessa. Id. 

miar, v. n. Gritar. 

midea, s. f. Cabeça. 

milhafre, s. m. Mil réis. 
«Consultei a peva e achei 
só um milhafre» abri a 
bolsa e achei só mil reis. 

mimoso, s. m. Chapéu fino. 

minhocas, s. f. pi. Sopa de 
macarrão. Land. 

mistico, adj. Acordado. M. 
L., I, 134. Homem alto. 

mitra, s. Na giria dos pe- 
dreiros, coelho. Vasc. 
A evolução da linguagem, 
p. 53. 

moca, s. f. Tolice. Traição. 

mocar, v. a. Enganar. Tra- 
hir. 

moco, s. m. Tolo, pedaço 
de asno. 



76 



mofo, s. m. De — . Grátis. 

C. 
moiua, s. f. Audar á — . 

Andar a pedir esmola. 

Vid. amoiuar. C. 
moleque, s. m. Bofetão. C. 
moucoso, s. m. Lenço de 

assoar. 
money (pron. móní), s. m. 

Dinheiro. 
moute, s. m. — de pedras. 

Edifício da prisão. 
monteira, s. f. Prisão, 
morder, v. a. Fazer mal a. 
moscardo, s. m. Bofetão. C. 
moscar- se, v. refl. Fugir 

com roubo. C. 
mosco, s. m. Roubo. C. 
mosqueiro, s. m. Casa. 
moxingueiro, s. m. Juiz da 

prisão. M. L., I, 40, etc. 
nadar, v. n. Justificar- se. 
narro, s. m. Gato. 
nasio, s. m. Nariz. C. 
nicar, v. n. Futuere. C. 
nicola, s. f. Acção de nicar. 

C. 
noscar, v. a. Quebrar. 
noz, s. f. Cabeça. 
official, s. m. — de boca 

aberta. Cantor. 
olho, s. m. Na giria dos 

pedreiros, tostão. Vasc. 

A evolução da linguagem^ 

p. 53. — de boi. Cruzado 

novo. 
padrinho, s. m. Testemunha. 



paiol, s. m. Estômago. C. 

palito, s. m. Punhal. Land. 
(Cigarro. Queiroz), pi. 
Pontas de boi. 

pandego, s. m. — nocturno. 
Guarda nocturno, sereno. 

panella, s. f. Carruagem. 
Podex. C. 

pantufo, adj. Gordo. C. 

parelhar, v. a. Divertir. 

pardal, s. m. Espião poli- 
cial. 

parrameiro, s. m. Puden- 
dum mulieris. 

parrançar, v. n. Mandriar. 
C. 

patrona, s. f. Pudendum 
mulieris. 

patao, s. m. Tolo. Asno. Nos 
diccionarios como popu- 
lar. 

patrajona, s. f. Meretriz de 
soldados, que segue um 
regimento de terra em 
terra. C. 

patrazana, s. m. Soldado da 
guarda municipal. Vasc. 

patuno, s. m. Pudendum 
mulieris. 

pega, s. f. Verdade. 

peixe-na-costa, s. m. Gente 
suspeita. 

peneira, s. f. Fome (Lis- 
boa). C. Sede (Porto). 

pente, s. m. Amasia. Mere- 
triz. C. 

pevide, s. m. Podex. 



77 



philarmoiiica, s. f. A poli- 
cia apitando. C. 

piegas, s. m. Penis. C. 

pilula, s. f. Cama. Cp. jpil- 
tra. Queiroz. 

pinto, s. m. Criança. C. 

pirata, s. m. Cabo de poli- 
cia. C. 

pire, s. m. Prato. Vasc. 

pitada, s. f. Prostituta. 
Land. 

placa, s. f. Moeda de prata 
de 500 réis. (Moeda de 
prata de 240 réis. Quei- 
roz). 

ponis, s. f. Mulher. 

presunto, s. m. Pessoa 
morta. Land. 

quebrado, s. m. Copinho. 

queijo, s. m. Negocio. 

querer, v. a. — meça. Pôr 
duvida. 

quilhar, v. n. Futuere. C. 

quinhames, s. m. Sapato 
grosso. Pé. C. Cp. ca- 
nhantes^ botas. Silva Lo- 
pes. 

quinta, s. f. Enfermaria de 
meretrizes. 

rabão, s. m. Diabo. 

ralé, s. f. Génio, Índole. 
Pouco differente do uso 
commum da palavra. 

rapiaça, s. f. Patuscada. 

ratoeira, s. f. Casa onde se 
reúnem ladrões. 

refeita, s. f. Ceia. 



regulado, s. m. Relógio. 

remédio, s. m. Explicação. 

reminicar, v. n. Queixar-se. 

replicar, v. n. Voltar. 

respo, s. m. Excremento 
humano. C. 

risca, s. f. Desordem. C. 

riscar, v. n. Manobrar com 
a navalha antes de dar a 
facada. C. 

roca, s. f. Bengala. 

roçar-se, v. refl. Rir-se. C. 

rodellinha, s. f. Annel. 

rodilha, s. f. Gravata. C. 

roedura, s. f. Pesar, tris- 
teza. C. 

rola, s. f. Caldo. Criada de 
servir chegada da pro- 
víncia. 

rolha, s. f. Juizo, bom senso. 

ruiva, s. f. Policia. 

rustideira, s. f. Acção de 
comer. Coisa que se come. 

saltante-picado, s. m. Dado 
chumbado. 

samatra, s. f. Penis. (Bebe- 
deira. Queiroz). 

sarambia, s. f. Masturbação. 

sebastião, s. m. Tolo. C. 

sem-luzios, adj. Cego. 

servido, adj. Preso. C. 

servir, v. a. Espancar. C. 

sinhama, s. f. Senhora. Cf. 
sinhá. Queiroz. 

sobremoscovia, s. f. Sobre- 
casaca. Cf. sobre-maco- 
via. Silva Lopes. 



78 



soldados, s. in. pi. Vid. cabo. 
sona, adj. Preguiçoso. 
sondar, v. n. Morrer, 
soiideque, s. m. Bofetada. 

C. 
sonhar, v. n. — com o pae. 

Embriagar-se. 
sorna, s. f. Cama. 
sovelão, s. m. Avaro, pou- 
pado. C. 
subideira, s. f. Escada. 
sulipa, s. f. Jogo de alçapé. 
tacho, s. m. Cara. C. 
tapor, s. f. Na giria dos 

pedreiros, porta. Vasc. 

A evolução da linguagem, 

p. 53. 
tardos, s. m. Podex. 
tefe, s. m. Podex. Puden- 

dum mulieris. C. 
temposa, s. f. Caixa. M. 

L., I, ISõ.Vid. tampòsa, 

Queiroz. 
tento, s. m. Bofetada. 
teuéne, pron. pess. Na 

giria dos pedreiros, teu. 

Vasc. A evolução da lin- 
^ guagemj, p. 53. 
tocador, s. m. Bebedor. 
tocar, V. a. — trombeta ou 

simplesm. tocar, beber. 
todas, s. f. pi. Umas — . 

Uma bofetada, C. 



torcida, s. f. — grossa. Pe- 
chincha. M. L., I, 120. 

tosse, s. f. Fome. C. Falta 
de dinheiro. Lanu. 

traidor, s. m. Sapato. 

triques, adj. Todo — á bei- 
rinha. Todo liró. C. (Todo 
triques á marinha. Quei- 
roz). 

tronco, s. m. Homem. 

liga, s. f. Fazer — . Conti- 
nuar. M. L., I, 135. 

ugar, v. n. Gritar, dar alar- 
me. 

um-sete, s. m. Navalhada. 
Land. 

vegete, s. m. Amante ve- 
lho. C. Este termo é 
muito usado no theatro. 

verde, s. m. Frio. 

verónica, s. f. Cara. C. 

xarifa, s. f. Pudendum mu- 
heris. C. 

zachael, s. m. Burro. 

zarear, v. n. — a mona. 
Zangar-se. 

zona, s. f. Noite. 

zouca, s. f. Na giria dos 
pedreiros, coisa. Vasc. 
A evolução da linguagem, 
p. 53. 

zuncho, adj. Que está d'ac- 
cordo. C. 



79 



Tem sido notado noutros países que, apesar das modi- 
ficações que as girias experimentam, ás vezes num curto 
espaço de tempo no seu material de termos e ainda nal- 
guns processos secundários, ha nellas uma unidade funda- 
mental que não se perde, um certo fundo de termos e de 
processos que escapa a todas as innovaçoes. Aqui, como 
em toda a linguagem, observa-se o que nota Horácio : 

Multa renasceniur quae iam cecidere, cadentque 
Quae mine sunt in honore vocabida, si volet usus. 

A comparação das duas listas seguintes, uma de termos 
do século XVIII, a outra de termos em uso no calão na epo- 
cha da guerra constitucional (Silva Lopes) com a minha 
lista e a do sr. Queiroz Velloso mostra a persistência de 
boa parte d'esses termos. E possivel até que alguns ter- 
mos indicados como antiquados persistam ainda nas girias 
provinciaes. 

Girla do século XYIII 

Os termos colhidos por Bluteau não levam indicação 
de fonte ; os de Monte Carmelo vão indicados pela abre- 
viatura M. C. ; os de A. A. de Lima com o appellido 
Lima, os das Infermidades da língua com o appellido do 
auctor, Paiva. A significação attribuida aos últimos é 
conjectural. 



aifarreca. Cabelleira. 

altenado. Amo. 

alvada. Carapuça. 

arame. Espada, adaga. Usa- 
se ainda no sentido de — 
navalha. 

artife. Pão. 

asca. Quisilia. Zanga. Pai- 
va. E antes um termo 
popular. 



avesar, avesar-se. Estar 
presente. Antiquado. 

bagulho. Dinheiro. Paiva. 
Estão em uso as formas 
bago e hagalhoça, no 
mesmo sentido. 

banza. Guitarra. Paiva. 

bastos. Dedos. 

bayuca. Taverna. Termo 
popular. 



80 



bayuqueiro. Taverneiro. 
Termo popular. 

basaruco. Moeda de cobre 
ou bronze? Paiva. Usado 
no sentido de — pataco. 

beque (dar ao — ). Fallar? 
Paiva. Beque significa- 
ria aqui hoca, como hoje 
significa nariz; cf. argot 
fr. hecy boca. 

bico, 8. m. Bebedeira. Fa- 
zer o bico ao faxo, embe- 
bedar-se. Vid. a passa- 
gem citada s. v. faxo. 

bola. Cabeça. 

bolonio. Simples, pobrete. 
É antes um termo popu- 
lar, ainda vivo. 

cachimbos. Pcs. Antiquado. 

cachucho. Annel de oiro. 
Paiva. 

calcorrear. Correr. 

calcos. Sapatos. 

calmar. Dar (bater, espan- 
car). Antiquado. 

cascunhar. Ver. Antiquado. 



casebre. Casa. É propria- 
mente termo popular, 
^npregado ainda hoje no 
sentido de casa pequena 
e velha. 

eatropéo. Cavallo. E mais 
usada hoje a forma catra- 
pós. 

chelpa, s. f. Dinheiro*. 

cheta. Vintém. 

china. Dinheiro. PaIVA. 
Antiquado^. 

cosque morrosque? Paiva. 
Cosque no calão moderno 
é casa. 

cria. Carne de vacca. Anti- 
quado. 

criar. Ter alguma coisa. 
Antiquado. — miuas de 
caroço, ter ou possuir 
muito. Minas de caroço 
usa-se ainda no sentido 
de fortuna, riqueza. 

crivantes. Dentes. 

dez-bofas. Dez réis. Anti- 
quado. 



1 Tem grande chelpa escondida, 
e de tudo quanto tem, 

he herdeira sua filha. 

o damno dos miseráveis (entremez). Lisboa, 1784. 

... O noivo era fama que media 
aos alqueires a cheljm. . . 

Segunda parte da viagem sonhada, que fez hum 
homem dormindo, Lisboa, 178.5. 

2 Oh ! tomara-lhe eu a china ! 

o damno dos miseráveis (entremez). Lisboa, 1784. 



81 



eucaiilias. Meias. Antiqua- 
do? 

eiitrujir. Entender. Anti- 
quado. 

espigas. Bigodes. 

estardato. Estoque. Anti- 
quado. 

falso. Lenço. Antiquado. 

fanfar. Fallar? Paiva. 

faxo. Pau. Antiquado. No 
sentido de cara, num es- 
cripto jocoso, (hoje faxa 
no mesmo sentido). Vid. 
bico *. 

fumélio. Tabaco para fu- 
mar. Lima. Antiquado. 

gabio. Chapéu. Antiquado. 

gabrinaldo. Gabinardo, ga- 
bão. Paiva. Usa- se a 
forma gabinardo. 

gadanhos. Dedos, mãos. 
Paiva. 



galfarro. Vadio. Beleguim? 
Paiva. O termo galfarro 
é dado por Bluteau como 
chulo no sentido de gi- 
gantão, soberbo, valente. 

galga. Fome. M. C. Anti- 
quado. 

galradeira. Lingua. 

galrar. Fallar. 

gambias. Pernas. 

ganchorra. Mão. Antiquado? 

gandaia (andar á — ). Va- 
diar, viver ao Deus dará. 
Em Lisboa andar á gan- 
daia ó propriamente re- 
volver os lodos do Tejo 
na baixa-mar para apa- 
nhar algum objecto apro- 
veitável que por lá haja. 
Paiva. Vid. gandaeiro. 

gaudaeiro, s. m. O que an- 
da á gandaia 2. 



^ . . . tendo de dia feito ao faxo 

O bico muito bem, ficando hum caxo. 

Raio poético de Matusio Mattoso Matos 
das Matas. Lisboa, 1786. 

2 Deste cano real hoje te saco, 

Qual saca o gandaeiro um prego torto 
Dentre os chichelos velhos da enxurrada. 

Correia Garção, Theatro novo, scen. 5. 

. . . e estes peraltas, 
tristíssimos gandaeiros, 
e outros ejusdem furfiiris, 
pobretões já ex professo, 
nâo vêem junto um só tostão. 

Incisão anatómica ao corpo da Peraltice. 
Lisboa, 1771. 



82 



gaiiíços. Dados. Antiquado. 

gao. Piolho. Usam- se as 
formas ganau, gando. 

garrocha. Unha, mão. An- 
tiquado. 

gateira. Bebedeira. Paiva. 

gaudiperio, s. m. Injuria 
que se faz tendo relações 
amorosas com a mulher 
ou amante de outrem*. 

geba. Mãe velha. 

gebo. Velho. Em varias 
comedias 2. 

gimbo. Dinheiro. Lima. 
Antiquado 3. 

gisar. Furtar. M. C. Anti- 
quado. 



golpe. Algibeira. 

grão. Cruzado novo. 

gris. Frio. Parece estar 
ainda em uso a forma 
griso. 

janisaro. Tunante, maga- 
não. M. C. (Bluteau es- 
creve g anisar o.) Anti- 
quado. 

jorna. Vagar. Antiquado. 

joruando. Estou — . Não 
quero sair. Bluteau. 
M. C. Antiquado. 

justa. Casaca. Usa-se no 
sentido de jaqueta. 

lancho. Penedo. Antiqua- 
do. 



* Assim como no leito foi pilhado (Marte) 
Fazendo gaudiperios ao coitado 
Do ferreiro Vulcano, a que a mulher 
Armas contra seu gosto faz trazer. 

Raio poético de M. M. Matos das Matas. 

Toda essa gritaria, e apupada, 
Que te fere os ouvidos, he causada 
Do feio gaudiperio, que pregou 
A hum Ginja, que ha pouco se casou 
Sua mulher . . . 

Segunda parte da viagem sonhada, quefe 
um homem dormindo. Lisboa. 1785. 



.. .mal pilhou 
O seu Gebo a dormir. 



Segunda parte da viagem sonhada, que fez 
um homem dormindo. Lisboa, 1785. 



3 Eu lhe buscarei idea 
para* lhe sacar o gimbo. 



o damno dos miseráveis (entremez). Lis- 
boa. 1784. 



83 



lima. Camisa. Usa-se a for- 
ma limosa no mesmo sen- 
tido. 

lostra. Bofetada. Paiva. 

luzios. Olhos. Lima. 

marca. Puta. Antiquado. 

marco. Homem. Antiquado. 

marimbar, v. n. Os diccio- 
narios trazem este termo 
no sentido chulo de en- 
ganar, lograr. Colligi al- 
gumas passagens em que 
equivale a — rir- se de, 
não fazer caso de^ 

meço, s. m. Homem, esper- 
talhão, finório, libertino, 
etc.2 Vid. p. 100-101. 

monteira. Carapuça. Anti- 
quado ? 

moquideira. Boca. 

nautesnem. Parece ser idên- 
tica no sentido a niente. 
Antiquado. 

niente. Não sabes (sic). 
Usa-se a forma nente^ 
não, nada. 



piJra. Cama. Usam-se as 
formas i^eltra e píltra, no 
mesmo sentido. 

pio. Vinho. 

purrio. Bêbado. Usa-se no 
sentido de reles, vil. 

rafa. Fome. Antiquado? 

rafar. Sumir. Furtar. M. 
C. Antiquado. 

rata. Fome. Usa-se a ex- 
pressão ter um rato no 
estômago^ na barriga^ no 
sentido de ter fome. 

raso. Frade. 

rede. Capa. Usa-se no sen- 
tido de roupa. 

rifar. Furtar. M. C. 

roda. Tostão. 

rustir. Comer. 

sonar. Dormir. 

soquir, suquir. 

sorna. Cama? 
Paiva. 

sornar. Dormir? Paiva. 

tardar. Vestido de mulher. 
Antiquado. 



Comer. 
Preguiça^? 



1 Então no tal casamento 
Desde já estou maribando. 

o éLamno dos miseráveis (entremez). Lis- 
boa, 1784. 

Ora eu estou maribando em vossa alteza. 

Novo entremez dns regateiras bravas. 
Lisboa, 1786, 

2 Nesta certeza os mecos conloiados 
A seu salvo as saúdes repetião. 

Raio poético de M. M. Matos das Matas. 
Lisboa, 178G. 



84 



terne. Costas. Antiquado. uuhante, s. 2 gen. O, a que 
Terragosa. Lisboa. Anti- deita a unha ás coisas, 

quado. rouba*. 

tirantes. Calções. verónica. Rosto. Paiva. 

ugar. Andar, continuar? vinorica (= verónica). 

Paiva. Vid. p. 86 uga, Rosto. Lima. 

continuar. vulto. Corpo. Lima. Ant. 



Calão do primeiro terço do século XIX 

José Daniel Rodrigues Costa, na Camará óptica^ folheto 
III (Lisboa, 1807) traz uma lista de termos que pretende 
terem sido então introduzidos na linguagem dos tafnes: 
pizorga, embriaguez, bebedeira ; pec^mcAa^ lucro, ganho; 
cuquenha, acerto, felicidade; chalaça^ zombaria, escarneo; 
moafa, perturbação de sentidos, impertinência; emhofea^ 
logro, altivez ; caurim, logro, calote ; grifaria^ exótico (sic), 
ridicularia; jpimpão, valente, destemido; maluco, tonto, 
doudo; jpitéo, quinhão, interesse; petisco, ninharia, boca- 
dinho ; matuto, teimoso, parvo ; vispere, desapparecer, fugir, 
(diz-se propriamente : fazer vispere) ; pinto, cruzado novo ; 
caçoquim, meio tostão ; grazinador, loquaz ; espelunca, 
ganho de jogo ; embaçar, engano, trama (sic). 

Alguns d^esses termos não eram por certo novos ; outros 
sairam talvez da giria, como pizorga, cuquenha, caurim, 
pinto (cp. ganso, cruzado novo). 

Cuquenha é provavelmente o mesmo que cucanha, do 
fr. cocagne: pays de cocagne, pays imaginaire oíi tout 
abonde, ou Ton trouve tout à souhait. Littré. 



E por isso nâo pára em parte alguma 
Nem com ella também coisa nenhuma, 
Por ser dotada de tal ar á^unhantCf 
Que excede a qualquer rapinante. 



Eaio poético de M. M. Matos das Matas. 
Lisboa. 1786. 



85 



Caurim. vem de cauri^ nome das conchas que na costa 
de Africa servem de moeda. A palavra parece ter tomado 
o sentido de moeda falsa; d'ahi impingir um caurim^ passar 
uma moeda falsa, e, por extensão, pregar um logro. 



Calão OU algaravia dos malandros 



ádica, ao pé. 

afiançar, pegar. 

amarra, cadeia de relógio. 

amarra de lodo, cordão de 
oiro. 

altanado, juiz.- 

ardose, aguardente. 

archote, quartilho de vi- 
nho. 

archote, meio quartilho de 
vinho. 

artâo, pão. 

avela, tem. 

avesa, tem. 

avoador, pombo. 

balda, algibeira de mulher. 

baquesim, bolsa. 

barra, garrafa de vinho. 

barraca, chapéu de sol. 

batas, mãos. 

berrar, denunciar. 

belfo, cão. 

bocanhím, clavina. 

bocanhim, trabuco. 

bola, toucinho. 

botelha, garrafa. 



bramar, queixar. 
cabra, denunciante. 
cagarrufa, espingarda. 
calcaiites, sapatos. 
calcos, sapatos. 
canhantes, botins. 
cantante, gallo. 
caugarina, igreja. 
cheta, vintém. 
chona, noite. 
clizes, olhos. 
cornante, boi. 
cuelle, casa. 
diluvio, caldo. 
entrujão, comprador de rou- 
bos. 
entrujar, perceber. 
espaldar, lençol. 
espinha, punhal. 
escamar, sentir, 
escamou-se, sentiu. 
estarim, cadeia. 
faca, cinta. 

falhas, cartas de jogar. 
farpela, manta. 
fêmea, fechadura. 



* Modifiquei a orthographia de Silva Lopes. 



'^0 



fiJho do golpe^ ladrão de 

lenços. 
foi feito j foi roubado. 
fuiidaiiarios, soldados da 

policia. 
fundos, soldados. 
fusca, justiça. 
gadé, dinheiro, 
gage, mulher. 
gajo, homem. 

gamar, furtar com subtileza, 
gansos, cruzados novos. 
ganau, piolho. 
geba, velha. 
geboj velho. 
gomarra, gallinha. 
golpe, bolso. 
grane, cavallo. 
grani, égua. 
grego, peru. 
grillo, relógio. 
guines, cinco réis. 
ir na pireza, safar- se. 
justo, collete. 
laia, prata. 
laivo, lenço, 
legante, pistola. 
lepes, dez réis. 
lodo, oiro. 
lúmia, meretriz. 
macanjo, falso. 
maço, saco. 
macovia, casaca. 
magano, relógio. 
malandro, ladrão de casas. 
mão, chave. 
maquino, ladrão de estrada. 



raaracão, morte. 
Matta, Lisboa. 
maxa, fechadura. 
medunha, dedos. 
menina, chave. 



misto, bom. 

nentes, não. 

nuvem, capote. 

pae, capitão de ladrões. 

paivo, cigarro. 

parné, dinheiro. 

pasma, sentinella. 

penante, chapéu. 

penduras de uvas ferraeâ, 

lâmpadas de prata. 
piar, beber. 
pirar, fugir. 
ratanhí, gazua. 
respalde, lençol. 
roda, tostão. 
ruço, burro. 
safo, lenço. 
sarda, faca. 
senhor, dono de alguma 

coisa. 
serralhas, peças de léoOO. 
sobre-macovia, sobre-ca- 

saca. 
sornar, dormir. 
tamposa, caixa. 
tinente, esperto. 
tralha, capote. 
troses, calsas. 
uga, continuar (sic). 
ventana, janella. 
xelro, galé (prisão). 



87 



Junto o seguinte exercício do piolho, colhido da tradi- 
ção, mas conhecido nessa forma no tempo a que remonta 
a lista supra: «Metter a beta (mão); — tirar o gao (piolho); 

— levar ás entaladeiras (os pollegares apertados pelo lado 
das unhas); — ás competentes cuspideiras (cuspir-lhe) ; 

— limpar aos tirantes (calças); — dar passagem aos que 
ficam». 



Á identidade dos elementos fundamentaes do calão no 
tempo, junta-se a sua identidade no espaço : assim a maio- 
ria dos termos do calão do norte de Portugal encontram-se 
ao sul. O mesmo facto repete-se com as diversas girias 
nos outros paises. «Tandis que chaque région de Fltalie, 
diz Lombroso, a un dialecte propre, et qu'il serait impos- 
sible à un calabrais de comprendre un lombard, les voleurs 
de Calabre ont le même lexique que ceux de Lombardie. 
Dans les deux pays, on appelle chiaro le vin, ai^ton le 
pain, lensa Feau, ci^ea la viande. L'argot de Marseille 
n'est pas autre que celui de Paris*». 

Calão dos contrabandistas de Albergarla-a- Velha 

Para confirmar essa observação darei uma lista, infeliz- 
mente muito curta, de termos usados numa giria de gente 
de Albergaria-a- Velha, districto de Aveiro, a qual nego- 
ceia em cavalgaduras, faz contrabando, e tem contracto 
com ciganos, sendo até conhecida pela denominação im- 
própria de ciganos. Devo o conhecimento d'esses termos 
aos srs. coronel Brito Rebello e medico Lemos (de Alque- 
rubim). A maior parte de taes termos é-nos conhecida de 
outros pontos do paiz (especialmente de Lisboa e Porto); 
alguns que parecem especiaes ao calão de Albergaria de- 
vem ter tido maior extensão no uso: só assim se explica 
como piovês (do argot francez pivois), stockjish (do inglez, 



1 Cesare Lombroso, Uhomme criminei, tracl. fr. Paris, 1887, p. 465. 



88 



em que a palavra significa bacalhau secco) chegaram até 
essa gente de Albergaria. A lista faz crer que o estudo 
das girias semelhantes das nossas províncias teria muito 
interesse. 



arames^ s. m. pi. Esporas. 

artife, s. m. Pão. 

befe, s. m. Podex. 

broi, broia, adj. Bom, boa. 

cachilras, s. m. pi. Seios. 

calique, s. m. Dinheiro. 

catroio, s. m. Cavalgadura. 

catruchas, s. f. pi. Botas 
de agua. 

chavelho, s. m. Copo de 
vinho. 

cboina, s. f. Cama. 

choinar, v. n. Dormir. 

coco, s. m. Copo. 

cosque, s. m. Casa. 

croia, s. f. Dona da casa. 

desconfiar, v. n. Retirar-se. 

duque, s. m. Cão. 

escarnhida, s. f. Excremen- 
to humano. 

esquilha, s. f. Sardinha. 

estoio, s. m. Cavalgadura. 

fanfar, v. a. Apanhar, rou- 
bar. 

fardelhas, s. f. pi. — de 
trigo. Pão de trigo. 

froina, s. f. Broa. 

gadanhos, s. m. pi. Dedos. 

gelfo, s. m. Cão. 

gomarra, s. f. Gallinha. 

irmo, 8. m. Irmão. 

lupante, s. m. Olho. 



lupar, V. a. Ver. 
malurdia, s. f. Mãe. 
manez, s. m. Homem. 
maneza, s. f. Mulher. 
moinar, v. n. Dormir. 
moletos, s. m. pi. Pós ou 

dedos. 
monteira, s. f. Cabeça. 
moquideira, s. f. Boca. 
mosquir, v. n. Comer. 
mosco, s. m. Poubo. 
o-da-eira. Padre. 
palurdio, s. m. Pae. 
piar, V. a. Beber. 
piar-do-ventre. Flatus ven- 

tris. 
piovês, s. m. Vinho. 
porco, s. m. Porco, 
quilhar, v. a. Futuere. 
raso, s. m. Padre, 
reco, s. m. Porco. 
reichelo, s. m. Porco, 
respo, s. m. Excremento 

humano. 
stockfish, s. m. Presunto. 
suquidora, s. f. Boca. 
suquir, V. a. Comer. 
telo, s. m. Jumento. 
tó, s. m. Porco, 
trigo, s. m. Pão. 
vezer, v. a. Ver. 
zagrâo, zagré, s. m. Vinho. 



89 



Fado do calão 

Nos Romances de germanía de Juan Hidalgo (vid. infra) 
ha um em que uma serie de termos da giria hispanhola ó 
dada com a traducção : 

habla nueva Germanía 
porque no sea descornado, 
que la otra era muy vieja 
y la entrévan los villanos. 
A la Cama llama Blanda, 
donde sornan en poblado. 
A la Fresada Vellosa, 
que mueho vello ha criado. 
Dice á la Sabana Alha 
porque es alba en sumo grado. 
A la Camisa Carona, 
Al Jubon Uaman Apretado : 
dice el Sayo Tapador, 
porque le lleva tapado, 
etc., ete. 



O seguinte /ac?o é no género do referido romance 

Ao fadista chamam /aia 
Ao agiota intrujão, 
Ao corcovado golfinho, 
Ao valente bogalhão. 

Entre o povo portuguez 
Ha calões tâo revesados 
Que deixam muitos pintados 
Por mais de cento e uma vez. 
Lá vâo alguns — trinta e três 
(Não sei se nelles dou raia) 
A prata chamam-lhe laia. 
As nossas cabeças pinhas ; 
Aos porcos chamam sardinhas. 
Ao fadista chamam faia. 



90 

As nossas mãos chamam batas; 

Ao génio chamam ralé; 

A esperança chamam filé, 

As bruxarias bagatas ; 

As velhas chamam cascatas 

Ao poupado sovelão, 

Um gabinardo ao gabão ; 

Ao caldo chamam-lhe rola; 

A um relógio cebola. 

Ao agiota intrujão. 

Ao fugir chamam raspar ; 
Chamam á casa mosqueiro ; 
Ao ébrio chamam-lhe archeiro, 
Ao comprehender toscar ; 
Ao roubo chamam cortar, 
A guitarra pianinJio, 
Ao chapéo escovadinho ; 
Ao jogo chamam batota, 
A uma sardinha aranhota. 
Ao corcovado golfinho. 

A fome chamam peneira; 
Também lhe chamam larica; 
Chamam á cara botica, 
A aguardente piteira; 
Chamam bico á bebedeira; 
A uma mentira palão ; 
E também é de calão 
Chamar- se ao vinho briol. 
Ao nosso bucho paiol, 
Ao valente bogalhão. 



Historia do cãlão 

Em o nosso país o interesse, quer de simples curiosi- 
dade, quer de caracter scientifico, por um grande numero 
de objectos, não se despertou se não mais tarde e em geral 
de modo menos completo que noutros paises. Não admira 
portanto que só possamos seguir directamente a historia 
do calão até ao século xvii, a não ser que alguns proces- 



91 



SOS judiciaos venham revelar a existência de mina, até 
hoje desconhecida, de termos de antigo calão. Noutros pai- 
ses o investigador acha se em melhores condições. Na 
França, graça ás celebres Ballades de Jargon ou Johe- 
lin de François Villon, esse escroc genial do século XV, do 
processo da confraria anti-social dos Coquillars em 1455 
e outras fontes, pode seguir- se até aquelle século, com suffi- 
ciente segurança de dados, a historia do argot ow jargon. 

O jargon do século XV foi objecto, entre outros, dos 
seguintes trabalhos, dos quaes só tenho presentes os dois 
primeiros : 

Auguste Vitu. Le Jargon au xv® siècle. Étude jphilologi- 
que. Paris, 1884. 

Mareei Schwob. Le Jargon des Coquillars en 1465, in 
Mémoires de la Société de Linguisfique de Paris, tome vii, 
fase. 2®, 3® (à suivre). 

Lucien Schõne. Le Jargon et Johelin de François Villon, 
suivi du jargon au ihéâtre. Paris, 1888. 

Pierre d'Alheim. Le Jargon johelin de maistre François 
Villon, Paris, 1892. (Ignoro inteiramente que valor tenha 
este ultimo). 

Ao fim do século xvi (1596) remonta a mais antiga 
edição conhecida de um livro attribuido a um Pechon de 
Ruby (nome argotico) em que se acha um «dictionnaire en 
langage blesquin (argot), avec Texplication en vulgaire»*. 

Na Itália, no século xv, já Luigi Pulei, o auctor do 
poema II Morgante maggiore, introduziu nas suas obras 
poéticas alguns termos furbescos, assim como numa carta 
dirigida a Lorenzo il Magnifico pelo anno de 1472, e fez 
uma pequena lista de termos furbescos, que se acha pu- 
blicada com aquella carta em Nuove lettere di Luigi Pulei 
a Lorenzo il Magnijico, messe fuori da Salv. Bonge e Leone 
Prete (Lucca, 1882), e reproduzida in Archivio per lo studio 
delle tradizione j>opolari, i, (1882), pp. 295-296. 



Francisque Michel, Études sur Vargot, p. xlvi. 



'J2 



Ha três vocabulários do gergo ou furbesco do século xvi, 
nenhum dos quaes consegui ver *. 

A Inglaterra apresenta já no século xvi o vocabulário 
de Rogms Words de Harman (1Õ56), reimpresso moder- 
namente em The Slang Dictionaryj Etymological, Hlstorical 
and Anecdotal. A New Edition, revised and corrected 
with many additions. London, 1873. 

Na Hispanha publicaram-se no começo do século xvii 
(1609) os Romances de germania de vários autores com um 
vocabulário, por Juan Hidalgo, de que temos presente a 
edição mais vulgar, com o seguinte titulo : — Romances de 
Germânia de vários autores, con el vocabulário por la orden 
dei a.h. c. para declaracion de sus términos y lengua. Com- 
puesto por Juan Hidalgo : El discurso de la expidsion de los 
Gitanos, que escrihió el Doctor Don Sancho de Moncada, 
Catedrático de Sagrada Escritura en la TJniversidad de 
Toledo, y los romances de la Germania que escrihió Don 
Francisco de Quevedo. Con licencia. En Madrid, 1779. 

A comparação do calão com as outras girias europeas, 
especialmente das dos paises de linguas românicas, prova 
que nellas ha um fundo commam antigo, a par de emprés- 
timos mais recentes : d'este modo colhem-se para a historia 
do calão preciosos dados indirectos. Não procederei aqui 
a uma comparação completa d'essas girias, pelos motivos 
já apontados, contentando-me com indicar o caminho que 
deve ser seguido. Começarei pela germania, mais próxima 
geographicamente do calão e com a qual este tem real- 
mente numerosos elementos communs. 



O calão e a germania 

Os termos de germania apontados são os do vocabulário 
de Juan Hidalgo. Os termos de calão que não levam indi- 
cação de facto acham-se na minha lista acima estampada. 



* Ascoli, Studj criticif p. 380. 



93 



germ. alar, ir. — cal. alar, ir. germ. alon, es irse. Propria- 
mente vamos, sem duvida do fr. alloiis. Na linguagem popu- 
lar portuguesa reproduz-se ainda allon, sobretudo na locu- 
ção allorij allon, que é terra de gaiteiros, que significa — 
vamo-nos que aqui nao temos que fazer, que aproveitar. 
Uma alteração d'essa phrase por etymologia popular deu — 
a Londres, que é terra de gaiteiros. 

germ. ânsia, agua. — cal. anciã, agua. Queiroz. Termo 
muito espalhado nas girias, como veremos abaixo. 

germ. anuhlar, cobrir; nuhe, capa. — cal. anubo, capa, 
capote. Queiroz. 

germ. artife, artifara, harton, pan. — cal. artão, artife. 
Termo muito espalhado. 

germ. banco, carcel. — cal. abancado , preso. 

germ. ballestas, alforjas. — port. balhestros,iQYmo ^o^w- 
lar, não colligido nos diccionarios, que significa os haveres 
(roupas, etc.) que cada um pode levar comsigo, pequena 
somma de dinheiro ; diz-se assim : elle foi-se com os seus 
tristes balhestros, isto é, com o pouco que tinha. Em hisp. 
alforja significa alforge, provisão de viagem. Balhestros 
acha- se em Paiva, Injirmidades da lingv^, p. 109, e foi 
talvez um termo de giria. 

germ. bola, feria. — cal. bola, feira. Queiroz. 

germ. buho, es descobridor, ó soplon. — cal. bufo, 
policia. 

germ. blanco, bobo, ó necio. — cal. branco, estúpido, im- 
becil, lorpa. Queiroz. 

germ. brechar, meter um dado falso. — cal. brechar, pa- 
gar a patente. Os sentidos são muito diversos para que os 
dois termos se liguem. 

germ. cachucko, oro. — cal. cachucho, annel de oiro. Já em 
Paiva, Injirmidades da lingua: tem hum bom caxucho no 
dedo, p. 149; ainda no uso popular. 

germ. calcorrear, correr. — cal. calcorrear, correr, ir. 
Queiroz. Já em Bluteau. 

germ. calcorros, zapatos. — cal. calcos, sapatos. Queiroz. 
Já em Bluteau. 



94 



germ. carduzador^ el que desea la ropa qui hurtan los 
ladrones. — Comp. cal. cardanho, furto, roubo. Queiroz. 
O termo do calão liga-se evidentemente a cardar, que 
significa pentear com carda e tirar, ganhar a alguém uma 
coisa por fraude, astúcia. Em hisp. ant. carduzador, car- 
duçador. Emprega-se em português a expressão cardar a 
lã no sentido de obter astuciosamente dinheiro de alguém : 

Mas com lábia 
Tudo se vence, tudo se consegue; 
Porque a gente ordinária agasalhada 
Com uma tal lhaneza, facilmente 
Deixa cardar a la. 

Correia Garção, Asiembleiu, sceiía iii. 

germ. chilrar, hablar. — cal. cheira, palavra. 

germ. cerda, cuchillo. — cal. sarda, faca; sardinha, pu- 
nhal, faca. QuEiKOZ. Em hisp. cerda = port. cerda, seda 
do javali; cp. cal. espinha, faca, navalha, punhal. Queiroz. 
Os termos do cal. sarda, sardinha teem talvez o mesmo 
ponto de partida que germ. cerda, mas foram influencia- 
dos por 08 nomes de peixe portuguez sarda, sardinha. 
Lembremos a anecdota do homem que na obscuridade 
nocturna se defendeu de um assaltante, empunhando uma 
sardinha, que o meliante julgou ser um punhal. 

germ. cica, bolsa. — cal. sica, bolsa. Queiroz. 

germ. crioja, carne. — cal. cria, carne. Bluteau. 

germ. desjpalmar, quitar por fuerza; palmar, dar por 
fuerza. — cal. 'palmar, furtar, roubar. Queiroz. 

germ. enrexado, preso. — cal. enreixadu, preso. Queiroz. 

germ. entruchar, entender. — cal. entrujir, entender. 
Bluteau. intrujar, entender, perceber. Queiroz. 

germ. esclisiado, herido en el rostro.---cp. cal. clises, 
olhos. Queiroz. 

germ. espia, el que atalaya. Ligeira modificação do 
sentido de esjna no hispanhol geral. — cal. espia, agente 
de policia. Queiroz. 

germ. fazo, panuelo de narices. — crI. falso, lenço. Blu- 
teau. 



95 



gorm. gamha, plerna. — cal. gamhía, perna. Bluteau. 
Queiroz. 

germ. gao, piojo. — cal. gao, piolhí). Bluteau. ganau. 
Silva Lopes, gando. C. 

germ. garlar, hablar. — cal. gaitar, fallar. Bluteau. 
Queiroz. 

germ. gdfe, esclavo negro. — cp. (?) cal. gelfo, helfo, cão. 

germ. gomari'a, gallina. — cal. gomarra, gallinha. Silva 
Lopes. 

germ. grano, es ducado de once reales. — cal. grão, cru- 
zado novo. Bluteau. 

germ. grunente., puerco. — cal. grunhidor, porco. Quei- 
roz. 

germ. guido, bueno. — cal. gidio, bello, bom. Queiroz. 

germ. justo, jubon. — cal. justa, casaca. Bluteau. ja- 
queta. Queiroz, justo, collete. Queiroz. 

germ. lima, camisa. — cal. Uma, camisa. Bluteau. li- 
mosa, camisa. Queiroz. 

germ. maço, vellaco. — cal. macanjo, falso, fingido, pa- 
taco falso. Queiroz, maçar eno, falso. Queiroz, ordinário, 
vil. C. 

germ. maleante, burlador. — port. meliante, sujeito sem 
credito, de más obras, maroto ; palavra que começou tal- 
vez por ser um termo de giria. 

germ. mandamentos, dedos de la mano. — cal. os dez 
mandamentos, os dedos da mão. C. 

germ. mandil, criado de Rufion, ó de muger publica. — 
cp. cal. mandil, preguiçoso. 

germ. marquida, marca, marquisa, muger pública. — 
cal. marca, meretriz. Bluteau. mar^co, homem. Idem. 

germ. mechosa, cabeza. — cal. michosa, cabeça. Quei- 
roz. 

germ. moa, moneda. — cal. moia, moeda. Queiroz. 

germ. mocante, lienzo de narices. — cal. moncoso, len- 
ço. C. 

germ. muquir, comer. — cal. moquir, comer. Queiroz. 

^Qvm. piar, beber. — cal. ^iar^ beber. Queiroz. 



96 



germ. picar, es irse à priesa. — cp. cal. picar, furtar, 
roubar. Queiroz. 

germ. piltra, cama. — cal. pilra (Bluteau), pildra, pd- 
tra, pérola^ cama. Queiroz. 

germ. jpio^ vino. — cal. ^io^ vinho. Bluteau. 

germ. quatropéo, quartago. — cal. catropéo, cavallo. Blu- 
teau. 

germ. raso, abad. — cal. raso, padre, abbade, frade. 
Queiroz. 

germ. rede, capa. — cal. rede, capa. Bluteau. roupa. 
Queiroz. 

germ. redonda, basquina de muger. — cal. redonda, 
saia. Queiroz. 

germ. rufon, eslabon com que sacan fuego. — cal. rufo, 
fogo. Queiroz. 

germ. safarse, escaparse, librarse. — port. safar-se, O 
termo da germanía não veiu do francez se sauver, como se 
pretendeu, mas sim do port. safar-se, de safo, do lat. 
salvus. 

germ. sombra, justicia. — cp. cal. sombra, prisão. Quei- 
roz. 

germ. sornar, dormir. — cal. sornar, dormir. Queiroz. 

germ. taragoza^ pueblo. — cal. Tei^agoza, Lisboa. Blu- 
teau. 

germ. tirantes, calzos. — cal. tirantes, calções. Bluteau. 

germ. turco, vino. — cal. turca, bebedeira. 

germ. trabajar, hurtar. — cal. trabalhar, furtar, roubar 
Queiroz. 

O argot e o calão 

Para o conhecimento do argot moderno tenho á minha 
disposição, alem da obra já citada de Francisque Michel, 
Êtudes de philologie comparée sur Vargot, as seguintes : 

Lorédan Larchey. Dictionnaire historique d'argot. Se- 
ptieme édition des Excentricités du langage. Paris, 1878. 
Lucien Rigaud. Dictionnaire d'argot moderne. Paris, 1881. 



97 



Mareei Schwob et Georges Guieysse. Étude sur Vargot 
franqais in Mémoires de la jSociété de linguistique de Pa- 
ris, vol. VII (1889), 33-56. 

Não vi de Lorédan Larchey. Sujpplément au Dlction- 
naire d'argot. Paris, 1882 *. 

Na lista seguinte, por simplificação, indico ordinaria- 
mente só um dos autores, que traz os termos referidos, 
geralmente Larchey. 

arg. aile, alleron, bras. Larchey. — cp. cal. a^a, braço 
port. asa, com a mesma significação que lat. ala, fr. aile. 

arg. ancb, lance, eau. MiCHEL. — cal. anda, agua. 

arg. artie, artif, artiffe, arton, lartie, lartif, larton, pain. 
Larchey. — cal. artão, artif e, pão. Bluteau. Queiroz. 

arg. attrimer, prendre; expression àwjargon, Michel. — 
cp. (?) cal. atrimar, vender, na minha lista, termo cuja 
genuidade não posso afíirmar. 

arg. hlé (du), de Fargent. Larchey. — cp. cal. milho, 
dinheiro. Queiroz. 

arg. hoche (tête de), tête dure, individu dont Tintelli- 
gence est obtuse, c'est-à-dire, tête de bois, dans le jargon 
du peuple. Dans le patois de Marseille une boule à jouer 
est une hoche. RiGAULT. — cp. cal. mocha, cabeça. Quei- 
roz. A cabeça humana poderia ser chamada mocha (o fe- 
chado), isto é sem pontas ; mas mocha tem, segundo a gra- 
phia transcripta, o aberto. 



* Na historia do argot marcam-se os seguintes periodos ; 1.» le 
jargon, do século xv ao xvi ; 2.» le langage blesquien, de que o livro 
de Pechon de Ruby contém o repertório, e le langage narquois, do 
século XVI ao xvii; 3.» Vargot, propriamente dito, de 1617 até boje. 
Vid. A. Vitu, Le Jargon du xv^ silcle, p. 52. Essas divisões não tem 
nada de essencial ; referem-se principalmente aos nomes, em vigor, 
da giria franceza, coincidindo em parte com modificações mais ou 
menos numerosas no vocabulário do argot, que continuou a expe- 
rimentar mudanças, sem mudar de nome, desde* o fim do primeiro 
quartel do século xvii. 

7 



U8 



arg. hougre: mot à noter comme ajant perdu sa portée 
antiphysique. Ce n'est plus qu'un synonyme de garçon. 
Larchey. hougre à jpoilsy homme determine, solide, cou- 
rageux. Rigault. Bougre. Nom de certains hérétiques que 
Fon assimilait aax Àlbigeois. Terme de mépris et d'injure, 
usité dans le langage populaire le plus trivial et le plus 
grossier, etc. Etym. Bulgarus, habitant de la Bulgarie. 
J)ans le nioyen-âge, des doctrines religieuses semblables 
régnaient parmi les Bulgares et les Àlbigeois. Littré, 
Dict. de la langue française, s. v. — cal. hogre, inglez (Quei- 
roz) parece ligar-se a hougre. 

arg. houle^ foire. Larchey. — cal. hola, feira. Queiroz. 

arg. houle, tête. Larchey. — cal. hola, cabeça. 

arg. camelottej, marchandise volée. Larchey. — cp. cal. 
camelote, espolio. 

arg. chantage, extorsion d'argent sous menace de ré- 
vélations scandaleuses ; chanter^ être victime d'un chan- 
tage; faire chanter, rendre quelqu'un victime dun chan- 
tage. Larchey. — cal. /azé?r cantar, obrigar a dar dinheiro, 
sob ameaça de fazer revelações. Queiroz. E phrase intro- 
duzida talvez no calão por influencia de traducçôes. No 
calão jornalistico usa-se já chantagem = arg. chantage. 

arg. chenoc, mau vais, avarie et par extension «vieil in- 
firme». Cest Tantithèse de chenu, excellent. Lauchey. — 
cal. chinoca, muito boa. 

arg. chouriner, donner des coups de couteau: chourin 
couteau. Forme des mots .^urin et suriner, usités dans 
le même sens. Larchey. — cal. churinar, esfaquear, dar 
facadas. Queiroz. 

arg. cigale, cigue, pièce d'or. Larchey. Fr. Michel. — 
cal. sica, bolsa; germ. cica, cigarra, bolsa. 

arg. ciou, Mont-de-Piété. Mot-à-mot: prison d'objets 
engagés (ciou, prison). Larchey. — cal. prego, casa de 
penhores; termo muito popularisado, que é sem duvida 
uma simples traducção do francez. 

arg. cornant, cormante, boeuf, vache. Larchey. — cal. 
cornante, boi. Queiroz. 



' 99 
arg. crie^ crignolle, viande. Fk. Miciiel. — cal. cria, 



carne de vacca. Bluteau. 



arg. dobe, Dieu, père, maitre. Larchey. Au xvi® et 
au xvii° siècle, daho était employé dans le langage popu- 
laire avec la signification de maitre du logis. . . Dans le 
cant anglais, dobe a le sens d'expert, de consommé dans 
Vart de mal faire. Fii. MiCHEL. — cal. dobo, pae. 

arg. daron, daronne, patron, patronne, père^ mère. 
Larchey. — cal. daroiia, mãe, na lista manuscripta de que 
me servi, termo que reproduzi na impressa acima, apesar 
de suspeitar d'elle, comquanto não haja que admirar se 
realmente é empregado no calão, como dabo, etc. 

arg. enquiller, entrer. Mot-à-mot : jouer des quilles dans. 
Cacher entre ses jambes un objet volé. Larchey. Do arg. 
quille, '^Simhe. — cp. cal. quilhai*, futuere (Albergaria-a- Ve- 
lha). 

SLVg. fassolette, mouchoir de poche. Larchey. — Ital. faz- 
zolo, fazzoletto; germ. fazo. — cal. falso, lenço. Bluteau. 

arg. Jiler la carte. Les joueurs honnêtes du baccarat se 
servent de Fexpression jiler la carte, jiler pour designer 
Taction de découvrir par degrés, três lentement, une des 
deux cartes qu'ils ont en main ; c'est un moyen comme un 
autre de se procurer une émotion, et Fon sait que le joueur 
vit d'émotions. Rigault. — cal. filé, palpite, esperança. 
Os jogadores do monte (os banqueiros) descobrem também 
ás vezes lentamente a carta para terem e fazerem ter 
aos pontos palpites ; a palavra filé liga-se pois á referida 
expressão francesa. 

arg. foutriquet, homme nul. «Tous les foutriquets à cu- 
lottes serrées et aux habits carrés (1793, Hébert)». Lar- 
chey. aPetit foutriquet)) , sobriquet donné par le marechal 
Soult en pleine Chambre à un de nos plus petits hommes 
d'Etat, sous le rapport de la taille. Kigault. — Cp. port. 
pop. futre, homem desprezível, futrica, s. m., paisano, o 
que não é estudante (na giria dos estudantes de Coimbra), 
e s. f., loja pequena, baiuca. 

arg. gàbelou, employé des contributions indirectes. 



100 



Larchey. Lembra pelo som cal. gabiru, fanfarrão sem 
dinheiro, parasita, jogador, rapaz vadio. Land. e Quei- 
roz. (Porto). 

arg. gamhille, diminutif du vieux gamòe. Larchey. — 
cal. gamhia, perna. 

arg. gau, got, pou. Fr. Michel. — cal. gao, ganao, 
gando. 

arg. gaudineur, décorateur. Du vieux mot gaudiner, 
s'amuser. Larchey. — cal. gaudinar, divertir-se, vadiar; 
gauderio, patusco (sujeito que se diverte), vadio, malandro. 

arg. goualer, chanter. Fr. Michel. — cal. giielar, gritar, 
pairar, goualer não deriva provavelmente de lat. gula, 
fr. gueule; emquanto guelar deriva por certo de guela; o 
parentesco é pois só apparente. 

arg. grairij écu (Grandval). Cest un vieux mot qu'on 
rencontre souvent. Larchey. — cal. grãoy cruzado novo. 
Bluteau. 

arg. guihe, guiholle, guibon, jambe. Vieux mot, car on 
disait jadis guiber pour se debattre des pieds. Larchey. — 
cal. guibo, artelho (se é genuino). 

arg. latin, argot, dans le jargon des voleurs. Rigault. — 
cal. latim, giria, calão. Na litteratura encontrei bigorne no 
mesmo sentido ; mas creio que é uma simples translação 
do argot bigorne, sem raizes no calão. 

arg. limace, limasse, lime, chemise (ViDOCQ, Grand- 
val). Larchey. — cal. Uma. Bluteau. limosa. Queiroz. 

arg. malade, arrete, inculpe. RiGAULT. — cal. doente, 
compromettido. 

arg. maluque, prostituée (Halbert). Larchey. — cal. 
marca, meretriz; marco, homem. Bluteau. 

arg. m£c, maitre, chef, patron, souteneur; mecque, 
homme. Larchey. — cal. meço, homem, espertalhão. Quei- 
roz. Os diccionarios portuguezes dão todavia o termo como 
da lingua geral: «Adultero, dissoluto, devasso». Diz-se: 
perdoaste ao meço? phrase plebea por injuria aos gallegos. 
Na Ulissijw, f. 108 V., fallando dos boticários vem: «esses 
mecos conjurados contra o mundo?», e a f . 236 v.: «esse 



101 



meço não he de bons porretos, que grosão : retraliida está 
la infante.» MoRAES. Os sentidos em uso na boca do povo 
são: ahomem de maus costumes; atrevido, maganão», e o 
mais vago de : «pessoa, individuo, com intenção mais ou 
menos pejorativa». Considera-se como reproducção do lat. 
moechus. A semelhança com o arg. mec ó talvez casual; 
Fr. Michel dá-lhe a significação de maitre, roi. 

arg. menesse, prostituée, maítresse. Larchey. — cal. me' 
iieza, mulher, meretriz ; abbadessa. 

arg. michaud, la tête . . . Quelle peut-être Forigine de 
cette expression? Je n'en trouve pas d'autre qu'une allu- 
sion aux bailes ou boulets, que Ton appellait autrefois, 
par plaisanterie, miches du couvent militaire : or, le peuple 
de nos jours ne dit-il pas, en parlant d'une tête: Quelle 
baile! voici une honne baile f Fr. Michel. — cal. michosa, 
cabeça. Queiroz. Se Fr. Michel, que foi muitas vezes 
infeliz nas suas etymologias, acertou nessa de míchaud, 
palavra que occorre já no século xvn, o termo do calão e 
o correspondente da germ. mechosa devem ser separados, 
porque é mais natural ligá-los a mecha (de cabellos): me- 
chosa designaria a cabeça como a que tem mechas. Em 
verdade michaud poderia do seu lado derivar de meche. 

arg. nase, naze, nez. Vieux mot. Larchey. — cal. nasio, 
nariz ; lat. nasus. 

arg. niente, rien. Italianisme. Larchey. — cal. niente, 
não sabes (?) Bluteau; nentes, nada. Queiroz. 

arg. paumer, perdre. Larchey. — csl. palmar, morrer.* 
arg. piauj pieu, lit. Fr. Michel, que liga o termo ao 
fr. peauire, segundo Littré «vieux mot signifiant lit, mau- 
vais lit, grabat; inusité, sauf dans cette locution populaire, 
qui tombe elle même en désuétude: envoyer quelqu'un 
au peautre ou aux peautres, le brusquer, pour le congé- 
dier, pour le chasser». — cal. peltr a, pildra, pérola, cama. 
Bluteau, Queiroz. Colhi a forma pikãa. 

arg. pie, vin. Fr. Michel. — cal. pio, vinho. Bluteau. 
arg. pier, boire. Fr. Michel. — cal. piar, beber. Quei- 
roz. 



102 



arg. jpivois, vin. Fr. Michel. — cal. piovez (Albergaria- 
a-Velha) *. 

arg. jplumer^ dépouiller un homme dans rintimité. Ga- 
gner au jeu Targent d'un imbécile. Larchey. — cal. de- 
pennado, que não tem vintém. A phrase argotica plumer 
la jpoide tinha o sentido de roubar (Fr. Michel^ Études, 
p. 131). No calão dos nossos jogadores gallinha é o joga- 
dor pechote, a quem se ganba facilmente. 

arg. rase, prêtre, cure. Fr. Michel. — cal. raso, padre, 
abbade. Queiroz. O encontro é talvez casual; vid. infra 
p. 160. 

arg. rousse, roussin, agent de police. Larchey. — cal. 
ruiva, a policia (se o termo é genuino). 

arg. rif, rifle, feu. Fr. Michel. «De rif . . . est venu 
riffauder ou riffoder, que Bombet traduit par se chaiiffer . . . 
On trouve dans le Jargon un article consacré aux ruffez ou 
riffodez, classe de gueux «feignans d'avoir eu de la peine 
à sauver leurs mions (enfants, mioches) du riffe qui riffoit 
leur creux (logis)». — cal. rufo, fogo. Queiroz. 

arg. roustir, escroquer. Larchey. tromper, filouter. 
RiGAULT. — cal. rustir, comer. Na linguagem popular portu- 
guesa emprega-se comer no sentido de enganar e de roubar 
ardilosamente. 

arg. rup, rwpart, rupin, impiné, élégant, homme riche. 
Larchey. — cal. rupim, rupino, rico. 

arg. some, noir. Larchey. nuit. Rigault. — cal. sor- 
nar, sornir, sonar, dormir; soma, cama. 

arg. tirant, bas. On le tire pour le mettre. Larchey. 
tirantes, chausses. Fr. Michel. — cal. tirantes, calções. 
Bluteau. 

arg. trêfle, anus. Larchéy, que o deriva de trou. — cp. 
cal. tefe, mesma significação. 



1 O termo piovês está por "^pivoês. A palavra devia ter chegado 
a Portugal quando em francês a graphia oi representava ainda o 
diphthongo oe, isto é, antes do século xviii. O mesmo se deu com 
framboesa de fr. framloise, oboé de h: haut-bois, toesa de fr. toise, 



103 



arg". travailler, tucr, voler. LarcHEY. — cal. trabalhar^ 
furtar, roubar. Queiroz. 

arg. tuer le ver^ boire de Teau-dc-vie ou du viu blanc ; 
libation matiiiale désignée par ces mots. Larchey; port. 
pop. matar o hiclio, mesmo sentido da phrase fr. «On 
s'iraagme que, pris à cette licure (le matin à jeun), diz 
Littré a respeito da phrase, le vin ou Teau-de-vie tuent 
les vers intestinaux)>. 

arg. zona, filie publique, dans le jargon des raarcliands 
juiís. RiGAULT. — cal. zoina, meretriz. Queiroz. E uma 
palavra puramente hebraica: njlT, que se encontra na Bi- 
blia, p. ex. : Génesis. 38, 15. Deuter. 23, 19. Levit. 21, 7. 

O furbesco e o calão 

Os subsídios que tenho á mão para o conhecimento do 
furbesco reduzem-se ás palavras avulsas dadas por diver- 
sos auctores e á lista inserida por Fr. Michel nos seus 
Études, p. 425-434. A Bibliotheca Nacional de Lisboa não 
possue nenhum dos vocabulários furbescos do século xvi. 

furb. ala (asa), braço. — cal. asa, braço. 

furb. ancroia, rainha. Segundo Fr. Michel «nom d'une 
reine amazone, dont on a ííiit un poême généralement inti- 
tule : Libro delia regina Ancrojaj). — cp. cal. croia, patroa, 
dona da casa (Albergaria- a- Velha). — Cp. arg. daòe, p. 99, 
roi, père, maitre. 

furb. artone, artibrio, pão. — cp. cal. artão, artife. 

furb. bolla, cidade — cp. cal. bola, feira. 

furb. boJfo, cão. — cp. cal. belfo, cão. Ascoli observa com 
razão (Studj critíci, p. 408, n. 1): «II belfo dei gergo porto- 
ghese, che si trova presso Francisque-Michel (p. 441: o 
belfo balsa (?), il cane abbaja), sara tutt'altro che il nostro 
bolfo. Belfo, aggettivo, mi dice il- Vieyra (Did. port. and 
angl. ), é uno che ha il labbro inferiore pendente, alia guisa 
per cui si distingue Casa d'Austriay). 

furb. calcioso, pé. — cal. calcante, pé. 

furb. calcosa, sapato. — cal. calcos, sapatos. Queiroz. 



104 



furb. cornantej boi, vacca. — cal. cornante, boi. 

furb. cosco, casa. — cal. cosque, casa. (Alberg.) 

furb. crea, creata, creatura, criulfa, carne. — cal. ena, 
carne de vacca. Bluteau. 

fiirb. gielfo, gato. — cp. cal. gelfo, cão. Queiroz. Cf. 
holfoy acima. 

furb. grugnante, porco. — cal. grunhidor, grunho, porco. 
Queiroz. 

furb. guallino, piolho. — cal. gao_, ganao, gando. 

furb. lampante, luzente, olho, na expressão lamjpante di 
civettaj, escudo (moeda), á lettra, olho de coruja. — cp. cal. 
lupante, olho ,* lupar, ver (Alberg.), que fazem pensar tam- 
bém no fr. loupe, lente convergente. 

furb. lenza, agua. — cal. anciã, agua. 

furb. liitui, camisa. — cal. lima, limosa, camisa. 

furb. marcona, mulher. — cal. marca, meretriz; marco, 
homem. 

furb. nicolo, não (alargamento da negação por assimi- 
lação ao nome próprio Nicolas). — cal. nicles, nada. 

furb. poltro, cama. — cal. peltra, pilra, pérola, pilula. 

furb. ruffo, fogo. — cal. rufo, fogo. Queiroz. 

furb. tasca, estalajem. — cp. port. tasca, taberna, que se 
suppoz connexo com tascar, tasquinhar, morder, roer (hisp. 
tascar), propriamente separar o tasco ou tomentos do linho 
com a espadella ou tasquinha. Em ital. tasca significa pro- 
priamente bolsa, alforge. Em português a palavra come- 
çaria por ser um termo da giria. (Vid. infra Relações do 
cigano com o calão, p. 161). 

furb. tascosa, estalajadeira; tascheroso, estalajadeiro. — 
cp. cal. tascante, taberneiro. Myst. Paris. Queiroz. 

furb. tirante, calções. — cal. tirantes, calções. Bluteau. 

Observações sobre as três listas precedentes 

Não ficam notadas, por certo, todas as relações existen- 
tes entre os termos das quatro girias — calão, germanía, 
argot e furbesco ; mas os exemplos dados bastam para ver 



105 



qual a natureza d' essas relações. Na maior parte dos ca- 
sos estamos em presença de verdadeiras identidades de 
vocábulos; noutros casos os vocábulos podem ter-se pro- 
duzido independentemente sobre uma base commum, por 
um mesmo processo semântico, por ex. : calco, cor^iante. 
Nos casos em que mn termo do calão parece traducção de 
um termo de outra giria pode ter havido realmente traduc- 
ção ou simplesmente coincidência de modificação semântica 
nas palavras correspondentes. Assim ha por certo simples 
coincidência entre cal. milho e arg. blé, dinheiro, cal. bola 
e arg. òoule, cabeça ; port. pop. matar o bicho e arg. ttier le 
ver, que provêem de uma mesma crença; cal. asa e arg. 
aile, furb. ala, braço. Mas parece já haver traducção em 
cal. prego relativamente a arg. ciou, casa de penhores. Os 
termos grão (grano), uma moeda, e tirantes, calções, po- 
diam ter passado de giria em giria ou ter-se produzido nas 
quatro girias ou em algumas d'ellas independentemente. 
Rigault traz o seguinte artigo: Six et trois font neuf, 
Boiteux. Allusion à Tallure inégale des boiteux dont les 
pas semblent marquer des nombres diffórents. Em Coim- 
bra os gaiatos designavam também os coxos pela expres- 
são cento e dez (110 réis), quatro e meio (90 réis ou quatro 
vinténs e meio). Os hispanhoes dizem: Uno, dos, três, 
cogito de un pié. 

Coincidências de desenvolvimento semântico notam-se 
entre todas as girias e entre todas as línguas geraes do 
mundo. Assim no calão queijo significa lua, como na han- 
tyrka (giria da Bohemia) o mesmo planeta é designado 
pela palavra tcheque belák, queijo (Pott, Zig., ii, 8) : lem- 
bre-se a fabula da raposa que tomou por um queijo a ima- 
gem da lua num poço. No Rothwelsch lueisshulm, gente 
tola, é formado de weiss branco e hulm, que parece ser o 
ali. holm, outeiro, cabeço (Pott, ii, 8); do mesmo modo no 
cal., etc, branco significa estúpido, imbecil, ingénuo. Na 
mesma giria allemã krunickel, kronickel (o grunhidor) si- 
gnifica porco, exactamente como grunhidor, grunho no 
calão, gru^ente na germanía, etc. (Pott, ii, 11). 



1U(J 



o quadro seguinte compreliende uma serie de termos 
que se encontram em mais de duas das gírias românicas 
comparadas : 



calão 


germanía 


argot 


furbesco 




asa 




aile 


ala 


braço 


anda 


ânsia 


ance 


lenza 


agua 


artão 


harton 


arton 


artone 


pão 


artife 


artife 


artif 


artibrio 


pão 


bola 


bola 


boule 


(bolla, cida- 
de) 


feira 


branco 


blanco 


branc 




tolo 


sica 


cica 


(cigue, moeda 


bolsa 






d'oiro) 






calcos 


calcar ros 




calcosa 


sapato 


comante 




cornant 


comante 


boi 


cosqiie 


cuesca 




cosco 


casa 


cria 


crioja 


crie 


crea 


carne 


gamhia 


gamba 


gambe 




perna 


gao 


gao 


gau 


guallino 


piolho 


grão 


grano 


grain 




nome de moe- 
da 


grunhidor 


gruhente 




grugnante 


porco 


lima 


lima 


lime 


lima 


camisa 


marca 


marca 


marque 


marcona 


rapariga, etc- 


michosa 


mechosa 


michaud ? 




cabeça 


palmar 


palmar 


paumer 




roubar, etc. 


piar 


piar 


pier 




beber 


pio 


pio 


pie 




vinho 


peltra 


piltra 


peautre 


poltra 


cama 


rufo 


rufon 


rif 


ruffo 


fogo, etc. 


tirantes 


tirantes 


tirantes 


tirante 


calças, calções 


trabalhar 


trabajar 


travailler 




roubar 



Todos aquelles termos comparados da germanía remontam 
pelo menos ao começo do século xvil, pois elles figuram 
no vocabulário de Hidalgo (1609) ; os termos do argot en- 
contram-se também pela maior parte nos séculos xvi e 
XVII, alguns como vamos ver já no século XV ; os termos 
do furbesco eram já usados todos no século xvi ou xvii, 
pois se encontram no Nuevo modo da intendere la língua 
zerga, publicação de 1619, e reproducção^ pelo menos em 



107 



parte, de um vocabulário estampado em 1549, e nas Recher- 
ches italiennes et françoises de Oudin * ; alguns remontam, 
com certeza, até ao século xv, como se mostrará. 

Os seguintes termos do jargon francez do século XV 
correlacionam-se real ou apparent emente com termos do 
calão; de quasi todos elles dei já os correspondentes no 
argot mais recente. 

arton^ pain. 

Tant qu'il n'y eust de Varton sur les cars. 

Ballade xi, A. Vitu, p. 163-4. 

aarton^ c'est pain». Processo dos Coquillars. M. Schwob, 
Mém. de la Soe. de llng.^ vii, 180. 301. — cal. artào. 

hec^ nez, figure. 

Luez au bec que ne sois greffis. 

Ballade i, A. Vitu, p. 180. Schwob, p. 30Õ. 

cp. cal. beque^ bique ^ nariz. 

òelistre, mediant, gueux qui vit d'aumône et de rapine. 
A. Vitu, p. 183. — germ. belttre, picaro; port. biltre; cal. 
bilontra. 

blanc^ sot, niais. «Ung liomme simple qui ne se congnoit 
en leurs sciences c'est ung sire ou une duppe oumigblanc.)) 
Processo dos Coquillars. Schwob, p. 179. 310. Blanc coulon 
\colomb, pombo] parait au contraire être pris en sens in- 
verse : dans le jargon de la Coquille, c'est celui qui joue 
le niais. Ibid. «Ung blanc coulon c'est celluy qui se couche 
avec le marchant ou aultre, etc, [et luy desrobe son argent, 
ses robes et tout ce qu'il a et les gette par une fenestre 
a son compaignon qui Fattent hors de la chambre].» Proc. 
dos Coquillars. SCHWOH, p. 179. — cal. branco, estúpido, 
ingénuo . 



' Vid. Fr. Micliel, Études de philologie comparée sur V argot, p. 425 



108 



gaudinSj brigands ou petit-maítres. 

Cest tout son fait d'engandrer les gavdins 
A hornangier 

Ballade ix. A. Vitu, p. 326-8. 

Vid. acima p. 100 arg. gaudineur e cal. gaudinar, gauderio, 

grain, écu, moniiaie. 

Et n' abater de ces gi-ains neufs et vieulx 

Ballade vii. A. Vitu, p. 344. 

cal. grão, cruzado novo. Bluteau. 

gris, froid. 

Et vous gardez bien de la roe 
Qui aux sires plante du grisj 
En leur faisant faire la moe. 

Ballade vi. A. Vitu, 347-8. 

cal. gris, frio. Bluteau; mod. griso, 

marque, filie, ribaude. 

Marques de plant, dames et audinas 

Ballade xi, etc. A. Vitu, p. 405-408. 

cal. marca, meretriz. Bluteau. 

jpaulrmr, voler. 

Puis, dist ung gueulx, j'ay paulmé deux florins 

Ballade ix. A. Vitu, p. 434-5. 

cal. palmar, roubar. 

pye, boisson, vin. 

Pour avancer au poUiceur de pye. 

BaUade ix. A. Vitu, p. 467-470. 

cal. pio, vinho. Bluteau. 



pye^ry boire 
Bab: 

cal. piar, beber 



Babille en gier en pyant à la fye 

Ballade, ix. A' Vitu, p. 470-471. 



109 



quille, jambe. «Les jambes ce sont les quille8,y> Proc. 
dos Coquillars. ScHWOB, p. 180. 

Poussez de la quille et brouez. 

Ballade v. A. Vitu, p. 472-3. 

cp. cal. quilhar. 

rouhe, justice, alls appellent la justice de quelque lieu 
que ce soit la marine òu la rouhe.í> Proc. dos Coquillars. 
ScHWOB, p. 179. — Cp. acima arg. rousse^ cal. ruiva. 

rufflsj feu. arujle c'est le feu Saint-Antoine.» Proc. dos 
Coquillars. ScHWOB, p. 180. — Cp. acima arg. rif. cal. rtifo. 

some, la nuit, la brune. 

Sur la some que sires sont rassis. 

Ballade vii. Vitu, p. 503-505. 

cal. sornar, sonar, sornir, dormir. 

Na carta de Luigi Pulei* lê-se: dove si petinó quello 
lustro la brigata sopra la lenzay>, em que lenza parece ser 
o termo furbesco da lista acima. Na curta lista do mesmo 
Pulei noto : cosco, casa (cal. cosque, casa) ; caccose (leia-se 
calcose), le scarpette (cal. calcos, sapatos) ; gvxildi, ipidocchi 
(furb. guallino; cal. gao). 

Assim pela comparação com as girias extrangeiras, estu- 
dadas nos seus mais antigos documentos, pode alargar-se 
a historia do calão além dos limites que os documentos 
próprios nos impõem ; todavia não é possível dizer quando 
é que em Portugal se começou a usar esse calão de que 
acabamos de passar em revista alguns dos elementos mais 
antigos. 

Emquanto ás origens mesmas d' esses mais antigos ele- 
mentos das girias farei ainda as observações seguintes. 



Vid. acima pag. 91. 



110 



Alguns d'esses termos são já producyòes próprias das 
girias, feitas á custa dos materiaes das linguas geraes; 
taes são asa (día)^ branco (hlanco), calcos (calcose), cor- 
nante, gunhidor (gruhente)^ palmar, rufo (ital. ruffo, ruivo, 
fulvo), tirantes (de tirar, ital. tirare, fr. tirer), trabalhar 
e talvez mechosa. 

Outros dos referidos termos são palavras tornadas ar- 
chaicas nas linguas geraes, ou vindas de outras linguas 
vivas, ou de origem incerta. 

anela, agua, é considerada por Pott, Zig., II, 4, como 
idêntico a hisp. aíisia : «Da aíisia in Span. nicht bloss 
Schmerz, sondern auch ein heftiges Verlangen bezeichnet, 
f ilhrt letztere leicht auf den Durst und das, womit er am 
gewohnlichsten gelõscht wird, oder Wasser; — eine Qual, 
die man in heissen Klimaten noch mehr zu wiirdigen weiss, 
ais anderswo.» Mas a existência da palavra no argot e no 
furbesco fazem duvidar d' essa explicação. 

artona, pão, occorre num texto latino medieval cit. por 
Ducange, s. v., mas como diz Schwob, p. 301, trata-se de 
um «texte qui n'a rien de populaire, un texte ecclesiasti- 
que ou aríowa semble une mauvaise transcription grecque». 
Fr. Diez, Etymologisches Wõrterbuch, II 3, 208, diz: uAr- 
toun neupr. brot, ein it. artone kennt Veneroni; dazu 
kommt noch sp. artalejo oder artalete pastetchen, und ar- 
tesa, pg. arteça backtrog. Man vermuttet darin das gr. 
apTOç, aber náhere anspriiche hat wohl das bask. artoa 
maisbrot s. Larramendi, Diccion., I, p. xvi, nach Hum- 
boldt, Urbeic. Hisp. p. 155, urspr. eichelbrot, von a7'tea 
art eichen. P. Monti rechnet auch das comask adro-basto 
(brot) hieher.» Se a palavra é realmente de origem basca, 
fica, todavia, incerto. O gitano tem harton, pão, em que 
Miklosich (Abhandl., II, A2) não hesita em ver reflexo do 
gr. apTcç; a palavra podia ter passado do hisp. para o 
gitano; mas este tem também artifero, padeiro, em que 
não podemos deixar de ver com Miklosich, 1. c, reflexo do 



111 

gr. ápTo^^óptov (Ducange), e do qual é difíicil separar a forma 
artife das girias, acima mencionada *. 

hditre (fr.^ port. biltre) não é nestas duas linguas termo 
de giria ; figura como tal na lista de Hidalgo e a elle se liga 
o mod. cal. hilontra, que foi talvez importado do Brasil, 
onde ha um calão que, ao lado de elementos que se encon- 
tram em Portugal, possue muitos próprios. Talvez que a 
forma italiana helitrone não seja estranha á producção 
de hílontra (no Brasil ha muitos italianos). A origem de 
helitre é incerta. Vid. Diez, Scheler e Littré, s. v. 

bola, feira, parece ligar-se a um ant. fr. boule, baule, no 
sentido de — companhia que se diverte, pandiga, em diver- 
sos textos reunidos por Fr. Michel, s. v. 

cosco (furb., cal. cosque) é considerado por Pott, Zig. II, 
25, como tendo sido talvez modificado do italiano aasco, 
caduco, velho, para não lembrar facilmente casa; a forma 
da germ. cuexca (cuescaj mostra, porém, ao que parece, 
que a palavra ó velha na Hispanha; cp. port. cosco, cos- 
corrão, e hisp. cuesco, que o sentido não permitte ligar a 
cal. cosque. 



^ São 48 as palavras do grego (moderno), incluindo quatro nu- 
meraes, que Miklosich, Abhandl. ii, 42-3, acha no gitano. Com relação 
a quarenta e cinco d'essas palavras parece-me que não pode duvidar- 
se de que sejam um testemunho da residência dos antepassados 
europeus dos gitanos na Grécia •, sobre harton e as duas seguintes 
é que podem levantar- se duvidas. O gitano calca, calcorro (com o 
suííixo ibérico -orro) diíficilmente pode separar- se dos termos de 
cal. calcos e germ. calcorros, para o ligar ao gr. xáXTj^a, apesar da 
observação de Miklosich: «Die Oxytonirung weiset auf nicht- span. 
Ursprung». Nessa accentuação pode ter havido uma influencia analó- 
gica. O git. furnia, cueva, não veiu talvez da Grécia (gr. cpovípvo;) com 
os tsiganos que se acham em a nossa península, pois já cá havia em 
hisp. furnia, usado ainda hoje em Cuba, e em port. ///r/ia, ainda vivo 
no continente, e transplantado logo depois da colonisação da ilha 
de S. Miguel (Açores) para essa ilha, onde é celebre o Valle das 
Fu7'nas. O termo git. drun, camino, viaje, e também prudência, cor- 
dura, juicio (Mayo), do gr. ^poVoç, caminho, faz lembrar o termo pop. 
port., talvez primeiramente termo de giria, endromina, ardil, mentira 
para defraudar. 



112 



cria foi ligada ao gr. xpia^ por Fr. Michel. A palavra 
encontra- se em Vulcanius * na forma creu (caro), na giria 
dinamarqueza kraegeSj e lembra., segundo Pott, Zig., II, 
16, o tsigano karialo. A origem grega da palavra está 
muito longe de se achar liquidada. 

gamhia^ perna, é uma velha palavra, que na forma gamba 
se acha como termo da linguagem geral em hisp., catalão, 
provençal, no ív.jambe, no ant. fr., picardo e yfdWon gamhe. 
Ao lado d'essas formas ha o ant. hisp. camba (poema de 
Alexandre), sard. churwelsh comba; no ant. hisp. também 
cama. A origem parece estar num radical camh ou cam, ser 
curvo; cp. port. carriba^ cambaio; lat. camurus, camerus, 
etc. Vid. Diez, Scheler e Littré, s. v. gamba e jambe. 

lima^ camisa, parece ser também uma velha palavra, 
como mostram os textos : 

Alii fontemque ignemque ferebant 
Velati limo et verbena têmpora vincti, 

Vergilio, Âentid., xii, 120. 

aLimus autem est vestis, qua ab umbilico usque ad pe- 
des teguntur pudenda poparum. Haec autem vestis in ex- 
tremo sui purpuram limam, i. e. flexuosam habet. Unde 
et nomen accepit. Nam limum obliquum dicimus. Sérvio 
ad AEn.^ 1. c. «Sed Tiro Tullius M. Ciceronis libertus, 
lictorem vel a limo vel a licio dictum scripsit : Licio enim 
transverso, quod limum appellatur, qui magistratibus, in- 
quit, praeministrabant, cincti erant». Aulu Gellio, xii, 3, 3. 
Vid. ainda Isidoro, Etymol.^ lib. XV, 14. xix, 22, e as pas- 
sagens de Joannis de Janua e do Gloss. Lat. Gall. San- 
germ citadas em Ducange-Henschel, s. v. Umas. 

Sem duvida Uma não designa a mesma peça de vestuário 
que Umus; mas a mudança de significação não tem aqui 
nada de extraordinário. Basta lembrar as variadas signi- 



1 Professor hollandez, fallecido em 1614, que coUigiu termos 
tsiganos e do Kothwelseh. Vid. Miklosich, Beitr.^ i, pp. 765-771. 



113 



ficaçoes dos representantes do lat. mantellum, mantelum e 
seus derivados nas línguas românicas. Só o port. manteo 
tem significado: 1) capa; 2) peça de vestuário, espécie 
de saia curta, para cobrir o corpo da cintura para baixo ; 
3) peça para ornar o pescoço, espécie de largo collarinho 
com roscas, etc. *. 

marcaj tem resistido a todas as tentativas etjmologicas ; 
foi-se até a derivá-la do céltico marka, égua. Em verdade 
ha no cal. ponis, mulher, que parece vir do inglez pony, 
e justificar essa etymologia. 

gao é de origem incerta, comquanto o furb. grisaldo ao 
lado de gualdo, guallino^ o arg. hande grise, com a mesma 
significação possa fazer suppor uma connexão com griso, 
pardo, d'onde port. grisalho. 

peltra não pode separar-se realmente de fr. peautre_, que 
Scheler liga ao ant. alto allemão jpolstar, holstar, allemão 
mod. polster, enxergão, almofada. 

some, noite, a que ligo cal. e germ. somar, é derivada 
por Fr. Michel, do provençal som, sombre, obscur 2. O cal. 
soma, cama, não vem directamente de arg. some, mas de 
somar; cp. choina de choinar, (p. 88), de hisp. noche. 



* Pott, Zig.j II, 340, translada de Dorph, auctor de um trabalho 
sobre a giria dinamarquesa, limes, teia, e limsk, camisa; a relação 
com as girias românicas pode ser apenas apparente, como suggere 
Ascoli, Studj, p. 419. 

2 No ant. francez havia some crepúsculo : a germania tinha soma, 
noite ; esta provém d'aquella que Storm (Romania, v, 184, 184) de- 
riva «de Saturnus, comme représentant le planète d'influence funeste, 
et opposé à Júpiter, d'oú jovial, comme me fait observer M. Bugge. 
Angl. saturnine, sombre, morne, fr. du xvi'' siècle saturnien (Littré)»' 
Segundo o mesmo philologo o ant. fr. soime está por ^soome, ^sa- 
dorne, e, por causa da raridade da queda do t em provençal, a forma 
d'e8te, sorn, deve provir 'da lingua d'oíl, em que por certo existiu um 
adj. ^sornCf de que deriva sournois, e a que se liga port. soma. D. Ca- 
rolina Michaêlis de Vasconcellos (Studien zur hispanischen Wortdeu- 
tung. Firense, 1885, p. 157) deriva port. soturno de Saturnus, som 
referencia ao artigo citado de Storm. 



114 



Termos do calão provenientes das línguas modernas estranjelras 

Alguns d'esses termos experimentaram modificações, 
segundo os processos de formação do calão abaixo expostos. 

Do hispanhol: haguinos^ baixo, de hajo; chastre^ alfaiate, 
de sastre; chona, noite, clioinar, dormir, de noche; costilhas, 
costas, de costillas ; cuncharra, colher e gazua, de cucharra, 
colher; galheta, bofetada, de galleta, bolacha (biscoito cha- 
to) *; legos, afastado, de lejos; miquei, agente de policia, de 
miquelete, fusileiro de montanha na Catalunha, soldado da 
antiga guarda dos capitães generaes?; ventaria, janella, 
de ventana. 

Do gallego: nai/a, mãe, de na^. 

Do francez : cal. alar, ir, de aller, ir ; chefia cadeia, de 
chame, cadeia; lahita, casaca, de riiabit, veste, casaca; moa 
6 moiene, eu, de moi, me, mim, eu; toiene, tu, de toi, te, 
ti, tu ; pistão, guarda-sol, de piston, embolo ; porte-horne, 
de porte-monnaie ; trompar de tromper; lofo de foi (com 
inversão). 

Do italiano : nantes, verdes, niente, não, nada, de niente, 
nada. 

Do inglez : bute, bota, pé, de hoot ; chumeco, sapateiro, 
de shoemaker, sapateiro ; chuzes, sapatos, de shoes, sapatos ; 
cuté, casa, de cottage, cabana, choupana ; dogue, cão, de dog, 
cão; fiche, bacalháo, de stockfish, bacalháo, fish, peixe; 
stockfish no calão de Albergaria- a- Velha no sentido de 
presunto ; fortytwo, quarenta e dois ; guinés, guine, dinheiro 
de guinea, nome de uma moeda; naifa, faca, de knife, 
faca; semoque, tabaco de fumar, simoco, rapé, de smoke, 
fumo; transes, trozes, calças, de trowsers, calças; tuelles, 
doze vinténs, de tivelve, doze. 

Do allemão: gute, bom, de gut. 



1 A palavra port. bolacha (biscoito chato) toma familiarmente o 
sentido de bofetada. 



115 



Os processos de formação do calão 

8e separarmos do calão tudo que lhe tenha vindo for- 
mado, prompto para ser empregado sem modificação es- 
sencial, já das girias estrangeiras, já das linguas dos ou- 
tros povos (separação que só parcialmente é possível), 
ficar-nós ha ainda uma maioria de termos em que distin- 
guimos duas camadas: 1) uma que immediatamente, ou 
depois de mais ou menos detido exame, se nos apresenta 
como constituida por termos da lingua geral portuguesa, 
junto com alguns termos pouco numerosos d 'outras linguas, 
os quaes experimentaram modificações mais ou menos con- 
sideráveis, quer nos sons, quer na forma, quer na significa- 
ção, ou em mais de um d'esses aspectos ao mesmo tempo ; 
2) outra camada constituida por termos que se nos afigu- 
ram irreductiveis, mas de que provavelmente uma parte 
entrará na outra categoria depois de novos estudos. 

Passaremos agora a estudar os processos pelos quaes 
dos termos da lingua geral se formam termos do calão e 
se neste ha verdadeiras creaçÔes novas. 

I. Deformações phoneticas. E preferivel empregar esta 
expressão para distinguir o processo consciente da modi- 
ficação phonetica no calão das alterações phoneticas da 
lingua geral e dos dialectos, apesar dos pontos de contacto 
que se notam entre essas duas ordens de phenoraenos. Um 
exemplo fará comprehender bem a distincção estabele- 
cida. Quando o povo diz inselencia por excellencia, a forma 
culta da palavra não está no seu espirito, elle não a co- 
nhece; diz inselencia porque apercebeu sempre a palavra 
com esse aspecto phonetico. Quando um creador do calão 
modificou almocreve em almuque, fê-lo conscientemente, 
tendo bem presente no espirito a forma perfeita da lingua 
geral, e fê-lo no intuito apenas de disfarçar, de enigmati- 
sar, segundo a feliz expressão de Pott, o termo da lingua 
corrente. É evidente que os termos enigmatisados (quer 



116 



no som, quer na forma, quer na significação) podem ser 
repetidos depois por outros individues, sem que seja co- 
nhecida a sua relação para com os termos correntes de 
que sairam; mas esses termos correntes serão empregados 
pelos mesmos individuos quando não faliam o calão, caso 
que não se dá (salvo circumstancias especiaes, a que terei 
ainda de me referir em parte*) com os termos da lingua 
culta na boca do povo que emprega em vez d'elles às suas 
formas próprias. 

Vejamos as principaes espécies de deformação phonetica 
do calão. 

a) Mudanças de accento. Na linguagem familiar modi- 
fica-se ás vezes por gracejo a accentuação das palavras, 
por ex. : diz-se tisoras por tesouras. No processo evolu- 
tivo inconsciente da lingua deram-se também d'essas mu- 
danças, como mostram, por ex. : acébo do lat. aqulfolium, 
trevo de trifolium; suta, de fr. sautoir. Essa mudança de 
accentuação coincide nos exemplos dados, como noutros 
mais, com uma reducção de syllabas. 

No calão são raras as mudanças de accentuação que não 
coincidem com suppressão de syllabas, e aquellas mesmas 
são acompanhadas geralmente de modificações nos sons. 
Ex. : cérulas de port. ceroulas^ pápulo (todo escripto, ex- 
cepto carta) de port. papel, irmo de port. irmão^ capito 
de port. capitão. 

h) Suppressão de syllabas (abreviação das palavras). Na 
linguagem familiar dá-se essa abreviação nos termos de ca- 
rinho, especialmente nas formas hjpocoristicas dos nomes 
próprios, como pode ver-se nas observações que noutra 
parte consagrei a esse ponto 2. Essa suppressão é geral- 
mente acompanhada de outras modificações phoneticas. O 
mesmo se dá no calão, a que pertencem os seguintes exem- 



1 Vid. p. 141 e n. 

2 Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 2.' serie, n.® 3, 
p. 142-149. 



117 



pios: alcofa^ j de port. alcaiota ou alcoviteira^ ; ai jabá (al- 
gibeira de mulher), de port. algibeira; almuque, de port. 
almocreve; brasil, de port. bi^asileiro; fabrico, de port. /a- 
bricante; rijo, de port. regedor; tisas, de port. tesouras; 
trio, de port. theatro ; sinhá, de port. senhora (sinhá é tam- 
bém forma crioula do Brasil) ; restolho (barulho, algazarra), 
de port. restolhada (que ó propriamente o ruido produzido 
pelo vento no restolho) ; estola, de port. estalajem. 

Como se vê, na maior parte d'esses exemplos a palavra 
modificada veiu a tomar a forma de outra que nalguns 
casos não tem com ella a menor relação de significação, e 
noutras só pela interpretação secundaria pode tê-la. Se 
brasil e restolho se reduzem apparentemente á substituição 
de derivados por primitivos, alcofa, trio, rijo, aljaba exis- 
tem na lingua como palavras distinctas e sem relação de 
radical com alcoviteira, theatro, regedor, algibeira; todavia 
um regedor pode ser denominado o rijo pelos meliantes e 
entre uma algibeira e uma aljaba concebe- se uma longiqua 
correlação ^. 

Nos exemplos citados, as syllabas supprimidas são fi- 
naes ; mais rara ó a suppressão das syllabas iniciaes, ex. : 
taco, de port. pataco; marac a de port. camarada; croia 



*A forma alcofa acha-se no Elucidário das palavras, termos e 
frases que em Portugal antigamente se usarão, de Santa Rosa de Vi- 
terbo, mas sem texto que prove a sua antiguidade. É um dos vários 
termos populares que o auctor inseriu entre os archaismos; figura 
na lista de Queiroz Velloso, a que pertencem todos os de calão ci- 
tados neste estudo que não se encontram nas nossas listas acima. 
Fernão Lopes empregou a forma alcouvetas: <■ Queria gram mal a 
alcouvetas e feiticeiras». Chron. D. Pedro I, c. 10. 

2 Pela abreviação port. indicamos o português geral ; só indi- 
camos a significação dos termos que nella experimentaram modi- 
ficação. 

3 Sobre factos análogos e o que os distingue da etymologia popu- 
lar, vid. o meu artigo  etymologia popular .^ in Revista lusitana, i 
(1887), pp. 133-142. 



118 



de furbesco ancroja (?). Talvez o^eco jumento esteja por 
burreco^ forma popular depreciativa, por burrico. 

O argot apresenta numerosos exemplos de suppressao de 
syllabas; taes são: a) autor (autorité), achar (acharnement), 
can (cânon), from (fromage), occas (occasion), comme (com- 
inerce), diam (diamant), magne fmanière), pardesse (pardes- 
sus), jpoche (pochard), saj) (sapin) ; condice (condition) ; b) 
chand (marchand), c{j)al (municipal), troquei (matroquet), 
croc (escroc) ; c) lubre (lúgubre) ; d) zouzou (zouave), nounou 
(nourrice), e Bibi (Bicêtre), que apresentam suppressao e 
reduplicação. O argot apresenta sobretudo exemplos da 
primeira espécie (suppressao de finaes); os das outras 
são raros *. 

c) Inversões de sons e syllabas. Vimos já que este pro- 
cesso basta para a formação de certa ordem de girias. Nas 
linguas geraes portuguesa e hispanhola ou nas suas for- 
mas populares ha assas numerosos exemplos d'esse pro- 
cesso; no seu bello trabalho sobre a lingua portuguesa, 
reuniu Júlio Cornu^ boa collecção d'elles, d' entre os quaes 
escolhemos alguns: agamo por âmago ^ atolar por *alotar 
de lat. lutum^ carrascão por cascarrão de cascarra, chamfpa 
por jpranchaf manica por maquina , pouchana por choupana. 
Alexandre António de Lima, Rasgos métricos ^ p. 211, traz 
quesposso por pescoço^ que não sei se devo considerar como 
termo do calão, se como termo popular. 

No calão as inversões podem ser simples ou acompa- 
nhadas de outras modificações ; as da primeira espécie são 
raras. Exemplos d'inversão simples : safo (lenço) por *fasso 
(d'onde falqo, Bluteau), como vimos, de origem italiana; 
zouca por cousa; tapor por porta. 

Nos seguintes exemplos houve mais ou menos conside- 
ráveis modificações dos sons invertidos ou outras modifi- 



1 Vid. Larchey, p. ix, Schwob et Guieysse, p. 46. 

2 Die portugiesische Sprache in Grõber'.s Grundriss der romanischeu 
Philologie, i, 776-77. 



119 



caçoes concomitantes : sor/uinha por ^zoquinlia, de port. 
cozinha; lofo por '^folo, de ir^. foi; macallo por *vacaUo^ de 
port. cavallo (b por m, na língua geral em busaranha de 
musaranha, etc. ; e m por h, talvez em álamo, de lat. alhus 
(etymologia de Cornu) ; chona, choina, de hisp. noche; drepa 
por *drespa, "^trespa, de ^ort, presta; dropa por * drepa, de 
port. pedra; drofa por ^trofa, * tropa, de port.^orto; Drofo 
por ^Trofo, * Tropo, de Porto (cidade). O calão drope, adj., 
abjecto, pobre; s. f., adversidade, desventura; pode estar 
portanto por *trope, de port. torpe ou port. jpocírí?^ e talvez 
nelle se fundisse ainda *brope, de port. pobre. 

Em português desenvolveu-se espontaneamente ár de <r 
latino medial; por exemplo, em pedra de lat. petra, vidro 
de lat. vitrum, adro de lat. atrium. Houve alteração de p 
em V nas palavras lat. scopa, stivare, populus, port. escova, 
estivar, povo ; dep em /em lat. vapore = port. bafo (segundo 
Cornu *). 

A germanía antiga apresenta-nos já vários exemplos de 
inversão de consoantes : chepo por pecho, greno por negro, 
grito por trigo, lepar por pelar, taplo por plato, tisoar 
(mirar) por * vistar de visto, toba de bota. (Hidalgo, Pott, 
Zig., II, 18). 

No argot são raras essas inversões, excepto em ligação 
com outros processos. Já em Pechon de Ruby se encontra 
zerver, server (pleurer, crier), de ver ser, e um ao lado do 
outro: limogere, chambrière, e miloger, valet (Schwob et 
Guieysse, p. 38-39) e remontando até mais alto, á Ballade 
V, de Villon, encontramos Ostac por Costa, nome de um 
chefe de policia (Ibidem). Frequente no argot moderno é 
o processo chamado loucherbème, que consiste numa inver- 
são da consoante inicial, que se substitue por um l, e, posta 
no fim da palavra, se faz seguir de um suffixo (particular- 
mente de ique, oque, uche, atte, ou ème), assim loucherbème 



1 Ibid, p. 769. 



120 



é formado de boucher : oucherh-, l-oucherh-eme ; lemmefoque 
àefemme: emmef-^ l-emmef-oque. Esse processo é caracte- 
rístico do argot dos houckers (carniceiros), e já antigo no 
argot das classes criminosas^ de onde passou em menor 
grau para o argot geral. 

d) Alguns termos apresentam outras deformações pho- 
neticas, tendendo em regra a approximá-los ou confundi-los 
no som com termos da lingua geral. Exemplos: mostro, 
vinho, de mosto , pérola e pilula, cama, de cal. peltra, 
chimpar de chapar; porte-horne de porte-monnaie ; mamão 
de melão; elimo de animo (cf. port. alma de lat. anima); 
chiloras de ceroulas; falso, lenço, por *fasso, germ. fazo, 
do italiano fazzolo, fazzoletto (vid. acima safo, lenço, por 
* fosso). 

II. Deformações morphologicas. A derivação propria- 
mente dita consiste na formação de uma palavra nova, 
tendo por base uma raiz ou tliema já existente, a que se 
juntam um ou mais suffixos, palavra que exprime uma re- 
presentação ou conceito mais ou menos distincto do ex- 
presso por aquelle thema : assim ama-r exprime uma acção 
verbal, ama-dor o agente, ama-vel a qualidade do que me- 
rece que aquella acção o tenha por objecto, ama-torio, que 
respeita ao amor, etc. Cada uma d'essas palavras tem pois 
emprego especial, não são synonymos. Ha, porem, muitos 
derivados que são mais ou menos synonymos com relação 
a outros da mesma raiz; p. ex. : amante e amador. Muitas 
vezes um derivado fez desapparecer o seu synonymo da 
mesma raiz : assim em português altivez, calçado, calva, 
cambista, conhecimento, embrulhada (emborilhada), falsi- 
dade, lastimoso, perdão, fizeram cair em desuso altividade, 
calçamento, calveira, cambador, çonhecença, emborilho , fal- 
sura, lastimeiro, perdoança *. 



* Vid. Questões da lingua portuguesa, pp. 44-50. 



121 

Nalguns casos houve, pelo menos apparentemente, troca 
de suffixos * : 

\-ez , \-ença \-do 

altivl ., , conheci . , calçai 

[-idade [-itmiito {-mento 

i, , {-idade , . i-oso ,. i-edo 

falsl lastiml . oLiV\ , 

*' {-ura f eivo {-ai 

«Não deve esquecer-se, diz Diez, que muitas vezes a 
derivação nas línguas românicas tem apenas em vista 
reforçar a forma ordinária da palavra sem fazer caso do 
sentido, quer, como é mais frequente, para dar mais peso 
a uma palavra curta, quer para distinguir formas idênticas 
ou semelhantes. Visto que se expulsaram da lingua, como 
muito breves, numerosas palavras simples para as substi- 
tuir por outras de mais corpo, porque não se salvariam 
também essas mesmas palavras allongando-as ? Mas só 
podiam ser empregados com esse fim suffixos de significa- 
ção incerta, obscurecida ; outros teriam influido muito cla- 
ramente no sentido. O fr. menton ou rognon, p. ex., não 
diz mais que o simples latino mentum ou ren. Empregaram- 
se, sobretudo para esse fim, antigas formas deminutivas cujo 
sentido já não era sensível. Assim como se preferiram aos 
simples apis^ auris, ovis, por causa de sua pequeníssima 
dimensão, os diminutivos apicula, auricula, ovicula, pa- 
rece ter o francez allongado também sol, taurus em soleil 
C= soliculus), tau-reau (=^ taurellus), sem pensar em 
ver nelles deminutivos, como petit soleil, petit taureau, por- 
que culus e ellus lhe eram conhecidos por numerosos exem- 
plos como simples formulas de derivação 2.» 



1 Digo pelo menos apparentemente, porque as formas podiam ter- 
se produzido independentemente, isto é, lastimoso podia não ter 
sido derivado de lastimeiro, ou vice-versa, mas sim qualquer d'elle3 
de lastima. 

2 Grammatik der romaniscken Sprachen, II 2, 262-3; trad. fr. da3.* 
ed., II, 260-261. 



122 



Proponho chamar indiíferentes esses suffixos que não 
dão origem a uma palavra de significação nova. 

Ha certos suffixos que podem chamar-se falsos, porque 
se formaram á custa de um buffixo com a parte thematica 
de uma palavra e depois ganharam independência como 
verdadeiros suffixos. Em latim, por exemplo, o suf. -lo 
(-la), juntando-se a themas em -r, -n ou -ro (-ra), -no (-na), 
deu logar á formação de derivados em -ellum, -illum, 
'ullum, pela assimilação (depois da syncope de o, a, termi- 
nal), em que -ellum, -illum, -ulliim foram tomados como 
suffixos independentes, que depois serviram para deriva- 
ções novas : assim de puero- derivou-se puerulo-, d'onde 
puel-lo-; de vino-, vinulo-, d'onde villo-; de kom-en- (hom- 
in-) * homon-lo-, homul-lo- *. Visto que havia outros deri- 
vados semelhantes, sentiam-se em formas como jpu-ella^ 
v-illum, hom-ullus, pu, v, hom como radicaes. 

No calão encontramos factos das mesmas ou semelhantes 
categorias dos que acabamos de examinar com referencia 
á linguagem geral, ainda que se apresentem por vezes com 
aspecto próprio. 

No calão ha alguns verdadeiros derivados, isto é, termos 
formados de outros por meio de um suffixo (real ou appa- 
rente), simples ou composto, com significação distincta da 
dos themas de que são formados. Taes são : 

alam/par, ver, de cal. ^lanipo ou *lampio, olho, port. 
lâmpada, lampião; cp. cal. luzio, olho, de port. luz. 

arcoso, annel; á lettra: o que tem forma d'arco, de port. 
arco, com o suffixo -oso, muito frequente em português. 

ardina, aguardente ; á lettra : a que arde, de port. arder, 
com o suffixo -ina, frequente em português, mas que não 
se applica em a nossa Hngua directamente a themas ver- 
baes, caso que aliás se dava em latim, como mostram, por 
exemplo, ruina de rue-re, sentina de senti-re. 



1 W. Corssfen, TJeher Âusspraclie, Vokalismus imd Betonung der 
lateinischen Sprache, II 2, 149. 527-530. Cf. H. Paul, Principien der 
Sprachgeschichte, 2.*» ed., p. 203-204. 



123 



ardosa, aguardente, de port. arder, com o suffixo -oso, 
que é muito frequente em derivados da lingua geral, mas 
não se applica nella directamente a themas verbaes^ mas 
sim a themas nominaes. 

bagaceira, aguardente; á lettra: a que se extrahe do 
bagaço, de port. bagaço com o suffixo -eira. 

calmeirão, mandrião, de port. calma, com o suffixo 
composto -eirão, como port. espadeirão de espada, lar- 
gueirao de largo, lingueirão de lingua, regueirão de rego, 
toleirão de tolo; cp. trigueirão de trigueiro, de trigo. Em- 
quanto ao sentido, cp. hisp. calmoso na significação de — 
preguiçoso, indolente. 

canhantes, botas, de port. cano ou canna (da perna)? o 
suffixo -ante serve na lingua geral para formações de ca- 
racter participai enfraquecido, mas tendo sempre por base 
themas verbaes. Cp. encanhas, meiaí. Bluteau. 

chapeca, moeda de dez réis, que também se encontra 
com a forma sapeca, naquelle mesmo sentido e no de 
pancada de chapa com a mão, bofetada; de chapa, com 
o suffixo -eca, que se encontra, por exemplo, em port. cueca 
de cu, folheca de folha, sonneca de somno. 

emh^omar-se, irritar-se ; á lettra: fazer-se grosseiro; com 
posto e derivado de port. broma, homem grosseiro. 

escamanta, pescada (peixe), de escamar, com o suffixo 
frequente -nte, que se encontra na forma feminina -nta em 
port. governanta; mas, emquanto nas palavras da lingua 
geral esse suffixo indica um agente, aqui significa: que 
tem (escamas). 

faveco (feijão), àe fava, com o suffixo -eco; cp. chapeca. 

gargantosa, garrafa; á lettra: a que tem garganta, gar- 
galo, de garganta, com o suffixo frequente -osa. 

gatasios (mãos, dedos) de gato; cp. balasio de bala, 
copasio de copo, durasio de duro; gatasio é antes termo 
popular. 

gereiro, açougue, de cal. gera, carne. 

grunhideira, lingua, de grunhir, com o suffixo frequente 
-deira. 



12-4 



piadoiro, cálix de igreja, de piar, beber, com o suffixo 
-doiro; cp. bebedoiro de beber, comedoiro de comer» 

pileca, cavallo magro, por *peUeca, de port. pelle. 

Nalguns derivados apparecem-nos suffixos estranhos á 
língua geral e que são devidos apenas a más analogias ; 
isto dá-se por exemplo em: 

loduso, ourives, de cal. lodo, oiro; pela analogia das 
terminações de port. abuso, infuso, parafuso, ete. 

dentrémes, bolso interior do casaco ou collete, pela ana- 
logia das terminações de creme, estreme, leme, etc. A forma, 
apparentemente do plural, encontra-se em expressões po- 
pulares como um bigorrilhas, um bolas. O calão junta 
noutros casos ainda um s a certos derivados seus, como 
se verá mais abaixo. 

moiene do fr. moi, toiene do fr. toi, teuene do port. teu, 
apresentam um suffixo -ene não usado em português. Cp, 
mitene (do fr. mitaine).^ 

Em cal. administrante, por port. administrador, temos a 
substituição de um derivado da lingua geral por outro tam- 
bém da lingua geral e do mesmo thema, mas de sentido 
um pouco diverso. 

Em muitos casos, no calão, a adjuncção de um suffixo 
ou elemento com aspecto de suffixo, a um thema da lingua 
geral, tem apenas por fim o disfarce da palavra, não ha- 
vendo differença de significação entre o primitivo e o deri- 
vado ^ ; taes são : 

cal. pipuncha, de port. pipa; chegaduncho, de chegado; 
faduncho, de fado; tarduncho, de tarde; seduncha, de seda; 



1 No argot é frequente a adjuncção de suffixos deformativos aos 
pronomes : nouzaille por nous, vouzaille, vouzigaudj voziere, vozigue 
por vous. RiGAULT. meziguCf mézigo, loimique pour moi; teziere, tezin- 
gaud, loitHque, loitreme por toi ; sézigue, seiziere, sezingaud por lui 
(soi); nôziere por naus. Schwob et Guieysse, Mem. Scc. ling., vii, 46. 

2 Nas linguas românicas, como vimos acima, a adjuncção de um 
suffixo sem valor derivativo ou indiflferente tem um fim diverso — a 
conservação de uma palavra de pouco corpo. 



125 



mesuncha^ de mesa; todos com o suffixo -iincho^ tão fre- 
quente no cigano (vid. p. 47-48) e que se encontra na lín- 
gua geral em caruncho, zarguncho. 

cal. notante, de port. nota (de banco) ; alforjante, de al- 
forje; caixeirante, de caixeiro; paivante, de ca\. paivo; lon- 
jantes, de longe; horante, de hora; todos com o suffixo -ante, 
applicado porém a nomes, emquanto na língua geral só 
serve para derivados de themas verbaes. 

cal. maciosa, de maçã; hranquioso, de branco ; paivote, de 
cal. paivo; sedaite, de seda; haguines, de cal. hago (dinhei- 
ro); parrelo, de cal. parné (dinheiro), com assimilação de 
im em rr; tolineiro, de tolo ; perunca, de cal. perua (bebe- 
deira); haguinos, de hisp. hajo; vintanços, de vinte; sinhama, 
de sinhá (cal. e creoulo por senhora); chiheco, de cal. chibo 
(espião, denunciante; cp. cal. cabra, espião, denunciante); 
briol, de cal. breu ; patego, patola, patáo, todos de c&i. pato 
no sentido de tolo, ingénuo (cp. cair como um pato, na 
lingua geral); são outros exemplos do emprego de proces- 
sos de derivação da lingua geral sem haver formação de 
palavras de sentido novo. 

Nos seguintes exemplos os processos de derivação adver- 
bial apparente são mais irregulares. 

cal. acache, de port. aqui; allache, de alli; aquera, de 
aqui; allimes, de alli; antrel (adeante) de ante; arribatis, 
de arriba; cimantes (acima), de cima; denirávias (dentro 
de casa), de dentro ; forantes, àQ fora; lonjantes, de longe, 
Cp., por causa do s final de algumas d'essas formas, os 
advérbios port. antes, algures, nenhures, etc. 

cal. agadancanhir por port. agadanhar, cal. agadanchar, 
é uma formação sem analogia na lingua geral, e que lem- 
bra certas accumulaçoes de suffixos noutras girias, como 
no argot chiquoquandard de chie, rupiquandard de rupin, 
no slang slandingcular (pela analogia de perpendicular)^. 



1 Schwob et Guieysse, Mém. Soe. Ling., vii, 43 ; J. Storm, Englische 
Philologie, i, 156-157. 



126 



Um suffixo, real ou apparente, é substituído por um 
outro suffixo, real ou apparente. Exemplos : 

cal. catr-aia, égua, por cal. *catv-opia, catropéa; cp. 
arraia, atalaia, cabaia, lacaia, malafaia, zumhaia, etc, de 
um lado, e de outro copia, Procopia. 

cal. carol por *carrol, de port. carrasco ; cp. de um lado 
os nomes em -ol, como anzol, cal. briol, crisol, paiol, rei- 
nol, rouxinol, e de outro os nomes em -asco, como pe- 
nhasco, varrasco, Velasco. 

cal. rabeco, nome dado aos barqueiros de cima do Douro, 
que vêem ao Porto, pelo pop. rabello ; cp. de um lado os 
nomes em -eco, como chaveco, faneco, jaleco, marreco, ta- 
reco, do outro os nomes em -elo, -ello, como cabedello, ca- 
bello, cadello, capello, modelo, novello, rodeio, sarampelo. 

cal. almazio, alimazio, por port. armazém, com influen- 
cia, ao que parece, de pop. ^alimal, alimária. 

cal. armanço, por cal. armadella, dinheiro para jogar, de 
port. armar; cp. de um lado os nomes em -anço, como 
avanço, balanço, picanço, e do outro os nomef. em -adella 
como apalpadella, fartadella. 

cal. entrames, por port. eiitrada', cp. de um lado os no- 
mes em -ame, como arame, velame, e do outro os nomes 
em -ada, como estrada, camada, pancada. 

cal, marigoto, por port. mannheiro, pelo typo de per- 
digoto, sendo -igoto, sentido como suffixo substituído a 
'inheiro *, influindo também maragota, nome de peixe. 

Muitas vezes uma palavra toma inteiramente a forma de 
outra ou antes funde-se com outra com que tem apenas 
do commum alguns sons iniciaes ou até um só som inicial, 
conservando-se em regra a significação d'aquellas primei- 



1 É menos certo se cal. cachilras, seios de mulher, se liga a cal. 
cachorros, com a mesma significação, influindo cliilra (cp, ainda 
bilro, pela terminação) ; e se cal. carraspana, bebedeira, está por 
^ carrascana, de carrascão, vinho ordinário, forte e áspero ao pala- 
dar, influindo raspar. 



127 



ras palavras ou experimentando apenas alguma ligeira 
modificação. Exemplos: 

cal. palurdiOj, por port. pae^ por fusão com jpalurdio, 
estúpido, parvo. Por analogia formou-se cal. malurdia, 
mãe *. 

cal. mandil, preguiçoso, por port. mandrião^ por fusão 
com mandil, panno grosso de esfregar. 

cal. marihundo, brasileiro, por port. marinheiro, pela 
fusão com pop. marihundo por moribundo (marihundio em 
A. António de Lima, Rasgos métricos, p. 209). 

marabuto (p. 61) parece ser uma formação do mesmo 
género, um resultado da fusão de marinheiro com mara- 
buto, nome de religiosos musulmanos da Africa septentrio- 
nal, o qual apparece em os nossos escriptores quinhentistas 
e de que por certo os nossos marinheiros tiveram conhe- 
cimento. Em francez marabout tomou o sentido pejorativo 
de homem feio, mal feito. 

cal. milhafre, por mil (réis), pela fusão com milhafre, 
nome de ave. 

Qdl, pontífice, ^ov ponta (de cigarro), pela fusão com^oíi- 
tifice, papa, etc. 

cal. lojibeira, por port. loja, apresenta uma fusão incom- 
pleta com algibeira, tendo-se essas palavras associado pelas 
consoantes iniciaes l-j. 

cal. atroços, por port. atrás, como se fosse uma expres- 
são adverbial a troços. 

Nos exemplos seguintes houve fusão de palavras que só 
teem de commum uma consoante ou grupo de consoantes 
inicial : 

cal. baia, por cal. bata, mão, fusão com baia, trave que 
separa as cavalgaduras na cavallariça. 

cal. faia, por fadista, fusão com faia, nome de uma 
arvore. 



* Cal. polaco, por pae, é sem duvida devido ao mesmo processo ; 
mas aqui em vez de * mcdaca, por mãe, temos simplesmente polcica. 



128 



cal. heta, por cal. hata^ mão, fusão com heta^ lista num 
vestido, etc. 

cal. huco^ por port. Z^iirro^ fusão com huco, ho]o do navio? 

cal. hufoy por port. buraco^ fusão com bufo^ nome de ave. 

cal. chitaj por cal. chetuj vintém, fusão com chita^ nome 
de estofo. 

cal. grelha^ por cal. grulha^ peru, fusão com grelha^ 
instrumento, em forma de grade, para assar ou torrar 
comestíveis . 

cal. grego, peru, de cal. grulha ou grelha, mesma signi- 
ficação, pelo fusão com grego, nome ethnico. 

cal. beu por * veu, por port. vinho, fusão com veu, peça 
de tecido para cobrir um objecto, etc. Poder-se-hia também 
pensar em que beu fosse uma modificação de breu; mas 
o termo é do Porto e tem e aberto. 

cal. leria, por port. laranja, fusão com leria, palavriado 
astucioso; modificado depois em larias e lirias. 

cal. duque, por cal. dogus (do ingl. dog), fusão com duque, 
titulo nobiliarchico. 

cal. golfo, por port. gordo, pela fusão com golfo, braço 
de mar, sargaço ? No sentido de aíidalgado, por germ. 
godo, rico ó principal (Hidalgo), pela fusão com a mesma 
palavra golfo ? * 

cal. laivo, por port. lenço, fusão com laivo, mancha. 

cal. laia, dinheiro, por cal. Hata, por port. praíct^ fusão 
cõm laia, casta? 

cal. osga por port. ódio, fusão com osga, nome de um 
saurio. 

Vimos já que numa palavra como villum, illum podia 
ser tomada como suffixo, ficando assim o conceito do radi- 
cal ligado unicamente ao som v. Pode dar- se facto seme- 
lhante em muitas palavras : assim em tosa, rosa, ao lado 
de mimosa, religiosa, etc. í e r podem ser respectivamente 



1 Cal. metier golfas significa lisonjear, e é sem duvida originado 
da locução popular mettêlas gordas, mentir, dizer grandes mentiras. 



129 



sentidos como constituindo a parte radical. O conceito do 
radical não existe só no espirito dos grammaticos : actua 
também, comquanto obscuramente, como categoria psyclio- 
logica, no espirito de todos os que faliam uma lingua em que 
ha distincção entre raiz e elementos de derivação. No espi- 
rito as palavras associam-se pelos sons, pela significação, 
pelas formas de derivação, pelos radicaes, pelas categorias 
grammaticaes, etc. 

Muitos individuos associam com facilidade as palavras 
pelas rimas, outros pelas syllabas iniciaes. Eu associo os 
nomes próprios pela sua inicial : não me lembrando muitas 
vezes de um d'esses nomes por inteiro, lembro-me todavia 
do seu som inicial e por ensaios successivos chego a res- 
tituí-lo na memoria. 

A reducção do radical de uma palavra a uma consoante 
ou um grupo de consoantes inicial, a que se ligam diver- 
sos suffixos, é um processo conhecido do argot; ex.: tran- 
che^ tronche^ trogne (d'ahi trognasse e gnassé)^ todos com 
a significação de cabeça; fr. froc^ '^f roque (défroquer)^ 
arg. frusquin, habit, fringue^ frijpe (fripierj ; chajpeVy pren- 
dre, ao lado de chojper^ chijper *. 

O cal. heto por port. hotão explica-se, não por uma fusão 
de palavras, mas por uma troca de suffixos, pois não ha 
uma palavra heto, em portuguez: -otcio, sentido como suf- 
íixo (cp. horhotcio, mar otao, pelotão , paparrotão); foi substi- 
tuído pelo suífixo -eto, que se encontra por exemplo, em 
carreto j coreto, folheto. 

Poderíamos ver analogamente nas palavras acima, que 
se empregam no sentido de outras que com ellas só têem 
de commum uma syllaba ou um som inicial, o resultado de 
um processo semelhante de substituição de suffixos ou 
sons tomados por suffixos; p. ex. : em haia por hata, troca 
de -ata por -aia (cp. de um lado camarata, cantata, no- 
vata, etc, e de outro cabaia, lacaia, malafaia, zumhaia. 



^ Schwob et Guieysse, Mém. Soe. ling.^ vii, 40-42. 



130 



etc); em huco por hurro troca de -urro por -uco (cp. de 
um lado esturro, susurro, zaburro e de outro abelharucOj 
caduco, maluco, etc); mas a explicação dada acima pare- 
ce-me preferivel. Essa explicação pode enunciar-se tam- 
bém nos seguintes termos: uma palavra suggere outra 
(geralmente do mesmo numero de syllabas) que tem com 
ella de commum um ou mais sons iniciaes e a ultima passa 
a ser empregada no sentido da primeira. Nas linguas ge- 
raes ha factos análogos. Em português, p. ex., j>unar 
(== lat. pugnare), tomar a defesa de alguém, chama por 
associação phonetica punir (= lat. jounire), e esta toma o 
sentido de aquella, que desapparece (punir por alguém). 
Em francês souffreteux, do ant. fr. soiiffraite (disette, man- 
que), toma o sentido um pouco modificado de soujffrant, pela 
influencia da associação dos sons communs souffr *. 

O termo de calão archeiro, bêbado, o que tem o habito 
de beber vinho, apresenta-nos o resultado de um processo 
complicado : archote, copo de vinho, lembra pelos sons 
iniciaes archeiro; mas este pelo seu suffixo -eiró dá ideia de 
um derivado; d'ahi o seu emprego como se fosse um ver- 
dadeiro derivado de archote, o qual seria archoteiro. 

E rara a fusão de palavras determinada por uma termi- 
nação commum; um exemplo é cal. presunto por pessoa 
morta, defunto. Uma historieta popular serv^e de commen- 
tario a esse termo. Conta-se que uma velha surda teve o 
seguinte dialogo com uns forasteiros: 

— Donde vindes vós, meus filhos? 

— De Salvaterra, minha avó. 

— Ai! de debaixo da terra, louvado seja Deus! 

— Que trazeis vós nesses sacos, meus filhos? 

— Presuntos, minha avó. 

— Ai I defuntos, louvado seja Deus ! 



1 Arsène Darmestcter, La vie des mots, 2.^ .ed., p. 131. Littré, s. v. 
souffreteux. 



131 



cal. malacOy ^ov pataco, parece ser devido a um processo 
similar; todavia malaco não se encontra como termo da 
lingiia geral *. 

Concluirei a exposição d'esses curiosos processos de for- 
mação, cujos productos apresentam á primeira vista eni- 
gmas indecifráveis ou podem ser tomados como metaphoras 
atrevidas, invenções extraordinariamente burlescas, etc. 
com as seguintes observações de Ascoli: 

«Piu volte, nello svisare la terminazione d'un vocábulo, 
i gerghi riescono a transformarlo in uno di senso aífato 
diverso ; cosi Varíjot dice arsenal per arsenic, batelier per 
hattoir, prophete per jprofonde, ossia, secondo la metáfora 
di quel grego, cantina o tasca. Questo projphete potrebbe 
dirse você gergale innalzata alia seconda potenza; e Fim- 
portanza furbesca degli oggetti eh' essa accenna, ben ci dà 
il perche delia squisita elaborazione . Da orfevre si fece 
orphelin, da Guibray: Gibernej da poisson: poivre; filou 
s'è amplificato a Phillíbert, nez a Nazareth, e navet a Na- 
varin. Nella germanía, per catenaccío si dirá cerron in luogo 
di cerro joj, mentre il vero valor di cerron é tela grossolana, 
L'alterazione fonética involve spesso dei significativo, sia 
col ricordare un sinonimo, sia col ritrarre qualche attinenza 
delia persona o delia cosa che è nominata, sia coll' oíFerire 
allusioni o travestimenti burleschi, sarcastici^.» 



1 Ter-se-ha produzido malaco primeiro por maluco e depois sub- 
stituido apataco. A ideia de mau, falso, pode ter influido (cp. macanjo 
pag. 9õ) ; ha também cal. maluco ^or pataco. Doutro lado parece que 
tabaco foi egualmente assimilado a malaco, em seguida mudado em 
maloque e moleque para evitar a confusão com malaco = pataco. 
Temos assim uma serie de formações mal-aco, mal-eque, mal-oque, 
mal-uco para substituirem os usaes pataco e tabaco. 

Cal. medulla, seda, estará por um sedulla não documentado? Cp. 
cal. seduncha, seda. 

Cal. medunha, dedos (sic), Silva Lopes, estará por dedunho? 

2 StudJ crUici, p. 388. 



132 



Quando os eíFeitos burlescos existem, o que como se vê 
dos nossos exemplos é raro, são em geral um resultado 
secundário, na minha opinião. 

III. Modificações de significação *. O processo pelo qual 
uma palavra como j>alurd{o vem a significar ^ae no calão 
não pode de forma nenhuma ser considerado como o resul- 
tado do que ordinariamente se chama modificação semân- 
tica, pois que o ponto de partida é uma associação pura- 
mente phonetica, e uma palavra se substitue por outra, 
segundo esse processo, sem a minima consideração pela 
significação d'aquella ; por isso foram examinados na secção 
anterior os exemplos d'esse género. Passemos agora ao 
estudo das modificações semânticas no calão, que explicam 
a maior parte talvez do seu vocabulário. 

a) «Todo o substantivo, diz Darmesteter, designa na 
origem um objecto por uma qualidade particular que o 
determina. Assim, a coisa que o latim chama fluvius_, rio, 
apresenta diversos característicos: aspecto das margens, 
movimento da agua, etc, cada um dos quaes poderia ser- 
vir para a denominar; o movimento da agua foi escolhido, 
e essa qualidade de agua corrente^ quod fluit^, deu o seu 
nome á coisa. Assim também o que francez chama vaisseau, 
por assimilação de forma a um grande vaso, ou hâtiment 
por allusão ao trabalho de construcção, chama-o o latim 



1 Sobre as mudanças de significação em geral, vid. Ludwig 
Tobler, Versuch emes Systems d. Etymologie in Zeitschrift f. Võlker- 
psycfiologie U7id SprachwissenscJiaft, i (1860), 349-387 ; Herman Paul, 
Principien der Sprachgescliichte, 2.* ed., Halle, 1886; W. Wundt, 
Logik I, 34-36. Stuttgart, 1881 ; A. Eosenstein, Die 'psychologischen 
Bedingungen des Bedeutungswechsels derWôrter. Danzig, 1884; Ar- 
sène Darmesteter, La vie des móis étudiée dans leurs signijications' 
2." ed. Paris, 1887; Kurt Bruchmann, Psychologische Studien zur 
SprachgescMchte, (Leipzig, 1886), p. 306 e segs. Para o meu fim res- 
tricto não careço de um schema completo de mudanças de signi- 
ficação. - 



133 



navio (navigium)^ isto ó^ o que nada, fluctua ao cimo da 
agua (natatj . » Esses exemplos podem multiplicar-se indefi- 
nidamente; assim em latim serjpente ó o que se arrasta 
(serpere), cp. reptil; aurora é a brilhante (raiz us, brilhar) j 
nuheSy nuvem, é a que vela, cobre (cp. nuhere, velar, cobrir). 

No calão é muito frequente o processo que consiste em 
substituir um nome usual por um adjectivo (ou participio), 
designando um característico, que muitas vezes está longe 
de ser o essencial ; exemplos : altanado (o que está, se 
senta alto^ no tribunal), por juiz ; amarella (da cor do oiro), 
por libra; andante^ por carteiro^ comboio^ cavallo; apalpa- 
dor^ por guarda-barreira (opalpadeira é a denominação 
official de mulheres que nas barreiras apalpam as forastei- 
ras, para ver se trazem contrabando sob os vestidos) ; 
apertantey por corda (da forca) ; chiante, por carro de bois ; 
cantante^ por gallo; crivantes^ por dentesy dentosa, por serra; 
espumante, por sabão; ferrugenta^ por espada (velha) \ filante^ 
por agente de policia; luzente, ^ov pedra preciosa; massudo , 
por pão de trigo ; passante (a que passa de um lado a outro 
do rio, serve para se passar sobre eWn)^ ^or ponte; preta ^ 
por garrafa (de vidro preto) ; rasteiros, por chinelos ; ras- 
tantes, por sapatos ; piolhosa, por cabeça; pahnilhante, por 
viandante, passageiro ; redonda, por saia; roncante, corpór- 
eo; tamposa, por caixa; sonante, por dinheiro (cf. a expres- 
são Tmtal sonante) ; moncoso, por lenço (cp. fr. mouchoir). 

Em todos esses exemplos a denominação é perfeita- 
mente simples e natural ; noutros casos intervém um certo 
espirito cómico ou depreciativo, ou estabelece-se uma cor- 
relação metaphorica por vezes pouco natural ; assim o advo- 
gado é chamado não o discursante ou o defensor ou mesmo 
o fallante, mas o palrante, com um termo depreciativo ; o 
vinagre é o raivoso, o que tem raiva, por uma espécie de 
personificação determinada pelo seu eífeito adstringente, 
quando é forte ; o moinho, por isso que agita os seus braços 
como em furor, quando o vento o move, é chamado o 
doido; a espingarda é chamada a fungante, assimilada a 
sua explosão ao ruido de um nariz que funga; o chapéu 



134 



da cabeça, sujeito a muitos accidentes, é denominado o 
penante^ o que pena, padece; a camisa que, lavada e en- 
gommada, exige cuidados para não se sujar de prompto, 
é a mimosa. 

Porque razão a sardinha é chamada tinhosa não é fácil 
de dizer; talvez porque a tinha foi comparada a escamas. 

O calão legante^ pistola, é, segundo se me afíigura, um 
derivado de cal. lejos, longe (do hisp.), a que se deu o sen- 
tido de — a que atira de longe. 

Os adjectivos podem ser modificados na significação que 
rigorosamente resulta da sua forma, ao serem convertidos 
em substantivos ; assim vagaroso significa — que procede 
com vagar, vae de vagar ; vagarosa, significando — em que 
ha vagar — designa a prisão. 

h) A metaphora, é muito frequente nos desvios de si- 
gnificação do calão ; já vários dos exemplos dados acima 
entram nesta categoria. A metaphora do calão diverge em 
muitos casos da metaphora da linguagem geral em não 
ser espontânea e transparente, o que resulta do caracter 
geral das girias, que já indiquei. Eis uma serie de exem- 
plos: alfarreca (alforreca, medusa), cabelleira, pela com- 
paração dos cabellos com os tentaculos do animal ; ameixa, 
bala, pela semelhança de forma; apagar-se a lamparina, 
morrer (a vida é frequentemente comparada pelo povo a uma 
luz; ha um conto popular em que velas acccesas repre- 
sentam vidas de pessoas) ; archote, copo, quartilho de vinho, 
(á mesa diz-se comicamente : estou ás escuras, accende-me 
a luz, quando não se tem ainda vinho no copo) ; harraca, 
guarda- sol (por causa da forma e destino); cesto da gavia, 
forca (por causa da forma e altura) ; cortiço, carne de 
porco, propriamente a carne coberta immediatamente pelo 
coiro, que se compara á cortiça (o povo chama encortiçada 
á carne dura) ; cortiços, botas ; gallinheiro, varanda, cata- 
falso; gata, meretriz (por causa da lubricidade do animal); 
hreu, vinho (por causa do aspecto) ; lastro, comida (sobre 
a qual se bebe, como no navio sobre lastro se põe a carga); 
cabelleira, touca, penacho, bebedeira (diz-se que o vinho 



13Õ 



sobe á cabeça, que os fumos do álcool sobem á cabeça: 
compara-se o que se suppõe haver dentro ao que cobre 
a cabeça) ; lingua, bolsa de prata (por causa da forma ) ; 
linguado^ lettra, (na gíria dos typographos: tira de manu- 
scripto) ; massa^ milho^ dinheiro ; pianinho, guitarra ; rama, 
cadeia de relógio; algodão em rama, pão alvo (por causa 
do aspecto) ; rede, capa, roupa ; ripa, espada ; rouxinol, 
apito ; saca, prisão, cadeia ; esponja, bêbado ; rufar, bater 
(como se bate rufando tambor) ; chaleira, panella, podex ; 
cachimbo, pé ; panella, capoeira, carruagem ; cebola, relógio 
d'algibeira, pessoa com muitas vestes sobrepostas. 

No calão dos criminosos occorrem expressões que teem 
por fim adoçar, attenuar, por assim dizer, o que significam 
os correspondentes usuaes: assim t^oy furtar, roubar, diz-se 
picar, abafar, abotoar-se com uma coisa; por sova, pan- 
cada, diz-se calor; ^qy prisão, diz-se collegio, gaveta; por 
afogar, diz-se /a^er aboiar; ^oy matar, diz-se estafar, virar, 
vindimar; por morrer, diz-se sondar; por espancar, diz-se 
escovar, ensinar; negar-se, diz-se ^oy fugir. 

c) Algumas mudanças de significação que nos apresenta 
o calão resultam de simplificações de phrases ; assim falho, 
que não tem dinheiro, provém de falho ao naipe, que de 
termo de jogo passou a ter aquella significação; esticar e 
espichar, no sentido de morrer, provêem das phrases esticar 
ou espichar a canella (a perna; isto é, entrar na rigidez 
cadavérica) ; espirrar, insultar, provém da phrase espirrar 
canivetes que se diz de quem se encolerisa facilmente ; 
lagosta, bofetada, provém da expressão ^or a cara vermelha 
como uma lagosta^; mão por chave foi suggerido pela ex- 
pressão chave da mão, palma da mão, espaço entre o pol- 
legar e o index. 

d) Alguns nomes ethnicos ou próprios de pessoas, experi- 
mentaram modificações de sentido ou applicações ás vezes 



^ Se lostra, no mesmo sentido, é alteração de lagosta fica no do- 
mínio da pura hypothese. Na significação de escarro, lostra é sem 
duvida la oslra. 



136 



curiosas; assim inglês significa percevejo, por causa da cor 
do insecto ser semelhante á das fardas dos soldados da 
marirtha inglesa; chamhorgas (p. 71) parece provir do 
nome do marechal conde de Schomberg *; malafaia, sujeito 
de profissão duvidosa, é uma adaptação do nome de familia 
Malafaia, determinada sem duvida pelas syllabas mala, 
que lhe fizeram attribuir o valor pejorativo. No termo 
gallo, significando francês, ha um vestigio que não é o 
único da antiga denominação dos habitantes da França. 
Eu colligi da tradição popular o seguinte enigma do gallo 
(ave). 

A meia noite 
Se levanta o francês; 
Só sabe d'horas, 
Não sabe de mês. 
Tem esporas, 
Nâo é cavalleiro-, 
Tem serra, 
Não é carpinteiro; 
Tem picão, 
Nâo é pedreiro; 
Cava no cbâo, 
Não acha dinheiro. 

Como janisaro (sem duvida o nome dos soldados da 
guarda do sultão) veiu a significar tunante na giria do século 
XVIII não deve causar estranheza, quando se note de que 
maneira o povo se appropria de palavras novas, imprimin- 
do-lhes sentidos que nem de longe se correlacionam com os 
que ellas teem, isto independentemente dos processos do 
calão que acima ficaram estudados^. 



* Cf. a seguinte passagem de Monte Carmelo, p. 505: «á chomherga, 
pela calada, occultamente, etc. Chomherga foi certa moda de bigodes, 
que trazia o marechal Conde de Schomberg ; mas a Plebe e os Có- 
micos trocarão a significação deste vocábulo». 

2 A palavra ohvio foi ouvida já no sentido de estranho, censurável ; 
plantaforma, por plataforma, é empregada pelo povo correntemente 
no sentido de apparato para illudir ; por exemplo : se antes de umas 



137 



No calão o nome vicente designa o gato, emquanto na 
linguagem popular designa o corvo, por allusão á lenda 
dos corvos de S. Vicente. 

É incerto se cal. narro , cão, provém de navarro; este 
nome significa na germanía antiga ansaron (ganso). 

Lembremos que o povo chama também ao macaco Simão 
(suggerido sem duvida por simio); á burra Joanna; á cocci- 
nella septempunctata Joanninha *. 

é) Um outro processo que podemos chamar da substitui- 
ção synonymica (falsa ou verdadeira) dá logar também a 
mudança de significação. 

No calão, p. ex., havia cría^ carne de vacca, cuja ori- 
gem, como vimos, é incerta; suppoz-se derivado de criar e 
como gerar ó synonymo de criar ^ produziu-se o derivado sem 
suffixo gera^ carne de vacca. 

Desde o momento em que uma pancada na mão, cara ou 
cabeça foi assimilada ironicamente a um holo (bola ou holo, 
palmatoada), desenvolveu-se a serie synonymica de bolacha 



eleições se emprega o conhecido processo de mandar proceder ao 
estudo de uma estrada para uma localidade descontente, applica-se 
ao caso o termo, que (quem sabe ?) talvez fosse suggerido por esses 
levantamentos illusorios de plantas. A palavra parodia designa na 
boca do povo innumeras coisas variadas, a começar pelas danças e 
mascaradas carnavalescas e a acabar numa figura qualquer caricata; 
um d'estes dias ouvi um cocheií-o dizer para um sujeito que estava 
parado a uma esquina observando o quer que fosse : «não estejas 
ahi de parodia.» Ouvi já empregar laudemio no sentido áQ presum- 
pção, vaidade. Num annuncio d'um açougue li: «O responsável d'este 
talho tem que ser licito nas transacções que faça com o publico»; 
aqui licito, o que é permittido, adquiriu o sentido de probo, honrado, 
por um processo fácil de comprehender. Fallar ou ser pespauterio, 
é fallar senhor de si, com importância, bacharelar, e vem sem duvida 
de '^fallar pelo Despanterio ; isto é, conforme a grammatica de Des- 
pauterio; emquanto d'outro lado despauterio veiu a significar dispa- 
rate, tolice. O termo hadameco, rapazote atrevido, originou- se de 
hademeco = vade-mecum. 

1 Encontram-se factos similhantes noutros paises; vid., por ex., 
os nomes da pega em Rolland, Faimepop. de la France, u, 132, seg. 



138 



(bofetada) ou galheta (do hisp.)*, biscoito /^pancada com as 
costas dos dedos na cabeça), tahefe (pancada ligeira de- 
baixo do queixo, propriamente leite cozido com ovos e 
assucar). Este processo é tanto das girias como da lingua- 
gem popular. Ha pouco deram-me a conhecer uma locu- 
ção usada no Algarve que talvez se explique por elle: 
é estar em cação por estar nu. Diz-se no mesmo sentido: 
estar em coiro; ora coiro e cação empregam- se no sentido de 
rameira sórdida, que já não é nova, e como se compreliende 
mais facilmente que a pelle dura do cação motivasse a ultima 
designação do que a que se nos offerece naquella locução, 
pode pensar-se que no espirito do povo coiro e cação se 
associassem como se fossem perfeitos sjnonymos^. 

No argot encontram-se exemplos d'esse processo. Assim 
produziu-se um termo marmite no sentido àefemme, talvez, 
como crêem Schwob e Guieysse, não por metaphora, mas 
por derivação de mar, como supposto radical de mar-que 
(vid. p. 100), mar-quise, mar-lon, mar-paut. Marmitte dá 
logar a duas series synonymicas: d'uni lado temos : jpoé?o?i 
e casserole, femme; d' outro marmitte, mudado em mar- 
motte, chama taujpe^. Concebe- se até onde pode levar esse 
processo e quão diííicil deve ser descobrir muitos dos seus 
productos, principalmente nas girias, que como a portu- 
guesa, têem poucos documentos históricos. 



* Como galheta significa, no sentido português próprio, garrafinha 
para azeite, vinho ou vinagre e que na igreja se usa um par de ga- 
Ihetas, para o vinho e agua do sacrificio, e nas mesas o vinagre e o 
azeite se apresentam num par de galhetas, diz-se um par de galheias 
por duas bofetadas, uma do lado direito, outra do lado esquerdo» 
A que sentido da palavra se liga a expressão burlesca volaverunt 
galhetas, expressiva do estado colérico de alguém, é difíicil de 
determinar. 

2 Cp. lat. scortum, coiro e meretriz. O hebreu p;^'^y, de que provém 
cal. zoina (vid. p. 103) tem também a significação fundamental de 
scortum. Na phrase estar em cação, alludir-se-ha antes ao cação a 
que se tirou a pelle ? 

3 Schwob et Guieysse, Mém. Soe. ling., vii, 50. 



139 



Attendendo ás diíficuldades que levantam á etyinologia 
esse e outros processos das girias, vê-se com que inteira 
razão Ascoli escreveu: «Chi pensi agli innumerevoli enimmi 
che in se racchiude il favellío d'una intera nazione, ogni 
città, ogni borgata, ogni contrada starei per dire, avendo 
in ogni época le sue peculiarità idiomatiche, ingenerate da 
mílle specie d'accidenti assai spesso imperscrutabili ; non 
maraviglierà per certo alio scorgere nè varj gerglii un 
buon contingente di dizioni che sembrano voler perenne- 
mente rcstare quesiti etymologici insoluti. La quintes- 
senza delia parte parte piu recôndita dei vernacoli, messa 
in serbo, chi sa da quanta generazioni, dalla società fur- 
fantina, e sottoposta per soprassello ad artificj gergali, 
quanto mai di stra vagante e d'impenetrabile non potra 
offerire? *» 

Relativamente ao calão ou gíria portuguesa, o meu es- 
tudo creio que me permitte affirmar todavia que dos ter- 
mos de mim conhecidos apenas cerca de um sexto não é 
suscoptivel de explicação ou de etymologia immediata^, 
geralmente certa^ no menor numero de casos apenas vero- 
símil; e naturalmente a lista dos problemas, agora insolu- 
tos, diminuirá com novas investigações. 

IV. Creação original. Em todos os processos anterior- 
mente examinados, vemos o calão, como as outras girias, 
partir dos termos existentes e ligar a elles os seus produ- 
ctos por um nexo phonetico, morphologico ou semântico. 
Dir-se-hia que os creadores das girias ou não teeai facul- 
dade ou não se sentem impellidos de necessidade para fa- 
zer uma linguagem de sua inteira invenção. Examinemos 
succintamente esse problema. 

Nada nos impede de crer na possibilidade da creação 
de novas línguas, já por processos espontâneos, como os 



1 Studj critid, p. 39G. 

2 Chamo aqui etymologia immediata a que liga um termo de giria 
a um termo da liugua geral, ou do país a que pertence essa giria ou 
de outro. 



140 



que produziram as creaçôes primitivas, em grupos de indi- 
víduos que nao tenham adquirido ou só tenham adquirido 
muito imperfeitamente uma lingua tradicional, já reflecti- 
damente por indivíduos senhores de uma ou mais linguas 
tradicionaes. 

Do ultimo caso temos um exemplo no projecto de lingua 
philosophica do bispo inglez Wílkins, no século xvii *. Os 
projectos diversos de lingua universal, que nestes últimos 
tempos teem apparecido, como o Volapuk, soccorrem-se do 
material das linguas existentes, modificando-o segundo prin- 
cípios convencionaes, porque se tem em vista partir d' ele- 
mentos jcá conhecidos por um numero mais ou menos con- 
siderável d'índividuos, afim de facilitar a acquisição do 
novo idioma 2. 

Concebe-se a formação de uma lingua artificial: 1) pelo 
processo de Wilkíns, inventando combinações phoneticas 
novas (raízes e suffixos) para exprimir as representações 
mentaes, quer segundo uma classificação scientifica d'estas, 
quer sem essa classificação; 2) pelo systema do Volapuk, em 
que a relação entre o som e a significação se baseia sobre 
a já existente ; 3) por um processo em que o mais arbi- 
trariamente possível se empreguem palavras já existentes, 
mas com significações que não tenham relação nenhuma 
com a usual ; como se faria, por exemplo, dizendo mar por 
pão, gritar por fugir, etc. 

Como vemos não é assim que se formam as gírias. 

Os dois primeiros processos exigem um grau adeantado 
de reflexão, de que não são capazes os indivíduos que con- 
stituem os grupos creadores das gírias. Apesar das produc- 



1 An Essay Uwards a Beal Character and a Philosophical Lan- 
guage (London, 1668); Max Miiller, Lectures on tke Science of Lan- 
guage. Second Series. II Lect. Sobre outras tentativas semelhantes, 
vid. alem d'essa lição de M. Miiller, Techmer in Internationale Zeit- 
schriftfiir allgemeine Sprachidssenschaft, iv, 339-34:0. 

2 Sobre a legitimidade das tentativas volapukistas, vid. H. Schu- 
chardt, Aus Anlass des VolapiiJcs (Berlin, 1888). 



141 



ções d'estas serem, como já vimos, intencionaes, não se 
afastam essencialmente na sua marcha dos processos d'evo- 
luçào espontânea da linguagem: a nossa investigação 
assentou com evidencia esse facto importante. Isto signi- 
fica que aquellas producçÔes são intencionaes _, mas não re- 
flectidas. O individuo que primeiro disse almuque por al- 
mocreve fez uma modificação intencional ; mas era por certo 
incapaz de explicar a si próprio por que processo o fizera, 
que praticara uma deslocação de accento, que supprimira 
um r na syllaba cre e eliminara por completo a syllaba 
final ve da forma usual, ainda menos que outros termos de 
giria eram assim formados ; ella fazia tão pouca ideia d'isso 
como nós fazemos, por exemplo, sem estudos, das trans- 
formações que os alimentos, que intencionalmente ingeri- 
mos, experimentam em o nosso organismo, dos movimentos 
complicados que são necessários para pronunciar uma pa- 
lavra qualquer, apesar de ser a nossa actividade voluntária 
que está em jogo. Vimos já em que consiste a difí^erença 
entre a producção própria da giria e a da linguagem es- 
pontânea (vid. p. 1 15-116): o povo que àiz jpJiotogro por 
photograjpJio não tem consciência de que fez uma alteração, 
porque não sabe da existência da íormsi j)hotograj)ho ; o fa- 
bricante de giria que primeiro disse almuque sabia porém 
perfeitamente que a forma corrente era almocreve e a sua 
uma alteração voluntária *. 



1 Pode objectar-se que até pessoas cultas que conliecem bem a 
forma das palavras as alteram por vezes, já fallando, já escrevendo. 
Supponhamos que eu vou para dizer ataraxia e digo ataxia. Que se 
deu neste caso? Em vez de me surgir no espirito a forma verdadeira 
que eu tinha intenção de produzir surgiu outra, o que equivale a 
uma ignorância, que só se distingue da que o povo tem das formas 
cultas, que modifica, em ser momentânea : não ha no processo diffe- 
rença essencial. S. A. Guastella no livrinho Vesbm, scenc dei popolo 
Siciliano (Ragusa, 1882) dá noticia de uma triplice forma de lin- 
guagem no povo de Chiaramonte : uma a colloquial, cheia de sup- 
pressoes de consoantes e contracções de vogaes 5 outra menos con- 



142 



A substituição de palavras da língua geral por outras 
da mesma que não tiveram com aquellas nenhuma rela- 
ção de som, forma ou significação exigiria uma quebra 
muito violenta com o uso tradicional, que de um lado sup- 
poria um espirito assas reflectido, no auctor; de outro, nos 
imitadores, uma facilidade de acceitar um emprego tão ar- 
bitrário, a qual realmente não existe : era preciso que num 
e noutros se perturbassem muito fundamente os nexos 
associativos existentes. Por mais arbitrário que pareça o 
emprego de grelha, por exemplo, porper?*^ o termo gru- 
lha estabelece entre elles um nexo semântico, de um lado, 
pbonetico, do outro, que basta para a facilidade da pro- 
ducção e da propagação. Mais tarde o nexo pode esque- 
cer- se, como se esqueceu na linguagem geral porque tal 
animal se chama burro, tal outro serpente, etc. 



tracta, a linguagem do canto e por fim uma ainda mais perfeita que 
é a linguagem da poesia, e apresenta os seguintes exemplos : 

Linguagem colloquial : Uzzumaò. 

Cappicciavi lammassciarà. 

Linguagem do canto : *u zzu mònucu 'a vo\ 

6" 'a za Vita V ha massciu Ara. 

Linguagem da poesia : Lu zu mònucu la voli. 

Ccu la za Vita mastr^ Aràziu Vhavi, 

Destroe esse facto interessante o meu modo de ver? Creio que 
nâo. Essas três formas de linguagem correlacionam-se como diale- 
ctos differentes numa mesma boca e o seu emprego é determinado 
por necessidades diversas, de modo que em cada caso ha uma orien- 
tação particular das representações, que as mantém até certo ponto 
isoladas. Em cada caso surgem no espirito do que falia as represen- 
tações das formas respectivas e ficam latentes na consciência as 
outras. Noutra parte voltarei a este assumpto. As formas eruditas 
ao lado das populares na boca do povo, como plano e chão, não po- 
dem também constituir objecção ao que exponho no texto : essas 
formas duplas ou divergentes apresentam-se estranhas umas ás 
outras no espirito popular. 



143 



A formação das girias não podia escapar á acção da lei 
do menor esforço, que acha luminosa applicação. no domi- 
nio do espirito*, e da qual é uma consequência a lei das 



1 Como é sabido, foi Maupertuis quem primeiro enunciou, com 
applicação á mechanica, o principio da menor acção, ligado no 
espirito d"elle a concepções teleo-theologicas, que modernamente 
foram postas de lado. Vid. Wundt, Logik, i, 579, ii, 262-264 e o escri- 
pto por elle citado de A. Mayer, Geschichte des Princips der kleinsten 
Action (Leipzig, 1877). Foi sobretudo Richard Avenarius quem 
applicou o principio ao dominio do espirito no seu opúsculo Philo- 
sophie ais Denlcen der Welt ycmãss dem Princip des kltinsten kraft- 
masses. Prolegomena zu einer Kritik der reinen Erfahrung (Leipzig, 
1876.) «Todo organismo que trabalha adequadamente para um fim 
deve realisar a sua tarefa com os meios relativamente menores. No 
IDcnsamento deve-se por tanto trabalhar com a possível economia 
de força. « Com relação ao trabalho humano em geral um economista 
formula o principio da seguinte forma: «The fundamental principie 
of human action — the law that is to politicai economy what the 
law of gravitation to physics — is that meu seek to gratify their 
desires with the least exertion.» Henry Grcorge, Progress and Poverty 
(London, 1882), p. 184. 

O principio foi applicado á linguagem em differentes direcções. 
Max Míiller nas suas Lectures on the Science oj Langaage. Second 
Series (1864), explica a alteração phonetica (phonetic decay) por 
«want of muscular energy» (p. 176), «muscular relaxation» (p. 177), 
«muscular eífeminacy» (p. 185), «relaxation of muscular energy» 
(p. 197), «tendence of language to facilitate pronunciation» (p. 186). 
Whitney falia de uma tendência para a economia dos meios, para a 
commodidade, no dominio phonetico, nas suas obras de linguistica 
geral, p. ex. : La vie dii langage (trad. fr.), cap. iv, e consagrou á 
questão um estudo especial : 7'he principie of Economy as a Phonetic 
Force. Boston, 1877. Supplement. 1882. (From Transactions of the 
American Philological Association.) 

O modo ordinário de considerar essa manifestação da tendência 
para a economia na substituição de sons que exigem maior esforço 
por sons que exigem menor esforço é refutado por Sievers, Grund' 
ztíge der Lautphysiologie, (Leipzig, 1876), pp. 125-127, com quem con- 
cordam os neo-physiologos da linguagem, não admittindo esse prin- 
cipio como exclusivo. Já Steinthal em 1860 (Zeitschriftfúr Vôlkerpsy- 
chologie i, 119-120) fizera as seguintes observações : «Como notamos 
nas melodias populares que um povo ora carece d'estes ora d'aquelles 



144 



transições lentas: é com o menor esforço, dentro das ten- 
dências geraes da linguagem e não contra ellas, que as 
girias se formam. 



accordes perfeitamente harmónicos, assim se nega elle a admittir 
na sua lingua determinados grupos de sons em virtude de certa idio- 
syncracia. Acceitando isso completamente, sou todavia da opinião 
que os processos phoneticos, até a alteração phonetica sob a influen- 
cia reciproca dos sons, dependem em pequeno grau de condições 
puramente somáticas, organico-meclianicas, e são produzidas menos 
do que geralmente se julga pela forma de actividade e respectiva 
posição dos órgãos da linguagem. Essas relações somáticas parecem - 
me ter acção secundaria, emquanto reconheço a causa primaria da 
alteração phonetica num processo psychico. . . Se a alteração pho- 
netica resultasse somente de tendência para a commodidade e eu- 
phonia, comprehender-se-hia bem a influencia progressiva dos sons 
(na assimilação), mas não a opposta, a regressiva; e todavia é esta 
a mais frequente, a mais regular. » Paul diz (Prineipien der SpracU- 
geschichle, 1886, p. 54): «E de grande importância ter sempre pre- 
sente que a commodidade representa o papel de causa muito secun- 
daria, emquanto o sentimento do movimento (bewegung <gefuhl) é sem- 
pre o principio propriamente determinante.» Kruszewski mantém 
maior generalidade do principio da economia nos seus Prineipien der 
Spraclientwíckelvng in Internai. Zeitschrift f. allgem. Sprachwissen- 
schaft ( vol. i-v, vid. p. ex. i, 301-302). Cf. ainda Misteli, Lautgesetze und 
Ancúogie in Zeitschrift f. Võlkerpsychologie^ xi, 370-1. 437. A tendência 
económica na linguagem é representada por alguns como vis iner- 
tiae, applicando ao dominio psychico a expressão allemã Trãgheit e 
sua correspondente latina inertia, que na historia da meclianica nos 
apparecem pela primeira vez com Kepler, a allemã na sua Antwôrt 
an Helisãus Rõslin e a latina no quarto livro do Epitome Âstrono- 
miae Copernicae, para exprimirem a incapacidade de se mover por 
si que o grande astrónomo attribue á matéria. Elle que nos diz : 
«Soll nun diese proprietas libei-wunden werden, so gehõrt ein Bewe- 
ger dazu, in des Menschen Leib ein Seel, in der grossen weiten Welt 
ein species immateriata, versans in actu motus», elle não admittiria 
essa translação do conceito da inércia ao dominio psychico. Vid- 
Emil Wohlwill, JJie EntsteJwng des Beharrnngsgesetzes in Zeit. f 
Võlkerpsych. vol. xiv e xv (xv, 370-371). Nessa translação, o conceito 
experimenta todavia grande modificação ou antes recorre-se áquella 
expressão em psychologia para designar alguma coisa que se sabe 
ser muito diversa do que ella designou em mechanica, por falta de 



14Õ 



Não se sente necessidade de crear um instrumento para 
um fim a que pode adaptar-se com ou sem modificação 
um instrumento já existente. A conservação das acquisi- 
çoes humanas, modificando-se, accumulando-se e substi- 
tuindo-se parcialmente, por trabalho lento, é a condição fun- 
damental da historia. Para que o que surge de novo seja 
recebido facilmente é preciso que se ligue por nexo claro ao 
já existente ; esse nexo pode ser externo (de forma) ou in- 
terno (de matéria). E assim que no domínio das instituições 
politicas o partido liberal buscava mostrar no passado pre- 
cedentes, como as antigas cortes, para o systema parla- 
mentar, e conservava a realeza, ainda que reduzida a uma 
sombra; é assim que na substituição das antigas medidas 
e pesos pelas medidas e pesos do systema decimal, o povo 
começou por designar o metro como vara nova, o meio 
kilogramma como arrátel novo. No dominio da moda não 
se procede por saltos, mas por transições insensíveis que le- 
vam, por exemplo, dos vestidos de mulher cingidos á pelle, 
do começo do século, ás monstruosas crinolines, que pouco e 
pouco se foram reduzindo até surgirem de novo os vestidos 
cingidos á pelle ; é assim que os espíritos que se emancipam 
do seu meio, tanto quanto é possível essa emancipação, levan- 
tando-se acima dos preconceitos d' esse meio e descobrindo 
novos horisontes ao pensamento, são geralmente mal recebi- 
dos no começo, sendo necessária uma infiltração lenta das 



melhor termo, como faz Steintlial, Âbriss der Sprachwissenschaft, i, 
II 43, 59, 102, 117, (cujas observações se modificam no § seguinte). 
Com razão diz Misteli (art. cit. p. 437): «Uma inércia do espirito, 
tal como ha uma inércia da matéria, é coisa que não existe e contém 
uma contradictio in adjecto.» Em vez de fallar de uma taWei íZe mer- 
cia no dominio psychico é muito preferível fallar de uma lei de 
economia ou do menor esforço. Karl Bruchmann occupa-se da lei 
da menor acção no dominio da linguagem, com referencia a parte dos 
auctores citados nesta nota, no seu livro Psychologische Studien zur 
Sprachgeschichte (Leipzig, 1888) pp. 177-185. 248-293 ; as suas obser- 
vações estendem-se ainda á rethoriea e á esthetica. 

10 



146 

suas ideias para que emfim elles cheguem a ser compre- 
hendidos. Todavia se o habito tem uma importância capital 
nas coisas humanas, não é de modo algum uma barreira 
invencivel opposta á innovação *. Opera-se uma adaptação 
do não habitual, do novo, ao habitual, segundo as leis da 
appercepção (no sentido da escola de Herbart) e nessa ada- 
ptação é que Avenarius vê a manifestação da lei do menor 
esforço no domínio psychico. 

E evidente que os formadores das girias não procedem 
consciente, reflectidamente, de modo que tenham em vista 
a facilidade da propagação dos seus productos entre os 
outros membros dos grupos a que pertencem; elles obe- 
decem áquella lei inconscientemente, de sorte que ella 
domina não só a propagação, mas ainda a producção. 

Considerando as coisas superficialmente poder-se-hia ver 
na abundância de synonymos das girias um facto contra 



* Sobre o habito vid. P. Radestock, Die Gewõhnung und ihre. 
Wichtigkeit fur der Erziehung (Berlin, 1884), onde se acham reuni- 
das interessantes observações de diversos auctores. C. Lombroso 
leva ao exagero o conceito do habito na vida social no seu artigo : 
Le crime politique et le misonéisme ou la loi de Vinertie dans le monde 
morcd in Nouvelle recue (février et mars 1890) e depois no seu livro 
sobre o crime politico, que nâo tenho á mão. Como se vê do titulo 
repete-se aqui o conceito da inércia com applicaçào ao dominio 
psychico, como nos psychologos citados em a nota precedente. S. 
Merlino combateu as ideias de Lombroso num artigo La Néophobie 
in Revue scienlifique (avril 26, 1890). Note-se todavia que Lombroso 
escrevera : «Le misonéisme n'est pas loi de nature que quand Tin- 
novation est trop radicale.» Merlino da sua parte pensa que: «La 
somme des sentiments philonéiques est toujours supérieure à la som- 
me des sentiments misonéiques.»» A verdade é que o amor do novo 
é um movei importante e que as contradicções apparentes se expli- 
cam perfeitamente pela lei do menor esforço. Esse amor, indepen- 
dentemente da necessidade, tem papel assas considerável na forma- 
ção das girias. 

Em toda a questão do philoneismo e do misoneismo não se tem 
tido em couta um lado importante : a fadiga que causa a monotonia 
e que suscita a tendência para a evitar pela variedade, pela inno- 
vação. 



147 



a theoria apresentada; para que produzir termos com o valor 
dos já existentes ? Mas observa-se que está em a natureza 
mesmo das gírias serem constantemente neologicas, pois 
desde o momento em que um termo se propagou além dos 
grupos para que foi produzido^ deixou de ter valor. D'ac- 
cordo com o que íica exposto deve, pois, dizer-se que nas 
girias a manifestação do principio do menor esforço não 
está pois em a não producção do novo, mas sim no modo 
d'essa producção, na ligação do novo para com o existente. 
H. Lotze dirigiu algumas objecções ao principio da menor 
acção. «Nas investigações, diz elle, que teem por objecto 
os grandes hábitos que caracterisam a acção da Natureza, 
trata-se muitas vezes de princípios de economia que ella 
observaria; é uma ideia muito vaga que, até no princi- 
pio da menor acção, não obteve formulação exempta de 
equivoco. Ella não começa a tornar -se clara senão quando 
se trata de fins para a realísação dos quaes, em circum- 
stancias dadas, diversos meios são egualmente praticáveis, 
de modo todavia que conduzam ao mesmo fim com maior 
ou menor despesa. Mas então a medida a que se compara 
essa despesa depende ainda de circumstancias que tornam 
mais importante para nós a economia, quer de tempo, quer 
de massa, ou nos fazem proferir um modo de operar, de 
que temos o habito, ao emprego de um novo processão que 
nos fatigaria. Pois, para resolver seguramente a questão 
do principio da menor despesa, é preciso primeiramente 
fazer, na definição do fim, a indicação da direcção em que 
a economia tem maior valor. E o que faz ver já a ambi- 
guidade da applicação d'essas ideias ás acções naturaes. 
Supposto que a Natureza mire a fins, a verdade é que não 
os conhecemos e não podemos indicar essa direcção da sua 
economia necessária; tudo o que affirmariamos talvez é 
que ella não é avara nem de massas, nem de forças, nem 
de tempo, nem de caminho e de velocidade, coisas todas 
que nada lhe custam, mas que ella é sóbria de princípios. 
Tal é, com efFeito, a economia de que julgamos achar o tes- 
temunho principalmente no mundo orgânico; pelas varia- 



148 



coes de um pequeno numero de typos de conformação, por 
inexgotaveis modificações do mesmo órgão, a natureza pro- 
duz a diversidade das creaturas, e prevê ás suas diversas 
necessidades ; aqui ella parece-nos, se é permittido á nossa 
sabedoria limitada empregar essa linguagem, ser pródiga 
de massas e de tempo e recorrer a longos rodeios para 
realisar operações que pareceriam poder ser executadas 
com maior promptidão, desviando-se da via typica costu- 
mada. Essas ideias não comportam applicaçao á mechanica, 
cujas leis tem que cuidar não de um typo determinado de 
effeito, mas da realisação de todo phenomeno qualquer*.» 
E claro, em virtude mesmo d'essa exposição, que no 
domínio do espirito, onde ha finalidade real, que se torna 
o typo de todas as outras finalidades pensadas, onde se 
tem indicação da direcção em que a economia tem mais 
valor, o conceito da menor acção acha applicaçao irrecusável 
na sua generalidade; e não menos se manifesta naquelle 
dominio essa economia de princípios de que falia Lotze e 
da qual é um exemplo mesmo a formação das gírias por 
processos que não divergem essencialmente dos que se 
encontram na evolução das línguas geraes. 



O facto das girias serem construídas, no todo, com ma- 
teriaes das línguas tradícionaes não exclue por certo a 
possibilidade de haver nellas alguns productos de creação 
original. A opinião de que só no período primitivo da hu- 
manidade fosse possível a creação de elementos da lingua- 
gem tem sido enunciada por alguns auctores, mas carece 
de fundamento. E sem duvida muito dífíicil de determinar 
que palavras haja nas línguas modernas que não prove- 
nham por simples modificação phonetica ou por derivação 



1 Hermann Lotze, Métaphysique, trad. fr. de Duval, revue par 
rauteur (Paris, 1884), § 216. 



149 



de palavras de línguas antigas, porque embora achemos 
nas primeiras um considerável numero de termos irredu- 
etiveis a termos das ultimas, apesar de todos os esforços 
da sciencia etymologica, pode- se ser inclinado a crer que 
nesses termos irreductiveis haja restos de antigas línguas 
perdidas, ou ainda representantes de termos não docu- 
mentados das linguas antigas conhecidas ou por ventura 
vocábulos modificados de tal modo que escondam a sua 
origem á perícia dos investigadores. Todos os annos, de- 
mais, se vae resolvendo um numero maior ou menor desses 
enigmas. Todavia ha sempre um certo numero de palavras 
que parecem de inteira creação moderna, quer espontânea, 
quer reflectida*. E bem conhecido o caso da palavra gaz, 
inventada por Van Helmont, mas a que ainda assim os 
etymologístas se esforçam por achar uma etymología'^. Ha 
termos populares ou de gíria como esjpeclonderijico^ esta- 
pafúrdio^ que parecem perfeitas invenções sem apoio, senão 
muito vago, no existente na língua usual. 

Na linguagem das creanças podemos achar também 
creaçoes originaes, ainda que mais raras do que se poderia 
suppôr, muitas de caracter onoraatopaico^). 

Ha também observados casos de creação de linguas por 
creanças, ainda que não exclusivamente com elementos 
originaes^). Deve ter-se em vista que as creanças transfor- 



í Sobre a creação original moderna nas linguas usuaes, vid. Paul^ 
Principim der Sprachgeschichte, 2.^ ed., cap. ix. 

^Vid. Seheler e Littré, s. v. 

3Vid. W. Preyer, Die Seele des Kindes (Leipzig, 1882), pp. 277- 
278; Steinthal, Ahriss, § 510, 532. 

4 Ha sobre linguas d'esse género um trabalho de Horatio Hale 
in Proceedings of the American Association for the Advancement of 
Learning, vol. xxxv, 1886, que só conheço pelos extractos dados por 
Gr. J. Romanes, Mental Evolution in Man (London 1888) pp. 138-143, 
junto com uma observaçã») semelhante de um amigo do auctor d'esse 
livro. Steinthal, Der Ursprung der Sprache, 4.^ ed., dá noticia de 
casos do mesmo género, segundo leio numa noticia d'cssa edição, 
que aindo nâo vi. 



lôO 



inam ás vezes singularmente as palavras da lingua ma- 
terna, no seu som ou na sua significação. Uma que eu co- 
nheço transformava café em pavá^ lenço em juso; outra 
applicava a expressão jpípes que lhe ensinavam por pio- 
lhos junto com a expressão menirmo, que tinha primeiro 
conhecido para designar um certo rapaz antipathico, isto é, 
o composto pipes-meninào para designar uma immundicie. 

Entre outras creaçoes originaes indubitáveis de crean- 
ças, escolho a seguinte de observação minha. Duas crean- 
ças, que fallavam já correctamente a lingua materna, e 
produziam frequentes vezes derivados para substituirem 
as palavras correntes (p. ex. moscata por mosca) designa- 
vam uns bonecos figurando soldados da armada ingleza 
pelo termo falofa^ que depois foi applicado por elles para 
designar os recrutas, soldados novos (gaUuchos^ na desi- 
gnação popular) de carne e osso. 

No calão, ou antes nos limites do calão e da linguagem 
popular, são raros todavia os termos que se possam consi- 
derar innegavelmente como creaçoes originaes. Tal é fun- 
gágá por philarmonica. 

, Na lista de Queiroz Velloso encontramos : cal. faze7' tefe- 
tefe, fugir correndo. Tefe-tefe é uma expressão imitativa 
que parece ter designado primeiramente, lia boca popular, 
as palpitações do coração, agitado por um sentimento ou 
por uma corrida. 

Nas formações imitativas referidas nota-se a reduplica- 
ção syllabica, como em muitas outras populares do mesmo 
género; taes são zum-zum; tris-tms; tUm-tlim ; cu-cu, o canto 
do cuco, o próprio cuco; pim-pam-pum (com variação vo- 
cálica), jogo nas feiras que consiste em atirar bolas a uns 
bonecos fixados pelo meio do corpo num arame, de modo 
que ganha o que os faz volver sobre esse eixo; tim-tim por 
tim-tim (contar), contar miudamente, ponto por ponto. Na 
linguagem das amas e creanças: tutu, corneta; buhu, agua; 
pipi, gallinha; chichi, urina; heu-heu ou hau-hau, o ladrar 
do cão, o próprio cão; mé-mé, o balar da ovelha, a própria 
ovelha. 



151 



Algumas expressões das girias ligam-se a antigas ono- 
matopeas, como fanfarra, lingua, na lingiia geral, reunião, 
de músicos que tocam instrumentos de cobre, verbo /i^n- 
far basofiar, gabar- se, ostentar valentia, fanfarrão, ant. 
hisp. fanfa, bazofia (vanterie). Uma variante de fanfar ó 
finfar, dirigir a alguém um remoque, etc. Com Littró creio 
que farfante (do ital. furfante) deve considerar-se como 
não tendo relação etymologica com fanfarrão. 



Relações do cigano com o calão 

Como vemos de p. 46-49, a linguagem dos ciganos de 
Portugal contém um certo numero de termos formados pelos 
processos que encontrámos também no calão, e dos quaes 
o mais frequente no cigano é o emprego de suffixos desíi- 
gurantes. Entre os termos dos ciganos da Extremadura 
colhidos pelo sr. Leite de Vasconcellos ha uma parte con- 
siderável que apresentam o suffixo -uncho. E de crer que, 
ao passo que se vá perdendo a memoria dos termos tsiga- 
nos, a linguagem dos ciganos tome de cada vez mais o as- 
pecto de uma giria. 

«A separação da lingua dos tsiganos das girias não é 
sempre fácil. Assim o que neste artigo se designa como 
giria dinamarqueza (mais exactamente jutica) pode tam- 
bém ser considerada como tsigana. Distingue-se notavel- 
mente da giria allemã*.» 

Pott notou já no gitano alguns termos da germanía e 
varias formações análogas ás das girias, além de certos 
productos muito artificiaes, como ondinamo por hisp. 
álamo, de ondila po!r hisp. ala, com troca do suffixo -ila por 
-amo (de álamo), sendo ondila a seu turno derivado de hisp. 



1 Miklosich, Beitrúge zur Kenntniss der Z/(/€unenmmdar(en, iii. 
Zigevnerische Elemenle in den Gaunersprache EnropcCs in Sifzber. 
Lxxxiii, pag. 538. 



152 



onda, pela comparação do voo da ave com o movimento 
de nadar *. 

Das relações dos ciganos com outros vagabundos, pedin- 
tes, ladroes, resultou a introducção no calão de um certo 
numero de termos de origem tsigana e especialmente cigana 
ou gitana. A lista seguinte comprehende termos em que 
essa origem é em geral certa, nalguns casos simplesmente 
provável. O uso de alguns d' esses termos acha- se bastante 
generalisado. 

Seguindo o exemplo de Miklosich, considero como tsiga- 
nos não só os elementos dos dialectos tsiganos, e em espe- 
cial do cigano e do gitano, que são de origem indica, mas 
em geral todas as palavras que temos razão para julgar 
trazidas pelos ciganos até Portugal. 

A primeira palavra de cada artigo é o termo do calão. 
A abreviatura Voe. indica o nosso Vocabulário cigano ^, 

adicar, ver. Cig. dicar, diqudar. Voc. Rothwelsch dichen^ 
ver. Miklosich, Beitr. iii, 541. — Origem indiana: sanskrito 
diy, prakrito dèkkhami. Pott, Die Zig.j ii, 305. Miklosich, 
Abhandl., vii, 201. 

aguaruça, fim, extremidade, rol do esquecimento. Lembra 
tsigano grego agôr ponta, agoré, na orla; tsig. rumeno agor, 
fim ; tsig. húngaro jagór, fim ; tsig. bohemio agor, fim. Mas 
o git. oíferece formas mais afastadas : gresiton, o ultimo ; 
gresité, fim. — Essas formas tsiganas ligam-se talvez ao 
sanskrito agra. Pott., ii, 45. Miklosich, Abhandl.j vii, 163. 

artão, artife, vid. pp. 110-111. 

avelar, avezar, ter. Git. abelar, tener, poseer. [Cp. cig. 
àbelar. Voc. Tsig. grego aváva, vir, tsig. rumeno av, vir; 



* Pott, Bie Zigeuner, ii, 38-43; cf. i, 64. Maio traz no seu voca- 
bulário gitano alguns termos expressamente indicados como de 
germanía. 

2 Nâo apresento as formas de todos os dialectos tsiganos, ligadas 
ás do calão, as quaes se encontrarão nas obras citadas. 



153 



tsig. bohemio avav^ vir ; — Origem indiana : sanskrito ap^ 
alcançar. Pott, ii, 52. Miklosich, Ahhandl., vii, 170-171.] 
hagata, bruxaria. [Cp. git. haji^ fortuna; jpenar haji, 
to tell fortune; decir la buena aventura. BORROW. Tsig. 
grego hacht (eh = j hisp.), acaso, sorte, felicidade ; tsig. 
rumeno backtj, felicidade. Pott, ii, 398-9, que liga aquella 
palavra git. ao persa hakht, fortune, luck, prosperity, feli- 
city, emquanto o persa fora do seu lado ligado por Vul- 
lers ao sanskrito hhang, frangere, dividere. Miklosich, 
Ahhandl., vii, 172.] 

bolsar, ladrar. Pode estar por hassar e ligar-se ao se- 
guinte banza, pois no tsig. russo ha te baSés, ladrar. 

banza, guitarra. Git. bachahi, guitarra; basnó, gallo 
(= cig. basnó, Voc). Tsig. grego basáva, gritar ; tsig. ru- 
meno baM, soar, gralhar ; tsig. bohemio basavav, tocar, basno, 
gallo ; tsig. russo te bases, ladrar ; etc. — Origem indiana : 
sanskrito bhãs, pali bkãs, fallar. Pott, ii, 426. Miklosich, 
Abhandl., vii, 176. 

banzé, gritaria, tumulto, algazarra. Parece ligar-se a 
banza; vid. este. 

basta, bata, mão. Cig. baste. Voc. Grit. baste, bate, mano 
Tsig. grego, rum., hung., bohem., escandinavo vast; tsig. 
italiano vast; tsig. basco basta. — Origem indiana: sans- 
krito hasta, pali, prakrito hattha, hindustani hãth, Pott, ii, 
86. Miklosich, Abhandl., viii, 92. 

bocachwi, bocanhim, clavina, trabuco. Vid. pocachim. 
brejina, cereja. [Ligar-se-ha a git. berjí, bella? Git. 
berjivia, bellota (bolota), é uma má traducção do termo 
hisp., que vem do árabe bellõtã, mas que foi interpretado 
como se derivasse de bello.'] 

buldr^a, pudendum mulieris. [Ligar-se-ha a git. bui, ano? 
Pott, II, 422. Queiroz traz bunda, barriga; no Brasil bunda 
significa nádegas, podex; é talvez um termo de origem 
africana]. 

calão, giria. Vid. p. 57 Em hisp. calo, lingua dos gita- 
nos. De um dos nomes nacionaes dos tsiganos kaló, que 
significa propriamente negro. — Origem indiana: sanskrito 



154 



e pali kãla^ hindustani kãlã^ sindhi hãrõ. Pott, ii, 106. 
Miklosich, AhhandL, viii, 229. 

calcorrear^ correr. Vid, p. 111 n. 

caleço, quartilho. Cp. git. cale, cuarto, denario, moeda. 
Pode ter influído no som port. caleça. 

colona, mulher desprezível; propriamente cigana. De 
calão, cigano. Vid. calão. 

cangarina, cangra, gangarina, igreja. Cig. cangré, can- 
gueri, cangri, igreja. Voc. A palavra encontra- se noutros 
dialectos tsiganos. Miklosich, Ahhandl., vii, 231, compara 
tsig. asiático kangH, git. kangalla, carro, e lembra que os 
godos no século iv transportavam em carros imagens a 
que prestavam culto. Cf. Pott, ii, lõO-lõl. 

canguello, acanhamento, timidez. Git. canguelo, miedo, 
receio, temor; canguelar, temer, turbar, recelar. Mayo. — 
Origem incerta. Pott, ii, 125. 

cardina, bebedeira. Git. curda, embriaguez; curdo, curdi, 
ébrio. Mayo. — Origem incerta, talvez persa. Pott, ii, 128. 

chala, absolvição; pôr na chala, afugentar; chalarse, 
fugir; chalado, amalucado, idiota (litteralmente : a que se 
foi o juizo). Queiroz. Cig. chalar. Voc. Git. chalar, ir, 
andar, caminar, marchar; meter; pasar. [Cp. git. chala- 
hear, mover, menear, agitar. Tsig. grego calauáva, ba- 
ter. — Origem indiana: sanskrito cal (cansativo), mover, 
bater contra, hindustani calna, bater. Miklosich, Ahhandl. , 
VII, 18Õ]. 

chíbalé, adversário. [Cp. tsig. bohemio cíbaU, juiz ; tsig. 
grego Hhaló, adj. fallador, palrador: Hhanó, s. albanez; 
essas palavras provêem de tsig. Hp, cih, lingua. — Origem 
iirdiana: sanskrito gihvã, pali givhã, hindustani dzlbh. 
]\Iiklosich, Abha7idl., vii, 189-190. Com relação á forma 
em é, cp. cig. diclé ao lado de dicló, lenço; git. baré ao 
lado de baré, grande; banjolé, bandido, ao lado de banjuló, 
fanfarrão, etc. ; busné ao lado de biisnó, estranho, etc.]. 

churré, joven. Git. surre, adj., anterior, antigo? A oppo- 
sição no sentido está longe de ser um phenonemo raro. 
Meu velho! diz-se por carinho a um rapaz. 



1Õ5 



churinar^ esfaquear. Git. churinar, acuchillar; churi, cu- 
chillo, pufíal. Cig. chori. Yoc. Argot chouriner . Tsig. grego^ 
hiing., bohem., escand., basco curi, faca. — Origem indiana: 
sanskrito: churi, òhurika, pali èhurikã^ prakrito Ihuri, 
hind. churi, chiira. Pott, u, 210. Miklosich, Ahhandl, vil, 
197. 

cliseSf olhos. Git. cUsé, ojo, agujero. O clisé ya pandu- 
rerí, el ojo de la cerradui'a; eclisar, ojetear, ajujerear, 
ht^rir los ojos. Mayo. Tsig. grego klidí, kilidí^ chave; tsig. 
húngaro klidin^ fechadura. — Do grego mod. vMiòi. Miklo- 
sich, AhhandL, vil, 242. 

fcorrijHO ou corrupio propriamente, movimento rápido 
giratório ; grande actividade, lida. Esta palavra que não é 
termo de giria, mas sim um termo popular muito generali- 
sado é talvez derivado do lat. corHpere; mas lembra o git. 
curripen, ejercicio, trabajo. Mayo. Borrow. Pott, ii, 115). 

cosquej, casa. Git. cosqué^ granja, cortijo. E possivel que 
o termo tenha vindo de Itália por intermédio dos ciganos. 
Vid. p. 111. 

dabo^ pae. Suppuz primeiramente que fosse modificação 
do tsig. grego dad., pae, git. dadá^ tsig. rumenp dad^, avô ; 
todavia as formas do argot (p. 99) fazem-me hesitar. — 
Dad é de origem indiana : hindustani dãdãj, avô, cp. sans- 
krito tãtã. Pott, II, 308-309. Miklosich, Ahhandl. vii, 198. 

dica {á)j perto, isto é, em logar de que se vê bem. De 
adicar, vid. este. 

empandeiradoy preso, apanhado, agarrado. «Fomos todos 
impandeirados pela policia». Jornal O Século^ n.° 3:731 
(19, junho 1892). Queiroz dá a empandeirar o sentido de 
matar. Git. oprimir, apremar, sujetar. Mayo. To inclose, 
to tie, to shut. Borrow. Tsig. grego pandáva, fazer ligar, 
encarcerar, atar. Tsig. hnngar o pandel, ligar, fechar. — Ori- 
gem indiana: sanskrito, pali bhand, arménio band, cárcere. 
Houve metathese da aspiração: phand, pandh, Pott, ii, 
124. Miklosich, Abhandl. viii, 37-38. A raiz bhand está 
representada nas linguas germânicas por band, de que vem 
port. banda. 



1Õ6 



endinhar, abonar. Cig. dihar. Voc. Git. di^har, dar, de- 
riva do part. pass. dinó da raiz da. Tsig. grego dava^, part. 
dinó, — Origem indiana: sanskrito dã, pali dêmi, dadãmi, 
part. dinno. Pott, ii, 300. Miklosich, Ahhandl., vii, 199. 

endromina. Vid. p. 111. 

estache, chapéu. Cig. estache, Voc. Tsig. grego stadik, 
fez, barrete dos turcos. — Do grego mod. gy.iólÒí. Pott, ii, 
243. Miklosich, Ahhandl., viii, QQ, 

estarim^ prisão, cadeia. Cig. estaríben, estaribin, Voc. 
Além das formas alli citadas, cp. git. estardar, estardelar, 
encerrar, encarcerelar ; estardó, i, adj. preso, a. Mayo. 
Germânia mod. estaro, prison. Borrow, ii, 148. Pott, ii, 
246, que apresenta formas correspondentes de outros dia- 
lectos tsiganos. 

estrihelho, tribunal. Git. estanhei, estaripel. Vid. cig. 
estariben (Voc.) e o precedente estarim. 

feia, cara. Nas phrases : mostrar a feia, apparecer, e 
mudai' de feia, mudar de cara. Queiroz. Git. Jila^ face, 
cara. Borrow, que no-lo dá também como da germ. mod. 
II, 148. Mayo nota-o como termo de germ. «Etwa ais Ge- 
gentheil von: Profil?» Pott, ii, 394. 

gandaiar, vadiar, etc. Vid. p. 73-81. Cp. git. garandar, 
vagabundear. Mayo. 

gajo, homem, sujeito, o que anda á boa vida ; libertino ; 
espertalhão. Cig. gaché, Voc. Tsig. grego gadzo, estra- 
nho, não cigano, pessoa, homem; tsig. rumeno gàzó, ho- 
mem, hospede, etc. — Origem indiana: sanskrito gaya, casa, 
a gente de casa, etc. gadzo é propriamente um homem da 
casa. Pott, II, 129. Miklosich, Ahhandl., vii, 211-212. 

gamar, furtar com subtileza. Cig. jawiar. Voc. (aii.jamar, 
jalar, comer. Tsig. grego cháva, comer. Ficou já estabe- 
lecida p. 102 a relação semântica entre comer e furtar. 
A gamar liga-se talvez port. pop. gramar, comer, engulir, 
que deveria separar-se portanto de gramar, trilhar o linho; 
mas cp. os sentidos de tascar. — A palavra tsigana é de 
origem indiana: sanskrito, pali khãd, prakrito khã, etc» 
Pott, II, 157-9. Miklosich, Ahhandl., vii, 217-218. 



1Õ7 



ganiços, dados. Bluteau. Cp. git. gania, juego de dados. 
Mayo. ganisardar, to gain. Ganar. BORROW. As palavras 
git. provêem por certo do hisp. ganar. Pott, ii, 145, re- 
produz ganisardar sem indicação etymologica. 

grane, grane, graste, cavallo, grani, égua ; grenhi, burro. 
Cig. gahí, grai, grani. Voc. Git. grasté, cavallo ; gra, 
besta, cavalgadura, cavallo; grasti, faca; grasni, égua. Tsig. 
grego grast, gras, gra, gray, cavallo ; grastni^ grasni, égua ; 
etc. — Origem arménia: grast, besta de carga. Miklosich, 
AbhandL, vii, 216. Cf. Pott, ii, 143-4. 

gris, griso, frio. Cp. cig. hil, hir, frio. Git. jil, frio, 
fresco. Mas gris, froid, já no jargon do sec. xv (vid. p. 108). 
Tsig. grego sil, frio. — O termo tsig. é de origem indiana: 
sanskrito sita, sltala ; pali Ma, sitala. Miklosich, AbhandL, 
VIII, 70. Pott, II, 231-232. 

liró, janota. Cp. git. Z^7o, loco, extravagante. Miklosich, 
AbhandL, viii, 1, liga-o a git. lillar tomar (litteralmente, 
lilô, inderdicto), tsig. grego lava, part. linó, tomar. Cf. Pott, 
II, 327. 340. 

lodo, dinheiro, oiro. Tsig. grego lovó, moeda; lové di- 
nheiro ; tsig. allemão lõvo, tsig. inglez lóvo, etc. A palavra 
penetrou noutras gírias, p. ex. Rothwelsch lowi, geld. — 
Origem incerta. Pott, ii, 335. Miklosich, AbhandL, viii, 7 ; 
Beitr., Ill, 546; AbhandL, ix, 187, em que compara sans- 
krito dopa, Abtrennung, etwa Abschnitt.» No calão a pa- 
lavra assimilou-se a port. lodo = lat. lutum, no qual toda- 
via alguém poderia ter visto a verdadeira origem do termo 
do calão, por uma metaphora exprimindo o desprezo pelo 
tão desejado objecto. Em verdade o git. lama, plata, em 
Mayo, parece confirmar essa interpretação; mas afigura- 
se-me que ao gitano não seria extranha a forma lodo, 
comquanto não figure nos vocabulários que tenho presen- 
tes, e que lama teria sido produzido como pendant a lodo, 
embora este se originasse de tsig. lovó, 

luca, carta. Ligar-se-ha pelos processos examinados a 
p. 126 segg. a cig. Hás (Voe), git. liá^ A forma funda- 
mental tsigana parece ser liei. Pott, ii, 339-340. 



158 



lumia, meretriz. Cig. lumi. Voc. Git. lumí^ lumica^ mu- 
chacha, querida, manceba. Mayo. Tsig. grego lubni. Hure; 
tsig. allemão liibni, etc. A palavra penetrou no Rothwelscli 
lupni. Miklosicli, Beitr, iii, 546. — Origem indiana: sans- 
krito lubh^ desejar, lõhha, cubica, lõhhirij, desejoso, ávido; 
pali lohha^ ávido, hindustani luhhnã^ ser cubiçoso, amo- 
roso. Pott, II, 334. Miklosich, Ahhandl.j, viii, 7. 

maries, homem; manesuj mulher; menesa, abbadessa; 
prostituta (arg. menessCj p. 101). Cig. manu. Voc. Git. manu, 
hombre, varon. Tsig. grego manús, homem, etc. A forma 
do calão parece provir de uma cigana mamis, que sugge- 
riu a troca de us em es. — Origem indiana: sanskrito ma- 
nma_, hindustani mcinus, Pott, ii, 446-447. Miklosich, 
Abhandl.j, viii, 10. 

mangue, eu. Cig. amanga, amangues, mangue, mangues, 
Git. mangue, me, mi. Tsig. grego amen\ etc. — Origem 
indiana: sanskrito asmãn, pali amhê, hindustani ham, nós. 
Miklosich, AbhandL, vii, 164-165. 

marar, matar. Cig. marar, marelar. Voc. Git. marar, 
matar. Reflexos nos diversos dialectos. — Origem indiana : 
sanskrito mãrayati, elle mata, hindustani mãrnã, ferir. 
Pott, II, 450. Miklosich, Ahhandl., viii, 11. 

marrella, pão. Der. de cig. manró. Voc. Git. manró, 
pan. Tsig. grego manró, etc. Cp., por causa da forma, cal. 
parrella àe parné (vid. infra). — Origem indiana: sanskrito 
manda, a camada superior saborosa de comidas Uquidas e 
de bebidas, mandha, uma espécie de biscoito, pali manda. 
Pott, u, 440-442. Miklosich, AhhandL, viii, 10. 

misto, bom. Cig. misto. Voc. Git. misto, bien, bueno. 
Tsig. grego misto, bom, etc. — Origem indiana: sanskrito 
mista, saboroso, doce; hindustani mithã, sindhi mifhõ, 
doce. Pott, II, 459-461. Miklosich, AhhandL, viu, 15. 
Pott não considerou sufficiente essa etymologia que foi 
primeiro apontada por Diefenbach e que Mikl. acceita. 

mistico, bom, bello, janota; mistangueiro, janota; mis- 
tago, acreditado. Ligam-se todos a misto; vid. o art. ante- 
rior. Cp. litterario mystico. 



159 



nanaij, nada. Cig. nanais. Voc. Gil. nanai^ no^ de nin- 
giin modo. Tsig. grego na^ não; duplicado nana; nanay = 
nana isi, não é. No git. ha também a forma nasti, adv. — 
Origem indiana: sanskrito na -\- ásti. Pott, i, 318. 322. 
Miklosich, AhhanãL, viii, 19. 

pachacha, pudendum mulieris. Git. pachí^ virgindade 
virgo ; pachibar^ honrar ; espachilar, desflorar. Mayo. 
Tsig. grego pakyáva, crer, confiar, tsig. rumeno patá^ 
crer, patáj, casamento ; tsig. bohem. patav^ crer, git. pan- 
chahavy pachahdar, crer. — Miklosich, Ahhandl., VIII, 33- 
34, attribue-lhe origem indiana: «Aind. vergl. fraiyayá, 
Glaube, Vertrauen. sindh. pati, avg pat, Ehre»; mas 
Ahhandl. vi, QÇtj dá aquellas formas tsiganas entre as de 
origem arménia: «arm. pativ^ Ebre; jyatvel, ehren». As 
fonnas arménias são aparentadas com as indianas citadas. 
Pott, II, 346-347. 

paivo, cigarro. Cig. pajo por plajo. Voc Git. placo, 
plajorró, tabaco ; pracos (Pott, i, 106), pracó (Mayo), pó. — 
Origem slava: mod. slov., serbo, búlgaro, etc, prah, pó. 
Pott, II, 361. Miklosich, Ahhandl., i, 32, viii, 51. 

parnau, parné, parne, parni, parneque, dinheiro. Cig. 
parnaUj, parné. Voc. Git. parné, prata, dinheiro. Tsig. 
grego pamój, branco; reflexos noutros dialectos tsiganos. 
— Origem indiana: sanskrito ^ã>/f/w^ palHdo, branco ania- 
rellado. Pott, ii, 359. Miklosich^ Ahhandl., viii, 31. 

piar, beber ; piela, bebedeira ; pielar-se, embriagar-se ; 
pio, s. vinho; adj. embriagado. Cp. 'òx^ot. pie, etc. p. 201, etc. 
Cig. pillar por piyar. Voc Git. piyar, beber; pile, pillí, 
adj. ébrio. Tsig. grego piava, beber; reflexos nos outros 
dialectos. — Origem indiana : sanskrito pi, pali pi (pihati, 
pivati), hindustan' plnã, beber, sindhi pianu. Pott, ii, 342. 
Miklosich, Ahhandl., viii, 44-45. Da mesma raiz pi vem o 
lat. hihere, d' onde port. beber. A íoroasi pielar, à^onàe, piela, 
é derivação tsigana : húngaro piyel. 

peltra, pildra, cama. Git. j^Utra, cama. Mayo. Borrow; 
o primeiro indica o termo expressamente como de germanía ; 
encontrámo-lo já noutras girias (vid. p. 106) ; ó possivel que 



160 



os ciganos o trouxessem para Portugal. Pott, ii, 371, men- 
ciona-o. 

pirar-se, pôr-se na pireza, pôr-se no piro, fugir. Cig. 
pirar. Voc. Git. pirar, pirelar, andar. Tsig. grego pirava, 
ir, tsig. ruraen. pher, ir; etc. — Origem indiana: hindus- 
tani: phirnã, ir, viajar; phiranu, girar. Pott, ii, 382. 
Ascoli, Zig,, 33. Miklosich, Ahhandl,, viii, 40-41. 

plaustra, capa, capote. Cig. plasta, plata. Git. plasta, 
plastami, plata, capa corta, talma. Tsig. inglez plásta, 
plochta; tsig. aliem, hlasda, tsig. polaco piasèos, etc. — 
Origem slava : antigo sloveno plaMth, polaco 'phaszczy, etc. 
Pott, II, 368. Miklosich, Ahhandl., viii, 46. 

pocachim, clavina, trabuco. Cig. puca, pusca. Voc. Git. 
pusJca, pruská, pruskatiHé, pistola, cachorillo. Mayo. Tsig. 
grego puski; tsig. mm. púska; etc. — Origem slava: serbo 
puska, que a seu turno provém do alie mão Biíchse, ant. 
alto aliem, huhsã, puhsã. Pott, IT, 365. Miklosich, Ahhandl., 
vm, 51-52. 

punida, palha. E por certo um alargamento do cig. pu. 
Voc. Git. pus, paja, a que se liga pusanó, cortigo (= cig. 
puso^onj. Tsig. grego pus, bus, Stroh; etc. — Origem in- 
diana : sanskrito busa, busa, palha ; pali bhusa, hindustani 
bhusl. Pott, II, 388. Miklosich, Abhandl., vm, 43. 

raso, padre. Não é inteiramente certo se a palavra se 
liga realmente ao tsigano (vid. argot rase, p. 102). Cp. 
cig. eragar. Git. arajay, erajay. Mayo. Borrow. Tsig. 
grego ra^áy, sacerdote christão, mestre-escola, tsig. ru- 
meno rasáy ; tsig. hung., bohem., aliem, e russo rasay ; 
tsig. escand. raso, etc. A forma do calão ligar- se-hia as- 
sim a formas mais distantes geographicamente que as do 
gitano, caso que todavia não é único. — O termo tsigano é 
de origem indiana duvidosa: cp. sanskrito rsi, pali isi. 
Pott, II, 278-279. Miklosich, Abhandl, vm, 54. 

ratanhi, retanhi, chave falsa, gazua. Git. rotuhi, boca, 
abertura, agujero. Mayo. Tsig. grego rutuni, nariz. Gr. 
mod. pouGoúvi, gr. ant. cwGwv, nariz. Miklosich, iii, 43. 
Pott, II, 281. 



161 



rupim, rico. Encontra-se também no argot (vid. p. 102). 
Tsig. grego rup, prata; tsig. rum. rap, rupunó, adj. de 
prata; tsig. bohem. rup, ruplno, adj.; tsig. aliem, rupp, 
prata, Thaler. Falta no cigano e no gitano de mim conhe- 
cidos. — Origem indiana: sanskrito rupa, forma; rupin, 
que tem uma forma, bello; rupya, adj. que tem uma for- 
ma, B. oiro ou prata amoedada, rupia ; pali rupa, hindus- 
tani rupã. Pott, ii, 274-275. Miklosich, Ahhandl., viii, 58. 

rustír, comer. Argot roustir (pag. 102). Será connexo 
com as formas tsig. rum. riLSj ser mau; tsig. hung. 7'usel, 
encolerisar-se, riãt'i, encolerisado ; tsig. bohem. ru^av ; 
ruWas, elle fez-se mau; tsig. escand. roUo, colérico? — 
Origem indiana: sanskrito rus, ruUa. Pott, ii, 279. Miklo- 
sich, Abhandl.j viii, 58. 

sarda, faca; sardinha, punhal, faca. Cp. glt. serdahí, e 
vid. p. 94. 

tasca, taberna. Furb. tasca (vid. p. 104). Talvez por 
intermédio dos ciganos : git. tasca, tasquera, taberna. Mayo. 

telo, jumento (Albergaria-a- Velha). Cig. guer. Voe. Git. 
gel, grei, asno, burro. Mayo. guel, ass. BORROW. Tsig. 
grego kher, kfer, ftr, burro; tsig. asiático kar. — Origem 
eranica: kurdo ker. Miklosich, Ahhandl., vii, 237. Sobre 
a troca de k e t, vid. Ascoli, Zig., index, p. 169. Miklo- 
sich, Ahhandl., IX, 186. 189. 

tronga, prostituta. Git. tronga, barragana, manceba. 
Mayo. A origem do termo é-me desconhecida, mas é pos- 
sível que viesse pelos ciganos. 



Como se vê da lista anterior alguns dos termos notados 
do calão parecem provir, não directamente de formas ciga- 
nas ou gitanas, mas de formas tsiganas extrapeninsulares ; 
o que pode ser devido a transmissão por tsiganos de outros 
paises, que teem cruzado ou até se teem estabelecido em 
o nosso. 

Alguns dos termos dados aqui como de origem tsigana 
foram já considerados como derivados de outras fontes; 



162 



assim banza foi considerado como de origem africana, com- 
quaiito não se provasse essa etymologia. 

Schwob e Guyesse apresentam a conjectura de que a 
inversão phonetica na germanía (a que se deve juntar a 
observada no calão) seja devida a influencia gitana. Como 
vimos (p. 58), encontra-se na índia esse processo; mas 
como elle é muito frequente no hispanhol e no português, 
não precisamos para o explicar de recorrer á intervenção 
gitana ou cigana. 



III 

ESBOÇO HISTÓRICO E ETHNOGRAPHICO 

O Cancioneiro geral, colligido por Garcia de Resende, 
começou a imprimir-se em Almeirim em 1515 e acabou de 
o ser em Lisboa «Aos xxviij dias de setêbro da era de nosso 
senhor Jesu Cristo de mil e quynhentos e xvi annos». 

Uma das peças mais curiosas d'esse famoso livro é a 
longa serie de apodos dirigidos ao próprio coUector, a pro- 
pósito da sua proverbial rotundidade, por AíFonso Valente, 
peça que se encontra a p. 641 e segs. do tomo iii da edição 
de Stuttgart, e a folhas 224 e segs. da primeira edição. 
O humor cómico de Valente parece inexgotavel : os termos 
de comparação que lhe surgem no espirito lembram a ma- 
neira de Rabelais. 

Entre outras coisas bastante difficeis de entender, lê-se 
na composição mencionada: 



Pareçeys hum pouco o frato, 
preguador da vyda eterna, 
Grega bêbada, de parto, 
antre cubas em tauerna. 



Assim se acha exactamente, e com a mesma pontuação, 
na edição de Stuttgart, o que prova que o sábio editor 



164 



Kausler não comprehendeu, pelo menos, os dois primeiros 
d'aquelles versos. Pelo systema das estroplies da sátira de 
Valente, o primeiro verso deve rimar com o terceiro; cor- 
rige-se pois: 

Pereceis uni pouco o farto 
pregador da vida eterna, 

O que é perfeitamente intelligivel. Valente compara Garcia 
de Resende a um d'esses fartos e rotundos ecclesiasticos, 
que pregam aos outros que cuidem das suas almas para 
evitar as penas eternas e ganhar a gloria, emquanto elles 
não se descuidam do corpo. 

Resta saber o que é aquella «grega bêbada de parto, 
antre cubas em tauerna» ; aqui não ha, ao que parece, in- 
correcção de texto ; de outro lado não é possivel admittir 
que Valente empregasse ao acaso a palavra grega^ visto 
que elle se mostra forte nos recursos da lingua, bom co- 
nhecedor dos termos apropriados. 

Diversas noticias mostram-nos que os tsiganos e em espe- 
cial os gitanos e ciganos, isto é, os tsiganos de Hispanha 
e Portugal, foram considerados originários da Grécia. E 
por essa razão que elles são chamados gregos nas Consti- 
tuições da Catalunha *. Gil Vicente, na sua interessante 
Farça das Ciganas «representada ao muyto alto e poderoso 
Rey D. João, o terceiro deste nome, em a sua cidade 
d'Evora era do Redemptor 1521», a qual os meus leitores 
encontrarão mais abaixo transcripta por completo, poe na 
boca de uma das personagens as palavras : 

Mantenga senhuraz y rozaz y ricaz. 
De Grécia sumuz hidalgaz por Diuz. 
Nuestra ventura que fue cuntra nuz. 
Por tierraz estraííaz nuz tiene[n] perdidas. 



* Jaubert de Passa, Essai Jiiaiorique sur les Gitanos in Nouvel- 
les Annáles des Voyages, t. xxxiii (Paris. 1827), p. 337. 



165 



Os tsiganos em geral diziam-se vindos do Egypto o d'ahi 
os nomes de gitano *, que têem na Hispanha, de Gipsies, 
que lhes dão os inglezes, de FúípTOi (AtyÚTTTtot), usado pelos 
gregos modernos, conjunctamente com T^íyyccvci; mas é 
possível que alguns bandos se dissessem de origem grega. 
Num livro muito curioso do século xvi, espécie de pequena 
encyclopedia ou cartilha, como as que alguns dos eruditos 
mais distinctos de então não desdenhavam de escrever (lem- 
bremo-nos da Cartilha do nosso João de Barros), intitulado 
El Estudioso Cortesano de Lorencio Palmireno^, encon- 
tra-se a seguinte passagem, em que se vê que havia fun- 
damento para chamar gregos aos ciganos: 

«Que son Gitanos ? Responde : Esta ruyn gête, ano 1517, 
començo en Aleraana, adonde les llaman Tártaros, o Gen- 
tiles : en Itália Cianos. Fingem que salieron de Egypto 
menor, y que tienen su perigrinacion por penitecia : y para 
prouar esto muestrã cartas dei rey de Polónia. Pêro mien- 
ten, porque su vida no es de penitencia, sino de perros y 
ladrones. Vn hombre docto, ano 1540, co muitos halagos 
recabo dellos, mostrassen la carta dei rey, y vio con ella 
ser ya acabado el tiempo de su penitencia. Hablo con elles 
en lengua de Egypto, dezian, que como auia mucho tiempo 
que eran salidos de alia, no lo entendian. Habloles en 
Griego vulgar, como hablan hoy en la Morea y Arcipelago, 
vnos entendian, otros no: ansi, que pues todos no entien- 
den, senales, que la lengua que traen es fingida, y de la- 



1 Em hispanhol empregou- se giiano no sentido geral de egypcio, 
como, p. ex., na seguinte passagem do nosso Francisco Manuel de 
Mello: 

Que cerastes aleue, ó aspid Gitano, 
Desde mi halago, ameneçó a tu vida? 

Ohras métricas, tomo ii, p. 143 (Leon de Francia, 16t>5). 

2 A Bibliotheca Nacional de Lisboa tem um exemplar da edição 
feita En Alcalá de Henares, en casa de Juan Ihiguez de Lequerica. 
Ano 1587. Não é a primeira, que é uma raridade bibliographica. 



166 



drones para encobrir sus hurtos, como la girigonça de los 
ciegos*». 

Palmireno foi um respeitável e eruditíssimo humanista, 
professor de grego na Universidade de Saragossa, e as suas 
palavras merecem todo o credito. Suppoz-se com razão que 
o hombre docto de que falia fosse elle próprio. 

Significará, pois, a palavra grega dos versos de Valente 
o mesmo que cigana? 

Sabendo que os tsiganos teem fama de se darem á em- 
briaguez não restará muita duvida de que essa interpre- 
tação seja exacta^. 

aL'argent, diz, entre outros, Francisque Michel, sert 
aux Bohémiens à satisfaire leur goúi prononcé pour Tivro- 
gnerie : hommes, femmes, enfants, s'y livrent publiquement 
en toute occasion ; ils en trouvent les moyens dans le gain 
qu'ils font à tondre les mulets, etc. 3» 

Uma quadra hispanhola diz: 

Un gitano se murió 
Y dejó en el testamento 
Que le enterrasen en vina 
Para chupar los sarmientos^. 



1 El estudioso cortesano, foi. 35-36. No século xvir, Miguel Leitão 
d'Andrada escrevia a respeito dos ciganos: '< sendo Gregos que se 
vieram fugindo dos Turcos se fazem jEJgipcios ou Gitanos.» Vid. o 
trecho inteiro d'esse auctor no fim dos Documentos do presente es- 
tudo. Segundo uma communicação particular de M. Paul Bataillard, 
a mesma denominação de gregos, dada aos tsiganos, encontra-se em 
documentos hoUandezes. 

2 Esta interpretação da passagem de Aífonso Valente foi publi- 
cada por mim no jornal A Borboleta (Braga, typographia Lusitana) 
de 1877. Num artigo Origem dos ciganos, publicado in Positivismo, i, 
(Porto, 1879) 269-278, foi repetida est-a minha interpretação sem 
indicação de fonte. Aproveito a occasião para dizer que o auctor 
d'esse artigo nada dá de novo para a questão dos tsiganos, excepto 
a invenção absurda de que elles descendem dos Hyksos. 

3 Le pays Basque, cap. vii, p. 139. 

^ Apud Colocci, Gli Zingari, p. 232. Vid. todavia o que se diz 
mais abaixo com referencia aos ciganos de Portugal. 



167 



Se a minha conjectura é exacta, temos na passagem de 
Affonso Valente o mais antigo testemunho português, de 
mim conhecido, acerca dos ciganos. A esse segue-se o de 
Gil Vicente na farça alludida, que é o primeiro monumento 
da litteratura propriamente dita em que figuram tsiganos. 
Cerca de um século havia de passar até apparecer a Jita- 
nilla de Cervantes (1612), que é geralmente conhecido, com 
esquecimento do nosso escriptor, como o primeiro que fez 
emprego artístico de typos d'esse povo errante *. 

A Farça dos ciganos é um documento precioso, traçado 
com evidente fidelidade, abstraindo da invenção cómica que 
introduz aqui e alli no quadro alguns desenvolvimentos. 

Entram quatro ciganas, Martina, Cassandra, Lucrécia, 
Giralda, que manifestam logo o caracter importunamente 
pedinchão das mulheres e creanças da sua raça. Faliam 
um hispanhol modificado na pronuncia. 

Mart. Mantenga, fidalguz senurez hermuzuz. 
Ca8. Dadnuz limuzna pur la amur de Diuz; 

Christianuz sumuz, veiz aqui la cruz. 
Luc. La Virgen Maria uz haga dichuzuz, 

Dadnuz limuzna, senuruz pudruzuz, 

Tantico de pan, haré la mezura. 
Mart. O preeiuza rozica-, seuura, 

El cielo vuz cumpla luz descuz vuestruz. 
Cas. Dadme una camiza, azucal colado, 

Nieve de eira, firmai preciuzo. 
Luc. Dadme una saya, senur graciuzo, 

Lirio de Grécia, mi cielo estrellado '. 
GiR. Senura, senura, dadme un tocado, 

Antucha dei cielo, sin cera y pavilo. 

O ruza nacida en ribera dei Nilo, 

La Virgen te traya buen sino j buen hado. 



* A Itália oíferece já no século xvi uma comedia, La cingana, 
de Gigio Arthemio Giancarli Rhodigino.Vid. Ascoli, Zigeunerisches^ 
pag. 122. 

2 Na ed. de Hamburgo: rozua; na ed. de 1586 rozica. 

3 Mi cielo estrellado é um cumprimento á pessoa a quem se dirige 
a cigana e nâo um apposto de Grécia, como já se quiz ver. 



108 

Preparam-se para dizer a buena dicha: 

Luc. Andad acá, hermanaz, y vamuz 

A estas senuraz de gran hermuzura ; 
Diremuz el siuo, la buena ventura, 
Daran sus mercedes para que comamuz. 

Cas. Llamemuz á Cláudio antes que nuz vamuz, 
Carmelio, Auricio y haremuz fiesta, 
Como hecimuz ayer por la siesta : 
Vé á llamarluz y nuz esperamuz. 

Vêem os quatro ciganos, Liberto, Cláudio, Carmelio, Au- 
ricio e tractam de fazer trocas de cavalgaduras, querendo 
receber, alem de animaes, algum dinheiro. 

Claud. Cual de vuz otroz, seuurez, 
Trocará un rocin mio, 
Rocin que hubo de un judio, 
Ahora en páscoa de florez? 

Y tengo dos especialez 
Caballoz, buenoz que talez. 

AuR. Senurez, yo trocaré un potro 

Que tengo, por cualquier otro, 

Si mi volveiz mil realez. 
Car. Que dos burricos compre, 

Moriscoz prietos garri doz ; 

Ya loz hubiera vendidoz, 

Mas antes loz trocaré. 
Cla. o senurez caballeroz, 

Mi rocin tuerto os alabo, 

Porque es calzado nel rabo, 

Zambro de los piez trazeroz ; 

Tiene el pecho muy hidalgo, 

Y cocea ai cabalgar. 
AuR. Senurez, quereiz trocar 

Mi burra vieja á un galgo? 

As ciganas cantam e dançam. 

Mar. No nuz curemuz desaz faranduraz. 
Cla. Puez que quereiz, Martina, que hagamoz ? 
Mar. Cantemos la fiesta antez que noz vamoz 
A buscar luz sinuz á estas senuraz. 



169 



Cantiga 

«'Eu la cosina estaba el asno 

" Bailando, 

(<Y dijéronme, don asno, 

"Que voz traen casamiento 

"Y os daban en axuar 

«Una manta y un paramiento, 

«Hilando.» 

Cantando e bailando ao som desta cantiga vâo ás damas 
e pedem de novo esmola. 

Mart. Mantenga senuraz y rozas y ricaz. 

De Grécia sumuz hidalgaz por Diuz ^ 

Nuestra ventura que fue cuntra nuz, 

Por tierraz estranaz nuz tiene[n] perdidaz. 

Dadnuz esmula, esmeraldaz polidaz, 

Que Diuz vuz defienda dei amur de engano, 

Que muztra una mueztra y vende otro pano, 

Y pone en peligro laz almaz y vidaz. 

Propõem-se a ensinar feitiços : 

Luc. Senuraz, quereiz aprender á hechizo, 
Que sepais hacer para muchaz cosaz ? 

GiH. Ezcuchad aquello, senuraz hermuzaz, 
Por la vida mia qu'ez vuestro servizo. 

Luc. Si vuz, ruza mia, holgades con izo, 
Hechizos sabreiz para que sepaiz 
Los pensamientoz de cuantoz miraiz, 
Que dicen, que encubren, para vueztro avizo. 

Mart. Otro hechizo, que pozaiz mudar 

La voluntad de hombre cualquiera, 
Por firme que este con fé verdadera, 

Y vuz lo mudeiz á vuestro mandar. 
GiR. Otro hechizo os puedo yo dar 

Con que pudaiz, senuraz, saber 

Cual es el marido que habeiz de tener 

Y el dia y la hora que habeiz de cazar. 



i Na ed. de Hamburgo Duz; na ed. de 1856 Dmz, como noutros 
logares. 



170 



Dizem a buena dicha ás damas : 

Cas. Mustra la mano, senura. 
Non hayas ningun receio. 
Bendígate Diuz dei cielo, 
Tu tienez buena ventura, 
Muy buena ventura tienez, 
Muchuz bienez, muchuz bienez, 
Un hombre te quiere mueho. 
Otroz te hablan de amurez ; 
Tu, senura, no te curez 
De dar á muchuz escuto. 

Mar. Dadnuz algo, preciuza, 

Cas. Dadnuz algo, preciuza. 
Puez que te digo tu sino, 
Alguna poquita cuza. 

Luc. Muztra la mano, ruciua, 
Lirio de hermozura, 
Dirte he la buena ventura. 
Mustra ca, senura mia, 
Ora mustra acina aciíla. 
Qué mano, qué sino, que flurez ! 
Qué dama, que ruza, que perla ! 
Por mi vida que por veria 
Olvide loz miz amurez, 
Yeamuz que dice el sino, 
El recado que te vino 
No lo creas, alma mia, 
Que otra mas alegria 
Te viene ya per camino. 
Durmiendo tu, fresca ruza, 
Te viene el bien por la mar. 
Luego tienez el mirar 
De doncella muy dichuza. 

GiR. Diuz te guarde hermozura 
Mustra la mano seiíura ; 
Porné ciento contra treinta 
Que de los piez á la cinta 
Tienez la buena ventura. 
Tu haz de ser despozada 
En Alcazar de Zal : 
Con hombre bien principal 
Te vernás bien empleada. 



171 



Mar. 



Dame acá, dulce serena, 
Esa mano cristalina. 
Buena dicha, perla fina, 
Tienez la ventura buena ; 
Tu has de ser alcaideza 
Cierto tiernpo en Montemor; 
Tu marido y tu amor 
Será bien celoza pieza. 
Cas. Nueva ruza, nueva estrella, 
O brancaz manoz de Izeu, 
Tu cazarás em Viseu 

Y ternáz liornoz de tella. 
AUi haz de edificar 

Un muy rico palomar, 

Y doz parez de molinoz, 
Porque todoz loz caminoz 
A la puente van á dar. 

Luc. Diuz te guarde linda flor, 
Bendito sea el seiíor 
Que tal hermosura cria. 
Mueztra la mano, alma mia, 
Por vida dei servidor. 
Fiosanda cazaraz 
Aqueste ano que vem 
En Santiago de Cacem 
Mucho rica, muclio bem, 
Buena ventura hallaráz, 
Buena dicha, buena estrena, 
Buena suerte, mucho buena, 
Muchas carretas, seilura, 

Y mucha buena ventura, 
Placiendo á la Madalena 
Que guarde tu hermozura. 

GiR. Muestra la mano, mi vida, 

Aguela en tierraz desiertaz ; 
Dos personaz traez muertaz, 
Porque erez desgradecida. 
Tu casarás en Alvito. 
Seíiura, marido rico, 
Muchuz hijos, muchos bienez, 
Mucho luenga vida tienez, 
Buen sino, bueno, bendito. 

Mar. Mis ojos d'azor mudado, 



172 

Muestrame la mano, hermana : 
O mi senura SanfAnna, 
Qué sino, qué suerte, qué hado I 
Qué ventura tan dichuza ! 
Tu, senura graciuza, 
Teruáz tierras y ganadoz, 
Cuatro hijos mucho honrados, 
Mucho oro y mucha coza. 
Cas. o mi ave fénix linda, 
Mi sibila, mi senura, 
Dame acá la mano ahura. 
Hermozura de Esmerinda 
Tu tienez muchos cuidados, 

Y algunos desviados 

De tu provecho, alma mia. 

Tienez alta fantasia, 

E los mundos son mundados. 

Un travesero que tienez, 
De dentro dei hallaráz 
Un espejo en que veraz 
Muy claroz todoz tuz bienez. 
Luc. Dad acá, garza real, 
Gridonia natural, 
Diré la buena ventura. 
Viva tu gran hermozura. 
Que esta mano ez divinal 

Unaz personaz te ayudan 
A una coza que quierez ; 
Estas son dambas mugerez 

Y otraz dos te desayudan. 
Date un poquito á vagar, 
Que aun está por comenzar 
Lo bueno de tu ventura : 
Confia en tu hermuzura 
Que ella te ha de descanzar. 

GriR. Dad acá, Mayo florido, 
Eza mano, Melibeai. 
Por bien, senura, te sea 



* Na ed. de Hamburgo : Eza mano melihea, como se melibea fosse 
um adjectivo; é evidente que Melibea é um nome próprio, empre- 
gado aqui como epitheto, e reminiscência da Tragicomedia de Calisto 
y Meliboea ou Celestina. 



173 

Buen marido, bueii marido. 
Na Laadera cazaráz, 
Nunca te arrepentiráz, 

Y iraz morar á Pombal, 

Y dentro on tu naranjal. 
Un gran tesoro hallaráz. 

El que ha de ser tu marido 
Anda ahora trasquilado. 
Mucho honrado, mucho honrado, 
En muy buen sino nacido. 
Naciste en bucna ventura. 
Mar. Huerta de la hermozura, 
Cirne de la mar salada, 
Diuz te tenga bien guardada 

Y muy segura. 

. Cas. Senuraz, con beuedicion 

Oz quedad, puez no dais nada. 
Luc. No vi gente tan honrada 
Dar tan poço galardon. 

Tornárão-se a ordenar em sua dança, e com ella se forão*. 

Nas peças de Gil Vicente faliam castelhano personagens 
muito diversas ; todavia aqui não pode deixar de admittir- 
se que essa lingua, com as suas deformações em verdade 
não generalisadas, é uma particularidade interessante do 
quadro. Os ciganos teriam vindo de Hispanha em tempos 
recentes ; lá ainda não tinham aprendido a pronunciar bem a 
lingua do país e não teriam chegado a fallar a portuguesa. 



1 A Bibliotheca Nacional de Lisboa não tem a primeira edição 
das obras de Gil Vicente, a qual num exemplar da Bibliotheca 
de Goettingen serviu de base íl edição de Hamburgo, de que por 
isso me servi, confrontando -a com a segunda edição (Lisboa, 1586). 
A orthographia em extremo caprichosa d'esta e o não poder deter- 
minar até que ponto essa orthographia reproduz a da primeira edição, 
levou-me a reproduzir com pequenas modificações a lição de Ham- 
burgo. E muito pouco provável que Gil Vicente tentasse represen- 
tar fielmente a pronuncia cigana. Na edição de 1586 o s hispa- 
nhol, não final de syllaba, acha-se representado muitas vezes por 
c (e, ^) ou ç. 



174 



De facto as noticias históricas até hoje conhecidas estão 
de accordo com esta interpretação. 

Um dos melhores conhecedores da litteratura relativa 
aos tsiganos, Paul Bataillard, citou um documento que se 
julga ser o mais antigo com respeito aos tsiganos na His- 
panha, e no qual se refere a chegada a Barcelona, a 11 
de junho de 1847, de uma «multitud de Egypcios», que 
d'alli se espalharam, segundo a mesma fonte, pelo reino 
vizinho *. 

Foi muito provavelmente no Alemtejo que Gil Vicente 
estudou os ciganos ; a farça transcripta foi representada 
em Évora, como vimos. Tendo penetrado em Portugal, sem 
duvida, pela fronteira da Extremadura hispanhola, os ci- 
ganos achavam a província do Alemtejo excellentemente 
adaptada ao seu modo de vida, para centro de irradiação 
de suas excursões. Os grandes espaços despovoados d'essa 
provincia, os seus matagaes, protegiam-nos contra as per- 
seguições de que em breve se tornaram objecto. 

Nas cortes de 1525 ou 1535 ou nas duas (os documentos 
não nos permittem resolver ao certo este ponto) pediram- 
se ao rei providencias contra os ciganos, o que motivou a 
lei de 1538, precedida do alvará de 1526 2. Por essas dis- 
posições legislativas vemos feita distincção entre ciganos 
e pessoas que viviam á maneira dos ciganos, algumas 
das quaes eram naturaes do reino; por certo vagabundos 
estranhos áquella raça e não representantes de uma velha 
camada tsigana do nosso país, porque não ha nenhum dado 
histórico ou supposição bem fundada que nos auctorise 



1 P. Bataillard, De Vapparition et de la dispersion dts BoMmiens en 
Europe in Bihliotheque de VÉcole des Charles, 1844, p. 529. Idem, 
Les Gitanos d^Espagne et les Ciganos de Portugal in Compte-rendu 
de la 9^ Session da Congres iniernational d^anthropologie et d^archéo- 
logie préhistoriqucs en 1880. (Lisbonne, 1884), p. 501. Já anterior- 
mente Henry se servira d' esse documento in Mém. de la Soe. des an- 
tiquaires de France t. x (1834), apud G. Lagneau, num artigo abaixo 
citado (p. 184, nota 1). 

2Vid. Documentos n.*»* 1 e 2. 



175 



a pensar que a primeira vinda de ciganos para Portugal 
fosse anterior de muitos annos ao fim do século xv. 

Em Gil Vicente e nos mais antigos documentos legisla- 
tivos por mim reunidos em appendix a esta parte, acha-se 
fixado o nome de ciganos, facto curioso, pois em Hispanha 
gítanos é o nome preferido. Nem um nem outro ó nome 
nacional dos ciganos, que entre nós se chamam cales (sing. 
calój fem. callí ,' vid. Voc), talvez rons ou roíies (vid. ron 
Voe, e romi). 

A forma portuguesa cigano correspondem as seguintes 
estranjeiras : i-umeno cigan; bohemio (tcheque) cigán, cin- 
gán, cikán; magyar cigany, búlgaro acigannh, aciganim, 
ciganhf grego médio àTGiyy.oívoç, T^íyyavoç; em documentos 
latinos da Grécia acíngayms ; italiano zingano, zíngaro, 
allemão zigeuner. No hispanhol occorrem raramente as 
formas cíngalo, zíngaro, por imitação directa do italiano. 

Como a forma portuguesa se approxima particularmente 
das formas da Europa oriental e central, é um problema 
por que caminho ella cá chegou. O mais natural era que 
imitássemos ou os hispanhoes ou os italianos. 

As denominações de gitano * e de egypcio ^ foram sempre 
entre nós puramente eruditas. 

Nenhum documento legislativo attribue aos ciganos de 
Portugal industrias de metaes, ou outra qualquer licita, 
excepto a de contratadores e tratadores de cavalgaduras. 
Se os bandos que se estabeleceram em o nosso país conhe- 
ciam a industria de caldeireiro, cedo a perderam. Miguel 
Leitão d'Andrada exprime a respeito d'elles o desejo: 
« que não fossem ferreiros, que só vsão a fim de fazer ga- 
zuas e instrumentos de roubar^». 



1 Empregada, por exemplo, no Doe. ii." 16. Outros traslados do 
mesmo doe. teem sempre ciganos. 

2 Usada por exemplo nas Constituições synodaes do Arcebispado 
de Braga de 1639, xlix, 1: «E declaramos que os que pedem aos 
Egypcios lhes digam sua boa, ou má fortuna, peccão gravemente». 

3 Vid. o extracto da Miscellanea d'e8se auctor no fim do Appendix I. 



17G 



Da organisação social dos ciganos nada nos dizem tam- 
bém esses documentos. A julgar por uma passagem de João 
de Barros, que todavia falia de modo muito geral, elles 
teriam condes *. 

Pouco nos dizem as disposições legislativas dos séculos 
XVI a xviil sobre a vida dos ciganos. 

Nas cortes de 1525 ou 1535 accusaram-nos de «muytos 
furtos que fazem e feytiçarias que fingem saberá». Do al- 
vará de 1579 se deprehende que elles procuravam viver 
juntos em certos bairros e tinham vestuário particular, a que 
se allude também noutros documentos posteriores^. A lei 
de 1592 prohibe-os de andaram vagabundos e de viverem 
em ranchos ou quadrilhas *. A provisão de 1573 mencionava 
como crimes dos ciganos «muitos furtos e outros insultos 
e delitos, de que o povo recebe grande oppressão, perda 
e trabalho^». No alvará de 1606 esses crimes são «roubos 
e damnos que fazem aos vassalos com geral escândalo^». 



1 A propósito dos costumes dos calandares da índia, diz o nosso 
historiador: «como homes santos nâo sâo buscados, ne os tocão. Nos 
tepos das guerras elles são os que de Reino à Reino levão todas as 
cartas, e avisos, e os que passao pedraria furtada aos direitos dos 
portos. E posto que estas cousas, e outras peores se saibão delles, 
tem para si, que lhes fizer mal, que fica escomugado, e perdido do 
corpo, e da alma. A parte onde se acha mais numero destes he no 
Reino de Delij, porque he como hum centro daquellas Províncias 
de Ásia, aonde concorre de todas as nações, e muitas vezes andão 
em hua copanhia mais de dous mil, os quaes posto que sejão de 
differentes linguas, c5 a conversação que hus c5 outros tem nestas 
suas peregrinações, que he hum dos votos de sua regra, todos se 
entêdem. Não entrao nas cidades, mas ao modo dos Cyganos que 
andão nesta parte de Europa, pousa fora do povoado, e alli lhe traz 
a gente do povo sua esmola. E quando assi anda grande numero 
delles elegem hum à que obedecem à maneira que os Cyganos fazem 
à seu Conde.» Década iv, 5, 5, ed. Lavanha, 1615. 

2 Doe. n.« 2. 

3 Doe. n.« 6. 

4 Doe. n.» 7. 
ã Doe. n.° 6. 
6 Doe. n." 12. 



177 



O alvará de 24 de outubro de 1647 ó o documento le- 
gislativo que contém mais particularidades que nos inte- 
ressam*. Nelle se faz referencia ao vestuário, aos hábi- 
tos de mendicidade, á lingua (geregonça), á buena dicha, 
ás trocas de cavalgaduras, e aos jogos de corriola. Segundo 
Moraes e Silva, o jogo de corriola faz-se enrolando uma 
fita larga dobrada e mettendo nas suas voltas um ponteiro, 
que, para se ganhar, deve ficar preso ao desenvolver a fita. 
Este jogo permittia fraudes e deu logar por isso á phrase 
cair na corriola^ que significa «cair num logro, deixar-se 
enganar» . 

As penas comminadas aos ciganos vão num crescendo 
desde o primeiro documento legislativo conhecido até 1592. 
O alvará de 1526 ordena simplesmente que saiam do reino ; 
a lei de 1538 ordena a expulsão, depois de terem sido 
açoutados, com baraço e pregão; as leis de 1557 e 1573 
accrescentam as penas com galés; enifim a lei de 1592 
mandou applicar a pena capital aos que não saíssem do 
reino dentro de quatro meses, ou não se avizinhassem nos 
logares. Nas leis posteriores desapparece, porém, a pena 
de morte, até 1694, para desapparecer de novo. 

As feitiçarias, a buena dicha, a cartomancia, a irreli- 
giosidade dos ciganos, deveriam apparentemente ser mo- 
tivos para que a Inquisição não lhes poupasse perseguições. 
Nas minhas investigações não consegui todavia encontrar 
mais que um processo inquisitorial em que seja ré uma 
mulher d'essa raça e nenhum em que seja reu um calo. 
Esse processo^ não tem outro interesse alem do que resulta 
de nos mostrar em acção a pequena feitiçaria das ciganas 
para burlar um pobre homem, que, receoso, a vae denun- 
ciar. Garcia de Mira, a cigana processada pela Inquisição 
em 1582, fez entre outras coisas, apparecer a figura de 
um defunto num papel posto em agua. Segundo a sua 



1 Doe. n." 16. 

2 Doe. n.» 21. 



12 



178 



confissão servira-se para isso de pedra liuiue; com que 
brunira o papel. Os inquisidores, não achando no caso a 
unha de Satanaz e interessando-os pouco os segredos da 
chimica cigana, contentaram-se com reprehender a mulher, 
fazer-lhe restituir o dinheiro que recebera e pagar as 
custas do processo. A cigana todavia burlou sem duvida 
o santo tribunal; se de facto as testemunhas viram o que 
disseram, Garcia de Mira serviu-se de algum^ tinta sym- 
pathica, cujo segredo não quiz revelar. 

Esse processo é por ventura o primeiro no género que 
se faz conhecer das Inquisições de Portugal e Hispanha. 
Borrow diz não ter encontrado nenhum exemplo de inter- 
ferência da Inquisição de Hispanha com os gitanos e busca 
explicar esse facto, á primeira vista singular, com uma 
gente, cujos costumes causavam por certo horror aos bons 
cathoHcos peninsulares, que não podiam ver nelles se não 
atheus, vivendo em peccaminosa concubinagem, encanta- 
dores e adivinhos*. O auctor inglez communica uma con- 
versação com um velho ecclesiastico, que fora inquisidor, 
personagem talvez de invenção do auctor, que lhe dá as se- 
guintes razões da tolerância inquisitória! para com os gita- 
nos, que, saidas ou não da boca de um verdadeiro ex-quisi- 
dor, me parecem corresponderá realidade dos factos: «A In- 
quisição olhou sempre para elles com muito desprezo para 
que se desse ao mais leve trabalho por sua causa; porque 
como nenhum perigo podia derivar dos gitanos, quer para 
o estado, quer para a igreja romana, era matéria de per- 
feita indifferença para o santo officio, se elles viviam sem 
religião ou não. O santo officio i-eservou sempre a sua có- 
lera para gente muito diíFerente : os Gitanos foram sem- 
pre gente haráta y desjpreciahley>'^. Borrow accrescenta por 



1 Vid. p. ex. Discurso dei Dr. Sancho de Moncada, cit. a p. 92, 
Quiiiones, Discurso contra los gitavos (Madrid, 1631), apud Bor- 
row, I, 158-160 e o extracto da Miscdlanea de M. Leitão d'Andrada, 
no fim do Appendix I. 

2 Borrow, i, 163-164, 



179 



sua própria conta que a religião foi apenas mascara com 
que SC cobriam os verdadeiros motivos das perseguições 
religiosas, motivos que eram a cubica e a avareza. Não 
irei tão longe ; sem negar esses motivos, não posso todavia 
deixar de reconhecer que outros existiam muitas vezes. O 
caracter accommodativo dos ciganos, que, em caso de ne- 
cessidade, se casariam catholicamente, baptisariam os filhos, 
iriam á missa e á confissão, e confessariam, como Garcia 
de Mira, que as suas feitiçarias eram apenas embustes, em 
que o príncipe das trevas não tinha a min ima intervenção, 
contril^iiam, com a miséria d'essa gente, para que o famoso 
tribunal ecclesiastico não cuidasse d'elles. Os atheus, os 
sectários professos, os feiticeiros e feiticeiras que confes- 
savam ter feito pacto com o diabo eram muito mais inte- 
ressantes para os inquisidores. 

O documento mais a^itigo conhecido em que figura um 
cigano com nome portuguez (João de Torres) é a provisão 
de D. Sebastião de 1574*. 

Já no século xvi alguns ciganos tinham passado ao que 
parece á vida sedentária; a lei de 1592 falla-nos de ciga- 
nos avizinhados"^. O alvará de 1606'prohibe que se lhes 
passem cartas de vizinhança, como faziam os corregedores 
de Lisboa^. Outros documentos mencionam provisões que 
eram dadas a alguns para andarem ou estarem nestes rei- 
nos, taes são a provisão de 1573^, e a carta de André de 
Albuquerque de 1655^. 

A julgar por esse ultimo documento, eram naquella epo- 
cha muito poucos os ciganos que havia no Alemtejo e esses 
não andavam em vida errante, em quadrilhas; mas é de 
crer que muitos escapassem ainda ás investigações poli- 
ciaes, graças ás condições particulares da província. Ou 



iDoc. n.° õ. 

2 Doe. n.<* 7. Vid. também os does. n.** 8 e 9. 

3Doc. n." 11. 

^Doc. n.« 6. 

» Doe. 11." 20. 



lòO 



esses ou novos bandos vindos de Hispanha davam depois 
logar á publicação de outras leis, que evidentemente não 
tiveram a efficacia que pretendiam, porque elles reappa- 
recem sempre de novo onde se julgava tê-los extinguido. 

Nem tudo nos documentos que reuni coUoca os ciganos 
a uma luz desfavorável. A carta do original e enérgico 
procurador da còrôa, no tempo de D. João IV, Thomé Pi- 
nheiro da Veiga, de 1646*, e o alvará d' esse rei de 1649^ 
revelam-nos um facto esquecido^ embora do maior interesse 
para a historia ^ caracteristica dos ciganos. 

Mais de 250 homens- d'essa raça se acharam alistados 
no exercito português, desde a restauração do reino, ser- 
vindo nas fronteiras «com zelo e valor com que já forão 
muitos apremeados». 

Thomé Pinheiro da Veiga, com a superioridade do seu 
espirito, livre de preoccupaçoes de raças, castas, classes 
e fidalguias de sangue, aproveita o caso daquelle pobre 
cigano que serviu a sua pátria adoptiva «três annos con- 
tinuos com suas arinas e cavallo á sua custa, sem soldo», 
combateu «valerosamente no campo, até deixar a vida», para 
o antepor ao d'aquelles, não poucos, que d'esse mesmo 
campo «infamemente fugiram, á vista dos que exforçada- 
mente morreram ou pelejaram» e ao dos que vão ás fron- 
teiras, como a Ormuz, Malaca e Sofala, a vencer soldos e 
riquezas, com muitas condições, pedindo soldos atrasados, 
devidos ou não devidos, sem servir á sua custa. 

Esse facto basta para resgatar a raça cigana do opprobio 
de mais de quatro séculos e para nos fazer pensar em 
chamar os seus actuaes descendentes, por uma politica mais 
racional e humana que a dos nossos antepassados, ao con- 
vivio da civilisação. Os tempos novos trouxeram uma grande 
tolerância sem duvida ; mas essa não basta. O cigano outlaw 
subsiste ainda ; subsiste ainda o seu modo de encarar o es- 



1 Doe. n.*» 15. 

2 Doe. n.« 18. 



181 



tranbo como uma presa. É preciso que elle vença o espaço 
que o separa da sua concepção primitiva das relações das 
gentes para desapparecer com a sua individualidade ethnica 
em o nosso meio. A boa politica não pode deixar existir, 
a titulo de curiosidade etimológica para o estudo dos es- 
pecialistas, um punhado de individuos que não se subor- 
dinam á organisação social do país em que vivem, obe- 
decendo a hábitos tradicionaes, mas que de nenhum modo 
são absolutamente refractários ao progresso e teem dotes 
naturaes que os podem tomar proveitosos. 



O estudo anthropologico e ethnographico dos ciganos 
offerece grandes difficuldades, em consequência do cara- 
cter desconfiado e supersticioso d'essa gente. Pires affir- 
ma-me que elles não se deixariam medir e foi por via 
indirecta que elle obteve um pouco de cabello de um. 
Todavia se eu pudesse viajar algum tempo no Alemtejo 
alguma coisa conseguiria, recorrendo ao auxilio de um 
d' esses proprietários a quem os ciganos são gratos pela 
protecção que d'elles recebem. Mas sem um subsidio do 
estado ser-me-ha impossivel proceder ás investigações que 
tenho em vista. Pelo momento tenho que me contentar no 
que respeita ao typo physico, com os dados obtidos pela 
simples vista, já por mim, já pelos meus collaboradores, 
e no que respeita aos caracteres psychicos e aos costumes 
principalmente com as observações que me ministraram. 

Typo physico. A estatura dos ciganos é varia, como 
tenho verificado nos exemplares que por acaso tenho en- 
contrado. L. de Vasconcellos acha-os muito altos, alguns 
até agigantados. Pires, que primeiro me indicara essa 
estatura como mais que regular, modificou a sua observa- 
ção numa feira de Villa Viçosa, onde viu gi-ande numero de 
ciganos, e classificou a maioria d'elles como de estatura 
regular. Mas o que entende elle por estatura regular? 



182 



A experiência tem-me mostrado que o que entre nós se 
chama' estatura regular se approxima ou coincide (sobre" 
tudo de cima para baixo) com o que os anthropologos 
admittem como a estatura media, e que vem a ser l'",6õ*. 



* Yid. P. Topinard, Éléments cVanfhropologie g^nérale (Paris, 
1885), p. 463. Como é que se estabelece o typo mental da estatura 
media ou estatura regular dos observadores á simples vista? Pa- 
rece que esse typo deve variar segundo os paises e depender da 
estatura mais frequente de cada povo. Qual é essa estatura no povo 
português? Faltam-nos dados de investigação para poder respon- 
der á essa interrogação. Segundo o art. 69.** de lei do recrutamento 
de 12 de setembro de 1887, são isentos do serviço militar «os que 
tiverem menos de 1"',Õ4 de altura para o exercito ou l^jõO para a 
armada» 5 mas trata-se aqui de um minimo, não de uma media. Pelos 
Mappas do serviço do recrutamento de 1888 e 1889, publicados no 
Appendice ao Diário do Governo, i890, n." 21 e 1891, n.° 10, vemos 
que foram inspeccionados no primeiro d'aquelles annos, no continente 
e ilhas, 63:G74 mancebos, dos quaes 1:436 tinham menos de l'",õO 
de altura, 2:902 de 1",50 a l^jõS e 59:336 l'",54 ou mais 5 no segundo 
d'aquelles annos foram inspeccionados 45:535, dos quaes 2:259 
tinham d,e altura menos de l'»,50, 2413 de 1"S50 a l'",53 e 41:867 
1"',54 ou mais. Estes dados são insufficientes para resolver a nossa 
questão. Bom fora que o serviço da inspecção organisasse tabeliãs 
contendo o numero dos inspeccionados repartidos pelas cifras de 
estatura, de centímetro em centímetro. 

Conclue-se, pois, facilmente a difficuldade de interpretar as noti- 
cias dos auctores, que, sem medições exactas, nos faliam de homens 
altos, de estatura media, etc. A. Hovelacque et Hervé, Precis d'an- 
thropologie (apud G. Cora in Das Ausland, 1890, nr. 31) consideram 
os tsiganos como pertencendo aos povos de estatura elevada, pois 
alguns attingem l'",74; outros observadores attribuem-lhes esta- 
tura media (Cora 1. c): de que provêem essas differenças de esti- 
mativa? Dos observados ou dos observadores? As condições de 
vida podem influir para a differenciação das estaturas. A miséria 
tem acção depressiva sobre a estatura. Uma mudança de regimen 
alimentar basta para produzir num curto espaço de tempo o abai- 
xamento do nivel da estatura geral de um grupo ethnico sujeito 
a essa mudança; vid. os exemplos notáveis dados por Kõstlin in 
Das Kônigreich Wurttemherg. Zweiter Band. I. Abtheil. Das Volk, 
p. .59-60. 



183 



Km geral o cigano não ó inferior a essa estatura e excede-a 
muitas vezes. E magro, comquanto de apparencia robusta, 
quando novo ; de movimentos fáceis, ágeis. Nas mulheres, 
mais baixas, a magreza é maior; a cintura delgada, os 
movimentos ainda mais ágeis que os dos homens. 

A cabeça é geralmente caracteristica nas principaes par- 
ticularidades. Cobre-a um cabello, na mocidade, farto, ne- 
gro como azeviche oii, se se prefere uma comparação já 
usada, como as pennas do corvo, caindo direito, isto c, 
não ondulado, perfeitamente semelhante ao dos canarins 
e que elle usa bastante comprido. A forma da cabeça não 
dá (a julgar por inspecções rápidas e pouco numerosas) a 
impressão da franca dolichocephalia, nem da franca bra- 
chycephalia, o que não destoa da observação dos anthropo- 
logos que põem o cranco tsigano nos limites da mesati- 
cephalia e da sub-dolichocephalia. Apesar do cabello, não 
se apresenta essa cabeça em geral como grande, antes 
produz a impressão contraria. 

O rosto é comprido, de maçãs geralmente um tanto salien- 
tes; enquadrado nos homens por uma barba cerrada ou 
em patilhas, negra como o cabello e as sobrancelhas, que 
são bem accentuadas ; o mento em geral arredondado, mas 
nalguns exemplares um tanto agudo. 

Os olhos são muito negros, muito vivos; nas ciganas 
justificam ás vezes o que se diz do tom mysterioso, alter- 
nativamente melancholico e alegre dos olhos das mulheres 
de outros ramos do povo tsigano. 

O nariz é aquilino ou recto, não muito saliente, de dorso 
ora agudo, ora um pouco achatado. 

A boca, pouco rasgada, deixa ver duas fileiras de den- 
tes bem conformados e dispostos, de grande brancura. 

A tez c trigueiro-pallida nuns, quasi negra noutros, já 
por ser a cor natural, já pelo eíFeito do ardor do sol. 
A pelle é áspera. Excepcionalmente apparecem ciganos 
mais claros. 

Os pés e as mãos são pequenos segundo alguns obser- 
vadores. Pires na resposta a esse i)onto do questionário 



184 



que lhe dirigi escreve — grandes, o que concorda em parte 
com as minhas observações pessoaes *. 

Segundo Pires, o typo dos gitanos é o mesmo dos ciga- 
nos. O typo de uns ciganos húngaros, caldeireiros, vistos 
pelo mesmo observador, em maio de 1883, perto de Borba, 
era mais fino que o dos ciganos e gitanos^. 

L. de Vasconcellos diz com referencia ás mulheres ci- 
ganas que viu no Cadaval em 1887.e ás que viu na feira 
de S. João em Évora em 1888 que são feissimas. As que 
eu tenho visto eram feias, mas a immundicie e os farrapos 
que as cobriam contribuíam sem duvida para augmentar 
essa impressão. Mas outros observadores, entre os quaes 
algumas damas, dizem-me terem visto algumas (nas Caldas 
da Rainha, no Algarve, etc.) bonitas, uma ou outra até digna 
de ser chamada bella^. A belleza da cigana é porém de 
curta duração : pouco depois dos vinte annos deáapparece- 
Ihe o viço da mocidade. D'ahi em parte a causa da má 
impressão de outros observadores, como L. de Vasconcellos- 
Nos homens também se dá, comquanto talvez em menor 
grau, a perda precoce do viço da mocidade. Todavia Pires 
diz-me que os ciganos gozam da reputação de longevos. 
E certo que a perda do viço não ó acompanhada de perda 
de forças. Ciganos e ciganas, de apparencia juvenil ou de- 
crépita, resistem a grandes marchas, deitam-se e dormem 
na terra muitas vezes húmida, lamacenta, sem tecto. 



1 Sobre o typo physico dos tsiganos, vid. P. Topinard, Vanthro- 
pologie (Paris, 1877), pp. 471-2-, G. Lagneau, art. France — Anthro- 
pologie. Race tsigane in Dictionnaire encydopédique des sciences médi- 
ccUes de A. Deehambre, 5« serie, t. v. (Paris, 1879), pp. 15-22 ; G. 
Cora, L c, e os auctores por esses citados. 

2 Hovelacque distinguiu dois typos tsiganos «l'un fin, au visage 
plus allongé, plus ovale, aux traits plus concentres, au nez plus aqui- 
lin ; Tautre grossier, aux traits plus ramassés, au regard moins per- 
çant.» O cigano representa talvez esse segundo typo. 

3 Na resposta ao questionário que lhe dirigi escreve Pires a res- 
peito das ciganas : Ha verdadeiras bellezas. Extremamente formosas 
algumas. 



185 



Alguns dão saltos e pulos prodigiosos. Um correspon 
dente de Barbacena conta que um, chamado Joaquim Ca- 
nhoto, com dois pulos fez cair de um telhado uma navalha 
que lá tinham posto. 

Dormem pouco. Deitam-se, de ordinário, ás 11 horas 
da noite e em rompendo o sol estão a pé. 

Alimentação. Não parece haver nenhuma particulari- 
dade nas suas comidas, que são as usuaes no Alemtejo. 
Um observador diz-me que comem pedaços de toucinho 
cru com pão, o que eu já vi fazer a hispanhoes da Extre- 
madura (não ciganos). Comem toda a carne de porco, 
deitando-a, quando a teem na sua caldeira onde (pelo 
menos certos bandos) lançam carne e peixe, tudo mistu- 
rado, com alguma ave morta que encontram pelo caminho, 
ainda que em decomposição, e que suspendem a três va- 
ras ensarilhadas. Refere-me o sr. Ferreira Deusdado que, 
em Trás-os-montes, os ciganos, numa epocha de fome, che- 
garam a desenterrar porcos, que tinham succumbido a uma 
epizotia, para os comerem*. 

Comem bem quando teem dinheiro, como se vê pelas 
compras que fazem quando atravessam as povoações. 

Relativamente a bebidas as testemunhas são divergentes. 
Um observador não os crê bêbedos habituaes, comquanto 
bebam bem por occasião da feira de S. João em Évora. 
Uma observadora julga- os amigos do vinho (cf. p. 166). 
Pires diz que são amigos de bebidas, principalmente de 
licores, mas que raras vezes se embriagam^. 



1 Diversos auctores faliam da nenhuma repugnância dos tsiganos 
por animaes mortos de doença. Vid. Colocci, Gli Zingari, p. 189, n. 1 
e F. Michel, Le pays lasque, p. 138: «d'autres fois ils ramassent les 
animaux morts de maladie, n'importe laquelle, les désinfectent au 
moyen d'herbes à eux seuls connues, et s'en repaissent impunément.« 

2 «Amano poço il vino, preferiscono la birra e sopratutto gli spi- 
riti. Uno dei piu gran regali, che lor si possa fare, è di offrire ad 
essi mastic, vodka, rak, un álcool qualunque : nè sapprebero senza 
acquavite celebrare alcuna cerimonia o festa.» Colocci, p. 189. 



186 



Gostam muito de doces de que fazem grande con 
summo na feira do S. João era Évora*. (Communieação do 
sr. Gabriel Pereira, director da Bibiiotheca Nacional). 

' Fumam muito, homens e mulheres. Eu tenho já encon- 
trado ciganas de cachimbo na boca. 

Caracteres psychicos. O espirito do cigano é vivo, per- 
spicaz relativamente ao circulo estreito de l'elaçoes em que 
vive, susceptivel talvez de o ser num circulo mais complexo 
de relações. (Pires acha-os muito intelligentes.) 

São analphabetos. Esta qualidade todavia não significa 
por si, como se figura a muitos, um estado de profunda 
miséria intellectual. A leitura e a escripta por si sós são 
apenas instrumentos de cultura, não a cultura mesma, in- 
strumentos indubitavelmente necessários para uma verda- 
deira cultura, mas que podem também exercer uma acção 
puramente negativa quando não se ligam a um bem enten- 
dido systema de educação. Faltam-nos infelizmente dados 
para apreciar bem o intellecto do cigano 2. Tem elle uma 



1 Esse gosto pelos doces parece ser geral nos tsiganos. Vid. Co- 
locci, p. 188. 

2 Náo se faz ordinariamente ideia do desenvolvimento intellectual 
possível sem o conhecimento da leitura e da escripta, tào costuma- 
dos estamos o considerá-lo como condição de toda cultura. Citemos 
alguns factos que provam o que ha de illusorio nesse modo de ver. 
Os esquimós, analphabetos, sem terem recebido nenhum ensino de 
desenho, são notáveis cartographos (Francis G ai ton, ///gw^r?/^^/ío í^e 
human Faculty. Londres, 1883, p. 103-104). Grande numero de ho- 
mens analphabetos fazem cálculos mentaes prodigiosos. A esse 
propósito lê-se no periódico La Nalure^ 1891, juin 20, extrahldo de 
um artigo de Pincott in Knowledge .\ «I\ est parfaitement vrai que 
les Indiens comptent plus sur leur mémoire que sur les procedes 
artificieis, et personne ne peut se mettre cn rapport avec ce pcuple 
sans être étonné de ses facultes prodigieuses à ce point de vue. II 
est de notoriété que la plupart des hommes les plus habiles de ce 
pays étaient incapables de lire et d'écrire, mais ces connaissances 
leur faisaient généralement peu defaut, car leur mémoire était 
chargée de plus de connaissnnce toujours à leur disposition, que 



187 



boa memoria? Quaes as representações particulares que 
mais facilmente reproduz? As visuaes? As auditivas? Tem 
a memoria numérica que permitte o calculo mental? Sem 
duvida elle tem a memória topographica, condição sine qua 
non das suas translações constantes. Também possuem boa 
memoria para os cantos (lettra e musica). Falia o seu ru- 
manho, o liispanhol e o portuguez. Tem um certo numero 
de conhecimentos tradicionaes, que aproveita nas suas in- 
dustrias. Conhece ainda, como seus irmãos doutros paises, 
as propriedades medicinaes, os effeitos narcóticos de certas 
plantas? Tem alguns conhecimentos astronómicos? 

Pouco pudemos apurar da sua capacidade para conser- 
var tradições. Poude-se affirmar, que não ha tradição his- 
tórica oral *, todavia a asserção é talvez um pouco abso- 
luta 2.) Em verdade os ciganos nada contam hoje ào seu 
passado aos estranhos; quando esmolam diaem «somos do 



celles ((ue possédent ceux qui étuclient dans des livres. — On sait que 
Rangit Singh ne pouvait ni lire ni écrire, mais il savait tout ce 
qui se passait dans uii royaume aussi grand que la France. Cetait 
un íinanier fort capable, qui coiiuaissait à cliaque instant Tétat de 
ses ricliesses, les ressourees de ses provinces variées, là nature de 
leurs revenus, la puissance de ses voisins, les poirits forts et faibles 
de rAngleterre, et, en un mot, à tous les points de vue, un parfait 
administrateur. Nous commettons Terreur de croire que les moyens 
de connaítre constituent la connaissance clle même. Cela nous con- 
duit à attribuer le plus grand prix à la lecture, et à Tecriture, et 
à traiter avec quelque mépris les peuples qui n'ont pas pris la rou- 
tine de coucher leurs idées sur Ic papier. Nous devrons modiíier 
notre opinion sur ce point en nous rappelant que les merveilles 
de Tarcliitecture indienne sont dues à des hommes qui ne savaient 
ni lire ni écrire». Seguem outros factos interessantes. 

1 Gaston Paris in Nevue critique, 1882, 2« série, p. 2.^7. 

2 Os tsiganos chegados a Forli no sec, xv conservavam a tradi- 
ção da sua origem indiana, como se acha consignado no Chronicon 
Fratris Hieronymi Froliviensis em Muratori, Scripforcs Ber. Ifalic. 
t. XIX, col. 890: «Et, ut audivi, aliqui dicebant, quod erant de índia». 
Os ciganos do Brasil conservam a tradição de uma emigração de Por- 
tugal em 1718 e dos nomes de alguns emigrantes (Mello Moraes Fi- 
lho, Os ciganos no Brazil, p. 25). 



188 



Egypto, da terra do Menino Deus.» Convém insistir na 
investigação do que os ciganos possam conservar de tradi- 
ções do seu passadO; principalmente de lembranças das 
perseguições de que nos séculos ahteriores foram objecto. 
O resultado, ainda quando seja puramente negativo, terá 
por certo interesse. 

O cigano tem a paixão do seu modo de vida, em que não 
sente outras obrigações alem da de acudir á sua sustentação 
immediata e á da sua familia, pode dizer-se sobretudo á 
sua sustentação, pois a mulher é a principalmente encar- 
regada do cuidado dos filhos. (As nossas noticias sobre 
essas relações familiares não são em verdade sufficientes.) 
A imprevidência e a aversão a todo o trabalho regular resul- 
tam d'aquella paixão e da sua falta de ambição, no sentido 
em que ordinariamente se entende essa palavra, porque 
elle também tem uma ambição — a d'essa vida livre. 

Concebe-se facilmente como essas tendências dos ciga- 
nos os tornem impróprios para a vida militar, apesar dos 
factos contrários que já foram notados (p. 180). Pelas in- 
formações que obtive, sei que um cigano compellido em 
Elvas ao serviço militar desertou ao segundo dia e que os 
domiciliados em Elvas que são recrutados desertam tam- 
bém em regra. 

Parece que não são muito vaidosos. O gosto da orna- 
mentação no vestuário liga-se, não a um sentimento de en- 
grandecimento pessoal, mas sim a sentimentos esthetícos. 
Todavia a humildade que o cigano tantas vezes manifesta 
ante os estranhos não é expressão de um sentimento espon- 
tâneo, mas de um habito de precaução. A hypocrisia é 
arma de defesa para elle; é ella e nada mais em geral 
que o faz adaptar, ainda que incompletamente, ás praticas 
religiosas do povo em que vive. Veja-se o que abaixo dize- 
mos dos baptisados, casamentos e enterramentos. 

E muito nervoso e emocionavel; mas as suas emoções 
são pouco persistentes. 

E absolutamente irreligioso o cigano, como muitas vezes 
se tem asseverado dos seus irmãos extra-peninsulares e 



189 



dos gitanos ? * Como um povo originário da índia, d'essa 
terra onde quasi tudo tem impresso o cunho religioso, pode- 
ria chegar a ser irrehgioso? A primeira vista a asserção afi- 
gura-se absurda e está-se no direito de pedir d'ella uma 
rigorosa demonstração ^. 

Os ciganos têem, como vimos no Vocabulário^ os termos 
debel e otebel ou otihé^ que designam Deus. Nos textos ha 
algumas phrases (n.°^ 41, 49 e 60, p. 9, 10) em que figura 
a palavra otihé. Mas o termo basta para que julguemos 
demonstrada a existência de concepções religiosas a elle 
ligadas? Toda religião se manifesta principalmente em 
ritos. Teem-nos os ciganos? São pagãos ou christãos? 

De culto pagão não se indicam entre elles nenhuns cla- 
ros vestígios. L. de Vasconcellos dizia em 1887, numa carta, 
que «adoram os mortos», isto é, teem o culto dos antepas- 
sados; mas, consultado, não me deu razões para poder-se 
acceitar isso como averiguado^. Da seriedade das crenças 
dos ciganos como christãos temos motivos para. duvidar. 



1 Num artigo do periódico Das Ausland, xlix Jahrg., p. 838 e seg., 
busca- se refutar a these da irreligiosidade dos tsiganos. O auctor 
funda-se principalmente na existência, na lingua dos tsiganos, da 
palavra devei, que Leland e Breitmann supposeram idêntica ao 
inglez devil : aquella palavra tsigana significa realmente deus. Os 
tsiganos possuem uma palavra particular para diabo, heng, que nâo 
occorre no que reuni do Vocabulário dos ciganos. A demonstração 
dada no artigo não é sufficiente. 

2 Na índia ha todavia grupos humanos, como os tchangar do 
Panjab, os quaes teem sido comparados aos ciganos e parecem estra- 
nhos a quaesquer usos religiosos. Vid. Trumpp apud Miklosich, 
Ahhandl, iii, 2. 

3 Em verdade Colocci diz p. 230: «... certo é che essi (os tsiga- 
nos) hanno per i morti lo stesso superstizioso rispetto, che si riscon- 
tra in tutti i popoli primitivi, come dimostra lo Spencer». O mesmo 
auctor italiano cita (ibid.) as palavras de Leland : «The real religion 
of the Gipsies, as I have already observed, consists like that of the 
Comteists, in devotion of the dead.» Mas do simples temor supersti- 
cioso e do respeito dos mortos a um verdadeiro culto dos antepas- 
sados, como o encontramos em diversos povos, a distancia é ainda 
grande. 



190 



Os ciganos não sedentários não se casam catholicamente 
e se baptisam os filhos (varias vezes) é por motivos de inte- 
resse. Segundo uma informação dada a Pires: «Não consta 
ver-se um cigano na missa. (Mas vid. o texto n.** 60 que se 
refere precisamente a ouvir otebelj, isto v^, o padre a dizer 
missa.) Frequentam, porém, as igrejas ruraes, fazem oração 
e deitam esmolas nas caixas.» Das antigas disposições eccle- 
siasticas parece resvdtar que alguns se confessavam, com 
vontade ou sem ella*. 

Dos factos referidos parece concluir-se que os ciganos 
não são absolutamente irreligiosos, mas que nelles o sen- 
timento e o conceito religioso se reduzem a muito pouco 2. 

São supersticiosos, como se indica abaixo ; mas a super- 
stição é distincta da religião. Crer, por exemplo, que duas 



1 Primeiras ccnsiituiçòes Sinodaes do Bispado de Elvas. Feitas e 
ordenadas pello Illustrissimo e Reverendíssimo Senhor Dom Sebas- 
tião de Matos de Noronha, etc. (Feitas em 1633. As licenças são de 
1634 e 1635). Tit. xxxxi; uDos vagabundos, comediantes e Si g anos. Os 
vagabundos aqui declarados sejâo assentados 'no rol dos confessa- 
dos, na freguezia em que se acharem ao tempo da Quaresma.» 

2 Borrow diz com referencia aos gitanos : «Ali, therefore, which 
relates to their original religion is shrouded in mystery, and is likely 
so to remaiu. They may have been idolaters, or atheists, or what they 
now are, totally neglectful of worship of any kind ; and though not 
exactly prepared to deny the existence of a Supreme Being, as 
regardless of him as if he existed not, and uever mentioning his 
name, save in oaths and blasphemy, or in moments of pain or sudden 
surprise, as they have heard other people do, but always without 
any íixed belief, trust, or hope.» The Zincali, i, 150-151. Nós os 
portugueses empregamos a expressão oxalá como uma interjei- 
ção, sem sabermos (salvo os eruditos) que ella significa : queira 
Allah; mas aqui o termo é estranho á lingua, emquanto dehel per- 
tence ao núcleo primitivo do vocabulário tsigano, em que necessa- 
riamente significou o conceito de uma divindade. 

Que o tsigano não tem incapacidade absoluta para a religião 
prova-se pelo facto de que em vários paises do Oriente o vemos 
mussulmano ou christão. Essa adopção de crença religiosa coincide 
com uma mais ou menos adeantada assimilação ao povo de que a 
receberam e em geral com o sedentarismo. Vid. Miklosich, Abhandl., 
III, 10-1 1 e Das Ausland., t. xlviii (1875), p. 282. 



191 



pessoas que lavam as mãos na mesma agua terão rixa 
nesse dia não se liga a nenhum conceito religioso, mas 
resulta do mechanismo psychoíogico, que aproxima as duas 
representações de mãos que agitam a agua e mãos que se 
agitam em lucta nmas contra as outras, e admitte sem refle- 
xão um nexo causal entre os dois casos*. 

A chiromancia, a cartomancia e outros processos divi- 
natorios podem ser também independentes de toda crença 
religiosa. 

E difficil ou antes impossível resolver a questão se o 
indiíFerentismo ou quasi indiíFerentismo religioso dos tsiga- 
nos os caracterisava já ao saireni da índia ou se elles che- 
garam a esse estado, atravessando povos com crenças e 
ritos religiosos diversos, a que parcialmente pelo menos 
tiveram que adaptar-se, para escaparem a perseguições. 

Onde se revela por completo o estádio primitivo de cul- 
tura do cigano é na diíFerença profunda dos seus senti- 
mentos e modo de acção, de um lado para com os da sua 
raça, os caUsj, de outro para com os estranhos, os jambos 
ou paios (paillos) . 

Para com os da sua raça reconhece o cigano direitos 
e deveres; para com elles tem até virtudes; para com os 
estranhos não reconhece, em geral, nem direitos nem 
deveres: o estranho para elle é apenas uma presa, que 
trata de aproveitar o melhor que pode, com a condição 
de o fazer o mais possivel a seu salvo 2. 



^ Sobre o que separa a superstição da religião, vid. H. Steintlial, 
Ueber den Aberglaubcn \n Zeitschrift fur Volkerpsychologie, 11, (1862), 
pp. 83-101. 

2 Quando se diz que o tsigano não conhece auctoridade, regra, 
principio, preceito, dever (Colocci, p. 155) esquece-se que tal asser- 
ção só vale respectivamente ás relações externas da gente d'essa raça. 
Sem auctoridade, sem regra, sem principio, sem preceito, sem dever 
não é possivel a existência de qualquer sociedade humana por mais 
rudimentar que seja. Os tsiganos em geral reconhecem chefes ; isso 
basta para fazer ver que lhes não é estranho o principio da aucto- 
ridade. Diz-se que desconhecem um verbo significando dever; mas 



192 



Quatro sâo os sentimentos principaes dos ciganos para 
com os da sua raça: o amor extremoso dos filhos, a fide- 
lidade conjugal, a fraternidade, o respeito dos velhos. 

Os cuidados que principalmente as mães têem pela prole 
são numerosos, comquanto a educação physica que lhes 
dão com o fim de os endurecer, de os habituar aos inci- 
dentes de uma vida dura e aventureira, pareçam á pri- 
meira vista excluir o carinho. Mas vê-se, por exemplo, 
o cuidado que teem em evitar que, quando as suas forças 
não se acham desenvolvidas, elles se fatiguem nas longas 
marchas : a mãe transporta ás vezes três filhos ao mesmo 
tempo, dois ás costas, mettidos numa espécie de saco, e 
um nos braços. Quando é possivel levam-nos num burro, 
emquanto elles vão a pé. O melhor que arranjam de ali- 
mentos é para os filhos ^ 

A fidelidade reciproca dos cônjuges era lei firme nou- 
tros tempos, segundo a tradição. Um proprietário e cea- 
reiro de Barbacena diz : «À cigana casada com um cigano 
que é infiel a este é abandonada de todos» 2. 

A fraternidade é ainda hoje bastante notável. São raras 
as rixas entre os ciganos, que se encontram bem unidos 



teem uma palavra que significa honra {patiy pachif etc). A palavra 
terar^ possuir, diz Colocci, p. 156 n., está quasi esquecida dos tsiga- 
nos da Ásia. Os ciganos e os gitanos teem nesse sentido terelar, 
que se liga a terar ; mas por certo nenhum tsigano ignora a distinc- 
çào do meu e do teu, expressa nos seus pronomes possessivos. E 
mister nâo confundir a noção reflectida e abstracta do direito e do 
dever com as formas concretas e espontâneas com que surgem nas 
sociedades primitivas. 

' Cf. Colocci, p. 229, que diz : «Gli Zingari hanno uno sviscerato 
amore per la loro prole». 

2 Cf. Colocci, p. 227 : «Per solito Tadulterio é raro fra le Zingare, 
tanto piú che la loro beltà sparisce presto, non si tosto divengono 
madri. . . », e p. 228 : «Secondo il dott. Solf gli Zingari tedeschi pu- 
niscono 1 'adultério col taglio dei naso alia donna e colle battiture 
sui goraiti o sui ginocchi per Fuomo.» O que Francisque Michel, Le 
pays bosque, p. 140-141, diz das relações conjugações dos tsiganos 
d'esse país é muito desfavorável. 



193 



em muitas occasiões *. Segundo Pires, protegem-se reci- 
procamente e, em caso de prisão^ ministram os meios de 
subsistência aos que estão prisioneiros, fazendo para isso 
até uso dos vales do correio. 

Em verdade um cigano velho queixou-se na feira de Villa 
Viçosa (maio de J883) a Pires da mudança dos costu- 
mes. Antigamente, disse elle, quando algum cigano era 
preso iam os amigos mais Íntimos pedir a todos os outros 
ciganos soccorros para o desgraçado e obtinham de 15 a 
16 libras que lhe entregavam; hoje é raro que o pedi- 
tório chegue a render 2 libras. As mulheres já não são 
tão rigorosas na fidelidade. 

O proprietário de Barbacena dá noticia de ter sido assas- 
sinado numa feira por trinta ciganos um da sua raça. 

Gs ciganos do Alemtejo parece não reconhecerem chefes ^. 

Para com os estranhos os ciganos são apparentemente 
muito corteses, respeitosos e não poupam hsonjas; mas a 
falta de veracidade, o intento de os lograr são a regra. 

A espoliação do estranho faz-se por uma serie de pro- 
cessos, que vão num crescendo até ao attentado grave. 

O meio mais suave e mais frequente é o peditório. São 
sobretudo as mulheres e as creanças que pedem. A arte 
das ciganas no peditório é perfeita. Elias sabem commo- 
ver principalmente com o espectáculo dos seus filhos nus, 
ou semi-nus, a descripção da sua vida de miséria, as mães 
portuguesas. Alcançando um primeiro objecto, pedem se- 
gundo, e depois terceiro, até que a caridade se cance. 
E não esquecerão jamais a casa das bemfeitoras. 

Nos casaes isolados (montes, no Alemtejo), o peditório 
adquire já o caracter de uma imposição. Aqui não pedem 
só as mulheres e as creanças; os homens pedem também, 
geralmente pão, carne, lenha e principalmente palha para 



1 Cf. Colocci, p. 154 : «Una fratellanza sincera regna fra tutti 
gli Zingari e li unisce. In nessun altro popolo anzi il vincolo di 
razza è piú intenso e piú rispettato.» Vid. Borrow, i, 263-266, etc. 

2 Um informador falia todavia de chefes. Vid. p. 216. 

IS 



194 



sustento das suas cavalgaduras *. É preciso satisfazê-los 
para que elles não recorram a outros processos mais vio- 
lentos de espoliação. 

O immediato na escala d'esses processos é o roubo. Os 
ciganos roubam principalmente aves, animaes domésticos, 
entre os quaes cavalgaduras, e sustento para estas. O roubo 
á mão armada é muito raro, senão sem exemplo. 

O assassínio é também perfeitamente excepcional, quer 
feito no intuito do roubo, quer de defesa ou por vingança. 

Ha pouco os jomaes deram noticia de um assassinio pra- 
ticado por ciganos em Chacim, comarca de Macedo de 
Cavalleiros (Trás-os-Montes) por um futilissimo motivo. Os 
ciganos andavam com as suas cavalgaduras numa proprie- 
dade do parocho, cujo creado os intimou a saírem de lá. 
Então elles enfureceram- se e crivaram de facadas o rapaz ^. 

Mas de todos os processos o mais frequente que o cigano 
dos dois sexos emprega para arrancar dinheiro ou algum 
objecto de valor ao estranho, é o logro, a burla, quç se 
opera por modos muito variados e para que elle revela um 
talento especial, como se mostrará mais abaixo. 

Independentemente da necessidade que o impelle, junto 
com o seu desamor ao trabalho legitimo, a lograr o es- 
tranho, não pode deixar de reconhecer-se um espirito de 
mystificação, que o leva a comprazer-se não só no fructo 
do logro, mas até no próprio logro. 

Diversos factos provam que o cigano é susceptível do 
sentimento de gratidão para com o estranho que o protege, 
respeitando-lhe a propriedade e servindo-lhe até d'inter- 
medio fiel em negócios, principalmente na compra e venda 
de cavalgaduras^. 



1 Em geral não pedem dinheiro. Nas feiras, communica-me Pires, 
só os ciganos mais moços pedem apenas cigarros. 

2 Vid. O Dia, n." 1511, 21 de julho de 1892. 

3 O modo por que o cigano considera o estranho é perfeitamente 
próprio de um povo que se conserva num estádio primitivo. Nâo sâo 
realmente os seus caracteres psychologicos e especialmente a natu- 



IDô 



Parecem ser muito limitadas as aptidões estheticas dos 
ciganos. Gostam de vestuários ornados, (mas essa orna- 
mentação é muito rudimentar), de collares de contas (as 
mulheres), de abotoaduras metallicas ; mas deixam cair em 
farrapos com facilidade esses vestuários que trazem até á 
ultima. Fallece-lhes o instincto do asseio. 

Não teem musica instrumental propriamente dita*. Quando 
cantam acompanham-se de castanholas e pandeiretas. Os 
seus cantos parecem não ter originalidade, ser apenas os 
cantos populares do país ou cantos hispanhoes^. 



reza das suas relações com os estranhos que o distinguem verdadei- 
ramente, mas sim a persistência d'esses caracteres no meio da civi- 
lisação europea, através de alguns séculos. Considerar o roubo exer- 
cido na propriedade dos estranhos á raça ou á tribu como um acto 
perfeitamente permittido é um conceito corrente nos povos primiti- 
vos. O roubo a descoberto estava longe de ser considerado entre os 
bárbaros como deshonroso, ao contrario do furto a occultas. (Vid. 
J. Grimm, Deutsche Rechtsalterthumer, 2te Ausg. 634-635). Strabão 
(iii, 3, õ) descreve-nos os lusitanos como ladrões. Dos germanos diz 
Tácito : «matéria munificentiae per bella et raptus {Germ. 14)». Já 
Polybio (iii, 98) e Tito Livio (xxii, 22) notaram que a perfídia era 
característico de todos os bárbaros. O meio em que vivem os ciga- 
nos nâo lhes permitte hoje o roubo á mão armada, as grandes vio- 
lências, os attaques das aldeias, de que na historia de outros ramos 
da sua raça ha alguns exemplos ; por isso elles se limitam ao furto, 
ao logro. 

A preguiça para o trabalho regular, junto com a mobilidade 
constante, o ódio ao repouso caracterisam tanto os ciganos como os 
povos bárbaros em geral. Tácito refere dos germanos : «Fortissimus 
quisque ac bellicosissimus nihil agens, delegata domus et penatium 
et agrorum cura feminis senibusque et infirmissimo cuique ex famí- 
lia : ipsi hebent, mira diversitate naturae, quum idem homines sic 
ament inertiam et oderint quietem (Germ. 15)». 

Poder- ae-hiam multiplicar os parallelos ministrados pela ethno- 
graphia antiga e moderna. 

í Outros ramos da raça tsigana revelam considerável talento 
musical, principalmente os da Hungria. Vid. Colocci, p. 279 e seg. 

2 Ora se teem attribuido aos tsiganos talento poético ora se lh'o 
tem negado. A verdade parece-me ter sido de perto attingida por 
Schuchardt no seu interessante estudo Die Cantes Jlamencos. Os 



196 



Os seus bailados são também reproduzidos dos populares 
do pais ou da Hispanha, principalmente dos últimos ^ 

Têem os ciganos contos tradicionaes e provérbios ? 

Quando juntos, segundo um informador de Pires, faliam 
em valentias e negócios de cavallos. São, em geral, muito 
falladores. Uma pequena discussão torna-se entre elles fa- 
cilmente verdadeira algazarra. 



tsiganos, diz elle, são certamente um povo de muito poucos dotes 
poéticos e os rudes vestígios de poesia que entre elles colhemos 
revelam a influencia dos povos entre os quaes vivem. Frederico 
Miiller dissera que o valor artístico das poesias dos tsiganos húnga- 
ros, que elle colligiu, era nullo ou menos que nullo; a rima e o 
rythmo que apresentam provêem de modelos magyares. Nas poe- 
sias dos tsiganos da Bucovina publicadas por Miklosich ha influen- 
cia manifesta da poesia popular dos rumenos e pequenos nissos. 
Esses factos tornam pouco crivei que a poesia dos gitanos, os can- 
tos flamencos, seja um producto original d'elles, conservado ou nas- 
cido no meio de um povo tão felizmente dotado com relação á poesia 
como o são os habitantes do sul da Hispanha, aos que os gitanos se 
assimilaram, principalmente na lingua, mais que os outros ramos 
tsiganos aos povos com que se achavam em contacto fora da penín- 
sula. Infelizmente a musica gitana está mal estudada e falta assim 
o conhecimento de um importante dado da questão ; todavia a expo- 
sição de Schuchardt leva á convicção de que os cantos flamencos 
«não são de modo algum modificação de uma antiga, genuina poesia 
dos gitanos, mas na essência poesia andaluza, que em primeiro 
logar experimentou uma certa gitanisaçâo na linguagem». Vid. no 
Appendix II algumas rápidas considerações sobre a poesia dos ciga- 
nos do Brasil. 

1 Um versejador do sec. xvii allude ás danças das ciganas, as 
quaes já vimos figurar em Gil Vicente : 

Como se viu aqui nesta pendência, 
Que se acendeo nas damas Toledanas, 
Sobre huma curiosa impertinência, 
Acodirão da Sé com partazanas 
Seis cónegos mancebos, e em chegando 
Fizerão nas dançar como ciganas. 

Diogo Camacho, Jornada ao Parnaso in Phenix renascida, v, 12. 
Vid. outra allusão no extracto da Miscellanea de Miguel Leitão d'An- 
drada, no fim do Appendix i. 



197 



As aptidões industriaes dos ciganos são menores que as 
de outros ramos da sua raça, visto terem perdido a indus- 
tria dos metaes. As ciganas quando querem bordam com 
alguma perfeição. Os homens manifestam a sua habilidade 
sobretudo em encobrir as mazellas do gado que querem 
vender por bom, e noutras artimanhas de que abaixo se 
encontrará noticia. De todo o trabalho aquelle pelo qual 
teem maior negação é a lavoura. Referiu-me o sr. Ferreira 
Deusdado, que é transmontano, que ciganos esfaimados, 
aos quaes se offerecia em razoáveis condições trabalho 
agrícola, tentaram manejar a enchada, mas vendo em breve 
as mãos callejadas, largaram-na, dizendo preferirem morrer 
de fome a tal trabalho. 

A historia mostra-nos que o caracter dos povos se mo- 
difica sob a acção de diversos agentes. Os allemães, os 
franceses de hoje conservam, por certo, peculiaridades que 
nos fazem ver nelles os descendentes dos germanos de 
Tácito e dos celtas de César; mas que modificações pro- 
fundas ao lado d'essa limitada persistência de velhos ca- 
racteres! O gitano, o cigano experimentaram já, nos quatro 
ou cinco séculos que passaram immergidos no meio penin- 
sular, grandes modificações, algumas das quaes pouco pró- 
prias para os fazer seguir no caminho do progresso. Na 
Hispanha, a obra da assimilação tem progredido muito mais 
que em Portugal, para o que contribuiu sem duvida o inte- 
resse que lá tem inspirado o gitano e por ventura certos 
característicos communs ao andaluz e ao cigano ; emquanto 
nós, povo de indiíFerentes, nada queremos saber do cigano 
e só sabemos o que o acaso nos obriga a aprender. 

Em diversos paises grupos tsiganos, alguns dos quaes 
numericamente consideráveis, teem abandonado a vida nó- 
made, o latrocínio, para se tornarem sedentários e se en- 
tregarem a misteres lícitos *. 



1 «La Ungheria, che li sa piu artigiani che agricoltori, non li 
obbliga ai lavoro delia terra che per quel tanto, che giudica conve- 



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Completarei este esboço psychologico com algumas noti- 
cias relativas á lingua, industrias, costumes. 

Língua. Como já se disse os ciganos de Portugal faliam 
o português e hispanhol, alem do rumanho ou romano. No 
Alemtejo faliam o português com a pronuncia alemtejana. 

O rumanho é só fallado entre elles, especialmente quando 
bebem. 

Affirma-se que todos fizeram o juramento de o nâo ensi- 
narem a ninguém estranho á raça, e que é mais fácil um 
cigano deixar-se matar que descobrir o segredo da sua 
lingua. Communicou-me o sr. conde de Ficalho que, tendo 
interrogado um cigano alemtejano acerca da sua lingua 
particular, este lhe dissera que hoje quasi nin^em a sabia, 
buscando assim desviar o interrogatório sobre um assum- 
pto para elle melindroso. 

Uma senhora, mulher de um lavrador alemtejano, con- 
seguiu saber de creanças ciganas, a quem dava esmolas, 
alguns termos que communicou a Pires e formaram o ponto 
de partida de suas investigações. As creanças tinham reve- 
lado os termos a medo e pedido á dama que as não denun- 
ciasse, porque seus pães as matariam se o soubessem. Essa 
senhora habitava em 1883 em Penna Clara, mas havia já 
quarenta annos que tinha aprendido os termos em o monte 
(casal) da Defesa, perto de Villa Fernando. 

Pires encontrou em dezembro de 1883 um cigano, me- 
nos escrupuloso, que lhe disse que o rumanho que faliam 
08 ciganos alemtejanos é o mesmo que o dos hispanhoes, 



niente ai lori bisogni e non vi costringe generalemente altro che 
coloro, i quali non hanno stato fisso, professione o mestiere. — Con- 
tinuano dunque ad esser ciò che sempre furono: calderaj e vete- 
rinarj, musicisti e ballerini, artigiani e cantori. — I battesimi sifanno 
regolarmente 5 i fanciulli frequentano la scuola e la chiesa. S'inci- 
viliscono, taluni si arricchiscono e la loro natura, abitualmente dolce, 
lascia sperare alFUngheria i piú felici risultati delia sua iniciativa 
filantrópica.» Colocci, p. 121 5 vid. todo o capitulo iv da sua obra. 



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e pretendeu quo os hiingaros (tsiganos caldeireiros, que 
teem vindo ao Alemtejo) faliam a mesma língua. Esse 
cigano dictou o calendário impresso nos textos, mas não 
deu a sentença relativa a novembro, por mais que Pires 
teimasse com elle, declarando que muito tinha elle já dito, 
e que se os seus soubessem lhe cortavam a cabeça. 

Todavia, os que conhecem alguma coisa do rumanho 
conseguem mais facilmente obter informações sobre elle 
dos ciganos. Foi o que aconteceu a L. de Vasconcellos. 

«Os ciganos em estando juntos, só se entende o que 
elles querem ; são como os cordoeiros da Galliza, que não 
se entende o que dizem em estando juntos e faliam em por- 
tuguês». Informação do proprietário de Barbacena*. 

Parece que os ciganos sedentários de Lisboa conhecem 
em geral pouco do rumanho, ou romano, como elles dizem. 
Os de Évora não conservam vestígios d'essa linguagem, 
segundo informação do sr. António Francisco Barata, co- 
nhecido escriptor e bibliothecario da Bibliotheca publica 
d'aquella cidade. 

Vestuário. Armas. Pires enviou-me a seguinte descripção 
do vestuário dos ciganos alemtejanos. 

Os homens usam jaqueta, usualmente de astracan ou fa- 
zenda semelhante, curta, muito justa ao corpo, com refego 
nos hombros, canhSes com botões de alamares, que são de 
prata no vestuário dos ricos, de cordão entrançado ou de 
fita no dos pobres. 

O collete é aberto, de três ou quatro botões, com a golla 
voltada. 



1 O segredo da lingua é geral nos diversos ramos da raça tsigana ; 

« non deve credersi che 11 raccogliere dalla viva você di quei 

nomadi le parole dei loro idioma sia cosa spicciativa ed agevole. 
Anzi ciascun sa come essi siano tanto generalmente e stranamente 
gelosi custodi dei segreto delia loro lingua che di rado Tun d'essi 
volle iniziare lo straniero nei misteri delia própria favella.» Colocci, 
p. 247. Vid. a passagem de Paspati por elle citada. 



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As calças, de casimira ou de cotim, alargam para baixo, 
tomando sobre o sapato essa forma de polaina a que se 
dá o nome de boca de sino, exactamente como as calças 
do fadista. E a forma preferida pelos ciganos abastados; 
os pobres usam calças direitas. 

Os sapatos ou botas são brancas. O chapéu é de aba larga, 
preto ou cor de café com leite. A camisa é de tecido branco 
ou chita estampada; as meias brancas. 

Os ciganos abastados usam lenço de seda ao pescoço, 
grandes botões de oiro na camisa e relógio com grossa cor- 
rente. Tanto esses como os pobres trazem sempre esporas. 

Os pobres apparecem nas feiras com o vestuário roto, 
esfarrapado, sem meias, com o calçado arruinado e alguns 
com grandes tesouras de tosquia de gado, mettidas nos 
coses das calças, apparecendo as asas por cima das cintas. 

Usam todos um varapau curto e poucos trazem navalha. 

Se são atacados, defendem-se ou com as tesouras ou com 
o varapau. Alguns teem espingardas de caça. 

As mulheres abastadas usam vestido de chita de cores 
vivas ou azul com pintas brancas, um pouco curto, com 
quatro ou cinco ordens de folhos, a partir da cintura; 
o corpete é justo e afogado ; a manga curta, com franzidos 
ou lisa. 

Trazem muitas saias (como as ovarinas), de modo que 
formam grandes ancas. Pende -lhe de uma fita, em regra de 
seda, que põem ao pescoço, uma cruz de oiro. 

Da cintura desce-lhe um avental de chita com grandes 
enfeites de fitas. 

As costas lançam um pequeno chaile de cor (azul, verde, 
etc), com largas franjas. 

Das orelhas pendem-lhes grandes brincos de oiro. A ca- 
beça é coberta com lenço de seda ou algodão, de cores 
vivas. 

"Usam, emfim, sapatos ou botas brancas ou pretas. 

As ciganas pobres usam vestido de cores vivas, mas 
ordinariamente sem folhos e iim corpete largo; não usam 
coUar ao pescoço e muitas andam descalças. 



201 



As ciganas, em geral, apartam o cabello ao meio e di- 
videm-no aos lados. Atrás fazem um grande periquito; 
pregam-no com ganchos e atam-no com fitas de cores, e aos 
lados arranjam grandes caracoes sobre as orelhas com o 
cabello entrançado, pregando o com ganchos. Outras tra- 
zem o cabello entrançado e caido pelas costas abaixo, com 
laços de fita nas pontas. Untam-no com azeite d'oliveira *. 

Ha uma quadra popular alemtejana, colhida por Pires, 
relativa ao cabello das ciganas : 

Pentiê o mê cabello 
P'ra trás com'ás ciganas ! 
Agora poss' ê dezer 
Qu'os trajos fazem as damas. 

As creanças dos dois sexos não teem pela maior parte, 
até aos 7 ou 8 annos, outro vestuário além da camisa. 



1 Sobre o vestuário dos tsiganos em geral, vid. Colocci, p. 190- 
194. O vestuário dos ciganos deriva sem duvida, com modifica- 
ções, do dos gitanos, que Mayo descreve, p. 41 : 

«Cuando disfrutan de algunas comodidades, los hombres tienen 
especial aficion á la ropa blanca, á la camisia limpia y bien almi- 
donada, á la chorrera vistosa, á la pechera bordada. 

«El traje en rigor es el mismo que gasta el pueblo bajo en An- 
dalucia, más ó menos rico, de pana ó terciopelo, de pano ó algodon ; 
chaqueta ó zamarra bordada, com alamares ó botonadura de plata-, 
alpargatas ó zapatos, botines ó borceguíes, todo de colores chillones, 
celeste ó encarnado; sombrero calanés, ancho en general, ó gorro 
encarnado en la costa de Cataluíia. 

«De las mujeres puede decirse otro tanto. Su traje es el que las 
andalusas han llevado hasta hace poços anos, y que los gitanos non 
han cambiado. Asi se las ve con su saya corta y de poço vuelo, 
adornada de randas volantes, su manton más ó menos grande sobre 
los hombros, su panuelo de puntas á la cabeza, hecho un nudo á la 
garganta, echado sobre la frente ó caido sobre la nuca á voluntad, 
flores y cintas por adornos, colores tambien chillones en todas sus 
prendas.» 

Como nota Mayo, nâo pode saber-se qual era o antigo trajo dos 
gitanos, prohibido pelas leis hispanholas, e que era sem duvida o 
mesmo dos antigos ciganos, prohibido pelas leis portuguesas. 



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muitas vezes esfarrapada, e trazem o cabello sujo e emma- 
ranhado *. Os adolescentes solteiros, pobres, andam em 
geral descalços. 

Todavia, segundo uma outra informação, algumas ci- 
ganas vestem os filhos, se por ventura obtém da caridade 
alguma roupa de creança. 

Domicilio. Estancias. Viajens. Muitos ciganos abastados 
ou remediados acham-se domiciliados em Évora, Portel, 
Moura, Estremoz, Vidigueira, Villa Viçosa, em diversas 
terras da Extremadura e até algims em Lisboa; d'ahi 
partem para as feiras e diversas excursões, como os que 
teem vida errante. Estes, no Alemtejo, estanceiam nos 
arredores dos montes (casaes) e ao ar livre. De inverno 
fazem grandes fogueiras com lenha dada pelos lavradores, 
ou que elles apanham, e construem alguns abrigos com 
piorno e tudo o que podem encontrar que lhes sirva para 
esse fim. Outros dormem junto das paredes, cobertos com 
mantas e cobertores seus, ou nos fornos e cabanas das 
herdades, ou em casas meio arruinadas e abandonadas. 
Têem enxergas em que se deitam e que nas jornadas 
servem de apparelho ás cavalgaduras. 

Vagueiam de monte em monte (casaes, no Alemtejo), 
estacionando junto de cada um algumas semanas seguidas. 

As comidas, durante essas estações, são feitas pelas mu- 
lheres e ao ar livre, e de ordinário pedem ao lavrador ou 
lavradora tudo o que precisam para seu sustento, de modo 
que os ciganos constituem, como observa Pires, uma ver- 
dadeira praga do lavrador alemtejano. 

Com os seus hábitos de cortesia, pedem previa licença 
ao lavrador, que não lh'a recusa de ordinário, porque os 
teme como roubadores de gado. 



1 «I fanciulli non ricevono fino a dieci anni il vestito. — Oraperò 
in quasi tutti i paesi sono stati costretti a smetteretale indecenza.« 
Colocci, p. 194. 



203 



Na villa de Barbacena, logar pobre, habitaram ha alguns 
annos, durante um inverno, umas casas derrubadas na rua 
do Forno uns ciganos, que, segundo o informador, já mais 
vezes referido, d'essa localidade, parecia que estavam bem, 
pelo luxo que rompiam. 

Ninguém lhes pedia renda d'essas casas arruinadas. 

Os ciganos do Alemtejo, segundo as informações de Pires, 
nâo teem tendas nem carros. Segundo uma informação do 
sr. António Francisco Barata, os ciganos que vão á feira 
do S. João naquella cidade não levam carros, mas levan- 
tam pobres tendas fora da muralha, se não teem casa na 
cidade. 

Na Extremadura improvisam muitas vezes uma tenda 
com uma peça de linhagem ou outro tecido que fixam 
de um lado a uma parede a certa altura, de outro no chão 
e que assim lhes serve de abrigo. 

Fazem longas marchas a pé, mas transportam-se também 
a cavallo, indo ás vezes dois e três no mesmo animal. Pelo 
caminho alguns vão caçando, para o que teem galgos. Os 
pobres nómades vão ás feiras com todos os individuos da 
famiHa. 

Por occasião das feiras, pobres e abastados estacionam 
num campo ou outro logar próximo, ao ar livre, debaixo 
das arvores, se as ha. 

Chegados a um logar novo para elles, tratam de se orien- 
tarem e conhecerem bem os arredores, percorrendo-os, sob 
pretexto de caça, para saberem onde poderão ir roubar. 

Para onde vão levam os seus gados, que deixam pastar 
em volta do seu acampamento, presos pelo pescoço uns 
aos outros ou peados. Quando não ha pasto, põem-lhes em 
frente golpelhas com palha. 

Em Lisboa residem algumas familias ciganas, no bairro 
oriental, ha muitos annos ; outras vieram-se fixar aqui, 
recentemente, de diversos pontos da Extremadura. 

Communica-me o sr. António Francisco Barata que em 
Évora vivem e pousam ciganos no bairro de Cogulos, na 
rua de Santa Maria e travessas próximas d'essa rua; mas 



204 



só 4 famílias teem residência fixa alli; os demais ciganos 
têem casas arrendadas para residência temporária, entrando 
e saindo. Arraiolos (e Torrão, como me diz o sr. Gabriel 
Pereira) não admittem os ciganos, repellindo-os á força. 

Occupações, industrias. Essas occupaçoes e industrias 
reduzem-se quasi exclusivamente para os homens á venda, 
troca e preparação para a venda e troca de gado muar, 
cavallar e asinino, á venda de fazendas (principalmente 
na Extremadura), contrabando, á tosquia de gado, e ao 
roubo. 

Não são creadores de gado, mas passam por bons conhe- 
cedores. São em geral bons cavalleiros. Alguns teem sido 
toureiros. 

Algumas ciganas (e mais raramente ciganos) residentes 
em Lisboa são negociantes ambulantes de pannos. 

Concorrem ás feiras (não ha nenhuma no Alemtejo e na 
Extremadura em que não appareçam) com seus gados e 
outras mercadorias. Nos negócios de troca de cavalga- 
duras querem sempre receber dinheiro além de animaes. 
Enganam com grande astúcia os compradores e trocado- 
res, até os que se julgam muito finórios. 

Um lavrador do Crato contou-me que um vizinho d'elle 
vendera uma burra viciosa aos ciganos; foi a uma feira 
e comprou-lhes uma burra que julgou ser bem differente 
da sua. De volta a casa, um vizinho disse-lhe que a burra 
parecia a mesma que vendera aos ciganos. O comprador 
em breve verificou que assim era, porque apenas o ani- 
mal transpôz uma cancella, deitou a correr como era seu 
costume. 

Pintam os animaes e disfarçam por todos os modos os 
seus defeitos. 

Fazem crer que um animal velho e cançado é vivo e 
bravo, pondo-lhes em cima a palma da mão, em que escon- 
dem uma agulha, com que o picam, para que pinoteie. 

Um sportman desejava um cavallo de detenninada cor; 
um dia appareceu-lhe um á medida dos seus desejos, que 



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comprou; mas pouco depois reconheceu que fora burlado 
por ciganos que tinham pintado o animal*. 

Não consta que os ciganos se occupem nas industrias 
dos metaes^. O informador de Barbacena diz: «Só me lem- 
bro de apparecer aqui um que trabalhava de ferreiro e fez 
uma safra ao João Ferreiro, que é onde malha o ferro». 

No Alemtejo e talvez nas outras provincias não ha diíFe- 
rença de occupaçoes entre os ciganos abastados e os po- 
bres; mas os primeiros não esmolam e só vão aos montes 
para negocio ; vivem nas povoações e trajam melhor. 

Occupaçoes das ciganas. Nenhumas ciganas em Portu- 
gal têem por profissão o canto e a dansa. Alem dos cui- 
dados familiares, vemo-las commerciarem em fazendas, 
como os homens, lerem a buena dicha, serem curandeiras 
(o que parece raro), mendigarem com maior ou menor 
frequência, sem viverem exclusivamente da mendicidade, 
fazerem bruxarias e sobretudo roubarem e burlarem os 
estranhos por diversos meios. 

A buena dicha não gosa hoje entre o povo de tanto cre- 
dito como noutros tempos; todavia nas terras de provin- 
cias, é principalmente para as raparigas, um divertimento. 



* O negocio de cavalgaduras pertence ao numero das mais anti- 
gas occupaçoes dos ciganos. Vimo-lo já figurar na Farça das ciga- 
nas. Muitas das burlas que elles fazem nesse negocio são mais ou 
menos typicas. «Per far poi apparire il cavallo vivace e ardente, lo 
frustano terribilmente, gridando alcune parole di eecitamento : cosi, 
quando si tratta di venderlo, basta ripetere queste parole che la 
povera bestia, memore delle frustate, si anima, solta e caracolla ; 
onde il compratore è persuaso che il cavallo è sensibile alia você 
e di carattere vivacissimo. — Piú forte sarebbe Tingano che riferisce 
il Franz-, e cioè che introducano un' anguilla viva sotto la coda dei 
cavalli onde con sifatto stimolo acquistono maggior alacrità.» Co- 
locci, p. 200. 

2 Os ciganos perderam cedo, ao que parece, a industria dos me- 
taes (vid. p. 175), que conservam noutros paises. Vid. Colocci, p. 195- 
200. Na Hispanha ha ainda gitanos ferreiros. Borrow, i, 64-65; 
Mayo, p. 37. 



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que se paga a troco de alguns vinténs, chamar uma cigana 
(mais raramente um cigano : os homens também ás vezes 
lêem a buena dicha) e ouvir d'ellas a sina. A buena dicha 
lê-se nas linhas da palma da mão *. 

As ciganas também deitam cartas, modo de divinação 
em que teem muitas rivaes portuguesas, algumas das 



* Sobre a chiromancia dos tsiganos em geral, vid. Coloeci, p. 208- 
211 ; sobre a buenaventura dos gitanos, Borrow, i, p. 167 e segs. Nâo 
tendo colligido nenhuma buena dicha, reproduzo aqui as seguintes 
buenaventuras de um artigo de Demófilo (Machado y Alvarez), pu- 
blicado em La Enciclopédia, ano v, n." 31 (Sevilla, 1885), as quaes 
servirão de commentario á Farça das Ciganas, de Gil Vicente, na 
parte respectiva. 

1. «En el nombre sea de Dios, que tu ventura sea buena, resalá. 
Eres hija e buenos pares y e buena maré y tierresita buena e por 
si: jase poços dia q'has tenio un disgustiyo con una presona que 
tu quieres en este mundo ; tu me quieres á dos presonas una para 
pasá ti empo y otra para tu gose, que vas a sé maré e cuatro chu- 
rumbeliyos : pos jase dias que te presiguen males lenguas tan sola- 
mente per conversasiones que tu tienes con ciertas presonas. 

Trin pa acá, trin pa ayá, catrafun catrafun y la santísima Tri- 
niá.» 

2. En el nombre sea Dios, que tu ventura sea buena. Tu tienes 
los ojiyos de enamorao que tu me las piya á tiento y me las matas 
cayando : tu tienes un poquito de mar génio pêro te se pasa ai in- 
stante ; eres hombre e secretos y hombre que nunca miras los inte- 
reses pa ná : tu eres una presona que has querio á dos, á una ha sio 
lealmente y á otra pa gana e conversasion y á una le igiste, que 
ibas á gorvé y le gorviste . , . las espardas : tienes que sé pare e 
cuatro churumbeles : tu has estão criando una cachigordita artita e 
pecho ; cumple tu con la gitana de buena gana que te voy a esí lo 
mejó e la buena ventura.» 

3. «En el nombre sea de Dios, que tu ventura sea buena, grasiosa. 
Tu tienes un disgusto con una presona que bien quieres y no es 

per comia ni per bebia que es per una presona que tu quieres que 
la tienes en tierra estrana, pues tu tas escubierto á una presona 
que ta pagão malamente pues tu tienes que recibí una carta de 
una presona que bien quieres y tiene que ser en un un dia seualao : 
tu tienes que ser en este mundo maré e cinco hijos y tienes que ser 
casa con un José ; cumple tu con la gitana morena que t' ha dicho 
la buenaventura, grasiosa- « 



207 



quaes teem feito fortuna. Uma cigana, segundo a informa- 
ção de uma senhora que residiu no Algarve, onde a encon- 
trou, fazia uso na cartomancia de um baralho de cartas 
muito pequeno e com desenhos não vulgares. 

As bruxarias das ciganas teem por fim burlar os pobres 
de espirito, arrancando-lhes dinheiro e objectos de valor, 
já em paga dos seus serviços, já subrepticiamente. São 
sobretudo victimas as esposas que desejam reconciliar o 
amor do marido infiel, os namorados e particularmente as 
namoradas que aspiram a ter firme a aíFeiçao do objecto 
amado, os ambiciosos que cubicam thesouros escondidos ou a 
prompta multiplicação dos seus haveres. Referi-me já ao 
processo inquisitorial de Garcia de Mira, que no século xvil 
nos apresenta exemplos das artes magicas das ciganas. 
Darei noticia de alguns casos modernos do mesmo género, 
a que em Lisboa e proximidades se dá o nome de hagatas 
(vid. p. 153). 

Ha annos em uma cidade do norte de Portugal uma 
esposa hospedara em casa umas ciganas que não tardaram 
em descobrir que o marido d'ella não era fiel aos deveres 
conjugaes; e, como se tivessem por eíFeito de suas artes 
mysteriosas penetrado no segredo, se proposeram que- 
brar o encanto que prendia o adultero á mulher illegi- 
tima. A pobre esposa, dominada pelas feiticeiras, pres- 
tou-se a ministrar os meios de fazer o grande feitiço, 
cujo resultado era asseverado infallivel. Era preciso pas- 
sar ás mãos das ciganas o melhor objecto de oiro que 
houvesse em casa: a esposa entregou-lhes um valioso cor- 
dão de oiro, que não correria perigo, porque tudo seria 
feito á vista d'ella. O cordão foi pelas ciganas envolvido 
em panno com um pouco de cabello loiro, da cor do da bella, 
causa do ciúme ; o panno foi cosido á linha, e no embrulho, 
formando como uma almofada, espetaram-se muitas agu- 
lhas. O feitiço devia ser posto durante oito noites debaixo 
do travesseiro do infiel, sem elle saber nem suspeitar tal 
coisa, porque se o soubesse ou se alguém lhe tocasse antes 
de findo o prazo, não só se teria mallogrado o feitiço, mas 



208 



ainda resultariam grandes males. Fez-se tudo como as 
ciganas indicaram. Elias disseram que iriam dar umas 
voltas e viriam ao fim dos oito dias para desfazerem o 
feitiço. Mas os dias passaram e as feiticeiras não volta- 
ram. A esposa aíflicta resolveu-se a abrir o embrulho 
enfeitiçado; mas o cordão não estava lá. 

Com o titulo de Bruxarias da actualidade, lê-se no Diá- 
rio de Noticias, de 31 de maio de 1884 (n.^ 6:591) : 

«Deve ser julgado hoje, no 1.^ districto criminal, ura pro- 
cesso a respeito de crime cuja historia nos parece interes- 
sante, e que, se revela astúcia da parte dos auctores, não 
é decerto um grande elogio á esperteza dos queixosos. 
Não antecipemos juizos, vamos aos factos. 

«Em principios de abril do anno passado apresentou-se 
no commissariado da 1.* divisão Gonçalo António Rodri- 
gues, morador na quinta Pequena do Valle Escuro, quei- 
xando- se de terem ido a sua casa duas ciganas, dizendo 
uma d'ellas á mulher do queixoso que a outra. adivinhava, 
e por isso soubera que naquella casa havia um bahu escon- 
dido, desde o tempo dos francezes, completamente cheio 
de dobrões em ouro de cinco moedas cada um, e offerecen- 
do-se para attrahirem o referido bahu. O queixoso e a mu- 
lher não acreditaram nem deixaram de acreditar, ficaram 
em duvida; mas, apesar d'isso, auctorisaram as mulheres a 
fazerem o que entendessem necessário para descobrir o 
appetecido bahu. No dia seguinte appareceram novamente 
as duas ciganas e pediram uma bacia de mãos com agua 
e cinco pedras de sal, recommendando as ladras ao ingé- 
nuo queixoso que' deitasse na bacia todo a dinheiro e ouro 
que tivesse. Tudo lhes foi satisfeito. As milagreiras deita- 
ram fogo ao sal e este ardeu!!! De roda da bacia estavam 
as duas ciganas, o queixoso e a mulher, cada um com 
cinco fósforos accesos na mão e rezando uma estação ao 
Santissimo, estando na casa, sobre uma mesa, um Santo 
Christo, tendo de cada lado uma vela accesa. O queixoso 
e a mulher vendo arder o sal acreditaram no poder das 
matronas. O caso era simples, — o que ardia eram umas 



209 



pedras de camphora, porque as de sal tinham sido substi- 
tuidas por estas. Acabada a oração, pediram um ovo fresco 
que deitaram em uma talha juntamente com o ouro que 
estava na bacia, affirmando que, se o ovo apparecesse 
cozido, era signal certo de que o bahu queria que o tiras- 
sem do esconderijo. D' esta vez ainda se foram embora, 
pedindo duas garrafas para no dia seguinte levarem, uma 
cheia de agua de sete fontes e outra com agua benta de 
sete pias. 

«Voltaram no dia seguinte, com as garrafas cheias; veiu 
novamente a bacia em que ellas deitaram o conteúdo das 
garrafas, juntando-lhe o ouro e dinheiro do queixoso ; em 
seguida tiraram o ovo que realmente estava cozido (pudera, 
cozido estava elle antes de entrar na talha) e disseram ao 
queixoso que o picasse, e deitasse por sua mão na agua 
da bacia. A milagreira então esborrachou o ovo, misturou 
tudo e extraindo a agua, deitou-a em um quarto aonde, 
diziam, deveria estar o bahu. Embrulhando o ouro em uma 
toalha, guardaramna em uma commoda. Dois dias depois, 
ainda voltaram, tirando outra vez o ouro, mettendo-o em uma 
pucara de barro, que fecharam num bahu, cuja chave 
deram ao queixoso para que este a deitasse no poço afim 
de attrahir outro thesouro, recommendando-lhe que não 
tocasse no bahu, nem mesmo o fizesse estremecer, pois 
que observadas estas prescripçoes o bahu apparecia na 
noite de S. João ao cimo da agua do poço e ellas o pu- 
chariam com uma fita. Assim que o queixoso deitou a chave 
no poço, as santas mulheres despediram-se, dizendo que 
iam muito longe, buscar terra de sete cemitérios que era 
só o que faltava para os queixosos ficarem ricos, porque 
cilas por sua parte só acceitariam o que elles dessem, 
porque não podiam pedir nada. 

«Os objectos de valor que serviram a este estúpido ma- 
nejo, foram cinco cordoes, uma corrente com uma medalha, 
dois anneis, dois pares de botões, dois corações, uma me- 
dalha, um crucifixo, tudo de ouro, duas moedas de dez 
mil réis, duas de cinco mil reis, dez libras, e dinheiro em 

14 



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prata quarenta mil e quinhentos, fazendo o total de réis 
3õ6j5iOOO. 

«Como era de esperar, os queixosos passaram o mês de 
maio a espreitar á borda do poço a chegada do bahu, po- 
rém, o teimoso não apparecia. Afinal, com a chegada de 
junho, os calores próprios da epocha, aqueceram-lhe o 
animo e resolveram arrombar o bahu. Encontraram a pu- 
cara tapada com a toalha que lhe tinham posto. 

«Olharam um para o outro ainda na duvida de a destapar, 
porém, o queixoso, mais audaz, levantou um pedacinho 
e . . . grande foi a decepção ! O mysterioso cofre não tinha 
dentro um só dos valores que lá deviam estar! 

«Correram á policia, deram parte do facto e como con- 
sequência instaurou-se o processo. Foram quatro as rés 
pronunciadas ; duas, as ciganas, auctoras principaes do 
crime, ainda não foi possivel prendê-las ; ha uma afiançada 
e a quarta que deve ser julgada hoje, chama-se Maria da 
Conceição, também cigana, é accusada como cúmplice, por 
ser em sua casa que se concertou o plano do crime, e por 
se ter aproveitado de parte do furto, pois recebeu uma 
libra, apesar de lhe terem promettido quatro para se calar». 

No periódico O Dia, de 6 de junho de 1892 (n.° 1:498), 
lê- se com o titulo de A huena dicha: 

«Haverá uns dez meses appareceram em Mafra duas 
ciganas, que se entregavam ao patusco mister de lêr a 
buena dicha a quem quer que se lhes explicasse com dois 
vinténs. 

«Uma rapariga do sitio parece que declarou ás ciganas 
que vivia desgostosa e contrariada por Cupido a todo o 
transe. 

«Ab ciganas, aproveitando a credulidade da pacovia amo- 
rosa manquéej, disseram-lhe que no seu futuro haviam de 
dar-se factos de alta magnitude. Elias encarrega vam-se de 
lhe ler a buena dicha, mas em casa da rapariga e sem tes- 
temunhas, porque a mais ligeira indiscripção tiraria toda 
a virtude á operação. 

« Concedido. 



211 



«As ciganas uma vez a sós com a rapariga, pediram-llie 
oito libras em ouro, mas como ella não tinha aquelle di- 
nheiro, contentaram-se com um bello cordão de ouro e três 
moedas de 500 réis em prata, 

«Esses objectos foram mettidos num pedaço de ramagem, 
o qual foi cosido em presença da rapariga e de um Christo (!) 
que as ciganas levavam. Depois foi tudo mettido dentro 
de um cofre, que foi fechado á chave. 

«As ciganas voltaram no dia seguinte, repetiram a ope- 
ração e disseram á rapariga que voltariam oito dias depois, 
afim de dizerem definitivamente o que o futuro lhe reser- 
vava; mas recommendaram-lhe que não abrisse o cofre 
nem pessoa extranha o visse sequer, pois em caso de in- 
fidelidade não respondiam pela sua vida. 

«A rapariga esteve até agora esperando as ciganas, mas 
como ellas . . . se demorassem resolveu-se a abrir o cofre 
e a descoser a ramagem. 

«Encontrou uma cadeia de ferro e três botões de latão.» 

Os processos, como se vê d'esses e de outros casos, 
repetem-se como provas de um mesmo cliché. Os cordões 
de oiro, as moedas de oiro, os travesseiros e os embrulhos 
representam o papel principal. A impiedade dos ciganos 
não os faz hesitar em acondimentarem os manejos com 
orações christãs e em acondimentarem a creduUdade com a 
presença de um Christo *. 

Nos estabelecimentos commerciaes exercem muitas vezes 
as ciganas os seus instinctos de gazze ladre. Para comprarem 



1 O jonjanó baró (Mayo ; Borrow escreve hokkano haro)^ gran soca- 
liha, grande furto ardiloso, pertence ás velhas artes gitanas. Na 
novella de Geronimo d'Alcalá, Historia de Âlonso, mozo de muchos 
amos, escripta no sec. xvii e citada por Borrow, refere-se uma his- 
toria muito semelhante á reproduzida do Diário de Noticias e em 
que uma viuva cubiçosa junta jóias de oiro e prata para attrahir, 
segundo os preceitos de uma gitana, um grande thesouro escondido 
na adega; mas o dinheiro que serve de isca é escamoteado pela 
enganadora gitana. Borrow, i, 133-137. Vid. ainda o mesmo auctor, 
I, 310-315. 



212 



os preparos de uma refeição, por exemplo^ toucinho, feijão, 
café, assucar, farinha em vez de entrarem numa só mer- 
cearia, dirigem-se a muitas, onde compram uma só coisa, 
para assim ter maior numero de occasiões de tentarem 
furtos. Nas lojas de fazendas, cujos donos ou caixeiros 
ainda não conhecem as suas artes, fazem vir para cima do 
balcão muitas peças para escolherem, a fim de melhor po- 
derem escamotear alguma ou algumas. São realmente emi- 
nentes na escamoteação. 

Quando giravam libras esterlinas nos negócios, as ci- 
ganas costumavam dirigir-se aos commerciantes que acha- 
vam com cara de pobres de espirito e propunham-lhes 
trocar libras da rainha Victoria por libras de Jorge III, 
que teem cunhado um cavallo e a que o povo chama libras 
de cavallinho, dando um cambio e allegando fazerem ne- 
gocio com essas libras por serem muito procuradas. Se um 
commerciante lhe apresentava um punhado d 'essas libras, 
tratavam de escamotear alguma com a máxima perfeição 
c de convencê-lo de que se tinha enganado em o numerou 

Uma quadra alemtejana (canto de natal), colhida por 
Pires, allude aos hábitos de ladroagem das ciganas: 

Sô cigana do Egypto 
Minlia sina é rôbar, 
Hê-de furtar o Dês-menino 
P'ra minha alma se salvar. 

Superstições. Pouquissimo pude colher acerca das su- 
perstições ciganas. Crêem, por certo, no poder de alguns 
feitiços. Uma cigana recusou a Pires terminantemente dar- 
Ihe um bocado do seu cabello, sem duvida com receio de 



1 «Cada dia van slendo menos frecuentes las antigas prácticas de 
las gitanas, quienes, mientres sus hombres chalaneaban en las férias 
j mercados, ellas tenían especial liabilidad de manos para hacer 
desaparecer las monedas cn los câmbios, vstilar á baste, coger á la 
mano.» Mayo, p. 40. Vid. Borrow, i, 315-317. 



213 



que fosse applicado a algum feitiço. Uma outra, observada 
no Algarve, parecia perfeitamente convencida da verdade 
da cartomancia que praticava, e dizia que ai d'ella, se o 
signal da morte lhe apparecesse naquellas cartas, porque 
infallivel mente morreria. 

Segundo Pires, os ciganos alemtejanos consideram como 
mau agoiro : 

1. Verter azeito; 

2. Quebrar vidros; 

3. Espalhar sal; 

4. Jogar as cartas. O cigano jogador tem mala pajé, 
má sorte; ó infeliz nas trocas. 

As três primeiras superstições encontram-se no povo 
português ^ 

Jogos. Festas. A inaptidão para o trabalho regular junto 
com o amor do movimento levam os ciganos naturalmente 
aos jogos, como uma occupação sem finalidade. Parece 
que no Alemtejo e Trás-os-montes os jogos preferidos são 
o salto, o pulo e o jogo da barra. Vid. pp.- 216 e 217. 

Das festas ciganas pouco pude colher. No Alemtejo a 
principal, senão a única, de epocha fixa é a do S. João. 
Mas essa festa não tem para elles nenhum caracter reli- 
gioso, embora represente talvez uma muito obliterada tra- 
dição nacional, adaptada, exteriormente a uma festa 
christã. É então que se faz a maior feira do Alemtejo, 
em Évora, a 24 de junho. Alli concorrem numerosos ci- 
ganos (ha quem diga que todos os da provincia e ainda 
alguns de outras partes do pais) e alguns gitanos, e durante 
três dias cantam, dançam, comem, bebem, celebram casa- 
mentos, fazem negócios. 



1 Sobre as superstições dos tsiganos em geral, vid. Colocci, p. 
KM, 215. Borrow i, 138-139, menciona o mau olbado como crença 
gitana, a qual existe talvez também entre os ciganos, como o uso 
dos amuletos, de que ouvi fallar, mas a pessoa que nào estava muito 
certa a esse respeito. Colocci, p. 213-214. 



214 



Segundo me informa o sr. G. Pereira, lavam a cara 
em a noite de S. João á meia noite*. E essa a única par- 
ticularidade notável da festa, que chegou ao meu conhe- 
cimento. 

Baptismo. E voz constante no Alemtejo e Trás-os-montes 
(provavelmente também nas outras províncias em que ha 
ciganos) que as ciganas quando teem um filho o baptisam, 
isto é, mergulham-no no primeiro ribeiro que encontram 
e dizem: 

Eu te baptiso neste ribeiro 

P'ra que saias um ladrão bem ligeiro 

ou: 

Eu te baptiso neste ribeiro 

Para que sejas valente de pé leve é unha ligeiro. 

Depois d'isso as creanças são baptisadas catholicamente, 
e tantas vezes quantas os pães podem arranjar para pa- 



1 Os tsiganos de outros paizes teem também festas de epocha 
fixa. Os da Turquia celebram a Icákkavá ou festa das caldeiras, a 
começar no dia de S. Jorge, 23 abril (est. v.) nos paizes meridionaes 
da Rumelia e mais tarde no norte. A festa por vezes é coUectiva, 
reunindo-se centenares de tendas. Durante três dias os tchingianés 
entregam-se a festas, a dansas e a jogos. 

A festa de 28 de agosto (est. v.) é especial aos atsincani de Volo 
As comidas, as bebidas, a gritaria, a musica, a dansa, formam a 
base do divertimento. Colocci, p. 169-170. Na Hispanha celebram 
também os gitanos uma festa pelo S. João. 

A lavagem da cara dos ciganos do Alemtejo, em a noite de 
S. João, corresponde o costume de banhar três vezes as fontes da 
cabeça á beira do mar ou de um rio, no 1." de maio, referido por 
Colocci, 164. Essa coincidência inclina-me a pensar, ao contrario 
d'esse escriptor italiano, que em taes festas ha vestígio muito obli- 
terado da tradição das festas naturalísticas dos aryas da Ásia, rea- 
nimado pelas festas dos aryas europeus, que fundiram com dados 
christãos as velhas tradições naturalísticas do começo da primavera, 
do outomno, do solstiçio de verão, 



215 



drinhos lavradores ricos, em cada freguezia que percorrem, 
afim de se relacionarem com elles e receberem as baetas, 
(presentes de baptismo, Alemtejo) e mais tarde protecção. 
Parece, porém, que os ciganos abastados e sedentários 
só baptisam os filhos uma vez *. 

Casamento. Uma senhora que residiu no Algarve obser- 
vou alli um casamento de ciganos que me descreveu da 
seguinte maneira. 

Havia a pequena distancia dois acampamentos ao ar 
livre. Num d'elles estava a noiva, noutro o noivo. A noiva 
vestia saia cor de rosa com tiras escarlates e pretas, ca- 
misa do linho grosso branco, fazendo bolso, isto é, saindo 
para fora acima da cintura, por debaixo de um jaleco de 
cores vivas, bordado. Ao pescoço tinha muitos collares de 
contas de cores, e das orelhas pendiam-lhe grandes arre- 
cadas de latão. O noivo bem vestido foi correndo do seu 
campo para o d'ella, tomou-a nos braços e levou-a para o 
seu campo. Alli a noiva tomou um pequeno cântaro de 
barro, levantou-o e deixou-o cair; reuniram cuidadosa- 
mente os cacos, e guardaram-nos depois de os ter con- 
tado. Segundo a minha informadora elles tiravam agoiro, 
já do ruido produzido pela quebra do cântaro, já do nu- 
mero dos cacos, que, talvez significasse o numero de an- 
nos que viveriam casados. 

Os ciganos, escreve L. de Vasconcellos, segundo a infor- 
mação que um lhe deu, casam só entre si. Quando um 
casamento está justo, celebra-se um grande banquete. 
Nessa occasião vae o noivo saber se é da vontade da 
noiva o casamento: no caso afíirmativo, pagam as duas 
familias a meias as despesas ; no caso negativo estas são 



1 Cf. Colocci, p. 166. «Si lasciano battezare fra i cristiani, si las- 
ciano circoncidere fra i turchi.» Dos tsiganos bascos diz Francisque 
Michel, Tx pays hasque, p. 141 : «... ils sont tous baptisés, et même 
pliis dune fois; mais c'est calcul de leur part etun nouveau moyen 
de vivre au dépens d'autrui, etc.» 



216 



á custa do noivo. No dia do casamento ha uma corrida de 
gallos (vid. infra). 

A informação ó talvez inexacta : trata- se provavelmente, 
não da vontade da noiva, mas da da familia d'ella. 

O informador de Barbacena diz: «Sendo eu pequeno, 
houve aqui um casamento de ciganos. Arrearam elles uns 
cavallos muito enfeitados; montaram os homens e algu- 
mas mulheres e depois foram correndo. O cigano que era 
o noivo corria atrás da noiva e os outros gritavam: «Pilha 
que é tua*»; e depois furtaram-lh'a, sempre a cavallo, até 
que recolheram para a casa onde habitavam no logar, por 
aquelle tempo, e fizeram um grande banquete, comendo, 
bebendo e bailando, e fazendo outros divertimentos. Não 
tornei a ver casamento de ciganos. Dizem que todos se 
casam assim e que não se recebem de matrimonio (isto é, 
catholicamente); masparece-me que um Vicente, de um filho 
do qual F. foi ser padrinho, é casado (catholicamente)^». 

Um informador de Villa Viçosa escreve: «Para attestar 
a virgindade da noiva, três ciganos dos mais velhos, che- 
fes da tribu, estendem sobre a cama um lençol muito 
arrendado, fazem entrar os noivos no quarto e esperam 
na casa contigua. Consummado o acto, vão os chefes bus- 
car o lençol e mostram-no aos demais ciganos. Esse len- 
çol ó denominado lençol de honras). 

Uma cigana velha ministrou os seguintes dados acerca 
do casamento dos ciganos vagabundos. 

«A noiva é pedida pelos pães do noivo. Ajustam então 
o dia do casamento. Nesse dia estendem no campo em 
que estão acantoados um saco feito de estopa, a noiva des- 
pe-se, ficando apenas com a camisa, e deita-se de costas 
sobre o saco. Reune-se em volta toda a tribu. O noivo, com 
um pequeno lenço branco de algodão enrolado na mão di- 



1 Variante, segundo outro informador : Pilhâ-lâ qu' é tuia! Pilhã- 
lâ q\C é tuia! 

2 Esta informação como as duas seguintes foram obtidas por A, 
Thomaz Pires. 



217 



reita c no dedo indicador, procede de joelhos e cora esse 
dodo, ao rompimento do véo da que ha de ser sua compa- 
nheira. Em seguida mostra o lenço ; se está manchado de 
sangue, ha grande contentamento e vivorio em toda a tribu, 
ficam desde logo casados, a noiva ó abraçada por todos, 
e começam os divertimentos. O divertimento favorito c o 
jogo dos gnllos. Correndo em cavallos a toda a brida, com 
as mulheres á garupa e com lanças (sicj na mão, csfor- 
çam-se por espetar os gallos que estão dependurados de 
uma corda ligada a differentes arvores. Ha descantes, bailes, 
jantar da boda, etc. 

«Se o lenço não apresenta vestígio algum de sangue, a 
noiva é estrangulada pelos pacs do noivo (sic). 

«E costume haver muitos casamentos no mesmo dia. 

«As raparigas casam entre os 16 e 18 annos. 

«O lenço é guardado pelos pães do noivo*.» 



1 A mesma cigana deu ainda a informação seguinte : 
Em Hespanha, entre os ciganos abastados, o hymen é rasgado pelo 
Peliche — -velho da tribu a que as moças solteiras teem grande res- 
peito, e que usa a unha do indicador da mão direita muito crescida. 
Recebe de ordinário meia onça -(8 duros) pela operação, que é feita 
a occultas, vindo elle depois mostrar o lenço á gente dos noivos e 
aos convidados. 

, A existência da prova da virgindade na Hispanha, entre os gita- 
nos, era já conhecida. Eis o que a esse respeito diz P. Bataillard na 
sua nota Les Gitanos cVEspagne et les Ciganos de Portvgal (Extrait 
du Compte fíendu de la 9.^ Session du Congrcs iniern. d'antJiropol. et 
d'archéol. préhist), p. 21 (501) : 

«II existe parmi les Gitanos une coutume qui, autant que j'ai pu 
le savoir, ne se retrouve point parmi les autres Tsiganes d'Europe, 
parmi ceux, du moins, qui n'ont pas eu des relations particulières 
avec leurs frères d'Espagne : Immédiatement avant sa première 
nuit de noces, la jeune filie est déflorée par des matrones qui attes- 
tcnt sa virginité, etc. Cest une coutume d'ailleurs répandue chez 
les Musulmans, mais qui est entourée chez les Gitanos de beaucoup 
de solemnité : le mouchoir sanglant qui a servi à lopération mys- 
térieuse est montré à tous les gens de la noce et précieusement 
conserve dans la famille. Borrovv, qui n'a guère pu ignorer cette 
coutume, mais qui, écrivant pour le grand public anglais, a évidem» 



218 



È raríssimo, mas não sem exemplo, casarem ciganos 
com mulheres estranhas á raça. O sr. Deusdado refe- 
riu-me o casamento catholico de um cigano trasmontano 
com a filha de um lavrador que delle se agradou e se dei- 
xou raptar por elle. O cigano não renunciou á sua vida 
pelas feiras, emquanto a mulher permanecia em casa. 



ment craint de blesser sa pudeur, ne fait qu'une allusion obscure 
(p. 239) à la défloration par les matrones, et supprime conséquem- 
ment les marques de sang sur le fameux mouchoir, qu'il mentionne 
pourtant en le distinguant de la ceinture de chasteté (dont je par- 
lerai tout à Flieure). Ainsi Borrow ne nous renseigne pas sur le 
point essentiel : décrivant une noce gitana à laquelle il avait assiste, 
il parle même (p. 240) d'un mouchoir sans tache «sans lequel il n'y 
aurait pas eu de noce», et qu'on avait arboré, ainsi que la ceinture 
de chasteté elle-même, comme drapeau de la fête : ce qui serait 
tout à fait de nature à induire en erreur. Mais je puis affirmer que 
la coutume que j'ai tout d'abord indiquée est certaine : bien avant 
Borrow, un autre Anglais Tavait décrite avec des détails accessoires 
qui ont leur intérêt; et moi, j'ai rencontré bien des fois en France 
des Bohémiens plus ou moins affiliés à ceux d'Espagne, prés des- 
quels j'ai pu m'assurer de sa réalité; plusieurs me Tont décrite en 
détail. J'ai appris ainsi que cette coutume, naturellement pratiquée 
aussi par la plupart des Bohémiens du sud-est de la France qui se 
rattachent étroitement à ceux d'Espagne, avait en quelque façon 
pénétré chez les Bohémiens du Piémont et même de la Suisse, mais 
avec des modifications importantes et qui lui ôtent une partie de 
son cachet oriental.» 

Machado y Alvarez dá nos Cantes flamencos, p. 107 e 117, as 
seguintes seguidilhas gitanas : 

Bendita la maré 

Que tiene que dá 

Como dinaba rosita y mosquetas 

Po la madruga. 

En un praito herde 

Tendi mi panuelo ; 

Como salieron maré três rositas 

Como três luseros. 

E diz em nota: «Esta copla, como la que lleva el num. 20 de las 
seguidillas gitanas de esta Coleccion, alude á la costumbre que tie- 



219 



Ha também casos de ciganas casadas com estranhos á 
raça. 

Segundo informação do sr. A. F. Barata, os ciganos 
domiciliados em Évora casam catholicamente. O mesmo se 
dá, segundo apurei, com relação aos ciganos domiciliados 
em Lisboa. 

Relativamente a divorcio nada pude apurar. 

Prostituição. Como vimos as ciganas gosam de reputa- 
ção de fidelidade, e os costumes dessa gente provam o 
apreço dado á honra feminina, á virgindade que se en- 



nen los gitanos, de presentar, ai dia seguiente de la boda, la camisa 
de la desposada para que las famílias conocidaspuedan cerciorar- se 
de la virginidad de la doncella de la víspera.» 

A laceração do hymen anterior ao coito apparece em vários povos. 
As raparigas sakkalavas de Madagáscar praticam em si próprias 
essa operação. Na Austrália ella é brutalmente realisada pelos 
velhos, num logar solitário, logo que os seios da virgem começam a 
dilatar-se. H. Ploss, Das Weib in der Natur-und Võlkerkunde, i^, 301. 
Mas nesses povos tal operação não tem por fim verificar o estado 
de virgindade, como succede no continente africano e na Ásia. Na 
maior parte dos paises d'essas duas partes do mundo, o homem 
deseja convencer se que a mulher com quem vae casar está virgem. 
No Egypto a prova é tirada com um lenço de musselina, o qual se 
mostra ensaguentado aos parentes. Na Núbia a operação faz-se sim- 
plesmente com o dedo e ante testemunhas. Uma matrona é quem 
entre os árabes e coptas procede á prova com um lenço de linho 
que lhe envolve o index. Na Rússia meridional mostram-se as man- 
chas sanguineas, se as ha, da camisa da noiva, as quaes são rece- 
bidas com tanta alegria quanto é o desprezo que ella merece, se a 
prova falhou. Costume semelhante se encontra entre muitos povos 
orientaes. Os búlgaros exigem do noivo a prova de que a noiva 
estava virgem. Ob. cit., p. 303 e seg. A prova da virgindade appa- 
race já na Biblia. Se o noivo punha em duvida calumniosamente a 
virgindade da noiva, o pae d'esta extendia o lençol com a prova á 
face dos anciãos da cidade. Deuteronomio , xxii, 13-21. 

Machado y Alvarez, ob. cit, p. 117 n., traslada a respeito do 
mesmo costume no povo da Sicilia a seguinte passagem da obra de 
G. Pitré, Usi Natalizi, Nuziali e Funehri dei Popolo siciliano (Pa- 
lermo, 1879): «La dimane delle nozze, si mettea in mostra la cajni- 



220 



trega ao esposo. Todavia como não ha regra sem excepção, 
algumas ciganas, ou solteiras ou casadas com ciganos, 
teem convivido com estranhos. 

Pires colligiu a seguinte informação : «E rarissimo en- 
tregar-se uma cigana, e a que se entrega é desprezada, 
e expulsa da tribu. Um exemplo: Numa das ultimas fei- 
ras de Villa Viçosa, em um botequim, havia uma cigana 
prostituta (caso rarissimo); pois os ciganos solteiros, que 
costumam entrar a miúdo em todos os botequins das fei- 
ras, nem ao pé d'esse botequim chegavam. Esse caso de- 
via ter-se dado antes de 1879, pois por essa epocha appro- 



cia delia sposa, perche i parenti e i vicini potessero scorgervi i segni 
suddetti. A questo fato pare che allude la frase popolare La me 
cammisa *un arristau hhianca, clie nelle loro zuífe le donne si riman- 
dano per ventare Tonor loro.» Outra variante siciliana do costume 
consiste em a mãe fazer a cama no dia seguinte ao da boda, quando 
estão presentes os parentes do marido, as vizinhas e comadres do 
bairro, a fim de verem as provas da recente perda da virgindade 
da noiva e poderem attestá-la. 

Mayo diz, p. 42 : «Todavia se conserva entre muchas famílias 
gitanas la costumbre antigua espaiiola que desapareció con la acce- 
sion de la casa de Áustria ai trono de Espaiia y á la que se sujetó 
Isabel de Castilla cuando se caso em Valladolid con Fernando de 
Aragon, esto es, la de mostrar á los convidados el dia de tornaboda 
el cendal de la desposada, la prueba justificativa. . . » 

Referem-me que na corte portuguesa existia ainda neste século 
egual costume : a prova da virgindade de uma rainha e da consum- 
maçâo do casamento era apresentada aos ministros e grandes da 
corte. 

Adoptaram gitanos e ciganos esse costume na Hispanha ? Trou- 
xeram-no de outra parte? E um problema que só pode ser discu- 
tido num estudo geral sobre as migrações dos tsiganos. 

A simulação do rapto da noiva, ultimo vestígio do verdadeiro 
rapto primitivo, encontra-se entre tsiganos de outros paises, assim 
como em muitos outros povos, e é até bem conhecida em diversos 
logares de Portugal. 

«Fra gli Zingari turchi, diz Colocci, p. 226, la cerimonia (do ma- 
trimonio) consiste talvotta nel simulara una zufí'a, durante laquale 
il giovane rapisce la sposa. Un viaggiatore cosi narra un matri- 
monio zingaro a Costantinopoli : «II y avait foule nombreuse à 



221 



xlmadamente foi prohibido o estacionamento de prostitutas 
nos botequins das feiras de Villa Viçosa». 

Segundo uma informação recebida de Évora, ainda alli 
vive uma cigana afamada, que foi amante do ultimo conde 
de Vimioso. Está na companhia de um filho que é alfaiate, 
mas que tem nome fidalgo, assim como outro que reside 
em Lisboa e dizem ser rico. «Esta cigana, diz o meu infor^ 
mador, como as demais que aberram dos principies da 
seita, foi desprezada de todos e vive isolada com o filho . . . 
Esta cigana é a cantada nos acompanhamentos de viola 
com o nome de Severa». 



l'entrée de la prairie de Boyuk-Deré, ou Ton célébrait im mariage 
bohcmien. Les tentes des familles dcs futurs conjoints étaient à une 
distance d'une vingtaine de mètrcs environ, et Ton voyait aller et 
veuir d'une tente à Tautre les parents des futurs époux ainsi que 
Ics invitós, armes de batons et simulant une lutte, pendant laquelle 
les fiancés s'étaient rencontrés prés d'une des tentes. Lejeunehom- 
me s'empara de sa future et Tayant embrassée rentra avec elle dans 
sa tente. Après quoi ils partirent ensemble pour aller fêter la dive 
bouteille, accompagnés de leurs parents, suivant Tusage. Et ainsi 
fiuit cette noce patriarcale.» 

Sobre a simulação do rapto nos casamentos populares em Portu- 
gal, vid. Z. Consiglieri Pedroso in Compte rendu de la neuvieme ses- 
nnn dn Congres d'antropoL et d''arclieol. préh., pp. 628 segs. 

Relativamente á cerimonia do cântaro quebrado, vejamos Colocci, 
p. 22Õ-226 : «In Ispagna e in Moldávia (secondo Borrow e Cogal- 
niceano) la cerimonia delle nozze consiste ancora nel rompere clie 
fa la sposa di un vaso di terra davanti aCuomo dei qual è per farsi 
compagna; ed essi son fatti legittimi coningi, come Gringoire ed 
Esmeralda. Ciascuna delle parti raccoglie alcuni frammenti dei vaso 
e li conserva presso di sè con moita cura. La convivenza loro è 
considerata obbligatoria, finchè sussiste presso di essi alcuni di 
quei frammenti. Questi smarriti, per qualunque causa, accidentale 
o voluntária, i coningi divengono perfettamente liberi, nè ponno piu 
rinnovare la loro unione, se non colla rottura d'un secondo vaso, e 
poi d'un terzo, ecc.» 

Essa explicação permitte-nos interpretar a informação incompleta 
reproduzida acima ; todavia o sentido da cerimonia pode ter-se al- 
terado entre os ciganos. 



222 



O Fado da Severa foi colligido em Coimbra pelo sr. 
Theophilo Braga * e começa pelas quadras seguintes : 

Chorae, fadistas, chorae, 
Que uma fadista morreu ; 
Hoje mesmo faz um anno, 
Que a Severa falleceu. 

O Conde de Vimioso 
Um duro golpe soíFreu, 
Quando lhe foram dizer 
A tua Severa morreu. 

Por isso e porque o nome da cigana de Évora não é 
Severa, parece-me que esta seria amante de um conde de 
Vimioso mais antigo que o ultimo, que eu me lembro de 
ter visto tourear na praça do Campo de Sant'Anna, em 
Lisboa. Era considerado nesse tempo como o primeiro 
cavalleiro e negociava em cavallos como os ciganos. 

Os fidalgos foram muito aficionados ás ciganas, e d'ahi 
resultou mais que uma linha de bastardia. Hoje ellas estão 
evidentemente decahidas d'esse antigo favor. 

As ciganas são muito livres de lingua, não se pejando 
de dizerem as maiores obscenidades. Isso, junto com os 
seus modos facilmente provocadores, attrahiu-lhes por vezes 
uma reputação que geralmente não merecem, graças á sua 
obediência aos costumes tradicionaes da raça 2. 

Costumes fúnebres. Segundo uma informação de Pires, 
quando morre um cigano é enterrado pelos da tribu em 
pleno campo e sem mais formalidades, além do grande 



i Cancioneiro popular (Porto, 1867), pp. 140-141. 

2 Sobre as desencontradas opiniões relativamente á prostituição 
ou castidade das tsiganas, vid. Colocci, p. 220-224 e 227. Cf. supra 
p. 192. No que respeita ás gitanas, nesse ponto de vista, vid. Bor- 
row, 1, 323-337 e Mayo, p. 39, que exaggeram sem duvida a virtude 
da gitana e das tsiganas em geral. O ultimo chega a dizer : En 
ningun lupanar de Europa se encuentra una prostituta gitana.» 



223 



choro das mulheres e das creanças. Não mettem na sepul- 
tura nenhuns utensílios ou armas, mas simplesmente o 
corpo. Diversas pessoas diziam que os ciganos enten-a- 
vam a occultas os cadáveres dos adultos, fora de sagrado. 

As creanças (pelo menos algumas) são enterradas nos 
cemitérios christãos. O cadáver ó acompanhado de homens 
e mulheres, soltando estas grandes alaridos. Mas não bai- 
lam nem cantam por essa occasião. 

Nalguns pontos do Alemtejo, segundo outras informa- 
ções, diz-se que se ignora onde os ciganos enterram os ca- 
dáveres dos adultos. Em Cuba pensava-se que oram enter- 
rados nas propriedades de um lavrador rico e titular, 
protector d'elles. 

Segundo uma informação, em tempo um cigano foi em 
Villa- Viçosa fallar ao parocho para lhe enterrar o pae, 
e como o padre lhe pedisse 2j5i400 réis, aquelle cigano 
disse-lhe que vivo não valia o pae esse dinheiro, que não 
dava mais de 500 réis; e como o padre não se quiz satis- 
fazer com tal oíFerta, o cigano marchou de noite com os 
seus, abandonando o cadáver insepulto na casa onde es- 
tavam. 

Os ciganos deitam luto pelos mortos que é de cor preta 
(callardó). 

As viuvas cortam o troço do cabello e não o deixam 
crescer emquanto viuvas, usando então de lenço amarrado 
á cabeça. 

Relações com os tsiganos dos outros países. Os ciganos 
acham-se muitas vezes em contacto com os gitanos, quer 
sejam elles que atravessem a fronteira para irem a His- 
panha, quer sejam os gitanos que venham a Portugal. Já 
vimos que vinham alguns dos últimos á feira de Évora. 
Nas terras portuguesas próximas da fronteira são vistos 
muitas vezes; parece que se entendem bem com os ci- 
ganos. 

Portugal é por vezes percorrido por bandos de tsiganos 
d'além dos Pyrineus, principalmente por tsiganos caldei- 



224 



reiros da Hungria e tsiganos conductores de ursos e ma- 
cacos da Bucovina, os quaes, sem duvida, tem contacto 
com os ciganos; todavia parece que as relações não são 
muito intimas, para que se produza entre elles qualquer 
influencia nos costumes, lingua, etc. 

Informa-me o meu amigo sr. Augusto Neuparlh de que 
em Santa Combadão, estação do caminho de ferro da 
Beira-Alta, está estabelecido um individuo chamado José 
Duarte, que apresenta typo tsigano, mais fino que o dos 
ciganos, e a quem chamam o húngaro. Tem uma taberna 
e trens de aluguer. E, ao que parece, um tsigano húngaro 
ou filho de tsiganos húngaros a quem o país agradou. 
Duarte é casado com uma portuguesa. 

Nestes últimos annos vieram até ás proximidades de 
Lisboa dois bandos de tsiganos húngaros, parte dos quaes 
entraram varias vezes na cidade. Infelizmente foi-me im- 
possível então ir examiná-los de perto. 

Reproduzo uma noticia acerca de um d'esses bandos, 
visto ha annos em Elvas. 

«Acamparam ha dias no rocio da Fonte Nova e levan- 
taram hontem, quinta-feira, pelas 3 horas da tarde, suas 
tendas, uma caravana de ciganos húngaros que se com- 
punha de uns 50 entre mulheres e creanças. Armaram as 
tendas, servindo-se, como é de uso entre elles, de seus 
carromatos, toldos, etc. 

«Exerciam o mister de caldeireiros e com tal proficiência 
que deixaram pasmados os artistas nopolitanos de egual 
profissão, estabelecidos nesta cidade. 

«Levantaram o campo em consequência de cento e tantos 
mil réis que a alfandega lhes exigia como fiança a 17 ca- 
vallos que traziam e puxavam os carros. 

«O aspecto d' esta gente é hediondo : tez morena e afeiada 
pela habitual falta de limpeza, e barba longa e esquálida, 
cabellos compridos e immundos, o corpo mal coberto de 
farrapos e esses sórdidos e fétidos. Entre a caravana vinham 
dois duques, miseráveis como os restantes ; apenas os dis- 
tinguiam os bastões com ponteira e maceta de metal branco. 



225 



e uns botões no collete do mesmo metal, em forma e ta- 
manho de um ovo de gallinha. As mulheres não sabemos 
se usavam arrecadas, porque tinham a cabeça atada com 
farrapos, mas viam-se-lhes ao pescoço collares de preço e 
contas de oiro, e algumas usavam de botas encarnadas. 

«As creanças usavam igualmente botas até ao joelho, mas 
pretas, e quasi todas fumavam de cachimbo. Havia algu- 
mas com feições regularissimas, e os olhos de todas, ne- 
gros e rasgados, faiscavam de brilhantes. 

«Apesar de sabermos que a caravana trazia objectos pre- 
ciosos de prata e oiro, quando algum estranho se appro- 
ximava, as creanças acercavam- se e, beijando-lhe as mãos, 
pés, etc, pediam-lhe de mãos postas alguns francos. 

«Quando fizemos visita ao campo, tivemos occasião de 
ver como esta gente se alimenta: couve verde fervida 
simplesmente em agua, nabos crus salgados, sardinha feita 
em pedaços com as mãos e lançada numa certa de ferro 
immunda, e, mal cozida, tirada d'alli com as mãos e comida 
com uma voracidade canina. 

«Soubemos agora por uns amigos que chegaram de Bada- 
joz, que se acha alli acampada (a caravana) ás margens do 
Guadiana. Como em Elvas, é alli a spectactio gentium. E a 
caravana não pasma de curiosidade, antes se ri surrateira 
ou se torna indifferente ! » * 

Em maio de 1883 viu Thomaz Pires na alameda de 
Borba, á entrada da villa, uma caravana de ciganos hún- 
garos, que tinham armado alli três grandes barracas. Os 
rapazes saíram á estrada a pedir esmola. Dois d'esses 
ciganos disseram que eram caldeireiros, traziam objectos 
para vender e concertavam os que lhes confiassem. Vinham 
da Hispanha e dirigiam-se a Évora. Queixavam-se de ter 
feito pouco negocio em Portugal e tencionavam voltar para 
Hispanha, se não fossem mais felizes em Évora. Diziam-se 



1 A Democracia pacifica, 22 de outubro de 1869. Elvas, iii anno, 
127. 



15 



226 



natiiraes da Hungria. Traziam cavallos só para seu serviço, 
pois não faziam negocio de gado. Fallavam, diziam, uma 
lingua especial, que não era a dos ciganos hispanhoes. Não 
gostavam de ser comparados com estes. Os dois fallavam 
perfeitamente hispanhol e eram muito attenciosos e sym- 
pathicos. O typo era mais fino, como já foi referido, que o 
dos ciganos alemtejanos ; usavam o cabello muito comprido. 
O seu vestuário era como o da caravana descripta no artigo 
anteriormente transcripto. 

Os ciganos a que se refere esse artigo pediam que, 
nas transacções feitas com elles, lhes pagassem em pintos 
(moeda portuguesa de 480 réis, hoje fora do curso legal). 
Parecia que conheciam bem essa moeda. 

Pires encontrou mais tarde, como já vimos, um cigano 
alemtejano que lhe affirmou que os ciganos húngaros fal- 
lavam o rumanho, como elle. Talvez esses tsiganos fallas- 
sem o hispanhol misturado com termos da sua lingua e 
ainda com termos gitanos, dando assim ao cigano alemte- 
jano a impressão de que fallavam a hnguagem peculiar 
deste, que não poderia entender o dialecto tsigano húngaro, 
com a sua grammatica distincta. 

Estatística. E impossível saber, sequer approximativa- 
mente, qual o numero de ciganos que ha em Portugal ou 
em qualquer das suas províncias. 

No Alemtejo ha quem calcule existirem ali 2:000 a 3:000. 
O informador de Barbacena, assim como o sr. Gabriel 
Pereira, acham muito exaggerado esse numero, concor- 
dando ambos em que naquella província não haverá mais 
ou muito mais de 400 a 500. O segundo informador ba- 
seia-se na estimativa a olho (sem contar) dos que concor- 
rem á feira de S. João em Évora, onde como se disse já, 
se julga reunírem-se todos os ciganos alemtejanos, ainda 
com alguns de outras províncias. 

Pires diz que á feira de Villa Viçosa de 30 de maio de 
1883 concorreram mais de 500 ciganos alemtejanos, ho- 
mens, mulheres e creanças. 



227 



A uma feira das Caldas da Rainha ha quatro ou cinco 
annos não concorreram mais de 50 da Extremadura; to- 
davia informam-me de que á feira annual de Sacavém, 
perto de Lisboa vêem muitos centos d'elles. Nesta pro- 
víncia, diz-se, também deve haver alguns milhares de ciga- 
nos. Esses doisultimos cômputos são talvez exaggerados. 

Conclusão. Os factos glottologicos, a historia e os cos- 
tumes mostram que os ciganos de Portugal não se distin- 
guem por nenhuma particularidade importante dos gitanos 
de Hispanha, abstrahindo das diíFerenças resultantes de 
influencias locaes, que principalmente se fazem sentir nos 
gitanos andaluzes. 



APPENDICE I 
DOCUMENTOS 



Não me foi possível encontrar as integras dalguns docu- 
mentos dados em extracto, nem os originaes -ou copias 
coevas d'outros reproduzidos de collecções impressas, por 
faltarem os respectivos registos ou diplomas no Archivo 
Nacional. 

Devo a copia dos documentos n.°^ 5 e 6 ao sr. P. Bar- 
tholomeu de Azevedo. 

O sr. António Francisco Barata, da Bibliotheca publica 
de Évora, communica-me o seguinte : 

«Existem na Camará (de Évora) documentos acerca de 
ciganos desde 1549, nos Livros dos originaes a fl. 137 
do II ; fl. 28Õ do xii; fl. 315 do vi; fl. 314 do Livro de 
José Lopes de Mira e a fl. 100 v., fl. 174 v., 175 e 176 
do Livro VI de Registo^ com datas de 8 de outubro de 
1549; 17 de agosto de 1557; 16 de setembro de 1566; 
20 de maio de 1587; 15 de julho de 1686; 15 de maio 
do 1694 (diversos); 22 de maio de 1694 e 23 de janeiro 
do 1699. 

«Tratam da expulsão dos ciganos estranjeiros e da prolii- 
bição aos nacionaes de trajarem a seu uso e de nao traba- 
lharem; ordenam que os façam trabalhar e aprender ofíi- 
cios. Citam o art.24.'' das cortes de Évora de 1535, fei- 
tas por D. João III. D 



230 

Lzo a orthograph 
encontram 



Reproduzo a orthographia dos documentos consoante se 
eucontram nos originaes, registos ou collecções impressas, 
resolvendo em geral as abreviaturas; introduzo todavia 
alguns signaes de pontuação e faço algumas correcções. 



1526 

«Alvará de 13 de Março de 1526, para que não entrem Ciganos 
no Reino, e se saião os que nelle estiverem ; e diz quasi o mesmo 
que a lei 24. das chamadas das Cortes, e de 26 de Novembro de 1538, 
e a Ord. nov. (philippina), liv. v. tit. 69. no pr.». 

[José Anastácio de Figueiredo, Synopsis chronologica. Lisboa, 1790, i, 321, que cita 
o Liv. roxo ou 3. da Supplicaçâo, fl. 244.] 



1638 

No volume intitulado Capítulos de cortes e leys que se sobre alguns 
delles fezeram. Com priuilegio real. (74 foi. ; tem no fim : Fora impres- 
sos estes Capitolos e leys per mandado dei rey nosso senhor na ci- 
dade de Lixboa : per Germã Galharde empremidor. E acabara se aos 
iij dias do mes de Março. Anno de M. D. xxxix.), do qual tive pre- 
sente um bello exemplar em pergaminho do Archivo Nacional, 
acham-se; «Capitolos geraes: que foram apresentados a el Rey dô 
Johã : nosso senhor terceiro deste nome : xv Rey de Portugal ; nas 
cortes de Torres nouas : do anno de mil e quinhetos e vinte e cinco. 
E nas Deuora : do anno de mil e quinhetos e trinta e cinco : com 
suas respostas. E leys que ho dito senhor fez sobre alguns dos ditos 
capitolos. As quaes fora publicadas na Cidade de Lixboa : no ano 
XVII. de seu Reynado : e xxxvii de sua idade : xxix dias do mes de 
Nouembro. Anno do nacimcto de nosso senhor Jesu christo. De mil 
c quinhetos e trinta e oyto anos» e entre eles se lê a foi. xxxvi: 

Capitolo CXXXVIII 

«Item, senhor, pedem a vossa alteza aja por bem que nunca em 
tempo alguu entre ciganos em vossos reynos; porque delles nâo 
resulta outro proueito se não niuytos furtos que fazem: e muytas 
feytyçarias que finge saber: em que o pouo recebe muyta perda e 
fadiga.» 



231 



Reposta 

«Ey por bera que nâo entrem ciganos em meus reynos daqui por 
diante como neste capitolo me pedis e disso farey ley.w 
E a foi. Lxvii : 

Ley XXIllI. Que os ciganos não entrem no rei/no. 

«Vendo eu o prejuízo que se segue de virem a meus reynos e se- 
nhorios ciganos: e neles andarem vagando pelos furtos e outros 
malefícios que cometem e fazem em muyto dano dos moradores de 
meus reynos e senhorios. Mando que daqui em diante nenhuns ci- 
ganos assi homês como molheres entrem em meus reynos e senho- 
rios : e entrando sejam presos e pubricamète açoutados com baraço e 
pregam : e despoys de feita nelles a dita execuçam lhe será assinado 
termo conveniente em que se sayâ dos ditos reynos e senhorios. E 
se despoys de passado o dito termo for mais achada algua das ditas 
pessoas por não se^ sayr dentro no dito termo ; ou posto que se saisse 
tornar outra vez a entrar nos ditos reynos e senhorios : será outra 
vez açoutado pubricamente com baraço e pregam : e perdera todo 
o mouel que teucr e lhe for achado : a metade pêra quem o accu- 
sar: e a outra metade pêra a misericórdia do lugar onde for preso. 
O que auera lugar assi nos ciganos como em quaesquer outras pes- 
soas de qualquer naçam que forem que andarem como ciganos : posto 
que ho nâo sejam. Porem sendo alguu natural de meus reynos não 
será lançado fora delles : e será degradado dous annos pêra cada 
huu dos lugares dafrica: alem das sobreditas penas.» 



1557 

«Lei de 17 de Agosto de 1557, que não entrem os Ciganos nestes 
Reinos, em que alem do que he mandado no Cap. 138. das Cortes de 
1525, e 1535, se accrescentão as penas até galés, a cuja execução se 
procederá, como for de justiça, dando appellação, e aggravo.» 

[Figueiredo, Synopsis chronologica , il, 22.] 



3Sr-<^ -3= 

1573 

«Alvará de 14 de Março de 1573, publicado na Chancellaria mor 
em Évora a 28 do mesmo mes e anno. . .>> (Vid. o alvará de 11 de 
abril de 1579, abaixo reproduzido doe. n.** 6). 



232 



«Na Apostilla de 15 de Abril do mesmo anno se declarou, que 
como nas mulheres não podia ter lugar a pena das galés, ficassem 
sugeitas ás penas da dita Lei 24. das (chamadas das) Cortes ; e que 
tanto estas, como as mais impostas aos Ciganos fossem executadas 
pelos Corregedores e Juizes de Fora dos Lugares, e Comarcas, onde 
fossem achados sem appellação nem aggravo, e pelos Ouvidores nas 
Terras, onde nào entrão os Corregedores por via de Correição.» 

[Figueiredo, Synopsis chronologica, ii, 168-1C9.] 



1574 

Dom sebastiam etc. faço saber que Johão de torres, çiguano preso 
no lymoeyro, me êujou diser per sua petição que estamdo na villa 
de momtalluão morador e jmdo e vjmdo a castella fora preso he acu- 
sado pela justiça, dinzemdo que semdo ley deste Reyno que toda gera- 
ção de çiguanos não vjuesem neste Eeyno e delle se sahysem em certo 
tempo e por elle não ser sabedor da tall ley por jr he vyr ha cas- 
tella, fora preso he acusado pela justiça, elle he sua molher amgy- 
lyna e condenado per sentença da mor allçada, elle em çimquo anos 
de degredo pêra as gualles e açoutados publicamente, cO baraço e 
preguão, e a dita sua molher se sahyrya do Reyno em dez dias, 
visto como se não mostraua certjdão de quamdo hally fora pobrj- 
cada em momtalluão, homde forão presos, como todo se mostraua da 
sentença que oferecia, he por que dos haçoutes, baraço he preguão 
hera feita execuçam e a dita sua molher hera fora do Reyno e elle 
ser presente, estaua no lymoeiro, homde perecia ha mjmgoa, e hera 
fraquo he quebrado, e não hera pêra serujr em cousa de mar e muito 
pobre, que ^âo tjnha nada de seu, me pedya que ouuese por bem 
que se sahyse loguo do Reyno ou que fose pêra o brasyll pêra sempre 
e podese leuar sua molher avemdo respeito a pena que já tinha 
Recebyda etc. ; e eu vemdo o que me asy dise he pedir emvyou, que- 
remdo lhe fazer mercê visto hu parece com o meu pase (?), ey por bem 
e me praz se assy he como dis, de lhe cumutar os cimquo anos em 
que foy condenado pêra as gualles, pelo caso de que faz menção, 
visto ho que halegua e declara, em outros cimquo anos pêra o bra- 
syll, homde leuara sua molher e filhos, visto outrosy como he feyta 
execuçam dos haçoutes ; por tamto vos mando etc. na forma dada em 
allmeyrim a vij dias dabrill. el Rey noso snr ho mamdou pelos dou- 
tores paullo affonso e amtonjo vaaz castello etc. dioguo fernandez a 
fez, ano do naçimento de noso snr Jhu xpo de m v*' Ixxiiij" anos. 
Roque vieira a fez escreuer. 

[Archivo Nacional, Liv. 16 de Legitim. D. Seh. c D. Jleiír., fl. 189.] 



233 

3sr.^ e 

1579 

Alluara sobre os ciganos 

Eu el Rej faço saber aos que este alluara uire [que hoj que cl Rey 
meu sobrinho que deus tem pasou hua proujsão feita a catorze dias 
do mez de março do ano de v^ setêta e três, da que o terllado lie o 
seguinte. Eu el Rey faço saber que eu são jnformado que, posto que 
polia ley vinte e quatro dos capitólios das cortes que se fezerão no 
ano de trjnta e ojto e pello capitólio vinte e cinquo do Regimento 
que mandey dar aos presjdentes das allça das que forâo visitar meus 
Rejuos, está bastantemente proujdo pêra que hos ciganos, nc has 
pessoas que amdão ê sua companhia amdem, ne estem nos lugares 
dos ditos meus Rej nos, os ditos ciganos e pessoas não deixão por jsso 
de estar e andar nelles e fazer muitos fui tos e outros insultos e del- 
litos de que ho pouo Recebe grande opressão, perda e trabalho. E 
querendo nisso prouer ey por bem e mando que e todos hos lugares 
de meus Reynos se lancem loguo pregões pubricos, nas praças e 
lugares acostumados, que os ciganos e ciganas e quaes quer outras 
pessoas que em sua companhia andare se sayão dos ditos meus Rey- 
nos dentro de trjnta dias, que começarão do dia e que se derê os 
taes pregoes, se embarguo de allgus delles tere proujsões dei Rej 
meu senhor e avo, que santa gloria aja, ou minhas pêra podere estar 
nestes Rejnos, e acabados os ditos trjnta dias qualquer cigano que 
for achado nos ditos meus Reynos por esse mesmo feito será loguo 
preso e açoutado publicamente no lugar omde for achado e degra- 
dado pêra sempre pêra as gallees posto que tenha proujsão do dito 
senhor Rej meu avo ou minha pêra poder estar ou andar nestes 
Rejnos, como acjma he dito; e mando a todos meus desembargado- 
res, corregedores, ouujdores, juizes de fora e ordjnarios e quaes- 
qucr outras justiças, hofficiaes e pessoas dos djtos meus Rejnos que 
cada hu e sua jurdiçam cumprão, guardem e façam asj jnteiramente 
comprir e guardar semdo os ditos corregedores, ouujdores, juizes de 
fora, certos que se ha de preguntar por este caso e suas Resjdencias, 
e que achandose que não teuerã diso o cujdado que deujão se ha 
de proceder cõtra elles como ouuer por meu seruiço ; e asj mando 
ao chanceler mor que pobrique esta proujsão na chancelaria e euie 
loguo cartas c5 ho treslado delia sob meu sello e seu sjnal aos ditos 
corregedores e asj aos ouujdores das terras e que elles não estão per 
uia de coreiçam ; aos quaes corregedores e ouujdores mando que ha 
pobríquem loguo nos luguares homde estjuere e façao pobricar e 
todos os outros lugares de suas comarquas e ouujdorias e Registar 
nos liuros das camarás delles pêra que a todos seja notório c se 



234 



cumpra e de jnteiramente ha execuçam como nella se cothem ; e esta 
se Registara no Livro da mesa do despacho dos meus desembargos 
do paço e no das Rellaçõis das casas de suplicação e do çiuel e que 
se Registarão as semelhantes proujsões \ e ey por bem que valha e 
tenha força e vigore como se fose carta feita e meu nome por mj 
asjnada e passada por minha chancelaria, sê embargo da ordenaçam 
do segundo livro, titulo xx, que diz que has cousas cujo efeito ouuer 
de durar mais de hú ano passem per cartas e passando per alluaras 
não ualhão. Gaspar de sousa a fiz em Évora a xiiij" de março de 
mv*^lxxiij. Jorge da costa a fiz escreuer. E ora ey per bem e mando 
que ha proujsão do dito senhor Rej meu sobrinho, que deus tem, acima 
tresladada se cumpra e guarde jnteiramente como se nella conthem, 
com tal declaraçam que hos ciganos que teuere leçemças dei Rej 
do João, meu jrmão, que samta gloria aja, e do dito Rey meu sobri- 
nho, as examine perante hu dos Corregedores de minha corte dos 
feitos ciuis, o qual se jnformara de como uiuê e de que mesteres usão 
e se sam casados e o modo e meneo de suas vjdas e costumes e pa- 
recêdo lhe que uiuê bem e que trabalhão e não são prejudiciais, lhe 
poderã dar licença, não permitindo que uiuão juntamente c hum 
bairro, senão ê bairros apartados, e que amdem vestidos ao modo 
português, e mando ao meu chanceler mor que pobrique este alluara 
na chancelaria e êuie o trelado delle sob meu sello e seu sinal aos 
corregedores e ouuj dores das comarquas de meus Rej nos, aos quais 
corregedores e ouujdores mando que ho pobriquem nosloguares omde 
estiuerê e o façâo pobricar ê todos os lugares de suas comarquas e 
ouuidorias, para que a todos seja notório, e este se Registara na 
mesa do despacho dos meus desembargadores do paço e nos livros 
das Rellações das casas de suplieaçam e do ciuel ê que se Regista- 
rão as semelhantes proujsões. pedro de sousa ha fiz e Lixboa a xi 
dabril de mv'' setenta e noue. Johào de sousa o fiz escreuer. 

[Archivo Nacional, Liv. 1." de Leis, fl. 57 v."] 



1592 



«fLei de 28 de Agosto de 1592, em que se exasperão mais as pe- 
nas contra os Ciganos, que dentro de quatro meses não sahissem de 
Portugal, ou se não avizinhassem nos Lugares sem andarem vaga- 
bundos, não podendo andar, nem estar, ou viver mais em ranchos, 
ou Quadrilhas ; tudo sob pena de morte natural, que se faria execu- 
tar, fazendo-os para isso prender os Ministros das terras, e proce- 
dendo contra elles até á execução sem appellação, nem aggravo.» 

[Figueiredo, Synopsis chronologiea, ii, 261.] 



235 

jsr-° 8 

1597 

«Aos dezasete dias do mes de junho (de mil e quinhemtos no- 
uemta e sete annos) fiserâ Camará de veraçâ os sennòres Juiz e 
Veradores e procurador do concelho abaixo asinados. eu João Sir- 
ueira que ho escreui. 

Llogo nesta Camará pello Juiz e Veradores e procurador do con- 
celho foi acordado que comvinha ao bem pubrico e quietaçã desta 
cidade nã se comsemtirem nella os siganos que os dias pasados se 
viera avisinar com precatório do corregedor do crime da Sidade de 
Lisboa, por quanto desdo dito tempo pêra ca se tinha feito muitos 
furtos de bestas e outras coizas e amdaua a gente da sidade ta es- 
camdalizada que se temia hu mutim comtra elles, maiormente depois 
que ouve algfís furtos que conhesidamente se soube serem feitos per 
elles; posto que as testemunhas nã sabem expesificaidamente quais 
dos ditos siganos o fizesse (sic) ; e alem diso por esta cidade ser de 
gemte belicoza e da raia e acim de comtino acomtesera muitos cri- 
mes de diverças maneiras, os quais se emcobrem dibaicho desta 
capa de diserem que os fiserâ os siganos, pello que detreminarã que 
fossem noteficados que demtro era três dias se saicem desta cidade 
e seu termo para o que se lhe pasaria carta pêra lugar serto, que- 
remdoa, e semdo achados pasado o dito termo se prosedera comtra 
elles com todo o rigor ; e de tudo mandara fazer este termo que to- 
dos asinarâ. eu João Sirueira que ho escreui, e amtes de se asinar o 
dito termo mandara requado ao sor amdre gomçalvez de Carnide 
Corregedor desta Comarca para lhe darem comta deste negosio am- 
tes de se dar execuçã o qual dise que dipois de pasada a liei nas 
partes omde resedira nunqua comsemtira avesinarem-se siganos 
dipois de serem escolhidos lugares na forma da lei e que lhe pare- 
sia muito bem nã se ametirem os ditos siganos nesta cidade pellos 
gramdes emcomvenientes que quada dia pode soseder por ser terá 
belicoza e da raia; por lhe asim pareser se asinaram todos, eu João 
Sirueira que ho escreui. 

(a) Siqr.^ Carnjde. N." de Carualjall. Joam -f- Soarez. Luiz Ferz. 

Por aqui ouuerão a Camará de Verasã por feita c acabada e se 
asinaram. eu João Sirueira que ho escreui. (a) Siqr." N.*» de Car- 
ualjall. Joam -f- Soarez.» 

[Livro das vereações da Camará Municipal de Elvas, do anno de 1597, fl. 54 a 55. 
Archivo da Gamara de Elvas, armário n." 21, maço n." 1.] 



236 

1597 

«Aos três dias do mes de junho de mil e quinhemtos e novemta 
e sete anos fiserã Camará deureaçâo os sennõres Juiz e Veredores 
e procurador do Concelho e se asinarã. eu João Sirueira que ho 
escreui. 

llogo nesta Camará foi praticado dos muitos furtus que os siga- 
nos fazia nesta cidade e mandara os sennõres Veradores e procura- 
dor do concelho apregoar que todo o sigano, tirado dois que esta 
avesinhados nesta cidade, que fosem achados nesta cidade e seu 
termo que fosem presos e que se prosederá comtra elles eomforme 
a liei ; oje três de iunho de mil e quinhemto e novemta e sete anos. 
eu João Sirueira que ho escreui (a) J. alluez de Lemos. N." de Car- 
ualjall. Luís Ferz. 

por aqui ouverã a Camará de uerasã por feita e acabada e se asi- 
narao. eu João Sirueira que ho escreui. 

(a) N<' de Carualjall. J. alluez de Lemos. Joam -j- Soarez. Luis 
Ferz.« 

[Livro doa vereações da Camará Municipal de Elvas, do anuo de 1597, fl. 50. Ar- 
chivo da Camará de Elvas, armário n." 21, maço n," 1.] 



IT.^ IO 
1603 

Mandamos, que os ciganos, assi homens, como mulheres, nem ou- 
tras pessoas, de qualquer Nação que sejaõ, que com elles andarem, 
não entrem em nossos Reinos e Senhorios. E entrando, sejaõ presos 
e açoutados com baraço e pregão. E feita nelles a dita execução, 
lhes seja assinado termo conveniente, em que se saiaõ fora delles. 
E naõ se saindo dentro do dito termo, ou tornando outra vez entrar 
nelles, sejam outra vez açoutados, e percaõ o movei, que tiverem, 
e lhes for achado, ametade para quem os accusar, e a outra para a 
Misericórdia do lugar, onde forem presos ; e sendo algumas da ditas 
pessoas, que com os Ciganos andarem, naturaes destes Reinos, naõ 
seraõ lançados delles, mas seraõ além das sobreditas penas degra- 
dados dous annos para Africa. 

[Ordenações philipinas, liv. v, tit. 69. Que naõ entrem no Reino Ciganos, Arménios, 
Arábios, Persas, nem Mouriscos de Granada. 

As Ordenações philippinas foram concluídas cm 1595 e publicadas em 1603, data que 
foi posta no alto do extracto.] 



237 

lísT.^ 11 

1606 

Alvará de 7 de janeiro de 1606, reproduzido na lei de 13 de se- 
tembro de 1613, em seguimento impressa. 



IsT-^ 1Í3 
1613 

Dom Philippe per graça de Deos, Rey de Portugal, e dos Algar- 
ues, d'aquem e d'alem Mar em Africa, Senhor de Guiné, e da con- 
quista, nauegação, comercio de Ethiopia, Arábia, Pérsia, e da ín- 
dia, etc. Faço saber aos que esta minha Ley virem, que cu mandei 
passar hum Aluará feito em sete de laneiro de mil seiscentos e seis, 
sobre os ciganos, que fossem achados neste Reyno vagando em qua- 
drilhas, e nelle residissem, do qual o treslado he o seguinte. 

Ev El Rey faço saber aos que este Aluará virem, que eu sou in- 
formado, que a Ley que fiz sobre os ciganos declarada na Ordena- 
ção do liuro 5 titulo 69 imprincipio, se não cumpre, e contra forma 
delia os Corregedores do crime desta cidade de Lisboa, e outros 
julgadores lhes passâo cartas de vizinhança, e os fauorecem per ou- 
tros modos, que não cõuem : e porque também tiue informação, que 
as Ordenações, que tratão dos ditos ciganos se não guardão tão in- 
teiramente, nem as penas que nellas se declarâo são bastantes para 
elles se sahirem fora do Reyno, antes continuao em roubos, e danos, 
que fazem a meus vassallos com geral escândalo, sendo tudo em 
grande perjuizo seu, e dano do Reyno, queredo nisso prouer. Ey 
por bem, que todos os ditos julgadores tenhão grande vigilância em 
comprir inteiramente a dita Ordenação do livro 5. e não passem as 
ditas cartas de vizinhãça, nem vsem de outros modos : e fazendo o 
contrario se lhes dará em culpa, e eu mandarey perguntar por isso 
nas residências. E assi ey por bem, que posto que pellas ditas Or- 
denações senão dee aos ditos ciganos mais penas que açoutes pella 
primeira vez que forem achados sejão degradados alem da dita pena, 
em três annos para galés, e pella segunda vez sejão outra vez açou- 
tados, e nas mais penas das ditas Ordenações, e no dito degredo de 
galés em dobro : e pella terceira vez serão açoutados, e encorrerão 
mais nas ditas penas, e em dez annos para galés : e em todas estas 
penas os poderão condenar os Corregedores, e Ouuidores das comar- 
cas, e os Ouuidores das terras dos donatários em que elles não en- 
trão per via de correição : e as justiças lhes darão tepo conueniente 
(que não passará de hum mes) para que se sayão do Reyno : e pas- 



238 



sado o dito termo tornando a entrar no Reyno se fará nelles a exe- 
cução pellas ditas penas na forma deste Aluara. E por quanto a 
dita execução lie de grande importância, para bem, e quietação 
de meus vassallos, e do Reyno. Mando aos ditos julgadores e justi- 
ças, que assi o cumprão, e facão em todo cumprir : e ao Chãceller 
mor, que o publique na Chancellaria, e para vir a noticia de todos 
enuie logo cartas cõ o treslado delle sob meu sello e seu sinal aos 
Corregedores e Ouuidores das comarcas: e assi aos Ouuidores das 
terras em que os ditos Corregedores não entrão per via de correi- 
ção. Aos quaes mãdo que logo o publiquem nas cabeças das cor- 
reições : e este Aluara será registado nos liuros da Mesa do Desem- 
bargo do Paço, e das casas da Supplicação, e do Porto : e quero que 
valha, tenha força e vigor, como se fosse carta começada em meu 
nome por mi assinada, e asellada com o meu sello pendente, sem 
embargo da Ordenação do liuro 2. titul. 40. em cõtrario. Pêro de 
Seixas o fez em Lisboa a sete de laneiro de mil seiscentos e seis. 
E porque sou informado, que o dito Aluará se não cumpre e exe- 
cuta, e que andão muitos ciganos por este Reyno vagando em qua- 
drilhas cometedo muitos excessos e desordes, e quão perjudiciaes 
são, aos que viuem e residem nas cidades, villas e lugares delle : e 
querendo prouer de maneira, que de todo os não aja, ne residão 
neste Reyno. Ey por bem, e mãdo per esta Ley que o Aluara nesta 
incorporado se cumpra e execute com todo o rigor delle, sem demi- 
nuição das penas que nelle se declarão. E mando aos Corregedores 
do crime em minha Corte, e casa da Supplicação, e aos Corregedo- 
res do crime desta cidade de Lisboa, e aos das comarcas deste 
Reyno, e aos Ouuidores dos mestrados, e aos das terras dos dona- 
tários, em que os Corregedores não podem entrar per correição. E 
a todos os juizes de fora, que tanto que esta Ley chegar a sua noti- 
cia a facão logo publicar em todos os lugares de suas jurisdições, 
limitando aos ciganos, que neste Reyno residem assi homes, como 
molheres, que dêtro em quinze dias depois de esta publicada se 
sayão deste Reyno sem embargo de quaesquer liceças, que tenhão 
para nelle residirem, posto que sejão por mi assinadas, ou que lhes 
fossem passadas cartas de vizinhança: as quaes todas annullo, e as 
ey por de nenhum effecto. E passado o dito termo de quinze dias 
se executará em quaesquer ciganos, que forem achados a pena de 
açoutes e galés, pella maneira que no dito Aluará se declara : e nas 
molheres a pena de açoutes somête. E mando ao Doctor Damiam 
d'Aguiar do meu conselho Chanceller mòr destes Reynos, que faça 
publicar esta Ley em minha Chancellaria, e énuiará logo o treslado 
delia sob meu sello, e seu sinal, a todos os Corregedores, Ouuidores 
dos mestrados : e aos dos Donatários das terras em que os Correge- 
dores não entrão per correição para a fazerem logo publicar nos lu- 
gares públicos de suas camarcas e jurisdições, e se executar como 



239 



nella se contem : sendo certos os ditos Corregedores, Ouuidores. e 
mais justiças a que a execução, e comprimento desta Ley pertencer, 
que se à de perguntar em suas residências se a cumprirão, e execu- 
tarão, como nelle se declara, e que achandose, que se descuidarão 
na execução delia, alem de me auer d'elles por mal seruido, man- 
darei proceder contra elles com todo o rigor: e esta Ley se regis- 
tará no lluro do registo da Mesa dos meus Desembargadores do 
Paço, e nos das casas da Supplicação, e Relação do Porto, e a pró- 
pria se lançara na Torre do Tombo. Dada nesta cidade de Lisboa, 
aos treze dias do mes de Septebro. Francisco Ferreira a fez. Anno 
do Nascimento do Senhor lesu Christo de mil seiscentos e treze, 
loão Pereira de Castelbranco a fez escreuer. = REY. = Damiam 
d^ Aguiar. 

Foy publicada na Chancellaria a Ley delRey N. Senhor atras es- 
crita por mi Miguel Maldonado, que ora siruo de escriuão da dita 
Chãcellaria, perãte os officiaes delia, e de outra muyta gente que 
vinha requerer seu despacho. Em Lisboa, a 10. de Ouctubro de 1G13 
Annos. = Miguel Maldonado. 

Taxada a oyto reis. 

[Reproduzido de uma folha impressa avulsa no Correio Elvense, atin. i, n." 4 1, 9 de 
março de 1890. Nas Ordenações e lei/s, confirmadas e estabelecidas pelo Senhor D. João IV. 
Lisboa, 1747. iii, 166-168. Collecção chronologica de leis extravagantes. Coimbra, 1819. 
I, 62-^. 217-218.] 



1^-° 13 

1614 

Carta regia de 3 de dezembro de 1014, sobre um requerimento 
de G. Fernandes, C. Cortez e outros ciganos que pretendiam se dis- 
pensasse com elles a lei pela qual se mandavam sair do reino; 
«porque importa que ella se guarde cumpridamente, se excusará a 
sua petição.» 

[G. Pereira de Castro, De manu regia (Ludguni, 1673), i, 10. João Pedro Ribeiro, 
índice chronolngico remissivo da legislação portuguesa i', 41. J. J. de Andrade e Silva, 
Collecção chronologica da legislação portugueza (Lisboa 1854 e segs.), t. ii, p. 105-106. 
O doe. achava-se no Liv. iv do Desembargo do Paço.] 



3sr.° 14 

1639 

• Capitulo de huma Carta regia de 30 de Junho de 1639, man- 
dando condemnar para Galés os Ciganos, que se acharem, dando-se- 
Ihe conta dos que já estavão nellas, e dos que se achavâo presos. 



240 



Participada em portaria da princeza Margarida de 8 de Agosto do 
mesmo armo, para execução d'essa carta, devendo estar chusmadas 
as Galés até 17 d'este mez, e declarando que a qualidade de Cigano 
não he de natureza; mas do seu modo de vida, quanto a se con- 
demnarèm, segundo a Lei do Reino.» 

(J. P. Ribeiro, índice chrpnologico ij*, 360-361 j do Liv. ix da Supplicação, fl. 249.] 



1646 

Senhor : — Vi o Alvará da Suplicante, que me deixou em grande 
admiração; porque nelle, (que he assinado pela mam de V. Mages- 
tade), se relata, que Jerónimo da Costa, seu Marido, sérvio a V. Ma- 
gestade três annos contínuos nas Fronteiras do Alemtejo, com suas 
armas, e cavallo, tudo á sua custa, sem levar soldo algum, franca, 
e fidalgamente : e relata-se mais em nome de V. Magestade, o valor 
e esforso, com que em o dito tempo se houve, relatando suas proezas, 
até que na Batalha do Campo de Montijo foi morto com muitas fe- 
ridas, pelejando sempre mui esforçadamente. E quando eu estava 
com alvoroço para ler o grande premio e remuneração, que tiverào 
estes serviços, em sua mulher e filhos, senão quando eu leio, que se 
lhe faz mercê, que sejão havidos por naturaes do Reino, e que o filho 
macho, herdeiro dos serviços, e grandeza do animo de seu Pay em 
despender a fazenda, sangue, e vida pela sua terra, sem ser sua 
Pátria, o pozessem a um oíficio macanico. Ao officio macanico man- 
dara eu por o Ministro que tal Despacho deu e sem V. Magestade 
o ver despachos com tão humildes espirites. Mande V. Ma- 
gestade recolher este Alvará, ou tirar delle a narração de serviços, 
valor, e espirites generosos deste homem, e proezas, e morte hon- 
rroza, que nelle se relatão ; porque se sérvio três annos contínuos 
com suas armas e cavalo á sua custa, sendo um pobre Sigano ; 
porque lhe não hade V. Magestade pagar seus soldos devidos a sua 
mulher e filhos? E mande V. Magestade passar- lhe Alvará de natural 
e Cavaleiro Fidalgo, que he o menos Foro, que merece, e que nunca 
tenha, nem seus descendentes officio macanico, e sirvão sempre na 
guerra e milicia nos postos de Soldados e Presidies : E que se não 
leia, que em Alvará de Y. Magestade filho de tal homem o pozerâo 
a officio macanico, por lhe não pagar seus soldos de hum esforçado 
Cavaleiro, que com seu cavallo e armas à sua custa, sem soldo, sérvio 
valerozamente no Campo, athe deixar a vida, aonde tantos infame- 
mente fugirão, a vista dos que esforçadamente morrerão, ou pele- 
jarão. E se nesta forma deste homem, que sem obrigação de sangue 
e natureza sérvio por honrra, o fizessem os Grandes e Capitaens 



241 



Generaes, Fronteiros e Governadores, servindo á sua custa em sua 
Pátria e sem outro soldo, gastando o que tem em sua defençâo, e de 
sua Pátria, como elles mesmos, e seus famozos Pays e Avós fizerão 
em Africa, e índia, e Armadas, com cavallos, e criados esforçada e 
generozamente, como quem são, bastara ametade das decimas, e de- 
pois de quieto o Reino, partira V. Magestade com elles o defendido, e 
conquistado, e as Comendas e copiosos bens do Reino que para si o 
defendem, e devem defender, imitando este Sigano humilde no nasci- 
mento, e nobre, e generozo no procedimento; porque hir as Frontei- 
ras, como a Ormuz, Malaca, e Çofala a vencer soldos, e riquezas, e 
com tantas condições, e com pedir soldos atrazados, devidos, ou nao 
devidos, neste tempo sem servir a sua custa, nâo lie o Portugal para 
isso, que se nâo sustenta, nem com thesouros nem cavallos, nem gente 
cm numero, em que nunca podem igualar as dilatadas terras e Reinos 
de Castella, e thesouros do Payz ; se não no natural valor, e amor 
da Pátria e Reys, e ponto de honrra. E isto não he hir enrriquecer, 
e ganhar dinheiro, em que alguns podem degenerar, não havendo 
rezâo particular, que muntos terão, falo em geral. A esta mulher 
mande V. Magestade despachar, e seus filhos, não só no que pede, 
de fazer natural seu genrro que por seus serviços pessoaes tãobem 
o merece ; mas mande-lhe V. Magestade deferir a seus serviços em 
forma, como peço, ou ella, na Petição que lhe mando fazer a V. Ma- 
gestade, que vae junta para provocar os meios. O que requeiro como 
Procurador da Coroa, pelo que cumpre ao Reino; pois merece a Firma 
e Signal de V. Magestade, em verificação do seu procedimento. Isto 
se oflferece e que vão a V. Magestade. &c. Lisboa 28 de julho 
de 1646. = Thome Pinheiro da Veyga. 

[Arch. R. Corpo Chron., P. 1., maço 118. Docum 131. João Pedro Ribeiro, Disatr- 
tacões chronologicas, iv, pp. 215, 217.] 



isr.^ le 

1647 

Tresllado da ordem dos siguanos 

Dom Joam per grasa de Deus Rej de Portugual e dos algarues, 
da quem e dallem mar em afrjqua, snor de guiné e da conquista, 
navegasâo, comersio, detiopia, arábia, persja e da indja etc, faço 
saber a uós corgedor da comarqua de eluas que eu passej ora hum 
aluara per mim asjnado e pasado per minha chanchellaria, do qual 
o tresllado he o seguinte 

Eu ell Rej faso saber aos que este aluara de lej virem que per 
quanto dos gitanos que mandej prender pello Rejno e se embarqua- 
rão pêra as conquistas delle, fiquarão ainda na cadeja do limoejro 
des velhos e emcapazes de poderem seruir, com molheres e filhos, 

16 



242 



de pouqua idade, e conuir a meu servisso que elles uiuão cõ suas 
familjas em luguares afastados de esta corte e das frontejras, hej 
per bem e me pras de lies senallar pêra este efeito os luguares 
seguintes tores uedras, lleirja, ourem, tomar, allanquer, monte mor 
o uello e coimbrã; dos quais não poderão sahir sem licença dos 
juizes delles a qual se lies não consedera per tempo llargo e se lies 
poreboira juntamente que não fallem geregonsa, nem a ensinem a 
seus fillos, nem andem em traje de sjganos e serão obreguados a 
traballo em quanto puderem, como fazem os naturaes do Rejno, e 
estando empesebeljtados por doensa ou muita idade se lies perme- 
tira poderem pedir esmolla nos mesmos luguares em qu3 uiuerem, 
sem que fasão de suas trasas e embustes, a que chamão buenas dj- 
chas, e jogos de corjolla nem partidas de cavalgaduras; antes se 
lies poreboirá com todo o rjgor comprar a troquados (sic), com decla- 
rasão que quem o contrario fizer pella primeira ves será logo conde- 
nado em asoites e toda a ujda pêra gallés, e sendo moller, da pri- 
zão ira pêra angolla degradada, ou Cabo uerde, per toda a ujda sem 
leuar consigo filio ou filia; e mando que na essicuçâo desta lei se pro- 
seda sumariamente e com seis testemunhas que pergunterá o juiz 
do loguar, onde o siguano for morador, e os autos que sobre a ma- 
téria se fizerem serão logo remetidos a hum dos corgedores do crime 
da minha coiie ou ministro a quem eu cometer a jurisdisão e superten- 
dencia dos siguanos, os quaes os remeterão pelos loguares nomeados 
e não lies será a nenhum dos condenados admetjda petjsão para per- 
dão; antes se devasará pelos corgedores das comarquas dos juizes 
dos loguares de seus destritos se observâo esta Hej e o que fiquar 
comprehendido paguara duzentos cruzados para as despezas da 
guera ou justiça; e os quais juizes não consentirão que os siguanos 
crjem seus fillos ou filias pasando de noue anos de idade, e sendo ca- 
pazes de seruir os porão a soldada na forma que se uza com os órfãos ; 
e mando ao regedor da casa da sopljquação gouernador da rellasão 
do porto e aos dezembarguadores das ditas rellasois e aos corge- 
dores do crime de minha corte e aos de esta cidade e a todos os 
meus corgedores das comarquas, ouuidores, juizes de fora das cida- 
des, villas e luguares onde os ditos siguanos uiuerem, que cumpram 
e guardem e fasão enteiramente cumprir e guardar todo conteúdo 
neste aluara, como se nelle contem e o chaneeller mor destes Renos 
o fará publiquar na Chanchellaria e envjar com meu sello e seu 
senal aos ditos corgedores das comarquas, ouuidores, juizes de fora, 
pêra que a todos seja notório o que per este ordeno e o fasão dar 
a esecusão, sem contradisão alguma, e da mesma manejra ás con 
quistas de este Rejno, onde se pobliquara pêra que senão consinta 
aos siguanos que fore degradados o elles uzarem desonestos tratos 
e embustes, de que de antes ueuiâo; e se rezestara nos Liuros do 
dezembarguo do paço, caza de sopliquasão, rellasão, do porto onde 



243 



semelhantes leis se costumao rezistar. António de Moraes o fes em 
Lisboa aos uinte quatro de outubro de mil e seis semtos e quarenta 
e sete. Pedro digene8(?) revello o fes escreuer. O Conde de Santa 

Crus. Rej. aluara de Hei que se hade ter com os siguanos e 

fillos nelle declarados, Para Vossa Magestade uer. Estevão Uei- 
tão de revellos Foi publjquado na Chanchelleria mor o aluara de 
ell Rej nosso snõr atras escrito por Miguel maldonado escrjuão da 
dita chanchelleria perante os ofisiais delia e de outra muita gente 
que uinha requerer seu despacho Lixboa ... de outubro de 047 
Miguel maldonado. Co a qual liei mandej passar esta carta para vos, 
polia qual vos mando que tanto que vos for mostrada a fasais poblj- 
quar e rezistar na cabesa de vosa comarqua e pobljquar brevemente 
nos mais luguares delia pêra vir a notisia de todos e se comprir e 
guardar como nelle se contem, e a despeza que se fizer em se poblj- 
quar nos mais loguares de vosa comarqua será á custa das despezas 
dos auizos (?) e quando não ouuer será a custa das rendas da Ca- 
mará da cabesa de vosa comarqua. dada na sidade de Lixboa aos 
trese dias de novembro, el-rej noso Snõr pelo doutor estevâo lleitâo 
de revellos do seu conselho e chancheller mor destes Reynos e 
senhorios de Portugal Manoel antunes de sâpaio o fez. Ano do nas- 
cimento de noso snõr Jesus Xro de mil e sessentos e quarenta e 
sete eu Miguel maldonado o fis escreuer, estevão lleitão de revel- 
los. E não dis mais a dita prouizão que bem e fielmente tresUa- 
dei e rezistei do próprio que entreguei ao escriuão da coreisão que 
ora serue. Ao qual em todo me reporto e consertei bem e fiel- 
mente com otro ofisial abaxo asjnado e eu Baptista fang.""" da fon- 
seca escriuão da camará o escrevi. Baptista fangr.''*' da fonseca e 
comigo taballiam Gomes Gallvam». 

(Archivo da camará municipal de Elvas, t. i, velho, do Registo, p. ii, fl. 552 v. Or- 
denações e leys confirmadas e estabelecidas pelo Senhor D. João IV. Lisboa, 1747. iii, 168- 
1G9. Collecção chronologica de leis extravagantes. Coimbra, 1819. i, 515-517.] 



1648 
Decreto, em que se prohibio darem-se, ou alugarem-se casas a Ciganos 

Ao Desembargo do Paço hey por muy encarregado faça com põ- 
tualidade executar a Ley dos Ciganos, accrescentando a cila, que 
as pessoas, que lhes derem, ou alugarem casas incorrerão nas penas, 
que mandarei declarar. Lisboa, 30 de Julho de 1648. 

Com Rubrica de Sua Magestade. 

[Liv. I dos Decretos do Desembargo do Paço, foi. 215, in Ordenações e leys confirma' 
das e estabelecidas pelo Senhor D. João IV, etc. Lisboa, 1747, vol. iii : Collecçâo ii 
dos Decretos e Cartas, p. 273.] 



244 
isr.o 18 

1649 

Eu ElRey faço saber aos que este Alvará virem que por se ter 
entendido o grande prejuizo e inquietação que se padece no Reino 
com huma gente uagamunda que cõ o nome de siganos andam em 
quadrilhas vivendo de roubos enganos e imbustes contra o serviço 
de Deus e meu, Demais das ordenações do Reino, por muitas leis e 
prouisões se procurou extingir este nome e modo de gente uadia de 
siganos com prizoens e penas de asoutes, degredos e galés, sem 
acabar de conseguir ; e ultimamente querendo Eu desterrar de todo 
o modo de uida e memoria desta gente uadia, sem asento, nem foro 
nem Parochia, sem uiuenda própria, nem officio mais que os latro- 
cínios de que uiuem, mandey que em todo Reino fossem prezos e 
trazidos a esta cidade, onde serião embarcados e leuados para ser- 
uirem nas comquistas diuididos ; e porquanto ficarão ainda na cadea 
alguns velhos incapazes e outros escondidos neste Reino, cõ o mesmo 
intento mandey passar hum Alvará em vinte e quatro de outubro de 
seiscentos e quarenta e sete de que o treslado é o seguinte. . . . [Vid. 
Doe. n.» 16.] 

E porque no dito Aluara se trata somente dos ditos siganos prezos 
uelhos e incapazes sem se declarar outra parte de minha ordem 
e decreto que passey sobre os mais que ficarão ainda no Regno 
capazes de seruiço nas conquistas, exceptuando os que assistem nas 
fronteiras e não andassem em companhia de outros, mandando que 
com os que fossem inhabeis se procedesse na forma do Aluara refe- 
rido e nesta Corte se não consentissem em nenhum cazo nem sinco 
léguas ao redor sigano nenhum nem sigana, sou informado que 
nesta parte se não passou nem publicou em muitas partes como or- 
deney ; e que pelos que estauâo servindo nas fronteiras se me fes 
queixa que estando mais de duzentos e cincoenta em meu serviço 
desde o tempo de minha filice aclamação alistados com zelo e valor, 
com que já forâo muitos apremeados ; e que a dita Ley geral da 
prizão se não podia emtender nelles ; e sem embargo disso se exe- 
cutava lançando -os fora da fronteira e sem paga de seus soldos, 
mandando os prezos ou que fossem uiuer as ditas vilas do sertão. 
E querendo eu em tudo prover, Hey por bem e mando que os ditos 
Corregedores das Comarcas executem com muita diligencia a dita 
primeira Ley da prizão, prendendo logo todos os siganos que acha- 
rem capazes de seruir excepto aqueles que actualmente assistem 
nas fronteiras e não andarem na companhia de outros e os remetão 
a esta Corte ao Corregedor delia a que esta cometida a supriten- 
dençia (sic) deste negocio, e dos que forem velhos e inhabeis se pro- 
ceda na forma de dito Aluara e os juizes das terras onde os mando 



245 



recolher e abitar os obriguem a uzar como os mais uezinhos natu- 
rais. E mando que nesta corte e sinco legoas ao redor delia se não con- 
sinta sigano nem sigana algna com cominação que o que nclla se achar 
passado o tempo da publicação desta seja sem mais proua nem de- 
ligencia condenado nn asoutcs e toda a vida para galés e a sigana 
degradada para Angola ou cabo Verde ; e as pessoas que lhe derem 
ou aluguarem casas e os recolherem sendo piães cncorrerão em pena 
de três annos de degredo para Castro Marim e trinta cruzados pêra 
captiuos e accusador; e sendo de mayor calidade em dois annos para 
Africa e sincoenta cruzados. E os fidtUgos fora da Corte. E hey por 
bem declarar que esta ley da prizão senão emtende nos siganos alis- 
tados que seruem nas fronteiras actualmente nas companhias ou lu- 
garí^s em que por seus superiores seruirem, procedendo na forma 
trage e lugar dos naturais ; e onde com licença dos Governadores 
das Armas a negocio e tempo limitado forem •, e porque alguns por 
seruiços e rezões particulares estão naturalizados com cartas de na- 
turaes e vezinhos de lugares e vilas do Reino se não entenda neles 
a dita Ley guardando elles em tudo as condições de suas cartas. 
Pello que mando ao dito meu chançarel mor faça publicar na Ciian- 
cellaria esta Ley e declaração e delia enuiar copias sob meo selo 
e seu sinal aos ditos corregedores das Comarcas e mais justiças 
destes Reinos para terem entendido o que ultimamente tenho re- 
soluto sobre os ditos ciganos. E o executarem inteiramente sem 
duuida nem contradição algua e se registará de nouo nas partes 
costumadas em semelhantes leis. André de Moraes o fez em Lixboa 
a sinco de fevereiro de mil e seis centos e quarenta e nove. Luiz 
de abreu de Freitas a fez escreuer. Rey. 

[Archivo Nacional, icis, liv. v, fl. 1. Ordenações e leys confirmadas t estaielecidas 
pelo Senhor D João IV, etc. Lisboa, 1747. iii, 169-170.] 



1649 

Decreto em que se mandarão avisar os Corregedores 
do Crime da Corte, para que fizessem despejar os Ciganos 

Faça o Conde Regedor advertir da minha parte aos Corregedores 
do Crime da Corte, como nella me dizem andão actualmente algu- 
mas Ciganas ; as quaes, posto que digão vem seguindo seus maridos, 
visto não terem ellas licenças para usarem do traje, liugoa, ou gi- 
ringonça, seria conveniente a meu serviço, e bem da Republica 
lança-las delias, e alimpar a Terra. Lisboa em 20 de Septembro 
de 1649. — Com Rubrica de Sua Megestade. 

(Liv. X da Supplicação, fl. 23 in Ordenações e leys confirmadas e estabelecidas pelo 
Senhor D. João IV, etc. Lisboa, 1747, vol. iii : Collecçíio ii «ios Decretos e Cartas, p. 273.1 



246 

1655 
Carta de André d^ Albuquerque 

«Snor — A ordem, que Vossa Magestade foi servido mandar-mc 
em carta de 12 de Septembro do anno passado para se prenderem 
os siganos, que se achassem nesta Proviucia, encarreguei aos go- 
vernadores e Capitães Mores das fronteiras, e Governadores, Cor- 
regedores e Ouvidores das Comarcas, para que a executassem em 
25 do ditto, como Vossa Magestade o ordenava; e havendo concorrido 
todos nesta diligencia, se acharam somente alguns homens, que por 
me presentarem Provisões de Vossa Magestade, pelas quaes Vossa 
Magestade os ha por naturaes, e lhes dá permissão para viverem 
no Reino e me constar não andavâo em quadrilhas daquella gente, 
nem tratavão com ella, os tornei a mandar soltar, e também algu- 
mas mulheres, que por velhas e miseráveis se não devia intender a 
ordem com ellas. Nesta forma se procedeu neste particular, e ao 
diante se prenderão os siganos, que apparecerem, como Vossa Ma- 
gestade tem mandado. — Deus Guarde a muito alta e poderosa pes- 
soa de Vossa Magestade — Elvas, 2 de Fevereiro de 1655. — André 
d^ Albuquerque» . 

[Esta carta foi copiada pelo dr. Francisco de Santa Clara de um livro pertencente 
ao Archivo do governo militar de Elvas intitulado Livro II do Registo, que os Senhores 
Governadores das Armas escrevem a Sua Magestade que Deus guarde.] 
\ 



1>T.° Í21 
1682 

Processo inquisitorial da cigana Garcia de Mira 

Aos sette dias do mez de Dezembro de mil seiscentos e oitenta 
e dous annos em Lisboa nos Estaos e caza do despacho da Santa 
Inquisição, estando a ré em audiência de manhaã, o Senhor Inquisidor 
Pedro de Atayde de Castro mandou vir perante si da salla a hum 
homem por 'pedir audiência, e sendo presente disse a pedira para 
denunciar nesta meza couza a ella pertencente e logo lhe foi dado 
juramento dos Santos Evangelhos, em que pos a mão sob cargo do 
que lhe foi mandado dizer uerdade e ter segredo, o que prometteo 
cumprir, e disse chamar-se Manoel Alvares da Nóbrega official de 
brincos de cera, natural do Lugar do Cabo Villa, freguezia de 
S. Saluador do Taboado, termo da Villa de Amarante, e morador 
nesta cidade, e ser de trinta annos de idade. E logo denunciando 



247 



Disse que haverá três semanas pouco mais ou menos, não se 
lembra do dia ao certo, estando elle Denunciante em sua casa 
na rua de Quebra Costas, detraz da Igreja de Nossa Senhora da 
Palma, chegou á sua porta hua Sigana, e lhe disse chamar-se 
Catherina, representa ter sessenta annos de idade, e anda em 
trage de viuva com sua saya de estamenha parda e mantilha de 
baeta negra com capello cozido debaixo da barba, e não tem 
parte notauel por que mais a haja de confrontar, e só que traz huas 
contas brancas aconfeitadas, e mora nesta cidade em companhia de 
Siganos junto as cazas do Enviado de Castella, e lhe disse ter hua 
Irmaã chamada Antónia Ramalha, a qual, fallando-lhe, lhe disse 
que elle tinha sua molher auzente, e muitos perigos que passar, se 
queria que lhes atalhasse, e dizendo-lhe elle Denunciante em que 
forma o havia de fazer, respondeo ella que por meyo dos fieis de 
Deos, e que por todo este mez saberia que sua molher era morta, 
para cujo effeito lhe pedio lhe havia de dar algum dinheiro que para 
os ingredientes lhe era necessário, e necessitaria de hum cruzado 
que elle lhe deu, c pelo premio do que nisso obrasse lhe hauia de 
dar duas moedas de ouro, que o Denunciante prometteo assim fazer, 
obrando ella por meyos licites, e sem ofença de Deos, e tornando 
por outra uez a dita Sigana a sua caza, não se lembra do dia ao 
certo, mas haverá quinze, diante delle testemunha, e de Catherina 
da Costa, que uiue em sua companhia, lhe pegou na mão esquerda 
delle Denunciante na qual pos hum alfinete ou arame com duas 
bolinhas de cera em cada ponta sua, e dous alfinetes mais, pre- 
gado hum com o bico em híía das dittas bóias, e o outro com a ca- 
beça pregada na ditta bola, com as extremidades uiradas para o 
pulso sem estarem juntas, e logo o obrigou a que cuspisse por três 
uezes na ditta mão, na parte que ficaua cercada dos alfinetes, di- 
zendo as palavras seguintes : em nome de Deos Padre, Deos filho, 
Deos Spirito Santo, três Pessoas e hum só Deos verdadeiro, que 
reynou e reynará para sempre jamais. Amen Jesus. = Santos Fieis 
de Deos, — obrigando-o a que repetisse estas, e as palavras se- 
guintes e á ditta Catherina da Costa. | os dáquem e os dálem e 
os da nauegaçâo, vós fostes como nós, nos seremos como vos, todos 
uos ajuntareis, e neste caso nos ajudareis. E logo os dous alfinetes 
das extremidades que estauão pregados nas bolas do arame ou alfi- 
netes se uirarão, hum duas uezes e outro hua, ficando sempre pre- 
gados nas dittas bolas com os bicos, com as cabeças para as pontas 
dos dedos formando hua forca, tendo elle Denunciante sempre a mão 
quieta, e direita sem a mouer, hauendo-lhe a ditta Sigana primeiro 
ditto, que aquella sorte fazia para saber se sua molher era morta 
ou viua, e que se os alfinetes se mouessem, era sem duuida ser 
morta, e logo tomou os dittos alfinetes, e os guardou, fazendo-lhe 
alimpar a mão dos cuspos com hum papel e que o deitasse na rua. 



248 



Disse mais que passados três ou quatro dias, nâo se lembra tam- 
bém de qual ao certo, tomou a mesma Sigana a sua caza, e dizen- 
do-lhe se queria uer a certeza de sua molher ser morta, lh'a mos- 
traria facilmente, e para isso pedio hum alguidar com agoa e 
lançando nella meia folha de papel, que lhe pedio mandasse com- 
prar, hauendo-o passado três uezes por baixo do trauesseiro da 
cama, lhe pos a mão para que se molhasse, dizendo huas palauras 
que elle não percebeo, e repetio também as palauras que atraz 
ficão dittas da Santíssima Trindade e Fieis de Deos, obrigando-o 
a que rezasse o que quizesse pela alma que estiuesse mais uezinha 
a uer a Deos Senhor Nosso, que lhe mostrou no ditto papel, e era 
a figura de hum defunto com quatro castiçaes^ dous á cabeceira, 
e, dous aos pées, o que tudo se figuraua na parte do papel que ficou 
enxuto, perfilado tudo como em debuxo, em premio do que lhe pedio 
cinco tostões, sendo que lhe havia dado mais meya moeda, e com 
outros tostões que lhe deu para a mortalha fez tudo soma de cinco 
mil réis, pouco mais ou menos. Do que tudo uem dar conta nesta Meza» 
entendendo que as obras da dita Sigana não são naturaes, como 
elle pretendia, e sem offença de Deos, e o faz por descargo de sua 
consciência, e entender qae he a isso obrigado. E mais não disse 
e ao costume disse nada. E sendo-lhe lida esta sua denunciação, e 
por elle ouuida, e entendida, disse estar escritta na uerdade e nella 
se affirmaua, ratificaua e tornaua a dizer de nouo sendo necessário, 
e nella não tinha que acrescentar, diminuir, mudar ou emmendar, 
nem ao costume ter que dizer de nouo, sob cargo do juramento dos 
Santos Evangelhos que outra uez lhe foi dado. Ao que estiuerão 
presentes por honestas e religiosas pessoas os Licenciados João 
Cardoso de Andrade e Joseph Coelho, notários desta Inquisição que 
tudo uirâo e ouuirâo, e prometterão dizer uerdade e ter segredo no 
que lhes fosse perguntado sob cargo do juramento dos Santos Evan- 
gelhos que lhes foi dado, e assinarão com elle Denunciante, e com 
o ditto Senhor Inquisidor. Manoel Martins Cerqueira o escreui. 
Pedro de Attaide de Castro. Manoel Aluares Nóbrega. = João Car- 
doso. — Joseph Coelho. 

E ido o ditto Denunciante para fora, forão perguntados os dittos 
Licenciados se lhes parecia que elle fallaua uerdade, e merecia cre- 
dito, e por elles foi ditto que sim lhes paríícia que elle fallaua uer- 
dade e merecia credito, e tornarão a assinar com o ditto Senhor 
Inquisidor. Manoel Martins Cerqueira o escreui. Pedro de Attaide 
de Castro. — João Cardoso. — Joseph Coelho. 

Seguem: 

1.*» O depoimento de Catherina da Costa, solteira, de 30 annos de 
idade, em tudo conforme ao de Manoel Alvares, com a particulari- 
dade a mais de que a cigana mandou comprar o papel dizendo «que 
era necessário nâo fosse a marca da que tivesse Crus», 



249 



2." O requerimento do promotor para que a cigana seja presa 
e processada na forma do regimento, em o qual, tendo summariado os 
depoimentos, concluo: «do que tudo se colhe usar a delata de pala- 
vras divinas para couzas illicitas e ter pacto com o diabo para advi- 
nliar futuros». 

3.*» Despacho. 

4.° A confissão da ré. 

«Aos quinze dias do mez de Dezembro de mil seiscentos e oitenta 
e dous annos em Lisboa nos Estaos, estando alli em audiência de 
manhã o Senhor Inquisidor Pedro de Attayde de Castro, mandou vir 
perante si a hua molher que em onze deste presente mez foi preza 
nesta cidade, c recolhida nos cárceres de penitencia, por pedir au- 
diência, e sendo prezente disse a pedira para confessar nesta meza 
o que entendia podia conuir ao descargo de sua consciência, pelo 
que lhe foi dado juramento dos Santos Euangelhos, em que pos a 
mão, sob cargo do que lhe foi mandado dizer uerdade, e ter segredo, 
o que prometteo cumprir. E disse chamar-se Garcia de Mira, molher, 
digo, viuua de António Soares, que foi Sigano, natural de Monte- 
mor o Novo, e moradora nesta cidade junto ao Enviado de Castella 
e ser de cincoenta annos de idade. E logo foi admoestada que, pois 
tomaua tão bom conselho como era confessar uoluntariamente nesta 
meza suas culpas lhe conuinha muito dizer toda a uerdade delias, 
não impondo sobre si, nem sobre outrem falço testemunho, porque 
fazendo assim porá sua alma em estado de saluação, e alcançará 
a mizericordia que pretende. E promettendo de assim o fazer 

Disse que haverá três semanas nesta cidade foi ella confitente 
a rua do Quebra-Costas a caza de Manoel Alvares de Nóbrega, 
official de brincos de cera, e fallando com elle lhe dissera que lhe 
mostrasse a mão para lhe dizer a buena dicha, e que mostrando-lh'a 
o ditto Manoel Alvares, lhe dissera que tinha muitos trabalhos que 
passar; e que respondendo o ditto Manoel Alvares que já os tinha 
passado, lhe tornou ella confitente a dizer que não erão esses, senão 
outros que de nouo hauia de passar; e que entrando neste tempo 
hum Clérigo a fallar com o ditto Manoel Alvares, hua molher moça 
que estaua no quintal das mesmas cazas a chamou com as mãos, e 
indo ella confitente a fallar com a ditta moça, que lhe disse chamar-se 
Catherina da Sylva, esta lhe disse que o ditto Manoel Alvares não 
era seu marido, mas era casado com hua molher que hauia fugido, 
e tinha illicita amizade com ella ditta Catherina da Sylua, que quizesse 
fazer-lhe alguãs deuoçoes ou feitiços que o obrigassem a recebella 
por molher, e ella confitente lhe respi-ndeo que sim faria, e porque 
a ditta Catherina da Sylua dezejasse fallar com ella mais deuagar, 
e neste tempo se despedio o Clérigo que estaua fallando com o ditto 
Manoel Aluares, disse ella confitente á ditta Catherina da Sylua 
que tornaria a uer-se com ella, o sahio a falUr-lhe na mesma caza 



250 



o ditto Manoel Aluares de Nóbrega, ao qual disse que o tornaria a 
buscar e lhe faria huas sortes para saber se sua molher era uiua, 
ou morta, em premio do que lhe deu hum cruzado. 

Disse mais que no dia seguinte, do qual não está lembrada ao certo, 
tornou a caza do ditto Manoel Aluares da Nóbrega, ao qual disse 
que queria lançar as sortes que lhe promettera para saber se a ditta 
sua molher, que estava auzente sem lhe dizer aonde, era uiua ou morta, 
e que para isso abrisse a mão direita, o que elle fez, e pondo-lhe no 
alvo delia hua palhinha de balanço torsida e seca ao fogo, e em 
cada ponta da mesma palhinha hua bolinha de cera, e em cada bo- 
linha pregado hum alfinete com as cabeças para o pulso, dizendo- 
Ihe que cuspisse na mesma mão para que recebendo humidade a 
ditta pallinha destorcesse para a banda dos dedos, e trouxesse uira- 
dos os dittos alfinetes que com effeito uirarão com a palhinha, e 
ficarão fazendo a forma de híia forca, hauendo-lhe também ditto 
que se os dittos alfinetes uoltassem era sinal de ser morta a ditta sua 
molher, e não uoltando a ser uiua, sendo que não tinha duuida o 
hauer de destorcer a ditta palhinha, e em quanto fes as sobredittas 
couzas dizia as palavras seguintes: Em nome do Padre, Filho c 
Spirito Santo, que reynou e reynará para sempre jamais, amen. E 
em premio do que lhe deu o ditto Manoel Aluares meya moeda de 
ouro, e lhe prometteo fazer segunda sorte: a qual foi no (ao?) dia 
seguinte, mandando-lhe comprar hua folha de papel, e que a met- 
tesse debaixo da cabeceira, rezando cinco credos á honra das cinco 
Chagas de Christo Senhor Nosso, e tornando no dia seguinte tomou 
meya folha do ditto papel e a dobrou em muitas dobras asemelhando 
a outra meya folha que leuaua debuxada com pedra hume, em forma 
que fizesse a figura de hua pessoa morta com dous castiçaes á cabe- 
cira e dous aos pés, e tendo-a na mão debaixo da mantilha, tomou na 
outra mão a meya folha que se hauia comprado, e fazendo algnas 
ligeirezas de mãos as troucou, e lançou com a agoa qiie tinha prepa- 
rada em hum 'alguidar a meya folha que hauia trazido, a qual bur- 
nida com a pedra hume molhou só aquella parte que não estaua 
burnida em a ditta pedra hume, e ficou enxuta e figurada a estampa 
de um corpo morto, e dos quatro castiçaes que ficão dittos, e tornou 
a dizer que toda a meya folha de papel se ensopou na agoa, e que 
assim mostraua a figura sobreditta, do que os dittos Manoel Alua- 
res e Catherina da Sylua ficarão admirados e entendendo que erâo 
feiticeirias o que uiam nesta sorte, como na que fes dos alfinetes; e 
pedindo-lhe dinheiro para hua oíFerta, lhe dera o mesmo Manoel 
Aluares dez tostões ; e que as sobredittas couzas fez obrigada da 
sua muita pobreza por ser viuua, e ter filhos que alimentar, uzando 
de cousas naturaes, que os mesmos Manoel Aluares e Catherina da 
Sylua poderão conhecer se forão aduertidos, dizendo as palauras 
sobredittas e mandando dizer as orações que a Igreja approva, sem 



251 



animo nenhum de oflfender a Deos Senhor a Nosso *, mas de ainda 
assim não lhe ser licito está muito arrependida; pede perdão e que 
se uze com ella de mizericordia. 

Foi-lhe ditto que tomou bom conselho em declarar nesta meza as 
couzas de que tem dado conta nella, que se abstenha de as tornar a 
commetter, nem outras semelhantes que possão introduzir erros, e 
abuzos no povo Christão, porque tornando a reincidir nellas será 
castigada com todo o rigor. E por dizer que nem por pensamento 
tornará a commetter semelhantes culpas, e engano, foi outra uez 
admoestada em forma, e mandada a seu cárcere, sendo-lhe primeiro 
lida esta sua confissão, que por ella ouuida e entendida, disse 
estar escritta na uerdade e assinei eu Notário por ella não saber 
escreuer de seu consentimento com o ditto Senhor Inquisidor. Ma- 
noel Martins Cerqueira o escreui. = Pedro de Attaide de Castro. — 
Manuel Martins Cerqueira. 

Aos vinte e dous dias do mez de dezembro de mil seiscentos e' 
oitenta dous annos em Lisboa nos Estaos, e caza de Despacho da 
Santa Inquisição estando aly em audiência da manham senhores 
inquisidores, mandarão uir perante si a Gracia de Myra Sigana, Ré 
preza conhecida neste processo, e sendo prezente foi reprehen- 
dida asperamente e aduertida que se tornar a cahir nas culpas porque 
foi preza será castigada com todo o rigor de justiça. E outro sy será 
condemnada em penas pecuniárias, e que restitua o dinheiro e pes- 
sas que acceitou a alguãs pessoas por meyo de seus embustes, o que 
tudo prometteo cumprir sob cargo de juramento dos Santos Euan- 
gelhos, que pêra este eíFeito lhe foi dado e que lhe he dada licença 
pêra se poder hir para onde bem lhe estiuesse e que goarde segredo 
em tudo o que vio, ouuiu e com ella nesta Meza se passou, o que 
também promette comprir; de que fiz este termo de mandado dos 
Senhores Inquizidores que aqui assinarão e eu Notário, de consen- 
timento da Rée por não saber escreuer. João de Mesquita que o 
escreui. = PeíZro de Attaide de Castro. — João de Mesquita de Macedo. 

[Archivo Nacional. Processos inquisitoiiaes, n.*" 1236.] 



3M-° Í3Í3 
1686 

Registo de húa Provisão de Sua Magestade sobre os Siganós 

«Dom Pedro, por graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves, 
daquem e dalém mar em Africa, Senhor de Guiné &. Faço saber a 
vos corregedor da comarca da cidade de Elvas que, por ser infor- 
mado de que de Castella se expulsavão os siganos e estes se passa- 
vão a este Reyno em tanta quantidade que aos Povos pequenos seria 



252 



muito deficultoso o poderem seportar esta quasi inundação de gente 
tão osioza e prejudicial por sua vida e costumes, andando armados 
para melhor cometerem seus asaltos, como a experiência tê mostrado 
com as universaes quexas o que tudo se seguia de senão conservarem 
as Leis estabelecidas contra elles e se omittião por respeitos que a 
sua industria adqueria. E convir ao serviço de Deos e meo que de 
todo se extreminê, sem que se lhes premita habitação neste Reyno 
nem trato qualquer que seya. Hey por bem e vos mando não pre- 
mitaes entrem neste Reyno nenhum destes siganos e os que de facto 
tiverem entrado os prendereis logo nas cadeas publicas e me dareis 
conta. E quanto aos que ja são naturaes, filhos e netos de Portu- 
guezes (porem com habito género e vida de siganos), os obrigareis 
a tomarem domisilio serto, donde não poderão sahir nem mudar sem 
minha especial licensa, nem possão andar vagabundos em quadrilhas 
pelo Reyno e achando-os nesta forma (?) os prendereis e lhe não 
consentireis uzem de trage particular, mas que se vistão do costume 
do Reyno e em aquelles que encontrarem a Ley sobre elles estabe- 
lecida a fareis executar na forma que nella se contem, com declara- 
ção que os annos que a dita Ley dá para Africa seyão para o Ma- 
ranhão. E logo que esta receberdes mandareis pôr editaes públicos 
em que lhes assinareis tempo para lhes ir a noticia esta minha re- 
solução, e asestindo no nosso destrito os mandareis notificar e fareis 
trasladar esta ordem nas camarás dessa comarca para que os juizes 
delias a facão executar, como nella se contem, de que remetereis as 
certidões, que serão entregues a Francisco Pereyra de Castello branco, 
escrivão da minha camará, advertindo que toda a omissão com que 
vós e os ditos Juizes vos ouverdes neste particular, não dando a 
execussão esta ordem, se vos hade dar em culpa que para este eff^eito 
mandey acrescentar este capitulo aos mais do Regimento das rezi- 
dencias. ElRey nosso Senhor o mandou por seu especial mandado 
pelos Dezembargadores Diogo Marchão Themudo e Brás Ribeiro 
da fonseca, ambos do seu Conselho e seus Dezembargadores do Paço* 
Miguel vieyra a fez em Lixboa aos 15 de julho de 1686. Francisco 
Pereyra de Castello branco a fez escrever. Brás ribeiro da Fonseca. 
Diogo Marchão Themudo. Por resolução de Sua Magestade de 10 
de junho de 1686 em consulta do dezembargo do Passo. E não con- 
tinha mais a dita provizão que eu Manoel da Silveyra de Azevedo 
escrivão da camará fiz tresladar neste tombo e a propia me reporto 
e por verdade me asiney do meu sinal de que uzo e a propia en- 
treguey ao Corregedor da Comarca. Elvas aos vinte dias do mes 
de julho de mil seiscentos e outenta e seis annos. Manoel da Silveira 
de Azevedo, escrivão da Camará, o fis escrever e asinei. Manuel da 
Silveira de Azevedo.» 

[Tombo II do Registo dos Alvarás, Provisões, Cartas e mais ordens de Sua Magestade , 
a fl. 12. Archivo da Camará de Jílvas, armário n." 8]. 



253 

1686 

Decreto, cm que se mandou commular o degredo 
de Africa para o Maranhão 

Tenho resoluto que com os Ciganos e Ciganas se pratique a Ley, 
assi nesta Corte, como nas mais Terras do Reyno ; com declaração, 
que os annos que a mesma Ley lhes impõem para Africa, sejão para 
o Maranhão; c que os Ministros que assi o nâo executarem, lhes 
seja dado em culpa para serem castigados, confonne ao dolo, e 
omissão, que sobre este particular tiverem; para o que ordenei ao 
Desembargo do Paço se accrescentasse este Capitulo aos mais do 
Regimento das Residências. O Regedor da Casa da Supplicação o 
tenha assi entendido, e nesta forma o faça executar pela parte, que 
lhe toca, encarregando -o aos Ministros de Justiça, e que com todo 
o cuidado se empreguem nesta diligencia. Lisboa 27 de Agosto de 
1686. — Com Rubrica de Sua Magestade. 

[Liv. X do Supplicação, ÍL. 276, in Ordenações e leya, etc. Lisboa, 1747, vol. iii: Col- 
locçâo II dos Decretos e Cartas, p. 273]. 



1694 

Registo de liuma Prouizão de Sua Magestade pelo Dezembargo do 
Paço ao Corregedor desta Comarca para que os siganos nascidos 
neste Reyno tomem género de vida ou o despejem dentro em dois 
mezes. 

Dom Pedro por graça de Deus Rey de Portugal e dos Algarues, 
daquem e dalém mar em Africa, senhor de Guine &. Faço saber a 
vós Corregedor da Comarca de Elvas, que por quanto sou infor- 
mado que os siganos" nascidos neste Reyno conthinuam em seus 
excessos e delitos, sem tomarem género de vida nem officio de que 
possam sustentarse, vivendo arranchados e juntos em quadrilhas, 
trazendo os mesmos habittos e trages de ciganos, sem terem dome- 
cilio certo, tudo contra a minha rezolução que sobre esta matéria 
mandey publicar no anno de 1689 (sic), e porque tem mostrado a 
experiência que não seruio thegora de remédio bastante e convém 
muito tratar da quietação e soccgo de meus vassalos, euitandose 
todos os dias os delitos que se podem temer de gente tam licencioza 
na vida e costumes. Hey por bem e vos mando que tanto que esta 
receberdes mandeis logo por cm todas as Villas e lugares dessa 



254 



Comarca edictais públicos que todos os ciganos nascidos neste Reyno 
que logo não tomarem género de vida, de que possam sustentarse 
na forma da dita minha rezoluçam do anno de 1689. sayam deste 
Reyno dentro em dois mezes com pena de morte e passado o ditto 
termo serão hauidos por banidos, e se praticara com elles a pena do 
banimento na forma da ley. assi e do mesmo modo que tenho rezo- 
luto com os siganos castelhanos que entrarão neste Reyno ; e na 
execução desta deligencia que vos hey por muito recomendada poreis 
todo o cuidado advertindovos sereis seueramente castigado por qual- 
quer descuido que nisto tiuerdes ; e para que os vossos sucessores 
não possão alegar ignorância, mandareis registar esta minha rezolu- 
çâo nos Livros da Correição e nos das Cameras de cada hua das 
Villas dessa Comarca, de que me dareis conta, remetendo certidão 
de como assy o tendes executado; e nas terras aonde não entrardes 
enviareis a coppia desta Ordem ao Provedor dessa Comarca e da 
mesma sorte aos Juizes de fora e ordinário delia para que cada 
hum em sua jurisdição a execute e a obserue assy como a vós volla 
encarrego, porque da mesma sorte mandarei proceder contra elles 
pelo descuido que nisso tiuerem. El Rey Nosso Senhor o mandou por 
seu especial mandado pelos Doutores Diogo Marchão Themudo e 
Brás Ribeiro da Fonceca ambos do seu concelho e seus Dezembar- 
gadores do Paço. Thomas da Sylva a fes em Lixboa a 15 de Mayo 
de 1694. Diogo Marchão Themudo. Braz Ribeiro de AfFonseca. E 
não continha mais a dita Prouizão que bem e na verdade tresladey 
e a própria entreguey ao dito Corregedor e por verdade assiney em 
Elvas aos 17 de junho de 1694. João Bress^e Leite escrivão da 
Camará o escrevi. João Bressane Leite. y> 

[Tombo II do Registo dos Alvarás, e/c., fl. 63 v. Archivo da Gamara do Elvas, armá- 
rio n.» 8.] 



1694 

Registo de huma Prouizão de Sua Magestade pelo Dezembargo do Paço 
para que o Corregedor desta Comarca faça despejar deste Reino 
dentro em dois meses os siganos castelhanos intruzos nellc. 

Dom Pedro por graça de Deus Rey de Portugal e dos Algarues, 
daquem e dalém mar em Africa, Senhor de Guiné &. Faço saber 
a vós Corregedor da Comarca de Elvas que, por quanto sou infor- 
mado que pelas rayas deste Reino tem entrado muitos siganos cas- 
telhanos, os quais havião cometido muitos e vários crimes, e porque 
convém evitar o grande prejuízo que de homens tam licenciozos e 
criminozos se pode seguir aos meus vassalos. Hey por bem e vos 



255 



mando que tanto que esta receberdes mandeis logo por em todas as 
Villas e lugares dessa Comarca edictais públicos em que se declare 
que todos os que tiuerem entrado neste Reino sayão delle em termo 
de dois mezes, com pena de morte, c passado o dito termo serão ha- 
vidos e bamnidos e se praticara com elles a pena de bamnimcuto 
na forma da ley ; e na execução desta deligencia que vos hey por 
nmito recommendada poreis todo o cuidado, advertindovos sereis 
seueramente castigado por qualquer descuido que nisso tiuerdes ; 
e para que vossos sucessores não popsão alegar ignorância, manda- 
reis registar esta minha rezolução nos livros da correição e nos das 
camarás de cada Ima das villas dessa comarca, de que me dareis 
conta, remetendo certidão de como assi o tendeis executado, e nas 
terras aonde não entrardeis, inviareis a coppia desta ordem ao Pro- 
vedor dessa comarca e da mesma sorte a todos os Juizes de fora 
e ordinários d'ella. E que cada hum em sua jurisdição a execute 
c observe e assim como a vós vollo encarrego porque do mesmo 
modo mandarey proceder contra elles pelo descuido que nisto tiue- 
rem. El Rey Nosso Senhor o mandou por seu especial mandado pios 
Doutores Diogo Marchão Themudo e Brás Ribeiro da Affonceca 
ambos do seu concelho e seus Dezembargadores do Paço. Thomas 
da Sylva a fez em Lixboa a 15 de Mayo 694. Francisco Pereira 
Castello branco a fes escreuer. Diogo Marchão Themudo. = Brás 
Ribeiro de Aífonseca. — E não continha mais a dita Prouizão que eu 
bem e na verdade tresladey e a própria entreguei ao dito Corre- 
gedor em Elvas aos 17 de Junho de 1694. João Brcssane Leite es- 
crivão da Camará escrevi. João Bressane Leite. 

[Tombo cit., fl. 64 v]. 



1696? 

Registo da carta do oficio de Thezoiíreiro da Camará por que Sua ma- 
gestade que Deus guarde fes mercê da propriedade delle a António 
Róis de Pinna. 

Dom Pedro por graça de Deus Rey de Portugal e dos Algarves 
daquem e dalém mar em Africa snõr de Guine c da conquista & 
nauegaçam comercio de Ethiopia Arábia Pérsia e da índia &. Faço 
saber aos que esta minha carta uirem que por parte de António Roiz 
de Pinna me foy aprezentado hum meu Aluara passado pia minha 
Chansellaria do theor seguinte & — Eu El Rey faço saber aos que 
este Aluara uirem que António Roiz de Pinna escriuão serventuário 
do officio das execuções da cidade de Elvas me representou que eu 
fui seruido ordenar a Lopo Tavares de Araújo estando seruindo de 



256 



Corregedor daquella Comarca em Abril de 694 que prendesse a hum 
cigano chamado Manuel Roiz Roza e hauendolhe por mi recomen- 
dado a dita prizão, a qual o dito Corregedor encarregou ao meirinho 
da correição e a elle, que hindo ambos a villa de Oliuença, aonde 
viuia o sigano, lhe entrarão em caza na noite de 26 do dito mes, 
requerendolhe da minha parte por muitas vezes se desse a prizão, 
o que não quizera fazer, antes os envestira com estoque de seis pal- 
mos e húa rodella, tirando-lhe muitas estocadas e pancadas, com hua 
das quais lhe quebrara a espada ao meirinho e ficara brigando com 
elle somente 



[Não está concluído este registo, que se acha a fl. 80 do Tombo ii do Registo dos 
Alvarás, Provisões, Cartas e mais ordens de Sua Magestade. — Archivo da Gamara ile 
Elvas, armário n." 8]. 



1699 

«Provisão Regia de 9 de julho de 1699 para serem remettidos 
presos ao Limoeiro os Ciganos». 

(J. P. Ribeiro, índice ehronologieo, V, 275.] 



3Sr.° Í38 
1708 

Eu ElRei faço saber aos que esta minha Lei virem, que, por ter 
mostrado a experiência não haverem sido bastantes as disposições 
da Ordenação do Reino e outras Leis posteriores, e varias ordens, 
que em diversos tempos se passarão para os Ciganos não entrarem 
no Reyno, e se conservarem nas Terras delle, nem para que estes, 
e outros homens, e mulheres de ruim vida, que se lhes agregão, 
facão com elles escandalosa vida, que os Povos sentem, e commettão, 
como frequentemente commettem, furtos, enganos, e outros muitos 
delictos e enormidades ; e mandando considerar esta matéria com 
toda a ponderação, por convir muito á Justiça e bem do Reyno dar- 
se lhe remédio : Hey por bem, e mando que não haja neste Reyno 
pessoa alguma de um, ou de outro sexo, que use de trage, lingua, ou 
Giringonça de Ciganos, nem de impostura das suas chamadas, huenas 
dichas: e outro-si, que os chamados Ciganos, ou pessoas, que como 
taes se tratarem, não morem juntos mais, que até dous casaes em 
cada rua, nem andarão juntos pelas estradas, nem pousaráo juntos 
por ellas, ou pelos campos, nem tratarão em vendas, e compras, ou 



257 



trocas de bestas, senão que no trage, lingua, e modo de viver usem 
do costume da outra gente das Terras ; e o que o contrario fizer, 
por este mesmo facto, ainda que outro delicto não tenha, incorrerá 
na pena de açoutes, e será degradado por tempo de dez annos : 
o qual degredo para os homens será de galés, e para as mulheres, 
para o Brasil. E para que pontualmente S3 cumpra esta minha Ley, 
mando aos Corregedores das Comarcas, e aos Juizes de Fora, e Or- 
dinários, a executem em suas Jurisdicções, e contra os transgres- 
sores procedão a prisão, e a devassa, com a noticia, que dos casos 
tiverem ; a qual devassa bastará ser de até oito testemunhas ; e ti- 
radas que forem, se por ellas tanto se provar, que contra os culpados 
se deve proceder, mandarão logo que os Reos summariamente res- 
pondão ; e com suas respostas enviaráõ os autos ao Regedor da casa 
da Supplicação, ainda que seja de Terras do districto da Relação 
do Porto ; e ao dito Regedor mando que com toda a brevidade, com 
os Desembargadores, que lhe parecer, faça em sua presença deferir, 
como parecer justiça, ou seja para sentencear definitivamente, ou 
seja para interlocutórias, e sempre com muita brevidade. Não he 
porem minha tenção, que se os ditos homens, ou mulheres tiverem 
outros delictos de maior pena, deixe de se proceder a execução 
delia ; e nenhum outro Tribunal, ou Ministro se intrometterá nesta 
matéria ; porque toda a superintendência delia commetto ao dito 
Regedor, para proceder na forma desta Ley ; o qual para este eflPeito 
poderá escrever e pedir conta aos Julgadores, e elles lha darão, 
e todas as informações necessárias, e elle ma dará, quando convenha, 
etc. Alvará de 10 de novembro de 1708. 

[Ordenações e lei/f, etc. Lisboa, 1747. iii, 170-171. ColUcção chronologica deUis extra- 
vagantes. Coimbra, 1819, t. ii, pp. 3G4-366.] 



isT.<=* se 

1718 



Decreto, para que se passe ordem aos Governadores das Ainms das 
l' Tonteiras, para que mandassem prender todos os Ciganos. 

Por convir á boa administração da Justiça exterminar deste 
Reyno todos os Ciganos pelos furtos, delictos graves, e excessos, que 
frequentemente commettem ; Fui servido ordenar aos Governadores 
das Armas das Fronteiras, que pelos seus Officiaes os mandassem 
prender, para serem repartidos por diversas Conquistas; a saber, 
da índia, Angola, S. Thomé, Ilha áó Princepe, Benguella, e Cabo 
Verde. E porque se me fez presente que em execução desta Ordem 
se achavão nas cadêas do Limoeiro muitos Ciganos, e Ciganas pre- 
sos; Hey por bem que o Chancellér da Casa da Supplicação que 

17 



258 



serve de Regedor ordene se embarquem para as ditas Conquistas os 
que se acharem presos, na forma, que tenho resoluto. Lisboa Occi- 
dental 28 de Fevereiro de 1718. 
Com Rubrica de Sua Magestade. 

[Liv. xii da Supplieação, foi. 14, in Ordenações e leys, otc. Lisboa, 1747, vol. iii: 
Collecção II dos Decretos e Cartas, p. 273.] 



IST-^ SO 

1745 

Decreto, em que se mandarão pôr em observância as Leys da expulsão 
dos Ciganos. 

Por quanto tem mostrado a experiência o grande prejuízo, que 
resulta aos Povos destes Reynos da assistência dos Ciganos, não 
tendo produzido o seu devido effeito as Leys promulgadas para 
a expulsão delles, pelo descuido, que tem havido na sua execução ; 
Sou servido que a Mesa do Desembargo do Paço faça repetir com 
mayor aperto as ordens necessárias, dando providencia efficaz, para 
que inviolavelmente se executem as referidas Leys, e não admitta 
requerimento algum contrario a ellas. A mesma Mesa o tenha assi 
entendido, e o faça executar. Lisboa 17 de Julho de 1745. Com Ru- 
brica de Sua Magestade. 

[Livro III dos Registos do Desembargo do Paço, fl. 131, in Ordenações e leys, etc. 
Lisboa, 1747, vol. iii: Collecção ii dos Decretos e- Carias, p. 274.] 



1751 

Copia de huma ordem que manou do Senhor Conde da Atalaja para 
o juizo da ovidoria e do ditto se enviou para o desta villa e se manda 
registar. 

«Sendo apresentada a Sua Magestade que esta província se acha 
infestada de siganos, havendo-se introduzido nella contra as leiis do 
Reyno e hordens reais expedidas sobre esta matéria, e que nos giros 
que fazem tem cometido vários roubos e escandelosos insultos, foi 
servido ordenar -me que procurase que fosem presos todos os que se 
achasem e remetidos ás cadeias das cabeças das comarcas, de sorte 
que em toda estta Província se não tornem a ver hum só individuo 
daquella prejudicial gente, e para que possa ter a devida execusam, 
o que o ditto Senhor detremina logo que vosa mercê reseber estta 
pasará as ordens nesesarias sem demora alguma aos menistros das 



259 



terras da sua comarca para [o] que constando-lhes que nos seos d es- 
tritos se achão alguns siganos sájâo logo com os mesmos povos a 
prendellos, de modo que possa ter efifeito huma delegencia tam re- 
commendada por Sua Magestade; e se para segurança delia fôr ue- 
sesario que concorrão as tropas pagas, aonde as houver, poderão as 
justiças requerer aos comandantes delias o aucilio que nesesitarem 
que pronptamente se lhes dará tudo o que for preciso, e das ordens 
que vosa mercê expedir aos menistros da sua comarca mandará vosa 
mercê pedir recibos da sua entrega, que me remeterá todos junttos, 
sem dilasam alguma, para que constando-me que algum delles, depois 
de as reseber, as não observão com a devida exatidão, o farei presente 
a Sua Magestade para que o mesmo Senhor possa ter com os trans- 
gressores da sua Real ordem a severa demonstraçam que mereserem. 
Deos Guarde a vosa mercê munttos annos. Estremes catorze de Ju- 
lho de mil settecentos e sincoentta e hum. Conde da Atalaija. Cum- 
pra e pase ordem geral na forma que se ordena. Villa Viçosa quinze 
de Julho de mil sette centos e sincoentta e hum. Oliveira. E não 
continha mais em a dita ordem, que bem e fielmente na verdade fis 
tresladar e tresladei, a qual me reporto, em fé do que me asignei em 
raso. Villa Boim de agosto outo de mil settecentos e sincoenta e hum 
annos. Sobreditto o escrevi. Manoel Rodrigues Figueira^u 

[Livro II do Copiador de alvará» e provisões da Gamara (extincta) Municipal de Villa 
Boim, a fl. 103 v. Archivo da Gamara Municipal de Elvas]. 



1753 

Registo de huma carta precatória de deligencia 

«O Doutor Joaquim António de Azevedo Soares, Cavalleiro pro- 
fesso na ordem de Christo, do Desenbargo de El-Rey nosso Senhor 
e seu Corregedor com alssada em esta munto nobre e sempre leal 
sidade de Elvas e sua comarca pello dito Senhor que Deos gvarde, 
que de presente na mesma sirvo de Provedor & Faço saber ao se- 
nhor Doutor Juis de fora desta cidade, ou a quem em sua abzen- 
cia ou impedimento seu nobillissimo cargo tiver e servir, em como 
a mim hora me foy remetida huma ordem pello Tribunal do De- 
zenbargo do Passo, fcyta em nome de El-Rey noso Senhor, que 
Deus guarde, e asinada pellos Doutores Dezembargadores Joze 
Pedro Emaus e António Velho da Costa, de cuja ordem o seu theor 
e forma de verbo ad verbum he o seguinte — Dom Jozé por Graça 
de Deos Rey de Portugal e dos Alguarves, daquem e dálem mar 
em Africa, Senhor de Guiné & Fasso saber a vos corregedor da 
comarca de Elvas que Reprezentando-me os Juizes de fora das 



260 



Villas de Souzel e Mertola a duvida que tiverão ao cumprimento 
das ordens que por meu servisso lhe remetera o Sargento mor de 
Batalha, que gouverna as Armas dessa Província, para effeito de 
tirar devasa exacta contra os siganos e quem os protegese por ser 
o meio mais conveniente do socego dos Povos e Bem comum, e con- 
tra os que extrahirem trigo para o Eeino de Castella e lavradores 
que o vendem aos Castelhanos e Portuguezes que o conduzirem 
ou em suas cazas o deicharem albergar, dando-se-lhe parte do que 
resultace desta diligencia para assim mo fazer prezente, e sendo 
tudo visto na meza do Dezembargo do Passo, em que foi ouvido o 
procurador da minha Coroa, ele me fez prezente em consulta da 
mesma meza, fuy servido rezolver e declarar que os ditos Juizes de 
fora fizerão o que deviâo em nâo executar as ordens do que governa 
as Armas, porque Devasas só por cazos de ley, rezoluçoes e decretos 
meos he que devem ser tiradas ; quanto a extracção do trigo, tenho 
dado a providencia nesesaria, e pello que respeita aos siganos hey 
por bem e vos mando que, constando-vos por qualquer modo que 
algumas pessoas do voso destricto, de qualquer qualidade ou condi- 
ção que sejão, acoutão protegem ou recolhem siganos, os autoeis e 
prendais debacho da chave na cadeya da Cabesa da Comarca, de 
que me dareis conta pella meza do mesmo Dezembargo do Paso, 
tendo entendido que na vosa rezidencia se perguntará se cumpris- 
teis com esta obrigação, ficando assim adisionado este capitulo aos 
da rezidencia. E esta minha rezolução que mando participar a todos 
os corregedores ouvidores e provedores deste Reyno e do alguarve 
fareis i;ambem participar as justiças subalternas de vosso destricto. 
Cumprio asim. El-Rey noso Senhor o mandou por seu especial man- 
dado pellos menistros abaixo asinados de seo conselho e seus De- 
zembargadores. do Paço. Francisco Varella de Asis a fez em Lisboa 
a três de Novembro de mil setecentos e sincoenta e três. António 
Luis Signet de Cordes a fez escrever. José Pedro Emaos. António 
Velho da Costa. Por rezolução do Dezembargo do Paso, digo por 
reziolução de Sua Magestad^ de dois de outubro de mil setecentos 
e sincoenta e três e despacho do dezembargo do Paso de doze do 
dito mez e anno. Por El-Rey noso Senhor ao Corregedor da Comarca 
de Elvas. E nâo se contem mais a dita em a dita prouizão por vir- 
tude da qual mandey pasar a presente para a vos ella ser dirigida 
dito Senhor Doutor Juiz de fora desta cidade de Elvas ou a quem 
em sua auzencia ou impedimento seu nobilisimo cargo tiver e servir 
a qual sendo-lhe apresentada indo primeiro por mim asinada e selada 
com sello deste dito meu Juizo(?) que ante mim serve ou com a mi- 
nha rubrica, de que valha sem sello ex cauza, que também em seme- 
lhantes uzo e costuma servir, a cumpra e guarde, fasa munto intei- 
ramente cumprir e guardar asim e da maneyra que em ella se 
conthem e declara, e em seu cumprimento e por virtude delia, sa- 



261 



bendo Vossa merse que alguma pesoa, de qualquer qualidade que 
seja, desta dita cidade e seu termo, por algum modo acouta, protege 
ou recolhe siganos, os actue e prenda logo na cadeya publica desta 
cidade, executando tudo na forma da Provizâo de Sua Magestade, 
nesta incerta, que vosa merse mandará cumprir tam inteiramente 
como nella se conthem, e vosa merse nie mandará pasar certidam de 
como esta lhe foi entregue e a cumprio ; como também mandará dar 
e pagar o feitio e asynatura e sello desta, que no fim hirá declarado, 
sendo feita esta despeza á custa dos bens do Conselho desta dita 
cidade *, e de vosa merse asim o cumprir e mandar se cumpra e guarde, 
fará em tudo a justiça que costuma e he obrigado em rezão de seu 
nobelisimo cargo que ocupa e admenistra, serviso a Sua Magestade 
que Deus guarde e a mim mersé, o que eu não menos farey por outras 
suas semelhantes, sendo-me aprezentado da sua parte pedido e de- 
precado mediante Justiça etc. Dada e pasada em esta dita cidade 
de Elvas, feita em ella ao primeiro dia do mes de Dezenbro do Anno 
do Nascimento de Noso Senhor Jezus Christo de mil e setecentos e 
sincoenta e três annos etc. Esta vai subescripta por Jozé Bernardes 
escrivão proprietário do oííicio da correição em esta cidade de Elvas 
e sua Comarca etc. Paguarse-ha de feitio desta ao todo contado na 
forma do Regimento duzentos e setenta reis e de asynar e sello 
noventa reis. E eu Jozé Bernardes escrivão da Correição o sobes- 
crevy. Joachim António de Azevedo Soares. Ao sello valha sem sello 
ex causa trinta reis. José Bernardes. Cumprace. Elvas sinco de de- 
zembro de mil e setesentos e sincoenta e três. Falcato. E não se 
continha mais em a dita precatória que fiz regystar bem e na ver- 
dade e não leva cousa que duvida fasa, em fée do que a fiz escrever 
subescrevy e asynei de meus sinais costumado. Elvas dois demarco 
de mil e setecentos e sincoenta e quatro annos. E eu João Pereyra 
Coelho, escrivam das ^ecuções, que hora siruo de escrivam da 
Camará o subescrevi. João Pereira Coelho». 

[Tombo iii do Registo da Camará Municipal de Elvas, a fl. 203. — Archivo Muni- 
cipal.] 



3Sr-° 33 
1756 

Aviso para o Duque Regedor ^ em que se lhe ordena, que os Siganos, 
que inquietavào os moradores do Termo desta Cidade, sejão appli- 
cados a servirem nas obras publicas da mesma Cidade. 

111.™» e Ex."»o Sr. Fazendo presente a Sua Magestade o Aviso, 
que V. Excellencia me dirigio na data de 13 do corrente sobre os 
Siganos, que inquietão os moradores do Termo desta Cidade : Foy 



262 



o mesmo Senhor servido mandar declarar a V. Excellencia, que nào 
havendo presentemente navio para Angola, em que possão ser trans- 
portados os Siganos, que se condemnarem, sejâo applicados a servi- 
rem nas obras publicas da Cidade. Deos guarde a V. Excellencia 
Paço de Belém, a 15 de Mayo de 1756. = Sebastião Joseph de Car- 
valíio c Mello, 

{Memorias das principaes providencias que se derão no terremoto, que padeceu a Corte 
de Lisboa no anno de 1755. Lisboa, 1758, pag. 106.] 



1760 

Eu ElRey faço saber aos que este Alvará de Ley virem que 
sendome presente que os Siganos, que deste Reino tem sido degra- 
dados para o Estado do Brazil vivem tanto á disposição da sua von- 
tade que uzando dos seus prejudiciaes costumes com total infracção 
das minhas Leis, causão intolerável incomodo aos moradores, come- 
tendo continuados furtos de cavalos, e Escravos, e fasendo-se formi- 
dáveis por andarem sempre encorporados, e carregados de armas de 
fogo pellas estradas, onde com declarada violência praticão mais a 
seo salvo os seus perniciozissimos procedimentos ; considerando que 
asim para socego publico, como para correcção de gente tão inútil e 
mal educada se faz precrso obriga-los pellos termos mais fortes e 
eficazes a tomar a vida civil : sou servido ordenar que os rapazes 
de pequena idade filhos dos ditos siganos se entreguem judicial- 
mente a Mestres, que lhes ensinem os officios e artes mecânicas, aos 
adultos se lhes assente praça de soldados, e por algum tempo se 
repartão pellos Prezidios, de sorte que nunca estejão muitos juntos 
em hum mesmo Prezidio, ou se facão trabalhar nas obras publicas 
pagando-lhes o seo justo salário; prohibindo-se a todos poderem 
comerciar em bestas e Escravos e andarem em ranchos : Que não 
vivão em bairros separados, nem todos juntos, e lhes não seja per- 
mittido trazerem armas, não só as que pellas minhas Leis são pro- 
hibidas, que de nenhuma maneira se lhes consentirão, nem ainda 
nas viagens, mas tãobem aquellas, que lhes poderião servir de 
adorno : E que as mulheres vivão recolhidas e se ocupem naquelles 
mesmos exercícios de que uzão as do Pais ; e Hey por bem que pelhi 
mais leve transgressão do que neste Alvará Ordeno, o que for com- 
prehendido nella seja degradado poj toda a vida para a Ilha de 
S. Thomé, ou do Princepe sem mais ordem e figura de juizo, nem 
per meyo de Apellação, ou Aggravo do que o conhecimento sumario 
que resultar do juramento de três testemunhas, que deponhão pe- 
rante quaesquer dos Ministros criminaes respectivos aos destrictos, 



263 



onde fizerem a transgressão, e provada quanto baste se execute 
logo a sentença do extermínio, sem que delia possa ter mais recurso. 
Pelo que Mando ao Presidente e Concelheiros do meo Concelho 
Ultramarino, ao Vice-Rey e Cappitâo General de mar e terra do 
Pastado do Brazil, e a todos os Governadores, e Cappitães mores 
delle, aos Governadores das Rellações da Bahia e Rio de Janeiro, 
Desembargadores delias, e a todos os Ouvidores e mais Ministros, 
e Officiaes de Justiça do dito Estado executem e façâo observar sem 
duvida este meo Alvará, como nelle se contem, o qual se publicará, 
e registará na minha Chancelaria mor do Reino, e para que venha 
á noticia de todos, e se não possa alegar ignorância será tãobem 
publicado nos Cappitanias do Estado do Brazil e em cada huma das 
suas Camarás e se registará nas ditas Rellaçoes, e nas mais partes, 
onde semelhantes se costumão registar, lançando-se este próprio na 
Torre do Tombo. Lisboa vinte de Setembro de mil, setecentos e 
secenta. Rcy •'• etc. 

[Registado a foi. 351 do L.*" x do Registo do Real Archivo. —António Delgado da 
Silva, ColUcr^ão da legislação porlugueza, 1750-1762, pp.' 749-750.] 



1761 

Provisão de 8 de Fevereiro, relativa á lei de 20 de Setembro de 
1760, a qual nada accrescenta de interesse. 

[António Delgado da Silva, Supplemento á Collecção de legislação portugueza, 1750- 
1762, p. 786.] 

3sr.° se 

1800 

Rezisto de huma ordem do Entendente Garal (sic) da Policia da Corte 
e Beino para o Doutor Corregedor desta Comarqua a qual tíemeteo 
ao Doutor Juis de Fora desta Cidade na forma seguinte. 

Vou munto Seriamente Recomendar a Vossa mercê que especa 
as ordens mais percizas a todos os magistrados da sua respectiva 
Comarca asim de vara Branca como ordinários avivandos da exze- 
cução da Lei de vinte e sinco de junho de mil e setesentos e secenta 
c com particolaridade o paragrafo doze dela e a de vinte e sinco de 
Dezembro de mil e seissentos e oito que fas parte da mesma Lei 
c a de quinze de janeiro de mil e setesentos e oitenta; pois os Re- 
petidos fatos dos trangresores das edicadas Leis teem feito ver que 
os soberditos magistrados não cumprem o que nelas lhes he ordenado 
o que obrigou ao Genaral Dom Simmão Trazer a Reprezentar ao 



264 



Príncipe Nosso Senhor a grande dezerção das Tropas auseliares 
que estão debaxo do seo comando neste Reino, que os masgestrados 
não cumprem as Leis e os dexão tranzitar para a Espanha, e neste 
Reino teem entrado outros muntos estrangeiros sem se legetimarem 
como ordenâo as soberditas Leis que se citoaram; sempre foi nes- 
ceçariio huma grande circonspeção a vegilancia de tão emportantes 
obgetos, mas munto mais, esinciahnente em huma congetura que 
ofresem as critiquas sirconstancias e que são bem manifestas não se 
contentando Vossa mercê em recomendar a exzecução destas deli- 
gencias aos soberditos magistrados mas vegiando se cumprem estes 
as çuas obrigacoins e asim continuar Vossa mercê, emquanto estiver 
regendo essa correição, e Iguahnente na confermidade da ordenação 
do Livro quinto Titolo secenta e nove e dos decretos e Alvarás que 
vão nas coleçoins numaro primeiro e segundo ao dito Titolo e dese- 
sete de janeiro de mil e seissentos e seis e de treze de setembro de 
mil seiscentos e treze de vinte e quatro de outubro de mil seiscentos 
e quarenta e sete do decreto de vinte oito de Fevereiro de mil e 
setecentos e dezoito prendão todos os siganos de um e outro seco 
que vivão sem domecilio e andem vagos no Reino, e os filhos destes 
de que falo de um e outro sesso remetermos vossa mercê con toda a 
caridade e comedamente não lhes faltando ao nesceçario alimento 
conduzindos em carros e cavalgaduras aos portos do Mar mais pro- 
chimos para delles virem para a Rial Caza pia desta Corte e nela 
serem instruídos namorai Christã e nas obrigacoins suciais e apren- 
derem as Artes e manefaturas e aqueles que pelos seos talentos se 
recomendarem as mesmas siencias pedindo Vossa mercê ao Illustris- 
simo Ex."" Governador das Armas dessa Província que o ausseli na 
prizâo dos referidos siganos que por ela andarem vagando e nesta 
regra entrarão alguns engeitados e filhos famílias que andão fugi- 
dos girando de terra em terra sem se asoldadarem nem procorarem 
em que se ocopar vivendo de furtos que fazem e da mendacidade 
a que o ósio os condus em que depois ficão servindo de grave 
pezo ao estado consta finalmente nesta entendencia que muitos dos 
Ladroins que de novo teem aparesido são, huma especia de contra- 
bandistas que andão vendendo pelas cazas e mascarandose e por 
este modo não só exzeminão as entradas e saldas delas mas também 
costumão ganhar alguns dos domésticos que sara mais a seo salvo 
porpetrarem os robôs e furtos que intentão fazer, pois que digo os 
que tiverem pois nestas sirconstancias devem ser logo prezos e 
apreendidas também as fazendas que se lhe encontrarem sejam o 
não de contrabando e as aloará formando-lhes os seos porseços ven- 
dendo-lhes, se as fazendas forem de Lei o como contrabandistas se 
elas forem de contrabando e nestes casos : Lembro a Vossa mercê o 
capitolo vinte sete da prematica de mil e setesentos e quarenta e 
nove como também a Lei de quatorze de Novembro de mil e sete 



265 



sentos e sincoenta c sete mas previno a Vossa mercê que deve ese- 
toar desta regra as fazendas que vão endiretura para espanba pois 
o que acabo de ordenar entendese a respeito das fazendas que se 
andào vendendo pelo entrior do Reino estas delegencias deverá 
Vossa mercê ter sempre em vista é não só contentarsse em dar as 
çuas ordens mas vegiar cuidadosamente nas ezecuçoins delas como 
já referi a Vossa mercê, e munto parti colarmente estando Vossa mercê 
adetrito como meo comiçario a comprir e fazer e exzecutar o que 
ordeno e também para de futuro recomendo a Vossa mercê que leia 
liuma e muntas vezes o seo Regimento de Corregedores que litaral- 
mente deve observar em toda a sua Comarqua e que deve praticar 
como Corregedor e Prezidente dela e munto principalmente sobre as 
plantaçoins e rezalvas dos chaparros enxertos dos zambogeiros e 
abreturas de algumas terras próprias para as semanteiras dos pains 
de toda a especia segundo a qualidade do terreno o pedir e lembro 
a exzecução dos officios que deregi a esse lugar nas datas de vinte 
sete de Maio e de treze de Julho de mil e sete sentos e oitenta 
exzecutando o que dis respeito a este officio nas terras de donatários 
adonde não entrar a correição para nas mesmas terras fazer Vossa 
mercê observar o que neste lhes ordeno e o que ultimamente ordenei 
no officio que deregi a essa Provedoria em sinco do presente mês 
relativo aos 'engeitados nas correiçoins que fizer proguntara Vossa 
mercê se tem litaralmente exzicutado o ordenado no dito officio para 
Vossa mercê me dar conta da sua observância e se hover alguma 
omição, da parte dos exzecutores, espero da atividade e luzes de 
Vossa mercê cumpra e faça exzecutar o que tenho ordenado nos res- 
pectivos officios que estes fins tenho espedido a esse Lugar e avivar 
egualmente a exzecução das indicadas Leis para que de foturo os 
seçores desse Lugar asim o cumprão enteiramente e facão exzecu- 
tar. Vossa mercê fará rezistar o presente officio nos Livros dessa 
Correição, remetendo-me certidão de asim se ter exzecutado. Deos 
Guarde a Vossa mercê. Lisboa doze de Julho de mil oito sentos. Diogo 
Ignacio de Pina Manique. E não continha mais no dito inserto em 
huma depercada que veio do Juizo da Correição, para o Doutor 
Juis de Fora a quem entreguei e a mesma me reporto e eu António 
Joaquim Pereira escrivão da camará a fiz escrever. — António Joa- 
quim Pereira.» 

[Livro VI do Tombo do Registo da Camará Municipal de Elvas, a fl. 85 v.l 



3sr_^ ST 

1848 



«Deve cuidadosamente exigir-se passaporte aos bandos de ciga- 
nos que transitarem pelo reino, afim de se exercer contra os que o 



266 



não trouxerem a correcção e repressão ordenadas na Lei de 20 de 
setembro de 1760. Portaria circular 18 abril 1848. Ined. (Código 
administrativo, 18 Março 1842, e de 1854, p. 181.) « 

[Henrique da Gama Barros, Eepertorio admiràstrativo. U.sboa, 1860. Tomo i, 151.] 



Miguel Leitão d'Ândrada sobre os ciganos ^ 

Crisp. Eezão tiuerão esses senhores, e os muytos que dizeis aqui 
SC acharão nestas festas, porque forão ellas muito pêra se ver. Porem 
ainda me parece vos ficou por contar, hua dança de Ciganas que eu 
encontrei no caminho. 

Gal. Outras cousas fora dessa, deixei eu por serem miúdas, como 
haa fonte de vinho, que o senhor deuoto mandou por a nossa porta, 
que de cima corria em hua bacia por hua pena, onde estaua hua 
taça de prata com guarda, e bebião quantos querião. E quanto às 
ciganas não as quis acceitar nesta festa o senhor deuoto antes as 
despedio, e elle dirá o porque. 

Deuot. Tenho tamanho aborrecimento a essa gente, que nem 
esmolla à porta quero se lhes dê, por os ter por indinos delia. 

Cr-isp. Disso me marauilho eu muito, porque a esmola dada por 
amor de Deos ainda que seja a indino não deixara de ter o seu 
merecimento, por donde se deue dar a todo o necessitado, ou qu(; 
mostrar selo. E ainda que o não seja basta ser por amor de Deos. 

Deuot. Bem sei que a esmola conforme nellafoy o intento, e cha- 
ridade terá o seu merecimento. E quem a pudesse dar a todos por 
amor de Deos faria bem, quando isso não fosse occasião de pecar 
ou de não deixar o peccado, que o sol a todos allumia, porem quem 
não pode se não limitadamente, parece a deue antes de dar ao dino? 
que ao indigno, quais são quasi todos estes Ciganos, ladrões, saltea- 
dores, matadores, sem ley, nem temor delia, e ellns ladras, feiticei- 
ras inquietadoras da honestidade das molheres, e fazendoas mal 
parir. Embaidoras que por dous vintêis, ou dois pais, não duuidarão 
trazer á vossa escraua, ou criada a peçonha, e o mesmo solimão pêra 
matar seus senhores, e enganar a simplez donzella c5 nome de me- 
sinha pêra o outro casar com ella. E ainda à casada a titulo de 
o marido lhe querer bem, lhe dão com que os coitados vão ao outro 
mundo fazer experiência da mesinha, ou ficão pêra nunca mais 



' Trecho da descripção dumas festas na villa de Pedrógão grande (Bcira-Baixa) 
na obra de Miguel Leitão d'Andrada, Misccllanea do sitio de Nossa Senhora da Lvz 
do Pedrógão grande, etc. Lisboa, 1629. (O prologo foi escrito em 1G22.) Dial. xii, 
pg. 335-310. 



267 



prestar. Então a descarga disto he, que digão que o marido era hum 
amancebado, e andaua toda a noite, e que disso^morreo assi mal. 

E sabe Deos, e suas próprias mulheres, o como, e aozadas, a 
quantos isto cada dia acontece. E seja verdade que todos somos pec- 
cadores, estes o são por officio, e por carta, e delle se mantém. E 
os que introduzirão em Portugal mil feitiçarias, e males que nelle não 
se sabiâo. Por onde eu aconcelharia a todo o home que euitasse 
o fallar qualquer cousa sua com esta gente, nem ainda zombando ou 
com achaque de bona dicha, muito mais cautelosamente, e com mais 
rigor que com hum ferido de peste, e falo de sciencia certa. E he de 
notar, que se hum nosso Português vai ser morador em outro 
Reyno, em poucos annos logo falia a lingoa desse Reyno, e seus 
filhos ja nella e em tudo o mais como naturais mesmos da terra. E 
esta gente com auer tantos centos de annos que £'spanha os agasa- 
lhou, que quasi elles mesmos não sabem de que nação ou Reyno 
procedem, porque sendo Gregos que se vierâo fugindo dos Turcos, 
se fazem jEJgipcios, ou Gitanos. E pello contrario, e sendo Chaldeos, 
como diz lacobo Philipo Bergamate no seu livro, Supplementum 
chronicarum que de certos pouos chamados Zigaros, se sahirão a 
encher toda Europa porem que nenhures os consentem mais de três 
dias, pola sutileza de seus furtos, e que por essa causa os Venezea- 
no£, e os terem por sospeitos os lançarão de todas suas terras, e que 
nuca deixarão a sua lingua Chaldea, que deue ser a que lhe ouimos 
falar, e parece são estes de Portugal. Os quais de Zigaros se cha- 
mão ciganos, que he o mesmo. E o não perderem nunca a sua lingua 
não foy por certo, pêra nella se lerem e vsarem de liuros Catholicos, 
ou de sciencias e artes que troxessem boas, senão pêra milhor inte- 
ligência de suas malas artes, latrocínios, e embelecos, ou enganos, 
porque vzando tudo isto como vzão por officio os não possamos en- 
tender. E nós tão cegos, e descuidados, que ninguém attenta nisto, 
falo dos que gouernão, que o puderâo remediar, e vendoo, e palpan- 
doo cada dia e cada hora a nossas portas, e dentro de nossas próprias 
casas : passão por isso. E não sei como os conselheiros dos Reys, e os 
que gouernão as Republicas desuelando-se tanto em novas premati- 
cas sobre ninharias, não buscâo remédio a cousa tao importante como 
fora não estar Portugal e Espanha toda criando em suas entranhas, 
estas lombrigas ou digo Biboras que o estão roendo de continuo por 
todas as partes de seu todo. Agasalhãdoos Portugal vindo perse- 
guidos dos Turcos vzão tão mal desse gasalhado, e beneficio. 

E pudera isso ter muyto bom remédio, embarcandoos diuididos 
pêra o Brazil e Angola e outras nossas conquistas, e agora pêra a 
noua pouoaçâo do Maranhão poucos a poucos em cada nauio que 
fosse, e se hirião acabando de sair do Reyno, ou delles estes mãos 
costumes, e quando isso não parecesse, fazendoos viuer dentro no 
meyo das cidades repartidos pello Reyno, vedandolhes o yzo do trajo, 



268 



e da lingoagem, e o sair fora das Cidades e villas. O que he muito 
importante, e mais essencial, e obrigandoos a officios com tenda sua, 
ou obreiros nas alheas. E que não fossem ferreiros, que só vzâo a 
fim de fazer gazuas, e instrumentos de roubar. E a ellas o mesmo 
a officios, ou vender em tendas, ou polias ruas e outros exercícios, 
com o que ou outros remédios se lhes atalhasse o furtar, e outros 
malefícios. E o pedir esmola que aos pobres se deue necessitados 
(que ha muitos nossos naturais) e não a elles que podem bem com 
trabalhar remediar sua vida. Pois a verdadeira charidade deue 
começar por nós mesmos, e pelos mais chegados nossos. 

Crisp. Nem por isso deixaria de auer outros ciganos, como ha 
naturais que por se darem a boa vida se lançâo a pedir. 

Deuot. Também esse he hum grande descuido dos que gouernão 
não atalharem a essa desordem com algum remédio. 

Crisp. Não deue de o ter pois que tee gora se lhe não deu. 

Deuot. Não he essa boa consequecia que cada dia vemos darse, 
e acharse remédio a cousas que a nossos mayores não passou por 
f)ensamento. Quanto mais que leys ouue, e ordenações excelentes 
sobre isso, que ja não se praticão nem se goardão. E puderão as 
Republicas ou os Reys criar Magistrado, ou tribunal só pêra isso, 
dandolhe leys, e regimento. Pondo se os coxos a officios que não hão 
mister pernas, como çapateiros, alfayates, ouriues, e outros, e os 
cegos nas casas dos ferreiros, tanger os folies, rodas de esparteiros, 
Cordoeiros, cirgueiros, lapidarios, e outras rodas, e na ribeira das 
nãos a puxar por cordas, e o mais que aly ha. E os aleijados de 
mãos, conforme o aleijão, porteiros de concelhos, e em portas de 
fidalgos, pastores, egoarizos e caminheiros. Aplicando a todos o 
exercício, e trabalho de que se manter conforme sua sufficiencia, 
tirandoos das tauernas que destes de continuo 'estão cheas, obrigando 
alternadamente aos officiaes siruirense delles, e pagarlhes ou man- 
telos (como dizem o fazem na China, e mandando vir de lá essas 
leys que dizem são excelentíssimas em muitas cousas) que as leys 
em todas as idades se buscarão e passarão de huns Reynos a outros 
pêra tomar delias o mais conueniente). E goardandose cõ rigor não 
se cortariâo muitos os braços a si mesmos cõ a cobiça de pedir, e 
nem cegarião muitos pays os filhos minimos acinte pelos lançar a 
pedir (como se diz por cousa certa o fazem em certos lugares) nem 
se farião outros a si mesmos outros aleijões, e chagas com este 
intento. Nem andarião tantas mulheres pêra sustentarem o mao 
estado em que viuem, de dia, e de noite pedindo e lamentando-se 
com hua voz muito lastimosa, e toada muito prolongada, como tudo, 
e outros mil excessos cada dia vemos. E passão com toda a liber- 
dade, e a seu aluedrio de cada hum. 

E da mesma maneira se puderão poer as mulheres a officios e 
exercícios conuenientes, e acõmodandoas por casas a seruir onde 



269 



estiuessem recolhidas, que he vergonha ver isto, e ellas logo se 
darem a esta vida calaceira de pedir com seus capelos, e bordão, 
sem auer quem acuda a esta calaçaria, se quer por rezão de estado. 

E desta ou de outras maneiras mandandose o primeiro com todo 
o rigor que ninguém pudesse pedir sem expressa licença do tal tri- 
bunal ou magistrado. E com trazer essa tal licença ao colo escrita 
em taboas, e com letras muyto grossas e de forma. Nâo aueria tan- 
tas desordens, e peccados mortais, como ha nem tantos males, e 
aueria bastante esmola pêra quem direitamete pertence e não 
padecerião os necessitados nobres, e enuergonhados tantas neces- 
sidades. E muytas vezes extremas, por estes velhacos lha vsurpa- 
rem, e tyranizarem e nas Igrejas mais quietação pêra as pessoas se 
poderem encomendar a Deos, vedandolhes o pedir dentro e o dar 
a esmolla dentro, pois basta pediremna à porta. 

Crisjp. Deixemos os pobres Ciganos, e yr as cousas por onde vão, 
que nos não auemos de gouernar, nem emmendar o mundo. E pois 
o senhor Galacio me fes mercê festejarme tanto esta tarde, e vos 
de me aueres de dar algumas, juntemonos aqui à manham, donde 
poderemos yr dar quatro passeyos por recreação refrescandonos por 
essas fontes, e sombras. 

Deuot. Assim seja, e a Deos. 



APPENDICE 11 
OS CIGANOS DO BRASIL 



Entre os documentos que reuni ha um * que nos mostra 
já em 1Õ74 a pena de galés, imposta a um cigano, com- 
mutada em desterro para o Brasil. Não seria naquelle 
século tal caso o único do género ; mas é só no fim do 
século seguinte, em 1686 que vemos generalisado o desterro 
para uma parte do Brasil, o Maranhão 2, conforme ao de- 
sejo que fora expresso, mais de meio século, antes por 
Miguel Leitão d'Andrada^. Emfim o Alvará de 1760* 
mostra-nos que no Brasil persistia o modo particular de 
vida dos ciganos e que, graças ás condições particulares 
d'aquella nossa antiga colónia, elles se atreviam a praticar 
violências, reunindo- se em numero e com armas. 

No Brasil, como em Portugal, como nos outros países 
europeus ou de civiHsação de origem europea, as medidas 
legislativas não conseguiram fazer desàpparecer os ciganos 
nem sequer os seus costumes inveterados. 



* Doe. n.o 5. 

2 Does. n.°« 22 e 23. 

3 Doe. n.° 38, p. 267. 

4 Doe. n.« 34. 



272 



Um viajante inglez que percorreu uma parte do Brasil, 
no começo (l'este século, deu-nos a seguinte noticia que 
nos mostra bem a persistência d'aquella gente : 

«Resta-me ainda fallar de uma raça de homens; mas os 
indivíduos que a compõem não são em numero bastante 
grande para que a classifiquemos entre as grandes divisões 
da espécie humana que formam a população do Brasil; 
esses homens excitam alem d'isso menos interesse que os 
outros: todavia não se pode passar em silencio os ciganos^ 
(porque é assim que os chamam). Ouvi muitas vezes fallar 
d'elles, mas nunca tive occasião de ver um só. Bandos de 
ciganos tinham por costume mostrar- se noutros tempos, 
uma vez por anno, na aldeia de Pasmado e noutros sitios 
da província (de Pernambuco); mas o governador era ini- 
migo d'elles, e como fossem feitas tentativas para prender 
alguns, as visitas acabaram. Pintam-nos como homens altos 
e bem feitos, de cor acastanhada com feições semelhantes 
ás dos brancos. Vagueiam em bando, homens, mulheres, 
creanças ; trocando, comprando, vendendo cavallos e jóias 
de oiro e de prata. As mulheres jornadeiam assentadas 
entre os cestos, em cavallos albardados; mettem os filhos 
nos cestos misturados com a bagagem. Os homens são 
excellentes cavalleiros; quando os seus cavallos de carga 
estão ajoujados sob o peso, contentam-se com abrandar o 
passo das cavalgaduras, sem pensar em se apearem e repar- 
tirem as cargas por todos os animaes. Diz-se que não obser- 
vam nenhuma pratica religiosa, que não vão nunca á missa 
nem ao confesso; accrescenta-se que se casam só com 
pessoas da sua raça.*» 

Ao que acabo de indicar se resumia o que apurara dos 
ciganos do Brasil quando me chegou á mão, por obsequio 



1 Henri Koster, Voyages dans la partie septentrionale du Brésil 
depuis 1809 jusqu'en 1815, trad. de Fanglais par M. A. Jay. Paris, 
1818, vol. II. — Da curta noticia de Koster é extrahida a que com 
o titulo de Zingaris au Brésil se lê in Nouvelles annales des voyages, 
t. IV (Paris, 1820), p. 474. 



273 



do sr. L. de Vasconcellos, um volume que se occupa do 
assumpto, mas com referencia quasi exclusiva aos ciganos 
do Rio de Janeiro *. 

O auctor dessa obra começa por considerações de se- 
gunda mão sobre as primitivas migrações dos ciganos (tsi- 
ganos), com varias inexactidões; falla-nos depois da legis- 
lação portuguesa acerca d'esse povo e cita um decreto de 
11 de abril de 1718 segundo o qual «foram degradados os 
ciganos do reino para a praça da cidade da Bahia, orde- 
nando-se ao governador que ponha cobro e cuidado na 
prohibição do uso de sua lingua e giria, não permittindo 
que se ensine a seus filhos, a fim de obter-se a sua extin- 
ção.» Não encontrei esse decreto, nas minhas investiga- 
ções. «Foi por essa data, segundo o sr. Pinto Noites, esti- 
mável e venerando calon (calo) de 89 annos, que chegaram 
ao Rio de Janeiro os seus avós e parentes — nove famílias 
para aqui degradadas, em razão de um roubo de quintos de 
ouro attribuido aos ciganos.» Segundo o auctor, esse velho, 
de prodigiosa memoria, deu-lhe noticia de famílias impor- 
tantes brasileiras cruzadas com os ciganos, e de outras 
particularidades muito interessantes. Os degredados de 
1818 entregar-se-hiam ás industrias dos metaes : seriam 
caldeireiros, ferreiros, latoeiros e ourives; as mulheres 
rezariam de quebranto e leriam a buena dicha. 

O auctor pretende que: «A reproducção entre si (entre 
os ciganos) deu-se em grande escala ; o cruzamento com as 
três raças existentes eífectuou-se, sendo o cigano a solda 
que uniu as três peças de fundição da mestiçagem actual 
do Brazil». Aqui ha um exaggero evidente. De um lado, 
suppondo rigorosamente histórica a noticia da migração das 



1 Mello de Moraes Filho, Os Ciganos no Brazil. Rio de Janeiro, 
1886. 18.° 204 pp. O mesmo auctor publicou um Cancioneiro dos 
Ciganos, que não vi. O volume que examinei contém de pp. 113 a 
155 : Trovas ciganas e Novo Cancioneiro. Ha excerptos de uma e 
outra collecção no Parnaso hrazileiro (Rio de Janeiro, 1885) do 
mesmo auctor, o qual tenho á mão, t. ii, de p. 609 a 624. 

18 



274 



nove famílias, não pode admittir-se que tenham sido as 
únicas desterradas para o Brasil no século xviii, para onde 
já anteriormente teriam ido algumas; de outro lado não é 
fácil de admittir, sem outras provas, que no brasileiro haja 
tanto sangue cigano como o auctor parece estar disposto a 
acceitar. 

O sr. Mello Moraes pretende, sem citar documento, que 
em 1808, com a traslação da corte portuguesa para o Kio 
de Janeiro, passassem para alli mais ciganos, e falla-nos de 
um calo rico, Joaquim António Rabello, sargento-mór do 
3.° regimento de milicias da corte «a quem a historia nacio- 
nal talvez um dia considere como uma força nas agitações 
politicas da independência». 

O alvará de 1760 prohibia aos ciganos do Brasil com- 
merciarem em escravos. O sr. Mello Moraes falla-nos 
d'essa lucrativa occupação dos ciganos e allude a um M. . ., 
calo de raça, que alcançou immensa fortuna como media- 
neiro na compra de escravos e veiu a ser marquez de B . . . 
Adaptando-se assim, pelos peores lados, á civilisação bra- 
sileira, os ciganos não perdiam algumas das peculiariadadcs 
da sua raça. EUe elevava-se em verdade facilmente ao 
nivel do brasileiro, porque o nivel do brasileiro era geral- 
mente baixo. Esse phenomeno é apenas mais uma exem- 
phíicação da lei em virtude da qual um povo de civilisação 
rudimentar se adapta tanto mais rapidamente á civilisação 
de outro, quanto ella é menos adeantada. 

Num capitulo em que ha outras muitas coisas inconsi- 
deradas, attribue o auctor grande papel ao cigano como 
fonte de superstições brasileiras. Mas as superstições e os 
ensalmos que nos apresenta divergem muito pouco de super- 
stições e ensalmos vulgarissimos entre o povo português c 
aos quaes me é impossível attribuir origem cigana, primeiro 
porque umas e outras são communs nos diversos povos da 
Europa, e segundo porque podemos seguir a sua historia, 
alguns séculos atrás em o nosso pais e por mais largo 
espaço de tempo noutros paises. Os ensalmos e pragas dos 
ciganos, demais, estão por tal forma cheios de elementos 



275 



christãos que logo á primeira vista se desconfia da sua ori- 
ginalidade. Sem duvida na índia, de onde veiu esse povo, 
encontramos coisas do mesmo género desde remota antigui- 
dade, já no Rig-Veda, e sobretudo no Atliarvaveda ^ ; encon- 
tramo las também nos documentos de outras velhas civili- 
saçoes, por exemplo nos textos cuneiformes de Babylonia, 
vulgarisados ate nas obras de Fr. Lenormant ; mas a com- 
paração revela que o que dos ciganos do Brasil nos com- 
munica o sr. Mello Moraes se parece muito mais com os 
ensalmos das benzedeiras e feiticeiras portuguesas que com 
os exemplares indianos, assim como os ensalmos portugue- 
ses se parecem mais com os dos outros povos europeus que 
com os asiáticos. A minha conclusão é que os ciganos se 
apropriaram em Portugal dos formulários das nossas benze- 
deiras e feiticeiras. A demonstração dessa Ihese exige 
tempo e espaço de que agora não posso dispor 2. 

As praticas de feiticeria, os ensalmos das ciganas, como 
os das suas collegas portuguesas, são, por via de regra, 
em extremo prosaicas ; todavia concebe-se que não deixe 



1 A. Weber, Indische Studien, t. iv (1858), pp. 393-430. 

2 Contento-me com indicar alguns elementos para o estudo da 
questão : J. Grimm, Deutsche Mythologie, cap. xxxvi, xxxvii e xxxviii; 
idem, Ueber Marcellus Burdigalensis in Kleinere Schrlften, 11, 114-151; 
Idem, Ueher zwei entdeckte gediclite aus der Zeit des deutschen hei- 
dentliums, ibidem, 11, 1-29; A. Kuhn und W. Schwartz, NorddeutscJie 
Sage, etc. p. 431-444 ; A. Kuhn, Sagen, Mãrchen und Gebrauche aus 
Wesffalen, ir, 119-215; Idem, Indische und germanische Segenspriiche 
in Zeitschrift fur Vergleichende Sprachforschung, xiii (1864), 49-74. 
113-157 ; John Brand, Observations on popular Antiquities, ed. 1877, 
III, 255-319 ; William Henderson, Notes on the Ft Ik Lore of the 
Northern counlries of England and the Borders. London, 1866, pp. 
108-142; L. F. Sauvé in Revue celtique, vi, 67-85; Fr. R. Marin, 
Cantos populares espanoles, i, n.°' 1054-1072; Mélusine; A. Birlin- 
ger, Aus Schicaben, i, 377, 4v4, 405, 441-463; etc. F. Adolpho Coelho, 
Romances, orações e ensalmos do Minho in Romania, iii (1874), pp. 
269-278 ; Idem, Costumes e crenças populares in Boletim da Socie- 
dade de geographia de Lisboa, 2.^ serie, pp. 633-668; Idem, As su- 
perstições portuguesas in Revista scicntifica, (Porto, 1882), pp. 512- 
528, 560-578 ; e os outros trabalhos dos folkloristas portugueses. 



276 



de produzir certo effeito a phrase seguinte do nosso auctor: 
«A cigana é a sacerdotiza da nossa theurgia popular! » 

Na colónia cigana da Cidade Nova, diz o auctor, não 
poderá haver menos de quinhentos habitantes. Os homens 
empregam-se geralmente no foro e são honestos. Nenhum 
foi até ao presente processado por ladrão ; nos dois últimos 
decennios de sessão de jury apenas dois foram condemnados 
e por ferimentos leves. 

Numa nota lemos que dois ciganos de Minas, alcunhado 
um o Beijo ^ parente de Pinto Noites, e outro o Eola^ 
foram notáveis nos annaes do crime; o primeiro contava 
mais de vinte mortes. 

«As mulheres não dão a mão a apertar aos homens, e 
estçs, quando se encontram, trocam entre si como saudação 
as palavras: «Olé! olá! olô!» Os filhos não beijam as 
mãos aos pais, estendem o braço, e com um tom de voz 
plangente e vagaroso, dizem: Abença. . .?» Esse costume 
imitaram-no as creanças ciganas das portuguesas. 

Tratam-se por alcunhas, como os fadistas : taes sao, o 
Beijo j o Rola^ já referidos, o Catú^ o Come-jpolvora (ciganos 
de Minas), o Migim-Migim, o Papagaio ^ o Pernas finas 
(ciganos da Cidade Nova). 

Apesar dos casamentos consanguineos, são raros os casos 
pathologicos congénitos, excepto os frequentes de surdi- 
mudez. 

Os casamentos dos ciganos do Rio de Janeiro, informa- 
nos ainda o sr. Mello Moraes, até 18Õ0, não tinham passado 
da phase primitiva, assim como ainda hoje nas partidas 
de Minas, Bahia e Maranhão, segundo o já referido Pinto 
Noites. O casamento era por via de regra o resultado de 
uma combinação dos pães e não a almejada consequência 
do amor. Se a um pae cuja filha não soubera conservar-sc 
pura esta era pedida para noiva, elle não hesitava em re- 
velar o segredo e tratava- se de a casar com um qiierdapa- 
nin {á, letra: «faz agua», marinheiro, português, colono); 
e esse consorcio com o estranho importava a exclusão igno- 
miniosa da tribu. Mas se a filha era virgem havia grande 



277 



satisfação c preparava- se a festa da boda, para que eram 
convidados até os inimigos e em que havia danças, des- 
cantes, banquete. 

(íA meia noite retiravam-se todos para um lado da sala, 
adiantando-se os noivos e as duas madrinhas . . . 

«Sobre um movei, cinco lençóes, alvos como uma hóstia, 
aromatisados com alfazema e salpicados de flores, acha- 
vam-se superpostos. 

«Quatro tochas accesas, encostadas a uma mesa, derra- 
mavam sobre o linho uma luz de âmbar e ouro. As janellas 
fechavam-se, a inquietação transparecia em todos os sem- 
blantes ; o rito sagrado do Gade ia cumprir-se.* 

«E os padrinhos, que também eram quatro, desdobravam 
os lençóes, os suspendiam da cabeça, juntando as extre- 
midades, passando ura ao outro os cirios que sustinham, 
alongando o braço opposto e formavam o quarto onde o 
sacrifício incruento (?) deveria celebrar-se. 

«Então nelle entravam os desposados e as duas sacerdo- 
tizas. . . 

«Uma das matronas despia a noiva, deitava-a sobre um 
leito, introduzia-lhe o dedo indicador no vestibulo da va- 
gina, despedaçava a membrana hymen, enxugando na ca- 
misa de cambraia as gottas de sangue da virgindade. 

«Vestida novamente, a um signal ajustado, os padrinhos 
largavam os lençóes, e o marido mostrava no Gade as rosas 
da pureza aos alaridos do festim . . . 

«O Gadej solemnemente acondicionado numa caixinha de 
preço, embebido de aromas suaves, coberto de folhas de 
alecrim, ficava pertencendo ao esposo, que o guardava 
para sempre como penhor de sua alliança.» 

O auctor do livro não consagra nenhumas observações 
particulares á religião dos ciganos; mas do que diz con- 
cluo- se que os do Rio de Janeiro adoptaram por completo 
o catholicismo na sua forma popular, de envolta com as 
superstições tradicionaes portuguesas. 

«Logo que uma mulher gravida estava a termo, e que 
as dores preparantes a arrojavam na cama, assistiam no 



278 



quarto á parturiente três parentas mais chegadas e na sala 
cantavam os visitantes cantos sagrados a Duvel (= git. 
Dehel), para suavisar os soíFrimentos da enferma e dar boa 
sorte ao anjinho que ia nascer. 

«As comadres e tias, com talismans milagrosos, com rezas 
infalliveis, com figas e bentinhos que lhe deitavam ao pes- 
coço, apoiavam nos braços a doente, encorajando-a, so- 
prando-lhe no rosto, fazendo-a recordar do quanto padecera 
a Virgem por seu bemdito Filho, quando viera ao mundo . . . 

«A creança era lavada com agua e vinho, numa bacia do 
prata; dentro deitavam collares e moedas de ouro, para que 
tivesse fortuna. 

«Depois da ligadura e corte do cordão, enxuto em riquís- 
sima toalha de linho e crivo, defumada de alfazema, o pai 
a tomava no collo e a beijava com transporte. 

«As parteiras faziam a toilette da parida, botavam junti- 
nho o recem-nascido, o quarto se abria a meia porta, e os 
parentes entravam para vê-lo. 

«Para que os visitantes não trouxessem maus ares e não 
levassem a felicidade que tivesse trazido o pequeno, defu- 
mavam-se antes e depois de penetrarem no aposento. 

«Jóias e objectos de valor cada um lhe oífertava, presen- 
tes estes que vendiam, servindo o dinheiro para a compra 
do enxoval. 

«O nome que Jhe punham era do santo do dia, dos pa- 
drinhos, e, no caso de divergências, lançavam sortes, sanc- 
cionando-se religiosamente a decisão do acaso. 

«Na mesma noite ou na immediata havia cantoria e 
bailado. 

«O baptisado não diíFeria dos nossos.» 

Quando morria algum cigano havia lamentações (em 
prosa); se era um marido o fallecido, «a viuva cortava os 
cabellos, deitava metade sobre a região precordial do finado 
e envolvia o rosto no vestido com que estava ao expirar 
o marido. Proferindo palavras cabalísticas, atirava tudo 
numa fogueira lustral preparada para este fim». 

«O sahimento dirigia-se á igreja. . . 



279 



«O esquife, carregado pelos Terceiros, ia coberto de 
flores e borrifado de lagrimas. 

«A infeliz de pés descalços, vestida de eterno luto, os 
filhos e os parentes, acompanhavam- no. . . » 

Sigo a ordem adoptada pelo auctor na sua exposição c 
não a que dei atrás ao meu estudo ; por isso só agora chego 
a dois pontos que, segundo a minha disposição, deveriam 
ter precedido as observações sobre os costumes : os cara- 
cteres physicos e os psychicos. 

Sobre o typo physico apenas nos diz o auctor que «pre- 
sentemente o colorido da pelle varia e com elle a nuança 
dos cabellos e dos olhos». Numa familia ha «mulheres de 
adorável belleza». A media da idade d'esse povo é de 
quarenta a cincoenta annos. Muito poucos chegam além? 
excepto na familia dos Cantanhedes, em que os fallecimen- 
tos não são vulgares antes dos setenta annos, tendo o auctor 
verificado no obituário um de cem. 

Além do que a propósito dos costumes se colhe relativa- 
mente aos caracteres psychicos dos ciganos do Eia de Ja- 
neiro, eis o que de mais preciso nos diz o sr. Mello Moraes 
no cap. vii : 

«Os desclassificados habitadores da Cidade Nova são na 
totalidade supersticiosos e desconfiados; fogem dos outros 
homens, mas não lhe votam rancor, sentimentos hostis. 

«Com o desalento aninhado na resignação, attribuem os 
acontecimentos mais comezinhos a um destino de influencias 
inevitáveis e a cujos effeitos o individuo tem de ceder ou 
succumbir na luta. 

«Qualquer lance menos bondoso da sorte os abate, con- 
siderando-os desde logo irremediavelmente perdidos, des- 
graçados. — Dahi a sua pusilanimidade, o abandono em 
que teem cabido, a embriaguez a que se entregam para 
adormecer-lhes pesadumes innatos. 

«As mulheres calins^ no infortúnio, são sublimes. . . 

«Ligando-se em matrimonio com corpo estranho são infe- 
lizes, vivem descontentes, uma ou outra se prostituo, veri- 
tícando-se que sempre com pessoa da mesma casta. 



280 



«Os ciganos não se separam, unem-se ; não se divertem, 
aborrecem-se ; não discutem, resmungam; queixam-se e 
monologam comsigo. 

«Suas phrases são severas e concisas, os seus pensamentos 
melancólicos e aphorismaticos, a sua voz azaphica, desigual. 

«Reconhecidos ao mais fútil beneficio, as suas demonstra- 
ções revestem-se de apparato declamatório, de expansões 
largas. 

«Entre si não se exploram, protegem-se ; não se diífamam, 
exaltam- se; — são francos, bem intencionados, carinhosos. 

«Se morre algum, as despesas do enterro e missa correm 
por conta dos parentes, que, como uma divida contrahida 
para com o morto, incumbem-se de soccorrer a viuva e 
encarregam-se dos orphãos. 

«As ciganas nunca separam-se de seus filhos pequenos, 
nem se descuidam dos desvalidos, aos quaes abrem coração 
materno. Conhecemos uma que é a Providencia de duas 
criancinhas a quem estremece e ensina todas as noites a 
orar por aquelle que já está no céo. 

Os ciganos da familia dos Costas são «notáveis como can- 
tadores e tocadores de viola, francos e generosos». 

«O velho tronco (cigano) Luiz Rabello de Aragão per- 
petuou-se nos Rabellos — poetas e litteratos, e entrelaçou-se 
com a familia Cabral (também cigana), que nos tem dado 
oradores parlamentares, ofíiciaes do exercito, homens con- 
ceituados no magistério, no foro, nos cargos de secretaria 
e na tribuna sagrada. 

«Dos Catanas, que nos persuadimos serem oriundos dos 
Laços, António Curto e Fragas, ciganos destemidos e das 
tropilhas nómades, ha um medico que foi jornalista e a 
quem consideramos como collega distincto e intelligencia 
de relevo.» 

Emquanto uma camada cigana se funde assim na nacio- 
nalidade brasileira, outra extingue- se lentamente na misé- 
ria, ao passo que uma terceira se mantém na vida errante. 



281 



A poesia dos ciganos do Brasil, a julgar pelas amostras 
que tenho presentes, é apenas poesia popular, senii-culta 
ou culta brasileira em boca cigana; não porque ella seja 
uma reproducção servil, uma pura repetição, mas porque 
é uma producção em moldes e em matéria simplesmente 
apropriada pelos ciganos, cuja espirito se manifesta aqui 
apenas no caracter doloroso e pessimista predominante das 
composições, mas não de modo que, se a proveniência 
d'ellas não nos fosse indicada, se nalgumas quadras não 
houvesse palavras ciganas, pudéssemos suspeitar tal ori- 
gem. Dolorosa, pessimista, é muitas vezes a poesia popular ; 
é-o muitas vezes a poesia culta brasileira. Eis um exemplo 
cigano : 

Eu sou estatua quebrada, 

Sou um quadro sem ter luz ; 

Sou um phantasma que vaga 

Entre o cypreste e a cruz. 

Não sou estatua nem quadro, 
Até nâo tenho figura ; 
Sou espectro que vagueia 
Que até nem tem sepultura. 

A seguinte composição, entre outras, não tem o menor 
característico cigano : 

DESESPERANÇA E FÉ 

«Ah ! meu ! filho os céos me parecem mais 
altos, pois já não chegam a elles as minhas 
preces. 

(Da Ex.^<^ Mãe do Dr. M. Moraes Filho.) 

«Meu filho, ou os ceos são outros, 
Ou tomaram mais alturas ; 
Pois já não chegam a elles 
Os rogos das creaturas ! 

Já minhas preces não valem 
Como valeram outr'ora ; 
Até do amor de Deus 
Pareço privada agora.» 



282 

«Ali ! Mae ! ikIo temais que um Deus 
Prive assim de sua graça 
A quem como vós o ama, 
A quem sua fé abraça ! » 

Leis immutaveis, eternas ! 
Não penseis que um dia mude 
A face dos ceos. . . e deixe 
Deus de amparar a virtude. 

Como o sol que ás solidões 
Manda seus raios, e aquece 
Até a florinha, humilde. 
Que nos abysmos floresce. 

Assim Deus — Sol de grandeza, 
Pae de todos, Creador, 
Faz reflectir sobre tudo 
Os raios do seu amor. 

Não pode negar-se que em geral nessas prodiicções dos 
ciganos brasileiros haja sopro poético: como se concilia 
este facto com a opinião dos que negam dotes poéticos á 
raça tsigana? Essa falta de dotes poéticos não é absoluta 
(e nisto modifico eu o modo de ver de Schuchardt, refe- 
rido em a minha n. 2 a p. 195) : os tsiganos teem talento 
poético secundário, não primário ; isto é, por si sós não sao 
capazes de produzir uma poesia sua; mas teem a capaci- 
dade de apropriação da technica poética já desenvolvida 
por outro povo (e por technica não entendo aqui só o que 
respeita á metrificação propriamente dita, mas todos os 
processos poéticos) e de produzir com esses elementos es- 
tranhos combinações novas e de valor. A historia littera- 
ria apresenta-nos exemplos muito consideráveis do mesmo 
género, e a ethnographia dá-no-los similares noutros domí- 
nios da actividade humana *. 



1 Vide, por exemplo, o que da capacidade de apropriação e 
incapacidade inventiva do negro diz O. Peschel, VõlkerJcunde ^, 
p. 515-516. Cf. Fr. Ratzd, Vôlkerlaindc, i, 14G, 219-220; etc. 



283 



O sr. Mello Moraes falla-nos de uma gíria dos ciganos 
de que coramunica os termos cabeça, maldade, ruindade, 
imprestabilidade ; amaro, covardia, fraqueza, impostura, 
mentira; tope, riqueza, luxo, asseio, felicidade; caconda, 
longitude, afastamento, escuro, deserto ; hatuesa, tudo que 
ó triste, afflictivo, infeliz, pobre ; e dá-nos no fim um voca- 
bulário de 2Õ3 termos ciganos, que correspondem quasi 
todos a termos dos ciganos de Portugal ou dos gitanos de 
Hispanha; mas não nos diz como colheu esse vocabulário, 
de cuja authenticidade não ha aliás razão para duvidar. 

As palavras tsiganas experimentaram no Brasil novas 
modificações, das quaes a mais geral é a nasalisação das 
vogaes accentuadas (e ainda dos diphthongos) finaes; exem- 
plos : aranin, rainha, git. erani; acans, olhos, git. acais, 
sacais; aron, farinha, git. roi; brichindin, chuva^ git. hri- 
jindia; huchardin, espingarda, git. hruckardi, pieza de ar- 
tilleria; husnon, negro, preto, escuro, gii. busnô, extrano, 
bárbaro, gentil ; calon, cigana ; calin, cigano ; churin, pu- 
nhal, etc, git. churí, cuchillo. Os sons hispanhoes parecem 
ter dcsapparecido por completo. A base do fallar não é já 
o hispanhol, como em Portugal, mas sim o português. 



O livro do dr. Mello Moraes tem por objecto quasi ex- 
clusivo, como já disse, os ciganos sedentários, especial- 
mente os do Eio de Janeiro ; apenas de passagem allude 
no texto «ás partidas ciganas, errantes pelos sertões», que 
teriam para nós muito mais interesse. Mas em as notas 
transcreve a seguinte noticia de um periódico (188Õ): 

«Esteve acampado em Caçapava um bando de cento e 
tantos ciganos, que vinham de Minas e seguiam para o 
norte. 

«A propósito escrevem d'aquella cidade ao Pyrilamjpo de 
Jacarehy : 

«Essa gente, cujos costumes são bem diíferentes dos nos- 
sos, acampou-se á margem do Parah^^ba, onde assentou sua 



284 



morada, levantando 26 barracas de panno, ura dos miste- 
res de sua provisão de viagem. 

«Era um acampamento de paz, para onde affluiu esta 
população, movida da mais justa curiosidade. E, realmente, 
era de ver tudo a aquillo. 

«Dividida a comitiva em familias, cada uma d'estas occu- 
pava uma barraca. Ahi utensilios domésticos, até alguns 
moveis e roupa, mostravam o capricho dos exquisitos via- 
jantes. 

«Uma tropa cercava a «povoação» dos ciganos, que pa- 
rece, te em enriquecido com o negocio dos animaes. 

«Vinte e tantos captivos da comitiva lavavam, lenhavam 
e coziam. 

«Os ciganitos e ciganitas creanças, em brinquedos, ás 
vezes, reflectiam-se nos raios do sol, porque collares, bi- 
chas e anneis de ouro eram em abundância nos seus corpos. 

«Também nem um dos ciganos, de ambos os sexos, dei- 
xava de cobrir-se de ouro. Cordões antigos, de enorme 
grossura e em enorme quantidade, brincos e medalhas de 
tamanhos despropositaes, uma verdadeira riqueza «embel- 
lezava» aquella gente «mysteriosa, de barba e cabellos 
demasiadamente compridos». 

«A usura de certo é que tem feito aquella riqueza ambu 
lante ; nem por isso, porém, alguns deixavam de mandar 
tirar os respectivos retratos «que parecem gente» e dei- 
xam de passar bem. A sua «mesa» é appetitosa, sendo 
exquisita. 

«Naquellas moradias tudo é ordem, alegrias, «ouro». 

«Mas. . . cousa «notável». Entre esses ciganos ha uma 
moça de uma formosura admirável e -uma velha essencial- 
mente feia, que «perscrutam o futuro». Conhecem e con- 
tam a «sina» boa ou má dos que lhes fizerem um pre- 
sente — uma bicha de ouro, prata, um bordado, 5?$Í000, 
2^000, lj$(000 réis, conforme dizem. 

«Aqui deixa-se ver que muitas pessoas de Caçapava sa- 
bem o que hão de soffrer, sua felicidade póstera e até 
quando passarão d' esta para melhor. 



285 



«Para finalisar: a comitiva vai de terra em terra nego- 
ciando com animaes, escravos e com o «futuro» dos que 
não são ciganos, mas são incautos.*» 

Não podemos, sem mais, julgar que essas quadrilhas 
errantes sejam sempre formadas, ou no todo ou em parte, 
de ciganos originários de Portugal, porque para o Brasil 
emigram, desde alguns annos pelo menos, grupos de tsiga- 
nos europeus de diversas proveniências, parte dos quaes 
tem até vindo embarcar ao Tejo. Na destrinça d'esses 
elementos teem os ethnographos brasileiros matéria para 
estudo. 

Ultimamente os periódicos portugueses transcreveram 
dos brasileiros noticias acerca d'uma quadrilha de tsiganos 
ladroes e narcotizadores. Eis duas d 'essas noticias, cuja 
perfeita veracidade não discutirei : 

«Em Nitheroy, Rio de Janeiro, acaba de ser presa uma 
quadrilha de bohemios que se dedicavam á pilhagem por 
um processo deveras curioso e cheio de novidade. 

«Homens mulheres e creanças, sabendo todos manejar 
habilmente vários narcóticos, utilisavam-se delles para ador- 
mecer as pessoas a quem queriam roubar. 

«Uma das queixosas chama-se Gustava Maria da Conceição 
e conta que á sua porta foi bater uma mulher, acompa- 
nhada por uma creança, pedindo esmola. Gustava ia dar- 
Ihe 100 réis em nickel, mas, subitamente, sentiu fugir-lhe 
a vista e caiu desmaiada. Quando tornou a si, a turca 
tinha desapparecido e com ella uma caixinha que a sr.* Gus- 
tava tinha sobre uma mesa contendo 84jl?000 réis em di- 
nheiro, um alfinete com três brilhantes, etc. 



1 Como se vê dos dados que d'elle extrahimos, é interessante o 
livro do dr. Mello Moraes, e mais o fora, se o auctor nào preferisse 
os effeitos litterarios ao rigor scientifico e conhecesse um pouco mais 
de perto a litteratura ethnographica europea ou, na falta desse 
conhecimento, nào se perdesse em theorias, contentando-se com um 
esboço puramente descriptivo. É de lastimar que, sendo elle me- 
dico, não aproveitasse os seus conhecimentos especiaes para nos dar 
um estudo anthropologico dos ciganos brasileiros. 



286 



« Outra queixosa é Maria José Nunes. Sentindo-se doente, 
alguém lhe inculcou uma curandeira, para a tratar. A 
mulher, para fazer os seus exorcismos, pediu a nota de 
maior valor que a sr.*^ Maria José Nunes tivesse em casa. 
Foi -lhe apresentada uma de 500?5000 réis, que a curan- 
deira metteu dentro de um copo. Depois, a cigana deu-lhe 
a cheirar umas essências e a sr.^ Maria José adormeceu 
profundamente. Quando accordou, já não viu a cigana nem 
os õOOáiOOO réis. 

«Ha também uma outra queixosa, Arcelina Maria da 
Conceição, rapariga pernambucana. Foi adormecida e le- 
vada em seguida pelos bohemios, sendo obrigada a casar 
com um dos chefes da troupe. 

«É enorme o numero de crimes praticados pela quadri- 
lha, que além de ciganos tem também individuos gregos, 
turcos, etc. Esta associação, porque o é, tem ramificações 
em todos os estados do Brazil, obedecendo a um chefe 
que recebe 40?5(000 réis por mez. O producto dos roubos 
é reunido em um cofre e distribuido 20 p. c. pela quadri- 
Ihe e o resto para os chefes. 

«Os ciganos empregam-se durante o dia em vários mis- 
teres ambulantes, concertando louças, etc. ; as mulheres 
fazem sortilégios, magias, etc. Assim conseguem insinuar- se 
no espirito das pessoas que se aproveitam do seu mister 
para as roubar. Além de objectos de valor e dinheiro, rou- 
bam também creanças e adultos, se isso lhes apraz. 

«A policia prendeu em Nitheroy 10 homens, 10 mulhe- 
res e 17 creanças de ambos os sexos ; foram todos photo- 
graphados e os retratos expostos no salão do Paiz, onde 
muita gente tem ido vê-los. 

«A policia apprehendeu muitos valores, pedrarias, ador- 
nos de mulher, etc. * 

«Acerca da quadrilha de bohemios que roubava as pes- 
soas por meio de narcóticos, temos a accrescentar que che- 
garam ao Rio de Janeiro as bagagens dos larápios. 



O Dia, n.° 1489, 25 de junho de 1892. 



287 



«Diz o Paiz, referindo-se-lhes : 

«Entre o acervo de trouxas fedorentas, cestos e amarra- 
dos de todas as formas e volumes, em que repugna até pôr 
as mãos, ha duas malas, que vieram lacradas e foram abertas 
na secretaria da policia, á vista do agente que as acompa- 
nhou, do thesoureiro da repartição e outros funccionarios. 

«Dentro d' essas malas foram encontrados 3:945?5i500 réib 
cm papel; 1:540 moedas de ouro, sendo libras esterlinas 
e de outros typos de diversos valores e nacionalidades; 
939 moedas de prata, umas perfeitas, outras inutihsadas; 
um saco pequeno contendo pó amarello ; um pequeno en- 
volucro lacrado, com a declaração «este cordão pertence 
ao negociante Lazaro», 140 facas, garfos e colheres, gran- 
de quantidade de collares de coral com contas de metal 
amarello e cordoes da mesma substancia; dois relógios e 
correntes de metal branco ; três grandes cachimbos, sendo 
dois de metal branco ; um par de esporas de metal branco ; 
2j5(100 réis em nickeis ; um pequeno embrulho lacrado, com 
a declaração «pertence ao marido da pernambucana»; 3 
carteiras com papeis, 1 livro e muitas outras bugigangas. 

«Ficou tudo depositado na mesma repartição, na mão do 
respectivo thesoureiro. 

«Antes d' essa remessa, já havia a repartição de policia 
d'esta capital recebido, de egual procedência, uma letra 
aos mesmos gregos tomada e no valor de 12:000 drachmas, 
a vencer-se em 8 de fevereiro de 1895, quantia essa que 
fôra depositada em um banco da Grécia a 8 de fevereiro 
de 1889 e vencia o juro de 3 V2 % ao anno*.» 

Sendo possivel que o auctor do presente livro venha a 
completá-lo mais tarde com um supplemento, agradecerá 
muito todas as noticias que lhe sejam enviadas acerca dos 
tsiganos do Brasil, tanto os de origem portuguesa, como os 
de outras proveniências. 



Ibidem, n.° 1394, 1 de julho de 1892. 



ÂPPENDICE III 
TYPO PHYSICO DOS CIGANOS 



Desejoso de tornar menos imperfeitos, na medida de 
minhas forças, os dados sobre o typo physico dos ciganos, 
procurei e tive ultimamente occasião de examinar, ainda 
que em más condições e muito rapidamente, alguns ciga- 
nos domiciliados em Lisboa e de tomar até algumas medi- 
das em seis d'elles — duas mulheres e quatro homens. 

A mulher n.° 1 tem 38 annos; é regularmente nutrida, 
assim como outras sedentárias, no que se distinguem das 
nómades ; bem conservada, de feições bastante grosseiras ; 
a n.^ 2, representada em as nossas estampas n.°^ 2 e 3, 
tem 47 annos, é magra, mas bem conservada, apesar de 
ter sido mãe aos 14 annos. 

Os homens n. M e 4 são bastante nutridos, ao contra- 
rio dos n.°* 2 e 3, principalmente d'este ultimo, que ó 
muito magro. O n.'' 1 tem 22 annos, o n.° 2, represen- 
tado nas estampas 4 e 5, tem 23 annos; o n.° 3 tem 28 
annos; o n.° 4, representado nas estampas 6 e 7, tem 40 
annos. 

Esses individues são considerados como ciganos no bairro 
em que habitam. As mulheres e os homens n.°^ 2 a 4 nas- 
ceram em Lisboa; o n.'' 1 veiu com gente sua de Alhan- 

19 



290 



dra para aqui, assim como outros ciganos domiciliados no 
mesmo bairro. Reconhecem-se a si próprios como ciganos, 
excepto o n.^ 3, que se diz português puro; todavia, apesar 
da coloraçíío da pelle e do cabello, La caracteres que per- 
mittem considerá-lo de sangue cigano. 

A mulher n." 2 pareceu-me de animo resoluto e firme, 
03 homens mais timoratos, com excepção do n.° 4, apesar 
d'cstc como os outros c a mulher n.^ 1 serem muito ner- 
vosos. A mulher n.° 2 maldizia do nome do ciganos ; em- 
quanto o homem n.° 4, seu irmão, a reprehendia, e pare- 
cia ter certa vangloria de ser cigano. 

A coloração da pelle ó trigueiro-pallida nas mulheres 
(manchada na n.° 2) ; mais carregada nos homens, excepto 
em o n.° 3, em que é bastante clara. 

O cabello é castanho escuro na mulher n.^ 1, castanho 
claro no homem n.*' 3, preto nos outros. O homem n.° 3 
tem o bigode aloirado. 

Os olhos castanhos em todos, excepto na mulher n.° 2 
em que são esverdeados. 

O nariz é em todos moderadamente saliente ; o dorso 
do nariz de perfil é convexo no homem n.° 2, recto ou 
quasi recto nos outros homens e nas mulheres; mas em 
todos mais ou menos achatado, quasi nada na mulher n.° 1 *. 
O plano inferior do nariz é horisontal (olha ligeiramente 
para deante em o homem n.° 4). Os nossos exemplares não 
apresentam, por tanto, apesar da convexidade do nariz do 
homem n.° 2, nariz do typo aquilino (n.° 2 do quadro de 
Topinard^), em que o plano inferior olha para baixo; toda- 
via não se hesitaria em classificar vulgarmente o nariz do 
homem n.° 2 como aquilino. 

O rosto nos 6 indivíduos é moderadamente comprido, 
mais comprido em a mulher n.° 2 que nos outros, não 



* Nâo temos por tanto aqui o nariz de dorso agudo, nunca acha- 
tado, dos tsiganos de Blumenbach. 
2 Eltments, ctc, p. 298. 




N.« 2 




N.«3 



291 



apertado á altura das maçãs, ao contrario bastante sa- 
lientes em os homens n.°^ 1 e 3 *. 

Os homens apresentam todos degenerações somáticas. 
Um tem um olho arruinado e padece talvez de lepra mu- 
tilante. A lepra tem um foco considerável nas immediaçoes 
da Alhandra. Outro tem um braço ankylosado e atrophiado 
(consequência de tumor branco?) e ulceras nas pernas, 
tendo sido obrigado a deixar o officio de caldeireiro, a que 
se destinava, para se entregar á venda ambulante ; outro 
padece do peito e é evidentemente muito fraco. No dyna- 
mometro de Collln marcou apenas a pressão de 30 kilo- 
grammas com a mão direita e de 23 com a esquerda. O 
mais forte de todos (n.*^ 4) marcou a pressão de 64 com a 
mão direita e de 34 com a esquerda, differença explicada 
pelo facto de .que padece de rheuraatismo, que lhe tem 
accommettido as articulações do braço esquerdo. 

O homem n.° 3 apresenta uma notável depressão ou 
obliquidade da fronte. 

As gravuras 2 a 7 representam approximadamente um 
quarto do tamanho natural. Deve ter- se em vista que foram 
feitas sobre photographia em madeira, a que serviu de base 
um positivo sobre papel, apresentando as deformações irre- 
gulares desses positivos. 

Eis agora os resultados das medições: 



1. Altura total (estatura): 



Mulheres 


Homens 


1.» 1"',62 


l.« 1"',73 


2.» l"',r,3 


2.° l'",69 




3.0 1"',74 




4." 1">,70 



media l'",7152 



1 Bliimenbach dá o rosto dos tsiganos como estreito á altura das 
arcadas zygoinaticas ; ao contrario, G. Lagneau,fallandodeboliemios 
dos Vosges, diz : «figure regulièrc maigre, mais assez courtc, et 
large au niveau des pommcttes». Ari cit, p. 21. 

2 Sobre a estatura dos tsiganos em geral, vid. p. 182 n. Os ciga- 



292 
2. índice cephalometrico : 



Diam. 



1.^ mulher 
2." mulher 
1.° homem 
2.° homem 
3.0 homem 
4.° homem 



ant.-post. max. 


Diam. trans. max. 


Indico 


180™- 


144-™ 


80 


191 


14Õ 


75,91 


194 


147 


75,77 


189 


148 


78,30 


186 


150 


80,65 


201 


150 


74,62 



Media dos iudices cephalometricos : 77,54 



Eis a nomenclatura da estatura segundo Topinard (Élémetits, 
p.- 463-464) : 

Homens Mulheres 

Estaturas elevadas l'",70 e mais l^,a8 e mais 

Estaturas acima da media l"^,Gd a l'",6õ l'",57 u l'",53 incl. 

Estaturas abaixo da media l'",Gõ a l^jGO l^j.^iS a 1™,40 

Estaturas baixas l^jGO e menos l^jSO c menos. 

Tendo-me referido a p. 182, n. 1, ás variações da estatura sob 
acção das condições de vida, mencionarei um artigo recente, sobre o 
assumpto, de Zaborowski, Les chemins de fer et V accroissement de 
la taille in Revue scientifiqiie, t. l, pp. 302-306, 3 septembre 1892. 

1 A media dos Índices cephalometricos (ou Índice das medias cc- 
phalometricas?) de 13 tsiganos, dada por Topinard, Eltments, p. 409, 
ó de 79,7. 

Dois tsiganos da AIsacia medidos por Broca deram as seguintes 
cifras : 

Diam. ant.-post. max. Diam. trans. max. índice 

1 homem lOl^m i47m.n 7^ gg 

1 mulher 177 146 82,48. 

Segundo a nomenclatura dada por Topinard, oh. cit., p. 371, o 
Índice da dolichocephalia vae até 69, o da sub-dolichocephalia de 
70 até 74, o da mesaticephalia de 75 a 79, o da brachycephalia de 
80 a 90 e mais. 

Os nossos 6 ciganos apresentam Índices cephalometricos do limite 
da sub-dolichoceplialia e mesaticephalia até ao mínimo da brachy- 
cephalia. 

Kopernicki achou o índice médio 77,40 em craneos tsiganos e de 
80 em craneos de tsiganas. O índice ceiíhalico médio de 10 craneos, 
medidos por Welcker, foi de 76,4; o de 9 craneos, medidos por 
A. Ilovelacque, foi de 77,45. 



293 



3. índice nasal. A altura do nariz ó medida da espinha 
naaal á raiz do nariz. A largura é a máxima na base. 





Altura 


Largura 


índice 


l.'"» mulher 


43n,m 


35„.m 


81,39 


2.» mulher 


50 


29 


58 


1.° homem 


49 


39 


79,59 


2." homem . 


48 


29 


G0,4l 


3.0 homem 


50 


29 


58 


4.« homem 


47 


36 


70,59 



Media dos índices nasacs 68,98. * 



4. Dimensões do rosto. 





Distancia do mento 


Distancia 




á raiz do cabcllo 


zygomatica max. 


1." homem 


188""» 


138.mn 


3." homem 


180 


135 


4." homem 


189 


1262 



1 Segundo os dados do Índice nasal no vivo, distribue Topinard 
(Eléments, p. 303-304) as raças humanas em 3 grupos. O primeiro, 
o dos platjrhynios, com índice nasal médio de 108,9 a 89,1, com- 
prchcnde todas as raças negras da Africa e da Oceanía (incluindo 
os australianos) ; o segundo, o dos mesorhynios, com índice nasal 
médio de 81,4 a 69,3, comprehende as raças chamadas amarellas e 
vermelhas ; o terceiro, o dos leptorhynios, com índice nasal médio 
de 69 a 63, comprehende só brancos. Os índices nasaes extremos no- 
tados por Topinard sao 153 (um australiano) c 50 (um galtcha). Os 
nossos ciganos sâo pois individualmente mesorhynios (1." mulher 
c homens n."' 1 e 4) ou leptorhynios (2.» mulher e homens n.°« 2 e 3) ; 
mas pela media entram no quadro da leptorhynia. Topinard (Uan- 
thropolofjie, 1877, p. 471) dá os tsiganos como leptorhynios; mas 
ao traçar a classificação referida (Eléments, p. 303) põe liors cadre 
6 tsiganos com o Índice nasal médio de 75,4, que os faz entrar 
na mesorhynia, comquanto thcoricamente devessem entrar na lepto- 
rhynia. 

2 Nos dois bohemios da Alsacia medidos por Broca a «largueur 
dos pommcttes» era no homem 133""", na mulher 121""" ; a distancia 
do mento á raiz do cabcllo no homem, 178"'"', na mulher 159'"'". 



294 



5. Distancia dos olhos. Abertura palpebral. 

Distancia entre os an- Distancia entre os ân- 
gulos internos das gulos externos das Abertura i)alpcbral 
pálpebras. pálpebras. 



1.^ mulher 


34mm 


94""» 


30-' 


2." mulher 


30 


89 


29 


1.*' homem 


32 


94 


31 


2.° homem 


30 


86 


28 


3." homem 


34 


84 


25 


4.0 homem 


34 


88 


271 



Ao redigir o esboço canthropologico dos ciganos estam- 
pado a pp. 181-185, servindo-me de notas tomadas por 
mim ou enviadas por meus amáveis collaboradores, surgi- 
ram me duvidas que a urgência do tempo não me permittiu 
desfazer com a rapidez necessária para modificar o texto 
escripto. Escrevi de novo ao sr. A. Thomaz Pires, o qual 
com a sua habitual dedicação se poz de novo em campo e 
por si e por seu amigo o sr. Fr. Lobão Rasquilha obteve 
alguns dados que corrigem ou completam os que me tinha 
enviado relativamente ao typo physico dos ciganos. 

Com respeito á estatura diz-me elle : «A minha altura 
é de l"^,6õ e classificando-a de menos que regular 2, en- 
tendia que os ciganos, mais altos do que eu, se podiam clas- 
sificar de estatura regular. Mas não. Geralmente (ha ex- 
cepções, encontram-se ciganos pouco mais ou menos da 
minha altura) são de estatura mais que regular, de l'",70 
para cima». 



1 Blumenbach achou estreito o intervallo das orbitas dos tsiganos 
que observou. 

2 Este modo de ver é que não 6 regular. Em geral os homens 
d'essa estatura consideram-se e são considerados de estatura regu- 
lar, como já foi dito. Os homens muito altos só é que estarão dis- 
postos a ver as coisas de modo diverso. Um correspondente de Évora, 
que não é baixo, diz nos também que a <f estatura dos ciganos é a 
regular». 




' A^ 



N.M 




N." 5 




^"6 




N." 7 



295 



Eis ainda outros esclarecimentos do meu infatigável 
collaborador. 

Ha excepcionalmente ciganos de cabellos loiros, sobran- 
celhas e barbas da mesma coloração. O meu amigo sr. Au- 
gusto Neuparth colheu também a noticia de ter sido vista 
no Alemtejo uma rapariga de cabello loiro e olhos azues, 
que fazia parte de um bando de ciganos, e nota-me que o 
adolescente do grupo de ciganos da nossa estampa n." 1 
tem olhos esverdeados. 

Em muitos ciganos nota-se certo prognathismo ou saliên- 
cia do queixo inferior (vid. na estampa n.° 1 as raparigas 
terceira e quarta á direita). 

Não se encontram ciganos de cabello naturalmente enca- 
racolado ou frisado. Apenas as ciganas solteiras usam de 
caracoes artificiaes feitos á mão na testa. Nunca o cabello 
do cigano é encarapinhado*. 

Os dados, por certo insufficientissimos, que reuni, pcr- 
mittem affirmar que os ciganos portugueses não apresentam 
um typo perfeitamente unitário ; mas não deixam por isso 
de oíFcrecer dentro de certos limites de variação cara- 
cteres raciaes importantes que se reproduzem noutros gru- 
pos tsiganos. Naturalmente os ciganos sedentários, mais 
sujeitos a mestiçagem ou modificações resultantes do modo 
diverso de vida, sobretudo da influencia das cidades, não 
são os melhores exemplares para estudo, ainda que o próprio 
estudo d' essas modificações interesse. O exame dos ciganos 
nómades recommenda-se muito e a existência de individues 
loiros e de olhos azues entre elles excita deveras a nossa 
curiosidade. Trata-se do resultado de cruzamentos recentes 
ou ha aqui um phenomeno atávico cujas causas remontam 
muito alto, isto c, a cruzamentos já no próprio solo indico? 

Todas as informações que sirvam para o estudo d'essc 
problema serão bemvindas. 



1 Alguns aiictorcs attribucm aos tsiganos cabello frisado ; p. cx. 
Groom in Tlie Encyclopcedia hrítannica, t. x (1879), p. G17. 



ADDIÇÕES E COERECÇÕES 



Pag. 3, lin. 31. Em vez de — justifi<;a — leia-sc — justificam. 



Pag. 4, lin. 15 e 16. Em verdade além das referencias nos docu- 
mentos legislativos acerca á2i geringonça dos ciganos, ha uma allusâo 
á lingua dos mesmos na passagem que transcrevi de Leitão de An- 
drada; mas nenhum auctor português que eu conheça colligiu ante- 
riormente ao meu collaborador sr. Thomaz Pires termos d'cssa lin- 
gua. O sr. P. Bartholomeu de Azevedo achou no cod. 840 do Archivo 
Nacional, do século xvii, a fl. 28, numa serie de anecdotas insulsas, 
uma secção com o titulo: «Parvoisses Deluas tiradas por Ant." 
Dcmendonça C.""" nos 3 ou 4 annos que esteve cm Eluas tomou por 
lembransa estas E da sua letra as terey», e entre ellas o seguinte : 

«O Avou de fernâo Roiz do amarai semdo Vreador foi hu Conde 
dos siguanos a Cam." Dar As graças aos Vreadores pelo auere dei- 
xado Estar na cidade e despedrise e o tal Vreador lhe falou por 
senhoria e lhe pedio que se detiuesse para se achar em huas festas 
que a cidade fazia e lhe quis falar em siguano dizendo-lhe : não 
saia V. S. que temos huas festas em que hade auer muito mufo Mufo 
lililao bandeira no grimpo pape amarela. — Convém a saber: touros 
gente de cavalo com guiões e hu comer que chamão entricla.» 

Tanto quanto posso julgar, nenhum d'esses termos singulares mufo, 
lililao, entricla, é cigano ou gitano. Ou a anécdota é pura invenção 
ou o vereador se serviu de termos de alguma giria ou os forjou por 
sua conta e risco; sendo histórica, tem a anedocta o merecimento 
de nos dar a conhecer um aficionado dos ciganos no século xvii. 



298 

Pag. 60, lin. 6. Uma nova leitura de Gil Vicente e Jorge Ferreira 
permittir-me-hia talvez ligar alguns dos termos populares d'esses 
auctores aos da giria posterior, sem todavia se poder affirmar a 
existência, aliás muito provável, de uma giria portuguesa no século 
XVI. Assim o termo galga, dado como de giria por Monte Carmclo 
(vid. pag. 81) no sentido de fome, encontra-se já em Jorge Ferreira: 
«Porque? tamanha galga trazeis vos? nâo ha tanto daqui à cca.» 
Ulysippo, act. 1, se. 3. 

Pag. 61, lin. 27. Moscovia (coiro da Rússia) não é termo de giria. 

Pag. 73, col. 1, lin. 36. Gahinardo, termo antigo na lingua, nào 
está talvez reduzido a novo termo de giria, apesar de gahào ser 
mais usado pelo povo, 

Pag. 75, col. 2, lin. 28. Leia-sc — s. m. — antes de — Homem alto. 

Pag. 80, col. 1, lin. 3. Basainico é, como se sabe, o nome de uma 
moeda asiática de cobre ; no século xviii era provavelmente já em- 
pregado como termo de giria, como hoje o é, e por isso incluído na 
lista de Paiva, v 

Pag. 80, cul. 2, linha 9. Chelpa occorre já no século xvii: 

Hora veja se presta; 

Os capotes de grã bem guainccidos, 

Os rendados vestidos, 

Carapuças de felpa, 

Que custão bem de chclpa. 

Academia dos Singtdai-es, ii, (1G98), p. íl3. 

Pag. 82, col. 2, lin. 1. Galfarro encontra-se com a significação de 
rapacissimus no llicsouro, junto á Prosódia de Bento Pereira, p. 03 
(3.« ed. 1661). 

Pag. 81, col. 2.^, lin. 9. O verbo derivado galrejar, de galrar, en- 
contra-se no Victionnarium latino -lusitanum de Jcronymo Cardoso. 

Pag. 83, lin. 28 e 31. Em vez de — marihando — leia-se — marim- 
bando. 

Pag. 84, col. 1, lin. 5. Ugar encontra-se como alteração popuhir 
de egualar. O povo diz : «Não ó da minha vgualha», para significar — 
não 6 da minha condição social, meu egual. E provável que cm 
Paiva vgar seja essa alteração popular e não termo de giria. 



299 
Pag. 105, lin. 21. Em vez de — cogito — Icia-sc — cojito. 

Pag. 116, lin. 17. Em vez de saiitoir leia-se sautcrelle (faussc 
óqucrre). 

Pag. 132, lin. 35 (nota). Sobre a mudança de significação, vid. 
também G. von der Gabelentz, Die Sprachicissenschaft, ihre Avf- 
gabeti, Methoden und hishengen Ergehnisse (Leipzig, 1891), p. 225-217. 

Pag. 136, lin. 23. O enigma do gallo encontra-se na traduc- 
çíio francesa das Piacevole notte de Straparole (ed. Jannot, t. i, 
p. 292 scg.) Aqui o jogo de palavras da versão portuguesa era 
impossivel ; mas clle falta também na versão napolitana publicada 
no jicriodico Giamhattída Basile, iv, 21, apesar das formas napoli- 
tanas o gallo tornarem aqui possível esse jogo de palavras, que 
falta ainda noutras versões italianas citadas no mesmo periódico. 

Pag. 140, lin. 34 (nota). Chegou-me recentemente ás mãos o es- 
cripto de Raoul de la Grasserie, De la possibilite et des condilions 
d'nne langue internationale. Paris, 1892. O auctor critica o Volapíik 
e o systema proposto pelo liispanhol Bonifácio Sotos Odiando no 
seu Diccionario de lengiia universal, Madrid, 1860 ; a lingua que 
ellc próprio propõe é fundada lexicologicamente sobre o grego. 

Pag. 145, lin. 36 (nota). Sobre a vis minima na linguagem, 
vcjam-se tambenj as valiosas observações de G. Grober, Grundriss 
der romanischen Philolcgie, i, 231 e segs. e de G. von der Gabelentz, 
Die SpracJucissenschaft, p. 191-195. 

Pag. 157, lin. 1. Ganiços liga-se talvez a ganizc.s, peças (ordina- 
riamente ossos, astragalos) de que se faz u«o no jogo do cucarnc. 

Pag. 167, lin. 10, em vez de — dos ciganos — leia-se — das Ciganas. 

Pag. 190, lin. 12. Em o~ n.« 1213 do Elvense (20 de setembro de 
1892), fallando-se dos quadros (ex-votos), representando suppostos 
milagres, que se acham na igreja da Piedade em Elvas, diz-se : 
«Alli se ve a cigana — que passa por não ter religião — acurvada 
c de mãos postas ante o Senhor Jesus, agradecendo- lhe o te-ia 
livrado, e a uma sua irmã, de umas sezões, que as assaltaram por 
occasião de virem de Évora assistir ás festas da Piedade. Lá está 
representada com o seu vestido de folhos, o seu chaile de cadilhos 



300 

c o seu cabcllo negro como asa de corvo ; vendo-se, a distancia, a 
arvore, sob a qual, em pleno campo, a irmã deitada sobre mantas 
listadas, curte as maleitas.» 

Este facto mostra, assim como outros, que nâo pode ncgar-se 
absolutamente a religiosidade aos ciganos, comquanto sejam natu- 
ralmente as formas inferiores da religião que elles attingem. Para 
o nosso povo, como para as ciganas que oíFerecem os seus ex votos, 
a Virgem e os santos são pouco mais de fetiches. 

Só no momento em que mando para a imprensa a ultima prova 
desta folha é que me chega ás mãos a publicação do dr. H. von 
Wlislocki, Volksglauhe und religiõser Brauch der Zigeuner (Miinster, 
1891), que sinto não poder já aproveitar. 

Pag. 193, lin. 15. No Alemtejo diz-se que o rei (o chefe superior) 
dos ciganos reside em Évora;» mas nesta cidade mesma parece nada 
correr a tal respeito. 

Pag. 223, lin. 26. Lê-se no Diário de Noticias de hoje, 8 de outu- 
bro de 1892 (n.° 9:619): 

«Enterrou-se hontem no cemitério dos Remédios, em Évora, o 
corpo de uma formosa cigana que falleceu naquella cidade. 

«O cadáver foi conduzido e acompanhado por numeroso cortejo 
de ciganos. 

«Antes de sair de casa houve as despedidas do costume entre 
aquclla colónia, abraçanào todos o cadáver e beijando-o, com uma 
musica de gemidos e gritos de dôr. Depois as mulheres da tribu 
ficaram saudando com os lenços ate o cortejo desapparcccr.» 

Pag. 287, lin. 28. Chegou ha alguns dias a Lisboa, vinda do Bra- 
sil, uma quadrilha de tsiganos, gregos ou turcos, que parece serem 
parte dos pretendidos narcotisadores, e terem sido expulsos d'aquella 
republica. Eram treze mulheres, sete homens e vinte creanças. Dois 
dos homens traziam assas consideráveis quantias em oiro. Acampa- 
ram na Porcalhota, a alguns kilometros de Lisboa, onde, diz-se, não < 
commetteram nenhum roubo. Parece ser a mesma quadrilha que 
depois appareceu no Estoril, próximo de Cascaes, com mais uns dez 
individues e que, mal recebida alli, se internou na direcção de 
Cintra. 



POST-SCRIPTUM 



«In der Beschârkung zeigt sich der Meister.» Não foi 
na pretenção de ser mestre, mas no desejo de imitar os 
mestres no que esteja ao meu alcance, que tentei confor- 
mar-me ao aphorismo de Goethe. 

Alguns leitores portugueses (se os tiver) acharão no meu 
livro uma lacuna, de que aliás os preveni logo no começo : 
não me occupo do problema da migração ou migrações dos 
tsiganos. Apenas por um erro de methodo c que eu poderia 
num livro que tem apenas por objecto um ramo mínimo 
d'essa raça occupar-me de semelhante problema, que só 
deve ser estudado á luz dos documentos que respeitam a 
todos os ramos d'ella e para que falta um elemento capi- 
tal — o conhecimento da historia dos dialectos neo-hindus. 

Ante os homens da sciencia não careço de me desculpar 
d'essa lacuna; careceria ao contrario de fize-lo, se por ven- 
tura me abalançasse ao exame d'aquelle problema. Tenho, 
porém, de pedir indulgência para a imperfeição da obra, 
j-esultante em primeiro logar da difficuldade das investiga- 
ções d' este género em toda a parte e cm especial neste 
país, em segundo da rapidez com que fui obrigado a pre- 
pará-la para a impressão e rever as provas, a fim de 
aproveitar uma occasiâo que não voltará provavelmente tão 
breve de a dar a lume, graças á auctorísação do estado para 
que a expensas suas fossem publicados os trabalhos desti- 
nados á X Sessão do Congresso dos Orientalistas. 



302 



Agradeço a todo3 os meus collaboradores já referidos o 
auxilio que tornou possivel o meu estudo ; aos srs. directo- 
res da Bibliotlieca Nacional e do Arcliivo Nacional facili- 
tarem- me as investigações nesses dois estabelecimentos por 
elles administrados com rara boa vontade ; e ao meu amigo 
sr. A. Neuparth as suas excellentes pliotograpliias dcs ci- 
ganos, que tornaram possivel adornar o meu livro com uma 
parte grapliica, que por certo lionra os artistas a que foi 
confiada. 

Niio me despeço dos ciganos. Espero poder cedo ou 
tarde publicar um supplemento que preencha pelo menos 
parte das lacunas da presente obra, ao fechar a qual me 
acodem ao espirito, como ao abrir este ^osí-sc7*?}:>ít(m^, pala- 
vras do grande poeta philosopho: 

Seli' ich die Werkc der Meister an, 
Se seli' ich das, was sie geíhan; 
Betracht' ich mcinc Siebcnsachen, 
So sch' ich, was ich liátt' sollcn machcn. 



índice 



lutroducçiio 1 

I. — A língua dos ciganos 7 

II. — O calào e a lingua dos ciganos 55 

III. — Esboço histórico e etlmograpbico ... . 1G3 

Appendice I. — Documentos 229 

Appcndice II. — Os ciganos do Brasil 271 

Appendice III. — Typo physico dos ciganos 289 

Addições e correcções -. 297 

Post-scriptum 301 













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Coelho, ?rancisco 
Adolpho, 1847-1919 

Cs cig8,nos de 
Portugal: com n.m estudo 
eobre calão, McrorLfi 
dostin:'da a 10 sessão do| 
Congresso internacional 
dos orient alistas. 

LisT^oa, Imprensa 
ITaeional (l^-^.?) 



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